Meio ambiente,
esporte, lazer e turismo
            estudos e pesquisas no Brasil,
                              1967-2007

                                   VOLUME 2




               Ana Cristina P.C. de Almeida &
             Lamartine P. DaCosta (Editores)
     Editora Gama Filho, Rio de Janeiro, 2007
Meio Ambiente, Esporte, Lazer e Turismo: Estudos e Pesquisas no Brasil 1967
– 2007/
    Editores : Cristina Pimentel Carneiro de Almeida e Lamartine P. DaCosta
    Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007

    400 p.
    ISBN 85-7444-062-0

    1 . Meio ambiente. 2. Esporte. 3. Lazer. 4. Turismo.
    5. Desenvolvimento sustentável

    CDD – 809
    CDU – 82.09




        “Livro organizado em associação da Editora Gama Filho com a
                  Universidade Federal do Pará, 2006 - 2007"



                            Universidade Gama Filho
                                    REITORIA

                                      Reitor
                       Prof. Luiz Eduardo Braune da Gama

                  Pró-Reitor de Humanidades e Ciências Sociais
                               Prof. Arno Wehling

                              Pró-Reitor de Saúde
                             Prof. Gilberto Chaves

                       Pró-Reitor de Exatas e Tecnologia
                    Prof. José Leonardo Demétrio de Souza


                              Editora Gama Filho
                           Editor Dante Gastaldoni
                    Programação Visual Evlen Joice Lauer
                  Supervisão de textos Lamartine P. DaCosta
DIREITOS AUTORAIS E CÓPIAS

A presente obra está sendo publicada sob forma de coletânea de
textos fornecidos voluntariamente por seus autores, sem compensação
financeira mas mantendo seus direitos autorais, segundo a legislação
em vigor. Neste termos, este livro tem distribuição gratuita em CD
ROM e outras mídias, como também está disponível em site para
download de livre acesso, sem custos para usuários. Cópias em papel
do livro e dos textos estão autorizadas desde que não tenham
propósito comercial e que sejam citados os autores e fontes originais
em eventuais reproduções.




ENGLISH FOREWORDS AND TEXTS

The “Introduction” of this book in English is available following the
“Contents” section in the next pages. There are several chapters in
English as far as original texts were included using this language.
These texts are also listed in the above mentioned “Introduction”.
Any part of this book may be reproduced in any form under the
condition of being referred to authors and sources. All rights reserved.
Commercial use of parts of this book only with permission
of the authors.
Sumário
     Volume II

11 Tendências centrais dos estudos e pesquisas em Meio Ambiente, esporte,
   lazer e turismo no Brasil no período 1967 - 2007
   Ana Cristina P.C. de Almeida & Lamartine P. DaCosta (Editores)

27 Research mainstreams of studies on environment, sport,
   leisure and tourism in Brazil within the period 1967-2007
   Ana Maria Miragaya

31 Turismo, lazer e natureza
   Alcyane Marinho e Heloisa Turini Bruhns

35 Turismo de aventura e educação: desafios e conquista de espaços
   Alcyane Marinho e Jossett Campagna De Gáspari

43 O Movimento na Natureza Interfaces entre Educação Física e educação
   Ambiental no Ensino Infantil
   Cae Rodrigues e Mey van Munster

59 Brinquedos, brincadeiras, recreação, arte e cultura popular:
   alternativas para um museu interativo
   Gustavo de Lira Santos e Sérgio Henrique Verçosa Xavier

67 Equilibrando desenvolvimento com meio ambiente:
   Garantindo lazer, ecologia e turismo no centro urbano.
   Estudo de caso do projeto parque do recife
   Gustavo de Lira Santos e Sérgio Henrique Verçosa Xavier

77 Clube de máscara Galo da Madrugada: o maior bloco de carnaval do
   mundo, vivendo a cultura pernambucana
   Gustavo de Lira Santos e Sérgio Henrique Verçosa Xavier

87 Lazer e meio ambiente: multiplicidade de atuações
   Heloisa Turini Bruhns e Alcyane Marinho

97 A formação técnica e o seu papel no mercado turístico
   Leopoldo Gil Dulcio Vaz

121 Política de turismo e desenvolvimento local: um binômio necessário
    Lillian Maria de Mesquita Alexandre1

131 Hotéis de selva no amazonas:
    Ecodesign, meio ambiente e sustentabilidade?
    Luiza Elayne Luíndia Azevedo
141 Ecoturismo: do natural ao cultural (e vice-versa)
    Rogério Santos Pereira, Silvio Ricardo da Silva, Samuel Gonçalves Pinto e
    Eliane de Souza Resende

147 Refletindo sobre lazer/turismo na natureza, ética e relações de amizade
    Sandoval Villaverde Monteiro

165 Percepções do uso público em UCs de Proteção Integral
    Teresa Magro

173 Impacto ambiental nas competições de trekking de regularidade segundo
    os seus praticantes
    Valdo Vieira, Bernardo de Miranda Villano e Manoel J. G. Tubino

181 Sítios geológicos e geomorfológicos dos municípios de Acari, Carnaúba
    dos Dantas e Currais Novos, região Seridó do Rio Grande do Norte
    Wendson Dantas de Araújo Medeiros

183 Ecogeoturismo e geoconservação de sítios geológicos e
    geomorfológicos no Seridó Oriental do Rio Grande do Norte
    Wendson Dantas de Araújo Medeiros

195 A Formação Técnica e o seu Papel no Mercado Turístico
    Leopoldo Gil Dulcio Vaz

219 Atividades na Natureza, Lazer e Educação Ambiental: Refletindo Sobre
    Algumas Possibilidades
    Alcyane Marinho

237 Meio Ambiente
    Heloísa Turini Bruhns

245 Atividade de Geoturismo no Litoral de Icapuí/CE (Ne Do Brasil) e a
    Necessidade de Promover a Preservação do Patrimônio Geológico
    Débora do Carmo Souza e Marco Antonio L. do Nascimento

253 Repensando o lúdico na vida cotidiana: atividades na natureza
    Alcyane Marinho

255 O museu como espaço de lazer: atrativo turístico e local de preservação
    da cultura de uma sociedade
    Gustavo de Lira Santos

269 Ecoturismo & Amazônia – biodiversidade, etnodiversidade e diversidade
    cultural
    João Meireles Filhos
285 Possibilidades de leitura sobre os esportes da natureza: o caso dos Jogos
    Mundiais da Natureza (1997)
    Kátia Bortolotti Marchi

305 Meio ambiente e ecoturismo na região de Iporanga / SP: impactos
    ambientais por esgotos domésticos e resíduos sólidos
    Leandro Luiz Giatti

321 Lazer e esportes na natureza: impactos sócio-ambientais
    Mirleide Chaar Bahia e Tânia Mara Vieira Sampaio

329 Subjetividade, amizade e montanhismo: potencialidades das experiências
    de lazer e aventura na natureza
    Sandoval Villaverde Monteiro

345 Desenvolvimento de um instrumento de identificação de impactos
    ambientais em práticas esportivas na natureza (IMPAC-AMBES)
    Valdo Vieira

363 A implantação do geoturismo no Pólo Seridó (sertão potiguar): necessi-
    dade para a conservação do patrimônio natural no rio grande do norte
    (NE do brasil)
    Marcos Antonio Leite do Nascimento, Yves Guerra de Carvalho, Wendson
    Dantas de Araújo Medeiros e Daniela Bezerra Tinoco

371 Geoturismo como novo segmento do turismo de natureza e sua impor-
    tância para a conservação do patrimônio natural
    Marcos Antonio L. do Nascimento, Úrsula A. Ruchkys e Virgínio
    Mantesso Neto

381 A prática do geoturismo como meio de promover a educação ambiental
    em unidades de conservação (uc) no Rio Grande do Norte (ne do Brasil)
    Marcos Antonio L. do Nascimento, Debora do Carmo Sousa e Werner
    Farkatt Tabosa




                                          Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 7
Capítulos por ano de publicação,
autores e títulos dos trabalhos

1967   Lamartine P. DaCosta A ATIVIDADE DESPORTIVA NOS CLIMAS TROPICAIS
       E UMA SOLUÇÃO EXPERIMENTAL: O ALTITUDE TRAINING
1967   Lamartine P. DaCosta PLANEJAMENTO MÉXICO
1981   Lamartine P. DaCosta PRINCÍPIOS DO ESPORTE PARA TODOS
1983   Jürgen Diekert Floriano Dutra Monteiro PARQUE DE LAZER E
       DE ESPORTE PARA TODOS
1987   Lamartine P. DaCosta A REINVENÇÃO DA EDUCAÇÃO FÍSICA
       E DO DESPORTO SEGUNDO PARADIGMAS DO LAZER E DA RECREAÇÃO
1992   Lamartine P. DaCosta O OLHAR E O PENSAR AMBIENTALISTA
1993   Rita MendonçaTURISMO OU MEIO AMBIENTE: UMA FALSA OPOSIÇAO
1996   Ana Cristina P. C. de Almeida A INTER-RELAÇÃO DO ENSINO
       EM RECREAÇÃO E LAZER E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL
1996   Rita MendonçaVISITAR E COMPARTILHAR A NATUREZA
1996   Flávio Leonel A. da Silva ECOTURISMO: VIAGEM, LAZER & AVENTURA
1997   Lamartine P. DaCosta INTRODUCTION - ENVIRONMENT AND SPORT:
       AN INTERNATIONAL OVERVIEW
1997   Lamartine P. DaCosta TOWARD A THEORY OF ENVIRONMENT AND SPORT
1999   Alcyane Marinho DO BAMBI AO RAMBO OU DO RAMBO AO BAMBI?
       AS RELAÇÕES COM A (E NA) NATUREZA
1999   Cristiane Ker de MeloAna Cristina P. C. de Almeida NAS TRILHAS
       DA RELAÇÃO EDUCAÇÃO FÍSICA – MEIO AMBIENTE
1999   Teresa Magro IMPACTOS DO USO PÚBLICO EM UMA TRILHA
       NO PLANALTO DO PARQUE NACIONAL DO ITATIAIA
1999   Alba Vieira ECOTURISMO URBANO: RUA DE LAZER EM
       TOMBOS – MG APRENDENDO, BRINCANDO E INOVANDO O MEIO AMBIENTE
1999   Alba Vieira TURISMO ECOLÓGICO: ESSA POSSIBILIDADE
       DE LAZER É “QUENTE”
1999   Rita Mendonça SENTIDO DA VIAGEM
2000   Vera Lúcia Menezes Costa AVENTURA E RISCO NA NATUREZA: SÍMBOLOS
       E MITOS PRESENTES NOS DISCURSOS DO ECOTURISMO ESPORTIVO



                                          Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 9
2000    Ana Cristina P. C. de Almeida, Maria de Fátima S. Duarte &
        Juarez V. Nascimento O FUTURO DAS ATIVIDADES FÍSICAS DE LAZER E
        RECREAÇÃO LIGADAS À NATUREZA E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL
2000    Rita Mendonça A EXPERIÊNCIA NA NATUREZA SEGUNDO JOSEPH CORNELL
2000    Ana Cristina P. C. de Almeida, Maria de Fátima S. Duarte, Juarez V.
        Nascimento & Markus Vinícius Nahas CONSIDERAÇÕES SOBRE O FUTURO
        DAS ATIVIDADES FÍSICAS DE LAZER NA NATUREZA: UM ESTUDO DELPHI
2000    Ana Cristina P. C. de Almeida LAZER E RECREAÇÃO E A EDUCAÇÃO
        AMBIENTAL: UMA QUESTÃO INTERDISCIPLINAR
2000    Elizara Carolina MarinValquíria Padilha LAZER E CONSUMO
        NO ESPAÇO URBANO
2000    Renato Miranda MOTIVAÇÃO NO TREKKING: UM CAMINHAR
        NAS MONTANHAS
2001    Alcyane Marinho LAZER, NATUREZA E AVENTURA:
        COMPARTILHANDO EMOÇÕES E COMPROMISSOS
2001    Alcyane Marinho DA BUSCA PELA NATUREZA AOS AMBIENTES
        ARTIFICIAIS: REFLEXÕES SOBRE A ESCALADA ESPORTIVA
2001    Daniele B. F Silva, Gustavo Santos, Maria Cecília de A. B. Mendes,
        Sérgio Henrique Verçosa Xavier BRINQUEDOS, BRINCADEIRAS,
        RECREAÇÃO, ARTE E CULTURA POPULAR: ALTERNATIVAS
        PARA UM MUSEU INTERATIVO.
2001    Lamartine P. DaCosta INTERNATIONAL TRENDS OF SPORT
        AND ENVIRONMENT - A 2001 OVERVIEW
2001    Alba P. Vieira ARTE, LAZER E EDUCAÇÃO AMBIENTAL:
        O CASO DA LUDOTECA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA
2002    Leopoldo Vaz GESTÃO DO LAZER, TURISMO E EVENTOS:
        UMA NOVA HABILITAÇÃO A SER OFERECIDA PELO CEFET-MA
2002    Valdo Vieira TREKKING DE REGULARIDADE – O ESPORTE
        CONSTRUINDO VALORES PARA A MELHORIA DA QUALIDADE DE VIDA
2002    Rita Mendonça ECOTURISMO: DISCURSO, DESEJO E REALIDADE
2002    Otávio Tavares, Renato Miranda, Lamartine DaCosta
        ESPORTE, OLIMPISMO E MEIO AMBIENTE: VISÕES INTERNACIONAIS
2002    Tânia Sampaio “AVANÇAR SOBRE POSSIBILIDADES”:
        HORIZONTES DE UMA REFLEXÃO ECO-EPISTÊMICA PARA
        REDIMENSIONAR O DEBATE SOBRE ESPORTES




10 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Introdução

                Tendências centrais dos estudos e
                pesquisas em Meio Ambiente,
                esporte, lazer e turismo no Brasil
                no período 1967 - 2007
                Ana Cristina P. C. de Almeida & Lamartine P. DaCosta



   Relacionando meio ambiente com esporte, lazer e turismo, este livro se pro-
põe a ser uma coletânea de textos apresentados a público no Brasil desde 1967
- ano da provável primeira obra no assunto segundo interpretações atuais – que
sugere representar diferentes caracterizações e tendências assumidas por este
tipo de conhecimento ao longo do tempo. Em resumo, este novo livro está
basicamente proposto como um documento de memória e uma referência para
trabalhos acadêmicos futuros numa área de conhecimento que tem exibido grande
impulso nos últimos anos, no país e no exterior.

  Os textos inventariados foram fornecidos voluntariamente por seus autores a
partir de solicitação pública de livros individuais e coletivos, artigos em periódi-
cos, teses, dissertações, contribuições em congressos e seminários, e publica-
ções técnicas diversas. Pesquisas e estudos aceitos para publicação (no prelo
em 2006 - 2007) foram incluídos tendo em vista o objetivo de discernir tendên-
cias à semelhança das obras antecedentes. Como tal, a presente publicação
destina-se à distribuição gratuita e fácil acesso por várias mídias e formatos.

  As tendências centrais (research mainstreams) dos trabalhos foram assumidas
na tradição científica de identificar convergências por tipos de abordagens
temáticas e por quantidade de estudos. Entretanto, as interpretações e sínteses
adiante apresentadas devem ser consideradas apenas como indicações de uso
genérico uma vez que não se baseiam em levantamentos exaustivos nem
amostragens estatísticas de trabalhos publicados. Em que pese uma validade
reduzida - mas todavia pertinente - priorizou-se a reprodução de trabalhos
publicados em livros, um meio ainda aceitável e útil nas condições acadêmicas
brasileiras para caracterizar enfoques principais.

  Isto posto, encontra-se em seguida nesta “Introdução”, em ordem cronológi-
ca, a identidade inicial de textos na temática objetivada por este livro com

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
exame adicional de características e respectivos relacionamentos, quer no tem-
po, no espaço e segundo interesses de seus autores. Esta análise descritiva foi
feita por contextualização histórica a partir de obra publicada no Brasil em 1850
(ver adiante) no tema do meio ambiente e suas influências em entes humanos. A
observação das relações do meio ambiente com o esporte, lazer e turismo foi
feita nos anos subseqüentes até 2007. Para esta tarefa textos e autores não
contemplados nesta Coletânea foram citados à vista de esclarecimentos sempre
que convenientes para melhor compreensão e registro. Em resumo, tais disposi-
ções nesta abordagem inicial incorporam tendências centrais e secundárias por
sínteses e re-interpretação dos textos arrolados.

   As contribuições para o livro ora em apresentação foram resumidas pelos
cedentes das obras originais, procurando-se relevar aspectos essenciais dos
estudos. Também foram mantidos os padrões estabelecidos originalmente pelos
autores, incluindo forma de redação e modos de referenciação bibliográfica.
Nos casos de obra publicada no exterior foi mantida a versão em inglês. Em
suma, cada texto constituiu um capítulo do livro também integrado numa ordem
cronológica geral que ao final permitiu uma primeira periodização de tendências
centrais dos estudos e pesquisas: 1967 – 2000 (fase pioneira) e 2001 - 2007 (fase
de maturidade). Esta mesma disposição permitiu antever dois períodos de
internacionalização independentes entre si dos estudos brasileiros em meio
ambiente, esporte, lazer e turismo: 1967 – 1987 (enfoque maior no esporte) e
1997 – 2007 (enfoque prioritário na sustentabilidade com visões integradas do
esporte, lazer e turismo).

   Em termos epistemológicos, para que fosse possível identificar research
maintreams dos estudos e pesquisas, os editores deste livro adotaram interpreta-
ções e conceitos amplos (soft definitions) quer do meio ambiente – por vezes
identificado como “natureza” – como do esporte, lazer e turismo, evitando defini-
ções estreitas e especializadas. Estas últimas hard definitions inviabilizariam a
observação das relações típicas do meio ambiente à luz da sustentabilidade, dis-
tante portanto do objetivo da presente obra. Neste particular, assumiu-se como
diretriz principal a concepção geral de meio ambiente estipulada pelo Comitê
Olímpico Internacional – COI, isto é : “todos os fatores externos, condições e
influências que afetam um organismo ou uma comunidade” (IOC, “Manual on Sport
and the Environment”, Lausanne, 2001, p. 80). Adicionalmente, definiu-se também
a sustentabilidade como “o desenvolvimento que atende as necessidades das ge-
rações presentes sem prejudicar as gerações futuras” (Ibidem, p. 81).

  Por sua vez, a mesma fonte do COI (2001, pp. 13 - 14) ajusta a concepção de
esporte aos problemas da proteção ambiental declarando que “a prática do
esporte inclui atividades físicas em diferentes níveis, com participação informal
e ocasional ou de alto rendimento com normatização, implicando em gestão
especializada ou de livre iniciativa de praticantes”. Já as relações do esporte
com o turismo, sob o enfoque do meio ambiente, seguiram as proposições de


12 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Tom Robison & Sean Gammon (“Revisiting and Applying the Sport Tourism
Framework”, Journal of Sport Tourism, Volume 9, Number 3, 2004) “as quais
compreendem pessoas viajando, ou com estadas em locais fora de seu ambiente
usual, com participação ativa ou passiva em atividades esportivas de competi-
ção ou recreativas”. Outra recomendação adotada concerne às inter-relações
entre o turismo e o lazer, segundo Guy Swinnerton (“Recreation and Conservation”,
in Jackson, E.L. & Burton, T.L., “Understanding Leisure and Recreation”, Venture
Publishing, State College, PA, 1989, pp. 517 - 565), que geralmente ocorrem sob
forma de coexistência, simbiose ou conflito, sendo a última alternativa a mais
comum dada à expansão do turismo em escala mundial.

   À vista do exposto, apresenta-se em seguida análises históricas e contextuais
que fundamentam os textos reunidos para a produção deste livro, com base em
revisões equivalentes de DaCosta (1997) elaboradas para a Universidade do Por-
to – Portugal (ver “Introduction and Chronology”, pp. 15 - 37) ; de Ana Cristina P.
C. Almeida (2000) para sua dissertação de Mestrado em que fez verificações de
tendências usando a técnica Delphi (texto incluído nesta Coletânea); e, finalmen-
te, mas não menos importante, de Andrade da Costa para o capítulo “Meio
Ambiente e Esporte – Produção do Conhecimento”, publicado no ‘Atlas do Espor-
te no Brasil’, 2006 (pp.720 – 721), organizado por Lamartine DaCosta, Ana Miragaya
e Evlen Lauer Bispo.

1850 Eduardo Ferreira França (1809 – 1857) de Recife-PE, médico formado na
França, publica o livro “Influência dos Pântanos sobre o Homem” (Tipografia
Liberal do Século, Salvador, 1850), no qual se analisam os efeitos da insalubrida-
de do meio ambiente sobre a moral humana. Esta obra confirma a idéia dominan-
te no Brasil de que o clima tropical produzia indolência, vícios e doenças.

1888 A Editora Garnier do Rio de Janeiro-RJ, lança a obra do escritor e político
Sílvio Romero (1851 – 1914) intitulada “História da Literatura Brasileira” em cujo
capítulo “O Meio Fisiologia do Brasileiro” são descritas as teorias correntes na
Europa quanto à inferioridade dos povos habitantes de regiões de clima quente.
Sílvio Romero interpretando o fato argumenta que era necessário não generali-
zar a questão climática brasileira, pois o ambiente nocivo limitava-se a determi-
nadas áreas da nação. Porém reconhecia a deterioração física de grande parte de
seus cidadãos: “Temos uma população mórbida, de vida curta, achacada e pesa-
rosa em sua mor parte (...) O trabalho intelectual é no Brasil um martírio; por isso
pouco produzimos; cedo nos cansamos, envelhecemos e morremos depressa”
(p. 93, vol. 1 da 7ª. Edição, 1980). Além destas dificuldades, Romero já como
deputado federal e membro fundador da Academia Brasileira de Letras (Rio de
Janeiro), denunciou em 1902, o tamanho das colônias alemãs no sul do país, que
já comprometiam em sua opinião a identidade cultural lusófona do Brasil.

1902 O escritor Graça Aranha, membro da Academia Brasileira de Letras, publica
o romance “Canaã”, um livro em que explora em estilo pré-modernista, a deca-


                                             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 13
dência cultural de colonos alemães no estado do Espírito Santo diante das difi-
culdades de adaptação ao ambiente tropical.

1907 Na França, o Barão Pierre de Coubertin – onze anos depois de resgatar os
Jogos Olímpicos – adotava pela primeira vez no mundo do esporte uma posição
de defesa da natureza, ao mobilizar os esportistas para que limpassem seus
campos de prática. Estava inaugurada então a definição do esporte como poluidor
como também um envolvimento permanente do Movimento Olímpico internaci-
onal – sobretudo manifestado pelos Jogos Olímpicos de Inverno e de Verão –
com a proteção do meio ambiente. Uma revisão histórico-analítica deste com-
promisso foi produzida no início dos anos 2000, pelo brasileiro Lamartine DaCosta
em capítulo de livro internacional denominado de “Towards an Olympic
Epistemology: Sport Sciences or Theory of Sustainable Sport?”, como se verifica
em “Olympic Studies”, Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2002, pp. 131 – 152
(não incluído nesta Coletânea).

1922 O Exército Brasileiro adota oficialmente o Método Francês de Educação
Física, o qual incorpora nesta versão inicial brasileira – entre várias outras
tendências de origem francesa - as concepções de George Hébert (1875 –
1957), líder da “L’ École Naturaliste” criada em 1905. Esta doutrina elegia os
movimentos naturais (saltar, correr, trepar etc.) como base do método de
práticas físicas se aplicados em meio aos elementos naturais (água, sol, flores-
ta, ar etc.). Hoje, a Escola de Hebért ainda apresenta manifestações na França
e na Bélgica (Gleyse, J. et al., 2002).

1932 A Escola de Educação Física do Exército – EsEFEx, situada no Rio de
Janeiro (Urca), inaugura uma “Torre de Hébert” junto à sua pista de atletismo,
marcando a incorporação do Método Natural aos currículos daquela institui-
ção militar. A Torre de Hébert foi mantida até meados da década de 1960
quando o Método Francês foi substituído pelo Método Calistênico na instru-
ção física do Exército Brasileiro (ver site www.esefex.ensino.eb.br/). No Brasil
da atualidade dos anos 2000, o Método de Hébert ainda sobrevive em suas
propostas essenciais em Curitiba-PR, em São Paulo-SP e outras cidades, por
meio de pistas de treinamento de exercícios naturais, com a denominação
original francesa “Le Parkour”. Há também ainda uma Associação Brasileira de
Parkour – ABPK, cujo site é www.abpk.br/.

1967 Lamartine DaCosta, professor de Educação Física do Centro de Esporte da
Marinha-RJ, publica um livro com relatórios de pesquisas sobre atividades físicas
em clima tropicais, realizadas na cidade do Rio de Janeiro, durante três anos (1964,
1965 e 1966). O livro foi denominado de “A Atividade Desportiva nos Climas Tropi-
cais e uma Solução Experimental: o Altitude Training” (DaCosta, 1967), em razão de
terem as investigações o objetivo de medir o gradiente redutor da performance
física de longa duração sob impacto direto dos raios solares, como também os
efeitos do mesmo esforço ao se realizar à sombra, em meio ao ambiente florestal.


14 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
O experimento foi feito com 10 atletas masculinos de nível nacional e internacio-
nal do atletismo, em provas de corridas de média e longa distâncias. Como as
análises estatísticas das observações comprovaram uma melhoria no gradiente
redutor à sombra, especificamente nas subidas da Floresta da Tijuca da mesma
cidade, surgiu um método de treinamento como resultado adicional ao estudo. Por
conseguinte, a inibição do esforço físico devido ao calor foi relativizado pelo
modo de se conduzir e dosar o exercício. Em suma, o determinismo que definia o
trabalho físico em ambiente tropical no Brasil desde 1850, tornou-se improcedente
diante dos resultados desta pesquisa. Destaque-se ainda que estas investigações
biometeorológicas foram pioneiras na área esportiva nacional quanto ao uso de
computadores e de protocolos de rigor científico. O livro de DaCosta (1967) en-
contra-se resumido em suas partes principais na presente Coletânea, representan-
do a inauguração no Brasil de estudos e pesquisas sobre o meio ambiente e esporte
e posteriores desdobramentos nas áreas de lazer e turismo. Há uma versão em
inglês deste livro datada de 1966, compondo um manual técnico da Academia do
Conseil International du Sport Militaire-CISM, Brussels, sob a denominação “Sport
Activities in Tropical Climates and an Experimental Solution: the Altitude
Training”(DaCosta, L.P., 1966). Esta obra marca o início da internacionalização da
produção científica brasileira na área do esporte e possivelmente na do meio
ambiente como disciplina autônoma de conhecimento.

1967 Lamartine DaCosta publica “Planejamento México” (obra incluída nesta Coletâ-
nea) pela então Divisão de Educação Física do MEC, em que estuda os efeitos do
meio ambiente encontrado na altitude em geral e na Cidade do México em particular,
a 2.240 metros, local dos Jogos Olímpicos de 1968 e da Copa do Mundo de 1970. Este
pesquisador participara de um grupo de observadores de diversas nacionalidades
que visitaram a Cidade do México em 1967, a fim de levantar as dificuldades de
competições de alto rendimento no local. DaCosta em razão de seus estudos ante-
riores – desde 1963 - já participava na época da Sociedade Internacional de
Biometereologia e da Academia do Conselho Internacional do Esporte Militar-CISM,
esta última uma entidade de ponta nas questões de treinamento esportivo. Nestes
estudos, tal como ocorrera antes com o clima quente, demonstrou-se que o meio
ambiente adverso à atividade física representado por regiões elevadas, era real
porém eivado de preconceitos. Neste mesmo ano, uma versão reduzida deste livro
foi publicada em artigo em língua inglesa na revista “Sport International”, Da Costa,
L.P., vol 3, no. 36, pp. 16 – 23, sob o título “Altitude Training”. Esta publicação (não
disponível nesta Coletânea) é possivelmente o primeiro texto em inglês na área do
esporte produzida por autor brasileiro para periódico científico de circulação inter-
nacional, e talvez um dos mais citados até hoje.

1968 Os Jogos Olímpicos do México têm lugar neste ano, superando a ameaça de
suspensão do evento pelo COI por existirem ameaças ambientais aos atletas pela
elevada altitude da sede dos Jogos. DaCosta acompanhou o evento e fez um
levantamento minucioso das condições de aclimatação para a Seleção Brasileira
de Futebol no local e em outras regiões do México, para uso quando da Copa do
Mundo de Futebol de 1970 a ser realizada no México.


                                               Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 15
1968 João Lyra Filho publica neste ano o livro “Desporto e Trópico”, em que
defende a teoria determinista do esporte praticado no clima prevalente na maior
parte do Brasil, a qual subentende efeitos prejudiciais. Este então famoso cultor
do direito e da sociologia do esporte, propôs nesta obra a elaboração de um
“Cadastro Nacional dos Desportos” com a finalidade de “explicar, à luz dos
trópicos, em relação a um povo ou outro, as preferências por desportos mais
atuados pelo instinto, pela alma ou pelo espírito” (Lyra Filho, 1968, p. 6).

1970 Realização da Copa do Mundo de Futebol no México. Lamartine DaCosta
produziu um plano científico de adaptação usando os efeitos benéficos da alti-
tude (super aclimatação) e minimizando suas causas nocivas. Em conjunto com
outras contribuições positivas, o plano biometereológico garantiu a vitória da
Seleção ao final da competição. O relatório oficial da Federação Internacional
de Futebol Amador-FIFA sobre a Copa de 1970, publicado em 1972, enfatizou o
trabalho científico de aclimatação à altitude mexicana de 2.240 metros, consi-
derando como o mais eficaz entre os países concorrentes (FIFA, World Cup
México 70 - Official FIFA Report, Zurich, 1972). A partir deste ano, vários estudos
e registros foram publicados sobre os feitos científicos para Copa de 1970 com
base em conhecimento gerado no Brasil. Este tema repercutiu mais uma vez
durante a Copa de 2006 (Alemanha) como se verifica em estudo incluído nesta
Coletânea (Santoro, Soares e Bartholo, 2006), o que confirma ser uma das ten-
dências dominantes da produção de conhecimento na área de meio ambiente no
Brasil, com quatro décadas de sobrevivência.

1977 Publicação do livro “Treinamento Desportivo e Ritmos Biológicos” (José
Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1977) de Lamartine DaCosta, reunindo pesquisas
feitas com atletas brasileiros no Rio de Janeiro e em Atvidaberg, na Suécia,
quando as reações dos sujeitos da investigação à mudança de ambientes foram
mensuradas e comparadas à luz da aplicação de treinamento físico. Neste está-
gio da produção do conhecimento já se considerava importante o cruzamento
de efeitos diversos advindos do meio ambiente (calor, altitude, mudança de fuso
horário etc) buscando-se fatores de maior influência. Neste particular, o relaci-
onamento social destacou-se como variável fundamental da aclimatação “cru-
zada”, fenômeno de natureza ecológica incluindo influências de vários sistemas
relacionados à vida humana. O livro de DaCosta (1977) não esta incluído nesta
Coletânea, em que pese seu valor para o estímulo do esporte-turismo, hoje em
ampla expansão. Esta obra, também pioneira, recebeu como pesquisa o Prêmio
MEC de Literatura Esportiva de 1976. Estes resultados sugerem também que a
opção biológica e ambientalista de DaCosta e associados situava-se à época em
nível similar às pesquisas internacionais.

1981 Neste ano, publica-se no Rio de Janeiro, o livro “Teoria e Prática do Esporte
Comunitário e de Massa”, Lamartine P. DaCosta (Ed.), Palestra Edições. Esta obra
consolidou experiências e conhecimentos do chamado “Esporte para Todos”
(EPT) no Brasil – gerados nas décadas de 1920 a 1970 -, incluindo autores sobre-


16 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
tudo das áreas de lazer e esporte recreativo. Entre as diversas revisões feitas
pelo EPT brasileiro, destacou-se a valorização da natureza como ambiente de
práticas físicas, como se verifica nos Princípios do Esporte para Todos (ver texto
de DaCosta de 1981, incluso nesta Coletânea).

1981 – 1982 No Brasil, neste estágio, as atenções para o meio ambiente por parte
dos esportistas permaneceram limitadas a interesses incidentais, tais como aos
relacionados a competições em altitude na Colômbia, Equador, Bolívia e México.
Entretanto, a agenda de pesquisas de DaCosta em termos de influência do meio
ambiente no desenvolvimento atlético neste período incorporou experiências
com atletas brasileiros preparando-se para os Jogos Olímpicos de Moscou (1981);
planejamento in loco da adaptação à altitude de 3.600 metros para a representa-
ção brasileira ao Campeonato Sul-Americano de Natação em La Paz, Bolívia
(1982); reconhecimento dos locais de jogos da Copa do Mundo de Futebol-1982,
na Espanha, para adaptação da Seleção Brasileira de Futebol ao calor, alimenta-
ção e mudança de fusos horários. Em adição a estes desenvolvimentos, DaCosta
fez estágio em Font Romeu, França, no laboratório de pesquisas em altitude dos
Pirineus (1.850m), também em 1981.

1983 Diekert & Monteiro da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, publi-
cam o possível primeiro livro nacional – incluso nesta Coletânea - sobre equipa-
mentos e parques de lazer em que privilegiaram atividades físico-recreativas em
ambientes naturais, promovidas por trabalhos comunitários e locais (mutirão).
Jürgen Diekert era à época professor visitante na UFSM e trouxe experiências da
Alemanha quanto ao uso de materiais de origem florestal.

1987 DaCosta publica em Portugal, pelo Ministério da Educação e Cultura, o
estudo “A Reinvenção da Educação Física e do Desporto segundo Paradigmas do
Lazer e da Recreação”, em que explora especulativamente a oposição funda-
mental entre a idéia da natureza e a de cultura. Este nexo tradicional da filosofia,
revelou-se para o autor brasileiro como um fio condutor para se re-conceituar o
lazer à luz das atividades físicas organizadas de modo pedagógico ou de livre
arbítrio. Possivelmente este texto inaugura o pensar ecológico no lazer no âm-
bito acadêmico de língua portuguesa.

Década de 1990 Neste período, o eixo de compreensão das questões ambientais
no esporte se deslocou da proteção do praticante para a proteção do meio
ambiente em que se pratica ou se competem esportes. Este fato foi produto do
espírito da época desde que em 1992, realizava-se no Rio de Janeiro, a Conferên-
cia das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento de grande
impacto internacional e marcante quanto ao início da responsabilidade dos esta-
dos nacionais, formalmente assumida, a respeito da proteção da natureza em
escala global. Do lado do esporte, o COI assumiu a liderança no plano internaci-
onal e, já em 1995, esta instituição organizava a 1a. Conferência Mundial sobre
Esporte e Meio Ambiente em Lausanne, Suíça. Neste evento se estabeleceram as


                                             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 17
bases para emendar a Carta Olímpica, documento maior de princípios do COI e
das Federações Internacionais a ele filiadas, o que ocorreu efetivamente em
1996. A partir desta data, o COI passou a assumir publicamente os seus “três
pilares de sustentação: esporte, cultura e meio ambiente” (Tavares, 2002). A
modificação da Carta Olímpica incluiu a definição de desenvolvimento sustentá-
vel, já consagrada na histórica Conferência do Rio de Janeiro de 1992. Por este
marco definitório, “as atividades físicas, os jogos e competições são sustentá-
veis quando sua instrumentalização respeita os valores intrínsecos da natureza
e do esporte” (DaCosta, 2002). Em síntese, a definição então estabelecida e hoje
corrente, propunha uma adaptação mútua entre praticantes e o meio ambiente,
uma posição bem distinta em perspectivas do passado no Brasil com relação ao
determinismo ambiental de Lyra Filho dos anos de 1960 ou do higienismo radical
de Eduardo Ferreira França do século XIX, que entendia o meio ambiente como
uma ameaça à saúde humana.

1992 DaCosta publica em capítulo de livro seu segundo estudo filosófico sobre
o meio ambiente “O Olhar e o Pensar Ambientalista”, no qual explora sua expe-
riência científica de três décadas no tema. Neste texto – ora incorporado nesta
Coletânea – há um resumo de sua crítica, ao declarar que “estamos incorporan-
do, enfim, uma cultura ecológica, mas não conseguimos compreendê-la além
dos dados científicos reducionistas ou da informação efêmera da mídia”.

1993 Realização do Simpósio Internacional Cidadania, Esporte e Natureza, orga-
nizado pela Universidade do Porto, em Portugal, por proposta de Lamartine
DaCosta, então professor visitante daquela universidade. Também neste ano, no
Brasil, Rita Mendonça, especialista em Planejamento Ambiental pela UNESCO e
mestre em Sociologia do Desenvolvimento pela École des Hautes em Sciences
Sociales, da França, publica o artigo “Turismo ou meio ambiente: uma falsa
oposição” (incluído nesta Coletânea) denunciando que no Brasil “o turismo, tal
como vem sendo implantado, não apresenta característica de sustentabilidade a
médio e longo prazos”. Este estudo pioneiro, todavia de índole conceitual, cons-
trói preliminares ao pensamento sobre o meio ambiente, que aparentemente
influenciaram autores brasileiros de temas relacionados com o lazer de ativida-
des físicas e turismo. Nas conclusões há perspectivas futuras da parte da autora
que revelam tendências hoje razoavelmente confirmadas: “Há vários indícios de
que essa sustentabilidade não ficará apenas em nosso exercício de raciocínio: os
novos planos de desenvolvimento turístico vêm incorporando pouco a pouco os
aspectos ambientais; a legislação ambiental brasileira é bastante clara e interes-
sante em muitos aspectos; os conceitos e técnicas em educação ambiental têm
evoluído muito. É claro que tudo isso precisa ser posto efetiva e completamente
em prática. Mas não podemos perder de vista que se trata de um processo,
formado por etapas e pequenas conquistas individuais”

1994 Realização dos Jogos Olímpicos de Inverno de Lillehammer, Noruega, que
representaram os primeiros “Jogos Verdes” (Green Games) da história do Movi-


18 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
mento Olímpico Internacional, pelos critérios de sustentabilidade adotados nas
instalações e organização das competições e hospedagem de atletas e visitantes.
Neste ano, Sydney – Austrália foi escolhida por eleição como sede dos Jogos
Olímpicos de Verão do ano 2000, tendo privilegiado a proteção do meio ambiente
em seu projeto de candidatura. Em condições similares de dar prioridade ao
ambientalismo, Atenas – Grécia foi eleita em 1998, a sede dos Jogos Olímpicos de
2004. Entretanto, a partir de Lillehammer tornou-se comum o uso dos Jogos
Olímpicos como showcases (projetos - demonstração) de boas práticas
ambientalistas. No âmbito brasileiro, autores como DaCosta, Carvalhedo e Veerman
– seguidores da tradição científica, tecnológica e ética – adotaram então os even-
tos olímpicos como suporte empírico de seus estudos, incluindo no caso o turismo
e o lazer. Tal opção foi reforçada em 1999 quando da adesão oficial do Programa
Ambiental das Nações Unidas – UNEP ao trabalho em conjunto com o Comitê
Olímpico Internacional (ver adicionalmente Tavares et al., 2002, nesta Coletânea).

1996 Neste ano, outros autores brasileiros incluem-se na senda aberta antes por
Rita Mendonça, como no exemplo de Ana Cristina P.C. Almeida ao preconizar
“ênfase na Educação Ambiental que direciona a uma atualização voltada, princi-
palmente, ao uso adequado dos recursos naturais, porém, geralmente, discrimina
as relações globais de causa e efeito por falta de tempo, dedicação e até expe-
rimentação científica que tornaria o assunto mais pró-ativo além da simples
‘conscientização’ e, portanto, de maior importância ao aprendizado” (ver nesta
Coletânea o texto “A Inter-Relação do Ensino em Recreação e Lazer e a Educa-
ção Ambiental” de 1996). Por sua vez, Flávio Leonel A. Silveira em seu “Ecoturismo:
Viagem, Lazer & Aventura” (incluído nesta Coletânea), adotando uma linha
conceitualista e experimental, levanta perspectivas futuras indicando que “o
turismo ecológico ou o ecoturismo é um fenômeno recente e em evidência, ou
melhor, é um evento típico do final do século XX, dentro do que se poderia
apontar como uma perspectiva pós-moderna de interação com os naturais. Tra-
ta-se de uma atividade turística que se caracteriza por certo hibridismo, no qual
as questões ecológicas mesclam-se com a experiência turística gerando um
outro tipo de evasão do espaço urbano, a qual prefiro denominar ‘experiência
ecoturística’.” A própria Rita Mendonça retorna este ano, publicando “Visitar e
compartilhar a natureza” (incluído nesta Coletânea), uma reflexão em que se
baseia em destacado pensador ambientalista que tenta combinar posições filo-
sóficas com imperativos pedagógicos: “Para Joseph Cornell, a verdadeira defini-
ção de educação, que abrange a educação ambiental, é sugerida por J. Donald
Walters: ‘É a habilidade de se relacionar com outras realidades, e não apenas com
a sua própria’. No fundo, nós estamos ligados a todas as formas de vida, só que
não percebemos mais,.. No nosso dia-a-dia quase não nos damos conta deste
afastamento e de quão longo é o caminho para nos reencontrarmos verdadeira-
mente com elas”.

1997 Neste ano, foi organizado um Seminário na Universidade de Cingapura
sobre os problemas ambientais dos Jogos Olímpicos de Sydney - 2000, no qual
Lamartine DaCosta (Universidade Gama Filho-RJ) debateu com Richard Cashman


                                             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 19
e Kristine Toohey, da Universidade de New South Wales, Austrália, as questões
centrais sobre o meio ambiente envolvendo os Jogos Olímpicos. Nesta ocasião,
foi divulgado um position paper (não incluído nesta Coletânea) então referenciado
como: DaCosta, L.P., The Green Dream: the Olympic Movement and the
Environment, National Olympic Academy of Singapore Seminar, Singapore, 1997.
Posteriormente, ainda em 1997, este autor brasileiro publicou pela Academia
Olímpica Internacional, Grécia, um estudo de revisão conceitual e tecnológica
para dar suporte à candidatura de Atenas para os Jogos Olímpicos – 2004; tal
documento (também não incluído nesta Coletânea) está referenciado como:
DaCosta, L. P., The Olympic Movement Today and the Environment Protection,
I.O.A. Report of the 37th Session, Ancient Olympia, 1997, 3-6. Em resumo, no
Brasil, a linha de pesquisa liderada por DaCosta neste estágio já estava consoli-
dada como marcada por bases científicas, filosóficas e tecnológicas ao passo
que o caminho em construção exemplificado por Mendonça, Pimentel e Silveira
mostrava-se como de revisão conceitualista, pedagógica e auto-reflexiva dian-
te uma realidade típica nacional. Significativamente estas duas tendências cen-
trais dos anos de 1990 focalizavam igualmente o meio ambiente, o lazer e o
turismo, gerando um certo hibridismo conceitual e operacional.

1997 Publica-se em Portugal, o livro “Meio Ambiente e Desporto – Uma Perspec-
tiva Internacional”, tendo como editor Lamartine DaCosta e como organizador
Antônio Marques, professor da Universidade do Porto. O livro – escrito em inglês
e português - teve o apoio financeiro do Comitê Olímpico Internacional - COI e
a colaboração de 15 especialistas de vários países no tema proposto. A tese
central do livro dispôs-se na condição ambivalente do esporte que tem atuado
“como vilão e vítima” do meio ambiente. A presente coletânea inclui a “Introdu-
ção” deste livro como também um capítulo de DaCosta em que se apresenta uma
teoria geral sobre o meio ambiente e a prática esportiva, ambos na versão em
inglês da publicação. Esta última construção conceitual, filosófica, empírica de
índole científica e internacionalista demarcou a produção do autor em foco até
2006 quando publica um estudo sobre a proteção do meio ambiente – com
educação ambiental e turismo correlatos – nos Jogos Olímpicos de Inverno de
Turim – Itália (em associação com Cris Veerman e incluído nesta coletânea). No
seu significado de obra coletiva internacional, o livro da Universidade do Porto
constituiu um marco para os especialistas brasileiros em meio ambiente na me-
dida em que se expandiu o intercâmbio com outros países como se verifica nos
anos seguintes desta cronologia. Este viés explica, por exemplo, o destaque
dado pelo European College of Sport Sciences aos trabalhos da linha de pesquisa
de DaCosta e associados em 1991 (ver adiante).

1998 Acontece o Seminário Internacional de Esporte e Meio Ambiente, em
Curitiba-PR, promovido pelo Comitê Olímpico Brasileiro-COB, com a presença de
representantes de países latino-americanos e do COI. Otavio Tavares, Renato
Miranda e Lamartine DaCosta organizaram um livro com os textos apresentados
e as notas das discussões, que foi publicado em 2002 com o título “Esporte,
Olimpismo e Meio Ambiente”. Neste Seminário teve destaque a “Agenda 21”


20 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
como base para a revitalização dos esportes tendo em vista as exigências de
proteção ambiental. A Agenda 21 teve também origem na Conferência de 1992 do
Rio de Janeiro, consistindo num compromisso de esforços conjugados de gover-
nos e instituições em projetos de conservação ou de proteção da natureza (“21”
refere-se ao século visado pela Agenda).

1999 Tem lugar no Rio de Janeiro-RJ a Terceira Conferência Mundial sobre Espor-
te e Meio Ambiente, promovida pelo COI e organizada pelo COB. Este evento foi
o maior até então ocorrido no tema proposto, com a presença de 93 represen-
tantes de Comitês Olímpicos Nacionais e de 19 Federações Internacionais de
esportes. O significado desta participação inédita prendeu-se ao crescente
envolvimento das modalidades esportivas per se nas questões ambientais, em
complementação aos interesses voltados para os Jogos Olímpicos e mega even-
tos esportivos em geral. Segundo avaliação de DaCosta produzida em 2001 por
solicitação da Universidade de Colônia, Alemanha, em 29,7% das contribuições e
discussões da Conferência de 1999, o foco se pôs na ética, sobretudo em termos
de comportamento pessoal e de intervenções de governo. Já 27,0% dos trabalhos
voltou-se para perspectivas e projeções futuras do tema de proteção ambiental,
enquanto 24,3% abordou técnicas e instrumentos de manejo ecológico. Os as-
suntos de promoção de eventos e os relacionados com a educação e cultura
foram residuais com 18,9%. Estes resultados indicaram a existência de ambigüi-
dade no trato das questões ambientais por parte dos gestores esportivos das
entidades internacionais, o que foi posto em foco por DaCosta posteriormente
no trabalho “International Trends of Sport and Environment - a 2001 Overview”,
já aqui citado e resumido pela presente Coletânea.

1999 No Brasil, Rita Mendonça amplia sua linha de reflexão e re-conceituação
do turismo vinculado ao meio ambiente, publicando “Sentido da Viagem”, capí-
tulo de livro em que a busca de novos sentidos constitui a abordagem principal
(ver texto com este título na presente Coletânea) diante da crescente valoriza-
ção da natureza. Na mesma linha de conta, situam-se Cristiane Ker de Melo & Ana
Cristina P. C. Almeida no estudo “Nas Trilhas da Relação Educação Física – Meio
Ambiente” – incluído nesta Coletânea – inserindo os nexos das atividades físicas
organizadas ou de lazer na re-semantização unificada da natureza. Tais re-
significações neste estágio implicaram em verificações empíricas, como o fize-
ram Alba Pedreira Vieira & Priscyla Assis em “Turismo Ecológico: essa possibili-
dade de lazer é ‘quente’” (ver nesta Coletânea), produzindo levantamento de
campo. Para estas autoras, o desenvolvimento da Educação Ambiental passa
pelo turismo ecológico (EMBRATUR, 1994: “Um segmento da atividade turística
que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua
conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através da
interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações envolvi-
das”). Este, por sua vez, “oferece enquanto espaço para vivência tanto do ho-
mem com seus pares, quanto do homem com a natureza; essa vertente do turis-
mo vem a cada dia se consolidando como potencializadora forma de se conhe-
cer a natureza, dela fruindo e usufruindo, de maneira orientada e sustentável”. A


                                            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 21
verificação prática de propostas de lazer, atividades físicas e Educação Ambiental
foi feita também por Teresa Magro em “Impactos do uso público em uma trilha
no Planalto do Parque Nacional do Itatiaia” (ver Coletânea), em que um estudo de
caso demonstrou que “fatores institucionais, ligados à administração do parque,
contribuíram fortemente para a degradação de parte do ecossistema estudado”.
Outra verificação foi feita por Alba Pedreira Vieira, Priscyla Assis & Fernanda
Fernandes por meio de vivências no município de Tombos-MG (ver “Ecoturismo
urbano” nesta Coletânea) quando se comprovou que a “cultura lúdica” dos pra-
ticantes pode alavancar um experiência de Educação Ambiental. Uma discussão
destas possibilidades de integração de fatores culturais, educacionais e gerenciais
envolvendo o meio ambiente é feita ainda em 1999 por Alcyane Marinho (ver
nesta Coletânea “Do Bambi ao Rambo ou do Rambo ao Bambi? As relações com
a (e na) natureza”. Para esta última autora, as novas formas de se relacionar com
o meio natural e com outras pessoas, manifestam-se preferencialmente por
meio da prática de atividades de aventura na natureza. No seu todo, os estudos
e pesquisas inventariados em relação ao final dos anos de 1990, sugerem que a
fase de re-conceituações diminuiu progressivamente enquanto ampliavam-se as
investigações e observações de campo. A explicação, no caso, é a de que o
impacto do ambientalismo em face aos fatos sociais no Brasil exigiu reflexão e
ajustes conceituais no início da década de 1990, dando lugar posteriormente às
constatações práticas para legitimação de intervenções por parte de indivíduos,
grupos sociais e instituições.

2000 A fase identificada para o final da década de 1990 inclui sobretudo as
investigações de Ana Cristina P. C. de Almeida fazendo verificações de tendênci-
as, usando a técnica Delphi reunindo especialistas diversos exercendo projeções
futuras. Nesta Coletânea foram arrolados dois textos da autora em foco, sendo
o primeiro “Considerações sobre o Futuro das Atividades Físicas de Lazer e
Recreação Ligadas à Natureza - Um estudo Delphi”; e o segundo “O Futuro das
Atividades Físicas de Lazer e Recreação ligadas à Natureza e à Educação
Ambiental”, ambos extraídos da dissertação de Mestrado desta pesquisadora. De
acordo com a metodologia usada nas pesquisas foram consultados 35 especia-
listas em painéis sucessivos em horizontes de tempo imediato e de três anos
adiante. Ao final, concluiu-se que na opinião dos especialistas entre as práticas
de ocorrência imediata encontram-se caminhadas ecológicas, corridas rústicas,
surfe, canoagem, rodeio, as diversas modalidades esportivas nas areias das prai-
as do litoral brasileiro e fotografia da natureza. Entre 2000 e 2001, os especialis-
tas apontam que o crescimento do ecoturismo, em fazendas, sítios, e no Panta-
nal; as atividades desenvolvidas pelas empresas de ecoturismo, os crescentes
campeonatos em diferentes ambientes naturais, colônia de férias, acampamen-
tos, surgimento e continuidade de eventos científicos, publicações acadêmicas
nas áreas do Lazer e do Turismo e o surgimento de programas relativos às
atividades ligadas ao ambiente natural. No período de 2000 a 2002, destacam-se
o Congresso Virtual do Meio Ambiente, a construção de parques temáticos, as
pressões do poder econômico para a transformação de ambientes naturais para
o lazer de massas, a educação para o lazer e o Meio Ambiente e a construção de


22 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
espaços alternativos para a prática de atividades físicas para a terceira idade.
Não houve consenso quanto aos impactos considerados negativos ao ambiente
natural; porém pressupõe-se que estes eventos possam causar diferentes impac-
tos ao ambiente e no estilo de vida das pessoas. Dos conteúdos analisados
referentes aos programas de Educação Ambiental, observou-se que a disciplina
não consta nos currículos e apenas 10% dos professores responderam no questi-
onário que trabalham a Educação Ambiental. Entre as sugestões metodológicas
apresentadas, destacaram-se em linhas gerais o trabalho interdisciplinar, o in-
centivo a linhas de pesquisas, a efetivação da atividade e a preparação de mate-
riais educativos para a comunidade, entre outros. Ao final, foi possível discernir
que a disciplina Lazer e Recreação deva contemplar a Educação Ambiental devi-
do ao crescimento dos eventos ligados à natureza e seus possíveis comprome-
timentos ao ambiente natural. Estas verificações ainda estão hoje (2006) em
aberto para confirmações. Porém já se pode admitir que os elementos destaca-
dos na consulta Delphi estão presentes nas relações sócio-culturais atuais, mas
continuam desconhecidas as proporções em que se influenciam umas às outras.

2001 Uma avaliação dos principais direcionamentos da produção do conheci-
mento do esporte em seus relacionamentos com o meio ambiente foi feito por
Lamartine DaCosta durante o Congresso do European College of Sport Sciences-
ECSS, na Universidade de Colônia, Alemanha (28 – 24 de julho de 2001), a convite
dos organizadores. A síntese cobriu as três últimas décadas de exploração do
tema e na essência incidiu sobre o caráter de resolução de conflitos que reveste
os problemas da proteção do meio ambiente, e que inclui o esporte entre várias
outras manifestações humanas. Contudo, o esporte tem apresentado um diferen-
cial nesta relação por expressar fatos ao passo que o meio ambiente expressa
valores (ver nesta Coletânea DaCosta, 2001), explicando assim sua condição
ambivalente já enfatizada no livro de 1997 antes citado. Em conclusão, o pesqui-
sador brasileiro pôs em evidência a ética como caminho apto para a solução do
dilema de ser o esporte simultaneamente vilão e vítima do entorno físico, social
e cultural. Já em relação às outras tendências identificadas no Brasil na temática
ora em exame, percebe-se a partir deste ano que a linha seguida por DaCosta em
quatro décadas de estudos do meio ambiente voltara-se progressivamente para
uma visão micro de relações privilegiando intervenções operacionais técnico-
científicas, fundadas em argumentação histórico-filosóficas. Entretanto, a linha
sócio-pedagógica aqui descrita com maiores empenhos por iniciativas dos anos
1999-2000, situam-se numa visão de predominância macro que visa ao desen-
volvimento social e à proteção da natureza. Enquanto neste estágio a opção de
DaCosta e seus seguidores enfatiza a gestão do esporte, lazer e turismo dando
ênfase a resultados práticos, a linha sócio-pedagógica revela-se
comportamentalista e produtora de valores, tanto por meio de agentes como de
interventores.

2000 – 2002 Uma outra avaliação dos dois últimos anos desta ordem cronológi-
ca em conjugação com 2002 confirma o surgimento de convergência dos estu-
dos e pesquisas nacionais – abrangendo as duas linhas dominantes - no sentido


                                            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 23
de comprovações empíricas e revisões teóricas das propostas de sustentabilidade
típicas da década de 1990 no Brasil e no exterior. De fato, dos 16 trabalhos
inventariados deste estágio, 18,7% são estudos de caso e relatos de experiência;
25,0% compõem pesquisas de campo e levantamentos (surveys); 37,5% represen-
tam artigos de revisão e position papers, e 18,7% se referem a novas abordagens
metodológicas e de re-conceituação. Neste último item, classificam-se o uso do
método Delphi de Almeida (2000) e a abordagem do imaginário social em espor-
tes de aventura na natureza de Costa (2000). Entre os surveys, inclui-se o levan-
tamento internacional de DaCosta (2001) para o ECSS que se desenvolve a partir
dos conflitos entre elementos de intervenção relacionados ao meio ambiente.
Desta investigação, aliás, derivou-se um outro estudo de DaCosta (“Conflitos
Ambientalistas do Desporto e da Educação Física e a Nova Cidadania Ecológica”,
in Vargas, A. (Ed.), Desporto e Tramas Sociais, Sprint, Rio de Janeiro, 2001, pp. 91
– 104) não disponível nesta Coletânea, que incide na ética como âncora da
sustentabilidade e veículo da solução dos inevitáveis conflitos ambientais en-
volvendo esporte, lazer e turismo.

2003 – 2007 Este período revela mais claramente a maturidade dos trabalhos
inventariados em conjunto, uma tendência já identificada desde 2001. Nestes
termos, sustentabilidade e impacto ambiental são elementos de importância
consensual e como tal constituem fundamentos básicos em estudos e pesquisas.
Já o perfil de caracterização define-se com 17,9% de um total de 67 trabalhos
voltados para estudos de caso e relatos de experiência (cifra próxima àquela
registrada em 2000-2002); 20,8% são pesquisas de campo e levantamentos
(surveys), com queda de 4% em relação ao triênio anterior; 34,3% constituem
artigos de revisão e position papers (redução de 3% em relação a 2000 – 2002); e
23,8% se referem a novas abordagens metodológicas e de re-conceituação, cifra
aumentada em 5% comparando-se com o período anterior. No geral, esses quan-
titativos revelam uma tendência dominante para a inovação ao se somarem os
trabalhos de revisão – incluindo position papers - com os de novas abordagens
metodológicas, totalizando 58,3% da produção técnica e científica arrolada nes-
ta amostra indicativa. Este resultado ao se cotejar com a teoria de Sinclair-
Desgagné (1999) sugere a existência de uma orientação adequada para o desen-
volvimento da produção e gestão do conhecimento científico-ambientalista em
esporte, lazer e turismo no Brasil. Segundo esta teoria, a pesquisa de inovação na
área de meio ambiente permite a identificação de intervenções seletivas que
criam um melhor e mais abrangente potencial de desenvolvimento. Entretanto,
para se consolidar esta interpretação há que se avaliar futuramente a qualidade
das investigações produzidas no país na área de saber em foco, o que demanda
um desdobramento da presente apreciação com amostragem e monitoração
mais precisas.

2006 – 2007 Este último estágio classificado pela presente Coletânea como
inserido no período 2003 - 2007, inclui trabalhos os quais por comparação suge-
rem haver uma convergência entre as duas principais abordagens históricas dos



24 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
estudos e pesquisas em meio ambiente, esporte, lazer e turismo no Brasil: a de
gestão bio-tecnológica de bases éticas e a sócio-pedagógica, de índole
comportamentalista e axiológica. De fato, a coletânea “Viagens, lazer e esporte:
o espaço da natureza” de Alcyane Marinho e Heloisa Turini Bruhns (Eds.), São
Paulo: Manole, 2006, amplia o foco sócio-pedagógico optando por autores e
temas que trabalham nos vieses da interdisciplinaridade, de mapeamento, de
impactos ambientais e de monitoramento participativo. Outro exemplo de auto-
res clássicos, reside no texto de Lamartine P. DaCosta & Cris C. Veerman (2006),
publicado em livro na Alemanha sobre os Jogos Olímpicos de Inverno de Turim,
que embora se mantenha na tradição tecnológica-científica privilegia a educa-
ção ambiental e posturas valorizativas. Em geral, os textos inventariados da
produção 2003 – 2007 convergem para pontos comuns de análise sobretudo
quando abordam a temática do eco-turismo e a dos problemas de impactos
ambientais.



REFERÊNCIAS

DaCosta, L.P., Environment and sport – An international overview. Universidade
do Porto-Portugal, 1997, p. 44; DaCosta, L.P.,
Conflitos ambientalistas do desporto e da educação física e a nova cidadania
ecológica. In Vargas, A., Desporto e Tramas Sociais. Sprint, Rio de Janeiro, 2001,
pp. 91 – 104;
DaCosta, Lamartine. A Atividade desportiva nos climas tropicais e uma solução
experimental: o Altitude Training. Rio de Janeiro: Imprensa do Exército, 1967;
DaCosta, Lamartine. Planejamento México. Rio de Janeiro: Ministério da Educa-
ção e Cultura, 1967;
FIFA. World Cup México 70 - Official FIFA Report, 1972;
Tavares, O., DaCosta, L. P. e Miranda, R., Esporte, Olimpismo e Meio Ambiente.
Editora Gama Filho, Rio de Janeiro, 2002;
DaCosta, L. P. Olympic Studies. Editora Gama Filho, Rio de Janeiro, 2002 (em CD
ROM): disponível em 2004 no site: www.aafla.org/search/search.htm;
DaCosta, L.P. International Trends of Sport and Environment - a 2001 Overview.
ECSS Congress, Cologne 24 - 28, July 2001;
Gleyse, J., Pigeassou, C., Marcellini, A., Léséleuc, E, Bui-Xuân, G. Physical Education
as a Subject in France (School Curriculum, Policies and Discourse): the Body and
the Metaphors of the Engine—Elements. Sport, Education and Society, Volume 7,
Number 1, 2002, pp. 5 – 23;
Sinclair-Desgagné, B. Remarks on Environmental Regulation, Firm behavior and
Innovation. Centre Interuniversitaire de Recherche et Analyse de Organizations,
Montréal, 1999 (position paper)


                                               Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 25
English forewords and review


                 Research mainstreams of studies
                 on environment, sport,
                 leisure and tourism in Brazil
                 within the period 1967-2007
                 Ana Maria Miragaya, PhD
                 Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro



  Sports and environment have been historically related through the following
perspectives: (i) the environment as agent - acting on the participant’s body
causing physical performance loss (example: excessive heat); (ii) sports as source
of pollution – or even destruction – (example: winter sports in natural
environment), and (iii) sports as agent - participants as environment guardians
(example: surfers protecting local beaches). Although research tradition on human
physical impairment due to hostile climate conditions started in Brazil in 1850, it
was only in the 1960s that sports became part of scientific investigations that
brought successful results such as Brazil’s conquest of the 1970 Soccer World
Cup, as the main games were held in Mexico City, elevation 2,240m.

   The issue that dealt with the protection of the environment where sports
events are held was approached in Brazil in the 1990s as a result of international
action, which produced more theoretical academic research in addition to field
research. After evaluating international research on sports and environment during
this period, the Brazilian researcher Lamartine DaCosta concluded that while
sports express facts, environment expresses values, which generates an ambivalent
condition. The solution in this case would be the development of some type of
ethics that could solve the dilemma permitting sports to be both a villain and a
victim of the physical, social and cultural context at the same time.

  Among several lines of investigation in this theme, it is possible to state that
Brazil has had two main groups of research over the years. The first one started up
with DaCosta in 1964 and focused initially on sports, leisure, later on tourism, and
their influences on the environment. This research group was already established
and had scientific, philosophical and technological bases in the early 1990s. As a
result, researchers sharing these same objectives have been publishing their scientific
production in international periodicals since 1967. The second main research group,

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
which began in the early 1990s, focused on revisions of concepts and of educational
procedures due to the need of environmental conservation. As a result of the
studies developed, this book presents contributions from 86 authors with the purpose
to explore general tendencies within the proposed theme.

  At the turn of the millennium, Brazilian research was taken to Europe in 2001,
when DaCosta made a first evaluation of the main directions of the production of
knowledge in sport and its links with the environment during the 2001 Conference
of the European College of Sport Sciences - ECSS, at the University of Cologne,
Germany (28 – 24 July), as a guest of the organizers. The synthesis covered
research in this area over the last three decades, focusing on conflict resolution
related both to problems of environmental conservation and to sports among
various other human manifestations. The Brazilian researcher indicated ethics as
a way out to solve the dilemma of sport viewed at the same time as both villain
and victim of physical, social and cultural delimitations.

   The works published in 2001 and 2002 show a convergence of studies and research
in Brazil – including both main research groups – in terms of empirical evidence and
theoretical revisions of the proposals related to sustainability that are typical of
the 1990s not only in Brazil but also abroad. As a matter of fact, out of the 16
studies examined within this period, 18.7% are case studies and reports of
experiences; 25.0% are field research studies and surveys; 37.5% represent review
articles and position papers, and 18.7% refer to new approaches of methods and of
re-conceptualization, which includes not only the use of the Delphi method by
Almeida (2000) but also the social imaginary approach to sports and adventures in
the great outdoors by Costa (2000). Among the surveys, it is important to include
the international survey done by DaCosta (2001) for the ECSS, which was developed
from the conflicts between elements of intervention related to the environment.

   The period 2003 – 2007 reveals more clearly the maturity of the studies as a
whole, a tendency which was identified in 2001. In these terms, sustainability and
environmental impact are elements of consensual importance and as such
constitute basic principles in studies and research. In terms of profiles, it is
possible to define that 17.9% out of 67 works which include case studies and
reports of experiences (similar to the one registered for the period 2000-2002);
20.8% refer to field research and surveys, with a decrease of 4% related to the
previous three-year period; 34.3% constitute review articles and position papers
(reduction of 3% in relation to the 2000-2003 period) and 23.8% refer to new
approaches of methods and of re-conceptualization, number increased in 5% if
compared to the previous period.

  In terms of Brazil, as of 2006, it is possible to observe on the one hand that
research conducted by DaCosta during the last four decades of studies on
environment has been going back towards a micro vision of relations which privilege
technological and scientific operational interventions based on historical and


28 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
philosophical arguments. On the other hand, the social-pedagogical group of
research, which developed initiatives between 1999 and 2000, has shared a macro
vision which aims at social development and nature conservation. In other words,
while DaCosta and his followers have been working on sport, leisure and tourism
management emphasizing practical results, the social pedagogical group of research
has been focusing on the behavior of producers of values by means of agents.

  In general, these numbers reveal a major tendency related to innovations if
review works, including position papers, are added to works that deal with new
methodological approaches, reaching 58.3% of the technical and scientific
production registered in this indicative sample. If compared with the theory of
Sinclair-Desgagné (1999), this result suggests the existence of an orientation
that is adequate for the development of the production and management of the
scientific-environmental knowledge in sport, leisure and tourism in Brazil.
According to this theory, the research of innovation in the area of environment
permits the identification of selective interventions which create a better and
more comprehensive potential for development. Nevertheless, in order to
consolidate this interpretation in the future, it is necessary to evaluate the quality
of the investigations produced in Brazil in this area of knowledge This will require
more detailed samples and more precise monitoring.

   The research works identified for 2006 and 2007 in terms of comparison suggest
that there is a convergence between the two main historical approaches of studies
and research on environment, sport, leisure and tourism in Brazil. Such coincidence
primarily refers to bio-technological management with ethical bases, and in the
second place to a social-pedagogical tendency, of behaviorist and axiological
character. As a matter of fact, the classic anthology “Viagens, lazer e esporte: o
espaço da natureza” (“Trips, leisure and sport: the space of nature”) by Alcyane
Marinho and Heloisa Turini Bruhns (Eds.), São Paulo: Manole, 2006 enlarges the
social-pedagogical focus choosing authors and themes that work with different
viewpoints and biases in the areas of interdisciplinarity, mapping, environmental
impact and participative monitoring. Another example of classic authors resides in
the text of Lamartine P. DaCosta & Cris C. Veerman (2006), published in a book in
Germany about the Winter Olympic Games of Turin, which in spite of keeping itself
within the techno-scientific tradition privileges environmental education and values-
led attitudes. In general, the texts surveyed for the production 2003 – 2007 seem to
converge to common points of analysis particularly when they approach themes
related to eco-tourism and environmental impacts.



SOURCES AND REFERENCES

DaCosta, L.P., Environment and sport – An international overview. Universidade
do Porto-Portugal, 1997, p. 44;



                                              Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 29
DaCosta, Lamartine. A Atividade desportiva nos climas tropicais e uma solução
experimental: o Altitude Training. Rio de Janeiro: Imprensa do Exército, 1967;
DaCosta, Lamartine. Planejamento México. Rio de Janeiro: Ministério da Educa-
ção e Cultura, 1967;
FIFA. World Cup México 70 - Official FIFA Report, 1972;
DaCosta, L. P. Olympic Studies. Editora Gama Filho, Rio de Janeiro, 2002 (em CD
ROM): disponível em 2004 no site: www.aafla.org/search/search.htm;
DaCosta, L.P. International Trends of Sport and Environment - a 2001 Overview.
ECSS Congress, Cologne 24 - 28, July 2001;
Gleyse, J., Pigeassou, C., Marcellini, A., Léséleuc, E, Bui-Xuân, G. Physical Education
as a Subject in France (School Curriculum, Policies and Discourse): the Body and
the Metaphors of the Engine—Elements. Sport, Education and Society, Volume 7,
Number 1, 2002, pp. 5 – 23;
Sinclair-Desgagné, B. Remarks on Environmental Regulation, Firm behavior and
Innovation. Centre Interuniversitaire de Recherche et Analyse de Organizations,
Montréal, 1999 (position paper).




30 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2003
          Publicação original: livro


Formato da contribuição: texto da introdução do livro
Fonte: MARINHO, Alcyane; BRUHNS, Heloisa T. (Orgs.). Turismo, Lazer e Natureza.
São Paulo: Manole, 2003
E-mail do(s) autor(es): alcyane.marinho@hotmail.com
Títulos acadêmicos principais atuais: Alcyane Marinho: Graduação pelo
Departamento de Educação Física da UNESP de Rio Claro (SP); Mestrado e
Doutorado pela Faculdade de Educação Física da UNICAMP (Campinas, SP), na
Área de Estudos do Lazer, pesquisadora do Laboratório de Estudos do Lazer/
LEL da UNESP/Rio Claro. Heloisa T. Brunhs: graduada em Economia pela UNICAMP
e em Educação Física pela PUC de Campinas; mestre e doutora em Filosofia da
Educação pela UNICAMP. Professora Titular do Departamento de Estudos do
Lazer da Faculdade de Educação Física da UNICAMP.




                             Turismo, lazer e natureza
                             Alcyane Marinho e
                             Heloisa Turini Bruhns




INTRODUÇÃO DO LIVRO

  A idéia de organizar esta coletânea partiu dos trabalhos desenvolvidos no
Grupo de Estudos Lazer e Cultura (GLEC), da área de concentração Estudos do
Lazer, pertencente ao programa de Pós-graduação da Faculdade de Educação
Física da UNICAMP. Tal grupo tem sua existência desde 1995, sob coordenação
da Profa. Dra. Heloisa T. Bruhns e já desenvolveu vários projetos, bem como
possui uma participação consistente em congressos e publicações em periódi-
cos da área.

  Atualmente, o GLEC tem concentrado suas investigações e publicações na
relação lazer e meio ambiente, sendo que vários projetos de mestrado e dou-
torado estão sendo desenvolvidos nessa temática. Dessa forma, o Grupo ga-


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
nhou um destacado fator identificador, dentre outros, em um momento no qual
a discussão acadêmica é reforçada por meio da forte demanda populacional
relacionada ao ecoturismo e às atividades esportivas praticadas junto à natu-
reza. Dentre tantas controvérsias, presentes nessas práticas, tais como preser-
vação ou destruição, conhecimento ou consumo, exclusão ou inclusão, faz-se
necessária uma reflexão mais elaborada, trazendo elementos para essa discus-
são, bem como criando um espaço fértil para o diálogo com os leitores inte-
ressados na temática. Esta, por sua vez, envolve uma abordagem interdisciplinar,
requisitando vários olhares sobre o assunto (Educação Física, Geografia, Bio-
logia, Sociologia, dentre outros), constituindo parcerias importantes, as quais
juntam esforços na busca do entendimento, da mesma forma como
problematizam aquilo que, às vezes, não é refletido ou, ainda, não é refletido
adequadamente.

                 O tema é bastante atual, espelhando uma época, na qual a nature-
                 za, enquanto construção sociocultural, expõe os danos sofridos
                 ao longo de séculos, ao mesmo tempo, constituindo-se como es-
                 paço no qual grupos diferenciados buscam uma relação mais ínti-
                 ma com a mesma. Nesse sentido, o homem urbano desloca-se em
                 busca daquilo que, talvez, seja a necessidade de um reencontro
                 consigo próprio, bem como a necessidade de revisar valores ou de
                 construir uma identidade, dentre tantas outras possibilidades. O
                 importante é não negligenciarmos esse movimento que traduz os
                 anseios, bem como as frustrações do homem ocidental contempo-
                 râneo, o qual, por meio dessas práticas, relaciona-se com experi-
                 ências as quais nunca antes tinha imaginado concretizar, como
                 viajar para descer a corredeira de um rio num bote inflável, descer
                 uma cachoeira dependurado em cordas, explorar cavernas ou en-
                 frentar obstáculos e dificuldades em trilhas no meio de florestas e
                 matas. Essas atividades estão envolvidas por emoções e sentimen-
                 tos que extrapolam suas formas e seus conteúdos, pois se relacio-
                 nam a rituais, mitos, temores, bem como a imagens de aventura, de
                 risco, de ousadia, de distinção, estilo de vida e outros.

  Assim, reunimos esse grupo de autores, os quais têm se dedicado a tal tema.
Dentre eles, tivemos a satisfação de contar com a colaboração do Prof. Dr. Javier
Oliveira Betrán, do INEF (Instituto Nacional de Educação Física de Catalunha), da
Universidade de Barcelona, Espanha, quem, prontamente, respondeu ao nosso
convite, possibilitando a extensão do diálogo, aqui pretendido, com aspectos de
uma outra cultura, enriquecendo sobremaneira o nosso objetivo.

  Sem a pretensão de nos alongarmos demasiadamente nesta apresentação,
pois não desejamos criar muitas ansiedades no leitor em relação ao conteúdo
dos textos desenvolvidos, buscamos um breve resumo dos mesmos, embora
cientes dos riscos envolvidos em não conseguir captar a essência pretendida


32 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
pelos autores. Porém, a intenção foi mais no sentido de despertar a curiosidade
dos leitores, instigando-os ao prazer da leitura aqui proposta.

   Alcyane Marinho levanta algumas discussões sobre a estreita ligação entre o
turismo, o lazer e a natureza, procurando apontar o corpo como foco de resistên-
cia, diante de suas inúmeras faces e interfaces, frente às complexidades vividas em
nossa contemporaneidade. A partir da compreensão da necessidade do estabele-
cimento de noções éticas, permeadas por conceitos de respeitabilidade e compro-
misso para com a natureza, o artigo “Da aceleração ao pânico de não fazer nada:
corpos aventureiros como possibilidades de resistência” pretende dar pistas capa-
zes de conduzir a um melhor entendimento das inovadas atividades esportivas
manifestadas junto ao meio ambiente, a partir da perspectiva do lazer, refletindo
sobre as dinâmicas da sociedade, bem como sobre valores mais gerais.

  No texto “A leviana territorialidade dos esportes de aventura: um desafio à
gestão do ecoturismo”, Gilmar Mascarenhas de Jesus procura identificar os agen-
tes do ecoturismo, bem como sua fugaz inscrição espacial, associado às ativida-
des de aventura, debatendo as relações (por vezes, contraditórias) entre o con-
teúdo discursivo que fundamenta tal atividade e algumas de suas manifestações
concretas no Brasil. O autor alerta para o desafio que tais práticas representam
às políticas de gestão do meio ambiente, destacando a necessidade de elabora-
ção de uma metodologia de mapeamento e avaliação dos impactos
socioambientais produzidos por tais atividades, caso a caso, exigindo, por sua
vez, um amplo esforço multidisciplinar. Além disso, segundo o autor, faz-se,
igualmente necessária a definição de estratégias de participação responsável na
demarcação de novas localidades, envolvendo praticantes, agências, técnicos e
o poder público.

   “Lazer e natureza no turismo rural” apresenta uma discussão sobre as possibi-
lidades de experimentação do turismo no espaço rural em áreas naturais, privile-
giando, particularmente, duas atividades: a pesca esportiva e o mountain bike,
práticas, segundo o autor Giuliano Gomes de Assis Pimentel, que se traduzem de
forma mais complementar que antagônica, refletindo diferentes usos do rural.
Objetivando reforçar os debates e as reflexões sobre as atividades, tradicionais
ou de aventura, desenvolvidas pelo turismo no espaço rural, o autor instiga-nos
a, primeiramente, compreendermos tais práticas para, posteriormente, almejar-
mos transformá-las.

  Em seu artigo “No ritmo da aventura: explorando sensações e emoções”,
Heloisa Turini Bruhns inicia com a questão da emoção relacionada aos esportes
na natureza, envolvida em rituais e ficções, destacando diversos fatores. A auto-
ra reflete sobre esses “novos esportes”, os quais, mais que a busca por uma
performance, envolvem uma busca por emoções e sensações. Neles manifes-
tam-se novas sensibilidades presentes no corpo e a presença do feminismo
enquanto valor, envolvendo a figura do novo herói e da flexibilidade.

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Javier Oliveira Betrán aborda questões sobre a emergência de um recente
conceito de ócio ativo, o qual, particularmente, na Espanha, tem promovido
ofertas turísticas, fundamentadas, principalmente, na comercialização da diver-
são e da experimentação junto à natureza. Ao longo das discussões no texto
“Rumo a um novo conceito de ócio ativo e turismo na Espanha: as atividades
físicas de aventura na natureza”, o autor propõe uma classificação para tais
práticas, uma vez que as mesmas se identificam com valores, atitudes e menta-
lidades do mundo contemporâneo; contribuindo, por conseqüência, no processo
de compreensão desse movimento turístico e esportivo.

  Em “Monitoramento participativo do turismo desejável: uma proposta
metodológica preliminar” Lilia dos Santos Seabra apresenta uma proposta
metodológica de monitoramento de impacto de visitação e de capacidade de
carga turística, visando a uma sustentabilidade no que tange as dimensões
ambiental, socioeconômica e cultural. Para tal discussão, a autora se propõe a
investigar o Distrito de Sana, no município de Macaé, Estado do Rio de Janeiro. A
partir de uma perspectiva voltada ao planejamento turístico, a autora destaca as
comunidades receptoras enquanto importantes protagonistas do turismo sus-
tentável, capazes de identificar o turismo desejável para suas localidades e
capazes de trabalhar em prol de sua concretização.

   Sandoval Villaverde, desenvolvendo reflexões sobre lazer, turismo e experi-
ências vivenciadas em ambientes naturais, apresenta uma aproximação ao deba-
te sobre ética, subjetividade e formas contemporâneas de sociabilidade, em
particular as relações de amizade. Partindo da perspectiva de que o lazer, univer-
so no qual se insere a atividade turística, é um campo fértil de práticas sociais
que mobilizam processos renovados de constituição de subjetividades, o autor
discute algumas vivências corporais praticadas na natureza, apontando aspec-
tos de sua expansão, bem como a incorporação pelo mercado turístico e espor-
tivo. Esta problematização, colocada pelo autor no texto “Refletindo sobre
lazer/turismo na natureza, ética e relações de amizade”, sugere a criação e a re-
criação de formas alternativas de relacionamentos.

                 Convidamos, então, nossos leitores a compartilhar conosco da
                 “aventura” proposta neste livro, ou seja, o desafio e o risco con-
                 tidos na tentativa de abordar a atual busca pela natureza como
                 palco de novas experiências, um tema ainda tão pouco explora-
                 do, porém instigante e atrativo.




34 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2003
          Publicação original: revista


Formato da contribuição: artigo (texto completo)
Fonte: MARINHO, Alcyane; DE GÁSPARI, Jossett C. Turismo de aventura e educação:
desafios e conquistas de espaços. Turismo: visão e ação. Santa Catarina:
Universidade do Vale do Itajaí, v. 5, n. 1, 2003.
E-mail do(s) autor(es): alcyane.marinho@hotmail.com
Títulos acadêmicos principais atuais: Graduação pelo Departamento de Educação
Física da UNESP de Rio Claro (SP); Mestrado e Doutorado (em andamento)
pela Faculdade de Educação Física da UNICAMP (Campinas, SP), na Área de
Estudos do Lazer.




Turismo de aventura e educação:
desafios e conquista de espaços
Alcyane Marinho
Jossett Campagna De Gáspari



  Sabidamente o desafio que se impõe à educação brasileira, neste século,
passa pela gestão da qualidade, a partir de ações compromissadas, competen-
tes e criativas, das quais podem emanar mudanças significativas quanto ao
processo formativo dos futuros profissionais do lazer, do turismo, do ecoturismo
e outros.

   Passar do desafio à ação efetiva implica em mobilizar competências na pers-
pectiva de articular todos os recursos disponíveis e, também, de organizar as
interações e as práticas de forma que cada aprendiz seja capaz de vivenciar,
freqüentemente, situações fecundas de aprendizagem (PERRENOUD, 1996).

  Implica, ainda, em construir estratégias pedagógicas que funcionem, simulta-
neamente, como possibilidades de viver a teoria na prática e de estimulação das
percepções/sensações dos sujeitos envolvidos no processo ensino-aprendiza-
gem, oportunizadas pelos cursos de formação de futuros profissionais. O termo
sujeito, evidenciado neste artigo, tem, no bojo, a concepção de aprendizagem
de natureza construtivista, na qual é ativamente envolvido no processo que deve
ser significativo.


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Assim, para que o aprendiz progrida, ou seja, dê saltos qualitativos, faz-se
necessária a ruptura com pedagogias frontais (PERRENOUD, 2000) e a organiza-
ção das experiências, capazes de criar uma situação ótima de aprendizagem,
dotada de significância e, ainda, capazes de mobilizar o sujeito em sua zona de
desenvolvimento proximal - conceito desenvolvido por Vygotsky (1991), no
âmbito de uma teoria mais geral, a qual salienta a interação e a relação sociais
como origem da aprendizagem e do desenvolvimento humano.

   Tanto a relação como a interação, presentes em vivências coletivas, podem
facilitar a zona de desenvolvimento proximal, podendo ser compreendida como
a distância entre o nível de resolução de uma situação-problema de forma inde-
pendente e o nível que o sujeito num processo de aprendizagem pode atingir,
com a ajuda de um orientador ou mediador. A idéia construtivista pressupõe um
profissional com a habilidade de utilizar como ponto de partida as experiências
anteriores presentes nos esquemas de conhecimento já assimilados no aprendiz
e, ao mesmo tempo, provocar desafios que o façam questionar seus significados
e sentidos, instalados em seu repertório de respostas e comportamentos. Essa
noção instrumentaliza educadores na compreensão dos processos internos do
desenvolvimento do ser humano.

  Nessa perspectiva, tendo como eixo norteador um relato de experiência do-
cente, no âmbito do ensino superior, temos como proposta socializar os resul-
tados de uma atividade lúdica de aprendizagem, planejada com esses pressupos-
tos, na disciplina “Técnicas de Animação Cultural e Turística”, do Curso de Turis-
mo do Instituto de Artes, Comunicações e Turismo, da PUC-Campinas (SP).

  A proposta de aula informal, concebida a partir dos conteúdos curriculares e
sua tradução em objetivos de aprendizagem visou, também, a romper com a
monotonia pedagógica dos espaços fechados e formais da instituição, simboli-
zados pelos blocos didáticos “concretos”. Os sujeitos envolvidos foram os alu-
nos regularmente matriculados no 3o ano, sob a coordenação da professora
regente da referida disciplina do citado curso.

  O espaço informal contemplado foi o de Brotas, região do interior do Estado
de São Paulo, porque, além da proximidade, reunia as condições ideais para a
prática do turismo de aventura, um dos conteúdos focalizados na proposta
curricular da disciplina em questão. Naquela ocasião, essa vivência, planejada e
organizada para ir além da mera reposição de aulas que se fazia premente,
pretendeu propiciar a todos os envolvidos momentos privilegiados de experiên-
cia com as atividades de aventura, as quais muitos só haviam tido prévio acesso
por meio da literatura existente.

  O deslocamento até a Cachoeira do Astor, na região de Brotas (SP) foi efetiva-
do, principalmente, por um ônibus fretado, além de alguns carros. Foram adotadas
algumas medidas básicas de segurança, tais como a contratação de quatro


36 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
monitores especializados nesse tipo de vivência junto aos ambientes naturais; a
assinatura de termo de ciência quanto à natureza da atividade proposta e aos
riscos inerentes a essa prática; seguro de vida extensivo a todos os participantes
das atividades previstas.

  Ao oportunizar esse acesso às vivências junto à natureza, por muitos denomi-
nadas de turismo de aventura 2, abriram-se as perspectivas de esses profissio-
nais, em processo de formação, incorporarem às suas experiências emoções
decorrentes das práticas do cascading 3, de trilhas, caminhadas e piqueniques
tendo como elementos aliados as matas e o leito dos rios.

  Conforme Perrenoud (2000), profissionais competentes, com pedagogias dife-
renciadas, podem criar situações ótimas de aprendizagem, nas quais o sujeito
ativo mobiliza suas inúmeras habilidades para lidar com o novo, o inusitado, o
desconhecido, tão peculiares nas atividades de aventura.

  Além disso, os graduandos parecem ter tido a oportunidade de redimensionar
suas atitudes e valores de respeito, integração e educação para com o meio
ambiente e, analogicamente, o próprio conceito de natureza.

  Este trabalho pretende, portanto, apresentar parte dos dados coletados e a
respectiva discussão dos seus resultados, na perspectiva de um lazer crítico,
prazeroso e criativamente vivido.



METODOLOGIA

   Com a finalidade de avaliar os objetivos propostos e efetivamente alcança-
dos nessa atividade extra-classe; os comportamentos de entrada e de saída
dos educandos no processo ensino-aprendizagem e o perfil de um grupo espe-
cífico, visando futuras experiências no gênero, foi utilizado um questionário
aberto, contendo oito questões, aplicado aos 58 alunos regularmente matricu-
lados no Curso de Turismo, do Instituto de Artes, Comunicações e Turismo da
PUC-Campinas (SP).

  O questionário, instrumento de pesquisa, construído conforme normas e téc-
nicas de planejamento das pesquisas de campo, apresenta inúmeras vantagens
apontadas por Marconi & Lakatos (1982). Dentre elas, destacam-se: a possibili-
dade de encontrar maior liberdade nas respostas e uniformização na avaliação,
em razão do anonimato ou da impessoalidade do instrumento, entre outras.

  Os dados obtidos foram analisados, descritivamente, visando identificar
aspectos relevantes, capazes de incrementar as discussões sobre a temática
em questão.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
RESULTADOS E DISCUSSÃO

   Questionados sobre suas experiências anteriores com atividades de aventura
em ambientes naturais, 43 dos 58 envolvidos responderam não ser inédita aquela
situação, pois já haviam tido a oportunidade de experiênciá-las em outros mo-
mentos, tais como: caminhadas, rafting 4, bóia-cross 5, mergulho livre, rappel,
mountain bike, motocross, escalada, trilha a cavalo, espeleologia, canoagem,
dentre outras. Estes dados se revelam bastante positivos, denotando a diversida-
de de interesses presente nos elementos do grupo, constituindo seu perfil, igual-
mente, diversificado.

   Das experiências anteriores apontadas, a prática de caminhadas e trilhas foi
predominante, sendo possível inferir sobre os motivos dessa preferência, como
por exemplo: a facilidade de deslocamento, gestos motores menos sofistica-
dos e um investimento menor em equipamentos esportivos. Com relação à
caminhada, é pertinente apontar que, nos centros urbanos, onde o “verde” é
menos presente, essa manifestação corporal conta com expressiva adesão de
diferentes faixas etárias e categorias sociais fazendo dela um momento quali-
tativo de lazer5.

  Particularmente quanto à prática da caminhada em parques urbanos, Bruhns
(1997) salienta que talvez os parques possam ser pensados como amostras da
natureza, uma vez que agregam árvores, bosques e animais em seus espaços.
Esta idéia ratifica a importância que tem a escolha do local para a prática,
evidenciando o fato de que as pessoas parecem preferir os ambientes naturais.

   No que concerne à preferência por companhia durante as atividades de aven-
tura, os alunos elegeram os amigos e a família, respectivamente, em primeiro e
segundo lugares. Faz-se pertinente destacar que a opção pelos amigos é justi-
ficável, tendo em vista que no curso de Turismo algumas disciplinas solicitam,
como parte do conteúdo acadêmico, a organização e participação em algu-
mas viagens e, por conseguinte, os amigos da faculdade acabam sendo, nelas,
seus parceiros. Este fato, por sua vez, parece comprovar a possibilidade de
articular momentos de obrigações e estudos, vividos na faculdade, aos mo-
mentos de lazer.

  Também é importante ressaltar que apenas uma pessoa expressou sua opção
por vivenciar só essas atividades, remetendo-nos a duas principais reflexões. A
primeira, diz respeito à necessidade da coletividade nas referidas atividades,
advinda da importância de um parceiro, seja para checar o equipamento, fazer
segurança, dar conselhos e servir de companhia, haja vista que essas atividades
demandam certos riscos, sendo, portanto, aconselhável que nunca sejam prati-
cadas isoladamente. A segunda salienta a dificuldade do ser humano em ficar só,
pois tem subjacente a confrontação consigo mesmo. Se, de uma forma, o ficar
só pode significar um momento bastante particular e propício às introspecções,


38 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
por outra, pode detonar o medo da solidão. Nesse sentido, nas vivências indivi-
duais ou coletivas, as inteligências interpessoal e intrapessoal têm oportunida-
des de serem estimuladas, melhorando a qualidade de vida de seus praticantes
(GARDNER,1995).

   Falar de grupo nos remete às diferentes necessidades, expectativas, interes-
ses e motivos de seus membros. Em grupo, o prazer, a espontaneidade, a
liberdade, a individualidade, os interesses pessoais não podem ser
desconsiderados, já que também funcionam como fatores de identidade de
seus elementos. Além disso, em grupo, alguns indivíduos assumem condutas,
positivas ou negativas, as quais, isoladamente, talvez não assumissem. O pra-
zer compartilhado, proveniente das atividades de aventura, provavelmente
adquire magnitude, funciona como elemento de coesão do grupo e de satisfa-
ção das necessidades individuais no coletivo.

  Todos os sujeitos envolvidos alegaram ter se identificado com as vivências
propostas, demonstrando, assim, uma predisposição natural quanto às ativida-
des de aventura, manifestadas por fatores que vão desde a escolha do local
(natural, atrativo), até a flexibilidade prevista na gama de atividades sugeridas.

  Nessa perspectiva, o rappel, em uma torre de cinco metros, aproximadamente,
antecedeu o cascading propriamente dito, vivido em uma cachoeira de 34 metros.
Enquanto alguns participavam dessas atividades, outros faziam trilhas, tocavam
violão ou apenas observavam, demonstrando, com isso, que a participação não
ocorreu apenas na atividade física em si, mas, também, na fruição e na contem-
plação. O não fazer nada, contrariando inúmeras correntes vinculadas ao ócio,
também demonstrou a possibilidade de estimulação do desenvolvimento huma-
no, a partir da comunicação estabelecida entre os sons e ecos provenientes do
meio ambiente e da integração homem-natureza.

  A adrenalina e o medo foram as sensações mais destacadas. A primeira parece
ter forte relação com a popularização do termo, desencadeada pela mídia, pois,
para alguns dos sujeitos, seu significado parece estar ligado a um certo sensaci-
onalismo e, ainda, para outros, ser simplesmente desconhecido.

  O medo, por sua vez, parece ser o principal componente dosador do estímulo
ou do desestímulo em relação à prática.

   A percepção de maior contato e maior integração com a e na natureza tam-
bém foi bastante comentada, ratificando a interferência do espaço e do local
escolhido para a prática, como facilitadores ou inibidores das diferentes sensibi-
lidades e intensidades das percepções humanas. Nesse mesma perspectiva, a
liberdade também foi destacada, como tendo relação estreita com a experiência
inédita para uma significativa parte dos alunos.


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
A partir desses dados, é possível concordar com Marinho (2001a) ao afirmar
que, no turismo de aventura, as atividades as quais requerem os elementos natu-
rais para o seu desenvolvimento, de formas distintas e específicas, parecem
realmente estar despertando maiores sensibilidades, em diferentes níveis. As
intensas manifestações corporais, nessas práticas, permitem que as experiências
na relação corpo-natureza expressem uma tentativa de reconhecimento do meio
ambiente e dos parceiros envolvidos, expressando, ainda, um reconhecimento
dos seres humanos como parte desse meio.

   Quanto à sensação de vitória apontada, cabe esclarecer que muitos são os
adeptos de tais atividades e que não fazem dessa sensação um fim em si mesmo.
Ser vitorioso, para eles, parece ser uma decorrência natural da superação dos
limites que a própria atividade lhes impõe e com as quais, deliberada-
mente,”brincam”, pois o risco é controlado. Esse mesmo risco, evidenciado
pelos alunos, parece afetar diferentemente as pessoas, inibindo-as ou estimu-
lando-as à prática.

  Outras sensações, como satisfação, alívio, relaxamento e bem-estar, dentre
outras, foram pouco registradas, possibilitando inferir que esses tipos de sensa-
ções parecem ser mais rotineiras e monótonas, diferentemente do que propiciam
essas atividades, nas quais se busca uma exposição a situações-problema inusi-
tadas e a superação de limites ou barreiras físicas e pessoais.

  Ainda em relação às sensações e percepções, vale enfatizar que, para aqueles
que vivenciavam a prática pela primeira vez, essa experiência pedagógica pare-
ce tê-los aproximado de emoções e sentimentos até então desconhecidos por
eles mesmos, reiterando a necessidade e a importância dessas iniciativas junto
aos cursos de formação na área do Turismo e cursos afins.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

  A transformação qualitativa pretendida para a educação do século XXI, visan-
do a contemplar a universalização da cidadania, perpassa por profundas mudan-
ças axiológicas referentes à formação dos profissionais, as quais terão papel
decisivo na manutenção ou alteração do contexto sociocultural, refletindo em
suas práticas.

  Considerando as demandas da sociedade atual, novos olhares têm se voltado
ao ofício de ensinar, às condições e motivos pelos quais se ensina, para quê se
ensina e ao perfil do profissional que se pretende formar. Esses novos olhares
são capazes de mudar, inclusive, o foco do que se entende por ensinar, aprender
e ter como profissão.




40 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Nesse contexto, parece inevitável considerar que o salto qualitativo começa e
termina no seu agente, o educador, a partir de posturas éticas que assume para si,
enquanto profissional formador de formadores.

  A ética, conjunto de princípios que regem e sustentam o exercício de uma
profissão, legitimada e regulamentada pela sociedade, é a possibilidade concre-
ta da humanização do homem e da sociedade para a vida e, inclusive, para as
relações com o meio ambiente.

  Os cursos de formação, segundo esse pressuposto, não podem mais estar
atrelados à concepção de uma educação que se viabiliza apenas nos espaços
formais da instituição, requisitando uma ampliação dos horizontes da ação
educativa para além de seus muros e para além dos aspectos predominantemen-
te cognitivos. Faz-se, premente, então, ousar e extrapolar na organização de
estratégias pedagógicas que se utilizem dos espaços informais, de modo com-
plementar, com objetivo de focar o sujeito aprendiz por inteiro, ou seja, não
apenas no cognitivo mas também nos seus elementos afetivos e emocionais.

  Assim, um profissional competente deve estar sintonizado com outros indica-
dores de aprendizagem, de natureza emocional, igualmente importantes no pro-
cesso de aprender a aprender.

   As atividades de aventura junto à natureza, como a experiência relatada, mos-
tram-se bastante eficazes para exemplificar as idéias anteriormente expostas,
das quais se extraem sinais de dupla ruptura com os modelos e práticas pedagó-
gicas presentes na realidade educacional. A primeira se refere à quebra das
barreiras físicas da instituição, conjugando os espaços formais aos informais e,
a segunda concerne à tentativa de demonstrar que o modelo de profissional
pode reforçar o modelo do aprendiz e do futuro profissional.

  Por sua vez, o turismo de aventura ao conquistar mais espaços, a cada dia,
como campo de trabalho, exige um novo perfil de profissional que, vencendo os
desafios das diversas demandas sociais, reitere a validade dessa proposta como
uma estratégia criativa e lúdica, facilitadora do reencontro e da simbiose dos
seres humanos com a natureza. Dessa forma, apontamos para a necessidade da
existência de uma pedagogia capaz de incorporar aspectos lúdicos,
potencializados por meio de uma educação para o lazer e a recreação.

   A partir dessa pedagogia, a percepção do ambiente natural pode vir a ser
altamente estimulada. A mensagem não se limitaria apenas aos interesses inte-
lectuais e todos os sentidos contribuiriam para a aquisição de conhecimentos.
Para além da mudança de locus de ensino, pretende-se, em um sentido mais
amplo, estimular diferentes percepções com relação às condições de vida na
Terra (SERRANO, 2000).


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Cabe destacar que, nessa proposta (como em outras do gênero), o ambiente
natural, ao se tornar favorável à prática de certas atividades, implica na neces-
sidade de uma conservação ambiental, bem como de um processo educativo, no
qual se exercite o conhecimento como instrumento de compreensão das rela-
ções estabelecidas.

   Nessa perspectiva, compartilhamos com Marinho & Schwartz (2001) a neces-
sidade de serem promovidas novas alternativas para o lazer de indivíduos inte-
ressados no turismo de aventura. Tais alternativas, por sua vez, devem gerar,
fomentar e gerenciar a qualidade da acessibilidade a esse tipo de turismo, impli-
cando decisivamente para o sucesso da multiplicação das idéias conservacionistas
e sensibilizadoras do aprimoramento da qualidade de vida.

  Por fim, ratificamos que a busca pelos elementos naturais, durante o lazer e/
ou atividades escolares, seja com o objetivo de contemplar, de aventurar-se
pelas matas ou simplesmente de não fazer nada, implica no conhecimento de
uma ética ambiental, permeada por comportamentos de compreensão e respeito
para com o meio natural (MARINHO, 2001b).

  Portanto, a partir da viagem apresentada, eixo norteador para a discussão,
alertamos para a necessidade de as atividades de aventura, propostas como
conteúdo disciplinar, terem laços estreitos com a Educação; pois, somente as-
sim ambas venceriam alguns desafios e viriam a conquistar, juntas, novos espa-
ços ainda carentes de reflexões e aprofundamentos.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]

Notas

1. Este estudo foi apresentado, sob forma de comunicação oral, no VI CEPFE - “Congresso Estadual Paulista
sobre formação de educadores” em Águas de Lindóia (MG), 2001; sofreu algumas alterações, para se adaptar
a formatação exigida pela Revista.

2. De acordo com Serrano (2000), o turismo de aventura se enquadra na polissemia do termo e da multiplicidade
 das atividades de ecoturismo (considerado como uma “idéia guarda-chuva” porque engloba inúmeras ativi-
 dades como o trekking, as escaladas, rappel, espeleologia, mergulho, cavalgadas, vôo livre, estudos do meio,
 safári fotográfico, observação da fauna e da flora, pesca, turismo esotérico e turismo rural, entre os mais
 comuns).

3. Descida em cachoeira por meio da técnica do rappel (descida por cordas).

4. Descida por corredeiras de rios em botes infláveis.

5. Descida por corredeiras de rios em bóias.

6. Pesquisa SESC Gallup (1993).




42 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2003
          Publicação original: monografia (T.C.C.)


Formato da contribuição: texto resumido
Fonte: “O Movimento na Natureza: o papel da Educação Física na Educação
Ambiental. São Carlos, DEFMH, UFSCar, 2003.”
E-mail do(s) autor(es): cae_jah@hotmail.com
Títulos acadêmicos principais atuais: Licenciado em Educação Física pela UFSCar,
Mestrando em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da
UFSCar.




O Movimento na Natureza Interfaces
entre Educação Física e educação
Ambiental no Ensino Infantil
Cae Rodrigues
Mey van Munster


  No contexto contemporâneo do cotidiano urbano observa-se uma série
de eventos espaciais e temporais que dificultam cada vez mais a integração
da população em geral com a natureza1. O pouco tempo disponível para o
lazer, o distanciamento dos grandes centros urbanos das áreas de convívio
com a natureza (o que ocasiona dificuldades temporais e financeiras para
uma possível interação) e a construção de uma cultura voltada para o lazer
urbano são fatores relevantes que interferem no processo que busca a
identidade do ser humano com a natureza, em relações que possam ser
criadas ou mantidas nesse ambiente. Essa falta de contato com a natureza
pode gerar também uma falta de identificação da população residente nas
cidades com o meio natural.

               [...] é porque perdemos nossa identificação com o mundo natural
               que somos capazes de abusar dele. Através do restabelecimento
               do contato com o mundo natural, por meio de uma educação que
               conscientemente promova essa reconciliação transformadora,
               podemos reverter a rota de destruição em que nos encontramos
               atualmente e recuperar da Terra os princípios de orientação para
               a sustentabilidade ecológica. (BARROS, 2000:92)


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Ensina-se que a natureza deve ser respeitada e preservada, mas esse ensinamento
fica muito vulnerável frente aos costumes vivenciados no dia-a-dia das grandes
cidades. O indivíduo vive uma cultura consumidora, sedentária, adaptada ao luxo,
produtora de lixo e de poluição, totalmente contraditória aos ensinamentos de
preservação encontrados, por exemplo, nas apostilas escolares, fortalecendo uma
educação passiva que ensina a respeitar algo que a grande maioria da população
desconhece, por nunca ter tido a oportunidade de vivenciar. “As experiências diretas
são necessárias para desenvolver sentimentos de amor e preocupação pela terra;
caso contrário, as pessoas passarão a conhecê-la de modo superficial e teórico, sem
nunca serem tocadas profundamente”, destaca o naturalista Cornell (1995:38).

   A proposta da Educação Ambiental por meio de atividades de sensibilização
integradas à natureza conduz a criança a aprender sobre si mesma e sobre o
meio que a cerca, conseqüentemente favorecendo também o meio, à medida que
se constrói a consciência da preservação ambiental. Cornell (1995:13) escreve
sobre o surgimento dessa consciência de preservação dizendo que:

                 Se quisermos cultivar uma atitude de reverência para com a vida,
                 em primeiro lugar precisamos desenvolver a percepção, que, por
                 sua vez, pode se transformar em amor e empatia. À medida que
                 começamos a sentir uma comunhão com os seres vivos que nos
                 rodeiam, nossas atitudes tornam-se mais harmoniosas e fluem
                 com naturalidade, e, por conseguinte, passamos a nos preocupar
                 com as necessidades e o bem estar de todas as criaturas.

   O presente trabalho objetiva verificar a criação de afinidades da população
urbana com o meio natural, pelo contato direcionado à natureza e através de
atividades de sensibilização integradas ao meio, para uma conseqüente educação
de preservação. Bruhns (citada por Munster e Almeida, 2001:21), destaca a impor-
tância da “experiência sensível” conseqüente da aproximação do homem com a
natureza, o que promove uma certa consciência de que pertencemos a um mesmo
cosmo, causando uma relação de respeito, e não de dominação, pelo meio.

  Para a realização desse trabalho elaborou-se uma proposta de atividades de
sensibilização visando a conscientização ambiental com adequação às necessi-
dades de crianças (4 a 6 anos) para um conseqüente estudo das possíveis rela-
ções entre Educação Física e Educação Ambiental no ensino infantil. A metodologia
empregada foi baseada na combinação entre pesquisa bibliográfica e de campo,
tendo como instrumento de coleta de dados a observação sistemática direta das
práticas e de registros fotográficos e de filmagem dessas atividades.

  A pesquisa bibliográfica foi baseada no levantamento de referências acerca de
alguns termos como “Educação Física”, “Ensino Infantil”, “Movimento” e “Edu-
cação Ambiental”. A pesquisa de campo foi realizada a partir da elaboração de
uma proposta de atividades de sensibilização integradas à natureza e a aplica-


44 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
ção da proposta a um grupo de crianças do ensino infantil (4 e 6 anos) do Colégio
Mundinho Nosso, na cidade de São Carlos, SP. A proposta foi finalizada com a
realização de uma excursão (estudo do meio) acompanhada pelo pesquisador
desse estudo, pelo professor de Educação Física da escola e por um monitor
voluntário de Educação Ambiental. A avaliação da proposta foi realizada a partir
da análise dos dados coletados por meio da observação sistemática direta e uma
discussão aberta (reflexão da prática) com os alunos participantes.



O CONTATO COM A NATUREZA NA EDUCAÇÃO AMBIENTAL

  Paralelamente ao desenvolvimento das vias de transporte e de comunicação
cresce o interesse do homem em conhecer novas e inexploradas localidades.
Explode mundialmente a febre do Turismo.

   Essa explosão teve uma significativa implicância no movimento ambientalista e
na Educação Ambiental (EA), uma vez que o acesso ao meio natural se torna mais
disponível. As práticas de contato com a natureza se tornaram bem mais populares
e ainda hoje apresentam um grande crescimento, sejam simples visitas de contem-
plação, atividades que envolvam transporte de equipamento para pernoite
(excursionismo) ou de caráter esportivista. Isso se torna importante para a EA, uma
vez que os indivíduos envolvidos nessas práticas progressivamente incorporam
uma ética voltada à conservação dos ambientes que gostam de freqüentar (Barros
e Dines, 2000:54). Os autores vão além, e destacam que quanto mais as pessoas
freqüentam essas áreas naturais, maior seu grau de conscientização ambiental.
Isso ocorre pela crescente segurança, conseqüente do crescente bem estar, que o
indivíduo sente conforme vivencia o meio natural, crescendo também o interesse
em se informar sobre os ambientes que visita (id. ibid:56).

  Mas a simples inclusão do homem no ambiente natural não é o suficiente para
justificar uma mudança de comportamento perante as questões ambientais, uma
vez que este indivíduo ainda carrega os valores construídos numa sociedade
consumista e desenvolvimentista, praticamente desarticulada da conservação e
do manejo adequado das atividades no ambiente onde as pessoas vivem. Serrano
(2000:17) adverte que quando visitamos a natureza não devemos esquecer de
nosso cotidiano, mas sim refletir sobre ele e sobre a relação homem-natureza,
marcada pelas transformações conseqüentes da tradição judaico-cristã, agra-
vada pela modernidade e o capitalismo, a ponto de não reconhecermos nosso
pertencimento ao mundo natural.

  Nas viagens ao meio natural observa-se um consenso em torno do caráter de
preservação e da busca de uma consciência ambientalista. Serrano (2000:8)
destaca, por uma perspectiva conceitual, o caráter intrinsecamente educativo e
o compromisso com a modificação de comportamentos e com a construção de
uma consciência ambientalista nas atividades em contato com a natureza. Essa

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
marcante característica, juntamente com a grande popularidade dessas práticas,
as tornam fortes aliadas do movimento ambientalista. Barros (2000:91) argu-
menta que as atividades na natureza se tornaram tão populares que hoje são
consideradas, por muitos conservacionistas, como uma solução para os proble-
mas ambientais e uma boa oportunidade para o desenvolvimento de EA, princi-
palmente por razões econômicas.

   Mas assim como o movimento ambientalista necessita de um instrumento para
passar seus valores à população (a EA), o mesmo pode ser dito das atividades em
contato com a natureza, uma vez que a simples inclusão do homem ao meio
natural não é, na maioria das vezes, suficiente para a solidificação de uma
consciência ambientalista. O homem “urbano” há muito tempo perdeu o contato
íntimo com seus sentidos, e até mesmo com o ato de “sentir”. A rapidez com que
tudo acontece em nosso cotidiano muitas vezes impedem reflexões sobre os
acontecimentos vivenciados, restringindo não só a capacidade de sentir, como
a de avaliar. Segundo Bruhns (2000:31), falta “às pessoas, nas sociedades urba-
nas atuais, o envolvimento suave, inconsciente com o mundo físico, num ritmo
mais lento, do qual as crianças desfrutam.”

   Vivemos cada vez mais protegidos do mundo natural. O homem só se molha
quando toma banho; o único cheiro agradável ainda presente em nosso cotidia-
no é aquele do cafezinho ou da comida, que na maioria das vezes já chega pronta
a nossa mesa; o toque (seja ele pessoal, como o abraço e o beijo, ou com o
mundo natural, como o simples andar descalço) é cada vez menos encorajado
desde a infância; o dom da audição foi praticamente abandonado, pois estamos,
na maior parte do tempo, rodeados de poluição sonora; o que nos resta é o
recurso da visão, que tem que estar sempre atenta aos velozes veículos e às
pessoas apressadas nas ruas e calçadas. Limitar nosso sentir apenas a esse
recurso, o visual, limita também nossa capacidade de ser, de pensar, de viver.
Platão (1972:55) já sabia disso quatrocentos anos antes de Cristo, quando dizia
que “a visão do pensamento começa a enxergar com agudeza quando a dos
olhos tende a perder sua força.”

  Cornell (1996) afirma que quando o homem se protege das intempéries da
natureza ele perde a vitalidade e a sensação de bem estar que provém do fato de
estar em harmonia com o meio natural. Cornell (citado por Mendonça, 2000:136)
também ressalta que visitamos a natureza impregnados de nossos valores
dominadores e comsumidores, provindos de nossa cultura urbana, o que dificulta
a potencialização dos nossos sentidos e sentimentos. Dessa forma, o primeiro
passo a ser dado é colocar esse indivíduo em contato com o meio natural.

  O homem constitui uma importante função dentro do mundo natural, porém,
como destaca DeMoor (citado por Barros, 2000:92), abusamos do mundo natural
por que perdemos nossa identificação com ele. Se conseguirmos restabelecer
uma aproximação com a natureza, juntamente com uma orientação pedagógica


46 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
que promova uma reconciliação transformadora, poderemos reverter esse pro-
cesso de destruição no qual se encontra o planeta atualmente.

   A partir da aproximação do homem do meio natural, surge a necessidade de
educá-lo a se portar em tal ambiente, ou seja, as condutas devem tornar-se
valorizadas pela ética ambiental. Surge, mais do que isso, uma excelente oportu-
nidade para uma proposta diferenciada de educação: a EA em contato direto
com a natureza. Ferreira e Coutinho (2000:187) destacam a importância da valo-
rização da EA nas práticas em contato com a natureza, uma vez que o visitante
bem orientado para compreender o ambiente a ser visitado provavelmente res-
peitará a cultura, a organização social local e a capacidade de suporte desses
locais. É nesse sentido que se pode afirmar que, na maioria das vezes, é necessá-
rio mais do que o simples contato com a natureza para solidificar uma concreta
proposta de Educação Ambiental nessas visitas ao meio natural. Segundo Marcel
Proust (citado por Oliveira, 2000:111), “a verdadeira viagem de descoberta não
consiste em sair à procura de novas paisagens, mas de possuir novos olhos”.



EDUCAÇÃO FÍSICA NA INFÂNCIA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL

  Na análise dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), encontra-se a Educa-
ção Ambiental dentro da proposta dos Temas Transversais. Esses temas são
considerados muito complexos para serem abordados isoladamente por uma
área, e assim atravessam os diferentes campos de conhecimento. Os conteúdos
propostos para o desenvolvimento da EA na escola são divididos em três blocos
gerais: “ciclos da natureza” (compreensão dos processos da natureza), “socie-
dade e meio ambiente” (relação do homem com o seu ambiente) e “manejo e
conservação ambiental” (conhecer e compreender a importância da preserva-
ção e conservação ambiental). A responsabilidade de desenvolvimento desses
conteúdos segue o caráter multidisciplinar tão presente na Educação Ambiental.
A questão é, qual o papel da Educação Física nesse processo de sensibilização
ambiental na infância?

   A Educação Física, independente da questão curricular, está sempre presente
nas aulas do ensino infantil, pela natural necessidade das crianças de se movi-
mentarem. Segundo Risco (1968:8) a criança pensa, sente e age por meio do
movimento. Familiarizar-se com a imagem do próprio corpo, explorar as possi-
bilidades de gestos e ritmos corporais por meio de brincadeiras e demais situa-
ções de interação, desenvolver atitudes de confiança nas próprias capacidades
motoras por meio do deslocamento no espaço – esses são alguns dos objetivos
da Educação Física para crianças de zero a três anos. A partir dos quatro (até os
seis) anos, esses objetivos devem ser aprofundados e ampliados, para que a
criança seja capaz de ampliar as expressões do próprio movimento, conhecen-
do, assim, suas potencialidades e limitações até que consiga controlar e utilizar
esses movimentos para realizar tarefas desejadas. Apropriando-se gradativamente

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
da imagem global de seu corpo, a criança buscará sua autonomia e construirá
uma consciência de cuidado com o próprio corpo.

  Essas são as recomendações do documento “Presença do movimento na Edu-
cação Infantil: idéias e práticas correntes” (Brasil, 1998). As crianças, já nessa
idade, começam a se apropriar do repertório da cultura corporal na qual estão
inseridas quando brincam, jogam, imitam e criam ritmos e movimentos. Portanto,
surge a necessidade de colocar essa criança em contato com ambientes ricos e
desafiadores, ambientes que ampliem seus conhecimentos acerca de si mesmas,
dos outros e do meio em que vivem (id. ibid:16). Desta forma, o contato com a
natureza já se torna importante.

   A criança começa a construir uma imagem do próprio corpo, das pessoas e do
meio ao seu redor; começa a buscar uma independência corporal explorando
gestos e ritmos corporais; começa a se deslocar e a explorar novos movimentos;
ou seja, a criança começa a construir uma “cultura corporal”2, uma identidade que
a diferenciará das demais crianças. Esses primeiros “blocos” de construção corpo-
ral representam segurança e conforto para a criança, o que torna o contato com a
natureza de essencial importância. Se a criança se familiarizar e sentir segurança
no meio natural desde cedo, isso facilitará todo o processo de construção de uma
afinidade pelo meio e, conseqüentemente, uma consciência voltada aos princípios
da EA. Nesse sentido, Cornell (citado por Mendonça, 2000:138) afirma que a expan-
são de uma consciência conservacionista depende da relação afetiva provinda da
cultura do homem, que precisa sentir a necessidade da natureza em sua vida.

   Bruhns (2000:32) destaca que “a criança, por não preocupar-se com códigos
de regras definidas sobre beleza, recebe as sensações da natureza diretamente,
sem censuras”. Essa característica da criança, juntamente com a curiosidade e a
pré-disposição para brincar, são importantes aliados da educação, mas na gran-
de maioria das vezes são considerados como elementos que dificultam a disci-
plina e o controle e, conseqüentemente, o processo educacional. No âmbito da
educação escolar, os professores muitas vezes ignoram a necessidade da crian-
ça de se movimentar e julgam a contenção motora como fator essencial para a
disciplina, uma vez que a criança estática é muito mais fácil de controlar. O
movimento é encorajado apenas em reservados espaços de tempo, no qual a
criança é requisitada a se movimentar para gastar energia, prática eficaz para
“manter a ordem” e que também limita as possibilidades de expressão e de
conduta própria desta criança. Essa visão transforma o movimento em um empe-
cilho à concentração do aluno e à aprendizagem como um todo, visão que
contrapõe o consenso que o movimento é essencial para o desenvolvimento da
percepção e da construção de uma cultura corporal da criança.

  A educação infantil representa uma transição do ambiente familiar para o
ambiente escolar (Machado, 1986:13), e deve suprir as necessidades fisiológi-
cas, afetivas e relativas à segurança das crianças (id. ibid:17). Isso só será possí-


48 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
vel por meio da educação pelo movimento, princípio pedagógico que parte das
necessidades e interesses da própria criança, estimulando o desenvolvimento da
criatividade e da conquista de sua autonomia (id. ibid:26).

   A criança nessa idade passa pela “fase lúdica”, na qual o brincar é o que mais
interessa a ela.(Rodrigues, 1987:20). Mas o brincar é mais do que simples diver-
timento é um meio de compreensão e relacionamento com o ambiente (Macha-
do, 1986:27). Através do brincar a criança desenvolve suas capacidades mentais
e, por meio de seus sentidos, chega ao conhecimento do mundo exterior, obtém
controle dos próprios movimentos (desenvolvendo seu sentido de confiança e
segurança) e aprende a expressar e comunicar suas idéias pela fala (id. ibid:29).

   É nesse sentido que as propostas de métodos pedagógicos em contato com a
natureza podem ser eficazes. O meio natural representa um espaço onde a criança
pode expressar seus movimentos com maior liberdade, uma excelente oportunida-
de de educação corporal e de conscientização ecológica por meio da orientação,
e não proibição, do movimento. Mas, para instruir, os educadores têm que ser bem
instruídos. Muitas vezes o que ocorre nessas viagens ao meio natural reflete aquilo
que ocorre no âmbito da educação escolar. O professor restringe os movimentos
das crianças à suas ordens, impondo uma hierarquia que pode comprometer a
proposta de um instrumento pedagógico diferenciado. Outro grave problema pode
ser a conduta desse professor no meio natural. A criança com seus sentidos
perceptivos em alerta, dá significado as condutas do professor pela observação,
assimilando-as, na maior parte das vezes, como atitudes corretas. Quando o pro-
fessor, imbuído de boas intenções, tira uma semente de uma árvore para colocá-
la em seu relatório ou tira uma flor de um arbusto para presentear a um outro
professor ele indica ao aluno que é correto agir dessa maneira.

  O professor deve ser também instruído a trabalhar com os recursos que a
natureza lhe oferece. Além de representar um rico e amplo espaço para se traba-
lhar os objetivos da Educação Física, o meio natural ainda apresenta um outro
aspecto que pode ser transformado em um importante instrumento nas ativida-
des em contato com a natureza, sua imprevisibilidade. O fato da criança estar em
um ambiente desconhecido torna todos os elementos que a rodeiam em possí-
veis “perigos”, como os animais silvestres, a desordem das árvores, a escuridão
da noite, a chuva, o vento, o calor, ou o simples espaço aberto. Essa sensação de
medo e de insegurança inicial, se trabalhadas corretamente, podem gerar uma
boa oportunidade de aprendizagem, uma vez que os sentidos estão todos em
alerta, tornando a observação e a percepção muito mais ativas.

   Essa aprendizagem por meio da observação proporciona uma compreensão
inigualável dos processos naturais, uma vez que a criança não só vê os fenôme-
nos naturais que estudou em sala de aula, mas sente diversas reações ligadas ao
observado. Ler sobre a metamorfose de uma borboleta é uma coisa, mas assistir
a essa transformação e sentir a liberdade da borboleta ao abrir suas asas pela

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
primeira vez é algo extraordinário. Nesse exemplo citamos um fenômeno de
pequena proporção em área, no qual o fato observado é um pequeno casulo, não
desmerecendo a grandeza do fenômeno, mas ainda existem os espetáculos da
natureza em grandes extensões, como a visão do mar ou de um mar de morros
avistado do pico de uma montanha, que inspiram sentimentos únicos, principal-
mente para a criança, que vê grandiosidade em tudo. Cabe lembrar que os
ensinamentos em ambos casos desenvolvem-se no conhecimento de relações
que dependem da conservação do meio, e o seu estado deve fornecer elementos
para a aprendizagem, essencialmente na relação homem/natureza.

  Entretanto, como destaca Barros (2000:91), a concretização dessas oportuni-
dades tem apresentado um grande desafio para os organizadores de viagens em
contato com a natureza e para os educadores ambientais, uma vez que os
organizadores dessas atividades muitas vezes desperdiçam essa oportunidade
por falta de integração e planejamento, e os educadores ambientais desperdiçam
a grande oportunidade de ampliar o público alvo e os locais de aplicação dos
valores da EA geradas pelas crescentes atividades em contato com a natureza.

   As atividades de sensibilização na natureza surgem como uma possível solu-
ção para esses problemas, integradas às práticas de estudo do meio. Essas prá-
ticas revelam um modo de conhecer o ambiente via informações do corpo,
surgindo então a oportunidade de trabalhar os valores da EA a partir dos sentidos
e sentimentos provocados por essas experiências (Bruhns, 2000:45). A criatividade,
a pré-disposição ao brincar e a natural habilidade de percepção das crianças são
características indispensáveis para essa proposta pedagógica. “Enquanto parti-
cipamos das brincadeiras, representamos nossos papéis de modo dinâmico, e
sentimos diretamente os ciclos e processos espontâneos da natureza” (Cornell,
1996:5). No entanto, são necessárias metodologias específicas que direcionem
essas características para que possam ser usadas como potencializadoras dos
sentidos de percepção da criança.

   O naturalista Joseph Cornell apresenta uma série de atividades integradas à natu-
reza que aproximam as pessoas ao meio natural. As atividades, de caráter educativo,
levam as pessoas a criarem uma afinidade pelo meio natural através do método de
“aprendizado sequencial”. Trata-se de um conjunto de princípios que descreve
como usar as atividades de conscientização integradas à natureza de forma
gradativa e direcionada. O método é composto por quatro estágios: Despertar o
entusiasmo; concentrar a atenção; dirigir a experiência; compartilhar a inspiração.

   O objetivo do primeiro estágio é estimular a aproximação entre as pessoas,
criando um ambiente de vivacidade e entusiasmo, sobre o qual pode-se conduzir
um aprendizado mais sutil e significativo. No segundo estágio deve-se aprovei-
tar a alegria provinda do primeiro estágio e conduzir jogos que deixem o grupo
mais atento, ou seja, mais receptivo ao meio. As atividades do terceiro estágio
intensificam os sentidos para um contato mais direto com a natureza, possibili-


50 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
tando ao indivíduo penetrar completamente no espírito do mundo natural. O
último estágio é inteiramente dedicado à reflexão das experiências vivenciadas
e ao compartilhamento das experiências individuais com o coletivo do grupo, o
que aproxima os integrantes do grupo e reforça a capacidade de admiração das
pessoas envolvidas (Cornell, 1995:28). As atividades propostas são muito sim-
ples e acessíveis a qualquer população, além de, segundo o autor, serem muito
eficientes no propósito de criar uma afinidade do homem pela natureza.

   A proposta da criação de um elo entre o homem e a natureza forma a base da
metodologia de Cornell. Assim, o homem será cativado pelo meio natural, e,
enxergando a necessidade desse meio em sua vida, lutará pelos princípios da EA.
Saint-Exupéry (1986:68), em seu conhecido livro “O Pequeno Príncipe”, destaca
a importância de “criar laços” contando a história do encontro entre o pequeno
príncipe e uma raposa:

               - Quem és tu? Perguntou o principezinho. Tu és bem bonita.
               - Sou uma raposa, disse a raposa.
               - Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste...
               - Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram
               ainda.
               - Ah! Desculpa, disse o principezinho. Após uma reflexão, acres-
               centou: Que quer dizer cativar?
               ...
               - É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa ‘criar
               laços...’
               - Criar ‘laços’?
               - Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão
               um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não
               tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de
               mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil
               outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade
               um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti
               única no mundo”.

  É em busca desse “laço” que Cornell desenvolve suas atividades, para que
a natureza cative e se torne única para o indivíduo, e que esse sinta a neces-
sidade dela.

  Podemos citar como um exemplo das atividades propostas por Cornell o “cami-
nhar descalço” (atividade do segundo estágio - concentrar a atenção) (1995:89).
Como o indivíduo tem que prestar atenção onde pisa, ele concentra muito mais sua
atenção, o que, no caso de crianças, ajuda também a reduzir a agitação. Como o
caminhar é mais calmo e silencioso aumentam as probabilidades de se avistar
algum animal silvestre, o que proporciona ao grupo a experiência maravilhosa de
observar de perto animais silvestres em seu meio natural. Segundo Cornell, “quan-

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
do os observamos nessas condições, desenvolvemos sentimentos de afinidade
com o mundo animal” (id. ibid:90). O autor também destaca a possibilidade de
ensinar diferentes maneiras de caminhar, como, por exemplo, o caminhar indígena.
A ansiedade da pessoa em colocar sua nova habilidade em prática torna a idéia de
tirar os sapatos e caminhar descalça perfeitamente natural.

  Outras atividades que chamam a atenção são aquelas desenvolvidas com os
olhos vendados. Segundo Cornell (citado por Mendonça, 2000:146), essas práti-
cas possibilitam que a criança fique mais atenta às informações recebidas dos
outros sentidos, permitindo um sentir do ambiente de uma forma diferente que
permite penetrar completamente no espírito do mundo natural do qual faz parte.
Nas palavras de Bach, em seu inspirador livro Fernão Capelo Gaivota, “não creia
no que os seus olhos lhe dizem. Tudo o que mostram é limitação. Olhe com o
entendimento, descubra o que você já sabe e verá como voar” (1974:146).

   Algumas estratégias facilitam o processo de adaptação ao meio natural.
Cornell (1996:95) destaca a importância do primeiro contato, ressaltando que
as primeiras experiências com a natureza devem ser surpreendentes e fasci-
nantes, eliminando a sensação de angústia provinda pelo egocentrismo que
impede nossa identificação com o mundo natural. Para tanto, deve-se tomar
cuidado com o excesso de informação nesse primeiro momento, assim evitan-
do uma possível situação de hierarquia e de distanciamento entre a criança e o
mediador da prática, o que definirá todo o resto da experiência (Cornell, citado
por Mendonça, 2000:140), mesmo porque “a natureza existe em si, além das
nossas explicações. Ela vai muito além das possibilidades oferecidas por nossa
linguagem.” (id. ibid:139)

  Aliás, deve-se sempre tomar um certo cuidado quanto à apresentação de
explicações e de novas informações, uma vez que a criança pode e deve chegar
a conclusões próprias pela prática da observação. Na maioria das vezes, a rea-
ção da criança frente ao observado é mais importante que explicações científi-
cas, que poderão ser incluídas posteriormente a essa observação.

                 Emoção, agitação, medo, susto, perplexidade, maravilhamento,
                 são fenômenos tão importantes quanto o pulsar de sangue nas
                 asas transparentes de uma libélula, o bater das asas de um beija-
                 flor, a dança das sementes aladas ao sabor do vento, a beleza de
                 uma orquídea, a riqueza de uma bromélia, a vida social dos bugi-
                 os, o encanto de um cervo, a tranquilidade de uma preguiça etc.
                 As explicações devem vir após o desfrute total do que está sendo
                 observado. (id. ibid:141).

  Desta forma, o conhecimento teórico, ainda que absolutamente necessário não
é suficiente para efetivar transformações no relacionamento da criança com o
mundo natural. É necessária uma união entre a razão e o sentimento (id. ibid:137).


52 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
O trabalho de EA com crianças também tem se mostrado como um importan-
te instrumento na divulgação do pensamento ecológico na sociedade em ge-
ral. Isso ocorre pelo fato da maioria dos pais dessas crianças desconhecerem
as atuais tendências da EA, mas, uma vez que esses valores são incorporados
pelas crianças, estes são passados também para a comunidade adulta. O en-
canto do mundo imaginário da criança é contagiante, a ponto de levar adultos
a conversarem com árvores e explorarem o leito de um riacho em busca do
monstro que deixou suas pegadas pelas margens. Nas palavras de Júlio Maran
(citado por Campelo, 1995:47), “ajuda a criança a conhecer e amar a flora, a
fauna e todas as formas vivas e estarás assim promovendo os valores ecológi-
cos”. Dessa forma, é importante incentivar a população adulta a desenvolver
atividades junto às crianças, o que poderá gerar uma situação mútua de apren-
dizado na qual o adulto ensina e aprende com a criança, além das descobertas
que poderão efetuar juntos.

   A falta de tempo e o distanciamento entre os centros urbanos e as áreas
naturais são apenas dois dos vários motivos que afastam a população urbana
da natureza. È importante sabermos que atividades de integração ao meio
natural podem ser realizadas também aos arredores da cidade, em parques,
jardins zoológicos, bosques, hortos e até mesmo praças. Podemos inclusive
aproveitar os arredores urbanos para conscientizarmos as crianças sobre a
poluição (inclusive a sonora) e outros fatores nocivos à natureza. Também é
importante ressaltar para os indivíduos que voltam de um final de semana junto
ao meio natural que os valores da EA não devem ser deixados lá, mas sim
trazidos e aplicados também na cidade.

  A descoberta do movimento é uma das mais belas e significativas realizações
do ser humano. A Educação Física tem o importante papel de orientar a criança
nessa descoberta, traçando um caminho pelo maravilhoso mundo da curiosida-
de. Russel (citado por Sagan, 1974:51) dizia, em 1928, que “deveríamos ter von-
tade de descobrir em vez de vontade de acreditar, que é o exato oposto”. É com
base nessa afirmação que propomos essa nova união entre a Educação Física e
a Educação Ambiental, para que as futuras gerações tenham a vontade de
experienciar a inigualável viagem pelo mundo da descoberta.



O ESTUDO DO MEIO E A CRIAÇÃO DA IDENTIDADE

   Como apresentado na introdução, a proposta do presente trabalho é verificar
a criação de afinidades da população urbana com o meio natural, pelo contato
direcionado à natureza e através de atividades de sensibilização integradas ao
meio, para uma conseqüente educação de preservação. Para a sua realização foi
elaborada uma proposta de atividades de sensibilização integradas à natureza e
aplicadas a um grupo de crianças do ensino infantil (4 e 6 anos) do Colégio
Mundinho Nosso, na cidade de São Carlos, SP.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
O desenvolvimento deste estudo junto às crianças que se encontram na faixa
etária de 4 a 6 anos e cursando o ensino infantil justifica-se pela necessidade da
construção de uma afinidade pelo meio natural e da construção de uma consciência
de preservação o mais cedo possível, assim minimizando seu impacto negativo na
natureza. A importância desse trabalho já nessa faixa etária reflete nas fases seguin-
tes do processo educativo. Os estudos do meio não devem ser apresentados apenas
como “um alívio temporário às tensões intrínsecas ao espaço e forma da escola,
permitindo que ela continue a negar a necessidade de uma revisão radical em sua
tradição de domesticação de corpos, padronização de mentes e reprodução das
relações sociais” (Serrano, 2000:12). Para tanto, os alunos devem se habituar aos
estudos do meio desde cedo, e incluir essas atividades em seu cotidiano.

  Previamente à seleção das atividades a serem desenvolvidas nessa proposta
foi realizada uma visita à escola para conhecer o corpo docente e as crianças
que fariam parte das atividades. Considerando a importância da familiarização
com práticas de EA, e aproveitando a energia que as crianças demonstraram e a
pronta cooperação do corpo docente durante nossa visita, decidiu-se, em acor-
do com a diretora da escola, pela realização de um programa composto por
quatro atividades, adaptadas de propostas do primeiro estágio do método de
aprendizado seqüencial proposto por Cornell (1995:179), o “despertar o entusi-
asmo”. As atividades foram divididas e desenvolvidas no espaço da escola em
dois encontros na semana que antecedeu a excursão.

   A proposta foi finalizada com a realização de uma excursão à UFSCar (Univer-
sidade Federal de São Carlos), acompanhada pelo pesquisador (que exerceu a
função de mediador da prática), pelo professor de Educação Física da escola e
por um monitor voluntário de Educação Ambiental. A presença do professor de
Educação Física foi importante, pois as crianças estavam em um meio estranho
e a presença de alguém conhecido lhes trouxe maior segurança. A presença de
alguém que conhecia profundamente o meio, ou seja, o monitor de Educação
Ambiental, também trouxe maior segurança às crianças, além de uma boa fonte
de informações e conhecimentos sobre o meio. O mediador, principal responsá-
vel pelo planejamento da excursão, exerce a importante função de coordenar
toda a prática, imprimindo um bom ritmo de caminhada e execução das ativida-
des, definindo metodologias e estando sempre atento às respostas das crianças
aos estímulos encontrados durante a excursão.

  Assim, o programa de atividades apresentou a descrição e o desenvolvimento
de dez atividades, quatro desenvolvidas na escola, em semanas que antecede-
ram a excursão e seis desenvolvidas durante a excursão. O programa foi desen-
volvido com base nas atividades propostas nos livros do naturalista Cornell
(1995, 1996) e nos princípios pedagógicos da “aprendizagem seqüencial”.

  As atividades desenvolvidas na UFSCar foram realizadas nas áreas de cerrado
e de mata ciliar de um riacho próximo ao cerrado (áreas que possuem trilhas e


54 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
locais especificamente preparados para estudos do meio), e em um pinheiral.
Essa diversificação de áreas foi muito importante para a compreensão das dife-
renças de vegetação e ambientes. Com base nesse conhecimento, e consideran-
do nosso tempo de excursão já delimitado, planejamos o desenvolvimento de
atividades com melhor adaptação a esses locais específicos e coerentes com o
tempo disponível e com nossos objetivos.

  A avaliação da proposta foi realizada a partir da análise dos dados coletados
por meio da observação sistemática direta (da prática em si e de registros foto-
gráficos e de filmagem da prática) e uma discussão aberta (reflexão da prática),
com os alunos realizada em dois momentos posteriores à excursão: 1) logo após
ao encerramento (realizada em pequenos grupos ainda na UFSCar e dentro do
ônibus) e 2) na semana posterior, de volta ao espaço da escola (realizada com
todo o grupo reunido).

   Uma das principais críticas apresentadas nesse trabalho é a passividade da EA
escolar. A criança aprende na escola que deve preservar e conservar uma natu-
reza distante, e que deve lutar contra valores intrínsecos socialmente construídos
por uma sociedade consumidora, adaptada ao luxo, sedentária, produtora de
lixo e de poluição. Sobrinho, citado por Campelo (1995), escreve poeticamente
que “ [...] muitas coisas não se aprendem nos livros e sim em contato com a
natureza. Ela é o grande livro aberto aos que sabem ler nele”. Um programa de EA
mais ativa implica em um maior contato do homem com o meio natural e mudan-
ças que envolvam todo seu cotidiano, e não simplesmente dentro da sala de aula.
Sorrentino et al., citados por Barros (2000:93), destacam que as ações
transformadoras do cotidiano devem incluir os valores da EA, assim gerando
mudanças de atitudes e sentimentos que ajudem a construir posturas mais afetivas,
solidárias e cooperativas entre os homens e em sua relação com a natureza.

  A proposta de uma EA mais ativa, um trabalho que envolva visitas orientadas
ao meio natural objetivando uma ética ambiental que resulte numa melhor con-
duta em relação à natureza e ao cotidiano urbano, será uma contribuição não
somente para aquele indivíduo, mas para toda a sociedade a que ele pertence.

               Neste aspecto, uma ética ambiental deve ser o item mais importan-
               te que os visitantes devem incorporar em suas visitas, assim como
               a lição mais valiosa que podem trazer de volta para casa e para o
               seu cotidiano. Um comportamento adequado advém da compreen-
               são e respeito pela natureza, formando um conjunto que passa a
               pertencer ao indivíduo e à sociedade. (Barros e Dines, 2000:72)

  Por outro lado, não se pode ignorar a importância do trabalho desenvolvido
no âmbito escolar. Assim, uma combinação entre as atividades realizadas dentro
e fora da sala de aula seria ideal. A criança deve se familiarizar às práticas
relacionadas à Educação Ambiental por meio de atividades de sensibilização

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
desenvolvidas dentro da sala de aula, para que o impacto negativo na natureza
seja minimizado. É importante que essas atividades sejam dinâmicas (para des-
pertar o interesse do aluno) e que envolvam conceitos que possam ser trabalha-
dos também nos estudos do meio, criando assim uma relação entre a teoria e a
prática e um propósito de aprender aquilo dentro da sala de aula. Como destaca
o naturalista Cornell (1996:5), “as crianças entendem e gravam mais na memória
os conceitos quando aprendem por meio da experiência direta e pessoal”. É
importante que as atividades também despertem certa curiosidade e entusiasmo
para um encontro com o meio natural, uma vez que “a curiosidade é o ponto de
partida para a aprendizagem” (Herman et al., 1992:3).

   Após a familiarização com as práticas de EA por meio de atividades específi-
cas desenvolvidas na escola, a criança deve ter a oportunidade de entrar em
contato com o meio natural, assim tendo a oportunidade de atingir os objetivos
de sensibilização propostos neste trabalho. Sobre a combinação entre ativida-
des desenvolvidas dentro da sala de aula e nos estudos do meio, Ferreira e
Coutinho (2000:174) ressaltam que até os dias atuais a escola trabalha com o
sistema tradicional de ensino, que repassa em sala de aula experiências distintas
vivenciadas por pessoas desconhecidas e, posteriormente, por meio de avalia-
ções, cobram a absorção desse conteúdo pedindo que a criança reproduza-o
para o papel. Na proposta educacional desenvolvida a partir da compreensão
dos conceitos dentro da sala de aula e posteriormente vivenciadas nos estudos
do meio, a criança cria suas próprias experiências, o que contribui para uma
relação afetiva com o meio, para a construção de uma cultura corporal e para o
desenvolvimento da autonomia e criatividade da criança.

  Após as atividades desenvolvidas em contato com o meio natural, é de funda-
mental importância a reflexão sobre a prática, tanto no local da atividade (ainda
em contato com a natureza) quanto no retorno ao espaço familiar da sala de
aula. Barros (2000:99) afirma que o aprendizado experiencial só é efetivo por
meio de uma reflexão que integre a nova experiência às experiências vivenciadas
no passado, justificando tal afirmativa pela necessidade de “dar um tempo” para
que as pessoas reflitam sobre o que viram, sentiram e pensaram durante o even-
to. No desenvolvimento do estudo do meio na UFSCar, a viagem de volta foi
aproveitada para conversar com as crianças em pequenos grupos isolados, mo-
mento no qual foram formuladas perguntas sobre os acontecimentos do dia. O
entusiasmo com o qual as crianças discursavam sobre as diferentes experiências
do dia enchia de valor o tempo investido na preparação e na realização desse
projeto. Nas palavras de Johannes Kepler (citado por Alves, 1993), “os caminhos
que conduzem o homem ao saber são tão maravilhosos quanto o próprio saber”.

   Porém, há algumas críticas a serem consideradas em relação ao presente
trabalho. A interação prévia a prática, entre os educadores que atuam no “Colé-
gio Mundinho Nosso” e o mediador do estudo do meio deveria ter sido maior, o
que possivelmente poderia ter evitado alguns imprevistos.


56 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Pode-se citar como exemplo a realização precoce da atividade abrace uma
árvore, que estava programada para um outro momento e que tomou algum
tempo não programado (o que talvez tenha impossibilitado a execução da ativi-
dade câmera fotográfica). Deve-se deixar claro que a crítica não se refere a
realização da atividade naquele momento (pois a atividade foi muito bem suce-
dida), mas na falha no planejamento, a qual poderia ter sido evitada se a profes-
sora de filosofia soubesse que tal atividade seria realizada em outro momento
(deve-se também deixar claro que a falha não foi da professora, e sim na falta de
comunicação entre ela e o mediador previamente à prática). Uma conversa
prévia possivelmente poderia também ter evitado o incidente no qual as profes-
soras ingenuamente retiraram algumas amostras de sementes na frente das cri-
anças para colocar no relatório de campo, e também o controle excessivo
(principalmente de movimento) das professoras sobre as crianças durante todo
o estudo do meio, fatos ocorridos pela falta de experiência nessas práticas.

   A escolha da trilha cega, na qual as crianças precisavam permanecer com os
olhos fechados, como primeira atividade também pode ser questionada. O obje-
tivo era acalmar um pouco a euforia da chegada ao cerrado, mas talvez uma
atividade que não exigisse que eles fechassem os olhos seria mais apropriada
para um primeiro momento. As crianças estavam curiosas sobre esse novo am-
biente, principalmente no primeiro contato, o que comprometeu um pouco a
atividade. A escolha de voltar na trilha que as crianças percorreram de olhos
fechados já desenvolvendo a atividade uma trilha de surpresas, na qual as crian-
ças deveriam achar objetos que não pertenciam ao meio e que foram proposital-
mente colocados na trilha, (escolha feita em função do tempo limitado para
realizar seis atividades) também foi questionada. O primeiro contato visual com
o meio deveria ser agradável, livre de poluição. Conclui-se que diminuindo o
número de seis atividades poder-se-ia investir mais tempo na realização e refle-
xão de três ou quatro atividades. Mas, apesar dessas críticas, a realização do
estudo do meio, em geral, foi bastante satisfatória, acreditando-se que os prin-
cipais objetivos desse trabalho foram atingidos.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

  Muitos acreditam que os resultados do processo educacional só podem ser
notados em longo prazo. Mas aquele que acredita, aquele que se importa, aquele
que realmente se envolve com os maravilhosos caminhos da educação conse-
gue enxergar as mudanças acontecendo nos olhos do curioso aprendiz. A natu-
reza oferece uma oportunidade de aprendizado a cada instante. O poeta ameri-
cano Ralph Waldo Emerson (citado por Sagan, 1974:15) dizia que “nada é rico
além da infinita riqueza da natureza. Ela nos mostra sua superfície, mas esconde
milhões de destinos em suas profundidades. O único fato que pode impedir o
homem de descobrir esses destinos é o próprio homem. O que nos resta é investir
na educação, na voz do intelecto, pois, como afirma Freud (citado por Sagan,


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
1983:142), “a voz do intelecto é suave, mas não descansa até ter ganho um
ouvinte. Em última análise, após inumeráveis derrotas, ela vence. Este é um dos
poucos pontos em relação aos quais podemos ser otimistas no tocante ao futuro
da humanidade”.

  Analisando o processo educativo como uma majestosa pirâmide, construída
pelos grandes pensadores numa época na qual a sabedoria era super valorizada,
e o pensar era a prática dos nobres, pode-se pensar no educador como a base
dessa pirâmide, sustentando o peso de intermináveis responsabilidades. Mas
também sustenta, no topo dessa pirâmide, a luz de um aprendiz.

   A criança tem como princípios naturais correr, brincar, viajar, sonhar. Para
muitas dessas viagens ela precisa de asas, e não é papel do educador cortar essas
asas, mas sim ensiná-la a usá-las. O meio natural representa um espaço onde a
criança pode expressar seus movimentos com maior liberdade, uma excelente
oportunidade de educação corporal e de conscientização ecológica por meio da
orientação, e não proibição, do movimento. “O que temos que fazer é instruir e
não proibir” recomendava Sócrates (citado por Alves, 1993) a seus pupilos qua-
trocentos anos antes de Cristo, recomendação que podemos seguir como exem-
plo até os dias atuais.

   Ao Chegar ao final desse estudo, nada mais natural do que se perguntar as
razões que nos levaram a começar tudo isso. Uma das perguntas mais comuns
que as pessoas se fazem quando confrontam um problema global (como, por
exemplo, a conservação do meio ambiente) é –”que diferença uma pessoa pode
fazer?”. Pois foi exatamente a diferença que uma pessoa pode fazer que inspirou
esse trabalho, e será exatamente a diferença que cada pessoa irá fazer que, no
final, fará a diferença.

  Certa vez, fomos confrontados com a seguinte pergunta: – “se você pudesse
escolher, quem você seria: um sonhador sem coragem de mudar ou um revoluci-
onário sem coragem de sonhar?”. Pois acreditamos em uma terceira escolha:
seremos um sonhador revolucionário!

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]


NOTAS

3
    O conceito de “natureza” adotado para esse projeto é caracterizado pelos elementos naturais não construídos
    pelo ser humano (vegetação, clima, etc.), apesar de entender que o homem, e as transformações que ele
    promove, também fazem parte da natureza.
2
    A expressão “cultura corporal” será utilizada para denominar a ampla cultura que abrange a produção de
    práticas expressivas e comunicativas externalizadas pelo movimento, em concordância com o documento
    “Presença do movimento na Educação Infantil: idéias e práticas correntes” (Brasil, 1998)..




58 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2003
          Publicação original: anais de congresso


Formato da contribuição: texto resumido
Fonte: Pipa, pião e 5 marias: brinquedos de ontem, hoje e de sempre,
Anais de congresso. CBTUR 2003
E-mail do(s) autor(es): gugapessoas@hotmail.com e shvx79@hotmail.com
Títulos acadêmicos principais atuais: Gustavo de Lira Santos: Especialista em
Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG e Bacharel em
Turismo pela Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP e Sérgio
Henrique Verçosa Xavier: Especialista em Lazer, Recreação e Atividade
Física para Qualidade de vida pela Pontifícia Universidade Católica do
Paraná - PUC/PR Lazer e Qualidade de Vida e Bacharel em Turismo pela
Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP.




Brinquedos, brincadeiras, recreação,
arte e cultura popular:
alternativas para um museu interativo
Gustavo de Lira Santos
Sérgio Henrique Verçosa Xavier


  Com a crescente demanda, no mercado, de jogos e equipamentos eletrônicos,
percebe-se em meio às crianças o descaso por brinquedos que outrora fizeram a
alegria e o lazer de jovens de décadas passadas, inclusive a nossa. Com intuito de
não deixar este passado tão rico em experiências se apagar na memória da
população, o Museu do Homem do Nordeste, localizado no bairro de Casa Forte
na cidade do Recife em Pernambuco, em parceria com Caravana Viagens e Turis-
mo e o SEBRAE – Paraíba, desenvolveram a VI Semana do Folclore com o tema:
“A importância do patrimônio lúdico na formação infantil”.

  Proporcionando visitas à exposição permanente do Museu, adicionou à sua
rotina uma feirinha de brinquedos populares e guloseimas, oficinas de frevo,
maracatu, caboclinho, bumba-meu-boi e capoeira junto com a exposição de
brinquedos populares da colecionadora Macao Goes.

 Tendo como objetivo a implantação de atividades recreativas e lúdicas em
museus, que são considerados espaços conservadores e monótonos, destinados a


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
perpetuar antiguidades, tornado-o locais de visitação e lazer para todas as idades.
Visto que são desenvolvidas atividades culturais, no qual a criança, receptora,
participa apenas psicologicamente das mesmas. Procuramos com este trabalho
fazer a intersecção do lazer passivo com o ativo, no qual a criança participa física
e psicologicamente, colocando em prática aquilo que viu e aprendeu.



METODOLOGIA

   Com o intento de entender melhor os anseios das crianças ao visitarem o
museu, durante a Semana do Folclore, elaboramos um questionário composto de
8 (oito) perguntas fechadas. Num universo total de 2427 crianças que visitaram o
Museu, apenas 1414 estavam enquadradas no nosso plano de pesquisa. Este
tinha como objetivo entrevistar crianças de ambos os sexos, com idade mínima
de 6 anos e máxima de 17 anos, de escolas públicas e privadas, do ensino Funda-
mental I e II. Sem precisar identificar-se seriam abordadas após usufruírem de
todas as atividades oferecidas pelo museu.

  Como alvo inicial queríamos coletar 400 (quatrocentos) questionários válidos,
100 (cem) a cada dia, 50 (cinqüenta) por turno. Com a ajuda de alguns voluntári-
os, colegas dos cursos de Turismo, Hotelaria, Geografia e Educação Física das
Universidades Católica (UNICAP), Federal (UFPE) e de Pernambuco (UPE), senti-
mos que alcançaríamos esse objetivo e até bem mais. Ao final captamos 500
(quinhentos) questionários válidos. O questionário pretendia saber o motivo
pelo qual a criança foi ao museu; o que ela achava que iria encontrar; a atividade
que ela mais gostou; e quais os 5 brinquedos que ela mais brinca.



O BRINQUEDO POPULAR

   Antes do surgimento das fábricas e indústrias modernas, os móveis, objetos,
calçados, utensílios, brinquedos, entre outros, eram confeccionados de forma
artesanal. No lugar de máquinas o trabalhador utilizava apenas algumas ferramen-
tas como: martelos, tesouras, facas, serrotes, etc. Com isso podemos perceber a
diferença entre o brinquedo popular e o industrial, pois nele tudo é feito manual-
mente, pelo artesão, que usa materiais e ferramentas simples e muita criatividade.

  O fazer tradicional do brinquedo popular é transmitido pelo artesão de gera-
ção em geração com formas simples, coloridas e muito engenhosas. Por serem
produzidos em pequena escala, diferentemente dos industriais, que são produzi-
dos em grandes escalas e dispõem de máquinas que confeccionam o produto em
poucos minutos, os grupos de artesãos passam a encontrar obstáculos difíceis
de serem ultrapassados o que leva a uma falta de interesse dos mesmos em
produzir, e do consumidor em adquirir um material artesanal, já que, nas lojas
eles encontram similares com mais atrativos e a custos mais baixos.

60 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
No Brasil, os principais centros produtores de brinquedos artesanais nas
décadas de 60 e 70 estavam no Nordeste, Centro-Oeste e na região Sudeste.
Ainda hoje estes continuam sendo os locais de produção e ainda são encontra-
dos na periferia dos grandes centros urbanos, trazidos com a cultura do migrante
nordestino.

   No Nordeste brasileiro a produção é criativa e engenhosa. São bruxas de pano
das mais simples, com vestidos de trapos e sacos de plástico às mais sofisticadas
de rosto modelado, anéis e pulseiras. O mobiliário de madeira pintada, cerâmica,
lata, jogos de sala, de quarto, de cozinha, miniaturizando o cotidiano adulto. Ainda
há meios de transportes, roda gigante, carrossel e balanço que fazem parte dos
brinquedos com movimento e muitos deles são cópias dos modelos originais.

  No vasto universo lúdico artesanal, ainda temos brinquedos de habilidades que
são os piões, badoques, pipas entre outros; os acústicos, como os diversos
instrumentos musicais; e os brinquedos indígenas.



O UNIVERSO INFANTIL E A TECNOLOGIA

   É pelo jogo, pelo brinquedo que a criança se desenvolve física e mentalmente.
Uma criança que é proibida de brincar torna-se o adulto que não sabe pensar e
criar. “A infância é, portanto, a aprendizagem necessária à idade adulta (CHATEAU,
1987: 14)”.

   Na brincadeira a criança deposita toda a sua seriedade e neste momento ela se
coloca exatamente na posição que a imaginação permite: Se ela brinca de carri-
nho, ou ela se transforma em motorista ou em policial de trânsito. Com as
bonecas a menina se sente a própria mãe que se preocupa com o filho, encarnando
nitidamente o personagem que a brincadeira exigiu.

  Tais personagens fazem com que a criança saia de sua realidade e crie outra
paralela com facilidades e dificuldades impostas por ela. Neste mundo percebe-se
que o adulto não está presente fisicamente, mas ele é representado, pois o brincante
necessita de um modelo para dar continuidade a sua brincadeira, e neste universo
ela pode se transformar em quem quiser: índio, ladrão, cavaleiro de armadura,
astronauta e tantos outros que a imaginação permitir. Todo este mundo de faz de
conta fará com que a criança se prepare para a vida real, pois em muitos casos elas
reproduzem situações do seu cotidiano. (CHATEAU, 1987: 13 e 14).

  Contudo encontramos um obstáculo maior, o fascínio que o “moderno” o “novo”
vem exercendo na sociedade e que vem proporcionando o desaparecimento des-
tas manifestações criativas e tradicionais. Entre as tradições estão as antigas
brincadeiras e jogos infantis, substituídos pela televisão, brinquedos industrializa-

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
dos e pelo mundo da informática e mesmo esta última, restrita a determinadas
camadas da população, passando a ocorrer a “falta da criação cultural pela própria
criança, por uma produção cultural para a criança”. (Marcelino, 1996: 42).

  Uma das conseqüências negativas é o fato da criança não produzir mais brin-
quedos rústicos, feitos em casa, utilizando materiais simples e baratos. Esta
brincadeira além de divertida contribui para o aprimoramento psicomotor. A
preservação e conservação dessas atividades não excluem as oportunidades
que a informática traz. O interessante é o espaço que a criança tem de produzir
cultura e não apenas aceitar mercadorias.



RECREAÇÃO CULTURAL EM MUSEUS

  A recreação cultural é o conjunto de atividades que visa integrar os indivíduos
com as manifestações culturais de uma localidade. Ela provoca o interesse fa-
zendo com que o participante vivencie e entenda melhor outros comportamen-
tos e atitudes, podendo provocar curiosidade pela cultura apresentada surgindo
a postériori habilidades criativas no indivíduo, quando para ele são demonstra-
das as técnicas próprias de determinada cultura, na confecção de objetos
artesanais, danças típicas e etc.

   A recreação cultural informativa é aquela com a finalidade de aperfeiçoamen-
to cultural. Podem ser usadas diversas formas de apresentações, como por exem-
plo: Palestras, mesas-redondas, mostras, exposições, teatros, grupos folclóri-
cos. Esse tipo de recreação já existe no Museu, porém algumas delas apenas em
datas comemorativas. Grupos folclóricos, apresentações teatrais e teatro de
bonecos, algumas das atividades que mais prendem a atenção da criança, pode-
riam ser apresentados freqüentemente À forma como é repassado o significado
das peças, que ficam em exposições, poderia ser com uma linguagem mais sim-
ples e didática, talvez, até, através de brincadeiras.

   A recreação cultural criativa é aquela que a criança participa diretamente,
aprendendo e se integrando com a sua cultura. Alguns exemplos são apresenta-
ções teatrais e de danças. Outros exemplos seriam as oficinas, com atividades de
produção como: argila e papel em geral, pintura, madeira, danças, capoeira e
muitas outras que podem ser vistas através da nossa cultura ou da própria expo-
sição do Museu.



PRINCIPAIS RESULTADOS

  O quadro de numero 1 se relaciona com a seguinte pergunta: Por que você veio
para este passeio?


62 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Quadro 1: Motivo do Passeio
                                RESPOSTAS                                   Nº          %
1) Não respondeu o motivo                                                   013        2,6
2) Queria aprender coisas novas                                             094       18,8
3) Para me divertir                                                         043        8,6
4) Para não ter que assistir aula                                           001        0,2
5) Para conseguir uma nota mais fácil com o relatório                       046        9,2
6) Porque minha turma veio                                                  013        2,6
7) Por curiosidade ou interesse                                             150       30,0
8) Porque meus pais me induziram                                            007        1,4
9) Por que a escola ou a professor me induziram                             045        9,0
10) Porque já tinha vindo uma vez e quis vir novamente                      015        3,0
11) Porque já tinha feito um passeio pela agência e quis vir de novo        002        0,4
12) Outros *                                                                071       14,2
TOTAL                                                                       500       100%



   Podemos observar que a curiosidade ou interesse das crianças, com 30 %,
ainda é o principal motivo da visita ao museu; em segundo lugar tivemos a
aprendizagem, onde estes indivíduos, que somam 18,8 %, estão em pleno desen-
volvimento mental e toda informação e de grande importância. Mas não pode-
mos deixar de falar na questão da aquisição de nota, onde 9,2%, dos entrevista-
dos tocam no assunto de provas e relatórios visto que esta ainda é uma das
formas de avaliação escolar. O que nos chamou a atenção foi o baixo número de
crianças que foram ao museu porque não queriam assistir aula, com apenas 0,2 %.

  A segunda questão descrita, no quadro 2, tem a seguinte pergunta : O que você
achava que iria encontrar no MH-NE?



Quadro 2: O que esperava encontrar no MH-NE
                                RESPOSTAS                                   Nº           %
1) Coisas velhas, antigas e históricas                                      111        22,2
2) Coisas para adultos                                                      005         1,0
3) Quadros, estátuas, esculturas e similares                                059        11,8
]) Brinquedo, apresentação, jogos, musicas, arte, dança, trabalho           184        36,8
manuais e curiosidades
5) Outros                                                                   141        28,2
TOTAL                                                                       5]]        1]]%


  Já que em muitos colégios foi comunicado para as crianças o que elas iriam
encontrar de festivo durante a semana do folclore, muitas crianças responderam
aquilo que realmente encontrava-se, num total de 36,8%. Outras como era espe-
rado continuam a ter a idéia tradicional sobre museu, 35,6%.

  O quadro 3 tem como objetivo saber o que elas mais apreciaram com a seguin-
te pergunta : Qual a atividade que você mais gostou?

                                        Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
              Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Quadro 3: Atividade que mais gostou
                                RESPOSTAS                                              Nº            %
 1) Feirinha de artesanato e guloseimas                                                032          6,4
 2) Oficinas de frevo                                                                  113         22,6
 3) Visita a parte de dentro do museu                                                  158         31,6
 4) Exposição de brinquedos populares                                                  037          7,4
 5) Oficina de capoeira                                                                122         24,4
 6) Apresentação das escolas                                                           019          3,8
 7) Outros                                                                             019          3,8
 TOTAL                                                                                 500         100%

  Foi grande a nossa surpresa quando e resposta mais votada (31,6%) foi a visita
a parte de dentro do museu, mas facilmente explicável porque quem ministrava a
apresentação do museu era uma equipe de recreadores . Logo após, a oficina de
capoeira (24,4%) e a oficina de frevo (22,6%), respectivamente. Também pode-
mos explicar este fato: As crianças participavam ativamente destas oficinas.

  Por fim, tínhamos a dúvida da interação do brinquedo moderno com o popular.
Com a seguinte pergunta: Quais são os brinquedos com os quais você mais brinca?


Quadro 4.1: Brinquedos mais utilizados
                         BRINQUEDOS MODERNOS / INDUSTRIALIZADOS
                                     CATEGORIA                                                     Nº
 1) Videogame; Bicicleta; Computador; carrinhos / lanchas / aviões elétricos ou de                 0921
 fricção; Bonecos(as) de lojas; Jogos de Tabuleiros*.
 2) Ferrorama / Autorama; brinquedos de montar; armas; patins / patinete / skate;                  0091
 instrumentos musicais; mini-game; tamagoche; massa de modelar; jogos de
 elaboração**.
 3) Outros (Maquiagem, Jogos de mesa***, Skate de dedo, Revista em quadrinhos;                     0034
 Fogãozinho; Panelinha; Casinha de pano; Karaokê)
 4) Geleca.                                                                                        0000
 TOTAL                                                                                             1]]6
* War; Jogo da Vida; Imagem e ação; Banco Imobiliário; Xadrez; Dama; Ludo e etc.
** Sorveteria da Eliana; Chocolateria da estrela; Tricô da estrela e etc.
*** Ping-Pong; Sinuca; Dominó; Baralho.


Quadro 4.2: Brinquedos mais utilizados
                               BRINQUEDOS POPULARES/ ARTESANAIS
                                        CATEGORIAS                                                Nº
 1) Bola; Pipa; Pião; Corda; Elástico; Bola de Gude;                                              0852
 2) Carrinho de rolimã; Telefone sem fio; Bambolê; Peteca; Pega vareta; Vai e Vem; Bonecas        0156
 e bonecos de pano; Brinquedos feitos pela criança; Carrinhos de lata e madeira.
 3) Badoque; Casinha; Escolinha; Brincadeiras*; Brinquedos de escolas**; Fantoche,                 0162
 Bolinha de sabão; Argila; Gestos com a mão; Brincar com a imaginação; Cantar;
 Cabeleireiro; Livros; Iô-iô; Cantigas de rodas.
 4) Pirocoptero.                                                                                  0000
 TOTAL                                                                                            1170
* Pega - pega; Pega - Congelo; Pega - macaco: Amarelinha; Pula - carniça; Esconde-esconde, Barra – Bandeira,
  Cabra-sega; Chuta a Garrafa (Pique e late), Pisa-pé;
 ** Escorrego; Balanço; Gangorra; Roda e etc.



64 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
CONCLUSÃO

  Através desta pesquisa, feita com crianças de escolas privadas, e neste meio
descobrimos as escolas particulares de baixa renda, e pública, percebemos que
neste universo os brinquedos não foram totalmente retirados do cotidiano. Este
motivo pode ser atribuído pelo fato de que os bairros em que elas moram sejam
calmos e próximo às escolas, que em geral, são de médio e pequeno porte.

  Contudo torna-se necessário o incentivo por parte de diversas instituições, da
família e da escola, para que os mesmos não se tornem apenas “peças de museus”.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]




                                           Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Ano: 2003
          Publicação original: inédito


Formato da contribuição: artigo
Fonte: “no prelo”
E-mail do(s) autor(es): gugapessoas@hotmail.com e shvx79@hotmail.com
Títulos acadêmicos principais atuais: Gustavo de Lira Santos: Especialista em
Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG e Bacharel em
Turismo pela Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP e Sérgio
Henrique Verçosa Xavier: Especialista em Lazer, Recreação e Atividade
Física para Qualidade de vida pela Pontifícia Universidade Católica do
Paraná - PUC/PR Lazer e Qualidade de Vida e Bacharel em Turismo pela
Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP.




Equilibrando desenvolvimento
com meio ambiente: Garantindo lazer,
ecologia e turismo no centro urbano.
Estudo de caso do projeto parque do recife
Gustavo de Lira Santos
Sérgio Henrique Verçosa Xavier



DESENVOLVIMENTO DESORDENADO

  Crescimento da cidade do Recife
  O crescimento desordenado da população na cidade do Recife exige maior
atenção para questões como planejamento sustentável municipal. Prevê-se que
em 2020 a população mundial ultrapasse a marca de 8 bilhões de habitantes,
sendo 65% desse total vivendo em áreas litorâneas. É o que vem acontecendo no
Recife, em 1991 a população era de 1.298.229, em 1996 passou para 1.346.045 e
em 2000 já estava em 1.422.905 habitantes (Fonte: IBGE, Base de Informações
Municipais).

  A cidade em rápido crescimento, caso mal administrada, deparar-se-á com
problemas ambientais gravíssimos. As cidades vêm se deteriorando e se
“enfeando” com os avanços tecnológicos, pois as populações crescem bem


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
mais que a infra-estrutura necessária para comportá-las, as inovações ou reno-
vações vem tardias, tendo, sempre, que sacrificar algo já existente em nome
desse avanço.

   Os fatores humanos são elementos fundamentais na formulação de políticas
abrangentes para o desenvolvimento sustentável. Essas políticas devem atentar
para as tendências e fatores demográficos, ao planejamento de tecnologias ade-
quadas e ao desenvolvimento. Há também a necessidade de se pensar em estraté-
gias para suavizar o impacto das atividades humanas sobre o meio ambiente e
vice-versa. É preciso também identificar áreas para ação e desenvolvimento des-
sas estratégias e analisar uma perspectiva mais ampla de meio ambiente e desen-
volvimento baseada num estudo interdisciplinar e unir a teoria à prática.

  Percebendo assim que fatores demográficos exercem uma influência crítica
sobre os padrões de consumo, produção, estilo de vida e sustentabilidade em
longo prazo.



CRESCIMENTO DO BAIRRO DE BOA VIAGEM

  Até o início do século passado, Boa Viagem era praticamente desabitada, a
ponto de se praticar a caça de animais silvestres. A povoação da Boa Viagem tem
seu início no século XVII, devido à existência de algumas vendas que serviam de
local de descanso dos viajantes que por ali transitavam vindos do caminho do sul
da Capitania de Pernambuco.

   Em 6 de junho de 1707, Baltazar da Costa Passos e sua mulher Ana de Araújo,
fizeram uma doação ao padre Leandro Camelo, de cem braças de terra para ali
construir uma capela, patrimônio acrescido de outras doações sucessivas. Em
1743 já estava a capela construída onde figura o nicho dourado e pintado com a
imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, padroeira dos navegantes e viajantes.
A capela de Boa Viagem, portanto, deu o nome não só à bela praia, como também
a todo o bairro de Boa Viagem. Sua construção é de estilo barroco, seu interior
passou, com o tempo, por várias reformas, encontrando-se por esse motivo
bastante descaracterizado.

   A povoação da Boa Viagem vem ganhar novo impulso em 1858, quando foi
inaugurado o primeiro trecho da Estrada de Ferro Recife-São Francisco, cuja
havia parada na estação situada no final da atual Rua Barão de Souza Leão.
Inicialmente um trole e depois um bonde de burros fez a ligação da Praça de Boa
Viagem à estação ferroviária.

  O bairro cresceu mais e tomou jeito de nobreza com o impulso dado pelo
bonde elétrico da Pernambuco Tramways, que inicialmente trafegou até o Pina,


68 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
antiga ilha do Nogueira, chegando depois até a Igreja Nossa Senhora de Boa
Viagem. Foi, porém, a abertura da avenida Boa Viagem que a integrou na vida do
recifense, a partir de 1924, no governo de Sérgio Lorêto.

  Nos anos 80 e 90 foram erguidos vários edifícios, inclusive surgindo inúmeras
favelas, perdendo assim seu ar de nobreza. Pelos dados da Secretaria de Plane-
jamento da cidade do Recife, Boa Viagem hoje é o Bairro de maior população,
com aproximadamente 101 mil habitantes em seus 717 hectares de área. Antes
desse super povoamento, o bairro era coberto por manguezais e para a constru-
ção das edificações ou em nome do progresso mais de 80% desse mangue foi
aterrado, hoje ainda resta uma área com 419 ha de mangue que sobrevive em
meio ao desenvolvimento descontrolado.

   O que já foi sinônimo de status, hoje morar em Boa Viagem não passa de uma
questão de não ter outra opção. Uma pequena consulta aos moradores da região
feita pela AMABV, no mês de maio/2002, surpreendeu com o resultado da inda-
gação, constou, nas 500 consultas que 60% das pessoas questionadas, responde-
ram que se pudessem mudariam o mais rápido possível. Os motivos mais citados
foram: violência, prostituição, trânsito caótico, sujeira e bagunça, além do
Recifolia1 (Carnaval fora de época do Recife).



LAZER NA CIDADE

  De acordo com MARCELLINNO (2000; pág 25), “o espaço para o lazer é o
espaço urbano”.

  No século XXI, o ócio será essencial para as sociedades pós-industriais. As
barreiras entre trabalho e lazer diminuirão cada vez mais, tempos sociais surgi-
rão em que a prioridade das pessoas será seu bem estar, sua família e seu diver-
timento e não mais o trabalho, assim sendo o Lazer assumirá posição de maior
destaque.

   O mercado criado pela globalização fez surgir um novo setor na economia,
que é definido, por alguns estudiosos da área, como quarto setor. A busca de
novos negócios para investimentos, na criação de novas profissões e espaços
alternativos, trouxe para a população novas opções de lazer, tendo desde as
gratuitas até as mais sofisticadas.

  Como o tempo gasto no trânsito é cada dia maior, devido ao aumento das
distâncias e o aumento da frota de carros, logo causando os longos e demorados
engarrafamentos uma alternativa para o lazer seria contemplar os espaços urba-
nos. WILHEIM nos diz que “percorrer a cidade pode ser enfadonho e desgastante
ou, pelo contrário, revelar-se uma experiência altamente informativa e agradá-

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
vel para os sentidos”, daí a importância de se preservar também os parques e
praças públicas. Segundo CASTROGIOVANNI (2000, pág 02):



                 “As cidades, ao mesmo tempo em que sintetizam as tensões soci-
                 ais existentes, são espaços privilegiados de atrações, serviços,
                 simbolismos e produções culturais. O papel que assumem na eta-
                 pa pós-industrial e da globalização econômica tem possibilitado
                 incrementar estruturas, equipamentos, serviços e revitalizar áre-
                 as adormecidas, mas com grande expressividade na formação
                 histórica do lugar”.



  É nos centros urbanos que a população encontra os equipamentos de lazer
mais variados e de fáceis acessos, sejam eles específicos ou não. Não específi-
cos são aqueles que não foram construídos com fim de proporcionar lazer, mas
acabam por fazê-lo, a casa, que é o principal da maioria da população, principal-
mente a de baixa renda, o bar e a rua, que se transformam em ponto de encontro
e local de festas, especialmente em datas comemorativas. Além de encontrar
também os equipamentos denominados específicos teatros, cinemas, shoppings,
mais procurados devidos a segurança e centro comunitários de cultura ou lazer
e ginásio de esportes.



TURISMO PEDAGÓGICO

  Atualmente a escola é vista como centro de educação sistemática e cabe a ela
oferecer aos alunos situações que lhes permitam desenvolver suas potencialidades
de acordo com a fase evolutiva. A educação é vista como fator de mudanças,
renovação e progresso, sendo ela um processo de vida e não uma preparação
para a vida futura.

  O Turismo Escolar ganha força neste final de século, quando há uma série de
reflexões sobre o papel da escola, sua função social, o significado das experiên-
cias escolares e extra-classe. O Turismo Pedagógico apresenta-se como uma
concepção de posturas pedagógicas e não meramente como uma técnica de
ensino mais atrativa para os alunos. É um trabalho capaz de fazer a escola ir além
dos seus muros e criar pontos entre os conteúdos estudados e o meio físico e
social proporcionando melhor compreensão.

   Tem como função tornar a aprendizagem ativa, interessante, significativa, real
e atrativa para o aluno, conseguindo isso à medida que o aluno passa a vivenciar
“in loco” o que foi visto em sala de aula. Dentro dessas perspectivas, os conteú-
dos disciplinares, antes teóricos e abstratos deixam de ser um fim em si mesmo


70 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
e passam a ser meios para ampliar a formação dos alunos e sua interação com a
realidade, de forma crítica e dinâmica.

  Nos últimos anos houve uma vertiginosa aceleração no que se refere a turismo
com estudantes, este deixou de ser turismo com e passou a ser para o estudante.



TURISMO DE NATUREZA

  Dentre as várias segmentações do turismo, existe uma (de percepção recente,
porém há muito já praticado, mesmo que de forma indiferente ao turismo) que
merece destaque devido a sua crescente demanda nos últimos tempos, é o
“ecoturismo”.

  Contudo, o ecoturismo abrange muito mais do que o simples desejo de estar
em contato com o ecossistema, existe a grande possibilidade de um desenvolvi-
mento sustentável numa localidade que desenvolve este segmento do setor
turístico, embora alguns não tenham a noção dos benefícios que o ecoturismo
acarreta.

  Daí percebe-se a capacidade do ecoturismo em desenvolver uma atividade
sustentável no local de seu processamento, porém seria uma hipótese totalmen-
te utópica, pensar que o ecoturismo, de forma alguma, traga danos ao meio
ambiente. Quando realizado de maneira desproporcional, sem o conhecimento
da sociedade sobre problemas relativos ao ecossistema, ou mesmo quando exis-
te algum setor que deseja tirar proveitos econômicos induzindo a um desenvol-
vimento desregrado da atividade. É como observa SWARBROOKE (2000: pág 56):

               As vantagens do ecoturismo para as organizações de turismo e
               para as destinações turísticas podem conduzir ao desenvolvi-
               mento de formas de um “pretenso” turismo que se dá em larga
               escala e de maneira espoliativa, de modo oposto aos princípios
               do ecoturismo. Esta é a origem de grande parte da confusão que
               ronda o ecoturismo, ou seja, a lacuna entre a teoria e a prática,
               entre as concepções dos turistas e o lado provedor do turismo.



MANGUEZAL

  O que é mangue?
  Etimologicamente, a palavra Mangue advém de um termo em inglês
(MONGROVE). A expressão Mangue tanto significa a vegetação própria dos
alagadiços salgados como os mesmos alagadiços.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Os Mangues correspondem a um complexo sistema ecológico, situando-se em
Regiões Estuarinas, que sofrem influência das marés. É um ecossistema constituído
por uma vegetação lenhosa, arbórea, que coloniza solos lodosos, pouco consoli-
dados, rico em matéria orgânica e com baixo teor de oxigênio. Apresenta uma
grande variedade de micro-organismos, macro-algas, crustáceos e moluscos, adap-
tados às constantes variações de salinidade e fluxo das marés. É local favorável à
proteção, alimentação, reprodução e desova de muitos animais. Localiza-se nas
regiões costeiras tropicais e subtropicais do planeta, isto porque todas as espécies
de mangue são sensíveis ao frio. É o cordão umbilical entre a terra e o mar.

  No Brasil, os manguezais são encontrados em quase todo litoral, desde o
Oiapoque, no Amapá, até laguna em Santa Catarina, sendo o país que possui a
mais extensa reserva de manguezal do mundo. A área ocupada por mangue em
Pernambuco é de aproximadamente 25 mil hectares, vegetando nela cinco espé-
cies: Manso, Vermelho, Siriuba, Botão e Preto.



IMPORTÂNCIA DOS MANGUEZAIS

  Pelo menos 2/3 das espécies de peixes explorados economicamente depen-
dem desse ecossistema para a sua existência. O manguezal é um dos ecossistemas
mais importantes do planeta.

   A grande quantidade de detrito vegetal, produzida por esse ecossistema cons-
titui-se de alimento para à fauna estuarina e marinha, uma vez que, durante o
processo de decomposição são colonizados por microorganismos. Assim, for-
mam a base para diversas cadeias alimentares.

   Além da produção de matéria orgânica, a estrutura das raízes de mangue,
formando emaranhados, oferece proteção para espécies da fauna marinha. Estu-
dos mostram que há uma relação entre a produtividade da pesca nas regiões
litorâneas e a conservação desses ecossistemas.

  Produzem ainda vários serviços indiretos, que passam despercebidos. Os
manguezais protegem a linha de costa e as margens dos estuários contra erosão.
São importantes retentores de metais pesados e grande seqüestrador de carbono.



IMPACTOS AMBIENTAIS

   Aterro corte, expansão urbana, marinas, portos, estradas, agricultura,
carcinocultura, industriais, derramamento de petróleo, lançamento de esgoto,
lixo, poluentes industriais e agrotóxicos, são as principais formas encontradas
pelo homem para destruir um berçário de vida; o manguezal. A destruição desses


72 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
ecossistemas gera grandes prejuízos, seja direta ou indiretamente, visto que são
perdidas importantes funções ecológicas.

  Outro problema grave observado é a pesca predatória, onde é muito comum a
captura de crustáceos, fora da época ideal. E principalmente a pesca com petre-
chos inadequados, bombas e demais artifícios usados pelos que não respeitam a
verdadeira arte da pesca. É preciso conhecer e respeitar os ciclos naturais dos
manguezais para que o uso sustentado de seus recursos sejam estabelecidos



LEIS QUE PROTEGEM OS MANGUEZAIS

   A Constituição do Brasil, em 1988, no Capítulo VI (do Meio Ambiente), Art. 225, diz
que “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso
comum do povo essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e
à coletividade, o dever de defendê-lo e de preservá-lo para as presentes e futuras
gerações”. O manguezal dispõe de diplomas legais para sua proteção, tanto a nível
federal como, estadual e ou municipal. Os manguezais são Áreas protegidas ou de
Preservação Permanente ou Reservas Ecológicas, conforme o Código Florestal, Lei
n. 4.771, Art. 2, de 15/09/1965, Art. 18 da Lei n 6.938, de 31/08/1981, Decreto n 89336,
de 31 de abril de 1984 e resolução n 4 do CONAMA, de 18/09/1985.




  ECOLOGIA E TRÂNSITO

  O Recife se moderniza e novas obras são inauguradas ou projetadas para
melhorar a qualidade de vida, ampliar a oferta de áreas de lazer, facilitar o fluxo
do trânsito. Um projeto que é discutido há 15 anos e ganhou força na gestão de
1992-96 e continua a ser debatido é o da chamada Linha Verde, que promete
desafogar a ligação terrestre entre Boa Viagem e o centro da cidade. Serão quase
sete quilômetros e além de desafogar o trânsito na área, a idéia tem a vantagem
de antecipar-se a invasões, que já ocorrem, e complementar outro projeto, o do
Parque dos Manguezais, que visa à preservação ambiental e o lazer.

  Preservação ambiental. Este é um dos aspectos que, segundo consta, vem
merecendo a devida atenção tanto por parte dos moradores quanto pela Prefei-
tura do Recife. Houve época, até meados dos anos 70, em que quase toda a área
hoje densamente povoada e ocupada do Bairro de Boa Viagem constituía um
imenso espaço de manguezais. O aterro feito de forma inadequada na maior
parte desse espaço - que, diga-se de passagem, foi ocupado como uma
determinante do próprio crescimento urbano do Recife - é hoje um dos respon-
sáveis pelas enchentes em Boa Viagem. O projeto prevê o aterro de algumas
áreas, porém, novamente a Prefeitura assegura que todos os estudos necessári-

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
os para dimensionar o impacto das obras sobre o meio ambiente referendam a
implantação da Linha Verde serão feitos.

  Não há dúvida de que é preciso evitar que o trânsito do Recife atinja um grau de
saturação insuportável. Também ninguém contesta a necessidade de preservar o
que ainda sobra dos manguezais. Como já ficou abundantemente comprovado
não serão apenas obras viárias, túneis, viadutos, ampliação de avenidas, que vão
resolver o primeiro desses dois problemas. É claro que, sem essas obras, simples-
mente não haveria por onde circular a frota de veículos automotivos, que se
multiplica há décadas. Mas elas sozinhas não resolvem o problema.

  Para se chegar à qualidade de vida que merecemos todos, é indispensável que
as autoridades proporcionem, à população um transporte público decente. So-
mente assim, o ônibus e o metrô, voltarão a ser utilizados pela maioria da
população, e mesmo por quem possui automóvel particular.



O PARQUE DO RECIFE

  O parque faz limites como os Bairros da Imbiribeira, Boa Viagem, Pina, Cabanga
e Afogados, locais de intenso movimento. Apesar de toda sua grande extensão o
parque está correndo o risco de desaparecer, até 1994 a área se encontrava
sobre proteção da Marinha que mantinha em funcionamento a sua Estação de
Rádio, construída durante a II Guerra Mundial. Atualmente, desativado, e em
poder da união, toda essa área requer a sua utilização racional em favor da
população antes que desapareça.

   Descobrimos este imenso tesouro ecológico casualmente, enquanto trabalhá-
vamos. Então resolvemos fazer uma pequena pesquisa entre os moradores dos
bairros com os quais o Parque faz fronteira, guias de turismo, agentes de viagens
e professores de geografia, ciências, biologia, história e estudos sociais, num
total de 200 entrevistados. Apenas 12% já ouviram falar do Parque dos Manguezais
e só 6%, realmente, conhecem e já foram visitá-lo. Em seguida conversamos com
o líder do grupo de proteção ao Parque dos Manguezais, o engenheiro José de
Britto. Que nos explicou a diferença do Projeto Parque dos Manguezais para o do
Parque do Recife, esta seria que no Projeto Parque do Recife entraria as Lagoas
do Encanta Moça e do Pina, os rios Jordão e Pina, o Manguezal da Beira do Rio e
bacias adjacentes mais os 35ha de vegetação rasteira, pois a preocupação não
seria, apenas, preservar o Mangue, mas todo o Ecossistema. O Parque passaria
de 212ha para 419ha, tornando-se bem superior ao Ibirapuera e seis vezes maior
que o Parque da Jaqueira, o maior Parque na cidade.

  Apesar de está hoje bastante degradado, principalmente, pelo despejo da
Compesa de toneladas de esgoto inatura no Rio Jordão, inúmeros viveiros de



74 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
camarão com licença ambiental do CPRH e também pela invasão de favelas,
aterros clandestinos e construções de prédios no entorno do mangue.

  O Parque dos Manguezais tem grande importância para toda cidade do Recife,
além de abrigar várias espécies animais é de grande potencial sócio-econômico-
ambiental, irá oferecer aos visitantes a oportunidade de desfrutar de uma infra-
estrutura natural no meio urbano, dando-lhes chance de fugir do caos de cidade
grande sem precisar fazer qualquer viagem, e ainda impedindo que toda essa área
venha a ser extinta com a passagem da “Linha Verde” ou invadida pela especula-
ção imobiliária.



POSSIBILIDADES PARA O PARQUE

  O projeto prevê a preservação e recuperação do Mangue e da repovoação das
áreas das lagoas e rios para que os pescadores, da comunidade local, possam
voltar a tirar seu sustento.

  Na área de lazer, criar-se-ia no espaço da vegetação rasteira, campo de fute-
bol e de vôlei, área de pic-nic, quiosques de lanchonete e artesanatos, pista de
Cooper, bicicleta, patins e half-pipe2, tudo respeitando o meio ambiente para
haver o mínimo de degradação possível.

  Ter-se-ia ainda bases de apoios para as universidades, empresa ou organiza-
ções com fins ecoturísticos e biológicos que desejassem fazer pesquisas de
cunho cientifico. E para desenvolvimento do Turismo Pedagógico. As constru-
ções já existentes tornar-se-iam uma biblioteca, salão para palestra sobre Meio
Ambiente, Educação Ecoturística, e de outros temas, com intuito de conscientizar
a população, tendo ainda um Museu da Marinha, Posto Policial e do Ibama.

   Nos rios e lagoas, faria-se um mini-pólo náutico com: Pedalinhos, Caíque, Barcos
a Remo e Catamarã, os quais poder-se-ia fazer passeios por todos os limites do
parque. Construindo-se ainda trilhas ecológicas, de madeiras, suspensas por dentro
dos manguezais, proporcionando aos visitantes maior contato com a natureza, em
alguns pontos seriam construídos também mirantes e/ou pontos de observação.

   A fim de evitar o impacto ambiental, não seria permitido o trânsito de veículos, só
bicicletas, skates, patins, podendo vir a contar com carrinhos elétricos, ou tendo,
ainda, a opção de entrar pelo Rio Jordão, não sendo permitido a navegação de
embarcações de grandes portes, visto que a Maré mínima é de 1m e a máxima de 9m.

  Com relação a construções, o Código Florestal do Recife proíbe a construção
de edificações a menos de 50 metros da lagoa e entre 51m a 300m de distância
edificações de no máximo 2o andar.

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Feito o Relatório de Impactos Ambientais (EIA & RIMA), a partir da implantação
do Parque dos Manguezais, constatou-se que o projeto é viável, causando dano
quase 0 (zero) ao Meio Ambiente.



CONCLUSÃO

  O objetivo primordial é não deixar um Ecossistema como esse ser destruído
em troca do progresso. A área é de uma riqueza, única, que nós recifenses e
pernambucanos temos: uma floresta ambiental dentro de um centro urbano.
Temos que torná-lo organizado e capaz de receber visitação pública, e assim o
fazendo conhecido, conseguindo mais pessoas dispostas a mantê-lo preservado
para as gerações seguintes, poder público, privado ou alguma empresa que qui-
sesse adotá-lo. Destruir um Ecossistema Estuarino, desse porte significa destruir
um nascedouro de vida aquático e oportunidade de sustento pra muitas famílias.

       Além de que asseguramos a importância cada vez maior do lazer para o
homem globalizado, sabendo ainda que o mesmo dispõe cada dia de menos
tempo e dinheiro para usufruir deste lazer, não podemos permitir que uma grande
e inovadora opção igual ao Parque do Recife seja trocado por mais um produto
do mundo alienante em que vivemos.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]


Notas

3
    Carnaval Fora de época do recife. Acontece no último final de semana do mês de Outubro na Av. Boa Viagem,
    varando toda a madrugada. Motivo de muitas brigas entre moradores e organizadores.
5
    Local específico para manobras de skate em forma de U.




76 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2003
          Publicação original: anais de congresso


Formato da contribuição: resumo
Fonte: ENCONTRO NACIONAL DE RECREAÇÃO E LAZER, 2003, Santo André - SP.
Anais do XV Encontro Nacional de Recreação e Lazer. Santo André: SESC, 2003.
E-mail do(s) autor(es): gugapessoas@hotmail.com e shvx79@hotmail.com
Títulos acadêmicos principais atuais: Gustavo de Lira Santos: Especialista em
Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG e Bacharel em
Turismo pela Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP e Sérgio
Henrique Verçosa Xavier: Especialista em Lazer, Recreação e Atividade
Física para Qualidade de vida pela Pontifícia Universidade Católica do
Paraná - PUC/PR Lazer e Qualidade de Vida e Bacharel em Turismo pela
Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP.




Clube de máscara Galo da Madrugada:
o maior bloco de carnaval do mundo,
vivendo a cultura pernambucana
Gustavo de Lira Santos
Sérgio Henrique Verçosa Xavier


               Eram os ecos dos risos dos carnavais públicos que repercutiam
               dentro dos muros dos mosteiros, universidades e colégios. Mikhail
               Bakhtin

  O nosso carnaval tem suas origens na Idade Média, contudo continuamos
mantendo muitas de suas características básicas até os dias de hoje, principal-
mente no que diz respeito ao comportamento do homem e da sociedade durante
esse período.

  O carnaval era a festa da carne, era um festival em comemoração à colheita e
ao Deus Pan (Grécia) ou Lupercus (Roma), chegando a durar até três meses.
Nesse período as hierarquias eram quebradas e todo mundo se tornava igual,
independente do seu trabalho ou do dinheiro que tivesse, “rompendo o cotidiano
da vida social diária e mostrando-se como um tempo que privilegiava o contato
pessoal e espontâneo, liberando-se de status sócia” (ARAÚJO - 1996; pág 30).
Constituía-se de um tempo em que o homem não era privado de nada e tinha

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
carne e bebida em abundância e era totalmente livre, não existindo leis a não ser
as suas próprias.

   O carnaval era também uma forma de se opor à cultura erudita, as normas da
igreja, já que esta considerava a diversão, inclusive o riso, “coisas do demônio”, e
nele existia não apenas o riso individual, mas também o coletivo, o grupal, aquele
que representava todo o ‘bem estar’ de um povo. Segundo BAKHTIN (1993: pág 09):

                 O indivíduo parecia dotado de uma segunda vida que lhe permitia
                 estabelecer relações novas, verdadeiramente humanas, com os
                 seus semelhantes. A alienação sumia provisoriamente. O homem
                 tornava-se a si mesmo e sentia-se um ser humano entre seus
                 semelhantes.

  Essa segunda vida era criada e incorporada, representada e vivida pelo homem
durante o período do carnaval. Depois ele retornava à sua vida normal. A mesma
ainda manifesta-se nos festejos de Momo dos dias atuais e é bem representada
no trecho da música de Chico Buarque, ‘Vai Passar’:

                 (...) Seus Filhos erravam cegos pelo continente, levavam pedras
                 feito penitentes erguendo estranhas catedrais. E um dia, afinal
                 tinham direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia que se
                 chamava carnaval(...).

  Para compreender o carnaval não é possível estudá-lo apenas como um obje-
to único, é necessário percebê-lo em conjunto. A noção de festa compreendida
por HEERS (1987; pág 222) é que “ela está indissociavelmente ligada ao seu
contexto histórico e social”. A festa, concordando com o ponto de vista de
CANCLINI (1983; pág 54):

                 (...) sintetiza a totalidade da vida de cada comunidade, a sua
                 organização econômica e suas estruturas culturais, as suas rela-
                 ções políticas e suas propostas de mudanças. Isso é notado no
                 nosso carnaval pelas fantasias, as pessoas fazem sempre alusão
                 a alguém ou a algo que está no auge e sendo bastante
                 comentado(a).

   Não se sabe ao certo quando o carnaval chegou a Pernambuco, só se encon-
tram registros do ano de 1555, mas acredita-se que chegou um pouco antes
desse período. O carnaval entrou no nosso estado trazido pelos Portugueses e se
limitava aos Entrudos, que vem do latim, “intróito” e que quer dizer introdução,
referindo-se ao período que introduz a Quaresma. A brincadeira ocorria nos três
dias que precediam a quaresma e constava basicamente em molhar as pessoas
com água e sujá-las com farinha e pó.


78 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Em 1901, oficiais do exército criaram o “Clube de Alegorias e Críticas Cara-
Dura”. Saindo às ruas em carros puxados por cavalos, onde haviam sido instala-
dos palcos para os músicos, um protótipo do que viria a ser os trios elétricos dos
dias de hoje, e neles ficavam tocando marchas e músicas de carnaval, acompa-
nhados sempre por multidões. Daí para frente o Carnaval Pernambucano foi se
desenvolvendo cada vez mais, criando novos ritmos e danças e ficando a cada
ano o mais peculiar dos carnavais.

    “Pernambuco tem todos os Carnavais do Brasil”, foi o slogan que o governo
do estado usou para vender o nosso Carnaval durante alguns anos em campanhas
publicitárias. A origem desta expressão é a diversidade de “carnavais” existentes
em Pernambuco: temos o carnaval de Salvador, na Av. Boa Viagem, na semana
pré-carnavalesca e no Bloco da Parceria (de iniciativa privada). No centro do
recife acontece o desfile das Escolas de Samba, simples e com nuances caracte-
rísticos da cultura local, diferente do glamour dos desfiles de Rio e São Paulo,
mas que mexe com o coração dos participantes e torcedores. Os carnavais das
cidades históricas de Minas Gerais estão representados em Olinda. Resistindo ao
tempo ainda encontramos os famosos Bailes de clubes, com concursos de más-
caras, fantasias, reis Momos e rainhas. Partindo para o interior do estado ainda
encontramos manifestações em Nazaré da Mata (maractus rurais), Bezerros
(papangus) e Triunfo (Caretas).

  Segundo SILVA (1998:pág 217):

               O carnaval de Pernambuco é do povo. Do Recife a Olinda, de
               Petrolina, no sertão, a Vitória de Santo Antão, na zona da mata, a
               festa toma conta de todos. Não importa se a fantasia é de rei,
               rainha ou de escravo, o importante, durante os quatro dias de
               festa, é manter a tradição de um dos mais belos carnavais do
               planeta.

  Se existe um Carnaval que possa ser batizado de plural e democrático, este é o
Carnaval de Pernambuco, onde guitarras, tambores e clarins fazem uma multidão
pular durante os quatro dias e ainda gritar que “acha é pouco”1. Em Olinda as
troças e fantasias inusitadas continuam fazendo da cidade a detentora do Carna-
val mais criativo do estado. Nos pólos de animação espalhados pelo Recife, as
atrações vão de música armorial de Antônio Carlos Nóbrega até o Cocô de Dona
Selma, passando pelos sons dos caboclinhos e dos maracatus, sem esquecer o
rock, atração do projeto Mangue Beat2. Para completar, muito frevo, símbolo
maior da nossa folia, que tem em Nascimento do Passo seu maior ícone. Por isso,
seja qual for o ritmo ou estilo musical, a ordem é cair na folia e só parar quando
o corpo reclamar.

 Por toda essa mistura de ritmos, fantasias, sons e cores e também, por na
maioria de suas atrações carnavalescas não haver divisão de classe, Pernambuco

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
simboliza nos dias de Carnaval uma grande manifestação de democracia e pos-
sibilidade de igualdade social.

  INÍCIO DO DESFILE (Principais Manifestações do Carnaval)

   Embora a cultura pernambucana se manifeste em inúmeras atrações, os dias de
carnaval são marcados principalmente pelo Maracatu e pelo Frevo, que ainda
trazem em seus rituais algumas formas de apresentação:



MARACATU

  Trago ritmo e arte. Na Zabumba e no Gonguê sou espetáculo à parte contagi-
ando, quem vê. Sou cortejo africano, sou raiz da nossa gente. Marília Branco

  Os Maracatus encantam o carnaval de Pernambuco por seu toque e suas cores.
A palavra maracatu era usada, até o século XIX, para designar qualquer ajunta-
mento de negros. Pouco a pouco passou a ser empregada para os cortejos de reis
africanos. Existem dois tipos de Maracatu: O Nação e o Rural.

  • Maracatu Nação ou de Baque Virado: Tem sua origem com antigos negros
escravos. Chefes tribais africanos trazidos para o Brasil reproduziam gestos da
nobreza européia para mostrar a sua força e seu poder, apesar da escravidão. A
boneca usada nos cortejos chama-se Calunga e encarna a divindade dos orixás,
recebendo em sua cabeça os axés e a veneração do grupo. A música vocal
denomina-se toadas e inclui versos com procedência africana. Seu início e fim
são determinados pelo som de um apito. O tirador de loas3 é o cantador das
toadas. O instrumental, cuja execução se denomina toque, é constituído pelo
gonguê, tarol, caixa de guerra e zabumbas. É formado pelas seguintes figuras: rei,
rainha, dama-de-honra da rainha, dama-de-honra do rei, príncipe, princesa, mi-
nistro, embaixador, duque, duquesa, conde, condessa, vassalos, damas-de-paço
(que portam as calungas durante o desfile do maracatu), porta-estandarte, es-
cravo sustentando a umbrela ou pálio (chapéu-de-sol que protege o casal real e
que esta sempre em movimento), figuras de animais, guarda-coroa, corneteiro,
baliza, secretário, lanceiros, brasabundo (uma espécie de guarda costa do gru-
po), batuqueiros (percurssionistas), caboclos de pena e baianas.

   • Maracatu de Baque Solto ou Rural: Tem suas origens na segunda metade do
século XIX e deve ser uma transfiguração dos grupos chamados Cambindas (brin-
cadeira masculina, homens travestidos de mulher). São uma espécie de fusão de
elementos dos vários folguedos populares, que vêm às ruas das cidades próxi-
mas aos engenhos de açúcar, durante o carnaval, com características e colorido
próprio. O cortejo do Baque Solto diferencia-se primeiramente do maracatu
tradicional, pela ausência do rei e da rainha. Um ritmo rápido de chocalhos,


80 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
percussão uni sonora e acelerada do surdo, acompanhada da marcação do tarol,
do ronco da cuíca, da batida cadenciada do gonguê, do barulho característico
dos ganzás, um solo de trombone, e outros instrumentos de sopro que, juntos,
dão ao conjunto características musicais próprias. O maracatu desfila num cír-
culo compacto, tendo ao centro o estandarte, rodeado por baianas, damas-de-
buquê com ramos de flores de goma, boneca (calunga) de pano ou plástico e
caboclos de pena. Rodeando este primeiro círculo vem os caboclos de lança, que
se encarregam de abrir espaço na multidão, com seus saltos e malabarismos,
com as compridas lanças, como a proteger o grupo.



FREVO

  Sou passista e Pierrô, Arlequim ou Colombina. Da fantasia só sai quando a folia
termina. Marília Branco

   O carnaval recifense possui uma música e uma dança carnavalesca própria e
original, nascida do povo. De origem urbana, surgiu nas ruas do Recife entre o
final do século XIX e começo do século XX. O frevo nasceu das marchas, maxixes
e dobrados; as bandas militares do século passado teriam dado sua contribuição
na formação do frevo, bem como as quadrilhas de origem européia. Deduz-se
que a música apoiou-se desde o início nas fanfarras constituídas por instrumen-
tos de metal.

  A palavra frevo vem de ferver, por corruptela, frever, dando origem à palavra
frevo, que passou a designar: “Efervecência, agitação, confusão, rebuliço;
apertão nas reuniões de grande massa popular no seu vai-e-vem em direções
opostas como pelo Carnaval”, de acordo com o Vocabulário Pernambucano de
Pereira da Costa.

   Vários elementos complementares básicos compõe toda dança, em especial no
frevo, os instrumentos musicais serviam como arma quando se chocavam
agremiações rivais. As origens dos passistas são os capoeiras que vinham à frente
das bandas, exibindo-se e praticando a capoeira no intuito de intimidar os grupos
inimigos. Os golpes da luta viraram passos de dança. Outro elemento complemen-
tar da dança é a sombrinha, o passista à conduz como símbolo do frevo e como
auxílio em suas acrobacias. A sombrinha em sua origem não passava de um guar-
da-chuva conduzido pelos capoeiristas pela necessidade de ter na mão como
arma para ataque e defesa, já que a prática da capoeira estava proibida.

  Pode-se afirmar que o frevo é uma criação feita para o carnaval, uma vez que
os músicos pensaram em dar ao povo mais animação nos folguedos de carnaval.
O povo queria música barulhenta e animada, que desse espaço para extravasar
alegria dentro daquele improviso. No decorrer do tempo a música ganha carac-


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
terísticas próprias acompanhada por um bailado inconfundível de passos soltos
e acrobáticos. Nas suas origens o frevo sofreu várias influências ao longo do
tempo, produzindo variedades. A década de trinta serve de base para a divisão do
frevo em: Frevo-de-Rua, Frevo-Canção e Frevo-de-Bloco.

  • Frevo-de-rua: é o mais comumente identificado como simplesmente frevo,
cujas características não se assemelham com nenhuma outra música brasileira,
nem de outro país. O frevo-de-rua se diferencia dos outros tipos de frevo pela
ausência completa de letra, pois é feito unicamente para ser dançado.

  • Frevo-canção: apareceu no fim do século XIX quando surgiram melodias boni-
tas, tais como A Marcha n° 1, atualmente convertido no Hino do Carnaval Recifense,
capaz de animar qualquer reunião e enlouquecer o passista. O frevo-canção ou
marcha-canção tem vários aspectos semelhantes à marchinha carioca.

   • Frevo-de-bloco: deve ter se originado de serenatas preparadas por agrupa-
mentos de rapazes animados, que participavam dos carnavais de rua da época,
possivelmente, no início do século passado. Sua orquestra é composta de Pau e
Corda: violões, banjos, cavaquinhos, etc. Nas últimas três décadas observou-se
a introdução de clarinete, seguida da parte coral integrado por mulheres.




ACORDA POVO! (O Clube de Máscaras Galo da Madrugada)

                 Pernambuco é carnaval, dança do frevo até balé. Galo atração
                 divinal põe o Recife de pé. O baile se inicia e transborda a demo-
                 cracia no bairro de São José. (Marília Branco)

  O Clube de Máscaras Galo da Madrugada foi fundado oficialmente no dia 24 de
Janeiro de 1978, dando prosseguimento a uma reunião de família realizada no
mês de dezembro de 1977, na casa de Enéas Freire. Foi assim batizado porque
deveria sair no sábado de carnaval, bem cedinho, antes mesmo que o comércio
abrisse, para carregar todos os foliões.

  Segundo Enéas Freire, presidente perpétuo da agremiação, a idéia inicial foi de
se formar um clube de frevo.O assunto primordial era a diferença entre os carna-
vais antigos e o atual (daquela época). A idéia de formar um bloco e colocá-lo na
rua durante o carnaval surgiu devido ao predomínio, na época, dos bailes carna-
valescos nos clubes da cidade. O seu principal objetivo é reviver as verdadeiras
origens e tradições do carnaval de rua. Para isso, O Galo convoca e congrega
todos os seus foliões em um grandioso e sensacional desfile, através das mani-
festações mais espontâneas e populares, unindo clubes de frevo e grupos de
mascarados, nessa grandiosa festa que se realiza todos os anos com êxito.


82 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Em 1979 os foliões do Galo da Madrugada começaram a cantar seu Hino, de
autoria do Professor José Mário Chaves. O Hino do Galo se transformou ao longo dos
anos em uma das músicas mais tocadas do carnaval pernambucano. Aos primeiros
acordes, o povo cai no frevo e o canta numa enorme explosão de alegria:

               Ei pessoal, vem moçada
               Carnaval começa no Galo da Madrugada
               Ei pessoal, vem moçada
               Carnaval começa no Galo da Madrugada
               A manhã já vem surgindo,
               O sol clareia a cidade com seus raios de cristal
               E o Galo da madrugada, já está na rua, saldando o Carnaval
               Ei pessoal...
               As donzelas estão dormindo
               As cores recebendo o orvalho matinal
               E o Galo da Madrugada
               Já está na rua, saldando o Carnaval
               Ei pessoal...
               O Galo também é de briga, as esporas afiadas
               E a crista é coral
               E o Galo da Madrugada, já está na rua
               Saldando o Carnaval
               Ei pessoal...

  O desfile do Galo da Madrugada vem sendo realizado todos os anos na manhã
do sábado de Zé Pereira. Por tradição, O Galo começa a concentração deste dia,
a partir das 5:30 da madrugada, com toques de clarins anunciando a alvorada do
carnaval pernambucano, além de uma batalha de confetes, serpentinas e uma
salva de fogos. O Galo desfila pelos bairros de São José e Santo Antônio, reve-
renciando o frevo, juntamente com milhares de foliões. O ponto alto da festa é
a chegada à Avenida Guararapes. “Nesse momento, ninguém segura o frevo. É
muito emocionante”, descreve o maestro Eraldo Santos da Frevioca4, trio que
vem logo após os carros alegóricos e o estandarte do Galo, num total de trinta.

  A fantasia oficial do primeiro desfile do bloco foi a “alma”. Entre outras, já
apresentou o Negro do Mississipi, Pirata, Espanhol, Príncipe, Árabe, Cigano e
Mandarim. Este ano o galo completou 25 anos e recebeu adereços pela primeira
vez, saiu fantasiado de palhaço. O circo foi o tema da agremiação no carnaval
2003. “Estamos sempre inovando e, desta vez, queremos um colorido especial”,
descreveu Enéas. Na decoração, assinada pelos artistas locais Ari Nóbrega, Cid
Cavalcante e Roberto Oliveira, predominam as cores azul, branco e vermelho.
Além do abre-alas, houve um carro dos bichos, onde atores se vestiram de
elefantes, girafas, macacos e leões. Para homenagear os números perigosos do
picadeiro, o terceiro carro teve um trapézio e globo da morte, com circenses
realizando performances.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
O DESFILE PEGA FOGO (O Galo no Guiness Book)

                 O sábado atualmente não é mais o de Zé Pereira. É o dia mais
                 quente do ano, na Veneza Brasileira. Diante dos fatos me calo.
                 Hoje o sábado é do Galo diz a multidão. (Marília Branco)

  Desde a sua fundação o Galo é um defensor incondicional da música
Pernambucana, sendo puxado principalmente pelo frevo. Mesmo após 25 carna-
vais, conserva sua tradição musical, em seus desfiles e bailes, só se ouve música
autenticamente pernambucana, isto é, frevo, frevo canção, frevo estilizado e
marchas, além de Maracatu e Caboclinhos. Os dirigentes pretendem perpetuar as
raízes do carnaval do estado, divulgando sua música para várias gerações.

  O Galo é um bloco democrático, um Carnaval participação, pois não há fron-
teiras nem cordões de separações, foliões fantasiados, diretores, povão e pes-
soas de todas as classes se transformar numa massa humana, em mar e ruas de
gente, é o que os diretores dele chamam de “Carnaval do Povo”.

  O bloco tem a honra de ter sido o criador de um novo tipo de carnaval que
respeitando o passado e a tradição, adaptou-se ao presente. Percebendo que as
orquestras a pé, não atingiam a grande massa de foliões, lançou a partir de 1983,
as orquestras em trios elétricos, sem fugir a sua identidade: só tocar frevo.

  Acredita-se que estes três fatores agregados seja o diferencial do Galo para
conseguir arrastar uma multidão tão fiel durante todos esses anos. No primeiro
ano foram 75 foliões, no segundo 300 e daí por diante não parou mais de crescer.
No sábado de Zé Pereira o centro do Recife transforma-se num mar colorido,
com milhares de foliões fantasiados, carros alegóricos e orquestras que não
param de tocar o contagiante frevo pernambucano, arrastando, atualmente,
mais de um milhão e meio de pessoas, transformou-se na maior concentração
popular promovida por um só bloco de carnaval. Não é à toa que o Galo da
Madrugada está presente, desde 1995, no livro de recordes, Guiness Book, como
“O Maior Bloco Carnavalesco do Planeta”.

  Vários blocos se aliam à grandiosa festa, na véspera da saída do Galo. O
Bloco Azulão, realiza um Acorda Povo5 na noite de sexta-feira para a madru-
gada de Zé Pereira. Outros blocos e grupos aderem ao cortejo no final do
desfile do Galo como o Rabo do Galo, que insiste em não deixar o Galo acabar
antes do fim do dia. E por último, o mais famoso deles todos, a Galinha
d´água, criado pela Secretaria de Turismo do Recife, com o objetivo de reve-
renciar o Bloco. A Galinha d’água promove um evento simultâneo usando a
bacia do Rio Capibaribe como concentração, em frente à ponte Duarte Coe-
lho, deste ponto um desfile de barcos transforma-se em um verdadeiro car-
naval aquático.



84 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
A RESSACA (Conclusões)

                        A nossa vida é um Carnaval, a gente brinca escondendo a dor!
                        (Capiba)

                        É de fazer chorar. Quando o dia amanhece e obriga o frevo a
                        acabar. Oh! Quarta-feira ingrata chega tão depressa só pra con-
                        trariar. Quem é de fato um Pernambucano espera o ano pra cair na
                        brincadeira, esquece tudo quando cai no frevo e no melhor da
                        festa vem a quarta-feira. (Luis Bandeira)

  A música de Luís Bandeira nos passa uma boa impressão do que é o Carnaval,
não só para Pernambucano, mas para todos os povos que tem essa festa em sua
cultura, um momento de fuga, de extravasar todas as tensões do dia-a-dia. São
quatro dias para o folião vestir a fantasia e ser quem ele quiser, repondo as
energias para voltar a sua vida real.

  E é no Galo da Madrugada onde ele consegue transparecer de melhor forma,
pois é uma festa para todos, sem distinção de cor, raça ou classe social, onde
todo o homem torna-se igual, um folião anônimo.

   Mostrando, principalmente, para as gerações mais novas, que temos cultura e
ritmos capazes de serem tocados em trios elétricos ou na nossa frevioca e
deixar qualquer um “frevendo” e pedindo mais. Mantendo assim viva a nossa raiz
cultural e sem perder seu espaço com isso, pelo contrário, conseguindo a cada
ano aumentá-lo.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]


NOTAS

6
    Acho é pouco era o bloco que encerrava, oficialmente, o carnaval de Olinda na quarta-feira de cinzas, sai depois
    do Bacalhau do Batata. Atualmente quem faz o encerramento é o Bloco Maluco Beleza de Alceu Valença, que
    se concentra em frente a sua casa para escutar o cantor.

2 Mangue Beat: Movimento que busca valorizar a Cultura Popular Pernambucana interligado com as novas
 tendências mundiais.
3
    Loas: Toadas cantadas para reverenciar seus mortos, na qual inclui versos de procedência africana.
4
    Frevioca: Transporte adaptado que leva uma orquestra de frevo, parecido com um trio elétrico, porém menos
    potente. Inventado em 1979, por Pedro Martins e Leonardo Dantas, sendo o pioneiro um caminhão com alguns
    bancos e alto falantes na carroceria.
5
    Acorda povo!: Grupo de foliões que saem pelas ruas no sábado, junto com o amanhecer do dia, acordando a
    cidade para mais um carnaval.




                                              Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                    Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Ano: 2003
          Publicação original: revista


Formato da contribuição: artigo (texto completo)
Fonte: BRUHNS, Heloisa T.; MARINHO, Alcyane. Lazer e meio ambiente: multiplicidade
de atuações. Licere. Belo Horizonte: CELAR – UFMG, v.6, n. 2, 2003.
E-mail do(s) autor(es): alcyane.marinho@hotmail.com, luabola@uol.com.br
Títulos acadêmicos principais atuais: Alcyane Marinho: Graduação pelo
Departamento de Educação Física da UNESP de Rio Claro (SP); Mestrado e
Doutorado pela Faculdade de Educação Física da UNICAMP (Campinas, SP), na
Área de Estudos do Lazer, pesquisadora do Laboratório de Estudos do Lazer/
LEL da UNESP/Rio Claro. Heloisa T. Brunhs: graduada em Economia pela UNICAMP
e em Educação Física pela PUC de Campinas; mestre e doutora em Filosofia da
Educação pela UNICAMP. Professora Titular do Departamento de Estudos do
Lazer da Faculdade de Educação Física da UNICAMP.



Lazer e meio ambiente:
multiplicidade de atuações
Heloisa Turini Bruhns
Alcyane Marinho


  Novas sensibilidades relacionadas às questões ambientais têm possibilitado
abertura para novas mentalidades, engendrando uma diversidade de práticas;
dentre elas, destacamos as viagens à natureza e as práticas esportivas atreladas
às mesmas. A associação de práticas esportivas à natureza não é nova, porém as
formas mais recorrentes e sensíveis como tais atividades têm ocorrido estão
despertando, cada vez mais, novos olhares.

  Preocupadas em compreender os movimentos ambientalistas em seus des-
dobramentos, sejam preservacionistas, exploratórios ou modismos, busca-
mos uma aproximação, no sentido de um olhar curioso e indagador, não
pretendemos desvendar grandes verdades (referentes a grandes descober-
tas), mesmo porque estas talvez nunca tenham existido. Portanto, o objetivo
pretendido neste artigo enfocará questões relacionadas ao ecoturismo, como
essas práticas esportivas, nas quais se manifestam várias contradições, bem
como algumas ações referentes ao movimento ambientalista, envolvendo
novos conceitos sobre cidadania.



                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Não mais estruturada a partir de pólos unificados, a vida social se alimenta nos
modos e costumes contemporâneos, confrontando-se com a heterogeneidade
sob suas diversas formas e aspectos contraditórios. Mais que a presença de um
poder, presencia-se uma “potência da socialidade”, emprestando o termo de
Maffesoli (1998:5), para o qual esta pode se manifestar, subvertendo a ordem
estabelecida na forma do silêncio, da astúcia, da luta, da passividade, do humor ou
do escárnio, resistindo à imposição do poder. Portanto, o insignificante faz senti-
do, uma vez enfrentando instituições macroscópicas e dominantes. Revela-se uma
dimensão crítica no movimento contemporâneo, não negando aqui suas ambigüi-
dades, e, portanto, não dispensando a necessidade de discernimento e superação1.

