Catálogo
Sobre o autor
Peter de Rosa, licenciado pela Universidade Gregoriana de
Roma, foi Professor de Metafísica e Ética no Westinster
Seminary e Deão de Teologia no Corpus Christi College de
Londres. As suas obras incluem: Rebels: The Irish Rising of
1916 e o romance Pope Patrick. Deixou o sacerdócio em
1970 e vive actualmente na Irlanda com a mulher e dois
filhos.
Peter de Rosa
Os Vigários de Cristo
O Lado Negro do Papado
Traduzido do original
por
Luís Varela Pinto
Espinho
2000/2001
Título do original: Vicars of Christ, The Dark Side of the Papacy
Edição que serviu de base à tradução:
Poolbeg Press Ltd, 123,
Baldoyle Industrial Estate,
Dublin 13, Ireland
2000
A
Todas as Vítimas do Holocausto,
com Humildade e Penitência
Índice
Um Novo Prefácio para um Novo Milénio 9
Prólogo: O Grande Encobrimento 13
Primeira Parte: O Poder 17
1 Do Calvário ao Vaticano 19
2 A Busca do Poder Absoluto 35
3 A Pornocracia Papal 51
4 O Apogeu do Papado 59
5 O Poder em declínio 75
6 A Descida do Papado aos Infernos 87
7 A Inevitável Reforma 107
8 O Crepúsculo do Poder Absoluto 117
Segunda Parte: A Verdade 131
9 O Esmagamento da Dissidência 133
10 A Imposição da Verdade 145
11 A Perseguição às Bruxas e aos Judeus 171
12 As Heresias Papais 191
13 O Primeiro Papa Infalível 219
14 A Grande Purga 235
Terceira Parte: O Amor 247
15 O Papa que Amava o Mundo 249
16 O Novo Caso Galileu 261
17 Uma Visão Pouco Amorosa do Sexo 289
18 Os Papas, Pioneiros do Divórcio 303
19 O Holocausto Silencioso 329
20 Celibatários Pouco Castos 351
Epílogo 391
Cronologia 395
Os Papas 403
Os Concílios 409
Nota sobre as Fontes 414
Bibliografia Selecta 415
9
Um Novo Prefácio para um Novo Milénio
O sucesso internacional de Os Vigários de Cristo: O Lado Negro do Papado foi para
mim uma surpresa. Muitos católicos escreveram-me a agradecer. Com uma educação
baseada apenas no lado eternamente luminoso do papado, ficaram com a ideia de que,
à parte uma ocasional maçã podre, como o Papa Bórgia, Alexandre VI, os papas eram
escolhidos pela sua santidade.
Este livro mostra que nos primeiros dois mil anos o papado foi campo de muito mais
escândalos clericais do que a Irlanda ou a América hoje.
Muitos papas, como Benedito IX, eleito em 1032 quando tinha onze anos, foram
desumanos; outros foram assassinos; Júlio II, que lutou pelos Estados Papais
envergando a sua armadura, estava convencido de que Jesus tinha dado ao Pescador e
seus herdeiros uma boa fatia da Itália Central a título perpétuo. Foi este o papa que
proibiu toda a gente de beijar-lhe os pés na Sexta-Feira Santa de 1508. A sífilis estava a
matá-lo.
O papa é católico? O leitor de Os Vigários de Cristo pode ficar surpreendido ao
descobrir que alguns não o eram. Segundo o Papa Adriano VI (1522-3), muitos
pontífices romanos eram hereges. Marcelino (296-304) foi apóstata. Vigílio (537-55) e
Honório (625-38) foram condenados como hereges por Concílios Gerais da Igreja.
Como disse Adriano VI, «Não há dúvida de que o Papa pode errar em matéria de fé
quando ensina a heresia».
Muitos papas criaram culturas de morte e cometeram crimes contra a humanidade.
As Cruzadas, que levaram ao massacre de centenas de milhar de vítimas, não foram
ideia de católicos renegados, mas de papas renegados. Impiedosamente, eles puseram
as suas jihads ou Guerras Santas sob a protecção de Jesus, que em Getsémani obrigou
Pedro a embainhar a espada.
Também foram os papas que inventaram a Inquisição, o gueto e as roupas que
identificavam os Judeus, a destruição pelo fogo de cidades heréticas e a fogueira para
velhas mulheres apelidadas de bruxas. Foram milhões os que morreram às ordens dos
papas. Alguns papas, que podiam ter dado lições de brutalidade a Cromwell, foram
canonizados.
Muitos papas do Renascimento, ao serviço de um Cristo da Wall Street, não
conseguiram passar sem meter a mão na gaveta. Foram simoníacos em grande escala.
Para conseguirem a eleição subornaram cardeais oferecendo-lhes abadias e montes de
ouro e prata. Uma vez em exercício, usavam os lucros das vendas de bispados e
indulgências para enriquecer as amantes, os filhos, os netos, os irmãos e as irmãs.
Apropriaram-se do equivalente a milhões de dólares. O Bispo Casey, de Galway, ao
entregar 125.000 dólares dos fundos da diocese à sua amante americana Annie Murphy
quase não deixa marcas numa escala de Richter das más acções do clero.
O que é que por fim pôs o papado num caminho mais próximo de Cristo? A
Reforma. Foram homens devotados, como o destroçado Lutero, que levou cebolas para
Roma e de lá voltou com alhos, foi o protesto de cristãos sérios, a maioria protestantes,
que finalmente obrigaram Roma a arrepiar caminho. Nessa altura o mal para a unidade
dos cristãos já estava feito. E continuou até hoje, como está à vista de toda a gente.
Isto não se encontra nos sermões, nem nas encíclicas papais, nem no Catecismo
Católico. Esta a razão por que muitos católicos, incluindo prelados do Vaticano, tendem
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a presumir que o papa tem sempre razão e portanto tem de ser cegamente obedecido.
De facto, é muito perigoso para os católicos escutar os papas que não escutam a Igreja.
Este livro pergunta: não poderão os papas modernos, como Paulo VI e João Paulo II,
errar da mesma maneira que os seus antecessores que obrigaram católicos leais a
aceitar a Inquisição, a venda de indulgências, os guetos para os Judeus, a fogueira para
as bruxas? E se não podem, por que é que não podem?
Muitos apreciadores deste livro concluíram: «Nós temos sorte por o papado já se ter
reformado». Discordo. O poder absoluto investido nos papas desde 1870 levou Roma a
doutrinar com fundamento no papado. Esse mesmo poder absoluto fez com que, ao
invés de acabarem, os crimes papais se multiplicassem.
Consideremos a actual condenação da contracepção, contrária à crença quase
universal da Igreja. Isto constitui uma moderna heresia papal. A comunidade mundial
está a crescer um bilião em cada doze anos. A população cresce mais num ano do que
cresceu nos quinze séculos que se seguiram à morte de Cristo. O diálogo morreu. João
Paulo proibiu mesmo os bispos de discutirem a contracepção. Em África e na América
do Sul esta cruzada papal levou a mais campos de concentração de miséria, a mais
abortos provocados e, devido à pandemia da SIDA, a mais mortes do que em qualquer
outra época da história do Cristianismo.
As mulheres católicas em particular andam perturbadas. Os papas insultam-nas
com cortesia requintada assegurando-lhes que a sua contribuição é indispensável em
toda a parte, menos na Igreja. São filhas de um Deus menor.
O maior escândalo da Igreja Católica desde a Reforma é o abuso sexual de
crianças por parte do clero. Estranhamente, não houve da parte de João Paulo II, um
homem nobre e bom, uma palavra de condenação. Entretanto, os seus ataques à
contracepção saltavam como o sal do saleiro.
O verdadeiro mistério da história papal não é o facto de os homens maus
cometerem más acções. É sim o de os homens bons cometerem más acções e de os
melhores homens cometerem as piores de todas acções. Edward Gibbon disse: «Os
vícios do clero são muito menos perigosos do que as suas virtudes». A frase de Lord
Acton «O poder absoluto corrompe absolutamente» serviu de guia às minhas
investigações para este livro. Pouca gente sabe como essa frase termina: «Os grandes
homens são quase sempre perversos. Não há maior heresia do que aquela em que o
gabinete santifica o seu detentor». O amor do poder sempre há-de destruir o poder do
amor.
A Igreja Católica entra no terceiro milénio com uma moral do século XIX e uma
estrutura medieval baseada no absolutismo papal e um clero masculino celibatário. Não
admira que noventa por cento dos católicos modernos discordem do papa em questões-
chave como a contracepção, o divórcio, o celibato do clero, as mulheres no sacerdócio
e o aborto.
A minha esperança é que este livro encoraje os católicos, clero e leigos, a exigir
uma voz num terceiro Concílio Vaticano. Sem isso, não há a mínima possibilidade de a
Igreja se reformar e enfrentar um futuro desconhecido mas excitante.
Os Vigários de Cristo
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Prólogo
O Grande Encobrimento
Facilmente se pode considerar o maior encobrimento da história. Dura há séculos,
tendo sacrificado, primeiro, milhares e depois milhões de vidas. Embora perfeitamente
visível, ninguém parece ter reparado nele. Inconscientemente, muitos artistas, grandes
e menos grandes, contribuíram para ele. E a camuflagem tem apenas o tamanho de um
pequeno pedaço de pano — aquele pano que cobre o ventre de Jesus Cristo
crucificado.
No princípio, a cruz nunca era representada na arte ou na escultura. Enquanto Jesus
foi adorado pelo seu despojamento e a cruz era o centro da fé, ninguém se atreveu a
representá-lo na sua extrema humilhação.
Diz-se que os exércitos de Constantino ostentavam a cruz nas suas insígnias. Isto
não era bem assim. O escudo e o estandarte tinham as duas primeiras letras do nome
grego de Cristo, , fundidas assim: .. Só quando a memória dos milhares que
morreram crucificados por todo o mundo romano se desvaneceu é que os cristãos se
sentiram livres para representar a cruz como símbolo da paixão de Cristo. Era uma cruz
vazia. Quem é que se atrevia a recrucificar Cristo?
Mais tarde, este simples símbolo da sua vitória sobre as forças do mal começou a
parecer demasiado austero. Os artista do século V começaram a pintar uma cruz com
um cordeiro junto a ela, porque Jesus era «o Cordeiro de Deus» sacrificado pelos
pecados do mundo. Depois, com crescente ousadia, começaram a pintar um Jesus
junto da cruz. Só nos fins do século VI, e apenas com duas excepções, é que ele foi
representado mesmo na cruz. E ainda assim, o artista não se atreveu a reproduzir a dor
e a humilhação. Jesus estava envolto numa comprida túnica e só as mãos e os pés
estavam nus para mostrar de maneira estilizada os pregos que o prendiam à madeira.
Era uma imagem de triunfo, ele não estava a sofrer e a morrer, mas a reinar, de olhos
abertos e por vezes coroado, no trono da cruz. A primeira representação grega de
Jesus em sofrimento na cruz, do século X, foi condenada por Roma como blasfema.
Mas a Igreja de Roma depressa se rendeu ao seu fascínio.
Com Jesus cada vez mais longínquo e com a teologia medieval cada vez mais seca e
mais escolástica, a devoção exigia um Cristo mais humano: um homem que se pudesse
ver e quase tocar, um homem com as provações e sofrimentos por que eles próprios
passavam em cada dia das suas vidas curtas e sofridas. Os artistas agora
representavam livremente Cristo em agonia na cruz; feridas profundas e sangue, agonia
em cada membro, abandono no olhar. Reduziram-lhe as vestes para inculcar no espírito
dos fiéis a dimensão da humilhação do Senhor.
E por aí se ficaram: uma tanga. Se o artista tivesse ido mais longe, quem teria tido a
coragem de olhar Cristo tal como ele estava: nu como um escravo?
O que deteve a mão do artista não foi o decoro mas a teologia. A culpa não foi dos
artistas. Afinal, como é que eles podiam perceber que o sofrimento do Cristo
recrucificado, sem a verdade última que só a nudez integral consegue revelar, levaria a
uma catástrofe? Ao conceder a Jesus os farrapos finais da decência, aquela tanga
retirou-lhe a condição de judeu. Cobriu-lhe literalmente a dignidade e tornou-o um não-
judeu honorário. Porque o que aquilo escondia não era apenas o sexo mas aquela
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cicatriz na sua carne, a circuncisão, que mostrava que ele era judeu. Era isso o que os
cristãos receavam ver.
Nas crucificações de Rafael e Rubens, e mesmo nas de Bosch e Grünwald, a tanga
torna-se ornamental; ela cai decorosamente em pregas. Na crucificação Colmar de
Grünwald, diz Husmans, Jesus está curvado em arco; o corpo torturado brilha
palidamente, polvilhado de sangue, eriçado de espinhos como a casca da castanha da
Índia. Foi isto, parece o artista dizer, o que o pecado fez a… quem?
A Deus, é a resposta da teologia. Isto é a morte de Deus. Quanto mais intensa for a
agonia, quanto menos a Sua glória transparecer, mais aterradora ela é. «Deus morreu
no Calvário». Isto parece boa teologia. Poderia ter sido, não fora aquele pedaço de
pano. Porque, parece o artista dizer, alguém é responsável por aquilo que fizeram a
Deus. Mas quem?
Uma leitura superficial do Evangelho Segundo S. Mateus dá a resposta: os Judeus.
Eles gritaram a Pilatos: «Crucifica-o. Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os
nossos filhos». A palavra de Deus parece culpar os judeus contemporâneos de Jesus e
seus descendentes pela Morte de Deus. Os Judeus são, portanto, deicidas. Uma gota
daquele Sangue salvaria um milhar de mundos; os judeus derramaram-no todo. Para
eles, o Sangue não é a salvação, mas antes uma eterna maldição. Com a sua
descrença, os judeus continuam a matar Deus. Tendo assassinado Cristo, sendo
culpados do maior crime que se pode imaginar, eles eram certamente capazes de tudo.
É esta a calúnia. É esta a grande heresia. Por via disto, as estórias de rituais de judeus
a assassinarem crianças cristãs e a beberem o seu sangue enquadravam-se no padrão
estabelecido pelo Crime da Morte de Deus. Essas falsidades ainda circulam por aí.
Sem o encobrimento, sem aquele pedaço de pano, teria sido evidente para toda a
gente que o que se passou no Calvário foi também o assassinato de um judeu. Deus
era judeu. Não era tanto o facto de os Judeus matarem Deus, mas o de um judeu
derramar o seu sangue pelo pecado do mundo. Teriam os cristãos ao longo dos séculos
instituído pogroms contra os Judeus em nome da Cruz se nela Jesus ostentasse a
marca da circuncisão? Teria um judeu autorizado o massacre de Judeus? Não seria
natural que Jesus estivesse presente em todos os pogroms a dizer: «Por que me
perseguis? Porque o que fazeis ao mais humilde dos meus irmãos, fazei-lo a mim»?
Esse encobrimento, agora com quase vinte séculos, não foi perpetrado por uma seita
dissidente, mas pela linha principal da Cristandade, pela Santa Igreja Católica
Apostólica Romana. Nenhuma outra doutrina foi ensinada mais universalmente, com
menos reservas — mais infalivelmente, em termos católicos — do que a que reza que
«Os Judeus são malditos por matarem Deus», uma acusação ainda não retirada
oficialmente. Numa reviravolta bizarra, os Judeus, donde proveio o Salvador, foram os
únicos culpados pela sua morte. Não foi Jesus que foi recrucificado, mas a raça donde
ele proveio.
No Terceiro e Quarto Concílios de Latrão (1179 e 1215), a Igreja codificou todas as
leis anteriores contra os Judeus. Eles tinham de usar um distintivo da vergonha. Na
Inglaterra era cor de açafrão, e com o alegado formato das tábuas de Moisés. Na
França e na Alemanha era amarelo e redondo. Na Itália o distintivo era um chapéu
vermelho, até que um prelado romano míope tomou um judeu por um cardeal e a cor foi
mudada para o amarelo. Aos Judeus era proibido todo o contacto com cristãos, a
administração estava-lhes vedada e as suas terras eram-lhes confiscadas, não podiam
ser proprietários de lojas e eram arrebanhados para guetos que à noite eram fechados.
Nenhum outro sistema de apartheid foi imposto com tanto rigor. Por se recusarem a
negar a sua fé ancestral e a converterem-se ao Cristianismo, os Judeus foram
enxotados de terra para terra. Um papa deu-lhes um mês para abandonarem as suas
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casas na Itália, deixando-lhes apenas dois locais de refúgio. Durante as Cruzadas, eles
foram chacinados aos milhares por devoção a Cristo. Um judeu que pusesse o nariz de
fora na Sexta-feira Santa estava virtualmente a cometer um suicídio, isto apesar de o
Homem na Cruz ter um nariz judeu. Assim, ao longo dos séculos foram milhões os que
sofreram e morreram. Uma arte deficiente e uma teologia desastrosa prepararam o
caminho para Hitler e a sua «solução final».
Para começar, na Alemanha Nazi pintavam estrelas nas casas e lojas de judeus; era
o sinal de que podiam ser destruídas e pilhadas. As cidades gabavam-se, tal como
tinham feito nos tempos medievais, de estarem Judenrein, livres da contaminação judia.
Muito tipicamente, nos arredores da aldeia de Oberstdorf havia umas alminhas à borda
da estrada com um crucifixo. Sobre a cabeça de Jesus estava a inscrição INLI («Jesus
da Nazaré, Rei dos Judeus»). Em primeiro plano lia-se um aviso: «Juden sind hier nicht
erschwüncht» — «Os judeus não são benvindos aqui.»
Em 1936, o Bispo Berning de Osnabrüch esteve a falar com o Führer durante mais de
uma hora. Hitler assegurou a Sua Reverência que não havia qualquer diferença
fundamental entre o Nacional Socialismo e a Igreja Católica. Não é verdade,
argumentava ele, que a Igreja tinha considerado os Judeus como parasitas e os tinha
fechado em guetos? «Eu só estou a fazer» gabava-se ele «o que a Igreja fez durante
mil e quinhentos anos, só que com mais eficácia». Sendo ele próprio católico, disse ele
a Berning, «admirava e queria promover a Cristandade».
Parece que nunca lhe ocorreu a ele, Hitler, que Jesus, a quem ele se referiu em Mein
Kampf como «o Grande Fundador deste novo credo» e o flagelo dos Judeus, era ele
próprio judeu; e se de facto nunca lhe ocorreu, por que não? A partir de Setembro de
1941, todos os judeus do Reich com mais de seis anos tinham que usar em público, em
sinal de vergonha, a Estrela de David. Por que é que Hitler não obrigou a que na tanga
de todos os Cristos crucificados em exposição no Reich fosse afixada essa mesma
Estrela de David? Teria ele sido tão veemente a promover a sua qualidade de cristão se
só uma vez que fosse tivesse visto Cristo crucificado exactamente como ele era?
Suponhamos que Jesus aparecia nu em todas as cruzes da Alemanha? Teriam os
bispos alemães e Pio XII mantido o silêncio durante tanto tempo se tivessem o seu
Senhor crucificado sem a tanga?
Apesar da crueldade cristã, que em certa medida preparou o Holocausto, alguns
católicos continuam a dizer que a sua Igreja nunca pecou.
Quinze anos depois de os portões de Auschwitz, Bergen-Belsen, Dachau,
Ravensbruch e Treblinka terem sido misericordiosamente abertos, um papa, João XXIII,
como que para confundir os críticos que dizem que o papado nunca muda, compôs esta
notável oração: «A marca de Caim está-nos estampada na testa. Ao longo dos séculos,
o nosso irmão Abel tem estado banhado em sangue que nós derramámos e tem
chorado as lágrimas que nós provocámos ao esquecer o Vosso amor. Perdoai-nos,
Senhor, pela maldição que nós erradamente atribuímos ao seu nome de Judeus.
Perdoai-nos por Vos crucificarmos pela segunda vez na sua carne. Porque nós não
sabíamos o que fazíamos.»
Foi uma expiação por mais de uma centena de documentos publicados pela Igreja
entre os séculos sexto e vinte. Não há um único decreto conciliar, encíclica papal, Bula
ou directiva pastoral que sugira que o mandamento de Jesus «Ama o próximo como a ti
mesmo» se aplicava aos Judeus. Contra toda esta tradição, João o Bom apontou a
marca de Cain na sua própria testa. Ele aceitou a culpa da Igreja de derramar sangue
judeu ao longo dos séculos, de acusá-los de serem amaldiçoados por Deus. E ainda
mais comovidamente, afirma que a perseguição dos católicos aos judeus resultou na
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segunda crucificação de Jesus na carne do seu próprio povo. O papa, representante de
uma igreja sagrada e infalível, pediu perdão por estes terríveis pecados e erros. A nossa
única desculpa, disse ele, foi a ignorância.
Antes de se tornar Sumo Pontífice, João já tinha sido delegado apostólico para a
Turquia e Grécia, quando Hitler subiu ao poder. Emitiu certificados de baptismo falsos
para quatro mil judeus para eles poderem afirmar-se como cristãos e assim escaparem
ao Holocausto. Quando a guerra acabou e ele foi nomeado núncio em Paris, foi a um
cinema ver as primeiras imagens dos sobreviventes do campo de morte de Belsen. Saiu
em lágrimas dizendo, «Isto é o Corpo Místico de Cristo». Foi talvez esta traumática
experiência que fez com que ele fosse o primeiro papa a ver Jesus na cruz sem o pano
à volta da cintura.
O Papa João não teve qualquer dificuldade em reconhecer que a Igreja errou. Errou
desastrosamente — e errou ao longo de muitos séculos. Foi um dos raros pontífices
que viram que o único caminho da Igreja era encarar sem medo o próprio passado, por
muito pouco cristão que ele pudesse ter sido. Quase um quarto de século depois da sua
morte, ainda há alguns crentes que insistem que a Igreja deve ter sido sempre aquilo
que é hoje — a despeito das provas irrefutáveis em contrário. Esses, que são milhões,
acham que não é fácil aceitar que a Igreja Cristã, a Igreja de Roma, inspirada por
papas, muitos deles canonizados, tenha sido tão cruel. Nem que pontífices após
pontífices tenham quase invertido o texto das Escrituras que diz «Vale mais um homem
morrer por amor do povo» que passou a ler-se, «Vale mais um povo sofrer por amor de
um homem». Há, tragicamente, um inegável elo entre o fogo, as cruzes, a legislação
papal, os pogroms — e as câmaras de gás e os fornos crematórios dos campos de
morte nazis.
Há outras matérias vitais nas áreas do poder, da verdade e do amor sobre as quais a
Igreja errou desastrosamente século após século. O Concílio Vaticano II convocado
pelo Papa João em 1962 começou a aceitar isto. De uma maneira revolucionária, João,
o Sumo Pontífice, tornou-se o Advogado do Diabo da própria Igreja.
No processo de canonização, o Advogado do Diabo tem um papel central, porque a
santidade de um candidato a santo tem de ser sujeita ao mais intenso escrutínio. É
como se a Igreja deixasse Satanás completamente livre para atirar sobre a memória do
santo toda a sujidade que possa encontrar — para ver se alguma cola. Só então é que
esse homem, essa mulher ou essa criança serão dignos de veneração pública. Claro
que o Advogado do Diabo é, na realidade, o defensor da Igreja.
Quando o Papa João disse que a Igreja precisa de constantes reformas, parecia
sugerir que precisa de um Advogado do Diabo permanente. Como historiador que era,
ele sabia que a Igreja tinha causado muitos danos. Como ser humano afectuoso e
indulgente, sabia que qualquer outra instituição que durasse tanto tempo e tivesse tanto
poder teria provavelmente feito muitíssimo mais mal e muitíssimo menos bem.
Finalmente, ele deixou atrás de si a clara impressão de que o mal feito pela sua Igreja
não deve ser escamoteado, nem a história falsificada.
Primeira Parte
O Poder
«Todo o poder tende a corromper; o poder absoluto corrompe absolutamente»
Lord Acton, em carta ao Bispo Mandell Creighton, 1887
19
1
Do Calvário ao Vaticano
Nesta grande festividade de Pedro e Paulo, o dia vinte e nove de Junho, vieram
todos, novos e velhos, pecadores e santos, de todos os cantos do mundo, para estarem
com o Bispo de Roma, Vigário de Cristo, Sucessor dos Apóstolos, Sumo Pontífice da
Igreja Universal, Patriarca do Ocidente, Primaz da Itália, Arcebispo e Metropolita da
Província de Roma, Chefe de Estado da Cidade do Vaticano e Servidor dos servidores
de Deus, o Papa João Paulo II. Alguns peregrinos vêm vestidos em tons escuros, outros
com vistosos trajos folclóricos das suas terras. Há também turistas entre eles, mas a
maioria são peregrinos. Uma visita a Roma e assistir a uma missa papal são a
realização de uma ambição de uma vida.
Antes do amanhecer, começaram a sair da colmeia que Roma é. Emergiram dos
caros hotéis de luxo da Via Veneto, de tranquilos conventos e pensões baratas.
Na sua curta viagem passaram por vivendas a cair, palácios renascentistas cujas
enormes portas tachonadas dão a impressão de que os seus donos se estão a preparar
para uma nova invasão de Godos e Vândalos. Atravessam piazzas com fontes a
borbulhar, mal identificando as quatrocentas igrejas de Roma, muitas das quais só se
encontram abertas um dia por ano, o dia da sua festividade. Atravessam o Tibre, que
durante séculos serviu à cidade simultaneamente de esgoto e de cemitério. O Tibre
contabilizou provavelmente mais mortes do que qualquer outro rio fora da China; num
só dia morreram lá milhares afogados. Esta manhã corre devagar e está acastanhado
como o hábito dos franciscanos.
Finalmente, os peregrinos chegaram à Via della Conciliazione, de cujo extremo se
desfruta uma das vistas mais impressivas do mundo. À luz trémula do calor de verão, a
cúpula da Basílica de S.Pedro parece flutuar no espaço. Miguel Ângelo, que a
desenhou, exprimiu, mais do que qualquer papa, a força maciça e pertinaz da maior
instituição que o mundo alguma vez conheceu. Ela preservou a velha herança. Deu às
hordas bárbaras uma nova religião e uma lei. Criou a Europa, dando a povos diversos
uma lealdade e um destino que ultrapassam todas as fronteiras. Como disse Lord
Macauley há mais de um século, ao reflectir sobre a Igreja de Roma:
Já era grande e respeitada antes de os saxões porem o pé na Grã-
Bretanha, e de os franceses passarem o Reno, quando a eloquência
grega ainda florescia em Antióquia, quando em Meca ainda se
adoravam os ídolos. E talvez ainda exista com o mesmo vigor
quando um qualquer viajante da Nova Zelândia, no meio de vasta
solidão, tomar posição num arco quebrado da Ponte de Londres
para fazer um esboço das ruínas da Catedral de S. Paulo.
Enquanto entram na Praça de S. Pedro, rodeada pela pavorosa arcada de Bernini, os
fiéis observam a janela do terceiro andar do palácio apostólico de onde o papa, aos
domingos ao meio-dia, abençoa a multidão. Poucos sabem como o palácio é vasto.
Quando um envelhecido Leão XIII queria dar um passeio pelos jardins do Vaticano,
sentava-se numa pequena cadeira no seu gabinete. Depois os criados levavam-no por
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uma escada de caracol, ao longo de um labirinto de corredores, através de salas e
galerias cheias de alguns dos maiores tesouros do mundo, num percurso de mais de
quilómetro e meio dentro do palácio para chegar até uma carruagem puxada a cavalos.
Quarenta anos depois da morte de Leão XIII o Vaticano foi profanado. As únicas
bombas lançadas sobre a cidade eram de fabrico britânico. Numa noite sem lua, durante
a Segunda Guerra Mundial, um avião alemão lançou quatro bombas capturadas em
Tobruk, para fazer crer que os Aliados tinham atacado o mais sagrado santuário
católico.
Embora o Vaticano tenha apenas o tamanho de um campo de golfe, os peregrinos
ficam esmagados diante da extensão daquilo que os circunda. No centro da praça está o
obelisco de Calígula de 322 toneladas e 40 metros de altura, que originalmente se
encontrava no circo de Nero junto do local onde S.Pedro foi crucificado. Este
monumento fá-los lembrar que estão em solo sagrado.
Subindo os degraus de pedra, chegam ao pórtico. É também enorme e cheio de
história. À direita fica a Porta Santa, agora selada, uma vez que este não é Ano de
Jubileu. Por cima do arco central, está uma representação do Navicella, o frágil barco de
S.Pedro que resistiu às intempéries dos tempos. Este fragmento de mosaico, que
sobreviveu à demolição da primeira Basílica de S.Pedro, foi obra de Giotto, o artista do
século XIII que impressionou o papa reinante por ser capaz de desenhar um círculo
perfeito à mão livre. Em frente da porta central, está colocado um disco porfitírico que
assinala o local onde Carlos Magno, no dia de Natal de 800, depois de subir os degraus
de joelhos, beijando cada um deles, ajoelhou e recebeu de Leão III a coroa do Sacro
Império Romano.
Afastando as pesadas cortinas de couro, os fiéis entram na basílica. Mesmo num dia
cinzento, uma luz dourada escorre das altas janelas. O chão de mármore de várias
cores cobre uma extensão de 24.000 metros quadrados. A nave tem 182 metros de
comprimento e 24 de largura, e no topo, mais altas do que qualquer palácio de Roma,
erguem-se as colunas espiraladas de Bernini.
As colunas coríntias, ornamentadas neste dia das festividades dos Apóstolos de
colgaduras no vermelho do martírio, sustentam uma abóbada amarela de 40 metros de
altura. As pias de água benta são do tamanho de banheiras e os anjos sobre elas têm
1,80 metros de altura. Para a esquerda e direita há estátuas gigantescas e capelas do
tamanho de igrejas. A mais apreciada obra de Miguel Ângelo, a Pietà, que ele esculpiu
quando tinha vinte e cinco anos e que é a única que tem o seu nome, ergue-se por
detrás de um vidro protector. Há túmulos de papas a que os escultores deram anos das
suas vidas. Chateaubriand, o escritor francês que viveu a Revolução, anotou nas suas
Memoires que em Roma há mais túmulos do que cadáveres; e imagina os esqueletos a
mudar de um túmulo de mármore para outro para se manterem frescos, tal como um
doente se mudaria de uma cama para outra mais confortável.
No topo da nave lateral esquerda há um altar sob o qual jaz o corpo do Papa Leão o
Grande. Um dos mais nobres papas, ele foi o primeiro a ser sepultado na Basílica de
S.Pedro no ano de 688. A partir de então instalou-se o costume de construir mais do que
um altar nos locais de oração. Agora, a Basílica de S.Pedro, mais do que qualquer outra
igreja do mundo cristão, está cheia de altares.
No topo da abside encontra-se a gigantesca Cadeira de S.Pedro, de bronze dourado,
sustentada por efígies de quatro Doutores da Igreja.
A decoração cobre uma vulgar cadeirinha, tipo liteira, que data pelo menos do século
II. Este é provavelmente o mais antigo dos tronos. A “Cadeira dentro da Cadeira” foi
vista pela última vez na Festividade dos Apóstolos em 1867. O que se viu foi uma peça
21
de carvalho gasta e lascada com retalhos de madeira de acácia e enfeitada com figuras
de marfim, algumas de cabeça para baixo.
Dando uma volta para a direita, da abside para a nave, os peregrinos chegam à
famosa estátua de bronze de S.Pedro. Nesta altura, na festa dos santos, ela está
paramentada com um manto de brocado dourado e coroada com uma tiara enfeitada de
jóias. A superfície do pé direito estendido está gasta e macia dos beijos de todos os
outros peregrinos que os antecederam. É uma lembrança de tempos bastante recentes
em que o papa nas audiências era obrigado a pôr o pé numa almofada própria para os
visitantes o beijarem.
Em 26 de Setembro de 1967, Paulo VI, já com a morte espelhada no rosto, veio aqui,
qual passarinho condenado, antes da abertura do primeiro Sínodo dos Bispos. Colocou
uma vela acesa no chão e depois, envolto numa nuvem de incenso, inclinou-se para
beijar o pé da estátua. Muitos pontífices devem certamente ter feito o mesmo, vindo orar
na Vigília de Pedro e Paulo no santuário do Príncipe dos Apóstolos.
* * *
Na capela do Abençoado Sacramento, prepara-se a procissão papal. A viagem de
João Paulo foi a mais curta de todas; veio apenas do seu gabinete no terceiro andar do
palácio. Contudo, em muitos aspectos, ele viajou mais nos últimos minutos do que
qualquer outra pessoa. Deixou os assuntos de Estado, os problemas da Cidade do
Vaticano, e assumiu o papel de que mais gosta: o de chefe da Igreja. Por momentos,
pode incluir as preocupações da igreja nas suas orações. Ninguém melhor do que ele
sabe que entre aquela multidão ali reunida e de que ouve murmúrios há muitos
membros do seu rebanho que andam desorientados. Os padres andam em conflito com
os seus bispos, as freiras com as madres superioras; os leigos andam mais do que
nunca activos contra os ensinamentos morais da Igreja. Nenhum papa foi tão adulado e
tão pouco obedecido. Nestes tempos tão sagrados, ele concentra-se no seu papel de
Pastor da Igreja Universal.
Os membros do seu séquito multicor — prelados, camareiros, príncipes da igreja,
Guardas Suíços — atarefam-se a compor a procissão pela ordem que o protocolo
estabelece, fazendo os ajustes finais nos seus uniformes. Paulo VI acabou com toda a
agitação de penas, aparato militar, armas desembainhadas. Mas as armas estão lá na
mesma. Diferentemente de qualquer outro papa, à volta do Papa João Paulo andam os
membros vestidos de azul do Ufficio centrale di vigilanza. Eles constituem o corpo de
segurança efectivo da pequena cidade-estado. Não só andam armados como também
têm ordens para atirar a matar no caso de a vida do papa estar em perigo. Os walky-
talkies, sob os casacos, estão ligados aos quartéis-generais da polícia da cidade de
Roma e às repartições da Digos, a brigada anti-terrorista italiana. Na linguagem da
segurança, o papa é irreverentemente referido como “Il Bersaglio“ (“O Alvo”).
Finalmente, ao som de trombetas, o pontífice avança a passos largos pela nave
abençoando a multidão de pescoço estendido. Os fiéis não reparam nos bispos vestidos
de branco, nos cardeais geminados ou nos monsenhores vestidos de púrpura. Só têm
olhos para o papa com o solidéu branco, o homem que chefia uma igreja de quase um
bilião de fiéis, 4000 bispos, 400000 padres e um milhão de freiras.
Embora estejam alegres na basílica, embora ajoelhem e batam palmas e desfaleçam
e mesmo as freiras de mais idade esqueçam pela primeira vez em anos as suas
inibições, todos eles sentem que ele está concentrado no Outro, no Deus que ele
representa na terra e a única entidade a quem tem de prestar contas. O papa não é
nenhum ídolo pop, mas o vigário de Cristo, e, logo abaixo de Cristo, essencial para a
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salvação. No meio de ondas e mais ondas de adulação, flashes e o coro da Capela
Sistina que mal se ouve a cantar Tu es Petrus, «Tu és Pedro», o papa chega ao altar-
mor. O seu séquito dispersa-se tomando os seus lugares em cadeiras menores. Os
homens da segurança desaparecem nas capelas laterais. O papa está agora só, em
todos os sentidos. Sempre assim foi com os pontífices romanos, mas nenhum esteve
jamais tão só e vulnerável como João Paulo II.
Nas listas do Vaticano ele é considerado como o 263º pontífice, mas o número não
está correcto. Houve alturas em que ninguém sabia quem era o papa de direito de entre
diversos reclamantes. Além disso, só no ano de 1073 é que o Papa Gregório VI proibiu
os católicos de chamarem papa a alguém para além do Bispo de Roma. Antes disso,
muitos bispos eram carinhosamente chamados de «papa» ou «papá». Mesmo o título
«Bispo de Roma» tem hoje um peso dignitário que nem sempre teve. Um chefe ou
administrador de uma inicialmente pequena comunidade cristã dificilmente se pode
comparar com um bispo moderno em poder e jurisdição. Muitas outras coisas estão
também longe de estar claras.
Por exemplo, quanto tempo é que Pedro viveu em Roma? Há um relato de fins do
século IV segundo o qual ele teria lá vivido durante vinte e cinco anos, mas não há
qualquer fundamento histórico para isto. O que se sabe é que cerca do ano 58, Paulo o
Apóstolo escreveu mais uma das suas cartas, desta vez aos romanos. Nela saudava
famílias inteiras e mencionava vinte e nove pessoas individualmente pelo nome. Mas
não saudava Pedro. Isto seria certamente uma omissão surpreendente se Pedro lá
estivesse a residir e fosse o Bispo de Roma. E mais, Eusébio de Cesareia, reconhecido
como o Pai da História da Igreja, ao escrever sobre o ano de 300, dizia: «Diz-se que
Pedro pregou aos Judeus por todas as terras de Pôncio, Galateia, Bithnya, Capadócia e
que, para o fim dos seus dias, detendo-se em Roma, foi crucificado».
Hoje, os historiadores dizem que Pedro teria vivido em Roma durante três ou quatro
anos no máximo. Não há qualquer testemunho que indique que ele tivesse chefiado
aquela comunidade. Isso não pode ter sido automático. Ele nem sequer tinha sido bispo
em Jerusalém depois da morte de Jesus. Jaime, irmão do Senhor, é que o foi. Depois há
este facto surpreendente: nas primeiras listas de bispos de Roma o nome de Pedro
nunca apareceu. Por exemplo, Ireneu, Bispo de Lyons de 178 a 200, foi discípulo de
Policarpo, Bispo de Esmirna, que foi por sua vez discípulo de Paulo o Apóstolo. Ele
enumerou todos os bispos de Roma até ao décimo segundo, Eleutério. Segundo Ireneu,
o primeiro bispo de Roma não foi Pedro nem Paulo, mas Lino. A Constituição Apostólica
de 270 também mencionava Lino como o primeiro bispo de Roma, nomeado por
S.Paulo. Depois de Lino foi Clemente, escolhido por Pedro. O mistério adensa-se. Em
todos os seus escritos, Eusébio nem uma só vez fala de Pedro como Bispo de Roma.
Como é que isto se pode explicar? Parece que no espírito dos primeiros
comentadores cristãos os apóstolos constituíam uma classe à parte. Não pertenciam a
nenhuma igreja em particular, nem mesmo quando eles a «plantavam», isto é, quando a
fundavam, como Paulo fez por toda a Ásia Menor. Os apóstolos pertenciam a toda a
Igreja. Ser apóstolo impossibilitava um homem de ser bispo de um só lugar. Também
Pedro, fossem quais fossem as momentosas decisões que tomou em Jerusalém,
Antióquia ou fosse onde fosse, continuava a ser um apóstolo de toda a comunidade. A
Igreja Católica considerou uma questão de fé que os papas fossem os sucessores de
Pedro como Bispo de Roma. Mas Pedro nunca teve esse título; apenas lhe foi atribuído
alguns séculos depois da sua morte. Naturalmente que ele deve ter tido uma enorme
autoridade moral na comunidade judaico-cristã de Roma, mas ao contrário de Paulo,
que era um cidadão romano, deve ter sido considerado estrangeiro. Quase dois mil anos
23
mais tarde, outro estrangeiro, um homem de um país distante, senta-se naquilo a que se
chama a Cadeira de Pedro, enquanto a toada de um motete de Palestrina se eleva na
cúpula.
* * *
Já se passaram quase dez anos desde que Karol Wojtyla de Cracóvia se tornou
pontífice quando o primeiro João Paulo morreu, muito chorado, depois de trinta e três
dias de reinado. Depois da eleição, Albino Luciani apareceu na galeria da Basílica de
S.Pedro e em poucos segundos sorriu mais do que o seu antecessor Paulo VI em
quinze anos, e depois, profeticamente, sem dirigir uma só palavra à multidão,
desapareceu nas sombras do Vaticano.
Diz a anedota, em Roma, que a mais velha, a mais secreta e a mais poderosa das
instituições é a Sagrada Congregação para a Disseminação de Boatos. Acredita-se em
alguma coisa na Cidade Eterna que não seja dito num sussurro? Correu o boato de que
João Paulo I tinha sido envenenado. Coisas deste tipo sempre se disseram durante
séculos quando um pontífice adoecia e morria subitamente. Muitos destes boatos eram
falsos. Mas nem todos.
No dia 27 de Julho de 1304, ao fim de nove meses de reinado, Benedito XI estava em
Perugia quando um jovem disfarçado de irmã da Ordem de S.Petronilla se apresentou a
Sua Santidade com uma salva de prata cheia de figos. «É um presente da Madre
Abadessa,» murmurou a recatada “irmã“. Toda a gente sabia que Benedito tinha uma
paixão pelos figos. Poucos dias depois, era enterrado.
Fosse este ou aquele boato verdadeiro ou não, o facto é que os papas eram sempre
aconselhados a empregar um provador de vinhos e a inspeccionar os figos. Mas no caso
do antecessor de João Paulo II onde está a prova? Uma autópsia teria esclarecido o
assunto. E apesar das negações, provavelmente houve uma autópsia que o fez. Sobre
assuntos destes o Vaticano mantém sempre os lábios bem cerrados.
No conclave que se seguiu à inesperada morte de Luciani em 1978, foi eleito Karol
Wojtyla. Quando foi entronizado parecia mais jovem do que os cinquenta e oito anos que
tinha. Agora parece mais velho do que os sessenta e sete que tem. Os ombros estão
mais arredondados. Está mais magro, tem as veias do pescoço salientes. Os olhos
ficaram mais estreitos traindo a sua origem eslava. Como o cabelo ficou para trás sob o
solidéu, as orelhas tornaram-se proeminentes como quando era um rapaz.
Muitas coisas contribuíram para o envelhecer. As penosas viagens. O atentado contra
a sua vida em 13 de Maio de 1981, que quase foi bem sucedido, tendo sido necessária
uma transfusão de seis quartilhos de sangue numa operação de cinco horas e meia. Os
papeis que se amontoam todos os dias sobre a sua secretária — «Para livrar o papa de
qualquer maldade» como dizia um seu ajudante. E a Cúria. Um papa e os seus
funcionários sobrevivem, no melhor dos casos, num compromisso nada fácil. A Cúria
tem em João Paulo um pontífice que a princípio nada sabia das suas artimanhas.
Os sussurros — outra vez essa poderosa Congregação — chegam até às suas
instalações. Os poucos prelados liberais que sobreviveram em Roma não gostam dele
por causa daquilo a que eles chamam a sua intransigência.
Alguns conservadores da sua entourage nesta grande festividade dos Apóstolos são
também muito críticos. Aos seus olhos, João Paulo fez uma coisa que é quase uma
heresia: desmitificou o papado. Fotografias nos meios de comunicação revelam um papa
mediático de sombrero, um papa de mãos dadas com jovens a balançar-se ao som de
música rock, um papa na Austrália abraçado por um coala meio confundido. Porquê,
perguntam estes conservadores, por que é que ele não se deixa estar no Vaticano
24
mantendo um perfil de mistério e temor, como o velho Leão XIII, que foi suficientemente
sensato para olhar o mundo através de uma janela — uma janela fechada, ao contrário,
acrescentam eles, daquele cripto-comunista João XXIII que abriu a janela e deixou
entrar um furacão?
O papa está acima desse tipo de conversas. Tem os olhos bem fechados enquanto
reza por todo o seu rebanho, não só por aqueles que estão reunidos em S.Pedro, mas
também por todos os que se encontram espalhados pelo mundo. Está convencido de
que só a sua voz, a voz de Pedro, a voz de Cristo, é suficientemente forte para deter a
precipitação do mundo moderno no lago da morte. Fica aterrado perante a insensível
indiferença em relação aos vindouros. Fica consternado por a virgindade ser quase um
palavrão e a homosexualidade se ter tornado não apenas legal, mas romântica. Teme
que mesmo os padres e as freiras estejam a perder a dedicação aos seus votos.
Enquanto o Evangelho é lido por um diácono, ele sabe que é a Pedra, ele, pelo menos,
tem de se manter firme. Os erros podem ser corrigidos, as tendências invertidas,
bastando para isso que a sua fé não lhe falte.
Agora os seus olhos estão húmidos, a dor orla-lhe a boca. Nestes dias, a sua
expressão é triste mesmo quando, cada vez mais raramente, sorri, como se a tristeza da
sua Polónia natal lhe tivesse inundado a alma. No memento de todas as missas ele
nunca deixa de mencionar os vivos e os mortos da sua pátria.
Como é polaco, nunca esperou ser papa. Nem mesmo quando foi feito cardeal em
1964, nem quando Paulo VI o escolheu em 1976 para o retiro quaresmal da casa papal
ele alimentou esse pensamento. Isso era contra a corrente da história. Há quatro
séculos e meio que o papado era italiano. Durante esse retiro quaresmal, Karol Wojtyla
ouviu o Papa Paulo em confissão e sem dúvida que fez os possíveis por fortalecer a sua
determinação, mas como é que ele podia imaginar que um dia viria a celebrar missa
solene em S. Pedro como Sumo pontífice? Os seus antecedentes: operário fabril,
alpinista, actor amador, resistente espiritual contra o nazismo e, mais tarde, contra o
comunismo, sonhador, poeta nas horas vagas. Um dos seus poemas, “O Operário da
Fábrica de Armamento”, começa assim: «Eu não posso influenciar o destino do mundo».
Os fiéis reunidos à sua frente, pelo contrário, pensam que a sua influência para o bem
do mundo é a maior. A sua integridade ilumina. Eis aqui um homem que não se pode
comprar ou vender, um prelado à maneira de Thomas à Becket que preferiu morrer a
ceder nas exigências da igreja. Da sua figura, quando se dirige para o altar para iniciar a
missa, irradia um sentido de majestade.
João Paulo é o último dos monarcas absolutos. Os católicos em S.Pedro, que agora
ficaram em silêncio, não aceitariam outra coisa. Ele é o oráculo supremo, Senhor da
Igreja, Vigário de Cristo. Para eles, ele possui o dom da infalibilidade, que é pouco
menos do que divino. Conforta-os a ideia de saberem que de todos os religiosos na
Terra — Judeus, Hindus, Protestantes, Budistas — Deus fala para eles uma linguagem
especial através de Sua Santidade. Dele flui a sua vida espiritual; como chefe da Igreja,
ele é o laço que os une a Deus e uns aos outros. Muitos pensam, porém erradamente,
que a sua fé deriva dele e que os bispos dele derivam o seu poder. Não são poucos os
não católicos em S.Pedro para esta missa festiva que também sentem que o Papa João
Paulo II é o melhor baluarte do mundo contra o comunismo ateu de Leste e o muito
espalhado e mais subtil ateísmo de um Ocidente secularizado.
O papa diz as palavras da missa em voz baixa mas clara. Cada gesto está de acordo
com as rubricas do missal, porque ele sabe que se se afastar delas, os padres em toda
a parte vão decidir fazer alterações da sua lavra. Enquanto ele prossegue, os fiéis na
basílica interrogam-se sobre como João Paulo se verá a si mesmo. Em certo sentido,
não é difícil saber. Apesar das suas viagens, das suas intermináveis alocuções, mesmo
25
depois do Vaticano II — talvez por causa do Vaticano II — ele compreende que este
cerimonial em S.Pedro não é a verdade toda sobre a igreja que ele chefia. Quando pára
para lembrar os vivos, o seu muito disperso rebanho, a sua oração é influenciada por
todas aquelas estatísticas desanimadoras empilhadas sobre a sua secretária.
Os padres são a primeira preocupação do pontífice. Em 1971, uma fuga de
informação levou até à imprensa um estudo encomendado pela Sagrada Congregação
para a Fé. Revelava que entre 1963 e 1969 mais de 8000 padres tinham pedido
dispensa dos seus votos e quase mais outros 3000 não tinham esperado pela
permissão. O estudo estimava que nos cinco anos seguintes 20000 abandonariam. Este
cálculo veio a mostrar-se demasiado optimista.
O pior passava-se nos países em que os papas confiavam para fornecer missionários.
A Holanda, por exemplo, costumava produzir mais de 300 padres por ano. Agora as
ordenações são lá quase tão raras como as montanhas. Na Irlanda, nos fins de 1987,
havia 6000 padres e mais de 1000 ex-padres. Nos Estados Unidos da América, calcula-
se que existam mais de 17000 ex-padres. A média de idades dos que ficaram é
surpreendentemente alta: 54 anos. Também o futuro parece negro. Nos últimos vinte
anos, o número de seminaristas nos Estados Unidos caiu de 50000 para 12000.
O pontífice reza pelos leigos com as suas variadas preocupações. Reza pelos
presentes e por aqueles que, por todo o mundo, começaram a desfilar a sua
desobediência. Antes da sua viagem à América, em Setembro de 1987, deve ter lido a
sondagem da revista Time. Ela revelava que 93% dos católicos defendiam que «é
possível discordar do papa e continuar a ser um bom católico». Mesmo na Irlanda, uma
sondagem da mesma altura mostrava que só um em cada três jovens concordava com
ele sobre a contracepção. Todos os indicadores apontam para uma comunidade mundial
em retirada napoleónica. A igreja continua a ensinar, mas cada vez há menos pessoas a
ouvir.
A missa devia dar ao pontífice uma trégua nas preocupações e na sobrecarga do
governo. Em certo sentido, ela aprofunda essas preocupações. Ele tem que deixar que
Jesus, cujo sacrifício vai comemorar, o alivie desses fardos. À medida que a
consagração se aproxima, talvez o espírito de João Paulo regresse ao passado, à sua
infância em Wadowice quando ajudava no altar e aprendeu os responsos da missa em
latim. Nesses tempos, Catolicismo é que era a palavra do papa. É desanimador para ele
descobrir que, agora que é o pontífice, em muitas matérias que considera cruciais está
em minoria.
Esta a razão por que nesta missa papal ele não vê os cardeais magníficos, quais
flamingos à sua volta, os prelados, como Ratzinger de Munique, de cabelo branco,
Prefeito, desde 1982, da Congregação para a Fé, antigamente chamada de Santa
Inquisição. O papa também não dá pelas manchas vermelhas e purpúreas dos mantos
prelatícios de todos os graus. Não se dá ao trabalho de olhar para as tribunas apinhadas
de embaixadores, personagens reais obscuras e ainda mais obscuros príncipes e
princesas num esplendor de ouro e diamantes.
Ele não vê ninguém; e ninguém vê mais ninguém senão a ele.
«Este é o meu corpo». O papa pronuncia estas palavras com esmagadora devoção,
tão cheio de temor religioso hoje como quando as pronunciou na sua primeira missa há
quarenta anos. «Este é o meu sangue». Agora já não é o Vigário de Cristo mas o próprio
Cristo o centro de convergência da congregação silenciosa.
É assim em todas as missas, quer seja dita na mais humilde igreja de aldeia ou numa
basílica como a de S.Pedro. Jesus Cristo é o Senhor; e o papa representa-o a ele e à
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sua autoridade doutrinal no mundo de hoje. Não tem a congregação razão em ver o
papa como a pessoa mais livre e mais soberana do mundo?
A verdade é que o pontífice é um prisioneiro.
A primeira consequência do absolutismo é que os que estão mais próximos da fonte
do poder inalam o mesmo ar do monarca. No caso do papa, há homens sem rosto,
burocratas, em gabinetes escuros no Vaticano e imediações que providenciam para que
a visão do papa corresponda à deles próprios. Fornecem-lhe informações
seleccionadas; escamoteiam tudo o que possa contradizer uma causa que eles desejam
promover. Estes são os primeiros carcereiros do papa.
O Concílio Vaticano II, 1962-65, pretendia liberalizar a Igreja Romana. Mal acabou
logo os velhos burocratas tomaram o controle; e continuam no controle desde então,
interpretando os decretos liberais de uma maneira iliberal.
Mesmo o Concílio Vaticano I, convocado por Pio IX em 1869 para o declarar infalível,
recusou discutir os projectos de decretos redigidos pela Cúria. Eles não representavam,
diziam os bispos, a fé da igreja, mas apenas uma escola teológica tendenciosa. Mas, no
fim, os burocratas acabam sempre por vencer. Eles permanecem nos seus lugares
enquanto os homens de espírito mais liberal se dispersam. Os funcionários da Cúria,
muitos dos quais estão presentes nesta missa, sempre detestaram os concílios por
ousarem ameaçar a sua infalibilidade. Como disse recentemente um bispo diocesano
amargurado: «A Cúria é um Concílio da Igreja em sessão permanente».
Apesar de toda a sua força aparente, João Paulo continua a assinar os documentos
preparados pelos prelados do Santo Ofício ou da Secretaria de Estado. Alguém sugere-
lhe que um determinado bispo da América do Norte não é muito ortodoxo, na
interpretação que a Cúria faz desta palavra. Não seria prudente mantê-lo sob vigilância?
Depois há aqueles volumosos dossiers do Santo Ofício sobre teólogos como Küng de
Tübigen ou Currant de Washington. E também sobre clérigos prometedores. Onde é que
este padre ou aquele monsenhor se situam em relação a Cristo, a Maria, à prática
frequente da confissão? Já alguma vez se mostraram flexíveis sobre a contracepção? Já
alguma vez tomaram parte em manifestações anti-nucleares? Revelaram simpatias por
Karl Marx? Muitos clérigos empreendedores podem ser permanentemente retidos nas
suas carreiras por uma simples insinuação. Muito do veneno da Cúria é administrado por
via auricular.
Pode-se dizer que neste aspecto o pontífice não é servido de maneira muito diferente
de qualquer outro líder apanhado na teia da função pública. Só que o próprio papa tem
um exército de “observadores” a vigiá-lo a ele.
Um pontífice, mais do que qualquer outro monarca, está prisioneiro do passado. A
congregação pode ver sinais disto mesmo no vestuário do papa. Na mitra, no pálio, no
Anel do Pescador. Não apenas a basílica em si mesma, as famosas relíquias que
contém; mesmo as peças de vestuário mostram que o pontífice está, ele próprio,
prisioneiro da história. Mas a maioria das grilhetas está no espírito.
O pontífice nunca pode falar sem ter em atenção aquilo que os seus antecessores
disseram sobre o mesmo assunto ou assunto relacionado. Em qualquer encíclica papal,
por cada citação bíblica haverá provavelmente uma dúzia de referências a papas
anteriores. Todos os pontífices conduzem com os olhos fixos no espelho retrovisor. Um
passado há muito morto, muitas vezes chamado de tradição, dita o caminho para o
futuro. Um papa morto é mais poderoso do que mil bispos vivos.
«Pax vobiscum», diz o papa. «A paz esteja convosco». Os membros da congregação
abraçam-se e passam este sinal de paz. Mas quem quer que carregue o fardo da
infalibilidade nem sempre pode ser um homem de paz; carrega também uma espada.
Porque não pode, por suposta compaixão, nem uma única vez, cometer, ou correr o
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risco de cometer o mais ligeiro erro na doutrina ou na moral. Tem de ter o cuidado de
não contradizer um pontífice de há sete ou dez séculos. Não admira que a sua Cúria
nem sempre consiga fazer a distinção entre inovação e originalidade.
O Papa João Paulo, de olhos reverentemente fechados, recebe o corpo e o sangue
de Cristo. Por toda a basílica surgem os padres de sobrepliz e estola para distribuírem a
comunhão, o corpo de Cristo, aos fiéis. A própria Igreja é chamada de o corpo de Cristo.
Ao receberem a comunhão, os fiéis ficam em contacto com o seu Senhor crucificado e
ressuscitado e com todos os seus irmãos cristãos, vivos e mortos. Aquela pequena
hóstia liga-os sacramentalmente a toda a história da igreja.
Essa história foi boa e má, cheia de feitos heróicos e de crimes ignóbeis. O pontífice
está prisioneiro mesmo desses crimes. Ele sabe que a Igreja foi responsável por
perseguições aos Judeus, pela Inquisição, por chacinar hereges aos milhares, por
reintroduzir a tortura na Europa como parte do processo judicial. Mas tem de ter cuidado.
As doutrinas responsáveis por essas coisas terríveis ainda escoram a sua posição. Os
métodos podem diferir, os objectivos continuam os mesmos. Todo o mundo tem de ser
levado a reconhecer Cristo e a sua Igreja. Governada e guiada pelo papa, a Igreja
Católica tem a plenitude da verdade, da qual as outras religiões podem, quando muito,
aproximar-se.
João Paulo, a rezar enquanto a comunhão é distribuída, não quer que as pessoas
pensem que a compaixão é incompatível com a inflexibilidade em relação à verdade. A
liberdade de ensinar o que está mal, quanto a ele, é um erro. Como é que alguém pode
ter o direito de ensinar como verdadeiro aquilo que a Igreja diz que não é verdade ou é
imoral? Tal como todos os pontífices, ele tem como certo que onde a Igreja é forte o seu
poder deve ser usado para ilegalizar aquilo que ela condena. Pio IX, proclamado infalível
nesta mesma basílica em 1870, era bastante aberto a este respeito. Nos arquivos do
Foreign Office, em Londres, há uma carta classificada como “confidencial”. Era de Odo
Russel, representante do governo britânico no Vaticano. Relatava o que o papa lhe disse
numa audiência: «Aquela liberdade de consciência e tolerância que aqui [em Roma]
condeno, reivindico eu na Inglaterra e noutros países estrangeiros para a Igreja
Católica». Pio IX estava apenas preocupado com um juízo político: suportaria a Igreja
perder ou ganhar por recusar aos outros a liberdade que exige para si própria?
Pio IX, tal como o actual pontífice, estava convencido de que a Igreja conseguiu
permanecer doutrinariamente imutável através dos tempos. Os fiéis em S.Pedro
partilham essa convicção, acreditando que o papado é que é o principal responsável por
esta continuidade quase miraculosa.
A verdade é que a Igreja mudou radicalmente mesmo em áreas vitais como o sexo, o
dinheiro e a salvação.
Tomemos dois dos exemplos mais interessantes.
Todos os pontífices até ao século dezanove, inclusive, condenavam a cobrança de
juros sobre os empréstimos (a usura) em quaisquer circunstâncias. Não importava se os
juros estabelecidos eram altos ou baixos, se o empréstimo era feito a um pobre
camponês ou a um imperador. Séculos depois de as comunidades de camponeses
deixarem de ser a norma, a Igreja continuou a condenar a cobrança de juros e,
surpreendentemente, nunca retirou a sua interdição. Contudo, hoje o Vaticano tem o seu
próprio banco, fundado em 1942 por Pio XII, o qual foi recentemente o centro de terríveis
escândalos financeiros.
Uma segunda prova de mudança radical diz respeito aos ensinamentos da Igreja.
«Não há salvação fora da igreja». Esta doutrina foi inicialmente formulada para excluir
todos os não baptizados, como os Judeus e os não crentes. Mesmo os bebés de pais
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cristãos que morressem antes de serem baptizados eram tidos como excluídos do Céu.
Hoje João Paulo continua a ensinar que não há salvação fora da Igreja, mas “Igreja” e
“salvação” são interpretadas de uma maneira tão alargada que todas as pessoas de boa
vontade, mesmo os ateus, podem ser salvos. Este truque linguístico evita que os
católicos pensem que houve uma inversão nos ensinamentos tradicionais. Admitir uma
mudança exporia uma parte demasiado grande do passado como um pesadelo. Essa a
razão por que, tal como todos os corpos autoritários, a Igreja Católica se recusa a
admitir que tenha mudado no essencial, mesmo quando isso representa um
aperfeiçoamento.
À parte estes indicadores, basta lembrar que quase todos os documentos do Vaticano
II teriam sido condenados como heréticos pelo Vaticano I. A ortodoxia de uma época
não é a ortodoxia de outra.
A principal desvantagem de uma instituição infalível é que nenhuma afirmação pode
ser retirada, nenhuma doutrina negada, nenhuma decisão moral invertida, mesmo
quando novos argumentos sugerem um exame radical.
Nada disto preocupa os fiéis em S.Pedro. Eles acreditam que João Paulo é infalível
e, embora não estejam agora a pensar nessa questão, isso influencia o seu amor e
lealdade. Enquanto ele faz as suas orações depois da comunhão, eles vêem-no no altar
com os olhos da fé.
Em frente daquele altar em que só ele diz missa há um espaço oval. É a Confissão ou
o Túmulo dos Mártires. Está iluminado, como todos os dias, por noventa e três
candeeiros de feixe triplo; as paredes e soalhos são cobertos de jaspe, ágata e pórfiro.
Santos como Domingos e Inácio de Loiola, imperadores como Carlos Magno e Frederico
Barbarrossa ajoelharam aqui para honrar Pedro. Porque por baixo dos pés de João
Paulo está sepultado S.Pedro, cujas ossadas consagraram não só esta poderosa
basílica mas também os seus sucessores na Sé de Roma.
Nem uma só pessoa duvida que S.Pedro esteja sepultado nesta igreja que tem o seu
nome. Mas estará de facto?
A Igreja Católica por vezes é dogmática quando estão em causa dúvidas ou pelo
menos reservas. De facto, não há uma resposta simples sobre a questão do lugar onde
Pedro estará sepultado.
Nos primeiros tempos após a morte de Pedro, as suas ossadas foram transferidas por
duas vezes para lugares mais seguros. Quando as coisas serenaram, o corpo foi levado
de volta para o lugar onde Pedro deu testemunho da sua vida. Por cima do túmulo, foi
erigido um pequeno oratório, e, mais tarde, no século IV, foi construída a basílica de
Constantino, que ali ficou durante mil e cem anos.
Poucos dos fiéis em S.Pedro nestas festividades dos Apóstolos sabem que foi há
mais de mil anos que se tomou a decisão de separar as cabeças de Pedro e Paulo dos
respectivos troncos. As cabeças têm estado desde então em S.João de Latrão, que é a
catedral do papa e a igreja-mãe da Cristandade. S.João de Latrão foi também construída
por Constantino junto do palácio de Latrão, que ele outorgou ao Bispo de Roma.
De acordo com as antigas leis de Roma e com os cânones da teologia católica,
conclui-se que Pedro não está realmente sepultado em S.Pedro, mas, juntamente com
Paulo, em S.João de Latrão. O local onde está a cabeça, assim reza a antiga máxima, é
o local da sepultura. Mesmo hoje, a prática pastoral considera a cabeça a parte mais
importante dos restos mortais. No caso de decapitação ou de uma morte com mutilação
é a cabeça que é ungida com a sagrada crisma.
Houve uma ocasião em que a cabeça de Pedro se juntou ao tronco. Em 1241, o
Imperador Frederico II marchou sobre Roma. Muitos cidadãos, desgostosos com o
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comportamento do papado, preparavam-se para escancarar os portões da cidade para
deixar entrar os invasores. O Papa Gregório IX, pouco antes de morrer, teve a ideia de
trazer em procissão as cabeças dos dois grandes apóstolos de Latrão para S.Pedro. A
ideia resultou. Os cidadãos de Roma, compreendendo que se arriscavam a perder não
só a sua herança mas também a sua principal fonte de rendimento, cerraram fileiras e o
perigo foi afastado.
Em 1370, o Papa Urbano V meteu as cabeças em bustos de prata encrostados com
pedras preciosas. Desta maneira, abriu caminho a outro drama.
Em 1438, um veneziano rico estava às portas da morte. Perdida a esperança com os
médicos, rezou a Pedro e Paulo, prometendo que adornaria os seus relicários com uma
pérola de grande valor se recuperasse a saúde. Recuperou e cumpriu a promessa.
Pouco depois, descobriu-se que faltava uma dúzia de pérolas nos relicários, bem como
dois rubis de quarenta e sete e quarenta e oito quilates, uma safira e dois grandes
diamantes. A pérola do veneziano também fora arrancada, provavelmente durante as
próprias festividades de S.Pedro e S.Paulo, quando os relicários estavam em exposição.
Os culpados foram logo descobertos. Dois primos confessaram terem escondido o
fruto da sua pilhagem em casa de um tio.
Tornaram-se motivo de divertimento em Roma. Como ponto alto de uma festança, na
praça de S.João de Latrão, deceparam a mão direita dos jovens antes de os queimarem.
O tio, simples receptador, foi tratado com mais clemência. Depois de agrilhoado com
tenazes em brasa, foi enforcado.
Em 1799, os soldados de Napoleão roubaram os relicários. Meteram ao bolso as
pedras preciosas, incluindo a pérola, mas deixaram as relíquias. Diz-se que estas foram
encontradas com o lacre original intacto. Nada restou a não ser vértebras, um maxilar
com alguns dentes soltos e um pedaço de crânio. Fizeram-se novos relicários e as
cabeças repousam agora no santuário por sobre o altar papal de Latrão. É ali, em
sentido restrito, que ambos os apóstolos estão enterrados juntos. Uma vez que S.João
de Latrão é também «a Mãe e chefe de toda a igreja da cidade e do mundo», era
certamente ali que o Santo Padre devia ter celebrado a missa das festividades de
S.Pedro e S.Paulo.
Há uma razão primordial para que ele não tenha procedido assim.
O papa diz a missa com o tronco de Pedro sob os seus pés. Setenta metros acima da
sua cabeça, há qualquer coisa muito mais importante do que os restos mortais de Pedro:
as palavras do Senhor. Em letras de um metro e meio de altura, à volta da cúpula, está o
mais famoso de todos os trocadilhos: «Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo
ecclesiam meam, et portae inferi non praevalebunt adversus eam» («Tu és Pedro e
sobre esta Pedra construirei a minha igreja, e os portões do inferno não prevalecerão
sobre ela»). Os eruditos assumem que no aramaico original o trocadilho era perfeito:
Pedro e Pedra são ambos Cepha. É este o texto que constitui o pano de fundo de todo o
pensamento do Papa João Paulo. Quem duvidaria de que ele pega neste texto, com
toda a humildade, para as suas meditações? Este texto é a razão por que os pontífices
agora celebram as festas de S.Pedro e S.Paulo em S.Pedro, de preferência ao local
mais óbvio de S.João de Latrão. Porque os pontífices romanos afirmaram-se sucessores
não de Pedro e Paulo, mas apenas e só de Pedro. O Novo Testamento fala de Pedro
como o apóstolo para os Judeus e de Paulo como o apóstolo para os cristãos. Mas no
espírito do papa, Pedro era o superior de Paulo; Pedro tinha jurisdição sobre Paulo e os
outros discípulos. Esta autoridade foi outorgada a Pedro pelo próprio Senhor naquelas
palavras que se encontram à volta da grande cúpula. Foi esta autoridade suprema que
ele, João Paulo II, herdou. Por que é que os Protestantes não hão-de ser lógicos? —
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deve Sua Santidade pensar. Jesus, o Filho de Deus, deu a Pedro supremacia sobre a
Igreja; esta supremacia deve continuar na Igreja como um ofício permanente; ele, João
Paulo, é o actual detentor de tal ofício.
Há, porém, uma outra interpretação deste texto com uma linhagem melhor do que
aquela de que a maioria dos católicos se dá conta. Pode chocá-los ouvir dizer que os
grandes Padres da Igreja não viam qualquer relação entre ele e o papa. Nenhum deles
aplica o «Tu és Pedro» a ninguém senão a Pedro. Um após outro todos o analisam:
Cipriano, Orígenes, Cirilo, Hilário, Jerónimo, Ambrósio, Agostinho. E eles não são
propriamente Protestantes. Nenhum deles chama ao Bispo de Roma uma Pedra ou lhe
aplica especificamente a ele o compromisso das Chaves. Isto para os católicos é tão
chocante como se não encontrassem nos Padres qualquer menção ao Espírito Santo ou
à ressurreição dos mortos. O grande trocadilho, o jogo de palavras, foi aplicado apenas
a Pedro.
E as surpresas não acabam aqui. Para os Padres é a fé de Pedro — ou o Senhor em
que Pedro tem fé — que se chama Pedra, e não Pedro. Todos os Concílios da Igreja,
desde Niceia, no século IV, a Constança, no século XV, concordam que o próprio Cristo
é o único fundamento da Igreja, isto é, a Pedra em que a Igreja assenta.
Talvez por isso, nem um só dos Padres fale da transferência de poder de Pedro para
aqueles que lhe sucederam; nenhum deles fala, como fazem os documentos da Igreja
hoje, de uma “herança”. Não há qualquer indício de um ofício Petrino perdurável. Ao
falar de um ofício, a referência é ao episcopado em geral. Todos os bispos são
sucessores de todos os apóstolos.
A análise de um outro texto do Evangelho produz o mesmo resultado. Jesus disse a
Pedro: «Rezei por ti para que a tua fé não te falte; e quando estiveres convertido, crisma
os teus irmãos». Esta afirmação aplica-se apenas e pessoalmente a Pedro. Nunca
ocorreu aos cerca de dezoito Padres da Igreja que comentaram este texto que houvesse
nele um compromisso para com os “sucessores de Pedro”. Pedro, individualmente
considerado, não teve sucessores.
Então, e os compromissos que se diz terem sido feitos via Pedro para com os seus
“sucessores”, os papas? Então os papas não herdam de Pedro a infalibilidade e a
jurisdição sobre todo o mundo?
O primeiro problema da infalibilidade é que o Novo Testamento deixa muito claro que
o próprio Pedro cometeu erros tremendos tanto antes como depois da morte de Cristo.
Quando, por exemplo, Jesus insistiu que tinha de ir até Jerusalém, onde seria
crucificado, Pedro protestou de tal maneira que Jesus lhe disse que ele era o “Satanás“
no seu caminho. Alguns teólogos católicos sugeriram que as palavras «Sai do meu
caminho Satanás» deviam ser acrescentadas ao texto Petrino já inscrito à volta da
cúpula de Miguel Ângelo. Depois da ressurreição de Jesus, Pedro fez outro enorme
disparate. “Heresia” não é uma palavra excessiva para o descrever. O maior jurista
canónico da Igreja de todos os tempos, Graciano, disse em 1150: «Petrus cogebat
Gentes Judaizare et a veritate evangelii recedere», «Pedro obrigou os não-Judeus a
viverem como Judeus e a afastarem-se da verdade do Evangelho».
Quanto à jurisdição em todo o mundo, quando Pedro pregava ao seu rebanho em
Antióquia ou em Roma, alguma vez lhe passou pela cabeça a ideia de que dirigia toda a
Igreja? Tal ideia teve de esperar até a Cristandade ser integrada no Império Romano.
Mesmo nessa altura, o papado ainda levou algum tempo a atingir a estatura que tornou
tal pretensão plausível.
E as dificuldades não se ficam por aqui. Os papas só são considerados infalíveis
quando se dirigem a toda a Igreja. E quando é que eles o fizeram pela primeira vez?
Certamente não durante o primeiro milénio. Neste período todos concordam que só os
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Concílios Gerais exprimiam o pensamento da Igreja. Então, o poder supremo do papa
esteve suspenso todo esse tempo? Se a Igreja conseguiu funcionar sem ele durante mil
anos, por que é que havia de precisar dele? Por pouca sorte, um dos primeiros, senão
mesmo o primeiro documento papal dirigido à Igreja universal foi a Unam Sanctam, uma
Bula de Bonifácio VIII, em 1302. Era um documento tão forçado que levantou questões
delicadas sobre a infalibilidade no Concílio Vaticano I, em 1870.
Assim, a Igreja dos primeiros tempos não considerava Pedro como Bispo de Roma,
nem pensava, portanto, que cada Bispo de Roma sucedia a Pedro. No entanto, Roma
era tida na mais alta consideração por razões bastante diferentes. Em primeiro lugar, foi
aqui que Pedro e Paulo viveram a sua vida. Depois, Roma era um lugar sagrado porque
aí os fiéis, clérigos e leigos, conservaram os seus corpos e reverenciaram-nos. Esses
corpos foram uma espécie de garantia da ortodoxia através dos tempos.
Passaram-se décadas. O Bispo de Roma tornou-se cada vez mais importante,
especialmente quando a corte imperial foi transferida para Constantinopla, no século IV.
Isto deixou um enorme vazio político, administrativo e emocional. Os Bispos de Roma
estavam, por assim dizer, ali à mão para o preencher. A partir de então, os Bispos de
Roma começaram a separar Pedro de Paulo e aplicaram a si próprios as promessas
feitas a Pedro no Evangelho. O prestígio do Bispo de Roma era agora tal que os eruditos
procuraram nas Escrituras textos que sustentassem o seu papel de líder e patriarca do
Ocidente. Nada mais limpo do que aplicar ao bispo que governa a cidade onde Pedro
morreu textos que nos Evangelhos se referem apenas a Pedro. Os Evangelhos não
criaram o papado; o papado é que, uma vez criado, procura suporte nos Evangelhos.
Este suporte não apareceu facilmente; foi necessária muita perícia para pegar em
afirmações feitas por um pobre Carpinteiro a um igualmente pobre Pescador e aplicá-las
a um pontífice régio que em breve viria a ser chamado de Senhor do Mundo.
Em S.Pedro, nestas festividades, João Paulo não está a pensar em si próprio como
Senhor do Mundo, mas sim como o Pastor Chefe do rebanho. Dá a sua bênção final e a
multidão rompe em aplausos. Pela primeira vez desde que entrou na basílica, o pontífice
permite-se um sorriso. A liturgia sagrada está terminada e ele volta a descer pela nave
em direcção à Capela do Santíssimo Sacramento, distribuindo bênçãos pelo caminho.
Para muitas das pessoas que vão a sair da basílica este foi o dia mais memorável das
suas vidas.
Enquanto a basílica volta ao normal, apetece perguntar: Se Pedro se levantasse do
túmulo sob a cúpula e lhe dissessem que tudo aquilo foi erigido em sua honra, como é
que ele reagiria?
Claro que alguém que regressasse do mundo dos mortos apenas quinze dias depois
da sua morte ficaria completamente aturdido, e Pedro morreu por Cristo há mais de
dezanove séculos. Quem é que pode saber como ele reagiria às maravilhas da moderna
tecnologia: aviões, automóveis, televisão, telefones? Só em S.Pedro há oitenta telefones
— se se marcar o 3712 o telefone tocará na obscuridade do altar-mor. O crescimento e
a organização da Igreja também o espantariam. Uma vaga ligação de uns poucos
pescadores e os seus convertidos, na sua maioria camponeses, tem de ser diferente de
uma igreja de malha bem apertada que se estende pelo mundo inteiro e abrange quase
um bilião.
A única pergunta certa é esta: se Pedro voltasse como peregrino, como é que ele
julgaria, à luz dos Evangelhos, o que se passa no Vaticano?
Jesus nasceu num estábulo. Durante o seu ministério, não tinha onde pousar a
cabeça.
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Hoje, o seu Vigário habita um palácio com onze mil salas. E depois há ainda
Castelgandolfo, sobranceiro ao Lago Albano, onde os pontífices se resguardam do calor
do verão. O belo Castelgandolfo, ligeiramente maior do que o Vaticano, foi onde João
Paulo, com algum dispêndio, mandou construir uma piscina para seu uso pessoal.
Jesus renunciou aos seus bens. Ele ensinava constantemente: «Vai vender tudo o
que possuis e dá aos pobres, e depois vem comigo». Ele condenava os ricos e os
poderosos. Armazenai para vós tesouros no Céu, dizia ele, onde nem a ferrugem nem a
traça conseguem estragá-los.
O Vigário de Cristo vive rodeado de tesouros, alguns de origem pagã. Qualquer
sugestão no sentido de que o papa devia vender tudo o que tem e dar aos pobres é
recebida com irrisão, como impraticável. O jovem rico dos Evangelhos reagiu da mesma
maneira.
Durante toda a sua vida, Jesus viveu de maneira simples; morreu nu, oferecendo o
seu sacrifício na cruz.
Quando o papa renova esse sacrifício na missa solene pontifical, maior contraste não
se poderia imaginar. Sem qualquer ironia, o Vigário de Cristo está vestido de ouro e das
sedas mais caras. Isto tem sido frequentemente fonte de escândalo. Por exemplo, no
século XIV o grande Petrarca descrevia assim uma missa papal em Avignon, que era
muito menos esplendorosa do que a recente cerimónia em S.Pedro: «Fico espantado
quando recordo os antecessores do papa e vejo estes homens carregados de ouro e
vestidos de púrpura. Parece que estamos entre os reis dos Persas ou dos Partianos,
diante dos quais nos temos de prostrar e venerar. Ó apóstolos e primeiros papas, rudes
velhos definhados, foi para isto que trabalhastes, vós?»
O único título de Jesus foi Pilatos que lho atribuiu por troça: “Rei dos Judeus”.
No anuário pontifício, Pedro vê que o papa tem uma dúzia de títulos ilustres: incluindo
o de chefe de estado. Ele acharia o de Pontifex Maximus o mais surpreendente, porque
no seu tempo era esse o título do Sumo Sacerdote de Roma. Além disso, Jesus era
apenas um leigo.
Os assistentes do papa também têm títulos algo inesperados à luz do Sermão da
Montanha: Excelência, Eminência, Vossa Graça, Meu Senhor, Ilustre, Reverendíssimo,
etc.. Contudo os chapéus cardinalícios, que outrora renderam milhões aos cofres do
papa, são agora distribuídos gratuitamente. Mas suas Eminências continuam a vestir-se
como realezas, mesmo que as suas caudas tenham sido reduzidas recentemente de
alguns metros. As impressões é que contam. Aqueles que vestem púrpura e seda, vivem
em palácios, sentam-se em tronos — não lhes é fácil agir como servos de Deus ou
representar o Pobre de Nazaré perante os pobres e os famintos do mundo. João Paulo
apenas reuniu os seus cardeais por duas vezes. E em ambos os casos foi para discutir o
estado perigoso das finanças do Vaticano.
Pedro, sempre sem tostão, ficaria intrigado ao saber que, de acordo com o cânone
1518 do código de 1917, o seu sucessor é o «administrador e gestor supremo de todos
os bens da Igreja». E também que o Vaticano tem o seu próprio banco, que só admite
como cliente quem, além de sólidas referências, possa fornecer uma coisa que o próprio
Pedro nunca teve: um certificado de baptismo.
O celibato do clero, papa incluído, devia também surpreender Pedro, ao pensar como
Jesus o escolheu a ele sabendo que era casado.
E finalmente Pedro ficaria desconcertado só com o simples número de imagens em
S.Pedro. Ele e o Mestre, como judeus que eram, opunham-se às imagens religiosas.
Deus, cujo simples nome não podia ser pronunciado, também não podia ser
representado. Alguém que reside numa luz inacessível exige as maiores reticências.
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Mesmo o mais Sagrado dos Sagrados no Templo de Jerusalém não era mais do que
uma sala despida e escura.
Em S.Pedro Jesus está crucificado em todos os altares. A basílica está decorada com
estátuas de papas ajoelhados e inclinados numa vénia. Algumas figuras são muito
pouco edificantes. O Papa Paulo III, por exemplo, jaz enterrado na ábside. O seu
monumento está decorado com belezas reclinadas, uma das quais é a Justiça.
Originalmente nua, ajustaram-lhe, por ordem de Pio IX, uma camisa metálica pintada
para parecer o mármore original. Sua Santidade tinha descoberto que o modelo para a
Justiça fora a irmã de Paulo III, Giulia, a amante do Papa Alexandre VI.
Pedro assistiu à simples cerimónia da Ceia na noite da véspera em que Jesus
morreu. Ele soube que na colina rochosa dos arredores de Jerusalém, Jesus, depois de
ultrajado, açoitado, cuspido, coroado com espinhos, foi despido e crucificado entre dois
ladrões.
Que ligação há, se alguma poderá haver, perguntar-se-ia Pedro, entre esses
acontecimentos e uma missa papal? Será que todo este cerimonial distorceu e banalizou
a mensagem de Jesus? Como e por que tortuosos caminhos é que uma pequena
comunidade perseguida transpôs a aparentemente infinita distância entre o Calvário e o
Vaticano?
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35
2
A Busca do Poder Absoluto
Os milhões que todos os anos visitam o Vaticano pressentem o poder da Igreja. As
paredes, as estátuas, as gigantescas colunas, aquela cúpula omnipresente, tudo isto
exala poder. Se têm a sorte de ter uma audiência com o Santo Padre, ou simplesmente
recebem a sua bênção da janela do seu gabinete, a maioria dos peregrinos sente uma
força passar dele para si próprios. Ele possui, crêem eles, o dom do Espírito de Deus
num grau elevado. Mesmo um rosário abençoado pelo pontífice tem uma significação
especial; é como um autógrafo invisível. Ele tem um grande poder vindo de Deus e tem
o compromisso de o usar para o bem da humanidade.
O prestígio do papa hoje é enorme. Neste século, os pontífices adquiriram renome
mundial. Os acontecimentos históricos e as comunicações instantâneas contribuíram
para os tornar os “Porta-vozes da religião”. As suas personalidades também tiveram
alguma coisa a ver com o facto. Os antecessores próximos de João Paulo também
foram homens eminentes: Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I. Tiveram os
seus críticos dentro e fora da Igreja. Pouca gente negaria que o seu objectivo principal
foi seguir Jesus Cristo. O resultado é que João Paulo II é comummente considerado
como o único líder cuja reputação na religião iguala a influência política do presidente
americano e do secretário-geral soviético.
Como não entendem que o passado é imprevisível, muitos católicos estão
convencidos de que a maior parte dos papas seguiu este padrão. Desconhecedores da
história, permitem-se, como diz Acton, «ser governados pelo Passado Desconhecido».
Podem ter ouvido falar do Papa Alexandre VI, o infame Bórgia. Ele foi, sem dúvida, a
excepção que confirma a regra. Além disso, por muito mau papa que fosse, eles têm a
convicção, tal como Joseph de Maistre, o historiador do século XIX, de que «as Bulas
destes monstros foram irrepreensíveis». Fosse qual fosse o seu comportamento moral,
nunca comprometeram a fé da Igreja. Neste contexto, até Judas Iscariote é
reconfortante. Se um dos discípulos mais próximos de Jesus traiu o Senhor, não
devemos ficar surpreendidos se um ou alguns papas abusaram do poder que Deus lhes
conferiu. A traição de Judas levou à salvação do mundo. Será que Deus usa o mau
papa ocasional para provar que na providência divina mesmo Alexandre VI serve de
medianeiro da verdade e do amor de Deus?
Em 1895, o Cardeal Vaughan de Westminster afirmou num sermão: «A vida do
papado é, como a do próprio Cristo, marcada por sofrimento e por tempos tranquilos;
hossanas hoje, a paixão e crucificação amanhã; mas seguida, depois, da ressurreição.
O Vigário de Cristo e a sua Igreja estão necessariamente em conflito com as falsas
máximas do mundo; o sofrimento e as perseguições são consequência inevitável».
Quem é que não perdoará aos seus ouvintes por concluírem que a maioria dos papas
foram uma imagem de Cristo? Mas este lado eternamente luminoso do papado tem de
ser complementado com o lado mais negro. A maioria dos católicos nunca ouve durante
a sua vida, na escola ou na igreja, uma só palavra de censura a qualquer papa.
Contudo, um católico devoto como Dante não teve qualquer escrúpulo em lançar
pontífice após pontífice para as profundezas do Inferno. Se os Judeus nos seus salmos
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condenam — e até amaldiçoam — Deus, não podem os católicos condenar os papas
quando eles o merecem? A história dos papas está, para utilizar uma expressão do
senhor Gorbachev, cheia de páginas em branco. Nem todos os papas foram santos,
muitos mal cristãos foram. Antes de Pio IX perder os Estados Papais em 1870, os
papas raramente eram amados. Eram muitas vezes odiados e temidos.
A distorção começa logo nas listas dos papas, onde, dentre os primeiros trinta, todos,
excepto um, são descritos como mártires. Provavelmente foram mártires no sentido de
“testemunhas da fé”. Não há provas de que todos tenham morrido por Cristo. Mais
ainda: entre os papas houve um grande número de homens casados, alguns dos quais
trocaram a mulher e os filhos pelo ofício papal. Muitos eram filhos de padres, bispos e
papas; alguns, bastardos; um era viúvo, outro um ex-escravo; vários foram assassinos,
alguns, descrentes; alguns eram eremitas, outros, hereges, sádicos ou sodomitas;
muitos tornaram-se papas comprando o cargo (simonia) e continuaram os seus dias a
vender coisas sagradas para encher os bolsos; pelo menos um era adorador de
Satanás; alguns tinham filhos ilegítimos, outros eram fornicadores e adúlteros em
grande escala; alguns eram espantosamente velhos e outros ainda mais
espantosamente jovens; alguns foram envenenados, outros, estrangulados; e, pior do
que todos, foram aqueles que veneraram um deus granítico. Mas houve igualmente
muitos que foram papas bons, santos e generosos, e mais uns poucos mártires.
É tempo de se deixar de tratar o papado em termos hagiográficos. O silêncio
estudado sobre os pecados do papado é um escândalo e uma forma errada de fé. Pior,
faz com que a presente crise da Igreja se torne insolúvel.
O maior dos pecados do papado, origem da maioria dos outros, foi o abuso do seu
imenso poder. É estranho pensar que a pessoa de que esse poder alegadamente
derivou viveu e morreu sem poder absolutamente nenhum.
“O Primeiro Papa”
Esteve tanto tempo nas masmorras que perdeu a noção do tempo. As paredes e o
chão estavam cobertas de crostas de sangue. O calor e a pestilência eram
insuportáveis. Mordido das pulgas e das ratazanas, velho e magro, estava deitado numa
cama de palha húmida. Era o homem mais feliz de Roma, talvez mesmo do mundo.
Os seus carcereiros chamavam a isto “reclusão solitária”; o prisioneiro sabia que
nunca estivera menos só. No seu coração estava o Mestre que ele servira todos
aqueles anos na sua terra junto das águas azuis de um lago interior. Na escuridão, vivia
à luz deslumbrante de Cristo. Com as grilhetas, era um homem livre.
As recordações inundavam-no. Recordou o chamamento: «Vem, segue-me». Ele
deixou tudo: redes, modo de vida, independência. Deu a sua palavra e nunca voltou
atrás, apesar da ocasional renegação.
Havia realmente coisas que envergonhavam. Quando, por exemplo, o Mestre sugeriu
que tinham de ir a Jerusalém, onde a morte o esperava, Pedro protestou. Jesus caiu
sobre ele: «Sai do meu caminho, Satanás». Aquilo ainda lhe soava nos ouvidos. Pedro,
então, não entendeu. Como é que ele podia entender?
O pior ainda estava para vir. No jardim de Getsâmani, à noite, já tarde, depois de
uma ceia de Páscoa, Jesus, muito só, muito temeroso, pediu-lhe para velar e rezar. O
prisioneiro era então jovem, precisava de dormir mais do que agora, mas aquela
lembrança envergonhava-o. Sentia ainda aquela mão sobre o seu ombro a procurar
mantê-lo acordado e aquela voz suave, magoada mas não ressentida: «Não podias
velar uma hora comigo?» Os servos do Alto Sacerdote vieram com bordões e espadas
para prender Jesus. O prisioneiro pegou numa espada e deu um golpe numa orelha de
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um servo chamado Malchus. Jesus odiava as espadas. Disse a Pedro que o lugar das
espadas era nas bainhas e fez o melhor que pôde por Malchus, pedindo desculpa o
tempo todo.
Foi então que Pedro e os outros fugiram. Para quê ficar com um homem que
recusava defender-se e tratava os inimigos como trataria um amigo?
Pedro dirigiu-se para o pátio do Alto Sacerdote. Tentou aquecer-se à fogueira mas o
frio que o dominava não estava nos seus membros. Agora, no sufocante calor da cela,
tremia à amarga lembrança de renegar o Mestre diante de uma serva. Nunca ia
esquecer o olhar que Jesus lhe lançou quando foi levado como um cordeiro para a
matança. Nem uma palavra, apenas um olhar. Ele tinha obrigação de ser duro, mas não
aguentou; foi-se embora a chorar como uma criança.
No dia seguinte, assistiu, sem dúvida, de longe, à crucificação. Era então aquele o
fim? Ou iria Deus intervir e salvar Jesus, arrancar os pregos, devolvê-lo aos seus
seguidores incólume e triunfante? Se assim fosse, seria a prova de que ele era o
Messias, o ungido de Deus, que os guiaria à glória. O que é extraordinário é que nada
aconteceu. Não veio nenhum anjo confortá-lo. Morreu, simplesmente.
Pedro viu os soldados levarem o corpo e os dos dois que foram crucificados com ele.
Ficou arrasado. A cruz parecia mostrar que Jesus era, apesar de todo o seu espírito
cativante, um falso messias, enganado como tantos outros. Pedro foi para casa com os
seus amigos galileus. Foi na Galileia, onde Jesus outrora o chamara, junto ao lago, que
ele teve uma experiência de ressurreição. Paulo iria dizer que Pedro foi o primeiro que
viu o Senhor. Por uma inspiração, uma visão não atribuível à carne e ao sangue, ele
entendeu que a cruz não era o fim, mas o princípio; era um escândalo mas também a
salvação. Convenceu os outros discípulos; eles tiveram a mesma experiência. Também
eles viram o Senhor.
Mais tarde, espalharam-se algumas estórias complicadas contando que Jesus fora
enterrado num túmulo não usado, com uma pedra por cima, e como, no dia que viria a
ser chamado de Páscoa, a pedra foi removida revelando um cova vazia. As estórias
contradiziam-se em muitos pontos. Mas expressavam, à maneira dos Judeus, a
experiência dos discípulos: Jesus não foi amaldiçoado na cruz; tornou-se por seu
intermédio o Senhor e Cristo. Afinal ele era de facto o Messias. Ele ressuscitou.
Os discípulos tinham voltado a Jerusalém pregando a sua fé. As suas histórias
falavam de comer e beber com Jesus depois da ressurreição para fazer com que os
outros acreditassem. Pedro adquiriu um prestígio especial. Foi a Pedra sobre a qual o
novo grupo — mais tarde chamado Igreja — foi edificado. A sua fé tinha crismado os
seus irmãos. Foi o pastor que trouxe para o redil o rebanho perdido. Era o pescador
chefe de homens. Foi o primeiro cristão.
Juntos, os discípulos leram outra vez Moisés e os profetas. Estes também deixavam
claro que a cruz era parte do plano de Deus. Os homens devem viver a sua vida à
sombra da cruz que os salvaria tal como outrora tinha elevado Jesus da agonia até à
glória.
O prisioneiro passou todos os seus dias a sorrir na escuridão de Mamertine. Nada lhe
interessava, nem a ele nem aos discípulos, depois de saberem que o Senhor
ressuscitara dos mortos. Ele era o Sofredor Servo de Deus. Que mais é que ele lhes
tinha pregado e mostrado senão que tinha vindo não para ser servido mas para servir,
para dar a vida pelos outros? Isto explica a razão por que ele virou costas à força, por
que ele se riu com a ideia de uma espada a ajudar a promover a sua mensagem. Ele
viera não para ferir e matar mas para ser ferido e, se necessário, morrer para que o
amor e a compaixão de Deus brilhassem por entre as feridas abertas no seu corpo.
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Por um momento, uma coisa preocupou Pedro: que pessoas podiam ser discípulos
de Jesus? Só judeus? Se os não-judeus também pudessem, teriam eles de se tornar
judeus primeiro? Encontrou a resposta num estranho sonho que o convenceu de que
nada era exigido aos não-judeus convertidos a não ser a fé em Cristo.
Mais tarde recuou. Instou os não-judeus a seguirem as leis da dieta dos judeus. Foi
então que um enérgico recém-convertido mostrou o seu fervor: «Quando Cephas
[Pedro] veio a Antióquia» disse Paulo, «eu contestei-o frontalmente, porque era evidente
que ele não tinha razão. […] Eu disse a Cephas em frente de toda a gente “Tu és judeu
e vives como um não-judeu. Como é que queres obrigar os não-judeus a viver como
judeus?»
Pedro aceitou a correcção. Tinha cometido um erro terrível. Se Paulo o não tivesse
corrigido, a mensagem de que o homem se justifica apenas pela fé teria ficado
arruinada desde o começo. Depois disto, Pedro e Paulo dividiram a missão: Pedro
pregava aos judeus e Paulo, cidadão romano, aos não-judeus.
Depois de organizar a Igreja em muitos lugares, Pedro, muito mais tarde, sentiu-se
atraído pela capital do Império. Quando Jesus nasceu foi registado num censo
ordenado por Augusto. Foi executado pelos Romanos. Como eles eram donos do
mundo, era em Roma, onde, segundo Tácito, todas as vergonhas e todos os vícios do
mundo se congregavam, que Pedro tinha de converter.
Os Judeus estavam há muito estabelecidos em Roma. Eram olhados com
desconfiança por causa da sua recusa em venerarem os deuses do Panteão, como
faziam os imigrantes bem educados,. Isto era traição, mas os Romanos eram
geralmente tolerantes em assuntos de religião. Os Judeus sobreviveram, foram
dispensados de adorar os manes. Com o tempo vieram a conceder-lhes mesmo
estatuto legal.
Pedro tinha uma tarefa difícil em pregar Jesus aos Judeus. Para estes, Pedro era um
herege. Aceitava a Bíblia Judaica, mas não a circuncisão. Venerava Abraão, Moisés e
David, mas não manteve as suas festividades. Venerava mesmo Deus num Sabath
próprio. Os Judeus não aceitavam sobretudo a ideia de um messias crucificado. Jesus
não convenceu ninguém enquanto vivo, morreu como um fora de lei que era, e a sua
chamada ressurreição baseava-se no testemunho de umas poucas mulheres loucas.
Na Roma do tempo de Pedro, o Forum e o Palatino impressionavam mesmo à
distância. O palácio de Augusto brilhava ao sol na sua brancura. Pedro sentia-se
contente por os cristãos não possuírem nada senão algumas sepulturas subterrâneas.
Ele não podia deixar de pôr em contraste os Césares e o seu Mestre. Jesus não tinha
exércitos, nem armas, à parte uma espada ferrugenta que um dos seus seguidores
tinha apanhado no caminho. A sua única autoridade era o amor; era a única autoridade
que legava aos seus discípulos. Todas as formas de coacção e títulos mundanos lhe
eram estranhos. Fugiu a esconder-se nos montes quando a multidão queria fazê-lo rei.
A lei régia era a de Deus e realizava-se pela misericórdia, pela pobreza, pela entrega a
Deus e ao próximo. Mesmo depois da morte, Jesus continuou a sofrer nos seus irmãos.
Ele ajudá-los-ia a carregarem a sua cruz; nunca aprovaria qualquer crueldade que
fizessem. O império de Jesus era o do amor e da paz.
Os cristãos eram considerados pelos Romanos como uma seita judaica. Também
eles eram considerados hostis à sociedade. Eram mesmo acusados de terem o seu
próprio rei. Pedro sabia que Cristo não era nenhum rival de César, nem os cristãos
traidores por o venerarem. A fé era uma coisa distinta da cidadania; fazia deles
melhores cidadãos.
39
O Imperador Nero não concordava. Gostava de perseguir estes rebeldes. Obrigou os
cristãos a fazerem o papel de Actéon. Vestidos com peles de animais, eles eram
despedaçados pelos cães.
No dia 19 de Julho do ano 64, Roma ardeu. As circunstâncias eram suspeitas. Nero
estava a gozar os ares do mar em Anzio; os triumviri nocturnii, soldados vigilantes dos
fogos, estavam de folga. O fogo durou uma semana destruindo dez das catorze regiões
da cidade. Quando Nero regressou, Popeia, a imperatriz, e o actor Alituro sussurraram-
lhe: «Os cristãos». Claro, eram eles os responsáveis.
No circo, construído nos belos prados Quintilianos, os cristãos foram devidamente
punidos. O circo, com o obelisco de Heliópolis no topo, brilhou noite após noite de velas
acesas. Os cristãos, homens, mulheres e crianças, presos em cruzes, arderam bem. De
facto, morreram magnificamente, os primeiros de muitos.
Pouco depois do fogo, Pedro foi preso. Era com a sua própria morte que ele agora
contava, sem medo. O seu desejo era ir para junto de Deus, tal como Jesus.
E o seu desejo cumpriu-se. Um dia levaram-no para o ar livre, que quase o sufocou,
e para o sol, que cegava. Entregaram-lhe uma cruz e disseram-lhe que começasse a
andar. A notícia espalhou-se e logo Lino apareceu em cena. O Grande Pescador ia para
junto de Jesus. Discretamente, à distância, eles viram como ele estava magro e fraco
depois daquela longa prisão. Mas estava feliz, também repararam nisso.
Quando chegaram ao lado norte do circo, Pedro pediu para ser crucificado de cabeça
para baixo por respeito ao seu Mestre. Os soldados não levantaram objecções. O último
desejo de um criminoso devia, se possível, ser respeitado. A morte veio depressa; o
sangue afluiu-lhe à cabeça. Passou da inconsciência à glória.
Nessa noite, os seus seguidores reclamaram o corpo e enterraram-no junto do muro
onde as vítimas do circo eram geralmente sepultadas. O terreno era junto do primeiro
marco miliário na Via Cornélia. Trinta anos depois, Anacleto viria a construir sobre ele
uma capelinha onde podiam rezar três ou quatro ao mesmo tempo.
O escritor Tertuliano disse: «Orientem fidem primus Nero cruentavit […]» («Nero foi o
primeiro a manchar de sangue a fé nascente. Pedro, como Cristo previu, foi atado por
outro, quando foi preso à cruz; foi então que Paulo conseguiu, no seu sentido mais
elevado, a liberdade de Roma. […] Que feliz é esta igreja cujos ensinamentos os
Apóstolos regaram com o seu sangue»).
Não passará muito tempo e os sucessores de Pedro deixarão de ser os servos para
passarem a ser os donos do mundo. Vestir-se-ão de púrpura, como Nero, e chamar-se-
ão de Pontifex Maximus. Irão referir-se ao Pescador como “o primeiro papa” e não
apelarão para a autoridade do amor, mas para o poder nele investido para agirem como
Nero. Em oposição a Jesus, os cristãos vão fazer aos outros o que lhes fizeram a eles,
e pior ainda. A religião que se orgulhava de ter triunfado sobre as perseguições pelo
sofrimento, irá tornar-se a fé mais perseguidora que o mundo alguma vez conheceu.
Irão perseguir até a raça de que Pedro — e também Jesus — eram oriundos. Irão
ordenar, em nome de Cristo, que todos aqueles que discordem sejam torturados e
algumas vezes crucificados sobre a fogueira. Farão uma aliança entre o trono e o altar;
insistirão em que o trono é o guardião do altar e o garante da fé. A sua ideia será a de o
trono (o Estado) impor a religião cristã a todos os seus súbditos. Não os perturbará o
facto de que Pedro lutou contra tal aliança e morreu por causa dela.
Durante três séculos, após a morte do apóstolo no Monte do Vaticano, a Igreja,
apesar da perseguição, cresceu em força até chegar o dia em que se deixou tentar em
partilhar a sorte de César.
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A grande tentação
Era o amanhecer, os dedos rosados do sol começavam a abraçar as colinas. Antes
de o sol estar visível, houve um silêncio longo e profundo apenas quebrado pela música
palpitante da cotovia e o ladrar de um cão algures no deserto da Campânia.
Precisamente quando o sol se erguia acima do horizonte, ouviu-se um novo som: os
passos de um exército em marcha. Levantou-se uma nuvem de poeira na grande
Estrada do Norte. No meio da poeira e da neblina tomaram forma filas sobre filas de
homens armados. No escudo e no estandarte o exército tinha um símbolo na diagonal
que representava Christos, Cristo.
O comandante-em-chefe apareceu à vista a cavalgar. Montado em magnífico corcel,
Constantino tinha acabado de tomar sozinho o poder do Império. Ele não pensava ter
muitas possibilidades. O seu rival, Maxêncio, tinha os trunfos todos. As suas tropas
eram mais numerosas e estavam mais frescas. Bastava manter-se dentro das muralhas
de Roma para ficar inexpugnável. Mas mesmo assim, Constantino continuou a sua
marcha; não tinha outra saída. Tinha de combater até ao fim.
No dia anterior, tivera uma estranha experiência. Ninguém podia ser mais devoto do
Deus-Sol do que ele; também venerava frequentemente Apolo. Então, estava ele de
joelhos, virado para o sol, venerando aquela divindade incandescente quando — seria
uma visão? Uma ilusão devida a tonturas? Um sonho? — viu uns raios negros a saltar
do sol na diagonal e ouviu na sua cabeça um nome: Christos. A mãe, Helena, era cristã;
andava sempre com Christos na boca, mas Constantino nem nunca tinha pensado nele.
Nunca, até então. Uma voz vinda de outro mundo parecia estar a dizer: «Por este sinal
vencerás». Estava a agarrar-se a ilusões, sem dúvida, mas deu ordens aos seus oficiais
para que substituíssem a Águia Imperial pelo símbolo de Cristo. Diziam que aquele
Cristo, pensou ele, tinha ressuscitado dos mortos. Quando se defrontasse com
Maxêncio, ele próprio precisaria provavelmente de um truque desses.
Durante a marcha, os seus batedores informaram-no de que Maxêncio tinha saído da
cidade e se dirigia para Saxa Rubra, nove milhas a norte de Roma. Sabia agora que
afinal tinha uma possibilidade. Naquele ponto a estrada tornava-se um desfiladeiro entre
duas colinas. Traçou planos para cortar a retirada a Maxêncio pela retaguarda. Nessa
noite rezou com fervor dirigindo-se ao sol e pronunciando o nome da sua nova
divindade.
Na manhã seguinte, 27 de Outubro de 312, esperou pelo nascer do sol para ter a
certeza de que Jesus estava com ele, e ordenou um ataque. Cercado, o inimigo ficou
descontrolado na Ponte Milviana. Maxêncio tentou escapar mergulhando no Tibre, mas
a armadura arrastou-o para o fundo e, tal como muitos dos seus soldados, morreu
afogado. Constantino entrou triunfalmente em Roma, como o novo imperador, com mais
uma divindade a protegê-lo.
Pouco tempo depois já ele tratava com o novo papa, Silvestre, que sucedeu ao mais
cauteloso Miltíades como Bispo de Roma. Silvestre, tal como muitos prelados depois
dele, não via nada de estranho num guerreiro convertido à fé num Cristo crucificado por
via da chacina dos seus inimigos.
Assim começou a aliança entre César e Papa, entre o Trono e o Altar. Com o tempo
isto viria a tornar-se parte da ortodoxia católica.
O Imperador Constantino nunca renunciou ao título de Pontifex Maximus, chefe do
culto pagão oficial. Quando, no ano 315, a sua vitória se consolidou, atribuiu-a à
«inspiração da divindade» não especificada. Nas suas moedas continuava a aparecer a
41
imagem do Deus-Sol. Não aboliu as Vestais nem o Altar da Vitória no Senado. Jamais
fez do Cristianismo a religião oficial.
Nascido em 274 de uma ligação de Constâncio com uma mera concubina, Helena,
ele nunca teria sido elegível para honras imperiais. Conseguiu a consagração pela
espada. Casado por duas vezes, assassinou Crispo, seu filho da primeira mulher, em
326. Mandou matar a segunda mulher por afogamento no banho; matou o sobrinho de
onze anos e a seguir o cunhado depois de ter jurado garantir-lhe segurança. Não
perseguiu os cristãos, apenas familiares e amigos.
Longe de ser o modelo de príncipe cristão, nunca deixou de ser um político
intransigente e, segundo Jacob Burckhardt, com «uma terrível e fria ambição de poder».
Patrocinou o Cristianismo porque se mostrara útil ao dar-lhe a vitória numa batalha
decisiva. A Igreja curvou-se-lhe, sem grande susceptibilidade em relação aos seus
enredos matrimoniais, porque ele era útil à sua causa.
Pouco depois disto, Constantino fez com Licínio, o seu rival do Oriente, um acordo,
conhecido como o Édito de Milão.
Já há muito tempo que consideramos que não se deve negar a
ninguém a liberdade de culto. Pelo contrário, o pensamento e o
desejo de cada um deve ser garantido, permitindo-lhe tratar das
coisas do espírito de acordo com as suas opções. Esta a razão por
que demos ordens no sentido de que a cada um seja permitido ter
as suas próprias crenças e fazer as suas devoções conforme queira.
Isto era uma expressão exemplar dos direitos religiosos de todas as pessoas sem
distinção. A tolerância que isto revelava permitiu aos cristãos saírem das catacumbas
para a plenitude dos direitos de cidadania. O que é trágico é que este princípio nunca foi
aceite pela Igreja Católica. A verdade, insistia ela, nunca pode ser objecto de
compromisso. Daí que, sempre que teve o controle, ela negou aos outros a liberdade de
religião. Quando a Paz de Westfália em 1648 estabeleceu que «Os cidadãos cuja
religião seja diferente da do seu soberano devem ter direitos iguais aos outros cidadãos»
isto foi condenado por Inocêncio X. Outras declarações de liberdade religiosa
semelhantes foram anatemizadas século após século pela Igreja Católica como não
cristãs, perniciosas, insensatas, e em nada diferentes do ateísmo.
É irónico que nenhum documento da história da Igreja, nem mesmo do Concílio
Vaticano II, seja tão tolerante, generoso e sensato como o Édito de Milão, elaborado por
dois guerreiros sanguinários.
No ano de 380 aconteceu ao Cristianismo uma coisa que teria espantado Jesus e
Pedro: tornou-se a religião oficial do Império Romano. Nas palavras de Acton, a Igreja
tornou-se «a muleta dourada do absolutismo». Com o novo prestígio da Igreja vieram
também perigos sempre presentes.
No princípio, o estado entrou nos domínios da Igreja tentando moldar a fé aos seus
requisitos da lei e da ordem. A partir de então, a Igreja, que começou por ser um
movimento de massas e de libertação espiritual, adoptou um padrão conservador que se
manteve até hoje. Muito frequentemente, os prelados alinharam com os ricos contra os
pobres; fizeram escolhas à direita e não à esquerda. Temiam instintivamente mais o
comunismo do que o fascismo.
Com o tempo, a Igreja começou a inverter as posições invadindo os direitos dos
príncipes. Os papas nomeavam e destituíam até os imperadores exigindo que estes
impusessem o Cristianismo aos seus súbditos sob a ameaça da tortura e da morte.
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O resultado final foi a Cristandade. Em muitos aspectos esta foi a maior força
civilizadora jamais vista no mundo. Os custos para a mensagem do Evangelho foram
terríveis.
Tudo isto foi no futuro. Nos primeiros tempos depois de Constantino, a Igreja, já
respeitável, contentou-se em tirar partido da Pax Romana: uma língua comum, um
sistema jurídico e estradas directas para levar a mensagem de Jesus a todo o Império.
A Igreja já não tinha de temer perseguições. Os Judeus e os “descrentes“ é que
estavam agora ameaçados. Agora, eles é que seriam torturados, queimados e
crucificados em nome de Jesus, o Judeu Crucificado.
Os primeiros pontífices
Segundo o historiador germânico Gregorovius, «Até ao reinado de Leão I, no século
V, a Cadeira de Pedro nunca fora ocupada por um simples bispo de importância
histórica». Houve razões para isto. Nos primeiros tempos, a comunidade cristã estava
empenhada na sobrevivência num meio hostil. Eram detestados pelos Judeus e olhados
com suspeita pelos Romanos por não venerarem as divindades locais. E os cristãos
também não se alistavam no exército, levantando assim dúvidas sobre a sua
fidedignidade como cidadãos. Apesar disto, o Cristianismo cresceu, especialmente entre
os escravos e as classes mais pobres. Estes responderam com ardor ao Sermão da
Montanha e à pregação de Jesus, que foi crucificado como um escravo e ressuscitado
dos mortos como precursor da Ressurreição Final.
Foi quando a Igreja emergiu da sombra, quando as perseguições de Nero e
Diocleciano já se tinham tornado más recordações que as coisas começaram a piorar.
Já havia sinais disso mesmo antes da conversão de Constantino.
Por exemplo, depois da morte de Marcelino, em 304, não houve bispo de Roma
durante quatro anos por causa de uma disputa dentro da comunidade cristã sobre se os
apóstatas que regressassem deviam ou não fazer penitência. Embora os tempos fossem
difíceis para a fé e as heresias estivessem a crescer, a escolha de um novo bispo (papa)
não era de primordial importância.
Quando a Igreja se tornou respeitável, depois do Imperador Constantino, é que as
querelas viciosas rebentaram. A comunidade recebeu terras e muitos privilégios. Para o
diaconato e sacerdócio perfilou-se o tipo errado de candidatos. Mamona entrou em
conflito directo com Deus na Igreja.
Com a morte de um papa revelavam-se muitas azedas rivalidades. Por exemplo,
quando Libério morreu, em 366, duas facções elegeram cada uma o seu sucessor.
Ursino era um papa, Dâmaso, outro. Depois de muita luta nas ruas, os seguidores de
Ursino trancaram-se no interior da Basílica de Santa Maria Maior, conhecida como
Nossa Senhora da Neve, acabada de construir pouco tempo antes. Alguns apoiantes de
Dâmaso subiram ao telhado, fizeram nele um buraco e bombardearam os ocupantes
com telhas e pedras. Entretanto outros atacavam a porta principal. Quando esta cedeu,
seguiu-se uma luta sangrenta que durou três dias. No fim, 137 corpos foram trazidos
para fora, todos eles de seguidores de Ursino.
O representante do imperador mandou Ursino para o exílio, mas o crime de Santa
Maria Maior ficou como um borrão indelével no caderno de Dâmaso. Como
compensação, Dâmaso acentuou a sua autoridade espiritual como “sucessor de
S.Pedro“, um direito, como já foi assinalado, não reconhecido pelos Pais da Igreja. «Só
depois de Dâmaso, em 382,» escreve Henry Chadwick, «é que este texto Petrino [«Tu
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és Pedro»] se começou a tornar importante como fonte de fundamentação teológica e
evangélica em que se baseava o direito à dignidade de primaz».
Por essa altura, o Bispo de Roma era um grande proprietário de terras e um líder civil.
O paradoxo é que os papas só se tornaram papas quando, a juntar ao seu papel
religioso, começaram a tomar outros cargos completamente seculares. «O resultado
desta associação,» diz Jeffrey Richards no seu livro The Popes and the Papacy in the
Early Middle Ages, «foi um papado cujo poder aumentou para além dos seus sonhos
mais extravagantes».
Dâmaso ilustra bem este facto. Chegou ao poder à custa de muito sangue. Tornou-se
por esse meio um homem muito rico e poderoso. Quando pediu ao prefeito de Roma,
um pagão com muitos títulos sacerdotais, que se convertesse, este respondeu-lhe:«De
boa vontade, se o senhor me fizer Bispo de Roma». O escritor dessa época Aniano
Marcelino sugeriu que devia haver uma concorrência muito viva para um cargo tão
lucrativo. «Porque uma vez obtido esse cargo, um homem goza em paz um destino
assegurado pela generosidade das matronas; pode viajar em carruagem, vestido com
magníficos mantos; pode oferecer banquetes cujo luxo ultrapassa o da mesa do
imperador».
O secretário de Dâmaso, o ascético S.Jerónimo, descreveu o tipo de clérigos que
rodeavam Dâmaso; tinham mais o aspecto de noivos, disse ele. E o papa, que chegara
ao poder com a ajuda da guarda, precisava constantemente da protecção desta contra
os seguidores de Ursino.
Episódios desagradáveis como este não foram assim tão raros. Noutras ocasiões
houve dois ou até três candidatos rivais para o bispado. Às vezes o lugar ficava vago
durante meses e anos, porque os Romanos não se entendiam. Uma vez dois rivais
foram derrubados por um terceiro que dera ao exarca em Ravena, o representante do
imperador, cem libras em ouro pelo seu apoio.
A tradição da eleição do Bispo de Roma pelo povo da cidade remontava aos tempos
apostólicos. Isto levou muitas vezes à confusão. No século XI puseram ordem nas
coisas tornando-se os cardeais, representantes do clero local, os únicos eleitores. Os
leigos nunca mais recuperaram o seu direito a uma palavra na escolha do seu bispo.
Mas nem mesmo os conclaves de cardeais resolveram o problema, tanto assim que na
Idade Média e posteriormente houve muitas vezes mais do que um “papa”. Mas nestes
primeiros tempos a situação foi algumas vezes crónica.
Gregorovius salientou que nos séculos VI e VII a maior parte dos papas reinou
apenas dois ou três anos. Será que eles eram escolhidos quando já estavam perto da
morte, ou a sua morte era apressada por facções rivais? Ele não sabia. De acordo com
Richards, a maioria dos papas foi escolhida segundo o critério da recompensa por
serviços prestados, de modo que quase todos eram de idade e doentes. O Papa Sisino,
por exemplo, foi consagrado em 15 de Janeiro de 708. Estava tão diminuído pela artrite
que nem sequer conseguia levar a comida à boca para se alimentar. Morreu vinte dias
depois. Escreve Richards: «Com esta parada de enfermidades e incapacidades é de
admirar que o papado tenha conseguido alguma coisa».
Assim, mesmo as eleições que envolviam corrupção, suborno e derramamento de
sangue resultavam muito frequentemente na entrega do cargo papal a homens velhos e
doentes. Richards relata o seguinte: «O fogo e os condimentos desses tempos chegam
até nós nos documentos desse período que sobreviveram. […] Esta é que é a carne
vermelha crua da história do papado, e não as doses dissecadas e pré-embaladas
servidas à moda da história papal».
Apesar de toda esta chicana e corrupção, não passou muito tempo sem que aquele
período fosse olhado como cândido, quase como a Idade de Ouro do Papado.
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Um documento assombroso
Estêvão III tornou-se pontífice no ano 752 depois de o seu antecessor, Estêvão II ter
reinado apenas quatro dias, o reinado mais curto de que há registo. O novo pontífice
tinha sido educado praticamente na corte papal. Sabia que o papa não era um líder
meramente religioso, mas, como vassalo leal do imperador, também governador civil
com extensos territórios sob a sua jurisdição.
A secularização da Igreja iniciada por Constantino estava no bom caminho. Ele tinha
visto o potencial da hierarquia como classe governante. Estavam tão bem organizados
como o seu próprio funcionalismo civil, que foram lentamente substituindo nos tribunais
e na diplomacia. Quando, no ano 330, o imperador levou a sua entourage para
Constantinopla, local da antiga cidade grega de Bizâncio, os bispos de Roma envolviam-
se cada vez mais nos assuntos civis. Dois papas em particular contam-se entre os
maiores homens de sempre. Leão o Grande (440-61) num acto de grande coragem
salvou Roma de Átila o Huno. Gregório o Grande (590-604) foi efectivamente o líder
civil, bem como o Patriarca, do Ocidente. Com este duplo papel lançado sobre eles,
houve um inevitável crescimento da burocracia. Trabalharam heroicamente, mas na
Roma cristã nunca mais se viu a simplicidade cristã.
Quando os Lombardos, uma tribo bárbara do Báltico, se estabeleceram na Itália
depois do ano 568, o papado deixou de ter paz. Os recém-chegados tomaram a maior
parte do norte. Gradualmente convertidos, os Lombardos nunca tiveram a confiança da
Santa Sé. Quando os laços que ligavam os papas e os imperadores, seus vassalos,
abrandaram, os pontífices tiveram de forjar uma nova aliança militar, para conservar
Roma e os territórios vizinhos. Teria sido provavelmente melhor se as tivessem
restituído, mas para os grandes proprietários isso sempre foi impensável.
Após um ano de pontificado, Estêvão III viajou para o norte, no inverno, para se
avistar com Pepino, Rei dos Francos. Nunca um papa tinha procurado auxílio junto de
um soberano ocidental; e este viria a ser o primeiro de muitos pedidos de auxílio militar.
Vestido de negro, o cabelo coberto de cinzas, o papa ajoelhou aos pés do rei
implorando-lhe que usasse os seus exércitos para salvar os interesses de Pedro e Paulo
e da comunidade de Roma. Aí, na Abadia de S.Dinis, sagrou Pepino e seu filho Carlos
Magno como “patrícios dos Romanos“.
É muito provável que neste encontro Estêvão tivesse mostrado ao seu anfitrião real
um documento muito antigo. Cheio de pó e a desfazer-se, tinha sido preservado durante
séculos nos arquivos papais. Datado de 15 de Março de 315, chamava-se “A Doação de
Constantino”. Era uma escritura ou um presente do primeiro imperador ao Papa
Silvestre.
A Doação conta a comevedora estória de como Constantino contraiu a lepra por todo
o corpo. Os sacerdotes pagãos erigiram uma fonte no Capitólio e tentaram persuadi-lo a
enchê-la de sangue de crianças. Enquanto o sangue estivesse quente, Constantino
deveria banhar-se nele para ficar curado. Arrebanharam muitas crianças acompanhadas
das mães em lágrimas. O imperador, comovido com as suas lágrimas, mandou-as para
casa carregadas de presentes. Nessa noite ele teve um sonho. Pedro e Paulo disseram-
lhe que contactasse o Papa Silvestre, então escondido no Monte Soracte. O papa
mostrar-lhe-ia o verdadeiro “lago da piedade”. Uma vez recuperada a saúde, teria de
restaurar as igrejas cristãs em todo o mundo, deixar de rezar aos ídolos e venerar o
verdadeiro Deus. Constantino fez como lhe disseram. «Quando eu estava no fundo da
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fonte,» disse ele, «vi uma mão vinda do Céu a tocar-me». Voltou do seu baptismo
curado. Silvestre pregou-lhe a Trindade e repetiu as palavras de Jesus para Pedro: «Tu
és Pedro […] e eu vou entregar-te as Chaves do Reino». Convencido de que se tinha
curado pelo poder do Apóstolo, Constantino, em nome do Senado e de todo o povo de
Roma, ofereceu um presente ao Filho do Vigário de Deus e a todos os seus sucessores:
Considerando que o nosso poder imperial é terreno, decretámos que
ele venerará e honrará a sua muito santa Igreja Romana e que a
sagrada Sé do Abençoado Pedro será gloriosamente exaltada
mesmo acima do nosso Império e trono terreno. […] Ele dirigirá as
quatro principais Sés, Antióquia, Alexandria, Constantinopla e
Jerusalém, como todas as igrejas de Deus em todo o mundo…
Finalmente, vede, transferimos para Silvestre, papa universal, a
propriedade do nosso palácio assim como de todas as províncias e
palácios e distritos da cidade de Roma e Itália e das regiões de
ocidente.
Constantino também deu uma explicação até então desconhecida sobre a razão por
que se mudara para o oriente. Desejava que Roma, onde a religião cristã foi fundada
pelo Imperador do Céu (Cristo), não tivesse rival na terra. A Roma pagã abdicara em
favor da Roma cristã.
O Rei Pepino ficou impressionado. O documento provava que o papa era o sucessor
de Pedro e também de Constantino. O imperador tinha mesmo agido como vassalo de
Silvestre, inspirando muitos reis e imperadores a imitarem a sua humildade nas
coroações papais nos séculos seguintes.
Quando Pepino desbaratou os Lombardos, devolveu ao papa todas as terras que
eram suas por direito devido à Doação.
Foi um desenvolvimento surpreendente dos Evangelhos. Jesus só possuía as roupas
que trazia no corpo. Os seus principais discípulos agora não só tinham enormes
territórios a que se tornaram excessivamente apegados, como também precisavam de
alianças militares para os manter.
A Doação continuou a ter influência. Por exemplo, o único papa inglês, Adriano IV,
recorreu a ela quando deu a Irlanda a Henrique II da Inglaterra. Adriano fora
anteriormente Nicholas Breakspear, filho de um padre.
Quando Henrique iniciou a longa e trágica ocupação da Irlanda em 1171, o
episcopado irlandês, reunido em Cashel, reconheceu-o e aos seus sucessores como
legítimos reis da Irlanda. Isto foi depois confirmado pelo novo papa, Alexandre III, não
sem antes ter insistido em que teria de receber uma quantia anual por cada membro do
seu pessoal. Este era o preço do papado por entregar estas muito católicas e célticas
terras ao normando inglês.
O que torna isto mais difícil de suportar é que a Doação foi uma falsificação.
A Doação foi uma invenção, provavelmente maquinada por um padre de Latrão pouco
antes da visita de Estêvão III ao Rei Pepino. Tal era o estado da erudição nesse tempo.
Todos se deixaram enganar por uma coisa que hoje não enganaria um miúdo da escola.
Só quando um assessor papal, Lorenzo Valla, o analisou linha por linha em 1440 é que
ficou provado que era uma fraude.
Valla mostrou que o papa naquela alegada data da Doação não era Silvestre mas
Miltíades. O texto refere “Constantinopla”, enquanto a cidade de Constantino no Oriente
ainda conservava o nome original de Bizâncio. A Doação não estava escrita em latim
clássico mas numa forma abastardada posterior. Também se dão explicações sobre, por
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exemplo, as insígnias de Constantino, que não teriam sido necessárias no século IV,
mas que o eram no século VIII. De inúmeras e irrefutáveis maneiras, Valla desfez
completamente o documento. Fê-lo com apreensão porque sabia que muitos prelados
romanos iriam vingar-se.
Como eu ataquei não os mortos, mas os vivos, não meramente um
qualquer legislador, mas o mais alto legislador, nomeadamente, o
Sumo Pontífice, contra cuja excomunhão nenhum príncipe pode
proteger. […] O papa não tem o direito de me intimar por defender a
verdade. […] Quando tantos suportam a morte em defesa de uma
pátria terrena, não havia eu de correr perigo por amor da minha
pátria celeste?
Só em 1517 é que o livro de Valla foi publicado. Foi no crítico ano em que Lutero
atacou as indulgências. Uma cópia chegou às mãos de Lutero, que viu pela primeira vez
que muitas das suas crenças sobre o papado se baseavam em falsidades como a da
Doação.
Embora todos os eruditos se tivessem rendido aos argumentos de Valla, Roma não
os aceitou; continuou a afirmar durante séculos a autenticidade da Doação. E foi pena,
na medida em que a verdade sobre ela era muito mais incrível do que a série de
mentiras que ela continha.
A estória da lepra de Constantino e da sua subsequente cura baptismal foi uma
invenção piedosa do século V. A lenda ficou perpetuada no baptistério de S.João de
Latrão em Roma. Uma inscrição relata a maneira como o imperador lá foi baptizado pelo
Papa Silvestre.
Os factos são estes: Constantino foi um militar num tempo em que para a Igreja o
derramamento de sangue era inaceitável. Talvez seja esta a razão por que ele adiou o
baptismo para uma altura em que já estava à beira da morte e não tinha já forças para
pecar ou matar mais alguém. Não muito tempo antes, a sua mãe, Helena, morrera com
mais de oitenta anos. Só então é que o imperador se juntou aos catecúmenos, não na
sede da Igreja, mas na distante Helenópolis, no Oriente. Foi aí baptizado não pelo papa,
nem sequer por um bispo ou padre, mas por um bispo ariano herege chamado Eusébio.
Morreu no último dia do período do Pentecostes no ano de 337. Isto lança algumas
sombras sobre muitos dos mais significativos acontecimentos da história dos primeiros
tempos da Igreja.
Quando chamou aos bispos seus queridos irmãos e se intitulou ele próprio “Bispo dos
Bispos”, nome de que os papas se apropriaram mais tarde, Constantino não era cristão
nem sequer catacúmeno. Contudo, ninguém se lhe podia comparar em estatura e
autoridade. Mesmo o Bispo de Roma — que não havia de se chamar “o papa” ainda
durante muitos séculos — era, em comparação, uma pessoa sem importância. Em
termos civis, era vassalo do imperador; em termos espirituais, era, comparado com
Constantino, um bispo de segunda categoria, com um título honorífico superior à maioria
dos outros bispos porque detinha a Sé Apostólica onde Pedro e Paulo tinham trabalhado
e estavam sepultados. Como Burckhardt acentua na sua obra The Age of Constantine, o
título de bispo ecuménico do imperador «não era uma simples maneira de dizer; na
realidade, a Igreja não tinha qualquer outro centro de poder». Não era o papa, mas sim
ele, tal como, mais tarde, Carlos Magno, que era o chefe da Igreja, a sua fonte de
unidade, perante quem o Bispo de Roma se tinha de prostrar e jurar a sua lealdade.
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Todos os bispos concordavam em que ele era o «oráculo inspirado, o apóstolo da
sabedoria da Igreja».
Até ao fim da sua vida, Constantino construiu magníficas igrejas na Palestina e
noutros locais e ao mesmo tempo construía templos pagãos igualmente magníficos em
Constantinopla. Isto foi claramente entendido como a primeira afirmação da “Questão
Romana”. O imperador foi considerado pessoa sagrada, Pontifex Maximus, outro título
que o papa havia de assumir mais tarde. Daí que o imperador, e só ele, tivesse
autoridade para convocar assembleias religiosas como o Concílio de Arles no ano de
314. Como diz um bispo seu contemporâneo: «A Igreja fazia parte do Estado. A Igreja
nasceu dentro do Império e não o Império dentro da Igreja». Era, portanto, Constantino,
e não o Bispo de Roma, quem marcava a data e o local dos sínodos da Igreja e até a
maneira como os votos eram distribuídos. Sem a sua aprovação não podiam ser
transformados em lei; ele era o único legislador do Império.
Outro paradoxo da história é que foi Constantino, um pagão, quem inventou a ideia de
um concílio de todas as comunidades cristãs. Só desta maneira, dizia-lhe o seu génio, é
que a fé da Igreja seria formulada de maneira incontestável e para sempre. Nenhum
bispo desse tempo teria pedido ao Bispo de Roma para decidir sobre espinhosas
questões de crença.
Depois de derrotar Licínio no Oriente em 321, Constantino convocou o Primeiro
Concílio Geral da Igreja, que se realizou em 325 na Bitínia, num lugar chamado Niceia,
que significa “Vitória”. Foi talvez a mais importante assembleia cristã da história. O
Arianismo, uma heresia que subordinava o Filho ao Pai, tinha-se espalhado por todo o
mundo. A controvérsia não foi simplesmente amarga, foi sangrenta. Ter os cristãos a
guerrearem-se uns aos outros não era do interesse do imperador; eles deviam ser a
força estabilizadora do Império. Ficou desanimado quando descobriu que, depois de os
libertar das perseguições, estavam a despedaçar-se uns aos outros em nome da
Santíssima Trindade.
Em Niceia o Pai Fundador dos Concílios Ecuménicos reuniu 300 bispos, tendo
providenciado transporte gratuito. Todos eles, à excepção de uma dúzia, eram do
Oriente. Silvestre, o Bispo de Roma, não assistiu; enviou dois presbíteros. Silvestre não
teve, sem sombra de dúvida, qualquer papel na convocação do Concílio, nem na sua
direcção. Este foi completamente controlado por um imperador pagão que o realizou no
grande átrio do seu palácio. Segundo o historiador Eusébio, ele era alto e magro, cheio
de graça e majestade. Para fazer sentir a sua presença abriu os trabalhos «rígido no seu
manto de púrpura, ouro e pedras preciosas».
Cedo ficou claro que a maioria dos bispos era a favor da posição ariana. Constantino
não tinha quaisquer preferências teológicas conhecidas, mas ergueu-se do seu trono
dourado para pôr fim à discussão. Provavelmente queria apenas mostrar quem
mandava. Propôs aquilo que veio a chamar-se «o ponto de vista ortodoxo» do facto de o
Filho de Deus ser «de uma única substância» com o Pai. Todos os bispos dissidentes
cederam, à excepção de dois que Constantino imediatamente destituiu mandando-os
fazer as malas. Depois, escreveu para Alexandria, onde os Arianos ainda tinham apoio:
«Aquilo que satisfez trezentos bispos não foi senão a vontade de Deus».
O resultado não foi aquele que ele esperava. A “heresia” ariana continuou por
gerações. E o mesmo se passou com a completa imersão do Estado nos assuntos da
Igreja. A política eclesiástica substituiu as prioridades do Evangelho. A religião não era
importante, o que era sumamente importante era a Igreja. O resultado, é Burckhardt
quem o diz, foi uma «Igreja a desintegrar-se rapidamente na vitória».
O preço da “conversão” de Constantino ao Cristianismo foi a perda da inocência. O
cínico uso que fez de Cristo, com que toda a gente condescendeu, incluindo o Bispo de
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Roma, significou uma profunda falsificação da mensagem do Evangelho e a introdução
de valores a ela estranhos. A partir de então, o Catolicismo floresceu em detrimento do
Cristianismo e de Jesus, que não pretendia qualquer papel no mundo do poder e da
política e que preferiu ser crucificado a impor as suas opiniões a quem quer que fosse.
* * *
Na altura em que Estêvão III se tornou papa, a Igreja já se tinha completamente
convertido no Império Romano. A partir da Doação, é muito claro que o Bispo de Roma
se parecia com Constantino: vivia como ele, vestia-se como ele, habitava os seus
palácios, governava as suas terras, tinha exactamente o mesmo aspecto imperial.
Também o papa queria ser senhor da Igreja e do Estado.
Apenas setecentos anos após a morte de Pedro, os papas tinham-se tornado
obcecados pelo poder e pelos bens. O pontífice passeava-se pomposamente pela terra,
figura da mundanidade e da espiritualidade. Queria, literalmente, o melhor dos dois
mundos, mas alguns imperadores controlaram a sua ambição.
O Sacro Império Romano
Carlos Magno tinha cinquenta e oito anos, estatura enorme para aquele tempo,
cabeça redonda e cabelo branco, nariz comprido e olhos grandes e vivos. Inteligente e
capaz de conversar em latim, fundador de universidades, nunca conseguiu dominar a
leitura, nem nunca foi capaz, apesar de ter os melhores tutores, de escrever o nome.
Nos cinquenta e três anos que se seguiram a Estêvão III, crescera a necessidade de
auxílio militar por parte do papado. Os laços que ligavam Roma e Constantinopla, devido
à distância e à diferença de pontos de vista, estavam já quase completamente
quebrados. Carlos Magno, rei dos Francos, era homem para aproveitar a brecha para
entrar.
No ano 782 tinha feito prisioneiros quatro mil e quinhentos saxões, mandando-os
decapitar nas margens do Rio Aller. Era perfeitamente capaz de tratar dos Lombardos,
que continuavam a ameaçar o papado.
O novo defensor da Igreja não era mais virtuoso do que Constantino. Tinha-se
divorciado da primeira mulher e teve seis filhos da segunda. Depois de dispensar os
serviços desta, teve duas filhas da terceira e ainda mais uma filha de uma amante. Sem
filhos da quarta mulher, quando ela morreu mantinha quatro amantes — doze foi a sua
conta ao longo da vida — e teve pelo menos um filho de cada. Einhard, o seu biógrafo
franco que forneceu estes pormenores, insiste que ele sempre foi um pai dedicado.
Alcuin, um inglês, o monge mais erudito da época, já há muito que tinha pressionado
Carlos Magno a aceitar a coroa do Ocidente. Havia apenas três grandes homens no
mundo, disse ele ao seu mestre, sendo dois deles o papa e o imperador de
Constantinopla. «O terceiro é a dignidade real que por disposição de Nosso Senhor
Jesus Cristo vos é conferida como governador do povo cristão; e esta é mais excelente
do que as outras dignidades do poder, mais forte em sabedoria, mais sublime em
categoria».
O papa reinante, Leão III, estava ansioso pela vinda de Carlos Magno para Roma.
Precisava de protecção contra os intrusos; também queria ter o seu nome limpo ao mais
alto nível de insistentes acusações de adultério. Pouco antes de Carlos Magno chegar,
Leão foi atacado por uma turba hostil. Rasgaram-lhe os olhos e cortaram-lhe a língua. O
resultado foi que a coroação de 800 não teve nada do esplendor e do aparato da de
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Napoleão quando em 1804 este se coroou como “Imperador dos Franceses“ em Notre
Dame de Paris.