  A perspectiva ecológica revela-se como uma das formas de contemplação, ao
lado da estética, de uma “política” diferenciada 2, das diferentes formas do modo
de cuidar de si e dos diversos cultos do corpo. A presença de uma “ética da
simpatia” fortalecendo a ligação social, através da comunhão com a natureza,
permite compreender situações de fusão e momentos de êxtase, caracterizadores
do clima contemporâneo. Novos vínculos sociais são formados, surgidos a partir
da emoção compartilhada ou do sentimento coletivo, estabelecendo conexões
entre a ética e a estética (Maffesoli, 1996;1998).

  Tomando como base essas reflexões, vamos explorar os objetivos inicialmen-
te propostos.



VIAGENS E PRÁTICAS ESPORTIVAS

  No panorama contemporâneo ocorrem algumas viagens, nas quais a natureza
é utilizada como denominador comum, identificadas sob vários rótulos, como
ecoturismo3, turismo de aventura, turismo verde, turismo rural ou agroturismo,
turismo sustentável, dentre outras4 , agregando novas práticas esportivas, tais
como: trekking, rafting, canyoning, escalada, exploração de cavernas, etc.

  Na crescente expansão de um público alvo constituído por estudantes de
cursos técnicos e de especialização; bem como numa frente ampla de mercado
de trabalho, este tema desponta denotando grande relevância para a área da
Educação Física, abordado em várias dissertações de mestrado e teses de dou-
torado tanto na área quanto fora dela. Uma das mais recentes produções refere-
se a uma coletânea organizada focalizando as interfaces entre o lazer, o turismo
e a natureza, a partir do diálogo com profissionais de diferentes áreas de atua-
ção (Marinho & Bruhns, 2003).

  Estes representam alguns dos avanços da temática em questão, nos últimos
anos, a qual constitui-se numa exceção nas universidades, como mostrado em
publicações recentes (Marinho & Seabra, 2002). Tal panorama exige, portanto,



88 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
investigações mais direcionadas e especialização correspondente, com o intui-
to de suprir uma grande demanda em emergência.

  As “novas” atividades esportivas respondem a concepções de vida, inspiradas
no “ecologismo”, apoiados em ideologias ambientalistas e/ou místico-religio-
sas, incluindo modalidades alternativas de baixo investimento de capital fixo,
porém com alto retorno financeiro (Ribeiro e Barros, 1997:30).

  Essas concepções vinculadas ao ecoturismo, embora considerando vários aspec-
tos, como os problemas oriundos do choque cultural, a problemática questão do
retorno parcial da renda obtida pela atividade para a população receptora e outras,
parecem permanecer com suas questões perversas geradoras de mudanças e resul-
tados inesperados e indesejáveis, além de diversos tipos de dependências (idem).

  Tais práticas necessitam reflexão e discussão, pois se refugiam sob a adjetivação
do ecológico, na medida em que este representa “uma relativização dos sentidos
dessas mesmas práticas, que já estariam então ‘dados’ pelo próprio funciona-
mento da sociedade” (Silva, 1997:145). Presencia-se, portanto, uma legitimação
dessas práticas, revestidas por um adjetivo, o qual por si só torna-se suficiente
para execução de qualquer proposta dessa espécie, mesmo esta não estando
comprometida com nenhum vínculo educativo, valorizando e difundindo as di-
versidades cultural e biológica.

   Nessa mesma direção, embora argumentando sobre a utilização do adjetivo
ambiental, Sorrentino (2002:91) alerta como a expressão “educação ambiental”
tem sido percebida por distintos setores da sociedade, constituindo-se numa
atraente chave para a abertura das mais diferentes portas. Uma chave de múlti-
plos usos, no primeiro momento, aproximando-nos de tudo e de todos, mas, em
seguida, tornando-se um chavão difícil de carregar, em função das expectativas
criadas em torno das soluções almejadas.

  Mais que apontar a grande complexidade de relações nas quais a educação
ambiental está inserida, tal como a história, a cultura, o modo de produção, as
necessidades e os desejos de diferentes pessoas e grupos sociais, o autor
supracitado mostra a necessidade de visualizarmos o “ambiental” para além de
um adjetivo agregado à palavra educação, mas como parte do processo educa-
cional mais amplo, ainda que possua suas especificidades.

  Compartilhamos com Lima (1999) sobre a ausência de sentido na tentativa de
relacionar educação ao meio ambiente, superdimencionando o poder da educa-
ção na transformação dos problemas ambientais e tratando-a como uma nova
panacéia para todos os problemas no contexto social contemporâneo. Mesmo
reconhecendo a importância da educação na mudança social, é preciso tratá-la
como uma entre outras práticas capazes de compor uma estratégia integrada de


                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
transformações sociais e não de forma isolada no processo de transformação
das relações de poder na sociedade.

   Retomando a discussão, o discurso sobre a afirmação da natureza como um
direito de todos (“a natureza é de todos”5), não vem para responsabilizar o
turista, como mostra Silva (op. cit.:148), mas para este se colocar “em igualdade
de direitos com as populações dos diversos locais”.

  A autora citada (op.cit.:149) discute sobre uma dupla destituição das comuni-
dades tradicionais ocorrer no funcionamento desse discurso ecológico, referen-
te aos aspectos jurídico e econômico. Quanto ao primeiro, “pela afirmação
generalizada dos direitos sobre a natureza, com a qual, nos lugares determina-
dos, turistas e comunidades tradicionais, que não têm o mesmo vínculo, possam
ter os mesmos direitos”. Quanto ao segundo, “na afirmação da sua pobreza, o
que significa que a riqueza natural desses lugares, não é a riqueza para as popu-
lações, mas para o turista”.

   A existência de certos lugares ocorre pelas palavras que os evocam, “não-
lugares”, no sentido desenvolvido por Augé (1994:88), ou seja, “lugares imaginá-
rios, utopias banais, clichês”. Tomamos aqui, como ilustração o folheto infor-
mativo da Venturas & Aventuras Viagens e Turismo, onde numa coluna, com o
título “Brotas - a antiga cidade fantasma abriga o espírito de aventura”, passa-
gens podem ser destacadas:

                 “Renasceu nos meados dos anos 80, graças ao espírito de aventu-
                 ra. E hoje é a capital dos esportes radicais do Estado (...). A ex-
                 cidade fantasma se tornou o éden do turismo de aventura (...).
                 Para quem, como eu, gosta de aventura, adrenalina e um fim-de-
                 semana longe de São Paulo, junto a uma galera muito legal (...).
                 Enfrentar corredeiras, num rafting animal...”

   Exemplos como este ilustram o distanciamento para criar o espetáculo, numa
série de visões “instantâneas”, as quais ganham mais realidade no regresso da
viagem, quando voltarmos a vê-las através de fotos ou filmagens.

  A evolução do número de adeptos a essas experiências de aventura na nature-
za têm crescido de forma assoberbada, trazendo uma questão interessante so-
bre a prática do ecoturismo e das atividades relacionadas ao mesmo, as quais
não têm sido promovidas por federações, associações, nem sequer entidades
administrativas governamentais, senão por agências de viagem, oferecendo
múltiplas possibilidades ao gosto e possibilidades financeiras do consumidor,
sendo uma das opções de lazer mais sólidas, dentre as surgidas nas duas últimas
décadas6.




90 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
O município de Brotas é um bom exemplo para evidenciar essa grande deman-
da, embora sem a precisão do número de adeptos. Uma pacata cidade no interior
do Estado de São Paulo, situada a 247 km da capital, com 18.000 habitantes,
tornou-se um ícone do ecoturismo e dos esportes de aventura, devendo o turista
enfrentar longas filas em finais de semana ou feriados.

   Teve seu auge de desenvolvimento no início do século com a cultura do café em
fazendas que estão lá até hoje, com dedicação à criação de gado de corte e de
leite, plantio de laranja, eucalipto, cana-de-açúcar e, mais recentemente (pouco
mais de cinco anos), abrindo as possibilidades para o turismo. Portanto, a prática
dos esportes de aventura ocorre, atualmente, nessas propriedades particulares.

  Em 1994, a Coordenadoria de Turismo da Prefeitura Municipal elaborou um
“Pré-projeto para o desenvolvimento turístico de Brotas”, destacando sobre um
grupo de brotenses, formado por integrantes da organização não-governamen-
tal “Movimento Vivo” e da Secretaria do Meio Ambiente, além de outros mem-
bros da sociedade civil, apoiados pela Prefeitura Municipal, ter realizado, a partir
de 1993, “expedições” às cachoeiras do município, tendo como objetivo, além
de conhecer as potencialidades naturais, avaliar e documentar a possibilidade de
exploração do turismo ecológico. Esta proposta surgiu da necessidade de se
buscar uma alternativa econômica que pudesse desenvolver o município e ao
mesmo tempo conservar uma das maiores riquezas que Brotas possui, ou seja:
suas águas limpas e belezas naturais.

  Segundo o documento, simultaneamente a esse trabalho, a Secretaria de Es-
portes e Turismo do Estado de São Paulo (SET), organizou e lançou um projeto de
regionalização e interiorização do turismo, no qual os municípios do Estado
foram agrupados em 14 núcleos, cinco dos quais já tinham sido implantados em
1994. Brotas, por decisão da própria SET, havia sido incluída no sexto, no Núcleo
das Serras.

  Essas questões vêem ao encontro do destacado por Graziano da Silva e outros
(1998:29), sobre o turismo em áreas rurais (uma vez que as cachoeiras locali-
zam-se em fazendas e pequenas propriedades rurais) estar sendo pensado mais
recentemente no Brasil como “uma fonte adicional de geração de emprego e
renda para famílias residentes no campo, à medida que vem decaindo a ocupa-
ção e as rendas provenientes das atividades agropecuárias tradicionais”. Desta
forma, podem ser criados tipos de trabalho com reduzidos volumes de investi-
mento7, advindo daí a possibilidade de estabelecer-se em áreas as quais não
dispõem de recursos turísticos extraordinários, tendo como conseqüência a
facilidade de estender-se para amplas regiões do território. A partir dessas pers-
pectivas uma outra surge, destacando o ecoturismo como um fator importante
na gestão do território, dada sua capacidade de desenvolvimento das
potencialidades endógenas de determinado local.


                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
De certa forma, o ecoturismo se destaca como um empreendimento sem rela-
ção com a dinâmica da agropecuária da região e, dessa forma, diferencia-se
conceitualmente do turismo rural, o qual agrega atividades de lazer, as quais se
associam à recuperação de um estilo de vida dos moradores do campo8. Deve ser
analisado, segundo os autores supracitados (ibid.:15), dentro da ótica das “no-
vas funções” adquiridas pelo meio rural paralelas às funções tradicionais da
agropecuária, as quais, além desse lazer, promovem a conservação do
ecossistema e dos recursos naturais, educação ambiental9, proteção da paisa-
gem, manutenção do território10, etc.

  Por outro lado, as atividades, nas quais a pretensão de cunho ecológico é
manifestada, têm-se restringido a fatores físico-bióticos do meio ambiente, re-
legando a planos de menor importância os aspectos socioculturais e político-
econômicos característicos das populações locais. Portanto, a redefinição dos
modelos de desenvolvimento pautados nos “critérios ecológicos”, tem aconte-
cido, como discutem Ribeiro e Barros (op.cit.:39), “muito mais no sentido de uma
adequação à idéia de ‘equilíbrio com o meio natural’ do que em relação à de
justiça social, ao reconhecimento das populações humanas como os verdadei-
ros sujeitos do meio ambiente”.

  Sem deixar de considerar a possibilidade de ações limitadas no ecoturismo,
acentuando a comunidade e a localidade, as resistências locais e regionais, os
movimentos sociais e o respeito pela alteridade, corre-se o risco da apelação
por uma política sectária e estreita, na qual o respeito pelos outros pode se
perder numa competição por entre os fragmentos11.

  Ainda nessa discussão, percebe-se uma forte ênfase nas posturas empresariais
e políticas de planificação e gestão, quando a fala enfoca o turismo sustentável,
desprezando aspectos relativos aos comportamentos sociais como atitudes,
expectativas e valores da população, não respondendo à necessidade de preser-
vação dos recursos naturais para garantir sua continuidade e regeneração, cos-
tumes e estilos de vida, na busca do enriquecimento da experiência turística e
nos benefícios advindos da mesma.



AS NOVAS CIDADANIAS

  Se a edificação da ciência realizou-se graças à objetivação do natural, evacu-
ando-o da esfera social, atualmente percebemos uma inversão, constituindo-se
o componente natural como “penhor da performatividade”, a natureza permitin-
do uma espécie de “enraizamento dinâmico”.

  Uma mentalidade ambientalista manifesta-se na atualidade, resgatando a ne-
cessidade erótica de manter aceso o desejo de viver, como coloca Cascino



92 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
(1998:269), estando implícito um pensamento complexo, abrangente, “multi-
centrado, abarcando inúmeros aspectos da vida contemporânea, permeando
outras conjunturas e necessidades humanas, redesenhando a arquitetura do de-
sejo humano de viver bem, ampliando o discurso sobre o meio, sobre as exigên-
cias e condições de qualidade de vida”.

  Nesse cenário, conforme o autor (idem:266), surge uma noção de
ambientalismo, na qual está embutida não apenas a preservação, de maneira
isolada e estanque, mas integrando uma infinidade de conteúdos, de
complexificação do conhecimento, articulando uma visão diferenciada sobre os
acontecimentos naturais, socioculturais, político-econômicos, num entendimento
do ser humano como elemento de co-responsabilidade, fundamental, em tudo o
que ocorre no que se refere à sobrevivência física do planeta e da própria quali-
dade de vida em um sentido amplo, renovado e diferenciado. Nessa direção,
prossegue o autor,

               “as novas configurações do expressar a política, o fazer reivindi-
               cações, o agir sobre os temas de interesses e importância na
               defesa de territórios existenciais coletivos e individuais, se re-
               veste de inéditas estruturas simbólicas, abrindo campos até en-
               tão intocados da expressão humana, rompendo com velhas men-
               sagens, envelhecidas cores de expressão dos desejos”.

  A cidadania seria compreendida como algo em contínua construção, constitu-
indo-se à medida que dá significado de pertencimento dos indivíduos a uma
sociedade, conforme cada fase histórica (Loureiro, 2002).

  Observamos ações diversas, as quais provavelmente não seriam realizadas há
algumas décadas (ou talvez seriam consideradas sem propósitos), como observar
abutres na Croácia ou baleias nas Ilhas Canárias, contar a população de morcegos
“raposa voadora” na Índia, salvar macacos na África do Sul ou acompanhar o
nascimento de tartarugas no Brasil - conceitos da nova cidadania mundial.

  Voluntários específicos oriundos de diversas partes do planeta chegam a de-
sembolsar quantias consideráveis (US$1,8 mil) em viagens para participar em
programas dessa espécie, onde 77% do valor pago é destinado ao programa,
conforme a reportagem “ONG ecológica recruta voluntários pelo mundo”.

   Denominados “ecovoluntários”, viajam para trabalhar, podendo observar ba-
leias-piloto nas Ilhas Canárias, durante duas semanas, por US$325, com direito a
hospedagem e refeição, mapeando a população de baleias, até poucos anos alvo
de matanças. Policiam o ecoturismo marinho e instruem a população sobre a
importância da preservação. Também preparam a comida e ajudam na limpeza
do barco, onde ficam hospedados.


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Nem todos os programas ecológicos são sinônimos de pouca estrutura, como o
mapeamento das populações de baleia-azul no Canadá, onde a hospedagem ocor-
re em hotel, janta-se em bons restaurantes da região de Gasperie, próxima a Mon-
treal e paga-se caro, como indicado na reportagem - US$1.840 por uma semana.

  Alertando sobre o respeito à cultura local ser primordial, a representante do
Programa Ecovoluntário afirma sobre essa ONG orientar os participantes sobre
regras de conduta na tentativa de evitar conflitos.

   Constata-se, no movimento contemporâneo, um crescente fascínio pelo “estar
em relação”, como expõe Sant’Anna (1993:261), atrelado ao aumento vertiginoso
das tecnologias prometendo acesso rápido, tanto ao mundo exterior quanto ao
nosso mundo interno, - “um corpo informatizado, relacional, em comunicação,
dispersado e literalmente ligado”. Paralelamente cresce o “receio de não saber onde
pairam, onde pisam, onde moram nossos corpos (...) como se os lugares que ocupa-
mos, os solos sobre os quais caminhamos e habitamos não cessassem de partir”.

  As novas tecnologias convidam para “estarmos em comunicação” com o mundo.
No mesmo sentido, esclarece a autora (idem), “tem-se uma ampliação da per-
cepção e da freqüência em que cada indivíduo se coloca em relação com o
próprio corpo e com os demais corpos, mesmo pela via virtual”.

   Conectar-se, igualmente, tornou-se sinônimo de cidadania aponta a reporta-
gem “Ecologistas usam e-mail e sites para fazer campanhas”, apontando como a
Internet constituiu-se no meio e no ambiente propício aos ecologistas, os quais
aproveitam a rede para divulgar suas propostas e realizar campanhas virtuais,
principalmente abaixo-assinados eletrônicos12, bem como angariar doações.

  Os temas são variados: Angra 2, alimentos transgênicos, geladeiras ecológi-
cas, preservação das baleias, dentre outros.

  A campanha “Proteja os Parques do Brasil” enviou ao Congresso Nacional e-
mails assinados por participantes internautas, solicitando a aprovação imediata
do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, cuja carta foi lida por 39
parlamentares.

  A Rede Nacional Contra o Tráfico de Animais Silvestres (RENCTAS) criou um site
permanente de fiscalização. Os conectados podem fazer denúncias pela página ou
até mesmo relatar suspeitas. A RENCTAS os encaminha à Polícia Federal e a outros
órgãos responsáveis e ainda promovem campanhas de preservação da fauna.

  Retomando Loureiro (op.cit.), na contemporaneidade, o conceito de cidada-
nia envolve complexos conjuntos de direitos e responsabilidades sociais, não
mais limitados aos padrões tradicionalmente estabelecidos, mas sim pensados,


94 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
produzidos e reproduzidos em um sentido global. Desta forma, os exemplos
acima citados são apenas alguns diante das muitas ações existentes, na busca de
mecanismos efetivos de participação e poder de decisão em movimentos sociais
que fazem parte da sociedade civil nos âmbitos nacional e internacional, confor-
me a compreensão de seus participantes.

  O discurso ambiental, conforme Ferreira (1999), não representa somente o
discurso voltado ao ambiente, abarcando também o processo social, por meio
do qual ele é construído e transmitido. Assim, as inúmeras tentativas de aproxi-
mação da natureza podem representar possibilidades de compreensão do mo-
mento atual, bem como o discernimento de nosso papel como sujeitos ativos no
processo de construção de uma “cidadania ecológica”, utilizando a expressão
de Loureiro (op.cit.).

   Por expressar o comportamento de uma época, concluímos que o ecoturismo,
o qual está atrelado ao movimento ambientalista, desenvolve uma lógica
contextual integrando vários elementos da realidade social, expressando valo-
res, comportamentos, idéias, manifestados na atualidade, justificando a impor-
tância e a relevância pela sua compreensão. Sua complexidade ultrapassa, dessa
forma, a frivolidade da aparência para se constituir em um campo fértil de inves-
tigação social, não suportando uniformidades em uma pretensa homogeneização,
mas o entendimento de sua manifestação em situações peculiares e específicas.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]


Notas

13
     Em dois textos produzidos anteriormente, “Lazer, cultura e tecnologia: discussões envolvendo aspectos da
    globalização” e “Lazer e Tempo: buscando compreensões no processo de globalização”, procurou-se desen-
    volver uma crítica relacionada a aspectos como o desemprego, a espetacularização da vida atrelada a uma
    artificialização e a questão da compulsividade do tempo, dentre outras.
2
    Mafessoli (op. cit.) discute como estamos vivendo em um quadro de desengajamento político, onde a satu-
    ração dos grandes ideais longínquos e a fraqueza de uma moral universal podem representar o fim de uma
    determinada concepção de vida, nascida sobre o domínio dos indivíduos e da natureza; porém, por outro lado,
    isso também pode mostrar que uma nova cultura pode estar surgindo.
3
    De acordo com Ceballos-Lascurian (citado em Pellegrini Filho, 1993:138), o ecoturismo consiste em “viagens
    por áreas naturais não degradadas ou não poluídas, com o objetivo específico de estudar, admirar e fruir a
    paisagem e suas plantas e animais, tanto quanto manifestações culturais (do passado e do presente) encon-
    tradas nessas áreas. Nesses termos, o turismo orientado para a natureza implica uma colocação científica,
    estética ou filosófica (...). O ponto principal é que a pessoa que pratica ecoturismo tem a oportunidade de
    mergulhar na natureza de uma maneira normalmente não possível no meio ambiente urbano”.
4
    Essas questões foram tratadas no capítulo “Visitando a natureza, experimentando intensidades”.
5
    Obviamente este discurso encobre o fato de que, embora a natureza seja de todos, nem todos são verdadei-
    ramente iguais, num sistema em que as trocas são bastante desiguais.
6
    De acordo com o documento “Diretrizes para uma Política Nacional de Ecoturismo” (Embratur/Ibama, 1994:12)
    o ecoturismo “é um segmento que tem crescido a um ritmo considerável ao longo dos anos...”. Há um con-


                                              Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                    Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
senso entre os empresários “de que este é um mercado em franca expansão, sendo estimado o seu crescimento
    em cerca de 20% ao ano, conforme resultados obtidos em entrevistas realizadas junto a operadores turísticos
    especializados e peritos e na observação do crescimento de agências operadoras de ecoturismo”.
7
    Os autores destacam como a Espanha tem se valido em larga escala dessa estratégia.
8
    Com exemplo, podem ser citados os pesque-pagues, as fazendas de caça, as cavalgadas, os hotéis-fazenda,
    os restaurantes típicos, os artesanatos, as industrializações caseiras. São atividades internas à propriedade
    gerando ocupações complementares às atividades agrícolas.
9
    Algumas fazendas estão desenvolvendo projetos de estudo do meio para escolas, baseados na história de sua
    própria produção (café, algodão, etc.).
10
     Em um depoimento um dos proprietários das fazendas locais expressa sua indignação pelo lixo acumulado
    em sua propriedade, obrigando-o a retirar duas carretas de garrafas de plástico e outros dejetos, somente do
    estacionamento de carros, antes da descida da trilha para as cachoeiras. Esse fato, associado ao apelo da
    Prefeitura para abrir a propriedade ao ecoturismo, conduziu-o a criar infraestrutura para coleta de lixo, bem
    como orientação para os usuários, no sentido de não depredarem o ambiente (Artigo “Brotas garante diversão
    com ecoturismo” - Folha de São Paulo, 21/6/1999).
11
     Graziano da Silva e outros (op. cit.:17) discutem como as rendas geradas pelo ecoturismo em geral pouco estão
    beneficiando as populações locais, onde este ocorre, permanecendo concentrada nos agentes intermediários
    oriundos dos centros urbanos, bem como em empreendimentos externos.
12
     A reportagem relata como o Greenpeace do Brasil conseguiu 12 mil assinaturas por e-mails em uma campanha
    pedindo a proteção das baleias do Atlântico Sul..




96 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2003
          Publicação original: anais de congresso


Formato da contribuição: resumo de artigo (tabelas retiradas)
Fonte: I Congresso Maranhense de Turismo, Hotel Vila Rica - 27 a 29 de março de 2002.
E-mail do(s) autor(es): leopoldovaz@elo.com.br
Títulos acadêmicos principais atuais: Professor de Educação Física, Centro Federal
de Educação Tecnológica do Maranhão, Departamento Acadêmico de Ciências
da Saúde; Mestre em Ciência da Informação.




A formação técnica e o
seu papel no mercado turístico
Leopoldo Gil Dulcio Vaz



   Através do turismo, diversas regiões do país conseguiram alcançar o seu de-
senvolvimento econômico, exportando produtos locais e melhorando a qualida-
de de vida da comunidade. Os números comprovam. O turismo emprega mais
pessoas do que qualquer outra indústria: um em cada dez trabalhadores do Brasil.
O setor é responsável por, aproximadamente, 8,2% das exportações mundiais e
representa cerca de 10% do produto interno bruto. A indústria turística estimula a
criação de pequenos negócios: bares, restaurantes, locadoras, pousadas, arte-
sanato, comércio de praia e guias, além de beneficiar indiretamente muitas ou-
tras atividades.

   O Governo - seja através da EMBRATUR, do SEBRAE, do BNB e outras institui-
ções estaduais e municipais - vem apresentando-se com uma participação ine-
quívoca na criação da infra-estrutura indispensável ao desenvolvimento do tu-
rismo no Brasil, através:

  • do levantamento das vocações municipais relacionadas ao turismo;
  • da identificação do fluxo de turistas, realização de pesquisas e análises de
    sua origem e interesses;
  • da identificação de valores arquitetônicos, urbanísticos, paisagísticos e cul-
    turais;
  • da elaboração de diagnósticos realizados com base nos dados levantados
    sobre as diversas regiões e municípios;

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
• da capacitação dos prestadores de serviços;
  • da educação para o turismo;
  • do estimulo ao envolvimento das instituições de ensino;
  • da sinalização, informação e programação visual das cidades;
  • das ações de preservação e restauração; e

  • ao acompanhamento e avaliação,

  Dentre os objetivos dessas ações, destaca-se o estimulo à expansão e à cria-
ção de novos negócios e consequentemente

  • a geração de novos postos de trabalho, e

  • contribuir para formação e capacitação dos profissionais que prestam servi-
    ços para o turismo, visando qualidade e produtividade;

  As análises sobre a situação do lazer nas sociedades contemporâneas e suas
relações com as iniciativas privada e pública pressupõe algumas considera-
ções básicas:

  • a importância do setor de lazer na estrutura econômica do mundo, pois o
lazer é um dos muitos componentes do âmbito terciário da economia e faz parte
do mais importante setor das sociedades denominadas pós-industriais – o da
prestação de serviços;

  • essa economia de serviços está crescendo em linhas gerais e especialmente
no setor de telecomunicações, informática, finanças e turismo (uma das áreas
abrangidas pelo lazer);

  • Os setores de lazer e turismo dependem intimamente dessas novas tecnologias,
principalmente da informática e das telecomunicações, criando um mundo com
características muito particulares, havendo um grande crescimento no setor
terciário, com o desaparecimento de empregos no setor industrial e o surgimento
de novos postos no setor de serviços;

   • O setor está crescendo de forma bastante considerável, especialmente nas
áreas de lazer e turismo, que dependem intimamente das novas tecnologias (o
que exige acesso ao conhecimento, não apenas ao conhecimento formal esco-
lar, mas também ao conhecimento de informática e de línguas estrangeiras, além
de habilidades mais subjetivas como iniciativa própria, criatividade e cultura
geral, que não necessariamente apreendidos numa escola).



98 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Essa nova realidade da economia é evidente nos países desenvolvidos.

  Apesar de o lazer estar presente nos grandes centros urbanos do Brasil, ainda
apresenta-se lacunas na elaboração da problemática envolvendo o setor. A
estrutura, o planejamento e a administração do lazer implicam vários níveis
abertos de discussão, na medida em que muitos pontos importantes, teóricos e
práticos, anda não foram estabelecidos por vários motivos:

  • O setor do lazer e turismo é relativamente recente no Brasil;

  • Falta de consciência de que a formação profissional é indispensável para o
bom funcionamento de serviços aos clientes;

  • Falta de programas e controles da qualidade dos serviços em lazer e turismo;

  • Poucas escolas e centros de formação profissional destinadas à formação
em turismo, hotelaria, alimentos e bebidas, lazer;

  • Os setores estatais não têm nível elevado de operacionalidade ou mínimas
condições de operar na área;

  • Alguns setores privados não conhecem profundamente lazer e turismo, e
assim não investem adequadamente em equipamentos, projetos eficientes, for-
mação e reciclagem de mão-de-obra especializada;

   • Setores da sociedade civil ainda não adquiriram consciência de que o lazer é
um direito tão necessário e legítimo como a saúde, a habitação, a segurança, o
transporte e a educação. (TRIGO, 1995)

  A indústria do turismo tem consolidado, no mundo, como uma atividade indutora
de desenvolvimento. Com seu efeito multiplicador efetivo, propicia o incremen-
to de novas atividades econômicas.

  O ingresso do CEFET-MA nessa área de atividade visa, sobretudo a interface
dos setores privados e públicos na articulação conjunta de ações que viabilizem
o turismo como atividade econômica geradora do desenvolvimento nacional.

  Os cursos que se pretende implantar terão a característica de qualificação e
requalificação profissional dos recursos humanos, com atuação focada para o
Maranhão e a Região Nordeste, contribuindo para a criação de um pólo de
desenvolvimento do turismo.



                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Além disso, os cursos, como produtores de “saber fazer”, contemplam uma
visão do Maranhão como destino turístico integrado e área prioritária de inves-
timentos e políticas setoriais, que só poderão ser implementados com o desen-
volvimento do empreendedorismo, aliado as práticas de explorar o turismo de
forma sustentável e consciente.



CENÁRIO EM QUE SE INSEREM OS CURSOS TÉCNICOS NA ÁREA DE TURISMO

  O turismo é uma das atividades que mais cresce no Mundo. Por permitir rápido
retorno do investimento, gerar empregos diretos e indiretos e por sua ligação
com os mecanismos de arrecadação, o turismo é a atividade que mais contribui
para o desenvolvimento de diversos países.

   Para obter resultados é imprescindível que este turismo seja feito de forma
organizada e racional. O Maranhão possui grande vocação para o turismo e o
tem como símbolo de suas melhores expectativas de integração e desenvolvi-
mento, graças às condições territoriais, climáticas e culturais. A participação do
turismo no PIB brasileiro já é de 8%. Porém, o fluxo turístico em direção ao Brasil
está muito aquém de nossas potencialidades. O momento exige a transformação
do potencial latente em novos negócios e vantagens competitivas. Estado do
Maranhão situa-se no nordeste do Brasil, limitado pelos estados do Piauí, Pará e
Tocantins, com uma população estimada em torno 4.900.000 habitantes, possu-
indo um baixo grau de industrialização, quando comparado com outros estados
do Nordeste e/ou Sudeste do país. Possui uma área territorial de 324.600 Km2 ,
que lhe assegura a condição de segundo Estado do Nordeste em extensão. Loca-
liza-se entre as macro regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o que lhe assegu-
ra especificidade espacial e favorece sua climatologia, não possuindo a aridez
do Nordeste, nem a excessiva umidade da Amazônia:

  Os aspectos culturais, históricos e as belezas naturais constituem os grandes
atrativos para o desenvolvimento do Turismo, notadamente nos segmentos de
Ecoturismo e Turismo Cultural.

  Os principais setores produtivos do Maranhão são:

  • a agropecuária,
  • indústria e comércio, e

  • turismo.

  O turismo, como opção econômica geradora de oportunidade de trabalho e
renda, vem merecendo destaque no Estado, que dividiu em zonas de interesse,
por homogeneidade e proximidade dos atrativos:


100 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
• Zona de Patrimônio Histórico Cultural, formada pelos municípios de São Luís,
Alcântara, Raposa e São José de Ribamar; com destaque para São Luís - reconhe-
cida pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade, e Alcântara, tomba-
da pelo Patrimônio Histórico Nacional.

  • Zona dos Lençóis Maranhenses, composta pelos municípios de Barreirinhas,
Humberto de Campos, Paulino Neves, Primeira Cruz, Tutóia e Araióses. Pólo de
ecoturismo onde se encontra o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, com
uma área de 155 mil hectares de dunas e lagoas de água doce cristalina, o Delta
do Rio Parnaíba, único em mar aberto da América Latina, composto de igarapés,
mangues, dunas, ilhas e ilhotas, das quais 65% estão em território maranhense.

  • Zona das Reentrâncias Maranhenses, constituída pelos municípios de Cururupú,
Guimarães, Cedral, Mirinzal, Porto Rico, Serrano, Apicum-Açú e Bacuri, inseridos
no Programa de Ecoturismo para Amazônia Legal.

  • Zona das Chapadas, integrada pelos municípios de Imperatriz, Carolina, Ria-
cho, Balsas, Mirador, Grajaú e Nova Iorque; onde se encontra uma das maiores
áreas preservadas de cerrados da América Latina e o Parque Estadual do Mirador,
com uma área de 700 mil hectares, que protege nascentes dos rios, fauna e flora
da região.

  • Zona dos Lagos

  O Estado do Maranhão dispõe para viabilidade de negócios em diversas áreas,
sendo que na do Turismo apresenta-se:

  • Utilização de fazendas para a prática do turismo rural - criação de serviços de
hotelaria - resort de fazendas ou estâncias, combinando o turismo rural com a
proteção do meio rural, que está sendo desenvolvido nos municípios de Balsas,
Barra do Corda, Viana, Imperatriz e Pinheiro;

  • Implantação de meios de hospedagem e serviços de alimentação nos princi-
pais pólos de ecoturismo do Estado;

  • Serviços de entretenimento e lazer em São Luís, Alcântara, São José de Ribamar
e Morros.



O QUE DETERMINA ESTE QUADRO

   O turismo envolve uma multiplicidade de serviços: transporte, hospedagem,
alimentação, agenciamento, trabalho de intérprete e tradutor, guias turísticos,

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
organização de eventos, entretenimento, etc. São muitas empresas e profissio-
nais envolvidos, diversas interações e etapas a serem percorridas, tornando a
atividade complexa e de difícil mensuração.

  No Brasil, as estimativas da EMBRATUR, referentes ao ano de 1990, indicam 1,7
milhões de pessoas diretamente empregadas no turismo.

   O despreparo desse enorme contingente de trabalhadores e a dificuldade de
acesso que têm as pequenas e microempresas às novas tecnologias, são grandes
dificuldades a serem superadas no turismo.



OPORTUNIDADES

  Investimento na formação da cultura do turismo, aqui incluídas a formação
profissional e gerencial, é a grande lacuna que vem a ser preenchida pelos Cursos
Técnicos na área de Turismo.

  Atuar neste cenário é propiciar a um maior número de investidores, empresários,
técnicos e trabalhadores o ingresso no mercado de trabalho, favorecendo a gera-
ção de trabalho e renda, contribuindo inclusive para um melhor equilíbrio social.

  Por seu caráter multidisciplinar e polivalente, os Cursos Técnicos de Turismo
propõe-se a ser curso modelo, justificando a sua criação como um vetor de
aceleração do processo de desenvolvimento do turismo em termos regionais.



OS CURSOS TÉCNICOS DE TURISMO TÊM COM OBJETIVOS:

  • Possibilitar a aquisição integrante de conhecimentos e técnicas que permitam
prioritariamente uma atuação na área de turismo;

  • Oportunizar a aquisição de conhecimentos genéricos da área de lazer (parques
de lazer; parques aquáticos; academias de ginástica; centros esportivos voltados
para um interesse específico (natação, futebol, tênis, voleibol); centro poliesportivo
em geral; parques urbanos; centros culturais e esportivos; hotéis de lazer; resorts;
colônia de férias; grandes parques em escala regional, estadual e nacional, quando
têm unidades de hospedagem, camping, acampamentos; pousadas em locais reti-
rados (praias, montanhas, reservas ecológicas); pousadas em cidades turísticas.

  • Desenvolver atitudes éticas reflexivas, críticas, inovadoras e democráticas;

  • Propiciar a auto-realização do estudante, como pessoa e como profissional;


102 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
• Considerar interesses do aluno, estimulando-o ao aperfeiçoamento contínuo.



DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS - ÁREA PROFISSIONAL: TURISMO

  Segundo o estudo “A Indústria do Turismo no Brasil – Perfil & Tendências”, da
Associação Brasileira de Entidades de Hospedagem, Alimentação e Turismo –
ABRESI, EMBRATUR e SEBRAE, 1996, o setor de agências de viagens teve seu
maior crescimento nos últimos anos. De 1991 a 1993 passou de 4.500 para 5.340,
conforme registra aquele estudo. Acrescenta que nos três anos seguintes, segun-
do a Associação Brasileira das Agências de Viagens – ABAV, teve um salto ainda
mais significativo, chegando a 10.000 em 1996.

  Quanto ao setor de entretenimento, recreação, esporte e cultura, não há da-
dos agregados que permitam a quantificação do seu crescimento, dada a sua
variedade e diversificação, além da falta de critérios estatísticos que possibili-
tem as informações. Já foi assinalado que é freqüente e crescente a criação de
programas e equipamentos sociais destinados ao convívio social e à produção,
apresentação e fruição artística, cultural, esportiva e recreativa. O estudo da
ABRESI destaca a alta do entretenimento no mundo todo, indicando que se tor-
nou um ramo tão lucrativo em nosso país que está atraindo diversos gigantes
estrangeiros do setor.

  Na perspectiva da formação profissional, segundo o mesmo estudo, as ativi-
dades de turismo necessitam de esforços concentrados na formação gerencial.

  A Organização Internacional do Trabalho – OIT, através de documentos prepa-
rados para várias de suas reuniões, tratou especialmente desta área de ativida-
des profissionais, juntamente com as de hospedagem e alimentação (Reuniões
Técnicas Tripartites para os Hotéis, Restaurantes e Estabelecimentos Similares,
1974 e 1983; 1ª Reunião da Comissão da Hotelaria, da Restauração e do Turismo,
1989; e 78ª Reunião da Conferência Internacional do Trabalho, 1991).

   Assinalam tais documentos os traços da evolução e as tendências para a área,
entre as quais o crescimento continuado do “fenômeno turístico”, sua
internacionalização e sua dependência em relação às “crises” mundiais.

  Destas tendências, decorrem para seus profissionais as perspectivas de:
  • ampliação considerável de possibilidades;

  • maiores exigências de:
    • mobilidade,
    • disponibilidade,
    • polivalência,

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
• adaptabilidade,
    • capacidade de comunicação,
    • integração em equipe,
    • animação.

   O processo produtivo nesta área está voltado não só para a criação de
produtos a serem ofertados, como, sobretudo, para a prestação de serviços
turísticos, de lazer e eventos (estes dois, tanto integrados à atividade turís-
tica e à hoteleira, quanto promovidos isoladamente, inclusive para partici-
pantes e públicos locais).

  Este processo é realizado em operadoras e agências, promotoras de eventos
e de animação turística e sócio-cultural, companhias aéreas, transportadores,
hotéis e outros meios de hospedagem, parques, clubes, órgãos de turismo, de
cultura e esportes, empresas de entretenimento, etc. Algumas atividades são
realizadas na forma de trabalho autônomo.

  Nesse sentido, como constituintes desse processo, foram identificadas fun-
ções essenciais de planejamento, de promoção e venda, e de gestão.

  Em cada uma dessas funções foram identificadas subfunções implicadas na
geração de produtos e na prestação de serviços, ou nos resultados parciais do
processo e no resultado final para o cliente/usuário.

  • Função 1. Planejamento: atividades voltadas para a concepção e articulação
do agenciamento e da operação turística, da condução/guiamento do turista, e
da promoção de eventos e de lazer.

  • Subfunção 1.1. Concepção, viabilização e organização de produtos e servi-
ços turísticos e de eventos e de lazer, adequados aos interesses, hábitos, atitu-
des e expectativas das clientelas efetiva e potencial.

  • Subfunção 1.2. Articulação e contratação de programas, roteiros, itinerários
e de meios para sua realização, com seleção, relacionamento e negociação com
prestadores de serviços e provedores de infra-estrutura e de meios de apoio.

  • Função 2. Promoção e venda: atividades voltadas para o “marketing” e a
comercialização dos produtos e serviços turísticos, de eventos e de lazer.

  • Subfunção 2.1. Prospecção mercadológica, adequação dos produtos e servi-
ços, e identificação e captação de clientes, para desenvolvimento e
operacionalização da política comercial.




104 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
• Subfunção 2.2. Comercialização de produtos e serviços turísticos e de
lazer, com direcionamento de ações de venda para as clientelas efetiva e
potencial.

  • Função 3. Gestão: atividades voltadas para o gerenciamento do processo de
execução do agenciamento, operação e condução do turista, e da promoção de
eventos e de lazer.

  • Subfunção 3.1. Gerenciamento econômico, técnico e administrativo dos
núcleos de trabalho, com organização e articulação dos setores internos, e
com supervisão e coordenação dos recursos, visando ao atendimento com
qualidade.

  • Subfunção 3.2. Gerenciamento do pessoal envolvido na oferta dos produtos
e na prestação dos serviços. Esta subfunção é destacada da anterior pela
prevalência do fator humano nas atividades desta área e das exigências de rela-
cionamento, comunicação, liderança, motivação, trabalho em equipe, formação
e desenvolvimento do pessoal.

  • Subfunção 3.3. Gestão dos meios tecnológicos aplicados no desenvolvimen-
to das atividades, com supervisão da utilização de máquinas, equipamentos e
meios informatizados de informação, comunicação e gestão.

  • Subfunção 3.4. Manutenção e/ou readequação do empreendimento, dos pro-
dutos e dos serviços às variações da demanda, com desenvolvimento de visão
mercadológica prospectiva e inovadora.

  • Subfunção 3.5. Acompanhamento pós-execução para controle da qualidade
dos produtos, serviços e atendimento, visando à satisfação do cliente.

   Simultaneamente com a indicação das subfunções, foi encaminhada a identi-
ficação das competências e habilidades requeridas do profissional, que
condicionam e viabilizam o desempenho eficaz daquelas funções e subfunções.
A correspondência dessas competências e habilidades com os conteúdos da
aprendizagem foi explicitada na identificação das bases tecnológicas.



CARGA HORÁRIA GLOBAL MÍNIMA

  A carga horária global mínima para os diversos cursos desta área foi definida
em 750 (setecentos e cinqüenta) horas.




                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
TURISMO - PROCESSO DE PRODUÇÃO
  FUNÇÕES PLANEJAMENTO
  SF 1.1 - Concepção, viabilização e organização.
  SF 1.2 - Articulação e contratação de programas, roteiros, itinerários.

  PROMOÇÃO E VENDA
  SF 2.1 - Prospecção mercadológica, adequação dos produtos e serviços, e
identificação e captação de clientes.
  SF 2.2 - Comercialização de produtos e serviços

  GESTÃO
  SF 3.1 - Gerenciamento econômico, técnico e administrativo dos núcleos de
trabalho.
  SF 3.2 - Gerenciamento do pessoal envolvido na oferta dos produtos e na
prestação dos serviços

  SF 3.3 - Gestão dos meios tecnológicos
  SF 3.4 - Manutenção e/ou readequação do empreendimento
  SF 3.5 - Acompanhamento pós-execução



Função 1 – PLANEJAMENTO

  SUBFUNÇÃO 1.1 – CONCEPÇÃO, VIABILIZAÇÃO E ORGANIZAÇÃO.

  COMPETÊNCIAS
  • Interpretar legislação pertinente
  • Interpretar pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos.
  • Identificar e avaliar:
  • os meios e recursos disponíveis

  • informações sobre as clientelas efetiva e potencial
  • as oportunidades de mercado
  • sintetizar e relacionar os meios e recursos, as oportunidades e os aspectos
    quantitativos e qualitativos das clientelas
  • identificar e avaliar os sítios e atrativos turísticos adequados a cada clientela


106 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
• identificar, avaliar e selecionar informações geográficas, históricas, artísti-
 cas, esportivas, recreativas e de entretenimento, comerciais, folclóricas,
 artesanais, gastronômicas, religiosas, etc.
• identificar os meios de apoio apropriados, como transportes, acessos, res-
 taurantes
• identificar os espaços e locais e os equipamentos para eventos, esportes,
 recreação, artes, cultura, espetáculos
• programar os produtos e serviços a serem oferecidos
• avaliar técnica, financeira e administrativamente produtos e serviços

• organizar os meios e recursos para concretização dos produtos e serviços
 programados
• elaborar orçamentos
• definir estrutura organizacional
• definir a política comercial

HABILIDADES
• utilizar dados de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos
• referenciar o estudo de viabilidade com a execução
• adequar a oferta aos interesses, hábitos, atitudes e expectativas das cliente-
  las

• conduzir a preparação e montagem dos produtos e serviços concebidos
• estabelecer procedimentos e regras para o funcionamento da estrutura
 organizacional
• controlar orçamentos
• elaborar quadro de pessoal
• supervisionar pessoal para a efetivação dos produtos e serviços
• articular com outros profissionais/prestadores de serviços/ofertantes de
 produtos

• aplicar “softs” específicos




                                    Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
          Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
BASES TECNOLÓGICAS
  • técnicas de:
  • leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econô-
    micos
  • leitura e elaboração de estudo de viabilidade
  • organização de roteiros e itinerários

  • elaboração e redação de normas e manuais
  • leitura e elaboração de orçamentos
  • descrição de cargos/funções e salários
  • comunicação e relações interpessoais e grupais
  • interpretação e aplicação de normas de proteção do trabalho (legislação
   trabalhista, sindical, previdenciária, de saúde e segurança) e de legislação
   aplicável à área (federal, estadual e municipal)
  • tipologia e classificação de:

  • meios de transporte
  • de equipamentos, modalidades e formas de organização de eventos e de
   atividades de lazer, entretenimento e animação sócio-cultural
  • vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol.



  SUBFUNÇÃO 1.2 - ARTICULAÇÃO E CONTRATAÇÃO DE PROGRAMAS,
  ROTEIROS E ITINERÁRIOS.

  COMPETÊNCIAS
  • identificar e avaliar os programas, roteiros, itinerários, meios de hospeda-
   gem, transportes, guiamento de turistas, eventos, atividades de lazer, entre-
   tenimento e animação sócio-cultural
  • identificar e avaliar os espaços e os locais necessários ao produto ou
   serviço
  • identificar e prever serviços pessoais, bem como infraestrutura e meios
   de apoio (transportes, instalações, mobiliário, equipamentos, utensílios,
   decoração)
  • elaborar e interpretar orçamentos

  • interpretar contratos


108 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
• selecionar e coordenar a contratação de fornecedores de programas, rotei-
    ros, itinerários e atividades, bem como de prestadores de serviços e prove-
    dores de infraestrutura e de meios de apoio

 HABILIDADES
 • controlar os orçamentos
 • controlar a execução dos contratos
 • efetivar os meios para produção da oferta
  • contatar, negociar e contratar diferentes fornecedores de programas, rotei-
    ros, itinerários e atividades, prestadores de serviços e provedores de
    infraestrutura e de meios de apoio

  • organizar e manter cadastro de fornecedores, provedores e prestadores de
   serviços
 • supervisionar serviços de terceiros

 BASES TECNOLÓGICAS
 • técnicas de elaboração de roteiros e itinerários
 • técnicas e regras de manejo de mapas, guias, manuais, “timetables”
 • técnicas de leitura e de elaboração de orçamentos
 • técnicas e regras de interpretação e elaboração de contratos
  • técnicas e regras de aplicação de legislação específica e de normas e proce-
    dimentos específicos da área

 • vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol



Função 2 - PROMOÇÃO E VENDA

 SUBFUNÇÃO 2.1 - PROSPECÇÃO MERCADOLÓGICA, ADEQUAÇÃO DOS PRODU-
 TOS E SERVIÇOS E IDENTIFICAÇÃO E CAPTAÇÃO DE CLIENTES.

 COMPETÊNCIAS

 • interpretar pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos
 • identificar e avaliar:
 • informações sobre as clientelas efetiva e potencial


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
• as oportunidades de mercado
  • sintetizar e relacionar estas informações com os meios e recursos disponíveis
  • identificar as clientelas que correspondem à percepção dessa síntese
  • planejar a política comercial
  • organizar estratégias e ações de captação de clientes individuais e
    institucionais

  • identificar fatores que influem na atração do cliente.

  HABILIDADES
  • utilizar dados de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos
  • adequar a oferta aos interesses, hábitos, atitudes e expectativas das clientelas
  • efetivar os meios para produção da oferta
  • contatar permanentemente diferentes segmentos comunitários
  • articular-se e negociar com organizações públicas e privadas e com demais
    segmentos do “trade” turístico

  • organizar e manter cadastro de hóspedes e clientes, fornecedores e contra-
    tantes, operadores, agentes e guias de turismo, promotores de eventos,
    organizações de lazer, hotéis, restaurantes, autoridades, lideranças empre-
    sariais, profissionais e comunitárias

  • estabelecer e negociar ações de publicidade
  • operacionalizar a política comercial

  BASES TECNOLÓGICAS

  • técnicas de:
  • leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econô-
    micos
  • de comunicação e relações interpessoais e grupais
  • “marketing” e de venda
  • vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol
  • características sócio-econômicas e culturais do cliente




110 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
SUBFUNÇÃO 2.2 – COMERCIALIZAÇÃO DE PRODUTOS E SERVIÇOS

 COMPETÊNCIAS
 • direcionar as ações de venda para as clientelas identificadas
 • organizar a venda no próprio estabelecimento ou externamente
 • estimar custos e preços
 • elaborar orçamento

 • calcular e fixar preços

 HABILIDADES
 • atender o cliente
 • zelar para que o atendimento corresponda à expectativa do cliente
 • preparar e conduzir a equipe de trabalho
 • negociar e contratar a venda
 • controlar orçamento

 BASES TECNOLÓGICAS
 • técnicas de leitura e elaboração de orçamentos

 • cálculo de custos
 • técnicas de:
 • comunicação e relações interpessoais e grupais
 • de “marketing” e de venda
 • vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol



Função 3 – GESTÃO

 SUBFUNÇÃO 3.1 - GERENCIAMENTO ECONÔMICO, TÉCNICO E ADMINISTRATIVO
 DOS NÚCLEOS DE TRABALHO

 COMPETÊNCIAS
 • ler e interpretar:
 • pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
• informações referentes ao turismo
  • balanços, relatórios e documentos de controle interno
 • supervisionar o conjunto ou partes dos serviços de empresas de pequeno,
médio e grande porte
  • analisar a relação custo/benefício com vistas a lucratividade da empresa
  • coordenar os recursos institucionais, financeiros, patrimoniais e materiais, o
suprimento, a cobrança, a segurança pessoal e patrimonial, e os serviços auxili-
ares e de apoio

  • avaliar eticamente o desempenho administrativo do empreendimento

  HABILIDADES
  • acompanhar dados e interpretação de:
  • pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos
  • informações referentes ao turismo, contextualizando para o seu meio e seu
    empreendimento
  • balanços, relatórios e documentos de controle interno
  • organizar e articular os setores internos
  • fazer cumprir a normas e manuais de procedimento

  • articular-se com parceiros e outros profissionais
  • negociar a contratação de terceiros
  • contatar e atender o cliente
  • preparar e conduzir a equipe de trabalho aos resultados desejados
  • articular os diferentes setores para fluxo integrado do atendimento
  • coordenar os serviços terceirizados

  • receber, orientar, informar e conduzir turistas
  • controlar os contratos
  • supervisionar os serviços de terceiros
  • supervisionar as atividades de comunicação e relações com o pessoal, clien-
    tes, fornecedores e contratantes, comunidade, meios de comunicação




112 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
BASES TECNOLÓGICAS
• técnicas de:
• comunicação e relações interpessoais e grupais
• leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos
• organização de empresas de turismo

• elaboração e redação de normas e manuais
• leitura, interpretação e elaboração de orçamentos, cálculo de custos e for-
  mação de preços
• elaboração e interpretação de balanços, relatórios e documentos de contro-
  le interno
• suprimento/compras e armazenamento/ conservação
• segurança pessoal e patrimonial e seguros
• técnicas, regras e procedimentos de:

• reserva, venda e emissão de passagens
• reserva e efetivação de acomodação, transferências, passeios, excursões,
  ingressos, etc.
• orientação, despacho e liberação de documentação, passageiros e bagagens;
• guiamento de turistas, com orientação, assessoria e transmissão de informações;
• organização e realização de eventos
• organização e realização de programas e atividades de lazer
• normas de defesa do consumidor, trabalhistas, outros ramos jurídicos aplicá-
  veis à área
• atendimento e encaminhamento de emergência
• vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol

SUBFUNÇÃO 3.2 - GERENCIAMENTO DO PESSOAL ENVOLVIDO NA OFERTA DOS
PRODUTOS E NA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS

COMPETÊNCIAS
• definir a política de recursos humanos
• organizar os setores internos


                                    Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
          Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
• organizar e harmonizar a ação do pessoal dos diferentes setores com outros
    parceiros e terceirizados
  • desenvolver os recursos humanos encarregados da execução dessas ativida-
    des, promovendo sua capacitação contínua
  • Interpretar as normas de proteção do trabalho
  • Interpretar contratos
  • avaliar eticamente o desempenho do pessoal, e do empreendimento em rela-
    ção a eles

  HABILIDADES

  • motivar e liderar pessoas e grupos
  • treinar e aperfeiçoar o pessoal
  • aplicar as normas de segurança do trabalho
  • controlar contratos
  • organizar e articular os setores internos
  • fazer cumprir as normas e manuais de procedimento
  • articular as relações e o trabalho com terceiros

  • coordenar os recursos humanos, desenvolvendo a motivação, o desempenho
    individual e o trabalho em equipe

  BASES TECNOLÓGICAS
  • técnicas de:
  • comunicação e relações interpessoais e grupais
  • interpretação de leis e outras normas jurídicas
  • interpretação e elaboração de contratos
  • elaboração e redação de normas e manuais

  • motivação, trabalho em grupo e relações humanas no trabalho
  • relações com o público
  • organização de empresa




114 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
SUBFUNÇÃO 3.3: GESTÃO DOS MEIOS TECNOLÓGICOS

COMPETÊNCIAS
• identificar máquinas e equipamentos
• dominar os meios informatizados (hardwares e softwares) de informação,
  comunicação e gestão

HABILIDADES
• identificar as necessidades e soluções adequadas
• identificar e cadastrar fornecedores de meios, serviços e soluções
  especializados
• controlar o fornecimento de insumos e serviços, inclusive manutenção adequada

• controlar a qualidade dos resultados da tecnologia e dos equipamentos
• promover a atualização do conhecimento tecnológico do pessoal
• utilizar meios de comunicação eletrônica
• operar equipamentos de escritório

BASES TECNOLÓGICAS
• técnicas de:
• utilização de meios informatizados
• utilização de equipamentos eletro-eletrônicos

• interpretação e elaboração de contratos
• motivação, trabalho em grupo e relações humanas no trabalho
• relações com o público
• vocabulário técnico em português e inglês

SUBFUNÇÃO 3.4 - MANUTENÇÃO E/OU READEQUAÇÃO DO EMPREENDIMENTO

COMPETÊNCIAS
• identificar, avaliar e relacionar informações de forma contínua para manter
  os produtos e serviços em sintonia com a demanda dos clientes
• captar as tendências de uso, consumo e expectativas das clientelas efetiva e
  potencial

                                    Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
          Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
• manter a viabilidade técnica, financeira e administrativa do empreendimento
    e dos seus produtos e serviços
  • desenvolver visão mercadológica prospectiva, que favoreça prontidão para
    inovações e mudanças de objetivos e de ofertas
  • avaliar a viabilidade de inovações e mudanças
  • Interpretar informações referentes ao turismo

  HABILIDADES
  • atualizar estrutura organizacional, políticas e normas e procedimentos

  • utilizar informações referentes ao turismo, contextualizando para o seu meio
    e seu empreendimento
  • utilizar a interpretação de estudo de viabilidade para inovações e mudanças
  • preparar e dirigir o pessoal para inovações e mudanças

  BASES TECNOLÓGICAS
  • técnicas de:
  • “marketing” e de venda
  • comunicação e relações interpessoais e grupais
  • leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos

  • leitura, interpretação e elaboração de orçamentos, cálculo de custos e for-
    mação de preços
  • elaboração de descrição de cargos/funções e salários
  • elaboração e redação de normas e manuais
  • vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol



  SUBFUNÇÃO 3.5: ACOMPANHAMENTO PÓS-EXECUÇÃO

  COMPETÊNCIAS
  • avaliar a receptividade dos clientes aos produtos e serviços oferecidos
  • criar instrumentos de informação e de aferição da satisfação do cliente
  • analisar e avaliar as manifestações dos clientes



116 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
• desenvolver no pessoal a atenção para a satisfação do cliente
  • avaliar eticamente o desempenho em relação aos clientes, público em geral
    e meio ambiente

  HABILIDADES
  • aplicar instrumentos de informação e de aferição da satisfação do cliente
  • utilizar a interpretação de reclamações, elogios, sugestões e outras manifes-
    tações expontâneas e motivadas
  • relacionar-se com as clientelas efetiva e potencial

  • promover a capacitação contínua do pessoal voltada para a atenção ao
    cliente

  BASES TECNOLÓGICAS

  • técnicas de:
  • comunicação e relações interpessoais e grupais
  • leitura, interpretação e elaboração de pesquisas e sondagens de opinião
  • motivação, trabalho em grupo e relações humanas no trabalho
  • relações com o público

   Em 05 de outubro de 1999, o Conselho Nacional de Educação, através do
Parecer CEB 16/99, aprovou as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação
Profissional do Nível Técnico, separando a área de Turismo da de Lazer, e juntan-
do-a com a de Hotelaria e Alimentação, criando-se, assim, a de Turismo e Hos-
pitalidade, com as seguintes características:

   A área profissional de turismo e hospitalidade compreende atividades,
interrelacionadas ou não, referentes à oferta de produtos e à prestação de ser-
viços turísticos e de hospitalidade.
   • Os serviços turísticos incluem o agenciamento e operação, o guiamento, a
promoção do turismo, e a organização e realização de eventos de diferentes
tipos e portes.
  • Os serviços de hospitalidade incluem os de hospedagem e os de alimentação.

  • Os de hospedagem são prestados em hotéis e outros meios, como colônias
de férias, albergues, condomínios residenciais e de lazer, instituições esportivas,
escolares, militares, de saúde, acampamentos, navios, coletividades, abrigos
para grupos especiais.


                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
• Os serviços de alimentação são prestados em restaurantes, bares e outros
meios, como empresas, escolas, clubes, parques, aviões, trens, ou ainda em servi-
ços de bufês, “caterings”, entregas diretas, distribuição de pontos de vendas.

  Estas atividades são desenvolvidas num processo que inclui o planejamento, a
promoção e venda e o gerenciamento da execução. Como competências gerais
dos técnicos da área, são apresentadas:
   • conceber, organizar e viabilizar produtos e serviços turísticos e de hospita-
lidade adequados aos interesses, hábitos, atitudes e expectativas da clientela
  • organizar eventos, programas, roteiros, itinerários turísticos, atividades de
lazer, articulando os meios para sua realização com prestadores de serviços e
provedores de infraestrutura e apoio
  • organizar espaços físicos de hospedagem e de alimentação, prevendo seus
ambientes, uso e articulação funcional e fluxos de trabalho e de pessoas
  • operacionalizar política comercial, realizando prospecção mercadológica,
identificação e captação de clientes e adequação dos produtos e serviços

  • operacionalizar a comercialização de produtos e serviços turísticos e de
hospitalidade, com direcionamento de ações de venda para suas clientelas
  • avaliar a qualidade dos produtos, serviços e atendimentos realizados
  • executar atividades de gerenciamento econômico, técnico e administrativo dos
núcleos de trabalho. Articulando os setores internos e coordenando os recursos
  • executar atividades de gerenciamento do pessoal envolvido na oferta dos
produtos e na prestação dos serviços
  • executar atividades de gerenciamento de recursos tecnológicos, supervisio-
nando a utilização de máquinas, equipamentos e meios informatizados
  • realizar a manutenção do empreendimento, dos produtos e dos serviços
adequando-os às variações da demanda
  • comunicar-se efetivamente com o cliente, expressando-se em idioma de
comum entendimento

  Quanto às competências específicas de cada habilitação, serão definidas pela
escola para completar o currículo, em função do perfil profissional de conclusão
da habilitação.

  A carga horária mínima de cada habilitação da área será de 800 horas.

   Para concluir, apresentaremos um pequeno exercício de futurologia, de auto-
ria de YOSHIMA e OLIVEIRA (2002). Esses autores fizeram uma compilação de


118 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
notas, informações, notícias sobre os vários setores do turismo, publicado em
jornais ou divulgado através da Internet nos últimos dois anos.

  De posse dessa coleta de material os autores se propõem a ordená-lo por
setor, mostrando as tendências previstas para cada área em particular. Dessa
forma foram traçadas as previsões dos seguintes setores: Transportes Aéreos,
Cruzeiros Marítimos, Agenciamento de Viagens, Meios de Hospedagem, Alimen-
tos e Bebidas, Parques de Entretenimento e Empregos na Área de Turismo.

   (Disponível em http://www.abbtur.com.br/CONTEUDO/trabalhos/trabO5.htm)



NOVOS EMPREGOS NA ÁREA DE TURISMO

  • Haverá uma demanda maior por consultores e auditores das ISO 9000 e ISO
14000, assim como para profissionais capazes de implantar outros sistemas de
gestão da qualidade nas empresas;
  • Conhecedores da metodologia HACCP - Hazard Analisys Control Critical Points
serão muito requisitados por hotéis e restaurantes;
  • Produtores de vídeos promocionais terão oportunidade de trabalhos para a
divulgação de destinos e equipamentos;
  • Construtores de web-sites terão uma grande demanda na elaboração de sites
para cidades e empresas turísticas;
  • Editores e jornalistas especializados em turismo para revistas, jornais e su-
plementos de viagens e turismo;
  • As pesquisas em turismo deverão ser muito requisitadas por empresas do
setor em busca de informações fidedignas de demanda;
  • Aumento de oportunidade para empresas de serviços para o atendimento das
necessidades de terceirização de determinados serviços (manutenção, seguran-
ça, recreação);

  • Aumento da demanda por professores e instrutores para a formação de mão-
de-obra especializada para o setor.
  • Globalização do emprego fazendo com que o profissional de Turismo enfren-
te desafios, como o aprendizado de uma terceira língua, facilidade de adaptação
a outras culturais, disponibilidade para troca de sede.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]




                                           Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Ano: 2003
          Publicação original: livro


Formato da contribuição: texto completo
Fonte: Planejamento e gestão em turismo. Trabalhos técnico-científicos
apresentados no Congresso Brasileiros de Turismo 2002, realizado na cidade de
Foz do Iguaçu (PR), de 14 a 18 de maio de 2002. BEZERRA, Deise Maria Fernandes,
(org.) - São Paulo: Roca, 2003.
E-mail do(s) autor(es): lillian@fase-se.edu.br
Títulos acadêmicos principais atuais: Mestre em Desenvolvimento e Meio
Ambiente - Universidade Federal de Sergipe; Especialista em Turismo:
planejamento, gestão e marketing, pela Universidade Católica de Brasília e
Bacharel em Turismo, Universidade Tiradentes.




Política de turismo e desenvolvimento
local: um binômio necessário.
Lillian Maria de Mesquita Alexandre1



  As atividades e os esforços relacionados à gestão sustentável de recursos
naturais, bem como a valorização e preservação da identidade cultural de popu-
lações das localidades, têm se demonstrado como assuntos de excepcional
relevância neste mundo desenvolvimentista e globalizado.

  Na realidade brasileira, é possível perceber que juntamente com as mudanças
provenientes da globalização, o impulso gerado pela atividade turística no país
mostrou que esse setor pode ser estrategicamente utilizado como mitigador
para os problemas da desigualdade social e a falta de emprego, tão presentes em
nosso contexto.

  Ao encontro destas perspectivas e necessidades, observa-se o desenvolvi-
mento dinâmico da atividade turística, dentre o setor catalisador mundial na
geração de empregos e movimentação de recursos, ao mesmo tempo em que
se fortalece como importante aliado na gestão sustentável dos patrimônios
natural e cultural, dependente que é, destes patrimônios, como elementos
formadores do produto turístico e, consequentemente, mantenedores de sua
própria sobrevivência.



                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
A influência desse setor na economia de um determinado local, faz com que
seja gerada uma certa expectativa quanto a sua chegada. Neste momento, é
primordial que sejam avaliados vários fatores, como por exemplo, a situação em
que a localidade encontra-se com relação a sua economia e os impactos gera-
dos no meio ambiente pelo turismo.

  Buscar o desenvolvimento local a partir dessa atividade, é uma estratégia que
deve ser pensada (e por que não dizer, executada) pelos governos estaduais e
municipais, traçando políticas públicas de turismo eficientes.

   Neste contexto, é preciso mostrar que através de políticas precisas e eficien-
tes, deve ocorrer o processo de mudanças em favor do desenvolvimento social
e econômico nacional, mantendo visível a importância na necessidade da con-
servação ambiental, bem como o respeito à cultura e os modos de ser e agir dos
diferentes grupos humanos que fazem parte deste universo. (VIEIRA, 2000)

  Por tanto, é através da consolidação das políticas de turismo numa localida-
de, que o setor passará a ser tratado de forma organizada e dinâmica, onde o
planejamento possa ser coeso, levando-se em consideração, a realidade e as
características próprias de cada região, constituindo desta forma, os fatores
relevantes e imprescindíveis para que seja possível desenvolver a localidade a
partir do turismo.



SOBRE DESENVOLVIMENTO

  Falar sobre desenvolvimento é remeter a vários significados que se direcionam
para o ser, o crescer, o descobrir, enfim, a mudança. É mudar de estágio, é
alcançar uma maturação, pois o termo desenvolvimento é utilizado com várias
concepções, residindo aí, a dificuldade em defini-lo. (VARGAS, 1999)

  Graças a seu caráter fluido e a seus objetivos humanistas, Becker, descreve
o tema desenvolvimento como sendo “uma assimilação da conotação positi-
va, de pré-julgamento favorável: ele seria em si um bem, pois desenvolver-se
seria forçosamente seguir em uma direção ascendente, rumo ao mais e ao
melhor”. (1999, p. 18)

  Mas perceber que o desenvolvimento é um processo natural, que só precisa
ser deixado livre para evoluir, é crescer no entendimento do conceito. É enten-
der que a noção de desenvolvimento não se impõe somente como evidente, mas
também como universal, onde devem ser rompidos, ultrapassados os esquemas
não só econômicos, mas também civilizacionais e culturais, que pretendem fixar
o seu sentido e as suas normas. Nenhum desenvolvimento é adquirido para sem-
pre. (BECKER, 1999, p. 19; CAIDEN; CARAVANTES, 1988, p. 26)


122 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Para alcançar tal estágio, faz-se necessário perceber que o desenvolvimento
é uma finalidade, mas deve deixar de ser uma finalidade-terminus. A finalidade do
desenvolvimento está, ela própria, sujeita a outras finalidades. Viver verdadeira-
mente e melhor. Viver com compreensão, solidariedade e compaixão. Viver sem
ser explorado, insultado e desprezado.

  Benevides menciona que:

               [...] existem vários envolvidos com o processo por meio do qual
               uma sociedade utiliza crescente, cumulativa e auto-
               sustentadamente a sua capacidade produtiva – expressa na sua
               ampla dotação dos fatores de produção – no sentido de canalizar
               essa capacidade para aumentar em quantidade e em qualidade os
               bens e serviços disponíveis, pode ser uma saída, mas ao mesmo
               tempo, não se pode excluir a inter-relação que ele tem com a
               questão ambiental. ( 1996, p. 164)

 Segundo Sachs, “[...] o ambiente é, na realidade, uma dimensão do desenvolvi-
mento, deve, pois, ser internalizado em todos os níveis de decisão” (1986, p. 10)

  A percepção dada por Caiden e Caravantes para desenvolvimento com um
outro olhar sobre o assunto:

               O desenvolvimento nunca será, nem pode ser definido de maneira
               a agradar a todos. Refere-se ele, falando-se em termos gerais, ao
               desejável progresso social e econômico, e as pessoas sempre
               terão opiniões diferentes sobre aquilo que é desejável. É certo
               que desenvolvimento tem que significar a melhoria das condi-
               ções de vida, para qual são essenciais o crescimento econômico
               e a industrialização. Se não se der, porém, atenção à qualidade do
               crescimento e à mudança social, não se poderá falar em desen-
               volvimento [...] (1988, p. 30)



A INFLUÊNCIA DO TURISMO PARA A ECONOMIA

   A atividade turística é um fator importante para qualquer economia local,
regional ou nacional, pois o movimento constante de novas pessoas aumenta o
consumo, incrementa as necessidades de maior produção de bens, serviços e
empregos e, consequentemente, a geração de maiores lucros, que levam o au-
mento de riquezas pela produção da terra, pela utilização dos equipamentos de
hospedagem e transporte, e pelo consumo ou aquisição de objetos diversos, de
alimentação e de prestação dos mais variados serviços.


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Ela é uma grande produtora de riquezas e aparece, em todo o mundo, como um
dos mais importantes segmentos geradores de empregos e postos de trabalho,
uma vez que se coloca entre um dos principais itens geradores de receitas e de
divisas na economia mundial.

  A importância do turismo numa economia depende, basicamente, de suas
pré-condições naturais e econômicas (existência do atrativo turístico, infra-
estrutura urbana, equipamentos turísticos e acessibilidade ao mercado con-
sumidor), das características do município, e em função de suas alternati-
vas, do papel reservado a esse setor em sua estratégia de desenvolvimento
econômico.

  Para o autor Roberto Bustos Cara:

                 Desde diferentes puntos de vista el turismo representa una
                 actividad en expansión no solo en las cifras ligadas a la
                 evaluación económica sino además en relación a los
                 requerimientos propios de la sociedad moderna en plena
                 transformación. (1996, p. 86)

   A percepção de que o turismo é uma ferramenta poderosa para gerar empregos
e renda, deve ser entendido por todos os setores que trabalham com essa ativi-
dade de forma que venham utilizar a localidade conscientemente a fim de pro-
mover sua auto sustentabilidade e gerando dessa forma, um bom relacionamen-
to entre comunidade, governo e meio ambiente.

  O processo de globalização, segundo Rodrigues (1997), unifica os mercados,
definindo subespaços hierarquizados ou não, que vão dos centros às periferias,
determinando relações de dominação e de subordinação – “verticalidades”.

  Carminda Cavaco afirma que, em síntese:

                 [...] o crescimento econômico, identificado com o aumento
                 global de produção e de riqueza, importa o desenvolvimento,
                 que é simultaneamente econômico, social e também
                 territorial, e que envolve processos de mudança estrutural,
                 produção social significativa, redistribuição mais equilibrada
                 da riqueza, melhoria dos rendimentos, das condições de vida
                 das expectativas, sobretudo dos grupos sociais menos favo-
                 recidos. (1996, p. 98)




124 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
A IMPORTÂNCIA DO TURISMO PARA O DESENVOLVIMENTO DA LOCALIDADE

  A interpretação dada por Beni, nos remete a uma visão de que:

               O desenvolvimento do turismo provoca o desenvolvimento
               intersetorial, em função do efeito multiplicador do investimento
               e dos fortes crescimentos da demanda interna e receptiva. É ati-
               vidade excelente para obtenção de melhores resultados no de-
               senvolvimento e planejamento regional ou territorial. Por efeito
               do aumento da oferta turística (alojamentos, estabelecimentos
               de alimentação, indústrias complementares e outros), eleva a
               demanda de emprego, repercutindo na diminuição da mão-de-
               obra subutilizada ou desempregada. (2001, p. 65).

  O turismo, como qualquer outra atividade econômica, deve ter o seu desen-
volvimento racionalmente pré-determinado, para que as necessidades e
potencialidades sejam gerenciadas e se transformem em estratégias que condu-
zam à inserção do patrimônio natural, histórico e cultural no circuito econômi-
co, evidentemente através do uso não predatório dos mesmos.

  Municípios com um grau de desenvolvimento avançado reservam ao turismo
um papel destacado em sua estratégia de desenvolvimento, dado que se consti-
tui, na maioria deles, numa de suas atividades motrizes, interligados com outros
setores importantes, geradores de empregos e de divisas, onde isto gera uma
revitalização e diversificação da economia, capaz de envolver a população
local, valorizando-a de forma a envolvê-la no processo de desenvolvimento
local.

  Roberto Bustos Cara percebe que, do ponto de vista territorial:

               [...] el turismo es gran consumidor de espacios, pero es además
               productor y transformador de primeira magnitud. Es al mismo
               tiempo consumidor de territorio, es decir, utilizador no solo del
               espacio sino de las condiciones sociales que le dan sentido y es
               sobre esse territorio organizado y con sentido que impacta. Es
               una actividad creadora de imágenes y representaciones que
               impregnan no solo a los agentes y la sociedad de que forman
               parte los usuarios (es decir el mercado), sino también a las soci-
               edades receptoras. (1996, p. 86)

  Neste momento, torna-se imprescindível que haja o planejamento dessa ativi-
dade, uma vez que é preciso o conhecimento prévio do meio físico, suas apti-
dões e limitações naturais, dos fenômenos culturais e sociais, dos aspectos
econômicos da região e a análise da inserção do turismo nesse contexto.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
No turismo, o plano de desenvolvimento constitui o instrumento fundamental
na determinação e seleção das prioridades para a evolução harmoniosa da ativi-
dade, determinando suas dimensões ideais, para que, a partir daí, possa-se esti-
mar, regular ou restringir sua evolução.

                 O maior problema na ausência do planejamento em localida-
                 des turísticas reside no seu crescimento descontrolado, que
                 leva à descaracterização e à perda da originalidade das
                 destinações que motiva o fluxo dos turistas, e o empreendi-
                 mento de ações isoladas, esporádicas, eleitoreiras e
                 desvinculadas de uma visão ampla do fenômeno turístico.
                 (RUSCHMANN, 1997, p. 164).

   O desenvolvimento econômico do turismo pode ser viável e constitui o
objetivo da maioria dos planos em nível local, regional e nacional, porém
seus impactos sociais e ambientais são praticamente inevitáveis. Por isso,
torna-se necessário empreender planos de desenvolvimento do turismo
que estabeleçam à capacidade de carga das destinações, considerando o
equilíbrio entre os efeitos econômicos, sociais e culturais e o equilíbrio
dos recursos naturais da atividade.

  Apenas um planejamento de longo prazo determinará medidas quantitativas,
que conduzirão à qualidade ideal do produto turístico, que interessa tanto à
população residente como aos turistas.

                 O desenvolvimento turístico só deve ocorrer como conseqüên-
                 cia de uma política de planejamento cuidadosa, não calcada ape-
                 nas na balança de pagamentos dos países em desenvolvimento
                 ou na relação de custos e benefícios. Ele deve estruturar-se sobre
                 idéias e princípios de bem-estar e da felicidade das pessoas. Os
                 problemas sociais dos países não poderão ser solucionados sem
                 uma economia forte e em crescimento e o turismo pode contri-
                 buir para criá-la. (RUSCHMANN, 1997, p. 164)

  Essa visão, mais responsável e consciente com a própria natureza da atividade
turística, incorpora na relação homem x natureza, turismo x turismo, uma sintonia
necessária para o aproveitamento dessa atividade, tomando o visitante atual
num parceiro para o desenvolvimento turístico da localidade.

  Por isso é que as diversas comunidades buscam explorar o turismo como
forma de melhoria da qualidade de vida de seus integrantes, o que ultrapassa a
simples utilização de bons serviços pelo visitante ou mesmo na simples
economicidade dos efeitos da maior presença de consumidores no destino.




126 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
POLÍTICAS PÚBLICAS DE INTERVENÇÃO NO TURISMO

   A ausência de uma diretriz nacional, segundo Beni (2001) e falta de uma ação
intersetorial entre os órgãos públicos de turismo no Brasil, estão a determinar o
crescimento isolado do setor e a elaboração de planos e programas inapropriados
e desassociados da realidade cultural, política, econômica e social do País.

   Apesar do crescimento do turismo nos últimos anos, é possível observar que o
mesmo se deu em decorrência de programas e iniciativas isoladas do que a uma
atuação coordenada que refletisse claramente seus benefícios socioeconômicos,
culturais e humanos. Por isso, é preciso que as ações sejam congregadas com o
intuito de propor estratégias, com objetivos claros e concisos da esfera do
planejamento global, integrando-o efetivamente às demais atividades produti-
vas da economia.

  Dessa forma, é que poderão definir políticas coerentes e realistas, consideran-
do as condicionantes geoeconômicas e geoestratégicas de localidades, bem
como investigando e contemplando os múltiplos aspectos que compõem o fe-
nômeno turístico.

  Observa-se, ainda, que grandes investimentos em complexos turísticos
construídos pela iniciativa privada, a maioria dos quais estimulados e incentiva-
dos por governos estaduais, não obedecem aos preceitos da política estratégica
de desenvolvimento regional e do planejamento sustentável do turismo.

  Tais empreendimentos não contribuem para a correção dos desníveis eco-
nômicos e sociais da região onde se implantam, não geram emprego e traba-
lho para a população residente no entorno, e permanecem fechados ou in-
sensíveis a uma adaptação de preços e, portanto, de competitividade em
relação à demanda da maioria da população real e potencial do turismo
nacional e até do internacional, a que a maior parte se destina em seus
equipamentos e objetiva conquistar.

  A partir do I Plano Nacional de Desenvolvimento, formulado pela SUDENE
em 1971, é que vão iniciar as ações institucionais voltadas ao turismo e a
percepção da necessidade em se traçarem estratégias políticas setoriais,
como as políticas de turismo, a fim de que haja um desenvolvimento melhor
conduzido. O governo nacional, estadual e municipal assumem, diante dessa
realidade, papel fundamental para minimizar os efeitos causados pelo turis-
mo, definindo planos, programas e ações bem concretos e claros, nos dife-
rentes itens do planejamento, no intuito de conduzir as coletividades a um
nível de capacidade possível de enquadrarem-se às novas condições do mun-
do, sem perda de sua identidade.



                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
CONCLUSÃO

  O turismo no Brasil ainda não é considerado pelo Governo, como atividade
econômica e social de relevância e que tenha participação efetiva no desenvol-
vimento global do País.

  A consolidação de políticas voltadas ao setor, deve ser a manifestação pri-
meira de uma conscientização governamental para a importância do turismo
como instrumento de crescimento econômico, geração de renda e melhoria da
qualidade de vida da população.

  Para Pereira:

                  Nessa perspectiva, são identificadas algumas razões para se pro-
                  duzir políticas públicas de turismo, a partir da necessidade de se
                  estabelecer normas e regras para definição do papel, tanto do
                  Poder Público, quanto dos diversos atores privados relacionados
                  ao setor. A variedade de segmentos, atividades e interesses en-
                  volvidos no turismo e seu vínculo cada vez mais estreito com os
                  recursos naturais, econômicos, culturais e históricos, evidencia
                  de um lado, que a forma do governo tratá-lo deve levar em conta
                  essas fortes interfaces e, por outro, é fundamental que haja maior
                  interação entre as atividades dos diversos grupos e setores da
                  sociedade envolvidos com o turismo. (1999, p. 2)

   Quando se fala na elaboração de políticas públicas no turismo, é inevitável pensar
nos grupos de interesse, nos valores particulares em jogo e no poder de direcionamento
do desenvolvimento da atividade, conforme as forças vão se relacionando ao longo
do tempo. Algumas decisões que afetam a política da atividade turística, a natureza
do envolvimento do governo no setor, a estrutura do departamento de turismo, o
tipo de desenvolvimento do setor e a consciência e participação da comunidade no
planejamento e política da atividade surgem do processo político.

   Para que o turismo se desenvolva de forma coesa em localidades, o arranjo
institucional do setor se apresenta como de suma importância, com todos os
agentes contemplados conforme seu poder de interferência. Apesar disto, não há
uma regra para a criação e manipulação das instituições relacionadas à atividade
turística, variando significativamente entre municípios, regiões e estados. Hall
(2001) entende que “estas diferenças afetam como o conflito político é expresso,
que estratégias individuais e grupos irão tentar influenciar na política, e que peso
os políticos irão atribuir aos interesses sociais e econômicos particulares”.

   O arranjo institucional é um dos elementos fundamentais para uma polí-
tica pública bem sucedida do turismo, pelo seu poder de afetar tanto na


128 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
decisão da implementação das estratégias, quanto no pessoal envolvido no
processo.

  Segundo Cruz:

               Uma política pública de turismo pode ser entendida como um con-
               junto de intenções, diretrizes e estratégias estabelecidas e/ou ações
               deliberadas, no âmbito do poder público, em virtude do objetivo
               geral de alcançar e/ou das continuidades ao pleno desenvolvimen-
               to da atividade turística num dado território. (2000, p. 40)

  Não há uma padronização da estrutura turística oficial (ministério, departa-
mento, comissão, diretoria, conselho, instituto, corporação, entre outras). Cada
país se organiza a partir de sua própria realidade e do grau de importância do
setor para o governo. A estrutura do órgão oficial de turismo varia de acordo
com a forma constitucional de governo. Quando um organismo nacional de
turismo adota a forma de entidade oficial, esta pode ser através de um organis-
mo centralizado ou estatal, criado pelo próprio Estado dentro de sua estrutura
administrativa, podendo ocupar posições e hierarquias na estrutura
organizacional.

  Estes também se organizam sob a forma de organismos descentralizados ou
mistos, constituídos pelo Estado através de lei com personalidade jurídica, auto-
nomia técnica e administrativa, embora mantenham vínculos de subordinação a
um ministério ou secretaria de estado. E ainda através de organismos privados
ou não-governamentais, sem fins lucrativos, na forma de uma associação ou
fundação organizadas em todos os níveis (nacional, regional e local). Estes tipos
de organismos são nitidamente operacionais e executam as políticas de turismo
adotadas pelo Estado através do órgão competente.

  Pereira analisou que:

               A existência de um órgão central de turismo e de organizações
               periféricas em diferentes regiões ou localidades e conselhos ou
               comitês interministeriais, deve servir para que um suplemente e
               ajude o outro e não para que eles se sobreponham. O desenvolvi-
               mento do turismo demanda interfaces com outras políticas re-
               correntes e complementares, tornando-se necessário um intenso
               trabalho de coordenação com outros setores. Portanto, as polí-
               ticas de turismo devem estar coordenadas com as demais políti-
               cas setoriais afins do país. (1999, p. 5).

   Todavia, o poder público pode desestimular a iniciativa privada ao criar ins-
trumentos legais sem captar a fundo a essência da atividade turística. Estes

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
instrumentos, face à sua multiplicidade, podem criar dificuldades operacionais
para as empresas que atuam no turismo. Sendo um setor novo e dinâmico, o
turismo precisa ser constantemente analisado e avaliado para reformulação de
suas políticas públicas.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]


NOTAS

1
 Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Pós-graduada em Turismo: Planejamento, gestão e MKT. Co-
 ordenadora do Curso de Turismo e Professora da Faculdade de Sergipe




130 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2003
          Publicação original: anais eletrônicos


Formato da contribuição: texto completo
Fonte: “Hotéis de selva no Amazonas: ecodesign, meio ambiente e
sustentabilidade. Paraná: VII ENTBL, 2003.
E-mail do(s) autor(es): luindia@vixax.com.br; luindia@uol.com.br
Títulos acadêmicos principais atuais: Luíndia Azevedo - Doutora em Ciências
Sócio-ambiental- NAEA/UFPA; e Luiza Elayne - Jornalista, docente do DECOM-
Universidade Federal do Amazonas-Ufam




Hotéis de selva no amazonas:
Ecodesign, meio ambiente e
sustentabilidade?
Luiza Elayne Luíndia Azevedo


  Os hotéis de selva ou lodges no Amazonas, aproximadamente em número de
40 e com sua maioria localizada cerca da Estação Ecológica de Anavilhanas e da
cidade de Manaus são um meio de alojamento alternativo, principalmente, para
estrangeiros. Estes empreendimentos mesmo com um alto custo de instalação,
têm se relevado rentáveis, existindo uma demanda considerável para produto
“confortável e ambientalmente correto”. Tal perspectiva tem aumentado subs-
tancialmente a oferta, iniciada em 1979, com a construção do Amazon Lodge e,
recentemente do Tiwá, localizado na margem direita do rio Negro.

  O presente artigo corresponde a uma versão revisada de trabalho publicado
com o mesmo título no VIII Encontro Nacional de Turismo com Base Local-
ENTBL, Paraná, 2004. Anais eletrônicos: www.entbl.tur.brgt05turismomeio
ambienteesustentabilidade.

  A Lei Federal no 6.505, de 13 de dezembro de 1977 regulamentou os tipos de Meio
de Hospedagem de Turismo Ambiental e Ecológico (Lodges) e, de acordo com o
Conselho Nacional de Turismo, que seis anos depois emitiu o presente Regulamento
e a Matriz de Classificação desse tipo de hospedagem, especifica a saber:

  Art. 2 – Considerando-se Meios de Hospedagem Ambiental e Ecológico (Lodges)
os empreendimentos que atendam cumulativamente às seguintes condições:

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
I – estejam localizados em áreas de selva densa ou de outras belezas naturais
preservadas;

  II – estejam totalmente integrados à paisagem local, sem qualquer interferên-
cia ao meio ambiente;

     III – situem-se em regiões distantes de centros urbanos, com ausência ou
dificuldades de acesso regular e de serviços públicos básicos;

  IV – ofereçam aos usuários instalações, equipamentos e serviços simplifica-
dos, próprios ou contratados, destinados ao transporte para o local, hospeda-
gem, alimentação e programas voltados à integração com o meio ambiente e o
seu aproveitamento turístico.

  Ainda, segundo o regulamento dos meios de Hospedagem de turismo da deli-
beração Normativa nÚ 364, de 6 de agosto de 1996, da Embratur, deve também
“facilitar a circulação de portadores de deficiência, prezar pela saúde e higiene
do ambiente, garantir a iluminação natural e ventilação adequada, ter um sistema
de abastecimento, tratamento e filtragem de água, além do tratamento de resí-
duos e outras exigências.”

   Em termos de legislação, o Brasil se encontra entre os mais avançados países
do mundo ao criarem a maior jurisprudência para controle e preservação dos
recursos naturais. Entretanto, as leis criadas não foram acompanhadas de meca-
nismos eficientes para garantirem meio ambiente saudável. Portanto, a lei sobre
os Meios de Hospedagem de Turismo Ambiental e Ecológico não assegura proje-
tos dedicados à conservação e proteção do meio ambiente, visto os exemplos
desenvolvidos no Brasil. Estas experiências localizadas em zonas costeiras, flu-
viais, urbanas e áreas situadas ou próximas de Unidades de Conservação reivin-
dicam a condição de ecoturísticas.

  Em relação aos aspectos ecológicos, a maioria das experiências não dispõe de
tecnologias limpas apropriadas para o tratamento do lixo e esgoto e geração de
energia e, muitos deles, rompem com a arquitetura regional. O artigo avalia os
hotéis de selva do Amazonas dentro das perspectivas de ecodesign, respeito ao
meio ambiente e promoção de sustentabilidade. Propõe-se a verificar se os
hotéis funcionam com base no tripé: 1 veículos de aprendizado e compreensão
para os ecoturistas; 2 fomento à geração de empregos; 3 contribuição na melhoria
de qualidade de vida das populações residentes. A pesquisa foi estruturada a
partir de revisão bibliográfica, visitas, observação participante e entrevistas
com os gerentes e turistas.




132 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
HOTÉIS DE SELVA (LODGES) E MERCADO

  Os hotéis de selva ou lodges, palavra de origem inglesa, têm como significado
“casa do guarda”, denominação dada aos pequenos alojamentos para fornecer
abrigo a número reduzido de turistas nos parques nacionais do Kenia.

  Atualmente, segundo Peréz de las Heras (1998), esses lodges têm passado a se
chamar ecolodges, término de todos os alojamentos dedicados especificamente
ao ecoturismo. Desde os primeiros lodges construídos pelos colonizadores in-
gleses, tendo como base a arquitetura das cabanas dos nativos, até os dias de
hoje, a gama de alojamentos para ecoturismo tem se ampliado de tal forma, que
se torna impossível falar de características de ecolodge em geral. Contudo, tais
alojamentos têm evoluído para desde hotéis de cinco estrelas, a exemplo dos
ecoresort à beira mar, localizados no Brasil (Bahia), Costa Rica e Belize, a acam-
pamentos com tendas e cabanas no Peru, Equador e Brasil, especificamente no
Amazonas e no Pantanal.

   No geral os lodges são confortáveis, construídos em madeira e palha, ofere-
cendo passeios etnobotânicos, visitas às comunidades, observação de aves e
animais, fotografias, pesca e venda de artesanato. Os serviços cobrem habita-
ções com banheiro privado, uso de eletroeletrônicos, bebidas geladas, cozi-
nha de padrão internacional, botes equipados com motores de alta potência,
traslado desde o aeroporto, guias bilíngües e, até heliportos (Ariau Towers-
Am). No Amazonas, os hotéis de selva são na maioria de madeira e teto de
palha, localizados em ambientes isolados, com atrativos e roteiros similares
aos demais, porém, tendo como diferencial, a observação do singular “encon-
tro das águas” formado pelos rios Negro e Solimões. O preço dos pacotes varia
entre USD$ 180/USD$ 480 (2d/1n, solteiro), com transporte, acomodações e
alimentação, exceto bebidas.

   Tanto no Brasil como no exterior, os hotéis de selva atendem a um segmento
de mercado muito próspero. Na ótica da WWF o referido nicho de mercado
corresponde ao perfil de pessoas interessadas em viagens na natureza em ambi-
entes frágeis. Esse tipo de turista, geralmente, gasta mais do que o turista padrão,
embora esse gasto adicional seja em áreas com alta evasão de recursos, a
exemplo de Belize.

  Conforme Sorensen (apud Mc Kercher, 2002) os turistas deste mercado são
independentes, experientes, têm alto poder aquisitivo, viajam sozinhos ou em
dupla e a maioria é do sexo feminino. Em grande parte, são motivados por
aventuras e/ou algo novo no mercado. Estima-se o crescimento deste mercado
entre 10% a 30% ano no mundo. No Brasil, pesquisas da Fundação Getúlio Vargas
(FGV) estipulam o crescimento de 6% ao ano. Ressalta-se, contudo, a dificuldade
de saber com exatidão a grandeza desse mercado.


                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Em relação ao perfil destes consumidores, se destacam dois tipos: o soft
(apreciadores da natureza, sem muito esforço físico) e o hard (profissionais
especializados, apreciadores de esforços físicos). Grande parte dos lodges aten-
de ao perfil soft, consumidores interessados em um ambiente privado, com rela-
tivo conforto e certa acessibilidade, mas rodeado de “verde” e de animais.



FLUXO

  Nos anos 90 houve um crescimento do número de turistas de natureza. Confor-
me Epler-Wood (2002) as taxas de visitação para destinos baseados na natureza
de 1990 a 1999 cresceram significativamente na África do Sul (486%), Costa Rica
(136%), Indonésia (116%), Belize (78%) e Equador (41%).

   Para a América Latina, a atividade se reveste de extrema importância para os
esforços nacionais de promoção do desenvolvimento econômico e social. No Brasil,
o adequado aproveitamento dos variados ecossistemas existentes, ainda pouco
explorados, propiciará a abertura de novas alternativas econômicas e a conseqüen-
te melhoria das condições de vida das populações diretamente envolvidas, além de
reduzir alguns impactos negativos causados pelo turismo tradicional, devido ao
perfil e às expectativas dos visitantes que normalmente viajam em pequenos grupos
em comparação com o turismo de massa (EMBRATUR/IBAMA, 1994).

   De acordo com a WWF (2003), para americanos e canadenses, o Brasil era, em
1998, o terceiro destino de preferência, segundo dados sobre turismo na América
Latina, e suas principais fontes de pesquisa para o planejamento da viagem foram
informações prestadas por amigos (60%), agências de viagem (57%), Internet (47%)
guias turísticos (36%). Conforme a Embratur (2000) são as Unidades de Conserva-
ção os primeiros destinos ecoturísticos procurado pelos fluxos internacionais. A
taxa de visitação do país de 2001 foi de 4 milhões turistas, em 2002, um pouco mais
de 3milhões visitantes. Em 2003, aproximadamente 4,1milhões de turistas estran-
geiros, um aumento de 8,52% em relação a 2002. (ANUÁRIOS: 2001, 2002, 2003).

   Apesar do otimismo, segundo a WWF recentemente, o Brasil tem recebido
poucos estrangeiros, principalmente, norte-americanos e canadenses, em virtu-
de, do marketing de visibilidade desenvolvido por empresas privadas e governa-
mentais em torno de Costa Rica.



AMAZÔNIA E POLÍTICAS PÚBLICAS

  Na Amazônia, a partir de 1997 foi instituída oficialmente a Política de Ecoturismo
da Amazônia, responsável pelo delineamento dos primeiro passos à implantação
do Programa de Desenvolvimento do Ecoturismo da Amazônia Legal (PROECOTUR),


134 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
tendo como estados beneficiários Amazonas, Pará, Amapá, Roraima, Acre,
Rondônia, Mato Grosso, Maranhão e Tocantins. Seu objetivo é transformar os
recursos naturais da Amazônia em produto de forma a garantir-lhe desenvolvi-
mento sustentável, criar condições para o setor privado investir com segurança
e formatar produtos e roteiros competitivos internacionalmente.

  A coordenação do programa explica que a Amazônia, ainda não é um produto
turístico acabado, porque as infra-estruturas das regiões são desproporcionais
aos potenciais turísticos. O programa quer atrair a classe empresarial e também
melhorar a qualidade de vida da população local. O Amazonas foi o primeiro
estado a dispor de hotéis de selva, possui inúmeras ilhas, várias unidades de
conservação e conta com uma sociobiodiversidade bastante promissora e atra-
ente para incrementar o fluxo de turistas. Para a Embratur, órgãos e empresas de
turismos, o Mato Grosso do Sul e o Amazonas são considerados ecodestinos
com vastíssimo potencial hoteleiro dentro da perspectiva de biodiversidade e
hotéis de selva.

   Ressalta-se que os modelos de desenvolvimento regional preconizados pelo
Plano de Desenvolvimento da Amazônia-PDA (1992-1995), Plano de Turismo da
Amazônia SUDAM/PNUD (1992) e pelo PROECOTOUR (1997) apresentam o turis-
mo ecológico como sendo a atividade que naturalmente se presta à efetivação
do processo de desenvolvimento da Amazônia. A partir destas visões, o turismo
ecológico é vendido como uma atividade que não causaria graves conflitos
sociais e ambientais provocados pelas atividades econômicas, anteriormente,
incentivadas na região.

   Contudo, a maioria das experiências na Amazônia e, especificamente no Ama-
zonas, não possuem características de sustentabilidade econômica, ambiental e
sociocultural para os ecossistemas e populações locais. Destacam-se três pro-
jetos: Pousada Aldeia dos Lagos (Silves- AM), Mamirauá (Tefé - AM) e Guaporé
(Costa Marques -RO).



O AMAZONAS, ECOTURISMO E AUSÊNCIA DE POLÍTICAS REGIONAIS

   Em 1996, através do Ministério do Meio Ambiente, o Amazonas recebeu o
título como Estado de Referência para o Ecoturismo. Desde 1996 até hoje, o
estado não possui um Plano Estratégico visando a estabelecer Diagnósticos,
Ações, Programas e Regulamentações destinados ao desenvolvimento de práti-
cas mais sustentáveis dos hotéis de selva da região. O Plano deve ser voltado à
formação e capacitação, não só do setor público, mas principalmente, do setor
privado (proprietários dos hotéis de selva) para uma necessária mudança dos
índices de desempenho através de processos de certificação e da significativa
melhoria dos padrões de atendimento e qualidade dos produtos ecológicos já
existentes e dos futuros.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Assim, este processo implica em mecanismos de certificação, fiscalização,
estratégias de marketing, oferta de produtos e serviços qualificados e diferenci-
ais, preservação dos ambientes e capacitação e melhoria na qualidade de vida
dos locais.

  Na ausência deste plano, os hotéis de selva vêm apresentando diminuição
considerável de visitantes. Indicadores da Empresa Estadual de Turismo
(Amazonastur) apresentam os seguintes dados: em 2001, 36.635; em 2002, 25.413;
em 2003, 16.452; em 2004, 17.872. Apesar do relativo crescimento em 2004 em
relação ao ano anterior, percebe-se um decréscimo significativo no fluxo.

  Conforme os especialistas os maiores empecilhos para a expansão dessa ati-
vidade tanto no Amazonas quanto no Mato Grosso do Sul são os custos das
passagens aéreas, a ausência de vôos diretos, custos estes nem sempre propor-
cionais à qualidade e ao conforto dos equipamentos e serviços.



ECODESING x HOTÉIS DE SELVA

  Andersen (1990) em relação às instalações adequadas ao ecoturismo faz uma
comparação da instalação ecoturística com “janelas para o mundo natural”.
Dentro desta perspectiva, acrescenta ser necessária certa “sensibilidade” dos
responsáveis como arquitetos, construtores e gestores objetivando conseguir
instalações compatíveis com os frágeis limites da natureza. Declara, ainda, (id.:
202) serem necessários códigos de ética ambiental e de critérios gerais para
projetos em ecoturismo, pois estes são passos positivos para garantir que essa
sensibilização esteja de fato, presente.

  Endossamos a proposta acima e a utilizamos para fazer um paralelo entre
alojamentos com baixo impacto ecológico e a dimensão de ecodesign, entendi-
da, a partir da concepção de Fiksel (1996) ao salientar que o projeto deve ter
espeito aos objetivos ambientais, de saúde e segurança, ao longo de todo ciclo
de vida de um produto ou processo, tornando-os ecoeficientes.

  Segundo Fiksel (1996) o ecodesign possui duas vertentes: a ecoeficiência e a
ecocidadania. A ecoeficiência objetiva promover um sentido de melhoria eco-
nômica das empresas ao eliminarem resíduos e ao usar os recursos de forma
mais coerente. As empresas ecoeficientes reduzem custos, mais competitivas,
obtêm vantagens em novos mercados, utiliza tecnologias limpas e segue con-
ceito do “ciclo de vida” do produto de maneira ecologicamente correta do
nascimento ao descarte.

  A segunda vertente, a ecocidadania diz respeito ao uso do design de objetos n
na utilização de resíduos ou materiais recicláveis ou de exploração sustentável,


136 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
para compor peças com identidade regional. O ecodesign significa uma mudança
de mentalidade, representando desse modo, a materialização de uma estratégia
de início de processo. Portanto, concebe-se um produto não somente como um
conjunto de elementos tangíveis, mas também com um agregado de serviços que
ajudarão ao consumidor na satisfação de suas necessidades e desejos.

  Verificamos que ecoeficiência e a ecocidadania estão interligadas aos princí-
pios do ecoturismo, pois ambos visam proporcionar o envolvimento das comu-
nidades e melhoria da qualidade de vida local, reduzindo os impactos ambientais.
O ecodesign quando aplicado às instalações ecoturísticas pode contribuir muito
para criar um cenário propício e favorável aos objetivos de conservação e
geração de qualidade de vida tanto para o turista quanto para o residente.



CRITÉRIOS PARA ESTABELECER ECOEFICIÊNCIA E ECOCIDADANIA

   1 Uso de zoneamento econômico ecológico: aplicação de modelos planeja-
mento e gestão de localidades; de controle de visitação; zoneamento de contro-
le das áreas naturais; limites no acesso a determinadas áreas no período de
reprodução das espécies; distância mínima à observação de animais; capacidade
de carga com instalação de pontos de acesso e recepções para o controle do
número de visitantes. Deve, também, induzir a construção de instalações com
caminhos sinalizados e uso de passarelas;

   2 Instalações de alojamentos adequados à localidade: a arquitetura seguirá a
realidade regional, utilizará materiais e mão-de-obra locais. Uso de madeira
local e/ou de madeira certificada, pesquisa de ocorrência de enchentes, as con-
dições climáticas, das condições adequadas de solo e sua capacidade de supor-
tar edificações. Criação de passarelas para visitantes que reduzam os impactos
físicos, além de torres e postos de observação de animais;

  3 Usos de técnicas de gestão de consumo de água e produção de esgotos
adequados ao meio ambiente: os filtros podem ser sistemas alternativos para
reduzir o escoamento de sedimentos e entulhos. As fontes potenciais de som ou
mau odor devem ser examinados; deve-se utilizar reciclagem e reutilização de
toalhas e lençóis para reduzir o consumo de água, sabão e energia.

  4 Usos de formas renováveis de energia: utilização de formas renováveis de
energias (solar, bio e hídrica) e aplicação de instrumentos de contenção de
energia. A iluminação externa do local deve ser limitada e controlada a fim de se
evitar interferência nos ritmos dos animais;

  5 Desenvolvimentos de sistemas de transporte mais ecológicos: os transpor-
tes devem respeitar os ambientes, proporcionar soluções alternativas para a

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
redução de emissão de gases e de ruídos; estimulação do uso de transporte
público e a construção de ciclovias e passarelas;

   6 Utilização de trilhas e caminhos existentes a prática de trekking: a constru-
ção de trilhas deverá considerar a excessiva destruição da vegetação, incluir
curvas para torná-las mais atrativas, com extensão regular e com construção
circular, para que os turistas regressem ao ponto de partida por outra área e não
passem duas vezes pelo mesmo sítio;

  7 Envolvimento das comunidades locais: o nível de participação/gerenciamento
as comunidades deve acompanhar tanto a fase de planejamento quanto de ges-
tão. Para tal, o conhecimento das necessidades e dos interesses dos moradores
vai favorecer um melhor desempenho compartilhado.



CONCLUSÕES

   A arquitetura, em geral, rompe com a ecologia e opta por recintos fechados à
paisagem e pelo uso de mobílias industrializadas. Geradores barulhentos movi-
mentam os eletroeletrônicos e a iluminação noturna. O desmatamento da mata
ciliar no entorno, o assoreamento e poluição de rios através de refugos demons-
tram a ausência de tratamento adequado aos detritos.

  Uma minoria dos hotéis segue o formato redondo, de madeira e cobertura de
palha, como as malocas dos indígenas. A maioria utiliza o formato quadrado, de
madeira e telha de amianto. Poucos utilizam passarelas elevadas. As madeiras
utilizadas não têm selo verde, com exceção da Pousada Aldeia dos Lagos. Raros
mantiveram áreas vegetais adjacentes e edificações esparsas para facilitar o
acesso e a passagem de animais. As dimensões ultrapassam 20 habitações. Os
banhos não foram colocados longe das cabanas para se assegurar que as águas
servidas não entrem nos rios ou quebradas.

   As comunidades já habitavam as localidades e, raramente, envolvida, o único
auxilio é na venda de artesanato. Com a exploração do turismo iniciada após
construção de hotéis de selva, alguns comunitários passaram a se dedicar mais à
fabricação de artesanato para serem comercializados aos turistas. Apesar da
introdução de uma nova fonte de renda não houve mudanças significativas na
melhoria da qualidade de vida da população em relação ao acesso à educação,
à saúde, à capacitação e à cidadania.

  Dos hotéis pesquisados, a Pousada Ecológica Aldeia dos Lagos, em Silves
destaca-se pelo viés da sustentabilidade. Na maioria, constatou-se: arquitetura
nociva à ecologia, ausência de infraestrutura adequada, não-oferta de serviços
de qualidade, mínima capacitação de recursos humanos, alto custo dos pacotes,


138 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
roteiros ‘iguais’, pouca divulgação, subempregos para os locais, ausência de
zoneamento econômico ecológico e de um estudo dos impactos socioculturais,
falta de tratamento dos detritos e não efetiva participação das populações.
Esses elementos reforçam a noção de que a natureza é mercantilizada, apenas,
como um “meio” que dá oportunidade de uma minoria ter uma relativa experiên-
cia com as culturas e povos diferentes, sem que o referido processo traga efeti-
vamente benefícios para as populações receptoras.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]




                                           Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Ano: 2003
          Publicação original: anais


Formato da contribuição: artigo
Fonte: Ecoturismo: Do natural ao Cultural (e vice-versa). In: ENCONTRO NACIONAL
DE RECREAÇÃO E LAZER, 2003, Santo André - SP. Anais do XV Encontro Nacional
de Recreação e Lazer. Santo André: SESC, 2003.
E-mail do(s) autor(es): rogeriosantosp@pop.com.br; srsilva@ufv.br
Títulos acadêmicos principais atuais: Rogério Santos Pereira - Acadêmico de
Educação Física da UFV. Membro do Grupo de Pesquisa Ensino, Corpo e
Sociedade. Bolsista PIBIC/CNPQ
Silvio Ricardo da Silva - Professor Doutor do Departamento de Educação Física
da UFV. Membro do Grupo de Pesquisa Ensino, Corpo e Sociedade e do GPL/
FACEF/UNIMEP
Samuel Gonçalves Pinto - Acadêmico de Educação Física da UFV. Membro do
Grupo de Pesquisa Ensino, Corpo e Sociedade. Bolsista PIBIC/CNPQ
Eliane de Souza Resende - Acadêmica de Educação Física da UFV




Ecoturismo: do natural
ao cultural (e vice-versa)
Rogério Santos Pereira,
Silvio Ricardo da Silva
Samuel Gonçalves Pinto
Eliane de Souza Resende


  O meio ambiente, como algo significativo, se faz no contato do ser hu-
mano com a natureza. Esse contato pode beneficiar todos aqueles que
estão inseridos nesse processo (turistas, população receptora, profissio-
nais da área, natureza). Aproximar o ser humano com o natural são oportu-
nidades valiosas para uma experiência com possibilidades educacionais
que se mostre associada a princípios do desenvolvimento sustentável. Ao
mesmo tempo em que a conscientização das pessoas para as questões
ambientais torna-se indispensável para um reequilíbrio ecológico, os espa-
ços ligados à natureza oferecem amplas possibilidades para a vivência do
lazer e para a sustentação econômica de diversas regiões fundamentada
em princípios do desenvolvimento sustentável.




                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
A NATUREZA É CULTURAL

  As relações do ser humano com a natureza, dentro do contexto da sociedade
urbana atual, são permeadas por uma troca. Ao mesmo tempo em que a
conscientização das pessoas para as questões ambientais torna-se indispensá-
vel para um reequilíbrio ecológico, os espaços ligados à natureza oferecem
amplas possibilidades para a vivência do lazer e para a sustentação econômica
de diversas regiões.

  Entender as possibilidades que uma atividade ligada à natureza pode englobar
necessita de uma breve reflexão sobre questões que envolvem o lazer, o turismo
e o meio ambiente. È importante ressaltar que esses pontos para reflexão não se
apresentam dissociados e estanques. Pelo contrário: interagem, dialogam concei-
tos e objetivos, enriquecem a atividade com uma visão crítica a respeito do ser
humano e sua relação com o mundo que o cerca e que é transformado por ele.

   Villaverde (2002) associa a experiência do lazer à vivência, produção e
reelaboração de cultura, num espaço-tempo conquistado pelos sujeitos às im-
posições da vida no mundo, visando a humanidade mais plena, especialmente em
suas expressões de liberdade e ludicidade. Assim, o lazer afasta-se do senso
comum que o incorpora como mero descanso ou divertimento e apresenta pos-
sibilidades de fruição, crítica e transformação da realidade.

  As atividades turísticas, marcadas pela quebra da rotina temporal e espacial,
pela busca de novas paisagens, de novas pessoas e costumes (MARCELLINO,
2000), relacionam-se diretamente com o lazer:

                 É neste sentido que considero possível entender o lazer, universo
                 no qual se inclui a atividade turística, como campo de experiênci-
                 as humanas privilegiadas junto aos processos de constituição de
                 subjetividades, já que (...) oferece uma rica possibilidade de exer-
                 citar e intensificar uma relação renovada consigo próprio, com a
                 cultura e com a alteridade, aí incluídos os outros seres humanos
                 e os demais seres e elementos do planeta. (VILLAVERDE, 2002)

                 Pensar em turismo não permite uma visão reducionista ligada
                 somente à busca por conhecer novos lugares e paisagens. Por
                 outro lado, o turismo também não pode ser visto e valorizado
                 apenas pelo retorno financeiro que ele pode gerar às regiões que
                 se tornam pontos turísticos. Assim,

                 A atividade turística, entendida não somente como atividade eco-
                 nômica, mas como prática social complexa e multifacetada, im-
                 plica essencialmente o deslocamento de pessoas e a relação des-


142 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
sas pessoas entre si, com a comunidade e com o lugar visitado.
                Neste sentido, em meio a todos os fluxos de serviços inerentes à
                atividade turística (viagens, transportes, hospedagem,
                gastronomia, publicidade, etc.), não podemos desconsiderar a
                dimensão das relações humanas com as quais se constitui o fazer
                turístico. (VILLAVERDE, 2002)

   A relação do ser humano com o meio ambiente é marcada pela pouca valorização
ao mundo natural. No entanto, apresenta-se como um agravante a idéia de que o
espaço natural a ser visitado é inato, virgem, intocado. O meio ambiente, como algo
significativo, se faz no contato do ser humano com a natureza, com as pessoas, com
a cultura e costumes, com conhecimentos sobre a região, fauna, flora, relevo, histó-
ria, população. Um contato com a natureza é travado despertando sentimentos e
exercitando todos os sentidos. Para BONTEMPO (s.d.), ver e compreender a natureza
como o resultado de inúmeras relações de causa e efeito pode contribuir para uma
religação, um novo despertar para a valorização do todo:

                As relações no lazer dos homens com eles próprios e com a
                natureza, também precisam de olhares sensíveis, pois, são nos
                momentos de aventura, de desafios que os homens demonstram
                as suas intenções, solidárias ou não. E nesse momento de desgas-
                te da natureza ela precisa de sensibilidade para o seu reequilíbrio
                ecológico a partir da ecologia humana que se dá pela solidarieda-
                de. (BEZERRA, 2002)

  Excursões que aproximam o ser humano com o natural são oportunidades
valiosas para uma abordagem, inclusive com possibilidades educacionais, que
inclua esses valores. Para RIBEIRO (1997, p. 36), a ruptura do cotidiano, o
descotidianizar, permite, em maior ou menor grau, sair da reprodução massiva,
ossificada nas rotinas obrigatórias e previsíveis, tornando-se tanto um ângulo
potencialmente revelador de aspectos desconhecidos da realidade quanto uma
posição diferenciadora dos indivíduos. O ecoturismo é motivado pelo desejo de
ver ecossistemas em seu estado natural, sua vida selvagem, assim como sua
população nativa, sua cultura:

                O ecoturismo, ou turismo ecológico, é a modalidade de turismo
                mais falada dos últimos tempos. Consiste em promover viagens
                por áreas naturais não degradadas ou não poluídas, com o obje-
                tivo específico de estudar, admirar e desfrutar da paisagem e de
                suas plantas, admirar a beleza da fauna e também as manifesta-
                ções culturais – passadas e presentes – encontradas nessas áreas.
                (FARAH NETO, SILVA e CAPELLA, 2000)

  O Brasil apresenta amplas possibilidades para a ampliação do ecoturismo como
uma atividade atrativa e economicamente viável. Para FUCKS (2002), as

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
especificidades regionais e locais que caracterizam o vasto território brasileiro
- relacionadas aos aspectos geográficos, climáticos, étnicos e sócio-culturais
(arquitetura, gastronomia, folclore, religião) do lugar onde a atividade turística
se desenvolve - são recursos que podem ser empregados como importantes
componentes da oferta turística, na formatação de um produto turístico rural de
qualidade e de características singulares.

   Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente1 o ecoturismo já representa
5% do turismo mundial. Provavelmente alcançará 10% nesta década que se inicia.
Para a Organização Mundial do Turismo, enquanto o turismo convencional re-
gistra um crescimento de 7,5% ao ano, o ecoturismo ultrapassa 20%. Quando
falamos no desenvolvimento do turismo e obviamente estamos falando em ações
planejadas, devemos levar em conta critérios de sustentabilidade que atendam a
anseios e demandas Esta sustentabilidade depende de como a atividade é plane-
jada e executada, considerando os aspectos do meio ambiente da área visitada,
sua economia e os fatores sociais.



ECOTURISMO SUSTENTÁVEL

  O conceito de desenvolvimento sustentado2 tem três vertentes principais:
crescimento econômico, eqüidade social e equilíbrio ecológico, induzindo um
“espírito de responsabilidade comum” como processo de mudança no qual a
exploração de recursos materiais, os investimentos financeiros e as rotas de
desenvolvimento tecnológico deverão adquirir sentido harmonioso. Significa
uma experiência ou prática bem sucedida, que tem como pressuposto o uso
adequado dos recursos ambientais, de tal modo e em ritmos tais que o recurso
seja capaz de se recuperar, que a prática resulte em benefícios sociais com
equidade e seja economicamente viável, resultando numa melhor qualidade de
vida para as gerações presentes e futuras.

   PIGRAN, citado por UVINHA (2002), ressalta a sustentabilidade como uma pos-
sibilidade real a partir da implantação do turismo:

                 O turismo está assumindo um crescente e promissor lugar na
                 economia global e, com isto, a expectativa é de que o estabele-
                 cimento do mesmo será desenvolvido e administrado visando o
                 mais alto grau da excelência ambiental. Assim, o turismo não
                 deveria ser visto como uma ameaça para o ambiente, mas sim um
                 instrumento de positiva mudança ambiental. A busca de formas
                 sustentáveis de turismo pode servir como um poderoso incentivo
                 visando proteção e intensificação da base de reservas biofísicas
                 de uma região, junto a um maior cuidado e preocupação para a
                 cultura e patrimônio da localidade”



144 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Os benefícios que o ecoturismo possibilita não estão restritos somente aos
turistas que, inserindo tal atividade no seu tempo de lazer, vivenciam a quebra
temporal e espacial da suas rotinas. Pensar em um ecoturismo sustentável insere
atores até então esquecidos nesta cena: a população receptora, que tem no
turismo uma das soluções econômicas para a região em que vive:

                As atividades de turismo e lazer no meio rural têm assumindo
                destacado papel junto à sociedade, pois surgem como uma alter-
                nativa ou meio através do qual podem ser gerados benefícios
                tanto à população urbana (visitantes e turistas) - que pode vivenciar
                experiências autênticas em contato com a natureza e os valores
                histórico-culturais do meio rural - como à população receptora
                (comunidade, família empreendedora) que, ocupando-se da pres-
                tação de serviços turísticos (hospedagem, alimentação e lazer),
                pode adquirir condições (renda, auto-estima, ocupação/traba-
                lho, cultura/conhecimento) para melhorar sua situação de vida
                no campo.

  O ecoturismo, dentro da sua característica de manter em contato os seres
humanos com o meio ambiente e com outras culturas, aproxima-se do conceito
de desenvolvimento sustentável. Encontrar o equilíbrio entre os interesses eco-
nômicos que o turismo estimula e um desenvolvimento da atividade que preserve
o meio ambiente não é tarefa fácil, principalmente porque seu controle depende
de critérios e valores subjetivos e de uma política ambiental e turística adequada.
Para GOULART3 (2003),

                O desenvolvimento sustentável do turismo deve considerar a ges-
                tão de todos os ambientes, os recursos e as comunidades
                receptoras, de modo a atender às necessidades econômicas, so-
                ciais, vivenciais e estéticas, enquanto a integridade cultural, os
                processos ecológicos essenciais e a diversidade biológica dos
                meios humano e ambiental são mantidos através dos tempos.

  A concretização e realização do ecoturismo sustentável deve ter como um
dos eixos a Educação Ambiental, buscando assim contribuir para a formação de
cidadãos conscientes e aptos a atuarem na construção de um modelo ecologi-
camente equilibrado. As atividades devem ser acompanhadas de uma educação
baseada no (re)conhecimento e desejo de preservação dos espaços com os
quais se interagiu durante a atividade ecoturística.

  Acreditamos, com vista no referencial levantado, se possível realizar uma
atividade ecoturística que possa contribuir para a construção de uma realidade
mais harmoniosa. Para isso, a atenção deve estar centrada para o estabeleci-
mento de uma educação ambiental que aborde aspectos primordiais relaciona-


                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
dos ao desenvolvimento e ao meio ambiente, tais como população, saúde, paz,
direitos humanos, democracia, fome, degradação da flora e fauna, estimulando
a solidariedade, a igualdade e o respeito aos direitos humanos, valendo-se de
estratégias democráticas e da interação entre as culturas4. Dessa forma, enten-
demos que a educação ambiental deve tratar as questões globais críticas, suas
causas e inter-relações em uma perspectiva sistêmica, em seu contexto social e
histórico.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]




NOTAS

5
    Informações obtidas no site do MMA: www.mma.org.br
2
    Em 1983, a Assembléia das Nações Unidas encomendou um relatório à comissão Mundial sobre Meio Ambiente
    e Desenvolvimento. O relatório desta comissão, publicado em abril de 1987 e posteriormente denominado
    “Nosso Futuro Comum”, vem difundindo o conceito de desenvolvimento sustentado.
3
    GOULART, Ézio Dornela. Ecoturismo e Desenvolvimento Sustentável (www.ecoviagem.com.br/ecoartigos)
4
    A Educação Ambiental é caracterizada aqui tendo como referência os Princípios da Educação para Sociedades
    Sustentáveis e Responsabilidade Global (www.mma.gov.br/port/sdi/ea/tratea.cfm)




146 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2003
          Publicação original: capítulo de livro


Formato da contribuição: texto resumido
Fonte: Livro intitulado “Turismo, Lazer e Natureza”, organizado por Alcyane
Marinho e Heloisa Turini Bruhns, publicado pela Editora Manole (Barueri - SP)
em 2003.
E-mail do(s) autor(es): sandovalvillaverde@hotmail.com
Títulos acadêmicos principais atuais: Mestre e Doutor em Educação Física/Estudos
do Lazer (UNICAMP), docente da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte
e membro do GTT Recreação/Lazer do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte.




Refletindo sobre lazer/turismo na
natureza, ética e relações de amizade
Sandoval Villaverde Monteiro



  Minha intenção neste escrito é partilhar algumas idéias sobre os temas indica-
dos em seu título. Busco desenvolver aqui algumas reflexões sobre lazer e turis-
mo, especialmente aquelas experiências vivenciadas em ambientes naturais, pre-
tendendo uma aproximação ao debate sobre ética, subjetividade e formas con-
temporâneas de sociabilidade, em especial as relações de amizade.

   Num primeiro momento, a discussão é feita em torno de algumas considera-
ções gerais sobre lazer e a atividade turística, tendo-as como experiências hu-
manas de grande complexidade e de crescente inserção na vida das sociedades.
O lazer, universo no qual se insere a atividade turística, é discutido como campo
fértil de práticas sociais que mobilizam processos renovados de constituição de
subjetividades, pois, assim como outras experiências humanas, oferece possibi-
lidades especiais para o exercício e intensificação de uma relação diferenciada
consigo próprio, com o outro e com a vida no mundo. Neste sentido, a atividade
turística é pensada em dimensões que transcendem seu tratamento como mera
atividade comercial e de consumo que, aliás, ocupa cada vez mais espaço no
setor denominado “de serviços”, buscando seu entendimento como campo he-
terogêneo de relações humanas e de relação das pessoas com os lugares e com
a cultura. No âmbito dessa abordagem, é problematizado especialmente o seg-
mento do turismo conhecido genericamente como “ecoturismo”, cuja ênfase
recai na vivência turística em ambientes naturais e paisagísticos, e onde se
pretende implícita a idéia de preservação da natureza.
                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Num segundo momento, a intenção é direcionar a discussão para algumas
vivências corporais geralmente praticadas em ambientes naturais, as quais têm
sido associadas às expressões “esportes radicais”, “turismo ou esporte de aven-
tura”, etc., discutindo aspectos de sua expansão e a incorporação pelo mercado
turístico e esportivo. Mesmo considerando as contradições e paradoxos da
lógica que motiva tal incorporação, o esforço é o de problematizar as
potencialidades da vivência de tais práticas corporais para o exercício de uma
relação humana diferenciada com o corpo e com a natureza, o qual possibilite
abrir caminhos para processos renovados de subjetivação. Tal problematização
nos aproxima do debate contemporâneo sobre subjetividade, ética e formas de
sociabilidade, sugerindo a criação e recriação de formas alternativas de relaci-
onamentos voltados para o mundo, onde a pessoa humana seja respeitada em
sua pluralidade e singularidade.



CONSIDERAÇÕES SOBRE LAZER/TURISMO E A TEMÁTICA AMBIENTAL

  O debate sobre lazer e turismo, assim como suas relações com a problemática
ambiental, têm merecido larga atenção em diversos setores da vida social e da
produção acadêmica, o que demonstra sua atualidade e relevância, ao mesmo
tempo em que exige análises multi-referenciadas e cada vez mais rigorosas em
busca de sua compreensão e crítica.

  A atividade turística, entendida não somente como atividade econômica, mas
como prática social complexa e multifacetada, implica essencialmente o deslo-
camento de pessoas e a relação dessas pessoas entre si, com a comunidade e
com o lugar visitado. Neste sentido, em meio a todos os fluxos de serviços
inerentes à atividade turística (viagens, transportes, hospedagem, gastronomia,
publicidade, etc.), não podemos desconsiderar a dimensão das relações huma-
nas com as quais se constitui o fazer turístico.

  Parece razoável admitir que a atividade turística está implicada num universo
mais amplo, o do lazer, o que torna imprescindível discuti-los conjuntamente.
Acredito que somente é possível apreender o significado de lazer no seio da
cultura onde este é construído, e, conseqüentemente, penso ser de pouca utili-
dade estar preso a hermetismos conceptuais, especialmente quando eles aspi-
ram ruidosamente à generalização e à condição de universalidade.

  No entanto, considero ser necessário pensar o lazer contemporâneo como
uma prática social engendrada pelas transformações no mundo do trabalho, pela
complexificação das sociedades e pelo advento da urbanização, entre outros
fenômenos situados na história. Mais que isto, não se deve perder de vista que a
experiência do lazer1 diz respeito, em minha opinião, a uma experiência humana
de grande complexidade, sendo marcada pela fruição subjetiva, lúdica2 e inten-
cional do mundo. O aspecto da intencionalidade me parece importante de ser


148 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
lembrado, pois permite enfatizar tal experiência na esfera da subjetividade, a
qual não somente é produzida no caldo da sócio-cultura (Guattari & Rolnik,
1986), mas também vivencia, reflete, produz, reelabora e ressignifica essa mes-
ma cultura e o mundo. Dessa forma, associo a experiência do lazer à vivência,
produção e reelaboração de cultura, num espaço-tempo conquistado3 pelos
sujeitos às imposições da vida no mundo, visando a humanidade mais plena,
especialmente em suas expressões de liberdade e ludicidade.

   É neste sentido que considero possível entender o lazer, universo no qual se
inclui a atividade turística, como campo de experiências humanas privilegiadas
junto aos processos de constituição de subjetividades, já que, ao potencializar
os aspectos anteriormente destacados, oferece uma rica possibilidade de exer-
citar e intensificar uma relação renovada consigo próprio, com a cultura e com
a alteridade, aí incluídos os outros seres humanos e os demais seres e elementos
do planeta.

   A possibilidade de uma intensificação da relação consigo próprio e com o
mundo na vivência do lazer, assim como em qualquer outra dimensão da vida
humana, não aponta, necessária ou essencialmente, para uma finalidade ou devir
“positivo”, “desejável” ou mesmo “correto”, segundo esta ou aquela visão de
mundo ou corrente de pensamento. Mas pode apontar, pelo menos, para a pos-
sibilidade de uma forma diferente de existência, num mundo de relações incrivel-
mente heterogêneas. Pode apontar para um devir criativo, onde o cuidado con-
sigo próprio, com o outro e com o mundo seja uma constante, sobretudo sob a
égide das intensidades4.

   É pressupondo esta concepção de lazer que me interessa discutir a atividade
turística, seja explorando suas dimensões mais visíveis e factuais, evidenciando
contradições e possibilidades, seja assumindo o esforço de pensar tal atividade
em seus aspectos éticos e teleológicos. Essa espécie de “dever-ser” turístico
pressupõe, ao meu ver, uma esmerada discussão sobre o papel que a atividade
turística assume ou seja chamada a assumir, especialmente enquanto campo de
ações humanas que oportuniza um rico e complexo locus de relações
interpessoais, de vivência/produção de cultura e de relações com o mundo/
natureza. Campo de ações humanas esse que, aliás, oferece um rico cenário para
o exercício do que tenho chamado de ética relacional: uma ética onde importe
não somente a relação do sujeito consigo próprio, “mas também a relação com
outras pessoas, consideradas em sua pluralidade5, e ainda com outros seres e
elementos existentes no mundo, considerados em sua diversidade” (Villaverde,
2001, p. 120).

   Tal ética relacional, aproxima-se das formulações de Sant’Anna (2000), à me-
dida que esta autora discute condutas éticas onde, no lugar da dominação, são
exercidas composições entre seres humanos e não humanos, as quais não se
limitam a adequações harmoniosas fadadas a tornar os seres similares uns aos

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
outros, mas que garantam até o fim a preservação das diferenças e singularida-
des. Trata-se de realçar tais diferenças e singularidades, sem com isso degradar
qualquer uma delas em proveito da outra.

  Com estas considerações iniciais sobre lazer e turismo, problematizemos um
pouco mais algumas dimensões da atividade turística, setor que a cada dia se
expande, se transforma e ganha importância no cenário contemporâneo. Essa
expansão pode ser vislumbrada ao lembrarmos alguns números do turismo: são
204 milhões de pessoas no mundo, empregadas pelo turismo, o que representa
10, 6% da força de trabalho global. O turismo é o setor que mais contribui para a
economia mundial, produzindo cerca de 10, 2% do produto nacional bruto mun-
dial, além de ser o maior gerador de receitas de impostos, no valor de 655 bilhões
de dólares (Naisbittt, citado por Trigo, 1999).

   De acordo com Trigo (1999), as expectativas do crescimento global do turis-
mo são de 6, 1% ao ano, o que representa 23% a mais do que o crescimento da
economia mundial, podendo-se estimar que até o ano 2005 o turismo gerará
cerca de 144 milhões de empregos em todo o mundo. Mesmo que tais projeções
possam merecer uma revisão mais atualizada, estes dados, ao evidenciar a mag-
nitude econômica da atividade turística, apontam pelo menos para dois aspec-
tos: cada vez mais segmentos da sociedade estarão envolvidos com o turismo,
o que requer uma atenção especial quanto aos impactos socioambientais e aos
balizamentos éticos deste setor de serviços em franco crescimento; a atividade
turística necessita de um amplo planejamento, pesquisa e reflexão constante,
especialmente visando a atenuação de seus aspectos negativos concomitante à
busca do incremento de suas potencialidades positivas.

  É importante ressaltar, sobre a expansão da “indústria turística”, que as maio-
res taxas de crescimento ficam por conta do segmento turístico conhecido
genericamente sob a expressão “ecoturismo”, o qual se refere a uma multiplicidade
de práticas vivenciadas em ambientes naturais, em torno das quais privilegiarei
minhas análises. Como observa Serrano (1997), o crescimento dessas modalida-
des, vinculado à aspiração de uma espécie de “retorno à natureza”, afirma ainda
mais sua importância como fenômeno social ao ser considerado em conjunto
com outros sinais de busca dessa natureza, também associados ao mesmo uni-
verso mental das práticas do ecoturismo: expansão das medicinas alternativas,
dos esportes praticados em ambientes naturais, da alimentação natural e do
ambientalismo, somente para citar alguns. A autora chama atenção também para
a necessidade de não negligenciar os impactos sociais e naturais decorrentes do
desenvolvimento do ecoturismo, mesmo considerando a retórica do “baixo im-
pacto”, centrada na imagem veiculada pelo seu marketing de “indústria limpa”.

  A expansão do ecoturismo parece seguir o sucesso das fórmulas “eco”, asso-
ciando-se ao discurso do propalado “desenvolvimento sustentável”. Para Silva
(1996), o paradigma de suporte desses discursos constitui-se em termos


150 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
lingüísticos. Trata-se de um mecanismo de adjetivação: turismo ecológico ou
ecoturismo, gestão racional, zoneamento geo-ambiental, entre outros. Tal
adjetivação, segundo a autora, serve não somente para “legislar” acerca de
determinadas práticas, mas também para representá-las como aprioristicamente
isentas de serem questionadas, tendo em vista estarem de acordo com a legali-
dade ambiental.

   De acordo com Silva (1997), falar “do lugar” da ecologia, isto é, mostrar-se
atuando em concordância com uma postura ecológica, significa hoje estar se
colocando num espaço de significação do político. O discurso ecológico consti-
tui-se assim num discurso político, buscando legitimar as práticas a ele vinculadas,
isentando-as de questionamentos, na medida em que, por um recurso lingüístico
de adjetivação, possibilita uma relativização dos sentidos dessas mesmas práticas.

  O discurso do desenvolvimento sustentável está explícito na própria definição
oficial do ecoturismo pela Embratur, que o considera como “um segmento da
atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cul-
tural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência
ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem estar
das populações envolvidas” (Brasil, 1994, p. 19).

   O conceito de desenvolvimento sustentável, atrelado à noção de
ecodesenvolvimento, tem sua referência principal no relatório Nosso Futuro
Comum, o qual foi elaborado pela Comissão Mundial Sobre Meio Ambiente e
Desenvolvimento em 1987. O “turismo sustentável”, outra denominação que
traduz a noção de ecoturismo, teria seu apoio nos princípios do uso sustentável
dos recursos naturais, da preservação da diversidade natural e cultural, do bene-
fício e integração das comunidades locais, etc.

   Para Luchiari (2000), a partir do referido relatório e de seus ideários, os fatores
socioculturais e ecológicos foram incorporados às políticas econômicas, soci-
alizados no imaginário coletivo e incorporados ao próprio mercado, o qual
passou a comercializar produtos ecológicos, assim como distintivos de identi-
dade cultural. Nesta lógica, o conceito de desenvolvimento sustentável, apesar
de cientificamente legítimo, é antes de mais nada um instrumento político, e
portanto funciona como uma panacéia que pretende garantir a exploração eco-
nômica ao longo do tempo e em escala planetária.

   Uma outra análise bastante instigante sobre os equívocos e paradoxos ligados
à noção de ecoturismo pode ser vista em Yázigi (1999), o qual discute, inclusive,
a inadequação semântica do próprio conceito, especialmente do prefixo “eco”.
Em sua opinião, tal prefixo pretende ter um efeito moralizante, pois ao entrar na
denominação de parques6, arquitetura, alimentação ou artesanias, estabelece
uma espécie de distinção entre o bem e o mal, no qual as pessoas têm a oportu-
nidade de se exorcizar. O autor argumenta que a Ecologia é uma criação cientí-

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
fica, uma disciplina que estuda não um ser isoladamente, mas suas relações com
os mais diferentes meios vivos ou não. Neste sentido, o que se considera é,
essencialmente, a relação que, quer percebamos ou não, existe em tudo, donde
se pode concluir que tudo é ecológico. Portanto, “deduz-se então, não ter muito
sentido falar em ‘ecoturismo’ ou ‘casa ecológica’; todo turismo ou casa são
ecológicos, na medida em que o observador os relaciona com o meio. Fica então
flagrante que o ‘ecoturismo’, como qualquer ‘eco’ vulgar perde sentido científi-
co. A falta de entendimento da matéria conduz a práticas alheias ao verdadeiro
sentido da preservação” (Yázigi, 1999, p. 117).

  Ainda segundo o autor, aquilo que tem sido chamado ecoturismo teria de ser
reconsiderado, no sentido de situar-se adequadamente tanto no plano semânti-
co como em seu conteúdo. Como a palavra já se encontra consagrada pelo uso,
o autor propõe utilizá-la entre aspas ou mesmo adotar uma denominação mais
adequada: turismo preservacionista. Tal expressão estaria mais de acordo com
uma possível associação com a busca de preservação e recuperação dos
ecossistemas. Um primeiro problema, apresentado pelo autor, é a dificuldade em
se definir o que são situações de equilíbrio dos ecossistemas, aí incluídos a
espécie humana e suas obras, especialmente considerando o contexto de um
complexo mundo em constantes e aceleradas mudanças.

  Aqui passamos a esmiuçar as idéias centrais que articulam as práticas etiquetadas
como ecoturísticas. Nesta linha de problematização, Luchiari (2000) argumenta
que grande parte das políticas e diretrizes para o setor turístico, inclusive a
própria Organização Mundial do Turismo (OMT), recorreram à idéia de um limite
de crescimento da atividade turística, utilizando-se dos conceitos de impacto,
de capacidade de carga e de sustentabilidade. Mas, questiona a autora,

                 Como definir o limite suportável de um meio, quando o estamos
                 relacionando a uma prática social e a formas distintas de
                 territorialidade? Se estamos analisando grupos sociais extrema-
                 mente diversos, como medir o limite do impacto cultural, econô-
                 mico, político, ambiental e tecnológico, sem considerar a dife-
                 renciação do meio e a relatividade social no tempo e no espaço?
                 Como saber quando a pressão turística não só traz novas formas
                 para a reorganização do lugar, mas deforma o meio e a sociedade
                 local? A idéia de impacto pressupõe que um lugar possua uma
                 resistência-limite, mas, do ponto de vista do meio e da população
                 local, como é possível prever esse limite utilizando variáveis quan-
                 titativas (freqüentação, fluxo, número de leitos, etc.), como faz a
                 maioria das análises de impacto, de ciclo ou capacidade de car-
                 ga?” (Luchiari, 2000, p. 117).

  Todos esses modelos de controle, como observa a autora, tomam os lugares
turísticos como se fossem sistemas fechados, totalmente passíveis de terem


152 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
seus fluxos controlados, valendo-se de modelos advindos da ecologia, da biolo-
gia e da física, de forma a garantir precisão e legitimidade científica. No entanto,
a atitude de tomar a sociedade como sujeito da construção dos lugares turísti-
cos deve aceitar a existência de inúmeras variáveis subjetivas, não passíveis de
quantificação, além de variadas combinações possíveis e imprevisíveis.

  Resulta evidente a complexidade da discussão sobre turismo e preservação da
natureza, uma vez que tais práticas sociais podem, dependendo do contexto
(político e sócio-econômico) em que ocorrem e das diretrizes éticas que as
norteiam, seguir em direções opostas. De qualquer modo, convém ressaltar, os
problemas ambientais hoje existentes exigem muito mais do que uma atividade
turística responsável. Na opinião de Yázigi (1999), a qual me parece coerente, os
problemas ambientais realmente sérios, do quais os outros derivam, são basica-
mente três: os modos de produção (aí incluída a tecnologia adotada), os padrões
de consumo e as taxas populacionais em expansão. Uma atividade turística com
preocupações ambientais verdadeiras há que considerar esses problemas em seu
conjunto, além de fomentar uma postura preservacionista que não somente
contemple o espaço-tempo de lazer e turismo, mas que se estenda para a vida
como um todo.

  A proposta de usar uma outra expressão, em alternativa ao termo “ecoturismo”,
para denominar uma atividade turística realmente comprometida com uma pos-
tura ética de preservação socioambiental, me parece bastante válida. Além da
apropriação política indevida do termo “ecoturismo” pelos discursos oficiais
dos segmentos públicos e privados ligados ao turismo, e de sua inadequação
semântica, muitas das atividades com a estampa “eco”, desgastada pela lógica
do mercado e pela irresponsabilidade de pretensos “ecoturistas”, parece ter-se
desviado bastante de suas intenções originais implícitas.

  É obvio que mudar a expressão para se referir às mesmas práticas nada garante
em termos de mudança, mas esta não é exatamente a questão. Falar, por exem-
plo, em um turismo preservacionista, ou outro conceito a ser melhor amadureci-
do, é assumir uma postura crítica e demarcar um posicionamento ético-político
de diferenciação em relação ao turismo de massa ou às práticas turísticas pre-
tensiosamente rotuladas de ecológicas, mas sem maiores compromissos com a
qualidade das relações humanas e com o fomento de novas e responsáveis
formas de relação do humano com o mundo.

  Uma outra idéia que me parece bastante fértil é o compromisso de assumir
para a vida como um todo uma postura preservacionista, não a restringindo às
experiências de lazer e turismo. Mesmo considerando as potencialidades do
exercício de uma tal postura ético-política a partir da experiência de lazer/
turismo e da relação com os outros, esta deve ser permanentemente ampliada a
todas as dimensões da vida, constituindo os indivíduos em seus processos de
subjetivação e singularidade7. Retornarei mais adiante a este ponto.

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Por enquanto, somente relembremos o aspecto relativo e paradoxal da ativi-
dade turística. Este procedimento é importante no sentido de evitar análises
polarizadas e/ou reducionistas. Como lembra Luchiari (2000), é inegável o as-
pecto contraditório e emblemático do turismo, o qual acentua a produção de
lugares de consumo e o consumo de lugares. Contudo, a autora alerta sobre o
equívoco de tomar a atividade turística apenas do ponto de vista negativo, como
um vilão desarticulador de antigas formas e funções sociais que destrói o velho
substituindo-o pelo novo, através de um processo linear. O turismo, ao empre-
ender a mediação entre o global e o local, possibilita que se tome o lugar e o
mundo em sua unidade, permitindo ainda trazer à luz novas formas de sociabili-
dade, articuladas especialmente em função do processo contemporâneo de
revalorização das paisagens para o lazer. Esse movimento, ao invés de contra-
por o lugar ao mundo, o natural ao artificial, tende a impulsionar a reestruturação
das relações do lugar com o mundo e a formação de organizações socioespaciais
cada vez mais híbridas, misturando lógicas antigas e novas, dando origem a
outras composições.

  São as potencialidades de possíveis novas composições, relacionando a ativi-
dade turística e o lazer em ambientes naturais, as quais interessa passar a explo-
rar. Quero me referir especialmente às práticas corporais lúdicas, vivenciadas
como lazer e/ou esporte em ambientes naturais, as quais são paulatinamente
incorporadas e dinamizadas pelo universo turístico.



PRÁTICAS CORPORAIS DE AVENTURA NA NATUREZA:
EXPERIMENTANDO CONDUTAS ÉTICAS E NOVAS FORMAS DE SOCIABILIDADE

   Essas práticas irão receber diversas denominações em seu desenvolvimento
(“esportes de aventura”, “esportes radicais”, “atividades físicas de aventura na
natureza”, etc.), e têm sido fortemente incorporadas pelo mercado turístico, espe-
cialmente em sua versão “ecológica” ou “de aventura”, passando assim, a despei-
to do discurso ecológico que a sustentam, a reproduzir acriticamente a lógica do
consumo de massas, característica do modelo de acumulação capitalista.

   Convém ter em mente que à esta lógica corresponde o engendramento de
determinadas formas de produção de subjetividade8, as quais, também por visa-
rem a reprodução do modelo e de seus variados interesses, perdem sua capaci-
dade crítica em relação aos agenciamentos sócio-políticos que visam normatizar
as ações humanas e definir um certo tipo de sujeito. No entanto, a existência das
diversas contradições e paradoxos vinculados a essas novas práticas em sua
incorporação pelo mercado, seja ele turístico ou esportivo, não deve invalidar o
esforço de tentar perceber o que elas trazem de renovado e potencialmente
transformador na relação do indivíduo consigo próprio e com a alteridade. Numa
palavra: em suas condutas éticas.



154 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Entretanto, antes de adentrar a problematização de tais potencialidades,
convém discutir alguns aspectos sócio-históricos da expansão de tais prá-
ticas corporais, assim como algumas questões de ordem conceptual a elas
relacionadas.

   Javier Olivera Betrán é um dos autores contemporâneos que discute essas
práticas corporais e, por sua reconhecida contribuição, vem paulatinamente se
tornando uma referência teórica sobre essa temática, o que torna pertinente a
interlocução com suas reflexões. De acordo com Betrán (1995), é em meados da
década de setenta que surge e se propaga, especialmente nos países economica-
mente mais avançados, uma nova realidade lúdica no universo das práticas cor-
porais cujo enfoque é a vivência de aventura na natureza. Para o autor, estas
“novas” atividades emergem como um conjunto de práticas recreativas, conso-
lidando-se na década atual ao sabor dos novos hábitos, gostos e valores da
sociedade pós-industrial ou pós-moderna.

  Ao discorrer sobre as “atividades físicas de aventura na natureza”, Betrán
(1995) argumenta sobre estas práticas de lazer e turismo serem animadas, entre
outras coisas,

               Por uma série de valores e conceitos que pertencem às novas
               tendências culturais características da sociedade pós-industrial e
               supõem uma sólida oferta no marco das práticas corporais como
               modelo hedonista [...] Na atualidade, as práticas corporais de ca-
               ráter recreativo têm-se constituído como a principal forma de
               utilização do lazer ativo das pessoas pertencentes aos países
               economicamente avançados do ocidente. Esta realidade lúdica
               forma parte importante da denominada indústria do lazer, a qual
               tem uma incidência crescente no produto interno bruto e na cri-
               ação de postos de trabalho, concentrando-se por sua vez num
               alto nível de demandas sociais de transcendência política, social
               e cultural (p. 6).

  Como é possível perceber nestas breves considerações, o autor atribui a tais
práticas um caráter peculiar sintonizado com os padrões culturais, sociais, éti-
cos e estéticos emergentes no mundo contemporâneo, identificando-o como
pós-industrial ou pós-moderno. Como são taxativos Betrán e Betrán (1995), as
“atividades físicas de aventura na natureza” representam “os novos valores
sociais acordes com a ideologia desta época: consumismo, proximidade à natu-
reza, individualismo, hedonismo e corpo informacional” (p. 108)9. Com as muta-
ções paradigmáticas e o surgimento de novos valores e demandas sociais que
seriam peculiares a este novo momento da história, esse conjunto de práticas
corporais, segundo os autores, têm-se consolidado nos últimos vinte anos com
bastante evidência e solidez no âmbito dessa “nova” cultura corporal.


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Bétran (1995), evita usar o termo esporte para se referir a essas práticas cor-
porais, entendendo-as como pertencentes a outra época, além de tratar-se de
concepções diferentes do esporte moderno, tanto no que se refere às motiva-
ções e condições de sua prática, como nos fins a atingir e no meio onde se
desenvolvem. Embora reconheça seu caráter provisório, o autor adota a expres-
são atividades físicas de aventura na natureza (AFAN) como composto semânti-
co pertinente e discriminatório capaz de responder à concepção de seus estudos
sobre a temática. Essas “atividades físicas” são por ele consideradas como “prá-
ticas individualizadas que se fundamentam, geralmente, em condutas motrizes
como o deslizar-se sobre superfícies naturais, onde o equilíbrio para evitar a
queda e a velocidade de deslocamento aproveitando as energias livres da natu-
reza constituem os diversos níveis de risco controlado no qual se baseia a
aventura” (Betrán, 1995, p. 6).

   Embora possam não dar conta da totalidade de suas reflexões, as idéias aqui
expostas são representativas de alguns desenvolvimentos teóricos de Javier
Betrán sobre o tema, a partir das quais gostaria de fazer algumas considerações.
Me parece inegável uma intensificação relativamente recente das transforma-
ções tanto materiais como culturais da vida humana, o que torna pertinente
admitir o momento contemporâneo como um palco de inusitados cenários (Vide
Harvey (1998), Featherstone (1995) e (1997), além de outros autores). Diferente-
mente de Betrán (1995), prefiro tratar o presente momento histórico simples-
mente como contemporaneidade, pois, além de evitar o desgastado debate
modernidade/pós-modernidade, ainda desconfio da validade teórico-filosófica
desta última categoria, visto que os desdobramentos últimos da modernidade
não apontam propriamente uma ruptura, legitimando o prefixo “pós”, mas uma
intensa problematização e crise dos valores e ideais modernos, onde se inserem
as variadas mutações nas relações sociais, na relação da pessoa humana com
seu corpo, com os incrementos técnicos e com os diversos seres e elementos do
mundo natural.

   Outro ponto a ser considerado diz respeito à expressão “atividades físicas de
aventura na natureza”, proposto por Betrán (1995) como núcleo semântico ca-
paz de articular tais práticas corporais. Como o autor, considero inadequada a
utilização do termo esporte para se referir a tais práticas, não propriamente por
pertencerem a outra época, como ele argumenta, mas por se tratar de caracte-
rísticas, concepções e finalidades diferenciadas em relação ao esporte moder-
no, mesmo levando em conta o processo de ampla “esportivização” de muitas
dessas práticas corporais na atualidade. Embora muitas delas estejam sendo
paulatinamente incorporadas ao espetáculo esportivizado (vide corridas de aven-
tura e orientação, competições de rafting, escalada esportiva in door, etc.),
reservo o termo esporte para me referir a “um sistema institucionalizado de
práticas competitivas, predominantemente físicas, delimitadas, decodificadas,
regradas convencionalmente, cujo objetivo reconhecido é, sobre a base de uma
comparação de performances, de proezas, de demonstrações físicas, designar o



156 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
melhor concorrente (o campeão) ou registrar a melhor performance (o recor-
de)” (Brohm, citado por Cavalcanti, 1984, p. 42).

   Por outro lado, pensemos a expressão “atividades físicas”. Tal expressão, cara
à Educação Física, particularmente ao segmento que prioriza a discussão sobre
“atividade física e saúde”, não me parece atender satisfatoriamente às exigênci-
as semânticas desejáveis e reclamadas. O termo atividade, combinado ao adje-
tivo “física”, parece inadequado e limitado, pois, além de não garantir exatidão
em sua especificidade, parece não exprimir a riqueza das ações motoras huma-
nas presentes no repertório da cultura corporal. Uma rápida análise do vocábulo
“física” nos dicionários, aponta a possibilidade de variadas coisas poderem ser
chamadas atividades físicas, pois Física é a denominação da ciência que estuda
as propriedades gerais da matéria, assim como as leis que tendem a modificar-
lhe o estado ou movimento, sem alteração de sua composição química. “Físico”,
relativo à Física, é um adjetivo também sinônimo de material, corpóreo10, o que
permite admitir que a atividade física é uma possibilidade inerente não somente
à pessoa humana, mas a outros seres do mundo natural e elementos da matéria.

   Também de forma provisória, prefiro usar a expressão práticas corporais de
aventura na natureza. Práticas corporais, pois a expressão “prática”, conjugada
ao adjetivo “corporais”, diz respeito diretamente à noção de uma ação intenci-
onal, idéia ou projeto em realização, na qual encontra-se expressa a dimensão
corporal e motriz da pessoa humana nele envolvida. O acréscimo “de aventura
na natureza11” qualifica essas práticas corporais quanto a uma de suas caracte-
rísticas mais latentes, o sentido de aventura e risco, e também o espaço prepon-
derante onde em geral elas ocorrem, isto é, os ambientes naturais e seus elemen-
tos, como a água, as matas, a montanha, o ar, etc.

  Uma observação a mais, também digna de ser considerada, diz respeito à
tendência de conceber essas vivências corporais como práticas individualiza-
das, e que se fundamentam preponderantemente no deslizar-se sobre superfícies
naturais (Betrán, 1995), enfatizando o deslizar-se em superfícies lisas, fluidas e
onduladas (Coelho dos Santos, 1997). Em primeiro lugar, não creio que, apenas
pelo fato de serem em geral praticadas em pequenos grupos e sua disseminação
não tenha o alcance dos “esportes de massa”, por exemplo, tais vivências cor-
porais possam ser consideradas individualizadas ou individualizantes.

  A experiência de coletivo pode ser vivida tanto numa prática corporal como a
caminhada por trilhas (trekking) ou rafting, cujo número de pessoas vivendo em
grupo a mesma situação pode ser bem expressivo, ou numa prática como a
escalada em rocha, na qual esse número é bem mais reduzido, mas onde a forma
de sociabilidade exercitada é bastante intensa e qualificada12.

  Por outro lado, parece de pouca utilidade colocar o deslizamento em superfí-
cies lisas, fluidas e onduladas como característica fundante e geral dessas práti-

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
cas corporais de aventura na natureza, pois vivências como a caminhada e a
escalada, para citar somente duas, não se enquadram nesta caracterização. A
superfície onde se pratica a escalada é quase sempre rugosa e não é fluida como
uma onda, corredeira de rio ou coluna de ar. A noção de meio fluido, indomável
e inconsistente, associado a essas “novas” práticas de forma geral e vinculado à
diferença entre superfícies rugosas e lisas (Coelho dos Santos, 1997), perdem um
pouco de sua aplicação quando pensamos, por exemplo, na escalada em rocha.

  Nesta prática corporal, especialmente sendo ela vivenciada como lazer, o que
está em jogo é uma composição, de preferência suave e criativa, do praticante
com os obstáculos da gravidade, com as possibilidades oferecidas ao corpo pela
consistente e quase sempre rugosa rocha (em suas agarras, fendas, fissuras,
etc.), com os equipamentos utilizados (cordas, fitas, mosquetões, etc.) e com
quem o acompanha nesta aventura em sentido vertical.

  Como parece perceptível, a vivência dessas práticas de forma geral denotam
uma relação no mínimo diferenciada com a dimensão corpórea e com o ambien-
te natural, pelo menos se as comparamos às modalidades do esporte moderno
institucionalizado. Conforme discuti de forma mais detalhada em outra ocasião
(Villaverde, 2001), parece haver, na dinâmica de realização de tais práticas,
evidências de algumas mutações na relação da pessoa humana com o próprio
corpo e com a natureza. No lugar de uma relação energética (Coelho dos Santos,
1997), comum às modalidades do esporte moderno (às quais correspondem no-
ções como destreza muscular, força, potência, busca de resultados e
performances, recordes, etc.), o que parece evidenciar-se na vivência das práti-
cas corporais de aventura é uma relação estética com o corpo e com os elemen-
tos da natureza, os quais interagem no plano das ressonâncias, do estilo, da
ludicidade, das composições e negociações.

   Tais mudanças, apontando uma relação mais de contrato do que de controle em
relação à natureza, são, ao meu ver, bastante significativas, e podem ser conside-
radas como uma manifestação importante de mutações mais amplas na lógica da
relação do ser humano consigo próprio e com o mundo onde vive, donde se pode
vislumbrar uma de suas potencialidades: elas apresentam, exatamente pelo que
trazem de novo na relação com o corpo e com a natureza, a possibilidade de
exercitar uma nova relação consigo próprio, de vivenciar de maneira diferente o
mundo e de experimentar formas renovadas de sociabilidade e subjetividade.

   Experimentação, sentimentos, estilo, intensidade, composição, negociação. Eis
noções que se relacionam com essas vivências corporais, e que tornam possível
uma aproximação à discussão contemporânea sobre subjetividade, ética e socia-
bilidade, especialmente considerando as reflexões de pensadores como Foucault,
Derrida, Levinas, Arendt, Deleuze, Guattari, entre outros. As formas que assumem a
dinâmica das práticas corporais vividas coletivamente no espaço natural, sob a
égide da intensidade e das composições interindividuais, parecem oferecer um


158 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
cenário propício para o exercício de novas formas de sociabilidade, em especial as
relações de amizade, entendida como forma de subjetivação coletiva.

   Trata-se de buscar nessas práticas corporais as possibilidades de novos exer-
cícios vinculatórios, não pautados simplesmente em adequações harmoniosas
que neutralizam as diferenças, nem cedendo a apelos identitários ou
comunitaristas, os quais, ao comprometer a afirmação das singularidades, ten-
dem a empobrecer suas tensões e seu potencial criativo. Deve-se, ao contrário,
esforçar-se em garantir até o final o realce das diferenças envolvidas em cada
relação, permitindo assim a eclosão de liames sociais menos burocratizados,
vividos numa relação renovada e intensa com o mundo.

   É claro que os desafios e obstáculos encontrados na construção de tais for-
mas de relacionamento são consideráveis, inclusive quando pensamos nessas
práticas corporais como parte do universo das atividades turísticas. A lógica
utilitarista e mercantil de instrumentalização da natureza e das próprias práticas,
comum ao trade turístico que as promovem e as comercializa, e a facilidade com
que ela aparece disseminada nos indivíduos e grupos que participam desses
pacotes “esverdeados”, parecem minar ainda mais suas potencialidades críticas
e criativas. Neste sentido é preciso, sobre este e outros temas, independente das
condições que a paixão por uma dada temática possa permitir, tentar esquivar-
se de qualquer atitude reificante sobre ela.

  No entanto, o compromisso ético-político de descortinar transformações
socioculturais qualitativas e ampliar eventuais demonstrações de resistências às
lógicas e à subjetividade dominantes, inclusive no contexto da atividade turística,
deve, em minha opinião, ser assumido. Mesmo havendo uma notável incorporação
dessas práticas corporais pela lógica mercadológica turística ou esportiva, tal
incorporação nunca é total, assim como nunca é total o esquadrinhamento da
subjetividade pelo poderes subjetivantes, tal como têm demonstrado Foucault,
Deleuze e Guattari13, devendo-se ir em busca de “resistências moleculares”, de
pequenas “brechas”, de “linhas de fuga” subjacentes a essas experiências humanas.

  E por que a preocupação em desconfiar dos apelos identitários ou
comunitaristas? Como discuti em outro momento 14, apoiado em Paiva (2000),
prender-se ao universo da identidade, por um lado, levanta questões sobre o
esquadrinhamento e domesticação dos processos de singularização15 pelos po-
deres normatizantes que tendem a neutralizar seu potencial disruptivo, vide, por
exemplo o culto californiano do eu, onde a identidade é decifrada pelos saberes
científicos e, assim como certos movimentos de minorias com forte matriz
identitária, esboça um esteticismo bastante afeito à lógica do mercado, o que
reduz consideravelmente o conteúdo político de suas reivindicações.

   Por outro lado, o apelo ao comunitarismo, dentro do qual o eu somente pode-
ria ter expressão a partir do pano de fundo dado pela matriz comunitária, levanta

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
grandes desconfianças em relação à questão da administração dos grupos, assim
como aos mecanismos de inclusão/exclusão presentes na comunidade e, inclu-
sive, nos vários neotribalismos quaisquer que sejam suas matizes. A originalida-
de do pensamento foucaultiano estaria exatamente na indagação de como po-
deríamos pensar a produção da subjetividade para além da individualização e da
pessoalidade, recusando tanto a obsessiva reivindicação de identidades quanto
as significações partilhadas, as quais implicariam quase inexoravelmente num
movimento de aderência e conservadorismo.

  Discutindo sobre subjetividade em tempos de globalização, Suely Rolnik afir-
ma que não é a defesa de identidades locais contra identidades globais, nem
ainda a identidade em geral contra a pulverização, mas é a própria referência
identitária que deve ser combatida, não pelo fascínio niilista pelo caos ou sim-
plesmente em nome da pulverização, mas para dar lugar aos espaços de criação
existencial, aos processos de subjetivação singulares. Isto implica abrir mão do
vício em identidades e não tentar “domesticar” as forças de instabilização, o que
tenderia a brecar os processos de singularização (Rolnik, 1997a).

   O desafio, segundo a autora, é aliar-se com as “forças da processualidade”:
“Esta aliança depende – mais do que qualquer outro tipo de aprendizado- de
estar à escuta do mal-estar mobilizado pela desestabilização em nós mesmos,
da capacidade de suportá-lo e de improvisar formas que dêem sentido e valor
àquilo que essa incômoda sensação nos sopra. Aqui não se trata de alucinar um
dentro para sempre feliz, mas, sim, de criar condições para realizar a conquista
de uma certa serenidade no sempre devir outro” (Rolnik, 1997b, p. 32-33). Por-
tanto, é dentro de um projeto político de resistência aos diversos “kits de subje-
tividades-clones” desses tempos de globalização, bem como de recusa às “iden-
tidades prêt-à-porter”, essas figuras glamourizadas fartamente oferecidas pela
mídia, onde se pode visualizar a potencial criação de singularidades disruptoras,
de tipos renovados de sociabilidade.

   A procura de novas formas de subjetividade e sociabilidade, inclusive no âmbito
do lazer e do turismo, pressupõe a constituição do sujeito não como um exercício
solitário, mas como uma ação compartilhada com outros sujeitos. A questão da
intersubjetividade, isto é, a presença do outro na constituição do sujeito, especi-
almente enquanto sujeito ético, merece destaque. Como observa Renaut (1998, p.
100), a idéia do sujeito, na medida em que não a reduzimos à do indivíduo, na
medida em que ela implica, em sentido contrário, uma transcendência da individu-
alidade do Eu, comporta nela mesma a intersubjetividade, e assim a comunicação
em torno de uma esfera comum: “Na medida em que a idéia de sujeito corresponde
não ao valor (individualista) da independência, mas ao da autonomia (humanista),
nela está incluída, por definição, a relação com o outro”.

  A subjetividade, de acordo com Emmanuel Lévinas, citado por Ortega (1999),
nasce na dimensão intersubjetiva do encontro com o outro, sendo a ética e a


160 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
sociabilidade originadas na desdobra da relação primária do face-a-face. A filo-
sofia de Lévinas aponta para a primazia da relação com o outro no estabeleci-
mento da relação consigo mesmo, situando a intersubjetividade no centro da
constituição do sujeito.

   Como faz em relação a Lévinas, Ortega (2000), aproxima ao pensamento
foucaultiano os desenvolvimentos teóricos de Hannah Arendt. Segundo ele, em-
bora existam diferenças entre as “estéticas da existência”16 foucaultianas e
arendtianas, tanto em Foucault como em Arendt as formas de subjetivação pensa-
das pressupõe sua realização no espaço público e, portanto, são de caráter tanto
ético quanto político. Além disso, tanto numa como noutra abordagem, há uma
recusa em aceitar um eu da interioridade e uma visão essencialista da subjetivida-
de. Para Foucault, a subjetividade aparece como um processo, como uma relação
consigo e com o outro, algo distante da noção de auto-consciência, e daí ele
preferir falar de um “sujeito-forma” ao invés de um “sujeito-substância”.

   Quando Arendt (2000, p. 19) magistralmente problematiza a condição humana
em sua existência, essa condição humana não tem o mesmo sentido de “nature-
za humana” ou “essência humana”. Seus argumentos vão no sentido de que nada
nos autoriza a presumir que o humano tenha uma natureza, assim como as outras
coisas as têm, pois é bastante improvável que nós, que temos o poder de conhe-
cer, determinar ou definir a essência natural de todas as coisas que não somos e
que nos rodeiam, venhamos a ter esta mesma capacidade em relação a nós
mesmos. Isso seria como pular a própria sombra. Por outro lado, ressalta a
autora, “as condições da existência humana – a própria vida, a natalidade e a
mortalidade, a mundanidade, a pluralidade e o planeta Terra – jamais podem
‘explicar’ o que somos ou responder a perguntas sobre o que somos, pela simples
razão de que jamais nos condicionam de modo absoluto”.

  Tanto na fenomenologia arendtiana como na genealogia foucaultiana, obser-
va Ortega (2000, p. 39), as formas retóricas não argumentativas ocupam o lugar
da fundamentação argumentativa. Dessa forma, não há “nenhum critério objeti-
vo e de validade universal, justificável logicamente ou fundamentável de forma
argumentativa, que leve a privilegiar ou a universalizar suas posições, sejam para
encorajar a vontade de agir (Arendt) ou animar a experimentação com novas
formas de sociabilidade(Foucault)”.

  Esta ação, em Arendt (2000, p. 15), é entendida como a única capacidade
humana “que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisas
ou da matéria” O agir, capacidade inerente ao humano, é dado segundo o pres-
suposto de que os homens existem em pluralidade, e que estes se definem pela
sua singularidade. A ação (o agir político, a participação nos assuntos humanos)
está relacionada intimamente com a condição humana fundamental da natalida-
de, do gozo e da alegria de um novo começar, do início de algo novo. A natali-
dade, ou seja o nascimento, pressuposto ontológico da existência do agir, so-

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
mente se realiza no confronto com o novo, o aberto, o contigente, e isso exige
sair da esfera da segurança, aceitando o desafio do encontro e o convívio com
novas pessoas e novas situações.

  Em consonância com a opinião de Ortega (2000), é somente com o desenvol-
vimento de novas formas de amor mundi, no sentido arendtiano, que se pode
conceber alternativas para a criação e recriação de formas alternativas de rela-
cionamentos voltados para o mundo, para o espaço público, sejam elas a amiza-
de, a cortesia, a solidariedade, a hospitalidade e o respeito.

  Estas noções, a meu ver, deveriam compor o quadro referencial de qualquer
forma de vida e prática social humana, em especial o lazer e a atividade turística.
Mas as potencialidades das experiências de lazer e turismo cujas pistas procurei
apontar, especialmente aquelas experiências vivenciadas em ambientes naturais,
não buscam formas de sociabilidade baseadas na fusão identitária com o outro, na
excessiva intimidade antropofágica, no consenso absoluto. Penso antes numa
forma de amizade que, ao ter presente as contradições e tensões da condição
humana, possibilite ação e movimento à própria vida, através da incitação recípro-
ca, oferecendo a possibilidade de auto-transformação. Trata-se da criação com-
partilhada de algo novo, onde sejam respeitadas a singularidade e a pluralidade do
outro como condição possível para um mundo compartilhado e livre.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]


NOTAS

17
     Utilizo o termo experiência no sentido dado por Tuan (1983, p. 9), como abrangendo “as diferentes maneiras
    através das quais uma pessoa conhece e constrói a realidade”. Experienciar é aprender, pois a experiência,
    constituída de sentimento e pensamento, implica a capacidade de aprender a partir da própria vivência.
2
    Estou entendendo lúdico ou ludicidade como característica humana que pode expressar-se nas várias dimen-
    sões da vida, como o lazer, o trabalho, as relações afetivas, etc. O lúdico, sendo um dos aspectos inerentes à
    vida humana, tem, em minha opinião, o sentido do brinquedo, da brincadeira. O jogo, tanto no sentido dado
    por Callois (1958) como por Huizinga (1993), pressupõe, ao meu ver, a dimensão lúdica, da qual é expressão.
3
    A expressão tempo conquistado me parece mais apropriada, pois “tempo livre” remete à idéia de uma liberdade
    plena dos sujeitos sociais, a qual, por enquanto, está ainda por ser conquistada. Por outro lado, a expressão
    “tempo disponível” sugere uma certa passividade do tempo “sobrante” disponibilizado pelo senhor, pelo
    patrão ou opressor, visando vantagens sobre este tempo. Falar em tempo conquistado me parece mais revo-
    lucionário, pois nos referimos à conquista dos sujeitos sociais e de grupos, visando a expressão da ludicidade
    e liberdade mais plena, respectivamente característica e anseio da existência humana na história.
4
     “Pensar a intensidade ou pensar intensamente é uma forma de pensar o aberto, o acontecimento, esses
    momentos excepcionais, nos quais se interrompe a regularidade e a necessidade, mesmo por um instante. A
    intensidade somente pode ser pensada de forma intempestiva, fugaz e provisória, semelhante a pinceladas
    impressionistas que revelem alguns momentos, percebidos por um brilho peculiar, ou seja, pela sua intensi-
    dade” (Ortega, 1998, p. 7-8).
5
Aqui penso em pluralidade no sentido que lhe dá Hannah Arendt. A pluralidade é a condição da ação humana,
a qual juntamente com o labor e o trabalho, configuram as três atividades humanas fundamentais designadas
pela expressão vita activa. E a pluralidade é condição da ação humana “pelo fato de sermos todos os mesmos,



162 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
isto é, humanos, sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido, exista ou venha
    a existir” (Arendt, 2000, p. 16).
6
    Sobre esta discussão no âmbito de parques públicos urbanos denominados “ecológicos”, remeto a Villaverde
    (1998) e (1999).
7
    Guattarri faz importantes ponderações sobre subjetividade, individualidade e singularidade: “Para mim, os
    indivíduos são o resultado de uma produção de massa. O indivíduo é serializado, registrado, modelado [...] A
    subjetividade não é passível de totalização ou de centralização no indivíduo. Uma coisa é a individuação do
    corpo. Outra é a multiplicidade dos agenciamentos da subjetivação: a subjetividade é essencialmente fabricada
    e modelada no registro do social. [...] O modo pelo qual os indivíduos vivem essa subjetividade oscila entre dois
    extremos: uma relação de alienação e opressão, na qual o indivíduo se submete à subjetividade tal como a
    recebe, ou uma relação de expressão e de criação, na qual o indivíduo se reapropria dos componentes da
    subjetividade, produzindo um processo que eu chamaria de singularização” (Guattari e Rolnik, 1986, p. 31-33).
8
    A forma como Guattari trata a “produção de subjetividade” merece destaque, especialmente quando pensa-
    mos no recorrente antagonismo entre infra-estrutura e superestrutura, presente em boa parte das abordagens
    teóricas existentes. Nas palavras de Paiva (2000), “Guattari vai localizar a construção da subjetividade no
    mesmo nível da produção, considerando-a [...] como ‘matéria-prima de toda e qualquer produção’. Quer nos
    parecer que tal leitura nos faculta uma posição revolucionária de abordagem e crítica da subjetividade contem-
    porânea, uma vez que, ao abandonar a oposição micro x macropolítico, se está sensível à consideração das
    interpenetrações de tais campos” (p. 35).
9
    Miranda (1995), apoiando-se em Pociello, aproxima-se do pensamento de Betrán neste aspecto, afirmando ser
    o corpo que vivencia essas práticas um corpo informacional, isto é, concebido como receptor e emissor de
    informações e não como instrumento de ação e coação. Porém, sendo ainda mais perspicaz, Miranda chama
    atenção para um novo simbolismo dessas práticas, cujo caráter quase iniciático não deixa de configurá-las
    como “criadoras de amizades” e formadoras de grupos.
10
     MICHAELIS: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998.
11
     Como é preciso lembrar, natureza é um conceito que “exprime, uma totalidade, em princípio abstrata, que os
    homens concretizam na medida em que o preenchem com suas visões de mundo” (Carvalho, 1994, p. 26). Para
    efeito da presente discussão, uso esta expressão para me referir simplesmente ao ambiente natural, em seus
    elementos e seres animais e vegetais, do qual faz parte a espécie humana. Quando falo em práticas corporais
    de aventura na natureza, refiro-me àquelas vivenciadas em ambientes naturais como o mar, os rios e corredeiras,
    as matas e florestas, a montanha, o ar, etc.
12
     Minha vivência com escaladores, possibilitada pelos trabalhos de doutorado, e minha própria relação com a
    prática da escalada a partir desses trabalhos, permitem considerá-la bastante qualificada em termos de
    estreitamento de laços interpessoais. A relação que se estabelece entre guia (escalador que se coloca à frente
    no trajeto a ser feito na rocha) e participante (escalador ou escaladores que seguem o mesmo trajeto feito pelo
    guia após a chegada deste num determinado lugar da parede de rocha) precisa ser de confiança, comunicação,
    incitação recíproca e entendimento mútuos, a fim de minimizar o risco de acidentes e preservar a própria vida.
    Trata-se de cuidar de si e do outro na emoção de uma aventura compartilhada, onde os movimentos de troca
    do corpo com o ambiente são, a um só tempo, suaves e intensos.
13
     “De acordo com Paiva (2000, p. 37), tal entendimento nos afasta do fantasma frankfurtiano da “colonização”
    total do mundo da vida: “Com Deleuze e Guattari, assim como com Foucault, veremos a pouca utilidade de
    pensar naqueles termos, uma vez que há um permanente entrelaçamento móvel das forças de desterrritorialização
    (enquanto tendência de sistema) com as de desterritorialização (forças de criação, de inventividade), sendo
    que uma jamais esgota a outra: ambas se escalonam, trabalham, reconfiguram uma relação a outra”.
14
     Refiro-me ao artigo intitulado Sobre Corpo, Lazer e Amizade: Problematizações Ético-políticas na Subjetivida-
    de, publicado atualmente no Caderno de Programação Científica e Resumos (p. 192) do XII Congresso Brasi-
    leiro de Ciências do Esporte e em vias de publicação na íntegra em cd-room do evento.
15
     Guattari identifica os processos de singularização como “uma maneira de recusar todos esses modos de
    encodificação preestabelecidos, todos esses modos de manipulação e de telecomando, recusá-los para cons-
    truir, de certa forma, modos de sensibilidade, modos de relação com o outro, modos de produção, modos de
    criatividade que produzam uma subjetividade singular. Uma singularização existencial que coincida com um
    desejo, com um gosto de viver, com uma vontade de construir o mundo no qual nos encontramos, com a



                                              Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                    Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
instauração de dispositivos para mudar os tipos de sociedade, os tipos de valores que não são os nossos”
 (Guattari e Rolnik, 1986, p. 17).
16
  As incursões de Foucault (1998, p. 15) à antiga estética da existência levam-no à revalorizar e procurar a
 reabilitação da práxis ascética da Antigüidade. Vejamos como ele se refere a essas “artes da existência”, essas
 “técnicas de si”: “Deve-se entender com isso, práticas refletidas e voluntárias através das quais os homens não
 somente se fixam regras de conduta, como também procuram se transformar, modificar-se em seu ser singular
 e fazer de sua vida uma obra que seja portadora de certos valores estéticos e responda a certos critérios de
 estilo. Essas ‘artes da existência’, essas ‘técnicas de si’, perderam, sem dúvida, uma certa parte de sua impor-
 tância e de sua autonomia quando, com o cristianismo, foram integradas no exercício de um poder pastoral
 e, mais tarde, em práticas de tipo educativo, médico ou psicológico”




164 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2003
          Publicação original: livro


Formato da contribuição: resumo
Fonte: MAGRO, T.C. Percepções do Uso Público em UCs de Proteção Integral. In:
BAGER, A. , ed. Áreas Protegidas: Conservação no Âmbito do Cone Sul. Pelotas:
Alex Bager, 2003.
E-mail do(s) autor(es): tecmagro@esalq.sup.br
Títulos acadêmicos principais atuais: Doutor em Ciências da Engenharia Ambiental.
Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo.




Percepções do uso público em UCs
de Proteção Integral
Teresa Magro


  A coexistência dos valores associados às áreas naturais poderá ser a próxima
grande questão no manejo de unidades de conservação de proteção integral.
Valores ecológicos, recreacionais, estéticos e espirituais sempre estiveram rela-
cionados a estas áreas, com atribuição de pesos diferentes, dependendo da fase
histórica e econômica do país. Ao inserir a valoração econômica, agregada à
recreação como função da área protegida, pode haver uma reorientação, da
função principal destas áreas. No momento em que acreditarmos que nossas
áreas protegidas de proteção integral devam ser rentáveis estaremos iniciando
um processo de desvio de função com possíveis perdas ambientais.

  Este posicionando não significa uma recusa de todos os benefícios relaciona-
dos ao desenvolvimento de atividades recreacionais nas UCs de proteção inte-
gral e no seu entorno. O reconhecimento do valor que estas áreas desempenham
no desenvolvimento econômico regional tem sido um dos fatores de suporte
para a manutenção e criação de novas áreas protegidas. Nos últimos dez anos,
com algumas exceções, passamos para uma situação onde moradores e propri-
etários de áreas limítrofes às UCs vêem oportunidades e não somente restrições
associadas aos seus anteriormente “indesejáveis vizinhos”.

  A situação anterior, onde valores científicos eram privilegiados, com situa-
ções onde as funções ligadas ao uso público não eram contempladas de forma
adequada , também não é desejável. O importante, é que agora que o turismo e
suas variações ligadas ao ambiente natural e cultural, tem-se direcionado com

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
grande potencial para as áreas protegidas, tenhamos instrumentos eficientes
para administrar e redirecionar fluxos e o uso nestas áreas.

   As UCs, como incentivadoras do processo do desenvolvimento regional não
devem concorrer com as iniciativas locais ligadas ao desenvolvimento de proje-
tos de turismo com base na natureza. Deve considerar as opções e parcerias no
planejamento das atividades que sejam adequadas às funções de conservação
dos recursos naturais. Esta abordagem busca o balanço entre conservação e uso
e a manutenção de opções futuras de ambientes que mantenham suas caracterís-
ticas o mais primitivas possível.

  Nossa corrida por uma parte do mercado do ecoturismo e até mesmo do
turismo de aventura, com abordagens desviadas do seu elo principal, pode
descaracterizar ambientes primitivos e diminuir sua função ambiental e valor
estético. Nesta discussão, onde se planeja o uso público com base na qualidade
do ambiente e da experiência do visitante, é importante destacar que ações que
levem a uma grande alteração do ambiente natural podem ter um alto custo de
implantação com resultados nem sempre favoráveis. O retorno destas áreas à
condição anterior de primitivismo poderá representar um alto custo econômico.

  Apesar do enfoque dado às atividades mais ativas, desenvolvidas em ambien-
tes naturais, observa-se também o crescimento das viagens em busca de novos
destinos que ofereçam a oportunidade de isolamento e da sensação de experi-
mentar o primitivo. Opções futuras de ambientes primitivos devem ser assegura-
das pois vão de encontro aos principais objetivos da conservação.

  Neste contexto, estaremos colocando para reflexão o redirecionamento da
função “recreativa” das UCs de proteção integral nos tempos atuais.



CONTEMPLAÇÃO E ADRENALINA

  A edição 1811 da revista Veja (Editora Globo, 2003) retrata uma tendência que
verificamos nos últimos anos do aumento das atividades que envolvem os es-
portes radicais. De acordo com a revista, a análise comparativa das atividades
desenvolvidas durante a semana profissionalmente, carregadas de uma grande
carga de stress, justifica esta tendência comportamental de finais de semana
com certa “dosagem” de adrenalina. Sem aprofundamentos sobre a natureza
humana, aparentemente mais primitiva, o que nos chama a atenção é o fato da
matéria sugerir que tais atividades têm a combinação do alto risco com a baixa
incidência de acidentes. Esta possibilidade, divulgada pelas agências de turismo
e revistas especializadas, impulsiona uma crescente motivação de busca por
áreas naturais. Pelo contrário, o fato de existir um risco real é um dos fatores que
agregam valor para atividades em áreas mais primitivas. Há portanto a necessi-



166 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
dade de planejamento e zoneamento específico para que estas atividades pos-
sam ser desenvolvidas com maior segurança, tanto para os praticantes como
para assegurar a qualidade ambiental.

   Não se questiona o potencial modificador dos esportes radicais com base na
natureza sobre o espírito humano. Existem muitas possibilidades de reencontro
pessoal e de valorização do ambiente natural nestas atividades. Em muitos casos
são oportunidades de desenvolvimento regional e da reativação da economia
ligada à comercialização de equipamentos e veículos esportivos.

   Quando a motivação principal se refere à natureza e o uso de equipamentos
segue considerações previamente estabelecidas no zoneamento das áreas pro-
tegidas, os novos planos de manejo e de uso público das UCs de proteção integral
poderiam atender estas novas demandas. Se pensarmos nos casos onde a natu-
reza é um mero coadjuvante ou mesmo parte do cenário para o desenvolvimento
destas atividades, o balanço entre os efeitos do uso e o cumprimento dos obje-
tivos da unidade não estará sendo favorável.

   Nesta discussão é importante observar que as unidades de conservação tem
sido um dos destinos mais procurados pelo público que busca paisagens espeta-
culares. Isso ocorre em parte devido ao fato de que estas área foram protegidas
prioritariamente com o objetivo de proteger grandes belezas cênicas, mas tam-
bém por que em muitos locais somente as unidades de conservação resistiram ao
processo de ocupação da terra para urbanização e para a prática de cultivos
agrícolas e pastagens. No Brasil podemos observar que nas regiões sul e sudeste
são poucas as áreas, além daquelas protegidas por lei, que são cobertas por
vegetação natural. Nestes locais a pressão de uso poderá ser mais acentuado
nos próximos anos.

  Mesmo que o uso público e o turismo tenham sido consideradas atividades
que “deram certo” nas unidades de conservação brasileiras, pode ser que
precisemos refletir sobre a possiblidade de usar modelos de uso público mais
simples, que valorizem o ambiente e a experiência humana. A ansiedade em
tornar as unidades de conservação em áreas rentáveis através do turismo,
pode levar à perda dos valores que a interpretação e a educação ambiental
buscam através de seus programas. Como a maioria das UCs de proteção
integral não tiveram seus programas de uso público valorizados e implanta-
dos de maneira efetiva existe ainda uma lacuna na histórica do uso público de
UCs no país. Se tivéssemos uma base sólida neste campo, com trilhas bem
implantadas e centros interpretativos funcionais, as atividades de uso recre-
ativo inovadoras, poderiam ser agora explorada como novas oportunidades.
Assim, além da expectativa que estas novas oportunidades representem, existe
uma certa dose de “frustração” pelos objetivos não alcançados ligados ao
uso público das áreas protegidas.


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
MELHORIA DA EXPERIÊNCIA DO VISITANTE OU AUMENTO DO CONFORTO?

   O processo de concessão de uso no Parque Nacional do Iguaçu tem sido citado
como exemplo de sucesso numa seqüência que se espera que seja crescente no
país. Ao analisar a nova distribuição dos usuários no parque, se percebe que o
sistema está ficando mais eficiente no que se refere ao ordenamento do uso. Isso
é extremamente necessário nas áreas com visitação intensa e onde medidas de
restrição do uso são inviáveis. Novos ônibus circulam em intervalos curtos,
banheiros limpos e em número adequado, áreas amplas para alimentação, lojas
com produtos de boa qualidade, estão disponíveis para o público visitante. No
entanto, se insere uma indagação: -além do conforto, o que mais foi agregado à
experiência de quem visita o Parque Nacional do Iguaçu?

   A disponibilidade de situações onde o visitante possa vivenciar o contato
direto com o ambiente natural, com percepções dependentes do primitivismo,
não aumentou. O sistema de trilhas do parque continua o mesmo, apesar de que
a implantação do projeto da concessionária objetive, entre outras coisas, au-
mentar a permanência do visitante no Parque. Permanência esta que irá garantir
a sustentabilidade econômica do empreendimento.

   Estamos em fase de revigoramento dos parques nacionais, e isso nos faz voltar no
tempo, quando foram instaladas grandes estruturas nos primeiros parques do país,
como os Parques Nacionais do Itatiaia, Serra dos Órgãos e mesmo no de Iguaçu. A
história viva nos apresenta uma situação onde algumas estruturas foram instaladas
em locais inadequados e com dimensões que dificultam manutenção dos mesmos. O
manejo deveria estar baseado mais em atividades do que em estruturas.



O VISLUMBRE DA SUSTENTABILIDADE ECONÔMICA

   Dos benefícios atribuídos atualmente ás áreas naturais podemos destacar o
turismo como tendo maior destaque nos programas ligados ao uso das UCs de
proteção integral. É importante revermos outros valores associados à proteção
de áreas naturais para comparar custo e benefício na argumentação da existên-
cia destas áreas (Tabela 1). Para a recreação e turismo existe a possibilidade de
atribuição de valor monetário, mas a irreversibilidade é também uma das carac-
terísticas associada à este benefício. Segundo DIXON & SHERMANN (1991) toda
decisão de manejo, uma vez implementada, é irreversível. No contexto das áreas
protegidas, com grande freqüência os efeitos são permanentes e potencialmente
significativos. Às vezes tomamos uma decisão de menor relevância e apesar dela
também ser irreversível, quando se verifica que foi uma opção errada podem ser
feitos ajustes com efeitos insignificantes e de curto prazo. De acordo com o
autor, no caso das áreas protegidas, pode não ser possível fazer tais ajustes. De
qualquer maneira, a nova condição ambiental de áreas recuperadas nunca vai ser
igual a original, daí a consideração direta da irreversibilidade.


168 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Tabela 1. Características dos benefícios da proteção das áreas Fonte: DIXON &
SHERMANN (1991)
                                                                Efeitos    Previsão de Estimativa
                                         Não        Não
              " enefíc"o                                        fora do       perda      de valor
                                         rival   excludente
                                                                  sítio    irreversível econômico
Recreação/turismo                         XC          P                         P           S
Bacia hidrográfica
 controle de erosão                        X          X            X                           S
 diminuição de inundação local             X          X            X                           E
Processos ecológicos
fixação e ciclagerm de nutrientes                     X            X                           S
formação do solo                                      X            X                           S
 purificação do ar e da água               X          X            X                           S
Biodiversidade
recursos genéticos                         X          P            X            P              E
Educação                                   X          P            X            X              E
Pesquisa                                   X          P            X            X              E
Estética                                   X          X            X            P              S
Espiritual                                 X          X            X            X              E
Histórico/cultural                         X          X            X            X              E
Valor de opção                             X          X            X            X              E
Valor de existêMcia                        X          X            X            X              E
Suporte de vida                            X          X            X            P              E

  Fonte: DIXON & SHERMANN (1991)

  C = congestionável
  P = possível
  S = difícil
  E = extremamente difícil
  X = o atributo está presente




    O valor de existência, atribuído às áreas naturais para justificar a sua perma-
  nência, tem sido pouco comentado atualmente. O fato de que alguns parques
  estejam se tornando um misto de conservação e de atrativo turístico com
  motivações mais esportivas que contemplativas refletem esta situação.

    De qualquer forma, as atividades turísticas são vistas como uma grande opor-
  tunidade para a sustentabilidade econômica das UCs brasileiras. Por outro lado,
  se reconhece também que tanto o turismo como o ecoturismo podem ser uma
  ameaça para a preservação do meio ambiente quando não forem bem conduzidas
  (DOUROJEANNI & PÁDUA, 2001).

    Considerando todos os fatores envolvidos no desenvolvimento de atividades
  de uso público (inclusive o turismo) relacionados à sustentabilidade ecológica e
  social das áreas protegidas, a sustentabilidade econônica pode não ser alcançada.
  Mas isso não deveria, sob nenhuma hipótese, representar um desconforto para
  os administradores se reportarem aos representantes dos órgãos ambientais
  oficiais. A sustentabilidade econômica deveria estar embasada na sustentabilidade


                                             Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                   Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
política para a manutenção das áreas protegidas, com designação adequada de
aporte financeiro. O suporte político, que garante a manutenção das UCs já
existentes e a criação de novas áreas se origina da aprovação popular de ações
bem tomadas e da apreciação da natureza.

  Manning (2002) aponta fatos que acabam focando a abordagem anterior ao
mencionar que a crescente popularidade dos parques nacionais nos Estados Uni-
dos oferece tanto uma oportunidade como um desafio. A oportunidade se refere
ao desempenho da missão dos parques nacionais de “prover oportunidade do
usufruto das pessoas”. O desafio associado, naturalmente, é o cumprimento do
componente complementar da missão dos parques nacionais de “conservar a
paisagem e os recursos naturais e históricos”. Isto pode ser difícil com a condição
de intensa visitação. Mais ainda, a qualidade da experiência do visitante também
está implícita nesta dupla missão. De acordo com o autor o resultado final de toda
esta questão é que visitantes que têm uma experiência de alta qualidade são mais
propensos a desenvolver o reconhecimento e o patrocício público.

   Os UCs devem incentivar iniciativas que levem a sustentabilida do turismo nas
áreas de entorno e não “concorrer” na oferta das mesmas. Os objetivos devem
ser diferenciados para que não haja o desvio da função principal de conservação
de recursos ambientais e histórico/culturais. De certa forma, avanços positivos
vêm ocorrendo na revisão dos Planos de Manejo existentes e na elaboração de
novos, onde o entorno das UCs recebe atenção especial nas iniciativas ligadas
ao desenvolvimento regional.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

   Além dos exemplos nos quais o turismo intensivo destruiu o valor de muitas
áreas naturais, FAGENCE (1990) observou que na prática, nas situações onde os
objetivos das partes interessadas são conflitantes, os acordos de cooperação
mútua assumidos no planejamento e manejo tendem a valorizar as considerações
de estética, inspiração, educação, história e ciência, em favor das demandas turís-
ticas para os centros de serviços, resorts, complexos recreacionais, recreação
artificial e usos comerciais. Nestes locais, principalmente nos de uso comercial,
existe a tendência de produzir um ambiente modificado. O autor destaca que
apesar da acusação de que a degradação ambiental seja ocasionada pelo interesse
comercial, a responsabilidade irrevogável cai sobre as agências encarregadas e
com o poder de tomar decisões relacionadas a questões ambientais, sociais e
econômicas para o ‘interesse público’. Contudo, pode-se afirmar que são as imper-
feições do planejamento comercial e do processo de manejo que mais contribuem
com os inevitáveis acordos de comprometimento e ganho mútuo.

  As áreas naturais devem ser manejadas de maneira a serem conservadas e de
certa maneira protegidas contra o seu uso crescente. É necessário então mane-


170 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
jar e influenciar o uso humano de modo que os processos naturais permaneçam
intactos (CUTLER, 1980). Os slogans desenvolvidos na América do Norte na déca-
da de 70 e mais recentemente introduzidos no Brasil são muitos: “impacto míni-
mo”, “ética ecológica” , “caminhe suave no solo”, “tire somente fotos - deixe
somente pegadas” e “camping sem sinais”. Todos eles têm o mesmo propósito de
educar e encorajar os usuários das áreas naturais a causarem o menor impacto
possível na paisagem (HART, 1980).

  A experiência de outros países também ilustra a tendência de examinar os
conflitos entre recreação e conservação, processo este iniciado recentemente
no Brasil. A pesquisa em ecologia de recreação tem se concentrado nos impac-
tos das atividades recreativas (BAYFIELD & BARROW, 1983) e algumas atividades
de manejo tem sido propostas de maneira a resolver os problemas criados
(BAYFIELD & AITKEN, 1992; COLE, 1989). Da mesma maneira conferências foram
organizadas (TOURISM, RECREATION AND CONSERVATION, 1985; USDA, 1995;
ARNBERGER.A., BRANDENBURG, C. & MUHAR, A, 2002) com o objetivo de discutir o
papel e implicações do uso público e do turismo nas áreas naturais.

   Embora a opinião dos dois extremos, (pessoas com ponto de vista biocêntrico
em oposição àquelas com ponto de vista antropocêntrico) de que as áreas
silvestres devem ser manejadas somente por um princípio: conservação ou re-
creação, não podemos fugir do fato de que o público tem direito ao acesso a
alguns sítios das unidades de conservação.

  As unidades de conservação que permitem o uso público, sempre tiveram
algum tipo de uso, fosse ele voltado para a recreação, pesquisa científica ou
contemplação. O que preocupa muitos técnicos e administradores é o fato da
inserção destas áreas nos destinos turísticos das agências de viagens, nas revis-
tas especializadas, trazendo de forma rápida um grande fluxo de pessoas em
datas específicas. O exemplo dos destinos turísticos tradicionais, sejam eles
com base em recursos naturais ou históricos culturais, não deixa que se vislum-
bre nada animador. Aliado a isso, temos áreas que muitas vezes não possuem um
documento de planejamento atualizado.

  No entanto, sabemos que o uso público, seja ele ligado à Educação Ambiental
ou com objetivos recreacionais, é um uso legítimo, desenvolvido em diferentes
níveis para a seguintes categorias de manejo: Reserva Biológica e Estação Eco-
lógica, Parque Nacional, Monumento Natural, Refúgio da Vida Silvestre, Floresta
Nacional, Reserva de Fauna, Reserva Extrativista, Reserva de Desenvolvimento
Sustentável, Área de Proteção Ambiental, Área de Proteção Ambiental e Reserva
Particular do Patrimônio Natural.

  Assim, algum grau de impacto sempre será aceito na implantação das ativida-
des de uso público. Até mesmo a pesquisa científica, tão benéfica para aumentar
o conhecimento sobre os recursos da área, traz efeitos indesejáveis para o

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
ambiente. Exemplos são a abertura de transectos para o estudo da vegetação e
dos animais, que na verdade são um complexo de trilhas abertas para atender
delineamentos estatísticos ou a perda de alguns indivíduos da fauna silvestre
devido ao caráter da pesquisa, por acidente ou mesmo por imperícia.

  Nesta discussão entre uso e conservação esperamos uma melhoria nas opor-
tunidades de uso público e um avanço no entendimento e restabelecimento das
relações do homem com o ambiente natural.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]




172 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2003
          Publicação original: Artigo de periódico


Formato da contribuição: texto integral
Fonte: FIEP BULLETIN, v.73, Special edition.
E-mail do(s) autor(es): valdovieira@yahoo.com.br
Títulos acadêmicos principais atuais: Valdo Vieira: Doutorando em Psicologia
Social (UERJ), Mestre em Ciência da Motricidade Humana (UCB/RJ), Licenciado
em Educação Física (UERJ), Bacharel em Estatística (UERJ); Manoel José Gomes
Tubino: Presidente da Fédération Internationale d’Education Physique, Doutor
em Educação Física pela Université Libre de Bruxelles, Doutor em Educação
(UFRJ) e Bernardo de Miranda Villano: Licenciado em Educação Física (UERJ).




Impacto ambiental nas
competições de trekking de regularidade
segundo os seus praticantes

Valdo Vieira
Bernardo de Miranda Villano
Manoel J. G. Tubino


   A Humanidade vem passando por profundas transformações, sobretudo a par-
tir do século XX quando muitas conquistas foram efetivadas em todas as áreas da
vida humana. Pode-se citar o aumento da expectativa de vida, conquistas na
medicina genética, a internet facilitando o acesso a informações, novos apare-
lhos e equipamentos que trouxeram conforto ao homem, como a televisão, o
telefone celular, o ar condicionado e o automóvel, entre muitos outros. Contras-
tando com os avanços obtidos, muitos problemas surgiram. Esse modelo domi-
nante de produção e consumo está alterando o clima, degradando a biosfera,
esgotando os recursos naturais, causando a extinção de espécies e deteriorando
os sistemas sociais, comprometendo significativamente a qualidade de vida no
planeta.

   O buraco na camada de ozônio da atmosfera e o efeito estufa tiveram reper-
cussão mundial pois colocam em risco a própria existência humana. Estes fatos
fizeram o Homem refletir sobre o modelo de desenvolvimento adotado e a
repensar a sua relação com a natureza. Até então o ser humano não se conside-
rava parte da natureza, sendo este entendimento fruto do cartesianismo que vem

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
vigorando nas sociedades ocidentais desde o século XVI, sendo a base da Revo-
lução Científica Moderna. Bissio (1991) ressalta que a degradação ambiental e
humana produzida pelas sociedades industrializadas modernas exigia soluções
que não podiam ser nacionais nem regionais, mas de escala mundial. Em 1992 foi
realizada no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambi-
ente e o Desenvolvimento em que estiveram representados os governos de 182
países além de representantes da sociedade civil. Foi aprovado consensualmente
um documento intitulado Agenda 21, na verdade um plano de ação com a finali-
dade de harmonizar o crescimento econômico com a preservação do meio
ambiente e a igualdade social. A Agenda 21, composta de 40 capítulos e 27
princípios gerais, destaca as responsabilidades individuais e coletivas que todos
os setores da atuação humana precisam ter com a conservação do planeta.

   O Homem começou a entender que é parte integrante da natureza e que o
mundo é um todo, integrado, inter-relacionado e interdependente. Embora seja
evidente que o modelo de desenvolvimento trouxe também a fome, a miséria e a
degradação ambiental, a tentativa de buscar um novo caminho para o futuro do
planeta esbarra em posições antagônicas, pois o capital possui um papel central
na economia mundial. Soffiati (2002) cita três posições distintas em relação à
crise ambiental: A compatibilista, que pretende conciliar os sistemas atuais de
desenvolvimento com a proteção a natureza; a exponencialista, que acredita
que os recursos da natureza são inesgotáveis e estão à disposição do homem; e
os conservacionistas, que desejam um aproveitamento racional e sensato dos
recursos naturais. Em face das divergências pouco se avançou na implementação
de medidas atenuadoras do processo de degradação ambiental.



O ESPORTE NO CONTEXTO AMBIENTAL

   O esporte se tornou um dos fenômenos socioculturais mais importantes da
atualidade (TUBINO, 1999). Nas últimas décadas surgiram novas modalidades
e movimentos esportivos, entre eles os esportes da natureza. Esses esportes
se caracterizam por serem praticados em espaços naturais permeados pelas
noções de aventura, risco calculado, adrenalina e prazer (MARINHO, 2001).
De acordo com Costa e Tubino (1999), essas práticas esportivas surgiram no
final da década de 70 com os esportes californianos, como o surfe, vôo livre,
windsurfe e o hobbie-cat. Podemos citar alguns esportes da natureza que são
realizados no Brasil, como lazer e/ou como competição: arborismo,
balonismo, bodyboard, bóia-cross, bungee jump, canoagem, canyoning,
cascading, caving, corrida de orientação, escalada, golfe, jet ski, mergulho,
motocross, mountain bike, natação, outrigger, parapente, pesca, rafting,
enduros eqüestres, rapel, regatas oceânicas, sandboard, ski aquático, sky
surf, surf, surf de peito, trekking e o vôo livre.




174 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Mas Tubino (1992) nos traz um alerta sobre a exaustão nos ambientes onde
esses esportes são praticados. Por terem um contato direto com a natureza
podem vir a causar algum dano nos meios físico, biológico e/ou sociocultural,
sendo fundamental conhecer as ações provocadas por estes esportes no meio
ambiente, para que, no mínimo, haja uma redução dos impactos ambientais.

  O objetivo deste trabalho foi identificar junto aos praticantes da Copa Rio
de Trekking suas opiniões, percepções, comportamentos e conhecimentos
sobre o meio ambiente e os impactos ambientais que o Trekking pode provo-
car na natureza.



O TREKKING DE REGULARIDADE

  O Trekking de Regularidade é um esporte que surgiu no Brasil nos anos 90. O
objetivo é percorrer as trilhas no tempo exato, vencendo os obstáculos naturais
como matas, montanhas, vales e rios. A trilha é apresentada em uma planilha
com todas as informações necessárias para a interpretação do caminho a ser
seguido, contendo as distâncias, descrição do ambiente, direções e velocidade
média em cada trecho. Os equipamentos necessários para cada equipe são:
bússola, caneta, relógio e calculadora.

   Os competidores devem seguir as indicações contidas na planilha para que
possam atingir o tempo ideal de passagem nos Postos de Controle (PC’s). As
equipes são compostas de 3 a 6 pessoas, sendo que cada uma delas possui uma
função específica, e será a integração das diferentes funções desenvolvidas por
cada integrante da equipe que a levará ao sucesso. A avaliação é feita pela
regularidade com que as equipes passam pelos PC’s, os quais são colocados
estrategicamente em vários locais do percurso. A velocidade média de cada
trecho é determinada de acordo com as peculiaridades do local, mas sempre
definida para que as equipes caminhem. A velocidade média costuma variar de 15
m/min a 90 m/min. Portanto, o que importa não é a intensidade ou o melhor
preparo físico, mas sim a integração de sua equipe e a regularidade ao longo do
percurso dentro das regras definidas no regulamento. Isso faz com que este
esporte possa ser praticado em iguais condições por pessoas de várias faixas
etárias e níveis de condicionamento físico.



RESULTADOS

  Após a realização de uma pesquisa-piloto, organizou-se como instrumento
de coleta de dados um questionário semi-estruturado, distribuído ao final de
uma competição. A amostra, caracterizada como não-probabilística intencio-
nal, foi composta por 68 sujeitos, sendo 52 homens e 16 mulheres. Embora não


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
tenha havido intencionalidade em distribuir ponderalmente os questionários
entre os dois sexos, o resultado reflete a predominância do sexo masculino
neste esporte, fato observado em todos os campeonatos disputados no Brasil.
As idades dos respondentes variaram entre 15 e 46 anos, com média de 29,9
anos e desvio-padrão de 7,5 anos. A Tabela 1 mostra um bom nível de Escola-
ridade declarada pelos competidores, onde 92,7 % estão cursando ou já con-
cluíram o Ensino Superior.



Tabela 1 - Escolaridade dos competidores (%)
            Escolaridad^                 Masculino    F^minino   Total
                                            (%)          (%)      (%)
        Até o Ensino Médio                 9,6           0,0      7,4
        Sup^rior Incompl^to                28,9         56,3     35,3
     Sup^rior Compl^to ou Pós-
                                              61,5      43,7     57,3
             Graduação
               Total                          100,0    100,0     100,0


  A Tabela 2 mostra os principais motivos apontados pelos competidores para
praticar o Trekking. Neste item do questionário o respondente poderia marcar no
máximo duas respostas. Analisando os dados percebe-se que embora estejam
participando de uma competição, os praticantes do Trekking parecem estar à
procura de aventura e contato com a natureza. A obtenção de resultados não
parece ser o fator motivacional principal, sendo apontado por apenas 5,9 % dos
respondentes. Entre os que marcaram “outros”, os principais motivos indicados
foram: poder estar com os amigos e buscar diversão.



Tabela 2 - Principais motivos assinalados
pelos competidores para praticar o Trekking
             " o"ivos p"r" " "rá"i""         " "s"ulino F"minino "o""l
                Bus""r "v"n"ur"                  26       05      31
      En"r"r "m "on"""o "om " n""ur"""           26       03      29
    Bus""r m"is s"ú"" " qu"li"""" "" vi""        19       05      24
 " """r r"sul"""os "xpr"ssivos n" "omp""ição     03        01     04
                     " u"ros                     03       08      11



  Outra pergunta formulada foi se ocorreram mudanças pessoais, em relação a
hábitos e concepções relativas à natureza, após o início da prática do trekking.
Responderam positivamente 55,9 % do total de praticantes, sendo 59,6 % dos
homens e 43,8% das mulheres. Na Tabela 3 estão relacionadas as mudanças
pessoais apontadas. Neste item o respondente não precisava se limitar a uma
única resposta. Essas respostas mostram que o esporte pode ser um caminho
para uma convivência harmoniosa com a natureza. Mas o que surpreendeu foi o


176 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
número expressivo de competidores que passaram a realizar atividade física
regularmente após o início da prática do Trekking de Regularidade. Isso sugere
que propiciar a prática junto à natureza pode ser um fator determinante de
adesão à prática esportiva.



Tabela 3 - Mudanças pessoais em relação aos hábitos
e concepções relativas à natureza

                   Mudanças P^ssoais                        Masculino F^minino Total
Passou a gostar mais da convivência com a natur^za             18       05      23
Aum^ntou a pr^ocupação com a qu^stão ambi^ntal                 17       06      23
T^m lido mais ou procurado na mídia artigos ou
                                                                15           03           18
programas sobr^ assuntos r^lacionados à natur^za
Passou a r^alizar atividad^ física r^gularm^nt^                 16           01           17
Votou na última ^l^ição ^m candidato(s) ligados à
                                                                03           01           04
prot^ção da natur^za
Passou a participar d^ manif^staçõ^s ^m prol da
                                                                02           00           02
natur^za
Filiou-s^ a alguma ^ntidad^ ou organização d^
                                                                01           00           01
prot^ção ambi^ntal




  Os esportes em contato com a natureza podem ocasionar algum impacto ao
ambiente onde são realizados. Para 86,8 % dos respondentes, tanto os
organizadores como os competidores são os principais responsáveis pela pre-
servação da natureza nas competições de trekking. A Tabela 4 mostra com
clareza o percentual de praticantes que acreditam que essa competição ocasio-
ne algum dano ao meio ambiente. Em seguida, na Tabela 5, a relação dos danos
apontados pelos respondentes. Os resultados mostram que as indicações dos
danos provocados pelo Trekking de Regularidade referem-se basicamente aos
meios físicos e biológicos, não havendo uma única indicação de impactos
ambientais no meio social.



Tabela 4 - Praticantes apontam se o Trekking causa dano ao meio ambiente (%)
                                          " "s"ulino        F"minino              "o""l
   " "r"kkin" ""us" "l"um ""no?
                                              (%)              (%)                 (%)
               "im                           30,8             56,3                36,8
               "ão                           69,2             43,7                63,2
              "o""l                         100,0             100,0               100,0




                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Tabela 5 - Danos apontados pelos praticantes ocasionados
pelo Trekking de Regularidade
                    D^sgast^ das trilhas, ^rosão do solo                               15
                          D^struição da v^g^tação                                      11
                Lixo largado p^los ^nvolvidos na comp^tição                            04
                              Espéci^ ^m rios                                          01
                                   Fauna                                               01


  As Tabelas 6 mostra como os praticantes avaliam o seu nível de informação
sobre o meio ambiente. Em seguida, e mostrado na tabela 7, pede-se para marcar
numa lista os itens que fazem parte do meio ambiente. A apreciação dos resulta-
dos revela que 75,0 % se avaliam “muito bem informados” ou “bem informados”
sobre meio ambiente. Entretanto, 64,7% não consideram as favelas e/ou as cida-
des integrantes do meio ambiente. E entre todos os respondentes, 25,5 % não
consideram o ser humano como integrante do meio ambiente.



Tabela 6 - Nível de informação sobre o meio ambiente (%)
             Nível de informação                    Masculino        Feminino        Total
                                                       (%)              (%)            (%)
          Muito bem informado                         13,6             25,0           16,2
              Bem informado                           61,5             50,0           58,8
         Mais ou menos informado                      21,1             18,8           20,6
              Mal informado                            1,9             6,2            2,9
           Muito mal informado                         1,9              0,0            1,5
                   Total                             100,0            100,0          100,0




Tabela 7 - Itens que fazem parte do meio ambiente segundo os praticantes
     Constituint^s do m^io ambi^nt^                     Masculino*              F^minino**
                  Matas                                    51                      15
                   Rios                                    51                      15
                 Animais                                   46                      14
             S^r^s humanos                                 38                      11
                   Água                                    50                      14
                    Ar                                     49                      15
                  endios                                   26                      07
                   Solo                                    49                      15
                 Min^rais                                  38                      13
                 Cidad^s                                   19                      06
                 Fav^las                                   15                      06
                  Mar^s                                    47                      14
*51 respostas possíveis em cada item **15 respostas possíveis em cada item




178 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
CONCLUSÕES

  O destino que a humanidade tomou está colocando em risco a própria existên-
cia humana. Todas as áreas do conhecimento, incluindo a Educação Física, tem
o dever de zelar pela conservação do planeta. As pessoas estão chegando à
natureza pelo esporte, sendo de fundamental importância conhecer as ações e
os impactos que esses esportes provocam na natureza. Para isso devemos co-
nhecer as opiniões, os conhecimentos e comportamentos de todos os envolvi-
dos neste processo. Os resultados deste estudo sugerem que os competidores de
Trekking possuem pouco conhecimento em relação ao meio ambiente e pare-
cem não possuir a dimensão dos impactos ambientais que o Trekking poderia
ocasionar nos meios físicos, biológicos e antrópicos. Entretanto a prática do
Trekking pode trazer mudanças positivas, parecendo ser importante à participa-
ção nas competições para o aumento da preocupação e conhecimento com as
questões ambientais.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]




                                           Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Ano: 2003
          Publicação original: dissertação


Formato da contribuição: resumo da dissertação
Fonte: “Sítios Geológicos e Geomorfológicos dos municípios de Acari, Carnaúba
dos Dantas e Currais Novos, Região Seridó do Rio Grande do Norte”, Natal:
UFRN, Programa de Pós-Graduação em Geociências, 2003.
E-mail do(s) autor(es): wendsonmedeiros@uern.br
Títulos acadêmicos principais atuais: Geógrafo, Mestre em Geociências, Professor
Assistente UERN




Sítios geológicos e geomorfológicos
dos municípios de Acari,
Carnaúba dos Dantas e Currais Novos,
região Seridó do Rio Grande do Norte
Wendson Dantas de Araújo Medeiros



RESUMO

   Sítios Geológicos e Geomorfológicos dos Municípios de Acari, Carnaúba dos
Dantas e Currais Novos, Região Seridó do Rio Grande do Norte, trata-se de um
estudo sobre as características geológicas, geomorfológicas, mineralógicas,
paleontológicas e arqueológicas da área de estudo, visando à identificação de
sítios que apresentem relevante importância científica, cultural, paisagística,
histórica, econômica e ecológica e que mereçam receber proteção especial para
a sua manutenção para as presentes e futuras gerações. Foi desenvolvido com
base nos métodos adotados pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e
Paleontológicos – SIGEP/UNESCO e pela Iniciativa de Sofia para a Preservação da
Diversidade Mineral do Planeta, objetivando a descrição dos principais sítios,
sua problemática ambiental e a proposição de medidas protecionistas. Foram
identificados um total de 7 sítios com características e feições típicas que mere-
cem ser alvo de proteção. No município de Acari, foram identificados três sítios:
sítio geológico-geomorfológico-arqueológico Barra da Carnaúba; sitio geológi-
co-geomorfológico do Gargalheiras; e sítio geológico-geomorfológico Bico da
Arara. Em Carnaúba dos Dantas, o complexo geomorfológico Riacho do Bojo que
possui canyons e gargantas profundas, com registros rupestres das três grandes

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
tradições de pinturas rupestres do nordeste: Nordeste – Sub-tradição Seridó,
Agreste e Itaquatiara. No município de Currais Novos, também foram identifica-
dos 3 sítios: sito geomorfológico Canyon dos Apertados; complexo
geomorfológico-arqueológico-paleontológico do Totoró; e, sítio geológico-
mineralógico Brejuí. A partir da problemática ambiental que envolve cada um dos
sítios identificados, propõe-se, como garantia de proteção a estes sítios, o seu
aproveitamento econômico com a atividade ecogeoturística, que visa à integração
da comunidade em programas de educação ambiental entre outros, além de
proporcionar a geração de emprego e renda para os municípios. Por fim, sugere-
se uma série de medidas que visam à efetivação da atividade e à proteção dos
sítios que podem ser classificados como patrimônio natural, de acordo com a
denominação da UNESCO, em seu programa Patrimônio Natural da Humanidade.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]




182 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2003
          Publicação original: dissertação


Formato da contribuição: texto resumido da dissertação
Fonte: “Sítios Geológicos e Geomorfológicos dos municípios de Acari, Carnaúba
dos Dantas e Currais Novos, Região Seridó do Rio Grande do Norte”, Natal: UFRN,
Programa de Pós-Graduação em Geociências, 2003.
E-mail do(s) autor(es): wendsonmedeiros@uern.br
Títulos acadêmicos principais atuais: Geógrafo, Mestre em Geociências, Professor
Assistente UERN




Ecogeoturismo e geoconservação de sítios
geológicos e geomorfológicos no Seridó
Oriental do Rio Grande do Norte
Wendson Dantas de Araújo Medeiros


   O presente trabalho trata-se de um levantamento geoambiental de sítios geo-
lógicos, geomorfológicos, arqueológicos, paleontológicos e mineralógicos si-
tuados nos municípios de Acari, Carnaúba dos Dantas e Currais Novos, Região
Seridó do Rio Grande do Norte, visando identificar as potencialidades desses
sítios para o desenvolvimento da atividade ecogeoturística e de projetos de
geoconservação, bem como a problemática ambiental que os coloca em risco.

   Os sítios geológicos são recursos concretos dotados de formas e feições
típicas ou estruturas com características marcantes que possuam importância
fundamentada em sua multifinalidade para

               pesquisa científica; difusão do conhecimento científico na área
               das Ciências da Terra; atividades educacionais e recreativas; cria-
               ção e fortalecimento de uma consciência conservacionista;
               referenciais em guias turísticos, estimulando, através do eco-turis-
               mo [ecogeoturismo], a participação e desenvolvimento sócio-eco-
               nômico das comunidades locais (SIGEP, 2002) [grifo nosso].

  A problemática conservacionista que envolve estes sítios, que constituem,
de modo geral, a geodiversidade do planeta, deriva do fato de não possuírem

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
proteção legal, ao contrário do que ocorre com a biodiversidade. Neste
sentido, a partir da década de 90, as comunidades geocientíficas do mundo
inteiro passaram a se preocupar com o desaparecimento deste patrimônio
natural, tendo como marco referencial as propostas elaboradas pelo grupo
Gilges (Global Indicative List of Geolocical Sites), de modificações nas dire-
trizes existentes até então para World Heritage Sites (Sítios do Patrimônio
Mundial) da Unesco, inserindo as propriedades geológicas afetadas como
objeto daquele projeto.

  Surgem, conseqüentemente, os primeiros projetos de geoconservação, inicia-
dos na Europa, onde o objetivo principal é promover a preservação da
geodiversidade para as presentes e futuras gerações. Exemplo dessa iniciativa é
a atuação da Unesco, que financiou e incentivou a realização de inventários dos
patrimônios geológicos de diversos países do mundo, com destaque para os
países europeus.