Carlos Magno estava ajoelhado em frente do túmulo de Pedro quando Leão, a tactear
á procura da cabeça onde devia colocar a coroa balbuciou que Carlos Magno era
Imperador e Augusto e ajoelhou a venerá-lo. Segundo Einhard, o seu mestre ficou
vermelho de raiva. Mais tarde Einhard ouviu Carlos Magno dizer «que não teria ido à
igreja naquele dia mesmo que se tratasse de uma festa solene [o Natal] se tivesse
adivinhado os planos do pontífice». Ele queria as honras, claro, mas não à custa de ter
de as receber de um vassalo. Tendo tido a maçada de vir a Roma para desculpar um
miserável súbdito, não queria aparecer como objecto da sua bênção.
Carlos Magno intuiu aquilo que os historiadores haviam de ver muito claramente. Com
um golpe de mestre, Leão III estava a afirmar um poder que, nos seus sucessores, iria
triunfar sobre os grandes soberanos temporais da terra.
Carlos Magno não tardou a agir como governador supremo da Igreja, legislando,
escolhendo de entre os nobres os bispos, arcebispos e abades. Tentou fazer com que
os monges deixassem de fornicar e, pior, de praticar a sodomia. Também punia com a
morte qualquer saxão que, fingindo ser cristão, se escusasse a ser baptizado. Carlos
Magno cumpriu de todas as maneiras os desejos de Aluin. Agiu como chefe da
Comunidade Cristã. Havia uma lógica nisto, na medida em que o antecessor de Leão,
Adriano I, já lhe tinha dado, como recompensa por ele ter aumentado os Estados do
Papado, o considerável privilégio de escolher o pontífice Romano.
Acontece que o futuro da Europa foi escrito naquele momento de surpreendente
ambiguidade em que um papa, criado por Carlos Magno, o coroou como imperador.
Qual deles era o maior? De momento, não havia dúvidas acerca disso: Carlos Magno.
Mas nos anos que se seguiriam, por este coup de théâtre, Leão tinha assegurado ao
papado uma suada oportunidade de supremacia.
Foi assim que a Basílica de S.Pedro viu o começo do Sacro Império Romano que,
como até uma criança sabe, não foi nem sacro, nem romano, nem império. Havia de vir
a durar mil anos, até que, em 1806, Napoleão destronou um monarca de Habsburgo e o
dissolveu. Tinham passado então mil e quinhentos anos durante os quais o papado, não
contente em confiar apenas no poder de Deus, se tinha apoiado nos príncipes para se
proteger contra os portões do inferno.
Mas os ataques mais ferozes contra a Igreja não vieram de fora; vieram de dentro —
vieram de facto do próprio papado.
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3
A Pornocracia Papal
A vinte e cinco quilómetros de Roma, no cimo dos Montes Albanos, moravam no
século X os famosos Conti, os Condes Alberico de Túscolo. Estes senhores da guerra
tomaram completo controle das eleições papais. Desta única família saíram sete papas,
três seguidos, e todos eles, quase sem excepção, ajudaram a dar forma à Roma
Deplorabilis (“Roma da Vergonha”).
A História desmente o mito popular de que Bórgia foi a maçã podre do papado. Não
muito tempo depois de Carlos Magno, e durante bem mais de século e meio, toda a
fornada foi podre. Eram discípulos mais de Belial, o Príncipe das Trevas, do que de
Cristo. Muitos eram libertinos, assassinos, adúlteros, amantes da guerra, tiranos,
simoníacos, prontos a vender tudo o que era sagrado. Quase todos eles estavam mais
envolvidos com o dinheiro e a intriga do que com a religião.
Com incessantes manobras políticas e uma obsessão pelas questões temporais, por
meio do abuso do poder e com uma espantosa perversidade, os papas, supostamente o
núcleo da unidade, corromperam toda a Cristandade. Foi o papado, e não a heresia,
que finalmente abriu brechas na Igreja.
Há realmente um mistério em tudo isto: como é que a Igreja do Ocidente, apesar dos
papas, se conseguiu manter unida durante tanto tempo?
Para começar, busquemos a ajuda de um exame a uma qualquer lista dos papas a
partir do ano 880. Nos cento e cinquenta anos seguintes houve trinta e cinco pontífices
que reinaram em média quatro anos cada. Já anteriormente se verificara o mesmo tipo
de transmissões de poder; isto explica-se pelo facto de os papas serem escolhidos por
serem já velhos e doentes. Mas nos séculos VIII e IX muitos papas andavam na casa
dos vinte anos, e vários eram adolescentes. Alguns reinaram vinte dias, um mês, ou três
meses. Seis deles foram destronados, e alguns outros assassinados. É de facto
impossível saber ao certo quantos papas e antipapas (falsos) houve neste período,
porque nessa altura não havia ainda um método de eleição fixo nem um número certo
de pretendentes.
Quando um papa desaparecia subitamente, não se sabia se lhe teriam cortado o
pescoço e atirado ao Tibre; se teria sido estrangulado na prisão; se teria passado a
noite num bordel; se lhe teriam cortado as orelhas e o nariz, como em 930 fizeram a
Estêvão VIII, que, compreensivelmente, nunca mais mostrou a cara em público; se teria
fugido, como Benedito V em 964, que, depois de desonrar uma jovem, partiu
imediatamente para Constantinopla com todo o tesouro da Basílica de S.Pedro, para
apenas voltar quando os fundos se esgotaram e provocar ainda mais estragos em
Roma. Gerbert, o piedoso historiador da Igreja, chamou a Benedito «o mais iníquo de
todos os monstros da impiedade», mas o seu juízo foi prematuro. Este pontífice foi por
fim assassinado por um marido ciumento. O seu corpo, com centenas de punhaladas,
foi arrastado pelas ruas antes de ser lançado para um esgoto.
Estes pontífices constituem, sem dúvida, o mais desprezível grupo de líderes,
religiosos ou leigos, da História. Eles eram, com toda a evidência, selvagens. A antiga
Roma não se lhes comparava em podridão.
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Estêvão VII era completamente louco. Desenterrou um seu antecessor corso, o Papa
Formoso (891-6), mais de nove meses após a sua morte. Naquilo que veio a ser
conhecido como o Sínodo Cadavérico, vestiu o fétido cadáver com todas as vestes
pontifícias, colocou-o no trono em Latrão e fez-lhe pessoalmente um interrogatório.
Formoso era acusado de se ter tornado papa por meios ilegais; era bispo em outro lugar
e portanto inelegível para Roma. Segundo o Papa Estêvão, isto tornava todos os seus
actos inválidos, especialmente as suas ordenações. Um diácono fala-barato, ainda
adolescente, respondeu em nome de Formoso. Depois de considerado culpado, o
cadáver foi condenado como antipapa, despido de todas as roupas excepto uma camisa
de cilício colada à carne engelhada e, sem os dois dedos com que tinha dado as suas
falsas bênçãos, foi lançado ao Tibre. Alguns admiradores de Formoso recuperaram o
corpo, qual carcassa de carne, ainda inteiro graças à camisa de cilício, e fizeram-lhe um
funeral discreto. Mais tarde foi trazido de novo para o seu túmulo na Basílica de
S.Pedro. O próprio Estêvão foi estrangulado passado pouco tempo.
Os papas mutilaram e foram mutilados, mataram e foram mortos. As suas vidas não
se assemelhavam em nada aos Evangelhos. Tinham mais em comum com os
modernos meninos ricos transformados em hooligans e rufiões que infestam os cafés de
praia e clubes nocturnos do que com os pontífices tal como o mundo os vê hoje. Uns
ficaram a dever a sua nomeação a pais ambiciosos, outros à espada, outros ainda à
influência de belas amantes bem nascidas, naquilo que ficou conhecido como “O
Reinado das Prostitutas“.
Entre as cortesãs, salientou-se Marózia da família Teofilato. Segundo o Bispo
Liutprand de Cremona, seu contemporâneo, ela fora bem treinada pela mãe, Teodora,
que teve uma segunda filha, também chamada Teodora, do Papa João X (914-29).
Aqueles que dizem que as mulheres nunca tiveram qualquer influência na maneira
como a Igreja é governada nunca conheceram estas duas mulheres incrivelmente
determinadas. Em menos de uma década, elas criaram — e, quando isso lhes conveio,
destruíram — nada menos do que oito papas. No seu Decline and Fall, Gibbon sugere
que foram estes “papas-fêmeas“ que condensaram a política do sexo que deu origem à
lenda, ou sátira, da Papisa Joana. Durante vários séculos, até à Reforma, acreditou-se
na existência deste pontífice feminino. Para os ingleses é uma consolação saberem que
a única papisa foi uma bela rapariga anglo-saxónica. Reza a estória que, vestida a rigor
com as vestes papais, ela deu à luz um filho quando viajava do Coliseu para a Igreja de
S.Clemente e, coitada, morreu ali mesmo. Esta lenda gerou outras lendas. Em S.João
de Latrão havia uma cadeira de mármore cor de sangue com um buraco no assento.
Todos os papas recém-eleitos se sentavam nela para receberem a afirmação de
obediência dos seus clérigos. Mas corria o boato de que depois da papisa Joana todos
os papas eram obrigados a sentar-se nesta cadeira e a submeter-se a uma espécie de
exame ginecológico para evitar que uma segunda mulher ascendesse ao trono papal. O
exame — feito por cardeais-mulheres? — era acompanhado por orações em latim. De
facto, há um completo ritual escrito que aparece em muitos manuscritos medievais com
toda a seriedade. Uma outra interpretação mais prosaica desta cadeira era que ela era
na verdade uma cadeira-sanita, símbolo visível do facto de o papa ter sido promovido
da esterqueira, como um pedinte, e colocado por Deus entre os príncipes.
Parece não haver qualquer obstáculo teológico ao desempenho do cargo de papa por
uma mulher, mesmo, como diz João Paulo, estando as mulheres proibidas pela lei
divina de serem padres. Muitos arcebispos e bispos não tinham ordens. Por exemplo,
Adriano V aparece nas listas de pontífices, embora tenha reinado apenas seis semanas,
de 11 de Julho a 18 de Agosto de 1276. Não era bispo, nem sequer padre, mas foi um
papa legítimo.
53
A Bela Prostituta
Marózia, a principal fonte da lenda da Papisa Joana, esteve primeiro intimamente
envolvida com o papado na pessoa de Sérgio III (904-11). A barrar o caminho deste
para o trono, estivera Leão V, que após um mês de reinado foi preso por um usurpador,
o Cardeal Cristóvão. Sérgio procedeu a uma limpeza assassinando ambos.
Sérgio exumou uma vez mais o Papa Formoso, já morto então há dez anos e fê-lo
condenar outra vez. Como tinha sido ordenado por Formoso, Sérgio devia realmente
ter-se considerado ilegítimo a si próprio, mas as argumentações teológicas eram
estranhas à sua natureza. E ainda não satisfeito, mandou que decapitassem o cadáver
e também lhe arrancou mais três dedos antes de o lançar ao Tibre. Quando o corpo
sem cabeça ficou preso na rede de um pescador, o cadáver foi mais uma vez
milagrosamente salvo, sendo pela segunda vez restituído à Basílica de S.Pedro.
Marózia tinha quinze anos quando se tornou amante de Sérgio, que tinha quarenta e
cinco. Dele, ela teve um filho a cuja carreira se devotou. Sérgio viria a morrer cinco anos
mais tarde, depois de um pontificado de sete anos carregado de sangue, intrigas e
paixão.
Marózia nunca iria esquecer o seu amor da juventude. A relação íntima com o papa
tinha-lhe dado um desígnio e uma satisfação que nem os seus três casamentos e
inúmeras ligações amorosas posteriores conseguiram apagar. A primeira vez que o
Papa Sérgio a seduziu foi no palácio de Latrão. Os seus caminhos tinham-se cruzado
porque ela passara ali grande parte da juventude, dado que o pai era senador em
Roma. Mas depois chegou a altura em que Sérgio se apercebeu de que aquela que
outrora fora uma criança espantosa se tinha tornado uma mulher de uma beleza de
cortar a respiração. Pela parte de Marózia, não era tanto o prazer que procurava nos
braços papais, mas antes o êxtase do poder. A mãe, Teodora, já tinha feito e desfeito
dois papas quando, em contravenção da lei canónica, pegou na mão do seu amante
favorito e o levou do bispado de Bolonha ao arcebispado de Ravena e por fim à Cadeira
de Pedro, como João X. Liutprand, Bispo de Cremona, escreveu: «Teodora, prostituta
como era, temendo ter poucas oportunidades de partilhar a cama com o seu amado,
obrigou-o a abandonar o bispado e tomar para si — oh, crime monstruoso - o papado de
Roma». Isto aconteceu em Março de 914 quando Marózia tinha vinte e dois anos. Não
se importou muito com isso; o filho dela e de Sérgio tinha apenas seis anos, muito novo
ainda para o papado, mesmo nesses tempos ímpios.
Foi neste ponto que os Albericos da Toscânia, oriundos do norte, entraram em cena.
O Papa João sugeriu a Teodora, sua companheira de cama, que um casamento entre
Marózia e Alberico poderia vir a ser benéfico para todas as partes. Marózia sabia
reconhecer uma estrela em ascensão, e dessa união nasceu Alberico Júnior. Alberico
Sénior, provavelmente induzido pela mulher, tentou prematuramente tomar o controle
de Roma e foi morto. O Papa João obrigou a jovem viúva a ver o cadáver mutilado. Isto
foi um erro. Uma mulher que dormira com o Papa Sérgio sabia tudo sobre a vingança.
Quando Teodora morreu, em 928, Marózia mandou prender o pontífice e depois deu
ordens para que fosse morto por asfixia. O seu primeiro filho tinha agora dezassete
anos. Em breve, muito em breve, teria já a experiência suficiente para o papado. Uma
vida totalmente sensual e imoral tinha-o preparado para isso. Os dois papas seguintes
tiveram reinados curtos, tendo ambos desaparecido em circunstâncias misteriosas.
Então, com vinte anos, o filho de Marózia e do Papa Sérgio tornou-se o Papa João XI.
Mas Marózia tinha ainda outras ambições. Morto o seu segundo marido, Gui, casou
com o meio irmão deste, o Rei Hugo da Provença. Hugo já era casado, mas foi fácil
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despachar a mulher. Para Marózia foi uma sorte o filho ser o papa, pois este conseguiu
dispensar o feliz casal de todos os impedimentos, tais como o incesto. O que é que
podia impedir o seu novo marido de se tornar imperador e ela própria imperatriz? Isto
era uma coisa que Sérgio teria desejado. João XI oficiou o casamento de sua mãe em
Roma na primavera de 932.
Depois tudo se desfez por causa do segundo filho de Marózia, o ciumento Alberico
Júnior, de dezoito anos, que tomou o poder em Roma para se tornar o novo fazedor de
papas. Hugo da Provença abandonou a mulher e fugiu em desgraça. Alberico pôs João
XI, seu meio irmão e filho de uma papa, sob prisão permanente em Latrão — morreu aí
quatro anos mais tarde — e, o mais cruel golpe de todos, mandou prender a própria
mãe.
Passado o seu apogeu, Marózia conservou a sua distinção quando pela primeira vez
pisou o Mausoléu de Hadrian, popularmente conhecido como o Castel Sant’Ângelo. Iria
ficar naquele terrível lugar junto ao Tibre, durante mais de cinquenta anos, sem um
único dia de redução.
Já tinha passado dos sessenta quando soube, na prisão, que Alberico tinha morrido
aos quarenta e o filho, seu neto, chamado Octaviano, se tinha introduzido na Igreja
como papa. Chamou-se João XII, tendo sido o primeiro pontífice a mudar de nome. Isto
passou-se no inverno de 955. Ela virou as costas ao assunto e mergulhou no seu sonho
de passadas glórias com o seu amante Sérgio.
A juventude do novo papa pode explicar em parte o seu comportamento muito pouco
religioso, uma vez que tinha apenas dezasseis anos quando assumiu o pesado cargo.
Mosteiros inteiros passavam os dias a rezar pela sua morte.
Mesmo para um papa desse período, ele era tão mau que os cidadãos queriam
vingança. Inventou pecados desconhecidos desde o princípio do mundo, diziam eles,
incluindo o de dormir com a mãe. Tinha um harém no palácio de Latrão. Jogava com as
ofertas dos peregrinos. Mantinha uma coudelaria de dois mil cavalos que alimentava
com almôndegas e figos passados por vinho. Recompensava as companheiras das
suas noites de amor com cálices de ouro da Basílica de S.Pedro. Não fez nada pelo
negócio turístico mais lucrativo da época, nomeadamente, as peregrinações. As
mulheres em particular eram avisadas de que não deviam entrar em S.João de Latrão
se prezavam a sua honra; o papa andava sempre em busca de uma presa. Chegou até
a brindar ao Diabo em frente do altar-mor da igreja-mãe da Cristandade.
O Papa João provocou tal ira que, temendo pela sua vida, saqueou a Basílica e fugiu
para o Tivoli.
Quando soube disto, Otão da Saxónia, de cinquenta anos — coroado imperador em
S.Pedro em 961 — ordenou ao jovem que regressasse imediatamente. Não convinha
aos seus planos ter um pontífice ausente; era mau para os negócios do império.
Foi convocado um sínodo para pôr as coisas em ordem. Estiveram presentes
dezasseis cardeais, todos os numerosos bispos italianos e muitos outros que foram
recrutados na Alemanha. O Bispo de Cremona deixou um registo preciso das
acusações feitas ao papa. Tinha dito missa sem comungar. Tinha ordenado um diácono
num estábulo. Tinha levado dinheiro pelas ordenações. Tinha tido relações sexuais com
uma quantidade de damas, incluindo a velha paixão de seu pai e a sua própria sobrinha.
Tinha cegado o seu próprio director espiritual. Tinha castrado um cardeal, causando-lhe
a morte. Todas estas acusações foram confirmadas sob juramento.
Depois Otão escreveu a João uma carta que deve figurar entre as grandes
curiosidades de todos os tempos.
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Toda a gente, clérigos e leigos, acusa Vossa Santidade de
homicídio, perjúrio, sacrilégio, incesto com parentes, incluindo duas
de vossas irmãs, e de terdes, como um pagão, invocado Júpiter,
Vénus e outros demónios.
João respondeu ditando uma carta dirigida aos bispos e destituída de gosto e de
gramática. Avisava-os de que se o depusessem os excomungaria a todos, impedindo-os
assim de ordenar e celebrar missa. Depois montou num cavalo e foi caçar.
Quando Otão por fim se cansou de esperar e voltou à Saxónia, a família de João
reuniu um exército para lhe assegurar um regresso seguro a casa. Em Roma, retomou
as suas funções Petrinas. Não satisfeito com uma coisa tão suave como a excomunhão,
mutilou ou executou todos aqueles que tinham contribuído para o seu exílio.
Papa nenhum foi para Deus numa situação tão embaraçosa. Uma noite, um marido
ciumento, um dos muitos, apanhou Sua Santidade com a mulher in flagrante delicto e
deu-lhe os últimos sacramentos com uma martelada na cabeça. Tinha ele vinte e quatro
anos. Os Romanos, conhecidos pelo seu espírito selvagem, disseram que aquilo foi o
clímax da sua carreira. Pelo menos teve a sorte de morrer na cama, mesmo sendo a de
outrem.
O Cardeal Belarmino no seu livro sobre o papado De Romano Pontifice, no século
XVII, havia de dizer: «O papa é o juiz supremo para decidir as questões da fé e da
moral». Este grande defensor do papado escreveu no mesmo livro: «Se o papa errasse
impondo os pecados e proibindo as virtudes, a Igreja teria mesmo assim de considerar
os pecados bons e as virtudes como vícios, senão pecaria contra a consciência». Não
admira que os papas adolescentes fizessem tanta coisa impunemente. Contudo, mesmo
Belarmino, que sabia tudo acerca dos Bórgias, teve de admitir que João XII «era a
escória». Fuerit fieri omnium deterrimus.
Com um monstro fora do caminho, os Romanos escolheram Benedito V para o
substituir. Otão, sentindo-se enganado, ficou furioso. «Ninguém pode ser papa sem o
consentimento do imperador» declarou ele. «Sempre assim foi». A sua escolha recaiu
em Leão VIII.
O Cardeal Barónio, no seu Ecclesistical Annals do século XVI, a que Acton chamou
«a maior história da Igreja jamais escrita», sustentou que Benedito era o verdadeiro
papa e Leão o antipapa. É difícil discutir isto. Contudo, Benedito prostrou-se aos pés de
Otão e declarou-se um impostor. Para o provar, tirou as suas insígnias e confessou, de
joelhos, perante Leão que ele, Leão, era o sucessor legítimo de S.Pedro.
Não é muito claro se a afirmação genuína de um papa de que ele próprio não é
legítimo é um exercício de infalibilidade, embora deva transmitir uma mensagem para
toda a Igreja sobre a fé e a moral.
Quando Leão e Benedito morreram, Otão colocou no trono João XIII. Não foi uma
escolha sensata. Os romanos mandaram-no imediatamente fazer as malas. Otão trouxe-
o de volta para apenas chegar à conclusão de que o instinto local estava correcto. O
novo papa cometeu actos de uma crueldade incrível. Segundo Liutprand, nas suas
crónicas, ele arrancava os olhos aos inimigos e passou metade da população à espada.
Pouco depois de João XIII, veio Benedito VII, outro que viria a morrer em pleno acto
de adultério às mãos de um marido furioso.
O Cardeal Barónio ficou compreensivelmente embaraçado com os acontecimentos
que relatou com notável honestidade. Chamou aos pontífices deste período “invasores
da Santa Sé, mais apóstatas do que apóstolos” (non apostolicos sed apostaticos).
Confessa que treme ao ter de escrever sobre eles. Na Cadeira de S.Pedro sentaram-se
não homens mas monstros com a forma de homens. «Messalinas presunçosas cheias
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de luxúria e astúcia em todas as formas da maldade governaram Roma e prostituíram a
Cadeira de S.Pedro para seus lacaios e amantes.
À luz dos decretos do Concílio Vaticano I, em 1870, as suas conclusões são
surpreendentes.
A principal lição destes tempos é que a Igreja pode viver muito bem
sem os papas. O que é vital para a sobrevivência não é o papa mas
Jesus Cristo. Ele é que é o chefe da Igreja, não o papa.
Alguns séculos mais tarde, Barónio teria sido estigmatizado como herege. Agora a fé
católica define-se assim: o papa é o chefe da Igreja na terra, o Vigário de Cristo, a Pedra
sobre a qual a Igreja está edificada, o laço da unidade, o que preserva a fé e a moral.
Mas o longo período em revista revela um retrato inteiramente diferente. Não só Barónio
mas também o povo de Roma teriam rido de tamanha patetice. Para eles era evidente
que as Portas do Inferno tinham prevalecido. Se isto não era a vitória do Príncipe das
Trevas, o que é que o era, então? A única questão que os intrigava não era «Como é
que o papa pode salvar a Igreja?», mas «Como é que o papa pode salvar a própria
alma?»
Durante todos estes tempos tempestuosos e outros que se seguiram, Marózia
continuou na sua cela da prisão. Aquela que outrora fora a criatura mais arrebatadora do
seu tempo, estava reduzida a um monte de ossos engelhado e viscoso envolto em
trapos. Agora já nos noventa e cinco anos, a recordação de ter dormido com um papa e
de lhe ter dado um filho que ela por sua vez fez papa também, deve ter-lhe dado forças
para sobreviver. Abandonada, nunca, porém, foi completamente esquecida na alta roda
do poder.
Na primavera de 986, o Papa Gregório V, com vinte e três anos, e seu primo, o
Imperador Otão III, com quinze, decidiram que a pobre velha já tinha definhado na prisão
tempo suficiente. O papa mandou um bispo submisso exorcizá-la dos seus demónios e
levantar-lhe a sentença de excomunhão. Foi absolvida dos seus pecados. Depois foi
executada.
O Papa-Menino
Quase cinquenta anos mais tarde, em 1032, o Papa João XIX da Casa de Túscolo
morreu. O Conde Alberico III pagou uma fortuna para manter o cargo na família. Quem
melhor para preencher a vaga do que o seu próprio filho Teofilato? Raoul Glaber, um
monge de Cluny, conta que, na altura da sua eleição, em Outubro de 1032, Sua
Santidade Benedito IX tinha onze anos de idade. Segundo Monsenhor Louis Duchesne,
Benedito era «apenas um garoto que em pouco tempo se havia de tornar diligentemente
agressivo».
Era um espectáculo singular: um miúdo que ainda nem adolescente era, que nem
tinha ainda mudado de voz, era o principal legislador e governante da Igreja Católica,
chamado a usar a tiara, a celebrar missa solene em S.Pedro, a conceder benefícios
eclesiásticos, a nomear bispos e a excomungar hereges. As proezas de Sua Santidade
com as damas provam que o papa-menino atingiu a puberdade muito cedo. Aos catorze
anos, diz um cronista, já tinha superado em devassidão e extravagância todos os que o
precederam.
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S.Pedro Damião, um fino juiz do pecado, exclamou: «Esse miserável regalou-se com
imoralidades do princípio ao fim da sua vida». Outro observador escreveu: «Um demónio
do inferno disfarçado de padre ocupou a Cadeira de Pedro».
Teve muitas vezes de sair de Roma à pressa. A primeira vez, nas festividades de
S.Pedro e S.Paulo em 1033, um eclipse do sol que deu ao interior da Basílica um tom
fantasmagórico de açafrão foi o pretexto para o expulsar. Quando regressou, alguns
nobres tentaram derrubá-lo durante a missa. Falharam. Quando Benedito foi de novo
varrido de Roma, o exército do Imperador Conrado empurrou-o de novo para lá. Em
1046, tendo sido uma vez mais expulso por saque, assassínio e opressão, voltou para o
seu Túscolo natal. Na sua ausência, os Romanos escolheram outro pontífice, Silvestre
III, um homem dos Montes Sabinos. Decidiram que era de longe melhor violar a lei
canónica e ofender a divindade do que suportar Benedito IX. Depois de cinquenta dias
felizes, o papa-menino foi reposto pela família, que persuadiu Silvestre a ir-se embora.
Por fim, Benedito quis resignar. Tinha debaixo de olho a sua bela prima, filha de
Girard de Saxo. Girard deu o seu consentimento na condição de que o papa abdicasse.
Num surpreendente ataque de escrúpulos, Benedito decidiu verificar se esse era um dos
seus direitos. Consultou o seu padrinho, João Graciano, Arcipreste de S.João ad Portam
Latinam. Graciano era um homem notável; completamente analfabeto, vivia em
castidade, como um lírio entre espinhos. Graciano assegurou-lhe que tinha o direito de
resignar. E mais, já tinha um sucessor alinhado. E bateu no peito.
Feliz por resignar, Benedito exigiu um prémio de despedida de uma a duas mil libras
(peso). Depois de uma difícil negociação fixou-se na totalidade da Caixa das Esmolas de
Pedro na Inglaterra. Nenhuma colecta feita pelos católicos ingleses foi alguma vez tão
bem empregue.
Por entre manifestações de júbilo, Benedito, depois de se dispensar da obrigação de
celibato, abdicou no Primeiro de Maio de 1045. «Devotado ao prazer,» havia de escrever
o Papa Victor II, «preferiu viver mais como Epicuro do que como bispo… Saiu da cidade
e mudou-se para um dos seus castelos no campo».
João Graciano, agora Gregório VI, foi alvo de severas críticas. Muitos papas houve
que compraram o papado; nenhum, senão ele, jamais o tinha comprado de volta.
Gregório argumentava que tinha feito um favor à Igreja. E Benedito salientava que não
tinha sido pago para sair; tinha simplesmente recuperado a despesa original feita pelo
pai.
Gregório poderia ter conseguido os seus intentos se Benedito, agora o civil Teofilato
de Túscolo não tivesse sido rejeitado pela sua amada dama. Estava determinado a
voltar. Com Silvestre ainda no activo, havia agora três reclamantes ao trono: Silvestre
em S.Pedro, Gregório em Latrão e Benedito à espera do momento propício nos Montes
Albanos.
Entretanto em Roma os cofres estavam vazios; toda a gente, desde os papas ao mais
insignificante porteiro, era simoníaca; todos os clérigos tinham pelo menos uma amante;
e as igrejas estavam a cair.
Neste momento crítico, entra em cena Henrique da Alemanha. Era conhecido por
duas coisas: detestava a simonia e queria ser imperador mais do que qualquer outra
coisa no mundo. A força venceu onde a exortação moral tinha falhado.
Em Sutria, no caminho para Roma, convocou um sínodo. Sob a sua direcção,
Silvestre foi julgado como impostor; foi reduzido à condição de leigo e condenado a
passar o resto dos seus dias num mosteiro muito rigoroso, se havia algum assim.
Benedito tinha resignado e, segundo Henrique, destruíra ele mesmo qualquer
possibilidade de regresso. Quanto a Gregório VI, Henrique agradeceu-lhe o ter livrado a
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Igreja de uma peste mas não devia ter usado da simonia para o fazer. Isto era motivo
para resignação.
Literalmente confrontado com o poder temporal, Gregório declarou: «Eu, Gregório,
bispo, Servo dos servos de Deus, por causa da simonia que, por astúcia do demónio,
entrou na minha eleição, decidi que devo ser deposto do bispado de Roma».
Presente na sua queda estava o seu jovem capelão, o monge Hildebrando, o futuro
Gregório VII. Viu o servo a bater no amo e nunca mais havia de o esquecer ou perdoar.
Henrique escolheu Clemente II para novo pontífice. No dia da sua nomeação, coroou
Henrique como imperador, após o que Henrique, antecipando Napoleão, colocou na
própria cabeça o diadema que os Romanos usavam para coroar os seus patrícios. Com
este gesto, Henrique mostrou que era ele o chefe da Cristandade; o Bispo de Roma era
apenas o seu capelão particular.
Levou o velho papa com ele para a Alemanha para evitar que se tornasse incómodo.
Em breve Gregório morreu no exílio e, quando Clemente também foi para junto do
Criador, Benedito atirou-se ao trono papal onde ficou mais oito meses.
Henrique andava demasiado atarefado para tratar dele, mas mandou que o Conde
Bonifácio de Túscolo obrigasse Teofilato a cumprir as leis de uma vez por todas. O novo
papa, Dâmaso II, depressa deu o último suspiro — envenenado, dizia-se, por Benedito.
Provavelmente foi apenas o clima.
Com a sua morte, Benedito tinha mais uma vez o caminho livre, mas decidiu desistir.
Retirou-se para o mosteiro de Grotta Ferrata onde, segundo se dizia com alguma
ambiguidade, a sua vida foi um exemplo para o resto da comunidade.
Neste momento negro do papado, parecia que Deus se apiedara da Igreja. Mandou
dois pontífices considerados por muitos historiadores católicos como os maiores que a
Igreja alguma vez produziu: Gregório VII e Inocêncio III.
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O Apogeu do Papado
Foi o único papa que se canonizou a si próprio, mas é mais lembrado como um
homem obcecado por uma única recordação que o perseguiu durante quase quarenta
anos até que veio a morrer como o pontífice mais venerado da história.
A recordação que praticamente transtornou a cabeça de Hildebrando, o Papa
Gregório VII, foi a do seu homónimo Gregório VI a ser deposto e humilhado em 1046. O
pecador que isto fez foi o Imperador Henrique III, que pôs uma marioneta no trono em
sua substituição.
Foi isto que o atormentou enquanto jovem, quando acompanhou Gregório VI no exílio
na Alemanha; e também quando entrou para os beneditinos de Cluny e ascendeu
gradualmente a prior. E ainda lhe doía quando, chamado a Roma, foi conselheiro
durante mais de dezoito anos de quatro papas e por fim o seu chanceler. Esta amarga
recordação veio sobretudo à tona quando na Basílica de Latrão apinhada para o funeral
de Alexandre II, em 1073, a congregação exclamou espontaneamente: «Hildebrando é o
papa. S.Pedro escolheu-o». Em circunstâncias normais Hildebrando teria rejeitado
aquela maneira tão grosseira de escolher um pontífice. Tinha convencido um papa
anterior a deixar a escolha exclusivamente ao Colégio dos Cardeais. Mas naquela altura
aceitou «a vontade de S.Pedro».
O novo papa, homem de muito pequena estatura, homuncio, não perdeu tempo e
mandou sem demora uma mensagem ao jovem Imperador Henrique IV solicitando o seu
reconhecimento.
Nada em toda a sua vida foi feito tão a contragosto como apresentar uma petição a
um inferior ímpio; ele, Hildebrando, que era o maior homem da terra. Porquê fazê-lo se
era contra os seus princípios? Porque não queria que se levantasse qualquer dúvida
subsequente sobre a sua legitimidade. Mas não estava longe o dia do ajuste de contas,
o dia em que o cordeiro se transformaria em leão.
Os conselheiros de Henrique avisaram-no de que Hildebrando era perigoso. Como
era um asceta tratava os outros como se tratava a si próprio — abominavelmente. O
inexperiente imperador não lhes deu ouvidos. Não é verdade que o pai tinha deposto um
papa e nomeado sucessivamente os três seguintes? Como é que ele podia perceber
que estava ali um pontífice cujos braços iriam crescer cada vez mais e que caminhava
sobre andas? Gregório VII foi o último papa cuja eleição teve de ser confirmada pelo
imperador e cuja consagração se realizou na presença de legados imperiais.
Depois de obter a aprovação que desprezava, Gregório estava decidido a fazer vergar
os príncipes de uma vez por todas. Para ele, todos eram corruptos. Tinham direito a
menos respeito do que o mais mesquinho exorcista, que pelo menos expulsava os
demónios e não lhes oferecia hospitalidade principesca. Os monarcas apenas desejam
dominar, dizia este orgulhoso pontífice. Seria necessária uma magnanimidade obscena
da parte de Deus para salvar um só que fosse das chamas eternas. Tudo o que eles
fazem radica no orgulho e contudo o que é que eles têm para oferecer? Um rei
moribundo vai ter com o mais humilde padre de aldeia para se confessar. Quando é que
mesmo uma mulher leiga vai ter com o imperador para lhe pedir o perdão de Deus?
Onde é que está o imperador que pode garantir a salvação ou fazer o Corpo e o Sangue
de Cristo com um simples movimento dos lábios? Qualquer desmiolado percebe que os
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padres são superiores aos reis. Então, a que distância acima de todos eles é que está o
papa, sucessor de Pedro? Não era seu dever reduzir os príncipes ao seu real tamanho
para lhes dar uma lição de humildade?
Aquela recordação inapagável fez com que este homem de vontade inflexível
desprezasse toda a autoridade civil. E um dia, estava decidido a isso, iria vingar-se.
Gregório VII e a sua escola de falsificadores
Desde os seus tempos de rapaz na Toscânia, Hildebrando, que era filho de um
carpinteiro de aldeia, sempre teve uma devoção apaixonada por S.Pedro. Como
Príncipe dos Apóstolos, o poder de Pedro não tinha limites. Era o Pastor-chefe, podia
unir e desunir no céu e na terra. Quando Hildebrando se tornou papa, elaborou um
Dictatus, ou lista, de vinte e sete teses que esquematizavam os seus poderes como
vigário de Pedro. Entre elas estavam as seguintes:
O papa não pode ser julgado por ninguém na terra.
A Igreja Romana nunca errou, nem pode errar até ao fim dos
tempos.
Só o papa pode depor os bispos.
Só ele tem direito às insígnias imperiais.
Pode destronar imperadores e reis e dispensar os seus súbditos dos
juramentos de fidelidade.
Todos os príncipes são obrigados a beijar-lhe os pés.
Os seus legados, mesmo não sendo padres, têm precedência sobre
todos os bispos.
Um papa eleito legitimamente é, sem dúvida, um santo assim
tornado pelos méritos de Pedro.
Esta santidade, afirmava ele tê-la experimentado de maneira esmagadora na sua
eleição. Esta foi, aliás, uma ideia que os seus sucessores deixaram cair como se fosse
carvão a arder. Tais afirmações eram muito estranhas, na medida em que Hildebrando
tinha conhecido o papa-menino Benedito IX.
É difícil saber se ele tinha consciência de que a maior parte das suas teses eram
baseadas em documentos falsificados. O menos que se pode dizer é que a sua
ingenuidade era alarmante, especialmente se tivermos em conta aquilo que o Novo
Testamento diz sobre os erros de S.Pedro. Estas falsificações faziam crer que as suas
pretensões em relação ao poder absoluto eram baseadas em antigos registos
zelosamente guardados nos arquivos de Roma. Durante sete séculos, os Gregos
chamaram a Roma a pátria das falsificações. Sempre que tentavam falar com Roma, os
papas apresentavam documentos falsos, e até alguns acrescentos a documentos
conciliares que os Gregos, naturalmente, nunca tinham visto.
Gregório foi mais longe do que a Doação de Constantino. Ele tinha toda uma escola
de falsificadores mesmo debaixo do seu nariz a produzir documentos atrás de
documentos, com o aval do selo papal, para alimentar todas as suas necessidades.
Os líderes da escola eram Anselmo de Lucca, sobrinho do pontífice anterior, o
Cardeal Deusdedit e, depois deles, o Cardeal Gregório de Pavia. Se o Papa Gregório (e
mais tarde Urbano II) precisavam de qualquer justificação para uma acção contra um
príncipe ou um bispo, logo estes prelados produziam, literalmente, o documento
apropriado. Não era necessário procurar; era tudo feito ali mesmo.
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Muitos documentos mais antigos eram retocados para ficarem a dizer o contrário
daquilo que originalmente diziam. Alguns destes documentos mais antigos eram, eles
próprios, falsificações. A escola de Hildebrando tratava todos os papeis, forjados ou
genuínos, com uma desonestidade totalmente imparcial. O 1984 de Orwell foi
antecipado de nove séculos, não num qualquer estado ímpio, às ordens do Big Brother,
mas no coração do Catolicismo Romano e a favor do papa.
Este método expedito de inventar a história foi extraordinariamente bem sucedido,
especialmente quando as falsificações eram imediatamente inseridas na lei canónica.
Por meio de inúmeras mudanças subtis eles fizeram com que o Catolicismo parecesse
imutável. Mudaram o “hoje” para “sempre foi e será”, o que mesmo agora,
contrariamente às descobertas da História, é a marca peculiar do Catolicismo.
Assim se cumpriu a serena e mais longa de todas as revoluções, toda ela feita no
papel. Isto não teria sido possível numa época de literacia universal, de imprensa, de
fotocópias, de datação por carbono; foi possível sem o mínimo sobressalto numa época
de raros manuscritos, de erudição nula, e quando até alguns imperadores não sabiam
ler nem escrever.
Gregório não ficou isento de uma fraude própria.
A mais influente de todas as falsificações foram os Decretais Pseudo-Isidorianos, de
origem francesa, de que Roma se apossou avidamente e que Gregório, que «não podia
errar», tomou como autênticos. Consistiam de 115 documentos alegadamente escritos
pelos primeiros bispos de Roma, a começar por Clemente (88-97). Outros 125
documentos tinham acrescentos falsificados que aumentavam o poder e o prestígio do
papado. Segundo o falsificador, os primeiros papas proibiram todo o comércio com uma
pessoa excomungada.
Em 1078, Gregório, sabendo que não havia precedentes para isso, estendeu este
princípio aos imperadores e aos reis. Se um papa excomungava um imperador e os
seus súbditos ficavam proibidos de tratar com ele, para que servia esse imperador?
Apenas lhe restava ser destronado, o que Gregório gostava muito de fazer. Mesmo os
papistas mais ardentes acharam que era difícil perdoar tal coisa. Gregório confundia
deliberadamente dois códigos de leis, o canónico e o civil, e fazia de um princípio
espiritual de excomunhão uma arma política. Nas suas mãos esta arma foi devastadora.
Depôs o imperador grego, bem como Baleslaus, o rei polaco, proibindo a Polónia de
voltar a intitular-se reino. Semeou a intranquilidade civil em país após país; houve
rebeliões e guerras civis.
Avançando por momentos no tempo, os documentos forjados em Roma nesta altura
foram sistematizados nos meados dos anos 1100 em Bolonha por Graciano, um monge
beneditino. O seu Decretum, ou Código de Lei Canónica, facilmente se pode considerar
como tendo sido o livro mais influente alguma vez escrito por um católico. Estava
salpicado de três séculos de falsificações e conclusões delas retiradas com os seus
próprios acrescentos fictícios. Das 324 citações que ele faz dos papas dos primeiros
quatro séculos só onze são genuínas.
Entre os seus acrescentos pessoais havia uma série de cânones que tratavam todas
as pessoas excomungadas como hereges. Isto era alarmante tendo em vista a maneira
como os hereges eram tratados. Urbano II já tinha decretado nos fins do século XI que
eles deviam ser torturados e mortos.
Graciano inventou de forma notável uma maneira de aumentar o poder papal. O papa,
declarou ele com a aprovação de Roma, é superior a todas as leis e a sua fonte sem
restrições. Portanto tem de estar em pé de igualdade com o filho de Deus. Esta
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apoteose tornou-se a inspiração da Cúria, que agia em nome do papa. Todo o plumitivo
era, em certo sentido, um deus.
Avançando ainda mais, para o século XIII, o Decretum foi a fonte de Tomás de Aquino
para as citações dos Padres e dos papas quando escreveu o seu magistral Summa
Theologica, a segunda mais famosa obra de um católico. Tomás de Aquino, que pouco
ou nada sabia de grego, foi induzido em erro por Graciano, especialmente no que diz
respeito ao papado. Claro que Aquino teve uma enorme influência na Igreja,
especialmente durante o Concílio Vaticano I, quando a infalibilidade papal foi definida.
Uma pequena ironia: no seu Summa, Aquino diz que os hereges deviam ser
executados com os mesmos fundamentos dos falsários. Os hereges não falsificam
dinheiro, mas uma coisa muito mais preciosa: a fé. Não perguntava quais eram os
castigos apropriados para os criminosos que forjaram os documentos que induziram em
erro a Igreja, ele próprio incluído, geração atrás de geração.
As falsificações de Gregório tinham a vantagem de ser simultaneamente originais e
sacrossantas, novas e contudo antigas. Não era sensato da parte de um príncipe opor-
se ao papa quando anteriores pontífices como Inocêncio I e Gregório o Grande tinham
deposto um imperador e um rei. Não que eles tivessem feito tal coisa, embora Gregório
VII tivesse um documento a prová-lo. Os próprios falsários acreditavam de todo o
coração que Gregório tinha o poder de depor monarcas, e se com um toque de caneta
aqui e ali eles podiam ajudar um mundo ímpio a acreditar o mesmo, onde é que estava o
mal?
A História tornou-se um ramo menor da Teologia e assim ficou desde então. Afinal,
mesmo a História não pode contradizer a verdade infalível. Daí que nos anos de
formação do Cristianismo Católico Romano toda a discussão fosse abafada pelas
“citações“ que eram imediatamente fabricadas. O desenvolvimento não veio
espontaneamente, foi antes metido à força em padrões preestabelecidos. A tradicional
sujeição dos papas aos Concílios Gerais em matérias de fé e de moral foi invertida.
Opiniões controversas e por vezes absurdas tornaram-se dogmas; opiniões parciais
eram consagradas como ensinamentos católicos intemporais e irreversíveis.
Fabricar a História não é uma pequena coisa.
Mal foi eleito, Gregório VII começou a reformar tudo. Primeiro, para assegurar que a
Igreja nunca fosse despojada dos seus bens, tentou eliminar a “fornicação“ universal,
isto é, o casamento do clero. A lei do celibato do clero tinha sido praticamente
esquecida, mas não por Gregório. Se os padres não emendassem o seu comportamento
seriam suspensos e os leigos não poderiam aceitar o seu ministério. Era como se os
padres deixassem de ser padres. Perguntava um crítico: «Será que o papa diria que um
homem que peca deixa de ser homem?»
O resultado desta legislação foi, de acordo com Ray C. Petry, «fazer das inocentes
mulheres dos pequenos clérigos desnorteados e zangados potenciais prostitutas aos
milhares». Diz Lecky: «Quando Hildebrando separou as mulheres dos padres e as
deixou arruinadas, inconsoláveis e desesperadas, muitas delas recorreram ao suicídio
para acabar com a sua agonia». O clero germânico queria saber onde é que Gregório,
depois de suspender os homens do sacerdócio, iria buscar os anjos para os substituir».
Um grupo de bispos italianos reuniu-se em concílio em Pavia em 1076 e excomungou o
papa por separar maridos e mulheres e por preferir a licenciosidade entre os padres ao
casamento respeitável.
Se Gregório tivesse concretizado a sua ameaça de suspender os padres
incontinentes, teria praticamente varrido o Catolicismo do mapa. Feliz ou infelizmente, a
sua campanha não obteve sucesso duradouro. O celibato podia ele impor, mas não a
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castidade. Contudo, por via do celibato, conseguiu garantir o perpétuo sistema de
apartheid no Catolicismo entre os clérigos que têm direitos e os leigos, homens e
mulheres, que os não têm. Curiosamente, foram mais leigos do que padres os que se
separaram das mulheres, talvez por se deixarem impressionar mais pelos ideais ascetas
de Gregório. Os padres, depois de uma acalmia, continuaram a seguir a ideia de que o
que faziam na cama só a eles dizia respeito.
A seguir, Gregório voltou-se para a simonia, a compra e venda de coisas sagradas.
Para os cardeais a excomunhão para estes casos parecia excessiva, pois eles sabiam
que tudo, a começar pelo próprio papado, tinha muito naturalmente o seu preço.
Contra uma prática velha de séculos, Gregório excomungava qualquer membro do
clero que recebesse uma remuneração de um leigo, fosse ele duque ou príncipe. Isto
fazia parte da sua busca de poder absoluto. Ninguém da Igreja podia dever lealdade a
ninguém a não ser a ele próprio, Gregório. Contrariando uma tradição de mil anos,
obrigou todos os bispos a um voto pessoal de lealdade ao papa. A partir de então, eles
eram bispos por «concessão da Sé Apostólica». De um só golpe, os bispos diocesanos,
sucessores dos apóstolos, perderam a independência que nem o Vaticano II conseguiu
restaurar. A partir de Gregório VII, e apesar dos desmentidos, o papa é realmente o
bispo de todas as dioceses. Qualquer membro do clero que entre em conflito com o
papa sobre qualquer assunto pode ser demitido com a mesma facilidade com que foi
nomeado. Se isto não é ser o bispo de facto, será difícil saber o que é que o é
realmente.
O grande confronto
Gregório andara mais de trinta anos à espera de uma oportunidade para desafiar o
imperador. Finalmente, acusou Henrique IV de simonia e de interferir nos assuntos da
Igreja. Henrique ficou genuinamente espantado. Imiscuíra-se de facto, mas não fez nada
mais do que os imperadores desde Constantino sempre tinham feito. Não é verdade que
lhe tinham pedido o seu consentimento para a eleição de Gregório, e ele a tinha
concedido? O que é que levava este papa a pensar que lhe podia dar ordens?
Melindrado, Henrique convocou um concílio em Worms e declarou nula a eleição. Não
tinha sido previamente consultado, na sua qualidade de imperador.
Gregório respondeu com um anátema sobre Henrique seguido de uma carta circular.
Em nome de Deus omnipotente, proíbo Henrique de governar os
reinos de Itália e Alemanha. Dispenso todos os seus súbditos de
todos os votos que façam ou tenham feito, e excomungo todos
aqueles que o sirvam como rei.
Isto foi a bomba papal daquele tempo. Os imperadores tinham destituído muitos
papas: Gregório tinha testemunhado um desses sacrilégios. Nunca antes um papa
ousara depor um imperador. Qual seria o resultado disto?
Havia bons presságios. A mãe de Henrique, a Imperatriz Agnes, pôs-se ao lado do
papa, assim como a prima, a temível Matilde, Condessa da Toscânia. Para desgosto de
Henrique, aquele louco de Roma estava a obter bons resultados mesmo na Alemanha.
Os príncipes começaram a denunciar a sua fidelidade. Para consolidar a sua vantagem,
Gregório apoiou Rudolfo, Duque da Suábia e vassalo de Henrique, como primeiro
sucessor ao trono.
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Henrique, agora com vinte e um anos, compreendeu que estava encostado à parede.
Aproximava-se o aniversário da sua excomunhão, altura em que perderia o reino
oficialmente e para sempre, a menos que fizesse a paz com o papa.
Com uma pequena comitiva, atravessou a Borgonha e passou um natal familiar
agradável, mas apreensivo, em Besançon. Depois, a meio do Inverno de 1077,
atravessou os Alpes. Com ele, seguiam a mulher e o filho bebé, Conrado. Os guias
camponeses tiveram de escavar uma passagem na neve e puxar a rainha num trenó de
pele de boi. Caíram por ravinas e perderam a maior parte dos cavalos. Uma vez em
Itália, reuniram-se ao enorme exército Lombardo que esperava que ele viesse pôr o
papa no seu lugar. Mas ele desiludiu-os.
Gregório estava protegido dos Lombardos dentro das paredes triplas da fortaleza de
Matilde, em Canossa. Esta fortaleza erguia-se no cume de uma colina escarpada,
matizada de vermelho, nos contrafortes dos Apeninos. Trinta quilómetros para noroeste
ficava Parma, invisível no meio das brumas daquele inverno particularmente rigoroso.
Em Canossa Henrique apelou à paz.
Através de intermediários Gregório impôs as regras. Henrique devia enviar a coroa e
demais adereços reais para Sua Santidade se desfazer deles. Devia confessar
publicamente que era indigno de ser imperador depois do seu vergonhoso
comportamento em Worms e finalmente devia prometer cumprir a penitência que lhe
fosse imposta pelo papa, fosse ela qual fosse.
Depois de manifestar o seu acordo, Henrique subiu a branca encosta até à fortaleza,
temeroso e só. Passada a primeira portada, detiveram-no no cercado seguinte. Muito
acima dele apareceu o papa com todos os adereços pontifícios para saborear a sua
humilhação.
Com um vento de leste a assobiar à sua volta, Henrique foi despojado das suas
insígnias reais e obrigado a despir-se. Atiraram-lhe uma túnica de lã tão grosseira como
uma camisa de cilício.
Veste isso. Gregório, com a sua própria camisa de cilício bem chegada às costas
fustigadas e escondida pelas roupas, apenas gesticulou, não se dignando a falar para
alguém que não estava em comunhão com Deus e com a Igreja.
Henrique, a bater o dente, a pele roxa do frio, obedeceu. Em cabelo e descalço,
estava de pé, enterrado na neve até aos tornozelos, envolto no pano de cilício de
mendicância e penitência. Tinha numa das mãos um vasculho e na outra uma tesoura
de tosquiar, símbolos da sua vontade em ser chicoteado e ciliciado.
E o imperador do Sacro Império Romano, herdeiro de Carlos Magno, ali esteve três
dias e três noites, em jejum do nascer do sol até muito depois das estrelas começarem a
brilhar, num espectáculo tão deplorável que os parentes nas ameias choravam
sonoramente, incapazes de continuar a olhar. Hora após hora, Henrique com os cabelos
e sobrancelhas hirtos do gelo, rezou a Deus e ao papa por misericórdia com
estremecidos suspiros.
Mais tarde, naquele mesmo ano, Gregório fez um relato das suas próprias acções
numa carta aos príncipes germânicos:
As pessoas que intercederam por Henrique murmuraram sobre a
grande crueldade do Papa. Algumas ousaram mesmo dizer que tal
comportamento era mais próprio da bárbara crueldade de um tirano
do que da justa severidade de um juiz eclesiástico.
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O que endureceu Gregório foi a distante lembrança do que o pai de Henrique fizera
ao seu antecessor. Como dizem os italianos, a vingança serve-se fria.
Só quando a sua anfitriã Matilde ao quarto dia alegou que o primo morreria se
continuasse por mais tempo na neve é que o papa se compadeceu.
Henrique foi arrastado para dentro, um monte de carne gelada, para se apresentar
esfarrapado perante o pontífice de tiara na cabeça. Esbelto e bem parecido, aquele
dominava o feio anão moreno da Toscânia com o seu grande nariz e olhar fixo e frio.
Henrique teve de jurar que se submetia ao julgamento do papa em data e local a
anunciar. Entretanto, não podia exercer a sua soberania até que o papa se
pronunciasse. Como Maquiavel observou na sua História de Florença, «Henrique foi o
primeiro príncipe que teve a honra de sentir a estocada cortante das armas espirituais».
Mas Henrique também tinha o seu orgulho. Só pediu ao papa que mandasse levantar
a condenação.
Regressado à pátria, iniciou um campanha contra Rudolfo, o que fez com que
Gregório lhe impusesse de novo a condenação. Numa batalha à distância, Henrique
convocou um concílio para depor o papa. O Bispo Berno de Osnabrüch escondeu-se
debaixo dos panos do altar da Catedral de Brixen até que terminassem os trabalhos
contra Gregório e depois reapareceu como que por magia. Henrique escolheu Guibert
de Ravena para ser o papa Clemente III. Com este procedimento, Gregório profetizou
que Henrique morreria nesse ano. Ao invés disso, depois de duas estrondosas vitórias,
Henrique marchou sobre Roma e pôs Clemente no trono.
Gregório, velho, cansado e abandonado pelos seus cardeais, fugiu para Salerno, no
Reino de Nápoles. Tinha sido papa durante doze anos. Era um típico verão napolitano,
mas ele nunca tinha sentido tanto frio desde que estivera nas ameias de Canossa.
Arrogante até ao fim, deu a sua absolvição à raça humana «excepto ao chamado rei
Henrique», a quem, para que não ficassem dúvidas, excomungou pela quarta vez. Nem
mesmo um pontífice com poderes divinos podia redimi-lo.
Contrariando factos que são conhecidos, murmurou: «Amei a justiça e odiei a
iniquidade e por isso morro no exílio». Esta falta de lógica não escapou a um assessor
episcopal. «Como no exílio, se todo o mundo é vosso?»
Gregório morreu em 25 de Maio de 1085.
Gregório é tido em grande consideração pelos católicos. O seu prestígio reside no seu
ascetismo, nas suas invectivas contra a simonia e a fornicação dos padres, na sua
tentativa de fazer recuar a maré de séculos de imoralidade papal, na sua capacidade de,
por força de uma única ideia, destronar monarcas. É também o expoente clássico do
Catolicismo Romano, que praticamente criou. Nunca teve uma dúvida ou uma opinião;
tinha sempre a certeza de tudo.
Contudo, deixando de parte as falsificações que sustentaram as suas duvidosas
pretensões, mesmo os seus admiradores têm de admitir que antes dele o trono e o altar
eram aliados. Os papas e os príncipes nunca deixaram de medir forças e por vezes
lutaram como tigres. Primeiro, um usurpava as terras do outro, depois invertiam-se os
papeis. Mas, como representantes sagrados de Deus, nunca eles duvidaram de que, em
certo sentido profundo e sagrado, estavam ligados.
Gregório começou a estilhaçar essa frágil harmonia. Vira um imperador destronar um
papa e havia de destronar um imperador desse por onde desse.
Se tivesse posto um imperador no seu lugar, teria ficado acima de qualquer crítica.
Mas fez muito mais do que isso. Ao introduzir uma doutrina perniciosa e herética, pôs-se
no lugar do imperador. Em nome do Homem Pobre de Nazaré, que renunciou a todos os
reinos, reclamava-se não só de Bispo dos bispos, mas também de rei dos reis.
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Parodiando os Evangelhos: o diabo levou-o ao cimo de uma alta montanha e mostrou-
lhe todos os reinos do mundo e Gregório VII exclamou: São todos meus.
Como escreveu Henry Charles Lea, o mais objectivo dos historiadores, na sua obra
The Inquisition in the Middle Ages: «Devotou a sua vida à realização deste ideal [a
supremacia papal] com um zelo ardente e um propósito inabalável que não recuou
perante obstáculo nenhum, e a ele estava pronto a sacrificar não só os homens que se
lhe atravessassem no caminho, mas também os princípios imutáveis da verdade e da
justiça».
Desta maneira, Gregório deitou à terra as sementes que, depois de florescerem
trouxeram não só o fim da Cristandade, mas também a Reforma. O Bispo de Trier
apercebeu-se do perigo. Acusou Gregório de destruir a unidade da Igreja. O Bispo de
Verdun disse que o papa estava errado na sua incrível arrogância. A nossa crença é
pertença da nossa Igreja, o coração, do nosso país. O papa, disse ele, não deve roubar
a fidelidade do coração. E isto foi precisamente o que Gregório fez. Quis tudo; não
deixou nada para os imperadores e para os príncipes. Ao minar o patriotismo, o papado,
tal como ele o moldou, minou a autoridade dos governantes seculares; estes sentiam-se
ameaçados pelo Altar. Na Reforma, em Inglaterra e em toda a parte, os governantes
viram-se obrigados a banir o Catolicismo das suas terras para se sentirem seguros.
Outro legado de Gregório VII foi a imposição do Romanismo na Igreja. Depois dele,
um Catolicismo genuíno, um Catolicismo enraizado e enriquecido por cada localidade e
por cada cultura já não era possível. Todas as igrejas tinham de seguir a norma romana,
por muito estranha que ela fosse para as suas origens e experiência. O latim, o celibato,
a teologia escolástica, tudo isto foi imposto a tal ponto que a unanimidade foi substituída
pela uniformidade baseada em Roma.
As mudanças operadas por Gregório reflectiram-se na linguagem. Antes dele, o título
tradicional do papa era o de “Vigário de S.Pedro”. Depois ele, era o de “Vigário de
Cristo”. Só “Vigário de Cristo” podia justificar as suas pretensões absolutistas, que os
seus sucessores herdaram, não de Pedro nem de Cristo, mas, de facto, dele mesmo.
Ele estabeleceu uma tendência. Nos cem anos que a ele se seguiram, os papas
excomungaram nada menos do que oito imperadores, depondo vários deles, e sempre
perturbando a comunidade cristã. Os historiadores registaram setenta e cinco batalhas
sangrentas directamente relacionadas com a contenda de Gregório com o imperador.
Um resultado final paradoxal das reformas do ascético Gregório: as suas pretensões
absolutistas abriram o caminho para papas como o licencioso Alexandre Bórgia. Mesmo
quando havia um Satanás no trono papal, quem é que se atrevia a questionar o Vigário
de Cristo?
Gregório VII teve de esperar cinco séculos para que fosse canonizado oficialmente
por outro papa que não ele próprio. Esse papa, Pio V, também tinha uma propensão
para depor monarcas com resultados igualmente desastrosos.
Mas, de todos os louvores póstumos que recebeu aquele que Gregório teria guardado
como mais precioso seria certamente o que lhe foi dado, não por outro pontífice, mas
pelo maior inimigo da Igreja do século XIX. «Se eu não fosse eu próprio, gostaria de ser
Gregório VII». Quem assim falou foi Napoleão após a batalha de Austerlitz.
Se Napoleão escolheu Gregório em vez de Inocêncio foi provavelmente em resultado
de moeda ao ar.
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Inocêncio III, o senhor do mundo
Foi o mais extraordinário encontro entre dois homens desde que Jesus esteve
perante Pilato no Pretório. Aquele que envergava mantos reais no trono de púrpura era o
mais poderoso homem do mundo; o outro, o que tinha vinte e sete anos e estava
ajoelhado a seus pés de vestes esfarrapadas e remendadas como um mendigo tinha
apostado em afirmar-se o mais pobre dos pobres.
Foi no verão de 1209. O Papa Inocêncio III tinha finalmente concordado em receber
aquele pobre homem enxovalhado que tinha fama de santo. Aquele esquelético
requerente tinha cabelo escuro e sobrancelhas regulares, dentes brancos, orelhas
pequenas mas salientes. A barba era rara e esparsa. Os olhos negros e a piscar
cintilavam, a voz era forte e musical e dele irradiava uma alegria peculiar. Era um poeta,
diziam alguns. Falava do Irmão Sol e do Irmão Vento. A Lua, a Água, a Terra e até a
Morte eram suas irmãs. Dizia-se que pregava aos pássaros e aos animais selvagens e
que estes o escutavam. O seu grande amor era a Pobreza, a que ele chamava a Dama
mais rica e mais generosa do mundo.
Inocêncio não se lembrava, mas já uma vez se tinha cruzado com este estranho
homenzinho. Francisco conseguiu chegar ao Palácio de Latrão. O seu objectivo era ir
direito ao topo para conseguir a aprovação para a irmandade religiosa que pretendia
fundar. Cruzou-se por acaso com Inocêncio num corredor. Francisco viera de S.Pedro
onde tinha trocado as suas roupas com um mendigo cujos trapos estavam ainda mais
mal cheirosos e andrajosos do que os dele. O pontífice fungou e expulsou-o.
Só Ugolino, cardeal de Óstia, o conseguiu convencer a conceder uma audiência a
Francisco. Ugolino, o futuro Gregório IX, também não compreendia Francisco, mas
pensava que ele tinha alguma coisa a oferecer à Igreja. Nunca havia de o compreender,
nem mesmo quando o canonizou com reservas, em 1228.
A entrevista com Inocêncio III foi curta. O papa não concordava nem discordava de
Francisco e do seu amor pela pobreza. Tinha coisas mais importantes na cabeça. Como,
por exemplo, governar o mundo.
O Cardeal Lothaire tinha sido eleito por unanimidade em 8 de Janeiro de 1198.
Inocêncio, tal como o papa-menino Benedito IX, pertencia à família dos Albericos de
Túscolo, uma família que havia de vir a gabar-se de ter tido treze papas, três anti-papas
e quarenta cardeais.
Aos trinta e oito anos, Inocêncio era o mais jovem membro do Sacro Colégio. Era
baixo, entroncado, bem parecido, eloquente, de olhos cinzentos duros e queixo firme.
Tinha estudado nas melhores universidades de Paris e Bolonha. De temperamento
impetuoso, com grandeza estampada em todo ele, nasceu para governar a qualquer
preço.
Depois da sua sagração em S.Pedro, Inocêncio foi coroado numa tribuna cá fora. O
Cardeal Arcediago tirou-lhe a mitra e substituiu-a pelo principesco Regnum.
Originalmente feito de penas de pavão brancas, era agora um diadema com jóias,
encimado por um carbúnculo.
«Toma esta tiara», entoou o Arcediago num ritual que teria surpreendido S.Pedro, «e
fica a saber que tu és o Pai de príncipes e reis, Governador do Mundo, o Vigário na
Terra do nosso Salvador Jesus Cristo, cuja honra e glória perdurarão por toda a
eternidade».
O pontífice, discípulo de Gregório VII, nunca duvidou que aquela blasfémia lhe era
devida.
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Ele era a reencarnação de Constantino. A famosa mofa de Thomas Hobbes em
Leviathan parece justificada: «O Papado não passa de um fantasma do falecido Império
Romano, coroado e sentado sobre o túmulo deste». Com as suas vestes a brilhar de
ouro e jóias, Inocêncio montou um cavalo branco coberto de vermelho e reuniu-se à
cavalgada pela cidade engalanada ao longo da Via Papae, que serpenteava sob os
velhos arcos imperiais.
Na Torre de Estêvão Petri, um velho rabino, com os ombros envoltos no códice do
Pentateuco, avançou para lhe prestar homenagem. «Nós reconhecemos a Lei»,
declarou Inocêncio formalmente, «mas condenamos os princípios do Judaísmo; porque
a Lei já foi cumprida por meio de Cristo, que o cego povo de Judá ainda espera como
seu Messias».
O rabino, de olhos no chão, agradeceu ao pontífice as suas amáveis palavras e
retirou-se, não fossem ainda mandar açoitá-lo.
O cortejo prosseguiu atravessando o Fórum. Roma, tal como Inocêncio a herdou, não
era mais do que um vasto campo por cultivar rodeado pela muralha Aureliana cheia de
brechas e coberta de musgo.
O pontífice decidiu mandar limpar o local e construir ali, para a família, uma torre,
Torre de’ Conti, que dominasse toda a cidade. Passando por montes de entulho de
templos, balneários e aquedutos destruídos, Inocêncio contornou o Coliseu e dirigiu-se
para Latrão.
Aí recebeu o voto de fidelidade do Senado Romano, prelados e príncipes beijaram-lhe
os pés e depois de distribuir dádivas pelos pobres e menos pobres convidou os nobres
para um banquete.
O pontífice ficou isolado, como é próprio das divindades. O serviço era do mais caro.
O príncipe mais velho presente serviu-lhe o primeiro prato antes de tomar o seu lugar à
mesa com os cardeais.
Inocêncio não comeu muito; a sua saúde nunca foi muito boa. Compensava um corpo
frágil com a mais férrea vontade que um pontífice alguma vez teve. Já estava a planear
tornar o seu título mais querido, o de “Governador do Mundo”, uma realidade.
O papado estava praticamente impotente quando da sua posse. O seu primeiro
objectivo, tal como o de muitos papas antes e depois dele, era restaurar os seus
domínios temporais. Pouco tempo depois já ele tinha feito de Roma um estado clerical.
Um crítico do Senado queixava-se deste modo: «Ele depenou Roma como um falcão
depena uma galinha». Passados dois anos era ele, e não o imperador, o senhor de
Roma e da Itália. Mas nem tudo correu como ele queria.
Em princípios de Maio de 1203, durante um curto levantamento dos cidadãos
romanos, teve de fugir para Palestrina. No ano seguinte andava demasiado doente para
ouvir as estórias sobre a maneira como os cavaleiros da Quarta Cruzada tinham
cometido o mais bárbaro dos crimes medievais: o saque de Constantinopla. Na grande
catedral de Santa Sofia violaram túmulos de imperadores, roubaram relíquias, violaram e
mataram mulheres, incluindo freiras. A cidade mais prestigiada do mundo foi arrasada
por soldados católicos que pareciam pensar que os cismáticos não tinham direitos neste
mundo nem no próximo.
Isto, que foi o primeiro grande exemplo de vandalismo civil dentro da Cristandade,
nunca foi esquecido pelos gregos. E Inocêncio não ajudou nada ao nomear um
veneziano para Patriarca Latino de Bisâncio.
Dois anos mais tarde, Inocêncio fez a paz com a cidade de Roma e voltou para
retomar o seu cargo. O exílio apenas tinha feito aumentar o seu ardor pela dominação.
Os primeiros papas não desgostavam de ser chamados de “Vigário de S.Pedro”. Ele
69
rejeitou o título. «Nós somos os sucessores de Pedro, mas não os seus vigários, nem os
de qualquer homem ou apóstolo. Nós somos o Vigário de Jesus Cristo perante quem
todos os joelhos se hão-de dobrar». Mesmo — melhor, especialmente — os joelhos de
reis e imperadores.
A Igreja, dizia ele, é a alma e o Império apenas o corpo do mundo. A Igreja é o sol e o
Império uma lua morta que reflecte a luz da grande Orbe, a Igreja de Cristo.
Os ensinamentos de Inocêncio sobre a sociedade contradiziam a Bíblia. Para ele, o
poder dos príncipes é uma forma de usurpação; só o poder do clero provém de Deus.
Isto era maniqueísmo aplicado às relações entre a Igreja e o Estado. A Igreja, espiritual,
era boa; o Estado, material, era essencialmente obra do Demónio. Este puro
absolutismo político minava a autoridade dos reis. Tomadas seriamente, as suas teorias
conduziriam à anarquia.
Inocêncio não pensava assim, claro, porque se sentia capaz de dirigir a Igreja e o
Estado. Era este o seu objectivo expresso. Mas com que pretexto poderia ele governar a
sociedade secular? A resposta era esta: o Pecado. Onde quer que houvesse pecado, o
papa era omnipotente. E onde é que, na Igreja e no Estado, não havia pecado?
Convinha-lhe pintar os soberanos nas cores mais negras. Isto dava-lhe o direito, quanto
a ele, de legislar para todo o mundo.
Precisava de instrumentos maleáveis. Escolheu Otão IV para imperador porque ele
prometeu fazer tudo o que o papa mandasse. Otão foi o primeiro “Rei dos Romanos” a
ser chamado de “eleito pela graça de Deus e do papa“.
Passado um ano Otão revoltou-se alegando, com razão, que a sua promessa não
tinha base legal. Inocêncio excomungou-o e escolheu outro. E havia também de coroar
Pedro de Aragão e o Rei de Inglaterra. Nem mesmo Gregório VII tinha conseguido
dominar o rei de Inglaterra. Guilherme, o Conquistador, recusou ser seu feudo dizendo:
«Eu devo o meu reino a Deus e à minha espada». João, que foi coroado quando Ricardo
Coração de Leão morreu em 1199, era de calibre diferente.
João Lackland, que tinha apenas um metro e sessenta de altura, era, segundo as
palavras de um cronista, “um rei trapaceiro”. Mimado em criança, cresceu desregrado,
rabugento e imprevisível. Tinha os olhos enviesados como um oriental e uma pele
sempre pálida num rosto de raposa. Só em matéria de higiene é que não dava motivo a
críticas; era conhecido por tomar oito banhos por ano.
O seu desequilíbrio ficou patente na coroação. Contrariando o protocolo, recusou os
sacramentos. Em momentos solenes, dizia gracejos obscenos.
O seu desprezo pela Igreja já era evidente dez anos antes quando casou com a prima
Isabel de Gloucester sem a devida dispensa. Uma ano após se ter tornado rei,
apaixonou-se pela jovem e bela, e já noiva, Isabel de Angoulême. Depois de arquivado o
seu próprio decreto de nulidade, casou com a sua segunda Isabel e fez dela a sua
rainha. Quando Inocêncio mostrou o seu desagrado, João compensou-o enviando um
milhar de homens para as Cruzadas e construindo uma abadia cisterciense com dinheiro
roubado. Inocêncio consentiu tacitamente a segunda união.
O papa acabou por entrar em conflito com João, não por causa do casamento, mas
por motivos de dinheiro. O rei andava a interferir com as liberdades da Igreja — uma
maneira de dizer que ele andava a cobrar impostos ao clero para pagar as suas guerras
com a França.
Quando João nomeou o seu próprio candidato para a sé de Canterbury o papa achou
que já era demais e nomeou Stephen Laughton, que João se recusou a reconhecer.
Inocêncio deu-lhe três meses para mudar de ideias, caso contrário iria sentir toda a força
da lei canónica. Longe de ceder, João expulsou do reino os monges de Canterbury.
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Todos, à excepção de um bispo, se puseram ao lado de Inocêncio e partiram para o
exílio. Assim começara um conflito de sete anos entre o rei e o papa.
Inocêncio mostrou até onde podia ir o seu espírito implacável, interditando toda a
Inglaterra. Foi uma punição de uma severidade incrível. Já a aplicara à França, que
interditara por oito meses pouco depois da sua eleição.
João jurou «pelos dentes de Deus» que se algum bispo divulgasse esta punição em
Inglaterra mandaria ao papa todos os clérigos com os olhos arrancados e os narizes
cortados. Quando a interdição foi publicada, no Domingo de Ramos de 1208, a primeira
reacção de João foi confiscar os bens da Igreja com a ajuda da cobiça dos barões. Ele
próprio, vítima intencional do castigo, divertiu-se imenso. Lançou impostos sobre o clero,
não enviando nada para Roma. O seu divertimento favorito era correr as paróquias à
noite e tirar da cama dos párocos as esposas canonicamente ilegais — as focariae
(companheiras). Se estes cavalheiros tonsurados quisessem as mulheres de volta
tinham de pagar um alto resgate. Isto não era muito diferente das estropelias do oficial
de diligências do arcediago, o mais odiado dos funcionários. Quando este desencantava
a amante de um padre — e a sua média de sucesso era extremamente alta — cobrava-
lhe uma “renda de pecado“ de duas libras por ano.
O sofrimento atingiu a maior parte da Inglaterra. E as vítimas foram crianças e
adultos. A religião, distracção e refrigério do povo, foi ilegalizada. As igrejas, únicos
pontos de encontro, foram fechadas e trancadas contra tudo excepto os morcegos nas
torres e os falcões que faziam ninho nos cumes das catedrais. Esta censura silenciou o
mais encantador dos sons de toda a Inglaterra: o dos sinos. Não mais se ouviu na
cidade e nos campos o dobre de finados ou o repicar do Gabriel de Angelus, nem a
música com sabor a bronze, mas subtil, dos campanários, que afogava os gritos das
gaivotas e dos corvos e que, segundo a crença popular, esvaziava a pressão do ar das
tempestades.
Os moribundos eram ungidos, os penitentes absolvidos e os recém-nascidos
baptizados. Quanto ao resto, a Inglaterra tornou-se um estado pagão.
Com oito mil catedrais e igrejas paroquiais fechadas, milhares de padres e clérigos
menores ficaram desempregados. Não se realizavam serviços religiosos no Natal nem
na Páscoa, não se diziam missas, nem mesmo nos conventos e mosteiros, não se dava
a comunhão, não se celebravam casamentos, não havia sermões, nem se ensinava a
doutrina; não se realizavam procissões nem peregrinações a santuários como o de Ely,
Walsingham ou Canterbury. Os mortos eram envoltos nas suas mortalhas e enterrados
como cães.
Passou o verão, veio o inverno e voltou o verão sem uma única celebração cristã.
Esta longa Sexta-feira Santa imposta pelo papa na sua misericórdia viria a durar, na
Inglaterra, seis anos, três meses e catorze dias.
À interdição seguiu-se a excomunhão do rei, em Outubro de 1209. Três anos depois,
o papa depôs João e sugeriu a Filipe de França que se preparasse para o expulsar e
tomar o trono da Inglaterra. Quem obedecesse ao papa tinha garantidas as mesmas
indulgências dos Cruzados.
A Inglaterra ansiava ver-se livre de um tirano que dormia com a mulher de qualquer
homem quando muito bem lhe apetecia. Arrancava um a um os dentes dos judeus ricos
que não lhe apareciam com o dinheiro. Fazia reféns e, quando houve um levantamento
no País de Gales, mandou enforcar vinte e oito jovens, filhos de chefes galeses no
Castelo de Nottingham no verão de 1212.
Enquanto Filipe reunia as suas tropas junto da foz do Sena, João jogou a sua cartada
mais forte: pediu a Roma que lhe enviasse um legado para fazer a paz.
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Satisfeitíssimo, o papa enviou o Cardeal Pandulf. No dia 13 de Maio de 1213, perante
uma assembleia de barões e povo, em Dover, João capitulou. Prometeu a restituição
integral dos fundos e das terras da Igreja.
Dois dias mais tarde, assinou de bom grado um segundo documento em que
entregava a própria Inglaterra «a Deus e ao Nosso Senhor Papa Inocêncio e aos seus
sucessores católicos». E selou o documento, não com o habitual selo de cera, mas com
um selo de ouro. João prometia que, daí em diante, ele e os seus sucessores deteriam
os seus domínios como vassalos do papa e pagariam uma renda anual de mil marcos
pelo privilégio.
Esta vitória deu a Inocêncio um enorme prazer, mas foi mais um exemplo de excesso
papal. A suserania papal sobre a Inglaterra terminou efectivamente em 1333, ano em
que Eduardo III se recusou a pagar ao papa qualquer renda. Quando o papa Urbano V
impassivelmente pediu o pagamento de trinta e três anos de dívidas atrasadas, Eduardo,
depois de consultar os seus assessores concluiu que a doação da Inglaterra feita por
João à Santa Sé ia contra o seu juramento da coroação e, portanto, era inválida. Os
papas não concordaram e esta questão viria a contribuir directamente para a secessão
da Inglaterra da fé católica no reinado de Isabel I. Para esta não era importante ser
chamado de feudo do papa ou pensar que a Inglaterra esteve apenas arrendada a um
potentado estrangeiro.
Filipe de França ficou furioso com Inocêncio III. Tinha despejado sessenta mil libras
no Canal, mas não se atreveu a pôr pé em solo inglês, e agora papal.
Embora João fosse absolvido da excomunhão, a interdição manteve-se até Junho de
1214, altura em que ele pagou o resto do dinheiro. Só então é que as portas da igreja se
abriram, se cantou o Te Deum, e os sinos voltaram a tocar. E por gentil permissão do
Papa Inocêncio III, Cristo pôde de novo entrar em Inglaterra.
Entretanto, o ódio dos barões a João atingiu um tal ponto que eles elaboraram a
Magna Carta, que garantia os direitos da Igreja e do povo, especialmente os dos barões,
e obrigaram João a apor-lhe o selo real. Nos termos da Carta, o rei, tal como todos os
homens livres, estava sujeito às leis; e o corpo da lei não podia ser secreto, tinha de ser
conhecido.
João, agora piamente católico, informou naturalmente Sua Santidade. Inocêncio,
quando soube, exclamou: «Por S.Pedro, nós não podemos deixar passar tal insulto sem
punição». O documento, muitas vezes considerado como a fundação das liberdades
inglesas, foi formalmente condenado pelo papa como «contrário à lei moral». O rei,
explicava ele, não era, de modo nenhum, súbdito dos barões e do povo. Só o era de
Deus e do papa. Consequentemente, os barões que tinham erradamente retirado
prerrogativas a um vassalo do papa tinham de ser punidos. Numa Bula, Inocêncio, «na
plenitude do seu poder e autoridade ilimitados, os quais lhe foram cometidos por Deus
para sujeitar e destruir reinos, para plantar e extirpar», anulou a Carta; dispensou o rei
de a cumprir. Excomungaria «quem quer que continuasse a manter tais pretensões
traidoras e iníquas». Tem de se concluir que todos os ingleses continuam
excomungados.
Stephen Langton, Arcebispo de Canterbury, recusou-se a publicar a sentença. O
poder do papa não era ilimitado, dizia ele. «A lei natural vincula príncipes e bispos
igualmente: não há que fugir disto. Está acima do próprio papa». Langton foi suspenso.
Para Inocêncio, que já dominara reis, os bispos foram uma pêra doce. Intitulou-se
“Bispo Universal”, título repudiado por muitos dos primeiros pontífices. Com Inocêncio, a
Igreja alcançou o ideal de Gregório; tornou-se uma diocese única. Inocêncio promulgou
mais leis do que cinquenta dos papas que o precederam; ele próprio não estava sujeito
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a qualquer lei. Até hoje, foram publicadas seis mil das suas cartas. O seu alcance é
extraordinário. Depõe e substitui bispos e abades. Impõe penas para um vasto leque de
ofensas. Por exemplo, um homem de nome Roberto foi capturado pelos Sarracenos,
junto com a mulher e a filha. O chefe sarraceno promulgou uma ordem segundo a qual,
devido à fome, os prisioneiros com filhos deviam matá-los e comê-los. «Este malvado»,
escreveu Inocêncio, «impelido pela agonia da fome, matou e comeu a própria filha. E
quando, em outra ocasião, saiu outra ordem, matou a própria mulher; mas quando a sua
carne foi cozinhada e lhe foi servida não conseguiu comê-la». Parte da sua penitência foi
que nunca mais comeria carne. Nem nunca mais poderia voltar a casar.
Inocêncio completou o seu domínio sobre a Igreja no Quarto Concilio de Latrão em
1215. Uma assembleia massiva de mil e quinhentos prelados escutou educadamente os
seus decretos e aprovou-os sem uma pergunta ou uma palavra de debate. Uma das leis
que eles aprovaram foi que todos os católicos tinham de confessar os seus pecados ao
padre local e comungar pelo menos uma vez por ano. Desta maneira, os leigos ficaram
sujeitos aos clérigos, os clérigos aos bispos e os bispos ao papa.
Os únicos dissidentes eram os hereges. A segunda parte deste livro tratará da glória
maior do reinado de Inocêncio, nomeadamente, o esmagamento dos Albigenses no Sul
de França. Centenas de milhar deles foram mortos pelo fogo ou à espada por sua
ordem. Na qualidade de único depositário da verdade, Inocêncio sentiu-se no direito de
erradicar as heresias por quaisquer meios à sua disposição. Foi ele que deu um novo
impulso à Inquisição e injectou no Catolicismo um tipo especial de intolerância que iria
durar séculos.
Inocêncio III, estadista de génio, pontífice de «uma espantosa força de vontade»,
governou o mundo com uma majestosa tranquilidade por um período de perto de vinte
anos. Durante a maior parte do tempo cercou a Cristandade de terror. Coroou e depôs
soberanos, interditou nações, criou praticamente os Estados Papais em toda a Itália
central, do Mediterrâneo ao Adriático. Não perdeu uma única batalha.
Perseguindo os seus objectivos, fez derramar mais sangue do que qualquer outro
pontífice. Desvirtuou profundamente os Evangelhos, a Igreja, o papado e até a distinção
entre o bem e o mal. A prodigiosa perversão que operou em tudo isto revela-se
claramente numa simples afirmação de cortar a respiração: «Todo o clero tem de
obedecer ao Papa, mesmo que ele ordene o que é mau; porque o papa não pode ser
julgado por ninguém».
Estava em Perugia quando o seu fim chegou, em Julho de 1216. Tinha-lhe chegado a
notícia de que os Franceses tinham ousado uma vez mais assaltar o seu reino de
Inglaterra. Como que para se retirar com sangue, fez uma comunicação final contra Luís
e Filipe Augusto: «Espada, espada, salta da tua bainha. Espada, espada, afia-te e
extermina».
Ao morrer, deve ter voltado o olhar pisco, por sobre o vasto manto da Planície da
Úmbria, para a pequena cidade sonolenta de Assis, aninhada na encosta de uma colina.
Talvez uma distante lembrança o tenha feito estremecer. Aquele dia em que um pedinte
de olhar brilhante veio ter com ele para lhe pedir o reconhecimento de uma irmandade
que queria fundar. E ele concedeu-lho ou não? Posto na grande balança das coisas, isto
não pode ter sido importante.
O pedinte que ele expulsou do Palácio de Latrão, que não era uma ameaça para
ninguém e que teria preferido morrer a privar alguém da consolação da religião, iria em
breve sofrer no corpo as feridas do Cristo crucificado. Dele disse Dante no Paradiso:
«Nacque al mondo un Sole» («Nasceu um Sol para o mundo»).
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Inocêncio III, o verdadeiro “Augusto do papado”, já só é conhecido dos historiadores.
Mas não há ninguém que não tenha ouvido falar, com alegria e afeição, de Francisco de
Assis.
* * *
Os sucessores de Inocêncio continuaram as suas pretensões absolutistas, e vieram
mesmo a aumentá-las. Gregório IX (1227-41), que canonizou o Pobre Homenzinho de
Assis, declarou solenemente que o papa é o dono e senhor do universo, das coisas bem
como das pessoas. Inocêncio IV (1243-54) decidiu que a Doação de Constantino estava
mal apelidada. Constantino não deu poder secular aos papas; eles já tinham o poder
secular supremo vindo de Cristo.
Só faltava o papa a quem Dante chamou a Besta Negra, Bonifácio VIII, para selar o
absolutismo papal.
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O Poder em Declínio
Benedito Gaetani foi coroado papa, com o nome de Bonifácio VIII, em 1294.
Jacopone da Todi, o poeta que escreveu o famoso hino Stabat Mater, observou que
nenhum nome lhe podia assentar tão mal. A sua não era nada uma “boa cara“.
Alto e corpulento, tinha, aos oitenta anos, o olhar mais frio jamais visto num homem.
Llanduff, um cardeal da Cúria, disse dele esta coisa notável: «Ele é todo língua e olhos
e o resto está tudo podre». Uma vez recusou-se a confirmar a nomeação de um bispo
metropolitano simplesmente porque não gostou da sua cara e disse-lhe isso mesmo.
Até um cardeal com uma deficiência, por exemplo, com artrite numa perna ou uma
corcunda, podia ser ridicularizado sem misericórdia. Dizia missa com ardor e lágrimas
nos olhos como se estivesse no Calvário e estivesse a ver Jesus crucificado. Acabada a
missa, era capaz de atirar com as cinzas da penitência para a cara de qualquer
arcebispo que lhe desagradasse. Segundo F. M. Powick, «Era admirado por muitos,
temido por todos e amado por ninguém».
Bonifácio era calvo e tinha as orelhas espetadas num rosto oval inflamado da
arrogância própria de alguém que sabe que não tem igual na terra. «O coração do
pontífice romano», decretou ele, «é o repositório e fonte de toda a lei. Esta a razão por
que a submissão cega à sua autoridade é essencial para a salvação». No Jubileu de
1300, encontraram-no sentado no trono com a coroa de Constantino na cabeça, uma
espada na mão e a repetir impiedosamente: «Eu sou o pontífice, eu sou o imperador».
As suas vestes eram das mais dispendiosas, vindas de Inglaterra e do Oriente, e
andava coberto de peles e pedras preciosas. Quando falava, cuspia as palavras pelo
espaço onde lhe faltavam dois dentes no maxilar superior. O seu antecessor, Celestino
V, dizia sobre ele: «Saltaste para o trono como uma raposa, vais reinar como um leão e
morrerás como um cão».
Poucos papas fizeram enriquecer tanto os familiares como Bonifácio. Um diplomata
espanhol dizia: «Este papa só se preocupa com três coisas: uma vida longa, uma vida
rica e uma família bem dotada à sua volta». Conhecido como “O Pecador Magnânimo”,
Magnanimus Peccator, não perdeu tempo e logo fez de três sobrinhos cardeais,
outorgando-lhes vastas terras e bens. Nas palavras de Dante, ele fez do sepulcro de
Pedro um esgoto.
Era um libertino, que uma vez teve como amantes uma mulher casada e a filha desta.
Num daqueles comentários de improviso por que era conhecido disse: «Fazer sexo é
como esfregar as mãos». Depois, quando envelheceu, o seu único passatempo era,
além de fazer dinheiro, fazer inimigos. O médico espanhol que lhe salvou a vida tornou-
se o segundo homem mais odiado de Roma.
Apesar de toda a sua aparente autoconfiança, Bonifácio teve uma preocupação que o
acompanhou até ao fim da vida. Muitos prelados desconfiavam que ele tinha
astuciosamente induzido o seu antecessor a resignar. Trata-se de uma das mais
estranhas estórias da história da Igreja Católica e que começou no ano de 1292 com a
morte do Papa Nicolau IV.
O conclave, que se realizou em Perugia, não chegou a acordo quanto a um sucessor.
Os onze eleitores estavam divididos entre os Colonnas e os Orsinis de tal maneira que
a discussão se prolongou sem resultado por semanas e meses. Benedito Gaetani
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manteve-se à parte, talvez na esperança de, numa solução de compromisso, vir ele a
ser escolhido. Depois de dois anos de impasse, Gaetani fingiu ter recebido uma “carta
inflamada” de um velho eremita. Pedro de Morone, que vivia escondido numa gruta nos
Abruzzi, tinha fama de santo. Na pretensa carta exigia que os cardeais dessem um
papa à órfã Igreja. Em vez de Gaetani, o Deão propôs, com sucesso, o próprio Pedro de
Morone.
No verão de 1294 partiu de Perugia uma comitiva papal. Após uma viagem de 240
quilómetros e uma escalada de trezentos metros, encontraram o novo papa. Magro,
esfarrapado, sujo, espreitava por entre as grades da sua cela improvisada como um
macaco desnorteado. O odor de santidade não era agradável. A comitiva papal,
encabeçada pelo Cardeal Pedro Colonna, ajoelhou com as palavras «Vossa
Santidade». Quando percebeu que aquilo não era uma piada e que não estava a
sonhar, Pedro de Morone aceitou. Tomou o nome de Celestino V.
O novo pontífice não concordava com a vida licenciosa de Roma e assim insistiu em
estabelecer-se em Nápoles. Gaetani, para conquistar a sua confiança construiu-lhe uma
cela de madeira numa das enormes salas do Castello Nuovo, o castelo de cinco torres
sobranceiro ao mar. Aí, nas palavras de um seu contemporâneo, Sua Santidade
esperava esconder-se como um camponês nas moitas. Este era o seu ambiente e
aqueles príncipes mundanos eram-lhe completamente estranhos. Não conseguia
entender as frases em latim erudito que eles usavam. Esvaziou os estábulos e quando
tinha de viajar, fazia-o de burro, como Jesus.
A Igreja tinha mudado tanto desde os primeiros tempos que o próprio Jesus não
caberia nela. Os cardeais depressa compreenderam o seu erro. Celestino estava a
desfazer-se dos bens da Igreja dando-os a pessoas indignas, como os pobres e os
monges empobrecidos com quem sempre andara associado. Não tinha jeito para a
simonia. Iria levar a Igreja à bancarrota em três tempos. Ele nem frequentava os
banquetes, preferindo mordiscar uma côdea de pão e beberricar água em retiro.
Alguém tinha de fazer qualquer coisa, e quem melhor para essa tarefa do que
Benedito Gaetani? Este abriu um orifício na parede da cela do papa e introduziu nele
um tubo para por ele se poder falar. A meio da noite, sussurrava através do tubo:
«Celestino, Celestino, resigna do teu cargo. É um fardo grande demais para ti». Depois
de muitas noites a ouvir a voz do Espírito Santo, o simplório monge abdicou. Apenas
quinze dias após a sua coroação convocara os cardeais e pedira-lhes, sem grande
esperança de sucesso, que mandassem as amantes para conventos e vivessem em
pobreza como Jesus. Trocou os mantos papais pelo seu grosseiro hábito de eremita,
resignou e partiu.
Gaetani, jurista de formação, tinha engendrado este final bem sucedido; e agora,
sendo a antítese de Celestino, reclamava o trono por direito. Subiu ao poder em
Dezembro de 1294 e regressou imediatamente a Roma. Mas, temendo que Celestino
pudesse reaparecer acompanhado de espirituais fanáticos como Jacopone da Todi,
tomou a precaução de o fechar no castelo de Fumone; o velho eremita aí morreu,
poucos meses mais tarde, de fome e abandono.
A família Colonna veio a saber a maneira como Gaetani tinha forçado Celestino a
resignar e usou este conhecimento para questionar a sua legitimidade. Bonifácio VIII,
apesar de todo o seu poder, nunca se sentiu seguro no trono papal.
Os Colonnas eram descendentes dos Condes de Túscolo. Além de usurpar o trono, o
seu trono, eles acusavam ainda Bonifácio de se apossar das suas terras à volta de
Roma e de as doar a membros da sua família. Quando os Colonnas armaram uma
emboscada a uma escolta papal que carregava ouro, Bonifácio tratou-os como turcos,
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pregando uma cruzada, com indulgências, contra eles. Quando por precaução eles
sairam furtivamente de Roma, acusou-os de conspirarem com os franceses para o
destituírem. Em retaliação, mandou os exércitos para destruir as suas cidadelas nas
colinas à volta de Roma, matando os camponeses nas suas terras ou vendendo-os
como escravos. Em breve, só as muralhas rochosas de Palestrina podiam arcar com o
santuário dos Colonnas.
Os dois cardeais Colonna não tinham outro remédio: tiveram de pedir misericórdia.
Dirigiram-se apressadamente para Rieti, onde o papa estava instalado, e prostraram-se
a seus pés com cordas à volta do pescoço e envergando mantos negros de penitência.
Bonifácio, com um olhar mais brilhante do que a tiara, poupou-lhes a vida mas tirou-
lhes uma coisa que eles prezavam ainda mais: a honra. Expulsou-os do Sacro Colégio e
quebrou os seus selos com um martelo. Depois viajou para Anagni, a sua cidade
favorita, situada sobre o vasto vale do Sacco, sessenta e cinco quilómetros a oriente de
Roma. Aí, no cume inferior do Monte San Giorgio, nascera e fora criado.
Dirigiu-se à janela da sala superior do palácio papal, donde desfrutava uma vista
arrebatadora da vegetação primaveril. Palestrina, um dos sete pilares da Igreja
Romana, empoleirava-se na encosta de uma colina, rodeada de oliveiras e loureiros.
Horácio escreveu uma das suas mais belas Carmina em louvor de Palestrina, e foi aí
que, no século III, o menino-mártir, Agapito, foi assassinado por amor de Cristo.
Depois de murmurar uma oração, o pontífice ergueu e deixou cair o braço qual
divindade vingadora. Logo uma bandeira foi arreada nas muralhas do palácio, sinal para
as forças do papa começarem a atacar Palestrina.
Nada foi poupado. Houve relatos que falavam em seis mil mortos, embora muitos dos
habitantes tivessem fugido para as regiões circunvizinhas. Os palácios, incluindo a casa
de Júlio César, antiguidades e belos mosaicos, um templo circular da Virgem Maria no
cimo de uma escadaria de mármore com cem degraus, tudo teve o mesmo fim. Só a
catedral foi poupada. O resto foi tudo destruído de maneira tão cruel como a antiga
Cartago. O solo foi lavrado e espalharam sal nos sulcos para a desolação ser completa.
Ali iria nascer outra cidade, prometeu Bonifácio, uma Civitas Papalis, uma cidade que
soubesse ser leal a Sua Santidade.
Por este acto monstruoso na primavera de 1299, Dante enterrou Bonifácio VIII no
Oitavo Círculo do Inferno, de cabeça para baixo, nas fendas da rocha.
Três anos mais tarde, num dia frio de meados de Novembro do ano de 1302,
Bonifácio estava de volta a Anagni. A sua disposição era de tal maneira abominável que
nem a vista de uma Palestrina arrasada lhe aliviou o espírito. A que ponto estava a
Cristandade a chegar quando ele não podia confiar no seu filho mais velho? A sua
disputa com Filipe o Belo de França continuara a arrastar-se. O rei estava furioso com o
pontífice por não o ter feito imperador como prometera. Por vingança tinha lançado
impostos sobre o clero para financiar as suas campanhas militares.
Bonifácio tinha retaliado seis anos antes com a sua Bula Clericis Laicos. Pegou nela
e voltou a lê-la. Ainda ficava maravilhado com a sua intransigência. Gregório VII não
podia ter feito melhor. «Os leigos sempre foram hostis ao clero». Tão verdadeiro,
suspirou ele, no seu habitual tom sibilino. Filipe era um perfeito exemplo daquele
princípio. Bonifácio tinha emitido excomunhões contra qualquer clérigo que pagasse um
tostão que fosse a um leigo, fosse ele rei ou imperador. De facto ele decretou que se
um monarca cobiçoso deitasse a mão a uma simples peça da baixela da Igreja seria
imediatamente excluído de Jesus Cristo, e se não se arrependesse perderia o seu reino.
Filipe ficou curado da sua loucura? De modo nenhum. Proibira a exportação de ouro
e prata; o ladrão andava a embolsar todos os lucros da Igreja; e o pior de tudo é que
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prendeu um bispo. A tremer de raiva, Bonifácio pegou na pena. Uma nova Bula. Esta
seria dirigida à Igreja universal. Depois dele, muitos católicos, incluindo alguns papas,
desejariam que ele nunca a tivesse escrito.
A Bula “Unam Sanctam” e o fragor das espadas
O pontífice estava sentado à secretária, absorto, e o único som que se ouvia era o da
pena a arranhar o papel. As suas primeiras palavras iriam correr mundo: Unam
Sanctam. «Só há uma única Santa Igreja Católica e Apostólica fora da qual não há
salvação ou remissão de pecados».
O melhor era fazer as suas alegações alto e bom som e de maneira clara. Ele, o
papa, com Cristo e Pedro, era o único chefe da Igreja. Esta Igreja é a Arca da Salvação;
alguém que esteja fora dela está condenado a afogar-se para sempre, especialmente os
cristãos gregos que se recusam a admitir que o papa é o Pastor de todo o rebanho.
Veio-lhe à ideia uma imagem menos pastoral. O olhar iluminou-se-lhe: as Duas
Espadas. «Os apóstolos disseram a Jesus, "Estão aqui duas espadas". O Senhor não
responde "É demais", mas sim, "Chegam!"» A exegese medieval raramente passou
deste nível.
Agora a pena corria.
Aquele que nega que Pedro tem o poder da espada temporal está a
interpretar erradamente as palavras do Senhor, «Embainha a tua
espada». Ambas as espadas, a espiritual e a material, estão em
poder da Igreja. A espiritual é manejada pela Igreja; a material para
a Igreja. Uma pela mão do padre; a outra pela mão dos reis e
cavaleiros segundo a vontade e consentimento tácito do padre. Uma
espada tem de estar sob a outra; a material sob a espiritual, tal como
a autoridade temporal em geral está sob a espiritual.
Bonifácio fez uma pausa para olhar as ruínas de Palestrina. Que melhor prova da
ordem correcta das coisas numa comunidade espiritual? «O poder espiritual», continuou
ele, «tem de estabelecer o poder terreno e julgar se é bom ou não. Como disse
Jeremias, "Vede, hoje pus-vos acima das nações e dos reinos"». Esperava que desta
vez Filipe e todos os monarcas prestassem atenção às suas palavras.
Um toque autoritário final para que as suas palavras não fossem mal interpretadas:
«Nós declaramos, anunciamos e definimos que é absolutamente necessário para a
salvação de todas as criaturas ser súbdito do Pontífice Romano».
Para acentuar a sua autoridade, a Bula ia assinada do seu palácio de Latrão, no
oitavo do seu pontificado. Chamando o secretário, um bispo, entregou-lhe a Unam
Sanctam para copiar e distribuir por toda a Igreja.
Em França a reacção não foi favorável. Um assessor do rei comentou: «A espada do
Papa é feita apenas de palavras; a do meu Mestre é de aço».
Filipe espalhou o boato de que Bonifácio tinha obrigado o seu antecessor a resignar,
o tinha depois prendido e assassinado. Bonifácio é um tirano, declarou ele, um herege,
uma presa de todos os vícios».
O rei sabia que só as palavras não chegavam. Tinha de agir vigorosamente e com
rapidez antes de ser excomungado. Convocou o seu chanceler, Guilherme de Nogaret.
Em conjunto maquinaram uma trama ousada. Um esquadrão de homens armados seria
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treinado com o objectivo de apanhar o papa e trazê-lo de volta a França. Aí seria
submetido a julgamento por um Concílio Geral que, sem dúvida, o deporia.
Nogaret fez uma vénia a sua Majestade e semanas depois a expedição estava pronta
a partir.
Em Roma Bonifácio exultava. A Unam Sanctam tinha-lhe dado mais prazer do que a
destruição de Palestrina, mais ainda do que ter visto dois milhões de peregrinos a
dirigirem-se para Roma em rebanho para lhe encher os cofres durante o Ano Santo dois
anos antes. Era como se Deus lhe tivesse autenticado a Bula fazendo com que Filipe
tivesse sido derrotado no campo de batalha pelas forças flamengas em Courtrai.
Agora toda a Igreja sabia que as coisas de Deus são de Deus; e as coisas de César
são… bem, também elas são de Deus. Evidentemente. Mesmo que alguns papas não
tivessem tido estômago para o dizer. Afinal, todas as coisas são de Deus, porque foi ele
que as criou, e o papa representa Deus. O papa, como Primeiro Pastor, tem o dever de
alimentar todo o rebanho, incluindo as maiores ovelhas de todas: reis e imperadores.
Saboreou de novo a sua frase favorita da Unam Sanctam: Ninguém pode ser salvo
se não obedecer ao pontífice romano. Agora nem mesmo Filipe se atreveria a opor-se-
lhe.
Não era Filipe mas a família Colonna que o preocupava. Depois de ter despromovido
os seus cardeais, eles não lhe tinham mostrado qualquer gratidão por ter poupado as
suas vidas, antes fugiram da cidade. Não fazia ideia onde eles se encontrariam, mas
estavam com certeza a tramar alguma coisa algures. Arrependia-se de não os ter logo
executado.
Passou-se um ano. Bonifácio estava uma vez mais no seu retiro favorito em Anagni.
Estava a dar os últimos retoques numa Bula que excomungava Filipe e o expulsava do
trono. Sim, ia despedi-lo como a um moço de estrebaria. A esplêndida sensação que
isto lhe provocava só era estragada por uma estória singular vinda de Florença. Algum
tempo antes, ele tinha doado àquela cidade um leão adulto. Os florentinos mantiveram-
no acorrentado num cortile no coração da cidade. Um dia, um burro descobriu o
caminho para o pátio e — mal podia acreditar — escoicinhou o rei dos animais até à
morte. Os florentinos diziam que aquilo pressagiava os últimos dias de Bonifácio VIII.
Donde viria uma calamidade daquelas? Ele não tinha o mínimo conhecimento de que
Nogaret tinha reunido forças com Sciarra Colonna, sobrinho e irmão dos ex-cardeais.
Sciarra, jovem voluntarioso e sanguinário, estivera em Rieti, também vestido de negro
de penitência, quando os seus parentes foram depostos, lançando a vergonha sobre
todo o clã Colonna. Sciarra nunca iria esquecer o ter-se ajoelhado aos pés daquele
monstro e ouvido a sentença de excomunhão. Com esta, o papa baniu-o da irmandade
dos cristãos e obrigou-o a um exílio perpétuo. Isto era praticamente uma sentença de
morte, e ele tinha passado quatro anos nas galés até que um parente o resgatou. Esta
aliança com os franceses daria a Sciarra a possibilidade de ajustar todas as suas contas
— de um só golpe.
Num sábado, dia 7 de Outubro, os portões de Anagni foram traiçoeiramente abertos
de madrugada pelo capitão da guarda do papa. Para as estreitas ruas entraram
seiscentos cavaleiros e mil montadas. Esta cidade de escuras vielas escarpadas vibrava
sob o som de patas dos cavalos e do bater de pés. Mesmo isto foi rapidamente abafado
pelo clangor dos sinos de alarme. Os invasores depressa retiraram as barreiras
erguidas à pressa e saquearam os palácios dos cardeais fieis ao papa.
O palácio do papa estava bem fortificado no topo de uma colina e defendido pelos
Gaetanis. De lá, o papa mandou às seis da manhã, um mensageiro a pedir uma trégua.
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Secretamente pediu aos cidadãos mais importantes que viessem em seu auxílio.
Prometeu-lhes imensas riquezas em troca da sua aliança nesta hora de necessidade.
Eles recusaram.
Esteve sentado na sala do trono durante horas a pensar, a rezar, e a dar de novo
uma vista de olhos à Unam Sanctam, espantado pelo facto de um príncipe temporal ter
ousado erguer a espada contra o Ungido de Deus, o Senhor do Mundo. À hora de
vésperas, foram-lhe entregues as condições da trégua. Tinha de readmitir os cardeais
Colonna no Sacro Colégio, resignar e render-se incondicionalmente a Sciarra Colonna.
Para Bonifácio VIII, orgulhoso membro dos Gaetanis, isto significava luta até à morte.
Os invasores começaram a destruir pelo fogo os portões principais da catedral para
conseguirem entrar no palácio que ficava para além dela. Os clérigos nas suas
compridas alvas brancas fugiam como gaivotas. Quando entraram, os homens de
Sciarra saquearam a catedral e mataram toda a gente que lá se encontrava. Avançaram
depois para o palácio, rebentando janelas e arrombando portas. Os guardas da
segurança do papa, em inferioridade, renderam-se e ofereceram-se para lhes mostrar o
desenho do edifício. Aos gritos, desvairadamente, as tropas, comandadas por Sciarra,
abriram caminho até à grande escadaria que dava acesso aos aposentos privados do
papa.
Sciarra não se preocupara em contar quantos tinha matado nas últimas horas.
Lembrava-se de se ter atirado a um arcebispo, mas o resto era tudo muito vago. Tinha o
peitoral salpicado de sangue e a cheirar a ferrugem; a espada e o punhal estavam
vermelhos até ao punho. Quando empurrou a porta da enorme câmara de audiências de
altos tectos, ele e os seus homens foram engolidos por um tremendo silêncio.
O velho papa, de oitenta e seis anos, estava majestosamente sentado no trono, só,
salvo um cardeal auxiliar encolhido num canto. Estava imóvel, envergando todas as
vestes e símbolos pontifícios: a tiara, que simbolizava que ele era o Senhor do Mundo;
nos dedos, além da grande safira oval a brilhar, tinha o Anel do Pescador. A mais
elevada fonte do seu poder tinha-a na mão, uma cruz de ouro.
Sciarra ficou tão aterrado que a princípio nem conseguiu mexer-se. Quando se dirigiu
lentamente para Bonifácio, de espada desembainhada, o pontífice beijou altivamente a
cruz. Este gesto, o sonoro estalar dos lábios, teria feito parar um católico devoto, mas
não Sciarra Colonna. Deu uma bofetada na cara manchada e marcada das veias do
Vigário de Cristo que ecoou na câmara das audiências e que fez com que os seus
próprios homens recuassem e se benzessem. Aquilo era um sacrilégio. E se Deus,
como vingança, os fulminasse? A praguejar para manter a coragem, Sciarra gritou que
aquele homem não era o papa, mas um impostor, filho de Satanás. «Resigna» ordenou
ele.
Bonifácio beijou de novo a cruz. «Antes morrer», murmurou.
Orgulhoso demais para implorar misericórdia àquele patife excomungado, baixou a
cabeça. Depois, naquele seu tom irritante, «Ec le col, ec le cape» («Aqui tens o meu
pescoço; aqui tens a minha cabeça»).
Nascera em Anagni; não se importava de ali morrer. Este pontífice que afirmava que
a espada temporal estava ao seu serviço tinha agora essa mesma espada sobre o seu
pescoço esquelético. Em ponto algum da história da Igreja há momento mais simbólico.
Isto era a prova de que a aliança da Igreja e do Estado tinha atingido o ponto de rotura.
Mesmo o sanguinário Sciarra hesitou. Seria ele capaz de cortar a Cabeça da Igreja?
Tendo feito uma jura de vendetta, não tinha outro caminho. Num êxtase de alegria
sádica, ergueu a espada e apontou cuidadosamente.
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Foi então que Nogaret entrou de rompante a gritar que o rei de França queria o
pontífice de volta a Lyons para enfrentar a deposição perante um concílio ecuménico.
Sciarra, com o rosto cheio de sombras purpúreas, embainhou a espada. Para parcial
compensação, começou a despir Bonifácio da sua dignidade. Derrubou-lhe a tiara,
deixando à mostra uma careca oval, depois divertiu-se a arrancar-lhe, por vezes com o
punhal, as caras vestes papais, peça por peça. Os seus homens, aliviados por não
terem tido de participar na morte de um papa, saquearam as salas. Ficaram espantados
como é que até um papa durante uma vida longa feita de cobiça podia ter acumulado
tais tesouros.
Bonifácio, de pé, como uma estátua, aparentemente esquecido da humilhação,
continuava a repetir em tom irritado a lamentação de Job, «Dominus dedit, Dominus
abstulit» («O Senhor deu, o Senhor tirou»). E por fim ficou ali de pé naquela câmara
vazia praticamente nu. O corpo, amarelo, enrugado e supliciado, estava cheio de
piolhos. Quando os medievais descreviam os tormentos do inferno, não era o fogo mas
os piolhos o que eles mais temiam. O cronista disse friamente: «O pontífice teve uma
má noite».
O alívio chegou inesperadamente. Muitos dos homens de Sciarra eram mercenários
e já tinham ido embora com os seus despojos. O povo da cidade estava com receio que
Anagni viesse a ser interdita; nunca mais haveria missa. Podia mesmo vir a ser
destruída como Palestrina. Três dias mais tarde, armaram-se e obrigaram o inimigo a
retirar e libertaram o papa da sua masmorra.
Ele estava mudado. Ao contrário do que fora o seu hábito de uma vida, falava entre
soluços e lágrimas que lhe corriam pelas faces marcadas de negro. Tinha ressuscitado
ao terceiro dia tal como Cristo, seu Mestre. «Obrigado» gemia ele repetidamente.
«Obrigado». A senilidade apossara-se provavelmente dele; por orgulho ou por receio de
ser envenenado, tinha recusado todo o alimento na prisão. A fome e a sede, as noites
de solidão no escuro, com ratazanas a correrem sobre ele, a proximidade da morte,
tudo isto o tinha desarticulado. Levado de volta para Roma sob escolta, ficou fechado
no seu quarto em Latrão durante trinta e cinco dias. Segundo rumores que corriam,
provavelmente fantasiosos, batia repetidamente com a cabeça na parede e mordia
incessantemente o braço, como um cão de volta de um osso. E aí, na solidão e
totalmente desprezado — «Morieris ut canis» foi a profecia de Celestino — morreu.
No dia do funeral houve uma tremenda tempestade e ele foi enterrado com o mínimo
cerimonial no imenso túmulo que ele próprio tinha preparado na velha Basílica de
S.Pedro.
Há uma curiosa nota de rodapé na história da Besta Negra de Dante, um pontífice
ímpio que afirmava que tinha tantas possibilidades de sobreviver à morte como um
frango assado.
Quando, para acabar a construção da nova Basílica de S.Pedro, em 1605, o seu
túmulo teve de ser mudado, fendeu e abriu-se. Para consternação geral, o corpo do
pontífice, passados três séculos, estava incorrupto. Só o nariz e os lábios estavam
ligeiramente mordidos. Mediram-no: um metro e setenta; ainda tinha no dedo o anel
oval de safira; parecia em paz.
Bonifácio tinha dado forma final à heresia do poder papal. Também noutros aspectos
ele não era um bom adorno para uma Igreja que ao menos foi poupada, por cortesia de
Nogaret, à última das indignidades: ter de o venerar como S.Bonifácio, papa e mártir.
O exílio babilónico
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Os problemas do papado não terminaram com Bonifácio VIII. Filipe de França, ainda
não satisfeito de ver o seu grande inimigo dar a alma ao Criador, estava determinado a
dessacralizar a sua memória. Benedito IX, que sucedeu a Bonifácio, tentou apaziguar
sua Majestade absolvendo-o de toda a culpa de sacrilégio perpetrado contra o seu
antecessor. Quando Benedito morreu, um ano depois, uma maquinação escandalosa no
conclave levou à eleição de Bertrand de Grot, Arcebispo de Bordéus, como Clemente V.
Filipe via finalmente satisfeitos os seus desejos: um papa francês, que ele podia moldar
à sua vontade.
Clemente fez imediatamente saber aos seus auxiliares atónitos que eles o iriam
acompanhar para além dos Alpes. Anagni já fora revés bastante, mas isto era a
humilhação final do papado: deixar o lugar do antigo império e os túmulos de S.Pedro e
S.Paulo. Clemente temia, nas suas palavras, «desgostar o nosso querido filho, o Rei de
França». Em breve se estabelecia dentro dos domínios do rei, sob o seu olhar vigilante,
em Avignon, uma pequena cidade da Provença, na margem oriental do Ródano. Com
Filipe a ameaçar julgar Bonifácio postumamente por ser uma fraude e um herege, o
papa cedeu a sua Majestade em toda a linha. Filipe foi louvado pelo seu zelo religioso
contra Bonifácio, e Celestino V, que Bonifácio enganara levando-o a resignar, foi
canonizado com o nome de S.Pedro de Morone.
O prestígio do papado sofreu um golpe quase fatal, e uma sucessão de pontífices
cobiçosos e sensuais levaram o ofício de Pedro ao nível mais baixo desde o Reinado
das Meretrizes.
O paraíso papal da Provença
Os papas de Avignon não foram uniformemente nem bons nem maus. Um bom
representante foi Clemente VI, eleito no ano de 1342. Homem sem malícia nem
princípios morais, teve o mérito de ser um bom pagão.
O seu nome civil era Pierre Roger de Beaufort, monge beneditino, Arcebispo de
Rouen, chanceler de sua Majestade o Rei de França. O rei deu-lhe a protecção de que
sua Santidade precisava se quisesse viver comme il faut. O facto é que Clemente não
gostava da Itália nem dos italianos.
Tinham passado quarenta e cinco anos desde que Clemente V tinha feito aquela
inspirada troca: o Tibre pelo Ródano; os pântanos de Roma cheios de malária, cólera e
tifo, onde parecia que todos se queriam matar uns aos outros, pela perfumada
Provença.
Antes do seu tempo, vários papas — Celestino V, por exemplo — nunca tinham visto
Roma; o próprio Clemente VI nunca tinha posto os pés na Itália. Nem os seus
antecessores próximos, João XXII e Benedito XII. Clemente estava determinado a
manter esta bela tradição francesa. Isto explica a enorme despesa que fez no seu novo
palácio no Rocher de Doms, junto do Ródano.
Ao contrário de Benedito XII, que era um desmancha-prazeres, Clemente sabia como
gastar. «Antes de mim ninguém fazia ideia de como ser papa» brincava ele muitas
vezes. «Se o rei da Inglaterra quiser fazer do seu burro bispo, é só pedir». Uma vez, um
burro entrou no consistório com um cartaz pendurado ao pescoço: «Por favor, faça-me
também bispo». Clemente não levou a mal, como aconteceu também quando recebeu
uma carta em pleno consistório. A carta dizia: «Do Diabo para o seu irmão Clemente».
Ele e os seus “diabinhos”, os cardeais, desataram às gargalhadas.
83
O único objectivo de Clemente era fazer os seus súbditos felizes. Conseguia isto
esbanjando com o mais cobiçoso dos peticionários mais do que aquilo que ele se
atreveria a pedir. Alguns cardeais tinham entre quatrocentos e quinhentos dos maiores
rendimentos. Isto significava que podiam ter os rapazinhos mais formosos, se tivessem
essa inclinação, ou as mais belas damas de companhia. Em Avignon toda a gente vivia
bem: músicos, artesãos, banqueiros, ourives, astrólogos, carteiristas e as
espectaculares prostitutas. Poucos se queixavam por Baco e Vénus serem mais
venerados em Avignon do que Jesus Cristo.
Um dos que realmente se queixaram foi Petrarca, o grande académico e Poeta
Laureado do Império. Uma coisa que o deixou irritado foi o facto de Benedito XII ter
desejado a sua irmã. Recusou mesmo um chapéu de cardeal como parte do negócio.
Mas Benedito, mesmo assim, conseguiu tê-la; subornou o irmão do poeta, Gerardo.
Depois de ter estado em Avignon, Petrarca descreveu — anonimamente, porque não
queria ir para a fogueira — a corte papal como «a vergonha da humanidade, uma
sarjeta de vícios, um esgoto onde se junta toda a porcaria do mundo. Lá, Deus é
desprezado, só o dinheiro é que é venerado, e as leis de Deus e dos homens são
espezinhadas. Tudo lá exala mentira: o ar, a terra, as casas e sobretudo os quartos de
dormir».
O Papa Clemente sofria de uma “enfermidade” diagnosticada oficialmente como um
problema de rins, mas que tinha sido contraído no seu quarto de dormir. Ele não fora
prudente nas suas aventuras amorosas, toda a gente o sabia, mas isso fazia parte da
sua liberalidade. Nunca foi capaz de negar os seus favores, mesmo na cama. “Sessões
de indulgência plena”, assim eram chamadas. Mas ultimamente tinha já legitimado
todos os filhos.
Uma grande parte do seu palácio foi entregue à Inquisição. A câmara de tortura era
ampla, sólida e aberta no topo, com paredes irregulares, nas quais ecoavam os gritos
estridentes dos prisioneiros no meio do silêncio. Para encorajar os frades, Clemente
trepou uma ou duas vezes a escada em caracol de La Salle de Torture até à masmorra
por cima daquela, onde havia um buraco no meio do soalho. De gosto delicado como
era, não gostava de ver os corpos estropiados a serem lançados pelo buraco e a caírem
na câmara de tortura, mas, raciocinava ele, a heresia tinha de ser eliminada de qualquer
maneira.
Froissart, o diarista francês, viria a chamar ao palácio de Avignon «o edifício mais
belo e mais forte do mundo». Sete torres erguiam-se para o céu e, em frente, espessas
paredes brancas com balestreiros belamente guarnecidos de mísulas reflectiam o sol.
Do cume, Clemente podia olhar em baixo o Ródano correndo sob a grande ponte de
Saint-Bénézet. Esta ponte, com o seus dezanove arcos, levou doze anos a construir e
alguns dos arcos assentam na ilha no meio do rio. Os jovens costumavam dançar e
cantar debaixo dela e fazer amor sobre a relva. «Sou le pont d’Ávignon on y dance tout
en rond».
Sua Santidade admirava a beleza de todas as coisas. Em primeiro lugar, a da mulher,
essa puríssima arquitectura de carne, mas também a dos edifícios de pedra. As suas
tapeçarias vinham de Espanha e da Flandres, os tecidos de ouro, de Damasco, na Síria,
as sedas, da Toscânia, os tecidos de lã, de Carcassonne. A baixela de ouro e prata que
pesava à volta de duzentos quilos, era-lhe muito querida. Ele queria desesperadamente
ganhar as guerras italianas e reconquistar a Terra Santa para Cristo, mas não se isso
significasse ter de vender a sua baixela. Ficaria muito mais barato mandar os seus trinta
capelães rezar por milagres.
Desconfiava que fora Petrarca que escrevera aquele malévolo poema sobre como
em Avignon os cavalos tinham ferraduras de ouro. O pontífice sabia que uma tal calúnia
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não afectava a sua reputação. Só os freios é que eram de ouro. Ele era o papa; tinha de
pôr um certo ar. Os cardeais em particular apreciavam muito esta sua generosidade.
Não era com tostões que se podia construir as suas grandes habitações do outro lado
do Ródano, em Villeneuve, ou mantê-las com o necessário corpo de cento e cinquenta
serviçais.
O refúgio favorito de Clemente era um pequeno quarto na torre, com um cama de
casal, com a fragrância do perfume da Condessa de Turenne. No tempo de Clemente V,
aqueles que procuravam as bênçãos do pontífice deixavam as suas petições no seio
sedoso da bela Perigord, filha do Conde de Foix. Mas Clemente VI achava que a sua
condessa não tinha comparação. De todos os colos em que a sua nobre cabeça
repousara, o de Cecília era de longe o mais doce.
Apesar de ter feito da Cúria a máquina financeira mais eficiente da história, andava
sempre com dificuldades de dinheiro. A compra da cidade inteira em 1348 tinha-lhe
custado oitenta mil florins. Considerava este negócio o melhor investimento alguma vez
feito por um papa, mas alguns andavam a dizer que a Igreja nunca mais se recomporia
daquela sua imprevidência.
Em 1350, o distrito de Avignon estava muito movimentado com os peregrinos a
caminho de Roma. Chegavam aos milhares, vestidos com os tradicionais mantos de
viajante ou trajos nacionais. Uns vinham a cavalo, outros em carroças a abarrotar com
os seus haveres; a maioria vinha a pé, de cajado na mão. Clemente apreciava o
simplismo da sua piedade. Levavam semanas a chegar a Roma, para o Jubileu,
trilhando sombrios desfiladeiros alpinos cobertos de neves eternas antes de chegarem
às encostas revestidas de ciprestes e vinhas da Itália e iniciarem a longa jornada para
sul. Muitos nunca lá chegavam; morriam de velhice ou de doença, eram assaltados ou
assassinados. Os mais afortunados depunham as suas dádivas no túmulo de S.Pedro
para os clérigos as apanharem como feno e as mandarem ao sucessor de Pedro em
Avignon.
Bonifácio VIII decretara um Jubileu em cada século. Para Clemente isto parecia
mesquinho. Reduziu o prazo para cinquenta anos. Os resultados surpreenderam-no a
ele próprio, mas a maioria dos peregrinos queria agradecer a Deus o ter escapado à
Peste Negra. Em três anos, a Peste dizimou um terço da Cristandade, incluindo Roma.
Avignon perdera mais de metade da população. Quando a doença começou a atacar,
como não notasse qualquer movimento no interior do mosteiro Carmelita, uma alma
corajosa forçou a entrada e encontrou todos os 166 monges mortos. Num único dia, o
balanço das vítimas na cidade foi de 1312. As pessoas contaminadas morriam
geralmente em quarenta e oito horas. Algumas cidades ficaram vazias. O gado nos
prados e colinas morria por falta de assistência. Os barcos no mar, com a tripulação
toda morta, despedaçavam-se contra as rochas. Muitos culpavam os Judeus,
queimando, enforcando e afogando milhares deles num piedoso esforço para se verem
livres da peste. Em Avignon, Clemente protegera os Judeus. Portanto não lhe agradava
nada ouvir dizer que não foram os Judeus, mas sim a vida dissoluta do papa que
provocou aquela calamidade. Se ele tivesse descoberto o autor desta afirmação tê-lo-ia
mandado torturar e queimar como àqueles monges e frades, chamados “espirituais”,
que insistiam, contra toda a evidência, que Jesus tinha vivido na pobreza e não como as
«prostitutas da Nova Babilónia», como Avignon era conhecida.
Havia muitas pessoas em Roma que desejavam que o pontífice regressasse à sua
diocese. A Rainha Bridget da Suécia era uma delas, e a jovem Catarina de Siena era
outra. As duas, que mais tarde viriam a ser canonizadas, passavam os dias a rezar e a
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escrever longas cartas a Clemente. Apelavam a que pusesse fim àquele escândalo e
regressasse a casa.
Bridget, com quase cinquenta anos, era famosa pelas suas visões e sonhos. Por
vezes, quando contava os mais perturbadores de entre eles, os cidadãos cercavam-lhe
a casa na Piazza Farnese, em Roma, gritando que a Principessa, como lhe chamavam,
devia ser queimada como bruxa.
Jesus falara com ela pela primeira vez quando ela era ainda uma criança. Nunca
mais esqueceu aquela visão do seu amado estendido sobre as tábuas, como uma ave
de rapina pregada na porta de um celeiro. Na sua noite de núpcias, só pediu ao esposo
Ulf uma coisa: que o casamento deles fosse virginal. E assim foi durante dois anos.
Depois, teve oito filhos em rápida sucessão.
Houve um sonho que abalou mesmo esta austera dama. Apareceu-lhe S.Lourenço, o
diácono. «Este Bispo» disse ele, sem querer mencionar o nome do papa, «permite aos
padres a fornicação. Dá os bens da Igreja aos ricos». O santo desapareceu para dar
lugar a um alto cavaleiro em brilhante armadura. Bridget aproximou-se dele, tirou-lhe o
elmo, mas não foi uma forma humana que ela viu. Apenas uma carcassa mal cheirosa
de ossos ocos e vermes a contorcerem-se. Isto, ela sabia, era o papa cheio de pústulas,
moribundo e já mostrando sinais de decomposição. Se se lhe pudesse tirar a cabeça e
olhar-lhe a alma era isto o que se veria. Aquela massa fedorenta tinha orelhas na testa
para escutar a adulação; olhos na parte de trás da cabeça para ver só a podridão; e no
coração abrigava um enorme verme.
Nem mesmo Bridget podia prever que a nobre cabeça de Clemente, acariciada pelas
mais encantadoras damas da Provença, seria um dia usada como bola pelos
Huguenotes ou que o seu crânio acabaria como taça na mesa do Marquês de Courton.
Em 3 de Dezembro de 1352, um vento quente e húmido, fora de época, vindo de
África, atingiu Roma. O calor era insuportável, estava a gerar-se uma trovoada. A
escuridão ameaçadora foi subitamente rasgada por relâmpagos; nesse mesmo
momento, houve um estalido muito vivo e um estranho toque metálico de sinos. Bridget
sentiu que o raio tinha caído perto. Saindo de casa no meio da escuridão de breu e da
chuva torrencial, dirigiu-se instintivamente para a Basílica de S.Pedro. A basílica tinha
sido atingida e os sinos tinham derretido. No mercado, toda a gente começou a festejar.
«Morreu. Sim, o papa morreu e está enterrado bem fundo no Inferno».
Três dias depois, os sinos de Avignon dobravam a anunciar oficialmente que o Bispo
de Roma, Clemente VI, de feliz memória, já não vivia. Durante nove dias seguidos,
naquela enorme capela, agora a gelar, cinquenta padres disseram missa pelo repouso
da sua alma.
Os misericordiosos diziam: Não chega. Os desapiedados diziam: Nunca será demais.
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6
A Descida do Papado aos Infernos
Em muitas gerações de católicos se disse: «O papado atingiu agora o seu nível mais
baixo». Disse-o Dante de Bonifácio VIII. Disse-o Petrarca do Exílio Babilónico no período
de Avignon. Ambos os eminentes poetas estavam enganados. Os dias mais negros
ainda estavam para vir.
A podridão instalou-se quando Catarina de Siena foi a Avignon para pressionar o
pontífice reinante, Gregório XI, a voltar para Roma. Era o ano de 1377. Sete papas
franceses seguidos tinham tornado o seu cantinho da Provença a maravilha do mundo.
As mulheres da corte papal, despeitadas, não tiveram piedade de Catarina, aquela
freira pálida e rude da Toscânia que parecia ter encantado sua Santidade. Talvez ele
tivesse ficado impressionado com o seu êxtase na comunhão. Se ela se tornasse muito
influente, elas teriam de fechar os seus salons, onde jovens deslumbrantes, filhos de
duques e príncipes, vinham à procura de cargos eclesiásticos. Na capela revezavam-se
para lhe picarem e beliscarem o corpo insensível para ver se o seu transe era genuíno
ou não. Uma malvada furou-lhe um pé com uma agulha comprida de tal maneira que
Catarina ficou impossibilitada de andar durante dias.
No fim ela ganhou. Gregório voltou para Roma, sem seis dos seus cardeais que não
conseguiam deixar as suas casas apetecíveis, as suas mulheres provençais e os seus
vinhos da Borgonha. Um ultimato dos Romanos, segundo o qual se ele não voltasse
eles elegeriam outro papa, pode também tê-lo influenciado. Em 278 anos, desde 1100,
os papas só tinham passado oitenta e dois em Roma. Estes papas nómadas tinham
passado uns longos 196 anos noutras partes. Não era um bom recorde; e o exemplo
não se ficou pela Igreja.
A Cidade Eterna depressa acabou com Gregório. Depois é que a verdadeira tragédia
de Avignon se revelou.
Um papa, dois papas
Depois da morte de Gregório, o conclave, reunido para nomear o sucessor, estava
dividido em duas facções, franceses e italianos. Durante o exílio, sete papas de Avignon
tinham feito 134 cardeais, todos eles franceses, à excepção de vinte e dois. Os
franceses estavam naturalmente determinados a manter o papado para si próprios.
Como Latrão tinha ardido, o conclave reuniu no Vaticano.
Lá fora, uma multidão de, segundo se dizia, trinta mil pessoas gritava-lhes que
escolhessem finalmente um italiano. A escolha era muito limitada. Havia apenas quatro
cardeais italianos e nenhum deles papabile. Para lograr o seu intento, a multidão encheu
de lenha a sala que ficava por cima do local da reunião e por baixo passaram toda a
noite a bater nas tábuas do soalho com lanças e alabardas. E como se isto não
bastasse, tocaram o sino do Capitólio, a que se juntaram os sinos da Basílica de
S.Pedro. De manhã a multidão perdeu completamente a paciência e arrombou a porta
do conclave.
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Dos dezasseis cardeais presentes, todos esfomeados e sem dormir, treze votaram num
estranho, Bartolomeu Prignano, o Arcebispo de Bari, entroncado, de pequena estatura e
rosto amarelado. Não era romano. Um napolitano foi o melhor que eles puderam
arranjar. Na dúvida de que aquilo fosse suficiente, vestiram, contra sua vontade, um
romano octogenário, o Cardeal Tebaldeschi, com as vestes papais e mostraram-no. Um
mensageiro partiu apressadamente para Pisa, onde a eleição de Tebaldeschi foi
celebrada com fogo de artifício. Entretanto, os franceses fugiram a sete pés. Durante
dois dias ninguém se preocupou em dar a notícia a Prignano nem a prestar-lhe as
costumadas homenagens. Quando finalmente soube, tomou posse com o nome de
Urbano IV.
O Arcebispo de Bari, de família humilde, fora durante quinze anos um funcionário da
Cúria muito meticuloso, mas pacífico e obediente. Os nobres cardeais franceses tinham
a certeza de que ele continuaria a fazer o que lhe mandassem e que levaria a corte de
volta a Avignon. Enganaram-se grave e redondamente sobre o seu homem.
Urbano IV veio a revelar-se um dos pontífices mais rancorosos e de temperamento
mais vil. O seu médico revelou que ele mal tocava na comida, mas não podia passar
sem o álcool. Segundo o Cardeal da Bretanha, no banquete da coroação, ele bebeu oito
vezes mais do que qualquer dos outros membros do Sacro Colégio — embora alguns
tenham dito que isto não era humanamente possível. A bebida, a religião e a vingança
— todos em excesso — provaram ser uma potente mistura.
Nascido e criado nas vielas malcheirosas de Nápoles, não tinha estômago para os
fracos e pretensiosos cardeais franceses. Contava-se que lhes pregava sermões como
Jeremias com dores de barriga. Queria corrigi-los a qualquer preço. Na sua voz aguda
de eunuco, falava-lhes abertamente do Cardeal Orsini como sendo sotus (“pateta”). Uma
vez, de rosto vermelho de raiva, só não bateu no Cardeal de Limoges porque Robert de
Geneva lhe segurou o braço. «Que fazeis, Santo Padre?» Quando estava para
excomungar outro membro de Sacro Colégio por simonia e Geneva interveio de novo,
Urbano ladrou como um cão: «Eu posso fazer tudo, absolutamente tudo o que quero».
Um grande número de cardeais considerava que aquelas fúrias eram sintoma de
loucura. Consultaram um jurista respeitado: Haveria algumas circunstâncias em que os
cardeais pudessem substituir-se a um papa incapacitado? Urbano soube disto e provou
que ainda estava no seu juízo perfeito.
Primeiro, excomungou um velho inimigo, o Rei Carlos de Nápoles, que acusou de
estar por detrás daquela “rebelião”. O rei reagiu bloqueando Sua Santidade na sua
fortaleza de Nocera, perto de Pompeia. Urbano subia às muralhas quatro vezes por dia,
e serenamente, com a campainha, o livro e a vela, excomungou todo o exército que o
atacava. Parecia ignorar as setas que caíam à sua volta.
Resgatado pelos Genoveses, mandou prender os cinco cardeais rebeldes. Foi visto
depois em Génova, possivelmente entorpecido pelo álcool, a passear de um lado para o
outro no jardim e a recitar o breviário a plenos pulmões. Numa câmara próxima, estavam
os rebeldes a ser torturados. Os seus gritos não perturbavam de modo nenhum a sua
paz com Deus.
Amarrado, o velho Cardeal de Veneza estava a ser levantado e baixado numa
roldana. Com a cabeça comprimida contra o tecto, conseguia ver o papa através das
grades da janela, e de cada vez resmungava em agonia: «Santo Padre, Cristo morreu
pelos nossos pecados». Depois era descido até ao chão. Os prisioneiros nunca mais
foram vistos.
Alguns cardeais franceses escapuliram-se separadamente e reuniram-se de novo em
Anagni, onde prepararam uma Declaratio contra Prignano. Ele não era papa. Apenas o
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tinham elegido, afirmavam eles, com medo da multidão. Escolheram outro pontífice:
Robert de Geneva, primo do rei de França, que se chamou Clemente VII. Urbano contra-
atacou nomeando vinte e seis novos cardeais que lhe deviam fidelidade.
Já tinha havido dois papas em numerosas outras ocasiões, mas a presente crise era
única. Estes dois papas tinham sido eleitos por mais ou menos o mesmo grupo de
cardeais. Assim, quando estes afirmavam que a sua escolha de Urbano não tinha sido
genuína, faziam-no com autoridade, mesmo que estivessem a mentir.
Na Inglaterra, Wycliff lançou o primeiro sarcasmo: «Eu sempre soube que o papa
tinha os cascos fendidos. Agora tem também a cabeça».
A Cristandade foi obrigada a tomar partido. Se Urbano tinha sido de facto escolhido
sob coacção, a eleição era inválida. Mas se eles estavam assim tão amedrontados por
que é que não tinham escolhido um romano — por exemplo, o velho Tebaldeschi — e
não se tinham retirado logo para Anagni para registar uma queixa oficial? A escolha de
um saudável Napolitano e uma demora de três meses eram suspeitas. Como Catarina
de Siena sensatamente lembrou, se eles já tinham um falso papa em Tebaldeschi, para
que é que precisavam de outro? Dava a impressão de que os franceses se queriam
descartar de alguém com quem não era possível uma relação.
Seguiu-se o caos. Um papa ausente já era uma coisa bastante penosa; agora a
própria Sede da Unidade estava a tornar-se fonte de desunião. Pelo decreto de eleição
de 1059, um papa não canonicamente eleito pontífice romano era chamado de “o
Destruidor da Cristandade”. Isto provou-se ser o caso. Se os cristãos não conseguiam
identificar o verdadeiro papa, para que servia o papado? O rei da Inglaterra apoiou
Urbano, o rei de França, Clemente. Nas universidades não havia consenso.
O coxo e vesgo Clemente VII, como era de prever, voltou com os seus seguidores
franceses para Avignon, onde a sua conduta foi tão má que não se tornou em nada
diferente de um genuíno papa de Avignon. Já provara ser matéria prima papal quando,
em 1377, agira como legado do papa em Cesena, no Adriático. Os locais protestaram
contra os mercenários que violaram as suas mulheres, e mataram alguns dos culpados.
Depois de conferenciar com os responsáveis da cidade, convenceu-os a deporem as
armas. Em seguida enviou para lá uma força mista de Ingleses e Bretões para chacinar
todos os oito mil habitantes, incluindo as crianças.
Dois papas, três papas
Em Outubro de 1389, Urbano, o papa que ninguém queria, realizou a única boa acção
da sua vida: morreu. Os catorze cardeais que restavam em Roma escolheram para o
substituir Bonifácio IX, um assassino e provavelmente o maior simoníaco da história.
Vendeu todos os benefícios eclesiásticos a quem deu mais, daí resultando que a
Alemanha e a França enxameavam de padres italianos, muitas vezes soldados
reformados, que não sabiam uma palavra da língua. Os irmãos de Bonifácio, os
sobrinhos e sobretudo a mãe foram quem mais beneficiou desta sua liberalidade. Dizia-
se que ninguém jamais fizera tanto dinheiro com as canonizações. Nunca assinava
qualquer documento sem logo estender a mão a exigir: «Um ducado». A única coisa por
que ele não cobrou dinheiro foi a excomunhão de Clemente de Avignon. Clemente
retribuiu-lhe o cumprimento.
E assim continuaram as coisas. Quando morria um papa ou um antipapa, em vez de
porem um fim à situação, os respectivos grupos de cardeais escolhiam um sucessor. O
que são os cardeais sem um papa próprio?
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Por esta altura, a Cristandade começava a ficar farta. Quem é que, afinal, quer
comprar um bispado ou uma abadia a um pontífice que se revela um impostor? E se
uma indulgência muito cara ou a autenticação de umas relíquias como o prepúcio do
Salvador ou o seu umbigo não valessem o pergaminho em que estavam escritos? Havia
mesmo confusão no céu. Bridget da Suécia viria a ter um recorde de três canonizações
para se ficar com a absoluta certeza de que era mesmo santa.
O cisma também era mau para o negócio. Os banqueiros coração-de-pedra rezavam
fervorosamente para que aquilo acabasse. Toda a vida do Império estava desintegrada.
Quem diabo é que iria coroar o próximo imperador?
Das universidades veio a sugestão de que, uma vez que a unidade da Igreja era
prioridade maior do que o papado, e que Cristo, e não o pontífice romano, é que era o
Chefe supremo da Igreja, era melhor retirar o apoio a ambos os papas. Os historiadores
convidaram o imperador a depô-los com o sólido fundamento de que já muitos
imperadores tinham feito isso antes e que a sua intervenção seria universalmente
aplaudida. Contudo, a partir do papa-menino, no século XI, o papado tornara-se mais
poderoso do que qualquer imperador. E agora, apesar de toda aquela confusão, um dos
papas era autêntico. E se o imperador destituísse o papa errado? Não seria o mesmo
que retirar a Bíblia da Igreja e substituí-la pelo Corão? O mesmo dilema se poria a um
Concílio. Se se reunisse um Concílio para depor ambos os pretendentes, uma das
deposições seria inválida, mas qual delas? Um outro problema era que os juristas desse
tempo afirmavam que só um papa — o genuíno — podia convocar um Concílio.
O estado catastrófico da Igreja significava que tinha de se fazer qualquer coisa, a
despeito da névoa canónica.
Em 1409 foi convocado um Concílio na maravilhosa cidade muralhada de Pisa, cuja
torre, tal como a própria Igreja, já estava inclinada.
Foi na Duomo, revestida de mármore preto e branco, sob o majestoso retrato de
Cristo de Cimabue, que se reuniram os padres mitrados. Declararam solenemente que
os papas em conflito, Gregório XII de Roma, e Benedito XIII de Avignon, eram ambos
hereges e cismáticos. Foi uma medida inteligente: os papas que caíam em heresia
depunham-se, em certo sentido, a si próprios.
Em meados de Junho escolheram como substituto o Cardeal Filargi de Milão, um
piedoso Franciscano septuagenário e desdentado, de família desconhecida e votado à
pobreza. Tinha três defeitos difíceis de esconder. Embora magro e de pequena estatura,
passava metade do dia à mesa; mantinha um palácio com quatrocentos serviçais, todos
mulheres e todos vestidos de libré; distribuía benefícios eclesiásticos de maneira tão
liberal que até os cardeais ficavam admirados.
Filargi aceitou o nome de Alexandre V. Ao som dos sinos, vestido a rigor, desde as
sapatas vermelhas à tiara, Filargi percorreu as ruas de Pisa, montado num cavalo
branco.
Os prelados saudaram-no aliviados. Passados trinta confusos anos, o Grande Cisma
terminava.
Só que Gregório e Benedito não concordaram, e assim o mundo acordou um dia
espantado com a notícia que lhe chegava: ontem tínhamos só dois papas, agora temos
três.
Dizia um galhofeiro que a tiara tripla devia ser dividida, uma vez que a Igreja agora
tinha três cabeças para pô-la. Tornou-se muito popular uma nova versão do Credo:
«Creio em três Santas Igrejas Católicas». Os fiéis já tinham suportado gerações de
papas ausentes, com períodos de dois a três anos em que não havia papa nenhum por
os cardeais não se entenderem. O cenário actual era o pior de todos.
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A única certeza saída de Pisa devia ter sido a de que o homem que eles escolheram
não era papa; depois seguiu-se um espectáculo nunca visto: três papas infalíveis, todos
a reclamarem a suprema autoridade sobre a Igreja, todos a excomungarem solenemente
os outros dois, todos a ameaçarem convocar um Concílio próprio em três lugares
diferentes.
Os dramatis personae deste teatro do absurdo eram os seguintes:
(1) Angelo Corrario, Gregório XII, veneziano, com perto de noventa anos e muitos
“sobrinhos”, descendente em linha recta do intratável Urbano VI. Fora escolhido
pela jurisdição romana porque, como o Cardeal de Florença confessou, «É velho
e frágil demais para ser corrupto». Outro erro fatal. O primeiro acto papal do
velho homem foi empenhar a tiara por seis mil florins para pagar as suas dívidas
de jogo. Foi para Rimini e daí vendeu em Roma tudo o que era móvel e algumas
coisas que o não eram, como a própria Roma, por exemplo, ao rei de Nápoles.
(2) Piedro da Luna, um espanhol histérico, que representava a ressuscitada jurisdição
de Avignon. Era o que menos contava. Deixado cair pelo rei de França e por
todos menos três dos seus cardeais, em breve voltou para a sua Espanha natal,
onde insistia que era o verdadeiro papa e praticamente excomungou toda a
Igreja.
(3) Baldassare Cossa, João XXIII. Alexandre V morrera passados apenas dez meses
e era Cossa, um pontífice melífluo, encantador e cruel, quem representava a
jurisdição de Pisa. Constava que nunca se confessara nem comungara. E nem
acreditava na imortalidade da alma nem na ressurreição dos mortos. Alguns
duvidavam que ele acreditasse em Deus.
Era conhecido como antigo pirata, envenenador de papas (pobre Filargi),
assassino em série, fornicador em série, com queda para as freiras, adúltero
num grau desconhecido fora da ficção, simoníaco por excelência, chantagista,
proxeneta, mestre em estratagemas sujos.
Quando da sua eleição para o papado em Bolonha, Cossa era diácono.
Ordenado padre num dia, no outro foi coroado papa.
Este charlatão foi reconhecido pela maioria dos católicos como senhor e
soberano que mantinha a Igreja unida pela sua fé de pedra. Quando um outro
Papa João XXIII foi eleito em 1958, várias catedrais católicas tiveram de retirar à
pressa o nome do João XXIII do século XV das suas listas de pontífices.
Um concílio muito embaraçoso
A maré de sorte de Cossa virou quando Segismundo, imperador eleito, o persuadiu a
convocar um Concílio «para reduzir o número de papas, de acordo com o Evangelho».
O local seria a cidade muralhada de Constança no sul da Alemanha, na fronteira com a
Suíça. Em apenas meses a sua população iria aumentar de seis mil para sessenta mil e
depois duplicar.
Quando o clero se reunia em grande número era sempre prudente escolher uma
cidade perto da água — lago ou rio — para se desfazerem dos corpos. O Lago
Constança recebeu mais de quinhentos durante os trabalhos do Concílio; também o
Reno escondeu muitos segredos. Outro requisito era que o local do encontro fosse
suficientemente grande para acomodar o vasto número de prostitutas que achavam que
o clero requeria os seus serviços mais urgentemente do que os militares e pagava
92
preços mais interessantes. Durante o Concílio foram calculadas em mais de mil e
duzentas as prostitutas em Constança a trabalharem vinte e quarto horas por dia.
No Dia de Todos os Santos de 1414, João XXIII, um flibusteiro de quarenta e oito
anos, cheio de gota, enfeitado de ouro, celebrou missa e pregou na abertura formal do
Concílio Geral. Foi uma reunião maciça, que incluiu trezentos bispos, trezentos teólogos
de topo e os cardeais de todas as três jurisdições.
Huss, reitor da Universidade de Praga, a quem Segismundo tinha garantido
segurança, foi imediatamente preso por ordem de Cossa. Era uma lição para todos,
especialmente para o Papa Benedito (a quem chamavam Benefictus, - “Falso”) e para o
Papa Gregório (que apelidavam de Errorius, - “Erro”).
João XXIII tinha corrido um risco ao atravessar os Alpes para entrar em terras
imperiais, mas tinha votos suficientes no bolso para se sentir seguro. Havia então, como
mais tarde, mais bispos italianos do que de todas as outras nacionalidades juntas. O que
o derrotou foi a decisão do Concílio de se votar não individualmente, mas por nações. A
sua maioria foi imediatamente varrida e ele viu que havia três para um contra ele. A
seguir, às primeiras horas da manhã do dia de Natal, chegou Segismundo, que o
mandou resignar.
Cossa viu a acusação, um enorme catálogo dos seus delitos redigidos com perversa
eficácia. As patroas de todas as casas de prostitutas da Cristandade devem ter
testemunhado contra ele. Quando soube das crescentes exigências, especialmente dos
ingleses, para que o queimassem para acabar com aquilo, concordou em resignar,
desde que os outros dois papas fizessem o mesmo. Depois, disfarçado de criado, saiu
de Constança à noite. Sem papa nenhum, não poderia haver Concílio nenhum, deve ele
ter raciocinado. Entre a mão cheia de cardeais que se lhe juntaram no seu esconderijo a
trinta milhas de distância, em Schaffhausen, estava Oddo Colonna. Os guardas
imperiais trouxeram-no de volta para enfrentar a música.
O Concílio tinha entretanto assumido plena autoridade. Nas quarta e quinta sessões
fez uma declaração de fé unânime, que nunca mais abandonou a Igreja até hoje.
O Sagrado Concílio de Constança […] declara, primeiro, que está
legalmente reunido no Espírito Santo, que constitui um Concílio
Geral que representa a Igreja Católica, e que, portanto, recebeu a
sua autoridade de Cristo; e que todos os homens de todas as
categorias e condições, incluindo o próprio papa, estão obrigados a
obedecer-lhe nas questões de fé, na extinção do cisma e na
reforma da chefia e dos membros da Igreja de Deus.
Eneias Sílvio, que um dia viria a ser o Papa Pio II, escreveu: «Poucos duvidarão de
que um Concílio está acima de um papa». Por que havia alguém de duvidar? A antiga
doutrina da Igreja era que um Concílio Geral era soberano na fé e na disciplina. Com
base nesta doutrina, mais do que um papa foi condenado em Concílios por heresia,
como se verá na Parte 2 deste livro.
Foram momentosas as consequências do Concílio de Constança. Se o papa está
obrigado a obedecer à Igreja nas questões de fé, não pode por si só, e sem o
consentimento da Igreja, ser infalível. De facto, quando fala independentemente do
Concílio, o papa pode bem errar na fé. Esta doutrina foi esbatida por papas medievais
como Gregório VII e Inocêncio III, por meios duvidosos.
O Concílio de Constança, depois de afirmar a sua autoridade sobre o papa,
procedeu à aplicação prática dessa autoridade depondo, em primeiro lugar, Benedito,
que já estava em fuga para Peñiscola.
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A seguir foi João XXIII. Este recusou firmemente a resignação. Os padres do
Concílio concordavam que ele era o papa legítimo, mas a Igreja era mais importante do
que o papado. As acusações contra ele foram reduzidas de cinquenta e quatro para
cinco. Como, caracteristicamente, Gibbon observou em Decline and Fall: «As
acusações mais escandalosas foram suprimidas; o Vigário de Cristo era acusado de
pirataria, assassínio, violação, sodomia e incesto». Toda a gente sabia que, desde que
se tornara Vigário de Cristo, o único ofício que ele exercia era na cama. É muito
significativo o facto de João XXIII ter sido absolvido de heresia, provavelmente por
nunca ter mostrado interesse bastante pela religião para ser classificado como
heterodoxo. Até então, a única acusação suficientemente grave para depor um papa
era a de heresia. Cossa foi deposto simplesmente porque não se comportava como um
papa se deve comportar.
Em 29 de Maio de 1415, os selos oficiais de João XXIII foram solenemente
esmagados a martelo. Mas um ex-papa, tal como um ex-presidente, tem direito à
consideração. Apesar da sua enorme promiscuidade, apenas lhe aplicaram uma
sentença de três anos de prisão.
Huss, corajoso, casto, incorruptível, severamente contrário à simonia e à
concubinagem do clero, teve um destino mais sombrio. Sem direito a defesa, julgado
por uma acusação forjada, interrogado por Dominicanos que não tinham lido os seus
livros, nem sequer em tradução, foi condenado à morte. Com um alto chapéu decorado
com três diabos dançantes, ladeado pelos espadachins do Conde Palatine, foi levado
da prisão num belo dia de verão de 1415. Praticamente toda a cidade seguiu o cortejo,
que passou pelo cemitério onde os livros de Huss estavam a ser queimados num
brilhante prado verde. Rezou pelos seus perseguidores quando o fogo foi ateado. Por
três vezes o ouviram dizer «Cristo, tu que és o filho de Deus vivo, tem misericórdia de
mim» antes de o vento lhe ter soprado as chamas para o rosto. Os lábios ainda se
moviam quando, sem um gemido, expirou. Para evitar que viesse a ser venerado como
mártir, as suas cinzas foram atiradas para o Reno. Era evidentemente maior pecado
dizer, como Huss e o Novo Testamento, que depois da bênção a Eucaristia se devia
ainda chamar de “pão” do que ser um papa cobiçoso, assassino e incestuoso que
enganou a Igreja em tudo.
Finalmente, Gregório XII, agora com noventa anos e muito abatido, convocou o
Concílio, que tinha estado em funções durante meses, e depois resignou. Completadas
estas formalidades, todos os três papas estavam arrumados. A Cristandade podia
respirar outra vez.
Segismundo, ele próprio um libertino, queria reformar rapidamente a Igreja, antes
que um novo pontífice fosse eleito, raciocinando que jamais se poderia confiar num
papa para reformar a Igreja. Durante séculos, argumentava ele, o papado não esteve à
altura de tal tarefa. Nesta altura, os clérigos castos eram tão poucos que aqueles que
não tinham mulher nenhuma eram acusados de vícios ainda piores.
Infelizmente Segismundo não foi apoiado pelo rei de França, nem por Henrique V de
Inglaterra, acabado de sair vitorioso em Agincourt.
O Cardeal Oddo Colonna, que jurara fidelidade a João XXIII quando este fugira para
Schaffhausen, foi escolhido sem demora, e chamou-se de Martinho V. Com cinquenta
e cinco anos, era um eclesiástico de nascimento e criação, sendo filho de um dos
cardeais de Urbano VI, Agapito Colonna. A Igreja tinha de novo um só papa. Agora já
não havia qualquer esperança de reforma, embora se pensasse muito em disciplinar o
clero.
Dois dias depois da eleição, Colonna, que era diácono, foi ordenado padre. Era o dia
13 de Novembro de 1417. No dia seguinte foi sagrado bispo. Uma semana depois,
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após ser coroado papa, foi para o altar para o beija-pé antes do desfile a cavalo, em
procissão, pela cidade. Segismundo e Frederico de Brandenburgo cavalgavam a seu
lado, um à sua esquerda e o outro à sua direita.
Tal como João XXIII, o único objectivo de Martinho era sair de Constança
rapidamente. Não tinha qualquer desejo de reformar a Cúria ou o papado. De facto,
quando Cossa foi libertado da sua confortável prisão em Heidelberga e foi para
Florença, Martinho reintegrou este assassino e violador confesso, fazendo-o bispo de
Frascati e Cardeal de Túscolo.
A ansiedade de Martinho por um rápida saída era compreensível. O maior Concílio a
que o Ocidente tinha assistido tinha decretado que os Concílios Gerais derivavam a
sua autoridade directamente de Cristo. Toda a gente, o papa incluído, está sujeito a ele
em questões de fé, resolução de cismas e reforma da Igreja. O que o deixava numa
posição delicada é que isto fora aprovado por unanimidade. Ele próprio tinha-o votado
favoravelmente como cardeal. Mas a História mostra que o papado quase
invariavelmente transforma um homem logo que ele toma o poder. Ele queria voltar
para Roma onde afirmaria a sua superioridade sobre o Concílio. Por outras palavras,
queria negar o próprio fundamento da sua eleição. Porque se o papa é o chefe
supremo da Igreja, João XXIII é que era o papa, não ele.
Esta tensão não viria a ser resolvida nos 450 anos seguintes. E só aconteceu
quando o Concílio Vaticano I afirmou que a crença na supremacia e infalibilidade papal
era necessária para a salvação. Foi elevado o preço desta resolução. O Vaticano I
contradizia tudo o que estava implícito nos primeiros Concílios da Igreja e o que fora
explicitamente afirmado em Constança. Por exemplo, de acordo com o Vaticano I,
quando um papa fala ex cathedra, as suas definições «são irreformáveis por si próprias
e não por consentimento da Igreja». O Concílio de Constança declarou que o próprio
papa «está obrigado a obedecer-lhe [ao Concílio] em matérias de fé». Esta a razão por
que Thomas More, o leigo mais bem informado do seu tempo, escreveu a Thomas
Cromwell em 1534 dizendo que enquanto que ele cria que a supremacia de Roma foi
instituída por Deus, «contudo nunca pensei que o Papa estivesse acima do Concílio
Geral».
E se o dogma do absolutismo papal do Vaticano I estivesse em vigor antes do
Concílio de Constança? Nesse caso, o Concílio não se teria sentido competente para
depor um papa e a Igreja poderia ter sido vítima da praga de uma trindade durante
séculos. Só negando pura e simplesmente aquilo que viria a tornar-se o dogma central
do Catolicismo Romano é que o Concílio Geral de Constança pôde salvar a Igreja.
Prenúncios de tempestade
Não que o Concílio de Constança tenha realmente salvo a Igreja. O Concílio
terminou sem que fosse aprovada uma única reforma importante. Semanas depois de
voltar para Roma, Martinho já tinha dado a sua bênção ao sistema curial, que antes de
mais, tinha feito ajoelhar a Igreja.
A Cristandade estava em estado de desespero. No século X, apesar de todos os
papas adolescentes, adúlteros e assassinos, o papado era um fenómeno localizado. O
chefe de uma família romana poderosa punha o seu querido filho adolescente no trono;
o rapaz provocava distúrbios durante alguns meses ou anos agitados e era emboscado
pelos membros de uma família rival cuja hora tinha chegado.
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Mas a partir do século XI, Gregório tinha aposto o seu selo no papado, cuja estatura
e prestígio cresceram; conseguiu controlar toda a Igreja, desde o mais simples pároco
de aldeia até ao mais poderoso arcebispo. O resultado foi a mais terrível corrupção que
o Cristianismo jamais vira ou que provavelmente virá a ver.
E isto começou de cima. O papado era leiloado em conclave e entregue a quem
mais desse, independentemente do mérito do candidato. Um historiador do século XIX,
T. A. Trollope, no seu livro The Papal Conclaves (1876) avaliava as coisas assim:
«Poucas ou nenhumas eleições papais foram mais do que simoníacas. […] A invenção
do Sacro Colégio foi, afinal, talvez a mais fértil fonte de corrupção da Igreja». Muitos
cardeais iam para Roma para o conclave acompanhados dos seus banqueiros.
Levavam os seus valores, especialmente as suas baixelas de prata; se eram eleitos
papas, a multidão romana saqueava os seus palácios, e até levava portas e janelas.
Os cardeais raramente eram escolhidos por serviços prestados à Igreja. Deviam a
sua posição à trapaça e à intriga. No tempo do Renascimento quase todos tinham as
“suas companheiras”. Uma vez escolhido de entre tais homens, o novo papa, com
dinheiro fresco para sacar, não perdia tempo e começava logo a promover os familiares
— filhos, sobrinhos, sobrinhos bisnetos — sem o mínimo pejo, segundo o princípio
italiano “Bisogna far per la famiglia” (“Temos que fazer pela família”). O tempo era um
factor essencial uma vez que o papado não é hereditário e o papa podia dispor apenas
de alguns meses ou anos para estabelecer uma dinastia. Daí que tantos pontífices,
logo que punham a tiara, olhassem à volta à procura de meios para encher os bolsos.
Um bom exemplo disto foi, no século XIII, Clemente IV, que era viúvo. Vendeu milhares
de italianos do sul a Carlos de Anjou a troco de um tributo anual de oitocentas onças de
ouro. De acordo com os termos do contrato, se o duque se atrasasse no pagamento
seria excomungado. Se o atraso se mantivesse, todos os seus territórios seriam
interditos. Para um papa, privar distritos inteiros de missa e sacramentos simplesmente
por os príncipes não honrarem os seus débitos, não constituía pecado.
Os cardeais tinham enormes palácios com inúmeros serviçais. Um assessor papal
conta que nunca ia falar com um cardeal que não o encontrasse a contar as suas
moedas de ouro.
A Cúria era composta por homens que tinham comprado o cargo e queriam
desesperadamente recuperar a despesa feita. Todos os cargos em todos os
departamentos tinham o seu preço. Estes cortesãos exerciam o poder do dia a dia com
tremendas sanções à sua disposição. Podiam excomungar qualquer pessoa. Os bispos
e os arcebispos tremiam perante eles.
Era a Cúria que estabelecia a tarifa da simonia. Para cada benefício de sé, abadia e
paróquia, para cada indulgência, havia uma determinada tarifa. O pálio, uma faixa de lã
de cinco centímetros de largura, com cruzes bordadas em seda preta, era paga por
todos os bispos. Estes modestos enfeites de lã produziram ao longo dos anos centenas
de milhões de florins para os cofres papais, de tal maneira que o Concílio de Basle em
1432 havia de lhe chamar «a maquinação mais usurária inventada pelo papado». No
século XVI, na Alemanha, dioceses inteiras foram dadas em arrendamento aos
banqueiros, como os Fuggers, e a sociedades que vendiam os benefícios a retalho ao
licitante que mais oferecesse.
As dispensas eram outra fonte de rendimento papal. Aprovaram-se leis
extremamente severas ou mesmo impossíveis para que a Cúria pudesse enriquecer
com a venda das dispensas. Exigia-se o pagamento das dispensas de jejum durante a
Quaresma, como também para autorizar um monge doente ou velho a ficar na cama
em vez de se levantar de noite para o seu ofício divino. O casamento, em particular,
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era uma rica fonte de rendimento. Alegava-se haver laços de consanguinidade entre
casais que nunca tinham imaginado serem parentes. As dispensas de consanguinidade
para casar montavam a um milhão de florins de ouro por ano.
Presumia-se durante o Renascimento que os clérigos do topo da hierarquia tinham
as mais lindas mulheres, e havia dioceses inteiras onde a concubinagem do clero se
passava perfeitamente às claras. O clero romano, ali mesmo debaixo do nariz da Cúria,
era o pior de todos. Nada disto é de admirar. Compravam-se e vendiam-se ofícios e
benefícios como qualquer outra mercadoria. O clero não tinha qualquer prática de
autodisciplina. Eles queriam simplesmente uma sinecura e uma vida ociosa. Muitos não
sabiam ler nem escrever; estavam no altar a murmurar idiotices ininteligíveis porque
nem conseguiam papaguear o latim. O pior insulto que se podia dirigir a um leigo nesta
altura era chamar-lhe padre.
Depois do Concílio de Constança, levantaram-se protestos por toda a parte. O
próprio Martinho V admitia que muitos estabelecimentos religiosos eram antros de
vício. Os bispos, as universidade e os mosteiros clamavam por um Concílio para
reformar os abusos. A Cúria, superada e vencida em Constança, persuadiu o papa de
que um Concílio não seria vantajoso para ele.
Contudo, em Constança, tinha-se tomado um compromisso solene de que haveria
um Concílio dentro de dez anos, e depois em intervalos regulares. Apesar dos esforços
da Cúria para o inviabilizar, realizou-se um Concílio em Basle em 1432. Os bispos
mostraram que as suas intenções eram sérias.
A partir de agora, todas as nomeações eclesiásticas serão feitas de
acordo com os cânones da Igreja; toda a simonia cessará. A partir
de agora, todos os padres, da mais alta ou mais baixa categoria,
deixarão as suas concubinas, e quem quer que, a partir de dois
meses após este decreto, não cumpra as suas exigências será
privado do seu ofício, mesmo que seja o Bispo de Roma. A partir de
agora, a administração eclesiástica de cada país deixará de
depender do capricho do papa. […] Acabará o abuso, por parte do
papa, do banimento e do anátema. […] A partir de agora, a Cúria
Romana, isto é, os papas, não exigirão nem receberão quaisquer
taxas pelos ofícios eclesiásticos. A partir de agora, um papa deve
pensar não nos tesouros deste mundo, mas tão só nos do mundo
vindouro.
Isto não era brincadeira. Brincadeira nenhuma. O papa em exercício, Eugénio IV,
convocou o seu próprio Concílio em Florença. Rotulou o Concílio de Basle de «uma
turba de pedintes, simples criaturas ordinárias, a escória do clero, apóstatas, rebeldes
blasfemos, sacrílegos, cadastrados, homens que, sem excepção, apenas merecem ser
acossados de volta para o diabo de onde vieram».
O papado desperdiçou esta oportunidade; e não viria a haver outra. O mesmo
século que viu Eugénio IV reprovar os melhores esforços de Basle para uma reforma,
acabaria com o papa que, acima de todos, tinha vindo do diabo: Alexandre Bórgia.
A tempestade em formação
No século XV não houve uma única voz que se levantasse em defesa do papado.
Com homens como Francesco de la Rovere no trono não é difícil perceber porquê.
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Francesco tornou-se Sisto IV em 1471. Teve vários filhos, a que chamavam, de
acordo com o costume da época, “os sobrinhos do papa”. Sisto deu o chapéu
cardinalício a três sobrinhos e a seis outros parentes. Entre os beneficiários estava
Juliano de Rovere, o futuro Júlio II.
O favorito de Sisto era Pietro Riario, que o historiador Theodor Griesinger acreditava
ser filho dele e da própria irmã. O novo papa tinha certamente uma grande amizade
pelo rapaz. Fê-lo Bispo de Treviso, Cardeal Arcebispo de Sevilha, Patriarca de
Constantinopla, Arcebispo de Valência e Arcebispo de Florença. Até então Pietro fora
franciscano. Todos os anos queimava o hábito para matar os parasitas. Quando se
tornou cardeal, mudou. Tornou-se um perdulário em grande escala, mantendo
mulheres a quem fornecia bacios de ouro. Os cronistas da época queixavam-se da vil
utilização dada aos tesouros da Igreja. Riario viria a morrer ainda novo, completamente
consumido.
Sisto IV construiu a capela que tem o seu nome, e onde todos os papas são agora
eleitos. A capela já viu pompa e ignomínia. Os cardeais já lá fizeram piqueniques, já lá
acamparam, já lá dormiram e até muitas vezes andaram à pancada. Debaixo da
abóbada, guardou Napoleão os seus cavalos. A capela Sistina não é mais do que um
ornamento num Vaticano que rapidamente ganhou esplendor na arte e na arquitectura,
enquanto no seu interior grassava a corrupção.
Sisto foi o primeiro papa a licenciar os bordéis de Roma; rendiam-lhe trinta mil
ducados por ano. Também ganhou consideravelmente com um imposto lançado sobre
os padres que mantinham amantes. Outra fonte de rendimento era garantir privilégios
aos ricos «para que eles pudessem consolar certas matronas na ausência dos
maridos».
Foi no campo das indulgências que Sisto mostrou um toque de génio. Foi o primeiro
pontífice a decidir que elas podiam ser aplicadas aos mortos. Até ele ficou admirado
com a sua popularidade. Estava ali uma fonte inesgotável de rendimento em que nem
mesmo os mais cobiçosos dos seus antecessores tinham sonhado. As suas
implicações eram de cortar a respiração: o papa, criatura de carne e osso, tinha poder
sobre o mundo dos mortos. As almas a penar pelos seus pecados podiam ser
resgatadas pela sua palavra, desde que os seus parentes piedosos esvaziassem os
bolsos. E quem é que o não faria se tivesse um pouco de bondade cristã? Viúvos e
viúvas, pais que choravam os filhos, gastavam tudo na tentativa de tirar os seus entes
queridos do Purgatório, que era pintado com cores cada vez mais lúgubres.
Rezar pelos mortos era uma coisa, pagar por eles era outra. As pessoas simples
eram levadas a pensar que o papa, ou aqueles que vinham à aldeia vender o perdão
do papa, garantiam que os seus mortos iriam para o céu nas asas das indulgências. O
potencial para o abuso era considerável. A venda de relíquias do século X já tinha sido
um mal bastante. De facto, o maior negócio de exportação de Roma durante muito
tempo tinha sido o dos cadáveres, inteiros ou em partes. Eram vendidos aos peregrinos
por grandes quantias. T. H. Dyer escreveu: «Um dedo do pé ou da mão de um mártir
podia ser um regalo para um homem de poucas posses, mas os príncipes e os bispos
podiam comprar um esqueleto inteiro». Com as catacumbas como uma espécie de El
Dourado, muitos pontífices doavam os ossos de mártires às cidades para as bajularem.
O talento de Sisto consistia no seguinte: não se desfazia de nada, a não ser de bens
incorpóreos. Os ossos dos mártires, tal como o petróleo, não eram um produto
renovável, mas as indulgências eram ilimitadas e o seu preço podia ser adaptado a
todas as bolsas. Nada era exigido ao doador ou ao doado, nem amor, nem compaixão,
oração ou arrependimento — apenas dinheiro. Nunca houve prática mais anti-religiosa
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do que esta. O papa enriquecia na mesma medida em que os pobres iam sendo
ludibriados.
O Purgatório não tinha qualquer justificação, nem nas Escrituras nem na lógica. O
seu fundamento era apenas a ganância papal. Um escritor inglês, Simon Fish, em A
Supplicacyion for the Beggars, escrito em 1529, viria a denunciar tudo isto
irrefutavelmente.
Não há em toda a Sagrada Escritura uma só palavra sobre isto, e
além disso, se o papa, com o seu perdão, pode, em troca de
dinheiro, libertar de lá uma alma, pode libertá-la também sem
dinheiro: se ele pode libertar uma, também pode libertar um milhar
delas, pode libertá-las a todas; e assim destruir o purgatório: e
então, se ele as mantém lá presas, em sofrimento até que alguém
lhe dê dinheiro, não passa de um tirano cruel, sem qualquer espécie
de espírito caritativo.
Em 1478 Sisto publicou uma Bula que ainda causou mais danos à Igreja. Sancionou
a Inquisição em Castela. E esta alastrou, literalmente, como fogo. Em 1482, só na
Andaluzia, foram queimados dois mil hereges.
Dizia-se de Sisto que ele «se afundou em crime e em sangue até à mitra»,
mergulhando a Itália em guerras infindáveis. Quando morreu, em tempos relativamente
pacíficos para o papado, alguém com espírito disse que este senhor da guerra tinha
sido «assassinado pela paz». Era tido como tendo «incarnado a maior concentração de
maldade humana». Nas palavras do Bispo Creighton, «ele enfraqueceu o carácter
moral da Europa».
Na morte, foi o seu meticuloso capelão alemão João Burchard que o lavou. Os
compartimentos tinham sido saqueados de tal maneira que o capelão não tinha nada
com que secar o cadáver. Despiu-lhe a camisa e utilizou-a para isso. Por fim, vestiu-o
com uma batina e um par de chinelos emprestados.
Oito anos mais tarde, em 1492, Burchard estava a ganhar coragem para
desempenhar idêntica tarefa com o sucessor de Sisto, o velho sexagenário Inocêncio
VIII. Magro e anémico, o pontífice estava na cama apoiado em almofadas. Dos cantos
da boca escorria-lhe leite, o seu único sustento há várias semanas. Olhando para trás,
ele sentia que tinha coisas de que se podia orgulhar.
Tinha casado o seu filho favorito no seio dos grandes Medicis de Florença, trazendo
assim aquela família para a linha de sucessão do papado com resultados desastrosos.
Inocêncio também publicou um édito contra os judeus de Espanha. Aqueles que se
recusavam a abraçar o Cristianismo eram expulsos da Península. Houve então uma
onda de emigração que só teve paralelo nos anos trinta na Alemanha nazi. Cem mil
fugiram, outros tantos ficaram fingindo terem-se convertido. «Isto», diz o The Catholic
Dictionary com intencional ironia, «garantiu o emprego à Inquisição por muitos
séculos». Na sua ficha ficaram uma ou duas nódoas. Por exemplo, não tinha feito nada
para pôr a cidade em ordem. O seu vigário foi ter com ele e disse-lhe: «Temos
realmente de fazer com que os padres deixem de manter mulheres, Vossa Santidade».
A resposta de Inocêncio ficou assim registada: «É uma perda de tempo. Isso está tão
espalhado entre os padres, mesmo na Cúria, que dificilmente se encontrará um que
não tenha uma concubina». Quando isto constou alguém disse: «Sua Santidade
levanta-se da cama das prostitutas para trancar e destrancar as portas do Purgatório e
do Céu».
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Na sala contígua, enquanto a sua vida chegava ao fim, o seu médico examinava três
formosos jovens. Estava a dizer-lhes que podiam prestar um grande serviço ao Vigário
de Cristo. O sangue do papa estava velho e gasto; se eles lhe dessem algum do seu
ele poderia continuar a inspirar a Igreja. Burchard deu uma achega oferecendo um
ducado a cada.
O médico era judeu. Inocêncio acreditava que a própria maldade dos Judeus lhes
dava acesso a uma sabedoria oculta que faltava aos médicos cristãos.
O médico informou Burchard que estava pronto para começar. Fez uma vénia e
dirigiu-se para o quarto do papa e, de mãos a tremer, sangrou o pontífice.
Trouxeram o primeiro jovem e, por transfusão directa, o sangue passou daquele
para o papa. Isto não era uma prática científica rigorosa. O quarto tresandava; o
sangue jorrava para as roupas da cama e para as carpetes no chão. O jovem foi levado
para fora meio inconsciente. Chamaram o segundo jovem e depois o terceiro. Em
breve todos os três estavam mortos na antecâmara. Burchard abriu-lhes as mãos
pegajosas e tirou-lhes o dinheiro de volta.
O sacrifício dos jovens foi em vão. Inocêncio confessou os seus pecados e, com o
espírito em paz, morreu com um trocadilho nos lábios: «Vou para Vós, Senhor, na
minha Inocência». No seu túmulo, disse alguém, estavam enterradas «a imundície, a
gula, a avareza e a preguiça».
Mais uma vez, parecia que o papado já não podia descer mais baixo. Depois veio o
Bórgia.
O núcleo da tempestade
Era voz corrente que Rodrigo Bórgia, que era catalão, tinha cometido o seu primeiro
assassínio quando tinha doze anos. Cravava constantemente a bainha da espada na
barriga dos outros rapazes. Quando jovem, as suas inclinações amorosas não eram
segredo. O seu azar foi ter um tio papa, Calisto III.
Em 1456 Calisto fez Rodrigo, então com vinte e cinco anos, Arcebispo de Valência,
a principal diocese de Espanha. Rodrigo já era famoso por ter relações simultâneas
com uma viúva e com as suas duas belas filhas, uma das quais foi a sua sempre
amada Vanozza Catanei. Chamado a Roma para se tornar cardeal aos vinte e seis
anos e Vice-Chanceler da Igreja um ano mais tarde, não suportou a ideia de ficar longe
da sua amante, e instalou-a com todo o estilo naquela que era a mais elegante das
cidades, Veneza.
Quando o tio morreu, o novo papa, Pio II, não foi assim tão tolerante para com ele.
Chegou-lhe aos ouvidos uma orgia borgiana em Siena, da qual foram excluídos os
maridos, os pais, os irmãos e outros familiares masculinos para que a sensualidade
pudesse ter rédea livre. «Achais bem», perguntou-lhe Pio II diplomaticamente, uma vez
que ele próprio tinha feito dois filhos, «não terdes nada na cabeça todo o dia senão
pensamentos de prazer voluptuoso?»
Quando Rodrigo se tornou papa, tomou o nome de Alexandre VI, parecendo não se
preocupar muito com o facto de Alexandre V ter sido excluído das listas como o
antipapa de Pisa. Depois da eleição, Bórgia rapidamente entrou na depravação. Não foi
deposto nem sequer posto em causa. O sistema não o permitia.
Lutero tinha nove anos quando Bórgia subiu ao poder. Em Roma tudo estava à
venda, desde os benefícios e indulgências aos chapéus de cardeal e até o próprio
papado. Segundo João Burchard, que desempenhava a função de Mestre de
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Cerimónias do conclave, Bórgia conseguiu os votos do Sacro Colégio após uma
dispendiosa campanha. É elucidativo ver, através dos diários de Burchard, como o
Espírito Santo se desempenha da tarefa da escolha do sucessor de S.Pedro.
O dinheiro jorrava em Roma vindo de toda a Europa e era canalizado para o
conclave pelos banqueiros. Bórgia tinha uma oposição dura. O Cardeal da la Rovere
tinha 200.000 ducados do rei de França e mais cem mil da República de Génova. Só
cinco votos não foram comprados. Como era Vice-Chanceler, Bórgia era o mais rico
dos cardeais. Pôde oferecer vivendas, cidades e abadias. Deu quatro mulas
carregadas de prata ao seu grande rival, o Cardeal Sforza, para o convencer a desistir.
Praticamente sem um tostão, viu com desgosto que ainda lhe faltava um voto.
O Cardeal Gerardo de Veneza assegurou-lho, embora sem qualquer culpa. Há fortes
razões para pensar que estava senil. Tinha noventa e seis anos e o mais notável é que
não procurou subornar.
Depois de elegerem Bórgia, os cardeais agradeceram ao Espírito Santo a escolha
de um sucessor para S.Pedro. Mas Giovani de Medici disse depois ao Cardeal CibÒ:
«Estamos agora nas garras do lobo mais selvagem que o mundo jamais viu. Se não
fugimos ele vai sem dúvida devorar-nos». O Cardeal de la Rovere, o futuro Júlio II,
pegou na ideia e fugiu, para regressar só dez anos depois quando o Faraó, o papa
Bórgia, morreu.
Por enquanto “o lobo” estava bem vivo. Num frenesim de alegria, exclamou: «Eu sou
o papa, o Pontífice, o Vigário de Cristo».
Nos aposentos de Bórgia do Palácio Apostólico há um retrato de corpo inteiro de
Alexandre VI, de Pinturicchio. Mostra-o envolto numa capa de brocado enfeitada de
jóias; só a cabeça e as mãos estão à mostra. É um homem alto, de testa estreita, faces
e queixo gordos e nariz grande e carnudo. O pescoço é monstruoso, os lábios
sensuais, os olhos penetrantes. Tem as mãos, de dedos intumescidos e cheios de
anéis, postas em oração.
Este homem, a quem Gibbon chamou «o Tibério da Roma Cristã», era perverso,
mesmo para um papa do Renascimento. O seu olho para as mulheres bonitas era,
dizia-se, infalível, mesmo quando já era velho. Conhecidos, teve dez filhos ilegítimos,
quatro dos quais, incluindo os famosos César e Lucrécia, de Vanozza. Quando ela
murchou, o papa, já com cinquenta anos, arranjou outra amante.
Júlia Farnese tinha quinze anos e casara recentemente com Orsino Orsini. Este era
um bom marido: cego de um olho, sabia quando havia de piscar o outro. Esta a razão
por que Júlia ficou conhecida em toda a Itália como “a Prostituta do Papa” e “a Noiva
de Cristo”. De uma beleza deslumbrante, ela era, nas palavras de um diplomata, «o
coração e os olhos» do pontífice, sem quem ele não podia viver. Com as suas ligações
papais, ela não teve dificuldade em conseguir um chapéu vermelho para o irmão, o
futuro Paulo III, ganhando deste modo o título de “O Cardeal de Saias”.
De Júlia o papa teve uma filha chamada Laura. Genericamente um homem honesto,
ele seguiu o exemplo de Inocêncio VIII e reconheceu abertamente os filhos naquilo que
ficou a chamar-se a Idade de Ouro dos Bastardos. Pio II tinha dito mesmo que Roma
era a única cidade do mundo governada por bastardos. Mas Bórgia tentou deixar claro
que Laura era uma Orsini; por outras palavras, que o marido de Júlia era o pai da filha
de Júlia. Isto era difícil de acreditar. E mais, como Lorenzo Pucci, embaixador no
Vaticano, escreveu ao seu mestre em Florença: «A parecença da criança com o papa é
tal que ela tem de ser dele».
O filho de Júlia chamado João, conhecido como Infans Romanus, a misteriosa
Criança Romana, também era dele. Alexandre deve ter repetido até mesmo ao fim a
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oração de Santo Agostinho: «Senhor, fazei-me casto, mas ainda não», porque a La
Bella Giulia deu-lhe ainda um último filho, o seu homónimo Rodrigo, como presente de
despedida quando ele morreu.
A vida no Vaticano naquela época nunca foi monótona nem completamente
evangélica. Havia estórias credíveis de orgias de vinho e sexo. Constava que
Alexandre tinha tido relações incestuosas com a filha, a bela Lucrécia. Se isto é
verdade, não é certo, era um recorde mesmo para um papa da Renascença ter tido
relações sexuais com três gerações de mulheres: com a filha e com a mãe e a avó
desta.
César, o filho, foi o modelo de Maquiavel para o seu cruel Príncipe. O próprio pai
temia-o. Sobre ele Lord Acton escreveu o seguinte: «Como não tinha qualquer
preferência pelo bem ou pelo mal, avaliava com espírito igual e desapaixonado se era
melhor poupar um homem ou cortar-lhe a cabeça». O político florentino Francesco
Guicciardini, que se tornou lugar-tenente dos exércitos papais, confiou ao seu diário
secreto I Ricordi, que César nasceu para que «haja no mundo um homem bastante vil
para cumprir os desígnios do pai, Alexandre VI». Num estilo impressivamente
espanhol, César uma vez matou cinco touros com uma lança na Praça de S.Pedro e
depois, de um só golpe de espada decapitou um sexto. Não pensava duas vezes antes
de roubar uma mulher ao marido, violá-la e depois atirá-la ao Tibre.
No princípio do seu reinado, o papa, num gesto nostálgico, deu a César a sua velha
diocese de Valência. O filho era então um formoso adolescente de dezassete anos, de
nariz direito, olhos negros taciturnos e cabelo escuro matizado de vermelho. Um ano
depois, no consistório em que Alexandre promoveu Ippolito d’Este, o irmão de quinze
anos da sua amante, César tornou-se cardeal.
Isto foi uma trapaça, porque os cardeais têm que ser homens nascidos em cama
legal. Alexandre resolveu o problema de maneira brilhante. Em 20 de Setembro de
1493 assinou duas Bulas, ambas afiançadas pelas testemunhas mais fidedignas da
sua corte. A primeira provava que César era filho de Vanozza e do marido. Na
segunda, publicada secretamente, o papa reconhecia César como seu filho.
Nesses tempos havia uma média de catorze assassínios por dia em Roma. Quando
o culpado era apanhado, Alexandre não tinha escrúpulos em deixá-lo em liberdade,
considerando que, como ele dizia com aquele seu sorriso cativante, «O Senhor exige
não a morte do pecador mas sim que ele pague e continue a viver».
Um dos seus hábitos menos cativantes era nomear cardeais a troco de uma choruda
taxa, e depois mandá-los envenenar para aumentar o negócio. O seu veneno preferido
era a cantarella, uma mistura composta na sua maior parte por arsénico branco. A
Igreja, decretou ele, podia herdar os bens móveis e imóveis do cardeal. E ele, claro,
como Vigário de Cristo, era a Igreja.
Um dos poucos que protestaram abertamente contra o escândalo da corte papal foi
o Prior Dominicano de S.Marcos em Florença. Savonarola, o maior pregador do seu
tempo, foi declarado canonizável por um pontífice posterior, Benedito XIV. Mas esta
não era a opinião de Alexandre. Tentou calar o frade prometendo-lhe um chapéu
cardinalício de graça. Quando viu, para seu espanto, que isto falhou, não teve outra
alternativa senão mandar que ele fosse julgado, enforcado e queimado — embora,
como foi dito, não houvesse da parte do papa qualquer rancor.
Passaram-se três turbulentos anos antes de se dar um dos acontecimentos mais
grotescos da história do Vaticano, na noite do último dia de Outubro de 1501. Burchard,
ajudante pessoal de quatro pontífices sucessivos, descreveu-o no seu estilo pedante,
nos diários que só por acaso apareceram à luz do dia.
102
César convidou a irmã favorita, Lucrécia, e o papa, o outro único homem presente,
para uma festa chamada “O Torneio das Prostitutas”. Cinquenta das mais belas de
Roma dançaram vestidas de roupas que gradualmente se iam tornando cada vez mais
escassas para depois começarem a saracotear nuas à volta da mesa do papa. Elas
deviam ter ouvido falar no boato que corria em Roma de que o papa preferia uma orgia
a uma missa solene. Num final frenético as prostitutas caíram de joelhos,
engalfinhando-se a lutar pelas castanhas que os Bórgias lhes atiravam como se faz
com os porcos.
Mas o papa também teve o seu lado bom. Era um patrono das artes. Patrocinou um
jovem monge sem tostão de nome Copérnico. Alexandre tinha olho para o negócio e foi
de facto um dos poucos pontífices da época que equilibraram as contas. Não era
hipócrita e nunca fingiu ser um cristão sincero, muito menos santo. Contudo, tal como a
maioria dos pontífices, era um devoto fervoroso da Virgem Maria. Fez reviver o antigo
costume de tocar o sino do Angelus três vezes por dia. Encomendou um quadro de
uma soberba Madonna com o rosto de Júlia Farnese para aprofundar o seu amor.
Também não era pessoa para esquecer os serviços das antigas amantes. Daí que,
quando Vanozza morreu, poucos anos depois dele, com setenta e seis anos, ela
tivesse sido tratada como viúva do papa. Foi enterrada com pompa ainda maior do que
o próprio Bórgia na Igreja de Santa Maria del Popolo na presença de toda a corte papal
«quase como se fosse um cardeal».
Deve dizer-se também em abono do papa que ele era um pai orgulhoso e afectuoso.
Baptizou os filhos e deu-lhes a melhor educação que a simonia podia pagar. Celebrou
no Vaticano os seus casamentos com as mulheres das melhores famílias da época,
mas afinal Inocêncio VIII não tinha feito o mesmo? Quando casou Lucrécia na Salla
Reale, esta ia acompanhada pela neta do Papa Inocêncio e no cortejo seguiam “A
Prostituta do Papa“ e mais 150 emocionadas damas romanas. Para Lucrécia, por
ocasião do seu terceiro casamento, ele até adiou o início da Quaresma para que o
povo de Ferrara, para onde ela ia, pudesse celebrar os esponsais com carne e danças.
A afeição paternal do papa nunca foi tão clara como quando chorou a morte do filho,
o Duque de Gandia, assassinado, muito provavelmente pelo seu outro filho, o
impiedoso César. Quando Gandia foi retirado do Tibre e depositado aos pés do papa,
os cínicos disseram: «Finalmente! Um pescador de homens!» Deve ter provocado
lágrimas nos olhos do consistório quando lhes disse que teria dado sete tiaras para ter
o filho de volta. E eles choraram ainda mais quando, durante os poucos dias de luto,
ele proclamou o fim do nepotismo e ameaçou reformar a Cúria. Todas as concubinas
do clero, decretou ele, seriam despedidas dentro de dez dias; mesmo os cardeais
teriam de começar a ser frugais e castos. Júlia deve-lhe ter estragado as suas
melhores intenções, porque lhe deu um filho no ano seguinte.
Os historiadores já têm sugerido que a sua afeição por César estava deslocada. Ele
sabia que César trazia sempre veneno consigo para o caso de precisar dele para um
inimigo. E, depois de todo o trabalho que teve para fazer César cardeal, este quis
renunciar ao chapéu vermelho. Alexandre arriscou provocar a ira do Sacro Colégio
autorizando-o a sair do grupo dos “Purpurados“, como Corro lhes chamava. Estava em
jogo a salvação da alma de César, alegava o papa. Nessa altura o rosto do filho estava
coberto de manchas negras e borbulhas muito vivas, sinais de sífilis secundária. Suas
Eminências talvez ficassem aliviadas com a sua partida, mas, como sensatamente
observou um ajudante, se fosse permitido aos cardeais resignar por motivos tão triviais,
não restaria nenhum. Quando a sífilis se agravou, César começou a usar uma máscara
de seda negra em público.
103
Tendo-se descartado do chapéu vermelho quando tinha vinte e dois anos, ficou livre
para casar e para realizar a sua maior ambição: arrebatar a Gandia o lugar de
comandante-chefe dos exércitos papais. O pai devia saber que ele, mesmo só com
uma simples faca na mão, não era de confiança.
Uma vez, César fez em pedaços um jovem espanhol chamado Perroto, camareiro
favorito de Alexandre, por ele ter tido relações com a irmã. Não foi o pecado, mas a
insensatez do acto que ele condenou. Era vital para os interesses da família, e
especialmente para os de César, que se pusesse fim ao primeiro casamento de
Lucrécia com Giovanni Sforza para permitir que ela casasse dentro da família real
Napolitana. Os fundamentos da anulação eram a não consumação. A comissão
testemunhou a sua virgindade e, implicitamente, acusou o marido de impotência. Roma
riu à gargalhada quando a notícia se soube. Lucrécia era conhecida como «a maior
prostituta de Roma de todos os tempos». O marido, Sforza, recusou-se a cooperar com
a comissão, salientando que tinha havido consumação em grande abundância. Jurou
que «a tinha conhecido carnalmente em inúmeras ocasiões». Seu tio, Ludovico de
Milão, sugeriu-lhe secamente que demonstrasse a sua capacidade perante
testemunhas.
Este não foi o único divórcio autorizado por Alexandre quando pretendia anular um
casamento. Não que isso ajudasse o novo marido de Lucrécia. Em 1500, depois de ter
servido os seus intentos, César mandou-o estrangular.
Perroto foi uma primeira vítima. Aos olhos de César, ele era culpado de
comprometer a reputação da irmã num momento delicado, e tinha de ser despachado.
O papa, a piscar os olhos remelosos, tentou proteger o seu camareiro debaixo do
seu manto, gritando em espanhol: «Não, César, por amor de Deus, não». César
avançou com o punhal e o sangue saltou para a cara do papa. Depois o corpo levou o
tratamento habitual; foi atirado ao Tibre. Durante dias o pontífice continuou a ouvir os
gritos do jovem, a sentir o cheiro do sangue que lhe ensopou a sotaina até ao peito
vacilante, a sentir os estremeções de Perroto a cada nova estocada até ao estretor final
da morte.
A morte do próprio Alexandre, pressagiada por uma coruja que lhe entrou pela
janela em pleno dia e morreu aos seus pés, foi feita à sua medida. Muito
provavelmente, César envenenou-se a si e ao pai por engano. A cantarella no vinho
destinava-se a alguns cardeais ricos que era preciso eliminar.
César recuperou. Viria a morrer corajosamente três anos mais tarde no campo de
batalha em Viana, Espanha, enfrentando sozinho um exército. Quando despiram o
corpo, viram que tinha setenta e três golpes. O papa, de setenta e três anos, sucumbiu
ao veneno. Burchard nos seus diários e embaixadores nos seus despachos registaram
em pormenor os acontecimentos.
O arsénico branco criou-lhe uma bola de fogo na barriga. Esteve na cama durante
horas, de olhos vermelhos, pele amarela, incapaz de engolir. A princípio, tinha o rosto
cor de amora e os lábios intumescidos. A pele, pintalgada como a do tigre, começou a
descascar. A gordura da barriga liquefez-se. O estômago e os intestinos começaram a
sangrar.
Os médicos tentaram os eméticos e a venissecção, mas em vão. Depois de receber
os últimos sacramentos, este homem, que, segundo Guicciardini, não tinha religião,
deu o último suspiro na Torre Bórgia, num compartimento decorado por Pinturicchio.
César, ainda de cama e destroçado pelo desaparecimento do seu papa-pai e
patrono mandou selar os aposentos papais para que fossem os seu próprios homens, e
não os lacaios dos cobiçosos cardeais, a saqueá-los.
104
O corpo foi deposto numa essa entre dois círios acesos. Estava negro e começava a
entrar em decomposição. Burchard recorda a boca a espumar como uma chaleira ao
lume. A língua ficou tão grande que lhe enchia toda a boca e a mantinha toda aberta. O
corpo estava deformado e começava a inchar como uma rã, até que ficou tão largo
como comprido. Giustiniani, o embaixador veneziano, escreveu num despacho que o
corpo de Bórgia era «o cadáver mais feio, mais monstruoso mais horrível jamais visto,
sem qualquer forma ou aspecto humano».
Os capangas de César foram arrancar os anéis dos dedos do cadáver, tirar os
castiçais, os enfeites, as vestes, o ouro, a prata e até as carpetes do chão. Neste
cenário, o capelão continuou calmamente a lavar o corpo.
Quando o compartimento ficou vazio, o corpo começava a explodir, e de cada orifício
saíam vapores sulfurosos. Seis carregadores e dois carpinteiros, a apertar o nariz,
tentaram levar a brincar uma experiência horrível. O seu maior problema era conseguir
pôr aquele monte de carne mal cheiroso no caixão. Evitando tocar numa tal fonte de
contágio, ataram uma corda à volta daquele sagrado pé, tantas vezes beijado por
príncipes, prelados e mulheres bonitas, e arrastaram-no da essa. O corpo silvou
quando bateu no chão frio. Tiraram-lhe a mitra e ergueram-no com cordas apenas o
suficiente para o deixar cair com um chape dentro do caixão.
Agora, segundo Burchard, «já não havia círios, nem luzes, nem padres, nem
ninguém para velar o pontífice morto». Com a misericórdia de Deus, carregaram sobre
o corpo para o abater, mas ele continuava a sair. Foi necessária toda a força de
Burchard para o abater de forma a caber no caixão. Por fim, como não havia mais
nada, cobriu o Servo dos servos de Deus com um bocado de carpete velha.
Os carregadores do palácio tiveram de lutar com os clérigos da basílica que não
queriam deixar entrar o cadáver para o enterro. Ao funeral apenas assistiram quatro
prelados. O caixão esteve na cripta de S.Pedro por muito pouco tempo. O Papa Júlio
afirmou mais tarde que era uma blasfémia rezar por uma alma danada. Portanto,
qualquer missa pelo descanso da alma de Alexandre seria um sacrilégio.
Em 1610, o corpo foi expulso da basílica e agora repousa na Igreja Espanhola na
Via de Monserrato à espera, em ansiedade, do Julgamento Final.
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A Inevitável Reforma
Pouco depois do Bórgia, ascendeu ao trono papal um dos homens mais notáveis da
história, Júlio II. Franciscano de Génova, alto, elegante e sifilítico, usou do suborno, em
montantes de centenas de ducados, para alcançar o papado. Depois decretou que a
partir de então quem subornasse o conclave seria deposto. Homem atlético, trazia
sempre com ele uma bengala com que batia em quem o molestasse. Para este homem
tempestuoso a religião nem chegava a ser um hobby. A sua alimentação quaresmal
consistia em camarão, atum, lampreia da Flandres e o melhor caviar.
É sobretudo lembrado como patrono das artes. Um dia levou um jovem escultor de
trinta e um anos até à Capela Sistina. O jovem era magro, de ombros largos, estatura
mediana e nariz partido, prémio por ter brigado com um rapaz maior do que ele quando
era aprendiz.
O Papa Júlio apontou para o tecto com a bengala. «É aquilo. Quero que me pintes
aquilo».
Miguel Ângelo olhou e reprimiu um gemido. O tecto tinha dezoito metros de altura e
era côncavo. Como é que ele, como é que alguém seria capaz de resolver as
perspectivas? Além disso, não era pintor. Até então só tinha pintado umas telas e não
ficara muito orgulhoso delas. Preferia trabalhar a pedra. A pedra dura. Não, ia recusar.
Sem aviso prévio, voltou para a terra natal, Florença, onde tinha sido criado no ar puro
dos campos de Arezzo e assimilou o seu ofício de escultor ao leite da ama.
Dois anos depois, em 1508, Júlio obrigou-o a voltar para Roma sem escopro nem
martelo. Assim começou a pintura que levaria este jovem do anonimato aos píncaros
da grandeza. Rebelde, como sempre, escreveu no seu primeiro recibo: «Eu, Miguel
Ângelo Buonarotti, escultor, recebi 500 ducados por conta… da pintura da abóbada da
Capela Sistina».
Júlio viria a impressioná-lo mais do que uma vez na sua cólera por encontrar um
homem tão violento como ele próprio. Uma vez, Miguel Ângelo foi obrigado a
apresentar-se-lhe com um cabresto em sinal de submissão.
Em quatro anos iria cobrir 500 metros quadrados de tecto com 300 figuras.
Confidenciou as suas memórias desses anos num poema. De estar tanto tempo
deitado de costas desenvolveu uma papeira que se derramava à volta como um balde
donde os animais bebem. Ficou com as costas arqueadas como as de um remador. A
barba virava-se para o céu de modo que o queixo e a barriga praticamente se fundiam
num só. O pincel deixava-lhe cair constantemente um mosaico de tinta sobre o rosto.
Isto não é coisa que se pinte, gemia ele, e eu que nem sequer pintor sou.
No Dia de Todos os Santos de 1512 este não-pintor abriu as portas da capela. Lá
em cima, no alto, naquela superfície impossível, estava mais do que uma obra de arte.
Estava uma enciclopédia de humanidade. Os temas do Velho Testamento retratavam a
jornada do homem do nascimento até à morte. Ao cantar a missa no altar, o exultante
Júlio fazia-o com o conhecimento de que mandara fazer a maior obra de arte que o
mundo jamais vira.
Por intermédio de Miguel Ângelo, o papa começou a criar um novo Vaticano que se
tem mantido como uma maravilha até hoje. Mas a mesma preocupação não teve ele
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em relação à fé cristã. Esta é uma das ironias do Vaticano: exteriormente, em termos
de cultura, arte e arquitectura, a Igreja nunca estivera em melhor forma; Bramante,
depois Miguel Ângelo e Rafael. Interiormente apenas havia corrupção.
A principal e constante paixão de Júlio não era a arte mas a guerra. Como estratego
militar poucos o igualavam. Com sessenta anos na altura da eleição, usava uma barba
branca impressiva que metia dentro do elmo. Violando a lei canónica, envergou a
armadura, montou o seu cavalo de batalha e cavalgou para norte para lutar por Deus e
pelos Estados Papais. Também aí foi bem sucedido. Queria-os realmente para a Igreja
e não para a sua família como a maioria dos papas do seu tempo. Viria a estabelecer
territórios que iriam durar, sem praticamente qualquer alteração, até serem assimilados
numa nova Itália nos fins do século XIX.
De vez em quando presidia ao serviço religioso em S.Pedro. Mas houve problemas.
Como grande mulherengo que era, gerou três filhas quando ainda era cardeal. Daí que
na Sexta-Feira Santa de 1508 o seu Mestre de Cerimónias tenha anunciado que Sua
Santidade não podia permitir que lhe beijassem o pé, «quia totus erat ex morbo gallico
ulcerosus» («estava completamente crivado de sífilis».
Isto não o impedia de montar o seu cavalo. Não há cena mais representativa do
Renascimento do que a de Júlio II, de armadura completa, a deslizar sobre os fossos
gelados para passar as muralhas fendidas de Mirandola, então em mãos francesas, e
reclamá-las para Cristo. Nesse terrível inverno o Rio Pó estava gelado. O pontífice pôs
um manto branco por cima da armadura, e cobriu a cabeça com uma pele de ovelha,
de tal maneira que parecia um urso ao gritar: «Vamos ver quem é que tem as bolas∗
maiores, se o rei de França se o papa». E o italiano deixou bem claro que não se
tratava de bolas de canhão.
Quando Miguel Ângelo esculpiu uma estátua sua, Júlio examinou-a com uma
expressão intrigada. «O que é aquilo que tenho debaixo do braço?» «Um livro,
Santidade» «O que é que eu sei de livros?» trovejou o papa. «Põe-me lá antes uma
espada.»
A preferência de Sua Santidade pela espada em vez da Bíblia, pela sela em vez da
Cadeira de S.Pedro, teve os seus efeitos em Roma. Miguel Ângelo, que conhecia a
Cidade Eterna como ninguém, deixou num poema as suas impressões sobre os papas
que conheceu:
Dos cálices elmos e espadas fizeram,
Aos baldes, do Senhor o sangue negoceiam,
Cruz e espinhos em lâminas envenenadas transformaram
E até ao próprio Cristo tiram a resignação.φ
Júlio ficou tão zangado com Luís XII de França por este não o ter apoiado nas suas
campanhas militares que escreveu uma Bula em que lhe retirava o reino, que ficaria
para o piedoso Henrique VIII de Inglaterra, cujo autor preferido era S.Tomás de Aquino,
desde que se mostrasse um bom católico ajudando-o nas suas guerras.
∗
Balls no original, que em linguagem informal tem também o significado de testículos. (N. T.)
φ
No original:
Of chalices they make helmet and sword
And sell by the bucket the blood of the Lord.
His cross, his thorns are blades in poison dipped
And even Christ himself is of all patience stripped. (N. T.)
109
Júlio morreu antes de a Bula ser publicada. Só por isso é que a França não se
tornou Protestante, como a Inglaterra, durante a Reforma, que se aproximava
inelutavelmente.
A corte de Leão X
Após a morte de Júlio, o Cardeal Farnese saiu precipitadamente do conclave para a
Praça de S.Pedro a gritar: «Bolas! Bolas!» Esta referência aos Palli do brasão dos
Médicis foi logo aproveitada pela multidão espantada.
Giovanni de Médicis tinha apenas trinta e oito anos. Ser filho do famoso Lorenzo o
Magnífico e de uma Orsini não era desvantagem nenhuma. Tinha sido educado no luxo
do seu palácio ancestral na Via Larga de Florença e de outros cenários opulentos. Aos
sete anos foi feito abade para a sua primeira comunhão. Aos oito, o rei de França queria
que ele fosse feito Arcebispo de Aix-en-Provence; felizmente houve alguém que
investigou e descobriu no momento preciso que já havia um Arcebispo dessa sé que
ninguém via há anos. Em compensação, o rei deu ao rapaz um priorato perto de
Chartres e fê-lo cónego de todas as catedrais da Toscânia. Aos onze anos Giovanni
recebeu a histórica abadia de Monte Cassino. Aos treze tornou-se o cardeal mais jovem
de sempre, embora não conseguisse o feito de Benedito IX, feito papa aos onze anos.
Mesmo o liberal Inocêncio VIII parece ter tido escrúpulos em elevar um adolescente ao
Sacro Colégio; insistia em três anos probatórios que dessem ao rapaz todas as
oportunidades de dominar a teologia e a lei canónica.
Na altura da eleição para o papado, o lívido Giovanni era gordo, míope, de olhos
arregalados e, por razões que então não se percebiam muito bem, casto. Isto é, não
tinha amantes, nem “sobrinhos” (bastardos). A razão era que ele era provavelmente um
ousado homossexual. Guicciardini dizia que o novo papa se devotava demasiado às
coisas da carne «especialmente àqueles prazeres que, por questões de decência, não
podem ser mencionados».
Quando o conclave começou ele estava doente e teve de ser para lá transportado
de maca. Uma tal entrada reforçou as suas expectativas. Os eleitores pensavam muito
bem dele por outra razão: era conhecido por sofrer de úlceras crónicas nas costas. A
cirurgia produziria certamente uma nova eleição. Apesar de tudo isto, Giovanni, que
tomou o nome de Leão X, tinha um temperamento exaltado. As suas primeiras palavras
como papa foram dirigidas ao seu primo ilegítimo Júlio de Medicis: «Agora é que vou
realmente gozar». Ansioso por experimentar a tiara, tirou o chapéu vermelho e
entregou-o a Júlio. «Isto é para ti, primo». Júlio usou-o bem. Viria a ser um dos mais
desastrosos de todos os papas, Clemente VII.
Leão foi coroado num pavilhão provisório em frente de S.Pedro. Da famosa igreja só
ficara a fachada, o resto fora deitado abaixo para ser substituído. A concha vazia da
velha Basílica de S.Pedro viria a aparecer retrospectivamente como presságio dos
negros tempos que se avizinhavam. A basílica de Constantino esteve de pé quase mil
e duzentos anos até que Júlio II meteu na cabeça a ideia de a deitar abaixo para
construir outra. Os cardeais tentaram dissuadi-lo. O custo seria demasiado elevado; ir-
se-iam perder belos mosaicos e relíquias insubstituíveis que ligavam todas as épocas à
Igreja das catacumbas. Enquanto a nova basílica estivesse em construção, iria haver
uma enorme rotura na fé e devoção do mundo cristão. Júlio não quis ouvir. Pela
basílica que ele planeara, a maior do mundo, estava disposto a qualquer sacrifício. Sob
Leão, a nova Basílica de S.Pedro iria custar a unidade da Cristandade.
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Em vez de desistir de tudo para seguir Cristo, Leão apossava-se de tudo em nome
de Cristo para si próprio. Jogador e grande perdulário, dizia-se que só obedecia a
Jesus numa coisa: não pensava no dia de amanhã. Foi o único tipo de papa com que
os romanos se sentiam descansados. Dava-lhes dinheiro, em vez de o esbanjar, como
Júlio, em guerras dispendiosas.
Foi um tempo de generoso divertimento. Um certo Cardeal Cornaro oferecia jantares
de sessenta e cinco pratos, consistindo cada prato de três ementas. Os jantares de
Leão rivalizavam com estes. Do menu faziam parte carnes doces, como língua de
pavão. Dos pudins saíam rouxinóis a voar; rapazinhos nus saltavam dos doces. O seu
principal animador, um frade dominicano anão, Frei Mariano, divertia-o comendo
quarenta ovos ou vinte frangos de uma assentada. Durante o Carnaval, passavam dias
inteiros a divertir-se com touradas seguidas de banquetes que terminavam com bailes
de máscaras em que Leão entretinha os seus cardeais e suas damas.
Leão tinha 683 cortesãos na sua folha de pagamentos. Também empregava muitos
bobos, uma orquestra, um teatro permanente, especializado em peças de Rabelais, e
vários animais selvagens. O seu favorito era um elefante branco, presente do Rei
Manuel de Portugal.
Em 12 de Março de 1514 realizou-se um cortejo que atravessou Roma em direcção
à ponte de Sant’ Ângelo onde Leão se encontrava numa tribuna recebendo as
saudações. Depois de um exótico desfile de aves de capoeira indianas, cavalos persas,
uma pantera e dois leopardos, vinha Hanno, o elefante branco com um castelo de prata
sobre o lombo. De acordo com a rigorosa etiqueta da corte, o elefante, dobrando o
joelho saudou por três vezes um pontífice deliciado. Para um grande final, deram-lhe
um balde com água para ele aspergir a multidão.
Este elefante, alojado no Belvedere, tornou-se uma celebridade e produziu uma
literatura completa. Escreveram-se centenas de poemas em sua honra. Ainda existem
muitas xilogravuras dele. Rafael pintou-o na cúpula inferior do Vaticano, mas a pintura
viria a perder-se em obras de renovação. Na Biblioteca do Vaticano há um diário
secreto dos muitos compromissos do elefante, que acabou com uma morte mais
chorada do que a de muitos papas: «Lundi XVI Juin, 1516, mourut l’éléphant».
Contrariamente ao que diz a lei canónica, Leão caçou durante semanas em
Magliana, o seu espectacular retiro, quase tão belo como Castelgandolfo. Magliana
ficava a oito quilómetros de Roma, na estrada para Porto. Montava invariavelmente
sentado de lado por causa do seu “achaque”, o cheiro que os cortesãos fingiam não
sentir.
Tal como tantos outros papas da Renascença, Leão foi um entusiástico construtor e
patrono das artes. Dele disse o historiador contemporâneo Sarpi: «Teria sido um papa
perfeito se a estas realizações [artísticas] tivesse acrescentado um mínimo
conhecimento de religião».
Nenhum dos interesses de Leão saiu barato, e ele teve de contrair empréstimos de
somas fabulosas junto dos banqueiros a um juro de 40 por cento. Os bordéis
simplesmente não davam dinheiro suficiente, muito embora houvesse sete mil
prostitutas registadas numa população de menos de cinquenta mil. A sífilis era
frequente — «um tipo de doença» dizia o sifilítico Benvenuto Celini com genuína
compaixão, «muito comum entre os padres».
Para reforçar o seu rendimento, Leão inventou os ofícios à volta do palácio. Estes
postos trouxeram poder e prestígio e mostraram ser muito populares. Sisto IV tinha só
650 ofícios para venda; Leão tinha 2150. E leiloou-os. A maior procura era de chapéus
cardinalícios, que davam em média trinta mil ducados. Suas Eminências recuperavam
o dinheiro com vendas corruptas por sua conta.
111
Apesar da surpreendente liberalidade de Leão, muitos cardeais mais novos
acusavam-no de não cumprir as promessas que fizera no conclave. Alfonso Petrucci de
Siena, que aos vinte e sete anos era um homem de uma profunda impiedade e de um
ateísmo inabalável, andava particularmente indignado. Com mais quatro membros do
Sacro Colégio, decidiu assassinar o papa. O seu plano era atacar Sua Santidade no
seu ponto mais fraco e tinha o mérito da originalidade. Subornou um médico florentino,
Battista de Vercelli, para tratar o papa das hemorróidas e durante operação introduzir-
lhe-ia veneno directamente pelo recto. Era uma variante para os figos.
Leão recusou por duas vezes a oferta de Battista e por fim os seus serviços secretos
interceptaram uma carta deste para Petrucci. Ambos os conspiradores foram
encarcerados, o cardeal no Marocco, a mais baixa e pior das masmorras do Castel
Sant’Angelo.
Sob tortura, o médico confessou. Foi enforcado em público e esquartejado por um
cirurgião muito menos hábil do que ele próprio.
Leão perdoou a quatro dos cardeais rebeldes, mas as compensações foram
enormes. O caso de Pertucciu, o líder, foi tratado no recato do Marocco. Sua Santidade
não podia permitir que um cristão tocasse sequer com um dedo num antigo príncipe da
Igreja e, assim, empregou um mouro como carrasco. O mouro pôs uma corda com nó
corredio, apropriadamente de seda carmesim, à volta do pescoço de Petrucci e
estrangulou-o lentamente.
O maior perigo para Leão vinha de um quadrante que a sua demasiada miopia não o
deixava reconhecer. Não vinha da corte papal, nem de Roma, mas da distante
Alemanha.
Lutero e o escândalo das Indulgências
A Alemanha, mais do que qualquer outro país, já vacilava de tantas ofensas papais.
Sofria de pesados impostos; o pagamento de um ano de rendimento de um benefício;
dízimas impostas sobre os benefícios por Cruzadas contra os Turcos que nunca se
realizaram. Por meio da terrível arma que era a excomunhão, o clero acumulou uma
imensa riqueza. Muitos homens tornaram-se padres para adquirir imunidade nos
tribunais civis. A Chancelaria Romana publicou um livro com os montantes exactos a
ser pagos por variadas absolvições. Um diácono culpado de assassínio podia ser
absolvido por vinte coroas. Um bispo ou abade que tivesse assassinado um inimigo
podia ser absolvido por trezentas livres. O pior dos crimes tinha o seu preço. Estes
“malfeitores ungidos”, como eram conhecidos na Alemanha, estavam fora da jurisdição
civil. Ao contrário, traziam para dentro da rede eclesiástica, para julgamento, todas as
formas de litígio, incluindo, testamentos, legitimação e usura. Qualquer magistrado civil
que tentasse impedi-lo era excomungado, o que significava que perdia todos os direitos
de cidadão e de homem. Os bens da Igreja, como pertenciam a Deus, eram
inalienáveis. A Igreja tinha uma imensa riqueza em todos os países, mas na Alemanha
calculava-se que metade estava nas mãos do clero. Estavam isentos de todos os
impostos e obrigações, tais como as de defesa nacional.
A faísca que incendiou estas terras secas foi inflamada pelo Príncipe Alberto de
Hohenzollern. Aos vinte anos já detinha as ricas sés de Magdburgo e Halerstadt, mas a
sua ambição era a de se tornar Arcebispo de Mainz e Primaz de Toda a Alemanha.
Para isso estava pronto a pagar. Acontecia que o Papa Leão estava com falta de
fundos para a nova Basílica de S.Pedro e disposto a negociar. Daria a Alberto a sé de
Mainz e, contrariando a lei canónica, deixá-lo-ia ainda, manter as suas duas outras
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dioceses, por dez mil ducados. Isto a acrescentar à taxa do pálio, neste caso vinte mil
ducados.
Como Alberto não tinha esse dinheiro para entrega imediata, Leão ignorou a
condenação da usura pela Igreja. Arranjou maneira de Alberto conseguir um
empréstimo do necessário junto dos Fuggers a um juro exorbitante. Como é que
Alberto ia pagar a dívida? Leão também tinha pensado nisso. Pegando nos exemplos
de Sisto IV e Júlio II, dotou-o de uma lucrativa indulgência que ele podia apregoar
durante oito anos, muito embora, antes da sua eleição ele tivesse feito a promessa
solene de que revogaria todas essas indulgências. Do lucro assim conseguido metade
iria para os banqueiros e a outra metade para o Vigário de Cristo, para a Basílica de
S.Pedro.
O frade escolhido para pregar a indulgência na Alemanha foi o Dominicano Tetzel.
Especulador astuto, de voz forte, foi bem pago pelos seus serviços. O seu salário, fora
as despesas, era vinte vezes o de um professor universitário. Como representante do
papa, Tetzel fazia sempre uma entrada solene numa cidade, rodeado por dignitários
civis e religiosos. Era precedido de um acólito que transportava uma cruz com as
armas papais. A Bula de Indulgência era levada em cima de uma almofada de veludo
guarnecida a ouro. Com a cruz implantada no meio da praça do mercado, iniciava-se o
negócio. À venda estavam salvo-condutos para o Paraíso. Um agente dos Fuggers
estava ali a jeito para colocar os proventos num cofre forte.
Tetzel era prodigioso a descrever o sofrimento das almas no Purgatório. Como elas
se contorciam nas chamas, clamando incessantemente aos parentes na terra: «Tende
piedade de nós! Tende piedade de nós!» Doze dinheiros permitiam a um filho libertar o
pai da agonia. O refrão mais popular de Tetzel era:
Se no cofre cai moedinha
Do Purgatório salta alminha. ∗
Um dos associados de Tetzel prometia uma indulgência tão poderosa que era capaz
de redimir o pecado de alguém que, nem é bom pensar, tivesse violado a Virgem
Maria.
É provável que Tetzel tivesse continuado imperturbevelmente a sua tarefa não for a
a acção de um pobre monge agostiniano de trinta e quatro anos. De origem
camponesa, de olhar mortiço e rosto franco e amigável, Martinho Lutero parecia firme
como uma árvore enraizada na terra. A sua paixão era a Bíblia, e não encontrava lá
justificação para estes abusos papais. Ficava furioso ao ver os ministros do papa a
vender indulgências ao desbarato, chegando mesmo a usá-las como fichas de jogo em
estalagens e tabernas. Estes abusos já aconteciam há muito tempo. Em 1491
Inocêncio VIII tinha outorgado a Indulgência Butterbrief por vinte anos. Por um
vinteavos de um florim renano os alemães adquiriam anualmente o privilégio de comer
alimentos lácteos nos dias de jejum. Isto significava que eles podiam deliciar-se com os
seus pratos favoritos e ao mesmo tempo recolher os méritos do jejum. O produto da
indulgência foi para a construção de uma ponte sobre o Rio Elbe em Torgau. No ano
de 1509 Júlio II renovou a indulgência por mais vinte anos. O que mais encolerizava
Lutero era o ludíbrio das pessoas simples que eram levadas a crer que podiam
comprar a sua entrada no Céu.
∗
No original:
As soon as the coin in the coffers rings
A soul from the Purgatory springs. (N. T.)
113
Durante as festividades de Todos os Santos de 1517 Lutero pegou num martelo e
pregou as suas Noventa e Cinco Teses sobre Indulgências na grande porta da igreja
do castelo de Alberto em Wittenberg. Lá dentro havia relíquias, entre as quais um
caracol do cabelo da Virgem que concedia 2 milhões de anos de indulgências. Uma
das teses de Lutero dizia: «A riqueza do papa excede em muito a de todos os outros
homens. Por que é que ele não constrói a Basílica de S.Pedro com o seu dinheiro em
vez de usar o dinheiro dos pobres cristãos?»
Segundo este monge rebelde, as Chaves do Reino estavam a abrir todos os cofres
de tesouros da Cristandade; a avareza papal estava a transformar o próprio Cristo num
cúmplice de ladrões cujo único objectivo era roubar os pobres. Não admira que Lutero
ameaçasse rebentar o tambor de Tetzel.
Durante muito tempo o papado tinha traído os vulgares cristãos devotos das
cidades, vilas e aldeias. Papa após papa tinham virado as costas a Cristo. O papado
não só errava como era, ele próprio, o maior erro, porque a verdade não está
primariamente no dizer, mas no ser e no fazer. A sua traição ao povo está ainda
incorporada nos tijolos e mármores de S.Pedro. O preço daquela basílica foi a
desintegração da Igreja que dura há quatro séculos; e que durará ainda muitos mais.
O irreformável papado
Martinho Lutero não foi o primeiro a querer ajudar e a sair chamuscado. De facto, os
críticos mais severos do papado sempre foram não inimigos, mas amigos, incluindo
muitos santos — e alguns papas! O seu testemunho data de há muito.
Uma das conversas mais intrigantes alguma vez registadas em Roma foi a travada
entre o papa inglês Adriano IV (1154-9) e o seu franco compatriota John de Salisbury,
mais tarde Bispo de Chartres. «O que é que o povo pensa realmente do Papa e da
Igreja?» sussurrou o papa. E John respondeu corajosamente: «O povo anda a dizer
que a Igreja se comporta mais como madrasta do que como mãe; que há nela uma
veia fatal para a avareza e os escribas e fariseus põem penosos fardos sobre os
ombros dos homens, acumulando bens preciosos no mais alto grau. E que o próprio
Santo Padre» acrescentou «é opressivo e pouco menos que insuportável».
O Papa Inocêncio IV (1243-54), devido a uma disputa com o imperador Frederico II,
foi obrigado a deixar Roma. Fez saber que queria exilar-se em Inglaterra. Os pares do
reino recusaram recebê-lo. Disseram que a verde e perfumada Inglaterra não podia
suportar o cheiro pestilento da corte papal. Em alternativa, Inocêncio levou a Cúria para
Lyons. Quando Frederico II morreu, Inocêncio pôde voltar para Roma. O Cardeal Hugo,
em nome do papa, escreveu ao povo de Lyons uma carta de gratidão. O documento,
datado de 1250, é um dos mais vergonhosos da história papal.
Durante a nossa estadia na vossa cidade, nós [a Cúria Romana]
prestámo-vos uma assistência muito caritativa. Quando chegámos
encontrámos apenas três ou quatro irmãs do amor e quando
partimos deixámo-vos, por assim dizer, um bordel que se estende da
porta ocidental à oriental.
No mesmo século, S.Boaventura, Cardeal e Geral da Ordem dos Franciscanos,
comparou Roma à prostituta do Apocalipse, antecipando assim Lutero em três séculos.
Esta prostituta, dizia ele, embriagava reis e nações com o vinho da devassidão. Em
Roma, afirmava não ter encontrado senão luxúria e simonia, mesmo nos escalões mais
114
elevados da Igreja. Roma corrompe os prelados, estes corrompem os padres e os
padres corrompem as pessoas.
Dante, católico devoto, não só atormentou papa após papa, como tratou com a
mesma firmeza a Cúria. Os cardeais, segundo um devoto monge de Duhram, outrora
«resplandecentes como prostitutas» jazem nus no Quarto Círculo do Inferno. Grupos
destes, até aqui prelados indolentes, são obrigados a empurrar eternamente grandes
pedras, que representam as riquezas, contra outras pedras empurradas por outros
homens avarentos.
O poeta inglês William Langland escreveu:
País onde cardeais penetram,
Onde eles mais estão e se demoram,
O mais odioso de certo será,
A devassidão aí reinará. ∗
O Bispo Álvaro Pelayo, assessor em Avinhão, sugeriu que a Santa Sé infectou toda
a Igreja com o veneno da avareza. «Se o papa se comporta assim, diz o povo, por que
é que nós não havemos de fazer o mesmo?» Num dia perfeitamente normal, o mestre
de Pelayo, João XXII, excomungou um patriarca, cinco arcebispos, trinta bispos e
quarenta e seis abades. O seu único crime: atrasaram-se no pagamento dos impostos
ao papa.
Maquiavel, amigo de Petrarca, escreveu: «Os italianos têm uma grande dívida para
com a Igreja Romana e seu clero. Com o seu exemplo perdemos toda a verdadeira
religião e tornámo-nos totalmente descrentes. É de regra, quanto mais próxima da
Cúria Romana está uma nação, menos religiosa ela é».
Catarina de Siena disse a Gregório XI que não precisava de visitar a corte papal
para lhe sentir o cheiro. «O mau cheiro da Cúria, Santidade, há muito que chegou à
minha cidade».
No século XV, Santo Antonino, Arcebispo de Florença, criticou a sua cidade por
vender obrigações com lucro; isto é usura. Quando os seus críticos diziam «A Igreja
Romana autorizou-o», Antonino respondia «Os membros da Cúria têm concubinas. Isto
prova que a concubinagem é legal?» A simples vulgaridade do argumento é
surpreendente.
Uma das razões por que havia mais prostitutas em Roma do que em qualquer outra
capital era o grande número de celibatários que lá havia. Os conventos eram muitas
vezes bordéis. As mulheres por vezes levavam consigo para a comunhão um punhal
como protecção contra o confessor. Os cronistas falam de como os clérigos passavam
os dias nas tabernas e as noites nos doces braços das amantes. «O mais santo dos
eremitas tem a sua prostituta». Como Santa Bridget disse ao Papa Gregório: «Os
clérigos têm pouco de padres e muito de proxenetas do diabo». Os melhores coros
romanos cantavam na missa músicas tão lascivas que uma comissão de cardeais
discutiu se toda a música não devia ser proibida na igreja.
Erasmo, o erudito do século XVI, um dos maiores espíritos do seu tempo, ou mesmo
de todos os tempos, dizia que a tirania de Roma era pior do que a dos turcos. Escreveu
um quadro teatral em que o Papa Júlio tenta com grandes fanfarronadas passar por
S.Pedro nas portas do Céu. Pedro semicerrou os olhos não conseguindo reconhecer
naquele guerreiro barbudo um sucessor seu. Júlio tirou o elmo e pôs a tiara. Pedro
∗
No original:
The country is the curseder that cardinals come in,
And where they lie and linger most, lechery there reigneth. (N. T.)
115
ficou ainda mais desconfiado. Por fim, já exasperado, Júlio põe-lhe as suas chaves à
frente do nariz. Depois de as examinar, o apóstolo abana lentamente a cabeça.
«Desculpa, mas essas não servem em parte nenhuma deste reino».
O Papa holandês Adriano VI confessou à Dieta de Nuremberga em 1522 que todos
os males da Igreja vinham da Cúria Romana. «Durante muitos anos passaram-se
coisas abomináveis na Cadeira de S.Pedro, abusos em matérias espirituais,
transgressões aos Mandamentos, de tal maneira que tudo aqui foi infamemente
pervertido».
O Cardeal Jesuíta Belarmino tardou em confessar: «Durante alguns anos, antes de
Lutero e Calvino, quase não havia na Igreja religião nenhuma». O papado, dizia ele,
quase tinha eliminado o Cristianismo.
Em 1518, cantando a sua “A Canção do Louco”, Lutero escreveu à nobreza alemã
queixando-se da avareza papal. Descrevia a Santa Sé como «mais corrupta do que
qualquer Babilónia ou Sodoma. É triste e terrível ver o Chefe da Cristandade, que se
gaba de ser o Vigário de Cristo e sucessor de S.Pedro, a viver com uma pompa
mundana que nenhum rei ou imperador pode igualar; de tal maneira que naquele que
se intitula de muito santo e espiritual há mais mundanismo do que no próprio mundo».
Dois anos mais tarde, Lutero foi excomungado pelo Papa Leão. Lutero apelou para
um Concílio Geral. Durante vinte e cinco críticos anos os papas e a Cúria recusaram o
apelo para o único fórum capaz de resolver as graves questões da Igreja.
Por essa altura as coisas estavam tão mal que Contarini disse ao Papa Paulo III
(1539-49) que toda a corte papal era herege; era contrária à essência do Evangelho. A
lei de Cristo traz a liberdade; o papado, disse Contarini francamente, apenas traz a
servidão e o capricho. «Escravidão maior do que esta, Santidade, não podia ser
imposta aos fiéis de Cristo».
Paulo III, o Cardeal de Saias, cuja única afirmação de eminência foram os
irresistíveis encantos da irmã Giulia, não estava talhado para ser um reformador.
O Concílio de Paulo — havia de durar vinte anos — começou em Trento em
Dezembro de 1545. Edmund Campion, o virtuoso jesuíta que foi martirizado em
Londres em 1580, disse orgulhosamente sobre Trento: «Meu Deus! Que variedade de
nações! Que lote de bispos de todo o mundo!» A verdade é que em Trento 187 bispos,
bastante mais do que metade, eram italianos. Dificilmente se pôde considerar um
reunião “católica”. De qualquer maneira, chegou tarde demais para desfazer os danos
que o papado já tinha causado. Os padres ficaram espantados ao ouvirem-se
descritos, numa sessão aberta, como uma tribo indigna, lobos e não cordeiros, autores
da corrupção na Itália e em toda a parte.
Como é que Roma, que estava longe de ser a campeã do Evangelho, se tornou, na
frase de Contarini, a encarnação da heresia?
Foi o poder que esteve na base disso. Como que a confirmar a famosa frase de
Acton, o poder absoluto corrompeu não só os detentores de ofícios, mas também o
próprio ofício papal. Esta a razão por que homens como o Bórgia, longe de estarem
deslocados na Cadeira de Pedro, tão bem nela assentaram.
A Reforma não veio quando a Igreja se deteriorou ainda mais, mas quando
apareceu a verdadeira santidade. Os Reformadores salvaram o papado, que se tinha
afundado demais para se salvar a si próprio ou à Igreja. Jacob Burkhardt disse: «A
salvação moral do papado deve-se aos seus inimigos mortais». Mas o preço foi
elevado. Trento consagrou a teologia medieval, assegurando assim que o Catolicismo
viesse a ser curto de vistas e retrógrado nos séculos seguintes. Foi o principio de uma
116
Guerra Fria religiosa. O padre Paulo Sarpi escreveu o seguinte sobre Trento: «Este
Concílio, desejado e concretizado por homens piedosos para reunificar a Igreja, que
ameaçava rotura, confirmou o contrário, o cisma, e endureceu atitudes tornando os
desacordos insolúveis».
Trento, em sua opinião, foi responsável pela maior «deformação na ordem
eclesiástica jamais vista, com a consequência de que a Cristandade agora é odiada».
Depois de Trento, o enorme poder de Roma foi confirmado e os bispos perderam a sua
independência, de tal modo que não houve mais concílio nenhum durante mais de
trezentos anos. Só então foi convocado um concílio para exprimir formal e finalmente o
absolutismo papal. A Igreja Romana, separada dos Protestantes no Ocidente, era a
partir de agora menos uma igreja católica do que uma seita temerosa virada para
dentro de si própria e dominados pelo papa.
O curioso é que Lutero não tinha a intenção de deixar a Igreja. Só que compreendeu
que uma Cristandade dividida era melhor do que uma só que o papa governava na
negação do Evangelho. É muito melhor ser governado pela Bíblia aberta do que por um
papado corrupto e aparentemente irreformável. Os cristãos do Ocidente ainda debatem
a sensatez do julgamento de Lutero. A sua análise não diferia muito da de Dante. O
que estava mal na Igreja era o libido dominandi do papado, o seu apetite insaciável
pelo poder.
Leão X foi suficientemente obtuso para excomungar Lutero, mesmo dizendo este
que «Queimar hereges é contra a vontade do Espírito Santo». Alguns dos papas
seguintes não foram mais perceptivos.
A tempestade há muito em formação eclodiu finalmente. O relâmpago rasgou o céu,
atroou o trovão — e eles continuaram tranquilos como sempre.
Calvino iniciou a Reforma em Genebra em 1541. Lenta e implacavelmente ela
alastrou pela França, Holanda e Escócia. E continuava a não haver sinal de
reconhecimento no Vaticano de que a sua influência se desvanecia.
No ano de 1555 apareceu um novo pontífice. Lutero já morrera há quase uma
década, a Cristandade estava praticamente a explodir e uma Igreja dividida já não
estava disposta a escutar os delírios de um papa incapaz. E os príncipes muito menos.
O novo pontífice era mais cego e mais surdo do que qualquer dos seus
antecessores, mas não mudo. Tentou espantar a tempestade e comportou-se como se
fosse Gregório VII ressuscitado.
117
8
O Crepúsculo do Poder Absoluto
Dele diziam os romanos que se a mãe tivesse previsto a sua carreira o teria
estrangulado à nascença. O homem em questão era João Pedro Carafa, a encarnação
da ira de Deus, que se tornou Paulo IV (1555-9).
Alto, magro e calvo, eleito aos setenta e nove anos quando estava atormentado com
o reumatismo, Paulo IV ainda tinha um andar enérgico. Os seus gestos, súbitos e
impetuosos, atiravam muitas vezes os seus assessores para o chão. O embaixador
florentino descrevia-o como um homem de ferro que provocava faíscas nas próprias
pedras sobre que caminhava. A cabeça maciça tinha a forma do Vesúvio, a cuja sombra
ele tinha nascido. Também ele tinha inesperadas erupções que vomitavam destruição e
morte. A barba desgrenhada e as sobrancelhas ásperas davam-lhe um ar selvagem; os
olhos encovados, vermelhos e manchados brilhavam como lava incandescente. A voz
rouca, quase sempre acompanhada de catarro, trovejava exigindo obediência cega e
imediata.
Até o historiador papal, Pastor, achou difícil dizer qualquer coisa de bom acerca de
Paulo IV. Sulista desbocado, era «tão arrebatado» observou Pastor, «que utilizava
expressões que pareceriam incríveis se não fossem confirmadas por testemunhas
acima de qualquer suspeita».
Completamente católico nas suas imprecações, era capaz de espancar um cardeal
como se este fosse um lacaio. Fazia esperar os embaixadores quatro a sete horas,
como se isto conviesse à imagem do sucessor de Pedro. Nunca os recebia sem lhes
gritar aos ouvidos que era superior a todos os príncipes. Como Vigário de Cristo, dizia
ele, era capaz, com um só dedo, de mudar todos os soberanos da terra.
No ano de 1557 Paulo publicou a Bula Cum ex Apostolatus officio. Considerou-se
Pontifex Maximus, o representante de Deus na Terra. E como tal, tinha poder ilimitado
para depor todos os monarcas, entregar todos os países à invasão estrangeira, privar
todas as pessoas dos seus bens sem processo legal. Qualquer pessoa que oferecesse
ajuda a um deposto — nem que fosse por simples e elementar bondade humana - seria
excomungado.
Uma nova Rainha para a Inglaterra
No princípio de 1559 o embaixador inglês Edward Carne apareceu diante deste papa
vulcânico e informou Sua Santidade de que Isabel Tudor, filha de Henrique VIII e Ana
Bolena, tinha sucedido a Maria no trono de Inglaterra.
Paulo detestava as mulheres com inflexível ferocidade teológica e nunca admitia um
único exemplar da espécie nas proximidades. Discordava violentamente de Platão, que
dizia que as mulheres eram iguais aos homens. Tomás de Aquino tinha razão: as
mulheres são homens inacabados. As suas almas não foram suficientemente potentes
para moldar a figura masculina ou o superior intelecto masculino. Apesar de tudo isto,
mostrou algum interesse em relação a Maria quando soube da maneira como ela tinha
118
tratado os restos mortais de Henrique, seu pai. Desenterrou o seu corpo herege e
queimou-o. Alguns anos depois queimou vivos também mais de duzentos protestantes.
Com Isabel era diferente. Não sabia essa mulher arrogante, perguntou o pontífice a
Carne, que a Inglaterra era, desde o Rei João, um feudo da Santa Sé? E que os filhos
ilegítimos não podem herdar? Não tinha ela lido a sua última Bula? Era puro
atrevimento da sua parte pretender governar a Inglaterra, quando esta lhe pertencia a
ele. Não, não podia deixar passar isto impunemente. Ela era uma usurpadora, uma
bastarda, uma herege. Se ela renunciasse às suas ridículas pretensões e viesse
imediatamente ter com ele em penitência, iria ver o que podia fazer por ela. Senão…
Dois meses depois Isabel cortava relações diplomáticas com Roma.
Este arrogante chauvinista do Vaticano não compreendeu a mulher de vinte e cinco
anos com que estava a lidar. Apesar dos seus defeitos, ela tinha um coração de
carvalho inglês.
Isabel nascera numa magnífica cama francesa em Greenwich Palace. Assim que
soube que era uma menina, Henrique deixou Greenwich com um ataque de cólera que
durou três dias, a gritar que Ana Bolena, a sua segunda mulher, era tão estúpida como
a primeira, e por aquilo tinha ele arriscado a excomunhão pelo papa e a perda do seu
reino. Ana ficou então a saber que estava condenada. Tinha apenas trinta anos quando
foi acusada e considerada culpada de ter amantes e de conspirar para matar as suas
rivais. Foi executada com uma pesada espada francesa, deixando Isabel, de três anos,
completamente só. A menina tinha os grandes olhos assombrados da mãe e o fino nariz
Plantageneta do pai. Vivia de expedientes, é verdade. Mas tinha que ser. Quando
cresceu, foi declarada, sucessivamente, legítima e ilegítima, herdeira do trono e, depois
da morte do pai, esteve a um passo da execução.
Os historiadores divergem sobre se Isabel, quando da sua subida ao trono, estaria já
empenhada em reintroduzir o Protestantismo em Inglaterra. Quando Maria, sua meia
irmã e a primeira mulher a governar a Inglaterra, se tornou rainha, Isabel mandou
imediatamente celebrar missa na sua casa considerando que «uma vida valia bem uma
missa». Os insultos gratuitos de Paulo IV selaram o destino dos católicos ingleses. Se
ele pensava que era o superior na Inglaterra, ela tornar-se-ia a superiora da Igreja. Este
jogo de deposições podia ser jogado por dois, especialmente nos tempos conturbados
da Reforma. A acreditar na História, houve mais soberanos que depuseram papas do
que o contrário.
Excedendo-se e interpretando uma vez mais erradamente os acontecimentos, um
papa iria ver mais um país retirar a sua aliança com a Santa Sé.
Paulo não conseguiu evitá-lo. A heresia cegava-o para todos os factos e para as
consequências. Era uma praga. Numa praga queimam-se as roupas e até as casas.
Numa praga da alma o papa não tinha alternativa senão queimar o corpo onde a alma
reside. Dessa maneira, os outros não eram contaminados. Isto explica a razão por que
ele, apesar de se eximir a numerosas funções, nunca perdeu uma única reunião das
Quintas-feiras do Santo Ofício. Mesmo quando já estava a morrer chamou os
inquisidores ao seu quarto. Preparados para tratar da heresia, os inquisidores agora
condenavam à morte fornicadores, sodomitas, actores, bobos, leigos que não cumpriam
o jejum da Quaresma, e até um escultor que tinha esculpido um crucifixo considerado
indigno de Cristo.
Quando Paulo morreu no verão de 1559, os romanos deitaram fogo à prisão da
Inquisição na Via Ripetta e destruíram-na. Uma turba apeou e destruiu a sua estátua no
Capitólio, e os judeus, que ele perseguira mais do que qualquer outro pontífice,
puseram-lhe um chapéu amarelo sobre a cabeça decepada. O rapazio cuspiu-lhe em
119
cima e andou aos pontapés à cabeça e depois arrastou-a pelas ruas para finalmente a
atirar ao Tibre. Só ficaram com pena de não lhe poderem rasgar o corpo, membro a
membro, com as próprias mãos. Depois de sondarem a opinião pública, as autoridades
enterraram o corpo bem fundo em S.Pedro no meio da noite de 19 de Agosto e
montaram-lhe uma guarda.
Paulo IV nunca duvidara de que, em circunstâncias semelhantes, Jesus, um leal
judeu, morto por heresia, teria feito exactamente o mesmo que ele. Ele não era amado.
Alguém que em breve lhe sucedeu também não o seria mais.
O último soberano a ser deposto
Paulo IV sabia o que estava a fazer quando escolheu um Dominicano
excessivamente escrupuloso, Michele Ghislieri, para seu Grande Inquisidor. Depois da
sua eleição em 1566 com o nome de Pio V, Michele Ghislieri continuou a viver uma vida
monástica numa cela no Vaticano. Comia pouco e ameaçou o cozinheiro de
excomunhão se lhe pusesse ingredientes proibidos na sopa nos dias de abstinência. O
seu principal propósito era transformar Roma num mosteiro. Só falava com Deus e só
Deus ele ouvia.
De aspecto, Pio era um pacote de pele amarela e ossos vacilantes. Calvo e com uma
longa barba branca, a testa cor de cera era alta e estreita sobre um nariz adunco. Os
olhos eram minúsculos e os lábios curvos como uma cimitarra.
O seu primeiro acto como pontífice foi expulsar todas as prostitutas de Roma. O
número de mulheres perdidas na sua diocese envergonhava-o. O Senado Romano
resistiu porque, diziam eles, a licenciosidade sempre floresceu onde havia o celibato. Se
as prostitutas se fossem embora, não só as rendas das casas cairiam, mas também
nenhuma mulher decente estaria a salvo do clero.
Pio proibiu os residentes de Roma de entrarem nas tabernas. Esteve à beira de fazer
do adultério um pecado capital. Será que ele não sabe absolutamente nada da história
papal? — queixava-se um membro da Cúria. A seguir, Pio elaborou aquilo que a
comunidade inglesa apelidou de a Última Bula; aboliu as touradas em toda a
Cristandade. A bula foi publicada em toda a parte, excepto na Península Ibérica, o que
de certa forma diminuiu o seu impacto. A hierarquia espanhola desculpou-se com o
fundamento de que não queria criar má reputação à Igreja.
Pio depressa voltou a sua atenção para a Inglaterra. Na sombra, encorajou a
desobediência civil a Isabel. Contribuiu com doze mil coroas para um levantamento no
norte. Estava disposto, dizia ele, a ir pessoalmente, se necessário, ajudar «e empenhar
nesse serviço todos os bens da Sé Apostólica». O levantamento falhou. Foi nessa altura
que Pio cometeu um estúpido erro fatal.
Na primeira semana da Quaresma de 1570, num tribunal de inquérito em Roma,
Isabel foi declarada culpada de infidelidade em dezasseis pontos. O veredicto do próprio
papa foi incorporado na Bula Regnan in Excelsis de 25 de Fevereiro. Descrevia Isabel
como serva do vício e pretensa Rainha de Inglaterra. «Esta mesma mulher, tendo
conseguido o reino e escandalosamente usurpado para si própria o lugar de Chefe
Supremo da Igreja de Toda a Inglaterra» tinha de ser castigada.
Esta última tentativa de um papa derrubar um soberano foi a mais radical e
devastadora de todas.
Nós declaramos que a sobredita Isabel é herege e instigadora de
hereges e Nós declaramos que ela e os seus apoiantes incorreram
120
na pena de excomunhão. […] Declaramos que ela fica privada das
suas pretensões ao sobredito reino e de toda a autoridade,
dignidade e privilégios. Declaramos também que os nobres, súbditos
e povo do sobredito reino e todos os outros que lhe juraram
vassalagem ficam para sempre dispensados de qualquer voto de
fidelidade e obediência. Consequentemente, Nós absolvemo-los e
retiramos à mesma Isabel a sua pretensão ao reino. […] E Nós
ordenamos e proibimos os seus nobres, súbditos e povo de lhe
obedecer. […] Nós condenaremos aqueles que façam o contrário a
uma igual pena de excomunhão.
O papa que escreveu isto viria a morrer na cama dois anos depois. Outros iriam
pagar na forca os seus erros.
Durante doze anos, antes da Regnans in Excelsis, os católicos ingleses, sob Isabel,
tinham sido sujeitos a multas por não assistirem a Igreja Anglicana. Nem um só foi
executado. O efeito da Bula foi o de transformar os católicos ingleses em traidores.
Entre 1577 e 1603, foram executados 120 padres e sessenta leigos que os acolheram.
Estes homens e mulheres corajosos tiveram de esperar mais 25 anos do que Pio V pela
canonização.
Muito depois do seu pontificado os católicos encontravam-se divididos entre a
lealdade à Igreja e ao seu país. Foi o papa que decidiu «na plenitude do meu poder
apostólico» que uma dupla lealdade era impossível. Fez uma coisa perigosa quando
tentou minar o patriotismo dos ingleses.
A arma forjada por Gregório VII, que tanta satisfação lhe deu em Canossa, foi afiada
na perfeição por Inocêncio IV. E agora reclamava as suas derradeiras vítimas.
Gregório tinha feito da excomunhão uma arma política para derrubar imperadores e
reis. Esse erro foi o responsável pelo ódio e ilegalização de que os católicos foram alvo
em país após país.
Uma vez que a sua religião é uma religião de fé e não de raça, os cristãos deviam ser
cidadãos do mundo. Pertencem ao Cristo que afirmava sofrer em todos os que sofrem.
Um cristão, onde quer que esteja, devia ser um sinal desse amor católico universal. Mas
Roma, pela sua tendência para o absolutismo, pela sua ambição de poder, transformou
o Catolicismo em Romanismo. Os papas hereges e de heróico ascetismo pessoal
exigiam aos católicos não uma obediência meramente espiritual, mas também política.
Em resultado disto, parecia que os católicos deviam, e às vezes deviam mesmo,
lealdade política a um poder estrangeiro mascarado de vigário de Cristo. Longe de
serem um povo universal, eram vistos como menos do que patriotas.
Na Inglaterra, Roma dispensou os católicos da obrigação de tentarem derrubar
Isabel. No entanto foram avisados de que, se a Inglaterra fosse atacada, teriam de
ajudar o invasor a depor a rainha. A partir de então, e durante séculos, os católicos
passaram a não ser bem ingleses.
Como escreveu Travelyan na sua A Shortened History of England «Enquanto a Igreja
Romana não deixasse de usar em todo o mundo os métodos da Inquisição, do
Massacre de S.Bartolomeu, da deposição e assassínio de Príncipes, os Estados sobre
que ela lançou a sua formidável excomunhão não podiam garantir a tolerância aos seus
missionários».
No século XVI a Cristandade desintegrou-se. O Protestantismo era um facto
consumado. A Reforma tomou de tal maneira conta da Europa que alguns países, antes
solidamente católicos, como a Inglaterra, ficaram sob o domínio de monarcas “hereges“.
Mesmo em França o Protestantismo foi uma força sujeita às mais cruéis perseguições.
121
A Igreja Católica fechou-se em si mesma no período que ficou conhecido como
Contra-Reforma. Esta era tão sectária como o Luteranismo e o Calvinismo que se lhe
opunham. As polémicas perturbavam-lhe todo o pensamento. A originalidade era um
anátema. Era a hora de cerrar fileiras. A sobrevivência era o melhor que se podia
esperar; e o papa era o maior sobrevivente da História.
A Revolução Francesa em 1789 abalou ainda mais a paz de espírito da Igreja. Lá
fora havia um novo espírito, o espírito da «liberdade sem restrições». A Revolução
parecia determinada a destruir não só as velhas monarquias absolutas, os anciens
régimes, mas também a decência moral e religiosa. Isto, aos olhos dos papas, era
trabalho do Demónio. Para uma instituição que representava acima de tudo a ordem,
isto era a anarquia. Era inevitável que a Igreja Católica se refugiasse ainda mais em si
mesma e se alimentasse da sua velha herança. Como é que se podia esperar que ela
se acomodasse à “liberdade“ à moda do ateísmo?
Nos anos seguintes Napoleão desferiu mais um grande golpe no papado. Humilhou
dois papas sucessivamente. Pio VI foi deposto e obrigado a exilar-se em Valência, onde
morreu no último ano do século XVIII. No seu obituário, no registo local, lê-se: «Nome:
Cidadão João Braschi. Profissão: pontífice». Também Pio VII, depois de uma
concordata falhada em 1801, foi exilado e obrigado a oficiar na coroação de Napoleão
em Notre Dame. Naquele momento solene, Napoleão pôs o papa no seu lugar
coroando-se a si próprio e a Josefina; depois procedeu à anexação dos Estados Papais.
Mas, deve ter pensado Pio IX (1846/78), não tinham aquelas preciosas terras sido
devolvidas a Deus, seu dono por direito, pelo Congresso de Viena (1814/15)? O mesmo
aconteceria outra vez a seu tempo. Ou seria o Rei Victor Emmanuel mais poderoso do
que Napoleão. Era uma mera questão de paciência.
Pio IX, um homem de força moral, não conseguiu ver aquilo que saltava à vista.
O papado: o fim ou um novo princípio?
O velhinho de cabelos brancos e cara vermelha redonda foi acordado pelo som do
canhão. As janelas bateram e a sua cama de ferro balançou ligeiramente sobre o chão
de mármore. As persianas ainda estavam subidas, mas como aquela manhã de fins de
Setembro estava escura, não conseguiu ver as horas no relógio. A respirar
pesadamente e a estremecer, o velho soergueu-se com esforço na almofada. O
lumbago tornava-lhe cada movimento um tormento; as ancas, principalmente, faziam
doer. Uma vez sentado, fez o sinal da cruz.
Nesse momento, a porta abriu-se. Uma figura magra, de roupão, com uma lanterna
acesa na mão, fez uma vénia antes de entrar e ajoelhou. O homem na cama gemeu:
«Che ora?» «Cinco e pouco, Santidade». «Então, Leonardo, aquilo começou». O
Cardeal Antonelli, há muito o Secretário de Estado de Pio IX, baixou a cabeça. «E
Kanzler?» perguntou o pontífice. «O general está a cumprir as Vossas ordens,
Santidade. Vai organizar uma resistência simbólica para mostrar que o inimigo não é
bem-vindo. Mas… » Os dedos compridos e ossudos de Antonelli borboletearam para
indicar que a cidade estava condenada a cair muito em breve.
Depois de se vestir com a ajuda de um criado, Pio dirigiu-se, de muletas para a sua
pequena capela para celebrar missa. A sua fervorosa intenção nunca esteve em dúvida.
Que Deus preservasse a Cidade Eterna daqueles vândalos piemonteses que se tinham
aliado a Satanás.
O assobiar e o explodir das bombas eram perfeitamente audíveis enquanto o papa se
entregava às suas devoções. As bombas estavam a cair a pouco mais de um
122
quilómetro. Era claramente um ataque em duas frentes. Quando estava a dar graças a
Deus, vieram informá-lo de que a principal força sob o comando do General Cadorna
estava concentrada na Porta Pia. Vinte dos defensores tinham sido mortos e cinquenta,
feridos. «Requiscant in pace» murmurou o Papa, persignando-se. Estes jovens em vão
arrancados à vida nos seus melhores anos eram as últimas vítimas das ambições
temporais do papado.
Pio pediu a Antonelli que arranjasse um encontro dos corpos diplomáticos o mais
depressa possível. Os embaixadores reuniram-se a meio da manhã numa sala de
audiências à vista do Castel Sant’Angelo. O papa, apontou sem dizer nada. Eles
olharam para o sítio onde uma bandeira branca esvoaçava sobre o castelo. Rendição.
Estava-se em 1870. Exactamente três séculos depois de Regans in Excelsis, o papa
era destituído do seu trono por um monarca terreno. As grandes instituições são vítimas
de grandes ironias. Mas durante todos os mil e quinhentos anos de poder temporal do
papado nenhum momento foi mais pungente do que este.
Contudo, isto era de prever; de facto, pelo menos há duas décadas que era
inevitável. Mas Pio IX estava convencido de que o futuro seria sempre como o passado.
Já era papa há vinte e quatro anos. Metternich, o chanceler austríaco, que dominava
a Europa há quarenta anos, fez sobre ele um juízo rápido que não está longe da
verdade: «Coração quente, cabeça fraca e carecendo totalmente de bom senso».
Começou em 1846 com a reputação de liberal. Na sua casa ancestral, dizia-se, até
os gatos eram nacionalistas. Mal chegou ao trono concedeu logo a amnistia aos presos
políticos. Por toda a Península todos os tipos de pessoas sentiam que talvez finalmente
o Todo Poderoso tivesse piedade deles. Teria Ele feito um milagre e enviado um papa
liberal, um papa que levasse todas as oito regiões separadas da Itália à unidade por que
todos ansiavam? Meu Deus, por favor, alguém observou, o pontífice não vai desiludir o
gato da família. Os italianos há muito que se queixavam de que Deus não tinha sido
bom para a sua bela terra aconchegada ao mar: montanhas inultrapassáveis a norte,
dois vulcões a sul e, o mais ameaçador de todos, um papa no meio.
Depois de dois anos de reinado de Pio, o cargo apossou-se do homem. Um
levantamento republicano em Roma obrigou-o a fugir, de sotaina e óculos escuros, para
Gaeta no Reino de Nápoles. Foi nessa altura que ele se converteu à causa
reaccionária. Em dois anos de exílio, arrependeu-se de todas as suas simpatias de
esquerda para se tornar o mais duro dos da linha dura. O seu único conselheiro nesses
anos decisivos foi Antonelli, filho de um bandido napolitano, e conhecido pelas suas
aventuras amorosas. Este prelado, que era de antes quebrar que torcer, matar que
perdoar, viria a morrer carregado de riquezas cuja origem, até hoje, ninguém sabe.
Quando, alguns anos depois da sua primeira experiência amarga, pediram a Pio para
chefiar uma federação da Itália, ele recusou liminarmente. Opunha-se a todas as formas
de liberdade e mudança constitucional. O seu objectivo único era segurar os estados
que governava como monarca absoluto, sem a interferência de ninguém.
Estes estados, que os papas tinham entesourado, como o dogma da Trindade,
tinham nesta altura o dobro do tamanho da Terra Santa com uma população de quase
três milhões. Desde que a Igreja começou a adquiri-los depois de Constantino sair para
Bizâncio, o seu efeito final foi sempre o de corromper e estropiar a sua missão
espiritual. No século XIV Giovanni de’Mussi escrevera: «Desde o tempo de Silvestre as
consequências do poder temporal foram inúmeras guerras… Como é que é possível
que nunca tenha havido um papa bom para remediar estes males e que tenha havido
tantas guerras por causa destes bens efémeros?»
123
Ninguém tinha lutado tão ferozmente por eles como Júlio II. Estavam mais ou menos
intactos quando Clemente VII, desorientado pelo saque de Roma em 1527, se
encontrou com o embaixador veneziano, Contarini, que em breve viria a ser cardeal.
Contarini tentou consolar o papa.
Vossa Santidade não deve pensar que o bem estar da Igreja de
Cristo reside neste pequeno Estado da Igreja: pelo contrário, a Igreja
já existia antes de possuir o Estado, e melhor assim. A Igreja é a
comunidade dos cristãos; o Estado Temporal é como qualquer outra
província da Itália, e portanto Vossa Santidade deve procurar acima
de tudo promover o bem estar da verdadeira Igreja, o qual consiste
na paz da Cristandade.
Por volta de 1870 só a Rússia csarista era governada de maneira mais perversa do
que os Estados Papais. Nestes não havia liberdade de pensamento nem de expressão,
nem eleições. Os livros e jornais eram censurados. Os Judeus eram fechados em
guetos. A justiça era um leão cego e esfomeado. Era claramente um estado policial sob
a bandeira papal, com espiões, inquisidores, represálias, polícia secreta, e as
execuções por crimes menores eram um lugar-comum. Uma pequena oligarquia clerical
muito fechada, corrupta, lasciva, governava, em nome de Sua Santidade, com mão de
ferro.
A situação só se tinha deteriorado desde que Lord Macauley visitara a Itália em 1838.
Este tentou então imaginar como seria a Inglaterra se todos os membros do parlamento,
ministros, juizes, embaixadores, comandantes-em-chefe e lordes do Almirantado
fossem bispos ou padres. Pior ainda, bispos e padres celibatários. Para conseguir uma
promoção, os homens mais lascivos eram obrigados a tornarem-se clérigos e tomar
votos de celibato. O resultado foi, segundo Macauley nas suas Cartas, que «a
corrupção infecta todos os serviços públicos… Os Estados do Papa são, suponho, os
mais mal governados em todo o mundo civilizado; e a imbecilidade da polícia, a
venalidade dos funcionários públicos, a desolação do país mostram-se forçosamente ao
viajante mais descuidado.
Mais ou menos trinta anos depois, os Estados Papais estavam maduros para a
rebelião.
Pio recebeu muitas propostas no sentido de salvar a Itália e o papado. Diziam-lhe
respeitosamente que Herodes é que era o rei da Judeia e não Jesus; e que no
Evangelho não havia qualquer menção ao “poder temporal”. Pelo contrário, Jesus disse
firmemente: «O meu reino não é deste mundo». Apesar da Doação de Constantino, os
papas nunca foram senhores de nenhuma cidade fora de Roma até o Rei dos
Lombardos lhes doar Sutria em 728. Pediam ao papa que se lembrasse de que na
Renascença, quando estava no seu apogeu, o papado era tão pouco edificante que
perdeu as alianças de metade da Cristandade. Davam-lhe a garantia de plena
independência como chefe da Igreja. De facto a sua chefia em matéria de moral e
religião seria mais brilhante do que nunca.
O papa fez ouvidos de mercador a todos estes apelos. A civilização moderna era
obra do Demónio, dizia ele, e recusava parlamentar com o Príncipe das Trevas.
O movimento unificador reunia agora forças no Piemonte sob a liderança do Rei
Victor Emmanuel II. Cavour, o seu arquitecto, proclamava o ideal de uma Igreja livre
num estado livre. Tal como Moisés, ele não iria entrar na Terra Prometida, mas mesmo
no leito da morte exclamou para o padre enviado para lhe dar a Extrema Unção:
124
«Padre, Padre! Uma Igreja livre num estado livre!» Pio IX pôs sobre este testamento de
fé o selo da heresia.
Em 1862 recebeu uma petição assinada por doze mil padres. Imploravam a Sua
Santidade que lesse os sinais dos tempos. Roma tinha de ser a capital de uma nova
Itália. Não quereria ele «pronunciar uma palavra de paz»? A reacção de Pio foi
disciplinar aqueles rebeldes, todos eles.
Mesmo no fatídico ano de 1870, quando as tropas francesas, que o tinham defendido
durante tanto tempo, se retiraram para combater os prussianos, deixando-o com um
exército de Gilbert e Sullivan, Pio manteve-se firme. Como ele disse ao corpo
diplomático na manhã de 20 de Setembro, não se sentia capaz de se desfazer de uma
herança de seis quilómetros quadrados que eram vitais para a sua autonomia espiritual.
Assim, quando os canhões de Cadorna romperam a muralha Aureliana na Porta Pia,
os emplumados Bersaglieri, parte de um forte exército de sessenta mil homens,
inundaram a cidade. Arriaram a bandeira amarela papal em todos os edifícios e
hastearam a tricolor. A multidão nas ruas entrou em delírio. Para eles o papa era mais
um tirano civil do que o chefe da Igreja. Este era o dia da libertação. Um plebiscito
mostrou que só um em cada mil era a favor do papa e contra o rei.
Cadorna tinha recebido instruções rigorosas para não bombardear o Vaticano. Pio foi
deixado em paz. Mas quando Victor Emmanuel lhe pediu uma audiência, Sua Santidade
recusou. A única palavra que ele tinha para dizer ao rei era excomunhão, uma arma
espiritual mais uma vez incorrectamente utilizada. E renovou a punição numa espécie
de base bienal de modo que o rei foi excomungado quatro vezes antes de morrer em
1878, quando lhe foi permitido fazer as pazes com Deus, que não com o seu
representante na Terra. Pio também proibiu os católicos de se envolverem nos
processos democráticos da nova Itália, quer como eleitores quer como candidatos.
Nos oito anos restantes após a invasão, o pontífice manteve-se no Vaticano,
intitulando-se, algo dramaticamente, “O Prisioneiro do Vaticano”. Por toda a parte,
especialmente na Irlanda e na Alemanha, circulavam gravuras benzidas que mostravam
Pio deitado numa enxerga numa masmorra fétida. As contribuições para a Caixa das
Esmolas de Pedro, a dádiva dos pobres, em resultado disto, aumentaram em flecha. A
sua prisão era bastante confortável, em nada semelhante à de Pedro na Mamertine.
Para falar verdade, ele tinha mais espaço vital do que tiveram todos os judeus de Roma
durante séculos. Possuía um esplêndido jardim e inúmeras salas onde descansar ou
jogar o bilhar com o Cardeal Antonelli. Um poeta jacobino disse mais prosaicamente do
que Pio: «O papa está prisioneiro dele mesmo».
Pela Lei das Garantias de 1870, o Rei da Itália propunha um muito generoso acordo.
A todas as ofertas, mesmo as financeiras, Pio respondia «Non possumus», (Não
podemos), como se tivesse sido convidado para comer carne de vaca em Sexta-feira
Santa. E continuou mesmo até ao fim, tal como o Vaticano fazia há séculos, a
transformar questões políticas em assuntos chave da religião. Embora afirmasse servir
um Mestre que nada possuía de seu, insistia que não podia servir senão como
monarca. Pio VII tinha dito o mesmo a Napoleão quando este se apossou do território
papal. «Nós exigimos a restauração dos nossos estados, porque eles não são herança
pessoal nossa, mas a herança de S.Pedro, que os recebeu de Cristo». Era necessária
uma certa audácia para acreditar que Pedro — um pescador da Galileia que
provavelmente nunca teve nada de seu a não ser um velho barco de madeira — tivesse
recebido de Cristo uma tão grande fatia da Itália Central, sem a qual não podia pregar o
Evangelho de Jesus crucificado. Mas Pio IX não recuou em tal crença, o que explica a
razão por que o papado teve de ser arrastado à força e a estrebuchar para o Novo
Testamento.
125
Os não-católicos ficaram deliciados com o facto de o papado ter sido finalmente
reduzido à dimensão de qualquer coisa com o tamanho do Novo Testamento. Os mais
desavisados profetizaram a sua extinção. Subvalorizaram a função e o homem.
A teologia não era o forte de Pio. O seu secretário particular, Monsenhor Talbot,
confessou numa carta a W. G. Ward: «Como o Papa não é grande teólogo, estou
convencido de que quando escreve [as suas encíclicas] é inspirado por Deus». A total
ignorância não era obstáculo à infalibilidade, dizia ele, porque Deus pode indicar o
caminho certo mesmo pela boca de um burro falante. Talbot, sem querer, tinha atingido
as alturas de Voltaire.
O que lhe faltava em intelecto, colmatava Pio com astúcia animal. Ele já se preparara
para um futuro que, de outra maneira, seria negro, com uma jogada que o audacioso
Gregório VII teria aplaudido.
Dois meses antes da invasão de Roma, Pio tinha presidido à sessão final do Concílio
Vaticano. Em contraste com a abertura, um ano antes, S.Pedro estava quase deserta.
Na tribuna real estavam duas damas, uma delas a Infanta de Portugal, bem como um
decrépito oficial da Ordem de S.Januário, de faixa brasonada sobre o peito. A tribuna
diplomática também tinha muitos lugares vagos. Os Grandes Poderes tinham instruído
os seus embaixadores para boicotarem uma cerimónia que não lhes traria qualquer
vantagem.
O tempo estava mau. Uma tempestade ameaçara toda a noite. Para uma manhã
romana de meados de Julho, a luz era extremamente fraca.
Havia 532 bispos, homens já velhos, vestidos de casula branca e na cabeça a mitra
também branca, sentados no transepto norte da basílica. Para muitos, como Manning
de Westminster, o único convertido do Concílio, este era o maior dia das suas vidas. Só
pela porta principal do transepto é que os de fora podiam vislumbrar os trabalhos. O
papa entrou a coxear, quase despercebido; vinha paramentado e a entoar o Veni
Creator Spiritus. Depois, no meio de um calor vaporoso, um bispo com voz de baixo
numa ópera de Verdi leu a nova Constituição, Pastor aeternus (“Pastor eterno“). Seguiu-
se a chamada.
Foi então que deflagrou a mais famosa tempestade alguma vez registada, qual ira de
Deus, sobre S.Pedro. Nos intervalos entre cada placet dos padres do Concílio ouvia-se
o estrépito de um trovão. O timing era liturgicamente preciso. Os relâmpagos entravam
por todas as janelas e cintilavam em volta do zimbório e de todas as cúpulas menores,
transformando o bronze do baldacchino de Bernini em ouro brilhante.
Durante hora e meia a tempestade continuou a rugir até terminar a chamada. Só dois
bispos votaram non-placet: Riccio de Cajazzo, de Nápoles, e Fitzgerald, de Little Rock,
Arkansas. Mas 140 bispos abstiveram-se. Votar placet ia contra as suas consciências;
votar non-placet seria ofender o Santo Padre perante o mundo.
Uma análise da votação é esclarecedora. Trezentos dos quinhentos bispos que
apoiaram o papa eram bispos titulares ou funcionários do Vaticano que viviam em Roma
a expensas do Papa Pio. A maioria dos dissidentes tinha dioceses cujas crenças e
sentimentos representavam no Concílio. Pelo menos dois terços dos bispos
americanos, liderados por Kenrick de St.Louis, opunham-se à decisão na convicção de
que ela tornaria as conversões mais difíceis.
A simples dimensão da oposição provava que a Igreja não estava preparada para tão
momentosa decisão; ela foi aprovada, mas não reflectia adequadamente o espírito da
Igreja Ocidental. Estava em jogo uma verdade muito importante e muitos sentiam que o
decreto estava incompleto. Como disse o sincero bispo Strossmayer numa sessão:
126
Este Concílio carece de liberdade e verdade…
Um Concílio que ignora a velha regra da necessidade da
unanimidade moral e começa a decidir sobre propostas por maioria
vai, é minha convicção profunda, perder o direito de vincular a
consciência do mundo católico como condição da vida e morte
eternas.
Pio IX recusou ouvir a oposição afirmando que ele era «meramente o porta-voz do
Espírito Santo».
Ao aprovar o decreto sem se preocupar com a Igreja Ortodoxa nem com os
Protestantes, Pio parecia estar a perpetuar a secular fractura entre Roma e as outras
grandes comunhões cristãs.
As divisões no Concílio de Pio contrastavam cruamente com o Concílio de Constança
no século XV em que foi decretado que toda a Igreja, incluindo o papa, está sujeita a um
Concílio Geral. Convém lembrar que Constança aprovou isto por unanimidade. Nem a
Cúria, nem o futuro papa Martinho V levantaram a mais leve objecção.
O Concílio Vaticano viria a provar mais uma vitória de Pirro para o papado, mais
terrível até, nas suas consequências, do que a de Gregório VII em Canossa. Mostrou
uma vez mais que não foram papas ímpios como Benedito IX e Alexandre VI que
provocaram os estragos mais duradouros na Igreja, mas antes os piedosos como
Gregório VII, Pio V e Pio IX. Porque a máxima de Acton de que o poder absoluto
corrompe absolutamente aplica-se a pecadores e também a santos. Neste caso, Pio IX
tinha triunfado; mas semeou a tempestade.
Quando lhe levaram os resultados da votação em S.Pedro, a escuridão era tanta que
ele não conseguia ver. Acenderam uma vela para que ele desse a sua aprovação à
Constituição na sua voz musical: «Nosque sacro approbante Concilio» (Com a
aprovação do Santo Concílio, Nós assim decretamos, decidimos e sancionamos o que
acabou de ser lido).
Os padres bateram palmas, a multidão no corpo da basílica acenou com lenços como
asas de pombas fantasmais. A que é que Sua Santidade tinha acabado de dar força de
lei? As exclamações da multidão forneceram a resposta: «Viva il Papa infallibile». Pio, a
quem Montalembert chamou «o ídolo do Vaticano» tinha-se investido dos poderes de
um deus; tinha infalivelmente decretado a sua própria infalibilidade.
Aqueles corajosos bispos, que momentos antes a tinham negado, confessavam agora
de joelhos a Pio IX — «Modo credo, Sancte Pater» — que criam nela tão sinceramente e
sem reservas como criam em Deus e na divindade de Jesus. Foi a mais rápida
conversão da História.
Os bispos que tinham saído de Roma para evitarem magoar o Santo Padre votando
de acordo com as suas consciências, também reconsideraram mais depressa do que
seria de esperar e aceitaram o Pastor aeternus. Era uma questão de aceitar ou deixar a
Igreja, e a segunda também teria seguramente magoado o Santo Padre. Voltaram para
as suas terras para dizer aos fiéis que os decretos do Vaticano foram unânimes, o que
ficava bastante aquém da verdade. Alguns até tiveram a coragem de despedir e
excomungar teólogos académicos, homens de reputação internacional, como Döllinger
de Munique, por continuarem a atrever-se a dizer aquilo que eles próprios tinham dito
antes e durante o Concílio.
Daqui para a frente, a autoridade vai calcar aos pés a razão e a consciência, porque o
Vaticano I abrira um precedente. Qualquer académico católico que promova a
democracia ou a liberdade religiosa ou a investigação científica das origens do homem
127
tem de estar preparado para levar umas marteladas - ou, pelo menos, esconder a
cabeça num qualquer canto.
Porque o que foi decidido no Concílio foi isto: quando o papa exerce a plenitude das
suas funções e define uma doutrina para toda a Igreja, as suas decisões são infalíveis
por si só, não dependem da aprovação da Igreja. A clara impressão que ficava é que,
longe de ser o papa a ir buscar a sua fé à Igreja, é a Igreja que busca a fé no papa. O
pontífice é auto-suficiente; não há fiscalização, nem balanços, nem governo, nem
oposição parlamentar. O mundo pode tornar-se cada vez mais democrático, um homem
(ou mulher), um voto; a Igreja, nunca. No Catolicismo, um homem, um voto tem um tom
muito diferente. A Cúria ficou encantada. Eles receavam um Concílio e, passados três
séculos sobre Trento, acreditavam sinceramente que os Concílios não eram
necessários. Mas agora os bispos tinham generosamente e de uma vez por todas posto
nas suas mãos a direcção da Igreja. Eles deram o seu consentimento ao papa e este
nunca mais precisou dele. O episcopado católico era finalmente a força vazia que
Gregório VII desejara que fosse; os bispos tinham abdicado perante o mundo. Por uma
maravilhosa metamorfose, os pastores tinham-se tornado as ovelhas.
O Concílio fez um interrupção numa atmosfera internacional tumultuosa. Poucos
acreditavam que ele recomeçasse, mas, de qualquer maneira, porquê a preocupação?
Este, previam muitos curialistas confiantes, seria o último Concílio da Igreja. Para
convocar outro, só um papa completamente louco. Ou, pedindo desculpa à Cúria, um
santo.
Não-católicos complacentes observavam estarrecidos. Aos olhos de muitos, como por
exemplo o Primeiro Ministro britânico, Gladstone, foi um Gigantesco Passo Atrás em
direcção à Idade das Trevas. Muitos estavam genuinamente intrigados. Como é que
dezoito séculos depois de Pedro, foram precisas semanas de debate agonizante para
decidir, com a maioria de votos de um fragmento da Igreja, que uma doutrina,
acaloradamente contestada até ao último minuto, era subitamente evangélica e vital
para a salvação?
Os mais inclinados para a teologia, com um claro sentido de ironia, ficaram satisfeitos
por verem que havia pelo menos um Protestante a fazer juízos particulares na Igreja
Católica: o papa. Era uma crítica astuta. O Vaticano I tinha transformado o papa de «o
Católico dos Católicos» no único Protestante da Igreja.
Os críticos mais filosóficos perguntavam como é que o papa pode falar infalivelmente
sobre Deus, se Deus é inefável e reside em luz inacessível.
Mas os mais sensatos de todos sugeriam: Isto é mais uma afirmação política do que
religiosa. Quase a perder os seus estados, o papa estava determinado a ser um
monarca absoluto numa terra que nem o monarca mais poderoso lhe pode alguma vez
arrancar.
A busca do poder absoluto não tinha parado; havia de continuar no campo da
verdade.
Com a verdade, tal como com o poder, o currículo da Igreja também não era bom.
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Segunda Parte
A Verdade
«Os papas não só foram assassinos em grande estilo, como também fizeram do
assassínio uma base legal da Igreja Cristã e uma condição de salvação.»