   Posteriormente, em 1994, o Gilges viria a estabelecer novos conceitos e
metodologias referentes aos projetos de geoconservação. Destarte, em 1996, a
International Union of Geological Sciences – IUGS (União Internacional de Ciên-
cias Geológicas), juntamente com a Unesco, através do World Natural Heritage
(Patrimônio Natural da Humanidade), desenvolveram um método para a
geoconservação denominado Geosites, o qual consiste num inventário dos prin-
cipais sítios geológicos merecedores de receber proteção legal face às suas
peculiaridades e características intrínsecas, e principalmente devido ao fato de
constituírem um patrimônio que uma vez deteriorados não poderiam ser recupe-
rados. Este fato provocaria um impacto de grande magnitude, uma vez que
estava sendo apagado um capítulo da história evolutiva da Terra.

  Dentre os projetos pioneiros desenvolvidos na Europa, pode-se citar aqui o
implantado pela Associação Européia para a Conservação do Patrimônio Geoló-
gico – ProGEO, que, fundamentado nos conceitos do Gilges e Geosites, tem
promovido projetos de geoconservação em estágios notáveis por grande parte
dos países europeus.

  Seguindo o exemplo dos países da Europa, vários outros países, como a África
do Sul, através da Sociedade Geológica Sul-Africana, também passaram a desen-
volver projetos nesse sentido e a reivindicar a adoção de leis que venham a
proteger o patrimônio nacional (Reimold, 1999).

  Em outros países, como no Brasil, por exemplo, apesar da existência de inúme-
ras leis de proteção ao meio ambiente, referentes aos recursos naturais, princi-
palmente os orgânicos, e culturais (Patrimônio Histórico e Artístico Nacional),
resta ainda uma lacuna no que se refere à preservação e conservação dos sítios
geológicos.



184 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Apesar disso, a Lei n°. 9.985 de 18 de julho de 2000, instituiu o Sistema Nacional
de Unidades de Conservação da Natureza – SNUC, garantindo, com isso, certa
proteção aos sítios geológicos, a qual pode ser confirmada com a criação das
unidades de conservação denominadas Parque Nacional, Estação Ecológica, e
em especial, Monumento Natural. Este último trata-se da única modalidade em
que se pode inserir isoladamente o patrimônio geológico.

   Em se tratando, ainda, de Brasil, país signatário do Patrimônio Mundial da
Unesco, Convenção Internacional para a Proteção de Sítios Culturais e Naturais,
foi criada no final da década de 90, uma comissão científica constituída de
geocientistas de todo o país, objetivando inventariar, de acordo com os princí-
pios do Geosites, o seu patrimônio nacional. Esta comissão, denominada Comis-
são Brasileira de Sítios Geológicos e Paleontológicos – SIGEP, após reunião
realizada nos dias 26 e 27 de março de 1997, definiu as ações para a catalogação
dos sítios brasileiros, que resultou na publicação de um livro bilíngue, com os 100
principais Sítios Geológicos do Brasil, com o mesmo intuito aqui discutido, ga-
rantindo a sua proteção legal a partir de uma proposta como Sítios do Patrimônio
Mundial da Humanidade à Unesco, visando a sua conservação e preservação in
situ (SIGEP, 2002). Atualmente, a SIGEP está desenvolvendo ações para a publica-
ção do segundo livro.

  Baseando-se nesses princípios é que se fundamenta este trabalho. Porém,
propõe-se, como aliada aos projetos de geoconservação, a implementação do
ecogeoturismo, que trata-se de uma modalidade de turismo, desenvolvido em
bases geocientíficas e apoiada nos princípios da atividade ecoturística, que visa
ao aproveitamento econômico dos sítios geológicos, como forma de fortalecer
a sua proteção, a partir da participação das comunidades locais inseridas nas
áreas dos sítios, da promoção da educação ambiental e de incentivos à pesquisa
científica (Medeiros, 2003).

   Ao longo desta pesquisa, realizada no Programa de Pós-Graduação em Geociências
da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, no período entre 2001 e 2003, foram
identificados 7 sítios geológicos-geomorfológicos, sendo 3 no município de Acari, 3
no município de Currais Novos e um complexo de sítios no município de Carnaúba
dos Dantas. Contudo, apresentar-se-ão, aqui, apenas os principais sítios referentes a
cada um dos municípios, conforme se percebe a seguir.



SÍTIO GEOLÓGICO-GEOMORFOLÓGICO-ARQUEOLÓGICO BARRA DA CARNAÚBA

   Situado no município de Acari, na comunidade de Barra de Carnaúba, no leito
do rio Carnaúba, distante cerca de 18 km do centro da cidade, o sítio se caracte-
riza pelo afloramento de rochas graníticas, de idades em torno de 600 Ma (Sou-
za, 1996), textura predominante porfiroblástica e coloração acinzentada, onde
se encontram grandes cristais, bem preservados e orientados, os quais podem

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
indicar a direção do pólo magnético da Terra no período de sua cristalização,
uma vez que há uma relação semelhante entre a fábrica magmática e a magnéti-
ca, conforme observou Archanjo (1993).

  Neste sítio, pode-se observar a atuação de eventos tectono-metamórficos em
ambientes pretéritos, sendo evidenciados pela presença de inúmeros diques
pegmatíticos que intruindo as rochas, apresentando-se ora homogêneos, com
predomínio de K-feldspatos, ora heterogêneos, com mineralizações de turmalina
negra (schorlita) e berilo, que podem ser vistas a olho nu.

   Em toda sua extensão, as formas predominantes no sítio decorrem de proces-
sos de dissecação do relevo, em virtude do entalhamento da drenagem do rio
Carnaúba, que foi o principal responsável, juntamente com os processos
intempéricos, pela sua esculturação atual. Constituem-se de pequenos serrotes
alongados no sentido W-E, de composição granítica predominante, com cristas
sob a forma de domos bastante dissecados. Nestes, destaca-se um grande núme-
ro de marmitas e formações curiosas, com profundidades consideráveis, che-
gando a mais de 4 metros em alguns pontos do rio (Figura 1), proporcionado um
cenário de grande beleza cênica, e assemelhando-se à paisagem lunar. Estas, por
sua vez, tiveram sua origem relacionada a movimentos turbilhonares decorren-
tes da alta energia fluvial durante épocas de intensa pluviosidade, alternando-se
a períodos de escassez pluviométrica, que determinaram os regimes energéticos
e deposicionais dos rios da região.




Figura 1. Marmitas do Rio Carnaúba. (Fonte: acervo do autor)



186 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Apesar de sua importância geológica e geomorfológica, verificada em função
de seus constituintes e morfologias variadas, este sítio também possui grande
importância histórico-cultural e didático-científica, uma vez que são encontra-
dos em algumas marmitas, registros pré-históricos sob a forma de inscrições
rupestres realizadas pelos nômades da Tradição Itaquatiara, que, segundo dados
cronológicos, habitaram a Região Seridó há cerca de 2.500 anos (Martin, 1999).
Tudo isso, aliado ao seu potencial didático-científico, constitui forte potencial
para o desenvolvimento da atividade ecogeoturística e justifica a necessidade
de projetos de geoconservação.



SÍTIOS GEOMORFOLÓGICOS DO MUNICÍPIO DE CARNAÚBA DOS DANTAS

   Os sítios geomorfológicos do município de Carnaúba dos Dantas se encontram
integrados em uma grande área, denominada Complexo Geomorfológico Riacho
do Bojo. Esta denominação se deve ao fato de ao longo deste riacho, afluente do
rio Carnaúba, ocorrer vários sítios arqueológicos inseridos em feições
geomorfológicas de grande beleza cênica e paisagística, constituídas por canyons
e gargantas profundas.

  A litologia dominante – quartzitos da Formação Equador – ao longo do riacho
do Bojo permitiu o desenvolvimento de um modelado marcado pela presença de
canyons, gargantas, grutas e marmitas profundas, que asseguraram ao homem
pré-histórico condições de sobrevivência, e dotaram a região de uma grande e
diversa beleza cênica de elevado potencial turístico e ecogeoturístico, pelo seu
caráter didático e científico.

   Essas formações são decorrentes de intensos processos erosivos e
intempéricos, iniciados com o processo de rebaixamento do relevo no Cretáceo,
pela forte atuação da drenagem, que era marcada por intensa energia hidráulica
dos rios nesse período determinado, e que obedecia a um rígido controle estru-
tural, de sentido predominante NE-SW.

  Dentre as formações típicas desse processo encontradas ao longo do riacho
do Bojo, tem-se o Canyon dos Fundões, ou Grota Funda; o Canyon da cachoeira
do Bojo; o pequeno Canyon da passagem, e o abrigo Casa Santa. No afluente da
margem esquerda do rio Carnaúba – o riacho do Ermo, formações como a Serra
do Xique-Xique e a Pedra do Alexandre também apresentam particularidades e,
por isso, serão discutidas a seguir.

   O Canyon dos Fundões possui elevada profundidade e declividades com in-
clinações de 70-90°, e no seu leito encontram-se blocos rochosos que, depois
de erodidos, foram transportados pelo rio na sua juventude, registrando a sua
alta energia hidráulica em épocas passadas e a existência de um clima mais


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
ameno e mais chuvoso naquela região semi-árida. Também se verifica sedi-
mentos grosseiros, tipo areia, que registram um período de calmaria do rio,
onde o seu potencial de transporte diminuiu e aumentou a sua função de depo-
sição, indicando um período de modificação climática assemelhando-se ao
clima atual dominante, onde as chuvas são escassas e os rios secam durante a
maior parte do ano.

    Neste sítio geomorfológico, pode-se observar gravuras rupestres, as quais
são atribuídas à Tradição Itaquatiara, formando o sítio arqueológico dos
Fundões ou Grota Funda. Também nesse sítio, que possui subdivisões (Fundões
I,II,III e IV), observa-se inscrições da Tradição Agreste, no local conhecido
por Pedra da Macambira, tendo recebido esse nome pela abundância dessa
espécie vegetal na área.

  As inscrições, embora de difícil interpretação, podem indicar processos de
contagem realizados pelas tribos, bem como o desenho de astros ou início de
uma tradição que tinha no geometrismo sua forma de representação, bem como
representações possivelmente relacionadas ao uso de substâncias alucinógenas
(Pessis, 1992; Martin, 1999).

  Como se pode observar, possuem características que possibilitaram o abrigo
de tribos indígenas pré-históricas, como as marmitas na Pedra da Macambira,
que acumulavam água na época chuvosa e esta permanecia armazenada durante
a estação seca, e as grutas do Fundões, que serviam de abrigo e proteção àque-
las tribos. Vale ressaltar, que este abrigo deveria ser mais profundo na época de
ocupação deste povo, há cerca de 2.500 anos, haja vista que a quantidade de
sedimentos inconsolidados presentes na área indica que houve um processo de
assoreamento, diminuindo, portanto, a profundidade da referida gruta. Tal fato
possibilita o desenvolvimento de estudos arqueológicos mais aprofundados nesta
área, uma vez que é possível a realização de escavações com o intuito de se
encontrar elementos materiais que auxiliem no estudo evolutivo dessa tradição.

  Seguindo, ainda, o percurso rumo à nascente desse riacho, observa-se a
formação de pequenos canyons como o escavado pela cachoeira do Bojo.
Nesse canyon, ainda jovem, é possível identificar a sinuosidade do rio duran-
te o seu processo erosivo, e nele pode-se observar a existência de água em
profundidade mesmo na época de estiagem. Esse local recebe o nome de
cachoeira do Bojo, e devido ao fato de não secar, conforme afirmações de
antigos moradores daquela região, habitam no imaginário popular crendices
a respeito de encantos e mitos que vivem nas suas águas. Embora seja um
lugar de difícil acesso, antigamente havia naquelas imediações várias fazen-
das de gado, e suas comunidades usavam o local para prática de lazer, sendo
hoje restrita aos aventureiros e caçadores que rondam constantemente a
área. Aí também se percebem registros da passagem humana na antiguidade,
como as gravuras da Tradição Itaquatiara.


188 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Continuando a trilha pelo afluente da margem direita do riacho do Bojo,
atravessando obstáculos como canyons e paredões, toma-se o acesso para
um dos mais representativos sítios arqueológicos do Nordeste: a Casa Santa
(Martin, 1999). Trata-se de um abrigo sob rocha, onde um grande painel encon-
tra-se pintado com registros das tradições Nordeste e Agreste e, em menor
número, da Itaquatiara.

  Ao longo desse percurso, observam-se formações semelhantes, esculpidas em
rochas quartzíticas, como o Canyon da Passagem, que demonstra claramente o
seu controle estrutural pelo seu aspecto retilíneo.

   As formas da Casa Santa permitem identificar a atuação predominante de
processos intempéricos provocando a desagregação da rocha, facilitando o seu
transporte pelo rio, que se encontra muito próximo de sua nascente.

  Os painéis apresentam figuras de fácil identificação, como cenas clássicas
de caça, dança e luta. Observam-se desenhos de pirogas com remos, como
um indicativo da existência de rios caudalosos na época em que essa tribo
ocupou a região. Estas, no entanto, têm gerado hipóteses diversas, algumas
consideradas até fantasiosas. Entre elas, está a que defende uma possível
relação com os povos fenícios, os quais poderiam ter chegado à região
através desse meio de transporte.

  Estudado desde a década de 80, este abrigo não possui condições que permi-
tam o habitat das tribos, tendo sido usado apenas para abrigos temporários,
para rituais ou como ponto de observação, devido à sua situação em pontos
elevados (Martin, 1999).

   Além destes sítios, ao longo do riacho do Bojo, têm-se outros sítios de mesma
importância que são encontrados na Serra do Xique-Xique e às margens do
riacho do Ermo, também afluente do rio Carnaúba, que são, respectivamente, os
sítios arqueológicos Xique-Xique I e Pedra do Alexandre.

   No caso do Sítio Arqueológico Xique-Xique I, pode-se verificar registros
rupestres dotados de cenas clássicas, como dança ao redor de uma espécie de
fitomorfa; representação de zoomorfos, como uma ema deitada no ninho com
ovos, ameaçada por um caçador; cenas de sexo e de estupro (Pessis, 1992; Vidal,
1996, Macedo, 2001a), que se encontram apagadas em função da deterioração
natural, derivado dos processos intempéricos, e da atuação antrópica no sítio,
que é bastante vsitado, dado as facilidades de acesso.

   Já o Sítio Pedra do Alexandre, caracterizado pela atuação de processos erosivos
diferenciais, consiste de um micaxisto da Formação Seridó que sofreu profundas
alterações decorrentes da intrusão do Maciço Acari, há aproximadamente 600 Ma.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Ele possui uma particularidade em especial: o caso de ter sido utilizado como
cemitério indígena e como lugar para prática de rituais funerários. Escavações
realizadas aí permitiram a identificação de 28 esqueletos humanos, os quais havi-
am sido enterrados junto com adornos como colares e apitos. Nestes corpos,
foram encontrados restos de carvão que poderiam ter sido utilizados em fogueiras
realizadas nos rituais para enterramentos secundários. As datações realizadas
neste carvão revelaram idades de 9.400 anos AP (Martin, 1999; Macedo, 2001b).

   Todo esse complexo se vê constantemente ameaçado em detrimento da prá-
tica de garimpagem de minerais como tantalita e columbita, abundantes nessa
área, que ocorre sem nenhum tipo de controle, de forma rudimentar, provocando
sérios impactos ambientais e desrespeitando os patrimônios naturais e culturais
aí identificados.



COMPLEXO GEOMORFOLÓGICO-ARQUEOLÓGICO-PALEONTOLÓGICO DO TOTORÓ

  A Região do Totoró está localizada no município de Currais Novos, a cerca de
12 km da sede municipal, em sua porção norte, sendo reconhecida, historica-
mente, como a base do início do processo de colonização da cidade. Foi nela
onde se estabeleceram os primeiros currais para a criação de gado, atividade
fundamental para a ocupação do território e fundação do município.

  O Complexo Totoró encontra-se assentado sobre um embasamento cristalino
gnáissico-migmatítico que não chega a aflorar na área, tendo como sequência
supracrustal, rochas granitóides de idade brasiliana, correlacionadas ao Maciço
Acari-Totoró.

  Também sobrepostas ao embasamento ocorrem sequências metassedimentares
vulcânicas e formações sedimentares recentes, do Quaternário, como os sedi-
mentos da Formação Tanques ou Cacimbas, onde se encontram vestígios de uma
megafauna pretérita.

  Esta constituição litológica proporciona a esculturação de formas típicas no
modelado da área, muitas vezes assemelhando-se a materiais e objetos presentes
no cotidiano da região. Tais feições decorrem de processos erosivos e intempéricos
que atuam na região há milhares de anos, e estes produziram um modelado marca-
do por serras elevadas e íngremes, geralmente de composição granítica.

  No processo de morfogênese da área, a rede de drenagem controlada por
falhamentos nas estruturas geológicas propiciou um arrasamento do relevo,
reduzindo-o a altitudes modestas, em torno de 600 metros. A principal alimen-
tação dessa rede deriva das vertentes da Serra de Santana, que fica a norte da
área do Totoró.


190 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Em função desses processos, a região abriga feições típicas, de aspectos curiosos
e que cultivam o imaginário popular, que podem ser identificados como sítios
geomorfológicos, tanto por apresentar certa beleza cênica, como por permitir um
estudo sobre o seu processo evolutivo ao longo de milhares de anos. Nesse caso,
possui um importante potencial didático-científico e ecogeoturístico, necessitando,
portanto, de proteção legal com vistas à sua preservação para as futuras gerações.

  Um dos casos que vem caracterizar o sítio geomorfológico é o da Pedra do
Caju (Figura 2). Esta feição, típica de regiões graníticas, tem seu processo de
origem ligado à atuação de agentes intempéricos e da erosão diferencial. Isto é,
a ação desses processos, de forma conjunta e simultânea, propiciou a fragmen-
tação da rocha, obedecendo aos seus planos de fratura, e foi desgastando as
partes mais frágeis, que foram carreadas pela ação dos ventos e das águas,
propiciando a formação atual.

   O que se observa é uma cena natural de equilíbrio, onde uma rocha, aparentemente
solta, se equilibra de forma muito estável. Tal situação influencia o imaginário popu-
lar, que não raro, atribui à formação uma origem divina ou até mesmo extraterrena.




Figura 2. Pedra do Caju. (Fonte: acervo do autor)


                                           Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Ainda em relação ao patrimônio geomorfológico, pode-se citar um outro
exemplo semelhante: a Pedra do Letreiro, que possui, também, relevância histó-
rico-cultural, haja vista a existência de registros rupestres da Tradição Agreste
que caracterizam o sítio arqueológico que originou o topônimo. Em virtude
disso, faz-se necessário a adoção de medidas urgentes de proteção a esses
sítios, uma vez que o desaparecimento desses registros teria um profundo im-
pacto negativo na busca da evolução histórica e ocupacional do homem pré-
histórico naquela região.

  Complementando o sítio geomorfológico e arqueológico, pode-se citar o caso
da Pedra Furada, que recebeu esse nome em função da existência de um orifício
quase no centro dela, decorrente da atuação dos processos intempéricos e erosivos.

   Destes processos, merecem destaque a atuação do intemperismo químico e a
erosão diferencial, que propiciaram uma espécie de abrigo, erodindo a rocha
internamente. Nesse abrigo, observa-se a existência de registros rupestres da
Tradição Agreste, onde se observam, inclusive, antropomorfos. Nesse sítio ar-
queológico, porém, verificou-se a necessidade urgente de adoção de medidas de
proteção, uma vez que o mesmo encontra-se degradado por pichações realiza-
das pela ação antrópica.

   Complementando o contexto geral da área, a importância histórica e geológi-
ca é fortalecida pela existência de um sítio paleontológico denominado Lagoa
do Santo. Nele, já foram retirados, desde a década de 70, inúmeros registros de
fósseis de mamíferos gigantes, como preguiças, mastodontes e outros, regis-
trando a passagem desses animais constituintes da megafauna pleistocênica –
megatérios – nessa localidade (Porpino e Santos, 1997; Santos, 2001).

   O sítio paleontológico Lagoa do Santo caracteriza-se por sedimentos consti-
tuintes da Formação Tanques ou Cacimbas, de idade quaternária, que se limita
estruturalmente com granitóides pré-cambrianos. Os fósseis retirados encon-
tram-se espalhados por vários lugares como no Museu Câmara Cascudo, em
Natal; no Colégio Camilo Toscano e na Associação Amigos do Seridó, em Currais
Novos; e em coleções particulares.

   Constitui-se, portanto, de um importante registro da existência de megafauna
pretérita, o que permite a realização de estudos científicos que podem vir a possi-
bilitar a identificação de paleoambientes climáticos, conforme sugere Prado e
Alberdini (1999), em seu estudo sobre a importância dos fósseis na região dos
Pampas argentinos, os quais haviam favorecido a existência dessa abundante fauna.

  Ainda na área da Lagoa do Santo, cujo topônimo deriva, segundo conta a
história popular, do fato de há cerca de 300 anos ter sido encontrada uma
imagem de um santo (São Sebastião) soterrada na lagoa, e que hoje, existe uma


192 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
particularidade que chama a atenção de todos que visitam a área. Trata-se de
uma rocha, de composição granítica, partida no meio, que emite o som de um
sino a partir de qualquer pancada que venha a receber, de um instrumento metá-
lico ou uma outra rocha. A esta rocha denominou-se Pedra do Sino.



PROBLEMÁTICA AMBIENTAL

  A problemática ambiental que envolve estes sítios decorre da degradação
paisagística já existente, a qual é mais perceptível no âmbito da vegetação, em
função do desmatamento excessivo ocorrido para suprir a demanda de lenha nas
cerâmicas da região.

   Somando-se a isto, pode-se citar o desenvolvimento da atividade mineira,
principalmente, com a prática de garimpos irregulares visando tanto à extração
de minerais e gemas semipreciosas, quanto à extração de rochas ornamentais,
neste caso, tem nos granitos sua principal matéria-prima. Esta atividade, da
forma como vem ocorrendo, sem nenhum controle ou planejamento, coloca em
risco a existência do patrimônio geológico e cultural da região. Ela é responsá-
vel pela destruição de belos exemplares e afloramentos geológicos, por altera-
ções drásticas no relevo, pelo desaparecimento de sítios arqueológicos, só para
citar alguns dos diversos impactos que causa.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

   Diante da problemática ambiental que envolve os sítios identificados, junta-
mente com sua potencialidade ecogeoturística ainda inexplorada, aliada à au-
sência de leis que visem proteger esse patrimônio, propõe-se algumas medidas
de proteção, calcadas em projetos de geoconservação e ecogeoturismo, como
forma de garantir a preservação do patrimônio natural objeto deste estudo.
Destarte, objetivam preservar a história do planeta e da evolução da vida na
Terra para as presentes e futuras gerações, uma vez que, quando deteriorados
estes sítios, que possuem idades na escala de bilhões e milhares de anos, jamais
podem ser recuperados, desaparecendo por completo da face da Terra. Seria,
analogamente, como se arrancasse uma página do único livro que conta a histó-
ria evolutiva do nosso planeta, e essa página não pudesse mais ser re-escrita.

  Dentre essas medidas, sugere-se aqui algumas específicas que podem ser
adotadas à proteção do sítio, como as que seguem abaixo:

  • reconhecer os sítios geológicos, geomorfológicos, mineralógicos, arqueo-
    lógicos e paleontológicos identificados como patrimônios naturais, ou cul-
    turais, ou ainda, monumentos naturais e/ou culturais;

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
• elaborar leis no âmbito municipal e/ou estadual que garantam a sua proteção;

   • criar unidades de conservação, tais como áreas de proteção ambiental, par-
     ques temáticos e/ou geoparques com o intuito de proteger estes patrimôni-
     os;

   • elaborar plano de gestão para a implantação do ecogeoturismo, envolvendo
     as comunidades locais num processo participativo;

   • disciplinar a visitação e as atividades desenvolvidas nas áreas destas unidades
     ou dos sítios, a partir da elaboração de planos de manejo destas unidades;

   • promover a educação ambiental nas comunidades circunvizinhas;

   • divulgar o potencial histórico-natural dos sítios, promovendo campanhas de
     conscientização e educação ambiental para a população.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]




194 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2003
          Publicação original: anais de congresso


Formato da contribuição: resumo de artigo (tabelas retiradas)
Fonte: I CONGRESSO MARANHENSE DE TURISMO, Hotel Vila Rica - 27 a 29 de
março de 2002.
E-mail do(s) autor(es): leopoldovaz@elo.com.br
Títulos acadêmicos principais atuais: Professor de Educação Física, Centro Federal
de Educação Tecnológica do Maranhão, Departamento Acadêmico de Ciências
da Saúde; Mestre em Ciência da Informação.




A Formação Técnica e o seu Papel no
Mercado Turístico
Leopoldo Gil Dulcio Vaz




   Através do turismo, diversas regiões do país conseguiram alcançar o seu de-
senvolvimento econômico, exportando produtos locais e melhorando a qualida-
de de vida da comunidade. Os números comprovam. O turismo emprega mais
pessoas do que qualquer outra indústria: um em cada dez trabalhadores do Brasil.
O setor é responsável por, aproximadamente, 8,2% das exportações mundiais e
representa cerca de 10% do produto interno bruto. A indústria turística estimula a
criação de pequenos negócios: bares, restaurantes, locadoras, pousadas, arte-
sanato, comércio de praia e guias, além de beneficiar indiretamente muitas ou-
tras atividades.

   O Governo - seja através da EMBRATUR, do SEBRAE, do BNB e outras institui-
ções estaduais e municipais - vem apresentando-se com uma participação ine-
quívoca na criação da infra-estrutura indispensável ao desenvolvimento do tu-
rismo no Brasil, através:

• do levantamento das vocações municipais relacionadas ao turismo;

• da identificação do fluxo de turistas, realização de pesquisas e análises de sua
  origem e interesses;
• da identificação de valores arquitetônicos, urbanísticos, paisagísticos e culturais;


                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
• da elaboração de diagnósticos realizados com base nos dados levantados
  sobre as diversas regiões e municípios;
• da capacitação dos prestadores de serviços;
• da educação para o turismo;
• do estimulo ao envolvimento das instituições de ensino;
• da sinalização, informação e programação visual das cidades;

• das ações de preservação e restauração; e
• ao acompanhamento e avaliação,

  Dentre os objetivos dessas ações, destaca-se o estimulo à expansão e à cria-
ção de novos negócios e consequentemente
• a geração de novos postos de trabalho, e
• contribuir para formação e capacitação dos profissionais que prestam serviços
  para o turismo, visando qualidade e produtividade;

  As análises sobre a situação do lazer nas sociedades contemporâneas e suas
relações com as iniciativas privada e pública pressupõe algumas considerações
básicas:

• a importância do setor de lazer na estrutura econômica do mundo, pois o lazer
  é um dos muitos componentes do âmbito terciário da economia e faz parte do
  mais importante setor das sociedades denominadas pós-industriais – o da pres-
  tação de serviços;
• essa economia de serviços está crescendo em linhas gerais e especialmente no
  setor de telecomunicações, informática, finanças e turismo (uma das áreas
  abrangidas pelo lazer);
• Os setores de lazer e turismo dependem intimamente dessas novas tecnologias,
  principalmente da informática e das telecomunicações, criando um mundo com
  características muito particulares, havendo um grande crescimento no setor
  terciário, com o desaparecimento de empregos no setor industrial e o surgimento
  de novos postos no setor de serviços;
• O setor está crescendo de forma bastante considerável, especialmente nas
  áreas de lazer e turismo, que dependem intimamente das novas tecnologias (o
  que exige acesso ao conhecimento, não apenas ao conhecimento formal esco-
  lar, mas também ao conhecimento de informática e de línguas estrangeiras,
  além de habilidades mais subjetivas como iniciativa própria, criatividade e cul-
  tura geral, que não necessariamente apreendidos numa escola).



196 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Essa nova realidade da economia é evidente nos países desenvolvidos.

  Apesar de o lazer estar presente nos grandes centros urbanos do Brasil, ainda
apresenta-se lacunas na elaboração da problemática envolvendo o setor. A
estrutura, o planejamento e a administração do lazer implicam vários níveis
abertos de discussão, na medida em que muitos pontos importantes, teóricos e
práticos, anda não foram estabelecidos por vários motivos:
• O setor do lazer e turismo é relativamente recente no Brasil;
• Falta de consciência de que a formação profissional é indispensável para o bom
  funcionamento de serviços aos clientes;
• Falta de programas e controles da qualidade dos serviços em lazer e turismo;
• Poucas escolas e centros de formação profissional destinadas à formação em
  turismo, hotelaria, alimentos e bebidas, lazer;

• Os setores estatais não têm nível elevado de operacionalidade ou mínimas
  condições de operar na área;
• Alguns setores privados não conhecem profundamente lazer e turismo, e assim
  não investem adequadamente em equipamentos, projetos eficientes, formação
  e reciclagem de mão-de-obra especializada;
   • Setores da sociedade civil ainda não adquiriram consciência de que o lazer é
um direito tão necessário e legítimo como a saúde, a habitação, a segurança, o
transporte e a educação. (TRIGO, 1995)

  A indústria do turismo tem consolidado, no mundo, como uma atividade indutora
de desenvolvimento. Com seu efeito multiplicador efetivo, propicia o incremen-
to de novas atividades econômicas.

  O ingresso do CEFET-MA nessa área de atividade visa, sobretudo a interface
dos setores privados e públicos na articulação conjunta de ações que viabilizem
o turismo como atividade econômica geradora do desenvolvimento nacional.

  Os cursos que se pretende implantar terão a característica de qualificação e
requalificação profissional dos recursos humanos, com atuação focada para o
Maranhão e a Região Nordeste, contribuindo para a criação de um pólo de
desenvolvimento do turismo.

   Além disso, os cursos, como produtores de “saber fazer”, contemplam uma
visão do Maranhão como destino turístico integrado e área prioritária de inves-
timentos e políticas setoriais, que só poderão ser implementados com o desen-
volvimento do empreendedorismo, aliado as práticas de explorar o turismo de
forma sustentável e consciente.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
CENÁRIO EM QUE SE INSEREM OS CURSOS TÉCNICOS NA ÁREA DE TURISMO

  O turismo é uma das atividades que mais cresce no Mundo. Por permitir rápido
retorno do investimento, gerar empregos diretos e indiretos e por sua ligação
com os mecanismos de arrecadação, o turismo é a atividade que mais contribui
para o desenvolvimento de diversos países.

   Para obter resultados é imprescindível que este turismo seja feito de forma
organizada e racional. O Maranhão possui grande vocação para o turismo e o
tem como símbolo de suas melhores expectativas de integração e desenvolvi-
mento, graças às condições territoriais, climáticas e culturais. A participação do
turismo no PIB brasileiro já é de 8%. Porém, o fluxo turístico em direção ao Brasil
está muito aquém de nossas potencialidades. O momento exige a transformação
do potencial latente em novos negócios e vantagens competitivas. Estado do
Maranhão situa-se no nordeste do Brasil, limitado pelos estados do Piauí, Pará e
Tocantins, com uma população estimada em torno 4.900.000 habitantes, possu-
indo um baixo grau de industrialização, quando comparado com outros estados
do Nordeste e/ou Sudeste do país. Possui uma área territorial de 324.600 Km2 ,
que lhe assegura a condição de segundo Estado do Nordeste em extensão. Loca-
liza-se entre as macro regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o que lhe assegu-
ra especificidade espacial e favorece sua climatologia, não possuindo a aridez
do Nordeste, nem a excessiva umidade da Amazônia:

  Os aspectos culturais, históricos e as belezas naturais constituem os grandes
atrativos para o desenvolvimento do Turismo, notadamente nos segmentos de
Ecoturismo e Turismo Cultural.

  Os principais setores produtivos do Maranhão são:

  • a agropecuária,

  • indústria e comércio, e
  • turismo.
  O turismo, como opção econômica geradora de oportunidade de trabalho e
renda, vem merecendo destaque no Estado, que dividiu em zonas de interesse,
por homogeneidade e proximidade dos atrativos:
· Zona de Patrimônio Histórico Cultural, formada pelos municípios de São Luís,
  Alcântara, Raposa e São José de Ribamar; com destaque para São Luís - reco-
  nhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade, e Alcântara,
  tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional.
• Zona dos Lençóis Maranhenses, composta pelos municípios de Barreirinhas,
  Humberto de Campos, Paulino Neves, Primeira Cruz, Tutóia e Araióses. Pólo de



198 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
ecoturismo onde se encontra o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses,
 com uma área de 155 mil hectares de dunas e lagoas de água doce cristalina, o
 Delta do Rio Parnaíba, único em mar aberto da América Latina, composto de
 igarapés, mangues, dunas, ilhas e ilhotas, das quais 65% estão em território
 maranhense.
• Zona das Reentrâncias Maranhenses, constituída pelos municípios de Cururupú,
  Guimarães, Cedral, Mirinzal, Porto Rico, Serrano, Apicum-Açú e Bacuri, inseri-
  dos no Programa de Ecoturismo para Amazônia Legal.
• Zona das Chapadas, integrada pelos municípios de Imperatriz, Carolina, Riacho,
  Balsas, Mirador, Grajaú e Nova Iorque; onde se encontra uma das maiores áreas
  preservadas de cerrados da América Latina e o Parque Estadual do Mirador,
  com uma área de 700 mil hectares, que protege nascentes dos rios, fauna e flora
  da região.
• Zona dos Lagos

  O Estado do Maranhão dispõe para viabilidade de negócios em diversas áreas,
sendo que na do Turismo apresenta-se:

• Utilização de fazendas para a prática do turismo rural - criação de serviços de
  hotelaria - resort de fazendas ou estâncias, combinando o turismo rural com a
  proteção do meio rural, que está sendo desenvolvido nos municípios de Balsas,
  Barra do Corda, Viana, Imperatriz e Pinheiro;
• Implantação de meios de hospedagem e serviços de alimentação nos principais
  pólos de ecoturismo do Estado;
• Serviços de entretenimento e lazer em São Luís, Alcântara, São José de Ribamar
  e Morros.

  O que determina este quadro

   O turismo envolve uma multiplicidade de serviços: transporte, hospedagem,
alimentação, agenciamento, trabalho de intérprete e tradutor, guias turísticos,
organização de eventos, entretenimento, etc. São muitas empresas e profissio-
nais envolvidos, diversas interações e etapas a serem percorridas, tornando a
atividade complexa e de difícil mensuração.

  No Brasil, as estimativas da EMBRATUR, referentes ao ano de 1990, indicam 1,7
milhões de pessoas diretamente empregadas no turismo.

   O despreparo desse enorme contingente de trabalhadores e a dificuldade de
acesso que têm as pequenas e microempresas às novas tecnologias, são grandes
dificuldades a serem superadas no turismo.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Oportunidades
  Investimento na formação da cultura do turismo, aqui incluídas a formação
profissional e gerencial, é a grande lacuna que vem a ser preenchida pelos Cursos
Técnicos na área de Turismo.

  Atuar neste cenário é propiciar a um maior número de investidores, empresários,
técnicos e trabalhadores o ingresso no mercado de trabalho, favorecendo a gera-
ção de trabalho e renda, contribuindo inclusive para um melhor equilíbrio social.

  Por seu caráter multidisciplinar e polivalente, os Cursos Técnicos de Turismo
propõe-se a ser curso modelo, justificando a sua criação como um vetor de
aceleração do processo de desenvolvimento do turismo em termos regionais.

  Os Cursos Técnicos de Turismo têm com objetivos:
• Possibilitar a aquisição integrante de conhecimentos e técnicas que permitam
  prioritariamente uma atuação na área de turismo;
• Oportunizar a aquisição de conhecimentos genéricos da área de lazer (parques
  de lazer; parques aquáticos; academias de ginástica; centros esportivos volta-
  dos para um interesse específico (natação, futebol, tênis, voleibol); centro
  poliesportivo em geral; parques urbanos; centros culturais e esportivos; hotéis
  de lazer; resorts; colônia de férias; grandes parques em escala regional, estadu-
  al e nacional, quando têm unidades de hospedagem, camping, acampamentos;
  pousadas em locais retirados (praias, montanhas, reservas ecológicas); pousa-
  das em cidades turísticas.
• Desenvolver atitudes éticas reflexivas, críticas, inovadoras e democráticas;
• Propiciar a auto-realização do estudante, como pessoa e como profissional;
• Considerar interesses do aluno, estimulando-o ao aperfeiçoamento contínuo.



DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS - ÁREA PROFISSIONAL : TURISMO

  Segundo o estudo “A Indústria do Turismo no Brasil – Perfil & Tendências”, da
Associação Brasileira de Entidades de Hospedagem, Alimentação e Turismo –
ABRESI, EMBRATUR e SEBRAE, 1996, o setor de agências de viagens teve seu
maior crescimento nos últimos anos. De 1991 a 1993 passou de 4.500 para 5.340,
conforme registra aquele estudo. Acrescenta que nos três anos seguintes, segun-
do a Associação Brasileira das Agências de Viagens – ABAV, teve um salto ainda
mais significativo, chegando a 10.000 em 1996.

  Quanto ao setor de entretenimento, recreação, esporte e cultura, não há da-
dos agregados que permitam a quantificação do seu crescimento, dada a sua

200 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
variedade e diversificação, além da falta de critérios estatísticos que possibili-
tem as informações. Já foi assinalado que é freqüente e crescente a criação de
programas e equipamentos sociais destinados ao convívio social e à produção,
apresentação e fruição artística, cultural, esportiva e recreativa. O estudo da
ABRESI destaca a alta do entretenimento no mundo todo, indicando que se tor-
nou um ramo tão lucrativo em nosso país que está atraindo diversos gigantes
estrangeiros do setor.

  Na perspectiva da formação profissional, segundo o mesmo estudo, as ativi-
dades de turismo necessitam de esforços concentrados na formação gerencial.

  A Organização Internacional do Trabalho – OIT, através de documentos prepa-
rados para várias de suas reuniões, tratou especialmente desta área de ativida-
des profissionais, juntamente com as de hospedagem e alimentação (Reuniões
Técnicas Tripartites para os Hotéis, Restaurantes e Estabelecimentos Similares,
1974 e 1983; 1ª Reunião da Comissão da Hotelaria, da Restauração e do Turismo,
1989; e 78ª Reunião da Conferência Internacional do Trabalho, 1991).

   Assinalam tais documentos os traços da evolução e as tendências para a área,
entre as quais o crescimento continuado do “fenômeno turístico”, sua
internacionalização e sua dependência em relação às “crises” mundiais.

  Destas tendências, decorrem para seus profissionais as perspectivas de:

• ampliação considerável de possibilidades;
• maiores exigências de:
 - mobilidade,
 - disponibilidade,
 - polivalência,
 - adaptabilidade,
 - capacidade de comunicação,
 - integração em equipe,
 - animação.

   O processo produtivo nesta área está voltado não só para a criação de
produtos a serem ofertados, como, sobretudo, para a prestação de serviços
turísticos, de lazer e eventos (estes dois, tanto integrados à atividade turís-
tica e à hoteleira, quanto promovidos isoladamente, inclusive para partici-
pantes e públicos locais).

  Este processo é realizado em operadoras e agências, promotoras de eventos
e de animação turística e sócio-cultural, companhias aéreas, transportadores,

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
hotéis e outros meios de hospedagem, parques, clubes, órgãos de turismo, de
cultura e esportes, empresas de entretenimento, etc. Algumas atividades são
realizadas na forma de trabalho autônomo.

  Nesse sentido, como constituintes desse processo, foram identificadas fun-
ções essenciais de planejamento, de promoção e venda, e de gestão.

  Em cada uma dessas funções foram identificadas subfunções implicadas na
geração de produtos e na prestação de serviços, ou nos resultados parciais do
processo e no resultado final para o cliente/usuário.

• Função 1. Planejamento: atividades voltadas para a concepção e articulação do
  agenciamento e da operação turística, da condução/guiamento do turista, e da
  promoção de eventos e de lazer.
 - Subfunção 1.1. Concepção, viabilização e organização de produtos e servi-
 ços turísticos e de eventos e de lazer, adequados aos interesses, hábitos, atitu-
 des e expectativas das clientelas efetiva e potencial.
 - Subfunção 1.2. Articulação e contratação de programas, roteiros, itinerários
 e de meios para sua realização, com seleção, relacionamento e negociação
 com prestadores de serviços e provedores de infra-estrutura e de meios de
 apoio.

• Função 2. Promoção e venda: atividades voltadas para o “marketing” e a
  comercialização dos produtos e serviços turísticos, de eventos e de lazer.
 - Subfunção 2.1. Prospecção mercadológica, adequação dos produtos e servi-
 ços, e identificação e captação de clientes, para desenvolvimento e
 operacionalização da política comercial.
 - Subfunção 2.2. Comercialização de produtos e serviços turísticos e de lazer,
 com direcionamento de ações de venda para as clientelas efetiva e potencial.

• Função 3. Gestão: atividades voltadas para o gerenciamento do processo de
  execução do agenciamento, operação e condução do turista, e da promoção
  de eventos e de lazer.

 - Subfunção 3.1. Gerenciamento econômico, técnico e administrativo dos núcle-
 os de trabalho, com organização e articulação dos setores internos, e com
 supervisão e coordenação dos recursos, visando ao atendimento com qualidade.

 - Subfunção 3.2. Gerenciamento do pessoal envolvido na oferta dos produtos e
 na prestação dos serviços. Esta subfunção é destacada da anterior pela
 prevalência do fator humano nas atividades desta área e das exigências de
 relacionamento, comunicação, liderança, motivação, trabalho em equipe, for-
 mação e desenvolvimento do pessoal.


202 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
- Subfunção 3.3. Gestão dos meios tecnológicos aplicados no desenvolvimen-
 to das atividades, com supervisão da utilização de máquinas, equipamentos e
 meios informatizados de informação, comunicação e gestão.

 - Subfunção 3.4. Manutenção e/ou readequação do empreendimento, dos pro-
 dutos e dos serviços às variações da demanda, com desenvolvimento de visão
 mercadológica prospectiva e inovadora.

 - Subfunção 3.5. Acompanhamento pós-execução para controle da qualidade
 dos produtos, serviços e atendimento, visando à satisfação do cliente.

   Simultaneamente com a indicação das subfunções, foi encaminhada a identi-
ficação das competências e habilidades requeridas do profissional, que
condicionam e viabilizam o desempenho eficaz daquelas funções e subfunções.
A correspondência dessas competências e habilidades com os conteúdos da
aprendizagem foi explicitada na identificação das bases tecnológicas.



CARGA HORÁRIA GLOBAL MÍNIMA

  A carga horária global mínima para os diversos cursos desta área foi definida
em 750 (setecentos e cinqüenta) horas.



TURISMO - PROCESSO DE PRODUÇÃO

  FUNÇÕES PLANEJAMENTO

  SF 1.1 - Concepção, viabilização e organização.

  SF 1.2 - Articulação e contratação de programas, roteiros, itinerários.

   PROMOÇÃO E VENDA
  SF 2.1 - Prospecção mercadológica, adequação dos produtos e serviços, e
identificação e captação de clientes.

  SF 2.2 - Comercialização de produtos e serviços

  GESTÃO
  SF 3.1 - Gerenciamento econômico, técnico e administrativo dos núcleos de
trabalho.



                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
SF 3.2 - Gerenciamento do pessoal envolvido na oferta dos produtos e na
prestação dos serviços

  SF 3.3 - Gestão dos meios tecnológicos

  SF 3.4 - Manutenção e/ou readequação do empreendimento

  SF 3.5 - Acompanhamento pós-execução



Função 1 – PLANEJAMENTO

  SUBFUNÇÃO 1.1 – CONCEPÇÃO, VIABILIZAÇÃO E ORGANIZAÇÃO.

  COMPETÊNCIAS
• Interpretar legislação pertinente
• Interpretar pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos.
• Identificar e avaliar:
• os meios e recursos disponíveis
• informações sobre as clientelas efetiva e potencial

• as oportunidades de mercado
• sintetizar e relacionar os meios e recursos, as oportunidades e os aspectos
  quantitativos e qualitativos das clientelas
• identificar e avaliar os sítios e atrativos turísticos adequados a cada clientela
• identificar, avaliar e selecionar informações geográficas, históricas, artísticas,
  esportivas, recreativas e de entretenimento, comerciais, folclóricas, artesanais,
  gastronômicas, religiosas, etc.
• identificar os meios de apoio apropriados, como transportes, acessos, restau-
  rantes
• identificar os espaços e locais e os equipamentos para eventos, esportes,
  recreação, artes, cultura, espetáculos

• programar os produtos e serviços a serem oferecidos
• avaliar técnica, financeira e administrativamente produtos e serviços
• organizar os meios e recursos para concretização dos produtos e serviços
  programados



204 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
• elaborar orçamentos
• definir estrutura organizacional
• definir a política comercial

HABILIDADES
• utilizar dados de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos
• referenciar o estudo de viabilidade com a execução

• adequar a oferta aos interesses, hábitos, atitudes e expectativas das clientelas
• conduzir a preparação e montagem dos produtos e serviços concebidos
• estabelecer procedimentos e regras para o funcionamento da estrutura
  organizacional
• controlar orçamentos
• elaborar quadro de pessoal
• supervisionar pessoal para a efetivação dos produtos e serviços

• articular com outros profissionais/prestadores de serviços/ofertantes de
  produtos
• aplicar “softs” específicos

BASES TECNOLÓGICAS
• técnicas de:
• leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econô-
  micos
• leitura e elaboração de estudo de viabilidade
• organização de roteiros e itinerários
• elaboração e redação de normas e manuais

• leitura e elaboração de orçamentos
• descrição de cargos/funções e salários
• comunicação e relações interpessoais e grupais
• interpretação e aplicação de normas de proteção do trabalho (legislação
  trabalhista, sindical, previdenciária, de saúde e segurança) e de legislação
  aplicável à área (federal, estadual e municipal)


                                    Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
          Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
• tipologia e classificação de:
    - meios de transporte
    - de equipamentos, modalidades e formas de organização de eventos e de
    atividades de lazer, entretenimento e animação sócio-cultural
    - vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol.



SUBFUNÇÃO 1.2 - ARTICULAÇÃO E CONTRATAÇÃO DE PROGRAMAS, ROTEIROS E
ITINERÁRIOS.

  COMPETÊNCIAS

• identificar e avaliar os programas, roteiros, itinerários, meios de hospedagem,
  transportes, guiamento de turistas, eventos, atividades de lazer, entretenimen-
  to e animação sócio-cultural
• identificar e avaliar os espaços e os locais necessários ao produto ou serviço
• identificar e prever serviços pessoais, bem como infraestrutura e meios de
  apoio (transportes, instalações, mobiliário, equipamentos, utensílios, decora-
  ção)
• elaborar e interpretar orçamentos
• interpretar contratos
• selecionar e coordenar a contratação de fornecedores de programas, roteiros,
  itinerários e atividades, bem como de prestadores de serviços e provedores de
  infraestrutura e de meios de apoio

  HABILIDADES
• controlar os orçamentos

• controlar a execução dos contratos
• efetivar os meios para produção da oferta
• contatar, negociar e contratar diferentes fornecedores de programas, roteiros,
  itinerários e atividades, prestadores de serviços e provedores de infraestrutura
  e de meios de apoio
• organizar e manter cadastro de fornecedores, provedores e prestadores de
  serviços
• supervisionar serviços de terceiros




206 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
BASES TECNOLÓGICAS
• técnicas de elaboração de roteiros e itinerários
• técnicas e regras de manejo de mapas, guias, manuais, “timetables”
• técnicas de leitura e de elaboração de orçamentos
• técnicas e regras de interpretação e elaboração de contratos

• técnicas e regras de aplicação de legislação específica e de normas e procedi-
  mentos específicos da área
• vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol



Função 2 - PROMOÇÃO E VENDA

  SUBFUNÇÃO 2.1 - PROSPECÇÃO MERCADOLÓGICA, ADEQUAÇÃO DOS
  PRODUTOS E SERVIÇOS E IDENTIFICAÇÃO E CAPTAÇÃO DE CLIENTES.


  COMPETÊNCIAS
• interpretar pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos
• identificar e avaliar:
• informações sobre as clientelas efetiva e potencial
• as oportunidades de mercado
• sintetizar e relacionar estas informações com os meios e recursos disponíveis
• identificar as clientelas que correspondem à percepção dessa síntese
• planejar a política comercial
• organizar estratégias e ações de captação de clientes individuais e institucionais
• identificar fatores que influem na atração do cliente.

  HABILIDADES
 • utilizar dados de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos
 • adequar a oferta aos interesses, hábitos, atitudes e expectativas das clientelas
 • efetivar os meios para produção da oferta
 • contatar permanentemente diferentes segmentos comunitários



                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
• articular-se e negociar com organizações públicas e privadas e com demais
  segmentos do “trade” turístico
• organizar e manter cadastro de hóspedes e clientes, fornecedores e contratan-
  tes, operadores, agentes e guias de turismo, promotores de eventos, organiza-
  ções de lazer, hotéis, restaurantes, autoridades, lideranças empresariais, pro-
  fissionais e comunitárias
• estabelecer e negociar ações de publicidade
• operacionalizar a política comercial

  BASES TECNOLÓGICAS
• técnicas de:
 - leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econô-
 micos
 - de comunicação e relações interpessoais e grupais
 - “marketing” e de venda
 - vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol
 - características sócio-econômicas e culturais do cliente


  SUBFUNÇÃO 2.2 – COMERCIALIZAÇÃO DE PRODUTOS E SERVIÇOS
  COMPETÊNCIAS
• direcionar as ações de venda para as clientelas identificadas
• organizar a venda no próprio estabelecimento ou externamente
• estimar custos e preços
• elaborar orçamento
• calcular e fixar preços

  HABILIDADES
• atender o cliente
• zelar para que o atendimento corresponda à expectativa do cliente

• preparar e conduzir a equipe de trabalho
• negociar e contratar a venda
• controlar orçamento



208 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
BASES TECNOLÓGICAS
• técnicas de leitura e elaboração de orçamentos
• cálculo de custos
• técnicas de:
• comunicação e relações interpessoais e grupais

• de “marketing” e de venda
• vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol



Função 3 – GESTÃO

  SUBFUNÇÃO 3.1 - GERENCIAMENTO ECONÔMICO, TÉCNICO E
  ADMINISTRATIVO DOS NÚCLEOS DE TRABALHO
  COMPETÊNCIAS
• ler e interpretar:
• pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos
• informações referentes ao turismo
• balanços, relatórios e documentos de controle interno

• supervisionar o conjunto ou partes dos serviços de empresas de pequeno,
  médio e grande porte
• analisar a relação custo/benefício com vistas a lucratividade da empresa
• coordenar os recursos institucionais, financeiros, patrimoniais e materiais, o
  suprimento, a cobrança, a segurança pessoal e patrimonial, e os serviços auxi-
  liares e de apoio
• avaliar eticamente o desempenho administrativo do empreendimento

  HABILIDADES
• acompanhar dados e interpretação de:
 - pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos
 - informações referentes ao turismo, contextualizando para o seu meio e seu
 empreendimento
 - balanços, relatórios e documentos de controle interno
 - organizar e articular os setores internos


                                        Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
              Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
- fazer cumprir a normas e manuais de procedimento
 - articular-se com parceiros e outros profissionais
 - negociar a contratação de terceiros
 - contatar e atender o cliente
 - preparar e conduzir a equipe de trabalho aos resultados desejados
 - articular os diferentes setores para fluxo integrado do atendimento
 - coordenar os serviços terceirizados
 - receber, orientar, informar e conduzir turistas
 - controlar os contratos
 - supervisionar os serviços de terceiros
 - supervisionar as atividades de comunicação e relações com o pessoal, clien-
 tes, fornecedores e contratantes, comunidade, meios de comunicação

  BASES TECNOLÓGICAS
• técnicas de:
 - comunicação e relações interpessoais e grupais
 - leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econô-
 micos
 - organização de empresas de turismo
 - elaboração e redação de normas e manuais
 - leitura, interpretação e elaboração de orçamentos, cálculo de custos e for-
 mação de preços
 - elaboração e interpretação de balanços, relatórios e documentos de controle
 interno
 - suprimento/compras e armazenamento/ conservação
 - segurança pessoal e patrimonial e seguros

• técnicas, regras e procedimentos de:
 - reserva, venda e emissão de passagens
 - reserva e efetivação de acomodação, transferências, passeios, excursões,
 ingressos, etc.
 - orientação, despacho e liberação de documentação, passageiros e bagagens;
 - guiamento de turistas, com orientação, assessoria e transmissão de informa-
 ções;
 - organização e realização de eventos
 - organização e realização de programas e atividades de lazer



210 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
- normas de defesa do consumidor, trabalhistas, outros ramos jurídicos aplicá-
 veis à área
 - atendimento e encaminhamento de emergência
 - vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol

  SUBFUNÇÃO 3.2 - GERENCIAMENTO DO PESSOAL ENVOLVIDO NA OFERTA DOS
  PRODUTOS E NA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS
  COMPETÊNCIAS
• definir a política de recursos humanos
• organizar os setores internos
• organizar e harmonizar a ação do pessoal dos diferentes setores com outros
  parceiros e terceirizados
• desenvolver os recursos humanos encarregados da execução dessas ativida-
  des, promovendo sua capacitação contínua
• Interpretar as normas de proteção do trabalho
• Interpretar contratos
• avaliar eticamente o desempenho do pessoal, e do empreendimento em relação
  a eles

  HABILIDADES
• motivar e liderar pessoas e grupos
• treinar e aperfeiçoar o pessoal
• aplicar as normas de segurança do trabalho
• controlar contratos
• organizar e articular os setores internos
• fazer cumprir as normas e manuais de procedimento
• articular as relações e o trabalho com terceiros
• coordenar os recursos humanos, desenvolvendo a motivação, o desempenho
  individual e o trabalho em equipe

  BASES TECNOLÓGICAS
• técnicas de:
 - comunicação e relações interpessoais e grupais
 - interpretação de leis e outras normas jurídicas
 - interpretação e elaboração de contratos
 - elaboração e redação de normas e manuais
 - motivação, trabalho em grupo e relações humanas no trabalho

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
- relações com o público
    - organização de empresa



  SUBFUNÇÃO 3.3: GESTÃO DOS MEIOS TECNOLÓGICOS
  COMPETÊNCIAS
• identificar máquinas e equipamentos
• dominar os meios informatizados (hardwares e softwares) de informação, co-
  municação e gestão

  HABILIDADES
• identificar as necessidades e soluções adequadas

• identificar e cadastrar fornecedores de meios, serviços e soluções especializados
• controlar o fornecimento de insumos e serviços, inclusive manutenção adequada
• controlar a qualidade dos resultados da tecnologia e dos equipamentos
• promover a atualização do conhecimento tecnológico do pessoal
• utilizar meios de comunicação eletrônica
• operar equipamentos de escritório

  BASES TECNOLÓGICAS
• técnicas de:
 - utilização de meios informatizados
 - utilização de equipamentos eletro-eletrônicos
 - interpretação e elaboração de contratos
 - motivação, trabalho em grupo e relações humanas no trabalho
 - relações com o público
 - vocabulário técnico em português e inglês

  SUBFUNÇÃO 3.4 - MANUTENÇÃO E/OU READEQUAÇÃO DO EMPREENDIMENTO
  COMPETÊNCIAS
• identificar, avaliar e relacionar informações de forma contínua para manter os
  produtos e serviços em sintonia com a demanda dos clientes
• captar as tendências de uso, consumo e expectativas das clientelas efetiva e
  potencial

212 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
• manter a viabilidade técnica, financeira e administrativa do empreendimento e
  dos seus produtos e serviços
• desenvolver visão mercadológica prospectiva, que favoreça prontidão para
  inovações e mudanças de objetivos e de ofertas
• avaliar a viabilidade de inovações e mudanças
• Interpretar informações referentes ao turismo

  HABILIDADES
• atualizar estrutura organizacional, políticas e normas e procedimentos

• utilizar informações referentes ao turismo, contextualizando para o seu meio e
  seu empreendimento
  • utilizar a interpretação de estudo de viabilidade para inovações e mudanças
  • preparar e dirigir o pessoal para inovações e mudanças

  BASES TECNOLÓGICAS
• técnicas de:

 - “marketing” e de venda
 - comunicação e relações interpessoais e grupais
 - leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econô-
 micos
 - leitura, interpretação e elaboração de orçamentos, cálculo de custos e for-
 mação de preços
 - elaboração de descrição de cargos/funções e salários
 - elaboração e redação de normas e manuais
 - vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol



  SUBFUNÇÃO 3.5: ACOMPANHAMENTO PÓS-EXECUÇÃO
  COMPETÊNCIAS
• avaliar a receptividade dos clientes aos produtos e serviços oferecidos
• criar instrumentos de informação e de aferição da satisfação do cliente
• analisar e avaliar as manifestações dos clientes
• desenvolver no pessoal a atenção para a satisfação do cliente
• avaliar eticamente o desempenho em relação aos clientes, público em geral e

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
meio ambiente

  HABILIDADES
• aplicar instrumentos de informação e de aferição da satisfação do cliente

• utilizar a interpretação de reclamações, elogios, sugestões e outras manifesta-
  ções expontâneas e motivadas

• relacionar-se com as clientelas efetiva e potencial

• promover a capacitação contínua do pessoal voltada para a atenção ao cliente

  BASES TECNOLÓGICAS
• técnicas de:
- comunicação e relações interpessoais e grupais
- leitura, interpretação e elaboração de pesquisas e sondagens de opinião
- motivação, trabalho em grupo e relações humanas no trabalho
- relações com o público




   Em 05 de outubro de 1999, o Conselho Nacional de Educação, através do
Parecer CEB 16/99, aprovou as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação
Profissional do Nível Técnico, separando a área de Turismo da de Lazer, e juntan-
do-a com a de Hotelaria e Alimentação, criando-se, assim, a de Turismo e Hos-
pitalidade, com as seguintes características:

   A área profissional de turismo e hospitalidade compreende atividades,
interrelacionadas ou não, referentes à oferta de produtos e à prestação de ser-
viços turísticos e de hospitalidade.

• Os serviços turísticos incluem o agenciamento e operação, o guiamento, a
  promoção do turismo, e a organização e realização de eventos de diferentes
  tipos e portes.
• Os serviços de hospitalidade incluem os de hospedagem e os de alimentação.
• Os de hospedagem são prestados em hotéis e outros meios, como colônias de
  férias, albergues, condomínios residenciais e de lazer, instituições esportivas,
  escolares, militares, de saúde, acampamentos, navios, coletividades, abrigos
  para grupos especiais.



214 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
• Os serviços de alimentação são prestados em restaurantes, bares e outros meios,
  como empresas, escolas, clubes, parques, aviões, trens, ou ainda em serviços de
  bufês, “caterings”, entregas diretas, distribuição de pontos de vendas.

  Estas atividades são desenvolvidas num processo que inclui o planejamento, a
promoção e venda e o gerenciamento da execução. Como competências gerais
dos técnicos da área, são apresentadas:
• conceber, organizar e viabilizar produtos e serviços turísticos e de hospitalida-
  de adequados aos interesses, hábitos, atitudes e expectativas da clientela
• organizar eventos, programas, roteiros, itinerários turísticos, atividades de
  lazer, articulando os meios para sua realização com prestadores de serviços e
  provedores de infraestrutura e apoio
• organizar espaços físicos de hospedagem e de alimentação, prevendo seus
  ambientes, uso e articulação funcional e fluxos de trabalho e de pessoas
• operacionalizar política comercial, realizando prospecção mercadológica, iden-
  tificação e captação de clientes e adequação dos produtos e serviços

• operacionalizar a comercialização de produtos e serviços turísticos e de hos-
  pitalidade, com direcionamento de ações de venda para suas clientelas
• avaliar a qualidade dos produtos, serviços e atendimentos realizados
• executar atividades de gerenciamento econômico, técnico e administrativo
  dos núcleos de trabalho. Articulando os setores internos e coordenando os
  recursos
• executar atividades de gerenciamento do pessoal envolvido na oferta dos
  produtos e na prestação dos serviços
• executar atividades de gerenciamento de recursos tecnológicos, supervisio-
  nando a utilização de máquinas, equipamentos e meios informatizados
• realizar a manutenção do empreendimento, dos produtos e dos serviços ade-
  quando-os às variações da demanda
• comunicar-se efetivamente com o cliente, expressando-se em idioma de co-
  mum entendimento



  Quanto às competências específicas de cada habilitação, serão definidas pela
escola para completar o currículo, em função do perfil profissional de conclusão
da habilitação.

  A carga horária mínima de cada habilitação da área será de 800 horas.


                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Para concluir, apresentaremos um pequeno exercício de futurologia, de auto-
ria de YOSHIMA e OLIVEIRA (2002). Esses autores fizeram uma compilação de
notas, informações, notícias sobre os vários setores do turismo, publicado em
jornais ou divulgado através da Internet nos últimos dois anos.

  De posse dessa coleta de material os autores se propõem a ordená-lo por
setor, mostrando as tendências previstas para cada área em particular. Dessa
forma foram traçadas as previsões dos seguintes setores: Transportes Aéreos,
Cruzeiros Marítimos, Agenciamento de Viagens, Meios de Hospedagem, Alimen-
tos e Bebidas, Parques de Entretenimento e Empregos na Área de Turismo.

  (Disponível em http://www.abbtur.com.br/CONTEUDO/trabalhos/trabO5.htm)




NOVOS EMPREGOS NA ÁREA DE TURISMO

• Haverá uma demanda maior por consultores e auditores das ISO 9000 e ISO
  14000, assim como para profissionais capazes de implantar outros sistemas de
  gestão da qualidade nas empresas;
• Conhecedores da metodologia HACCP - Hazard Analisys Control Critical Points
  serão muito requisitados por hotéis e restaurantes;
• Produtores de vídeos promocionais terão oportunidade de trabalhos para a
  divulgação de destinos e equipamentos;
• Construtores de web-sites terão uma grande demanda na elaboração de sites
  para cidades e empresas turísticas;
• Editores e jornalistas especializados em turismo para revistas, jornais e suple-
  mentos de viagens e turismo;
• As pesquisas em turismo deverão ser muito requisitadas por empresas do setor
  em busca de informações fidedignas de demanda;

• Aumento de oportunidade para empresas de serviços para o atendimento das
  necessidades de terceirização de determinados serviços (manutenção, segu-
  rança, recreação);
• Aumento da demanda por professores e instrutores para a formação de mão-
  de-obra especializada para o setor.
• Globalização do emprego fazendo com que o profissional de Turismo enfrente
  desafios, como o aprendizado de uma terceira língua, facilidade de adaptação
  a outras culturais, disponibilidade para troca de sede.



216 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte
original]




                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Ano: 2004
          Publicação original: livro


Formato da contribuição: texto resumo de capítulo de livro
Fonte: MARINHO, Alcyane. Atividades na natureza, lazer e educação ambiental:
refletindo sobre algumas possibilidades. Motrivivência - Revista de Educação
Física, Esporte e Lazer. Florianópolis (SC): Núcleo de Estudos Pedagógicos em
Educação Física, ano XVI, n. 22, p. 47-69, jun, 2004, (ISSN: 010341-11).
E-mail do(s) autor(es): alcyane.marinho@hotmail.com
Títulos acadêmicos principais atuais: Graduação pelo Departamento de Educação
Física da UNESP de Rio Claro (SP); Mestrado e Doutorado pela Faculdade de
Educação Física da UNICAMP (Campinas, SP), na Área de Estudos do Lazer.




Atividades na Natureza, Lazer e
Educação Ambiental: Refletindo Sobre
Algumas Possibilidades
Alcyane Marinho


   A minha maior motivação para escrever este artigo foi o fato de me sentir
muito à vontade, desde o início, para organizar algumas idéias sobre o lazer, a
educação ambiental e as atividades na natureza, as quais têm me acompanhado
já há algum tempo, ao longo de minha vida, tanto acadêmica quanto pessoal.
Sinto-me feliz por esta oportunidade, permitindo-me dividir algumas reflexões e
inquietações, as quais, embora estejam aqui de forma muito sintetizada,
potencializam-me a permanecer curiosa e interessada pelo tema.

  Destaco que as discussões apresentadas são frutos de leituras, discussões e
participações diversas em grupos de pesquisa, palestras, congressos, cursos,
tanto quanto meu envolvimento pessoal e afetivo como praticante em diversas
atividades na natureza.

  Não vou seguir determinado rigor metodológico e vou me permitir utilizar a
primeira pessoa para esta nossa “conversa”, assim como também me valerei de
uma construção textual simples, porém indagadora.

  No meu entender, a educação ambiental e o lazer parecem sofrer, de certa


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
forma, os mesmos “preconceitos”. Como requerer e pensar nessas duas esferas
quando estamos tratando, especificamente, de realidades vividas em um país que
sequer superou seus problemas básicos de moradia, alimentação e saúde?

  Neste contexto, como pensar em um desenvolvimento com bases mais susten-
táveis, capaz de promover, recuperar e melhorar o meio ambiente 1 e a qualidade
de vida humana na terra?

  A afetividade e o amor das e pelas pessoas devem ser a base para a construção
de sociedades sustentáveis, juntamente com um efetivo diálogo e comprometi-
mento entre todas as esferas - política, econômica, sociocultural, educativa, etc.

  Desta forma, não perdendo de vista o foco nas atividades na natureza, preten-
do, neste artigo, apontar algumas pistas que enfatizem o lazer e a educação
ambiental como espaços privilegiados nesse processo de mudança para melho-
res condições de vida. Não isoladamente, mas em estreita relação com outros
campos de atuação e formação, potencializando a participação e o engajamento
crítico e criativo dos sujeitos.

  Para situar o espaço/tempo desta discussão, reporto-me, primeiramente, a al-
gumas questões que delineiam o lazer. Para tanto, creio ser interessante começar
apresentando algumas características de nossa contemporaneidade, as quais evi-
denciam uma época completamente diferente daquela de quando não se conse-
guia fazer distinções, por exemplo, entre as expressões lazer, ócio e trabalho;
afetando, portanto, os modos de comportamento e as dinâmicas das sociedades.

  Vivemos, hoje, um tempo de intensidades, um tempo cronometrado, medido,
comprado, estimado, manipulado, calculado. Vivemos um tempo compulsivo
não só no trabalho, mas, por inúmeras vezes, acabamos reproduzindo a mesma
compulsividade nos momentos de lazer - quando eles existem, é claro!

   O mundo atual é vivido sob o signo da velocidade, da aceleração, como já
apontado por vários autores (VIRILIO, 1998; SEVCENKO, 2001 e SANTOS, 2001). O
império da técnica, a competitividade, a instantaneidade na transmissão e recep-
ção de imagens, sons e palavras contribuem para que o fascínio pelo termo veloz
se torne cada vez mais intenso. Santos (2001, p.40-41), com toda propriedade,
afirma: “ser atual e eficaz, diante da ordem vigente, potencializa a velocidade
como uma necessidade e a pressa como uma virtude”.

   Contudo, nem todos têm acesso a essa velocidade - solução para todos os
problemas da vida cotidiana! A velocidade apenas está ao alcance de um número
limitado de pessoas, de tal forma que, segundo as possibilidades de cada um, as
distâncias têm significações e efeitos diversos e o uso do mesmo relógio não
permite igual economia de tempo. A grande maioria é arrastada e participa in-


220 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
completamente da produção histórica desse tempo.

   Nesse espaço/tempo, Featherstone (2000) relata que começamos a habitar
uma cultura tecnológica, ou seja, a cultura tem sido cada vez mais produzida por
intermédio da tecnologia. Assim, por meio dela, novos direcionamentos são
dados à indústria de entretenimento, fornecendo muito mais que diversão; for-
necendo porções rigorosamente quantificadas de fantasia, desejo e euforia para
as pessoas. Essa indústria, como enfatiza Debord (1997), esforça-se por tentar
compensar o extremo empobrecimento da vida social, cultural e emocional,
conduzindo os indivíduos a uma celebração contínua das mercadorias, rotuladas
como belas imagens, como novidades, como um espetáculo propriamente dito 2.

   Contudo, neste mesmo contexto - consumista, alienado, ausente de diálogos
e reflexões - podemos pensar em saídas estratégicas e é exatamente o que nos
move e nos faz acreditar no amanhã!

  Neste sentido, acredito que o lazer e a educação ambiental podem surgir como
possibilidades de mudança, como espaço de pausa para respirar, tomar fôlego,
refletir e discernir.

  Portanto, como já afirmei em outro momento (MARINHO, 2003), é preciso que
sejamos capazes de perceber as potencialidades das práticas de lazer diante das
mudanças sociais e culturais contemporâneas, traduzidas em movimentos com-
plexos, associados aos novos padrões de competitividade e à aceleração
tecnológica, por um lado, e, por outro, capazes de estabelecer uma configura-
ção inovadora por todas as esferas humanas e, por conseqüência, nos significa-
dos do lazer e da própria natureza.

   Assim como a educação ambiental, o lazer também, muitas vezes, é entendido
no singular, como uma possibilidade unidimensional. Para dar sentido a ambas
dimensões, é preciso entendê-las em um contexto múltiplo de possibilidades e
interesses, como parte de uma teia complexa de relações, influenciando e sendo
influenciadas, não devendo ser responsabilizadas isoladamente por qualquer
mudança pretendida, como tão bem alerta Sorrentino (2002), ao se referir, par-
ticularmente, à educação ambiental.

   Sob essa ótica, como mostra Marcellino (2002), corroborando os estudos de
Dumazedier (1979, 1980), o lazer, como expressão da cultura, pode se constituir
tanto em um elemento de conformismo, passividade, quanto em um elemento de
resistência e negação à ordem social vigente; não devendo por isso receber o
tratamento simplista de modismo, alienação ou simples consumo.

  Não pretendo me aprofundar nas interessantes e questionadoras obras sobre
lazer de importantes autores e suas diferentes concepções, apenas saliento que

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
são inúmeros os conceitos e abordagens, os quais dão representatividade da
complexidade e magnitude deste tema.

  Porém, ainda assim, vale ressaltar que minha compreensão de lazer, ora estabelecida,
extrapola idéias e conceitos fechados, os quais comumente vemos sendo veicula-
dos por algumas literaturas e por diversos outros meios de comunicação.

  Acredito que, mais que considerar o lazer como direito social explícito na
constituição, precisamos entendê-lo como possibilidade de produção de cultu-
ra, como elemento integrador do exercício da cidadania, como campo privilegi-
ado para a manifestação do elemento lúdico, da liberdade e do prazer, e, ainda,
como potente instrumento de mudanças pessoal e social; seja qual for a concep-
ção que mais nos familiarizemos e adotemos [lazer relacionado ao tempo, à
atitude, ao espaço, ao estado de espírito, etc. (DE GRAZIA, 1969; MARCELLINO,
1997; WERNECK, 2000, dentre vários outros autores)].



AS ATIVIDADES NA NATUREZA:
DELINEANDO CARACTERÍSTICAS, ESPAÇOS DE AÇÃO E INTERVENÇÃO

  “Atividades na natureza” foi o termo, por mim escolhido, para designar as
diversas práticas manifestadas, nos mais diferentes locais naturais (terra, água
ou ar), cujas características se diferenciam dos esportes tradicionais, tais como
as condições de prática, os objetivos, a própria motivação e os meios utilizados
para o seu desenvolvimento, além da necessidade de inovadores equipamentos
tecnológicos possibilitando uma fluidez entre os praticantes e o meio ambiente.

  De antemão, é importante mencionar a existência de uma infinidade de termos
que pretendem designar e caracterizar estas práticas, tais como: esportes de
aventura, atividades outdoor, esportes radicais, atividades físicas de aventura,
esportes selvagens, dentre tantos outros. Talvez essa própria falta de consenso
sobre a terminologia contribua para uma interpretação superficial do que real-
mente venham a representar tais práticas.

  Somente para apontar alguns dos equívocos manifestados em tais expressões,
as palavras “esporte” e “radical”, por exemplo, tendem a reduzir as práticas em
questão a fenômenos que, muitas vezes, nada têm de esportivos (quando se
pensa na burocratização e institucionalização das regras, dos espaços e dos
objetivos) ou de radical (uma caminhada por um bosque pode ser simplesmente
branda e tranqüila). Por sua vez, o adjetivo “física” atrelado à palavra atividade
de aventura parece ser, ao mesmo tempo, redundante e dicotômico.

  Contudo, não é pretensão, neste artigo, aprofundar-me nesta questão, uma



222 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
vez que outros aspectos, relativos ao envolvimento com a e na natureza, mos-
tram-se muito mais carentes de intervenções e investigações e, uma vez
aprofundados, poderão, posteriormente, contribuir para esta discussão
terminológica.

  Portanto, a opção pela terminologia “atividades na natureza” se deve justa-
mente à amplitude de compreensões e sentidos que a expressão pode abarcar.
Desta forma, sem pretender reduzir e engessar o conceito, apenas delineio algu-
mas características para melhor visualização do tema 3.

  Estou entendendo-as como práticas cercadas por riscos e perigos, na medida
do possível, calculados, não ocorrendo treinamentos intensivos prévios (como
no caso dos esportes tradicionais e de práticas corporais como a ginástica e a
musculação). A experimentação acontece de maneira mais direta, havendo um
afastamento de rendimentos planejados.

  A identidade diferenciada desses tipos de atividades de aventura provém
de aspectos práticos ou materiais e, também, de sua dimensão imaginária ou
simbólica, na qual a aventura aparece como uma cenografia e as ações são
subordinadas às percepções e riscos - reais e imaginários (FEIXA, 1995).
Durante essas situações de aventura, o corpo passa a ser um campo
informacional, concebido como receptor e emissor de informação e não
como mero instrumento de ação ou coação. Os corpos chegam a enfrentar
determinadas regras de realização constantemente revisáveis e sempre sub-
metidas à apreciação dos praticantes.

   As informações devem ser precisas e, em certas circunstâncias, as tomadas de
decisão devem ser rápidas. O mergulho, a vertigem, a velocidade, os desequilíbrios
e as quedas são características presentes nessas práticas, possíveis a quaisquer
pessoas, pois o desenvolvimento e aprimoramento tecnológicos proporcionam,
a qualquer um, o deslizar-se no ar, na água e na superfície terrestre, concretizan-
do, como aponta Betrán (1995), alguns sonhos de aventura.

   Há um consenso, por parte de estudiosos do tema (POCIELLO, 1995; BETRÁN,
1995 e outros) no que se refere aos anos 70 como marco das atividades na
natureza, principalmente nos países economicamente avançados. Dentre outras,
a principal atividade difundida neste período foi o surfe, caracterizada pela uti-
lização de prancha e pelo domínio corporal na tentativa de desbravar ondas.

  Tais atividades foram se desenvolvendo, ao longo dos anos 80 e, até nossos
dias, conforme níveis de organização e controle acerca dos perigos inerentes à
prática, tendo como respaldo significativo o avanço tecnológico voltado aos
equipamentos esportivos específicos, os diversos recursos empregados e os
meios de comunicação.


                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Essas atividades requerem os elementos naturais para o seu desenvolvimento,
de formas distintas e específicas, despertando novas sensibilidades, em diferen-
tes níveis. As intensas manifestações corporais, aí vividas, permitem que as
experiências na relação corpo-natureza expressem uma tentativa de reconheci-
mento do meio ambiente e dos parceiros envolvidos, expressando, ainda, um
reconhecimento dos seres humanos como parte desse meio (MARINHO, 2001).

   Bruhns (1997) salienta que a experimentação dessas novas emoções e sensibi-
lidades poderá conduzir os seres humanos a diferentes formas de percepção e de
comunicação com o meio em que vivem. Tal consideração salienta a necessida-
de de compreensão sobre os diferentes significados que a relação dos seres
humanos junto à natureza tem assumido.

   Nesta perspectiva, parece que a busca por estas atividades desponta, a cada dia
mais, impulsionada pelo desejo de experimentar algo novo, emoções prazerosas,
utilizando-se da tecnologia infiltrada na esfera da recreação e do lazer.

  O que mais as atividades na natureza representam? Como elas têm se configu-
rado no lazer das pessoas, na nossa sociedade contemporânea?

   Os “aventureiros” envolvidos em tais práticas parecem estar fortalecendo um
novo estilo de vida, em busca de práticas mais “excitantes” que brincam com o
risco e com o perigo em um jogo no qual os parceiros e os equipamentos
tecnológicos compõem a dinâmica a ser vivida.

  Continuando a delinear as características das atividades na natureza, vale a
pena lembrar que duas principais e diferentes vertentes manifestam-se: uma mais
atrelada à competição e outra mais vinculada à expressão lúdica. Muito embora
a mídia, de certa forma, priorize a apresentação das atividades na natureza
voltadas, prioritariamente, a um caráter competitivo (como é o caso das corri-
das de aventura, competições de escalada indoor, de rafting, etc.), conduzindo
tais práticas a um processo de esportivização; acredito que ainda são muitas as
atividades que são imbuídas de características genuinamente lúdicas, carregadas
de emoções, denotando singulares e expressivas formas de brincar com o risco.
Também é importante destacar que, nestas atividades, não existe um rigor sepa-
rando a competição da não-competição; ambas podem existir em uma mesma
prática, com diferentes nuances; no entanto, as eleitas para esta discussão estão
mais atreladas à experimentação lúdica que competitiva em si.

  Muitas vezes, a satisfação trazida pelas atividades na natureza, de cunho
competitivo, relaciona-se a uma espécie de (pseudo) aventura, produzindo uma
definição bastante reduzida da natureza, a qual passa a ser encarada como um
mero local de atividades, cujo propósito é limitado a servir às necessidades do
praticante que procura por satisfação e prazer. A natureza, levada, então, a um


224 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
segundo plano é redefinida como um ambiente coincidentemente útil e agradá-
vel, atrativo e conveniente para as atividades esportivas. O conhecimento e a
proteção ambiental, neste contexto, parecem ser irrelevantes. Por exemplo, nas
corridas de aventura, grupos de executivos, de atletas e de outros tipos de
interessados envolvem-se em um jogo de representação de sobrevivência,
redefinindo a natureza como um teatro no qual os indivíduos agem fora do
habitual contexto cotidiano. A natureza, aparentemente, é reduzida a um cená-
rio teatral, a um espetáculo no qual os protagonistas se empurram para além de
seus limites físicos 4.

   Acredito, igualmente, que o aspecto cooperativo não deve ser esquecido. As
atividades na natureza, em sua maioria, ocorrem em grupos ou, no mínimo, em
dois participantes; ou seja, há a dependência de um parceiro para que a prática
aconteça de forma mais segura e, até mesmo, prazerosa. Igualmente, atitudes de
confiança e respeito são observadas, não só com os companheiros, mas também
com a natureza. Ainda que existam pessoas que, muitas vezes, por falta de conhe-
cimento e instrução, tenham atitudes de desrespeito para com o meio ambiente,
esta tem sido uma preocupação evidente nas propostas de agências, grupos esco-
lares, empresariais, etc. e muitas têm sido as formas de intervenção educativa 5.

  As atividades na natureza também requerem prudência e bom-senso no que se
refere aos procedimentos de segurança, uma vez que, muitas delas, exigem
conhecimentos e familiaridade com alguns equipamentos tecnológicos. Saber
os limites próprios, os dos outros, respeitando as imprevisibilidades da natureza
é pré-requisito para a prática de tais atividades.

  Uma outra característica marcante nestas práticas é que elas são agenciadas
por empresas e não por profissionais especializados. Não há, ainda, relações
institucionais mais intensas com estruturas acadêmicas; talvez por isso as uni-
versidades, de certo modo, ainda não aceitem a força desse movimento; já
consolidado de uma certa forma. Vale ainda mencionar que, mesmo que não
estivessem consolidadas e fossem apenas um modismo (como muitos encaram
tais práticas), elas também precisariam ser estudadas e também deveriam ser
compreendidas para situar uma época, uma geração, etc.

   Todas estas características salientam a emergência de uma nova inquietação
referente à necessidade de aprendizados específicos, no que se refere à adminis-
tração e à participação em algumas atividades, tais como: educação e preserva-
ção ambientais; técnicas de resgate e sobrevivência na natureza; conhecimento
de equipamentos específicos, técnicas apropriadas para algumas modalidades;
entre tantas outras, as quais podem ter interferência vital nesse processo.

   Ou seja, as atividades na natureza requerem um repensar sobre o meio ambien-
te a partir de três principais aspectos interdependentes: a prática; a conservação


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
ambiental e o processo educativo.

   Atualmente, ainda que de forma tímida, algumas áreas têm se envolvido com
esta temática, no sentido de aprimorar seus estudos e redimensionar as perspec-
tivas atuais, como é o caso da Educação Física, do Turismo, da Biologia, entre
outras áreas, nas quais são apontados alguns estudos referentes à
interdisciplinaridade nas questões pertinentes à natureza.

  A Educação Física, particularmente, pode, por meio da experiência na natureza
(ou seja, fora das quadras de cimento, dos ginásios poliesportivos, das piscinas, dos
campos de futebol, etc.), potencializar suas estratégias de ação para desenvolver,
nos alunos, suas habilidades motoras, capacidades físicas e, até mesmo, muitos
fundamentos esportivos específicos. As corridas de orientação, por exemplo, assim
como a escalada, a caminhada, a canoagem e outras atividades, podem ser utiliza-
das para satisfazer uma variedade de objetivos educacionais, oportunizando dife-
rentes níveis de desenvolvimento: ×Coletivo: habilidades cooperativas e de comuni-
cação; ×Pessoal: auto-estima; Cognitivo: tomadas de decisão; resolução de proble-
mas; Físico: aptidão e desenvolvimento de habilidades motoras. Podendo, da mesma
forma, serem utilizadas como atividades de lazer, com fim nelas mesmas.

  Portanto, é preciso que os conteúdos dos cursos de formação, em que as ativida-
des na natureza possam ser inseridas, sejam repensados e reformulados, privilegian-
do esta nova demanda relacionada ao lazer e à natureza. O ideal seria que o conteú-
do das atividades na natureza (envolvendo tanto questões técnicas quanto questões
com diferentes vertentes: filosófica, sociológica, fisiológica, psicológica, etc.) per-
passasse por todas as disciplinas, evidenciando a relação entre elas.

  Ou seja, as atividades na natureza não deveriam ser “recortadas” em cursos ou
módulos específicos, mas sim abordadas nas diversas disciplinas, a partir da
especificidade de cada uma delas e suas contribuições para as mesmas, assim
como qualquer outra modalidade esportiva, no caso da Educação Física. Desta
forma, o estudo das atividades na natureza não seria apenas uma forma de
oportunizar uma mudança de “locus”, com fins de entretenimento (o que tam-
bém é muito válido), mas, muito mais que isso: seria uma forma de valorizar uma
temática em emergência e de extrema importância para diferentes profissionais,
demarcando novas possibilidades no mercado de trabalho e, mais ainda, eviden-
ciando tais práticas como valiosas oportunidades para mudanças de comporta-
mentos, atitudes e valores.

  O profissional que virá a trabalhar com as atividades na natureza deve saber as
possibilidades que estas atividades oferecem como parte integrante dos conteú-
dos do ensino na graduação. Por exemplo, seria interessante entender e explicar,
por meio da Fisiologia do Exercício, quais variáveis fisiológicas interferem em
uma caminhada em uma trilha ou em uma corrida de orientação; quais músculos



226 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
são mais exigidos nas remadas do rafting ou da canoagem, por intermédio da
eletromiografia, nos estudos relacionados à Biomecânica do Movimento; como
as relações sociais se estabelecem entre escaladores, partindo do embasamento
dos Estudos do Lazer e da Recreação e da Sociologia, entre tantos outros exem-
plos que poderiam ser aqui elencados.

  Vários espaços (tais como acampamentos; colônias de férias; hotéis - fazen-
da; de convenção -; ruas de lazer; academias; shoppings; escolas; empresas;
dentre vários outros) abrem-se como possibilidades para atuação do profissio-
nal capaz de lidar com as atividades na natureza.

  Portanto, esta crescente demanda, vislumbrando estes diferentes espaços de
atuação, exige uma nova postura profissional; capaz de corresponder, de forma
qualitativa, ao interesse dos envolvidos, dando vigor à potencialidade das ativi-
dades na natureza. Um bom começo parece ser a efetivação de intercâmbios de
conhecimentos entre os profissionais de diferentes áreas, com o intuito de des-
cobrirem as melhores (e menos degradativas) formas de manutenção dos seres
humanos junto à natureza (da qual todos somos parte).

   Como apontado anteriormente, ainda que de forma lenta, porém significativa,
alguns cursos de graduação em Educação Física e em Turismo, espalhados por
todo o Brasil, têm começado a implantar em seus cursos conteúdos referentes às
atividades na natureza. Devido à falta de incentivo para implantação destes
conteúdos na grade curricular, entre outros motivos, uma alternativa que tem
sido tomada, por muitas faculdades, é a abertura de cursos de extensão à comu-
nidade, com o intuito de permitir a experimentação de tais práticas. Com este
objetivo, o Curso de Extensão Universitária, intitulado “Vivências em Atividades
de Aventura”, oferecido pelo Laboratório de Estudos do Lazer, do Departamento
de Educação Física, da UNESP de Rio Claro (SP) foi um dos pioneiros no interior
de São Paulo. A Universidade Federal de São Carlos (SP) e algumas outras facul-
dades privadas de São Paulo também começaram a suprir a crescente demanda
pelas atividades na natureza, ora com cursos de extensão, ora com disciplinas
optativas na grade curricular.

  É importante mencionar, também, que as atividades na natureza conquistaram
um espaço de maior visibilidade em eventos científicos da área e também fora
dela, tais como: ENAREL (Encontro Nacional de Recreação e Lazer); CONBRACE
(Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte) - especialmente no Grupo Temático
“Lazer e Recreação”; CBTUR (Congresso Brasileiro de Turismo); SBS (Sociedade
Brasileira de Sociologia) - particularmente no Grupo Temático “Sociologia do
Lazer e do Esporte”; ANPOCS (Associação Nacional de Pesquisa em Ciências
Sociais), em especial o Grupo Temático “Turismo” e, também, ANPPAS (Associa-
ção Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade). Vale
lembrar o número significativo de publicações de trabalhos completos e de
resumos nos anais destes eventos, contribuindo, sobremaneira, para a produção

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
do conhecimento na área.

   Em alguns periódicos científicos também é possível perceber a crescente pu-
blicação sobre o tema, tais como as Revistas: Conexões (FEF - UNICAMP); Licere
(CELAR - UFMG); Turismo em Análise (ECA - USP); Movimento (UFRGS); Turismo:
Visão e Ação (Universidade do Vale do Itajaí); Apunts de Educação Física (INEF -
Barcelona); Body and Society (SAGE Publications, USA), entre outras. Eu não
poderia deixar de mencionar a valiosa contribuição deste número temático da
Revista Motrivivência (UFSC), incentivando e colaborando para a produção ci-
entífica acerca do assunto.

  Alguns periódicos digitais também têm publicado trabalhos relativos à temática
das atividades na natureza, são eles: Lecturas: Educación Física y Deportes (Buenos
Aires) e Boletim Brasileiro de Educação Física (Brasília), dentre outras possibili-
dades na área do Turismo.

  Diante desta crescente expansão do público alvo constituído, principalmente,
por estudantes de cursos técnicos e de especialização; bem como numa frente
ampla de mercado de trabalho, este tema tem despontado denotando grande
relevância para diversas áreas do conhecimento, como já exposto anteriormen-
te. Vale mencionar que o assunto tem sido abordado em várias dissertações de
mestrado e teses de doutorado de diversas faculdades e universidades brasilei-
ras. Uma recente produção refere-se a uma coletânea organizada, focalizando
as interfaces das atividades na natureza com o lazer e o turismo, a partir do
diálogo com profissionais de diferentes áreas de atuação (MARINHO e BRUHNS,
2003), cujo segundo volume está na fase final para publicação (MARINHO e
BRUHNS, no prelo).

   Igualmente, aumentam os números de laboratórios e grupos de estudos e
pesquisas voltados a temática das atividades na natureza. Alguns deles podem
ser mencionados: LEL: Laboratório de Estudos do Lazer, Unesp de Rio Claro (SP);
GLEC: Grupo de Estudos Lazer e Cultura da UNICAMP, Campinas (SP); NIEL: Núcleo
interdisciplinar de Estudos do Lazer, UFPE; dentre outros em São Carlos, Natal,
Florianópolis, etc.

  São bastante inovadores, também, alguns trabalhos que têm sido realizados
ao longo dos últimos anos, cujas publicações são recentes, tais como: ativida-
des na natureza e portadores de necessidades especiais (MUNSTER, 2004); ativi-
dades na natureza e empresários (MACHADO, 2004); atividades na natureza e
terceira idade (DIAS e SCHWARTZ, 2004); atividades na natureza e dependentes
de drogas (GIMENO et al., 2003), dentre outros.

  Desta forma, no exposto até o momento, pretendi, de forma bastante sinteti-
zada, apresentar algumas características das atividades na natureza, seus possí-


228 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
veis espaços de atuação, os profissionais especializados em emergência, bem
como os principais focos de estudos e produção científica da área.

  Tive vontade de permanecer delineando tais características, com o intuito de
me aprofundar sobre cada questão, porém como o espaço para este texto não
me permite, darei prioridade para apresentar algumas idéias sobre a Educação
Ambiental, tão necessária e importante não só para o assunto em questão, mas
para todas as demais discussões que se possa fazer sobre os seres humanos em
nosso Planeta Terra.




  NOTAS SOBRE A EDUCAÇÃO AMBIENTAL

  De antemão, ressalto que compartilho da definição de Educação Ambiental
proposta por Reigota (1994), entendendo-a como educação política, pois prepa-
ra cidadãos para reivindicar justiça social, cidadania e ética nas relações sociais
e com a natureza.

   Sorrentino (1997), em seus estudos, utiliza alguns atributos apresentados na
literatura, entendidos como básicos e necessários para uma formação acerca da
questão ambiental, dos quais, mediante pequenas modificações, iremos nos apro-
priar: São eles: instigar o indivíduo a analisar e participar na resolução dos
problemas ambientais; estimular uma visão global e crítica das questões
socioambientais; estimular um enfoque interdisciplinar que resgate e construa
saberes; possibilitar um conhecimento interativo por intermédio de pontos de
vista; e propiciar um autoconhecimento que contribua para o desenvolvimento
de valores, atitudes, comportamentos e habilidades.

  Em uma outra publicação, Sorrentino (2002, p.91) alerta que a:

                “Educação Ambiental” tem sido percebida por distintos setores da
                sociedade como uma atraente chave para a abertura das mais dife-
                rentes portas. Uma chave de múltiplos usos que, no primeiro mo-
                mento, nos aproxima de tudo e de todos, mas que em seguida vai se
                tornando um chavão difícil de carregar, em função das expectati-
                vas criadas em torno das soluções que se deseja encontrar.

  Mais que procurar mostrar a complexidade de relações nas quais a educação
ambiental está inserida, tal como a história, a cultura, o modo de produção, as
necessidades e os desejos de diferentes pessoas e grupos sociais, o autor
supracitado alerta a necessidade de visualizarmos o “ambiental” para além de
um adjetivo agregado à palavra educação, mas como parte do processo educa-


                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
cional mais amplo, ainda que possua suas especificidades.

  Nessa mesma direção, Ferreira (1999) também acredita que o discurso ambiental
não representa somente o discurso voltado ao ambiente, abarcando também o
processo social, por meio do qual ele é construído e transmitido.

  É exatamente nesse processo de construção coletiva com diferentes esferas
humanas, campos de atuação e áreas do saber que podemos dialogar com
Sorrentino (2002a) a respeito do papel que cada um de nós pode e deve ter.

  Nesse processo coletivo, o compromisso individual é essencial e insubstituível
para as mudanças bruscas que a atualidade requer. Todos, mulheres, negros,
idosos, crianças, homossexuais, o interior, a periferia, etc., no contexto de suas
particularidades, devem ser ouvidos e potencializados a expressar suas necessi-
dades e vontades. Contudo, como alerta Sorrentino (2002a), para que isso ocor-
ra, todos devem perceber que vale à pena falar. É preciso explicitar como se
concretiza o compromisso com a viabilidade dessa participação.

  Se o objetivo é que todos decidam sobre os mais diversos problemas acerca
das questões socioambientais, é preciso fornecer-lhes informações; criar ou
apontar os espaços de locução e troca efetiva e afetiva de olhares e saberes;
definir mecanismos claros de tomada de decisão e possibilitar-lhes condições
objetivas na participação (SORRENTINO, 2002a).

  Além dessas necessidades, Sorrentino também alerta a urgência de trabalhar-
mos o nosso interior, propiciando aos sujeitos envolvidos a realização desse
exercício de uma nova sensibilidade (tal como: ouvir nossa intuição, nosso
corpo, o outro, os elementos naturais, pensar e ser simples na complexidade e
críticos e questionadores diante do óbvio), possibilitando uma participação que
supere a presença física, capaz de se manifestar em atitudes e comportamentos
cotidianos de “compromisso com a vida”.

   Como mostra Sorrentino, na tentativa de promoção da cidadania planetária
que tenha como meta decodificar e enfrentar os fatores que ameaçam nossa
existência na terra, além do incentivo e apoio a ações locais, inovadoras e
criativas que visem a superar a miséria, a pobreza, o desemprego, o niilismo e
uso de drogas, entre tantos outros aspectos referentes à luta cotidiana pela
sobrevivência e melhor qualidade de vida, é preciso despertar, em todos e em
cada um, o sentido de “pertencimento”, participação e responsabilidade na bus-
ca de respostas locais e globais.

  Todas essas questões perpassam, segundo Sorrentino (2002a, p.21), pelo com-
promisso das políticas públicas com a inclusão da diversidade e com o
questionamento dos valores da sociedade de consumo; pela estimulação dos
grupos e sujeitos ao debate, diante da busca pela qualidade de vida e “felicidade
material, física e espiritual”.
230 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Afinal de contas, como ressalta Layargues (2002), a educação ambiental não é
neutra, mas ideológica. Ela representa um ato político que tem por base valores
visando à transformação social.




ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE LAZER,
EDUCAÇÃO AMBIENTAL E AMOR

  Compartilho com Touraine (1989) que não devemos, em hipótese alguma,
adaptarmo-nos passivamente a uma sociedade e a uma cultura de massa que
escondem forças dominadoras, as quais, na verdade, devem ser banalizadas e
combatidas. O que está em jogo não é a defesa da ordem passada nem a aceita-
ção da desordem presente; mas a concepção e a construção de novas formas,
coletivas e individuais, de vida.

  Partindo dessas idéias, acredito que lazer e educação ambiental trazem, em
sua práxis, potentes possibilidades de saída.

   Refiro-me à necessidade de recuperar o lazer como “licere”, lícito, poder ter
direito.

   O lazer, entendido como espaço privilegiado para manifestação e produção
culturais vai além da mera transmissão de informações referentes aos conteúdos
culturais. Não se trata, como já apontou Marcellino (2002), da consideração de
um instrumento leve e eficaz, facilitador do processo de ensino-aprendizagem,
para a adequação conformista de sujeitos a uma inquestionável sociedade
estabelecida. É, na verdade, uma questão de participação cultural efetiva - usu-
fruir e criar cultura - uma das bases do exercício da cidadania, visando à autono-
mia dos sujeitos.

  Por sua vez, a educação ambiental traz, em sua raiz, importantes princípios
que nos conduzem ao mesmo caminho, como foi possível salientar anteriormen-
te, por meio das idéias de Sorrentino (2002a, 2002, 1997).

  Dentre os desafios na realização da educação ambiental, relativos à
sensibilização e à mobilização do grupo para enfrentar e solucionar problemas;
estão aqueles referentes à construção de situações/jogos/simulações que per-
mita o exercício da capacidade de trabalho interdisciplinar e intersaberes, com o
objetivo de construir conhecimentos e procedimentos capazes de preparar os
sujeitos para tomadas de decisão sobre grandes impasses com os quais nos
deparamos, a cada momento (SORRENTINO, 2002).


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Assim como a educação ambiental, a educação para o lazer 6 exige tomada de
consciência referente às contradições de nossa contemporaneidade e à
humanização das relações fundadas na ética, mantendo interfaces extremamen-
te preciosas com a educação para a cidadania.

  As emergências são outras: não se pretende mais visualizar uma educação
ambiental movida por oficinas repetitivas esvaziadas de conteúdos e desconectas
de um processo educacional como um todo; também não se quer mais fugir dos
problemas cotidianos, simplesmente divertindo-se ou descansando. O que se
almeja é a busca por uma melhor qualidade de vida, em um espaço/tempo em que
possamos ser críticos, criativos e sonhadores. Nessa “luta”, todos temos nossas
parcelas de direitos e deveres.

   Neste sentido, tanto a educação ambiental quanto o lazer se constituem em
atos políticos. Por enquanto, como alerta Santos (2000), é, sobretudo, política
das empresas, da lógica excludente do capital. Contudo, é possível perceber o
atrevimento de grupos e instituições que procuram estimular a produção de lazer
(e também de consciência ecológica) mais próximo da sensibilidade popular, da
cultura, e não simplesmente só do mercado. Essas iniciativas podem ser estimu-
ladas e multiplicadas de inúmeras formas, podendo (e devendo) obedecer a um
projeto político mais amplo, transgressor, coerente e inovador.

  Permanecendo com as idéias de Santos (2000, p.36):

                 trata-se, no fundo, de uma questão de civilização. O problema
                 não é, apenas, proteger recursos e lugares, mas valorizar a essên-
                 cia do homem. Além de cuidar da biodiversidade, trata-se de sal-
                 vaguardar e potencializar a sociodiversidade, que acompanha e
                 qualifica a diversidade dos lugares, dos quais constitui, ao mesmo
                 tempo, atributo e riqueza. Trata-se, a partir disso, da construção
                 de um novo mundo, com a busca da plenitude, onde a vida seja
                 vivida como troca e onde o qualitativo seja dominante, permitin-
                 do que se instale no planeta o homem integral.

  Gostaria de encerrar este artigo refletindo um pouco sobre os valores que
deveriam estar embutidos nesses “direitos, deveres e sonhos”. Um deles, impres-
cindível, em meu entender, é o amor.

  Maturana (1998, p.22), ao se remeter às emoções, defende que não há ação
humana sem uma emoção que a estabeleça como tal e a torne possível como
ato. Nesse sentido, o amor pode ser entendido como a emoção fundadora, sem
a qual a convivência se tornaria impossível. Nas palavras do autor: “o amor é a
emoção que constitui o domínio de ações em que nossas interações recorrentes
com o outro fazem do outro um legítimo outro na convivência”.


232 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
As interações recorrentes no amor, como explicita Maturana, tendem a ampli-
ar e estabilizar a convivência; porém, por outro lado, as interações recorrentes
na agressão interferem e rompem a possibilidade de conviver. Nessa direção, a
linguagem, como domínio de coordenações consensuais de conduta, não pode
ter sido originada na agressão, pois esta restringe a convivência.

  Infelizmente, pode-se constatar que a palavra amor tem sido bastante altera-
da; a emoção por ela encerrada perdeu sua vitalidade, provavelmente devido às
conotações complexas, especiais e difíceis a ela relacionados.

               O amor é constitutivo da vida, mas não é nada especial. O amor é
               o fundamento do social, mas nem toda convivência é social. O
               amor é a emoção que constitui o domínio de condutas em que se
               dá a operacionalidade da aceitação do outro (...) sem a aceitação
               do outro na convivência não há fenômeno social (MATURANA,
               1988, p.23).

   Como mostra o autor, ainda somos animais colheitadores, compartilhadores,
ainda somos animais que vivemos na coordenação consensual de ações, ainda
somos animais cujos machos participam dos cuidados com os bebês, somos
animais que vivemos em pequenos grupos, ainda somos animais sensuais que
vivem espontaneamente no tocar e acariciar mútuos. Porém, preliminarmente,
somos ainda animais dependentes do amor. Este, por sua vez, é a emoção central
na história evolutiva humana desde o início; é a condição necessária para o
desenvolvimento físico, comportamental, psíquico, social e espiritual das crian-
ças, bem como para a conservação de todas essas esferas na vida adulta.

   O amor não pode ser entendido como um fenômeno biológico eventual nem
especial; ele deve ser compreendido como um fenômeno biológico cotidiano,
básico e diário no humano. Isso pode ser constatado por meio da forma como,
freqüentemente, ele é negado culturalmente, criando limites na legitimidade da
convivência, em função de outras emoções (MATURANA, 1988).

  Conforme Maturana (1988), na medida em que diferentes emoções constituem
domínios de ações distintas, haverá diferentes tipos de relações humanas, de-
pendendo da emoção que as sustente e será necessário observar as emoções
para distinguir os diferentes tipos de relações humanas, já que estas as definem.

  Mesmo que em um outro contexto, Warat (1989) também se aproxima das
idéias acima expostas. É preciso resgatar a ética da preservação da existência
baseada no amor e na solidariedade. Pensar o amor como dimensões simbólica
e emancipatória potencializa a preservação da condição humana pela preserva-
ção dos desejos. Warat (1989), sutilmente, lembra que: se sabemos como amar,
também sabemos como viver. E, por sua vez, só é criado um espaço de transfor-


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
mação social e de emancipação se, previamente, cria-se um espaço de desejo,
de afeto entre as pessoas. Daí a necessidade de um “amor de gigantes”:

                 Os amores de gigantes constituem, entre os parceiros, espaços
                 de afetividade que se convertem em um depositário dos enigmas
                 da vida. Uma disposição afetiva que permite a percepção de que,
                 sem a plenitude dos sentimentos, não existem forças suficientes
                 para a transformação da vida. É impossível pretender uma troca
                 nos sistemas de valores e necessidades sociais sem construir
                 espaços de ternura entre as pessoas (WARAT, 1989, p.22).

  Contribuindo para a discussão, também são bem-vindas as idéias sobre o “sa-
ber da experiência”, apresentadas por Bondía (2002), ao se referir à necessidade
de as reflexões sobre educação estarem, diretamente, ligadas ao par “experiên-
cia/sentido”, uma vez que a verdadeira experiência está cada vez mais rara por
excesso de informações e de trabalho e por falta de tempo.

  Por sua vez, mencionar e almejar trabalhos educativos qualitativos e comple-
mentares, transmissores de experiência, clama pelo conceito amor, muito pouco
lembrado, nessas ocasiões.

  Cabe mencionar, então, que, para Bondía (2002, p.20-28), a experiência repre-
senta:

                 um encontro ou uma relação com algo que se experimenta, que
                 se prova (...). O sujeito da experiência tem algo desse ser fasci-
                 nante (o pirata) que se expõe atravessando um espaço
                 indeterminado e perigoso, pondo-se nele à prova e buscando
                 nele sua oportunidade, sua ocasião (...). A experiência é a passa-
                 gem da existência, a passagem de um ser que não tem essência ou
                 razão ou fundamento, mas que simplesmente “ex-iste” de uma
                 forma sempre singular, finita, imanente, contingente (...). A expe-
                 riência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque,
                 requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível
                 nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar,
                 parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e
                 escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, de-
                 morar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo,
                 suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar
                 a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre
                 o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros,
                 cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se
                 tempo e espaço.




234 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Portanto, a educação que se sonha, seja ela para o lazer ou para o ambiente,
formal ou informal, precisa valorizar mais a lentidão, precisa rever sua ética,
suas práticas/experiências e seus valores.

   O empenho pela ética, pelo respeito às diferentes formas de vida, o incentivo
pela autonomia, pela solidariedade e pela democracia são algumas das metas
cultivadas e almejadas tanto pelo lazer quanto pela educação ambiental. Infeliz-
mente, a educação formal deixa suas funções a desejar uma vez que parece se
ater apenas a um ensino teórico massivo ou a práticas esvaziadas de conteúdos
e, nesse processo, com o sentido de superação, a educação para o lazer e a
educação ambiental têm ambas como finalidade a formação de sujeitos consci-
entes, sensíveis e críticos no que se refere ao tempo livre e à natureza.

  Deixo, portanto, um último “recado”: trabalhar com as atividades na natureza
exige de nós mais que familiaridade com questões socioambientais e com con-
ceitos sobre lazer; exige um envolvimento dinâmico, intenso, inovador e muito
responsável. Somente assim, as atividades na natureza se consumarão como
oportunidades não apenas para se tomar decisões (momentâneas) sobre deter-
minada prática, mas, principalmente, para o desenvolvimento de uma sensibili-
dade mais profunda. Ou seja, as experiências na natureza podem, efetivamente,
contribuir para o despertar de uma sensibilidade e de uma responsabilidade
ambiental coletiva, contribuindo, até mesmo, para impulsionar o estabelecimen-
to de políticas em níveis local e global.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte
original]



NOTAS

1
    Meio ambiente está sendo, neste texto, entendido como “um lugar determinado e/ou percebido onde estão
    em relações dinâmicas e em constante interação os aspectos naturais e sociais. Essas relações acarretam
    processos de criação cultural e tecnológica e processos históricos e políticos de transformação da natureza
    e da sociedade” (REIGOTA, 1998, p.21). Por sua vez, a palavra natureza está sendo tratada como um conceito
    que, de acordo com Carvalho (1994, p.26), “exprime uma totalidade, em princípio abstrata, que os homens
    concretizam na medida em que a preenchem com suas visões de mundo”.
2
    Tive a oportunidade de explorar melhor estas idéias no capítulo “Da aceleração ao pânico de não fazer nada:
    corpos aventureiros como possibilidades de resistência” (MARINHO, 2003).
3
    Aproveito, este momento, para compartilhar que minha pesquisa de doutorado visa, entre outras questões,
    a investigar a idéia de “aventura” existente nas atividades na natureza. Futuramente, será um grande prazer
    poder dividir dados e informações sobre minha pesquisa, a qual está sendo desenvolvida no Programa de Pós-
    graduação da Faculdade de Educação Física da Unicamp, no Departamento de Estudos do Lazer.
4
    Desenvolvi este assunto nos artigos: “Do Bambi ao Rambo ou vice-versa? As relações humanas com a (e na)
    natureza” (MARINHO, 1999) e “Lazer, natureza e aventura: compartilhando emoções e compromissos” (MA-
    RINHO, 2001). Aos interessados por uma discussão mais profunda sobre as corridas de aventura, a sugestão
    de leitura da dissertação de mestrado de Ferreira (2003) é muito pertinente.



                                              Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                    Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
5
    “Férias vivas” é uma entidade sem fins lucrativos que tem como objetivo promover a segurança em atividades
    de turismo e lazer no Brasil. Tal entidade ilustra o interesse e a preocupação com práticas na natureza mais
    conscientes. Como parte de seus projetos, a entidade elaborou um guia contendo diversas explicações sobre
    algumas atividades na natureza, dentre várias outras dicas. Informações interessantes podem ser obtidas no
    site: www.feriasvivas.org.br
6
    “Educação para o lazer” é uma expressão que tem sido utilizada por diversos estudiosos no sentido de refletir
    e questionar o lazer não apenas como veículo de transmissão de educação (“educação pelo lazer”), comumente
    utilizado em escolas e outras instituições. “Educar para o lazer” significa possibilitar que as pessoas se tornem
    capazes de desfrutar qualitativamente de seus momentos de “tempo livre”, podendo conhecer as diversas
    possibilidades para poder optar. Como nos lembra Camargo (1998), sempre fomos educados para o trabalho
    - sendo este, até então, o valor mais importante da vida humana - fazendo-se necessário, contudo, que também
    sejamos educados para o lazer com o mesmo afinco, pois somos exigidos por inúmeras características da vida
    contemporânea (como discutido ao longo deste artigo).




236 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2004
          Publicação original: verbete de dicionário


Formato da contribuição: artigo
Fonte: BRUHNS, Heloisa T. In: GOMES, Christiane L. (org.). Dicionário crítico do
lazer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004.
E-mail do(s) autor(es): luabola@uol.com.br
Títulos acadêmicos principais atuais: BRUHNS, H. T. graduada em Economia pela
UNICAMP e em Educação Física pela PUC de Campinas; mestre e doutora em
Filosofia da Educação pela UNICAMP. Professora Titular do Departamento de
Estudos do Lazer da Faculdade de Educação Física da UNICAMP.




Meio Ambiente
Heloísa Turini Bruhns



  Tentarei aqui desenvolver questões em torno do conceito do vocábulo “meio
ambiente”, desde já alertando os leitores sobre a impossibilidade e a improce-
dência da tentativa de fechamento nas discussões que serão apreendidas, pois
elas representam um olhar entre muitos outros, sobre o fenômeno a ser explora-
do. Portanto, mais do que estabelecer definições, desejo ampliar e contribuir
para a construção do conceito.

  Em oposição a um sujeito-observador, o qual situa-se fora do tempo históri-
co, perseguindo os sentidos verdadeiros, real, permanente e inequívoco, prefiro
me aproximar de um sujeito-intérprete me posicionando diante de um mundo-
texto, imerso na polissemia e na aventura de produzir sentidos a partir de um
panorama histórico (Carvalho:2001)

  Inicio expondo um dentre os muitos conceitos estabelecidos, não no sentido
de tomar partido do mesmo, mas para utilizá-lo como possibilidade de iniciar um
diálogo sobre a compreensão do mesmo.

  De forma bem geral, poderíamos pensar o meio ambiente como o modo pelo
qual os organismos vivos (e aqui incluo os seres humanos) interagem com o
conjunto de condições naturais, através de influências mútuas estabelecidas
entre os mesmos, envolvendo um campo complexo das relações entre a nature-
za e a sociedade.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
De modo a contribuir com o debate, busco Reigota (1998:21), o qual define
meio ambiente como “um lugar determinado ou percebido onde estão em rela-
ções dinâmicas e em constante interação os aspectos naturais e sociais. Essas
relações acarretam processos de criação cultural e tecnológica e processos
históricos e políticos de transformação da natureza e da sociedade”.

  Assim, a compreensão ultrapassa a idéia do meio que circunda espécies e
populações biológicas, situando o ambiente como categoria sociológica (não
biológica), relacionada a uma racionalidade social, onde estariam envolvidos
comportamentos, valores e saberes, bem como novos potenciais produtivos
(Leff:2000)

   A racionalidade instrumental utilitarista numa ética baseada em benefícios
imediatos regeu por um tempo considerável (se é que podemos afirmar o seu
desaparecimento) a economia e o processo de acumulação, buscando atingir o
crescimento econômico. Nesse processo os recursos naturais sofreram uma
deterioração e devastação comprometendo a vida no planeta, provocando de-
sigualdades sociais e um entendimento equivocado de conservação ambiental
traduzida como nichos isolados. Esse quadro provocou uma crise e uma reação
contrária, impulsionando uma nova racionalidade social diferente da racionalidade
científica prevalecente.

  Nesse aspecto podemos visualizar a crise ambiental não somente como crise
ecológica, mas como crise da razão, onde os problemas ambientais situam-se
como problemas do conhecimento. Trazendo Leff (2000:217), “apreender a
complexidade ambiental não constitui um problema de aprendizagem do meio, e
sim de compreensão do conhecimento sobre o meio”.

  Podemos pensar essas questões engatilhadas a partir da década de 60, nos
movimentos contraculturais, constituindo e desembocando em crises deflagradas
no âmbito das instituições (família, ensino, igreja dentre outras), bem como
contestando instrumentos sócio-culturais e político-econômicos de organiza-
ção das sociedades, questionando teorias e práticas em torno da luta pelo poder.

   Surge uma noção de ambientalismo, conforme Cascino (1998:266) na qual está
embutida não apenas a preservação, de maneira isolada e estanque, mas inte-
grando uma infinidade de conteúdos, de complexificação do conhecimento,
articulando uma visão diferenciada sobre os acontecimentos naturais, sócio-
culturais, político-econômicos, num entendimento do ser humano como ele-
mento co-responsável, fundamental, em tudo o que ocorre no âmbito da sobre-
vivência física do planeta e da própria qualidade de vida em um sentido amplo,
renovado e diferenciado”. Nessa direção, prossegue o autor, “as novas configu-
rações do expressar a política, o fazer reivindicações, o agir sobre os temas de
interesses e importância na defesa de territórios existenciais coletivos e indivi-



238 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
duais, se reveste de inéditas estruturas simbólicas, abrindo campos até então
intocados da expressão humana, rompendo com velhas mensagens, envelhecidas
cores de expressão dos desejos”.

   Um novo ambientalismo, em contraposição à concepção de “proteção à natu-
reza” presente em instituições provindas do século XIX (sociedades de proteção
da natureza, da vida selvagem, dos animais etc.) procede, como mostra Diegues
(1996:39), desse movimento ativista crítico da sociedade tecnológico-industrial
(tanto capitalista quanto socialista), cerceadora das liberdades individuais,
homogeneizadora das culturas e, sobretudo, destruidora da natureza.

   Movimento ambientalista constituindo-se em alvo de censuras, pois represen-
tava um modelo importado dos países industrializados, nascido com a opulência
da riqueza rejeitando o industrialismo e os valores consumistas), não refletindo
aspirações e conceitos sobre a relação homem/natureza dos países subdesen-
volvidos, pois muito raramente incluíam o problema da pobreza e, principalmen-
te, a má distribuição de renda. Os movimentos ambientalistas nos países subde-
senvolvidos estão diretamente relacionados com as condições de produção e de
satisfação das necessidades básicas da população, portanto implicam em quali-
dade de vida. Entretanto, nos anos 80, coloca Diegues (ibid.:38), “ficou mais
difícil a defesa do ambientalismo primeiro-mundista, por causa da grave recessão
que gerou altas taxas de desemprego”.

   As contrapropostas ambientalistas direcionaram-se para uma sociedade
libertária, constituída de pequenas comunidades auto-suficientes, utilizando uma
ciência, um trabalho e uma tecnologia não alienante e a afirmação da sociedade
civil em contraposição a um Estado centralizador.

   Uma utopia simplista manifestou-se nesse movimento de ruralização e pro-
posta de volta às comunidades rurais, qual seja, o retorno aos modelos de con-
vívio dos pequenos povoados e vilas.

    Trazendo temas de grande alcance político em seu bojo (energia nuclear,
autonomia local, crescimento econômico), desencadearam um afastamento em
relação ao poder instituído, concomitantemente colocando-se como força po-
lítica, conquistando espaços (partidos, ministérios, organizações não-governa-
mentais)

   Surgiu um âmbito propício para o desenvolvimento de abordagens, temas e
problemas até então considerados irrelevantes para a investigação social. Não
mais se atendo à narrativa das conquistas dos “grandes homens”, esses temas
expandiram-se para aspectos da vida cotidiana, examinando modos de amar,
trabalhar, divertir-se, práticas e representações corporais.



                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Algumas práticas de lazer tendo como pano de fundo o ambientalismo en-
quanto movimento crítico-social surgem nessa época, muito próximas às pere-
grinações do movimento hippie ou aos seus propósitos de volta ao campo, onde
a busca pela natureza representava uma contestação de valores em relação à
produção e ao consumo. A natureza como território da experiência passa a
operar um reencantamento do mundo. Assim, as visitas à natureza traduzidas nas
formas de acampamento, caminhadas, exploração de cavernas, montanhismo,
tornam-se cada vez mais freqüentes, desencadeando posteriormente uma série
de atividades na natureza como o rafting, canyoning, bóia-cross, cascading,
tirolesa e outros. Atividades estas desenvolvidas através de aprimoramentos
tecnológicos os quais promoveram tanto o acesso a lugares antes inacessíveis
(como por exemplo o Everest no Himalaia ou as cavernas do PETAR no Brasil),
quanto a possibilidade da prática com segurança. O ecoturismo, denominação
posteriormente atribuída a essas viagens, ganha destaque como uma atividade
de lazer, incorporando os conflitos e contradições geradas no próprio
ambientalismo. Sem deixar de considerar a possibilidade de ações limitadas,
acentuando a comunidade e a localidade, as resistências locais e regionais, os
movimentos sociais, o respeito pela alteridade, o ecoturismo corre o risco da
apelação por uma política sectária e estreita, onde o respeito pelos outros pode
se perder numa competição por entre os fragmentos.

  Por outro lado, as atividades, onde a pretensão do cunho ecológico é manifesta-
da, restringem-se a fatores físico-bióticos do meio ambiente, relegando a planos de
menor importância os aspectos socioculturais e político-econômicos característi-
cos das populações locais. Portanto, a redefinição dos modelos de desenvolvimento
pautada nos “critérios ecológicos”, tem acontecido, como discutem Ribeiro e Barros
(1997:39), “muito mais no sentido de uma adequação à idéia de ‘ equilíbrio com o
meio natural’ do que em relação à de justiça social, ao reconhecimento das popula-
ções humanas como os verdadeiros sujeitos do meio ambiente”.

  Ainda nessa discussão, percebe-se uma forte ênfase nas posturas empresariais
e políticas de planificação e gestão, quando a fala enfoca o turismo sustentável,
desprezando aspectos relativos aos comportamentos sociais como atitudes,
expectativas e valores da população, não respondendo à necessidade de preser-
vação dos recursos naturais para garantir sua continuidade e regeneração, cos-
tumes e estilos de vida, na busca do enriquecimento da experiência turística e
nos benefícios advindos da própria.

  O ecoturismo privilegia áreas naturais apelativas do ponto de vista estético,
“segundo valores ocidentais”, como florestas, cachoeiras, rios extensos,
canyons,ocorrendo uma discriminação por áreas naturais “menos nobres”, como
pântanos, brejos, cerrados, etc., mesmo reconhecendo que esses ambientes são
essenciais para o funcionamento dos ecossistemas (Diegues:1996).Essa propos-
ta responde a concepções de vida, inspiradas no ambientalismo, apoiados em
ideologias ambientalistas e/ou místico-religiosas.


240 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
O movimento ambientalista desencadeou vários enfoques, muitos deles con-
traditórios, gerando conflitos a partir de posicionamentos opostos. Dois grandes
enfoques podem ser detectados na análise da relação homem/natureza: o
“ecocêntrico” e o “antropocêntrico”. O primeiro visualiza o mundo natural na
sua totalidade, o qual possui um valor independente da utilidade que venha a ter
para o ser humano. O segundo incorpora a dicotomia homem/natureza, onde o
homem tem direitos de posse e controle sobre o mundo natural, sobretudo
através da ciência e da tecnologia. A natureza representa uma reserva de “recur-
sos naturais” disponíveis para exploração (Diegues:1996).

   Torna-se importante na compreensão do “mundo natural selvagem”, verificar
a posição de algumas linhas de pensamento envolvidas nessa questão. Aprovei-
tando os estudos de Diegues (1996), vou me deter em três delas: a ecologia
profunda, a ecologia social e o eco-socialismo.

  A ecologia profunda é uma vertente ecocêntrica, possuindo influência
espiritualista (cristã, religiões orientais e outras), pregando quase uma adoração
do mundo natural. Atribui grande importância aos princípios éticos que deveriam
ser adotados para reger as relações homem/natureza. Recebeu muitas críticas
pois chegou a propor ao ser humano “pensar como montanha”. O homem tem
características humanas e racionará segundo as mesmas, por mais solidário que
seja em relação à natureza e por mais crítico que se coloque frente ao racionalismo
antropocêntrico.

  Um “ecofascismo” manifesta-se nessa posição, na qual a sociedade humana,
em sua organização, deveria adotar como modelo as características do mundo
natural (homeostase, diversidade biológica, dentre outras).A justificação da or-
dem social pelas leis da natureza serviu ao totalitarismo, exemplificado aqui
com o nazismo, o qual se prevaleceu da seleção natural.

   A ecologia social justifica ao lado dos marxistas, a degradação ambiental como
produto da ação capitalista. Afirma ser a sociedade humana constituída de grupos
diferenciados como pobres e ricos, brancos e negros, jovens e velhos e critica o
poder baseado na noção de Estado, propondo uma sociedade democrática, descen-
tralizada, baseada na propriedade comunitária de produção. Aproxima-se dos anar-
quistas e assim sendo, afasta-se dos marxistas clássicos. Possui uma vertente utópi-
ca pois prega a busca por uma comunidade orgânica, a qual se constituiria numa
nova sociedade, onde a tecnologia estaria sempre a serviço do homem.

   O eco-socialismo surge a partir de uma crítica ao marxismo clássico nas suas
considerações sobre o mundo natural, alegando sobre ele manter uma visão de
natureza estática, uma vez considerando-a apenas via ação transformadora do
homem, por meio do processo de trabalho, resultando na satisfação das neces-
sidades.


                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Afirma dentre outros argumentos, ser necessário incorporar na contradição
básica da sociedade capitalista a contradição existente entre as forças produti-
vas históricas e as forças produtivas da natureza, pois na impossibilidade destas
últimas operarem, instaura-se um impasse na própria reprodução da sociedade.

  Esta corrente propõe uma revisão do tradicional naturalismo o qual incorpo-
rava uma aversão pela sociedade e pela cultura, tratando o homem como pura
natureza.Esse naturalismo negava o culturalismo para o qual a sociedade teria
todas as qualidades e a natureza, todos os defeitos, esforçando-se para distan-
ciar o homem em relação à natureza.

  O “novo naturalismo” estabeleceria a passagem tanto de uma reação contra a
natureza para uma posição reconciliatória ativa, como de uma visão ingênua
para uma nova afirmação da relação homem/natureza. Baseia-se em três idéias:

   a) O homem é produtor e produto de seu meio, e os problemas conseqüentes
referem-se, não ao fato , mas à maneira dessa intervenção. A natureza pura, não
transformada, representa um museu, uma reserva e um artifício de cultura.

  b) A natureza faz parte da história, não cabendo voltar atrás para reestabelecer
uma harmonia perdida, mas sim restabelecer uma relação com o estado da natu-
reza conforme a situação histórica.

  c) A relação com a natureza não se opera de forma individual, mas coletiva. A
sociedade é produto do mundo natural por um trabalho de invenção constante.
Uma série de distorções surgiu a partir do culturalismo (sociedade contra a
natureza), o qual justificava a necessidade de acumulação como refúgio frente a
possibilidade de escassez, gerando proibições e interdições (sexuais, alimenta-
res), provocando a divisão entre os homens , bem como desigualdades sociais.

  Esse “novo naturalismo” propõe uma sociedade onde a natureza representa
uma possibilidade concomitante de desenvolvimento humano quanto de partici-
pação no desenvolvimento.

  Nesse enfoque o fechamento da natureza em parques, como já comprovado,
acelera a destruição da mesma (degeneração genética), não estabelecendo uma
relação harmoniosa entre a sociedade e o meio ambiente.

   A questão ambiental requer novos conhecimentos teóricos e práticos para sua
compreensão e resolução, com alterações na própria ciência, num novo olhar
sobre a sociedade, induzindo transformações teóricas e um desenvolvimento
diferenciado de conhecimento nas diversas áreas do conhecimento. Ela gerou
novas problemáticas sociais abrindo espaços temáticos para a pesquisa



242 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
interdisciplinar, a qual mais do que articulação de ciências, colaboração de
especialistas de diversas áreas e integração de recortes selecionados da realida-
de, significa a transformação ambiental do conhecimento produzindo um pro-
cesso de reconstrução social (Leff:2000). Está presente aqui uma noção de ciên-
cia não pautada sobre fundamentos seguros, aberta para um processo de revisão
e autocrítica permanente, privilegiando o jogo das percepções criativas em de-
trimento da manipulação dogmática de fórmulas fechadas. Busca mais uma rela-
ção de conjunto e menos a busca precisa de fragmentos; mais a preocupação
pelo sentido das ações não se prendendo num enrijecimento racionalista.

   O saber ambiental não é homogêneo nem unitário, constituindo-se num pro-
cesso de relação com o objeto e o campo temático de cada ciência, o qual vai
abrindo espaços para a articulação interdisciplinar, gerando novas teorias, disci-
plinas e técnicas.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte
original]




                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
244 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2004
          Publicação original: anais


Formato da contribuição: resumo expandido
Fonte: “Atividade de geoturismo no litoral de Icapuí/CE (NE do Brasil) e a
necessidade de promover a preservação do patrimônio geológico”, Recife/PE,
XXI Simpósio de Geologia do Nordeste, 2004.
E-mail do(s) autor(es): debora@geologia.ufrn.br; marcos@geologia.ufrn.br
Títulos acadêmicos principais atuais: Débora C. de Souza: Doutora em Geodinâmica
e Marcos Antonio Leite do Nascimento: Doutor e Mestre em Geodinâmica,
geólogo e professor das disciplinas de recursos naturais e meio ambiente do
Curso de Turismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte.




Atividade de Geoturismo no Litoral de
Icapuí/CE (Ne Do Brasil) e a Necessidade
de Promover a Preservação do Patrimônio
Geológico

Débora do Carmo Souza
Marco Antonio L. do Nascimento



  Embora o segmento sol e praia definam o produto turístico básico do Ceará (e
também do Nordeste), não se deve usar este segmento apenas para tomar banho
de sol e/ou fazer caminhadas na praia. O litoral cearense apresenta uma grande
geodiversidade, com destaque para dunas, falésias e arrecifes, onde é possível
praticar um novo segmento turístico – o geoturismo, que utiliza feições geoló-
gicas como atrativos turísticos.

  É através desta geodiversidade que as praias de Icapuí se destacam no cenário
do turismo cearense. Assim, apresenta-se aqui uma panorâmica de todo o poten-
cial geoturístico dessas praias, possibilitando nas mesmas a utilização de um
novo segmento de turismo no Ceará, hoje em dia praticamente desconhecido.




                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
O MUNICÍPIO DE ICAPUÍ

  Icapuí é o último município do litoral Leste do Ceará, na divisa com o Estado do
Rio Grande do Norte. Ele faz parte da Costa do Sol Nascente e é famoso pela
beleza das praias e a culinária, baseada em peixes e crustáceos. O acesso à
cidade se dá partindo de Fortaleza através da CE-040 até Aracati e então pega a
BR-304 até a CE-261, que dá acesso direto a Icapuí. O acesso pode ser feito ainda
através da BR-116, indo até o Boqueirão do Cesário, tomando a BR-304 até
chegar a Aracati, entrando no acesso a Icapuí pela CE-261.

   Dunas, falésias, tranqüilidade e um mar manso são algumas das atrações natu-
rais das 14 praias distribuídas em seus 64 Km. As mais freqüentadas são Tremembés,
Manibu, Retiro Grande, Redonda e Ponta Grossa.



TURISMO DE NATUREZA: ECO E GEOTURISMO

  O ecoturismo promove o turismo sustentável em áreas naturais, beneficiando
o meio ambiente e as comunidades visitadas, promovendo assim aprendizado,
respeito e sensibilização sobre aspectos ambientais. Este segmento do turismo
de natureza tem como principal atrativo os aspectos relacionados ao meio
biótico – fauna e flora. Embora os aspectos associados ao meio abiótico, espe-
cialmente o relevo e as rochas, também sejam atrativos para o ecoturismo, não
existe uma abordagem específica para estes patrimônios naturais.

  Com isso, pessoas preocupadas na valorização e preservação dos patrimônios
naturais associados ao meio abiótico existente no mundo, vêm nos últimos anos
promovendo a divulgação de um outro segmento de turismo de natureza, o
Geoturismo (Hose 1996). Tal atividade utiliza feições geológicas como atrativo
turístico, buscando sempre assegurar a conservação e a sustentabilidade do
local visitado.

  O geoturismo procura também divulgar a geodiversidade que é a variedade de
ambientes, fenômenos e processos geológicos, geradores de paisagens, rochas,
minerais, fósseis e solos que constituem a base para a vida na Terra (Stanley 2000).

  A geodiversidade é tão importante quanto a biodiversidade, porém ações que
contribuem para a conservação da natureza estão preocupadas basicamente
com a fauna e a flora. Isto se deve, principalmente, a uma visão parcial e distorcida
daqueles que trabalham com a natureza e da problemática associada à sua con-
servação. Enquanto se continuar a esquecer a importância da vertente geológica
nunca se poderá programar ações eficazes de conservação da natureza. Para
uma ação mais ampla e completa em favor da conservação de qualquer patrimônio
natural não faz qualquer sentido algum individualizar a Geo da Bio diversidade.


246 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
ATIVIDADES DE ECO E GEOTURISMO EM ICAPUÍ

  O Programa de Regionalização do Turismo – Roteiros do Brasil promovido pelo
Governo Federal em parceria com os Governos Estaduais permitiu a criação de
diferentes regiões turísticas em todo o Brasil (mais detalhes em http://
www.turismo.gov.br/regionalizacao/).

   No caso do Estado do Ceará foram individualizadas seis grandes regiões turísticas,
a saber: Araripe/Cariri, Serras Úmidas/Baturité, Sertão Central, Fortaleza/Metropoli-
tana, Litoral Oeste/Ibiapaba e Litoral Leste/Apodi. Nas três últimas há uma interação
entre atrativos litorâneos e aqueles encontrados no interior; enquanto que os demais
envolvem atrações exclusivamente situadas em municípios do interior.

   É na região turística do Litoral Leste/Apodi que está inserido o Município de
Icapuí. A vocação turística deste revela-se em sua variedade de paisagens natu-
rais, tais como dunas, falésias, areias monazíticas, fontes, lagoas, rios, mangues
e matas de tabuleiros, além da cultura e da história. Em virtude desse potencial,
a Secretaria de Turismo do Governo do Estado do Ceará, criou o Pólo de Ecoturismo
do Litoral Leste envolvendo os atrativos ecoturísticos encontrados nos municí-
pios de Icapuí, Aracati e Fortim.

  Porém, como dito anteriormente, faz-se necessário aproveitar não somente a
bio, mas também toda a geodiversidade da região. Para uma melhor compreen-
são dessa geodiversidade em ações de conservação da natureza é importante:
(a) utilizar, de forma sustentável, os recursos geológicos; (b) introduzir o conhe-
cimento geológico nos instrumentos de ordenamento das áreas protegidas; (c)
levantar os locais de interesse geológico, geomorfológico e paleontológico que
ocorram nas áreas protegidas; e (d) criar projetos de educação ambiental em
matéria de conservação da natureza, a nível Federal, Estadual e Municipal.

   A seguir serão apresentados os principais atrativos geoturísticos da região de
Icapuí, principalmente àqueles encontrados nas praias de Mutamba, Barreiras,
Picos, Peroba, Redonda, Ponta Grossa e Retiro Grande.



GEOLOGIA DA REGIÃO

  A área que contemplam as praias citadas acima possui uma geologia ímpar
(Sousa 2003). Ela está inserida no extremo oeste da Bacia Potiguar, enquadrada
geologicamente no contexto da Plataforma de Aracati e geograficamente situa-
da entre as praias de Mutamba e Retiro Grande (Fig. 1).

  Nesta área, as rochas que afloram podem ser individualizadas em dois grandes
grupos (Fig. 2): i) uma unidade carbonática (calcários e margas) correlacionada

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
a Formação Jandaíra. Esta ocorre de forma restrita, sob a forma de lajedos, na
base das falésias; e (ii) unidades siliciclásticas (arenitos, siltitos, argilitos e arei-
as) correlacionadas às formações Barreiras e Potengi, que predominam lateral e
verticalmente, ao longo das falésias. O cenário de ocorrência destes dois grupos
pode ser observado na figura 3.




Figura 1. Mapa geológico da região trabalhada (Sousa 2003).




Figura 2. Esquema do cenário geológico ao longo das falésias costeiras (Sousa
2003).




248 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Figura 3. Feições gerais da geodiversidade da região de Icapuí. (a) Lajedo de
calcário na base da falésia; (b) Formação Barreiras com acamamento basculado;
(c, d) Falésias e dunas nas praias da Peroba e Picos.



Lajedos de Calcário

   Os calcários e margas afloram na base das falésias mostrando aspecto maciço
e exibindo localmente macrofósseis (miliolídeos, gastrópodas, ostracodes e al-
gas verdes). Ocorrem sob a forma de pequenos lajedos ao nível da praia atual
(Fig. 3a), estando parcialmente recobertas pelas areias da praia, em algumas
épocas do ano. Esta unidade denominada de Formação Jandaíra possui idade
entre 80 e 90 milhões de anos.



Falésias

  É uma escarpa costeira abrupta que se localiza na linha de contato entre a
terra e o mar. Quando a falésia encontra-se sob processo de erosão (principal-
mente devido a ação do mar) ela é chamada de Falésia Ativa (ou Viva), enquanto
que a Falésia Inativa representa aquela cujo processo erosivo já cessou.

  Na região, elas são formadas por arenitos, siltitos e argilitos dominando as
exposições e dispondo-se no topo das rochas carbonáticas (Fig. 3a). Esta unida-
de denominada de Formação Barreiras ocorre em dois contextos distintos, sob a
forma de camadas horizontais e não deformadas, a situação mais usual, ou


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
como camadas basculadas (Fig. 3b) e afetadas por deformação de forte magni-
tude, em um trecho mais restrito do litoral entre Icapuí e Retiro Grande (Sousa
2003). Essas rochas possuem idades inferiores a 10 milhões de anos. Em ambos
os locais observam-se litotipos de textura mais fina (arenitos finos a síltico-
argilosos) com coloração variando de amarelo, cinza, roxo e vermelho, úteis
para a confecção das tradicionais garrafinhas de areias coloridas. Vale salientar
que entrando no Município de Aracati, mais precisamente entre as praias de
Retirinho e Lagoa do Mato, as falésias são formadas também por arenitos e
siltitos da Formação Tibau.



PALEODUNAS E DUNAS

  Representa a acumulação de areia depositada pela ação do vento dominante,
ocorrendo normalmente nas praias ou nos desertos, podendo ser fixas ou móveis.

  Na região elas ocorrem sobre as falésias e são formadas por areias exibindo
coloração branca, amarela e vermelha, relacionadas a uma sedimentação eólica
(paleodunas) (Fig. 3c). A discordância na base desta unidade torna-se nítida
quando os estratos sotopostos encontram-se basculados.

  Finalmente, observam-se ainda ao longo da área, sedimentos de dunas, mó-
veis e fixas, e aqueles ligados à dinâmica costeira atual (cordões de praia, planí-
cies de maré e praias), todos nitidamente mais recentes do que as rochas
sedimentares anteriormente descritas.



DISCUSSÕES FINAIS

  O enorme potencial geoturístico aqui apresentado mostra a necessidade da
associação entre as atividades de ecoturismo com as de geoturismo, unindo
assim bio a geodiversidade. Acredita-se que a atividade geoturística, se bem
orientada, pode contribuir para a proteção do patrimônio natural, e conseqüente
preservação deste, por meio da sensibilização do turista.

  Vale salientar que os atrativos naturais, incluindo aqueles trabalhados no
geoturismo, são um dos principais segmentos de sucesso para o turismo no
Ceará na avaliação dos próprios turistas (Teles 2002).

  É importante ressaltar que o potencial geoturístico do litoral de Icapuí é ape-
nas uma pequena amostra do que pode ser trabalhado. Diante desse panorama,
ressalta-se a importância de um planejamento prévio para o desenvolvimento
desta atividade para que ela se perpetue como uma fonte de emprego e de renda



250 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
para os municípios e comunidades envolvidas. Porém, tal planejamento deve se
orientar em bases preservacionistas, haja vista que o patrimônio geoturístico
possui a particularidade de ser único e irrecuperável, pois uma vez deteriorado
estará perdido para sempre; e com ele, as perspectivas de um futuro melhor para
as comunidades.

  As falésias encontradas nesta região são tão importantes e mostram uma beleza
incomparável (Fig. 3d) que são paradas obrigatórias nos pacotes turísticos vendi-
dos pelas empresas de ecoturismo do Ceará e do Rio Grande do Norte, todavia,
muitas vezes essas empresas não possuem o menor conhecimento geológico a
cerca desta geodiversidade. O conhecimento dos guias de turismo a respeito da
geodiversidade da área possibilitaria ao turista um maior aprendizado e conse-
qüentemente um aproveitamento maior do passeio, sem falar da importância que
os mesmos dariam para a preservação do patrimônio geológico.

  Além disso, vale salientar que foi criada em 17/02/98, através da Lei Municipal
n° 002/98, com 558,67 ha, a Área de Proteção Ambiental da Praia de Ponta
Grossa, com finalidade de preservar a região em si. Contudo, sugere-se que seja
dada a mesma atenção que foi dada a região de Beberibe, onde nesta foi criada,
através de Lei Estadual nº 27461/04, com 31,29 ha, o Monumento das Falésias
de Beberibe, com a necessidade de proteger e conservar as formações naturais
de notório valor paisagístico, representadas pelas falésias e dunas, que se reves-
tem de grande importância ecológica e acentuada fragilidade natural.




[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte
original]




                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
252 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2004
          Publicação original: livro


Formato da contribuição: resumo de capítulo de livro
Fonte: MARINHO, Alcyane. Repensando o lúdico na vida cotidiana: atividades
na natureza. In: SCHWARTZ, Gisele M. (Org.). Dinâmica lúdica: novos olhares.
São Paulo: Manole, 2004.
E-mail do(s) autor(es): alcyane.marinho@hotmail.com
Títulos acadêmicos principais atuais: Alcyane Marinho: Graduação pelo
Departamento de Educação Física da UNESP de Rio Claro (SP); Mestrado e
Doutorado pela Faculdade de Educação Física da UNICAMP (Campinas, SP), na
Área de Estudos do Lazer, pesquisadora do Laboratório de Estudos do Lazer/
LEL da UNESP/Rio Claro.




Repensando o lúdico na vida cotidiana:
atividades na natureza
Alcyane Marinho


                                 É possível tornar o mundo pior do que ele está;
                                 contudo, também é possível fazermos exatamen-
                                 te o oposto (Marcuse apud Santos, 1997:22).

   A história é caracterizada por uma sucessão ininterrupta de épocas, nas quais
as idéias de mudança e de movimento devem ser entendidas como inerentes à
evolução dos seres humanos. Contudo, ainda assim, os processos de mudança e
a dinamicidade das coisas, na velocidade com que têm ocorrido, nem sempre são
aceitos ou adequadamente interpretados.

  É possível destacar os mais variados aspectos positivos e negativos ao longo
dos processos evolutivos, no que se refere à economia, à religião, à política, à
educação e a todas as esferas da vida humana.

  Nesse sentido, este texto pretende discutir, a partir do contexto da vida
cotidiana, direta e indiretamente, um elemento muitas vezes inexistente,
outras vezes esquecido e, na maioria das vezes, o mais sonhado e deseja-
do: o lúdico.


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Movidas por culturas tecnológicas, as pessoas, na vida cotidiana, estão cada
vez mais sendo dominadas pela velocidade e pela mobilidade, não somente por
informações, mas, igualmente, por sensações e imagens enquanto andam ou
dirigem pelas ruas das cidades, rumo a seus mais variados destinos; ou, até
mesmo, quando estão em casa, munidas de seus computadores, televisores,
aparelhos de fax etc.

  A intenção de refletir sobre o lúdico, manifestado em atividades na natureza,
no contexto da vida cotidiana, não é tarefa fácil e se justifica quando se reco-
nhece que o cotidiano se relaciona aos fatos que acontecem no decorrer de
todos os dias e, diferentemente do que se acredita, podem haver situações
extremamente lúdicas entre a seqüência das rotinas, carregadas de sentidos e
sentimentos intensos.

  Com isso, a pretensão é mostrar que o lúdico pode ser visualizado como um
importante elemento da cultura, capaz de contribuir em diversos momentos para
as mais variadas necessidades. Nesse contexto, o elemento lúdico poderá ora
ser percebido como contraponto à seriedade e à produtividade, ora vivido de
forma extraordinária e, ambiguamente, simples, produzindo muito mais que sen-
sações de prazer e alegria, podendo ser interpretado como componente porta-
dor de grande potencial transformador. Quem sabe assim, a partir de tais com-
preensões, seja possível concordar com o pensamento introdutório de Marcuse
(apud Santos, 1997), contribuindo para tornar o mundo melhor do que ele está.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]




254 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2004
          Publicação original: monografia (T.C.C.)


Formato da contribuição: texto resumido
Fonte: O Museu como Espaço de Lazer; aproveitando o turismo para mostrar e
preservar a cultura local.
E-mail do(s) autor(es): gugapessoas@hotmail.com
Títulos acadêmicos principais atuais: Especialista em Lazer pela Universidade
Federal de Minas Gerais - UFMG e Bacharel em Turismo pela Universidade Católica
de Pernambuco – UNICAP.




O museu como espaço de lazer:
atrativo turístico e local de preservação
da cultura de uma sociedade
Gustavo de Lira Santos


  Muita gente acha que o Museu é um lugar de guardar coisas velhas. E isto
acontece principalmente em relação ao museus históricos. Mas se ao visitarmos
uma museu, procuramos fazer relações entre aqueles objetos de um outro tem-
po, que ali estão expostos e a nossa própria época, muita coisa vai começar a
ganhar sentido. Vamos começar a perceber que aqueles objetos que nós consi-
derávamos apenas como coisas velhas, achando que não tinha nada a ver
conosco, servem, na verdade, para compreendermos uma porção de coisas que
acontecem todos os dias em nossas casa, em nossa cidade, em nosso país e até
mesmo no mundo.

  Os museus têm como tarefa colecionar, proteger, interpretar e comunicar os
bens materiais do passado. Eles são guardiões do patrimônio, os atores profissi-
onais encarregados de proteger todo o objeto considerado como essencial para
uma comunidade.

   O homem está sempre preocupado em preservar sua história e sua memória.
Ele tem acesso ao seu passado através de relatos ou depoimentos de testemu-
nhas oculares, documentos, textos, etc. ou quando de defronta com as imagens
que habitam um museu. Isso não quer dizer que o museu é um caminho em
direção ao passado, ele é um lugar de possíveis diálogos entre passado, presente


                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
e futuro. Um abrigo do velho e do novo. Ele tem um papel cultural importante:
além de abrigar os registros do tempo, é um veículo a serviço do conhecimento
e da informação que contribui para o desenvolvimento da sociedade.

  Ramirez nos diz que: “Todas as organizações devem enfrentar mudanças ao seu
redor e vigiar cuidadosamente tanto as ameaças como as oportunidades. Os mu-
seus estão topando com múltiplos problemas relacionados com as condições em
mudança. Um deles deriva da atual situação financeira, caracterizado pelo cresci-
mento incessante dos custos operacionais e o estancamento do valor dos ingres-
sos. Uma segunda questão passa pela crescente diversidade de atividades para, um
maior, aproveitamento, do cada vez menor, tempo livre. E um terceiro problema
surge quando as missões dos museus chocam com as forças de mercado.”

  Nessa guerra pelo tempo livre os museus deparam-se com comportamentos
relacionados ao lazer doméstico (ver televisão, ler livro, escutar música, entre
outros) e a outros lazeres (teatro, cinema, praia, clubes, compras, viagens, entre
outros). Os museus devem criar projetos que atraiam novos visitantes (especial-
mente estudantes, aposentados e turistas) e preserve o público já existente,
oferecendo não só as exposições mas outras ofertas de qualidade.



BREVE HISTÓRICO DOS MUSEUS:

  A origem dos museus começou na antiga Grécia, muito antes da era cristã,
onde eram centros religiosos, espirituais, criativos e com um número reduzido
de participantes e totalmente distanciados da realidade cotidiana. A palavra
museus vem do grego mouseion, o templo das musas (na mitologia grega, deusas
da inspiração e do aprendizado e protetora das artes).

  Um dos primeiros museus foi construído na Alexandria, Egito no século III A.C.
por Tolomeo II Filadelfo. Alexandria transformou-se desta forma na cidade mais
preeminente do conhecimento na área mediterrânea, e o museu toleimaco de-
sempenhou funções de biblioteca acadêmica, centro de investigações e retiro
contemplativo.

  Guarnieri (In Bruno) diz que “o holandês Quiccheberg, em Munique, em 1565,
ao elaborar a primeira tentativa de uma teoria das coleções de museu, talvez não
pudesse avaliar o pioneirismo de sua contribuição numa área totalmente nova
ou que seria seguido, posteriormente, por Major, no século XVII, afirmando o
caráter disciplinar da Museologia; por Neickelius, em 1727; por Diderot, 1765,
com seu ensaio sobre a organização racional do Louvre, por Lafont Saint Yenne,
durante a Revolução Francesa postulando em panfletos por “museus para o
povo”; por Goethe e seus lúcidos textos sobre Fato Museal, que dizia que era a
relação profunda entre o Homem, sujeito que conhece, e o Objeto, parte da



256 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
realidade à qual o Homem também pertence e sobre o qual tem o poder de agir,
relação está que se processa num cenário institucionalizado, o museu”.

   Instituição pública, acessível a todos os tipos de público, é um fenômeno
recente; no entanto, as suas origens remontam à civilização grega. É a partir da
2.ª Guerra Mundial que esta instituição passa a considerar-se ao serviço da
comunidade, deixando, progressivamente, a sua tradição elitista e minoritária.
Estas mudanças redefinem o seu papel na ação educativa, Mendes completa; “A
partir da década de 60, a educação nos museus converte-se numa matéria de
reflexão e de estudo. Passa-se de uma política museística, centrada no objeto,
na sua aquisição e na conservação, para uma política centrada nos sujeitos que
dele podem usufruir. São as mudanças sociais que colocam o problema do aces-
so dos públicos à arte e à cultura”.

   Segundo Chagas, “nos anos 60 e 70 do século XX alguns setores da vanguarda
intelectual e cultural do ocidente anunciaram a morte do museu. Esse anúncio,
normalmente acompanhado de um discurso generalista e totalizante, colocava
em movimentos críticas severas ao caráter aristocrático, autoritário, conserva-
dor e inibidor dessa instituição de memória, considerada como uma espécie em
extinção e por isso mesmo chamada de -dinossauro- e -elefante branco-”. Trinta
anos depois, o que se verifica é que os museus não apenas não morreram, como
se multiplicaram e ganharam destaque na cena cultural e na vida social do mundo
contemporâneo.

  O museu hoje é um fenômeno muito mais complexo do que se imaginava nos
anos 60 para compreendê-lo criticamente não é mais suficiente reduzi-lo ao
papel de legitimador dos interesses das classes dominantes, ainda que esse papel
continue sendo desenvolvido por muitas instituições. O fato é que ao lado dos
museus de grandes narrativas, desejosos de grande sínteses, constituíram-se
museus de narrativas modestas, mas nem por isso menos atuantes e inovadores.
Narrativas modestas, mas com potência discursiva e capacidade de promover
novas possibilidades de identificação.

  Oliveira nos lembra que “A partir da década de 80 a instituição museus passou
a enxergar o homem em seu contexto histórico-cultural, tecendo considerações
sobre a cidadania, à autonomia do homem enquanto agente ativo da produção
histórica, do sujeito comum e não mais do grande personagem da história”.

  Na década de 90 a imagem dos museus sobressaiu ainda mais da caixa de
naftalina, pois passou a ser mais ativo na busca de novos objetos, utilizando-se
de pesquisas, com espaços mais abertos e mais acessíveis, aprimorando a visão
entre sistema e ambiente, de uma maneira total, abarcando o artificial e o natu-
ral, ou seja: a história e a natureza, respectivamente.



                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Ao diversificar o seu próprio espaço o Museu deixou para trás os adjetivos de
“casa das múmias” das “coisas velhas” do “almoxarifado da burguesia” e outros
que faziam apenas lembrar que era o lugar de guardar coisas velhas e da aristo-
cracia.

   Adams (in Ramirez) abordou a problemática dos museus desde uma perspecti-
va que anos atrás se considerava um tabu: “na realidade os museus estão a
competir pelo tempo livre e o dinheiro das pessoas, e neste sentido competem
num campo que vai desde os vídeos cassetes e os centros de entretenimento
doméstico até o melhor que possa oferecer parques, viagens e outras grandes
firmas do lazer”.

   Adams levantou um ponte importante: os museus estão brigando pelo tempo
livre das pessoas, mas ainda não entraram nessa mercado com força total, inves-
tindo em Marketing, Propaganda e Relações Públicas, e com isso continuam
competindo em menor escala com os Parques Temáticos, Shoppings, Cinemas,
entre outras firmas comercias de entretenimento, que realmente tem um traba-
lho de marketing e propaganda agressivos para atrair o público.



PARAMUSEUS

  Segundo Pomian (In Bruno) “as sociedades humanas têm o hábito de eleger,
selecionar, reunir e guardar objetos no cotidiano dos homens e o lugar de desta-
que que ocuparam as famosas coleções, ao longo da história, na tentativa de
superar os limites de transitoriedade humana” se hoje pode-se afirmar a
inquestionável importância dos objetos, é porque, ao lado do exercício humano
de elaborar um artefato, sempre existiu alguma idéia de preservação, portanto
cabe enfatizar que os museus herdaram essa atitude e são responsáveis pela sua
perpetuação, ao lado de outros modelos institucionais (Zoológicos, centros de
cultura, arquivos, bibliotecas, memoriais, fazendas históricas, parques temáticos,
parques safári) conhecidos como os paramuseus.

   Os Paramuseus surgiram, com essa visão, na década de 90, e fizeram com que
a palavra museus adquirisse novo significado, “não o museus no sentido estreito
de um prédio ou uma instituição em particular, mas como uma metáfora potente
e com um meio por onde as sociedades representam as suas relações com sua
própria história e desta com outras culturas.”(MENCH)

  Apesar da importância dos paramuseus os estudos para descobrir o perfil das
sociedades se inicia a partir das análises dos objetos que produziram. De qual-
quer forma a evidência material da cultura é um elemento de fundamental impor-
tância para estas análises e os museus estão entre as principais instituições que
guardam esses indicadores da dimensão cultural da sociedade (BRUNO).



258 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
A IMPORTÂNCIA DOS MUSEUS PARA AS SOCIEDADES

  O museu é uma instituição a serviço da sociedade, “da qual é parte integrante
e que possui nele mesmo os elementos que lhe permitem participar na formação
da consciência das comunidades que ele serve; que ele pode contribuir para o
engajamento destas comunidades na acção, situando suas actividades em um
quadro histórico que permita esclarecer os problemas atuais, isto é, ligando o
passado ao presente, engajando-se nas mudanças de estrutura em curso e pro-
vocando outras mudanças no interior de suas respectivas realidades nacionais”
(MESA REDONDA DE SANTIAGO DO CHILE).

  A sua importância é levada em conta a partir das seguintes considerações:

               “Que os museus são instituições a serviço da sociedade, que
               adquire, comunica e, notadamente, expõe, para fins de estudo,
               educação e cultura, os testemunhos representativos da evolução
               da natureza e do homem;

               Que, especialmente nos países latino-americanos, eles devem
               responder às necessidades das grandes massas populares, ansio-
               sas por atingir uma vida mais próspera e mais feliz, através do
               conhecimento de seu património natural e cultural, o que obriga
               frequentemente os museus a assumir funções que, em países mais
               desenvolvidos, cabem a outros organismos;

               Que os museus e os museólogos latino-americanos, com raras
               excepções, sofrem dificuldades de comunicação em razão das gran-
               des distâncias que os separam um do outro, e do resto do mundo;

               Que a importância dos museus e as possibilidades que eles ofere-
               cerem à comunidade ainda não são plenamente reconhecidas por
               todas as autoridades, nem por todos os sectores do público;

               Que durante a oitava e a nona conferência geral do ICOM, que
               ocorreram, respectivamente, em Munique em 1968, e em Grenoble
               em 1971, os museólogos latino americanos que estiveram pre-
               sentes indicaram a necessidade de criação de um organismo regi-
               onal.” (Mesa-Redonda sobre o papel dos museus da América La-
               tina de hoje, em Santiago do Chile, 1972).

  E ainda completando com a Declaração de Caracas:

               “Que o museu como um meio de comunicação transmite mensa-
               gens através da linguagem específica das exposições, na articu-

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
lação de objectos-signos, de significados, idéias e emoções, pro-
                 duzindo discursos sobre a cultura, a vida e a natureza; que esta
                 linguagem não é verbal, mas ampla e total, mais próxima da per-
                 cepção da realidade e das capacidades perceptivas de todos os
                 indivíduos; que como signos da linguagem museológica, os obje-
                 tos não têm valor em si mesmos, mas representam valores e
                 significados nas diferentes linguagens culturais em que se encon-
                 tram imersos;

                 Que o museu deve refletir as diferentes linguagens culturais em
                 sua ação comunicadora, permitindo a emissão e a recepção de
                 mensagens com base nos códigos comuns entre a instituições e
                 seu público, acessíveis e reconhecíveis pela maioria;

                 Que o processo de comunicação não é unidirecional, mas um
                 processo interativo, um diálogo permanente entre emissores e
                 receptores, que contribui para o desenvolvimento e o enriqueci-
                 mento mútuo, e evita a possibilidade de manipulação ou imposi-
                 ção de valores e sistemas de qualquer tipo.”



FUNÇÃO EDUCATIVA DO MUSEU

  A educação, vista em seu sentido mais amplo, é o “processo de desenvolvi-
mento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano em
geral, visando a sua melhor integração individual e social”. É hoje admitido que
os museus, devido ao seu grande potencial educativo, devem ser considerados
instituições de educação, embora desempenhem também outras funções,

                 “o museu é um importante instrumento no processo de educação
                 permanente do indivíduo, contribuindo para o desenvolvimento
                 de sua inteligência e capacidades crítica e cognitiva, assim como
                 para o desenvolvimento da comunidade, fortalecendo sua identi-
                 dade, consciência crítica e auto-estima, e enriquecendo a quali-
                 dade de vida individual e coletiva” (Declaração de Caracas - 1992)

  Mendes nos fala das três tendências que a instituição museologica foi vista
pela sociedade: a primeira delas, no início do século XX, era restrito a, simples-
mente, salvaguardar o patrimônio, pouco depois um local de visitação desse
patrimônio e por último a função educativa do museu.

  Em 1976 no I Encontro de Dirigentes de Museus, realizado no Recife PE, foi
apontada “a necessidade de chamar atenção, da parte dos responsáveis por
atividades educacionais nos Museus para o fato de que a educação é um proces-


260 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
so contínuo e ininterrupto que, além de instrumentar o indivíduo para uma fun-
ção na sociedade, constitui também um processo de socialização e que entre os
objetivos fundamentais dos Museus a educação precede a todos os demais”.

  Os museus servem como fontes para as escolas, ao providenciarem educação
às crianças, num momento extra-classe. Criando a oportunidade da criança apren-
derem in-loco com o manuseio dos objetos ou da experiência, ainda que sejam
réplicas, pois levará o aluno sair do, simples, universo da escola e dos livros, que
muitas vezes torna a educação abstrata. No mesmo sentido vai a opinião de
Sagues, ao afirmar: “O museu é uma instituição cultural intrinsecamente educativa,
o que não significa que tudo o que realiza seja expressamente pedagógico […].
Assim, o museu converte-se num instrumento de aprendizagem, em benefício
dos alunos, cujo maior ou menor grau de êxito dependerá fundamentalmente do
museu e dos professores”.

   A necessidade de os museus captarem um número cada vez mais elevado de
visitantes, e a importância desse público para os museus nos fez sair de uma
época em que, como já se disse, só uma elite se dirigia aos museus, e chegou-se
a uma em que o público-alvo principal é o escolar, “e esse público é, e continuará
a ser, de importância crucial para os museus, como estes o devem ser para os
estudantes.”(MENDES)

   Estas e outras questões exigem que, não só na concepção e montagem de expo-
sições (permanentes ou temporárias) como nas múltiplas atividades desenvolvidas
nos museus, se considerem, entre outros, os seguintes aspectos: Que oportunidades
de aprendizagem devem ser oferecidas ao visitante? Que mensagem se deseja fazer
passar e através de que meios? Como avaliar se os objetivos almejados foram ou não
atingidos? De que tipo de aprendizagem se trata: conteúdos e/ou conceitos? Atitu-
des, comportamentos, procedimentos, princípios, valores?



EDUCAÇÃO PATRIMONIAL

   O Brasil, em toda sua imensa extensão, é uma nação pluricultural principal-
mente pelas diversas etnias que o formaram. Nossa cultura vem sendo transmiti-
da através das gerações se renovando e recriando, propiciando a nos a possibi-
lidade de construirmos nossa identidade. E a manifestação dessa identidade se
revela través do nosso patrimônio, que segundo QUEIROZ não se restringe ape-
nas “aos bens culturais móveis e imóveis, representantes de nossa memória, se
fazendo presente em outras tantas formas de expressão cultural de nossa soci-
edade. Essa herança imaterial se manifesta na interação de nossa gente com o
ambiente, com a natureza e com as condições de sua existência. É a alma de
nosso país expressa através dos saberes, celebrações e formas de expressão de
nosso povo, “materializados”no artesanato, nas maneiras e modos do fazer
cotidiano de nossas comunidade, na culinária nas danças e músicas, rituais e

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
festas religiosos e populares, nas relações sociais de uma família ou de uma
comunidade, nas manifestações artísticas, literárias, cênicas e lúdicas, nos espa-
ços públicos, populares e coletivos.

  A educação patrimonial, interpretada por HORTA como um processo perma-
nente e sistemático de trabalho educacional centrado no Patrimônio Cultural
como fonte primária de conhecimento e enriquecimento individual e coletivo,
torna-se um poderoso instrumento no processo de reencontro do indivíduo
consigo mesmo. Segundo Horta ainda, o “conhecimento crítico e a apropriação
consciente pelas comunidades do seu patrimônio são fatores indispensáveis no
processo de preservação sustentável desses bens, assim como no fortalecimen-
to dos sentimentos de identidade e cidadania”.

  A Educação Patrimonial torna-se, assim, um processo constante de ensino/
aprendizagem que tem por objetivo central o foco de ações o Patrimônio. Ë
nesse tópico que se encontra a fonte primária de atuação que vem enriquecer e
fortalecer o conhecimento individual e coletivo de uma nação sobre sua cultu-
ral, memória e identidade.



TURISMO CULTURAL

   O turismo cultural é motivado pela busca de informações, de novos conheci-
mentos, de interação com outras pessoas, comunidades e lugares, da curiosida-
de cultural, dos costumes, da tradição e da identidade cultural. Esta atividade
turística tem como fundamento o elo entre o passado e o presente, o contato e
a convivência com o legado cultural, com tradições que foram influenciadas
pela dinâmica do tempo, mas que permaneceram; com as formas expressivas
reveladoras do ser e fazer de cada comunidade. O turismo cultural abre perspec-
tivas para a valorização e revitalização do patrimônio, do revigoramento das
tradições, da redescoberta de bens culturais materiais e imateriais, muitas vezes
abafadas pela concepção moderna.

   A experiência humana e todas suas manifestações se constituem em fator cultu-
ral, mas, a respeito de sua finalidade e expressão turismo cultural segundo Andrade:

                 “Turismo cultural refere-se as atividades que se efetuam através
                 de deslocamentos para a satisfação de objetivos de encontro
                 com emoções artísticas, cientificas, de formação e de informa-
                 ção nos diversos ramos existentes, em decorrência das próprias
                 riquezas da inteligência e criatividade humanas”.

  As características básicas do turismo cultural não se expressam pela viagem
em si, mas por motivações, cujos alicerces se situam na disposição e no esfor-


262 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
ço de conhecer, pesquisar e analisar dados , obras ou fatos, em suas variadas
manifestações.

  A motivação para esse tipo de turismo depende mais dos turistas do que da
cultura dos receptivos locais que eles visitam, pois a simples oportunidade de
constatação de realidades estranhas, pode ser insuficientes para que elas se
tornem, de fato, conhecidas. Além disso, os baixos níveis cultural, intelectual ou
mesmo mental se constituem em elementos impedientes de formação de
repertorio lógico, por causa das dificuldades e das impossibilidades da transfor-
mação de estímulos e de realidades em idéias coerentes e convenientes.

   A simples presença física e o despreparo intelectual de visitantes inaptos po-
dem tornar-se motivos de ameaça ao sentido cultural do núcleo que os recebe,
principalmente se este não for muito conhecido em sua importância, pois a
influência de visitantes e turistas despreparados e incultos pode transformar as
oportunidades de conhecimento em ocasiões de destruições ou, pelo menos, de
riscos ao patrimônio. O estado de conservação e os cuidados dispensados a
maioria das cidades históricas Brasileiras confirmam a oportunidade de registro
e das preocupações expressas não por suspeitas, mas por constatações.

  Assim pensando, a atividade turística passa necessariamente pela questão da
cultura local e regional. Reforça a necessidade em compreender as suas peculi-
aridades, admirar a complexidade e estimular a participação da comunidade.

  Os locais de turismo, por sua vez, criam possibilidades para a revitalização da
identidade cultural, da preservação dos bens culturais e das mais ricas tradições.
Em suma, as atividades turísticas geram mecanismos de sustentabilidade e espa-
ços propícios às expressões culturais



MUSEUS E GLOBALIZAÇÃO

  O mundo é o palco da história e isso nos traz novos dilemas, impasses e
perspectivas. Estamos passando por uma ruptura histórica, a semelhança de
outras que ocorreram: a expansão do Império Romano, o período das grandes
navegações, a Revolução Industrial e a Francesa.

  Segundo IANNI:

               “A sociedade global é uma sociedade nova, novas relações, pro-
               cessos e estruturas estão se concebendo. E um conceito novo
               está surgindo, o da desterritorialização das coisas, das idéias,
               dos indivíduos”.


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Mas, globalização é um processo primordialmente econômico e tem em seu bojo o
capitalismo – modo de produção e processo civilizatório. São formas subalternas do
capitalismo e momentos do processo de globalização o Mercantilismo, o Colonialismo,
o Imperialismo e a Globalização como entendemos hoje. O neoliberalismo, expressão
econômica do globalismo, entende a sociedade global como um sistema global. Tem
uma visão sistêmica do mundo presente em seu discurso ideológico e nas corporações
transnacionais que não são, necessariamente, corporações financeiras.”

  Analisando o pensamento de Ianni concorda-se que os Museus precisam trans-
formarem-se, para adaptarem-se ao mundo globalizado, porém sem perder seu
foco principal que é a preservação da cultura e da memória de um povo.

  Jshdjfhjfjhd, cita como resposta a globalização no Brasil os carnavais do Rio e
de Salvador e lembra que os mesmos tiveram que se adaptar, mantendo alguns
aspectos e inovando em outros para poder atingir o patamar de visibilidade
mundial. E conclui com a seguinte afirmação:

                 “culturas que nunca estiveram cristalizadas, sempre estiveram
                 em transformação, sendo que a tomada de consciência sobre a
                 transculturação é a única arma contra a uniformização ou perda
                 de valores. Os museus sempre foram instituições importantes para
                 se discutir transformação cultural, memória e identidade a partir
                 do patrimônio cultural. Esse papel não está perdido, pelo contrá-
                 rio, faz-se tão ou mais importante, por estarmos em ruptura e
                 porque queremos participar de uma ação histórica.”

  A globalização trouxe para os museus os softwares e a Internet, fazendo com
que seus acervos fiquem mais acessíveis. A chegada dessas novas tecnologias
não vem para substituir o museu convencional pelo virtual, seu intento é colocar
um instrumento de interesse e informação e da comunicação a serviço do traba-
lho em museus e do público em geral no encurtamento do tempo-espaço, onde
o observador pode ter acesso a algumas informações e visualização do objeto
de uma forma mais prática e rápida.

   A extensão desse acervo, com trabalhos de linha pedagógica, artística e soci-
al, com grupos diferenciados, como pessoas marginalizadas, especiais, grupos
de idosos e da área do turismo, propiciaram a disseminação da idéia do museu
aberto, na concepção de causas sócias com a comunidade.



MUSEU E SUA FUNÇÃO CULTURAL

  O homem está sempre preocupado em preservar sua história e sua memória.
Ele tem acesso ao seu passado através de relatos ou depoimentos de testemu-


264 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
nhas oculares, documentos, textos, etc. Ou quando se defronta com as imagens
habitam um museu. Com isso, não queremos dizer que o museu é um caminho em
direção ao passado, ele é um lugar de possíveis diálogos entre passado, presente
e futuro. Um abrigo do velho e do novo. Mais do que uma instituição destinada às
festinhas de vernissagens, ele tem um papel cultural importante: além de abrigar
os registros do tempo, é um veículo a serviço do conhecimento e da informação
que contribui para o desenvolvimento da sociedade.

  Desde quando a política e a economia reservaram à cultura um espaço quase
que insignificante, dentro das prioridades da vida urbana, interesses alheios com-
prometeram o funcionamento das instituições culturais. A cidade precisa de
tecnologias, partidos políticos, empresários, especialistas, etc. mas, acima de
tudo, precisa de uma tradição cultural e do exercício da cidadania, para que ela
própria signifique.

  A vida moderna junto à tecnologia moderna vem tornando obsoletos,
inoperantes ou economicamente inviável uma variedade muito grande de teste-
munhos materiais que nos sirvam como pontos constantes de partida para a
reflexão e análise de pequenos objetos a edifícios inteiros, passando por máqui-
nas das mais diversas, nosso universo se renova com espantosa velocidade e
tudo é trocado em nome da rentabilidade, da facilidade, da simplicidade. Esses
testemunhos passam, então, por fase de completo abandono.

   Um museu guarda mais do que obras e objetos de valor e de prestígio social,
uma situação, um fragmento da história, portanto um problema cultural. Tudo
que nele é exibido deve ter um compromisso com o conhecimento, a memória e
a reflexão. Sua programação não deveria ser dedicada por patrocinadores que
têm por objetivo final vender produtos muitas vezes até desnecessários a circu-
lar uma imagem de que estão contribuindo para o “desenvolvimento cultural”.

   Um museu deve ser um centro de informação e reflexão, onde o homem se
reencontra com o belo, a história e memória. Mas sem um projeto cultural que
valorize seu próprio acervo e o que nele é exposto, sem deixar que eles se
transformem em suportes para marcas publicitárias, o museu é apenas um lugar
que atrai olhares dispersos, sem interesses culturais. Sem recursos financeiros e
depois que a responsabilidade cultural foi transferida para a iniciativa privada, os
museus vêm se transformando em instituições de entretenimentos para atrair um
grande público consumidor da marca que patrocinou os seus eventos.

  Contudo encontramos um obstáculo maior, o fascínio que o “moderno” o
“novo” vem exercendo na sociedade e que vem proporcionando o desapareci-
mento das manifestações criativas e tradicionais. Entre as tradições estão as
antigas brincadeiras e jogos infantis, substituídos pela televisão, brinquedos
industrializados e pelo mundo da informática e mesmo esta última, restrita a
determinadas camadas da população, passando a ocorrer a “falta da criação

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
cultural pela própria criança, por uma produção cultural para a criança”.
(Marcelino, 1996: 42).

  Uma das conseqüências negativas é o fato da criança não produzir mais brin-
quedos rústicos, feitos em casa, utilizando materiais simples e baratos. Esta
brincadeira além de divertida contribui para o aprimoramento psicomotor. A
preservação e conservação dessas atividades não excluem as oportunidades
que a informática traz. O interessante é o espaço que a criança tem de produzir
cultura e não apenas aceitar mercadorias.



O UNIVERSO INFANTIL E A TECNOLOGIA

   É pelo jogo, pelo brinquedo que a criança se desenvolve física e mentalmente.
Uma criança que é proibida de brincar torna-se o adulto que não sabe pensar e
criar. “A infância é, portanto, a aprendizagem necessária à idade adulta (CHATEAU,
1987: 14)”.

   Na brincadeira a criança deposita toda a sua seriedade e neste momento ela se
coloca exatamente na posição que a imaginação permite: Se ela brinca de carri-
nho, ou ela se transforma em motorista ou em policial de trânsito. Com as
bonecas a menina se sente a própria mãe que se preocupa com o filho, encarnando
nitidamente o personagem que a brincadeira exigiu.

  Tais personagens fazem com que a criança saia de sua realidade e crie outra
paralela com facilidades e dificuldades impostas por ela. Neste mundo percebe-se
que o adulto não está presente fisicamente, mas ele é representado, pois o brincante
necessita de um modelo para dar continuidade a sua brincadeira, e neste universo
ela pode se transformar em quem quiser: índio, ladrão, cavaleiro de armadura,
astronauta e tantos outros que a imaginação permitir. Todo este mundo de faz de
conta fará com que a criança se prepare para a vida real, pois em muitos casos elas
reproduzem situações do seu cotidiano. (CHATEAU, 1987: 13 e 14).



RECREAÇÃO CULTURAL EM MUSEUS

  A recreação cultural é o conjunto de atividades que visa integrar os indivíduos
com as manifestações culturais de uma localidade. Ela provoca o interesse fa-
zendo com que o participante vivencie e entenda melhor outros comportamen-
tos e atitudes, podendo provocar curiosidade pela cultura apresentada surgindo
a postériori habilidades criativas no indivíduo, quando para ele são demonstra-
das as técnicas próprias de determinada cultura, na confecção de objetos
artesanais, danças típicas e etc.



266 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
A recreação cultural informativa é aquela com a finalidade de aperfeiçoamen-
to cultural. Podem ser usadas diversas formas de apresentações, como por exem-
plo: Palestras, mesas-redondas, mostras, exposições, teatros, grupos folclóri-
cos. Esse tipo de recreação já existe no Museu, porém apenas em datas come-
morativas.

   A recreação cultural criativa é aquela que a criança participa diretamente,
aprendendo e se integrando com a sua cultura. Alguns exemplos são apresenta-
ções teatrais e de danças. Outros exemplos seriam as oficinas, com atividades de
produção como: argila e papel em geral, pintura, madeira, danças, capoeira e
muitas outras que podem ser vistas através da nossa cultura ou da própria expo-
sição do Museu.

  Algumas dessas atividades poderiam ter durante todo o ano, ao menos, as
apresentações de grupos folclóricos, teatrais e de fantoches, pois são essas que
mais prendem a atenção das crianças.

  À forma como é repassado o significado das exposições peças, que ficam em
exposições, poderia ser com uma linguagem mais simples e didática, talvez, até,
através de brincadeiras, pois seria um modo da criança se sentir mais pensante e
participativa, mais ativa na atividade, e não apenas passando, olhando e escutando.



CONLUSÃO

  Desde quando a política e a economia reservaram ao lazer um espaço quase
que insignificante, dentro das prioridades da vida urbana, interesses alheios com-
prometeram o funcionamento das instituições que o promovem. A cidade preci-
sa de tecnologias, partidos políticos, empresários, especialistas, etc. mas, acima
de tudo, precisa de uma tradição cultural, de lazer e do exercício da cidadania,
para que ela própria signifique.

  Sucede com os museus o que se verifica em diversos outros ramos de ativida-
des. O respectivo desenvolvimento e especialização induzem a procura de no-
vas respostas, mais eficientes e adequadas às realidades emergentes.

  A rápida evolução verificada (no discurso expositivo e na conservação, inclusi-
ve preventiva, nas condições de apresentação e comunicação, na promoção e no
marketing, nas teorias da aprendizagem e nas características, necessidades e exi-
gências dos públicos) aconselha a que se recorra a diversos tipos de profissionais.

  As sinergias daí resultantes contribuirão para que os museus prestem melhores
serviços, também do ponto de vista da educação que, se transformou numa missão
crucial de toda a instituição museológica, atualizada e receptiva à inovação.

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
O potencial educativo dos museus e de todo o conjunto do patrimônio histó-
rico, artístico e ambiental no Brasil vem sendo minimamente utilizado por educa-
dores e educandos, quer pela falta de interesse e de conhecimento, quer pela
falta de divulgação por parte dos museus e dos veículos de comunicação.

   O desafio é despertar o interesse não só de turistas, mas principalmente de
visitantes da própria cidade e crianças, para que os mesmos aprendam desde
cedo a História da sociedade na qual estão inseridos, através de exposições que
transcendam os limites dos registros escritos. E tendo como foco de interesse
mostrar a maneira peculiar dos nossos costumes.

  Sabemos que os museus possuem imenso potencial como espaço pedagógico
por sua diversidade cultural e histórica. Entretanto para poder-se utilizar plena-
mente todos os recursos que uma coleção ou exposição permanente pode ofe-
recer aos professores é necessário que estes estejam dotados dos conhecimen-
tos e das técnicas especificas para tal.

   Os Museus atuais, apesar de todas as dificuldades de diversas naturezas que
inibem uma atuação mais constante, buscam transformar-se em verdadeiros
centros de estudo, onde passado e presente se unem, tentando entender o pre-
sente e antever o futuro. Com essa perspectiva os Museus poderiam promover
rotineiramente uma série de programas educativos, exposições temporárias e
cursos práticos voltados para estudantes, especialistas e o público em geral.

  É possível enfatizar, lembrando GUARNIERI (In Bruno) que a ação museologica
aproxima objetos e homens,

                    “a preservação proporciona a construção de uma memória que
                    permite o reconhecimento de características próprias, ou seja, a
                    identificação. E a identidade cultural é algo extremamente ligado
                    à auto-definição, à soberania, ao fortalecimento de uma consci-
                    ência histórica”.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]




268 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2004
          Publicação original: capítulo de livro


Formato da contribuição: texto integral
Fonte: Análises Regionais e Globais do Turismo Brasileiro. Editora: Roca
E-mail do(s) autor(es): jmeirelles@peabiru.org.br
Títulos acadêmicos principais atuais: administrador de empresas - Escola de
Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas.



                             Ecoturismo & Amazônia
                             – biodiversidade,
                             etnodiversidade e
                             diversidade cultural
                             Troque seu bifinho por uma
                             passagem para a amazônia

                             João Meireles Filho



                                 “Dentro de alguns centos de anos, outro viajante,
                                 tão desesperado coo eu, neste mesmo lugar, cho-
                                 rará o desaparecimento daquilo que eu teria podi-
                                 do ver e que não aprendi” Claude Levi-Strauss



A SITUAÇÃO ATUAL

  Você é responsável pelo que acontece na Amazônia? Se você acha que sim,
continue lendo, se você acredita que não, desista do ecoturismo! Se você, que é
uma pessoa interessada no ecoturismo, não conhecer a Amazônia para valer,
quem poderá se dedicar a seus caboclos, índios, florestas, águas e cultura?

  Qual é o seu compromisso com a Amazônia? Efetivo, autêntico, compromisso
de vida? Você é responsável pelo que acontece na Amazônia. Sim, é a sua
decisão de consumo que determina o que acontece na última grande floresta do
planeta. Cada vez que você come um pedaço de carne bovina é muito provável
que você esteja engolindo um pedaço da Amazônia.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
“Você já foi ao exterior?” “Você já visitou a Amazônia?” – Reiteradamente
costumo fazer estas duas perguntas quando falo em público. Na maior parte das
vezes, mais pessoas foram ao exterior do que à Amazônia. O Brasil não conhece
a Amazônia. Pior, a Amazônia não conhece a Amazônia. Por quê? O brasileiro
tem vergonha da Amazônia? Tem medo de enfrentar a sua ignorância? De não
saber tratar o mais diversificado ambiente natural do globo?

  A situação da Amazônia é dramática, tomada pela lógica da destruição e do
sofrimento. Não se trata de palavras fúteis, fáceis e imprecisas – a Amazônia é
mal tratada todos os dias, durante todo o dia, por todos nós brasileiros. Em 500
anos extinguimos 95% dos povos indígenas e jogamos a maior parte de seus
habitantes na miséria. Em trinta anos conseguimos destruir 20% da maior floresta
tropical do planeta – uma área superior a 800 mil km2 (equivalente a toda a
região Sul do país mais o estado de São Paulo). Se não bastasse, pelo menos 1%
da floresta é abatida anualmente (área equivalente ao estado de Sergipe – 23.750
mil km2 em 2002/2003). As queimadas são cada vez maiores, o roubo de madei-
ra, a caça e a pesca excessivas, a biopirataria, a invasão de terras, tanto por
grileiros como por famílias em busca de um pedaço de chão para trabalhar. O
caos está instalado.

  Nada de novo. A ocupação da Amazônia repete o que ocorreu com os outros
biomas brasileiros. A Mata Atlântica perdeu 93% de sua cobertura vegetal original
e apesar da grande atenção pública e do papel dos órgãos fiscalizadores e das
organizações ambientalistas continua a diminuir drasticamente. Sobre seus es-
combros vivem mais de 110 milhões de brasileiros.

  O Cerrado perdeu 70% de sua cobertura vegetal em menos de meio século. A
expansão da pecuária bovina e da agricultura deverão modificar, para sempre
mais de 90% da região. Da mesma forma, a Caatinga, já perdeu mais de 80% de sua
área original e continua a ser alterada. A Conservation International considera a
Mata Atlântica e o Cerrado como duas das vinte e cinco áreas de grande
biodiversidade planetária, prioritárias para a conservação da vida na Terra.

  Por que este caos? Por que tratamos do sintoma da doença e não do doente.
Tratamos da febre – o desmatamento, a queimada – e não das causas que promo-
ve o desmatamento e a dilapidação dos recursos naturais. Mais de 80% do
desmatamento é devido à plantação de pasto para boi. O boi ocupa a Amazônia
porque há gente interessada em comer carne bovina. O principal motor da des-
truição da Amazônia é a pecuária bovina extensiva.

  Não se trata de apontar os pecuaristas como únicos responsáveis pela destrui-
ção da Amazônia e o caos social vigente, com altíssima concentração de renda
e poder. Se o são, e quanto a isto não há dúvidas, não estão sozinhos; o consu-
midor representa parte importante deste processo, pois aceita esta situação,
pactua a cada naco de carne que coloca em seu estômago.


270 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ademais, não são apenas os grandes pecuaristas, aquelas 23 mil propriedades
rurais da Amazônia os únicos possuidores do rebanho. Há mais de 150 mil peque-
nos proprietários envolvidos na pecuária bovina extensiva; até porque se lhes
apresentam poucas opções econômicas para a sobrevivência. Dedicam-se à
pecuária pois a maior parte dos produtos e serviços que os ambientes naturais
propiciam não encontram consumidor, não têm preço atraente, são de difícil
escoamento, possuem restrições sanitárias não resolvidas, não apresentam
tecnologia apropriada e, principalmente, os produtores rurais não estão qualifi-
cados para conviver harmoniosamente com a complexidade amazônica.

  O resultado: 65 milhões de cabeças de gado ocupam a Amazônia. Três bois
para cada habitante! Este número cresce rapidamente e deve chegar aos 100
milhões de cabeças até o fim da década!

  Por quê? Primeiro, porque mais e mais gente quer comer carne. A principal
razão do crescimento da pecuária está no aumento do consumo de carne em São
Paulo, Rio de Janeiro e em todo o Sul e Sudeste do país, sem contar no ingresso
da Amazônia no mercado exportador de carne.

  Segundo, porque é mais barato produzir carne na Amazônia do que no restante
do Brasil, e incomparavelmente menos custoso que outros países. O cumprimen-
to da legislação ambiental é menos vigiado, a cada bifinho vendido a um barzi-
nho em São Paulo, toneladas de solo, milhões de invertebrados, milhares de
plantas e dezenas de mamíferos são comidos.

  Mais grave: poucos se beneficiam com esta bovinaria. A mão de obra é mal
paga, a maioria dos 120 mil pessoas empregadas na atividade não possui registro
em carteira. Sem falar na insignificância da pecuária como geradora de emprego:
são necessários 8 milhões de empregos na região. Economicamente a pecuária é
insignificante, gera pífios 0,04% do PIB brasileiro e apresenta índices de produti-
vidade diminutos. O pecuarista aufere baixíssimos resultados financeiros. Seria
melhor que aplicasse seus recursos na caderneta de poupança. Por que então
insistir na pecuária?



A PECUÁRIA X O ECOTURISMO

  Você deve se perguntar: afinal, eu, interessado no ecoturismo, por que preciso
saber tudo isto? Porque o pecuarista só é pecuarista por falta de opção, porque
não teve a oportunidade de aprender outras profissões, porque o mercado das
centenas de alternativas econômicas que poderiam tratar com respeito o ambi-
ente e a população local é desprezado pela iniciativa pública e, principalmente,
pelo próprio consumidor. Porque delegamos aos representantes do poder públi-
co de plantão a iniciativa de resolverem este assunto.


                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
A resposta é clara: sim, há total correlação: se o ecoturismo der certo o
pecuarista bandeia imediatamente para o lado do ecoturismo. Dá mais lucro,
mais emprego, mais estabilidade, mais felicidade, mais saúde, mais liberdade,
mais cultura, mais dignidade.

   Eu sou filho de pecuarista, conheço os dois lados da cerca. Em Bonito, Mato
Grosso do Sul, acompanhei, por mais de trinta anos, o Cerrado e a Mata Atlântica
sendo comidos para dar espaço para boi. Nos últimos dez anos ocorreu uma
mudança radical de comportamento. Os sintomas: as queimadas diminuíram dras-
ticamente, o desmatamento passou a ser insignificante, a caça caiu a níveis
desprezíveis. Por quê?

  Porque o ecoturismo passou a ser levado a sério, ainda que os órgãos públicos
pouco tenham se dedicado à questão. Quem realizou esta mudança radical foi o
próprio consumidor. Um conta para o outro: olha, ali, há uma cachoeira incrível.
Aquela dona cozinha muito bom. Seu fulano tem cavalo bom. E se nós mergu-
lharmos de máscara neste rio? E se sairmos flutuando neste “corguinho”?

  O resultado: a pecuária já não é o principal empregador de Bonito e logo mais
deixará de ser a principal fonte econômica. Enquanto uma fazenda com 2 mil
hectares e mil bois emprega dois peões, um atrativo turístico com 50 hectares,
de pequeno porte, emprega diretamente pelo menos três a quatro pessoas. Em
duas horas um turista deixa a mesma renda de um mês de aluguel de pasto para
um boi. A revolução é antes de tudo, econômica.



PLANEJAMENTO E COMPROMISSO ECONÔMICO

  Voltemos à Amazônia. Se não houver um compromisso econômico efetivo não
há ecoturismo. Trabalho com planejamento de ecoturismo há mais de quinze anos.
Sem um plano de negócios – um estudo efetivo da viabilidade do empreendimento
ecoturístico – as suas chances de darem certo diminuem muitas vezes. Pode dar
certo, mas o “achismo” e o “chutometro”, arte praticada pela imensa maioria dos
empresários de ecoturismo, não são socialmente justos, são concentradores de
renda e na maior parte, trazem grandes prejuízos ao meio ambiente.

  Planejamento turístico é fundamental. Se as palavras: retorno sobre o capital,
ponto de equilíbrio, fluxo de caixa descontado, LAIR, balanço, demonstração de
lucros e perdas, plano de contas não fazem sentido para você, o ecoturismo tem
poucas chances de acontecer na Amazônia.

  A maior parte dos empreendimentos de ecoturismo na Amazônia foi feita por
imitação. Um copiou o outro, que por sua vez viu nos Estados Unidos, ou no
Nordeste algo parecido, tirou algumas fotos, chamou o carpinteiro para copiar,


272 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
e assim por diante. Poucos são os que convocaram especialistas para realizar
diagnósticos ambientais, sociais e econômicos, estudos de demanda, projetos
arquitetônicos, estudos sobre o destino turístico e os atrativos.

  Como sair desta situação na Amazônia? Certamente a capacitação dos empre-
endedores é fundamental – empreendedorismo ecoturístico.



O BIOMA AMAZÔNICO

  O bioma amazônico é o maior conjunto contínuo de florestas tropicais do
planeta. Com mais de sete milhões de km2, ocupa 50% da América do Sul, espa-
lhando-se por nove paises – Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana france-
sa, Peru, Suriname, Venezuela e Brasil. O Brasil possui mais de metade da Amazô-
nia continental, sendo o país com mais de 1/3 do que resta de florestas tropicais
ao planeta. A Amazônia brasileira corresponde a 4,4 milhões de km2, metade do
território nacional, mais da metade do território nacional.



A AMAZÔNIA NO MERCADO DE ECOTURISMO

   Não é difícil perceber a pequena presença da Amazônia no cenário turístico
internacional. Quando se folheia quaisquer revistas internacionais de turismo de
grande circulação, a Amazônia aparece de forma insignificante. Quando esta apa-
rece, a maior parte das referências é para a Amazônia peruana, equatoriana,
venezuelana ou das guianas. A Amazônia brasileira, com a exceção de alguns
poucos lodges no entorno de Manaus, pouco participa do mercado internacional.

   Sabe-se que com seu rápido crescimento nas duas últimas décadas, o mercado
internacional de ecoturismo se tornou cada vez mais exigente e segmentado.
Não basta dizer que o número de observador de pássaros é de milhões de pesso-
as na Europa ou nos Estados Unidos. É preciso aprofundar em termos geográfi-
cos, de interesses das espécies procuradas, das exigências relacionadas à idade
e origem das pessoas.

   Não é exagerado dizer que o Brasil está praticamente fora do mercado interna-
cional de ecoturismo. No Brasil, o ecoturismo atende principalmente o mercado
interno. Mesmo internamente, o ecoturismo representa menos de 3% do movi-
mento turístico. A Amazônia deve participar com menos de 10% deste mercado.
Mesmo atendendo menos de 1% da população brasileira, ele já movimenta mais
de 2 milhões de viagens/ano, emprega mais de 50 mil pessoas e consegue contri-
buir visivelmente para a economia e a conservação ambiental de regiões onde
outras atividades econômicas não são viáveis ou apresentam baixa rentabilida-
de, como Fernando de Noronha (PE), Lençóis Maranhenses (MA), e Chapada

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Diamantina (BA). Em outras regiões, como Bonito (MS) e Brotas (SP) o ecoturismo
já conseguiu desbancar atividades tradicionais como a pecuária extensiva. O
Pantanal, que antes recebia milhares de clientes para uma pesca esportiva sem
grandes critérios, está hoje se voltando ao ecoturismo, muito mais compatível
com a sua conservação ambiental.

  Na Amazônia o turismo representa cifras desprezíveis no Produto Interno Bru-
to (PIB), e o ecoturismo uma parcela ainda insignificante. Dificilmente alcança
1%. A maior parte das viagens é de turismo de negócios e de eventos. No Brasil o
turismo representa menos de 3% do PIB, bem abaixo da média mundial próxima de
8%. Na maior parte dos países europeus o turismo está acima de 11% do PIB.

  Para o público estrangeiro, a Amazônia não é uma prioridade, mesmo conside-
rando que a região está presente no imaginário coletivo da Humanidade. Por
que? Uma das mais difíceis razões de aceitar é que o mercado internacional tem
pouca confiança no produto brasileiro.

  Pode-se afirmar que menos de 0,16% dos 30 milhões de ecoturistas estrangeiros
(aqueles que vão de um país a outro) escolhem a Amazônia brasileira como desti-
no. Se considerarmos a Amazônia como um todo, menos de 1% do mercado mun-
dial prefere a Amazônia (considerando aí o Peru, a Bolívia, o Equador, a Venezuela
e as Guianas). Isto num cenário mundial de mais de 650 milhões de turistas.



A INICIATIVA PÚBLICA

   Nenhum estado da Amazônia tem no ecoturismo prioridade de governo. Ne-
nhum estado ou município da Amazônia investe no ecoturismo mais de 1% de seu
orçamento. Ou seja, o ecoturismo não existe na Amazônia do ponto de vista da
iniciativa pública.

  Na Amazônia, todas as iniciativas públicas para alavancar o ecoturismo como
um efetivo instrumento de desenvolvimento sustentável até o momento foram
de pequeno porte e de muito baixo impacto. Basta observar o que representa o
turismo na agenda pública da federação, dos governos estaduais e dos poucos
municípios que se interessam pelo assunto.

   Apesar do PROECOTUR, lançado pelo governo federal há algum tempo, os seus
resultados pouco afetam o mercado. Da mesma forma, as linhas de crédito do
Banco da Amazônia, do FNO (Fundo Constitucional do Norte) pouco atraem
investidores. Praticamente não há tomadores de empréstimos para o ecoturismo
na Amazônia. Os investimentos são realizados com recursos próprios ou parce-
rias empresariais.



274 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
AFINAL, PARA QUE SERVE O ECOTURISMO?

   O ecoturismo é “o reencontro do homem e da Natureza”. A reconciliação, o
presente da Natureza ao homem, para que ele perceba seu verdadeiro lugar no
Planeta, no Brasil, no dia-a-dia em que nos envolvemos.

  Para gerar emprego e renda às populações locais, valorizar sua cultura, ao
mesmo tempo em que conserva o meio ambiente, diminui a pressão sobre os
recursos naturais, incentiva a pesquisa científica e a busca da harmonização do
Homem com a Natureza.

  O ecoturismo é o melhor instrumento econômico para a promoção da diversi-
dade – a biodiversidade, a etnodiversidade, a diversidade cultural. Nenhum outro
negócio interfere em tantos ramos da economia e da sociedade, revolvendo
suas raízes mais profundas. Nenhum outro negócio é capaz, em tão curto espaço
de tempo, provocar mudanças.

   E no caso da Amazônia, com o boi capeta solto, comendo e churrasqueando a
floresta, nós precisamos de mudanças radicais em curto prazo. Mudanças pri-
meiro no comportamento do consumidor: você leitor, venha para a Amazônia,
faça já sua reserva. A epígrafe de Claude Levi-Strauss na abertura deste texto é
provocadora. Volte, relei-a, memorize-a. Ela dói, dói como a marca de ferro em
brasa no couro do boi.

  Em segundo lugar é preciso que o eleitor force mudanças radicais na postura
do poder público – menos discurso e mais ação, menos stands bonitos em even-
tos de turismo e mais produtos turísticos, menos salamaleques e mais capacitação
dos profissionais do trade ecoturístico.



CRITÉRIOS PARA SABER SE É ECOTURISMO OU ENGANAÇÃO

  O ecoturismo não é uma modalidade de turismo. É um novo turismo, veio para
substituir o que o turismo não conseguiu realizar. O CBTS – Conselho Brasileiro
para o Turismo Sustentável apresenta diversos critérios para qualificar o que é
ecoturismo. Para um rápido diagnóstico proponho oito pontos para saber se o
que temos diante de nós é ecoturismo (não há uma ordem específica de impor-
tância dos itens abaixo):

  I. O ecoturismo provoca mudanças incríveis em quem o realiza – Você já
     tomou uma chuva numa tempestade amazônica? Já observou o fenô-
     meno da Pororoca (acabo de retornar desta experiência e surfar em
     suas ondas explosivas, destruidoras e barrentas). Ou seja, o ecoturismo
     é de foro íntimo. Provoca mudanças permanentes, alegres e felizes.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Segundo Rita Mendonça e Zysman Neiman “a grande maravilha, a ver-
    dadeira mina de ouro, é a experiência pessoal que se tem no contato
    com a Natureza. Essa experiência não é transferível. Ela é de uma am-
    plitude tal que não pode ser traduzida em palavras”. Assim, “numa via-
    gem de ecoturismo podemos questionar sobre o que é de fato necessi-
    dade, segurança, conforto. Um viajante aplicado pode surpreender-se
    com suas próprias respostas”.

  II. O ecoturismo é um ótimo negócio para a economia local, gerando empre-
     go e renda – A comunidade local só abraçará o ecoturismo quando “a
     árvore em pé valer mais que a árvore no chão”. Estamos falando de verda-
     deira participação das comunidades envolvidas, dos proprietários rurais,
     guias, barqueiros, produtores de artesanato, fornecedores de alimentos,
     etc. A imensa maioria das empresas que opera ecoturismo na Amazônia
     fica com a maior parte do bolo, cedendo migalhas para a participação
     local. Há muitos casos em que as comunidades locais não são sequer
     consultadas e nada recebem em troca. Eu tenho vergonha de uma empresa
     de ecoturismo que paga quantias ínfimas para um show folclórico fajuto e
     deprimente, ou que contrata caboclos para se vestirem de índios, ou leva
     turistas para pescarem piranhas em áreas de abastecimento das comunida-
     des. Estas empresas praticam a roubo e não o ecoturismo. Enfim, o
     ecoturismo só acontece quando cria riqueza local, quando respeita os
     ritmos e as ordens sociais, quando organiza a economia, gera empregos
     permanentes, fixos, especialmente para os jovens; gera dignidade, ajudan-
     do a controlar a migração rural e agregando valor aos produtos regionais
     (alimentos, artesanato, serviços etc.).

  III. O ecoturismo respeita a Natureza – Parece óbvio, mas não é. Impossível
     realizar uma caminhada na mata com mais de 15 pessoas, inconcebível
     desrespeitar os ciclos naturais de vida de plantas e animais, destruir a Natu-
     reza para praticar o ecoturismo. O ecoturismo só acontece quando se reco-
     nhecem os limites da Natureza, sua capacidade de carga é devidamente
     estudada e monitorada, quando a biodiversidade respeitada. Fundamental
     reconhecer a força das estações climáticas, dos ventos, da umidade, das
     marés, das chuvas e tornar isto um atrativo per se. Na tentativa de controlar
     tudo dizemos: “foi ótimo, mas choveu!” Isto numa região que chove mais de
     200 dias por ano e em algumas áreas mais de 3.500 mm.

  IV. O ecoturismo controla a biopirataria – Aquela arara, tucano ou preguiça
    que você acha bonitinha na entrada do hotel “de selva” é um estímulo à
    biopirataria. Lugar de bicho é no mato, ou em centros de pesquisa muito bem
    monitorados. Eu tenho vergonha de um projeto de ecoturismo que compra
    animais silvestres e os expõem como troféus. da natureza ao alcance dos
    turistas. Ademais, retirar jacarés da água não me parece uma atitude digna
    de um empreendedor de ecoturismo.


276 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
V. O ecoturismo gera negócios sustentáveis - O verdadeiro ecoturismo permi-
    te cria diversos negócios em seu redor – produção de artesanato, alimento,
    geração de energia, etc. que diminuem consideravelmente a pressão sobre
    os recursos naturais, colaborando no controle do desmatamento, das quei-
    madas, da coleta ilegal de madeiras, da sobrepesca, do garimpo, da caça, e
    assim por diante.

  VI. O ecoturismo desperta em cada um a consciência ambientalista. Para o
    sempre. O ecoturista está sempre preocupado com a saúde do Planeta e a
    relação entre sua saúde e a dos seres vivos. Não se trata do ecoturista de
    férias, que retorna para casa e se torna um selvagem cidadão urbano, subin-
    do nas calçadas com sua possante camionete 4 x 4.

  VII. O ecoturismo valoriza a cultura – o verdadeiro ecoturismo é motivo de
    orgulho para a comunidade local. Valoriza, resgata e promove tradições,
    procura compreender a cultura do outro, sem impor a sua. Ecoturismo não é
    só ver passarinho ou golfinhos; é, principalmente participar do dia-a-dia das
    comunidades tradicionais no cuidar da Terra. O ecoturismo não substitui a
    cultura local. O verdadeiro ecoturista não quer ver um ambiente “preparado”
    para ele. Quem tem que se “preparar” para a nova experiência é o visitante.

  VIII. O ecoturismo promove o desenvolvimento social – ecoturismo é sinôni-
    mo de respeito, dignidade, saúde, educação, estabilidade de emprego, cui-
    dado com minorias, idosos, crianças. No ecoturismo não há crianças traba-
    lhando, não há pedintes, não há crianças vendendo artesanato aos turistas,
    em trajes locais, com olhos de bovina suplicância.

  Não é difícil perceber as dimensões amazônicas do desafio de transformar o
ecoturismo em algo sério e competente para o desenvolvimento regional.



EMPRESÁRIOS RESPONSÁVEIS

  Se há uma única ação a realizar é formar empresários responsáveis para admi-
nistrar o ecoturismo da Amazônia. É preciso tomar muito cuidado com aqueles
que enxergam no ecoturismo apenas uma chance de rápida acumulação de capi-
tal. Auferir bons lucros da atividade bem feita é mais do que justo e merecido.

   Responsabilidade social é a palavra chave. Combater a informalidade, o impro-
viso, a falta de compromisso social e ambiental é o primeiro passo. O empresário
que tem um negócio legalizado não faz mais que a obrigação. O que preocupa é a
informalidade do ecoturismo. Muitos se aproveitam deste amadorismo e se utili-
zam do ecoturismo para responder a outros interesses. Combater a concentração
de renda é vital. Ecoturismo se faz com transparência e negociação, à exaustão.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Neste Brasil de legislações que “não pegam”, principalmente na área social e
ambiental, há questões que são legais mas não éticas. Uma delas é o desmatamento.
O IBAMA emite uma autorização para desmatar. É legal, está dentro da lei, mas
não é ético. A ética planetária não admite um único metro quadrado de
desmatamento da última grande floresta tropical do Planeta. De que lado está o
ecoturismo? Da lei ou da ética? Da ética planetária ou da lei feita pelos interes-
ses de plantão?

   Muitos empreendimentos que se apresentam como de ecoturismo são até
imorais – exploram a mão de obra local. O que os mantêm abertos é a própria
tolerância do visitante, de seus parceiros econômicos, das autoridades, de seus
vizinhos, enfim, a tolerância do mercado. Como tolerar, por exemplo, uma pou-
sada que não tem seus empregados registrados? Que paga valores de esmola
para eventos folclóricos locais ou pelo artesanato “autêntico” e os revende a
preços exorbitantes? Que não protege seus mananciais, ou não trata seus esgo-
tos? Que não possui um sistema adequado de disposição do lixo?

   Neste cenário há diversas iniciativas bem intencionadas, empreendedores sé-
rios, que querem acertar, que respeitam as regras básicas do negócio e da ética,
que merecem grande atenção. É preciso destacar as iniciativas de turismo sus-
tentável de Mamirauá (Tefé, AM), Aldeia dos Lagos (Silves, AM) e de Pedras
Negras (Costa Marques, RO).



PROMOÇÃO DA AMAZÔNIA

  Num cenário nacional e internacional altamente competitivo não é possível
promover a Amazônia com os poucos recursos humanos e financeiros disponí-
veis. Pior: se adotados os padrões usuais de promoção turística o que se pode
alcançar a curto e médio prazo é muito pouco.

 Não podemos contar com os mesmos canais de promoção turística para a
Amazônia que existem hoje.

  A melhor promoção que podemos realizar para a Amazônia é dar a oportuni-
dade para que os visitantes falem dela. No web-site oficial, oferecer espaço para
blogs, artigos, manifestos, realizar pesquisas.

  O diretor de turismo da Costa Rica, Alberto Salas, em 2003, informou-me que o
principal vetor de divulgação do país é o boca-a-boca e os muitos livros que os
turistas escreviam sobre sua experiência. A Costa Rica recebe 1 milhão de turis-
tas, mais de 80% para o ecoturismo, gerando US$ 1.1 bilhão (o primeiro produto
do país) porque, entre outras razões, 86 pessoas escreveram livros, diários, guias
sobre sua maravilhosa visita ao país.


278 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
A Amazônia merece mais criatividade. É preciso abordar a questão do consu-
mo consciente quando se fala de Amazônia. Chamar para o sentido de brasilidade
que há em visitar a região e no caso do turista internacional, de seu compromisso
planetário. Na década de 1990 deparei-me com uma pesquisa alemã que informa-
va que 36% dos alemães e austríacos sonhavam em, um dia, conhecer a Amazô-
nia! Digamos que isto seja exagerado e que apenas 5% dos norte-americanos,
japoneses e europeus queiram, um dia em suas vidas, visitar a Amazônia. Será
que não poderíamos substituir a pata do boi pela sandália do ecoturista?

   Para aquele casal de aposentados de Kioto, Japão, não importa se ele irá para
Letícia na Colômbia, para Iquitos, noPeru, para um parque no Beni, na Bolívia ou
para Belém, no Pará. Ele irá para a Amazônia. Ademais, o ecoturismo pode unir a
Amazônia continental. Ao invés de continuarmos de costas para o Peru, a Bolí-
via, o Equador e os demais países, por que não oferecer ao mundo uma experiên-
cia única onde o visitante conhece, em uma só viagem, Machu Pichu, o encontro
das águas do Negro e o Solimões e a pororoca?

  É uma falta de visão absurda a promoção da Amazônia de forma isolada, seja
fatiada em estados, seja esquartejada em países. Os países onde há a cultura
maia já perceberam a importância de tratar da questão pelo viés cultural e não
pelas fronteiras nacionais. Se eu quero conhecer a cultura maia, pouco me im-
porta se hoje este território está na Guatemala, em Belize, em Honduras ou no
México. Claro que, uma vez em um destes países há muito que aprender e desfru-
tar, porém, o principal gancho que me levou a conhecer esta região, e que me fez
poupar para visitá-la, é a cultura maia.

  No caso da Amazônia estamos perdendo tempo tentando diferenciar o que o
estado do Amazonas tem de melhor de Mato Grosso, que o Pará é o portal da
Amazônia, etc. e etc. Ninguém ganha neste processo, somente os outros desti-
nos ecoturísticos mais bem estruturados.

  Também é louvável contar com os esforços de governos estaduais promo-
vendo a Amazônia em outras partes do país e do mundo. No entanto, se o
estado pretende optar pelo ecoturismo terá que efetivamente adota-lo como
um eixo de desenvolvimento. Nenhum governo é sério se não adotar ações
concretas para desestimular as atividades predatórias. Como pode um estado
promover a soja e a pecuária bovina extensiva ao mesmo tempo em que quer
atrair ecoturistas?

  Como pode um fazendeiro querer o ecoturismo em sua propriedade rural se
continua a desmatar, a bloquear riachos para fazer represas artificiais, a cavar
valos para a drenagem de água, a promover a caça e a pesca de maneira
indiscriminada? A cortar árvores que não precisariam ser cortadas, somente para
fazer a cabana para o turista?


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
OS VERDADEIROS VALORES QUE FUNDAMENTAM O ECOTURISMO

   Palavras de Rita Mendonça e Zysman Neiman: “Que seria de nós se não a
tivéssemos perto ou longe, para nos dar a esperança de um dia nos tornarmos
dignos de nossa rica experiência humana? A floresta simboliza o próprio proces-
so de aprendizado da vida. Ela dá sentido às atividades humanas. Ou melhor, ela
nos faz questionar o sentido do que fazemos”, e continua: “Quando entramos em
uma área natural quase sempre nos sentimos bem, percebemos que alguma coisa
muda. Quanto mais nos aprofundamos nessa relação, nessa intimidade com os
elementos naturais, percebemos que ali há uma grande escola que nos proporci-
ona uma das raras oportunidades que temos para realmente evoluir.”

   O ecoturismo só ocorrerá se houver uma mudança radical. Esta se inicia por
nós mesmos, novas posturas de vida, novas visões. Sem concessões. O filósofo
alemão Hans Magnus Enzenberger afirma que o “o tempo, a autonomia, o espa-
ço, a tranqüilidade, o silêncio e o ambiente ecologicamente saudável” estão
cada vez mais escassos na sociedade. O ecoturismo propõe respostas concretas
a estas questões, de uma maneira criativa e que se renova a cada dia. Não é um
produto pasteurizado, em série, para contentar grandes massas. De maneira
diversa, permite a cada ser uma experiência relevante, enquanto habilita a repar-
tir, com seu pequeno grupo, esta oportunidade única.

   O ecoturismo não se apresenta apenas como mais um segmento do turismo
tradicional, um simples ganha-pão, um bom negócio. Os empreendedores, guias,
barqueiros e profissionais de ecoturismo que não mostrarem os olhos brilhando,
marejados de paixão, não merecem ser os abre-alas e os porta-estandartes da
Natureza.

  E só haverá ecoturismo na Amazônia se o desmatamento e a queimada diminuí-
rem, se nos comprometermos a mudar. A opinião pública mundial costuma bombar-
dear o Brasil pela sua forma irresponsável de tratar a Amazônia. Não será a hora de
assumir esta triste realidade? Não será este o momento de chamarmos os formado-
res de opinião mundial a nos auxiliarem no processo de mudança de comer a Ama-
zônia? Ao invés de “comer”carne, soja, ouro de garimpo, madeira roubada vamos
“comer” ecoturismo, castanha-da-Amazônia (o que chamamos de castanha-do-
pará), sabonete de muru-muru, perfume de priprioca, artesanato de gurumã, etc.



VOCÊ, PROFISSIONAL DE ECOTURISMO

   Se há uma profissão que depende de um profundo envolvimento, preparo, com-
promisso com as pessoas e a Natureza, paixão, esta é o ecoturismo. O visitante
que economizou anos a fio para conhecer a maior floresta tropical do Planeta,
reino da biodiversidade por excelência, não merece um guia mediano ou sofrível,
um dono de pousada ou de restaurante que apenas o vê com cifrões na língua.


280 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
O ecoturismo utiliza binóculos que enxergam riquezas onde as atividades
tradicionais (a agropecuária, mineração etc.) apenas vêem “área sem utilidade”:
é o barulhinho do riachinho, a cachoeira de pedras escorregadias, a revoada de
pássaros no fim de tarde, os cipós entrelaçados na árvore, a sofreguidão de um
bicho-preguiça, desmaiado de alegria, a podridão da árvore servindo de ninho ao
pica-pau, os rios transparentes, cantarolando... A intenção não é dar utilidade e
preço a tudo o que aparece pela frente – ao selvagem, ao vento, ao Sol – e sim
protegê-los, cuidar para que a ganância e a cobiça não os explorem.

   O ecoturista quer mais do que ver macaco e árvore, quer participar da vida
cotidiana dos comunitários, sentir o cheiro da tempestade tropical, sair para o
mato pra coletar borracha, quebrar castanha, ir para a espera, ver se o matapi
está cheio, acompanhar a vazante, atracar-se num caldo de peixe com farinha,
ralar mandioca, passar a mandioca no tipiti, secar a mandioca, seguir de monta-
ria para a vila, sorver o tacacá apertando o jambu nos dentes, sentir o cheiro das
queixadas no mato, ver menino subir na palmeira açaí para cortar o cacho, tirar
a espinha da apaiari...

   A força do ecoturismo está nesta capacidade, a de abrir os olhos, permitir
que se fareje, sinta, respire, ouça a Natureza. Mais que aeroportos, lanchas
rápidas, equipamentos de última geração, o ecoturismo exige pessoas sensí-
veis, interessadas no destino das comunidades tradicionais e na mãe Natureza,
capazes de reconhecê-los e reverenciá-los a cada passo. Mais que investir em
infra-estrutura é preciso investir em bons guias e monitores, prepará-los para
serem os abre-alas da Natureza, despertando neles o que depois ele despertará
em seus clientes. Mais que os nomes científicos e as datas históricas, a interação
do homem e da Natureza, a compreensão dos ciclos vitais que tornam a Ama-
zônia única e una.



OS ESTUDOS DO MEIO

   Se há uma modalidade de ecoturismo que merece imediata atenção é o estudo
do meio – levar ao campo o que se trata nas salas de aula das escolas formais –
da pré-escola à universidade. Nós do trade ecoturístico precisamos empreender
uma campanha para incluir a Amazônia no currículo escola brasileiro – os “Estu-
dos Amazônicos”, somente assim teremos um público interessado em conhecer
a região. Nunca é demais mencionar que só se preserva o que se conhece, só se
quer visitar o que se conhece.

  É muito imaginar que cada estudante universitário brasileiro, ao menos uma
vez, durante seu período de formação, visite a Amazônia? Seja para conhecer o
seu próprio país como cidadão, seja para participar da definição dos destinos da
maior floresta tropical do Planeta? É muito solicitar que cada escola tenha um
canto em sua biblioteca e videoteca denominado “Canto da Amazônia”?

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Além disto, será que não há pais neste Brasil interessados em verem seus filhos
conscientes e conhecedores da realidade deste país? Será que não é o momento
de oferecer como rito de passagem pelos seus 15 anos, uma viagem à Amazônia?
Que melhor presente os pais podem dar do que a educação integral a seus filhos?
Eu tive esta oportunidade e por isto estou aqui escrevendo estas palavras. A
viagem que mais me marcou em minha vida, foi uma expedição à Amazônia com
meu irmão Renato, ele aos 15, eu aos 16 anos.



DESPEDIDA

                 “Trata-se de salvar, enquanto é tempo, toda uma fonte prodigio-
                 sa de vida para que, ao florescer amanhã, faça da Amazônia o
                 grande jardim terrenal que os homens do futuro desejarão ver,
                 cheirar, sentir, admirar.” Darcy Ribeiro

  O que os empresários, gestores públicos e demais profissionais de ecoturismo
necessitam é, primeiramente, aceitar o que é o ecoturismo, reconhecerem-se
como ecoturistas, comprometerem-se com a causa. Ecoturismo além de um
bom negócio é uma causa, uma razão de ser. Assumir a vocação. Em nosso caso
específico, a vocação pela Amazônia. Sem concessões.

  Está mais do que provado que é possível substituir as atividades predatórias
em uma geração. Em 30 anos podemos transformar radicalmente a Amazônia. Se
fomos capazes de destruí-las em 30 anos certamente seremos capazes de barrar
a destruição e reergue-la, com dignidade e paixão.

  A Amazônia conheceu cinco séculos de depredação, matança de populações
nativas, sacrifícios sociais e ambientais, que estão entre os maiores da história
humana. Está na hora de optar por um caminho econômico, pela trilha do
ecoturismo, que envolve os caboclos, a floresta, as tradições, os nossos própri-
os encantos e sonhos.

  Os ocupantes do poder público precisam meditar seriamente sobre o papel do
ecoturismo para a sustentabilidade econômica e social da Amazônia. Não basta
absorver o discurso ambientalista das organizações do terceiro setor, é preciso
adotar medidas reais, representativas, que signifiquem mudanças.

  A primeira medida é a capacitação. Investir em cursos, seminários, visitas de
campo, publicações, programas de rádio, tv, conteúdo de internet. Sem acesso à
educação para o ecoturismo nada se alcançará.

  O ecoturismo permitirá ao Brasil inserir a Amazônia em agendas internacionais
com respostas positivas, em substituição à pecuária e a outras atividades destrutivas.


282 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
No entanto, tudo se inicia com a sua visita à Amazônia. A verdadeira visita, de
completa integração com seus representantes, árvores, águas e animais. Visitar
a verdadeira Amazônia é uma experiência marcante e indelével. Tudo que é
autêntico e genuíno é bom, é positivo. O ecoturismo só busca o autêntico e
genuíno, não há lugar na Amazônia para parques temáticos.

  Não fique aí parado, pensando, pensando. Aja. Pegue, ou compre a sua rede e
venha visitar a verdadeira Amazônia, sentir a extrema simpatia e cordialidade de
seu povo, experimentar sua música, culinária, sentir seus cheiros, passear pelos
ambientes naturais. Como dizem os paraenses, venha tomar o açaí e se encantar
pela Amazônia.



WEB-SITES DE INTERESSE:

  Locais de turismo comunitário no Brasil:
- Instituto de Desenvolvimentio Sustentável Mamirauá, organização da socieda-
de civil que atua na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, em Tefé,
Amazonas, onde opera a Pousada Flutuante Uacari – http://www.mamiraua.org.br;

-ASPAC - Associação de Silves para Preservação Ambiental e Cultural, de Silves,
Amazonas, que opera a pousada Aldeia dos Lagos – http://www.viverde.com.br/
aldeia.html;

- Parceria entre a Organização dos Seringueiros de Rondônia, Associação dos
Seringueiros do Vale do Guaporé e da Ação Ecológica Guaporé (Ecoporé), que
operam a Pousada Pedras Negras, na Reserva Extrativista de Pedras Negras e
Curralinho, Rondônia, http://www.pedrasnegras.com/index_english.htm;

- A empresa Bananal Ecotour, do Instituto Ecológica, organização sem fins lu-
crativos, de Tocantins, opera o ecoturismo no Araguaia, Jalapão e outros desti-
nos - www.bananalecotour.com.br;

- Mesmo fora da Amazônia, vale a pena verificar o exemplo do Ceará – a Prainha
do Canto Verde – experiência de ecoturismo comunitário - http://
www.fortalnet.com.br/~fishnet/efolder_pcv3.htm;

  Organizações ambientalistas de dedicadas ao tema, no Brasil:
  - Conselho Brasileiro de Turismo Sustentável – www.cbts.org.br - reunião das
principais organizações do país para a definição de condições básicas para a
operação do turismo sustentável no país;

- Ecobrasil – uma das mais antigas organizações do setor – www.ecobrasil.org.br


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
- Fundação O Boticário – www.fundacaooboticario.org.br

- Instituto de Hospitalidade – Programa de Certificação em Turismo Sustentável
– PCTS - www.pcts.org.br - o único programa de certificação em curso no país;

- Instituto Physis Cultura & Ambiente – www.physis.org.br - dirigido pelo autor de
diversos livros sobre o tema, Zysman Neyman

- Instituto de Ecoturismo do Brasil – www.ecoturismo.org.br - organização
associativa de caráter nacional, da qual o autor foi presidente por oito anos;

- Instituto Peabiru – www.peabiru.org.br - que realiza trabalhos de planejamento
de ecoturismo para propriedades privadas, onde trabalha o autor;

- IUCN – União Internacional para a Conservação da Natureza – www.iucn.org

- The Nature Conservancy – www.tnc.org.br;

- World Wildlife Fund –http://www.wwf.org.br/projetos/siteturismo_principal.htm
- que apoia alguns dos programas acima mencionados;

  Para quem lê em espanhol:
- CCAD - Comissión Centro Americana de Ambiente y Desarollo PROARCA – Pro-
grama Ambiental Regional para Centroamerica – ver página de Turismo Sostenible
y Ecoturismo - www.proarca.org/p_apm5.html

  Para quem lê em inglês:
- Conservation International – www.conservation.org

- Rain Forest Alliance - http://www.rainforest-alliance.org

- Sharing Nature Foundation – www.sharingnature.com - a organização criada
por Joseph Cornell, que conta no Brasil com o Instituto Romã, dirigido por Rita
Mendonça, como seu representante;

- The Iternational Ecotourism Society – www.ecotourism.org - organização
internacional com mais de 1700 associados de mais de 70 países;

- The Nature Conservancy – www.nature.org/ecotourism - uma das principais
organizações ambientalistas do planeta, dedica diversos esforços ao ecoturismo;

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]




284 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2004
          Publicação original: dissertação


Formato da contribuição: texto resumido do 1o capítulo
Fonte: Atividades Físicas de Aventura na Natureza: uma leitura sociológica a
partir dos “Jogos Mundiais da Natureza”. Curitiba, 2004. Dissertação de
Mestrado, Universidade Federal do Paraná.
E-mail do(s) autor(es): kbmarchi@ufpr.br
Títulos acadêmicos principais atuais: Mestre em Educação Física, Centro de
pesquisa em esporte, lazer e sociedade - CEPELS, Centro de Educação Física e
Desportos - CED - UFPR.




Possibilidades de leitura sobre os
esportes da natureza: o caso
dos Jogos Mundiais da Natureza (1997)
Kátia Bortolotti Marchi



  Com a entrada de uma nova administração governamental, em 1995, o Estado
do Paraná, através do Governador Jaime Lerner, fez uma parceria com o consór-
cio GFE (Associats Consultors, Barcelona) da Espanha, os quais propuseram a
elaboração de um plano diretor para promover todo o potencial da “Costa Oes-
te”. O principal objetivo com a execução dos JMN era de modificar o perfil
econômico da região Costa Oeste do Paraná, através do Turismo.

  Os Jogos Mundiais da Natureza foram realizados em uma região que compre-
ende as cidades de Foz do Iguaçú – onde se encontra uma belíssima obra da
natureza: as Cataratas do Iguaçú1 – a Guaíra. São 1.400 Km de orla formada pelo
Lago de Itaipú2 . Com uma localização geográfica privilegiada, situada no cora-
ção do Mercosul, um dos grandes mercados do mundo, a região tem um grande
potencial para se tornar um pólo turístico incluindo atividades esportivas, recre-
ativas e culturais.

  Este evento teve caráter esportivo e participação internacional, colocando
em evidência a relação entre o homem, o esporte e a natureza. A finalidade do
projeto dos JMN, como destacado acima, foi promover o lançamento internaci-
onal das possibilidades de desenvolvimento da região, especialmente as turísti-

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
cas-esportivas-recreativas, onde as pessoas pudessem ocupar seu tempo livre
com atividades esportivas e a busca de novas emoções.

  As características principais que definiram os esportes incluídos nos Jogos
Mundiais da Natureza foram esportes praticados em contato com a natureza,
onde as possibilidades naturais (rios, cataratas) foram características funda-
mentais. O que se procurava era promover uma parceria entre o homem e a
natureza, através do esporte. E havia outro objetivo: organizar a competição em
esportes que, depois de encerrados os jogos, pudessem ser praticados na região
por pessoas comuns, durante todo o ano.

   O lançamento dos JMN ressaltou o conceito de Esportes de Translação, o qual
integra o homem à natureza, definindo cenários de grandes dimensões sem agres-
são. Como exemplo de esportes de translação podemos citar a vela, que teve
início na cidade de Guaíra e a chegada em Foz do Iguaçú, durante os sete dias de
competição e manteve um caráter inovador e de aventura.

  As modalidades esportivas praticadas em contato com a natureza foram utili-
zadas como alavanca para o desenvolvimento turístico e econômico da região,
mas como elas não fazem parte da rotina das pessoas da região, deveriam ser
assimiladas aos poucos para que o objetivo do projeto fosse atingido. Mesmo
assim, será que qualquer pessoa pode praticar?

   As modalidades esportivas dos JMN tiveram caráter competitivo e foram pra-
ticadas por atletas de alto nível, para que as pessoas pudessem conhecer esses
esportes e com o final dos jogos oportunizar a prática dessas modalidades na
região Costa-Oeste, com o objetivo de lazer para a população local e os turistas.
A maioria dessas modalidades não exige muito tempo de treinamento. Pode-se
praticar Rafting, rapel e outra modalidade num mesmo fim de semana, depois de
instruções básicas.

   A organização dos Jogos exigiu um trabalho árduo e inédito, onde as compe-
tições foram atípicas e desenvolvidas em locais diferentes. Os Jogos Mundiais da
Natureza deveriam ser realizados a cada quatro anos, sempre na “Costa Oeste”
do Estado do Paraná. Eles deixaram de ser um evento pontual, de marketing para
lançar um plano de turismo, e passou a ter estatutos (semelhantes aos de uma
Olimpíada) que permitem sua continuidade a cada quatro anos. Da idéia atingiu-
se a realização, o evento fez parte do calendário oficial do COI (Comitê Olímpico
Internacional), mas, ficou na sua 1ª e única edição.

   Tendo em vista o atual momento de mundialização das práticas culturais e a
inserção e afirmação deste novo fenômeno social esportivo, ou seja, os esportes
envolvidos com a natureza, entendemos ser relevante a perspectiva da realização
de estudos sociológicos voltados para a descrição, a identificação e o entendi-


286 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
mento das possíveis relações e interdependências que se estabelecem na
estruturação deste cenário esportivo. Dito de outra forma, a análise e a discussão
da tríade esporte, homem e natureza, verificada através dos JMN, justificam-se por
conta da sua pertinência e representatividade na sociedade contemporânea.

   Podemos verificar em uma reportagem da revista Veja3 que os “esportes de
aventura”4 tornaram-se promissores no Brasil, devido aos 55.000 quilômetros de
rios, extensas chapadas, cachoeiras por toda parte, 3.400 cavernas, 8.000 quilô-
metros de costa, a maior floresta tropical do planeta e montanhas de até 3.000
metros de altitude. No ano passado, 20.000 pessoas procuraram por pacotes de
aventura nas quatro maiores empresas especializadas no ramo. Uma pesquisa
feita pela Embratur numa feira anual de aventura – Adventure Sports Fair – que
recebeu 82.000 pessoas na última edição, revelou que quase metade dos visitan-
tes praticava esportes radicais e que 90% intencionavam praticar.

  Com base nesses dados e conhecendo a Costa-Oeste, percebemos que ela
tem potencial para se transformar num pólo de esportes de aventura pratica-
dos na natureza.

   Diante destes aspectos preliminares, nosso estudo teve por objetivo geral
organizar empiricamente a memória dos Jogos Mundiais da Natureza através do
resgate das informações obtidas nas fontes primárias e na experiência de quem
vivenciou a efetivação do projeto e, como objetivos específicos, delimitar a
proposta original dos JMN a partir dos estudos de Pierre Parlebás e Norbert Elias
e indicar possibilidades de análise do evento.

  Neste sentido, poderemos contribuir com a construção e o registro da história
de um evento de amplitude mundial, realizado no Brasil, especificamente, na
Costa Oeste do Estado do Paraná.

  Alguns autores têm direcionado seu foco teórico para analisar determinados
aspectos ou categorias, as quais podem ser levadas em consideração no nosso
estudo. Norbert Elias apresentou uma discussão sobre o mimetismo social e o
controle das emoções existente nas configurações e interdependências que são
estabelecidas na sociedade. Pierre Parlebás trata o indivíduo como “o ser que se
move”, e faz uma classificação dos esportes por meio de características práxicas.

  Neste sentido, metodologicamente fizemos uma descrição detalhada de toda
documentação sobre os JMN e definimos como referencial de análise, os pressu-
postos teóricos da Sociologia Configuracional de Norbert Elias e a tipologia da
ação motriz de Pierre Parlebás.

  Nesta lógica, estaremos nos aprofundando nos autores acima citados e, con-
juntamente, estruturamos a análise e a pesquisa empírica das modalidades inclu-

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
ídas nos JMN através de informações obtidas em fontes primárias, livros, revistas
especializadas, depoimentos, eventos, sites, entrevistas, programas televisivos
e demais possibilidades que envolveram os JMN.

  Iniciando nosso estudo, temos que o consórcio BCA, GFE e MB&A5 propôs a
elaboração de um plano diretor para promover todo o potencial da “Costa Oes-
te”, um plano de desenvolvimento econômico, político, social e um plano estra-
tégico de turismo.

   O governo do Estado do Paraná teve como objetivo o desenvolvimento eco-
nômico, social e cultural da região situada no extremo oeste do Estado, onde faz
fronteira com o Paraguai através de um grande lago formado a partir da constru-
ção da Hidrelétrica de Itaipú, cujo perímetro é de 1.400 Km, e praticamente não
possui nenhum equipamento voltado para o turismo e a recreação; somente os
conhecidos pontos de atração turística, como as Cataratas do Iguaçú, o Parque
Nacional do Iguaçú, o arquipélago de Ilha Grande em Guaíra e a Hidrelétrica de
Itaipú. O imenso território do lago de Itaipú possui capacidade para receber
muitas atividades esportivas, recreativas, turísticas e culturais.

  Para isso, o governo do Estado do Paraná promoveu uma ampla operação de
planificação que se estrutura em três níveis:

1. Plano Master – plano diretor de desenvolvimento econômico, político e soci-
   al, estruturado sobre as vocações naturais da região, devidamente identificadas
   enquanto a vocação propriamente dita e o potencial econômico que pode ser
   colocado em cada uma delas.

2. Plano Estratégico de Turismo – aproveitar a atividade lúdica da região, onde o
   desenvolvimento econômico será pela utilização do tempo livre, através da
   valorização da natureza e a organização do turismo.

3. Plano de Acontecimento Excepcional – um plano de desenvolvimento da re-
   gião, para final de 1997, que permita pôr em evidência as potencialidades da
   região e mostrar para o maior número possível de pessoas, meios de comuni-
   cação e países.6

  O objetivo deste trabalho seria definir seu programa, verificar a parte econô-
mica necessária para sua realização e o calendário de funcionamento para ga-
rantir seu êxito. Deveria ser de caráter esportivo, ter participação internacional
e colocar em evidência a relação entre o esporte e a natureza.

  Ao mesmo tempo, este conjunto de iniciativas teria por objetivo promover e
consolidar diversos equipamentos esportivos e serviços de caráter permanente,
bem como formar núcleos residenciais, turísticos e recreativos.


288 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
O nome provisório que foi dado a este acontecimento foi “JOGOS DA NATURE-
ZA DO IGUAÇÚ”, cujas finalidades básicas seriam:

  • Promover o lançamento internacional das possibilidades de desenvolvimento
da região, especialmente as turísticas, esportivas e recreativas, relacionadas
com a paisagem.

   • Conseguir investimento necessário para oferecer outras atividades turísticas
diferentes do que simplesmente tomar sol na praia.

   • Estruturar o território com a implantação de núcleos turísticos-residenciais com
a finalidade de atender um número maior de pessoas que pudessem permanecer mais
tempo na região e não simplesmente “passar” para conhecer. Deve-se utilizar crité-
rios urbanísticos que permitam um crescimento e possuir padrão de qualidade para
impulsionar a mudança do nível sócio-econômico do turismo que se pretende atrair.

  • Organizar um evento excepcional, próprio para a região, que demonstre a
capacidade organizacional do Estado, da região e das empresas em promover o
desenvolvimento da região. Este acontecimento deve ser referência internacio-
nal, realizado a cada quatro anos, para situar a região do Iguaçú tanto dentro do
âmbito esportivo como em atividades turísticas-recreativas.

  • Promover o desenvolvimento de outras atividades e projetos para cada nú-
cleo turístico e, através dos “Jogos da Natureza do Iguaçú”, ampliar e fixar esses
núcleos para aumentar o número de turistas que permaneçam no local e possam
ocupar melhor seu tempo livre.7

  Segundo os idealizadores do projeto: BCA – Engenharia & Consultoria, São
Paulo e GFE – Associats Consultors, Barcelona, que surgiu após a Olimpíada de
Barcelona, onde a maioria de seus integrantes foi composta de técnicos que
participaram da organização dos jogos olímpicos de 1992 quando ocupavam
cargos de responsabilidade na prefeitura da cidade. Trata-se de um consórcio
privado, organizado como uma rede de empresas, e cada uma delas especializa-
da em um aspecto diferente: esporte, marketing, desenvolvimento urbano, orga-
nização de eventos complexos. MB&A – Millet. Biosca I Associats, Barcelona, os
esportes que foram eleitos para integrar o programa dos Jogos da Natureza do
Iguaçú deveriam manter coerência com a idéia geral. Não deveriam ser esportes
“urbanos” (realizados em espaço delimitado e regulamentado), não deveriam ter
esportes olímpicos para não entrar em concorrência com o acontecimento es-
portivo mais importante do mundo e nem utilizar locais fechados para não detur-
par por completo a idéia de natureza.

  As características que definiram os esportes que foram incluídos no programa
dos Jogos foram as seguintes:

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
• Características topológicas: a relação entre o esporte com o lugar é imprescindí-
vel e, possivelmente, a característica diferenciadora de qualquer outro aconteci-
mento esportivo. Deve-se escolher esportes que tenham relevância com relação ao
lugar, sua grandiosidade e beleza. O esporte pode ser praticado em outros lugares,
mas nenhum terá as características específicas do entorno do lago de Itaipú. Serão
esportes “desenhados” para acentuar o contato com a natureza, onde a relação
entre esporte e paisagem seja a característica fundamental. É imprescindível que a
relação esporte-lugar não seja estática; que o esportista e o espectador possam
perceber a mudança da paisagem. Esportes de “translação”, para definir cenários de
grandes dimensões, são fundamentais para definir o programa dos Jogos.

  • Características visuais: o esporte deve ser o pretexto que permita uma obser-
vação privilegiada da paisagem. Os esportes de translação devem ser cuidadosa-
mente desenhados para que haja mudança na visão. O espetáculo oferecido pelo
esporte deve ser relevante, tanto na observação direta como na filmagem e
retransmissão pela televisão.

   • Características econômicas: como o espaço de tempo é pequeno para a
organização dos Jogos, os esportes não devem exigir muita infra-estrutura; so-
mente casos em que o “cenário” possa converter-se em elemento rentável por si
mesmo através de uma exploração posterior, serão justificadas mudanças mais
importantes. Por outro lado, realizar excessivas construções entraria em con-
tradição com o conceito de natureza. Os esportes eleitos devem propiciar o
desenvolvimento de atividades produtivas, no que diz respeito ao turismo, bem
como fixar um conjunto de atividades industriais relacionadas com o esporte.

   • Características culturais: o esporte está ligado à cultura e à educação; por
isso, deve-se incluir esportes que tenham relação com o desenvolvimento
tecnológico, científico, que preservem o meio ambiente, etc. O esporte terá
mera função compensatória e isolada, se não estiver integrado com um amplo
conjunto de atividades turísticas, recreativas, educativas e culturais, vinculado
dentro das ocupações do tempo livre.

  • Outra característica que deve ser destacada é a beleza plástica do esporte e
dos lugares onde serão criadas bases de apoio. A arquitetura das novas edificações
precisará de uma sensibilidade especial e uma interpretação instruída do entorno.

  • Características temporais: como o tempo é escasso para a preparação de
todas as infra-estruturas necessárias, os esportes escolhidos não devem reque-
rer infra-estrutura pesada e um programa de competição muito complexa que
exija muito tempo de preparação.

  • Características urbanísticas: os esportes devem proporcionar a consolidação
de itinerários e caminhos, e a criação de pequenos núcleos que devem ser está-


290 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
veis e possuir equipamentos consolidados que não depredem a paisagem e não
deixem nenhum resto, uma vez finalizado o acontecimento.

  • Características esportivas: o esporte deveria ter um caráter inovador e de
aventura e, ao mesmo tempo, um nível de aceitação e difusão popular muito
ampla. As dificuldades técnicas dos esportes propostos deveriam ser altas,
mas deve-se fugir do “esporte-circo”, apto somente para profissionais em
sua especialidade.8

  Para conseguir uma ampla difusão televisiva dos distintos esportes, devem ser
espetaculares, difíceis e apresentar um certo caráter épico e, pelo contrário,
todos os esportes propostos devem ser praticados por qualquer pessoa, reduzin-
do seu caráter competitivo, a extensão, a duração da prova e os condicionantes
técnicos, exclusivamente válidos para uma competição de alto nível.

  Em maio de 1996 o Comitê dos Jogos foi instituído e foi apresentada uma nova
documentação que foi o Projeto Executivo dos Jogos Mundiais da Natureza de
Iguaçú que foi estruturado em quatro volumes:

1 - Os Jogos – são definidos o conceito dos Jogos, as características gerais, o
  calendário, regulamentos e instruções específicas para cada um dos esportes
  incluídos no programa.

2 - Operações – todos os recursos necessários para a celebração dos Jogos.

3 - Locações – descrição do território e as bases de apoio onde serão realizados
  os acontecimentos esportivos.

4 - Organização – detalhes de tudo que deverá ser realizado para o sucesso
  dos Jogos.9

  A organização financiou o transporte dos atletas desde seu local de origem,
assim como seu alojamento e manutenção, desde o dia do seu registro até um dia
depois do encerramento da competição, totalizando sete dias. Os atletas foram
convidados pelo Comitê Organizador. O critério utilizado foi um ranking mundial
em seus respectivos esportes e, na medida do possível, representantes dos cinco
continentes em todos os esportes. O programa esportivo foi determinado pelo
Comitê Organizador.

  Após duas propostas, ficou definido que a nomenclatura do evento seria “JO-
GOS MUNDIAIS DA NATUREZA” (JMN).

  Os esportes integrantes da primeira edição dos Jogos foram os seguintes:

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
• Esportes do ar: Balonismo, Pára-quedismo;

  • Esportes da água: Canoagem de Travessia, Rafting, Canoagem de Slalom,
Pesca, Vela;

 • Esportes de Terra: Orientação com Arco, Escalada, Ciclismo, Golfe, Hipis-
mo, Triatlon.

  O regulamento de cada modalidade esportiva foi criado e adaptado para os
Jogos e foram aprovados pelo Comitê Organizador. Foram baseados nos regula-
mentos das Federações Internacionais de cada esporte com o sistema de pontu-
ação, classificação e prêmios.

  A escolha das modalidades esportivas do programa dos JMN responde à
intenção de acentuar o caráter de aventura e inovação, inerente a determi-
nados esportes.

   Dia 11 de setembro, em Lousane – Suíça, o Governador do Estado do Paraná,
Jaime Lerner, o Secretário do Estado de Esportes Turismo, Osvaldo Luis Maga-
lhães dos Santos e o Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur
Nusmann, fizeram uma apresentação sobre os JMN para o Presidente do Comitê
Olímpico Internacional, Juan Antonio Samaranch, que colocou a próxima edição
dos JMN - 2001 no calendário do COI.

  No dia 23 de Setembro chegaram os primeiros atletas da modalidade de hipis-
mo, o belga Cristian Van Sant; as holandesas Mevrouv Dingemans e Janeth Van
Wijk e a sueca Ingrid Bostron.

  Dia 27 de setembro de 1997 foram iniciados os 1º JOGOS MUNDIAIS DA NATU-
REZA em Foz do Iguaçú, Paraná, Brasil.

  A cerimônia de abertura foi no Parque Nacional do Iguaçú com vistas para as
Cataratas do Iguaçú e contou com a presença do Presidente do Brasil - Fernando
Henrique Cardoso, o Presidente do Paraguai – Juan Carlos Wasmosy, o Ministro
Extraordinário dos Esportes – Edson Arantes do Nascimento (Pelé) e demais
políticos e esportistas.

  “BEM-VINDOS AOS JOGOS MUNDIAIS DA NATUREZA!”

  BALONISMO10
  A “unidade” que participa de um evento competitivo de balonismo é uma
equipe de quatro pessoas, que podem ser de várias nacionalidades, juntando
amigos ou voluntários locais e são comandadas por um piloto.

292 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
A competição de balonismo não foi homologada pela CIA (Comissão Inter-
nacional de Aerostação), pois o balonismo no sentido de competição, exige
resistência física e mental e um evento que envolve 3.000 Km de estrada para
uma prova de primeira categoria dificilmente seria homologada; mas tivemos
a participação de várias pessoas desta comissão como juízes, oficiais e
competidores.

   A idéia de fazer competição pela manhã e vôos fiesta na parte da tarde com o
mesmo grupo de equipes, não funcionou, complicou a parte logística e exauriu
fisicamente os competidores.

  O clima prejudicou muito o Balonismo, pois o programa previa sete dias de
competição, dos quais tivemos apenas três, e treze vôos fiesta, dos quais apenas
cinco foram possíveis.

  Participaram da prova 30 balões (120 pessoas).

  PARAQUEDISMO11

   Em reuniões no Comitê, foi levantada a hipótese de realização de uma compe-
tição de paraquedismo nos Jogos, um maior estudo da competição de Skysurfing
e da demonstração de abertura dos Jogos.

  Ficou definido que haveria uma competição de Skysurfing durante os Jogos
Mundiais da Natureza e que a regulamentação deveria seguir as regras das Fede-
rações Internacionais (FAI).

  A Competição de Paraquedismo, modalidade Skysurfing, disputada entre os
dias 29 de Setembro e 3 de Outubro próximos na cidade de São Miguel do Iguaçú,
na Costa Oeste paranaense, teve caráter internacional, estando presentes os
melhores atletas do mundo neste esporte.

  O Skysurfing é hoje um dos mais modernos esportes do mundo, é praticado
em queda livre, em altas velocidades, e por poucas pessoas; causa também,
grande curiosidade para o público em geral e para os amantes dos esportes
radicais em particular.

  Um time de Skysurfing é composto por um “Skysurfer” propriamente dito,
que é o atleta que salta com uma prancha presa aos pés efetuando evolu-
ções acrobáticas em queda livre, tendo suas façanhas rigorosamente
registradas em vídeo pelo segundo atleta, o “Cameraflyer”. Tais evoluções
são levadas a julgamento pelos árbitros. Por isso o conceito “time”, embo-
ra com tarefas completamente distintas, onde a performance de um depen-
de totalmente da do outro.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
No dia 27 de setembro foi realizada a exibição, ou seja, a demonstração na
abertura dos Jogos com o lançamento de 76 pára-quedistas em duas passagens
do avião C-130.

  Iniciado no dia 30 de Setembro e encerrado dia 3 de Outubro, aconteceu
provavelmente, o mais perfeito e técnico torneio de Skysurfing que jamais se
realizou no mundo; segundo os próprios competidores, muito embora as condi-
ções climáticas não tenham ajudado.

  A competição foi realizada em São Miguel do Iguaçú. Foram convidados para
participar da competição 12 duplas, mas, uma dupla não compareceu por proble-
mas de saúde.

  CANOAGEM DE TRAVESSIA12
  A competição foi disputada em quatro etapas de travessia e dois circuitos. As
provas foram entre Guaíra e Três Lagoas, no Lago de Itaipú. Os percursos diários
vão de 23,5 milhas náuticas - a ser percorridas em um mínimo de quatro horas -
a 35,2 milhas náuticas - a ser percorridas em um mínimo de seis horas. As embar-
cações utilizadas foram de dois tipos diferentes - K-1 e K-2 - sendo a primeira
individual e a segunda para duplas.

  Durante a maior parte da prova os canoístas ficaram remando ao longo do
eixo principal do Lago em águas abertas, em alguns trechos, porém, entraram em
braços da represa ou atravessaram canais.

  Nas etapas de circuito tiveram o que denominamos “portagens”, ou seja, quan-
do os atletas saem da água e têm que carregar os caiaques por terra, através de
um percurso determinado, e entrar na água novamente.

  A classificação final foi estabelecida pela soma dos tempos parciais de cada
embarcação e o Comitê Organizador forneceu as embarcações para os atletas
que foram entregues através de sorteio.

  Atletas previstos: 30 K1s (30 atletas) e 20 K2s (40 atletas), total de 70 atletas.

  Atletas participantes: 27 K1s (27 atletas) e 17 K2s (34 atletas), total de 63 atletas.

  Atletas que terminaram a prova: 14 K1s (14 atletas) e 11 K2s (22 atletas), total
de 36 atletas.

  Atletas que não compareceram: 3 K1s (3 atletas) e 3 K2s (6 atletas), total de
9 atletas.



294 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Atletas que desistiram durante a competição: 13 K1s (13 atletas) e 6 K2s (12
atletas), total de 25 atletas.

  RAFTING13
   O projeto inicial previa a realização das provas no Parque da Barragem, mas
devido a uma série de contratempos não foi possível sua realização neste local.
Infelizmente o canal não ficou pronto e a notícia foi comunicada um mês e meio
antes do evento, o que provocou uma série de transtornos e dificuldades para a
realização das provas desportivas.

   Como única alternativa restou-nos o rio Iguaçú, no trecho logo abaixo da
“Garganta do Diabo”, sendo uma ótima opção pela qualidade técnica e beleza
circundante.

  As características do rio Iguaçú nos obrigaram a modificar totalmente a com-
petição, devendo fazer novo “Anúncio de Competição” e modificar totalmente o
regulamento do Rafting. Isto teve uma relação direta com a montagem da pista,
obrigando a começar os trabalhos num prazo demasiadamente curto. Montar a
pista de Slalom em um rio com mais de 100 metros de largura em tão pouco
tempo, apresentou naturalmente alto grau de dificuldade.

  Na Cerimônia de Abertura foi realizada uma demonstração de Rafting nas Cata-
ratas do Iguaçú.

  O Comitê Organizador forneceu os botes para os competidores e o colete
salva-vidas. A Competição teve a participação de 10 balsas com 6 tripulantes, e
consistiu em duas provas:

  · Descida:

   Foi realizada em botes de 12,5” para 6 atletas onde a largada foi na altura da
Ilha de San Martin. A prova aconteceu em baterias de 4 botes e a classificação,
de acordo com a ordem de chegada e com as chaves que foram escolhidas por
sorteio.

  · Habilidade:

   A prova foi realizada em botes de 12,5” para 6 atletas com largada na altura da
Ilha de San Martin. A prova se deu em uma descida onde os botes percorreram a
pista no menor tempo possível, passando pelas portas de Slalom e realizando
tarefas como virar e desvirar o bote, resgatando pessoas com utilização de
cordas próprias para tal. Estas tarefas valiam pontos que foram somados na
pontuação final.


                                         Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
               Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
CANOAGEM DE SLALOM14
   O projeto original previa uma prova no Parque da Barragem com aproximada-
mente 4,5 Km de extensão, até 49 portas normais de Slalom e 16 setores de
julgamento, pontuação por tempo e faltas. Devido a mudança de local e a dificul-
dade de montagem de portas, a nova pista ficou em torno de 1,5 Km de extensão,
9 portas bem mais largas (3 m) que as normais. Foram realizadas corridas elimi-
natórias em que os atletas eram obrigados a passar por entre as balizas das
portas, sem penalização por toques.

  Atletas participantes:
  Categoria:     Caiaque Feminino               K1W     15
                 Caiaque Masculino               K1M    30
                 Canoa Simples Masc.            C1M     20
                 Canoa Dupla Masc.              C2M     10 (20 canoístas)

  PESCA 15
   A Competição foi realizada no Centro Náutico na cidade de Guaíra e teve duas
etapas, cada uma com 8 horas de prova nos dias 03 e 04 de outubro. Participaram
da competição 50 duplas. A pesca deveria ser somente do Dourado, mas foram
introduzidas outras espécies de peixes valendo 1 ponto e o Dourado 2 pontos.

  VELA16
   A competição de Vela desenvolveu-se em 7 etapas, sendo 5 percursos e 2 circui-
tos. As provas foram iguais para ambas as classes no tocante a percursos e circuitos.
Todas as etapas foram cumpridas dentro de rígidos critérios técnicos. A classe Hobie
Cat 16 cumpriu todos os percursos sem encurtamento, deixou de cumprir o 1o circui-
to por avarias nos lemes da maioria das embarcações. A classe Laser teve o primeiro
e quinto percursos encurtados, devido a grande distância entre as bases de 3 Lagoas
e Itaipulândia e, principalmente, entre Porto Mendes e Guaíra.

  As condições do tempo ajudaram, pois, ventou em todos os dias da competição,
favorecendo o alto índice técnico alcançado pelos atletas. Felizmente não tivemos
nenhuma situação crítica (ventos muito fortes), onde temíamos pela salvatagem.

  O Comitê Organizador forneceu todos os barcos da classe Hobie Cat 16 e da
Classe Laser para os atletas, que foram entregues através de sorteio.


ORIENTAÇÃO COM ARCO17

   A Competição de Orientação com Arco foi realizada em 3 etapas, sendo 2
circuitos por dia para cada atleta. As distâncias percorridas foram suficientes
para que os arqueiros realizassem uma prova muito difícil.


296 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Foram convidados 50 arqueiros, mas somente 46 compareceram, representan-
do 25 países.

  Todo o material esportivo foi fornecido pelo Comitê.



ESCALADA18

   Foi realizada uma demonstração no dia da abertura dos Jogos Mundiais da
Natureza e uma segunda, realizada no espaço cultural Espaço das Américas,
onde houve a liberação do muro de escalada para o público que participou do
início ao fim do evento.



CICLISMO19

  A competição teve as mesmas características de uma prova de ciclismo de
estrada, porém sendo disputada em mountain bikes e em “estradas de chão”
quase o tempo todo.

   A compra das bicicletas pelo Comitê Organizador foi uma idéia impraticável, pois,
além do alto custo, as mesmas são confeccionadas sob medida para cada atleta.

  Dia 29 de Maio foi realizada uma Prova Seletiva nas dependências do Santa
Mônica Clube de Campo com 60 participantes. Estava prevista a participação de
50 ciclistas, mas, participaram do evento apenas 39. A prova disputada em 7
(sete) etapas, como segue a tabela abaixo.

  Um dado a ser destacado na modalidade foi o atraso no convite dos atletas
europeus, por conta da consultoria espanhola e da participação dos mesmos no
Tour de France. Cabe a essa constatação, excetuar os atletas sul-americanos,
que foram devidamente convidados no período determinado.



  HIPISMO20

  A competição de Enduro Eqüestre foi realizada entre os dias 29 de Setembro e
4 de Outubro com percursos diários de aproximadamente 45 (quarenta e cinco)
e 50 (cinqüenta) Km. Foi um Raid com classificação individual e sem distinção de
categorias entre homens e mulheres. A prova foi realizada de acordo com o
regulamento de Raid da FEI (Federação Eqüestre Internacional), além de algumas
instruções de competição, aliadas ao regulamento veterinário e as instruções
das etapas que complementaram o Regulamento Oficial. Diante de qualquer


                                        Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
              Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
discordância prevaleciam sempre as normas estabelecidas pelo Regulamento
Oficial da competição.

  Os cavalos utilizados na competição foram todos da raça manga-larga, sendo
“emprestados” pela ABCCRM (Associação Brasileira de Criadores de Cavalos da
Raça manga-larga) ao Comitê Organizador, que, por sua vez, os cedeu aos com-
petidores participantes.

   A distribuição dos cavalos aos atletas foi feita através de sorteio. Cada cava-
leiro teve dois cavalos durante a celebração dos jogos, podendo usar somente
um durante uma mesma etapa.

  Foram emprestados 100 cavalos, sendo 80 cavalos destinados para o sorteio
da competição e os restantes ficando para reserva, podendo ser utilizados, caso
os animais selecionados para a prova tivessem alguma lesão.

  No início do projeto estava prevista a participação de 50 atletas, porém, houve
uma redução para 40, o que implicou também na redução do número de cavalos
para a prova. Somente 25 atletas terminaram a competição.

   Observação: A 4ª Etapa foi cancelada por conta de um temporal na cidade de
Itaipulândia, que destruiu parte das baias e lesionou vários animais.

  GOLFE21
   Como a competição de Golfe é profissional, o investimento com os atletas
seria muito grande, então, optou-se por uma etapa do campeonato sul-ame-
ricano. A competição foi realizada no Yguaçú Golfe Clube e Resort, em Foz
do Iguaçu, durante quatro dias. Participaram 103 atletas sendo: 29 brasilei-
ros, 57 da América do Sul e 17 de outros países. Os atletas participaram de
uma fase de qualificação nos dois primeiros dias e nos dois dias finais foram
selecionados os 50 melhores para a decisão utilizando o sistema Strocke
Play 18 tacadas.

  TRIATHLON22
  A prova teve início no Terminal Turístico Alvorada de Itaipú (Parque de Santa
Terezinha), onde foi realizada a largada da etapa de natação com 1600 metros.
O ciclismo iniciou-se no Parque de Santa Terezinha e o seu percurso se estendeu
até o Parque Nacional do Iguaçú, totalizando 48 Km aproximadamente e 12 Km de
corrida que teve o seu final ao lado das Cataratas do Iguaçú. O Triatlon foi
realizado no dia 28 de Setembro com duas largadas distintas. A elite feminina
com a participação de 20 atletas largou em primeiro, às 08h30min, e a elite
masculina com a participação de 26 atletas em segundo, às 09h10min.



298 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Da idéia, atingiu-se a realização, com a implantação do evento no calendário
oficial do COI (Comitê Olímpico Internacional), o projeto deveria ter seqüência.
O material adquirido para as competições deveria ser utilizado nas bases náuti-
cas para iniciantes e futuros atletas.

  Também prevemos a importância de se realizarem competições seletivas regi-
onais, com vistas à preparação para a 2ª edição dos JOGOS MUNDIAIS DA NATU-
REZA em 2001.

  Como o objetivo do projeto dos JMN era o de incentivar o turismo na região,
em 1998 foram implantados os Centros de Esportes da Natureza – em algumas
bases náuticas utilizadas para a realização dos jogos – com a finalidade de
incrementar a prática esportiva de algumas modalidades disputadas nos Jogos
para a população local.

  Após a realização dos Jogos, foram realizados alguns eventos esportivos para
promover a região como uma etapa da Copa do Mundo de Canoagem Velocida-
de, o Campeonato Paranaense e o Brasileiro da mesma modalidade em Entre Rios
do Oeste.

   O Ministério do Esporte lançou o Projeto Navegar em 1999 com as seguintes
modalidades: vela, canoagem e remo. No Paraná houve a implantação do projeto
em Paranaguá, Ribeirão Claro, Foz do Iguaçú e Santa Helena; sendo que as duas
últimas cidades fizeram parte dos JMN.

  O Comitê dos JMN foi reativado em junho de 1999 para dar início à organização
da 2ª edição dos Jogos que seriam realizados em setembro de 2001. Foram feitas
reformulações e foi desenvolvido um novo projeto para dar continuidade nos
objetivos de aumentar a indústria do turismo da região, mas, a captação de
recursos financeiros não ocorreu e o Comitê foi extinto.

  O objetivo do governador Jaime Lerner com a realização dos JMN não foi
atingido e as bases náuticas ficaram abandonadas. Com a mudança de governo e
através de algumas notícias pudemos perceber que o novo governo esta fazendo
o possível para resolver o problema das bases náuticas. Através de uma pesquisa
na internet23 , pudemos constatar as seguintes notícias:

  Seis meses após a visita do diretor da Paraná Esportes, Ricardo Gomyde em
Entre Rios do Oeste, nenhuma decisão foi tomada no sentido de resolver o
problema da manutenção e utilização das bases náuticas que foram construídas
pelo Governador Jaime Lerner para os JMN. Gomyde assegurou que faria um
levantamento da situação das bases, com opções de repassá-las às prefeituras
ou encontrar uma alternativa para aproveitar a estrutura existente. O encontro


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
teve a presença de quase todos os prefeitos que aspiravam ter estruturas melho-
res para o lazer e o turismo.

  Algumas bases estão sendo utilizadas por agricultores que de lá tiram sua
subsistência, mantém seu trabalho e contribuem com pequena porcenta-
gem para os trabalhos do Provopar. Enquanto não existir uma ação concre-
ta, todas as bases poderão ser utilizadas para as safras de 2003/04. Neste
período será estudada uma solução adequada e as bases náuticas poderão
ser transformadas em centros tecnológicos, culturais ou até esportivos.
(15/10/2003).

  Das seis bases náuticas construídas em 1997 pelo governo do Estado para
sediar os JMN, três estão sendo ocupadas por integrantes do Movimento dos
Trabalhadores Rurais (MTR): a de Porto Mendes, distrito de Marechal Cândido
Rondon, Entre Rios do Oeste e Santa Helena. Em Itaipulândia a invasão não deu
certo, pois policiais convenceram que a prefeitura está reformando a base, com
o objetivo de fazer um centro avançado de estudos voltado a pescadores. Em
Guaíra e Foz do Iguaçú não houve invasões; estas unidades são municipalizadas
e protegidas pelas respectivas guardas municipais. (03/01/2004).

  Turistas do Paraná, Brasil e de outros países, visitam o terminal turístico da
costa Oeste, o de Santa Helena. O fator que esta favorecendo o turismo é o
excesso de calor e principalmente a infra-estrutura à disposição do turista, que
conta com boxes com churrasqueira para famílias, pia e mesa com cadeiras;
playground para as crianças, quadras de areia para jovens e local para caminha-
das. Além disso, existem lanchonetes, vestiários com banheiros, restaurantes e
outros atrativos. (23/01/2004).

  A secretaria de obras de Itaipulândia iniciou as obras na base náutica com
recursos próprios, construíram barreiras para a contenção de água e atracadouro
para barcos. A reativação da base começou a ser estudada pelo governo muni-
cipal, após a reunião que aconteceu no final do ano passado com integrantes da
Comissão de Difusão Tecnológica da Área Agrícola. Por meio da parceria entre
prefeitura, governo do Estado, Emater, Iapar e empresas privadas, pretende-se
efetuar experimentos de culturas agrícolas que poderão ser adaptadas ao clima
e solo da região, trazendo mais segurança ao produtor quando investir em sua
propriedade. (23/01/2004).

  Quando iniciamos nosso estudo procuramos reproduzir fielmente a descrição
dos JMN e, a partir desse objetivo, tentarmos responder algumas inquietações
construídas mediante nosso envolvimento com o evento e nossa formação aca-
dêmica. Durante oito meses trabalhamos na organização de um evento que foi
realizado na Costa-Oeste do Estado do Paraná, feito pela consultoria para orga-
nizar o projeto, e depois com cada diretor de modalidade.



300 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Diante desse contexto, questões foram formuladas, tais como, o que atrai
tantas pessoas para essa nova perspectiva de prática esportiva? Como podemos
ler e analisar os JMN, manifestação mais expressiva dos esportes da natureza, de
outra forma que não a realizada na perspectiva econômica ou turística?

  Segundo Elias, houve o tempo em que o esporte era ignorado como objeto de
reflexão sociológica ou entendido como discussão secundária ou vulgar, ou
ainda, como uma atividade de lazer voltada para o prazer que envolve o corpo
mais do que a mente sem valor econômico.24 Nos JMN, pudemos perceber o
contrário, o esporte foi utilizado com o objetivo de desenvolver o turismo e a
economia da região Costa Oeste. Não obstante, centramos nosso problema na
possibilidade de identificarmos e realizarmos uma outra leitura dos JMN, e suas
modalidades, que foi além da estruturada no aspecto econômico e turístico, e
pudemos perceber que as relações existentes entre o esporte, o homem, a natu-
reza e a busca das emoções na prática esportiva num meio não padronizado,
selvagem é viável (Parlebás s/d).

   Nos JMN, com exceção da escalada, todas as outras modalidades esportivas
tiveram caráter competitivo, porém constatamos, através da mídia, sites da internet
e de leituras em revistas especializadas em esportes de aventura na natureza,
radicais e de ação (Adventure, Terra, Aventura, Aventura e Ação, Eco-Turismo,
Família Aventura, Mares do Sul, Terra), que muitas modalidades também estavam
sendo praticadas com a perspectiva de lazer. Citando o exemplo de Brotas/SP, que
se tornou a “Cidade dos Esportes Radicais”, houve um crescimento da região
devido ao turismo de aventura e, em outras cidades próximas, a cada dia descobri-
am-se locais para descer corredeiras, escalar e rappeling (rapel) por paredes ro-
chosas verticais, cruzar rios, vales e montanhas num trekking (caminhada) de
longa distância, canyoning (alpinismo de cachoeira), entre outras.

  Nosso estudo indicou que a maioria dos indivíduos desenvolve atitudes, com-
portamentos, práticas, em suma, habitus, em oposição às tensões do stress que
elas próprias criam e que buscam a libertação dessas tensões nas atividades de
lazer, onde o esporte é considerado uma variante.

  Esse movimento catártico, mimético e a busca de um “descontrole controlado”
nas atividades de lazer, num certo espaço de tempo apontou para a profissonalização
e para a espetacularização da prática dos esportes da natureza.

   Com a inserção do profissionalismo e a perspectiva da espetacularização dos
esportes da natureza, as atenções para as atividades de lazer foram sendo des-
viadas, no entanto, mesmo com a prática espetacularizada divulgada nos meios
de comunicação de massas, considerável número de pessoas das mais diferentes
idades continuaram praticando e buscando estes esportes. Basta atentarmos
para alguns exemplos. Empresários do lazer preparam infindáveis pacotes turís-


                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
ticos de final de semana direcionados para prática dessas atividades. Nesta pers-
pectiva, percebemos o esporte enquanto um fenômeno sócio-cultural cada vez
mais voltado para os contornos de uma mercadoria com fins lucrativos em busca
de uma fatia do mercado que não corresponde, necessariamente, aos profissio-
nais dos esportes da natureza.

                 O turismo, o ócio, a natureza, o esporte, a aventura, os relacio-
                 namentos [...] unindo esses conceitos encontramos um mix atra-
                 tivo de um setor emergente, oferecido por uma rede de empresas
                 com um novo estilo de gestão, de acordo com as novas exigên-
                 cias consumistas, que tentam oferecer satisfações seletivas para
                 um setor crescente da população, ávido por experiências físicas
                 emocionantes, insólitas e individualizadas, na companhia de seus
                 amigos e em contato com a natureza, saciando as necessidades
                 sociais e pessoais. (Betrán, 2003, p. 159)

  Para ilustrar o aspecto da divulgação e espetacularização dos esportes da
natureza, podemos recuperar a pesquisa de Mauro Betti (1998), referente a 107
horas de gravação de um canal de TV por assinatura com 24 horas de transmissão
exclusiva de esporte (Sportv - canal da Globosat), que apresentou como resulta-
do os programas dedicados aos “esportes radicais” com a melhor porcentagem
(21,5%) em termos de tempo de exibição na programação total.

  Também constatamos no nosso estudo que a evolução tecnológica tem cria-
do materiais e inventos, como o parapente e a asa delta que nos permite voar,
embarcações mais rápidas que permitem a prática do Rafting, hidrospeed, e
aparatos mecânicos, como o mountain-bike e o sistema “4x4”, os quais nos
permitem deslocar por toda superfície terrestre. O objetivo desse desenvolvi-
mento tecnológico é a sofisticação e a perfeição dos materiais com o intuito de
melhorar a qualidade de execução, a segurança e, fundamentalmente, em conso-
nância com o processo de espetacularização, a estética desses esportes.25

   Para além dessas considerações, ao finalizar nosso estudo, gostaríamos de
deixar registrada essa nova possibilidade de leitura dos JMN – corroborando
nossa hipótese inicial – pela qual apresentamos uma análise dos esportes da
natureza que, diante do seu dinamismo e por quê não dizer do encanto que esse
contato provoca nas pessoas, enquanto praticantes ou espectadores, abre uma
frente para outras questões e futuros estudos a serem desenvolvidos a partir da
ótica das representações sociais, do imaginário social e da espetacularização
dos esportes. Contudo, a intenção de contribuição desenvolvida neste trabalho
ficou delimitada na leitura sociológica dos JMN pela possível ótica teórica de
Norbert Elias e Pierre Parlebas.

  Talvez, num próximo “vôo”, numa próxima “corredeira” ou numa próxima
“escalada” acadêmica teremos a oportunidade, e o “fôlego” necessário, para


302 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
tratarmos de outras questões que se abrem e, também, alçarmos “a terra, o ar
e as águas ”...

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]


NOTAS

26
  As Cataratas estão localizadas na fronteira de Foz do Iguaçú com a Argentina. A 15 Km de unir-se com o rio
 Paraná, o rio Iguaçú vence um desnível de terreno que se precipita em cerca de 275 quedas de 65 metros de
 altura, em média. Têm uma largura de 4,8 mil metros e uma vazão de 1,5 mil m3 por segundo.

2 Com 1460 Km de orla, o Lago de Itaipú estende-se por 160 Km do município de Foz do Iguaçú a Guaíra. O lago
 surgiu com a construção da barragem da Usina de Itaipú. É explorado turisticamente por lanchas e barcos,
 possui praias artificiais em toda sua extensão com quadras de areia, play-ground e áreas de acampamento.

3 Prazer e perigo. Revista Veja, São Paulo, 16 de julho de 2003.

4 Esportes de aventura, esportes da natureza, esportes radicais, esportes de ação, etc., são alguns termos
 utilizados pela mídia.

5 BCA – Engenharia e Consultoria, São Paulo. GFE – Associats Consultors, Barcelona; surgiu após a Olimpíada
 de Barcelona. A maioria de seus integrantes é composta de técnicos que participaram da organização dos jogos
 olímpicos de 1992 quando ocupavam cargos de responsabilidade na prefeitura da cidade. Trata-se de um
 consórcio privado, organizado como uma rede de empresas, cada uma delas especializada em um aspecto
 diferente: esporte, marketing, desenvolvimento urbano, organização de eventos complexos. MB&A – Millet.
 Biosca I Associats, Barcelona.

6 Cf. Juegos de la naturaleza de Iguaçú – fase I – Estúdio de viabilidad. Consultorias BCA. GFE. MB&A. 1995,
 p. 2-3.

7 Cf. Juegos de la naturaleza de Iguaçú – fase I – Estúdio de viabilidad. Consultorias BCA. GFE. MB&A. 1995,
 p. 4-5.

8 Cf. Juegos de la naturaleza de Iguaçú – fase I – Estúdio de viabilidad. Consultorias BCA. GFE. MB&A. 1995,
 p. 6-8.

9 Cf. Jogos Mundiais da Natureza de Iguaçú. Projeto Executivo. Curitiba, 1996.

10 Cf. JOGOS MUNDIAIS DA NATUREZA. Relatório da Coordenadoria de Esportes. Curitiba, 1998, 17 volumes.

11 Id. Ibid.

12 Cf. JOGOS MUNDIAIS DA NATUREZA. Relatório da Coordenadoria de Esportes. Curitiba, 1998, 17 volumes.

13 Cf. JOGOS MUNDIAIS DA NATUREZA. Relatório da Coordenadoria de Esportes. Curitiba, 1998, 17 volumes.

14 Cf. JOGOS MUNDIAIS DA NATUREZA. Relatório da Coordenadoria de Esportes. Curitiba, 1998, 17 volumes. Toda
 a prova de Canoagem Slalom foi realizada no Parque de Iguaçú, iniciando-se logo à jusante das Cataratas de
 Iguaçú, junto à ilha de San Martin, com chegada logo após o final das corredeiras, aproximadamente 1,5 Km
 abaixo. O objetivo do Comitê Organizador era de comprar as embarcações K1, mas como os atletas estariam
 participando do Mundial de Maratona de Três Coroas – RS, o Comitê se encarregou do transporte dos mesmos.

15 Cf. JOGOS MUNDIAIS DA NATUREZA. Relatório da Coordenadoria de Esportes. Curitiba, 1998, 17 volumes.

16 Id. Ibid.

17 Cf. JOGOS MUNDIAIS DA NATUREZA. Relatório da Coordenadoria de Esportes. Curitiba, 1998, 17 volumes.

18 Id. Ibid.

19 Id. Ibid.



                                           Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
20 Cf. JOGOS MUNDIAIS DA NATUREZA. Relatório da Coordenadoria de Esportes. Curitiba, 1998, 17 volumes.

21 SCHEMBERGER, Marco Aurélio. Jogos Mundiais da Natureza: o atleta, o aluno e moradores na Costa-Oeste do
 Paraná. Piracicaba, 2003. Dissertação de Mestrado. Universidade Metodista de Piracicaba.

22 Cf. JOGOS MUNDIAIS DA NATUREZA. Relatório da Coordenadoria de Esportes. Curitiba, 1998, 17 volumes.

23 http://www.portaldacostaoeste.com.br - 13/02/2004.

24 ELIAS, Norbert & DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa, Difel, 1992. p. 17.

25 BETRÁN, Javier Olivera. “Propuesta de una clasificación taxonómica de las actividades físicas de aventura en
 la naturaleza. Marco conceptual y análisis de los criterios elegidos”. In: Apunts. Educación Física y Desportes.
 Barcelona, no 41, 1995, p.109.




304 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2004
          Publicação original: tese


Formato da contribuição: resumo expandido da tese
Fonte: “Ecoturismo e impactos ambientais na região de Iporanga - Vale do
Ribeira- São Paulo” - Tese apresentada ao Departamento de Saúde Ambiental
da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo para obtenção do
título de Doutor em Saúde Pública.
E-mail do(s) autor(es): lgiatti@usp.br
Títulos acadêmicos principais atuais: Biólogo, Mestre e Doutor em Saúde Pública
– área de concentração Saúde Ambiental pela Faculdade de Saúde Pública da
Universidade de São Paulo. Pesquisador Visitante do Centro de Pesquisa Leônidas
& Maria Deane - Fiocruz / Amazônia. Bolsista do Programa Desenvolvimento
Científico Regional CNPq / FAPEAM.




Meio ambiente e ecoturismo na região de
Iporanga / SP: impactos ambientais por
esgotos domésticos e resíduos sólidos
Leandro Luiz Giatti


   O município de Iporanga, no Estado de São Paulo, situa-se 360 km distante da
capital paulista, na latitude S 24o e longitude W 48o, nos contrafortes da Serra de
Paranapiacaba e limita-se com os municípios paulistas de Apiaí a leste, Eldorado à
oeste, Capão Bonito e Guapiara ao norte, Barra do Turvo e Estado do Paraná ao sul
(ITESP 2000). Em uma área de 1.160,20 km2, concentra uma população de 4.562
habitantes, residindo 2.076 na zona urbana e 2.486 em área rural (IBGE 2000).

   Na sede do município de Iporanga encontra-se um sítio de grande valor histó-
rico cultural, remanescente das fases do ciclo do ouro na região agregando
também traços do Brasil escravista, constituindo patrimônio tombado pelo Con-
selho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do
Estado de São Paulo – CONDEPHAAT (GT PETAR 1980).

  Da ocupação inicial do século XVII, na região de Iporanga, restaram ruínas de
taipa ou de pedra de antigas capelas e obras de desvio de rios para lavagem de
ouro, estruturas que foram completamente abandonadas com o declínio dessa

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
atividade de mineração. Atualmente a cidade de Iporanga localiza-se na mar-
gem esquerda do Rio Ribeira de Iguape imediatamente a montante da confluên-
cia com um tributário chamado Rio Iporanga. Foi nesse curso d’água, 6 km
acima de sua foz, que verdadeiramente iniciou-se a ocupação local com a
constituição do Arraial de Santo Antonio, onde havia sido encontrado ouro de
aluvião (LINO 1978).

  Quanto à relação ser humano e ambiente, assinala-se que a ocupação da Mata
Atlântica se deu muito antes da chegada do europeu no século XVI. Após a
chegada dos colonizadores é fato notório que muitas mudanças ocorreram,
estabelecendo nova ordem quanto à exploração de recursos naturais e ocupa-
ção humana. Não obstante, deve-se reconhecer que havia interação entre os
ameríndios e os ecossistemas, certamente acarretando interferências no ambi-
ente. Porém, não é possível saber como teria sido a Mata Atlântica, se no mo-
mento do desembarque dos primeiros colonizadores fosse encontrada uma re-
gião totalmente despovoada, dúvidas quanto ao grau de alteração promovido
pelos ocupantes mais primitivos (DEAN 1995).

   De qualquer maneira, a região do Estado em que o município de Iporanga se
situa compreende expressivos espaços contínuos de floresta atlântica. Na re-
gião destacam-se os municípios de Apiaí, Barra do Turvo, Capão Bonito, Eldorado,
Guapiara, Ribeirão Grande, Iporanga, São Miguel Arcanjo e Sete Barras, integran-
tes de várias áreas protegidas situadas no sudoeste do Estado. Esses “contínuos
florestais” foram conservados por uma série de fatores como o relevo acidenta-
do, a inadequação dos solos à culturas como o do café e a fragilidade econômi-
ca da região, mantendo alguns dos principais remanescentes do bioma Mata
Atlântica (SÃO PAULO 1998).

  Embora tenha ocorrido este intenso processo de desmatamento e fragmenta-
ção, a Mata Atlântica, hoje é considerada como uma das principais florestas
tropicais do planeta. Ainda que, das mais ameaçadas de extinção, tem influência
para a maior parte da população brasileira. Em paralelo é também reconhecida
como de grande importância biológica em razão de abrigar notável biodiversidade
conseqüente de variabilidade territorial, topográfica e da umidade característica
(COSTA 1997).

  O município de Iporanga possui parcela de seu território compreendido pelo
Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira – PETAR, fato que influencia o desen-
volvimento econômico na região apresentando limitações a atividades que
possam acarretar impactos ao rico patrimônio natural da Mata Atlântica, so-
bretudo na região e entorno dessa unidade de conservação nas escarpas da
Serra de Paranapiacaba. Por conta das restrições desenvolvimentistas
estabelecidas por política conservacionista, o município de Iporanga recebe
relevante receita proveniente de ICMS ecológico a título de medida compensa-
tória (SÃO PAULO 1998).


306 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
O Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira – PETAR, criado em 1958, constitui
um dos parques pioneiros do Estado de São Paulo, compreende uma área de
35.712 hectares, integrante de um complexo de unidades de conservação admi-
nistradas pelo Instituto Florestal (SÃO PAULO 1991).

  O PETAR localiza-se nos municípios de Apiaí e Iporanga, no Vale do Ribeira,
entre as latitudes de 24o16´S e 24o 38´S (figura 1) e longitudes 48o29´O e 48o44´O
(MENEZES & GONÇALVES 2001). Apresenta cobertura vegetal característica de
Floresta Ombrófila Densa e Floresta Ombrófila Mista (SÃO PAULO 1999).




                N

       Latitude S 24o
      Longitude W 48o



Figura 1: Localização do PETAR entre os municípios de Apiaí e Iporanga, São Paulo


                                           Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Além do grande valor biológico desses remanescentes de Mata Atlântica, res-
saltam-se nesta unidade de conservação as características geológicas referen-
tes a predominância de rochas calcárias sedimentares com dobramentos promo-
vidos por movimentos tectônicos, que aliados às influências climáticas propici-
am condições favoráveis à formação de cavernas. Por esta razão, esta área é
classificada como carste, na qual a paisagem rochosa apresenta aspecto ruiniforme
e esburacado pelo tipo de rocha carbonática solúvel pela água que por ela se
infiltra devido ao elevado índice pluviométrico da floresta tropical atlântica.
Assim, ressalta-se que na região o sistema de drenagem ocorre predominante-
mente por vias subterrâneas. Particularmente, em se tratando das infiltrações,
além da formação de extensas cavidades e galerias, ocorre, por meio do
gotejamento no interior das cavernas, um processo essencialmente químico
propiciando a formação dos espeleotemas, que são deposições minerais na
forma de estalactites, estalagmites, colunas, flores de pedra e uma infinidade de
tipos, que recobrem os tetos, pisos e paredes das cavernas, fascinando visitantes
e intrigando pesquisadores (LINO 2001).

  As peculiares formações geológicas somam-se às características típicas de
Mata Atlântica, como a presença de rios encachoeirados e cobertura vegetal,
conferindo à região notáveis aspectos atrativos ao turismo de contato com a
natureza.

  Partindo de Iporanga, através da estrada SP 125 para Apiaí, após percorrer 13
km, chega-se ao Bairro da Serra, onde nas proximidades se localiza o Núcleo
Ouro Grosso; posteriormente, percorrendo-se mais 3 km no mesmo sentido,
encontra-se o Núcleo Santana, uma das principais referências do Parque.

  O Bairro da Serra e os núcleos Santana e Ouro Grosso margeiam o Rio Betari,
que das cabeceiras no município de Apiaí, fora dos domínios do PETAR, percorre
25 km até atingir a foz no Rio Ribeira de Iguape. A bacia do Rio Betari assenta-se
em vale aluvial bastante escarpado e confinado em quase toda sua extensão
(GERHARD 1999).

   O Bairro da Serra, de origem rural, apresenta aproximadamente 110 residências
e cerca de 600 moradores, onde os primeiros praticavam a agricultura, atividade
está em declínio na atualidade. No entanto, uma aglomeração de residências
junto à estrada SP-125 configura uma paisagem similar a urbana onde há luz
elétrica, telefones públicos, escola e um pequeno comércio (SILVEIRA 2001).
Esta área de ocupação humana constitui importante apoio ao maior fluxo de
visitação turística do PETAR, o núcleo Santana.

  SCALEANTE (1999) afirma que o Bairro da Serra apresentou significativo cres-
cimento populacional de 44% desde 1995, em razão da centralização da educa-
ção na escola local e do crescimento da oferta de trabalho associado ao



308 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
ecoturismo. Ressalta ainda que aos finais de semana a população dobra em
razão das flutuações associadas ao turismo.

   Frente ao crescimento populacional bem como de suas flutuações oriundas do
turismo nas adjacências do PETAR, pressupõe-se a intensificação das ameaças
ao meio ambiente natural por intermédio de impactos negativos e ameaças ao
rico patrimônio natural da região decorrentes do aumento do fluxo de visitação.
Por outro lado, também são relevantes os impactos influenciando negativamen-
te o próprio ser humano, pois a população local sofre com os reflexos da passa-
gem dos turistas, problemática que pode ser evidenciada principalmente nos
óbices relativos ao saneamento básico.

  Segundo RUSCHMANN (1997)

               “o turismo contemporâneo é um grande consumidor de natureza
               e sua evolução, nas últimas décadas, ocorreu em conseqüência
               da ´busca´ do verde e da ´fuga´ dos tumultos dos grandes conglo-
               merados urbanos pelas pessoas que tentam recuperar o equilíbrio
               psicofísico em contato com os ambientes naturais durante seu
               tempo de lazer” .

  Da mesma maneira, RABAHY (2003) afirma que a busca do contato com a
natureza tem sido uma das principais características da demanda turística con-
temporânea.

   Ressalta-se que o sucesso ou o fracasso da maioria dos empreendimentos
turísticos será determinado, em sentido amplo, de acordo com os recursos natu-
rais a estes relacionados. Para tanto, basta notar que a promoção de muitos
destes locais está vinculada a eventuais cenários paradisíacos, e de fato, difícil
seria obter sucesso de algum empreendimento dessa natureza situado às mar-
gens de um corpo d’água poluído. Contudo, observa-se que apesar de diversos
centros turísticos estarem com seu potencial ‘ecológico’ sob ameaça, ainda
atraem grandes contingentes de visitantes, principalmente devido a publicidade
ilusória e por meio da sublimação de produtos turísticos que não correspondem
à categoria em que realmente estão enquadrados, como decorrência do grau de
impactos ambientais em que se encontram (MOLINA 2001).

  Todavia, a extrema valorização dos aspectos econômicos, ambientais e
educativos do ecoturismo negligencia o planejamento de longo prazo, propici-
ando situações de turismo de massa – deslocamento de grande número de pes-
soas para os mesmos lugares – que podem acarretar efeitos negativos ao meio
ambiente natural, à cultura e aos aspectos psicosociais das comunidades
receptoras (RUSCHMANN 1997).



                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Segundo SWARBROOKE (2000) o ecoturismo parece ser o segmento mais pró-
ximo do conceito de utilização sustentável, no entanto, devido às tendências de
crescimento, pode em determinadas localidades vir a se tornar modalidade de
massa, acarretando problemática contraditória a sustentabilidade.

  Dessa forma, apesar de todos os aspectos positivos inicialmente apresentados e
de devaneios publicitários, é necessário enfatizar que em muitas situações o termo
ecoturismo pode estar à frente de atividades predatórias, causadoras de impactos
ambientais e sociais, acarretando prejuízos, principalmente às comunidades tradi-
cionais residentes nas proximidades dos atrativos que a natureza oferece.

  No contexto em que se insere, o ecoturismo praticado na região de Iporanga,
tendo como principal atrativo o Núcleo Santana no PETAR e arredores, está
sujeito a diversas ameaças, algumas das quais já evidentes, tais como o cresci-
mento desordenado da atividade, a sazonalidade da visitação, a inadequação de
serviços e infra-estrutura e as práticas destoantes dos visitantes.

  Para aqueles que visitam a região em busca de contato com a natureza, bem
como aos que observam com olhar restrito, certamente associa-se a qualidade
das atividades de ecoturismo, pura e simplesmente, à qualidade e conservação dos
atrativos naturais. Entretanto, outros aspectos podem apresentar relevância quan-
to a impactos ambientais, não sendo tão evidentes para simples observadores.

  O objetivo deste estudo foi identificar impactos ambientais decorrentes do
ecoturismo na região de Iporanga, sobretudo no tocante à poluição de cursos
d’água por esgotos domésticos e a disposição inadequada de resíduos sólidos,
considerando eventuais riscos à saúde pública oriundos da ocupação e uso do
meio ambiente.



METODOLOGIA

   Foram realizadas 24 visitas à campo entre novembro de 2001 e abril de 2003,
que representaram a principal frente de obtenção de dados para esta pesquisa,
onde procedeu-se observação das situações referentes a gestão de resíduos
sólidos e a coleta de amostras de água proveniente de rios e córregos nos
arredores do Bairro da Serra. Estas amostras foram analisadas em laboratórios
do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da Univer-
sidade de São Paulo. Referenciais teóricos e demais informações específicas
sobre a região em estudo foram obtidos por meio de pesquisa bibliográfica.

  Especificamente quanto à disposição final dos resíduos sólidos, foram realiza-
das duas visitas técnicas, em maio de 2002 e maio de 2003, a distintos locais
utilizados pela Prefeitura Municipal de Iporanga para esse fim.


310 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
A análise das amostras de água foi efetuada quanto a parâmetros microbiológicos
(coliformes totais e fecais – termotolerantes), OD (Oxigênio dissolvido) e DBO
(demanda bioquímica de oxigênio), de acordo com “Standard methods for the
examination of water and wastewater” (APHA, AWWA, WPCF 1993).

   Entre fevereiro de 2002 e março de 2003 foram realizadas quinze campanhas
de coleta de amostras de água em seis pontos distintos, quatro no curso do rio
Betary e dois em seus tributários (figura 2). Neste texto apresentam-se apenas
dados referentes aos pontos no curso do referido rio, então denominados: Ponto
1, Ponto 3, Ponto 5 e Ponto 6.




Figura 2: Pontos de coleta no rio Betarí e em córregos afluentes nas proximidades do Bairro da Serra




RESULTADOS E DISCUSSÃO

   Considerando os inúmeros fatores ambientais influentes e determinantes de
discrepâncias nos resultados de análise de qualidade de água no rio Betarí, fez-
se a opção por cálculo de medianas para melhor representar os níveis dos
parâmetros utilizados nesse estudo, tendo por base o número de coletas rea-
lizadas. Dessa forma, os valores de medianas obtidos são apresentados nos
gráficos subseqüentes com objetivo de demonstrar a evolução espacial de
parâmetros de qualidade de água ao longo do curso do Rio Betarí nas proximi-
dades do Bairro da Serra.




                                           Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Gráfico 1 - Evolução espacial de medianas de parâmetros microbiológicos no Rio Betarí - Iporanga / SP - fevereiro
de 2002 à março de 2003.




* A linha pontilhada representa o limite máximo para coliformes fecais (Resolução CONAMA 20 / 1986)




  Quanto aos parâmetros microbiológicos utilizados nesta pesquisa, esclarece-
se que os coliformes totais, que englobam microrganismos capazes de indicar
processos de depuração orgânica, estão também associados à poluição por
esgotos domésticos, enquanto que, os coliformes fecais (termotolerantes) são
microrganismos diretamente associados à poluição por esgotos domésticos uma
vez que tais bactérias são provenientes do trato digestivo de animais de sangue
quente (BRANCO 1986).

  A análise de evolução espacial de parâmetros microbiológicos a partir do
cálculo de medianas dos valores obtidos no curso do Rio Betarí, apresentada
no gráfico 1, permite observar ter havido nítida evolução dos valores de
coliformes totais a partir do ponto de coleta 3. Subseqüentemente verifica-
se que apesar do declínio de valores, no ponto 6 o valor apresentado é maior
que no ponto 1. Observando os índices de coliformes fecais nesse mesmo
gráfico identifica-se comportamento similar de valores, com exceção da
elevação dos mesmos ocorrida do ponto 5 para o ponto 6. Esse comporta-
mento dos parâmetros de coliformes totais e fecais no decurso do Rio Betarí
permite deduzir sobre a influência do lançamento de cargas poluidoras
advindas do Bairro da Serra.




312 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Gráfico 2 - Evolução espacial de medianas de Oxigênio Dissolvido no rio Betarí - Iporanga / SP - fevereiro de 2002
a março de 2003.




  O oxigênio dissolvido (OD), parâmetro indicador de qualidade de água, sofre
depleção que pode ser associada ao lançamento e degradação biológica de
poluentes orgânicos dos esgotos domésticos. No Rio Betarí, de modo geral,
observam-se elevados níveis de O2 tendo em vista a característica desse ambi-
ente lótico de forte correnteza, leito pedregoso e encachoeirado.

  A evolução espacial das medianas de oxigênio dissolvido ao longo do Rio
Betarí (gráfico 2) apresenta valor mais elevado no ponto de coleta 1, subseqüen-
te declínio no ponto 3, certamente em razão desse ponto situar-se em local de
remanso, havendo posterior estabilização da concentração nos pontos 5 e 6. O
referido comportamento desse fluido essencial aos processos biológicos na
água do Rio Betarí, também permite inferir sobre a relação desse parâmetro com
a área de influência de lançamentos de esgotos domésticos do Bairro da Serra.

Gráfico 3 - Evolução espacial de medianas de DBO no rio Betarí - Iporanga / SP - fevereiro de 2002 à março de 2003.




                                            Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                  Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
No sentido de quantificar a matéria orgânica diluída na água das amostras foi
utilizada a análise da DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio). A DBO é um
parâmetro fundamental à mensuração da poluição das águas por matéria orgâni-
ca, cuja determinação é feita por intermédio da fração biodegradável dos com-
postos presentes em uma amostra que é mantida durante 5 dias a uma tempera-
tura de 20o C; ao término desse período o cálculo do O2 consumido no processo
biológico de degradação confere quantificação ao estudo desse parâmetro
(PIVELI 2000).

   Em análise espacial observa-se a elevação da DBO do ponto 1 para o ponto 3,
posteriormente os valores apresentam declínio sucessivo nos pontos 5 e 6 (grá-
fico 3). Diante desse comportamento de valores pode-se novamente inferir so-
bre a influência deletéria de lançamentos no Bairro da Serra e a concentração de
matéria orgânica nesse remanso. Por outro lado, o posterior declínio de valores
pode ser associado às diluições decorrentes do aporte de afluentes e à elevada
capacidade de degradação biológica promovida por altos índices de oxigênio
nesse ambiente lótico.

  Sob aspectos da degradação dos recursos hídricos locais, GERHARD (1999) afir-
ma que as principais influências humanas diretas sobre o Rio Betari são os esgotos
domésticos, deposição de resíduos sólidos e áreas de agricultura e pastoreio no
Bairro da Serra, além da passagem da estrada que liga Apiaí a Iporanga.

   MORAES (2003) também indica o Bairro da Serra como principal concentração
humana nos arredores do PETAR exercendo influência na qualidade da água do
rio Betarí por meio de lançamento de esgotos e de práticas agrícolas. Enfatiza-
se que a agricultura praticada na região, mesmo que em pequena escala, contri-
bui para a eutrofização dos rios com acréscimos de fósforo oriundos do proces-
so de desmatamento.

   Contaminação por defensivos agrícolas foi demonstrada em estudo realizado
por ELFVENDAHL (2000), no qual, amostras de água, sedimentos e peixes foram
obtidas dos rios Betarí, Iporanga, Pilões e tributários, principais cursos d’água
que cortam o PETAR e possuem nascentes no município de Apiaí, drenando áreas
agrícolas onde predomina a cultura de tomate. Os resultados obtidos demons-
traram a presença de agrotóxicos em amostras de todos os pontos de coleta,
sendo que os peixes acumularam alguns dos praguicidas mais persistentes ou
metabólitos dos mesmos. Este estudo assinala o risco de que esses compostos
podem atingir níveis estressantes para os organismos aquáticos, podendo causar
efeitos deletérios ao ecossistema.

  Uma vez que Rio Betarí nasce fora da unidade de conservação, o referido
processo de poluição por agrotóxicos, mesmo ocorrendo em área externa, con-
fere riscos à biota no interior deste parque estadual. GOLUBEV (1988 apud DO-
MINGOS 2002) salienta o papel unificador de ecossistemas e assinala a relevân-


314 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
cia de atividades econômicas em ponto superior da bacia com possibilidade de
afetar parte inferior da mesma. Tais elementos indicam a necessidade de gestão
integrada entre a bacia hidrográfica do rio Betarí e o PETAR.

  Com relação à atividade mineraria, praticada anteriormente à implementação
de política preservacionista, mesmo com a paralisação da mineração de chumbo
na região, minas abandonadas como a de Furnas ainda interferem negativamente
no ambiente aquático devido à lixiviação de metais pesados que ocorre a partir
das leiras incorretamente dispostas (MORAES & MOLANDER 1999). De acordo
com a CETESB (1991 apud MOARES & MOLANDER 1999) a análise de sedimentos
coletados no baixo Rio Furnas e em trecho desse curso d’água próximo a antiga
mineração de mesmo nome, apresentou concentrações de arsênico, mercúrio,
chumbo e zinco muito superiores do que os limites recomendados pela legisla-
ção para a preservação da vida aquática. Vale destacar que o Rio Furnas deságua
no Rio Betarí na altura do Núcleo Santana.

  Não obstante, é considerável o risco de impactos aos ecossistemas epígeos na
região estudada em decorrência de quaisquer processos de poluição de solo e de
recursos hídricos superficiais. Assinala-se que os aqüíferos cársticos, por moti-
vo da rápida infiltração, baixa capacidade de filtragem e fluxos rápidos, tornam-
se vulneráveis a processos de poluição oriundos de ocupação do solo sem
planejamento adequado (AYUB 1998).

  Com relação aos resíduos sólidos, inicialmente quanto à gestão, verificou-se
que no Núcleo Santana existiam tambores onde estes eram acondicionados para
serem coletado semanalmente por caminhão da Prefeitura Municipal de Iporanga.
Embora ocorressem complicações com excesso de resíduos em feriados prolon-
gados, essa questão parecia não causar grande impacto no interior desse núcleo,
sendo possível verificar que raramente se encontrava algum resíduo nas trilhas do
parque, fato que também demonstrava adequada conduta de monitores ambientais
(guias de ecoturismo) e dos próprios turistas que freqüentavam esta unidade de
conservação. Funcionários do parque freqüentemente separavam latas de alumí-
nio diretamente dos tambores antes que ocorresse coleta por caminhão da prefei-
tura, esse fato se dava em decorrência do elevado preço desse material reciclável.

  No Bairro da Serra também ocorria devida coleta de resíduos sólidos semanal-
mente, dessa maneira, existia a possibilidade de acondicionar os resíduos do-
mésticos em sacos plásticos e posteriormente em tambores em pontos atendi-
dos por coleta. Entretanto, alguns moradores possuíam domicílios distantes dos
pontos atendidos por caminhão de coleta da Prefeitura Municipal e acabavam
por enterrar ou queimar os resíduos sólidos ali gerados. Essa incorreta disposi-
ção ocorria usualmente na margem esquerda do Rio Betarí, área em parte perten-
cente ao parque que não era atendida pela visita do caminhão de coleta de lixo,
da mesma forma como o serviço de abastecimento de água da SABESP não
contemplava esses domicílios.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Mesmo com a regularidade de coleta dos resíduos nas localidades estudadas,
aqueles gerados no município eram dispostos de maneira indevida por parte da
Prefeitura Municipal de Iporanga. Em visita técnica em maio de 2002 verificou-se
a disposição irregular de resíduos sólidos no lixão de Iporanga nas proximidades
do Km 7 da Rodovia que liga Iporanga à Barra do Turvo, à beira de afluente do Rio
Ribeira de Iguape. Nesse local constatou-se a presença de rejeitos associados às
práticas turísticas realizadas na região, como grande número de pilhas, pares de
tênis, restos de capacetes plásticos e resíduos de carbureteiras (aparato utiliza-
do por exploradores de cavernas para iluminação). Nessa localidade também foi
possível observar a presença de animais se alimentando dos resíduos orgânicos
dispostos a céu aberto, como cães e porcos, os últimos sendo engordados com
lixo afim de comercialização da sua carne.

   Em posterior visita a este mesmo local, em maio de 2003, verificou-se a
desativação e cobertura desses resíduos sólidos com terra. Nessa ocasião ocor-
reu a visita ao novo e então chamado “aterro municipal”, situado na estrada que
liga Iporanga à portaria Casa de Pedra do PETAR, onde os resíduos eram lançados
em valas e queimado, para posterior cobertura com terra, manejo inadequado
que acarretava impactos ambientais pela liberação de gases tóxicos e possível
contaminação de lençol freático.

   Embora a coleta realizada no Núcleo Santana e no Bairro da Serra configurasse
equacionamento local do problema dos resíduos sólidos, ressalta-se o caráter
de externalização desse impacto ambiental, uma vez que os mesmos eram reco-
lhidos e encaminhados à local que não atendia exigências técnicas adequadas de
aterro sanitário.

  Em primeira visita técnica, o lixão a céu aberto verificado à margem de tribu-
tário do Rio Ribeira de Iguape denotou total inoperância de medidas adequadas à
disposição de resíduos sólidos. A presença de animais se alimentando desses
materiais, inclusive os suínos com a finalidade de engorda para comercialização
de carne, indicou risco de transmissão de zoonoses (ROUQUAYROL et al 1999).

  No caso da disposição de resíduos urbanos a céu aberto, surgem inconvenien-
tes relacionados ao bem estar por meio da liberação de gases como mercaptanas
e gás sulfídrico, causadores de odores desagradáveis oriundos da degradação
biológica anaeróbia da matéria orgânica ali contida (AKAOUI 1999).

   O posterior procedimento quanto a esse sítio de disposição a céu aberto não
caracterizou adequada remediação do ambiente degradado. Na verdade, o fato
de efetuar simples cobertura dos resíduos com camada de solo apenas reduziu o
impacto visual e imediata identificação da degradação. Certamente, essa foi a
alternativa encontrada pelos administradores do lixão para encerrar a disposi-
ção incorreta até então praticada e dessa maneira iniciar a disposição em outra
localidade, então denominada “aterro”.


316 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Os procedimentos adotados nesse chamado “aterro” certamente baseavam-
se em critérios técnicos estabelecidos para aterro controlado, técnica funda-
mentada em princípios de engenharia que objetiva confinar os resíduos cobrin-
do-os com material inerte (geralmente terra) (AKAOUI 1999). Todavia, observou-
se em visita técnica que no “aterro” de Iporanga não se realizava cobertura
diária dos resíduos.

  Dentre os dois modelos adotados para a disposição final de resíduos sólidos
ambos apresentaram-se insatisfatórios sob o ponto de vista ambiental e sanitário.

  Diante das condições irregulares de disposição então observadas nesse municí-
pio, os resíduos sólidos contendo agentes biológicos patogênicos podem prejudi-
car o ser humano por via direta ou indireta (MOTA 1999). Ressalta-se que em
estudos epidemiológicos, esses resíduos são componentes que não podem ser
desprezados, sendo que suas influências ocorrem, principalmente, por vias indire-
tas, facilitando ou possibilitando a ação de múltiplos fatores, os quais acarretam
efeitos inconvenientes à saúde e ao bem estar da comunidade (FORATTINI 1973).

  Com os restos orgânicos em geral ocorre contaminação por grande variedade
de bactérias potencialmente patogênicas (como estreptococos, estafilococos,
bacilos do tétano, salmonelas, etc.), dentre outros microrganismos nocivos que
podem oferecer riscos às pessoas em contato direto com esses materiais. Por
outro lado, as pragas que proliferam em meio a esses resíduos como baratas,
moscas e ratos agem como vetores possibilitando aos microrganismos
patogênicos atingir o ser humano indiretamente. Outras vias indiretas com que
os resíduos sólidos colocam em risco a saúde pública tratam-se da contamina-
ção do solo, da água e do ar (FELLENBERG 1980).

   Além da identificação dos problemas de disposição final irregular de resíduos
sólidos em Iporanga, é relevante acrescentar quanto a influência do fluxo turís-
tico no aumento do descarte de resíduos sólidos.

   Dessa forma, a flutuação populacional advinda do turismo na região traz con-
sigo aumento considerável do consumo, principalmente de produtos industriali-
zados, geradores de grande quantidade e variedade de embalagens. Constata-se
que é significativa a geração sazonal de resíduos sólidos em atividades turísti-
cas, assim como, a preocupação com o descarte desses rejeitos em áreas de
proteção ambiental começa a se tornar uma constante em muitos países
(NICOLETTI 2002).

  O histórico de ocupação e a economia predominante no Bairro da Serra permi-
tem inferir sobre o baixo consumo de produtos industrializados dentre os mora-
dores locais. Da mesma forma, o reaproveitamento é prática esperada dentre
essa população de tradição rural. Por outro lado, na região do PETAR, têm-se


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
turistas vindos de grandes cidades trazendo consigo hábitos de consumo muito
aquém dos praticados no local, gerando quantidade e variedade de resíduos que
superam os padrões de consumo da região.



CONSIDERAÇÕES FINAIS

   Frente a precariedade do saneamento básico local, fica evidente que a tendên-
cia de massificação do turismo favorece o comprometimento da qualidade ou
mesmo inviabiliza o rio Betarí em sua notável característica de atrativo turístico.
Verifica-se, em virtude das condições preponderantes, que existem grandes facili-
dades da perpetuação de ciclos de transmissão de doenças parasitárias intestinais
e demais moléstias de veiculação hídrica. Essa situação de risco observada no
estudo e demonstrada por vasta bibliografia, coloca os moradores locais, sobre-
tudo as crianças, em risco de contrair doenças infecciosas, havendo tendência
para elevadas prevalências entre a população do Bairro da Serra. Essa questão de
saúde pública é de difícil equacionamento sem que ocorram melhorias no sanea-
mento e processos de educação em saúde. O atendimento clínico e a medicação
não são suficientes, pois o ambiente contaminado e os hábitos dos moradores
tendem a incrementar a ocorrência de novas e sistemáticas infecções.

   As condições em que os resíduos sólidos do Núcleo Santana e do Bairro da
Serra, na época do estudo, eram manejados indicam a quase solução desta
problemática em esfera local. Todavia, as condenáveis práticas de disposição
final desses rejeitos, com o envio para localidades distantes das rotas turísticas,
denotam a externalização dos impactos ambientais e possibilitam o “esqueci-
mento” do problema.

  Tendo por base o histórico e tradições de ocupação humana e utilização de
recursos naturais na região, se por um lado o ecoturismo consiste de opção mais
adequada à conservação do que atividades extrativistas outrora praticadas, por
outro lado, demais problemas como a poluição por esgotos domésticos, a gera-
ção e disposição final de resíduos sólidos constituem elementos negativos do
desenvolvimento dessa nova alternativa econômica.

  Diante dessa realidade constata-se uma contradição no sentido de que a busca
de contato com a natureza no crescente ecoturismo é capaz de acarretar a
degradação do patrimônio natural na carência de adequada gestão e planeja-
mento para o desenvolvimento de atividades turísticas.

  Apesar de haver louváveis definições, o emprego do termo ecoturismo não
garante o exercício de atividades plenamente sustentáveis. Certamente, diante
da problemática verificada nesse estudo, o termo ecoturismo acaba por contri-
buir para “ocultar” impactos ambientais relevantes.



318 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
O grandioso valor biológico característico da região, o relevo, o clima, as
peculiaridades das cavernas e as particularidades da ocupação humana e pres-
são por uso do solo e dos recursos naturais, são fatores que requerem condições
específicas de manejo e conservação dos recursos naturais, com pertinente
consideração das atividades que podem ser praticadas em áreas de entorno e
devida inserção em políticas mais abrangentes, em concordância com as demais
unidades de conservação que integram o expressivo fragmento do bioma Mata
Atlântica do Vale do Ribeira.

  Assim, outro aspecto relevante a ser integrado no manejo deste valioso
patrimônio natural consiste da necessidade de adequar o uso do solo nas bacias
hidrográficas locais com as diretrizes preservacionistas ou conservacionistas
preponderantes. Ressalta-se o risco de desequilíbrio ecológico nos ambientes
aquáticos no interior da unidade de conservação em razão do uso de agrotóxicos
em áreas externas ao parque.

   Sendo possível à consideração sobre o interesse de conservar o patrimônio
natural deste parque estadual por meio de adequados critérios de visitação e
apropriadas condutas por parte de visitantes, tem-se que problemas como dos
esgotos e dos resíduos sólidos, também inerentes ao desenvolvimento turístico,
tornam-se questões marginais que muitas vezes não despertam o interesse pú-
blico da mesma maneira que a suposta degradação dos atrativos no interior da
unidade de conservação. Nesse sentido, é compreensível que a conscientização
e comprometimento de gestores, de moradores locais, de monitores ambientais,
de demais pessoas envolvidas profissionalmente com o ecoturismo e dos própri-
os ecoturistas, sejam fundamentais para reverter essa situação de degradação
ambiental e de risco à saúde pública.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]




                                           Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Ano: 2004
         Publicação original: anais


Formato da contribuição: texto completo
Fonte: Anais do XVI Encontro Nacional de Recreação e Lazer - ENAREL, 2004,
Salvador-BA. XVI ENAREL - Lazer como Cultura: o desafio da Inclusão.
Salvador: Sistema FIEB/SESI, 2004. v. 16. p. 18.4-18.4.
E-mail do(s) autor(es): mirleide@superig.com.br ; tsampaio@unimep.br
Títulos acadêmicos principais atuais: MIRLEIDE CHAAR BAHIA – Graduada em
Educação Física e Mestre em Educação Física pela Universidade Metodista de
Piracicaba – UNIMEP; Pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Lazer – GPL/ UNIMEP;
Coordenadora do sub-grupo “Lazer e Meio Ambiente” do GPL; TÂNIA MARA
VIEIRA SAMPAIO - Graduada em Pedagogia e Doutora em Ciências da Religião
pela UMESP desde 1997. Docente no Mestrado de Educação Física da UNIMEP na
linha de pesquisa “Corporeidade e Lazer”.




Lazer e esportes na natureza:
impactos sócio-ambientais
Mirleide Chaar Bahia
Tânia Mara Vieira Sampaio


   O processo de industrialização, típico de sociedades capitalistas, e a
supervalorização do progresso técnico-científico vêm cada vez mais cau-
sando um distanciamento progressivo e contínuo na relação ser humano-
natureza, o que reflete nas práticas cotidianas das pessoas e, mais especi-
ficamente, em atividades motoras, esportivas e de lazer relacionadas à
natureza.

  Para Tubino (1994, p. 24), “a impressão que se tem é que esta chamada para
assuntos ecológicos tem muita relação com a criação destas modalidades es-
portivas ligadas à natureza”. E complementa que até mesmo algumas modalida-
des mais antigas, como o montanhismo, surgem rejuvenescidas e com um núme-
ro de adeptos cada vez maior.

  Alguns meios de comunicação veiculam propagandas e programas volta-
dos exclusivamente ao incentivo e ao consumo de esportes de ação, de
aventura e ligados à natureza. Percebemos a grande e decisiva participação

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
da televisão como financiadora de competições esportivas e promotora de
profissionalismo que se faz presente atualmente nos ‘esportes radicais’,
transformando o espetáculo esportivo em um produto de consumo.
(FERNANDES, 1998, p. 103).

   Segundo Fernandes (1998, p. 96), a maioria das informações existentes acerca
do que a autora denomina de “esportes radicais” “limitam-se apenas a tratar de
técnicas ou descrições de eventos e competições ocorridas”.          É provável
que as dificuldades em situar conceitualmente tais termos, causando confusões
interpretativas, se devam ao que Parlebás (1987, p.42) cita como “uma prolifera-
ção de técnicas, métodos e práticas, cada ano surgindo novas práticas
desportivas: wind-surf, asa-delta, bicicross, hockey subaquático”. E acrescenta:
“nesta proliferação, a Educação Física se fragmenta até o infinito, é vítima de
modas fugitivas e perde toda a unidade”.

  Muitos eventos se destacam com a perspectiva de colocar em evidência a
relação esporte-natureza; em um deles, os “Jogos Mundiais da Natureza”, “a
idéia principal é a de que não deve haver esportes “urbanos”, nem esportes do
programa olímpico e nem esportes em lugares fechados onde destruiria a idéia
da natureza”. As modalidades seguintes são estabelecidas como esportes inte-
grantes da primeira edição dos Jogos Mundiais da Natureza: Balonismo, Pára-
quedismo, Canoagem de travessia, Rafting, Slalom, Pesca, Vela, Orientação
com Arco, Golfe, Escalada, Ciclismo, Hipismo e Triatlon (MARCHI, K. e MARCHI
JÚNIOR, 1999, p. 7).

  Sabe-se, no entanto, que algumas das modalidades descritas acima também
são classificadas como esportes radicais, por terem características que Parlebás
(1987) descreve como “atividades abertas ou de risco imprevisível”. Em estudos
de análise sobre esportes radicais na mídia, Cavalcanti e Dantas (1999) focalizam
matérias da Revista Boa Forma, de modo que uma das categorizações feitas seria
a de separar as práticas corporais realizadas em ambientes naturais daquelas
realizadas em ambientes artificiais. As práticas esportivas realizadas em ambien-
tes naturais, muitas vezes por não apresentarem sustentabilidade e respeito ao
Meio Ambiente, passam a fazer parte das preocupações atuais, como citam
Cavalcanti e Dantas (1999).

  Esse aumento das práticas corporais em ambientes naturais, porém não
significa que o enfoque dado à questão ambiental esteja crescendo de ma-
neira totalmente adequada quando a mesma é vista junto a essas práticas.
A questão da preservação ambiental não é comumente mencionada, haven-
do uma pura e simples utilização do ambiente natural, que se não é preda-
tória, tampouco é de precaução quanto aos problemas ambientais
(CAVALCANTI e DANTAS, 1999).




322 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
A utilização do meio ambiente para práticas de esportes e lazer requer pensar
nos preceitos citados por Boff (1999), centralizando argumentos como o de que
cuidar do ser (a natureza dentro-ecologia interior) é também cuidar da natureza
(ecologia social e ambiental).

               Embora diversos e advindos de tradições diferentes, alguns pre-
               ceitos éticos alimentarão um propósito comum de salvaguardar
               o planeta e assegurar as condições de desenvolvimento e co-
               evolução do ser humano rumo a formas cada vez mais coletivas,
               mais interiorizadas e espiritualizadas de realização da essência
               humana. (BOFF, 1999, p.27)

  Para o entendimento dialético sobre ser humano-esporte-lazer-natureza, faz-
se necessário compreender conceitos, classificações, categorias, ou seja, es-
miuçar as raízes de concepções justapostas e interligadas ao tema, a fim de
obter um melhor esclarecimento, não apenas em nível teórico-conceitual, mas
também de possíveis impactos que a forma não-sustentável de planejamento e
prática desses esportes é capaz de produzir no meio ambiente.



METODOLOGIA:

   A metodologia utilizada foi a bibliográfica, tendo sido efetuada por meio de
consultas a livros, revistas, artigos, anais de Encontros/Congressos, sites da
internet, entre outros (SEVERINO, 2000).



FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA:

  A perspectiva de uma vida urbana pós-industrial sobrecarregada por as-
pectos negativos do desenvolvimento desenfreado dos grandes centros
urbanos (poluição sonora, poluição ambiental, espaços de lazer inexistentes
ou mal utilizados), tem feito com que uma parcela significativa de pessoas
busque uma reaproximação com o meio ambiente através de práticas de
lazer na natureza.

 Figueiredo aponta algumas fases de relacionamento do Turismo com o Meio
Ambiente, demonstrando que através desta prática de lazer, houve um afasta-
mento e, atualmente, uma reaproximação ser humano-natureza.




                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Quadro 1: Fases de Relacionamento do Turismo com o Meio Ambiente
 1ª Fase      Revelação do         Fase pioneira, caracterizou-se pela descoberta da
                                   natureza e das comunidades receptoras. Apresenta os
              Meio Ambiente
                                   primeiros equipamentos turísticos e a busca do
                                   conhecimento e diversão.
 2ª Fase      Caracterizada        Não havia a preocupação com a proteção do meio
                                   ambiente, e foi estimulada a construção de grandes e
              pelo Turismo
                                   audaciosos equipamentos. No entanto, a natureza é
              Elitista             domesticada, mas não sofre impacto muito grande em
                                   virtude das limitações das instalações.
 3ª Fase      Modificação e        Corresponde ao turismo de massa e ocorre a partir
                                   dos anos 5], com apogeu entre 7] e ]]. A demanda
              degradação
                                   aumenta, há a saturação de locais turísticos,
              rápida               urbanização de áreas não urbanas e litorâneas. Há um
                                   domínio brutal do turismo sobre a natureza e as
                                   comunidades receptoras. Trata-se de uma fase de
                                   excessos, com crescimento desordenado, um período
                                   catastrófico para a proteção do meio ambiente.
 ]ª Fase      Reparação e          Fase na qual os gestores do turismo passam a
                                   considerar os problemas do meio ambiente, com a
              Reconciliação
                                   ocorrência maior do chamado ecoturismo ou turismo
                                   ecológico. Baseia-se e apóia-se nos conceitos de
                                   desenvolvimento sustentável em voga na sociedade.
Fonte: FIGUEIREDO (1999, p. 54).

  Assim, a crescente expansão de práticas de lazer realizadas na natureza vem
ganhando adeptos a cada dia, causando uma preocupação em relação aos pro-
cedimentos adotados neste tipo de prática, tanto em relação à utilização do
lazer enquanto “mercadoria”, quanto pelo “uso” indiscriminado e mal planejado
do meio ambiente natural.

  Não há como defender um modelo hegemônico baseado em visões andro-
cêntricas e antropocêntricas, as quais precisam, urgentemente serem superadas.
Assim como não é possível vivenciar um lazer numa ótica consumista e alienada.

  O estudo aqui proposto se alicerça numa compreensão de lazer, historicamen-
te situado, considerando o tempo e a atitude, defendido por Marcellino como:

                    Cultura entendida no seu sentido mais amplo, vivenciada,
                    consumida, ou conhecida no tempo disponível, que requer deter-
                    minadas características como a livre adesão e o prazer, propici-
                    ando condições de descanso, divertimento e desenvolvimento
                    tanto pessoal quanto social. MARCELLINO (2003, p.31)

  E possui como noção de cultura o entendimento a partir de uma concepção
antropológica “num conjunto de modos de fazer, ser, interagir e representar que,
produzidos socialmente, envolvem simbolização e, por sua vez, definem o modo
pelo qual a vida social se desenvolve” MACEDO (1979, p.35).


324 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Falar de Lazer remete a um campo amplo de possibilidades, as quais
DUMAZEDIER(1980) classifica e distingue segundo os interesses1 verificados pelas
vivências de lazer, tendo como conteúdos culturais atividades com interesses:
artísticos, intelectuais, manuais, sociais e físicos2 . O foco deste estudo tem
como referência atividades de caráter físico-esportivo no âmbito do lazer, ca-
racterizadas como “esportes de aventura”, as quais acontecem, primordialmen-
te, em meio ambiente natural.

  DUMAZEDIER (1980) também estabelece três dimensões, as quais se apresen-
tam como: prático, o conhecimento e a fruição ou assistência propiciada pelo
consumo a um espetáculo. Estando estas interligadas ao nível de envolvimento
na atividade em questão, podendo estar caracterizados como: elementar (con-
formismo), médio (criticidade) e superior (criatividade).

   A lógica do mercado estabelece um lazer e um esporte impregnados de valores
mercadológicos a serem consumidos no tempo disponível (MARCELLINO, 2002)
da população, transformando-os em um “lazer-mercadoria” e um “esporte-mer-
cadoria”, os quais fazem um “uso instrumental” da natureza. Dentro desta pers-
pectiva, é possível apontar algumas características observadas nas práticas de
esportes de aventura atualmente. Muito do que é possível perceber, remete à
análise de VEBLEN (1965) sobre sua tese defendida na obra “A Teoria da Classe
Ociosa”, na qual expõe a característica consumista e ostentatória do lazer,
traduzindo-a como “consumo conspícuo”.

  A forma de obtenção de “status” através da prática de esportes de aventura é
comumente detectada através de um “consumismo” de equipamentos esporti-
vos específicos de alto valor; a compra de vestimentas específicas e seu uso,
mesmo que as mesmas não se destinem à concreta prática do esporte; a compra
de automóveis ditos para “ecosport”.

  O “uso” da natureza também é manifestado de forma a demonstrar “status”
quanto à vinculação de termos como: “ecológico”, “ecoturismo”, “turismo eco-
lógico”, “turismo sustentável”, às práticas e comportamentos, nem sempre tão
comprometidos com tais filosofias.

   Assim, VEBLEN (1965) ao caracterizar o “ócio conspícuo”, (lazer em busca de
“status”) como forma de lazer manifestada por uma classe pecuniária (econômi-
ca) mais abastada consegue “flagrar” o consumismo eminentemente caracterís-
tico de sua época, bastante presente nos tempos modernos.

  Compreendendo-se, portanto, as dimensões sociais do esporte e as con-
cepções de Dumazedier (1980) acerca dos conteúdos culturais do lazer, é
possível situar os esportes de que trata o presente estudo na perspectiva
lúdica, de prazer e de lazer, classificados por Tubino (1994) como “esporte-


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
participação ou popular” ou mesmo, como tratam alguns autores, “Esportes
de Lazer”3 .

   Assim, a causa ecológica surge como compreensão humana de que urge uma
aproximação dialética com o meio ambiente e uma mudança de postura perante
a sociedade, o que vai ao encontro da filosofia defendida por Guattari em seu
livro “As três ecologias”.

                 Se não se trata mais – como nos períodos anteriores de luta de
                 classe ou de defesa da “prática do socialismo” – de fazer funcio-
                 nar uma ideologia de maneira unívoca, é concebível em compen-
                 sação que a nova referência “ecosófica” indique linhas de re-
                 composição das praxes humanas nos mais variados domínios (...)
                 (GUATTARI, 1990, p. 15).

        E complementa:

                 Em todas as escalas individuais e coletivas, naquilo que concerne
                 tanto à vida cotidiana quanto à reinvenção da democracia – no
                 registro do urbanismo, da criação artística, do esporte, etc. –
                 trata-se, a cada vez, de se debruçar sobre o que poderiam ser os
                 dispositivos de produção de subjetividade, indo no sentido de
                 uma re-singularização individual e/ou coletiva, ao invés de ir no
                 sentido de uma usinagem pela mídia, sinônimo de desolação e
                 desespero (GUATTARI, 1990, p. 15).

  A compreensão da lógica de Guattari sobre uma “ecosofia” tornar-se o
vetor para onde todas as práticas devam se dirigir é reforçada quando o autor
afirma que se deve somar esforços “na busca de uma reinvenção de maneiras
do SER no seio do casal, da família, do contexto urbano, do trabalho, etc.”
(1990, p. 16).

  O esporte mostra que o ser humano tem procurado dar importância a uma
relação mais profunda e comprometida com aspectos ecológicos e que tem
buscado uma aproximação mais dialética com a natureza por meio da prática de
esportes classificados com nomenclaturas diversas: esportes radicais, esportes
de ação, esportes de aventura, esportes na natureza, entre outros.

                 A impressão que se tem é que esta chamada para os assuntos
                 ecológicos tem muita relação com a criação destas modalidades
                 esportivas ligadas à natureza. Até mesmo modalidades mais anti-
                 gas, como o montanhismo, parecem rejuvenescidas e o número
                 de adeptos aumenta a cada dia. Estão surgindo também novos
                 esportes, adaptados de outros, mas agora, com a dependência de


326 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
um ambiente natural, como é o caso da corrida de orientação e o
                    “mountain-bike” (TUBINO, 1994, p. 26).

   Apesar da escassez de estudos sobre essa “nova onda”, algumas experiências
já estão sendo sistematizadas4 e o presente estudo pretende colaborar com o
enriquecimento de dados na área, com um olhar focado no “local”, apesar de
manter a percepção no “global”. Assim, as preocupações com a ação humana em
ambientes naturais serão focalizadas mediante o levantamento da quantidade de
eventos e grupos diretamente relacionados a este tipo de prática no Estado do
Pará, com a elaboração de um mapa, detalhadamente elaborado, capaz de iden-
tificar áreas de intenso “uso”. Também são levantados os impactos sócio-
ambientais de cada modalidade e alguns procedimentos conscientes , capazes
de minimizar tais impactos.



CONSIDERAÇÕES FINAIS:

  Na perspectiva de compreensão dos valores implícitos nas vivências físico-
esportivas realizadas na natureza enquanto conteúdo cultural de lazer, e do
entendimento de uma prática ecologicamente sustentável, há urgência na ado-
ção de uma postura crítico-criativa em relação a este tipo de lazer, bem como a
adoção de atitudes conscientes que possam vir ao encontro de preceitos defen-
didos pelo “Desenvolvimento Sustentável” 3 , alicerçados no tripé econômico,
ecológico e sócio-cultural.

   Assim, os estudos acadêmicos devem estar, minimamente, comprometidos
com a capacidade de rompimento de uma lógica hegemonicamente voltada ao
consumismo e ao conformismo, sendo capazes de denunciar, discutir e apontar
alternativas viáveis dentro da área de conhecimento da Educação Física.

   Desta forma, o presente estudo possuí a intenção de poder contribuir nas discus-
sões a respeito da temática, sinalizando interfaces possíveis e caminhos prováveis
a uma prática mais consciente e verdadeiramente comprometida com atitudes
crítico-criativas dentro da área específica do lazer realizado na natureza.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]


NOTAS

*Rua Alferes José Caetano 1745-Ed. Saint Paul, aptº 82- Piracicaba-SP-mirla@amazon.com.br/(19)3433-7286

* tsampaio@unimep.br/(19)34241510

5 O interesse deve ser entendido como o “conhecimento que está enraizado na sensibilidade, na cultura vivida”
 (DUMAZEDIER, 1980, p 36).



                                           Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
2 CAMARGO (1992) acrescenta ainda os interesses turísticos.

3 Jurgen Dieckert, em “Esporte de lazer: tarefa e chance para todos”, defende tal nomenclatura. Além do referido
 autor, Pierre Parlebás, em “Perspectivas para uma educação física moderna”, discute a configuração de uma
 ciência da ação motriz, destacando os campos de investigação, formação e intervenção, sendo que neste
 último inclui o “esporte de lazer” (MARCELLINO, 2003, p. 92). Gaya, Campos e Balbinotte (2000, p. 113)
 também utilizam o termo “Desporto de Lazer”.

4 Ver a obra “Juventude, lazer e esportes radicais” de Ricardo Uvinha, e a tese de doutorado da profª Vera Lúcia
 de Menezes Costa: “Esportes de aventura e risco na montanha: uma trajetória de jogo com limites e incertezas”;
 Heloísa Turini Bruhs, em suas obras, tem abordado temáticas de meio ambiente e lazer.




328 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2004
          Publicação original: artigo em periódico nacional


Formato da contribuição: texto resumido
Fonte: Revista Motrivivência no 22, publicada pela Editora da UFSC
(Florianópolis - SC), em junho de 2004.
E-mail do(s) autor(es): sandovalvillaverde@hotmail.com
Títulos acadêmicos principais atuais: Mestre e Doutor em Educação Física/Estudos
do Lazer (UNICAMP), docente da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte e
membro do GTT Recreação/Lazer do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte.




Subjetividade, amizade e montanhismo:
potencialidades das experiências de
lazer e aventura na natureza
Sandoval Villaverde Monteiro



                                 Como explicar a profusão de formas de sociabili-
                                 dade que acompanham o choque da modernidade?
                                 [...] As solidariedades e grupos que emergem de-
                                 pois de dois séculos de modernidade já não estão
                                 unidos pelos laços arcaicos ou ideológicos. Pro-
                                 curam uma existência própria. Compõem-se, de-
                                 compõem-se e recompõem-se, num movimento
                                 incessantemente inacabado...

                                 Duvignaud (2000)

   A intenção deste texto é partilhar algumas considerações sobre os temas
anunciados em seu título, tomando como referência estudos em nível de douto-
rado1 . O objetivo principal consiste em problematizar as práticas corporais
vivenciadas como lazer e aventura em ambientes naturais, especialmente bus-
cando pensá-las no contexto das formas contemporâneas de sociabilidade e
processos de subjetivação, indagando sobre os liames sociais suscitados a partir
da relação com tais práticas. As práticas enfocadas foram àquelas vinculadas ao
montanhismo (escalada em rocha, caminhadas em trilhas, etc.) Tratou-se de


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
abordar alguns aspectos relevantes destas experiências lúdicas e de sua vivência
pelos indivíduos, relacionando-os a processos contemporâneos de subjetivação
e formas de sociabilidade, especialmente considerando as relações de amizade.

  Num primeiro momento o texto busca acercar-se da questão central colocada
para o estudo, apontando alguns aspectos que demonstram a relevância e a
atualidade da discussão sobre subjetividade e formas de sociabilidade, especial-
mente considerando as relações de amizade. Esta discussão é aproximada so-
bretudo ao contexto das práticas corporais de aventura na natureza, de forma
especial as práticas relacionadas ao montanhismo.

  Num segundo momento são apresentados os procedimentos metodológicos
adotados para o estudo, buscando oferecer alguns elementos da abordagem
etnográfica que perpassou todo o processo da pesquisa. Aqui também são des-
tacados os principais aspectos que marcaram minha aproximação e convivência
com os grupos estudados.

  Por fim, são destacados os principais aspectos suscitados pela pesquisa. Estes
aspectos estão estreitamente relacionados à questão central colocada para o
estudo e são provenientes tanto do referencial teórico adotado quanto dos
dados coletados com a pesquisa de campo.



CERCANDO A QUESTÃO NORTEADORA DO ESTUDO

   Alguns indícios dão conta de demonstrar a relevância da problematização da
subjetividade e das formas de sociabilidade, especialmente considerando o mo-
mento contemporâneo, farto em mutações de variados tipos e na profusão de
cenários inusitados. Como vem sendo largamente discutido por significativos
segmentos da produção teórica contemporânea, temos testemunhado impor-
tantes transformações na vida humana nos últimos séculos, as quais se intensi-
ficaram ainda mais nas últimas décadas, desencadeando novas e complexas
configurações na relação dos indivíduos consigo próprio, com os outros e com
a natureza.

   De acordo com boa parte das vertentes de análise da contemporaneidade, é a
partir das décadas de sessenta e setenta que são percebidas de forma mais
enfática uma série de transformações culturais, tecnológicas, econômicas e
ideológicas, atingindo de forma desigual as sociedades e expressando-se de
forma mais vigorosa nas sociedades economicamente mais avançadas. Essas
transformações inauguram a gradual passagem de uma sociedade industrial a
uma sociedade de serviços, assim como desencadeia mutações de variados
tipos, com conseqüências sem precedentes seja na esfera do trabalho ou do
não-trabalho, seja na experiência do tempo e do espaço.



330 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Os novos cenários produzidos por tais mudanças apontam também, e inevita-
velmente, para novas experiências do sujeito, abrindo um espaço fecundo para a
contemporânea tematização da problemática da subjetividade2 , especialmente
considerando autores como Giddens (1991, 1993, 1997, 2002), Beck (1997), Lash
(1997), Foucault (1985, 1994a, 1994b, 1998), Ortega (1997, 1998, 1999, 2000,
2002), Guattari e Rolnik (1986), Rolnik (1997a, 1997b), entre outros. Emerge,
dessa forma, todo um cenário de questionamentos sobre os modos contemporâ-
neos de subjetivação, incluindo a problematização da amizade, entendida como
forma de subjetivação coletiva. Tais questionamentos versam sobre como nos
aproximarmos de nossa experiência de sujeito, de relacionamento com os ou-
tros e conosco mesmos.

  Como discute Giddens (2002), as transformações que conhecem seu ápice no
atual estágio da modernidade não encontram precedentes na história das socie-
dades. Dado o extremo dinamismo da modernidade, especialmente em sua fase
atual, estas transformações não somente alteram radicalmente a vida social
cotidiana, mas também afetam os aspectos mais pessoais e íntimos da existência
humana. Este contexto de mudanças, demonstra o autor, abre espaço para toda
uma reconfiguração nos modos de autoconstituição dos sujeitos, assim como
na forma e dinâmica dos relacionamentos interpessoais contemporâneos.

  Os processos atuais de modernização e individuação característicos do mo-
mento contemporâneo, de acordo com Beck (1997), levam a uma reconfiguração
e a um deslocamento das formas sociais historicamente prescritas, tais como a
família, o matrimônio e o trabalho, abrindo espaço para a experimentação de
novos vínculos. Como conseqüência dessas tendências de desprendimento e
individualização3 , o indivíduo teria a possibilidade de escolher entre uma rede de
relações sociais, da qual ele mesmo tende a ser o próprio arquiteto, possibilitan-
do a experimentação de diferentes formas de existência e laços de sociabilidade.

  Embora não compartilhe do mesmo otimismo de Beck, Rolnik (1997a, p. 19)
aponta também um quadro de mudanças, afirmando que as subjetividades con-
temporâneas, independente da sua morada, tendem a ser povoadas por uma
profusão cambiante de universos, uma “mestiçagem de forças”, as quais delinei-
am “cartografias mutáveis” e colocam em cheque seus contornos habituais. Isto
ocorre numa realidade onde a globalização da economia e os avanços
tecnológicos, especialmente a mídia eletrônica, aproximam universos das mais
variadas espécies em qualquer parte do mundo, numa variabilidade e numa
densificação cada vez maiores.

  É neste contexto mais amplo de discussão que se insere a reflexão sobre a
experiência de lazer, especialmente as práticas de aventura na natureza. No
mundo contemporâneo - marcado pelo dinamismo da reflexividade e das trans-
formações no tempo e no espaço, pelo fulcro da informação/comunicação e
pela importante interconexão entre sistemas globais e o próprio sujeito - não é

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             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
de admirar que o fenômeno do lazer apresente uma incontestável visibilidade.
Tal cenário apresenta para a vida humana inúmeras contradições e tipos de
opressão, muito embora, paradoxalmente, possibilita novos espaços de
contrapontos e reapropriação. Isto parece fazer da vida cotidiana, e
consequentemente da vivência do lazer, um campo de experiências e ações
humanas tanto rico quanto ambivalente.

   Sem querer voltar a considerações conceituais já feitas em outra ocasião
(Villaverde, 2003), preciso somente lembrar que associo a experiência do lazer à
vivência, produção e reelaboração de cultura, num espaço-tempo conquistado
pelos sujeitos às imposições da vida no mundo, visando o pleno exercício da
humanidade, especialmente em suas expressões de liberdade e ludicidade. Exer-
cício este não constituindo-se num essencialismo abstrato, mas aproximando-
se dos processos de singularização, tal como os entende Guattari (1986), nos
quais o que se busca é a afirmação de outras maneiras de ser, outras percepções
e sensibilidades.

   É neste sentido que considero possível entender o lazer, particularmente as
práticas corporais vivenciadas na natureza, como campo de experiências huma-
nas privilegiadas junto aos processos de constituição de subjetividades, já que,
ao potencializar os aspectos anteriormente destacados, oferece uma rica possi-
bilidade de exercitar e intensificar uma relação renovada consigo próprio, com a
cultura e com a alteridade, aí incluídos os outros seres humanos e os demais
seres e elementos do planeta.

   Nesta direção, Bruhns (1997) argumenta que as experiências íntimas na relação
corpo-natureza no âmbito do lazer, expressam em algumas situações uma busca
de reconhecimento do espaço que este corpo ocupa em sua relação com o
mundo. Estas experiências, acredita a autora, podem expressar ainda um
questionamento e uma revisão de valores, assim como um encontro muito par-
ticular do ser humano consigo próprio.

   Estas asserções sobre as potencialidades da experiência do lazer são particu-
larmente férteis e próximas aos argumentos deste estudo. Nela está mais ou
menos expresso que, em algumas situações e contextos, as experiências de lazer
na natureza podem traduzir-se em um exercício reflexivo do sujeito sobre si
próprio e sobre a vida no mundo. Dela pode-se apreender ainda que este exercí-
cio potencializa uma relação diferenciada do sujeito com o próprio corpo e com
a natureza, a qual pode traduzir-se numa revisão de valores e num particular
encontro do sujeito consigo mesmo e com a alteridade.

   Minha vivência pessoal com escaladores e minha própria relação com a práti-
ca da escalada em rocha, por exemplo, permitem considerá-la bastante expres-
siva em termos de estreitamento de laços interpessoais. A forma de sociabilida-
de exercitada no contexto de tais práticas é bastante intensa, pois a relação que


332 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
se estabelece entre guia (escalador que se coloca à frente no trajeto a ser feito
na rocha) e participante (escalador ou escaladores que seguem o mesmo trajeto
feito pelo guia após a chegada deste num determinado lugar da parede de rocha)
implica confiança, comunicação, incitação recíproca e entendimento mútuos, a
fim de evitar acidentes e fazer com sucesso o trajeto pretendido. Trata-se de
cuidar de si e do outro na emoção de uma aventura compartilhada, onde os
movimentos de troca do corpo com o ambiente tendem a ser, a um só tempo,
suaves e intensos.

   Nesta prática corporal específica ligada ao montanhismo, especialmente sen-
do ela vivenciada como lazer, o que parece estar em jogo é uma composição, de
preferência sensível e criativa, do praticante com os obstáculos, com as possi-
bilidades oferecidas ao corpo pela rocha (em suas agarras, fendas, fissuras, etc.),
com os equipamentos utilizados (cordas, fitas, mosquetões, etc.) e com quem o
acompanha nesta aventura em sentido vertical.

   Mas é preciso ter presente também, sem dúvida, as contradições e paradoxos
presente no contexto das práticas de lazer e aventura na natureza como um
todo. Estas têm sido, de forma geral, fortemente incorporadas pelo mercado
esportivo e/ou turístico, este último especialmente em sua versão “ecológica”
ou “de aventura”, passando assim, a despeito de suas potencialidades e do dis-
curso ecológico que as sustentam, a reproduzir acriticamente a lógica do consu-
mo de massa, do espetáculo esportivo e da indústria do entretenimento, sobre-
tudo nesta fase da modernidade. Deve ser considerada especialmente a lógica
utilitarista e mercantil de instrumentalização da natureza, adotada muitas vezes
nas práticas etiquetadas como “ecoturísticas” e também pelo trade turístico que
as promovem e comercializam. A facilidade com que esta lógica pode aparecer
disseminada nos indivíduos e grupos que participam desses pacotes “esverdeados”
podem, em boa parte dos casos, ser um fator de empobrecimento de suas
potencialidades de reflexão, crítica e criatividade.

  Ainda assim, a existência das diversas contradições e paradoxos vinculados a
essas práticas em sua incorporação pelo mercado, seja ele turístico ou esporti-
vo, não deve invalidar o esforço de tentar perceber o que elas trazem de renova-
do e potencialmente transformador na relação do indivíduo consigo próprio e
com a alteridade. Talvez seja possível, a partir do conhecimento de tais
potencialidades, buscar com mais propriedade o exercício de condutas éticas
renovadas e também a formulação de estratégias de resistências tanto micro
como macro-políticas.

   O quadro brevemente esboçado até aqui, certamente merecedor de
aprofundamentos e considerações várias, já permite que seja apontada a indaga-
ção central que mobilizou o esforço reflexivo do estudo, assim como uma supo-
sição para uma eventual resposta. A indagação: Em que medida é possível perce-
ber na vivência coletiva de práticas corporais de lazer e aventura na natureza,

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
especialmente aquelas relacionadas à montanha (caminhada, escalada, etc.),
potencialidades para o exercício de novos processos de subjetivação e novas
formas de sociabilidade, especialmente considerando as relações de amizade? A
aposta: O envolvimento com estas práticas coletivas de lazer pode configurar-
se como uma experiência existencial fértil para o exercício de uma relação
renovada do sujeito consigo mesmo, com o outro e com a natureza, tornando
possível a busca por processos renovados de subjetivação coletiva, podendo
resultar em formas de amizade mais livres, criativas e solidárias.



O PERCURSO METODOLÓGICO: UM OLHAR ETNOGRÁFICO

  Com estes marcos de problematização e apostas, busquei num primeiro
momento, empregar uma metodologia baseada fundamentalmente na leitura
e análise de textos que tratam da temática proposta. Neste caso, pretendi-me
em diálogo com a perspectiva teórica dos autores chamados a fundamentar
este estudo.

  No entanto, parafraseando o antropólogo Clifford Geertz, ainda não me sinto
à vontade em afastar-me muito das imediações da vida social, o que me fez
inevitavelmente buscar uma referência empírica no contexto das referidas práti-
cas corporais, a qual pudesse oferecer sustentação aos argumentos desenvolvi-
dos. Neste sentido, os dados coletados da pesquisa de campo são resultantes de
observações e entrevistas com alguns adeptos de práticas corporais de lazer e
aventura na natureza, nomeadamente atividades ligadas ao montanhismo (cami-
nhada, escalada em rocha, etc.), na cidade do Rio de Janeiro. Para esta pesquisa
de campo adotei um procedimento predominantemente etnográfico na observa-
ção da realidade investigada e penso que meu convívio com o cotidiano dos
grupos e sujeitos pesquisados tenha sido bastante elucidativo. Tal experiência
foi certamente vivida de forma bastante intensa.

  Impelido por esta aproximação etnográfica, procurei guiar-me munido especi-
almente da perspectiva antropológica inaugurada por Clifford Geertz. A análise
cultural proposta por Geertz (1989, p. 38) postula um abordagem semiótica da
cultura, isto é, o entendimento da cultura como um sistema de símbolos, os quais
podem ser lidos como um texto. O entendimento semiótico da cultura, evocado
pelo autor, ecoando Max Weber, pressupõe entender os sujeitos como estando
amarrado a teias de significado, as quais são tecidas por estes mesmos sujeitos.

   Geertz (1989, p. 24) assume o conceito de cultura como sendo exatamente
estas teias e a sua análise. Neste sentido, ela se refere não à uma ciência expe-
rimental à procura de leis, mas antes a uma ciência interpretativa, à procura do
significado. Como sistema entrelaçado de símbolos interpretáveis, “a cultura
não é um poder, algo ao qual podem ser atribuídos casualmente os acontecimen-
tos sociais, os comportamentos, as instituições ou os processos; ela é antes um


334 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
contexto, algo dentro do qual eles podem ser descritos de forma inteligível, isto
é descritos com densidade”.

  Para Geertz (1989), fazer etnografia não é somente estabelecer relações, se-
lecionar informantes, transcrever textos, levantar genealogias, mapear campos,
manter um diário, e assim por diante. Não são as técnicas, as coisas e os proces-
sos determinados que definem o empreendimento etnográfico, mas o tipo de
esforço intelectual que ele representa: o risco elaborado de uma “descrição
densa”, expressão que o autor pede emprestado a Gilbert Ryle.

  A dupla tarefa da análise cultural, de acordo com Geertz, é perseguir a compre-
ensão das estruturas conceituais que os atos dos sujeitos informam, isto é, o “dito”
no discurso social, além de construir um sistema de análise em cujos termos o que
aparece como genérico a essas estruturas se destaca contra outros determinantes
provindos do comportamento humano. O esforço teórico, em etnografia, é o de
fornecer um vocabulário no qual possa tomar expressão o que o ato simbólico tem
a dizer sobre ele mesmo e sobre o papel da cultura na vida humana. O esforço
etnográfico da análise cultural, portanto, é o de “tirar grandes conclusões a partir
de fatos pequenos, mas densamente entrelaçados; apoiar amplas afirmativas so-
bre o papel da cultura na construção da vida coletiva empenhando-as exatamente
em especificações complexas” (Geertz, 1989, p. 38).

   Mas a antropologia interpretativa, ainda segundo o autor, é uma ciência na
qual o progresso se dá menos por uma perfeição de consenso do que por um
refinamento do debate. Neste contexto, “a análise cultural é intrinsecamente
incompleta e, o que é pior, quanto mais profunda, menos completa. É uma ciên-
cia estranha, cujas afirmativas mais marcantes são as que têm a base mais trêmu-
la, na qual chegar a qualquer lugar com um assunto enfocado é intensificar a
suspeita, a sua própria e a dos outros, de que você não o está encarando de
maneira correta” (Geertz, 1989, p. 39).

  Pretendendo atender aos propósitos do estudo, estive inserido na realidade
cotidiana de dois grupos envolvidos com a prática de atividades ligadas ao
montanhismo, tentando apreendê-la no fluxo do acontecer, buscando ainda os
depoimentos dos próprios sujeitos que compõem estes grupos e que vivenciam
estas atividades. Seguindo as orientações geertizianas, pude estabelecer um
convívio pessoal com alguns desses sujeitos e com as própria dinâmica de tais
grupos, nas quais as observações sistemáticas, as anotações no caderno de
campo, as fotografias e a própria vivência das atividades foram uma constante.
Num certo sentido, passei a “viver na situação em estudo”, utilizando, além dos
recursos de registro já comentados, “a introspecção e auto-análise como for-
mas adicionais de observação” (Abramo, 1979, p. 40).

  Os grupos investigados são constituídos por praticantes de atividades corpo-
rais de aventura na natureza, mais especificamente ligadas ao montanhismo,

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vinculados ao Grupo de Caminhada Alternativa de Vida e ao Centro Excursionista
Rio de Janeiro. O trabalho de campo propriamente dito, em sua fase de observa-
ções, teve início no mês de julho de 2001, com a minha participação na primeira
atividade de caminhada pelas montanhas do Rio de Janeiro, junto ao Grupo de
Caminhada Alternativa de Vida - GCAV. A partir do convívio com este grupo é que
pude estabelecer contatos com o Centro Excursionista Rio de Janeiro – CERJ, com
o qual viria a ter uma convivência ainda mais prolongada.

  Tomei conhecimento da existência do GCAV de forma bastante casual, por
ocasião da participação em um congresso no âmbito de discussões sobre lazer,
no qual era apresentado um trabalho cuja discussão central se dava a partir da
experiência daquele grupo. A partir daí vieram os contatos e a participação em
algumas de suas atividades. Foi a partir do contato com um dos membros do
GCAV que tomei conhecimento e pude me aproximar do CERJ.

   Uma maneira que encontrei de estabelecer uma relação mais estreita com o
CERJ, de forma a participar de sua dinâmica e conhecer melhor seus membros, foi
me inscrever num curso básico de montanhismo por ele oferecido, o qual se
estenderia pelos meses de setembro a novembro de 2001 e que mobilizaria
significativa parte de seus associados. A inscrição no curso tornava-me automa-
ticamente um associado do CERJ, o que me permitia uma participação mais efe-
tiva da vida social do grupo.

  Esta foi uma maneira extremamente oportuna para oferecer um rigor a mais no
que se refere ao caráter “participante” da minha observação. Dessa forma pude
me inteirar da dinâmica do clube, conhecer e observar muitos dos seus membros
antigos, assim como um grupo de quinze pessoas que, como eu, passavam a ser
novos membros do CERJ e iniciantes na prática do montanhismo.

   A fase mais intensa de observação dos sujeitos e participação nas atividades dos
grupos, especialmente o CERJ, aconteceu entre os meses de setembro e novembro
de 2001, quando pude experimentar vivências como reuniões sociais, caminhadas
leves e pesadas, escaladas em rocha de variados graus de dificuldade, acampa-
mentos e outros encontros. Após esse período, o contato com os grupos continu-
aram, passando os encontros a acontecer de forma menos intensificada.

  Num segundo momento da pesquisa de campo, entre os meses de março e abril
do ano de 2002, retomei o contato mais efetivo com o CERJ e com alguns mem-
bros do GCAV, de forma a escolher um pequeno grupo para a realização de
entrevistas semi-estruturadas, cujo roteiro buscou enfocar direta ou
tangencialmente os temas do estudo.

  Os entrevistados foram escolhidos entre membros antigos e mais novos,
totalizando um número de dez pessoas. Já próximo do nono entrevistado, as


336 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
entrevistas começaram a apresentar uma certa saturação nos dados informados,
o que me fez optar por considerar apenas estas dez entrevistas. Os membros do
GCAV foram entrevistados em setembro de 2001, enquanto que as entrevistas
com os membros do CERJ foram realizados durante o mês de abril de 2002. Em
relação aos critérios para escolha dos entrevistados, destaca-se o grau de
envolvimento dos mesmos com as atividades, além da disponibilidade para par-
ticipar das entrevistas.



ALGUNS ASPECTOS SUSCITADOS COM A PESQUISA

  Gostaria aqui de traçar algumas breves considerações, numa tentativa de sín-
tese dos principais aspectos suscitados com a pesquisa. Tais aspectos são pro-
venientes tanto do referencial teórico do estudo quanto da vida cotidiana dos
sujeitos da pesquisa, especialmente no contexto dos grupos investigados.

  Uma primeira consideração diz respeito à singularidade destes grupos. Como
demonstrou o estudo, O GCAV assume desde o início de sua criação a busca por
uma forma inovada de organização, sobretudo marcada pela não-diretividade
de suas ações. Trata-se de um agrupamento de pessoas cujo único elo a manter
sua coesão, além de seu site na Internet, é a afinidade pela prática de caminhadas
nas montanhas e florestas do Rio de Janeiro.

   São pessoas de variadas idades, segmentos sociais e estilos pessoais de com-
portamento, articuladas em torno de ações descentralizadas. Estas característi-
cas do GCAV, evidenciando um assumido traço anárquico (o próprio símbolo do
grupo é um “A” estilizado, o qual simboliza o Movimento Anarquista) em sua
dinâmica de constituição, conferem ao grupo uma peculiaridade poucas vezes
encontrada em associações ou grupos voltados à promoção de atividades de
lazer ou esporte de aventura na natureza. Não me parece exagerado enxergar no
GCAV um exemplo de fuga a uma certa padronização no âmbito de grupos com
tais finalidades. Neste sentido, este grupo tende a escapar da referência identitária
geralmente atribuída a grupos deste tipo, não deixando-se capturar num certo
“estilo radical” de comportamento e de consumo.

        Alguns indicativos autorizam afirmar mais ou menos o mesmo em rela-
ção ao CERJ. Embora tenha outras características de criação e dinâmica, mais
institucionalizadas e voltada a traços mais “tradicionais” do montanhismo, o
CERJ, ainda assim, assume características que o afastam também de tais referên-
cias voltadas aos modismos do mundo dos “esportes radicais” e a práticas
etiquetadas como “ecoturísticas”.

  Tanto o GCAV como o CERJ estão desvinculados de qualquer perspectiva empre-
sarial e de qualquer fim lucrativo em suas atividades. Isto significa que eles tendem


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             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
a não tratar e não promover suas práticas como meras mercadorias, o que os
colocam numa perspectiva diferenciada no trato com suas atividades e ações. Os
próprios sujeitos que coordenam as atividades desses grupos tendem a vivenciá-
las como lazer, como algo que tem um fim em si mesmo, sem nenhum fim
mercadológico ou grandes apelos ao consumo de modismos. Diante de tais pecu-
liaridades, tanto no contexto do CERJ como no do GCAV vislumbra-se outras pos-
sibilidades de estilos de vida e de compartilhamento de experiências, de relações
de amizade e de relação com a natureza. Estes aspectos apontam, já de saída,
elementos de diferenciação e abertura para uma outra forma de vivenciar aquelas
práticas corporais de lazer e aventura na natureza, assim como se constituem em
espaços férteis para o exercício de novas formas de ser e se relacionar.

  Os entrevistados apontam algumas nuanças importantes na experiência com
estas práticas corporais de lazer e aventura, comparando-as às modalidades
esportivas mais tradicionais. O principal componente apontado diz respeito à
mudança de perspectiva na ação do sujeito, uma vez que no lugar da competição
e da disputa (comum nas modalidades esportivas convencionais) entra o com-
ponente da solidariedade e da parceria com o outro.

  Como demonstrou a observação dos grupos e alguns dos depoimentos
coletados, o aspecto da competição, quando existe, não inclui necessariamente
a busca pela superação do outro, mas a superação dos próprios limites e medos
ao enfrentar os riscos tão presentes nas práticas do montanhismo. Nestas práti-
cas, as quais são vivenciadas como lazer pelo grupo, foi possível perceber uma
clara ausência de comparação de performances corporais, assim como o não
estabelecimento de regras rígidas.

   Acima de tudo, no contexto das práticas corporais aqui estudadas, não está
em jogo um confronto com o outro ou com a natureza, uma necessidade impe-
riosa de rendimento, obediência a regras fixas e à rigidez do tempo, ou ainda de
obter do corpo uma performance que esteja desvinculada do prazer e da harmo-
nia com o ambiente onde se realiza. Neste sentido, há uma relação mais contratual
do que de domínio ou controle em relação à natureza, algo bem próximo do que
discute Coelho dos Santos (1997). Para este autor, verificam-se consideráveis
diferenças entre as “práticas hard” (modalidades atléticas do esporte formal) e
as “práticas soft” (novas modalidades de aventura na natureza), especialmente
no que se refere à relação do praticante com o próprio corpo e com a natureza.

  Nas práticas corporais enfocadas neste estudo há uma certa intencionalidade
de interação dos sujeitos com os elementos do mundo natural, onde o desempe-
nho parece muito mais guiado pela habilidade e beleza dos gestos do que neces-
sariamente pela sua funcionalidade, mais pelo prazer na busca de novas sensa-
ções do que por sua utilidade. Estes aspectos parecem sugerir que o envolvimento
com tais práticas convida a novas ações e a uma forma diferenciada de relação
do sujeito com o próprio corpo e com a natureza.


338 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Estes aspectos podem ser aproximados também às formulações de Sant’Anna
(1999, p. 90), nas quais a “ação em curso” é discutida no âmbito das “relações de
composição”. Numa “ação em curso” já não é possível separar o sujeito que
pensa e reflete do sujeito que age, assim como coincidem reflexão e vida corpórea.
Por não se colocar fora da relação, o sujeito torna-se ao mesmo tempo pensa-
mento e ação: “a meta final coincide com o processo”.

   A vida cotidiana no contexto pesquisado parece dar lugar a formas parti-
culares de constituição de subjetividades e de relações interpessoais, arti-
culadas sobretudo pelo envolvimento com as práticas corporais de lazer
ligadas ao montanhismo. A vivência coletiva destas práticas são associa-
das sobretudo a momentos de intensificação da relação do sujeito consigo
próprio e com a alteridade, aí incluídos a natureza e os outros sujeitos que
compartilham tais momentos.

  Esta intensificação da relação consigo próprio na relação com o outro não
deixa de ser marcada pelo fulcro da reflexividade, pois, como sugerem os
discursos dos sujeitos, ali também se busca um certo questionamento de si
mesmo, uma mudanças de valores, outras maneiras de ser e de se relacionar
com o outro e com a vida. Estes sujeitos, como poderia sugerir Beck (1997),
tendem a se constituir numa interação discursiva bastante aberta, a qual não
deixa de apresentar sua complexidade. Eles parecem buscar não somente
uma mudança de valores, mas também apontam mesmo para uma certa
reinvenção do social.

  Esta interação oferece um caráter peculiar às relações interpessoais vivenciadas
a partir do convívio no grupo, especialmente no âmbito do CERJ. Os laços de
sociabilidade criados e mantidos a partir do envolvimento com aquelas práticas
corporais de lazer e aventura na natureza, giram em torno do que estas práticas
representam e do prazer que elas podem proporcionar. Nesta perspectiva, embo-
ra talvez não se possa falar estritamente aqui de “relacionamentos puros” no
sentido de Giddens (2002), tais liames sociais aproximam-se de tal noção uma
vez que não se fundamentam em nenhuma âncora externa (não estão baseadas
em outras condições externas da vida social e econômica, por exemplo) além de
uma afinidade comum por atividades ligadas ao montanhismo.

   A amizade com o outro é acima de tudo uma aproximação de crenças e
valores, e os sentimentos de proximidade revelam interesses e significações
comuns na vivência de práticas de lazer. É também neste sentido que elas são
tidas como diferenciadas em relação a relações de amizade suscitadas, por
exemplo, no ambiente de trabalho ou a partir dos vínculos mais próximos ao
círculo familiar. Trata-se de tipos de relacionamentos menos institucionalizados
e burocratizados, uma vez que, em certa medida, tendem a fugir da rigidez dos
vínculos orgânicos tradicionais, quer eles sejam vinculados ao trabalho, a reli-
gião ou façam referência às metáforas familiares.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Como foi possível constatar no discurso de alguns entrevistados, as relações
de amizades suscitadas neste contexto tendem a ser cultivadas e bastante valo-
rizadas, pois oferecem amparo sobretudo pela intensidade e emoção que é com-
partilhada nas experiências singulares de lazer vividas na montanha. Por outro
lado, elas tendem algumas vezes a extrapolar o espaço mais restrito do grupo e
a compor a vida cotidiana e o estilo daquelas pessoas, criando novas redes de
relações, muito embora a referência comum mais forte seja vivência conjunta
das práticas ligadas ao montanhismo.

   Se estes laços de sociabilidade algumas vezes “perdem” em duração ou freqüên-
cia, eles ganham em intensidade, pois as experiências vividas são dotadas de
expressiva significação para os sujeitos que a vivenciam. Elas permitem uma forma
de amizade aberta, na qual é exercitada uma relação de confiança e compromisso
com o outro, resultando em momentos singulares de emoções e desafios compar-
tilhados. Mesmo que ainda não enxerguemos em agrupamentos como o GCAV e
como o CERJ exemplos de “comunidades reflexivas” pautadas em significações
partilhadas, apontadas por Lash (1997) como uma tendência nesta fase da
modernidade, estes grupos parecem compartilhar emoções pautadas não só por
um forte apelo estético, mas também por um certo compromisso ético com a
natureza. Um exercício ético-estético talvez, especialmente entendendo a estéti-
ca no sentido de emoção compartilhada, tal como discute Maffesoli (1996).

   Na ótica deste autor, presencia-se na contemporaneidade o surgimento de
novos vínculos, surgidos a partir do partilhar de experiências e sentimentos
comuns, estabelecendo conexões entre a ética e a estética. Para Maffesoli (1998,
p. 20), assiste-se no presente a elaboração de uma aura estética, onde poderão
ser encontrados os elementos que remetem à “pulsão comunitária”, à pulsão do
“estar junto”, a qual explicaria a multiplicação e efervescência de pequenos
grupos (espécie de “tribalismo”) de redes existenciais.

   O componente de reflexividade parece ser evidenciado nas experiências
vivenciadas no contexto dos grupos investigados, já que a relação com o outro
(e também com a natureza) é encarada como uma oportunidade de aprendiza-
gem e de questionamento de si mesmo. Dessa maneira, se há sentido em falar do
sujeito como um “projeto reflexivo” (Giddens, 2002) na modernidade tardia, este
projeto parece incluir formas de subjetivação coletiva, formas de se constituir
como sujeito na relação com o outro. No contexto pesquisado, estas relações
apresentam-se fortemente pautadas por sentimentos de solidariedade, mas são
também recortadas por uma incitação recíproca peculiar, por um desafio mútuo
dos sujeitos na vivência das práticas vinculadas ao montanhismo.

  Diante de tais asserções, seria possível aproximar estes liames sociais às for-
mas de relacionamento sobre as quais refletem Foucault (1994a) e Ortega (1999,
2000, 2002). Ao se debruçar sobre a antiga estética da existência, Michel Foucault
procura a reabilitação da práxis ascética (ascese no sentido de auto-elabora-


340 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
ção) da Antigüidade, na qual, através de um minucioso trabalho de elaboração de
si mesmo, os antigos buscavam fazer de suas vidas uma obra de arte. O apelo
foucaultiano por uma forma de vida que atenda a certos critérios éticos e de
estilo (a vida como uma “obra de arte”), marcada por uma experimentação
intensa na relação do sujeito consigo mesmo e com o outro, nos remete a
instigantes reflexões.

  Foucault (1998) se refere assim a essas “artes da existência”, essas “técnicas
de si”, tão expressivas na cultura greco-romana:

               Deve-se entender com isso, práticas refletidas e voluntárias atra-
               vés das quais os homens não somente se fixam regras de conduta,
               como também procuram se transformar, modificar-se em seu ser
               singular e fazer de sua vida uma obra que seja portadora de certos
               valores estéticos e responda a certos critérios de estilo. Essas
               ‘artes da existência’, essas ‘técnicas de si’, perderam, sem dúvida,
               uma certa parte de sua importância e de sua autonomia quando,
               com o cristianismo, foram integradas no exercício de um poder
               pastoral e, mais tarde, em práticas de tipo educativo, médico ou
               psicológico (p. 15).

   A vontade de ser um sujeito moral na Antigüidade, e a respectiva estética da
existência, como discute Foucault (1994b), era sobretudo um esforço de afirma-
ção da própria liberdade. A despeito de normas de comportamento que não
deixavam de ancorar a conduta de cada um, esta afirmação da liberdade do
sujeito moral estava combinada ao compromisso em dar à sua própria vida, uma
forma na qual fosse possível o seu reconhecimento por outros e onde a própria
posteridade pudesse tê-la como exemplo. Nas palavras de Foucault (1994b, p.
731), a “elaboração da própria vida como uma obra de arte pessoal, ainda que
obedecendo a certos cânones coletivos, estava no centro, me parece, da expe-
riência moral, da vontade moral da Antigüidade...”.

  Os dois últimos volumes da História da Sexualidade, O Uso dos Prazeres e O
Cuidado de Si, constituem-se em investigações históricas sobre a ética sexual
antiga e a arte de viver entre gregos e romanos. Nestes livros Foucault parece
não fazer uma passagem clara para a atualidade, mas, juntamente com os cha-
mados “textos menores” (artigos, entrevistas, palestras) do autor, eles oferecem
importantes pistas para uma possível atualização da antiga estética da existên-
cia através da amizade.

  Mesmo considerando o contexto de discussão sobre a homossexualidade, as
respostas foucaultianas apontam para um novo e importante interesse pela ami-
zade: “...não se entra simplesmente na relação para poder chegar à consumação
sexual, o que se faz muito facilmente; mas aquilo para o que as pessoas são
polarizadas é a amizade” (Foucault, 1994a, p. 163).

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Seguindo as pistas deixadas por Foucault, o filósofo Francisco Ortega busca
desenvolver uma espécie de ontologia da amizade, buscando realçar a dimensão
agonística e inter-subjetiva do cuidado de si. Elemento de ligação entre a elabo-
ração individual e a subjetivação coletiva, a amizade é um convite à experimen-
tação de novos estilos de vida e comunidade, a qual, reabilitada, pode introduzir
movimento e fantasia nas rígidas e normatizadas relações sociais, além de pro-
porcionar uma possibilidade de pensar e repensar as limitadas e empobrecidas
formas de relacionamento existentes em nossa sociedade (Ortega, 1999).

  Em contrapartida às análises sociológicas, as reflexões foucaultianas sobre o
tema da amizade busca nela sobretudo um componente transgressivo. Em
Foucault, segundo Ortega (1999, p. 157), a amizade “não é vista como uma forma
de relação e de comunicação além das relações de poder; representa antes um
jogo agonístico e estratégico, que consiste em agir com a mínima quantidade de
domínio. Falar de amizade é falar de multiplicidade, intensidade, experimenta-
ção, desterritorialização”.

  Se Falar de amizade em Foucault é falar de multiplicidade, intensidade, expe-
rimentação e desterritorialização, pode-se também afirmar que as relações de
amizade vividas no contexto dos grupos pesquisados tendem a ser marcadas
pela experimentação e intensidade no âmbito das práticas corporais de lazer e
aventura na natureza. Tais relações de amizade apresentam-se como um tipo de
relacionamento tanto intenso quanto móvel (a mobilidade desterritorializante
de relações no contexto do GCAV é disso um exemplo!), não se pautando neces-
sariamente na igualdade e na concordância, mas num desafio mútuo, num
compartilhamento de experiências de liberdade e de risco capazes de transfor-
mar os parceiros envolvidos. O amigo não é uma adesão incondicional, mas
alguém com quem se constrói relações de confiança e desafios recíprocos (es-
pecialmente no contexto do CERJ), num processo que inclui autotransformação
e aperfeiçoamento.

  Diante destas considerações, seria possível, a propósito da indagação inicial
do estudo, sustentar o argumento sob o qual o envolvimento com estas práticas
coletivas de lazer e aventura na natureza podem, em algumas situações, ser
entendidas como experiências existenciais férteis para o exercício de uma rela-
ção renovada do sujeito consigo mesmo, com o outro e com a natureza. Este
exercício faculta aos sujeitos envolvidos a possibilidade de vivenciar processos
renovados de subjetivação coletiva, podendo resultar em formas de amizade
mais solidárias, livres e criativas.

  Estas considerações obviamente levam em conta o contexto bastante restrito
a partir do qual são formuladas, basicamente envolvendo apenas dois grupos
relacionados com práticas corporais no âmbito do montanhismo. De qualquer
modo, não há aqui nenhuma grande pretensão generalizante em relação aos
dados e os argumentos apresentados. É possível que talvez nem tenhamos che-


342 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
gado a “grandes conclusões a partir de fatos pequenos densamente entrelaça-
dos”, como nos convida Geertz (1989).

  Até mesmo os atributos naturais invejáveis da cidade do Rio de Janeiro, com-
binando esplendorosamente praias e montanhas (vivenciadas pela população, a
despeito do quadro de violência e desigualdade social existente), devesse ser
considerado como fatores “facilitadores” de tais sensibilidades entre os sujeitos
da pesquisa. Coincidência ou não, a cidade do Rio é eleita por psicólogos da
Universidade da Califórnia, no ano de 2003, a “cidade mais amigável do mundo”,
ressaltando alguns aspectos surgidos em sua pesquisa internacional, tais como
solidariedade, gentileza, amizade e o bom humor carioca4 .

   Em todo caso, a realidade investigada não deixa de nos apontar aspectos
significativos sobre a experiência de lazer, especialmente aquelas relacionadas
a práticas corporais de aventura na montanha. Embora estes aspectos digam
respeito ao contexto dos grupos pesquisados, nada nos impede de supor a ocor-
rência de experiências semelhantes noutros contextos. Da mesma forma, não há
nada que nos impeça de exercitar o anseio de que tais experiências não perma-
neçam limitadas a pequenos grupos.

  Se este fluir da imaginação nos é permitido em um trabalho acadêmico, certa-
mente inspirando-se nas experiências vislumbradas no contexto da pesquisa, é a
partir desses pequenos lampejos de invenção lúdica de si mesmo que talvez seja
possível imaginar um exercício ético-estético dos sujeitos, sobretudo a partir
dessas experiências de lazer. Ainda que o pensemos emanando da experiência de
lazer, este exercício não deixaria de ser estendido às várias dimensões da vida,
especialmente se entendemos a ética no sentido foucaultiano, antes de mais
nada como uma intensificação da relação consigo próprio, como uma constante
invenção e reinvenção de si mesmo, a qual se dá na relação com o outro.

  A partir das pequenas “brechas” e resistências vislumbradas no lazer vivenciado
pelos grupos aqui estudados, talvez seja possível imaginar uma prática de si
exercitada a partir do lazer e da relação com os outros, a qual possa constituir o
sujeito como arquiteto de suas ações intencionais, sobretudo abrindo caminhos
para processos de singularização (Guattari, 1986), isto é, para a problematização
daquilo que se é, para o tensionamento da própria subjetividade em busca de
outras sensibilidades, outras percepções, outras maneiras de ser.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]


NOTAS

5 MONTEIRO, Sandoval V. Modernidade, formas de subjetivação e amizade: potencialidades das experiências de
 lazer e aventura na natureza. Campinas, 2003, 143 f. Tese (Doutorado em Educação Física/Estudos do Lazer).
 Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas.

                                           Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
2 Guattari faz importantes distinções entre subjetividade e individualidade, tentando esquivar-se de quaisquer
 tendências psicologizantes, idealistas ou naturalistas da subjetividade. Em suas palavras: “seria conveniente
 dissociar radicalmente os conceitos de indivíduo e subjetividade. Para mim, os indivíduos são o resultado de
 uma produção de massa. O indivíduo é serializado, registrado, modelado [...] A subjetividade não é passível de
 totalização ou de centralização no indivíduo. Uma coisa é a individuação do corpo. Outra é a multiplicidade dos
 agenciamentos da subjetivação: a subjetividade é essencialmente fabricada e modelada no registro social”
 (Guattari e Rolnik, 1996, p. 31 e 33).

3 Para Beck (1997), “individualização” não tem o sentido de atomização, isolamento ou individualismo, mas
 toma um sentido até oposto de “forma social”.

4 Segundo reportagem do Jornal Nacional (Rede Globo), levada ao ar no dia 19/06/2003.




344 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2004
         Publicação original: dissertação


Formato da contribuição: texto resumido
Fonte: Desenvolvimento de um Instrumento de Identificação de Impactos
Ambientais em Práticas Esportivas na Natureza (IMPAC-AMBES).
Orientador: Manoel José Gomes Tubino.
E-mail do(s) autor(es): valdovieira@yahoo.com.br
Títulos acadêmicos principais atuais: Doutorando em Psicologia Social, Mestre
em Ciência da Motricidade Humana, Licenciado em Educação Física, Bacharel
em Estatística.




Desenvolvimento de um instrumento
de identificação de impactos ambientais
em práticas esportivas na natureza
(IMPAC-AMBES)
Valdo Vieira



   O padrão de desenvolvimento da Humanidade trouxe muitos avanços em
todas as áreas do conhecimento. Pode-se citar o aumento da expectativa
de vida, conquistas na medicina genética, a Internet facilitando o acesso a
informações, novos aparelhos e equipamentos que trouxeram conforto e
comodidade, como o automóvel, a televisão, o telefone celular e o ar
condicionado. Em contrapartida pressionou os recursos naturais de tal
maneira que comprometeu a qualidade de vida no planeta e colocou em
risco a própria existência do Homem. Centrado no capital, e em função do
desenvolvimento tecnológico e industrial, o modelo de produção e consu-
mo desconsiderou as variáveis sociais e ambientais, resultando em níveis
intoleráveis de poluição atmosférica nos centros urbanos, espécies ani-
mais e vegetais extintas, recursos naturais esgotados, degradação de
ecossistemas, alteração do clima e deterioração dos sistemas sociais. Isto
levou o Homem a perceber que os recursos naturais não eram infinitos nem
inesgotáveis e que o modelo de desenvolvimento adotado trouxe também,
a reboque da degradação ambiental, a fome e a miséria.



                                         Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
               Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Nascimento (2003) explica que a degradação ambiental está relacionada ao
antropocentrismo, isto é, o Homem se considerando o próprio centro do uni-
verso, a razão da existência do mundo. E a natureza sendo o objeto a ser
dominado, segundo suas necessidades e interesses. Segundo a autora, a tran-
sição para o mundo moderno se deu com o aparecimento de novas idéias e
concepções, incluindo o desenvolvimento da ciência. Esta, sob o paradigma
do cartesianismo, passa a comparar a natureza como um mecanismo seme-
lhante a um relógio, podendo ser descrita matematicamente e a serviço do
Homem. A revolução industrial que se seguiu, possibilitou a estruturação do
capitalismo, corroborando com o dualismo entre o homem e a natureza e
intensificando o seu distanciamento. Resultado: a natureza não depurou as
agressões antrópicas e nem a ciência apresentou soluções para os problemas
ambientais causados pelo progresso.

  As descobertas do buraco na camada de ozônio e do efeito estufa, em
meados da década de 80, tiveram grande repercussão, pois se fosse mantido o
desenvolvimento predatório, sua provável conseqüência seria a destruição da
vida terrestre. Esses fatos mobilizaram a sociedade mundial e a fizeram refletir
sobre o modelo de desenvolvimento adotado e a repensar a sua relação com a
natureza. A comunidade internacional percebeu que as soluções deveriam ser
dar por meio de uma política global resultante de um empenho conjunto e
uniforme de todas as nações.

  Em 1992 foi realizada no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas sobre
o Meio Ambiente e o Desenvolvimento em que estiveram presentes os governantes
de mais de 170 países, além de milhares de representantes da sociedade civil. A
Rio-92, como ficou conhecida, foi a reunião de maior magnitude realizada após
a Guerra Fria e culminou com a aprovação consensual de um documento intitulado
Agenda 21. Composta de 40 capítulos e 27 princípios gerais, é acima de tudo um
plano de ação assumido pelos países participantes, visando harmonizar o cres-
cimento econômico com a eqüidade social e a preservação ambiental. A Agenda
21 manifesta as ações necessárias para a busca do desenvolvimento sustentável
e destaca as responsabilidades individuais e coletivas de todos os setores da
atuação humana, que tenham relação com a natureza, precisam ter com a con-
servação do planeta.

  É notório que a sociedade mundial vem debatendo e buscando alternativas
para o desenvolvimento do planeta. Entretanto a implantação das mudanças
está em ritmo aquém do desejado, pois as questões econômicas ainda prevale-
cem nestas discussões. Porém, nesse novo contexto, a participação dos demais
segmentos da sociedade é fundamental para garantir a efetivação dos aspectos
prioritários acordados na Agenda 21 em que a preservação da natureza é de vital
importância nesse processo. Para se garantir isso, todos devem refletir sobre as
possibilidades de intervenção nas suas áreas de trabalho objetivando a solução
dos problemas ambientais (SILVA, 1997).


346 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Sem dúvida os problemas ambientais afetam também a prática esportiva na
natureza. Praias poluídas, ‘línguas negras’ nas areias, morros devastados pela
favelização, são exemplos que retratam a importância dos envolvidos com ati-
vidades esportivas estarem participando ativamente das discussões e ações so-
bre um futuro sustentável para o mundo, pois as grandes questões contemporâ-
neas que afligem a Humanidade atingem também a área esportiva. Pode-se inclu-
sive afirmar que os problemas ambientais estão acarretando uma privação ao
direito à prática esportiva, garantido pela Constituição Federal.

   De acordo com Tubino (1999) a relativização de múltiplos segmentos de ativi-
dade humana com a natureza levou ao surgimento de esportes em que seus
praticantes interagem com os ambientes naturais. Este movimento esportivo
caracterizado por Tubino (2000) como Esportes da Natureza (também chamados
de esporte-aventura, esportes ecológicos, atividades outdoor e esportes radi-
cais) teve suas primeiras manifestações nos esportes de inverno, em que se
destacam, por exemplo, o esqui e o bobsleigh. Porém, foram os esportes
californianos, como o surf, vôo livre, windsurf, hobbie-cat e o skate-board que
propagaram essas práticas esportivas ao ar livre (COSTA e TUBINO, 1999). Hoje,
práticas desconhecidas ou inexistentes até pouco tempo atrás, como o arborismo,
bóia-cross, bungee jump, canyoning, cascading, caving, jet ski, mountain bike,
outrigger, parapente, rafting, enduros eqüestres, rapel, sandboard, sky surf e
trekking possuem expressivos espaços na mídia e são amplamente praticados.

  O contato com a natureza através do esporte apresenta um viés positivo e
outro negativo. Por um lado pode, por exemplo, aumentar a consciência eco-
lógica dos envolvidos com a prática esportiva, pode inibir a ação predatória
em seus locais de prática e contribuir para a melhoria da qualidade de vida. Por
outro, essas mesmas práticas esportivas podem interferir negativamente nos
fatores ambientais, podendo ocasionar danos aos ambientes onde são pratica-
dos. O surgimento constante de novas modalidades esportivas da natureza,
manifestadas como lazer ou competição, com o conseqüente aumento do
número de praticantes, espectadores e infra-estrutura podem agravar o quadro
de degradação ambiental.

   Encontra-se na literatura críticas aos esportes da natureza que sinalizam para
um agravamento do meio ambiente em virtude da prática dessas atividades. Para
Inácio (1997) essas atividades reproduzem o modelo de produção e consumo
que a sociedade vem combatendo. Apoiados em equipamentos, roupas e aces-
sórios específicos, são inacessíveis para a maioria da população, tornando-se
então um mecanismo de exclusão social. Marinho (2001) acrescenta que por
mais que essas práticas possam delinear uma reaproximação e revalorização da
natureza, elas implicam em consumismo. Segundo a autora, as atividades espor-
tivas realizadas em ambientes naturais proporcionam uma visão reduzida da
natureza, parecendo estar servindo apenas para agregar valor a um produto e,
neste caso, a proteção ambiental parece ser irrelevante. Costa (1998) menciona

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
que embora divulguem que essas práticas junto à natureza são preservacionistas,
pode haver um desequilíbrio nos ecossistemas, devido à construção de infra-
estruturas de apoio à sua realização. As manifestações dos autores vão ao
encontro do que Tubino (1992) denomina como o novo paradigma do esporte: o
confronto entre a lógica utilitarista e funcionalista do mercantilismo e os valo-
res idealistas do esporte.

  Jesus (1999) menciona que a expansão das atividades esportivas em áreas
naturais praticamente intocadas, tende a causar impactos significativos, acres-
centando que essas atividades são de difícil controle e planejamento e, por
conseqüência, de maior potencial de danos à natureza e à sociedade. Rosado
(apud Krebs, 2002) cita os impactos ambientais negativo do golfe, com a destrui-
ção da flora e da fauna locais, ocasionados pelo uso intenso de fertilizantes para
manter as condições propícias para a realização da atividade esportiva. Cita
também os impactos na qualidade do ar em virtude da poluição provocada pelos
veículos dos esportes motorizados. Nesses exemplos podemos constatar que os
impactos ambientais podem afetar diferentes meios.

  Os danos que os esportes da natureza podem ocasionar não se limitam à
prática em si, mas a todo o projeto esportivo, desde o seu planejamento até o
encerramento do evento, incluindo todos os que estarão direta ou indiretamente
participando da atividade. Esses impactos ambientais negativos podem ocorrer
nas áreas de influência do evento esportivo e afetar os componentes bióticos,
abióticos e antrópicos. Esses impactos podem ser classificados qualitativamen-
te segundo alguns critérios, como em relação ao tempo da ocorrência, à dura-
ção e à significância.

  A proliferação dessas atividades torna mister o compromisso do esporte com
a preservação do meio ambiente. O Manifesto Mundial de Educação Física, em
seu artigo 22, ratifica esta responsabilidade frente às questões ambientais:

                 Todos os responsáveis por qualquer manifestação de Educa-
                 ção Física deverão contribuir com efetividade para que ela
                 seja desenvolvida e oferecida numa convivência saudável com
                 o meio ambiente, sem causar impactos negativos, inclusive,
                 utilizando instalações planejadas neste objetivo e equipa-
                 mentos, preferencialmente, reciclados sem materiais
                 poluentes (FIEP, 2000).

  Conhecer a dinâmica esportiva no meio natural, as ações humanas envolvidas
e as decorrentes possibilidades impactantes nos diversos ambientes de desen-
volvimento dessas modalidades esportivas, associando-as aos diversos tipos de
impactos ambientais, são fundamentais para assumir este compromisso com o
futuro da Humanidade.



348 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
OBJETIVO GERAL DO ESTUDO

  O objetivo principal do estudo foi desenvolver um instrumento que possa
auxiliar na identificação dos possíveis impactos ambientais ocasionados pela
prática esportiva na natureza.



DELIMITAÇÃO E LIMITAÇÃO DO ESTUDO

  Os esportes da natureza são caracterizados por serem praticados em ambien-
tes naturais, ou seja, nos meios terrestre, aquático e aéreo. Este estudo objetiva
desenvolver um instrumento de identificação dos impactos ambientais ocasio-
nados pelas atividades esportivas realizadas na terra, água ou ar. Porém, em
relação à água, foi delimitado à sua forma líquida, devido às condições climáti-
cas do Brasil, onde há geadas em poucos lugares e, mesmo assim, insuficientes
para que haja alguma prática esportiva freqüente na neve ou no gelo.

  O IMPAC-AMBES, como foi denominado, contemplará os impactos ambientais
ocorridos nos meios bióticos e abióticos, não contemplando os antrópicos. Isso
se deu devido à complexidade de caracterização dos possíveis danos sócio-
econômicos decorrentes das atividades esportivas.

   O preenchimento do instrumento de identificação de impactos ambientais se
dará através da observação do ambiente e do conhecimento da dinâmica espor-
tiva que será realizada naquele meio. Isso pode ser considerada uma limitação,
pois ao depender do fator observacional, há a possibilidade do usuário do refe-
rido instrumento chegar a conclusões errôneas sobre as interações ocorridas
entre a prática esportiva e o ambiente. Outro fator limitante pode se dar ao
utilizar o instrumento para prognosticar possíveis impactos ambientais, pois
alguns fatores, como o nível de informação e comportamento dos praticantes,
podem influenciar o ambiente, distorcendo os resultados vaticinados.



METODOLOGIA

  Caracterização da Pesquisa
  Este capítulo descreve e justifica as opções metodológicas para o desenvolvi-
mento do instrumento de identificação de impactos ambientais ocasionados
pela prática esportiva na natureza. Explicita as suas fases de desenvolvimento e
validação e define as variáveis incluídas nesta ferramenta.

  Este estudo é caracterizado como pesquisa de desenvolvimento, que, segundo
Contandriopoulos et al. (1994) consiste em elaborar ou melhorar um instrumen-
to, garantindo a validade e a precisão do dispositivo.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Fases de construção do instrumento
 Foram 6 as fases da pesquisa que culminaram com a elaboração do IMPAC-
AMBES:

  1- Após aprofundamento da revisão de literatura foi possível extrair referênci-
as para a construção do instrumento de identificação de impactos ambientais
ocasionados pela prática esportiva na natureza;

   2- Buscou-se a contribuição de praticantes de atividades esportivas na nature-
za e profissionais do esporte, pelas suas experiências práticas e teóricas sobre
os impactos ambientais, positivos e negativos, ocasionados pela prática espor-
tiva em meio natural;

   3- Elaboração inicial do instrumento de identificação dos impactos ambientais
ocasionados pela prática esportiva na natureza, referenciado no aprofundamento
da literatura e na experiência de praticantes de esportes na natureza e de profis-
sionais de educação física;

  4- Validação do instrumento com outros especialistas da área ambiental e
esportistas conhecedores dos esportes da natureza;

  5- Elaboração do instrumento de identificação, com as modificações conside-
radas importantes para a identificação dos impactos ambientais ocasionados
pela prática esportiva na natureza. O resultado desta validação constituiu-se no
instrumento IMPAC-AMBES.

  6- Aplicação do instrumento IMPAC-AMBES em um evento esportivo ligado à
natureza.

  Elaboração final do IMPAC-AMBES
  Ao final de todo o processo descrito acima, a formatação final do Instrumento
de Identificação de Impactos Ambientais ocasionados pela Prática Esportiva na
Natureza (IMPAC-AMBES), ficou assim definido:




350 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
352 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
354 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Definição dos termos do IMPAC-AMBES
  As definições dos termos incluídos no IMPAC-AMBES norteiam a utilização do
IMPAC-AMBES e foram assim definidas:

  ATIVIDADE(S) ESPORTIVA(S), EVENTO(S) ESPORTIVO(S) ou PROJETO(S)
ESPORTIVO(S) - compreende todas as fases do empreendimento esportivo, des-
de o seu planejamento até a sua desativação, considerando todos os envolvidos
(organização, público, competidores, população local, imprensa), construção
de instalações, material e equipamentos esportivos, regras e regulamento do
esporte.



IDENTIFICAÇÃO DO PROJETO ESPORTIVO

1. NOME: Registrar por extenso o nome de quem estará preenchendo o instru-
   mento.

2. DATA: Registrar a data (dia/mês/ano) em que será preenchido o instrumento.

3. MODALIDADE(S) ESPORTIVA(S): Registrar a(s) modalidade(s) esportiva(s) que
   estará(ão) sendo praticada(s) no local.

4. MEIO AMBIENTE UTILIZADO: ( ) TERRA ( ) ÁGUA ( ) AR - Assinalar o(s) ambiente(s)
   onde irão se desenvolver a prática esportiva.

5. UTILIZAÇÃO DE: ( ) ANIMAIS ( ) MOTORES - Assinalar os itens envolvidos na
   prática esportiva.

6. LOCAL DE REALIZAÇÃO: Registrar a Localidade (Distrito/Município/ Estado)
   onde se realizará o evento.
  DURAÇÃO DO EVENTO: Definir período do evento (do dia/mês/ano ao dia/
  mês/ano ou permanente ou indefinido).

  6.1. ( ) ÁREA PÚBLICA ( ) ÁREA PRIVADA - Assinalar quanto a propriedade da
  área onde será realizada a atividade esportiva.
  6.2. UNIDADE DE CONSERVAÇÃO: ( ) SIM ( ) NÃO
      6.2.1. ( ) PARQUE NACIONAL, ESTADUAL OU MUNICIPAL
      6.2.2. ( ) ÁREA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL
      6.2.3. ( ) ÁREA DE RELEVANTE INTERESSE ECOLÓGICO
      6.2.4. ( ) FLORESTA NACIONAL, ESTADUAL OU MUNICIPAL
      6.2.5. ( ) RESERVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
6.2.6. ( ) RESERVA PARTICULAR DO PATRIMÔNIO NATURAL
       6.2.7 ( ) OUTRO:
       Assinalar se o local onde será realizado o evento esportivo pertence a
       uma Unidade de Conservação. Em caso positivo, assinalar a qual categoria
       pertence. Se a categoria não estiver listada, assinalar e registrar a catego-
       ria no item 6.2.7.
       6.3.7. ÁREA COM ESPÉCIES EM EXTINÇÃO? ( ) SIM [( )fauna ( )flora] ( ) NÃO
       - Assinalar se há espécies em extinção na área onde se realizará o evento
       esporte. Em caso positivo assinalar se pertence à fauna ou flora.

7. OUTRO(S) EVENTO(S) REALIZADO(S) NO LOCAL?
  7.1. ( ) NÃO ( ) ESPORTIVOS ( ) NÃO ESPORTIVOS - Assinalar se existe(m)
  outra(s) atividade(s) sendo realizada(s) no local (em todo ou parte) durante o
  evento esportivo.
  7.2. FREQÜÊNCIA: ( ) ESPORÁDICOS ( ) PERMANENTES ( ) CONCOMITANTES - Em
  caso de resposta positiva no item 7.1, assinalar a freqüência com que esta(s)
  atividade(s) se realiza(m) no local do evento esportivo.

8. INSTALAÇÃO DE INFRA-ESTRUTURA: ( ) NÃO ( ) TEMPORÁRIA ( ) PERMANEN-
   TE - Assinalar se será instalada infra-estrutura para a realização do evento
   esportivo.

9. NÚMERO DE PESSOAS PREVISTAS:
  9.1. ORGANIZAÇÃO:
  9.2. COMPETIDORES:
  9.3. PÚBLICO:
  9.4. IMPRENSA:

  9.5. OUTROS:
  Registrar o número previsto de pessoas (para cada grupo citado) durante o
  período de realização do evento esportivo.
  • FATORES E REFERÊNCIAS AMBIENTAIS - AÇÕES HUMANAS E CONSEQÜÊNCIAS -
  Ações humanas desenvolvidas durante o evento esportivo e os seus resultan-
  tes no meio ambiente.
10. ÁGUA: Considerar em seu estado líquido, presente no mar, em rios, lagos,
  lagoas, canais, cachoeiras, interior de cavernas, etc.

  10.1. DERRAMAMENTO DE ÓLEO/GRAXA - Despejar, intencionalmente ou não,
  substâncias, incluindo gorduras, graxas, ácidos graxos livres, óleos minerais e


356 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
outros materiais graxos proveniente de seus materiais, utensílio, equipamen-
  tos, veículos, etc.
  10.2. LIXO NÃO ORGÂNICO - Despejo, intencional ou não, de resíduos não
  orgânicos (vidros, metais, plásticos, papel,..).
  10.3. LIXO ORGÂNICO - Despejo, intencional ou não, de resíduos orgânicos
  (origem animal ou vegetal).
  10.4. CONTAMINAÇÃO - Introdução na água de elementos em concentrações
  nocivas à saúde humana.
  10.5. USO DE SABONETES E DETERGENTES - Utilização de sabonetes, detergen-
  tes e outros não biodegradáveis.

  10.6. ACÚMULO DE LIXO -Acúmulo de lixo no leito de rios, ou no fundo de
  ambientes aquáticos.
  10.7. AUMENTO DO LANÇAMENTO DE ESGOTO IN NATURA - Despejo orgânico
  sem tratamento proveniente de construções habitadas.
  10.8. DESGASTE/QUEBRA DE ESTRUTURAS NO FUNDO DE AMBIENTES AQUÁTI-
  COS - Desgaste ou quebra de estruturas no fundo de ambientes aquáticos pela
  prática inadequada ou pelo uso equipamentos impróprios.

11. SOLO: A camada da superfície da crosta terrestre capaz de abrigar raízes
  de plantas, representando, pois, o substrato para a vegetação terrestre
  (FEEMA, 1992).
  11.1. EROSÃO/ COMPACTAÇÃO - Desgaste ou diminuição do volume do solo
  provocado pela dinâmica esportiva.
  11.2. DESLIZAMENTO DE TERRA - Possibilidade de ocorrência em encostas em
  virtude da dinâmica esportiva.
  11.3. ALARGAMENTO DAS TRILHAS - Invasão das partes não definidas da trilha
  ocasionando o alargamento da trilha.
  11.4. UTILIZAÇÃO DE FERTILIZANTE - Adição de fertilizante natural ou artificial
  ao solo.

  11.5. CONTAMINAÇÃO - Introdução de elementos em concentrações nocivas à
  saúde humana.
  11.6. ABERTURA/UTILIZAÇÃO DE ATALHOS - Abertura de novas trilhas para
  utilização do evento esportivo ou utilização de trilhas não definidas, sem
  fluxo continuado de pessoas, normalmente com vegetação cobrindo o piso e
  cortando perpendicularmente as curvas de nível.
  11.7. LIXO ORGÂNICO - Despejo intencional ou não de resíduos orgânicos
  (origem animal ou vegetal).

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
11.8. LIXO NÃO-ORGÂNICO - Despejo intencional ou não de resíduos não orgâ-
  nicos (vidros, metais, plásticos, papel,..).
  11.9 DERRAMAMENTO DE ÓLEO/GRAXA - Despejar, intencionalmente ou não,
  substâncias, incluindo gorduras, graxas, ácidos graxos livres, óleos minerais e
  outros materiais graxos proveniente de seus materiais, utensílio, equipamen-
  tos, veículos, etc.

12. ATMOSFERA: É a camada de ar que envolve o planeta.
  12.1. QUALIDADE DO AR - Verificar se o evento esportivo ocasionará impactos
  na qualidade do ar em virtude da emissão de poluentes ou por emissão de
  partículas no ar.
  12.2 EMISSÃO DE GASES POLUENTES - Verificar na dinâmica esportiva se
  haverá emissão de gases poluentes pelo uso de equipamentos ou veículos.

13. FAUNA: Conjunto dos animais que vivem em um determinado ambiente.
  13.1. DESLOCAMENTO PARA OUTRAS ÁREAS - Perturbação da fauna ocasio-
  nando evasão do seu ambiente.
  13.2. MORTE DE ANIMAIS - Extermínio intencional ou não de espécies animais.

  13.3. DESTRUIÇÃO DE HABITATS - Destruição do local físico onde vivem as
  espécies animais.
  13.4. INTERFERÊNCIA NA CADEIA ALIMENTAR - Introdução de elementos ou
  substâncias estranhas que possam interferir nas redes alimentares.
  13.5. INTERFERÊNCIA NO CICLO REPRODUTIVO - Abandono pelos animais das
  suas áreas de reprodução ou de habitats.
  13.6. INSERÇÃO DE NOVOS ANIMAIS - Inserção de espécies animais que não
  fazem parte do ecossistema local.
  13.7. CAÇA - Caçar animais, independente do meio utilizado ou da finalidade.
  13.8. PESCA - Todo ato tendente a capturar ou extrair elementos animais ou
  vegetais que tenham na água seu normal ou mais freqüente meio de vida.

  13.9. UTILIZAÇÃO DE ILUMINAÇÃO ARTIFICIAL - Utilização de lanternas, lampi-
  ões ou qualquer outro equipamento de iluminação.
  13.10. COLETA E QUEBRA DE ESPÉCIES MARINHAS - Coleta ou quebra de corais,
  conchas, estrelas do mar independente da intenção, ou por uso inadequado de
  equipamentos ou veículos.

14. FLORA: Conjunto de vegetais que ocupam uma determinada área.



358 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
14.1. PISOTEAMENTO - Pisar em espécies vegetais intencionalmente ou não.
  14.2. DESMATAMENTO OU DESTRUIÇÃO DE ESPÉCIES - Derrubada ou corte,
  intencional ou não, de espécies vegetais.
  14.3. INCÊNDIO/QUEIMADA - Queima da vegetação, independente da intenção
  ou da motivação.
  14.4. COLETA/REMOÇÃO DA VEGETAÇÃO - Colher espécies vegetais, indepen-
  dente da motivação.

15. CAVERNAS: Toda e qualquer cavidade natural subterrânea penetrável pelo
  homem.
  15.1. DESGASTE/DANO EM ESTRUTURAS - Desgaste ou quebra de estruturas
  minerais de qualquer natureza pela prática inadequada ou pelo uso de equipa-
  mentos impróprios.

  15.2. COLETA DE MATERIAL - Retirada de material ou espécies de qualquer
  natureza, independente da motivação.
  15.3. DESPEJO DE LIXO - Despejos de resíduos orgânicos ou não orgânicos.
  15.4. INSCRIÇÃO NAS PAREDES - Pichações de qualquer natureza no interior da
  caverna, independente da motivação.
  15.5. EROSÃO -Desgaste do solo provocado pela dinâmica esportiva.
  15.6. ASSOREAMENTO -Redução do nível dos corpos d’água.
  15.7. ALTERAÇÃO DA TEMPERATURA -Alteração da temperatura em virtude da
  utilização de equipamentos ou da presença humana.

16. OUTROS IMPACTOS AMBIENTAIS: Impactos não contemplados anteriormente.
  16.1. DESCARACTERIZAÇÃO DA PAISAGEM NATURAL - Modificação da paisa-
  gem natural em virtude de construção ou instalação de infra-estrutura tempo-
  rária ou permanente necessária para o evento esportivo.

  16.2. DETERIORAÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO/CULTURAL - Desgaste pelo
  uso de bens protegidos por lei federal, estadual ou municipal.
  16.3. DEPREDAÇÃO/PICHAÇÃO DE ATRATIVOS NATURAIS - Ocasionar danos ou
  pichar atrativos naturais, independente da motivação.
  16.4. FIXAÇÃO DE MATERIAIS EM PEDRAS OU NA VEGETAÇÃO - Utilização de
  materiais para apoio, ancoragem ou proteção.
  16.5. USO DE EQUIPAMENTOS PROIBIDOS POR LEI - Utilizar equipamentos que
  não são permitidos pela lei vigente, independente dos danos que possam cau-
  sar ao meio ambiente.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
16.6. -16.7. -16.8. - Espaço destinado a incluir impactos ambientais identifica-
  dos e não incluídos no instrumento.

TIPOS DE IMPACTOS AMBIENTAIS RELACIONADOS
À PRÁTICA ESPORTIVA NA NATUREZA

  • POSSIBILIDADE DE OCORRÊNCIA - Objetiva verificar se a atividade esportiva
  ocasionará impacto ambiental:
    NULA - A atividade esportiva não ocasionará impacto ambiental ou que a sua
    possibilidade seja muito remota. Ao assinalar este item, os demais campos
    dessa linha não necessitam ser preenchidos.
    EFEITO BENÉFICO - A atividade esportiva causará impacto ambiental positivo
    (melhora na qualidade de um fator ambiental) nos meios biótico, abiótico e/
    ou antrópico.
    EFEITO ADVERSO - A atividade esportiva causará danos ambientais nos mei-
    os biótico, abiótico e/ou antrópico, independente do prazo de ocorrência,
    de sua duração, intensidade ou reversibilidade.

  • OCORRÊNCIA - Objetiva verificar quando poderá ocorrer o impacto ambiental:
    IMEDIATA - O impacto ambiental poderá ocorrer durante a(s) atividade(s)
    esportiva(s), entre o planejamento e a desativação, independente do tempo
    de duração do empreendimento esportivo.
    MÉDIO E LONGO PRAZOS - O impacto ambiental poderá ocorrer após a(s)
    atividade(s) esportiva(s).

  • DURAÇÃO - Objetiva verificar o tempo de duração do impacto ambiental:
    TEMPORÁRIO - Quando os efeitos do impacto ambiental ocasionados pela ativi-
    dade esportiva tem duração determinada, independente do espaço temporal.

    PERMANENTE - O tempo de duração é ilimitado, não sendo possível reverter
    o impacto ambiental ocasionado pela atividade esportiva.

  • INTENSIDADE - Objetiva verificar a magnitude do impacto ambiental.

    DESPREZÍVEL - Quando for mínima a influência do impacto na qualidade
    ambiental.
    SIGNIFICATIVA - Quando o impacto ambiental for extremo ou muito intenso,
    observando grave alteração na qualidade do ambiente ou ainda, quando o
    componente ambiental afetado tiver relevante interesse coletivo




360 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
• MEDIDAS MITIGADORAS - medidas que venham a minimizar ou eliminar impac-
    tos ambientais negativos nos meios biótico, abiótico e/ou antrópico, poden-
    do ser preventivas ou corretivas e realizadas durante ou após as fases do
    empreendimento esportivo.
   SIM - Serão adotadas medidas mitigadoras.
   NÃO - Não serão adotadas medidas mitigadoras.

  · MEDIDAS COMPENSATÓRIAS - medidas destinadas a compensar a sociedade
    pelos danos ocasionados pela atividade esportiva.



CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES

  O objetivo geral do estudo foi desenvolver um instrumento que possa auxiliar
na identificação dos possíveis impactos ambientais em práticas esportivas na
natureza. Acredita-se que tenha havido êxito na estruturação final do instrumen-
to, que recebeu a denominação de IMPAC-AMBES, dentro dos parâmetros pré-
estabelecidos para a sua consecução. Mostra-se um instrumento de rápido pre-
enchimento, sem custos, e com a definição de todos os termos utilizados em sua
composição nas ‘Orientações de preenchimento’.

   O IMPAC-AMBES ao prognosticar possíveis impactos ambientais negativos
pode ser um importante instrumento para que ações sejam realizadas visando à
minimização ou eliminação desses danos. Ao ser utilizado após o evento espor-
tivo pode fornecer dados para a recuperação do ambiente degradado.

  O IMPAC-AMBES apresenta-se também como um instrumento de educação
ambiental. A visão dos diferentes meios e dos diversos fatores ambientais em
que a prática esportiva na natureza pode ocasionar algum dano, pode sensibili-
zar e contribuir para que mais pessoas se conscientizem da importância da
preservação ambiental.

  Hoje, muitas práticas esportivas deixam de ser realizadas em espaços naturais,
sobretudo os públicos, pois os responsáveis por sua administração não possuem
conhecimento de quais impactos ambientais tais atividades podem ocasionar. E
nem os organizadores ou praticantes. O IMPAC-AMBES pode ser um instrumento
que irá servir para intermediar essa relação entre gestores de áreas públicas e
esportistas.

  O IMPAC-AMBES possui limitações em seu uso. Ao depender da observação do
ambiente, há a possibilidade de se chegar a conclusões inexatas sobre determi-
nada interação da atividade esportiva com o ambiente de prática. A conduta dos
envolvidos na atividade esportiva pode ser um fator determinante na ocorrência

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
de alguns possíveis impactos ambientais, podendo também ocasionar erros nos
prognósticos de identificação dos danos à natureza.

  Faz-se pertinente apresentar algumas recomendações para futuros estudos,
importantes para a ampliação da discussão sobre a temática esporte e meio
ambiente e também para o desenvolvimento do IMPAC-AMBES, não alcançados
em virtude da delimitação do estudo e das limitações do instrumento. É evidente
que essa versão do IMPAC-AMBES deverá receber aperfeiçoamentos. Será atra-
vés da sua utilização que se aprimorará o seu conteúdo e até a sua forma.

   Recomenda-se que:

  É importante que sejam realizadas pesquisas objetivando a identificação dos
impactos ambientais no meio sócio-econômico e cultural. Embora não inclu-
sos no IMPAC-AMBES devido à dificuldade de identificação desses impactos
nos moldes em que foi desenvolvido o instrumento, são tão importantes como
os demais, portanto merecem ser investigados e se possível agregados ao
IMPAC-AMBES.

  Pode ser importante a realização da validade prática do IMPAC-AMBES quando
for efetuada a sua aplicação. Contandriopoulos (1994) esclarece que a validade
prática ou de critério consiste em correlacionar os dados prognosticados com
os resultados efetivos ocorridos. No caso específico do IMPAC-AMBES, seria o
de correlacionar os impactos ambientais identificados antes da realização da
atividade esportiva na natureza com os impactos verificados após esse evento.
Esse procedimento pode ser importante para o aprimoramento do IMPAC-AMBES.

   Este estudo propôs um método para a identificação dos impactos ambientais
em práticas esportivas na natureza. E isso se deu através da elaboração de um
instrumento. Porém essa não é a única forma de se atingir esse objetivo. O
IMPAC-AMBES não esgota a discussão acerca da relação do esporte com o meio
ambiente. Na realidade este estudo aviva esta temática e procura acrescentar
informações que possam nutrir o desejo da busca por um mundo melhor, com
paz, equidade social e preservação da natureza.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]




362 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2004
          Publicação original: em CD-Rom


Formato da contribuição: resumo expandido
Fonte: “A implantação do geoturismo no Pólo Seridó (sertão Potiguar):
necessidade para a conservação do patrimônio natural do Rio Grande do
Norte”, Recife/PE, IX Encontro Nacional de Turismo com Base Local, 2004.
E-mail do(s) autor(es): marcos@geologia.ufrn.br; wendson@ambiental4.com.br;
daniela@sebraern.com.br
Títulos acadêmicos principais atuais: Marcos Antonio Leite do Nascimento: Doutor
e Mestre em Geodinâmica, geólogo e professor das disciplinas de recursos naturais
e meio ambiente do Curso de Turismo da Universidade Federal do Rio Grande do
Norte; Yves Guerra de Carvalho: Turismólogo, diretor do portal do projeto Sebrae;
Wendson Dantas de Araújo Medeiros: Geógrafo, Professor Assistente do Curso de
Gestão Ambiental da Universidade do Estado do RN - UERN e do Núcleo de Turismo
e Hotelaria da Faculdade Câmara Cascudo; Daniela Bezerra Tinoco: Turismóloga,
Coordenadora do Projeto Roteiro Turístico do Seridó – Programa Sebrae de Turismo.




A implantação do geoturismo no Pólo
Seridó (sertão potiguar): necessidade para
a conservação do patrimônio natural no
Rio Grande do Norte (NE do Brasil)
Marcos Antonio Leite do Nascimento:
Yves Guerra de Carvalho
Wendson Dantas de Araújo Medeiros
Daniela Bezerra Tinoco



  Os atrativos turísticos do Rio Grande do Norte se estendem muito além das
belas praias e do Sol constante. Novas modalidades de turismo estão sendo
potencializadas no interior do Estado, através de atividades de cunho religi-
oso, de aventura, científico, de negócios, rural e ecoturístico. Neste último
caso, a atividade se desenvolve dando uma maior ênfase aos aspectos da
biodiversidade (fauna e flora). Contudo, um novo tipo de turismo vem se
destacando no Mundo e mais recentemente no Brasil, o chamado Geoturismo
– nova modalidade de turismo que se desenvolve em bases geocientíficas
(Hose, 1996, 1997), que tem como principais atrativos as diversas feições

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
geológicas e geográficas objetivando assegurar o desenvolvimento de práti-
cas conservacionistas e sustentáveis, proporcionando também ao turista
uma maior vivência do ambiente visitado através da interpretação da
geodiversidade. Esta representa fenômenos e processos ativos, de caráter
geológico, geradores de paisagens/relevos, rochas, minerais, fósseis e solos
que constituem a base para a vida na Terra. Isto é, o “palco” no qual todas as
outras formas de vida são os “atores” (Stanley, 2000).

  Assim, entender a geodiversidade, em conjunto com a biodiversidade (e não
somente esta última), de uma dada região, permitirá efetuar ações mais comple-
tas e, conseqüentemente, obter resultados mais positivos e duradouros, bem
como, uma experiência mais rica para o visitante.



PROGRAMA DE REGIONALIZAÇÃO DO TURISMO:
O CASO DO RIO GRANDE DO NORTE

  O Programa de Regionalização do Turismo – Roteiros do Brasil promovido
pelo Governo Federal em parceria com os Governos Estaduais permitiu a
criação de diferentes pólos turísticos em todo o Brasil. No caso do Estado do
Rio Grande do Norte foram individualizados/identificados cinco grandes pó-
los, a saber: Pólo Costa das Dunas, Pólo Costa Branca, Pólo Seridó, Pólo
Serrano e Pólo Agreste/Trairí. No caso dos dois primeiros há uma interação
entre atrativos litorâneos e aqueles encontrados no interior; enquanto que
os demais envolvem atrativos exclusivamente situados em municípios do
interior potiguar. No momento, apenas os três primeiros encontram-se com
ações em desenvolvimento.

  O referido programa vem contribuindo para o desenvolvimento da ativida-
de turística nos municípios envolvidos com os diferentes pólos, através da
criação de roteiros e produtos, favorecendo a participação das comunida-
des, a geração de emprego e renda, a diminuição dos problemas sócio-eco-
nômicos e, finalmente, a minimização dos impactos ambientais através da
educação ambiental.



A PRÁTICA DO GEOTURISMO NO PÓLO SERIDÓ

  Dentre os três pólos inicialmente trabalhados, o Pólo Seridó é o que apresenta
a maior geodiversidade e, portanto, as maiores riquezas em termos de atrativos
geoturísticos. Isto se deve ao fato da Região Seridó ser uma das mais completas
e belas em patrimônios geológicos no Nordeste do Brasil, os quais são decorren-
tes dos inúmeros processos naturais a que esta região foi submetida ao longo do
Tempo Geológico.



364 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Em se tratando de paisagens, minerais, rochas (“pedras”) e diversos outros
temas geológicos, o Rio Grande do Norte apresenta exemplos dos mais didáticos
e completos, abrangendo desde rochas antigas do embasamento cristalino (com
mais de 3 bilhões de anos) até às coberturas de dunas (com menos de 5 mil anos).
Muitos desses exemplos constituem potenciais monumentos e sítios (Nascimen-
to et al., 2004), que vêm, atualmente, em função de sua importância histórica,
cultural, científica e paisagística, despertando interesse do turismo, conforme já
se pode verificar in loco com a freqüente ocorrência de visitas espontâneas ou
guiadas por agências de turismo à região.

   Aqui, dar-se-á destaque aos patrimônios geológicos, geomorfológicos,
mineralógicos, paleontológicos e arqueológicos presentes no Pólo Seridó, aqui
contemplando especificamente o Roteiro Seridó, sendo este composto pelos
municípios de Cerro Corá, Currais Novos, Acari, Carnaúba dos Dantas, Parelhas,
Jardim do Seridó e Caicó (Figuras 1 e 2).




                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
366 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Neste pólo, o relevo se destaca na paisagem proporcionando cenários exube-
rantes e mirantes que permitem a contemplação de áreas pouco conhecidas
(Figura 3). Na constituição do relevo, destacam-se as serras, os picos e
afloramentos de rochas, cujos melhores exemplos são: Serra de Santana, em
Cerro Corá; serras do Chapéu e Canyon dos Apertados (Figura 4), da Catunda, da
Acauã, do Piauí e Pico do Totoró, em Currais Novos; serras do Bico da Arara, do
Pai Pedro, da Lagoa Seca, afloramento Poço do Artur, Tanques do rio Carnaúba e
a região do Açude Gargalheiras, em Acari; Monte do Galo, Pedra do Dinheiro, em
Carnaúba dos Dantas; serras das Queimadas, da Coruja, da Areia, da Maniçoba e
do Maribondo, em Parelhas; e as serras de São Bernardo, da Formiga, a Gruta da
Caridade e a Pedra da Baleia, em Caicó. Todas as serras, picos e afloramentos são
formados por granitos, gnaisses, quartzitos e arenitos. Esses locais são excelen-
tes para a criação de sítios geológicos-geomorfológicos, hoje muito utilizados
para a prática do turismo de aventura através de atividades como o trekking,
rappel, camping, off road e outras.

   A mineração possui um potencial geoturístico particular ao longo do Roteiro
Seridó, destacando-se o Distrito Mineiro da Brejuí, em Currais Novos. Na Mina
Brejuí há cerca de 60 km de túneis subterrâneos, onde aproximadamente 300 metros
destes já se encontram preparados para visitação. Há também um Museu/Memorial
instalado nas dependências da mina, revelando toda a sua história. Além desta
mina, tem-se ainda na região de Parelhas, uma enorme diversidade de minerais,
com destaque para a turmalina, água marinha, granada, ametista, dos quais, muitos
são considerados preciosos e atraem vários turistas e comerciantes.

   Observam-se, também, registros do homem e de animais pré-históricos por
solos potiguares, nos inúmeros sítios arqueológicos e paleontológicos do Rotei-
ro Seridó (Martin, 1997), os quais se destacam neste tipo de atividade geoturística.
Inúmeras pinturas rupestres são encontradas na região de Carnaúba dos Dantas,
onde foram catalogados mais de 80 sítios arqueológicos, com destaque para os
Sítios Xique-Xique I (Figura 5), Casa Santa e Pedra do Alexandre, onde ocorrem
gravuras e pinturas das 3 grandes tradições de pinturas rupestres do Nordeste
brasileiro – Nordeste, Agreste e Itaquatiaras; em Parelhas, com destaque para o
Sítio Mirador, onde foram encontrados vestígios da presença do homem antigo,
com idade de 10.000 anos atrás; em Cerro Corá, com destaque para o Sítio de
Serra Verde; além de outros espalhados pelos municípios de Acari, Currais Novos
e Jardim do Seridó. Também, ressalta-se a ocorrência do sítio paleontológico
Lagoa do Santo, em Currais Novos, onde foram encontrados registros de vários
animais que caracterizam uma mega-fauna de idade pleistocênica (aproximada-
mente de 2 milhões a 10 mil anos atrás).




                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
368 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Fonte: Medeiros, 2003.

Figura 4 – Canyon dos Apertados.

                                          Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Fonte: Medeiros, 2003.

Figura 5 – Sítio Arqueológico Xique-Xique I com pinturas rupestres da Tradição
Nordeste.



CONCLUSÃO

  Convém lembrar, que os sítios mencionados são apenas uma pequena amostra
do que o Roteiro Seridó possui em termos de atrativos geoturísticos. Diante
desse panorama, ressalta-se a importância de um planejamento prévio e estraté-
gico para o desenvolvimento desta atividade para que ela se perpetue como uma
fonte de emprego e renda para os municípios e comunidades envolvidas. Porém,
tal planejamento deve se orientar em bases preservacionistas, haja vista que o
patrimônio geoturístico possui a particularidade de ser único e irrecuperável:
uma vez deteriorado estará perdido para sempre! E com ele, as perspectivas de
um futuro melhor para as comunidades locais, como conseqüência da inviabilidade
de desenvolvimento do Geoturismo.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]




370 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Ano: 2004
          Publicação original: anais


Formato da contribuição: resumo expandido
Fonte: “Geoturismo, geodiversidade e geoconservação: conceitos úteis para a
promoção do patrimônio geológico”, Recife/PE, XXI Simpósio de Geologia do
Nordeste, 2004.
E-mail do(s) autor(es): marcos@geologia.ufrn.br; tularuchkys@yahoo.com.br;
virginio@uol.com.br
Títulos acadêmicos principais atuais: Doutor e Mestre em Geodinâmica, geólogo e
professor das disciplinas de recursos naturais e meio ambiente do Curso de
Turismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte; Úrsula A. Ruchkys:
Geóloga pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestrado em
Tratamento da Informação Espacial na Pontifícia Universidade Católica de Minas
Gerais (PUC-MG), Especialista em Ecoturismo: Educação e Interpretação Ambiental
pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), tese de doutorado (em andamento)
no Programa de Pós Graduação em Geologia na UFMG; Virgínio Mantesso Neto:
Geólogo pela Universidade de São Paulo (USP), consultor de projetos voltados
para área do Geoturismo no Brasil.




Geoturismo como novo segmento do
turismo de natureza e sua importância
para a conservação do patrimônio natural
Marcos Antonio L. do Nascimento
Úrsula A. Ruchkys
Virgínio Mantesso Neto



  O Brasil apresenta um grande potencial para diferentes segmentos do turismo.
Nosso rico patrimônio natural e cultural favorece, dentre outros, segmentos de
turismo de aventura, rural, cultural, científico, pedagógico e ecoturismo. O
ecoturismo se caracteriza por ser um segmento de turismo da natureza que
utiliza o patrimônio natural de forma sustentável e que busca sua proteção por
meio da sensibilização e da educação ambiental.

  Embora os aspectos associados ao meio abiótico, especialmente as ro-
chas e o relevo, também sejam atrativos para o ecoturismo, o maior apelo

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
para este segmento são, sem dúvida, os atrativos relacionados ao meio biótico
– fauna e flora.

   Pesquisadores preocupados em valorizar e em conservar o patrimônio associ-
ado ao meio abiótico vêm, promovendo a divulgação de um novo segmento de
turismo da natureza, o geoturismo. (Hose 1995, Hose 1996). Tal atividade utiliza
feições geológicas como atrativo turístico, e constitui-se em uma ferramenta
para assegurar a conservação e a sustentabilidade do local visitado, por meio da
educação e da interpretação ambiental.

  Neste contexto, o presente trabalho apresenta uma discussão à cerca do tema
geoturismo, promovendo a introdução de conceitos e da importância para a
promoção dos patrimônios naturais de natureza geológica.



O CONCEITO DE GEOTURISMO

  A terminologia “geoturismo” passou a ser comumente utilizada a partir de
meados da década de 90 e uma primeira definição amplamente divulgada foi
elaborada por Hose (1995) como sendo:

                 “a provisão de serviços e facilidades interpretativas que permi-
                 tam aos turistas adquirirem conhecimento e entendimento da
                 geologia e geomorfologia de um sítio (incluindo sua contribuição
                 para o desenvolvimento das ciências da Terra), além de mera
                 apreciação estética”.



MAIS RECENTEMENTE, RUCHKYS (2005) DEFINIU O GEOTURISMO COMO SENDO:

                 “um segmento da atividade turística que tem o patrimônio geoló-
                 gico como seu principal atrativo e busca sua proteção por meio
                 da conservação de seus recursos e da sensibilização do turista,
                 utilizando, para isto, a interpretação deste patrimônio o tornado
                 acessível ao público leigo, além de promover a sua divulgação e
                 o desenvolvimento das ciências da Terra”.

   Por ser um segmento relativamente recente, ainda são poucas as bibliografias
que tratam do assunto, mesmo em nível internacional. No exterior, muito do que
se escreveu sobre esse assunto foi publicado em periódicos pouco acessíveis no
Brasil. Até o momento, sabe-se que existem apenas dois livros que tratam do
assunto, um em italiano, escrito por Matteo Garofano (presidente da Associazione
Geoturismo), em 2003, intitulado Geoturismo: scoprire le bellezze della Terra
viaggiando. Nele são apresentados os principais pontos geoturísticos da Itália


372 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
proporcionando ao leitor uma viagem por aquele país, além de apresentar sua
geologia e trazer sugestões de como organizar uma viagem geoturística. Mais
recentemente, em agosto de 2005, foi lançado o livro Geotourism: sustainability,
impacts and management, escrito por David Newsome da School of Environment
Science, Murdoch University (Austrália). O livro além de trazer os conceitos
básicos sobre este segmento do turismo de natureza, também leva o leitor a
conhecer a prática do geoturismo em diversos países do Mundo, tais como:
Estados Unidos, Inglaterra, Irlanda, Espanha, China, África do Sul, Austrália e Iran.
Finalmente, este livro contempla informações com relação aos diferentes
geoparques espalhados pelo mundo.

   Vale salientar que existem outras publicações principalmente relacionadas ao
tema geoconservação que muitas vezes dedicam capítulos sobre o Geoturismo.
Porém, esses livros não são específicos sobre geoturismo, mas sim sobre conser-
vação do patrimônio geológico. Dentre esses livros os principais são: Geology on
Your Doorstep: The Role of Urban Geology in Earth Heritage Conservation (Bennett
et al. 1996); Patrimônio Geológico: Conservación y Gestión (Barettino et al. 2000);
e mais recentemente, foi publicado o livro Patrimônio Geológico e Geoconservação:
a Conservação da Natureza na sua Vertente Geológica (Brilha 2005).



O GEOTURISMO NO MUNDO E NO BRASIL

   A promoção da conservação do patrimônio geológico é um dos maiores desa-
fios da comunidade de geociências neste século XXI. Isto se faz necessário uma
vez que os minerais, as rochas, os fósseis, o relevo e as paisagens atuais são o
produto e o registro da evolução do planeta ao longo do tempo e, como tal, é
parte integrante do mundo natural.

  Desde fins do século XX, começam a tomar corpo em alguns países, inclusive
com o apoio da UNESCO, atitudes tendentes a valorizar como ponto de atrações
turísticas locais com ênfase nos aspectos geológicos.

  Dentre as iniciativas que associam a conservação do patrimônio geológico
com o turismo, destaca-se o Programa Geoparks da UNESCO.

  Um geopark pode ser entendido como:

                “Um território com limites bem definidos que tem uma área sufi-
                cientemente grande para que sirva ao desenvolvimento econô-
                mico local. Isto compreende certo número de sítios associados
                ao patrimônio geológico de importância científica especial, be-
                leza ou raridade, representativo de uma área e de sua história
                geológica, eventos ou processos. Além disto, um geopark deve

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
ter valor ecológico, arqueológico, histórico ou cultural.” (UNESCO
                 2004). Mais informações em http://www.worldgeopark.org/

  O Programa Geoparks vem sendo bem difundido em países que se preocupam
com a conservação e promoção do patrimônio geológico, destacando-se vários
países europeus e a China.

  Na Europa existe a European Geoparks Networks, com parques na França,
Alemanha, Espanha, Portugal e Grécia, a qual define o Parque Europeu como “um
território que inclui uma herança geológica específica e uma estratégia de de-
senvolvimento territorial sustentável, suportado por um programa europeu para
a promoção do desenvolvimento”.

   Na China, a partir de 2000, baseada num acervo de sítios de herança geológica
e experiência na sua conservação, aprovou formalmente a criação de 44
Geoparques Nacionais, cuja distribuição e características são dominadas pelo
ambiente estrutural e neotectonismo. A conservação e desenvolvimento dos
sítios trouxeram benefícios sociais, econômicos e ambientais, e criou um clima
positivo para a sua inclusão na rede mundial de Geoparques sob a proteção da
UNESCO (Zhao & Zhao 2003).

  Além do Programa Geoparks, outras iniciativas estão sendo desenvolvidas na
Inglaterra, Canadá e Brasil.

  Na Inglaterra, um dos grandes incentivadores do geoturismo, é o geólogo
Professor Thomas Hose, autor de inúmeros artigos. São deles os primeiros traba-
lhos que conceituam o geoturismo (Hose 1995; 1996a, b; 1997; 1999). Em virtude
disto, muitos ingleses já possuem uma educação turística voltada para a com-
preensão e preservação do patrimônio geológico.

  No Canadá, a combinação paisagem/memória/parques/turismo já constitui
matéria de estudos universitários perfeitamente estabelecidos. Por exemplo, a
University of Alberta, em Edmonton (Província de Alberta), apresenta disciplinas
que tratam da história da natureza, parques e viagens. Eles buscam formar idéias
sobre a natureza expressas através do lazer.

    No Brasil, uma das primeiras providências para o desenvolvimento dessas po-
líticas é a identificação de aspectos geológicos que sejam - ou possam vir a se
tornar - atrações turísticas. Essa tarefa, por si só, em um país com as dimensões
do Brasil, é muito significativa. Têm-se, sem dúvida, muitos exemplos clássicos e
evidentes de locais de interesse geoturístico - a rigor, muitas de nossas atrações
já são, sem que tivéssemos consciência disso, atrações geoturísticas como Ca-
taratas de Iguaçu, Pão de Açúcar, Vila Velha, Chapada dos Guimarães, Lençóis
Maranhenses, Pico do Cabugi etc.


374 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
A iniciativa mais importante e abrangente nesse sentido é, sem dúvida, o Pro-
jeto SIGEP - Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil. Este envolve repre-
sentantes de toda a comunidade geológica brasileira, tendo apoio de grandes
organismos internacionais, como: UNESCO - World Heritage Committee (WHC),
IUGS - International Union for the Geological Sciences, IGCP - International
Geological Correlation Programme, IUCN - International Union for the Conservation
of the Nature, e Working Group on Geological and Palaeobiological Sites
(GEOTOPES). No primeiro volume do livro publicado pelo SIGEP, cujo fechamen-
to se deu no final de 2001, constam 58 sítios (Schobbenhaus et al., 2002), mas o
site da Internet já atingiu praticamente o dobro desse número (114 - mais deta-
lhes em http://www.unb.br/ig/sigep/).

  Como exemplos práticos, já implantados, de roteiros geoturísticos no Brasil,
existem alguns conjuntos, que são destacados abaixo:

   • 14 roteiros do Serviço Geológico do Brasil - CPRM, que instituiu o Programa
Geoecoturismo do Brasil, abrangendo a descrição de monumentos, feições e
parques geológicos, afloramentos, cachoeiras, cavernas, sítios fossilíferos,
patrimônio mineiro (minas desativadas), fontes termais, paisagens, trilhas e ou-
tras curiosidades geoecoturísticas (Programa Geoecoturismo do Brasil). O prin-
cipal é a “Coluna White” (PR-SC); há roteiros em fase de implantação na BA e PR;

  • a Petrobras lançou em 2004, o Projeto Caminhos Geológicos da Bahia, inici-
ado pelo painel Geológico da Falha de Salvador, em frente ao Mercado Modelo,
e com previsão da instalação de mais 15 painéis em Salvador, Itaparica e Bacia
do Recôncavo;

  • os Caminhos Geológicos do Estado do Rio de Janeiro, pioneiro nesta temática,
representa o programa mais desenvolvido e “evoluído”. A partir das primeiras
experiências, como os próprios responsáveis informaram, por um processo de
“tentativas e erros”; foram instaladas 36 placas, estando muitas em lugares de
grande fluxo de turistas. Há previsão para a instalação de cerca de outras tantas.

  • No XLII Congresso Brasileiro de Geologia (outubro de 2004 em Araxá, MG), o
Simpósio 4, “Desenvolvimento Sustentável, Geologia e Turismo”, teve a apre-
sentação de 32 trabalhos, e o Simpósio 26, “Monumentos Geológicos” 31 traba-
lhos. Destes 63, pode-se identificar, pelo menos, 39 diretamente focados em
aspectos do geoturismo.

  • Mais recentemente, foi criado um grupo de discussão na Internet baseado no
Yahoo, atualmente com 61 participantes de várias regiões do Brasil e alguns do
Mundo, para levantar informações e discutir as temáticas geoturismo,
geodiversidade e geoconservação. Para associar-se, basta acessar o site http:/
/br.groups.yahoo.com/group/geoturismo_brasil/


                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Assim, vê-se, que já há um movimento bem estabelecido de início das ativida-
des de geoturismo no Brasil.



POTENCIAL GEOTURÍSTICO DO BRASIL

   O Brasil, por sua diversidade, possui inúmeras feições geológicas e distintas
que podem ser utilizadas com fins turísticos e conservacionistas. Cada ponto de
potencial geoturístico é, inevitavelmente, uma área, região ou feição de dimen-
sões significativas. Geólogos podem se interessar e viajar quilômetros para visi-
tar uma ocorrência de um mineral raro, de dimensões de milímetros ou centíme-
tros, mas turistas querem ver atrações maiores. Existem casos de propriedades
particulares que são locais que hoje podemos chamar de geoturísticos (por
exemplo, a Mina da Passagem, entre Ouro Preto e Mariana/MG; a Mina da Brejuí
em Currais Novos/RN), mas são casos esporádicos. Por essa própria caracterís-
tica de abranger grandes áreas, o geoturismo é inevitavelmente um tema de
políticas públicas.

  Vale salientar que a atividade geoturística procura divulgar a geodiversidade
que representa a:

                 “Variedade de ambientes, fenômenos e processos ativos, de ca-
                 ráter geológico, geradores de paisagens/relevo, rochas, mine-
                 rais, fósseis e solos que constituem a base para a vida na Terra”
                 (Stanley 2000). Isto é, o “palco” no quais todas as outras formas
                 de vida são os “atores”.

   A geodiversidade é tão importante quanto a biodiversidade, porém as ações
que contribuem para a conservação da natureza estão preocupadas unicamente
com os seres vivos. Isto se deve, principalmente, a uma visão parcial e distorcida
de algumas pessoas que trabalham com a natureza e da problemática associada
à sua conservação. Enquanto essas pessoas continuarem esquecendo a impor-
tância da vertente geológica nunca se poderão programar ações eficazes de
conservação da natureza. Para uma ação mais ampla e completa em favor da
conservação de qualquer patrimônio natural não faz qualquer sentido individua-
lizar a Geo da Bio diversidade.

  No Brasil, são inúmeros os exemplos de locais propícios à prática da atividade
geoturística. Serão apresentados aqui apenas alguns exemplos destacando os
diferentes tipos de patrimônios, sejam eles geológicos, geomorfológicos,
mineralógicos, paleontológicos e arqueológicos.

  No Brasil, o relevo se destaca na paisagem proporcionando cenários exube-
rantes e mirantes que permitem a contemplação de áreas pouco conhecidas. Na


376 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
constituição do relevo, destacam-se as serras, os picos, as chapadas e
afloramentos de rochas, cujos melhores exemplos são: as chapadas Diamantina
(na Bahia), dos Veadeiros (em Goiás), dos Guimarães (em Mato Grosso); Pão de
Açúcar (no Rio de Janeiro); picos vulcânicos do Cabugi (no Rio Grande do Norte)
e de Nova Iguaçu (no Rio de Janeiro); Cataratas do Iguaçu (no Paraná); Cabo de
Santo Agostinho (em Pernambuco); dentre outros. Todos esses diferentes tipos
de relevo são formados por rochas sedimentares, ígneas e metamórficas. Esses
locais são excelentes para a criação de sítios geológicos-geomorfológicos,
hoje muito utilizados para a prática do turismo de aventura por meio de ativida-
des como o traking, happel, off road e outras.

  Existe ainda o Parque Nacional da Serra da Capivara, que além de apresentar
uma beleza cênica enorme, foi criado para conservar um dos maiores tesouros
arqueológico do mundo. Milhares de inscrições pré-históricas com idades de
seis a doze mil anos, gravadas em paredões de rocha. As pinturas representam
aspectos do dia-a-dia, danças, ritos e cerimônias dos antigos habitantes da
região, além de figuras de animais, alguns já extintos. Ainda no Nordeste, na
região conhecida como Seridó (envolvendo os Estados do Rio Grande do Norte
e Paraíba), inúmeras pinturas rupestres também são encontradas, onde foram
catalogados mais de 90 sítios arqueológicos. Nesta região são encontrados
gravuras e pinturas das três grandes tradições de pinturas rupestres do Nordeste
brasileiro – Nordeste, Agreste e Itaquatiaras.

  No Brasil destacam-se também as áreas cársticas que são aquelas que se
caracterizam por um tipo de relevo muito particular que se desenvolve por
processos de dissolução aos quais estão sujeitas, especialmente, rochas com
uma composição químico-mineralógica específica: as rochas carbonáticas, prin-
cipalmente quando predomina o carbonato de cálcio.

   Estas áreas apresentam um conjunto de feições muito características que con-
figuram uma grande beleza cênica como maciços rochosos expostos, paredões ou
escarpas, vales, torres, depressões, dolinas, lagoas, além das próprias cavernas.

  O Brasil tem mais de 3.200 cavernas conhecidas, onde cerca de 100 são de uso
turístico. Esse tipo de geoturismo, também denominado pelos especialistas como
turismo espeleológico tem, por exemplo, os Estados da Bahia e de Minas Gerais
como um dos principais locais para a sua prática.

   Um exemplo brasileiro de área cárstica é a Área de Proteção Ambiental (APA)
Carste de Lagoa Santa, localizada no Estado de Minas Gerais, situada a aproxi-
madamente 30 km ao norte de Belo Horizonte. A região tem grande valor histó-
rico-cultural, paisagístico e científico sendo, reconhecidamente, uma das mais
importantes do país em relação aos aspectos paleontológicos, arqueológicos e
espeleológicos. O patrimônio espeleológico adquire importância por ser o maior
depositário dos valorosos vestígios pré-históricos de animais e humanos. Dada

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
a importância da APA, a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, finan-
ciou em 2004/2005, o projeto “Definição de Percursos Geoturísticos na APA
Carste de Lagoa Santa, MG: Aliando Educação e Turismo”. O projeto resultou na
elaboração de um percurso geoturístico que foi mapeado e georreferenciado.
Todo o percurso é explicado em linguagem acessível, tornando o patrimônio
geológico da APA um importante meio de educação ambiental e patrimonial.