Lord Acton
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O Esmagamento da Dissidência
A Casa Papal da Esquina
Embora se tenha sempre chamado Santa, Católica e Apostólica, poucos ou nenhuns
peregrinos a vão ver. Poucos guias turísticos se preocupam em mencioná-la. Tendo em
vista a sua história, isto é estranho, porque poderia dizer-se que este edifício tem a
chave para a compreensão da Igreja Romana. E é ainda mais estranho na medida em
que fica a muito pouca distância da sacristia da Basílica de S.Pedro, numa rua
sossegada, à esquerda da Basílica, por detrás da colunata quádrupla de Bernini. Uma
grande casa de esquina, esta Casa Santa, com os seus grandes portões, é conhecida
localmente como o Palácio da Inquisição.
Devido à má reputação que adquiriu, e tal como aconteceu com a polícia secreta
soviética, a Santa Inquisição Católica Apostólica, foi rebaptizada por mais de uma vez
em anos recentes. Em 1908 a mais antiga das Sagradas Congregações de Roma
passou a chamar-se Santo Ofício; e a partir de 1967, mudou o nome para Congregação
para a Doutrina da Fé. O seu actual secretário e chefe do executivo — o antigo Grande
Inquisidor — é o cardeal bávaro Ratzinger, mas o seu presidente sempre foi o pontífice
reinante.
Emílio Zola, no seu brilhante mas amargo Roma, escrito nos últimos anos do século
XIX, descreve as impressões que o Palácio da Inquisição lhe deixou:
É uma zona solitária e silenciosa, raramente perturbada pelos
passos de peões ou pelo ruído de rodas. Só o sol ali vive em tiras de
luz que alastram lentamente sobre o pequeno pavimento branco.
Adivinha-se a proximidade da basílica porque se sente o cheiro do
incenso, uma tranquilidade claustral como que de um torpor de
séculos. E numa das esquinas ergue-se o Palácio da Inquisição de
uma nudez pesada e inquietante, com apenas uma fila de janelas a
rasgar a sua majestosa fachada amarela. A parede que margina
uma rua lateral tem um aspecto ainda mais suspeito com a sua fila
de janelas ainda mais pequenas, meros buracos de caixilhos
glaucos. À luz brilhante do sol, este enorme cubo e a alvenaria cor
de lama parecem adormecidos, misteriosos e fechados como uma
prisão, quase sem qualquer abertura de comunicação com o mundo
exterior.
A aparente sonolência é uma ilusão. Neste local continua a fazer-se a leitura de uma
enorme quantidade de documentos e daqui sai uma infindável corrente de avisos,
instruções e censuras. As masmorras, onde num passado não muito distante tantos
foram torturados, já o não são. Felizmente um estado secular arrancou o poder temporal
das garras de Pio IX.
134
Desde 1870 as masmorras e as celas da Inquisição foram transformadas em
gabinetes e arquivos onde o trabalho prossegue metodicamente como outrora, embora
de uma maneira muito menos brutal.
Os católicos fazem a sua vida em todo o mundo sem pensarem na Inquisição. São
conhecidos pela sua devoção e normalidade. Poucos são os maníacos e os fanáticos
que se encontram entre eles. O proselitismo esganiçado e ostensivo não é com eles. Os
missionários católicos — padres, freiras e leigos — são discretos. Muitos deixam as suas
terras para dedicarem a vida ao serviço dos mais necessitados. Quando pensam no
Santo Ofício, assumem que ele é um braço essencial da ortodoxia, uma maneira de
preservar a fé apostólica. Ficariam chocados se descobrissem os abusos que tiveram
origem neste edifício na Via del Sant’Ufficio.
O Papa João Paulo II
Onde é que o actual pontífice se situa? Ele não está isento de contradições bem
aparentes. Em primeiro lugar, é claramente um homem bom e compassivo. Em 1987
deu autorização a Madre Teresa de Calcutá para construir um lar para os sem abrigo
dentro do Vaticano. Tem um profundo afecto pelas crianças e pelos doentes. Onde quer
que vá, apela eloquentemente para os direitos e dignidade do homem. Por outro lado,
aparece muitas vezes como o papa mais severo de que há memória viva. Teríamos de
recuar até ao tempo de Pio X, no virar do século, para encontrar um papa que menos
ouvisse e mais exigisse pronta obediência. A razão disto é clara. O pontífice é por
natureza e por formação um platónico. Crê que a verdade é eterna e imutável. Como
Vigário de Cristo, tem uma opinião privilegiada e espiritualmente inspirada sobre aquelas
verdades que é seu dever apresentar à Igreja e das quais nenhum católico se pode
desviar um centímetro que seja.
E mais uma vez, João Paulo diz repetidamente que o clero se deve manter fora da
política. Mas quando trabalhava na Polónia como padre, bispo ou cardeal empenhou-se
constantemente naquilo que, pelo menos os Comunistas, designavam por «actividades
políticas de direita». Além disso, Sua Santidade deve saber que as visitas à sua terra
natal não podem deixar de ser interpretadas como actividade política. Isto, de facto,
enquadra-se inteiramente na tradição do Vaticano.
Durante séculos e séculos, a Igreja Católica foi a primeira força política da Europa.
Envolvia-se nas actividades de todos os países como e quando queria. Os papas, quase
à sua vontade, depunham imperadores e reis. Pio X, no seu primeiro consistório em 9 de
Novembro de 1903, disse:
Nós vamos ofender muita gente ao dizermos que temos
necessariamente de nos preocupar com a política. Mas qualquer
pessoa que julgue esta questão imparcialmente terá de reconhecer
que o Soberano Pontífice, investido por Deus na Suprema
Magistratura, não tem o direito de separar os assuntos políticos dos
do domínio da fé e da moral.
Muitos padres e irmãs da África do Sul, confrontados com o apartheid, ficaram
perplexos ao ouvir o papa polaco dizer-lhes que o envolvimento na política é contrário à
sua missão religiosa.
Finalmente, a Igreja Católica é o único corpo religioso existente que é
simultaneamente igreja e organização política. Esta a razão por que é a única de entre
135
as igrejas que procede à troca de representantes diplomáticos e reivindica o
reconhecimento como membro independente da comunidade das nações. E não o faz
como pequeno estado (o Vaticano) mas como organização religiosa mundial.
A maioria dos comentadores concorda que João Paulo deu uma volta pelo Vaticano e
fechou as janelas e correu os estores. Mesmo depois do Concílio Vaticano II, mandou
rever o código canónico da Igreja em 1983 sem se preocupar em pedir a aprovação dos
bispos de todo o mundo. Ao contrário do seu antecessor Paulo VI, não é de modo
nenhum vítima de dúvidas ou hesitações. Isto explica o facto de ele tratar com
severidade qualquer teólogo que ouse questionar as suas decisões, mesmo as não
infalíveis.
Logo em 1979, revogou a licença ao mais conhecido escritor católico do mundo, Hans
Küng. Em consequência disto, Küng deixou de ser considerado como teólogo católico e
perdeu o seu lugar na Faculdade Católica da Universidade de Tübingen. Se o reitor não
lhe tivesse oferecido um lugar fora da Faculdade Católica, Küng ficaria desempregado.
Roma pareceu ficar satisfeita por ele ter sido reduzido ao silêncio e os outros potenciais
dissidentes na Europa e na América do Norte ficaram avisados.
O teólogo holandês Edward Schillebeeckx é frequentemente repreendido pelo Santo
Ofício; o Padre Leonardo Boff do Brasil, especialista em conciliar os pensamentos
católico e marxista, também já foi repreendido. Ambos estão em situação probatória com
a promessa de se comportarem bem. João Paulo ganhou a sua causa: alinhado com
Gregório VII e Pio IX, não se contenta com menos do que a total submissão, mesmo em
matérias que são altamente contestadas.
Alvo: os Jesuítas
Alvo maior do que os teólogos individuais foi a Ordem dos Jesuítas. João Paulo
depressa deu mostras de que não estava satisfeito com os tradicionais defensores do
papado. O então Geral da Ordem, Padre Pedro Aruppe, tinha fama de liberal. Andava
apenas a tentar pôr em prática entre os irmãos os decretos progressistas do Vaticano II.
Quando adoeceu, foi nomeado o Padre Vincent O’Keefe para Vigário Geral em
exercício. O’Keefe, de nacionalidade americana, fora o reitor de Fordham, a
Universidade Jesuíta de Nova Iorque. João Paulo achou que ele era inaceitável. Em
1981 impôs à Ordem o Padre Paolo Dezza, de setenta e nove anos e quase cego, como
seu delegado pessoal. Nunca nenhum papa agira assim.
Karl Rhoner, o mais distinto teólogo actual, juntamente com mais dezassete Jesuítas
de proa da Alemanha Ocidental, apresentou uma petição ao papa: «Santo Padre, permiti
que elejamos o nosso Superior Geral com a liberdade que, desde os primórdios da
Igreja, sempre representou uma das regras básicas de todas as ordens».
O papa ficou irritado. Se não conseguia uma obediência cega da parte dos Jesuítas, a
quem mais é que ele podia fazer exigências? Não é verdade que o fundador da Ordem,
Inácio de Loyola, na sua obra Exercícios Espirituais, disse aos seus seguidores que
«Para chegar à verdade em todas as coisas devemos estar sempre prontos a acreditar
que aquilo que nos parece branco é preto se a Igreja assim o decidir»? Não, antes de
terem um novo Geral que fosse para ele aceitável, os Jesuítas tinham de deixar de
discordar das proclamações papais. Só quando lhe asseguraram que tinham mudado as
suas posições e que votariam num Geral que fosse para ele aceitável é que ele os
deixou continuar. Mesmo assim, não correu riscos. Procedeu pessoalmente à abertura
da 33ª Congregação Geral — o primeiro papa a fazê-lo — na casa dos Jesuítas no
Borgo Santo Spirito, próximo do Santo Ofício. A sua presença foi mais uma ameaça do
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que uma honra. Na primeira votação escolheram um moderado, o Padre holandês Piet
Hans Kolvenbach.
Resolvida a questão dos Jesuítas, o Santo Padre voltou a sua atenção para o maior
de todos os alvos.
Alvo: A Igreja dos Estados Unidos da América
À excepção da Holanda, onde a oposição aos ensinamentos da moral católica é
quase total, e onde praticamente deixou de haver ordenação de padres, não há país
nenhum onde a crise seja tão palpável como nos Estados Unidos. A crise, deve dizer-se,
concerne às estruturas e não ao espírito da comunidade, que continua vibrante e
esperançosa.
Em 1974, seis anos depois de Paulo VI ter ilegalizado os contraceptivos, só treze por
cento dos católicos americanos concordavam com ele. A única coisa que o então
Presidente da Conferência Episcopal, Arcebispo Bernardin, soube dizer foi que «Os
valores éticos não podem ser alcançados através de uma mera contagem de cabeças».
Contudo, havia indícios de que Bernardin não estava completamente satisfeito com a
perspectiva de um exército composto apenas de generais.
Em 1986 o Bispo James Marlow, de Youngtown, Ohio, Presidente cessante da
Conferência Episcopal, admitiu haver «uma crescente e perigosa discórdia entre o
Vaticano e a Igreja dos Estados Unidos».
Quando, nos fins de 1987, o Santo Padre visitou a América pela segunda vez, o
Arcebispo Weakland de Milwaukee disse-lhe que de 1958 a 1987 a frequência da igreja
nos Estados Unidos caíra de 75 para 53 por cento.
As últimas sondagens mostram que uma enorme maioria dos católicos americanos
são activamente favoráveis à contracepção e ao casamento após o divórcio. Só 14 por
cento pensam que o aborto devia ser ilegal em todos os casos e 93 por cento são de
opinião de que se pode ser um bom católico e discordar do pontífice em questões
morais básicas. O panorama da Igreja americana continua tempestuoso e a borrasca
começou realmente quando João Paulo castigou o Arcebispo Hunthausen, de Seattle. O
arcebispo foi informado secretamente pelo pro-núncio papal Pio Laghi de que lhe ia ser
retirada a autoridade em quatro áreas-chave: ensinamentos morais, laicização dos
padres, anulação de casamentos e a liturgia e ensino nos seminários. Um seu adjunto,
Donald Wuerl, ordenado em Roma por João Paulo II, foi investido de plenos poderes em
sua substituição. Contudo, Hunthausen não era propriamente um funcionário do papa,
mas, tal como o próprio pontífice, sucessor dos apóstolos. Daí que o Vaticano se sinta
na necessidade de recorrer a estas tácticas clandestinas para o conter. João Paulo
comporta-se como se fosse ele o Bispo de Seattle e Hunthausen o seu vice. Se o vice
lhe desagrada pode ser substituído. Se e quando o vice dá provas de bom
comportamento, isto é, de obedecer à letra a todos os decretos do Vaticano, pode vir a
ser reinvestido nas suas funções. A livre iniciativa local é reduzida.
Em tudo isto, o papa parece não ser apenas o Bispo de Roma, mas também o Bispo
do Mundo. Benedito XIV disse o mesmo: «O Papa é o principal padre de toda a Igreja e
pode retirar qualquer igreja local da jurisdição do seu bispo sempre que queira». Há uma
lógica nisto; os bispos juram servir não a Igreja e a religião mas «manter, defender,
aumentar e avançar os direitos, honras, privilégios e autoridade do seu Senhor, o Papa.»
A maioria dos outros bispos estava do lado de Hunthausen, mas, como
habitualmente, sentiram que não tinham outro remédio senão alinhar com o papa,
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mesmo quando ele agia injustamente em relação a um dos seus. A ordem é a primeira
prioridade do catolicismo.
Hunthausen foi reinvestido nas suas funções em fins de Maio de 1987, e Wuerl foi
transferido para outro posto. Isto aconteceu depois de uma comissão de bispos dos
Estados Unidos, ordenada pelo Vaticano, garantir a ortodoxia de Hunthausen, muito
embora «sem intenção», dizia o relatório, os outros ficassem com a impressão de que
ele concordava com «uma certa permissividade». Assim, o arcebispo de uma grande
diocese foi castigado por Roma por causa de impressões erradas com que ficaram
alguns católicos “desembaraçados”. No futuro, ficam os bispos avisados de que terão de
ter cuidado não só em relação à sua ortodoxia, mas também mesmo quanto às
impressões que deixem em pessoas mal intencionadas.
Foi também em 1986, em meados de Março, que Ratzinger, o braço direito do papa,
retirou ao Padre Charles E. Curran a licença para ensinar. Para João Paulo, a função do
teólogo é simplesmente transmitir as decisões vindas de cima. Curran é um ingénuo
numa profissão onde a ingenuidade pode pôr a espécie em perigo. Ele pensa que o
teólogo tem o sagrado dever de «avaliar e interpretar» as decisões da hierarquia à luz
da Palavra de Deus. Curran perdeu o seu lugar na Universidade Católica de Washington
em 1987. O Papa João XXIII afirmou no início do Concílio Vaticano II que os dias da
condenação tinham acabado. E nenhum teólogo tinha sido demitido com base em
questões éticas desde o Concílio. A alegação de Ratzinger de que Curran não é «nem
adequado nem elegível» para ensinar num estabelecimento católico foi mais um aviso
para os pensadores de espírito independente.
Ratzinger também estabeleceu que os católicos leais devem obedecer não só às
doutrinas definidas, mas também ao completo magistério ordinário expresso pelo papa e
pelos bispos. Em termos práticos, isto é o mesmo que dizer “expresso pelo papa“. O
caso do Arcebispo Hunthausen é a prova de que os bispos não usufruem de qualquer
independência. Falando claro: os bispos e os teólogos só podem servir a verdade
obedecendo ao papa. A dissidência leal é, tragicamente, no Vaticano, tal como no
Kremlin, uma contradição.
Outro dos “casos” americanos foi o do velho Padre Terence Sweeney, Jesuíta de Los
Angeles. Com o encorajamento do seu superior, fez um inquérito aos 312 bispos
católicos americanos sobre quatro questões relacionadas com o celibato dos padres e a
ordenação das mulheres. Dos 145 que responderam, trinta e cinco eram a favor do
casamento dos padres, tendo em vista a carência de vocações. Onze disseram que
gostariam de ver mulheres ordenadas.
Ratzinger e o Geral dos Jesuítas em Roma disseram-lhe mais do que uma vez:
queime as suas investigações ou então abandone a Ordem. Sweeney, Jesuíta há vinte e
quatro anos, viu que a única saída que lhe restava era abandonar a Ordem. Como é que
ele podia queimar a verdade? Que valor é que tinha a obediência sem o fundamento da
verdade e da razão? Esse tipo de obediência, afirmava ele, «não é compatível com a
dignidade humana».
É difícil de perceber a razão por que um distinto Jesuíta havia de ser obrigado a
deixar a Ordem, não por desvios à doutrina ou à moral, mas por tornar públicas as
atitudes dos bispos que livremente responderam ao seu inquérito. A impressão que fica
é que o papa parece ficar aterrorizado com a ideia de se saber o que os bispos, os seus
bispos, realmente pensam. Na cabeça fica-nos esta imagem: o papa pensa nos bispos
como altos funcionários públicos. Eles não fazem política, concretizam-na. Quaisquer
que sejam as ideias que tenham, devem guardá-las para si. Só ele é fala pela Igreja.
Ficou a impressão de que um bispo que discorda do papa já é bastante mau, mas
trinta e cinco num só país é intolerável Tal revelação ensombra a fachada de total
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acordo que é o orgulho do Catolicismo. A Igreja do Silêncio também existe deste lado da
Cortina de Ferro e inclui prelados que não desejam seguir o exemplo de Hunthausen.
É difícil fugir a esta conclusão: os bispos têm muito receio do papa para dizerem o
que realmente pensam sobre o que é melhor para a Igreja e para as suas dioceses.
Aliás não existe qualquer meio de exprimir uma dissidência. Ao nível da paróquia, a
situação é a mesma. Os padres aconselham o rebanho em termos liberais, mas só no
confessionário. O papel de mártires públicos não é com eles. Crêem que é melhor ficar
calado e sobreviver. Mas onde está o testemunho para a verdade do Evangelho? E o
que é que está a acontecer a esta grande instituição que, a tantos níveis de
responsabilidade, está a viver uma mentira?
O choque frontal de dois sistemas gigantescos
A principal razão por que o papa elegeu como alvo para os seus mísseis a Igreja
americana foi esta: uma monarquia americana do tipo vaticano está em conflito directo
com os ideais fundamentais da primeira e maior república do mundo. A América orgulha-
se de ser a terra dos homens livres; e certas formas de liberdade são estranhas à noção
de fé cristã do pontífice. Para este, a verdade católica é absoluta e a obediência a ela
uma necessidade vital. O papa, como Porta-voz Ungido de Deus, tem a obrigação de
exigir de todos, desde o mais humilde paroquiano ao teólogo mais astuto, uma
obediência firme e pronta.
A História revela um perfeito contraste entre os ideais de liberdade católicos e
americanos. É este contraste que subjaz à profunda desconfiança do Vaticano em
relação à Igreja americana.
Primeiro, a Igreja.
Em 1520, Leão X condenou Lutero por este se atrever a dizer que queimar os
hereges era contrário à vontade de Deus. Gregório XIII celebrou com alegria o Massacre
de S.Bartolomeu na noite de 24 de Agosto de 1572, em que morreram milhares de
protestantes Huguenotes. Clemente VIII atacou o Édito de Nantes em 1598 porque ele
atribuía igualdade de cidadania a todos, independentemente da sua religião. O Édito foi
revogado em 1685 para satisfação da Igreja: nos três anos seguintes cinquenta mil
famílias protestantes abandonaram a França, dispersando-se por terras estrangeiras,
mais, segundo Voltaire, do que os próprios judeus. Inocêncio X tinha entretanto
condenado a Paz de Vestfália por esta ousar garantir a tolerância para com todos os
cidadãos, independentemente da sua religião ou da ausência desta. Em todos os casos,
e durante séculos, a Igreja Católica proclamou orgulhosamente o seu dogma da
intolerância religiosa.
No século XIX, a política na Europa alterou-se profundamente, mas o mesmo não se
passou com os ensinamentos católicos. A Igreja e o Estado, diziam os papas, estavam
indissoluvelmente unidos, como num casamento cristão consumado. A liberdade era
não-cristã, a lei e a ordem, o objectivo primordial. Pontífice após pontífice atacaram a
liberdade com a veemência que os papas do século XX reservaram para a
contracepção. Pareciam temer que o governo do povo pelo povo e para o povo levasse
a exigências semelhantes na Igreja.
Gregório XVI, em Mirari vos, em Agosto de 1832, descreveu a liberdade de
consciência como uma ideia louca. Afirmava-se que a liberdade religiosa fluía da «mais
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fétida fonte do indiferentismo». Condenou a liberdade de religião, de imprensa, de
reunião e de educação como um esgoto imundo de um «vómito herege».
Pio IX continuou com a arremetida. Na Encíclica Quanta Cura, de 1864, atacou a
liberdade religiosa e comparou-a à liberdade de morte. Entre as moções condenadas no
seu Manual dos Erros estava esta: «Hoje já não é apropriado que a religião católica seja
a única religião do Estado, com a exclusão de todas as outras confissões religiosas».
Leão XIII, que se lhe seguiu, compreendeu que o mundo estava a mudar. Contudo,
em encíclica após encíclica definiu a liberdade religiosa em termos perfeitamente
medievais. A Igreja tem direito ao monopólio da religião em qualquer estado católico.
Portanto, não se deve dar ao erro a liberdade de se propagar. Liberdade e verdade são
incompatíveis. A verdade deve ser imposta pelo Estado sob a direcção da Igreja onde
quer que isso seja possível. Cada estado, insistia ele, deve ainda professar a verdadeira
fé como sua política oficial e tolerar a liberdade de consciência o menos possível e pelo
mais curto espaço de tempo possível.
Este oportunismo, esta abordagem mesquinha da liberdade religiosa está
exactamente nos antípodas da experiência americana.
Em 1492, devido a um erro de navegação, Colombo aportou às Ilhas Bahamas antes
de rumar a sul. Se ele tivesse navegado, como era devido, para oeste e descoberto o
Continente Norte-Americano, Os Estados Unidos teriam tido provavelmente uma história
religiosa semelhante à do México, Brasil e Argentina. Da maneira como as coisas
aconteceram, os primeiros imigrantes na América do Norte, eles próprios vítimas de
perseguições no Velho Mundo, trouxeram com eles as tradicionais noções europeias
das relações entre Igreja e Estado. Também eles pensavam que a intolerância era uma
grande virtude. Daí que na Nova Inglaterra houvesse uma única instituição; religião e
governo eram quase indistintos. Impuseram uma ortodoxia religiosa rigorosa e a
frequência da igreja era obrigatória. Era uma situação que não podia perdurar. Os
súbditos das colónias eram demasiado díspares nas suas crenças para que qualquer
sistema único, geralmente o Protestantismo de direita, pudesse prevalecer. As minorias
religiosas, perseguidas na Europa, estavam determinadas a edificar não só uma nova
terra, mas também um novo paraíso onde todos os homens fossem iguais. No Novo
Mundo mesmo a religião foi democratizada, coisa que a Europa não conhecia desde os
tempos mais esclarecidos do Império Romano.
Providence, mais tarde chamada Rhode Island, e Maryland iniciaram a demolição da
velha intolerância religiosa. Em Rhode Island, e pela primeira vez na História, houve
uma separação completa entre Estado e Igreja, e liberdade de expressão para todos.
Esta extraordinária experiência, não só era ousada, como também foi bem sucedida.
Maryland, fundada por Lord Baltimore como refúgio para os católicos, também abriu as
portas a todos os que chegavam, apesar de os Jesuítas tentarem obrigar Sua Senhoria
a submeter-se à ordem medieval.
Por volta de 1660, as tendências liberalizadoras eram fortes na maioria das colónias;
era já perceptível uma abordagem distintamente americana. No século XVIII, com a
independência nacional veio também a completa liberdade religiosa. Por exemplo, em
1786, Jefferson redigiu um estatuto de liberdade religiosa para a Virgínia, o primeiro
alguma vez aprovado por uma assembleia popular. Rezava assim:
Que seja portanto decretado pela Assembleia Geral que ninguém
seja obrigado a frequentar ou a apoiar qualquer confissão religiosa,
local ou ministério […] mas antes que todos os homens sejam livres
de professar e de manter, pela discussão, as suas opiniões em
140
matéria de religião e que as mesmas de maneira nenhuma
diminuam ou aumentem ou afectem a sua cidadania.
Em 1787 esta liberdade foi instituída no artigo VI da Constituição Federal: «Nunca
será exigido qualquer exame religioso como habilitação para o exercício de qualquer
profissão ou cargo público nos Estados unidos». Em 1791, veio a primeira Emenda: «O
Congresso não pode interferir na liberdade religiosa, na liberdade de expressão, de
reunião e de petição. O Congresso não fará qualquer lei sobre o estabelecimento de
uma religião, nem proibirá o seu livre exercício».
Estas declarações históricas marcam a rotura definitiva com as atitudes religiosas do
Velho mundo. Os Estados Unidos exprimiram insatisfação com a noção de “tolerância“;
desejavam liberdade e igualdade religiosa para todos os cidadãos. A tolerância era
considerada uma forma de hipocrisia; é um insulto para os considerados tolerados. Além
disso, aquilo que é tolerado hoje podia não o ser amanhã. Nas palavras de Jefferson, a
Constituição edificou acima de tudo «um muro de separação entre a Igreja e o Estado».
Qualquer pessoas, católica ou protestante, que tentasse abrir brechas nesse muro ou o
destruísse completamente não tinha o direito de se intitular americano.
Para espanto de Roma, a Igreja Católica floresceu sob um regime considerado por
Roma como hostil aos mais básicos princípios da fé. Gregório XVI (1831-46) disse: «Não
há parte alguma do mundo onde eu me sinta mais papa do que nos Estados Unidos». E
Pio IX, durante cujo reinado os católicos nos Estados Unidos atingiram os seis milhões e
meio, pronunciou a famosa frase: «A América é o único país do mundo onde eu podia
ser rei». Parece não ter reparado que os americanos tinham perdido o gosto pela
monarquia anos atrás, em 1776, com a Declaração da Independência.
À volta de Pio IX teceu-se o mais intrigante caso de podia-ter-sido da história papal.
Ameaçado no Vaticano pelo crescente nacionalismo italiano, Pio IX recebeu duas
ofertas de ajuda incrivelmente generosas.
No ano de 1863, o padre britânico Lord John Russel escreveu ao Cardeal Antonelli a
sugerir-lhe que, numa emergência, a Ilha de Malta poderia ser um refúgio paradisíaco
para Sua Santidade: «Poderia aí ficar, rodeado dos seus principais cardeais e dos seus
conselheiros de confiança. Não lhe seriam exigidas quaisquer condições que ferissem a
sua consciência». O governo britânico garantir-lhe-ia completa protecção.
Não há provas de que o pontífice tivesse ponderado seriamente esta oferta.
Não muito depois, quando o céu começou a escurecer ainda mais, Rufus King,
ministro americano acreditado junto dos Estados Papais, foi abordado por um alto
funcionário do Vaticano. Disse o funcionário que o único lugar onde Sua Santidade
ficaria a salvo era «a grande República da América». A resposta, quando chegou, foi
magnânima. «O nosso país é a pátria das liberdades civis e religiosas, bem como o
refúgio para todos aqueles que fugiram dos problemas políticos e outros do Velho
Mundo. Se Sua Santidade achar conveniente ir para os Estados Unidos, aí encontrará
sem dúvida esse tipo de acolhimento e ficará livre para prosseguir sem objecções nem
represálias a sua grande obra como Chefe da Igreja Católica».
Dois destroyers americanos saíram de Lisboa em direcção a Civita Vecchia e ficaram
à espera para transportar Sua Santidade para a América. Ah! Mas o papa nunca chegou
a embarcar.
Em 1867, com o pequeno exército de Garibaldi numa manobra de antecipação
apenas a vinte e cinco quilómetros do Vaticano, o papa, ainda em desafio, disse: «Sim,
eu ouço-os a chegar». E apontando o crucifixo: «Aquela será a minha artilharia».
141
Assim, a humanidade não havia de ver um papa a viver numa república, um segundo
Avinhão no Novo Mundo. Os Estados Unidos perderam a atracção turística
potencialmente mais lucrativa de sempre, e mais do que isso, o papado perdeu a
oportunidade de funcionar numa democracia moderna.
No Velho Mundo, o papa continuou a insistir numa teocracia medieval, na união da
Igreja e do Estado, sob a qual o Estado garantia à Igreja Católica o domínio no campo
religioso.
Foi sempre este o problema para os católicos americanos. O Cardeal James Gibbons
de Baltimore, por exemplo, não hesitou em condenar a Inquisição Espanhola. Afirmava
falar em nome de todos os católicos americanos quando escreveu: «Os nossos
antepassados católicos sofreram tanto durante os últimos três séculos por amor à
liberdade de consciência que se levantariam a condenar-nos se nós nos armássemos
em defensores das perseguições religiosas».
Estes sentimentos republicanos não caíram bem em Roma. Eram contrários ao
Catolicismo tradicional. O Cardeal Gibbons tentou livrar-se da acusação de heresia por
meio de uma distinção inventada por um bispo francês alguns anos antes. Num mundo
perfeito (tese) aplicar-se-iam os ensinamentos tradicionais da Igreja nas relações Igreja-
Estado. Num mundo imperfeito (hipótese), como a América moderna, a Igreja resignava-
se a aceitar tacitamente o status quo. Talvez com este subterfúgio, o cardeal levou a que
o Vaticano deixasse de condenar a Constituição Americana, como fizera com todas as
constituições europeias, embora estas fossem muito menos radicais.
A distinção feita pelo cardeal pode ter sido aceite no Vaticano; mas não agradou aos
americanos. Estes não consideravam o estilo de vida americano inferior ao europeu.
Para eles, era um aperfeiçoamento diferente. Como disse Emerson, a América tinha
uma missão especial: «Libertar, abolir a soberania monárquica, o clericalismo, a casta, o
monopólio; demolir o patíbulo, queimar o código sangrento». Além disso, a implicação
das palavras do cardeal era assustadora: se as conversões se multiplicassem nos
Estados Unidos, Sua Eminência ou o seu sucessor teriam de tentar impor um regime
medieval à América, em violação da sua Constituição. O mito nasceu da inelegibilidade
dos católicos para altos cargos. Este mito fez naufragar as ambições presidenciais de Al
Smith, Governador democrata do Estado de Nova Iorque, em 1928. E quase destruiu as
esperanças de J.F.Kennedy trinta anos mais tarde.
Kennedy era acusado de pretender demolir o muro que separa a Igreja do Estado.
Era acusado, por vezes sinceramente, de estar tão prisioneiro de um sistema religioso
como Khruschev de um sistema político. Kennedy parecia estar a enfrentar uma escolha
clara entre ser um “bom” católico na concepção tradicional e um bom americano. Há
trinta anos, quando tudo estava por resolver, declarou:
Eu acredito numa América onde a separação da Igreja e do Estado
seja absoluta — onde nenhum prelado católico diga ao Presidente
(se ele for católico) como agir e nenhum pastor protestante diga aos
seus paroquianos em quem votar […] uma América que não seja
oficialmente nem católica nem protestante, nem judaica — onde
nenhum político peça ou aceite instruções sobre política de […]
qualquer fonte eclesiástica […] onde não haja votos católicos ou
anti-católicos, nem votações em bloco de qualquer tipo […] e onde a
liberdade religiosa seja tão indivisível que um ataque contra uma
igreja seja tratado como um ataque a todas elas. […] Eu não sou o
candidato católico à Presidência, sou o candidato do Partido
Democrático à Presidência, e que por acaso é católico. Não falo pela
142
minha igreja sobre assuntos públicos e a minha igreja não fala por
mim.
Foi uma bela expressão do ideal americano. Kennedy recebeu os melhores conselhos
teológicos. Disseram-lhe sem dúvida que o estado cristão foi um produto do século IV
engendrado por Constantino. A Igreja primitiva não sabia nada sobre o assunto, nem a
Bíblia. Contudo, Kennedy provavelmente não tinha plena consciência de que estava a
contrariar séculos de doutrinamento católico. Mesmo Leão XIII, esse sábio papa de
grande visão, dizia que politicamente «é sempre urgente, de facto a principal
preocupação, pensar na melhor maneira de servir o Catolicismo». Em todas as eleições,
continuava ele, os católicos são obrigados a votar naqueles «que se empenhem na
causa católica e a nunca preferir a estes alguém hostil à religião [católica] […] que é a
única religião verdadeira». Assim, de acordo com o papa, há de facto votação em bloco,
o voto em bloco nos candidatos católicos; e um ataque contra o Catolicismo é apenas
um ataque ao Catolicismo. Depois da Segunda Guerra Mundial, Pio XII estava pronto a
excomungar qualquer católico que desse o seu voto a um candidato comunista em vez
de a um católico.
Em vista disto, a eleição de Kennedy foi uma vitória não para a Igreja Católica, mas
para a democracia americana. Ele ainda tinha de provar, antes e depois da eleição, que
o papa não o tinha na mão e que estava bem preparado para dizer Não a todo
episcopado católico da América.
Kennedy teve a sorte de fazer campanha para a presidência durante o pontificado de
João XXIII, o papa menos intolerante e mais católico da história.
O dilema dos católicos hoje
O dilema dos católicos americanos hoje é simplesmente o óbvio dilema da maioria
dos católicos. Vivem entre duas ideologias antagónicas. Patriotismo e religião têm pouco
em comum. Na altura do Concílio Vaticano II os católicos deixaram de sentir isto. O
Concílio foi uma segunda primavera, uma oportunidade de liberdade e discussão livre a
florir e a enriquecer a Igreja ao mesmo tempo que enriquecia o Estado. Mas com Paulo
VI e João Paulo II a segunda primavera morreu.
No Estado, um católico rejubila com a abertura, com a completa liberdade de culto,
com a democracia. Tem como adquirida a liberdade que conduz ao aprofundamento da
verdade. Está habituado a que os líderes se lhe apresentem para aprovação. Pode votar
neles e pode rejeitá-los. Exige conferências de imprensa, liberdade de informação, uma
imprensa sem grilhetas que é como um segundo governo.
Na Igreja, um católico tem de suportar um secretismo total e a falta de
responsabilização. Não há escolhas nem eleições. Não pode rejeitar ou votar em papas
ou bispos. Tem de aceitar aquilo que lhe é oferecido. Na Igreja não há conferências de
imprensa, nem verificações ou balanços, nem explicações. O controle a partir de cima é
absoluto. A impressão que fica é que a liberdade e a discussão levam à diluição da
verdade.
Seria insensato olhar o papa e a Cúria como os maus da fita. Também eles são
vítimas de um passado desconhecido ou, pelo menos, não reconhecido.
João Paulo vê-se como o grande defensor da verdade católica, que é absoluta. Não
pode duvidar dela, em todas as suas ramificações, na mesma medida em que não pode
duvidar da existência de Deus. Ele sente que tem de ser duro para com os dissidentes
para ser afável para a massa dos católicos que têm o direito à totalidade da verdade.
Esta a razão por que está sempre pronto a defender a liberdade em toda a parte,
143
excepto na sua própria Igreja. Todas as formas de dissidência da parte dos teólogos,
como Küng e Curran, mesmo dos bispos, como Hunthausen, tem de ser suprimida. É tão
provável que um académico seja silenciado por propor que os padres sejam autorizados
a casar ou que as mulheres possam ser ordenadas como por negar a divindade de
Cristo.
Nas suas viagens, João Paulo apresenta o papado como o campeão da verdade e
dos direitos humanos. Ele tem como certo que os papas nunca se contradisseram uns
aos outros no essencial nem se desviaram da verdade do Evangelho.
Esta parte da obra sobre a verdade pretende mostrar com inúmeros exemplos que
estes pressupostos são falsos. À parte o facto de o papado dos séculos X e XV ser a
heresia, ser a negação de tudo aquilo que Jesus representava, muitos papas cometeram
erros espantosos. Entraram repetidamente em contradição uns com os outros e com o
Evangelho. Longe de defenderem a dignidade do homem, retiraram vezes sem conta a
católicos e não católicos os mais elementares direitos. A Casa Papal da Esquina é prova
disso mesmo.
A História faz explodir o mito de um papado imaculadamente branco em matéria de
verdade. Em época de barbárie, os papas lideraram; em época de iluminismo seguiram
na cauda do pelotão. E pior que tudo, quando em contradição com o Evangelho
tentaram impor a verdade pela força.
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A Imposição da Verdade
O Papa Inocêncio III estava sentado no trono num misto de excitação e raiva. À sua
frente, um assessor tinha na mão um hábito branco cisterciense. O hábito tinha um
rasgão no peito e nas costas feitos por uma lança e estava manchado de sangue. «Isto,
Santidade, é o hábito do Irmão Pedro de Castelnan». O pontífice corrigiu solenemente o
assessor: «S. Pedro de Castelnan».
Naquele dia 10 de Maio de 1208, quando Inocêncio canonizou o Irmão Pedro,
também publicou a Bula de anátema contra os hereges de Languedoc. Foram eles,
decidiu o papa, que assassinaram o seu santo embaixador. Pondo-se de pé, o papa
salmodiou: «Morte aos hereges».
Uma cruzada sangrenta
As coisas não eram assim tão simples como o papa as fazia. Não pode haver dúvida
de que ele usou a morte de Pedro como pretexto para fazer uma coisa que há muito
desejava.
Durante um século, a heresia tinha florescido nas belas terras feudais conhecidas por
Languedoc, aquele canto no sudeste de França entre o Ródano e as montanhas, com a
cidade de Toulouse por capital. Inocêncio sabia bem que a aberração destes Cátaros ou
Albigenses, que tomaram o nome da fortaleza de Albi, era devida à corrupção do clero.
Até escreveu:
Em toda esta região, os prelados são alvo de troça dos leigos, mas a
raiz de todo este mal está no Arcebispo de Narbonne. Este homem
não conhece outro deus que não o dinheiro e tem uma bolsa onde
devia ter o coração. Durante os dez anos em que exerceu o cargo
nunca visitou a sua diocese […] onde se podem ver monges
regulares e cónegos que puseram o hábito de lado, arranjaram
mulheres ou amantes e andam a viver da usura.
Relatos da época concordam em que no Languedoc, tal como em muitos outros
locais, os abades e os bispos levavam uma vida dissoluta. Dedicavam-se ao jogo e
praguejavam; ouviam as matinas na cama, coscuvilhavam durante os ofícios divinos
nas raras ocasiões em que iam à capela, excomungavam a esmo qualquer pessoa que
os aborrecesse, cobravam taxas por tudo, desde as sagradas ordens a casamentos
ilícitos, e anulavam testamentos legais para embolsarem os proventos. Em contraste
com isto, os Albigenses tinham muitos santos homens e mulheres. Estes perfecti
abstinham-se do casamento e dos prazeres mundanos. Magros, pálidos, de cabelos
compridos e vestidos de negro, eram saudados com alegria onde quer que fossem pela
simples bondade das suas vidas. Oradores poderosos, mais próximos dos seus
rebanhos do que os padres, a sua autoridade moral era enorme. Deles, os crentes, os
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credentes, recebiam um só sacramento, o consolamentum (imposição das mãos), em
reconciliação, à beira da morte.
Negavam os dogmas e os sacramentos da Santa Madre Igreja, desprezavam os
padres, chamavam a Roma a Puta da Babilónia e aos bispos o Anti-Cristo. Pregavam a
igualdade dos sexos, que Inocêncio dizia ser contrária à Bíblia. Tinham a sua própria
versão das Escrituras em vernáculo, que realmente liam. Só por isto, o papa chamava-
lhes hereges, merecedores da morte.
Parece que os Albigenses pregavam um dualismo. O mau Deus do Velho
Testamento era responsável pelo mundo material que era fonte de corrupção e morte.
Jesus era o Deus do mundo do espírito. Esta a razão por que eles odiavam o ritual
católico. As imagens, as relíquias, a sagrada comunhão, a própria cruz tresandavam ao
mundo moribundo da matéria. O corpo era vil, e o sexo, por meio do qual os corpos se
multiplicavam, era vil também. O fruto proibido do Jardim do Paraíso era o prazer
sexual. A gravidez era pecado; uma mulher grávida tinha um demónio dentro dela e se
morresse antes de dar à luz estaria inevitavelmente perdida. O casamento era um
estado pecaminoso; o sexo no casamento não era melhor do que o incesto. O seu ódio
ao corpo era tal que o suicídio, o endura , era um acto heróico de virtude, o caminho
para o Céu.
É difícil saber ao certo em que é que os Albigenses realmente criam, uma vez que
quase não deixaram documentação nenhuma. Apenas temos a palavra de inquisidores
parciais que, tal como o papa, os queriam ver mortos. É possível que estivessem a
reagir contra os padres que se faziam passar por celibatários e viviam em pecado e
faziam fortunas com as relíquias.
Inocêncio, que se considerava o “Alicerce de Toda a Cristandade“, mandou que o
hábito manchado de sangue do recente santo fosse exposto em todas as igrejas do
Languedoc para promover uma nova Cruzada. Cruzada que era dirigida não contra os
Turcos que detinham a Terra Santa, mas contra discípulos de Cristo que tiveram a
ousadia de negar a autoridade do papa. Será que eles não sabem, perguntava ele, que
sem mim não há Igreja, nem Pedra, nem Fé, nem Salvação? Os novos cruzados
gozariam de todos os privilégios dos cavaleiros que foram a Jerusalém. Inocêncio, tal
como Maomé, combinava a religião com a guerra. Matando os Albigenses, prometia ele,
os Cruzados teriam o lugar mais elevado do Céu.
As verdadeiras Cruzadas tinham suscitado sempre entusiasmo desde que Pedro o
Eremita respondeu ao apelo de Urbano II em 1096. Pedro, francês de Amiens, baixo,
magro, de cabelo negro e barba grisalha até à cintura, pregou a Cruzada aos pobres.
Gualter Sem-Tostão, cavaleiro saído das páginas do D.Quixote, juntou-se-lhe, e foram
ambos de burro, à frente de um vasto exército que se deslocava a pé ou a cavalo ou em
carros puxados por burros, tão bem armados como gafanhotos.
A viagem de Colónia a Constantinopla, passando pela Hungria e por Belgrado, levou
cem dias. Foi uma marcha épica cheia de sofrimento e horror; contaram-se estórias de
bebés que foram cozidos e comidos. Em cada cidade as crianças perguntavam: «Isto é
Jerusalém, meu pai?» Apesar dos dez mil que caíram numa batalha no caminho, trinta
∗
Designação dada pelos albigenses, cátaros ou patarinos ao rito que correspondia, na seita, ao baptismo, eucaristia,
ordem e extrema unção. Começava pela apostasia da Igreja de Roma, a que se seguiam a profissão de fé cátara e a
promessa solene de guarda de todos os preceitos respeitantes à castidade, dieta alimentar e amizade dos
correligionários, terminando pela admissão do neófito no número dos perfeitos, com a imposição das mãos por
qualquer homem bom ou puro. Esta imposição, feita à hora da morte, levava não raro o doente à recusa do alimento,
especialmente carne, queijo e ovos, indo até à endura ou morte por inanição. In Enciclopédia Luso-Brasileira de
Cultura, Verbo Editora. (N.T.)
∗
Ver nota anterior sobre o consolamentum. (N.T.)
147
mil chegaram ao Bósforo em Julho. Aí, no dia 21 de Outubro, foram destroçados pelos
Turcos. Pedro o Eremita foi um dos sobreviventes. Quando os cavaleiros do exército
cristão chegaram, na primavera seguinte, não encontraram nos arredores de Nicomedia
e Civitol nada a não ser montanhas de ossos esbranquiçados. «Oh, quantas cabeças
decepadas e ossos formavam a linha da costa». Os franceses misturaram os ossos com
cal de maneira que os peregrinos de Pedro o Eremita acabaram nas paredes dos
próprios castelos dos Cruzados.
Passara já mais de um século quando, em resposta ao recente apelo de Inocêncio III,
cidades e aldeias inteiras da Alemanha, na impossibilidade de levarem a Cruz, se
desnudaram e correram em silêncio pelas ruas. Foi um tempo de loucura. Quatro anos
depois, em 1212, milhares de rapazes e raparigas franceses viriam a ser mobilizados
por Estêvão de Vandôme, um jovem pastor. Saíram de casa sem mapas, nem guias,
nem comida, para se dirigirem a Marselha. Quando lhes perguntavam para onde iam
respondiam: «Jerusalém». Os pais fizeram os possíveis por fechar os filhos, mas eles
fugiram. Infelizmente, as águas do Mediterrâneo não se abriram como as do Mar
Vermelho. Muitos, atraídos para dentro de barcos, foram vendidos como escravos aos
Sarracenos nas costas da Sardenha.
Por esta altura, vinte mil crianças alemãs foram aliciadas por um jovem chamado
Nicolau. Iniciaram a viagem para a Terra Santa atravessando os Alpes para a Itália.
Muitas caíram mortas pelo caminho; algumas voltaram para contar a estória que se veio
a tornar a lenda do Tocador de Flauta de Hamlin.
Mas nenhuma loucura desta época se compara à do papa. É verdade que ele tentara
durante quatro anos livrar-se dos Albigenses por processos mais cristãos. Em 1205,
mandara-lhes Dominic, que em breve fundaria a Ordem dos Pregadores. «Eu preguei-
vos» disse Dominic após grandes esforços, «Implorei-vos a chorar. Mas, como nós
dizemos em Espanha, “Onde a bênção falha, um pau bem grande consegue o truque”.
Agora vamos levantar príncipes e prelados contra vós». A partir de então, prometeu ele,
Cristo não lhes daria nada senão escravatura e morte.
Inocêncio também mandara a Languedoc Pedro de Castelnan e o Irmão Raul. O
Irmão Pedro tinha acusado Raimundo IV, Conde de Toulouse e senhor desta vasta
terra, de ajudar e instigar os hereges. Ordenaram-lhe que os desalojasse. Isto não era
tarefa de pouca monta, considerando que a heresia se tinha desenvolvido com a
corrupção do clero durante quatro gerações. Os Albigenses constituíam metade da
população do Midi. Esperavam que Raimundo os mandasse queimar aos milhares? O
Irmão Pedro, que em breve seria canonizado, acreditava que sim. Excomungou
Raimundo por incúria no cumprimento do dever e encorajou os seigneurs de Provence a
revoltarem-se contra o seu senhor. «Aquele que vos depuser» declarou o Irmão Pedro
na sua interdição «será considerado santo; aquele que vos ferir de morte ganhará uma
bênção de Deus». Raimundo apressou-se a garantir a Sua Santidade o seu apoio de
todo o coração.
No dia seguinte, quando a comitiva papal estava para atravessar o Ródano em Saint-
Gilles, um dos oficiais de Raimundo trespassou o Irmão Pedro com uma lança. Este
militar nunca foi julgado nem condenado. O papa tinha toda a vantagem em culpar todo
o distrito.
A “Cruzada” de Inocêncio foi um marco na história do Cristianismo. O chefe da Igreja
ordenou e dirigiu uma guerra contra cristãos irmãos numa terra tradicionalmente cristã.
O extermínio substituiu a conversão. Contudo, os ortodoxos e não ortodoxos viviam tão
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intimamente juntos que era impossível separá-los. Em surpreendente oposição à
parábola de Jesus, queimou-se o trigo e o joio juntos.
A violência na tradição cristã
Na tradição católica a violência tem tido uma carreira de altos e baixos. De facto, em
parte alguma se encontra uma evidência mais clara da mudança de ideias do que na
sua doutrina sobre a guerra.
De princípio a Igreja tinha um profundo sentido da santidade da vida humana. O
derramamento de sangue era um pecado grave. Esta a razão por que os cristãos se
opunham aos combates de gladiadores. O exército também era uma ocupação proibida.
Cristãos como Maximiliano preferiam morrer a matar. «Eu não posso lutar na guerra»
dizia ele simplesmente. «Não posso proceder mal. Sou cristão». Enquanto a guerra e o
uso da força foram necessários para preservar Roma, os cristãos sentiam-se incapazes
de se alistar. «O mundo» disse Tertuliano, «pode precisar dos seus Césares, mas o
Imperador nunca poderá ser cristão, nem um cristão imperador».
Os cristãos consideravam-se, tal como Jesus, mensageiros da paz; não poderiam em
caso nenhum, ser agentes da morte. Mesmo quando se alistavam no exército ou
quando os soldados se convertiam a sua fé não lhes permitia lutar, a não ser pela
oração e pelo sacrifício.
Depois, Constantino derrotou Maxêncio na Ponte Milviana sob o signo da cruz. Uma
vez convertido, mandou pôr no elmo e no freio do cavalo os pregos com que
crucificaram Cristo. Para os Cristão de uma época anterior, tal blasfémia seria
inimaginável; agora os Cristão faziam parte do establishment, com bens e posição a
defender. Um guerreiro sanguinário era o seu bispo supremo e comandante em chefe.
Deixaram de ser pacifistas e dos arados fizeram espadas.
É verdade que os imperadores e os generais tinham de fazer penitência se tivessem
as mãos manchadas de sangue, mesmo em defesa de uma causa justa. Mas os velhos
princípios tinham afrouxado. A mesma frouxidão era patente na aplicação da religião. A
Igreja era originalmente contra o uso da força para obter conversões ou para reprimir a
heresia. Mas Leão o Grande (440-61) viria a elogiar um imperador por este torturar e
executar hereges em nome da Igreja. Por esta altura, até Agostinho tinha concordado
com a ideia de não matar nem torturar hereges, mas antes ajudá-los a encontrar o
caminho certo com a ajuda de um ou dois bons socos. Depressa os cristãos se
começaram a sentir francamente satisfeitos pelo facto de a sua religião ser a única que
não era perseguida. Só a aversão ao derramamento de sangue os impedia de matar os
hereges.
Esta aversão foi enfraquecendo gradualmente. Cada vez mais cristãos se alistavam
no exército, prontos agora para matar e morrer. Enquanto que até ao ano de 175 não
houvera um só soldado cristão, em 416, por um édito de Teodósio, só aos cristãos era
permitido o alistamento. Ficava apenas para o clero — bispos e padres que oficiavam
no altar do Crucificado — a manutenção da velha aversão da Igreja ao derramamento
de sangue. O clero, só ele, criava uma espécie de zona ou testemunho de paz no meio
da guerra.
Embora a violência como que corresse agora nas veias do Cristianismo, depois das
hostes bárbaras terem sido convertidas e mais ou menos civilizadas, seguiu-se um
período de paz. No período chamado de Alta Idade Média, a intolerância parece ter sido
esquecida, talvez por desinteresse. Até que o Cristianismo ficou sob a influência do seu
rival mais mortífero, o Islão.
149
A velocidade com que o novo credo se espalhou foi mesmo maior do que a alegada
propagação miraculosa do Cristianismo. Abriu caminho violentamente nas velhas terras
cristãs da África, Ásia e Espanha. Proclamou um paraíso sensual e um terrível inferno.
O seu fatalismo — «O que está escrito, está escrito» — estimulou a coragem nos
campos de batalha. Assim, um seguidor devoto de Alá, ensopado em sangue do inimigo
era transportado para o Paraíso. «A espada», dizia Maomé, «é a chave para o Paraíso
e para o Inferno». Uma só gota de sangue derramado pela causa de Deus era melhor
do que a oração e o jejum. Na síntese de Gibbon: «Os pecados são perdoados a quem
quer que caia numa batalha; no dia do julgamento as suas feridas ficarão
resplandecentes, escarlates, e com o perfume do almíscar; e a perda de membros será
compensada com asas de anjos e querubins».
No Paraíso, como escreveu Santayana em Pequenos Ensaios sobre Religião, o
guerreiro está sentado «em jardins bem regados, com Maomé, vestido de sedas verdes,
a beber deliciosos refrescos de frutas e paralisado pelo olhar de gazela de uma jovem,
toda inocência e fogo». O retrato de Gibbon no oitavo volume de Decline and Fall é
muito menos puritano.
Setenta e duas Houris, raparigas de olhos negros, de uma beleza
resplandecente, de juventude em floração, de pureza virginal, e de
rara sensibilidade, serão criadas para o mais mesquinho dos
crentes; um momento de prazer será prolongado por mil anos e as
suas faculdades serão aumentadas cem vezes para o tornar digno
da felicidade.
O Profeta nada disse sobre quantos servidores masculinos seriam criados para as
mulheres felizes o bastante para entrarem no Paraíso. Talvez temesse a inveja dos
maridos num mundo masculino chauvinista.
O avanço do Islão no Ocidente apenas foi quebrado em Poitiers pelo avô de Carlos
Magno, Carlos Martel. Daí para a frente, o espírito marcial do Islão passou para o
Cristianismo. Maomé substituiu Cristo como “herói”. O Profeta tinha sido chefe de
estado, comandante de exércitos, administrador de justiça; Jesus apenas tinha pregado
e morreu na cruz. O cristão ideal já não era o monge asceta, mas o guerreiro de espada
ensanguentada a vingar-se no infiel que ousara capturar e profanar a Terra Santa.
Agora, troçando do Evangelho, os cavaleiros cristãos eram instigados a matar em nome
de Jesus. As indulgências papais correspondem exactamente à garantia islâmica de
uma bênção perpétua para os guerreiros moribundos. O Cristianismo, numa espécie de
milagre perverso, tinha herdado o conceito de Jihad, a Guerra Santa.
Durante dois séculos os púlpitos vociferavam não sobre a paz de Cristo mas sobre o
dever da guerra contra o infiel. E assim, nos montes e campos de batalha, o Cruzado
cravou na terra a espada em forma de cruz e rezou a Cristo para que estivesse com ele
na destruição dos inimigos. Se morresse, o papa assegurava-lhe um elevado lugar num
paraíso infelizmente sem comida, sem alegria e angelicamente casto. Era aí, em todo o
caso, que o Islão marcava pontos.
A caminho da Terra Santa, os Cruzados voltaram a sua atenção para os infiéis mais
próximos. Os judeus tinham sido os primeiros a profanar a Terra Santa torturando e
crucificando Cristo. Os Cruzados ofereceram-lhes o baptismo ou a morte. Eles teriam
ficado a saber de cor as frases de S.João Crisóstomo, o Doutor Palavra-de-Ouro da
Igreja: «Odeio os Judeus» repetiu ele vezes sem conta. «Não pode haver perdão para
os odiosos assassinos do Senhor». «Deus odeia e sempre odiou os Judeus». Daí que
150
os judeus, novos e velhos, homens e mulheres, caíssem aos golpes de espada do
Cruzado. Uma só estocada garantia ao matador o paraíso.
No ano de 1096, metade dos judeus de Worms foram assassinados quando os
cruzados passaram pela cidade. Os restantes fugiram para a residência do bispo. Este
concordou em salvá-los na condição de pedirem para serem baptizados. Os judeus
retiraram-se para decidir. Quando a câmara de audiências se abriu todos os oitocentos
judeus estavam mortos. Alguns tinham sido decapitados; os pais tinham matados os
seus bebés antes de voltarem as facas para as mulheres e para si próprios; um noivo
assassinara a noiva. A tragédia de Masala do século I repetia-se em toda a parte na
Alemanha e, mais tarde, em toda a França. Quando os Cruzados tomaram o seu grande
objectivo, Jerusalém, um dos seus primeiros actos foi lançar fogo à sinagoga com todos
os judeus lá dentro.
Lecky, no seu clássico em dois volumes History of European Morals (1911) escreveu:
«Seria impossível conceber uma mais completa transformação do que aquela que o
Cristianismo sofreu desta maneira, e é triste o contraste do aspecto de que se revestiu
durante as Cruzadas com a impressão que mais justamente tinha deixado no mundo
como o espírito de brandura e de paz a enfrentar o espírito da violência e da guerra». A
Igreja estava totalmente convertida ao Império Romano. Os ministros — papa, bispos,
padres — negavam as beatitudes ao proclamar o derramamento de sangue como sua
doutrina oficial. A antiga crença que assegurava a santidade da vida foi abandonada.
Apesar destes precedentes cruéis, a Cruzada de Inocêncio contra os Albigenses foi
de um género muito próprio. Sob a bandeira da cruz, esta cruzada viria a ser a
campanha mais sangrenta da Idade Média. Os soldados inventaram praticamente a
política da terra queimada. Pela primeira vez entregaram-se ao assassínio
indiscriminado. E Inocêncio, à medida que cada crime lhe era relatado, instigava-os a
continuarem ainda com mais energia os seus esforços em nome de Cristo. Os fins eram
sublimes; justificavam todos os meios. Era muito mais fácil matar os hereges do que
converter o clero a uma vida sem mácula.
Comece-se com a matança
Quando o rei de França recusou liderar a Cruzada, Inocêncio fez do seu legado,
Arnald-Amalric, Geral Cisterciense de Cîteaux, o seu comandante-chefe. Cavaleiros e
impedidos, camponeses e burgueses, bem como hostes de mercenários, responderam
ao apelo às armas. Oferecia-se uma indulgência especial para um simples serviço de
quarenta dias e, possivelmente, ainda alguma terra no Languedoc. Eram vinte mil
cavaleiros e quase dez vezes mais o número de soldados apeados. Havia bispos e
senhores feudais, duques e condes, incluindo Raimundo, Conde de Toulouse.
Apenas uma semana antes, o conde tinha feito as pazes com a Igreja. Na enorme
porta da Catedral de Saint Gilles este senhor das terras foi despido até à cintura como
um penitente e obrigado a jurar sobre as relíquias sagradas que obedeceria à Igreja em
tudo. Para provar a sua ortodoxia, comprometeu-se a matar todos os hereges das
redondezas.
De Montpellier, o exército marchou para Béziers, uma praça forte albigense. A cidade
estava bem fortificada, embora faltasse a água naquele verão quente e seco.
22 de Julho, festa de Maria Madalena, era um dia providencial, de acordo com o
legado, para começar o cerco. Convidou os católicos da cidade a entregarem os cerca
de duzentos hereges conhecidos; se o fizessem seriam poupados. A população decidiu
unir-se contra os estrangeiros.
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Podiam ter resistido durante meses, não fora um grupo de temerários deixar a
segurança das muralhas para insultar alguns mercenários que andavam a mandriar
num campo. Os jovens aperceberam-se tarde demais de que se tinham afastado
perigosamente. Correram de volta à cidade, perseguidos de perto pelos mercenários.
A população, no meio de grande confusão, refugiou-se na catedral e nas grandes
igrejas de S.Judas e Santa Maria Madalena. Os cavaleiros invasores juntaram-se aos
mercenários e varreram a cidade saqueando e matando tudo e todos no seu caminho.
De Arnald saiu esta ordem: «Matem-nos todos; o Senhor olhará pelos seus».
Atrás da porta trancada de Santa Maria Madalena, os clérigos tocaram o sino
enquanto os celebrantes se vestiam de negro para um requiem. As igrejas, santuários
desde tempos imemoriais, estavam apinhadas. Só em Santa Maria Madalena estavam
sete mil mulheres, crianças e velhos. Ao som dos padres que celebravam missa juntou-
se o dos machados que despedaçavam a madeira das portas. Quando estas cederam o
único som na igreja era o latim da liturgia e o palrar dos bebés ao colo das mães.
Os invasores, a cantar energicamente o Veni Sancte Spiritus, não pouparam
ninguém, nem mesmo os bebés. Os últimos a serem abatidos foram dois padres junto
do altar. Um deles erguia um crucifixo, o outro o cálix. O cálix caiu no chão de pedra
com um som metálico e o sangue de Cristo misturou-se com o das pessoas de Bésiers.
Foi, disse Lea no seu livro The Inquisition in the Middle Ages, «um massacre quase sem
paralelo na história da Europa».
Quando o ataque acabou, os mercenários foram informados de que os despojos
tinham de ser entregues para financiar a Cruzada. Vingaram-se deitando fogo à cidade.
Foi tudo devorado pelas chamas. A famosa catedral de Mestre Gervais abriu-se ao meio
com o calor. Tudo o que restou de Bésiers foi um monte de destroços em fogo lento sob
o qual jaziam mortos todos os cidadãos.
Na frescura do entardecer, o monge Arnald sentou-se a escrever ao seu superior.
«Hoje, Santidade, vinte mil cidadãos foram passados à espada, independentemente da
idade ou do sexo». Aquele procedimento não era habitual. Depois de um cerco, as
mulheres e as crianças eram poupadas, e especialmente o clero, que gozava de
imunidade. Matar bebés já era bastante mau, mas liquidar padres quando celebravam o
sacrifício ritual do Calvário era um crime inqualificável. O desejo de sangue apoderou-se
dos Cruzados do papa e nunca mais havia de afrouxar o seu domínio. Calcula-se que
na última e mais selvática perseguição sob o Imperador Diocleciano morreram cerca de
dois mil cristãos em todo o mundo. Na primeira intervenção depravada da Cruzada do
Papa Inocêncio foram chacinadas dez vezes mais pessoas. E nem todas eram
albigenses. É chocante descobrir que, de um só golpe, um papa matou mais cristãos do
que Diocleciano.
Inocêncio ficou profundamente comovido com a carta de Arnald. Agradeceu a Deus a
Sua grande misericórdia. Nunca, nem uma só vez, pôs em causa a legitimidade de um
monge matar os hereges e os católicos que os abrigavam. Parecia correcto defender a
verdade de Cristo pelos mesmos métodos que levaram à sua crucificação.
De Bésiers, os Cruzados marcharam para Carcassonne. Em apenas duas semanas
tomaram a fortaleza porque o seu comandante caiu numa armadilha ao pedir a paz.
Arnald prendeu-o simplesmente. Ao escrever ao papa sobre esta segunda vitória, o
legado pediu muitas desculpas pelo facto de não ter matado ninguém. Outra cidade em
chamas, explicava ele, teria privado a força expedicionária de fundos. Deixou sair os
habitantes — com os seus pecados como única roupa — com um salvo conduto de um
dia. Se fossem recapturados seriam mortos.
152
Para o lugar do Conde de Carcassonne, o legado escolheu um cavaleiro normando,
Simão de Montfort. De meia idade, Montfort tinha lutado corajosamente na Quarta
Cruzada, em 1199. A sua nova missão de manter a paz foi magnífica. Muitos homens
estavam a abandoná-lo depois de cumprirem os quarenta dias regulamentares. Iam em
paz sabendo que os seus pecados tinham sido perdoados e que tinham entrada
garantida no Paraíso. Deixavam para trás duas grandes vitórias, mas nem uma só
conversão.
Com uma força esgotada, mas unida, Monfort sentiu-se obrigado a tratar toda a
região como herética. Com base nos princípios católicos, sentia-se à vontade para
exterminar tantas pessoas quantas pudesse. O legado desencorajou-o de fazer
prisioneiros.
Em Bram, em 1210, Monfort, depois de tomar o castelo, não chacinou os prisioneiros.
Homens mortos não fazem bons mensageiros. Mandou que os soldados lhes cortassem
o nariz e arrancassem os olhos. Deixaram um olho a um de modo a poder guiar os
restantes. Cada um deles punha a mão no ombro do da frente e, qual gigantesco
insecto ensanguentado e lamuriento, dirigiram-se para Cabaret para aí incutir no
acampamento o temor a Deus.
Em Junho do mesmo ano, Monfort cercou Minerve. Quando esta se rendeu, Monfort
mandou 140 perfecti para um prado fora da cidade. Não lhes foi lida qualquer acusação;
não houve julgamento nem sentença. Juntaram lenha a que atearam o fogo. Os
soldados prepararam-se para empurrar os hereges para a fogueira como porcos
infectados. Mas como observou o obtuso cronista cisterciense Vaux de Cernay: «Os
nossos homens não precisavam de os atirar; não, estavam todos tão obstinados na sua
maldade que se atiravam voluntariamente». A rezar, os hereges correram calmamente
para a morte. O ar estava pesado com o cheiro de carne queimada, mas das vítimas,
nem grito, nem choro.
Isto, que foi a primeira grande queima de hereges, foi feito sob o olhar da Igreja e
com a sua bênção.
Depois, os Cruzados foram para Lavour. O Conde, Roger, foi enforcado e oitenta dos
seus cavaleiros queimados. A irmã do conde, conhecida pelo seu espírito caritativo, foi
atirada viva para um poço e enterrada sob as pedras. Depois, 400 perfecti foram
levados para fora da cidade e queimados numa grande pira funerária. Vaux de Cernay
registou para benefício do papa: «Cum ingenti gaudio combusserunt» (Atearam-lhes o
fogo com imensa alegria»). Estavam tranquilos, porque sabiam que tinham a bênção de
Sua Santidade.
Só um dos perfecti renunciou à sua fé. Eles eram pacifistas. Morreram com
dignidade, sem se queixarem. O massacre de Lavour foi o mais brutal daquela longa
Cruzada.
O papa mantinha-se informado de todos os passos. Uma carta sua para Monfort
começava com «Glória e graças a Deus por aquilo que Ele realizou através de vós e
desses outros a quem o zelo pela fé ortodoxa animou para esta obra contra os seus
mais pestilentos inimigos».
Não há dúvida de que Inocêncio sancionou previamente tudo o que foi feito por este
militar, a quem ele chamou no Quarto Concílio de Latrão, no ano de 1215, «esse
corajoso cavalheiro cristão».
A lição da Cruzada
Inocêncio e Monfort morreram no ano seguinte com apenas meses de diferença. Em
1226, depois de dezoito anos em que morreram centenas de milhar, a Cruzada chegou
153
ao fim. Em sentido profundo, ela nunca acabou de facto. Apesar de todas as palavras
bonitas do Concílio de Latrão, a Igreja tinha sofrido a sua derrota mais terrível.
Sob Inocêncio, a desobediência a qualquer aspecto do sistema papal era
imperdoável. O lascivo Arcebispo de Narbonne era um modelo de perfeição quando
comparado com os perfecti que viviam altruisticamente e morriam no espírito de Cristo.
O seu maior crime era que eles não manifestavam ao papa o respeito que lhe era
devido como Vigário de Cristo.
A Cruzada de Inocêncio revela a profundidade do sentimento da Igreja em relação à
heresia e até onde ela irá para lidar com a questão.
Outra lição desse período é que na tradição católica a verdade é primordialmente
verbal; a sua principal preocupação são as fórmulas ortodoxas. Inocêncio, em particular,
nunca pareceu entender que a mais profunda e perversa das heresias é a negação do
Evangelho, a renúncia, na prática, do Sermão da Montanha. Não teve quaisquer
escrúpulos em utilizar o nome de Cristo para fazer tudo aquilo a que Cristo se opunha.
Na opinião de Inocêncio, era pior os Albigenses chamarem-lhe Anti-Cristo do que ele
próprio provar sê-lo queimando-os, homens, mulheres e crianças, aos milhares.
As realizações de Inocêncio eram ilusórias. Languedoc acabou por ficar uma região
desertificada; as pitorescas tradições da Provença foram irrevogavelmente destruídas.
Mas a heresia não morreu; passou à clandestinidade. Tanto assim que a Igreja perdeu
não só a sua inocência, como também a batalha pelo espírito e coração do povo.
Em vez de pedir perdão a Deus pelos seus crimes sem paralelo, o papado encetara
com firmeza o caminho da violência. Para extirpar a heresia no futuro, a Igreja iria
precisar não de um grande exército mas de pequenos grupos de homens igualmente
cruéis que viajassem por toda a Cristandade em busca dos descrentes, reais ou
imaginários. Estes homens foram chamados de inquisidores e foram responsáveis, em
nome do papa, pela investida mais selvática e desenfreada contra a dignidade humana
da história da raça.
O longo reinado do terror
O terror começou a sério com Gregório IX, que subiu ao trono papal no ano de 1227.
Conde de Segui, membro da família Conti de Inocêncio III, tinha então mais de oitenta
anos de idade.
Dois anos mais tarde, no Concílio de Toulouse, no Languedoc, Gregório decretou
que os hereges tinham de ser entregues ao braço secular para castigo. «É dever de
todo o católico» disse ele «perseguir os hereges».
O Imperador Frederico, um descrente, tornou-se um feroz defensor da ortodoxia para
agradar ao papa. Gregório aprovou toda a sua legislação contra os hereges,
acrescentando-lhe alguns toques cruéis de sua própria autoria. No ano de 1232, deu o
passo decisivo.
Nasce a Inquisição
Publicou uma Bula que estabelecia a Inquisição. Os bispos eram demasiado brandos
e, de qualquer maneira, não tinham tempo nem talento para desempenhar a tarefa
cabalmente. Os hereges, isto é, todos aqueles que se opunham às decisões papais,
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deviam ser entregues às autoridades civis para serem queimados. Se se
arrependessem, cumpririam uma pena de prisão perpétua. Jamais um papa empunhou
o archote do terror com mais entusiasmo.
Em Abril de 1233, limitou os inquisidores aos membros das ordens mendicantes, e
pouco depois, os Dominicanos tomaram essa honra para si próprios. O dia 27 de Julho
de 1233 foi um dia memorável para o pontífice: foram nomeados os dois primeiros
inquisidores a tempo inteiro — Pedro Seila e Guilherme Arnald. Foram os primeiros de
uma longa série de perseguidores serenos e imperturbáveis da raça humana. Como
sketch de abertura, em 1239, dois anos antes da morte de Gregório, o Dominicano
Roberto le Bougre foi a Campagne investigar um bispo de nome Moranis. Este era
acusado de permitir que os hereges vivessem e se espalhassem pela sua diocese.
Numa semana, o Padre Roberto tinha já posto toda a cidade em julgamento. Em 29 de
Maio mandou 180 pessoas, incluindo o bispo, para a fogueira.
Era o regresso à barbárie. Ainda em 384, um sínodo em Roma denunciou o uso da
tortura e Gregório o Grande no século VI ordenou aos juizes que ignorassem os
testemunhos prestados sob coacção. Mesmo na Alta Idade Média, Nicolau I tinha
condenado a tortura como violação da lei divina.
Já desde o tempo de Gregório VII, porém, que o fanatismo se insinuara no papado.
Uma vez que o papa não pode cometer erros, tem de ser cegamente obedecido em
todas as coisas, por mais triviais que sejam. Entre 1200 e 1500, uma série de leis
papais desfez todos os matizes de divergência na fé e na disciplina. A contribuição de
Inocêncio IV na sua Bula Ad Extirpanda foi a de permitir que a Inquisição usasse a
tortura. A partir de então, qualquer desobediência, mesmo em pensamento, era punível.
Os maus pensamentos ameaçavam a unidade da Igreja, que foi criada com base na
lealdade ao Vigário de Cristo.
A História não dá cobertura à opinião de que a Igreja Católica sempre defendeu os
direitos do homem. No século XIII, a Igreja chegou mesmo ao ponto de ensinar aquilo
que a Igreja primitiva condenava: os hereges não têm direitos. Podem ser torturados
sem quaisquer escrúpulos. Tal como os traidores do Estado, os hereges punham-se à
margem da misericórdia da lei. Devem ser executados.
Durante mais de três séculos, não houve um só papa que se opusesse a estes
ensinamentos, que, portanto, deviam legalmente fazer parte da doutrina católica.
Através dela, a Inquisição adquiriu um poder sem precedentes. O resultado foi a
intimidação generalizada daqueles que não tinham qualquer protecção contra a
acusação ou até a mais leve suspeita de heresia.
Tudo é permitido
À Inquisição medieval tudo era permitido. Os Inquisidores Dominicanos, sendo de
nomeação papal, não estavam sujeitos a ninguém, a não ser a Deus e a Sua Santidade.
Estavam fora da jurisdição dos bispos e da lei civil. Nos Estados Papais eram eles a lei,
agindo como acusadores e juizes. O seu prinípio-guia era o seguinte: «É melhor que
morra uma centena de pessoas inocentes do que deixar um só herege vivo».
Agiam arbitrariamente e em total secretismo. Qualquer dos presentes no
interrogatório — a vítima, o escrivão, o executor — que quebrasse o silêncio incorria
numa repreensão que só o papa podia levantar. Os inquisidores, tal como o papa, não
podiam enganar-se ou agir mal.
Por ordem papal, estavam explicitamente proibidos de ter misericórdia para com as
suas vítimas. A piedade era anti-cristã em tudo o que estivesse relacionado com a
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heresia. Eram informados de que Sua Santidade assumiria ele próprio qualquer culpa
em que eles incorressem se ultrapassassem as marcas inadvertidamente. Tal como as
SS nazis no século XX, podiam torturar e destruir tranquilamente porque o seu oficial
superior — neste caso, o papa — lhes assegurava que os hereges eram um inimigo
sujo, doente e contagioso, que tinha de ser expurgado a todo o custo e por todos os
meios.
A tortura era usada livremente. Apenas um século antes, havia em exposição na
Casa Papal da Esquina, um Livro Negro, Libro Nero, que era o guia dos inquisidores.
Este manuscrito em forma de in-fólio, continha as recomendações do Grande Inquisidor.
Era popularmente conhecido por O Livro dos Mortos. Eis parte do que nele se podia ler:
A pessoa ou confessa e a confissão prova a sua culpa, ou não
confessa e é igualmente considerada culpada pelo depoimento das
testemunhas. Se uma pessoa confessa tudo aquilo de que é
acusada é inquestionavelmente considerada culpada de tudo; mas
se ela confessa apenas uma parte tem de ser, mesmo assim,
considerada culpada de tudo, porque aquilo que confessou é a prova
de que pode ser culpada em relação aos outros pontos da acusação.
[…] A tortura física sempre foi considerada como o caminho mais
salutar e mais eficiente para o arrependimento espiritual. Portanto,
cabe ao Juiz da Inquisição escolher o tipo de tortura mais adequado
de acordo com a idade, o sexo e a constituição do acusado. […] Se,
apesar de todos os meios empregues, o infeliz continuar a negar a
sua culpa, deverá ser considerado como vítima do demónio: e, como
tal, não merece compaixão da parte dos servidores de Deus, nem a
piedade e indulgência da Santa Madre Igreja: é um filho da perdição.
Que morra, pois, entre os condenados.
Seria difícil encontrar documento tão contrário aos princípios da justiça natural. De
acordo com o Livro Negro, um filho deve denunciar os pais, uma mãe deve denunciar
um filho. Não proceder assim é um «pecado contra o Santo Ofício» e merece a
excomunhão, isto é, a exclusão dos sacramentos e, se não houver emenda, a exclusão
do Céu.
Ao aplicar a tortura, os inquisidores medievais estavam proibidos de mutilar ou matar.
Mas, naturalmente, os acidentes acontecem. Muitas vezes partiam-se braços e pernas e
arrancavam-se dedos das mãos e dos pés. Se uma vítima ficava sem dois dedos, não
era caso para interromper as investigações.
A regra, conforme estava especificada em decreto papal, era a seguinte: A tortura só
pode ser usada uma vez. Como não se estabelecia qualquer limite temporal, ninguém
sabia o que é que “uma vez“ queria dizer. Uma vítima que não confessasse era deixada
em paz por alguns dias até recuperar física e mentalmente. Como ficava incomunicável,
agrilhoada, ao frio, na escuridão, no meio dos seus próprios dejectos e alimentada a
pequenas quantidades de pão e água, a tortura era considerada, talvez correctamente,
como tendo sido contínua.
Um aspecto notável da Inquisição medieval era que as testemunhas podiam ser
torturadas. As crianças do sexo masculino com menos de catorze anos e feminino com
menos de doze estavam dispensadas.
Qualquer pessoa que se recusasse a testemunhar ou se queixasse de ter de
testemunhar era considerada como tendo inclinações heréticas. Houve casos de
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famílias inteiras que foram torturadas para as obrigarem a incriminar um dos seus
membros.
Uma faceta macabra deste tribunal era que podia julgar até os mortos. O Sexto
Concílio Geral no ano de 680 declarara que a Igreja pode anatemizar os hereges vivos
e mortos. Como vimos, o Papa Formoso foi exumado por duas vezes e excomungado.
Isto lançou uma moda. Os inquisidores desenterravam os corpos e julgavam-nos. Se
não conseguiam encontrar os corpos que procuravam, julgavam-nos à revelia. Depois
de ditada a sentença dos mortos, fazia-se uma fogueira com os ossos. Centenas de
mortos foram julgados desta maneira. Alguns já tinham morrido há trinta ou quarenta
anos; um deles tinha sido enterrado setenta e cinco anos antes.
Isto mostra que ninguém devia subestimar a disposição da Igreja em perseguir os
hereges até à morte e, se preciso fosse, para além desta. Esta prática também permitia
aos inquisidores apoderarem-se de todos os bens dos mortos. Quando um cadáver era
considerado culpado, os seus antigos bens eram confiscados. Os herdeiros perdiam a
herança. Acontecia muitas vezes que um filho, católico irrepreensível, podia descobrir
que, depois da condenação póstuma do pai ficava privado não só dos seus bens mas
também de todos os direitos civis. E tinha sorte em ficar com vida, num especial acto de
clemência papal.
Os inquisidores eram pagos com a colheita da confiscação. Portanto, eram mais
temidos pelos ricos do que pelos pobres. Havia vários métodos para dividir os despojos
mas, depois de pagas as despesas dos escribas e dos carrascos, metade dos restantes
revertia geralmente para os cofres do papa e a outra metade para os inquisidores.
Alguns papas, como Nicolau III (1277-80), fizeram uma fortuna.
Os inquisidores mais temíveis eram os incorruptíveis; torturavam pura e
simplesmente por amor de Deus. Não tinham quaisquer interesses financeiros; tal
como, mais tarde, Himmler e Heydrich, agiam somente por amor à causa. O próprio
ascetismo da maioria destes piedosos Dominicanos tementes a Deus tornava-os
patologicamente cruéis. Habituados ao auto-flagelo, sentiam um desejo ardente de
flagelarem os outros. Os gritos das suas vítimas eram uma espécie de música teológica
para os seus ouvidos, uma prova de que Satanás estava a levar uma coça. Também se
deleitavam como crianças com a benevolência do papa para com eles; este concedia-
lhes as mesmas indulgências que concedia aos cavaleiros que iam para as Cruzadas.
Os inquisidores nunca perderam uma única causa. Não há registo de qualquer
absolvição. Quando, muito raramente, o veredicto era Não Provado, nenhum era
considerado inocente. Não interessava se o acusado não era realmente considerado
culpado de heresia. Fosse como fosse, os inquisidores acreditavam que apenas uma
em cada cem mil almas escaparia à condenação.
As vítimas
A provação kafkiana das vítimas começava com um bater à porta durante a noite. O
homem da família, por exemplo, em França, na Itália ou na Alemanha, levantava-se da
cama e à porta dava de caras com o Chefe da Polícia, guardas armados e um
dominicano. A partir daí, não lhe restava qualquer esperança.
Levado para a Casa Santa, era acusado de heresia. A sua culpa era presumida,
embora a política fosse a de nunca lhe dizer quais eram as acusações e ele fosse
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proibido de perguntar. Em fase nenhuma lhe era permitido fazer perguntas. Em breve
ficava a saber que lhe iria ser negado qualquer arremedo de justiça.
Só e sem amigos, era-lhe negada a representação legal. Aliás, nenhum advogado se
atrevia a defendê-lo. Uma vez que não se conhecia qualquer caso de absolvição, um
advogado mal sucedido arriscava-se a ficar, ele próprio, marcado como herege.
Também ele seria provavelmente excomungado e entregue ao braço secular.
Não eram permitidas testemunhas de defesa. Todas as testemunhas de acusação —
a sua identidade era mantida em segredo em relação ao prisioneiro — tinham igual
estatuto. Entre elas podiam estar os criados do acusado que ele despedira por roubo ou
incompetência. Podiam ser pessoas a quem os tribunais civis recusavam depoimentos:
perjuros condenados, os excomungados, os hereges. Alguns depoimentos não eram
mais do que boatos ou coscuvilhice. Maníacos, pervertidos, pessoas ressentidas ou que
queriam vingar-se, todos eram aceites. E o mais triste de tudo é que as testemunhas
eram muitas vezes membros da própria família do acusado a quem diziam que, não
havendo para ele qualquer esperança, a completa franqueza facilitaria a vida ao resto
da família.
Não era permitido qualquer recurso da sentença. Que tribunal poderia ser superior
àquele que agia em nome do papa?
À catolicidade dos testemunhos correspondia uma catolicidade de acusações. A
heresia era um conceito fluido. Qualquer coisa minimamente em oposição ao sistema
papal era «contra a fé».
As declarações dos pontífices medievais criaram este clima opressivo. Isto começou,
evidentemente, com a de Gregório VII: «O papa não se engana». Pascal II (1073-85),
citando uma carta forjada que sustenta todo o sistema de Santo Ambrósio, disse:
«Quem quer que discorde da Sé Apostólica é, sem dúvida, herege». Lúcio III (1181-5)
determinou que todas as divergências entre os católicos deviam ser pecados graves
porque negam a autoridade do papa que sustenta todo o sistema. Inocêncio III (1198-
1216) disse que aqueles que tomavam a palavra de Jesus à letra e limitavam o seu
discurso a Sim ou Não eram hereges e merecedores da morte. Inocêncio IV (1243-54),
numa espécie de clímax a esta apoteose, descrevia-se como «praesentia corporalis
Christi» (a presença corpórea de Cristo), presumivelmente por uma espécie de
transubstanciação na altura da sua eleição. Qualquer pessoa que mostrasse
desrespeito por ele ou pelos seus decretos era, naturalmente, herege. Bonifácio VIII
(1294-1303), para não ficar atrás, estabeleceu como doutrina católica que «todo o ser
humano tem de fazer o que o papa manda». Armados desta elástica noção daquilo que
contradizia a fé, os inquisidores prendiam as pessoas por comerem carne à sexta-feira,
ignorarem as obrigações pascais, lerem a Bíblia, dizerem que é pecado perseguir
alguém por razões de consciência, dizerem mal de um clérigo — padre ou bispo.
Qualquer zombaria sobre Sua Santidade era considerada uma ofensa indiciável, mesmo
quando feita por um homem embriagado. Qualquer afastamento da vida da comunidade
era prova de heresia e merecedora de morte. De tudo isto se conclui claramente que o
objectivo da Inquisição era defender, não a fé, mas o sistema papal. Como concluiu
uma vítima da Inquisição: «É mais seguro discutir o poder de Deus do que o poder do
papa».
Outras acusações de heresia eram o sacrilégio, a blasfémia, a bruxaria, a sodomia, o
não pagamento dos impostos ao papa e ao clero, dizer que a usura não é pecado.
Qualquer pessoa baptizada que não acendesse uma fogueira num Sabbath frio
presumia-se que era um judeu convertido merecedor de morte na fogueira.
A máxima injustiça era ser acusado de pensar heresia. Para a Inquisição, a ortodoxia
não era só falar e agir de maneira ortodoxa (isto é) papal; era também pensar como o
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pontífice queria que uma pessoa pensasse. Se, sob tortura, um prisioneiro provasse que
nunca tinha dito ou feito qualquer coisa herética, podia ainda assim ser castigado pelos
seus pensamentos, as suas dúvidas, as suas tentações.
O processo
Logo que chegavam a uma cidade, os inquisidores apresentavam-se às autoridades
civis para mostrar as suas credenciais. Em nome do papa, ordenavam ao governador
que cooperasse com eles, aceitasse o seu veredicto sobre o acusado e executasse o
julgamento.
O clero local era obrigado a reunir o seu povo na igreja, onde os inquisidores
pregavam contra o pecado da heresia. Davam à congregação em pânico um período de
graça — uma semana ou mais — para avançarem e confessarem os seus crimes. Podia
ser heresia ou associação com hereges, tais como os pais ou os filhos
desencaminhados. Se confessassem voluntariamente, recebiam um ligeira penitência
canónica. Depois do sermão, os dominicanos iam para os seus alojamentos e ficavam à
espera. Umas vezes, ninguém se apresentava; outras, como em Toulon em 1245-6,
vinham oito a dez mil confessar. Contrataram-se mais escrivães para se ocuparem
deles. Geralmente os informadores dirigiam-se aos alojamentos dos dominicanos a
coberto da noite. Com a garantia do anonimato em nome do papa, qualquer fanático,
qualquer vilão se sentia à vontade para mentir como quisesse.
O tribunal era formado por um ou dois inquisidores, duas ou mais testemunhas e os
elementos do pessoal dos inquisidores. Todos eles estavam encapuzados.
A frase constantemente na boca dos juizes era: «Diz a verdade». Sempre que o
prisioneiro pedia um esclarecimento, o inquisidor respondia fria e calmamente: «Diz a
verdade».
Logo que se tornava evidente que o acusado não iria confessar espontaneamente,
era levado para a masmorra onde o verdugo já tinha os instrumentos prontos. A
sentença de heresia era lida sob um crucifixo, após o que o carrasco despia o
prisioneiro e o atava a um cavalete. «Diz a verdade por amor de Deus», recitava o
inquisidor ritualmente, «porque os inquisidores não desejam ver-te sofrer».
Com todas as partes do corpo acessíveis, atavam-lhe cordas à volta das coxas e dos
braços. Passavam-lhe um cinto à volta da cintura e cordas a ele ligadas que lhe
passavam pelos ombros da frente para trás. De cada vez que as cordas eram
apertadas, o dominicano interrompia a recitação do rosário em honra da Virgem e dizia:
«Diz a verdade». Se o prisioneiro era teimoso, metiam paus dentro das cordas para
fazer um garrote. O efeito era como o de um torniquete em vários membros ao mesmo
tempo. Muitas vezes utilizavam o strappado. A vítima era colocada sobre uma roda e
içada do chão, às vezes até ao tecto. Mas havia uma tortura pior que todas as outras.
A tortura da água
Um caso suave de tortura da água foi descrito em pormenor por Henry Charles Lea
na sua incontornável obra em quatro volumes intitulada History of Inquisition in Spain
(1907).
Elvira del Campo foi presente ao tribunal de Toledo no ano de 1568. Era uma mulher
jovem e estava grávida quando foi presa em Julho do ano anterior. O bebé nasceu na
prisão, em Agosto, mas não se sabe o que lhe aconteceu. A acusação contra ela era
que nunca comia carne de porco e que mudava de roupa interior ao sábado. A
presunção era que ela era cripto-judia.
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Elvira era cristã, casada com um cristão. O pai era cristão também, mas a mãe tinha
antepassados judeus. Quando Elvira tinha onze anos, a mãe inculcou-lhe uma aversão
à carne de porco; mais tarde, quando tentava comê-la ficava enjoada. A mãe também a
ensinou a mudar de roupa interior ao sábado. Para a rapariga, nada disto tinha qualquer
significado religioso.
Dois trabalhadores que estavam hospedados em sua casa denunciaram à Inquisição
os seus “hábitos judeus“. Provavelmente não houve aqui maldade premeditada. Eles
receavam ser automaticamente excomungados se não denunciassem comportamentos
suspeitos. Por falarem até ganhavam três anos de indulgências. As testemunhas
concordaram que Elvira era caridosa para com toda a gente, ia à missa e confessava-se
regularmente.
O processo iniciou-se em 6 de Abril. Para o interrogatório estavam presentes dois
dominicanos e um vigário episcopal. Avisaram-na de que seria torturada caso não
dissesse toda a verdade. Ela insistia que não sabia nada. Caindo de joelhos implorou
que lhe dissessem o que queriam que ela dissesse, que ela o diria de boa vontade. Os
inquisidores repetiram-lhe que ela sabia perfeitamente o mal que tinha feito. «Diz a
verdade».
Sempre a protestar a sua inocência, foi levada para a câmara de tortura e totalmente
despida. Deram-lhe zaraguelles, também chamados panos de verguenza, um pequeno
par de calções para cobrir as partes.
«Señores», gritou ela, «Eu fiz tudo isso que disseram de mim e prestei falsos
testemunhos contra mim mesma».
Mas isto não satisfez os juizes. «Diz a verdade».
Tinha os braços presos e as cordas torciam-nos dolorosamente.
«Eu fiz tudo o que eles dizem», declarou Elvira.
«Queremos os pormenores»
«Não comi carne de porco por que ela me fazia mal, señores. Eu fiz tudo; soltem-me
e eu digo a verdade. […] Mas digam-me só o que é que eu tenho de dizer».
Esticaram-lhe as cordas até ela gritar que lhe estavam a partir os braços. À décima
sexta volta as cordas estalaram. A um sinal do inquisidor, o carrasco transferiu-a para o
potro, um cavalete com travessas afiadas, como uma escada de pedreiro. O cavalete foi
inclinado de maneira que a cabeça da vítima ficasse mais baixa do que os pés.
Enquanto a fixavam nessa posição, os garrotes nos membros eram apertados.
«Señores», pediu ela, «recordem-me aquilo que eu não sei. […] Estão a despedaçar-
me a alma».
«Diz a verdade».
«Violei a lei», disse Elvira em desespero.
«Qual lei?»
«Não sei, señor. Diga-me o señor».
Outro sinal com a cabeça e o carrasco abriu-lhe a boca com um bostezo, uma ponta
de ferro. Enfiou-lhe uma toca, um pedaço de linho, pela garganta abaixo. «Tira-me
isso», gritou ela, «Estou a sufocar, e sinto um enjoo no estômago».
De um jarro, o carrasco despejou lentamente água para a toca, fazendo com que
pingasse para a garganta. Alguns prisioneiros levaram seis a oito jarros e acabaram por
sufocar. Elvira tentou dizer que estava a morrer. Quando lhe tiraram a toca, ficou
calada, ou porque não tinha nada a dizer ou porque não conseguia falar. A tortura foi
suspensa por quatro dias.
Nessa altura Elvira tinha já os braços e pernas rígidos. Fechada numa cela
incomunicável, crescera-lhe o terror na antecipação do que seria a sessão seguinte. Mal
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tinha regressado à câmara de tortura, desfaleceu, pedindo que lhe cobrissem a nudez.
Daí para a frente, as suas palavras tornaram-se quase sempre incoerentes.
No fim, os inquisidores conseguiram arrancar-lhe a confissão de que a sua recusa em
comer carne de porco e a mudança de roupa ao sábado eram prova do seu judaísmo.
Quando percebeu o que lhe era exigido, confessou com alívio a sua apostasia e
implorou por misericórdia.
Um dos juizes propôs que fosse queimada. Era a pena máxima. Os clérigos podiam
sancionar a pena da fogueira, mas evitavam a espada por causa da interdição bíblica do
derramamento de sangue. Os prisioneiros que se arrependessem ficavam com os seus
bens confiscados e eram presos. Se era prisão perpétua nas masmorras da Inquisição,
a pena seria curta, devido às condições nelas existentes. Nalguns casos, a pena de
prisão tinha uma duração determinada. A pena mínima era a “Cruz da Infâmia”. Duas
cruzes de feltro amarelo eram cosidas nas partes da frente e de trás de todas as roupas
usadas pelos acusados. Isto era a garantia de que seriam tratados como párias.
Elvira não foi queimada. A maioria dos juizes foi a favor da clemência. Ela já tinha
passado mais de um ano no cárcere. Os seus bens foram confiscados; ordenaram-lhe
que envergasse o manto da vergonha; foi condenada a passar mais três anos na prisão.
Por qualquer razão, insanidade mental, talvez, foi libertada seis meses depois. O caso
foi encerrado.
O caso de Elvira del Campo deve ser representativo de muitos milhares de vítimas.
Cristã devota, ela foi presa e torturada sem misericórdia pelos representantes do papa,
em nome do papa. O seu único crime foi fazer aquilo que Jesus fez durante toda a sua
vida.
A Inquisição Espanhola
A Inquisição a cujas mãos Elvira tanto sofreu foi autorizada em Espanha por Sisto IV
no ano de 1480. Quando Fernando e Isabel derrotaram os Mouros, muitos mouros e
judeus, para escaparem ao castigo, converteram-se ao Cristianismo. Os monarcas
temiam que eles não fossem verdadeiros cristãos e representassem por isso uma
ameaça para o Estado. Pediram portanto ao papa autorização para estabelecer a
Inquisição nos seus territórios. O mais famoso de todos os Grandes Inquisidores foi o
frade dominicano Tomás de Torquemada. Nomeado em 1483, reinou tiranicamente
durante quinze anos. As suas vítimas contam-se em mais de 114000, das quais 10220
foram queimadas. Muitas outras foram condenadas a prisão perpétua.
Prior do Convento de Santa Cruz em Segóvia, Torquemada, confessor da Rainha
Isabel, vivia santamente. Jejuava frequentemente, nunca comia carne, e recusou a
lucrativa Sé de Sevilha. Vivia num palácio, com 250 criados e mantinha cinquenta
cavaleiros. Estes eram provavelmente os seus guarda-costas — ele bem precisava
deles.
Não era nenhum sádico. Mandou queimar milhares de pessoas mas nunca assistiu
ao sofrimento das suas vítimas. Era um odium estritamente teológico; ele agia
absolutamente por amor a Cristo e devoção ao papa. Uma vez, quando suspeitou que
Fernando e Isabel se preparavam para deixar ficar no reino alguns judeus ricos por
determinado preço, irrompeu na sua presença brandindo um crucifixo. «Judas vendeu
Cristo por trinta dinheiros» trovejou ele. «Vão V. Magestades vendê-lo por mais?»
O curioso é que, se este flagelo dos Judeus vivesse no século XX, os Nazis tê-lo-iam
mandado para a câmara de gás, pois o Irmão Tomás de Torquemada tinha uma avó
judia.
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Llorente, secretário da Inquisição em Madrid de 1790 a 1792, em História da
Inquisição, estimou em trinta mil o número de pessoas que tinham sido mortas em
Espanha até então. Durante o reinado de Filipe II, o marido espanhol de Maria a
Sangrenta, calcula-se que o número de vítimas da Inquisição tenha ultrapassado em
muitos milhares o de todos os cristãos que sofreram sob os imperadores romanos.
Alguns historiadores católicos, como Maistre, são de opinião de que a Inquisição
espanhola era uma instituição puramente política. O fundamento disto é que os papas
nunca se sentiram satisfeitos com ela. Mas isto devia-se principalmente ao facto de eles
quererem o controlo absoluto, sem o qual os seus lucros diminuíam, porque, como
observou Pastor em History of the Popes, se tratava de «uma instituição mista, mas
primordialmente eclesiástica». Aqueles que eram condenados eram entregues ao braço
secular; isto não teria sido necessário se a Inquisição fosse um tribunal civil. Uma prova
disto é que nos grandes autos-da-fé o Inquisidor se sentava num trono mais elevado do
que o do monarca. Estes “Autos de Fé” eram muito apreciados pelos espanhóis.
Charles Lewis, Barão de Pollnitz, faz-nos um interessante relato de um deles nas suas
memórias, publicadas em 1738.
Lewis fora funcionário superior na corte do Rei da Prússia. Era calvinista e converteu-
se ao Catolicismo, o que significa que perdeu o emprego. Bem relacionado como era,
procurou recompor-se com uma volta pelo mundo, durante a qual manteve um diário
pormenorizado.
Numa Páscoa, encontrava-se por acaso em Madrid durante um auto-da-fé. Viu várias
pessoas acusadas de Judaísmo serem queimadas. Entre elas estava uma rapariga que
aparentava entre dezoito e vinte anos. Mais bela não vira nas suas viagens. «Foi para a
execução», escreveu ele, «com a alegria estampada no rosto e morreu com aquela
coragem que tornou famosos os nossos próprios mártires».
Mais tarde, durante a sua visita, quarenta pessoas foram presas numa só noite, entre
elas um famoso cirurgião que Lewis tinha conhecido, de nome Peralte. Parece que
estava destinado a morrer nas mãos da Inquisição. A mãe tinha-o dada à luz na prisão e
fora imediatamente levada para ser queimada por ser judia. Aos trinta anos foi acusado
de professar secretamente a religião da mãe. Esteve preso três anos. Depois de
libertado, foi capturado uma segunda vez. Depois de deixar Madrid, Lewis soube que
Peralte tinha sido queimado. Foi como se a prece da sua mãe tivesse sido atendida,
porque a estória conta que na fogueira ela pedira a Deus para que um dia o filho
morresse da mesma maneira que ela.
E a conclusão de Lewis é esta: «Ainda bem que eu não estava em Madrid na altura
da execução de Peralte, porque eu conhecia-o e, embora ele fosse um verdadeiro
fanático, no que ao Judaísmo diz respeito, eu considerava-o um dos homens mais
respeitadores do mundo.
Quando Napoleão conquistou a Espanha em 1808, um oficial polaco do seu exército,
o Coronel Lemanousky, relatou que os dominicanos se bloquearam no seu mosteiro em
Madrid. Quando as tropas de Lemanousky forçaram a entrada os inquisidores negaram
a existência de câmaras de tortura. Os soldados fizeram uma busca ao mosteiro e
descobriram-nas sob os soalhos. As câmaras estavam cheias de prisioneiros, todos
nus, muitos já loucos. As tropas francesas, habituadas à crueldade e ao sangue, não
tiveram estômago para o que viram. Evacuaram as câmaras de tortura, espalharam
pólvora por todo o mosteiro e fizeram-no explodir.
162
A Inquisição Romana
A Inquisição Romana, distinta da Inquisição medieval que tinha florescido durante
séculos, foi estabelecida por Paulo III em 21 de Julho de 1542. Esta foi a primeira das
Congregações Romanas. Era composta por cardeais, um dos quais, o vulcânico João
Pedro Carafa, mais tarde Paulo IV, concebeu a ideia. Como um dos inquisidores gerais,
ele tinha o poder de mandar prender qualquer pessoa suspeita de heresia, confiscar-lhe
os bens e executar os culpados.
À sua própria custa, comprou e equipou imediatamente uma casa com os
instrumentos de tortura mais modernos. «Ninguém» dizia ele «pode rebaixar-se
tolerando os hereges». Outra das suas máximas era: «Se o meu próprio pai fosse
herege, eu mesmo juntaria a lenha para o queimar».
Eleito papa em Maio de 1555, estava à vontade para espalhar a sua marca de
fanatismo. Asceta como Torquemada, odiava os Judeus e fechou-os em guetos, odiava
os sodomitas, que mandou queimar, odiava as mulheres, que proibiu de manchar as
portas do Vaticano. Dele disse Ranke que, no fim da sua longa vida «vivia e movia-se
no meio das suas reformas e Inquisições, fazia leis, mandava prender, excomungava e
mandava fazer os seus autos-da-fé; estas actividades preencheram-lhe a vida».
Um dos interesses apaixonados de Paulo era o de reprimir a liberdade de
pensamento. Como cardeal, queimara todos os livros que considerava perniciosos.
Como papa, introduziu em 1559 o Index dos Livros Proibidos. Da lista constavam todas
as obras de Erasmo, Rabelais, e até de Henrique VIII, cujos Seven Sacraments tinha
sido saudado por Leão X em pleno consistório como se tivesse caído do céu. Proscrito
foi também o Decameron de Bocácio, tão querido de Chaucer, «enquanto não fosse
expurgado». Isto era o mesmo que dizer que um livro sobre o mel não podia ser
publicado enquanto não lhe fossem retiradas todas as referências às abelhas.
Suprimir o pensamento livre tinha-se tornado mais difícil desde 1450 altura em que os
livros começaram a chover das novas tipografias. A imprensa foi o maior contributo para
a democracia que o mundo jamais vira. O papado não conseguiu então, como mais
tarde, chegar a um acordo com ela.
Mesmo no campo da censura, o ridículo veio à tona. Em primeiro lugar, Paulo IV
realizou o heróico feito de se pôr a ele próprio no Index. É uma estória bizarra.
Alguns anos antes, Paulo III tinha nomeado meia dúzia de cardeais, liderados por
Carafa, para investigar todos aqueles que andavam a desviar-se da ortodoxia e da
moral. «Os culpados e os suspeitos» declarou Paulo «devem ser presos e processados
até à sentença final [a morte]». Carafa cumpriu as ordens à letra. O papa não se
perturbou, embora fosse um dos principais candidatos à investigação, com as suas
amantes, filhos ilegítimos e as ofertas de chapéus vermelhos ao neto e a dois sobrinhos
de catorze e dezasseis anos.
No Consilium (Recomendação) final dado ao papa, havia de facto críticas explícitas
ao absolutismo e simonia papais, bem como aos seus abusos na atribuição de bispados
a candidatos indignos deles, e muito mais. Infelizmente para o Vaticano, este
documento veio a público. Os Protestantes leram-no deliciados, pois era a confirmação
de tudo aquilo que sempre tinham dito sobre o papado.
Quando Carafa se tornou papa, não teve outro remédio senão pôr no Index este
Consilium que ele próprio tinha escrito.
Outra peça de humor não intencional centra-se no Decameron. Cosimo de’ Medici,
fundador da sua dinastia familiar, salientou mais tarde, que esta obra era um texto
italiano clássico raro. Perguntou ao pontífice reinante se havia alguma possibilidade de
a mandar retirar do Index. O resultado foi que o impossível aconteceu. Apareceu uma
163
versão expurgada no reinado de Gregório XIII em 1573. Gregório, que tinha um filho,
Giovanni Buoncompagni, a que estava muito ligado e que fez cardeal, tinha um espírito
mais aberto do que Paulo IV. A nova versão da obra prima de Bocácio deve ser
simultaneamente o livro “porco” mais bizarro e mais recomendado da história. Foi
precedido de uma Bula papal; teve dois Imprimatur, um do Supremo Tribunal da
Inquisição e o outro do Inquisidor Geral de Florença, e recebeu louvores de vários
chefes de estado, incluindo os reis de França e Espanha.
Como explicar tal aclamação? A resposta é que o censor, Vincenzo Borghini, tinha
qualquer coisa de genial. Além de usar a tesoura num ou noutro ponto, fez uma limpeza
ao livro utilizando um estratagema muito simples: todos os membros do clero que
figuravam no texto de Bocácio foram substituídos por leigos.
* * *
A parte menos divertida do Index é que no tempo de Paulo IV houve uma tal queima
de livros que os editores temiam pelo seu sustento. Os autores, para salvar a pele,
deixaram de escrever. O livre pensamento e a livre expressão acabaram na Itália papal,
para não mais voltar. O efeito disto na Cúria, e por via desta, na Igreja Católica foi
incalculável.
Em 1564, o Concílio de Trento preparou um Index mais abrangente. As obras eram
condenadas a dez títulos. Sete anos mais tarde, foi estabelecida em Roma uma
Congregação do Index que durante séculos fez sair novas listas das obras proibidas.
Poucos clássicos escaparam. Assim a Contra-Reforma foi guiada por uma censura
tacanha, cujos vestígios ainda podem ser vistos nos livros católicos com o carimbo
Imprimatur. Um livro de autoria de um membro de uma ordem religiosa trará
provavelmente o nome de cinco censores na guarda. Em tais circunstâncias, entra em
acção uma poderosa auto-censura. Este aparelho de repressão tão querido dos regimes
totalitários, provocou enormes danos no espírito da informação livre na Igreja. E explica
a razão por que em tantos campos — o da teologia, da Bíblia e mesmo da ciência — a
contribuição dos católicos se atrasou em relação ao resto do mundo académico. Num
clima de medo, a erudição murchou. Gerações de estudantes, eruditos e bispos foram
também proibidos de ler livros formativos porque estavam no Index. As falsificações,
que tinham contribuído para criar o sistema papal, tais como os Decretais Pseudo-
Isidorianos, os textos fabricados que enganaram Graciano e Tomás de Aquino, foram
protegidos pelo Index, pelo menos até 1660, altura em que um erudito francês começou
a dizer a verdade sobre eles. Claro que também ele foi posto no Index. Só em 1789 é
que Pio VI, em resposta a um pedido dos bispos alemães, admitiu que os Decretais
eram uma falsificação. A confissão vinha nove séculos atrasada. Como escreveu Lea
em Studies in Church History (1883):
Não é problema menor o de uma Igreja infalível que não pode
abandonar decorosamente qualquer posição anteriormente
assumida. Tendo aceitado os falsos decretais como genuínos, e
tendo baseado neles as suas afirmações de supremacia temporal
universal, quando foi obrigada a abandonar a defesa das
falsificações ficou numa posição escandalosamente falsa. Ter
sancionado uma mentira desde o século IX ao século XVIII já era
bastante mau, mas abandonar os frutos dessa mentira tão
engenhosamente transformada em lucrativa causa era mais do que
se podia esperar da natureza humana.
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J. H. Ignaz von Döllinger era professor de História da Igreja em Munique nos meados
do século XIX. Precisamente antes do Vaticano I, publicou The Pope and the Council,
onde tenta mostrar como eram falsas e exageradas as afirmações papais de
infalibilidade. Foi posto no Index menos de duas semanas antes do Concílio ter a sua
primeira sessão. Roma sempre achou mais fácil suprimir os argumentos do que
responder-lhes.
O Index foi finalmente extinto por Paulo VI ao fim de mais de quatro séculos. Corria o
ano de 1966.
A Inquisição Romana continuou as suas actividades abertamente bárbaras até uma
data já bem dentro do século XIX. No ano de 1814, depois de libertado do seu cativeiro
francês, Pio VII reintroduziu a Santa Inquisição para «a blasfémia, a imoralidade, as
atitudes de desrespeito para com a Igreja, a não participação nas suas festas, o
incumprimento dos jejuns e especialmente o abandono da verdadeira fé». Em 1829,
qualquer pessoa que tivesse consigo um livro escrito por um herege devia ser tratado
como herege. Assim falou Pio VIII, que decretou que quem quer que ouvisse uma
palavra de acusação contra o Santo Ofício e não o denunciasse seria tão culpado como
o infractor e como tal devia ser tratado.
Contudo, por esta altura as coisas começavam a ficar mais fáceis. A Inquisição foi
suprimida em Espanha em 1813. Três anos mais tarde Pio VII proibiu o uso da tortura
nos tribunais da Inquisição, embora ela tivesse continuado de facto por mais vinte anos.
Com um atraso de quase seis séculos, Sua Santidade, «mentor dos valores morais
absolutos», vira a luz.
Embora as fogueiras fossem agora ilegais, Pio IX, por um édito datado de 1856,
ainda permitia «a excomunhão, o confisco, o banimento, a prisão, bem como a
execução secreta em casos hediondos». E a Inquisição também não deixou de
excomungar rapazes e raparigas que não denunciavam os pais por consumirem carne
ou leite nos dias de jejum ou por lerem um livro que estivesse no Index. Nos Estados
Papais, estes crimes eram puníveis com a prisão.
Precisamente até 1870, os infractores políticos eram julgados por um tribunal
especial, o Santa Consulta. Do julgamento só faziam parte padres e o seu poder era
absoluto. Na melhor tradição da Inquisição, os acusados nunca eram confrontados com
as testemunhas nem tinham direito a um advogado de defesa. Sempre que um dos
Estados Papais caía nas mãos dos exércitos da nova Itália e se abriam as prisões,
dizia-se que as condições dos prisioneiros eram indescritíveis. Os maus hábitos da
Inquisição levaram tempo a morrer.
O julgamento dos papas
O currículo da Inquisição seria embaraçoso para qualquer organização; para a Igreja
Católica é devastador. Hoje, a Igreja orgulha-se, e com muita razão, de ser defensora
da lei natural e dos direitos humanos. O papado em particular gosta de se ver como o
campeão da moralidade. O que a história mostra é que, durante mais de seis séculos
sem interrupção, foi o inimigo jurado da justiça mais elementar. De oitenta papas
sucessivos do século XIII em diante, nem um só discordou da teologia e do aparelho da
Inquisição. Pelo contrário, um após outro, todos eles acrescentaram o seu retoque cruel
às actividades desta máquina mortífera.
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O que é intrigante é isto: como é que os papas puderam dar continuidade a esta
autêntica heresia geração atrás de geração? Como é que eles puderam negar em toda
a linha o Evangelho de Jesus, que sofreu, ele próprio um julgamento injusto e, embora
inocente, foi crucificado por heresia?
A resposta parece ser esta: uma vez iniciada a Inquisição por um papa como
Gregório IX, os pontífices preferiram contrariar o Evangelho a contrariar um antecessor
“infalível”, porque o contrário faria ruir o próprio papado.
Os historiadores católicos salientam que a Europa nessa altura era uma Cristandade,
uma unidade de Igreja e Estado. A heresia era tanto um crime civil como um pecado. De
facto, todos os príncipes a olhavam como lèse majesté; um herege fazia perigar a
unidade do reino e portanto era um traidor.
Isto só prova que a aliança entre a Igreja e o Estado, a que os papas estavam tão
ligados, teve efeitos secundários desastrosos. Dessa aliança nasceram as crueldades
da Inquisição. Mas nem isto explica completamente os especiais males do Tribunal que
a tornou um paradigma de injustiça: a presunção de que o acusado era culpado; a
tortura do acusado e das testemunhas e por aí fora.
Alguns historiadores têm tentado absolver os papas dos crimes da Inquisição. Mas
isto é difícil, porque a raiz do poder dos inquisidores era o conhecimento de que eles
eram delegados do papa e agiam inteiramente sob ordens papais. E mais, a extensão
de “heresia“ para cobrir todo o afastamento da vida comum foi inteiramente devida aos
papas. Como Döllinger observou: «Tanto a iniciação como o cumprimento deste novo
princípio tem de ser atribuído exclusivamente aos papas. Não havia nada na literatura
do tempo para lhe abrir o caminho».
Também só aos papas se deve a reintrodução da tortura nos tribunais. Foi preciso o
prestígio papal para passar por cima de uma longa tradição civilizada de que a tortura
era muito má. Lea escreveu em The Inquisition in the Middle Ages:
Ela [a Inquisição] introduziu um sistema de jurisprudência que
infectou a lei criminal de todas as terras sujeitas à sua influência, e
fez da administração da justiça papal durante séculos um arremedo
cruel. Forneceu à Santa Sé uma arma poderosa para o
engrandecimento político, tentou monarcas seculares a imitarem o
seu exemplo e prostituiu o nome da religião aos mais vis fins
temporais. […] O julgamento imparcial da História deve ser o de que
a Inquisição foi o fruto monstruoso do zelo errado, utilizado pela
ambição egoísta e pela sede de poder para asfixiar as mais altas
aspirações da humanidade e estimular os apetites mais baixos.
Os seus defensores, como Maistre, têm argumentado que a Igreja não matou
ninguém. Os inquisidores entregavam os culpados ao braço secular com um apelo de
clemência.
Sendo isto verdade, apenas acrescenta hipocrisia à malvadez. E também é irónico na
medida em que, quando os Judeus através dos tempos foram acusados de ter matado
Jesus, nenhum teólogo alguma vez lembrou que os Judeus não mataram Jesus, mas
apenas o entregaram ao braço secular.
Não há notícia de caso algum em que um príncipe ou magistrado secular se tenha
recusado a punir alguém condenado por heresia pelos frades da Inquisição. Os papas
não fazem segredo disto: qualquer príncipe que não mandasse queimar os hereges
acusados pela Inquisição seria ele próprio excomungado e presente ao mesmo tribunal
por heresia. Longe de estarem isentos de culpa, os inquisidores eram ainda mais
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culpados por implicarem o poder civil nos seus crimes. O que tornou tão pungente o
sofrimento dos católicos às mãos da Inquisição foi que eles estavam a ser torturados e
queimados, não pelos inimigos da Igreja mas pelos seus mais sagrados defensores a
agir às ordens do Vigário de Cristo.
Os defensores da Inquisição poderiam parecer em campo mais seguro quando
argumentam que a Inquisição deve ser julgada à luz dos padrões do seu tempo e não
dos do século XX.
Contudo, a Inquisição não foi só perversa quando comparada com o século XX, foi-o
também quando comparada com o século X e XI, quando a tortura era ilegal e os
homens e mulheres tinham direito a um julgamento justo. Foi perversa quando
comparada com o tempo de Diocleciano, porque nessa altura ninguém era torturado e
morto em nome de Jesus crucificado.
Também vale a pena comparar os países que alinharam com a Inquisição com
aqueles, por exemplo a Inglaterra, que o não fizeram. Desde Guilherme o Conquistador
que a lei comum na Inglaterra mantinha um saudável desrespeito pela teocracia. Uma
pessoa presumia-se inocente até prova em contrário. A lei comum garantia os
elementos básicos da justiça que a Inquisição negava aos acusados: um homem era
julgado pelos seus pares, as testemunhas podiam falar em seu nome, tinha direito a
advogado em julgamento público. A lei proibia a tortura, sabendo que ela só levava à
hipocrisia e ao perjúrio.
Digno de nota é o facto de que um dos poucos prelados com peso bastante para
enfrentar Inocêncio III foi Stephen Langton, um inglês versado em leis. Num brilhante
desafio ao absolutismo papal, escreveu: «A lei natural vincula de igual modo príncipes e
bispos; não há que fugir disto. Está fora do alcance do próprio Papa».
A intimidação provocada pela Inquisição era tal que nenhum teólogo, à excepção de
“hereges“ como Marsilio de Pádua e Martinho Lutero, ergueu a voz contra ela. Se algum
tivesse falado, teria sido imediatamente silenciado. Se algum tivesse escrito contra ela,
teria sido censurado previamente. A tirania continuava sem oposição. Nem um só bispo
durante todos estes séculos ergueu a sua voz para protestar contra a maneira como o
seu rebanho estava a ser destroçado, mais uma prova de que os bispos nesses tempos
eram marionetas da Santa Sé. Contudo, protestantes como Baltazar Hubmaier tinham
uma cabeça mais lúcida e um coração mais corajoso. Hubmaier escreveu um opúsculo
inteiro contra a queima dos hereges em 1524. Numa persistente série de propostas,
escreveu:
Treze: Os inquisidores são os maiores hereges de todos, uma vez
que, contra a doutrina e o exemplo de Cristo, condenam os hereges
à fogueira.
Catorze: Porque Cristo não veio para matar, destruir e queimar mas
para que os vivos vivam com mais abundância…
Vinte e oito: Queimar os hereges é aparentemente professar Cristo,
mas na realidade é negá-lo…
Trinta e seis: É claro para toda a gente, mesmo para os cegos, que
uma lei para queimar os hereges é uma invenção do demónio. «A
verdade é imortal».
Tentar desculpar o papado pela Inquisição com o argumento dos padrões
contemporâneos peca por outra razão. O papado continuou com a sua má conduta
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muito depois de todos os países civilizados da Europa a terem abandonado. Assim
como a Reforma do século XVI ajudou a purificar alguns aspectos do papado, o
liberalismo do século XIX, vigorosamente condenado por Roma, varreu finalmente a
tirania cruel a que os papas e a Cúria estavam excessivamente ligados.
Há uma última falha ao apelar para padrões de comportamento mais antigos numa
tentativa de ilibar o papado. Todo o ênfase da doutrina da Igreja Católica Romana hoje
é que está acima de considerações temporais e relativizadoras. Outros podem vacilar
sobre a contracepção ou o aborto, mas não os Católicos Romanos guiados pelo papa.
João Paulo II, por exemplo, afirma ensinar uma moral absoluta, uma moral baseada na
lei natural; nem ele, nem o próprio Deus podem mudá-la, uma vez que ela tem as suas
raízes e a sua origem na natureza do próprio homem.
Se assim é, como é que os papas podem desculpar os julgamentos morais
contraditórios, falsos e até perniciosos dos seus muitos antecessores evocando «os
padrões do tempo»?
A Igreja Católica enfrenta uma escolha difícil: ou a sua doutrina é relativa como
qualquer outra, e nesse caso não tem qualquer direito a reclamar que seja ouvida; ou a
sua doutrina é absoluta, e então o comportamento dos papas e da sua Inquisição é
totalmente indesculpável. O que ela não pode fazer é afirmar-se simultaneamente de
sabedoria absoluta e livre de culpa histórica.
O ulgamento dos historiadores
Em geral, os historiadores não têm sido generosos para com a Inquisição. Lea, um
quaker que passou muitos anos da sua vida a examinar as suas actividades, fala de
uma « série infinda de atrocidades».
Lord Acton, católico, afirma que foi nem mais nem menos do que «um assassínio
religioso. […] O princípio da Inquisição era homicida». Quanto aos papas, «foram não
só assassinos em grande estilo, como também fizeram do assassínio uma base legal da
Igreja Cristã e uma condição de salvação».
Mesmo depois da Segunda Grande Guerra, G. G. Colton pôde dizer que a Inquisição
foi responsável por «as barbaridades legais mais elaboradas, mais difundidas e
continuadas registadas em toda a história civilizada». Nada do que os imperadores
romanos fizeram aos cristãos se pode comparar com a sua perversidade sistemática em
extensão ou duração.
O ocultista egípcio Rollo Ahmed, em The Black Art (1971) descreveu a Inquisição
como «a instituição mais feroz e impiedosa que o mundo jamais conheceu. […] As
atrocidades que a Inquisição cometeu constituem a mais blasfema ironia da história da
religião, manchando a Igreja Católica com a morte de vítimas inocentes que eram
queimadas para evitar a máxima Ecclesia non novit sanguinem (A Igreja nunca
derramou sangue)».
Um testemunho mais pungente foi dado por um devoto católico inglês há 140 anos.
Robert Richard Madden fez uma visita a Avinhão com um amigo. Deixou as suas
impressões no livro Galileo and the Inquisition. Ficou abalado ao ver a extensão da
parte do grande palácio dos papas ocupada pelos tribunais celas e masmorras da
Inquisição.
Viu a câmara de tortura com o seu dispositivo acústico de paredes irregulares para
absorver os gritos das vítimas. Esteve na sala dos julgamentos onde os prisioneiros
ficavam e notou por cima da cabeça «várias aberturas circulares no tecto, de cerca de
treze ou quinze centímetros de diâmetro e que comunicam com uma câmara em cima,
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onde, diz-se, se instalavam os acusadores e aqueles que tomavam nota por escrito dos
trâmites e das respostas dos prisioneiros; estes não os viam, mas cada uma das suas
palavras ficava registada».
O que impressionou Madden como particularmente perverso foi o facto de alguém ser
julgado e sujeito a pena de morte e não poder ver nem o acusador nem as testemunhas
de acusação, nem ser informado da acusação que lhe era feita.
Como é que qualquer inocência, por mais ousadamente que
procurasse manter-se, podia enfrentar, com alguma confiança, um
tribunal secreto deste tipo, por mais justo que fosse? […] Não é
nossa estrita obrigação reconhecer os escândalos que os nossos
ministros fizeram cair sobre a nossa Igreja e ver mais com piedade
do que com raiva a separação dos nossos irmãos cristãos […]
quando tentaram ver-se livres dos abusos em que a disciplina da
Igreja tinha caído?
Madden foi depois para o mais terrível lugar de Avinhão, o lugar onde os alegados
hereges eram queimados. Por uma passagem estreita, entrou numa câmara circular
«exactamente como a fornalha de uma fábrica ou chaminé», do feitio de um funil. Tinha
cerca de trinta metros de altura, com argolas e barras a que os prisioneiros eram
acorrentados. Estes tinham de vestir camisas sulfurosas para arderem melhor. O negro
das paredes testemunhava quantos homens e mulheres sofreram naquele terrível lugar.
Em cima, os papas, como João XXII, fizeram uma fortuna ludibriando os pobres,
vendendo benefícios, indulgências e dispensas. Outros, como Clemente VI, divertiram-
se entre lençóis de linho marcados a arminho com muitas amantes. Por baixo deles,
vítimas sem conto, também nus, gritavam em agonia enquanto eram torturados e
queimados, às vezes apenas por comerem carne durante a Quaresma.
Quando saíram para a brilhante luz do sol, o amigo de Madden, David Wire, um
baptista, perguntou: «E agora, Madden, o que é que tu pensas da tua religião?»
Madden pensou bem antes de responder, «Fiquei convencido, Wire, de que deve ser
uma religião verdadeira, porque se não tivesse nela um princípio divino e vital, nunca
poderia ter sobrevivido aos crimes que foram cometidos em seu nome».
Um católico anónimo disse uma vez: «Seria melhor ser ateu do que acreditar no
Deus da Inquisição». Outro lembrou que o próprio Jesus teria sofrido e morrido às mãos
dos inquisidores do papa. Ele falou com hereges como a Samaritana; comeu com
taberneiros e prostitutas; atacou os ministros da religião, os escribas e os fariseus; ele
até quebrou o Sabbath ao arrancar e comer milho quando estava com fome.
Não surpreende, portanto, que a Casa da Esquina do papa ainda esteja activa. O
Cardeal Ratzinger levanta o auscultador e telefona a um padre de Los Angeles a dizer-
lhe que acabe com as suas investigações sobre as opiniões dos bispos sobre o celibato
ou então que faça as malas e se vá embora dentro de uma hora. Não surpreende que
haja teólogos demitidos dos seus postos de ensino, padres suspensos por contraporem
uma doutrina não infalível. Não surpreende que um bispo seja admoestado por agir
como Jesus agiu, servindo os fracos, recusando excomungar qualquer pessoa com
sinceridade e amor no coração. À vista de seis séculos de Inquisição, seria mais
surpreendente se estas coisas não estivessem a acontecer.
Mas não foram só os hereges que a igreja perseguiu. Também se voltou para duas
outras classes de pessoas, também tidas como odiosas: as bruxas e os judeus.
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A Perseguição às Bruxas e aos Judeus
A superstição sob a forma de feitiçaria e magia foi uma constante na caminhada do
homem da ignorância até ao iluminismo. Na era cristã, a Igreja e o Estado já há muito
se tinham aliado para reprimir a crença nas bruxas e o mal que elas podiam provocar.
Deus, argumentava a Igreja, é o Mestre e Senhor absoluto do universo e o seu
domínio é total. Satanás é uma realidade, claro. Mas Jesus tinha consagrado o “homem
forte” de tal maneira que Satanás não tinha qualquer poder sobre homem ou animal,
excepto na medida em que podia tentar os humanos a fazer o mal, ou infectar o seu
espírito com as trevas e a ilusão.
Esta sensata abordagem remonta a muito tempo atrás. Nunca houve nos rituais da
Igreja nada contra as bruxas. Os cânones da Igreja diziam que os fiéis deviam ser
ensinados sobre a falsidade e a insensatez da bruxaria. Dos que a praticavam, uns
eram perversos, outros estavam transtornados e todos andavam iludidos. Pensar que
as bruxas possuíam poderes sobre-humanos que usavam para fazer mal aos homens
era tido como superstição anti-cristã. Os canonistas recorriam ao Concílio de Ancyra, no
ano de 314, para fundamentarem os seus argumentos. Ancyra, pensavam eles, tinha
doutrinado que a bruxaria é apenas uma ilusão diabólica sem qualquer base na
realidade.
Todas as compilações primitivas dos canonistas, Regino, Burchard e Ivo, seguem a
mesmo linha. Tal como, aliás, o mais influente de todos eles, Graciano, nos seus
Decretais, secção 364. Essas bruxas, dizia ele, são loucas que «acreditam e professam
abertamente que, a horas mortas da noite, montam certos animais, juntamente com a
deusa pagã Diana e uma inúmera horda de mulheres, e nessas horas silenciosas voam
sobre vastas regiões do país e lhe obedecem como sua ama».
As pessoas vulgares não eram tão sofisticadas. Então, como agora, ficavam
fascinadas com as estórias de feitiçaria, com a astrologia e com os horóscopos.
Compravam filtros de amor e amuletos nas feiras, anéis encantados e espelhos
mágicos. O Cristianismo nunca erradicou completamente os rituais do antigo
paganismo. Daí que os fiéis temessem os cometas e os sinais no céu nocturno, que
pagassem a pessoas de aspecto estranho para encontrarem água ou um tesouro
escondido com um ramo de aveleira e acima de tudo que temessem as bruxas.
Estas velhas enrugadas às vezes abençoavam, mas quase sempre amaldiçoavam a
aldeia criando a devastação. Se lhes recusavam uma esmola, as suas maldições
provocavam danos inimagináveis aos humanos, aos animais e às terras. Atribuíam-lhes
a culpa da perda de uma vaca, da morte de um filho ou duma praga de lagartas. Estas
bruxas não eram representações inofensivas de um moderno Hallowe’en, embora
simples crianças de medonhas máscaras e gorros de borlas pretas ou vassouras e
gatos de cartão ainda causem um arrepio numa noite escura. As bruxas reais da Alta
Idade Média, sujas e de cabelos desgrenhados, eram uma fonte de infinito terror,
mesmo para os padres que as olhavam como rivais em busca das almas das suas
gentes.
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Por tudo isto, a ortodoxia lançou durante séculos o escárnio sobre a ideia de que as
bruxas «têm o poder de mudar os seres humanos para melhor ou para pior, até mesmo,
sim, de lhes dar uma forma diferente».
Depois, houve uma grande mudança.
Entra a Inquisição
Gregório IX, que fundou a Inquisição em 1231, foi o principal responsável. Depressa
começou a receber relatórios dos seus inquisidores no sentido de que as bruxas tinham
começado a multiplicar-se de maneira alarmante. Embora sempre tivesse havido na
aldeia, na vila ou na cidade, aquela bruxa ocasional, agora estabelecera-se na
humanidade uma nova maldição terrível. Se estas informações estivessem correctas —
e ele nunca duvidou disso — a Igreja não estava a lutar apenas pela sua sobrevivência;
estava a lutar pela sobrevivência do mundo.
Nos interrogatórios, grande número de mulheres confessavam que eram bruxas e
que se entregavam às mais odiosas práticas de que ele jamais ouvira falar. Um dos
seus principais informadores era o sádico padre secular Conrado, oriundo da pequena
cidade alemã de Magdburgo. Depois de ver um cisterciense ser queimado por heresia,
este asceta concebeu a ideia de que a salvação só pode conseguir-se pela dor. A sua
mais famosa conversão foi a de Isabel, a viúva de Margrave da Turíngia. Tinha dezoito
anos e três filhos para criar quando Conrad a convenceu a abandonar as crianças e a
trabalhar com os leprosos e os indigentes. Para a tornar mais espiritual, mandou-a
despir e açoitou-a até o sangue escorrer para o chão. Diria ela depois ao confessor: «Se
este homem me mete medo, Deus como será?»
O Papa Gregório escolheu pessoalmente Conrado para investigar um grupo de
hereges chamado os Luciferianos. Por meio da tortura arrancou-lhes a confissão de
monstruosidades tais que toda a Alemanha ficou preocupada. Os delírios de lunáticos
atormentados eram aceites por Conrado como verdades evangélicas e transmitidas ao
papa. Gregório decidiu que estes monstros tinham de ser varridos da terra sem olhar a
idades ou ao sexo. Deviam ter feito um pacto com Lucífer, o Príncipe das Trevas,
concluiu ele; andavam a poluir a terra.
Conrado trabalhou diligentemente para eliminar tantos hereges quantos pudesse. Em
Estrasburgo, mandou queimar oitenta homens, mulheres e crianças. Ninguém foi
poupado, nem mesmo bispos. Durante seis anos manteve uma campanha de terror até
ser assassinado. A sua obra continuou depois dele no espírito e na legislação de
Gregório IX.
O pontífice aceitou sem reservas que o demónio aparecia nos sabates das bruxas
transformado num sapo, num fantasma pálido e num gato preto. E aí incitava os seus
seguidores a entregarem-se às práticas mais obscenas.
Logo que Inocêncio IV aprovou a tortura, as confissões das bruxas começaram a
tornar-se ainda mais incríveis. Regularmente mulheres velhas eram queimadas na
fogueira por confessarem terem tido relações sexuais com Satanás e lhe terem dado
filhos que ninguém vira. Esta falta de visibilidade dos filhos de Satanás tornava-os ainda
mais ameaçadores.
O Rei de França convenceu o Papa Clemente V (1305-14) a investigar os Cavaleiros
do Templo, uma ordem fundada para proteger o Santo Sepulcro dos Sarracenos. O rei
queria desesperadamente apossar-se das suas terras e dos seus bens. Os Templários
foram torturados pela Inquisição por heresia, e um deles, com medo da fogueira, gritou:
«Eu até era capaz de confessar que matei Deus». O que aconteceu foi mais uma série
173
de horrores. Confessaram que adoravam um enorme ídolo com a forma de um bode
chamado Baphomet. Disseram que o demónio lhes tinha aparecido na figura de um gato
preto e que tinham fornicado com demónios em forma de mulher. Cinquenta e nove
Cavaleiros do Templo foram queimados num só holocausto.
A credulidade dos papas e os terrores da Inquisição levaram a que a doutrina sobre a
bruxaria mudasse. Já não era uma simples ilusão de velhas malucas. E com uma nova
percepção veio também um crescente pânico. O Anti-Cristo estava em vias de se
apossar da terra. Ninguém sabia ao certo quem eram as bruxas nem onde elas
poderiam surgir. Tal como nos modernos romances de ficção científica, os homens
acordavam de noite para descobrir que as suas mulheres, que eles conheciam e
amavam há anos, eram secretamente bruxas. Os filhos não eram realmente deles, mas
do demónio. Nalguns lugares, pensava-se que havia mais bruxas do que não-bruxas,
prova de que o fim do mundo se aproximava.
Uma orgia de destruição
Por muito hedionda que tivesse sido do século XIII ao século XV, a caça às bruxas
foi, segundo Lea, apenas o prelúdio de «orgias de destruição cegas e sem sentido que
desgraçaram os cento e cinquenta anos seguintes. Parecia que a Cristandade tinha
entrado em delírio». Um inverno mais prolongado, um atraso nas colheitas significavam
mais uma queima em massa destas infelizes mulheres.
O que é que desencadeou esta nova onda de fanatismo? A resposta está na Bula do
Papa Inocêncio VIII intitulada Summis desiderantes affectibus de Dezembro de 1484. A
Bula ia contra a longa tradição anterior da Igreja. O palavrório de velhas loucas sob
tortura era aceite como parte da fé cristã.
Os homens e mulheres extraviados da fé católica entregaram-se aos
demónios, incubi e succubi [parceiros sexuais masculinos e
femininos], e com os seus sortilégios, encantamentos, magias e
outras ofensas malditas, mataram crianças ainda no ventre das
mães e também crias de gado, destruíram o produto da terra […]
impedem os homens de realizarem o acto sexual e as mulheres de
conceber, e assim os homens não podem conhecer as suas
mulheres nem as mulheres receber os seus maridos.
Esta foi a mais clara autenticação da bruxaria. A partir de 1484, quem a negasse,
fosse bispo ou teólogo, era classificado como herege. O papa falara; a questão estava
arrumada.
As bruxas agora confessavam sob tortura adquirirem uma Hóstia sagrada, dá-la de
comer a um sapo, queimarem o sapo e misturarem as cinzas com o sangue de um
bebé, de preferência não baptizado, juntando isto aos ossos pulverizados de um
enforcado, com uma pitada final de ervas. O corpo da bruxa era untado com esta
mistura. Punham-lhe então um pau entre as pernas e levavam-na assim para o ponto de
reunião das bruxas.
Por muito fantástico que fosse o testemunho, estas mulheres tinham de ser
exterminadas. Não é verdade que o Livro do Êxodo declara: «Tu não tolerarás que uma
bruxa viva»?
Para planear o massacre, Inocêncio delegou toda a sua “autoridade suprema” em
dois dominicanos. Estes inquisidores, Heinrich Kramer (Institoris) e James Sprenger
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(conhecido como o Apóstolo do Rosário), desenvolveram as suas actividades na
Alemanha, o primeiro no norte e o segundo ao longo das margens do Reno. Os dois
escreveram em conjunto Malleus Maleficarum, O Martelo das Bruxas, em 1486.
Segundo os historiadores, esta obra provocou mais desgraça e morte do que qualquer
outro livro.
Trata-se na realidade de um manual para a descoberta e punição das bruxas.