  A mineração possui também um potencial geoturístico particular no Brasil, ativi-
dade esta já bastante difundida em outros países do mundo. Aqui podemos citar os
exemplos da Mina da Passagem, em Minas Gerais e a Mina da Brejuí, no Rio Grande
do Norte, que hoje já são atrativos turísticos bastante visitados. Nessas minas,
antigos túneis subterrâneos por onde circulavam os mineradores e os vagões são
adequadamente apropriados para a visitação. Nelas, os turistas ficam sabendo
como nossas riquezas minerais são/foram extraídas e beneficiadas.

  Convém lembrar, que os locais mencionados são apenas uma pequena amostra
do que o Brasil possui em termos de atrativos geoturísticos. Cada Estado (ou
mesmo Município) tem suas potencialidades, que podem (e devem) ser bem
investigadas e adaptadas à atividade geoturística.



DISCUSSÕES FINAIS

  Acredita-se que a atividade turística, se bem orientada, possa contribuir para a
proteção do patrimônio por meio da sensibilização do turista em relação à
importância dos atrativos que visita.

  Para as pessoas se deslocarem de seu entorno habitual, precisam de motiva-
ção, de atrativos que despertem seu interesse. Atualmente, os elementos passí-
veis de provocar deslocamentos de pessoas são muito variados, o que tem
levado a uma segmentação da atividade turística em relação à motivação, crian-
do termos específicos para designar determinados tipos de turismo, dentre eles,
destaca-se o geoturismo.

   O geoturismo pode oferecer uma oportunidade para uma aproximação com o
público, além de ser um novo produto de turismo direcionado a pessoas motiva-
das por conhecimento intelectual e por atividades que envolvam aprendizado,
exploração, descoberta e imaginação. Esta necessidade de conhecimento faz da
interpretação um meio eficaz de prover informação em linguagem acessível
tendo um papel importante no aumento do interesse na geoconservação e na
geologia, além de promover sua divulgação e uma maior educação ambiental.

  Assim, entender a geodiversidade, em conjunto com a biodiversidade de uma
dada região, permitirá efetuar ações mais completas e, conseqüentemente, ob-


378 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
ter resultados mais precisos e duradouros quanto à proteção do meio ambiente,
bem como uma experiência mais rica para o visitante.

  É preciso educar para conservar e na comercialização do turismo deve ser
observada a venda do produto com cuidado, preparando o geoturista na questão
da educação ambiental.

  Praticado de maneira mal planejada, esse tipo de turismo pode se transformar
em um instrumento de degradação ambiental, ao invés de ser uma ferramenta
para a conservação. Sabe-se que uma boa educação ambiental favorece a pro-
teção de qualquer patrimônio natural.

  Diante desse panorama, o geoturismo requer um planejamento prévio e ade-
quado para se consolidar e se desenvolver garantindo o sucesso da atividade.
Para a prática desta atividade necessita-se da participação das comunidades
locais; favorece a geração de emprego e de renda; promove a minimização dos
impactos ambientais e dos problemas sócio-econômicos; além da conservação
do patrimônio natural para as presentes e futuras gerações.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]




                                           Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
                 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Ano: 2004
          Publicação original: CD-Rom


Formato da contribuição: resumo expandido
Fonte: “A utilização do geoturismo como meio de promover a educação
ambiental em unidades de conservação (UC) no Rio Grande do Norte (NE do
Brasil)”, Natal/RN, I Encontro Nordestino de Educação Ambiental, 2004.
E-mail do(s) autor(es): marcos@geologia.ufrn.br; debora@geologia.ufrn.br;
farkatt@yahoo.com
Títulos acadêmicos principais atuais: Marcos Antonio L. do Nascimento: Doutor e
Mestre em Geodinâmica, geólogo e professor das disciplinas de recursos naturais
e meio ambiente do Curso de Turismo da Universidade Federal do Rio Grande do
Norte; Débora do Carmo Sousa: Geóloga pela Universidade Federal do Rio Grande
do Norte (UFRN), doutorado em Geodinâmica na Pós-Graduação em Geodinâmica
e Geofísica da UFRN (PPGG-UFRN), pesquisadora e professora colaboradora do
PPGG-UFRN; Werner Farkatt Tabosa: Geólogo pela Universidade Federal do Rio
Grande do Norte (UFRN), mestrado e doutorado em Geodinâmica na Pós-
Graduação em Geodinâmica e Geofísica da UFRN (PPGG/UFRN).




A prática do geoturismo como meio de
promover a educação ambiental em
Unidades de Conservação (UC)
no Rio Grande do Norte (NE do Brasil)
Marcos Antonio L. do Nascimento
Debora do Carmo Sousa
Werner Farkatt Tabosa

   O interesse e necessidade por preservação de áreas naturais vêm de épocas
antes mesmo da criação do conceito de unidades de conservação (adiante abrevi-
ada como UC´s) e, portanto, a necessidade de criar as UC´s foi questão de tempo
(Costa, 2002). No Brasil, somente em 2000, por intermédio da Lei n° 9.985/2000, foi
constituído o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (conhe-
cido também como SNUC), este sendo formado pelo conjunto das unidades de
conservação federais, estaduais e municipais. Contudo, diversas categorias de
manejo já vinham sendo implantadas anteriormente, sem existir um critério de
uniformização dessas. Assim, um dos principais objetivos do SNUC foi o de impor
critérios para a regularização das diferentes categorias de manejo.

                                       Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
             Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Inserido em um dos objetivos do SNUC está aquele que serve para “proteger as
características relevantes de natureza geológica, geomorfológica, espeleológica,
arqueológica, paleontológica e cultural” (Costa, 2002). São essas características
que o geoturismo utiliza como atrativos, sempre com a preocupação de promo-
ver a (geo)conservação.

   A prática desta modalidade de turismo proporciona ao turista não só o des-
lumbramento de novas paisagens, mas também o entendimento de como aquelas
feições foram geradas. Além disso, faz com que o turista perceba a real necessi-
dade de conservá-las.



A ATIVIDADE DO GEOTURISMO NO RN

  Diferentes segmentos de turismo vêm sendo praticados no RN. Além do tradi-
cional sol e praia temos também os turismos: religioso, de aventura, científico,
de negócio, rural e o ecoturismo.

  O ecoturismo, que há alguns anos vem se destacando no Brasil, promove um
turismo sustentável em áreas naturais, beneficiando o meio ambiente e as comu-
nidades visitadas, promovendo assim aprendizado, respeito e consciência sobre
aspectos ambientais. Porém, notavelmente, este tipo de turismo contempla ape-
nas a biodiversidade (fauna e flora).

  Pessoas preocupadas em valorizar e conseqüentemente conservar os patri-
mônios naturais existentes ao longo do mundo, vêm promovendo a divulgação
de um outro segmento do turismo de natureza, o chamado Geoturismo (Hose,
1996, 1997). Tal atividade utiliza feições geológicas como atrativo turístico,
tendo um potencial como ferramenta para assegurar a conservação e o desen-
volvimento sustentável do local visitado. Além disso, o geoturismo procura
também divulgar a geodiversidade do local que representa a “variedade de ambi-
entes, fenômenos e processos ativos, de caráter geológico, geradores de relevo
(paisagens), rochas, minerais, fósseis e solos que constituem a base para a vida
na Terra” (Stanley, 2000). Isto é, o “palco” no qual todas as outras formas de vida
são os “atores”.

   O geoturismo já vem sendo desenvolvido, há bastante tempo, nos Estados
Unidos, bem como no outro lado do Atlântico, mas precisamente em países
europeus como Inglaterra, Espanha, Portugal e Itália. Na América do Sul, Argen-
tina e Chile são os pioneiros.

  No Brasil, as primeiras atividades diretamente relacionadas ao geoturismo
ocorreram no ano de 2000, e de lá pra cá, mesmo de forma tímida tal modalidade
vem se tornando um segmento bem estabelecido.


382 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Desta forma, o RN não poderia ficar de fora deste novo mercado turístico, já
que temos em nosso Estado inúmeros monumentos e sítios geoturísticos que
podem (e devem) ser trabalhados, claro que de forma sustentável.

  O RN, em questão de relevo (“paisagens”), minerais, rochas (“pedras”) e
diversos outros temas geológicos, apresenta exemplos dos mais didáticos e
completos (Nascimento et al., 2004), indo desde rochas antigas do
embasamento cristalino (com mais de 3 bilhões de anos atrás) até às cober-
turas de dunas (com menos de 5 mil anos). Muitos desses exemplos constitu-
em potenciais monumentos e sítios, que vêm atualmente despertando tam-
bém interesses histórico e cultural em visitas espontâneas ou guiadas por
operadores e agências de turismo.

  Dentre os diversos exemplos de sítios e monumentos geoturísticos encontra-
dos no RN destacam-se os imensos campos de dunas com areias de diferentes
cores, a exemplo das dunas do Rosado (em Porto do Mangue), de Genipabu (em
Extremoz), da região entre Tibau do Sul e Macau, o Parque das Dunas (em Natal),
entre outros. Exuberantes falésias sob a forma de enormes paredões, onde são
encontrados mirantes que permitem o deslumbramento da imensidão do mar e
seu horizonte, com destaque para as regiões de Tabatinga, Pipa/Sibaúma, Macau
a Tibau do Sul (passando por Ponta do Mel), onde muitas vezes a associação
dunas e falésias possibilita a visão de uma paisagem única. As praias e os cordões
de arrecifes complementam a paisagem litorânea. Contudo, não se pode esque-
cer que associado a tudo isso ainda ocorre as lagoas, lagunas, estuários e rios
que entrecortam o litoral potiguar.

  Já no interior potiguar têm-se regiões onde o relevo se destaca na paisagem
proporcionando mirantes que permitem a contemplação de áreas pouco conhe-
cidas. Nestes relevos têm-se as serras e picos, como destaque para as serras de
Martins, Portalegre, Santana e Feiticeiro, o Pico Vulcânico do Cabugi (Fernando
Pedrosa/Lajes), o Lajedo de Soledade (Apodi), o Lajedo da Escada (Baraúnas).
Têm-se ainda as cavernas do Roncador (Felipe Guerra) e a Casa de Pedra (Martins),
e as diversas morfologias esculpidas em rochas graníticas em Acari, São Rafael e
Monte das Gameleiras, juntamente com a existência das rochas mais antigas da
América do Sul (Serra Caiada) com idade de 3,45 bilhões de anos. Além disso,
convém destacar os sítios arqueológicos (Carnaúba dos Dantas, Lajedo de
Soledade) e paleontológicos que se espalham por todo o Estado, complementando
seu potencial para a prática do Geoturismo.

   Finalmente, destacamos a mineração e seu potencial geoturístico onde o
Distrito Mineiro da Brejuí (Currais Novos) representa o melhor exemplo. A
Mina Brejuí com 60 km de túneis subterrâneos, já possui cerca de 300 metros
preparado para visitação. Há também um Museu instalado com toda a histó-
ria da Mina.



AS UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DO RIO GRANDE DO NORTE & DaCosta, Lamartine P.
                            Almeida, Ana Cristina P.C. de
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007

  Apesar do RN apresentar inúmeras áreas de extrema importância e necessidade
de preservação, existe atualmente no território potiguar apenas 15 unidades de
conservação oficiais, sendo 08 federais (administradas pelo Instituto Brasileiro
do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA) e 07 estaduais
(administradas pelo Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente –
IDEMA/RN), onde muitas delas ainda não foram realmente implantadas. A Tabela
1 mostra em detalhe os nomes de cada UC, bem como sua área em hectares (Ha),
a legislação que oficializou a criação e o bioma específico.



Tabela 1 – UC´s Federais e Estaduais no RN. Fonte: IBAMA e IDEMA/RN.
                            UNIDADES DE CONSERVAÇÃO FEDERAIS
Nome                         Área em Ha       Legislação                Bioma
                                                            Unidade` de Proteção Intečral
Estaçõ^s Ecológicas
Estação Ecológica             1.128,00          87.222 de                 Caatinga
do Seridó                                        31.05.82
R^s^rvas Biológicas
Reserva Biológica             35.342,00         83.549 de                 Marinho
do Atol das Rocas                               05.06.79
                                                                Unidade` de U`o ču`tentável
Flor^stas Nacionais
Floresta Nacional                 215,25         Dec. 3834 de          Mata Atlântica
Açu                                                05.06.01
Floresta Nacional                 174,00          Dec. s/n de          Mata Atlântica
Nísia Floresta                                     27.09.01
R^s^rva Particular do Patrimônio Natural (RPPN)
RPPN Mata Estrela               2.039,93          Port. 20 de      Ecossistemas Costeiros
em Baía Formosa                                      2000
RPPN Fazenda Salobro em           755,95         Port. 052 de             Caatinga
Jucurutu                                            1994/N
RPPN Reserva Sernativo em         154,29         Port. 109 de             Caatinga
Acari                                               1996/N
RPPN Fazenda Santa Helena          21,63             Sem                  Caatinga
em S.B. do Norte                                 informações
                             UNIDADES DE CONSERVAÇÃO ESTADUAIS
                                                               Unidade` de Proteção Intečral
Parqu^s Estaduais
Parque Estadual                  1.172,00       Dec. 7.237 de          Mata Atlântica
Dunas de Natal                                     22.11.77
Parque Ecológico                 2.164,00       Dec. 14.813 de            Caatinga
Pico do Cabugi                                     16.03.00
                                                                Unidade` de U`o ču`tentável
Ár^as d^ Prot^ção Ambi^ntal (APA)
APA                              1.881,00       Dec. 12.620 de     Ecossistemas Costeiros
Jenipabu                                           17.05.95
APA                             42.194,00       Dec. 14.639 de     Ecossistemas Costeiros
Bonfim/Guaraíra                                    22.03.99
APA dos                        180.000,00       Dec. 15.476 de     Ecossistemas Costeiros
Recifes de Corais                                  06.06.01
APA                             12.019,66       Dec. 10.683 de     Ecossistemas Costeiros
Piquiri-Una                                        06.06.90
R^s^rva d^ D^s^nvolvim^nto Sust^ntáv^l (RDS)
RDS Estadual                    12.946,03        Lei 8.349 de      Ecossistemas Costeiros
Ponta do Tubarão                                   17.07.03




384 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
De acordo com o SNUC, as UC´s dividem-se em dois grupos, com característi-
cas específicas, chamadas de (i) Unidades de Proteção Integral e (ii) Unidades de
Uso Sustentável.

  O grupo das Unidades de Proteção Integral é composto pelas categorias de
UC, denominadas de: (i) Estação Ecológica, (ii) Reserva Biológica, (iii) Parque
Nacional, (iv) Monumento Natural, e (v) Refúgio de Vida Silvestre. Enquanto
que o Grupo das Unidades de Uso Sustentável tem as categorias de UC chama-
das de: (i) Área de Proteção Ambiental, (ii) Área de Relevante Interesse Eco-
lógico, (iii) Floresta Nacional, (iv) Reserva Extrativista, (v) Reserva de Fauna,
(vi) Reserva de Desenvolvimento Sustentável, e (vii) Reserva Particular do
Patrimônio Natural.

  De acordo com o IDEMA/RN, órgão que cuida das UC´s no Estado, e o
IBAMA, o RN possui, ao todo, uma estação ecológica, uma reserva biológi-
ca, duas florestas nacionais e quatro reservas particulares do patrimônio
natural (no âmbito federal), além de dois parques estaduais, quatro áreas de
proteção ambiental e uma reserva de desenvolvimento sustentável (no
âmbito estadual – Figura 1).

  Além dessas UC´s, o IDEMA/RN está realizado estudos para futura criação
de oito novas unidades, são elas: Parque Estadual Mata da Pipa, Monumento
Natural Morro do Careca, APA das Dunas do Rosado, Parque dos Mangues,
Parque do Jiqui, Parque da Ilha de Santa Luzia, APA Açu e Cavernas de Martins.
Porém, até o presente momento apenas a três primeiras estão com os estu-
dos adiantados.

  Em todas as UC´s do RN é comum encontrarmos feições que são facilmente
utilizadas na prática do geoturismo (Figura 2).

  Aquelas que se encontram no litoral potiguar, a exemplo do Parque Estadual
Dunas de Natal, APA de Jenipabu, APA Bonfim/Guaraíra, APA dos Recifes de Corais
e a RDS Ponta do Tubarão, possuem enorme geodiversidade ainda pouco conhe-
cida do ponto de vista geoturístico. A paisagem litorânea permite conhecermos
imensos campos de dunas com areias de diferentes cores. Exuberantes falésias
sob a forma de enormes paredões também podem ser trabalhadas no geoturismo.
São nelas onde encontramos mirantes que permitem deslumbrarmos a imensidão
do mar e seu horizonte. As praias e os cordões de arrecifes complementam esta
paisagem litorânea. Associado a tudo isso ocorrem ainda lagoas, lagunas, estu-
ários e rios que entrecortam o litoral.




                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Figura 1 – Mapa de localização das unidades de conservação no Estado do Rio
Grande do Norte.

  No interior, o melhor exemplo é dado pelo Parque Estadual do Pico do Cabugi.
Este representa o cartão postal do RN e compreende um dos únicos vulcões
brasileiros que ainda preserva a sua morfologia original. Nele ocorrem rochas
denominadas de basaltos cuja idade é de 25 milhões de anos. Sua denominação
é de origem Tupi-Guarani e significa “peito de moça”.



386 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
Figura 2 – Feições paisagísticas das sete unidades de conservação encontradas
no Estado do Rio Grande do Norte. Fotos: IDEMA/RN e Marcos Nascimento.



A IMPORTÂNCIA DO GEOTURISMO PARA A EDUCAÇÃO AMBIENTAL

  Acredita-se que a atividade geoturística, se bem orientada, pode contribuir para
a proteção do patrimônio natural, e conseqüente preservação deste, por meio da
sensibilização do turista em relação à importância dos atrativos que visita.

  É preciso educar para preservar e na comercialização do turismo deve ser
observada a venda do produto com cuidado, preparando o geoturista na questão
da educação ambiental.

  Praticado de maneira mal planejada, esse tipo de turismo pode se transformar
num instrumento de degradação ambiental, ao invés de ser uma ferramenta para
a conservação. Sabe-se que uma boa educação ambiental favorece a preserva-
ção e conservação de qualquer patrimônio natural.

                                      Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P.
            Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
Diante desse panorama, o geoturismo requer um planejamento prévio e ade-
quado para se consolidar e se desenvolver garantindo o sucesso da atividade.
Para a prática desta atividade necessita-se da participação das comunidades
locais; favorece a geração de emprego e renda; promove a minimização dos
impactos ambientais e dos problemas sócio-econômicos; além da conservação
do patrimônio natural para as presentes e futuras gerações.

  Assim, a necessidade de se ter uma boa educação ambiental é de suma impor-
tância para este tipo de atividade. Com certeza, no final, a natureza agradece.

[As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original]




388 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo

Esporte e meio ambiente v.2

  • 1.
    Meio ambiente, esporte, lazere turismo estudos e pesquisas no Brasil, 1967-2007 VOLUME 2 Ana Cristina P.C. de Almeida & Lamartine P. DaCosta (Editores) Editora Gama Filho, Rio de Janeiro, 2007
  • 2.
    Meio Ambiente, Esporte,Lazer e Turismo: Estudos e Pesquisas no Brasil 1967 – 2007/ Editores : Cristina Pimentel Carneiro de Almeida e Lamartine P. DaCosta Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007 400 p. ISBN 85-7444-062-0 1 . Meio ambiente. 2. Esporte. 3. Lazer. 4. Turismo. 5. Desenvolvimento sustentável CDD – 809 CDU – 82.09 “Livro organizado em associação da Editora Gama Filho com a Universidade Federal do Pará, 2006 - 2007" Universidade Gama Filho REITORIA Reitor Prof. Luiz Eduardo Braune da Gama Pró-Reitor de Humanidades e Ciências Sociais Prof. Arno Wehling Pró-Reitor de Saúde Prof. Gilberto Chaves Pró-Reitor de Exatas e Tecnologia Prof. José Leonardo Demétrio de Souza Editora Gama Filho Editor Dante Gastaldoni Programação Visual Evlen Joice Lauer Supervisão de textos Lamartine P. DaCosta
  • 3.
    DIREITOS AUTORAIS ECÓPIAS A presente obra está sendo publicada sob forma de coletânea de textos fornecidos voluntariamente por seus autores, sem compensação financeira mas mantendo seus direitos autorais, segundo a legislação em vigor. Neste termos, este livro tem distribuição gratuita em CD ROM e outras mídias, como também está disponível em site para download de livre acesso, sem custos para usuários. Cópias em papel do livro e dos textos estão autorizadas desde que não tenham propósito comercial e que sejam citados os autores e fontes originais em eventuais reproduções. ENGLISH FOREWORDS AND TEXTS The “Introduction” of this book in English is available following the “Contents” section in the next pages. There are several chapters in English as far as original texts were included using this language. These texts are also listed in the above mentioned “Introduction”. Any part of this book may be reproduced in any form under the condition of being referred to authors and sources. All rights reserved. Commercial use of parts of this book only with permission of the authors.
  • 5.
    Sumário Volume II 11 Tendências centrais dos estudos e pesquisas em Meio Ambiente, esporte, lazer e turismo no Brasil no período 1967 - 2007 Ana Cristina P.C. de Almeida & Lamartine P. DaCosta (Editores) 27 Research mainstreams of studies on environment, sport, leisure and tourism in Brazil within the period 1967-2007 Ana Maria Miragaya 31 Turismo, lazer e natureza Alcyane Marinho e Heloisa Turini Bruhns 35 Turismo de aventura e educação: desafios e conquista de espaços Alcyane Marinho e Jossett Campagna De Gáspari 43 O Movimento na Natureza Interfaces entre Educação Física e educação Ambiental no Ensino Infantil Cae Rodrigues e Mey van Munster 59 Brinquedos, brincadeiras, recreação, arte e cultura popular: alternativas para um museu interativo Gustavo de Lira Santos e Sérgio Henrique Verçosa Xavier 67 Equilibrando desenvolvimento com meio ambiente: Garantindo lazer, ecologia e turismo no centro urbano. Estudo de caso do projeto parque do recife Gustavo de Lira Santos e Sérgio Henrique Verçosa Xavier 77 Clube de máscara Galo da Madrugada: o maior bloco de carnaval do mundo, vivendo a cultura pernambucana Gustavo de Lira Santos e Sérgio Henrique Verçosa Xavier 87 Lazer e meio ambiente: multiplicidade de atuações Heloisa Turini Bruhns e Alcyane Marinho 97 A formação técnica e o seu papel no mercado turístico Leopoldo Gil Dulcio Vaz 121 Política de turismo e desenvolvimento local: um binômio necessário Lillian Maria de Mesquita Alexandre1 131 Hotéis de selva no amazonas: Ecodesign, meio ambiente e sustentabilidade? Luiza Elayne Luíndia Azevedo
  • 6.
    141 Ecoturismo: donatural ao cultural (e vice-versa) Rogério Santos Pereira, Silvio Ricardo da Silva, Samuel Gonçalves Pinto e Eliane de Souza Resende 147 Refletindo sobre lazer/turismo na natureza, ética e relações de amizade Sandoval Villaverde Monteiro 165 Percepções do uso público em UCs de Proteção Integral Teresa Magro 173 Impacto ambiental nas competições de trekking de regularidade segundo os seus praticantes Valdo Vieira, Bernardo de Miranda Villano e Manoel J. G. Tubino 181 Sítios geológicos e geomorfológicos dos municípios de Acari, Carnaúba dos Dantas e Currais Novos, região Seridó do Rio Grande do Norte Wendson Dantas de Araújo Medeiros 183 Ecogeoturismo e geoconservação de sítios geológicos e geomorfológicos no Seridó Oriental do Rio Grande do Norte Wendson Dantas de Araújo Medeiros 195 A Formação Técnica e o seu Papel no Mercado Turístico Leopoldo Gil Dulcio Vaz 219 Atividades na Natureza, Lazer e Educação Ambiental: Refletindo Sobre Algumas Possibilidades Alcyane Marinho 237 Meio Ambiente Heloísa Turini Bruhns 245 Atividade de Geoturismo no Litoral de Icapuí/CE (Ne Do Brasil) e a Necessidade de Promover a Preservação do Patrimônio Geológico Débora do Carmo Souza e Marco Antonio L. do Nascimento 253 Repensando o lúdico na vida cotidiana: atividades na natureza Alcyane Marinho 255 O museu como espaço de lazer: atrativo turístico e local de preservação da cultura de uma sociedade Gustavo de Lira Santos 269 Ecoturismo & Amazônia – biodiversidade, etnodiversidade e diversidade cultural João Meireles Filhos
  • 7.
    285 Possibilidades deleitura sobre os esportes da natureza: o caso dos Jogos Mundiais da Natureza (1997) Kátia Bortolotti Marchi 305 Meio ambiente e ecoturismo na região de Iporanga / SP: impactos ambientais por esgotos domésticos e resíduos sólidos Leandro Luiz Giatti 321 Lazer e esportes na natureza: impactos sócio-ambientais Mirleide Chaar Bahia e Tânia Mara Vieira Sampaio 329 Subjetividade, amizade e montanhismo: potencialidades das experiências de lazer e aventura na natureza Sandoval Villaverde Monteiro 345 Desenvolvimento de um instrumento de identificação de impactos ambientais em práticas esportivas na natureza (IMPAC-AMBES) Valdo Vieira 363 A implantação do geoturismo no Pólo Seridó (sertão potiguar): necessi- dade para a conservação do patrimônio natural no rio grande do norte (NE do brasil) Marcos Antonio Leite do Nascimento, Yves Guerra de Carvalho, Wendson Dantas de Araújo Medeiros e Daniela Bezerra Tinoco 371 Geoturismo como novo segmento do turismo de natureza e sua impor- tância para a conservação do patrimônio natural Marcos Antonio L. do Nascimento, Úrsula A. Ruchkys e Virgínio Mantesso Neto 381 A prática do geoturismo como meio de promover a educação ambiental em unidades de conservação (uc) no Rio Grande do Norte (ne do Brasil) Marcos Antonio L. do Nascimento, Debora do Carmo Sousa e Werner Farkatt Tabosa Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 7
  • 9.
    Capítulos por anode publicação, autores e títulos dos trabalhos 1967 Lamartine P. DaCosta A ATIVIDADE DESPORTIVA NOS CLIMAS TROPICAIS E UMA SOLUÇÃO EXPERIMENTAL: O ALTITUDE TRAINING 1967 Lamartine P. DaCosta PLANEJAMENTO MÉXICO 1981 Lamartine P. DaCosta PRINCÍPIOS DO ESPORTE PARA TODOS 1983 Jürgen Diekert Floriano Dutra Monteiro PARQUE DE LAZER E DE ESPORTE PARA TODOS 1987 Lamartine P. DaCosta A REINVENÇÃO DA EDUCAÇÃO FÍSICA E DO DESPORTO SEGUNDO PARADIGMAS DO LAZER E DA RECREAÇÃO 1992 Lamartine P. DaCosta O OLHAR E O PENSAR AMBIENTALISTA 1993 Rita MendonçaTURISMO OU MEIO AMBIENTE: UMA FALSA OPOSIÇAO 1996 Ana Cristina P. C. de Almeida A INTER-RELAÇÃO DO ENSINO EM RECREAÇÃO E LAZER E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL 1996 Rita MendonçaVISITAR E COMPARTILHAR A NATUREZA 1996 Flávio Leonel A. da Silva ECOTURISMO: VIAGEM, LAZER & AVENTURA 1997 Lamartine P. DaCosta INTRODUCTION - ENVIRONMENT AND SPORT: AN INTERNATIONAL OVERVIEW 1997 Lamartine P. DaCosta TOWARD A THEORY OF ENVIRONMENT AND SPORT 1999 Alcyane Marinho DO BAMBI AO RAMBO OU DO RAMBO AO BAMBI? AS RELAÇÕES COM A (E NA) NATUREZA 1999 Cristiane Ker de MeloAna Cristina P. C. de Almeida NAS TRILHAS DA RELAÇÃO EDUCAÇÃO FÍSICA – MEIO AMBIENTE 1999 Teresa Magro IMPACTOS DO USO PÚBLICO EM UMA TRILHA NO PLANALTO DO PARQUE NACIONAL DO ITATIAIA 1999 Alba Vieira ECOTURISMO URBANO: RUA DE LAZER EM TOMBOS – MG APRENDENDO, BRINCANDO E INOVANDO O MEIO AMBIENTE 1999 Alba Vieira TURISMO ECOLÓGICO: ESSA POSSIBILIDADE DE LAZER É “QUENTE” 1999 Rita Mendonça SENTIDO DA VIAGEM 2000 Vera Lúcia Menezes Costa AVENTURA E RISCO NA NATUREZA: SÍMBOLOS E MITOS PRESENTES NOS DISCURSOS DO ECOTURISMO ESPORTIVO Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 9
  • 10.
    2000 Ana Cristina P. C. de Almeida, Maria de Fátima S. Duarte & Juarez V. Nascimento O FUTURO DAS ATIVIDADES FÍSICAS DE LAZER E RECREAÇÃO LIGADAS À NATUREZA E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL 2000 Rita Mendonça A EXPERIÊNCIA NA NATUREZA SEGUNDO JOSEPH CORNELL 2000 Ana Cristina P. C. de Almeida, Maria de Fátima S. Duarte, Juarez V. Nascimento & Markus Vinícius Nahas CONSIDERAÇÕES SOBRE O FUTURO DAS ATIVIDADES FÍSICAS DE LAZER NA NATUREZA: UM ESTUDO DELPHI 2000 Ana Cristina P. C. de Almeida LAZER E RECREAÇÃO E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL: UMA QUESTÃO INTERDISCIPLINAR 2000 Elizara Carolina MarinValquíria Padilha LAZER E CONSUMO NO ESPAÇO URBANO 2000 Renato Miranda MOTIVAÇÃO NO TREKKING: UM CAMINHAR NAS MONTANHAS 2001 Alcyane Marinho LAZER, NATUREZA E AVENTURA: COMPARTILHANDO EMOÇÕES E COMPROMISSOS 2001 Alcyane Marinho DA BUSCA PELA NATUREZA AOS AMBIENTES ARTIFICIAIS: REFLEXÕES SOBRE A ESCALADA ESPORTIVA 2001 Daniele B. F Silva, Gustavo Santos, Maria Cecília de A. B. Mendes, Sérgio Henrique Verçosa Xavier BRINQUEDOS, BRINCADEIRAS, RECREAÇÃO, ARTE E CULTURA POPULAR: ALTERNATIVAS PARA UM MUSEU INTERATIVO. 2001 Lamartine P. DaCosta INTERNATIONAL TRENDS OF SPORT AND ENVIRONMENT - A 2001 OVERVIEW 2001 Alba P. Vieira ARTE, LAZER E EDUCAÇÃO AMBIENTAL: O CASO DA LUDOTECA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DE VIÇOSA 2002 Leopoldo Vaz GESTÃO DO LAZER, TURISMO E EVENTOS: UMA NOVA HABILITAÇÃO A SER OFERECIDA PELO CEFET-MA 2002 Valdo Vieira TREKKING DE REGULARIDADE – O ESPORTE CONSTRUINDO VALORES PARA A MELHORIA DA QUALIDADE DE VIDA 2002 Rita Mendonça ECOTURISMO: DISCURSO, DESEJO E REALIDADE 2002 Otávio Tavares, Renato Miranda, Lamartine DaCosta ESPORTE, OLIMPISMO E MEIO AMBIENTE: VISÕES INTERNACIONAIS 2002 Tânia Sampaio “AVANÇAR SOBRE POSSIBILIDADES”: HORIZONTES DE UMA REFLEXÃO ECO-EPISTÊMICA PARA REDIMENSIONAR O DEBATE SOBRE ESPORTES 10 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • 11.
    Introdução Tendências centrais dos estudos e pesquisas em Meio Ambiente, esporte, lazer e turismo no Brasil no período 1967 - 2007 Ana Cristina P. C. de Almeida & Lamartine P. DaCosta Relacionando meio ambiente com esporte, lazer e turismo, este livro se pro- põe a ser uma coletânea de textos apresentados a público no Brasil desde 1967 - ano da provável primeira obra no assunto segundo interpretações atuais – que sugere representar diferentes caracterizações e tendências assumidas por este tipo de conhecimento ao longo do tempo. Em resumo, este novo livro está basicamente proposto como um documento de memória e uma referência para trabalhos acadêmicos futuros numa área de conhecimento que tem exibido grande impulso nos últimos anos, no país e no exterior. Os textos inventariados foram fornecidos voluntariamente por seus autores a partir de solicitação pública de livros individuais e coletivos, artigos em periódi- cos, teses, dissertações, contribuições em congressos e seminários, e publica- ções técnicas diversas. Pesquisas e estudos aceitos para publicação (no prelo em 2006 - 2007) foram incluídos tendo em vista o objetivo de discernir tendên- cias à semelhança das obras antecedentes. Como tal, a presente publicação destina-se à distribuição gratuita e fácil acesso por várias mídias e formatos. As tendências centrais (research mainstreams) dos trabalhos foram assumidas na tradição científica de identificar convergências por tipos de abordagens temáticas e por quantidade de estudos. Entretanto, as interpretações e sínteses adiante apresentadas devem ser consideradas apenas como indicações de uso genérico uma vez que não se baseiam em levantamentos exaustivos nem amostragens estatísticas de trabalhos publicados. Em que pese uma validade reduzida - mas todavia pertinente - priorizou-se a reprodução de trabalhos publicados em livros, um meio ainda aceitável e útil nas condições acadêmicas brasileiras para caracterizar enfoques principais. Isto posto, encontra-se em seguida nesta “Introdução”, em ordem cronológi- ca, a identidade inicial de textos na temática objetivada por este livro com Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    exame adicional decaracterísticas e respectivos relacionamentos, quer no tem- po, no espaço e segundo interesses de seus autores. Esta análise descritiva foi feita por contextualização histórica a partir de obra publicada no Brasil em 1850 (ver adiante) no tema do meio ambiente e suas influências em entes humanos. A observação das relações do meio ambiente com o esporte, lazer e turismo foi feita nos anos subseqüentes até 2007. Para esta tarefa textos e autores não contemplados nesta Coletânea foram citados à vista de esclarecimentos sempre que convenientes para melhor compreensão e registro. Em resumo, tais disposi- ções nesta abordagem inicial incorporam tendências centrais e secundárias por sínteses e re-interpretação dos textos arrolados. As contribuições para o livro ora em apresentação foram resumidas pelos cedentes das obras originais, procurando-se relevar aspectos essenciais dos estudos. Também foram mantidos os padrões estabelecidos originalmente pelos autores, incluindo forma de redação e modos de referenciação bibliográfica. Nos casos de obra publicada no exterior foi mantida a versão em inglês. Em suma, cada texto constituiu um capítulo do livro também integrado numa ordem cronológica geral que ao final permitiu uma primeira periodização de tendências centrais dos estudos e pesquisas: 1967 – 2000 (fase pioneira) e 2001 - 2007 (fase de maturidade). Esta mesma disposição permitiu antever dois períodos de internacionalização independentes entre si dos estudos brasileiros em meio ambiente, esporte, lazer e turismo: 1967 – 1987 (enfoque maior no esporte) e 1997 – 2007 (enfoque prioritário na sustentabilidade com visões integradas do esporte, lazer e turismo). Em termos epistemológicos, para que fosse possível identificar research maintreams dos estudos e pesquisas, os editores deste livro adotaram interpreta- ções e conceitos amplos (soft definitions) quer do meio ambiente – por vezes identificado como “natureza” – como do esporte, lazer e turismo, evitando defini- ções estreitas e especializadas. Estas últimas hard definitions inviabilizariam a observação das relações típicas do meio ambiente à luz da sustentabilidade, dis- tante portanto do objetivo da presente obra. Neste particular, assumiu-se como diretriz principal a concepção geral de meio ambiente estipulada pelo Comitê Olímpico Internacional – COI, isto é : “todos os fatores externos, condições e influências que afetam um organismo ou uma comunidade” (IOC, “Manual on Sport and the Environment”, Lausanne, 2001, p. 80). Adicionalmente, definiu-se também a sustentabilidade como “o desenvolvimento que atende as necessidades das ge- rações presentes sem prejudicar as gerações futuras” (Ibidem, p. 81). Por sua vez, a mesma fonte do COI (2001, pp. 13 - 14) ajusta a concepção de esporte aos problemas da proteção ambiental declarando que “a prática do esporte inclui atividades físicas em diferentes níveis, com participação informal e ocasional ou de alto rendimento com normatização, implicando em gestão especializada ou de livre iniciativa de praticantes”. Já as relações do esporte com o turismo, sob o enfoque do meio ambiente, seguiram as proposições de 12 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Tom Robison &Sean Gammon (“Revisiting and Applying the Sport Tourism Framework”, Journal of Sport Tourism, Volume 9, Number 3, 2004) “as quais compreendem pessoas viajando, ou com estadas em locais fora de seu ambiente usual, com participação ativa ou passiva em atividades esportivas de competi- ção ou recreativas”. Outra recomendação adotada concerne às inter-relações entre o turismo e o lazer, segundo Guy Swinnerton (“Recreation and Conservation”, in Jackson, E.L. & Burton, T.L., “Understanding Leisure and Recreation”, Venture Publishing, State College, PA, 1989, pp. 517 - 565), que geralmente ocorrem sob forma de coexistência, simbiose ou conflito, sendo a última alternativa a mais comum dada à expansão do turismo em escala mundial. À vista do exposto, apresenta-se em seguida análises históricas e contextuais que fundamentam os textos reunidos para a produção deste livro, com base em revisões equivalentes de DaCosta (1997) elaboradas para a Universidade do Por- to – Portugal (ver “Introduction and Chronology”, pp. 15 - 37) ; de Ana Cristina P. C. Almeida (2000) para sua dissertação de Mestrado em que fez verificações de tendências usando a técnica Delphi (texto incluído nesta Coletânea); e, finalmen- te, mas não menos importante, de Andrade da Costa para o capítulo “Meio Ambiente e Esporte – Produção do Conhecimento”, publicado no ‘Atlas do Espor- te no Brasil’, 2006 (pp.720 – 721), organizado por Lamartine DaCosta, Ana Miragaya e Evlen Lauer Bispo. 1850 Eduardo Ferreira França (1809 – 1857) de Recife-PE, médico formado na França, publica o livro “Influência dos Pântanos sobre o Homem” (Tipografia Liberal do Século, Salvador, 1850), no qual se analisam os efeitos da insalubrida- de do meio ambiente sobre a moral humana. Esta obra confirma a idéia dominan- te no Brasil de que o clima tropical produzia indolência, vícios e doenças. 1888 A Editora Garnier do Rio de Janeiro-RJ, lança a obra do escritor e político Sílvio Romero (1851 – 1914) intitulada “História da Literatura Brasileira” em cujo capítulo “O Meio Fisiologia do Brasileiro” são descritas as teorias correntes na Europa quanto à inferioridade dos povos habitantes de regiões de clima quente. Sílvio Romero interpretando o fato argumenta que era necessário não generali- zar a questão climática brasileira, pois o ambiente nocivo limitava-se a determi- nadas áreas da nação. Porém reconhecia a deterioração física de grande parte de seus cidadãos: “Temos uma população mórbida, de vida curta, achacada e pesa- rosa em sua mor parte (...) O trabalho intelectual é no Brasil um martírio; por isso pouco produzimos; cedo nos cansamos, envelhecemos e morremos depressa” (p. 93, vol. 1 da 7ª. Edição, 1980). Além destas dificuldades, Romero já como deputado federal e membro fundador da Academia Brasileira de Letras (Rio de Janeiro), denunciou em 1902, o tamanho das colônias alemãs no sul do país, que já comprometiam em sua opinião a identidade cultural lusófona do Brasil. 1902 O escritor Graça Aranha, membro da Academia Brasileira de Letras, publica o romance “Canaã”, um livro em que explora em estilo pré-modernista, a deca- Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 13
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    dência cultural decolonos alemães no estado do Espírito Santo diante das difi- culdades de adaptação ao ambiente tropical. 1907 Na França, o Barão Pierre de Coubertin – onze anos depois de resgatar os Jogos Olímpicos – adotava pela primeira vez no mundo do esporte uma posição de defesa da natureza, ao mobilizar os esportistas para que limpassem seus campos de prática. Estava inaugurada então a definição do esporte como poluidor como também um envolvimento permanente do Movimento Olímpico internaci- onal – sobretudo manifestado pelos Jogos Olímpicos de Inverno e de Verão – com a proteção do meio ambiente. Uma revisão histórico-analítica deste com- promisso foi produzida no início dos anos 2000, pelo brasileiro Lamartine DaCosta em capítulo de livro internacional denominado de “Towards an Olympic Epistemology: Sport Sciences or Theory of Sustainable Sport?”, como se verifica em “Olympic Studies”, Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2002, pp. 131 – 152 (não incluído nesta Coletânea). 1922 O Exército Brasileiro adota oficialmente o Método Francês de Educação Física, o qual incorpora nesta versão inicial brasileira – entre várias outras tendências de origem francesa - as concepções de George Hébert (1875 – 1957), líder da “L’ École Naturaliste” criada em 1905. Esta doutrina elegia os movimentos naturais (saltar, correr, trepar etc.) como base do método de práticas físicas se aplicados em meio aos elementos naturais (água, sol, flores- ta, ar etc.). Hoje, a Escola de Hebért ainda apresenta manifestações na França e na Bélgica (Gleyse, J. et al., 2002). 1932 A Escola de Educação Física do Exército – EsEFEx, situada no Rio de Janeiro (Urca), inaugura uma “Torre de Hébert” junto à sua pista de atletismo, marcando a incorporação do Método Natural aos currículos daquela institui- ção militar. A Torre de Hébert foi mantida até meados da década de 1960 quando o Método Francês foi substituído pelo Método Calistênico na instru- ção física do Exército Brasileiro (ver site www.esefex.ensino.eb.br/). No Brasil da atualidade dos anos 2000, o Método de Hébert ainda sobrevive em suas propostas essenciais em Curitiba-PR, em São Paulo-SP e outras cidades, por meio de pistas de treinamento de exercícios naturais, com a denominação original francesa “Le Parkour”. Há também ainda uma Associação Brasileira de Parkour – ABPK, cujo site é www.abpk.br/. 1967 Lamartine DaCosta, professor de Educação Física do Centro de Esporte da Marinha-RJ, publica um livro com relatórios de pesquisas sobre atividades físicas em clima tropicais, realizadas na cidade do Rio de Janeiro, durante três anos (1964, 1965 e 1966). O livro foi denominado de “A Atividade Desportiva nos Climas Tropi- cais e uma Solução Experimental: o Altitude Training” (DaCosta, 1967), em razão de terem as investigações o objetivo de medir o gradiente redutor da performance física de longa duração sob impacto direto dos raios solares, como também os efeitos do mesmo esforço ao se realizar à sombra, em meio ao ambiente florestal. 14 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    O experimento foifeito com 10 atletas masculinos de nível nacional e internacio- nal do atletismo, em provas de corridas de média e longa distâncias. Como as análises estatísticas das observações comprovaram uma melhoria no gradiente redutor à sombra, especificamente nas subidas da Floresta da Tijuca da mesma cidade, surgiu um método de treinamento como resultado adicional ao estudo. Por conseguinte, a inibição do esforço físico devido ao calor foi relativizado pelo modo de se conduzir e dosar o exercício. Em suma, o determinismo que definia o trabalho físico em ambiente tropical no Brasil desde 1850, tornou-se improcedente diante dos resultados desta pesquisa. Destaque-se ainda que estas investigações biometeorológicas foram pioneiras na área esportiva nacional quanto ao uso de computadores e de protocolos de rigor científico. O livro de DaCosta (1967) en- contra-se resumido em suas partes principais na presente Coletânea, representan- do a inauguração no Brasil de estudos e pesquisas sobre o meio ambiente e esporte e posteriores desdobramentos nas áreas de lazer e turismo. Há uma versão em inglês deste livro datada de 1966, compondo um manual técnico da Academia do Conseil International du Sport Militaire-CISM, Brussels, sob a denominação “Sport Activities in Tropical Climates and an Experimental Solution: the Altitude Training”(DaCosta, L.P., 1966). Esta obra marca o início da internacionalização da produção científica brasileira na área do esporte e possivelmente na do meio ambiente como disciplina autônoma de conhecimento. 1967 Lamartine DaCosta publica “Planejamento México” (obra incluída nesta Coletâ- nea) pela então Divisão de Educação Física do MEC, em que estuda os efeitos do meio ambiente encontrado na altitude em geral e na Cidade do México em particular, a 2.240 metros, local dos Jogos Olímpicos de 1968 e da Copa do Mundo de 1970. Este pesquisador participara de um grupo de observadores de diversas nacionalidades que visitaram a Cidade do México em 1967, a fim de levantar as dificuldades de competições de alto rendimento no local. DaCosta em razão de seus estudos ante- riores – desde 1963 - já participava na época da Sociedade Internacional de Biometereologia e da Academia do Conselho Internacional do Esporte Militar-CISM, esta última uma entidade de ponta nas questões de treinamento esportivo. Nestes estudos, tal como ocorrera antes com o clima quente, demonstrou-se que o meio ambiente adverso à atividade física representado por regiões elevadas, era real porém eivado de preconceitos. Neste mesmo ano, uma versão reduzida deste livro foi publicada em artigo em língua inglesa na revista “Sport International”, Da Costa, L.P., vol 3, no. 36, pp. 16 – 23, sob o título “Altitude Training”. Esta publicação (não disponível nesta Coletânea) é possivelmente o primeiro texto em inglês na área do esporte produzida por autor brasileiro para periódico científico de circulação inter- nacional, e talvez um dos mais citados até hoje. 1968 Os Jogos Olímpicos do México têm lugar neste ano, superando a ameaça de suspensão do evento pelo COI por existirem ameaças ambientais aos atletas pela elevada altitude da sede dos Jogos. DaCosta acompanhou o evento e fez um levantamento minucioso das condições de aclimatação para a Seleção Brasileira de Futebol no local e em outras regiões do México, para uso quando da Copa do Mundo de Futebol de 1970 a ser realizada no México. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 15
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    1968 João LyraFilho publica neste ano o livro “Desporto e Trópico”, em que defende a teoria determinista do esporte praticado no clima prevalente na maior parte do Brasil, a qual subentende efeitos prejudiciais. Este então famoso cultor do direito e da sociologia do esporte, propôs nesta obra a elaboração de um “Cadastro Nacional dos Desportos” com a finalidade de “explicar, à luz dos trópicos, em relação a um povo ou outro, as preferências por desportos mais atuados pelo instinto, pela alma ou pelo espírito” (Lyra Filho, 1968, p. 6). 1970 Realização da Copa do Mundo de Futebol no México. Lamartine DaCosta produziu um plano científico de adaptação usando os efeitos benéficos da alti- tude (super aclimatação) e minimizando suas causas nocivas. Em conjunto com outras contribuições positivas, o plano biometereológico garantiu a vitória da Seleção ao final da competição. O relatório oficial da Federação Internacional de Futebol Amador-FIFA sobre a Copa de 1970, publicado em 1972, enfatizou o trabalho científico de aclimatação à altitude mexicana de 2.240 metros, consi- derando como o mais eficaz entre os países concorrentes (FIFA, World Cup México 70 - Official FIFA Report, Zurich, 1972). A partir deste ano, vários estudos e registros foram publicados sobre os feitos científicos para Copa de 1970 com base em conhecimento gerado no Brasil. Este tema repercutiu mais uma vez durante a Copa de 2006 (Alemanha) como se verifica em estudo incluído nesta Coletânea (Santoro, Soares e Bartholo, 2006), o que confirma ser uma das ten- dências dominantes da produção de conhecimento na área de meio ambiente no Brasil, com quatro décadas de sobrevivência. 1977 Publicação do livro “Treinamento Desportivo e Ritmos Biológicos” (José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1977) de Lamartine DaCosta, reunindo pesquisas feitas com atletas brasileiros no Rio de Janeiro e em Atvidaberg, na Suécia, quando as reações dos sujeitos da investigação à mudança de ambientes foram mensuradas e comparadas à luz da aplicação de treinamento físico. Neste está- gio da produção do conhecimento já se considerava importante o cruzamento de efeitos diversos advindos do meio ambiente (calor, altitude, mudança de fuso horário etc) buscando-se fatores de maior influência. Neste particular, o relaci- onamento social destacou-se como variável fundamental da aclimatação “cru- zada”, fenômeno de natureza ecológica incluindo influências de vários sistemas relacionados à vida humana. O livro de DaCosta (1977) não esta incluído nesta Coletânea, em que pese seu valor para o estímulo do esporte-turismo, hoje em ampla expansão. Esta obra, também pioneira, recebeu como pesquisa o Prêmio MEC de Literatura Esportiva de 1976. Estes resultados sugerem também que a opção biológica e ambientalista de DaCosta e associados situava-se à época em nível similar às pesquisas internacionais. 1981 Neste ano, publica-se no Rio de Janeiro, o livro “Teoria e Prática do Esporte Comunitário e de Massa”, Lamartine P. DaCosta (Ed.), Palestra Edições. Esta obra consolidou experiências e conhecimentos do chamado “Esporte para Todos” (EPT) no Brasil – gerados nas décadas de 1920 a 1970 -, incluindo autores sobre- 16 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    tudo das áreasde lazer e esporte recreativo. Entre as diversas revisões feitas pelo EPT brasileiro, destacou-se a valorização da natureza como ambiente de práticas físicas, como se verifica nos Princípios do Esporte para Todos (ver texto de DaCosta de 1981, incluso nesta Coletânea). 1981 – 1982 No Brasil, neste estágio, as atenções para o meio ambiente por parte dos esportistas permaneceram limitadas a interesses incidentais, tais como aos relacionados a competições em altitude na Colômbia, Equador, Bolívia e México. Entretanto, a agenda de pesquisas de DaCosta em termos de influência do meio ambiente no desenvolvimento atlético neste período incorporou experiências com atletas brasileiros preparando-se para os Jogos Olímpicos de Moscou (1981); planejamento in loco da adaptação à altitude de 3.600 metros para a representa- ção brasileira ao Campeonato Sul-Americano de Natação em La Paz, Bolívia (1982); reconhecimento dos locais de jogos da Copa do Mundo de Futebol-1982, na Espanha, para adaptação da Seleção Brasileira de Futebol ao calor, alimenta- ção e mudança de fusos horários. Em adição a estes desenvolvimentos, DaCosta fez estágio em Font Romeu, França, no laboratório de pesquisas em altitude dos Pirineus (1.850m), também em 1981. 1983 Diekert & Monteiro da Universidade Federal de Santa Maria – UFSM, publi- cam o possível primeiro livro nacional – incluso nesta Coletânea - sobre equipa- mentos e parques de lazer em que privilegiaram atividades físico-recreativas em ambientes naturais, promovidas por trabalhos comunitários e locais (mutirão). Jürgen Diekert era à época professor visitante na UFSM e trouxe experiências da Alemanha quanto ao uso de materiais de origem florestal. 1987 DaCosta publica em Portugal, pelo Ministério da Educação e Cultura, o estudo “A Reinvenção da Educação Física e do Desporto segundo Paradigmas do Lazer e da Recreação”, em que explora especulativamente a oposição funda- mental entre a idéia da natureza e a de cultura. Este nexo tradicional da filosofia, revelou-se para o autor brasileiro como um fio condutor para se re-conceituar o lazer à luz das atividades físicas organizadas de modo pedagógico ou de livre arbítrio. Possivelmente este texto inaugura o pensar ecológico no lazer no âm- bito acadêmico de língua portuguesa. Década de 1990 Neste período, o eixo de compreensão das questões ambientais no esporte se deslocou da proteção do praticante para a proteção do meio ambiente em que se pratica ou se competem esportes. Este fato foi produto do espírito da época desde que em 1992, realizava-se no Rio de Janeiro, a Conferên- cia das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento de grande impacto internacional e marcante quanto ao início da responsabilidade dos esta- dos nacionais, formalmente assumida, a respeito da proteção da natureza em escala global. Do lado do esporte, o COI assumiu a liderança no plano internaci- onal e, já em 1995, esta instituição organizava a 1a. Conferência Mundial sobre Esporte e Meio Ambiente em Lausanne, Suíça. Neste evento se estabeleceram as Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 17
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    bases para emendara Carta Olímpica, documento maior de princípios do COI e das Federações Internacionais a ele filiadas, o que ocorreu efetivamente em 1996. A partir desta data, o COI passou a assumir publicamente os seus “três pilares de sustentação: esporte, cultura e meio ambiente” (Tavares, 2002). A modificação da Carta Olímpica incluiu a definição de desenvolvimento sustentá- vel, já consagrada na histórica Conferência do Rio de Janeiro de 1992. Por este marco definitório, “as atividades físicas, os jogos e competições são sustentá- veis quando sua instrumentalização respeita os valores intrínsecos da natureza e do esporte” (DaCosta, 2002). Em síntese, a definição então estabelecida e hoje corrente, propunha uma adaptação mútua entre praticantes e o meio ambiente, uma posição bem distinta em perspectivas do passado no Brasil com relação ao determinismo ambiental de Lyra Filho dos anos de 1960 ou do higienismo radical de Eduardo Ferreira França do século XIX, que entendia o meio ambiente como uma ameaça à saúde humana. 1992 DaCosta publica em capítulo de livro seu segundo estudo filosófico sobre o meio ambiente “O Olhar e o Pensar Ambientalista”, no qual explora sua expe- riência científica de três décadas no tema. Neste texto – ora incorporado nesta Coletânea – há um resumo de sua crítica, ao declarar que “estamos incorporan- do, enfim, uma cultura ecológica, mas não conseguimos compreendê-la além dos dados científicos reducionistas ou da informação efêmera da mídia”. 1993 Realização do Simpósio Internacional Cidadania, Esporte e Natureza, orga- nizado pela Universidade do Porto, em Portugal, por proposta de Lamartine DaCosta, então professor visitante daquela universidade. Também neste ano, no Brasil, Rita Mendonça, especialista em Planejamento Ambiental pela UNESCO e mestre em Sociologia do Desenvolvimento pela École des Hautes em Sciences Sociales, da França, publica o artigo “Turismo ou meio ambiente: uma falsa oposição” (incluído nesta Coletânea) denunciando que no Brasil “o turismo, tal como vem sendo implantado, não apresenta característica de sustentabilidade a médio e longo prazos”. Este estudo pioneiro, todavia de índole conceitual, cons- trói preliminares ao pensamento sobre o meio ambiente, que aparentemente influenciaram autores brasileiros de temas relacionados com o lazer de ativida- des físicas e turismo. Nas conclusões há perspectivas futuras da parte da autora que revelam tendências hoje razoavelmente confirmadas: “Há vários indícios de que essa sustentabilidade não ficará apenas em nosso exercício de raciocínio: os novos planos de desenvolvimento turístico vêm incorporando pouco a pouco os aspectos ambientais; a legislação ambiental brasileira é bastante clara e interes- sante em muitos aspectos; os conceitos e técnicas em educação ambiental têm evoluído muito. É claro que tudo isso precisa ser posto efetiva e completamente em prática. Mas não podemos perder de vista que se trata de um processo, formado por etapas e pequenas conquistas individuais” 1994 Realização dos Jogos Olímpicos de Inverno de Lillehammer, Noruega, que representaram os primeiros “Jogos Verdes” (Green Games) da história do Movi- 18 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    mento Olímpico Internacional,pelos critérios de sustentabilidade adotados nas instalações e organização das competições e hospedagem de atletas e visitantes. Neste ano, Sydney – Austrália foi escolhida por eleição como sede dos Jogos Olímpicos de Verão do ano 2000, tendo privilegiado a proteção do meio ambiente em seu projeto de candidatura. Em condições similares de dar prioridade ao ambientalismo, Atenas – Grécia foi eleita em 1998, a sede dos Jogos Olímpicos de 2004. Entretanto, a partir de Lillehammer tornou-se comum o uso dos Jogos Olímpicos como showcases (projetos - demonstração) de boas práticas ambientalistas. No âmbito brasileiro, autores como DaCosta, Carvalhedo e Veerman – seguidores da tradição científica, tecnológica e ética – adotaram então os even- tos olímpicos como suporte empírico de seus estudos, incluindo no caso o turismo e o lazer. Tal opção foi reforçada em 1999 quando da adesão oficial do Programa Ambiental das Nações Unidas – UNEP ao trabalho em conjunto com o Comitê Olímpico Internacional (ver adicionalmente Tavares et al., 2002, nesta Coletânea). 1996 Neste ano, outros autores brasileiros incluem-se na senda aberta antes por Rita Mendonça, como no exemplo de Ana Cristina P.C. Almeida ao preconizar “ênfase na Educação Ambiental que direciona a uma atualização voltada, princi- palmente, ao uso adequado dos recursos naturais, porém, geralmente, discrimina as relações globais de causa e efeito por falta de tempo, dedicação e até expe- rimentação científica que tornaria o assunto mais pró-ativo além da simples ‘conscientização’ e, portanto, de maior importância ao aprendizado” (ver nesta Coletânea o texto “A Inter-Relação do Ensino em Recreação e Lazer e a Educa- ção Ambiental” de 1996). Por sua vez, Flávio Leonel A. Silveira em seu “Ecoturismo: Viagem, Lazer & Aventura” (incluído nesta Coletânea), adotando uma linha conceitualista e experimental, levanta perspectivas futuras indicando que “o turismo ecológico ou o ecoturismo é um fenômeno recente e em evidência, ou melhor, é um evento típico do final do século XX, dentro do que se poderia apontar como uma perspectiva pós-moderna de interação com os naturais. Tra- ta-se de uma atividade turística que se caracteriza por certo hibridismo, no qual as questões ecológicas mesclam-se com a experiência turística gerando um outro tipo de evasão do espaço urbano, a qual prefiro denominar ‘experiência ecoturística’.” A própria Rita Mendonça retorna este ano, publicando “Visitar e compartilhar a natureza” (incluído nesta Coletânea), uma reflexão em que se baseia em destacado pensador ambientalista que tenta combinar posições filo- sóficas com imperativos pedagógicos: “Para Joseph Cornell, a verdadeira defini- ção de educação, que abrange a educação ambiental, é sugerida por J. Donald Walters: ‘É a habilidade de se relacionar com outras realidades, e não apenas com a sua própria’. No fundo, nós estamos ligados a todas as formas de vida, só que não percebemos mais,.. No nosso dia-a-dia quase não nos damos conta deste afastamento e de quão longo é o caminho para nos reencontrarmos verdadeira- mente com elas”. 1997 Neste ano, foi organizado um Seminário na Universidade de Cingapura sobre os problemas ambientais dos Jogos Olímpicos de Sydney - 2000, no qual Lamartine DaCosta (Universidade Gama Filho-RJ) debateu com Richard Cashman Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 19
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    e Kristine Toohey,da Universidade de New South Wales, Austrália, as questões centrais sobre o meio ambiente envolvendo os Jogos Olímpicos. Nesta ocasião, foi divulgado um position paper (não incluído nesta Coletânea) então referenciado como: DaCosta, L.P., The Green Dream: the Olympic Movement and the Environment, National Olympic Academy of Singapore Seminar, Singapore, 1997. Posteriormente, ainda em 1997, este autor brasileiro publicou pela Academia Olímpica Internacional, Grécia, um estudo de revisão conceitual e tecnológica para dar suporte à candidatura de Atenas para os Jogos Olímpicos – 2004; tal documento (também não incluído nesta Coletânea) está referenciado como: DaCosta, L. P., The Olympic Movement Today and the Environment Protection, I.O.A. Report of the 37th Session, Ancient Olympia, 1997, 3-6. Em resumo, no Brasil, a linha de pesquisa liderada por DaCosta neste estágio já estava consoli- dada como marcada por bases científicas, filosóficas e tecnológicas ao passo que o caminho em construção exemplificado por Mendonça, Pimentel e Silveira mostrava-se como de revisão conceitualista, pedagógica e auto-reflexiva dian- te uma realidade típica nacional. Significativamente estas duas tendências cen- trais dos anos de 1990 focalizavam igualmente o meio ambiente, o lazer e o turismo, gerando um certo hibridismo conceitual e operacional. 1997 Publica-se em Portugal, o livro “Meio Ambiente e Desporto – Uma Perspec- tiva Internacional”, tendo como editor Lamartine DaCosta e como organizador Antônio Marques, professor da Universidade do Porto. O livro – escrito em inglês e português - teve o apoio financeiro do Comitê Olímpico Internacional - COI e a colaboração de 15 especialistas de vários países no tema proposto. A tese central do livro dispôs-se na condição ambivalente do esporte que tem atuado “como vilão e vítima” do meio ambiente. A presente coletânea inclui a “Introdu- ção” deste livro como também um capítulo de DaCosta em que se apresenta uma teoria geral sobre o meio ambiente e a prática esportiva, ambos na versão em inglês da publicação. Esta última construção conceitual, filosófica, empírica de índole científica e internacionalista demarcou a produção do autor em foco até 2006 quando publica um estudo sobre a proteção do meio ambiente – com educação ambiental e turismo correlatos – nos Jogos Olímpicos de Inverno de Turim – Itália (em associação com Cris Veerman e incluído nesta coletânea). No seu significado de obra coletiva internacional, o livro da Universidade do Porto constituiu um marco para os especialistas brasileiros em meio ambiente na me- dida em que se expandiu o intercâmbio com outros países como se verifica nos anos seguintes desta cronologia. Este viés explica, por exemplo, o destaque dado pelo European College of Sport Sciences aos trabalhos da linha de pesquisa de DaCosta e associados em 1991 (ver adiante). 1998 Acontece o Seminário Internacional de Esporte e Meio Ambiente, em Curitiba-PR, promovido pelo Comitê Olímpico Brasileiro-COB, com a presença de representantes de países latino-americanos e do COI. Otavio Tavares, Renato Miranda e Lamartine DaCosta organizaram um livro com os textos apresentados e as notas das discussões, que foi publicado em 2002 com o título “Esporte, Olimpismo e Meio Ambiente”. Neste Seminário teve destaque a “Agenda 21” 20 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    como base paraa revitalização dos esportes tendo em vista as exigências de proteção ambiental. A Agenda 21 teve também origem na Conferência de 1992 do Rio de Janeiro, consistindo num compromisso de esforços conjugados de gover- nos e instituições em projetos de conservação ou de proteção da natureza (“21” refere-se ao século visado pela Agenda). 1999 Tem lugar no Rio de Janeiro-RJ a Terceira Conferência Mundial sobre Espor- te e Meio Ambiente, promovida pelo COI e organizada pelo COB. Este evento foi o maior até então ocorrido no tema proposto, com a presença de 93 represen- tantes de Comitês Olímpicos Nacionais e de 19 Federações Internacionais de esportes. O significado desta participação inédita prendeu-se ao crescente envolvimento das modalidades esportivas per se nas questões ambientais, em complementação aos interesses voltados para os Jogos Olímpicos e mega even- tos esportivos em geral. Segundo avaliação de DaCosta produzida em 2001 por solicitação da Universidade de Colônia, Alemanha, em 29,7% das contribuições e discussões da Conferência de 1999, o foco se pôs na ética, sobretudo em termos de comportamento pessoal e de intervenções de governo. Já 27,0% dos trabalhos voltou-se para perspectivas e projeções futuras do tema de proteção ambiental, enquanto 24,3% abordou técnicas e instrumentos de manejo ecológico. Os as- suntos de promoção de eventos e os relacionados com a educação e cultura foram residuais com 18,9%. Estes resultados indicaram a existência de ambigüi- dade no trato das questões ambientais por parte dos gestores esportivos das entidades internacionais, o que foi posto em foco por DaCosta posteriormente no trabalho “International Trends of Sport and Environment - a 2001 Overview”, já aqui citado e resumido pela presente Coletânea. 1999 No Brasil, Rita Mendonça amplia sua linha de reflexão e re-conceituação do turismo vinculado ao meio ambiente, publicando “Sentido da Viagem”, capí- tulo de livro em que a busca de novos sentidos constitui a abordagem principal (ver texto com este título na presente Coletânea) diante da crescente valoriza- ção da natureza. Na mesma linha de conta, situam-se Cristiane Ker de Melo & Ana Cristina P. C. Almeida no estudo “Nas Trilhas da Relação Educação Física – Meio Ambiente” – incluído nesta Coletânea – inserindo os nexos das atividades físicas organizadas ou de lazer na re-semantização unificada da natureza. Tais re- significações neste estágio implicaram em verificações empíricas, como o fize- ram Alba Pedreira Vieira & Priscyla Assis em “Turismo Ecológico: essa possibili- dade de lazer é ‘quente’” (ver nesta Coletânea), produzindo levantamento de campo. Para estas autoras, o desenvolvimento da Educação Ambiental passa pelo turismo ecológico (EMBRATUR, 1994: “Um segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem-estar das populações envolvi- das”). Este, por sua vez, “oferece enquanto espaço para vivência tanto do ho- mem com seus pares, quanto do homem com a natureza; essa vertente do turis- mo vem a cada dia se consolidando como potencializadora forma de se conhe- cer a natureza, dela fruindo e usufruindo, de maneira orientada e sustentável”. A Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 21
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    verificação prática depropostas de lazer, atividades físicas e Educação Ambiental foi feita também por Teresa Magro em “Impactos do uso público em uma trilha no Planalto do Parque Nacional do Itatiaia” (ver Coletânea), em que um estudo de caso demonstrou que “fatores institucionais, ligados à administração do parque, contribuíram fortemente para a degradação de parte do ecossistema estudado”. Outra verificação foi feita por Alba Pedreira Vieira, Priscyla Assis & Fernanda Fernandes por meio de vivências no município de Tombos-MG (ver “Ecoturismo urbano” nesta Coletânea) quando se comprovou que a “cultura lúdica” dos pra- ticantes pode alavancar um experiência de Educação Ambiental. Uma discussão destas possibilidades de integração de fatores culturais, educacionais e gerenciais envolvendo o meio ambiente é feita ainda em 1999 por Alcyane Marinho (ver nesta Coletânea “Do Bambi ao Rambo ou do Rambo ao Bambi? As relações com a (e na) natureza”. Para esta última autora, as novas formas de se relacionar com o meio natural e com outras pessoas, manifestam-se preferencialmente por meio da prática de atividades de aventura na natureza. No seu todo, os estudos e pesquisas inventariados em relação ao final dos anos de 1990, sugerem que a fase de re-conceituações diminuiu progressivamente enquanto ampliavam-se as investigações e observações de campo. A explicação, no caso, é a de que o impacto do ambientalismo em face aos fatos sociais no Brasil exigiu reflexão e ajustes conceituais no início da década de 1990, dando lugar posteriormente às constatações práticas para legitimação de intervenções por parte de indivíduos, grupos sociais e instituições. 2000 A fase identificada para o final da década de 1990 inclui sobretudo as investigações de Ana Cristina P. C. de Almeida fazendo verificações de tendênci- as, usando a técnica Delphi reunindo especialistas diversos exercendo projeções futuras. Nesta Coletânea foram arrolados dois textos da autora em foco, sendo o primeiro “Considerações sobre o Futuro das Atividades Físicas de Lazer e Recreação Ligadas à Natureza - Um estudo Delphi”; e o segundo “O Futuro das Atividades Físicas de Lazer e Recreação ligadas à Natureza e à Educação Ambiental”, ambos extraídos da dissertação de Mestrado desta pesquisadora. De acordo com a metodologia usada nas pesquisas foram consultados 35 especia- listas em painéis sucessivos em horizontes de tempo imediato e de três anos adiante. Ao final, concluiu-se que na opinião dos especialistas entre as práticas de ocorrência imediata encontram-se caminhadas ecológicas, corridas rústicas, surfe, canoagem, rodeio, as diversas modalidades esportivas nas areias das prai- as do litoral brasileiro e fotografia da natureza. Entre 2000 e 2001, os especialis- tas apontam que o crescimento do ecoturismo, em fazendas, sítios, e no Panta- nal; as atividades desenvolvidas pelas empresas de ecoturismo, os crescentes campeonatos em diferentes ambientes naturais, colônia de férias, acampamen- tos, surgimento e continuidade de eventos científicos, publicações acadêmicas nas áreas do Lazer e do Turismo e o surgimento de programas relativos às atividades ligadas ao ambiente natural. No período de 2000 a 2002, destacam-se o Congresso Virtual do Meio Ambiente, a construção de parques temáticos, as pressões do poder econômico para a transformação de ambientes naturais para o lazer de massas, a educação para o lazer e o Meio Ambiente e a construção de 22 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    espaços alternativos paraa prática de atividades físicas para a terceira idade. Não houve consenso quanto aos impactos considerados negativos ao ambiente natural; porém pressupõe-se que estes eventos possam causar diferentes impac- tos ao ambiente e no estilo de vida das pessoas. Dos conteúdos analisados referentes aos programas de Educação Ambiental, observou-se que a disciplina não consta nos currículos e apenas 10% dos professores responderam no questi- onário que trabalham a Educação Ambiental. Entre as sugestões metodológicas apresentadas, destacaram-se em linhas gerais o trabalho interdisciplinar, o in- centivo a linhas de pesquisas, a efetivação da atividade e a preparação de mate- riais educativos para a comunidade, entre outros. Ao final, foi possível discernir que a disciplina Lazer e Recreação deva contemplar a Educação Ambiental devi- do ao crescimento dos eventos ligados à natureza e seus possíveis comprome- timentos ao ambiente natural. Estas verificações ainda estão hoje (2006) em aberto para confirmações. Porém já se pode admitir que os elementos destaca- dos na consulta Delphi estão presentes nas relações sócio-culturais atuais, mas continuam desconhecidas as proporções em que se influenciam umas às outras. 2001 Uma avaliação dos principais direcionamentos da produção do conheci- mento do esporte em seus relacionamentos com o meio ambiente foi feito por Lamartine DaCosta durante o Congresso do European College of Sport Sciences- ECSS, na Universidade de Colônia, Alemanha (28 – 24 de julho de 2001), a convite dos organizadores. A síntese cobriu as três últimas décadas de exploração do tema e na essência incidiu sobre o caráter de resolução de conflitos que reveste os problemas da proteção do meio ambiente, e que inclui o esporte entre várias outras manifestações humanas. Contudo, o esporte tem apresentado um diferen- cial nesta relação por expressar fatos ao passo que o meio ambiente expressa valores (ver nesta Coletânea DaCosta, 2001), explicando assim sua condição ambivalente já enfatizada no livro de 1997 antes citado. Em conclusão, o pesqui- sador brasileiro pôs em evidência a ética como caminho apto para a solução do dilema de ser o esporte simultaneamente vilão e vítima do entorno físico, social e cultural. Já em relação às outras tendências identificadas no Brasil na temática ora em exame, percebe-se a partir deste ano que a linha seguida por DaCosta em quatro décadas de estudos do meio ambiente voltara-se progressivamente para uma visão micro de relações privilegiando intervenções operacionais técnico- científicas, fundadas em argumentação histórico-filosóficas. Entretanto, a linha sócio-pedagógica aqui descrita com maiores empenhos por iniciativas dos anos 1999-2000, situam-se numa visão de predominância macro que visa ao desen- volvimento social e à proteção da natureza. Enquanto neste estágio a opção de DaCosta e seus seguidores enfatiza a gestão do esporte, lazer e turismo dando ênfase a resultados práticos, a linha sócio-pedagógica revela-se comportamentalista e produtora de valores, tanto por meio de agentes como de interventores. 2000 – 2002 Uma outra avaliação dos dois últimos anos desta ordem cronológi- ca em conjugação com 2002 confirma o surgimento de convergência dos estu- dos e pesquisas nacionais – abrangendo as duas linhas dominantes - no sentido Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 23
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    de comprovações empíricase revisões teóricas das propostas de sustentabilidade típicas da década de 1990 no Brasil e no exterior. De fato, dos 16 trabalhos inventariados deste estágio, 18,7% são estudos de caso e relatos de experiência; 25,0% compõem pesquisas de campo e levantamentos (surveys); 37,5% represen- tam artigos de revisão e position papers, e 18,7% se referem a novas abordagens metodológicas e de re-conceituação. Neste último item, classificam-se o uso do método Delphi de Almeida (2000) e a abordagem do imaginário social em espor- tes de aventura na natureza de Costa (2000). Entre os surveys, inclui-se o levan- tamento internacional de DaCosta (2001) para o ECSS que se desenvolve a partir dos conflitos entre elementos de intervenção relacionados ao meio ambiente. Desta investigação, aliás, derivou-se um outro estudo de DaCosta (“Conflitos Ambientalistas do Desporto e da Educação Física e a Nova Cidadania Ecológica”, in Vargas, A. (Ed.), Desporto e Tramas Sociais, Sprint, Rio de Janeiro, 2001, pp. 91 – 104) não disponível nesta Coletânea, que incide na ética como âncora da sustentabilidade e veículo da solução dos inevitáveis conflitos ambientais en- volvendo esporte, lazer e turismo. 2003 – 2007 Este período revela mais claramente a maturidade dos trabalhos inventariados em conjunto, uma tendência já identificada desde 2001. Nestes termos, sustentabilidade e impacto ambiental são elementos de importância consensual e como tal constituem fundamentos básicos em estudos e pesquisas. Já o perfil de caracterização define-se com 17,9% de um total de 67 trabalhos voltados para estudos de caso e relatos de experiência (cifra próxima àquela registrada em 2000-2002); 20,8% são pesquisas de campo e levantamentos (surveys), com queda de 4% em relação ao triênio anterior; 34,3% constituem artigos de revisão e position papers (redução de 3% em relação a 2000 – 2002); e 23,8% se referem a novas abordagens metodológicas e de re-conceituação, cifra aumentada em 5% comparando-se com o período anterior. No geral, esses quan- titativos revelam uma tendência dominante para a inovação ao se somarem os trabalhos de revisão – incluindo position papers - com os de novas abordagens metodológicas, totalizando 58,3% da produção técnica e científica arrolada nes- ta amostra indicativa. Este resultado ao se cotejar com a teoria de Sinclair- Desgagné (1999) sugere a existência de uma orientação adequada para o desen- volvimento da produção e gestão do conhecimento científico-ambientalista em esporte, lazer e turismo no Brasil. Segundo esta teoria, a pesquisa de inovação na área de meio ambiente permite a identificação de intervenções seletivas que criam um melhor e mais abrangente potencial de desenvolvimento. Entretanto, para se consolidar esta interpretação há que se avaliar futuramente a qualidade das investigações produzidas no país na área de saber em foco, o que demanda um desdobramento da presente apreciação com amostragem e monitoração mais precisas. 2006 – 2007 Este último estágio classificado pela presente Coletânea como inserido no período 2003 - 2007, inclui trabalhos os quais por comparação suge- rem haver uma convergência entre as duas principais abordagens históricas dos 24 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    estudos e pesquisasem meio ambiente, esporte, lazer e turismo no Brasil: a de gestão bio-tecnológica de bases éticas e a sócio-pedagógica, de índole comportamentalista e axiológica. De fato, a coletânea “Viagens, lazer e esporte: o espaço da natureza” de Alcyane Marinho e Heloisa Turini Bruhns (Eds.), São Paulo: Manole, 2006, amplia o foco sócio-pedagógico optando por autores e temas que trabalham nos vieses da interdisciplinaridade, de mapeamento, de impactos ambientais e de monitoramento participativo. Outro exemplo de auto- res clássicos, reside no texto de Lamartine P. DaCosta & Cris C. Veerman (2006), publicado em livro na Alemanha sobre os Jogos Olímpicos de Inverno de Turim, que embora se mantenha na tradição tecnológica-científica privilegia a educa- ção ambiental e posturas valorizativas. Em geral, os textos inventariados da produção 2003 – 2007 convergem para pontos comuns de análise sobretudo quando abordam a temática do eco-turismo e a dos problemas de impactos ambientais. REFERÊNCIAS DaCosta, L.P., Environment and sport – An international overview. Universidade do Porto-Portugal, 1997, p. 44; DaCosta, L.P., Conflitos ambientalistas do desporto e da educação física e a nova cidadania ecológica. In Vargas, A., Desporto e Tramas Sociais. Sprint, Rio de Janeiro, 2001, pp. 91 – 104; DaCosta, Lamartine. A Atividade desportiva nos climas tropicais e uma solução experimental: o Altitude Training. Rio de Janeiro: Imprensa do Exército, 1967; DaCosta, Lamartine. Planejamento México. Rio de Janeiro: Ministério da Educa- ção e Cultura, 1967; FIFA. World Cup México 70 - Official FIFA Report, 1972; Tavares, O., DaCosta, L. P. e Miranda, R., Esporte, Olimpismo e Meio Ambiente. Editora Gama Filho, Rio de Janeiro, 2002; DaCosta, L. P. Olympic Studies. Editora Gama Filho, Rio de Janeiro, 2002 (em CD ROM): disponível em 2004 no site: www.aafla.org/search/search.htm; DaCosta, L.P. International Trends of Sport and Environment - a 2001 Overview. ECSS Congress, Cologne 24 - 28, July 2001; Gleyse, J., Pigeassou, C., Marcellini, A., Léséleuc, E, Bui-Xuân, G. Physical Education as a Subject in France (School Curriculum, Policies and Discourse): the Body and the Metaphors of the Engine—Elements. Sport, Education and Society, Volume 7, Number 1, 2002, pp. 5 – 23; Sinclair-Desgagné, B. Remarks on Environmental Regulation, Firm behavior and Innovation. Centre Interuniversitaire de Recherche et Analyse de Organizations, Montréal, 1999 (position paper) Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 25
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    English forewords andreview Research mainstreams of studies on environment, sport, leisure and tourism in Brazil within the period 1967-2007 Ana Maria Miragaya, PhD Universidade Gama Filho, Rio de Janeiro Sports and environment have been historically related through the following perspectives: (i) the environment as agent - acting on the participant’s body causing physical performance loss (example: excessive heat); (ii) sports as source of pollution – or even destruction – (example: winter sports in natural environment), and (iii) sports as agent - participants as environment guardians (example: surfers protecting local beaches). Although research tradition on human physical impairment due to hostile climate conditions started in Brazil in 1850, it was only in the 1960s that sports became part of scientific investigations that brought successful results such as Brazil’s conquest of the 1970 Soccer World Cup, as the main games were held in Mexico City, elevation 2,240m. The issue that dealt with the protection of the environment where sports events are held was approached in Brazil in the 1990s as a result of international action, which produced more theoretical academic research in addition to field research. After evaluating international research on sports and environment during this period, the Brazilian researcher Lamartine DaCosta concluded that while sports express facts, environment expresses values, which generates an ambivalent condition. The solution in this case would be the development of some type of ethics that could solve the dilemma permitting sports to be both a villain and a victim of the physical, social and cultural context at the same time. Among several lines of investigation in this theme, it is possible to state that Brazil has had two main groups of research over the years. The first one started up with DaCosta in 1964 and focused initially on sports, leisure, later on tourism, and their influences on the environment. This research group was already established and had scientific, philosophical and technological bases in the early 1990s. As a result, researchers sharing these same objectives have been publishing their scientific production in international periodicals since 1967. The second main research group, Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    which began inthe early 1990s, focused on revisions of concepts and of educational procedures due to the need of environmental conservation. As a result of the studies developed, this book presents contributions from 86 authors with the purpose to explore general tendencies within the proposed theme. At the turn of the millennium, Brazilian research was taken to Europe in 2001, when DaCosta made a first evaluation of the main directions of the production of knowledge in sport and its links with the environment during the 2001 Conference of the European College of Sport Sciences - ECSS, at the University of Cologne, Germany (28 – 24 July), as a guest of the organizers. The synthesis covered research in this area over the last three decades, focusing on conflict resolution related both to problems of environmental conservation and to sports among various other human manifestations. The Brazilian researcher indicated ethics as a way out to solve the dilemma of sport viewed at the same time as both villain and victim of physical, social and cultural delimitations. The works published in 2001 and 2002 show a convergence of studies and research in Brazil – including both main research groups – in terms of empirical evidence and theoretical revisions of the proposals related to sustainability that are typical of the 1990s not only in Brazil but also abroad. As a matter of fact, out of the 16 studies examined within this period, 18.7% are case studies and reports of experiences; 25.0% are field research studies and surveys; 37.5% represent review articles and position papers, and 18.7% refer to new approaches of methods and of re-conceptualization, which includes not only the use of the Delphi method by Almeida (2000) but also the social imaginary approach to sports and adventures in the great outdoors by Costa (2000). Among the surveys, it is important to include the international survey done by DaCosta (2001) for the ECSS, which was developed from the conflicts between elements of intervention related to the environment. The period 2003 – 2007 reveals more clearly the maturity of the studies as a whole, a tendency which was identified in 2001. In these terms, sustainability and environmental impact are elements of consensual importance and as such constitute basic principles in studies and research. In terms of profiles, it is possible to define that 17.9% out of 67 works which include case studies and reports of experiences (similar to the one registered for the period 2000-2002); 20.8% refer to field research and surveys, with a decrease of 4% related to the previous three-year period; 34.3% constitute review articles and position papers (reduction of 3% in relation to the 2000-2003 period) and 23.8% refer to new approaches of methods and of re-conceptualization, number increased in 5% if compared to the previous period. In terms of Brazil, as of 2006, it is possible to observe on the one hand that research conducted by DaCosta during the last four decades of studies on environment has been going back towards a micro vision of relations which privilege technological and scientific operational interventions based on historical and 28 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    philosophical arguments. Onthe other hand, the social-pedagogical group of research, which developed initiatives between 1999 and 2000, has shared a macro vision which aims at social development and nature conservation. In other words, while DaCosta and his followers have been working on sport, leisure and tourism management emphasizing practical results, the social pedagogical group of research has been focusing on the behavior of producers of values by means of agents. In general, these numbers reveal a major tendency related to innovations if review works, including position papers, are added to works that deal with new methodological approaches, reaching 58.3% of the technical and scientific production registered in this indicative sample. If compared with the theory of Sinclair-Desgagné (1999), this result suggests the existence of an orientation that is adequate for the development of the production and management of the scientific-environmental knowledge in sport, leisure and tourism in Brazil. According to this theory, the research of innovation in the area of environment permits the identification of selective interventions which create a better and more comprehensive potential for development. Nevertheless, in order to consolidate this interpretation in the future, it is necessary to evaluate the quality of the investigations produced in Brazil in this area of knowledge This will require more detailed samples and more precise monitoring. The research works identified for 2006 and 2007 in terms of comparison suggest that there is a convergence between the two main historical approaches of studies and research on environment, sport, leisure and tourism in Brazil. Such coincidence primarily refers to bio-technological management with ethical bases, and in the second place to a social-pedagogical tendency, of behaviorist and axiological character. As a matter of fact, the classic anthology “Viagens, lazer e esporte: o espaço da natureza” (“Trips, leisure and sport: the space of nature”) by Alcyane Marinho and Heloisa Turini Bruhns (Eds.), São Paulo: Manole, 2006 enlarges the social-pedagogical focus choosing authors and themes that work with different viewpoints and biases in the areas of interdisciplinarity, mapping, environmental impact and participative monitoring. Another example of classic authors resides in the text of Lamartine P. DaCosta & Cris C. Veerman (2006), published in a book in Germany about the Winter Olympic Games of Turin, which in spite of keeping itself within the techno-scientific tradition privileges environmental education and values- led attitudes. In general, the texts surveyed for the production 2003 – 2007 seem to converge to common points of analysis particularly when they approach themes related to eco-tourism and environmental impacts. SOURCES AND REFERENCES DaCosta, L.P., Environment and sport – An international overview. Universidade do Porto-Portugal, 1997, p. 44; Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo 29
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    DaCosta, Lamartine. AAtividade desportiva nos climas tropicais e uma solução experimental: o Altitude Training. Rio de Janeiro: Imprensa do Exército, 1967; DaCosta, Lamartine. Planejamento México. Rio de Janeiro: Ministério da Educa- ção e Cultura, 1967; FIFA. World Cup México 70 - Official FIFA Report, 1972; DaCosta, L. P. Olympic Studies. Editora Gama Filho, Rio de Janeiro, 2002 (em CD ROM): disponível em 2004 no site: www.aafla.org/search/search.htm; DaCosta, L.P. International Trends of Sport and Environment - a 2001 Overview. ECSS Congress, Cologne 24 - 28, July 2001; Gleyse, J., Pigeassou, C., Marcellini, A., Léséleuc, E, Bui-Xuân, G. Physical Education as a Subject in France (School Curriculum, Policies and Discourse): the Body and the Metaphors of the Engine—Elements. Sport, Education and Society, Volume 7, Number 1, 2002, pp. 5 – 23; Sinclair-Desgagné, B. Remarks on Environmental Regulation, Firm behavior and Innovation. Centre Interuniversitaire de Recherche et Analyse de Organizations, Montréal, 1999 (position paper). 30 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2003 Publicação original: livro Formato da contribuição: texto da introdução do livro Fonte: MARINHO, Alcyane; BRUHNS, Heloisa T. (Orgs.). Turismo, Lazer e Natureza. São Paulo: Manole, 2003 E-mail do(s) autor(es): alcyane.marinho@hotmail.com Títulos acadêmicos principais atuais: Alcyane Marinho: Graduação pelo Departamento de Educação Física da UNESP de Rio Claro (SP); Mestrado e Doutorado pela Faculdade de Educação Física da UNICAMP (Campinas, SP), na Área de Estudos do Lazer, pesquisadora do Laboratório de Estudos do Lazer/ LEL da UNESP/Rio Claro. Heloisa T. Brunhs: graduada em Economia pela UNICAMP e em Educação Física pela PUC de Campinas; mestre e doutora em Filosofia da Educação pela UNICAMP. Professora Titular do Departamento de Estudos do Lazer da Faculdade de Educação Física da UNICAMP. Turismo, lazer e natureza Alcyane Marinho e Heloisa Turini Bruhns INTRODUÇÃO DO LIVRO A idéia de organizar esta coletânea partiu dos trabalhos desenvolvidos no Grupo de Estudos Lazer e Cultura (GLEC), da área de concentração Estudos do Lazer, pertencente ao programa de Pós-graduação da Faculdade de Educação Física da UNICAMP. Tal grupo tem sua existência desde 1995, sob coordenação da Profa. Dra. Heloisa T. Bruhns e já desenvolveu vários projetos, bem como possui uma participação consistente em congressos e publicações em periódi- cos da área. Atualmente, o GLEC tem concentrado suas investigações e publicações na relação lazer e meio ambiente, sendo que vários projetos de mestrado e dou- torado estão sendo desenvolvidos nessa temática. Dessa forma, o Grupo ga- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    nhou um destacadofator identificador, dentre outros, em um momento no qual a discussão acadêmica é reforçada por meio da forte demanda populacional relacionada ao ecoturismo e às atividades esportivas praticadas junto à natu- reza. Dentre tantas controvérsias, presentes nessas práticas, tais como preser- vação ou destruição, conhecimento ou consumo, exclusão ou inclusão, faz-se necessária uma reflexão mais elaborada, trazendo elementos para essa discus- são, bem como criando um espaço fértil para o diálogo com os leitores inte- ressados na temática. Esta, por sua vez, envolve uma abordagem interdisciplinar, requisitando vários olhares sobre o assunto (Educação Física, Geografia, Bio- logia, Sociologia, dentre outros), constituindo parcerias importantes, as quais juntam esforços na busca do entendimento, da mesma forma como problematizam aquilo que, às vezes, não é refletido ou, ainda, não é refletido adequadamente. O tema é bastante atual, espelhando uma época, na qual a nature- za, enquanto construção sociocultural, expõe os danos sofridos ao longo de séculos, ao mesmo tempo, constituindo-se como es- paço no qual grupos diferenciados buscam uma relação mais ínti- ma com a mesma. Nesse sentido, o homem urbano desloca-se em busca daquilo que, talvez, seja a necessidade de um reencontro consigo próprio, bem como a necessidade de revisar valores ou de construir uma identidade, dentre tantas outras possibilidades. O importante é não negligenciarmos esse movimento que traduz os anseios, bem como as frustrações do homem ocidental contempo- râneo, o qual, por meio dessas práticas, relaciona-se com experi- ências as quais nunca antes tinha imaginado concretizar, como viajar para descer a corredeira de um rio num bote inflável, descer uma cachoeira dependurado em cordas, explorar cavernas ou en- frentar obstáculos e dificuldades em trilhas no meio de florestas e matas. Essas atividades estão envolvidas por emoções e sentimen- tos que extrapolam suas formas e seus conteúdos, pois se relacio- nam a rituais, mitos, temores, bem como a imagens de aventura, de risco, de ousadia, de distinção, estilo de vida e outros. Assim, reunimos esse grupo de autores, os quais têm se dedicado a tal tema. Dentre eles, tivemos a satisfação de contar com a colaboração do Prof. Dr. Javier Oliveira Betrán, do INEF (Instituto Nacional de Educação Física de Catalunha), da Universidade de Barcelona, Espanha, quem, prontamente, respondeu ao nosso convite, possibilitando a extensão do diálogo, aqui pretendido, com aspectos de uma outra cultura, enriquecendo sobremaneira o nosso objetivo. Sem a pretensão de nos alongarmos demasiadamente nesta apresentação, pois não desejamos criar muitas ansiedades no leitor em relação ao conteúdo dos textos desenvolvidos, buscamos um breve resumo dos mesmos, embora cientes dos riscos envolvidos em não conseguir captar a essência pretendida 32 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    pelos autores. Porém,a intenção foi mais no sentido de despertar a curiosidade dos leitores, instigando-os ao prazer da leitura aqui proposta. Alcyane Marinho levanta algumas discussões sobre a estreita ligação entre o turismo, o lazer e a natureza, procurando apontar o corpo como foco de resistên- cia, diante de suas inúmeras faces e interfaces, frente às complexidades vividas em nossa contemporaneidade. A partir da compreensão da necessidade do estabele- cimento de noções éticas, permeadas por conceitos de respeitabilidade e compro- misso para com a natureza, o artigo “Da aceleração ao pânico de não fazer nada: corpos aventureiros como possibilidades de resistência” pretende dar pistas capa- zes de conduzir a um melhor entendimento das inovadas atividades esportivas manifestadas junto ao meio ambiente, a partir da perspectiva do lazer, refletindo sobre as dinâmicas da sociedade, bem como sobre valores mais gerais. No texto “A leviana territorialidade dos esportes de aventura: um desafio à gestão do ecoturismo”, Gilmar Mascarenhas de Jesus procura identificar os agen- tes do ecoturismo, bem como sua fugaz inscrição espacial, associado às ativida- des de aventura, debatendo as relações (por vezes, contraditórias) entre o con- teúdo discursivo que fundamenta tal atividade e algumas de suas manifestações concretas no Brasil. O autor alerta para o desafio que tais práticas representam às políticas de gestão do meio ambiente, destacando a necessidade de elabora- ção de uma metodologia de mapeamento e avaliação dos impactos socioambientais produzidos por tais atividades, caso a caso, exigindo, por sua vez, um amplo esforço multidisciplinar. Além disso, segundo o autor, faz-se, igualmente necessária a definição de estratégias de participação responsável na demarcação de novas localidades, envolvendo praticantes, agências, técnicos e o poder público. “Lazer e natureza no turismo rural” apresenta uma discussão sobre as possibi- lidades de experimentação do turismo no espaço rural em áreas naturais, privile- giando, particularmente, duas atividades: a pesca esportiva e o mountain bike, práticas, segundo o autor Giuliano Gomes de Assis Pimentel, que se traduzem de forma mais complementar que antagônica, refletindo diferentes usos do rural. Objetivando reforçar os debates e as reflexões sobre as atividades, tradicionais ou de aventura, desenvolvidas pelo turismo no espaço rural, o autor instiga-nos a, primeiramente, compreendermos tais práticas para, posteriormente, almejar- mos transformá-las. Em seu artigo “No ritmo da aventura: explorando sensações e emoções”, Heloisa Turini Bruhns inicia com a questão da emoção relacionada aos esportes na natureza, envolvida em rituais e ficções, destacando diversos fatores. A auto- ra reflete sobre esses “novos esportes”, os quais, mais que a busca por uma performance, envolvem uma busca por emoções e sensações. Neles manifes- tam-se novas sensibilidades presentes no corpo e a presença do feminismo enquanto valor, envolvendo a figura do novo herói e da flexibilidade. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Javier Oliveira Betránaborda questões sobre a emergência de um recente conceito de ócio ativo, o qual, particularmente, na Espanha, tem promovido ofertas turísticas, fundamentadas, principalmente, na comercialização da diver- são e da experimentação junto à natureza. Ao longo das discussões no texto “Rumo a um novo conceito de ócio ativo e turismo na Espanha: as atividades físicas de aventura na natureza”, o autor propõe uma classificação para tais práticas, uma vez que as mesmas se identificam com valores, atitudes e menta- lidades do mundo contemporâneo; contribuindo, por conseqüência, no processo de compreensão desse movimento turístico e esportivo. Em “Monitoramento participativo do turismo desejável: uma proposta metodológica preliminar” Lilia dos Santos Seabra apresenta uma proposta metodológica de monitoramento de impacto de visitação e de capacidade de carga turística, visando a uma sustentabilidade no que tange as dimensões ambiental, socioeconômica e cultural. Para tal discussão, a autora se propõe a investigar o Distrito de Sana, no município de Macaé, Estado do Rio de Janeiro. A partir de uma perspectiva voltada ao planejamento turístico, a autora destaca as comunidades receptoras enquanto importantes protagonistas do turismo sus- tentável, capazes de identificar o turismo desejável para suas localidades e capazes de trabalhar em prol de sua concretização. Sandoval Villaverde, desenvolvendo reflexões sobre lazer, turismo e experi- ências vivenciadas em ambientes naturais, apresenta uma aproximação ao deba- te sobre ética, subjetividade e formas contemporâneas de sociabilidade, em particular as relações de amizade. Partindo da perspectiva de que o lazer, univer- so no qual se insere a atividade turística, é um campo fértil de práticas sociais que mobilizam processos renovados de constituição de subjetividades, o autor discute algumas vivências corporais praticadas na natureza, apontando aspec- tos de sua expansão, bem como a incorporação pelo mercado turístico e espor- tivo. Esta problematização, colocada pelo autor no texto “Refletindo sobre lazer/turismo na natureza, ética e relações de amizade”, sugere a criação e a re- criação de formas alternativas de relacionamentos. Convidamos, então, nossos leitores a compartilhar conosco da “aventura” proposta neste livro, ou seja, o desafio e o risco con- tidos na tentativa de abordar a atual busca pela natureza como palco de novas experiências, um tema ainda tão pouco explora- do, porém instigante e atrativo. 34 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2003 Publicação original: revista Formato da contribuição: artigo (texto completo) Fonte: MARINHO, Alcyane; DE GÁSPARI, Jossett C. Turismo de aventura e educação: desafios e conquistas de espaços. Turismo: visão e ação. Santa Catarina: Universidade do Vale do Itajaí, v. 5, n. 1, 2003. E-mail do(s) autor(es): alcyane.marinho@hotmail.com Títulos acadêmicos principais atuais: Graduação pelo Departamento de Educação Física da UNESP de Rio Claro (SP); Mestrado e Doutorado (em andamento) pela Faculdade de Educação Física da UNICAMP (Campinas, SP), na Área de Estudos do Lazer. Turismo de aventura e educação: desafios e conquista de espaços Alcyane Marinho Jossett Campagna De Gáspari Sabidamente o desafio que se impõe à educação brasileira, neste século, passa pela gestão da qualidade, a partir de ações compromissadas, competen- tes e criativas, das quais podem emanar mudanças significativas quanto ao processo formativo dos futuros profissionais do lazer, do turismo, do ecoturismo e outros. Passar do desafio à ação efetiva implica em mobilizar competências na pers- pectiva de articular todos os recursos disponíveis e, também, de organizar as interações e as práticas de forma que cada aprendiz seja capaz de vivenciar, freqüentemente, situações fecundas de aprendizagem (PERRENOUD, 1996). Implica, ainda, em construir estratégias pedagógicas que funcionem, simulta- neamente, como possibilidades de viver a teoria na prática e de estimulação das percepções/sensações dos sujeitos envolvidos no processo ensino-aprendiza- gem, oportunizadas pelos cursos de formação de futuros profissionais. O termo sujeito, evidenciado neste artigo, tem, no bojo, a concepção de aprendizagem de natureza construtivista, na qual é ativamente envolvido no processo que deve ser significativo. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Assim, para queo aprendiz progrida, ou seja, dê saltos qualitativos, faz-se necessária a ruptura com pedagogias frontais (PERRENOUD, 2000) e a organiza- ção das experiências, capazes de criar uma situação ótima de aprendizagem, dotada de significância e, ainda, capazes de mobilizar o sujeito em sua zona de desenvolvimento proximal - conceito desenvolvido por Vygotsky (1991), no âmbito de uma teoria mais geral, a qual salienta a interação e a relação sociais como origem da aprendizagem e do desenvolvimento humano. Tanto a relação como a interação, presentes em vivências coletivas, podem facilitar a zona de desenvolvimento proximal, podendo ser compreendida como a distância entre o nível de resolução de uma situação-problema de forma inde- pendente e o nível que o sujeito num processo de aprendizagem pode atingir, com a ajuda de um orientador ou mediador. A idéia construtivista pressupõe um profissional com a habilidade de utilizar como ponto de partida as experiências anteriores presentes nos esquemas de conhecimento já assimilados no aprendiz e, ao mesmo tempo, provocar desafios que o façam questionar seus significados e sentidos, instalados em seu repertório de respostas e comportamentos. Essa noção instrumentaliza educadores na compreensão dos processos internos do desenvolvimento do ser humano. Nessa perspectiva, tendo como eixo norteador um relato de experiência do- cente, no âmbito do ensino superior, temos como proposta socializar os resul- tados de uma atividade lúdica de aprendizagem, planejada com esses pressupos- tos, na disciplina “Técnicas de Animação Cultural e Turística”, do Curso de Turis- mo do Instituto de Artes, Comunicações e Turismo, da PUC-Campinas (SP). A proposta de aula informal, concebida a partir dos conteúdos curriculares e sua tradução em objetivos de aprendizagem visou, também, a romper com a monotonia pedagógica dos espaços fechados e formais da instituição, simboli- zados pelos blocos didáticos “concretos”. Os sujeitos envolvidos foram os alu- nos regularmente matriculados no 3o ano, sob a coordenação da professora regente da referida disciplina do citado curso. O espaço informal contemplado foi o de Brotas, região do interior do Estado de São Paulo, porque, além da proximidade, reunia as condições ideais para a prática do turismo de aventura, um dos conteúdos focalizados na proposta curricular da disciplina em questão. Naquela ocasião, essa vivência, planejada e organizada para ir além da mera reposição de aulas que se fazia premente, pretendeu propiciar a todos os envolvidos momentos privilegiados de experiên- cia com as atividades de aventura, as quais muitos só haviam tido prévio acesso por meio da literatura existente. O deslocamento até a Cachoeira do Astor, na região de Brotas (SP) foi efetiva- do, principalmente, por um ônibus fretado, além de alguns carros. Foram adotadas algumas medidas básicas de segurança, tais como a contratação de quatro 36 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    monitores especializados nessetipo de vivência junto aos ambientes naturais; a assinatura de termo de ciência quanto à natureza da atividade proposta e aos riscos inerentes a essa prática; seguro de vida extensivo a todos os participantes das atividades previstas. Ao oportunizar esse acesso às vivências junto à natureza, por muitos denomi- nadas de turismo de aventura 2, abriram-se as perspectivas de esses profissio- nais, em processo de formação, incorporarem às suas experiências emoções decorrentes das práticas do cascading 3, de trilhas, caminhadas e piqueniques tendo como elementos aliados as matas e o leito dos rios. Conforme Perrenoud (2000), profissionais competentes, com pedagogias dife- renciadas, podem criar situações ótimas de aprendizagem, nas quais o sujeito ativo mobiliza suas inúmeras habilidades para lidar com o novo, o inusitado, o desconhecido, tão peculiares nas atividades de aventura. Além disso, os graduandos parecem ter tido a oportunidade de redimensionar suas atitudes e valores de respeito, integração e educação para com o meio ambiente e, analogicamente, o próprio conceito de natureza. Este trabalho pretende, portanto, apresentar parte dos dados coletados e a respectiva discussão dos seus resultados, na perspectiva de um lazer crítico, prazeroso e criativamente vivido. METODOLOGIA Com a finalidade de avaliar os objetivos propostos e efetivamente alcança- dos nessa atividade extra-classe; os comportamentos de entrada e de saída dos educandos no processo ensino-aprendizagem e o perfil de um grupo espe- cífico, visando futuras experiências no gênero, foi utilizado um questionário aberto, contendo oito questões, aplicado aos 58 alunos regularmente matricu- lados no Curso de Turismo, do Instituto de Artes, Comunicações e Turismo da PUC-Campinas (SP). O questionário, instrumento de pesquisa, construído conforme normas e téc- nicas de planejamento das pesquisas de campo, apresenta inúmeras vantagens apontadas por Marconi & Lakatos (1982). Dentre elas, destacam-se: a possibili- dade de encontrar maior liberdade nas respostas e uniformização na avaliação, em razão do anonimato ou da impessoalidade do instrumento, entre outras. Os dados obtidos foram analisados, descritivamente, visando identificar aspectos relevantes, capazes de incrementar as discussões sobre a temática em questão. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    RESULTADOS E DISCUSSÃO Questionados sobre suas experiências anteriores com atividades de aventura em ambientes naturais, 43 dos 58 envolvidos responderam não ser inédita aquela situação, pois já haviam tido a oportunidade de experiênciá-las em outros mo- mentos, tais como: caminhadas, rafting 4, bóia-cross 5, mergulho livre, rappel, mountain bike, motocross, escalada, trilha a cavalo, espeleologia, canoagem, dentre outras. Estes dados se revelam bastante positivos, denotando a diversida- de de interesses presente nos elementos do grupo, constituindo seu perfil, igual- mente, diversificado. Das experiências anteriores apontadas, a prática de caminhadas e trilhas foi predominante, sendo possível inferir sobre os motivos dessa preferência, como por exemplo: a facilidade de deslocamento, gestos motores menos sofistica- dos e um investimento menor em equipamentos esportivos. Com relação à caminhada, é pertinente apontar que, nos centros urbanos, onde o “verde” é menos presente, essa manifestação corporal conta com expressiva adesão de diferentes faixas etárias e categorias sociais fazendo dela um momento quali- tativo de lazer5. Particularmente quanto à prática da caminhada em parques urbanos, Bruhns (1997) salienta que talvez os parques possam ser pensados como amostras da natureza, uma vez que agregam árvores, bosques e animais em seus espaços. Esta idéia ratifica a importância que tem a escolha do local para a prática, evidenciando o fato de que as pessoas parecem preferir os ambientes naturais. No que concerne à preferência por companhia durante as atividades de aven- tura, os alunos elegeram os amigos e a família, respectivamente, em primeiro e segundo lugares. Faz-se pertinente destacar que a opção pelos amigos é justi- ficável, tendo em vista que no curso de Turismo algumas disciplinas solicitam, como parte do conteúdo acadêmico, a organização e participação em algu- mas viagens e, por conseguinte, os amigos da faculdade acabam sendo, nelas, seus parceiros. Este fato, por sua vez, parece comprovar a possibilidade de articular momentos de obrigações e estudos, vividos na faculdade, aos mo- mentos de lazer. Também é importante ressaltar que apenas uma pessoa expressou sua opção por vivenciar só essas atividades, remetendo-nos a duas principais reflexões. A primeira, diz respeito à necessidade da coletividade nas referidas atividades, advinda da importância de um parceiro, seja para checar o equipamento, fazer segurança, dar conselhos e servir de companhia, haja vista que essas atividades demandam certos riscos, sendo, portanto, aconselhável que nunca sejam prati- cadas isoladamente. A segunda salienta a dificuldade do ser humano em ficar só, pois tem subjacente a confrontação consigo mesmo. Se, de uma forma, o ficar só pode significar um momento bastante particular e propício às introspecções, 38 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    por outra, podedetonar o medo da solidão. Nesse sentido, nas vivências indivi- duais ou coletivas, as inteligências interpessoal e intrapessoal têm oportunida- des de serem estimuladas, melhorando a qualidade de vida de seus praticantes (GARDNER,1995). Falar de grupo nos remete às diferentes necessidades, expectativas, interes- ses e motivos de seus membros. Em grupo, o prazer, a espontaneidade, a liberdade, a individualidade, os interesses pessoais não podem ser desconsiderados, já que também funcionam como fatores de identidade de seus elementos. Além disso, em grupo, alguns indivíduos assumem condutas, positivas ou negativas, as quais, isoladamente, talvez não assumissem. O pra- zer compartilhado, proveniente das atividades de aventura, provavelmente adquire magnitude, funciona como elemento de coesão do grupo e de satisfa- ção das necessidades individuais no coletivo. Todos os sujeitos envolvidos alegaram ter se identificado com as vivências propostas, demonstrando, assim, uma predisposição natural quanto às ativida- des de aventura, manifestadas por fatores que vão desde a escolha do local (natural, atrativo), até a flexibilidade prevista na gama de atividades sugeridas. Nessa perspectiva, o rappel, em uma torre de cinco metros, aproximadamente, antecedeu o cascading propriamente dito, vivido em uma cachoeira de 34 metros. Enquanto alguns participavam dessas atividades, outros faziam trilhas, tocavam violão ou apenas observavam, demonstrando, com isso, que a participação não ocorreu apenas na atividade física em si, mas, também, na fruição e na contem- plação. O não fazer nada, contrariando inúmeras correntes vinculadas ao ócio, também demonstrou a possibilidade de estimulação do desenvolvimento huma- no, a partir da comunicação estabelecida entre os sons e ecos provenientes do meio ambiente e da integração homem-natureza. A adrenalina e o medo foram as sensações mais destacadas. A primeira parece ter forte relação com a popularização do termo, desencadeada pela mídia, pois, para alguns dos sujeitos, seu significado parece estar ligado a um certo sensaci- onalismo e, ainda, para outros, ser simplesmente desconhecido. O medo, por sua vez, parece ser o principal componente dosador do estímulo ou do desestímulo em relação à prática. A percepção de maior contato e maior integração com a e na natureza tam- bém foi bastante comentada, ratificando a interferência do espaço e do local escolhido para a prática, como facilitadores ou inibidores das diferentes sensibi- lidades e intensidades das percepções humanas. Nesse mesma perspectiva, a liberdade também foi destacada, como tendo relação estreita com a experiência inédita para uma significativa parte dos alunos. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    A partir dessesdados, é possível concordar com Marinho (2001a) ao afirmar que, no turismo de aventura, as atividades as quais requerem os elementos natu- rais para o seu desenvolvimento, de formas distintas e específicas, parecem realmente estar despertando maiores sensibilidades, em diferentes níveis. As intensas manifestações corporais, nessas práticas, permitem que as experiências na relação corpo-natureza expressem uma tentativa de reconhecimento do meio ambiente e dos parceiros envolvidos, expressando, ainda, um reconhecimento dos seres humanos como parte desse meio. Quanto à sensação de vitória apontada, cabe esclarecer que muitos são os adeptos de tais atividades e que não fazem dessa sensação um fim em si mesmo. Ser vitorioso, para eles, parece ser uma decorrência natural da superação dos limites que a própria atividade lhes impõe e com as quais, deliberada- mente,”brincam”, pois o risco é controlado. Esse mesmo risco, evidenciado pelos alunos, parece afetar diferentemente as pessoas, inibindo-as ou estimu- lando-as à prática. Outras sensações, como satisfação, alívio, relaxamento e bem-estar, dentre outras, foram pouco registradas, possibilitando inferir que esses tipos de sensa- ções parecem ser mais rotineiras e monótonas, diferentemente do que propiciam essas atividades, nas quais se busca uma exposição a situações-problema inusi- tadas e a superação de limites ou barreiras físicas e pessoais. Ainda em relação às sensações e percepções, vale enfatizar que, para aqueles que vivenciavam a prática pela primeira vez, essa experiência pedagógica pare- ce tê-los aproximado de emoções e sentimentos até então desconhecidos por eles mesmos, reiterando a necessidade e a importância dessas iniciativas junto aos cursos de formação na área do Turismo e cursos afins. CONSIDERAÇÕES FINAIS A transformação qualitativa pretendida para a educação do século XXI, visan- do a contemplar a universalização da cidadania, perpassa por profundas mudan- ças axiológicas referentes à formação dos profissionais, as quais terão papel decisivo na manutenção ou alteração do contexto sociocultural, refletindo em suas práticas. Considerando as demandas da sociedade atual, novos olhares têm se voltado ao ofício de ensinar, às condições e motivos pelos quais se ensina, para quê se ensina e ao perfil do profissional que se pretende formar. Esses novos olhares são capazes de mudar, inclusive, o foco do que se entende por ensinar, aprender e ter como profissão. 40 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Nesse contexto, pareceinevitável considerar que o salto qualitativo começa e termina no seu agente, o educador, a partir de posturas éticas que assume para si, enquanto profissional formador de formadores. A ética, conjunto de princípios que regem e sustentam o exercício de uma profissão, legitimada e regulamentada pela sociedade, é a possibilidade concre- ta da humanização do homem e da sociedade para a vida e, inclusive, para as relações com o meio ambiente. Os cursos de formação, segundo esse pressuposto, não podem mais estar atrelados à concepção de uma educação que se viabiliza apenas nos espaços formais da instituição, requisitando uma ampliação dos horizontes da ação educativa para além de seus muros e para além dos aspectos predominantemen- te cognitivos. Faz-se, premente, então, ousar e extrapolar na organização de estratégias pedagógicas que se utilizem dos espaços informais, de modo com- plementar, com objetivo de focar o sujeito aprendiz por inteiro, ou seja, não apenas no cognitivo mas também nos seus elementos afetivos e emocionais. Assim, um profissional competente deve estar sintonizado com outros indica- dores de aprendizagem, de natureza emocional, igualmente importantes no pro- cesso de aprender a aprender. As atividades de aventura junto à natureza, como a experiência relatada, mos- tram-se bastante eficazes para exemplificar as idéias anteriormente expostas, das quais se extraem sinais de dupla ruptura com os modelos e práticas pedagó- gicas presentes na realidade educacional. A primeira se refere à quebra das barreiras físicas da instituição, conjugando os espaços formais aos informais e, a segunda concerne à tentativa de demonstrar que o modelo de profissional pode reforçar o modelo do aprendiz e do futuro profissional. Por sua vez, o turismo de aventura ao conquistar mais espaços, a cada dia, como campo de trabalho, exige um novo perfil de profissional que, vencendo os desafios das diversas demandas sociais, reitere a validade dessa proposta como uma estratégia criativa e lúdica, facilitadora do reencontro e da simbiose dos seres humanos com a natureza. Dessa forma, apontamos para a necessidade da existência de uma pedagogia capaz de incorporar aspectos lúdicos, potencializados por meio de uma educação para o lazer e a recreação. A partir dessa pedagogia, a percepção do ambiente natural pode vir a ser altamente estimulada. A mensagem não se limitaria apenas aos interesses inte- lectuais e todos os sentidos contribuiriam para a aquisição de conhecimentos. Para além da mudança de locus de ensino, pretende-se, em um sentido mais amplo, estimular diferentes percepções com relação às condições de vida na Terra (SERRANO, 2000). Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Cabe destacar que,nessa proposta (como em outras do gênero), o ambiente natural, ao se tornar favorável à prática de certas atividades, implica na neces- sidade de uma conservação ambiental, bem como de um processo educativo, no qual se exercite o conhecimento como instrumento de compreensão das rela- ções estabelecidas. Nessa perspectiva, compartilhamos com Marinho & Schwartz (2001) a neces- sidade de serem promovidas novas alternativas para o lazer de indivíduos inte- ressados no turismo de aventura. Tais alternativas, por sua vez, devem gerar, fomentar e gerenciar a qualidade da acessibilidade a esse tipo de turismo, impli- cando decisivamente para o sucesso da multiplicação das idéias conservacionistas e sensibilizadoras do aprimoramento da qualidade de vida. Por fim, ratificamos que a busca pelos elementos naturais, durante o lazer e/ ou atividades escolares, seja com o objetivo de contemplar, de aventurar-se pelas matas ou simplesmente de não fazer nada, implica no conhecimento de uma ética ambiental, permeada por comportamentos de compreensão e respeito para com o meio natural (MARINHO, 2001b). Portanto, a partir da viagem apresentada, eixo norteador para a discussão, alertamos para a necessidade de as atividades de aventura, propostas como conteúdo disciplinar, terem laços estreitos com a Educação; pois, somente as- sim ambas venceriam alguns desafios e viriam a conquistar, juntas, novos espa- ços ainda carentes de reflexões e aprofundamentos. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] Notas 1. Este estudo foi apresentado, sob forma de comunicação oral, no VI CEPFE - “Congresso Estadual Paulista sobre formação de educadores” em Águas de Lindóia (MG), 2001; sofreu algumas alterações, para se adaptar a formatação exigida pela Revista. 2. De acordo com Serrano (2000), o turismo de aventura se enquadra na polissemia do termo e da multiplicidade das atividades de ecoturismo (considerado como uma “idéia guarda-chuva” porque engloba inúmeras ativi- dades como o trekking, as escaladas, rappel, espeleologia, mergulho, cavalgadas, vôo livre, estudos do meio, safári fotográfico, observação da fauna e da flora, pesca, turismo esotérico e turismo rural, entre os mais comuns). 3. Descida em cachoeira por meio da técnica do rappel (descida por cordas). 4. Descida por corredeiras de rios em botes infláveis. 5. Descida por corredeiras de rios em bóias. 6. Pesquisa SESC Gallup (1993). 42 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2003 Publicação original: monografia (T.C.C.) Formato da contribuição: texto resumido Fonte: “O Movimento na Natureza: o papel da Educação Física na Educação Ambiental. São Carlos, DEFMH, UFSCar, 2003.” E-mail do(s) autor(es): cae_jah@hotmail.com Títulos acadêmicos principais atuais: Licenciado em Educação Física pela UFSCar, Mestrando em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSCar. O Movimento na Natureza Interfaces entre Educação Física e educação Ambiental no Ensino Infantil Cae Rodrigues Mey van Munster No contexto contemporâneo do cotidiano urbano observa-se uma série de eventos espaciais e temporais que dificultam cada vez mais a integração da população em geral com a natureza1. O pouco tempo disponível para o lazer, o distanciamento dos grandes centros urbanos das áreas de convívio com a natureza (o que ocasiona dificuldades temporais e financeiras para uma possível interação) e a construção de uma cultura voltada para o lazer urbano são fatores relevantes que interferem no processo que busca a identidade do ser humano com a natureza, em relações que possam ser criadas ou mantidas nesse ambiente. Essa falta de contato com a natureza pode gerar também uma falta de identificação da população residente nas cidades com o meio natural. [...] é porque perdemos nossa identificação com o mundo natural que somos capazes de abusar dele. Através do restabelecimento do contato com o mundo natural, por meio de uma educação que conscientemente promova essa reconciliação transformadora, podemos reverter a rota de destruição em que nos encontramos atualmente e recuperar da Terra os princípios de orientação para a sustentabilidade ecológica. (BARROS, 2000:92) Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Ensina-se que anatureza deve ser respeitada e preservada, mas esse ensinamento fica muito vulnerável frente aos costumes vivenciados no dia-a-dia das grandes cidades. O indivíduo vive uma cultura consumidora, sedentária, adaptada ao luxo, produtora de lixo e de poluição, totalmente contraditória aos ensinamentos de preservação encontrados, por exemplo, nas apostilas escolares, fortalecendo uma educação passiva que ensina a respeitar algo que a grande maioria da população desconhece, por nunca ter tido a oportunidade de vivenciar. “As experiências diretas são necessárias para desenvolver sentimentos de amor e preocupação pela terra; caso contrário, as pessoas passarão a conhecê-la de modo superficial e teórico, sem nunca serem tocadas profundamente”, destaca o naturalista Cornell (1995:38). A proposta da Educação Ambiental por meio de atividades de sensibilização integradas à natureza conduz a criança a aprender sobre si mesma e sobre o meio que a cerca, conseqüentemente favorecendo também o meio, à medida que se constrói a consciência da preservação ambiental. Cornell (1995:13) escreve sobre o surgimento dessa consciência de preservação dizendo que: Se quisermos cultivar uma atitude de reverência para com a vida, em primeiro lugar precisamos desenvolver a percepção, que, por sua vez, pode se transformar em amor e empatia. À medida que começamos a sentir uma comunhão com os seres vivos que nos rodeiam, nossas atitudes tornam-se mais harmoniosas e fluem com naturalidade, e, por conseguinte, passamos a nos preocupar com as necessidades e o bem estar de todas as criaturas. O presente trabalho objetiva verificar a criação de afinidades da população urbana com o meio natural, pelo contato direcionado à natureza e através de atividades de sensibilização integradas ao meio, para uma conseqüente educação de preservação. Bruhns (citada por Munster e Almeida, 2001:21), destaca a impor- tância da “experiência sensível” conseqüente da aproximação do homem com a natureza, o que promove uma certa consciência de que pertencemos a um mesmo cosmo, causando uma relação de respeito, e não de dominação, pelo meio. Para a realização desse trabalho elaborou-se uma proposta de atividades de sensibilização visando a conscientização ambiental com adequação às necessi- dades de crianças (4 a 6 anos) para um conseqüente estudo das possíveis rela- ções entre Educação Física e Educação Ambiental no ensino infantil. A metodologia empregada foi baseada na combinação entre pesquisa bibliográfica e de campo, tendo como instrumento de coleta de dados a observação sistemática direta das práticas e de registros fotográficos e de filmagem dessas atividades. A pesquisa bibliográfica foi baseada no levantamento de referências acerca de alguns termos como “Educação Física”, “Ensino Infantil”, “Movimento” e “Edu- cação Ambiental”. A pesquisa de campo foi realizada a partir da elaboração de uma proposta de atividades de sensibilização integradas à natureza e a aplica- 44 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    ção da propostaa um grupo de crianças do ensino infantil (4 e 6 anos) do Colégio Mundinho Nosso, na cidade de São Carlos, SP. A proposta foi finalizada com a realização de uma excursão (estudo do meio) acompanhada pelo pesquisador desse estudo, pelo professor de Educação Física da escola e por um monitor voluntário de Educação Ambiental. A avaliação da proposta foi realizada a partir da análise dos dados coletados por meio da observação sistemática direta e uma discussão aberta (reflexão da prática) com os alunos participantes. O CONTATO COM A NATUREZA NA EDUCAÇÃO AMBIENTAL Paralelamente ao desenvolvimento das vias de transporte e de comunicação cresce o interesse do homem em conhecer novas e inexploradas localidades. Explode mundialmente a febre do Turismo. Essa explosão teve uma significativa implicância no movimento ambientalista e na Educação Ambiental (EA), uma vez que o acesso ao meio natural se torna mais disponível. As práticas de contato com a natureza se tornaram bem mais populares e ainda hoje apresentam um grande crescimento, sejam simples visitas de contem- plação, atividades que envolvam transporte de equipamento para pernoite (excursionismo) ou de caráter esportivista. Isso se torna importante para a EA, uma vez que os indivíduos envolvidos nessas práticas progressivamente incorporam uma ética voltada à conservação dos ambientes que gostam de freqüentar (Barros e Dines, 2000:54). Os autores vão além, e destacam que quanto mais as pessoas freqüentam essas áreas naturais, maior seu grau de conscientização ambiental. Isso ocorre pela crescente segurança, conseqüente do crescente bem estar, que o indivíduo sente conforme vivencia o meio natural, crescendo também o interesse em se informar sobre os ambientes que visita (id. ibid:56). Mas a simples inclusão do homem no ambiente natural não é o suficiente para justificar uma mudança de comportamento perante as questões ambientais, uma vez que este indivíduo ainda carrega os valores construídos numa sociedade consumista e desenvolvimentista, praticamente desarticulada da conservação e do manejo adequado das atividades no ambiente onde as pessoas vivem. Serrano (2000:17) adverte que quando visitamos a natureza não devemos esquecer de nosso cotidiano, mas sim refletir sobre ele e sobre a relação homem-natureza, marcada pelas transformações conseqüentes da tradição judaico-cristã, agra- vada pela modernidade e o capitalismo, a ponto de não reconhecermos nosso pertencimento ao mundo natural. Nas viagens ao meio natural observa-se um consenso em torno do caráter de preservação e da busca de uma consciência ambientalista. Serrano (2000:8) destaca, por uma perspectiva conceitual, o caráter intrinsecamente educativo e o compromisso com a modificação de comportamentos e com a construção de uma consciência ambientalista nas atividades em contato com a natureza. Essa Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    marcante característica, juntamentecom a grande popularidade dessas práticas, as tornam fortes aliadas do movimento ambientalista. Barros (2000:91) argu- menta que as atividades na natureza se tornaram tão populares que hoje são consideradas, por muitos conservacionistas, como uma solução para os proble- mas ambientais e uma boa oportunidade para o desenvolvimento de EA, princi- palmente por razões econômicas. Mas assim como o movimento ambientalista necessita de um instrumento para passar seus valores à população (a EA), o mesmo pode ser dito das atividades em contato com a natureza, uma vez que a simples inclusão do homem ao meio natural não é, na maioria das vezes, suficiente para a solidificação de uma consciência ambientalista. O homem “urbano” há muito tempo perdeu o contato íntimo com seus sentidos, e até mesmo com o ato de “sentir”. A rapidez com que tudo acontece em nosso cotidiano muitas vezes impedem reflexões sobre os acontecimentos vivenciados, restringindo não só a capacidade de sentir, como a de avaliar. Segundo Bruhns (2000:31), falta “às pessoas, nas sociedades urba- nas atuais, o envolvimento suave, inconsciente com o mundo físico, num ritmo mais lento, do qual as crianças desfrutam.” Vivemos cada vez mais protegidos do mundo natural. O homem só se molha quando toma banho; o único cheiro agradável ainda presente em nosso cotidia- no é aquele do cafezinho ou da comida, que na maioria das vezes já chega pronta a nossa mesa; o toque (seja ele pessoal, como o abraço e o beijo, ou com o mundo natural, como o simples andar descalço) é cada vez menos encorajado desde a infância; o dom da audição foi praticamente abandonado, pois estamos, na maior parte do tempo, rodeados de poluição sonora; o que nos resta é o recurso da visão, que tem que estar sempre atenta aos velozes veículos e às pessoas apressadas nas ruas e calçadas. Limitar nosso sentir apenas a esse recurso, o visual, limita também nossa capacidade de ser, de pensar, de viver. Platão (1972:55) já sabia disso quatrocentos anos antes de Cristo, quando dizia que “a visão do pensamento começa a enxergar com agudeza quando a dos olhos tende a perder sua força.” Cornell (1996) afirma que quando o homem se protege das intempéries da natureza ele perde a vitalidade e a sensação de bem estar que provém do fato de estar em harmonia com o meio natural. Cornell (citado por Mendonça, 2000:136) também ressalta que visitamos a natureza impregnados de nossos valores dominadores e comsumidores, provindos de nossa cultura urbana, o que dificulta a potencialização dos nossos sentidos e sentimentos. Dessa forma, o primeiro passo a ser dado é colocar esse indivíduo em contato com o meio natural. O homem constitui uma importante função dentro do mundo natural, porém, como destaca DeMoor (citado por Barros, 2000:92), abusamos do mundo natural por que perdemos nossa identificação com ele. Se conseguirmos restabelecer uma aproximação com a natureza, juntamente com uma orientação pedagógica 46 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    que promova umareconciliação transformadora, poderemos reverter esse pro- cesso de destruição no qual se encontra o planeta atualmente. A partir da aproximação do homem do meio natural, surge a necessidade de educá-lo a se portar em tal ambiente, ou seja, as condutas devem tornar-se valorizadas pela ética ambiental. Surge, mais do que isso, uma excelente oportu- nidade para uma proposta diferenciada de educação: a EA em contato direto com a natureza. Ferreira e Coutinho (2000:187) destacam a importância da valo- rização da EA nas práticas em contato com a natureza, uma vez que o visitante bem orientado para compreender o ambiente a ser visitado provavelmente res- peitará a cultura, a organização social local e a capacidade de suporte desses locais. É nesse sentido que se pode afirmar que, na maioria das vezes, é necessá- rio mais do que o simples contato com a natureza para solidificar uma concreta proposta de Educação Ambiental nessas visitas ao meio natural. Segundo Marcel Proust (citado por Oliveira, 2000:111), “a verdadeira viagem de descoberta não consiste em sair à procura de novas paisagens, mas de possuir novos olhos”. EDUCAÇÃO FÍSICA NA INFÂNCIA E EDUCAÇÃO AMBIENTAL Na análise dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), encontra-se a Educa- ção Ambiental dentro da proposta dos Temas Transversais. Esses temas são considerados muito complexos para serem abordados isoladamente por uma área, e assim atravessam os diferentes campos de conhecimento. Os conteúdos propostos para o desenvolvimento da EA na escola são divididos em três blocos gerais: “ciclos da natureza” (compreensão dos processos da natureza), “socie- dade e meio ambiente” (relação do homem com o seu ambiente) e “manejo e conservação ambiental” (conhecer e compreender a importância da preserva- ção e conservação ambiental). A responsabilidade de desenvolvimento desses conteúdos segue o caráter multidisciplinar tão presente na Educação Ambiental. A questão é, qual o papel da Educação Física nesse processo de sensibilização ambiental na infância? A Educação Física, independente da questão curricular, está sempre presente nas aulas do ensino infantil, pela natural necessidade das crianças de se movi- mentarem. Segundo Risco (1968:8) a criança pensa, sente e age por meio do movimento. Familiarizar-se com a imagem do próprio corpo, explorar as possi- bilidades de gestos e ritmos corporais por meio de brincadeiras e demais situa- ções de interação, desenvolver atitudes de confiança nas próprias capacidades motoras por meio do deslocamento no espaço – esses são alguns dos objetivos da Educação Física para crianças de zero a três anos. A partir dos quatro (até os seis) anos, esses objetivos devem ser aprofundados e ampliados, para que a criança seja capaz de ampliar as expressões do próprio movimento, conhecen- do, assim, suas potencialidades e limitações até que consiga controlar e utilizar esses movimentos para realizar tarefas desejadas. Apropriando-se gradativamente Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    da imagem globalde seu corpo, a criança buscará sua autonomia e construirá uma consciência de cuidado com o próprio corpo. Essas são as recomendações do documento “Presença do movimento na Edu- cação Infantil: idéias e práticas correntes” (Brasil, 1998). As crianças, já nessa idade, começam a se apropriar do repertório da cultura corporal na qual estão inseridas quando brincam, jogam, imitam e criam ritmos e movimentos. Portanto, surge a necessidade de colocar essa criança em contato com ambientes ricos e desafiadores, ambientes que ampliem seus conhecimentos acerca de si mesmas, dos outros e do meio em que vivem (id. ibid:16). Desta forma, o contato com a natureza já se torna importante. A criança começa a construir uma imagem do próprio corpo, das pessoas e do meio ao seu redor; começa a buscar uma independência corporal explorando gestos e ritmos corporais; começa a se deslocar e a explorar novos movimentos; ou seja, a criança começa a construir uma “cultura corporal”2, uma identidade que a diferenciará das demais crianças. Esses primeiros “blocos” de construção corpo- ral representam segurança e conforto para a criança, o que torna o contato com a natureza de essencial importância. Se a criança se familiarizar e sentir segurança no meio natural desde cedo, isso facilitará todo o processo de construção de uma afinidade pelo meio e, conseqüentemente, uma consciência voltada aos princípios da EA. Nesse sentido, Cornell (citado por Mendonça, 2000:138) afirma que a expan- são de uma consciência conservacionista depende da relação afetiva provinda da cultura do homem, que precisa sentir a necessidade da natureza em sua vida. Bruhns (2000:32) destaca que “a criança, por não preocupar-se com códigos de regras definidas sobre beleza, recebe as sensações da natureza diretamente, sem censuras”. Essa característica da criança, juntamente com a curiosidade e a pré-disposição para brincar, são importantes aliados da educação, mas na gran- de maioria das vezes são considerados como elementos que dificultam a disci- plina e o controle e, conseqüentemente, o processo educacional. No âmbito da educação escolar, os professores muitas vezes ignoram a necessidade da crian- ça de se movimentar e julgam a contenção motora como fator essencial para a disciplina, uma vez que a criança estática é muito mais fácil de controlar. O movimento é encorajado apenas em reservados espaços de tempo, no qual a criança é requisitada a se movimentar para gastar energia, prática eficaz para “manter a ordem” e que também limita as possibilidades de expressão e de conduta própria desta criança. Essa visão transforma o movimento em um empe- cilho à concentração do aluno e à aprendizagem como um todo, visão que contrapõe o consenso que o movimento é essencial para o desenvolvimento da percepção e da construção de uma cultura corporal da criança. A educação infantil representa uma transição do ambiente familiar para o ambiente escolar (Machado, 1986:13), e deve suprir as necessidades fisiológi- cas, afetivas e relativas à segurança das crianças (id. ibid:17). Isso só será possí- 48 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    vel por meioda educação pelo movimento, princípio pedagógico que parte das necessidades e interesses da própria criança, estimulando o desenvolvimento da criatividade e da conquista de sua autonomia (id. ibid:26). A criança nessa idade passa pela “fase lúdica”, na qual o brincar é o que mais interessa a ela.(Rodrigues, 1987:20). Mas o brincar é mais do que simples diver- timento é um meio de compreensão e relacionamento com o ambiente (Macha- do, 1986:27). Através do brincar a criança desenvolve suas capacidades mentais e, por meio de seus sentidos, chega ao conhecimento do mundo exterior, obtém controle dos próprios movimentos (desenvolvendo seu sentido de confiança e segurança) e aprende a expressar e comunicar suas idéias pela fala (id. ibid:29). É nesse sentido que as propostas de métodos pedagógicos em contato com a natureza podem ser eficazes. O meio natural representa um espaço onde a criança pode expressar seus movimentos com maior liberdade, uma excelente oportunida- de de educação corporal e de conscientização ecológica por meio da orientação, e não proibição, do movimento. Mas, para instruir, os educadores têm que ser bem instruídos. Muitas vezes o que ocorre nessas viagens ao meio natural reflete aquilo que ocorre no âmbito da educação escolar. O professor restringe os movimentos das crianças à suas ordens, impondo uma hierarquia que pode comprometer a proposta de um instrumento pedagógico diferenciado. Outro grave problema pode ser a conduta desse professor no meio natural. A criança com seus sentidos perceptivos em alerta, dá significado as condutas do professor pela observação, assimilando-as, na maior parte das vezes, como atitudes corretas. Quando o pro- fessor, imbuído de boas intenções, tira uma semente de uma árvore para colocá- la em seu relatório ou tira uma flor de um arbusto para presentear a um outro professor ele indica ao aluno que é correto agir dessa maneira. O professor deve ser também instruído a trabalhar com os recursos que a natureza lhe oferece. Além de representar um rico e amplo espaço para se traba- lhar os objetivos da Educação Física, o meio natural ainda apresenta um outro aspecto que pode ser transformado em um importante instrumento nas ativida- des em contato com a natureza, sua imprevisibilidade. O fato da criança estar em um ambiente desconhecido torna todos os elementos que a rodeiam em possí- veis “perigos”, como os animais silvestres, a desordem das árvores, a escuridão da noite, a chuva, o vento, o calor, ou o simples espaço aberto. Essa sensação de medo e de insegurança inicial, se trabalhadas corretamente, podem gerar uma boa oportunidade de aprendizagem, uma vez que os sentidos estão todos em alerta, tornando a observação e a percepção muito mais ativas. Essa aprendizagem por meio da observação proporciona uma compreensão inigualável dos processos naturais, uma vez que a criança não só vê os fenôme- nos naturais que estudou em sala de aula, mas sente diversas reações ligadas ao observado. Ler sobre a metamorfose de uma borboleta é uma coisa, mas assistir a essa transformação e sentir a liberdade da borboleta ao abrir suas asas pela Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    primeira vez éalgo extraordinário. Nesse exemplo citamos um fenômeno de pequena proporção em área, no qual o fato observado é um pequeno casulo, não desmerecendo a grandeza do fenômeno, mas ainda existem os espetáculos da natureza em grandes extensões, como a visão do mar ou de um mar de morros avistado do pico de uma montanha, que inspiram sentimentos únicos, principal- mente para a criança, que vê grandiosidade em tudo. Cabe lembrar que os ensinamentos em ambos casos desenvolvem-se no conhecimento de relações que dependem da conservação do meio, e o seu estado deve fornecer elementos para a aprendizagem, essencialmente na relação homem/natureza. Entretanto, como destaca Barros (2000:91), a concretização dessas oportuni- dades tem apresentado um grande desafio para os organizadores de viagens em contato com a natureza e para os educadores ambientais, uma vez que os organizadores dessas atividades muitas vezes desperdiçam essa oportunidade por falta de integração e planejamento, e os educadores ambientais desperdiçam a grande oportunidade de ampliar o público alvo e os locais de aplicação dos valores da EA geradas pelas crescentes atividades em contato com a natureza. As atividades de sensibilização na natureza surgem como uma possível solu- ção para esses problemas, integradas às práticas de estudo do meio. Essas prá- ticas revelam um modo de conhecer o ambiente via informações do corpo, surgindo então a oportunidade de trabalhar os valores da EA a partir dos sentidos e sentimentos provocados por essas experiências (Bruhns, 2000:45). A criatividade, a pré-disposição ao brincar e a natural habilidade de percepção das crianças são características indispensáveis para essa proposta pedagógica. “Enquanto parti- cipamos das brincadeiras, representamos nossos papéis de modo dinâmico, e sentimos diretamente os ciclos e processos espontâneos da natureza” (Cornell, 1996:5). No entanto, são necessárias metodologias específicas que direcionem essas características para que possam ser usadas como potencializadoras dos sentidos de percepção da criança. O naturalista Joseph Cornell apresenta uma série de atividades integradas à natu- reza que aproximam as pessoas ao meio natural. As atividades, de caráter educativo, levam as pessoas a criarem uma afinidade pelo meio natural através do método de “aprendizado sequencial”. Trata-se de um conjunto de princípios que descreve como usar as atividades de conscientização integradas à natureza de forma gradativa e direcionada. O método é composto por quatro estágios: Despertar o entusiasmo; concentrar a atenção; dirigir a experiência; compartilhar a inspiração. O objetivo do primeiro estágio é estimular a aproximação entre as pessoas, criando um ambiente de vivacidade e entusiasmo, sobre o qual pode-se conduzir um aprendizado mais sutil e significativo. No segundo estágio deve-se aprovei- tar a alegria provinda do primeiro estágio e conduzir jogos que deixem o grupo mais atento, ou seja, mais receptivo ao meio. As atividades do terceiro estágio intensificam os sentidos para um contato mais direto com a natureza, possibili- 50 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    tando ao indivíduopenetrar completamente no espírito do mundo natural. O último estágio é inteiramente dedicado à reflexão das experiências vivenciadas e ao compartilhamento das experiências individuais com o coletivo do grupo, o que aproxima os integrantes do grupo e reforça a capacidade de admiração das pessoas envolvidas (Cornell, 1995:28). As atividades propostas são muito sim- ples e acessíveis a qualquer população, além de, segundo o autor, serem muito eficientes no propósito de criar uma afinidade do homem pela natureza. A proposta da criação de um elo entre o homem e a natureza forma a base da metodologia de Cornell. Assim, o homem será cativado pelo meio natural, e, enxergando a necessidade desse meio em sua vida, lutará pelos princípios da EA. Saint-Exupéry (1986:68), em seu conhecido livro “O Pequeno Príncipe”, destaca a importância de “criar laços” contando a história do encontro entre o pequeno príncipe e uma raposa: - Quem és tu? Perguntou o principezinho. Tu és bem bonita. - Sou uma raposa, disse a raposa. - Vem brincar comigo, propôs o principezinho. Estou tão triste... - Eu não posso brincar contigo, disse a raposa. Não me cativaram ainda. - Ah! Desculpa, disse o principezinho. Após uma reflexão, acres- centou: Que quer dizer cativar? ... - É uma coisa muito esquecida, disse a raposa. Significa ‘criar laços...’ - Criar ‘laços’? - Exatamente, disse a raposa. Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo”. É em busca desse “laço” que Cornell desenvolve suas atividades, para que a natureza cative e se torne única para o indivíduo, e que esse sinta a neces- sidade dela. Podemos citar como um exemplo das atividades propostas por Cornell o “cami- nhar descalço” (atividade do segundo estágio - concentrar a atenção) (1995:89). Como o indivíduo tem que prestar atenção onde pisa, ele concentra muito mais sua atenção, o que, no caso de crianças, ajuda também a reduzir a agitação. Como o caminhar é mais calmo e silencioso aumentam as probabilidades de se avistar algum animal silvestre, o que proporciona ao grupo a experiência maravilhosa de observar de perto animais silvestres em seu meio natural. Segundo Cornell, “quan- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    do os observamosnessas condições, desenvolvemos sentimentos de afinidade com o mundo animal” (id. ibid:90). O autor também destaca a possibilidade de ensinar diferentes maneiras de caminhar, como, por exemplo, o caminhar indígena. A ansiedade da pessoa em colocar sua nova habilidade em prática torna a idéia de tirar os sapatos e caminhar descalça perfeitamente natural. Outras atividades que chamam a atenção são aquelas desenvolvidas com os olhos vendados. Segundo Cornell (citado por Mendonça, 2000:146), essas práti- cas possibilitam que a criança fique mais atenta às informações recebidas dos outros sentidos, permitindo um sentir do ambiente de uma forma diferente que permite penetrar completamente no espírito do mundo natural do qual faz parte. Nas palavras de Bach, em seu inspirador livro Fernão Capelo Gaivota, “não creia no que os seus olhos lhe dizem. Tudo o que mostram é limitação. Olhe com o entendimento, descubra o que você já sabe e verá como voar” (1974:146). Algumas estratégias facilitam o processo de adaptação ao meio natural. Cornell (1996:95) destaca a importância do primeiro contato, ressaltando que as primeiras experiências com a natureza devem ser surpreendentes e fasci- nantes, eliminando a sensação de angústia provinda pelo egocentrismo que impede nossa identificação com o mundo natural. Para tanto, deve-se tomar cuidado com o excesso de informação nesse primeiro momento, assim evitan- do uma possível situação de hierarquia e de distanciamento entre a criança e o mediador da prática, o que definirá todo o resto da experiência (Cornell, citado por Mendonça, 2000:140), mesmo porque “a natureza existe em si, além das nossas explicações. Ela vai muito além das possibilidades oferecidas por nossa linguagem.” (id. ibid:139) Aliás, deve-se sempre tomar um certo cuidado quanto à apresentação de explicações e de novas informações, uma vez que a criança pode e deve chegar a conclusões próprias pela prática da observação. Na maioria das vezes, a rea- ção da criança frente ao observado é mais importante que explicações científi- cas, que poderão ser incluídas posteriormente a essa observação. Emoção, agitação, medo, susto, perplexidade, maravilhamento, são fenômenos tão importantes quanto o pulsar de sangue nas asas transparentes de uma libélula, o bater das asas de um beija- flor, a dança das sementes aladas ao sabor do vento, a beleza de uma orquídea, a riqueza de uma bromélia, a vida social dos bugi- os, o encanto de um cervo, a tranquilidade de uma preguiça etc. As explicações devem vir após o desfrute total do que está sendo observado. (id. ibid:141). Desta forma, o conhecimento teórico, ainda que absolutamente necessário não é suficiente para efetivar transformações no relacionamento da criança com o mundo natural. É necessária uma união entre a razão e o sentimento (id. ibid:137). 52 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    O trabalho deEA com crianças também tem se mostrado como um importan- te instrumento na divulgação do pensamento ecológico na sociedade em ge- ral. Isso ocorre pelo fato da maioria dos pais dessas crianças desconhecerem as atuais tendências da EA, mas, uma vez que esses valores são incorporados pelas crianças, estes são passados também para a comunidade adulta. O en- canto do mundo imaginário da criança é contagiante, a ponto de levar adultos a conversarem com árvores e explorarem o leito de um riacho em busca do monstro que deixou suas pegadas pelas margens. Nas palavras de Júlio Maran (citado por Campelo, 1995:47), “ajuda a criança a conhecer e amar a flora, a fauna e todas as formas vivas e estarás assim promovendo os valores ecológi- cos”. Dessa forma, é importante incentivar a população adulta a desenvolver atividades junto às crianças, o que poderá gerar uma situação mútua de apren- dizado na qual o adulto ensina e aprende com a criança, além das descobertas que poderão efetuar juntos. A falta de tempo e o distanciamento entre os centros urbanos e as áreas naturais são apenas dois dos vários motivos que afastam a população urbana da natureza. È importante sabermos que atividades de integração ao meio natural podem ser realizadas também aos arredores da cidade, em parques, jardins zoológicos, bosques, hortos e até mesmo praças. Podemos inclusive aproveitar os arredores urbanos para conscientizarmos as crianças sobre a poluição (inclusive a sonora) e outros fatores nocivos à natureza. Também é importante ressaltar para os indivíduos que voltam de um final de semana junto ao meio natural que os valores da EA não devem ser deixados lá, mas sim trazidos e aplicados também na cidade. A descoberta do movimento é uma das mais belas e significativas realizações do ser humano. A Educação Física tem o importante papel de orientar a criança nessa descoberta, traçando um caminho pelo maravilhoso mundo da curiosida- de. Russel (citado por Sagan, 1974:51) dizia, em 1928, que “deveríamos ter von- tade de descobrir em vez de vontade de acreditar, que é o exato oposto”. É com base nessa afirmação que propomos essa nova união entre a Educação Física e a Educação Ambiental, para que as futuras gerações tenham a vontade de experienciar a inigualável viagem pelo mundo da descoberta. O ESTUDO DO MEIO E A CRIAÇÃO DA IDENTIDADE Como apresentado na introdução, a proposta do presente trabalho é verificar a criação de afinidades da população urbana com o meio natural, pelo contato direcionado à natureza e através de atividades de sensibilização integradas ao meio, para uma conseqüente educação de preservação. Para a sua realização foi elaborada uma proposta de atividades de sensibilização integradas à natureza e aplicadas a um grupo de crianças do ensino infantil (4 e 6 anos) do Colégio Mundinho Nosso, na cidade de São Carlos, SP. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    O desenvolvimento desteestudo junto às crianças que se encontram na faixa etária de 4 a 6 anos e cursando o ensino infantil justifica-se pela necessidade da construção de uma afinidade pelo meio natural e da construção de uma consciência de preservação o mais cedo possível, assim minimizando seu impacto negativo na natureza. A importância desse trabalho já nessa faixa etária reflete nas fases seguin- tes do processo educativo. Os estudos do meio não devem ser apresentados apenas como “um alívio temporário às tensões intrínsecas ao espaço e forma da escola, permitindo que ela continue a negar a necessidade de uma revisão radical em sua tradição de domesticação de corpos, padronização de mentes e reprodução das relações sociais” (Serrano, 2000:12). Para tanto, os alunos devem se habituar aos estudos do meio desde cedo, e incluir essas atividades em seu cotidiano. Previamente à seleção das atividades a serem desenvolvidas nessa proposta foi realizada uma visita à escola para conhecer o corpo docente e as crianças que fariam parte das atividades. Considerando a importância da familiarização com práticas de EA, e aproveitando a energia que as crianças demonstraram e a pronta cooperação do corpo docente durante nossa visita, decidiu-se, em acor- do com a diretora da escola, pela realização de um programa composto por quatro atividades, adaptadas de propostas do primeiro estágio do método de aprendizado seqüencial proposto por Cornell (1995:179), o “despertar o entusi- asmo”. As atividades foram divididas e desenvolvidas no espaço da escola em dois encontros na semana que antecedeu a excursão. A proposta foi finalizada com a realização de uma excursão à UFSCar (Univer- sidade Federal de São Carlos), acompanhada pelo pesquisador (que exerceu a função de mediador da prática), pelo professor de Educação Física da escola e por um monitor voluntário de Educação Ambiental. A presença do professor de Educação Física foi importante, pois as crianças estavam em um meio estranho e a presença de alguém conhecido lhes trouxe maior segurança. A presença de alguém que conhecia profundamente o meio, ou seja, o monitor de Educação Ambiental, também trouxe maior segurança às crianças, além de uma boa fonte de informações e conhecimentos sobre o meio. O mediador, principal responsá- vel pelo planejamento da excursão, exerce a importante função de coordenar toda a prática, imprimindo um bom ritmo de caminhada e execução das ativida- des, definindo metodologias e estando sempre atento às respostas das crianças aos estímulos encontrados durante a excursão. Assim, o programa de atividades apresentou a descrição e o desenvolvimento de dez atividades, quatro desenvolvidas na escola, em semanas que antecede- ram a excursão e seis desenvolvidas durante a excursão. O programa foi desen- volvido com base nas atividades propostas nos livros do naturalista Cornell (1995, 1996) e nos princípios pedagógicos da “aprendizagem seqüencial”. As atividades desenvolvidas na UFSCar foram realizadas nas áreas de cerrado e de mata ciliar de um riacho próximo ao cerrado (áreas que possuem trilhas e 54 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    locais especificamente preparadospara estudos do meio), e em um pinheiral. Essa diversificação de áreas foi muito importante para a compreensão das dife- renças de vegetação e ambientes. Com base nesse conhecimento, e consideran- do nosso tempo de excursão já delimitado, planejamos o desenvolvimento de atividades com melhor adaptação a esses locais específicos e coerentes com o tempo disponível e com nossos objetivos. A avaliação da proposta foi realizada a partir da análise dos dados coletados por meio da observação sistemática direta (da prática em si e de registros foto- gráficos e de filmagem da prática) e uma discussão aberta (reflexão da prática), com os alunos realizada em dois momentos posteriores à excursão: 1) logo após ao encerramento (realizada em pequenos grupos ainda na UFSCar e dentro do ônibus) e 2) na semana posterior, de volta ao espaço da escola (realizada com todo o grupo reunido). Uma das principais críticas apresentadas nesse trabalho é a passividade da EA escolar. A criança aprende na escola que deve preservar e conservar uma natu- reza distante, e que deve lutar contra valores intrínsecos socialmente construídos por uma sociedade consumidora, adaptada ao luxo, sedentária, produtora de lixo e de poluição. Sobrinho, citado por Campelo (1995), escreve poeticamente que “ [...] muitas coisas não se aprendem nos livros e sim em contato com a natureza. Ela é o grande livro aberto aos que sabem ler nele”. Um programa de EA mais ativa implica em um maior contato do homem com o meio natural e mudan- ças que envolvam todo seu cotidiano, e não simplesmente dentro da sala de aula. Sorrentino et al., citados por Barros (2000:93), destacam que as ações transformadoras do cotidiano devem incluir os valores da EA, assim gerando mudanças de atitudes e sentimentos que ajudem a construir posturas mais afetivas, solidárias e cooperativas entre os homens e em sua relação com a natureza. A proposta de uma EA mais ativa, um trabalho que envolva visitas orientadas ao meio natural objetivando uma ética ambiental que resulte numa melhor con- duta em relação à natureza e ao cotidiano urbano, será uma contribuição não somente para aquele indivíduo, mas para toda a sociedade a que ele pertence. Neste aspecto, uma ética ambiental deve ser o item mais importan- te que os visitantes devem incorporar em suas visitas, assim como a lição mais valiosa que podem trazer de volta para casa e para o seu cotidiano. Um comportamento adequado advém da compreen- são e respeito pela natureza, formando um conjunto que passa a pertencer ao indivíduo e à sociedade. (Barros e Dines, 2000:72) Por outro lado, não se pode ignorar a importância do trabalho desenvolvido no âmbito escolar. Assim, uma combinação entre as atividades realizadas dentro e fora da sala de aula seria ideal. A criança deve se familiarizar às práticas relacionadas à Educação Ambiental por meio de atividades de sensibilização Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    desenvolvidas dentro dasala de aula, para que o impacto negativo na natureza seja minimizado. É importante que essas atividades sejam dinâmicas (para des- pertar o interesse do aluno) e que envolvam conceitos que possam ser trabalha- dos também nos estudos do meio, criando assim uma relação entre a teoria e a prática e um propósito de aprender aquilo dentro da sala de aula. Como destaca o naturalista Cornell (1996:5), “as crianças entendem e gravam mais na memória os conceitos quando aprendem por meio da experiência direta e pessoal”. É importante que as atividades também despertem certa curiosidade e entusiasmo para um encontro com o meio natural, uma vez que “a curiosidade é o ponto de partida para a aprendizagem” (Herman et al., 1992:3). Após a familiarização com as práticas de EA por meio de atividades específi- cas desenvolvidas na escola, a criança deve ter a oportunidade de entrar em contato com o meio natural, assim tendo a oportunidade de atingir os objetivos de sensibilização propostos neste trabalho. Sobre a combinação entre ativida- des desenvolvidas dentro da sala de aula e nos estudos do meio, Ferreira e Coutinho (2000:174) ressaltam que até os dias atuais a escola trabalha com o sistema tradicional de ensino, que repassa em sala de aula experiências distintas vivenciadas por pessoas desconhecidas e, posteriormente, por meio de avalia- ções, cobram a absorção desse conteúdo pedindo que a criança reproduza-o para o papel. Na proposta educacional desenvolvida a partir da compreensão dos conceitos dentro da sala de aula e posteriormente vivenciadas nos estudos do meio, a criança cria suas próprias experiências, o que contribui para uma relação afetiva com o meio, para a construção de uma cultura corporal e para o desenvolvimento da autonomia e criatividade da criança. Após as atividades desenvolvidas em contato com o meio natural, é de funda- mental importância a reflexão sobre a prática, tanto no local da atividade (ainda em contato com a natureza) quanto no retorno ao espaço familiar da sala de aula. Barros (2000:99) afirma que o aprendizado experiencial só é efetivo por meio de uma reflexão que integre a nova experiência às experiências vivenciadas no passado, justificando tal afirmativa pela necessidade de “dar um tempo” para que as pessoas reflitam sobre o que viram, sentiram e pensaram durante o even- to. No desenvolvimento do estudo do meio na UFSCar, a viagem de volta foi aproveitada para conversar com as crianças em pequenos grupos isolados, mo- mento no qual foram formuladas perguntas sobre os acontecimentos do dia. O entusiasmo com o qual as crianças discursavam sobre as diferentes experiências do dia enchia de valor o tempo investido na preparação e na realização desse projeto. Nas palavras de Johannes Kepler (citado por Alves, 1993), “os caminhos que conduzem o homem ao saber são tão maravilhosos quanto o próprio saber”. Porém, há algumas críticas a serem consideradas em relação ao presente trabalho. A interação prévia a prática, entre os educadores que atuam no “Colé- gio Mundinho Nosso” e o mediador do estudo do meio deveria ter sido maior, o que possivelmente poderia ter evitado alguns imprevistos. 56 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Pode-se citar comoexemplo a realização precoce da atividade abrace uma árvore, que estava programada para um outro momento e que tomou algum tempo não programado (o que talvez tenha impossibilitado a execução da ativi- dade câmera fotográfica). Deve-se deixar claro que a crítica não se refere a realização da atividade naquele momento (pois a atividade foi muito bem suce- dida), mas na falha no planejamento, a qual poderia ter sido evitada se a profes- sora de filosofia soubesse que tal atividade seria realizada em outro momento (deve-se também deixar claro que a falha não foi da professora, e sim na falta de comunicação entre ela e o mediador previamente à prática). Uma conversa prévia possivelmente poderia também ter evitado o incidente no qual as profes- soras ingenuamente retiraram algumas amostras de sementes na frente das cri- anças para colocar no relatório de campo, e também o controle excessivo (principalmente de movimento) das professoras sobre as crianças durante todo o estudo do meio, fatos ocorridos pela falta de experiência nessas práticas. A escolha da trilha cega, na qual as crianças precisavam permanecer com os olhos fechados, como primeira atividade também pode ser questionada. O obje- tivo era acalmar um pouco a euforia da chegada ao cerrado, mas talvez uma atividade que não exigisse que eles fechassem os olhos seria mais apropriada para um primeiro momento. As crianças estavam curiosas sobre esse novo am- biente, principalmente no primeiro contato, o que comprometeu um pouco a atividade. A escolha de voltar na trilha que as crianças percorreram de olhos fechados já desenvolvendo a atividade uma trilha de surpresas, na qual as crian- ças deveriam achar objetos que não pertenciam ao meio e que foram proposital- mente colocados na trilha, (escolha feita em função do tempo limitado para realizar seis atividades) também foi questionada. O primeiro contato visual com o meio deveria ser agradável, livre de poluição. Conclui-se que diminuindo o número de seis atividades poder-se-ia investir mais tempo na realização e refle- xão de três ou quatro atividades. Mas, apesar dessas críticas, a realização do estudo do meio, em geral, foi bastante satisfatória, acreditando-se que os prin- cipais objetivos desse trabalho foram atingidos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Muitos acreditam que os resultados do processo educacional só podem ser notados em longo prazo. Mas aquele que acredita, aquele que se importa, aquele que realmente se envolve com os maravilhosos caminhos da educação conse- gue enxergar as mudanças acontecendo nos olhos do curioso aprendiz. A natu- reza oferece uma oportunidade de aprendizado a cada instante. O poeta ameri- cano Ralph Waldo Emerson (citado por Sagan, 1974:15) dizia que “nada é rico além da infinita riqueza da natureza. Ela nos mostra sua superfície, mas esconde milhões de destinos em suas profundidades. O único fato que pode impedir o homem de descobrir esses destinos é o próprio homem. O que nos resta é investir na educação, na voz do intelecto, pois, como afirma Freud (citado por Sagan, Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    1983:142), “a vozdo intelecto é suave, mas não descansa até ter ganho um ouvinte. Em última análise, após inumeráveis derrotas, ela vence. Este é um dos poucos pontos em relação aos quais podemos ser otimistas no tocante ao futuro da humanidade”. Analisando o processo educativo como uma majestosa pirâmide, construída pelos grandes pensadores numa época na qual a sabedoria era super valorizada, e o pensar era a prática dos nobres, pode-se pensar no educador como a base dessa pirâmide, sustentando o peso de intermináveis responsabilidades. Mas também sustenta, no topo dessa pirâmide, a luz de um aprendiz. A criança tem como princípios naturais correr, brincar, viajar, sonhar. Para muitas dessas viagens ela precisa de asas, e não é papel do educador cortar essas asas, mas sim ensiná-la a usá-las. O meio natural representa um espaço onde a criança pode expressar seus movimentos com maior liberdade, uma excelente oportunidade de educação corporal e de conscientização ecológica por meio da orientação, e não proibição, do movimento. “O que temos que fazer é instruir e não proibir” recomendava Sócrates (citado por Alves, 1993) a seus pupilos qua- trocentos anos antes de Cristo, recomendação que podemos seguir como exem- plo até os dias atuais. Ao Chegar ao final desse estudo, nada mais natural do que se perguntar as razões que nos levaram a começar tudo isso. Uma das perguntas mais comuns que as pessoas se fazem quando confrontam um problema global (como, por exemplo, a conservação do meio ambiente) é –”que diferença uma pessoa pode fazer?”. Pois foi exatamente a diferença que uma pessoa pode fazer que inspirou esse trabalho, e será exatamente a diferença que cada pessoa irá fazer que, no final, fará a diferença. Certa vez, fomos confrontados com a seguinte pergunta: – “se você pudesse escolher, quem você seria: um sonhador sem coragem de mudar ou um revoluci- onário sem coragem de sonhar?”. Pois acreditamos em uma terceira escolha: seremos um sonhador revolucionário! [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] NOTAS 3 O conceito de “natureza” adotado para esse projeto é caracterizado pelos elementos naturais não construídos pelo ser humano (vegetação, clima, etc.), apesar de entender que o homem, e as transformações que ele promove, também fazem parte da natureza. 2 A expressão “cultura corporal” será utilizada para denominar a ampla cultura que abrange a produção de práticas expressivas e comunicativas externalizadas pelo movimento, em concordância com o documento “Presença do movimento na Educação Infantil: idéias e práticas correntes” (Brasil, 1998).. 58 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2003 Publicação original: anais de congresso Formato da contribuição: texto resumido Fonte: Pipa, pião e 5 marias: brinquedos de ontem, hoje e de sempre, Anais de congresso. CBTUR 2003 E-mail do(s) autor(es): gugapessoas@hotmail.com e shvx79@hotmail.com Títulos acadêmicos principais atuais: Gustavo de Lira Santos: Especialista em Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG e Bacharel em Turismo pela Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP e Sérgio Henrique Verçosa Xavier: Especialista em Lazer, Recreação e Atividade Física para Qualidade de vida pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUC/PR Lazer e Qualidade de Vida e Bacharel em Turismo pela Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP. Brinquedos, brincadeiras, recreação, arte e cultura popular: alternativas para um museu interativo Gustavo de Lira Santos Sérgio Henrique Verçosa Xavier Com a crescente demanda, no mercado, de jogos e equipamentos eletrônicos, percebe-se em meio às crianças o descaso por brinquedos que outrora fizeram a alegria e o lazer de jovens de décadas passadas, inclusive a nossa. Com intuito de não deixar este passado tão rico em experiências se apagar na memória da população, o Museu do Homem do Nordeste, localizado no bairro de Casa Forte na cidade do Recife em Pernambuco, em parceria com Caravana Viagens e Turis- mo e o SEBRAE – Paraíba, desenvolveram a VI Semana do Folclore com o tema: “A importância do patrimônio lúdico na formação infantil”. Proporcionando visitas à exposição permanente do Museu, adicionou à sua rotina uma feirinha de brinquedos populares e guloseimas, oficinas de frevo, maracatu, caboclinho, bumba-meu-boi e capoeira junto com a exposição de brinquedos populares da colecionadora Macao Goes. Tendo como objetivo a implantação de atividades recreativas e lúdicas em museus, que são considerados espaços conservadores e monótonos, destinados a Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    perpetuar antiguidades, tornado-olocais de visitação e lazer para todas as idades. Visto que são desenvolvidas atividades culturais, no qual a criança, receptora, participa apenas psicologicamente das mesmas. Procuramos com este trabalho fazer a intersecção do lazer passivo com o ativo, no qual a criança participa física e psicologicamente, colocando em prática aquilo que viu e aprendeu. METODOLOGIA Com o intento de entender melhor os anseios das crianças ao visitarem o museu, durante a Semana do Folclore, elaboramos um questionário composto de 8 (oito) perguntas fechadas. Num universo total de 2427 crianças que visitaram o Museu, apenas 1414 estavam enquadradas no nosso plano de pesquisa. Este tinha como objetivo entrevistar crianças de ambos os sexos, com idade mínima de 6 anos e máxima de 17 anos, de escolas públicas e privadas, do ensino Funda- mental I e II. Sem precisar identificar-se seriam abordadas após usufruírem de todas as atividades oferecidas pelo museu. Como alvo inicial queríamos coletar 400 (quatrocentos) questionários válidos, 100 (cem) a cada dia, 50 (cinqüenta) por turno. Com a ajuda de alguns voluntári- os, colegas dos cursos de Turismo, Hotelaria, Geografia e Educação Física das Universidades Católica (UNICAP), Federal (UFPE) e de Pernambuco (UPE), senti- mos que alcançaríamos esse objetivo e até bem mais. Ao final captamos 500 (quinhentos) questionários válidos. O questionário pretendia saber o motivo pelo qual a criança foi ao museu; o que ela achava que iria encontrar; a atividade que ela mais gostou; e quais os 5 brinquedos que ela mais brinca. O BRINQUEDO POPULAR Antes do surgimento das fábricas e indústrias modernas, os móveis, objetos, calçados, utensílios, brinquedos, entre outros, eram confeccionados de forma artesanal. No lugar de máquinas o trabalhador utilizava apenas algumas ferramen- tas como: martelos, tesouras, facas, serrotes, etc. Com isso podemos perceber a diferença entre o brinquedo popular e o industrial, pois nele tudo é feito manual- mente, pelo artesão, que usa materiais e ferramentas simples e muita criatividade. O fazer tradicional do brinquedo popular é transmitido pelo artesão de gera- ção em geração com formas simples, coloridas e muito engenhosas. Por serem produzidos em pequena escala, diferentemente dos industriais, que são produzi- dos em grandes escalas e dispõem de máquinas que confeccionam o produto em poucos minutos, os grupos de artesãos passam a encontrar obstáculos difíceis de serem ultrapassados o que leva a uma falta de interesse dos mesmos em produzir, e do consumidor em adquirir um material artesanal, já que, nas lojas eles encontram similares com mais atrativos e a custos mais baixos. 60 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    No Brasil, osprincipais centros produtores de brinquedos artesanais nas décadas de 60 e 70 estavam no Nordeste, Centro-Oeste e na região Sudeste. Ainda hoje estes continuam sendo os locais de produção e ainda são encontra- dos na periferia dos grandes centros urbanos, trazidos com a cultura do migrante nordestino. No Nordeste brasileiro a produção é criativa e engenhosa. São bruxas de pano das mais simples, com vestidos de trapos e sacos de plástico às mais sofisticadas de rosto modelado, anéis e pulseiras. O mobiliário de madeira pintada, cerâmica, lata, jogos de sala, de quarto, de cozinha, miniaturizando o cotidiano adulto. Ainda há meios de transportes, roda gigante, carrossel e balanço que fazem parte dos brinquedos com movimento e muitos deles são cópias dos modelos originais. No vasto universo lúdico artesanal, ainda temos brinquedos de habilidades que são os piões, badoques, pipas entre outros; os acústicos, como os diversos instrumentos musicais; e os brinquedos indígenas. O UNIVERSO INFANTIL E A TECNOLOGIA É pelo jogo, pelo brinquedo que a criança se desenvolve física e mentalmente. Uma criança que é proibida de brincar torna-se o adulto que não sabe pensar e criar. “A infância é, portanto, a aprendizagem necessária à idade adulta (CHATEAU, 1987: 14)”. Na brincadeira a criança deposita toda a sua seriedade e neste momento ela se coloca exatamente na posição que a imaginação permite: Se ela brinca de carri- nho, ou ela se transforma em motorista ou em policial de trânsito. Com as bonecas a menina se sente a própria mãe que se preocupa com o filho, encarnando nitidamente o personagem que a brincadeira exigiu. Tais personagens fazem com que a criança saia de sua realidade e crie outra paralela com facilidades e dificuldades impostas por ela. Neste mundo percebe-se que o adulto não está presente fisicamente, mas ele é representado, pois o brincante necessita de um modelo para dar continuidade a sua brincadeira, e neste universo ela pode se transformar em quem quiser: índio, ladrão, cavaleiro de armadura, astronauta e tantos outros que a imaginação permitir. Todo este mundo de faz de conta fará com que a criança se prepare para a vida real, pois em muitos casos elas reproduzem situações do seu cotidiano. (CHATEAU, 1987: 13 e 14). Contudo encontramos um obstáculo maior, o fascínio que o “moderno” o “novo” vem exercendo na sociedade e que vem proporcionando o desaparecimento des- tas manifestações criativas e tradicionais. Entre as tradições estão as antigas brincadeiras e jogos infantis, substituídos pela televisão, brinquedos industrializa- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    dos e pelomundo da informática e mesmo esta última, restrita a determinadas camadas da população, passando a ocorrer a “falta da criação cultural pela própria criança, por uma produção cultural para a criança”. (Marcelino, 1996: 42). Uma das conseqüências negativas é o fato da criança não produzir mais brin- quedos rústicos, feitos em casa, utilizando materiais simples e baratos. Esta brincadeira além de divertida contribui para o aprimoramento psicomotor. A preservação e conservação dessas atividades não excluem as oportunidades que a informática traz. O interessante é o espaço que a criança tem de produzir cultura e não apenas aceitar mercadorias. RECREAÇÃO CULTURAL EM MUSEUS A recreação cultural é o conjunto de atividades que visa integrar os indivíduos com as manifestações culturais de uma localidade. Ela provoca o interesse fa- zendo com que o participante vivencie e entenda melhor outros comportamen- tos e atitudes, podendo provocar curiosidade pela cultura apresentada surgindo a postériori habilidades criativas no indivíduo, quando para ele são demonstra- das as técnicas próprias de determinada cultura, na confecção de objetos artesanais, danças típicas e etc. A recreação cultural informativa é aquela com a finalidade de aperfeiçoamen- to cultural. Podem ser usadas diversas formas de apresentações, como por exem- plo: Palestras, mesas-redondas, mostras, exposições, teatros, grupos folclóri- cos. Esse tipo de recreação já existe no Museu, porém algumas delas apenas em datas comemorativas. Grupos folclóricos, apresentações teatrais e teatro de bonecos, algumas das atividades que mais prendem a atenção da criança, pode- riam ser apresentados freqüentemente À forma como é repassado o significado das peças, que ficam em exposições, poderia ser com uma linguagem mais sim- ples e didática, talvez, até, através de brincadeiras. A recreação cultural criativa é aquela que a criança participa diretamente, aprendendo e se integrando com a sua cultura. Alguns exemplos são apresenta- ções teatrais e de danças. Outros exemplos seriam as oficinas, com atividades de produção como: argila e papel em geral, pintura, madeira, danças, capoeira e muitas outras que podem ser vistas através da nossa cultura ou da própria expo- sição do Museu. PRINCIPAIS RESULTADOS O quadro de numero 1 se relaciona com a seguinte pergunta: Por que você veio para este passeio? 62 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Quadro 1: Motivodo Passeio RESPOSTAS Nº % 1) Não respondeu o motivo 013 2,6 2) Queria aprender coisas novas 094 18,8 3) Para me divertir 043 8,6 4) Para não ter que assistir aula 001 0,2 5) Para conseguir uma nota mais fácil com o relatório 046 9,2 6) Porque minha turma veio 013 2,6 7) Por curiosidade ou interesse 150 30,0 8) Porque meus pais me induziram 007 1,4 9) Por que a escola ou a professor me induziram 045 9,0 10) Porque já tinha vindo uma vez e quis vir novamente 015 3,0 11) Porque já tinha feito um passeio pela agência e quis vir de novo 002 0,4 12) Outros * 071 14,2 TOTAL 500 100% Podemos observar que a curiosidade ou interesse das crianças, com 30 %, ainda é o principal motivo da visita ao museu; em segundo lugar tivemos a aprendizagem, onde estes indivíduos, que somam 18,8 %, estão em pleno desen- volvimento mental e toda informação e de grande importância. Mas não pode- mos deixar de falar na questão da aquisição de nota, onde 9,2%, dos entrevista- dos tocam no assunto de provas e relatórios visto que esta ainda é uma das formas de avaliação escolar. O que nos chamou a atenção foi o baixo número de crianças que foram ao museu porque não queriam assistir aula, com apenas 0,2 %. A segunda questão descrita, no quadro 2, tem a seguinte pergunta : O que você achava que iria encontrar no MH-NE? Quadro 2: O que esperava encontrar no MH-NE RESPOSTAS Nº % 1) Coisas velhas, antigas e históricas 111 22,2 2) Coisas para adultos 005 1,0 3) Quadros, estátuas, esculturas e similares 059 11,8 ]) Brinquedo, apresentação, jogos, musicas, arte, dança, trabalho 184 36,8 manuais e curiosidades 5) Outros 141 28,2 TOTAL 5]] 1]]% Já que em muitos colégios foi comunicado para as crianças o que elas iriam encontrar de festivo durante a semana do folclore, muitas crianças responderam aquilo que realmente encontrava-se, num total de 36,8%. Outras como era espe- rado continuam a ter a idéia tradicional sobre museu, 35,6%. O quadro 3 tem como objetivo saber o que elas mais apreciaram com a seguin- te pergunta : Qual a atividade que você mais gostou? Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Quadro 3: Atividadeque mais gostou RESPOSTAS Nº % 1) Feirinha de artesanato e guloseimas 032 6,4 2) Oficinas de frevo 113 22,6 3) Visita a parte de dentro do museu 158 31,6 4) Exposição de brinquedos populares 037 7,4 5) Oficina de capoeira 122 24,4 6) Apresentação das escolas 019 3,8 7) Outros 019 3,8 TOTAL 500 100% Foi grande a nossa surpresa quando e resposta mais votada (31,6%) foi a visita a parte de dentro do museu, mas facilmente explicável porque quem ministrava a apresentação do museu era uma equipe de recreadores . Logo após, a oficina de capoeira (24,4%) e a oficina de frevo (22,6%), respectivamente. Também pode- mos explicar este fato: As crianças participavam ativamente destas oficinas. Por fim, tínhamos a dúvida da interação do brinquedo moderno com o popular. Com a seguinte pergunta: Quais são os brinquedos com os quais você mais brinca? Quadro 4.1: Brinquedos mais utilizados BRINQUEDOS MODERNOS / INDUSTRIALIZADOS CATEGORIA Nº 1) Videogame; Bicicleta; Computador; carrinhos / lanchas / aviões elétricos ou de 0921 fricção; Bonecos(as) de lojas; Jogos de Tabuleiros*. 2) Ferrorama / Autorama; brinquedos de montar; armas; patins / patinete / skate; 0091 instrumentos musicais; mini-game; tamagoche; massa de modelar; jogos de elaboração**. 3) Outros (Maquiagem, Jogos de mesa***, Skate de dedo, Revista em quadrinhos; 0034 Fogãozinho; Panelinha; Casinha de pano; Karaokê) 4) Geleca. 0000 TOTAL 1]]6 * War; Jogo da Vida; Imagem e ação; Banco Imobiliário; Xadrez; Dama; Ludo e etc. ** Sorveteria da Eliana; Chocolateria da estrela; Tricô da estrela e etc. *** Ping-Pong; Sinuca; Dominó; Baralho. Quadro 4.2: Brinquedos mais utilizados BRINQUEDOS POPULARES/ ARTESANAIS CATEGORIAS Nº 1) Bola; Pipa; Pião; Corda; Elástico; Bola de Gude; 0852 2) Carrinho de rolimã; Telefone sem fio; Bambolê; Peteca; Pega vareta; Vai e Vem; Bonecas 0156 e bonecos de pano; Brinquedos feitos pela criança; Carrinhos de lata e madeira. 3) Badoque; Casinha; Escolinha; Brincadeiras*; Brinquedos de escolas**; Fantoche, 0162 Bolinha de sabão; Argila; Gestos com a mão; Brincar com a imaginação; Cantar; Cabeleireiro; Livros; Iô-iô; Cantigas de rodas. 4) Pirocoptero. 0000 TOTAL 1170 * Pega - pega; Pega - Congelo; Pega - macaco: Amarelinha; Pula - carniça; Esconde-esconde, Barra – Bandeira, Cabra-sega; Chuta a Garrafa (Pique e late), Pisa-pé; ** Escorrego; Balanço; Gangorra; Roda e etc. 64 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    CONCLUSÃO Atravésdesta pesquisa, feita com crianças de escolas privadas, e neste meio descobrimos as escolas particulares de baixa renda, e pública, percebemos que neste universo os brinquedos não foram totalmente retirados do cotidiano. Este motivo pode ser atribuído pelo fato de que os bairros em que elas moram sejam calmos e próximo às escolas, que em geral, são de médio e pequeno porte. Contudo torna-se necessário o incentivo por parte de diversas instituições, da família e da escola, para que os mesmos não se tornem apenas “peças de museus”. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Ano: 2003 Publicação original: inédito Formato da contribuição: artigo Fonte: “no prelo” E-mail do(s) autor(es): gugapessoas@hotmail.com e shvx79@hotmail.com Títulos acadêmicos principais atuais: Gustavo de Lira Santos: Especialista em Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG e Bacharel em Turismo pela Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP e Sérgio Henrique Verçosa Xavier: Especialista em Lazer, Recreação e Atividade Física para Qualidade de vida pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUC/PR Lazer e Qualidade de Vida e Bacharel em Turismo pela Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP. Equilibrando desenvolvimento com meio ambiente: Garantindo lazer, ecologia e turismo no centro urbano. Estudo de caso do projeto parque do recife Gustavo de Lira Santos Sérgio Henrique Verçosa Xavier DESENVOLVIMENTO DESORDENADO Crescimento da cidade do Recife O crescimento desordenado da população na cidade do Recife exige maior atenção para questões como planejamento sustentável municipal. Prevê-se que em 2020 a população mundial ultrapasse a marca de 8 bilhões de habitantes, sendo 65% desse total vivendo em áreas litorâneas. É o que vem acontecendo no Recife, em 1991 a população era de 1.298.229, em 1996 passou para 1.346.045 e em 2000 já estava em 1.422.905 habitantes (Fonte: IBGE, Base de Informações Municipais). A cidade em rápido crescimento, caso mal administrada, deparar-se-á com problemas ambientais gravíssimos. As cidades vêm se deteriorando e se “enfeando” com os avanços tecnológicos, pois as populações crescem bem Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    mais que ainfra-estrutura necessária para comportá-las, as inovações ou reno- vações vem tardias, tendo, sempre, que sacrificar algo já existente em nome desse avanço. Os fatores humanos são elementos fundamentais na formulação de políticas abrangentes para o desenvolvimento sustentável. Essas políticas devem atentar para as tendências e fatores demográficos, ao planejamento de tecnologias ade- quadas e ao desenvolvimento. Há também a necessidade de se pensar em estraté- gias para suavizar o impacto das atividades humanas sobre o meio ambiente e vice-versa. É preciso também identificar áreas para ação e desenvolvimento des- sas estratégias e analisar uma perspectiva mais ampla de meio ambiente e desen- volvimento baseada num estudo interdisciplinar e unir a teoria à prática. Percebendo assim que fatores demográficos exercem uma influência crítica sobre os padrões de consumo, produção, estilo de vida e sustentabilidade em longo prazo. CRESCIMENTO DO BAIRRO DE BOA VIAGEM Até o início do século passado, Boa Viagem era praticamente desabitada, a ponto de se praticar a caça de animais silvestres. A povoação da Boa Viagem tem seu início no século XVII, devido à existência de algumas vendas que serviam de local de descanso dos viajantes que por ali transitavam vindos do caminho do sul da Capitania de Pernambuco. Em 6 de junho de 1707, Baltazar da Costa Passos e sua mulher Ana de Araújo, fizeram uma doação ao padre Leandro Camelo, de cem braças de terra para ali construir uma capela, patrimônio acrescido de outras doações sucessivas. Em 1743 já estava a capela construída onde figura o nicho dourado e pintado com a imagem de Nossa Senhora da Boa Viagem, padroeira dos navegantes e viajantes. A capela de Boa Viagem, portanto, deu o nome não só à bela praia, como também a todo o bairro de Boa Viagem. Sua construção é de estilo barroco, seu interior passou, com o tempo, por várias reformas, encontrando-se por esse motivo bastante descaracterizado. A povoação da Boa Viagem vem ganhar novo impulso em 1858, quando foi inaugurado o primeiro trecho da Estrada de Ferro Recife-São Francisco, cuja havia parada na estação situada no final da atual Rua Barão de Souza Leão. Inicialmente um trole e depois um bonde de burros fez a ligação da Praça de Boa Viagem à estação ferroviária. O bairro cresceu mais e tomou jeito de nobreza com o impulso dado pelo bonde elétrico da Pernambuco Tramways, que inicialmente trafegou até o Pina, 68 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    antiga ilha doNogueira, chegando depois até a Igreja Nossa Senhora de Boa Viagem. Foi, porém, a abertura da avenida Boa Viagem que a integrou na vida do recifense, a partir de 1924, no governo de Sérgio Lorêto. Nos anos 80 e 90 foram erguidos vários edifícios, inclusive surgindo inúmeras favelas, perdendo assim seu ar de nobreza. Pelos dados da Secretaria de Plane- jamento da cidade do Recife, Boa Viagem hoje é o Bairro de maior população, com aproximadamente 101 mil habitantes em seus 717 hectares de área. Antes desse super povoamento, o bairro era coberto por manguezais e para a constru- ção das edificações ou em nome do progresso mais de 80% desse mangue foi aterrado, hoje ainda resta uma área com 419 ha de mangue que sobrevive em meio ao desenvolvimento descontrolado. O que já foi sinônimo de status, hoje morar em Boa Viagem não passa de uma questão de não ter outra opção. Uma pequena consulta aos moradores da região feita pela AMABV, no mês de maio/2002, surpreendeu com o resultado da inda- gação, constou, nas 500 consultas que 60% das pessoas questionadas, responde- ram que se pudessem mudariam o mais rápido possível. Os motivos mais citados foram: violência, prostituição, trânsito caótico, sujeira e bagunça, além do Recifolia1 (Carnaval fora de época do Recife). LAZER NA CIDADE De acordo com MARCELLINNO (2000; pág 25), “o espaço para o lazer é o espaço urbano”. No século XXI, o ócio será essencial para as sociedades pós-industriais. As barreiras entre trabalho e lazer diminuirão cada vez mais, tempos sociais surgi- rão em que a prioridade das pessoas será seu bem estar, sua família e seu diver- timento e não mais o trabalho, assim sendo o Lazer assumirá posição de maior destaque. O mercado criado pela globalização fez surgir um novo setor na economia, que é definido, por alguns estudiosos da área, como quarto setor. A busca de novos negócios para investimentos, na criação de novas profissões e espaços alternativos, trouxe para a população novas opções de lazer, tendo desde as gratuitas até as mais sofisticadas. Como o tempo gasto no trânsito é cada dia maior, devido ao aumento das distâncias e o aumento da frota de carros, logo causando os longos e demorados engarrafamentos uma alternativa para o lazer seria contemplar os espaços urba- nos. WILHEIM nos diz que “percorrer a cidade pode ser enfadonho e desgastante ou, pelo contrário, revelar-se uma experiência altamente informativa e agradá- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    vel para ossentidos”, daí a importância de se preservar também os parques e praças públicas. Segundo CASTROGIOVANNI (2000, pág 02): “As cidades, ao mesmo tempo em que sintetizam as tensões soci- ais existentes, são espaços privilegiados de atrações, serviços, simbolismos e produções culturais. O papel que assumem na eta- pa pós-industrial e da globalização econômica tem possibilitado incrementar estruturas, equipamentos, serviços e revitalizar áre- as adormecidas, mas com grande expressividade na formação histórica do lugar”. É nos centros urbanos que a população encontra os equipamentos de lazer mais variados e de fáceis acessos, sejam eles específicos ou não. Não específi- cos são aqueles que não foram construídos com fim de proporcionar lazer, mas acabam por fazê-lo, a casa, que é o principal da maioria da população, principal- mente a de baixa renda, o bar e a rua, que se transformam em ponto de encontro e local de festas, especialmente em datas comemorativas. Além de encontrar também os equipamentos denominados específicos teatros, cinemas, shoppings, mais procurados devidos a segurança e centro comunitários de cultura ou lazer e ginásio de esportes. TURISMO PEDAGÓGICO Atualmente a escola é vista como centro de educação sistemática e cabe a ela oferecer aos alunos situações que lhes permitam desenvolver suas potencialidades de acordo com a fase evolutiva. A educação é vista como fator de mudanças, renovação e progresso, sendo ela um processo de vida e não uma preparação para a vida futura. O Turismo Escolar ganha força neste final de século, quando há uma série de reflexões sobre o papel da escola, sua função social, o significado das experiên- cias escolares e extra-classe. O Turismo Pedagógico apresenta-se como uma concepção de posturas pedagógicas e não meramente como uma técnica de ensino mais atrativa para os alunos. É um trabalho capaz de fazer a escola ir além dos seus muros e criar pontos entre os conteúdos estudados e o meio físico e social proporcionando melhor compreensão. Tem como função tornar a aprendizagem ativa, interessante, significativa, real e atrativa para o aluno, conseguindo isso à medida que o aluno passa a vivenciar “in loco” o que foi visto em sala de aula. Dentro dessas perspectivas, os conteú- dos disciplinares, antes teóricos e abstratos deixam de ser um fim em si mesmo 70 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    e passam aser meios para ampliar a formação dos alunos e sua interação com a realidade, de forma crítica e dinâmica. Nos últimos anos houve uma vertiginosa aceleração no que se refere a turismo com estudantes, este deixou de ser turismo com e passou a ser para o estudante. TURISMO DE NATUREZA Dentre as várias segmentações do turismo, existe uma (de percepção recente, porém há muito já praticado, mesmo que de forma indiferente ao turismo) que merece destaque devido a sua crescente demanda nos últimos tempos, é o “ecoturismo”. Contudo, o ecoturismo abrange muito mais do que o simples desejo de estar em contato com o ecossistema, existe a grande possibilidade de um desenvolvi- mento sustentável numa localidade que desenvolve este segmento do setor turístico, embora alguns não tenham a noção dos benefícios que o ecoturismo acarreta. Daí percebe-se a capacidade do ecoturismo em desenvolver uma atividade sustentável no local de seu processamento, porém seria uma hipótese totalmen- te utópica, pensar que o ecoturismo, de forma alguma, traga danos ao meio ambiente. Quando realizado de maneira desproporcional, sem o conhecimento da sociedade sobre problemas relativos ao ecossistema, ou mesmo quando exis- te algum setor que deseja tirar proveitos econômicos induzindo a um desenvol- vimento desregrado da atividade. É como observa SWARBROOKE (2000: pág 56): As vantagens do ecoturismo para as organizações de turismo e para as destinações turísticas podem conduzir ao desenvolvi- mento de formas de um “pretenso” turismo que se dá em larga escala e de maneira espoliativa, de modo oposto aos princípios do ecoturismo. Esta é a origem de grande parte da confusão que ronda o ecoturismo, ou seja, a lacuna entre a teoria e a prática, entre as concepções dos turistas e o lado provedor do turismo. MANGUEZAL O que é mangue? Etimologicamente, a palavra Mangue advém de um termo em inglês (MONGROVE). A expressão Mangue tanto significa a vegetação própria dos alagadiços salgados como os mesmos alagadiços. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Os Mangues correspondema um complexo sistema ecológico, situando-se em Regiões Estuarinas, que sofrem influência das marés. É um ecossistema constituído por uma vegetação lenhosa, arbórea, que coloniza solos lodosos, pouco consoli- dados, rico em matéria orgânica e com baixo teor de oxigênio. Apresenta uma grande variedade de micro-organismos, macro-algas, crustáceos e moluscos, adap- tados às constantes variações de salinidade e fluxo das marés. É local favorável à proteção, alimentação, reprodução e desova de muitos animais. Localiza-se nas regiões costeiras tropicais e subtropicais do planeta, isto porque todas as espécies de mangue são sensíveis ao frio. É o cordão umbilical entre a terra e o mar. No Brasil, os manguezais são encontrados em quase todo litoral, desde o Oiapoque, no Amapá, até laguna em Santa Catarina, sendo o país que possui a mais extensa reserva de manguezal do mundo. A área ocupada por mangue em Pernambuco é de aproximadamente 25 mil hectares, vegetando nela cinco espé- cies: Manso, Vermelho, Siriuba, Botão e Preto. IMPORTÂNCIA DOS MANGUEZAIS Pelo menos 2/3 das espécies de peixes explorados economicamente depen- dem desse ecossistema para a sua existência. O manguezal é um dos ecossistemas mais importantes do planeta. A grande quantidade de detrito vegetal, produzida por esse ecossistema cons- titui-se de alimento para à fauna estuarina e marinha, uma vez que, durante o processo de decomposição são colonizados por microorganismos. Assim, for- mam a base para diversas cadeias alimentares. Além da produção de matéria orgânica, a estrutura das raízes de mangue, formando emaranhados, oferece proteção para espécies da fauna marinha. Estu- dos mostram que há uma relação entre a produtividade da pesca nas regiões litorâneas e a conservação desses ecossistemas. Produzem ainda vários serviços indiretos, que passam despercebidos. Os manguezais protegem a linha de costa e as margens dos estuários contra erosão. São importantes retentores de metais pesados e grande seqüestrador de carbono. IMPACTOS AMBIENTAIS Aterro corte, expansão urbana, marinas, portos, estradas, agricultura, carcinocultura, industriais, derramamento de petróleo, lançamento de esgoto, lixo, poluentes industriais e agrotóxicos, são as principais formas encontradas pelo homem para destruir um berçário de vida; o manguezal. A destruição desses 72 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    ecossistemas gera grandesprejuízos, seja direta ou indiretamente, visto que são perdidas importantes funções ecológicas. Outro problema grave observado é a pesca predatória, onde é muito comum a captura de crustáceos, fora da época ideal. E principalmente a pesca com petre- chos inadequados, bombas e demais artifícios usados pelos que não respeitam a verdadeira arte da pesca. É preciso conhecer e respeitar os ciclos naturais dos manguezais para que o uso sustentado de seus recursos sejam estabelecidos LEIS QUE PROTEGEM OS MANGUEZAIS A Constituição do Brasil, em 1988, no Capítulo VI (do Meio Ambiente), Art. 225, diz que “Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade, o dever de defendê-lo e de preservá-lo para as presentes e futuras gerações”. O manguezal dispõe de diplomas legais para sua proteção, tanto a nível federal como, estadual e ou municipal. Os manguezais são Áreas protegidas ou de Preservação Permanente ou Reservas Ecológicas, conforme o Código Florestal, Lei n. 4.771, Art. 2, de 15/09/1965, Art. 18 da Lei n 6.938, de 31/08/1981, Decreto n 89336, de 31 de abril de 1984 e resolução n 4 do CONAMA, de 18/09/1985. ECOLOGIA E TRÂNSITO O Recife se moderniza e novas obras são inauguradas ou projetadas para melhorar a qualidade de vida, ampliar a oferta de áreas de lazer, facilitar o fluxo do trânsito. Um projeto que é discutido há 15 anos e ganhou força na gestão de 1992-96 e continua a ser debatido é o da chamada Linha Verde, que promete desafogar a ligação terrestre entre Boa Viagem e o centro da cidade. Serão quase sete quilômetros e além de desafogar o trânsito na área, a idéia tem a vantagem de antecipar-se a invasões, que já ocorrem, e complementar outro projeto, o do Parque dos Manguezais, que visa à preservação ambiental e o lazer. Preservação ambiental. Este é um dos aspectos que, segundo consta, vem merecendo a devida atenção tanto por parte dos moradores quanto pela Prefei- tura do Recife. Houve época, até meados dos anos 70, em que quase toda a área hoje densamente povoada e ocupada do Bairro de Boa Viagem constituía um imenso espaço de manguezais. O aterro feito de forma inadequada na maior parte desse espaço - que, diga-se de passagem, foi ocupado como uma determinante do próprio crescimento urbano do Recife - é hoje um dos respon- sáveis pelas enchentes em Boa Viagem. O projeto prevê o aterro de algumas áreas, porém, novamente a Prefeitura assegura que todos os estudos necessári- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    os para dimensionaro impacto das obras sobre o meio ambiente referendam a implantação da Linha Verde serão feitos. Não há dúvida de que é preciso evitar que o trânsito do Recife atinja um grau de saturação insuportável. Também ninguém contesta a necessidade de preservar o que ainda sobra dos manguezais. Como já ficou abundantemente comprovado não serão apenas obras viárias, túneis, viadutos, ampliação de avenidas, que vão resolver o primeiro desses dois problemas. É claro que, sem essas obras, simples- mente não haveria por onde circular a frota de veículos automotivos, que se multiplica há décadas. Mas elas sozinhas não resolvem o problema. Para se chegar à qualidade de vida que merecemos todos, é indispensável que as autoridades proporcionem, à população um transporte público decente. So- mente assim, o ônibus e o metrô, voltarão a ser utilizados pela maioria da população, e mesmo por quem possui automóvel particular. O PARQUE DO RECIFE O parque faz limites como os Bairros da Imbiribeira, Boa Viagem, Pina, Cabanga e Afogados, locais de intenso movimento. Apesar de toda sua grande extensão o parque está correndo o risco de desaparecer, até 1994 a área se encontrava sobre proteção da Marinha que mantinha em funcionamento a sua Estação de Rádio, construída durante a II Guerra Mundial. Atualmente, desativado, e em poder da união, toda essa área requer a sua utilização racional em favor da população antes que desapareça. Descobrimos este imenso tesouro ecológico casualmente, enquanto trabalhá- vamos. Então resolvemos fazer uma pequena pesquisa entre os moradores dos bairros com os quais o Parque faz fronteira, guias de turismo, agentes de viagens e professores de geografia, ciências, biologia, história e estudos sociais, num total de 200 entrevistados. Apenas 12% já ouviram falar do Parque dos Manguezais e só 6%, realmente, conhecem e já foram visitá-lo. Em seguida conversamos com o líder do grupo de proteção ao Parque dos Manguezais, o engenheiro José de Britto. Que nos explicou a diferença do Projeto Parque dos Manguezais para o do Parque do Recife, esta seria que no Projeto Parque do Recife entraria as Lagoas do Encanta Moça e do Pina, os rios Jordão e Pina, o Manguezal da Beira do Rio e bacias adjacentes mais os 35ha de vegetação rasteira, pois a preocupação não seria, apenas, preservar o Mangue, mas todo o Ecossistema. O Parque passaria de 212ha para 419ha, tornando-se bem superior ao Ibirapuera e seis vezes maior que o Parque da Jaqueira, o maior Parque na cidade. Apesar de está hoje bastante degradado, principalmente, pelo despejo da Compesa de toneladas de esgoto inatura no Rio Jordão, inúmeros viveiros de 74 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    camarão com licençaambiental do CPRH e também pela invasão de favelas, aterros clandestinos e construções de prédios no entorno do mangue. O Parque dos Manguezais tem grande importância para toda cidade do Recife, além de abrigar várias espécies animais é de grande potencial sócio-econômico- ambiental, irá oferecer aos visitantes a oportunidade de desfrutar de uma infra- estrutura natural no meio urbano, dando-lhes chance de fugir do caos de cidade grande sem precisar fazer qualquer viagem, e ainda impedindo que toda essa área venha a ser extinta com a passagem da “Linha Verde” ou invadida pela especula- ção imobiliária. POSSIBILIDADES PARA O PARQUE O projeto prevê a preservação e recuperação do Mangue e da repovoação das áreas das lagoas e rios para que os pescadores, da comunidade local, possam voltar a tirar seu sustento. Na área de lazer, criar-se-ia no espaço da vegetação rasteira, campo de fute- bol e de vôlei, área de pic-nic, quiosques de lanchonete e artesanatos, pista de Cooper, bicicleta, patins e half-pipe2, tudo respeitando o meio ambiente para haver o mínimo de degradação possível. Ter-se-ia ainda bases de apoios para as universidades, empresa ou organiza- ções com fins ecoturísticos e biológicos que desejassem fazer pesquisas de cunho cientifico. E para desenvolvimento do Turismo Pedagógico. As constru- ções já existentes tornar-se-iam uma biblioteca, salão para palestra sobre Meio Ambiente, Educação Ecoturística, e de outros temas, com intuito de conscientizar a população, tendo ainda um Museu da Marinha, Posto Policial e do Ibama. Nos rios e lagoas, faria-se um mini-pólo náutico com: Pedalinhos, Caíque, Barcos a Remo e Catamarã, os quais poder-se-ia fazer passeios por todos os limites do parque. Construindo-se ainda trilhas ecológicas, de madeiras, suspensas por dentro dos manguezais, proporcionando aos visitantes maior contato com a natureza, em alguns pontos seriam construídos também mirantes e/ou pontos de observação. A fim de evitar o impacto ambiental, não seria permitido o trânsito de veículos, só bicicletas, skates, patins, podendo vir a contar com carrinhos elétricos, ou tendo, ainda, a opção de entrar pelo Rio Jordão, não sendo permitido a navegação de embarcações de grandes portes, visto que a Maré mínima é de 1m e a máxima de 9m. Com relação a construções, o Código Florestal do Recife proíbe a construção de edificações a menos de 50 metros da lagoa e entre 51m a 300m de distância edificações de no máximo 2o andar. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Feito o Relatóriode Impactos Ambientais (EIA & RIMA), a partir da implantação do Parque dos Manguezais, constatou-se que o projeto é viável, causando dano quase 0 (zero) ao Meio Ambiente. CONCLUSÃO O objetivo primordial é não deixar um Ecossistema como esse ser destruído em troca do progresso. A área é de uma riqueza, única, que nós recifenses e pernambucanos temos: uma floresta ambiental dentro de um centro urbano. Temos que torná-lo organizado e capaz de receber visitação pública, e assim o fazendo conhecido, conseguindo mais pessoas dispostas a mantê-lo preservado para as gerações seguintes, poder público, privado ou alguma empresa que qui- sesse adotá-lo. Destruir um Ecossistema Estuarino, desse porte significa destruir um nascedouro de vida aquático e oportunidade de sustento pra muitas famílias. Além de que asseguramos a importância cada vez maior do lazer para o homem globalizado, sabendo ainda que o mesmo dispõe cada dia de menos tempo e dinheiro para usufruir deste lazer, não podemos permitir que uma grande e inovadora opção igual ao Parque do Recife seja trocado por mais um produto do mundo alienante em que vivemos. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] Notas 3 Carnaval Fora de época do recife. Acontece no último final de semana do mês de Outubro na Av. Boa Viagem, varando toda a madrugada. Motivo de muitas brigas entre moradores e organizadores. 5 Local específico para manobras de skate em forma de U. 76 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2003 Publicação original: anais de congresso Formato da contribuição: resumo Fonte: ENCONTRO NACIONAL DE RECREAÇÃO E LAZER, 2003, Santo André - SP. Anais do XV Encontro Nacional de Recreação e Lazer. Santo André: SESC, 2003. E-mail do(s) autor(es): gugapessoas@hotmail.com e shvx79@hotmail.com Títulos acadêmicos principais atuais: Gustavo de Lira Santos: Especialista em Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG e Bacharel em Turismo pela Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP e Sérgio Henrique Verçosa Xavier: Especialista em Lazer, Recreação e Atividade Física para Qualidade de vida pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná - PUC/PR Lazer e Qualidade de Vida e Bacharel em Turismo pela Universidade Católica de Pernambuco - UNICAP. Clube de máscara Galo da Madrugada: o maior bloco de carnaval do mundo, vivendo a cultura pernambucana Gustavo de Lira Santos Sérgio Henrique Verçosa Xavier Eram os ecos dos risos dos carnavais públicos que repercutiam dentro dos muros dos mosteiros, universidades e colégios. Mikhail Bakhtin O nosso carnaval tem suas origens na Idade Média, contudo continuamos mantendo muitas de suas características básicas até os dias de hoje, principal- mente no que diz respeito ao comportamento do homem e da sociedade durante esse período. O carnaval era a festa da carne, era um festival em comemoração à colheita e ao Deus Pan (Grécia) ou Lupercus (Roma), chegando a durar até três meses. Nesse período as hierarquias eram quebradas e todo mundo se tornava igual, independente do seu trabalho ou do dinheiro que tivesse, “rompendo o cotidiano da vida social diária e mostrando-se como um tempo que privilegiava o contato pessoal e espontâneo, liberando-se de status sócia” (ARAÚJO - 1996; pág 30). Constituía-se de um tempo em que o homem não era privado de nada e tinha Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    carne e bebidaem abundância e era totalmente livre, não existindo leis a não ser as suas próprias. O carnaval era também uma forma de se opor à cultura erudita, as normas da igreja, já que esta considerava a diversão, inclusive o riso, “coisas do demônio”, e nele existia não apenas o riso individual, mas também o coletivo, o grupal, aquele que representava todo o ‘bem estar’ de um povo. Segundo BAKHTIN (1993: pág 09): O indivíduo parecia dotado de uma segunda vida que lhe permitia estabelecer relações novas, verdadeiramente humanas, com os seus semelhantes. A alienação sumia provisoriamente. O homem tornava-se a si mesmo e sentia-se um ser humano entre seus semelhantes. Essa segunda vida era criada e incorporada, representada e vivida pelo homem durante o período do carnaval. Depois ele retornava à sua vida normal. A mesma ainda manifesta-se nos festejos de Momo dos dias atuais e é bem representada no trecho da música de Chico Buarque, ‘Vai Passar’: (...) Seus Filhos erravam cegos pelo continente, levavam pedras feito penitentes erguendo estranhas catedrais. E um dia, afinal tinham direito a uma alegria fugaz, uma ofegante epidemia que se chamava carnaval(...). Para compreender o carnaval não é possível estudá-lo apenas como um obje- to único, é necessário percebê-lo em conjunto. A noção de festa compreendida por HEERS (1987; pág 222) é que “ela está indissociavelmente ligada ao seu contexto histórico e social”. A festa, concordando com o ponto de vista de CANCLINI (1983; pág 54): (...) sintetiza a totalidade da vida de cada comunidade, a sua organização econômica e suas estruturas culturais, as suas rela- ções políticas e suas propostas de mudanças. Isso é notado no nosso carnaval pelas fantasias, as pessoas fazem sempre alusão a alguém ou a algo que está no auge e sendo bastante comentado(a). Não se sabe ao certo quando o carnaval chegou a Pernambuco, só se encon- tram registros do ano de 1555, mas acredita-se que chegou um pouco antes desse período. O carnaval entrou no nosso estado trazido pelos Portugueses e se limitava aos Entrudos, que vem do latim, “intróito” e que quer dizer introdução, referindo-se ao período que introduz a Quaresma. A brincadeira ocorria nos três dias que precediam a quaresma e constava basicamente em molhar as pessoas com água e sujá-las com farinha e pó. 78 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Em 1901, oficiaisdo exército criaram o “Clube de Alegorias e Críticas Cara- Dura”. Saindo às ruas em carros puxados por cavalos, onde haviam sido instala- dos palcos para os músicos, um protótipo do que viria a ser os trios elétricos dos dias de hoje, e neles ficavam tocando marchas e músicas de carnaval, acompa- nhados sempre por multidões. Daí para frente o Carnaval Pernambucano foi se desenvolvendo cada vez mais, criando novos ritmos e danças e ficando a cada ano o mais peculiar dos carnavais. “Pernambuco tem todos os Carnavais do Brasil”, foi o slogan que o governo do estado usou para vender o nosso Carnaval durante alguns anos em campanhas publicitárias. A origem desta expressão é a diversidade de “carnavais” existentes em Pernambuco: temos o carnaval de Salvador, na Av. Boa Viagem, na semana pré-carnavalesca e no Bloco da Parceria (de iniciativa privada). No centro do recife acontece o desfile das Escolas de Samba, simples e com nuances caracte- rísticos da cultura local, diferente do glamour dos desfiles de Rio e São Paulo, mas que mexe com o coração dos participantes e torcedores. Os carnavais das cidades históricas de Minas Gerais estão representados em Olinda. Resistindo ao tempo ainda encontramos os famosos Bailes de clubes, com concursos de más- caras, fantasias, reis Momos e rainhas. Partindo para o interior do estado ainda encontramos manifestações em Nazaré da Mata (maractus rurais), Bezerros (papangus) e Triunfo (Caretas). Segundo SILVA (1998:pág 217): O carnaval de Pernambuco é do povo. Do Recife a Olinda, de Petrolina, no sertão, a Vitória de Santo Antão, na zona da mata, a festa toma conta de todos. Não importa se a fantasia é de rei, rainha ou de escravo, o importante, durante os quatro dias de festa, é manter a tradição de um dos mais belos carnavais do planeta. Se existe um Carnaval que possa ser batizado de plural e democrático, este é o Carnaval de Pernambuco, onde guitarras, tambores e clarins fazem uma multidão pular durante os quatro dias e ainda gritar que “acha é pouco”1. Em Olinda as troças e fantasias inusitadas continuam fazendo da cidade a detentora do Carna- val mais criativo do estado. Nos pólos de animação espalhados pelo Recife, as atrações vão de música armorial de Antônio Carlos Nóbrega até o Cocô de Dona Selma, passando pelos sons dos caboclinhos e dos maracatus, sem esquecer o rock, atração do projeto Mangue Beat2. Para completar, muito frevo, símbolo maior da nossa folia, que tem em Nascimento do Passo seu maior ícone. Por isso, seja qual for o ritmo ou estilo musical, a ordem é cair na folia e só parar quando o corpo reclamar. Por toda essa mistura de ritmos, fantasias, sons e cores e também, por na maioria de suas atrações carnavalescas não haver divisão de classe, Pernambuco Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    simboliza nos diasde Carnaval uma grande manifestação de democracia e pos- sibilidade de igualdade social. INÍCIO DO DESFILE (Principais Manifestações do Carnaval) Embora a cultura pernambucana se manifeste em inúmeras atrações, os dias de carnaval são marcados principalmente pelo Maracatu e pelo Frevo, que ainda trazem em seus rituais algumas formas de apresentação: MARACATU Trago ritmo e arte. Na Zabumba e no Gonguê sou espetáculo à parte contagi- ando, quem vê. Sou cortejo africano, sou raiz da nossa gente. Marília Branco Os Maracatus encantam o carnaval de Pernambuco por seu toque e suas cores. A palavra maracatu era usada, até o século XIX, para designar qualquer ajunta- mento de negros. Pouco a pouco passou a ser empregada para os cortejos de reis africanos. Existem dois tipos de Maracatu: O Nação e o Rural. • Maracatu Nação ou de Baque Virado: Tem sua origem com antigos negros escravos. Chefes tribais africanos trazidos para o Brasil reproduziam gestos da nobreza européia para mostrar a sua força e seu poder, apesar da escravidão. A boneca usada nos cortejos chama-se Calunga e encarna a divindade dos orixás, recebendo em sua cabeça os axés e a veneração do grupo. A música vocal denomina-se toadas e inclui versos com procedência africana. Seu início e fim são determinados pelo som de um apito. O tirador de loas3 é o cantador das toadas. O instrumental, cuja execução se denomina toque, é constituído pelo gonguê, tarol, caixa de guerra e zabumbas. É formado pelas seguintes figuras: rei, rainha, dama-de-honra da rainha, dama-de-honra do rei, príncipe, princesa, mi- nistro, embaixador, duque, duquesa, conde, condessa, vassalos, damas-de-paço (que portam as calungas durante o desfile do maracatu), porta-estandarte, es- cravo sustentando a umbrela ou pálio (chapéu-de-sol que protege o casal real e que esta sempre em movimento), figuras de animais, guarda-coroa, corneteiro, baliza, secretário, lanceiros, brasabundo (uma espécie de guarda costa do gru- po), batuqueiros (percurssionistas), caboclos de pena e baianas. • Maracatu de Baque Solto ou Rural: Tem suas origens na segunda metade do século XIX e deve ser uma transfiguração dos grupos chamados Cambindas (brin- cadeira masculina, homens travestidos de mulher). São uma espécie de fusão de elementos dos vários folguedos populares, que vêm às ruas das cidades próxi- mas aos engenhos de açúcar, durante o carnaval, com características e colorido próprio. O cortejo do Baque Solto diferencia-se primeiramente do maracatu tradicional, pela ausência do rei e da rainha. Um ritmo rápido de chocalhos, 80 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    percussão uni sonorae acelerada do surdo, acompanhada da marcação do tarol, do ronco da cuíca, da batida cadenciada do gonguê, do barulho característico dos ganzás, um solo de trombone, e outros instrumentos de sopro que, juntos, dão ao conjunto características musicais próprias. O maracatu desfila num cír- culo compacto, tendo ao centro o estandarte, rodeado por baianas, damas-de- buquê com ramos de flores de goma, boneca (calunga) de pano ou plástico e caboclos de pena. Rodeando este primeiro círculo vem os caboclos de lança, que se encarregam de abrir espaço na multidão, com seus saltos e malabarismos, com as compridas lanças, como a proteger o grupo. FREVO Sou passista e Pierrô, Arlequim ou Colombina. Da fantasia só sai quando a folia termina. Marília Branco O carnaval recifense possui uma música e uma dança carnavalesca própria e original, nascida do povo. De origem urbana, surgiu nas ruas do Recife entre o final do século XIX e começo do século XX. O frevo nasceu das marchas, maxixes e dobrados; as bandas militares do século passado teriam dado sua contribuição na formação do frevo, bem como as quadrilhas de origem européia. Deduz-se que a música apoiou-se desde o início nas fanfarras constituídas por instrumen- tos de metal. A palavra frevo vem de ferver, por corruptela, frever, dando origem à palavra frevo, que passou a designar: “Efervecência, agitação, confusão, rebuliço; apertão nas reuniões de grande massa popular no seu vai-e-vem em direções opostas como pelo Carnaval”, de acordo com o Vocabulário Pernambucano de Pereira da Costa. Vários elementos complementares básicos compõe toda dança, em especial no frevo, os instrumentos musicais serviam como arma quando se chocavam agremiações rivais. As origens dos passistas são os capoeiras que vinham à frente das bandas, exibindo-se e praticando a capoeira no intuito de intimidar os grupos inimigos. Os golpes da luta viraram passos de dança. Outro elemento complemen- tar da dança é a sombrinha, o passista à conduz como símbolo do frevo e como auxílio em suas acrobacias. A sombrinha em sua origem não passava de um guar- da-chuva conduzido pelos capoeiristas pela necessidade de ter na mão como arma para ataque e defesa, já que a prática da capoeira estava proibida. Pode-se afirmar que o frevo é uma criação feita para o carnaval, uma vez que os músicos pensaram em dar ao povo mais animação nos folguedos de carnaval. O povo queria música barulhenta e animada, que desse espaço para extravasar alegria dentro daquele improviso. No decorrer do tempo a música ganha carac- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    terísticas próprias acompanhadapor um bailado inconfundível de passos soltos e acrobáticos. Nas suas origens o frevo sofreu várias influências ao longo do tempo, produzindo variedades. A década de trinta serve de base para a divisão do frevo em: Frevo-de-Rua, Frevo-Canção e Frevo-de-Bloco. • Frevo-de-rua: é o mais comumente identificado como simplesmente frevo, cujas características não se assemelham com nenhuma outra música brasileira, nem de outro país. O frevo-de-rua se diferencia dos outros tipos de frevo pela ausência completa de letra, pois é feito unicamente para ser dançado. • Frevo-canção: apareceu no fim do século XIX quando surgiram melodias boni- tas, tais como A Marcha n° 1, atualmente convertido no Hino do Carnaval Recifense, capaz de animar qualquer reunião e enlouquecer o passista. O frevo-canção ou marcha-canção tem vários aspectos semelhantes à marchinha carioca. • Frevo-de-bloco: deve ter se originado de serenatas preparadas por agrupa- mentos de rapazes animados, que participavam dos carnavais de rua da época, possivelmente, no início do século passado. Sua orquestra é composta de Pau e Corda: violões, banjos, cavaquinhos, etc. Nas últimas três décadas observou-se a introdução de clarinete, seguida da parte coral integrado por mulheres. ACORDA POVO! (O Clube de Máscaras Galo da Madrugada) Pernambuco é carnaval, dança do frevo até balé. Galo atração divinal põe o Recife de pé. O baile se inicia e transborda a demo- cracia no bairro de São José. (Marília Branco) O Clube de Máscaras Galo da Madrugada foi fundado oficialmente no dia 24 de Janeiro de 1978, dando prosseguimento a uma reunião de família realizada no mês de dezembro de 1977, na casa de Enéas Freire. Foi assim batizado porque deveria sair no sábado de carnaval, bem cedinho, antes mesmo que o comércio abrisse, para carregar todos os foliões. Segundo Enéas Freire, presidente perpétuo da agremiação, a idéia inicial foi de se formar um clube de frevo.O assunto primordial era a diferença entre os carna- vais antigos e o atual (daquela época). A idéia de formar um bloco e colocá-lo na rua durante o carnaval surgiu devido ao predomínio, na época, dos bailes carna- valescos nos clubes da cidade. O seu principal objetivo é reviver as verdadeiras origens e tradições do carnaval de rua. Para isso, O Galo convoca e congrega todos os seus foliões em um grandioso e sensacional desfile, através das mani- festações mais espontâneas e populares, unindo clubes de frevo e grupos de mascarados, nessa grandiosa festa que se realiza todos os anos com êxito. 82 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Em 1979 osfoliões do Galo da Madrugada começaram a cantar seu Hino, de autoria do Professor José Mário Chaves. O Hino do Galo se transformou ao longo dos anos em uma das músicas mais tocadas do carnaval pernambucano. Aos primeiros acordes, o povo cai no frevo e o canta numa enorme explosão de alegria: Ei pessoal, vem moçada Carnaval começa no Galo da Madrugada Ei pessoal, vem moçada Carnaval começa no Galo da Madrugada A manhã já vem surgindo, O sol clareia a cidade com seus raios de cristal E o Galo da madrugada, já está na rua, saldando o Carnaval Ei pessoal... As donzelas estão dormindo As cores recebendo o orvalho matinal E o Galo da Madrugada Já está na rua, saldando o Carnaval Ei pessoal... O Galo também é de briga, as esporas afiadas E a crista é coral E o Galo da Madrugada, já está na rua Saldando o Carnaval Ei pessoal... O desfile do Galo da Madrugada vem sendo realizado todos os anos na manhã do sábado de Zé Pereira. Por tradição, O Galo começa a concentração deste dia, a partir das 5:30 da madrugada, com toques de clarins anunciando a alvorada do carnaval pernambucano, além de uma batalha de confetes, serpentinas e uma salva de fogos. O Galo desfila pelos bairros de São José e Santo Antônio, reve- renciando o frevo, juntamente com milhares de foliões. O ponto alto da festa é a chegada à Avenida Guararapes. “Nesse momento, ninguém segura o frevo. É muito emocionante”, descreve o maestro Eraldo Santos da Frevioca4, trio que vem logo após os carros alegóricos e o estandarte do Galo, num total de trinta. A fantasia oficial do primeiro desfile do bloco foi a “alma”. Entre outras, já apresentou o Negro do Mississipi, Pirata, Espanhol, Príncipe, Árabe, Cigano e Mandarim. Este ano o galo completou 25 anos e recebeu adereços pela primeira vez, saiu fantasiado de palhaço. O circo foi o tema da agremiação no carnaval 2003. “Estamos sempre inovando e, desta vez, queremos um colorido especial”, descreveu Enéas. Na decoração, assinada pelos artistas locais Ari Nóbrega, Cid Cavalcante e Roberto Oliveira, predominam as cores azul, branco e vermelho. Além do abre-alas, houve um carro dos bichos, onde atores se vestiram de elefantes, girafas, macacos e leões. Para homenagear os números perigosos do picadeiro, o terceiro carro teve um trapézio e globo da morte, com circenses realizando performances. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    O DESFILE PEGAFOGO (O Galo no Guiness Book) O sábado atualmente não é mais o de Zé Pereira. É o dia mais quente do ano, na Veneza Brasileira. Diante dos fatos me calo. Hoje o sábado é do Galo diz a multidão. (Marília Branco) Desde a sua fundação o Galo é um defensor incondicional da música Pernambucana, sendo puxado principalmente pelo frevo. Mesmo após 25 carna- vais, conserva sua tradição musical, em seus desfiles e bailes, só se ouve música autenticamente pernambucana, isto é, frevo, frevo canção, frevo estilizado e marchas, além de Maracatu e Caboclinhos. Os dirigentes pretendem perpetuar as raízes do carnaval do estado, divulgando sua música para várias gerações. O Galo é um bloco democrático, um Carnaval participação, pois não há fron- teiras nem cordões de separações, foliões fantasiados, diretores, povão e pes- soas de todas as classes se transformar numa massa humana, em mar e ruas de gente, é o que os diretores dele chamam de “Carnaval do Povo”. O bloco tem a honra de ter sido o criador de um novo tipo de carnaval que respeitando o passado e a tradição, adaptou-se ao presente. Percebendo que as orquestras a pé, não atingiam a grande massa de foliões, lançou a partir de 1983, as orquestras em trios elétricos, sem fugir a sua identidade: só tocar frevo. Acredita-se que estes três fatores agregados seja o diferencial do Galo para conseguir arrastar uma multidão tão fiel durante todos esses anos. No primeiro ano foram 75 foliões, no segundo 300 e daí por diante não parou mais de crescer. No sábado de Zé Pereira o centro do Recife transforma-se num mar colorido, com milhares de foliões fantasiados, carros alegóricos e orquestras que não param de tocar o contagiante frevo pernambucano, arrastando, atualmente, mais de um milhão e meio de pessoas, transformou-se na maior concentração popular promovida por um só bloco de carnaval. Não é à toa que o Galo da Madrugada está presente, desde 1995, no livro de recordes, Guiness Book, como “O Maior Bloco Carnavalesco do Planeta”. Vários blocos se aliam à grandiosa festa, na véspera da saída do Galo. O Bloco Azulão, realiza um Acorda Povo5 na noite de sexta-feira para a madru- gada de Zé Pereira. Outros blocos e grupos aderem ao cortejo no final do desfile do Galo como o Rabo do Galo, que insiste em não deixar o Galo acabar antes do fim do dia. E por último, o mais famoso deles todos, a Galinha d´água, criado pela Secretaria de Turismo do Recife, com o objetivo de reve- renciar o Bloco. A Galinha d’água promove um evento simultâneo usando a bacia do Rio Capibaribe como concentração, em frente à ponte Duarte Coe- lho, deste ponto um desfile de barcos transforma-se em um verdadeiro car- naval aquático. 84 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    A RESSACA (Conclusões) A nossa vida é um Carnaval, a gente brinca escondendo a dor! (Capiba) É de fazer chorar. Quando o dia amanhece e obriga o frevo a acabar. Oh! Quarta-feira ingrata chega tão depressa só pra con- trariar. Quem é de fato um Pernambucano espera o ano pra cair na brincadeira, esquece tudo quando cai no frevo e no melhor da festa vem a quarta-feira. (Luis Bandeira) A música de Luís Bandeira nos passa uma boa impressão do que é o Carnaval, não só para Pernambucano, mas para todos os povos que tem essa festa em sua cultura, um momento de fuga, de extravasar todas as tensões do dia-a-dia. São quatro dias para o folião vestir a fantasia e ser quem ele quiser, repondo as energias para voltar a sua vida real. E é no Galo da Madrugada onde ele consegue transparecer de melhor forma, pois é uma festa para todos, sem distinção de cor, raça ou classe social, onde todo o homem torna-se igual, um folião anônimo. Mostrando, principalmente, para as gerações mais novas, que temos cultura e ritmos capazes de serem tocados em trios elétricos ou na nossa frevioca e deixar qualquer um “frevendo” e pedindo mais. Mantendo assim viva a nossa raiz cultural e sem perder seu espaço com isso, pelo contrário, conseguindo a cada ano aumentá-lo. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] NOTAS 6 Acho é pouco era o bloco que encerrava, oficialmente, o carnaval de Olinda na quarta-feira de cinzas, sai depois do Bacalhau do Batata. Atualmente quem faz o encerramento é o Bloco Maluco Beleza de Alceu Valença, que se concentra em frente a sua casa para escutar o cantor. 2 Mangue Beat: Movimento que busca valorizar a Cultura Popular Pernambucana interligado com as novas tendências mundiais. 3 Loas: Toadas cantadas para reverenciar seus mortos, na qual inclui versos de procedência africana. 4 Frevioca: Transporte adaptado que leva uma orquestra de frevo, parecido com um trio elétrico, porém menos potente. Inventado em 1979, por Pedro Martins e Leonardo Dantas, sendo o pioneiro um caminhão com alguns bancos e alto falantes na carroceria. 5 Acorda povo!: Grupo de foliões que saem pelas ruas no sábado, junto com o amanhecer do dia, acordando a cidade para mais um carnaval. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Ano: 2003 Publicação original: revista Formato da contribuição: artigo (texto completo) Fonte: BRUHNS, Heloisa T.; MARINHO, Alcyane. Lazer e meio ambiente: multiplicidade de atuações. Licere. Belo Horizonte: CELAR – UFMG, v.6, n. 2, 2003. E-mail do(s) autor(es): alcyane.marinho@hotmail.com, luabola@uol.com.br Títulos acadêmicos principais atuais: Alcyane Marinho: Graduação pelo Departamento de Educação Física da UNESP de Rio Claro (SP); Mestrado e Doutorado pela Faculdade de Educação Física da UNICAMP (Campinas, SP), na Área de Estudos do Lazer, pesquisadora do Laboratório de Estudos do Lazer/ LEL da UNESP/Rio Claro. Heloisa T. Brunhs: graduada em Economia pela UNICAMP e em Educação Física pela PUC de Campinas; mestre e doutora em Filosofia da Educação pela UNICAMP. Professora Titular do Departamento de Estudos do Lazer da Faculdade de Educação Física da UNICAMP. Lazer e meio ambiente: multiplicidade de atuações Heloisa Turini Bruhns Alcyane Marinho Novas sensibilidades relacionadas às questões ambientais têm possibilitado abertura para novas mentalidades, engendrando uma diversidade de práticas; dentre elas, destacamos as viagens à natureza e as práticas esportivas atreladas às mesmas. A associação de práticas esportivas à natureza não é nova, porém as formas mais recorrentes e sensíveis como tais atividades têm ocorrido estão despertando, cada vez mais, novos olhares. Preocupadas em compreender os movimentos ambientalistas em seus des- dobramentos, sejam preservacionistas, exploratórios ou modismos, busca- mos uma aproximação, no sentido de um olhar curioso e indagador, não pretendemos desvendar grandes verdades (referentes a grandes descober- tas), mesmo porque estas talvez nunca tenham existido. Portanto, o objetivo pretendido neste artigo enfocará questões relacionadas ao ecoturismo, como essas práticas esportivas, nas quais se manifestam várias contradições, bem como algumas ações referentes ao movimento ambientalista, envolvendo novos conceitos sobre cidadania. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Não mais estruturadaa partir de pólos unificados, a vida social se alimenta nos modos e costumes contemporâneos, confrontando-se com a heterogeneidade sob suas diversas formas e aspectos contraditórios. Mais que a presença de um poder, presencia-se uma “potência da socialidade”, emprestando o termo de Maffesoli (1998:5), para o qual esta pode se manifestar, subvertendo a ordem estabelecida na forma do silêncio, da astúcia, da luta, da passividade, do humor ou do escárnio, resistindo à imposição do poder. Portanto, o insignificante faz senti- do, uma vez enfrentando instituições macroscópicas e dominantes. Revela-se uma dimensão crítica no movimento contemporâneo, não negando aqui suas ambigüi- dades, e, portanto, não dispensando a necessidade de discernimento e superação1. A perspectiva ecológica revela-se como uma das formas de contemplação, ao lado da estética, de uma “política” diferenciada 2, das diferentes formas do modo de cuidar de si e dos diversos cultos do corpo. A presença de uma “ética da simpatia” fortalecendo a ligação social, através da comunhão com a natureza, permite compreender situações de fusão e momentos de êxtase, caracterizadores do clima contemporâneo. Novos vínculos sociais são formados, surgidos a partir da emoção compartilhada ou do sentimento coletivo, estabelecendo conexões entre a ética e a estética (Maffesoli, 1996;1998). Tomando como base essas reflexões, vamos explorar os objetivos inicialmen- te propostos. VIAGENS E PRÁTICAS ESPORTIVAS No panorama contemporâneo ocorrem algumas viagens, nas quais a natureza é utilizada como denominador comum, identificadas sob vários rótulos, como ecoturismo3, turismo de aventura, turismo verde, turismo rural ou agroturismo, turismo sustentável, dentre outras4 , agregando novas práticas esportivas, tais como: trekking, rafting, canyoning, escalada, exploração de cavernas, etc. Na crescente expansão de um público alvo constituído por estudantes de cursos técnicos e de especialização; bem como numa frente ampla de mercado de trabalho, este tema desponta denotando grande relevância para a área da Educação Física, abordado em várias dissertações de mestrado e teses de dou- torado tanto na área quanto fora dela. Uma das mais recentes produções refere- se a uma coletânea organizada focalizando as interfaces entre o lazer, o turismo e a natureza, a partir do diálogo com profissionais de diferentes áreas de atua- ção (Marinho & Bruhns, 2003). Estes representam alguns dos avanços da temática em questão, nos últimos anos, a qual constitui-se numa exceção nas universidades, como mostrado em publicações recentes (Marinho & Seabra, 2002). Tal panorama exige, portanto, 88 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    investigações mais direcionadase especialização correspondente, com o intui- to de suprir uma grande demanda em emergência. As “novas” atividades esportivas respondem a concepções de vida, inspiradas no “ecologismo”, apoiados em ideologias ambientalistas e/ou místico-religio- sas, incluindo modalidades alternativas de baixo investimento de capital fixo, porém com alto retorno financeiro (Ribeiro e Barros, 1997:30). Essas concepções vinculadas ao ecoturismo, embora considerando vários aspec- tos, como os problemas oriundos do choque cultural, a problemática questão do retorno parcial da renda obtida pela atividade para a população receptora e outras, parecem permanecer com suas questões perversas geradoras de mudanças e resul- tados inesperados e indesejáveis, além de diversos tipos de dependências (idem). Tais práticas necessitam reflexão e discussão, pois se refugiam sob a adjetivação do ecológico, na medida em que este representa “uma relativização dos sentidos dessas mesmas práticas, que já estariam então ‘dados’ pelo próprio funciona- mento da sociedade” (Silva, 1997:145). Presencia-se, portanto, uma legitimação dessas práticas, revestidas por um adjetivo, o qual por si só torna-se suficiente para execução de qualquer proposta dessa espécie, mesmo esta não estando comprometida com nenhum vínculo educativo, valorizando e difundindo as di- versidades cultural e biológica. Nessa mesma direção, embora argumentando sobre a utilização do adjetivo ambiental, Sorrentino (2002:91) alerta como a expressão “educação ambiental” tem sido percebida por distintos setores da sociedade, constituindo-se numa atraente chave para a abertura das mais diferentes portas. Uma chave de múlti- plos usos, no primeiro momento, aproximando-nos de tudo e de todos, mas, em seguida, tornando-se um chavão difícil de carregar, em função das expectativas criadas em torno das soluções almejadas. Mais que apontar a grande complexidade de relações nas quais a educação ambiental está inserida, tal como a história, a cultura, o modo de produção, as necessidades e os desejos de diferentes pessoas e grupos sociais, o autor supracitado mostra a necessidade de visualizarmos o “ambiental” para além de um adjetivo agregado à palavra educação, mas como parte do processo educa- cional mais amplo, ainda que possua suas especificidades. Compartilhamos com Lima (1999) sobre a ausência de sentido na tentativa de relacionar educação ao meio ambiente, superdimencionando o poder da educa- ção na transformação dos problemas ambientais e tratando-a como uma nova panacéia para todos os problemas no contexto social contemporâneo. Mesmo reconhecendo a importância da educação na mudança social, é preciso tratá-la como uma entre outras práticas capazes de compor uma estratégia integrada de Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    transformações sociais enão de forma isolada no processo de transformação das relações de poder na sociedade. Retomando a discussão, o discurso sobre a afirmação da natureza como um direito de todos (“a natureza é de todos”5), não vem para responsabilizar o turista, como mostra Silva (op. cit.:148), mas para este se colocar “em igualdade de direitos com as populações dos diversos locais”. A autora citada (op.cit.:149) discute sobre uma dupla destituição das comuni- dades tradicionais ocorrer no funcionamento desse discurso ecológico, referen- te aos aspectos jurídico e econômico. Quanto ao primeiro, “pela afirmação generalizada dos direitos sobre a natureza, com a qual, nos lugares determina- dos, turistas e comunidades tradicionais, que não têm o mesmo vínculo, possam ter os mesmos direitos”. Quanto ao segundo, “na afirmação da sua pobreza, o que significa que a riqueza natural desses lugares, não é a riqueza para as popu- lações, mas para o turista”. A existência de certos lugares ocorre pelas palavras que os evocam, “não- lugares”, no sentido desenvolvido por Augé (1994:88), ou seja, “lugares imaginá- rios, utopias banais, clichês”. Tomamos aqui, como ilustração o folheto infor- mativo da Venturas & Aventuras Viagens e Turismo, onde numa coluna, com o título “Brotas - a antiga cidade fantasma abriga o espírito de aventura”, passa- gens podem ser destacadas: “Renasceu nos meados dos anos 80, graças ao espírito de aventu- ra. E hoje é a capital dos esportes radicais do Estado (...). A ex- cidade fantasma se tornou o éden do turismo de aventura (...). Para quem, como eu, gosta de aventura, adrenalina e um fim-de- semana longe de São Paulo, junto a uma galera muito legal (...). Enfrentar corredeiras, num rafting animal...” Exemplos como este ilustram o distanciamento para criar o espetáculo, numa série de visões “instantâneas”, as quais ganham mais realidade no regresso da viagem, quando voltarmos a vê-las através de fotos ou filmagens. A evolução do número de adeptos a essas experiências de aventura na nature- za têm crescido de forma assoberbada, trazendo uma questão interessante so- bre a prática do ecoturismo e das atividades relacionadas ao mesmo, as quais não têm sido promovidas por federações, associações, nem sequer entidades administrativas governamentais, senão por agências de viagem, oferecendo múltiplas possibilidades ao gosto e possibilidades financeiras do consumidor, sendo uma das opções de lazer mais sólidas, dentre as surgidas nas duas últimas décadas6. 90 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    O município deBrotas é um bom exemplo para evidenciar essa grande deman- da, embora sem a precisão do número de adeptos. Uma pacata cidade no interior do Estado de São Paulo, situada a 247 km da capital, com 18.000 habitantes, tornou-se um ícone do ecoturismo e dos esportes de aventura, devendo o turista enfrentar longas filas em finais de semana ou feriados. Teve seu auge de desenvolvimento no início do século com a cultura do café em fazendas que estão lá até hoje, com dedicação à criação de gado de corte e de leite, plantio de laranja, eucalipto, cana-de-açúcar e, mais recentemente (pouco mais de cinco anos), abrindo as possibilidades para o turismo. Portanto, a prática dos esportes de aventura ocorre, atualmente, nessas propriedades particulares. Em 1994, a Coordenadoria de Turismo da Prefeitura Municipal elaborou um “Pré-projeto para o desenvolvimento turístico de Brotas”, destacando sobre um grupo de brotenses, formado por integrantes da organização não-governamen- tal “Movimento Vivo” e da Secretaria do Meio Ambiente, além de outros mem- bros da sociedade civil, apoiados pela Prefeitura Municipal, ter realizado, a partir de 1993, “expedições” às cachoeiras do município, tendo como objetivo, além de conhecer as potencialidades naturais, avaliar e documentar a possibilidade de exploração do turismo ecológico. Esta proposta surgiu da necessidade de se buscar uma alternativa econômica que pudesse desenvolver o município e ao mesmo tempo conservar uma das maiores riquezas que Brotas possui, ou seja: suas águas limpas e belezas naturais. Segundo o documento, simultaneamente a esse trabalho, a Secretaria de Es- portes e Turismo do Estado de São Paulo (SET), organizou e lançou um projeto de regionalização e interiorização do turismo, no qual os municípios do Estado foram agrupados em 14 núcleos, cinco dos quais já tinham sido implantados em 1994. Brotas, por decisão da própria SET, havia sido incluída no sexto, no Núcleo das Serras. Essas questões vêem ao encontro do destacado por Graziano da Silva e outros (1998:29), sobre o turismo em áreas rurais (uma vez que as cachoeiras locali- zam-se em fazendas e pequenas propriedades rurais) estar sendo pensado mais recentemente no Brasil como “uma fonte adicional de geração de emprego e renda para famílias residentes no campo, à medida que vem decaindo a ocupa- ção e as rendas provenientes das atividades agropecuárias tradicionais”. Desta forma, podem ser criados tipos de trabalho com reduzidos volumes de investi- mento7, advindo daí a possibilidade de estabelecer-se em áreas as quais não dispõem de recursos turísticos extraordinários, tendo como conseqüência a facilidade de estender-se para amplas regiões do território. A partir dessas pers- pectivas uma outra surge, destacando o ecoturismo como um fator importante na gestão do território, dada sua capacidade de desenvolvimento das potencialidades endógenas de determinado local. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    De certa forma,o ecoturismo se destaca como um empreendimento sem rela- ção com a dinâmica da agropecuária da região e, dessa forma, diferencia-se conceitualmente do turismo rural, o qual agrega atividades de lazer, as quais se associam à recuperação de um estilo de vida dos moradores do campo8. Deve ser analisado, segundo os autores supracitados (ibid.:15), dentro da ótica das “no- vas funções” adquiridas pelo meio rural paralelas às funções tradicionais da agropecuária, as quais, além desse lazer, promovem a conservação do ecossistema e dos recursos naturais, educação ambiental9, proteção da paisa- gem, manutenção do território10, etc. Por outro lado, as atividades, nas quais a pretensão de cunho ecológico é manifestada, têm-se restringido a fatores físico-bióticos do meio ambiente, re- legando a planos de menor importância os aspectos socioculturais e político- econômicos característicos das populações locais. Portanto, a redefinição dos modelos de desenvolvimento pautados nos “critérios ecológicos”, tem aconte- cido, como discutem Ribeiro e Barros (op.cit.:39), “muito mais no sentido de uma adequação à idéia de ‘equilíbrio com o meio natural’ do que em relação à de justiça social, ao reconhecimento das populações humanas como os verdadei- ros sujeitos do meio ambiente”. Sem deixar de considerar a possibilidade de ações limitadas no ecoturismo, acentuando a comunidade e a localidade, as resistências locais e regionais, os movimentos sociais e o respeito pela alteridade, corre-se o risco da apelação por uma política sectária e estreita, na qual o respeito pelos outros pode se perder numa competição por entre os fragmentos11. Ainda nessa discussão, percebe-se uma forte ênfase nas posturas empresariais e políticas de planificação e gestão, quando a fala enfoca o turismo sustentável, desprezando aspectos relativos aos comportamentos sociais como atitudes, expectativas e valores da população, não respondendo à necessidade de preser- vação dos recursos naturais para garantir sua continuidade e regeneração, cos- tumes e estilos de vida, na busca do enriquecimento da experiência turística e nos benefícios advindos da mesma. AS NOVAS CIDADANIAS Se a edificação da ciência realizou-se graças à objetivação do natural, evacu- ando-o da esfera social, atualmente percebemos uma inversão, constituindo-se o componente natural como “penhor da performatividade”, a natureza permitin- do uma espécie de “enraizamento dinâmico”. Uma mentalidade ambientalista manifesta-se na atualidade, resgatando a ne- cessidade erótica de manter aceso o desejo de viver, como coloca Cascino 92 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    (1998:269), estando implícitoum pensamento complexo, abrangente, “multi- centrado, abarcando inúmeros aspectos da vida contemporânea, permeando outras conjunturas e necessidades humanas, redesenhando a arquitetura do de- sejo humano de viver bem, ampliando o discurso sobre o meio, sobre as exigên- cias e condições de qualidade de vida”. Nesse cenário, conforme o autor (idem:266), surge uma noção de ambientalismo, na qual está embutida não apenas a preservação, de maneira isolada e estanque, mas integrando uma infinidade de conteúdos, de complexificação do conhecimento, articulando uma visão diferenciada sobre os acontecimentos naturais, socioculturais, político-econômicos, num entendimento do ser humano como elemento de co-responsabilidade, fundamental, em tudo o que ocorre no que se refere à sobrevivência física do planeta e da própria quali- dade de vida em um sentido amplo, renovado e diferenciado. Nessa direção, prossegue o autor, “as novas configurações do expressar a política, o fazer reivindi- cações, o agir sobre os temas de interesses e importância na defesa de territórios existenciais coletivos e individuais, se re- veste de inéditas estruturas simbólicas, abrindo campos até en- tão intocados da expressão humana, rompendo com velhas men- sagens, envelhecidas cores de expressão dos desejos”. A cidadania seria compreendida como algo em contínua construção, constitu- indo-se à medida que dá significado de pertencimento dos indivíduos a uma sociedade, conforme cada fase histórica (Loureiro, 2002). Observamos ações diversas, as quais provavelmente não seriam realizadas há algumas décadas (ou talvez seriam consideradas sem propósitos), como observar abutres na Croácia ou baleias nas Ilhas Canárias, contar a população de morcegos “raposa voadora” na Índia, salvar macacos na África do Sul ou acompanhar o nascimento de tartarugas no Brasil - conceitos da nova cidadania mundial. Voluntários específicos oriundos de diversas partes do planeta chegam a de- sembolsar quantias consideráveis (US$1,8 mil) em viagens para participar em programas dessa espécie, onde 77% do valor pago é destinado ao programa, conforme a reportagem “ONG ecológica recruta voluntários pelo mundo”. Denominados “ecovoluntários”, viajam para trabalhar, podendo observar ba- leias-piloto nas Ilhas Canárias, durante duas semanas, por US$325, com direito a hospedagem e refeição, mapeando a população de baleias, até poucos anos alvo de matanças. Policiam o ecoturismo marinho e instruem a população sobre a importância da preservação. Também preparam a comida e ajudam na limpeza do barco, onde ficam hospedados. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Nem todos osprogramas ecológicos são sinônimos de pouca estrutura, como o mapeamento das populações de baleia-azul no Canadá, onde a hospedagem ocor- re em hotel, janta-se em bons restaurantes da região de Gasperie, próxima a Mon- treal e paga-se caro, como indicado na reportagem - US$1.840 por uma semana. Alertando sobre o respeito à cultura local ser primordial, a representante do Programa Ecovoluntário afirma sobre essa ONG orientar os participantes sobre regras de conduta na tentativa de evitar conflitos. Constata-se, no movimento contemporâneo, um crescente fascínio pelo “estar em relação”, como expõe Sant’Anna (1993:261), atrelado ao aumento vertiginoso das tecnologias prometendo acesso rápido, tanto ao mundo exterior quanto ao nosso mundo interno, - “um corpo informatizado, relacional, em comunicação, dispersado e literalmente ligado”. Paralelamente cresce o “receio de não saber onde pairam, onde pisam, onde moram nossos corpos (...) como se os lugares que ocupa- mos, os solos sobre os quais caminhamos e habitamos não cessassem de partir”. As novas tecnologias convidam para “estarmos em comunicação” com o mundo. No mesmo sentido, esclarece a autora (idem), “tem-se uma ampliação da per- cepção e da freqüência em que cada indivíduo se coloca em relação com o próprio corpo e com os demais corpos, mesmo pela via virtual”. Conectar-se, igualmente, tornou-se sinônimo de cidadania aponta a reporta- gem “Ecologistas usam e-mail e sites para fazer campanhas”, apontando como a Internet constituiu-se no meio e no ambiente propício aos ecologistas, os quais aproveitam a rede para divulgar suas propostas e realizar campanhas virtuais, principalmente abaixo-assinados eletrônicos12, bem como angariar doações. Os temas são variados: Angra 2, alimentos transgênicos, geladeiras ecológi- cas, preservação das baleias, dentre outros. A campanha “Proteja os Parques do Brasil” enviou ao Congresso Nacional e- mails assinados por participantes internautas, solicitando a aprovação imediata do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, cuja carta foi lida por 39 parlamentares. A Rede Nacional Contra o Tráfico de Animais Silvestres (RENCTAS) criou um site permanente de fiscalização. Os conectados podem fazer denúncias pela página ou até mesmo relatar suspeitas. A RENCTAS os encaminha à Polícia Federal e a outros órgãos responsáveis e ainda promovem campanhas de preservação da fauna. Retomando Loureiro (op.cit.), na contemporaneidade, o conceito de cidada- nia envolve complexos conjuntos de direitos e responsabilidades sociais, não mais limitados aos padrões tradicionalmente estabelecidos, mas sim pensados, 94 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    produzidos e reproduzidosem um sentido global. Desta forma, os exemplos acima citados são apenas alguns diante das muitas ações existentes, na busca de mecanismos efetivos de participação e poder de decisão em movimentos sociais que fazem parte da sociedade civil nos âmbitos nacional e internacional, confor- me a compreensão de seus participantes. O discurso ambiental, conforme Ferreira (1999), não representa somente o discurso voltado ao ambiente, abarcando também o processo social, por meio do qual ele é construído e transmitido. Assim, as inúmeras tentativas de aproxi- mação da natureza podem representar possibilidades de compreensão do mo- mento atual, bem como o discernimento de nosso papel como sujeitos ativos no processo de construção de uma “cidadania ecológica”, utilizando a expressão de Loureiro (op.cit.). Por expressar o comportamento de uma época, concluímos que o ecoturismo, o qual está atrelado ao movimento ambientalista, desenvolve uma lógica contextual integrando vários elementos da realidade social, expressando valo- res, comportamentos, idéias, manifestados na atualidade, justificando a impor- tância e a relevância pela sua compreensão. Sua complexidade ultrapassa, dessa forma, a frivolidade da aparência para se constituir em um campo fértil de inves- tigação social, não suportando uniformidades em uma pretensa homogeneização, mas o entendimento de sua manifestação em situações peculiares e específicas. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] Notas 13 Em dois textos produzidos anteriormente, “Lazer, cultura e tecnologia: discussões envolvendo aspectos da globalização” e “Lazer e Tempo: buscando compreensões no processo de globalização”, procurou-se desen- volver uma crítica relacionada a aspectos como o desemprego, a espetacularização da vida atrelada a uma artificialização e a questão da compulsividade do tempo, dentre outras. 2 Mafessoli (op. cit.) discute como estamos vivendo em um quadro de desengajamento político, onde a satu- ração dos grandes ideais longínquos e a fraqueza de uma moral universal podem representar o fim de uma determinada concepção de vida, nascida sobre o domínio dos indivíduos e da natureza; porém, por outro lado, isso também pode mostrar que uma nova cultura pode estar surgindo. 3 De acordo com Ceballos-Lascurian (citado em Pellegrini Filho, 1993:138), o ecoturismo consiste em “viagens por áreas naturais não degradadas ou não poluídas, com o objetivo específico de estudar, admirar e fruir a paisagem e suas plantas e animais, tanto quanto manifestações culturais (do passado e do presente) encon- tradas nessas áreas. Nesses termos, o turismo orientado para a natureza implica uma colocação científica, estética ou filosófica (...). O ponto principal é que a pessoa que pratica ecoturismo tem a oportunidade de mergulhar na natureza de uma maneira normalmente não possível no meio ambiente urbano”. 4 Essas questões foram tratadas no capítulo “Visitando a natureza, experimentando intensidades”. 5 Obviamente este discurso encobre o fato de que, embora a natureza seja de todos, nem todos são verdadei- ramente iguais, num sistema em que as trocas são bastante desiguais. 6 De acordo com o documento “Diretrizes para uma Política Nacional de Ecoturismo” (Embratur/Ibama, 1994:12) o ecoturismo “é um segmento que tem crescido a um ritmo considerável ao longo dos anos...”. Há um con- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    senso entre osempresários “de que este é um mercado em franca expansão, sendo estimado o seu crescimento em cerca de 20% ao ano, conforme resultados obtidos em entrevistas realizadas junto a operadores turísticos especializados e peritos e na observação do crescimento de agências operadoras de ecoturismo”. 7 Os autores destacam como a Espanha tem se valido em larga escala dessa estratégia. 8 Com exemplo, podem ser citados os pesque-pagues, as fazendas de caça, as cavalgadas, os hotéis-fazenda, os restaurantes típicos, os artesanatos, as industrializações caseiras. São atividades internas à propriedade gerando ocupações complementares às atividades agrícolas. 9 Algumas fazendas estão desenvolvendo projetos de estudo do meio para escolas, baseados na história de sua própria produção (café, algodão, etc.). 10 Em um depoimento um dos proprietários das fazendas locais expressa sua indignação pelo lixo acumulado em sua propriedade, obrigando-o a retirar duas carretas de garrafas de plástico e outros dejetos, somente do estacionamento de carros, antes da descida da trilha para as cachoeiras. Esse fato, associado ao apelo da Prefeitura para abrir a propriedade ao ecoturismo, conduziu-o a criar infraestrutura para coleta de lixo, bem como orientação para os usuários, no sentido de não depredarem o ambiente (Artigo “Brotas garante diversão com ecoturismo” - Folha de São Paulo, 21/6/1999). 11 Graziano da Silva e outros (op. cit.:17) discutem como as rendas geradas pelo ecoturismo em geral pouco estão beneficiando as populações locais, onde este ocorre, permanecendo concentrada nos agentes intermediários oriundos dos centros urbanos, bem como em empreendimentos externos. 12 A reportagem relata como o Greenpeace do Brasil conseguiu 12 mil assinaturas por e-mails em uma campanha pedindo a proteção das baleias do Atlântico Sul.. 96 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2003 Publicação original: anais de congresso Formato da contribuição: resumo de artigo (tabelas retiradas) Fonte: I Congresso Maranhense de Turismo, Hotel Vila Rica - 27 a 29 de março de 2002. E-mail do(s) autor(es): leopoldovaz@elo.com.br Títulos acadêmicos principais atuais: Professor de Educação Física, Centro Federal de Educação Tecnológica do Maranhão, Departamento Acadêmico de Ciências da Saúde; Mestre em Ciência da Informação. A formação técnica e o seu papel no mercado turístico Leopoldo Gil Dulcio Vaz Através do turismo, diversas regiões do país conseguiram alcançar o seu de- senvolvimento econômico, exportando produtos locais e melhorando a qualida- de de vida da comunidade. Os números comprovam. O turismo emprega mais pessoas do que qualquer outra indústria: um em cada dez trabalhadores do Brasil. O setor é responsável por, aproximadamente, 8,2% das exportações mundiais e representa cerca de 10% do produto interno bruto. A indústria turística estimula a criação de pequenos negócios: bares, restaurantes, locadoras, pousadas, arte- sanato, comércio de praia e guias, além de beneficiar indiretamente muitas ou- tras atividades. O Governo - seja através da EMBRATUR, do SEBRAE, do BNB e outras institui- ções estaduais e municipais - vem apresentando-se com uma participação ine- quívoca na criação da infra-estrutura indispensável ao desenvolvimento do tu- rismo no Brasil, através: • do levantamento das vocações municipais relacionadas ao turismo; • da identificação do fluxo de turistas, realização de pesquisas e análises de sua origem e interesses; • da identificação de valores arquitetônicos, urbanísticos, paisagísticos e cul- turais; • da elaboração de diagnósticos realizados com base nos dados levantados sobre as diversas regiões e municípios; Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    • da capacitaçãodos prestadores de serviços; • da educação para o turismo; • do estimulo ao envolvimento das instituições de ensino; • da sinalização, informação e programação visual das cidades; • das ações de preservação e restauração; e • ao acompanhamento e avaliação, Dentre os objetivos dessas ações, destaca-se o estimulo à expansão e à cria- ção de novos negócios e consequentemente • a geração de novos postos de trabalho, e • contribuir para formação e capacitação dos profissionais que prestam servi- ços para o turismo, visando qualidade e produtividade; As análises sobre a situação do lazer nas sociedades contemporâneas e suas relações com as iniciativas privada e pública pressupõe algumas considera- ções básicas: • a importância do setor de lazer na estrutura econômica do mundo, pois o lazer é um dos muitos componentes do âmbito terciário da economia e faz parte do mais importante setor das sociedades denominadas pós-industriais – o da prestação de serviços; • essa economia de serviços está crescendo em linhas gerais e especialmente no setor de telecomunicações, informática, finanças e turismo (uma das áreas abrangidas pelo lazer); • Os setores de lazer e turismo dependem intimamente dessas novas tecnologias, principalmente da informática e das telecomunicações, criando um mundo com características muito particulares, havendo um grande crescimento no setor terciário, com o desaparecimento de empregos no setor industrial e o surgimento de novos postos no setor de serviços; • O setor está crescendo de forma bastante considerável, especialmente nas áreas de lazer e turismo, que dependem intimamente das novas tecnologias (o que exige acesso ao conhecimento, não apenas ao conhecimento formal esco- lar, mas também ao conhecimento de informática e de línguas estrangeiras, além de habilidades mais subjetivas como iniciativa própria, criatividade e cultura geral, que não necessariamente apreendidos numa escola). 98 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Essa nova realidadeda economia é evidente nos países desenvolvidos. Apesar de o lazer estar presente nos grandes centros urbanos do Brasil, ainda apresenta-se lacunas na elaboração da problemática envolvendo o setor. A estrutura, o planejamento e a administração do lazer implicam vários níveis abertos de discussão, na medida em que muitos pontos importantes, teóricos e práticos, anda não foram estabelecidos por vários motivos: • O setor do lazer e turismo é relativamente recente no Brasil; • Falta de consciência de que a formação profissional é indispensável para o bom funcionamento de serviços aos clientes; • Falta de programas e controles da qualidade dos serviços em lazer e turismo; • Poucas escolas e centros de formação profissional destinadas à formação em turismo, hotelaria, alimentos e bebidas, lazer; • Os setores estatais não têm nível elevado de operacionalidade ou mínimas condições de operar na área; • Alguns setores privados não conhecem profundamente lazer e turismo, e assim não investem adequadamente em equipamentos, projetos eficientes, for- mação e reciclagem de mão-de-obra especializada; • Setores da sociedade civil ainda não adquiriram consciência de que o lazer é um direito tão necessário e legítimo como a saúde, a habitação, a segurança, o transporte e a educação. (TRIGO, 1995) A indústria do turismo tem consolidado, no mundo, como uma atividade indutora de desenvolvimento. Com seu efeito multiplicador efetivo, propicia o incremen- to de novas atividades econômicas. O ingresso do CEFET-MA nessa área de atividade visa, sobretudo a interface dos setores privados e públicos na articulação conjunta de ações que viabilizem o turismo como atividade econômica geradora do desenvolvimento nacional. Os cursos que se pretende implantar terão a característica de qualificação e requalificação profissional dos recursos humanos, com atuação focada para o Maranhão e a Região Nordeste, contribuindo para a criação de um pólo de desenvolvimento do turismo. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Além disso, oscursos, como produtores de “saber fazer”, contemplam uma visão do Maranhão como destino turístico integrado e área prioritária de inves- timentos e políticas setoriais, que só poderão ser implementados com o desen- volvimento do empreendedorismo, aliado as práticas de explorar o turismo de forma sustentável e consciente. CENÁRIO EM QUE SE INSEREM OS CURSOS TÉCNICOS NA ÁREA DE TURISMO O turismo é uma das atividades que mais cresce no Mundo. Por permitir rápido retorno do investimento, gerar empregos diretos e indiretos e por sua ligação com os mecanismos de arrecadação, o turismo é a atividade que mais contribui para o desenvolvimento de diversos países. Para obter resultados é imprescindível que este turismo seja feito de forma organizada e racional. O Maranhão possui grande vocação para o turismo e o tem como símbolo de suas melhores expectativas de integração e desenvolvi- mento, graças às condições territoriais, climáticas e culturais. A participação do turismo no PIB brasileiro já é de 8%. Porém, o fluxo turístico em direção ao Brasil está muito aquém de nossas potencialidades. O momento exige a transformação do potencial latente em novos negócios e vantagens competitivas. Estado do Maranhão situa-se no nordeste do Brasil, limitado pelos estados do Piauí, Pará e Tocantins, com uma população estimada em torno 4.900.000 habitantes, possu- indo um baixo grau de industrialização, quando comparado com outros estados do Nordeste e/ou Sudeste do país. Possui uma área territorial de 324.600 Km2 , que lhe assegura a condição de segundo Estado do Nordeste em extensão. Loca- liza-se entre as macro regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o que lhe assegu- ra especificidade espacial e favorece sua climatologia, não possuindo a aridez do Nordeste, nem a excessiva umidade da Amazônia: Os aspectos culturais, históricos e as belezas naturais constituem os grandes atrativos para o desenvolvimento do Turismo, notadamente nos segmentos de Ecoturismo e Turismo Cultural. Os principais setores produtivos do Maranhão são: • a agropecuária, • indústria e comércio, e • turismo. O turismo, como opção econômica geradora de oportunidade de trabalho e renda, vem merecendo destaque no Estado, que dividiu em zonas de interesse, por homogeneidade e proximidade dos atrativos: 100 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    • Zona dePatrimônio Histórico Cultural, formada pelos municípios de São Luís, Alcântara, Raposa e São José de Ribamar; com destaque para São Luís - reconhe- cida pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade, e Alcântara, tomba- da pelo Patrimônio Histórico Nacional. • Zona dos Lençóis Maranhenses, composta pelos municípios de Barreirinhas, Humberto de Campos, Paulino Neves, Primeira Cruz, Tutóia e Araióses. Pólo de ecoturismo onde se encontra o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, com uma área de 155 mil hectares de dunas e lagoas de água doce cristalina, o Delta do Rio Parnaíba, único em mar aberto da América Latina, composto de igarapés, mangues, dunas, ilhas e ilhotas, das quais 65% estão em território maranhense. • Zona das Reentrâncias Maranhenses, constituída pelos municípios de Cururupú, Guimarães, Cedral, Mirinzal, Porto Rico, Serrano, Apicum-Açú e Bacuri, inseridos no Programa de Ecoturismo para Amazônia Legal. • Zona das Chapadas, integrada pelos municípios de Imperatriz, Carolina, Ria- cho, Balsas, Mirador, Grajaú e Nova Iorque; onde se encontra uma das maiores áreas preservadas de cerrados da América Latina e o Parque Estadual do Mirador, com uma área de 700 mil hectares, que protege nascentes dos rios, fauna e flora da região. • Zona dos Lagos O Estado do Maranhão dispõe para viabilidade de negócios em diversas áreas, sendo que na do Turismo apresenta-se: • Utilização de fazendas para a prática do turismo rural - criação de serviços de hotelaria - resort de fazendas ou estâncias, combinando o turismo rural com a proteção do meio rural, que está sendo desenvolvido nos municípios de Balsas, Barra do Corda, Viana, Imperatriz e Pinheiro; • Implantação de meios de hospedagem e serviços de alimentação nos princi- pais pólos de ecoturismo do Estado; • Serviços de entretenimento e lazer em São Luís, Alcântara, São José de Ribamar e Morros. O QUE DETERMINA ESTE QUADRO O turismo envolve uma multiplicidade de serviços: transporte, hospedagem, alimentação, agenciamento, trabalho de intérprete e tradutor, guias turísticos, Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    organização de eventos,entretenimento, etc. São muitas empresas e profissio- nais envolvidos, diversas interações e etapas a serem percorridas, tornando a atividade complexa e de difícil mensuração. No Brasil, as estimativas da EMBRATUR, referentes ao ano de 1990, indicam 1,7 milhões de pessoas diretamente empregadas no turismo. O despreparo desse enorme contingente de trabalhadores e a dificuldade de acesso que têm as pequenas e microempresas às novas tecnologias, são grandes dificuldades a serem superadas no turismo. OPORTUNIDADES Investimento na formação da cultura do turismo, aqui incluídas a formação profissional e gerencial, é a grande lacuna que vem a ser preenchida pelos Cursos Técnicos na área de Turismo. Atuar neste cenário é propiciar a um maior número de investidores, empresários, técnicos e trabalhadores o ingresso no mercado de trabalho, favorecendo a gera- ção de trabalho e renda, contribuindo inclusive para um melhor equilíbrio social. Por seu caráter multidisciplinar e polivalente, os Cursos Técnicos de Turismo propõe-se a ser curso modelo, justificando a sua criação como um vetor de aceleração do processo de desenvolvimento do turismo em termos regionais. OS CURSOS TÉCNICOS DE TURISMO TÊM COM OBJETIVOS: • Possibilitar a aquisição integrante de conhecimentos e técnicas que permitam prioritariamente uma atuação na área de turismo; • Oportunizar a aquisição de conhecimentos genéricos da área de lazer (parques de lazer; parques aquáticos; academias de ginástica; centros esportivos voltados para um interesse específico (natação, futebol, tênis, voleibol); centro poliesportivo em geral; parques urbanos; centros culturais e esportivos; hotéis de lazer; resorts; colônia de férias; grandes parques em escala regional, estadual e nacional, quando têm unidades de hospedagem, camping, acampamentos; pousadas em locais reti- rados (praias, montanhas, reservas ecológicas); pousadas em cidades turísticas. • Desenvolver atitudes éticas reflexivas, críticas, inovadoras e democráticas; • Propiciar a auto-realização do estudante, como pessoa e como profissional; 102 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    • Considerar interessesdo aluno, estimulando-o ao aperfeiçoamento contínuo. DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS - ÁREA PROFISSIONAL: TURISMO Segundo o estudo “A Indústria do Turismo no Brasil – Perfil & Tendências”, da Associação Brasileira de Entidades de Hospedagem, Alimentação e Turismo – ABRESI, EMBRATUR e SEBRAE, 1996, o setor de agências de viagens teve seu maior crescimento nos últimos anos. De 1991 a 1993 passou de 4.500 para 5.340, conforme registra aquele estudo. Acrescenta que nos três anos seguintes, segun- do a Associação Brasileira das Agências de Viagens – ABAV, teve um salto ainda mais significativo, chegando a 10.000 em 1996. Quanto ao setor de entretenimento, recreação, esporte e cultura, não há da- dos agregados que permitam a quantificação do seu crescimento, dada a sua variedade e diversificação, além da falta de critérios estatísticos que possibili- tem as informações. Já foi assinalado que é freqüente e crescente a criação de programas e equipamentos sociais destinados ao convívio social e à produção, apresentação e fruição artística, cultural, esportiva e recreativa. O estudo da ABRESI destaca a alta do entretenimento no mundo todo, indicando que se tor- nou um ramo tão lucrativo em nosso país que está atraindo diversos gigantes estrangeiros do setor. Na perspectiva da formação profissional, segundo o mesmo estudo, as ativi- dades de turismo necessitam de esforços concentrados na formação gerencial. A Organização Internacional do Trabalho – OIT, através de documentos prepa- rados para várias de suas reuniões, tratou especialmente desta área de ativida- des profissionais, juntamente com as de hospedagem e alimentação (Reuniões Técnicas Tripartites para os Hotéis, Restaurantes e Estabelecimentos Similares, 1974 e 1983; 1ª Reunião da Comissão da Hotelaria, da Restauração e do Turismo, 1989; e 78ª Reunião da Conferência Internacional do Trabalho, 1991). Assinalam tais documentos os traços da evolução e as tendências para a área, entre as quais o crescimento continuado do “fenômeno turístico”, sua internacionalização e sua dependência em relação às “crises” mundiais. Destas tendências, decorrem para seus profissionais as perspectivas de: • ampliação considerável de possibilidades; • maiores exigências de: • mobilidade, • disponibilidade, • polivalência, Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    • adaptabilidade, • capacidade de comunicação, • integração em equipe, • animação. O processo produtivo nesta área está voltado não só para a criação de produtos a serem ofertados, como, sobretudo, para a prestação de serviços turísticos, de lazer e eventos (estes dois, tanto integrados à atividade turís- tica e à hoteleira, quanto promovidos isoladamente, inclusive para partici- pantes e públicos locais). Este processo é realizado em operadoras e agências, promotoras de eventos e de animação turística e sócio-cultural, companhias aéreas, transportadores, hotéis e outros meios de hospedagem, parques, clubes, órgãos de turismo, de cultura e esportes, empresas de entretenimento, etc. Algumas atividades são realizadas na forma de trabalho autônomo. Nesse sentido, como constituintes desse processo, foram identificadas fun- ções essenciais de planejamento, de promoção e venda, e de gestão. Em cada uma dessas funções foram identificadas subfunções implicadas na geração de produtos e na prestação de serviços, ou nos resultados parciais do processo e no resultado final para o cliente/usuário. • Função 1. Planejamento: atividades voltadas para a concepção e articulação do agenciamento e da operação turística, da condução/guiamento do turista, e da promoção de eventos e de lazer. • Subfunção 1.1. Concepção, viabilização e organização de produtos e servi- ços turísticos e de eventos e de lazer, adequados aos interesses, hábitos, atitu- des e expectativas das clientelas efetiva e potencial. • Subfunção 1.2. Articulação e contratação de programas, roteiros, itinerários e de meios para sua realização, com seleção, relacionamento e negociação com prestadores de serviços e provedores de infra-estrutura e de meios de apoio. • Função 2. Promoção e venda: atividades voltadas para o “marketing” e a comercialização dos produtos e serviços turísticos, de eventos e de lazer. • Subfunção 2.1. Prospecção mercadológica, adequação dos produtos e servi- ços, e identificação e captação de clientes, para desenvolvimento e operacionalização da política comercial. 104 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    • Subfunção 2.2.Comercialização de produtos e serviços turísticos e de lazer, com direcionamento de ações de venda para as clientelas efetiva e potencial. • Função 3. Gestão: atividades voltadas para o gerenciamento do processo de execução do agenciamento, operação e condução do turista, e da promoção de eventos e de lazer. • Subfunção 3.1. Gerenciamento econômico, técnico e administrativo dos núcleos de trabalho, com organização e articulação dos setores internos, e com supervisão e coordenação dos recursos, visando ao atendimento com qualidade. • Subfunção 3.2. Gerenciamento do pessoal envolvido na oferta dos produtos e na prestação dos serviços. Esta subfunção é destacada da anterior pela prevalência do fator humano nas atividades desta área e das exigências de rela- cionamento, comunicação, liderança, motivação, trabalho em equipe, formação e desenvolvimento do pessoal. • Subfunção 3.3. Gestão dos meios tecnológicos aplicados no desenvolvimen- to das atividades, com supervisão da utilização de máquinas, equipamentos e meios informatizados de informação, comunicação e gestão. • Subfunção 3.4. Manutenção e/ou readequação do empreendimento, dos pro- dutos e dos serviços às variações da demanda, com desenvolvimento de visão mercadológica prospectiva e inovadora. • Subfunção 3.5. Acompanhamento pós-execução para controle da qualidade dos produtos, serviços e atendimento, visando à satisfação do cliente. Simultaneamente com a indicação das subfunções, foi encaminhada a identi- ficação das competências e habilidades requeridas do profissional, que condicionam e viabilizam o desempenho eficaz daquelas funções e subfunções. A correspondência dessas competências e habilidades com os conteúdos da aprendizagem foi explicitada na identificação das bases tecnológicas. CARGA HORÁRIA GLOBAL MÍNIMA A carga horária global mínima para os diversos cursos desta área foi definida em 750 (setecentos e cinqüenta) horas. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    TURISMO - PROCESSODE PRODUÇÃO FUNÇÕES PLANEJAMENTO SF 1.1 - Concepção, viabilização e organização. SF 1.2 - Articulação e contratação de programas, roteiros, itinerários. PROMOÇÃO E VENDA SF 2.1 - Prospecção mercadológica, adequação dos produtos e serviços, e identificação e captação de clientes. SF 2.2 - Comercialização de produtos e serviços GESTÃO SF 3.1 - Gerenciamento econômico, técnico e administrativo dos núcleos de trabalho. SF 3.2 - Gerenciamento do pessoal envolvido na oferta dos produtos e na prestação dos serviços SF 3.3 - Gestão dos meios tecnológicos SF 3.4 - Manutenção e/ou readequação do empreendimento SF 3.5 - Acompanhamento pós-execução Função 1 – PLANEJAMENTO SUBFUNÇÃO 1.1 – CONCEPÇÃO, VIABILIZAÇÃO E ORGANIZAÇÃO. COMPETÊNCIAS • Interpretar legislação pertinente • Interpretar pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos. • Identificar e avaliar: • os meios e recursos disponíveis • informações sobre as clientelas efetiva e potencial • as oportunidades de mercado • sintetizar e relacionar os meios e recursos, as oportunidades e os aspectos quantitativos e qualitativos das clientelas • identificar e avaliar os sítios e atrativos turísticos adequados a cada clientela 106 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    • identificar, avaliare selecionar informações geográficas, históricas, artísti- cas, esportivas, recreativas e de entretenimento, comerciais, folclóricas, artesanais, gastronômicas, religiosas, etc. • identificar os meios de apoio apropriados, como transportes, acessos, res- taurantes • identificar os espaços e locais e os equipamentos para eventos, esportes, recreação, artes, cultura, espetáculos • programar os produtos e serviços a serem oferecidos • avaliar técnica, financeira e administrativamente produtos e serviços • organizar os meios e recursos para concretização dos produtos e serviços programados • elaborar orçamentos • definir estrutura organizacional • definir a política comercial HABILIDADES • utilizar dados de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos • referenciar o estudo de viabilidade com a execução • adequar a oferta aos interesses, hábitos, atitudes e expectativas das cliente- las • conduzir a preparação e montagem dos produtos e serviços concebidos • estabelecer procedimentos e regras para o funcionamento da estrutura organizacional • controlar orçamentos • elaborar quadro de pessoal • supervisionar pessoal para a efetivação dos produtos e serviços • articular com outros profissionais/prestadores de serviços/ofertantes de produtos • aplicar “softs” específicos Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de: • leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econô- micos • leitura e elaboração de estudo de viabilidade • organização de roteiros e itinerários • elaboração e redação de normas e manuais • leitura e elaboração de orçamentos • descrição de cargos/funções e salários • comunicação e relações interpessoais e grupais • interpretação e aplicação de normas de proteção do trabalho (legislação trabalhista, sindical, previdenciária, de saúde e segurança) e de legislação aplicável à área (federal, estadual e municipal) • tipologia e classificação de: • meios de transporte • de equipamentos, modalidades e formas de organização de eventos e de atividades de lazer, entretenimento e animação sócio-cultural • vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol. SUBFUNÇÃO 1.2 - ARTICULAÇÃO E CONTRATAÇÃO DE PROGRAMAS, ROTEIROS E ITINERÁRIOS. COMPETÊNCIAS • identificar e avaliar os programas, roteiros, itinerários, meios de hospeda- gem, transportes, guiamento de turistas, eventos, atividades de lazer, entre- tenimento e animação sócio-cultural • identificar e avaliar os espaços e os locais necessários ao produto ou serviço • identificar e prever serviços pessoais, bem como infraestrutura e meios de apoio (transportes, instalações, mobiliário, equipamentos, utensílios, decoração) • elaborar e interpretar orçamentos • interpretar contratos 108 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    • selecionar ecoordenar a contratação de fornecedores de programas, rotei- ros, itinerários e atividades, bem como de prestadores de serviços e prove- dores de infraestrutura e de meios de apoio HABILIDADES • controlar os orçamentos • controlar a execução dos contratos • efetivar os meios para produção da oferta • contatar, negociar e contratar diferentes fornecedores de programas, rotei- ros, itinerários e atividades, prestadores de serviços e provedores de infraestrutura e de meios de apoio • organizar e manter cadastro de fornecedores, provedores e prestadores de serviços • supervisionar serviços de terceiros BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de elaboração de roteiros e itinerários • técnicas e regras de manejo de mapas, guias, manuais, “timetables” • técnicas de leitura e de elaboração de orçamentos • técnicas e regras de interpretação e elaboração de contratos • técnicas e regras de aplicação de legislação específica e de normas e proce- dimentos específicos da área • vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol Função 2 - PROMOÇÃO E VENDA SUBFUNÇÃO 2.1 - PROSPECÇÃO MERCADOLÓGICA, ADEQUAÇÃO DOS PRODU- TOS E SERVIÇOS E IDENTIFICAÇÃO E CAPTAÇÃO DE CLIENTES. COMPETÊNCIAS • interpretar pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos • identificar e avaliar: • informações sobre as clientelas efetiva e potencial Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    • as oportunidadesde mercado • sintetizar e relacionar estas informações com os meios e recursos disponíveis • identificar as clientelas que correspondem à percepção dessa síntese • planejar a política comercial • organizar estratégias e ações de captação de clientes individuais e institucionais • identificar fatores que influem na atração do cliente. HABILIDADES • utilizar dados de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos • adequar a oferta aos interesses, hábitos, atitudes e expectativas das clientelas • efetivar os meios para produção da oferta • contatar permanentemente diferentes segmentos comunitários • articular-se e negociar com organizações públicas e privadas e com demais segmentos do “trade” turístico • organizar e manter cadastro de hóspedes e clientes, fornecedores e contra- tantes, operadores, agentes e guias de turismo, promotores de eventos, organizações de lazer, hotéis, restaurantes, autoridades, lideranças empre- sariais, profissionais e comunitárias • estabelecer e negociar ações de publicidade • operacionalizar a política comercial BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de: • leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econô- micos • de comunicação e relações interpessoais e grupais • “marketing” e de venda • vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol • características sócio-econômicas e culturais do cliente 110 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    SUBFUNÇÃO 2.2 –COMERCIALIZAÇÃO DE PRODUTOS E SERVIÇOS COMPETÊNCIAS • direcionar as ações de venda para as clientelas identificadas • organizar a venda no próprio estabelecimento ou externamente • estimar custos e preços • elaborar orçamento • calcular e fixar preços HABILIDADES • atender o cliente • zelar para que o atendimento corresponda à expectativa do cliente • preparar e conduzir a equipe de trabalho • negociar e contratar a venda • controlar orçamento BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de leitura e elaboração de orçamentos • cálculo de custos • técnicas de: • comunicação e relações interpessoais e grupais • de “marketing” e de venda • vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol Função 3 – GESTÃO SUBFUNÇÃO 3.1 - GERENCIAMENTO ECONÔMICO, TÉCNICO E ADMINISTRATIVO DOS NÚCLEOS DE TRABALHO COMPETÊNCIAS • ler e interpretar: • pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    • informações referentesao turismo • balanços, relatórios e documentos de controle interno • supervisionar o conjunto ou partes dos serviços de empresas de pequeno, médio e grande porte • analisar a relação custo/benefício com vistas a lucratividade da empresa • coordenar os recursos institucionais, financeiros, patrimoniais e materiais, o suprimento, a cobrança, a segurança pessoal e patrimonial, e os serviços auxili- ares e de apoio • avaliar eticamente o desempenho administrativo do empreendimento HABILIDADES • acompanhar dados e interpretação de: • pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos • informações referentes ao turismo, contextualizando para o seu meio e seu empreendimento • balanços, relatórios e documentos de controle interno • organizar e articular os setores internos • fazer cumprir a normas e manuais de procedimento • articular-se com parceiros e outros profissionais • negociar a contratação de terceiros • contatar e atender o cliente • preparar e conduzir a equipe de trabalho aos resultados desejados • articular os diferentes setores para fluxo integrado do atendimento • coordenar os serviços terceirizados • receber, orientar, informar e conduzir turistas • controlar os contratos • supervisionar os serviços de terceiros • supervisionar as atividades de comunicação e relações com o pessoal, clien- tes, fornecedores e contratantes, comunidade, meios de comunicação 112 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    BASES TECNOLÓGICAS • técnicasde: • comunicação e relações interpessoais e grupais • leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos • organização de empresas de turismo • elaboração e redação de normas e manuais • leitura, interpretação e elaboração de orçamentos, cálculo de custos e for- mação de preços • elaboração e interpretação de balanços, relatórios e documentos de contro- le interno • suprimento/compras e armazenamento/ conservação • segurança pessoal e patrimonial e seguros • técnicas, regras e procedimentos de: • reserva, venda e emissão de passagens • reserva e efetivação de acomodação, transferências, passeios, excursões, ingressos, etc. • orientação, despacho e liberação de documentação, passageiros e bagagens; • guiamento de turistas, com orientação, assessoria e transmissão de informações; • organização e realização de eventos • organização e realização de programas e atividades de lazer • normas de defesa do consumidor, trabalhistas, outros ramos jurídicos aplicá- veis à área • atendimento e encaminhamento de emergência • vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol SUBFUNÇÃO 3.2 - GERENCIAMENTO DO PESSOAL ENVOLVIDO NA OFERTA DOS PRODUTOS E NA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS COMPETÊNCIAS • definir a política de recursos humanos • organizar os setores internos Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    • organizar eharmonizar a ação do pessoal dos diferentes setores com outros parceiros e terceirizados • desenvolver os recursos humanos encarregados da execução dessas ativida- des, promovendo sua capacitação contínua • Interpretar as normas de proteção do trabalho • Interpretar contratos • avaliar eticamente o desempenho do pessoal, e do empreendimento em rela- ção a eles HABILIDADES • motivar e liderar pessoas e grupos • treinar e aperfeiçoar o pessoal • aplicar as normas de segurança do trabalho • controlar contratos • organizar e articular os setores internos • fazer cumprir as normas e manuais de procedimento • articular as relações e o trabalho com terceiros • coordenar os recursos humanos, desenvolvendo a motivação, o desempenho individual e o trabalho em equipe BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de: • comunicação e relações interpessoais e grupais • interpretação de leis e outras normas jurídicas • interpretação e elaboração de contratos • elaboração e redação de normas e manuais • motivação, trabalho em grupo e relações humanas no trabalho • relações com o público • organização de empresa 114 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    SUBFUNÇÃO 3.3: GESTÃODOS MEIOS TECNOLÓGICOS COMPETÊNCIAS • identificar máquinas e equipamentos • dominar os meios informatizados (hardwares e softwares) de informação, comunicação e gestão HABILIDADES • identificar as necessidades e soluções adequadas • identificar e cadastrar fornecedores de meios, serviços e soluções especializados • controlar o fornecimento de insumos e serviços, inclusive manutenção adequada • controlar a qualidade dos resultados da tecnologia e dos equipamentos • promover a atualização do conhecimento tecnológico do pessoal • utilizar meios de comunicação eletrônica • operar equipamentos de escritório BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de: • utilização de meios informatizados • utilização de equipamentos eletro-eletrônicos • interpretação e elaboração de contratos • motivação, trabalho em grupo e relações humanas no trabalho • relações com o público • vocabulário técnico em português e inglês SUBFUNÇÃO 3.4 - MANUTENÇÃO E/OU READEQUAÇÃO DO EMPREENDIMENTO COMPETÊNCIAS • identificar, avaliar e relacionar informações de forma contínua para manter os produtos e serviços em sintonia com a demanda dos clientes • captar as tendências de uso, consumo e expectativas das clientelas efetiva e potencial Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    • manter aviabilidade técnica, financeira e administrativa do empreendimento e dos seus produtos e serviços • desenvolver visão mercadológica prospectiva, que favoreça prontidão para inovações e mudanças de objetivos e de ofertas • avaliar a viabilidade de inovações e mudanças • Interpretar informações referentes ao turismo HABILIDADES • atualizar estrutura organizacional, políticas e normas e procedimentos • utilizar informações referentes ao turismo, contextualizando para o seu meio e seu empreendimento • utilizar a interpretação de estudo de viabilidade para inovações e mudanças • preparar e dirigir o pessoal para inovações e mudanças BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de: • “marketing” e de venda • comunicação e relações interpessoais e grupais • leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos • leitura, interpretação e elaboração de orçamentos, cálculo de custos e for- mação de preços • elaboração de descrição de cargos/funções e salários • elaboração e redação de normas e manuais • vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol SUBFUNÇÃO 3.5: ACOMPANHAMENTO PÓS-EXECUÇÃO COMPETÊNCIAS • avaliar a receptividade dos clientes aos produtos e serviços oferecidos • criar instrumentos de informação e de aferição da satisfação do cliente • analisar e avaliar as manifestações dos clientes 116 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    • desenvolver nopessoal a atenção para a satisfação do cliente • avaliar eticamente o desempenho em relação aos clientes, público em geral e meio ambiente HABILIDADES • aplicar instrumentos de informação e de aferição da satisfação do cliente • utilizar a interpretação de reclamações, elogios, sugestões e outras manifes- tações expontâneas e motivadas • relacionar-se com as clientelas efetiva e potencial • promover a capacitação contínua do pessoal voltada para a atenção ao cliente BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de: • comunicação e relações interpessoais e grupais • leitura, interpretação e elaboração de pesquisas e sondagens de opinião • motivação, trabalho em grupo e relações humanas no trabalho • relações com o público Em 05 de outubro de 1999, o Conselho Nacional de Educação, através do Parecer CEB 16/99, aprovou as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Profissional do Nível Técnico, separando a área de Turismo da de Lazer, e juntan- do-a com a de Hotelaria e Alimentação, criando-se, assim, a de Turismo e Hos- pitalidade, com as seguintes características: A área profissional de turismo e hospitalidade compreende atividades, interrelacionadas ou não, referentes à oferta de produtos e à prestação de ser- viços turísticos e de hospitalidade. • Os serviços turísticos incluem o agenciamento e operação, o guiamento, a promoção do turismo, e a organização e realização de eventos de diferentes tipos e portes. • Os serviços de hospitalidade incluem os de hospedagem e os de alimentação. • Os de hospedagem são prestados em hotéis e outros meios, como colônias de férias, albergues, condomínios residenciais e de lazer, instituições esportivas, escolares, militares, de saúde, acampamentos, navios, coletividades, abrigos para grupos especiais. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    • Os serviçosde alimentação são prestados em restaurantes, bares e outros meios, como empresas, escolas, clubes, parques, aviões, trens, ou ainda em servi- ços de bufês, “caterings”, entregas diretas, distribuição de pontos de vendas. Estas atividades são desenvolvidas num processo que inclui o planejamento, a promoção e venda e o gerenciamento da execução. Como competências gerais dos técnicos da área, são apresentadas: • conceber, organizar e viabilizar produtos e serviços turísticos e de hospita- lidade adequados aos interesses, hábitos, atitudes e expectativas da clientela • organizar eventos, programas, roteiros, itinerários turísticos, atividades de lazer, articulando os meios para sua realização com prestadores de serviços e provedores de infraestrutura e apoio • organizar espaços físicos de hospedagem e de alimentação, prevendo seus ambientes, uso e articulação funcional e fluxos de trabalho e de pessoas • operacionalizar política comercial, realizando prospecção mercadológica, identificação e captação de clientes e adequação dos produtos e serviços • operacionalizar a comercialização de produtos e serviços turísticos e de hospitalidade, com direcionamento de ações de venda para suas clientelas • avaliar a qualidade dos produtos, serviços e atendimentos realizados • executar atividades de gerenciamento econômico, técnico e administrativo dos núcleos de trabalho. Articulando os setores internos e coordenando os recursos • executar atividades de gerenciamento do pessoal envolvido na oferta dos produtos e na prestação dos serviços • executar atividades de gerenciamento de recursos tecnológicos, supervisio- nando a utilização de máquinas, equipamentos e meios informatizados • realizar a manutenção do empreendimento, dos produtos e dos serviços adequando-os às variações da demanda • comunicar-se efetivamente com o cliente, expressando-se em idioma de comum entendimento Quanto às competências específicas de cada habilitação, serão definidas pela escola para completar o currículo, em função do perfil profissional de conclusão da habilitação. A carga horária mínima de cada habilitação da área será de 800 horas. Para concluir, apresentaremos um pequeno exercício de futurologia, de auto- ria de YOSHIMA e OLIVEIRA (2002). Esses autores fizeram uma compilação de 118 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    notas, informações, notíciassobre os vários setores do turismo, publicado em jornais ou divulgado através da Internet nos últimos dois anos. De posse dessa coleta de material os autores se propõem a ordená-lo por setor, mostrando as tendências previstas para cada área em particular. Dessa forma foram traçadas as previsões dos seguintes setores: Transportes Aéreos, Cruzeiros Marítimos, Agenciamento de Viagens, Meios de Hospedagem, Alimen- tos e Bebidas, Parques de Entretenimento e Empregos na Área de Turismo. (Disponível em http://www.abbtur.com.br/CONTEUDO/trabalhos/trabO5.htm) NOVOS EMPREGOS NA ÁREA DE TURISMO • Haverá uma demanda maior por consultores e auditores das ISO 9000 e ISO 14000, assim como para profissionais capazes de implantar outros sistemas de gestão da qualidade nas empresas; • Conhecedores da metodologia HACCP - Hazard Analisys Control Critical Points serão muito requisitados por hotéis e restaurantes; • Produtores de vídeos promocionais terão oportunidade de trabalhos para a divulgação de destinos e equipamentos; • Construtores de web-sites terão uma grande demanda na elaboração de sites para cidades e empresas turísticas; • Editores e jornalistas especializados em turismo para revistas, jornais e su- plementos de viagens e turismo; • As pesquisas em turismo deverão ser muito requisitadas por empresas do setor em busca de informações fidedignas de demanda; • Aumento de oportunidade para empresas de serviços para o atendimento das necessidades de terceirização de determinados serviços (manutenção, seguran- ça, recreação); • Aumento da demanda por professores e instrutores para a formação de mão- de-obra especializada para o setor. • Globalização do emprego fazendo com que o profissional de Turismo enfren- te desafios, como o aprendizado de uma terceira língua, facilidade de adaptação a outras culturais, disponibilidade para troca de sede. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Ano: 2003 Publicação original: livro Formato da contribuição: texto completo Fonte: Planejamento e gestão em turismo. Trabalhos técnico-científicos apresentados no Congresso Brasileiros de Turismo 2002, realizado na cidade de Foz do Iguaçu (PR), de 14 a 18 de maio de 2002. BEZERRA, Deise Maria Fernandes, (org.) - São Paulo: Roca, 2003. E-mail do(s) autor(es): lillian@fase-se.edu.br Títulos acadêmicos principais atuais: Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente - Universidade Federal de Sergipe; Especialista em Turismo: planejamento, gestão e marketing, pela Universidade Católica de Brasília e Bacharel em Turismo, Universidade Tiradentes. Política de turismo e desenvolvimento local: um binômio necessário. Lillian Maria de Mesquita Alexandre1 As atividades e os esforços relacionados à gestão sustentável de recursos naturais, bem como a valorização e preservação da identidade cultural de popu- lações das localidades, têm se demonstrado como assuntos de excepcional relevância neste mundo desenvolvimentista e globalizado. Na realidade brasileira, é possível perceber que juntamente com as mudanças provenientes da globalização, o impulso gerado pela atividade turística no país mostrou que esse setor pode ser estrategicamente utilizado como mitigador para os problemas da desigualdade social e a falta de emprego, tão presentes em nosso contexto. Ao encontro destas perspectivas e necessidades, observa-se o desenvolvi- mento dinâmico da atividade turística, dentre o setor catalisador mundial na geração de empregos e movimentação de recursos, ao mesmo tempo em que se fortalece como importante aliado na gestão sustentável dos patrimônios natural e cultural, dependente que é, destes patrimônios, como elementos formadores do produto turístico e, consequentemente, mantenedores de sua própria sobrevivência. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    A influência dessesetor na economia de um determinado local, faz com que seja gerada uma certa expectativa quanto a sua chegada. Neste momento, é primordial que sejam avaliados vários fatores, como por exemplo, a situação em que a localidade encontra-se com relação a sua economia e os impactos gera- dos no meio ambiente pelo turismo. Buscar o desenvolvimento local a partir dessa atividade, é uma estratégia que deve ser pensada (e por que não dizer, executada) pelos governos estaduais e municipais, traçando políticas públicas de turismo eficientes. Neste contexto, é preciso mostrar que através de políticas precisas e eficien- tes, deve ocorrer o processo de mudanças em favor do desenvolvimento social e econômico nacional, mantendo visível a importância na necessidade da con- servação ambiental, bem como o respeito à cultura e os modos de ser e agir dos diferentes grupos humanos que fazem parte deste universo. (VIEIRA, 2000) Por tanto, é através da consolidação das políticas de turismo numa localida- de, que o setor passará a ser tratado de forma organizada e dinâmica, onde o planejamento possa ser coeso, levando-se em consideração, a realidade e as características próprias de cada região, constituindo desta forma, os fatores relevantes e imprescindíveis para que seja possível desenvolver a localidade a partir do turismo. SOBRE DESENVOLVIMENTO Falar sobre desenvolvimento é remeter a vários significados que se direcionam para o ser, o crescer, o descobrir, enfim, a mudança. É mudar de estágio, é alcançar uma maturação, pois o termo desenvolvimento é utilizado com várias concepções, residindo aí, a dificuldade em defini-lo. (VARGAS, 1999) Graças a seu caráter fluido e a seus objetivos humanistas, Becker, descreve o tema desenvolvimento como sendo “uma assimilação da conotação positi- va, de pré-julgamento favorável: ele seria em si um bem, pois desenvolver-se seria forçosamente seguir em uma direção ascendente, rumo ao mais e ao melhor”. (1999, p. 18) Mas perceber que o desenvolvimento é um processo natural, que só precisa ser deixado livre para evoluir, é crescer no entendimento do conceito. É enten- der que a noção de desenvolvimento não se impõe somente como evidente, mas também como universal, onde devem ser rompidos, ultrapassados os esquemas não só econômicos, mas também civilizacionais e culturais, que pretendem fixar o seu sentido e as suas normas. Nenhum desenvolvimento é adquirido para sem- pre. (BECKER, 1999, p. 19; CAIDEN; CARAVANTES, 1988, p. 26) 122 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Para alcançar talestágio, faz-se necessário perceber que o desenvolvimento é uma finalidade, mas deve deixar de ser uma finalidade-terminus. A finalidade do desenvolvimento está, ela própria, sujeita a outras finalidades. Viver verdadeira- mente e melhor. Viver com compreensão, solidariedade e compaixão. Viver sem ser explorado, insultado e desprezado. Benevides menciona que: [...] existem vários envolvidos com o processo por meio do qual uma sociedade utiliza crescente, cumulativa e auto- sustentadamente a sua capacidade produtiva – expressa na sua ampla dotação dos fatores de produção – no sentido de canalizar essa capacidade para aumentar em quantidade e em qualidade os bens e serviços disponíveis, pode ser uma saída, mas ao mesmo tempo, não se pode excluir a inter-relação que ele tem com a questão ambiental. ( 1996, p. 164) Segundo Sachs, “[...] o ambiente é, na realidade, uma dimensão do desenvolvi- mento, deve, pois, ser internalizado em todos os níveis de decisão” (1986, p. 10) A percepção dada por Caiden e Caravantes para desenvolvimento com um outro olhar sobre o assunto: O desenvolvimento nunca será, nem pode ser definido de maneira a agradar a todos. Refere-se ele, falando-se em termos gerais, ao desejável progresso social e econômico, e as pessoas sempre terão opiniões diferentes sobre aquilo que é desejável. É certo que desenvolvimento tem que significar a melhoria das condi- ções de vida, para qual são essenciais o crescimento econômico e a industrialização. Se não se der, porém, atenção à qualidade do crescimento e à mudança social, não se poderá falar em desen- volvimento [...] (1988, p. 30) A INFLUÊNCIA DO TURISMO PARA A ECONOMIA A atividade turística é um fator importante para qualquer economia local, regional ou nacional, pois o movimento constante de novas pessoas aumenta o consumo, incrementa as necessidades de maior produção de bens, serviços e empregos e, consequentemente, a geração de maiores lucros, que levam o au- mento de riquezas pela produção da terra, pela utilização dos equipamentos de hospedagem e transporte, e pelo consumo ou aquisição de objetos diversos, de alimentação e de prestação dos mais variados serviços. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Ela é umagrande produtora de riquezas e aparece, em todo o mundo, como um dos mais importantes segmentos geradores de empregos e postos de trabalho, uma vez que se coloca entre um dos principais itens geradores de receitas e de divisas na economia mundial. A importância do turismo numa economia depende, basicamente, de suas pré-condições naturais e econômicas (existência do atrativo turístico, infra- estrutura urbana, equipamentos turísticos e acessibilidade ao mercado con- sumidor), das características do município, e em função de suas alternati- vas, do papel reservado a esse setor em sua estratégia de desenvolvimento econômico. Para o autor Roberto Bustos Cara: Desde diferentes puntos de vista el turismo representa una actividad en expansión no solo en las cifras ligadas a la evaluación económica sino además en relación a los requerimientos propios de la sociedad moderna en plena transformación. (1996, p. 86) A percepção de que o turismo é uma ferramenta poderosa para gerar empregos e renda, deve ser entendido por todos os setores que trabalham com essa ativi- dade de forma que venham utilizar a localidade conscientemente a fim de pro- mover sua auto sustentabilidade e gerando dessa forma, um bom relacionamen- to entre comunidade, governo e meio ambiente. O processo de globalização, segundo Rodrigues (1997), unifica os mercados, definindo subespaços hierarquizados ou não, que vão dos centros às periferias, determinando relações de dominação e de subordinação – “verticalidades”. Carminda Cavaco afirma que, em síntese: [...] o crescimento econômico, identificado com o aumento global de produção e de riqueza, importa o desenvolvimento, que é simultaneamente econômico, social e também territorial, e que envolve processos de mudança estrutural, produção social significativa, redistribuição mais equilibrada da riqueza, melhoria dos rendimentos, das condições de vida das expectativas, sobretudo dos grupos sociais menos favo- recidos. (1996, p. 98) 124 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    A IMPORTÂNCIA DOTURISMO PARA O DESENVOLVIMENTO DA LOCALIDADE A interpretação dada por Beni, nos remete a uma visão de que: O desenvolvimento do turismo provoca o desenvolvimento intersetorial, em função do efeito multiplicador do investimento e dos fortes crescimentos da demanda interna e receptiva. É ati- vidade excelente para obtenção de melhores resultados no de- senvolvimento e planejamento regional ou territorial. Por efeito do aumento da oferta turística (alojamentos, estabelecimentos de alimentação, indústrias complementares e outros), eleva a demanda de emprego, repercutindo na diminuição da mão-de- obra subutilizada ou desempregada. (2001, p. 65). O turismo, como qualquer outra atividade econômica, deve ter o seu desen- volvimento racionalmente pré-determinado, para que as necessidades e potencialidades sejam gerenciadas e se transformem em estratégias que condu- zam à inserção do patrimônio natural, histórico e cultural no circuito econômi- co, evidentemente através do uso não predatório dos mesmos. Municípios com um grau de desenvolvimento avançado reservam ao turismo um papel destacado em sua estratégia de desenvolvimento, dado que se consti- tui, na maioria deles, numa de suas atividades motrizes, interligados com outros setores importantes, geradores de empregos e de divisas, onde isto gera uma revitalização e diversificação da economia, capaz de envolver a população local, valorizando-a de forma a envolvê-la no processo de desenvolvimento local. Roberto Bustos Cara percebe que, do ponto de vista territorial: [...] el turismo es gran consumidor de espacios, pero es además productor y transformador de primeira magnitud. Es al mismo tiempo consumidor de territorio, es decir, utilizador no solo del espacio sino de las condiciones sociales que le dan sentido y es sobre esse territorio organizado y con sentido que impacta. Es una actividad creadora de imágenes y representaciones que impregnan no solo a los agentes y la sociedad de que forman parte los usuarios (es decir el mercado), sino también a las soci- edades receptoras. (1996, p. 86) Neste momento, torna-se imprescindível que haja o planejamento dessa ativi- dade, uma vez que é preciso o conhecimento prévio do meio físico, suas apti- dões e limitações naturais, dos fenômenos culturais e sociais, dos aspectos econômicos da região e a análise da inserção do turismo nesse contexto. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    No turismo, oplano de desenvolvimento constitui o instrumento fundamental na determinação e seleção das prioridades para a evolução harmoniosa da ativi- dade, determinando suas dimensões ideais, para que, a partir daí, possa-se esti- mar, regular ou restringir sua evolução. O maior problema na ausência do planejamento em localida- des turísticas reside no seu crescimento descontrolado, que leva à descaracterização e à perda da originalidade das destinações que motiva o fluxo dos turistas, e o empreendi- mento de ações isoladas, esporádicas, eleitoreiras e desvinculadas de uma visão ampla do fenômeno turístico. (RUSCHMANN, 1997, p. 164). O desenvolvimento econômico do turismo pode ser viável e constitui o objetivo da maioria dos planos em nível local, regional e nacional, porém seus impactos sociais e ambientais são praticamente inevitáveis. Por isso, torna-se necessário empreender planos de desenvolvimento do turismo que estabeleçam à capacidade de carga das destinações, considerando o equilíbrio entre os efeitos econômicos, sociais e culturais e o equilíbrio dos recursos naturais da atividade. Apenas um planejamento de longo prazo determinará medidas quantitativas, que conduzirão à qualidade ideal do produto turístico, que interessa tanto à população residente como aos turistas. O desenvolvimento turístico só deve ocorrer como conseqüên- cia de uma política de planejamento cuidadosa, não calcada ape- nas na balança de pagamentos dos países em desenvolvimento ou na relação de custos e benefícios. Ele deve estruturar-se sobre idéias e princípios de bem-estar e da felicidade das pessoas. Os problemas sociais dos países não poderão ser solucionados sem uma economia forte e em crescimento e o turismo pode contri- buir para criá-la. (RUSCHMANN, 1997, p. 164) Essa visão, mais responsável e consciente com a própria natureza da atividade turística, incorpora na relação homem x natureza, turismo x turismo, uma sintonia necessária para o aproveitamento dessa atividade, tomando o visitante atual num parceiro para o desenvolvimento turístico da localidade. Por isso é que as diversas comunidades buscam explorar o turismo como forma de melhoria da qualidade de vida de seus integrantes, o que ultrapassa a simples utilização de bons serviços pelo visitante ou mesmo na simples economicidade dos efeitos da maior presença de consumidores no destino. 