Contém uma teologia completa da bruxaria inultrapassável em absurdidade ao
proclamar-se como análise científica. Durante três séculos, esteve na banca de todos os
juizes, na secretária de todos os magistrados. O prefácio das numerosas edições deste
livro ameaçador era a Bula de Inocêncio VIII.
“O Martelo das Bruxas”
Os autores afirmam logo de princípio a sua convicção basicamente maniqueísta:
Satanás influencia directamente os seres humanos, mesmo ao ponto de lhes mudar a
forma e lhes provocar danos permanentes. «Desta maneira» concluem, «eles podem
destruir todo o mundo e provocar o caos total».
Uma das primeiras perguntas deste livro é: As crianças podem ser geradas pelo
demónio? A resposta é afirmativa.
As participantes nos sabates das bruxas são para lá transportadas pelo ar montadas
numa vassoura ou num banco ou ainda num demónio em forma de cão ou de bode.
Encontram-se com o demónio, que está presente em forma de animal com cornos
— veado, bode ou touro. Depois dos mais diabólicos rituais e licenciosidades sexuais,
as bruxas têm relações com o próprio Satanás.
Como é que tal relação sexual é possível? Kramer e Sprenger dão a resposta:
inseminação artificial.
Os diabos tomam parte na procriação não como causa directa, mas
como causa secundária artificial, uma vez que se encarregam de
interferir no processo normal de cópula e concepção obtendo a
semente humana e transportando-a eles próprios.
O diabo incubus desempenha o papel do macho e o diabo succubus o da fêmea no
coito com os humanos. No caso do incubus, «o sémen não nasce propriamente dele,
porque é o sémen de outro homem recolhido por ele para este fim». A criança nascida
da relação satânica não pode ser considerada filha, em sentido restrito, do diabo; este
apenas procede à inseminação artificial da mulher. O seu objectivo é contaminar os
humanos por via da já contaminada porta do sexo. Não é afinal através do sexo que o
pecado original, o pecado que aliena de Deus a raça, é transmitido de geração em
geração? Em nenhum outro sítio é mais evidente o ódio do clero medieval à sexualidade
do que em O Martelo das Bruxas. O demónio, impotente para afectar outras esferas da
actividade humana, lança um feitiço sobre o sexo e o acto sexual. A razão é esta: «O
poder do demónio reside nos órgãos genitais do homem».
Numa manifestação de pseudo ciência, explicam como é que os demónios
transportam a semente masculina a longas distâncias sem perder o seu calor procriador.
Eles andam depressa demais para que se possa dar a evaporação.
Os demónios têm um outro talento maravilhoso: eles podem fazer com que os
machos percam o sexo. Não fora o facto de se encontrarem no livro mais sanguinário
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jamais escrito, os excertos que se seguem poderiam enfileirar com as mais cómicas
passagens de Rabelais. O primeiro é sobre
um venerando Padre da Casa das Torres dominicana, conhecido
pela honestidade da sua vida e pelo seu saber. «Um dia» diz ele,
«enquanto eu estava a ouvir confissões, um jovem veio ter comigo e,
no decurso da confissão, disse-me pesaroso que tinha ficado sem o
membro. Espantado com isto, e não muito disposto a dar-lhe grande
crédito porque na opinião dos mais sensatos acreditar facilmente é
sinal de tontice, obtive a confirmação quando não vi nada no sítio
que o jovem me mostrou tirando a roupa. Depois, usando de parecer
mais avisado, perguntei-lhe se suspeitava de alguém que o tivesse
enfeitiçado. E o jovem disse que realmente desconfiava de alguém,
mas que essa pessoa estava ausente, a viver em Worms. Então eu
disse-lhe: “Aconselho-te a ir ter com ela o mais depressa possível e
a fazeres todos os possíveis por a acarinhar com promessas e
palavras doces”; e ele assim fez, pois voltou passados alguns dias e
agradeceu-me dizendo que já estava inteiro e tinha recuperado tudo.
E eu acreditei nas suas palavras, mas confirmei de novo vendo com
os meus olhos».
As confissões deviam ser muito interessantes nesses tempos.
A teologia escolástica — definida por S.Tomás More como «mungir um bode para
uma peneira» — é depois utilizada para clarificar este fenómeno. Segundo Kramer e
Spenger, o jovem, apesar das aparências, não tinha ficado sem o membro. O demónio
não ia tirar-lho de ânimo leve, pois o sexo é a sua principal fonte de controle sobre os
homens. O diabo, mais exactamente, por meio de qualquer prestidigitação faz com que
o membro deixe de se ver ou sentir. O diabo não seria capaz de enganar um homem
casto — não em relação ao seu próprio membro — mas se esse casto homem, como o
santo confessor das Torres, olhasse para o de qualquer outra pessoa poderia não
conseguir vê-lo.
O diabo podia arrancar o membro masculino se assim quisesse, e isso seria muito
doloroso. Mas, pelas razões teológicas já apresentadas, está pouco inclinado a chegar a
esses extremos.
Por meio da tortura, os inquisidores obrigavam as bruxas a confessar que
coleccionavam órgãos sexuais, presumivelmente apenas masculinos.
O que é que se há-de pensar daquelas bruxas que […] coleccionam
órgãos em grande número, vinte ou trinta no total, e os põem nos
ninhos das aves ou os fecham numa caixa onde eles se mexem
como membros vivos e comem aveia e milho? […] Tudo isto é feito
por obra e ilusão do diabo. […] Porque um certo homem contou-me
que, quando ficou sem o membro foi ter com uma conhecida bruxa
para lhe pedir que lho restituísse. Ela disse ao atormentado homem
que subisse a uma certa árvore e escolhesse, de entre os vários
membros que se encontravam num ninho, aquele que quisesse. E
quando ele tentou tirar um grande, a bruxa disse: «Esse, não»
acrescentando «porque pertence a um padre».
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Ao temor do sexo revelado pelos autores, juntava-se um ódio inato às mulheres.
Aceitavam com facilidade a ideia de mulheres a tirarem órgãos sexuais masculinos.
Sprenger deixou noutra obra o registo da sua opinião: «Eu preferia ter um leão ou um
dragão à solta em casa a uma mulher. […] Fracas de espírito e de corpo, não admira
que as mulheres se tornem tão frequentemente bruxas. […] Uma mulher é o desejo
carnal personificado. […] Se uma mulher não consegue arranjar um homem, é capaz de
ter relações com o próprio demónio».
A nova grande purga
Armados de poder inexpugnável conferido pelo papa, os dois inquisidores
«atravessaram a terra», escreve Lea, «deixando atrás de si um rasto de sangue e fogo e
despertando em todos os corações o cruel temor inspirado pela crença absoluta assim
inculcada em todos os horrores da bruxaria». Os autores de O Martelo das Bruxas
estabeleceram o princípio básico de que a bruxa tem de ser condenada pela sua própria
boca. Se não voluntariamente, então por outros meios.
Uma vez que se presumia que estavam possuídas do demónio, as bruxas não tinham
quaisquer direitos. Podia usar-se da mentira com elas, podiam ser maltratadas,
torturadas, mortas. Eram tratadas como inimigas alienígenas, não humanas, de Cristo e
da humanidade. Os papas, incluindo o actual, dizem frequentemente que não acreditar
em Satanás é perigoso para a moralidade. Em oposição a isto está a aterradora injustiça
que resultou da crença em Satanás durante as perseguições às bruxas.
As torturas usadas eram variadas. Esmagavam-se em tornos os dedos dos pés e das
mãos e as pernas. As vítimas eram açoitadas até ficarem a sangrar. Curiosamente, o
chicotear e esmagar de dedos, e até o ecúleo eram considerados apenas como parte
dos preliminares. Não eram classificados como “verdadeira tortura“.
O Arcebispo de Colónia elaborou um Tarifário das Torturas que incluía quarenta e
nove medidas e as custas respectivas a serem pagas ao torturador pela família das
vítimas. Por exemplo, cortar a língua da vítima e despejar-lhe ferro em brasa na boca
custava cinco vezes mais do que o simples chicotear no cárcere. Tratava-se de uma
espécie de supermercado de horrores. Se a bruxa sofria a pena máxima, os torturadores
celebravam o facto com um banquete que a família da vítima também tinha de pagar. Se
uma “bruxa” confessava, não só poupava grande despesa à família como também
conseguia para si própria uma passagem menos dolorosa para o outro mundo: era
estrangulada antes de ser queimada.
Há registos que mostram uma mulher a ser torturada cinquenta e seis vezes e
continuar a não confessar. Na Alemanha, no ano de 1629, despejaram álcool sobre os
cabelos de uma mulher e depois lançaram-lhe o fogo. A seguir, ataram-lhe as mãos
atrás das costas e deixaram-na pendurada do tecto durante três horas antes da começar
a “verdadeira tortura“.
O Martelo das Bruxas foi seguido de outros manuais. Um deles foi o Tratado sobre a
Feitiçaria, dos princípios do século XVII, de um francês de nome Henri Boguet. Em sua
opinião, as crianças deviam ser obrigadas a testemunhar contra os pais. Mesmo as mais
pequenas tinham de ser torturadas para se chegar à verdade. Se elas próprias também
fossem bruxas, deviam ser mortas, embora com mais compaixão — digamos, pela forca.
Os caçadores de bruxas parece nunca terem percebido que eram eles que andavam
a criar as bruxas. Sob tortura, as suas vítimas diziam tudo o que delas se esperava. Sim,
tinham feito um pacto com o diabo à meia-noite e trocaram a sua alma por ouro. Sim,
tinham-se transformado em gatos e outros animais, como lobisomens. Sim, com um
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relance do seu Mau Olhado, tinham envenenado poços e, com uma maldição, tinham
provocado tempestades de granizo e geadas fora do tempo. Sim, já na velhice tinham
tido relações sexuais com Satanás — ele tinha o pénis fino e gelado como um pingente
de gelo, e o seu sémen, que frio! Ah, é verdade, tinham-lhe dado um filho, um monstro
com cabeça de lobo e cauda de serpente, que durante dois anos alimentaram com a
carne de bebés recém-nascidos, antes de ele se desvanecer em fino ar.
As bruxas confessavam lançar sobre as pessoas feitiços que faziam com que elas
deitassem por todos os seus orifícios — boca, pénis, vagina — os objectos mais
curiosos: caracóis de cabelo, agulhas, pedras, cerdas, bolas de papel com caracteres
demoníacos escritos. Segundo Peel e Southern, «um escritor no limite da sua pervertida
imaginação, dotou o diabo de um pénis bifurcado para que ele pudesse gozar
simultaneamente o sexo e a sodomia».
Conventos inteiros sob investigação pelos inquisidores confessaram alegremente
fornicar regularmente com o diabo. Quanto mais ultrajantes eram as suas invenções,
mais se iluminavam os olhos dos inquisidores. Confirmavam-se os piores pesadelos.
Eles nunca pensaram que as acusadas apenas queriam ver o fim das torturas.
Por uma perversidade ainda não completamente compreendida, havia pessoas
inocentes que se apresentavam para se acusarem a si próprias dos crimes mais
hediondos. Era como se quisessem desfrutar de uma curta notoriedade, mesmo que
esta significasse a morte na fogueira.
Estas bizarras confissões obrigaram os autores dos manuais a acrescentarem às
listas tipos de desvios sexuais até então desconhecidos. A sodomia incluía agora a
relação entre um homem e um diabo macho. O adultério incluía uma bruxa fazer sexo
com Satanás.
Em resultado dos delírios sob tortura, uma das mais honradas profissões tornou-se na
mais caluniada de todas. Numa das mais extraordinárias afirmações jamais escritas em
qualquer livro, Kramer e Sprenger asseveram: «Não há ninguém que mais mal faça à fé
católica do que as parteiras». Qual era o seu crime? Por vezes matavam os bebés ainda
no ventre ou logo após o nascimento espetando-lhes agulhas na moleirinha para que
eles, ainda não baptizados, fossem directamente para os domínios flamejantes de
Satanás. Outras vezes, dedicavam os bebés logo desde o nascimento ao seu Senhor e
Mestre, o demónio. Nos esforços do demónio para macaquear Deus e dominar o mundo,
as parteiras eram as suas aliadas mais chegadas. Assim, o bando dos maus estava a
crescer dia a dia.
Durante século e meio, toda a gente, de reis ao cidadão comum, temeu esta
organização secreta que estava a minar as fundações do mundo. Havia estórias de
sabates de bruxas que atraíam multidões de mais de vinte e cinco mil pessoas, todas de
velas acesas nas mãos de tal modo que a noite se fazia dia, todas a adorar Satanás
macaqueando rituais sagrados para os cristãos. Depois da Bula de Inocêncio VIII, a
necromancia multiplicou-se, e a missa negra tornou-se um lugar-comum. Muitos padres
apóstatas oficiavam. Isto era em parte um protesto social contra a autoridade opressiva
da Igreja e também o desejo de chafurdar no oculto. Muitas vezes, quando usavam uma
hóstia consagrada ela levava inscrições de invocações obscenas em letras de sangue.
Nas charnecas ou nas clareiras da floresta iluminadas pelo luar, em reuniões de treze
à sexta-feira ou em enormes reuniões sabáticas, as bruxas realizavam a sua mascarada
de adoração a Satanás com uma cabeça de bode. Todos os rituais da missa eram
alterados. Pisavam a cruz, oravam de costas para o céu e com a cara voltada para a
terra, e até dançavam a recuar. O diabo falava-lhes assegurando-lhes que não tinham
alma nenhuma e que não havia vida depois da morte. As cerimónias terminavam, dizia-
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se, com o beijar do traseiro do diabo, forjando com ele um pacto de sangue e finalmente
com frenéticas orgias sexuais indiscriminadas.
A Igreja utilizava as suas próprias formas de magia para contra-atacar a Arte Negra.
Havia a água benta, as velas abençoadas, os sinos de igreja, as medalhas, o rosário, a
invocação dos santos, as relíquias, os exorcismos e os sacramentos.
Apesar de todas estas salvaguardas, a Igreja parecia estar a perder a batalha. A
bruxaria continuava a crescer em resultado dos processos adoptados pelos papas para
a erradicar. Sob tortura, as bruxas davam os nomes dos cúmplices, que, por sua vez,
denunciavam outros. O mundo, que não há muito tinha aquela bruxa extravagante na
vila ou na aldeia com o seu amigo gato, cão ou corvo, estava agora cheio de bruxas.
Dizia-se que as bruxas tinham mais devotos do que a Virgem Maria. Elas constituíam
uma anti-Igreja de que, alegadamente, muitos cardeais faziam parte. O poder de
Satanás quase igualava o de Deus.
Nem mesmo Kramer e Sprenger foram capazes de explicar a razão por que davam
crédito às bruxas, que eram as porta-vozes do “Pai da Mentira“, nem como é que as
bruxas, aparentemente tão poderosas, se deixavam capturar, torturar e queimar sem
luta. Não há registo de qualquer exemplo de uma bruxa que conseguisse lançar com
sucesso uma maldição sobre um inquisidor, cegar um torturador e continuar a viver
depois de queimada na fogueira.
As execuções multiplicaram-se. Antes havia uma ou duas, agora faziam-se em
massa. Entre as condenadas havia meninas de seis anos. «Diz-se que um bispo de
Genebra», escreve Lea em A Inquisição na Idade Média «teria queimado quinhentas em
três meses, um bispo de Bamberg, seiscentas, um bispo de Wurzburg, novecentas».
Assim continuaram as coisas. No ano de 1586, o Arcebispo de Trèves mandou queimar
118 mulheres e dois homens por feitiços que fizeram prolongar o inverno.
A responsabilidade papal
Seria insensato sugerir que foi o papado que criou a bruxaria. Ela já existia antes de o
Cristianismo aparecer e a Igreja nunca a erradicou completamente. Não pode haver
dúvidas, contudo, de que o papado teve um papel decisivo no recrudescimento e no
cruel tratamento de que as bruxas foram vítimas.
Döllinger escreveu em The Pope and the Council: Todo o tratamento dado às bruxas
resultou em parte directa e em parte indirectamente da irrefragável autoridade do Papa».
E Lea concorda: «A Igreja emprestou a sua autoridade avassaladora para forçar a
crença nas almas dos homens. Os poderes malignos das bruxas foram repetidamente
realçados nas Bulas dos sucessivos papas para implicitamente levar os fiéis a
acreditar».
Antes de Inocêncio VIII, afirmar que as bruxas tinham esses poderes era contrário à
fé; depois de Inocêncio, negá-lo era heresia punível com a fogueira. A contradição com a
doutrina primitiva era tão notória que os teólogos tiveram de recorrer ao subterfúgio para
tratar dela. Os inquisidores argumentavam que as bruxas a que Ancyra e Graciano se
referiam, as inofensivas, já tinham desaparecido. Uma nova geração mais dura tinha
tomado o seu lugar; estas é que estavam em conluio com o diabo para levar a efeito
uma espécie de campanha da SIDA satânica para infectar o corpo social. A autoridade
papal — nas pessoas de Inocêncio VIII, Alexandre VI, Leão X, Júlio II, Adriano IV e
muitos outros — garantiu a existência das bruxas e dos seus poderes sobrenaturais,
especialmente no campo do sexo. Já em pleno século XVII, em 1623, Gregório XVI
ainda decretou que qualquer pessoa que fizesse um pacto com Satanás para provocar a
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impotência em animais ou para prejudicar os produtos da terra seria condenado pela
Inquisição a prisão perpétua.
Depois, em 1657, sem aviso ou explicação, uma directiva da Inquisição Romana dizia
que durante muito tempo não houvera um único processo correctamente conduzido. Os
inquisidores tinham errado na aplicação imprudente da tortura e noutras irregularidades.
Nem uma palavra sobre o papel dos papas no sancionamento da tortura e das mentiras,
nem sobre a razão por que tantos papas tinham contrariado a tradição afirmando a
realidade das bruxas. E, sobretudo, nem uma palavra para lamentar os muitos milhares
que tinham morrido num dos períodos mais horripilantes da história europeia.
Durante vários séculos, os papas tinham orquestrado uma prática maniqueísta pela
qual o diabo reclamava o seu domínio sobre metade da Cristandade. E agora, sem uma
palavra de explicação, toda esta doutrina era abandonada, como se jamais tivesse
havido qualquer pontífice insensato ao ponto de a sustentar. Nunca é fácil pedir
desculpa pelos nossos erros. Para uma autoridade que proclama que não pode errar,
pareceria quase impossível.
Um aspecto muito preocupante da feitiçaria era que o sabate começava numa sexta-
feira à noite. Será que os inquisidores sugeriam isto às suas vítimas porque coincidia
com outra cerimónia demoníaca, o Sabbath judeu?
A perseguição aos judeus
O Papa Paulo IV, que odiava os judeus, trabalhou no documento durante horas de
uma só vez, bebericando sem cessar o vinho escuro e espesso como melaço da sua
amada Nápoles. Em breve estava terminado. No dia 17 de Julho de 1555, dois meses
apenas após a sua eleição, publicou Cum nimis absurdum, uma Bula que nunca
apareceu em antologias piedosas de documentos papais. É que isto viria a revelar-se
como um marco na história do anti-semitismo.
O anti-semitismo papal
Por causa desta Bula Paulo viria a fazer jus a um galardão que ele próprio oferecera
ao seu sobrinho favorito, o Cardeal Carlo Carafa: «Tem o braço tingido de sangue até ao
cotovelo». Não admira que durante o curto pontificado de Paulo a população de Roma
tenha ficado reduzida quase a metade. Os judeus, que não tinham para onde fugir,
sofreram as consequências do seu fanatismo.
O papa sabia de cor todos os éditos da Igreja sobre o Judaísmo. O massacre dos
judeus tinha começado muito cedo.
No Império Romano, os judeus tinham superado a hostilidade inicial e conquistado
para si a plena cidadania pelo Édito de Caracalla no ano de 212. Um século mais tarde,
quando Constantino se converteu ao Cristianismo, começou a perseguição aos judeus.
Foram excluídos de todos as funções civis e administrativas, proibidos de empregar
cristãos e de prestar ou receber deles assistência médica. Os casamentos entre cristãos
e judeus eram classificados como adultério e infracção capital. Num processo judicial
entre cristãos e judeus só as testemunhas cristãs eram aceites em tribunal. Os Padres
da Igreja, como Ambrósio no Ocidente e Crisóstomo no Oriente, forneceram um
fundamento teológico para o desprezo pelos judeus, que ainda hoje é capaz de chocar.
O próprio Gregório o Grande, o mais bondoso dos papas, embora proibisse a tortura e
a perseguição dos judeus, não deixou de usar o suborno para os levar a baptizarem-se.
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Qualquer judeu de Roma que se convertesse teria a sua renda reduzida de um terço.
Escreveu ele:
Porque mesmo que eles próprios saiam com pouca fé, haverá
certamente mais fé nos filhos que forem baptizados, de modo que se
não ganharmos os pais, ganharemos com certeza os filhos.
Portanto, qualquer redução na renda por amor de Deus não deve ser
considerada como uma perda.
Inocêncio III e o Quarto Concílio de Latrão em 1215 tomaram em mãos a causa do
anti-semitismo com determinação. E Paulo IV, que detestava qualquer forma de
dissidência, estava apostado em continuar, com primorosa crueldade, a obra do grande
Inocêncio.
Cum nimis absurdum acentuava que os assassinos de Cristo, os Judeus, eram
escravos por natureza e como tal deviam ser tratados. Pela primeira vez nos Estados
Papais foram confinados a uma zona determinada chamada “ghetto” (gueto), nome
originário da Fundição Veneziana. Cada gueto devia ter uma só entrada. Os judeus
foram obrigados a vender aos cristão todos os seus bens ao desbarato; no melhor dos
casos conseguiam 20 por cento do valor e no pior uma casa era vendida por um burro,
uma vinha por um fato. Estavam proibidos de se entregarem a actividades comerciais ou
de negociar em cereais, mas podiam vender comida e roupas em segunda mão
(strazzaria); assim ficou a sua situação limitada à condição de trapeiros. Só podiam ter
uma sinagoga em cada cidade. Sete das oito de Roma foram destruídas e na Campânia,
dezoito das dezanove. Já não tinham livros; quando ainda era cardeal, Paulo IV tinha-os
mandado queimar todos, incluindo o Talmut. Em público eram obrigados a usar como
distintivo um chapéu amarelo. Nos seus calendários e nas suas contas e para comunicar
só podiam utilizar o italiano e o latim. Não podiam empregar cristãos em função
nenhuma, nem mesmo para acender as suas fogueiras do Sabbath no inverno. Não
podiam prestar cuidados médicos aos cristãos nem recebê-los destes, nem mesmo os
serviços de uma ama de leite. Não podiam ser chamados de signor (senhor), nem
sequer pelos pedintes. Tinham de construir uma Casa para os Catecúmenos, isto é,
para os judeus convertidos. Os censores dos livros judeus tinham de ser pagos pelos
judeus, assim como o guarda-portão pagão, cuja função era fechá-los à noite.
Desde os tempos do Império Romano que os judeus tinham tendência para a viver
todos juntos na mesma zona. Aí podiam construir o seu açougue para os rituais, os seus
balneários, as suas sinagogas, os seus lugares de estudo, os seus tribunais e os seus
cemitérios próprios. Sentiam-se mais seguros af der yiddisher gas (na sua própria rua
judaica), onde, pelo menos, os deixavam em paz. Mas serem obrigados a viver num
certo lugar, como gado, terem de regressar a casa à noite, não poderem ser donos das
terras e das casas — isto era uma coisa ameaçadoramente diferente.
Os judeus romanos sofreram particularmente na medida em que o gueto era uma
faixa de terra ao longo da margem direita do Tibre, malárica e frequentemente inundada,
como Veneza. Dentro de um perímetro de quinhentos metros amontoavam-se quatro a
cinco mil pessoas. Segundo um escritor judeu, «andavam vestidos com farrapos, viviam
no meio de farrapos e cresciam entre os farrapos». Só à sexta-feira à noite é que
deixavam os farrapos, quando o velho pregoeiro gritava «O Sabbath começou», porque
agora, com o Sabbath, todo o judeu era Rei de Israel.
O impacte da Bula de Paulo IV foi imediato. Em alguns dias apenas, já havia um
gueto em Veneza e outro em Bolonha, chamado Inferno. O objectivo de Paulo era
converter os judeus em massa. Muitos passaram-se para o Cristianismo, mas não a
181
maioria. Disto resultaram atrocidades generalizadas. Em Ancona tinham-se estabelecido
os Marranos, judeus convertidos de Portugal, com a garantia de pontífices anteriores de
que, embora baptizados à força, seriam deixados em paz para praticarem a sua antiga
fé. Paulo IV quebrou estas promessas no último dia de Abril de 1556. Os Marranos
dispersaram-se rapidamente, mas vinte e quatro homens e uma mulher foram
queimados vivos em sucessivos Autos-de-Fé na primavera e verão desse ano. Longe
das fogueiras, os judeus recitaram o Kaddish: Yiskaddal veyiskaddash, a sua
antiquíssima oração.
Paulo morreu em 1559, mas a sua Bula tinha estabelecido um padrão que havia de
durar três séculos. Em Junho de 1566, Pio V baptizou pessoalmente dois judeus adultos
e os seus três filhos; cinco cardeais serviram de padrinhos. Em 1581, Gregório XIII
chegou à espantosa conclusão de que a culpa dos judeus de terem rejeitado e
crucificado Cristo «só se aprofunda com as sucessivas gerações, vinculando-os à
escravidão perpétua».
Na Romagna, dois padres, ex-judeus, receberam a incumbência de forçar a entrada
em sinagogas durante o Sabbath. Num acto de profanação, colocaram um crucifixo em
frente da Arca e proclamaram Jesus como Deus e Messias. Por toda a parte as
sinagogas eram encerradas durante meses seguidos com o pretexto de que fora lá
encontrado um livro não autorizado. Evidentemente que muitos desses livros eram lá
colocados intencionalmente. Arrombavam-se casas, que eram revistadas e destruídas.
Qualquer pretexto servia para mandar o chefe de uma família judia para a Casa dos
Catecúmenos para uma lavagem ao cérebro. Um judeu que se aproximasse do edifício
sem autorização — digamos, um rabi a tentar dissuadir os seus semelhantes de se
converterem — era selvaticamente espancado. No ano de 1604, o Rabi Joshua
Ascarelli, a mulher e quatro filhos foram mandados para a Casa. O pai e a mãe, depois
de prolongada detenção, continuaram a não ceder; foram libertados. Os filhos ficaram.
Sem os pais, sucumbiram por fim e foram baptizados. Quando os pais voltaram a buscá-
los disseram-lhes que se fossem antes que os chicoteassem.
Em 1639 um judeu de Roma estava a conversar amigavelmente com um padre
dominicano quando, por graça, se ofereceu para mandar baptizar os seus filhos na
condição de o papa ser o padrinho. A sua leviandade custou-lhe os dois filhos, um deles
ainda no berço. Este insulto à raça provocou no gueto um tumulto que foi
implacavelmente reprimido.
Entre 1634 e 1790, “converteram-se” 2030 judeus de Roma. Benedito XIII (1724-30)
baptizou vinte e seis como sinal de estima. As conversões eram acompanhadas de fogo
de artifício e procissões nas proximidades dos guetos, onde os judeus, na maioria
reduzidos ao silêncio, se agitavam. Quando eles eram obrigados a ir à igreja para ouvir
os sermões, os pagãos atiravam-lhes com imundícies para cima. Dentro da igreja, os
bedéis andavam à sua volta com varetas para os manter acordados. Por vezes eram
submetidos a exames médicos para se ter a certeza de que estes “judeus manhosos”
não tinham sido escolhidos pela comunidade por serem surdos. Nenhum pormenor
humilhante era descurado. Estavam proibidos de levar círios acesos nos funerais ou de
erguer pedras sobre as sepulturas dos seus mortos, em violação da lei romana de que
os próprios cristãos tinham beneficiado: um cemitério é tão sagrado como um templo.
Uma superstição do tempo era que quem quer que fosse responsável pelo baptismo
de um infiel ganhava livre trânsito para o Paraíso. Os fora-da-lei vagueavam pela cidade
à caça de crianças judias e baptizavam-nas com água da chuva. No século XVIII
Benedito IV decidiu que uma criança baptizada contra a vontade dos pais, mesmo que
em violação dos procedimentos da lei canónica, era cristã e tinha de viver como tal. Se o
não fizesse era rotulada de herege e incorria na punição que tal implicava. Nos guetos
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havia as manifestações de luto quando tais crimes ocorriam. E também havia
manifestações de pesar quando um judeu, convertido ao cristianismo, fazia o que o
padre mandava e retirava os filhos do gueto. Uma vez baptizados, a mãe nunca mais os
podia ver.
Nos piores dias da opressão papal em Roma, os judeus viviam encerrados dentro de
altos muros. Naturalmente tinham de construir em altura. Como consequência, as casa
desabavam, por vezes durante cerimónias de casamento. O fogo propagava-se
rapidamente. A higiene praticamente não existia, o que confirmava o mito de que os
judeus exalavam um mau cheiro que só desaparecia com o baptismo.
Ramazzini, conhecido como o pai das doenças ocupacionais, estudou os judeus
italianos e publicou as conclusões das suas investigações no livro De Morbis Artificum
em 1700. Eles revelavam, dizia ele, todos os sintomas de uma vida sedentária. As
mulheres, em particular, sofriam de cegueira precoce. Eram vítimas, muito acima da
média, de dores de cabeça e de dentes, de infecções de garganta e de doenças
pulmonares. Os papas foram os responsáveis por gerações de sofrimento não
registadas nos livros de História.
A Revolução Francesa abriu caminho às Luzes. Mas a luz não iluminou o Vaticano.
Uma sucessão de papas reforçou os antigos preconceitos contra os judeus, tratando-os
como leprosos não merecedores da protecção da lei. Pio VII foi seguido por Leão XII,
Pio VIII, Gregório XVI, Pio IX — todos bons discípulos de Paulo IV.
Se os judeus comprassem ou vendessem algum objecto utilizado no culto católico —
um cálice, um rosário, um crucifixo — eram multados em 200 scudi. A mesma multa era
aplicada àquele que saísse de Roma sem autorização do Inquisidor. Se um médico
cristão fosse chamado para tratar um doente no gueto, primeiro tinha de tentar convertê-
lo a Cristo. Se não conseguisse, tinha de ir-se embora imediatamente. Todas as
segundas-feiras três ou quatro crianças judias eram levadas para o baptismo e tornadas
cristãs. Quem quer que se opusesse, mesmo os pais, era presente à Inquisição. Se dois
judeus testemunhassem que um outro judeu, por palavras ou por acções, tinha ofendido
um padre católico ou a verdadeira religião, era executado.
Leão XII (1823-9) decidiu que os cristãos andavam a desleixar-se. Fechou de novo os
judeus em guetos. Também proibiu a vacinação contra a varíola durante uma epidemia
porque «era contra a lei natural». Mas a grande desilusão foi Pio IX.
Liberal desiludido, fez sair leis ainda mais rigorosas contra a comunidade judaica.
Cecil Roth, em History of the Jews in Italy (1946), conta a estória de um judeu de boa
posição social que foi mandado para a prisão sob Pio IX por empregar uma senhora de
idade cristã para lhe tratar das roupas. Por esta altura os judeus já tinham adquirido a
sua liberdade e dignidade em quase todo o mundo. Mas não em Roma e nos Estados
Papais. A Casa dos Catecúmenos ainda estava em actividade. No ano de 1858 foi
cenário talvez do pior abuso de todos.
Uma rapariga de Bolonha disse ao padre, em confissão, que seis anos antes tinha
trabalhado ilegalmente como criada em casa de uma família de judeus de nome Mortara.
Estes tinham um filho de um ano de idade que a rapariga pensou que estava à morte e
baptizou-o. O confessor disse-lhe que ela tinha a obrigação de informar as autoridades.
Cumprindo as ordens do clero, a polícia prendeu o Edgardo, agora com sete anos, e
mandou-o para Roma para ser educado como cristão. Esta cause célèbre provocou uma
tempestade pela Europa fora. Francisco José da Áustria e Napoleão III de França
avisaram ambos o papa de que estava a hostilizar a opinião mundial. Em Londres houve
uma reunião maciça em Mansion House. O ilustre judeu britânico Sir Moses Montefiore
183
viajou para Roma para apelar pessoalmente junto do pontífice. Pio IX continuou
renitente.
Depois de uma parada triunfal através do gueto romano, Edgardo Mortara recebeu
solenemente o baptismo. Foi educado como cristão e mais tarde tornou-se um ilustre
missionário.
Uma vez mais se viu um papa, pessoalmente devoto, desprovido de todo o sentido de
justiça com relação aos judeus.
Em Setembro de 1870, as tropas romanas tomaram Roma. Foram saudadas com
cenas de júbilo apenas igualadas quando os Aliados recapturaram a cidade depois da
ocupação Nazi na Segunda Guerra Mundial. Onze dias depois da queda da cidade, em
2 de Outubro de 1870, foi concedida aos judeus, por um decreto real, a liberdade que o
papado lhes negava há mais de mil e quinhentos anos. O último gueto da Europa fora
desmantelado. Quando isso aconteceu, os judeus devem ter sentido que as suas
provações tinham finalmente terminado. Como é que eles podiam saber que a sua hora
mais negra ainda estava para vir?
Pio XII e o grande silêncio
O Cristianismo tinha preparado o caminho, perseguindo-os por causa da sua religião;
o Fascismo persegui-los-ia por causa da sua raça. Os papas, apesar de toda a sua
crueldade, tinham tido a esperança de converter os judeus; Hitler, com o seu relutante
aliado Mussolini, planeou exterminá-los.
Apesar das enormes diferenças, as semelhanças entre os decretos de Inocêncio III e
Paulo IV, por um lado, e as Leis de Nuremberga de 1935, por outro, são incontestáveis.
Os cristãos fizeram pontaria aos judeus: estes eram os párias, os poluidores da terra
que, como raça, perpetraram o maior dos crimes conhecidos do homem, matando Deus.
Os cristãos inventaram a ideia de despojar os judeus das suas casas, das suas terras e
cemitérios, forçando-os à emigração, forçando-os ao confinamento. Quando os Nazis
deram o nome de “gueto“ aos espaços onde os judeus viviam, pretendiam
expressamente dar às suas políticas o tom de continuidade em relação às dos papas e
uma espécie de respeitabilidade.
Pio XI, que morreu em 1939, sabia que Jesus, Maria e José eram judeus. Manifestou
a sua oposição a um grosseiro racismo na Alemanha e escreveu uma encíclica
antifascista que à data da sua morte não estava publicada. O seu sucessor foi mais
cauteloso.
Eugénio Pacelli, Pio XII, nasceu numa família patrícia em 1876. Devido à sua pouca
saúde, estudou para padre em casa. Ordenado em 1899, foi imediatamente destacado
para o Secretariado de Estado do Vaticano. Dezasseis anos mais tarde, foi feito bispo
sem ter um só dia de experiência pastoral. Nasceu e cresceu burocrata.
O avô, Marcantonio, fora advogado canónico leigo na Rota Romana. O pai, Filippo,
também canonista, foi deão do Colégio dos Advogados Consistoriais, e com tal
reputação que foi o único leigo a trabalhar no novo código da lei canónica que entrou em
vigor em 1918. Eugénio, advogado conforme a tradição da família, era o braço direito do
Cardeal Gasparri, cuja ideia era reestruturar o código e que dirigiu os trabalhos em todas
as suas fases.
Para o fim da Primeira Guerra Mundial, Pacelli era núncio apostólico em Munique.
Depois da guerra, foi transferido para Berlim onde testemunhou a ascensão dos
184
Camisas Castanhas. Em 1929 foi chamado de novo a Roma onde foi elevado a cardeal
e Secretário de Estado. Era acompanhado da Irmã Pasqualina, uma freira franciscana
alemã, que era a sua governanta.
Apesar de ver o Nazismo de tão perto, sempre temeu mais o comunismo.
O Cardeal Pacelli foi eleito papa em 2 de Março de 1939. Tinha então sessenta e três
anos. Frio, distante, sem expressão, excepto quando reagia às saudações da multidão,
tinha olhos castanhos sem força e, de perfil, cara de águia.
Quando Mussolini começou a pressionar a comunidade judaica, Pio iniciou o hábito
de não dizer nada. No dia 4 de Junho de 1940, a Itália entrou na guerra ao lado de
Hitler. Nos fins de 1941, três quartos dos judeus italianos tinham já perdido os seus
meios de subsistência. Estava armado o cenário para aquilo que muitos consideram,
católicos incluídos, a mais vergonhosa de todas as encíclicas papais, mais terrível ainda
do que a Cum nimis absurdum de Paulo IV, aquela que nunca foi escrita.
Por toda a Itália e Reich, os judeus estavam a ser sistematicamente vitimizados e, em
muitos casos bem conhecidos, mortos. Do Vaticano nem uma palavra inequívoca de
condenação. Este silêncio, diz muita gente, era pior do que a heresia. Habitualmente tão
lestos a corrigir e a condenar o mais leve desvio da fé, ou qualquer ”erro”, por exemplo,
em relação à moralidade sexual, a boca de Roma esteve muito bem e, como se viu
depois, permanentemente fechada.
Muito antes do fim do ano de 1942, o extermínio em massa dos judeus era já do
conhecimento geral. No dia 1 de Julho a BBC transmitiu em francês relatos do massacre
de 700.000 judeus polacos. Uma semana mais tarde, o Cardeal Hinsley de Westminster
repetiu este número na BBC, acrescentando: «Este sangue inocente clama por
vingança». Nesse verão, a França de Vichi mostrava-se pronta a deportar as crianças
judias, mesmo antes de os nazis da Zona Ocupada estarem preparados para as
receber. De 21 de Julho a 9 de Setembro, um pediatra contou 5.500 crianças que tinham
passado por Drancy a caminho do extermínio. Mais de mil tinham menos de seis anos.
Os pais já tinham sido despachados. Deram-lhes guardiões judeus para esconder o
facto de que eram órfãos. George Wellers, advogado parisiense, era um dos guardiões.
Descreveu a cena dos campos de trânsito perto de Paris no seu livro Drancy. As
crianças, seis das quais no seu contingente, tinham menos de dois anos, eram como
«um rebanho de cordeiros assustados». A descrição que fez da sua difícil condição é
obsidiante. Criancinhas que ainda nem sabiam o nome à espera no cais que um adulto
as levasse à casa de banho, deitadas no meio da própria imundície resultante da
diarreia, a chorar sem parar durante a noite.
Em 17 de Agosto, 530 crianças acompanhadas de alguns adultos foram empacotadas
e trancadas em vagões de gado. O calor e o fedor eram aterradores. Dois dias depois, já
estavam em Auschwitz e, à noite, já mortas. Logo depois, um médico das SS do campo
confidenciava no seu diário: «Comparado com aquilo que vi, o Inferno de Dante parece-
nos quase uma comédia». O inferno de Hitler viria a consumir um milhão de crianças.
O Núncio Apostólico em Paris, Valerio Valeri, enviara em Agosto, ao Cardeal
Secretário de Estado em Roma um relatório em que afirmava que as crianças que
estavam a ser embarcadas para fora de França se destinavam à Polónia e não à
Alemanha. Sete semanas mais tarde, Myron C. Taylor, o embaixador americano, enviou
ao mesmo Secretário de Estado, Cardeal Maglione, pormenores do extermínio em
massa de judeus polacos e ocidentais na Polónia.
A hierarquia francesa fez aquilo que foi descrito como um protesto platónico junto do
governo de Quisling. Laval soube dizer a Suhard, Cardeal de Paris, que devia manter-se
fora da política e ficar calado, como Sua Santidade. Quando se deram mais prisões,
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Suhard ficou de facto calado. Mas em Janeiro de 1943 foi a Roma para uma audiência
com Pio XII. Levara consigo boas notícias em forma de ajuda financeira de Pétain à
Igreja. Sobre os judeus não trocaram uma só palavra.
O extermínio em massa de judeus era já do conhecimento geral. Um mês antes de
Suhard ir a Roma, em 5 de Dezembro de 1942, o Arcebispo de Cantuária escreveu ao
The Times a comentar uma reportagem do jornal no dia anterior. «Isto é um horror» dizia
Sua Eminência, «para além do que se pode imaginar». Exprimia em seu nome e no da
Igreja de Inglaterra e das Igrejas Livres «a nossa ardente indignação por esta atrocidade
para a qual dificilmente se encontrará paralelo nos tempos da barbárie». Só havia um
homem cujo testemunho Hitler temia, porque muitos dos soldados dos seus exércitos
eram católicos. Esse homem não falou. Face àquilo que Winston Churchill viria a chamar
«provavelmente o maior e mais horrível crime alguma vez cometido em toda a história
do mundo», ele preferiu a neutralidade.
No verão de 1943, Mussolini foi deposto e nesse mês de Setembro Roma foi ocupada
pelos alemães. Um destacamento das SS chegou à cidade. Exigiu 50 quilos de ouro à
comunidade judaica. Se o pagamento não fosse feito dentro de trinta e seis horas,
duzentos judeus seriam deportados. Pio XII ofereceu-se para suprir qualquer falta.
Mesmo assim, ninguém escapou.
Em Outubro, um esquadrão de pára-quedistas das SS, armados de metralhadoras,
estacionou nos limites do Vaticano. Estavam lá ostensivamente para proteger Sua
Santidade, mas na realidade pretendiam intimidá-lo. Parece que conseguiram. Ele não
estava preocupado com a própria segurança, mas, bem ou mal, mergulhou num silêncio
ainda mais profundo, temendo que, quebrando-o, viesse a fazer piorar a situação dos
judeus.
Na noite de 15 para 16 de Outubro, os judeus estavam em casa a celebrar o Sabbath.
Mil foram capturados, e entre eles havia mulheres grávidas e velhos. Uma mulher levada
num camião militar entrou em trabalhos de parto. Um casal com dez filhos estava entre
os que foram levados para a Academia Militar. Aí, na primeira noite, duas mulheres
deram à luz. Dois dias depois, uma Segunda-feira, dia 18 de Outubro, todo o grupo de
mais de mil pessoas foi transportado para uma via ferroviária de resguardo e metido em
vagões de gado. O comboio partiu às 2.05 da tarde. Foram para o Norte, por Orte,
Chiusi, Florença e Bolonha, e atravessaram a fronteira alemã. Dirigiam-se para
Auschwitz.
O Bispo Hurdal, chefe da Igreja alemã em Roma, reconhecendo que o arregimentar
de judeus em Roma era um momento chave, informou o comando alemão de que as
capturas tinham de acabar. Caso contrário, o papa «teria de tomar uma posição clara
que a propaganda anti-germânica aproveitará como arma contra nós». Também o
embaixador alemão estava profundamente preocupado. Andavam a apanhar os judeus,
mandou ele dizer para Berlim, praticamente debaixo do nariz do papa. E este, tal como
muitos bispos franceses, não teria outra alternativa senão protestar contra a política
alemã.
Estes receios vieram a revelar-se infundados. Pio XII não disse absolutamente nada.
Quando o diplomata americano Harold Tittman foi recebido em audiência três dias mais
tarde, o papa não falou dos judeus. A sua preocupação eram as pequenas células
comunistas espalhadas por Roma.
Os Nazis ficaram admirados; não podiam acreditar na sua sorte. Isto encorajou-os a
levar a cabo medidas idênticas em Florença, Veneza, Ferrara, Génova e Fiume. Em seis
semanas foram arregimentados e levados para Auschwitz dez mil judeus, 7550 dos
quais aí morreram. Os italianos abrigaram tantos judeus quanto podiam. Isto era mais
fácil na medida em que os judeus não tinham um aspecto muito diferente deles.
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Encorajadas pela Santa Sé, as igrejas, conventos e mosteiros, todos desempenharam o
seu papel; alguns judeus refugiaram-se no Vaticano.
Em Dezembro de 1943, os judeus foram formalmente privados da cidadania italiana.
Numa só captura, foram aprisionados 650 judeus romanos, noutra, 244. Havia setenta
judeus entre os reféns mortos nas Grutas Ardeantinas, em Março de 1944. Este número
representava uma represália de 10 para 1 pelos polícias alemães mortos a tiro em
emboscadas pela Resistência, com mais cinco vítimas acrescentadas por engano.
Entre os primeiros reféns mortos com um tiro na nuca estava Dominico Rici,
funcionário católico de Roma, de trinta e cinco anos e pai de cinco filhos. Num dos seus
bolsos foi encontrada uma nota rabiscada em maiúsculas: «Meu Deus, rezamos para
que Vós protejais os judeus destas bárbaras perseguições. Um Padre-nosso, dez Ave-
marias, um Gloria Patri». Juntamente com Rici, morreram seis judeus chamados Di
Consiglio: três irmãos, o pai destes, o avô e o tio. Robert Katz escreveu no seu livro
Morte em Roma:
Não era necessário um milagre para salvar os 335 homens
condenados a morrer nas grutas Ardeantine. Um homem podia,
devia e tem de justificar a razão por que não agiu para pelo menos
adiar o morticínio alemão. Esse homem é o Papa Pio XII.
O papa soube por Dollman, chefe das SS em Roma, e através do Padre Salvatoriano
alemão Pancrazio, que ia haver um banho de sangue. Contudo, as simpatias do papa
eram mistas. Ele pensava que o ataque da Resistência às forças alemãs foi um crime
maior porque não provocado. O dia do massacre encontrou-o em audiência com os
cardeais do Santo Ofício e da Congregação dos Ritos e a preparar-se para as
cerimónias da Quaresma.
O massacre não foi registado pela rádio independente do Vaticano.
Se o papa ao menos tivesse arriscado ser preso usando uma estrela de David, ou
tivesse falado ao menos uma vez para dizer ao povo judeu que eles não estavam
sozinhos na sua agonia…!
Muito longe, um dos líderes do Levantamento Polaco lamentava o silêncio de todos
os líderes mundiais. Era para ele «espantoso e horrível». A sua mensagem dizia: «O
mundo está em silêncio. O mundo sabe, não é possível que não saiba, mas continua
calado. O representante de Deus no Vaticano está calado».
O horror romano terminou em 5 de Junho de 1944 quando os Aliados libertaram a
cidade. O capelão militar removeu os selos, incluindo o de Pio XII, das portas da Grande
Sinagoga. Os judeus eram livres de novo. Saíram dos esconderijos para verificarem que
faltavam mais de dois mil deles.
Cecil Roth exprimiu em 1946 a sua sincera gratidão à Igreja pela ajuda que prestou
ao seu povo durante a guerra. «Desta maneira, no século XX o grande erro do Gueto
italiano foi resgatado». Pinchas E. Lapide louvou Pio XII pelo seu trabalho silencioso na
retaguarda. Muitos observadores são menos caridosos. Para estes, a questão é: Por
que é que o papa não ergueu a sua voz?
Os seus defensores dizem que ele quis preservar a neutralidade do Vaticano como
mediador; receava carregar as consciências dos católicos alemães com um fardo
intolerável. Os seus críticos respondem: Pode haver neutralidade entre o bem e tão
tremendo mal? Além disso, e o fardo dos judeus que os alemães, católicos e não
católicos, estavam a assassinar aos milhões?
187
O retrato que Hochhuth faz de Pio XII na sua peça O Representante como uma
espécie de super capitalista que temia apenas a desvalorização das suas acções, é
ridículo. Provavelmente Pio nunca em toda a sua vida pensou em bens pessoais.
Hochhuth andou mais perto da questão quando perguntou «como é que, nesta chamada
Europa cristã, pode ocorrer o assassínio de um povo inteiro sem que a mais alta
autoridade moral da terra tenha dito uma palavra sobre isso?»
No próprio Vaticano vieram à tona diferenças de opinião. Depois da guerra, Paulo VI
havia de vir em defesa do seu ex-superior dizendo que protestar contra as atrocidades
alemãs «teria sido não só em vão como prejudicial». Enquanto que o Cardeal Tisserant,
mais tarde Deão do Sacro Colégio, disse, ainda durante a guerra:
Receio que a História vá criticar a Santa Sé por ter praticado uma
política de conveniência egoísta e pouco mais. Isto é muito triste,
especialmente para aqueles [de nós] que viveram sob Pio XII. Toda
a gente [em Roma] está convencida de que depois de Roma ser
declarada cidade aberta os membros da Cúria não terão de sofrer
qualquer dano; isto é uma vergonha.
Os tempos da deposição de reis já lá vão há muito. Católicos como Hitler ou Goebels
não teriam ficado preocupados com a excomunhão, nem teriam deixado de perseguir os
Judeus por o papa lhes pedir. Mas alguns perguntam: Não podia Sua Santidade, que
declarou infalivelmente em 1950 que uma judia foi levada de corpo e alma para o Céu,
ter dito com autoridade em 1942 que a sua raça não devia ser aniquilada por ser
judaica? O que é que o impedia de dizer publicamente, como Tisserant o incitou a fazer,
que os católicos não podiam participar num assassínio em massa ou que há situações
em que os líderes legais devem ser desobedecidos, qualquer que seja o preço?
A única explicação satisfatória para o silêncio de Pio XII é que ele era primeiro e antes
de tudo um católico; católico antes de cristão ou ser humano, muito embora fosse um
bom cristão e um ser humano profundamente compassivo. O seu admirador judeu
Lapide escreveu: «Um simples édito papal dizendo aos cristãos que a lei judaica que
Cristo pregou aos discípulos — «Ama o próximo como a ti mesmo» — deve aplicar-se
também aos judeus, teria sido mais proveitoso do que longas listas de proibições e
restrições. Mas nunca tal carta chegou de Roma». Se ao menos Pio XII tivesse cuidado
tanto dos judeus como Pio IX cuidou dos seus Estados Papais…!
A Pio seguiu-se João XXIII, de setenta e sete anos, a quinta-essência do ser humano.
Expurgou imediatamente a palavra “pérfido”, o adjectivo usado em relação aos judeus
na liturgia da Sexta-feira Santa. Ele sabia que a Sexta-feira Santa devia antes ser uma
espécie de Yom Kippur em resgate do pecado da Igreja de crucificar Jesus nas pessoas
dos irmãos judeus ao longo dos tempos. Certa vez, quando recebeu os líderes
americanos do Apelo Judaico Unido, o papa disse com um sorriso: «Eu sou José, vosso
irmão» («Son’io Giuseppe il fratello vostro»). José era o irmão mais novo.
Sob a direcção de João, o Cardeal Bea preparou um documento sobre os Judeus
para ser presente no Concílio Vaticano II. João morreu antes de ele ser aprovado. De
qualquer maneira, com alterações que o deixaram quase irreconhecível, acabou por ser
escasso demais e tardio demais. Não há nele qualquer verdadeira sugestão de perdão,
como há na grande prece de João, pela doutrina e comportamento dos católicos ao
longo dos tempos que contribuíram para o anti-semitismo. No Concílio, e satisfazendo
as objecções de alguns bispos, os Judeus nem sequer foram ilibados da acusação de
deicídio. O novo papa, Paulo VI, defendeu um texto mais fraco. A sua falta de
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sensibilidade em relação aos Judeus revelou-se mais tarde num sermão que ele pregou
no Domingo da Paixão de 1965. «Os Judeus» disse ele «foram predestinados para
receber o Messias e esperaram por ele durante milhares de anos. Quando Cristo chega,
o povo judeu não só não o reconheceu como se lhe opôs, o caluniou e finalmente
matou». Depois do Holocausto, depois de todas as deliberações do Concílio, o papa, um
homem bondoso, voltou a culpar toda a raça judaica pela morte de Jesus.
Monsenhor John M. Oestreicher, que fez o esboço do documento original do Vaticano
II sobre os judeus, confessou: «Os padres conciliares podiam ter feito ressoar a Basílica
com o grito: “Não mais campos de concentração! Não mais câmaras de gás! Não mais
tentativas de extermínio de um povo inteiro! Não mais perseguições aos Judeus!”» Eles
nem nunca tiveram coragem de dizer que os judeus não podem ser acusados da morte
de Deus.
A mais longa viagem de João Paulo
Concordaram em encontrar-se na primavera, imediatamente antes da Páscoa Judaica
do ano de 1986, segundo o calendário cristão. O Papa João Paulo já viajara por todos
os continentes, mas esta seria a sua mais longa viagem. Respirou fundo quando se
preparava para entrar no edifício enfeitado que fica praticamente à vista do seu próprio
palácio do Vaticano. Talvez mil pessoas apinhavam-se num espaço destinado a poucas
centenas. A porta principal estava aberta de par em par quando ele passou do sol
brilhante no exterior para a sombra do interior da sinagoga.
Em certo sentido, os Judeus são os paroquianos mais antigos do papa. Eles viviam
nas ruas de Lungotevere de ‘Cenci quando um pescador veio da Galileia para viver entre
eles há quase dois mil anos. Desde então, os judeus e os pontífices, únicos
sobreviventes da Roma Imperial, sempre estiveram no pensamento uns dos outros.
Neste dia, entre os judeus ali reunidos, estavam quarenta que, quais fantasmas de
uma era passada, traziam tatuagens nos braços. Eram sobreviventes dos campos de
morte nazis. João Paulo foi recebido pelo Rabi Chefe Elio Toaff, também de branco,
salvo as tiras negras verticais do seu manto de orações. Os dois representantes
olharam-se nervosos. O rabi cofiava a barba branca e o pontífice agarrava a cruz de
ouro que traz ao peito e de que muitos dos congregados não conseguiam tirar os olhos.
Tinham sofrido muito por causa daquela cruz. Ambos os homens sabiam que este
encontro iria ficar na História. Ambos tinham consciência também de que havia membros
de ambas as comunidades que não viam com bons olhos este encontro do Bispo e do
Rabi Chefe de Roma naquele solene período litúrgico na sinagoga que foi o coração e a
alma do último gueto europeu antes da ascensão de Hitler. Muitos judeus presentes
sabiam o que Pio X disse em 1904, porque Golda Meir o relatou na sua Autobiografia:
«Não podemos impedir os Judeus de irem a Jerusalém, mas Nós nunca o
sancionaríamos. […] Os Judeus não reconheceram Nosso Senhor; Nós não podemos
reconhecer os Judeus». Toaff tinha um problema adicional. Não podia esquecer que um
seu antecessor, o Rabi Chefe Israel Zolli, se tornou católico em 1945 e tomou o nome de
Eugénio em reconhecimento a Pio XII por ter acolhido os judeus durante a Segunda
Guerra Mundial. Desde Constantino que não havia tão surpreendente conversão.
O pontífice, com um sorriso triste, olhou a congregação com profundo respeito antes
de iniciar uma alocução em que deplorou os ódios e as perseguições que “alguém”
alimentou e perpetrou contra os Judeus. Repetiu a última expressão e um disperso
aplauso estendeu-se a toda a assembleia, fazendo vibrar os travejamentos. Quando
exprimiu o seu horror pelo genocídio nazi, muitos choraram abertamente. Eles sabiam
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que ele, um polaco vindo de Cracóvia, a apenas algumas milhas de Auschwitz, tinha
compartilhado seu pesar. Três milhões daqueles que lá foram chacinados eram tanto
polacos como judeus.
Enquanto o cantor e o coro cantavam Ani Ma’amin, o cântico de fé cantado pelos
judeus a caminho da morte, os pensamentos de muitos naquele dia de primavera
voltaram-se para Auschwitz, Bergen-Belsen, Dachau e Treblinka.
Passados os oitenta minutos da cerimónia na sinagoga da margem do Tibre, havia
esmagadoras razões tanto a favor como contra preces conjuntas, e assim pontífice e
rabi oraram juntos — em silêncio. Depois, esquecendo o protocolo e a profunda divisão
religiosa, com o pensamento apenas na sua humanidade comum, judeu e católico
abraçaram-se calorosamente. A assembleia rompeu de novo em aplausos. Nem uma só
vez o papa mencionou o Estado de Israel; isso, explicou um assessor mais tarde, é uma
questão política. Curiosa reserva num pontífice cujos antecessores desejaram
ardentemente adquirir e manter os Estados Papais. Mas aqueles poucos que neste
momento sagrado representavam os judeus de todo o mundo sabiam que João Paulo,
embora modesta e indirectamente, tinha aceitado alguma da culpa pelas incessantes
tragédias do seu povo que culminaram no Holocausto.
O longo e desapiedado tratamento dado aos Judeus pelos papas foi o resultado de
uma grave má interpretação da verdade evangélica. Porque, segundo a própria
interpretação da cruz por parte da Igreja, não foram os Judeus por si só os
responsáveis, nem total ou nem parcialmente, pela crucificação, mas os pecados do
mundo, isto é, os pecados da raça inteira. Os cristãos, ao perseguirem os Judeus,
tentaram talvez escapar à sua própria culpa. Se fizeram dos Judeus os bodes
expiatórios foi talvez por nunca terem conseguido perdoar-lhes por eles lhes darem um
tão sagrado e exigente Salvador.
A maioria dos historiadores concordaria com a profética acusação de Charles Lea,
escrita no século passado, no primeiro volume da History of the Inquisition in Spain:
A Igreja ensinou que, à excepção do assassínio, nenhum castigo,
nem sofrimento, nem desonra eram severos demais para os
descendentes daqueles que se recusaram a reconhecer o Messias.
[…] Não será demais dizer que pelos infindos erros cometidos sobre
os Judeus durante a Idade Média, e pelos preconceitos que ainda
por aí andam em muitos lugares, a Igreja é a principal, se não a
única responsável.
Será demasiado cruel classificar como heresia aquilo que muitos pontífices romanos
disseram sobre os judeus e a maneira como os trataram?
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Heresias Papais
«Muitos pontífices romanos foram heréticos». Para os católicos isto soará como uma
citação de um protestante fanático. Um papa herege parece tão contraditório como um
círculo quadrado. O Primeiro Concílio Vaticano disse que o papa, sem precisar do
consentimento da Igreja, é o juiz infalível da ortodoxia. É certamente impensável que um
papa como João Paulo II se pudesse afastar da verdade e, portanto, da Igreja, caindo
em heresia.
Aquela citação não é, de facto, de um protestante, mas do Papa Alexandre VI em
1523.
Se por Igreja Romana se entende o seu chefe ou pontífice, não há
dúvida de que ele pode errar, mesmo em matéria de fé. E é o que
acontece quando ele ensina a heresia por seu próprio julgamento ou
decretal. Na verdade, muitos Pontífices Romanos foram heréticos. O
último deles foi o Papa João XXII [1316-1334].
O tema das heresias papais e dos papas excomungados pela Igreja era vulgar na
Teologia, mas desde 1870 pouco se ouve falar dele. Mesmo o autoritário Inocêncio III
confessava: «Eu posso ser julgado pela Igreja por um pecado em matéria de fé».
Inocêncio IV, embora afirmando que, como Vigário do Criador, todas as criaturas a ele
estavam sujeitas, admitia contudo que qualquer determinação papal que seja herética
ou tenda a dividir a Igreja não deve ser obedecida. «Claro que um papa» dizia ele
«pode errar em matéria de fé. Portanto, ninguém deve dizer “Eu acredito nisto porque o
Papa também acredita”, mas sim “porque a Igreja também acredita”. Se ele seguir a
Igreja, nunca errará.» Por qualquer razão, estas palavras, que apareciam no texto
original de Inocêncio IV intitulado Comentário Sobre o Decálogo, foram retiradas das
últimas edições. É difícil saber porquê, uma vez que muitos papas disseram mais ou
menos o mesmo.
Os papas falíveis
A aura que hoje envolve o papado é tal que poucos católicos se apercebem de que
dizer que um papa não pode cair em heresia vai contra a fé e a tradição. O papa
sempre foi falível muito antes de ser infalível. Desde os primeiros tempos que era facto
assente que os pontífices romanos não só podiam errar como de facto erraram em
matérias fundamentais da doutrina cristã. E nem ninguém se apressou a acrescentar
nesses dias longínquos: «Claro que ele só errou como doutrinador ou teólogo
particular». Isto sugere que além das suas convicções e das respostas aos seus
diocesanos, ele também regulava a fé de toda a Igreja. Não há provas disto. O que hoje
é conhecido como infalibilidade papal não era sugerido, nem sequer veladamente, na
Igreja primitiva e qualquer ideia de que um Bispo de Roma era, ele próprio, infalível,
teria provocado por vezes alguma hilaridade. A fé da Igreja era pertença da Igreja e era
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regulada pelos sucessores de todos os apóstolos, nomeadamente os bispos. Eles
testemunhavam a fé das suas comunidades, especialmente quando se reuniam em
Concílio Geral. Um papa que saísse da linha em matéria de fé era condenado como
herege. Pedro cometeu erros. E o Bispo de Roma também. Quando isso acontecia a
Igreja tinha o direito e o dever de o corrigir ou depor. Afinal, também o papa era um
membro da Igreja e não um qualquer tipo de oráculo divino exterior a ela.
Não era simplesmente a ideia de infalibilidade, mas o próprio gérmen da ideia que
não existia na época patrística. Roma era consensualmente considerada a mais
eminente sé do Ocidente. Pedro e Paulo lá ensinaram e morreram. As suas ossadas
tornaram-se lugar de peregrinação, de luz e de esperança. Apesar disso, nos primeiros
três séculos, um dos Padres, Ireneu, relaciona a primazia de Roma com a doutrina.
Nem mesmo ele a relaciona com o Bispo de Roma.
Não há nenhum dos Padres Gregos uma só palavra acerca das prerrogativas do
Bispo de Roma, não há qualquer sugestão de que ele tivesse jurisdição sobre eles.
Ninguém, grego ou latino, apela ao Bispo de Roma como árbitro universal em qualquer
disputa sobre a fé. De facto, nenhum bispo de Roma se atrevia a tomar sozinho uma
decisão para a Igreja em matéria de fé.
Roma locuta est, causa finita est. A frase de Santo Agostinho, «Roma falou, a
questão está encerrada» é continuamente citada pelos defensores do Catolicismo. Com
razão. Dos dez enormes fólios que constituem a sua obra, esta é a única frase que
prova que o Bispo de Roma tem, por si só, o direito de resolver as controvérsias na
Igreja. Mas será que prova mesmo? O contexto revela Agostinho a argumentar que
depois de dois sínodos, com o concurso do Bispo de Roma, é altura de parar. Agostinho
apela repetidamente aos sínodos para resolver controvérsias. Quando o Papa Estêvão
tentou resolver uma disputa baptismal para a Igreja Africana e a sua opinião foi
rejeitada, Agostinho diz que eles tiveram razão em agir assim. Tratava-se de uma
questão para a Igreja e não para um indivíduo.
Agostinho passou grande parte da sua vida a discutir com a igreja rival dos
Donatistas. Nunca, nem por uma só vez, ele sugere que eles se separaram do centro da
unidade, Roma; não reconhece tal centro para a Igreja como um todo. Ele nunca diz,
por exemplo, como fazem os papas modernos: «Voltem para Roma, creiam em tudo o
que o papa ensina».
Em 434, Vincent de Lerins estabeleceu os critérios da doutrina católica: ela deve ser
sempre sustentada por todos em toda a parte. Não menciona o papel de Roma nem dos
seus bispos. A fé é formulada por um Concílio e não individualmente por um bispo.
O Papa Pelágio (556-60) fala dos hereges que se afastam das Sés Apostólicas, isto
é, de Roma, Jerusalém e Alexandria, mais Constantinopla. Em todos os escritos
primitivos da hierarquia não há qualquer referência especial ao papel do Bispo de
Roma, nem sequer ao nome especial de “Papa”. Mencionam-se os Patriarcas, dos
quais o de Roma era o primeiro por causa de Pedro e Paulo, os arcebispos, os
metropolitas e os bispos. Não há qualquer referência ao papa nem ao seu papel, nem
mesmo em Isidro de Sevilha, o grande autor do século VII.
Outra omissão surpreendente, à vista do Concílio Vaticano I: das cerca de oitenta
heresias dos primeiros seis séculos, não há nenhuma que refira a autoridade do Bispo
de Roma, nenhuma é declarada pelo Bispo de Roma. Por vezes ataca-se o episcopado
em geral; mas ninguém ataca a autoridade do pontífice romano, porque nunca ninguém
ouviu falar de tal coisa.
Depois de Pedro passaram-se séculos, cheios de controvérsias, qualquer das quais
hoje envolveria o imediato recurso a uma decisão de Roma. Nesses tempos nenhum
Bispo de Roma se atreveria a tentar resolvê-las e nenhum bispo lhe pediria que o
193
fizesse. O Papa Sirício (384-98) não era nenhum Gregório VII. Quando um certo Bispo
Bosónio caiu em heresia, recusou-se a pronunciar-se contra ele porque, dizia, não tinha
o direito de o fazer. A questão devia ser resolvida pelos bispos da província.
Já assinalámos que não há um único Padre que encontre qualquer sugestão de
exercício Petrino nos grandes textos bíblicos que se referem a Pedro. A supremacia e
infalibilidade papais, hoje tão fundamentais para a Igreja Católica, não são
simplesmente referidos. Não há um único credo, uma única confissão, um único
catecismo, uma única passagem nos escritos patrísticos que contenha uma palavra que
seja acerca do papa, e muito menos a ideia de que a fé e a doutrina derivam dele.
Todos os indicadores vão no sentido de que o Bispo de Roma é falível e não infalível.
De facto, o primeiro papa a apelar para qualquer coisa do tipo daquilo que nós hoje
conhecemos como autoridade papal foi Ágato em 680. E fê-lo por uma razão bastante
embaraçosa: um seu antecessor, o Papa Honório, ia ser condenado por heresia por um
Concílio Geral.
Uma longa lista de papas heréticos
A tradição de heresia entre os Bispos de Roma remonta a tempos anteriores a
Honório. Libério (352-66), por exemplo. Libério fez os possíveis por resolver a
controvérsia Ariana. Ário acreditava que o Filho era menos do que o Pai. O grande
defensor da ortodoxia era Atanásio. Libério fora forçado a exilar-se e a condição para o
seu regresso era condenar Atanásio. Foi o que ele fez, sugerindo desta maneira que o
Filho estava abaixo do Pai. Por isto, ele ganhou a maldição de um Padre muito
importante, Hilário de Poitiers, que o acusou de apostasia. «Maldito sejas, Libério» foi a
famosa exclamação de Hilário, e todos os bispos ortodoxos a subscreveram. O erro de
Libério foi uma prova incontestável ao longo da Idade Média de que os papas podem
cair em heresia como qualquer outra pessoa.
Outros papas houve que fizeram afirmações infelizes. Gregório o Grande disse que
os bebés não baptizados vão directamente para o inferno e lá ficam a sofrer para toda a
eternidade. Alguns pontífices foram ainda mais longe. Inocêncio I (401-17) escreveu ao
Concílio de Milevis e Gelásio I (492-6) aos bispos de Picenum dizendo que os bebés
deviam receber a comunhão. Se morressem baptizados mas sem a comunhão iam
directamente para o inferno. Esta opinião foi condenada pelo Concílio de Trento.
O mais hamletiano de todos os papas foi Vigílio (573-55), cuja carreira se assemelha
a uma farsa teatral.
Vigílio era um corpulento funcionário romano sem escrúpulos, que nunca foi popular.
O Papa Bonifácio II queria que ele fosse o seu sucessor e escreveu uma carta a nomeá-
lo papa após a sua morte. Uma multidão em fúria por o papa se ter atrevido a violar os
seus direitos democráticos, enquanto clero e povo de Roma, obrigou-o a queimá-la. Foi
um momento interessante. Se tivessem deixado Bonifácio levar a sua avante, talvez
nunca mais tivesse havido eleições papais. Certamente que depois de 1870, a
nomeação pelo papa do seu sucessor teria sido considerada um dado adquirido. Quem
melhor do que o Vigário de Cristo, com a plenitude do poder, para escolher o próximo
sucessor de S.Pedro? Mas os romanos do século VI insistiam que Roma era a sua
diocese e que tinham o direito de escolher a pessoa que os iria governar.
Anos mais tarde, Vigílio conseguiu mesmo ser eleito papa. O seu não foi um reinado
feliz. O Imperador Justiniano obrigou-o a juntar-se-lhe em Constantinopla e aí o
manteve até o pontífice concordar com as suas próprias opiniões heterodoxas sobre
194
Jesus e a autoridade do Concílio da Calcedónia. Vigílio mudava de opinião tantas vezes
quantas aquelas em que era pressionado pelo imperador.
Por fim, Justiniano convocou o Quinto Concílio Geral, que reuniu em Maio de 553 na
galeria sul da Igreja de Santa Sofia em Constantinopla. De um total de 165 bispos
presentes, só vinte e cinco eram ocidentais. Vigílio mandou apresentar as suas
desculpas, alegando que estava doente. A sua ausência não foi considerada
suficientemente importante para adiar os trabalhos. O Concílio reuniu e decidiu, entre
outras coisas, que Sua Santidade era herético. Foi, portanto, excomungado.
Quando isto chegou ao seu conhecimento, o papa condenou a decisão do Concílio e
todos aqueles que o tinham excomungado. Furioso, Justiniano baniu-o para
Proconescu, uma sombria enseada rochosa próxima da extremidade ocidental do mar
de Mármara. Aí lhe chegaram boatos de que estava iminente uma nova eleição para
papa e que o seu nome tinha sido retirado das listas litúrgicas dos papas. Estava mal de
saúde; sofria agonias terríveis provocadas por cálculos. Depois de seis meses nesta
situação, não aguentou mais.
Em 8 de Dezembro de 553 mandou uma carta ao Patriarca de Constantinopla em
que alegava que até então tinha sido iludido pelos «embustes do demónio». Satanás
tinha-o afastado dos seus irmãos bispos, mas com a pena de excomunhão tinha visto a
luz. As suas passadas opiniões, confessou ele, estavam erradas e, tal como o grande
Agostinho, queria retractar-se. Aceitou todos os decretos do Quinto Concílio e declarou-
os verdadeiros e obrigatórios no Ocidente.
Agora que o papa tinha cedido às suas opiniões, o imperador estava pronto a deixá-
lo voltar para o seu país. Em Roma esperava-o uma recepção muito pouco amistosa.
Só escapou ao linchamento porque morreu em Siracusa em 7 de Junho de 555.
Recusaram-lhe o enterro na Basílica de S.Pedro.
A Itália sentia-se de tal maneira ultrajada com a conduta de Vigílio e com as suas
frequentes mudanças de opinião sobre a questão essencial de Jesus ser uma ou duas
pessoas, que a princípio recusou aceitar a legitimidade do Quinto Concílio. O Arcebispo
de Milão e o Patriarca de Aquileia, em protesto, afastaram-se da Santa Sé. Ficou para o
papa seguinte a tarefa de clarificar a situação com a ajuda do exército.
O significado desta controvérsia não reside naquilo que foi debatido na altura. Reside
sim no facto de um concílio se considerar acima do papa ao ponto de o excomungar e o
depor por heresia. Durante a Idade Média este foi um daqueles casos históricos que
provaram a todos os teólogos que um concílio era superior a um papa. Só muito mais
tarde é que as falsificações vieram a alterar esta convicção. Antes disso, nunca
ninguém considerou que os papas eram ortodoxos por uma espécie de prerrogativa
divina; eles tinha de provar a sua ortodoxia como qualquer outra pessoa.
O herético Papa Honório
Honório, que foi papa de 625 a 638, é o exemplo clássico de um papa condenado
pela Igreja por heresia. Era um homem notável, um santo, um bom líder e um belo
estadista. É comparável em estatura moral a Gregório o Grande.
O seu único defeito fatal era que, sendo um homem de acção, não gostava de
controvérsias porque faziam perder tempo que era mais bem empregue em servir a
Deus e aos pobres.
O Concílio da Calcedónia estabelecera que Cristo tinha duas naturezas; era divino e
humano. Punha-se então uma questão suplementar: Cristo tinha uma só vontade ou
duas? Numa carta muito publicitada, Honório ridicularizou aqueles «filósofos
195
bombásticos que são uma perda de tempo» que ao pesarem as duas naturezas de
Cristo «nos coaxam quais rãs». Ele discordava das duas vontades, embora não seja
bem clara a razão porquê. Talvez ele estivesse simplesmente a reagir contra a ideia de
duas vontades contraditórias em Cristo. Seja como for, as suas palavras foram
classificadas de contrárias à fé. Foi rotulado de Monotelista (defensor da ideia da
vontade única). Honório morreu antes de poder explicar-se integralmente. Mas a sua
carta provocou a heresia na Igreja oriental. Estes hereges recorreram à carta para
provar que o papa concordava com o Monotelismo.
Quarenta anos depois da morte de Honório, o imperador quis arrumar o assunto.
Sugeriu um Concílio Geral, com que o novo papa, Ágato, concordou e para o qual se
preparou realizando os seus próprios sínodos em Roma. O Sínodo da Páscoa de 680
condenou o Monotelismo e declarou pela primeira vez que Roma tinha a supremacia
sobre toda a Igreja. Informaram o imperador de que a Igreja Romana era a mãe e que
ninguém devia atrever-se a dizer que ela alguma vez errara em questões de fé. Então, o
Sínodo nunca tinha ouvido falar de Vigílio? Aquela declaração orgulhosa e sem
precedentes foi talvez o que ditou o destino de Honório.
O Sexto Concílio Geral realizou-se no Palácio Imperial de Constantinopla; durou de 7
de Novembro de 680 a 16 de Setembro de 681. Os Monotelistas sustentaram que o
Papa Honório estava do seu lado. O Concílio concordou. Ao condenarem os
Monotelistas, os padres estavam a condená-lo também a ele.
Os 174 delegados aprovaram os decretos; os legados papais assinaram primeiro
sem quaisquer objecções. O novo pontífice, Leão II, eleito em 682, confirmou a
condenação do seu antecessor. Escreveu ele: «Honório tentou, numa profana traição,
subverter a fé imaculada». Isto não era uma mera questão de condenar uma qualquer
opinião pessoal ou subtileza teológica. Leão condenou-o por minar publicamente a fé da
Igreja. Senão, por que estava então um Concílio Geral envolvido na questão? A partir
de então, todos os pontífices, quando da sua sagração, estavam obrigados a sancionar
a decisão do Concílio, com um juramento em que se condenava a heresia do papa
Honório.
Gregorovio escreveu em Rome in the Middle Ages: «O único exemplo de papa
romano publicamente anatemizado sob a acusação de heresia por um Concílio
Ecuménico constitui um dos factos mais notáveis da história eclesiástica». Pouco
importa se Honório era herético ou meramente um homem simples e brusco que
preferia os actos às palavras e que tentou pôr fim a uma controvérsia com uma carta
lançada à pressa. O ponto chave é que um Concílio Geral, confirmado por uma longa
geração de papas, testemunhou que a Igreja não acredita que um papa seja infalível.
Pelo contrário, quando comete um erro que descaminha a Igreja, o papa tem de ser
condenado, como qualquer outra pessoa, como herege. Em matéria de fé, o Bispo de
Roma está sujeito a um Concílio, na mesma medida em que está qualquer outro bispo.
Assim, numa antecipação de quase doze séculos, negou-se a infalibilidade papal, tal
como foi definida num concílio menor da fragmentada Igreja Ocidental em 1870.
As heresias sacramentais de Roma
A mais persistente falta de ortodoxia de Roma era na área dos sacramentos. Isto
explica-se em parte pelo colapso da erudição provocado pelas invasões bárbaras. Os
gregos tendiam a olhar maliciosamente Roma como uma cidade de papalvos.
A partir do século VIII, certos papas anularam ordenações e reordenaram padres. Isto
começou com um anti-papa, Constantino II, no ano de 769. Mas, como já vimos, o Papa
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Formoso, após a sua morte em 896, foi não só desenterrado e excomungado por
heresia, como também as suas ordenações foram consideradas inválidas. Isto
levantava uma questão alarmante: haverá em Itália, de que o papa é o patriarca, algum
sacramento válido? Os Papas Estêvão VII e Sérgio III, o amante de Marozia, ensinavam
ambos que as ordenações dos papas heréticos eram inválidas.
Este ataque aos sacramentos continuou pelo século XI. Os papas decidiram que
onde houvesse simonia — isto é, pagamento — envolvido na ordenação de um bispo,
esta era inválida. Isto levou Leão IX (1049-54), provavelmente instigado por
Hildebrando, a reordenar muitos padres. Quando Hildebrando se tornou Gregório VII,
afirmou claramente que todas as ordenações que envolviam dinheiro eram inválidas.
Levada a sério, esta decisão teria tornado nulas a maior parte das ordenações no
mundo ocidental. Não teria havido missas válidas, nem confissões, nem extrema-
unções em país atrás de país. Teria praticamente varrido a Sucessão Apostólica,
desastre que Leão XIII havia de dizer que aconteceu à Igreja da Inglaterra depois da
Reforma.
Urbano II (1088-99) foi ainda mais longe do que Hildebrando. Mesmo que não paga,
disse ele, a ordenação de um bispo seria inválida se o bispo que o consagrara tivesse
pago pela sua própria ordenação. Esta interpretação dos sacramentos, que era
contrária a toda a tradição, penetrou nos Decretais de Graciano. Apesar desta imensa
autoridade dos papas e da lei canónica, esta heresia, por qualquer razão inexplicável —
o Espírito Santo? — não se vulgarizou no Ocidente. O Oriente manteve-se à parte
destas opiniões heterodoxas.
Em 1557, Paulo IV, na sua Bula Cum ex Apostolatus officio, determinou «na plenitude
do seu poder» que todos os actos dos papas anteriores com inclinações heréticas ou
cismáticas eram nulos e sem validade. Isto tinha alguma lógica: um papa herético não
era sequer cristão, muito menos pontífice. Mas, posto em prática, teria feito explodir
todo o sistema católico de sacramentos, que é hereditário por natureza, isto é, é
transmitido de geração em geração. Se uma geração o perde — por exemplo, usando
fórmulas erradas ou tendo intenções incorrectas — fica perdido para sempre. Por muito
peculiar que isto possa parecer, é doutrina católica ortodoxa. E é peculiar na medida em
que deve por natureza gerar a incerteza. Por exemplo, uma criança invalidamente
baptizada por um padre que inconscientemente diz as palavras erradas ou usa um
líquido que não a água podia vir a ser padre — todas as suas missas e confissões são
inválidas; ou bispo — todas as suas ordenações são inválidas; ou papa — a maior parte
das obras da Igreja são inválidas. Felizmente, nem Roma, a mais intelectualmente
rigorosa das igrejas, leva estas questões até às suas últimas consequências lógicas.
Isto pode explicar a razão por que até ela voltou as costas a Gregório VII e a Graciano
na questão dos sacramentos.
Não foi só na mera questão das ordenações que Roma se desviou do caminho da
ortodoxia.
O Papa Pelágio já dissera, correctamente, segundo a tradição, que a Trindade tem
de ser invocada para um baptismo válido. Nicolau I (858-67) disse que invocar o nome
de Cristo era suficiente. Pior do que isto, decidiu que a confirmação ministrada por
padres era inválida. De um só golpe, varreu praticamente a confirmação da Igreja grega.
Esta tinha permitido desde tempos imemoriais que os padres confirmassem as crianças.
O Papa Nicolau disse que a prática era inválida e os bispos orientais teriam de
reconfirmar as crianças. Talvez os próprios bispos devessem ser reconfirmados! A
decisão de Roma de “anular” séculos de confirmações na sua Igreja naturalmente que
197
contrariou os gregos e contribuiu para abrir uma brecha permanente entre Oriente e
Ocidente.
A doutrina de Roma sobre o casamento também não escapou aos erros.
Estêvão II (752) foi contra a corrente da tradição quando disse que o casamento
entre um homem livre e uma escrava, ambos cristãos, podia ser dissolvido, permitindo
que o homem voltasse a casar. Urbano III (1185-7) também sugeriu que havia situações
em que um casamento consumado entre cristãos podia ser terminado. Celestino III
(1191-8) esclareceu este ponto. Um casamento entre cristãos, disse ele, pode ser
dissolvido se uma das partes optar por se tornar herege. Por esta afirmação, o Papa
Alexandre VI declarou o Papa Celestino herege. Até Inocêncio III tropeçou neste tópico.
Insistiu que os cristãos tinham de seguir o Deutronómio à letra. Sua Santidade ignorava
o facto de que o Deutronómio permite que um homem se divorcie da mulher.
Os papas erraram até quanto à Eucaristia. Para além dos primeiros papas que, como
vimos, diziam que a verdadeira comunhão era necessária para a salvação, mesmo para
os bebés, o papa Nicolau II (1059-61) disse que o corpo de Cristo pode ser
manifestamente tocado com as mãos e mordido com os dentes. A Igreja rejeitou esta
opinião. Nicolau tinha uma noção completamente errada da presença real — de modo
nenhum sacramental — e parecia também asseverar que, depois da ressurreição,
Cristo continua a sofrer.
Foi, porém, um papa de Avinhão, João XXII, que Adriano VI no seu livro sobre os
sacramentos seleccionou como um herege de proporções invulgares.
As heresias do papa João XXII
Quando Clemente V morreu, no ano de 1314, o conclave tentou durante dois anos
um acordo sobre o sucessor. Finalmente, em desespero, escolheram Jacques Duèse da
Cahors. A data foi 7 de Agosto; o lugar, Lyons. O novo pontífice tomou o nome de João
XXII.
Parecia o homem certo para a função. Com setenta e dois anos, pequeno, delicado,
de aspecto doente, este filho de um sapateiro já não iria provavelmente viver muito
tempo. João XXII viria a mostrar-se um pontífice cruel e duradouro, ambicioso, avarento,
mais mundano do que um proxeneta, e com um riso que não podia ser mais malicioso.
Este frágil e pequeno monstro iria viver ainda mais dezoito anos tempestuosos.
Quando tomou posse, o tesouro estava depenado. Clemente V tinha distribuído
absolutamente tudo pelos familiares. João tratou de rectificar a situação. Financeiro
genial, trabalhou com base no princípio de que aquilo que um papa dá, um papa pode
vender. E vendeu tudo aquilo que podia vir à cabeça de um qualquer francês com
imaginação. O perdão por todos os crimes tinha o seu preço. Por exemplo, os católicos
podiam pagar um tanto para serem absolvidos de homicídios, um tanto, de incesto e de
sodomia. Quanto pior se portassem os católicos, tanto mais rico ficava Sua Santidade.
Quando foi publicada uma lista clandestina dos pecados e seus preços, pensou-se que
seria uma falsificação forjada pelos inimigos da Igreja. E isto era verdade, só que os
inimigos eram o papa e a Cúria. Por meio da mais estranha alquimia, estavam a
transformar os vícios em ouro. Estavam a dar aos pecadores o direito de pecar e de
quebrar os seus votos, ou, pelo menos, a liberdade de evitar as consequências de tais
procedimentos.
João XXII precisava de dinheiro. Tinha uma paixão pela guerra, especialmente pelas
guerras italianas. Sabe-se que despendeu 70 por cento dos seus rendimentos em
armamento, o que teria provocado a ira de S.Pedro e a inveja de Júlio II. As contendas
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de João com os Viscontis de Milão, em particular, revelaram-se muito dispendiosas. Um
seu contemporâneo diz dele o seguinte: «O sangue que ele fez derramar teria tingido de
vermelho as águas do lago Constância, e os corpos dos chacinados poderiam constituir
uma ponte de costa a costa.
O mais ganancioso dos papas, que proporcionou ao irmão e ao sobrinho uma vida de
abundância, entrou em contradição com vários pontífices anteriores sobre a questão da
pobreza de Cristo.
Ainda em vida de S.Francisco de Assis, apareceram duas facções entre os irmãos,
uma a favor da rigorosa observância do princípio, a outra a favor da moderação. No ano
de 1279, Nicolau III tinha apaziguado a disputa com uma Bula, Exiit qui seminat. Esta
passou a lei canónica. Nicolau dizia que a pobreza não era tanto uma questão
individual, mas antes uma questão comunal. Como tal, era meritória e sagrada. Porque
era esta a prática de Cristo e dos Apóstolos.
Os papas seguintes confirmaram que Cristo e os Apóstolos viveram em pobreza; os
Evangelhos assim diziam claramente. Honório III, Inocêncio IV, Alexandre VI, Nicolau III,
Nicolau IV, Bonifácio VIII, Clemente V — todos estiveram de acordo.
Mas João XXII, não. Numa Bula, Cum inter nonnullos, de 12 de Novembro de 1323,
defendia o seguinte: dizer que Cristo e os Apóstolos não possuíam bens nenhuns é uma
perversão das Escrituras.
Os espirituais Franciscanos, louvados até então pela Santa Sé, eram agora rotulados
de hereges; os príncipes eram obrigados a mandá-los para a fogueira ou seriam eles
próprios excomungados. Era uma característica dos tempos que esta questão doutrinal
fosse transformada num jogo político. O Imperador Luís da Baviera já entrara em
conflito com João XXII quando este disse que num interregno se tornaria o
administrador do império e o novo imperador teria de lhe prestar juramento de lealdade.
João queria virar a História ao contrário. Luís, por seu lado, estava encantado por poder
acusar o papa de heresia. Chamou-lhe anti-Cristo, depô-lo e nomeou outro.
A escolha do imperador recaiu sobre Pier di Corbario, um decrépito franciscano que
tomou o nome de Nicolau V. Infelizmente, Luís não tinha feito o trabalho de casa. Pouco
tempo depois apareceu uma dama de idade que afirmava ser a Senhora di Corbario.
Isto eram más notícias. Ao que parece, Pier era casado e já tinha filhos quando, sem a
autorização da mulher, saíra de casa para entrar num convento. Nos termos da lei
canónica, estava em situação ilegal; não era sequer um verdadeiro monge, muito
menos pontífice. Também era verdade que João XXII tinha um filho que se estava a sair
muito bem como cardeal, mas o papa nunca tinha cometido o pecado do matrimónio.
Confrontado com uma escolha entre um papa herege e um anti-papa casado e em
situação irregular, Luís optou por este. A mulher de Nicolau V foi indemnizada e ele
encetou o processo de nomeação dos cardeais e de uma Cúria própria. Pelo menos,
pensou o imperador, o meu papa é católico.
Por fim, Luís cansou-se de jogar. Abandonou Nicolau em Pisa e entregou-o às
autoridades da Igreja. Foi em Junho de 1329.
João prometeu ser um bom pai para o renegado, o que era o mesmo que um gavião
prometer o seu amor a um pardal. A caminho de Avinhão, Nicolau foi maltratado de
todas as maneiras possíveis. Ficou na memória das pessoas a maldição de João em
forma de salmo: «Que os seus filhos fiquem órfãos e a mulher, viúva! Que todos caiam
na mendicidade».
Quando Nicolau chegou à Provença como cidadão Pier di Corbario, João, ao
contrário das previsões, foi amável para com ele. Poupou-lhe a vida, concedeu-lhe
residência no palácio papal, embora sob prisão domiciliária. Quando morreu, quatro
anos depois, foi enterrado com o hábito franciscano.
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João XXII tinha triunfado. A doutrina católica oficial era agora esta: Cristo e os
Apóstolos não viveram na pobreza.
O papa tinha oitenta e sete anos quando provocou um novo escândalo no Dia de
Todos os Santos de 1331.
O primeiro indício foi quando um dominicano inglês, num sermão perante a corte
papal, afirmou que as almas dos justos contemplavam imediatamente Deus. João
mandou que ele fosse julgado pela Inquisição. Para satisfazer Sua Santidade, os
confusos inquisidores encarceraram o monge e quase o mataram à fome.
Na igreja de Notre Dame de Doms, em Avinhão, o papa pregou então um sermão
que causou sensação. As almas dos santos, disse ele, não desfrutam da visão de Deus
antes da ressurreição do corpo. Estão ainda sub altare Dei, isto é, sob o altar de Deus.
Só no Juízo Final é que eles são colocados no altar para contemplar a essência divina.
Ninguém da sua entourage teve a coragem de lhe dizer que ele estava a pregar uma
heresia.
Em Janeiro de 1332, estendeu as suas opiniões aos condenados. Não havia ainda
ninguém no inferno, disse ele à congregação espantada. Só no fim do mundo é que os
condenados vão para o lugar do tormento.
Uma vez mais, uma discussão teológica transformava-se em questão política. O
imperador foi apoiado neste caso pelo Geral Franciscano, que João tinha excomungado
por causa da questão da pobreza, e pelo grande teólogo franciscano William de Occam.
Pela segunda vez, o papa foi declarado herético.
Se os santos e a Virgem Maria, argumentava o imperador, não estão no Céu, como é
que eles intercedem por nós? Porquê visitar os santuários de santos que não estão com
Deus no Céu? E mais incisivamente, por que é que os cristãos hão-de pagar ao papa os
perdões e indulgências se, quando morrem, têm de esperar até que chegue o Reino
para entrar no Paraíso?
Tal como um homem morto já não é homem, o imperador concluiu que um papa
herético já não é papa. O ex-Papa João XXII era agora o cidadão Jacques de Cahors.
Filipe de Valois apoiou Luís. Escreveu a João dizendo-lhe que as suas opiniões eram
heréticas e que se ele não as retirasse iria para a fogueira. A Universidade de Paris
manifestou a opinião de que o papa estava gravemente enganado e devia retractar-se
imediatamente.
João, arrogante como sempre, ofereceu grandes benefícios a quem pudesse
mostrar-lhe uma passagem de Santo Agostinho que fundamentasse as suas opiniões.
Ninguém o fez. Por fim compreendeu que toda a Igreja se lhe opunha. Contra todas as
expectativas, respondeu a Paris dizendo que nunca tinha negado que os santos
contemplavam Deus imediatamente após a morte, apenas deixara a questão em aberto.
Nem esta mentira foi suficiente. Os teólogos europeus responderam: esta não é uma
questão em aberto. O espírito da Igreja não podia ser mais fechado.
Neste ponto, a história torna-se obscura. Dizem alguns que ele mudou de ideias
exactamente antes de morrer com a idade de noventa anos. Outros afirmam que ele
nunca mudou de ideias; morreu como vivera, herege. O que é certo é isto: no dia 3 de
Dezembro de 1234, pressentindo que em breve as suas ideias seriam testadas na
prática, convocou os cardeais para a sua cabeceira. Instou-os a que após a sua morte,
escolhessem «um digno sucessor para a cadeira de S.Pedro». Os cardeais instaram-no,
à vez, a salvar a sua alma e a honra da Igreja retirando as suas opiniões heréticas
sobre a visão beatífica. Morreu no dia seguinte. Posteriormente foi publicada uma Bula
em seu nome revogando tudo o que ele tinha dito e feito que colidia com a Igreja e
submetendo-se totalmente ao seu julgamento.
200
Reflectiria a Bula genuinamente o estado de espírito final de João? Mesmo aí ele
mantém que as almas separadas «contemplam Deus e a essência divina cara a cara e
claramente, na medida em que a condição de uma alma separada o permite». Tais
subtilezas não parecem estar ao alcance de um homem de noventa anos à beira da
morte. E também não parece fazer muito sentido na medida em que a ideia continuava
a não ser aceitável para os teólogos.
Julgado á luz da própria doutrina da Igreja este papa era um herege, como Adriano VI
admitiu. Obstinadamente e durante toda uma época, ele negou um importante artigo da
fé. Quando desafiado, alterou publicamente a sua posição apenas para deixar em
aberto uma doutrina que estava oficialmente fechada. Continuava a duvidar, portanto
continuava herético. A sua posição final não é clara; mesmo que tivesse sido
responsável pela Bula final, esta continuava a ser heterodoxa.
O seu sucessor, Bonifácio XII, não tolerou qualquer veleidade sobre o assunto. Em
29 de Janeiro de 1336, um consistório público declarou que depois da morte os santos
gozam da visão beatífica sem qualquer demora. Quem defendesse opinião contrária
seria punido como herege.
Mesmo depois de sair de cena, João XXII continuava uma figura controversa. O
flagelo dos hereges foi, ele mesmo, proclamado herético. Ele tinha mandado para a
fogueira da Inquisição um grande número de franciscanos — chegou aos 114 — cujo
único crime foi dizerem que Jesus e os seus discípulos viveram uma vida de absoluta
pobreza.
Porque a ironia final é esta: quando ele morreu, o tesouro, que estava exausto na
altura da sua posse, estava agora a transbordar. Os banqueiros florentinos chamados
para tratar do assunto ficaram espantados. Nunca tinham visto nada de semelhante.
Contaram 25 milhões de florins de ouro e uma quantia equivalente em pedras e outros
objectos preciosos.
A verdadeira heresia de João XXII, vigário de Cristo e sucessor de Pedro, foi que
mandou queimar os mais pobres dos pobres de Cristo e morreu como o mais rico
homem do mundo.
O papa que reescreveu a Bíblia
Quando Gregório XIII se tornou papa, no ano de 1572, o Cardeal Franciscano
Montalto retirou-se da vida pública. Os seus servidores diziam que Sua Eminência
estava já com os pés para a cova e não queria mais nada da vida senão preparar-se
para a morte. Nas poucas reuniões do Sacro Colégio a que foi obrigado a assistir, tossia
continuamente como se estivesse na fase terminal de uma tuberculose. A todas as
propostas, fossem elas quais fossem, dava o seu assentimento com um dócil aceno da
cabeça tonsurada. Estava fraco demais para discutir. Quando os colegas protestavam
que ele era novo demais para morrer, Felice Peretti de Montalto encolhia tristemente os
ombros e acrescentava oito anos à sua idade para os convencer da sua morte iminente.
Um inglês de visita a Roma vislumbrou casualmente Sua Eminência, inclinado sobre a
lareira, e escreveu para casa sobre aquele «cardeal muito curvado e humilde que
estava sempre recolhido num forno».
O Papa Gregório morreu em 1585. Montalto apareceu no conclave de rosto chupado
e convenientemente enrugado, olhos mortiços, andar vagaroso e voz que mal se ouvia.
Andava de muletas e tão curvado que a cabeça quase tocava o chão. Era evidente para
os quarenta e dois cardeais eleitores, quando deitaram os votos na urna, que Montalto
201
era o homem perfeito para o papado. Logo se desenganaram: segundo o seu biógrafo,
Leti, ganha a eleição, endireitou-se de imediato e atirou fora as muletas exclamando:
«Agora sou César», antes de entoar o Te Deum em voz de trovão.
Em cinco anos, Sisto fez o trabalho de cinquenta. Tinha equipas de homens a
trabalhar dia e noite para pôr a cúpula na Basílica de S.Pedro. Por sua ordem centenas
de homens e cavalos deslocaram o obelisco, centímetro a centímetro, para o seu local
actual no centro da praça. Construiu a Biblioteca do Vaticano. Ergueu um aqueduto
sobre vales e colinas para trazer até Roma água de uma distância de trinta quilómetros.
Mereceu bem a sua alcunha de “O Furacão Abençoado”.
A uma energia titânica aliava um egotismo feroz e clamoroso. Reivindicou a jurisdição
temporal sobre todos os reis e príncipes. Quando o jesuíta Roberto Bellarmino, o mais
intrépido defensor do papado desde Tomás de Aquino, sugeriu no seu livro de
Controvérsias, que o papa só indirectamente tinha jurisdição sobre os governantes
temporais, Sisto decidiu censurá-lo. Ele podia nomear ou demitir qualquer pessoa,
imperadores incluídos por qualquer motivo, dizia, e sempre que quisesse. Também
condenou o teólogo Vittorio por se atrever a escrever que era legítimo desobedecer a
ordens injustas do papa. Sim, ele, Sisto, pontífice, baniria os livros de ambos estes
renegados.
Os cardeais da Congregação do Index ficaram demasiado aterrorizados para dizer a
Sua Santidade que aqueles eminentes autores fundamentavam as suas ideias nas
obras de inúmeros santos e académicos. O Conde de Olivares, embaixador de Espanha
em Roma, escreveu ao seu rei, Filipe II, dizendo que os cardeais se calaram «com
medo de que Sisto lhes desse a provar o seu génio cortante e pudesse pôr os próprios
santos no Index».
Sisto foi particularmente desagradável com Bellarmino. O jesuíta tinha colaborado
corajosamente com ele na edição das obras de Santo Ambrósio. E isto não devia ter
sido fácil. Sisto denegara em todos os pontos as suas opiniões. Depois mandou que a
sua versão fosse agora o texto padrão. Assim foi, e o texto continua a ser o mais
duvidoso que existe.
A mesma abordagem despótica foi por ele adoptada em relação à Bíblia. Os
resultados foram devastadores.
* * *
A versão latina da Bíblia, a Vulgata, foi obra de S.Jerónimo no século IV. Na Idade
Média ocupava lugar proeminente. Por essa altura já nela tinham entrado muitas
interpretações erradas devidas a copistas sonolentos. Com o aparecimento da imprensa
multiplicaram-se as edições e também os erros. Na Reforma, os Protestantes fizeram as
suas próprias versões da Bíblia; para os católicos era imperativo ter um texto fiável da
Vulgata em todas as discussões.
O Concílio de Trento em 1546 chamara já à Vulgata a verdadeira versão da Bíblia da
Igreja. Só ela devia ser utilizada em conferências, discussões e sermões. “Autêntica”
significa que os católicos podem ter a certeza de que está isenta de erros de moral e de
doutrina. E é substancialmente fiel ao original. Quando os padres de Trento se
encarregaram de uma nova edição da Vulgata, não faziam ideia da dimensão de tal
tarefa. Onze papas viveram e morreram e nada aconteceu. Até Sisto V.
Três anos depois de iniciado o seu pontificado, os académicos que ele nomeara para
editarem a Vulgata apresentaram-lhe o seu texto final. Havia nele demasiada erudição,
para seu gosto; e também tinham lá posto demasiadas variantes de interpretação. Aos
202
gritos o papa mandou sair da sala o presidente da comissão, Cardeal Carapa, dizendo
que ele próprio, sozinho, era capaz de fazer melhor. E tratou de tentar provar esta sua
espantosa afirmação. Numa frase de trezentas palavras, declarou numa Bula que ele, o
papa, era a única pessoa certa para decidir a questão da Bíblia autêntica para a Igreja.
Trabalhou horas a fio, noites a fio, porque sofria de insónias. Só tinha um único
secretário a tempo inteiro e que quase levou à cova. No fundamental Sisto seguiu o
texto de Lovaina, que conhecia bem. Não era um texto particularmente erudito. Nos
pontos obscuros, não teve qualquer relutância em acrescentar expressões e frases que
os clarificassem. Muitas vezes traduziu a seu belo talante. Outra das suas
idiossincrasias era alterar as referências. Em 1555, Robert Stephano tinha elaborado
um sistema de capítulos e versículos. Não era perfeito, mas era conveniente e usado
universalmente. Sisto pô-lo de lado em favor do seu próprio sistema. Todas as versões
anteriores da Bíblia se tornaram logo obsoletas; todos os livros das escolas com os
seus arsenais de textos, tiveram de ser reimprimidos. Além de alterar os títulos dos
salmos, por muitos considerados inspirados, omitiu, talvez por descuido, versos inteiros.
Em apenas dezoito meses o trabalho estava concluído. Em 1590 apareceram as
primeiras cópias do fólio. «Magnífico» murmurou ele admirando a bela encadernação,
até que uma vista de olhos pelo texto revelou muitos erros de impressão. E depois cada
vez mais erros. Também os tipógrafos tiveram de trabalhar dia e noite, em turbilhão.
Para não perder tempo, Sisto começou ele mesmo a introduzir correcções. Escreveu
as emendas a tinta em pequenos bocados de papel — quadrados, rectangulares,
triangulares — e colou-os sobre os erros dos tipógrafos. Levou seis meses a fazer isto e
emendou uma boa parte da obra. A publicação continuava a ser adiada, enquanto
continuava também o pesadelo do papa. A sua Bula Aeternus Ille já estava pronta há
muito. Nunca houve documento mais autoritário:
Na plenitude do poder apostólico, Nós decretamos e declaramos que
esta edição […] aprovada com a autoridade que nos foi outorgada
pelo Senhor, deve ser aceite e considerada verdadeira, legítima,
autêntica e inquestionável em todas as discussões, palestras,
pregações e explicações públicas e privadas.
Ninguém, tipógrafo, editor, livreiro, estava autorizado a desviar-se um milímetro que
fosse desta versão autêntica da Bíblia latina. Quem quer que violasse a Bula seria
excomungado e só o papa o podia absolver. E também havia ameaças de punições
seculares.
Em meados de Abril foram finalmente distribuídas cópias aos cardeais e
embaixadores. Estes examinaram-nas hesitantes. Quatro meses mais tarde, em 27 de
Agosto, os sinos do Capitólio anunciavam a morte do papa. Nessa noite levantou-se
uma tempestade que foi como se o espírito de Sisto, ao partir, tivesse enlouquecido os
elementos. Roma ficou louca de satisfação, mas ninguém ficou tão exultante como os
seus inimigos do Sacro Colégio.
O papa seguinte morreu após um pontificado de doze dias. Para Gregório XIV (1590-
1) sobrou a tarefa de limitar os estragos. Mas como? O poder papal na sua plenitude e
armado da excomunhão impusera a toda a Igreja uma Bíblia — crivada de erros. O
mundo académico estava em ebulição; os Protestantes tiravam enorme prazer e
divertimento da situação difícil da Igreja.
Em 11 de Novembro de 1590, Bellarmino regressou a Roma de uma missão no
estrangeiro. Pessoalmente aliviado pelo facto de Sisto, que o quisera pôr no Index, ter
203
morrido, temia pelo prestígio do papado. Sugeriu ao novo papa a maneira como devia
tratar daquele dilema. Viria a contar tudo na sua Autobiografia.
Alguns homens cujas opiniões têm grande peso, sustentavam que
ela devia ser publicamente proibida. Eu não pensava assim e
mostrei ao Santo Padre que, em vez de proibir a edição da Bíblia em
questão, seria melhor corrigi-la de modo que pudesse ser publicada
sem prejudicar a honra do Papa Sisto. Isto podia ser conseguido
com a remoção das alterações insensatas o mais depressa possível,
e fazendo depois publicar o livro com o nome de Sisto e um prefácio
declarando que, devido à pressa, tinham ocorrido na primeira edição
alguns erros com origem nos tipógrafos e outras pessoas.
Resumindo, Bellarmino aconselhava o papa a mentir. Alguns dos seus admiradores
contestaram isto. A sua tarefa era tremenda.
As opções eram claras: admitir publicamente que um papa tinha errado numa matéria
crítica da Bíblia ou comprometer-se num encobrimento cujos resultados eram
imprevisíveis. Bellarmino propunha a segunda.
Ele pode ter sido tentado a seguir esta linha por uma questão de generosidade:
estava a defender a honra de um homem que tinha impugnado a sua própria. Pode ter
também pretendido incluir Sisto naquela vaga referência aos erros dos tipógrafos «e de
outras pessoas». Contudo, poderia algum leitor imaginar que o papa era uma dessas
pessoas? Além disso, os únicos erros prejudiciais eram os do papa e não os dos
tipógrafos.
Mas a fraude não ficou por aqui.
Um exame exaustivo à Bíblia de Sisto levaria anos. E anos era o que eles não
tinham. Um pequeno grupo de académicos, que incluía Bellarmino, pôs mãos à obra
numa casa de campo numa encosta dos Montes Sabinos a trinta quilómetros de Roma.
Fizeram um trabalho notável, concluindo a revisão em meados de Junho de 1591. O
problema agora era apresentá-lo ao mundo. Bellarmino, a pedido de um novo papa,
desenvolveu o encobrimento.
A nova versão devia ser impressa imediatamente. A versão de Sisto estava
condenada a cair nas mãos de hereges que apontaram as alterações, as omissões, as
más traduções e disseram: «Repare-se, os papas não se importam de corromper os
textos da Bíblia para servir os seus próprios fins». O novo texto era acompanhado de
um prefácio onde se lia que Sisto tinha publicado uma Bíblia revista de acordo com as
suas ordens, mas ao examiná-la tinha visto que havia muitos erros devidos a uma
pressa inconveniente. Isto não deixava de ser vulgar em primeiras edições. Portanto
Sisto decidira que se fizesse tudo de novo. Com a sua morte, os seus sucessores foram
lestos a cumprir os seus desejos. Daí aquela nova edição.
Isto estava muito longe da verdade. Os únicos erros realmente perturbadores eram
aqueles de que Sisto não tinha consciência: os seus próprios. Ele nunca teve a mínima
intenção de rever o seu próprio trabalho, mas sim o dos tipógrafos. A decisão de rever e
tornar a publicar foi tomada depois da sua morte.
A ideia primeira no espírito de Bellarmino era esta: os papas nunca devem ser vistos
a condenar os decretos importantes dos seus antecessores. Isso teria maus reflexos na
própria autoridade papal. Por outro lado, havia também o respeito devido à Bíblia; esta,
tal como o papado, era insusceptível de erro. Da necessidade de conciliar o inconciliável
nasceu o encobrimento.
204
Bellarmino sugeriu que a nova versão não deveria ser a única autorizada. Tinha sido
feita à pressa e continha, sem dúvida, erros que o tempo viria a revelar. Além disso,
acrescentou que «embora o papa nos tivesse confiado a missão, não pôde prestar-nos
o auxílio do Espírito Santo, que é sua prerrogativa exclusiva». Apesar da sua grandeza
e subtileza, havia em Bellarmino uma deformação de espírito quase infantil quando se
tratava do papado. Não cuidou de explicar o que aconteceu ao auxílio do Espírito Santo
enquanto o Papa Sisto trabalhava na Vulgata.
A Bíblia ficou pronta para publicação no fim do ano de 1592, e Clemente VIII
concordou que ela saísse apenas com o nome de Sisto. Em The Church and the
Papacy (1944), Jallaud diz ironicamente que este assunto
serve para fornecer uma prova documental única da possibilidade de
mesmo a Santa Sé mudar de ideias. Contudo, o facto foi
subsequentemente obscurecido, porque quando a nova edição
apareceu em 1592, foi apresentada ao mundo audaciosa e
desonestamente como a Bíblia “Sistina”. O facto de mais tarde o
nome de Clemente lhe ter sido acrescentado pouco serve para
expiar a estranha façanha de desonestidade literária ou para
esconder a verdade de que a Santa Sé tinha até então cedido ao
clamor popular ao ponto de tratar uma das suas primitivas decisões
como reversível.
Depois das mentiras, ficava ainda um problema: como recuperar as cópias da
verdadeira Bíblia Sistina? Bellarmino aconselhou o papa a comprá-las de volta, sem
olhar ao preço, que provavelmente seria elevado. É que elas não eram só um produto
esplendoroso; qualquer idiota podia ver o seu valor artístico.
A Inquisição de Veneza e o Geral Jesuíta receberam instruções no sentido de
fazerem buscas em tipografias e casas particulares, especialmente na Alemanha, para
salvar a honra do papado. A busca revestiu aspectos de farsa. Numa altura em que os
Protestantes andavam a distribuir Bíblias gratuitamente, a Igreja Católica tentava
desesperadamente comprar algumas de volta.
Quantas cópias foram recuperadas não se sabe ao certo, mas não foram mais de
dez. Uma delas foi parar à Biblioteca Bodleian em Oxford. O bibliotecário, Dr.Thomas
James, tratou-a como um maná celestial.
Em 1611 escreveu ele um livro em que confrontava as duas bíblias, a de Sisto e a de
Sisto-Clemente. Descobriu que «os dois papas diferiam notoriamente entre si, não só no
número de versos [a versão posterior remontava ao sistema de referência de Estêvão],
mas também no corpo do texto e nos prefácios e nas próprias Bulas».
James afirmou ver uma coisa notável: dois papas em aberta contradição conflitual um
com o outro. «Nesta guerra, a sua Cadeira foi tão aviltada e a sua Igreja tão
mortalmente ferida que nem todo o bálsamo de Galaad as curará. Temos aqui um papa
contra o outro, Sisto contra Clemente, Clemente contra Sisto, a discutir a escrever e a
lutar sobre a Bíblia de Jerónimo». A Bíblia, no que diz respeito aos católicos, disse
James, era um nariz de cera que os papas moldavam segundo as suas conveniências.
«Se o papa dizia que o que era branco era preto e o que era preto era branco, nenhum
católico se atrevia a discordar».
Era uma boa polémica, e Sisto merecia-a inteiramente. Mas nem mesmo o Dr.James
descobriu mais do que uma ou duas diferenças fundamentais entre os dois papas ou
qualquer tentativa real da parte de ambos de enganar o leitor. Havia ali uma enorme
estupidez, mas muito pouca má fé.
205
O que a questão revelou foi uma coisa completamente diferente. Em qualquer
instituição, erros como os que Sisto cometeu teriam constituído um simples embaraço
passageiro facilmente risível, mas depressa esquecido. Só na Igreja Romana é que ela
podia provocar aquilo que, na opinião de Bellarmino, foi a maior crise da Reforma.
Reagindo a esta crise, um homem da integridade de Bellarmino sentiu-se obrigado a
mentir e a dizer meias verdades, engolidas com alívio por mais do que um papa. Se
uma pessoa virtuosa como Bellarmino foi capaz de mentir pelo papado, do que é que
outros serão capazes? O que é que outros terão feito? O que é que outros andarão a
fazer?
Bellarmino, generoso e pobre, emerge como a triste vítima do papado, pelo qual deu
a vida. Tão grande, na sua ideia, era o papado, que nele o gracejo do Dr.James se
verificava à letra. Para satisfazer o papa, ele dizia de facto que o preto era branco num
campo muito perigoso: o da ética. No seu livro sobre o pontífice romano, ele diz que o
que quer que o papa ordene, por muito mau ou ridículo que seja, tem de ser cumprido,
como se fosse a própria virtude. O que quer que o papa faça, mesmo que se trate da
deposição de um imperador com o mais frívolo dos pretextos, tem de ser aceite pelos
católicos, que depois terão de obedecer ao papa e não ao imperador.
A questão do papa que reescreveu a Bíblia prova uma vez mais que a doutrina
segundo a qual o papa não pode errar cria a sua própria versão da história e leva até
homens virtuosos a mentir em seu nome. Mas Bellarmino é hoje lembrado não por ter
encoberto um papa, mas principalmente porque contribuiu para a ruína da carreira de
um leigo — um dos mais famosos que alguma vez viveram.
O maior escândalo da Cristandade
Galileu já era velho, estava já nos setenta e cinco, e completamente cego. No verão
de 1640 ele sabia que tinha os dias contados.
Por que é que continuavam a persegui-lo? Na aldeia ainda havia informadores pagos
que relatavam à Inquisição tudo a seu respeito. Interceptavam-lhe a correspondência,
faziam relatórios sobre todas as visitas que recebia. Sua Santidade o Papa Urbano VIII
nunca lhe perdoaria, ele sabia-o. Quando requereu a Roma autorização para ir a
Florença para tratamento médico, a Inquisição respondeu: «Sanctissimus (O
Santíssimo) recusou deferir o pedido e mandou que o dito senhor fosse aconselhado a
deixar de mandar requerimentos, caso contrário será mandado de novo para a prisão do
Santo Ofício». Isto magoou o “dito senhor”, não só porque ele sempre considerou o
papa como um amigo, mas também porque a resposta chegou no dia em que a filha, de
trinta e três anos, morreu de desgosto pelo destino do pai.
Ah, mas era bom estar na sua querida vivenda de Il Gioiello (A Jóia) com todos
aqueles sons e odores familiares. E as vistas tão suas conhecidas a passar-lhe diante
dos olhos do espírito. A passear na frescura da noite, conseguia imaginar Florença,
cidade da luz, com muita nitidez sob a sua vivenda de Arcetri, a alta cúpula cor de tijolo
da catedral em forma de flor sob o campanário de Giotto, o Palazzo Vechio com a sua
torre altaneira, a larga curva do Rio Arno. A toda a volta, no ar sereno, ouvia as cigarras
e cheirava as videiras e as oliveiras cor de cinza. Já fora em tempos um especialista em
enxertar videiras; o vinho que bebia era sempre produto do seu próprio trabalho.
Mas mais precioso ainda do que esta vivenda da Toscânia ou do que Florença, ela
própria enquadrada numa suave paisagem, era o céu lá no alto: a lua e as estrelas.
Seria orgulho da sua parte sentir que estes corpos celestes eram mais seus do que da
maioria dos homens, mais seus até do que Il Gioiello?
206
Embora cego, continuava, tal como Homero, a ditar os seus trabalhos científicos ao
seu secretário. E estes agora estavam curiosamente entre os seus melhores. A
Inquisição tinha-o proibido de publicar qualquer novo trabalho ou de reeditar os antigos.
Banido para toda a vida, disseram eles. Mas só na Itália, e não para sempre. Os
inquisidores, embora discordassem disto, não eram Deus.
Além disso, embora cego, quem é que agora podia arrancar-lhe da memória aquilo
que os seus olhos tinham visto? Aqueles seus olhos tinham visto coisas ocultas desde o
princípio do mundo. Tinham aberto novas Américas nos céus e um dia, nunca disso
duvidou, o seu nome seria tão famoso — não, mais famoso — do que o de Colombo.
Galileu Galilei nascera em 1564, ano em que morreu Miguel Ângelo. O pai, Vincenzo,
comerciante de tecidos, viera de Florença, mas o seu primeiro filho nasceu em Pisa.
Galileu entrou na universidade como estudante de medicina, mas depressa desistiu. O
seu interesse ardente era a matemática, pura e aplicada. A matemática, diria ele, dava-
lhe asas para se elevar acima do mundo e ver as estrelas. A um nível mais humilde, fez
dele um inventor. Foi ele o criador de um instrumento para encontrar o centro de
gravidade de corpos com formas variáveis.
Em 1589, tornou-se professor de matemática em Pisa. Não se dava bem com os
colegas; queixava-se constantemente do seu salário e das condições de trabalho.
Quanto mais inúteis são os professores, mais ganham. Mudou-se para Pádua, onde o
salário era ligeiramente melhor. Mas continuava a ter de dar lições particulares para
prover às suas despesas. E aí ficou durante dezoito anos.
Em 1609, tinha quarenta e cinco anos e apenas uma pequena publicação com o seu
nome. Um ano depois, em resultado de um panfleto que escreveu, tornava-se um dos
homens mais famosos do mundo. Kepler elogiou a sua coragem intelectual e chamou-
lhe o maior filósofo do seu tempo.
A mudança do seu destino começou com um pouco de sorte fertilizada com génio.
Ouviu falar de um aparelho óptico, um óculo (occhiale) inventado por um holandês.
Resolveu imediatamente construir um ele mesmo, baseado na teoria da refracção.
Pegou num tubo de chumbo oco e adaptou-lhe umas lentes em cada uma das
extremidades. As lentes eram planas de um lado e do outro convexa e côncava,
respectivamente. Pôs um dos olhos na lente côncava e verificou com espanto que o
objecto para que estava a olhar estava três vezes mais perto e era nove vezes maior.
Como era especialista no polimento de lentes, construiu outro óculo que aumentava os
objectos sessenta vezes. Finalmente, após grandes esforços e despesas, conseguiu um
aumento de trinta vezes em proximidade e mil em tamanho.
Logo aplicou a invenção para fins militares. Numa cerimónia pública, entregou um
telescópio ao Doge de Veneza na presença do Senado. A República ficou deliciada por
possuir um instrumento que conseguia detectar exércitos e armadas inimigos muito
antes de se poderem ver a olho nu. Confirmaram-no como professor vitalício e
duplicaram-lhe o salário em troca daquele instrumento que, a partir de então, qualquer
artesão podia fazer.
Depois, Galileu virou o óculo para o céu nocturno. Foi esse o momento em que toda
a história do homem se alterou. Nascera a revolução científica.
A primeira coisa que ele focou foi a Lua. Aquelas manchas na superfície não eram só
sombras; eram montanhas. Depressa descobriu a maneira de calcular a sua altura a
partir do comprimento das sombras. Também vira vastas planícies que ele pensou
serem oceanos e que passaram desde então a chamar-se os Mares da Lua.
Numa extrapolação sensacional, concluiu que, para um observador colocado na Lua,
a Terra teria exactamente o mesmo aspecto que a Lua tem para um observador na
207
Terra. E imaginou mesmo que, vista da Lua, a Terra apareceria dividida em zonas
escuras (mar) e zonas claras (terra). Num momento de poesia instintiva, falou de brilho
da Terra «a velha Lua nos braços da nova Lua», isto é, a luz do Sol reflectida da Terra
para a Lua e regressada à Terra. Conseguiu descobrir a razão por que as superfícies
irregulares reflectem mais luz do que as superfícies lisas e por que a orla da Lua parece
uma linha direita a olho nu quando afinal não era uma esfera perfeita como parecia ser.
Num segundo momento espectacular de revelação, Galileu percebeu que os
“cientistas“ andavam enganados há mais de dois mil anos. Aristóteles, seguido de
Escolásticos como Tomás de Aquino, tinham como certo que o mundo celeste era
totalmente diferente do terrestre. Lá em cima e no exterior, não havia mudança nem
declínio, apenas existência eterna. Isto implicava um tipo de matéria diferente do de “cá
de baixo“, da Terra. Mas, vista através do seu telescópio a Lua parecia-se
suspeitosamente como a Terra. E se toda a criação fosse una, um verdadeiro…
universo? E se a Terra não fosse especial, mas apenas um simples pedaço de matéria
entre outros pedaços? E, como a Lua anda sem problemas a girar à volta da Terra, por
que é que a Terra não há-de, ela também, andar a girar? E se toda a representação da
criação concebida pelo monge Copérnico fosse real e não uma mera hipótese
matemática?
Mais de dez anos antes, Galileu escrevera a Kepler dizendo-lhe que sentia que
Copérnico tinha razão. A Terra não estava estática; girava à volta do Sol. E se ele agora
conseguisse tornar esta convicção plausível? Não meramente plausível, mas um facto?
A partir do momento em que Galileu olhou a Lua através daqueles pedaços de vidro
combinados, a Terra experimentou o seu maior abalo. Deixou de ser um centro, o
centro do universo. Então, e o homem? Se ele já não estava imóvel nesta prancha de
terra, o que é que sobre ele se havia de dizer? Nem mesmo um espírito genial se
atrevia a parecer a principio duro demais, receando abalar os fundamentos da sua fé,
da sua fé na Bíblia e na Igreja.
Às questões que se levantavam umas atrás das outras, dava as respostas que podia.
Mas depressa percebeu que o mais importante não era o facto de ele ter aumentado a
percepção do universo cem ou mil vezes. O que continuava a ressoar na sua cabeça, a
embriagá-lo, era o pensamento de que ninguém até então tinha visto daquela maneira.
Para seu desgosto, quando pediu aos Aristotélicos que olhassem pelo telescópio
para verificarem as suas descobertas, muitos recusaram. Já sabiam através de cálculos
que tinham feito no papel, e pela comparação de textos, diziam, que a Lua era uma
superfície plana e polida. Como é que um tubo com um vidro nas extremidades podia
contestar Aristóteles e uma interpretação das Escrituras velha de séculos? Dos poucos
que ousaram espreitar, a maioria sugeriu com toda a honestidade que o que estavam a
ver estava nas lentes e não nas estrelas. Galileu gracejou dizendo que quando
morressem, o que ele agora via, também eles iriam ver a caminho do Céu.
Quase nos cinquenta, com vinte anos de penúria atrás de si, era finalmente um
homem livre. Nuncius Sidereus, o seu livro, conhecido como O Mensageiro [ou
Mensagem] das Estrelas, foi um sucesso imediato.
Nessa altura Galileu tinha muitos amigos entre o clero — na verdade, apoiantes, até
na própria Roma, como o eminente matemático jesuíta Clávio. Clávio confirmou as suas
descobertas e disso deu parte a um já idoso Cardeal Bellarmino. Isto deu a Galileu a
inspiração para uma visita a Roma na primavera de 1611. O cardeal jesuíta foi
amistoso, como também o foi o Cardeal Bellarmino. Ambos o avisaram de que devia
exprimir as suas ideias como hipóteses, para evitar problemas com os teólogos. Foi
208
feito membro da prestigiosa Academia Lyuceana, a qual chamou pela primeira vez ao
instrumento “telescópio”.
Voltou para Florença ingenuamente convencido de que tinha feito amizades
duradouras e influentes na Cidade Eterna. Esta talvez a razão por que ele começou a
falar com menos reservas. Atacou os Aristotélicos sem piedade, escrevendo em italiano
para passar por cima dos secos académicos e atrair o público em geral.
Apesar das suas melhores intenções, Galileu estava a levantar questões sobre a
relação entre a ciência e a revelação, o sistema copernicano e a Bíblia. Seriam
compatíveis? Em sua defesa citou o gracejo do cardeal Barónio: «O propósito do
Espírito Santo é ensinar-nos a maneira de irmos para o Céu e não a maneira como o
Céu anda». A Bíblia não era um texto científico e as suas “afirmações científicas” não
tinham de ser tomadas à letra. Há muitas formas literárias nas Escrituras. Se a teoria
científica é má ciência, a boa ciência corrigi-la-á mais eficazmente. Ela não representa
qualquer desafio para a fé. Pelo contrário, a natureza e a Bíblia são dois textos divinos
que não podem contradizer-se.
Os seus argumentos convenceriam os homens da Igreja dois séculos mais tarde,
mas deixaram reservas ao clero do seu tempo. Galileu parecia estar a contradizer o
sentido óbvio das Escrituras. Ao avançar com o sistema de Copérnico como mais do
que uma simples teoria matemática, tinha invadido os seus domínios. Uma questão
para a Inquisição, talvez? O Bispo de Fisole mandou imediatamente que Copérnico
fosse encarcerado. Sua Eminência ficou desolado quando lhe disseram que Copérnico
já tinha morrido há setenta anos. Premonitoriamente, um dos livros de Galileu foi parar à
temida Casa Santa do Santo Ofício.
Tinham-no avisado de que Bellarmino nunca hesitara na sua opinião de que o
sistema de Copérnico era contrário às Escrituras se tomado como facto científico. Não
obstante, Galileu foi a Roma e tratou de demolir todos aqueles que levantavam dúvidas
sobre Copérnico. Mas até ele próprio, tão ingénuo em relação às coisas do mundo,
começava a apanhar com o fumo da pólvora.
Um padre seu simpatizante mandou-lhe uma cópia de uma carta que tinha recebido
de Bellarmino. Segundo o cardeal, quando os padres e todos os investigadores
modernos das Escrituras analisam as passagens da Bíblia sobre o assunto
todos concordam em interpretá-las literalmente quando ensinam que
o Sol está nos céus e gira à volta da Terra em grande velocidade e a
Terra fica muito distante dos Céus, no centro do universo, imóvel.
Pensai, pois, com a vossa sensatez, se a Igreja pode tolerar que as
Escrituras sejam interpretadas de maneira contrária à dos santos
Padres e de todos os comentadores, tanto latinos como gregos […]
As Escrituras dizem «E o sol nasce e o sol põe-se»
Galileu leu-a uma centena de vezes. Continuava a não acreditar. O velho Bellarmino
era um homem bom e sábio. Como é que ele podia crer numa opinião tão infantil do
Velho Testamento? Sua Eminência prosseguia dizendo que qualquer pessoa, guiando-
se simplesmente pelos sentidos, ficava a saber de forma segura que a Terra não se
move. Estaria ele à espera de ficar tonto se o mundo andasse a girar à volta do Sol? E
se estivesse na Lua, estaria ele à espera de a sentir a mover-se? Bellarmino podia ser
um grande teólogo, mas de astronomia sabia tanto como aqueles que diziam
seriamente que se a Terra andasse a girar à volta do Sol todas as torres da Itália
cairiam. «Os sentidos diziam-lhes» que tudo no universo se movia excepto a Terra!
209
Galileu ficou realmente preocupado. Sua Eminência estava a dizer-lhe que não se
metesse com as Escrituras enquanto pontificava na ciência sem prática nenhuma.
Ficava agora a saber que Bellarmino não teria qualquer escrúpulo em silenciá-lo
mandando-o apresentar-se na Inquisição.
Foi o que aconteceu. O Papa Paulo V, piedoso, gordo, míope, com uma pequena
barba e um fino bigode, conhecido de toda a gente como filisteu, endereçou o caso à
Congregação do Index. Em Março de 1616 foi tomada uma decisão.
A opinião de que o Sol é o centro imóvel do universo foi considerada como
«disparatada e absurda, filosoficamente falsa e formalmente herética». A opinião de que
a Terra não é o centro e de que gira e roda foi tida como pelo menos «errónea na fé»
Mas as crenças de Copérnico é que foram censuradas e não Galileu. No entanto, o
papa deu instruções a Bellarmino para que este dissesse a Galileu para abandonar as
suas ideias. Senão teria de comprometer-se a não ensinar nem defender as suas
opiniões, nem sequer a discuti-las. Caso contrário, seria preso.
Embora convencido da sua ortodoxia, Galileu deu as necessárias garantias. Apenas
pediu a Bellarmino que lhe escrevesse uma carta, o que ele fez em 26 de Maio de 1616.
O cardeal testemunhava o facto de que ele não tinha sido obrigado a retractar-se nem a
sofrer qualquer penitência. Nem foi obrigado a deixar as suas investigações, mesmo no
campo da astronomia. Apenas lhe foi ordenado que não ensinasse ou defendesse o
sistema de Copérnico como se fosse verdadeiro. E este foi posto no Index, onde
permaneceu até 1822.
Galileu, mal de saúde, ficou contente por aquela provação ter terminado. O que o
perturbava era que «espíritos criados livres por Deus sejam obrigados a submeter-se
abjectamente a uma vontade exterior». Ele é que era o especialista em astronomia e
estava a ser julgado por pessoas sem qualquer competência. O papa tinha sancionado
pessoalmente a opinião de Bellarmino de que afirmar que a Terra tem movimento de
rotação é contra a doutrina infalível da Igreja. Se a Terra se movesse, o Céu não seria
“lá em cima“ nem o Inferno “lá em baixo“. Toda a doutrina sobre as Coisas Últimas teria
de ser revista. Como dizia um auxiliar do papa, com um suspiro: Agora estamos «de
volta à terra firme em segurança e não temos de voar com ela quais formigas à volta de
um balão».
Passaram-se alguns anos tranquilos e Galileu escreveu Il Saggiatore (O Ensaiador).
Era o ano de 1623. Nesse mesmo ano o seu “amigo”, de cinquenta e cinco anos,
Cardeal Barberini tornou-se o Papa Urbano VIII. Durante os onze dias da votação,
houve uma onda de calor; a malária abateu-se sobre o Conclave. Morreram oito
cardeais e quarenta auxiliares. O próprio Urbano contraiu a doença, mas sobreviveu.
Foi a ele que Galileu dedicou o seu livro.
O papa apreciou o cumprimento. Quando, no ano seguinte, Galileu, já com sessenta
anos, foi a Roma, presenteou Sua Santidade com um microscópio. Urbano espreitou
por ele e abanou a cabeça maravilhado. Como agradecimento, ofereceu ao grande
cientista vários Agnus Dei contra actos de Deus e, mais valiosos ainda, conselhos
contra os actos dos homens. O que disse foi o seguinte: «Podeis ter provas irrefutáveis
do movimento da Terra. Isso não prova que a Terra realmente se mova». Galileu
arregalou os olhos. «Deus está acima da razão humana; e uma coisa que parece
perfeitamente razoável aos homens, pode revelar-se um disparate a Deus». E Urbano
continuou dizendo que ele, na qualidade de papa, era responsável pela salvação das
almas. Por vezes a discussão científica fazia perigar as almas. O sistema Copernicano,
se não for tomado como pura invenção matemática, pode lançar a dúvida sobre as
Escrituras. Se isso acontecesse, teria de tomar medidas para o destruir.
210
Os pontos de vista do papa sobre Deus e sobre a relação entre ciência e religião
eram tão absurdos que Galileu não seguiu o excelente conselho que lhe estavam a dar
ao mais alto nível. Realmente foi bom da parte de Urbano ter tirado algum tempo aos
seus projectos de construção: os palácios Barberini, para os quais foi buscar materiais
ao Coliseu, a colonada de Bernini que envolve a Praça de S.Pedro, o baldachino sob a
cúpula de Miguel Ângelo, para o qual foi roubar o bronze do Panteão. Os romanos
diziam furiosos: «O que os Bárbaros não fizeram, fê-lo Barberini».
Um tanto confundido, Galileu regressou a Florença onde, pouco depois, estava a
trabalhar em O Sistema do Mundo. Como o pôs em forma de diálogo platónico, pensou,
sem dúvida, que isto lhe permitiria esconder as suas convicções, ao mesmo tempo que
batia na oposição. Depois de terminado, faltava apenas obter a licença de publicação e,
como precaução, o Imprimatur papal.
Satisfeito, voltou a Roma onde uma vez mais Urbano o recebeu calorosamente. O
papa voltou a realçar a necessidade de fazer saber a toda a gente a natureza hipotética
das suas opiniões. Quanto ao livro, Galileu devia talvez intitulá-lo Diálogo dos Dois
Principais Sistemas. Sim, sim, prometeu o papa, ele próprio escreveria um prefácio,
salientando a natureza experimental da empresa.
Quando os censores receberam a sua cópia, ficaram perturbados com os
comentários. Mas Sua Santidade tinha dado a sua aprovação ao livro, não é verdade? E
não ia ele até escrever o prefácio?
Houve inevitáveis demoras na publicação, de modo que Galileu o mandou imprimir
em Florença em Fevereiro de 1632. Fez sensação. Os argumentos a favor do
movimento da Terra eram apresentados magistralmente. No diálogo, o ponto de vista
aristotélico era posto na boca de Simplício, um idiota cujas ideias correspondiam
exactamente às do papa, tal como ele as exprimira naquela entrevista com o autor uns
anos antes.
Quando Urbano teve conhecimento deste insulto aparentemente premeditado, ficou
furioso. Entregou o caso ao Santo Ofício e mandou o autor apresentar-se
imediatamente em Roma. Quando Galileu, agora com quase setenta anos, respondeu
alegando, com verdade, a falta de saúde, Urbano insistiu: ou ele vinha voluntariamente
ou viria agrilhoado.
Quando chegou a Roma, depois de vinte e três dias na estrada, teve de esperar dois
meses pelo começo da sua provação. O tempo passava devagar. Ouviram-no a chorar
duas noites seguidas com as dores da ciática.
O seu espírito infantil nunca o abandonou. Esperava realmente poder defender-se a
si próprio e até discutir sensatamente com os inquisidores, como se estes cavalheiros
do clero estivessem interessados em descobrir a verdade. De facto, não se pareciam
em nada com os seus colegas professores com quem ele tinha discutido nos salões de
ricas damas romanas. Trazia consigo uma espécie de apólice de seguro. Há anos que
guardava a carta de Bellarmino fechada a sete chaves precisamente para uma
emergência como esta.
Quando o julgamento começou, em Abril de 1633, transferiram-no da Embaixada da
Toscânia para a Casa do Santo Ofício. A audiência realizou-se na sala superior de um
convento dominicano. Foi logo informado de que a Inquisição não estava ali para o
ouvir, mas para o julgar. Ele não podia ver as provas nem ouvir as testemunhas.
A sua principal infracção foi violar a sentença de 1616, nomeadamente, a de não
discutir nem escrever sobre o sistema Copernicano. Galileu pediu perdão a Suas
Eminências, mas tinha uma carta do falecido Cardeal Bellarmino que provava que só
fora proibido de defender a opinião de Copérnico como se ela fosse a verdadeira
211
representação do mundo. E isso nunca ele tinha feito. Apenas a tinha discutido, como
mostrava o seu recente livro, de uma maneira hipotética. E apontou o facto de que o
diálogo terminava sem quaisquer conclusões.
Os inquisidores contra-atacaram com uma acta não assinada e não oficial encontrada
nos arquivos e datada de 1616 em que ele era proibido de sequer discutir as teorias de
Copérnico. Nunca mostraram a Galileu este documento. Mais ainda, argumentavam
Suas Eminências, apesar da forma de diálogo do seu recente livro, nenhum leitor ficaria
com dúvidas a respeito da sua posição, e esta era contrária à fé da Igreja. Era culpado
de contumácia e heresia. Só poderia esperar clemência se se rendesse
incondicionalmente e declarasse o seu apreço pela bondade da Inquisição para
consigo.
Após quatro sessões, foi ditado o veredicto em fins de Junho de 1633. O papa tinha
intervindo para dizer que o seu velho amigo devia ser torturado se não se submetesse.
O dito Galileu [é] […] no julgamento do Santo Ofício, fortemente
suspeito de heresia, nomeadamente, de ter acreditado e sustentado
a doutrina, falsa e contrária às Sagradas e Divinas Escrituras, de
que o Sol é o centro do mundo e não se move de oriente para
ocidente e que a Terra se move e não é o centro do mundo. […]
Os seus livros foram banidos e ele devia ser encarcerado pela Inquisição; exigiram
que recitasse os sete Salmos da penitência todas as semanas durante três anos. O
documento estava assinado por sete cardeais juizes do Santo Ofício.
Galileu já tinha decidido ceder, mas, por uma questão de honra, pediu que duas das
acusações fossem retiradas. Ele queria que fosse declarado que não tinha negado a fé
católica nem que tinha conscientemente contrariado uma prévia decisão do Santo
Ofício. Os juizes aceitaram estas alterações marginais. Galileu tinha concedido que
estava enganado acerca da astronomia e que eles é que estavam certos.
Assim, naquela quarta-feira de fins de Junho, Galileu Galilei ajoelhou no frio chão de
pedra do convento dominicano de Santa Maria Sopra Minerva para fazer a sua
confissão: «Eu, Galileu, filho do falecido Vincenzo Galilei, florentino, de setenta anos de
idade […] devo abandonar totalmente a falsa opinião de que o Sol é o centro do mundo
e está imóvel».
Exteriormente, ao negar as suas convicções mais profundas, jurou falso. No seu
coração, pelo menos, deve ter dito sobre a Terra: «Contudo ela move-se» («Eppur si
muove»).
Quando Galileu pôs a mão sobre a Bíblia e confessou a sua «depravação herética»
no coração de Roma, foi um momento solene na história da Igreja. Só o julgamento de
Jesus perante Pilatus o pode ultrapassar em gravidade.
O Fundador da Ciência Moderna, a mandado da Inquisição Romana, foi obrigado a
afirmar que a Terra, de acordo com a fé católica, está imóvel no centro do universo. Um
investigador que em qualquer lista dos grandes homens do mundo figuraria entre os
primeiros vinte, foi condenado por um grupo de clérigos, nenhum dos quais figuraria
entre o primeiro milhão.
Com Copérnico no Index e Galileu condenado pela Inquisição, os astrónomos
católicos tinham agora de escolher entre serem bons católicos ou serem bons
elementos da sua profissão. Por todos os critérios normais, a imobilidade da Terra era
doutrina católica. Foi defendida por todos os papas, bispos e teólogos durante séculos.
E isto não estava apenas implícito. Quando a doutrina foi posta à prova, quando
Copérnico e Galileu levantaram dúvidas sobre ela, o papa reinante e os outros papas
212
posteriores confirmaram-no durante séculos explicitamente na plenitude do seu poder. E
estavam errados. A Terra move-se mesmo, mas muitos papas negaram-no, dizendo
que isso contradizia as Escrituras e a fé. Se os católicos afirmam que isto nunca foi
realmente doutrina católica, alguém pode alguma vez ter certezas sobre qualquer
doutrina católica?
Em 1686, a lei da gravitação de Newton tornou impossível para qualquer cientista
crer que o enorme Sol girava em torno da minúscula Terra, que aquele teria como
centro. No ano de 1725, esta prova teórica foi confirmada pela observação meticulosa
de Bradley. Foram precisos mais cem anos para que Copérnico fosse retirado do Index.
No princípio dos anos oitenta, ouviu-se João Paulo II dizer qualquer coisa sobre
«reabilitar Galileu», embora até hoje nada tenha acontecido. Passados três séculos e
meio, Roma não tem pressa nenhuma em pedir desculpa.
Roma recusou a publicação dos documentos sobre o caso Galileu. Depois,
Napoleão, numa enorme operação, levou os arquivos do Vaticano para Paris. Quando
por fim regressaram, os documentos relacionados com o caso tinham desaparecido. As
mais diligentes investigações foram infrutíferas. Os críticos da Igreja presumiram que o
grande homem fora torturado. Sem aviso prévio, nem qualquer explicação, os
documentos voltaram à superfície. Da sua leitura ficou claro que Galileu tinha sido
ameaçado, mas não torturado. E nem a sua prisão foi muito rigorosa. Dez dias depois
do julgamento, deixaram-no voltar para uma casa pertencente aos de’ Medici. Por fim,
viria a retirar-se para a sua própria vivenda em Arcetri. Isto era um tratamento suave,
considerando que Urbano VIII condenava os bígamos às galés para toda a vida.
O que mais magoou Galileu foi a desonra. Tinha pago por qualquer coisa que não
conseguia compreender. Considerava-se um católico devoto. Como é que alguém podia
insistir em tomar o Génesis literalmente quando havia poderosas razões para pensar
que era um mito. Estava convencido de que os problemas científicos não podiam ser
resolvidos com uma força policial do clero. Apontados contra ele só via a ignorância, a
maldade e a impiedade disfarçadas de fé e virtude cristãs. Os clérigos mesquinhos do
Vaticano tinham-no humilhado, mas não conseguiam deter o progresso da ciência. O
seu era um caso clássico em que a verdade é esmagada pelo poder, o génio silenciado
pela insignificante burocracia. Isto mostrou o receio e o ódio de Roma pela curiosidade
de espírito, os quais se viriam a repetir uma e outra vez nos séculos seguintes. A
marcha atrás da Igreja no caminho do futuro significava que a sua guerra com a ciência
e o progresso iria continuar. Fez guerra à liberdade e ao processo democrático durante
e depois da revolução Francesa. Fez guerra a Darwin e Freud, à cultura da Bíblia como
tentativa de compreender o mundo nos seus próprios termos, livre das divinas
«intervenções do exterior». Hoje faz guerra ao controle da natalidade e à igualdade das
mulheres. Em todas e cada uma das ocasiões, a Igreja Católica ao mais alto nível faz
referência à Bíblia e à lei natural quando tenta, com a melhor das intenções, deter o
avanço do mundo. É triste constatar que seria difícil encontrar nos últimos quatro
séculos um exemplo em que Roma saúde com alegria incondicional um avanço do
espírito humano. Qualquer teólogo que hoje seja censurado pode sentir algum conforto
no facto de já não ser tratado tão cruelmente como o Pai da Ciência Moderna.
Após oito anos de prisão domiciliária, Galileu Galilei morreu em Janeiro de 1642, ano
do nascimento de Newton. O Grão-Duque de Florença queria erigir um monumento
sobre o seu túmulo na igreja de Santa Croce, junto de Miguel Ângelo. O Papa Urbano
VIII ainda não tinha encerrado a questão com o seu amigo. Avisou o duque de que
Galileu tinha persistentemente defendido uma doutrina contrária às Escrituras. Insistiu
em que é contra a fé dizer que a Terra se move. Portanto, considerava tal memorial um
213
insulto pessoal à sua autoridade. E foi assim que o corpo do maior cientista da sua
época esteve sepultado durante quase cem anos na cave da torre sineira de Santa
Croce.
Urbano, errado em quase tudo, teve ao menos razão na justificação que deu para lhe
recusar umas exéquias apropriadas. Galileu com os seus pecados tinha provocado o
maior escândalo da Cristandade.
O grande erro de Clemente XI
Clemente XI estabeleceu a corte no seu palácio no Monte Cavallo. Lá estava mais
fresco do que no Vaticano e o ar era menos carregado de pestilência. Na quarta-feira da
Semana Santa do ano de 1715 viajou para a Basílica de S.Pedro.
No dia seguinte, depois da missa na Basílica, Clemente subiu para a sedia e foi
transportado para a galeria. A multidão enchia a Praça de S.Pedro e estendia-se pelas
ruas laterais. Logo que ele apareceu, soaram os tambores e os cornetins. No profundo
silêncio que se seguiu, um cardeal leu a Bula de excomunhão de Quinta-feira Santa
contra todos os hereges, cismáticos, pagãos, piratas mediterrânicos e todos os que não
obedeciam ao Santo Padre ou não lhe pagavam os impostos devidos.
Esta Bula, In Coena Domini, remontava a 1372. Pio V, em 1562, disse que ela devia
ficar como lei eterna da Cristandade e foi confirmada por papa após papa até que foi
finalmente abolida, sem explicação, no reinado de Clemente XIV (1769-74). Uma
explicação teria sido bem-vinda, uma vez que a Bula exprimia a mais completa de todas
as heresias papais: a de que o papa dominava todo o mundo cristão, religioso e secular.
Esta convicção nunca foi explicitamente abandonada pelo Vaticano.
Durante a leitura da Bula, o papa, com o seu rosto comprido bem escanhoado e
cheio de tristeza, empunhava um archote aceso. Quando a leitura terminou, os oito
carregadores ergueram o pontífice na sua cadeira e este, em voz alta, pronunciou a
excomunhão sobre praticamente todo o mundo, atirando depois o archote por sobre a
varanda. Este faiscou e deu voltas no ar antes de atingir a multidão em baixo, um sinal
de vingança da Igreja sobre os seus inimigos.
Clemente XI era um bom exemplo de homem ameaçador. Contudo, os seus
infindáveis anátemas, que os seus contemporâneos tomavam por santidade, escondiam
uma terrível insegurança. Aquando da eleição, quinze anos antes, em 20 de Novembro
de 1700, Gian Francisco Albani tinha cinquenta e um anos. Ordenado apenas há dois e
não se sentindo capaz para a tarefa, a princípio recusou a coroa. Só cedeu quando
quatro eruditos religiosos lhe disseram que não aceitar a decisão unânime do Conclave
seria resistir à manifesta vontade de Deus. Estranhamente, aceitou imediatamente a
sua decisão.
Esses quatro religiosos nunca haveriam de saber que, se tivessem dado ao cardeal
Albani o conselho oposto, todo a face do Catolicismo, literalmente, podia ter sido
diferente.
Clemente parecia uma boa escolha para pontífice: disciplinador, erudito, casto, pouco
dormia e comia, até dizia missa todos os dias — o que num papa não era vulgar. Mas
— mais um indício de uma fraqueza essencial — também confessava diariamente os
seus pecados. O seu era um pequeno mundo escrupuloso de piedade pessoal.
Na sua ordenação Unigenitus, de 1713, por exemplo, este pontífice, canonicamente
inseguro, depois de consultar dois cardeais de espírito idêntico, condenou
214
redondamente o Jansenismo em França. Algumas das suas condenações pareciam
sensatas; outras haviam de causar em anos futuros o riso e o embaraço.
«A leitura das Sagradas Escrituras é para todos os homens». Condenado. A
interdição da palavra de Deus, surpreendente à primeira vista, estava de acordo com a
abordagem católica desde a Reforma. Havia pessoas a ler a Bíblia insensatamente. Em
vez de as ajudar a lê-la sensatamente, não era muito mais fácil proibi-las de a ler? Além
disso, esta abordagem deixava claro que Roma está acima da Bíblia e tem a autoridade
de Deus para a interpretar.
«Os cristãos devem santificar o Dia do Senhor com a leitura dos livros divinos,
particularmente as Sagradas Escrituras». Condenado.
«Arrancar o Novo Testamento das mãos dos cristãos é como calar a voz de Cristo
contra eles». Condenado.
«Proibir os cristãos de ler as sagradas Escrituras e especialmente o Evangelho é
proibir o uso da Luz pelos filhos da Luz e castigá-los com uma espécie de
excomunhão». Condenado.
«O receio de excomunhão injusta não nos deve impedir de cumprir o nosso dever».
Condenado. Segundo Voltaire, isto significava que Deus manda que nunca cumpramos
o nosso dever se temermos a injustiça. A opinião de Clemente era que não há dever
mais elevado do que a obediência ao papa. Obedecei-lhe e assim nunca poderá haver
condenação de Deus.
Uma vez tomada uma decisão, Clemente não deixava à Igreja qualquer dúvida sobre
a sua posição.
Nós não sancionamos e condenamos todas e cada uma destas
asserções declarando-as falsas, capciosas, mal-sonantes. Ofensivas
para os piedosos, escandalosas, perniciosas, imprudentes,
injuriosas para a Igreja e para as suas práticas, não só ultrajantes
para a Igreja mas até para os poderes seculares, sediciosas, ímpias,
blasfemas, suspeitas de heresia e elas próprias com sabor a
heresia, bem como também estimuladoras da heresia, e mesmo do
cisma, erróneas, muitas vezes condenadas, por fim também
heréticas, contendo diversas heresias manifestamente tendentes à
inovação.
O pontífice, conclui-se, não se interessa muito por estas asserções.
Clemente, tal como a maioria dos pontífices, assumiu que a discussão não conduz à
verdade mas a mais falsidade ou, na melhor das hipóteses, a uma pequena verdade e a
uma enorme falsidade. Não vale o risco. Tal como em relação à leitura da Bíblia, é
melhor proibir completamente a discussão de questões importantes. Roma falou e
Roma é quem sabe.
Dois anos depois, Clemente publicaria a Bula Ex Illa Die, com efeitos muito mais
devastadores. Para o compreender é preciso recuar mais de século e meio.
Em 1552, o mais nobre dos Jesuítas, Francisco Xavier, morreu numa ilha ao largo do
continente chinês. O trabalho intenso levou-o a uma morte prematura. Ao morrer, a sua
única mágoa era que do outro lado daquela extensão de água havia uma vasta terra
cheia de pagãos que, por não serem baptizados, arderiam eternamente no inferno.
Trinta anos mais tarde, um outro jesuíta, Mateus Ricci, entrou na corte imperial de
Pequim. Pelos seus conhecimentos de matemática, honraram-no como um «erudito do
Ocidente», mas ele era também um missionário original e de grande estatura. O seu
215
método tinha de tornar-se chinês para conquistar os chineses. Ele e os seus assistentes
jesuítas compreenderam que era vital apresentar uma Igreja de acordo com as
tradições da China. Em parte alguma do mundo havia um maior sentido de piedade
filial, de respeito pela autoridade legítima e pelas tradições ancestrais. Quando Ricci
morreu, depois de trinta anos de trabalho, deixou atrás de si trezentas igrejas, uma
delas mesmo em Pequim. Outros jesuítas se lhe seguiram, a única ordem a que
Gregório XIII confiou tal missão.
Em 1631, os Dominicanos foram autorizados a juntar-se-lhes. Não passou muito
tempo sem que o Padre Morales, O.P., acusasse os Jesuítas de conseguir conversões
a troco da permissão de os chineses manterem as suas velhas “idolatrias”. Desde o
tempo de Ricci que os Jesuítas adoptavam uma linha de tolerância com os rituais
chineses. Diziam que o respeito pelas tábulas dos antepassados, as velas, o incenso, a
comida e o dinheiro que lhes eram oferecidos eram uma simples questão de cortesia e
gratidão. O respeito dos mandarins por Confúcio, o Professor da Sabedoria, também
parecia inofensivo, uma parte da sua cultura que merecia ser preservada.
Em 1643, Morales enviou dezassete asserções jesuítas para Roma, pedindo que
fossem condenadas. A Inquisição, chefiada como sempre por dominicanos, apoiou-o;
Inocêncio X concordou que os Jesuítas deviam recuar até que a questão fosse
examinada com mais profundidade. O jesuíta Martini argumentou que aquelas práticas
eram puramente civis; condená-las tornaria as conversões impossíveis. A investigação
dos eruditos mostrara, dizia ele, que os chineses tinham um conceito de deus único
que, na sua pureza, não tinha paralelo entre os pagãos.
A controvérsia arrastou-se durante muitos anos. Os jesuítas no terreno eram
continuamente chamados a Roma.
O ano de 1692 foi importante. Os Jesuítas conseguiram uma conquista que lhes
escapava há mais de um século. O imperador Kang Hi deu-lhes autorização para
pregarem o Evangelho Cristão em todo o reino e converterem quem quer que o
desejasse. Os Jesuítas estavam convencidos de que Kang Hi, com o seu imenso poder
e prestígio, seria o Constantino chinês; podia pôr todo o império aos pés de Cristo.
Infelizmente, por essa altura, os Jesuítas foram obrigados a receber ordens de vigários
apostólicos hostis à sua missão.
O predestinado Clemente XI ascendeu ao trono papal. Durante muito tempo não
conseguiu tomar uma decisão. Dedicava um dia por semana ao estudo do problema dos
rituais chineses. Registou a convicção do imperador de que não havia neles qualquer
superstição. «Ninguém acredita realmente» declarou Kang Hi «que as almas dos mortos
estão presentes nas tabuínhas dos seus antepassados».
Clemente mandou a Pequim um bispo na qualidade de seu emissário para investigar.
Sua Senhoria, muito insensatamente, condenou publicamente os rituais como idolatria.
O imperador, incomodado e intrigado por os cristãos não só estarem divididos, mas
também por se odiarem uns aos outros, mandou prender o bispo. Clemente respondeu
promovendo este a cardeal pouco antes de ele morrer corajosamente em Macau em
1710. Clemente tomou a prisão do seu legado como um insulto pessoal. A sua
indecisão chegou abruptamente ao fim. Na sua cólera, aprovou todos os decretos da
Inquisição contra a abordagem jesuíta. Agora, no ano de 1715, todos os missionários na
China tinham de jurar a sua repulsa pelos rituais chineses e prometer nunca os tolerar.
Esta mesma intolerância, declarou Clemente, limpará as ervas daninhas e tornará o
solo chinês mais frutuoso para a Cristandade. A Igreja tinha que ser romana, mesmo em
Pequim.
216
Foi uma solução administrativa, decretada a milhares de quilómetros do local da
acção. Nunca houve, provavelmente, erro mais desastroso por parte de um pontífice.
Depois da publicação de Ex Illa Die, a missão cristã na China estava condenada.
Nesse mesmo ano, 1715, Giuseppe Castiglione, um jovem jesuíta de vinte e sete
anos, foi mandado a Pequim pelo seu superior. Foi honrado pelos chineses como um
dos estrangeiros mais revolucionários e sabedores que alguma vez lá fora. A sua fama
devia-se não à pregação mas aos seus dotes artísticos.
No dia 16 de Abril de 1717, os Nove Supremos, conselheiros do imperador, tomaram
conhecimento da Ex Illa Die. Aconselharam Sua Majestade a que, devido aos insultos à
China vindos dos cristãos e à sua total falta de respeito pelos antepassados, mandasse
banir todos os missionários e destruir todas as igrejas e que os convertidos fossem
obrigados a renunciar à sua nova fé. O imperador confirmou, com relutância, esta
sentença. «O que é que o papa diria» perguntava ele «se o Imperador da China lhe
dissesse como devia venerar em Roma?» Mas reservava-se o direito de assegurar um
piao (licença especial) aos europeus úteis ao seu reino.
Entre os que receberam um piao estava Castiglione, que se tornou o pintor oficial da
corte imperial. Só aos pintores e relojoeiros de primeira era concedido o privilégio de
deambularem livremente pelo Palácio de verão. A Castiglione foi atribuído um palácio
próprio, para poder pintar. O imperador visitava-o quase diariamente e ficava
maravilhado com a naturalidade das suas obras, especialmente os cavalos, em que o
jesuíta, agora chamado Lang Shining, era excelente. A maior parte da sua obra foi feita
dentro de casa. Quando queria pintar a vida, era escoltado por eunucos imperiais ao
caminhar em bicos de pés, como um ladrão, por respeito ao imperador. Assim viveu
Lang Shining cinquenta anos. Quem dera que o tivessem deixado ensinar aos amáveis
chineses qualquer coisa mais do que a técnica de pintar cavalos.
Passaram-se dois séculos. No ano de 1939, quando a missão na China estava já
morta e enterrada, a Sagrada Congregação para a Propaganda declarou que os tempos
tinham mudado. Tinham recebido dos chineses a garantia de que já não havia nada de
religioso nos seus ritos. Os convertidos ao Cristianismo não precisavam de deixar de
reverenciar os antepassados.
Sem o admitir, a Propaganda estava a inverter o sentido da decisão de Clemente.
Uma vez que as decisões papais nunca são “invertidas“, tiveram de descobrir um
pretexto para este volte-face. O Imperador Kang Hi, aquele que poderia ter sido o
Constantino asiático, já deixara claro que não havia nada de blasfemo ou anti-cristão
nos ritos; os Jesuítas sempre tiveram razão. Se alguns espiões insensíveis tivessem
dito a Kang Hi que em Roma os católicos beijavam os pés do pontífice e até os pés das
estátuas, aquele podia ter sido tentado a pensar que os católicos eram idólatras. O erro
de Clemente foi desta ordem.
As consequências da Ex Illa Die são incalculáveis. A China podia ser hoje tão católica
como a Irlanda ou a Polónia.
Considerando a oposição da Igreja ao controle da natalidade, em vez de um bilião de
comunistas chineses, podia haver hoje dois a três biliões de católicos na China. Dois em
cada três católicos no mundo inteiro podiam ter rostos chineses e falar chinês. Mas
depois os problemas da humanidade — a fome, o stress, a falta de espaço vital e de
recursos naturais — ter-se-iam há muito tornado completamente insolúveis. Ao privar a
China do Catolicismo, o Papa Clemente XI, pode afirmar-se, salvou o mundo da
catástrofe.
217
Conclusões
Este breve exame mostra que todos os papas são falíveis, que muitos cometeram
erros graves e que vários foram heréticos. Contradisseram a doutrina da Igreja,
contradisseram-se uns aos outros e, não poucas vezes, contradisseram-se a si próprios
sobre pontos essenciais da doutrina cristã.
Em resultado disso, a tradição era que qualquer papa, incluindo o reinante, pode
enganar-se como outra pessoa qualquer. Não tem nenhuma graça especial que o
impeça de cair em heresia.
Mais ainda: não se pode pôr a questão de um papa ter razão e a Igreja não a ter. Se
o papa se afasta da Igreja — talvez por não a ouvir — é o papa, e não a Igreja, que tem
de mudar de ideias. Se se recusa a ouvir e cai em heresia, já não é papa, porque, tendo
abandonado a fé, nem sequer cristão é.
Os teólogos tendem a dizer que tem de se fazer aqui uma distinção. Um papa, como
qualquer cristão, pode errar em questões particulares da fé. O que o Espírito garante é
que ele não desviará a Igreja do caminho certo quando profere uma definição ex-
cathedra a respeito da fé e da moral.
A distinção entre o papa a falar (1) como papa e (2) noutro papel — quer como
teólogo particular, quer como bispo diocesano ou pregador pastoral, tem uma falha
importante: nunca se ouviu falar de tal coisa na Igreja primitiva. Jamais alguém disse,
quando um papa era condenado por heresia: «Ele é herético, mas felizmente para nós
não estava a falar ex-cathedra». Porquê? Porque ninguém o considerava competente
para definir a fé da Igreja. Isso competia aos Concílios Gerais. E era isso que os
Concílios Gerais faziam. Um papa podia fazer perigar a fé da Igreja, como aconteceu
com Honório, mas nenhum papa, por si só, alguma vez definiu a fé da Igreja. Houve
situações em que tal dom teria sido uma vantagem - por exemplo, durante a
controvérsia ariana ou quando a divindade do Espírito foi posta em causa. Hoje, todos
os católicos se virariam para Roma à espera de uma decisão em pequenas questões;
naquele tempo, ninguém apelava para Roma à espera de uma “última palavra“, mesmo
quando os fundamentos da fé estavam a vacilar.
A infalibilidade papal incorre ainda numa dificuldade maior. Se as heresias papais do
passado não estão incluídas nas afirmações feitas ex-cathedra, quais são as doutrinas
papais que o estão? Quando é que os papas falaram pela primeira vez para e por toda
a Igreja de maneira definitiva? Certamente que não no primeiro milénio. Alguns diriam
que nunca antes de 1302, outros, de 1854. Se assim é, os pontífices romanos não
erraram nessa qualidade simplesmente porque não exerciam em absoluto essa função.
A infalibilidade papal deve ser crucial para a fé da Igreja e uma maneira de a regular.
Como é que isto pode ser assim, quando ela não foi exercida durante a maior parte da
história da Igreja? Pode compreender-se que a Igreja seja infalível, quer em Concílio,
quer através da normal doutrinação episcopal em todo o mundo. Mas é difícil dar
sentido a um papel crucial do papa que nunca exerceu a infalibilidade até ser
proclamado infalível por um concílio e que só uma vez a exerceu durante o século
passado.
Esta análise não é completamente rigorosa. Um papa houve que exerceu
efectivamente a infalibilidade antes do Concílio Vaticano I. Pio IX é tão crucial para a
compreensão do papado moderno que requer um capítulo só para si.
218
219
13
O Primeiro Papa Infalível
No dia 8 de Dezembro de 1854, o Papa Pio IX definiu a imaculada concepção da
Virgem Maria em Inefabilis Deus:
Nós declaramos, proclamamos e definimos que a doutrina que
sustenta que a muito abençoada Virgem Maria, no primeiro instante
da sua concepção, por graça singular e privilégio concedido por
Deus Todo Poderoso, considerando os méritos de Jesus Cristo, o
Salvador da raça humana, foi preservada de toda a mácula do
pecado original, é uma doutrina revelada por Deus e portanto deve
ser crença firme e constante de todos os fiéis.
Este acto de devoção para com a Mãe de Jesus foi também a mais bem imaginada
decisão política de qualquer pontífice em tempos recentes. É comparável à deposição
por Gregório VII e posterior humilhação do imperador no meio do vento e da neve de
Canossa.
A Imaculada Concepção
Até ao século XII, os cristãos davam como adquirido o facto de que Maria foi
concebida em pecado original. O Papa Gregório o Grande disse enfaticamente: «Só
Cristo foi concebido sem pecado». E repetiu uma e outra vez que todos os seres
humanos são pecadores, mesmo os santos, com a única excepção de Cristo. O seu
raciocínio, bem como o de todos os Padres, não deixa dúvidas sobre o assunto. O acto
sexual envolve sempre o pecado. Maria foi concebida normalmente, logo, em pecado;
Jesus foi concebido virginalmente, logo, sem pecado original.
Enquanto que Ambrósio e Agostinho seguiram a linha segundo a qual Maria não
cometeu pecado, muitos Padres discordam. Tertuliano, Ireneu, Crisóstomo, Origen,
Basílio, Cirilo de Alexandria e outros acusaram Maria de muitos pecados, argumentando
com textos bíblicos. Ela foi concebida em pecado e cometeu o verdadeiro pecado; assim
diz o Novo Testamento.
A tradição de que Maria foi concebida em pecado era tão forte que o único problema
para um santo erudito medieval como Anselmo era o de saber como é que o Cristo sem
pecado podia ter nascido de uma pecadora. Anselmo louvava Maria de muitas maneiras:
a sua plenitude espiritual tornava «de novo viçosas todas as criaturas». Contudo, seguiu
firmemente o Papa Gregório e a grande tradição: «A Virgem, ela própria, foi concebida
em pecado, e foi em pecado que a sua mãe a concebeu, e em pecado nasceu, porque
também ela pecou em Adão, como todos nós».
As Igrejas Ortodoxas Grega e Russa continuaram a seguir esta tradição. Sugerir que
Maria foi concebida sem pecado é despojá-la da sua grandeza e da sua realização, que
são em tudo as de um ser humano como nós.
220
No Ocidente, em contraste, o culto da Virgem desenvolveu-se rapidamente na Idade
Média. Os católicos tendiam a perder de vista a humanidade de Cristo. Em resultado
disto, ele aparecia distante, não tanto como Mediador entre Deus e os homens, mas
mais como o próprio Deus. Isto criou a necessidade de um mediador para o Mediador,
alguém santo e poderoso. O nascimento do culto Mariano coincidiu com o declínio do
culto de Cristo.
Maria era a mãe de Cristo, tivera-o nos braços. As suas virtudes sempre foram
enaltecidas. Nos tempos Patrísticos, era vista como o modelo de virgindade. Agora,
tinha um papel mais importante a desempenhar.
Em meados do século XII, em Lyons, celebrou-se uma nova festa em honra da
concepção da Virgem.
S.Bernardo de Clairvaux ficou horrorizado. Escreveu aos cónegos de Lyons avisando-
os de que os seus argumentos para a concepção sem pecado de Maria se aplicaria a
todos os seus antepassados, homens e mulheres. Todos seriam obrigados a postular
toda uma linha — uma espécie de regressão até ao infinito — dos antepassados de
Maria que foram imaculadamente concebidos. O pesadelo não acabaria aí. Se todos
eles foram concebidos sem pecado, todos têm de ter nascido virginalmente. Bernardo
seguiu os Padres nas suas opiniões sobre a relação sexual. Esta sempre envolvia o
pecado. Daí que pergunte aos prelados de Lyons: «O Espírito Santo participou no
pecado de concupiscência [dos pais de Maria]? Ou teremos nós de admitir que não
houve pecado de luxúria?» Bernardo apenas repetia o argumento de Gregório: o sexo
significa luxúria. Maria resultou de uma relação sexual, foi concebida em pecado. Ele
sustentava que ela nasceu santificada. Tratava-se de uma festa da natividade de Maria
e não da sua concepção.
Pedro Lombard, o mais influente teólogo anterior a Aquino, seguiu o Padre grego
João de Damasco. Maria foi concebida em pecado original e só foi purificada quando
acedeu em conceber o Salvador. Inocêncio III concordava com esta ideia. Mas nem isto
evitou que o novo culto se espalhasse, embora não propriamente em Roma.
Boaventura, o Doutor Seráfico do século XIII, negava que Maria estivesse purificada
do pecado herdado. O seu contemporâneo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico,
concordava. Seguiu Aristóteles, que afirmava que a animação do feto é um processo
gradual. Inicialmente, o conceptus é vegetativo. Assim, para Aquino, a ideia de
concepção imaculada era quase tão inteligível como uma cenoura sem pecado.
Acreditava realmente que a Virgem Maria foi santificada em qualquer altura não
especificada antes do nascimento.
Os Dominicanos, tal como, durante algum tempo, os Franciscanos, concordavam com
o seu herói Aquino. No século XIV, o Bispo Pelayo, Penitenciário-Mor de João XXII, não
tinha dúvidas de que Maria foi concebida em pecado original.
Mesmo assim, o culto cresceu e pela primeira vez foi apoiado por um teólogo de
estatura, o Franciscano Duns Scotus. O problema do Subtil Doutor era saber como é
que Maria podia figurar entre os salvos se não tinha pecado original de que ser salva. A
sua solução baseava-se no princípio de que mais vale prevenir do que remediar. Maria
não se curou do pecado, foi antes prevenida pelos previstos méritos de Cristo de nele
incorrer. Isto dificilmente resiste a uma análise. Um bebezinho pode ser imunizado
contra, digamos, a difteria, o tétano, a poliomielite e por aí fora. Com o avanço da
medicina, é possível proceder à imunização pre-parto, quando a criança ainda se
encontra no ventre materno. Mas como é que um bebé pode ser “imunizado“ antes da
concepção? Segundo Scotus, Maria foi “imunizada” contra o pecado original antes de ter
sido concebida. Provavelmente nunca mais se teria ouvido falar desta estranha ideia,
221
não fora Pio IX tê-la utilizado como suporte para a sua infalível definição da concepção
imaculada de Maria.
Depois de Scotus ter tomado o caminho oposto ao de Aquino, começaram a formar-
se facções. Os Franciscanos e os Dominicanos envolveram-se em batalhas terríveis,
não só literárias. Os imperadores juntaram-se-lhes, como quando Carlos IV obrigou os
Dominicanos a saírem de Paris e mandou encarcerar quem quer que fosse encontrado
na rua e negasse a concepção imaculada.
As discussões e as lutas continuaram durante séculos. Cada uma das facções
acusava a outra de heresia. Se alguma vez foi necessária uma decisão papal para pôr
cobro a uma disputa, esta foi uma delas. Havia boas razões para que ela não surgisse.
A Escritura nada dizia sobre a concepção imaculada; todos os Padres da Igreja se
opunham; antes de Scotus, nenhum teólogo digno de menção a tinha aceitado e os
maiores tinham-na negado. Contudo, havia uma poderosa vaga de opinião popular a seu
favor.
Sisto IV mandou que se mantivesse a Festa da Concepção em todas as igrejas; para
isso concedeu, a título gratuito, uma indulgência especial. Isto provocou uma
controvérsia ainda mais amarga entre os Dominicanos e os Franciscanos. Para lhe pôr
fim, o papa escreveu outra Bula. A Festa era em honra da Concepção de Maria, dizia
ele, e não da sua santificação. Os Dominicanos terão de aceitar isto ou então serão
excomungados; mas se os Franciscanos se vangloriarem diminuindo os Dominicanos,
serão eles os excomungados.
Esta Bula foi confirmada por Alexandre VI. Mas Bórgia, um realista, ameaçou chamar
o exército para manter a paz entre os monges se estes não se acalmassem.
Os Dominicanos mantiveram-se inabaláveis. O seu herói Aquino saíra a terreiro
contra a imaculada concepção, e não era verdade que João XXII, deliciado com a
opinião que eles tinham sobre o papado, tinha dito que negar qualquer coisa que Aquino
dissesse equivalia a heresia? Portanto, embora os Dominicanos espalhassem a devoção
ao rosário, eram alvo da troça dos Franciscanos, como “maculistas”.
Foi então que algo aconteceu que fez inclinar os pratos da balança para o lado dos
Dominicanos.
No ano de 1507, no convento dominicano de Berne, Maria apareceu a um humilde
frade, o irmão Letser. A Letser ela revelou a sua irritação por os Franciscanos ensinarem
a sua chamada imaculada concepção. Confirmou-lhe que ela tinha sido concebida em
pecado original. Só três horas depois da concepção é que foi santificada. A opinião de
S.Tomás de Aquino era, confirmou a Virgem, a este respeito e em todos os outros,
perfeitamente ortodoxa. Para provar a fidedignidade daquela visão, Maria deu ao frade
uma cruz tingida com o sangue de Jesus e mais três das suas lágrimas derramadas
sobre Jerusalém. Também lhe entregou uma carta dirigida ao papa reinante, Júlio II, que
nessa altura estava empenhado, de armas na mão, nas guerras italianas.
Aquela aparição foi a sensação da época. Multidões dirigiram-se em rebanho para o
convento em Berne. O Irmão Letser era um bom sujeito para as revelações Marianas:
era casto, fazia jejum; flagelava-se; caía facilmente em êxtase; criava estigmas, aquelas
chagas nas mãos e nos pés do Crucificado que têm autenticado muitos santos. Na
capela do convento havia uma imagem da Virgem que chorava perpetuamente pelos
erros dos Franciscanos, a quem Maria implorava que aceitassem a sua Maculada
Concepção.
Então, inesperadamente, aconteceu algo ainda mais surpreendente. Entrou em cena
o próprio Irmão Letser. Fez a sua aparição, isto é, apresentou-se ao magistrado de
222
Berne a pedir asilo. Os seus superiores, alegava ele, andavam a torturá-lo e a tentar
envenená-lo. O que ele revelou foi uma trama dominicana.
Os superiores da Ordem em assembleia de cónegos em Wimpffen tinham decidido
provar a falsidade da imaculada concepção por meio de um milagre doméstico. Berne foi
o local escolhido, porque tinha uma população vasta e crédula. Os quatro priores do
convento lembraram-se de João Letser, alfaiate, que tinha sido admitido recentemente
na Ordem, como o visionário adequado. Prepararam-no, drogando-o. Letser foi
completamente enganado. Até que um dia entrou no gabinete do leitor Bolshorst sem
bater e o encontrou vestido com as roupas de mulher da Virgem Santíssima. Isto foi um
choque muito maior do que a verdadeira aparição da Virgem. Quis abandonar os seus
serviços, mas, ameaçado, continuou até não aguentar mais.
A questão foi presente à Inquisição. Letser e os quatro conspiradores foram
submetidos à tortura. Estes confessaram que tinham pintado uma hóstia de vermelho,
tinham feito uma imagem chorar por meio de esponjas molhadas e com um pincel
tinham pintado as chagas no Irmão Letser.
Embora os quatro tivessem sido queimados, a Ordem dos Dominicanos declarou-os
mártires da causa. E contra-atacou publicando um manual com todos os grandes
pensadores da Igreja que tinham discordado da imaculada concepção. O manual incluía
a maior parte dos teólogos de nomeada e numerosos papas. Na lista havia muitos
franciscanos, incluindo Santo António de Pádua e S.Boaventura.
A Igreja oficial continuou a contemporizar. O Concílio de Trento não conseguiu decidir
sobre o assunto, e Paulo IV baniu toda a discussão sobre a matéria. Mas a maré estava
adversa para os Dominicanos. De um médico romano, Paulo Zacchia, veio uma
contribuição para a causa. Negou a teoria de Aristóteles da animação progressiva do
feto. Zacchia disse, em 1621, que uma alma racional é impregnada no exacto momento
da concepção. Aplicado a Maria: se ela não foi concebida primeiro como vegetal, fazia
ligeiramente mais sentido dizer que foi concebida sem pecado.
Em 1622, Gregório XVI disse que ninguém podia discordar, mesmo em privado, da
Festa da Concepção, embora proibisse o uso de “imaculada”.
No ano de 1701, Clemente XI tornou a Imaculada Concepção uma festa obrigatória
em toda a Igreja, reforçando assim a opinião de Zacchia da animação instantânea.
Benedito XIV (1831-46), no seu decreto sobre a Beatificação, disse que a Igreja se
inclina para a imaculada concepção mas nunca fez dela um artigo de fé.
O seu sucessor não teve tais reservas.
Pio IX, tal como Gregório VII, tinha faro para a política. Sabia que os Estados Papais
tinham os dias contados. Pouco depois de eleito, foi estabelecida uma república
provisória em Roma, e ele fugiu para Gaeta. Aí teve tempo para reflectir sobre a única
área em que podia reinar. Preparou o caminho com a Encíclica Ubi primum, de 2 de
Fevereiro de 1849, onde traçava este retrato de Maria:
A glória resplandecente dos seus méritos, que excedem largamente
todos os coros dos anjos, eleva-se até aos degraus do trono de
Deus. Os seus pés calcaram a cabeça de Satanás. Colocada entre
Cristo e a sua Igreja, Maria, sempre amorável e cheia de graça,
aliviou os cristãos das suas desgraças e das ciladas e arremetidas
dos seus inimigos, resgatando-os sempre da sua ruína.
O retrato de Maria de Pio IX devia mais à angélica Bela de cabelo escuro de Murillo
do que ao Evangelho.
223
Em Gaeta, com os Jesuítas e seus mentores, Pio começou a “consultar” os bispos
sobre a conveniência de definir a doutrina da imaculada concepção. Recebeu o apoio
quase unânime dos quase quinhentos bispos italianos, espanhóis e portugueses. Os
restantes não mostraram grande entusiasmo.
Um ou dois dias antes da definição, em 1854, o secretário particular do papa,
Monsenhor Talbot, confidenciava a um amigo: «Estás a ver, o mais importante não é o
novo dogma, mas a maneira como ele for proclamado». O papa estava claramente a
escorregar, por assim dizer, na sua própria infalibilidade.
Antes de 1870, esta questão estava longe de ser aceite universalmente. A Igreja
francesa, por exemplo, era conhecida pela sua oposição. O Quarto dos Artigos Galeses
de 1682, assinados pelo grande Bispo Bossuet, dizia: «O papa tem o principal quinhão
em questões de fé […] contudo, o seu julgamento não é irreformável sem a
concordância da Igreja». Os decretos do Concílio de Constança ainda estavam em vigor
em França no século XVIII e, apesar de Roma, muitos ainda assim continuaram até
1870.
Também o mundo de língua inglesa estava longe de aceitar unanimemente a
infalibilidade papal. Em 1822, o Bispo Barnes, Vigário Apostólico inglês, disse:
«Bellarmino e outros teólogos, sobretudo italianos, acreditavam num papa infalível
quando ele apresentava ex-cathedra um artigo de fé. Mas não acredito que qualquer
católico da Inglaterra e da Irlanda sustente a infalibilidade do papa». Ainda mais tarde, o
Cardeal Wiseman, que em 1850 encabeçava a restaurada hierarquia da Inglaterra e
País de Gales, disse: «A Igreja Católica tem um dogma, frequentemente proclamado,
que afirma que, em matéria de fé, ela (isto é, a Igreja, e não o papa) é infalível». E
continuava: «Todos concordam que a infalibilidade reside no sufrágio unânime da
Igreja». John Henry Newman, um convertido e o maior teólogo do século XIX, disse dois
anos antes do Concílio Vaticano I: «Eu sustento a infalibilidade do papa, mas como uma
opinião teológica, isto é, não como uma certeza, mas como uma probabilidade».
Nos Estados Unidos, antes do Vaticano I, foi publicado o muito popular Controversial
Cathecism, do Reverendo Stephen Keenan. Trazia o Imprimatur do Arcebispo Hughes
de Nova Iorque. Eis um extracto: «Pergunta: Os católicos têm de crer que o próprio papa
é infalível? Resposta: Isso é uma invenção dos protestantes; não é um artigo de fé
católica; nenhuma decisão sua pode vincular com pena de heresia, a não ser que seja
aceite e imposta pelo corpo doutrinal, isto é, pelos bispos da Igreja». Era algo
embaraçoso que em 1870 uma “invenção dos Protestantes” tivesse sido definida como
fé católica. Na edição seguinte do Cathechism esta pergunta e resposta foram retiradas
sem uma palavra de explicação.
Pio IX, ao obter o apoio da maioria dos bispos italianos e outros latinos em 1854,
estava já a canonizar a “doutrina italiana” da infalibilidade papal.
O processo de proclamação da imaculada concepção foi único. Não emanou de um
Concílio Geral; foi da exclusiva responsabilidade do papa. Dez anos mais tarde, o
teólogo jesuíta Clemens Schrader, havia de chamar a esta definição «um acto peculiar
do pontificado de Pio IX que não tem paralelo em qualquer outro pontificado anterior».
A muito discutida doutrina da imaculada concepção foi apenas o balão de ensaio para
a definição da infalibilidade papal de 1870. O que era intragável para todos os bispos
que se opuseram à definição no Concílio Vaticano I é que apenas dezasseis anos antes,
Pio já exercera esse poder perante o mundo — e eles não fizeram nada. Pio IX tinha
transformado a infalibilidade da Igreja numa prerrogativa pessoal para ser usada
independentemente da Igreja ou do Concílio.
Depois de 1854 os Dominicanos tiveram de submeter-se. Já não havia aparição da
Virgem Santíssima que lhes valesse.
224
Os cristãos não católicos ficaram ainda mais perturbados. A definição veio confirmar
os seus piores receios sobre o papado. A imaculada concepção já não era uma crença
piedosa que os católicos podiam aceitar ou rejeitar. Estes eram agora ameaçados de
excomunhão se dela descressem ou simplesmente lhe retirassem o seu acordo. Foram
informados por Pio IX de que sem um explícito acto de fé nessa crença não podiam ser
salvos. Aqueles que pensam de maneira diferente «estão condenados por seu próprio
julgamento, destruíram a fé e afastaram-se da unidade da Igreja».
Mas isso não foi necessário para S.Gregório o Grande, nem para os Padres da Igreja,
Santo Anselmo, S.Bernardo, S.Boaventura, S.Tomás de Aquino — que a negaram. Nem
para Ireneu, Jerónimo, Crisóstomo que, com S.Pedro e S.Paulo, nunca sequer
pensaram em tal. Mais de dezoito séculos e meio depois da concepção de Maria, era
uma heresia negar que ela foi concebida imaculada. Esta opinião marginal era agora tão
importante para a salvação como a crença na Trindade, na divindade de Cristo, na
Expiação e na Ressurreição.
O poder absoluto tinha moldado uma “verdade” absoluta; e os outros cristãos
encontraram mais uma enorme barreira entre eles próprios e a Igreja Romana. Alguns
perguntavam-se onde é que aquilo iria acabar. Talvez um futuro pontífice viesse a definir
que também Maria foi virginalmente concebida. O fenomenal progresso da imaculada
concepção desde a redonda negação até à definição papal mostra que nada é
impossível. Porque nesta questão o papa contradisse princípios básicos: que os
Evangelhos fornecem os fundamentos da crença; que nenhum indivíduo, nem mesmo o
papa, pode decidir sobre a doutrina católica, que ela carece de todo o episcopado em
Concílio ou em doutrinação geral representativa da fé das suas igrejas; que o
Catolicismo não pode tratar desta maneira despótica uma tradição que data dos tempos
patrísticos. Contra isto, a única coisa que Pio IX podia dizer era: «Eu sou a tradição».
Homem amável, ele viria a revelar-se o pontífice mais autocrático desde a Idade
Média.
A definição da imaculada concepção não foi extraordinária só no seu conteúdo e
processo de proclamação. A despeito de todo o seu significado marginal, influenciou
quase toda a teologia da Igreja Católica. Isto é manifesto em relação à autoridade papal,
especialmente ao definir doutrina. Mas também influenciou a teologia do pecado original
e da sexualidade.
Pecado original: Pio reforçou o conceito de pecado original como herança de um
remoto antepassado (Adão) que pecou e transmitiu este pecado ao resto da espécie. Pio
IX foi o principal responsável pelo facto de a Igreja Católica não poder aceitar as
descobertas de Darwin, tal como, dois séculos antes, não pudera aceitar o que Galileu
dizia. A Origem das Espécies veio a lume cinco anos depois da definição da imaculada
concepção. Apesar das provas científicas que se multiplicavam de que durante muitos
milhões de anos o homem tinha evoluído de formas inferiores, Roma continuava, e
continua, a insistir em que houve originalmente apenas um casal, perfeito em corpo e
em espírito, do qual nasceu toda a espécie. Mesmo em termos éticos, uma teoria como
a de Darwin teria ajudado a Igreja a resolver uma dificuldade. Porque, se foi um só casal
que esteve na origem da espécie, segundo o plano de Deus, a humanidade só podia ter
começado a propagar-se por meio do incesto, o que, de acordo com os moralistas
católicos, vai contra a lei natural e o próprio Deus não pode tolerar.
Sexo: a doutrina da imaculada concepção também afectou a doutrina católica sobre a
sexualidade e, particularmente, sobre o controle da natalidade, o aborto e a fertilização
in vitro.
225
Desde 1854, os católicos têm vindo a acreditar cada vez mais que a alma é animada
por Deus nos primeiros momentos da concepção. Maria foi santificada, segundo Pio IX,
no primeiro momento da concepção. Isto reforça a ideia de que no momento da
concepção já há no ventre da mulher um ser humano com todos os direitos inerentes. E
daí que o aborto, em qualquer estádio da gravidez, seja um crime. A contracepção é o
pior mal, depois do aborto, pois impede a produção de mais um ser humano. Isto mostra
a firme relação que existe entre o decreto de Pio IX de 1854 e a Encíclica de Paulo VI de
1968 sobre o controle da natalidade.
Estes temas serão tratados com mais profundidade na terceira parte, onde veremos
que o celibato também está relacionado com a doutrina de Roma sobre a imaculada
concepção. Os celibatários, que fizeram voto de não dar expressão à sua sexualidade,
isto é, de não propagarem o pecado original, são considerados como vivendo uma vida
mais perfeita do que as pessoas casadas.
O Manual dos Erros
Dez anos depois do dia em que definiu a imaculada concepção, Pio IX publicou o
Manual dos Erros, acompanhado de uma encíclica, a Quanta Cura. Durante dezanove
anos, Pio condenou tudo o que era novo, quer fosse bom ou mau. Em desacordo com
os ideais da Revolução Francesa, foi particularmente duro com tudo o que cheirasse a
liberdade.
Pio acreditava que a Igreja Romana detém a mais completa verdade possível do
mundo e estava portanto divinamente obrigada a ser intolerante. Exemplificou isto dois
anos antes de fazer publicar o seu manual quando assinou uma concordata com o
Presidente do Equador. Este católico de direita tinha chegado ao poder por meio de um
golpe contra os elementos liberais e anti-clericais. A concordata foi um dos documentos
mais injustos alguma vez assinados por dois poderes soberanos. O Catolicismo Romano
devia ser a única religião permitida no Equador. À Igreja era garantido o completo
controle da educação e um papel dominante na vida do país. Isto era o sonho de Pio IX.
Ele sonhava que um dia o resto do mundo, especialmente a França e a América,
seguiria o mesmo caminho. A Encíclica Quanta Cura é mais um pesadelo do que um
sonho.
Cheio de receios e de pressentimentos, Pio escreve como alguém sem esperança.
Ele representava o absolutismo: a Igreja e o Estado deviam, entre os dois, moldar o
mundo, como já faziam há séculos; o Estado devia estar sujeito à Igreja nas questões
morais e ser o seu protector, mesmo quando esta propõe completa intolerância em
relação às outras religiões.
Também o Manual dos Erros de Pio IX é reaccionário de princípio ao fim. Entre as
ideias contemporâneas que condenou estão estas:
15. Todo o homem é livre de abraçar e professar a religião que,
guiado pela luz da razão, considere como a verdadeira.
24. A Igreja não tem o poder de usar a força nem tem qualquer
poder temporal directo ou indirecto.
30. A imunidade da Igreja e do clero advêm da lei civil.
226
38. Os pontífices romanos têm contribuído, com a sua conduta
demasiado arbitrária, para a divisão da Igreja em Ocidental e
Oriental.
76. A abolição do poder temporal que a Sé Apostólica detém
contribuiria no mais alto grau para a liberdade e prosperidade
da Igreja.
77. Actualmente já não é conveniente que a religião católica seja tida
como a única religião do Estado, com a exclusão de todas as
outras formas de culto.
79. Por isso, foi sensatamente decidido por lei em alguns países
católicos que as pessoas que lá venham a residir possam
gozar do exercício público do seu culto particular.
80. O pontífice romano pode e deve reconciliar-se e chegar a acordo
com o progresso, o liberalismo e a moderna civilização.
No seu contexto, sobretudo italiano, de anti-clericalismo que a intransigência de
Roma tinha levado ao ponto de ebulição, estes ensinamentos medievais eram bastante
maus. Fora do contexto, o conjunto parece uma caricatura do Catolicismo. Nenhum
inimigo da Igreja conseguia fazer-lhe metade do mal que Pio IX lhe fez. Gladstone, na
Inglaterra, e Lincoln, na América, ficaram escandalizados ao ouvir o papa condenar o
progresso, o liberalismo e a moderna civilização.
A reacção da imprensa mundial era previsível. A Grã-Bretanha em particular exprimiu
a sua incredulidade.
O manual saiu na época de Natal de 1864. No primeiro número do novo ano, o Punch
trazia um palhaço a declamar:
Eu estava pronto a engolir com inquestionável docilidade
As maiores coisas ditadas p’la Superior Infalibilidade;
Não teria objectado a esticar a boca toda;
De vontade a abriria quanto me fosse mandado
Mas realmente esta Encíclica, que é tão contrária à razão,
Foi mesmo p’ra publicação a mando da Santidade
Nesta especial estação, insistindo na verdade
Da clerical dominação sobre o poder civil, família e educação.
Denunciando a revolta contra governo despótico;
Negando ao povo dos líderes a eleição;
Afirmando da Igreja a estrita obrigação
De apoiar o Estado em toda a repressão;
Condenando da imprensa e consciência a liberdade,
E qualquer liberal constituição.∗
∗
No original:
I was prepared to swallow with unquestionable docility,
The biggest things delivered by Superior Infallibility;
227
E tudo isto era demais para engolir, mesmo para um palhaço de boca grande.
O Spectator sugeria que o papa devia «igualmente rezar contra a primeira lei do
movimento». O anglicano Church Times via o papa como o divisor e não o unificador da
Cristandade e recebeu a encíclica «com repugnância e escárnio». O editor assinalava
que Pio não tinha qualquer simpatia pela civilização, pelo progresso, pela ciência ou pelo
intelecto. Olhava-os como «inimigos mortais da fé».
O comentário do The Times era o mais cortante: «Será difícil encontrar um sistema
político na Europa, à excepção do governo papal, que não assente nos princípios que
aqui são declarados como erros condenáveis».
E isto era verdade. Durante o século XIX o papado andou a pressionar os governos
para que negassem aos seus cidadãos aqueles direitos que eram negados aos cidadãos
dos Estados Papais. Desde 1831 que os papas atacavam cada nova constituição — a
austríaca, a francesa, a belga — apelidando-as de “ímpias”. Porquê? Porque ousavam,
como ateístas que eram, garantir a liberdade de consciência, a liberdade de imprensa,
instituições parlamentares livres para as quais todos os cidadão tinham o direito de
votar, independentemente da sua religião ou ausência dela, e completa igualdade dos
cidadãos perante a lei. O papado continuava a instar os outros estados italianos a imitar
a sua própria repressão. Por exemplo, em 1852, Pio IX persuadiu a Toscânia a proibir os
médicos judeus de exercer a medicina.
A impressão que ficava era que a única coisa que Roma não podia tolerar era
qualquer forma de liberdade.
Durante todo este tempo os papas andaram a alimentar o anti-clericalismo por toda a
Itália. Pio IX, por fim, podia até ter sido compreendido e popular na Igreja; mas na Itália
era quase universalmente detestado. Uma das consequências da rejeição do papado
das novas constituições foi que os cidadãos católicos das repúblicas emergentes eram
vistos como anti-patriotas. Quando, por exemplo, a constituição austríaca foi publicada,
o Vaticano disse:
Nós declaramos que estas leis e as suas consequências foram e
serão no futuro nulas e inválidas. Nós exortamos e suplicamos aos
seus autores, especialmente àqueles que se intitulam de católicos, e
todos os que ousem propô-las, aceitá-las, aprová-las e executá-las
que se lembrem das censuras e penas espirituais em que incorrem
ipso facto, de acordo com as constituições apostólicas e decretos
dos Concílios Ecuménicos, aqueles que violarem os direitos da
Igreja.
Pio IX foi ao ponto de condenar esta constituição por permitir que os Protestantes e
Judeus tivessem as suas escolas e universidades.
To stretch my mouth from ear to ear I shouldn’t have objected,
Would willingly have opened it to any width directed.
But really that Encyclical, so contrary to reason,
Your Holiness had published just at this special season,
Insisting on the divine right of priestly domination
O’er civil power, the family, and public education;
Against despotic government denouncing insurrection,
Denying people’s rights to choose their rulers by elections,
Proclaiming the Church bound to back the State in persecution, (N. T.)
Condemning free press, conscience, free and liberal constitution…
228
Em França, o Bispo Dupanloup ficou tão preocupado que introduziu uma distinção
que, como vimos, o Cardeal Gibbons de Baltimore achou muito útil. O manual do papa
aplicava-se a um mundo perfeito (tese); não a um mundo imperfeito (hipótese).
Infelizmente, a noção de perfeição do papa não era a mesma da maioria dos católicos,
que desconfiavam de um estado teocrático. Como comentava um gracejo parisiense, «A
tese é quando a Igreja condena os Judeus; a hipótese, quando o núncio papal janta com
o Barão de Rothschild».
Já não faltava muito para que a democracia que Pio IX persistentemente condenava
libertasse os próprios católicos da tirania dos Estados Papais e trouxesse à Igreja uma
aragem de liberdade que Pio IX, se pudesse, lhe teria tirado para sempre.
Dificilmente poderia ter havido um pontífice na história a quem a Igreja pudesse
atribuir a dignidade de “infalível” com mais apreensão.
A supremacia papal
Sintomaticamente, a data escolhida para a abertura do Primeiro Concílio Vaticano em
1869 foi o dia 8 de Dezembro, o aniversário da definição papal da imaculada concepção.
De acordo com o Pastor aeternus, o principal decreto do Vaticano I, o papa não é
apenas um supervisor ou administrador de topo da Igreja. Ele detém também a
«jurisdição suprema e total da Igreja nas questões que dizem respeito à disciplina e
direcção da Igreja espalhada pelo mundo». O poder do papa é supremo; estende-se
directa e imediatamente a todas as igrejas, a todos os pastores, a todos os leigos.
O Concílio sustenta que ao dizer isto «se baseia no testemunho claro da Sagrada
Escritura e se apoia nos claros e explícitos decretos tanto dos nossos antecessores, os
pontífices romanos, como dos Concílios Gerais». Estas afirmações não resistem a uma
análise.
Analisemos resumidamente as provas:
Quanto à Sagrada Escritura: nem um só dos primeiros Padres da Igreja viu na Bíblia
qualquer referência à jurisdição papal sobre a Igreja. Ao contrário, eles consideram um
dado adquirido que os bispos, especialmente os metropolitanos, têm todo o direito de
governar e administrar o seu território sem interferência de ninguém. A Igreja Oriental
nunca aceitou a supremacia papal; a tentativa de Roma de a impor levou ao cisma.
Quanto aos Concílios Gerais: o Concílio de Constança do século XV, em muitas áreas
pôs os concílios acima dos papas. Isto seria o bastante para destruir a confiança do
Vaticano I nos concílios. Mas as coisas são ainda piores.
Os oito concílios da Igreja quando ainda una não foram convocados pelo Bispo de
Roma. A começar pelo de Niceia em 325, os concílios eram convocados pelo imperador,
que aprovava os decretos. Era o imperador que reinava; era ele que impunha os credos.
O Cânone 6 de Niceia decidia que todas as sés deviam manter os seus antigos direitos.
Alexandria governaria o Egipto, a Líbia e Pentápolis «porque há um costume semelhante
no caso do Bispo de Roma. O mesmo em Antióquia».
Cinquenta anos mais tarde, no Concílio de Constantinopla de 381, o Bispo de
Constantinopla foi considerado hierarquicamente o segundo depois do Bispo de Roma.
O Cânone 3 do Concílio explicava porquê. «Depois do Bispo de Roma, o Bispo de
Constantinopla terá a primazia, porque Constantinopla é a nova Roma».
Este Cânone foi repetido em 451 no Concílio da Calcedónia. O Papa Leão o Grande
queria maior reconhecimento para a sua Sé de Roma. Mas não o conseguiu. O Concílio
disse simplesmente:
229
Os padres atribuíram correctamente a primazia ao Trono da Velha
Roma, porque ela foi a Cidade Imperial. E os cento e cinquenta
muito religiosos bispos, movidos pela mesma intenção, deram iguais
privilégios ao muito sagrado Trono da Nova Roma [Constantinopla],
julgando com razão que a cidade, que foi honrada com a soberania
e o senado e que goza dos mesmos privilégios que a velha Roma,
deve também, tal como ela, ser glorificada em questões
eclesiásticas, sendo a segunda a seguir a ela.
Não há nenhuma referência ao Evangelho ou ao papel de Pedro, que o Bispo de
Roma herdou, nenhuma supremacia atribuída «ao papa». O papa é venerado porque é
o Bispo da Sé Imperial da Velha Roma.
Longe de ser claro, como o Vaticano I declarou, que o Evangelho e os Concílios
Ecuménicos atribuíram ao papa jurisdição universal, não há nenhuma prova disso.
Como disse o Cardeal Manning de Westminster: «O dogma tem de sobrepor-se à
História».
Mesmo os testemunhos papais sobre a jurisdição do papa apenas vieram á superfície
depois de Constantino deixar Silvestre abandonado em Roma como seu vassalo. Um
tom de ameaça depressa começou a ouvir-se na Sé Romana. Depois Leão I intitulou-se
Pontifex Maximus e depôs um bispo.
Apesar disto, é em vão que se pode procurar no primeiro milénio uma única doutrina
ou artigo de legislação imposta exclusivamente por Roma ao resto da Igreja. As únicas
leis gerais saíram de concílios como o de Niceia. De qualquer maneira, como é que o
Bispo de Roma podia ter exercido jurisdição universal naqueles primeiros séculos,
quando não havia Cúria, quando os outros bispos não toleravam qualquer interferência
de quem quer que fosse nas as suas dioceses, quando Roma não emitia dispensas nem
exigia qualquer tributo ou imposto, quando todos os bispos, e não apenas o Bispo de
Roma, tinham o poder de vincular e desvincular, quando nenhum bispo nem nenhuma
igreja era censurado por Roma? Mais ainda: durante séculos, o Bispo de Roma foi
escolhido pelos cidadãos locais — clero e leigos. Se ele tivesse jurisdição sobre a Igreja
universal, o resto do mundo não quereria ter uma palavra a dizer na sua nomeação?
Quando se acreditou que ele tinha a supremacia, o resto do mundo exigiu mesmo ter
uma palavra na sua eleição. Isto apenas aconteceu na Idade Média.
O Vaticano I definiu a supremacia papal em termos com que os pontífices medievais
teriam concordado, mas que não tem qualquer relação com o Evangelho, a tradição ou a
história dos concílios ecuménicos da Igreja ainda una.
A infalibilidade papal
A infalibilidade do papa foi vista pelo Vaticano I como parte da supremacia do papa
sobre toda a Igreja. São os seguintes os termos da definição:
O Pontífice Romano, quando fala ex-cathedra, isto é, quando no
exercício da sua função de pastor e doutrinador de todos os cristãos,
define, em virtude da sua suprema autoridade apostólica, a doutrina
sobre a fé e a moral que deve ser seguida pela Igreja universal, está,
pela divina assistência que lhe foi assegurada na pessoa de
S.Pedro, possuído daquela infalibilidade com a qual o divino
Redentor quis que a Sua Igreja fosse dotada ao definir a doutrina
230
respeitante à fé e à moral; e que por esta razão tais definições do
Pontífice Romano são irreformáveis por si só e não por
consentimento da Igreja.
Analisando resumidamente as provas contra a infalibilidade papal: Pedro era falível,
tanto antes como depois da crucificação. Também não há qualquer indício no Novo
Testamento de que Pedro tivesse algum tipo de poder que um seu sucessor viesse a
herdar. De acordo com os Padres, Pedro nessa qualidade não teve sucessor. Todos
vêem os bispos como sucedendo aos apóstolos, e não um bispo individualmente a
suceder a um apóstolo em particular, Pedro, neste caso. Portanto, não podiam ter
aceitado a afirmação de que o “sucessor de Pedro” tivesse de governar a Sé de Roma.
Já vimos também que todas as grandes afirmações doutrinárias, especialmente os
credos, não vieram dos papas, mas dos concílios. Nos primeiros séculos, nunca ocorreu
aos Bispos de Roma que pudessem definir doutrina para toda a Igreja. O Vaticano I
precisava realmente de explicar por que razão, se a infalibilidade é crucial para a Igreja,
os credos e concílios da Igreja ainda não dividida não lhe fazem qualquer menção e por
que é que ela não foi imposta antes de 1870. Anteriormente, a infalibilidade papal não foi
de modo nenhum exigida pelos católicos. Estes podiam negá-la, e países inteiros
fizeram-no, sem qualquer ideia de que eram maus católicos.
Mas se os católicos não eram obrigados a acreditar na infalibilidade papal antes de
1870, eram livres de acreditar ou não naquilo que qualquer papa dissesse. Nas palavras
do Cardeal Newman, era uma «opinião teológica, […] uma probabilidade». Até 1870, os
católicos nunca criam numa doutrina com base numa definição papal; na melhor das
hipóteses, eram livres de a considerarem provável. Mas, se esta opção existia, o papa
não pode ter regulado a fé da Igreja como faziam os concílios. Numa palavra, as
afirmações papais ex-cathedra ao longo da História — mesmo admitindo por uma
questão de argumentação que houve alguma — só foram impostas à Igreja a partir de
1870. Claro que podia haver outros fundamentos para a infalibilidade do papa, e havia
de facto. Ele era um bispo, ao lado de outros bispos, a doutrinar naquilo que é chamado
de magistério ordinário. Mas precisamente nos termos estabelecidos pelo Vaticano I, os
fiéis podiam aceitar o que ele dizia ou rejeitá-lo. Por outras palavras, a infalibilidade
papal não afectou de maneira crucial a Igreja até 1870. A noção que alguns católicos
têm de que vão buscar ao papa, como tal, a fé em Deus, em Jesus e na Igreja está
errada. A Igreja nunca teve nem nunca careceu da infalibilidade papal para a sua fé
cristã.
Segundo o Vaticano I, o papa só é infalível quando fala ex-cathedra. Pode parecer
então mais correcto dizer que o papa é falível, excepto quando faz afirmações ex-
cathedra, o que raramente acontece. Como foi observado por um bispo no próprio
Concílio, dizer «o papa é infalível» é como dizer «o senhor X é um bêbado porque se
embriagou uma vez»; ou, pior ainda, «o senhor X é um bêbado porque o tetra-avô dele
se embriagou uma vez», visto que as declarações ex-cathedra são extremamente raras.
Seria difícil encontrar uma única antes da definição de 1854 sobre a imaculada
concepção. E, como todos concordam, só houve uma depois de 1870. Isso aconteceu
quando Pio XII definiu outra doutrina Mariana, a Assunção, em 1950. Ele declarou que
no fim da vida, Maria foi levada, corpo e alma, para o Céu. Mesmo com a sua «especial
ajuda divina», não conseguiu dizer com certeza se ela tinha morrido ou não. Isto não o
impediu de acrescentar o habitual anátema: «Se alguém ousar, Deus nos livre, negar
voluntariamente ou levantar dúvidas sobre aquilo que Nós definimos, que fique a saber
que se desviou completamente da divina fé católica […]».
231
A raridade das declarações ex-cathedra torna a observação de João XXIII algo mais
do que um gracejo: «Eu não sou infalível. Só seria infalível se falasse ex-cathedra, coisa
que não tenciono fazer». Nem mesmo Paulo VI invocou a infalibilidade quando
condenou o controle da natalidade em 1968.
A pouca frequência das declarações infalíveis dificilmente satisfaria aqueles católicos
do século XIX que ansiavam por um novo dogma no prato, juntamente com o The
Times, ao pequeno almoço. Mas não podia um papa ao menos fornecer uma lista das
declarações ex-cathedra feitas até agora, ou dos critérios para as identificar? A incerteza
sobre se certas afirmações são ou não infalíveis tende a abalar a confiança no sistema.
E também os não católicos gostariam de saber em que acreditar antes da reunificação.
Os teólogos católicos fazem questão de assinalar que a infalibilidade não significa que
o papa seja inspirado, possa ver o futuro, possa decidir qualquer questão como e
quando lhe apetece, ou exprima necessariamente a verdade tão perfeitamente que não
precise de revisão ou desenvolvimento. O que quase nenhum observa é que mesmo
com fundamento nos princípios católicos, os papas de uma maneira geral não são
mesmo infalíveis. Não falam infalivelmente nem mesmo quando a Igreja e o mundo
clamam por uma luz na escuridão.
Desde 1870 que toda a gente gostaria de saber as respostas para muitas perguntas
assombrosas: há pessoas noutros planetas? E, se houver, como é que a Encarnação de
Cristo as toca? A guerra nuclear é justificável em quaisquer circunstâncias? E pode um
católico empenhar-se na investigação e desenvolvimento de tais armas? Centenas de
questões semelhantes têm sido levantadas pela ciência e tecnologia. Nem uma só
resposta infalível saiu de Roma. Seria uma ajuda se o papa tivesse declarado, com o
suporte da Bíblia, «Jesus, um Homem pobre, está sempre do lado dos pobres». Ou:
«Aquele que tem o poder de alimentar os famintos e o não faz está a matar à fome o
próprio Cristo». Pio IX e Pio XII optaram por exercer a sua infalibilidade sobre as
doutrinas Marianas sem qualquer suporte na Bíblia ou na tradição. É pobre a colheita da
infalibilidade.
A infalibilidade papal não faz nada para esclarecer a Igreja. Qual é então a sua
função?
Parece ter menos a ver com a verdade do que com o controle. O prestígio do papa
reside não na infalibilidade mas naquilo a que se tem chamado “infalibilidade rastejante”.
O papa é infalível, por assim dizer, mesmo quando não o é. Isto explica a razão por que
o papa e o Santo Ofício se sentem à vontade para impor o silêncio mesmo em questões
que não são de fé. O debate arruinaria a harmonia, que é a bênção que o papa traz à
Igreja. Ah, mas o seu preço é a verdade, pois a verdade só pode resultar do debate
franco e aberto. A falta de debate é a razão por que durante séculos, desde Galileu,
Roma tende a chegar tarde e já ofegante ao palco de todos os genuínos avanços
humanos, como a liberdade de expressão, o sufrágio universal, a abolição da
escravatura, o papel da mulher na sociedade e no sacerdócio, o controle da população
por métodos científicos, etc..
Nos últimos cem anos, especialmente, a Igreja já teve de passar por aquilo que
Newman profetizou no seu diário: «uma severa vingança por actos autoritários […] um
uso tirânico do seu [de Pio XII] poder espiritual. […] Ele reclamou e exerceu um poder
maior do que algum papa jamais exerceu».
A infalibilidade dá também a impressão de omnisciência, ou, pelo menos, de um
domínio da verdade dificilmente respeitável. Deus é o Desconhecido e o Inatingível.
Segundo Joseph Pieper, Tomás de Aquino não terminou o seu Summa Theologica, não
por a morte o ter levado antes de o poder terminar, mas porque tinha uma ideia de Deus
232
que tornava insignificante tudo aquilo que escrevia. Passou meses sem conseguir
escrever por causa daquilo que tinha compreendido e era incapaz de exprimir. Se os
líderes da Igreja deixassem essa impressão de que mesmo os seus melhores esforços
eram insignificantes, a intolerância resultaria muito menor.
Pio IX e o poder de deposição
Pouco depois do Vaticano I, a publicação jesuíta Civiltà Cattolica reproduziu um
sermão de Pio IX. Falava ele iradamente dos «muitos erros mal intencionados a respeito
da infalibilidade». O mais malicioso, dizia ele, diz respeito ao direito do papa de depor
soberanos e de declarar os seus súbditos dispensados de obediência. Este direito,
concordava ele, foi exercido «por vezes pelos papas em casos extremos». Mas isto não
tinha «nada que ver com infalibilidade». Era uma questão de autoridade, «aquela
autoridade de acordo com a lei então em vigor e com o acordo das nações cristãs, que
veneravam o papa como o juiz supremo da Cristandade, mesmo em assuntos temporais,
de príncipes e estados».
E Pio continuava, dizendo que os tempos tinham mudado completamente. «E só a
malícia podia confundir coisas e tempos tão diferentes, como se um julgamento infalível
a respeito de um princípio de verdade revelada tivesse alguma relação com um direito
que os papas, por vontade do povo, tinham de exercer quando o bem comum o exigia».
Pio sabia a razão por que em 1871 se estava a vulgarizar «ideia tão absurda, em que já
ninguém pensa, muito menos o Supremo Pontífice. Eles procuram pretextos, mesmo os
mais frívolos e menos verdadeiros, para pôr os príncipes contra a Igreja».
Mesmo vindo de Pio IX no rescaldo do Vaticano I, isto é notável. Quase todos os
papas desde Gregório VII afirmaram que o seu poder de depor soberanos lhes vinha de
Deus. O papa governa na terra, quer na Igreja quer na política, em nome de Deus; e o
poder de Deus não conhece limites.
Por outro lado, nenhum pontífice alguma vez atribuiu o seu poder a uma dádiva da
comunidade cristã. Se fosse uma dádiva, onde é que está uma única afirmação de
pontífice, imperador ou rei nesse sentido, lei ou código que lhe conceda esse direito?
Um historiador do século XVIII contou noventa e cinco papas que afirmaram ter o
poder divino de depor reis. Todos os seus argumentos eram baseados — tem de
admitir-se que mal — nas Escrituras. «Tudo quanto ligares na terra», disse Cristo. Isto,
diziam os papas, era absoluto. Cristo deu aos papas as chaves do Céu e da terra; ele
alimenta todo o rebanho, incluindo a Ovelha Chefe, o imperador.
Quando Gregório VII depôs Henrique IV, quando Pio V depôs Isabel I, ambos
invocaram o poder de Deus para o fazerem. Quando Bellarmino tentou limitar
ligeiramente o poder de deposição do papa, Sisto V tentou pô-lo no Index.
Não é a maldade dos não católicos que relaciona com a infalibilidade a autoridade
papal para depor. São sim os inúmeros papas cuja doutrina Pio IX tem de distorcer ou
ignorar porque ela não se ajusta à sua tese.
Confrontada com o enorme peso destas provas, qualquer outra instituição diria: os
nossos antecessores cometeram um erro. Interpretaram mal o Evangelho. Os papas
estavam errados ao depor imperadores como os imperadores ao deporem papas. Não
devemos julgá-los com demasiada severidade; eles pertenciam ao seu tempo tal como
nós pertencemos ao nosso. O que nós podemos e devemos fazer é procurar que estas
coisas não aconteçam nunca mais.
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Infelizmente, uma Igreja infalível não está em posição de reconhecer um erro deste
tipo. Ela não pode errar nem pode contradizer-se. É tentada a dizer, como Pio IX, que os
seus críticos ou são cegos ou mal intencionados.
Assim, a infalibilidade tende a fazer da História um ramo menor da teologia. Os erros
passados dos papas são ilusões. Por uma forma católica de Orwellianismo, a história
tem de ser oficialmente “esquecida“ — ou então reescrita de modo que todo o percurso
do papado, em termos doutrinários, possa parecer imaculado. Nenhum erro é possível
mesmo nos papas que se contradisseram flagrantemente uns aos outros.
Pio IX morreu em 1878. Vinte e cinco anos mais tarde, ascendeu ao trono de Pedro
outro Pio. Também este estava convencido de que nenhum papa, ele próprio incluído,
podia jamais cometer um erro.
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235
14
A Grande Purga
Foi no princípio de Agosto de 1903 na Capela Sistina. Quando sob o fresco do Juízo
Final de Miguel Ângelo, a votação parecia decorrer de acordo com o previsto, estalou a
crise. O Cardeal Puszyna, Bispo polaco de Cracóvia, então parte da Áustria, levantou-se
e dirigiu-se aos seus sessenta e um colegas do conclave. Antes da terceira votação para
o sucessor de Leão XIII, tinha uma mensagem a transmitir. Tossiu embaraçado. A
mensagem era de Francisco José. Em razão do seu já antigo privilégio de chefe do
Império Austro-Húngaro, Sua Majestade ia exercer o seu direito de veto contra um deles:
o Cardeal Rampolla, Secretário de Estado de Leão XIII.
A temperatura na Capela Sistina, já elevada apesar dos altos tectos, subiu ainda
mais. Suas Eminências agitaram-se. Aquilo era uma evidente interferência na liberdade
da Igreja numa altura das mais sensíveis: uma eleição papal. Era duplamente insultuosa
na medida em que há trinta e três anos que o papado tinha sido privado do poder
temporal. E agora, eis que um soberano secular vinha dizer, por intermédio desta
marioneta escarlate, quem podia ou não podia usar a coroa papal.
O Sempiterno Padre
Gioacchino Pecci, Leão XIII, morrera em 19 de Julho de 1903. O calor em Roma era
tal que temiam que o corpo se decompusesse diante dos seus olhos. Leão e o seu
antecessor Pio IX, em cuja cabeça o próprio Leão, na qualidade de Camarlengo, tinha
dado na hora da morte as pancadinhas com um martelo de prata, tinham ambos reinado
durante mais tempo do que quaisquer outros pontífices. Os dois tinham totalizado uns
longos cinquenta e sete anos. Já velho quando eleito, Leão tinha noventa e quatro anos
e sessenta encíclicas com o seu nome quando morreu. Nos seus últimos anos, ouvia-se
com frequência os seus auxiliares a dizerem: «Procurámos em Pecci um Santo Padre,
não um Sempiterno Padre».
De constituição frágil, com um enorme nariz abicado donde pingava sobre a sotaina o
rapé liquefeito, lábios finos e uma pele de uma brancura diáfana, Leão dominara a
Igreja. Os fiéis iam sentir a falta daqueles olhos enormes, quais diamantes negros, e
daquelas mãos finas de cisne com as quais abençoava os súbditos com uma bondade
de velhinho.
É verdade que, tal como Pio IX, ele tinha estado “prisioneiro“ do Vaticano. Nunca
pôde visitar a sua própria basílica, S.João de Latrão, ou escapar à canícula com umas
refrescantes visitas à sua vivenda de Castelgandolfo, à beira do lago Albano. Mas ainda
podia passear nos seus jardins e sentir os doces odores dos pinheiros e eucaliptos e das
frescas flores de laranjeira.
Leão tinha fama de liberal. Mas dificilmente se lhe pode chamar tal coisa, embora
tivesse de facto aberto os arquivos do Vaticano dizendo que «A Igreja não tem medo da
História». Continuava a exigir o tipo de obediência que achava que lhe era devida como
monarca absoluto da verdade de Deus. O seu amigo e biógrafo Julien de Narfon relata
uma conversa típica do Vaticano desse tempo: «O que é que o senhor faria»
perguntaram a um dos príncipes da Igreja, «se a Santa Sé tentasse obrigá-lo a aceitar
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que dois e dois são seis?» «Aceitava de imediato» foi a resposta; «e antes de assinar,
perguntava, “Não deseja que eu diga que são sete?”».
Em 1896 Leão decidiu que as ordenações anglicanas eram inválidas. Isto significava
que esta comunidade mundial não tinha clérigos cristãos nem nenhuns sacramentos,
excepto o baptismo. O chefe da comunidade anglicana era um simples leigo, baptizado,
valha-nos isso, de uma igreja que não tinha fundamento apostólico. Esta a razão por
que, até 1950, o jornal do Vaticano Osservatore Romano se referia a ele desta maneira:
“o arcebispo de Canterbury”. A palavra “arcebispo” sempre em minúsculas e o título
entre aspas. Era um insulto literário muito bem premeditado.
Apesar de tudo isto, Leão, ao contrário de Pio IX, começara já a reconhecer as
realidades políticas da Europa. Insistira já com os bispos franceses para que
reconhecessem a república e deixassem de repisar nos tempos da monarquia absoluta.
Uma lufada de ar fresco tinha pois agitado ao de leve algumas sotainas da entourage
papal.
Um papa campónio
O Secretário de Estado de Leão, Rampolla, era o favorito para lhe suceder. Foi para o
Conclave cheio de esperanças, naquele fatídico verão de 1903. Na primeira votação
obteve vinte e quatro dos sessenta e dois votos. O seu mais directo rival era o Cardeal
carmelita Gotti, calvo, de estranhos olhos assombrados. Gotti obteve dezassete votos e
Sarto, Patriarca de Veneza, cinco.
Sarto, de rosto largo e agradável e cabelo branco espesso, interpretou os votos
obtidos, talvez correctamente, como uma pequena piada por parte dos seus pares. Não
tinha realmente estofo para papa; não tinha cabeça nem experiência para a função,
sobretudo depois do nível a que Leão a tinha elevado. Além disso, quase com setenta
anos, era já burro velho demais para aprender nova andadura.
Na segunda votação, Rampolla subiu para os vinte e cinco, Gotta teve dezasseis e
Sarto, dez. Mais um empurrão final para Rampolla e a eleição estaria terminada.
Foi então que se deu a intervenção do Cardeal de Cracóvia. Depois de passada a
onda inicial de indignação, Rampolla levantou-se sob o seu baldaquino. O seu formoso
rosto comprido revelava a tensão de uma ira contida. Os olhos escuros inteligentes
brilhavam-lhe, as narinas do seu clássico nariz comprido tremiam-lhe. A brancura do
rosto parecia brilhar contra o fundo negro do cabelo liso e a cor púrpura do seu manto.
«Lamento profundamente» conseguiu ele dizer, com a serenidade dos diplomatas
experimentados «este sério golpe dirigido pelo poder civil contra a dignidade do Sacro
Colégio e a liberdade da Igreja na escolha do seu chefe. Esta a razão por que eu
protesto veementemente». E num tom de voz consideravelmente mais baixo,
acrescentou: «Pelo que me diz respeito, nada mais agradável me poderia ter
acontecido».
E Sua Eminência sentou-se, remetendo-se ao silêncio.
Procedeu-se à terceira votação. Rampolla não perdeu um único voto. Foi Gotti quem
acabou por sofrer com o veto. Sabia-se que ele apoiava a causa austríaca, tal como
Rampolla apoiava a França. Gotti teve nove votos, enquanto que Sarto, o candidato
surpresa, alcançou os vinte e um.
Seguiu-se nova votação. Trinta para Rampolla. Apenas com três, Gotti ficou fora da
corrida. Sarto subiu para os vinte e quatro.
Quando os cardeais se foram deitar, na segunda noite, já sabiam que, apesar da
indignidade do facto, a intervenção do cardeal de Cracóvia tinha alterado o curso da
237
eleição. Ele mostrara que a escolha de Rampolla conduziria a um antagonismo entre
dois poderes católicos tradicionais. Nessas circunstâncias era vital que se escolhesse
um candidato de compromisso. A próxima ronda, calculavam eles, seria decisiva. E
assim foi.
A partir do momento em que Sarto conseguiu vinte e sete votos, mais três do que
Rampolla, toda a gente ficou a saber quem seria o próximo papa. Só era preciso que ele
estivesse disposto a isso.
Séculos antes, os canonistas tinham estabelecido um critério para a escolha de um
papa. O problema era este: se o papa só por si tem a plenitude do poder, como é que
este lhe pode ser outorgado pela Igreja, seja pelos cardeais, seja, mais remotamente,
pelo clero e pelos leigos de Roma? E a resposta favorita era esta: o Sacro Colégio, com
os seus votos, apenas apontava um candidato. Era necessária a aceitação do próprio
nomeado para que Deus lhe entregasse directamente a plenitude do poder. A única
questão agora era a de saber se Sarto aceitaria ou não.
Monsenhor Merry del Val, o secretário do Conclave, de trinta e oito anos, inglês por
nascimento e de família de origem espanhola, foi encarregado de pedir a Sarto que
aceitasse. Quando o encontrou, o cardeal estava banhado em lágrimas; tinha-se
intensificado a sua relutância. Mas na votação seguinte, com trinta e cinco votos, obteve
mais do dobro dos de Rampolla.
Na quarta manhã, à sétima votação, Sarto obteve cinquenta votos: era ele o papa, se
aceitasse. O Cardeal Gibbons, de Baltimore, que tinha deixado Roma estupefacta
quando lá apareceu de fato preto e chapéu de palha sobre o solidéu vermelho, estava
entre os que o instaram a aceitar. Angustiado, Sarto acabou por aceitar e tomou o nome
de Pio X, porque associava a sofrimento os seus antecessores com esse nome.
Merry del val, que em breve seria nomeado Secretário de Estado, ia mesmo assim
dar uma reprimenda ao Cardeal Puszyna. Dizia-se que nunca, nem mesmo nos calmos
tempos de Alexandre VI, o ambiente das salas de Bórgia fora tão triste.
O novo pontífice, prisioneiro como era do Vaticano, deu a sua bênção, não da
varanda sobranceira à praça, mas da galeria interior da Basílica. O simbolismo deste
facto havia de mostrar-se decisivo: no momento em que assumia funções, o papa
voltava as costas ao mundo. Como logo observou o Cardeal dela Chiesa, futuro
Benedito XV, Pio X era sinistramente parecido com Pio IX.
Origem humilde
Filho de um trabalhador, Giuseppe Sarto, nasceu na pequena cidade provinciana
nortenha de Riese em 1834. Era o segundo de dez filhos. O pai, varredor de profissão,
varria a câmara municipal. O pequeno Giuseppe havia de tornar-se infalível e varrer a
Igreja universal.
O rapaz era piedoso, afectuoso, esguio, de cabelo encaracolado e devotado à mãe.
Sentindo desde cedo vocação para o sacerdócio, entrou para o seminário menor em
Castelfranco. Fazia muitas vezes o caminho, sete quilómetros para cada lado, de pés
descalços para poupar as solas.
Nunca mudou a sua atitude para com a vida; era de uma bondade natural. Foi para o
seminário maior em Pádua, onde seguiu o habitual curso de teologia e filosofia medieval.
Foi ordenado padre quando tinha vinte e três anos, no ano de 1858. Depois disso, foi
coadjutor em Tombolo durante nove anos — empenhou o relógio para dar de comer aos
famintos. Foi prior de Salzano durante mais nove anos — a sua porta nunca se fechava
— até que, aos quarenta e um anos, se tornou chanceler diocesano em Treviso. Vivia no
238
seminário, num quarto que dava para a colorida planície. Sentia-se feliz no seu
ministério. Era conhecido pela sua bondade e generosidade para com os pobres.
Trabalhava muito sem outra motivação que não fosse o amor de Deus e do seu
semelhante.
Em 1884, Sarto foi nomeado Bispo de Mântua. Ficou espantado, achando que o
bispado estava para além das suas capacidades. Fez os possíveis por recusar, mas o
Papa Leão insistiu.
Em Junho de 1893, quando tinha cinquenta e nove anos, foi feito Patriarca de
Veneza. Durante dezasseis meses não pôde tomar posse da sua Sé porque um governo
anti-clerical lhe recusou um Exsequatur. Era outro sinal dos tempos. A Igreja estava a
correr perigo por toda a parte. Uma consolação que ele teve foi uma visita de três dias à
sua casa em Riese onde pôde confortar a mãe — encamada, aos oitenta anos —
envergando o manto cardinalício.
O Exsequatur chegou finalmente em Setembro de 1894, e Sarto celebrou o facto
fazendo sair a sua primeira carta pastoral. Este homem bondoso e cordial mostrou que,
como bispo, conseguia ser tão belicoso como os seus inimigos.
«Deus» escreveu ele «foi expulso da vida pública pela separação da Igreja do
Estado». A sua atitude em relação ao papado era do tipo mais rigoroso. «Quando
falamos do Vigário de Cristo, não podemos estar com rodeios, temos de obedecer; não
podemos medir o que ele disse para limitar a nossa obediência. […] A sociedade está
doente. […] A única esperança, o único remédio, está no Papa». Mesmo para este
homem santo e profundamente infeliz a única esperança não está em Cristo mas no
Papa.
Mal foi nomeado patriarca começou a denunciar as «pérfidas maquinações» do
liberalismo, e especialmente dos católicos liberais que chamava de «lobos disfarçados
de cordeiros».
Em 24 de Novembro dirigiu-se de gôndola cardinalícia para a Cidade de Ouro. Havia
multidões em cada ponte, em cada varanda; as pessoas debruçavam-se das janelas e
empoleiravam-se perigosamente em estreitas saliências sobre o canal para receber a
sua bênção. A gôndola deslizou até ao Cais e o Cardeal Sarto desembarcou na Praça
de S.Marcos. Todos os edifícios estavam engalanados, excepto o da Câmara Municipal.
Foi uma afronta dos anti-clericais que ele nunca mais esqueceu nem perdoou.
Assim foi a entrada na vida daquele que se intitulava de «um pobre cardeal
campónio». As suas duas irmãs tratavam de tudo aquilo de que ele precisava e que era
muito pouco. Das cinco da manhã até à meia-noite, trabalhava sem parar. Não se
importava que lhe chamassem Don Beppe. O rendimento da Igreja, dizia este homem
que nunca tinha tido dinheiro nenhum, era património dos pobres. Insistia numa liturgia
digna de Deus e não da habitual e fortuita história italiana. Devia ser abrilhantada com
cânticos gregorianos, a música dos anjos; a Eucaristia devia ser frequente.
Desta maneira passou ele nove anos relativamente tranquilos até partir para votar
para a sucessão de Leão XIII. Comprou um bilhete de comboio de ida e volta e
prometeu aos seus diocesanos que voltaria vivo ou morto. Foi a única promessa que
não cumpriu.
Um estranho no Vaticano
Era um perfeito estrangeiro em Roma. Habituara-se em toda a sua vida a pessoas
simples e a problemas simples que podiam ser resolvidos com muito trabalho e bondade
239
pessoal. O seu reinado não viria a ser feliz. Os seus olhos grandes e luminosos eram de
uma permanente tristeza. Os seus ajudantes, como Merry del Val e o Cardeal de Lai,
traziam-lhe não apenas factos, mas interpretações dos factos que o convenciam, se não
estava já convencido, de que a humanidade estava doente. O principal dos males era a
abjuração de Deus. Ele falava em privado e em público da depravação moral, de um
mundo a desfazer-se. Depois da Revolução Francesa, a maioria dos papas, foram
pessimistas incuráveis.
Aquilo que Pio IX vira como um desastre era o advento da democracia. Aquilo que Pio
X via como um mundo moribundo não era senão um novo mundo a nascer. Faziam-se
avanços sem precedentes na ciência e tecnologia. A arqueologia revelava a idade do
mundo. Os cristãos, seguindo as ideias de John Lightfoot, um académico de Cambridge
do século XVII, supunham que a criação tinha tido lugar numa manhã de outono — isto
é, no Hemisfério Norte — no ano 4004 a. C. Mais precisamente, Deus disse «Faça-se
luz» em 23 de Outubro de 4004 a.C. às nove da manhã. Os eruditos andavam agora a
negar que o homem foi criado perfeito, tal como sugeria uma leitura literal do Génesis; o
homem fazia também parte do processo da evolução. Os historiadores revelavam coisas
até então desconhecidas sobre o passado da Igreja, especialmente sobre os anos da
formação. E o mais alarmante de tudo, do ponto de vista de Pio X, era que a exegese
estava a pôr em questão uma interpretação literal do Velho e Novo Testamentos. A Vie
de Jésus de Renan tinha gerado inúmeras obras de “infidelidade”, como Pio IX
profetizara.
Pio X ficou desconcertado com a dimensão da tarefa que Deus lhe reservara a ele,
um camponês de Riese. Mais um exemplo de que Deus escolhe as coisas absurdas do
mundo para confundir os sábios. Ele era o pontífice, a única esperança e remédio para
um mundo doente. Da sua exaltada, quase divina, elevação estava pronto a exigir para
si próprio a obediência cega que ele próprio tinha tido para com Leão XIII. Confiava no
Espírito para o ajudar a salvar a Igreja dos graves perigos que a ameaçavam de dentro.
Havia uma conspiração em marcha no próprio coração da Igreja, estava convencido
disso. Os teólogos, os investigadores das Escrituras aliaram-se com todas as forças anti-
Deus num mundo pós-revolucionário. O seu único objectivo: aniquilar a Igreja.
A segunda encíclica de Pio X apareceu nessa data mágica de 8 de Dezembro de
1904. Era o quinquagésimo aniversário da definição da imaculada concepção. A sua
Carta revela o tipo de espírito que ele trouxe para suportar os problemas com que a
humanidade se estava a debater naqueles tempos, dos mais originais e excitantes da
história.
Adão chorou com o seu castigo, mas viu que Maria despedaçou a
cabeça da serpente. Noé a salvo na Arca antecipou-a. O mesmo se
passou com Abraão quando o seu braço se deteve. E também com
Jacob quando viu na terra uma escada a chegar ao Céu; uma
escada para os anjos de Deus subirem e descerem. Moisés viu-a
nas moitas que se incendiaram e não arderam. David cantou-a
quando dançou diante da arca das promessas de Deus. Elias viu-a
na pequena nuvem que se ergueu do mar. Mas para quê continuar?
A aplicação errada das Escrituras podia ter passado despercebida numa aldeia
obscura da Itália daquele tempo; não augurava nada de bom como meditação de um
papa no período pós-Vaticano I. Ele tinha a plenitude do poder. Era o governador
supremo da Igreja. Pessoalmente infalível, esperavam-se dele, e praticamente só dele,
as respostas a todas as dificuldades que a ciência estava a levantar ao Catolicismo
240
tradicional. Não admira que se sentisse esmagado pelos problemas que, depois de
1870, esperavam que ele resolvesse sozinho.
A Verdade Bíblica para os católicos
Mesmo antes de Pio X, a Igreja já se tinha metido em confusões sobre a Bíblia,
particularmente sobre uma passagem da Primeira Epístola de S.João (5:7), conhecida
como o Comma Joanino.
Porque são três a dar testemunho no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito
Santo; e estes três são um só. E são três a dar testemunho na terra:
o Espírito, a água e o sangue, e estes três são um só.
Em 1897 o Santo Ofício chamou a si a decisão de que isto era Evangelho genuíno. E
proibiu os investigadores de o dizerem de maneira diferente. Este foi o primeiro de uma
longa série de erros.
O testemunho celeste não figura em um único manuscrito grego. Foi acrescentado
aos manuscritos latinos, provavelmente no Norte de África, porque Cipriano o
mencionou em 258, tal como Agostinho cerca do ano 400. Nos seus textos os
testemunhos terrenos vinham primeiro. No século XIV o texto foi adulterado para pôr o
testemunho celeste em primeiro lugar. Isto era uma discussão puramente académica. A
intervenção do Santo Ofício significava que os autores católicos eram obrigados a
esquecer as provas e a inclinarem-se perante um juízo insensato na base de uma
obediência cega. Como resultado, tiveram de fingir que o Santo Ofício tinha razão,
quando qualquer investigador digno desse nome sabia bem que não tinha.
A partir de então o estudo da Bíblia na Igreja Católica passou a ser uma ocupação
arriscada. O decreto de 1897 esteve em vigor durante trinta anos. Depois, ignorando a
verdade, o Santo Ofício disse que aquele pretendera simplesmente refrear a “audácia”
dos doutrinadores particulares que, em vez de deixarem as coisas para o papa,
chamavam a si o julgamento da autenticidade dos textos bíblicos. Assim, a partir de
1927, os católicos tinham o direito de «se inclinarem para a não genuinidade do Comma,
desde que se mostrassem prontos a apoiar o julgamento da Igreja à qual Jesus Cristo
confiou a função não só de interpretar a Sagrada Escritura mas também de a preservar
fielmente».
Isto implicava que a Igreja não precisava dos investigadores. O papel destes é
apenas o de transmitir as decisões dos papas, que são os únicos que podem dizer ao
mundo o verdadeiro sentido do Evangelho. A longa lista de interpretações papais
erradas dos Evangelhos — mesmo ao ponto de fazer do imperador uma marioneta do
papa - não dava aos investigadores garantias de total confiança nas suas decisões.
Leão XIII compreendeu que havia qualquer coisa de errado nos seus cães de guarda
do Santo Ofício que pontificavam sobre os Evangelhos e criou uma Comissão Bíblica
nos anos que precederam a sua morte. Nomeou quarenta e um consultores, muitos dos
quais liberais.
Pio X substituiu imediatamente os liberais por reaccionários e, entre 1906 e 1914,
estes emitiram uma série de fantásticas decisões a que todos os investigadores
católicos da Bíblia tiveram de aderir.
Depois do Vaticano I, tudo na Igreja ficou centralizado. Todos os problemas bíblicos,
todos os quebra-cabeças morais eram levados a Roma, geralmente pelos bispos e
investigadores ultra-conservadores, para uma decisão.
241
Ao concordarem com os decretos da Comissão Bíblica, os investigadores católicos
colocavam-se efectivamente fora da vida académica de reputação. Contra toda as
evidências que se vinham acumulando, tinham de aceitar que Moisés escreveu todo o
Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia), e que os capítulos 40-66 de Isaías eram
de um só autor. Cinquenta anos depois da Origem das Espécies, tinham de defender e
ensinar que os três primeiros capítulos do Génesis eram rigorosamente históricos. A
primeira mulher foi criada a partir de uma costela de Adão; o primeiro pecado foi a
transgressão de um específico mandamento divino pela tentação do demónio em forma
de serpente. Em 1907, a Comissão Bíblica “decidiu” que todos os quatro Evangelhos
foram escritos por aqueles de que têm os nomes e que Paulo escreveu todas as
epístolas pastorais bem como a Epístola aos Hebreus.
Os investigadores católicos da Bíblia fugiam a esconder-se como caranguejos
assustados. Viviam com medo de serem denunciados a Roma pelos seus estudantes ou
colegas. Perseguidos pelo medo da excomunhão ao mais pequeno passo em falso, só
podiam no melhor dos casos relatar as investigações esclarecidas dos seus irmãos
protestantes manifestando ostensivamente a sua desaprovação: era a única maneira de
fazerem passar opiniões sensatas. Só assim podiam sobreviver na esperança de
melhores dias. Mesmo o melhor investigador da Bíblia desse tempo, Père Lagrange, foi
proibido de publicar o seu Comentário sobre o Génesis.
E contudo, durante bem mais de cem anos, muito antes de Darwin, nenhuma pessoa
qualificada, religiosa ou não, foi ao ponto de tomar os primeiros capítulos do Génesis à
letra. Se a Igreja não tivesse posto Voltaire no Index, talvez tivesse aprendido com ele.
Na sua Homilia sobre o Velho Testamento ele apontava os erros e contradições do texto
do Génesis. A ideia de que todo o sofrimento humano, mesmo a doença e a morte, são
devidas a um pecado do Primeiro Pai da raça já não é mais credível do que a caixa de
Pandora. Só quando o mito é aceite como mito é que tem beleza e significado.
Voltaire foi mais satírico quando tratou do Dilúvio e da Arca de Noé:
É inútil as pessoas argumentarem que nos anos mais chuvosos não
se consegue ter setenta centímetros de chuva […] que os animais
da América ou das terras do sul não conseguiam alcançar a arca;
que sete casais de animais puros e dois casais de não puros não
cabiam em vinte arcas. […] As dificuldades não têm fim. Mas todas
elas se resolvem dizendo que todo este grande acontecimento foi
um milagre — isto põe fim a toda a discussão.
Mais de cem anos antes de Voltaire, Galileu oferecera praticamente às autoridades da
Igreja a mesma chave para desvendar os mitos e os mistérios do Génesis. A razão
estava séculos à frente da Igreja naquilo que devia ter sido a sua principal área de
competência: as Escrituras. Em vez disso, no dizer de Voltaire, a Igreja alimentava os
filhos com «uma dieta de bolota».
No tempo de Pio X, os investigadores católicos estiveram sujeitos a uma terrível
perseguição. A sua causa imediata foi o entendimento de Pio daquilo a que ele chamava
“Modernismo”.
O ataque ao Modernismo
Precisamente como Pio IX publicou o seu Manual dos Erros contra todas as
tendências liberais, também Pio X, em 1907, escreveu Lamentabili, um ataque às
242
“inovações”. Foi particularmente duro para com a mais recente interpretação dos
dogmas e das Escrituras. Entre as afirmações que escolheu ao acaso de entre os
escritos de teólogos e exegetas a condenar estavam estas:
2. A interpretação da Igreja dos Livros Sagrados não deve de modo
nenhum ser rejeitada; contudo, está sujeita ao julgamento e
correcção mais exactos dos exegetas.
5. Como o sedimento da Fé contém apenas verdades reveladas, a
Igreja não tem o direito de julgar as afirmações da ciência.
12. Se o exegeta deseja aplicar-se utilmente aos estudos bíblicos,
tem primeiro de pôr de lado todas as opiniões preconcebidas
sobre a origem sobrenatural da Sagrada Escritura e interpretá-
la como qualquer outro documento humano.
16. As narrações de João não são propriamente história, mas
apenas uma contemplação mística do Evangelho. As
exposições contidas no Evangelho são meditações teológicas
que carecem de verdade histórica a respeito do mistério da
salvação.
13. Os exegetas heterodoxos exprimiram o verdadeiro sentido das
Escrituras mais fielmente do que os exegetas católicos.
22. Os dogmas que a Igreja sustenta como revelados não são
verdades que caíram do céu. São interpretações de factos
religiosos que o espírito humano adquiriu com laborioso
esforço.
33. Todos os que não sejam levados por opiniões preconcebidas
podem ver prontamente que ou Jesus professou um erro a
respeito da imediata Vinda Messiânica, ou então a maior parte
da sua doutrina contida nos Evangelhos carece de autoridade.
53. A constituição orgânica da Igreja não é imutável. Tal como a
sociedade humana, a sociedade cristã está sujeita a perpétua
evolução.
Com algumas pequenas restrições, estas afirmações representariam hoje uma
expressão daquilo em que muitos investigadores crêem.
Lamentabili foi uma triste tentativa de reprimir todo o progresso como se se tratasse
de uma seita herética. Pio X deixa muitas vezes a impressão de estar a condenar a sua
própria fantasia. Muito daquilo que ele censura está deturpado e é duvidoso que alguma
vez alguém o tenha defendido. Ele tinha a tendência para meter no mesmo saco tudo
aquilo de que discordava, rotulando-o de «Modernismo, um compêndio de heresias» e
avisava os católicos de que não deviam meter-se nisso. Ele, Vigário de Cristo, é que os
guiaria para a segurança através dos pântanos do mundo moderno. Evidentemente que
tinha razão para preocupações. A Igreja, retrógrada há séculos, estava agora a ser
revelada como tal pela história, pela ciência, pela paleontologia, pela exegese. A Igreja
243
tinha de escolher entre aprender muito depressa ou enquistar. A Encíclica Pascendi que
em pouco tempo se seguiu à Lamentabili mostrou que Pio tinha optado por enquistar.
Aquela encíclica está infelizmente cheia da retórica negra das afirmações papais
desse período. Há inimigos da Cruz de Cristo, Protestantes no próprio seio da Igreja,
cujo objectivo é destruir a Igreja de Cristo e anular a sua obra. Estes cripto-Protestantes
querem reduzir Cristo ao estatuto de homem vulgar. Estes “Modernistas“, disse ele, não
crêem na revelação, nem em Deus, nem na Igreja como instituição divina. São uma
organização bem urdida; escondem-se em todas as áreas, na filosofia, na teologia, nos
estudos bíblicos, na política.
Nada disto era, nem sequer remotamente, plausível. É difícil acreditar que os
católicos, com explícitas convicções protestantes, se escondessem no seio da Igreja
com o único fim de a destruir espalhando a sua descrença.
O que estava realmente a acontecer era que o mundo estava a atingir a maioridade.
Estava a dar-se uma revolução no espírito do homem, que era uma extensão daquilo
que tinha acontecido no espírito de Galileu. A ciência começava a dar resposta às
questões que as gerações anteriores tinham deixado aos padres e às orações. Pio vivia
ainda mentalmente num mundo medieval onde Deus intervinha “lá de fora” ou “lá de
cima” por meio de milagres e afirmações feitas ao ouvido dos profetas e dos papas.
Acreditava, por exemplo, que só por olhar para um texto da Bíblia um papa, só por si,
sem qualquer competência especial nas Escrituras, podia interpretar o seu significado
para sempre. Pio representava a intemporalidade, o absolutismo de todas as doutrinas
num período da História em que se tornava cada vez mais claro que a relatividade
entrava em todos os juízos morais e expressões de fé. Os investigadores diziam que
tudo tinha de ser pensado de novo e em termos diferentes.
O homem não é uma criatura do absoluto, excepto na sua busca do Além; faz
necessariamente parte integrante de um mundo em mudança. Tudo está em mudança,
incluindo o seu entendimento de si próprio, de Deus e da revelação. O Velho
Testamento fornece exemplos disto. Gradualmente, um Deus judeu local com poderes
limitados e ainda mais limitado número de simpatizantes, transforma-se num Deus de
Exércitos até que por fim teve a percepção de que era o Deus da criação e da História.
O Novo Testamento também mostra que Jesus não é uma criatura de fora do mundo
que irrompeu nele, mas um ser humano que em certo sentido, tal como todos os seres
humanos, estava sempre presente. A revelação do Novo Testamento não é o dar e
receber das divinas afirmações mas uma gradual percepção do significado da vida e da
morte, e da ressurreição de Jesus, moldada pela pregação e ensinamentos numa
ferramenta pedagógica, em lugares diferentes e de acordo com as diversas
necessidades das diferentes comunidades, a grega e a judaica.
A historicidade do homem, que tanto excitou os investigadores do tempo, era um
anátema para Pio X. Este sente-a como uma ameaça para a Igreja e para a sua posição
dentro dela como Voz das verdades eternas.
Dois modernistas
A melhor forma de julgar um regime é talvez observar a maneira como esse
regimetrata os intelectuais. No tempo de Pio X os intelectuais católicos foram tratados
com muita severidade.
George Tyrrel foi um deles. Nascido em Dublin em 1861, foi educado na Igreja da
Irlanda, mas aos dezoito anos foi para Inglaterra onde se tornou católico e jesuíta. Era
um belo escritor e parecia estar destinado a integrar a elite da Congregação. Isto até
244
chegar à conclusão de que S.Tomás de Aquino não dava resposta a todas as perguntas
que o homem moderno estava a pôr. Era absurdo pensar que se Aquino tivesse podido
ler Galileu, Newton e Darwin não teria mudado uma única das suas ideias. Teria, pelo
contrário, alterado quase todas as linhas que escreveu. Contudo, Pio X na sua encíclica
sobre o sacerdócio, Pieni l’anima, de 1906, disse: «Deixe-se que o estudo da filosofia,
da teologia e outros relacionados, especialmente a Sagrada Escritura, continuem no
espírito dos documentos papais e de S.Tomás de Aquino».
Sentindo-se ameaçado, Tyrrel escreveu alguns livros sob vários pseudónimos: A. R.
Waller, Hilaire Bourdon, Dr.Ernest Engels. Foi descoberto e demitido da Congregação no
primeiro dia de Janeiro de 1906. Foi proibido de celebrar missa, embora nunca tenha
sido formalmente acusado de heresia.
O Arcebispo Mercier Malines estava pronto a recebê-lo na sua diocese. Mas o
Cardeal Ferrata, Prefeito da Sagrada Congregação dos Bispos e Clero Regular, pôs
condições prévias muito rigorosas. O famoso Tyrrel, de quarenta e cinco anos, devia
«garantir formalmente que não publicaria nada sobre questões religiosas, nem manteria
correspondência sem o acordo prévio de pessoa competente nomeada pelo arcebispo».
Tyrrel não podia suportar a ideia de ter a sua correspondência censurada. Isto, disse
ele, é «o tratamento dado pelo Czar a um anarquista». Mas afinal, aos olhos da Igreja,
ele era de facto um anarquista aliado a outros anarquistas para minar as fundações da
Igreja.
Escreveu uma carta pessoal ao papa. «Nós temos o direito de buscar em Vossa
Santidade uma direcção tanto positiva como negativa; uma construção da verdade, mas
também uma destruição do erro». Nunca obteve resposta.
Quando Frei Tyrrel escreveu uma crítica à Encíclica Pascendo no último dia de
Setembro de 1907, proibiram-no de receber os sacramentos. Nessa altura já ele sofria
muito de enxaqueca e dos rins.
Sentiu-se tentado a voltar para a Igreja da sua infância, mas tinha sofrido muito pelo
Catolicismo e ansiava por ser útil aos seus irmãos católicos. Deixou-se ficar à fria porta
da Madre Igreja, na esperança de uma palavra de simpatia que nunca chegou.
No leito da morte, foi absolvido dos seus pecados, embora tivesse deixado claro que
não se retractaria. Isto foi na aldeia de Sorrington, à beira dos Downs do sul. Chamaram
o seu velho amigo Abade Bremond. Num momento de lucidez Tyrrel conseguiu falar
com ele. O abade absolveu-o uma vez mais dos seus pecados.
Apesar disto, proibiram-lhe uma missa de requiem. Não se tinha submetido à Santa
Sé. Recusaram-lhe o enterro num talhão católico e os amigos enterraram-no num
cemitério anglicano. No funeral, depois de algumas simples orações, o Abade Bremond
fez um magnífico elogio fúnebre que deve ter chegado aos ouvidos do Bispo de
Southwark, pois, três dias mais tarde, o Prior de Sorrington recebeu dele um telegrama:
«Não permiti que Bremond diga missa».
Mesmo antes do fim, Tyrrel tinha escrito a um amigo: «O meu próprio trabalho — que
considero acabado — foi levantar uma questão a que não consegui responder». Isto é
um bom epitáfio para um grande e santo padre para quem não havia espaço em Roma.
Outro padre vítima da perseguição papal foi o Abade Loisy. Aluno do grande
Monsenhor Louis Duchesne, depressa viu que aquela posição de Roma sobre as
Escrituras não era sustentável. Mesmo fingir-lhe lealdade era ruinoso para a consciência
cristã. Em 1903 publicou L’Evangile et l’Église. Pio X respondeu com uma censura
imediata. Em Março do ano seguinte, Loisy escreveu ao papa. Foi um acto de grande
humildade para um homem para quem a humildade não era fácil.
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A carta começava: «Santíssimo Padre, conheço bem a bondade do vosso coração e é
ao vosso coração que agora me dirijo».
Ofereceu-se para denunciar publicamente o seu recente livro, para renunciar ao seu
leitorado na École des Hautes Études e para suspender as publicações científicas que
tinha entre mãos.
Pio X não lhe respondeu. Em vez disso, escreveu ao conservador Cardeal Richard,
de Paris: «Recebi uma carta do Rev. Abade Loisy em que ele apela ao meu coração,
mas a carta não foi escrita com o coração». Insistia numa submissão absoluta e sem
restrições por parte do abade. Deve ser particularmente instado a «queimar o que
adorou e adorar o que queimou».
Quando esta informação foi transmitida a Loisy, este confessou que alguma coisa
tinha estalado dentro de si. Teria sido o último elo que o ligava à sua fé da infância?
«Naquela carta» escreveu ele, «estava a última gota que restava da minha alma
católica».
Pio X tinha apagado a chama e quebrado o elo já fendido.
Em Março de 1908, Pio X excomungou Loisy, apelidando-o de vitandus, a forma mais
severa de censura conhecida na lei canónica. Significava ela que os católicos ficam
proibidos, excepto em estrito caso de necessidade, de manter qualquer relação com ele,
não simplesmente dentro da igreja, mas também fora dela. Para Pio, o Abade Loisy
tinha deixado de existir.
Quando o Abade Bremond, amigo de Tyrrel e de Loisy foi feito membro da Académie
Française em 1924, disse no seu discurso: «Vivi sob quatro pontífices: Pio IX, Leão XIII,
Benedito XV e Pio XI». O que é que isto implicava? Que nem ele nem ninguém tinha
vivido sob o santo Pio X? Ou que para ele Pio X deixara de existir?
De que é que servia a Tyrrel ou a qualquer outra pessoa levantar uma questão, se Pio
X tinha as respostas todas na manga?
O rescaldo
Tyrrel e Loisy não foram as únicas vítimas. Pio X instigou uma tal purga de
investigadores que cinquenta anos depois da sua morte os seus efeitos ainda se fazem
sentir. Lagrange nas Escrituras e Duchesne na História foram obrigados a seguir a linha
papal, caso contrário seriam atirados para o monte dos descartados. Duchesne viu-se
obrigado a deixar a sua cadeira no Instituto Católico de Paris; o seu livro seminal sobre
as origens do Cristianismo foi posto no Index.
Foi imposta uma rigorosa censura prévia à publicação de todos os livros e revistas.
Os padres tinham de pedir autorização para escrever para ou nos jornais. Foi criado um
conselho de vigilância em todas as dioceses. Havia mesmo uma sociedade secreta,
patrocinada pelo papa, para contrabalançar as obras da alegada “sociedade secreta”
dos inimigos de Cristo. Nos seminários e universidades os professores eram
escrutinados e se lhes era descoberta qualquer falta de “lealdade“ eram substituídos.
Felizmente para o futuro da Igreja Católica, um padre que ficou sob suspeita era um
jovem italiano; recebeu ordem para se apresentar em Roma para exame como possível
“Modernista”. Chamava-se Angelo Roncalli, o futuro João XXIII.
Pio X elaborou um voto anti-modernista que todos os padres e professores eram
obrigados a jurar. Nem a Inquisição nos seus melhores dias foi mais eficiente a extirpar
todo o sinal de dissidência. Para muitos católicos leais ainda hoje, Pio X salvou a Igreja.
246
Para outros, este santo e trágico papa apenas a “salvou“ de influenciar, acelerando-o, o
progresso da espécie humana.
Diz-se que cerca de 1910 o Modernismo estava morto. É mais certo dizer que, tal
como Pio o entendeu, nunca esteve vivo. No entanto, entre as afirmações que condenou
havia elementos fadados a perseguir a Igreja Romana durante gerações futuras.
Os problemas que confrontam a Igreja em todos os campos não podiam ser adiados
para sempre. O Catolicismo andava a reboque do mundo. Havia o perigo de que se
assim continuasse por tempo demais, intelectualmente falando, a Igreja Católica se
tornasse motivo de troça.
Os dois papas seguintes, Benedito XV e Pio XI, foram intelectualmente pesos-leves.
Pouco fizeram para ajudar a Igreja a enfrentar o mundo moderno.
Pio XI foi um pontífice muito na tradição de Pio IX. Sobre o ecumenismo teve isto para
dizer:
Esta Sé Apostólica nunca permitiu aos seus súbditos que tomassem
parte em reuniões de não católicos. Só há uma maneira possível de
promover a unidade dos cristãos que é a de incrementar o regresso
à única Igreja verdadeira daqueles que dela se separaram.
Pio XII foi, em comparação com Pio XI, um intelectual gigantesco. Tem-se dito que
poucos foram os avanços feitos no Vaticano II que não foram de alguma forma
esboçados na sua obra. Mas poucos pontífices neste século exemplificaram melhor do
que ele o absolutismo do papado. A impressão que deixava era que ele e só ele tinha a
solução para todos os problemas. Como Igreja, o Catolicismo estava a ficar cada vez
mais longe das descobertas da ciência e das aspirações do homem moderno.
Quando Pio XII morreu em 1958, o mundo católico chorou o desaparecimento de um
grande homem cujo lugar parecia não haver no horizonte ninguém capaz de preencher.
Nesse momento negro, deu-se um milagre.
Terceira Parte
O Amor
«Nunca o diabo prejudicou tanto a Igreja como quando a própria
Igreja adoptou o voto do celibato»
Peter Comestor, no Século XII
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249
15
O Papa que Amava o Mundo
Mas a aparência das coisas não era de facto a de um milagre quando, em 1958,
Angelo Roncalli se encaminhou vagarosamente para a varanda da Basílica de S.Pedro
para dar a sua bênção Urbi et Orbi, à Cidade e ao Mundo. O novo papa mais parecia
uma bondosa avó italiana do que o Sumo Pontífice.
Pio XII acostumara os católicos a uma presença majestática e reveladora de uma fina
inteligência. Roncalli, como se veria, era um papa de transição, um velho que
asseguraria o lugar durante uns anos até os cardeais poderem decidir quem, na
próxima ronda, substituiria o insubstituível. Seria provavelmente Montini, de Milão,
outrora confidente de Pio. Se Montini fosse já cardeal quando o conclave de 1958
começou talvez tivesse sido ele a suceder-lhe logo nessa altura.
E qual o nome deste afável velho? João XXIII. Já não havia um papa João há mais
de quinhentos anos. Antes disso, este fora claramente o nome mais popular para os
pontífices. Afinal, era o nome do bem-amado Discípulo Baptista. Os mais cultos no meio
daquela multidão na Praça de S.Pedro sabiam que já tinha havido um Papa João XXIII.
E foi este, de facto, o responsável pela maldição que caiu sobre esse nome. Foi deposto
pelo Concílio de Constança em 1415. Ficou sepultado num túmulo desenhado por
Donatello no baptistério octogonal da Catedral de Florença. A sua efígie de pedra
sustenta a inscrição “Aqui jaz o corpo de Baldassare Cossa, João XXIII, que foi papa”.
Naquele ambiente tenso próprio da eleição, nenhum papa desde Cossa se arriscou a
assumir o nome de João. Porquê começar um pontificado com um sopro de polémica?
Roncalli viria a explicar que, tanto quanto sabia, os Joãos não tinham vivido muito
tempo, e ele já estava quase nos oitenta. A situação era ainda mais estranha do que
aquilo que o próprio Roncalli provavelmente sabia. Além de Cossa (“João XXIII”), houve
também o caso de João XVI (997-8) que foi um anti-papa. Mais: não há na lista nenhum
João XX. O papa que podia ter tomado esse nome em 1276 chamou-se João XXI
porque estava convencido de que tinha havido um papa extra no século IX. Este papa
“extra“ foi o Papa João (aliás, Papisa Joana)! Enquanto Roncalli intrigava muita gente
por não se intitular João XXIV, a verdade é que ele era de facto apenas João XXI.
Angelo Roncalli nasceu em 25 de Novembro de 1881 na aldeia de Sotto il Monte,
perto de Bérgamo, no norte da Itália. O pai, Giovanni Battista, era um pobre lavrador.
Angelo era o terceiro de treze filhos e o mais velho dos rapazes. A casa onde nasceu
tinha três divisões, contando com a cozinha, mas pouco depois de Angelo nascer a
família mudou-se para uma casa ligeiramente mais espaçosa.
Angelo foi baptizado no dia em que nasceu. O seu cuidadoso Tio Zaverio agasalhou-
o do frio gelado e da chuva que cegava e levou-o à pequena igreja de Santa Maria, em
Brusico. Foi ao principio da tarde. O pároco estava ausente em visitas e eles tiveram de
voltar mais tarde, nesse mesmo dia, já à noite. Por essa altura já Giovanni Battista tinha
mandado registar o recém-nascido. O atraso deveu-se à tenacidade da mulher,
Marianna, que também esteve presente.
250
As recordações de Angelo dos seus primeiros anos continuaram vivas até ao fim. A
casa estava sempre cheia, com os irmãos e as irmãs e os numerosos primos. Às vezes
a vida da família era feita da sobrevivência do dia a dia. Escreveu ele:
Na nossa mesa nunca havia pão, apenas polenta [feito de farinha de
milho]; nem vinho para as crianças e jovens; e raramente havia
carne; só no Natal e na Páscoa é que comíamos uma fatia de bolo
feito em casa. […] E contudo, quando um pedinte nos batia à porta
da cozinha, na altura em que as crianças esperavam
impacientemente pela malga de minestra [sopa de legumes], havia
sempre lugar para ele, e a minha mãe apressava-se a sentar o
desconhecido à nossa mesa.
Mas é claro que o pedinte não era de facto um desconhecido. Aos olhos de Marianna
Roncalli era o próprio Jesus. Aquela percepção transmitia-a ela a todos os filhos com
este simples gesto de caridade.
Aos dez anos, Angelo concluiu que tinha vocação para o sacerdócio. Isto
representava um grande sacrifício para a família, mas conseguiram-lhe um lugar no
Seminário Menor de Bérgamo. Por essa altura já ele tinha aprendido os rudimentos de
latim com o pároco local.
Em 1900, entrou para o Collegio Cesarola em Roma. Ordenado em 10 de Agosto de
1904, disse a primeira missa no Altar da Confissão da Basílica de S.Pedro. Depois de
obter o doutoramento em Teologia, foi nomeado secretário do liberal Bispo de Bérgamo,
lugar que exerceu durante nove anos, período em que também ensinou História da
Igreja no seminário.
Durante a Primeira Grande Guerra, serviu como assistente hospitalar. Por qualquer
razão nunca explicada deixou crescer um farfalhudo bigode preto. Talvez fosse apenas
uma experiência.
Em 1922, enquanto fazia investigação na Biblioteca de Milão, conheceu o director,
Monsenhor Achille Ratti, futuro Pio XI, que simpatizou com aquele padre impaciente, de
olhos afastados. Três anos mais tarde, em 19 de Março de 1925, Angelo Roncalli foi
nomeado bispo. Celebrou missa uma vez mais sobre o túmulo de S.Pedro. Já com
quarenta e quatro anos, entrou para o corpo diplomático da Igreja.
Aqueles que pensam que o Papa João era um homem inculto devem lembrar-se de
que, além do italiano, sua língua mãe, ele falava fluentemente latim, grego, francês e
búlgaro. Falava também um pouco de espanhol, turco e romeno. Lia em inglês, alemão
e russo. Teve uma carreira longa e distinta nos Balcãs antes de ser enviado para Paris
como núncio no fim da guerra. A sua missão era a de aí devolver à Igreja a
respeitabilidade abalada pelo seu pobre desempenho durante a ocupação nazi, quando
os bispos colaboraram com o inimigo. Fez um trabalho extraordinário de reconciliação.
Como decano do corpo diplomático, competia-lhe representá-lo nos actos oficiais. Os
seus discursos estão registados e revelam uma paz interior e uma tranquilidade
invulgares. A ideia que não se cansava de acentuar era a da liberdade e do respeito
pelos direitos de toda a gente. Numa alocução dirigida ao Presidente Auriol em 1947,
referiu-se ao Novo Testamento como a Magna Carta da civilização que nos fez grandes.
«Abençoados os humildes porque eles herdarão a terra; abençoados os pacificadores
porque serão chamados filhos de Deus».
Num outro discurso de Ano Novo dirigido ao Presidente falou de
liberdade, liberdade em todos os sectores da vida […]
251
Entre as recordações da minha infância ainda nutro especial
carinho por uma poderosa afirmação de Cícero que nós tínhamos de
aprender nas nossas primeiras lições de latim: é uma nobre
expressão de sabedoria romana: Legum servi sumus, ut liberi esse
possumus (Estamos sujeitos à lei para sermos livres).
Por esta altura — estávamos em 1947 — já ele dizia em cartas pessoais que, embora
estivesse bem de saúde, estava já «a ficar velho e mostro sinais da idade». Era
inequivocamente o Papa João tal como a história o recordará. Tudo nele era grande,
excepto a altura: os olhos, as orelhas, a boca, o nariz, o pescoço, o coração. Sobretudo
o coração. O rosto era como um puzzle de peças desirmanadas, o coração, uma das
obras primas de Deus.
Embora fosse um homem do mundo, nunca perdeu a visão de uma criança. A falar
com os jovens ficava no seu melhor. Num discurso dirigido a um Congresso de
Juventude, em Angers, em 1946, revelou a sua postura fundamental em relação à vida.
A vossa vida, jovens, está virada para o futuro. Peço-vos: não
percam tempo a culpar o presente ou a suspirar pelo passado, que
não tem interesse para vós, excepto na medida em que vos pode
oferecer úteis lições e avisos para que não repitam aqueles erros
que foram e ainda são fatais para os homens e para as nações.
Tal como uma criança, Angelo Roncalli estava inteiramente virado para o futuro. Foi
este dom inestimável que ele trouxe ao papado. Isto e a sua intrepidez absoluta. No seu
discurso final ao Presidente Auriol, após oito anos como decano, disse: «Se
mantivermos uma sólida fé, um invencível optimismo e o coração sensível aos apelos
sinceros à fraternidade humana e cristã, todos temos direito à coragem de esperar com
confiança a ajuda de Deus». Amor, amizade, optimismo eram virtudes que ele tinha em
abundância. E os seus colegas reconheciam isso, tal como os seus opositores, que se
recusavam a chamar-lhe inimigo. Roncalli ficava fora de tais categorias. No banquete de
despedida em sua honra, em Paris, Edouard Herriot, líder do Partido Radical, deu o seu
próprio testemunho. «Se todos os padres fossem como o Núncio Roncalli» disse ele,
«não restaria ninguém anti-clerical».
Era altura de tomar o seu novo lugar de Patriarca de Veneza. Numa cerimónia no
Palácio do Eliseu, o seu amigo Presidente Auriol insistiu no seu já antigo privilégio de
conferir o barrete vermelho a um homem que ele acabara por respeitar profundamente.
No seu discurso, Roncalli disse que iria ter sempre em Veneza uma lâmpada acesa
pelos seus amigos. Cuidado, disse em resposta o vice-decano, o General canadiano
Varrier. «Todos nós somos vossos amigos e quando formos a Veneza, a primeira coisa
que vamos procurar é a lâmpada acesa em frente da casa do Patriarca. Nós sabemos
que nos basta bater para que a porta logo se abra».
Depois de uma curta estadia em Roma para uma audiência com Pio XII, Roncalli
tomou conta do seu novo cargo em Veneza. A grandiosidade da recepção deixou-o
confundido. Foi uma semana triunfal, disse ele. E escreveu a um antigo colega de Paris:
«Oh! Quanto entusiasmo! Que entrada triunfal no cenário incomparável da Laguna, toda
enfeitada como se para uma festa». Tomou posse da catedral oitocentista de S.Marcos,
a que os turcos trouxeram os seus padrões depois da Batalha de Lepanto em 1571. A
esta grande diocese disse ele: «Sou filho de pais pobres. Mandou a Providência que eu
deixasse a minha casa e saísse para o mundo. […] Pensai no vosso arcebispo não
como um político, mas como um pastor». Era este o seu tema constante e invariável. O
252
seu papel não era senão o do Bom Pastor de Deus. «Envolvo num abraço de especial
protecção paternal as crianças, os pobres, os sofredores e os trabalhadores» disse ele.
Como patriarca, Roncalli teve uns bons anos de paz e satisfação. O seu optimismo
era contagioso. Parecia ter chegado ao topo de uma carreira admirável. De origem
camponesa como era, podia dizer como Homero na Odisseia: «Muitas cidades eu vi e
muitos homens». Tinha atrás de si dez anos em Sófia, Bulgária, e mais dez em
Istambul. Paris foi o seu último posto no estrangeiro. Estava pronto para dizer adeus a
um mundo que ele tinha feito os possíveis por servir. Voltava todos os anos à sua terra,
Sotto Il Monte, para recuperar energias, para se sentir ele mesmo entre os irmãos e
irmãs. Era uma família com tradição de longevidade. O pai morreu aos noventa e seis
anos e a mãe aos noventa e quatro. As fotografias da época mostram o patriarca com
os irmãos Giovanni, Zaverio, Alfredo e Giuseppe, todos de fato preto e sapatos a brilhar
e, à excepção de Angelo, todos com ar algo desconfortável. O rosto de Angelo, o único
gordo, apenas revela orgulho nos irmãos.
Tal como Giuseppe Sarto antes dele, Roncalli esperava naturalmente acabar os seus
dias em Veneza. Também ele se enganou.
Eram cinquenta e um os cardeais que iriam votar para a eleição do sucessor de Pio
XII. A primeira votação realizou-se em 26 de Outubro de 1958. Só à décima primeira
votação é que Roncalli foi eleito papa de transição, e foi o Cardeal Canali que o
apresentou à multidão de 300.000 pessoas que se encontravam na Praça de S.Pedro.
Não foi preciso muito tempo para se perceber que João XXIII era diferente de
qualquer outro papa. Era primeiro e antes de tudo um ser humano. Era um humilde
cristão. Era um católico católico. Era o papa do mundo. De facto, dele se podia dizer
que era o primeiro papa não italiano em muitos séculos. Não vigiava permanentemente
a situação na Itália, nem comprometeu a Igreja e o papado dando-lhe a prioridade. Os
seus ajudantes viriam a queixar-se amargamente de que conquistou muitos votos para
os comunistas nas eleições nacionais. Tinha até dado uma entrevista ao genro de
Khrushchev, editor do Izvestia, num momento extremamente delicado da política
italiana. Tornou-se assim o primeiro papa a ser atacado pela imprensa da direita do seu
próprio país. A verdade é que a sua preocupação primeira não era salvar a Itália do
Comunismo; a sua prioridade era levar o Evangelho de Cristo a toda a humanidade e
sobretudo à Igreja.
Enquanto que os seus antecessores tinham admoestado o mundo, o tinham
denunciado, avisado, condenado, João XXIII amava-o, encorajava-o, sorria-lhe como
um anjo.
De Giotto, o artista do século XIII, dizia-se que «tinha esculpido com tinta». Tinha
dado na tela perspectivas inteiramente novas de tal modo que parecia que um novo
mundo tinha «irrompido», um mundo novo que viria a tornar-se o Renascimento. João
era o grande artista do Espírito. Deu ao Catolicismo uma nova dimensão utilizando
velhos materiais, e é esta a razão por que os homens, mesmo homens da astúcia do
cardeal Heenan de Westminster, não tiveram a percepção da sua originalidade. Heenan
dizia repetidamente: «Já conheço o homem. É simplesmente um católico antiquado do
tipo Jardim das Almas». Sua Eminência não era o único a mostrar-se cego à verdadeira
grandeza deste homem extraordinário que humanizou o rosto da Igreja Romana. Com
João começava — pelo menos assim parecia — o Renascimento do próprio papado.
Por via do mais absoluto dos cargos absolutos, ele estava a par do mundo inteiro,
porque nunca perdeu o Evangelho de vista. Provou que era de facto possível ser santo
e ao mesmo tempo bom no desempenho da sua função.
253
Corriam inúmeras estórias a seu respeito. Mas a verdade era ainda melhor do que
muitas das lendas. No dia de Santo Estêvão de 1958, trocou o Vaticano pela Prisão de
Regina Coeli. «Como vós não podeis vir ter comigo» disse aos presos «venho eu ter
convosco». Uma criança escreveu-lhe a dizer que não conseguia decidir-se sobre se
queria ser papa ou polícia. João respondeu-lhe: «Para ti deve ser mais seguro treinares-
te para polícia. Papa, qualquer pessoa pode ser, como estás a ver pelo meu caso». Não
punha especiais cuidados a preparar os seus passeios nos jardins, e os visitantes da
Cúpula da Basílica viam recusadas as visitas à última hora com a alegação de que o
papa andava a apanhar ar nos jardins, ficando à vista de quem se encontrasse na
abóbada.
— Mas qual é o problema? — perguntou João a um desolado funcionário da Basílica.
— Eles vêem Vossa Santidade.
— E então? — perguntou o Papa João genuinamente intrigado — Eu não estou a
fazer nada de mal, pois não?
Um dia, Monsenhor Helm, o seu ex-secretário suíço em Paris, trouxe-lhe o desenho
de um novo brasão que tinha feito para Sua Santidade. Ostentava um Leão de
S.Marcos de ar feroz e garras estendidas. João observou-o por momentos. «Não acha»
perguntou bondosamente «que ele é feroz demais para mim?» Olhou-o outra vez. «Um
tanto germânico?» E acrescentou a sorrir: «Esse estaria bem para Gregório VII, não lhe
parece? Não poderia torná-lo… mais humano?»
Helm levou outra vez o desenho e voltou com um leão veneziano que, disse o Papa
João numa audiência em Abril de 1963, «não metia medo a ninguém».
Há uma fotografia que retrata o papa João na perfeição. Está a falar com uma criança
de vestido branco de comunhão que condiz com a sua própria sotaina. Estão com as
cabeças muito juntas e absorvidos um com o outro. Ele sabia que a pequenina estava a
morrer de leucemia; ele próprio viria a morrer em breve de cancro. O papa olha esta
criança com profundo respeito, numa veneração de rara beleza. É como se o pontífice
estivesse a olhar o rosto de Deus.
O mundo estava a gostar do que via. João dava a primazia ao amor e tinha um
sentido paternal que até os Protestantes invejavam. Nada era impossível com um tal ser
humano no trono papal. Já se falava da mudança da maré da Reforma. Os Ortodoxos,
acerbos críticos do absolutismo papal, não punham objecções à primazia de Roma ao
amor apostólico e estava ali um homem que o encarnava na perfeição. Os tempos dos
hinos fúnebres do Vaticano já tinham acabado; a música que emanava de Roma era
mais como a Sagração da Primavera de Stravinsky.
Em que é que João XXIII é diferente de Pio X? Ambos eram de origem camponesa.
Ambos eram profundamente santos e generosos, homens de Deus com uma vida
privada sem mácula. Foram diferentes na maneira como pensaram o papado e,
portanto, o seu papel como pontífices.