126 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    POLÍTICAS PÚBLICAS DEINTERVENÇÃO NO TURISMO A ausência de uma diretriz nacional, segundo Beni (2001) e falta de uma ação intersetorial entre os órgãos públicos de turismo no Brasil, estão a determinar o crescimento isolado do setor e a elaboração de planos e programas inapropriados e desassociados da realidade cultural, política, econômica e social do País. Apesar do crescimento do turismo nos últimos anos, é possível observar que o mesmo se deu em decorrência de programas e iniciativas isoladas do que a uma atuação coordenada que refletisse claramente seus benefícios socioeconômicos, culturais e humanos. Por isso, é preciso que as ações sejam congregadas com o intuito de propor estratégias, com objetivos claros e concisos da esfera do planejamento global, integrando-o efetivamente às demais atividades produti- vas da economia. Dessa forma, é que poderão definir políticas coerentes e realistas, consideran- do as condicionantes geoeconômicas e geoestratégicas de localidades, bem como investigando e contemplando os múltiplos aspectos que compõem o fe- nômeno turístico. Observa-se, ainda, que grandes investimentos em complexos turísticos construídos pela iniciativa privada, a maioria dos quais estimulados e incentiva- dos por governos estaduais, não obedecem aos preceitos da política estratégica de desenvolvimento regional e do planejamento sustentável do turismo. Tais empreendimentos não contribuem para a correção dos desníveis eco- nômicos e sociais da região onde se implantam, não geram emprego e traba- lho para a população residente no entorno, e permanecem fechados ou in- sensíveis a uma adaptação de preços e, portanto, de competitividade em relação à demanda da maioria da população real e potencial do turismo nacional e até do internacional, a que a maior parte se destina em seus equipamentos e objetiva conquistar. A partir do I Plano Nacional de Desenvolvimento, formulado pela SUDENE em 1971, é que vão iniciar as ações institucionais voltadas ao turismo e a percepção da necessidade em se traçarem estratégias políticas setoriais, como as políticas de turismo, a fim de que haja um desenvolvimento melhor conduzido. O governo nacional, estadual e municipal assumem, diante dessa realidade, papel fundamental para minimizar os efeitos causados pelo turis- mo, definindo planos, programas e ações bem concretos e claros, nos dife- rentes itens do planejamento, no intuito de conduzir as coletividades a um nível de capacidade possível de enquadrarem-se às novas condições do mun- do, sem perda de sua identidade. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    CONCLUSÃO Oturismo no Brasil ainda não é considerado pelo Governo, como atividade econômica e social de relevância e que tenha participação efetiva no desenvol- vimento global do País. A consolidação de políticas voltadas ao setor, deve ser a manifestação pri- meira de uma conscientização governamental para a importância do turismo como instrumento de crescimento econômico, geração de renda e melhoria da qualidade de vida da população. Para Pereira: Nessa perspectiva, são identificadas algumas razões para se pro- duzir políticas públicas de turismo, a partir da necessidade de se estabelecer normas e regras para definição do papel, tanto do Poder Público, quanto dos diversos atores privados relacionados ao setor. A variedade de segmentos, atividades e interesses en- volvidos no turismo e seu vínculo cada vez mais estreito com os recursos naturais, econômicos, culturais e históricos, evidencia de um lado, que a forma do governo tratá-lo deve levar em conta essas fortes interfaces e, por outro, é fundamental que haja maior interação entre as atividades dos diversos grupos e setores da sociedade envolvidos com o turismo. (1999, p. 2) Quando se fala na elaboração de políticas públicas no turismo, é inevitável pensar nos grupos de interesse, nos valores particulares em jogo e no poder de direcionamento do desenvolvimento da atividade, conforme as forças vão se relacionando ao longo do tempo. Algumas decisões que afetam a política da atividade turística, a natureza do envolvimento do governo no setor, a estrutura do departamento de turismo, o tipo de desenvolvimento do setor e a consciência e participação da comunidade no planejamento e política da atividade surgem do processo político. Para que o turismo se desenvolva de forma coesa em localidades, o arranjo institucional do setor se apresenta como de suma importância, com todos os agentes contemplados conforme seu poder de interferência. Apesar disto, não há uma regra para a criação e manipulação das instituições relacionadas à atividade turística, variando significativamente entre municípios, regiões e estados. Hall (2001) entende que “estas diferenças afetam como o conflito político é expresso, que estratégias individuais e grupos irão tentar influenciar na política, e que peso os políticos irão atribuir aos interesses sociais e econômicos particulares”. O arranjo institucional é um dos elementos fundamentais para uma polí- tica pública bem sucedida do turismo, pelo seu poder de afetar tanto na 128 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    decisão da implementaçãodas estratégias, quanto no pessoal envolvido no processo. Segundo Cruz: Uma política pública de turismo pode ser entendida como um con- junto de intenções, diretrizes e estratégias estabelecidas e/ou ações deliberadas, no âmbito do poder público, em virtude do objetivo geral de alcançar e/ou das continuidades ao pleno desenvolvimen- to da atividade turística num dado território. (2000, p. 40) Não há uma padronização da estrutura turística oficial (ministério, departa- mento, comissão, diretoria, conselho, instituto, corporação, entre outras). Cada país se organiza a partir de sua própria realidade e do grau de importância do setor para o governo. A estrutura do órgão oficial de turismo varia de acordo com a forma constitucional de governo. Quando um organismo nacional de turismo adota a forma de entidade oficial, esta pode ser através de um organis- mo centralizado ou estatal, criado pelo próprio Estado dentro de sua estrutura administrativa, podendo ocupar posições e hierarquias na estrutura organizacional. Estes também se organizam sob a forma de organismos descentralizados ou mistos, constituídos pelo Estado através de lei com personalidade jurídica, auto- nomia técnica e administrativa, embora mantenham vínculos de subordinação a um ministério ou secretaria de estado. E ainda através de organismos privados ou não-governamentais, sem fins lucrativos, na forma de uma associação ou fundação organizadas em todos os níveis (nacional, regional e local). Estes tipos de organismos são nitidamente operacionais e executam as políticas de turismo adotadas pelo Estado através do órgão competente. Pereira analisou que: A existência de um órgão central de turismo e de organizações periféricas em diferentes regiões ou localidades e conselhos ou comitês interministeriais, deve servir para que um suplemente e ajude o outro e não para que eles se sobreponham. O desenvolvi- mento do turismo demanda interfaces com outras políticas re- correntes e complementares, tornando-se necessário um intenso trabalho de coordenação com outros setores. Portanto, as polí- ticas de turismo devem estar coordenadas com as demais políti- cas setoriais afins do país. (1999, p. 5). Todavia, o poder público pode desestimular a iniciativa privada ao criar ins- trumentos legais sem captar a fundo a essência da atividade turística. Estes Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    instrumentos, face àsua multiplicidade, podem criar dificuldades operacionais para as empresas que atuam no turismo. Sendo um setor novo e dinâmico, o turismo precisa ser constantemente analisado e avaliado para reformulação de suas políticas públicas. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] NOTAS 1 Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente. Pós-graduada em Turismo: Planejamento, gestão e MKT. Co- ordenadora do Curso de Turismo e Professora da Faculdade de Sergipe 130 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2003 Publicação original: anais eletrônicos Formato da contribuição: texto completo Fonte: “Hotéis de selva no Amazonas: ecodesign, meio ambiente e sustentabilidade. Paraná: VII ENTBL, 2003. E-mail do(s) autor(es): luindia@vixax.com.br; luindia@uol.com.br Títulos acadêmicos principais atuais: Luíndia Azevedo - Doutora em Ciências Sócio-ambiental- NAEA/UFPA; e Luiza Elayne - Jornalista, docente do DECOM- Universidade Federal do Amazonas-Ufam Hotéis de selva no amazonas: Ecodesign, meio ambiente e sustentabilidade? Luiza Elayne Luíndia Azevedo Os hotéis de selva ou lodges no Amazonas, aproximadamente em número de 40 e com sua maioria localizada cerca da Estação Ecológica de Anavilhanas e da cidade de Manaus são um meio de alojamento alternativo, principalmente, para estrangeiros. Estes empreendimentos mesmo com um alto custo de instalação, têm se relevado rentáveis, existindo uma demanda considerável para produto “confortável e ambientalmente correto”. Tal perspectiva tem aumentado subs- tancialmente a oferta, iniciada em 1979, com a construção do Amazon Lodge e, recentemente do Tiwá, localizado na margem direita do rio Negro. O presente artigo corresponde a uma versão revisada de trabalho publicado com o mesmo título no VIII Encontro Nacional de Turismo com Base Local- ENTBL, Paraná, 2004. Anais eletrônicos: www.entbl.tur.brgt05turismomeio ambienteesustentabilidade. A Lei Federal no 6.505, de 13 de dezembro de 1977 regulamentou os tipos de Meio de Hospedagem de Turismo Ambiental e Ecológico (Lodges) e, de acordo com o Conselho Nacional de Turismo, que seis anos depois emitiu o presente Regulamento e a Matriz de Classificação desse tipo de hospedagem, especifica a saber: Art. 2 – Considerando-se Meios de Hospedagem Ambiental e Ecológico (Lodges) os empreendimentos que atendam cumulativamente às seguintes condições: Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    I – estejamlocalizados em áreas de selva densa ou de outras belezas naturais preservadas; II – estejam totalmente integrados à paisagem local, sem qualquer interferên- cia ao meio ambiente; III – situem-se em regiões distantes de centros urbanos, com ausência ou dificuldades de acesso regular e de serviços públicos básicos; IV – ofereçam aos usuários instalações, equipamentos e serviços simplifica- dos, próprios ou contratados, destinados ao transporte para o local, hospeda- gem, alimentação e programas voltados à integração com o meio ambiente e o seu aproveitamento turístico. Ainda, segundo o regulamento dos meios de Hospedagem de turismo da deli- beração Normativa nÚ 364, de 6 de agosto de 1996, da Embratur, deve também “facilitar a circulação de portadores de deficiência, prezar pela saúde e higiene do ambiente, garantir a iluminação natural e ventilação adequada, ter um sistema de abastecimento, tratamento e filtragem de água, além do tratamento de resí- duos e outras exigências.” Em termos de legislação, o Brasil se encontra entre os mais avançados países do mundo ao criarem a maior jurisprudência para controle e preservação dos recursos naturais. Entretanto, as leis criadas não foram acompanhadas de meca- nismos eficientes para garantirem meio ambiente saudável. Portanto, a lei sobre os Meios de Hospedagem de Turismo Ambiental e Ecológico não assegura proje- tos dedicados à conservação e proteção do meio ambiente, visto os exemplos desenvolvidos no Brasil. Estas experiências localizadas em zonas costeiras, flu- viais, urbanas e áreas situadas ou próximas de Unidades de Conservação reivin- dicam a condição de ecoturísticas. Em relação aos aspectos ecológicos, a maioria das experiências não dispõe de tecnologias limpas apropriadas para o tratamento do lixo e esgoto e geração de energia e, muitos deles, rompem com a arquitetura regional. O artigo avalia os hotéis de selva do Amazonas dentro das perspectivas de ecodesign, respeito ao meio ambiente e promoção de sustentabilidade. Propõe-se a verificar se os hotéis funcionam com base no tripé: 1 veículos de aprendizado e compreensão para os ecoturistas; 2 fomento à geração de empregos; 3 contribuição na melhoria de qualidade de vida das populações residentes. A pesquisa foi estruturada a partir de revisão bibliográfica, visitas, observação participante e entrevistas com os gerentes e turistas. 132 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    HOTÉIS DE SELVA(LODGES) E MERCADO Os hotéis de selva ou lodges, palavra de origem inglesa, têm como significado “casa do guarda”, denominação dada aos pequenos alojamentos para fornecer abrigo a número reduzido de turistas nos parques nacionais do Kenia. Atualmente, segundo Peréz de las Heras (1998), esses lodges têm passado a se chamar ecolodges, término de todos os alojamentos dedicados especificamente ao ecoturismo. Desde os primeiros lodges construídos pelos colonizadores in- gleses, tendo como base a arquitetura das cabanas dos nativos, até os dias de hoje, a gama de alojamentos para ecoturismo tem se ampliado de tal forma, que se torna impossível falar de características de ecolodge em geral. Contudo, tais alojamentos têm evoluído para desde hotéis de cinco estrelas, a exemplo dos ecoresort à beira mar, localizados no Brasil (Bahia), Costa Rica e Belize, a acam- pamentos com tendas e cabanas no Peru, Equador e Brasil, especificamente no Amazonas e no Pantanal. No geral os lodges são confortáveis, construídos em madeira e palha, ofere- cendo passeios etnobotânicos, visitas às comunidades, observação de aves e animais, fotografias, pesca e venda de artesanato. Os serviços cobrem habita- ções com banheiro privado, uso de eletroeletrônicos, bebidas geladas, cozi- nha de padrão internacional, botes equipados com motores de alta potência, traslado desde o aeroporto, guias bilíngües e, até heliportos (Ariau Towers- Am). No Amazonas, os hotéis de selva são na maioria de madeira e teto de palha, localizados em ambientes isolados, com atrativos e roteiros similares aos demais, porém, tendo como diferencial, a observação do singular “encon- tro das águas” formado pelos rios Negro e Solimões. O preço dos pacotes varia entre USD$ 180/USD$ 480 (2d/1n, solteiro), com transporte, acomodações e alimentação, exceto bebidas. Tanto no Brasil como no exterior, os hotéis de selva atendem a um segmento de mercado muito próspero. Na ótica da WWF o referido nicho de mercado corresponde ao perfil de pessoas interessadas em viagens na natureza em ambi- entes frágeis. Esse tipo de turista, geralmente, gasta mais do que o turista padrão, embora esse gasto adicional seja em áreas com alta evasão de recursos, a exemplo de Belize. Conforme Sorensen (apud Mc Kercher, 2002) os turistas deste mercado são independentes, experientes, têm alto poder aquisitivo, viajam sozinhos ou em dupla e a maioria é do sexo feminino. Em grande parte, são motivados por aventuras e/ou algo novo no mercado. Estima-se o crescimento deste mercado entre 10% a 30% ano no mundo. No Brasil, pesquisas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) estipulam o crescimento de 6% ao ano. Ressalta-se, contudo, a dificuldade de saber com exatidão a grandeza desse mercado. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Em relação aoperfil destes consumidores, se destacam dois tipos: o soft (apreciadores da natureza, sem muito esforço físico) e o hard (profissionais especializados, apreciadores de esforços físicos). Grande parte dos lodges aten- de ao perfil soft, consumidores interessados em um ambiente privado, com rela- tivo conforto e certa acessibilidade, mas rodeado de “verde” e de animais. FLUXO Nos anos 90 houve um crescimento do número de turistas de natureza. Confor- me Epler-Wood (2002) as taxas de visitação para destinos baseados na natureza de 1990 a 1999 cresceram significativamente na África do Sul (486%), Costa Rica (136%), Indonésia (116%), Belize (78%) e Equador (41%). Para a América Latina, a atividade se reveste de extrema importância para os esforços nacionais de promoção do desenvolvimento econômico e social. No Brasil, o adequado aproveitamento dos variados ecossistemas existentes, ainda pouco explorados, propiciará a abertura de novas alternativas econômicas e a conseqüen- te melhoria das condições de vida das populações diretamente envolvidas, além de reduzir alguns impactos negativos causados pelo turismo tradicional, devido ao perfil e às expectativas dos visitantes que normalmente viajam em pequenos grupos em comparação com o turismo de massa (EMBRATUR/IBAMA, 1994). De acordo com a WWF (2003), para americanos e canadenses, o Brasil era, em 1998, o terceiro destino de preferência, segundo dados sobre turismo na América Latina, e suas principais fontes de pesquisa para o planejamento da viagem foram informações prestadas por amigos (60%), agências de viagem (57%), Internet (47%) guias turísticos (36%). Conforme a Embratur (2000) são as Unidades de Conserva- ção os primeiros destinos ecoturísticos procurado pelos fluxos internacionais. A taxa de visitação do país de 2001 foi de 4 milhões turistas, em 2002, um pouco mais de 3milhões visitantes. Em 2003, aproximadamente 4,1milhões de turistas estran- geiros, um aumento de 8,52% em relação a 2002. (ANUÁRIOS: 2001, 2002, 2003). Apesar do otimismo, segundo a WWF recentemente, o Brasil tem recebido poucos estrangeiros, principalmente, norte-americanos e canadenses, em virtu- de, do marketing de visibilidade desenvolvido por empresas privadas e governa- mentais em torno de Costa Rica. AMAZÔNIA E POLÍTICAS PÚBLICAS Na Amazônia, a partir de 1997 foi instituída oficialmente a Política de Ecoturismo da Amazônia, responsável pelo delineamento dos primeiro passos à implantação do Programa de Desenvolvimento do Ecoturismo da Amazônia Legal (PROECOTUR), 134 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    tendo como estadosbeneficiários Amazonas, Pará, Amapá, Roraima, Acre, Rondônia, Mato Grosso, Maranhão e Tocantins. Seu objetivo é transformar os recursos naturais da Amazônia em produto de forma a garantir-lhe desenvolvi- mento sustentável, criar condições para o setor privado investir com segurança e formatar produtos e roteiros competitivos internacionalmente. A coordenação do programa explica que a Amazônia, ainda não é um produto turístico acabado, porque as infra-estruturas das regiões são desproporcionais aos potenciais turísticos. O programa quer atrair a classe empresarial e também melhorar a qualidade de vida da população local. O Amazonas foi o primeiro estado a dispor de hotéis de selva, possui inúmeras ilhas, várias unidades de conservação e conta com uma sociobiodiversidade bastante promissora e atra- ente para incrementar o fluxo de turistas. Para a Embratur, órgãos e empresas de turismos, o Mato Grosso do Sul e o Amazonas são considerados ecodestinos com vastíssimo potencial hoteleiro dentro da perspectiva de biodiversidade e hotéis de selva. Ressalta-se que os modelos de desenvolvimento regional preconizados pelo Plano de Desenvolvimento da Amazônia-PDA (1992-1995), Plano de Turismo da Amazônia SUDAM/PNUD (1992) e pelo PROECOTOUR (1997) apresentam o turis- mo ecológico como sendo a atividade que naturalmente se presta à efetivação do processo de desenvolvimento da Amazônia. A partir destas visões, o turismo ecológico é vendido como uma atividade que não causaria graves conflitos sociais e ambientais provocados pelas atividades econômicas, anteriormente, incentivadas na região. Contudo, a maioria das experiências na Amazônia e, especificamente no Ama- zonas, não possuem características de sustentabilidade econômica, ambiental e sociocultural para os ecossistemas e populações locais. Destacam-se três pro- jetos: Pousada Aldeia dos Lagos (Silves- AM), Mamirauá (Tefé - AM) e Guaporé (Costa Marques -RO). O AMAZONAS, ECOTURISMO E AUSÊNCIA DE POLÍTICAS REGIONAIS Em 1996, através do Ministério do Meio Ambiente, o Amazonas recebeu o título como Estado de Referência para o Ecoturismo. Desde 1996 até hoje, o estado não possui um Plano Estratégico visando a estabelecer Diagnósticos, Ações, Programas e Regulamentações destinados ao desenvolvimento de práti- cas mais sustentáveis dos hotéis de selva da região. O Plano deve ser voltado à formação e capacitação, não só do setor público, mas principalmente, do setor privado (proprietários dos hotéis de selva) para uma necessária mudança dos índices de desempenho através de processos de certificação e da significativa melhoria dos padrões de atendimento e qualidade dos produtos ecológicos já existentes e dos futuros. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Assim, este processoimplica em mecanismos de certificação, fiscalização, estratégias de marketing, oferta de produtos e serviços qualificados e diferenci- ais, preservação dos ambientes e capacitação e melhoria na qualidade de vida dos locais. Na ausência deste plano, os hotéis de selva vêm apresentando diminuição considerável de visitantes. Indicadores da Empresa Estadual de Turismo (Amazonastur) apresentam os seguintes dados: em 2001, 36.635; em 2002, 25.413; em 2003, 16.452; em 2004, 17.872. Apesar do relativo crescimento em 2004 em relação ao ano anterior, percebe-se um decréscimo significativo no fluxo. Conforme os especialistas os maiores empecilhos para a expansão dessa ati- vidade tanto no Amazonas quanto no Mato Grosso do Sul são os custos das passagens aéreas, a ausência de vôos diretos, custos estes nem sempre propor- cionais à qualidade e ao conforto dos equipamentos e serviços. ECODESING x HOTÉIS DE SELVA Andersen (1990) em relação às instalações adequadas ao ecoturismo faz uma comparação da instalação ecoturística com “janelas para o mundo natural”. Dentro desta perspectiva, acrescenta ser necessária certa “sensibilidade” dos responsáveis como arquitetos, construtores e gestores objetivando conseguir instalações compatíveis com os frágeis limites da natureza. Declara, ainda, (id.: 202) serem necessários códigos de ética ambiental e de critérios gerais para projetos em ecoturismo, pois estes são passos positivos para garantir que essa sensibilização esteja de fato, presente. Endossamos a proposta acima e a utilizamos para fazer um paralelo entre alojamentos com baixo impacto ecológico e a dimensão de ecodesign, entendi- da, a partir da concepção de Fiksel (1996) ao salientar que o projeto deve ter espeito aos objetivos ambientais, de saúde e segurança, ao longo de todo ciclo de vida de um produto ou processo, tornando-os ecoeficientes. Segundo Fiksel (1996) o ecodesign possui duas vertentes: a ecoeficiência e a ecocidadania. A ecoeficiência objetiva promover um sentido de melhoria eco- nômica das empresas ao eliminarem resíduos e ao usar os recursos de forma mais coerente. As empresas ecoeficientes reduzem custos, mais competitivas, obtêm vantagens em novos mercados, utiliza tecnologias limpas e segue con- ceito do “ciclo de vida” do produto de maneira ecologicamente correta do nascimento ao descarte. A segunda vertente, a ecocidadania diz respeito ao uso do design de objetos n na utilização de resíduos ou materiais recicláveis ou de exploração sustentável, 136 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    para compor peçascom identidade regional. O ecodesign significa uma mudança de mentalidade, representando desse modo, a materialização de uma estratégia de início de processo. Portanto, concebe-se um produto não somente como um conjunto de elementos tangíveis, mas também com um agregado de serviços que ajudarão ao consumidor na satisfação de suas necessidades e desejos. Verificamos que ecoeficiência e a ecocidadania estão interligadas aos princí- pios do ecoturismo, pois ambos visam proporcionar o envolvimento das comu- nidades e melhoria da qualidade de vida local, reduzindo os impactos ambientais. O ecodesign quando aplicado às instalações ecoturísticas pode contribuir muito para criar um cenário propício e favorável aos objetivos de conservação e geração de qualidade de vida tanto para o turista quanto para o residente. CRITÉRIOS PARA ESTABELECER ECOEFICIÊNCIA E ECOCIDADANIA 1 Uso de zoneamento econômico ecológico: aplicação de modelos planeja- mento e gestão de localidades; de controle de visitação; zoneamento de contro- le das áreas naturais; limites no acesso a determinadas áreas no período de reprodução das espécies; distância mínima à observação de animais; capacidade de carga com instalação de pontos de acesso e recepções para o controle do número de visitantes. Deve, também, induzir a construção de instalações com caminhos sinalizados e uso de passarelas; 2 Instalações de alojamentos adequados à localidade: a arquitetura seguirá a realidade regional, utilizará materiais e mão-de-obra locais. Uso de madeira local e/ou de madeira certificada, pesquisa de ocorrência de enchentes, as con- dições climáticas, das condições adequadas de solo e sua capacidade de supor- tar edificações. Criação de passarelas para visitantes que reduzam os impactos físicos, além de torres e postos de observação de animais; 3 Usos de técnicas de gestão de consumo de água e produção de esgotos adequados ao meio ambiente: os filtros podem ser sistemas alternativos para reduzir o escoamento de sedimentos e entulhos. As fontes potenciais de som ou mau odor devem ser examinados; deve-se utilizar reciclagem e reutilização de toalhas e lençóis para reduzir o consumo de água, sabão e energia. 4 Usos de formas renováveis de energia: utilização de formas renováveis de energias (solar, bio e hídrica) e aplicação de instrumentos de contenção de energia. A iluminação externa do local deve ser limitada e controlada a fim de se evitar interferência nos ritmos dos animais; 5 Desenvolvimentos de sistemas de transporte mais ecológicos: os transpor- tes devem respeitar os ambientes, proporcionar soluções alternativas para a Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    redução de emissãode gases e de ruídos; estimulação do uso de transporte público e a construção de ciclovias e passarelas; 6 Utilização de trilhas e caminhos existentes a prática de trekking: a constru- ção de trilhas deverá considerar a excessiva destruição da vegetação, incluir curvas para torná-las mais atrativas, com extensão regular e com construção circular, para que os turistas regressem ao ponto de partida por outra área e não passem duas vezes pelo mesmo sítio; 7 Envolvimento das comunidades locais: o nível de participação/gerenciamento as comunidades deve acompanhar tanto a fase de planejamento quanto de ges- tão. Para tal, o conhecimento das necessidades e dos interesses dos moradores vai favorecer um melhor desempenho compartilhado. CONCLUSÕES A arquitetura, em geral, rompe com a ecologia e opta por recintos fechados à paisagem e pelo uso de mobílias industrializadas. Geradores barulhentos movi- mentam os eletroeletrônicos e a iluminação noturna. O desmatamento da mata ciliar no entorno, o assoreamento e poluição de rios através de refugos demons- tram a ausência de tratamento adequado aos detritos. Uma minoria dos hotéis segue o formato redondo, de madeira e cobertura de palha, como as malocas dos indígenas. A maioria utiliza o formato quadrado, de madeira e telha de amianto. Poucos utilizam passarelas elevadas. As madeiras utilizadas não têm selo verde, com exceção da Pousada Aldeia dos Lagos. Raros mantiveram áreas vegetais adjacentes e edificações esparsas para facilitar o acesso e a passagem de animais. As dimensões ultrapassam 20 habitações. Os banhos não foram colocados longe das cabanas para se assegurar que as águas servidas não entrem nos rios ou quebradas. As comunidades já habitavam as localidades e, raramente, envolvida, o único auxilio é na venda de artesanato. Com a exploração do turismo iniciada após construção de hotéis de selva, alguns comunitários passaram a se dedicar mais à fabricação de artesanato para serem comercializados aos turistas. Apesar da introdução de uma nova fonte de renda não houve mudanças significativas na melhoria da qualidade de vida da população em relação ao acesso à educação, à saúde, à capacitação e à cidadania. Dos hotéis pesquisados, a Pousada Ecológica Aldeia dos Lagos, em Silves destaca-se pelo viés da sustentabilidade. Na maioria, constatou-se: arquitetura nociva à ecologia, ausência de infraestrutura adequada, não-oferta de serviços de qualidade, mínima capacitação de recursos humanos, alto custo dos pacotes, 138 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    roteiros ‘iguais’, poucadivulgação, subempregos para os locais, ausência de zoneamento econômico ecológico e de um estudo dos impactos socioculturais, falta de tratamento dos detritos e não efetiva participação das populações. Esses elementos reforçam a noção de que a natureza é mercantilizada, apenas, como um “meio” que dá oportunidade de uma minoria ter uma relativa experiên- cia com as culturas e povos diferentes, sem que o referido processo traga efeti- vamente benefícios para as populações receptoras. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Ano: 2003 Publicação original: anais Formato da contribuição: artigo Fonte: Ecoturismo: Do natural ao Cultural (e vice-versa). In: ENCONTRO NACIONAL DE RECREAÇÃO E LAZER, 2003, Santo André - SP. Anais do XV Encontro Nacional de Recreação e Lazer. Santo André: SESC, 2003. E-mail do(s) autor(es): rogeriosantosp@pop.com.br; srsilva@ufv.br Títulos acadêmicos principais atuais: Rogério Santos Pereira - Acadêmico de Educação Física da UFV. Membro do Grupo de Pesquisa Ensino, Corpo e Sociedade. Bolsista PIBIC/CNPQ Silvio Ricardo da Silva - Professor Doutor do Departamento de Educação Física da UFV. Membro do Grupo de Pesquisa Ensino, Corpo e Sociedade e do GPL/ FACEF/UNIMEP Samuel Gonçalves Pinto - Acadêmico de Educação Física da UFV. Membro do Grupo de Pesquisa Ensino, Corpo e Sociedade. Bolsista PIBIC/CNPQ Eliane de Souza Resende - Acadêmica de Educação Física da UFV Ecoturismo: do natural ao cultural (e vice-versa) Rogério Santos Pereira, Silvio Ricardo da Silva Samuel Gonçalves Pinto Eliane de Souza Resende O meio ambiente, como algo significativo, se faz no contato do ser hu- mano com a natureza. Esse contato pode beneficiar todos aqueles que estão inseridos nesse processo (turistas, população receptora, profissio- nais da área, natureza). Aproximar o ser humano com o natural são oportu- nidades valiosas para uma experiência com possibilidades educacionais que se mostre associada a princípios do desenvolvimento sustentável. Ao mesmo tempo em que a conscientização das pessoas para as questões ambientais torna-se indispensável para um reequilíbrio ecológico, os espa- ços ligados à natureza oferecem amplas possibilidades para a vivência do lazer e para a sustentação econômica de diversas regiões fundamentada em princípios do desenvolvimento sustentável. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    A NATUREZA ÉCULTURAL As relações do ser humano com a natureza, dentro do contexto da sociedade urbana atual, são permeadas por uma troca. Ao mesmo tempo em que a conscientização das pessoas para as questões ambientais torna-se indispensá- vel para um reequilíbrio ecológico, os espaços ligados à natureza oferecem amplas possibilidades para a vivência do lazer e para a sustentação econômica de diversas regiões. Entender as possibilidades que uma atividade ligada à natureza pode englobar necessita de uma breve reflexão sobre questões que envolvem o lazer, o turismo e o meio ambiente. È importante ressaltar que esses pontos para reflexão não se apresentam dissociados e estanques. Pelo contrário: interagem, dialogam concei- tos e objetivos, enriquecem a atividade com uma visão crítica a respeito do ser humano e sua relação com o mundo que o cerca e que é transformado por ele. Villaverde (2002) associa a experiência do lazer à vivência, produção e reelaboração de cultura, num espaço-tempo conquistado pelos sujeitos às im- posições da vida no mundo, visando a humanidade mais plena, especialmente em suas expressões de liberdade e ludicidade. Assim, o lazer afasta-se do senso comum que o incorpora como mero descanso ou divertimento e apresenta pos- sibilidades de fruição, crítica e transformação da realidade. As atividades turísticas, marcadas pela quebra da rotina temporal e espacial, pela busca de novas paisagens, de novas pessoas e costumes (MARCELLINO, 2000), relacionam-se diretamente com o lazer: É neste sentido que considero possível entender o lazer, universo no qual se inclui a atividade turística, como campo de experiênci- as humanas privilegiadas junto aos processos de constituição de subjetividades, já que (...) oferece uma rica possibilidade de exer- citar e intensificar uma relação renovada consigo próprio, com a cultura e com a alteridade, aí incluídos os outros seres humanos e os demais seres e elementos do planeta. (VILLAVERDE, 2002) Pensar em turismo não permite uma visão reducionista ligada somente à busca por conhecer novos lugares e paisagens. Por outro lado, o turismo também não pode ser visto e valorizado apenas pelo retorno financeiro que ele pode gerar às regiões que se tornam pontos turísticos. Assim, A atividade turística, entendida não somente como atividade eco- nômica, mas como prática social complexa e multifacetada, im- plica essencialmente o deslocamento de pessoas e a relação des- 142 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    sas pessoas entresi, com a comunidade e com o lugar visitado. Neste sentido, em meio a todos os fluxos de serviços inerentes à atividade turística (viagens, transportes, hospedagem, gastronomia, publicidade, etc.), não podemos desconsiderar a dimensão das relações humanas com as quais se constitui o fazer turístico. (VILLAVERDE, 2002) A relação do ser humano com o meio ambiente é marcada pela pouca valorização ao mundo natural. No entanto, apresenta-se como um agravante a idéia de que o espaço natural a ser visitado é inato, virgem, intocado. O meio ambiente, como algo significativo, se faz no contato do ser humano com a natureza, com as pessoas, com a cultura e costumes, com conhecimentos sobre a região, fauna, flora, relevo, histó- ria, população. Um contato com a natureza é travado despertando sentimentos e exercitando todos os sentidos. Para BONTEMPO (s.d.), ver e compreender a natureza como o resultado de inúmeras relações de causa e efeito pode contribuir para uma religação, um novo despertar para a valorização do todo: As relações no lazer dos homens com eles próprios e com a natureza, também precisam de olhares sensíveis, pois, são nos momentos de aventura, de desafios que os homens demonstram as suas intenções, solidárias ou não. E nesse momento de desgas- te da natureza ela precisa de sensibilidade para o seu reequilíbrio ecológico a partir da ecologia humana que se dá pela solidarieda- de. (BEZERRA, 2002) Excursões que aproximam o ser humano com o natural são oportunidades valiosas para uma abordagem, inclusive com possibilidades educacionais, que inclua esses valores. Para RIBEIRO (1997, p. 36), a ruptura do cotidiano, o descotidianizar, permite, em maior ou menor grau, sair da reprodução massiva, ossificada nas rotinas obrigatórias e previsíveis, tornando-se tanto um ângulo potencialmente revelador de aspectos desconhecidos da realidade quanto uma posição diferenciadora dos indivíduos. O ecoturismo é motivado pelo desejo de ver ecossistemas em seu estado natural, sua vida selvagem, assim como sua população nativa, sua cultura: O ecoturismo, ou turismo ecológico, é a modalidade de turismo mais falada dos últimos tempos. Consiste em promover viagens por áreas naturais não degradadas ou não poluídas, com o obje- tivo específico de estudar, admirar e desfrutar da paisagem e de suas plantas, admirar a beleza da fauna e também as manifesta- ções culturais – passadas e presentes – encontradas nessas áreas. (FARAH NETO, SILVA e CAPELLA, 2000) O Brasil apresenta amplas possibilidades para a ampliação do ecoturismo como uma atividade atrativa e economicamente viável. Para FUCKS (2002), as Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    especificidades regionais elocais que caracterizam o vasto território brasileiro - relacionadas aos aspectos geográficos, climáticos, étnicos e sócio-culturais (arquitetura, gastronomia, folclore, religião) do lugar onde a atividade turística se desenvolve - são recursos que podem ser empregados como importantes componentes da oferta turística, na formatação de um produto turístico rural de qualidade e de características singulares. Segundo dados do Ministério do Meio Ambiente1 o ecoturismo já representa 5% do turismo mundial. Provavelmente alcançará 10% nesta década que se inicia. Para a Organização Mundial do Turismo, enquanto o turismo convencional re- gistra um crescimento de 7,5% ao ano, o ecoturismo ultrapassa 20%. Quando falamos no desenvolvimento do turismo e obviamente estamos falando em ações planejadas, devemos levar em conta critérios de sustentabilidade que atendam a anseios e demandas Esta sustentabilidade depende de como a atividade é plane- jada e executada, considerando os aspectos do meio ambiente da área visitada, sua economia e os fatores sociais. ECOTURISMO SUSTENTÁVEL O conceito de desenvolvimento sustentado2 tem três vertentes principais: crescimento econômico, eqüidade social e equilíbrio ecológico, induzindo um “espírito de responsabilidade comum” como processo de mudança no qual a exploração de recursos materiais, os investimentos financeiros e as rotas de desenvolvimento tecnológico deverão adquirir sentido harmonioso. Significa uma experiência ou prática bem sucedida, que tem como pressuposto o uso adequado dos recursos ambientais, de tal modo e em ritmos tais que o recurso seja capaz de se recuperar, que a prática resulte em benefícios sociais com equidade e seja economicamente viável, resultando numa melhor qualidade de vida para as gerações presentes e futuras. PIGRAN, citado por UVINHA (2002), ressalta a sustentabilidade como uma pos- sibilidade real a partir da implantação do turismo: O turismo está assumindo um crescente e promissor lugar na economia global e, com isto, a expectativa é de que o estabele- cimento do mesmo será desenvolvido e administrado visando o mais alto grau da excelência ambiental. Assim, o turismo não deveria ser visto como uma ameaça para o ambiente, mas sim um instrumento de positiva mudança ambiental. A busca de formas sustentáveis de turismo pode servir como um poderoso incentivo visando proteção e intensificação da base de reservas biofísicas de uma região, junto a um maior cuidado e preocupação para a cultura e patrimônio da localidade” 144 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Os benefícios queo ecoturismo possibilita não estão restritos somente aos turistas que, inserindo tal atividade no seu tempo de lazer, vivenciam a quebra temporal e espacial da suas rotinas. Pensar em um ecoturismo sustentável insere atores até então esquecidos nesta cena: a população receptora, que tem no turismo uma das soluções econômicas para a região em que vive: As atividades de turismo e lazer no meio rural têm assumindo destacado papel junto à sociedade, pois surgem como uma alter- nativa ou meio através do qual podem ser gerados benefícios tanto à população urbana (visitantes e turistas) - que pode vivenciar experiências autênticas em contato com a natureza e os valores histórico-culturais do meio rural - como à população receptora (comunidade, família empreendedora) que, ocupando-se da pres- tação de serviços turísticos (hospedagem, alimentação e lazer), pode adquirir condições (renda, auto-estima, ocupação/traba- lho, cultura/conhecimento) para melhorar sua situação de vida no campo. O ecoturismo, dentro da sua característica de manter em contato os seres humanos com o meio ambiente e com outras culturas, aproxima-se do conceito de desenvolvimento sustentável. Encontrar o equilíbrio entre os interesses eco- nômicos que o turismo estimula e um desenvolvimento da atividade que preserve o meio ambiente não é tarefa fácil, principalmente porque seu controle depende de critérios e valores subjetivos e de uma política ambiental e turística adequada. Para GOULART3 (2003), O desenvolvimento sustentável do turismo deve considerar a ges- tão de todos os ambientes, os recursos e as comunidades receptoras, de modo a atender às necessidades econômicas, so- ciais, vivenciais e estéticas, enquanto a integridade cultural, os processos ecológicos essenciais e a diversidade biológica dos meios humano e ambiental são mantidos através dos tempos. A concretização e realização do ecoturismo sustentável deve ter como um dos eixos a Educação Ambiental, buscando assim contribuir para a formação de cidadãos conscientes e aptos a atuarem na construção de um modelo ecologi- camente equilibrado. As atividades devem ser acompanhadas de uma educação baseada no (re)conhecimento e desejo de preservação dos espaços com os quais se interagiu durante a atividade ecoturística. Acreditamos, com vista no referencial levantado, se possível realizar uma atividade ecoturística que possa contribuir para a construção de uma realidade mais harmoniosa. Para isso, a atenção deve estar centrada para o estabeleci- mento de uma educação ambiental que aborde aspectos primordiais relaciona- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    dos ao desenvolvimentoe ao meio ambiente, tais como população, saúde, paz, direitos humanos, democracia, fome, degradação da flora e fauna, estimulando a solidariedade, a igualdade e o respeito aos direitos humanos, valendo-se de estratégias democráticas e da interação entre as culturas4. Dessa forma, enten- demos que a educação ambiental deve tratar as questões globais críticas, suas causas e inter-relações em uma perspectiva sistêmica, em seu contexto social e histórico. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] NOTAS 5 Informações obtidas no site do MMA: www.mma.org.br 2 Em 1983, a Assembléia das Nações Unidas encomendou um relatório à comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. O relatório desta comissão, publicado em abril de 1987 e posteriormente denominado “Nosso Futuro Comum”, vem difundindo o conceito de desenvolvimento sustentado. 3 GOULART, Ézio Dornela. Ecoturismo e Desenvolvimento Sustentável (www.ecoviagem.com.br/ecoartigos) 4 A Educação Ambiental é caracterizada aqui tendo como referência os Princípios da Educação para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global (www.mma.gov.br/port/sdi/ea/tratea.cfm) 146 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2003 Publicação original: capítulo de livro Formato da contribuição: texto resumido Fonte: Livro intitulado “Turismo, Lazer e Natureza”, organizado por Alcyane Marinho e Heloisa Turini Bruhns, publicado pela Editora Manole (Barueri - SP) em 2003. E-mail do(s) autor(es): sandovalvillaverde@hotmail.com Títulos acadêmicos principais atuais: Mestre e Doutor em Educação Física/Estudos do Lazer (UNICAMP), docente da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte e membro do GTT Recreação/Lazer do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte. Refletindo sobre lazer/turismo na natureza, ética e relações de amizade Sandoval Villaverde Monteiro Minha intenção neste escrito é partilhar algumas idéias sobre os temas indica- dos em seu título. Busco desenvolver aqui algumas reflexões sobre lazer e turis- mo, especialmente aquelas experiências vivenciadas em ambientes naturais, pre- tendendo uma aproximação ao debate sobre ética, subjetividade e formas con- temporâneas de sociabilidade, em especial as relações de amizade. Num primeiro momento, a discussão é feita em torno de algumas considera- ções gerais sobre lazer e a atividade turística, tendo-as como experiências hu- manas de grande complexidade e de crescente inserção na vida das sociedades. O lazer, universo no qual se insere a atividade turística, é discutido como campo fértil de práticas sociais que mobilizam processos renovados de constituição de subjetividades, pois, assim como outras experiências humanas, oferece possibi- lidades especiais para o exercício e intensificação de uma relação diferenciada consigo próprio, com o outro e com a vida no mundo. Neste sentido, a atividade turística é pensada em dimensões que transcendem seu tratamento como mera atividade comercial e de consumo que, aliás, ocupa cada vez mais espaço no setor denominado “de serviços”, buscando seu entendimento como campo he- terogêneo de relações humanas e de relação das pessoas com os lugares e com a cultura. No âmbito dessa abordagem, é problematizado especialmente o seg- mento do turismo conhecido genericamente como “ecoturismo”, cuja ênfase recai na vivência turística em ambientes naturais e paisagísticos, e onde se pretende implícita a idéia de preservação da natureza. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Num segundo momento,a intenção é direcionar a discussão para algumas vivências corporais geralmente praticadas em ambientes naturais, as quais têm sido associadas às expressões “esportes radicais”, “turismo ou esporte de aven- tura”, etc., discutindo aspectos de sua expansão e a incorporação pelo mercado turístico e esportivo. Mesmo considerando as contradições e paradoxos da lógica que motiva tal incorporação, o esforço é o de problematizar as potencialidades da vivência de tais práticas corporais para o exercício de uma relação humana diferenciada com o corpo e com a natureza, o qual possibilite abrir caminhos para processos renovados de subjetivação. Tal problematização nos aproxima do debate contemporâneo sobre subjetividade, ética e formas de sociabilidade, sugerindo a criação e recriação de formas alternativas de relaci- onamentos voltados para o mundo, onde a pessoa humana seja respeitada em sua pluralidade e singularidade. CONSIDERAÇÕES SOBRE LAZER/TURISMO E A TEMÁTICA AMBIENTAL O debate sobre lazer e turismo, assim como suas relações com a problemática ambiental, têm merecido larga atenção em diversos setores da vida social e da produção acadêmica, o que demonstra sua atualidade e relevância, ao mesmo tempo em que exige análises multi-referenciadas e cada vez mais rigorosas em busca de sua compreensão e crítica. A atividade turística, entendida não somente como atividade econômica, mas como prática social complexa e multifacetada, implica essencialmente o deslo- camento de pessoas e a relação dessas pessoas entre si, com a comunidade e com o lugar visitado. Neste sentido, em meio a todos os fluxos de serviços inerentes à atividade turística (viagens, transportes, hospedagem, gastronomia, publicidade, etc.), não podemos desconsiderar a dimensão das relações huma- nas com as quais se constitui o fazer turístico. Parece razoável admitir que a atividade turística está implicada num universo mais amplo, o do lazer, o que torna imprescindível discuti-los conjuntamente. Acredito que somente é possível apreender o significado de lazer no seio da cultura onde este é construído, e, conseqüentemente, penso ser de pouca utili- dade estar preso a hermetismos conceptuais, especialmente quando eles aspi- ram ruidosamente à generalização e à condição de universalidade. No entanto, considero ser necessário pensar o lazer contemporâneo como uma prática social engendrada pelas transformações no mundo do trabalho, pela complexificação das sociedades e pelo advento da urbanização, entre outros fenômenos situados na história. Mais que isto, não se deve perder de vista que a experiência do lazer1 diz respeito, em minha opinião, a uma experiência humana de grande complexidade, sendo marcada pela fruição subjetiva, lúdica2 e inten- cional do mundo. O aspecto da intencionalidade me parece importante de ser 148 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    lembrado, pois permiteenfatizar tal experiência na esfera da subjetividade, a qual não somente é produzida no caldo da sócio-cultura (Guattari & Rolnik, 1986), mas também vivencia, reflete, produz, reelabora e ressignifica essa mes- ma cultura e o mundo. Dessa forma, associo a experiência do lazer à vivência, produção e reelaboração de cultura, num espaço-tempo conquistado3 pelos sujeitos às imposições da vida no mundo, visando a humanidade mais plena, especialmente em suas expressões de liberdade e ludicidade. É neste sentido que considero possível entender o lazer, universo no qual se inclui a atividade turística, como campo de experiências humanas privilegiadas junto aos processos de constituição de subjetividades, já que, ao potencializar os aspectos anteriormente destacados, oferece uma rica possibilidade de exer- citar e intensificar uma relação renovada consigo próprio, com a cultura e com a alteridade, aí incluídos os outros seres humanos e os demais seres e elementos do planeta. A possibilidade de uma intensificação da relação consigo próprio e com o mundo na vivência do lazer, assim como em qualquer outra dimensão da vida humana, não aponta, necessária ou essencialmente, para uma finalidade ou devir “positivo”, “desejável” ou mesmo “correto”, segundo esta ou aquela visão de mundo ou corrente de pensamento. Mas pode apontar, pelo menos, para a pos- sibilidade de uma forma diferente de existência, num mundo de relações incrivel- mente heterogêneas. Pode apontar para um devir criativo, onde o cuidado con- sigo próprio, com o outro e com o mundo seja uma constante, sobretudo sob a égide das intensidades4. É pressupondo esta concepção de lazer que me interessa discutir a atividade turística, seja explorando suas dimensões mais visíveis e factuais, evidenciando contradições e possibilidades, seja assumindo o esforço de pensar tal atividade em seus aspectos éticos e teleológicos. Essa espécie de “dever-ser” turístico pressupõe, ao meu ver, uma esmerada discussão sobre o papel que a atividade turística assume ou seja chamada a assumir, especialmente enquanto campo de ações humanas que oportuniza um rico e complexo locus de relações interpessoais, de vivência/produção de cultura e de relações com o mundo/ natureza. Campo de ações humanas esse que, aliás, oferece um rico cenário para o exercício do que tenho chamado de ética relacional: uma ética onde importe não somente a relação do sujeito consigo próprio, “mas também a relação com outras pessoas, consideradas em sua pluralidade5, e ainda com outros seres e elementos existentes no mundo, considerados em sua diversidade” (Villaverde, 2001, p. 120). Tal ética relacional, aproxima-se das formulações de Sant’Anna (2000), à me- dida que esta autora discute condutas éticas onde, no lugar da dominação, são exercidas composições entre seres humanos e não humanos, as quais não se limitam a adequações harmoniosas fadadas a tornar os seres similares uns aos Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    outros, mas quegarantam até o fim a preservação das diferenças e singularida- des. Trata-se de realçar tais diferenças e singularidades, sem com isso degradar qualquer uma delas em proveito da outra. Com estas considerações iniciais sobre lazer e turismo, problematizemos um pouco mais algumas dimensões da atividade turística, setor que a cada dia se expande, se transforma e ganha importância no cenário contemporâneo. Essa expansão pode ser vislumbrada ao lembrarmos alguns números do turismo: são 204 milhões de pessoas no mundo, empregadas pelo turismo, o que representa 10, 6% da força de trabalho global. O turismo é o setor que mais contribui para a economia mundial, produzindo cerca de 10, 2% do produto nacional bruto mun- dial, além de ser o maior gerador de receitas de impostos, no valor de 655 bilhões de dólares (Naisbittt, citado por Trigo, 1999). De acordo com Trigo (1999), as expectativas do crescimento global do turis- mo são de 6, 1% ao ano, o que representa 23% a mais do que o crescimento da economia mundial, podendo-se estimar que até o ano 2005 o turismo gerará cerca de 144 milhões de empregos em todo o mundo. Mesmo que tais projeções possam merecer uma revisão mais atualizada, estes dados, ao evidenciar a mag- nitude econômica da atividade turística, apontam pelo menos para dois aspec- tos: cada vez mais segmentos da sociedade estarão envolvidos com o turismo, o que requer uma atenção especial quanto aos impactos socioambientais e aos balizamentos éticos deste setor de serviços em franco crescimento; a atividade turística necessita de um amplo planejamento, pesquisa e reflexão constante, especialmente visando a atenuação de seus aspectos negativos concomitante à busca do incremento de suas potencialidades positivas. É importante ressaltar, sobre a expansão da “indústria turística”, que as maio- res taxas de crescimento ficam por conta do segmento turístico conhecido genericamente sob a expressão “ecoturismo”, o qual se refere a uma multiplicidade de práticas vivenciadas em ambientes naturais, em torno das quais privilegiarei minhas análises. Como observa Serrano (1997), o crescimento dessas modalida- des, vinculado à aspiração de uma espécie de “retorno à natureza”, afirma ainda mais sua importância como fenômeno social ao ser considerado em conjunto com outros sinais de busca dessa natureza, também associados ao mesmo uni- verso mental das práticas do ecoturismo: expansão das medicinas alternativas, dos esportes praticados em ambientes naturais, da alimentação natural e do ambientalismo, somente para citar alguns. A autora chama atenção também para a necessidade de não negligenciar os impactos sociais e naturais decorrentes do desenvolvimento do ecoturismo, mesmo considerando a retórica do “baixo im- pacto”, centrada na imagem veiculada pelo seu marketing de “indústria limpa”. A expansão do ecoturismo parece seguir o sucesso das fórmulas “eco”, asso- ciando-se ao discurso do propalado “desenvolvimento sustentável”. Para Silva (1996), o paradigma de suporte desses discursos constitui-se em termos 150 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    lingüísticos. Trata-se deum mecanismo de adjetivação: turismo ecológico ou ecoturismo, gestão racional, zoneamento geo-ambiental, entre outros. Tal adjetivação, segundo a autora, serve não somente para “legislar” acerca de determinadas práticas, mas também para representá-las como aprioristicamente isentas de serem questionadas, tendo em vista estarem de acordo com a legali- dade ambiental. De acordo com Silva (1997), falar “do lugar” da ecologia, isto é, mostrar-se atuando em concordância com uma postura ecológica, significa hoje estar se colocando num espaço de significação do político. O discurso ecológico consti- tui-se assim num discurso político, buscando legitimar as práticas a ele vinculadas, isentando-as de questionamentos, na medida em que, por um recurso lingüístico de adjetivação, possibilita uma relativização dos sentidos dessas mesmas práticas. O discurso do desenvolvimento sustentável está explícito na própria definição oficial do ecoturismo pela Embratur, que o considera como “um segmento da atividade turística que utiliza, de forma sustentável, o patrimônio natural e cul- tural, incentiva sua conservação e busca a formação de uma consciência ambientalista através da interpretação do ambiente, promovendo o bem estar das populações envolvidas” (Brasil, 1994, p. 19). O conceito de desenvolvimento sustentável, atrelado à noção de ecodesenvolvimento, tem sua referência principal no relatório Nosso Futuro Comum, o qual foi elaborado pela Comissão Mundial Sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento em 1987. O “turismo sustentável”, outra denominação que traduz a noção de ecoturismo, teria seu apoio nos princípios do uso sustentável dos recursos naturais, da preservação da diversidade natural e cultural, do bene- fício e integração das comunidades locais, etc. Para Luchiari (2000), a partir do referido relatório e de seus ideários, os fatores socioculturais e ecológicos foram incorporados às políticas econômicas, soci- alizados no imaginário coletivo e incorporados ao próprio mercado, o qual passou a comercializar produtos ecológicos, assim como distintivos de identi- dade cultural. Nesta lógica, o conceito de desenvolvimento sustentável, apesar de cientificamente legítimo, é antes de mais nada um instrumento político, e portanto funciona como uma panacéia que pretende garantir a exploração eco- nômica ao longo do tempo e em escala planetária. Uma outra análise bastante instigante sobre os equívocos e paradoxos ligados à noção de ecoturismo pode ser vista em Yázigi (1999), o qual discute, inclusive, a inadequação semântica do próprio conceito, especialmente do prefixo “eco”. Em sua opinião, tal prefixo pretende ter um efeito moralizante, pois ao entrar na denominação de parques6, arquitetura, alimentação ou artesanias, estabelece uma espécie de distinção entre o bem e o mal, no qual as pessoas têm a oportu- nidade de se exorcizar. O autor argumenta que a Ecologia é uma criação cientí- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    fica, uma disciplinaque estuda não um ser isoladamente, mas suas relações com os mais diferentes meios vivos ou não. Neste sentido, o que se considera é, essencialmente, a relação que, quer percebamos ou não, existe em tudo, donde se pode concluir que tudo é ecológico. Portanto, “deduz-se então, não ter muito sentido falar em ‘ecoturismo’ ou ‘casa ecológica’; todo turismo ou casa são ecológicos, na medida em que o observador os relaciona com o meio. Fica então flagrante que o ‘ecoturismo’, como qualquer ‘eco’ vulgar perde sentido científi- co. A falta de entendimento da matéria conduz a práticas alheias ao verdadeiro sentido da preservação” (Yázigi, 1999, p. 117). Ainda segundo o autor, aquilo que tem sido chamado ecoturismo teria de ser reconsiderado, no sentido de situar-se adequadamente tanto no plano semânti- co como em seu conteúdo. Como a palavra já se encontra consagrada pelo uso, o autor propõe utilizá-la entre aspas ou mesmo adotar uma denominação mais adequada: turismo preservacionista. Tal expressão estaria mais de acordo com uma possível associação com a busca de preservação e recuperação dos ecossistemas. Um primeiro problema, apresentado pelo autor, é a dificuldade em se definir o que são situações de equilíbrio dos ecossistemas, aí incluídos a espécie humana e suas obras, especialmente considerando o contexto de um complexo mundo em constantes e aceleradas mudanças. Aqui passamos a esmiuçar as idéias centrais que articulam as práticas etiquetadas como ecoturísticas. Nesta linha de problematização, Luchiari (2000) argumenta que grande parte das políticas e diretrizes para o setor turístico, inclusive a própria Organização Mundial do Turismo (OMT), recorreram à idéia de um limite de crescimento da atividade turística, utilizando-se dos conceitos de impacto, de capacidade de carga e de sustentabilidade. Mas, questiona a autora, Como definir o limite suportável de um meio, quando o estamos relacionando a uma prática social e a formas distintas de territorialidade? Se estamos analisando grupos sociais extrema- mente diversos, como medir o limite do impacto cultural, econô- mico, político, ambiental e tecnológico, sem considerar a dife- renciação do meio e a relatividade social no tempo e no espaço? Como saber quando a pressão turística não só traz novas formas para a reorganização do lugar, mas deforma o meio e a sociedade local? A idéia de impacto pressupõe que um lugar possua uma resistência-limite, mas, do ponto de vista do meio e da população local, como é possível prever esse limite utilizando variáveis quan- titativas (freqüentação, fluxo, número de leitos, etc.), como faz a maioria das análises de impacto, de ciclo ou capacidade de car- ga?” (Luchiari, 2000, p. 117). Todos esses modelos de controle, como observa a autora, tomam os lugares turísticos como se fossem sistemas fechados, totalmente passíveis de terem 152 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    seus fluxos controlados,valendo-se de modelos advindos da ecologia, da biolo- gia e da física, de forma a garantir precisão e legitimidade científica. No entanto, a atitude de tomar a sociedade como sujeito da construção dos lugares turísti- cos deve aceitar a existência de inúmeras variáveis subjetivas, não passíveis de quantificação, além de variadas combinações possíveis e imprevisíveis. Resulta evidente a complexidade da discussão sobre turismo e preservação da natureza, uma vez que tais práticas sociais podem, dependendo do contexto (político e sócio-econômico) em que ocorrem e das diretrizes éticas que as norteiam, seguir em direções opostas. De qualquer modo, convém ressaltar, os problemas ambientais hoje existentes exigem muito mais do que uma atividade turística responsável. Na opinião de Yázigi (1999), a qual me parece coerente, os problemas ambientais realmente sérios, do quais os outros derivam, são basica- mente três: os modos de produção (aí incluída a tecnologia adotada), os padrões de consumo e as taxas populacionais em expansão. Uma atividade turística com preocupações ambientais verdadeiras há que considerar esses problemas em seu conjunto, além de fomentar uma postura preservacionista que não somente contemple o espaço-tempo de lazer e turismo, mas que se estenda para a vida como um todo. A proposta de usar uma outra expressão, em alternativa ao termo “ecoturismo”, para denominar uma atividade turística realmente comprometida com uma pos- tura ética de preservação socioambiental, me parece bastante válida. Além da apropriação política indevida do termo “ecoturismo” pelos discursos oficiais dos segmentos públicos e privados ligados ao turismo, e de sua inadequação semântica, muitas das atividades com a estampa “eco”, desgastada pela lógica do mercado e pela irresponsabilidade de pretensos “ecoturistas”, parece ter-se desviado bastante de suas intenções originais implícitas. É obvio que mudar a expressão para se referir às mesmas práticas nada garante em termos de mudança, mas esta não é exatamente a questão. Falar, por exem- plo, em um turismo preservacionista, ou outro conceito a ser melhor amadureci- do, é assumir uma postura crítica e demarcar um posicionamento ético-político de diferenciação em relação ao turismo de massa ou às práticas turísticas pre- tensiosamente rotuladas de ecológicas, mas sem maiores compromissos com a qualidade das relações humanas e com o fomento de novas e responsáveis formas de relação do humano com o mundo. Uma outra idéia que me parece bastante fértil é o compromisso de assumir para a vida como um todo uma postura preservacionista, não a restringindo às experiências de lazer e turismo. Mesmo considerando as potencialidades do exercício de uma tal postura ético-política a partir da experiência de lazer/ turismo e da relação com os outros, esta deve ser permanentemente ampliada a todas as dimensões da vida, constituindo os indivíduos em seus processos de subjetivação e singularidade7. Retornarei mais adiante a este ponto. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Por enquanto, somenterelembremos o aspecto relativo e paradoxal da ativi- dade turística. Este procedimento é importante no sentido de evitar análises polarizadas e/ou reducionistas. Como lembra Luchiari (2000), é inegável o as- pecto contraditório e emblemático do turismo, o qual acentua a produção de lugares de consumo e o consumo de lugares. Contudo, a autora alerta sobre o equívoco de tomar a atividade turística apenas do ponto de vista negativo, como um vilão desarticulador de antigas formas e funções sociais que destrói o velho substituindo-o pelo novo, através de um processo linear. O turismo, ao empre- ender a mediação entre o global e o local, possibilita que se tome o lugar e o mundo em sua unidade, permitindo ainda trazer à luz novas formas de sociabili- dade, articuladas especialmente em função do processo contemporâneo de revalorização das paisagens para o lazer. Esse movimento, ao invés de contra- por o lugar ao mundo, o natural ao artificial, tende a impulsionar a reestruturação das relações do lugar com o mundo e a formação de organizações socioespaciais cada vez mais híbridas, misturando lógicas antigas e novas, dando origem a outras composições. São as potencialidades de possíveis novas composições, relacionando a ativi- dade turística e o lazer em ambientes naturais, as quais interessa passar a explo- rar. Quero me referir especialmente às práticas corporais lúdicas, vivenciadas como lazer e/ou esporte em ambientes naturais, as quais são paulatinamente incorporadas e dinamizadas pelo universo turístico. PRÁTICAS CORPORAIS DE AVENTURA NA NATUREZA: EXPERIMENTANDO CONDUTAS ÉTICAS E NOVAS FORMAS DE SOCIABILIDADE Essas práticas irão receber diversas denominações em seu desenvolvimento (“esportes de aventura”, “esportes radicais”, “atividades físicas de aventura na natureza”, etc.), e têm sido fortemente incorporadas pelo mercado turístico, espe- cialmente em sua versão “ecológica” ou “de aventura”, passando assim, a despei- to do discurso ecológico que a sustentam, a reproduzir acriticamente a lógica do consumo de massas, característica do modelo de acumulação capitalista. Convém ter em mente que à esta lógica corresponde o engendramento de determinadas formas de produção de subjetividade8, as quais, também por visa- rem a reprodução do modelo e de seus variados interesses, perdem sua capaci- dade crítica em relação aos agenciamentos sócio-políticos que visam normatizar as ações humanas e definir um certo tipo de sujeito. No entanto, a existência das diversas contradições e paradoxos vinculados a essas novas práticas em sua incorporação pelo mercado, seja ele turístico ou esportivo, não deve invalidar o esforço de tentar perceber o que elas trazem de renovado e potencialmente transformador na relação do indivíduo consigo próprio e com a alteridade. Numa palavra: em suas condutas éticas. 154 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Entretanto, antes deadentrar a problematização de tais potencialidades, convém discutir alguns aspectos sócio-históricos da expansão de tais prá- ticas corporais, assim como algumas questões de ordem conceptual a elas relacionadas. Javier Olivera Betrán é um dos autores contemporâneos que discute essas práticas corporais e, por sua reconhecida contribuição, vem paulatinamente se tornando uma referência teórica sobre essa temática, o que torna pertinente a interlocução com suas reflexões. De acordo com Betrán (1995), é em meados da década de setenta que surge e se propaga, especialmente nos países economica- mente mais avançados, uma nova realidade lúdica no universo das práticas cor- porais cujo enfoque é a vivência de aventura na natureza. Para o autor, estas “novas” atividades emergem como um conjunto de práticas recreativas, conso- lidando-se na década atual ao sabor dos novos hábitos, gostos e valores da sociedade pós-industrial ou pós-moderna. Ao discorrer sobre as “atividades físicas de aventura na natureza”, Betrán (1995) argumenta sobre estas práticas de lazer e turismo serem animadas, entre outras coisas, Por uma série de valores e conceitos que pertencem às novas tendências culturais características da sociedade pós-industrial e supõem uma sólida oferta no marco das práticas corporais como modelo hedonista [...] Na atualidade, as práticas corporais de ca- ráter recreativo têm-se constituído como a principal forma de utilização do lazer ativo das pessoas pertencentes aos países economicamente avançados do ocidente. Esta realidade lúdica forma parte importante da denominada indústria do lazer, a qual tem uma incidência crescente no produto interno bruto e na cri- ação de postos de trabalho, concentrando-se por sua vez num alto nível de demandas sociais de transcendência política, social e cultural (p. 6). Como é possível perceber nestas breves considerações, o autor atribui a tais práticas um caráter peculiar sintonizado com os padrões culturais, sociais, éti- cos e estéticos emergentes no mundo contemporâneo, identificando-o como pós-industrial ou pós-moderno. Como são taxativos Betrán e Betrán (1995), as “atividades físicas de aventura na natureza” representam “os novos valores sociais acordes com a ideologia desta época: consumismo, proximidade à natu- reza, individualismo, hedonismo e corpo informacional” (p. 108)9. Com as muta- ções paradigmáticas e o surgimento de novos valores e demandas sociais que seriam peculiares a este novo momento da história, esse conjunto de práticas corporais, segundo os autores, têm-se consolidado nos últimos vinte anos com bastante evidência e solidez no âmbito dessa “nova” cultura corporal. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Bétran (1995), evitausar o termo esporte para se referir a essas práticas cor- porais, entendendo-as como pertencentes a outra época, além de tratar-se de concepções diferentes do esporte moderno, tanto no que se refere às motiva- ções e condições de sua prática, como nos fins a atingir e no meio onde se desenvolvem. Embora reconheça seu caráter provisório, o autor adota a expres- são atividades físicas de aventura na natureza (AFAN) como composto semânti- co pertinente e discriminatório capaz de responder à concepção de seus estudos sobre a temática. Essas “atividades físicas” são por ele consideradas como “prá- ticas individualizadas que se fundamentam, geralmente, em condutas motrizes como o deslizar-se sobre superfícies naturais, onde o equilíbrio para evitar a queda e a velocidade de deslocamento aproveitando as energias livres da natu- reza constituem os diversos níveis de risco controlado no qual se baseia a aventura” (Betrán, 1995, p. 6). Embora possam não dar conta da totalidade de suas reflexões, as idéias aqui expostas são representativas de alguns desenvolvimentos teóricos de Javier Betrán sobre o tema, a partir das quais gostaria de fazer algumas considerações. Me parece inegável uma intensificação relativamente recente das transforma- ções tanto materiais como culturais da vida humana, o que torna pertinente admitir o momento contemporâneo como um palco de inusitados cenários (Vide Harvey (1998), Featherstone (1995) e (1997), além de outros autores). Diferente- mente de Betrán (1995), prefiro tratar o presente momento histórico simples- mente como contemporaneidade, pois, além de evitar o desgastado debate modernidade/pós-modernidade, ainda desconfio da validade teórico-filosófica desta última categoria, visto que os desdobramentos últimos da modernidade não apontam propriamente uma ruptura, legitimando o prefixo “pós”, mas uma intensa problematização e crise dos valores e ideais modernos, onde se inserem as variadas mutações nas relações sociais, na relação da pessoa humana com seu corpo, com os incrementos técnicos e com os diversos seres e elementos do mundo natural. Outro ponto a ser considerado diz respeito à expressão “atividades físicas de aventura na natureza”, proposto por Betrán (1995) como núcleo semântico ca- paz de articular tais práticas corporais. Como o autor, considero inadequada a utilização do termo esporte para se referir a tais práticas, não propriamente por pertencerem a outra época, como ele argumenta, mas por se tratar de caracte- rísticas, concepções e finalidades diferenciadas em relação ao esporte moder- no, mesmo levando em conta o processo de ampla “esportivização” de muitas dessas práticas corporais na atualidade. Embora muitas delas estejam sendo paulatinamente incorporadas ao espetáculo esportivizado (vide corridas de aven- tura e orientação, competições de rafting, escalada esportiva in door, etc.), reservo o termo esporte para me referir a “um sistema institucionalizado de práticas competitivas, predominantemente físicas, delimitadas, decodificadas, regradas convencionalmente, cujo objetivo reconhecido é, sobre a base de uma comparação de performances, de proezas, de demonstrações físicas, designar o 156 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    melhor concorrente (ocampeão) ou registrar a melhor performance (o recor- de)” (Brohm, citado por Cavalcanti, 1984, p. 42). Por outro lado, pensemos a expressão “atividades físicas”. Tal expressão, cara à Educação Física, particularmente ao segmento que prioriza a discussão sobre “atividade física e saúde”, não me parece atender satisfatoriamente às exigênci- as semânticas desejáveis e reclamadas. O termo atividade, combinado ao adje- tivo “física”, parece inadequado e limitado, pois, além de não garantir exatidão em sua especificidade, parece não exprimir a riqueza das ações motoras huma- nas presentes no repertório da cultura corporal. Uma rápida análise do vocábulo “física” nos dicionários, aponta a possibilidade de variadas coisas poderem ser chamadas atividades físicas, pois Física é a denominação da ciência que estuda as propriedades gerais da matéria, assim como as leis que tendem a modificar- lhe o estado ou movimento, sem alteração de sua composição química. “Físico”, relativo à Física, é um adjetivo também sinônimo de material, corpóreo10, o que permite admitir que a atividade física é uma possibilidade inerente não somente à pessoa humana, mas a outros seres do mundo natural e elementos da matéria. Também de forma provisória, prefiro usar a expressão práticas corporais de aventura na natureza. Práticas corporais, pois a expressão “prática”, conjugada ao adjetivo “corporais”, diz respeito diretamente à noção de uma ação intenci- onal, idéia ou projeto em realização, na qual encontra-se expressa a dimensão corporal e motriz da pessoa humana nele envolvida. O acréscimo “de aventura na natureza11” qualifica essas práticas corporais quanto a uma de suas caracte- rísticas mais latentes, o sentido de aventura e risco, e também o espaço prepon- derante onde em geral elas ocorrem, isto é, os ambientes naturais e seus elemen- tos, como a água, as matas, a montanha, o ar, etc. Uma observação a mais, também digna de ser considerada, diz respeito à tendência de conceber essas vivências corporais como práticas individualiza- das, e que se fundamentam preponderantemente no deslizar-se sobre superfícies naturais (Betrán, 1995), enfatizando o deslizar-se em superfícies lisas, fluidas e onduladas (Coelho dos Santos, 1997). Em primeiro lugar, não creio que, apenas pelo fato de serem em geral praticadas em pequenos grupos e sua disseminação não tenha o alcance dos “esportes de massa”, por exemplo, tais vivências cor- porais possam ser consideradas individualizadas ou individualizantes. A experiência de coletivo pode ser vivida tanto numa prática corporal como a caminhada por trilhas (trekking) ou rafting, cujo número de pessoas vivendo em grupo a mesma situação pode ser bem expressivo, ou numa prática como a escalada em rocha, na qual esse número é bem mais reduzido, mas onde a forma de sociabilidade exercitada é bastante intensa e qualificada12. Por outro lado, parece de pouca utilidade colocar o deslizamento em superfí- cies lisas, fluidas e onduladas como característica fundante e geral dessas práti- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    cas corporais deaventura na natureza, pois vivências como a caminhada e a escalada, para citar somente duas, não se enquadram nesta caracterização. A superfície onde se pratica a escalada é quase sempre rugosa e não é fluida como uma onda, corredeira de rio ou coluna de ar. A noção de meio fluido, indomável e inconsistente, associado a essas “novas” práticas de forma geral e vinculado à diferença entre superfícies rugosas e lisas (Coelho dos Santos, 1997), perdem um pouco de sua aplicação quando pensamos, por exemplo, na escalada em rocha. Nesta prática corporal, especialmente sendo ela vivenciada como lazer, o que está em jogo é uma composição, de preferência suave e criativa, do praticante com os obstáculos da gravidade, com as possibilidades oferecidas ao corpo pela consistente e quase sempre rugosa rocha (em suas agarras, fendas, fissuras, etc.), com os equipamentos utilizados (cordas, fitas, mosquetões, etc.) e com quem o acompanha nesta aventura em sentido vertical. Como parece perceptível, a vivência dessas práticas de forma geral denotam uma relação no mínimo diferenciada com a dimensão corpórea e com o ambien- te natural, pelo menos se as comparamos às modalidades do esporte moderno institucionalizado. Conforme discuti de forma mais detalhada em outra ocasião (Villaverde, 2001), parece haver, na dinâmica de realização de tais práticas, evidências de algumas mutações na relação da pessoa humana com o próprio corpo e com a natureza. No lugar de uma relação energética (Coelho dos Santos, 1997), comum às modalidades do esporte moderno (às quais correspondem no- ções como destreza muscular, força, potência, busca de resultados e performances, recordes, etc.), o que parece evidenciar-se na vivência das práti- cas corporais de aventura é uma relação estética com o corpo e com os elemen- tos da natureza, os quais interagem no plano das ressonâncias, do estilo, da ludicidade, das composições e negociações. Tais mudanças, apontando uma relação mais de contrato do que de controle em relação à natureza, são, ao meu ver, bastante significativas, e podem ser conside- radas como uma manifestação importante de mutações mais amplas na lógica da relação do ser humano consigo próprio e com o mundo onde vive, donde se pode vislumbrar uma de suas potencialidades: elas apresentam, exatamente pelo que trazem de novo na relação com o corpo e com a natureza, a possibilidade de exercitar uma nova relação consigo próprio, de vivenciar de maneira diferente o mundo e de experimentar formas renovadas de sociabilidade e subjetividade. Experimentação, sentimentos, estilo, intensidade, composição, negociação. Eis noções que se relacionam com essas vivências corporais, e que tornam possível uma aproximação à discussão contemporânea sobre subjetividade, ética e socia- bilidade, especialmente considerando as reflexões de pensadores como Foucault, Derrida, Levinas, Arendt, Deleuze, Guattari, entre outros. As formas que assumem a dinâmica das práticas corporais vividas coletivamente no espaço natural, sob a égide da intensidade e das composições interindividuais, parecem oferecer um 158 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    cenário propício parao exercício de novas formas de sociabilidade, em especial as relações de amizade, entendida como forma de subjetivação coletiva. Trata-se de buscar nessas práticas corporais as possibilidades de novos exer- cícios vinculatórios, não pautados simplesmente em adequações harmoniosas que neutralizam as diferenças, nem cedendo a apelos identitários ou comunitaristas, os quais, ao comprometer a afirmação das singularidades, ten- dem a empobrecer suas tensões e seu potencial criativo. Deve-se, ao contrário, esforçar-se em garantir até o final o realce das diferenças envolvidas em cada relação, permitindo assim a eclosão de liames sociais menos burocratizados, vividos numa relação renovada e intensa com o mundo. É claro que os desafios e obstáculos encontrados na construção de tais for- mas de relacionamento são consideráveis, inclusive quando pensamos nessas práticas corporais como parte do universo das atividades turísticas. A lógica utilitarista e mercantil de instrumentalização da natureza e das próprias práticas, comum ao trade turístico que as promovem e as comercializa, e a facilidade com que ela aparece disseminada nos indivíduos e grupos que participam desses pacotes “esverdeados”, parecem minar ainda mais suas potencialidades críticas e criativas. Neste sentido é preciso, sobre este e outros temas, independente das condições que a paixão por uma dada temática possa permitir, tentar esquivar- se de qualquer atitude reificante sobre ela. No entanto, o compromisso ético-político de descortinar transformações socioculturais qualitativas e ampliar eventuais demonstrações de resistências às lógicas e à subjetividade dominantes, inclusive no contexto da atividade turística, deve, em minha opinião, ser assumido. Mesmo havendo uma notável incorporação dessas práticas corporais pela lógica mercadológica turística ou esportiva, tal incorporação nunca é total, assim como nunca é total o esquadrinhamento da subjetividade pelo poderes subjetivantes, tal como têm demonstrado Foucault, Deleuze e Guattari13, devendo-se ir em busca de “resistências moleculares”, de pequenas “brechas”, de “linhas de fuga” subjacentes a essas experiências humanas. E por que a preocupação em desconfiar dos apelos identitários ou comunitaristas? Como discuti em outro momento 14, apoiado em Paiva (2000), prender-se ao universo da identidade, por um lado, levanta questões sobre o esquadrinhamento e domesticação dos processos de singularização15 pelos po- deres normatizantes que tendem a neutralizar seu potencial disruptivo, vide, por exemplo o culto californiano do eu, onde a identidade é decifrada pelos saberes científicos e, assim como certos movimentos de minorias com forte matriz identitária, esboça um esteticismo bastante afeito à lógica do mercado, o que reduz consideravelmente o conteúdo político de suas reivindicações. Por outro lado, o apelo ao comunitarismo, dentro do qual o eu somente pode- ria ter expressão a partir do pano de fundo dado pela matriz comunitária, levanta Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    grandes desconfianças emrelação à questão da administração dos grupos, assim como aos mecanismos de inclusão/exclusão presentes na comunidade e, inclu- sive, nos vários neotribalismos quaisquer que sejam suas matizes. A originalida- de do pensamento foucaultiano estaria exatamente na indagação de como po- deríamos pensar a produção da subjetividade para além da individualização e da pessoalidade, recusando tanto a obsessiva reivindicação de identidades quanto as significações partilhadas, as quais implicariam quase inexoravelmente num movimento de aderência e conservadorismo. Discutindo sobre subjetividade em tempos de globalização, Suely Rolnik afir- ma que não é a defesa de identidades locais contra identidades globais, nem ainda a identidade em geral contra a pulverização, mas é a própria referência identitária que deve ser combatida, não pelo fascínio niilista pelo caos ou sim- plesmente em nome da pulverização, mas para dar lugar aos espaços de criação existencial, aos processos de subjetivação singulares. Isto implica abrir mão do vício em identidades e não tentar “domesticar” as forças de instabilização, o que tenderia a brecar os processos de singularização (Rolnik, 1997a). O desafio, segundo a autora, é aliar-se com as “forças da processualidade”: “Esta aliança depende – mais do que qualquer outro tipo de aprendizado- de estar à escuta do mal-estar mobilizado pela desestabilização em nós mesmos, da capacidade de suportá-lo e de improvisar formas que dêem sentido e valor àquilo que essa incômoda sensação nos sopra. Aqui não se trata de alucinar um dentro para sempre feliz, mas, sim, de criar condições para realizar a conquista de uma certa serenidade no sempre devir outro” (Rolnik, 1997b, p. 32-33). Por- tanto, é dentro de um projeto político de resistência aos diversos “kits de subje- tividades-clones” desses tempos de globalização, bem como de recusa às “iden- tidades prêt-à-porter”, essas figuras glamourizadas fartamente oferecidas pela mídia, onde se pode visualizar a potencial criação de singularidades disruptoras, de tipos renovados de sociabilidade. A procura de novas formas de subjetividade e sociabilidade, inclusive no âmbito do lazer e do turismo, pressupõe a constituição do sujeito não como um exercício solitário, mas como uma ação compartilhada com outros sujeitos. A questão da intersubjetividade, isto é, a presença do outro na constituição do sujeito, especi- almente enquanto sujeito ético, merece destaque. Como observa Renaut (1998, p. 100), a idéia do sujeito, na medida em que não a reduzimos à do indivíduo, na medida em que ela implica, em sentido contrário, uma transcendência da individu- alidade do Eu, comporta nela mesma a intersubjetividade, e assim a comunicação em torno de uma esfera comum: “Na medida em que a idéia de sujeito corresponde não ao valor (individualista) da independência, mas ao da autonomia (humanista), nela está incluída, por definição, a relação com o outro”. A subjetividade, de acordo com Emmanuel Lévinas, citado por Ortega (1999), nasce na dimensão intersubjetiva do encontro com o outro, sendo a ética e a 160 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    sociabilidade originadas nadesdobra da relação primária do face-a-face. A filo- sofia de Lévinas aponta para a primazia da relação com o outro no estabeleci- mento da relação consigo mesmo, situando a intersubjetividade no centro da constituição do sujeito. Como faz em relação a Lévinas, Ortega (2000), aproxima ao pensamento foucaultiano os desenvolvimentos teóricos de Hannah Arendt. Segundo ele, em- bora existam diferenças entre as “estéticas da existência”16 foucaultianas e arendtianas, tanto em Foucault como em Arendt as formas de subjetivação pensa- das pressupõe sua realização no espaço público e, portanto, são de caráter tanto ético quanto político. Além disso, tanto numa como noutra abordagem, há uma recusa em aceitar um eu da interioridade e uma visão essencialista da subjetivida- de. Para Foucault, a subjetividade aparece como um processo, como uma relação consigo e com o outro, algo distante da noção de auto-consciência, e daí ele preferir falar de um “sujeito-forma” ao invés de um “sujeito-substância”. Quando Arendt (2000, p. 19) magistralmente problematiza a condição humana em sua existência, essa condição humana não tem o mesmo sentido de “nature- za humana” ou “essência humana”. Seus argumentos vão no sentido de que nada nos autoriza a presumir que o humano tenha uma natureza, assim como as outras coisas as têm, pois é bastante improvável que nós, que temos o poder de conhe- cer, determinar ou definir a essência natural de todas as coisas que não somos e que nos rodeiam, venhamos a ter esta mesma capacidade em relação a nós mesmos. Isso seria como pular a própria sombra. Por outro lado, ressalta a autora, “as condições da existência humana – a própria vida, a natalidade e a mortalidade, a mundanidade, a pluralidade e o planeta Terra – jamais podem ‘explicar’ o que somos ou responder a perguntas sobre o que somos, pela simples razão de que jamais nos condicionam de modo absoluto”. Tanto na fenomenologia arendtiana como na genealogia foucaultiana, obser- va Ortega (2000, p. 39), as formas retóricas não argumentativas ocupam o lugar da fundamentação argumentativa. Dessa forma, não há “nenhum critério objeti- vo e de validade universal, justificável logicamente ou fundamentável de forma argumentativa, que leve a privilegiar ou a universalizar suas posições, sejam para encorajar a vontade de agir (Arendt) ou animar a experimentação com novas formas de sociabilidade(Foucault)”. Esta ação, em Arendt (2000, p. 15), é entendida como a única capacidade humana “que se exerce diretamente entre os homens sem a mediação das coisas ou da matéria” O agir, capacidade inerente ao humano, é dado segundo o pres- suposto de que os homens existem em pluralidade, e que estes se definem pela sua singularidade. A ação (o agir político, a participação nos assuntos humanos) está relacionada intimamente com a condição humana fundamental da natalida- de, do gozo e da alegria de um novo começar, do início de algo novo. A natali- dade, ou seja o nascimento, pressuposto ontológico da existência do agir, so- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    mente se realizano confronto com o novo, o aberto, o contigente, e isso exige sair da esfera da segurança, aceitando o desafio do encontro e o convívio com novas pessoas e novas situações. Em consonância com a opinião de Ortega (2000), é somente com o desenvol- vimento de novas formas de amor mundi, no sentido arendtiano, que se pode conceber alternativas para a criação e recriação de formas alternativas de rela- cionamentos voltados para o mundo, para o espaço público, sejam elas a amiza- de, a cortesia, a solidariedade, a hospitalidade e o respeito. Estas noções, a meu ver, deveriam compor o quadro referencial de qualquer forma de vida e prática social humana, em especial o lazer e a atividade turística. Mas as potencialidades das experiências de lazer e turismo cujas pistas procurei apontar, especialmente aquelas experiências vivenciadas em ambientes naturais, não buscam formas de sociabilidade baseadas na fusão identitária com o outro, na excessiva intimidade antropofágica, no consenso absoluto. Penso antes numa forma de amizade que, ao ter presente as contradições e tensões da condição humana, possibilite ação e movimento à própria vida, através da incitação recípro- ca, oferecendo a possibilidade de auto-transformação. Trata-se da criação com- partilhada de algo novo, onde sejam respeitadas a singularidade e a pluralidade do outro como condição possível para um mundo compartilhado e livre. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] NOTAS 17 Utilizo o termo experiência no sentido dado por Tuan (1983, p. 9), como abrangendo “as diferentes maneiras através das quais uma pessoa conhece e constrói a realidade”. Experienciar é aprender, pois a experiência, constituída de sentimento e pensamento, implica a capacidade de aprender a partir da própria vivência. 2 Estou entendendo lúdico ou ludicidade como característica humana que pode expressar-se nas várias dimen- sões da vida, como o lazer, o trabalho, as relações afetivas, etc. O lúdico, sendo um dos aspectos inerentes à vida humana, tem, em minha opinião, o sentido do brinquedo, da brincadeira. O jogo, tanto no sentido dado por Callois (1958) como por Huizinga (1993), pressupõe, ao meu ver, a dimensão lúdica, da qual é expressão. 3 A expressão tempo conquistado me parece mais apropriada, pois “tempo livre” remete à idéia de uma liberdade plena dos sujeitos sociais, a qual, por enquanto, está ainda por ser conquistada. Por outro lado, a expressão “tempo disponível” sugere uma certa passividade do tempo “sobrante” disponibilizado pelo senhor, pelo patrão ou opressor, visando vantagens sobre este tempo. Falar em tempo conquistado me parece mais revo- lucionário, pois nos referimos à conquista dos sujeitos sociais e de grupos, visando a expressão da ludicidade e liberdade mais plena, respectivamente característica e anseio da existência humana na história. 4 “Pensar a intensidade ou pensar intensamente é uma forma de pensar o aberto, o acontecimento, esses momentos excepcionais, nos quais se interrompe a regularidade e a necessidade, mesmo por um instante. A intensidade somente pode ser pensada de forma intempestiva, fugaz e provisória, semelhante a pinceladas impressionistas que revelem alguns momentos, percebidos por um brilho peculiar, ou seja, pela sua intensi- dade” (Ortega, 1998, p. 7-8). 5 Aqui penso em pluralidade no sentido que lhe dá Hannah Arendt. A pluralidade é a condição da ação humana, a qual juntamente com o labor e o trabalho, configuram as três atividades humanas fundamentais designadas pela expressão vita activa. E a pluralidade é condição da ação humana “pelo fato de sermos todos os mesmos, 162 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    isto é, humanos,sem que ninguém seja exatamente igual a qualquer pessoa que tenha existido, exista ou venha a existir” (Arendt, 2000, p. 16). 6 Sobre esta discussão no âmbito de parques públicos urbanos denominados “ecológicos”, remeto a Villaverde (1998) e (1999). 7 Guattarri faz importantes ponderações sobre subjetividade, individualidade e singularidade: “Para mim, os indivíduos são o resultado de uma produção de massa. O indivíduo é serializado, registrado, modelado [...] A subjetividade não é passível de totalização ou de centralização no indivíduo. Uma coisa é a individuação do corpo. Outra é a multiplicidade dos agenciamentos da subjetivação: a subjetividade é essencialmente fabricada e modelada no registro do social. [...] O modo pelo qual os indivíduos vivem essa subjetividade oscila entre dois extremos: uma relação de alienação e opressão, na qual o indivíduo se submete à subjetividade tal como a recebe, ou uma relação de expressão e de criação, na qual o indivíduo se reapropria dos componentes da subjetividade, produzindo um processo que eu chamaria de singularização” (Guattari e Rolnik, 1986, p. 31-33). 8 A forma como Guattari trata a “produção de subjetividade” merece destaque, especialmente quando pensa- mos no recorrente antagonismo entre infra-estrutura e superestrutura, presente em boa parte das abordagens teóricas existentes. Nas palavras de Paiva (2000), “Guattari vai localizar a construção da subjetividade no mesmo nível da produção, considerando-a [...] como ‘matéria-prima de toda e qualquer produção’. Quer nos parecer que tal leitura nos faculta uma posição revolucionária de abordagem e crítica da subjetividade contem- porânea, uma vez que, ao abandonar a oposição micro x macropolítico, se está sensível à consideração das interpenetrações de tais campos” (p. 35). 9 Miranda (1995), apoiando-se em Pociello, aproxima-se do pensamento de Betrán neste aspecto, afirmando ser o corpo que vivencia essas práticas um corpo informacional, isto é, concebido como receptor e emissor de informações e não como instrumento de ação e coação. Porém, sendo ainda mais perspicaz, Miranda chama atenção para um novo simbolismo dessas práticas, cujo caráter quase iniciático não deixa de configurá-las como “criadoras de amizades” e formadoras de grupos. 10 MICHAELIS: moderno dicionário da língua portuguesa. São Paulo: Companhia Melhoramentos, 1998. 11 Como é preciso lembrar, natureza é um conceito que “exprime, uma totalidade, em princípio abstrata, que os homens concretizam na medida em que o preenchem com suas visões de mundo” (Carvalho, 1994, p. 26). Para efeito da presente discussão, uso esta expressão para me referir simplesmente ao ambiente natural, em seus elementos e seres animais e vegetais, do qual faz parte a espécie humana. Quando falo em práticas corporais de aventura na natureza, refiro-me àquelas vivenciadas em ambientes naturais como o mar, os rios e corredeiras, as matas e florestas, a montanha, o ar, etc. 12 Minha vivência com escaladores, possibilitada pelos trabalhos de doutorado, e minha própria relação com a prática da escalada a partir desses trabalhos, permitem considerá-la bastante qualificada em termos de estreitamento de laços interpessoais. A relação que se estabelece entre guia (escalador que se coloca à frente no trajeto a ser feito na rocha) e participante (escalador ou escaladores que seguem o mesmo trajeto feito pelo guia após a chegada deste num determinado lugar da parede de rocha) precisa ser de confiança, comunicação, incitação recíproca e entendimento mútuos, a fim de minimizar o risco de acidentes e preservar a própria vida. Trata-se de cuidar de si e do outro na emoção de uma aventura compartilhada, onde os movimentos de troca do corpo com o ambiente são, a um só tempo, suaves e intensos. 13 “De acordo com Paiva (2000, p. 37), tal entendimento nos afasta do fantasma frankfurtiano da “colonização” total do mundo da vida: “Com Deleuze e Guattari, assim como com Foucault, veremos a pouca utilidade de pensar naqueles termos, uma vez que há um permanente entrelaçamento móvel das forças de desterrritorialização (enquanto tendência de sistema) com as de desterritorialização (forças de criação, de inventividade), sendo que uma jamais esgota a outra: ambas se escalonam, trabalham, reconfiguram uma relação a outra”. 14 Refiro-me ao artigo intitulado Sobre Corpo, Lazer e Amizade: Problematizações Ético-políticas na Subjetivida- de, publicado atualmente no Caderno de Programação Científica e Resumos (p. 192) do XII Congresso Brasi- leiro de Ciências do Esporte e em vias de publicação na íntegra em cd-room do evento. 15 Guattari identifica os processos de singularização como “uma maneira de recusar todos esses modos de encodificação preestabelecidos, todos esses modos de manipulação e de telecomando, recusá-los para cons- truir, de certa forma, modos de sensibilidade, modos de relação com o outro, modos de produção, modos de criatividade que produzam uma subjetividade singular. Uma singularização existencial que coincida com um desejo, com um gosto de viver, com uma vontade de construir o mundo no qual nos encontramos, com a Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    instauração de dispositivospara mudar os tipos de sociedade, os tipos de valores que não são os nossos” (Guattari e Rolnik, 1986, p. 17). 16 As incursões de Foucault (1998, p. 15) à antiga estética da existência levam-no à revalorizar e procurar a reabilitação da práxis ascética da Antigüidade. Vejamos como ele se refere a essas “artes da existência”, essas “técnicas de si”: “Deve-se entender com isso, práticas refletidas e voluntárias através das quais os homens não somente se fixam regras de conduta, como também procuram se transformar, modificar-se em seu ser singular e fazer de sua vida uma obra que seja portadora de certos valores estéticos e responda a certos critérios de estilo. Essas ‘artes da existência’, essas ‘técnicas de si’, perderam, sem dúvida, uma certa parte de sua impor- tância e de sua autonomia quando, com o cristianismo, foram integradas no exercício de um poder pastoral e, mais tarde, em práticas de tipo educativo, médico ou psicológico” 164 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2003 Publicação original: livro Formato da contribuição: resumo Fonte: MAGRO, T.C. Percepções do Uso Público em UCs de Proteção Integral. In: BAGER, A. , ed. Áreas Protegidas: Conservação no Âmbito do Cone Sul. Pelotas: Alex Bager, 2003. E-mail do(s) autor(es): tecmagro@esalq.sup.br Títulos acadêmicos principais atuais: Doutor em Ciências da Engenharia Ambiental. Escola de Engenharia de São Carlos, Universidade de São Paulo. Percepções do uso público em UCs de Proteção Integral Teresa Magro A coexistência dos valores associados às áreas naturais poderá ser a próxima grande questão no manejo de unidades de conservação de proteção integral. Valores ecológicos, recreacionais, estéticos e espirituais sempre estiveram rela- cionados a estas áreas, com atribuição de pesos diferentes, dependendo da fase histórica e econômica do país. Ao inserir a valoração econômica, agregada à recreação como função da área protegida, pode haver uma reorientação, da função principal destas áreas. No momento em que acreditarmos que nossas áreas protegidas de proteção integral devam ser rentáveis estaremos iniciando um processo de desvio de função com possíveis perdas ambientais. Este posicionando não significa uma recusa de todos os benefícios relaciona- dos ao desenvolvimento de atividades recreacionais nas UCs de proteção inte- gral e no seu entorno. O reconhecimento do valor que estas áreas desempenham no desenvolvimento econômico regional tem sido um dos fatores de suporte para a manutenção e criação de novas áreas protegidas. Nos últimos dez anos, com algumas exceções, passamos para uma situação onde moradores e propri- etários de áreas limítrofes às UCs vêem oportunidades e não somente restrições associadas aos seus anteriormente “indesejáveis vizinhos”. A situação anterior, onde valores científicos eram privilegiados, com situa- ções onde as funções ligadas ao uso público não eram contempladas de forma adequada , também não é desejável. O importante, é que agora que o turismo e suas variações ligadas ao ambiente natural e cultural, tem-se direcionado com Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    grande potencial paraas áreas protegidas, tenhamos instrumentos eficientes para administrar e redirecionar fluxos e o uso nestas áreas. As UCs, como incentivadoras do processo do desenvolvimento regional não devem concorrer com as iniciativas locais ligadas ao desenvolvimento de proje- tos de turismo com base na natureza. Deve considerar as opções e parcerias no planejamento das atividades que sejam adequadas às funções de conservação dos recursos naturais. Esta abordagem busca o balanço entre conservação e uso e a manutenção de opções futuras de ambientes que mantenham suas caracterís- ticas o mais primitivas possível. Nossa corrida por uma parte do mercado do ecoturismo e até mesmo do turismo de aventura, com abordagens desviadas do seu elo principal, pode descaracterizar ambientes primitivos e diminuir sua função ambiental e valor estético. Nesta discussão, onde se planeja o uso público com base na qualidade do ambiente e da experiência do visitante, é importante destacar que ações que levem a uma grande alteração do ambiente natural podem ter um alto custo de implantação com resultados nem sempre favoráveis. O retorno destas áreas à condição anterior de primitivismo poderá representar um alto custo econômico. Apesar do enfoque dado às atividades mais ativas, desenvolvidas em ambien- tes naturais, observa-se também o crescimento das viagens em busca de novos destinos que ofereçam a oportunidade de isolamento e da sensação de experi- mentar o primitivo. Opções futuras de ambientes primitivos devem ser assegura- das pois vão de encontro aos principais objetivos da conservação. Neste contexto, estaremos colocando para reflexão o redirecionamento da função “recreativa” das UCs de proteção integral nos tempos atuais. CONTEMPLAÇÃO E ADRENALINA A edição 1811 da revista Veja (Editora Globo, 2003) retrata uma tendência que verificamos nos últimos anos do aumento das atividades que envolvem os es- portes radicais. De acordo com a revista, a análise comparativa das atividades desenvolvidas durante a semana profissionalmente, carregadas de uma grande carga de stress, justifica esta tendência comportamental de finais de semana com certa “dosagem” de adrenalina. Sem aprofundamentos sobre a natureza humana, aparentemente mais primitiva, o que nos chama a atenção é o fato da matéria sugerir que tais atividades têm a combinação do alto risco com a baixa incidência de acidentes. Esta possibilidade, divulgada pelas agências de turismo e revistas especializadas, impulsiona uma crescente motivação de busca por áreas naturais. Pelo contrário, o fato de existir um risco real é um dos fatores que agregam valor para atividades em áreas mais primitivas. Há portanto a necessi- 166 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    dade de planejamentoe zoneamento específico para que estas atividades pos- sam ser desenvolvidas com maior segurança, tanto para os praticantes como para assegurar a qualidade ambiental. Não se questiona o potencial modificador dos esportes radicais com base na natureza sobre o espírito humano. Existem muitas possibilidades de reencontro pessoal e de valorização do ambiente natural nestas atividades. Em muitos casos são oportunidades de desenvolvimento regional e da reativação da economia ligada à comercialização de equipamentos e veículos esportivos. Quando a motivação principal se refere à natureza e o uso de equipamentos segue considerações previamente estabelecidas no zoneamento das áreas pro- tegidas, os novos planos de manejo e de uso público das UCs de proteção integral poderiam atender estas novas demandas. Se pensarmos nos casos onde a natu- reza é um mero coadjuvante ou mesmo parte do cenário para o desenvolvimento destas atividades, o balanço entre os efeitos do uso e o cumprimento dos obje- tivos da unidade não estará sendo favorável. Nesta discussão é importante observar que as unidades de conservação tem sido um dos destinos mais procurados pelo público que busca paisagens espeta- culares. Isso ocorre em parte devido ao fato de que estas área foram protegidas prioritariamente com o objetivo de proteger grandes belezas cênicas, mas tam- bém por que em muitos locais somente as unidades de conservação resistiram ao processo de ocupação da terra para urbanização e para a prática de cultivos agrícolas e pastagens. No Brasil podemos observar que nas regiões sul e sudeste são poucas as áreas, além daquelas protegidas por lei, que são cobertas por vegetação natural. Nestes locais a pressão de uso poderá ser mais acentuado nos próximos anos. Mesmo que o uso público e o turismo tenham sido consideradas atividades que “deram certo” nas unidades de conservação brasileiras, pode ser que precisemos refletir sobre a possiblidade de usar modelos de uso público mais simples, que valorizem o ambiente e a experiência humana. A ansiedade em tornar as unidades de conservação em áreas rentáveis através do turismo, pode levar à perda dos valores que a interpretação e a educação ambiental buscam através de seus programas. Como a maioria das UCs de proteção integral não tiveram seus programas de uso público valorizados e implanta- dos de maneira efetiva existe ainda uma lacuna na histórica do uso público de UCs no país. Se tivéssemos uma base sólida neste campo, com trilhas bem implantadas e centros interpretativos funcionais, as atividades de uso recre- ativo inovadoras, poderiam ser agora explorada como novas oportunidades. Assim, além da expectativa que estas novas oportunidades representem, existe uma certa dose de “frustração” pelos objetivos não alcançados ligados ao uso público das áreas protegidas. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    MELHORIA DA EXPERIÊNCIADO VISITANTE OU AUMENTO DO CONFORTO? O processo de concessão de uso no Parque Nacional do Iguaçu tem sido citado como exemplo de sucesso numa seqüência que se espera que seja crescente no país. Ao analisar a nova distribuição dos usuários no parque, se percebe que o sistema está ficando mais eficiente no que se refere ao ordenamento do uso. Isso é extremamente necessário nas áreas com visitação intensa e onde medidas de restrição do uso são inviáveis. Novos ônibus circulam em intervalos curtos, banheiros limpos e em número adequado, áreas amplas para alimentação, lojas com produtos de boa qualidade, estão disponíveis para o público visitante. No entanto, se insere uma indagação: -além do conforto, o que mais foi agregado à experiência de quem visita o Parque Nacional do Iguaçu? A disponibilidade de situações onde o visitante possa vivenciar o contato direto com o ambiente natural, com percepções dependentes do primitivismo, não aumentou. O sistema de trilhas do parque continua o mesmo, apesar de que a implantação do projeto da concessionária objetive, entre outras coisas, au- mentar a permanência do visitante no Parque. Permanência esta que irá garantir a sustentabilidade econômica do empreendimento. Estamos em fase de revigoramento dos parques nacionais, e isso nos faz voltar no tempo, quando foram instaladas grandes estruturas nos primeiros parques do país, como os Parques Nacionais do Itatiaia, Serra dos Órgãos e mesmo no de Iguaçu. A história viva nos apresenta uma situação onde algumas estruturas foram instaladas em locais inadequados e com dimensões que dificultam manutenção dos mesmos. O manejo deveria estar baseado mais em atividades do que em estruturas. O VISLUMBRE DA SUSTENTABILIDADE ECONÔMICA Dos benefícios atribuídos atualmente ás áreas naturais podemos destacar o turismo como tendo maior destaque nos programas ligados ao uso das UCs de proteção integral. É importante revermos outros valores associados à proteção de áreas naturais para comparar custo e benefício na argumentação da existên- cia destas áreas (Tabela 1). Para a recreação e turismo existe a possibilidade de atribuição de valor monetário, mas a irreversibilidade é também uma das carac- terísticas associada à este benefício. Segundo DIXON & SHERMANN (1991) toda decisão de manejo, uma vez implementada, é irreversível. No contexto das áreas protegidas, com grande freqüência os efeitos são permanentes e potencialmente significativos. Às vezes tomamos uma decisão de menor relevância e apesar dela também ser irreversível, quando se verifica que foi uma opção errada podem ser feitos ajustes com efeitos insignificantes e de curto prazo. De acordo com o autor, no caso das áreas protegidas, pode não ser possível fazer tais ajustes. De qualquer maneira, a nova condição ambiental de áreas recuperadas nunca vai ser igual a original, daí a consideração direta da irreversibilidade. 168 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Tabela 1. Característicasdos benefícios da proteção das áreas Fonte: DIXON & SHERMANN (1991) Efeitos Previsão de Estimativa Não Não " enefíc"o fora do perda de valor rival excludente sítio irreversível econômico Recreação/turismo XC P P S Bacia hidrográfica controle de erosão X X X S diminuição de inundação local X X X E Processos ecológicos fixação e ciclagerm de nutrientes X X S formação do solo X X S purificação do ar e da água X X X S Biodiversidade recursos genéticos X P X P E Educação X P X X E Pesquisa X P X X E Estética X X X P S Espiritual X X X X E Histórico/cultural X X X X E Valor de opção X X X X E Valor de existêMcia X X X X E Suporte de vida X X X P E Fonte: DIXON & SHERMANN (1991) C = congestionável P = possível S = difícil E = extremamente difícil X = o atributo está presente O valor de existência, atribuído às áreas naturais para justificar a sua perma- nência, tem sido pouco comentado atualmente. O fato de que alguns parques estejam se tornando um misto de conservação e de atrativo turístico com motivações mais esportivas que contemplativas refletem esta situação. De qualquer forma, as atividades turísticas são vistas como uma grande opor- tunidade para a sustentabilidade econômica das UCs brasileiras. Por outro lado, se reconhece também que tanto o turismo como o ecoturismo podem ser uma ameaça para a preservação do meio ambiente quando não forem bem conduzidas (DOUROJEANNI & PÁDUA, 2001). Considerando todos os fatores envolvidos no desenvolvimento de atividades de uso público (inclusive o turismo) relacionados à sustentabilidade ecológica e social das áreas protegidas, a sustentabilidade econônica pode não ser alcançada. Mas isso não deveria, sob nenhuma hipótese, representar um desconforto para os administradores se reportarem aos representantes dos órgãos ambientais oficiais. A sustentabilidade econômica deveria estar embasada na sustentabilidade Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    política para amanutenção das áreas protegidas, com designação adequada de aporte financeiro. O suporte político, que garante a manutenção das UCs já existentes e a criação de novas áreas se origina da aprovação popular de ações bem tomadas e da apreciação da natureza. Manning (2002) aponta fatos que acabam focando a abordagem anterior ao mencionar que a crescente popularidade dos parques nacionais nos Estados Uni- dos oferece tanto uma oportunidade como um desafio. A oportunidade se refere ao desempenho da missão dos parques nacionais de “prover oportunidade do usufruto das pessoas”. O desafio associado, naturalmente, é o cumprimento do componente complementar da missão dos parques nacionais de “conservar a paisagem e os recursos naturais e históricos”. Isto pode ser difícil com a condição de intensa visitação. Mais ainda, a qualidade da experiência do visitante também está implícita nesta dupla missão. De acordo com o autor o resultado final de toda esta questão é que visitantes que têm uma experiência de alta qualidade são mais propensos a desenvolver o reconhecimento e o patrocício público. Os UCs devem incentivar iniciativas que levem a sustentabilida do turismo nas áreas de entorno e não “concorrer” na oferta das mesmas. Os objetivos devem ser diferenciados para que não haja o desvio da função principal de conservação de recursos ambientais e histórico/culturais. De certa forma, avanços positivos vêm ocorrendo na revisão dos Planos de Manejo existentes e na elaboração de novos, onde o entorno das UCs recebe atenção especial nas iniciativas ligadas ao desenvolvimento regional. CONSIDERAÇÕES FINAIS Além dos exemplos nos quais o turismo intensivo destruiu o valor de muitas áreas naturais, FAGENCE (1990) observou que na prática, nas situações onde os objetivos das partes interessadas são conflitantes, os acordos de cooperação mútua assumidos no planejamento e manejo tendem a valorizar as considerações de estética, inspiração, educação, história e ciência, em favor das demandas turís- ticas para os centros de serviços, resorts, complexos recreacionais, recreação artificial e usos comerciais. Nestes locais, principalmente nos de uso comercial, existe a tendência de produzir um ambiente modificado. O autor destaca que apesar da acusação de que a degradação ambiental seja ocasionada pelo interesse comercial, a responsabilidade irrevogável cai sobre as agências encarregadas e com o poder de tomar decisões relacionadas a questões ambientais, sociais e econômicas para o ‘interesse público’. Contudo, pode-se afirmar que são as imper- feições do planejamento comercial e do processo de manejo que mais contribuem com os inevitáveis acordos de comprometimento e ganho mútuo. As áreas naturais devem ser manejadas de maneira a serem conservadas e de certa maneira protegidas contra o seu uso crescente. É necessário então mane- 170 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    jar e influenciaro uso humano de modo que os processos naturais permaneçam intactos (CUTLER, 1980). Os slogans desenvolvidos na América do Norte na déca- da de 70 e mais recentemente introduzidos no Brasil são muitos: “impacto míni- mo”, “ética ecológica” , “caminhe suave no solo”, “tire somente fotos - deixe somente pegadas” e “camping sem sinais”. Todos eles têm o mesmo propósito de educar e encorajar os usuários das áreas naturais a causarem o menor impacto possível na paisagem (HART, 1980). A experiência de outros países também ilustra a tendência de examinar os conflitos entre recreação e conservação, processo este iniciado recentemente no Brasil. A pesquisa em ecologia de recreação tem se concentrado nos impac- tos das atividades recreativas (BAYFIELD & BARROW, 1983) e algumas atividades de manejo tem sido propostas de maneira a resolver os problemas criados (BAYFIELD & AITKEN, 1992; COLE, 1989). Da mesma maneira conferências foram organizadas (TOURISM, RECREATION AND CONSERVATION, 1985; USDA, 1995; ARNBERGER.A., BRANDENBURG, C. & MUHAR, A, 2002) com o objetivo de discutir o papel e implicações do uso público e do turismo nas áreas naturais. Embora a opinião dos dois extremos, (pessoas com ponto de vista biocêntrico em oposição àquelas com ponto de vista antropocêntrico) de que as áreas silvestres devem ser manejadas somente por um princípio: conservação ou re- creação, não podemos fugir do fato de que o público tem direito ao acesso a alguns sítios das unidades de conservação. As unidades de conservação que permitem o uso público, sempre tiveram algum tipo de uso, fosse ele voltado para a recreação, pesquisa científica ou contemplação. O que preocupa muitos técnicos e administradores é o fato da inserção destas áreas nos destinos turísticos das agências de viagens, nas revis- tas especializadas, trazendo de forma rápida um grande fluxo de pessoas em datas específicas. O exemplo dos destinos turísticos tradicionais, sejam eles com base em recursos naturais ou históricos culturais, não deixa que se vislum- bre nada animador. Aliado a isso, temos áreas que muitas vezes não possuem um documento de planejamento atualizado. No entanto, sabemos que o uso público, seja ele ligado à Educação Ambiental ou com objetivos recreacionais, é um uso legítimo, desenvolvido em diferentes níveis para a seguintes categorias de manejo: Reserva Biológica e Estação Eco- lógica, Parque Nacional, Monumento Natural, Refúgio da Vida Silvestre, Floresta Nacional, Reserva de Fauna, Reserva Extrativista, Reserva de Desenvolvimento Sustentável, Área de Proteção Ambiental, Área de Proteção Ambiental e Reserva Particular do Patrimônio Natural. Assim, algum grau de impacto sempre será aceito na implantação das ativida- des de uso público. Até mesmo a pesquisa científica, tão benéfica para aumentar o conhecimento sobre os recursos da área, traz efeitos indesejáveis para o Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    ambiente. Exemplos sãoa abertura de transectos para o estudo da vegetação e dos animais, que na verdade são um complexo de trilhas abertas para atender delineamentos estatísticos ou a perda de alguns indivíduos da fauna silvestre devido ao caráter da pesquisa, por acidente ou mesmo por imperícia. Nesta discussão entre uso e conservação esperamos uma melhoria nas opor- tunidades de uso público e um avanço no entendimento e restabelecimento das relações do homem com o ambiente natural. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] 172 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2003 Publicação original: Artigo de periódico Formato da contribuição: texto integral Fonte: FIEP BULLETIN, v.73, Special edition. E-mail do(s) autor(es): valdovieira@yahoo.com.br Títulos acadêmicos principais atuais: Valdo Vieira: Doutorando em Psicologia Social (UERJ), Mestre em Ciência da Motricidade Humana (UCB/RJ), Licenciado em Educação Física (UERJ), Bacharel em Estatística (UERJ); Manoel José Gomes Tubino: Presidente da Fédération Internationale d’Education Physique, Doutor em Educação Física pela Université Libre de Bruxelles, Doutor em Educação (UFRJ) e Bernardo de Miranda Villano: Licenciado em Educação Física (UERJ). Impacto ambiental nas competições de trekking de regularidade segundo os seus praticantes Valdo Vieira Bernardo de Miranda Villano Manoel J. G. Tubino A Humanidade vem passando por profundas transformações, sobretudo a par- tir do século XX quando muitas conquistas foram efetivadas em todas as áreas da vida humana. Pode-se citar o aumento da expectativa de vida, conquistas na medicina genética, a internet facilitando o acesso a informações, novos apare- lhos e equipamentos que trouxeram conforto ao homem, como a televisão, o telefone celular, o ar condicionado e o automóvel, entre muitos outros. Contras- tando com os avanços obtidos, muitos problemas surgiram. Esse modelo domi- nante de produção e consumo está alterando o clima, degradando a biosfera, esgotando os recursos naturais, causando a extinção de espécies e deteriorando os sistemas sociais, comprometendo significativamente a qualidade de vida no planeta. O buraco na camada de ozônio da atmosfera e o efeito estufa tiveram reper- cussão mundial pois colocam em risco a própria existência humana. Estes fatos fizeram o Homem refletir sobre o modelo de desenvolvimento adotado e a repensar a sua relação com a natureza. Até então o ser humano não se conside- rava parte da natureza, sendo este entendimento fruto do cartesianismo que vem Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    vigorando nas sociedadesocidentais desde o século XVI, sendo a base da Revo- lução Científica Moderna. Bissio (1991) ressalta que a degradação ambiental e humana produzida pelas sociedades industrializadas modernas exigia soluções que não podiam ser nacionais nem regionais, mas de escala mundial. Em 1992 foi realizada no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambi- ente e o Desenvolvimento em que estiveram representados os governos de 182 países além de representantes da sociedade civil. Foi aprovado consensualmente um documento intitulado Agenda 21, na verdade um plano de ação com a finali- dade de harmonizar o crescimento econômico com a preservação do meio ambiente e a igualdade social. A Agenda 21, composta de 40 capítulos e 27 princípios gerais, destaca as responsabilidades individuais e coletivas que todos os setores da atuação humana precisam ter com a conservação do planeta. O Homem começou a entender que é parte integrante da natureza e que o mundo é um todo, integrado, inter-relacionado e interdependente. Embora seja evidente que o modelo de desenvolvimento trouxe também a fome, a miséria e a degradação ambiental, a tentativa de buscar um novo caminho para o futuro do planeta esbarra em posições antagônicas, pois o capital possui um papel central na economia mundial. Soffiati (2002) cita três posições distintas em relação à crise ambiental: A compatibilista, que pretende conciliar os sistemas atuais de desenvolvimento com a proteção a natureza; a exponencialista, que acredita que os recursos da natureza são inesgotáveis e estão à disposição do homem; e os conservacionistas, que desejam um aproveitamento racional e sensato dos recursos naturais. Em face das divergências pouco se avançou na implementação de medidas atenuadoras do processo de degradação ambiental. O ESPORTE NO CONTEXTO AMBIENTAL O esporte se tornou um dos fenômenos socioculturais mais importantes da atualidade (TUBINO, 1999). Nas últimas décadas surgiram novas modalidades e movimentos esportivos, entre eles os esportes da natureza. Esses esportes se caracterizam por serem praticados em espaços naturais permeados pelas noções de aventura, risco calculado, adrenalina e prazer (MARINHO, 2001). De acordo com Costa e Tubino (1999), essas práticas esportivas surgiram no final da década de 70 com os esportes californianos, como o surfe, vôo livre, windsurfe e o hobbie-cat. Podemos citar alguns esportes da natureza que são realizados no Brasil, como lazer e/ou como competição: arborismo, balonismo, bodyboard, bóia-cross, bungee jump, canoagem, canyoning, cascading, caving, corrida de orientação, escalada, golfe, jet ski, mergulho, motocross, mountain bike, natação, outrigger, parapente, pesca, rafting, enduros eqüestres, rapel, regatas oceânicas, sandboard, ski aquático, sky surf, surf, surf de peito, trekking e o vôo livre. 174 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Mas Tubino (1992)nos traz um alerta sobre a exaustão nos ambientes onde esses esportes são praticados. Por terem um contato direto com a natureza podem vir a causar algum dano nos meios físico, biológico e/ou sociocultural, sendo fundamental conhecer as ações provocadas por estes esportes no meio ambiente, para que, no mínimo, haja uma redução dos impactos ambientais. O objetivo deste trabalho foi identificar junto aos praticantes da Copa Rio de Trekking suas opiniões, percepções, comportamentos e conhecimentos sobre o meio ambiente e os impactos ambientais que o Trekking pode provo- car na natureza. O TREKKING DE REGULARIDADE O Trekking de Regularidade é um esporte que surgiu no Brasil nos anos 90. O objetivo é percorrer as trilhas no tempo exato, vencendo os obstáculos naturais como matas, montanhas, vales e rios. A trilha é apresentada em uma planilha com todas as informações necessárias para a interpretação do caminho a ser seguido, contendo as distâncias, descrição do ambiente, direções e velocidade média em cada trecho. Os equipamentos necessários para cada equipe são: bússola, caneta, relógio e calculadora. Os competidores devem seguir as indicações contidas na planilha para que possam atingir o tempo ideal de passagem nos Postos de Controle (PC’s). As equipes são compostas de 3 a 6 pessoas, sendo que cada uma delas possui uma função específica, e será a integração das diferentes funções desenvolvidas por cada integrante da equipe que a levará ao sucesso. A avaliação é feita pela regularidade com que as equipes passam pelos PC’s, os quais são colocados estrategicamente em vários locais do percurso. A velocidade média de cada trecho é determinada de acordo com as peculiaridades do local, mas sempre definida para que as equipes caminhem. A velocidade média costuma variar de 15 m/min a 90 m/min. Portanto, o que importa não é a intensidade ou o melhor preparo físico, mas sim a integração de sua equipe e a regularidade ao longo do percurso dentro das regras definidas no regulamento. Isso faz com que este esporte possa ser praticado em iguais condições por pessoas de várias faixas etárias e níveis de condicionamento físico. RESULTADOS Após a realização de uma pesquisa-piloto, organizou-se como instrumento de coleta de dados um questionário semi-estruturado, distribuído ao final de uma competição. A amostra, caracterizada como não-probabilística intencio- nal, foi composta por 68 sujeitos, sendo 52 homens e 16 mulheres. Embora não Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    tenha havido intencionalidadeem distribuir ponderalmente os questionários entre os dois sexos, o resultado reflete a predominância do sexo masculino neste esporte, fato observado em todos os campeonatos disputados no Brasil. As idades dos respondentes variaram entre 15 e 46 anos, com média de 29,9 anos e desvio-padrão de 7,5 anos. A Tabela 1 mostra um bom nível de Escola- ridade declarada pelos competidores, onde 92,7 % estão cursando ou já con- cluíram o Ensino Superior. Tabela 1 - Escolaridade dos competidores (%) Escolaridad^ Masculino F^minino Total (%) (%) (%) Até o Ensino Médio 9,6 0,0 7,4 Sup^rior Incompl^to 28,9 56,3 35,3 Sup^rior Compl^to ou Pós- 61,5 43,7 57,3 Graduação Total 100,0 100,0 100,0 A Tabela 2 mostra os principais motivos apontados pelos competidores para praticar o Trekking. Neste item do questionário o respondente poderia marcar no máximo duas respostas. Analisando os dados percebe-se que embora estejam participando de uma competição, os praticantes do Trekking parecem estar à procura de aventura e contato com a natureza. A obtenção de resultados não parece ser o fator motivacional principal, sendo apontado por apenas 5,9 % dos respondentes. Entre os que marcaram “outros”, os principais motivos indicados foram: poder estar com os amigos e buscar diversão. Tabela 2 - Principais motivos assinalados pelos competidores para praticar o Trekking " o"ivos p"r" " "rá"i"" " "s"ulino F"minino "o""l Bus""r "v"n"ur" 26 05 31 En"r"r "m "on"""o "om " n""ur""" 26 03 29 Bus""r m"is s"ú"" " qu"li"""" "" vi"" 19 05 24 " """r r"sul"""os "xpr"ssivos n" "omp""ição 03 01 04 " u"ros 03 08 11 Outra pergunta formulada foi se ocorreram mudanças pessoais, em relação a hábitos e concepções relativas à natureza, após o início da prática do trekking. Responderam positivamente 55,9 % do total de praticantes, sendo 59,6 % dos homens e 43,8% das mulheres. Na Tabela 3 estão relacionadas as mudanças pessoais apontadas. Neste item o respondente não precisava se limitar a uma única resposta. Essas respostas mostram que o esporte pode ser um caminho para uma convivência harmoniosa com a natureza. Mas o que surpreendeu foi o 176 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    número expressivo decompetidores que passaram a realizar atividade física regularmente após o início da prática do Trekking de Regularidade. Isso sugere que propiciar a prática junto à natureza pode ser um fator determinante de adesão à prática esportiva. Tabela 3 - Mudanças pessoais em relação aos hábitos e concepções relativas à natureza Mudanças P^ssoais Masculino F^minino Total Passou a gostar mais da convivência com a natur^za 18 05 23 Aum^ntou a pr^ocupação com a qu^stão ambi^ntal 17 06 23 T^m lido mais ou procurado na mídia artigos ou 15 03 18 programas sobr^ assuntos r^lacionados à natur^za Passou a r^alizar atividad^ física r^gularm^nt^ 16 01 17 Votou na última ^l^ição ^m candidato(s) ligados à 03 01 04 prot^ção da natur^za Passou a participar d^ manif^staçõ^s ^m prol da 02 00 02 natur^za Filiou-s^ a alguma ^ntidad^ ou organização d^ 01 00 01 prot^ção ambi^ntal Os esportes em contato com a natureza podem ocasionar algum impacto ao ambiente onde são realizados. Para 86,8 % dos respondentes, tanto os organizadores como os competidores são os principais responsáveis pela pre- servação da natureza nas competições de trekking. A Tabela 4 mostra com clareza o percentual de praticantes que acreditam que essa competição ocasio- ne algum dano ao meio ambiente. Em seguida, na Tabela 5, a relação dos danos apontados pelos respondentes. Os resultados mostram que as indicações dos danos provocados pelo Trekking de Regularidade referem-se basicamente aos meios físicos e biológicos, não havendo uma única indicação de impactos ambientais no meio social. Tabela 4 - Praticantes apontam se o Trekking causa dano ao meio ambiente (%) " "s"ulino F"minino "o""l " "r"kkin" ""us" "l"um ""no? (%) (%) (%) "im 30,8 56,3 36,8 "ão 69,2 43,7 63,2 "o""l 100,0 100,0 100,0 Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Tabela 5 -Danos apontados pelos praticantes ocasionados pelo Trekking de Regularidade D^sgast^ das trilhas, ^rosão do solo 15 D^struição da v^g^tação 11 Lixo largado p^los ^nvolvidos na comp^tição 04 Espéci^ ^m rios 01 Fauna 01 As Tabelas 6 mostra como os praticantes avaliam o seu nível de informação sobre o meio ambiente. Em seguida, e mostrado na tabela 7, pede-se para marcar numa lista os itens que fazem parte do meio ambiente. A apreciação dos resulta- dos revela que 75,0 % se avaliam “muito bem informados” ou “bem informados” sobre meio ambiente. Entretanto, 64,7% não consideram as favelas e/ou as cida- des integrantes do meio ambiente. E entre todos os respondentes, 25,5 % não consideram o ser humano como integrante do meio ambiente. Tabela 6 - Nível de informação sobre o meio ambiente (%) Nível de informação Masculino Feminino Total (%) (%) (%) Muito bem informado 13,6 25,0 16,2 Bem informado 61,5 50,0 58,8 Mais ou menos informado 21,1 18,8 20,6 Mal informado 1,9 6,2 2,9 Muito mal informado 1,9 0,0 1,5 Total 100,0 100,0 100,0 Tabela 7 - Itens que fazem parte do meio ambiente segundo os praticantes Constituint^s do m^io ambi^nt^ Masculino* F^minino** Matas 51 15 Rios 51 15 Animais 46 14 S^r^s humanos 38 11 Água 50 14 Ar 49 15 endios 26 07 Solo 49 15 Min^rais 38 13 Cidad^s 19 06 Fav^las 15 06 Mar^s 47 14 *51 respostas possíveis em cada item **15 respostas possíveis em cada item 178 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    CONCLUSÕES Odestino que a humanidade tomou está colocando em risco a própria existên- cia humana. Todas as áreas do conhecimento, incluindo a Educação Física, tem o dever de zelar pela conservação do planeta. As pessoas estão chegando à natureza pelo esporte, sendo de fundamental importância conhecer as ações e os impactos que esses esportes provocam na natureza. Para isso devemos co- nhecer as opiniões, os conhecimentos e comportamentos de todos os envolvi- dos neste processo. Os resultados deste estudo sugerem que os competidores de Trekking possuem pouco conhecimento em relação ao meio ambiente e pare- cem não possuir a dimensão dos impactos ambientais que o Trekking poderia ocasionar nos meios físicos, biológicos e antrópicos. Entretanto a prática do Trekking pode trazer mudanças positivas, parecendo ser importante à participa- ção nas competições para o aumento da preocupação e conhecimento com as questões ambientais. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Ano: 2003 Publicação original: dissertação Formato da contribuição: resumo da dissertação Fonte: “Sítios Geológicos e Geomorfológicos dos municípios de Acari, Carnaúba dos Dantas e Currais Novos, Região Seridó do Rio Grande do Norte”, Natal: UFRN, Programa de Pós-Graduação em Geociências, 2003. E-mail do(s) autor(es): wendsonmedeiros@uern.br Títulos acadêmicos principais atuais: Geógrafo, Mestre em Geociências, Professor Assistente UERN Sítios geológicos e geomorfológicos dos municípios de Acari, Carnaúba dos Dantas e Currais Novos, região Seridó do Rio Grande do Norte Wendson Dantas de Araújo Medeiros RESUMO Sítios Geológicos e Geomorfológicos dos Municípios de Acari, Carnaúba dos Dantas e Currais Novos, Região Seridó do Rio Grande do Norte, trata-se de um estudo sobre as características geológicas, geomorfológicas, mineralógicas, paleontológicas e arqueológicas da área de estudo, visando à identificação de sítios que apresentem relevante importância científica, cultural, paisagística, histórica, econômica e ecológica e que mereçam receber proteção especial para a sua manutenção para as presentes e futuras gerações. Foi desenvolvido com base nos métodos adotados pela Comissão Brasileira de Sítios Geológicos e Paleontológicos – SIGEP/UNESCO e pela Iniciativa de Sofia para a Preservação da Diversidade Mineral do Planeta, objetivando a descrição dos principais sítios, sua problemática ambiental e a proposição de medidas protecionistas. Foram identificados um total de 7 sítios com características e feições típicas que mere- cem ser alvo de proteção. No município de Acari, foram identificados três sítios: sítio geológico-geomorfológico-arqueológico Barra da Carnaúba; sitio geológi- co-geomorfológico do Gargalheiras; e sítio geológico-geomorfológico Bico da Arara. Em Carnaúba dos Dantas, o complexo geomorfológico Riacho do Bojo que possui canyons e gargantas profundas, com registros rupestres das três grandes Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    tradições de pinturasrupestres do nordeste: Nordeste – Sub-tradição Seridó, Agreste e Itaquatiara. No município de Currais Novos, também foram identifica- dos 3 sítios: sito geomorfológico Canyon dos Apertados; complexo geomorfológico-arqueológico-paleontológico do Totoró; e, sítio geológico- mineralógico Brejuí. A partir da problemática ambiental que envolve cada um dos sítios identificados, propõe-se, como garantia de proteção a estes sítios, o seu aproveitamento econômico com a atividade ecogeoturística, que visa à integração da comunidade em programas de educação ambiental entre outros, além de proporcionar a geração de emprego e renda para os municípios. Por fim, sugere- se uma série de medidas que visam à efetivação da atividade e à proteção dos sítios que podem ser classificados como patrimônio natural, de acordo com a denominação da UNESCO, em seu programa Patrimônio Natural da Humanidade. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] 182 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2003 Publicação original: dissertação Formato da contribuição: texto resumido da dissertação Fonte: “Sítios Geológicos e Geomorfológicos dos municípios de Acari, Carnaúba dos Dantas e Currais Novos, Região Seridó do Rio Grande do Norte”, Natal: UFRN, Programa de Pós-Graduação em Geociências, 2003. E-mail do(s) autor(es): wendsonmedeiros@uern.br Títulos acadêmicos principais atuais: Geógrafo, Mestre em Geociências, Professor Assistente UERN Ecogeoturismo e geoconservação de sítios geológicos e geomorfológicos no Seridó Oriental do Rio Grande do Norte Wendson Dantas de Araújo Medeiros O presente trabalho trata-se de um levantamento geoambiental de sítios geo- lógicos, geomorfológicos, arqueológicos, paleontológicos e mineralógicos si- tuados nos municípios de Acari, Carnaúba dos Dantas e Currais Novos, Região Seridó do Rio Grande do Norte, visando identificar as potencialidades desses sítios para o desenvolvimento da atividade ecogeoturística e de projetos de geoconservação, bem como a problemática ambiental que os coloca em risco. Os sítios geológicos são recursos concretos dotados de formas e feições típicas ou estruturas com características marcantes que possuam importância fundamentada em sua multifinalidade para pesquisa científica; difusão do conhecimento científico na área das Ciências da Terra; atividades educacionais e recreativas; cria- ção e fortalecimento de uma consciência conservacionista; referenciais em guias turísticos, estimulando, através do eco-turis- mo [ecogeoturismo], a participação e desenvolvimento sócio-eco- nômico das comunidades locais (SIGEP, 2002) [grifo nosso]. A problemática conservacionista que envolve estes sítios, que constituem, de modo geral, a geodiversidade do planeta, deriva do fato de não possuírem Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    proteção legal, aocontrário do que ocorre com a biodiversidade. Neste sentido, a partir da década de 90, as comunidades geocientíficas do mundo inteiro passaram a se preocupar com o desaparecimento deste patrimônio natural, tendo como marco referencial as propostas elaboradas pelo grupo Gilges (Global Indicative List of Geolocical Sites), de modificações nas dire- trizes existentes até então para World Heritage Sites (Sítios do Patrimônio Mundial) da Unesco, inserindo as propriedades geológicas afetadas como objeto daquele projeto. Surgem, conseqüentemente, os primeiros projetos de geoconservação, inicia- dos na Europa, onde o objetivo principal é promover a preservação da geodiversidade para as presentes e futuras gerações. Exemplo dessa iniciativa é a atuação da Unesco, que financiou e incentivou a realização de inventários dos patrimônios geológicos de diversos países do mundo, com destaque para os países europeus. Posteriormente, em 1994, o Gilges viria a estabelecer novos conceitos e metodologias referentes aos projetos de geoconservação. Destarte, em 1996, a International Union of Geological Sciences – IUGS (União Internacional de Ciên- cias Geológicas), juntamente com a Unesco, através do World Natural Heritage (Patrimônio Natural da Humanidade), desenvolveram um método para a geoconservação denominado Geosites, o qual consiste num inventário dos prin- cipais sítios geológicos merecedores de receber proteção legal face às suas peculiaridades e características intrínsecas, e principalmente devido ao fato de constituírem um patrimônio que uma vez deteriorados não poderiam ser recupe- rados. Este fato provocaria um impacto de grande magnitude, uma vez que estava sendo apagado um capítulo da história evolutiva da Terra. Dentre os projetos pioneiros desenvolvidos na Europa, pode-se citar aqui o implantado pela Associação Européia para a Conservação do Patrimônio Geoló- gico – ProGEO, que, fundamentado nos conceitos do Gilges e Geosites, tem promovido projetos de geoconservação em estágios notáveis por grande parte dos países europeus. Seguindo o exemplo dos países da Europa, vários outros países, como a África do Sul, através da Sociedade Geológica Sul-Africana, também passaram a desen- volver projetos nesse sentido e a reivindicar a adoção de leis que venham a proteger o patrimônio nacional (Reimold, 1999). Em outros países, como no Brasil, por exemplo, apesar da existência de inúme- ras leis de proteção ao meio ambiente, referentes aos recursos naturais, princi- palmente os orgânicos, e culturais (Patrimônio Histórico e Artístico Nacional), resta ainda uma lacuna no que se refere à preservação e conservação dos sítios geológicos. 184 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Apesar disso, aLei n°. 9.985 de 18 de julho de 2000, instituiu o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza – SNUC, garantindo, com isso, certa proteção aos sítios geológicos, a qual pode ser confirmada com a criação das unidades de conservação denominadas Parque Nacional, Estação Ecológica, e em especial, Monumento Natural. Este último trata-se da única modalidade em que se pode inserir isoladamente o patrimônio geológico. Em se tratando, ainda, de Brasil, país signatário do Patrimônio Mundial da Unesco, Convenção Internacional para a Proteção de Sítios Culturais e Naturais, foi criada no final da década de 90, uma comissão científica constituída de geocientistas de todo o país, objetivando inventariar, de acordo com os princí- pios do Geosites, o seu patrimônio nacional. Esta comissão, denominada Comis- são Brasileira de Sítios Geológicos e Paleontológicos – SIGEP, após reunião realizada nos dias 26 e 27 de março de 1997, definiu as ações para a catalogação dos sítios brasileiros, que resultou na publicação de um livro bilíngue, com os 100 principais Sítios Geológicos do Brasil, com o mesmo intuito aqui discutido, ga- rantindo a sua proteção legal a partir de uma proposta como Sítios do Patrimônio Mundial da Humanidade à Unesco, visando a sua conservação e preservação in situ (SIGEP, 2002). Atualmente, a SIGEP está desenvolvendo ações para a publica- ção do segundo livro. Baseando-se nesses princípios é que se fundamenta este trabalho. Porém, propõe-se, como aliada aos projetos de geoconservação, a implementação do ecogeoturismo, que trata-se de uma modalidade de turismo, desenvolvido em bases geocientíficas e apoiada nos princípios da atividade ecoturística, que visa ao aproveitamento econômico dos sítios geológicos, como forma de fortalecer a sua proteção, a partir da participação das comunidades locais inseridas nas áreas dos sítios, da promoção da educação ambiental e de incentivos à pesquisa científica (Medeiros, 2003). Ao longo desta pesquisa, realizada no Programa de Pós-Graduação em Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, no período entre 2001 e 2003, foram identificados 7 sítios geológicos-geomorfológicos, sendo 3 no município de Acari, 3 no município de Currais Novos e um complexo de sítios no município de Carnaúba dos Dantas. Contudo, apresentar-se-ão, aqui, apenas os principais sítios referentes a cada um dos municípios, conforme se percebe a seguir. SÍTIO GEOLÓGICO-GEOMORFOLÓGICO-ARQUEOLÓGICO BARRA DA CARNAÚBA Situado no município de Acari, na comunidade de Barra de Carnaúba, no leito do rio Carnaúba, distante cerca de 18 km do centro da cidade, o sítio se caracte- riza pelo afloramento de rochas graníticas, de idades em torno de 600 Ma (Sou- za, 1996), textura predominante porfiroblástica e coloração acinzentada, onde se encontram grandes cristais, bem preservados e orientados, os quais podem Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    indicar a direçãodo pólo magnético da Terra no período de sua cristalização, uma vez que há uma relação semelhante entre a fábrica magmática e a magnéti- ca, conforme observou Archanjo (1993). Neste sítio, pode-se observar a atuação de eventos tectono-metamórficos em ambientes pretéritos, sendo evidenciados pela presença de inúmeros diques pegmatíticos que intruindo as rochas, apresentando-se ora homogêneos, com predomínio de K-feldspatos, ora heterogêneos, com mineralizações de turmalina negra (schorlita) e berilo, que podem ser vistas a olho nu. Em toda sua extensão, as formas predominantes no sítio decorrem de proces- sos de dissecação do relevo, em virtude do entalhamento da drenagem do rio Carnaúba, que foi o principal responsável, juntamente com os processos intempéricos, pela sua esculturação atual. Constituem-se de pequenos serrotes alongados no sentido W-E, de composição granítica predominante, com cristas sob a forma de domos bastante dissecados. Nestes, destaca-se um grande núme- ro de marmitas e formações curiosas, com profundidades consideráveis, che- gando a mais de 4 metros em alguns pontos do rio (Figura 1), proporcionado um cenário de grande beleza cênica, e assemelhando-se à paisagem lunar. Estas, por sua vez, tiveram sua origem relacionada a movimentos turbilhonares decorren- tes da alta energia fluvial durante épocas de intensa pluviosidade, alternando-se a períodos de escassez pluviométrica, que determinaram os regimes energéticos e deposicionais dos rios da região. Figura 1. Marmitas do Rio Carnaúba. (Fonte: acervo do autor) 186 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Apesar de suaimportância geológica e geomorfológica, verificada em função de seus constituintes e morfologias variadas, este sítio também possui grande importância histórico-cultural e didático-científica, uma vez que são encontra- dos em algumas marmitas, registros pré-históricos sob a forma de inscrições rupestres realizadas pelos nômades da Tradição Itaquatiara, que, segundo dados cronológicos, habitaram a Região Seridó há cerca de 2.500 anos (Martin, 1999). Tudo isso, aliado ao seu potencial didático-científico, constitui forte potencial para o desenvolvimento da atividade ecogeoturística e justifica a necessidade de projetos de geoconservação. SÍTIOS GEOMORFOLÓGICOS DO MUNICÍPIO DE CARNAÚBA DOS DANTAS Os sítios geomorfológicos do município de Carnaúba dos Dantas se encontram integrados em uma grande área, denominada Complexo Geomorfológico Riacho do Bojo. Esta denominação se deve ao fato de ao longo deste riacho, afluente do rio Carnaúba, ocorrer vários sítios arqueológicos inseridos em feições geomorfológicas de grande beleza cênica e paisagística, constituídas por canyons e gargantas profundas. A litologia dominante – quartzitos da Formação Equador – ao longo do riacho do Bojo permitiu o desenvolvimento de um modelado marcado pela presença de canyons, gargantas, grutas e marmitas profundas, que asseguraram ao homem pré-histórico condições de sobrevivência, e dotaram a região de uma grande e diversa beleza cênica de elevado potencial turístico e ecogeoturístico, pelo seu caráter didático e científico. Essas formações são decorrentes de intensos processos erosivos e intempéricos, iniciados com o processo de rebaixamento do relevo no Cretáceo, pela forte atuação da drenagem, que era marcada por intensa energia hidráulica dos rios nesse período determinado, e que obedecia a um rígido controle estru- tural, de sentido predominante NE-SW. Dentre as formações típicas desse processo encontradas ao longo do riacho do Bojo, tem-se o Canyon dos Fundões, ou Grota Funda; o Canyon da cachoeira do Bojo; o pequeno Canyon da passagem, e o abrigo Casa Santa. No afluente da margem esquerda do rio Carnaúba – o riacho do Ermo, formações como a Serra do Xique-Xique e a Pedra do Alexandre também apresentam particularidades e, por isso, serão discutidas a seguir. O Canyon dos Fundões possui elevada profundidade e declividades com in- clinações de 70-90°, e no seu leito encontram-se blocos rochosos que, depois de erodidos, foram transportados pelo rio na sua juventude, registrando a sua alta energia hidráulica em épocas passadas e a existência de um clima mais Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    ameno e maischuvoso naquela região semi-árida. Também se verifica sedi- mentos grosseiros, tipo areia, que registram um período de calmaria do rio, onde o seu potencial de transporte diminuiu e aumentou a sua função de depo- sição, indicando um período de modificação climática assemelhando-se ao clima atual dominante, onde as chuvas são escassas e os rios secam durante a maior parte do ano. Neste sítio geomorfológico, pode-se observar gravuras rupestres, as quais são atribuídas à Tradição Itaquatiara, formando o sítio arqueológico dos Fundões ou Grota Funda. Também nesse sítio, que possui subdivisões (Fundões I,II,III e IV), observa-se inscrições da Tradição Agreste, no local conhecido por Pedra da Macambira, tendo recebido esse nome pela abundância dessa espécie vegetal na área. As inscrições, embora de difícil interpretação, podem indicar processos de contagem realizados pelas tribos, bem como o desenho de astros ou início de uma tradição que tinha no geometrismo sua forma de representação, bem como representações possivelmente relacionadas ao uso de substâncias alucinógenas (Pessis, 1992; Martin, 1999). Como se pode observar, possuem características que possibilitaram o abrigo de tribos indígenas pré-históricas, como as marmitas na Pedra da Macambira, que acumulavam água na época chuvosa e esta permanecia armazenada durante a estação seca, e as grutas do Fundões, que serviam de abrigo e proteção àque- las tribos. Vale ressaltar, que este abrigo deveria ser mais profundo na época de ocupação deste povo, há cerca de 2.500 anos, haja vista que a quantidade de sedimentos inconsolidados presentes na área indica que houve um processo de assoreamento, diminuindo, portanto, a profundidade da referida gruta. Tal fato possibilita o desenvolvimento de estudos arqueológicos mais aprofundados nesta área, uma vez que é possível a realização de escavações com o intuito de se encontrar elementos materiais que auxiliem no estudo evolutivo dessa tradição. Seguindo, ainda, o percurso rumo à nascente desse riacho, observa-se a formação de pequenos canyons como o escavado pela cachoeira do Bojo. Nesse canyon, ainda jovem, é possível identificar a sinuosidade do rio duran- te o seu processo erosivo, e nele pode-se observar a existência de água em profundidade mesmo na época de estiagem. Esse local recebe o nome de cachoeira do Bojo, e devido ao fato de não secar, conforme afirmações de antigos moradores daquela região, habitam no imaginário popular crendices a respeito de encantos e mitos que vivem nas suas águas. Embora seja um lugar de difícil acesso, antigamente havia naquelas imediações várias fazen- das de gado, e suas comunidades usavam o local para prática de lazer, sendo hoje restrita aos aventureiros e caçadores que rondam constantemente a área. Aí também se percebem registros da passagem humana na antiguidade, como as gravuras da Tradição Itaquatiara. 188 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Continuando a trilhapelo afluente da margem direita do riacho do Bojo, atravessando obstáculos como canyons e paredões, toma-se o acesso para um dos mais representativos sítios arqueológicos do Nordeste: a Casa Santa (Martin, 1999). Trata-se de um abrigo sob rocha, onde um grande painel encon- tra-se pintado com registros das tradições Nordeste e Agreste e, em menor número, da Itaquatiara. Ao longo desse percurso, observam-se formações semelhantes, esculpidas em rochas quartzíticas, como o Canyon da Passagem, que demonstra claramente o seu controle estrutural pelo seu aspecto retilíneo. As formas da Casa Santa permitem identificar a atuação predominante de processos intempéricos provocando a desagregação da rocha, facilitando o seu transporte pelo rio, que se encontra muito próximo de sua nascente. Os painéis apresentam figuras de fácil identificação, como cenas clássicas de caça, dança e luta. Observam-se desenhos de pirogas com remos, como um indicativo da existência de rios caudalosos na época em que essa tribo ocupou a região. Estas, no entanto, têm gerado hipóteses diversas, algumas consideradas até fantasiosas. Entre elas, está a que defende uma possível relação com os povos fenícios, os quais poderiam ter chegado à região através desse meio de transporte. Estudado desde a década de 80, este abrigo não possui condições que permi- tam o habitat das tribos, tendo sido usado apenas para abrigos temporários, para rituais ou como ponto de observação, devido à sua situação em pontos elevados (Martin, 1999). Além destes sítios, ao longo do riacho do Bojo, têm-se outros sítios de mesma importância que são encontrados na Serra do Xique-Xique e às margens do riacho do Ermo, também afluente do rio Carnaúba, que são, respectivamente, os sítios arqueológicos Xique-Xique I e Pedra do Alexandre. No caso do Sítio Arqueológico Xique-Xique I, pode-se verificar registros rupestres dotados de cenas clássicas, como dança ao redor de uma espécie de fitomorfa; representação de zoomorfos, como uma ema deitada no ninho com ovos, ameaçada por um caçador; cenas de sexo e de estupro (Pessis, 1992; Vidal, 1996, Macedo, 2001a), que se encontram apagadas em função da deterioração natural, derivado dos processos intempéricos, e da atuação antrópica no sítio, que é bastante vsitado, dado as facilidades de acesso. Já o Sítio Pedra do Alexandre, caracterizado pela atuação de processos erosivos diferenciais, consiste de um micaxisto da Formação Seridó que sofreu profundas alterações decorrentes da intrusão do Maciço Acari, há aproximadamente 600 Ma. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Ele possui umaparticularidade em especial: o caso de ter sido utilizado como cemitério indígena e como lugar para prática de rituais funerários. Escavações realizadas aí permitiram a identificação de 28 esqueletos humanos, os quais havi- am sido enterrados junto com adornos como colares e apitos. Nestes corpos, foram encontrados restos de carvão que poderiam ter sido utilizados em fogueiras realizadas nos rituais para enterramentos secundários. As datações realizadas neste carvão revelaram idades de 9.400 anos AP (Martin, 1999; Macedo, 2001b). Todo esse complexo se vê constantemente ameaçado em detrimento da prá- tica de garimpagem de minerais como tantalita e columbita, abundantes nessa área, que ocorre sem nenhum tipo de controle, de forma rudimentar, provocando sérios impactos ambientais e desrespeitando os patrimônios naturais e culturais aí identificados. COMPLEXO GEOMORFOLÓGICO-ARQUEOLÓGICO-PALEONTOLÓGICO DO TOTORÓ A Região do Totoró está localizada no município de Currais Novos, a cerca de 12 km da sede municipal, em sua porção norte, sendo reconhecida, historica- mente, como a base do início do processo de colonização da cidade. Foi nela onde se estabeleceram os primeiros currais para a criação de gado, atividade fundamental para a ocupação do território e fundação do município. O Complexo Totoró encontra-se assentado sobre um embasamento cristalino gnáissico-migmatítico que não chega a aflorar na área, tendo como sequência supracrustal, rochas granitóides de idade brasiliana, correlacionadas ao Maciço Acari-Totoró. Também sobrepostas ao embasamento ocorrem sequências metassedimentares vulcânicas e formações sedimentares recentes, do Quaternário, como os sedi- mentos da Formação Tanques ou Cacimbas, onde se encontram vestígios de uma megafauna pretérita. Esta constituição litológica proporciona a esculturação de formas típicas no modelado da área, muitas vezes assemelhando-se a materiais e objetos presentes no cotidiano da região. Tais feições decorrem de processos erosivos e intempéricos que atuam na região há milhares de anos, e estes produziram um modelado marca- do por serras elevadas e íngremes, geralmente de composição granítica. No processo de morfogênese da área, a rede de drenagem controlada por falhamentos nas estruturas geológicas propiciou um arrasamento do relevo, reduzindo-o a altitudes modestas, em torno de 600 metros. A principal alimen- tação dessa rede deriva das vertentes da Serra de Santana, que fica a norte da área do Totoró. 190 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Em função dessesprocessos, a região abriga feições típicas, de aspectos curiosos e que cultivam o imaginário popular, que podem ser identificados como sítios geomorfológicos, tanto por apresentar certa beleza cênica, como por permitir um estudo sobre o seu processo evolutivo ao longo de milhares de anos. Nesse caso, possui um importante potencial didático-científico e ecogeoturístico, necessitando, portanto, de proteção legal com vistas à sua preservação para as futuras gerações. Um dos casos que vem caracterizar o sítio geomorfológico é o da Pedra do Caju (Figura 2). Esta feição, típica de regiões graníticas, tem seu processo de origem ligado à atuação de agentes intempéricos e da erosão diferencial. Isto é, a ação desses processos, de forma conjunta e simultânea, propiciou a fragmen- tação da rocha, obedecendo aos seus planos de fratura, e foi desgastando as partes mais frágeis, que foram carreadas pela ação dos ventos e das águas, propiciando a formação atual. O que se observa é uma cena natural de equilíbrio, onde uma rocha, aparentemente solta, se equilibra de forma muito estável. Tal situação influencia o imaginário popu- lar, que não raro, atribui à formação uma origem divina ou até mesmo extraterrena. Figura 2. Pedra do Caju. (Fonte: acervo do autor) Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Ainda em relaçãoao patrimônio geomorfológico, pode-se citar um outro exemplo semelhante: a Pedra do Letreiro, que possui, também, relevância histó- rico-cultural, haja vista a existência de registros rupestres da Tradição Agreste que caracterizam o sítio arqueológico que originou o topônimo. Em virtude disso, faz-se necessário a adoção de medidas urgentes de proteção a esses sítios, uma vez que o desaparecimento desses registros teria um profundo im- pacto negativo na busca da evolução histórica e ocupacional do homem pré- histórico naquela região. Complementando o sítio geomorfológico e arqueológico, pode-se citar o caso da Pedra Furada, que recebeu esse nome em função da existência de um orifício quase no centro dela, decorrente da atuação dos processos intempéricos e erosivos. Destes processos, merecem destaque a atuação do intemperismo químico e a erosão diferencial, que propiciaram uma espécie de abrigo, erodindo a rocha internamente. Nesse abrigo, observa-se a existência de registros rupestres da Tradição Agreste, onde se observam, inclusive, antropomorfos. Nesse sítio ar- queológico, porém, verificou-se a necessidade urgente de adoção de medidas de proteção, uma vez que o mesmo encontra-se degradado por pichações realiza- das pela ação antrópica. Complementando o contexto geral da área, a importância histórica e geológi- ca é fortalecida pela existência de um sítio paleontológico denominado Lagoa do Santo. Nele, já foram retirados, desde a década de 70, inúmeros registros de fósseis de mamíferos gigantes, como preguiças, mastodontes e outros, regis- trando a passagem desses animais constituintes da megafauna pleistocênica – megatérios – nessa localidade (Porpino e Santos, 1997; Santos, 2001). O sítio paleontológico Lagoa do Santo caracteriza-se por sedimentos consti- tuintes da Formação Tanques ou Cacimbas, de idade quaternária, que se limita estruturalmente com granitóides pré-cambrianos. Os fósseis retirados encon- tram-se espalhados por vários lugares como no Museu Câmara Cascudo, em Natal; no Colégio Camilo Toscano e na Associação Amigos do Seridó, em Currais Novos; e em coleções particulares. Constitui-se, portanto, de um importante registro da existência de megafauna pretérita, o que permite a realização de estudos científicos que podem vir a possi- bilitar a identificação de paleoambientes climáticos, conforme sugere Prado e Alberdini (1999), em seu estudo sobre a importância dos fósseis na região dos Pampas argentinos, os quais haviam favorecido a existência dessa abundante fauna. Ainda na área da Lagoa do Santo, cujo topônimo deriva, segundo conta a história popular, do fato de há cerca de 300 anos ter sido encontrada uma imagem de um santo (São Sebastião) soterrada na lagoa, e que hoje, existe uma 192 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    particularidade que chamaa atenção de todos que visitam a área. Trata-se de uma rocha, de composição granítica, partida no meio, que emite o som de um sino a partir de qualquer pancada que venha a receber, de um instrumento metá- lico ou uma outra rocha. A esta rocha denominou-se Pedra do Sino. PROBLEMÁTICA AMBIENTAL A problemática ambiental que envolve estes sítios decorre da degradação paisagística já existente, a qual é mais perceptível no âmbito da vegetação, em função do desmatamento excessivo ocorrido para suprir a demanda de lenha nas cerâmicas da região. Somando-se a isto, pode-se citar o desenvolvimento da atividade mineira, principalmente, com a prática de garimpos irregulares visando tanto à extração de minerais e gemas semipreciosas, quanto à extração de rochas ornamentais, neste caso, tem nos granitos sua principal matéria-prima. Esta atividade, da forma como vem ocorrendo, sem nenhum controle ou planejamento, coloca em risco a existência do patrimônio geológico e cultural da região. Ela é responsá- vel pela destruição de belos exemplares e afloramentos geológicos, por altera- ções drásticas no relevo, pelo desaparecimento de sítios arqueológicos, só para citar alguns dos diversos impactos que causa. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante da problemática ambiental que envolve os sítios identificados, junta- mente com sua potencialidade ecogeoturística ainda inexplorada, aliada à au- sência de leis que visem proteger esse patrimônio, propõe-se algumas medidas de proteção, calcadas em projetos de geoconservação e ecogeoturismo, como forma de garantir a preservação do patrimônio natural objeto deste estudo. Destarte, objetivam preservar a história do planeta e da evolução da vida na Terra para as presentes e futuras gerações, uma vez que, quando deteriorados estes sítios, que possuem idades na escala de bilhões e milhares de anos, jamais podem ser recuperados, desaparecendo por completo da face da Terra. Seria, analogamente, como se arrancasse uma página do único livro que conta a histó- ria evolutiva do nosso planeta, e essa página não pudesse mais ser re-escrita. Dentre essas medidas, sugere-se aqui algumas específicas que podem ser adotadas à proteção do sítio, como as que seguem abaixo: • reconhecer os sítios geológicos, geomorfológicos, mineralógicos, arqueo- lógicos e paleontológicos identificados como patrimônios naturais, ou cul- turais, ou ainda, monumentos naturais e/ou culturais; Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    • elaborar leisno âmbito municipal e/ou estadual que garantam a sua proteção; • criar unidades de conservação, tais como áreas de proteção ambiental, par- ques temáticos e/ou geoparques com o intuito de proteger estes patrimôni- os; • elaborar plano de gestão para a implantação do ecogeoturismo, envolvendo as comunidades locais num processo participativo; • disciplinar a visitação e as atividades desenvolvidas nas áreas destas unidades ou dos sítios, a partir da elaboração de planos de manejo destas unidades; • promover a educação ambiental nas comunidades circunvizinhas; • divulgar o potencial histórico-natural dos sítios, promovendo campanhas de conscientização e educação ambiental para a população. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] 194 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2003 Publicação original: anais de congresso Formato da contribuição: resumo de artigo (tabelas retiradas) Fonte: I CONGRESSO MARANHENSE DE TURISMO, Hotel Vila Rica - 27 a 29 de março de 2002. E-mail do(s) autor(es): leopoldovaz@elo.com.br Títulos acadêmicos principais atuais: Professor de Educação Física, Centro Federal de Educação Tecnológica do Maranhão, Departamento Acadêmico de Ciências da Saúde; Mestre em Ciência da Informação. A Formação Técnica e o seu Papel no Mercado Turístico Leopoldo Gil Dulcio Vaz Através do turismo, diversas regiões do país conseguiram alcançar o seu de- senvolvimento econômico, exportando produtos locais e melhorando a qualida- de de vida da comunidade. Os números comprovam. O turismo emprega mais pessoas do que qualquer outra indústria: um em cada dez trabalhadores do Brasil. O setor é responsável por, aproximadamente, 8,2% das exportações mundiais e representa cerca de 10% do produto interno bruto. A indústria turística estimula a criação de pequenos negócios: bares, restaurantes, locadoras, pousadas, arte- sanato, comércio de praia e guias, além de beneficiar indiretamente muitas ou- tras atividades. O Governo - seja através da EMBRATUR, do SEBRAE, do BNB e outras institui- ções estaduais e municipais - vem apresentando-se com uma participação ine- quívoca na criação da infra-estrutura indispensável ao desenvolvimento do tu- rismo no Brasil, através: • do levantamento das vocações municipais relacionadas ao turismo; • da identificação do fluxo de turistas, realização de pesquisas e análises de sua origem e interesses; • da identificação de valores arquitetônicos, urbanísticos, paisagísticos e culturais; Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    • da elaboraçãode diagnósticos realizados com base nos dados levantados sobre as diversas regiões e municípios; • da capacitação dos prestadores de serviços; • da educação para o turismo; • do estimulo ao envolvimento das instituições de ensino; • da sinalização, informação e programação visual das cidades; • das ações de preservação e restauração; e • ao acompanhamento e avaliação, Dentre os objetivos dessas ações, destaca-se o estimulo à expansão e à cria- ção de novos negócios e consequentemente • a geração de novos postos de trabalho, e • contribuir para formação e capacitação dos profissionais que prestam serviços para o turismo, visando qualidade e produtividade; As análises sobre a situação do lazer nas sociedades contemporâneas e suas relações com as iniciativas privada e pública pressupõe algumas considerações básicas: • a importância do setor de lazer na estrutura econômica do mundo, pois o lazer é um dos muitos componentes do âmbito terciário da economia e faz parte do mais importante setor das sociedades denominadas pós-industriais – o da pres- tação de serviços; • essa economia de serviços está crescendo em linhas gerais e especialmente no setor de telecomunicações, informática, finanças e turismo (uma das áreas abrangidas pelo lazer); • Os setores de lazer e turismo dependem intimamente dessas novas tecnologias, principalmente da informática e das telecomunicações, criando um mundo com características muito particulares, havendo um grande crescimento no setor terciário, com o desaparecimento de empregos no setor industrial e o surgimento de novos postos no setor de serviços; • O setor está crescendo de forma bastante considerável, especialmente nas áreas de lazer e turismo, que dependem intimamente das novas tecnologias (o que exige acesso ao conhecimento, não apenas ao conhecimento formal esco- lar, mas também ao conhecimento de informática e de línguas estrangeiras, além de habilidades mais subjetivas como iniciativa própria, criatividade e cul- tura geral, que não necessariamente apreendidos numa escola). 196 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Essa nova realidadeda economia é evidente nos países desenvolvidos. Apesar de o lazer estar presente nos grandes centros urbanos do Brasil, ainda apresenta-se lacunas na elaboração da problemática envolvendo o setor. A estrutura, o planejamento e a administração do lazer implicam vários níveis abertos de discussão, na medida em que muitos pontos importantes, teóricos e práticos, anda não foram estabelecidos por vários motivos: • O setor do lazer e turismo é relativamente recente no Brasil; • Falta de consciência de que a formação profissional é indispensável para o bom funcionamento de serviços aos clientes; • Falta de programas e controles da qualidade dos serviços em lazer e turismo; • Poucas escolas e centros de formação profissional destinadas à formação em turismo, hotelaria, alimentos e bebidas, lazer; • Os setores estatais não têm nível elevado de operacionalidade ou mínimas condições de operar na área; • Alguns setores privados não conhecem profundamente lazer e turismo, e assim não investem adequadamente em equipamentos, projetos eficientes, formação e reciclagem de mão-de-obra especializada; • Setores da sociedade civil ainda não adquiriram consciência de que o lazer é um direito tão necessário e legítimo como a saúde, a habitação, a segurança, o transporte e a educação. (TRIGO, 1995) A indústria do turismo tem consolidado, no mundo, como uma atividade indutora de desenvolvimento. Com seu efeito multiplicador efetivo, propicia o incremen- to de novas atividades econômicas. O ingresso do CEFET-MA nessa área de atividade visa, sobretudo a interface dos setores privados e públicos na articulação conjunta de ações que viabilizem o turismo como atividade econômica geradora do desenvolvimento nacional. Os cursos que se pretende implantar terão a característica de qualificação e requalificação profissional dos recursos humanos, com atuação focada para o Maranhão e a Região Nordeste, contribuindo para a criação de um pólo de desenvolvimento do turismo. Além disso, os cursos, como produtores de “saber fazer”, contemplam uma visão do Maranhão como destino turístico integrado e área prioritária de inves- timentos e políticas setoriais, que só poderão ser implementados com o desen- volvimento do empreendedorismo, aliado as práticas de explorar o turismo de forma sustentável e consciente. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    CENÁRIO EM QUESE INSEREM OS CURSOS TÉCNICOS NA ÁREA DE TURISMO O turismo é uma das atividades que mais cresce no Mundo. Por permitir rápido retorno do investimento, gerar empregos diretos e indiretos e por sua ligação com os mecanismos de arrecadação, o turismo é a atividade que mais contribui para o desenvolvimento de diversos países. Para obter resultados é imprescindível que este turismo seja feito de forma organizada e racional. O Maranhão possui grande vocação para o turismo e o tem como símbolo de suas melhores expectativas de integração e desenvolvi- mento, graças às condições territoriais, climáticas e culturais. A participação do turismo no PIB brasileiro já é de 8%. Porém, o fluxo turístico em direção ao Brasil está muito aquém de nossas potencialidades. O momento exige a transformação do potencial latente em novos negócios e vantagens competitivas. Estado do Maranhão situa-se no nordeste do Brasil, limitado pelos estados do Piauí, Pará e Tocantins, com uma população estimada em torno 4.900.000 habitantes, possu- indo um baixo grau de industrialização, quando comparado com outros estados do Nordeste e/ou Sudeste do país. Possui uma área territorial de 324.600 Km2 , que lhe assegura a condição de segundo Estado do Nordeste em extensão. Loca- liza-se entre as macro regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, o que lhe assegu- ra especificidade espacial e favorece sua climatologia, não possuindo a aridez do Nordeste, nem a excessiva umidade da Amazônia: Os aspectos culturais, históricos e as belezas naturais constituem os grandes atrativos para o desenvolvimento do Turismo, notadamente nos segmentos de Ecoturismo e Turismo Cultural. Os principais setores produtivos do Maranhão são: • a agropecuária, • indústria e comércio, e • turismo. O turismo, como opção econômica geradora de oportunidade de trabalho e renda, vem merecendo destaque no Estado, que dividiu em zonas de interesse, por homogeneidade e proximidade dos atrativos: · Zona de Patrimônio Histórico Cultural, formada pelos municípios de São Luís, Alcântara, Raposa e São José de Ribamar; com destaque para São Luís - reco- nhecida pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade, e Alcântara, tombada pelo Patrimônio Histórico Nacional. • Zona dos Lençóis Maranhenses, composta pelos municípios de Barreirinhas, Humberto de Campos, Paulino Neves, Primeira Cruz, Tutóia e Araióses. Pólo de 198 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    ecoturismo onde seencontra o Parque Nacional dos Lençóis Maranhenses, com uma área de 155 mil hectares de dunas e lagoas de água doce cristalina, o Delta do Rio Parnaíba, único em mar aberto da América Latina, composto de igarapés, mangues, dunas, ilhas e ilhotas, das quais 65% estão em território maranhense. • Zona das Reentrâncias Maranhenses, constituída pelos municípios de Cururupú, Guimarães, Cedral, Mirinzal, Porto Rico, Serrano, Apicum-Açú e Bacuri, inseri- dos no Programa de Ecoturismo para Amazônia Legal. • Zona das Chapadas, integrada pelos municípios de Imperatriz, Carolina, Riacho, Balsas, Mirador, Grajaú e Nova Iorque; onde se encontra uma das maiores áreas preservadas de cerrados da América Latina e o Parque Estadual do Mirador, com uma área de 700 mil hectares, que protege nascentes dos rios, fauna e flora da região. • Zona dos Lagos O Estado do Maranhão dispõe para viabilidade de negócios em diversas áreas, sendo que na do Turismo apresenta-se: • Utilização de fazendas para a prática do turismo rural - criação de serviços de hotelaria - resort de fazendas ou estâncias, combinando o turismo rural com a proteção do meio rural, que está sendo desenvolvido nos municípios de Balsas, Barra do Corda, Viana, Imperatriz e Pinheiro; • Implantação de meios de hospedagem e serviços de alimentação nos principais pólos de ecoturismo do Estado; • Serviços de entretenimento e lazer em São Luís, Alcântara, São José de Ribamar e Morros. O que determina este quadro O turismo envolve uma multiplicidade de serviços: transporte, hospedagem, alimentação, agenciamento, trabalho de intérprete e tradutor, guias turísticos, organização de eventos, entretenimento, etc. São muitas empresas e profissio- nais envolvidos, diversas interações e etapas a serem percorridas, tornando a atividade complexa e de difícil mensuração. No Brasil, as estimativas da EMBRATUR, referentes ao ano de 1990, indicam 1,7 milhões de pessoas diretamente empregadas no turismo. O despreparo desse enorme contingente de trabalhadores e a dificuldade de acesso que têm as pequenas e microempresas às novas tecnologias, são grandes dificuldades a serem superadas no turismo. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Oportunidades Investimentona formação da cultura do turismo, aqui incluídas a formação profissional e gerencial, é a grande lacuna que vem a ser preenchida pelos Cursos Técnicos na área de Turismo. Atuar neste cenário é propiciar a um maior número de investidores, empresários, técnicos e trabalhadores o ingresso no mercado de trabalho, favorecendo a gera- ção de trabalho e renda, contribuindo inclusive para um melhor equilíbrio social. Por seu caráter multidisciplinar e polivalente, os Cursos Técnicos de Turismo propõe-se a ser curso modelo, justificando a sua criação como um vetor de aceleração do processo de desenvolvimento do turismo em termos regionais. Os Cursos Técnicos de Turismo têm com objetivos: • Possibilitar a aquisição integrante de conhecimentos e técnicas que permitam prioritariamente uma atuação na área de turismo; • Oportunizar a aquisição de conhecimentos genéricos da área de lazer (parques de lazer; parques aquáticos; academias de ginástica; centros esportivos volta- dos para um interesse específico (natação, futebol, tênis, voleibol); centro poliesportivo em geral; parques urbanos; centros culturais e esportivos; hotéis de lazer; resorts; colônia de férias; grandes parques em escala regional, estadu- al e nacional, quando têm unidades de hospedagem, camping, acampamentos; pousadas em locais retirados (praias, montanhas, reservas ecológicas); pousa- das em cidades turísticas. • Desenvolver atitudes éticas reflexivas, críticas, inovadoras e democráticas; • Propiciar a auto-realização do estudante, como pessoa e como profissional; • Considerar interesses do aluno, estimulando-o ao aperfeiçoamento contínuo. DIRETRIZES CURRICULARES NACIONAIS - ÁREA PROFISSIONAL : TURISMO Segundo o estudo “A Indústria do Turismo no Brasil – Perfil & Tendências”, da Associação Brasileira de Entidades de Hospedagem, Alimentação e Turismo – ABRESI, EMBRATUR e SEBRAE, 1996, o setor de agências de viagens teve seu maior crescimento nos últimos anos. De 1991 a 1993 passou de 4.500 para 5.340, conforme registra aquele estudo. Acrescenta que nos três anos seguintes, segun- do a Associação Brasileira das Agências de Viagens – ABAV, teve um salto ainda mais significativo, chegando a 10.000 em 1996. Quanto ao setor de entretenimento, recreação, esporte e cultura, não há da- dos agregados que permitam a quantificação do seu crescimento, dada a sua 200 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    variedade e diversificação,além da falta de critérios estatísticos que possibili- tem as informações. Já foi assinalado que é freqüente e crescente a criação de programas e equipamentos sociais destinados ao convívio social e à produção, apresentação e fruição artística, cultural, esportiva e recreativa. O estudo da ABRESI destaca a alta do entretenimento no mundo todo, indicando que se tor- nou um ramo tão lucrativo em nosso país que está atraindo diversos gigantes estrangeiros do setor. Na perspectiva da formação profissional, segundo o mesmo estudo, as ativi- dades de turismo necessitam de esforços concentrados na formação gerencial. A Organização Internacional do Trabalho – OIT, através de documentos prepa- rados para várias de suas reuniões, tratou especialmente desta área de ativida- des profissionais, juntamente com as de hospedagem e alimentação (Reuniões Técnicas Tripartites para os Hotéis, Restaurantes e Estabelecimentos Similares, 1974 e 1983; 1ª Reunião da Comissão da Hotelaria, da Restauração e do Turismo, 1989; e 78ª Reunião da Conferência Internacional do Trabalho, 1991). Assinalam tais documentos os traços da evolução e as tendências para a área, entre as quais o crescimento continuado do “fenômeno turístico”, sua internacionalização e sua dependência em relação às “crises” mundiais. Destas tendências, decorrem para seus profissionais as perspectivas de: • ampliação considerável de possibilidades; • maiores exigências de: - mobilidade, - disponibilidade, - polivalência, - adaptabilidade, - capacidade de comunicação, - integração em equipe, - animação. O processo produtivo nesta área está voltado não só para a criação de produtos a serem ofertados, como, sobretudo, para a prestação de serviços turísticos, de lazer e eventos (estes dois, tanto integrados à atividade turís- tica e à hoteleira, quanto promovidos isoladamente, inclusive para partici- pantes e públicos locais). Este processo é realizado em operadoras e agências, promotoras de eventos e de animação turística e sócio-cultural, companhias aéreas, transportadores, Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    hotéis e outrosmeios de hospedagem, parques, clubes, órgãos de turismo, de cultura e esportes, empresas de entretenimento, etc. Algumas atividades são realizadas na forma de trabalho autônomo. Nesse sentido, como constituintes desse processo, foram identificadas fun- ções essenciais de planejamento, de promoção e venda, e de gestão. Em cada uma dessas funções foram identificadas subfunções implicadas na geração de produtos e na prestação de serviços, ou nos resultados parciais do processo e no resultado final para o cliente/usuário. • Função 1. Planejamento: atividades voltadas para a concepção e articulação do agenciamento e da operação turística, da condução/guiamento do turista, e da promoção de eventos e de lazer. - Subfunção 1.1. Concepção, viabilização e organização de produtos e servi- ços turísticos e de eventos e de lazer, adequados aos interesses, hábitos, atitu- des e expectativas das clientelas efetiva e potencial. - Subfunção 1.2. Articulação e contratação de programas, roteiros, itinerários e de meios para sua realização, com seleção, relacionamento e negociação com prestadores de serviços e provedores de infra-estrutura e de meios de apoio. • Função 2. Promoção e venda: atividades voltadas para o “marketing” e a comercialização dos produtos e serviços turísticos, de eventos e de lazer. - Subfunção 2.1. Prospecção mercadológica, adequação dos produtos e servi- ços, e identificação e captação de clientes, para desenvolvimento e operacionalização da política comercial. - Subfunção 2.2. Comercialização de produtos e serviços turísticos e de lazer, com direcionamento de ações de venda para as clientelas efetiva e potencial. • Função 3. Gestão: atividades voltadas para o gerenciamento do processo de execução do agenciamento, operação e condução do turista, e da promoção de eventos e de lazer. - Subfunção 3.1. Gerenciamento econômico, técnico e administrativo dos núcle- os de trabalho, com organização e articulação dos setores internos, e com supervisão e coordenação dos recursos, visando ao atendimento com qualidade. - Subfunção 3.2. Gerenciamento do pessoal envolvido na oferta dos produtos e na prestação dos serviços. Esta subfunção é destacada da anterior pela prevalência do fator humano nas atividades desta área e das exigências de relacionamento, comunicação, liderança, motivação, trabalho em equipe, for- mação e desenvolvimento do pessoal. 202 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    - Subfunção 3.3.Gestão dos meios tecnológicos aplicados no desenvolvimen- to das atividades, com supervisão da utilização de máquinas, equipamentos e meios informatizados de informação, comunicação e gestão. - Subfunção 3.4. Manutenção e/ou readequação do empreendimento, dos pro- dutos e dos serviços às variações da demanda, com desenvolvimento de visão mercadológica prospectiva e inovadora. - Subfunção 3.5. Acompanhamento pós-execução para controle da qualidade dos produtos, serviços e atendimento, visando à satisfação do cliente. Simultaneamente com a indicação das subfunções, foi encaminhada a identi- ficação das competências e habilidades requeridas do profissional, que condicionam e viabilizam o desempenho eficaz daquelas funções e subfunções. A correspondência dessas competências e habilidades com os conteúdos da aprendizagem foi explicitada na identificação das bases tecnológicas. CARGA HORÁRIA GLOBAL MÍNIMA A carga horária global mínima para os diversos cursos desta área foi definida em 750 (setecentos e cinqüenta) horas. TURISMO - PROCESSO DE PRODUÇÃO FUNÇÕES PLANEJAMENTO SF 1.1 - Concepção, viabilização e organização. SF 1.2 - Articulação e contratação de programas, roteiros, itinerários. PROMOÇÃO E VENDA SF 2.1 - Prospecção mercadológica, adequação dos produtos e serviços, e identificação e captação de clientes. SF 2.2 - Comercialização de produtos e serviços GESTÃO SF 3.1 - Gerenciamento econômico, técnico e administrativo dos núcleos de trabalho. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    SF 3.2 -Gerenciamento do pessoal envolvido na oferta dos produtos e na prestação dos serviços SF 3.3 - Gestão dos meios tecnológicos SF 3.4 - Manutenção e/ou readequação do empreendimento SF 3.5 - Acompanhamento pós-execução Função 1 – PLANEJAMENTO SUBFUNÇÃO 1.1 – CONCEPÇÃO, VIABILIZAÇÃO E ORGANIZAÇÃO. COMPETÊNCIAS • Interpretar legislação pertinente • Interpretar pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos. • Identificar e avaliar: • os meios e recursos disponíveis • informações sobre as clientelas efetiva e potencial • as oportunidades de mercado • sintetizar e relacionar os meios e recursos, as oportunidades e os aspectos quantitativos e qualitativos das clientelas • identificar e avaliar os sítios e atrativos turísticos adequados a cada clientela • identificar, avaliar e selecionar informações geográficas, históricas, artísticas, esportivas, recreativas e de entretenimento, comerciais, folclóricas, artesanais, gastronômicas, religiosas, etc. • identificar os meios de apoio apropriados, como transportes, acessos, restau- rantes • identificar os espaços e locais e os equipamentos para eventos, esportes, recreação, artes, cultura, espetáculos • programar os produtos e serviços a serem oferecidos • avaliar técnica, financeira e administrativamente produtos e serviços • organizar os meios e recursos para concretização dos produtos e serviços programados 204 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    • elaborar orçamentos •definir estrutura organizacional • definir a política comercial HABILIDADES • utilizar dados de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos • referenciar o estudo de viabilidade com a execução • adequar a oferta aos interesses, hábitos, atitudes e expectativas das clientelas • conduzir a preparação e montagem dos produtos e serviços concebidos • estabelecer procedimentos e regras para o funcionamento da estrutura organizacional • controlar orçamentos • elaborar quadro de pessoal • supervisionar pessoal para a efetivação dos produtos e serviços • articular com outros profissionais/prestadores de serviços/ofertantes de produtos • aplicar “softs” específicos BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de: • leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econô- micos • leitura e elaboração de estudo de viabilidade • organização de roteiros e itinerários • elaboração e redação de normas e manuais • leitura e elaboração de orçamentos • descrição de cargos/funções e salários • comunicação e relações interpessoais e grupais • interpretação e aplicação de normas de proteção do trabalho (legislação trabalhista, sindical, previdenciária, de saúde e segurança) e de legislação aplicável à área (federal, estadual e municipal) Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    • tipologia eclassificação de: - meios de transporte - de equipamentos, modalidades e formas de organização de eventos e de atividades de lazer, entretenimento e animação sócio-cultural - vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol. SUBFUNÇÃO 1.2 - ARTICULAÇÃO E CONTRATAÇÃO DE PROGRAMAS, ROTEIROS E ITINERÁRIOS. COMPETÊNCIAS • identificar e avaliar os programas, roteiros, itinerários, meios de hospedagem, transportes, guiamento de turistas, eventos, atividades de lazer, entretenimen- to e animação sócio-cultural • identificar e avaliar os espaços e os locais necessários ao produto ou serviço • identificar e prever serviços pessoais, bem como infraestrutura e meios de apoio (transportes, instalações, mobiliário, equipamentos, utensílios, decora- ção) • elaborar e interpretar orçamentos • interpretar contratos • selecionar e coordenar a contratação de fornecedores de programas, roteiros, itinerários e atividades, bem como de prestadores de serviços e provedores de infraestrutura e de meios de apoio HABILIDADES • controlar os orçamentos • controlar a execução dos contratos • efetivar os meios para produção da oferta • contatar, negociar e contratar diferentes fornecedores de programas, roteiros, itinerários e atividades, prestadores de serviços e provedores de infraestrutura e de meios de apoio • organizar e manter cadastro de fornecedores, provedores e prestadores de serviços • supervisionar serviços de terceiros 206 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    BASES TECNOLÓGICAS • técnicasde elaboração de roteiros e itinerários • técnicas e regras de manejo de mapas, guias, manuais, “timetables” • técnicas de leitura e de elaboração de orçamentos • técnicas e regras de interpretação e elaboração de contratos • técnicas e regras de aplicação de legislação específica e de normas e procedi- mentos específicos da área • vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol Função 2 - PROMOÇÃO E VENDA SUBFUNÇÃO 2.1 - PROSPECÇÃO MERCADOLÓGICA, ADEQUAÇÃO DOS PRODUTOS E SERVIÇOS E IDENTIFICAÇÃO E CAPTAÇÃO DE CLIENTES. COMPETÊNCIAS • interpretar pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos • identificar e avaliar: • informações sobre as clientelas efetiva e potencial • as oportunidades de mercado • sintetizar e relacionar estas informações com os meios e recursos disponíveis • identificar as clientelas que correspondem à percepção dessa síntese • planejar a política comercial • organizar estratégias e ações de captação de clientes individuais e institucionais • identificar fatores que influem na atração do cliente. HABILIDADES • utilizar dados de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos • adequar a oferta aos interesses, hábitos, atitudes e expectativas das clientelas • efetivar os meios para produção da oferta • contatar permanentemente diferentes segmentos comunitários Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    • articular-se enegociar com organizações públicas e privadas e com demais segmentos do “trade” turístico • organizar e manter cadastro de hóspedes e clientes, fornecedores e contratan- tes, operadores, agentes e guias de turismo, promotores de eventos, organiza- ções de lazer, hotéis, restaurantes, autoridades, lideranças empresariais, pro- fissionais e comunitárias • estabelecer e negociar ações de publicidade • operacionalizar a política comercial BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de: - leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econô- micos - de comunicação e relações interpessoais e grupais - “marketing” e de venda - vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol - características sócio-econômicas e culturais do cliente SUBFUNÇÃO 2.2 – COMERCIALIZAÇÃO DE PRODUTOS E SERVIÇOS COMPETÊNCIAS • direcionar as ações de venda para as clientelas identificadas • organizar a venda no próprio estabelecimento ou externamente • estimar custos e preços • elaborar orçamento • calcular e fixar preços HABILIDADES • atender o cliente • zelar para que o atendimento corresponda à expectativa do cliente • preparar e conduzir a equipe de trabalho • negociar e contratar a venda • controlar orçamento 208 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    BASES TECNOLÓGICAS • técnicasde leitura e elaboração de orçamentos • cálculo de custos • técnicas de: • comunicação e relações interpessoais e grupais • de “marketing” e de venda • vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol Função 3 – GESTÃO SUBFUNÇÃO 3.1 - GERENCIAMENTO ECONÔMICO, TÉCNICO E ADMINISTRATIVO DOS NÚCLEOS DE TRABALHO COMPETÊNCIAS • ler e interpretar: • pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos • informações referentes ao turismo • balanços, relatórios e documentos de controle interno • supervisionar o conjunto ou partes dos serviços de empresas de pequeno, médio e grande porte • analisar a relação custo/benefício com vistas a lucratividade da empresa • coordenar os recursos institucionais, financeiros, patrimoniais e materiais, o suprimento, a cobrança, a segurança pessoal e patrimonial, e os serviços auxi- liares e de apoio • avaliar eticamente o desempenho administrativo do empreendimento HABILIDADES • acompanhar dados e interpretação de: - pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econômicos - informações referentes ao turismo, contextualizando para o seu meio e seu empreendimento - balanços, relatórios e documentos de controle interno - organizar e articular os setores internos Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    - fazer cumprira normas e manuais de procedimento - articular-se com parceiros e outros profissionais - negociar a contratação de terceiros - contatar e atender o cliente - preparar e conduzir a equipe de trabalho aos resultados desejados - articular os diferentes setores para fluxo integrado do atendimento - coordenar os serviços terceirizados - receber, orientar, informar e conduzir turistas - controlar os contratos - supervisionar os serviços de terceiros - supervisionar as atividades de comunicação e relações com o pessoal, clien- tes, fornecedores e contratantes, comunidade, meios de comunicação BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de: - comunicação e relações interpessoais e grupais - leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econô- micos - organização de empresas de turismo - elaboração e redação de normas e manuais - leitura, interpretação e elaboração de orçamentos, cálculo de custos e for- mação de preços - elaboração e interpretação de balanços, relatórios e documentos de controle interno - suprimento/compras e armazenamento/ conservação - segurança pessoal e patrimonial e seguros • técnicas, regras e procedimentos de: - reserva, venda e emissão de passagens - reserva e efetivação de acomodação, transferências, passeios, excursões, ingressos, etc. - orientação, despacho e liberação de documentação, passageiros e bagagens; - guiamento de turistas, com orientação, assessoria e transmissão de informa- ções; - organização e realização de eventos - organização e realização de programas e atividades de lazer 210 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    - normas dedefesa do consumidor, trabalhistas, outros ramos jurídicos aplicá- veis à área - atendimento e encaminhamento de emergência - vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol SUBFUNÇÃO 3.2 - GERENCIAMENTO DO PESSOAL ENVOLVIDO NA OFERTA DOS PRODUTOS E NA PRESTAÇÃO DOS SERVIÇOS COMPETÊNCIAS • definir a política de recursos humanos • organizar os setores internos • organizar e harmonizar a ação do pessoal dos diferentes setores com outros parceiros e terceirizados • desenvolver os recursos humanos encarregados da execução dessas ativida- des, promovendo sua capacitação contínua • Interpretar as normas de proteção do trabalho • Interpretar contratos • avaliar eticamente o desempenho do pessoal, e do empreendimento em relação a eles HABILIDADES • motivar e liderar pessoas e grupos • treinar e aperfeiçoar o pessoal • aplicar as normas de segurança do trabalho • controlar contratos • organizar e articular os setores internos • fazer cumprir as normas e manuais de procedimento • articular as relações e o trabalho com terceiros • coordenar os recursos humanos, desenvolvendo a motivação, o desempenho individual e o trabalho em equipe BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de: - comunicação e relações interpessoais e grupais - interpretação de leis e outras normas jurídicas - interpretação e elaboração de contratos - elaboração e redação de normas e manuais - motivação, trabalho em grupo e relações humanas no trabalho Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    - relações como público - organização de empresa SUBFUNÇÃO 3.3: GESTÃO DOS MEIOS TECNOLÓGICOS COMPETÊNCIAS • identificar máquinas e equipamentos • dominar os meios informatizados (hardwares e softwares) de informação, co- municação e gestão HABILIDADES • identificar as necessidades e soluções adequadas • identificar e cadastrar fornecedores de meios, serviços e soluções especializados • controlar o fornecimento de insumos e serviços, inclusive manutenção adequada • controlar a qualidade dos resultados da tecnologia e dos equipamentos • promover a atualização do conhecimento tecnológico do pessoal • utilizar meios de comunicação eletrônica • operar equipamentos de escritório BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de: - utilização de meios informatizados - utilização de equipamentos eletro-eletrônicos - interpretação e elaboração de contratos - motivação, trabalho em grupo e relações humanas no trabalho - relações com o público - vocabulário técnico em português e inglês SUBFUNÇÃO 3.4 - MANUTENÇÃO E/OU READEQUAÇÃO DO EMPREENDIMENTO COMPETÊNCIAS • identificar, avaliar e relacionar informações de forma contínua para manter os produtos e serviços em sintonia com a demanda dos clientes • captar as tendências de uso, consumo e expectativas das clientelas efetiva e potencial 212 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    • manter aviabilidade técnica, financeira e administrativa do empreendimento e dos seus produtos e serviços • desenvolver visão mercadológica prospectiva, que favoreça prontidão para inovações e mudanças de objetivos e de ofertas • avaliar a viabilidade de inovações e mudanças • Interpretar informações referentes ao turismo HABILIDADES • atualizar estrutura organizacional, políticas e normas e procedimentos • utilizar informações referentes ao turismo, contextualizando para o seu meio e seu empreendimento • utilizar a interpretação de estudo de viabilidade para inovações e mudanças • preparar e dirigir o pessoal para inovações e mudanças BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de: - “marketing” e de venda - comunicação e relações interpessoais e grupais - leitura e interpretação de pesquisas, sondagens e indicadores sócio-econô- micos - leitura, interpretação e elaboração de orçamentos, cálculo de custos e for- mação de preços - elaboração de descrição de cargos/funções e salários - elaboração e redação de normas e manuais - vocabulário técnico em português, inglês, francês e espanhol SUBFUNÇÃO 3.5: ACOMPANHAMENTO PÓS-EXECUÇÃO COMPETÊNCIAS • avaliar a receptividade dos clientes aos produtos e serviços oferecidos • criar instrumentos de informação e de aferição da satisfação do cliente • analisar e avaliar as manifestações dos clientes • desenvolver no pessoal a atenção para a satisfação do cliente • avaliar eticamente o desempenho em relação aos clientes, público em geral e Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    meio ambiente HABILIDADES • aplicar instrumentos de informação e de aferição da satisfação do cliente • utilizar a interpretação de reclamações, elogios, sugestões e outras manifesta- ções expontâneas e motivadas • relacionar-se com as clientelas efetiva e potencial • promover a capacitação contínua do pessoal voltada para a atenção ao cliente BASES TECNOLÓGICAS • técnicas de: - comunicação e relações interpessoais e grupais - leitura, interpretação e elaboração de pesquisas e sondagens de opinião - motivação, trabalho em grupo e relações humanas no trabalho - relações com o público Em 05 de outubro de 1999, o Conselho Nacional de Educação, através do Parecer CEB 16/99, aprovou as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Profissional do Nível Técnico, separando a área de Turismo da de Lazer, e juntan- do-a com a de Hotelaria e Alimentação, criando-se, assim, a de Turismo e Hos- pitalidade, com as seguintes características: A área profissional de turismo e hospitalidade compreende atividades, interrelacionadas ou não, referentes à oferta de produtos e à prestação de ser- viços turísticos e de hospitalidade. • Os serviços turísticos incluem o agenciamento e operação, o guiamento, a promoção do turismo, e a organização e realização de eventos de diferentes tipos e portes. • Os serviços de hospitalidade incluem os de hospedagem e os de alimentação. • Os de hospedagem são prestados em hotéis e outros meios, como colônias de férias, albergues, condomínios residenciais e de lazer, instituições esportivas, escolares, militares, de saúde, acampamentos, navios, coletividades, abrigos para grupos especiais. 214 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    • Os serviçosde alimentação são prestados em restaurantes, bares e outros meios, como empresas, escolas, clubes, parques, aviões, trens, ou ainda em serviços de bufês, “caterings”, entregas diretas, distribuição de pontos de vendas. Estas atividades são desenvolvidas num processo que inclui o planejamento, a promoção e venda e o gerenciamento da execução. Como competências gerais dos técnicos da área, são apresentadas: • conceber, organizar e viabilizar produtos e serviços turísticos e de hospitalida- de adequados aos interesses, hábitos, atitudes e expectativas da clientela • organizar eventos, programas, roteiros, itinerários turísticos, atividades de lazer, articulando os meios para sua realização com prestadores de serviços e provedores de infraestrutura e apoio • organizar espaços físicos de hospedagem e de alimentação, prevendo seus ambientes, uso e articulação funcional e fluxos de trabalho e de pessoas • operacionalizar política comercial, realizando prospecção mercadológica, iden- tificação e captação de clientes e adequação dos produtos e serviços • operacionalizar a comercialização de produtos e serviços turísticos e de hos- pitalidade, com direcionamento de ações de venda para suas clientelas • avaliar a qualidade dos produtos, serviços e atendimentos realizados • executar atividades de gerenciamento econômico, técnico e administrativo dos núcleos de trabalho. Articulando os setores internos e coordenando os recursos • executar atividades de gerenciamento do pessoal envolvido na oferta dos produtos e na prestação dos serviços • executar atividades de gerenciamento de recursos tecnológicos, supervisio- nando a utilização de máquinas, equipamentos e meios informatizados • realizar a manutenção do empreendimento, dos produtos e dos serviços ade- quando-os às variações da demanda • comunicar-se efetivamente com o cliente, expressando-se em idioma de co- mum entendimento Quanto às competências específicas de cada habilitação, serão definidas pela escola para completar o currículo, em função do perfil profissional de conclusão da habilitação. A carga horária mínima de cada habilitação da área será de 800 horas. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Para concluir, apresentaremosum pequeno exercício de futurologia, de auto- ria de YOSHIMA e OLIVEIRA (2002). Esses autores fizeram uma compilação de notas, informações, notícias sobre os vários setores do turismo, publicado em jornais ou divulgado através da Internet nos últimos dois anos. De posse dessa coleta de material os autores se propõem a ordená-lo por setor, mostrando as tendências previstas para cada área em particular. Dessa forma foram traçadas as previsões dos seguintes setores: Transportes Aéreos, Cruzeiros Marítimos, Agenciamento de Viagens, Meios de Hospedagem, Alimen- tos e Bebidas, Parques de Entretenimento e Empregos na Área de Turismo. (Disponível em http://www.abbtur.com.br/CONTEUDO/trabalhos/trabO5.htm) NOVOS EMPREGOS NA ÁREA DE TURISMO • Haverá uma demanda maior por consultores e auditores das ISO 9000 e ISO 14000, assim como para profissionais capazes de implantar outros sistemas de gestão da qualidade nas empresas; • Conhecedores da metodologia HACCP - Hazard Analisys Control Critical Points serão muito requisitados por hotéis e restaurantes; • Produtores de vídeos promocionais terão oportunidade de trabalhos para a divulgação de destinos e equipamentos; • Construtores de web-sites terão uma grande demanda na elaboração de sites para cidades e empresas turísticas; • Editores e jornalistas especializados em turismo para revistas, jornais e suple- mentos de viagens e turismo; • As pesquisas em turismo deverão ser muito requisitadas por empresas do setor em busca de informações fidedignas de demanda; • Aumento de oportunidade para empresas de serviços para o atendimento das necessidades de terceirização de determinados serviços (manutenção, segu- rança, recreação); • Aumento da demanda por professores e instrutores para a formação de mão- de-obra especializada para o setor. • Globalização do emprego fazendo com que o profissional de Turismo enfrente desafios, como o aprendizado de uma terceira língua, facilidade de adaptação a outras culturais, disponibilidade para troca de sede. 216 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    [As referências bibliográficasdesta contribuição podem ser consultadas na fonte original] Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Ano: 2004 Publicação original: livro Formato da contribuição: texto resumo de capítulo de livro Fonte: MARINHO, Alcyane. Atividades na natureza, lazer e educação ambiental: refletindo sobre algumas possibilidades. Motrivivência - Revista de Educação Física, Esporte e Lazer. Florianópolis (SC): Núcleo de Estudos Pedagógicos em Educação Física, ano XVI, n. 22, p. 47-69, jun, 2004, (ISSN: 010341-11). E-mail do(s) autor(es): alcyane.marinho@hotmail.com Títulos acadêmicos principais atuais: Graduação pelo Departamento de Educação Física da UNESP de Rio Claro (SP); Mestrado e Doutorado pela Faculdade de Educação Física da UNICAMP (Campinas, SP), na Área de Estudos do Lazer. Atividades na Natureza, Lazer e Educação Ambiental: Refletindo Sobre Algumas Possibilidades Alcyane Marinho A minha maior motivação para escrever este artigo foi o fato de me sentir muito à vontade, desde o início, para organizar algumas idéias sobre o lazer, a educação ambiental e as atividades na natureza, as quais têm me acompanhado já há algum tempo, ao longo de minha vida, tanto acadêmica quanto pessoal. Sinto-me feliz por esta oportunidade, permitindo-me dividir algumas reflexões e inquietações, as quais, embora estejam aqui de forma muito sintetizada, potencializam-me a permanecer curiosa e interessada pelo tema. Destaco que as discussões apresentadas são frutos de leituras, discussões e participações diversas em grupos de pesquisa, palestras, congressos, cursos, tanto quanto meu envolvimento pessoal e afetivo como praticante em diversas atividades na natureza. Não vou seguir determinado rigor metodológico e vou me permitir utilizar a primeira pessoa para esta nossa “conversa”, assim como também me valerei de uma construção textual simples, porém indagadora. No meu entender, a educação ambiental e o lazer parecem sofrer, de certa Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    forma, os mesmos“preconceitos”. Como requerer e pensar nessas duas esferas quando estamos tratando, especificamente, de realidades vividas em um país que sequer superou seus problemas básicos de moradia, alimentação e saúde? Neste contexto, como pensar em um desenvolvimento com bases mais susten- táveis, capaz de promover, recuperar e melhorar o meio ambiente 1 e a qualidade de vida humana na terra? A afetividade e o amor das e pelas pessoas devem ser a base para a construção de sociedades sustentáveis, juntamente com um efetivo diálogo e comprometi- mento entre todas as esferas - política, econômica, sociocultural, educativa, etc. Desta forma, não perdendo de vista o foco nas atividades na natureza, preten- do, neste artigo, apontar algumas pistas que enfatizem o lazer e a educação ambiental como espaços privilegiados nesse processo de mudança para melho- res condições de vida. Não isoladamente, mas em estreita relação com outros campos de atuação e formação, potencializando a participação e o engajamento crítico e criativo dos sujeitos. Para situar o espaço/tempo desta discussão, reporto-me, primeiramente, a al- gumas questões que delineiam o lazer. Para tanto, creio ser interessante começar apresentando algumas características de nossa contemporaneidade, as quais evi- denciam uma época completamente diferente daquela de quando não se conse- guia fazer distinções, por exemplo, entre as expressões lazer, ócio e trabalho; afetando, portanto, os modos de comportamento e as dinâmicas das sociedades. Vivemos, hoje, um tempo de intensidades, um tempo cronometrado, medido, comprado, estimado, manipulado, calculado. Vivemos um tempo compulsivo não só no trabalho, mas, por inúmeras vezes, acabamos reproduzindo a mesma compulsividade nos momentos de lazer - quando eles existem, é claro! O mundo atual é vivido sob o signo da velocidade, da aceleração, como já apontado por vários autores (VIRILIO, 1998; SEVCENKO, 2001 e SANTOS, 2001). O império da técnica, a competitividade, a instantaneidade na transmissão e recep- ção de imagens, sons e palavras contribuem para que o fascínio pelo termo veloz se torne cada vez mais intenso. Santos (2001, p.40-41), com toda propriedade, afirma: “ser atual e eficaz, diante da ordem vigente, potencializa a velocidade como uma necessidade e a pressa como uma virtude”. Contudo, nem todos têm acesso a essa velocidade - solução para todos os problemas da vida cotidiana! A velocidade apenas está ao alcance de um número limitado de pessoas, de tal forma que, segundo as possibilidades de cada um, as distâncias têm significações e efeitos diversos e o uso do mesmo relógio não permite igual economia de tempo. A grande maioria é arrastada e participa in- 220 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    completamente da produçãohistórica desse tempo. Nesse espaço/tempo, Featherstone (2000) relata que começamos a habitar uma cultura tecnológica, ou seja, a cultura tem sido cada vez mais produzida por intermédio da tecnologia. Assim, por meio dela, novos direcionamentos são dados à indústria de entretenimento, fornecendo muito mais que diversão; for- necendo porções rigorosamente quantificadas de fantasia, desejo e euforia para as pessoas. Essa indústria, como enfatiza Debord (1997), esforça-se por tentar compensar o extremo empobrecimento da vida social, cultural e emocional, conduzindo os indivíduos a uma celebração contínua das mercadorias, rotuladas como belas imagens, como novidades, como um espetáculo propriamente dito 2. Contudo, neste mesmo contexto - consumista, alienado, ausente de diálogos e reflexões - podemos pensar em saídas estratégicas e é exatamente o que nos move e nos faz acreditar no amanhã! Neste sentido, acredito que o lazer e a educação ambiental podem surgir como possibilidades de mudança, como espaço de pausa para respirar, tomar fôlego, refletir e discernir. Portanto, como já afirmei em outro momento (MARINHO, 2003), é preciso que sejamos capazes de perceber as potencialidades das práticas de lazer diante das mudanças sociais e culturais contemporâneas, traduzidas em movimentos com- plexos, associados aos novos padrões de competitividade e à aceleração tecnológica, por um lado, e, por outro, capazes de estabelecer uma configura- ção inovadora por todas as esferas humanas e, por conseqüência, nos significa- dos do lazer e da própria natureza. Assim como a educação ambiental, o lazer também, muitas vezes, é entendido no singular, como uma possibilidade unidimensional. Para dar sentido a ambas dimensões, é preciso entendê-las em um contexto múltiplo de possibilidades e interesses, como parte de uma teia complexa de relações, influenciando e sendo influenciadas, não devendo ser responsabilizadas isoladamente por qualquer mudança pretendida, como tão bem alerta Sorrentino (2002), ao se referir, par- ticularmente, à educação ambiental. Sob essa ótica, como mostra Marcellino (2002), corroborando os estudos de Dumazedier (1979, 1980), o lazer, como expressão da cultura, pode se constituir tanto em um elemento de conformismo, passividade, quanto em um elemento de resistência e negação à ordem social vigente; não devendo por isso receber o tratamento simplista de modismo, alienação ou simples consumo. Não pretendo me aprofundar nas interessantes e questionadoras obras sobre lazer de importantes autores e suas diferentes concepções, apenas saliento que Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    são inúmeros osconceitos e abordagens, os quais dão representatividade da complexidade e magnitude deste tema. Porém, ainda assim, vale ressaltar que minha compreensão de lazer, ora estabelecida, extrapola idéias e conceitos fechados, os quais comumente vemos sendo veicula- dos por algumas literaturas e por diversos outros meios de comunicação. Acredito que, mais que considerar o lazer como direito social explícito na constituição, precisamos entendê-lo como possibilidade de produção de cultu- ra, como elemento integrador do exercício da cidadania, como campo privilegi- ado para a manifestação do elemento lúdico, da liberdade e do prazer, e, ainda, como potente instrumento de mudanças pessoal e social; seja qual for a concep- ção que mais nos familiarizemos e adotemos [lazer relacionado ao tempo, à atitude, ao espaço, ao estado de espírito, etc. (DE GRAZIA, 1969; MARCELLINO, 1997; WERNECK, 2000, dentre vários outros autores)]. AS ATIVIDADES NA NATUREZA: DELINEANDO CARACTERÍSTICAS, ESPAÇOS DE AÇÃO E INTERVENÇÃO “Atividades na natureza” foi o termo, por mim escolhido, para designar as diversas práticas manifestadas, nos mais diferentes locais naturais (terra, água ou ar), cujas características se diferenciam dos esportes tradicionais, tais como as condições de prática, os objetivos, a própria motivação e os meios utilizados para o seu desenvolvimento, além da necessidade de inovadores equipamentos tecnológicos possibilitando uma fluidez entre os praticantes e o meio ambiente. De antemão, é importante mencionar a existência de uma infinidade de termos que pretendem designar e caracterizar estas práticas, tais como: esportes de aventura, atividades outdoor, esportes radicais, atividades físicas de aventura, esportes selvagens, dentre tantos outros. Talvez essa própria falta de consenso sobre a terminologia contribua para uma interpretação superficial do que real- mente venham a representar tais práticas. Somente para apontar alguns dos equívocos manifestados em tais expressões, as palavras “esporte” e “radical”, por exemplo, tendem a reduzir as práticas em questão a fenômenos que, muitas vezes, nada têm de esportivos (quando se pensa na burocratização e institucionalização das regras, dos espaços e dos objetivos) ou de radical (uma caminhada por um bosque pode ser simplesmente branda e tranqüila). Por sua vez, o adjetivo “física” atrelado à palavra atividade de aventura parece ser, ao mesmo tempo, redundante e dicotômico. Contudo, não é pretensão, neste artigo, aprofundar-me nesta questão, uma 222 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    vez que outrosaspectos, relativos ao envolvimento com a e na natureza, mos- tram-se muito mais carentes de intervenções e investigações e, uma vez aprofundados, poderão, posteriormente, contribuir para esta discussão terminológica. Portanto, a opção pela terminologia “atividades na natureza” se deve justa- mente à amplitude de compreensões e sentidos que a expressão pode abarcar. Desta forma, sem pretender reduzir e engessar o conceito, apenas delineio algu- mas características para melhor visualização do tema 3. Estou entendendo-as como práticas cercadas por riscos e perigos, na medida do possível, calculados, não ocorrendo treinamentos intensivos prévios (como no caso dos esportes tradicionais e de práticas corporais como a ginástica e a musculação). A experimentação acontece de maneira mais direta, havendo um afastamento de rendimentos planejados. A identidade diferenciada desses tipos de atividades de aventura provém de aspectos práticos ou materiais e, também, de sua dimensão imaginária ou simbólica, na qual a aventura aparece como uma cenografia e as ações são subordinadas às percepções e riscos - reais e imaginários (FEIXA, 1995). Durante essas situações de aventura, o corpo passa a ser um campo informacional, concebido como receptor e emissor de informação e não como mero instrumento de ação ou coação. Os corpos chegam a enfrentar determinadas regras de realização constantemente revisáveis e sempre sub- metidas à apreciação dos praticantes. As informações devem ser precisas e, em certas circunstâncias, as tomadas de decisão devem ser rápidas. O mergulho, a vertigem, a velocidade, os desequilíbrios e as quedas são características presentes nessas práticas, possíveis a quaisquer pessoas, pois o desenvolvimento e aprimoramento tecnológicos proporcionam, a qualquer um, o deslizar-se no ar, na água e na superfície terrestre, concretizan- do, como aponta Betrán (1995), alguns sonhos de aventura. Há um consenso, por parte de estudiosos do tema (POCIELLO, 1995; BETRÁN, 1995 e outros) no que se refere aos anos 70 como marco das atividades na natureza, principalmente nos países economicamente avançados. Dentre outras, a principal atividade difundida neste período foi o surfe, caracterizada pela uti- lização de prancha e pelo domínio corporal na tentativa de desbravar ondas. Tais atividades foram se desenvolvendo, ao longo dos anos 80 e, até nossos dias, conforme níveis de organização e controle acerca dos perigos inerentes à prática, tendo como respaldo significativo o avanço tecnológico voltado aos equipamentos esportivos específicos, os diversos recursos empregados e os meios de comunicação. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Essas atividades requeremos elementos naturais para o seu desenvolvimento, de formas distintas e específicas, despertando novas sensibilidades, em diferen- tes níveis. As intensas manifestações corporais, aí vividas, permitem que as experiências na relação corpo-natureza expressem uma tentativa de reconheci- mento do meio ambiente e dos parceiros envolvidos, expressando, ainda, um reconhecimento dos seres humanos como parte desse meio (MARINHO, 2001). Bruhns (1997) salienta que a experimentação dessas novas emoções e sensibi- lidades poderá conduzir os seres humanos a diferentes formas de percepção e de comunicação com o meio em que vivem. Tal consideração salienta a necessida- de de compreensão sobre os diferentes significados que a relação dos seres humanos junto à natureza tem assumido. Nesta perspectiva, parece que a busca por estas atividades desponta, a cada dia mais, impulsionada pelo desejo de experimentar algo novo, emoções prazerosas, utilizando-se da tecnologia infiltrada na esfera da recreação e do lazer. O que mais as atividades na natureza representam? Como elas têm se configu- rado no lazer das pessoas, na nossa sociedade contemporânea? Os “aventureiros” envolvidos em tais práticas parecem estar fortalecendo um novo estilo de vida, em busca de práticas mais “excitantes” que brincam com o risco e com o perigo em um jogo no qual os parceiros e os equipamentos tecnológicos compõem a dinâmica a ser vivida. Continuando a delinear as características das atividades na natureza, vale a pena lembrar que duas principais e diferentes vertentes manifestam-se: uma mais atrelada à competição e outra mais vinculada à expressão lúdica. Muito embora a mídia, de certa forma, priorize a apresentação das atividades na natureza voltadas, prioritariamente, a um caráter competitivo (como é o caso das corri- das de aventura, competições de escalada indoor, de rafting, etc.), conduzindo tais práticas a um processo de esportivização; acredito que ainda são muitas as atividades que são imbuídas de características genuinamente lúdicas, carregadas de emoções, denotando singulares e expressivas formas de brincar com o risco. Também é importante destacar que, nestas atividades, não existe um rigor sepa- rando a competição da não-competição; ambas podem existir em uma mesma prática, com diferentes nuances; no entanto, as eleitas para esta discussão estão mais atreladas à experimentação lúdica que competitiva em si. Muitas vezes, a satisfação trazida pelas atividades na natureza, de cunho competitivo, relaciona-se a uma espécie de (pseudo) aventura, produzindo uma definição bastante reduzida da natureza, a qual passa a ser encarada como um mero local de atividades, cujo propósito é limitado a servir às necessidades do praticante que procura por satisfação e prazer. A natureza, levada, então, a um 224 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    segundo plano éredefinida como um ambiente coincidentemente útil e agradá- vel, atrativo e conveniente para as atividades esportivas. O conhecimento e a proteção ambiental, neste contexto, parecem ser irrelevantes. Por exemplo, nas corridas de aventura, grupos de executivos, de atletas e de outros tipos de interessados envolvem-se em um jogo de representação de sobrevivência, redefinindo a natureza como um teatro no qual os indivíduos agem fora do habitual contexto cotidiano. A natureza, aparentemente, é reduzida a um cená- rio teatral, a um espetáculo no qual os protagonistas se empurram para além de seus limites físicos 4. Acredito, igualmente, que o aspecto cooperativo não deve ser esquecido. As atividades na natureza, em sua maioria, ocorrem em grupos ou, no mínimo, em dois participantes; ou seja, há a dependência de um parceiro para que a prática aconteça de forma mais segura e, até mesmo, prazerosa. Igualmente, atitudes de confiança e respeito são observadas, não só com os companheiros, mas também com a natureza. Ainda que existam pessoas que, muitas vezes, por falta de conhe- cimento e instrução, tenham atitudes de desrespeito para com o meio ambiente, esta tem sido uma preocupação evidente nas propostas de agências, grupos esco- lares, empresariais, etc. e muitas têm sido as formas de intervenção educativa 5. As atividades na natureza também requerem prudência e bom-senso no que se refere aos procedimentos de segurança, uma vez que, muitas delas, exigem conhecimentos e familiaridade com alguns equipamentos tecnológicos. Saber os limites próprios, os dos outros, respeitando as imprevisibilidades da natureza é pré-requisito para a prática de tais atividades. Uma outra característica marcante nestas práticas é que elas são agenciadas por empresas e não por profissionais especializados. Não há, ainda, relações institucionais mais intensas com estruturas acadêmicas; talvez por isso as uni- versidades, de certo modo, ainda não aceitem a força desse movimento; já consolidado de uma certa forma. Vale ainda mencionar que, mesmo que não estivessem consolidadas e fossem apenas um modismo (como muitos encaram tais práticas), elas também precisariam ser estudadas e também deveriam ser compreendidas para situar uma época, uma geração, etc. Todas estas características salientam a emergência de uma nova inquietação referente à necessidade de aprendizados específicos, no que se refere à adminis- tração e à participação em algumas atividades, tais como: educação e preserva- ção ambientais; técnicas de resgate e sobrevivência na natureza; conhecimento de equipamentos específicos, técnicas apropriadas para algumas modalidades; entre tantas outras, as quais podem ter interferência vital nesse processo. Ou seja, as atividades na natureza requerem um repensar sobre o meio ambien- te a partir de três principais aspectos interdependentes: a prática; a conservação Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    ambiental e oprocesso educativo. Atualmente, ainda que de forma tímida, algumas áreas têm se envolvido com esta temática, no sentido de aprimorar seus estudos e redimensionar as perspec- tivas atuais, como é o caso da Educação Física, do Turismo, da Biologia, entre outras áreas, nas quais são apontados alguns estudos referentes à interdisciplinaridade nas questões pertinentes à natureza. A Educação Física, particularmente, pode, por meio da experiência na natureza (ou seja, fora das quadras de cimento, dos ginásios poliesportivos, das piscinas, dos campos de futebol, etc.), potencializar suas estratégias de ação para desenvolver, nos alunos, suas habilidades motoras, capacidades físicas e, até mesmo, muitos fundamentos esportivos específicos. As corridas de orientação, por exemplo, assim como a escalada, a caminhada, a canoagem e outras atividades, podem ser utiliza- das para satisfazer uma variedade de objetivos educacionais, oportunizando dife- rentes níveis de desenvolvimento: ×Coletivo: habilidades cooperativas e de comuni- cação; ×Pessoal: auto-estima; Cognitivo: tomadas de decisão; resolução de proble- mas; Físico: aptidão e desenvolvimento de habilidades motoras. Podendo, da mesma forma, serem utilizadas como atividades de lazer, com fim nelas mesmas. Portanto, é preciso que os conteúdos dos cursos de formação, em que as ativida- des na natureza possam ser inseridas, sejam repensados e reformulados, privilegian- do esta nova demanda relacionada ao lazer e à natureza. O ideal seria que o conteú- do das atividades na natureza (envolvendo tanto questões técnicas quanto questões com diferentes vertentes: filosófica, sociológica, fisiológica, psicológica, etc.) per- passasse por todas as disciplinas, evidenciando a relação entre elas. Ou seja, as atividades na natureza não deveriam ser “recortadas” em cursos ou módulos específicos, mas sim abordadas nas diversas disciplinas, a partir da especificidade de cada uma delas e suas contribuições para as mesmas, assim como qualquer outra modalidade esportiva, no caso da Educação Física. Desta forma, o estudo das atividades na natureza não seria apenas uma forma de oportunizar uma mudança de “locus”, com fins de entretenimento (o que tam- bém é muito válido), mas, muito mais que isso: seria uma forma de valorizar uma temática em emergência e de extrema importância para diferentes profissionais, demarcando novas possibilidades no mercado de trabalho e, mais ainda, eviden- ciando tais práticas como valiosas oportunidades para mudanças de comporta- mentos, atitudes e valores. O profissional que virá a trabalhar com as atividades na natureza deve saber as possibilidades que estas atividades oferecem como parte integrante dos conteú- dos do ensino na graduação. Por exemplo, seria interessante entender e explicar, por meio da Fisiologia do Exercício, quais variáveis fisiológicas interferem em uma caminhada em uma trilha ou em uma corrida de orientação; quais músculos 226 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    são mais exigidosnas remadas do rafting ou da canoagem, por intermédio da eletromiografia, nos estudos relacionados à Biomecânica do Movimento; como as relações sociais se estabelecem entre escaladores, partindo do embasamento dos Estudos do Lazer e da Recreação e da Sociologia, entre tantos outros exem- plos que poderiam ser aqui elencados. Vários espaços (tais como acampamentos; colônias de férias; hotéis - fazen- da; de convenção -; ruas de lazer; academias; shoppings; escolas; empresas; dentre vários outros) abrem-se como possibilidades para atuação do profissio- nal capaz de lidar com as atividades na natureza. Portanto, esta crescente demanda, vislumbrando estes diferentes espaços de atuação, exige uma nova postura profissional; capaz de corresponder, de forma qualitativa, ao interesse dos envolvidos, dando vigor à potencialidade das ativi- dades na natureza. Um bom começo parece ser a efetivação de intercâmbios de conhecimentos entre os profissionais de diferentes áreas, com o intuito de des- cobrirem as melhores (e menos degradativas) formas de manutenção dos seres humanos junto à natureza (da qual todos somos parte). Como apontado anteriormente, ainda que de forma lenta, porém significativa, alguns cursos de graduação em Educação Física e em Turismo, espalhados por todo o Brasil, têm começado a implantar em seus cursos conteúdos referentes às atividades na natureza. Devido à falta de incentivo para implantação destes conteúdos na grade curricular, entre outros motivos, uma alternativa que tem sido tomada, por muitas faculdades, é a abertura de cursos de extensão à comu- nidade, com o intuito de permitir a experimentação de tais práticas. Com este objetivo, o Curso de Extensão Universitária, intitulado “Vivências em Atividades de Aventura”, oferecido pelo Laboratório de Estudos do Lazer, do Departamento de Educação Física, da UNESP de Rio Claro (SP) foi um dos pioneiros no interior de São Paulo. A Universidade Federal de São Carlos (SP) e algumas outras facul- dades privadas de São Paulo também começaram a suprir a crescente demanda pelas atividades na natureza, ora com cursos de extensão, ora com disciplinas optativas na grade curricular. É importante mencionar, também, que as atividades na natureza conquistaram um espaço de maior visibilidade em eventos científicos da área e também fora dela, tais como: ENAREL (Encontro Nacional de Recreação e Lazer); CONBRACE (Congresso Brasileiro de Ciências do Esporte) - especialmente no Grupo Temático “Lazer e Recreação”; CBTUR (Congresso Brasileiro de Turismo); SBS (Sociedade Brasileira de Sociologia) - particularmente no Grupo Temático “Sociologia do Lazer e do Esporte”; ANPOCS (Associação Nacional de Pesquisa em Ciências Sociais), em especial o Grupo Temático “Turismo” e, também, ANPPAS (Associa- ção Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ambiente e Sociedade). Vale lembrar o número significativo de publicações de trabalhos completos e de resumos nos anais destes eventos, contribuindo, sobremaneira, para a produção Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    do conhecimento naárea. Em alguns periódicos científicos também é possível perceber a crescente pu- blicação sobre o tema, tais como as Revistas: Conexões (FEF - UNICAMP); Licere (CELAR - UFMG); Turismo em Análise (ECA - USP); Movimento (UFRGS); Turismo: Visão e Ação (Universidade do Vale do Itajaí); Apunts de Educação Física (INEF - Barcelona); Body and Society (SAGE Publications, USA), entre outras. Eu não poderia deixar de mencionar a valiosa contribuição deste número temático da Revista Motrivivência (UFSC), incentivando e colaborando para a produção ci- entífica acerca do assunto. Alguns periódicos digitais também têm publicado trabalhos relativos à temática das atividades na natureza, são eles: Lecturas: Educación Física y Deportes (Buenos Aires) e Boletim Brasileiro de Educação Física (Brasília), dentre outras possibili- dades na área do Turismo. Diante desta crescente expansão do público alvo constituído, principalmente, por estudantes de cursos técnicos e de especialização; bem como numa frente ampla de mercado de trabalho, este tema tem despontado denotando grande relevância para diversas áreas do conhecimento, como já exposto anteriormen- te. Vale mencionar que o assunto tem sido abordado em várias dissertações de mestrado e teses de doutorado de diversas faculdades e universidades brasilei- ras. Uma recente produção refere-se a uma coletânea organizada, focalizando as interfaces das atividades na natureza com o lazer e o turismo, a partir do diálogo com profissionais de diferentes áreas de atuação (MARINHO e BRUHNS, 2003), cujo segundo volume está na fase final para publicação (MARINHO e BRUHNS, no prelo). Igualmente, aumentam os números de laboratórios e grupos de estudos e pesquisas voltados a temática das atividades na natureza. Alguns deles podem ser mencionados: LEL: Laboratório de Estudos do Lazer, Unesp de Rio Claro (SP); GLEC: Grupo de Estudos Lazer e Cultura da UNICAMP, Campinas (SP); NIEL: Núcleo interdisciplinar de Estudos do Lazer, UFPE; dentre outros em São Carlos, Natal, Florianópolis, etc. São bastante inovadores, também, alguns trabalhos que têm sido realizados ao longo dos últimos anos, cujas publicações são recentes, tais como: ativida- des na natureza e portadores de necessidades especiais (MUNSTER, 2004); ativi- dades na natureza e empresários (MACHADO, 2004); atividades na natureza e terceira idade (DIAS e SCHWARTZ, 2004); atividades na natureza e dependentes de drogas (GIMENO et al., 2003), dentre outros. Desta forma, no exposto até o momento, pretendi, de forma bastante sinteti- zada, apresentar algumas características das atividades na natureza, seus possí- 228 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    veis espaços deatuação, os profissionais especializados em emergência, bem como os principais focos de estudos e produção científica da área. Tive vontade de permanecer delineando tais características, com o intuito de me aprofundar sobre cada questão, porém como o espaço para este texto não me permite, darei prioridade para apresentar algumas idéias sobre a Educação Ambiental, tão necessária e importante não só para o assunto em questão, mas para todas as demais discussões que se possa fazer sobre os seres humanos em nosso Planeta Terra. NOTAS SOBRE A EDUCAÇÃO AMBIENTAL De antemão, ressalto que compartilho da definição de Educação Ambiental proposta por Reigota (1994), entendendo-a como educação política, pois prepa- ra cidadãos para reivindicar justiça social, cidadania e ética nas relações sociais e com a natureza. Sorrentino (1997), em seus estudos, utiliza alguns atributos apresentados na literatura, entendidos como básicos e necessários para uma formação acerca da questão ambiental, dos quais, mediante pequenas modificações, iremos nos apro- priar: São eles: instigar o indivíduo a analisar e participar na resolução dos problemas ambientais; estimular uma visão global e crítica das questões socioambientais; estimular um enfoque interdisciplinar que resgate e construa saberes; possibilitar um conhecimento interativo por intermédio de pontos de vista; e propiciar um autoconhecimento que contribua para o desenvolvimento de valores, atitudes, comportamentos e habilidades. Em uma outra publicação, Sorrentino (2002, p.91) alerta que a: “Educação Ambiental” tem sido percebida por distintos setores da sociedade como uma atraente chave para a abertura das mais dife- rentes portas. Uma chave de múltiplos usos que, no primeiro mo- mento, nos aproxima de tudo e de todos, mas que em seguida vai se tornando um chavão difícil de carregar, em função das expectati- vas criadas em torno das soluções que se deseja encontrar. Mais que procurar mostrar a complexidade de relações nas quais a educação ambiental está inserida, tal como a história, a cultura, o modo de produção, as necessidades e os desejos de diferentes pessoas e grupos sociais, o autor supracitado alerta a necessidade de visualizarmos o “ambiental” para além de um adjetivo agregado à palavra educação, mas como parte do processo educa- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    cional mais amplo,ainda que possua suas especificidades. Nessa mesma direção, Ferreira (1999) também acredita que o discurso ambiental não representa somente o discurso voltado ao ambiente, abarcando também o processo social, por meio do qual ele é construído e transmitido. É exatamente nesse processo de construção coletiva com diferentes esferas humanas, campos de atuação e áreas do saber que podemos dialogar com Sorrentino (2002a) a respeito do papel que cada um de nós pode e deve ter. Nesse processo coletivo, o compromisso individual é essencial e insubstituível para as mudanças bruscas que a atualidade requer. Todos, mulheres, negros, idosos, crianças, homossexuais, o interior, a periferia, etc., no contexto de suas particularidades, devem ser ouvidos e potencializados a expressar suas necessi- dades e vontades. Contudo, como alerta Sorrentino (2002a), para que isso ocor- ra, todos devem perceber que vale à pena falar. É preciso explicitar como se concretiza o compromisso com a viabilidade dessa participação. Se o objetivo é que todos decidam sobre os mais diversos problemas acerca das questões socioambientais, é preciso fornecer-lhes informações; criar ou apontar os espaços de locução e troca efetiva e afetiva de olhares e saberes; definir mecanismos claros de tomada de decisão e possibilitar-lhes condições objetivas na participação (SORRENTINO, 2002a). Além dessas necessidades, Sorrentino também alerta a urgência de trabalhar- mos o nosso interior, propiciando aos sujeitos envolvidos a realização desse exercício de uma nova sensibilidade (tal como: ouvir nossa intuição, nosso corpo, o outro, os elementos naturais, pensar e ser simples na complexidade e críticos e questionadores diante do óbvio), possibilitando uma participação que supere a presença física, capaz de se manifestar em atitudes e comportamentos cotidianos de “compromisso com a vida”. Como mostra Sorrentino, na tentativa de promoção da cidadania planetária que tenha como meta decodificar e enfrentar os fatores que ameaçam nossa existência na terra, além do incentivo e apoio a ações locais, inovadoras e criativas que visem a superar a miséria, a pobreza, o desemprego, o niilismo e uso de drogas, entre tantos outros aspectos referentes à luta cotidiana pela sobrevivência e melhor qualidade de vida, é preciso despertar, em todos e em cada um, o sentido de “pertencimento”, participação e responsabilidade na bus- ca de respostas locais e globais. Todas essas questões perpassam, segundo Sorrentino (2002a, p.21), pelo com- promisso das políticas públicas com a inclusão da diversidade e com o questionamento dos valores da sociedade de consumo; pela estimulação dos grupos e sujeitos ao debate, diante da busca pela qualidade de vida e “felicidade material, física e espiritual”. 230 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Afinal de contas,como ressalta Layargues (2002), a educação ambiental não é neutra, mas ideológica. Ela representa um ato político que tem por base valores visando à transformação social. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE LAZER, EDUCAÇÃO AMBIENTAL E AMOR Compartilho com Touraine (1989) que não devemos, em hipótese alguma, adaptarmo-nos passivamente a uma sociedade e a uma cultura de massa que escondem forças dominadoras, as quais, na verdade, devem ser banalizadas e combatidas. O que está em jogo não é a defesa da ordem passada nem a aceita- ção da desordem presente; mas a concepção e a construção de novas formas, coletivas e individuais, de vida. Partindo dessas idéias, acredito que lazer e educação ambiental trazem, em sua práxis, potentes possibilidades de saída. Refiro-me à necessidade de recuperar o lazer como “licere”, lícito, poder ter direito. O lazer, entendido como espaço privilegiado para manifestação e produção culturais vai além da mera transmissão de informações referentes aos conteúdos culturais. Não se trata, como já apontou Marcellino (2002), da consideração de um instrumento leve e eficaz, facilitador do processo de ensino-aprendizagem, para a adequação conformista de sujeitos a uma inquestionável sociedade estabelecida. É, na verdade, uma questão de participação cultural efetiva - usu- fruir e criar cultura - uma das bases do exercício da cidadania, visando à autono- mia dos sujeitos. Por sua vez, a educação ambiental traz, em sua raiz, importantes princípios que nos conduzem ao mesmo caminho, como foi possível salientar anteriormen- te, por meio das idéias de Sorrentino (2002a, 2002, 1997). Dentre os desafios na realização da educação ambiental, relativos à sensibilização e à mobilização do grupo para enfrentar e solucionar problemas; estão aqueles referentes à construção de situações/jogos/simulações que per- mita o exercício da capacidade de trabalho interdisciplinar e intersaberes, com o objetivo de construir conhecimentos e procedimentos capazes de preparar os sujeitos para tomadas de decisão sobre grandes impasses com os quais nos deparamos, a cada momento (SORRENTINO, 2002). Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Assim como aeducação ambiental, a educação para o lazer 6 exige tomada de consciência referente às contradições de nossa contemporaneidade e à humanização das relações fundadas na ética, mantendo interfaces extremamen- te preciosas com a educação para a cidadania. As emergências são outras: não se pretende mais visualizar uma educação ambiental movida por oficinas repetitivas esvaziadas de conteúdos e desconectas de um processo educacional como um todo; também não se quer mais fugir dos problemas cotidianos, simplesmente divertindo-se ou descansando. O que se almeja é a busca por uma melhor qualidade de vida, em um espaço/tempo em que possamos ser críticos, criativos e sonhadores. Nessa “luta”, todos temos nossas parcelas de direitos e deveres. Neste sentido, tanto a educação ambiental quanto o lazer se constituem em atos políticos. Por enquanto, como alerta Santos (2000), é, sobretudo, política das empresas, da lógica excludente do capital. Contudo, é possível perceber o atrevimento de grupos e instituições que procuram estimular a produção de lazer (e também de consciência ecológica) mais próximo da sensibilidade popular, da cultura, e não simplesmente só do mercado. Essas iniciativas podem ser estimu- ladas e multiplicadas de inúmeras formas, podendo (e devendo) obedecer a um projeto político mais amplo, transgressor, coerente e inovador. Permanecendo com as idéias de Santos (2000, p.36): trata-se, no fundo, de uma questão de civilização. O problema não é, apenas, proteger recursos e lugares, mas valorizar a essên- cia do homem. Além de cuidar da biodiversidade, trata-se de sal- vaguardar e potencializar a sociodiversidade, que acompanha e qualifica a diversidade dos lugares, dos quais constitui, ao mesmo tempo, atributo e riqueza. Trata-se, a partir disso, da construção de um novo mundo, com a busca da plenitude, onde a vida seja vivida como troca e onde o qualitativo seja dominante, permitin- do que se instale no planeta o homem integral. Gostaria de encerrar este artigo refletindo um pouco sobre os valores que deveriam estar embutidos nesses “direitos, deveres e sonhos”. Um deles, impres- cindível, em meu entender, é o amor. Maturana (1998, p.22), ao se remeter às emoções, defende que não há ação humana sem uma emoção que a estabeleça como tal e a torne possível como ato. Nesse sentido, o amor pode ser entendido como a emoção fundadora, sem a qual a convivência se tornaria impossível. Nas palavras do autor: “o amor é a emoção que constitui o domínio de ações em que nossas interações recorrentes com o outro fazem do outro um legítimo outro na convivência”. 232 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    As interações recorrentesno amor, como explicita Maturana, tendem a ampli- ar e estabilizar a convivência; porém, por outro lado, as interações recorrentes na agressão interferem e rompem a possibilidade de conviver. Nessa direção, a linguagem, como domínio de coordenações consensuais de conduta, não pode ter sido originada na agressão, pois esta restringe a convivência. Infelizmente, pode-se constatar que a palavra amor tem sido bastante altera- da; a emoção por ela encerrada perdeu sua vitalidade, provavelmente devido às conotações complexas, especiais e difíceis a ela relacionados. O amor é constitutivo da vida, mas não é nada especial. O amor é o fundamento do social, mas nem toda convivência é social. O amor é a emoção que constitui o domínio de condutas em que se dá a operacionalidade da aceitação do outro (...) sem a aceitação do outro na convivência não há fenômeno social (MATURANA, 1988, p.23). Como mostra o autor, ainda somos animais colheitadores, compartilhadores, ainda somos animais que vivemos na coordenação consensual de ações, ainda somos animais cujos machos participam dos cuidados com os bebês, somos animais que vivemos em pequenos grupos, ainda somos animais sensuais que vivem espontaneamente no tocar e acariciar mútuos. Porém, preliminarmente, somos ainda animais dependentes do amor. Este, por sua vez, é a emoção central na história evolutiva humana desde o início; é a condição necessária para o desenvolvimento físico, comportamental, psíquico, social e espiritual das crian- ças, bem como para a conservação de todas essas esferas na vida adulta. O amor não pode ser entendido como um fenômeno biológico eventual nem especial; ele deve ser compreendido como um fenômeno biológico cotidiano, básico e diário no humano. Isso pode ser constatado por meio da forma como, freqüentemente, ele é negado culturalmente, criando limites na legitimidade da convivência, em função de outras emoções (MATURANA, 1988). Conforme Maturana (1988), na medida em que diferentes emoções constituem domínios de ações distintas, haverá diferentes tipos de relações humanas, de- pendendo da emoção que as sustente e será necessário observar as emoções para distinguir os diferentes tipos de relações humanas, já que estas as definem. Mesmo que em um outro contexto, Warat (1989) também se aproxima das idéias acima expostas. É preciso resgatar a ética da preservação da existência baseada no amor e na solidariedade. Pensar o amor como dimensões simbólica e emancipatória potencializa a preservação da condição humana pela preserva- ção dos desejos. Warat (1989), sutilmente, lembra que: se sabemos como amar, também sabemos como viver. E, por sua vez, só é criado um espaço de transfor- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    mação social ede emancipação se, previamente, cria-se um espaço de desejo, de afeto entre as pessoas. Daí a necessidade de um “amor de gigantes”: Os amores de gigantes constituem, entre os parceiros, espaços de afetividade que se convertem em um depositário dos enigmas da vida. Uma disposição afetiva que permite a percepção de que, sem a plenitude dos sentimentos, não existem forças suficientes para a transformação da vida. É impossível pretender uma troca nos sistemas de valores e necessidades sociais sem construir espaços de ternura entre as pessoas (WARAT, 1989, p.22). Contribuindo para a discussão, também são bem-vindas as idéias sobre o “sa- ber da experiência”, apresentadas por Bondía (2002), ao se referir à necessidade de as reflexões sobre educação estarem, diretamente, ligadas ao par “experiên- cia/sentido”, uma vez que a verdadeira experiência está cada vez mais rara por excesso de informações e de trabalho e por falta de tempo. Por sua vez, mencionar e almejar trabalhos educativos qualitativos e comple- mentares, transmissores de experiência, clama pelo conceito amor, muito pouco lembrado, nessas ocasiões. Cabe mencionar, então, que, para Bondía (2002, p.20-28), a experiência repre- senta: um encontro ou uma relação com algo que se experimenta, que se prova (...). O sujeito da experiência tem algo desse ser fasci- nante (o pirata) que se expõe atravessando um espaço indeterminado e perigoso, pondo-se nele à prova e buscando nele sua oportunidade, sua ocasião (...). A experiência é a passa- gem da existência, a passagem de um ser que não tem essência ou razão ou fundamento, mas que simplesmente “ex-iste” de uma forma sempre singular, finita, imanente, contingente (...). A expe- riência, a possibilidade de que algo nos aconteça ou nos toque, requer um gesto de interrupção, um gesto que é quase impossível nos tempos que correm: requer parar para pensar, parar para olhar, parar para escutar, pensar mais devagar, olhar mais devagar, e escutar mais devagar; parar para sentir, sentir mais devagar, de- morar-se nos detalhes, suspender a opinião, suspender o juízo, suspender a vontade, suspender o automatismo da ação, cultivar a atenção e a delicadeza, abrir os olhos e os ouvidos, falar sobre o que nos acontece, aprender a lentidão, escutar aos outros, cultivar a arte do encontro, calar muito, ter paciência e dar-se tempo e espaço. 234 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Portanto, a educaçãoque se sonha, seja ela para o lazer ou para o ambiente, formal ou informal, precisa valorizar mais a lentidão, precisa rever sua ética, suas práticas/experiências e seus valores. O empenho pela ética, pelo respeito às diferentes formas de vida, o incentivo pela autonomia, pela solidariedade e pela democracia são algumas das metas cultivadas e almejadas tanto pelo lazer quanto pela educação ambiental. Infeliz- mente, a educação formal deixa suas funções a desejar uma vez que parece se ater apenas a um ensino teórico massivo ou a práticas esvaziadas de conteúdos e, nesse processo, com o sentido de superação, a educação para o lazer e a educação ambiental têm ambas como finalidade a formação de sujeitos consci- entes, sensíveis e críticos no que se refere ao tempo livre e à natureza. Deixo, portanto, um último “recado”: trabalhar com as atividades na natureza exige de nós mais que familiaridade com questões socioambientais e com con- ceitos sobre lazer; exige um envolvimento dinâmico, intenso, inovador e muito responsável. Somente assim, as atividades na natureza se consumarão como oportunidades não apenas para se tomar decisões (momentâneas) sobre deter- minada prática, mas, principalmente, para o desenvolvimento de uma sensibili- dade mais profunda. Ou seja, as experiências na natureza podem, efetivamente, contribuir para o despertar de uma sensibilidade e de uma responsabilidade ambiental coletiva, contribuindo, até mesmo, para impulsionar o estabelecimen- to de políticas em níveis local e global. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] NOTAS 1 Meio ambiente está sendo, neste texto, entendido como “um lugar determinado e/ou percebido onde estão em relações dinâmicas e em constante interação os aspectos naturais e sociais. Essas relações acarretam processos de criação cultural e tecnológica e processos históricos e políticos de transformação da natureza e da sociedade” (REIGOTA, 1998, p.21). Por sua vez, a palavra natureza está sendo tratada como um conceito que, de acordo com Carvalho (1994, p.26), “exprime uma totalidade, em princípio abstrata, que os homens concretizam na medida em que a preenchem com suas visões de mundo”. 2 Tive a oportunidade de explorar melhor estas idéias no capítulo “Da aceleração ao pânico de não fazer nada: corpos aventureiros como possibilidades de resistência” (MARINHO, 2003). 3 Aproveito, este momento, para compartilhar que minha pesquisa de doutorado visa, entre outras questões, a investigar a idéia de “aventura” existente nas atividades na natureza. Futuramente, será um grande prazer poder dividir dados e informações sobre minha pesquisa, a qual está sendo desenvolvida no Programa de Pós- graduação da Faculdade de Educação Física da Unicamp, no Departamento de Estudos do Lazer. 4 Desenvolvi este assunto nos artigos: “Do Bambi ao Rambo ou vice-versa? As relações humanas com a (e na) natureza” (MARINHO, 1999) e “Lazer, natureza e aventura: compartilhando emoções e compromissos” (MA- RINHO, 2001). Aos interessados por uma discussão mais profunda sobre as corridas de aventura, a sugestão de leitura da dissertação de mestrado de Ferreira (2003) é muito pertinente. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    5 “Férias vivas” é uma entidade sem fins lucrativos que tem como objetivo promover a segurança em atividades de turismo e lazer no Brasil. Tal entidade ilustra o interesse e a preocupação com práticas na natureza mais conscientes. Como parte de seus projetos, a entidade elaborou um guia contendo diversas explicações sobre algumas atividades na natureza, dentre várias outras dicas. Informações interessantes podem ser obtidas no site: www.feriasvivas.org.br 6 “Educação para o lazer” é uma expressão que tem sido utilizada por diversos estudiosos no sentido de refletir e questionar o lazer não apenas como veículo de transmissão de educação (“educação pelo lazer”), comumente utilizado em escolas e outras instituições. “Educar para o lazer” significa possibilitar que as pessoas se tornem capazes de desfrutar qualitativamente de seus momentos de “tempo livre”, podendo conhecer as diversas possibilidades para poder optar. Como nos lembra Camargo (1998), sempre fomos educados para o trabalho - sendo este, até então, o valor mais importante da vida humana - fazendo-se necessário, contudo, que também sejamos educados para o lazer com o mesmo afinco, pois somos exigidos por inúmeras características da vida contemporânea (como discutido ao longo deste artigo). 236 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2004 Publicação original: verbete de dicionário Formato da contribuição: artigo Fonte: BRUHNS, Heloisa T. In: GOMES, Christiane L. (org.). Dicionário crítico do lazer. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. E-mail do(s) autor(es): luabola@uol.com.br Títulos acadêmicos principais atuais: BRUHNS, H. T. graduada em Economia pela UNICAMP e em Educação Física pela PUC de Campinas; mestre e doutora em Filosofia da Educação pela UNICAMP. Professora Titular do Departamento de Estudos do Lazer da Faculdade de Educação Física da UNICAMP. Meio Ambiente Heloísa Turini Bruhns Tentarei aqui desenvolver questões em torno do conceito do vocábulo “meio ambiente”, desde já alertando os leitores sobre a impossibilidade e a improce- dência da tentativa de fechamento nas discussões que serão apreendidas, pois elas representam um olhar entre muitos outros, sobre o fenômeno a ser explora- do. Portanto, mais do que estabelecer definições, desejo ampliar e contribuir para a construção do conceito. Em oposição a um sujeito-observador, o qual situa-se fora do tempo históri- co, perseguindo os sentidos verdadeiros, real, permanente e inequívoco, prefiro me aproximar de um sujeito-intérprete me posicionando diante de um mundo- texto, imerso na polissemia e na aventura de produzir sentidos a partir de um panorama histórico (Carvalho:2001) Inicio expondo um dentre os muitos conceitos estabelecidos, não no sentido de tomar partido do mesmo, mas para utilizá-lo como possibilidade de iniciar um diálogo sobre a compreensão do mesmo. De forma bem geral, poderíamos pensar o meio ambiente como o modo pelo qual os organismos vivos (e aqui incluo os seres humanos) interagem com o conjunto de condições naturais, através de influências mútuas estabelecidas entre os mesmos, envolvendo um campo complexo das relações entre a nature- za e a sociedade. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    De modo acontribuir com o debate, busco Reigota (1998:21), o qual define meio ambiente como “um lugar determinado ou percebido onde estão em rela- ções dinâmicas e em constante interação os aspectos naturais e sociais. Essas relações acarretam processos de criação cultural e tecnológica e processos históricos e políticos de transformação da natureza e da sociedade”. Assim, a compreensão ultrapassa a idéia do meio que circunda espécies e populações biológicas, situando o ambiente como categoria sociológica (não biológica), relacionada a uma racionalidade social, onde estariam envolvidos comportamentos, valores e saberes, bem como novos potenciais produtivos (Leff:2000) A racionalidade instrumental utilitarista numa ética baseada em benefícios imediatos regeu por um tempo considerável (se é que podemos afirmar o seu desaparecimento) a economia e o processo de acumulação, buscando atingir o crescimento econômico. Nesse processo os recursos naturais sofreram uma deterioração e devastação comprometendo a vida no planeta, provocando de- sigualdades sociais e um entendimento equivocado de conservação ambiental traduzida como nichos isolados. Esse quadro provocou uma crise e uma reação contrária, impulsionando uma nova racionalidade social diferente da racionalidade científica prevalecente. Nesse aspecto podemos visualizar a crise ambiental não somente como crise ecológica, mas como crise da razão, onde os problemas ambientais situam-se como problemas do conhecimento. Trazendo Leff (2000:217), “apreender a complexidade ambiental não constitui um problema de aprendizagem do meio, e sim de compreensão do conhecimento sobre o meio”. Podemos pensar essas questões engatilhadas a partir da década de 60, nos movimentos contraculturais, constituindo e desembocando em crises deflagradas no âmbito das instituições (família, ensino, igreja dentre outras), bem como contestando instrumentos sócio-culturais e político-econômicos de organiza- ção das sociedades, questionando teorias e práticas em torno da luta pelo poder. Surge uma noção de ambientalismo, conforme Cascino (1998:266) na qual está embutida não apenas a preservação, de maneira isolada e estanque, mas inte- grando uma infinidade de conteúdos, de complexificação do conhecimento, articulando uma visão diferenciada sobre os acontecimentos naturais, sócio- culturais, político-econômicos, num entendimento do ser humano como ele- mento co-responsável, fundamental, em tudo o que ocorre no âmbito da sobre- vivência física do planeta e da própria qualidade de vida em um sentido amplo, renovado e diferenciado”. Nessa direção, prossegue o autor, “as novas configu- rações do expressar a política, o fazer reivindicações, o agir sobre os temas de interesses e importância na defesa de territórios existenciais coletivos e indivi- 238 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    duais, se revestede inéditas estruturas simbólicas, abrindo campos até então intocados da expressão humana, rompendo com velhas mensagens, envelhecidas cores de expressão dos desejos”. Um novo ambientalismo, em contraposição à concepção de “proteção à natu- reza” presente em instituições provindas do século XIX (sociedades de proteção da natureza, da vida selvagem, dos animais etc.) procede, como mostra Diegues (1996:39), desse movimento ativista crítico da sociedade tecnológico-industrial (tanto capitalista quanto socialista), cerceadora das liberdades individuais, homogeneizadora das culturas e, sobretudo, destruidora da natureza. Movimento ambientalista constituindo-se em alvo de censuras, pois represen- tava um modelo importado dos países industrializados, nascido com a opulência da riqueza rejeitando o industrialismo e os valores consumistas), não refletindo aspirações e conceitos sobre a relação homem/natureza dos países subdesen- volvidos, pois muito raramente incluíam o problema da pobreza e, principalmen- te, a má distribuição de renda. Os movimentos ambientalistas nos países subde- senvolvidos estão diretamente relacionados com as condições de produção e de satisfação das necessidades básicas da população, portanto implicam em quali- dade de vida. Entretanto, nos anos 80, coloca Diegues (ibid.:38), “ficou mais difícil a defesa do ambientalismo primeiro-mundista, por causa da grave recessão que gerou altas taxas de desemprego”. As contrapropostas ambientalistas direcionaram-se para uma sociedade libertária, constituída de pequenas comunidades auto-suficientes, utilizando uma ciência, um trabalho e uma tecnologia não alienante e a afirmação da sociedade civil em contraposição a um Estado centralizador. Uma utopia simplista manifestou-se nesse movimento de ruralização e pro- posta de volta às comunidades rurais, qual seja, o retorno aos modelos de con- vívio dos pequenos povoados e vilas. Trazendo temas de grande alcance político em seu bojo (energia nuclear, autonomia local, crescimento econômico), desencadearam um afastamento em relação ao poder instituído, concomitantemente colocando-se como força po- lítica, conquistando espaços (partidos, ministérios, organizações não-governa- mentais) Surgiu um âmbito propício para o desenvolvimento de abordagens, temas e problemas até então considerados irrelevantes para a investigação social. Não mais se atendo à narrativa das conquistas dos “grandes homens”, esses temas expandiram-se para aspectos da vida cotidiana, examinando modos de amar, trabalhar, divertir-se, práticas e representações corporais. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Algumas práticas delazer tendo como pano de fundo o ambientalismo en- quanto movimento crítico-social surgem nessa época, muito próximas às pere- grinações do movimento hippie ou aos seus propósitos de volta ao campo, onde a busca pela natureza representava uma contestação de valores em relação à produção e ao consumo. A natureza como território da experiência passa a operar um reencantamento do mundo. Assim, as visitas à natureza traduzidas nas formas de acampamento, caminhadas, exploração de cavernas, montanhismo, tornam-se cada vez mais freqüentes, desencadeando posteriormente uma série de atividades na natureza como o rafting, canyoning, bóia-cross, cascading, tirolesa e outros. Atividades estas desenvolvidas através de aprimoramentos tecnológicos os quais promoveram tanto o acesso a lugares antes inacessíveis (como por exemplo o Everest no Himalaia ou as cavernas do PETAR no Brasil), quanto a possibilidade da prática com segurança. O ecoturismo, denominação posteriormente atribuída a essas viagens, ganha destaque como uma atividade de lazer, incorporando os conflitos e contradições geradas no próprio ambientalismo. Sem deixar de considerar a possibilidade de ações limitadas, acentuando a comunidade e a localidade, as resistências locais e regionais, os movimentos sociais, o respeito pela alteridade, o ecoturismo corre o risco da apelação por uma política sectária e estreita, onde o respeito pelos outros pode se perder numa competição por entre os fragmentos. Por outro lado, as atividades, onde a pretensão do cunho ecológico é manifesta- da, restringem-se a fatores físico-bióticos do meio ambiente, relegando a planos de menor importância os aspectos socioculturais e político-econômicos característi- cos das populações locais. Portanto, a redefinição dos modelos de desenvolvimento pautada nos “critérios ecológicos”, tem acontecido, como discutem Ribeiro e Barros (1997:39), “muito mais no sentido de uma adequação à idéia de ‘ equilíbrio com o meio natural’ do que em relação à de justiça social, ao reconhecimento das popula- ções humanas como os verdadeiros sujeitos do meio ambiente”. Ainda nessa discussão, percebe-se uma forte ênfase nas posturas empresariais e políticas de planificação e gestão, quando a fala enfoca o turismo sustentável, desprezando aspectos relativos aos comportamentos sociais como atitudes, expectativas e valores da população, não respondendo à necessidade de preser- vação dos recursos naturais para garantir sua continuidade e regeneração, cos- tumes e estilos de vida, na busca do enriquecimento da experiência turística e nos benefícios advindos da própria. O ecoturismo privilegia áreas naturais apelativas do ponto de vista estético, “segundo valores ocidentais”, como florestas, cachoeiras, rios extensos, canyons,ocorrendo uma discriminação por áreas naturais “menos nobres”, como pântanos, brejos, cerrados, etc., mesmo reconhecendo que esses ambientes são essenciais para o funcionamento dos ecossistemas (Diegues:1996).Essa propos- ta responde a concepções de vida, inspiradas no ambientalismo, apoiados em ideologias ambientalistas e/ou místico-religiosas. 240 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    O movimento ambientalistadesencadeou vários enfoques, muitos deles con- traditórios, gerando conflitos a partir de posicionamentos opostos. Dois grandes enfoques podem ser detectados na análise da relação homem/natureza: o “ecocêntrico” e o “antropocêntrico”. O primeiro visualiza o mundo natural na sua totalidade, o qual possui um valor independente da utilidade que venha a ter para o ser humano. O segundo incorpora a dicotomia homem/natureza, onde o homem tem direitos de posse e controle sobre o mundo natural, sobretudo através da ciência e da tecnologia. A natureza representa uma reserva de “recur- sos naturais” disponíveis para exploração (Diegues:1996). Torna-se importante na compreensão do “mundo natural selvagem”, verificar a posição de algumas linhas de pensamento envolvidas nessa questão. Aprovei- tando os estudos de Diegues (1996), vou me deter em três delas: a ecologia profunda, a ecologia social e o eco-socialismo. A ecologia profunda é uma vertente ecocêntrica, possuindo influência espiritualista (cristã, religiões orientais e outras), pregando quase uma adoração do mundo natural. Atribui grande importância aos princípios éticos que deveriam ser adotados para reger as relações homem/natureza. Recebeu muitas críticas pois chegou a propor ao ser humano “pensar como montanha”. O homem tem características humanas e racionará segundo as mesmas, por mais solidário que seja em relação à natureza e por mais crítico que se coloque frente ao racionalismo antropocêntrico. Um “ecofascismo” manifesta-se nessa posição, na qual a sociedade humana, em sua organização, deveria adotar como modelo as características do mundo natural (homeostase, diversidade biológica, dentre outras).A justificação da or- dem social pelas leis da natureza serviu ao totalitarismo, exemplificado aqui com o nazismo, o qual se prevaleceu da seleção natural. A ecologia social justifica ao lado dos marxistas, a degradação ambiental como produto da ação capitalista. Afirma ser a sociedade humana constituída de grupos diferenciados como pobres e ricos, brancos e negros, jovens e velhos e critica o poder baseado na noção de Estado, propondo uma sociedade democrática, descen- tralizada, baseada na propriedade comunitária de produção. Aproxima-se dos anar- quistas e assim sendo, afasta-se dos marxistas clássicos. Possui uma vertente utópi- ca pois prega a busca por uma comunidade orgânica, a qual se constituiria numa nova sociedade, onde a tecnologia estaria sempre a serviço do homem. O eco-socialismo surge a partir de uma crítica ao marxismo clássico nas suas considerações sobre o mundo natural, alegando sobre ele manter uma visão de natureza estática, uma vez considerando-a apenas via ação transformadora do homem, por meio do processo de trabalho, resultando na satisfação das neces- sidades. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Afirma dentre outrosargumentos, ser necessário incorporar na contradição básica da sociedade capitalista a contradição existente entre as forças produti- vas históricas e as forças produtivas da natureza, pois na impossibilidade destas últimas operarem, instaura-se um impasse na própria reprodução da sociedade. Esta corrente propõe uma revisão do tradicional naturalismo o qual incorpo- rava uma aversão pela sociedade e pela cultura, tratando o homem como pura natureza.Esse naturalismo negava o culturalismo para o qual a sociedade teria todas as qualidades e a natureza, todos os defeitos, esforçando-se para distan- ciar o homem em relação à natureza. O “novo naturalismo” estabeleceria a passagem tanto de uma reação contra a natureza para uma posição reconciliatória ativa, como de uma visão ingênua para uma nova afirmação da relação homem/natureza. Baseia-se em três idéias: a) O homem é produtor e produto de seu meio, e os problemas conseqüentes referem-se, não ao fato , mas à maneira dessa intervenção. A natureza pura, não transformada, representa um museu, uma reserva e um artifício de cultura. b) A natureza faz parte da história, não cabendo voltar atrás para reestabelecer uma harmonia perdida, mas sim restabelecer uma relação com o estado da natu- reza conforme a situação histórica. c) A relação com a natureza não se opera de forma individual, mas coletiva. A sociedade é produto do mundo natural por um trabalho de invenção constante. Uma série de distorções surgiu a partir do culturalismo (sociedade contra a natureza), o qual justificava a necessidade de acumulação como refúgio frente a possibilidade de escassez, gerando proibições e interdições (sexuais, alimenta- res), provocando a divisão entre os homens , bem como desigualdades sociais. Esse “novo naturalismo” propõe uma sociedade onde a natureza representa uma possibilidade concomitante de desenvolvimento humano quanto de partici- pação no desenvolvimento. Nesse enfoque o fechamento da natureza em parques, como já comprovado, acelera a destruição da mesma (degeneração genética), não estabelecendo uma relação harmoniosa entre a sociedade e o meio ambiente. A questão ambiental requer novos conhecimentos teóricos e práticos para sua compreensão e resolução, com alterações na própria ciência, num novo olhar sobre a sociedade, induzindo transformações teóricas e um desenvolvimento diferenciado de conhecimento nas diversas áreas do conhecimento. Ela gerou novas problemáticas sociais abrindo espaços temáticos para a pesquisa 242 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    interdisciplinar, a qualmais do que articulação de ciências, colaboração de especialistas de diversas áreas e integração de recortes selecionados da realida- de, significa a transformação ambiental do conhecimento produzindo um pro- cesso de reconstrução social (Leff:2000). Está presente aqui uma noção de ciên- cia não pautada sobre fundamentos seguros, aberta para um processo de revisão e autocrítica permanente, privilegiando o jogo das percepções criativas em de- trimento da manipulação dogmática de fórmulas fechadas. Busca mais uma rela- ção de conjunto e menos a busca precisa de fragmentos; mais a preocupação pelo sentido das ações não se prendendo num enrijecimento racionalista. O saber ambiental não é homogêneo nem unitário, constituindo-se num pro- cesso de relação com o objeto e o campo temático de cada ciência, o qual vai abrindo espaços para a articulação interdisciplinar, gerando novas teorias, disci- plinas e técnicas. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Ano: 2004 Publicação original: anais Formato da contribuição: resumo expandido Fonte: “Atividade de geoturismo no litoral de Icapuí/CE (NE do Brasil) e a necessidade de promover a preservação do patrimônio geológico”, Recife/PE, XXI Simpósio de Geologia do Nordeste, 2004. E-mail do(s) autor(es): debora@geologia.ufrn.br; marcos@geologia.ufrn.br Títulos acadêmicos principais atuais: Débora C. de Souza: Doutora em Geodinâmica e Marcos Antonio Leite do Nascimento: Doutor e Mestre em Geodinâmica, geólogo e professor das disciplinas de recursos naturais e meio ambiente do Curso de Turismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Atividade de Geoturismo no Litoral de Icapuí/CE (Ne Do Brasil) e a Necessidade de Promover a Preservação do Patrimônio Geológico Débora do Carmo Souza Marco Antonio L. do Nascimento Embora o segmento sol e praia definam o produto turístico básico do Ceará (e também do Nordeste), não se deve usar este segmento apenas para tomar banho de sol e/ou fazer caminhadas na praia. O litoral cearense apresenta uma grande geodiversidade, com destaque para dunas, falésias e arrecifes, onde é possível praticar um novo segmento turístico – o geoturismo, que utiliza feições geoló- gicas como atrativos turísticos. É através desta geodiversidade que as praias de Icapuí se destacam no cenário do turismo cearense. Assim, apresenta-se aqui uma panorâmica de todo o poten- cial geoturístico dessas praias, possibilitando nas mesmas a utilização de um novo segmento de turismo no Ceará, hoje em dia praticamente desconhecido. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    O MUNICÍPIO DEICAPUÍ Icapuí é o último município do litoral Leste do Ceará, na divisa com o Estado do Rio Grande do Norte. Ele faz parte da Costa do Sol Nascente e é famoso pela beleza das praias e a culinária, baseada em peixes e crustáceos. O acesso à cidade se dá partindo de Fortaleza através da CE-040 até Aracati e então pega a BR-304 até a CE-261, que dá acesso direto a Icapuí. O acesso pode ser feito ainda através da BR-116, indo até o Boqueirão do Cesário, tomando a BR-304 até chegar a Aracati, entrando no acesso a Icapuí pela CE-261. Dunas, falésias, tranqüilidade e um mar manso são algumas das atrações natu- rais das 14 praias distribuídas em seus 64 Km. As mais freqüentadas são Tremembés, Manibu, Retiro Grande, Redonda e Ponta Grossa. TURISMO DE NATUREZA: ECO E GEOTURISMO O ecoturismo promove o turismo sustentável em áreas naturais, beneficiando o meio ambiente e as comunidades visitadas, promovendo assim aprendizado, respeito e sensibilização sobre aspectos ambientais. Este segmento do turismo de natureza tem como principal atrativo os aspectos relacionados ao meio biótico – fauna e flora. Embora os aspectos associados ao meio abiótico, espe- cialmente o relevo e as rochas, também sejam atrativos para o ecoturismo, não existe uma abordagem específica para estes patrimônios naturais. Com isso, pessoas preocupadas na valorização e preservação dos patrimônios naturais associados ao meio abiótico existente no mundo, vêm nos últimos anos promovendo a divulgação de um outro segmento de turismo de natureza, o Geoturismo (Hose 1996). Tal atividade utiliza feições geológicas como atrativo turístico, buscando sempre assegurar a conservação e a sustentabilidade do local visitado. O geoturismo procura também divulgar a geodiversidade que é a variedade de ambientes, fenômenos e processos geológicos, geradores de paisagens, rochas, minerais, fósseis e solos que constituem a base para a vida na Terra (Stanley 2000). A geodiversidade é tão importante quanto a biodiversidade, porém ações que contribuem para a conservação da natureza estão preocupadas basicamente com a fauna e a flora. Isto se deve, principalmente, a uma visão parcial e distorcida daqueles que trabalham com a natureza e da problemática associada à sua con- servação. Enquanto se continuar a esquecer a importância da vertente geológica nunca se poderá programar ações eficazes de conservação da natureza. Para uma ação mais ampla e completa em favor da conservação de qualquer patrimônio natural não faz qualquer sentido algum individualizar a Geo da Bio diversidade. 246 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    ATIVIDADES DE ECOE GEOTURISMO EM ICAPUÍ O Programa de Regionalização do Turismo – Roteiros do Brasil promovido pelo Governo Federal em parceria com os Governos Estaduais permitiu a criação de diferentes regiões turísticas em todo o Brasil (mais detalhes em http:// www.turismo.gov.br/regionalizacao/). No caso do Estado do Ceará foram individualizadas seis grandes regiões turísticas, a saber: Araripe/Cariri, Serras Úmidas/Baturité, Sertão Central, Fortaleza/Metropoli- tana, Litoral Oeste/Ibiapaba e Litoral Leste/Apodi. Nas três últimas há uma interação entre atrativos litorâneos e aqueles encontrados no interior; enquanto que os demais envolvem atrações exclusivamente situadas em municípios do interior. É na região turística do Litoral Leste/Apodi que está inserido o Município de Icapuí. A vocação turística deste revela-se em sua variedade de paisagens natu- rais, tais como dunas, falésias, areias monazíticas, fontes, lagoas, rios, mangues e matas de tabuleiros, além da cultura e da história. Em virtude desse potencial, a Secretaria de Turismo do Governo do Estado do Ceará, criou o Pólo de Ecoturismo do Litoral Leste envolvendo os atrativos ecoturísticos encontrados nos municí- pios de Icapuí, Aracati e Fortim. Porém, como dito anteriormente, faz-se necessário aproveitar não somente a bio, mas também toda a geodiversidade da região. Para uma melhor compreen- são dessa geodiversidade em ações de conservação da natureza é importante: (a) utilizar, de forma sustentável, os recursos geológicos; (b) introduzir o conhe- cimento geológico nos instrumentos de ordenamento das áreas protegidas; (c) levantar os locais de interesse geológico, geomorfológico e paleontológico que ocorram nas áreas protegidas; e (d) criar projetos de educação ambiental em matéria de conservação da natureza, a nível Federal, Estadual e Municipal. A seguir serão apresentados os principais atrativos geoturísticos da região de Icapuí, principalmente àqueles encontrados nas praias de Mutamba, Barreiras, Picos, Peroba, Redonda, Ponta Grossa e Retiro Grande. GEOLOGIA DA REGIÃO A área que contemplam as praias citadas acima possui uma geologia ímpar (Sousa 2003). Ela está inserida no extremo oeste da Bacia Potiguar, enquadrada geologicamente no contexto da Plataforma de Aracati e geograficamente situa- da entre as praias de Mutamba e Retiro Grande (Fig. 1). Nesta área, as rochas que afloram podem ser individualizadas em dois grandes grupos (Fig. 2): i) uma unidade carbonática (calcários e margas) correlacionada Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    a Formação Jandaíra.Esta ocorre de forma restrita, sob a forma de lajedos, na base das falésias; e (ii) unidades siliciclásticas (arenitos, siltitos, argilitos e arei- as) correlacionadas às formações Barreiras e Potengi, que predominam lateral e verticalmente, ao longo das falésias. O cenário de ocorrência destes dois grupos pode ser observado na figura 3. Figura 1. Mapa geológico da região trabalhada (Sousa 2003). Figura 2. Esquema do cenário geológico ao longo das falésias costeiras (Sousa 2003). 248 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Figura 3. Feiçõesgerais da geodiversidade da região de Icapuí. (a) Lajedo de calcário na base da falésia; (b) Formação Barreiras com acamamento basculado; (c, d) Falésias e dunas nas praias da Peroba e Picos. Lajedos de Calcário Os calcários e margas afloram na base das falésias mostrando aspecto maciço e exibindo localmente macrofósseis (miliolídeos, gastrópodas, ostracodes e al- gas verdes). Ocorrem sob a forma de pequenos lajedos ao nível da praia atual (Fig. 3a), estando parcialmente recobertas pelas areias da praia, em algumas épocas do ano. Esta unidade denominada de Formação Jandaíra possui idade entre 80 e 90 milhões de anos. Falésias É uma escarpa costeira abrupta que se localiza na linha de contato entre a terra e o mar. Quando a falésia encontra-se sob processo de erosão (principal- mente devido a ação do mar) ela é chamada de Falésia Ativa (ou Viva), enquanto que a Falésia Inativa representa aquela cujo processo erosivo já cessou. Na região, elas são formadas por arenitos, siltitos e argilitos dominando as exposições e dispondo-se no topo das rochas carbonáticas (Fig. 3a). Esta unida- de denominada de Formação Barreiras ocorre em dois contextos distintos, sob a forma de camadas horizontais e não deformadas, a situação mais usual, ou Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    como camadas basculadas(Fig. 3b) e afetadas por deformação de forte magni- tude, em um trecho mais restrito do litoral entre Icapuí e Retiro Grande (Sousa 2003). Essas rochas possuem idades inferiores a 10 milhões de anos. Em ambos os locais observam-se litotipos de textura mais fina (arenitos finos a síltico- argilosos) com coloração variando de amarelo, cinza, roxo e vermelho, úteis para a confecção das tradicionais garrafinhas de areias coloridas. Vale salientar que entrando no Município de Aracati, mais precisamente entre as praias de Retirinho e Lagoa do Mato, as falésias são formadas também por arenitos e siltitos da Formação Tibau. PALEODUNAS E DUNAS Representa a acumulação de areia depositada pela ação do vento dominante, ocorrendo normalmente nas praias ou nos desertos, podendo ser fixas ou móveis. Na região elas ocorrem sobre as falésias e são formadas por areias exibindo coloração branca, amarela e vermelha, relacionadas a uma sedimentação eólica (paleodunas) (Fig. 3c). A discordância na base desta unidade torna-se nítida quando os estratos sotopostos encontram-se basculados. Finalmente, observam-se ainda ao longo da área, sedimentos de dunas, mó- veis e fixas, e aqueles ligados à dinâmica costeira atual (cordões de praia, planí- cies de maré e praias), todos nitidamente mais recentes do que as rochas sedimentares anteriormente descritas. DISCUSSÕES FINAIS O enorme potencial geoturístico aqui apresentado mostra a necessidade da associação entre as atividades de ecoturismo com as de geoturismo, unindo assim bio a geodiversidade. Acredita-se que a atividade geoturística, se bem orientada, pode contribuir para a proteção do patrimônio natural, e conseqüente preservação deste, por meio da sensibilização do turista. Vale salientar que os atrativos naturais, incluindo aqueles trabalhados no geoturismo, são um dos principais segmentos de sucesso para o turismo no Ceará na avaliação dos próprios turistas (Teles 2002). É importante ressaltar que o potencial geoturístico do litoral de Icapuí é ape- nas uma pequena amostra do que pode ser trabalhado. Diante desse panorama, ressalta-se a importância de um planejamento prévio para o desenvolvimento desta atividade para que ela se perpetue como uma fonte de emprego e de renda 250 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    para os municípiose comunidades envolvidas. Porém, tal planejamento deve se orientar em bases preservacionistas, haja vista que o patrimônio geoturístico possui a particularidade de ser único e irrecuperável, pois uma vez deteriorado estará perdido para sempre; e com ele, as perspectivas de um futuro melhor para as comunidades. As falésias encontradas nesta região são tão importantes e mostram uma beleza incomparável (Fig. 3d) que são paradas obrigatórias nos pacotes turísticos vendi- dos pelas empresas de ecoturismo do Ceará e do Rio Grande do Norte, todavia, muitas vezes essas empresas não possuem o menor conhecimento geológico a cerca desta geodiversidade. O conhecimento dos guias de turismo a respeito da geodiversidade da área possibilitaria ao turista um maior aprendizado e conse- qüentemente um aproveitamento maior do passeio, sem falar da importância que os mesmos dariam para a preservação do patrimônio geológico. Além disso, vale salientar que foi criada em 17/02/98, através da Lei Municipal n° 002/98, com 558,67 ha, a Área de Proteção Ambiental da Praia de Ponta Grossa, com finalidade de preservar a região em si. Contudo, sugere-se que seja dada a mesma atenção que foi dada a região de Beberibe, onde nesta foi criada, através de Lei Estadual nº 27461/04, com 31,29 ha, o Monumento das Falésias de Beberibe, com a necessidade de proteger e conservar as formações naturais de notório valor paisagístico, representadas pelas falésias e dunas, que se reves- tem de grande importância ecológica e acentuada fragilidade natural. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Ano: 2004 Publicação original: livro Formato da contribuição: resumo de capítulo de livro Fonte: MARINHO, Alcyane. Repensando o lúdico na vida cotidiana: atividades na natureza. In: SCHWARTZ, Gisele M. (Org.). Dinâmica lúdica: novos olhares. São Paulo: Manole, 2004. E-mail do(s) autor(es): alcyane.marinho@hotmail.com Títulos acadêmicos principais atuais: Alcyane Marinho: Graduação pelo Departamento de Educação Física da UNESP de Rio Claro (SP); Mestrado e Doutorado pela Faculdade de Educação Física da UNICAMP (Campinas, SP), na Área de Estudos do Lazer, pesquisadora do Laboratório de Estudos do Lazer/ LEL da UNESP/Rio Claro. Repensando o lúdico na vida cotidiana: atividades na natureza Alcyane Marinho É possível tornar o mundo pior do que ele está; contudo, também é possível fazermos exatamen- te o oposto (Marcuse apud Santos, 1997:22). A história é caracterizada por uma sucessão ininterrupta de épocas, nas quais as idéias de mudança e de movimento devem ser entendidas como inerentes à evolução dos seres humanos. Contudo, ainda assim, os processos de mudança e a dinamicidade das coisas, na velocidade com que têm ocorrido, nem sempre são aceitos ou adequadamente interpretados. É possível destacar os mais variados aspectos positivos e negativos ao longo dos processos evolutivos, no que se refere à economia, à religião, à política, à educação e a todas as esferas da vida humana. Nesse sentido, este texto pretende discutir, a partir do contexto da vida cotidiana, direta e indiretamente, um elemento muitas vezes inexistente, outras vezes esquecido e, na maioria das vezes, o mais sonhado e deseja- do: o lúdico. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Movidas por culturastecnológicas, as pessoas, na vida cotidiana, estão cada vez mais sendo dominadas pela velocidade e pela mobilidade, não somente por informações, mas, igualmente, por sensações e imagens enquanto andam ou dirigem pelas ruas das cidades, rumo a seus mais variados destinos; ou, até mesmo, quando estão em casa, munidas de seus computadores, televisores, aparelhos de fax etc. A intenção de refletir sobre o lúdico, manifestado em atividades na natureza, no contexto da vida cotidiana, não é tarefa fácil e se justifica quando se reco- nhece que o cotidiano se relaciona aos fatos que acontecem no decorrer de todos os dias e, diferentemente do que se acredita, podem haver situações extremamente lúdicas entre a seqüência das rotinas, carregadas de sentidos e sentimentos intensos. Com isso, a pretensão é mostrar que o lúdico pode ser visualizado como um importante elemento da cultura, capaz de contribuir em diversos momentos para as mais variadas necessidades. Nesse contexto, o elemento lúdico poderá ora ser percebido como contraponto à seriedade e à produtividade, ora vivido de forma extraordinária e, ambiguamente, simples, produzindo muito mais que sen- sações de prazer e alegria, podendo ser interpretado como componente porta- dor de grande potencial transformador. Quem sabe assim, a partir de tais com- preensões, seja possível concordar com o pensamento introdutório de Marcuse (apud Santos, 1997), contribuindo para tornar o mundo melhor do que ele está. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] 254 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2004 Publicação original: monografia (T.C.C.) Formato da contribuição: texto resumido Fonte: O Museu como Espaço de Lazer; aproveitando o turismo para mostrar e preservar a cultura local. E-mail do(s) autor(es): gugapessoas@hotmail.com Títulos acadêmicos principais atuais: Especialista em Lazer pela Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG e Bacharel em Turismo pela Universidade Católica de Pernambuco – UNICAP. O museu como espaço de lazer: atrativo turístico e local de preservação da cultura de uma sociedade Gustavo de Lira Santos Muita gente acha que o Museu é um lugar de guardar coisas velhas. E isto acontece principalmente em relação ao museus históricos. Mas se ao visitarmos uma museu, procuramos fazer relações entre aqueles objetos de um outro tem- po, que ali estão expostos e a nossa própria época, muita coisa vai começar a ganhar sentido. Vamos começar a perceber que aqueles objetos que nós consi- derávamos apenas como coisas velhas, achando que não tinha nada a ver conosco, servem, na verdade, para compreendermos uma porção de coisas que acontecem todos os dias em nossas casa, em nossa cidade, em nosso país e até mesmo no mundo. Os museus têm como tarefa colecionar, proteger, interpretar e comunicar os bens materiais do passado. Eles são guardiões do patrimônio, os atores profissi- onais encarregados de proteger todo o objeto considerado como essencial para uma comunidade. O homem está sempre preocupado em preservar sua história e sua memória. Ele tem acesso ao seu passado através de relatos ou depoimentos de testemu- nhas oculares, documentos, textos, etc. ou quando de defronta com as imagens que habitam um museu. Isso não quer dizer que o museu é um caminho em direção ao passado, ele é um lugar de possíveis diálogos entre passado, presente Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    e futuro. Umabrigo do velho e do novo. Ele tem um papel cultural importante: além de abrigar os registros do tempo, é um veículo a serviço do conhecimento e da informação que contribui para o desenvolvimento da sociedade. Ramirez nos diz que: “Todas as organizações devem enfrentar mudanças ao seu redor e vigiar cuidadosamente tanto as ameaças como as oportunidades. Os mu- seus estão topando com múltiplos problemas relacionados com as condições em mudança. Um deles deriva da atual situação financeira, caracterizado pelo cresci- mento incessante dos custos operacionais e o estancamento do valor dos ingres- sos. Uma segunda questão passa pela crescente diversidade de atividades para, um maior, aproveitamento, do cada vez menor, tempo livre. E um terceiro problema surge quando as missões dos museus chocam com as forças de mercado.” Nessa guerra pelo tempo livre os museus deparam-se com comportamentos relacionados ao lazer doméstico (ver televisão, ler livro, escutar música, entre outros) e a outros lazeres (teatro, cinema, praia, clubes, compras, viagens, entre outros). Os museus devem criar projetos que atraiam novos visitantes (especial- mente estudantes, aposentados e turistas) e preserve o público já existente, oferecendo não só as exposições mas outras ofertas de qualidade. BREVE HISTÓRICO DOS MUSEUS: A origem dos museus começou na antiga Grécia, muito antes da era cristã, onde eram centros religiosos, espirituais, criativos e com um número reduzido de participantes e totalmente distanciados da realidade cotidiana. A palavra museus vem do grego mouseion, o templo das musas (na mitologia grega, deusas da inspiração e do aprendizado e protetora das artes). Um dos primeiros museus foi construído na Alexandria, Egito no século III A.C. por Tolomeo II Filadelfo. Alexandria transformou-se desta forma na cidade mais preeminente do conhecimento na área mediterrânea, e o museu toleimaco de- sempenhou funções de biblioteca acadêmica, centro de investigações e retiro contemplativo. Guarnieri (In Bruno) diz que “o holandês Quiccheberg, em Munique, em 1565, ao elaborar a primeira tentativa de uma teoria das coleções de museu, talvez não pudesse avaliar o pioneirismo de sua contribuição numa área totalmente nova ou que seria seguido, posteriormente, por Major, no século XVII, afirmando o caráter disciplinar da Museologia; por Neickelius, em 1727; por Diderot, 1765, com seu ensaio sobre a organização racional do Louvre, por Lafont Saint Yenne, durante a Revolução Francesa postulando em panfletos por “museus para o povo”; por Goethe e seus lúcidos textos sobre Fato Museal, que dizia que era a relação profunda entre o Homem, sujeito que conhece, e o Objeto, parte da 256 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    realidade à qualo Homem também pertence e sobre o qual tem o poder de agir, relação está que se processa num cenário institucionalizado, o museu”. Instituição pública, acessível a todos os tipos de público, é um fenômeno recente; no entanto, as suas origens remontam à civilização grega. É a partir da 2.ª Guerra Mundial que esta instituição passa a considerar-se ao serviço da comunidade, deixando, progressivamente, a sua tradição elitista e minoritária. Estas mudanças redefinem o seu papel na ação educativa, Mendes completa; “A partir da década de 60, a educação nos museus converte-se numa matéria de reflexão e de estudo. Passa-se de uma política museística, centrada no objeto, na sua aquisição e na conservação, para uma política centrada nos sujeitos que dele podem usufruir. São as mudanças sociais que colocam o problema do aces- so dos públicos à arte e à cultura”. Segundo Chagas, “nos anos 60 e 70 do século XX alguns setores da vanguarda intelectual e cultural do ocidente anunciaram a morte do museu. Esse anúncio, normalmente acompanhado de um discurso generalista e totalizante, colocava em movimentos críticas severas ao caráter aristocrático, autoritário, conserva- dor e inibidor dessa instituição de memória, considerada como uma espécie em extinção e por isso mesmo chamada de -dinossauro- e -elefante branco-”. Trinta anos depois, o que se verifica é que os museus não apenas não morreram, como se multiplicaram e ganharam destaque na cena cultural e na vida social do mundo contemporâneo. O museu hoje é um fenômeno muito mais complexo do que se imaginava nos anos 60 para compreendê-lo criticamente não é mais suficiente reduzi-lo ao papel de legitimador dos interesses das classes dominantes, ainda que esse papel continue sendo desenvolvido por muitas instituições. O fato é que ao lado dos museus de grandes narrativas, desejosos de grande sínteses, constituíram-se museus de narrativas modestas, mas nem por isso menos atuantes e inovadores. Narrativas modestas, mas com potência discursiva e capacidade de promover novas possibilidades de identificação. Oliveira nos lembra que “A partir da década de 80 a instituição museus passou a enxergar o homem em seu contexto histórico-cultural, tecendo considerações sobre a cidadania, à autonomia do homem enquanto agente ativo da produção histórica, do sujeito comum e não mais do grande personagem da história”. Na década de 90 a imagem dos museus sobressaiu ainda mais da caixa de naftalina, pois passou a ser mais ativo na busca de novos objetos, utilizando-se de pesquisas, com espaços mais abertos e mais acessíveis, aprimorando a visão entre sistema e ambiente, de uma maneira total, abarcando o artificial e o natu- ral, ou seja: a história e a natureza, respectivamente. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Ao diversificar oseu próprio espaço o Museu deixou para trás os adjetivos de “casa das múmias” das “coisas velhas” do “almoxarifado da burguesia” e outros que faziam apenas lembrar que era o lugar de guardar coisas velhas e da aristo- cracia. Adams (in Ramirez) abordou a problemática dos museus desde uma perspecti- va que anos atrás se considerava um tabu: “na realidade os museus estão a competir pelo tempo livre e o dinheiro das pessoas, e neste sentido competem num campo que vai desde os vídeos cassetes e os centros de entretenimento doméstico até o melhor que possa oferecer parques, viagens e outras grandes firmas do lazer”. Adams levantou um ponte importante: os museus estão brigando pelo tempo livre das pessoas, mas ainda não entraram nessa mercado com força total, inves- tindo em Marketing, Propaganda e Relações Públicas, e com isso continuam competindo em menor escala com os Parques Temáticos, Shoppings, Cinemas, entre outras firmas comercias de entretenimento, que realmente tem um traba- lho de marketing e propaganda agressivos para atrair o público. PARAMUSEUS Segundo Pomian (In Bruno) “as sociedades humanas têm o hábito de eleger, selecionar, reunir e guardar objetos no cotidiano dos homens e o lugar de desta- que que ocuparam as famosas coleções, ao longo da história, na tentativa de superar os limites de transitoriedade humana” se hoje pode-se afirmar a inquestionável importância dos objetos, é porque, ao lado do exercício humano de elaborar um artefato, sempre existiu alguma idéia de preservação, portanto cabe enfatizar que os museus herdaram essa atitude e são responsáveis pela sua perpetuação, ao lado de outros modelos institucionais (Zoológicos, centros de cultura, arquivos, bibliotecas, memoriais, fazendas históricas, parques temáticos, parques safári) conhecidos como os paramuseus. Os Paramuseus surgiram, com essa visão, na década de 90, e fizeram com que a palavra museus adquirisse novo significado, “não o museus no sentido estreito de um prédio ou uma instituição em particular, mas como uma metáfora potente e com um meio por onde as sociedades representam as suas relações com sua própria história e desta com outras culturas.”(MENCH) Apesar da importância dos paramuseus os estudos para descobrir o perfil das sociedades se inicia a partir das análises dos objetos que produziram. De qual- quer forma a evidência material da cultura é um elemento de fundamental impor- tância para estas análises e os museus estão entre as principais instituições que guardam esses indicadores da dimensão cultural da sociedade (BRUNO). 258 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    A IMPORTÂNCIA DOSMUSEUS PARA AS SOCIEDADES O museu é uma instituição a serviço da sociedade, “da qual é parte integrante e que possui nele mesmo os elementos que lhe permitem participar na formação da consciência das comunidades que ele serve; que ele pode contribuir para o engajamento destas comunidades na acção, situando suas actividades em um quadro histórico que permita esclarecer os problemas atuais, isto é, ligando o passado ao presente, engajando-se nas mudanças de estrutura em curso e pro- vocando outras mudanças no interior de suas respectivas realidades nacionais” (MESA REDONDA DE SANTIAGO DO CHILE). A sua importância é levada em conta a partir das seguintes considerações: “Que os museus são instituições a serviço da sociedade, que adquire, comunica e, notadamente, expõe, para fins de estudo, educação e cultura, os testemunhos representativos da evolução da natureza e do homem; Que, especialmente nos países latino-americanos, eles devem responder às necessidades das grandes massas populares, ansio- sas por atingir uma vida mais próspera e mais feliz, através do conhecimento de seu património natural e cultural, o que obriga frequentemente os museus a assumir funções que, em países mais desenvolvidos, cabem a outros organismos; Que os museus e os museólogos latino-americanos, com raras excepções, sofrem dificuldades de comunicação em razão das gran- des distâncias que os separam um do outro, e do resto do mundo; Que a importância dos museus e as possibilidades que eles ofere- cerem à comunidade ainda não são plenamente reconhecidas por todas as autoridades, nem por todos os sectores do público; Que durante a oitava e a nona conferência geral do ICOM, que ocorreram, respectivamente, em Munique em 1968, e em Grenoble em 1971, os museólogos latino americanos que estiveram pre- sentes indicaram a necessidade de criação de um organismo regi- onal.” (Mesa-Redonda sobre o papel dos museus da América La- tina de hoje, em Santiago do Chile, 1972). E ainda completando com a Declaração de Caracas: “Que o museu como um meio de comunicação transmite mensa- gens através da linguagem específica das exposições, na articu- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    lação de objectos-signos,de significados, idéias e emoções, pro- duzindo discursos sobre a cultura, a vida e a natureza; que esta linguagem não é verbal, mas ampla e total, mais próxima da per- cepção da realidade e das capacidades perceptivas de todos os indivíduos; que como signos da linguagem museológica, os obje- tos não têm valor em si mesmos, mas representam valores e significados nas diferentes linguagens culturais em que se encon- tram imersos; Que o museu deve refletir as diferentes linguagens culturais em sua ação comunicadora, permitindo a emissão e a recepção de mensagens com base nos códigos comuns entre a instituições e seu público, acessíveis e reconhecíveis pela maioria; Que o processo de comunicação não é unidirecional, mas um processo interativo, um diálogo permanente entre emissores e receptores, que contribui para o desenvolvimento e o enriqueci- mento mútuo, e evita a possibilidade de manipulação ou imposi- ção de valores e sistemas de qualquer tipo.” FUNÇÃO EDUCATIVA DO MUSEU A educação, vista em seu sentido mais amplo, é o “processo de desenvolvi- mento da capacidade física, intelectual e moral da criança e do ser humano em geral, visando a sua melhor integração individual e social”. É hoje admitido que os museus, devido ao seu grande potencial educativo, devem ser considerados instituições de educação, embora desempenhem também outras funções, “o museu é um importante instrumento no processo de educação permanente do indivíduo, contribuindo para o desenvolvimento de sua inteligência e capacidades crítica e cognitiva, assim como para o desenvolvimento da comunidade, fortalecendo sua identi- dade, consciência crítica e auto-estima, e enriquecendo a quali- dade de vida individual e coletiva” (Declaração de Caracas - 1992) Mendes nos fala das três tendências que a instituição museologica foi vista pela sociedade: a primeira delas, no início do século XX, era restrito a, simples- mente, salvaguardar o patrimônio, pouco depois um local de visitação desse patrimônio e por último a função educativa do museu. Em 1976 no I Encontro de Dirigentes de Museus, realizado no Recife PE, foi apontada “a necessidade de chamar atenção, da parte dos responsáveis por atividades educacionais nos Museus para o fato de que a educação é um proces- 260 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    so contínuo eininterrupto que, além de instrumentar o indivíduo para uma fun- ção na sociedade, constitui também um processo de socialização e que entre os objetivos fundamentais dos Museus a educação precede a todos os demais”. Os museus servem como fontes para as escolas, ao providenciarem educação às crianças, num momento extra-classe. Criando a oportunidade da criança apren- derem in-loco com o manuseio dos objetos ou da experiência, ainda que sejam réplicas, pois levará o aluno sair do, simples, universo da escola e dos livros, que muitas vezes torna a educação abstrata. No mesmo sentido vai a opinião de Sagues, ao afirmar: “O museu é uma instituição cultural intrinsecamente educativa, o que não significa que tudo o que realiza seja expressamente pedagógico […]. Assim, o museu converte-se num instrumento de aprendizagem, em benefício dos alunos, cujo maior ou menor grau de êxito dependerá fundamentalmente do museu e dos professores”. A necessidade de os museus captarem um número cada vez mais elevado de visitantes, e a importância desse público para os museus nos fez sair de uma época em que, como já se disse, só uma elite se dirigia aos museus, e chegou-se a uma em que o público-alvo principal é o escolar, “e esse público é, e continuará a ser, de importância crucial para os museus, como estes o devem ser para os estudantes.”(MENDES) Estas e outras questões exigem que, não só na concepção e montagem de expo- sições (permanentes ou temporárias) como nas múltiplas atividades desenvolvidas nos museus, se considerem, entre outros, os seguintes aspectos: Que oportunidades de aprendizagem devem ser oferecidas ao visitante? Que mensagem se deseja fazer passar e através de que meios? Como avaliar se os objetivos almejados foram ou não atingidos? De que tipo de aprendizagem se trata: conteúdos e/ou conceitos? Atitu- des, comportamentos, procedimentos, princípios, valores? EDUCAÇÃO PATRIMONIAL O Brasil, em toda sua imensa extensão, é uma nação pluricultural principal- mente pelas diversas etnias que o formaram. Nossa cultura vem sendo transmiti- da através das gerações se renovando e recriando, propiciando a nos a possibi- lidade de construirmos nossa identidade. E a manifestação dessa identidade se revela través do nosso patrimônio, que segundo QUEIROZ não se restringe ape- nas “aos bens culturais móveis e imóveis, representantes de nossa memória, se fazendo presente em outras tantas formas de expressão cultural de nossa soci- edade. Essa herança imaterial se manifesta na interação de nossa gente com o ambiente, com a natureza e com as condições de sua existência. É a alma de nosso país expressa através dos saberes, celebrações e formas de expressão de nosso povo, “materializados”no artesanato, nas maneiras e modos do fazer cotidiano de nossas comunidade, na culinária nas danças e músicas, rituais e Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    festas religiosos epopulares, nas relações sociais de uma família ou de uma comunidade, nas manifestações artísticas, literárias, cênicas e lúdicas, nos espa- ços públicos, populares e coletivos. A educação patrimonial, interpretada por HORTA como um processo perma- nente e sistemático de trabalho educacional centrado no Patrimônio Cultural como fonte primária de conhecimento e enriquecimento individual e coletivo, torna-se um poderoso instrumento no processo de reencontro do indivíduo consigo mesmo. Segundo Horta ainda, o “conhecimento crítico e a apropriação consciente pelas comunidades do seu patrimônio são fatores indispensáveis no processo de preservação sustentável desses bens, assim como no fortalecimen- to dos sentimentos de identidade e cidadania”. A Educação Patrimonial torna-se, assim, um processo constante de ensino/ aprendizagem que tem por objetivo central o foco de ações o Patrimônio. Ë nesse tópico que se encontra a fonte primária de atuação que vem enriquecer e fortalecer o conhecimento individual e coletivo de uma nação sobre sua cultu- ral, memória e identidade. TURISMO CULTURAL O turismo cultural é motivado pela busca de informações, de novos conheci- mentos, de interação com outras pessoas, comunidades e lugares, da curiosida- de cultural, dos costumes, da tradição e da identidade cultural. Esta atividade turística tem como fundamento o elo entre o passado e o presente, o contato e a convivência com o legado cultural, com tradições que foram influenciadas pela dinâmica do tempo, mas que permaneceram; com as formas expressivas reveladoras do ser e fazer de cada comunidade. O turismo cultural abre perspec- tivas para a valorização e revitalização do patrimônio, do revigoramento das tradições, da redescoberta de bens culturais materiais e imateriais, muitas vezes abafadas pela concepção moderna. A experiência humana e todas suas manifestações se constituem em fator cultu- ral, mas, a respeito de sua finalidade e expressão turismo cultural segundo Andrade: “Turismo cultural refere-se as atividades que se efetuam através de deslocamentos para a satisfação de objetivos de encontro com emoções artísticas, cientificas, de formação e de informa- ção nos diversos ramos existentes, em decorrência das próprias riquezas da inteligência e criatividade humanas”. As características básicas do turismo cultural não se expressam pela viagem em si, mas por motivações, cujos alicerces se situam na disposição e no esfor- 262 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    ço de conhecer,pesquisar e analisar dados , obras ou fatos, em suas variadas manifestações. A motivação para esse tipo de turismo depende mais dos turistas do que da cultura dos receptivos locais que eles visitam, pois a simples oportunidade de constatação de realidades estranhas, pode ser insuficientes para que elas se tornem, de fato, conhecidas. Além disso, os baixos níveis cultural, intelectual ou mesmo mental se constituem em elementos impedientes de formação de repertorio lógico, por causa das dificuldades e das impossibilidades da transfor- mação de estímulos e de realidades em idéias coerentes e convenientes. A simples presença física e o despreparo intelectual de visitantes inaptos po- dem tornar-se motivos de ameaça ao sentido cultural do núcleo que os recebe, principalmente se este não for muito conhecido em sua importância, pois a influência de visitantes e turistas despreparados e incultos pode transformar as oportunidades de conhecimento em ocasiões de destruições ou, pelo menos, de riscos ao patrimônio. O estado de conservação e os cuidados dispensados a maioria das cidades históricas Brasileiras confirmam a oportunidade de registro e das preocupações expressas não por suspeitas, mas por constatações. Assim pensando, a atividade turística passa necessariamente pela questão da cultura local e regional. Reforça a necessidade em compreender as suas peculi- aridades, admirar a complexidade e estimular a participação da comunidade. Os locais de turismo, por sua vez, criam possibilidades para a revitalização da identidade cultural, da preservação dos bens culturais e das mais ricas tradições. Em suma, as atividades turísticas geram mecanismos de sustentabilidade e espa- ços propícios às expressões culturais MUSEUS E GLOBALIZAÇÃO O mundo é o palco da história e isso nos traz novos dilemas, impasses e perspectivas. Estamos passando por uma ruptura histórica, a semelhança de outras que ocorreram: a expansão do Império Romano, o período das grandes navegações, a Revolução Industrial e a Francesa. Segundo IANNI: “A sociedade global é uma sociedade nova, novas relações, pro- cessos e estruturas estão se concebendo. E um conceito novo está surgindo, o da desterritorialização das coisas, das idéias, dos indivíduos”. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Mas, globalização éum processo primordialmente econômico e tem em seu bojo o capitalismo – modo de produção e processo civilizatório. São formas subalternas do capitalismo e momentos do processo de globalização o Mercantilismo, o Colonialismo, o Imperialismo e a Globalização como entendemos hoje. O neoliberalismo, expressão econômica do globalismo, entende a sociedade global como um sistema global. Tem uma visão sistêmica do mundo presente em seu discurso ideológico e nas corporações transnacionais que não são, necessariamente, corporações financeiras.” Analisando o pensamento de Ianni concorda-se que os Museus precisam trans- formarem-se, para adaptarem-se ao mundo globalizado, porém sem perder seu foco principal que é a preservação da cultura e da memória de um povo. Jshdjfhjfjhd, cita como resposta a globalização no Brasil os carnavais do Rio e de Salvador e lembra que os mesmos tiveram que se adaptar, mantendo alguns aspectos e inovando em outros para poder atingir o patamar de visibilidade mundial. E conclui com a seguinte afirmação: “culturas que nunca estiveram cristalizadas, sempre estiveram em transformação, sendo que a tomada de consciência sobre a transculturação é a única arma contra a uniformização ou perda de valores. Os museus sempre foram instituições importantes para se discutir transformação cultural, memória e identidade a partir do patrimônio cultural. Esse papel não está perdido, pelo contrá- rio, faz-se tão ou mais importante, por estarmos em ruptura e porque queremos participar de uma ação histórica.” A globalização trouxe para os museus os softwares e a Internet, fazendo com que seus acervos fiquem mais acessíveis. A chegada dessas novas tecnologias não vem para substituir o museu convencional pelo virtual, seu intento é colocar um instrumento de interesse e informação e da comunicação a serviço do traba- lho em museus e do público em geral no encurtamento do tempo-espaço, onde o observador pode ter acesso a algumas informações e visualização do objeto de uma forma mais prática e rápida. A extensão desse acervo, com trabalhos de linha pedagógica, artística e soci- al, com grupos diferenciados, como pessoas marginalizadas, especiais, grupos de idosos e da área do turismo, propiciaram a disseminação da idéia do museu aberto, na concepção de causas sócias com a comunidade. MUSEU E SUA FUNÇÃO CULTURAL O homem está sempre preocupado em preservar sua história e sua memória. Ele tem acesso ao seu passado através de relatos ou depoimentos de testemu- 264 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    nhas oculares, documentos,textos, etc. Ou quando se defronta com as imagens habitam um museu. Com isso, não queremos dizer que o museu é um caminho em direção ao passado, ele é um lugar de possíveis diálogos entre passado, presente e futuro. Um abrigo do velho e do novo. Mais do que uma instituição destinada às festinhas de vernissagens, ele tem um papel cultural importante: além de abrigar os registros do tempo, é um veículo a serviço do conhecimento e da informação que contribui para o desenvolvimento da sociedade. Desde quando a política e a economia reservaram à cultura um espaço quase que insignificante, dentro das prioridades da vida urbana, interesses alheios com- prometeram o funcionamento das instituições culturais. A cidade precisa de tecnologias, partidos políticos, empresários, especialistas, etc. mas, acima de tudo, precisa de uma tradição cultural e do exercício da cidadania, para que ela própria signifique. A vida moderna junto à tecnologia moderna vem tornando obsoletos, inoperantes ou economicamente inviável uma variedade muito grande de teste- munhos materiais que nos sirvam como pontos constantes de partida para a reflexão e análise de pequenos objetos a edifícios inteiros, passando por máqui- nas das mais diversas, nosso universo se renova com espantosa velocidade e tudo é trocado em nome da rentabilidade, da facilidade, da simplicidade. Esses testemunhos passam, então, por fase de completo abandono. Um museu guarda mais do que obras e objetos de valor e de prestígio social, uma situação, um fragmento da história, portanto um problema cultural. Tudo que nele é exibido deve ter um compromisso com o conhecimento, a memória e a reflexão. Sua programação não deveria ser dedicada por patrocinadores que têm por objetivo final vender produtos muitas vezes até desnecessários a circu- lar uma imagem de que estão contribuindo para o “desenvolvimento cultural”. Um museu deve ser um centro de informação e reflexão, onde o homem se reencontra com o belo, a história e memória. Mas sem um projeto cultural que valorize seu próprio acervo e o que nele é exposto, sem deixar que eles se transformem em suportes para marcas publicitárias, o museu é apenas um lugar que atrai olhares dispersos, sem interesses culturais. Sem recursos financeiros e depois que a responsabilidade cultural foi transferida para a iniciativa privada, os museus vêm se transformando em instituições de entretenimentos para atrair um grande público consumidor da marca que patrocinou os seus eventos. Contudo encontramos um obstáculo maior, o fascínio que o “moderno” o “novo” vem exercendo na sociedade e que vem proporcionando o desapareci- mento das manifestações criativas e tradicionais. Entre as tradições estão as antigas brincadeiras e jogos infantis, substituídos pela televisão, brinquedos industrializados e pelo mundo da informática e mesmo esta última, restrita a determinadas camadas da população, passando a ocorrer a “falta da criação Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    cultural pela própriacriança, por uma produção cultural para a criança”. (Marcelino, 1996: 42). Uma das conseqüências negativas é o fato da criança não produzir mais brin- quedos rústicos, feitos em casa, utilizando materiais simples e baratos. Esta brincadeira além de divertida contribui para o aprimoramento psicomotor. A preservação e conservação dessas atividades não excluem as oportunidades que a informática traz. O interessante é o espaço que a criança tem de produzir cultura e não apenas aceitar mercadorias. O UNIVERSO INFANTIL E A TECNOLOGIA É pelo jogo, pelo brinquedo que a criança se desenvolve física e mentalmente. Uma criança que é proibida de brincar torna-se o adulto que não sabe pensar e criar. “A infância é, portanto, a aprendizagem necessária à idade adulta (CHATEAU, 1987: 14)”. Na brincadeira a criança deposita toda a sua seriedade e neste momento ela se coloca exatamente na posição que a imaginação permite: Se ela brinca de carri- nho, ou ela se transforma em motorista ou em policial de trânsito. Com as bonecas a menina se sente a própria mãe que se preocupa com o filho, encarnando nitidamente o personagem que a brincadeira exigiu. Tais personagens fazem com que a criança saia de sua realidade e crie outra paralela com facilidades e dificuldades impostas por ela. Neste mundo percebe-se que o adulto não está presente fisicamente, mas ele é representado, pois o brincante necessita de um modelo para dar continuidade a sua brincadeira, e neste universo ela pode se transformar em quem quiser: índio, ladrão, cavaleiro de armadura, astronauta e tantos outros que a imaginação permitir. Todo este mundo de faz de conta fará com que a criança se prepare para a vida real, pois em muitos casos elas reproduzem situações do seu cotidiano. (CHATEAU, 1987: 13 e 14). RECREAÇÃO CULTURAL EM MUSEUS A recreação cultural é o conjunto de atividades que visa integrar os indivíduos com as manifestações culturais de uma localidade. Ela provoca o interesse fa- zendo com que o participante vivencie e entenda melhor outros comportamen- tos e atitudes, podendo provocar curiosidade pela cultura apresentada surgindo a postériori habilidades criativas no indivíduo, quando para ele são demonstra- das as técnicas próprias de determinada cultura, na confecção de objetos artesanais, danças típicas e etc. 266 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    A recreação culturalinformativa é aquela com a finalidade de aperfeiçoamen- to cultural. Podem ser usadas diversas formas de apresentações, como por exem- plo: Palestras, mesas-redondas, mostras, exposições, teatros, grupos folclóri- cos. Esse tipo de recreação já existe no Museu, porém apenas em datas come- morativas. A recreação cultural criativa é aquela que a criança participa diretamente, aprendendo e se integrando com a sua cultura. Alguns exemplos são apresenta- ções teatrais e de danças. Outros exemplos seriam as oficinas, com atividades de produção como: argila e papel em geral, pintura, madeira, danças, capoeira e muitas outras que podem ser vistas através da nossa cultura ou da própria expo- sição do Museu. Algumas dessas atividades poderiam ter durante todo o ano, ao menos, as apresentações de grupos folclóricos, teatrais e de fantoches, pois são essas que mais prendem a atenção das crianças. À forma como é repassado o significado das exposições peças, que ficam em exposições, poderia ser com uma linguagem mais simples e didática, talvez, até, através de brincadeiras, pois seria um modo da criança se sentir mais pensante e participativa, mais ativa na atividade, e não apenas passando, olhando e escutando. CONLUSÃO Desde quando a política e a economia reservaram ao lazer um espaço quase que insignificante, dentro das prioridades da vida urbana, interesses alheios com- prometeram o funcionamento das instituições que o promovem. A cidade preci- sa de tecnologias, partidos políticos, empresários, especialistas, etc. mas, acima de tudo, precisa de uma tradição cultural, de lazer e do exercício da cidadania, para que ela própria signifique. Sucede com os museus o que se verifica em diversos outros ramos de ativida- des. O respectivo desenvolvimento e especialização induzem a procura de no- vas respostas, mais eficientes e adequadas às realidades emergentes. A rápida evolução verificada (no discurso expositivo e na conservação, inclusi- ve preventiva, nas condições de apresentação e comunicação, na promoção e no marketing, nas teorias da aprendizagem e nas características, necessidades e exi- gências dos públicos) aconselha a que se recorra a diversos tipos de profissionais. As sinergias daí resultantes contribuirão para que os museus prestem melhores serviços, também do ponto de vista da educação que, se transformou numa missão crucial de toda a instituição museológica, atualizada e receptiva à inovação. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    O potencial educativodos museus e de todo o conjunto do patrimônio histó- rico, artístico e ambiental no Brasil vem sendo minimamente utilizado por educa- dores e educandos, quer pela falta de interesse e de conhecimento, quer pela falta de divulgação por parte dos museus e dos veículos de comunicação. O desafio é despertar o interesse não só de turistas, mas principalmente de visitantes da própria cidade e crianças, para que os mesmos aprendam desde cedo a História da sociedade na qual estão inseridos, através de exposições que transcendam os limites dos registros escritos. E tendo como foco de interesse mostrar a maneira peculiar dos nossos costumes. Sabemos que os museus possuem imenso potencial como espaço pedagógico por sua diversidade cultural e histórica. Entretanto para poder-se utilizar plena- mente todos os recursos que uma coleção ou exposição permanente pode ofe- recer aos professores é necessário que estes estejam dotados dos conhecimen- tos e das técnicas especificas para tal. Os Museus atuais, apesar de todas as dificuldades de diversas naturezas que inibem uma atuação mais constante, buscam transformar-se em verdadeiros centros de estudo, onde passado e presente se unem, tentando entender o pre- sente e antever o futuro. Com essa perspectiva os Museus poderiam promover rotineiramente uma série de programas educativos, exposições temporárias e cursos práticos voltados para estudantes, especialistas e o público em geral. É possível enfatizar, lembrando GUARNIERI (In Bruno) que a ação museologica aproxima objetos e homens, “a preservação proporciona a construção de uma memória que permite o reconhecimento de características próprias, ou seja, a identificação. E a identidade cultural é algo extremamente ligado à auto-definição, à soberania, ao fortalecimento de uma consci- ência histórica”. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] 268 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2004 Publicação original: capítulo de livro Formato da contribuição: texto integral Fonte: Análises Regionais e Globais do Turismo Brasileiro. Editora: Roca E-mail do(s) autor(es): jmeirelles@peabiru.org.br Títulos acadêmicos principais atuais: administrador de empresas - Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas. Ecoturismo & Amazônia – biodiversidade, etnodiversidade e diversidade cultural Troque seu bifinho por uma passagem para a amazônia João Meireles Filho “Dentro de alguns centos de anos, outro viajante, tão desesperado coo eu, neste mesmo lugar, cho- rará o desaparecimento daquilo que eu teria podi- do ver e que não aprendi” Claude Levi-Strauss A SITUAÇÃO ATUAL Você é responsável pelo que acontece na Amazônia? Se você acha que sim, continue lendo, se você acredita que não, desista do ecoturismo! Se você, que é uma pessoa interessada no ecoturismo, não conhecer a Amazônia para valer, quem poderá se dedicar a seus caboclos, índios, florestas, águas e cultura? Qual é o seu compromisso com a Amazônia? Efetivo, autêntico, compromisso de vida? Você é responsável pelo que acontece na Amazônia. Sim, é a sua decisão de consumo que determina o que acontece na última grande floresta do planeta. Cada vez que você come um pedaço de carne bovina é muito provável que você esteja engolindo um pedaço da Amazônia. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    “Você já foiao exterior?” “Você já visitou a Amazônia?” – Reiteradamente costumo fazer estas duas perguntas quando falo em público. Na maior parte das vezes, mais pessoas foram ao exterior do que à Amazônia. O Brasil não conhece a Amazônia. Pior, a Amazônia não conhece a Amazônia. Por quê? O brasileiro tem vergonha da Amazônia? Tem medo de enfrentar a sua ignorância? De não saber tratar o mais diversificado ambiente natural do globo? A situação da Amazônia é dramática, tomada pela lógica da destruição e do sofrimento. Não se trata de palavras fúteis, fáceis e imprecisas – a Amazônia é mal tratada todos os dias, durante todo o dia, por todos nós brasileiros. Em 500 anos extinguimos 95% dos povos indígenas e jogamos a maior parte de seus habitantes na miséria. Em trinta anos conseguimos destruir 20% da maior floresta tropical do planeta – uma área superior a 800 mil km2 (equivalente a toda a região Sul do país mais o estado de São Paulo). Se não bastasse, pelo menos 1% da floresta é abatida anualmente (área equivalente ao estado de Sergipe – 23.750 mil km2 em 2002/2003). As queimadas são cada vez maiores, o roubo de madei- ra, a caça e a pesca excessivas, a biopirataria, a invasão de terras, tanto por grileiros como por famílias em busca de um pedaço de chão para trabalhar. O caos está instalado. Nada de novo. A ocupação da Amazônia repete o que ocorreu com os outros biomas brasileiros. A Mata Atlântica perdeu 93% de sua cobertura vegetal original e apesar da grande atenção pública e do papel dos órgãos fiscalizadores e das organizações ambientalistas continua a diminuir drasticamente. Sobre seus es- combros vivem mais de 110 milhões de brasileiros. O Cerrado perdeu 70% de sua cobertura vegetal em menos de meio século. A expansão da pecuária bovina e da agricultura deverão modificar, para sempre mais de 90% da região. Da mesma forma, a Caatinga, já perdeu mais de 80% de sua área original e continua a ser alterada. A Conservation International considera a Mata Atlântica e o Cerrado como duas das vinte e cinco áreas de grande biodiversidade planetária, prioritárias para a conservação da vida na Terra. Por que este caos? Por que tratamos do sintoma da doença e não do doente. Tratamos da febre – o desmatamento, a queimada – e não das causas que promo- ve o desmatamento e a dilapidação dos recursos naturais. Mais de 80% do desmatamento é devido à plantação de pasto para boi. O boi ocupa a Amazônia porque há gente interessada em comer carne bovina. O principal motor da des- truição da Amazônia é a pecuária bovina extensiva. Não se trata de apontar os pecuaristas como únicos responsáveis pela destrui- ção da Amazônia e o caos social vigente, com altíssima concentração de renda e poder. Se o são, e quanto a isto não há dúvidas, não estão sozinhos; o consu- midor representa parte importante deste processo, pois aceita esta situação, pactua a cada naco de carne que coloca em seu estômago. 270 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ademais, não sãoapenas os grandes pecuaristas, aquelas 23 mil propriedades rurais da Amazônia os únicos possuidores do rebanho. Há mais de 150 mil peque- nos proprietários envolvidos na pecuária bovina extensiva; até porque se lhes apresentam poucas opções econômicas para a sobrevivência. Dedicam-se à pecuária pois a maior parte dos produtos e serviços que os ambientes naturais propiciam não encontram consumidor, não têm preço atraente, são de difícil escoamento, possuem restrições sanitárias não resolvidas, não apresentam tecnologia apropriada e, principalmente, os produtores rurais não estão qualifi- cados para conviver harmoniosamente com a complexidade amazônica. O resultado: 65 milhões de cabeças de gado ocupam a Amazônia. Três bois para cada habitante! Este número cresce rapidamente e deve chegar aos 100 milhões de cabeças até o fim da década! Por quê? Primeiro, porque mais e mais gente quer comer carne. A principal razão do crescimento da pecuária está no aumento do consumo de carne em São Paulo, Rio de Janeiro e em todo o Sul e Sudeste do país, sem contar no ingresso da Amazônia no mercado exportador de carne. Segundo, porque é mais barato produzir carne na Amazônia do que no restante do Brasil, e incomparavelmente menos custoso que outros países. O cumprimen- to da legislação ambiental é menos vigiado, a cada bifinho vendido a um barzi- nho em São Paulo, toneladas de solo, milhões de invertebrados, milhares de plantas e dezenas de mamíferos são comidos. Mais grave: poucos se beneficiam com esta bovinaria. A mão de obra é mal paga, a maioria dos 120 mil pessoas empregadas na atividade não possui registro em carteira. Sem falar na insignificância da pecuária como geradora de emprego: são necessários 8 milhões de empregos na região. Economicamente a pecuária é insignificante, gera pífios 0,04% do PIB brasileiro e apresenta índices de produti- vidade diminutos. O pecuarista aufere baixíssimos resultados financeiros. Seria melhor que aplicasse seus recursos na caderneta de poupança. Por que então insistir na pecuária? A PECUÁRIA X O ECOTURISMO Você deve se perguntar: afinal, eu, interessado no ecoturismo, por que preciso saber tudo isto? Porque o pecuarista só é pecuarista por falta de opção, porque não teve a oportunidade de aprender outras profissões, porque o mercado das centenas de alternativas econômicas que poderiam tratar com respeito o ambi- ente e a população local é desprezado pela iniciativa pública e, principalmente, pelo próprio consumidor. Porque delegamos aos representantes do poder públi- co de plantão a iniciativa de resolverem este assunto. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    A resposta éclara: sim, há total correlação: se o ecoturismo der certo o pecuarista bandeia imediatamente para o lado do ecoturismo. Dá mais lucro, mais emprego, mais estabilidade, mais felicidade, mais saúde, mais liberdade, mais cultura, mais dignidade. Eu sou filho de pecuarista, conheço os dois lados da cerca. Em Bonito, Mato Grosso do Sul, acompanhei, por mais de trinta anos, o Cerrado e a Mata Atlântica sendo comidos para dar espaço para boi. Nos últimos dez anos ocorreu uma mudança radical de comportamento. Os sintomas: as queimadas diminuíram dras- ticamente, o desmatamento passou a ser insignificante, a caça caiu a níveis desprezíveis. Por quê? Porque o ecoturismo passou a ser levado a sério, ainda que os órgãos públicos pouco tenham se dedicado à questão. Quem realizou esta mudança radical foi o próprio consumidor. Um conta para o outro: olha, ali, há uma cachoeira incrível. Aquela dona cozinha muito bom. Seu fulano tem cavalo bom. E se nós mergu- lharmos de máscara neste rio? E se sairmos flutuando neste “corguinho”? O resultado: a pecuária já não é o principal empregador de Bonito e logo mais deixará de ser a principal fonte econômica. Enquanto uma fazenda com 2 mil hectares e mil bois emprega dois peões, um atrativo turístico com 50 hectares, de pequeno porte, emprega diretamente pelo menos três a quatro pessoas. Em duas horas um turista deixa a mesma renda de um mês de aluguel de pasto para um boi. A revolução é antes de tudo, econômica. PLANEJAMENTO E COMPROMISSO ECONÔMICO Voltemos à Amazônia. Se não houver um compromisso econômico efetivo não há ecoturismo. Trabalho com planejamento de ecoturismo há mais de quinze anos. Sem um plano de negócios – um estudo efetivo da viabilidade do empreendimento ecoturístico – as suas chances de darem certo diminuem muitas vezes. Pode dar certo, mas o “achismo” e o “chutometro”, arte praticada pela imensa maioria dos empresários de ecoturismo, não são socialmente justos, são concentradores de renda e na maior parte, trazem grandes prejuízos ao meio ambiente. Planejamento turístico é fundamental. Se as palavras: retorno sobre o capital, ponto de equilíbrio, fluxo de caixa descontado, LAIR, balanço, demonstração de lucros e perdas, plano de contas não fazem sentido para você, o ecoturismo tem poucas chances de acontecer na Amazônia. A maior parte dos empreendimentos de ecoturismo na Amazônia foi feita por imitação. Um copiou o outro, que por sua vez viu nos Estados Unidos, ou no Nordeste algo parecido, tirou algumas fotos, chamou o carpinteiro para copiar, 272 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    e assim pordiante. Poucos são os que convocaram especialistas para realizar diagnósticos ambientais, sociais e econômicos, estudos de demanda, projetos arquitetônicos, estudos sobre o destino turístico e os atrativos. Como sair desta situação na Amazônia? Certamente a capacitação dos empre- endedores é fundamental – empreendedorismo ecoturístico. O BIOMA AMAZÔNICO O bioma amazônico é o maior conjunto contínuo de florestas tropicais do planeta. Com mais de sete milhões de km2, ocupa 50% da América do Sul, espa- lhando-se por nove paises – Bolívia, Colômbia, Equador, Guiana, Guiana france- sa, Peru, Suriname, Venezuela e Brasil. O Brasil possui mais de metade da Amazô- nia continental, sendo o país com mais de 1/3 do que resta de florestas tropicais ao planeta. A Amazônia brasileira corresponde a 4,4 milhões de km2, metade do território nacional, mais da metade do território nacional. A AMAZÔNIA NO MERCADO DE ECOTURISMO Não é difícil perceber a pequena presença da Amazônia no cenário turístico internacional. Quando se folheia quaisquer revistas internacionais de turismo de grande circulação, a Amazônia aparece de forma insignificante. Quando esta apa- rece, a maior parte das referências é para a Amazônia peruana, equatoriana, venezuelana ou das guianas. A Amazônia brasileira, com a exceção de alguns poucos lodges no entorno de Manaus, pouco participa do mercado internacional. Sabe-se que com seu rápido crescimento nas duas últimas décadas, o mercado internacional de ecoturismo se tornou cada vez mais exigente e segmentado. Não basta dizer que o número de observador de pássaros é de milhões de pesso- as na Europa ou nos Estados Unidos. É preciso aprofundar em termos geográfi- cos, de interesses das espécies procuradas, das exigências relacionadas à idade e origem das pessoas. Não é exagerado dizer que o Brasil está praticamente fora do mercado interna- cional de ecoturismo. No Brasil, o ecoturismo atende principalmente o mercado interno. Mesmo internamente, o ecoturismo representa menos de 3% do movi- mento turístico. A Amazônia deve participar com menos de 10% deste mercado. Mesmo atendendo menos de 1% da população brasileira, ele já movimenta mais de 2 milhões de viagens/ano, emprega mais de 50 mil pessoas e consegue contri- buir visivelmente para a economia e a conservação ambiental de regiões onde outras atividades econômicas não são viáveis ou apresentam baixa rentabilida- de, como Fernando de Noronha (PE), Lençóis Maranhenses (MA), e Chapada Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Diamantina (BA). Emoutras regiões, como Bonito (MS) e Brotas (SP) o ecoturismo já conseguiu desbancar atividades tradicionais como a pecuária extensiva. O Pantanal, que antes recebia milhares de clientes para uma pesca esportiva sem grandes critérios, está hoje se voltando ao ecoturismo, muito mais compatível com a sua conservação ambiental. Na Amazônia o turismo representa cifras desprezíveis no Produto Interno Bru- to (PIB), e o ecoturismo uma parcela ainda insignificante. Dificilmente alcança 1%. A maior parte das viagens é de turismo de negócios e de eventos. No Brasil o turismo representa menos de 3% do PIB, bem abaixo da média mundial próxima de 8%. Na maior parte dos países europeus o turismo está acima de 11% do PIB. Para o público estrangeiro, a Amazônia não é uma prioridade, mesmo conside- rando que a região está presente no imaginário coletivo da Humanidade. Por que? Uma das mais difíceis razões de aceitar é que o mercado internacional tem pouca confiança no produto brasileiro. Pode-se afirmar que menos de 0,16% dos 30 milhões de ecoturistas estrangeiros (aqueles que vão de um país a outro) escolhem a Amazônia brasileira como desti- no. Se considerarmos a Amazônia como um todo, menos de 1% do mercado mun- dial prefere a Amazônia (considerando aí o Peru, a Bolívia, o Equador, a Venezuela e as Guianas). Isto num cenário mundial de mais de 650 milhões de turistas. A INICIATIVA PÚBLICA Nenhum estado da Amazônia tem no ecoturismo prioridade de governo. Ne- nhum estado ou município da Amazônia investe no ecoturismo mais de 1% de seu orçamento. Ou seja, o ecoturismo não existe na Amazônia do ponto de vista da iniciativa pública. Na Amazônia, todas as iniciativas públicas para alavancar o ecoturismo como um efetivo instrumento de desenvolvimento sustentável até o momento foram de pequeno porte e de muito baixo impacto. Basta observar o que representa o turismo na agenda pública da federação, dos governos estaduais e dos poucos municípios que se interessam pelo assunto. Apesar do PROECOTUR, lançado pelo governo federal há algum tempo, os seus resultados pouco afetam o mercado. Da mesma forma, as linhas de crédito do Banco da Amazônia, do FNO (Fundo Constitucional do Norte) pouco atraem investidores. Praticamente não há tomadores de empréstimos para o ecoturismo na Amazônia. Os investimentos são realizados com recursos próprios ou parce- rias empresariais. 274 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    AFINAL, PARA QUESERVE O ECOTURISMO? O ecoturismo é “o reencontro do homem e da Natureza”. A reconciliação, o presente da Natureza ao homem, para que ele perceba seu verdadeiro lugar no Planeta, no Brasil, no dia-a-dia em que nos envolvemos. Para gerar emprego e renda às populações locais, valorizar sua cultura, ao mesmo tempo em que conserva o meio ambiente, diminui a pressão sobre os recursos naturais, incentiva a pesquisa científica e a busca da harmonização do Homem com a Natureza. O ecoturismo é o melhor instrumento econômico para a promoção da diversi- dade – a biodiversidade, a etnodiversidade, a diversidade cultural. Nenhum outro negócio interfere em tantos ramos da economia e da sociedade, revolvendo suas raízes mais profundas. Nenhum outro negócio é capaz, em tão curto espaço de tempo, provocar mudanças. E no caso da Amazônia, com o boi capeta solto, comendo e churrasqueando a floresta, nós precisamos de mudanças radicais em curto prazo. Mudanças pri- meiro no comportamento do consumidor: você leitor, venha para a Amazônia, faça já sua reserva. A epígrafe de Claude Levi-Strauss na abertura deste texto é provocadora. Volte, relei-a, memorize-a. Ela dói, dói como a marca de ferro em brasa no couro do boi. Em segundo lugar é preciso que o eleitor force mudanças radicais na postura do poder público – menos discurso e mais ação, menos stands bonitos em even- tos de turismo e mais produtos turísticos, menos salamaleques e mais capacitação dos profissionais do trade ecoturístico. CRITÉRIOS PARA SABER SE É ECOTURISMO OU ENGANAÇÃO O ecoturismo não é uma modalidade de turismo. É um novo turismo, veio para substituir o que o turismo não conseguiu realizar. O CBTS – Conselho Brasileiro para o Turismo Sustentável apresenta diversos critérios para qualificar o que é ecoturismo. Para um rápido diagnóstico proponho oito pontos para saber se o que temos diante de nós é ecoturismo (não há uma ordem específica de impor- tância dos itens abaixo): I. O ecoturismo provoca mudanças incríveis em quem o realiza – Você já tomou uma chuva numa tempestade amazônica? Já observou o fenô- meno da Pororoca (acabo de retornar desta experiência e surfar em suas ondas explosivas, destruidoras e barrentas). Ou seja, o ecoturismo é de foro íntimo. Provoca mudanças permanentes, alegres e felizes. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Segundo Rita Mendonçae Zysman Neiman “a grande maravilha, a ver- dadeira mina de ouro, é a experiência pessoal que se tem no contato com a Natureza. Essa experiência não é transferível. Ela é de uma am- plitude tal que não pode ser traduzida em palavras”. Assim, “numa via- gem de ecoturismo podemos questionar sobre o que é de fato necessi- dade, segurança, conforto. Um viajante aplicado pode surpreender-se com suas próprias respostas”. II. O ecoturismo é um ótimo negócio para a economia local, gerando empre- go e renda – A comunidade local só abraçará o ecoturismo quando “a árvore em pé valer mais que a árvore no chão”. Estamos falando de verda- deira participação das comunidades envolvidas, dos proprietários rurais, guias, barqueiros, produtores de artesanato, fornecedores de alimentos, etc. A imensa maioria das empresas que opera ecoturismo na Amazônia fica com a maior parte do bolo, cedendo migalhas para a participação local. Há muitos casos em que as comunidades locais não são sequer consultadas e nada recebem em troca. Eu tenho vergonha de uma empresa de ecoturismo que paga quantias ínfimas para um show folclórico fajuto e deprimente, ou que contrata caboclos para se vestirem de índios, ou leva turistas para pescarem piranhas em áreas de abastecimento das comunida- des. Estas empresas praticam a roubo e não o ecoturismo. Enfim, o ecoturismo só acontece quando cria riqueza local, quando respeita os ritmos e as ordens sociais, quando organiza a economia, gera empregos permanentes, fixos, especialmente para os jovens; gera dignidade, ajudan- do a controlar a migração rural e agregando valor aos produtos regionais (alimentos, artesanato, serviços etc.). III. O ecoturismo respeita a Natureza – Parece óbvio, mas não é. Impossível realizar uma caminhada na mata com mais de 15 pessoas, inconcebível desrespeitar os ciclos naturais de vida de plantas e animais, destruir a Natu- reza para praticar o ecoturismo. O ecoturismo só acontece quando se reco- nhecem os limites da Natureza, sua capacidade de carga é devidamente estudada e monitorada, quando a biodiversidade respeitada. Fundamental reconhecer a força das estações climáticas, dos ventos, da umidade, das marés, das chuvas e tornar isto um atrativo per se. Na tentativa de controlar tudo dizemos: “foi ótimo, mas choveu!” Isto numa região que chove mais de 200 dias por ano e em algumas áreas mais de 3.500 mm. IV. O ecoturismo controla a biopirataria – Aquela arara, tucano ou preguiça que você acha bonitinha na entrada do hotel “de selva” é um estímulo à biopirataria. Lugar de bicho é no mato, ou em centros de pesquisa muito bem monitorados. Eu tenho vergonha de um projeto de ecoturismo que compra animais silvestres e os expõem como troféus. da natureza ao alcance dos turistas. Ademais, retirar jacarés da água não me parece uma atitude digna de um empreendedor de ecoturismo. 276 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    V. O ecoturismogera negócios sustentáveis - O verdadeiro ecoturismo permi- te cria diversos negócios em seu redor – produção de artesanato, alimento, geração de energia, etc. que diminuem consideravelmente a pressão sobre os recursos naturais, colaborando no controle do desmatamento, das quei- madas, da coleta ilegal de madeiras, da sobrepesca, do garimpo, da caça, e assim por diante. VI. O ecoturismo desperta em cada um a consciência ambientalista. Para o sempre. O ecoturista está sempre preocupado com a saúde do Planeta e a relação entre sua saúde e a dos seres vivos. Não se trata do ecoturista de férias, que retorna para casa e se torna um selvagem cidadão urbano, subin- do nas calçadas com sua possante camionete 4 x 4. VII. O ecoturismo valoriza a cultura – o verdadeiro ecoturismo é motivo de orgulho para a comunidade local. Valoriza, resgata e promove tradições, procura compreender a cultura do outro, sem impor a sua. Ecoturismo não é só ver passarinho ou golfinhos; é, principalmente participar do dia-a-dia das comunidades tradicionais no cuidar da Terra. O ecoturismo não substitui a cultura local. O verdadeiro ecoturista não quer ver um ambiente “preparado” para ele. Quem tem que se “preparar” para a nova experiência é o visitante. VIII. O ecoturismo promove o desenvolvimento social – ecoturismo é sinôni- mo de respeito, dignidade, saúde, educação, estabilidade de emprego, cui- dado com minorias, idosos, crianças. No ecoturismo não há crianças traba- lhando, não há pedintes, não há crianças vendendo artesanato aos turistas, em trajes locais, com olhos de bovina suplicância. Não é difícil perceber as dimensões amazônicas do desafio de transformar o ecoturismo em algo sério e competente para o desenvolvimento regional. EMPRESÁRIOS RESPONSÁVEIS Se há uma única ação a realizar é formar empresários responsáveis para admi- nistrar o ecoturismo da Amazônia. É preciso tomar muito cuidado com aqueles que enxergam no ecoturismo apenas uma chance de rápida acumulação de capi- tal. Auferir bons lucros da atividade bem feita é mais do que justo e merecido. Responsabilidade social é a palavra chave. Combater a informalidade, o impro- viso, a falta de compromisso social e ambiental é o primeiro passo. O empresário que tem um negócio legalizado não faz mais que a obrigação. O que preocupa é a informalidade do ecoturismo. Muitos se aproveitam deste amadorismo e se utili- zam do ecoturismo para responder a outros interesses. Combater a concentração de renda é vital. Ecoturismo se faz com transparência e negociação, à exaustão. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Neste Brasil delegislações que “não pegam”, principalmente na área social e ambiental, há questões que são legais mas não éticas. Uma delas é o desmatamento. O IBAMA emite uma autorização para desmatar. É legal, está dentro da lei, mas não é ético. A ética planetária não admite um único metro quadrado de desmatamento da última grande floresta tropical do Planeta. De que lado está o ecoturismo? Da lei ou da ética? Da ética planetária ou da lei feita pelos interes- ses de plantão? Muitos empreendimentos que se apresentam como de ecoturismo são até imorais – exploram a mão de obra local. O que os mantêm abertos é a própria tolerância do visitante, de seus parceiros econômicos, das autoridades, de seus vizinhos, enfim, a tolerância do mercado. Como tolerar, por exemplo, uma pou- sada que não tem seus empregados registrados? Que paga valores de esmola para eventos folclóricos locais ou pelo artesanato “autêntico” e os revende a preços exorbitantes? Que não protege seus mananciais, ou não trata seus esgo- tos? Que não possui um sistema adequado de disposição do lixo? Neste cenário há diversas iniciativas bem intencionadas, empreendedores sé- rios, que querem acertar, que respeitam as regras básicas do negócio e da ética, que merecem grande atenção. É preciso destacar as iniciativas de turismo sus- tentável de Mamirauá (Tefé, AM), Aldeia dos Lagos (Silves, AM) e de Pedras Negras (Costa Marques, RO). PROMOÇÃO DA AMAZÔNIA Num cenário nacional e internacional altamente competitivo não é possível promover a Amazônia com os poucos recursos humanos e financeiros disponí- veis. Pior: se adotados os padrões usuais de promoção turística o que se pode alcançar a curto e médio prazo é muito pouco. Não podemos contar com os mesmos canais de promoção turística para a Amazônia que existem hoje. A melhor promoção que podemos realizar para a Amazônia é dar a oportuni- dade para que os visitantes falem dela. No web-site oficial, oferecer espaço para blogs, artigos, manifestos, realizar pesquisas. O diretor de turismo da Costa Rica, Alberto Salas, em 2003, informou-me que o principal vetor de divulgação do país é o boca-a-boca e os muitos livros que os turistas escreviam sobre sua experiência. A Costa Rica recebe 1 milhão de turis- tas, mais de 80% para o ecoturismo, gerando US$ 1.1 bilhão (o primeiro produto do país) porque, entre outras razões, 86 pessoas escreveram livros, diários, guias sobre sua maravilhosa visita ao país. 278 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    A Amazônia merecemais criatividade. É preciso abordar a questão do consu- mo consciente quando se fala de Amazônia. Chamar para o sentido de brasilidade que há em visitar a região e no caso do turista internacional, de seu compromisso planetário. Na década de 1990 deparei-me com uma pesquisa alemã que informa- va que 36% dos alemães e austríacos sonhavam em, um dia, conhecer a Amazô- nia! Digamos que isto seja exagerado e que apenas 5% dos norte-americanos, japoneses e europeus queiram, um dia em suas vidas, visitar a Amazônia. Será que não poderíamos substituir a pata do boi pela sandália do ecoturista? Para aquele casal de aposentados de Kioto, Japão, não importa se ele irá para Letícia na Colômbia, para Iquitos, noPeru, para um parque no Beni, na Bolívia ou para Belém, no Pará. Ele irá para a Amazônia. Ademais, o ecoturismo pode unir a Amazônia continental. Ao invés de continuarmos de costas para o Peru, a Bolí- via, o Equador e os demais países, por que não oferecer ao mundo uma experiên- cia única onde o visitante conhece, em uma só viagem, Machu Pichu, o encontro das águas do Negro e o Solimões e a pororoca? É uma falta de visão absurda a promoção da Amazônia de forma isolada, seja fatiada em estados, seja esquartejada em países. Os países onde há a cultura maia já perceberam a importância de tratar da questão pelo viés cultural e não pelas fronteiras nacionais. Se eu quero conhecer a cultura maia, pouco me im- porta se hoje este território está na Guatemala, em Belize, em Honduras ou no México. Claro que, uma vez em um destes países há muito que aprender e desfru- tar, porém, o principal gancho que me levou a conhecer esta região, e que me fez poupar para visitá-la, é a cultura maia. No caso da Amazônia estamos perdendo tempo tentando diferenciar o que o estado do Amazonas tem de melhor de Mato Grosso, que o Pará é o portal da Amazônia, etc. e etc. Ninguém ganha neste processo, somente os outros desti- nos ecoturísticos mais bem estruturados. Também é louvável contar com os esforços de governos estaduais promo- vendo a Amazônia em outras partes do país e do mundo. No entanto, se o estado pretende optar pelo ecoturismo terá que efetivamente adota-lo como um eixo de desenvolvimento. Nenhum governo é sério se não adotar ações concretas para desestimular as atividades predatórias. Como pode um estado promover a soja e a pecuária bovina extensiva ao mesmo tempo em que quer atrair ecoturistas? Como pode um fazendeiro querer o ecoturismo em sua propriedade rural se continua a desmatar, a bloquear riachos para fazer represas artificiais, a cavar valos para a drenagem de água, a promover a caça e a pesca de maneira indiscriminada? A cortar árvores que não precisariam ser cortadas, somente para fazer a cabana para o turista? Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    OS VERDADEIROS VALORESQUE FUNDAMENTAM O ECOTURISMO Palavras de Rita Mendonça e Zysman Neiman: “Que seria de nós se não a tivéssemos perto ou longe, para nos dar a esperança de um dia nos tornarmos dignos de nossa rica experiência humana? A floresta simboliza o próprio proces- so de aprendizado da vida. Ela dá sentido às atividades humanas. Ou melhor, ela nos faz questionar o sentido do que fazemos”, e continua: “Quando entramos em uma área natural quase sempre nos sentimos bem, percebemos que alguma coisa muda. Quanto mais nos aprofundamos nessa relação, nessa intimidade com os elementos naturais, percebemos que ali há uma grande escola que nos proporci- ona uma das raras oportunidades que temos para realmente evoluir.” O ecoturismo só ocorrerá se houver uma mudança radical. Esta se inicia por nós mesmos, novas posturas de vida, novas visões. Sem concessões. O filósofo alemão Hans Magnus Enzenberger afirma que o “o tempo, a autonomia, o espa- ço, a tranqüilidade, o silêncio e o ambiente ecologicamente saudável” estão cada vez mais escassos na sociedade. O ecoturismo propõe respostas concretas a estas questões, de uma maneira criativa e que se renova a cada dia. Não é um produto pasteurizado, em série, para contentar grandes massas. De maneira diversa, permite a cada ser uma experiência relevante, enquanto habilita a repar- tir, com seu pequeno grupo, esta oportunidade única. O ecoturismo não se apresenta apenas como mais um segmento do turismo tradicional, um simples ganha-pão, um bom negócio. Os empreendedores, guias, barqueiros e profissionais de ecoturismo que não mostrarem os olhos brilhando, marejados de paixão, não merecem ser os abre-alas e os porta-estandartes da Natureza. E só haverá ecoturismo na Amazônia se o desmatamento e a queimada diminuí- rem, se nos comprometermos a mudar. A opinião pública mundial costuma bombar- dear o Brasil pela sua forma irresponsável de tratar a Amazônia. Não será a hora de assumir esta triste realidade? Não será este o momento de chamarmos os formado- res de opinião mundial a nos auxiliarem no processo de mudança de comer a Ama- zônia? Ao invés de “comer”carne, soja, ouro de garimpo, madeira roubada vamos “comer” ecoturismo, castanha-da-Amazônia (o que chamamos de castanha-do- pará), sabonete de muru-muru, perfume de priprioca, artesanato de gurumã, etc. VOCÊ, PROFISSIONAL DE ECOTURISMO Se há uma profissão que depende de um profundo envolvimento, preparo, com- promisso com as pessoas e a Natureza, paixão, esta é o ecoturismo. O visitante que economizou anos a fio para conhecer a maior floresta tropical do Planeta, reino da biodiversidade por excelência, não merece um guia mediano ou sofrível, um dono de pousada ou de restaurante que apenas o vê com cifrões na língua. 280 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    O ecoturismo utilizabinóculos que enxergam riquezas onde as atividades tradicionais (a agropecuária, mineração etc.) apenas vêem “área sem utilidade”: é o barulhinho do riachinho, a cachoeira de pedras escorregadias, a revoada de pássaros no fim de tarde, os cipós entrelaçados na árvore, a sofreguidão de um bicho-preguiça, desmaiado de alegria, a podridão da árvore servindo de ninho ao pica-pau, os rios transparentes, cantarolando... A intenção não é dar utilidade e preço a tudo o que aparece pela frente – ao selvagem, ao vento, ao Sol – e sim protegê-los, cuidar para que a ganância e a cobiça não os explorem. O ecoturista quer mais do que ver macaco e árvore, quer participar da vida cotidiana dos comunitários, sentir o cheiro da tempestade tropical, sair para o mato pra coletar borracha, quebrar castanha, ir para a espera, ver se o matapi está cheio, acompanhar a vazante, atracar-se num caldo de peixe com farinha, ralar mandioca, passar a mandioca no tipiti, secar a mandioca, seguir de monta- ria para a vila, sorver o tacacá apertando o jambu nos dentes, sentir o cheiro das queixadas no mato, ver menino subir na palmeira açaí para cortar o cacho, tirar a espinha da apaiari... A força do ecoturismo está nesta capacidade, a de abrir os olhos, permitir que se fareje, sinta, respire, ouça a Natureza. Mais que aeroportos, lanchas rápidas, equipamentos de última geração, o ecoturismo exige pessoas sensí- veis, interessadas no destino das comunidades tradicionais e na mãe Natureza, capazes de reconhecê-los e reverenciá-los a cada passo. Mais que investir em infra-estrutura é preciso investir em bons guias e monitores, prepará-los para serem os abre-alas da Natureza, despertando neles o que depois ele despertará em seus clientes. Mais que os nomes científicos e as datas históricas, a interação do homem e da Natureza, a compreensão dos ciclos vitais que tornam a Ama- zônia única e una. OS ESTUDOS DO MEIO Se há uma modalidade de ecoturismo que merece imediata atenção é o estudo do meio – levar ao campo o que se trata nas salas de aula das escolas formais – da pré-escola à universidade. Nós do trade ecoturístico precisamos empreender uma campanha para incluir a Amazônia no currículo escola brasileiro – os “Estu- dos Amazônicos”, somente assim teremos um público interessado em conhecer a região. Nunca é demais mencionar que só se preserva o que se conhece, só se quer visitar o que se conhece. É muito imaginar que cada estudante universitário brasileiro, ao menos uma vez, durante seu período de formação, visite a Amazônia? Seja para conhecer o seu próprio país como cidadão, seja para participar da definição dos destinos da maior floresta tropical do Planeta? É muito solicitar que cada escola tenha um canto em sua biblioteca e videoteca denominado “Canto da Amazônia”? Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Além disto, seráque não há pais neste Brasil interessados em verem seus filhos conscientes e conhecedores da realidade deste país? Será que não é o momento de oferecer como rito de passagem pelos seus 15 anos, uma viagem à Amazônia? Que melhor presente os pais podem dar do que a educação integral a seus filhos? Eu tive esta oportunidade e por isto estou aqui escrevendo estas palavras. A viagem que mais me marcou em minha vida, foi uma expedição à Amazônia com meu irmão Renato, ele aos 15, eu aos 16 anos. DESPEDIDA “Trata-se de salvar, enquanto é tempo, toda uma fonte prodigio- sa de vida para que, ao florescer amanhã, faça da Amazônia o grande jardim terrenal que os homens do futuro desejarão ver, cheirar, sentir, admirar.” Darcy Ribeiro O que os empresários, gestores públicos e demais profissionais de ecoturismo necessitam é, primeiramente, aceitar o que é o ecoturismo, reconhecerem-se como ecoturistas, comprometerem-se com a causa. Ecoturismo além de um bom negócio é uma causa, uma razão de ser. Assumir a vocação. Em nosso caso específico, a vocação pela Amazônia. Sem concessões. Está mais do que provado que é possível substituir as atividades predatórias em uma geração. Em 30 anos podemos transformar radicalmente a Amazônia. Se fomos capazes de destruí-las em 30 anos certamente seremos capazes de barrar a destruição e reergue-la, com dignidade e paixão. A Amazônia conheceu cinco séculos de depredação, matança de populações nativas, sacrifícios sociais e ambientais, que estão entre os maiores da história humana. Está na hora de optar por um caminho econômico, pela trilha do ecoturismo, que envolve os caboclos, a floresta, as tradições, os nossos própri- os encantos e sonhos. Os ocupantes do poder público precisam meditar seriamente sobre o papel do ecoturismo para a sustentabilidade econômica e social da Amazônia. Não basta absorver o discurso ambientalista das organizações do terceiro setor, é preciso adotar medidas reais, representativas, que signifiquem mudanças. A primeira medida é a capacitação. Investir em cursos, seminários, visitas de campo, publicações, programas de rádio, tv, conteúdo de internet. Sem acesso à educação para o ecoturismo nada se alcançará. O ecoturismo permitirá ao Brasil inserir a Amazônia em agendas internacionais com respostas positivas, em substituição à pecuária e a outras atividades destrutivas. 282 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    No entanto, tudose inicia com a sua visita à Amazônia. A verdadeira visita, de completa integração com seus representantes, árvores, águas e animais. Visitar a verdadeira Amazônia é uma experiência marcante e indelével. Tudo que é autêntico e genuíno é bom, é positivo. O ecoturismo só busca o autêntico e genuíno, não há lugar na Amazônia para parques temáticos. Não fique aí parado, pensando, pensando. Aja. Pegue, ou compre a sua rede e venha visitar a verdadeira Amazônia, sentir a extrema simpatia e cordialidade de seu povo, experimentar sua música, culinária, sentir seus cheiros, passear pelos ambientes naturais. Como dizem os paraenses, venha tomar o açaí e se encantar pela Amazônia. WEB-SITES DE INTERESSE: Locais de turismo comunitário no Brasil: - Instituto de Desenvolvimentio Sustentável Mamirauá, organização da socieda- de civil que atua na Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, em Tefé, Amazonas, onde opera a Pousada Flutuante Uacari – http://www.mamiraua.org.br; -ASPAC - Associação de Silves para Preservação Ambiental e Cultural, de Silves, Amazonas, que opera a pousada Aldeia dos Lagos – http://www.viverde.com.br/ aldeia.html; - Parceria entre a Organização dos Seringueiros de Rondônia, Associação dos Seringueiros do Vale do Guaporé e da Ação Ecológica Guaporé (Ecoporé), que operam a Pousada Pedras Negras, na Reserva Extrativista de Pedras Negras e Curralinho, Rondônia, http://www.pedrasnegras.com/index_english.htm; - A empresa Bananal Ecotour, do Instituto Ecológica, organização sem fins lu- crativos, de Tocantins, opera o ecoturismo no Araguaia, Jalapão e outros desti- nos - www.bananalecotour.com.br; - Mesmo fora da Amazônia, vale a pena verificar o exemplo do Ceará – a Prainha do Canto Verde – experiência de ecoturismo comunitário - http:// www.fortalnet.com.br/~fishnet/efolder_pcv3.htm; Organizações ambientalistas de dedicadas ao tema, no Brasil: - Conselho Brasileiro de Turismo Sustentável – www.cbts.org.br - reunião das principais organizações do país para a definição de condições básicas para a operação do turismo sustentável no país; - Ecobrasil – uma das mais antigas organizações do setor – www.ecobrasil.org.br Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    - Fundação OBoticário – www.fundacaooboticario.org.br - Instituto de Hospitalidade – Programa de Certificação em Turismo Sustentável – PCTS - www.pcts.org.br - o único programa de certificação em curso no país; - Instituto Physis Cultura & Ambiente – www.physis.org.br - dirigido pelo autor de diversos livros sobre o tema, Zysman Neyman - Instituto de Ecoturismo do Brasil – www.ecoturismo.org.br - organização associativa de caráter nacional, da qual o autor foi presidente por oito anos; - Instituto Peabiru – www.peabiru.org.br - que realiza trabalhos de planejamento de ecoturismo para propriedades privadas, onde trabalha o autor; - IUCN – União Internacional para a Conservação da Natureza – www.iucn.org - The Nature Conservancy – www.tnc.org.br; - World Wildlife Fund –http://www.wwf.org.br/projetos/siteturismo_principal.htm - que apoia alguns dos programas acima mencionados; Para quem lê em espanhol: - CCAD - Comissión Centro Americana de Ambiente y Desarollo PROARCA – Pro- grama Ambiental Regional para Centroamerica – ver página de Turismo Sostenible y Ecoturismo - www.proarca.org/p_apm5.html Para quem lê em inglês: - Conservation International – www.conservation.org - Rain Forest Alliance - http://www.rainforest-alliance.org - Sharing Nature Foundation – www.sharingnature.com - a organização criada por Joseph Cornell, que conta no Brasil com o Instituto Romã, dirigido por Rita Mendonça, como seu representante; - The Iternational Ecotourism Society – www.ecotourism.org - organização internacional com mais de 1700 associados de mais de 70 países; - The Nature Conservancy – www.nature.org/ecotourism - uma das principais organizações ambientalistas do planeta, dedica diversos esforços ao ecoturismo; [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] 284 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2004 Publicação original: dissertação Formato da contribuição: texto resumido do 1o capítulo Fonte: Atividades Físicas de Aventura na Natureza: uma leitura sociológica a partir dos “Jogos Mundiais da Natureza”. Curitiba, 2004. Dissertação de Mestrado, Universidade Federal do Paraná. E-mail do(s) autor(es): kbmarchi@ufpr.br Títulos acadêmicos principais atuais: Mestre em Educação Física, Centro de pesquisa em esporte, lazer e sociedade - CEPELS, Centro de Educação Física e Desportos - CED - UFPR. Possibilidades de leitura sobre os esportes da natureza: o caso dos Jogos Mundiais da Natureza (1997) Kátia Bortolotti Marchi Com a entrada de uma nova administração governamental, em 1995, o Estado do Paraná, através do Governador Jaime Lerner, fez uma parceria com o consór- cio GFE (Associats Consultors, Barcelona) da Espanha, os quais propuseram a elaboração de um plano diretor para promover todo o potencial da “Costa Oes- te”. O principal objetivo com a execução dos JMN era de modificar o perfil econômico da região Costa Oeste do Paraná, através do Turismo. Os Jogos Mundiais da Natureza foram realizados em uma região que compre- ende as cidades de Foz do Iguaçú – onde se encontra uma belíssima obra da natureza: as Cataratas do Iguaçú1 – a Guaíra. São 1.400 Km de orla formada pelo Lago de Itaipú2 . Com uma localização geográfica privilegiada, situada no cora- ção do Mercosul, um dos grandes mercados do mundo, a região tem um grande potencial para se tornar um pólo turístico incluindo atividades esportivas, recre- ativas e culturais. Este evento teve caráter esportivo e participação internacional, colocando em evidência a relação entre o homem, o esporte e a natureza. A finalidade do projeto dos JMN, como destacado acima, foi promover o lançamento internaci- onal das possibilidades de desenvolvimento da região, especialmente as turísti- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    cas-esportivas-recreativas, onde aspessoas pudessem ocupar seu tempo livre com atividades esportivas e a busca de novas emoções. As características principais que definiram os esportes incluídos nos Jogos Mundiais da Natureza foram esportes praticados em contato com a natureza, onde as possibilidades naturais (rios, cataratas) foram características funda- mentais. O que se procurava era promover uma parceria entre o homem e a natureza, através do esporte. E havia outro objetivo: organizar a competição em esportes que, depois de encerrados os jogos, pudessem ser praticados na região por pessoas comuns, durante todo o ano. O lançamento dos JMN ressaltou o conceito de Esportes de Translação, o qual integra o homem à natureza, definindo cenários de grandes dimensões sem agres- são. Como exemplo de esportes de translação podemos citar a vela, que teve início na cidade de Guaíra e a chegada em Foz do Iguaçú, durante os sete dias de competição e manteve um caráter inovador e de aventura. As modalidades esportivas praticadas em contato com a natureza foram utili- zadas como alavanca para o desenvolvimento turístico e econômico da região, mas como elas não fazem parte da rotina das pessoas da região, deveriam ser assimiladas aos poucos para que o objetivo do projeto fosse atingido. Mesmo assim, será que qualquer pessoa pode praticar? As modalidades esportivas dos JMN tiveram caráter competitivo e foram pra- ticadas por atletas de alto nível, para que as pessoas pudessem conhecer esses esportes e com o final dos jogos oportunizar a prática dessas modalidades na região Costa-Oeste, com o objetivo de lazer para a população local e os turistas. A maioria dessas modalidades não exige muito tempo de treinamento. Pode-se praticar Rafting, rapel e outra modalidade num mesmo fim de semana, depois de instruções básicas. A organização dos Jogos exigiu um trabalho árduo e inédito, onde as compe- tições foram atípicas e desenvolvidas em locais diferentes. Os Jogos Mundiais da Natureza deveriam ser realizados a cada quatro anos, sempre na “Costa Oeste” do Estado do Paraná. Eles deixaram de ser um evento pontual, de marketing para lançar um plano de turismo, e passou a ter estatutos (semelhantes aos de uma Olimpíada) que permitem sua continuidade a cada quatro anos. Da idéia atingiu- se a realização, o evento fez parte do calendário oficial do COI (Comitê Olímpico Internacional), mas, ficou na sua 1ª e única edição. Tendo em vista o atual momento de mundialização das práticas culturais e a inserção e afirmação deste novo fenômeno social esportivo, ou seja, os esportes envolvidos com a natureza, entendemos ser relevante a perspectiva da realização de estudos sociológicos voltados para a descrição, a identificação e o entendi- 286 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    mento das possíveisrelações e interdependências que se estabelecem na estruturação deste cenário esportivo. Dito de outra forma, a análise e a discussão da tríade esporte, homem e natureza, verificada através dos JMN, justificam-se por conta da sua pertinência e representatividade na sociedade contemporânea. Podemos verificar em uma reportagem da revista Veja3 que os “esportes de aventura”4 tornaram-se promissores no Brasil, devido aos 55.000 quilômetros de rios, extensas chapadas, cachoeiras por toda parte, 3.400 cavernas, 8.000 quilô- metros de costa, a maior floresta tropical do planeta e montanhas de até 3.000 metros de altitude. No ano passado, 20.000 pessoas procuraram por pacotes de aventura nas quatro maiores empresas especializadas no ramo. Uma pesquisa feita pela Embratur numa feira anual de aventura – Adventure Sports Fair – que recebeu 82.000 pessoas na última edição, revelou que quase metade dos visitan- tes praticava esportes radicais e que 90% intencionavam praticar. Com base nesses dados e conhecendo a Costa-Oeste, percebemos que ela tem potencial para se transformar num pólo de esportes de aventura pratica- dos na natureza. Diante destes aspectos preliminares, nosso estudo teve por objetivo geral organizar empiricamente a memória dos Jogos Mundiais da Natureza através do resgate das informações obtidas nas fontes primárias e na experiência de quem vivenciou a efetivação do projeto e, como objetivos específicos, delimitar a proposta original dos JMN a partir dos estudos de Pierre Parlebás e Norbert Elias e indicar possibilidades de análise do evento. Neste sentido, poderemos contribuir com a construção e o registro da história de um evento de amplitude mundial, realizado no Brasil, especificamente, na Costa Oeste do Estado do Paraná. Alguns autores têm direcionado seu foco teórico para analisar determinados aspectos ou categorias, as quais podem ser levadas em consideração no nosso estudo. Norbert Elias apresentou uma discussão sobre o mimetismo social e o controle das emoções existente nas configurações e interdependências que são estabelecidas na sociedade. Pierre Parlebás trata o indivíduo como “o ser que se move”, e faz uma classificação dos esportes por meio de características práxicas. Neste sentido, metodologicamente fizemos uma descrição detalhada de toda documentação sobre os JMN e definimos como referencial de análise, os pressu- postos teóricos da Sociologia Configuracional de Norbert Elias e a tipologia da ação motriz de Pierre Parlebás. Nesta lógica, estaremos nos aprofundando nos autores acima citados e, con- juntamente, estruturamos a análise e a pesquisa empírica das modalidades inclu- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    ídas nos JMNatravés de informações obtidas em fontes primárias, livros, revistas especializadas, depoimentos, eventos, sites, entrevistas, programas televisivos e demais possibilidades que envolveram os JMN. Iniciando nosso estudo, temos que o consórcio BCA, GFE e MB&A5 propôs a elaboração de um plano diretor para promover todo o potencial da “Costa Oes- te”, um plano de desenvolvimento econômico, político, social e um plano estra- tégico de turismo. O governo do Estado do Paraná teve como objetivo o desenvolvimento eco- nômico, social e cultural da região situada no extremo oeste do Estado, onde faz fronteira com o Paraguai através de um grande lago formado a partir da constru- ção da Hidrelétrica de Itaipú, cujo perímetro é de 1.400 Km, e praticamente não possui nenhum equipamento voltado para o turismo e a recreação; somente os conhecidos pontos de atração turística, como as Cataratas do Iguaçú, o Parque Nacional do Iguaçú, o arquipélago de Ilha Grande em Guaíra e a Hidrelétrica de Itaipú. O imenso território do lago de Itaipú possui capacidade para receber muitas atividades esportivas, recreativas, turísticas e culturais. Para isso, o governo do Estado do Paraná promoveu uma ampla operação de planificação que se estrutura em três níveis: 1. Plano Master – plano diretor de desenvolvimento econômico, político e soci- al, estruturado sobre as vocações naturais da região, devidamente identificadas enquanto a vocação propriamente dita e o potencial econômico que pode ser colocado em cada uma delas. 2. Plano Estratégico de Turismo – aproveitar a atividade lúdica da região, onde o desenvolvimento econômico será pela utilização do tempo livre, através da valorização da natureza e a organização do turismo. 3. Plano de Acontecimento Excepcional – um plano de desenvolvimento da re- gião, para final de 1997, que permita pôr em evidência as potencialidades da região e mostrar para o maior número possível de pessoas, meios de comuni- cação e países.6 O objetivo deste trabalho seria definir seu programa, verificar a parte econô- mica necessária para sua realização e o calendário de funcionamento para ga- rantir seu êxito. Deveria ser de caráter esportivo, ter participação internacional e colocar em evidência a relação entre o esporte e a natureza. Ao mesmo tempo, este conjunto de iniciativas teria por objetivo promover e consolidar diversos equipamentos esportivos e serviços de caráter permanente, bem como formar núcleos residenciais, turísticos e recreativos. 288 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    O nome provisórioque foi dado a este acontecimento foi “JOGOS DA NATURE- ZA DO IGUAÇÚ”, cujas finalidades básicas seriam: • Promover o lançamento internacional das possibilidades de desenvolvimento da região, especialmente as turísticas, esportivas e recreativas, relacionadas com a paisagem. • Conseguir investimento necessário para oferecer outras atividades turísticas diferentes do que simplesmente tomar sol na praia. • Estruturar o território com a implantação de núcleos turísticos-residenciais com a finalidade de atender um número maior de pessoas que pudessem permanecer mais tempo na região e não simplesmente “passar” para conhecer. Deve-se utilizar crité- rios urbanísticos que permitam um crescimento e possuir padrão de qualidade para impulsionar a mudança do nível sócio-econômico do turismo que se pretende atrair. • Organizar um evento excepcional, próprio para a região, que demonstre a capacidade organizacional do Estado, da região e das empresas em promover o desenvolvimento da região. Este acontecimento deve ser referência internacio- nal, realizado a cada quatro anos, para situar a região do Iguaçú tanto dentro do âmbito esportivo como em atividades turísticas-recreativas. • Promover o desenvolvimento de outras atividades e projetos para cada nú- cleo turístico e, através dos “Jogos da Natureza do Iguaçú”, ampliar e fixar esses núcleos para aumentar o número de turistas que permaneçam no local e possam ocupar melhor seu tempo livre.7 Segundo os idealizadores do projeto: BCA – Engenharia & Consultoria, São Paulo e GFE – Associats Consultors, Barcelona, que surgiu após a Olimpíada de Barcelona, onde a maioria de seus integrantes foi composta de técnicos que participaram da organização dos jogos olímpicos de 1992 quando ocupavam cargos de responsabilidade na prefeitura da cidade. Trata-se de um consórcio privado, organizado como uma rede de empresas, e cada uma delas especializa- da em um aspecto diferente: esporte, marketing, desenvolvimento urbano, orga- nização de eventos complexos. MB&A – Millet. Biosca I Associats, Barcelona, os esportes que foram eleitos para integrar o programa dos Jogos da Natureza do Iguaçú deveriam manter coerência com a idéia geral. Não deveriam ser esportes “urbanos” (realizados em espaço delimitado e regulamentado), não deveriam ter esportes olímpicos para não entrar em concorrência com o acontecimento es- portivo mais importante do mundo e nem utilizar locais fechados para não detur- par por completo a idéia de natureza. As características que definiram os esportes que foram incluídos no programa dos Jogos foram as seguintes: Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    • Características topológicas:a relação entre o esporte com o lugar é imprescindí- vel e, possivelmente, a característica diferenciadora de qualquer outro aconteci- mento esportivo. Deve-se escolher esportes que tenham relevância com relação ao lugar, sua grandiosidade e beleza. O esporte pode ser praticado em outros lugares, mas nenhum terá as características específicas do entorno do lago de Itaipú. Serão esportes “desenhados” para acentuar o contato com a natureza, onde a relação entre esporte e paisagem seja a característica fundamental. É imprescindível que a relação esporte-lugar não seja estática; que o esportista e o espectador possam perceber a mudança da paisagem. Esportes de “translação”, para definir cenários de grandes dimensões, são fundamentais para definir o programa dos Jogos. • Características visuais: o esporte deve ser o pretexto que permita uma obser- vação privilegiada da paisagem. Os esportes de translação devem ser cuidadosa- mente desenhados para que haja mudança na visão. O espetáculo oferecido pelo esporte deve ser relevante, tanto na observação direta como na filmagem e retransmissão pela televisão. • Características econômicas: como o espaço de tempo é pequeno para a organização dos Jogos, os esportes não devem exigir muita infra-estrutura; so- mente casos em que o “cenário” possa converter-se em elemento rentável por si mesmo através de uma exploração posterior, serão justificadas mudanças mais importantes. Por outro lado, realizar excessivas construções entraria em con- tradição com o conceito de natureza. Os esportes eleitos devem propiciar o desenvolvimento de atividades produtivas, no que diz respeito ao turismo, bem como fixar um conjunto de atividades industriais relacionadas com o esporte. • Características culturais: o esporte está ligado à cultura e à educação; por isso, deve-se incluir esportes que tenham relação com o desenvolvimento tecnológico, científico, que preservem o meio ambiente, etc. O esporte terá mera função compensatória e isolada, se não estiver integrado com um amplo conjunto de atividades turísticas, recreativas, educativas e culturais, vinculado dentro das ocupações do tempo livre. • Outra característica que deve ser destacada é a beleza plástica do esporte e dos lugares onde serão criadas bases de apoio. A arquitetura das novas edificações precisará de uma sensibilidade especial e uma interpretação instruída do entorno. • Características temporais: como o tempo é escasso para a preparação de todas as infra-estruturas necessárias, os esportes escolhidos não devem reque- rer infra-estrutura pesada e um programa de competição muito complexa que exija muito tempo de preparação. • Características urbanísticas: os esportes devem proporcionar a consolidação de itinerários e caminhos, e a criação de pequenos núcleos que devem ser está- 290 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    veis e possuirequipamentos consolidados que não depredem a paisagem e não deixem nenhum resto, uma vez finalizado o acontecimento. • Características esportivas: o esporte deveria ter um caráter inovador e de aventura e, ao mesmo tempo, um nível de aceitação e difusão popular muito ampla. As dificuldades técnicas dos esportes propostos deveriam ser altas, mas deve-se fugir do “esporte-circo”, apto somente para profissionais em sua especialidade.8 Para conseguir uma ampla difusão televisiva dos distintos esportes, devem ser espetaculares, difíceis e apresentar um certo caráter épico e, pelo contrário, todos os esportes propostos devem ser praticados por qualquer pessoa, reduzin- do seu caráter competitivo, a extensão, a duração da prova e os condicionantes técnicos, exclusivamente válidos para uma competição de alto nível. Em maio de 1996 o Comitê dos Jogos foi instituído e foi apresentada uma nova documentação que foi o Projeto Executivo dos Jogos Mundiais da Natureza de Iguaçú que foi estruturado em quatro volumes: 1 - Os Jogos – são definidos o conceito dos Jogos, as características gerais, o calendário, regulamentos e instruções específicas para cada um dos esportes incluídos no programa. 2 - Operações – todos os recursos necessários para a celebração dos Jogos. 3 - Locações – descrição do território e as bases de apoio onde serão realizados os acontecimentos esportivos. 4 - Organização – detalhes de tudo que deverá ser realizado para o sucesso dos Jogos.9 A organização financiou o transporte dos atletas desde seu local de origem, assim como seu alojamento e manutenção, desde o dia do seu registro até um dia depois do encerramento da competição, totalizando sete dias. Os atletas foram convidados pelo Comitê Organizador. O critério utilizado foi um ranking mundial em seus respectivos esportes e, na medida do possível, representantes dos cinco continentes em todos os esportes. O programa esportivo foi determinado pelo Comitê Organizador. Após duas propostas, ficou definido que a nomenclatura do evento seria “JO- GOS MUNDIAIS DA NATUREZA” (JMN). Os esportes integrantes da primeira edição dos Jogos foram os seguintes: Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    • Esportes doar: Balonismo, Pára-quedismo; • Esportes da água: Canoagem de Travessia, Rafting, Canoagem de Slalom, Pesca, Vela; • Esportes de Terra: Orientação com Arco, Escalada, Ciclismo, Golfe, Hipis- mo, Triatlon. O regulamento de cada modalidade esportiva foi criado e adaptado para os Jogos e foram aprovados pelo Comitê Organizador. Foram baseados nos regula- mentos das Federações Internacionais de cada esporte com o sistema de pontu- ação, classificação e prêmios. A escolha das modalidades esportivas do programa dos JMN responde à intenção de acentuar o caráter de aventura e inovação, inerente a determi- nados esportes. Dia 11 de setembro, em Lousane – Suíça, o Governador do Estado do Paraná, Jaime Lerner, o Secretário do Estado de Esportes Turismo, Osvaldo Luis Maga- lhães dos Santos e o Presidente do Comitê Olímpico Brasileiro, Carlos Arthur Nusmann, fizeram uma apresentação sobre os JMN para o Presidente do Comitê Olímpico Internacional, Juan Antonio Samaranch, que colocou a próxima edição dos JMN - 2001 no calendário do COI. No dia 23 de Setembro chegaram os primeiros atletas da modalidade de hipis- mo, o belga Cristian Van Sant; as holandesas Mevrouv Dingemans e Janeth Van Wijk e a sueca Ingrid Bostron. Dia 27 de setembro de 1997 foram iniciados os 1º JOGOS MUNDIAIS DA NATU- REZA em Foz do Iguaçú, Paraná, Brasil. A cerimônia de abertura foi no Parque Nacional do Iguaçú com vistas para as Cataratas do Iguaçú e contou com a presença do Presidente do Brasil - Fernando Henrique Cardoso, o Presidente do Paraguai – Juan Carlos Wasmosy, o Ministro Extraordinário dos Esportes – Edson Arantes do Nascimento (Pelé) e demais políticos e esportistas. “BEM-VINDOS AOS JOGOS MUNDIAIS DA NATUREZA!” BALONISMO10 A “unidade” que participa de um evento competitivo de balonismo é uma equipe de quatro pessoas, que podem ser de várias nacionalidades, juntando amigos ou voluntários locais e são comandadas por um piloto. 292 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    A competição debalonismo não foi homologada pela CIA (Comissão Inter- nacional de Aerostação), pois o balonismo no sentido de competição, exige resistência física e mental e um evento que envolve 3.000 Km de estrada para uma prova de primeira categoria dificilmente seria homologada; mas tivemos a participação de várias pessoas desta comissão como juízes, oficiais e competidores. A idéia de fazer competição pela manhã e vôos fiesta na parte da tarde com o mesmo grupo de equipes, não funcionou, complicou a parte logística e exauriu fisicamente os competidores. O clima prejudicou muito o Balonismo, pois o programa previa sete dias de competição, dos quais tivemos apenas três, e treze vôos fiesta, dos quais apenas cinco foram possíveis. Participaram da prova 30 balões (120 pessoas). PARAQUEDISMO11 Em reuniões no Comitê, foi levantada a hipótese de realização de uma compe- tição de paraquedismo nos Jogos, um maior estudo da competição de Skysurfing e da demonstração de abertura dos Jogos. Ficou definido que haveria uma competição de Skysurfing durante os Jogos Mundiais da Natureza e que a regulamentação deveria seguir as regras das Fede- rações Internacionais (FAI). A Competição de Paraquedismo, modalidade Skysurfing, disputada entre os dias 29 de Setembro e 3 de Outubro próximos na cidade de São Miguel do Iguaçú, na Costa Oeste paranaense, teve caráter internacional, estando presentes os melhores atletas do mundo neste esporte. O Skysurfing é hoje um dos mais modernos esportes do mundo, é praticado em queda livre, em altas velocidades, e por poucas pessoas; causa também, grande curiosidade para o público em geral e para os amantes dos esportes radicais em particular. Um time de Skysurfing é composto por um “Skysurfer” propriamente dito, que é o atleta que salta com uma prancha presa aos pés efetuando evolu- ções acrobáticas em queda livre, tendo suas façanhas rigorosamente registradas em vídeo pelo segundo atleta, o “Cameraflyer”. Tais evoluções são levadas a julgamento pelos árbitros. Por isso o conceito “time”, embo- ra com tarefas completamente distintas, onde a performance de um depen- de totalmente da do outro. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    No dia 27de setembro foi realizada a exibição, ou seja, a demonstração na abertura dos Jogos com o lançamento de 76 pára-quedistas em duas passagens do avião C-130. Iniciado no dia 30 de Setembro e encerrado dia 3 de Outubro, aconteceu provavelmente, o mais perfeito e técnico torneio de Skysurfing que jamais se realizou no mundo; segundo os próprios competidores, muito embora as condi- ções climáticas não tenham ajudado. A competição foi realizada em São Miguel do Iguaçú. Foram convidados para participar da competição 12 duplas, mas, uma dupla não compareceu por proble- mas de saúde. CANOAGEM DE TRAVESSIA12 A competição foi disputada em quatro etapas de travessia e dois circuitos. As provas foram entre Guaíra e Três Lagoas, no Lago de Itaipú. Os percursos diários vão de 23,5 milhas náuticas - a ser percorridas em um mínimo de quatro horas - a 35,2 milhas náuticas - a ser percorridas em um mínimo de seis horas. As embar- cações utilizadas foram de dois tipos diferentes - K-1 e K-2 - sendo a primeira individual e a segunda para duplas. Durante a maior parte da prova os canoístas ficaram remando ao longo do eixo principal do Lago em águas abertas, em alguns trechos, porém, entraram em braços da represa ou atravessaram canais. Nas etapas de circuito tiveram o que denominamos “portagens”, ou seja, quan- do os atletas saem da água e têm que carregar os caiaques por terra, através de um percurso determinado, e entrar na água novamente. A classificação final foi estabelecida pela soma dos tempos parciais de cada embarcação e o Comitê Organizador forneceu as embarcações para os atletas que foram entregues através de sorteio. Atletas previstos: 30 K1s (30 atletas) e 20 K2s (40 atletas), total de 70 atletas. Atletas participantes: 27 K1s (27 atletas) e 17 K2s (34 atletas), total de 63 atletas. Atletas que terminaram a prova: 14 K1s (14 atletas) e 11 K2s (22 atletas), total de 36 atletas. Atletas que não compareceram: 3 K1s (3 atletas) e 3 K2s (6 atletas), total de 9 atletas. 294 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Atletas que desistiramdurante a competição: 13 K1s (13 atletas) e 6 K2s (12 atletas), total de 25 atletas. RAFTING13 O projeto inicial previa a realização das provas no Parque da Barragem, mas devido a uma série de contratempos não foi possível sua realização neste local. Infelizmente o canal não ficou pronto e a notícia foi comunicada um mês e meio antes do evento, o que provocou uma série de transtornos e dificuldades para a realização das provas desportivas. Como única alternativa restou-nos o rio Iguaçú, no trecho logo abaixo da “Garganta do Diabo”, sendo uma ótima opção pela qualidade técnica e beleza circundante. As características do rio Iguaçú nos obrigaram a modificar totalmente a com- petição, devendo fazer novo “Anúncio de Competição” e modificar totalmente o regulamento do Rafting. Isto teve uma relação direta com a montagem da pista, obrigando a começar os trabalhos num prazo demasiadamente curto. Montar a pista de Slalom em um rio com mais de 100 metros de largura em tão pouco tempo, apresentou naturalmente alto grau de dificuldade. Na Cerimônia de Abertura foi realizada uma demonstração de Rafting nas Cata- ratas do Iguaçú. O Comitê Organizador forneceu os botes para os competidores e o colete salva-vidas. A Competição teve a participação de 10 balsas com 6 tripulantes, e consistiu em duas provas: · Descida: Foi realizada em botes de 12,5” para 6 atletas onde a largada foi na altura da Ilha de San Martin. A prova aconteceu em baterias de 4 botes e a classificação, de acordo com a ordem de chegada e com as chaves que foram escolhidas por sorteio. · Habilidade: A prova foi realizada em botes de 12,5” para 6 atletas com largada na altura da Ilha de San Martin. A prova se deu em uma descida onde os botes percorreram a pista no menor tempo possível, passando pelas portas de Slalom e realizando tarefas como virar e desvirar o bote, resgatando pessoas com utilização de cordas próprias para tal. Estas tarefas valiam pontos que foram somados na pontuação final. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    CANOAGEM DE SLALOM14 O projeto original previa uma prova no Parque da Barragem com aproximada- mente 4,5 Km de extensão, até 49 portas normais de Slalom e 16 setores de julgamento, pontuação por tempo e faltas. Devido a mudança de local e a dificul- dade de montagem de portas, a nova pista ficou em torno de 1,5 Km de extensão, 9 portas bem mais largas (3 m) que as normais. Foram realizadas corridas elimi- natórias em que os atletas eram obrigados a passar por entre as balizas das portas, sem penalização por toques. Atletas participantes: Categoria: Caiaque Feminino K1W 15 Caiaque Masculino K1M 30 Canoa Simples Masc. C1M 20 Canoa Dupla Masc. C2M 10 (20 canoístas) PESCA 15 A Competição foi realizada no Centro Náutico na cidade de Guaíra e teve duas etapas, cada uma com 8 horas de prova nos dias 03 e 04 de outubro. Participaram da competição 50 duplas. A pesca deveria ser somente do Dourado, mas foram introduzidas outras espécies de peixes valendo 1 ponto e o Dourado 2 pontos. VELA16 A competição de Vela desenvolveu-se em 7 etapas, sendo 5 percursos e 2 circui- tos. As provas foram iguais para ambas as classes no tocante a percursos e circuitos. Todas as etapas foram cumpridas dentro de rígidos critérios técnicos. A classe Hobie Cat 16 cumpriu todos os percursos sem encurtamento, deixou de cumprir o 1o circui- to por avarias nos lemes da maioria das embarcações. A classe Laser teve o primeiro e quinto percursos encurtados, devido a grande distância entre as bases de 3 Lagoas e Itaipulândia e, principalmente, entre Porto Mendes e Guaíra. As condições do tempo ajudaram, pois, ventou em todos os dias da competição, favorecendo o alto índice técnico alcançado pelos atletas. Felizmente não tivemos nenhuma situação crítica (ventos muito fortes), onde temíamos pela salvatagem. O Comitê Organizador forneceu todos os barcos da classe Hobie Cat 16 e da Classe Laser para os atletas, que foram entregues através de sorteio. ORIENTAÇÃO COM ARCO17 A Competição de Orientação com Arco foi realizada em 3 etapas, sendo 2 circuitos por dia para cada atleta. As distâncias percorridas foram suficientes para que os arqueiros realizassem uma prova muito difícil. 296 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Foram convidados 50arqueiros, mas somente 46 compareceram, representan- do 25 países. Todo o material esportivo foi fornecido pelo Comitê. ESCALADA18 Foi realizada uma demonstração no dia da abertura dos Jogos Mundiais da Natureza e uma segunda, realizada no espaço cultural Espaço das Américas, onde houve a liberação do muro de escalada para o público que participou do início ao fim do evento. CICLISMO19 A competição teve as mesmas características de uma prova de ciclismo de estrada, porém sendo disputada em mountain bikes e em “estradas de chão” quase o tempo todo. A compra das bicicletas pelo Comitê Organizador foi uma idéia impraticável, pois, além do alto custo, as mesmas são confeccionadas sob medida para cada atleta. Dia 29 de Maio foi realizada uma Prova Seletiva nas dependências do Santa Mônica Clube de Campo com 60 participantes. Estava prevista a participação de 50 ciclistas, mas, participaram do evento apenas 39. A prova disputada em 7 (sete) etapas, como segue a tabela abaixo. Um dado a ser destacado na modalidade foi o atraso no convite dos atletas europeus, por conta da consultoria espanhola e da participação dos mesmos no Tour de France. Cabe a essa constatação, excetuar os atletas sul-americanos, que foram devidamente convidados no período determinado. HIPISMO20 A competição de Enduro Eqüestre foi realizada entre os dias 29 de Setembro e 4 de Outubro com percursos diários de aproximadamente 45 (quarenta e cinco) e 50 (cinqüenta) Km. Foi um Raid com classificação individual e sem distinção de categorias entre homens e mulheres. A prova foi realizada de acordo com o regulamento de Raid da FEI (Federação Eqüestre Internacional), além de algumas instruções de competição, aliadas ao regulamento veterinário e as instruções das etapas que complementaram o Regulamento Oficial. Diante de qualquer Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    discordância prevaleciam sempreas normas estabelecidas pelo Regulamento Oficial da competição. Os cavalos utilizados na competição foram todos da raça manga-larga, sendo “emprestados” pela ABCCRM (Associação Brasileira de Criadores de Cavalos da Raça manga-larga) ao Comitê Organizador, que, por sua vez, os cedeu aos com- petidores participantes. A distribuição dos cavalos aos atletas foi feita através de sorteio. Cada cava- leiro teve dois cavalos durante a celebração dos jogos, podendo usar somente um durante uma mesma etapa. Foram emprestados 100 cavalos, sendo 80 cavalos destinados para o sorteio da competição e os restantes ficando para reserva, podendo ser utilizados, caso os animais selecionados para a prova tivessem alguma lesão. No início do projeto estava prevista a participação de 50 atletas, porém, houve uma redução para 40, o que implicou também na redução do número de cavalos para a prova. Somente 25 atletas terminaram a competição. Observação: A 4ª Etapa foi cancelada por conta de um temporal na cidade de Itaipulândia, que destruiu parte das baias e lesionou vários animais. GOLFE21 Como a competição de Golfe é profissional, o investimento com os atletas seria muito grande, então, optou-se por uma etapa do campeonato sul-ame- ricano. A competição foi realizada no Yguaçú Golfe Clube e Resort, em Foz do Iguaçu, durante quatro dias. Participaram 103 atletas sendo: 29 brasilei- ros, 57 da América do Sul e 17 de outros países. Os atletas participaram de uma fase de qualificação nos dois primeiros dias e nos dois dias finais foram selecionados os 50 melhores para a decisão utilizando o sistema Strocke Play 18 tacadas. TRIATHLON22 A prova teve início no Terminal Turístico Alvorada de Itaipú (Parque de Santa Terezinha), onde foi realizada a largada da etapa de natação com 1600 metros. O ciclismo iniciou-se no Parque de Santa Terezinha e o seu percurso se estendeu até o Parque Nacional do Iguaçú, totalizando 48 Km aproximadamente e 12 Km de corrida que teve o seu final ao lado das Cataratas do Iguaçú. O Triatlon foi realizado no dia 28 de Setembro com duas largadas distintas. A elite feminina com a participação de 20 atletas largou em primeiro, às 08h30min, e a elite masculina com a participação de 26 atletas em segundo, às 09h10min. 298 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Da idéia, atingiu-sea realização, com a implantação do evento no calendário oficial do COI (Comitê Olímpico Internacional), o projeto deveria ter seqüência. O material adquirido para as competições deveria ser utilizado nas bases náuti- cas para iniciantes e futuros atletas. Também prevemos a importância de se realizarem competições seletivas regi- onais, com vistas à preparação para a 2ª edição dos JOGOS MUNDIAIS DA NATU- REZA em 2001. Como o objetivo do projeto dos JMN era o de incentivar o turismo na região, em 1998 foram implantados os Centros de Esportes da Natureza – em algumas bases náuticas utilizadas para a realização dos jogos – com a finalidade de incrementar a prática esportiva de algumas modalidades disputadas nos Jogos para a população local. Após a realização dos Jogos, foram realizados alguns eventos esportivos para promover a região como uma etapa da Copa do Mundo de Canoagem Velocida- de, o Campeonato Paranaense e o Brasileiro da mesma modalidade em Entre Rios do Oeste. O Ministério do Esporte lançou o Projeto Navegar em 1999 com as seguintes modalidades: vela, canoagem e remo. No Paraná houve a implantação do projeto em Paranaguá, Ribeirão Claro, Foz do Iguaçú e Santa Helena; sendo que as duas últimas cidades fizeram parte dos JMN. O Comitê dos JMN foi reativado em junho de 1999 para dar início à organização da 2ª edição dos Jogos que seriam realizados em setembro de 2001. Foram feitas reformulações e foi desenvolvido um novo projeto para dar continuidade nos objetivos de aumentar a indústria do turismo da região, mas, a captação de recursos financeiros não ocorreu e o Comitê foi extinto. O objetivo do governador Jaime Lerner com a realização dos JMN não foi atingido e as bases náuticas ficaram abandonadas. Com a mudança de governo e através de algumas notícias pudemos perceber que o novo governo esta fazendo o possível para resolver o problema das bases náuticas. Através de uma pesquisa na internet23 , pudemos constatar as seguintes notícias: Seis meses após a visita do diretor da Paraná Esportes, Ricardo Gomyde em Entre Rios do Oeste, nenhuma decisão foi tomada no sentido de resolver o problema da manutenção e utilização das bases náuticas que foram construídas pelo Governador Jaime Lerner para os JMN. Gomyde assegurou que faria um levantamento da situação das bases, com opções de repassá-las às prefeituras ou encontrar uma alternativa para aproveitar a estrutura existente. O encontro Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    teve a presençade quase todos os prefeitos que aspiravam ter estruturas melho- res para o lazer e o turismo. Algumas bases estão sendo utilizadas por agricultores que de lá tiram sua subsistência, mantém seu trabalho e contribuem com pequena porcenta- gem para os trabalhos do Provopar. Enquanto não existir uma ação concre- ta, todas as bases poderão ser utilizadas para as safras de 2003/04. Neste período será estudada uma solução adequada e as bases náuticas poderão ser transformadas em centros tecnológicos, culturais ou até esportivos. (15/10/2003). Das seis bases náuticas construídas em 1997 pelo governo do Estado para sediar os JMN, três estão sendo ocupadas por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais (MTR): a de Porto Mendes, distrito de Marechal Cândido Rondon, Entre Rios do Oeste e Santa Helena. Em Itaipulândia a invasão não deu certo, pois policiais convenceram que a prefeitura está reformando a base, com o objetivo de fazer um centro avançado de estudos voltado a pescadores. Em Guaíra e Foz do Iguaçú não houve invasões; estas unidades são municipalizadas e protegidas pelas respectivas guardas municipais. (03/01/2004). Turistas do Paraná, Brasil e de outros países, visitam o terminal turístico da costa Oeste, o de Santa Helena. O fator que esta favorecendo o turismo é o excesso de calor e principalmente a infra-estrutura à disposição do turista, que conta com boxes com churrasqueira para famílias, pia e mesa com cadeiras; playground para as crianças, quadras de areia para jovens e local para caminha- das. Além disso, existem lanchonetes, vestiários com banheiros, restaurantes e outros atrativos. (23/01/2004). A secretaria de obras de Itaipulândia iniciou as obras na base náutica com recursos próprios, construíram barreiras para a contenção de água e atracadouro para barcos. A reativação da base começou a ser estudada pelo governo muni- cipal, após a reunião que aconteceu no final do ano passado com integrantes da Comissão de Difusão Tecnológica da Área Agrícola. Por meio da parceria entre prefeitura, governo do Estado, Emater, Iapar e empresas privadas, pretende-se efetuar experimentos de culturas agrícolas que poderão ser adaptadas ao clima e solo da região, trazendo mais segurança ao produtor quando investir em sua propriedade. (23/01/2004). Quando iniciamos nosso estudo procuramos reproduzir fielmente a descrição dos JMN e, a partir desse objetivo, tentarmos responder algumas inquietações construídas mediante nosso envolvimento com o evento e nossa formação aca- dêmica. Durante oito meses trabalhamos na organização de um evento que foi realizado na Costa-Oeste do Estado do Paraná, feito pela consultoria para orga- nizar o projeto, e depois com cada diretor de modalidade. 300 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Diante desse contexto,questões foram formuladas, tais como, o que atrai tantas pessoas para essa nova perspectiva de prática esportiva? Como podemos ler e analisar os JMN, manifestação mais expressiva dos esportes da natureza, de outra forma que não a realizada na perspectiva econômica ou turística? Segundo Elias, houve o tempo em que o esporte era ignorado como objeto de reflexão sociológica ou entendido como discussão secundária ou vulgar, ou ainda, como uma atividade de lazer voltada para o prazer que envolve o corpo mais do que a mente sem valor econômico.24 Nos JMN, pudemos perceber o contrário, o esporte foi utilizado com o objetivo de desenvolver o turismo e a economia da região Costa Oeste. Não obstante, centramos nosso problema na possibilidade de identificarmos e realizarmos uma outra leitura dos JMN, e suas modalidades, que foi além da estruturada no aspecto econômico e turístico, e pudemos perceber que as relações existentes entre o esporte, o homem, a natu- reza e a busca das emoções na prática esportiva num meio não padronizado, selvagem é viável (Parlebás s/d). Nos JMN, com exceção da escalada, todas as outras modalidades esportivas tiveram caráter competitivo, porém constatamos, através da mídia, sites da internet e de leituras em revistas especializadas em esportes de aventura na natureza, radicais e de ação (Adventure, Terra, Aventura, Aventura e Ação, Eco-Turismo, Família Aventura, Mares do Sul, Terra), que muitas modalidades também estavam sendo praticadas com a perspectiva de lazer. Citando o exemplo de Brotas/SP, que se tornou a “Cidade dos Esportes Radicais”, houve um crescimento da região devido ao turismo de aventura e, em outras cidades próximas, a cada dia descobri- am-se locais para descer corredeiras, escalar e rappeling (rapel) por paredes ro- chosas verticais, cruzar rios, vales e montanhas num trekking (caminhada) de longa distância, canyoning (alpinismo de cachoeira), entre outras. Nosso estudo indicou que a maioria dos indivíduos desenvolve atitudes, com- portamentos, práticas, em suma, habitus, em oposição às tensões do stress que elas próprias criam e que buscam a libertação dessas tensões nas atividades de lazer, onde o esporte é considerado uma variante. Esse movimento catártico, mimético e a busca de um “descontrole controlado” nas atividades de lazer, num certo espaço de tempo apontou para a profissonalização e para a espetacularização da prática dos esportes da natureza. Com a inserção do profissionalismo e a perspectiva da espetacularização dos esportes da natureza, as atenções para as atividades de lazer foram sendo des- viadas, no entanto, mesmo com a prática espetacularizada divulgada nos meios de comunicação de massas, considerável número de pessoas das mais diferentes idades continuaram praticando e buscando estes esportes. Basta atentarmos para alguns exemplos. Empresários do lazer preparam infindáveis pacotes turís- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    ticos de finalde semana direcionados para prática dessas atividades. Nesta pers- pectiva, percebemos o esporte enquanto um fenômeno sócio-cultural cada vez mais voltado para os contornos de uma mercadoria com fins lucrativos em busca de uma fatia do mercado que não corresponde, necessariamente, aos profissio- nais dos esportes da natureza. O turismo, o ócio, a natureza, o esporte, a aventura, os relacio- namentos [...] unindo esses conceitos encontramos um mix atra- tivo de um setor emergente, oferecido por uma rede de empresas com um novo estilo de gestão, de acordo com as novas exigên- cias consumistas, que tentam oferecer satisfações seletivas para um setor crescente da população, ávido por experiências físicas emocionantes, insólitas e individualizadas, na companhia de seus amigos e em contato com a natureza, saciando as necessidades sociais e pessoais. (Betrán, 2003, p. 159) Para ilustrar o aspecto da divulgação e espetacularização dos esportes da natureza, podemos recuperar a pesquisa de Mauro Betti (1998), referente a 107 horas de gravação de um canal de TV por assinatura com 24 horas de transmissão exclusiva de esporte (Sportv - canal da Globosat), que apresentou como resulta- do os programas dedicados aos “esportes radicais” com a melhor porcentagem (21,5%) em termos de tempo de exibição na programação total. Também constatamos no nosso estudo que a evolução tecnológica tem cria- do materiais e inventos, como o parapente e a asa delta que nos permite voar, embarcações mais rápidas que permitem a prática do Rafting, hidrospeed, e aparatos mecânicos, como o mountain-bike e o sistema “4x4”, os quais nos permitem deslocar por toda superfície terrestre. O objetivo desse desenvolvi- mento tecnológico é a sofisticação e a perfeição dos materiais com o intuito de melhorar a qualidade de execução, a segurança e, fundamentalmente, em conso- nância com o processo de espetacularização, a estética desses esportes.25 Para além dessas considerações, ao finalizar nosso estudo, gostaríamos de deixar registrada essa nova possibilidade de leitura dos JMN – corroborando nossa hipótese inicial – pela qual apresentamos uma análise dos esportes da natureza que, diante do seu dinamismo e por quê não dizer do encanto que esse contato provoca nas pessoas, enquanto praticantes ou espectadores, abre uma frente para outras questões e futuros estudos a serem desenvolvidos a partir da ótica das representações sociais, do imaginário social e da espetacularização dos esportes. Contudo, a intenção de contribuição desenvolvida neste trabalho ficou delimitada na leitura sociológica dos JMN pela possível ótica teórica de Norbert Elias e Pierre Parlebas. Talvez, num próximo “vôo”, numa próxima “corredeira” ou numa próxima “escalada” acadêmica teremos a oportunidade, e o “fôlego” necessário, para 302 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    tratarmos de outrasquestões que se abrem e, também, alçarmos “a terra, o ar e as águas ”... [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] NOTAS 26 As Cataratas estão localizadas na fronteira de Foz do Iguaçú com a Argentina. A 15 Km de unir-se com o rio Paraná, o rio Iguaçú vence um desnível de terreno que se precipita em cerca de 275 quedas de 65 metros de altura, em média. Têm uma largura de 4,8 mil metros e uma vazão de 1,5 mil m3 por segundo. 2 Com 1460 Km de orla, o Lago de Itaipú estende-se por 160 Km do município de Foz do Iguaçú a Guaíra. O lago surgiu com a construção da barragem da Usina de Itaipú. É explorado turisticamente por lanchas e barcos, possui praias artificiais em toda sua extensão com quadras de areia, play-ground e áreas de acampamento. 3 Prazer e perigo. Revista Veja, São Paulo, 16 de julho de 2003. 4 Esportes de aventura, esportes da natureza, esportes radicais, esportes de ação, etc., são alguns termos utilizados pela mídia. 5 BCA – Engenharia e Consultoria, São Paulo. GFE – Associats Consultors, Barcelona; surgiu após a Olimpíada de Barcelona. A maioria de seus integrantes é composta de técnicos que participaram da organização dos jogos olímpicos de 1992 quando ocupavam cargos de responsabilidade na prefeitura da cidade. Trata-se de um consórcio privado, organizado como uma rede de empresas, cada uma delas especializada em um aspecto diferente: esporte, marketing, desenvolvimento urbano, organização de eventos complexos. MB&A – Millet. Biosca I Associats, Barcelona. 6 Cf. Juegos de la naturaleza de Iguaçú – fase I – Estúdio de viabilidad. Consultorias BCA. GFE. MB&A. 1995, p. 2-3. 7 Cf. Juegos de la naturaleza de Iguaçú – fase I – Estúdio de viabilidad. Consultorias BCA. GFE. MB&A. 1995, p. 4-5. 8 Cf. Juegos de la naturaleza de Iguaçú – fase I – Estúdio de viabilidad. Consultorias BCA. GFE. MB&A. 1995, p. 6-8. 9 Cf. Jogos Mundiais da Natureza de Iguaçú. Projeto Executivo. Curitiba, 1996. 10 Cf. JOGOS MUNDIAIS DA NATUREZA. Relatório da Coordenadoria de Esportes. Curitiba, 1998, 17 volumes. 11 Id. Ibid. 12 Cf. JOGOS MUNDIAIS DA NATUREZA. Relatório da Coordenadoria de Esportes. Curitiba, 1998, 17 volumes. 13 Cf. JOGOS MUNDIAIS DA NATUREZA. Relatório da Coordenadoria de Esportes. Curitiba, 1998, 17 volumes. 14 Cf. JOGOS MUNDIAIS DA NATUREZA. Relatório da Coordenadoria de Esportes. Curitiba, 1998, 17 volumes. Toda a prova de Canoagem Slalom foi realizada no Parque de Iguaçú, iniciando-se logo à jusante das Cataratas de Iguaçú, junto à ilha de San Martin, com chegada logo após o final das corredeiras, aproximadamente 1,5 Km abaixo. O objetivo do Comitê Organizador era de comprar as embarcações K1, mas como os atletas estariam participando do Mundial de Maratona de Três Coroas – RS, o Comitê se encarregou do transporte dos mesmos. 15 Cf. JOGOS MUNDIAIS DA NATUREZA. Relatório da Coordenadoria de Esportes. Curitiba, 1998, 17 volumes. 16 Id. Ibid. 17 Cf. JOGOS MUNDIAIS DA NATUREZA. Relatório da Coordenadoria de Esportes. Curitiba, 1998, 17 volumes. 18 Id. Ibid. 19 Id. Ibid. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    20 Cf. JOGOSMUNDIAIS DA NATUREZA. Relatório da Coordenadoria de Esportes. Curitiba, 1998, 17 volumes. 21 SCHEMBERGER, Marco Aurélio. Jogos Mundiais da Natureza: o atleta, o aluno e moradores na Costa-Oeste do Paraná. Piracicaba, 2003. Dissertação de Mestrado. Universidade Metodista de Piracicaba. 22 Cf. JOGOS MUNDIAIS DA NATUREZA. Relatório da Coordenadoria de Esportes. Curitiba, 1998, 17 volumes. 23 http://www.portaldacostaoeste.com.br - 13/02/2004. 24 ELIAS, Norbert & DUNNING, Eric. A busca da excitação. Lisboa, Difel, 1992. p. 17. 25 BETRÁN, Javier Olivera. “Propuesta de una clasificación taxonómica de las actividades físicas de aventura en la naturaleza. Marco conceptual y análisis de los criterios elegidos”. In: Apunts. Educación Física y Desportes. Barcelona, no 41, 1995, p.109. 304 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2004 Publicação original: tese Formato da contribuição: resumo expandido da tese Fonte: “Ecoturismo e impactos ambientais na região de Iporanga - Vale do Ribeira- São Paulo” - Tese apresentada ao Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Doutor em Saúde Pública. E-mail do(s) autor(es): lgiatti@usp.br Títulos acadêmicos principais atuais: Biólogo, Mestre e Doutor em Saúde Pública – área de concentração Saúde Ambiental pela Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. Pesquisador Visitante do Centro de Pesquisa Leônidas & Maria Deane - Fiocruz / Amazônia. Bolsista do Programa Desenvolvimento Científico Regional CNPq / FAPEAM. Meio ambiente e ecoturismo na região de Iporanga / SP: impactos ambientais por esgotos domésticos e resíduos sólidos Leandro Luiz Giatti O município de Iporanga, no Estado de São Paulo, situa-se 360 km distante da capital paulista, na latitude S 24o e longitude W 48o, nos contrafortes da Serra de Paranapiacaba e limita-se com os municípios paulistas de Apiaí a leste, Eldorado à oeste, Capão Bonito e Guapiara ao norte, Barra do Turvo e Estado do Paraná ao sul (ITESP 2000). Em uma área de 1.160,20 km2, concentra uma população de 4.562 habitantes, residindo 2.076 na zona urbana e 2.486 em área rural (IBGE 2000). Na sede do município de Iporanga encontra-se um sítio de grande valor histó- rico cultural, remanescente das fases do ciclo do ouro na região agregando também traços do Brasil escravista, constituindo patrimônio tombado pelo Con- selho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo – CONDEPHAAT (GT PETAR 1980). Da ocupação inicial do século XVII, na região de Iporanga, restaram ruínas de taipa ou de pedra de antigas capelas e obras de desvio de rios para lavagem de ouro, estruturas que foram completamente abandonadas com o declínio dessa Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    atividade de mineração.Atualmente a cidade de Iporanga localiza-se na mar- gem esquerda do Rio Ribeira de Iguape imediatamente a montante da confluên- cia com um tributário chamado Rio Iporanga. Foi nesse curso d’água, 6 km acima de sua foz, que verdadeiramente iniciou-se a ocupação local com a constituição do Arraial de Santo Antonio, onde havia sido encontrado ouro de aluvião (LINO 1978). Quanto à relação ser humano e ambiente, assinala-se que a ocupação da Mata Atlântica se deu muito antes da chegada do europeu no século XVI. Após a chegada dos colonizadores é fato notório que muitas mudanças ocorreram, estabelecendo nova ordem quanto à exploração de recursos naturais e ocupa- ção humana. Não obstante, deve-se reconhecer que havia interação entre os ameríndios e os ecossistemas, certamente acarretando interferências no ambi- ente. Porém, não é possível saber como teria sido a Mata Atlântica, se no mo- mento do desembarque dos primeiros colonizadores fosse encontrada uma re- gião totalmente despovoada, dúvidas quanto ao grau de alteração promovido pelos ocupantes mais primitivos (DEAN 1995). De qualquer maneira, a região do Estado em que o município de Iporanga se situa compreende expressivos espaços contínuos de floresta atlântica. Na re- gião destacam-se os municípios de Apiaí, Barra do Turvo, Capão Bonito, Eldorado, Guapiara, Ribeirão Grande, Iporanga, São Miguel Arcanjo e Sete Barras, integran- tes de várias áreas protegidas situadas no sudoeste do Estado. Esses “contínuos florestais” foram conservados por uma série de fatores como o relevo acidenta- do, a inadequação dos solos à culturas como o do café e a fragilidade econômi- ca da região, mantendo alguns dos principais remanescentes do bioma Mata Atlântica (SÃO PAULO 1998). Embora tenha ocorrido este intenso processo de desmatamento e fragmenta- ção, a Mata Atlântica, hoje é considerada como uma das principais florestas tropicais do planeta. Ainda que, das mais ameaçadas de extinção, tem influência para a maior parte da população brasileira. Em paralelo é também reconhecida como de grande importância biológica em razão de abrigar notável biodiversidade conseqüente de variabilidade territorial, topográfica e da umidade característica (COSTA 1997). O município de Iporanga possui parcela de seu território compreendido pelo Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira – PETAR, fato que influencia o desen- volvimento econômico na região apresentando limitações a atividades que possam acarretar impactos ao rico patrimônio natural da Mata Atlântica, so- bretudo na região e entorno dessa unidade de conservação nas escarpas da Serra de Paranapiacaba. Por conta das restrições desenvolvimentistas estabelecidas por política conservacionista, o município de Iporanga recebe relevante receita proveniente de ICMS ecológico a título de medida compensa- tória (SÃO PAULO 1998). 306 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    O Parque EstadualTurístico do Alto Ribeira – PETAR, criado em 1958, constitui um dos parques pioneiros do Estado de São Paulo, compreende uma área de 35.712 hectares, integrante de um complexo de unidades de conservação admi- nistradas pelo Instituto Florestal (SÃO PAULO 1991). O PETAR localiza-se nos municípios de Apiaí e Iporanga, no Vale do Ribeira, entre as latitudes de 24o16´S e 24o 38´S (figura 1) e longitudes 48o29´O e 48o44´O (MENEZES & GONÇALVES 2001). Apresenta cobertura vegetal característica de Floresta Ombrófila Densa e Floresta Ombrófila Mista (SÃO PAULO 1999). N Latitude S 24o Longitude W 48o Figura 1: Localização do PETAR entre os municípios de Apiaí e Iporanga, São Paulo Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Além do grandevalor biológico desses remanescentes de Mata Atlântica, res- saltam-se nesta unidade de conservação as características geológicas referen- tes a predominância de rochas calcárias sedimentares com dobramentos promo- vidos por movimentos tectônicos, que aliados às influências climáticas propici- am condições favoráveis à formação de cavernas. Por esta razão, esta área é classificada como carste, na qual a paisagem rochosa apresenta aspecto ruiniforme e esburacado pelo tipo de rocha carbonática solúvel pela água que por ela se infiltra devido ao elevado índice pluviométrico da floresta tropical atlântica. Assim, ressalta-se que na região o sistema de drenagem ocorre predominante- mente por vias subterrâneas. Particularmente, em se tratando das infiltrações, além da formação de extensas cavidades e galerias, ocorre, por meio do gotejamento no interior das cavernas, um processo essencialmente químico propiciando a formação dos espeleotemas, que são deposições minerais na forma de estalactites, estalagmites, colunas, flores de pedra e uma infinidade de tipos, que recobrem os tetos, pisos e paredes das cavernas, fascinando visitantes e intrigando pesquisadores (LINO 2001). As peculiares formações geológicas somam-se às características típicas de Mata Atlântica, como a presença de rios encachoeirados e cobertura vegetal, conferindo à região notáveis aspectos atrativos ao turismo de contato com a natureza. Partindo de Iporanga, através da estrada SP 125 para Apiaí, após percorrer 13 km, chega-se ao Bairro da Serra, onde nas proximidades se localiza o Núcleo Ouro Grosso; posteriormente, percorrendo-se mais 3 km no mesmo sentido, encontra-se o Núcleo Santana, uma das principais referências do Parque. O Bairro da Serra e os núcleos Santana e Ouro Grosso margeiam o Rio Betari, que das cabeceiras no município de Apiaí, fora dos domínios do PETAR, percorre 25 km até atingir a foz no Rio Ribeira de Iguape. A bacia do Rio Betari assenta-se em vale aluvial bastante escarpado e confinado em quase toda sua extensão (GERHARD 1999). O Bairro da Serra, de origem rural, apresenta aproximadamente 110 residências e cerca de 600 moradores, onde os primeiros praticavam a agricultura, atividade está em declínio na atualidade. No entanto, uma aglomeração de residências junto à estrada SP-125 configura uma paisagem similar a urbana onde há luz elétrica, telefones públicos, escola e um pequeno comércio (SILVEIRA 2001). Esta área de ocupação humana constitui importante apoio ao maior fluxo de visitação turística do PETAR, o núcleo Santana. SCALEANTE (1999) afirma que o Bairro da Serra apresentou significativo cres- cimento populacional de 44% desde 1995, em razão da centralização da educa- ção na escola local e do crescimento da oferta de trabalho associado ao 308 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    ecoturismo. Ressalta aindaque aos finais de semana a população dobra em razão das flutuações associadas ao turismo. Frente ao crescimento populacional bem como de suas flutuações oriundas do turismo nas adjacências do PETAR, pressupõe-se a intensificação das ameaças ao meio ambiente natural por intermédio de impactos negativos e ameaças ao rico patrimônio natural da região decorrentes do aumento do fluxo de visitação. Por outro lado, também são relevantes os impactos influenciando negativamen- te o próprio ser humano, pois a população local sofre com os reflexos da passa- gem dos turistas, problemática que pode ser evidenciada principalmente nos óbices relativos ao saneamento básico. Segundo RUSCHMANN (1997) “o turismo contemporâneo é um grande consumidor de natureza e sua evolução, nas últimas décadas, ocorreu em conseqüência da ´busca´ do verde e da ´fuga´ dos tumultos dos grandes conglo- merados urbanos pelas pessoas que tentam recuperar o equilíbrio psicofísico em contato com os ambientes naturais durante seu tempo de lazer” . Da mesma maneira, RABAHY (2003) afirma que a busca do contato com a natureza tem sido uma das principais características da demanda turística con- temporânea. Ressalta-se que o sucesso ou o fracasso da maioria dos empreendimentos turísticos será determinado, em sentido amplo, de acordo com os recursos natu- rais a estes relacionados. Para tanto, basta notar que a promoção de muitos destes locais está vinculada a eventuais cenários paradisíacos, e de fato, difícil seria obter sucesso de algum empreendimento dessa natureza situado às mar- gens de um corpo d’água poluído. Contudo, observa-se que apesar de diversos centros turísticos estarem com seu potencial ‘ecológico’ sob ameaça, ainda atraem grandes contingentes de visitantes, principalmente devido a publicidade ilusória e por meio da sublimação de produtos turísticos que não correspondem à categoria em que realmente estão enquadrados, como decorrência do grau de impactos ambientais em que se encontram (MOLINA 2001). Todavia, a extrema valorização dos aspectos econômicos, ambientais e educativos do ecoturismo negligencia o planejamento de longo prazo, propici- ando situações de turismo de massa – deslocamento de grande número de pes- soas para os mesmos lugares – que podem acarretar efeitos negativos ao meio ambiente natural, à cultura e aos aspectos psicosociais das comunidades receptoras (RUSCHMANN 1997). Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Segundo SWARBROOKE (2000)o ecoturismo parece ser o segmento mais pró- ximo do conceito de utilização sustentável, no entanto, devido às tendências de crescimento, pode em determinadas localidades vir a se tornar modalidade de massa, acarretando problemática contraditória a sustentabilidade. Dessa forma, apesar de todos os aspectos positivos inicialmente apresentados e de devaneios publicitários, é necessário enfatizar que em muitas situações o termo ecoturismo pode estar à frente de atividades predatórias, causadoras de impactos ambientais e sociais, acarretando prejuízos, principalmente às comunidades tradi- cionais residentes nas proximidades dos atrativos que a natureza oferece. No contexto em que se insere, o ecoturismo praticado na região de Iporanga, tendo como principal atrativo o Núcleo Santana no PETAR e arredores, está sujeito a diversas ameaças, algumas das quais já evidentes, tais como o cresci- mento desordenado da atividade, a sazonalidade da visitação, a inadequação de serviços e infra-estrutura e as práticas destoantes dos visitantes. Para aqueles que visitam a região em busca de contato com a natureza, bem como aos que observam com olhar restrito, certamente associa-se a qualidade das atividades de ecoturismo, pura e simplesmente, à qualidade e conservação dos atrativos naturais. Entretanto, outros aspectos podem apresentar relevância quan- to a impactos ambientais, não sendo tão evidentes para simples observadores. O objetivo deste estudo foi identificar impactos ambientais decorrentes do ecoturismo na região de Iporanga, sobretudo no tocante à poluição de cursos d’água por esgotos domésticos e a disposição inadequada de resíduos sólidos, considerando eventuais riscos à saúde pública oriundos da ocupação e uso do meio ambiente. METODOLOGIA Foram realizadas 24 visitas à campo entre novembro de 2001 e abril de 2003, que representaram a principal frente de obtenção de dados para esta pesquisa, onde procedeu-se observação das situações referentes a gestão de resíduos sólidos e a coleta de amostras de água proveniente de rios e córregos nos arredores do Bairro da Serra. Estas amostras foram analisadas em laboratórios do Departamento de Saúde Ambiental da Faculdade de Saúde Pública da Univer- sidade de São Paulo. Referenciais teóricos e demais informações específicas sobre a região em estudo foram obtidos por meio de pesquisa bibliográfica. Especificamente quanto à disposição final dos resíduos sólidos, foram realiza- das duas visitas técnicas, em maio de 2002 e maio de 2003, a distintos locais utilizados pela Prefeitura Municipal de Iporanga para esse fim. 310 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    A análise dasamostras de água foi efetuada quanto a parâmetros microbiológicos (coliformes totais e fecais – termotolerantes), OD (Oxigênio dissolvido) e DBO (demanda bioquímica de oxigênio), de acordo com “Standard methods for the examination of water and wastewater” (APHA, AWWA, WPCF 1993). Entre fevereiro de 2002 e março de 2003 foram realizadas quinze campanhas de coleta de amostras de água em seis pontos distintos, quatro no curso do rio Betary e dois em seus tributários (figura 2). Neste texto apresentam-se apenas dados referentes aos pontos no curso do referido rio, então denominados: Ponto 1, Ponto 3, Ponto 5 e Ponto 6. Figura 2: Pontos de coleta no rio Betarí e em córregos afluentes nas proximidades do Bairro da Serra RESULTADOS E DISCUSSÃO Considerando os inúmeros fatores ambientais influentes e determinantes de discrepâncias nos resultados de análise de qualidade de água no rio Betarí, fez- se a opção por cálculo de medianas para melhor representar os níveis dos parâmetros utilizados nesse estudo, tendo por base o número de coletas rea- lizadas. Dessa forma, os valores de medianas obtidos são apresentados nos gráficos subseqüentes com objetivo de demonstrar a evolução espacial de parâmetros de qualidade de água ao longo do curso do Rio Betarí nas proximi- dades do Bairro da Serra. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
  • 312.
    Gráfico 1 -Evolução espacial de medianas de parâmetros microbiológicos no Rio Betarí - Iporanga / SP - fevereiro de 2002 à março de 2003. * A linha pontilhada representa o limite máximo para coliformes fecais (Resolução CONAMA 20 / 1986) Quanto aos parâmetros microbiológicos utilizados nesta pesquisa, esclarece- se que os coliformes totais, que englobam microrganismos capazes de indicar processos de depuração orgânica, estão também associados à poluição por esgotos domésticos, enquanto que, os coliformes fecais (termotolerantes) são microrganismos diretamente associados à poluição por esgotos domésticos uma vez que tais bactérias são provenientes do trato digestivo de animais de sangue quente (BRANCO 1986). A análise de evolução espacial de parâmetros microbiológicos a partir do cálculo de medianas dos valores obtidos no curso do Rio Betarí, apresentada no gráfico 1, permite observar ter havido nítida evolução dos valores de coliformes totais a partir do ponto de coleta 3. Subseqüentemente verifica- se que apesar do declínio de valores, no ponto 6 o valor apresentado é maior que no ponto 1. Observando os índices de coliformes fecais nesse mesmo gráfico identifica-se comportamento similar de valores, com exceção da elevação dos mesmos ocorrida do ponto 5 para o ponto 6. Esse comporta- mento dos parâmetros de coliformes totais e fecais no decurso do Rio Betarí permite deduzir sobre a influência do lançamento de cargas poluidoras advindas do Bairro da Serra. 312 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
  • 313.
    Gráfico 2 -Evolução espacial de medianas de Oxigênio Dissolvido no rio Betarí - Iporanga / SP - fevereiro de 2002 a março de 2003. O oxigênio dissolvido (OD), parâmetro indicador de qualidade de água, sofre depleção que pode ser associada ao lançamento e degradação biológica de poluentes orgânicos dos esgotos domésticos. No Rio Betarí, de modo geral, observam-se elevados níveis de O2 tendo em vista a característica desse ambi- ente lótico de forte correnteza, leito pedregoso e encachoeirado. A evolução espacial das medianas de oxigênio dissolvido ao longo do Rio Betarí (gráfico 2) apresenta valor mais elevado no ponto de coleta 1, subseqüen- te declínio no ponto 3, certamente em razão desse ponto situar-se em local de remanso, havendo posterior estabilização da concentração nos pontos 5 e 6. O referido comportamento desse fluido essencial aos processos biológicos na água do Rio Betarí, também permite inferir sobre a relação desse parâmetro com a área de influência de lançamentos de esgotos domésticos do Bairro da Serra. Gráfico 3 - Evolução espacial de medianas de DBO no rio Betarí - Iporanga / SP - fevereiro de 2002 à março de 2003. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    No sentido dequantificar a matéria orgânica diluída na água das amostras foi utilizada a análise da DBO (Demanda Bioquímica de Oxigênio). A DBO é um parâmetro fundamental à mensuração da poluição das águas por matéria orgâni- ca, cuja determinação é feita por intermédio da fração biodegradável dos com- postos presentes em uma amostra que é mantida durante 5 dias a uma tempera- tura de 20o C; ao término desse período o cálculo do O2 consumido no processo biológico de degradação confere quantificação ao estudo desse parâmetro (PIVELI 2000). Em análise espacial observa-se a elevação da DBO do ponto 1 para o ponto 3, posteriormente os valores apresentam declínio sucessivo nos pontos 5 e 6 (grá- fico 3). Diante desse comportamento de valores pode-se novamente inferir so- bre a influência deletéria de lançamentos no Bairro da Serra e a concentração de matéria orgânica nesse remanso. Por outro lado, o posterior declínio de valores pode ser associado às diluições decorrentes do aporte de afluentes e à elevada capacidade de degradação biológica promovida por altos índices de oxigênio nesse ambiente lótico. Sob aspectos da degradação dos recursos hídricos locais, GERHARD (1999) afir- ma que as principais influências humanas diretas sobre o Rio Betari são os esgotos domésticos, deposição de resíduos sólidos e áreas de agricultura e pastoreio no Bairro da Serra, além da passagem da estrada que liga Apiaí a Iporanga. MORAES (2003) também indica o Bairro da Serra como principal concentração humana nos arredores do PETAR exercendo influência na qualidade da água do rio Betarí por meio de lançamento de esgotos e de práticas agrícolas. Enfatiza- se que a agricultura praticada na região, mesmo que em pequena escala, contri- bui para a eutrofização dos rios com acréscimos de fósforo oriundos do proces- so de desmatamento. Contaminação por defensivos agrícolas foi demonstrada em estudo realizado por ELFVENDAHL (2000), no qual, amostras de água, sedimentos e peixes foram obtidas dos rios Betarí, Iporanga, Pilões e tributários, principais cursos d’água que cortam o PETAR e possuem nascentes no município de Apiaí, drenando áreas agrícolas onde predomina a cultura de tomate. Os resultados obtidos demons- traram a presença de agrotóxicos em amostras de todos os pontos de coleta, sendo que os peixes acumularam alguns dos praguicidas mais persistentes ou metabólitos dos mesmos. Este estudo assinala o risco de que esses compostos podem atingir níveis estressantes para os organismos aquáticos, podendo causar efeitos deletérios ao ecossistema. Uma vez que Rio Betarí nasce fora da unidade de conservação, o referido processo de poluição por agrotóxicos, mesmo ocorrendo em área externa, con- fere riscos à biota no interior deste parque estadual. GOLUBEV (1988 apud DO- MINGOS 2002) salienta o papel unificador de ecossistemas e assinala a relevân- 314 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    cia de atividadeseconômicas em ponto superior da bacia com possibilidade de afetar parte inferior da mesma. Tais elementos indicam a necessidade de gestão integrada entre a bacia hidrográfica do rio Betarí e o PETAR. Com relação à atividade mineraria, praticada anteriormente à implementação de política preservacionista, mesmo com a paralisação da mineração de chumbo na região, minas abandonadas como a de Furnas ainda interferem negativamente no ambiente aquático devido à lixiviação de metais pesados que ocorre a partir das leiras incorretamente dispostas (MORAES & MOLANDER 1999). De acordo com a CETESB (1991 apud MOARES & MOLANDER 1999) a análise de sedimentos coletados no baixo Rio Furnas e em trecho desse curso d’água próximo a antiga mineração de mesmo nome, apresentou concentrações de arsênico, mercúrio, chumbo e zinco muito superiores do que os limites recomendados pela legisla- ção para a preservação da vida aquática. Vale destacar que o Rio Furnas deságua no Rio Betarí na altura do Núcleo Santana. Não obstante, é considerável o risco de impactos aos ecossistemas epígeos na região estudada em decorrência de quaisquer processos de poluição de solo e de recursos hídricos superficiais. Assinala-se que os aqüíferos cársticos, por moti- vo da rápida infiltração, baixa capacidade de filtragem e fluxos rápidos, tornam- se vulneráveis a processos de poluição oriundos de ocupação do solo sem planejamento adequado (AYUB 1998). Com relação aos resíduos sólidos, inicialmente quanto à gestão, verificou-se que no Núcleo Santana existiam tambores onde estes eram acondicionados para serem coletado semanalmente por caminhão da Prefeitura Municipal de Iporanga. Embora ocorressem complicações com excesso de resíduos em feriados prolon- gados, essa questão parecia não causar grande impacto no interior desse núcleo, sendo possível verificar que raramente se encontrava algum resíduo nas trilhas do parque, fato que também demonstrava adequada conduta de monitores ambientais (guias de ecoturismo) e dos próprios turistas que freqüentavam esta unidade de conservação. Funcionários do parque freqüentemente separavam latas de alumí- nio diretamente dos tambores antes que ocorresse coleta por caminhão da prefei- tura, esse fato se dava em decorrência do elevado preço desse material reciclável. No Bairro da Serra também ocorria devida coleta de resíduos sólidos semanal- mente, dessa maneira, existia a possibilidade de acondicionar os resíduos do- mésticos em sacos plásticos e posteriormente em tambores em pontos atendi- dos por coleta. Entretanto, alguns moradores possuíam domicílios distantes dos pontos atendidos por caminhão de coleta da Prefeitura Municipal e acabavam por enterrar ou queimar os resíduos sólidos ali gerados. Essa incorreta disposi- ção ocorria usualmente na margem esquerda do Rio Betarí, área em parte perten- cente ao parque que não era atendida pela visita do caminhão de coleta de lixo, da mesma forma como o serviço de abastecimento de água da SABESP não contemplava esses domicílios. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Mesmo com aregularidade de coleta dos resíduos nas localidades estudadas, aqueles gerados no município eram dispostos de maneira indevida por parte da Prefeitura Municipal de Iporanga. Em visita técnica em maio de 2002 verificou-se a disposição irregular de resíduos sólidos no lixão de Iporanga nas proximidades do Km 7 da Rodovia que liga Iporanga à Barra do Turvo, à beira de afluente do Rio Ribeira de Iguape. Nesse local constatou-se a presença de rejeitos associados às práticas turísticas realizadas na região, como grande número de pilhas, pares de tênis, restos de capacetes plásticos e resíduos de carbureteiras (aparato utiliza- do por exploradores de cavernas para iluminação). Nessa localidade também foi possível observar a presença de animais se alimentando dos resíduos orgânicos dispostos a céu aberto, como cães e porcos, os últimos sendo engordados com lixo afim de comercialização da sua carne. Em posterior visita a este mesmo local, em maio de 2003, verificou-se a desativação e cobertura desses resíduos sólidos com terra. Nessa ocasião ocor- reu a visita ao novo e então chamado “aterro municipal”, situado na estrada que liga Iporanga à portaria Casa de Pedra do PETAR, onde os resíduos eram lançados em valas e queimado, para posterior cobertura com terra, manejo inadequado que acarretava impactos ambientais pela liberação de gases tóxicos e possível contaminação de lençol freático. Embora a coleta realizada no Núcleo Santana e no Bairro da Serra configurasse equacionamento local do problema dos resíduos sólidos, ressalta-se o caráter de externalização desse impacto ambiental, uma vez que os mesmos eram reco- lhidos e encaminhados à local que não atendia exigências técnicas adequadas de aterro sanitário. Em primeira visita técnica, o lixão a céu aberto verificado à margem de tribu- tário do Rio Ribeira de Iguape denotou total inoperância de medidas adequadas à disposição de resíduos sólidos. A presença de animais se alimentando desses materiais, inclusive os suínos com a finalidade de engorda para comercialização de carne, indicou risco de transmissão de zoonoses (ROUQUAYROL et al 1999). No caso da disposição de resíduos urbanos a céu aberto, surgem inconvenien- tes relacionados ao bem estar por meio da liberação de gases como mercaptanas e gás sulfídrico, causadores de odores desagradáveis oriundos da degradação biológica anaeróbia da matéria orgânica ali contida (AKAOUI 1999). O posterior procedimento quanto a esse sítio de disposição a céu aberto não caracterizou adequada remediação do ambiente degradado. Na verdade, o fato de efetuar simples cobertura dos resíduos com camada de solo apenas reduziu o impacto visual e imediata identificação da degradação. Certamente, essa foi a alternativa encontrada pelos administradores do lixão para encerrar a disposi- ção incorreta até então praticada e dessa maneira iniciar a disposição em outra localidade, então denominada “aterro”. 316 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Os procedimentos adotadosnesse chamado “aterro” certamente baseavam- se em critérios técnicos estabelecidos para aterro controlado, técnica funda- mentada em princípios de engenharia que objetiva confinar os resíduos cobrin- do-os com material inerte (geralmente terra) (AKAOUI 1999). Todavia, observou- se em visita técnica que no “aterro” de Iporanga não se realizava cobertura diária dos resíduos. Dentre os dois modelos adotados para a disposição final de resíduos sólidos ambos apresentaram-se insatisfatórios sob o ponto de vista ambiental e sanitário. Diante das condições irregulares de disposição então observadas nesse municí- pio, os resíduos sólidos contendo agentes biológicos patogênicos podem prejudi- car o ser humano por via direta ou indireta (MOTA 1999). Ressalta-se que em estudos epidemiológicos, esses resíduos são componentes que não podem ser desprezados, sendo que suas influências ocorrem, principalmente, por vias indire- tas, facilitando ou possibilitando a ação de múltiplos fatores, os quais acarretam efeitos inconvenientes à saúde e ao bem estar da comunidade (FORATTINI 1973). Com os restos orgânicos em geral ocorre contaminação por grande variedade de bactérias potencialmente patogênicas (como estreptococos, estafilococos, bacilos do tétano, salmonelas, etc.), dentre outros microrganismos nocivos que podem oferecer riscos às pessoas em contato direto com esses materiais. Por outro lado, as pragas que proliferam em meio a esses resíduos como baratas, moscas e ratos agem como vetores possibilitando aos microrganismos patogênicos atingir o ser humano indiretamente. Outras vias indiretas com que os resíduos sólidos colocam em risco a saúde pública tratam-se da contamina- ção do solo, da água e do ar (FELLENBERG 1980). Além da identificação dos problemas de disposição final irregular de resíduos sólidos em Iporanga, é relevante acrescentar quanto a influência do fluxo turís- tico no aumento do descarte de resíduos sólidos. Dessa forma, a flutuação populacional advinda do turismo na região traz con- sigo aumento considerável do consumo, principalmente de produtos industriali- zados, geradores de grande quantidade e variedade de embalagens. Constata-se que é significativa a geração sazonal de resíduos sólidos em atividades turísti- cas, assim como, a preocupação com o descarte desses rejeitos em áreas de proteção ambiental começa a se tornar uma constante em muitos países (NICOLETTI 2002). O histórico de ocupação e a economia predominante no Bairro da Serra permi- tem inferir sobre o baixo consumo de produtos industrializados dentre os mora- dores locais. Da mesma forma, o reaproveitamento é prática esperada dentre essa população de tradição rural. Por outro lado, na região do PETAR, têm-se Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    turistas vindos degrandes cidades trazendo consigo hábitos de consumo muito aquém dos praticados no local, gerando quantidade e variedade de resíduos que superam os padrões de consumo da região. CONSIDERAÇÕES FINAIS Frente a precariedade do saneamento básico local, fica evidente que a tendên- cia de massificação do turismo favorece o comprometimento da qualidade ou mesmo inviabiliza o rio Betarí em sua notável característica de atrativo turístico. Verifica-se, em virtude das condições preponderantes, que existem grandes facili- dades da perpetuação de ciclos de transmissão de doenças parasitárias intestinais e demais moléstias de veiculação hídrica. Essa situação de risco observada no estudo e demonstrada por vasta bibliografia, coloca os moradores locais, sobre- tudo as crianças, em risco de contrair doenças infecciosas, havendo tendência para elevadas prevalências entre a população do Bairro da Serra. Essa questão de saúde pública é de difícil equacionamento sem que ocorram melhorias no sanea- mento e processos de educação em saúde. O atendimento clínico e a medicação não são suficientes, pois o ambiente contaminado e os hábitos dos moradores tendem a incrementar a ocorrência de novas e sistemáticas infecções. As condições em que os resíduos sólidos do Núcleo Santana e do Bairro da Serra, na época do estudo, eram manejados indicam a quase solução desta problemática em esfera local. Todavia, as condenáveis práticas de disposição final desses rejeitos, com o envio para localidades distantes das rotas turísticas, denotam a externalização dos impactos ambientais e possibilitam o “esqueci- mento” do problema. Tendo por base o histórico e tradições de ocupação humana e utilização de recursos naturais na região, se por um lado o ecoturismo consiste de opção mais adequada à conservação do que atividades extrativistas outrora praticadas, por outro lado, demais problemas como a poluição por esgotos domésticos, a gera- ção e disposição final de resíduos sólidos constituem elementos negativos do desenvolvimento dessa nova alternativa econômica. Diante dessa realidade constata-se uma contradição no sentido de que a busca de contato com a natureza no crescente ecoturismo é capaz de acarretar a degradação do patrimônio natural na carência de adequada gestão e planeja- mento para o desenvolvimento de atividades turísticas. Apesar de haver louváveis definições, o emprego do termo ecoturismo não garante o exercício de atividades plenamente sustentáveis. Certamente, diante da problemática verificada nesse estudo, o termo ecoturismo acaba por contri- buir para “ocultar” impactos ambientais relevantes. 318 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    O grandioso valorbiológico característico da região, o relevo, o clima, as peculiaridades das cavernas e as particularidades da ocupação humana e pres- são por uso do solo e dos recursos naturais, são fatores que requerem condições específicas de manejo e conservação dos recursos naturais, com pertinente consideração das atividades que podem ser praticadas em áreas de entorno e devida inserção em políticas mais abrangentes, em concordância com as demais unidades de conservação que integram o expressivo fragmento do bioma Mata Atlântica do Vale do Ribeira. Assim, outro aspecto relevante a ser integrado no manejo deste valioso patrimônio natural consiste da necessidade de adequar o uso do solo nas bacias hidrográficas locais com as diretrizes preservacionistas ou conservacionistas preponderantes. Ressalta-se o risco de desequilíbrio ecológico nos ambientes aquáticos no interior da unidade de conservação em razão do uso de agrotóxicos em áreas externas ao parque. Sendo possível à consideração sobre o interesse de conservar o patrimônio natural deste parque estadual por meio de adequados critérios de visitação e apropriadas condutas por parte de visitantes, tem-se que problemas como dos esgotos e dos resíduos sólidos, também inerentes ao desenvolvimento turístico, tornam-se questões marginais que muitas vezes não despertam o interesse pú- blico da mesma maneira que a suposta degradação dos atrativos no interior da unidade de conservação. Nesse sentido, é compreensível que a conscientização e comprometimento de gestores, de moradores locais, de monitores ambientais, de demais pessoas envolvidas profissionalmente com o ecoturismo e dos própri- os ecoturistas, sejam fundamentais para reverter essa situação de degradação ambiental e de risco à saúde pública. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Ano: 2004 Publicação original: anais Formato da contribuição: texto completo Fonte: Anais do XVI Encontro Nacional de Recreação e Lazer - ENAREL, 2004, Salvador-BA. XVI ENAREL - Lazer como Cultura: o desafio da Inclusão. Salvador: Sistema FIEB/SESI, 2004. v. 16. p. 18.4-18.4. E-mail do(s) autor(es): mirleide@superig.com.br ; tsampaio@unimep.br Títulos acadêmicos principais atuais: MIRLEIDE CHAAR BAHIA – Graduada em Educação Física e Mestre em Educação Física pela Universidade Metodista de Piracicaba – UNIMEP; Pesquisadora do Grupo de Pesquisa em Lazer – GPL/ UNIMEP; Coordenadora do sub-grupo “Lazer e Meio Ambiente” do GPL; TÂNIA MARA VIEIRA SAMPAIO - Graduada em Pedagogia e Doutora em Ciências da Religião pela UMESP desde 1997. Docente no Mestrado de Educação Física da UNIMEP na linha de pesquisa “Corporeidade e Lazer”. Lazer e esportes na natureza: impactos sócio-ambientais Mirleide Chaar Bahia Tânia Mara Vieira Sampaio O processo de industrialização, típico de sociedades capitalistas, e a supervalorização do progresso técnico-científico vêm cada vez mais cau- sando um distanciamento progressivo e contínuo na relação ser humano- natureza, o que reflete nas práticas cotidianas das pessoas e, mais especi- ficamente, em atividades motoras, esportivas e de lazer relacionadas à natureza. Para Tubino (1994, p. 24), “a impressão que se tem é que esta chamada para assuntos ecológicos tem muita relação com a criação destas modalidades es- portivas ligadas à natureza”. E complementa que até mesmo algumas modalida- des mais antigas, como o montanhismo, surgem rejuvenescidas e com um núme- ro de adeptos cada vez maior. Alguns meios de comunicação veiculam propagandas e programas volta- dos exclusivamente ao incentivo e ao consumo de esportes de ação, de aventura e ligados à natureza. Percebemos a grande e decisiva participação Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    da televisão comofinanciadora de competições esportivas e promotora de profissionalismo que se faz presente atualmente nos ‘esportes radicais’, transformando o espetáculo esportivo em um produto de consumo. (FERNANDES, 1998, p. 103). Segundo Fernandes (1998, p. 96), a maioria das informações existentes acerca do que a autora denomina de “esportes radicais” “limitam-se apenas a tratar de técnicas ou descrições de eventos e competições ocorridas”. É provável que as dificuldades em situar conceitualmente tais termos, causando confusões interpretativas, se devam ao que Parlebás (1987, p.42) cita como “uma prolifera- ção de técnicas, métodos e práticas, cada ano surgindo novas práticas desportivas: wind-surf, asa-delta, bicicross, hockey subaquático”. E acrescenta: “nesta proliferação, a Educação Física se fragmenta até o infinito, é vítima de modas fugitivas e perde toda a unidade”. Muitos eventos se destacam com a perspectiva de colocar em evidência a relação esporte-natureza; em um deles, os “Jogos Mundiais da Natureza”, “a idéia principal é a de que não deve haver esportes “urbanos”, nem esportes do programa olímpico e nem esportes em lugares fechados onde destruiria a idéia da natureza”. As modalidades seguintes são estabelecidas como esportes inte- grantes da primeira edição dos Jogos Mundiais da Natureza: Balonismo, Pára- quedismo, Canoagem de travessia, Rafting, Slalom, Pesca, Vela, Orientação com Arco, Golfe, Escalada, Ciclismo, Hipismo e Triatlon (MARCHI, K. e MARCHI JÚNIOR, 1999, p. 7). Sabe-se, no entanto, que algumas das modalidades descritas acima também são classificadas como esportes radicais, por terem características que Parlebás (1987) descreve como “atividades abertas ou de risco imprevisível”. Em estudos de análise sobre esportes radicais na mídia, Cavalcanti e Dantas (1999) focalizam matérias da Revista Boa Forma, de modo que uma das categorizações feitas seria a de separar as práticas corporais realizadas em ambientes naturais daquelas realizadas em ambientes artificiais. As práticas esportivas realizadas em ambien- tes naturais, muitas vezes por não apresentarem sustentabilidade e respeito ao Meio Ambiente, passam a fazer parte das preocupações atuais, como citam Cavalcanti e Dantas (1999). Esse aumento das práticas corporais em ambientes naturais, porém não significa que o enfoque dado à questão ambiental esteja crescendo de ma- neira totalmente adequada quando a mesma é vista junto a essas práticas. A questão da preservação ambiental não é comumente mencionada, haven- do uma pura e simples utilização do ambiente natural, que se não é preda- tória, tampouco é de precaução quanto aos problemas ambientais (CAVALCANTI e DANTAS, 1999). 322 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    A utilização domeio ambiente para práticas de esportes e lazer requer pensar nos preceitos citados por Boff (1999), centralizando argumentos como o de que cuidar do ser (a natureza dentro-ecologia interior) é também cuidar da natureza (ecologia social e ambiental). Embora diversos e advindos de tradições diferentes, alguns pre- ceitos éticos alimentarão um propósito comum de salvaguardar o planeta e assegurar as condições de desenvolvimento e co- evolução do ser humano rumo a formas cada vez mais coletivas, mais interiorizadas e espiritualizadas de realização da essência humana. (BOFF, 1999, p.27) Para o entendimento dialético sobre ser humano-esporte-lazer-natureza, faz- se necessário compreender conceitos, classificações, categorias, ou seja, es- miuçar as raízes de concepções justapostas e interligadas ao tema, a fim de obter um melhor esclarecimento, não apenas em nível teórico-conceitual, mas também de possíveis impactos que a forma não-sustentável de planejamento e prática desses esportes é capaz de produzir no meio ambiente. METODOLOGIA: A metodologia utilizada foi a bibliográfica, tendo sido efetuada por meio de consultas a livros, revistas, artigos, anais de Encontros/Congressos, sites da internet, entre outros (SEVERINO, 2000). FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA: A perspectiva de uma vida urbana pós-industrial sobrecarregada por as- pectos negativos do desenvolvimento desenfreado dos grandes centros urbanos (poluição sonora, poluição ambiental, espaços de lazer inexistentes ou mal utilizados), tem feito com que uma parcela significativa de pessoas busque uma reaproximação com o meio ambiente através de práticas de lazer na natureza. Figueiredo aponta algumas fases de relacionamento do Turismo com o Meio Ambiente, demonstrando que através desta prática de lazer, houve um afasta- mento e, atualmente, uma reaproximação ser humano-natureza. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Quadro 1: Fasesde Relacionamento do Turismo com o Meio Ambiente 1ª Fase Revelação do Fase pioneira, caracterizou-se pela descoberta da natureza e das comunidades receptoras. Apresenta os Meio Ambiente primeiros equipamentos turísticos e a busca do conhecimento e diversão. 2ª Fase Caracterizada Não havia a preocupação com a proteção do meio ambiente, e foi estimulada a construção de grandes e pelo Turismo audaciosos equipamentos. No entanto, a natureza é Elitista domesticada, mas não sofre impacto muito grande em virtude das limitações das instalações. 3ª Fase Modificação e Corresponde ao turismo de massa e ocorre a partir dos anos 5], com apogeu entre 7] e ]]. A demanda degradação aumenta, há a saturação de locais turísticos, rápida urbanização de áreas não urbanas e litorâneas. Há um domínio brutal do turismo sobre a natureza e as comunidades receptoras. Trata-se de uma fase de excessos, com crescimento desordenado, um período catastrófico para a proteção do meio ambiente. ]ª Fase Reparação e Fase na qual os gestores do turismo passam a considerar os problemas do meio ambiente, com a Reconciliação ocorrência maior do chamado ecoturismo ou turismo ecológico. Baseia-se e apóia-se nos conceitos de desenvolvimento sustentável em voga na sociedade. Fonte: FIGUEIREDO (1999, p. 54). Assim, a crescente expansão de práticas de lazer realizadas na natureza vem ganhando adeptos a cada dia, causando uma preocupação em relação aos pro- cedimentos adotados neste tipo de prática, tanto em relação à utilização do lazer enquanto “mercadoria”, quanto pelo “uso” indiscriminado e mal planejado do meio ambiente natural. Não há como defender um modelo hegemônico baseado em visões andro- cêntricas e antropocêntricas, as quais precisam, urgentemente serem superadas. Assim como não é possível vivenciar um lazer numa ótica consumista e alienada. O estudo aqui proposto se alicerça numa compreensão de lazer, historicamen- te situado, considerando o tempo e a atitude, defendido por Marcellino como: Cultura entendida no seu sentido mais amplo, vivenciada, consumida, ou conhecida no tempo disponível, que requer deter- minadas características como a livre adesão e o prazer, propici- ando condições de descanso, divertimento e desenvolvimento tanto pessoal quanto social. MARCELLINO (2003, p.31) E possui como noção de cultura o entendimento a partir de uma concepção antropológica “num conjunto de modos de fazer, ser, interagir e representar que, produzidos socialmente, envolvem simbolização e, por sua vez, definem o modo pelo qual a vida social se desenvolve” MACEDO (1979, p.35). 324 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Falar de Lazerremete a um campo amplo de possibilidades, as quais DUMAZEDIER(1980) classifica e distingue segundo os interesses1 verificados pelas vivências de lazer, tendo como conteúdos culturais atividades com interesses: artísticos, intelectuais, manuais, sociais e físicos2 . O foco deste estudo tem como referência atividades de caráter físico-esportivo no âmbito do lazer, ca- racterizadas como “esportes de aventura”, as quais acontecem, primordialmen- te, em meio ambiente natural. DUMAZEDIER (1980) também estabelece três dimensões, as quais se apresen- tam como: prático, o conhecimento e a fruição ou assistência propiciada pelo consumo a um espetáculo. Estando estas interligadas ao nível de envolvimento na atividade em questão, podendo estar caracterizados como: elementar (con- formismo), médio (criticidade) e superior (criatividade). A lógica do mercado estabelece um lazer e um esporte impregnados de valores mercadológicos a serem consumidos no tempo disponível (MARCELLINO, 2002) da população, transformando-os em um “lazer-mercadoria” e um “esporte-mer- cadoria”, os quais fazem um “uso instrumental” da natureza. Dentro desta pers- pectiva, é possível apontar algumas características observadas nas práticas de esportes de aventura atualmente. Muito do que é possível perceber, remete à análise de VEBLEN (1965) sobre sua tese defendida na obra “A Teoria da Classe Ociosa”, na qual expõe a característica consumista e ostentatória do lazer, traduzindo-a como “consumo conspícuo”. A forma de obtenção de “status” através da prática de esportes de aventura é comumente detectada através de um “consumismo” de equipamentos esporti- vos específicos de alto valor; a compra de vestimentas específicas e seu uso, mesmo que as mesmas não se destinem à concreta prática do esporte; a compra de automóveis ditos para “ecosport”. O “uso” da natureza também é manifestado de forma a demonstrar “status” quanto à vinculação de termos como: “ecológico”, “ecoturismo”, “turismo eco- lógico”, “turismo sustentável”, às práticas e comportamentos, nem sempre tão comprometidos com tais filosofias. Assim, VEBLEN (1965) ao caracterizar o “ócio conspícuo”, (lazer em busca de “status”) como forma de lazer manifestada por uma classe pecuniária (econômi- ca) mais abastada consegue “flagrar” o consumismo eminentemente caracterís- tico de sua época, bastante presente nos tempos modernos. Compreendendo-se, portanto, as dimensões sociais do esporte e as con- cepções de Dumazedier (1980) acerca dos conteúdos culturais do lazer, é possível situar os esportes de que trata o presente estudo na perspectiva lúdica, de prazer e de lazer, classificados por Tubino (1994) como “esporte- Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    participação ou popular”ou mesmo, como tratam alguns autores, “Esportes de Lazer”3 . Assim, a causa ecológica surge como compreensão humana de que urge uma aproximação dialética com o meio ambiente e uma mudança de postura perante a sociedade, o que vai ao encontro da filosofia defendida por Guattari em seu livro “As três ecologias”. Se não se trata mais – como nos períodos anteriores de luta de classe ou de defesa da “prática do socialismo” – de fazer funcio- nar uma ideologia de maneira unívoca, é concebível em compen- sação que a nova referência “ecosófica” indique linhas de re- composição das praxes humanas nos mais variados domínios (...) (GUATTARI, 1990, p. 15). E complementa: Em todas as escalas individuais e coletivas, naquilo que concerne tanto à vida cotidiana quanto à reinvenção da democracia – no registro do urbanismo, da criação artística, do esporte, etc. – trata-se, a cada vez, de se debruçar sobre o que poderiam ser os dispositivos de produção de subjetividade, indo no sentido de uma re-singularização individual e/ou coletiva, ao invés de ir no sentido de uma usinagem pela mídia, sinônimo de desolação e desespero (GUATTARI, 1990, p. 15). A compreensão da lógica de Guattari sobre uma “ecosofia” tornar-se o vetor para onde todas as práticas devam se dirigir é reforçada quando o autor afirma que se deve somar esforços “na busca de uma reinvenção de maneiras do SER no seio do casal, da família, do contexto urbano, do trabalho, etc.” (1990, p. 16). O esporte mostra que o ser humano tem procurado dar importância a uma relação mais profunda e comprometida com aspectos ecológicos e que tem buscado uma aproximação mais dialética com a natureza por meio da prática de esportes classificados com nomenclaturas diversas: esportes radicais, esportes de ação, esportes de aventura, esportes na natureza, entre outros. A impressão que se tem é que esta chamada para os assuntos ecológicos tem muita relação com a criação destas modalidades esportivas ligadas à natureza. Até mesmo modalidades mais anti- gas, como o montanhismo, parecem rejuvenescidas e o número de adeptos aumenta a cada dia. Estão surgindo também novos esportes, adaptados de outros, mas agora, com a dependência de 326 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    um ambiente natural,como é o caso da corrida de orientação e o “mountain-bike” (TUBINO, 1994, p. 26). Apesar da escassez de estudos sobre essa “nova onda”, algumas experiências já estão sendo sistematizadas4 e o presente estudo pretende colaborar com o enriquecimento de dados na área, com um olhar focado no “local”, apesar de manter a percepção no “global”. Assim, as preocupações com a ação humana em ambientes naturais serão focalizadas mediante o levantamento da quantidade de eventos e grupos diretamente relacionados a este tipo de prática no Estado do Pará, com a elaboração de um mapa, detalhadamente elaborado, capaz de iden- tificar áreas de intenso “uso”. Também são levantados os impactos sócio- ambientais de cada modalidade e alguns procedimentos conscientes , capazes de minimizar tais impactos. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Na perspectiva de compreensão dos valores implícitos nas vivências físico- esportivas realizadas na natureza enquanto conteúdo cultural de lazer, e do entendimento de uma prática ecologicamente sustentável, há urgência na ado- ção de uma postura crítico-criativa em relação a este tipo de lazer, bem como a adoção de atitudes conscientes que possam vir ao encontro de preceitos defen- didos pelo “Desenvolvimento Sustentável” 3 , alicerçados no tripé econômico, ecológico e sócio-cultural. Assim, os estudos acadêmicos devem estar, minimamente, comprometidos com a capacidade de rompimento de uma lógica hegemonicamente voltada ao consumismo e ao conformismo, sendo capazes de denunciar, discutir e apontar alternativas viáveis dentro da área de conhecimento da Educação Física. Desta forma, o presente estudo possuí a intenção de poder contribuir nas discus- sões a respeito da temática, sinalizando interfaces possíveis e caminhos prováveis a uma prática mais consciente e verdadeiramente comprometida com atitudes crítico-criativas dentro da área específica do lazer realizado na natureza. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] NOTAS *Rua Alferes José Caetano 1745-Ed. Saint Paul, aptº 82- Piracicaba-SP-mirla@amazon.com.br/(19)3433-7286 * tsampaio@unimep.br/(19)34241510 5 O interesse deve ser entendido como o “conhecimento que está enraizado na sensibilidade, na cultura vivida” (DUMAZEDIER, 1980, p 36). Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    2 CAMARGO (1992)acrescenta ainda os interesses turísticos. 3 Jurgen Dieckert, em “Esporte de lazer: tarefa e chance para todos”, defende tal nomenclatura. Além do referido autor, Pierre Parlebás, em “Perspectivas para uma educação física moderna”, discute a configuração de uma ciência da ação motriz, destacando os campos de investigação, formação e intervenção, sendo que neste último inclui o “esporte de lazer” (MARCELLINO, 2003, p. 92). Gaya, Campos e Balbinotte (2000, p. 113) também utilizam o termo “Desporto de Lazer”. 4 Ver a obra “Juventude, lazer e esportes radicais” de Ricardo Uvinha, e a tese de doutorado da profª Vera Lúcia de Menezes Costa: “Esportes de aventura e risco na montanha: uma trajetória de jogo com limites e incertezas”; Heloísa Turini Bruhs, em suas obras, tem abordado temáticas de meio ambiente e lazer. 328 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2004 Publicação original: artigo em periódico nacional Formato da contribuição: texto resumido Fonte: Revista Motrivivência no 22, publicada pela Editora da UFSC (Florianópolis - SC), em junho de 2004. E-mail do(s) autor(es): sandovalvillaverde@hotmail.com Títulos acadêmicos principais atuais: Mestre e Doutor em Educação Física/Estudos do Lazer (UNICAMP), docente da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte e membro do GTT Recreação/Lazer do Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte. Subjetividade, amizade e montanhismo: potencialidades das experiências de lazer e aventura na natureza Sandoval Villaverde Monteiro Como explicar a profusão de formas de sociabili- dade que acompanham o choque da modernidade? [...] As solidariedades e grupos que emergem de- pois de dois séculos de modernidade já não estão unidos pelos laços arcaicos ou ideológicos. Pro- curam uma existência própria. Compõem-se, de- compõem-se e recompõem-se, num movimento incessantemente inacabado... Duvignaud (2000) A intenção deste texto é partilhar algumas considerações sobre os temas anunciados em seu título, tomando como referência estudos em nível de douto- rado1 . O objetivo principal consiste em problematizar as práticas corporais vivenciadas como lazer e aventura em ambientes naturais, especialmente bus- cando pensá-las no contexto das formas contemporâneas de sociabilidade e processos de subjetivação, indagando sobre os liames sociais suscitados a partir da relação com tais práticas. As práticas enfocadas foram àquelas vinculadas ao montanhismo (escalada em rocha, caminhadas em trilhas, etc.) Tratou-se de Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    abordar alguns aspectosrelevantes destas experiências lúdicas e de sua vivência pelos indivíduos, relacionando-os a processos contemporâneos de subjetivação e formas de sociabilidade, especialmente considerando as relações de amizade. Num primeiro momento o texto busca acercar-se da questão central colocada para o estudo, apontando alguns aspectos que demonstram a relevância e a atualidade da discussão sobre subjetividade e formas de sociabilidade, especial- mente considerando as relações de amizade. Esta discussão é aproximada so- bretudo ao contexto das práticas corporais de aventura na natureza, de forma especial as práticas relacionadas ao montanhismo. Num segundo momento são apresentados os procedimentos metodológicos adotados para o estudo, buscando oferecer alguns elementos da abordagem etnográfica que perpassou todo o processo da pesquisa. Aqui também são des- tacados os principais aspectos que marcaram minha aproximação e convivência com os grupos estudados. Por fim, são destacados os principais aspectos suscitados pela pesquisa. Estes aspectos estão estreitamente relacionados à questão central colocada para o estudo e são provenientes tanto do referencial teórico adotado quanto dos dados coletados com a pesquisa de campo. CERCANDO A QUESTÃO NORTEADORA DO ESTUDO Alguns indícios dão conta de demonstrar a relevância da problematização da subjetividade e das formas de sociabilidade, especialmente considerando o mo- mento contemporâneo, farto em mutações de variados tipos e na profusão de cenários inusitados. Como vem sendo largamente discutido por significativos segmentos da produção teórica contemporânea, temos testemunhado impor- tantes transformações na vida humana nos últimos séculos, as quais se intensi- ficaram ainda mais nas últimas décadas, desencadeando novas e complexas configurações na relação dos indivíduos consigo próprio, com os outros e com a natureza. De acordo com boa parte das vertentes de análise da contemporaneidade, é a partir das décadas de sessenta e setenta que são percebidas de forma mais enfática uma série de transformações culturais, tecnológicas, econômicas e ideológicas, atingindo de forma desigual as sociedades e expressando-se de forma mais vigorosa nas sociedades economicamente mais avançadas. Essas transformações inauguram a gradual passagem de uma sociedade industrial a uma sociedade de serviços, assim como desencadeia mutações de variados tipos, com conseqüências sem precedentes seja na esfera do trabalho ou do não-trabalho, seja na experiência do tempo e do espaço. 330 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Os novos cenáriosproduzidos por tais mudanças apontam também, e inevita- velmente, para novas experiências do sujeito, abrindo um espaço fecundo para a contemporânea tematização da problemática da subjetividade2 , especialmente considerando autores como Giddens (1991, 1993, 1997, 2002), Beck (1997), Lash (1997), Foucault (1985, 1994a, 1994b, 1998), Ortega (1997, 1998, 1999, 2000, 2002), Guattari e Rolnik (1986), Rolnik (1997a, 1997b), entre outros. Emerge, dessa forma, todo um cenário de questionamentos sobre os modos contemporâ- neos de subjetivação, incluindo a problematização da amizade, entendida como forma de subjetivação coletiva. Tais questionamentos versam sobre como nos aproximarmos de nossa experiência de sujeito, de relacionamento com os ou- tros e conosco mesmos. Como discute Giddens (2002), as transformações que conhecem seu ápice no atual estágio da modernidade não encontram precedentes na história das socie- dades. Dado o extremo dinamismo da modernidade, especialmente em sua fase atual, estas transformações não somente alteram radicalmente a vida social cotidiana, mas também afetam os aspectos mais pessoais e íntimos da existência humana. Este contexto de mudanças, demonstra o autor, abre espaço para toda uma reconfiguração nos modos de autoconstituição dos sujeitos, assim como na forma e dinâmica dos relacionamentos interpessoais contemporâneos. Os processos atuais de modernização e individuação característicos do mo- mento contemporâneo, de acordo com Beck (1997), levam a uma reconfiguração e a um deslocamento das formas sociais historicamente prescritas, tais como a família, o matrimônio e o trabalho, abrindo espaço para a experimentação de novos vínculos. Como conseqüência dessas tendências de desprendimento e individualização3 , o indivíduo teria a possibilidade de escolher entre uma rede de relações sociais, da qual ele mesmo tende a ser o próprio arquiteto, possibilitan- do a experimentação de diferentes formas de existência e laços de sociabilidade. Embora não compartilhe do mesmo otimismo de Beck, Rolnik (1997a, p. 19) aponta também um quadro de mudanças, afirmando que as subjetividades con- temporâneas, independente da sua morada, tendem a ser povoadas por uma profusão cambiante de universos, uma “mestiçagem de forças”, as quais delinei- am “cartografias mutáveis” e colocam em cheque seus contornos habituais. Isto ocorre numa realidade onde a globalização da economia e os avanços tecnológicos, especialmente a mídia eletrônica, aproximam universos das mais variadas espécies em qualquer parte do mundo, numa variabilidade e numa densificação cada vez maiores. É neste contexto mais amplo de discussão que se insere a reflexão sobre a experiência de lazer, especialmente as práticas de aventura na natureza. No mundo contemporâneo - marcado pelo dinamismo da reflexividade e das trans- formações no tempo e no espaço, pelo fulcro da informação/comunicação e pela importante interconexão entre sistemas globais e o próprio sujeito - não é Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    de admirar queo fenômeno do lazer apresente uma incontestável visibilidade. Tal cenário apresenta para a vida humana inúmeras contradições e tipos de opressão, muito embora, paradoxalmente, possibilita novos espaços de contrapontos e reapropriação. Isto parece fazer da vida cotidiana, e consequentemente da vivência do lazer, um campo de experiências e ações humanas tanto rico quanto ambivalente. Sem querer voltar a considerações conceituais já feitas em outra ocasião (Villaverde, 2003), preciso somente lembrar que associo a experiência do lazer à vivência, produção e reelaboração de cultura, num espaço-tempo conquistado pelos sujeitos às imposições da vida no mundo, visando o pleno exercício da humanidade, especialmente em suas expressões de liberdade e ludicidade. Exer- cício este não constituindo-se num essencialismo abstrato, mas aproximando- se dos processos de singularização, tal como os entende Guattari (1986), nos quais o que se busca é a afirmação de outras maneiras de ser, outras percepções e sensibilidades. É neste sentido que considero possível entender o lazer, particularmente as práticas corporais vivenciadas na natureza, como campo de experiências huma- nas privilegiadas junto aos processos de constituição de subjetividades, já que, ao potencializar os aspectos anteriormente destacados, oferece uma rica possi- bilidade de exercitar e intensificar uma relação renovada consigo próprio, com a cultura e com a alteridade, aí incluídos os outros seres humanos e os demais seres e elementos do planeta. Nesta direção, Bruhns (1997) argumenta que as experiências íntimas na relação corpo-natureza no âmbito do lazer, expressam em algumas situações uma busca de reconhecimento do espaço que este corpo ocupa em sua relação com o mundo. Estas experiências, acredita a autora, podem expressar ainda um questionamento e uma revisão de valores, assim como um encontro muito par- ticular do ser humano consigo próprio. Estas asserções sobre as potencialidades da experiência do lazer são particu- larmente férteis e próximas aos argumentos deste estudo. Nela está mais ou menos expresso que, em algumas situações e contextos, as experiências de lazer na natureza podem traduzir-se em um exercício reflexivo do sujeito sobre si próprio e sobre a vida no mundo. Dela pode-se apreender ainda que este exercí- cio potencializa uma relação diferenciada do sujeito com o próprio corpo e com a natureza, a qual pode traduzir-se numa revisão de valores e num particular encontro do sujeito consigo mesmo e com a alteridade. Minha vivência pessoal com escaladores e minha própria relação com a práti- ca da escalada em rocha, por exemplo, permitem considerá-la bastante expres- siva em termos de estreitamento de laços interpessoais. A forma de sociabilida- de exercitada no contexto de tais práticas é bastante intensa, pois a relação que 332 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    se estabelece entreguia (escalador que se coloca à frente no trajeto a ser feito na rocha) e participante (escalador ou escaladores que seguem o mesmo trajeto feito pelo guia após a chegada deste num determinado lugar da parede de rocha) implica confiança, comunicação, incitação recíproca e entendimento mútuos, a fim de evitar acidentes e fazer com sucesso o trajeto pretendido. Trata-se de cuidar de si e do outro na emoção de uma aventura compartilhada, onde os movimentos de troca do corpo com o ambiente tendem a ser, a um só tempo, suaves e intensos. Nesta prática corporal específica ligada ao montanhismo, especialmente sen- do ela vivenciada como lazer, o que parece estar em jogo é uma composição, de preferência sensível e criativa, do praticante com os obstáculos, com as possi- bilidades oferecidas ao corpo pela rocha (em suas agarras, fendas, fissuras, etc.), com os equipamentos utilizados (cordas, fitas, mosquetões, etc.) e com quem o acompanha nesta aventura em sentido vertical. Mas é preciso ter presente também, sem dúvida, as contradições e paradoxos presente no contexto das práticas de lazer e aventura na natureza como um todo. Estas têm sido, de forma geral, fortemente incorporadas pelo mercado esportivo e/ou turístico, este último especialmente em sua versão “ecológica” ou “de aventura”, passando assim, a despeito de suas potencialidades e do dis- curso ecológico que as sustentam, a reproduzir acriticamente a lógica do consu- mo de massa, do espetáculo esportivo e da indústria do entretenimento, sobre- tudo nesta fase da modernidade. Deve ser considerada especialmente a lógica utilitarista e mercantil de instrumentalização da natureza, adotada muitas vezes nas práticas etiquetadas como “ecoturísticas” e também pelo trade turístico que as promovem e comercializam. A facilidade com que esta lógica pode aparecer disseminada nos indivíduos e grupos que participam desses pacotes “esverdeados” podem, em boa parte dos casos, ser um fator de empobrecimento de suas potencialidades de reflexão, crítica e criatividade. Ainda assim, a existência das diversas contradições e paradoxos vinculados a essas práticas em sua incorporação pelo mercado, seja ele turístico ou esporti- vo, não deve invalidar o esforço de tentar perceber o que elas trazem de renova- do e potencialmente transformador na relação do indivíduo consigo próprio e com a alteridade. Talvez seja possível, a partir do conhecimento de tais potencialidades, buscar com mais propriedade o exercício de condutas éticas renovadas e também a formulação de estratégias de resistências tanto micro como macro-políticas. O quadro brevemente esboçado até aqui, certamente merecedor de aprofundamentos e considerações várias, já permite que seja apontada a indaga- ção central que mobilizou o esforço reflexivo do estudo, assim como uma supo- sição para uma eventual resposta. A indagação: Em que medida é possível perce- ber na vivência coletiva de práticas corporais de lazer e aventura na natureza, Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    especialmente aquelas relacionadasà montanha (caminhada, escalada, etc.), potencialidades para o exercício de novos processos de subjetivação e novas formas de sociabilidade, especialmente considerando as relações de amizade? A aposta: O envolvimento com estas práticas coletivas de lazer pode configurar- se como uma experiência existencial fértil para o exercício de uma relação renovada do sujeito consigo mesmo, com o outro e com a natureza, tornando possível a busca por processos renovados de subjetivação coletiva, podendo resultar em formas de amizade mais livres, criativas e solidárias. O PERCURSO METODOLÓGICO: UM OLHAR ETNOGRÁFICO Com estes marcos de problematização e apostas, busquei num primeiro momento, empregar uma metodologia baseada fundamentalmente na leitura e análise de textos que tratam da temática proposta. Neste caso, pretendi-me em diálogo com a perspectiva teórica dos autores chamados a fundamentar este estudo. No entanto, parafraseando o antropólogo Clifford Geertz, ainda não me sinto à vontade em afastar-me muito das imediações da vida social, o que me fez inevitavelmente buscar uma referência empírica no contexto das referidas práti- cas corporais, a qual pudesse oferecer sustentação aos argumentos desenvolvi- dos. Neste sentido, os dados coletados da pesquisa de campo são resultantes de observações e entrevistas com alguns adeptos de práticas corporais de lazer e aventura na natureza, nomeadamente atividades ligadas ao montanhismo (cami- nhada, escalada em rocha, etc.), na cidade do Rio de Janeiro. Para esta pesquisa de campo adotei um procedimento predominantemente etnográfico na observa- ção da realidade investigada e penso que meu convívio com o cotidiano dos grupos e sujeitos pesquisados tenha sido bastante elucidativo. Tal experiência foi certamente vivida de forma bastante intensa. Impelido por esta aproximação etnográfica, procurei guiar-me munido especi- almente da perspectiva antropológica inaugurada por Clifford Geertz. A análise cultural proposta por Geertz (1989, p. 38) postula um abordagem semiótica da cultura, isto é, o entendimento da cultura como um sistema de símbolos, os quais podem ser lidos como um texto. O entendimento semiótico da cultura, evocado pelo autor, ecoando Max Weber, pressupõe entender os sujeitos como estando amarrado a teias de significado, as quais são tecidas por estes mesmos sujeitos. Geertz (1989, p. 24) assume o conceito de cultura como sendo exatamente estas teias e a sua análise. Neste sentido, ela se refere não à uma ciência expe- rimental à procura de leis, mas antes a uma ciência interpretativa, à procura do significado. Como sistema entrelaçado de símbolos interpretáveis, “a cultura não é um poder, algo ao qual podem ser atribuídos casualmente os acontecimen- tos sociais, os comportamentos, as instituições ou os processos; ela é antes um 334 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    contexto, algo dentrodo qual eles podem ser descritos de forma inteligível, isto é descritos com densidade”. Para Geertz (1989), fazer etnografia não é somente estabelecer relações, se- lecionar informantes, transcrever textos, levantar genealogias, mapear campos, manter um diário, e assim por diante. Não são as técnicas, as coisas e os proces- sos determinados que definem o empreendimento etnográfico, mas o tipo de esforço intelectual que ele representa: o risco elaborado de uma “descrição densa”, expressão que o autor pede emprestado a Gilbert Ryle. A dupla tarefa da análise cultural, de acordo com Geertz, é perseguir a compre- ensão das estruturas conceituais que os atos dos sujeitos informam, isto é, o “dito” no discurso social, além de construir um sistema de análise em cujos termos o que aparece como genérico a essas estruturas se destaca contra outros determinantes provindos do comportamento humano. O esforço teórico, em etnografia, é o de fornecer um vocabulário no qual possa tomar expressão o que o ato simbólico tem a dizer sobre ele mesmo e sobre o papel da cultura na vida humana. O esforço etnográfico da análise cultural, portanto, é o de “tirar grandes conclusões a partir de fatos pequenos, mas densamente entrelaçados; apoiar amplas afirmativas so- bre o papel da cultura na construção da vida coletiva empenhando-as exatamente em especificações complexas” (Geertz, 1989, p. 38). Mas a antropologia interpretativa, ainda segundo o autor, é uma ciência na qual o progresso se dá menos por uma perfeição de consenso do que por um refinamento do debate. Neste contexto, “a análise cultural é intrinsecamente incompleta e, o que é pior, quanto mais profunda, menos completa. É uma ciên- cia estranha, cujas afirmativas mais marcantes são as que têm a base mais trêmu- la, na qual chegar a qualquer lugar com um assunto enfocado é intensificar a suspeita, a sua própria e a dos outros, de que você não o está encarando de maneira correta” (Geertz, 1989, p. 39). Pretendendo atender aos propósitos do estudo, estive inserido na realidade cotidiana de dois grupos envolvidos com a prática de atividades ligadas ao montanhismo, tentando apreendê-la no fluxo do acontecer, buscando ainda os depoimentos dos próprios sujeitos que compõem estes grupos e que vivenciam estas atividades. Seguindo as orientações geertizianas, pude estabelecer um convívio pessoal com alguns desses sujeitos e com as própria dinâmica de tais grupos, nas quais as observações sistemáticas, as anotações no caderno de campo, as fotografias e a própria vivência das atividades foram uma constante. Num certo sentido, passei a “viver na situação em estudo”, utilizando, além dos recursos de registro já comentados, “a introspecção e auto-análise como for- mas adicionais de observação” (Abramo, 1979, p. 40). Os grupos investigados são constituídos por praticantes de atividades corpo- rais de aventura na natureza, mais especificamente ligadas ao montanhismo, Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    vinculados ao Grupode Caminhada Alternativa de Vida e ao Centro Excursionista Rio de Janeiro. O trabalho de campo propriamente dito, em sua fase de observa- ções, teve início no mês de julho de 2001, com a minha participação na primeira atividade de caminhada pelas montanhas do Rio de Janeiro, junto ao Grupo de Caminhada Alternativa de Vida - GCAV. A partir do convívio com este grupo é que pude estabelecer contatos com o Centro Excursionista Rio de Janeiro – CERJ, com o qual viria a ter uma convivência ainda mais prolongada. Tomei conhecimento da existência do GCAV de forma bastante casual, por ocasião da participação em um congresso no âmbito de discussões sobre lazer, no qual era apresentado um trabalho cuja discussão central se dava a partir da experiência daquele grupo. A partir daí vieram os contatos e a participação em algumas de suas atividades. Foi a partir do contato com um dos membros do GCAV que tomei conhecimento e pude me aproximar do CERJ. Uma maneira que encontrei de estabelecer uma relação mais estreita com o CERJ, de forma a participar de sua dinâmica e conhecer melhor seus membros, foi me inscrever num curso básico de montanhismo por ele oferecido, o qual se estenderia pelos meses de setembro a novembro de 2001 e que mobilizaria significativa parte de seus associados. A inscrição no curso tornava-me automa- ticamente um associado do CERJ, o que me permitia uma participação mais efe- tiva da vida social do grupo. Esta foi uma maneira extremamente oportuna para oferecer um rigor a mais no que se refere ao caráter “participante” da minha observação. Dessa forma pude me inteirar da dinâmica do clube, conhecer e observar muitos dos seus membros antigos, assim como um grupo de quinze pessoas que, como eu, passavam a ser novos membros do CERJ e iniciantes na prática do montanhismo. A fase mais intensa de observação dos sujeitos e participação nas atividades dos grupos, especialmente o CERJ, aconteceu entre os meses de setembro e novembro de 2001, quando pude experimentar vivências como reuniões sociais, caminhadas leves e pesadas, escaladas em rocha de variados graus de dificuldade, acampa- mentos e outros encontros. Após esse período, o contato com os grupos continu- aram, passando os encontros a acontecer de forma menos intensificada. Num segundo momento da pesquisa de campo, entre os meses de março e abril do ano de 2002, retomei o contato mais efetivo com o CERJ e com alguns mem- bros do GCAV, de forma a escolher um pequeno grupo para a realização de entrevistas semi-estruturadas, cujo roteiro buscou enfocar direta ou tangencialmente os temas do estudo. Os entrevistados foram escolhidos entre membros antigos e mais novos, totalizando um número de dez pessoas. Já próximo do nono entrevistado, as 336 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    entrevistas começaram aapresentar uma certa saturação nos dados informados, o que me fez optar por considerar apenas estas dez entrevistas. Os membros do GCAV foram entrevistados em setembro de 2001, enquanto que as entrevistas com os membros do CERJ foram realizados durante o mês de abril de 2002. Em relação aos critérios para escolha dos entrevistados, destaca-se o grau de envolvimento dos mesmos com as atividades, além da disponibilidade para par- ticipar das entrevistas. ALGUNS ASPECTOS SUSCITADOS COM A PESQUISA Gostaria aqui de traçar algumas breves considerações, numa tentativa de sín- tese dos principais aspectos suscitados com a pesquisa. Tais aspectos são pro- venientes tanto do referencial teórico do estudo quanto da vida cotidiana dos sujeitos da pesquisa, especialmente no contexto dos grupos investigados. Uma primeira consideração diz respeito à singularidade destes grupos. Como demonstrou o estudo, O GCAV assume desde o início de sua criação a busca por uma forma inovada de organização, sobretudo marcada pela não-diretividade de suas ações. Trata-se de um agrupamento de pessoas cujo único elo a manter sua coesão, além de seu site na Internet, é a afinidade pela prática de caminhadas nas montanhas e florestas do Rio de Janeiro. São pessoas de variadas idades, segmentos sociais e estilos pessoais de com- portamento, articuladas em torno de ações descentralizadas. Estas característi- cas do GCAV, evidenciando um assumido traço anárquico (o próprio símbolo do grupo é um “A” estilizado, o qual simboliza o Movimento Anarquista) em sua dinâmica de constituição, conferem ao grupo uma peculiaridade poucas vezes encontrada em associações ou grupos voltados à promoção de atividades de lazer ou esporte de aventura na natureza. Não me parece exagerado enxergar no GCAV um exemplo de fuga a uma certa padronização no âmbito de grupos com tais finalidades. Neste sentido, este grupo tende a escapar da referência identitária geralmente atribuída a grupos deste tipo, não deixando-se capturar num certo “estilo radical” de comportamento e de consumo. Alguns indicativos autorizam afirmar mais ou menos o mesmo em rela- ção ao CERJ. Embora tenha outras características de criação e dinâmica, mais institucionalizadas e voltada a traços mais “tradicionais” do montanhismo, o CERJ, ainda assim, assume características que o afastam também de tais referên- cias voltadas aos modismos do mundo dos “esportes radicais” e a práticas etiquetadas como “ecoturísticas”. Tanto o GCAV como o CERJ estão desvinculados de qualquer perspectiva empre- sarial e de qualquer fim lucrativo em suas atividades. Isto significa que eles tendem Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    a não tratare não promover suas práticas como meras mercadorias, o que os colocam numa perspectiva diferenciada no trato com suas atividades e ações. Os próprios sujeitos que coordenam as atividades desses grupos tendem a vivenciá- las como lazer, como algo que tem um fim em si mesmo, sem nenhum fim mercadológico ou grandes apelos ao consumo de modismos. Diante de tais pecu- liaridades, tanto no contexto do CERJ como no do GCAV vislumbra-se outras pos- sibilidades de estilos de vida e de compartilhamento de experiências, de relações de amizade e de relação com a natureza. Estes aspectos apontam, já de saída, elementos de diferenciação e abertura para uma outra forma de vivenciar aquelas práticas corporais de lazer e aventura na natureza, assim como se constituem em espaços férteis para o exercício de novas formas de ser e se relacionar. Os entrevistados apontam algumas nuanças importantes na experiência com estas práticas corporais de lazer e aventura, comparando-as às modalidades esportivas mais tradicionais. O principal componente apontado diz respeito à mudança de perspectiva na ação do sujeito, uma vez que no lugar da competição e da disputa (comum nas modalidades esportivas convencionais) entra o com- ponente da solidariedade e da parceria com o outro. Como demonstrou a observação dos grupos e alguns dos depoimentos coletados, o aspecto da competição, quando existe, não inclui necessariamente a busca pela superação do outro, mas a superação dos próprios limites e medos ao enfrentar os riscos tão presentes nas práticas do montanhismo. Nestas práti- cas, as quais são vivenciadas como lazer pelo grupo, foi possível perceber uma clara ausência de comparação de performances corporais, assim como o não estabelecimento de regras rígidas. Acima de tudo, no contexto das práticas corporais aqui estudadas, não está em jogo um confronto com o outro ou com a natureza, uma necessidade impe- riosa de rendimento, obediência a regras fixas e à rigidez do tempo, ou ainda de obter do corpo uma performance que esteja desvinculada do prazer e da harmo- nia com o ambiente onde se realiza. Neste sentido, há uma relação mais contratual do que de domínio ou controle em relação à natureza, algo bem próximo do que discute Coelho dos Santos (1997). Para este autor, verificam-se consideráveis diferenças entre as “práticas hard” (modalidades atléticas do esporte formal) e as “práticas soft” (novas modalidades de aventura na natureza), especialmente no que se refere à relação do praticante com o próprio corpo e com a natureza. Nas práticas corporais enfocadas neste estudo há uma certa intencionalidade de interação dos sujeitos com os elementos do mundo natural, onde o desempe- nho parece muito mais guiado pela habilidade e beleza dos gestos do que neces- sariamente pela sua funcionalidade, mais pelo prazer na busca de novas sensa- ções do que por sua utilidade. Estes aspectos parecem sugerir que o envolvimento com tais práticas convida a novas ações e a uma forma diferenciada de relação do sujeito com o próprio corpo e com a natureza. 338 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Estes aspectos podemser aproximados também às formulações de Sant’Anna (1999, p. 90), nas quais a “ação em curso” é discutida no âmbito das “relações de composição”. Numa “ação em curso” já não é possível separar o sujeito que pensa e reflete do sujeito que age, assim como coincidem reflexão e vida corpórea. Por não se colocar fora da relação, o sujeito torna-se ao mesmo tempo pensa- mento e ação: “a meta final coincide com o processo”. A vida cotidiana no contexto pesquisado parece dar lugar a formas parti- culares de constituição de subjetividades e de relações interpessoais, arti- culadas sobretudo pelo envolvimento com as práticas corporais de lazer ligadas ao montanhismo. A vivência coletiva destas práticas são associa- das sobretudo a momentos de intensificação da relação do sujeito consigo próprio e com a alteridade, aí incluídos a natureza e os outros sujeitos que compartilham tais momentos. Esta intensificação da relação consigo próprio na relação com o outro não deixa de ser marcada pelo fulcro da reflexividade, pois, como sugerem os discursos dos sujeitos, ali também se busca um certo questionamento de si mesmo, uma mudanças de valores, outras maneiras de ser e de se relacionar com o outro e com a vida. Estes sujeitos, como poderia sugerir Beck (1997), tendem a se constituir numa interação discursiva bastante aberta, a qual não deixa de apresentar sua complexidade. Eles parecem buscar não somente uma mudança de valores, mas também apontam mesmo para uma certa reinvenção do social. Esta interação oferece um caráter peculiar às relações interpessoais vivenciadas a partir do convívio no grupo, especialmente no âmbito do CERJ. Os laços de sociabilidade criados e mantidos a partir do envolvimento com aquelas práticas corporais de lazer e aventura na natureza, giram em torno do que estas práticas representam e do prazer que elas podem proporcionar. Nesta perspectiva, embo- ra talvez não se possa falar estritamente aqui de “relacionamentos puros” no sentido de Giddens (2002), tais liames sociais aproximam-se de tal noção uma vez que não se fundamentam em nenhuma âncora externa (não estão baseadas em outras condições externas da vida social e econômica, por exemplo) além de uma afinidade comum por atividades ligadas ao montanhismo. A amizade com o outro é acima de tudo uma aproximação de crenças e valores, e os sentimentos de proximidade revelam interesses e significações comuns na vivência de práticas de lazer. É também neste sentido que elas são tidas como diferenciadas em relação a relações de amizade suscitadas, por exemplo, no ambiente de trabalho ou a partir dos vínculos mais próximos ao círculo familiar. Trata-se de tipos de relacionamentos menos institucionalizados e burocratizados, uma vez que, em certa medida, tendem a fugir da rigidez dos vínculos orgânicos tradicionais, quer eles sejam vinculados ao trabalho, a reli- gião ou façam referência às metáforas familiares. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Como foi possívelconstatar no discurso de alguns entrevistados, as relações de amizades suscitadas neste contexto tendem a ser cultivadas e bastante valo- rizadas, pois oferecem amparo sobretudo pela intensidade e emoção que é com- partilhada nas experiências singulares de lazer vividas na montanha. Por outro lado, elas tendem algumas vezes a extrapolar o espaço mais restrito do grupo e a compor a vida cotidiana e o estilo daquelas pessoas, criando novas redes de relações, muito embora a referência comum mais forte seja vivência conjunta das práticas ligadas ao montanhismo. Se estes laços de sociabilidade algumas vezes “perdem” em duração ou freqüên- cia, eles ganham em intensidade, pois as experiências vividas são dotadas de expressiva significação para os sujeitos que a vivenciam. Elas permitem uma forma de amizade aberta, na qual é exercitada uma relação de confiança e compromisso com o outro, resultando em momentos singulares de emoções e desafios compar- tilhados. Mesmo que ainda não enxerguemos em agrupamentos como o GCAV e como o CERJ exemplos de “comunidades reflexivas” pautadas em significações partilhadas, apontadas por Lash (1997) como uma tendência nesta fase da modernidade, estes grupos parecem compartilhar emoções pautadas não só por um forte apelo estético, mas também por um certo compromisso ético com a natureza. Um exercício ético-estético talvez, especialmente entendendo a estéti- ca no sentido de emoção compartilhada, tal como discute Maffesoli (1996). Na ótica deste autor, presencia-se na contemporaneidade o surgimento de novos vínculos, surgidos a partir do partilhar de experiências e sentimentos comuns, estabelecendo conexões entre a ética e a estética. Para Maffesoli (1998, p. 20), assiste-se no presente a elaboração de uma aura estética, onde poderão ser encontrados os elementos que remetem à “pulsão comunitária”, à pulsão do “estar junto”, a qual explicaria a multiplicação e efervescência de pequenos grupos (espécie de “tribalismo”) de redes existenciais. O componente de reflexividade parece ser evidenciado nas experiências vivenciadas no contexto dos grupos investigados, já que a relação com o outro (e também com a natureza) é encarada como uma oportunidade de aprendiza- gem e de questionamento de si mesmo. Dessa maneira, se há sentido em falar do sujeito como um “projeto reflexivo” (Giddens, 2002) na modernidade tardia, este projeto parece incluir formas de subjetivação coletiva, formas de se constituir como sujeito na relação com o outro. No contexto pesquisado, estas relações apresentam-se fortemente pautadas por sentimentos de solidariedade, mas são também recortadas por uma incitação recíproca peculiar, por um desafio mútuo dos sujeitos na vivência das práticas vinculadas ao montanhismo. Diante de tais asserções, seria possível aproximar estes liames sociais às for- mas de relacionamento sobre as quais refletem Foucault (1994a) e Ortega (1999, 2000, 2002). Ao se debruçar sobre a antiga estética da existência, Michel Foucault procura a reabilitação da práxis ascética (ascese no sentido de auto-elabora- 340 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    ção) da Antigüidade,na qual, através de um minucioso trabalho de elaboração de si mesmo, os antigos buscavam fazer de suas vidas uma obra de arte. O apelo foucaultiano por uma forma de vida que atenda a certos critérios éticos e de estilo (a vida como uma “obra de arte”), marcada por uma experimentação intensa na relação do sujeito consigo mesmo e com o outro, nos remete a instigantes reflexões. Foucault (1998) se refere assim a essas “artes da existência”, essas “técnicas de si”, tão expressivas na cultura greco-romana: Deve-se entender com isso, práticas refletidas e voluntárias atra- vés das quais os homens não somente se fixam regras de conduta, como também procuram se transformar, modificar-se em seu ser singular e fazer de sua vida uma obra que seja portadora de certos valores estéticos e responda a certos critérios de estilo. Essas ‘artes da existência’, essas ‘técnicas de si’, perderam, sem dúvida, uma certa parte de sua importância e de sua autonomia quando, com o cristianismo, foram integradas no exercício de um poder pastoral e, mais tarde, em práticas de tipo educativo, médico ou psicológico (p. 15). A vontade de ser um sujeito moral na Antigüidade, e a respectiva estética da existência, como discute Foucault (1994b), era sobretudo um esforço de afirma- ção da própria liberdade. A despeito de normas de comportamento que não deixavam de ancorar a conduta de cada um, esta afirmação da liberdade do sujeito moral estava combinada ao compromisso em dar à sua própria vida, uma forma na qual fosse possível o seu reconhecimento por outros e onde a própria posteridade pudesse tê-la como exemplo. Nas palavras de Foucault (1994b, p. 731), a “elaboração da própria vida como uma obra de arte pessoal, ainda que obedecendo a certos cânones coletivos, estava no centro, me parece, da expe- riência moral, da vontade moral da Antigüidade...”. Os dois últimos volumes da História da Sexualidade, O Uso dos Prazeres e O Cuidado de Si, constituem-se em investigações históricas sobre a ética sexual antiga e a arte de viver entre gregos e romanos. Nestes livros Foucault parece não fazer uma passagem clara para a atualidade, mas, juntamente com os cha- mados “textos menores” (artigos, entrevistas, palestras) do autor, eles oferecem importantes pistas para uma possível atualização da antiga estética da existên- cia através da amizade. Mesmo considerando o contexto de discussão sobre a homossexualidade, as respostas foucaultianas apontam para um novo e importante interesse pela ami- zade: “...não se entra simplesmente na relação para poder chegar à consumação sexual, o que se faz muito facilmente; mas aquilo para o que as pessoas são polarizadas é a amizade” (Foucault, 1994a, p. 163). Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Seguindo as pistasdeixadas por Foucault, o filósofo Francisco Ortega busca desenvolver uma espécie de ontologia da amizade, buscando realçar a dimensão agonística e inter-subjetiva do cuidado de si. Elemento de ligação entre a elabo- ração individual e a subjetivação coletiva, a amizade é um convite à experimen- tação de novos estilos de vida e comunidade, a qual, reabilitada, pode introduzir movimento e fantasia nas rígidas e normatizadas relações sociais, além de pro- porcionar uma possibilidade de pensar e repensar as limitadas e empobrecidas formas de relacionamento existentes em nossa sociedade (Ortega, 1999). Em contrapartida às análises sociológicas, as reflexões foucaultianas sobre o tema da amizade busca nela sobretudo um componente transgressivo. Em Foucault, segundo Ortega (1999, p. 157), a amizade “não é vista como uma forma de relação e de comunicação além das relações de poder; representa antes um jogo agonístico e estratégico, que consiste em agir com a mínima quantidade de domínio. Falar de amizade é falar de multiplicidade, intensidade, experimenta- ção, desterritorialização”. Se Falar de amizade em Foucault é falar de multiplicidade, intensidade, expe- rimentação e desterritorialização, pode-se também afirmar que as relações de amizade vividas no contexto dos grupos pesquisados tendem a ser marcadas pela experimentação e intensidade no âmbito das práticas corporais de lazer e aventura na natureza. Tais relações de amizade apresentam-se como um tipo de relacionamento tanto intenso quanto móvel (a mobilidade desterritorializante de relações no contexto do GCAV é disso um exemplo!), não se pautando neces- sariamente na igualdade e na concordância, mas num desafio mútuo, num compartilhamento de experiências de liberdade e de risco capazes de transfor- mar os parceiros envolvidos. O amigo não é uma adesão incondicional, mas alguém com quem se constrói relações de confiança e desafios recíprocos (es- pecialmente no contexto do CERJ), num processo que inclui autotransformação e aperfeiçoamento. Diante destas considerações, seria possível, a propósito da indagação inicial do estudo, sustentar o argumento sob o qual o envolvimento com estas práticas coletivas de lazer e aventura na natureza podem, em algumas situações, ser entendidas como experiências existenciais férteis para o exercício de uma rela- ção renovada do sujeito consigo mesmo, com o outro e com a natureza. Este exercício faculta aos sujeitos envolvidos a possibilidade de vivenciar processos renovados de subjetivação coletiva, podendo resultar em formas de amizade mais solidárias, livres e criativas. Estas considerações obviamente levam em conta o contexto bastante restrito a partir do qual são formuladas, basicamente envolvendo apenas dois grupos relacionados com práticas corporais no âmbito do montanhismo. De qualquer modo, não há aqui nenhuma grande pretensão generalizante em relação aos dados e os argumentos apresentados. É possível que talvez nem tenhamos che- 342 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    gado a “grandesconclusões a partir de fatos pequenos densamente entrelaça- dos”, como nos convida Geertz (1989). Até mesmo os atributos naturais invejáveis da cidade do Rio de Janeiro, com- binando esplendorosamente praias e montanhas (vivenciadas pela população, a despeito do quadro de violência e desigualdade social existente), devesse ser considerado como fatores “facilitadores” de tais sensibilidades entre os sujeitos da pesquisa. Coincidência ou não, a cidade do Rio é eleita por psicólogos da Universidade da Califórnia, no ano de 2003, a “cidade mais amigável do mundo”, ressaltando alguns aspectos surgidos em sua pesquisa internacional, tais como solidariedade, gentileza, amizade e o bom humor carioca4 . Em todo caso, a realidade investigada não deixa de nos apontar aspectos significativos sobre a experiência de lazer, especialmente aquelas relacionadas a práticas corporais de aventura na montanha. Embora estes aspectos digam respeito ao contexto dos grupos pesquisados, nada nos impede de supor a ocor- rência de experiências semelhantes noutros contextos. Da mesma forma, não há nada que nos impeça de exercitar o anseio de que tais experiências não perma- neçam limitadas a pequenos grupos. Se este fluir da imaginação nos é permitido em um trabalho acadêmico, certa- mente inspirando-se nas experiências vislumbradas no contexto da pesquisa, é a partir desses pequenos lampejos de invenção lúdica de si mesmo que talvez seja possível imaginar um exercício ético-estético dos sujeitos, sobretudo a partir dessas experiências de lazer. Ainda que o pensemos emanando da experiência de lazer, este exercício não deixaria de ser estendido às várias dimensões da vida, especialmente se entendemos a ética no sentido foucaultiano, antes de mais nada como uma intensificação da relação consigo próprio, como uma constante invenção e reinvenção de si mesmo, a qual se dá na relação com o outro. A partir das pequenas “brechas” e resistências vislumbradas no lazer vivenciado pelos grupos aqui estudados, talvez seja possível imaginar uma prática de si exercitada a partir do lazer e da relação com os outros, a qual possa constituir o sujeito como arquiteto de suas ações intencionais, sobretudo abrindo caminhos para processos de singularização (Guattari, 1986), isto é, para a problematização daquilo que se é, para o tensionamento da própria subjetividade em busca de outras sensibilidades, outras percepções, outras maneiras de ser. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] NOTAS 5 MONTEIRO, Sandoval V. Modernidade, formas de subjetivação e amizade: potencialidades das experiências de lazer e aventura na natureza. Campinas, 2003, 143 f. Tese (Doutorado em Educação Física/Estudos do Lazer). Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    2 Guattari fazimportantes distinções entre subjetividade e individualidade, tentando esquivar-se de quaisquer tendências psicologizantes, idealistas ou naturalistas da subjetividade. Em suas palavras: “seria conveniente dissociar radicalmente os conceitos de indivíduo e subjetividade. Para mim, os indivíduos são o resultado de uma produção de massa. O indivíduo é serializado, registrado, modelado [...] A subjetividade não é passível de totalização ou de centralização no indivíduo. Uma coisa é a individuação do corpo. Outra é a multiplicidade dos agenciamentos da subjetivação: a subjetividade é essencialmente fabricada e modelada no registro social” (Guattari e Rolnik, 1996, p. 31 e 33). 3 Para Beck (1997), “individualização” não tem o sentido de atomização, isolamento ou individualismo, mas toma um sentido até oposto de “forma social”. 4 Segundo reportagem do Jornal Nacional (Rede Globo), levada ao ar no dia 19/06/2003. 344 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2004 Publicação original: dissertação Formato da contribuição: texto resumido Fonte: Desenvolvimento de um Instrumento de Identificação de Impactos Ambientais em Práticas Esportivas na Natureza (IMPAC-AMBES). Orientador: Manoel José Gomes Tubino. E-mail do(s) autor(es): valdovieira@yahoo.com.br Títulos acadêmicos principais atuais: Doutorando em Psicologia Social, Mestre em Ciência da Motricidade Humana, Licenciado em Educação Física, Bacharel em Estatística. Desenvolvimento de um instrumento de identificação de impactos ambientais em práticas esportivas na natureza (IMPAC-AMBES) Valdo Vieira O padrão de desenvolvimento da Humanidade trouxe muitos avanços em todas as áreas do conhecimento. Pode-se citar o aumento da expectativa de vida, conquistas na medicina genética, a Internet facilitando o acesso a informações, novos aparelhos e equipamentos que trouxeram conforto e comodidade, como o automóvel, a televisão, o telefone celular e o ar condicionado. Em contrapartida pressionou os recursos naturais de tal maneira que comprometeu a qualidade de vida no planeta e colocou em risco a própria existência do Homem. Centrado no capital, e em função do desenvolvimento tecnológico e industrial, o modelo de produção e consu- mo desconsiderou as variáveis sociais e ambientais, resultando em níveis intoleráveis de poluição atmosférica nos centros urbanos, espécies ani- mais e vegetais extintas, recursos naturais esgotados, degradação de ecossistemas, alteração do clima e deterioração dos sistemas sociais. Isto levou o Homem a perceber que os recursos naturais não eram infinitos nem inesgotáveis e que o modelo de desenvolvimento adotado trouxe também, a reboque da degradação ambiental, a fome e a miséria. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Nascimento (2003) explicaque a degradação ambiental está relacionada ao antropocentrismo, isto é, o Homem se considerando o próprio centro do uni- verso, a razão da existência do mundo. E a natureza sendo o objeto a ser dominado, segundo suas necessidades e interesses. Segundo a autora, a tran- sição para o mundo moderno se deu com o aparecimento de novas idéias e concepções, incluindo o desenvolvimento da ciência. Esta, sob o paradigma do cartesianismo, passa a comparar a natureza como um mecanismo seme- lhante a um relógio, podendo ser descrita matematicamente e a serviço do Homem. A revolução industrial que se seguiu, possibilitou a estruturação do capitalismo, corroborando com o dualismo entre o homem e a natureza e intensificando o seu distanciamento. Resultado: a natureza não depurou as agressões antrópicas e nem a ciência apresentou soluções para os problemas ambientais causados pelo progresso. As descobertas do buraco na camada de ozônio e do efeito estufa, em meados da década de 80, tiveram grande repercussão, pois se fosse mantido o desenvolvimento predatório, sua provável conseqüência seria a destruição da vida terrestre. Esses fatos mobilizaram a sociedade mundial e a fizeram refletir sobre o modelo de desenvolvimento adotado e a repensar a sua relação com a natureza. A comunidade internacional percebeu que as soluções deveriam ser dar por meio de uma política global resultante de um empenho conjunto e uniforme de todas as nações. Em 1992 foi realizada no Rio de Janeiro a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o Desenvolvimento em que estiveram presentes os governantes de mais de 170 países, além de milhares de representantes da sociedade civil. A Rio-92, como ficou conhecida, foi a reunião de maior magnitude realizada após a Guerra Fria e culminou com a aprovação consensual de um documento intitulado Agenda 21. Composta de 40 capítulos e 27 princípios gerais, é acima de tudo um plano de ação assumido pelos países participantes, visando harmonizar o cres- cimento econômico com a eqüidade social e a preservação ambiental. A Agenda 21 manifesta as ações necessárias para a busca do desenvolvimento sustentável e destaca as responsabilidades individuais e coletivas de todos os setores da atuação humana, que tenham relação com a natureza, precisam ter com a con- servação do planeta. É notório que a sociedade mundial vem debatendo e buscando alternativas para o desenvolvimento do planeta. Entretanto a implantação das mudanças está em ritmo aquém do desejado, pois as questões econômicas ainda prevale- cem nestas discussões. Porém, nesse novo contexto, a participação dos demais segmentos da sociedade é fundamental para garantir a efetivação dos aspectos prioritários acordados na Agenda 21 em que a preservação da natureza é de vital importância nesse processo. Para se garantir isso, todos devem refletir sobre as possibilidades de intervenção nas suas áreas de trabalho objetivando a solução dos problemas ambientais (SILVA, 1997). 346 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Sem dúvida osproblemas ambientais afetam também a prática esportiva na natureza. Praias poluídas, ‘línguas negras’ nas areias, morros devastados pela favelização, são exemplos que retratam a importância dos envolvidos com ati- vidades esportivas estarem participando ativamente das discussões e ações so- bre um futuro sustentável para o mundo, pois as grandes questões contemporâ- neas que afligem a Humanidade atingem também a área esportiva. Pode-se inclu- sive afirmar que os problemas ambientais estão acarretando uma privação ao direito à prática esportiva, garantido pela Constituição Federal. De acordo com Tubino (1999) a relativização de múltiplos segmentos de ativi- dade humana com a natureza levou ao surgimento de esportes em que seus praticantes interagem com os ambientes naturais. Este movimento esportivo caracterizado por Tubino (2000) como Esportes da Natureza (também chamados de esporte-aventura, esportes ecológicos, atividades outdoor e esportes radi- cais) teve suas primeiras manifestações nos esportes de inverno, em que se destacam, por exemplo, o esqui e o bobsleigh. Porém, foram os esportes californianos, como o surf, vôo livre, windsurf, hobbie-cat e o skate-board que propagaram essas práticas esportivas ao ar livre (COSTA e TUBINO, 1999). Hoje, práticas desconhecidas ou inexistentes até pouco tempo atrás, como o arborismo, bóia-cross, bungee jump, canyoning, cascading, caving, jet ski, mountain bike, outrigger, parapente, rafting, enduros eqüestres, rapel, sandboard, sky surf e trekking possuem expressivos espaços na mídia e são amplamente praticados. O contato com a natureza através do esporte apresenta um viés positivo e outro negativo. Por um lado pode, por exemplo, aumentar a consciência eco- lógica dos envolvidos com a prática esportiva, pode inibir a ação predatória em seus locais de prática e contribuir para a melhoria da qualidade de vida. Por outro, essas mesmas práticas esportivas podem interferir negativamente nos fatores ambientais, podendo ocasionar danos aos ambientes onde são pratica- dos. O surgimento constante de novas modalidades esportivas da natureza, manifestadas como lazer ou competição, com o conseqüente aumento do número de praticantes, espectadores e infra-estrutura podem agravar o quadro de degradação ambiental. Encontra-se na literatura críticas aos esportes da natureza que sinalizam para um agravamento do meio ambiente em virtude da prática dessas atividades. Para Inácio (1997) essas atividades reproduzem o modelo de produção e consumo que a sociedade vem combatendo. Apoiados em equipamentos, roupas e aces- sórios específicos, são inacessíveis para a maioria da população, tornando-se então um mecanismo de exclusão social. Marinho (2001) acrescenta que por mais que essas práticas possam delinear uma reaproximação e revalorização da natureza, elas implicam em consumismo. Segundo a autora, as atividades espor- tivas realizadas em ambientes naturais proporcionam uma visão reduzida da natureza, parecendo estar servindo apenas para agregar valor a um produto e, neste caso, a proteção ambiental parece ser irrelevante. Costa (1998) menciona Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    que embora divulguemque essas práticas junto à natureza são preservacionistas, pode haver um desequilíbrio nos ecossistemas, devido à construção de infra- estruturas de apoio à sua realização. As manifestações dos autores vão ao encontro do que Tubino (1992) denomina como o novo paradigma do esporte: o confronto entre a lógica utilitarista e funcionalista do mercantilismo e os valo- res idealistas do esporte. Jesus (1999) menciona que a expansão das atividades esportivas em áreas naturais praticamente intocadas, tende a causar impactos significativos, acres- centando que essas atividades são de difícil controle e planejamento e, por conseqüência, de maior potencial de danos à natureza e à sociedade. Rosado (apud Krebs, 2002) cita os impactos ambientais negativo do golfe, com a destrui- ção da flora e da fauna locais, ocasionados pelo uso intenso de fertilizantes para manter as condições propícias para a realização da atividade esportiva. Cita também os impactos na qualidade do ar em virtude da poluição provocada pelos veículos dos esportes motorizados. Nesses exemplos podemos constatar que os impactos ambientais podem afetar diferentes meios. Os danos que os esportes da natureza podem ocasionar não se limitam à prática em si, mas a todo o projeto esportivo, desde o seu planejamento até o encerramento do evento, incluindo todos os que estarão direta ou indiretamente participando da atividade. Esses impactos ambientais negativos podem ocorrer nas áreas de influência do evento esportivo e afetar os componentes bióticos, abióticos e antrópicos. Esses impactos podem ser classificados qualitativamen- te segundo alguns critérios, como em relação ao tempo da ocorrência, à dura- ção e à significância. A proliferação dessas atividades torna mister o compromisso do esporte com a preservação do meio ambiente. O Manifesto Mundial de Educação Física, em seu artigo 22, ratifica esta responsabilidade frente às questões ambientais: Todos os responsáveis por qualquer manifestação de Educa- ção Física deverão contribuir com efetividade para que ela seja desenvolvida e oferecida numa convivência saudável com o meio ambiente, sem causar impactos negativos, inclusive, utilizando instalações planejadas neste objetivo e equipa- mentos, preferencialmente, reciclados sem materiais poluentes (FIEP, 2000). Conhecer a dinâmica esportiva no meio natural, as ações humanas envolvidas e as decorrentes possibilidades impactantes nos diversos ambientes de desen- volvimento dessas modalidades esportivas, associando-as aos diversos tipos de impactos ambientais, são fundamentais para assumir este compromisso com o futuro da Humanidade. 348 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    OBJETIVO GERAL DOESTUDO O objetivo principal do estudo foi desenvolver um instrumento que possa auxiliar na identificação dos possíveis impactos ambientais ocasionados pela prática esportiva na natureza. DELIMITAÇÃO E LIMITAÇÃO DO ESTUDO Os esportes da natureza são caracterizados por serem praticados em ambien- tes naturais, ou seja, nos meios terrestre, aquático e aéreo. Este estudo objetiva desenvolver um instrumento de identificação dos impactos ambientais ocasio- nados pelas atividades esportivas realizadas na terra, água ou ar. Porém, em relação à água, foi delimitado à sua forma líquida, devido às condições climáti- cas do Brasil, onde há geadas em poucos lugares e, mesmo assim, insuficientes para que haja alguma prática esportiva freqüente na neve ou no gelo. O IMPAC-AMBES, como foi denominado, contemplará os impactos ambientais ocorridos nos meios bióticos e abióticos, não contemplando os antrópicos. Isso se deu devido à complexidade de caracterização dos possíveis danos sócio- econômicos decorrentes das atividades esportivas. O preenchimento do instrumento de identificação de impactos ambientais se dará através da observação do ambiente e do conhecimento da dinâmica espor- tiva que será realizada naquele meio. Isso pode ser considerada uma limitação, pois ao depender do fator observacional, há a possibilidade do usuário do refe- rido instrumento chegar a conclusões errôneas sobre as interações ocorridas entre a prática esportiva e o ambiente. Outro fator limitante pode se dar ao utilizar o instrumento para prognosticar possíveis impactos ambientais, pois alguns fatores, como o nível de informação e comportamento dos praticantes, podem influenciar o ambiente, distorcendo os resultados vaticinados. METODOLOGIA Caracterização da Pesquisa Este capítulo descreve e justifica as opções metodológicas para o desenvolvi- mento do instrumento de identificação de impactos ambientais ocasionados pela prática esportiva na natureza. Explicita as suas fases de desenvolvimento e validação e define as variáveis incluídas nesta ferramenta. Este estudo é caracterizado como pesquisa de desenvolvimento, que, segundo Contandriopoulos et al. (1994) consiste em elaborar ou melhorar um instrumen- to, garantindo a validade e a precisão do dispositivo. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Fases de construçãodo instrumento Foram 6 as fases da pesquisa que culminaram com a elaboração do IMPAC- AMBES: 1- Após aprofundamento da revisão de literatura foi possível extrair referênci- as para a construção do instrumento de identificação de impactos ambientais ocasionados pela prática esportiva na natureza; 2- Buscou-se a contribuição de praticantes de atividades esportivas na nature- za e profissionais do esporte, pelas suas experiências práticas e teóricas sobre os impactos ambientais, positivos e negativos, ocasionados pela prática espor- tiva em meio natural; 3- Elaboração inicial do instrumento de identificação dos impactos ambientais ocasionados pela prática esportiva na natureza, referenciado no aprofundamento da literatura e na experiência de praticantes de esportes na natureza e de profis- sionais de educação física; 4- Validação do instrumento com outros especialistas da área ambiental e esportistas conhecedores dos esportes da natureza; 5- Elaboração do instrumento de identificação, com as modificações conside- radas importantes para a identificação dos impactos ambientais ocasionados pela prática esportiva na natureza. O resultado desta validação constituiu-se no instrumento IMPAC-AMBES. 6- Aplicação do instrumento IMPAC-AMBES em um evento esportivo ligado à natureza. Elaboração final do IMPAC-AMBES Ao final de todo o processo descrito acima, a formatação final do Instrumento de Identificação de Impactos Ambientais ocasionados pela Prática Esportiva na Natureza (IMPAC-AMBES), ficou assim definido: 350 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Definição dos termosdo IMPAC-AMBES As definições dos termos incluídos no IMPAC-AMBES norteiam a utilização do IMPAC-AMBES e foram assim definidas: ATIVIDADE(S) ESPORTIVA(S), EVENTO(S) ESPORTIVO(S) ou PROJETO(S) ESPORTIVO(S) - compreende todas as fases do empreendimento esportivo, des- de o seu planejamento até a sua desativação, considerando todos os envolvidos (organização, público, competidores, população local, imprensa), construção de instalações, material e equipamentos esportivos, regras e regulamento do esporte. IDENTIFICAÇÃO DO PROJETO ESPORTIVO 1. NOME: Registrar por extenso o nome de quem estará preenchendo o instru- mento. 2. DATA: Registrar a data (dia/mês/ano) em que será preenchido o instrumento. 3. MODALIDADE(S) ESPORTIVA(S): Registrar a(s) modalidade(s) esportiva(s) que estará(ão) sendo praticada(s) no local. 4. MEIO AMBIENTE UTILIZADO: ( ) TERRA ( ) ÁGUA ( ) AR - Assinalar o(s) ambiente(s) onde irão se desenvolver a prática esportiva. 5. UTILIZAÇÃO DE: ( ) ANIMAIS ( ) MOTORES - Assinalar os itens envolvidos na prática esportiva. 6. LOCAL DE REALIZAÇÃO: Registrar a Localidade (Distrito/Município/ Estado) onde se realizará o evento. DURAÇÃO DO EVENTO: Definir período do evento (do dia/mês/ano ao dia/ mês/ano ou permanente ou indefinido). 6.1. ( ) ÁREA PÚBLICA ( ) ÁREA PRIVADA - Assinalar quanto a propriedade da área onde será realizada a atividade esportiva. 6.2. UNIDADE DE CONSERVAÇÃO: ( ) SIM ( ) NÃO 6.2.1. ( ) PARQUE NACIONAL, ESTADUAL OU MUNICIPAL 6.2.2. ( ) ÁREA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL 6.2.3. ( ) ÁREA DE RELEVANTE INTERESSE ECOLÓGICO 6.2.4. ( ) FLORESTA NACIONAL, ESTADUAL OU MUNICIPAL 6.2.5. ( ) RESERVA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    6.2.6. ( )RESERVA PARTICULAR DO PATRIMÔNIO NATURAL 6.2.7 ( ) OUTRO: Assinalar se o local onde será realizado o evento esportivo pertence a uma Unidade de Conservação. Em caso positivo, assinalar a qual categoria pertence. Se a categoria não estiver listada, assinalar e registrar a catego- ria no item 6.2.7. 6.3.7. ÁREA COM ESPÉCIES EM EXTINÇÃO? ( ) SIM [( )fauna ( )flora] ( ) NÃO - Assinalar se há espécies em extinção na área onde se realizará o evento esporte. Em caso positivo assinalar se pertence à fauna ou flora. 7. OUTRO(S) EVENTO(S) REALIZADO(S) NO LOCAL? 7.1. ( ) NÃO ( ) ESPORTIVOS ( ) NÃO ESPORTIVOS - Assinalar se existe(m) outra(s) atividade(s) sendo realizada(s) no local (em todo ou parte) durante o evento esportivo. 7.2. FREQÜÊNCIA: ( ) ESPORÁDICOS ( ) PERMANENTES ( ) CONCOMITANTES - Em caso de resposta positiva no item 7.1, assinalar a freqüência com que esta(s) atividade(s) se realiza(m) no local do evento esportivo. 8. INSTALAÇÃO DE INFRA-ESTRUTURA: ( ) NÃO ( ) TEMPORÁRIA ( ) PERMANEN- TE - Assinalar se será instalada infra-estrutura para a realização do evento esportivo. 9. NÚMERO DE PESSOAS PREVISTAS: 9.1. ORGANIZAÇÃO: 9.2. COMPETIDORES: 9.3. PÚBLICO: 9.4. IMPRENSA: 9.5. OUTROS: Registrar o número previsto de pessoas (para cada grupo citado) durante o período de realização do evento esportivo. • FATORES E REFERÊNCIAS AMBIENTAIS - AÇÕES HUMANAS E CONSEQÜÊNCIAS - Ações humanas desenvolvidas durante o evento esportivo e os seus resultan- tes no meio ambiente. 10. ÁGUA: Considerar em seu estado líquido, presente no mar, em rios, lagos, lagoas, canais, cachoeiras, interior de cavernas, etc. 10.1. DERRAMAMENTO DE ÓLEO/GRAXA - Despejar, intencionalmente ou não, substâncias, incluindo gorduras, graxas, ácidos graxos livres, óleos minerais e 356 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    outros materiais graxosproveniente de seus materiais, utensílio, equipamen- tos, veículos, etc. 10.2. LIXO NÃO ORGÂNICO - Despejo, intencional ou não, de resíduos não orgânicos (vidros, metais, plásticos, papel,..). 10.3. LIXO ORGÂNICO - Despejo, intencional ou não, de resíduos orgânicos (origem animal ou vegetal). 10.4. CONTAMINAÇÃO - Introdução na água de elementos em concentrações nocivas à saúde humana. 10.5. USO DE SABONETES E DETERGENTES - Utilização de sabonetes, detergen- tes e outros não biodegradáveis. 10.6. ACÚMULO DE LIXO -Acúmulo de lixo no leito de rios, ou no fundo de ambientes aquáticos. 10.7. AUMENTO DO LANÇAMENTO DE ESGOTO IN NATURA - Despejo orgânico sem tratamento proveniente de construções habitadas. 10.8. DESGASTE/QUEBRA DE ESTRUTURAS NO FUNDO DE AMBIENTES AQUÁTI- COS - Desgaste ou quebra de estruturas no fundo de ambientes aquáticos pela prática inadequada ou pelo uso equipamentos impróprios. 11. SOLO: A camada da superfície da crosta terrestre capaz de abrigar raízes de plantas, representando, pois, o substrato para a vegetação terrestre (FEEMA, 1992). 11.1. EROSÃO/ COMPACTAÇÃO - Desgaste ou diminuição do volume do solo provocado pela dinâmica esportiva. 11.2. DESLIZAMENTO DE TERRA - Possibilidade de ocorrência em encostas em virtude da dinâmica esportiva. 11.3. ALARGAMENTO DAS TRILHAS - Invasão das partes não definidas da trilha ocasionando o alargamento da trilha. 11.4. UTILIZAÇÃO DE FERTILIZANTE - Adição de fertilizante natural ou artificial ao solo. 11.5. CONTAMINAÇÃO - Introdução de elementos em concentrações nocivas à saúde humana. 11.6. ABERTURA/UTILIZAÇÃO DE ATALHOS - Abertura de novas trilhas para utilização do evento esportivo ou utilização de trilhas não definidas, sem fluxo continuado de pessoas, normalmente com vegetação cobrindo o piso e cortando perpendicularmente as curvas de nível. 11.7. LIXO ORGÂNICO - Despejo intencional ou não de resíduos orgânicos (origem animal ou vegetal). Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    11.8. LIXO NÃO-ORGÂNICO- Despejo intencional ou não de resíduos não orgâ- nicos (vidros, metais, plásticos, papel,..). 11.9 DERRAMAMENTO DE ÓLEO/GRAXA - Despejar, intencionalmente ou não, substâncias, incluindo gorduras, graxas, ácidos graxos livres, óleos minerais e outros materiais graxos proveniente de seus materiais, utensílio, equipamen- tos, veículos, etc. 12. ATMOSFERA: É a camada de ar que envolve o planeta. 12.1. QUALIDADE DO AR - Verificar se o evento esportivo ocasionará impactos na qualidade do ar em virtude da emissão de poluentes ou por emissão de partículas no ar. 12.2 EMISSÃO DE GASES POLUENTES - Verificar na dinâmica esportiva se haverá emissão de gases poluentes pelo uso de equipamentos ou veículos. 13. FAUNA: Conjunto dos animais que vivem em um determinado ambiente. 13.1. DESLOCAMENTO PARA OUTRAS ÁREAS - Perturbação da fauna ocasio- nando evasão do seu ambiente. 13.2. MORTE DE ANIMAIS - Extermínio intencional ou não de espécies animais. 13.3. DESTRUIÇÃO DE HABITATS - Destruição do local físico onde vivem as espécies animais. 13.4. INTERFERÊNCIA NA CADEIA ALIMENTAR - Introdução de elementos ou substâncias estranhas que possam interferir nas redes alimentares. 13.5. INTERFERÊNCIA NO CICLO REPRODUTIVO - Abandono pelos animais das suas áreas de reprodução ou de habitats. 13.6. INSERÇÃO DE NOVOS ANIMAIS - Inserção de espécies animais que não fazem parte do ecossistema local. 13.7. CAÇA - Caçar animais, independente do meio utilizado ou da finalidade. 13.8. PESCA - Todo ato tendente a capturar ou extrair elementos animais ou vegetais que tenham na água seu normal ou mais freqüente meio de vida. 13.9. UTILIZAÇÃO DE ILUMINAÇÃO ARTIFICIAL - Utilização de lanternas, lampi- ões ou qualquer outro equipamento de iluminação. 13.10. COLETA E QUEBRA DE ESPÉCIES MARINHAS - Coleta ou quebra de corais, conchas, estrelas do mar independente da intenção, ou por uso inadequado de equipamentos ou veículos. 14. FLORA: Conjunto de vegetais que ocupam uma determinada área. 358 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    14.1. PISOTEAMENTO -Pisar em espécies vegetais intencionalmente ou não. 14.2. DESMATAMENTO OU DESTRUIÇÃO DE ESPÉCIES - Derrubada ou corte, intencional ou não, de espécies vegetais. 14.3. INCÊNDIO/QUEIMADA - Queima da vegetação, independente da intenção ou da motivação. 14.4. COLETA/REMOÇÃO DA VEGETAÇÃO - Colher espécies vegetais, indepen- dente da motivação. 15. CAVERNAS: Toda e qualquer cavidade natural subterrânea penetrável pelo homem. 15.1. DESGASTE/DANO EM ESTRUTURAS - Desgaste ou quebra de estruturas minerais de qualquer natureza pela prática inadequada ou pelo uso de equipa- mentos impróprios. 15.2. COLETA DE MATERIAL - Retirada de material ou espécies de qualquer natureza, independente da motivação. 15.3. DESPEJO DE LIXO - Despejos de resíduos orgânicos ou não orgânicos. 15.4. INSCRIÇÃO NAS PAREDES - Pichações de qualquer natureza no interior da caverna, independente da motivação. 15.5. EROSÃO -Desgaste do solo provocado pela dinâmica esportiva. 15.6. ASSOREAMENTO -Redução do nível dos corpos d’água. 15.7. ALTERAÇÃO DA TEMPERATURA -Alteração da temperatura em virtude da utilização de equipamentos ou da presença humana. 16. OUTROS IMPACTOS AMBIENTAIS: Impactos não contemplados anteriormente. 16.1. DESCARACTERIZAÇÃO DA PAISAGEM NATURAL - Modificação da paisa- gem natural em virtude de construção ou instalação de infra-estrutura tempo- rária ou permanente necessária para o evento esportivo. 16.2. DETERIORAÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO/CULTURAL - Desgaste pelo uso de bens protegidos por lei federal, estadual ou municipal. 16.3. DEPREDAÇÃO/PICHAÇÃO DE ATRATIVOS NATURAIS - Ocasionar danos ou pichar atrativos naturais, independente da motivação. 16.4. FIXAÇÃO DE MATERIAIS EM PEDRAS OU NA VEGETAÇÃO - Utilização de materiais para apoio, ancoragem ou proteção. 16.5. USO DE EQUIPAMENTOS PROIBIDOS POR LEI - Utilizar equipamentos que não são permitidos pela lei vigente, independente dos danos que possam cau- sar ao meio ambiente. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    16.6. -16.7. -16.8.- Espaço destinado a incluir impactos ambientais identifica- dos e não incluídos no instrumento. TIPOS DE IMPACTOS AMBIENTAIS RELACIONADOS À PRÁTICA ESPORTIVA NA NATUREZA • POSSIBILIDADE DE OCORRÊNCIA - Objetiva verificar se a atividade esportiva ocasionará impacto ambiental: NULA - A atividade esportiva não ocasionará impacto ambiental ou que a sua possibilidade seja muito remota. Ao assinalar este item, os demais campos dessa linha não necessitam ser preenchidos. EFEITO BENÉFICO - A atividade esportiva causará impacto ambiental positivo (melhora na qualidade de um fator ambiental) nos meios biótico, abiótico e/ ou antrópico. EFEITO ADVERSO - A atividade esportiva causará danos ambientais nos mei- os biótico, abiótico e/ou antrópico, independente do prazo de ocorrência, de sua duração, intensidade ou reversibilidade. • OCORRÊNCIA - Objetiva verificar quando poderá ocorrer o impacto ambiental: IMEDIATA - O impacto ambiental poderá ocorrer durante a(s) atividade(s) esportiva(s), entre o planejamento e a desativação, independente do tempo de duração do empreendimento esportivo. MÉDIO E LONGO PRAZOS - O impacto ambiental poderá ocorrer após a(s) atividade(s) esportiva(s). • DURAÇÃO - Objetiva verificar o tempo de duração do impacto ambiental: TEMPORÁRIO - Quando os efeitos do impacto ambiental ocasionados pela ativi- dade esportiva tem duração determinada, independente do espaço temporal. PERMANENTE - O tempo de duração é ilimitado, não sendo possível reverter o impacto ambiental ocasionado pela atividade esportiva. • INTENSIDADE - Objetiva verificar a magnitude do impacto ambiental. DESPREZÍVEL - Quando for mínima a influência do impacto na qualidade ambiental. SIGNIFICATIVA - Quando o impacto ambiental for extremo ou muito intenso, observando grave alteração na qualidade do ambiente ou ainda, quando o componente ambiental afetado tiver relevante interesse coletivo 360 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    • MEDIDAS MITIGADORAS- medidas que venham a minimizar ou eliminar impac- tos ambientais negativos nos meios biótico, abiótico e/ou antrópico, poden- do ser preventivas ou corretivas e realizadas durante ou após as fases do empreendimento esportivo. SIM - Serão adotadas medidas mitigadoras. NÃO - Não serão adotadas medidas mitigadoras. · MEDIDAS COMPENSATÓRIAS - medidas destinadas a compensar a sociedade pelos danos ocasionados pela atividade esportiva. CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES O objetivo geral do estudo foi desenvolver um instrumento que possa auxiliar na identificação dos possíveis impactos ambientais em práticas esportivas na natureza. Acredita-se que tenha havido êxito na estruturação final do instrumen- to, que recebeu a denominação de IMPAC-AMBES, dentro dos parâmetros pré- estabelecidos para a sua consecução. Mostra-se um instrumento de rápido pre- enchimento, sem custos, e com a definição de todos os termos utilizados em sua composição nas ‘Orientações de preenchimento’. O IMPAC-AMBES ao prognosticar possíveis impactos ambientais negativos pode ser um importante instrumento para que ações sejam realizadas visando à minimização ou eliminação desses danos. Ao ser utilizado após o evento espor- tivo pode fornecer dados para a recuperação do ambiente degradado. O IMPAC-AMBES apresenta-se também como um instrumento de educação ambiental. A visão dos diferentes meios e dos diversos fatores ambientais em que a prática esportiva na natureza pode ocasionar algum dano, pode sensibili- zar e contribuir para que mais pessoas se conscientizem da importância da preservação ambiental. Hoje, muitas práticas esportivas deixam de ser realizadas em espaços naturais, sobretudo os públicos, pois os responsáveis por sua administração não possuem conhecimento de quais impactos ambientais tais atividades podem ocasionar. E nem os organizadores ou praticantes. O IMPAC-AMBES pode ser um instrumento que irá servir para intermediar essa relação entre gestores de áreas públicas e esportistas. O IMPAC-AMBES possui limitações em seu uso. Ao depender da observação do ambiente, há a possibilidade de se chegar a conclusões inexatas sobre determi- nada interação da atividade esportiva com o ambiente de prática. A conduta dos envolvidos na atividade esportiva pode ser um fator determinante na ocorrência Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    de alguns possíveisimpactos ambientais, podendo também ocasionar erros nos prognósticos de identificação dos danos à natureza. Faz-se pertinente apresentar algumas recomendações para futuros estudos, importantes para a ampliação da discussão sobre a temática esporte e meio ambiente e também para o desenvolvimento do IMPAC-AMBES, não alcançados em virtude da delimitação do estudo e das limitações do instrumento. É evidente que essa versão do IMPAC-AMBES deverá receber aperfeiçoamentos. Será atra- vés da sua utilização que se aprimorará o seu conteúdo e até a sua forma. Recomenda-se que: É importante que sejam realizadas pesquisas objetivando a identificação dos impactos ambientais no meio sócio-econômico e cultural. Embora não inclu- sos no IMPAC-AMBES devido à dificuldade de identificação desses impactos nos moldes em que foi desenvolvido o instrumento, são tão importantes como os demais, portanto merecem ser investigados e se possível agregados ao IMPAC-AMBES. Pode ser importante a realização da validade prática do IMPAC-AMBES quando for efetuada a sua aplicação. Contandriopoulos (1994) esclarece que a validade prática ou de critério consiste em correlacionar os dados prognosticados com os resultados efetivos ocorridos. No caso específico do IMPAC-AMBES, seria o de correlacionar os impactos ambientais identificados antes da realização da atividade esportiva na natureza com os impactos verificados após esse evento. Esse procedimento pode ser importante para o aprimoramento do IMPAC-AMBES. Este estudo propôs um método para a identificação dos impactos ambientais em práticas esportivas na natureza. E isso se deu através da elaboração de um instrumento. Porém essa não é a única forma de se atingir esse objetivo. O IMPAC-AMBES não esgota a discussão acerca da relação do esporte com o meio ambiente. Na realidade este estudo aviva esta temática e procura acrescentar informações que possam nutrir o desejo da busca por um mundo melhor, com paz, equidade social e preservação da natureza. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] 362 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2004 Publicação original: em CD-Rom Formato da contribuição: resumo expandido Fonte: “A implantação do geoturismo no Pólo Seridó (sertão Potiguar): necessidade para a conservação do patrimônio natural do Rio Grande do Norte”, Recife/PE, IX Encontro Nacional de Turismo com Base Local, 2004. E-mail do(s) autor(es): marcos@geologia.ufrn.br; wendson@ambiental4.com.br; daniela@sebraern.com.br Títulos acadêmicos principais atuais: Marcos Antonio Leite do Nascimento: Doutor e Mestre em Geodinâmica, geólogo e professor das disciplinas de recursos naturais e meio ambiente do Curso de Turismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte; Yves Guerra de Carvalho: Turismólogo, diretor do portal do projeto Sebrae; Wendson Dantas de Araújo Medeiros: Geógrafo, Professor Assistente do Curso de Gestão Ambiental da Universidade do Estado do RN - UERN e do Núcleo de Turismo e Hotelaria da Faculdade Câmara Cascudo; Daniela Bezerra Tinoco: Turismóloga, Coordenadora do Projeto Roteiro Turístico do Seridó – Programa Sebrae de Turismo. A implantação do geoturismo no Pólo Seridó (sertão potiguar): necessidade para a conservação do patrimônio natural no Rio Grande do Norte (NE do Brasil) Marcos Antonio Leite do Nascimento: Yves Guerra de Carvalho Wendson Dantas de Araújo Medeiros Daniela Bezerra Tinoco Os atrativos turísticos do Rio Grande do Norte se estendem muito além das belas praias e do Sol constante. Novas modalidades de turismo estão sendo potencializadas no interior do Estado, através de atividades de cunho religi- oso, de aventura, científico, de negócios, rural e ecoturístico. Neste último caso, a atividade se desenvolve dando uma maior ênfase aos aspectos da biodiversidade (fauna e flora). Contudo, um novo tipo de turismo vem se destacando no Mundo e mais recentemente no Brasil, o chamado Geoturismo – nova modalidade de turismo que se desenvolve em bases geocientíficas (Hose, 1996, 1997), que tem como principais atrativos as diversas feições Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    geológicas e geográficasobjetivando assegurar o desenvolvimento de práti- cas conservacionistas e sustentáveis, proporcionando também ao turista uma maior vivência do ambiente visitado através da interpretação da geodiversidade. Esta representa fenômenos e processos ativos, de caráter geológico, geradores de paisagens/relevos, rochas, minerais, fósseis e solos que constituem a base para a vida na Terra. Isto é, o “palco” no qual todas as outras formas de vida são os “atores” (Stanley, 2000). Assim, entender a geodiversidade, em conjunto com a biodiversidade (e não somente esta última), de uma dada região, permitirá efetuar ações mais comple- tas e, conseqüentemente, obter resultados mais positivos e duradouros, bem como, uma experiência mais rica para o visitante. PROGRAMA DE REGIONALIZAÇÃO DO TURISMO: O CASO DO RIO GRANDE DO NORTE O Programa de Regionalização do Turismo – Roteiros do Brasil promovido pelo Governo Federal em parceria com os Governos Estaduais permitiu a criação de diferentes pólos turísticos em todo o Brasil. No caso do Estado do Rio Grande do Norte foram individualizados/identificados cinco grandes pó- los, a saber: Pólo Costa das Dunas, Pólo Costa Branca, Pólo Seridó, Pólo Serrano e Pólo Agreste/Trairí. No caso dos dois primeiros há uma interação entre atrativos litorâneos e aqueles encontrados no interior; enquanto que os demais envolvem atrativos exclusivamente situados em municípios do interior potiguar. No momento, apenas os três primeiros encontram-se com ações em desenvolvimento. O referido programa vem contribuindo para o desenvolvimento da ativida- de turística nos municípios envolvidos com os diferentes pólos, através da criação de roteiros e produtos, favorecendo a participação das comunida- des, a geração de emprego e renda, a diminuição dos problemas sócio-eco- nômicos e, finalmente, a minimização dos impactos ambientais através da educação ambiental. A PRÁTICA DO GEOTURISMO NO PÓLO SERIDÓ Dentre os três pólos inicialmente trabalhados, o Pólo Seridó é o que apresenta a maior geodiversidade e, portanto, as maiores riquezas em termos de atrativos geoturísticos. Isto se deve ao fato da Região Seridó ser uma das mais completas e belas em patrimônios geológicos no Nordeste do Brasil, os quais são decorren- tes dos inúmeros processos naturais a que esta região foi submetida ao longo do Tempo Geológico. 364 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Em se tratandode paisagens, minerais, rochas (“pedras”) e diversos outros temas geológicos, o Rio Grande do Norte apresenta exemplos dos mais didáticos e completos, abrangendo desde rochas antigas do embasamento cristalino (com mais de 3 bilhões de anos) até às coberturas de dunas (com menos de 5 mil anos). Muitos desses exemplos constituem potenciais monumentos e sítios (Nascimen- to et al., 2004), que vêm, atualmente, em função de sua importância histórica, cultural, científica e paisagística, despertando interesse do turismo, conforme já se pode verificar in loco com a freqüente ocorrência de visitas espontâneas ou guiadas por agências de turismo à região. Aqui, dar-se-á destaque aos patrimônios geológicos, geomorfológicos, mineralógicos, paleontológicos e arqueológicos presentes no Pólo Seridó, aqui contemplando especificamente o Roteiro Seridó, sendo este composto pelos municípios de Cerro Corá, Currais Novos, Acari, Carnaúba dos Dantas, Parelhas, Jardim do Seridó e Caicó (Figuras 1 e 2). Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Neste pólo, orelevo se destaca na paisagem proporcionando cenários exube- rantes e mirantes que permitem a contemplação de áreas pouco conhecidas (Figura 3). Na constituição do relevo, destacam-se as serras, os picos e afloramentos de rochas, cujos melhores exemplos são: Serra de Santana, em Cerro Corá; serras do Chapéu e Canyon dos Apertados (Figura 4), da Catunda, da Acauã, do Piauí e Pico do Totoró, em Currais Novos; serras do Bico da Arara, do Pai Pedro, da Lagoa Seca, afloramento Poço do Artur, Tanques do rio Carnaúba e a região do Açude Gargalheiras, em Acari; Monte do Galo, Pedra do Dinheiro, em Carnaúba dos Dantas; serras das Queimadas, da Coruja, da Areia, da Maniçoba e do Maribondo, em Parelhas; e as serras de São Bernardo, da Formiga, a Gruta da Caridade e a Pedra da Baleia, em Caicó. Todas as serras, picos e afloramentos são formados por granitos, gnaisses, quartzitos e arenitos. Esses locais são excelen- tes para a criação de sítios geológicos-geomorfológicos, hoje muito utilizados para a prática do turismo de aventura através de atividades como o trekking, rappel, camping, off road e outras. A mineração possui um potencial geoturístico particular ao longo do Roteiro Seridó, destacando-se o Distrito Mineiro da Brejuí, em Currais Novos. Na Mina Brejuí há cerca de 60 km de túneis subterrâneos, onde aproximadamente 300 metros destes já se encontram preparados para visitação. Há também um Museu/Memorial instalado nas dependências da mina, revelando toda a sua história. Além desta mina, tem-se ainda na região de Parelhas, uma enorme diversidade de minerais, com destaque para a turmalina, água marinha, granada, ametista, dos quais, muitos são considerados preciosos e atraem vários turistas e comerciantes. Observam-se, também, registros do homem e de animais pré-históricos por solos potiguares, nos inúmeros sítios arqueológicos e paleontológicos do Rotei- ro Seridó (Martin, 1997), os quais se destacam neste tipo de atividade geoturística. Inúmeras pinturas rupestres são encontradas na região de Carnaúba dos Dantas, onde foram catalogados mais de 80 sítios arqueológicos, com destaque para os Sítios Xique-Xique I (Figura 5), Casa Santa e Pedra do Alexandre, onde ocorrem gravuras e pinturas das 3 grandes tradições de pinturas rupestres do Nordeste brasileiro – Nordeste, Agreste e Itaquatiaras; em Parelhas, com destaque para o Sítio Mirador, onde foram encontrados vestígios da presença do homem antigo, com idade de 10.000 anos atrás; em Cerro Corá, com destaque para o Sítio de Serra Verde; além de outros espalhados pelos municípios de Acari, Currais Novos e Jardim do Seridó. Também, ressalta-se a ocorrência do sítio paleontológico Lagoa do Santo, em Currais Novos, onde foram encontrados registros de vários animais que caracterizam uma mega-fauna de idade pleistocênica (aproximada- mente de 2 milhões a 10 mil anos atrás). Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Fonte: Medeiros, 2003. Figura4 – Canyon dos Apertados. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Fonte: Medeiros, 2003. Figura5 – Sítio Arqueológico Xique-Xique I com pinturas rupestres da Tradição Nordeste. CONCLUSÃO Convém lembrar, que os sítios mencionados são apenas uma pequena amostra do que o Roteiro Seridó possui em termos de atrativos geoturísticos. Diante desse panorama, ressalta-se a importância de um planejamento prévio e estraté- gico para o desenvolvimento desta atividade para que ela se perpetue como uma fonte de emprego e renda para os municípios e comunidades envolvidas. Porém, tal planejamento deve se orientar em bases preservacionistas, haja vista que o patrimônio geoturístico possui a particularidade de ser único e irrecuperável: uma vez deteriorado estará perdido para sempre! E com ele, as perspectivas de um futuro melhor para as comunidades locais, como conseqüência da inviabilidade de desenvolvimento do Geoturismo. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] 370 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Ano: 2004 Publicação original: anais Formato da contribuição: resumo expandido Fonte: “Geoturismo, geodiversidade e geoconservação: conceitos úteis para a promoção do patrimônio geológico”, Recife/PE, XXI Simpósio de Geologia do Nordeste, 2004. E-mail do(s) autor(es): marcos@geologia.ufrn.br; tularuchkys@yahoo.com.br; virginio@uol.com.br Títulos acadêmicos principais atuais: Doutor e Mestre em Geodinâmica, geólogo e professor das disciplinas de recursos naturais e meio ambiente do Curso de Turismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte; Úrsula A. Ruchkys: Geóloga pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), mestrado em Tratamento da Informação Espacial na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), Especialista em Ecoturismo: Educação e Interpretação Ambiental pela Universidade Federal de Lavras (UFLA), tese de doutorado (em andamento) no Programa de Pós Graduação em Geologia na UFMG; Virgínio Mantesso Neto: Geólogo pela Universidade de São Paulo (USP), consultor de projetos voltados para área do Geoturismo no Brasil. Geoturismo como novo segmento do turismo de natureza e sua importância para a conservação do patrimônio natural Marcos Antonio L. do Nascimento Úrsula A. Ruchkys Virgínio Mantesso Neto O Brasil apresenta um grande potencial para diferentes segmentos do turismo. Nosso rico patrimônio natural e cultural favorece, dentre outros, segmentos de turismo de aventura, rural, cultural, científico, pedagógico e ecoturismo. O ecoturismo se caracteriza por ser um segmento de turismo da natureza que utiliza o patrimônio natural de forma sustentável e que busca sua proteção por meio da sensibilização e da educação ambiental. Embora os aspectos associados ao meio abiótico, especialmente as ro- chas e o relevo, também sejam atrativos para o ecoturismo, o maior apelo Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    para este segmentosão, sem dúvida, os atrativos relacionados ao meio biótico – fauna e flora. Pesquisadores preocupados em valorizar e em conservar o patrimônio associ- ado ao meio abiótico vêm, promovendo a divulgação de um novo segmento de turismo da natureza, o geoturismo. (Hose 1995, Hose 1996). Tal atividade utiliza feições geológicas como atrativo turístico, e constitui-se em uma ferramenta para assegurar a conservação e a sustentabilidade do local visitado, por meio da educação e da interpretação ambiental. Neste contexto, o presente trabalho apresenta uma discussão à cerca do tema geoturismo, promovendo a introdução de conceitos e da importância para a promoção dos patrimônios naturais de natureza geológica. O CONCEITO DE GEOTURISMO A terminologia “geoturismo” passou a ser comumente utilizada a partir de meados da década de 90 e uma primeira definição amplamente divulgada foi elaborada por Hose (1995) como sendo: “a provisão de serviços e facilidades interpretativas que permi- tam aos turistas adquirirem conhecimento e entendimento da geologia e geomorfologia de um sítio (incluindo sua contribuição para o desenvolvimento das ciências da Terra), além de mera apreciação estética”. MAIS RECENTEMENTE, RUCHKYS (2005) DEFINIU O GEOTURISMO COMO SENDO: “um segmento da atividade turística que tem o patrimônio geoló- gico como seu principal atrativo e busca sua proteção por meio da conservação de seus recursos e da sensibilização do turista, utilizando, para isto, a interpretação deste patrimônio o tornado acessível ao público leigo, além de promover a sua divulgação e o desenvolvimento das ciências da Terra”. Por ser um segmento relativamente recente, ainda são poucas as bibliografias que tratam do assunto, mesmo em nível internacional. No exterior, muito do que se escreveu sobre esse assunto foi publicado em periódicos pouco acessíveis no Brasil. Até o momento, sabe-se que existem apenas dois livros que tratam do assunto, um em italiano, escrito por Matteo Garofano (presidente da Associazione Geoturismo), em 2003, intitulado Geoturismo: scoprire le bellezze della Terra viaggiando. Nele são apresentados os principais pontos geoturísticos da Itália 372 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    proporcionando ao leitoruma viagem por aquele país, além de apresentar sua geologia e trazer sugestões de como organizar uma viagem geoturística. Mais recentemente, em agosto de 2005, foi lançado o livro Geotourism: sustainability, impacts and management, escrito por David Newsome da School of Environment Science, Murdoch University (Austrália). O livro além de trazer os conceitos básicos sobre este segmento do turismo de natureza, também leva o leitor a conhecer a prática do geoturismo em diversos países do Mundo, tais como: Estados Unidos, Inglaterra, Irlanda, Espanha, China, África do Sul, Austrália e Iran. Finalmente, este livro contempla informações com relação aos diferentes geoparques espalhados pelo mundo. Vale salientar que existem outras publicações principalmente relacionadas ao tema geoconservação que muitas vezes dedicam capítulos sobre o Geoturismo. Porém, esses livros não são específicos sobre geoturismo, mas sim sobre conser- vação do patrimônio geológico. Dentre esses livros os principais são: Geology on Your Doorstep: The Role of Urban Geology in Earth Heritage Conservation (Bennett et al. 1996); Patrimônio Geológico: Conservación y Gestión (Barettino et al. 2000); e mais recentemente, foi publicado o livro Patrimônio Geológico e Geoconservação: a Conservação da Natureza na sua Vertente Geológica (Brilha 2005). O GEOTURISMO NO MUNDO E NO BRASIL A promoção da conservação do patrimônio geológico é um dos maiores desa- fios da comunidade de geociências neste século XXI. Isto se faz necessário uma vez que os minerais, as rochas, os fósseis, o relevo e as paisagens atuais são o produto e o registro da evolução do planeta ao longo do tempo e, como tal, é parte integrante do mundo natural. Desde fins do século XX, começam a tomar corpo em alguns países, inclusive com o apoio da UNESCO, atitudes tendentes a valorizar como ponto de atrações turísticas locais com ênfase nos aspectos geológicos. Dentre as iniciativas que associam a conservação do patrimônio geológico com o turismo, destaca-se o Programa Geoparks da UNESCO. Um geopark pode ser entendido como: “Um território com limites bem definidos que tem uma área sufi- cientemente grande para que sirva ao desenvolvimento econô- mico local. Isto compreende certo número de sítios associados ao patrimônio geológico de importância científica especial, be- leza ou raridade, representativo de uma área e de sua história geológica, eventos ou processos. Além disto, um geopark deve Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    ter valor ecológico,arqueológico, histórico ou cultural.” (UNESCO 2004). Mais informações em http://www.worldgeopark.org/ O Programa Geoparks vem sendo bem difundido em países que se preocupam com a conservação e promoção do patrimônio geológico, destacando-se vários países europeus e a China. Na Europa existe a European Geoparks Networks, com parques na França, Alemanha, Espanha, Portugal e Grécia, a qual define o Parque Europeu como “um território que inclui uma herança geológica específica e uma estratégia de de- senvolvimento territorial sustentável, suportado por um programa europeu para a promoção do desenvolvimento”. Na China, a partir de 2000, baseada num acervo de sítios de herança geológica e experiência na sua conservação, aprovou formalmente a criação de 44 Geoparques Nacionais, cuja distribuição e características são dominadas pelo ambiente estrutural e neotectonismo. A conservação e desenvolvimento dos sítios trouxeram benefícios sociais, econômicos e ambientais, e criou um clima positivo para a sua inclusão na rede mundial de Geoparques sob a proteção da UNESCO (Zhao & Zhao 2003). Além do Programa Geoparks, outras iniciativas estão sendo desenvolvidas na Inglaterra, Canadá e Brasil. Na Inglaterra, um dos grandes incentivadores do geoturismo, é o geólogo Professor Thomas Hose, autor de inúmeros artigos. São deles os primeiros traba- lhos que conceituam o geoturismo (Hose 1995; 1996a, b; 1997; 1999). Em virtude disto, muitos ingleses já possuem uma educação turística voltada para a com- preensão e preservação do patrimônio geológico. No Canadá, a combinação paisagem/memória/parques/turismo já constitui matéria de estudos universitários perfeitamente estabelecidos. Por exemplo, a University of Alberta, em Edmonton (Província de Alberta), apresenta disciplinas que tratam da história da natureza, parques e viagens. Eles buscam formar idéias sobre a natureza expressas através do lazer. No Brasil, uma das primeiras providências para o desenvolvimento dessas po- líticas é a identificação de aspectos geológicos que sejam - ou possam vir a se tornar - atrações turísticas. Essa tarefa, por si só, em um país com as dimensões do Brasil, é muito significativa. Têm-se, sem dúvida, muitos exemplos clássicos e evidentes de locais de interesse geoturístico - a rigor, muitas de nossas atrações já são, sem que tivéssemos consciência disso, atrações geoturísticas como Ca- taratas de Iguaçu, Pão de Açúcar, Vila Velha, Chapada dos Guimarães, Lençóis Maranhenses, Pico do Cabugi etc. 374 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    A iniciativa maisimportante e abrangente nesse sentido é, sem dúvida, o Pro- jeto SIGEP - Sítios Geológicos e Paleontológicos do Brasil. Este envolve repre- sentantes de toda a comunidade geológica brasileira, tendo apoio de grandes organismos internacionais, como: UNESCO - World Heritage Committee (WHC), IUGS - International Union for the Geological Sciences, IGCP - International Geological Correlation Programme, IUCN - International Union for the Conservation of the Nature, e Working Group on Geological and Palaeobiological Sites (GEOTOPES). No primeiro volume do livro publicado pelo SIGEP, cujo fechamen- to se deu no final de 2001, constam 58 sítios (Schobbenhaus et al., 2002), mas o site da Internet já atingiu praticamente o dobro desse número (114 - mais deta- lhes em http://www.unb.br/ig/sigep/). Como exemplos práticos, já implantados, de roteiros geoturísticos no Brasil, existem alguns conjuntos, que são destacados abaixo: • 14 roteiros do Serviço Geológico do Brasil - CPRM, que instituiu o Programa Geoecoturismo do Brasil, abrangendo a descrição de monumentos, feições e parques geológicos, afloramentos, cachoeiras, cavernas, sítios fossilíferos, patrimônio mineiro (minas desativadas), fontes termais, paisagens, trilhas e ou- tras curiosidades geoecoturísticas (Programa Geoecoturismo do Brasil). O prin- cipal é a “Coluna White” (PR-SC); há roteiros em fase de implantação na BA e PR; • a Petrobras lançou em 2004, o Projeto Caminhos Geológicos da Bahia, inici- ado pelo painel Geológico da Falha de Salvador, em frente ao Mercado Modelo, e com previsão da instalação de mais 15 painéis em Salvador, Itaparica e Bacia do Recôncavo; • os Caminhos Geológicos do Estado do Rio de Janeiro, pioneiro nesta temática, representa o programa mais desenvolvido e “evoluído”. A partir das primeiras experiências, como os próprios responsáveis informaram, por um processo de “tentativas e erros”; foram instaladas 36 placas, estando muitas em lugares de grande fluxo de turistas. Há previsão para a instalação de cerca de outras tantas. • No XLII Congresso Brasileiro de Geologia (outubro de 2004 em Araxá, MG), o Simpósio 4, “Desenvolvimento Sustentável, Geologia e Turismo”, teve a apre- sentação de 32 trabalhos, e o Simpósio 26, “Monumentos Geológicos” 31 traba- lhos. Destes 63, pode-se identificar, pelo menos, 39 diretamente focados em aspectos do geoturismo. • Mais recentemente, foi criado um grupo de discussão na Internet baseado no Yahoo, atualmente com 61 participantes de várias regiões do Brasil e alguns do Mundo, para levantar informações e discutir as temáticas geoturismo, geodiversidade e geoconservação. Para associar-se, basta acessar o site http:/ /br.groups.yahoo.com/group/geoturismo_brasil/ Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Assim, vê-se, quejá há um movimento bem estabelecido de início das ativida- des de geoturismo no Brasil. POTENCIAL GEOTURÍSTICO DO BRASIL O Brasil, por sua diversidade, possui inúmeras feições geológicas e distintas que podem ser utilizadas com fins turísticos e conservacionistas. Cada ponto de potencial geoturístico é, inevitavelmente, uma área, região ou feição de dimen- sões significativas. Geólogos podem se interessar e viajar quilômetros para visi- tar uma ocorrência de um mineral raro, de dimensões de milímetros ou centíme- tros, mas turistas querem ver atrações maiores. Existem casos de propriedades particulares que são locais que hoje podemos chamar de geoturísticos (por exemplo, a Mina da Passagem, entre Ouro Preto e Mariana/MG; a Mina da Brejuí em Currais Novos/RN), mas são casos esporádicos. Por essa própria caracterís- tica de abranger grandes áreas, o geoturismo é inevitavelmente um tema de políticas públicas. Vale salientar que a atividade geoturística procura divulgar a geodiversidade que representa a: “Variedade de ambientes, fenômenos e processos ativos, de ca- ráter geológico, geradores de paisagens/relevo, rochas, mine- rais, fósseis e solos que constituem a base para a vida na Terra” (Stanley 2000). Isto é, o “palco” no quais todas as outras formas de vida são os “atores”. A geodiversidade é tão importante quanto a biodiversidade, porém as ações que contribuem para a conservação da natureza estão preocupadas unicamente com os seres vivos. Isto se deve, principalmente, a uma visão parcial e distorcida de algumas pessoas que trabalham com a natureza e da problemática associada à sua conservação. Enquanto essas pessoas continuarem esquecendo a impor- tância da vertente geológica nunca se poderão programar ações eficazes de conservação da natureza. Para uma ação mais ampla e completa em favor da conservação de qualquer patrimônio natural não faz qualquer sentido individua- lizar a Geo da Bio diversidade. No Brasil, são inúmeros os exemplos de locais propícios à prática da atividade geoturística. Serão apresentados aqui apenas alguns exemplos destacando os diferentes tipos de patrimônios, sejam eles geológicos, geomorfológicos, mineralógicos, paleontológicos e arqueológicos. No Brasil, o relevo se destaca na paisagem proporcionando cenários exube- rantes e mirantes que permitem a contemplação de áreas pouco conhecidas. Na 376 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    constituição do relevo,destacam-se as serras, os picos, as chapadas e afloramentos de rochas, cujos melhores exemplos são: as chapadas Diamantina (na Bahia), dos Veadeiros (em Goiás), dos Guimarães (em Mato Grosso); Pão de Açúcar (no Rio de Janeiro); picos vulcânicos do Cabugi (no Rio Grande do Norte) e de Nova Iguaçu (no Rio de Janeiro); Cataratas do Iguaçu (no Paraná); Cabo de Santo Agostinho (em Pernambuco); dentre outros. Todos esses diferentes tipos de relevo são formados por rochas sedimentares, ígneas e metamórficas. Esses locais são excelentes para a criação de sítios geológicos-geomorfológicos, hoje muito utilizados para a prática do turismo de aventura por meio de ativida- des como o traking, happel, off road e outras. Existe ainda o Parque Nacional da Serra da Capivara, que além de apresentar uma beleza cênica enorme, foi criado para conservar um dos maiores tesouros arqueológico do mundo. Milhares de inscrições pré-históricas com idades de seis a doze mil anos, gravadas em paredões de rocha. As pinturas representam aspectos do dia-a-dia, danças, ritos e cerimônias dos antigos habitantes da região, além de figuras de animais, alguns já extintos. Ainda no Nordeste, na região conhecida como Seridó (envolvendo os Estados do Rio Grande do Norte e Paraíba), inúmeras pinturas rupestres também são encontradas, onde foram catalogados mais de 90 sítios arqueológicos. Nesta região são encontrados gravuras e pinturas das três grandes tradições de pinturas rupestres do Nordeste brasileiro – Nordeste, Agreste e Itaquatiaras. No Brasil destacam-se também as áreas cársticas que são aquelas que se caracterizam por um tipo de relevo muito particular que se desenvolve por processos de dissolução aos quais estão sujeitas, especialmente, rochas com uma composição químico-mineralógica específica: as rochas carbonáticas, prin- cipalmente quando predomina o carbonato de cálcio. Estas áreas apresentam um conjunto de feições muito características que con- figuram uma grande beleza cênica como maciços rochosos expostos, paredões ou escarpas, vales, torres, depressões, dolinas, lagoas, além das próprias cavernas. O Brasil tem mais de 3.200 cavernas conhecidas, onde cerca de 100 são de uso turístico. Esse tipo de geoturismo, também denominado pelos especialistas como turismo espeleológico tem, por exemplo, os Estados da Bahia e de Minas Gerais como um dos principais locais para a sua prática. Um exemplo brasileiro de área cárstica é a Área de Proteção Ambiental (APA) Carste de Lagoa Santa, localizada no Estado de Minas Gerais, situada a aproxi- madamente 30 km ao norte de Belo Horizonte. A região tem grande valor histó- rico-cultural, paisagístico e científico sendo, reconhecidamente, uma das mais importantes do país em relação aos aspectos paleontológicos, arqueológicos e espeleológicos. O patrimônio espeleológico adquire importância por ser o maior depositário dos valorosos vestígios pré-históricos de animais e humanos. Dada Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    a importância daAPA, a Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, finan- ciou em 2004/2005, o projeto “Definição de Percursos Geoturísticos na APA Carste de Lagoa Santa, MG: Aliando Educação e Turismo”. O projeto resultou na elaboração de um percurso geoturístico que foi mapeado e georreferenciado. Todo o percurso é explicado em linguagem acessível, tornando o patrimônio geológico da APA um importante meio de educação ambiental e patrimonial. A mineração possui também um potencial geoturístico particular no Brasil, ativi- dade esta já bastante difundida em outros países do mundo. Aqui podemos citar os exemplos da Mina da Passagem, em Minas Gerais e a Mina da Brejuí, no Rio Grande do Norte, que hoje já são atrativos turísticos bastante visitados. Nessas minas, antigos túneis subterrâneos por onde circulavam os mineradores e os vagões são adequadamente apropriados para a visitação. Nelas, os turistas ficam sabendo como nossas riquezas minerais são/foram extraídas e beneficiadas. Convém lembrar, que os locais mencionados são apenas uma pequena amostra do que o Brasil possui em termos de atrativos geoturísticos. Cada Estado (ou mesmo Município) tem suas potencialidades, que podem (e devem) ser bem investigadas e adaptadas à atividade geoturística. DISCUSSÕES FINAIS Acredita-se que a atividade turística, se bem orientada, possa contribuir para a proteção do patrimônio por meio da sensibilização do turista em relação à importância dos atrativos que visita. Para as pessoas se deslocarem de seu entorno habitual, precisam de motiva- ção, de atrativos que despertem seu interesse. Atualmente, os elementos passí- veis de provocar deslocamentos de pessoas são muito variados, o que tem levado a uma segmentação da atividade turística em relação à motivação, crian- do termos específicos para designar determinados tipos de turismo, dentre eles, destaca-se o geoturismo. O geoturismo pode oferecer uma oportunidade para uma aproximação com o público, além de ser um novo produto de turismo direcionado a pessoas motiva- das por conhecimento intelectual e por atividades que envolvam aprendizado, exploração, descoberta e imaginação. Esta necessidade de conhecimento faz da interpretação um meio eficaz de prover informação em linguagem acessível tendo um papel importante no aumento do interesse na geoconservação e na geologia, além de promover sua divulgação e uma maior educação ambiental. Assim, entender a geodiversidade, em conjunto com a biodiversidade de uma dada região, permitirá efetuar ações mais completas e, conseqüentemente, ob- 378 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    ter resultados maisprecisos e duradouros quanto à proteção do meio ambiente, bem como uma experiência mais rica para o visitante. É preciso educar para conservar e na comercialização do turismo deve ser observada a venda do produto com cuidado, preparando o geoturista na questão da educação ambiental. Praticado de maneira mal planejada, esse tipo de turismo pode se transformar em um instrumento de degradação ambiental, ao invés de ser uma ferramenta para a conservação. Sabe-se que uma boa educação ambiental favorece a pro- teção de qualquer patrimônio natural. Diante desse panorama, o geoturismo requer um planejamento prévio e ade- quado para se consolidar e se desenvolver garantindo o sucesso da atividade. Para a prática desta atividade necessita-se da participação das comunidades locais; favorece a geração de emprego e de renda; promove a minimização dos impactos ambientais e dos problemas sócio-econômicos; além da conservação do patrimônio natural para as presentes e futuras gerações. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Ano: 2004 Publicação original: CD-Rom Formato da contribuição: resumo expandido Fonte: “A utilização do geoturismo como meio de promover a educação ambiental em unidades de conservação (UC) no Rio Grande do Norte (NE do Brasil)”, Natal/RN, I Encontro Nordestino de Educação Ambiental, 2004. E-mail do(s) autor(es): marcos@geologia.ufrn.br; debora@geologia.ufrn.br; farkatt@yahoo.com Títulos acadêmicos principais atuais: Marcos Antonio L. do Nascimento: Doutor e Mestre em Geodinâmica, geólogo e professor das disciplinas de recursos naturais e meio ambiente do Curso de Turismo da Universidade Federal do Rio Grande do Norte; Débora do Carmo Sousa: Geóloga pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), doutorado em Geodinâmica na Pós-Graduação em Geodinâmica e Geofísica da UFRN (PPGG-UFRN), pesquisadora e professora colaboradora do PPGG-UFRN; Werner Farkatt Tabosa: Geólogo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), mestrado e doutorado em Geodinâmica na Pós- Graduação em Geodinâmica e Geofísica da UFRN (PPGG/UFRN). A prática do geoturismo como meio de promover a educação ambiental em Unidades de Conservação (UC) no Rio Grande do Norte (NE do Brasil) Marcos Antonio L. do Nascimento Debora do Carmo Sousa Werner Farkatt Tabosa O interesse e necessidade por preservação de áreas naturais vêm de épocas antes mesmo da criação do conceito de unidades de conservação (adiante abrevi- ada como UC´s) e, portanto, a necessidade de criar as UC´s foi questão de tempo (Costa, 2002). No Brasil, somente em 2000, por intermédio da Lei n° 9.985/2000, foi constituído o Sistema Nacional de Unidades de Conservação da Natureza (conhe- cido também como SNUC), este sendo formado pelo conjunto das unidades de conservação federais, estaduais e municipais. Contudo, diversas categorias de manejo já vinham sendo implantadas anteriormente, sem existir um critério de uniformização dessas. Assim, um dos principais objetivos do SNUC foi o de impor critérios para a regularização das diferentes categorias de manejo. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Inserido em umdos objetivos do SNUC está aquele que serve para “proteger as características relevantes de natureza geológica, geomorfológica, espeleológica, arqueológica, paleontológica e cultural” (Costa, 2002). São essas características que o geoturismo utiliza como atrativos, sempre com a preocupação de promo- ver a (geo)conservação. A prática desta modalidade de turismo proporciona ao turista não só o des- lumbramento de novas paisagens, mas também o entendimento de como aquelas feições foram geradas. Além disso, faz com que o turista perceba a real necessi- dade de conservá-las. A ATIVIDADE DO GEOTURISMO NO RN Diferentes segmentos de turismo vêm sendo praticados no RN. Além do tradi- cional sol e praia temos também os turismos: religioso, de aventura, científico, de negócio, rural e o ecoturismo. O ecoturismo, que há alguns anos vem se destacando no Brasil, promove um turismo sustentável em áreas naturais, beneficiando o meio ambiente e as comu- nidades visitadas, promovendo assim aprendizado, respeito e consciência sobre aspectos ambientais. Porém, notavelmente, este tipo de turismo contempla ape- nas a biodiversidade (fauna e flora). Pessoas preocupadas em valorizar e conseqüentemente conservar os patri- mônios naturais existentes ao longo do mundo, vêm promovendo a divulgação de um outro segmento do turismo de natureza, o chamado Geoturismo (Hose, 1996, 1997). Tal atividade utiliza feições geológicas como atrativo turístico, tendo um potencial como ferramenta para assegurar a conservação e o desen- volvimento sustentável do local visitado. Além disso, o geoturismo procura também divulgar a geodiversidade do local que representa a “variedade de ambi- entes, fenômenos e processos ativos, de caráter geológico, geradores de relevo (paisagens), rochas, minerais, fósseis e solos que constituem a base para a vida na Terra” (Stanley, 2000). Isto é, o “palco” no qual todas as outras formas de vida são os “atores”. O geoturismo já vem sendo desenvolvido, há bastante tempo, nos Estados Unidos, bem como no outro lado do Atlântico, mas precisamente em países europeus como Inglaterra, Espanha, Portugal e Itália. Na América do Sul, Argen- tina e Chile são os pioneiros. No Brasil, as primeiras atividades diretamente relacionadas ao geoturismo ocorreram no ano de 2000, e de lá pra cá, mesmo de forma tímida tal modalidade vem se tornando um segmento bem estabelecido. 382 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Desta forma, oRN não poderia ficar de fora deste novo mercado turístico, já que temos em nosso Estado inúmeros monumentos e sítios geoturísticos que podem (e devem) ser trabalhados, claro que de forma sustentável. O RN, em questão de relevo (“paisagens”), minerais, rochas (“pedras”) e diversos outros temas geológicos, apresenta exemplos dos mais didáticos e completos (Nascimento et al., 2004), indo desde rochas antigas do embasamento cristalino (com mais de 3 bilhões de anos atrás) até às cober- turas de dunas (com menos de 5 mil anos). Muitos desses exemplos constitu- em potenciais monumentos e sítios, que vêm atualmente despertando tam- bém interesses histórico e cultural em visitas espontâneas ou guiadas por operadores e agências de turismo. Dentre os diversos exemplos de sítios e monumentos geoturísticos encontra- dos no RN destacam-se os imensos campos de dunas com areias de diferentes cores, a exemplo das dunas do Rosado (em Porto do Mangue), de Genipabu (em Extremoz), da região entre Tibau do Sul e Macau, o Parque das Dunas (em Natal), entre outros. Exuberantes falésias sob a forma de enormes paredões, onde são encontrados mirantes que permitem o deslumbramento da imensidão do mar e seu horizonte, com destaque para as regiões de Tabatinga, Pipa/Sibaúma, Macau a Tibau do Sul (passando por Ponta do Mel), onde muitas vezes a associação dunas e falésias possibilita a visão de uma paisagem única. As praias e os cordões de arrecifes complementam a paisagem litorânea. Contudo, não se pode esque- cer que associado a tudo isso ainda ocorre as lagoas, lagunas, estuários e rios que entrecortam o litoral potiguar. Já no interior potiguar têm-se regiões onde o relevo se destaca na paisagem proporcionando mirantes que permitem a contemplação de áreas pouco conhe- cidas. Nestes relevos têm-se as serras e picos, como destaque para as serras de Martins, Portalegre, Santana e Feiticeiro, o Pico Vulcânico do Cabugi (Fernando Pedrosa/Lajes), o Lajedo de Soledade (Apodi), o Lajedo da Escada (Baraúnas). Têm-se ainda as cavernas do Roncador (Felipe Guerra) e a Casa de Pedra (Martins), e as diversas morfologias esculpidas em rochas graníticas em Acari, São Rafael e Monte das Gameleiras, juntamente com a existência das rochas mais antigas da América do Sul (Serra Caiada) com idade de 3,45 bilhões de anos. Além disso, convém destacar os sítios arqueológicos (Carnaúba dos Dantas, Lajedo de Soledade) e paleontológicos que se espalham por todo o Estado, complementando seu potencial para a prática do Geoturismo. Finalmente, destacamos a mineração e seu potencial geoturístico onde o Distrito Mineiro da Brejuí (Currais Novos) representa o melhor exemplo. A Mina Brejuí com 60 km de túneis subterrâneos, já possui cerca de 300 metros preparado para visitação. Há também um Museu instalado com toda a histó- ria da Mina. AS UNIDADES DE CONSERVAÇÃO DO RIO GRANDE DO NORTE & DaCosta, Lamartine P. Almeida, Ana Cristina P.C. de Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007 Apesar do RN apresentar inúmeras áreas de extrema importância e necessidade
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    de preservação, existeatualmente no território potiguar apenas 15 unidades de conservação oficiais, sendo 08 federais (administradas pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis - IBAMA) e 07 estaduais (administradas pelo Instituto de Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente – IDEMA/RN), onde muitas delas ainda não foram realmente implantadas. A Tabela 1 mostra em detalhe os nomes de cada UC, bem como sua área em hectares (Ha), a legislação que oficializou a criação e o bioma específico. Tabela 1 – UC´s Federais e Estaduais no RN. Fonte: IBAMA e IDEMA/RN. UNIDADES DE CONSERVAÇÃO FEDERAIS Nome Área em Ha Legislação Bioma Unidade` de Proteção Intečral Estaçõ^s Ecológicas Estação Ecológica 1.128,00 87.222 de Caatinga do Seridó 31.05.82 R^s^rvas Biológicas Reserva Biológica 35.342,00 83.549 de Marinho do Atol das Rocas 05.06.79 Unidade` de U`o ču`tentável Flor^stas Nacionais Floresta Nacional 215,25 Dec. 3834 de Mata Atlântica Açu 05.06.01 Floresta Nacional 174,00 Dec. s/n de Mata Atlântica Nísia Floresta 27.09.01 R^s^rva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) RPPN Mata Estrela 2.039,93 Port. 20 de Ecossistemas Costeiros em Baía Formosa 2000 RPPN Fazenda Salobro em 755,95 Port. 052 de Caatinga Jucurutu 1994/N RPPN Reserva Sernativo em 154,29 Port. 109 de Caatinga Acari 1996/N RPPN Fazenda Santa Helena 21,63 Sem Caatinga em S.B. do Norte informações UNIDADES DE CONSERVAÇÃO ESTADUAIS Unidade` de Proteção Intečral Parqu^s Estaduais Parque Estadual 1.172,00 Dec. 7.237 de Mata Atlântica Dunas de Natal 22.11.77 Parque Ecológico 2.164,00 Dec. 14.813 de Caatinga Pico do Cabugi 16.03.00 Unidade` de U`o ču`tentável Ár^as d^ Prot^ção Ambi^ntal (APA) APA 1.881,00 Dec. 12.620 de Ecossistemas Costeiros Jenipabu 17.05.95 APA 42.194,00 Dec. 14.639 de Ecossistemas Costeiros Bonfim/Guaraíra 22.03.99 APA dos 180.000,00 Dec. 15.476 de Ecossistemas Costeiros Recifes de Corais 06.06.01 APA 12.019,66 Dec. 10.683 de Ecossistemas Costeiros Piquiri-Una 06.06.90 R^s^rva d^ D^s^nvolvim^nto Sust^ntáv^l (RDS) RDS Estadual 12.946,03 Lei 8.349 de Ecossistemas Costeiros Ponta do Tubarão 17.07.03 384 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    De acordo como SNUC, as UC´s dividem-se em dois grupos, com característi- cas específicas, chamadas de (i) Unidades de Proteção Integral e (ii) Unidades de Uso Sustentável. O grupo das Unidades de Proteção Integral é composto pelas categorias de UC, denominadas de: (i) Estação Ecológica, (ii) Reserva Biológica, (iii) Parque Nacional, (iv) Monumento Natural, e (v) Refúgio de Vida Silvestre. Enquanto que o Grupo das Unidades de Uso Sustentável tem as categorias de UC chama- das de: (i) Área de Proteção Ambiental, (ii) Área de Relevante Interesse Eco- lógico, (iii) Floresta Nacional, (iv) Reserva Extrativista, (v) Reserva de Fauna, (vi) Reserva de Desenvolvimento Sustentável, e (vii) Reserva Particular do Patrimônio Natural. De acordo com o IDEMA/RN, órgão que cuida das UC´s no Estado, e o IBAMA, o RN possui, ao todo, uma estação ecológica, uma reserva biológi- ca, duas florestas nacionais e quatro reservas particulares do patrimônio natural (no âmbito federal), além de dois parques estaduais, quatro áreas de proteção ambiental e uma reserva de desenvolvimento sustentável (no âmbito estadual – Figura 1). Além dessas UC´s, o IDEMA/RN está realizado estudos para futura criação de oito novas unidades, são elas: Parque Estadual Mata da Pipa, Monumento Natural Morro do Careca, APA das Dunas do Rosado, Parque dos Mangues, Parque do Jiqui, Parque da Ilha de Santa Luzia, APA Açu e Cavernas de Martins. Porém, até o presente momento apenas a três primeiras estão com os estu- dos adiantados. Em todas as UC´s do RN é comum encontrarmos feições que são facilmente utilizadas na prática do geoturismo (Figura 2). Aquelas que se encontram no litoral potiguar, a exemplo do Parque Estadual Dunas de Natal, APA de Jenipabu, APA Bonfim/Guaraíra, APA dos Recifes de Corais e a RDS Ponta do Tubarão, possuem enorme geodiversidade ainda pouco conhe- cida do ponto de vista geoturístico. A paisagem litorânea permite conhecermos imensos campos de dunas com areias de diferentes cores. Exuberantes falésias sob a forma de enormes paredões também podem ser trabalhadas no geoturismo. São nelas onde encontramos mirantes que permitem deslumbrarmos a imensidão do mar e seu horizonte. As praias e os cordões de arrecifes complementam esta paisagem litorânea. Associado a tudo isso ocorrem ainda lagoas, lagunas, estu- ários e rios que entrecortam o litoral. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Figura 1 –Mapa de localização das unidades de conservação no Estado do Rio Grande do Norte. No interior, o melhor exemplo é dado pelo Parque Estadual do Pico do Cabugi. Este representa o cartão postal do RN e compreende um dos únicos vulcões brasileiros que ainda preserva a sua morfologia original. Nele ocorrem rochas denominadas de basaltos cuja idade é de 25 milhões de anos. Sua denominação é de origem Tupi-Guarani e significa “peito de moça”. 386 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo
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    Figura 2 –Feições paisagísticas das sete unidades de conservação encontradas no Estado do Rio Grande do Norte. Fotos: IDEMA/RN e Marcos Nascimento. A IMPORTÂNCIA DO GEOTURISMO PARA A EDUCAÇÃO AMBIENTAL Acredita-se que a atividade geoturística, se bem orientada, pode contribuir para a proteção do patrimônio natural, e conseqüente preservação deste, por meio da sensibilização do turista em relação à importância dos atrativos que visita. É preciso educar para preservar e na comercialização do turismo deve ser observada a venda do produto com cuidado, preparando o geoturista na questão da educação ambiental. Praticado de maneira mal planejada, esse tipo de turismo pode se transformar num instrumento de degradação ambiental, ao invés de ser uma ferramenta para a conservação. Sabe-se que uma boa educação ambiental favorece a preserva- ção e conservação de qualquer patrimônio natural. Almeida, Ana Cristina P.C. de & DaCosta, Lamartine P. Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo. Rio de Janeiro: Editora Gama Filho, 2007
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    Diante desse panorama,o geoturismo requer um planejamento prévio e ade- quado para se consolidar e se desenvolver garantindo o sucesso da atividade. Para a prática desta atividade necessita-se da participação das comunidades locais; favorece a geração de emprego e renda; promove a minimização dos impactos ambientais e dos problemas sócio-econômicos; além da conservação do patrimônio natural para as presentes e futuras gerações. Assim, a necessidade de se ter uma boa educação ambiental é de suma impor- tância para este tipo de atividade. Com certeza, no final, a natureza agradece. [As referências bibliográficas desta contribuição podem ser consultadas na fonte original] 388 Meio ambiente, esporte, Lazer e turismo