Pio X, homem de enorme humildade, exigia para si, como papa, uma obediência
cega, uma submissão até servil, que ele nunca pensaria exigir para si, Giuseppe Sarto.
Já no tempo em que era bispo, e mais tarde como Patriarca de Veneza, sentia a
obrigação de afirmar a sua autoridade como representante do papa e de Cristo. É claro
que nunca esqueceu a desconsideração que recebeu do Município de Veneza quando
tomou posse da sua diocese. Aquilo era uma afronta não a ele, mas a Cristo, na sua
pessoa. Pio X era hostil por igual a qualquer pessoa que ele considerasse inimiga do
Evangelho de Cristo, daí o tratamento severo dos “Modernistas” como Tyrrel e Loisy.
João XXIII era globalmente mais desprendido. Não tinha medos de espécie
nenhuma, excepto o de não agir como Cristo agiria. Não havia nele qualquer divórcio
254
entre o ser um simples cristão e o ser papa. E também não pensava, como Pio X, que
como papa tinha de resolver todos os problemas do mundo. Não era nenhum
extraterrestre, nem nenhum Supremo Teólogo. Não era nada mais do que um Bom
Pastor. As suas palavras sobre isto, logo a seguir à eleição, são talvez as mais notáveis
da sua carreira.
Alguns esperam que o Papa seja estadista, diplomata, erudito,
administrador — um homem que compreende todas as formas de
progresso humano sem excepção. Mas esses enganam-se
redondamente, porque interpretam erradamente a verdadeira função
do papado. Para Nós, a função do Papa é a de ser um Pastor para
todo o seu Rebanho.
Isto explica a razão por que João não tinha a habitual frieza magistral dos pontífices.
E também a razão por que não precisava de lembrar à Igreja a sua autoridade; ele tinha
a maior e mais significativa autoridade, a do amor e do serviço. A sua bênção abraçava
todo o mundo e não apenas os católicos. Era simplesmente o pai da humanidade. Para
ser um bom papa, pensava ele, não era preciso perseguir ninguém, nem atemorizar os
teólogos, nem emitir terríveis avisos sobre o futuro ou fazer leis cada vez mais severas;
o que era preciso era simplesmente ser bom cristão. E confiar em toda a gente era uma
parte disso mesmo. Não precisava de fazer tudo sozinho. Afastava-se completamente
da ideia que Pio X tinha do papado e que era a mesma que tinham Pio IX, Inocêncio III
e Gregório VII. Esta a razão por que um “ancião dos anciãos” teve a coragem de
convocar um concílio. Depois de muita ponderação e oração, anunciou a sua decisão a
dezoito cardeais numa cerimónia em S.Paulo Fora de Muros em 25 de Janeiro de 1959.
Estes ficaram completamente espantados. Ele era um papa de transição - por que é que
agia daquela maneira? João pediu-lhes a opinião. Mas eles não tinham nenhuma. Mais
tarde confessou por escrito: «Humanamente falando, Nós estávamos à espera que os
cardeais, depois de ouvir a nossa comunicação, nos rodeassem para manifestar a sua
aprovação e os seus bons votos. […] Em vez disso, seguiu-se um silêncio impressivo e
devoto».
Por que é que eles haviam de mostrar entusiasmo? O único concílio em mais de
quatrocentos anos tinha proclamado a infalibilidade do papa. Para que é que o papa
João precisava de um concílio?
A inspiração de convocar um concílio distinguiu João como qualquer coisa muito
especial. Era o primeiro pontífice a convocar um concílio sem que houvesse sobre ele
qualquer pressão nesse sentido. A Igreja não estava em estado de revolta; não havia
questões dogmáticas importantes. Ele avançou com a ideia porque acreditava que um
concílio seria bom para a Igreja e para o mundo. Queria que a Igreja «se actualizasse»,
o aggiornamento, e abrisse os braços aos irmãos separados. Simbolicamente, ele
escancarou as janelas daquele último dos guetos, o Vaticano, para deixar sair o bafio e
entrar o ar fresco. Não admira que a Cúria fizesse os possíveis por dissuadi-lo.
Uma coisa daquelas levaria vinte anos a preparar, diziam-lhe. Estas coisas não
devem ser feitas apressadamente. E depois, a organização precisava de trazer 2.500
bispos dos quatro cantos do mundo e instalá-los satisfatoriamente! E as despesas? E
por que não um sínodo em Roma, Santidade, para, por assim dizer, preparar o terreno?
João ficou entusiasmado com a ideia do sínodo, mas optou por um concílio também.
O Sínodo, com os seus limitados objectivos, foi um sucesso. Os seus ajudantes
disseram-lhe que não foi legislativamente satisfatório. João sabia que isto queria dizer
que eles só ficariam satisfeitos com leis e castigos. Ele não queria nada disso. O tempo
255
das condenações já tinha passado há muito. A própria Igreja é que precisava da
compaixão de Cristo. Daquela compaixão que ele estendeu aos padres que tinham
abandonado o seu ministério. Até a lei italiana era injusta para com eles, vedando-lhes
muitos empregos por causa da Concordata de 1929. Pediu aos padres que saudassem
os seus ex-colegas com o amor de Cristo e, quando necessário, com uns poucos
milhares de liras.
Começa o Concílio
O Papa João tinha oitenta e um anos de idade quando numa bela manhã de Outubro
de 1962 foi transportado na sua sedia gestatoria para o interior da Basílica de S.Pedro.
Tinha o rosto molhado das lágrimas.
Nunca o papado tinha gozado de tão alta estima pública. Se todos os papas fossem
como ele, dizia-se, toda a gente se poria em bicha para se tornar católica. Ele
personificou a frase de Horácio: «Nada impede uma pessoa de dizer a verdade com um
sorriso nos lábios». O Concílio mostrou que mesmo um papa estava pronto a ouvir e
aprender.
No seu discurso de abertura deixou claro que a Igreja não dará ouvidos aos profetas
da desgraça. A Igreja tinha de actualizar-se radicalmente e sem medo. A Guerra Fria
das igrejas, pelo que dizia respeito a Roma, estava acabada. Não haveria anátemas;
haveria sim um regresso ao Evangelho do Mestre, Jesus Cristo. A presença de
observadores não católicos no auditório era sinal de mudança do espírito da Igreja.
João já imaginava que seria difícil para os bispos falar de banalidades na presença de
visitantes ilustres de ambos os sexos. Alguns dos seus ajudantes já murmuravam
«Communicatio in Sacris», o que significava que o papa andava a manter relações
proibidas com hereges.
Alguns dos prelados ali reunidos não aceitavam facilmente a ideia de renovação. Os
Cardeais Spellman, de Nova Iorque, McIntyre, de Los Angeles, e Godfrey, de
Westminster, não viam necessidade de tal coisa. O Catolicismo andava na crista da
onda. Todos os dias se acabavam escolas e igrejas que desde o primeiro dia se
enchiam a deitar por fora. Multidões de convertidos vinham procurar nele refúgio para a
permissividade da vida moderna. O que era preciso era mais do mesmo e não coisas
novas ainda não experimentadas. E que distinção era aquela entre as antigas verdades
e a sua expressão? Não era a verdade inseparável da sua expressão? A força da Igreja
não residia exactamente no facto de as antigas expressões serem sempre válidas,
estabelecendo assim um relação de continuidade entre os dias de hoje e todos os
outros dias da longa marcha da Igreja através da história?
A Cúria estava impregnada deste espírito reaccionário. Os esboços dos documentos
do Concílio foram feitos por mãos da Cúria. Era uma linguagem legalista e de confronto,
na tradição da Contra-Reforma. Conta uma estória bem fundamentada que o Papa João
recebeu um padre, um velho amigo seu, no Vaticano. Este sugeria uma régua
imaginária para a última oblação da Cúria. «Olha, dez centímetros de ordens e vinte de
condenações». Na primeira reunião da mais importante das comissões do Concílio
sobre doutrina, os da velha guarda, liderados pelo Cardeal Ottaviani, um homem de
pescoço tourino, prefeito do Santo Ofício, falaram à vez durante quase duas horas.
Explicaram aos membros eleitos a razão por que nada devia ser alterado nos
documentos preparatórios. Era “imperativo” opor firme resistência às «tendências
heréticas». De acordo com o testemunho do Padre Bernard Häring, teólogo moral que
256
estava presente, o Cardeal Léger, de Montreal, por fim, já não aguentou mais. «Se a
vossa postura é a de que vós sois ortodoxos e todos os outros são heréticos», disse ele,
«tereis de fazer o trabalho sozinhos. Adeus».
A primeira derrota da velha guarda ficou a dever-se à coragem de dois cardeais,
Frings, de Colónia, e Liénart, de Lille, que na primeira sessão aberta levantaram
objecções à constituição das comissões, todas de nomeação curial. A sua revolta foi
apoiada pela maioria do Concílio. A assistir por circuito fechado de televisão, João deve
ter posto aquele sorriso de Mona Lisa em sinal de aprovação. Já tinham aprendido uma
lição importante. A Cúria, que durante tanto tempo tinha dominado a doutrina e a
política, começava a não representar a Igreja. Foi prudente o Concílio de Constança ao
exigir frequentes concílios para informar, doutrinar e guiar a Igreja, exigência que foi
contrariada por papas e cúrias ao longo dos tempos. A burocracia czarista e
centralizada de Roma opunha-se à catolicidade da Igreja. Muitos dos presentes no
Vaticano II só agora começavam a perceber isto. Mas o papa teve outro gesto que
provocou uma espécie de pânico nas fileiras da Cúria. Criou um pequeno grupo ou
comissão encarregada de o aconselhar a ele e ao Concílio sobre o controle da
natalidade. Porque é que ele está a fazer isto? — era a pergunta mais ouvida das bocas
da Cúria. O espírito da Igreja era claro: todos os actos de contracepção são pecados
mortais. Nenhuma circunstância, por muito pungente que seja, pode tornar boa e moral
uma coisa que, na sua essência, é má. Todos concordavam que é aí que tudo começa
e acaba. Está errado, está sempre errado, penosamente errado. Pio XI dissera isto
mesmo em 1930 na Casti connubii, reforçando séculos de uma firme tradição católica.
O que é que João XXIII pretendia? Os críticos do papa ficaram ainda mais indignados
quando lhes constou que a maioria dos membros da comissão era constituída por
leigos. O que é que eles sabiam sobre o controle da natalidade? Aquilo era uma
questão estritamente teológica, e os teólogos não andavam de modo nenhum confusos.
Os especialistas leigos podiam informar Sua Santidade sobre o crescimento
demográfico, as atitudes de governos hostis, etc.. Mas devia ter ficado bem claro desde
o início que não havia a mínima possibilidade de mudança. Era a eterna lei de Deus.
Mal o Concílio começou, logo um homem emergiu como figura profética. De oitenta e
quatro anos, era um homem venerável. Tinha os dias contados; viria de facto a morrer
pouco depois de o Concílio terminar. Distinguia-se da maioria dos outros prelados até
pelo vestuário, porque era um patriarca oriental. Maximos IV Saigh, de Antióquia, na sua
comprida túnica escura e chapéu redondo, com uma grande barba grisalha, não temia
ninguém, a não ser o seu Senhor. Pertencia aos Melchites, a Igreja Católica grega de
Antióquia, que se submeteu à Santa Sé no início do século XVIII. O seu clero menor
podia casar antes da ordenação. Esta Igreja tem membros na Síria, no Egipto e na
Galileia, bem como comunidades espalhadas pelos Estados Unidos da América.
O Papa João deve ter ficado grudado à televisão no dia 28 de Outubro quando o
patriarca espantou toda a gente ao falar não em latim mas em francês. O moderador
daquele dia era o Cardeal Spellman, que em 1932 tinha terminado uma comissão em
Roma. Foi o primeiro americano a estar oficialmente ligado à Secretaria de Estado.
Spellman foi apanhado de surpresa e perdeu o desafio logo na abertura da intervenção
de Maximos: «Abençoados». O Papa João deve-se ter rido com isto. Maximos ia
primeiro, como pensava que devia ser, prestar homenagem aos seus colegas
patriarcas. Na sua ideia, os cardeais eram uma categoria inferior do clero que se tinha
tornado proeminente muito tardiamente. Noutros tempos os patriarcas vinham logo a
seguir ao papa em importância; tinham tomado parte nos primeiros concílios da Igreja
ainda não dividida. Onde é que estavam os cardeais em Niceia? Mesmo o Quarto
257
Concílio de Latrão em 1215 tinha observado a primazia dos patriarcas, e não era
verdade que Maximos era patriarca da primeira sé estabelecida pelo próprio Pedro?
Mas porquê o francês? Foi a sua maneira de acentuar que o latim não é a língua da
igreja que ele representava. Essa a razão por que optou por falar numa língua mais
católica. Através do uso do francês, Maximos fez um ataque velado ao estreito
pensamento curialista que tinha organizado o Concílio. Continuou, criticando um
documento preparatório por tratar as prerrogativas do chefe da Igreja «tão isoladamente
que o resto do corpo, em comparação, parecia um anão». Como não latino, protestou
contra a tentativa de Roma de se impor ao seu povo.
Depois pôs a tónica nos esquemas delineados pela Cúria. Demasiado legalistas, sem
relação com a vida. A actual apresentação da fé estava completamente errada. A Idade
Média já passou; o homem cresceu. Era inútil impor as leis sem explicar a sua razão de
ser.
E o patriarca continuou lembrando que a doutrina moral católica precisava de ser
actualizada dos pés à cabeça.
Vejamos o catecismo, por exemplo. Nós tornamos obrigatório para
os fiéis a abstinência às sextas-feiras e a assistência à missa ao
domingo, sob pena de cair em pecado mortal. Será isto razoável? E
quantos católicos é que acreditam nisto? E quanto aos descrentes,
esses apenas têm pena de nós.
Por muito simples que fossem, os comentários do patriarca tiveram um efeito
dramático nos padres. A maioria já suspeitava que os canonistas tinham reescrito o
Sermão da Montanha, retratando um Deus de olhos de Argo em relação aos pecados
dos homens. Pode imaginar-se realmente Jesus a dizer que é pecado mortal merecedor
do fogo eterno comer carne à sexta-feira ou faltar à missa aos domingos?
Todas as coisas, continuou Maximos, devem ser estabelecidas em nome do amor.
Não ordens, mas linhas de orientação sugeridas e inspiradas pelo amor. «Uma mãe não
gosta de castigar o filho com um cacete».
O Papa João, fluente em francês depois dos anos que esteve em Paris como núncio,
deve ter seguido esta intervenção, abanando vigorosamente a cabeça em aprovação.
Toda a gente sabia que as crianças católicas com mais de sete anos “a idade da razão”
eram doutrinadas à base do medo. Impunham-se aos pequeninos de Cristo regras
pormenorizadas com sanções que deixariam Cristo branco de ira. Era difícil encontrar o
amor naquele labirinto negro da lei. Nem a sagrada comunhão, a recepção de Cristo na
Eucaristia, escapava. Os católicos tinham de fazer jejum antes da comunhão. Mas
“comida e bebida” o que eram? Ter um bocado de caramelo na boca, restos da noite
anterior, era “comida”? Engolir um golo de água ao lavar os dentes era “bebida”? Como
se nunca tivessem lido a denúncia de Jesus dos chicaneiros que discutiam
interminavelmente a questão da lavagem dos copos e dos pratos, os moralistas
perguntavam solenemente: «Será que mastigar um fósforo ou engolir uma mosca
quebra o jejum antes da comunhão?»
Este péssimo tipo de casuística era aplicado a todos os pormenores da moralidade.
E isto paralisava a vida do espírito. Deus não aparecia como um Deus de amor que tinha
incarnado na vida, morte e ressurreição de Jesus, mas como um juiz legalista a tentar
apanhar as suas criaturas em falta e, quando elas não estavam conformes, a mandá-las,
ao mínimo deslize, para o inferno.
A ideia do inferno era muito mais forte do que a do Céu, lugar que parecia pouco
melhor do que um convento medieval. Não havia comida nem sexo. Não ficava muito
258
clara a razão por que precisávamos de um corpo ressuscitado. O que é que uma pessoa
fazia no Céu senão entregar-se a exercícios altamente intelectuais, contemplando sem
cessar a essência divina, como se a morte nos deixasse uma obsessão pela teologia?
Quanto mais se prolongava o Concílio, mais os conservadores se viam a travar uma
luta de retaguarda. Estavam a bater em retirada em todas as frentes. O Manual dos
Erros de Pio IX, a Lamentabili de Pio X estavam a ser postos de lado pelo Concílio como
se nunca tivessem sido escritos. Eles sabiam que João XXIII tinha cometido um erro. As
posições por eles consideradas como doutrina católica sagrada e irrevogável estavam a
ser alegremente abandonadas pela enorme maioria dos padres.
O Concílio estava a revelar-se como uma educação para a maioria dos bispos. As
ideias que eles tinham acalentado no segredo dos seus corações como talvez
idiossincráticas estavam a vir à tona e a conseguir aceitação. Esta lição era crucial:
longe de ser uma instituição imutável, a vocação da Igreja era mudar com os tempos em
mudança. A Igreja é tão amiga da tradição, dizia um bispo, que anda constantemente a
forjar novas tradições.
Mas uma preocupação havia que nas discussões em privado se mantinha à
superfície e por fim encontrou expressão nos documentos finais. Por causa do mito de
ensinar verdades eternas, o Concílio queria negar que estava a mudar no próprio
momento em que mudava para melhor. Falava-se de “evolução” ou “desenvolvimento“
da doutrina, o que em alguns casos era verdadeiro, mas noutros manifestamente falso.
A metáfora não explicava a mudança, apenas tornava obscuro o que estava realmente a
acontecer. Uma bolota evolui “miraculosamente” para carvalho e não para barco. Como
dizia um escritor católico: «A Igreja começou com o princípio da tolerância absoluta e
acabou no princípio da fogueira». Era isto o verdadeiro “desenvolvimento”? Da mesma
maneira, todos os pontífices do século XIX falavam da liberdade de culto como insana,
ateísta, um insulto a Deus. Será que era “evolução” o Concílio Vaticano II querer incluir a
liberdade de culto nos direitos do homem?
À parte isto, uma outra falha se revelaria num futuro próximo. Em vez de repensar a
constituição da Igreja por inteiro, os padres consideraram o Vaticano I como obra
acabada e fixa nos seus próprios acrescentos.
O Concílio Vaticano I tinha deixado o papa como praticamente o único Protestante
da Igreja Católica. O Vaticano II apenas acrescentou bonitas palavras sobre o magistério
episcopal. Na prática, o concílio anterior continuava em vigor. E era inevitável que,
acabado o Concílio, a Cúria tomasse as rédeas e fizesse com que tudo voltasse ao
estado anterior. Haveria uma promessa de um sínodo de bispos, mas este era apenas
um órgão consultivo.
Mas quando a primeira sessão do Concílio chegou ao fim, em 8 de Dezembro de
1962, ninguém, católico ou não católico, duvidava de que a Igreja Católica começava a
mudar-se como um todo para o século XX. No seu discurso de encerramento João fez
saber que não estava muito satisfeito com o ritmo do progresso. Instou os bispos a
continuarem com o aggiornamento, que, como em surdina dizia um cardeal da Cúria, era
aquilo que Pio IX tinha condenado na 80ª proposição do seu Manual.
Em Março de 1963, o Papa João recebeu o Prémio Balsan da Paz. Os quatro
soviéticos do comité foram obviamente instruídos por Khrushchev no sentido de votarem
nele. E ele foi uma vez mais criticado pelos membros da Cúria por apertar «mãos
manchadas de sangue». Além disso, o que é que um papa, Vigário de Cristo, anda a
fazer ao receber prémios de terceira categoria de comités seculares? O homem era um
cripto-comunista. Não admira que o Izvestia tivesse publicado integralmente o seu
discurso de abertura do Concílio.
259
Nessa mesma primavera de 1963, João publicou a Encíclica Pacem in Terris.
Saudava o progresso. Proclamava o direito de todos de «venerar Deus de acordo com
os ditames da sua consciência e de professar a sua religião tanto em privado como
publicamente». Aqui estava um pontífice que não andava constantemente a olhar por
cima do ombro. Como escreveu E. E. Hales em Pope John and his Revolution:
A posição do Papa João em relação aos justos ditames da
consciência do homem representa um claro avanço nos
ensinamentos dos seus antecessores oitocentistas que envolve
mesmo um repúdio de muito do que eles ensinaram, e era bom que
este simples facto fosse abertamente reconhecido.
Na altura da publicação da Pacem in Terris, João já mostrava sintomas de doença
fatal. Em fins de Maio, começou a sofrer de hemorragias internas e depois contraiu uma
peritonite. Deram-lhe a Extrema Unção.
Antes do fim, chegaram três dos seus irmãos e a irmã Assunta. Estes apenas o viam
como o seu querido irmão, não como papa ou santo. Com a sua presença, João sentia-
se em casa.
Sofreu muito, mas com um coração cheio de satisfação pela sua Igreja,
especialmente pelo seu Concílio, e pelo mundo que ele tinha olhado com um amor sem
paralelo.
O dia 3 de Junho foi uma segunda-feira, um dia cheio de um sol brilhante.
Celebraram uma missa por ele na Praça de S.Pedro. Mais tarde, pouco antes das oito
horas da noite, morreu. Na grande praça estava uma multidão de dez mil pessoas de
joelhos, nas sombras. Abriram-se as cortinas do quarto e apareceu uma luz crua;
ficaram a saber que o seu querido papa tinha ido ter com Deus.
A imagem que tinha de si próprio era a de alguém que queria a paz a qualquer
preço. Via-se realmente como um cobarde receoso de correr riscos. Terminara um breve
interlúdio encantado. Quando apareceu pela primeira vez à varanda de S.Pedro, foi
saudado com algum desalento; a sua morte deixou no mundo um hiato que mais
ninguém podia preencher. Tinha tornado a santidade e a bondade atraentes; tinha
tornado a Igreja Romana verdadeiramente católica. Dera ao Catolicismo um novo
espírito e um novo coração.
Mas o trabalho apenas tinha começado. O Concílio não tinha ainda aprovado um
único documento. Quem seria o seu sucessor e como é que iria agir?
O conclave reuniu, na sua primeira sessão, na Capela Sistina em 17 de Junho.
Como se previa, escolheram Montini, de Milão, que tomou o nome de Paulo VI.
260
261
16
O Novo Caso Galileu
Giovanni Battista Montini nasceu em 26 de Setembro de 1897 na cidade de Brescia,
no norte de Itália. Educado em casa, tal como Pio XII, foi ordenado em 1920. Dois anos
mais tarde foi mandado para a Secretaria de Estado do Vaticano, onde serviu sob dois
pontífices autoritários, Pio XI e Pio XII. Em 1954 Pio XII exilou-o em Milão como
Arcebispo da cidade, talvez por causa das suas simpatias por certos elementos da
esquerda do movimento laico. Pio XII nunca o elevou a cardeal.
Logo que sucedeu a Pio XII, João XXIII promoveu Montini para o Sacro Colégio,
pondo-o no topo da lista. Quando o Concílio Vaticano II começou, Montini foi o único
prelado observador que foi instalado no Palácio do Vaticano. Parece que, embora
descrevesse Montini como “Amletico”, uma figura hamletiana, incapaz de tomar
decisões, João XXIII percebeu, contudo, que ele seria provavelmente o seu sucessor.
O cinzento Paulo VI era de estatura mediana e constituição frágil, rosto pálido e olhos
azulados de nortenho — olhos que, à medida que os anos passavam e a ansiedade
crescia, se começaram a tornar turvos de dor.
Uma das suas prioridades foi alargar a comissão para o controle da natalidade. Em
1964 já era constituída por mais de sessenta elementos, um terço dos quais eram
padres e os restantes, leigos. Seria mais tarde alargada a dezasseis cardeais e bispos.
Para consternação da Cúria, Paulo não fez sair os leigos. Seria que ele ia seguir os
passos de João XXIII? Para os cardeais da Cúria a única consolação era que o grosso
dos teólogos que ele escolheu eram ultra-conservadores. O horror instalou-se quando
os três teólogos liberais começaram a fazer “convertidos”. Discutiram-se livremente
novas soluções, abandonaram-se velhas posições. Num espaço de tempo
espantosamente curto todos os leigos ficaram convencidos — e isto era crucial - de que
não havia nenhuma diferença moral entre o método de determinação dos períodos
seguros pelas temperaturas e, digamos, um preservativo. O facto de um casal ter
relações de maneira a evitar que o sémen e o óvulo se encontrassem era, segundo os
princípios tradicionais, um pecado grave. Revelava uma intenção deliberada de exprimir
o amor apenas pelo amor e de ter prazer só pelo prazer. Antes de Pio XII, isto era
considerado uma forma de masturbação mútua. Ao permitir que se usasse o período
seguro como método de controle da natalidade, Pio XII abandonou implicitamente a
ideia da procriação como objectivo único de todos e cada um dos actos sexuais.
Admitindo que a doutrina em vigor era uma embrulhada, a opção tinha certamente de
ser esta: ou condenar simultaneamente a contracepção e o período infértil, aquela como
barreira espacial e este como barreira temporal, ou permitir ambos.
Mais surpreendente do que a conversão dos leigos foi o facto de quatro quintos dos
teólogos da comissão terem ficado convencidos. Longe de ser impossível, eles
consideraram mesmo que a mudança era imperativa. Todas as áreas da investigação
— a teologia, a história, a demografia — lhes apontavam um único caminho: uma
mudança radical. Quando os rumores destas tendências começaram a circular pelo
Vaticano, o desânimo e o desespero instalaram-se na velha guarda e envolveram Sua
Santidade. Este fez saber que ia retirar ao Concílio a competência para tratar a questão
262
da contracepção. Era uma questão demasiado controversa para ser tratada perante o
mundo e demasiado dolorosa para ser debatida na presença de não católicos. Ele
próprio tomaria em mãos as conclusões da Comissão, reflectiria sobre elas e teria a
última palavra.
Foi uma decisão surpreendente vista à luz de tudo aquilo que o Concílio tinha
aprendido com o Papa João XXIII em relação à honestidade e transparência; de como
aprendemos uns com os outros; de como a Igreja deve ser um collegium de amor e
fraternidade.
Foi este o pecado original do Concílio. Dele derivaram todos os males que viriam a
afligir a Igreja Católica nos anos seguintes. Já nessa altura, alguns dos prelados tiveram
o discernimento bastante para ver que o Concílio Vaticano II já tinha regressado à
postura básica do Vaticano I. O papa era o único bispo de toda a Cristandade; os
restantes eram, quando muito, apenas seus funcionários.
Assim, e uma vez mais, a Igreja Católica adoptou a atitude pós-1870 do “il Papa é
que sabe”. O Catolicismo, com um concílio exactamente em meio das suas
deliberações, teria de ficar à espera — com esperança? com apreensão? — que o papa
lhe dissesse o que pensar. Era uma coisa tão absurda como Niceia ou Constança se
terem realizado para discutir a divindade de Cristo e, com todos os bispos reunidos, lhes
dissessem que o Papa ia resolver a questão sozinho.
O Padre F. X. Murphy, antes mesmo de Paulo divulgar a sua decisão em 1968,
escreveu:
A falta de envolvimento explícito da hierarquia na discussão [sobre a
contracepção] é pouco menos que criminosa. Deixar o fardo apenas
nas mãos do Papa não parece correcto nem conveniente, nas
presentes circunstâncias.
Os bispos cederam. Aceitaram a opinião do papa e da Cúria de que, mesmo no caso
de as exigências sobre a contracepção serem rejeitadas pelo Concílio, o mundo poderia
ver que um grande número de bispos estava a favor dela. E isso seria mau para a
imagem do Catolicismo.
Paulo considerava-se superior a um concílio. Era prerrogativa sua agir da maneira
que achasse melhor. Proibiu os bispos, que tinham vindo de todos os cantos do mundo
para repartir a sua sabedoria colectiva, de exprimir as suas convicções e as dos seus
rebanhos. Os bispos mais progressistas, já conhecedores, possivelmente, da tendência
dentro da comissão da contracepção, pensaram que o papa não teria outro remédio
senão ceder. À luz da História, isto foi um erro enorme pelo qual devem ser
responsabilizados. A falta de contestação da sua parte deve enfileirar com a dos bispos
dissidentes no Concílio Vaticano I na votação da infalibilidade papal, mesmo quando as
suas consciências lhes diziam o contrário. Mas alguns bispos disseram mesmo aquilo
que pensavam, permitindo assim que o mundo vislumbrasse o que poderia ter
acontecido, não tivesse o papa vetado a discussão livre.
Uma revolta menor
Os dois dias mais explosivos do Concílio foram 29 e 30 de Outubro de 1964.
Estavam os padres a debater “A Igreja no Mundo Moderno” quando a câmara ficou
electrizada com as intervenções de três bispos.
263
Primeiro, o Cardeal Léger, de Montreal. A sua ideia era que o casamento sem filhos
não se devia relacionar com o acto sexual individualmente considerado, mas com o
casamento como um todo. O amor, insistia, devia ser visto como um fim em si mesmo, e
não como estando ao serviço de qualquer outro fim, como por exemplo a fecundidade.
«Caso contrário, este medo em relação ao amor conjugal, que há tanto tempo paralisa a
nossa teologia, poderá persistir».
Qualquer leigo casado consideraria isto como um dado adquirido. Mas, vindo de um
prelado da Igreja Romana, cuja hierarquia, toda ela, é celibatária, tinha um sabor
original.
A seguir foi o Cardeal belga Suenens. Exigiu que a doutrina clássica sobre a
contracepção fosse reanalisada à luz da ciência moderna. Em palavras que desde
então têm perseguido a Igreja Romana, disse ele: «Peço-vos, meus bispos irmãos,
evitemos um novo “Caso Galileu”. Para a Igreja, um já chega».
Nem mesmo Suenens tinha a potência de fogo dos oitenta e sete anos do Patriarca
Maximos IV Saigh, que exprimiu a preocupação dos prelados liberais de que a Igreja
que ele amava e a que tinha dedicado a sua vida estava à beira do desastre.
Este é um problema urgente porque está na raiz de uma grande crise
da consciência católica. Há aqui a questão de um hiato entre a doutrina
oficial da Igreja e a prática da imensa maioria dos casais cristãos. A
autoridade da Igreja foi posta em causa em grande escala. Os fiéis
vêem-se obrigados a viver em conflito com a lei da Igreja, afastados
dos sacramentos, em angústia constante, incapazes de encontrar uma
solução viável entre dois imperativos contraditórios: a consciência e a
vida conjugal normal.
Segundo o patriarca, o Concílio tinha de apresentar simplesmente uma resposta
prática; era seu dever como pastores que eram. Ele devia saber que, considerando o
veto de Paulo à discussão, era culpado de desobediência. Mas, já próximo do fim de
uma longa vida, compreendeu que o seu primeiro dever era para com Deus, a sua
consciência e o seu rebanho. «Veneráveis padres», apelou ele, «atentai no Senhor que
morreu e se ergueu de novo para salvação dos homens, atentai na crise de consciência
realmente triste dos nossos fiéis e tende a coragem de atacar o problema sem
preconceitos».
Clamava por uma franca revisão da posição oficial à luz da teologia e da ciência
moderna. Punha de lado a distinção entre o objectivo “primário” do casamento (a
procriação) e os objectivos secundários (o amor e o companheirismo dos membros do
casal). Com todos os bispos na sala apinhada sentados agora na ponta das cadeiras,
Maximos disse:
Não temos nós o direito de perguntar se certas posições não são o
resultado de ideias ultrapassadas e, talvez, de uma psicose de
celibatário da parte daqueles que não estão familiarizados com este
sector da vida? Não estamos nós inconscientemente a estabelecer
uma concepção maniqueísta do homem e do mundo, em que os
trabalhos da carne, impuros em si mesmos, só são tolerados em vista
dos filhos? Será que a rectidão exterior e biológica de um acto é o
único critério da moralidade, independentemente da vida da família, do
seu ambiente, conjugal e moral, e dos sérios imperativos da prudência
que devem ser a regra básica de toda a actividade humana?
264
Nestas curtas observações, o patriarca levantou todas as questões que viriam a
perseguir a Igreja Católica nas gerações seguintes e que provavelmente continuarão a
persegui-la no próximo século. A distinção em que a oposição ao controle da natalidade
se baseava, os objectivos primários e secundários do casamento, não é bíblica. Foi o
medo do corpo que fez levantar a questão, disse ele, um ódio quase maniqueísta ao
corpo, reforçado por uma psicose de celibato, que faz da procriação a única justificação
para o sexo. Esta exigência celibatária de mais bebés fazia-se sem atenção às
obrigações dos membros da família. Ceder a estas exigências, lembrou o patriarca,
seria negar uma virtude cardeal, nomeadamente, a prudência, pela qual toda a
moralidade se deve avaliar. E não há provas de que Jesus apregoasse a imprudência.
Depois, Maximos disse que, em vez de um critério moral, se estava a usar de um
critério biológico como base da moralidade sexual.
Mas ele ainda não tinha acabado. Não é evidente, perguntou, que a Igreja tinha
excluído durante demasiado tempo os especialistas no campo do casamento,
nomeadamente, proeminentes cristãos casados? Além disso, por que é que o Concílio
andava a louvar os nossos irmãos separados e, ao mesmo tempo, ignorava a sua
experiência quer como pessoas casadas, quer como igrejas? Isto não é um problema
católico, mas um problema da humanidade. E concluiu:
Abramos os olhos e sejamos práticos. Vejamos as coisas como elas
são e não como gostaríamos que fossem. De outra maneira,
arriscamo-nos a pregar no deserto. O que está em causa é o futuro da
missão da Igreja no mundo.
Com esta nota dramática, o ancião sentou-se no meio de fortes aplausos que o
moderador logo abafou.
Era agora a vez de outro corajoso homem de idade, o Cardeal Alfredo Ottavianni, da
região Trastevere de Roma, Grande Inquisidor encarregado da Casa Papal da Esquina,
e que tem sido descrito como um homem insensível, o que está longe da verdade. Era
simplesmente um homem extremamente conservador. Desde a sua brilhante juventude
que este conservadorismo o levara paradoxalmente a defender uma abordagem liberal
da dissolução do casamento. O Vigário de Cristo, defendia ele, tinha um tal poder que
podia dissolver muito mais casamentos do que até então se pensara. Nesta manhã de
outono ele estava com uma disposição soturna.
Havia no texto de “A Igreja no Mundo Moderno” qualquer coisa que o estava a
incomodar. O seu improviso traiu a profundidade da sua preocupação. Não era ele o
único membro da Cúria que pensava que os fundamentos da fé estavam a mudar.
Numa voz trémula e em crescendo, disse: «Não estou satisfeito com o texto quando diz
que os casais podem decidir por si próprios o número de filhos que querem ter. Nunca
se ouviu uma coisa destas na Igreja».
Isto era uma confissão surpreendente deste zeloso guardião da fé católica, tendo em
vista aquilo que finalmente foi aprovado pelo Concílio. Os padres aprovaram a
“paternidade responsável“, com a primeira implicação de sempre por parte do
Catolicismo de que ter um filho podia ser um acto irresponsável, isto é, pecado. Por
outro lado, Ottaviani sabia que Pio XII se tinha referido ao “planeamento familiar“ como
se fosse uma maquinação diabólica. Assim, uma ideia de que Ottaviani confessava
nunca ter ouvido falar, tornava-se parte essencial da moralidade católica. A sua
oposição, nascida da “ignorância“, sugeria que se algum teólogo tivesse proposto essa
ideia perante o Concilio, ele, como responsável do Santo Ofício, tê-la-ia condenado. Isto
265
levantava uma questão: até que ponto é que o Santo Ofício representa o espírito da
Igreja? E se os “guardiões da fé” estiverem desfasados do resto da Igreja? E, se o papa
confiava no seu conselho, que esperança havia de uma solução católica para o
problema do controle da natalidade?
Menos de dois dias depois, às 11:15 de sexta-feira, dia 30 de Outubro, numa altura
em que muita coisa havia ainda para dizer sobre a contracepção, o Cardeal Agagianian
fez a chamada para uma votação final de pé. Alguns bispos encontravam-se no bar, e
os que estavam na sala, em grande número, o que era pouco vulgar, permaneceram
sentados. Aparentemente alheio a este facto, Agagianian declarou a moção aprovada.
Foi esta a última vez que os bispos católicos puderam entregar-se a um debate livre
sobre este assunto, o mais importante que está a afectar a Igreja. Depois, os bispos,
como as mulheres, foram mandados “calar na igreja”. Tanto quanto se sabe, não houve
qualquer contestação à decisão do papa de reservar a questão para si. Mesmo o
Cardeal Suenens disse numa conferência de imprensa: «Os métodos a ser seguidos
nestes estudos [sobre o controle da natalidade] teriam de ser submetidos ao papa e
julgados pela sua suprema autoridade».
Muitos periti, especialistas em teologia, acharam que isto era difícil de cumprir. Se o
papa havia de decidir sobre o assunto ex-cathedra, teria primeiro de examinar em
pormenor o espírito da Igreja. E ele não tinha feito tal. Pelo contrário, tinha suprimido o
exame ao mais alto nível de um concílio. Por outro lado, se se pronunciasse, mas não
ex-cathedra, a sua decisão, embora autorizada, não poderia impor o tipo de
sancionamento que desse a questão por encerrada de uma vez por todas. Este
resultado podia ser pior do que o primeiro.
Dificilmente se pode negar que os bispos faltaram ao desafio de Maximos. Em nome
de Cristo crucificado e ressuscitado, deviam ter-se apresentado com uma solução
prática; sem ela, a missão da Igreja no mundo ficou em perigo.
No dia 25 de Novembro, um mês depois do explosivo debate fracassado, o papa
enviou cinco modi ou emendas ao texto sobre o casamento no documento sobre “A
Igreja no Mundo Moderno”. Estas iriam alterar o texto depois de aprovado por dois
terços do Concílio. A Comissão Conciliar ficou irritada. O Cardeal Léger ergueu o seu
protesto dizendo que se tratava de uma infracção às regras estabelecidas por João
XXIII e pelo próprio Papa Paulo. A isto respondeu o teólogo do papa, o Cardeal
Dominicano irlandês Michael Browne dizendo que o papa já se pronunciara e portanto o
assunto estava encerrado. O que ele pretendia era uma clara reafirmação da Encíclica
Casti connubii. Quando a Comissão recusou, Ottaviani teve de dizer ao surpreendido
papa que uma grande maioria da Comissão tinha dito Não. Outro cardeal, Garrone,
informou francamente o papa de que andava a brincar com o fogo. Primeiro, tinha
vetado o direito dos padres a discutir o controle da natalidade; e agora tencionava impor
unilateralmente a sua própria solução e mascará-la de conciliar! Conseguiu-se uma
solução de compromisso. As emendas deviam ser aceites, mas não textualmente e não
haveria nenhuma repetição da Casti connubii.
Estava armada a ratoeira. E Paulo VI, um homem generoso, embora indeciso,
preparava-se para cair nela. Ou, pelo menos, para pensar se o devia fazer.
Hamlet lança-se ao trabalho
Paulo via a questão que enfrentava como a mais grave da história da Igreja. E disse
isto mesmo numa declaração datada de 23 de Junho de 1964. Seria ele a tomar a
266
decisão final. «Mas entretanto Nós dizemos francamente que até agora Nós não temos
motivos suficientes para considerarmos desactualizadas e consequentemente não
vinculativas as normas estabelecidas por Pio XII a este respeito. Portanto, elas devem
ser consideradas válidas, pelo menos até que Nós nos sintamos obrigados em
consciência a alterá-las». Para muitos comentadores, o seu espírito parecia mais
vacilante do que fechado à mudança.
Na verdade, no seu magnífico discurso sobre a paz, nas Nações Unidas, em 4 de
Outubro de 1965, disse: «É preciso que vos empenhais em multiplicar o pão de modo
que este chegue para as mesas da humanidade, em vez de defender um controle
artificial da natalidade, que seria irracional, para diminuir o número dos convidados para
o banquete da vida». A alternativa simplista — pão ou controle da natalidade — era de
mau agouro para a Igreja. Por outro lado, nesse mesmo dia, o diário italiano Corriere de
la Sera publicava uma entrevista com o papa na qual o seu hamletianismo parecia ter-
se agravado.
O mundo interroga-se sobre o que Nós pensamos e Nós temos de dar
uma resposta. Mas qual? Nunca a Igreja se confrontou com um tal
problema na sua história. É uma estranha questão para ser discutida
por homens da Igreja, humanamente embaraçosa mesmo. As
comissões estão a trabalhar e os relatórios amontoam-se. Está a
estudar-se muito; mas Nós temos de tomar uma decisão. Ela é de
Nossa exclusiva responsabilidade. Decidir não é tão fácil como estudar.
Mas Nós temos de dizer qualquer coisa. O quê? […] Deus tem
realmente de Nos iluminar.
A humildade perante tão momentosa tarefa era compreensível. Tal como todos os
clérigos, era celibatário de toda a vida, sem conhecimento directo e pouca percepção
imaginativa do assunto que tinha de julgar. Admite mesmo que a questão era
«embaraçosa». Estava quase com setenta anos, gasto e cansado, e com uma
preocupação por toda a Igreja. Todos os dias era solicitado a resolver disputas, a
sancionar milhares de documentos, a receber dignitários e embaixadores estrangeiros.
E em cima de tudo isto, estava uma “montanha” de relatórios sobre o controle da
natalidade, a questão mais preocupante que um papa moderno já tinha enfrentado.
Para os observadores independentes, a situação estava à beira de se tornar uma farsa.
Uma instituição grande e resistente estava em ebulição por causa de uma questão que
a maioria das pessoas dentro e fora da Igreja já tinha resolvido há séculos. 700 milhões
de pessoas viam neste velho santo celibatário encasulado a concentração da sabedoria
sobre o sexo e o casamento.
Paulo era um homem intelectualmente capaz, especialmente no seu campo de
eleição, a diplomacia; mas era preciso génio para tratar de um problema com cuja
resolução ele resolvera arcar sozinho. Com a ajuda dos bispos no Concílio podia ter
adoptado uma atitude mais progressista, como acontecera com o Judaísmo, com a
liberdade de culto, etc.. Mas dispensara a sabedoria colectiva dos bispos e, qual Atlas,
tinha tomado o mundo sobre os ombros. Isto era heróico, mas seria prudente? Os seus
únicos conselheiros mais chegados eram agora membros da Cúria, como Ottaviani e
Browne, aqueles cujas opiniões tinham sido rejeitadas pelas comissões conciliares e
pelos padres quando se chegou à votação. O Sumo Pontífice estava nas mãos da velha
guarda que, se isso estivesse no seu poder, nunca teria promovido concílio nenhum.
267
E ao falar para os delegados da Sociedade Italiana de Obstetrícia e Ginecologia, em
29 de Outubro de 1966, Paulo em nada contribuiu para aumentar a confiança numa sua
decisão final. Num desempenho digno de Salvador Dali, disse ele:
Para Nós, a Mulher é o reflexo de uma beleza que a transcende, é o
sinal de uma bondade que Nos parece infinita, é a imagem reflectida do
homem ideal tal como Deus o concebeu à Sua imagem e semelhança.
Para Nós, a Mulher é uma visão de pureza virginal que renova os mais
elevados sentimentos emocionais do coração humano. […] Para Nós,
ela é a criatura mais dócil para a formação. […] Portanto, a cantar, a
rezar, a anelar, a chorar, ela parece convergir naturalmente para uma
única figura, imaculada e pesarosa, em que uma Mulher privilegiada,
abençoada entre todas, estava destinada a tornar-se, a Virgem Mãe de
Cristo, Maria.
Não há registos que nos elucidem sobre se os ginecologistas reconheceram nestas
palavras a mulher grávida média que os procura no consultório. É um facto que sempre
que um documento papal se refere conjuntamente às mulheres e a Maria, a causa das
mulheres no mundo moderno tende a sofrer. «Como vedes, meus senhores», disse
Paulo, «é neste plano que Nós conhecemos a Mulher. […] Não duvideis. Isto fornecer-
vos-á matéria para novos pensamentos nobres e bons e vós acrescentareis dignidade e
mérito à vossa profissão».
A seguir, o pontífice virou-se para o controle da natalidade. O facto de a venda de
contraceptivos ser então ilegal em Itália e as leis da família favorecerem as famílias
grandes, muito grandes mesmo, não ajudava nada. Tinham passado já dois anos sobre
o Concílio e ele continuava a estudar, disse, os dados científicos e demográficos, bem
como as implicações doutrinais e pastorais. Nunca nenhum papa estivera tão rodeado
de papeis desde que Sisto V fizera sozinho a revisão da Bíblia. Paulo falou da sua
comissão como sendo «alargada, variada e extremamente competente».
«Esta comissão […] já concluiu os seus grandes trabalhos e já Nos apresentou as
suas conclusões». Ao reconhecimento da sua extrema competência seguiu-se um
acrescento tipicamente hamletiano: «Parece-Nos, porém, que essas conclusões não
podem ser consideradas definitivas». O relatório tinha graves implicações cuja
resoçução era responsabilidade exclusivamente sua. Entretanto, lembrou-lhes, as
normas de comportamento ensinadas pela Igreja até então ainda em vigor.
Elas não podem ser consideradas não vinculativas como se o
magistério da Igreja estivesse presentemente num estado de dúvida,
quando está, isso sim, num momento de estudo e reflexão de matérias
que lhe foram presentes como dignas da mais atenta ponderação.
Os comentadores ficaram intrigados. Tinham passado já vários anos desde que João
XXIII tinha criado a comissão. Paulo tinha-a alargado e instado a que tratasse do
assunto imediatamente. Se não havia dúvidas, por que é que, afinal, era precisa uma
comissão? E por que não simplesmente repetir, nesta fase tardia, a doutrina dos seus
antecessores, como a Cúria desejava?
Ao mais baixo nível, começava a desenrolar-se uma revolução silenciosa e durável,
inédita na história do Catolicismo. Muitos leigos, encorajados pelos seus párocos,
começavam a pensar pela própria cabeça. Pensavam que não havia explicação para a
268
interminável demora do papa, a não ser uma dúvida genuína; entretanto tinham
resolvido a questão em sua própria consciência. O método do período seguro —
conhecido como a Roleta Vaticana — era inconveniente e verdadeiramente artificial.
Chegou mesmo a frustar os cálculos de matemáticos superiores, assistidos por
computadores, dando origem a alguns gracejos: «O período seguro só é permitido
porque o papa sabe que não é seguro» e «O único período seguro para certas mulheres
é entre os sessenta e noventa anos de idade».
Do ponto de vista médico, o método funcionava bem para aqueles que menos
precisavam dele. Para uma rapariga solteira é relativamente fácil determinar os seus
períodos estéreis. Para uma mãe de família é praticamente impossível. Ela passa
provavelmente as noites a saltar da cama para tratar dos filhos; está sujeita a apanhar
os germes dos filhos, o que lhe faz aumentar a temperatura e interfere nos seus
cálculos. O método também é inútil durante a aleitação quando a menstruação cessa
mas ela continua a poder conceber. Finalmente, o método do período seguro é inútil no
caso da mulher que se aproxima da menopausa, altura em que os seus períodos se
tornam desesperadamente irregulares.
A falta de confiança pode provocar as suas próprias ansiedades, ou mesmo uma
amargura e um sentimento de revolta quando, a despeito de todas as precauções o
método falha. Algumas mulheres acham-no tão artificial, tão contrário ao verdadeiro
amor, que preferem a abstinência total. Outras, quando o método falha e ficam grávidas,
rejubilam com a ideia de um aborto. São estas algumas das fatídicas consequências do
“método natural“ de controlo da natalidade.
Para aquelas mulheres que têm de evitar a gravidez a todo o custo — devido a
problemas de saúde próprios, da família, do marido ou de um filho deficiente — o
período seguro torna-se um pesadelo. Isto acontece quando elas têm duas ovulações
num mês ou a menstruação não aparece durante anos devido a um parto seguido de
amamentação e, depois, de outra gravidez.
Como é que estas mulheres podem explicar aos seus párocos que, mesmo admitindo
que o sexo durante o período seguro seja natural, o casamento em si mesmo é
desesperadamente artificial? No princípio dos anos sessenta já muitos casais
começavam a interrogar-se. Estará certo deixar o clero na sua ignorância e na sua
arrogância? A ignorância das muitas facetas do sexo e do caos dos filhos, e a
arrogância que os leva à convicção de que a ignorância é a melhor base para pontificar
sobre o casamento? Como escrevia uma mulher em The Experience of Marriage (1964):
«Por que é que os padres adoptam um ponto de vista tão pouco complacente em
relação aos problemas que os pais enfrentam? Provavelmente porque não são casados.
[…] Talvez baseiem muitas das suas ideias sobre a vida familiar nas recordações das
suas famílias, no meio das quais viveram como crianças e não como adultos que tinham
de se preocupar com os problemas. As responsabilidades da paternidade têm de ser
vividas para se poderem compreender integralmente».
Nos anos imediatamente posteriores ao Concílio Vaticano II muitos casais,
antecipando a mudança, tomaram as suas próprias decisões. Não estavam dispostos a
correr o risco de sobrecarregar a família ou de provocar o gradual afastamento um do
outro por não poderem exprimir o seu amor ou por terem de o fazer segundo os ditames
do calendário. A abstinência do sexo antes do casamento era uma coisa; a abstinência
depois do casamento, outra completamente diferente. Como explicar aos padres que o
sexo não era crua paixão, mas sim a realização do amor, às vezes essencial numa crise
familiar ou como meio de reconciliação quando o casal tinha uma zanga? Absterem-se
como se fossem celibatários minaria os fundamentos físicos do casamento e roubar-
lhes-ia um direito fundamental. Usar contraceptivos pouco mais “anti-natural” era do que
269
um casamento sem sexo ou com sexo destruído pela ansiedade. Se os clérigos
pensavam que era “natural“ os jovens casais apaixonados dormirem juntos durante
anos sem exprimirem esse amor integralmente, que experimentassem.
Nascia assim uma geração de casais que era uma espécie de cunha a separar os
católicos de antes e depois da comissão para o controle da natalidade. Mesmo o clero
conservador apontava o dedo ao Papa Paulo pelo caos da Igreja desde o Concílio
Vaticano II.
Em vista da sua tentativa de impor a Casti connubii ao Concílio, é necessário tomar
as palavras de Paulo pelo seu valor facial. Pessoalmente, ele nunca duvidou da doutrina
“tradicional” sobre a contracepção. Todos os métodos restritivos eram condenáveis.
Podia haver razões terapêuticas para tomar a Pílula — por exemplo, para regular o ciclo
menstrual — mas não havia justificação nenhuma para a usar como contraceptivo.
Talvez ele tivesse a esperança de que a comissão o apoiasse nesta matéria, lhe
fornecesse argumentos sólidos da “lei natural” que todos os homens de boa vontade
pudessem aceitar. As suas esperanças goraram-se.
Uma esmagadora maioria da Comissão manifestou-se contra ele. Os seus quatro
teólogos conservadores confessaram que não conseguiam justificar a velha posição
com base exclusivamente na razão ou na lei natural. Era necessário o apoio da
autoridade e da revelação.
Em resumo: depois de anos de estudo por aquele grupo de especialistas, o papa
encontrou-se de novo no ponto de partida. Não só a Comissão lhe negou o seu apoio,
como ainda por cima os seus membros conservadores vieram dizer que não havia
argumentos convincentes na fundamentação tradicional da proibição.
Ottaviani, embora co-presidente da Comissão, recusou-se a apresentar ao Papa
Paulo o relatório da maioria. Os quatro teólogos conservadores radicais apresentaram
particularmente ao pontífice um sumário.
Os dois relatórios
De acordo com o relatório da maioria, dizer que a contracepção nem sempre está
errada é uma “evolução“ da doutrina católica à luz de circunstâncias que se alteraram.
Uma vez que a doutrina tradicional dizia que a contracepção é intrinsecamente
condenável e nenhuma circunstância pode alterar esse facto essencial, seria pedir
muito a um papa indeciso que aceitasse o que nele se dizia.
A maneira como o relatório está impregnado de uma filosofia personalista também
tornava a sua aceitação improvável. O relatório falava de “o princípio da totalidade”. A
faculdade do sexo não deve ser olhada como uma pessoa; é uma parte da pessoa. E a
pessoa é, no casamento, uma das partes de um casal e um membro de uma família.
Daí que a moralidade da relação sexual não seja avaliada pelo exame do exercício de
uma faculdade, nem na base de actos sexuais isolados. O casamento deve ser olhado
como um todo. É o casamento assim considerado que pode estar ou não de acordo
com a lei de Deus, isto é, ser fecundo ou estéril.
A maioria também se refere à doutrina do Concílio que afirma o direito dos casais de
decidirem por si próprios, em conformidade com Deus, sobre o número de filhos que
desejam ter. A paternidade responsável era uma condição da castidade conjugal. Como
conseguir hoje tal paternidade? Usando métodos modernos, um dos quais, primeiro
permitido por Pio XII, é o aproveitamento do período infértil. O relatório repete a
afirmação do Concílio — nunca antes aceite pela Igreja — de que a ausência
prolongada de relações no casamento pode levar à infidelidade.
270
A comissão concluiu que, uma vez que o sexo já não é visto primária e
invariavelmente como gerador de filhos e numa altura em que a sexualidade é vista, no
contexto do casamento, como fazer amor e nem sempre como fazer bebés, não há
qualquer objecção aos contraceptivos. Os valores morais e espirituais, e não os
biológicos, é que devem ditar os comportamentos.
O documento, aqui apenas resumido, estava bem fundamentado, mas para o Papa
Paulo não tinha de modo nenhum a força argumentativa do relatório da minoria.
«Será que a contracepção é sempre um mal?» O resumo da minoria — que nunca foi
um relatório oficial — ia direito ao alvo. Com a enganosa lucidez de um texto
escolástico, os autores analisam cada um dos termos da questão.
Contracepção: qualquer utilização do casamento em cujo exercício se priva o acto,
por intervenção humana, do seu natural poder de procriar. Sempre um mal: qualquer
coisa que nunca se pode justificar por qualquer motivo ou circunstância. É sempre um
mal porque o é intrinsecamente, por via da lei natural. Não é um mal por ser proibido.
Depois o resumo pergunta: «Que resposta é que a Igreja tem dado a esta questão até
agora? Nos documentos do magistério e em toda a história da doutrina sobre o assunto
encontra-se uma resposta afirmativa constante e perene».
O resumo cita as fontes. Significativamente não recua para além da encíclica de Pio
IX Casta connubii de 1930. Seria isto suficiente para os seus fins na medida em que a
encíclica falava da “ininterrupta tradição cristã”? Havia outra razão para não ir mais
longe no recuo até ao passado que será referida mais adiante.
De acordo com Pio XI, a contracepção é uma «violação criminosa».
Não há razão nenhuma, por muito séria que seja, para que qualquer
coisa intrinsecamente contra a natureza se possa tornar conforme a
ela e moralmente boa. Como, portanto, o acto conjugal se destina
por natureza à procriação, aqueles que ao praticá-lo frustem
deliberadamente o seu poder e fins naturais pecam contra a
natureza e cometem um acção vergonhosa e intrinsecamente imoral.
«A Majestade Divina», continua Pio, «detesta esse crime indizível com a mais
profunda aversão e por vezes pune-a com a morte». A ideia de uma divindade pronta a
dar a morte por causa da contracepção é realmente assustadora.
Depois Pio XI falava da Igreja Católica que «se impunha no meio da ruína moral que
a rodeava para evitar que a castidade na união nupcial fosse conspurcada por esta suja
mancha». Aqueles que «praticam» a contracepção «são culpados de um grave
pecado».
Foi uma performance de virtuosismo na melhor tradição da ópera italiana, motivada
pela Conferência Lambeth, que no princípio de 1930 tinha sancionado o controle
artificial da natalidade. Em 1951, Pio XII ainda se opunha àquilo que era conhecido nos
círculos católicos como “O Descarrilamento de Lambeth“. «Este preceito [contra a
contracepção]», disse Pio XII, «é tão válido hoje como o era ontem e será amanhã e
sempre, porque não implica um preceito da lei humana, mas é antes a expressão de
uma lei que é natural e divina».
Depois de citarem Pio XI e Pio XII, os autores do resumo fazem agora o mais
constrangedor apelo ao Papa Paulo. Durante séculos, e sem uma única excepção, a
Igreja condenou a contracepção. Se mudar de ideias estará não só a negar-se a si
própria e à sua afirmação de que ensina uma verdade válida para todos os tempos; terá
também de se submeter a qualquer coisa de muito mais humilhante.
271
Se a contracepção fosse declarada como não intrinsecamente um
mal, teria de se reconhecer honestamente que o Espírito Santo em
1930, em 1951 e 1958 [datas de declarações papais] apoiou as
Igrejas Protestantes e que durante meio século Pio XI, Pio XII e uma
grande parte da hierarquia católica não protestou contra um erro
muito grave, um erro extremamente pernicioso para as almas;
porque assim estaria a sugerir-se que eles condenaram muito
imprudentemente sob pena de castigo eterno milhares e milhares de
actos humanos que agora eram aceites.
Seria difícil encontrar na literatura católica argumento mais brilhante. Eles estavam
praticamente a desafiar o Papa Paulo a dizer que afinal a Reforma foi uma coisa boa e
que os Protestantes, com um julgamento particular, tinham feito melhor do que o
Catolicismo com os papas.
Se o papa agora permitir a contracepção, isso significará o fim da autoridade papal.
Seria então melhor abdicar. Destruirá a sua própria autoridade bem como a dos seus
antecessores; admitirá tacitamente que a Igreja Anglicana era mais inspirada do que a
Romana; concordará que muitos católicos foram condenados por fazerem aquilo que
ele, Paulo VI, irá proclamar como não sendo pecado nenhum — ou melhor, como sendo
um acto de virtude matrimonial. Toda aquela angústia, todos os sacrifícios dos católicos
leais e obedientes, todas aquelas almas perdidas, por causa de um erro papal?
Apesar de brilhante, deve acrescentar-se aqui que o argumento não é inteiramente
honesto. Os autores acentuavam a constância da tradição no que respeita ao controle
da natalidade, mas não diziam que esta “tradição” se baseava numa visão do sexo que
a Igreja já tinha decisivamente rejeitado. Não recuaram para além de Pio XI para
confirmarem os seus pontos de vista porque não podiam. Antes dele apenas
encontrariam uma confirmação parcial. Durante mais de mil e quinhentos anos a Igreja
concordou com uma visão do sexo que era agora abandonada.
Tinham, por exemplo, Pio XII do seu lado neste aspecto: Pio XII disse que a
contracepção era sempre um erro. Mas também disse que o sexo no casamento é puro
e sagrado. A primeira afirmação é da tradição, a segunda é totalmente contra ela. Se os
autores tivessem apontado este desagradável facto, o Papa Paulo teria provavelmente
continuado com a sua indecisão hamletiana até morrer.
O relatório resumido da minoria sugeria que se o papa fosse ceder ao controle da
natalidade provocaria um efeito de dominó. Haveria imediatamente um clamor pela
legitimação do sexo antes do casamento, da masturbação, da esterilização, do divórcio
e do aborto. Uma vez repudiado o objectivo primário do casamento, os teólogos liberais
começariam a argumentar que o sexo fora do casamento era moralmente aceitável,
desde que se usassem contraceptivos. Contudo, foi a atitude da minoria em relação à
autoridade papal que mais impressionou o pontífice.
Depois de ler os dois relatórios, o papa compreendeu que a sua posição era
intolerável. Invadiu-o um enorme desânimo que nunca mais o abandonaria, embora
ainda viesse a viver mais doze anos.
O seu dilema era: se dissesse Não à contracepção, levantaria uma enorme oposição
ao papado dentro da Igreja; se dissesse Sim, do papado não ficaria pedra sobre pedra.
Do papado tal como ele o entendia. Infelizmente, pouco tendo aprendido com o Papa
João, continuava agarrado à noção medieval do papado que prevalecia desde Gregório
VII.
272
Todo o mundo andava intrigado com o que se estava a passar no Vaticano. Nunca
uma encíclica foi aguardada com tanto interesse. Porém, Paulo levou ainda dois anos a
finalizar o seu pensamento. Hamlet ainda tinha muitas leituras a fazer.
* * *
Havia para começar, o ataque de Pio XII à paternidade planeada, em 1958, quando
se dirigiu às Associações Italianas para as Famílias Numerosas. As suas palavras
pareceram então piedosos e de modo nenhum um arremedo. Disse o pontífice:
Sempre que se encontram famílias numerosas em grande número,
elas apontam para um povo cristão física e moralmente saudável.
[…] O bom senso sempre e em toda a parte olhou as famílias
numerosas como sinal, prova e fonte de saúde física. […] A virtude
floresce espontaneamente nos lares onde sempre se ouve o choro
de um bebé vindo do berço. […] Mal acaba uma série de alegres
peregrinações à pia baptismal já uma outra começa para a
confirmação e a primeira comunhão. […] Mais casamentos, mais
baptizados, mais primeiras comunhões seguem-se uns aos outros
como primaveras sempre renovadas. […] A sua [dos pais] juventude
parece nunca se desvanecer enquanto se mantém no lar a doce
fragrância de um berço, enquanto as paredes da casa ecoam as
vozes prateadas dos filhos e dos netos.
O pontífice lembrou que os santos são oriundos de famílias numerosas. Bellarmino
tinha onze irmãos, Pio X, nove, Catarina de Siena, vinte e quatro. Mas é difícil de
acreditar que mesmo em 1958 todas as “peregrinações” dos pais italianos à igreja
fossem assim tão alegres.
Continuando a leitura de Pio XII, Paulo deve ter reparado que uma importante
previsão sua de dez anos antes se tinha revelado falsa. As novas fontes de energia,
dizia ele, hão-de garantir «a prosperidade para todos os habitantes da terra por muito
tempo».
Paulo sabia que o mundo tinha mudado profundamente desde o optimismo dos
tempos de Pio. Entre os documentos que se amontoavam sobre a sua secretária
estavam alguns fornecidos pelos demógrafos. Eram uma leitura sombria. A sentença
bíblica “Multiplicai-vos e enchei a terra“ já tinha sido amplamente cumprida. A
fecundidade humana é tremenda; tem de ser assim para garantir a sobrevivência em
tempos de peste, guerra, mortalidade infantil elevada, morte precoce. Depois veio a
moderna medicina e o cenário mudou rapidamente. Nos países desenvolvidos, a
mortalidade infantil é quase nula, os idosos morrem cada vez mais tarde. Mesmo entre
os países em desenvolvimento, muita gente morria de fome enquanto a medicina
garantia a sobrevivência de gente que em épocas passadas teria morrido, um quarto
deles antes do primeiro ano de vida e um terço dos restantes antes dos quarenta e
cinco anos.
Isto implicava uma revisão radical das ideias sobre a procriação. Era verdadeiro para
as nações e também para as famílias que as constituíam.
A nível nacional, estimava-se que em França, se a mortalidade tivesse baixado sem
uma correspondente baixa da natalidade, o país teria agora uma população de 500
273
milhões. A população da França e da Grã-Bretanha juntas podiam hoje igualar a da
China.
O Papa Paulo lera certamente os Dados sobre a População Mundial baseados em
fontes das Nações Unidas e publicados pelo Population Reference Bureau of
Washington. As estatísticas mostravam que a população mundial estava a crescer 1,9
por cento. Desde 1958, quando o alarme soou pela primeira vez, havia mais 500
milhões de pessoas vivas; havia um total de 3.520 milhões de habitantes. Os 500
milhões da Índia estavam a aumentar em 2,7 por cento; o Paquistão estava a tomar a
dianteira com 3,1 por cento. A América Latina vinha logo depois com 3 por cento. O
último aumento significava que a população duplicaria em pouco mais de vinte e três
anos. Os bairros de lata crescem mais do que os outros; os pobres são cada vez mais
pobres, os famintos cada vez mais famintos. No princípio dos anos 60 — muito antes da
actual crise — não havia qualquer esperança para as nações com uma alta taxa de
crescimento de virem a ter suficiente alimentação, educação, cuidados de saúde,
habitação, lazer e, perigosamente, empregos. Nem subsídio de desemprego.
A contracepção nunca foi só por si a resposta para um problema tão vasto e tão
complexo; mas sem ela não havia resposta possível. Se toda a gente, incluindo os
pobres, continuasse a procriar em termos próximos do máximo biológico, nações
inteiras ficariam reduzidas à mendicidade. A humanidade ao nível ou abaixo do nível de
subsistência seria confrontada com os habituais flagelos: a doença e a guerra.
Nos anos 60, quando Paulo estava a escrever a encíclica, os povos da América do
Sul viviam em condições piores do que aquelas que os europeus foram obrigados a
suportar nos dias mais negros da Revolução Industrial. Uma das maneiras de melhorar
as condições era o aborto. Sabe-se que Paulo tinha sobre sua secretária relatórios
oficiais sobre quase todos os países da América do Sul. No Chile, segundo um censo
de 1967, uma em cada duas a três gravidezes era interrompida; durante anos, mais de
um terço da mortalidade materna era causada pelo aborto. Na Colômbia 60 por cento
dos abortos ocorriam em mulheres já com sete ou mais gravidezes. O Uruguai
encimava a lista; as investigações mostravam uma taxa de 750 abortos em cada 1000
gravidezes. Uma ética estritamente católica estava a levar a uma fertilidade
descontrolada, que, por sua vez, provocava um número maciço de abortos causadores
da morte de muitas mães.
A Índia, a maior democracia do mundo, já estava superpovoada; as restrições eram
vitais. Uma adesão muito estreita à doutrina católica depressa teria destruído a
democracia na Índia. Se a China, só ela, adoptasse a doutrina católica, não haveria
qualquer esperança para a humanidade. Em 1965, um em cada quatro habitantes da
terra era chinês. Os prelados católicos, como o Cardeal Heenan, de Westminster,
argumentavam que poucos indianos e praticamente nenhum chinês eram católicos; de
qualquer maneira não davam ouvidos ao papa. Mas não era este o ponto. Dificilmente
se poderá dizer que qualquer doutrina que, se praticada generalizadamente destruiria o
planeta, tem a razão do seu lado. Além disso, a doutrina católica é supostamente parte
da lei natural inscrita no coração dos homens. O resto do mundo bem podia agradecer a
Deus por os chineses e os indianos não a lerem nos seus corações.
A única solução da Igreja para a sobre-povoamento era a total abstinência sexual ou
a limitação do sexo ao “período seguro“. Pedir aos governos, já à beira do desespero,
para banirem a Pílula, os dispositivos intra-uterinos, os preservativos e substituí-los por
termómetros e calendários, bem como fornecer um vasto exército de educadores para
assegurarem uma boa compreensão do método, era irrealista. Além disso, são os
pobres, os que vivem nas barracas, os subnutridos — aqueles que mais precisam limitar
274
o seu número — que acham a abstinência sexual intolerável e o período seguro
impossível.
Passando do nível nacional para o familiar, a doutrina católica proibia a contracepção
em todos os casos. Deus entenderia, evidentemente, que algumas pessoas fossem
tentadas até ao limite da sua resistência. Mas nunca para além dela. Com a graça de
Deus, todos os casais podem agir de acordo com a doutrina da lei natural. Os casos
dolorosos fazem más leis. Conquanto o Papa Paulo, devido à sua falta de experiência
pastoral, não tivesse tido conhecimento de tais casos pessoalmente, eles constavam
dos dossiers que se encontravam sobre a sua secretária.
Um marido vive do subsídio de desemprego e sem qualquer perspectiva de emprego.
Ele e a mulher vêem-se obrigados a viver com os pais desta — ou em instalações
miseráveis alugadas ou num sótão de um bloco de apartamentos. Têm três filhos.
Demais para as suas apertadas circunstâncias. Dizem-lhes que se devem abster de
sexo, o que pode significar absterem-se do amor e da compaixão, ou então utilizarem o
período seguro. Todas as três crianças são fruto desse método. Deus providebit, Deus
providenciará.
Depois de um acidente de viação, um homem fica incapacitado para toda a vida. A
mulher trabalha para sustentar o casal; uma gravidez deixá-los-ia sem tostão. Deus…
Depois da sua sexta gravidez em sete anos, uma mulher acaba de sair de um
hospital psiquiátrico. Receia desesperadamente outra gravidez. Deus…
O último filho de um casal nasceu mentalmente deficiente e exige toda a atenção da
mãe. Deus…
Uma mulher é avisada pelo seu médico de que mais uma gravidez afectaria
gravemente a sua saúde, poderia até matá-la. Ela já tem oito filhos. Deus…
Hoje, muitas mulheres não estão dispostas a arriscar-se a ter uma família numerosa.
Não o desejam, nem se sentem espiritual nem emocionalmente capazes de lidar com tal
situação. Deus…
Uma mulher teve trigémeos; outra, com drogas fertilizantes, teve seis gémeos.
Ambas estão a ter muita dificuldade em gerir a situação. Deus providebit, Deus
providenciará.
Em Setembro de 1967, o Presidente Carlos Lieras Restrepo, da Colômbia, um país
firmemente católico, fez uma intervenção na Conferência Inter-Americana.
Visitei os mais pobres bairros de lata do país e recomendo esta
visita às pessoas que analisam a população de um ponto de vista
moral. […] O que é que podemos dizer do frequente incesto, da
experiência sexual primitiva, do tratamento miserável dado às
crianças, da terrível proliferação da prostituição de ambos os sexos,
do aborto frequente, das relações quase animalescas por causa dos
excessos do álcool?
Consequentemente, não posso ficar sentado a analisar a moralidade
ou imoralidade das práticas contraceptivas sem pensar ao mesmo
tempo nas condições imorais e muitas vezes criminosas que um
simples acto de concepção pode produzir com o decurso do tempo.
Um ano depois disto, o Papa Paulo deu por terminado o seu demorado estudo do
controle da natalidade. As sua conclusões eram tão inevitáveis como uma tragédia
grega. A sua origem remonta aos tempos do Papa Gregório VII e Pio IX. Quem dera
que Sua Santidade tivesse ido viver nos bairros da lata da Colômbia enquanto tomava a
sua decisão.
275
Uma pílula amarga
A Encíclica Humanae Vitae foi apresentada ao mundo em 25 de Julho de 1968. As
palavras de abertura dão o tom do que viria a seguir: «O mais sério dever de transmitir a
vida humana […] ». A frase seguinte também contém a palavra “dever”.
Mas também faz um rapapé aos problemas modernos, como, por exemplo, que a
população está a crescer mais depressa do que os recursos disponíveis. Faz uma breve
análise à ideia de que a vida sexual dos casais deve ser julgada moralmente e em todos
os seus aspectos e não apenas em termos de órgãos biológicos e suas funções. O que
dele se exige como pontífice, lembra, é uma nova reflexão, mais profunda, sobre
princípios morais básicos que subjazem ao casamento.
Esta reflexão nova e mais profunda acaba por ser: mudança nenhuma, seja ela qual
for, na doutrina da Igreja. Refere-se repetidamente a esta como “constante”. Não se
apercebe do atraso com que esta doutrina “constante” ia entrar em cena.
Paulo sanciona o período infértil nos casos em que os casais sentem que não
querem mais filhos nessa altura ou por um período indeterminado. O aborto e a
esterilização são ambos condenados.
Igualmente condenado é qualquer acto que, quer no momento da
relação sexual, quer antes, quer depois, se destine especificamente
a evitar a procriação — seja como um fim, seja como um meio. […]
Nunca é legítimo, mesmo por razões as mais sérias, fazer o mal
para que dele resulte o bem […] mesmo que a intenção seja a de
proteger ou promover o bem-estar de um indivíduo, da família ou da
sociedade em geral.
Pode morrer uma pessoa, uma família ou uma nação; mas usar preservativos é que
nunca. Isto condiz com o famoso dito de Newton:
A Igreja sustenta que era melhor que o sol e a lua caíssem do céu,
que a terra falhasse e que todos os muitos milhões que nela habitam
morressem de fome em extrema agonia, do que uma só alma, não
direi se perdesse, mas praticasse um único pecado venial, dissesse
uma mentira intencional, embora não prejudicando ninguém, ou
roubasse um miserável tostão sem justificação.
Para Paulo, qualquer utilização de contraceptivos não é, em si mesma, um pecado
venial. Embora não fale da sua gravidade, também não estava obviamente a suavizar a
doutrina de Pio XI de que a contracepção é sempre um pecado mortal.
Portanto, impedir a concepção de um filho que irá nascer para a miséria e a fome ou
que os médicos dizem estar condenado a ser um deficiente é pecado mortal. Impedir a
concepção quando ela, como admite Pio XII, poderia afectar gravemente a saúde da
mãe ou a sua morte, é pecado mortal. A única opção para o casal é levar uma vida
completamente sem sexo; Deus providenciará, através da graça do matrimónio, a força
necessária para levarem uma vida de celibato. Por mais dura que seja a situação da
família, por mais doente que seja a mãe, a Igreja não pode aprovar nenhuma excepção.
Esta é uma doutrina extremista. O único paralelo — embora de modo nenhum
extremista a este ponto - é a recusa das Testemunhas de Jeová da transfusão de
276
sangue a uma criança moribunda. Para fundamentar a sua opinião o papa não
consegue apresentar um único texto bíblico específico. A proibição do divórcio, o poder
do papa de dissolver certos casamentos têm alguma justificação bíblica. A condenação
da contracepção não tem nenhuma.
Paulo cita várias vezes o Segundo Concílio Vaticano na Encíclica Humanae Vitae,
muito embora tivesse proibido o Concílio de contribuir para a discussão que então
assolava a Igreja. E mais: a Humanae Vitae fundamenta-se na (ou cai por terra por via
da) distinção entre os objectivos primário e secundário do casamento, que o Concílio
recusou utilizar. A tentativa do papa de a incluir através dos seus modi foi rejeitada pela
comissão teológica.
«Deus», prossegue o papa, «ordenou sabiamente as leis da Natureza e a incidência
da fertilidade de tal maneira que os sucessivos nascimentos já são naturalmente
espaçados». Mesmo os católicos conservadores consideram isto de difícil aceitação. À
parte a sua habitual identificação das leis da Natureza (biológicas) com a lei natural
(moral), o que é esta “sábia ordenação”, este “espaçamento natural” dos nascimentos?
Com certeza que ele não quer dizer que se uma mulher conceber em Março não pode
conceber em Abril, Maio ou Junho, etc., evitando assim o efeito de correia
transportadora de bebés a saírem todos os meses. E também não pode ignorar que,
embora a ovulação só tenha lugar uma vez por mês, os nascimentos podem acontecer
regularmente todos os anos — a não ser que se tomem precauções.
O facto é que nos animais o instinto sexual está essencialmente relacionado com a
preservação da espécie. Esta a razão por que há as épocas de acasalamento. Paulo
parece equiparar os humanos aos animais; o objectivo primeiro da sexualidade humana
é também a preservação da espécie, e a ele tudo o resto se deve subordinar. O ser
humano é de facto bastante menos afortunado do que os animais porque não tem
épocas de acasalamento, os seus nascimentos não são naturalmente espaçados. Isto
deixa a ideia de que no ser humano o sexo tem algo mais do que um significado
puramente procriador. Os seres humanos têm relações sexuais quando, por exemplo, a
mulher está grávida ou já está em período pós-menopausa. Por outras palavras, o sexo
tem no ser humano um significado muito mais vasto do que nos animais, mas qual ele
é, o papa não é capaz de dizer, porque com o seu critério puramente biológico de
moralidade equipara os humanos aos sub-humanos.
De facto, com “espaçamento natural” o papa apenas pode querer significar que os
casais têm a liberdade de adivinhar quando é que a ovulação ocorre e ter a esperança
de despistar a natureza com termómetros e calendários. Mas se Deus fez com que
fosse tão difícil despistar a natureza, também dificilmente se poderá chamar a isto uma
“sábia ordenação” em nome da humanidade.
E o papa prossegue dizendo: «Nós cremos que os nossos contemporâneos estão
particularmente aptos a compreender que esta doutrina está em harmonia com a
razão». Escreve isto sabendo que alguns dos mais velhos cardeais no Vaticano II viam
exactamente o contrário. E a maioria dos cardeais da sua comissão não viam assim a
questão, nem nenhum dos leigos. Os quatro teólogos conservadores radicais da
comissão disseram que a doutrina não podia ser vista só à luz da razão. As estatísticas
mostraram que a maioria dos católicos também não entendia assim. O que Paulo devia
ter dito era: Os nossos contemporâneos, mesmo com a melhor das boas vontades, não
poderão aceitar isto. Os católicos têm de aceitá-lo porque eu mando.
Uma vez que as objecções de Paulo à contracepção se baseiam na ideia de que ela
constitui uma interferência na obra da Natureza, por que é que não condenou também a
medicina moderna? É a favor dos medicamentos, das operações para curar a
infertilidade, dos by-passes do coração, dos transplantes de rins. Porquê, se é
277
exactamente esta interferência nos processos naturais que o leva a condenar a
contracepção? Como dizia um católico angustiado: «Será que o papa me deixa usar
óculos?» Certamente que parece estranho dizer-se: «Evitar que uma mulher conceba
quando já tem seis filhos é pecado mortal; ajudar uma mulher estéril a conceber seis
gémeos artificialmente está de acordo com a Natureza e é moralmente aceitável».
Da Humanae Vitae ressalta um retrato da mulher que condiz com anteriores
considerações de Paulo sobre as mulheres e a Virgem Maria.
Um homem que se habitua ao uso dos métodos de contracepção
pode esquecer o respeito devido a uma mulher e, sem olhar ao seu
equilíbrio físico e emocional, reduzi-la a um mero instrumento para
satisfação dos seus próprios desejos.
Estaria ele a pensar numa mulher a viver numa barraca de um bairro de lata da
Colômbia, já com uma dúzia de filhos? Ou numa mulher casada com um bêbado de fim-
de-semana? E então os homens cujo único objectivo é tratar as mulheres como suas
parceiras iguais e não como meras máquinas de fazer bebés, homens que querem
decidir juntamente com as suas mulheres, responsavelmente, em conformidade com
Deus, sobre qual o número certo de filhos para eles como família? Em qualquer
sondagem feita em qualquer país do mundo, a grande maioria das mulheres
concordaria que os contraceptivos melhoraram a sua condição, bem como o seu
equilíbrio físico e emocional.
Depois de condenar todas as formas de contracepção, o pontífice fica com receio de
que as autoridades públicas ignorem as suas opiniões. Aos governos diz ele: «Não
tolerai qualquer legislação que introduza na família essas práticas que se opõem à lei
natural de Deus». Alguns governos da América do Sul responderam positivamente a
este apelo de um pontífice que, dois anos mais tarde, fazia os possíveis por impedir o
divórcio civil na Itália.
No final da Humanae Vitae o papa convidava os padres a agirem com
aquela obediência sincera, interior e exterior, que é devida ao
magistério da Igreja. Porque, como sabeis, os pastores da Igreja
gozam de uma luz especial do Espírito Santo ao ensinarem a
verdade. E é esta, mais do que os argumentos que são
apresentados, a razão por que sois obrigados a essa obediência.
Será isto uma sugestão de que o Santo Padre sabe que não tem para oferecer aos
seu padres argumentos da lei natural que fundamentem uma moralidade de lei natural?
Uma vez que também não há qualquer prova bíblica, diz-se aos padres que obedeçam
com base apenas na autoridade. Em relação à lei papal, nenhum padre pode ser
“objector de consciência“. Embora a autoridade papal tenha há séculos um péssimo
currículo no que respeita aos direitos humanos, os padres têm pura e simplesmente de
entregar a sua consciência ao papa.
As primeiras reacções
A reacção dos jornais foi a que já se previa. Desde o Manual dos Erros, que em 1864
condenou todo o progresso humano, que os jornalistas não tinham uma oportunidade
como esta.
278
Na Inglaterra o Guardian chamava à Humanae Vitae «um dos mais fatídicos
disparates dos tempos modernos». As sondagens mostraram que «entre metade e dois
terços dos católicos dos países desenvolvidos não concordavam nem aderiam aos
ensinamentos da sua Igreja sobre a contracepção, e a prolongada perturbação do
Vaticano mais encorajou os padres a abrirem a porta a uma decisão individual».
O The Times dizia:
O sancionamento com restrições do “período seguro” ou método do
ritmo do controle da natalidade mais confusão provoca ainda porque
parece admitir que a relação sexual pode praticar-se licitamente para
outros fins que não a procriação.
O The Economist apontava o exemplo da América do Sul, que o papa iria visitar
nesse Agosto. O crescimento de 3 por cento fazia prever uma miséria quase
inimaginável. «Embora venha a tornar-se alvo de amarga controvérsia, a encíclica,
ainda apenas com alguns dias de vida, já está intelectualmente obsoleta».
Até o semanário católico The Tablet queria saber «onde está a nova e mais profunda
reflexão» que fora prometida à Igreja.
Claro que alguns bispos ficaram satisfeitos. O Bispo (pouco tempo depois Cardeal)
Wright, de Pittsburg apoiou entusiasticamente a encíclica. Ficou radiante por o papa não
se ter «deixado influenciar pelas estatísticas», como se os milhões de crianças
esfomeadas e as muitas mães que abortavam não contassem para os círculos do clero.
O Cardeal Heenan, de Westminster, que tinha sido co-presidente da comissão do papa,
escreveu: «As opiniões maioritárias são notoriamente de pouca confiança. […] Uma
maioria de Nazis decretou a esterilização dos incapacitados e a liquidação dos Judeus».
Esta analogia não cativou os leitores, a maioria dos quais não via qualquer relação entre
o uso de um preservativo e a decisão de Hitler de mandar milhões para as câmaras de
gás. E mais: Heenan esqueceu-se de dizer que quando a comissão do papa chegou ao
momento da votação, se absteve por não ter conseguido tomar uma decisão; foi o papa
que a tomou por ele. O Arcebispo Murphy, de Cardiff, disse que os contraceptivos eram
para o homem «uma maneira barata de controlar os seus instintos e evitar as
responsabilidades». No futuro, profetizou Sua Eminência, «esta encíclica há-de ser
saudada como a Magna Carta, não só de todas as mulheres, mas também de todos os
homens e de todas as crianças». Evidentemente que Sua Eminência não sabia que o
Papa Inocêncio III tinha declarado a Magna Carta nula e inválida.
As secções de cartas ao director em todo o mundo encheram-se de intervenções de
católicos, na maioria hostis. Um leigo inglês, o deputado Norman St John Stevas,
referiu-se à «esterilidade teológica da encíclica, à sua falta de realismo e à sua
imprudência. Convidar as autoridades públicas na nossa sociedade pluralista
contemporânea a banir a contracepção revela um divórcio inacreditável e alarmante das
realidades do mundo contemporâneo».
Para a maioria dos correspondentes católicos, a posição do papa parecia insensível à
enorme variedade dos dilemas humanos. Ficava indiferente às consequências do
banimento. Nem sequer se interrogava sobre se seria preferível evitar a vinda ao mundo
de uma criança a tê-la, fazendo-a passar fome ou mesmo morrer à nascença. Muitos
opunham-se ao ataque à pureza da maioria dos casamentos católicos e praticamente à
de todos os casamentos não católicos. Alguns diziam que o Papa Paulo tinha
condenado mais gente a uma vida de miséria e a uma morte ignóbil do que Hitler. A
encíclica criaria novos guetos e campos de concentração, especialmente nos países
católicos do Terceiro Mundo.
279
Os católicos conservadores rejubilaram. Paulo reafirmara a doutrina tradicional e
conservara o seu papel de doutrinador da verdade moral absoluta. Depois, Monsenhor
Ferdinando Lambruschini, de cinquenta e sete anos, apresentou o documento à
comunicação social. Disse então que uma leitura atenta do documento torna claro que
ele não tem o cunho da infalibilidade. Os conservadores ficaram despedaçados. Se a
Humanae Vitae exprimia a firme tradição da Igreja, então estava seguramente apta a
levar o carimbo de aprovação infalível do papa. Se assim não era em relação a esta
questão, a qual seria, então? Eles entendiam que a longa demora e o caos e a
amargura que se lhe seguiram não podiam ser compensados por um pronunciamento
infalível. Sendo falível, não vinculava as consciências em termos absolutos. A discussão
continuaria, provocando provavelmente mais divisões do que nunca.
Os católicos liberais foram ainda mais atingidos. O papa, ao repudiar todo o
conselho, excepto o da Cúria, tinha agido como um protestante. Parafraseando uma
frase famosa, tinha voltado as costas à Igreja e vinha depois queixar-se de que a Igreja
se tinha deixado ultrapassar. A esperança que eles alimentavam de que o sexo e o
casamento seriam vistos em termos morais e não biológicos gorou-se. Já não havia
qualquer esperança de “cristianizar” o controle da natalidade, consciencializando as
pessoas dos seus benefícios e perigos num contexto cristão de amor e preocupação. O
papa dissera que o controle da natalidade não trazia quaisquer benefícios; era, isso sim,
perigoso. Com esta decisão, os católicos arriscavam-se a perder a sua influência moral
no mundo; daqui para a frente, seriam classificados como labregos, sobreviventes da
Idade Média. Muitos sentiam que o papa tinha travado a batalha errada. Tinha
condenado a contracepção, e sem esta o aborto era inevitável. Devia era ter condenado
o aborto, diziam eles, em vez de o ter tornado mais provável.
Reacções acreditadas
O sentimento de medo e de intimidação na Igreja era tal que os padres e os teólogos
se juntaram em busca de segurança. Na Inglaterra, cinquenta e cinco padres
escreveram ao The Times discordando respeitosamente da Humanae Vitae. Nos
Estados Unidos da América, um grupo de oitenta e sete teólogos, encabeçados pelo
Padre Charles Curran, exigiam para si próprios um papel mais criativo do que
simplesmente dizer que sim a toda a encíclica. Documentos papais houve, no passado,
que causaram um mal tremendo — por exemplo, aos Judeus, às bruxas, a católicos
comuns que caíram vítimas da Inquisição. «A História mostra», diziam eles, «que um
grande número de afirmações de semelhante, ou mesmo maior peso autoritário se
revelaram posteriormente inadequadas ou mesmo erróneas. Afirmações autoritárias do
passado sobre liberdade religiosa, sobre os juros, sobre o direito ao silêncio e sobre os
fins do matrimónio foram todas corrigidas em datas posteriores». Entre as deficiências
da encíclica, estes teólogos apontam o «demasiado ênfase nos aspectos biológicos das
relações conjugais como eticamente normativas; ênfase indevido sobre os actos
sexuais e sobre a faculdade do sexo vista em si mesma separada do todo da pessoa e
do casal […] um quase total menosprezo pela dignidade de milhões de seres humanos
trazidos ao mundo sem a mais leve possibilidade de serem decentemente alimentados
e educados».
Nem o Manual dos Erros de Pio IX provocara uma tal irritação e dissidência nos
padres e teólogos católicos em todo o mundo. E por que é que isto acontecia? É que
ainda estava muito viva a memória do Concílio do Papa João. O Concílio tinha vindo
contradizer, com abertura e coragem, aquilo que a maioria dos papas do século XIX
280
tinham dito em matérias tão diferentes como o Judaísmo e a liberdade religiosa. A Igreja
tinha avançado; estava agora comprometida com ideias que muitos papas tinham
chamado de insensatas e ateístas.
O maior erro de Paulo foi avançar sozinho. Muito honestamente, ele não conseguia
entender como é que uma coisa que os seus antecessores tinham rotulado de
“obscenidade moral” podia evoluir para um “acto de graça”. Tratava-se, portanto, para
ele, de uma escolha clara entre persistir na sua infalibilidade ou aliviar a miséria de
milhões. Não se importara de dar o seu assentimento à evolução de uma “insensatez”
para um “direito do homem“, nomeadamente, a liberdade de culto; mas isso foi quando
tinha o apoio do Concílio. O que a Humanae Vitae provava mais uma vez era que o
exercício da supremacia papal sem a aprovação da Igreja, e especialmente dos bispos,
nem sempre une a Igreja; por vezes divide-a. A Encíclica Humanae Vitae, de um só
golpe, desfez muito do que o Concílio tinha conseguido. O papa já não podia
apresentar-se como o campeão dos direitos humanos, como o ponto de convergência
da unidade de todos os cristãos. Tinha mesmo provocado a divisão na sua própria
igreja. Se a Humanae Vitae tivesse sido apresentada ao Concílio em 1962 como
documento preparatório, teria sido imediatamente rejeitada, juntamente com os
documentos preparatórios da Cúria, como sendo arcaica e incorporando um ponto de
vista teológico muito estreito. Paulo retirou a contracepção da competência do Concílio,
na esperança de que a sua autoridade fosse a garantia de que o resultado final obteria
a aprovação unânime. Mas foi o contrário que aconteceu. Esta única decisão puramente
papal estilhaçou a Igreja.
Outra razão para esta revolta sem precedentes dos teólogos católicos era que eles
sabiam que a Humanae Vitae iria reforçar a casuística do sexo que há tanto tempo
denegria as páginas da teologia moral.
O assunto é demasiado desagradável para se entrar em grandes pormenores e
mesmo alguns moralistas que escrevem em inglês põem a discussão do sexo em latim.
Há páginas de alguns respeitáveis moralistas mais cruas do que as de Rabelais e tão
obscenas como as de O Martelo das Bruxas. Pois Paulo VI repetia que a moralidade do
acto sexual deve ser julgada inteiramente do ponto de vista biológico. Tem de haver
penetratio e inseminatio; o pénis tem de depositar o sémen na vagina. O sémen não
deve ser retido num preservativo nem impedido de atingir o seu destino natural por um
diafragma. Isto, diz o Papa, repetindo os seus recentes antecessores, é que é moral;
tudo o mais não o é. As consequências disto só com muita prudência podem ser dadas
à estampa.
Se, por exemplo, um marido procura a mulher equipado com um preservativo, aquela
deve resistir-lhe, dizia o Sagrado Penitenciário, «tal como uma virgem faria em relação a
um violador». Se não conseguir resistir-lhe sem risco de ficar gravemente ferida ou
mesmo de ser morta, pode submeter-se-lhe «passivamente», isto é, não pode ter prazer
no acto sexual, mas antes conter-se rigidamente até ao fim.
No caso de um casal católico incapacitado de ter filhos, o ginecologista achá-los-á
provavelmente menos cooperantes do que os outros doentes — isto é, se eles
obedecerem à Igreja. Porque não há excepções à regra que diz que o único destino
legítimo do sémen do homem é a vagina da mulher. E então, como é que um médico
obtém o sémen dos católicos para examinar o seu potencial, sendo certo que esse
sémen ainda nunca fertilizara um óvulo? Ao homem não é permitida a masturbação.
Esta é sempre condenável, mesmo quando para fins de procriação. Quando um
renomado teólogo sugeriu que o sémen fosse retirado directamente dos testículos, uma
vez que isso não envolvia prazer, Roma disse não, porque o sémen deve ser obtido
“naturalmente”, isto é, numa relação sexual normal. Os moralistas sugerem que marido
281
e mulher tenham relações imediatamente antes do exame pelo ginecologista, embora o
médico prefira sem dúvida o sémen de uma forma mais prontamente acessível. Além
disso, não é verdade que de qualquer maneira, ele é obrigado a retirar o sémen «do seu
receptáculo natural»? É verdade, respondem os moralistas, mas o sémen foi
inicialmente depositado no sítio certo e in situ fica o tempo bastante para fertilizar o
óvulo, se for essa a vontade da Natureza e de Deus. Alguns moralistas vieram com uma
ideia ousada aprovada por Roma: marido e mulher podiam ter relações sexuais com
preservativo desde que este fosse previamente perfurado. Não esclarecem sobre a
extensão da perfuração, mas presume-se que deva ser o suficiente para deixar passar
sémen bastante para fertilizar a mulher se for essa a vontade de Deus. O preservativo
perfurado será então entregue ao ginecologista que procederá ao exame do sémen do
marido. Não há dúvida de que o médico prefere esta a uma outra solução dos
moralistas que consiste em utilizar uma espátula cervical depois do acto sexual
realizado imediatamente antes de o casal entrar para o consultório.
Estes são apenas dois exemplos das muito curiosas consequências da lei papal
segundo a qual a justeza ou não do acto sexual deve ser julgada segundo padrões
biológicos e não morais. Mesmo assim, apesar da sua erudição teórica, não há qualquer
lógica na doutrina dos moralistas, pois, se aderirmos à “biologia correcta”, a remoção de
qualquer porção de sémen da vagina ou a sua retenção num preservativo, tem de ser
imoral. Enquanto que a água deve ser avaliada como um todo igual, desde que mate a
sede, cada espermatozóide é diferente dos outros. Tirando alguns para análise, o
médico corre o risco de tirar aquele, de entre milhões, que poderia ir fertilizar o óvulo.
Com base nestas premissas biológicas, certamente que é sempre condenável o uso do
preservativo, quer ele seja “seguro“ como Fort Knox, quer esteja perfurado como uma
peneira. Numa lógica rigorosa, nunca se devia permitir a colocação de sémen em parte
alguma, a não ser na vagina. Isto significaria que toda a análise científica do sémen
seria imoral.
Também os bispos, tal como os teólogos liberais, mostravam algum desconforto com
a Humanae Vitae. Claro que, à semelhança dos seus antecessores após o Concílio
Vaticano I, imediatamente cerraram fileiras. Mas uma análise das suas afirmações
mostra a profundidade do dilema que o papa lhes deixara nas mãos.
Na África do Sul, o Bispo Van Nielsen, membro do Secretariado para a Unidade
Cristã, disse que a proibição do papa era «mais uma disciplina do que uma doutrina e
deixa a porta aberta a uma decisão pessoal». Mas o papa, na verdade, tinha
deliberadamente fechado a porta bem fechada. O Arcebispo Hurley, de Durban, admitiu
que a encíclica foi «o caso mais penoso da minha vida de bispo. […] Nunca me senti tão
dividido». Em resultado do Concílio tinha abandonado a sua posição conservadora de
uma vida. O Concílio mostrou «os resultados magníficos que é possível obter através de
um debate completo e aberto. […] Foi a colegialidade no seu melhor, ou quase no seu
melhor, porque a extensão da consulta pode ser alargada para incluir mais gente de
Deus - o seu clero, religioso e laico. […] Como irmãos do Papa Paulo no episcopado, os
bispos não podem fugir à questão de como pensam que a autoridade do seu irmão mais
velho deve ser exercida. Discutir o assunto com ele não é deslealdade, mas antes dizer
a verdade no amor».
As cartas pastorais conjuntas revelam o mesmo embaraço pós-Vaticano II. Na
Holanda, onde uma sondagem mostrou que 80 por cento dos católicos eram contra a
Humanae Vitae, os bispos disseram calmamente: «Que a discussão sobre esta
encíclica contribua para uma apreciação e um funcionamento mais claros da autoridade
dentro da Igreja».
282
Os bispos canadianos também levantaram objecções, tal como os belgas, liderados
pelo Cardeal Suenens. Num gesto sem precedentes, os belgas acentuaram que os
católicos não estavam obrigados a obedecer incondicionalmente a este documento não
infalível. Uma pessoa que seja competente e conscienciosa nestas questões «tem o
direito de seguir as suas próprias convicções». Mesmo os argumentos usados pelo
papa eram considerados deficientes e portanto aqueles que dele discordassem não
podiam ser acusados de egoístas ou hedonistas. E os bispos continuavam:
Temos de reconhecer que, de acordo com a doutrina tradicional, a
norma prática fundamental da acção é a consciência, que foi
devidamente esclarecida por todos os factores apresentados em
Gaudium et Spes [o documento do Concílio]. Além disso, temos de
reconhecer que a decisão básica sobre a oportunidade da
transmissão de uma nova vida compete aos pais e estes devem
tomar a decisão em conformidade com Deus.
As hierarquias mais conservadoras, como a britânica e a americana, realçaram a
obediência a Sua Santidade. Exortaram os católicos a continuarem a receber os
sacramentos. Como muitas das suas paroquianos estavam a usar a Pílula, era difícil
entender como é que elas podiam ter um propósito de arrependimento, pré-requisito
para uma confissão sincera e uma sagrada comunhão. Encorajavam-se os católicos a
olharem-se não meramente como pecadores, mas como pecadores arrependidos,
enquanto utilizadores diários da Pílula como contraceptivo. A Humanae Vitae estava à
beira de causar o regresso aos piores excessos da moral teológica. Muitas mulheres
cujo único objectivo era evitarem a concepção estavam a tomar a Pílula com o pretexto
de que ela ajudava a regular o seu ciclo menstrual.
A maior parte dos bispos, por ordem do Santo Ofício, repreenderam os padres
dissidentes — aqueles que, nas palavras de Mill, «sofriam da doença do pensamento».
Diziam-lhes os bispos: «Ou o silêncio ou a expulsão». Não é verdade que na Humanae
Vitae o papa insiste que os padres tinham de prestar obediência interior e exterior à sua
doutrina? Os padres ponderados achavam isto incompreensível. Será que não podia
haver liberdade religiosa mesmo em questões contestadas e susceptíveis de
correcção? Viam a questão desta maneira: se a Humanae Vitae não é infalível, é falível.
Se é falível, o papa pode estar enganado. Se ele pode estar enganado, é perigoso tratar
a sua doutrina como se ela não pudesse estar errada. A única atitude sensata é tratá-la
com prudência, tanto mais que está em causa a felicidade de milhões de pessoas
casadas. Se Paulo VI tivesse dito: «Isto é infalível, isto é, é a fé da Igreja, portanto Deus
exige obediência interior e exterior», isso teria feito sentido. Mas, para ele, dizer «Isto
não é infalível mas Eu, o papa, insisto, mesmo assim, na obediência interior e exterior a
um pronunciamento que pode estar errado» é pedir demais. Alguns crêem sinceramente
que aquilo era imoral, porque o papa exigia o acordo para uma coisa que não está
absolutamente certa. A não ser que garantisse a sua verdade, o papa não devia exigir
obediência sem restrições. De qualquer maneira, se um padre estava convencido da
bondade do controle da natalidade, como é que ele podia estar interiormente de acordo
com o ponto de vista contrário? Muitos bispos perceberam isto e apenas exigiram
obediência exterior ao regulamento do papa. Isto era, mais uma vez, uma atitude
piedosa, mas de dupla face e encorajava o sicofantismo. Se os próprios bispos iam
desobedecer ao papa não exigindo obediência interior bem como exterior, não deviam
ter imposto nada aos seus padres.
283
Apesar dos persistentes esforços para controlar os estragos, foi como se um furacão
tivesse atingido a Igreja. Sondagens feitas depois da Humanae Vitae mostraram que
havia agora ainda mais católicos a favor da contracepção. Isto provava que na cama a
maioria dos católicos se tornavam protestantes.
O laicado começava a ficar zangado com a hierarquia. Começavam a pensar que a
ignorância, única habilitação do clero em matéria de sexo, não era suficiente. Qualquer
mulher ou homem casado tem mais conhecimentos sobre o sexo do que todos os
padres juntos. Muitos leigos começavam a dizer que um clero celibatário, apesar de
todos os seus sacrifícios em nome da Igreja, era um luxo que já não podiam sustentar.
A atitude dos padres parecia ser esta: se uma pessoa não tem força moral para ser
celibatária como nós, tem de arrostar com as consequências — incluindo todos os filhos
que Deus lhe der. Um jesuíta americano sugeriu que o celibato devia ser opcional para
os padres, mas obrigatório para os bispos, para eles aprenderem a ter algum senso.
Como insinuava o Arcebispo Hurley, nem mesmo em Concílio a Igreja está toda
representada. Como é que os velhos celibatários podem representar o sensus fidelium
em matérias em que não têm competência, matérias em que mesmo o uso da
imaginação livre os fará cair em pecado? Isto era tão irrealista como pôr os leigos a
ensinar aos monges e clérigos como deviam viver a sua vida de celibato.
A riqueza em sabedoria que o laicado possuía não estava simplesmente a ser
aproveitada para o fundo comum que devia alimentar a Igreja. Vinte e cinco anos depois
do Concílio, o clero continua a defender sínodos «sobre o laicado» sem que um único
leigo tenha voto.
As mulheres em particular sentiram que a Humanae Vitae as tratara injustamente. A
encíclica retratava um Deus que não ama as mulheres. Em Cristo não há masculino
nem feminino, mas na Igreja só há masculino. Apesar de todas as suas bonitas palavras
sobre a dignidade das mulheres, Paulo VI estava realmente a descrever seres que
nunca existiram, a não ser na sua imaginação. Pela primeira vez, era possível às
mulheres serem parceiros iguais no casamento; o preconceito na evolução a favor do
homem estava a ser grandemente rectificado pelos avanços científicos. Os prelados
católicos não viam isto. Eles preferiam que as mulheres fossem a eterna gente da “Casa
das Bonecas”, amarradas à casa e à procriação. As mulheres viam a coisa de maneira
diferente.
Para elas, o controlo da natalidade não tinha apenas igualado as relações no
casamento, tinha também humanizado a sexualidade. O sexo era agora um motivo de
alegria para homem e mulher, sem o omnipresente medo da concepção. Tinha feito da
concepção e criação dos filhos uma questão de opção. Os casais podiam finalmente ter
filhos quando estivessem preparados para tal, quando isso fosse melhor para toda a
família, de maneira que cada filho fosse um filho desejado.
Não se podia esperar que o clero, treinado para, e impregnado de solidão,
compreendesse as mulheres. Para os padres, as mulheres representam a tentação, o
renegar da sua vocação. Esta a razão por que “a mulher” nos documentos papais é
realmente um retrato da Virgem Maria; só ela, entre todas as mulheres, não constitui um
perigo para a vocação de um padre.
No século XIX, os papas atacaram constantemente a liberdade religiosa; no século
XX a sua preocupação é o sexo. Têm tentado, com a melhor das intenções, reprimir a
liberdade nesta área muito íntima e privada do amor. Confrontada com a explosão
demográfica — casas e até continentes a abarrotar de pessoas — a única coisa que a
sabedoria papal pode oferecer para controlar a fertilidade é o método altamente
inseguro do “período seguro” e a abstinência no casamento. Ambos mostraram até que
284
ponto o clero estava fora da realidade. Falavam como se o desejo sexual fosse qualquer
coisa que se pode ligar e desligar á nossa vontade. Os leigos ficaram desiludidos.
Os padres foram afectados de outra maneira pela A Humanae Vitae. A encíclica
obrigou-os a repensar a sua própria sexualidade. Muitos encararam o celibato pela
primeira vez. A encíclica mostrou-lhes que o papa estava errado acerca do sexo no
matrimónio. E se ele estivesse errado acerca da sexualidade em geral? Como é que
eles ficavam?
Seja qual for a razão, o que é certo é que, levantada a questão do controle da
natalidade em 1962, Roma foi inundada por uma onda de requerimentos de padres que
pretendiam abandonar o ministério. A principal razão apresentada era a incapacidade
para observar a disciplina do celibato. A história mostra que o celibato foi quase sempre
desastroso, mas nunca antes tantos padres o tinham declarado e requerido a Roma a
sua renúncia.
Quando a comissão papal procedeu à votação, um dos seus membros não estava
presente: Karol Wojtyla, Cardeal de Cracóvia. A sua ausência nunca foi explicada. Não
há dúvida de que, tal como Paulo VI, ele não acreditava que fosse possível mudar
alguma coisa. Talvez quisesse dissociar-se daquilo que parecia prenunciar um desastre.
Em Novembro de 1978, precisamente três semanas depois de se tornar o pontífice,
mandou reimprimir dois dos seus anteriores artigos no Osservatore Romano. O primeiro
intitulava-se A Verdade sobre a Encíclica Humanae Vitae.
Vinte anos se passaram já sobre a Humanae Vitae e desde então nada de
fundamental mudou. Se alguma coisa mudou foi no sentido do endurecimento das
posições. Muito estranhamente, o próprio papado tem sido a principal vítima das suas
próprias decisões. A América é a prova provada disto mesmo.
Durante anos o trabalho do Padre Andrew Greely e da sua equipa de investigadores
reuniu os dados que ajudam a explicar a razão por que a Igreja Católica se encontra
hoje em declínio acentuado. A razão principal não é o Vaticano II, como os teólogos
tendem a pensar. É, isso sim, a liderança papal nos domínios da moral sexual.
Em 1977, no seu livro The American Catholic, Greely pôde dizer:
Não conseguimos encontrar qualquer prova da relação do Concílio
com o declínio da crença e prática católicas; encontrámos, isso sim,
provas substanciais da relação entre o declínio e a rejeição da ética
sexual da Igreja e a erosão da credibilidade da liderança papal. […]
As pessoas discordam da doutrina sexual da Igreja, rejeitam a
autoridade do líder que tenta reafirmar a sua doutrina e depois
afastam-se de outras dimensões da crença e da prática religiosa.
A conclusão só pode ser esta: o Concílio Vaticano II sem a Humanae Vitae teria dado
à Igreja a possibilidade de dar um enorme passo em frente no mundo moderno. A
Humanae Vitae sem o Vaticano II teria sido um desastre total, nada menos do que um
regresso ao Catolicismo obscurantista da Idade Média. O Concílio Vaticano II e a
Encíclica Humanae Vitae juntos constituem um desastre mitigado. O sofrimento actual é
o resultado do conflito entre duas forças poderosas e irreconciliáveis desta notável
instituição.
O declínio da liderança papal levou ao declínio dos padres, dos seminaristas, das
freiras, de todos aqueles que estão de acordo com a doutrina da Igreja em todas as
questões morais. Levou até ao declínio dos fundos, porque as colectas da Igreja
285
baixaram dramaticamente. As frias estatísticas mostram que, mesmo que Paulo VI e
João Paulo II tenham razão, eles não conseguiram convencer senão uma pequeníssima
minoria de devotos católicos e os da faixa etária mais elevada.
Uma das razões tem de ser a de que os católicos têm uma opinião sobre a população
mundial muito menos optimista do que os papas. Um olhar apenas de relance ao gráfico
da população mostra que a humanidade precisou do tempo que decorreu do ano zero
ao ano 1800 para a atingir o bilião de nascimentos. De 1800 a 1920, nasceu mais um
bilião. O terceiro bilião foi atingido em 1958, o quarto em 1975 e o quinto no verão de
1987. De todos os bebés nascidos, estão hoje vivos perto de quatro dos cinco biliões. A
maioria vive no Terceiro Mundo. Apesar da Revolução Verde, há gente com fome hoje
mais do que nunca. Há milhões em África e na América do Sul que comem pouco e mal;
nunca utilizam uma casa de banho; vivem e morrem em sarjetas por onde escorrem
dejectos humanos, lixo e água poluída. Em 1920, o México tinha uma população de 20
milhões. Hoje, só a Cidade do México tem quase esse número. No fim do século, o
México terá pelo menos 100 milhões de habitantes. Mesmo hoje, na capital, há um
grupo conhecido por pepinadores; é uma associação de varredores que partilham o
direito de se alimentar das lixeiras locais.
Nas palavras de um funcionário do Vaticano, João Paulo II recusa-se a jogar o jogo
dos números. Em Junho de 1987, um mês antes de as Nações Unidas anunciarem o
nascimento do bebé número cinco biliões, repetiu ele uma vez mais: «Aquilo que a
Igreja ensina sobre a contracepção não é coisa que possa ser discutida livremente por
teólogos». Quando os teólogos católicos se reunirem para discutir a contracepção têm
de começar pela presunção de que nenhuma mudança é possível. Uma vez que na sua
maioria pensam que a mudança é inevitável, acham mais sensato ficarem calados.
«Todo o acto sexual deve ser aberto à transmissão da vida» diz João Paulo. O facto
de que uma tal doutrina posta em prática por uma só nação — a China ou a Índia, por
exemplo — provocaria um enorme excesso de população no mundo, levaria à miséria e
à fome em massa e a conflitos internacionais, não perturba a sua fé. Deus
providenciará.
Parece não haver qualquer hipótese de mudança no pensamento oficial durante este
século. João Paulo encheu o episcopado de homens que ou concordam plenamente
com a Humanae Vitae ou não lhe manifestaram qualquer oposição, mesmo quando
convencidos de que está errada. Hierarquias inteiras, como a holandesa e a americana,
estão a ser preenchidas com bispos de uma só crença teológica. Isto é a garantia,
humanamente falando, de que quando João Paulo partir a sua doutrina perdurará.
Nesta atmosfera altamente carregada, o mais leve desacordo da parte dos bispos e
teólogos leva à imediata dispensa.
Uma doutrina periférica, sem fundamento bíblico, tornou-se, para o bem e para o mal,
a pedra de toque da ortodoxia. É uma situação a que só Voltaire e Jonathan Swift
podiam fazer justiça. Entre muitos católicos devotos levanta-se esta obsidiante
pergunta: Estará o papa, nesta questão, a ser católico? Será que ele está a agir como
protestante na Igreja, fazendo o seu próprio julgamento particular, contrário ao sensus
fidelium, o verdadeiro espírito do Catolicismo em toda a parte?
A partir de 1968, para além do maciço crescimento da população, que já era
esperado, entrou para o debate um outro factor inteiramente imprevisível: a pandemia
da SIDA. O Papa Paulo decretou que todos os meios artificiais de controle da
natalidade, incluindo os processos de obstrução, são intrinsecamente um mal. Mas hoje
os médicos são de opinião de que o preservativo é o melhor processo de controlar a
infecção. Sem preservativos, muitos parceiros de casamento e seus filhos estarão
condenados a uma morte aterradora. E também os hemofílicos têm contraído a infecção
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através das transfusões de sangue. Quererá a Igreja Católica acrescentar à sua já dupla
calamidade uma terceira: o celibato? É esta a lógica da posição da Igreja, estabelecida
pelo Papa Paulo e reforçada pelo actual pontífice. O uso do preservativo viola a
integridade biológica do acto sexual e é condenável mesmo quando contribui para
prevenir a disseminação de uma doença que é provavelmente a pior desde a Peste
Negra de 1348. Nada pode justificar o uso de uma coisa que é intrinsecamente um mal,
nem mesmo a sobrevivência da espécie. A situação hipotética de Newman tornou-se
realidade.
Segundo a Humanae Vitae, os fins nunca podem justificar os meios. Os católicos
estão proibidos de argumentar que a contracepção é apenas um efeito secundário do
uso do preservativo. É evidente que o preservativo só evita a disseminação da SIDA
porque impede a entrada do sémen na vagina da mulher, violando assim a integridade
da relação sexual. A Igreja Católica, segundo Paulo VI, não pode levar em linha de
conta quaisquer parâmetros mais alargados do que as próprias faculdades do sexo.
Quando a finalidade primária dessas faculdades é bloqueada, como é o caso da
utilização do preservativo, o acto é intrinsecamente condenável, um pecado mortal. E
isto é assim, mesmo quando um marido está infectado, por ter tido relações com uma
prostituta, ou por ter usado uma agulha infectada ao injectar uma droga, ou, sendo
hemofílico, por ter recebido uma transfusão com sangue infectado. Ele e a mulher não
devem usar métodos contraceptivos de obstrução. Devem ter relações sem preservativo
ou simplesmente não as ter.
Actualmente com milhões de portadores de SIDA, as únicas opções da Igreja
Católica são: rezar a Deus por um rápido antídoto para o vírus ou pregar o celibato no
casamento a milhões de casais. Para o resto do mundo, esta atitude não é racional, é
sim irresponsável e uma ameaça à vida.
É altura de perguntar: o papa Paulo tinha razão quando disse que a sua doutrina na
Humanae Vitae era tradição católica “constante”? A pergunta “Qual é a tradição católica
na sexualidade?” acaba por ter algumas respostas bastante surpreendentes. Para
começar a procurá-las temos de recuar imenso no tempo.
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Uma Visão Pouco Amorosa do Sexo
Era um homem de pequena estatura aquele que chegou à pequena e buliçosa cidade
portuária. Fazia lembrar um pássaro, de olhos grandes e profundos. Tinha trinta e seis
ou trinta e sete anos. Vestido com uma grosseira túnica cinzenta, tinha percorrido a
pavimentada estrada romana, em direcção ao norte, através de campos sem árvores,
ricos em cereais. Conhecido como o Grande Pecador, vangloriava-se do seu título.
Quem é que nunca ouvira falar da sua submissão ao desejo, da fogosa sensualidade da
sua vida de estudante em Cartago, da sua primeira amante, de quem teve um filho, da
sua segunda amante, que ele arranjou enquanto esperava que a noiva que lhe fora
destinada atingisse a idade de casar? Quem é que nunca ouvira falar da sua paixão
pelo teatro e pelos combates de gladiadores, do seu fascínio por tudo o que fossem
heresias sórdidas? Nove anos de uma vida de excessos sem limite tinham-lhe deixado
marcas no rosto e no coração.
O ano era o de 391, o local, Hippo Regis, na província romana de Numídia, a actual
Argélia. O estranho era Agostinho, antigo professor de retórica, o génio que viria a
ensinar a Cristandade do Ocidente a falar latim e que imporia uma grande parte da sua
versão da mensagem de Cristo para os mil e quinhentos anos seguintes.
Era um convertido. Dentro em pouco, algumas das frases das suas Confissões viriam
a andar na boca de toda a gente. «Vós fizestes-nos à Vossa imagem, meu Deus, e os
nossos corações anseiam por repousar em Vós». «Eu fervi como a água, aquecido
pelas fornicações». E a mais famosa de todas: «Tarde demais Vos vim amar, Ó Belo,
tão antigo e tão justo».
A pedido da congregação, o velho Bispo Valério concordou em fazer deste estranho
o seu assistente. Agostinho acabou por lhe suceder e tornou-se o maior teólogo que o
Ocidente produziu. A maior parte das suas ideias foi formulada em sermões e daí,
talvez, a razão por que elas se tornaram tão populares. Era um excelente comunicador.
O medo do sexo
O sexo, queixava-se muitas vezes a sua congregação, era o seu tópico preferido.
Exigia os mesmos padrões a homens e mulheres. Protestava contra os homens que
mantinham amantes. Mas havia outras facetas mais discutíveis nos seus ensinamentos;
e tanto as más como as boas viriam a tornar-se a norma da fé cristã.
Os seus admiradores dizem que depois da conversão ele era puro espírito. A
verdade é que nunca se libertou da carne. Sempre albergou uma profunda desconfiança
em relação a ela, e uma aversão que nunca conseguiu disfarçar. A sua experiência
sexual limitara-se a amores ilícitos dos quais retirou um sentimento de culpa e de
desgraça. E fazendo mais tarde a extrapolação, cobriu todo o sexo, mesmo o do
casamento, de maldade e de pecado.
«Não há nada que mais rebaixe o espírito do homem», escreveu ele nos seus
Solilóquios, «do que as carícias de uma mulher e aquela relação sexual que faz parte
do casamento». Por medo, por se lembrar das suas próprias quedas, nunca permitiu
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que uma mulher entrasse na sua casa ou sequer falasse com ele, a não ser na
presença de outras pessoas. E não fazia qualquer excepção, nem sequer com a irmã
mais velha. A castidade era o princípio do serviço do Senhor, mas ele entendia-o num
sentido rigoroso. A sagrada fonte da vida, dizia, sempre foi conspurcada pelo desejo
(libido), mesmo na pureza do jardim do matrimónio. A sua convicção de que o apetite
sexual é por sua própria natureza um mal tornou-se a grande tradição da Igreja. Por
causa da Queda, o homem foi atacado no seu ponto mais vulnerável: o sexo. Mesmo no
casamento, ele é conspurcado pelo desejo. Foi esse o principal e inevitável castigo de
Adão pelo seu pecado. O apetite sexual só pode justificar-se pelo desejo de procriar.
Sem esse desejo, o pecado venial da luxúria dentro do casamento transforma-se num
pecado mortal contra o próprio matrimónio. O casal passa a "prostituir-se"; a sua
relação passa a ser um adultério sistemático.
Em sermão após sermão repete: «Maridos, amai as vossas esposas, mas amai-as
castamente. Persisti nos trabalhos da carne, mas apenas na medida em que isso seja
necessário para a procriação. Como não podeis ter filhos de outra maneira, deveis
descer até isso com relutância, porque é esse o castigo de Adão. […] Um homem deve
aspirar a um amplexo em que já não possa haver corrupção».
Quem dera que um casal pudesse ter filhos sem ter de recorrer à sordidez do sexo,
por exemplo, rezando juntos de joelhos. Segundo Agostinho, um homem nos braços da
mulher deve concentrar-se friamente no filho e ansiar ardentemente pelo céu, onde
poderá abraçá-la como se fosse uma estátua.
Isto ajuda a explicar a razão por que ele tanto louva a virgindade. Esta está livre do
desejo que envergonha mesmo a utilização legítima do casamento. Uma pessoa virgem
está próxima de Deus porque ele ou ela se afastou dos inevitáveis pecados do
matrimónio. É difícil de perceber como é que ele pode dizer que o casamento é um bem
quando os actos próprios do matrimónio são necessariamente um mal.
No tempo de Agostinho, houve uma tentativa grosseira de calcular o "período
seguro". Os Maniqueus, que odiavam a carne, conseguiram-no e instruíram os seus
seguidores no sentido de limitarem as relações a esse período. Desta maneira evitavam
o pior aspecto da sensualidade, que era o de trazer ao mundo mais um corpo. O corpo,
produto de uma divindade maléfica, tinha a corrupção como destino. Agostinho tinha
sido maniqueu; foi o primeiro santo de sempre a usar o período seguro. Isso também
lhe foi útil, na medida em que em mais de onze anos ele e a amante apenas tiveram um
filho, o belo Adeodato, que morreu ainda jovem. Tal como muitos convertidos, Agostinho
era implacável com os seus antigos amigos. Ficava horrorizado não apenas com a
fornicação, mas também com a aprovação do período seguro por parte dos Maniqueus.
Quando ouviu dizer que os católicos tinham começado a utilizar o período seguro para
evitarem a concepção, disse categoricamente que isso era um grave pecado. É buscar
prazer no sexo, sem a intenção de procriar. Este ponto de vista prevaleceu na Igreja
Católica até Pio XII considerar, em 1951, o período seguro como o único processo
aprovado por Deus.
As virtudes do matrimónio
No ano de 401, Santo Agostinho escreveu um tratado, Das Virtudes do Matrimónio
(De Bono Conjugali), que viria a influenciar toda a tradição cristã. Aí estabelece ele as
três bona, as virtudes, os valores, os fins do matrimónio. Eram elas: os filhos, a
indissolubilidade e a fidelidade. Quinze séculos mais tarde, em 1930, Pio XI usou estas
categorias como fundamento da Encíclica Casta connubii. São estas, disse ele, que
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constituem um casamento; sem qualquer delas, o casal não estaria a cumprir o contrato
de um verdadeiro matrimónio. Isto foi, de certa maneira, uma imprudência da sua parte,
na medida em que assim tornava nulos a maior parte dos casamentos do mundo.
No século XX, o tratado de Agostinho é intragável por causa da sua crueza e da sua
interpretação profundamente errada da sexualidade. O seu princípio básico é este: a
relação sexual no casamento com vista à concepção dos filhos está correcta e é
legítima; para qualquer outro fim, é pecado. As consequências que tirou deste princípio
parecem hoje algo peculiares.
As pessoas mais velhas «quanto mais cedo começarem a refrear as relações sexuais
melhor ficam». Quando já não podem ter filhos, devem procurar a castidade da alma,
isto é, passar completamente sem sexo.
Para os jovens, «a relação marital transforma o mal da luxúria numa coisa boa» —
desde que ao terem relações eles pensem em si próprios não como marido e mulher
mas como pai e mãe.
Mas suponhamos que a mulher não pode conceber. O que é que justifica que um
homem tenha relações com ela? Bem, contribui para evitar que ele ande por aí a dormir
com umas e com outras. É a opção do mal menor. Mesmo com base nos próprios
princípios de Agostinho, isto dificilmente se justifica. Aproxima-se perigosamente do
princípio de que o fim (evitar o adultério) justifica os meios (o pecado matrimonial da
luxúria).
E isto não faria da relação com uma mulher grávida um pecado de luxúria? Claro que
sim. Escreve ele: «Há homens de uma incontinência tal que não poupam as mulheres
quando estas estão grávidas». A conclusão deve ser certamente que a mulher deve
recusar e não permitir que o marido peque com ela. Pelo contrário, argumenta
Agostinho, ela deve aceitar o marido porque ele tem autoridade sobre ela. Além disso,
para a mulher, é melhor que ele peque com ela do que com outra mulher. À parte o
chauvinismo masculino, isto também é ilógico. Não seria melhor o homem pecar com
uma prostituta a isso disposta do que com uma esposa contrariada cuja castidade ele
está a violar? Na linguagem da moralidade teológica, não deveria a esposa grávida
repeli-lo como uma virgem faria a um violador?
Uma vez parceiros no pecado, pelo menos venial, mesmo quando tencionam ter um
filho, seguem-se ainda outras estranhas conclusões, que Agostinho aceita de bom
grado. «A abstenção de toda a relação sexual é certamente melhor do que a própria
relação marital que se realiza com vista a ter filhos». O casamento ideal é uma união de
"celibatários". S.Paulo foi uma grande vítima dos comentadores, mas quem é que ia
supor que ele pretendesse significar uma coisa destas? Segundo Agostinho, a maioria
dos casais tem de se decidir por qualquer coisa um pouco menos do que ideal.
«Embora a continência [no matrimónio] seja mais meritória, não é pecado consumar o
casamento, mas fazê-lo para além da necessidade de procriar é um pecado venial».
Fica claro que o sexo no casamento é apenas para aqueles que não conseguem
controlar-se. O ideal é nenhum sexo hoje e sempre, para toda a eternidade. A Virgem é
aqui o modelo utilizado.
Maria era totalmente casta, uma virgem. Mas também combinava "impossíveis" em
si: a virgindade e a maternidade. Isto era a perfeição: a maternidade sem sexo, a
virgindade com a bênção de um filho. É quase como se Agostinho desejasse que Deus
tivesse feito da concepção virginal a norma. De facto, a única maneira que ele tem de
absolver Deus da culpa de instituir o casamento é dizer que a inevitável luxúria do sexo
é culpa de Adão e não de Deus.
O filho como que justifica o casamento tal como o conhecemos. Deus extrai do mal a
virtude. Contudo, é a frigidez (Agostinho chamava-lhe "espiritualidade") que se deve
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almejar, não o prazer sexual (libido). O casamento perfeito devia seguir este padrão:
marido e mulher, antes de exigirem a consumação do casamento, deviam procurar
saber se o seu parceiro estava com disposição sagrada, isto é, não sexualmente
excitado e com o propósito de procriar.
Agostinho não se esquiva à mais paradoxal das conclusões: o casamento ideal é
formado por duas pessoas virgens. Se isto se tornasse a norma, a Cidade de Deus em
breve estaria acabada. O mínimo que os casais podem fazer é esforçarem-se, à medida
que envelhecem, por se tornarem castos, isto é, sexualmente inactivos e, a longo prazo,
esperemos, impotentes. Não fora o facto de S.Paulo ter escrito que um homem não
peca por deixar que uma filha case, teria sido muito difícil para Agostinho, com base nos
seus próprios princípios, fazê-lo.
O sexo sem os filhos no pensamento — pior ainda, o sexo durante o período seguro,
quando não há a intenção de ter filhos — é gravemente pecaminoso. «Porque a relação
sexual que vai para além da necessidade de procriar já não obedece à razão mas à
paixão». Os casais idosos sexualmente activos ou aqueles que têm relações quando a
mulher está grávida ou é estéril estão sujeitos a incorrer num enorme número de
pecados.
Então e os patriarcas judeus que, segundo as Escrituras, tinham várias mulheres? A
resposta de Agostinho é que eles tinham mais do que uma mulher, não pelo prazer da
variedade, mas sim pela necessidade de ter mais filhos. Ao manter as suas esposas e
concubinas, estas nobres figuras agiam presumivelmente sem paixão e com um
profundo sentido do dever para com a espécie. Era um altruísmo heróico. Isto é
também, incidentalmente, mais um exemplo do princípio de que os fins (o aumento do
número dos eleitos) justificam os meios (ter relações sexuais fora do casamento).
Agostinho era o modelo do moralista: um rigorista com um especial talento para arranjar
justificações para quase tudo.
O ênfase de Agostinho na virgindade de Maria encorajou o celibato na Igreja, não
obstante Maria ter tido um marido e, segundo o Evangelho, outros filhos além de Jesus.
Com a crítica bíblica ainda na sua infância, os Padres não compreenderam que a
virgindade de Maria não tinha nada a ver com castidade. Foi um expediente teológico
pelo qual os evangelistas exprimiram o facto de Jesus ser filho de Deus, fruto não de
um homem e de poder humano, mas de Deus e do poder divino. O Velho Testamento
tinha expedientes semelhantes: bebés nascidos de mães estéreis, ou, como no caso de
Sara, de mães centenárias. Infelizmente, a "virgindade" de Maria não inspirou
simplesmente as mulheres a fazerem grandes coisas por Deus e pelos seres humanos
seus semelhantes, contribuiu também para o declínio do casamento cristão. Reforçou a
crescente convicção de que a virgindade era superior ao casamento, que na sua
essência era impuro; alimentou a ideia de que os ministros do altar deviam ser
celibatários. Esta preferência tornou-se mais tarde obrigação; os ministros tinham de ser
celibatários, o que trouxe muitas vezes consequências graves para o bom nome da
Igreja.
A principal influência sobre Agostinho, tivesse-o ele entendido, não veio da Bíblia,
mas dos Estóicos. Nos escritos de Séneca, por exemplo, o dever era soberano. Na sua
austera filosofia, sempre que leva a melhor, a razão mata as emoções, que não eram
senão uma doença. O objectivo da vida era aniquilar o egoísmo; nada se devia fazer à
espera de recompensa. Em vista disto, o sexo só tinha um fim: a procriação. As
alegrias, a satisfação, o prazer estavam proscritos e deviam ser, tanto quanto possível,
extintos. O ideal era uma relação sexual fria e sem paixão.
Agostinho chegou à aversão pelo sexo por outra via: analisou as consequências do
pecado original. Aquilo a que os Estóicos chamavam perturbatio, chamava ele
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concupiscência, mas elas eram uma e a mesma coisa. Aguentar estoicamente o
sofrimento só tem um nome e dificilmente se adequa a um casal na excitação da
relação sexual. Mas uma frieza premeditada, o abafar de sentimentos humanos na
cama matrimonial é, em sentido restrito, anti-natural, isto é, contrário à natureza
humana.
Não valeria a pena ressuscitar esta doutrina de um grande, embora pouco sensato
doutrinador, se a Igreja Católica não a tivesse aceitado totalmente. Não houve papa
nenhum, nem teólogo, que não seguisse as opiniões de Agostinho sobre o sexo e o
casamento. Com estas, ele influenciou gerações atrás de gerações de leigos. A ideia
dos Estóicos de que o sexo se destina exclusivamente à procriação tornou-se ortodoxia
católica durante mais de mil anos. O que os leigos concluíram daqui foi que o sexo é
uma coisa obscena e ridícula. Uma constante sensação de pecado penetrou no quarto
de dormir, daí resultando que muitos cristãos identificavam o pecado com a
incontinência. E não foram poucos os papas que reforçaram esta impressão ao
criticarem a impureza mais do que qualquer outro vício, como a cobiça ou a
insensibilidade.
Agostinho não foi o único doutrinador do seu tempo com um preconceito anti-sexo; foi
apenas o mais influente. O ênfase na castidade e na virgindade significava que o
casamento era olhado como a mais moderada e menos censurável forma de luxúria.
Para os casados, tal como para os ricos, a entrada no paraíso, embora não impossível,
era difícil. A superioridade da virgindade sobre o casamento, disse João Crisóstomo, é
como a do céu sobre a terra ou a dos anjos sobre os homens. "Vocação" significava
"esquecer o sexo". Jerónimo disse que o próprio S.Pedro só conseguiu lavar a sujidade
do casamento com o sangue do martírio. O objectivo do santo é, segundo Jerónimo,
«cortar o tronco do matrimónio com o machado da virgindade». A única justificação do
casamento é que ele produz virgens.
Na sua History of European Morals, Lecky diz que só conseguiu encontrar duas ou
três belas descrições do casamento numa enorme quantidade de escritos patrísticos.
«Seria difícil conceber coisa mais grosseira e repugnante do que a maneira como eles o
olhavam». O sexo era visto como apenas desejo desenfreado. Ter relações quando a
mulher está grávida era universalmente considerado pecado, era desperdiçar uma
semente de vida num campo já semeado. Nem os animais fazem coisa "tão imunda".
Não houve, nos tempos patrísticos, uma única referência ao amor terno que as pessoas
casadas têm uma pelo outra, um único sinal de que os Padres tenham compreendido
que o acto sexual era de facto uma acto de amor. A prova da sua torpeza eram as dores
de parto. A mulher em particular — também Deus era machista — sofre no mesmo lugar
onde pecou. Mesmo quando uma criança vem ao mundo Deus denuncia a culpa.
Abundavam as estórias "edificantes" de maridos que abandonavam as mulheres e os
filhos para "viverem uma vida casta", de mulheres que imploravam que a sua honra
fosse respeitada na noite de núpcias. Herói era o homem que deixava a mulher na noite
do casamento para viver a sua vida no deserto. O ideal era o ascetismo, interpretado
como libertação da sexualidade. Isto foi subscrito por todos os papas, Gregório I
incluído.
O Papa Gregório o Grande
Gregório, que reinou de 590 a 604, foi uma das maravilhas do seu tempo. Só Leão I
(440-61) rivaliza com ele como bispo pastoral e teólogo.
Gregório era de estatura mediana, com uma enorme cabeça calva, de cuja relíquia
muitas cidades — Constança, Praga, Lisboa, Sens — viriam a reclamar-se detentoras.
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A testa era alta e os olhos pequenos e castanho-amarelados. O nariz era aquilino, de
grandes narinas, e os lábios grossos e rosados. Descendente de família nobre e
senatorial, cedo decidiu tornar-se monge. Nunca gozou de boa saúde, especialmente
nos últimos quinze anos de vida. Arruinou-a com os jejuns e penitências. Sofria também
de indigestões e foi uma vítima da gota. Isto devia-se talvez ao vinho que importava
directamente de Alexandria, aromatizado com resina, chamado Cognidium.
O Papa Gregório foi um dos primeiros pontífices a pôr o seu carimbo de aprovação
na obra de Agostinho. A relação sexual, disse ele, é pecaminosa não só durante a
gravidez, mas também durante a aleitação. Depois de dormir com a mulher, um homem
não pode entrar na igreja enquanto não se purificar pela penitência e pela lavagem,
porque a sua vontade permanece maléfica. O casamento não é pecaminoso, mas o
sexo realizado pelos cônjuges certamente que o é. Gregório também segue Agostinho
ao estabelecer uma estreita relação entre sexo e pecado original.
O pecado original é uma corrupção inata da alma. Reveste a forma de luxúria e
concupiscência, é uma revolta da carne contra o espírito. Deriva em última instância de
Adão, o primeiro representante da raça humana. Por causa do pecado de Adão, a
substância mesma da humanidade ficou manchada. É como se Adão, o primeiro
homem, tivesse contraído uma doença infecciosa que leva inevitavelmente à morte.
Esta doença é transmitida a todos os membros da espécie ao nascer. Adão agiu em
nome da humanidade — não havia mais ninguém nessa altura — daí que o que ele fez,
toda a gente o fizesse também. Portanto, toda a gente é responsável por aquilo que ele
fez.
Neste assunto, Gregório tomou S.Paulo à letra: «Em Adão todos pecámos». Isto quer
dizer que há culpa desde o primeiro momento da nossa existência. Não é uma mácula
pessoal, mas uma mácula da natureza, portanto inevitável. A natureza vem dos pais.
Desde o princípio a alma do bebé é poluída por este pecado original, este pecado
herdado.
Gregório não ignorava os problemas que isto levantava. Por exemplo, os pais eram
purificados do pecado original no baptismo. Como é que eles podiam transmitir o
pecado original aos filhos? Ele responde: Embora eles próprios estivessem purificados,
transmitiam a natureza corrupta pelo sexo, o desejo galvanizado pela luxúria. Os bebés
nascem como fruto condenado da luxúria dos seus pais redimidos. São desde logo o
produto de Gehenna ou Inferno; são justamente filhos da ira porque são pecadores. Se
morrerem sem serem baptizados, estão condenados a tormentos eternos por mera
culpa do seu nascimento. A própria existência é um estado de pecado; nascer é
habilitar-se a penas eternas.
Para provar que as opiniões de Gregório não têm interesse apenas para os
historiadores, basta analisar o cânone 747 do código de leis da Igreja de 1917. Este
cânone, embora retirado do código revisto de 1983, ainda determina as práticas
impostas pelos moralistas. Poucos textos literários haverá mais tristes do que este. Se
um bebé corre o perigo de morrer ainda no ventre, deve ser baptizado antes de nascer.
O grande apelo de Cristo «Ide, baptizai todas as nações», fica reduzido a alguém — um
médico, uma enfermeira, um padre, um marido — às apalpadelas dentro do ventre
durante um parto difícil para baptizar o não-nascido com água de uma seringa. Pode-se
imaginar o duplo terror da mãe. Nem Swift com toda a sua inventiva satírica podia ter
imaginado tal comportamento.
Gregório concorda com Agostinho que o desejo sexual é pecaminoso em si mesmo.
Escreveu ao outro Agostinho, o apóstolo de Inglaterra: «O desejo sexual é
absolutamente impossível sem pecado», de modo que todo o acto sexual no casamento
carece de penitência para a sua expiação.
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«Nós chegamos ao mundo», diz Gregório com imponência, «vindos da corrupção,
com corrupção e transportamos connosco a corrupção». É sua convicção que «o
Príncipe deste mundo está envolvido na acção, na palavra e no pensamento daqueles
que estão relacionados com o prazer carnal». Só Jesus conseguiu escapar. «Só Aquele
que nasceu verdadeiramente santificado para que pudesse conquistar essa mesma
condição de uma natureza corrupta, não foi concebido por conjunção carnal». Há aqui,
como já apontámos, uma negação da concepção imaculada de Maria.
Nada do que aqui se diz tem como intenção ofender a memória de Gregório. As suas
ideias foram partilhadas por muitos homens de grande estatura antes e depois dele. O
problema apenas se levanta porque ele era papa; e os papas agora são tidos como
guias infalíveis; ensinam doutrina eterna e estabelecem absolutos morais. As opiniões
de Gregório apenas são um embaraço por causa da crença católica de que os papas
não podem ter errado, e errado gravemente, sobre uma coisa tão básica como o sexo e
o casamento.
Há uma outra enorme dificuldade para os católicos que aqui deve ser referida. Se
quando escreveu a Humanae Vitae Paulo se sentiu obrigado a concordar com os seus
ilustres antecessores, como Pio XI e Pio XII, por que é que não reparou no Papa
Gregório? Ele não era propriamente um peso-leve. Em qualquer lista de pontífices, teria
de figurar entre os primeiros seis. Herdou uma Roma em ruínas, cercada de bárbaros.
Numa década tornou-a herdeira do Império dos Césares do Ocidente. Se o papado
ensina de facto absolutos morais, certamente que Paulo VI devia ter tido tanta
preocupação em ensinar aquilo que Gregório ensinou no século VI como teve em repetir
os ensinamentos de Pio XI no século XX. Ou será que o facto de os pontífices
modernos contradizerem a doutrina de Gregório não é relevante?
Depois do Papa Gregório
O profundo pessimismo de Agostinho acerca do sexo, do casamento e do pecado
original encontrou o seu campeão supremo no Papa Gregório. A sua doutrina passou
incólume para a Idade Média. Os casais eram avisados de que não deviam ter relações
na noite de núpcias porque profanavam o sacramento do matrimónio. Como é que o
tempo diminuía o mal de uma coisa intrinsecamente sórdida nunca ficou muito claro.
Lecky relembra a visão de Santo Alberico do século XII em que no Inferno há um lago
de tormentos — resina, chumbo em brasa, pez incandescente — à espera dos casais
que tiveram a ousadia de dormir juntos nas festas da Igreja ou em dias de jejum. No
centro de O Martelo das Bruxas, de Kramer e Sprenger estava a crença de que o sexo é
tão irrevogavelmente mau que é a porta principal por onde Satanás entra no mundo.
Distintos teólogos da Idade Média interpretaram simplesmente as ideias de Gregório
de uma maneira mais escolástica. Os séculos sucedem-se e o acto sexual é descrito
em termos de pecado e nunca em termos de amor. Os teólogos, todos celibatários, não
conseguiram apreender o ponto mais básico da relação sexual entre os humanos, em
oposição aos animais: que ele é um acto de amor.
Esta atitude negativa prevaleceu na teologia moral deste século. Em 1966, em
Inglaterra, foi publicado um livro chamado Birth Regulation and Catholic Beliefs. Fora
alegadamente escrito por G.Egner e publicado em Munique. Tem uma dedicatória
alemã e um prefácio de agradecimento ao tradutor. Na verdade foi escrito em inglês por
um padre com um nome muito irlandês.
O Padre Egner seleccionou interessantes excertos dos mais respeitáveis teólogos
morais desse período sobre o sexo, os quais constituem uma leitura sombria.
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Capello, ao falar de jogos amorosos, diz que os cônjuges podem
praticar quaisquer actos lascivos incompletos. Estes incluem
contactos oral-genitais, pois embora extremamente obscenos, são
porém legítimos. Génicot, para quem tais actos são imundíssimos e
normalmente pecado mortal, fala de actos lúbricos permitidos aos
cônjuges, de palavras e aspectos sujos, de toques nas partes do
corpo decentes, menos decentes e indecentes.
Como Egner salienta, as opiniões destes moralistas são tão lamentáveis como a sua
própria linguagem. Os jogos amorosos são praticados «naquilo que só pode ser descrito
como um ambiente de pecado venial tolerado», como se o pecado fosse «uma infracção
técnica a um qualquer regulamento». Teve a coragem de repescar dos livros de texto
estas e outras observações e permitir que os católicos vissem como o seu clero era
treinado para entender estes problemas. Porque o que Egner revelou foi que os guias
morais não faziam ideia nenhuma daquilo de que estavam a falar. Carecendo
totalmente, como um todo, de experiência prática, eram como um grupo de cegos
congénitos a pontificar sobre «a cor na arte moderna».
Contra este pano de fundo, a encíclica de 1930, Casta connubii, de Pio XI, ficou
clara. O que nesta mais intriga é a maneira como o pontífice selecciona os
ensinamentos dos seus antecessores.
Na secção 14, segue o Papa Gregório ao dizer que mesmo os pais purificados não
podem transmitir a pureza aos filhos. O nascimento é «uma condição de morte pela qual
o pecado original é transmitido para a posteridade». O bebé carece de ser regenerado
nas águas do baptismo. Por que é que Pio XI não completa a doutrina de Gregório e
insiste que os bebés são o produto do Inferno e que estão condenados, se morrerem
sem o baptismo, a acabar em tormentos eternos? Por que é que Pio aceita os princípios
de Gregório e não aceita também as suas conclusões?
Na secção 23, Pio XI cita a expressão de Santo Agostinho «a fé da castidade». Cita,
em concordância, as palavras de Agostinho «A fé matrimonial exige que o marido e a
mulher se juntem num amor especialmente sagrado e puro e não que se amem como
adúlteros». O que ele não diz é que o propósito de Agostinho era, com isto, o de
condenar aquilo que ele, Pio, permite. Porque na secção 59 Pio escreve:
Aqueles que, na situação de casados, usem os seus direitos de
maneira adequada, também não são considerados como agindo
contra a natureza, embora por razões de ordem natural, quer de
tempo quer de certos defeitos, não possa ser produzida uma nova
vida. Porque no matrimónio, bem como no uso dos direitos
matrimoniais, há também fins secundários, tais como a ajuda mútua,
o cultivo de amor mútuo e o acalmar do desejo, os quais não estão
vedados a marido e mulher desde que estejam subordinados ao
objectivo primário e também que a natureza intrínseca do acto seja
preservada.
Embora Pio tivesse pouco antes falado (secção 54) de «tradição cristã ininterrupta»,
quase tudo neste excerto é contra a tradição cristã. Agostinho e Gregório contradiziam
tudo isto expressamente. Não faziam a distinção entre fins primários e secundários do
casamento. O casamento destinava-se à procriação; este não era o fim primário, mas o
único fim que podia justificar a relação sexual. Qualquer outro fim que se acrescentasse
297
ao da procriação era pecado. Portanto é uma ingenuidade da parte de Pio dizer que não
havendo interferência na natureza não há pecado; um casal pode ter relações sexuais
para alimentar o amor mútuo, para apaziguar o desejo, etc.. O Papa Gregório teria dito
que o sexo não é para isso, não é senão para ter filhos. Tudo o resto tem de ser
pecado. Esta é que era a tradição cristã ininterrupta e não a opinião de Pio XI. Até
Inocêncio XI (1676-89) decretou solenemente que ter relações sexuais por puro prazer
é pecado. Isto era lógico. Se o sexo era para procriar e não podia produzir um filho ou
por a mulher ser estéril, ou por estar grávida ou ter já passado a menopausa, o acto
sexual tinha de ser pecado.
Uma coisa é Pio XI alterar radicalmente a tradição, outra muito diferente é dizer que a
sua doutrina está de acordo com ela. Porque ao fazer a distinção entre os objectivos
primário e secundário do casamento e permitir o secundário na condição de que se não
impeça o objectivo primário, ele introduziu um critério inteiramente novo para julgar a
sexualidade. E que critério é este?
A tradição era que a moralidade do sexo é julgada por uma única coisa, a saber, se
se destina à procriação. Pio substituiu isto pela integridade da relação sexual. Se o acto
sexual for consumado, isto é, se houver penetração e inseminação, nada mais
interessa. Portanto, se a mulher já estiver grávida ou for estéril, havendo penetração e
inseminação, trata-se de um acto virtuoso. Há duas importantes falhas nesta opinião.
Primeiro, ela vai contra mais de mil e quinhentos anos de tradição cristã. Segundo,
substitui um critério moral, por muito inadequado que seja, por um critério biológico. Pio
iniciou uma nova tradição: a de julgar a moralidade do sexo não olhando às pessoas e
ao que elas fazem como pessoas mas à “integridade“ física de um acto. Obviamente
que se o biológico é a única coisa a considerar, nada pode justificar a contracepção,
nem o amor dos parceiros, nem a saúde da mulher, nem a estabilidade da família, etc..
Deve dizer-se, portanto, que quando invocou a tradição «constante» da Igreja sobre a
contracepção Paulo VI estava na realidade a invocar uma doutrina que remontava a
quarenta anos antes, à Encíclica Casti connubii, e que ia contra a genuína tradição.
A recusa do Concílio Vaticano II de fazer a distinção entre fins primário e secundário
do casamento foi de grande sensatez. Essa distinção tornava impossível qualquer
solução para o dilema da contracepção.
Em tempos recentes os moralistas tomaram consciência das muitas dimensões da
sexualidade. Freud mostrara que o sexo não é primordialmente de ordem genital ou de
contactos genitais mas envolve o ser humano e o seu relacionamento. A velha doutrina
fazia uma abordagem da sexualidade inteiramente genital. Uma vez reconhecido que o
sexo diz respeito às pessoas e ao amor, era vital que isto fosse integrado na moralidade
cristã do sexo. Em vez de repensar a sexualidade, os moralistas foram obrigados pelo
Santo Ofício e pela Encíclica Casti connubii a simplesmente acrescentar às velhas as
novas descobertas. O resultado foi um híbrido. A Encíclica Casti connubii tem de facto
elementos modernos — a ajuda mútua, o amor mútuo — mas estes estão presos àquilo
que agora se chama o fim primário do casamento, isto é, a procriação.
Contudo, a nova solução híbrida é tão inaceitável como a solução tradicional e é
muito menos lógica. De facto, a nova não é de modo nenhum uma solução moral.
Classifica o amor de “secundário” e subordina-o a um critério biológico da sexualidade.
O que realmente importa é o coito correcto. O amor, o respeito, a compaixão, a
preocupação pelos filhos já nascidos — todos estes elementos morais são secundários
em relação ao elemento biológico, isto é, a penetração e inseminação. Se estes
elementos biológicos estiverem presentes, o acto sexual está de acordo com a “lei
natural”. Mas os elementos verdadeiramente da lei natural, o amor e a compaixão, não
podem desempenhar o papel determinante naquele que é o mais moral de todos os
298
actos, a relação sexual entre marido e mulher. Na Encíclica Casti connubii já estava
inscrita a tragédia que por fim se desenrolou na Humanae Vitae.
Pode dizer-se justamente que hoje a Igreja Católica está mergulhada numa tragédia
porque os papas interpretaram mal a sua própria tradição. Pio XI estruturou uma
encíclica baseada na doutrina de Agostinho e depois completou-a com muitas coisas
contrárias a toda a tradição que Agostinho influenciou. Pio XII pareceu ignorar que
também ele negou a longa tradição da Igreja.
Em 1940, numa alocução a recém-casados disse:
O mesmo Criador, que na Sua bondade e sabedoria quis que o
trabalho do homem e da mulher unidos pelo casamento servisse a
conservação e propagação da raça humana, também dispôs que
nessa função, o casal devia experimentar o prazer e a felicidade no
corpo e na alma. Portanto, o casal, ao procurar gozar este prazer,
não age mal.
O pontífice fala de prazer, aparentemente incapaz de se resolver a falar da relação
sexual como um acto, o acto de amor. Esta escolha que faz da linguagem é
interessante por duas razões. Primeiro, contradiz a doutrina da maioria dos pontífices
anteriores, que disseram que o prazer sexual nunca está isento de pecado e que os
casais não deviam comungar na manhã seguinte às relações. Segundo, ao concentrar-
se no prazer, recusando pronunciar a palavra "amor", coloca a procriação como fim
primário do casamento. Mas, se "prazer" tem um ligeiro sabor a hedonismo, então e
"amor"? Será que à luz do Evangelho Pio XII podia tão facilmente ter subordinado "o
amor" à procriação? Certamente que não.
Mas onde Pio XII mais se afastou da tradição foi nas palavras que em 1951 dirigiu às
parteiras. Aí, e pela primeira vez, um pontífice acolheu com reservas o método do ritmo
para a prevenção da natalidade.
Embora no século XIX se tivessem feito algumas tentativas para lhe dar um carácter
científico, este método revelou-se demasiado falível até Ogino e Knaus publicarem as
suas descobertas, nos fins dos anos 20. Enquanto que Roma já anteriormente se
pronunciara contra a moralidade do método, o discurso de Pio XII provocou uma
alteração completa no pensamento da Igreja.
Segundo ele, a utilização do período infértil era legítima porque não corrompia a
natureza do acto. «Eles não impedem nem prejudicam de nenhuma maneira a
consumação do acto natural e das suas posteriores consequências naturais». Marido e
mulher precisariam de uma boa razão para utilizarem o período seguro, mas, em si
mesmo, isso não é condenável. É esta doutrina que Paulo VI repete na Humanae Vitae,
secção 11.
Parece que nenhum dos dois pontífices reparou que era a primeira vez na história do
Catolicismo que se dizia que o acto sexual era virtuoso em si mesmo, não simplesmente
quando a procriação não era possível, mas porque a procriação não era possível.
Infelizmente, Pio XII, tal como Pio XI, fizeram da biologia o critério da moralidade, o
que veio quebrar os tradicionais laços entre sexo e procriação. Mas ao mesmo tempo
que garantia aos católicos o direito de regularem por si próprios os nascimentos, não
deixando toda a questão nas mãos da "providência", também os privava dos meios
satisfatórios de o fazer. Com esta única decisão, Pio XII pôs os católicos num caminho
atulhado de termómetros e calendários. Melhor seria ter-lhes deixado a única alternativa
tradicional, isto é, a de procriarem ou absterem-se completamente do sexo.
299
Para o futuro, e previsivelmente, a Igreja Católica carrega uma doutrina sobre o
controle da natalidade que cortou todos os laços não só com o seu passado cristão mas
também com o mundo moderno. Apegar-se a velhos princípios em face do hedonismo
contemporâneo é uma coisa; produzir um novo princípio que impede os casais de
regularem a sua família em face da explosão demográfica é outra completamente
diferente.
Um exemplo histórico já aqui referido pode ajudar ao esclarecimento do actual dilema
católico.
O Pecado Original e o controle da natalidade
De acordo com a tradição de séculos, formulada por Agostinho e sancionada pelo
Papa Gregório e por todos os seus sucessores, o baptismo era um pré-requisito para a
salvação. Os bebés apenas com dias nascidos de pais cristãos iam para o inferno se
morressem sem serem baptizados. O mesmo acontecia com os catecúmenos se
morressem inesperadamente. Claro que todo o mundo pagão estava condenado à
danação. Segundo Agostinho, mesmo o Bom Ladrão só foi salvo porque foi baptizado
de maneira não especificada.
Não há melhor prova da falibilidade da Igreja do que esta. Não é que os pontífices e
os padres dissessem que não sabiam como é que os bebés podiam salvar-se; diziam
era categoricamente que isso era impossível. Não alegavam ignorância sobre o destino
da enorme parte da humanidade que nunca ouvira falar de Cristo; afirmavam, isso sim,
sem reservas que todos eles iriam para o inferno. Fora da Igreja não havia salvação e
com “Igreja” eles queriam dizer Igreja Católica, onde só se entrava através do baptismo
da água. Estas ideias foram repetidas século após século sem uma única voz
dissidente. Era a doutrina católica sempre pregada por toda a gente em toda a parte. Já
vimos que quando Francisco Xavier foi para a Índia, tinha a certeza de que os pagãos
não baptizados, por muito virtuosos que fossem, não podiam ir para o Céu.
A impiedade dos cristãos das primeiras gerações espanta toda a gente hoje, mas,
fossem quais fossem as razões, ela é um facto. Qualquer católico que duvidasse disto
teria sido queimado pela Inquisição. Segundo Lecky, esta doutrina ultrapassava em
atrocidade qualquer dogma adoptado pelos pagãos. Mereceu de Tácito o rótulo de
«superstição perniciosa». Escreve Lecky:
Que uma criancinha que morra antes de ser aspergida com água
benta apenas alguns minutos depois de nascer seja neste sentido
responsável por o seu antepassado há seis mil anos atrás ter
comido o fruto proibido, que ela seja com perfeita justiça
ressuscitada e atirada para o abismo do fogo eterno em expiação
pelo crime ancestral, que o todo justo e misericordioso Criador, no
exercício pleno destes atributos, traga ao mundo seres conscientes
que Ele da eternidade destinou irrevogavelmente a sofrer
implacavelmente torturas indizíveis, são propostas simultaneamente
tão extravagantemente absurdas e tão inefavelmente atrozes que a
sua adopção podia bem levar os homens a duvidar da
universalidade da percepção moral. Tal doutrina é, de facto,
simplesmente demonismo e demonismo na sua forma extrema.
300
Demonismo extremo ou não, isto foi ortodoxia católica quase até aos tempos
modernos. Nem nos manuais das bruxas a imagem de Deus foi tão denegrida. As mais
monstruosas crueldade perpetradas por Átila, o Huno, ou por Hitler empalidecem
quando comparadas com as crueldades atribuídas a Deus, o Pai do Nosso Senhor
Jesus Cristo, pelos gentis teólogos e pelos contemplativos monges. De facto, nem o
diabo foi pintado com cores tão sinistras.
O verdadeiro mistério é por que é que os cristãos mantiveram estas ideias durante
tanto tempo. Só há uma resposta: a autoridade. A autoridade da Bíblia, na primeira
instância, mas a Bíblia interpretada pelos doutrinadores da Igreja (o magisterium). As
místicas palavras de S.Paulo «Em Adão todos pecámos» foram estupidamente
interpretadas como implicando que até os recém-nascidos eram responsáveis pelo
pecado original e condenados ao inferno se morressem sem serem baptizados.
cristãos que nunca se teriam perdoado se tivessem magoado gratuitamente uma
criança, ficavam satisfeitos ao pensar que Deus a puniria com indizíveis tormentos
eternos por uma coisa que não estava no seu poder evitar. Nenhum pai ou mãe cristão
podia jamais acreditar sinceramente; mas consentiam-no. Este é talvez o melhor
exemplo da história em que a autoridade católica, sem a razão nem a humanidade do
seu lado, exige obediência a uma doutrina moralmente absurda. Como Lecky também
observou:
Os cristãos consideram uma questão de dever e um recomendável
exercício de humildade reprimir o sentimento moral da sua natureza
e conseguem por fim convencer-se que a sua Divindade ficaria
extremamente ofendida se eles hesitassem em Lhe atribuir as
qualidades de um demónio. […] A sua doutrina é aceite como uma
espécie de milagre moral e, como é costume numa certa escola de
teólogos, quando eles enunciam uma proposição que é claramente
contraditória, chamam-lhe mistério e uma questão de fé.
Isto pode equiparar-se à doutrina papal sobre o controle da natalidade. Precisamente
como o Deus do Papa Gregório condenava as crianças ao fogo eterno do inferno, o
Deus do Papa Paulo condena milhões de seres humanos a um inferno na terra. A
diferença é que hoje os católicos comuns dizem que pensam que o Papa Paulo errou.
Não há argumentos válidos que apoiem a opinião de Paulo VI sobre a moralidade ou
a sua ideia da Divindade por detrás da natureza humana. O que continua a intrigar é a
razão por que o Papa Paulo, que subscreveu o mito de que todos os papas dizem o
mesmo, foi tão selectivo na escolha dos seus antecessores que não quis contradizer.
Por que é que não se importou de contradizer o Papa Gregório, cuja ideia de que o sexo
é sempre pecaminoso, mesmo quando dele resulta um filho, foi repetida por muitos
papas, incluindo Gregório VII e Inocêncio III? Por que é que não se importou de ir contra
a tradição segundo a qual as crianças que morrem sem o baptismo vão direitas para o
inferno para toda a eternidade? Por que é que ele não se importou de contradizer o
grande número de pontífices que disseram que sexo e amor são incompatíveis? E Sisto
V que disse que a contracepção é uma forma de homicídio? Por que é que a grande
preocupação de Paulo foi a de não contradizer Pio XI e Pio XII?
Será que a resposta é simplesmente que Paulo vivera sob Pio XI e Pio XII? Que este
facto ocasional como que tornava o desacordo com eles mais intragável do que o
desacordo com Gregório, com Agostinho e com a grande tradição? Ou não saberia ele
que aquilo que chamou de «tradição constante» tinha apenas uns confusos quarenta
anos de idade?
301
Seja qual for a razão desta inconsistência, para a Igreja ficou a tentativa de arcar com
uma moralidade biológica. Uma ética celibatária já tinha posto o laicado na prateleira.
Um casal a viver numa barraca com uma dúzia de filhos tem de usar o período seguro
ou então dormir de costas voltadas. A masturbação é sempre pecado mortal, mesmo
quando o objectivo é averiguar a razão por que o marido não consegue engravidar a
mulher. De acordo com a lógica, a masturbação é mais imoral do que o adultério, por
menos natural. Um violador que usa um preservativo peca mais do que aquele que o
não usa. A fertilização in vitro está automaticamente banida, por maior que seja o
progresso da ciência neste campo, porque o único processo “natural“ de um casal ter
filhos é a relação sexual; se para eles o processo não resulta, têm de conformar-se com
a situação e ficar sem filhos. Em todos os seus estádios, a moralidade católica sobre o
sexo trai a sua origem clerical. Não se trata de despeito de celibatários contra os
homens que eles invejam ou contra as mulheres que eles odeiam; eles simplesmente
não compreendem.
Um último ponto: Pio XII, contrariado, deu o seu nihil obstat ao uso do período
seguro. Agora, este é o método padrão católico para evitar a concepção. A doutrina
oficial é que é moralmente correcto ter relações sem a intenção de procriar, conseguir
satisfação sexual sem os inconvenientes da gravidez. É curioso como Marie Stopes, na
Inglaterra, e Margaret Sanger, na América, foram simultaneamente atacadas pela Igreja
católica por defenderem os mesmos princípios gerais. Levanta-se então a questão: se
Pio XII queria realmente continuar a grande tradição católica, o que é que devia ter dito?
Logicamente que devia ter argumentado: o sexo destina-se apenas à procriação.
Tudo o resto que envolva relações sexuais para além do desejo de procriar é pecado.
Portanto, usar o período seguro é, como Agostinho claramente ensinou, tão pecaminoso
como usar o preservativo. Pio XII devia, na verdade, ter ido mais além.
Se a tradição é que o sexo se destina unicamente à procriação, mais uma razão para
a Igreja saudar a descoberta do período seguro. Os casais deviam considerar seu dever
descobrir a altura em que o sexo não é seguro e restringir as relações apenas a esse
período. Dessa maneira, não estariam a desperdiçar preciosas sementes de vida, coisa
que todos os Padres da Igreja disseram que estava errado. Isto significa que os
católicos devotos, longe de se limitarem ao período seguro, deviam era evitá-lo. Uma
vez completas, as famílias dirão adeus ao sexo.
O facto de Pio XII e os seus sucessores não terem seguido esta linha dá mais
créditos à sua bondade do que ao seu espírito lógico ou à sua compreensão da história
da Igreja.
Como os pontífices recentes, apesar de toda a retórica sobre a “constância”,
rejeitaram, na sua maioria, as ideias dos seus antecessores sobre o sexo e o controle
da natalidade, talvez também se tenham afastado da tradição noutros assuntos. Por
exemplo, sobre o aborto. E, primeiro que tudo, sobre o divórcio.
302
303
18
Os Papas, Pioneiros do Divórcio
A Igreja Católica, diz-se repetidamente, é contra o divórcio. A proscrição estende-se a
toda a parte. O Vaticano não aceita credenciais de embaixadores e de outros
diplomatas menores que sejam divorciados ou casados com pessoas divorciadas.
Podem ser protestantes ou até ateus, mas eles e as esposas têm de estar, em termos
matrimoniais, acima de qualquer suspeita.
A maioria das pessoas, incluindo as católicas, sustenta que o divórcio nunca é
autorizado pela Igreja, embora muitas, à socapa, murmurem que a Igreja o permite sob
outros nomes. Mesmo os católicos divorciados tendem a acreditar que a sua igreja
defende que todos os casamentos são para toda a vida e recusa o divórcio a qualquer
pessoa, sejam quais forem as razões.
Os católicos falam com orgulho da recusa do Papa Clemente VII em conceder o
divórcio a um monarca tão poderoso como Henrique VIII, que queria trocar Catarina de
Aragão pela jovem e bela Ana Bolena. Em rigor, Henrique apenas pediu a anulação do
seu primeiro casamento, favor que o Papa Alexandre VI concedeu à sua filha Lucrécia
após três anos de um casamento abundantemente consumado. Os fundamentos de
Henrique eram melhores do que os de Lucrécia. Catarina foi primeiro para a cama e
depois casou com o irmão de Henrique, Artur, que morreu. Daí que a dispensa papal
que lhe permitiu casar com Catarina, argumentava ele, fosse inválida. Isto afligia-o.
Provavelmente o facto de Catarina não lhe ter dado um herdeiro varão e também estar
a envelhecer tivesse alguma coisa a ver com os seus escrúpulos. Mas a sua irmã
Margarida, Rainha da Escócia, tinha conseguido recentemente que Roma lhe anulasse
o casamento com um pretexto menos consistente do que o seu.
Infelizmente para Henrique, o sobrinho de Catarina, o Imperador Carlos V, tinha o
papa na mão, nessa altura. Primeiro, o papa deixou a impressão de que a pretensão de
Henrique não apresentava grandes problemas. Mas quando Carlos V fez valer o seu
considerável peso, a petição de Henrique no sentido de ser considerado como solteiro
após vinte anos de casamento foi finalmente rejeitada.
Toda a gente conhece casos piores do que o de Henrique VIII, mulheres que se
vêem abandonadas, às vezes semanas apenas depois do casamento. Os seus
parceiros constituíram talvez uma nova família algures, num outro país ou até noutro
continente. Mulheres ligadas a bêbados e jogadores, a brutos que lhes batem a elas e
aos filhos. E para sermos justos, devemos acrescentar também os homens casados
com mulheres que lhes batem regularmente. Pessoas que descobrem tarde demais que
se uniram a alguém que é homossexual ou bissexual, que sofre de doença venérea, ou
que enlouquece, ou que tem uma tara religiosa. Todas estas alterações no drama
doméstico são o manancial básico das novelas televisivas. Para todas estas complexas
situações, a Igreja Católica só tem uma única solução: a separação, mas nunca o
divórcio. Os laços do matrimónio, dizem os pontífices um após outro, são por sua
própria natureza indissolúveis. «Os casamentos são feitos no Céu», mesmo que
possam acabar no inferno. Nenhum poder terreno pode quebrar estes laços. «O que
Deus uniu, não o separe o homem». Qualquer abrandamento desta regra abriria as
comportas do dilúvio.
304
E não foi isto que aconteceu? No mundo ocidental houve um tremendo aumento da
incidência do divórcio. No Reino Unido, antes de 1858, o divórcio só era concedido por
uma lei especial do Parlamento. Entre 1669 e 1858, houve apenas 229 divórcios, dos
quais só três ou quatro foram concedidos a mulheres. Hoje, os casamentos duram em
média nove anos e o fundamento para o divórcio é o colapso irrecuperável da relação.
Nos Estados Unidos, onde não havia divórcio antes da Revolução, este tornou-se um
negócio como qualquer outro — como, digamos, a venda de automóveis ou de
amendoins. Os divórcios contribuem para a produtividade nacional. Em 1930, ano da
Encíclica Casti connubii, houve menos de 200.000. Por volta de 1975, havia já mais de
um milhão por ano. Hoje, a taxa do divórcio nos Estados Unidos é a mais elevada do
mundo.
Na Inglaterra seiscentista, John Milton foi uma voz isolada a protestar contra a não
existência do divórcio. Hoje, está acompanhado de multidões. O poeta, cuja mulher o
abandonou, fez, no seu Tetrarchordon, um comentário sobre as palavras «O que Deus
uniu»:
Havemos nós de dizer que Deus uniu o erro, a fraude, a
incapacidade, a ira, a discórdia, a eterna solidão, o eterno
desacordo; se o desejo, ou o vinho, ou a bruxaria, a ameaça ou a
incontinência, a avareza ou a ambição uniram fiel e infiel, cristão e
anti-cristão, ódio e ódio ou ódio e amor — havemos nós de dizer que
foi Deus que os uniu?
Só o papa pode conceder o divórcio
Até há bem pouco tempo, os católicos que se divorciavam e voltavam a casar viam-
se como "maus católicos". A viver em pecado, estavam a caminho do inferno.
Sondagens recentes, além de revelarem que as percentagens de divórcios entre os
católicos estão pouco abaixo da média, mostram que os divorciados já não se vêem
como maus católicos. Tal como desafiam o papa ao usarem os contraceptivos, os
católicos também se divorciam sem um sentimento de culpa ou de vergonha. É verdade
que o divórcio é normalmente uma experiência traumática, mas os católicos divorciados
hoje já não carregam o fardo acrescido dos seus antepassados: já não se consideram
condenados. Muitas vezes parecem sentir não que falharam no casamento, mas que o
casamento os enganou. De qualquer maneira, uma vez acabado, o casamento está
acabado de vez, mesmo quando reconhecem a responsabilidade parcial ou total que
tiveram na sua destruição. Para quê fingir que existe um qualquer tipo de laço —
místico, metafísico — quando sabem que entre eles tudo acabou? O amor morreu. Viver
sem amor é pecado. Não voltar a casar seria tentar viver sem amor e um pecado mais.
O clero celibatário não compreende que tentar remendar um casamento desfeito é
muitas vezes como tentar refazer uma teia de aranha com as mãos.
Hoje, se as sondagens estão certas, a maioria dos católicos pensa que a Igreja devia
permitir o divórcio. É que, depois do divórcio, a vida de facto continua, e muitos querem
viver essa vida por si mesmos e pelos filhos. Por que é que a Igreja prefere que os filhos
sejam criados sem uma família à sua volta? Isto não quer dizer, porém, que os católicos
acreditem na possibilidade de uma mudança.
Como se viu no caso da Encíclica Humanae Vitae, a Igreja nunca muda. A sua força
reside em não mudar. Isso mostra uma firmeza de objectivos, uma recusa em
comprometer-se em termos de princípios básicos da moral. Quando pressionados,
305
muitos católicos defensores do divórcio possivelmente concordariam que se a Igreja
realmente mudasse de acordo com os tempos poderia perder autoridade moral e muitos
dos seus seguidores. Ela consola os seus filhos ensinando-lhes verdades eternas, em
vez de se curvar aos ventos da moda. As verdades podem já não convencer ninguém, a
moral pode já não ser aceite, mas elas estão lá, e os católicos, regra geral, sentem-se
felizes por o papa manter de pé esses padrões como ideais a atingir. É como se as
crenças fossem muito importantes mesmo quando não são verdadeiras.
Este livro já mostrou algumas das muitas questões em que a Igreja mudou, mesmo
quando proclama que a mudança é impossível. O génio da Igreja reside na mudança
mesmo naqueles momentos em que mais alto clama: Mudanças nunca. Depois de
analisadas, as chamadas "tradições" acabam por ter a idade de uma geração.
Como John T. Noonan mostrou no seu livro Power to Dissolve, ao contrário da crença
popular, a Igreja mudou em relação ao divórcio mais do que em relação à maioria das
coisas. Isto dificilmente poderá surpreender se considerarmos a complexidade da
condição humana e a variedade das experiências sociais. Era bom que a Igreja não se
escondesse por detrás do mito de que nunca permite o divórcio, quando a verdade é
quase o oposto disto.
A Igreja permite o divórcio — ela prefere a expressão "dissolução dos laços" — em
todos os casos, com uma excepção: o casamento consumado entre dois cristãos.
Longe de ser totalmente contra o divórcio sob qualquer forma, o papa considera-se a
única pessoa no mundo com o poder de o conceder. Pio XI disse que este poder de
Deus nem aos governos pode ser confiado. Os governos podem legislar, julgar,
prender, até executar, mas o divórcio não lhes pode ser confiado. O facto espantoso
que temos de encarar é que o papado foi pioneiro do divórcio na Europa, tal como o foi
da tortura. Foi o papado, e não os governos, que no século XVI reintroduziu o divórcio
na Cristandade, depois de vários séculos em que este foi ilegal, no tempo em que a
legislação eclesiástica prevalecia mesmo nos tribunais civis.
Bonifácio VIII afirmava que todas as criaturas estão sujeitas ao pontífice romano.
Esta ideia foi transportada pelos papas até ao presente século para cobrir todos os
casamentos. Mesmo os casamentos dos descrentes, dos infiéis, dos judeus e
maometanos. Todos eles estão sujeitos ao pontífice romano, e este pode dissolvê-los
para salvação das almas, o que na prática, é o mesmo que dizer para benefício da
Igreja Romana. A qualquer hora, há milhões de casamentos desfeitos por abandono,
crueldade, incompatibilidade, maus tratos aos filhos e mulheres, infidelidade — casos
que se encontram em cidades e aldeias obscuras de países tão afastados como o Zaire
e a Escócia, a Finlândia e o Canadá. Mas só uma pessoa no mundo, um velho
celibatário, que reside num palácio no Vaticano, foi dotado por Deus do poder de os
dissolver. E isto nunca ele faz, a não ser que envolva qualquer interesse católico, caso
em que age na qualidade de Vigário de Cristo, para trazer refrigério. Isto descredibiliza
um pouco a ideia. Os laços naturais são tão fortes — "indissolúveis", como diz Roma —
que é um erro grave um governo dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha, da China ou da
União Soviética legislar no sentido de os quebrar. Mas nas mãos do pontífice romano
estes laços indissolúveis por natureza podem ser tranquilamente quebrados e os
cônjuges autorizados a voltar a casar.
Nos anos 40 e 50, Pio XII aumentou este poder de dissolver casamentos a um ponto
que era impensável para qualquer cristão de apenas uma geração atrás. Todos os
concílios primitivos da Igreja o teriam deposto por heresia.
Como o papa, longe de ser contrário ao divórcio, pode dissolver todos os tipos de
casamentos excepto um, pergunta-se, poderá ele dissolver mesmo esse? A maioria dos
306
católicos gostaria que ele dissolvesse casamentos cristãos consumados, para fechar o
ciclo, mas será que pode? A História tem algo a dizer sobre isto.
Antecipando um pouco e resumindo: alguns papas, por iniciativa pessoal a roçar o
quixotesco, dissolveram casamentos. Ao fazê-lo desencadearam o movimento de forças
que acelerou até quase a perder o controle. Tem havido momentos na História — o
nosso é um deles — em que os papas emitiram decretos que implicitamente puseram
em causa ou anularam a maioria dos casamentos do mundo. Neste cenário, o divórcio
civil não provoca o mal, antes ajuda a pôr fim à concubinagem pública.
A imagem de uma Igreja Católica que nunca muda a sua doutrina sobre o casamento
é tão falsa que um cristão do século III teria ficado espantado com os ensinamentos
medievais; um medieval teria ficado ainda mais espantado com a doutrina do século XX.
Sem dúvida que um cristão de hoje ficaria espantado se soubesse o que a Igreja irá
ensinar no próximo século ou no seguinte. À luz da História, a única improbabilidade é
que a doutrina actual seja a última palavra. Independentemente daquilo que os papas
pensam, ou digam que pensam, o facto é que a tradição católica não é uma mera
repetição do passado, e também nem sempre é uma evolução do passado. É muitas
vezes um afastamento radical de tudo aquilo que a precedeu.
A doutrina de Jesus sobre o matrimónio
A doutrina de Jesus, tal como vem relatada no Evangelho de S.Mateus, parece clara.
[Na Bíblia Judaica] disse-se: «Aquele que se divorcia da mulher, que
lhe dê uma carta de divórcio». Mas eu digo-vos que todo aquele que
repudiar a mulher, excepto por motivos de incontinência [porneia, no
grego], torna-a adúltera; e aquele que casar com a mulher repudiada
comete adultério.
Mais adiante no Evangelho Segundo S.Mateus, perguntaram a Jesus: Então, por que
é que Moisés permite o divórcio?
Ele disse-lhes: «Por causa da dureza do vosso coração, Moisés
permitiu que repudiasseis as vossas mulheres, mas ao princípio não
foi assim. Ora eu digo-vos: se alguém repudiar sua mulher, excepto
em caso de adultério, e casar com outra, comete adultério.»
As diversas interpretações que se fizeram desta passagem ao longo dos tempos
mostram que as coisas não são assim tão simples como parecem.
O primeiro problema centra-se na expressão «excepto por motivo de incontinência».
O que é que se pretendia significar com «incontinência»? Teria a expressão sido usada
no sentido formal de que alguém que violasse uma regra não era realmente casado?
Quereria ele dizer simplesmente "infidelidade"? Seja qual for o significado, não é óbvio
que o próprio Jesus considerava algumas excepções à regra?
Muitos Padres da Igreja e a maioria dos Padres do Oriente, com destaque para
S.Basílio, têm como certo que o divórcio era permitido por motivos de infidelidade. Esta
tradição, aceite por todos os primeiros sínodos da Gália, da Espanha e do Reino dos
Francos, mantém-se em vigor na Igreja Oriental. Dizer, portanto, que a Igreja sempre
ensinou que nenhum matrimónio cristão pode ser dissolvido em caso algum é
historicamente falso. A menos que, convém acrescentar, a Igreja Oriental não fosse
307
verdadeiramente católica, mesmo antes do Cisma, isto é, antes da sua separação
formal de Roma em 1054.
Depois da Reforma, no século XVI, só a Igreja Católica continua a afirmar que o
divórcio é proibido a todos os cristãos cujo casamento se consumou. Estas duras
palavras continuam em vigor mesmo quando um cônjuge inocente é abandonado.
Outras igrejas consideram possível que os cônjuges inocentes abandonados casem de
novo depois do divórcio.
Ao contrário do que vulgarmente se crê, a Igreja Católica nunca definiu que os
casamentos católicos consumados não podiam ser dissolvidos. O Concílio de Trento
esteve quase a fazê-lo em 1563 quando, delicadamente, os embaixadores da República
de Veneza recordaram aos padres que a Igreja Oriental concedia o divórcio. Este
costume, acrescentaram, nunca fora condenado por nenhum papa nem por nenhum
concílio ecuménico. Assim prevenidos, os bispos recuaram. Alteraram o texto. Em vez
de condenar sem reservas as práticas orientais, limitaram-se a dizer: «Se alguém disser
que a Igreja [Católica] erra quando ensina […] que os laços do matrimónio não podem
ser dissolvidos, que seja anatemizado». Isto deixava em aberto a possibilidade de a
Igreja reavaliar esta posição em data futura. Desde o Concílio de Trento, isto nunca
aconteceu. A porta não se fechou.
Especialistas das Escrituras sugeriram recentemente que as Igrejas Oriental e
Ocidental abordaram os textos das Escrituras de forma errada. Jesus era visto
principalmente como um fazedor de leis, muito à maneira de Moisés. De facto, ele era
visto como um advogado canónico apostado em estabelecer critérios precisos para o
matrimónio e para o divórcio. Esta a razão por que, ao longo dos séculos, a Igreja
transformou esta parte do Sermão da Montanha num documento legal. Desde então os
canonistas têm-se atirado aos pormenores como cães a um osso. Quais as condições
de um matrimónio legal e válido? Quais são as razões válidas para dispensar os
impedimentos da consanguinidade, dos casamentos mistos ou de um casamento com
uma pessoa não baptizada? E por aí adiante.
Claro que o matrimónio faz parte da lei da Igreja e, à medida que a sociedade evolui,
ela tem de responder com legislação por vezes complexa. O erro foi pensar que o
Sermão da Montanha tinha alguma coisa a ver com este tipo de questões.
Jesus apresentou aos discípulos o ideal do casamento. É muito pouco provável que
tivesse na ideia qualquer excepção particular, quer por abandono, quer por infidelidade.
Mas estabelecer um ideal de casamento é uma coisa e legislar em questões que
montam a uma complexidade Talmúdica, outra coisa completamente diferente. O
contexto das palavras de Jesus torna isto muito claro.
No Sermão da Montanha, imediatamente antes de falar do casamento, Jesus disse:
«Se a tua mão ou o teu pé são para ti ocasião de pecado, corta-os e lança-os para
longe de ti; mais vale entrar na vida manco ou coxo do que seres lançado no fogo
eterno, com as duas mãos ou com os dois pés ». Um dos Padres gregos, Origen, tomou
isto à letra e cortou o membro pecador, que não era a mão nem o pé. Isto foi uma
tragédia pessoal na medida em que Origen, que se distinguiu em interpretações
místicas, não tomou quase mais nada da Bíblia literalmente.
A Igreja reprovou o uso que Origen fez da faca, temendo que se tornasse moda.
Jesus não queria que nenhum seguidor seu cortasse a mão ou qualquer outra coisa.
Mas o caso era diferente quando os papas, Padres e teólogos tratavam da questão do
fogo do inferno que nunca se extingue. Isto, diziam eles, tinha de ser tomado à letra.
Este erro foi pior do que o de Origen; levou-os a fazer, durante vários séculos,
perguntas como estas: Que tipo de fogo é esse que pode arder perpetuamente sem
308
nunca se extinguir? Que tipo de corpo é o dos mortos ressuscitados que pode arder
perpetuamente? Onde é esse fogo? Nas entranhas da terra? E como é que uma pessoa
pode sentir o sofrimento do fogo antes de o seu corpo ressuscitar no dia final? E havia
também questões éticas sem resposta. Como é que se pode justificar um castigo eterno
para um acto cometido no tempo? Deus é infinito, logo, argumentavam eles
superficialmente, um pecado contra Ele também é infinito. E levantaram-se também
questões psicológicas. Como é que os pais podem rejubilar no Céu sabendo que os
filhos e filhas estão a assar no inferno? Já vimos como ao longo da maior parte da
história do Cristianismo a Igreja sempre condenou ao fogo eterno os bebés não
baptizados, como veredicto justo de Deus para eles. Este facto, misteriosamente, não
diminui a bem-aventurança dos pais que alcançaram o paraíso. Como é que isto é
possível? E os teólogos estavam metidos em mais uma trapalhada perfeitamente inútil.
Para os exegetas modernos, a resposta é simples. Jesus não falava literalmente
quando se referiu ao «fogo eterno». Referia-se ao cemitério de Gehenna, nos subúrbios
de Jerusalém, que fumegava dia e noite, alimentado pelo lixo da cidade e pelos
cadáveres dos criminosos crucificados. Uma interpretação literal banaliza o que ele
estava a dizer. O mesmo se aplica à sua doutrina sobre o matrimónio. Ele fala
profeticamente. Considera o casamento como um compromisso vitalício entre um
homem e uma mulher. Pecar contra esse compromisso é adultério. Interpretar isto
seriamente não é o mesmo que tomá-lo à letra, o que, infelizmente, foi o que a Igreja
muitas vezes fez e levou os canonistas a meterem-se exactamente pelos mesmos
caminhos pedregosos que os teólogos tomaram em relação ao inferno e ao fogo do
inferno. Um ideal não comporta excepções e Jesus estava a exprimir um ideal.
Interpretar erroneamente uma questão como esta é transformar um ideal de matrimónio
num regulamento de divórcio. Uma vez cometido esse erro, os canonistas começaram a
perguntar-se: O que é que é necessário para um casamento legítimo e válido? O que é
uma dispensa válida? E por aí adiante. Se a Igreja pode ou não pode permitir o divórcio
e, em caso afirmativo, em que circunstâncias, são assuntos que não interessavam
minimamente a Jesus. Ele era profeta e não canonista.
O curioso é que a Igreja sustenta que no Sermão da Montanha Jesus ensinou uma
doutrina que é universal e não tem excepções. É obrigação da Igreja defendê-la.
Contudo, nem um só elemento desta doutrina se pode encontrar no texto.
Em primeiro lugar, Jesus, que era judeu, dirigiu o Sermão da Montanha aos seus
concidadãos judeus. Estes não eram baptizados e provavelmente nenhum deles viria
alguma vez a sê-lo. Diz-se que Jesus lhes ditou a "lei" de que os casamentos de
cristãos baptizados, uma vez consumados, não podem ser dissolvidos. Por outras
palavras, pressupõe-se que Jesus proibiu o divórcio, em quaisquer circunstâncias, à
própria classe de pessoas a quem os papas ordinariamente o permitiram. Há registos
de que Martinho V (1417-31) permitiu a judeus o divórcio e um segundo casamento de
acordo com a sua lei. De facto, por todos os Estados Papais, era permitido aos judeus
divorciarem-se e voltarem a casar com a aprovação dos papas. Estes eram verdadeiros
potentados; podiam, com um simples toque da pena, tê-los proibido, mas não o fizeram.
Nos tempos modernos, os papas têm dissolvido, perfeitamente à vontade, os
casamentos dos judeus que querem converter-se ao Catolicismo. Isto significa que, na
prática, embora interpretem o ideal de Jesus como lei rigorosa, os próprios papas abrem
excepções. Uma estranha evolução, à luz da História.
309
A doutrina da Igreja primitiva sobre o divórcio
A Igreja nasceu no tempo do Império Romano. Os romanos tinham uma atitude
liberal em relação ao divórcio. Cícero separou-se da mulher porque precisava de um
dote extra. Augusto obrigou o marido de Lívia a divorciar-se dela quando estava grávida
para casar ele próprio com ela. As esposas, segundo um escritor romano, eram como
os sapatos: magoavam em sítios que as outras pessoas não viam. Quando os sapatos
nos magoam, calçamos outros. S.Jerónimo conta que na Roma do seu tempo uma
mulher ia casar-se pela vigésima terceira vez, e seria a vigésima primeira mulher do
futuro marido. O casamento não era, claramente, mais do que uma ligação ocasional
que podia ser dissolvida quase à vontade do freguês.
A Igreja, pelo contrário, insistia que as relações sexuais são proibidas excepto no
contexto de uma relação com carácter permanente. Quando o Cristianismo se
institucionalizou, os matrimónios passaram a ser consagrados numa cerimónia religiosa
especial. Até ao século X, porém, a bênção da Igreja não era obrigatória. A natural
união entre homem e mulher passava agora a ficar sob o controle do clero. Contudo, só
depois do Concílio de Trento, em 1563, é que o cerimonial do matrimónio ficou
definitivamente estabelecido. A partir de então, o casamento não mais seria válido a não
ser que cada um dos membros desse o seu consentimento perante o padre da paróquia
(ou de um seu delegado) e duas testemunhas. Mesmo isto só se tornou universal na
Igreja com a publicação de Ne Temere, no ano de 1908.
Nos primeiros séculos, o casamento, abençoado ou não pela Igreja, reconhecido ou
não pelo Estado, era considerado indissolúvel pelos cristãos. «O que Deus uniu, não o
separe o homem». A lei civil continuou durante muito tempo a permitir o divórcio.
Algumas tentativas feitas pelos imperadores, como por exemplo, Constantino, no
sentido de o limitar falharam. O direito ao divórcio continuou intacto no código Justiniano
que regulava o Império. Assim, durante séculos, a Igreja e o Estado seguiram os seus
próprios caminhos. A Igreja, no máximo, só permitia o divórcio e um novo casamento a
um cônjuge abandonado, enquanto que o Estado reconhecia este privilégio a toda a
gente.
Carlos Magno, como chefe da Cristandade, fez os possíveis por harmonizar os dois
códigos. Sendo ele próprio divorciado, declarou o divórcio crime, embora,
prudentemente, não lhe tivesse estabelecido qualquer pena. A Igreja excomungou
algumas vezes pessoas divorciadas, mas claro que ninguém tão importante como
Constantino ou Carlos Magno.
Só no século XII, quando a Europa era uma Cristandade, é que a Igreja e o Estado
se juntaram na proibição do divórcio. A Igreja ganhara a parada. E o mais estranho é
que foi a Igreja e não o Estado que começou a minar a instituição do casamento.
* * *
Os casamentos mistos são uma área em que ocorreram mudanças enormes no
decurso dos tempos. Trata-se dos casamentos entre cristãos e pagãos.
A Igreja proibiu-os desde o princípio, por serem contrários ao Evangelho. Como é que
um cristão podia unir-se a alguém que, como ele acreditava, estava condenado ao fogo
do inferno por não ser crente? Como é que um cristão podia aceitar que os seus filhos
fossem criados sob influência pagã, ou até mesmo como pagãos, condenando-os assim
aos tormentos eternos? Antes do Cristianismo, as diferenças religiosas não eram
tomadas muito a sério. Só o Cristianismo é que foi tão exclusivista ao ponto de
310
considerar todos os descrentes como material combustível. E, incidentalmente, também
foi o Cristianismo que introduziu um temor da morte até então desconhecido.
Os Padres apelidavam grosseiramente o casamento de um cristão com um pagão de
"adultério" ou "fornicação", pois prostituía os próprios membros de Cristo ao uni-los aos
membros de uma prostituta herege. Logo que a Igreja se tornou a religião do Império, o
casamento de um judeu com um cristão passou a ser pecado capital. Um após outro, os
concílios denunciaram todos os casamentos entre cristãos e "outros" como um crime.
Esta atitude era tão vulgar que Graciano, no século XII, descreveu todos os
casamentos entre crentes e descrentes como «contrários aos mandamentos de Deus e
da Igreja». Se um cristão encetasse uma tal ligação, devia separar-se imediatamente. A
sua fé corria perigo, ele estava a corromper a moral e a fazer perigar a salvação dos
seus filhos. A maioria dos teólogos, como Peter Lombard, dizia que os casamentos
mistos eram nulos e inválidos.
Esta tradição não admitia excepções. A partir do Concílio de Trento, e até ao século
XIX, a Inquisição providenciou para que nenhum católico, homem ou mulher, casasse
com um protestante. Porém, embora os casamentos mistos fossem contrários à lei
divina, em países como a Inglaterra e a Alemanha começaram a surgir costumes em
sentido oposto. Sendo uma minoria, os católicos não tinham muitas vezes outra
alternativa senão a de casarem com protestantes ou então simplesmente não casarem.
E outras excepções houve autorizadas oficialmente por Roma. Clemente VIII permitiu,
no ano de 1604, que um príncipe católico casasse com uma princesa protestante «para
o bem comum». Nunca ficou muito claro como é que uma coisa contrária à lei divina e
intrinsecamente má podia resultar num bem, comum ou não. Para minimizar os efeitos
perversos dos casamentos mistos, Roma exigia certas garantias. O cônjuge católico
tinha de fazer todos os possíveis para converter o outro; os filhos de ambos os sexos
tinham de ser educados como católicos. Tudo isto tinha de ser confirmado por escrito.
No século XIX, na Inglaterra e na Alemanha, passou a ser proibido aos católicos
casarem com protestantes sem autorização prévia. Em compensação, esta autorização
começou a ser dada com cada vez mais facilidade. Aquilo que a Igreja condenara sem
reservas estava a tornar-se prática comum. Aquilo que tinha sido banido como contrário
à lei divina e intrinsecamente mau passava agora a lei canónica.
Enquanto que a linguagem dos papas continuava a mesma, a prática tinha mudado
consideravelmente. No ano de 1748, Benedito XIV, numa carta enviada à hierarquia
polaca, chamava ao casamento entre católicos e protestantes «união sacrílega». Em 25
de Março de 1830, na Litteris alto referia-se aos casamentos mistos como «crimes
graves». «A Igreja», dizia ele, «tem horror a estas uniões que tantas deformações e
perigos espirituais apresentam». Tais uniões eram «pecados directos contra a lei
canónica e divina». A Igreja primitiva dizia o mesmo e baniu-os. Seria isto realmente
uma evolução ou uma mudança de ideias fundamental?
Em 1858, Pio IX, no seu habitual estilo bombástico, disse que a Santa Sé só permite
tais casamentos «perniciosos e detestáveis» por motivos sérios. Sem um motivo justo e
sério, acrescentava a Propaganda Fide∗
, as dispensas não seriam válidas. Mas quando
em 1877 a Propaganda Fide publicou uma lista de dezasseis motivos «justos e sérios»
que asseguravam uma dispensa, muitos deles eram afinal triviais. Por exemplo, é
automaticamente concedida uma dispensa se a mulher tiver mais de vinte e quatro anos
de idade (superadulta). Ou se a parte católica estiver firmemente determinada a casar
de qualquer maneira, não sendo na igreja, então, pelo civil. Um belíssimo exemplo de
desobediência recompensada. A partir de 1970 nem as garantias escritas são exigidas;
∗
Sagrada Congregação para a Propagação da Fé (N.T.)
311
a palavra do católico de que fará o melhor pelos futuros filhos é suficiente. Por vezes,
um católico num casamento misto pode até ser casado por um pastor protestante.
Nesta questão parece que a Igreja chegou ao fim.
Os papas pareciam ter a esperança de que uma linguagem idêntica — tão feroz
como a usada pelos Padres — ocultasse o facto de que houvera realmente mudanças.
A magnitude das mudanças é tal que qualquer Padre da Igreja que ressuscitasse hoje
pensaria que Satanás tinha triunfado e a Santa Madre Igreja se tinha rendido ao
paganismo.
Da doutrina sobre os casamentos mistos tira-se a seguinte lição: quando a Igreja
Católica muda radicalmente diz que se estão a aplicar com benevolência os princípios
imutáveis às circunstâncias que mudaram; quando recusa mudar — como até agora em
relação à contracepção e ao divórcio para os cristãos — diz que os seus princípios
imutáveis não permitem qualquer mudança em circunstância nenhuma. Um cristão
primitivo teria achado igualmente inacreditável qualquer mudança, fosse qual fosse o
motivo, em questões de contracepção, casamentos mistos ou divórcio. A Igreja mudou
em relação aos casamentos mistos. E quanto ao divórcio?
O divórcio papal de casamentos não consumados
Em meados do século XII, o Bispo inglês de Exeter pôs ao Papa Alexandre III um
problema de algibeira. Nos seus esponsais, um nobre da sua diocese tinha jurado
solenemente casar com a noiva. Contudo, antes do casamento sentiu uma vocação
para a vida religiosa. Havia um conflito entre o seu juramento de casar e a sua divina
vocação para servir Deus como monge. Alexandre era o melhor advogado do seu
tempo. A solução que adoptou não tinha precedentes nem lógica e levantou uma lebre
canónica que ainda hoje continua a correr. Muitas outras lebres loucas se lhe seguiram.
Segundo o papa, o nobre estava obrigado a cumprir o juramento casando com a
noiva. Logo após a cerimónia, e sem qualquer união carnal, deixá-la-ia e entraria para o
convento. A sua decisão foi influenciada por estórias de santos — homens e mulheres
com uma fobia ao sexo — que deixaram os esposos na noite de núpcias.
Só um celibatário total, encharcado de uma tradição anti-casamento podia ter
arquitectado este joguinho sujo. O casamento do nobre, disse Alexandre, seria válido
porque, segundo Graciano, é o consentimento e não o acasalamento que faz o
casamento. Não é verdade que Maria e José eram casados, embora a sua união fosse
virginal? Mais ainda: a sua união virginal não era um casamento apenas genuíno, era o
casamento ideal. Depois de celebrado o matrimónio, o nobre de Exeter podia dissolver
o casamento não consumado tornando-se monge. Era como que uma abordagem
cavalheiresca do grande sacramento de Cristo e da sua Noiva, a Igreja. E onde é que
estava a justiça para com a noiva? Os seus direitos conjugais, a sua honra e a da sua
família foram completamente ignorados. Sua Santidade não reparou nas palavras de
S.Paulo: «O marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher».
A pergunta que os canonistas faziam era esta: Como é que a decisão unilateral do
marido podia desfazer o casamento? No seu decreto Commissum, Alexandre
respondeu que este era um caso especial. O bem da religião sobrepunha-se ao bem
menor do casamento, os votos religiosos anulavam os votos do casamento. Os papas
afirmam-se capazes de interpretar a Bíblia. Será que Jesus estava a pensar nesta
excepção quando disse: «O que Deus uniu, não o separe o homem»? Teria Santo
Agostinho concordado que os fins do matrimónio — a procriação, a indissolubilidade, a
fidelidade — tinham sido salvaguardados por Sua Santidade ao permitir que um marido
312
abandonasse a mulher logo após a cerimónia do casamento? Além disso, não
significava a decisão do papa que o matrimónio ideal, aquele que une duas pessoas
virgens como Maria e José, era o único dissolúvel? Sempre foi muito difícil de entender
como é que um casamento virginal pode ser o ideal se o principal fim do casamento é a
procriação. A decisão de Alexandre sobre a dissolubilidade passou por cima do
problema.
Como Alexandre era o papa, da sua absurda decisão surgiu uma coisa importante.
Ele concordava com a ideia de que para que um casamento seja absolutamente
indissolúvel é preciso o consentimento e o acasalamento, dizer o Sim e ter relações
sexuais.
Um dos seus ajudantes devia ter lembrado a Sua Santidade que daí resultam duas
consequências absurdas. Em primeiro lugar, se a relação sexual é necessária para a
indissolubilidade, qualquer pessoa que tencionasse não ter relações sexuais não
pretenderia a indissolubilidade, portanto não pretenderia casar. O nobre tinha-se
submetido à cerimónia mas não tinha realmente casado. Não cumpriu o juramento que
fizera à noiva, ao contrário, quebrou-o. Em segundo lugar, durante séculos a Igreja
ensinou que o sexo no casamento era invariavelmente pecaminoso. Como é que este
elemento pecaminoso pode tornar o casamento tão sagrado ao ponto de o tornar
indissolúvel? Ou deveremos nós, em vez de «O que Deus uniu», dizer antes «O que o
desejo uniu, não o separe o homem»?
Uma vez que «o papa não pode errar», a Igreja tem de viver com este naco de
frivolidade papal. Graças a Alexandre, nasceu uma nova categoria de casamentos
cristãos dissolúveis. Um homem, por sua própria iniciativa, podia divorciar-se da mulher!
Uma igreja que diz que qualquer excepção abre as portas do dilúvio tinha aberto uma
enorme brecha na instituição do casamento.
A decisão de Alexandre passou naturalmente a fazer parte da ortodoxia. Em 1563, o
Concílio de Trento decretou que a profissão religiosa dissolvia o casamento. Como?
Surgiu a noção mística de que a profissão religiosa era uma espécie de morte espiritual
que, tal como a morte física, punha fim ao casamento. Não era o papa que dissolvia o
casamento, mas a profissão religiosa. Mas já os papistas mais ardorosos começavam a
cheirar novos poderes papais. Se um simples marido podia dissolver o seu próprio
casamento, talvez o papa também pudesse dissolver certos casamentos por motivos
espirituais. Afinal, ele era o vigário de Deus na terra. Quem é que se atrevia a limitar-lhe
antecipadamente a autoridade?
Tinham-se já passado trezentos anos quando, em meados do século XV, Antonino,
Arcebispo de Florença e antigo distinto membro da Cúria, afirmou ter visto as Bulas de
dois papas que dissolveram casamentos não consumados. Em ambos os casos o
marido foi autorizado a voltar a casar. Apesar das suas credenciais — foi o mais
importante teólogo moral do seu tempo — ninguém acreditou em Sua Graça. A
profissão religiosa podia dissolver um casamento. E o papa? Claro que não. E um
cônjuge divorciado podia voltar a casar? Impossível! Jesus disse: «O que Deus uniu…»
O que aconteceu muito mais tarde foi que o costume papal de dissolver tais
casamentos, isto é, de conceder o divórcio, foi muito atrás, para além do tempo do Papa
Martinho V, contemporâneo de Antonino. Como é que se justificava esta inversão da
clara doutrina do Mestre?
Os casos em questão eram os seguintes: depois de casar e antes de consumar o
casamento, um homem descobre que a mulher está grávida de outro homem. Pede que
o casamento seja dissolvido para poder casar de novo com uma virgem. Um outro
homem casa por procuração. Quando viajava para ir ao encontro do marido, a mulher é
313
capturada por piratas. O marido nunca a encontrou e era pouco provável que viesse a
encontrá-la. Embora casado com ela, foi autorizado a voltar a casar.
Os canonistas argumentaram que os papas tinham de dissolver esses casamentos
na qualidade de vigários de Cristo. O motivo foi, presumivelmente, a misericórdia. Mas
evocar a misericórdia como motivo para conceder o divórcio parece estranho numa
Igreja que recusa sem misericórdia o divórcio aos seus filhos em circunstâncias tão
pungentes como aquelas acabadas de mencionar. Além disso, estas excepções
dificilmente se podem justificar com o Sermão da Montanha, que a Igreja continua a
interpretar como lei férrea: divórcio nunca. Tem de ser dito que a Igreja não tem
cumprido a indissolubilidade em absoluto. Os papas violaram-na, para grande
incredulidade inicial dos canonistas.
Devido à paixão de Roma pelo secretismo, estes importantes documentos sobre o
divórcio não viram a luz do dia durante quinhentos anos. E portanto o testemunho de
Antonino não pôde ser verificado.
Contudo, uma vez estabelecida a prática papal sobre o divórcio, a pergunta nos
círculos da Cúria era esta: Como é que o papa pode fazer isto se nenhum homem pode
quebrar os laços do casamento? A resposta veio clara e estrondosa: o papa não é um
homem, é o vigário de Deus. Usa o poder divino para dissolver o indissolúvel. Falando
claro, a indissolubilidade tem diversos tipos, um dos quais é o dissolúvel.
Se os canonistas tivessem tomado o ensinamento de Jesus como um ideal de
casamento tudo teria ficado resolvido. Mas como peça de legislação, tinha de ser
interpretado de maneira ainda mais abstrusa. Jesus quis dizer evidentemente que o que
Deus uniu tem de continuar unido em quaisquer circunstâncias. Roma, na prática,
discorda e, para justificar a sua discordância, recorre a distinções subtis.
A passagem que proíbe o divórcio tem, portanto, de ser ligada, no espírito católico, a
outras passagens-chave das Escrituras: «Tu és Pedro» e «Aquilo que desatares na
terra será desatado no Céu». Implícita está também a crença de que no Sermão da
Montanha Jesus quis entregar este poder de conceder o divórcio não apenas a Pedro
mas também aos seus sucessores, os Bispos de Roma. Não é por nada que os papas
afirmam saber interpretar a Escritura.
Há ainda uma outra estranha consequência dos primeiros divórcios papais. Nos
documentos da Igreja, os laços do matrimónio são considerados de lei natural e divina.
Tal linguagem é tida como significando que nem Deus lhes pode abrir excepções. Neste
caso, porém, a lei natural pode ser violada. Por qualquer razão não explicada, a Igreja
afirma ter o poder de modificar ou revogar a lei natural do divórcio, mas não a da
contracepção.
Quando Roma continua a dizer que o próprio papa não pode dissolver um casamento
cristão consumado, as pessoas querem saber porquê. Os teólogos apontam as
Escrituras e dizem que um casamento cristão reflecte o amor de Cristo e da sua Igreja.
Mas antes do século XV os teólogos também apontavam as Escrituras para provarem
que o papa também não podia dissolver casamentos não consumados.
Mas isto é dar um grande salto em frente.
A estranha decisão de Alexandre III sobre o nobre de Exeter gerou um grande
número de divórcios papais. Em resultado dela, Martinho V e outros papas dissolveram
casamentos confirmados mas não consumados. Aquilo que deixou Antonino perplexo
em meados do século XV e que os académicos de então disseram que era incrível, era
agora, no século XVII, prática comum. Com base no seu poder divino, o papa dissolvia
casamentos não consumados.
Poderia ele também dissolver alguns casamentos consumados?
314
O divórcio papal de casamentos consumados
À excepção da "incontinência", a Igreja primitiva tinha como certo que Jesus tinha
proibido qualquer dissolução de casamento. Mas havia uma passagem da Primeira
Carta de S.Paulo aos Coríntios que parecia admitir outras excepções:
Eu digo, e não o Senhor, que se algum irmão tiver uma mulher
descrente e ela consentir em viver com ele, não deve divorciar-se
dela. Se alguma mulher tiver um marido descrente e ele consentir
em viver com ela, não deve divorciar-se dele. Porque o marido
descrente é santificado pela mulher e a mulher descrente é
santificada pelo marido. Caso contrário, os vossos filhos seriam
impuros, quando na realidade são santos. Mas se o descrente se
quiser separar, que se separe; neste caso, o irmão ou a irmã não
estão sujeitos à servidão. Porque Deus nos chamou para a paz.
S.Paulo respondia a perguntas postas pelos seus convertidos. Os pagãos tinham-se
convertido. A pergunta subjacente ao texto acima pode ter sido: Os cristão recém-
baptizados são autorizados a continuar casados com os cônjuges que ainda são
pagãos? Teriam de continuar casados? Paulo, como bom diplomata que era, responde:
Se o casamento funciona, deixá-lo continuar. É um casamento verdadeiro; ele fala de
cônjuges descrentes como "marido e mulher". É um casamento bom, porque o crente
santifica o descrente. Os filhos também são santos, o que significa que o casamento já
está santificado por Deus. Contudo, se o descrente considera a conversão do cônjuge
intolerável e se separa, que assim seja. O crente não deve tomar a iniciativa. E Paulo
continua, dizendo que depois da separação o irmão ou irmã «não estão sujeitos à
servidão». Quererá isto dizer que o cristão abandonado tem o direito de voltar a casar?
Agostinho, pioneiro da doutrina católica sobre o matrimónio, respondeu: Claro que
não. A proibição de Jesus do divórcio não tem excepções. Mesmo entre pagãos, o
matrimónio constitui um laço que nenhum homem pode quebrar. Isto implicava que o
cristão abandonado deve continuar fiel ao casamento; se ele ou ela voltarem a casar
cometem adultério. A alternativa era sugerir que poucos anos depois da Crucificação
um apóstolo "criou" um grupo especial de pessoas cujos laços do matrimónio eram
dissolúveis. Se assim fosse, onde é que isto iria acabar?
A despeito da sua autoridade, a opinião de Agostinho foi rejeitada. Um advogado
romano do seu tempo, convertido do Judaísmo e chamado Isaac, seguiu uma linha
diferente. O facto de o livro de Isaac sobre o assunto ter sido mais tarde atribuído a
Gregório o Grande contribuiu para lhe aumentar o prestígio. Isaac interpretou as
palavras do apóstolo desta maneira: o que Paulo tinha na ideia era um pagão que, por
ódio a Deus, desfaz o casamento com uma cristã convertida. O cônjuge convertido não
tem culpa. Ele ou ela simplesmente optaram por responder ao chamamento de Deus, e
se isto significar o fim do casamento, que assim seja. Em linguagem canónica, o pagão
recusou-se a confirmar o casamento após a conversão do cônjuge. Foi o ódio a Deus
por parte do pagão que dissolveu o casamento, deixando o cristão livre para voltar a
casar. Isto veio a chamar-se “Privilégio Paulino“.
A interpretação de Isaac levantava tantas questões quantas aquelas a que dava
resposta. A casuística que se lhe seguiu, especialmente na Idade Média, foi labiríntica.
O que é que constitui este «ódio a Deus», de que não há aliás o mínimo vestígio em
S.Paulo? Um crente abandonado podia voltar a casar. Isto veio a ser incluído nos
315
Decretais de Graciano e a tornar-se lei da Igreja em 1142. Inocêncio III sancionou-o no
seu decretal Quanto te do ano de 1199.
Os teólogos começaram então a explorar o filão. Quando e como é que o casamento
original era dissolvido? Seria dissolvido logo que o pagão abandonava o cônjuge? A
opinião popular era a de que o casamento só era dissolvido quando o cônjuge
abandonado voltava a casar.
O ponto crucial era que um papa, o sentencioso Inocêncio III, concordou com a ideia
de que um casamento consumado podia ser dissolvido. E nem sequer era dissolvido
pelo papa ou pela hierarquia, mas simplesmente pelo cônjuge cristão. Fora aberta uma
brecha fatal na convicção de que o casamento era indissolúvel em termos absolutos e
fossem quais fossem as circunstâncias. E era uma boa razão aquela que era
apresentada: a causa de Deus tinha mais peso do que o valor de um casamento
naturalmente válido e consumado. Mas por muito misericordioso que fosse, isto era
seguramente um passo curioso que a Igreja dava, considerando que continuava a
insistir na interpretação literal das palavras de Jesus. Jesus falara sem reservas da
unidade irrefragável do casamento. Se estivesse a legislar, não seria lógico que
dissesse que o convertido abandonado não pode voltar a casar, para demonstrar a
indissolubilidade dos laços do matrimónio tal como Deus os concebeu desde o princípio
dos tempos?
Uma vez aberta a brecha, novas questões se levantaram numa corrente infindável,
não necessariamente de imediato, mas inevitavelmente. Por exemplo, se o ódio a Deus
por parte de um descrente permite a um cristão pôr fim ao casamento, por que é que
um cristão não pode pôr fim a um casamento cristão se o cônjuge perder a fé e
impossibilitar uma vida verdadeiramente cristã? A própria Igreja estava a derrubar a
primeira pedra do dominó.
O que pouca gente sabe é que dois papas do século XII, anteriores a Inocêncio III,
nomeadamente, Urbano III e Celestino III, chegaram mesmo a dizer que certos
casamentos cristãos consumados podiam ser dissolvidos. Celestino tomou como
exemplo o caso seguinte: uma mulher cristã é abandonada pelo marido cristão que
abjura da sua fé e casa com uma pagã. Ela é livre, diz o papa, de voltar a casar, com o
consentimento do seu pároco. Se o marido mudar de ideias e quiser voltar para a
primeira mulher, esta não é obrigada a aceitá-lo de volta. Celestino cita o livro de Isaac,
que ele acredita ter sido escrito pelo Papa Gregório, e argumenta que foi o “ódio a
Deus” do marido que dissolveu o casamento. Esta a razão por que a mulher fica
completamente livre em relação ao marido. Pode ser uma surpresa encontrar dois
papas medievais que afirmam que há boas razões para dissolver um casamento cristão
consumado. Na realidade eles não foram os primeiros.
Gregório II antecipou-se-lhes. Em 22 de Novembro de 726 escreveu a S.Bonifácio, o
apóstolo da Germânia, a determinar o destino de um homem cuja mulher estava tão
gravemente doente que não podia viver com ele. Este não devia voltar a casar, decidiu
Gregório, mas era livre de o fazer desde que sustentasse a primeira mulher.
Os comentadores católicos depois de Graciano não ficaram muito satisfeitos ao
depararem com um papa que concedia o divórcio a um homem pelo facto de a mulher
estar incapacitada para o sexo. Um autor jesuíta, Padre G. H. Joyce, escreve: «É
razoável supor que [a carta do papa] dizia respeito a um casamento em que, antes da
consumação, a noiva tinha contraído uma doença que tornava a vida conjugal
impossível». Por outras palavras, é impensável que um papa viesse contradizer a fé da
Igreja mesmo quando aquele o tinha claramente feito. Gregório II, diz Joyce, deve ter
dissolvido um casamento não consumado. A belíssima hipótese de que a mulher
contraíra uma doença entre o casamento e a sua consumação é muito difícil de aceitar.
316
Mas ele também não reparou que a dissolução por não consumação só apareceu cinco
séculos depois. Mesmo então, esta só era considerada para os casos de entrada na
vida religiosa e não para uma reentrada no casamento.
Também não se pode argumentar, como alguns tentaram fazer, que Gregório II
estava a anular um casamento devido à impotência da mulher. Porque Gregório II
sempre insistiu que nos casos de impotência os cônjuges tinham de viver juntos como
irmão e irmã. De facto, a impotência é mais um exemplo da confusão em que os papas,
longe de estarem de acordo, andaram metidos durante vários séculos. É mais um
campo em que a ideia de consenso papal em relação à doutrina é um mito.
Voltando à “heterodoxa” opinião de Celestino III sobre a dissolução de casamentos
consumados, é bom lembrar que o sucessor daquele, Inocêncio III, não ficou muito
perturbado com ela. Diz ele, muito tranquilamente: «Embora um dos nossos
antecessores pareça ter julgado de maneira diferente», o casamento de dois cristãos é
para toda a vida e não pode ser dissolvido pelo facto de um dos cônjuges se ter tornado
descrente. Depois de confirmada pela relação sexual, uma união não pode ser
destruída.
Os canonistas ficaram mais nervosos do que Inocêncio. Para eles, depararem com
um papa que contradizia a fé da Igreja era de tal maneira desagradável que as opiniões
de Celestino não foram incluídas na colecção de decretais papais um quarto de século
mais tarde.
Cajetano, o cardeal e académico dominicano que entrou em conflito directo com
Lutero, tinha opiniões semelhantes às de Celestino. Ensinava ele que os casamentos
cristãos consumados podiam ser dissolvidos por motivo de adultério. Jesus disse-o. A
Igreja Oriental sempre o dissera. Se os papas não concordavam, não interessava. Os
papas, dizia Cajetano, já antes tinham cometido muitos erros.
O divórcio papal para as Missões
Nos fins do século XV, como Noonan mostra em Power to Dissolve, a expansão da
Igreja na América começou a criar novos problemas. Os chefes índios, que tinham
várias mulheres, foram convertidos. Mais tarde, os escravos negros, que tinham deixado
as mulheres nas suas terras, tornaram-se cristãos; não tinham quaisquer perspectivas
de se virem a reunir às suas famílias. A Igreja Católica, que se orgulha de nunca ter
mudado os seus princípios básicos, certamente que os adaptou genialmente e com
grande simpatia nesta situação nova.
A questão principal era esta: teriam estes convertidos de manter, por assim dizer, o
celibato? E se não, por que não?
A primeira resposta de Roma foi uma prudente negativa: estes convertidos teriam de
manter-se fiéis à primeira mulher. Depois, o Papa Paulo III, perguntado sobre os chefes
que tinham várias mulheres, respondeu que se o chefe não conseguisse lembrar-se de
qual fora a primeira mulher podia escolher a que quisesse. Era uma decisão de ajuda
aos índios de fraca memória.
Trinta anos depois, Pio V disse que um chefe com várias mulheres, depois da
conversão, ficava livre para escolher a mulher que seria baptizada juntamente com ele,
mesmo que não fosse a primeira. Mas Pio acautelou-se insistindo que, se fosse
possível encontrar a primeira mulher com facilidade, o chefe teria de continuar casado
com ela.
Depois veio Gregório XIII, que no ano de 1585 dilatou a autoridade papal sobre o
casamento de maneira notável. Concedeu uma dispensa colectiva aos escravos
317
convertidos casados para voltarem a casar. As suas uniões originais eram casamentos
autênticos mas não confirmados após o baptismo do escravo de modo a serem
indissolúveis em todas as circunstâncias. Na sua qualidade de pontífice ele era o juiz de
quais as circunstâncias que permitiam o divórcio. E delegava livremente este poder nos
bispos e padres.
Foi um enorme passo em frente. Isto queria dizer que o papa se sentia competente
para dissolver casamentos entre crentes e descrentes. Com que fundamento?
Presumivelmente a favor da fé. Quando um cônjuge descrente abandonava um cristão,
não era caso para o Privilégio Paulino. Era uma reviravolta no texto de S.Paulo. Em
certo sentido, era o mesmo que um cristão abandonar um cônjuge descrente. Este
poder de dissolver os laços naturais não vinha de S.Paulo, portanto tinha de vir de
Cristo, e o papa era o Vigário de Cristo. Para alguns canonistas, isto foi uma verdadeira
prenda de Natal. Começaram a procurar cobiçosamente outros casos em que o papa
pudesse conceder o divórcio.
Depois de 1585, porém, a Cúria acalmou. Era tempo de reflexão no Vaticano.
Ficaram tranquilos porque nenhum desses três extraordinários documentos papais
sobre as Missões foi publicado. Aparentemente, os papas não queriam que o mundo
soubesse que nos bastidores se atarefavam a desfazer casamentos, sobretudo porque
o estado não estava autorizado a fazê-lo. Este é um daqueles factos espantosos com
que o historiador se depara de vez em quando. Não foram os governos mas sim o
papado que re-introduziu o divórcio, depois de este ter sido ilegal durante mais de
quatrocentos anos.
O potencial para a mudança era agora enorme.
No princípio, o interesse estava centrado nos convertidos abandonados pelos
cônjuges pagãos: o Privilégio Paulino. Na era missionária, Gregório XIII dissolveu em
segredo casamentos entre pagãos e cristãos recém-convertidos. Então, e os cristãos
abandonados pelos cônjuges pagãos? A esta questão Roma respondeu com um
estrondoso Não.
O primeiro teólogo americano notável, Francis P. Kenrick, mais tarde, em meados do
século XIX, Arcebispo de Baltimore, foi audaz. Pensava ele que os cristãos que
tivessem casado com pagãos e fossem abandonados tinham o direito de voltar a casar.
Ninguém partilhava esta opinião. Em resposta a perguntas, o Santo Ofício sempre
respondeu: se uma pessoa cristã casar com um pagã com uma dispensa da Igreja, o
casamento é indissolúvel.
Contudo, à medida que corria o século XIX, os decretos secretos de Paulo II, Pio V e
Gregório XIII começaram a transpirar. Os canonistas começaram a compreender aquilo
que os papas tinham andado a fazer todo aquele tempo. Se eles tinham o poder de
dissolver os casamentos não consumados e os casamentos entre pagãos e cristãos
recém-convertidos, onde é que acabava o poder dos papas?
Os divórcios concedidos pelos papas modernos
Leão XIII denunciou muitas vezes o divórcio. O divórcio nasceu, dizia ele, «da moral
pervertida de um povo e leva […] a maus hábitos na vida pública e privada. […] Uma
vez permitido o divórcio, não haverá meios suficientes para o controlar». Isto faz com
que seja difícil de compreender uma decisão que ele tomou no ano de 1894 e que
nunca foi publicada nas Acta oficiais (Actos da Sé Apostólica). O caso foi o seguinte:
318
Dois jovens, Isaac e Rebeca, casaram e divorciaram-se. Rebeca converteu-se ao
Catolicismo e Isaac casou com uma católica, de nome Antónia, pelo civil. A seguir,
Isaac quis converter-se ao catolicismo para oficializar a sua união com Antónia aos
olhos da Igreja. Em 23 de Maio de 1894, Leão XIII, severo opositor do divórcio,
divorciou pura e simplesmente Isaac e Rebeca. Este espantoso caso foi avisadamente
mantido em segredo durante quarenta anos.
Em 1917 os três documentos missionários de Paulo III, Pio V e Gregório XIII, foram
publicados em apêndice ao novo código da Lei Canónica. Estas excepções outrora
particulares e concedidas em situação de emergência no Novo Mundo tornaram-se
subitamente parte da lei geral da Igreja. Os canonistas viram nelas possibilidades nunca
antes sonhadas. Por exemplo, não poderia o papa dissolver até o casamento de dois
não-católicos, por exemplo, de protestante e judeu?
E inesperadamente, um papa dissolve mesmo um casamento entre protestante e
judeu. A mulher protestante já era baptizada quando casou, portanto não era uma
questão para recorrer ao Privilégio Paulino. Queria tornar-se católica e casar com um
católico. O Papa Pio IX, numa decisão histórica, dissolveu o primeiro casamento em
Abril de 1924. Três meses mais tarde, agindo por conta própria, dissolveu o casamento
de protestante com pagão. Mas foi o terceiro caso que causou maior agitação.
Em 1922, Gerald G. Marsh, não baptizado, fez uma petição ao Bispo de Helena,
Montana, John P. Carroll. Três anos antes tinha casado com uma anglicana. O
casamento acabara em divórcio e a sua ex-mulher casara de novo. Marsh apaixonou-se
por uma católica com um nome próprio de personagem de Tennessee Williams, Lulu La
Hood, e exprimiu o desejo de se converter ao Catolicismo. O Bispo Carroll,
desactualizado em relação à lei canónica, apelou para Roma para ver se o primeiro
casamento de Marsh poderia ser anulado com fundamento na disparidade de cultos. O
novo código de 1917 dizia claramente que no seu caso aquilo já não era fundamento
para nulidade. O Santo Ofício, ignorando o raciocínio da petição do bispo, transformou-o
numa petição ao papa para dissolver o casamento para benefício da fé.
Em Novembro de 1924, Pio XI concedeu o divórcio a Marsh. Não havia no édito
qualquer referência à condição de Marsh se converter ao Catolicismo. Para espanto dos
canonistas, o papa tinha simplesmente rompido o primeiro casamento. Um casamento
válido, vinculativo e indissolúvel por natureza tinha sido simplesmente desfeito pelo Sim
de Pio XI.
Quatro anos mais tarde, na altura do Tratado de Latrão, o mesmo pontífice conseguiu
que Mussolini garantisse que o divórcio civil na Itália seria ilegalizado. No ano seguinte,
era publicada a Encíclica Casta connubii, onde, além de condenar a contracepção, Pio
XI vociferava contra o divórcio.
Os advogados do neo-paganismo hoje […] continuam a atacar, na
legislação, a indissolubilidade dos laços matrimoniais, proclamando
que a legitimidade do divórcio deve ser reconhecida e que as leis
antiquadas devem dar lugar a uma legislação nova e mais humana.
[…] Em oposição a estas irresponsáveis opiniões está a inalterada
lei de Deus totalmente confirmada por Cristo. […] O que Deus uniu,
não o separe o homem. […] Estas palavras referem-se a todos os
tipos de casamento, mesmo àqueles que apenas são naturais e
legítimos; porque […] a indissolubilidade, por via da qual é retirada
de uma vez por todas do arbítrio das partes qualquer afrouxamento
dos laços, é uma propriedade de todo o casamento autêntico.
319
Isto partindo de um homem, ele próprio envolvido na concessão de divórcios. A sua
altivez rivaliza com a dos pontífices medievais, como Gregório VII ou Bonifácio VIII.
Ninguém na terra pode fender um casamento por mais intolerável que este seja. Mas o
papa pode, porque este, muito acima de todos os governos seculares, o único homem
no mundo a quem Deus confiou uma questão tão sensível, age em nome de Deus e
para o bem da Igreja de Deus.
Este pontífice, que negou ter qualquer poder para alterar a "tradição" relativa ao
controle da natalidade, operou uma mudança radical na natureza do matrimónio e do
divórcio. O código saiu em 1917. Nos quatro anos seguintes, o papa foi muito além do
código e, para um mundo católico impreparado para tal, dissolveu casamentos
consumados entre cristãos e não cristãos. Nenhum teólogo lhe pedira para fazer tal
coisa. Durante duzentos anos, o Santo Ofício negou imperturbavelmente que um
pontífice o pudesse fazer. Pio XI — por bondade, por desejo de relaxar o músculo
papal, por pura ignorância? — fê-lo pura e simplesmente.
Ao Privilégio Paulino acrescentava-se agora o Privilégio Petrino. E este foi de tal
maneira alargado que o outro se tornou simplesmente redundante. Os canonistas, com
o seu assombroso gosto das hipóteses, viriam a dizer que S.Paulo devia ter pedido a
opinião de S.Pedro. Pedro deve ter ratificado o Privilégio de Paulo, uma vez que este
não era senão parte de um poder muito mais alargado que ele, Pedro, e os papas seus
sucessores têm de dissolver casamentos. E uma pessoa pergunta-se se Paulo não teria
passado isto a escrito.
Pio XI, tal como muitos papas antes dele, revelou-se capaz de conseguir a
quadratura do círculo. Dissolveu uma coisa que ele próprio classificava como
indissolúvel, transformou o perpétuo em temporário simplesmente para "o bem das
almas", interpretado muito generosamente. Marsh afinal não era católico; o édito que
dissolveu o seu primeiro casamento não dizia que ele tinha de prometer converter-se. O
"bem" que o papa, tinha em mente era o da segunda mulher (católica) daquele.
Quatro anos após a Encíclica Casta connubii, Pio XI aprovou as Normas para a
Dissolução do Casamento para Bem da Fé pela Autoridade Suprema do Soberano
Pontífice. As condições para um divórcio papal eram simples: que uma das partes não
fosse baptizada e o casal original não tivesse tido relações sexuais após o baptizado do
não-cristão. Nestas condições o próprio papa podia pronunciar o seu Sim a toda a
fornada de casos de divórcio anteriores que lhe fossem apresentados por um assessor
da Cúria.
Mas Roma não revelou tudo. As normas não foram tornadas públicas. Só aqueles
que estavam no segredo dos deuses podiam beneficiar delas. Era necessário o
secretismo à boa maneira conspirativa do Vaticano. O receio do papa, perfeitamente
justificado, era o de deixar a impressão de que era muito menos contrário ao divórcio do
que aquilo que os ataques fulminantes da sua encíclica deixavam entender. Além disso,
Roma queria manter a pretensão de que o Santo Padre só concedia o divórcio como um
favor (ou privilégio). Os favores não precisam de ser concedidos. A ideia popular de que
as palmeiras de Roma são tão oleosas que são mesmo escorregadias é quase
totalmente falsa. Muito pior do que a corrupção fortuita é um sistema de favores só
alcançáveis com um piscar de olhos ou um toque de cotovelo. Mil favores não
substituem uma lei justa.
Tem de ser dito que as novas normas de Pio XI só funcionavam porque o divórcio
civil já estava em vigor. A Cristandade já não existia. Passados oitocentos anos, as leis
civis e eclesiásticas relativas ao casamento seguiam agora o seu próprio caminho,
320
excepto em países como a Itália, onde existia um entendimento entre Mussolini e Pio XI.
Cada vez se dissolviam mais casamentos nos tribunais civis. A despeito dos protestos
em sentido contrário, a própria Igreja beneficiava com isto.
Na questão do divórcio o Estado fizera "o trabalho sujo" para a Igreja. Tornara o
divórcio respeitável. E também se encarregara dos pormenores legais, como os dos
bens e da herança. A Igreja nunca tinha de tomar a iniciativa ou de conceder o divórcio
em primeira instância. Aparentemente, limitava-se a separar as consequências
sacramentais sem encorajar ou condenar o divórcio. Também aqui a Igreja mostrou o
seu génio habitual em adaptar-se, mesmo havendo alguma hipocrisia à mistura. Em vez
de agradecer ao Estado, os papas acusaram invariavelmente os governos de fazerem o
trabalho do demónio. No Vaticano, o papa continuava calmamente a conceder os seus
próprios divórcios.
Com as normas de 1934, houve uma sensível aceleração do divórcio e dos segundos
casamentos dentro da Igreja. Em Roma crescia a convicção de que o poder do papa era
tão grande como o do Todo Poderoso. Todos os povos, cristãos e não cristãos, estavam
sujeitos a ele no campo do matrimónio.
Pio XII confirmou isto mesmo dois anos após a sua eleição. Em Outubro de 1941,
dirigiu uma alocução ao Rota, o Tribunal Romano do Matrimónio. Em relação ao normal
casamento cristão consumado, disse, exercia a sua protecção paternal. Todas as outras
formas de casamento eram «intrinsecamente indissolúveis». Significava isto que
ninguém os podia dissolver? Nem tanto. Ele podia. Não era ele o Vigário de Cristo na
terra?
Pio XII desenvolveu este tema na sua encíclica de 1942, Mystici Corporis. Citou a
Bula Unam Sanctum para mostrar que Cristo e o papa são um só como chefes da
Igreja. Poder-se-ia pensar que Pio XII se teria demarcado de um monstro como
Bonifácio VIII. Não afirma ter duas espadas à sua disposição; o poder temporal já tinha
desaparecido, o que, como vimos, inúmeros papas diziam ser teologicamente
impossível. Mas Pio XII segue realmente Bonifácio quando afirma que lidera o mundo
inteiro, pelo menos até ao ponto em que exerce o seu domínio sobre todos os
casamentos. Na qualidade de Vigário de Cristo, pode, se for preciso, dissolver estes
casamentos para salvação das almas.
Sete anos depois de iniciado o seu pontificado, Pio recebeu uma petição do Bispo de
Monterey-Fresno, Califórnia. Foi o primeiro de três casos que o Bispo Willinger viria a
pôr a Roma e que fizeram história.
Uma mulher não baptizada casou com um católico. Este tinha obtido uma dispensa
com fundamento na disparidade de culto. Era o procedimento normal e sem custos. Os
dois casaram perante um padre e duas testemunhas. Mais tarde a mulher divorciou-se
do marido católico, mas tendo, ao que parece, um fraco pelos católicos, casou com
outro pelo civil. Agora ela própria queria converter-se ao catolicismo. Parecia não haver
qualquer esperança.
O sereno Bispo Willinger pediu a Roma a regularização da segunda união.
Apresentou como fundamento o facto de o primeiro casamento poder ter sido anulado
por não ter sido consumado. Isto diminuía consideravelmente as desvantagens. Só que,
de acordo com as rigorosas leis de Roma, a não consumação não podia provar-se. A
questão parecia de novo sem esperança. Até que o Santo Ofício alterou a petição do
bispo, recomendando ao Santo Padre que dissolvesse o casamento para benefício da
fé. Foi o que Pio XII fez no dia 17 de Julho de 1947. Concedeu o divórcio ao cônjuge
não crente de um matrimónio com um católico, casamento celebrado com uma dispensa
e presumivelmente consumado. A lei canónica nunca previra tal coisa.
321
Três anos mais tarde, o Bispo Willinger tentou de novo a sua sorte. Pôs a questão da
dissolução, num caso semelhante, sobre se não só o futuro convertido poderia voltar a
casar, mas também o seu anterior marido católico: Afirmativo.
Willinger, convencido de que estava em maré de vitórias, pôs a Roma uma terceira
questão. Pedia a dissolução de um casamento entre um católico e uma pessoa não
baptizada, a pedido do cônjuge católico. Era uma questão completamente nova.
O católico era Alfred Cinelli, de Bakersfield, Califórnia. Casara com Elinor Robbins,
primeiro pelo civil e depois pela Igreja com a devida dispensa. De regresso da guerra no
estrangeiro, veio encontrar alguma frieza da parte da mulher. Em Abril de 1946, esta
divorciou-se dele e voltou a casar. Cinelli queria casar com uma futura convertida. O
Bispo Willinger apoiou a pretensão, alegando eloquentemente que estava em causa a fé
de uma convertida e a fé dos futuros filhos, e o dito Cinelli era de origem solidamente
católica, italiano como o Santo Padre e ninguém se escandalizaria minimamente; pelo
contrário, toda a gente aplaudiria a grande bondade da Igreja. Resumindo, fez desfilar
todas as razões que os Padres da Igreja, os teólogos e os papas ao longo dos séculos
tinham unanimemente recusado como fundamento para o divórcio.
Em 23 de Janeiro de 1955, Pio XII dissolveu o primeiro casamento. O Privilégio
Petrino foi usado de uma maneira que seria impensável apenas uma geração antes.
Nos fins dos anos 50, outras dioceses saltaram para o comboio posto em andamento
por Monterey-Fresno. Em países como os EUA, onde havia muita gente não baptizada
e o divórcio estava a atingir proporções endémicas, choveram as petições. Tanto assim
foi que a hierarquia americana teve medo e avisou Roma de que estava a deixar a
impressão errada — ou seria a impressão certa? — de que Roma favorecia activamente
o divórcio, pelo menos em certas circunstâncias. Roma disse-lhes que não se
preocupassem. Entretanto, havia já um impresso próprio para a petição do Privilégio
Petrino e, claro, uma (modesta) taxa própria.
Durante os primeiros mil anos, nenhum papa tinha aprovado o raro caso do Privilégio
Petrino. E foram necessários mais quatro séculos para que o papa dissolvesse os
casamentos de escravos índios e americanos. Passaram mais três séculos e meio até
que este poder de dissolver casamentos passasse a figurar na lei canónica, em 1917.
Trinta anos depois de Cinelli conseguir do papa o divórcio é que veio o último — ou
penúltimo, segundo certo ponto de vista teológico — divórcio.
Nunca papa algum tinha divorciado dois não-crentes absolutos. Aconteceu em 1957.
Em 12 de Março desse ano, Pio XII dissolveu o casamento de dois maometanos.
Depois de divorciada civilmente, a mulher ficou com a custódia do filho. O marido foi
para França, onde casou numa Conservatória do Registo Civil, sendo a noiva católica. E
tencionava converter-se. O Santo Padre, sob a orientação do Cardeal Ottaviani,
recomendou o Privilégio Petrino — levava menos tempo do que o Privilégio Paulino. Pio
XII dissolveu esse casamento, tal como viria a dissolver mais tarde outros cinco que não
envolviam qualquer cônjuge cristão. Seguiu, de facto, os passos de Bonifácio VIII.
Depois foi João XXIII. Já estava estabelecido que a expressão «em favor da fé» tinha
um sentido tão lato que incluía qualquer vantagem que adviesse do divórcio.
Paulo VI interrompeu a escrita da Encíclica Humanae Vitae para conceder o divórcio
a um casal de judeus de Chicago em 7 de Fevereiro de 1964. O marido, depois de
divorciado, tinha casado com uma católica. Não tinha qualquer intenção de se
converter; foi muito claro em relação a esse ponto. Queria simplesmente tranquilizar o
espírito da sua nova mulher. O Arcebispo Meyer apoiou a sua petição no sentido de
regularizar a união. A Igreja primitiva teria dito que qualquer matrimónio entre católicos e
judeus era um crime e um sacrilégio; quanto a um segundo casamento… Mas Paulo VI
foi levado pela piedade. Mostrou pela jovem católica uma compaixão que, em
322
consciência, se sentia incapaz de estender aos milhões que estavam a sofrer pela
condenação dos contraceptivos. O facto de ao conceder um divórcio estar a contradizer
uma centena de pontífices não o preocupou. Se Pio XII disse que estava certo, também
para ele estava certo. Uma vez mais, escolheu cuidadosamente os papas com quem
estar de acordo.
Com todas estas mudanças, as mais importantes das quais foram as mais recentes,
a Igreja adaptou-se a situações novas. Alguma coisa tinha de ser feita em relação aos
convertidos do Novo Mundo que tinham sido criados em estruturas societais estranhas
à Cristandade, e a Igreja fê-lo. Nos tempos modernos, a Igreja adaptou-se à expansão
do divórcio civil concedendo os seus próprios divórcios nos seus próprios termos,
geralmente na forma de "rebuçados para os convertidos" ou de consolação para os
seus cônjuges católicos. Estas práticas levantaram a seguinte questão: por que é que a
Igreja não é mais honesta e coerente? Se continua a tomar a doutrina de Jesus à letra,
por que é que não mantém a ideia de que os futuros convertidos, anteriormente
casados, deverão continuar celibatários, tal como, por exemplo, os cônjuges católicos
de um casamento cristão consumado que foram abandonados? Ou, olhando a questão
por outro prisma, porquê punir apenas os católicos de origem?
Ao continuar a tratar o Sermão da Montanha como uma peça de legislação, a Igreja
apenas tem andado a remendar um problema de magnitude alarmante. Continua a
manter a pretensão de que é totalmente contra a dissolução do matrimónio, de que
nunca o tolerará em circunstância nenhuma, de que os governos estão a fazer uma
coisa indizivelmente má ao permitir o divórcio. E, ao mesmo tempo, atropela as suas
próprios leis para tentar, sem sucesso, manter o passo certo com a sociedade civil.
Ao não legislar com sensatez, ao transformar a concessão de todos os divórcios num
favor — e pior ainda, num favor feito por um único homem — criou uma classe especial
de advogados curiais, bons espíritos empenhados em causas triviais. Vê-los a trabalhar
é como ver enguias a lutar. Longe de serem parciais a favor dos ricos e poderosos,
como muitas vezes se diz, eles não estão verdadeiramente interessados no ser
humano. Só os princípios e a sua aplicação é que lhes interessam. Não são eles que
têm culpa de o seu trabalho ser muitas vezes absurdo. Podem ser obrigados a ler os
testemunhos das pessoas que afirmam lembrar-se com angélica clareza de incidentes
acontecidos trinta anos antes. A memória das testemunhas melhora com os anos, tal
como o vinho, porque geralmente funciona melhor uma década depois do primeiro
testemunho. Os funcionários da Cúria têm de ler ou ouvir educadamente quando os
requerentes italianos reúnem a famiglia inteira — irmãos, irmãs, pais, avós, tios, tias,
amas, primos muito afastados, ex-amantes, amantes de ex-amantes — todos lealmente
aliados para ajudarem um dos seus metido numa embrulhada matrimonial. Acontece
muitas vezes que um requerente, bem à maneira de Dickens, inicia um caso quando
jovem, envelhece com ele e acaba por morrer com ele. Alguns casos, por motivo de
repetição do julgamento estiveram pendentes na Cúria durante vinte ou trinta anos.
E, como salienta Noonan, não há registo de um só exemplo de qualquer matrimónio
que tenha beneficiado com os trabalhos da Cúria. Não há um único requerente de
anulação do seu primeiro casamento que tenha voltado para a primeira mulher. Em todo
este triste processo, as regras do casamento podem ter ficado esclarecidas, mas o
casamento propriamente dito nunca beneficiou.
Em oposição ao Evangelho de Jesus, são as regras que tudo determinam. Logo que
Roma começou a conceder dispensas estas tornaram-se imediatamente parte
integrante deste processo louco. À disputa sobre casamentos válidos juntaram-se as
323
disputas sobre dispensas válidas. Teriam os requerentes obtido uma dispensa correcta?
Se alguém a requeria em seu nome sem os informar, seria ela válida ou não?
Hoje um grande número de inquéritos sobre casamentos acabam em inquéritos sobre
o baptismo das partes! É muito importante que um cônjuge tenha sido baptizado como
católico. Mesmo quando uma pessoa é educada como não crente ou ateu, o mero facto
de ter sido baptizada por um padre católico significa que está sujeita à legislação da
Igreja. Portanto, se essa pessoa não tiver casado perante o padre da paróquia e duas
testemunhas, o casamento é inválido. Cada desvio ou mudança da legislação abre
novos campos de complexidade.
Os canonistas que regem este sistema em nome do pontífice são mais dignos de
piedade do que culpados. O que torna a sua sorte ainda mais triste é que ainda não há
muito tempo os advogados trabalhavam durante vinte ou mais anos para, no fim,
conseguirem apenas uma resposta negativa para um caso que um papa moderno
dissolve com um simples acenar da cabeça.
A maioria, senão todos estes procedimentos morosos e caprichosos, podia ser posta
de lado, bastando para tal que a Igreja aceitasse o facto de que há casamentos que
acabam. Se depois de tentativas de reconciliação, eles acabam irremediavelmente,
devia-lhes ser concedido o divórcio como única solução equilibrada e cristã.
Mesmo os divórcios de Roma estão sujeitos a intermináveis minúcias. E o que é
estranho é que só os cônjuges cristãos de casamentos consumados é que não podem
beneficiar desta recém-descoberta generosidade da Igreja.
Contudo, também aqui tem havido grandes passos em frente.
Quando um divórcio não é divórcio
Os papas modernos, ao contrário de Gregório II e Celestino III, disseram e repetiram
que nenhum poder celestial ou terreno pode dissolver um casamento cristão
consumado. A união carnal de dois cristãos foi selada com um sacramento. É a
encarnação viva do amor de Cristo e da sua Igreja. Sem o matrimónio, a Igreja não
podia continuar a dar testemunho a Cristo e ao carácter infalível do seu amor.
É um ideal magnífico: filhos, indissolubilidade, fidelidade. A Igreja terá de pregar
sempre isto, porque não o fazer seria uma grave perda para si e para a humanidade.
Infelizmente, toda a gente sabe que a vida nem sempre permite a realização de um
ideal. O fracasso muitas vezes não é culpa de ninguém.
Dois jovens, namorados de infância, casam jurando amor eterno. Um ano depois, o
jovem cansa-se da mulher e sai à procura de novas pastagens. A jovem abandonada
tem de sobreviver sozinha. A Igreja diz que ela continua casada com o marido desertor.
A maioria das pessoas, católicos incluídos, pensa que ela devia ser encorajada a casar
de novo.
Os católicos que apreciam a disciplina da Igreja não procuram o divórcio quando os
seus casamentos falham. Alguns, como Henrique VIII, requerem a nulidade. Também
aqui é considerável o potencial para a casuística.
O matrimónio, diz a Igreja, tem como objectivo primordial os filhos. E se um dos
cônjuges não tencionar ter filhos? Isso, aparentemente, anularia um casamento. Mas
teria esse cônjuge de declarar expressamente que não quer filhos? Ou seria o
casamento anulado se um deles resolvesse em privado excluir os filhos?
A importância desta questão tem crescido com a expansão dos contraceptivos. Será
que o seu uso ou até a utilização permanente do período seguro provam a intenção de
324
não ter filhos, intenção que é contrária ao objectivo primeiro do matrimónio? A
consumação, dizem os moralistas, requer o penetratio e inseminatio. Se se usar sempre
os contraceptivos, poderá o casamento ser anulado com fundamento na não
consumação, mesmo depois de frequentes relações sexuais?
E os problemas da indissolubilidade. Na hipótese, que é real, de um dos cônjuges
nunca ter tido a intenção de casar «até que a morte nos separe», será que uma
declaração expressa nesse sentido anularia o casamento? E uma tal decisão implícita
teria esse efeito?
E os problemas da fidelidade. Consideraria a Igreja um casamento autêntico se um
dos cônjuges, na altura da cerimónia, estivesse envolvido numa relação com outra
pessoa? Ou se um homem dissesse expressamente a um amigo que se a sua mulher
não se mostrasse fiel se divorciaria dela?
As questões não têm fim, como também o não têm as possibilidades de manipular as
regras com o auxílio de um advogado canónico.
Para além da intenção, há a questão do consentimento. Nem Deus pode dar o seu
consentimento se uma das partes tiver uma reserva interior ou se esse consentimento
for o resultado de coacção. Mas o que é que constitui coacção? Não estará ela
dependente da pessoa coagida?
Em tempos recentes, são sobretudo os jovens e as pessoas influenciáveis que
alegam coacção. Um famoso caso passado na América envolveu Consuela Vanderbilt,
que casou com Charles Spencer, Duque de Marlborough em 1916. Após dez anos de
casamento, abençoado com dois filhos, a mulher pediu a Roma a nulidade da sua união
com fundamento no facto de a sua mãe a ter pressionado a casar. A opinião pública
ficou espantada ao ouvir falar da anulação por parte de Pio XI do casamento de dois
protestantes feito por um bispo protestante. Manning, Bispo de Nova Iorque, chamou a
esta decisão de Roma um «ataque espantoso e incrível» àquilo que o casamento tem
de «permanente e sagrado».
Em certas regiões da Itália e da Espanha, hoje, as coisas são mais planeadas. Há
casos conhecidos de pessoas ricas que, antes da cerimónia, escrevem cartas ditadas
pelos seus advogados alegando coacção ou referindo implicitamente falta de intenção.
Estas cartas são guardadas num cofre para o caso de o casamento não vir a ser bem
sucedido.
Durante séculos, depois de Inocêncio III, a Igreja deu como adquirido o facto de que
toda a gente que se casava dava o seu consentimento e tinha rectas intenções. Afinal, o
que é que eles faziam senão obedecer aos ditames da natureza? Depois do código de
1917 estes pressupostos foram postos em causa. Os canonistas começaram a ter cada
vez mais consciência de que as orações da cerimónia nupcial não correspondiam ao
espírito e à vontade das partes. Até há pouco tempo, um cônjuge que apelasse para a
anulação tinha de mostrar perante duas testemunhas credíveis que negara
expressamente que se ia casar para toda a vida. Hoje, esta negação pode ser inferida
das suas crenças, das crenças da sua família e da sua comunidade, do seu
comportamento antes e imediatamente após o casamento.
Foi um grande passo que a Igreja deu quando começou a aceitar, embora com muita
prudência, o facto de que em muitas culturas as partes não têm provavelmente a
intenção correcta de contrair matrimónio. Quantos é que hoje, por exemplo, se
comprometem a um amor exclusivo e por toda a vida? A velha assunção por parte da
Igreja da lei natural está a ruir à escala global.
325
A partir do Decretal Gaudemus, de Inocêncio III, do ano de 1202, a Igreja tem fugido
às inevitáveis consequências da sua doutrina, nomeadamente a de que a maioria dos
casamentos modernos são nulos e inválidos.
Pensemos na China, onde há uma política restritiva em relação aos limites de uma
família. A maioria dos casais só pode ter um filho. É inegável que, à estrita luz dos
princípios católicos, praticamente não há casamentos na China, e portanto essas uniões
também não recebem as graças divinas. Mas não é preciso ir tão longe. No Ocidente, a
convicção expressa de muita gente é a de que manter um casamento em que já não há
quaisquer laços de afecto está errado. Aos seus olhos, é a continuação de tal união, e
não o divórcio, que é pecado. A negação de princípios fundamentais para o matrimónio
cristão já afectou a prática canónica tanto em Roma como nas dioceses que lidam em
primeira instância com casamentos problemáticos.
Os católicos são inevitavelmente parte integrante da sua cultura. Partilham os seus
pressupostos, os seus padrões e as suas aspirações. E estes são incompatíveis com a
tradição do matrimónio cristão.
Não é necessária uma investigação muito apurada para descobrir que as normas da
Igreja, longe de reflectirem as convicções da comunidade mundial, nem sequer
reflectem as verdadeiras convicções dos seus próprios filhos.
Quando os católicos divorciados requerem a Roma a anulação dos seus casamentos
é que se levanta a suspeita de que a Igreja permite o divórcio sob um nome diferente. É
facto conhecido que são concedidas anulações eclesiásticas de casamentos de
católicos depois de, digamos, vinte anos de vida em comum, com meia dúzia de filhos.
Como é que se pode justificar este fenómeno, especialmente quando, antes de
casarem, um padre os guiou cuidadosamente pelos caminhos daquilo que a Igreja
pretende significar com um casamento autêntico?
Perante isto, é como se o casamento fosse a realidade e a anulação uma ficção.
Para se verem livres de um cônjuge que já não amam, as pessoas são obrigadas a
fingir que nunca foram casadas, que viveram em pecado durante todo esse tempo e que
os filhos são ilegítimos aos olhos de Deus. Como é que um tribunal eclesiástico pode
declarar como nula uma realidade tão profunda? Isto requer não pouca subtileza e
implica que uma qualquer falta grave na lei permita estas grosseiras excepções.
As razões que justificam estas anulações são muitas, mas todas elas têm em comum
a descoberta de uma qualquer "falha". Pode ser a falta de consentimento: houve o
emprego do medo ou da força. Ou a falta de intenção de uma ou outra das partes
expressa de maneira aberta ou apenas velada ou fragmentária. Ou pode encontrar-se
uma falha no seu comportamento posterior. Resumindo, os casamentos católicos
também se rendem à evidência da falta de qualquer elemento vital na altura da
cerimónia, mas que só se revela mais tarde, às vezes muito mais tarde. Os tribunais de
Roma e de algumas dioceses locais em particular, usando de grande discrição,
parecem concordar que o necessário compromisso para toda a vida, mesmo para os
católicos, está longe de ser universal.
A Igreja Católica está agora a colher o pior dos vários mundos.
Depois de transformar a doutrina de Jesus relativa ao ideal do casamento numa lei
férrea que proibia o divórcio, suavizando depois essa lei para toda a gente, excepto
para os seus próprios filhos, descobre agora que mesmo para estes ela não é
satisfatória tendo em conta a fluidez do actual estado da sociedade. Os próprios
católicos se queixam amargamente de que "a Igreja", isto é, o clero celibatário,
encabeçado pelo papa, não os compreende, nem a eles nem aos seus problemas. O
ideal do casamento, dizem, não devia ser usado para amachucar as pessoas e fazer
delas celibatárias, para transformar os laços em grilhetas, quando uma união acaba
326
clara e definitivamente. O casamento devia pôr fim à solidão e não perpetuá-la,
proibindo que os casais voltem a casar. Como é que a Igreja pode obrigar um homem
ou uma mulher a ficarem sós para sempre por causa do casamento? Isto é repetir a
palavra de Cristo sem o espírito de Cristo. Se a liberdade faz parte da essência do
casamento e a obrigatoriedade o anularia, será que esta obrigatoriedade o não
dissolve? O objectivo do casamento é o de viver uma vida em comunhão de amor.
Quando acontece que, sem culpas para ninguém, essa comunhão se torna impossível,
o casamento deixa de existir. Sem amor, não serão dois numa só carne, mas, como diz
Milton «duas carcaças unidas de maneira anti-natural». Como é que o clero celibatário
podia saber que o casamento pode dividir e destruir assim como unir? A pergunta
decisiva que emerge directamente da Bíblia é esta: foi o casamento que foi feito para o
homem ou o homem para o casamento?
Como já aqui se mostrou, a Igreja mudou de facto e mais radicalmente neste século
do que em qualquer outro. Mas a mudança tomou a forma de remendos no sistema. A
Igreja recusou repensá-lo na grande escala que um novo entendimento da Bíblia em
termos psicológicos e sociológicos, e também teológicos, exigia.
As pressões sobre o sistema católico são agora prodigiosas. As normas do
matrimónio começam rapidamente a parecer-se com as regras da gramática inglesa:
tudo é excepção à regra. Cada vez mais casais católicos requerem ser classificados
como excepções. Os seus divórcios estão dentro da média geral, como se esperava.
Em tempos passados, e em cenários sociais diferentes, os casamentos uniam famílias e
clãs inteiros. Hoje, os casamentos unem geralmente duas pessoas solitárias. Uma vez
instalado o desentendimento, não resta mais nada. Com a rotura, a coisa desfaz-se.
Calcula-se que o número de católicos americanos envolvidos em casamentos
destruídos exceda os 10 milhões. Seria absurdo tentar resolver mesmo os casos
americanos como se todos eles fossem candidatos à anulação, exigindo infindáveis
investigações sobre as razões que pudessem provar que nunca foram, desde logo,
casamentos. Além disso, mesmo na Igreja, cresce a convicção de que as anulações são
divórcios com outro nome.
O próprio João Paulo II parece partilhar este receio. No seu solene discurso no Rota
em Fevereiro de 1987, disse que havia casamentos a serem destruídos sob a alegação
da nulidade, da qual havia um «aumento exagerado e quase automático». Isto devia-se,
disse ele depreciativamente, à influência dos psicólogos especialistas cujos pontos de
vista são muitas vezes inconciliáveis com a doutrina da Igreja. Tal brandura, disse ele,
aumenta as roturas dos casamentos. «Deve ficar claro o princípio de que só a
incapacidade, e não apenas a dificuldade em acordar e realizar uma autêntica
comunhão de vida e de amor pode anular um casamento». E quem é que vai julgar se
uma dificuldade é uma impossibilidade? Os canonistas? O próprio papa?
Entretanto, os católicos, leais em todos os outros aspectos, são ilegalizados pela
própria Igreja que amam; e os seus filhos ficam a interrogar-se sobre a razão por que o
pai e a mãe não recebem a comunhão juntamente com eles. Estes católicos ficam a
pensar, pesarosos, por que é que tiveram a infelicidade de terem sido baptizados pela
Igreja. Se ao menos se tivessem convertido depois do primeiro casamento, talvez
tivessem podido voltar a casar pela Igreja. Por que é que a Igreja persegue os seus
próprios fiéis? Acima de tudo, eles exigem uma explicação racional do motivo por que
não podem divorciar-se pela Igreja, quando até alguns papas disseram que podiam. Por
que é que no divórcio, tal como na contracepção, não havendo motivos satisfatórios
para a interdição, eles se hão-de considerar pecadores?
327
O derradeiro divórcio papal
É um dado adquirido em círculos católicos que Roma está irrevogavelmente
comprometida a nunca permitir que os cristãos se divorciem e voltem a casar depois de
um casamento consumado. A História, ao contrário, poderia fazer crer que se trata
apenas de uma questão de tempo até que se verifique a mudança, embora não se
possa prever quando e de que forma. Seja como for, é sempre perigoso dizer Nunca,
tratando-se de qualquer instituição, principalmente de uma com o génio de Roma.
Já vimos que, ao permitir o uso do período seguro, Roma aprovou recentemente uma
coisa completamente oposta à tradição: a dissociação de sexo e procriação. Depois de
Agostinho e do papa Gregório, isto teria sido chamado de pecado mortal. Estas
autoridades teriam também achado impensável que os papas pudessem permitir
casamentos mistos, o divórcio de casamentos não consumados, o divórcio de
casamentos consumados em que uma das partes não seja católica. O Papa João Paulo
II parece não ter consciência de quantas das coisas que diz teriam sido condenadas
pelos seus antecessores no princípio deste século.
Por exemplo, nas suas audiências regulares das quartas-feiras entre 5 de Agosto de
1979 e 21 de Maio de 1980, o pontífice fez uma série de alocuções sobre o amor e a
sexualidade. Numa delas reconheceu no Livro do Génesis, duas linhas literárias
distintas. Na primeira delas, chamada J, Deus é referido como Yahweh; na segunda,
linha posterior chamada E, Deus é referido com o plural da palavra hebraica Elohin. Só
por isto, Pio X tê-lo-ia condenado e ter-lhe-ia retirado o título de teólogo católico. O
Santo Ofício insistia que Moisés escreveu todo o Pentateuco.
Noutra alocução, João Paulo falou em termos calorosos da justeza do «êxtase
sexual» desde que o acto nupcial seja realizado sem contraceptivos. Contudo, durante
mais de mil e quinhentos anos, os papas, um após outro, longe de aprovarem o êxtase
do sexo, disseram que ele era sempre e em todas as circunstâncias, um pecado. Se ao
menos o actual pontífice reflectisse mais sobre a história do papado antes de falar de
«verdades eternas» e da «inalterável lei de Deus» transmitidas pelos sucessores de
Pedro!
Tendo em vista as tremendas mudanças operadas pela Igreja no matrimónio, mesmo
neste século, quem poderá dizer que um dia a Igreja Católica não abrandará a sua
disciplina para permitir o divórcio entre cristãos? O Concílio de Trento deixou a questão
em aberto e ainda nenhum concílio ou papa a fechou. Os Ortodoxos e outras igrejas
continuam como uma espécie de farol a apontar para uma abordagem mais bíblica do
problema da separação marital.
É evidente que o actual tumulto na Igreja de Roma não vai amainar. As coisas irão
piorar antes de melhorarem. As anulações fragmentárias de casamentos, muitos dos
quais eram, à luz de quaisquer padrões, casamentos autênticos, não são só
inadequadas, como tiveram também um efeito prejudicial no estado de espírito da
Igreja.
A justificação racional para o divórcio vai levar tempo a ser elaborada, tal como
aconteceu com a dos casamentos mistos e com a dos divórcios para outros tipos de
casamento. Como primeiro passo, os católicos que se divorciaram e voltaram a casar
pelo civil poderiam ser autorizados a seguir a sua consciência e voltar aos sacramentos.
De facto, muitos padres em todo o mundo já estão a aconselhar os católicos divorciados
a receber a comunhão sem um sentimento de culpa. Os bispos sabem disto e calam-se.
De qualquer maneira, está no espírito do Vaticano II deixar aos casais a liberdade de
decidirem da justeza ou não do seu estilo de vida. Se considerassem que pecaram,
poderiam pedir para cumprir uma penitência durante algum tempo antes da comunhão,
328
como se fazia na igreja primitiva. Para o segundo casamento, a lei Tridentina que exige
um consentimento mútuo perante um padre e duas testemunhas teria de ser posta de
lado. Seja como for, esta legislação, em termos históricos, é de origem recente. O
segundo casamento seria considerado como agente da dissolução oficial do primeiro,
exactamente como diziam alguns papas, com muito menos justificação, relativamente
aos votos religiosos, que dissolviam o casamento de um monge. Outra vantagem desta
abordagem é que o papa não seria solicitado para divorciar indivíduos católicos —
atingem muitos milhões — que se divorciaram civilmente e voltaram a casar. Além
disso, o clero não teria capacidade para tal avalanche; iriam estar a oficiar em
casamentos todo o dia durante meses seguidos.
Mais tarde, quando a Igreja Católica, tal como outras igrejas, se habituar ao divórcio,
o assunto pode tornar-se canonicamente mais preciso. O que há a considerar em
primeiro lugar deve ser que milhões de católicos em todo o mundo, a quem agora estão
vedados os sacramentos, deviam ser autorizados a regressar, em consideração a eles
próprios, e para bom exemplo dos seus filhos. Por que é que a Igreja, ao recusar aos
pais aquilo que os Ortodoxos e outras igrejas cristãs concedem aos seus seguidores
sem qualquer confusão digna de registo, corre o risco de fazer com que milhões de
crianças possam deixar o Catolicismo? Uma vez destruído o mito da “imutabilidade” e
quando os católicos compreenderem a extensão das mudanças da Igreja em resposta
às necessidades sociais ao longo dos séculos, a dissolução do casamento cristão não
parecerá assim tão espantosa,
Se a Igreja aprendeu alguma coisa com a débacle da Humanae Vitae, foi que as
questões momentosas não podem ser deixadas nas mãos de um só homem, por mais
eminente que ele seja. Cabe a toda a Igreja, ao clero e aos leigos, discutir livremente e
sem medo aquilo em que acreditam.
Tem de ser dito, a propósito, que o currículo de João Paulo II parece sugerir que
nada disto acontecerá durante o seu pontificado. Portanto, o divórcio católico por
enquanto terá de ficar na prateleira, juntamente com a contracepção, como «contrário à
eterna lei de Deus». Na mesma categoria vamos encontrar a questão mais espinhosa
de todas: o aborto.
329
19
O Holocausto Silencioso
Há duas imagens que são a cristalização de um violento choque de opiniões. Um
médico católico exibe, num frasco, um feto desenvolvido; o feto revela todas as
características de um ser humano minúsculo, mas inequivocamente humano. Isto, diz
ele arrebatadamente, é o que o aborto é na realidade, o assassínio de um bebé.
O seu opositor, uma mulher não menos arrebatada, ostenta na mão uma cruzeta de
fato. Isto, diz ela, era o que matava uma mulher quando o aborto era um crime. Será
que queremos voltar aos dias negros em que as mulheres tinham de recorrer a
carniceiras clandestinas? E para quê? Simplesmente para usarem do direito elementar
da mulher de não querer ser mãe.
O aborto é o tema de debate mais doloroso e polarizador dos tempos modernos. Os
papas, representantes da Igreja Católica, ensinam que o aborto não tem justificação em
circunstância nenhuma; é sempre a morte directa de uma criança inocente no ventre
materno. No outro extremo estão aqueles que dizem que o aborto é uma opção
arbitrária da mulher; no útero não há criança nenhuma, há apenas uma criança em
potência.
Os papas acentuam que toda a vida desde a concepção é uma dádiva de Deus; no
primeiro momento miraculoso já há um ser humano que Deus criou e ama e a quem
destinou uma vida eterna. Os que estão no polo oposto respondem que o que está
dentro da mulher não é mais do que tecido fetal; ela pode ver-se livre dele com a
mesma tranquilidade com que se sujeitaria a uma cirurgia plástica para melhorar a
forma do nariz. Afinal, é do corpo dela que se trata. Quem é que tem o direito de a
condenar a nove meses de trabalhos forçados? Como disse Stella Brown em 1915, «O
direito da mulher ao aborto é um direito absoluto. Qualquer mulher devia ter acesso ao
aborto sem estar sujeita a perguntas insolentes nem a custos financeiros ruinosos,
porque o nosso corpo é só nosso».
Segundo sondagens recentes, a maioria das pessoas que reflectem sobre este
assunto parecem optar pelo meio termo. Rejeitam os absolutos, não gostam de
extremos. O aborto nem sempre é um mal, porque pode haver sinais claros que deviam
permitir que a mulher abortasse. Por outro lado, o que está no ventre materno não é
apenas tecido; é, em certo sentido, uma coisa sagrada. Portanto, não podemos
desfazer-nos dela sem grande ponderação e angústia moral.
Uma nova sensibilidade à vida
O Cristianismo trouxe ao mundo, desde o princípio, um novo respeito e reverência
pela vida em todos os seus estádios. O Novo Testamento contribuiu para isto com
textos como aquele em que o filho salta de alegria no ventre de Isabel quando Maria a
veio visitar.
Para gregos e romanos, o aborto e o infanticídio eram ocorrências do dia a dia. Os
antigos em geral não tinham sentimentos muito profundos em relação às primeiras
fases da gravidez. Isto explica-se em parte pelo facto de muitos pensarem que um ser
330
só se tornava humano quando pela primeira vez inspirava o ar. Aristóteles via o aborto
como uma necessidade quando a população excedia limites razoáveis.
Abundavam os manuais sobre o aborto e havia profissionais para os fazer.
Destruíam o embrião por meio de purgas no abdómen, exercícios violentos, banhos
com várias misturas, sangrias da mulher, supositórios, drogas mortais, instrumentos
afiados. As mulheres submetiam-se a isto por várias razões: porque corriam perigo de
vida, para esconder um adultério, porque não queriam estragar a figura. O que o aborto
tem de errado nunca era uma coisa penosa.
O Cristianismo, disse Lecky, prestou um grande serviço à humanidade «ao afirmar
definitiva e dogmaticamente que toda a destruição da vida humana para divertimento ou
por mera conveniência era pecaminosa, criando assim um novo padrão mais elevado do
que qualquer outro então existente no mundo».
«Ama o próximo como a ti mesmo» aplicava-se antes de tudo ao próximo
pequenino junto do coração da mãe.
A proscrição do aborto por parte da Igreja foi reforçada pela sua doutrina sobre o
pecado original, mas não foi criada por ela. Se a salvação dependia do baptismo, é
evidente que matar uma criança no ventre materno era mais do que um crime; era, em
certo sentido, matá-la para sempre. Esta a razão por que o aborto foi considerado um
pecado quase imperdoável. As penitências impostas por esse pecado eram severas, e
podiam incluir nalguns casos, a exclusão dos sacramentos para toda a vida. Fazer
abortar um feto era considerado pior do que matar uma criança já nascida e baptizada.
Os papas modernos consideram-se o sustentáculo desta grande tradição. Na
Encíclica Casta connubii, diz Pio XI:
Podemos sentir piedade pela mãe cuja saúde e mesmo a vida
correm perigo em consequência do cumprimento do dever que
a natureza lhe reservou, contudo, o que é que pode alguma
vez constituir razão suficiente para desculpar, seja de que
forma for, o assassínio directo dos inocentes?
Vinte e um anos mais tarde, em 1951, diz Pio XII:
Uma vida humana inocente, sejam quais forem as
circunstâncias, tem de ser preservada, desde o primeiro
momento, de qualquer ataque directo voluntário. Isto é um
direito fundamental da pessoa humana, generalizadamente
valorizado na concepção cristã da vida; e é válido tanto para a
vida ainda escondida no ventre materno como para a vida que
já o deixou; e vai da mesma forma contra o aborto e o
assassínio da criança durante ou após o nascimento.
Nas suas viagens ao estrangeiro, João Paulo nunca perde a oportunidade de repetir
a mesma mensagem. Nos Estados Unidos da América, onde o aborto foi considerado
um direito constitucional para todas as mulheres, insistiu no carácter sagrado da vida no
ventre materno; o feto tem tanto direito à vida como a mãe ou os filhos já nascidos. Na
sua primeira viagem à América, em 1979, frente ao Mall, em Washington, ele realçou
um dos principais temas do seu pontificado: o carácter sagrado da vida «desde o
primeiro momento da concepção e durante todos os estádios subsequentes». Por via de
Cristo, toda a vida humana foi redimida. Portanto, «todos os seres humanos (também
331
aqueles que ainda estão no ventre materno) […] são considerados como irmãos ou
irmãs de Cristo em razão da Encarnação e da redenção universal».
Desde 1979, sempre que falou do aborto João Paulo deu testemunho de um fogo
interior que o consome. Acredita com todas as fibras do seu ser que esta questão é que
vai decidir se a nossa geração tem ou não o direito de se considerar civilizada. Repete
constantemente uma ideia que desenvolveu muito antes de se tornar pontífice. Aqueles
que se opõem ao aborto estão na linha da frente da batalha contra o novo paganismo;
estão a lutar pela dignidade do homem e pelo carácter sagrado de toda a vida desde a
primeira partícula no ventre materno até ao último suspiro de um idoso moribundo.
Onde quer que se abra uma brecha no respeito pela vida, a mensagem cristã está
ameaçada na sua integridade. Essa mensagem é a do amor de Deus por toda a pessoa
humana, por muito frágil, doente ou insignificante que possa parecer. Esta a razão por
que ele manifesta um especial afecto pelas crianças e também pelos velhos e pelos
doentes. É a teoria do dominó aplicada ao nível mais elevado da vida. A contracepção
conduz ao aborto, ao infanticídio, à eutanásia. É parte de um todo: desperdiçar o sémen
numa relação sexual leva necessariamente, por uma lógica cruel e por muito
misericordiosa que seja a intenção, ao assassínio dos deficientes e dos velhos, que não
"contribuem", que são um sorvedouro de recursos. João Paulo evoca os seus primeiros
dias em Cracóvia, tão próximo de Auschwitz. Não pode deixar de ver que as clínicas de
aborto em Nova Iorque e Londres, Paris e Amsterdão não são mais do que pequenos
campos de morte geridos muito higienicamente — mas, afinal, Auschwitz não era um
modelo de eficiência?
Uma mudança radical de atitude
Não há dúvida de que a atitude actual em relação ao aborto revela uma das mais
espantosas inversões éticas da história moral. Ainda em 1939, não havia um único país
no mundo onde uma mulher pudesse optar livremente pelo aborto, embora de facto com
algumas excepções. Por exemplo, na católica Polónia uma lei de 1932 permitiu o aborto
para salvaguarda da saúde da mulher após violação ou incesto. Lecky e outros
moralistas dos fins do século XIX não teriam acreditado que as transformações actuais
fossem possíveis. Mesmo pouco antes de 1960, os moralistas teriam achado o cenário
actual uma reminiscência do mundo greco-romano anterior à influência do Cristianismo.
Vinte séculos depois de Cristo, as mulheres andam mais uma vez a abortar porque a
gravidez lhes vai estragar as férias ou a figura. Os papas não estão sozinhos na
convicção de que isto é o grande escândalo do nosso tempo.
De crime punível por lei, o aborto passou a ser um direito inscrito nas leis e
constituições. Nalguns países é subsidiado pelo dinheiro dos contribuintes. Foi-se o
estigma. As mulheres que abortam estão a prestar um serviço à comunidade,
especialmente quando se recusam a trazer ao mundo um bebé deficiente. Poupam-se
por ano biliões à comunidade em serviços médicos, escolas e subsídios a deficientes.
São os pobres quem mais beneficia: não nascem. Elimina-se a fome eliminando-se os
potenciais famintos. Aqueles que pressionam a favor do aborto a pedido assumem-se
como filantropos.
Na nossa sociedade há muita gente preocupada com o facto de o filho, outrora visto
como uma bênção de Deus, ser agora olhado como uma ameaça, um obstáculo à
felicidade da família. Ainda não há muito tempo, o Estado queria proteger os nascituros
a todo o custo; agora são descartáveis. «Se o teu feto te aborrece, arranca-o». O
grande arquétipo de cuidados e preocupação, o amor de uma mãe pelo filho, foi minado
332
e desvalorizado. O respeito foi substituído pelo frio calculismo. Há uma praga de morte,
um holocausto silencioso, um massacre dos inocentes, que está muito para além das
ideias mais selváticas de Herodes. No Japão e América juntos há, por ano, 2 milhões de
abortos e na Itália à volta de 800 000. Segundo Colin Francone em Abortion Freedom,
calcula-se em 55 milhões o número de abortos anuais em todo o mundo.
O aborto é muitas vezes usado como meio de planeamento familiar. Grande número
de mulheres de todas as idades vão ao hospital para não terem um filho. O ventre
tornou-se mais perigoso do que uma zona de guerra. Nos Estados Unidos da América o
número de bebés que morrem anualmente no ventre materno é superior ao dos
soldados que morreram no Vietname e ao das vítimas mortais dos acidentes de viação.
Nas silenciosas salas de operações de clínicas de luxo procede-se a uma carnificina
equivalente à da Batalha do Somme ou à dos oito anos do conflito Irão-Iraque.
Nalgumas cidades, o aborto é um negócio de tal monta que se cometem erros
elementares. Há mulheres que "abortam" sem estarem grávidas. E os médicos ganham
milhões a lidar com a morte. Tradicionais guardiões da vida e da saúde, despendem
toda a sua carreira a matar. A prodigiosa mudança de sensibilidade entre o comum das
pessoas deve-se ao facto de já não serem carniceiros que realizam os abortos, mas
cirurgiões de bata branca e máscara cirúrgica. Há relatos que testemunham que alguns
destes médicos, depois de realizarem centenas de abortos, sofrem de efeitos
psicológicos graves.
Os fetos abortados são por vezes vendidos para experiências e para o fabrico de
produtos de saúde e beleza. Este mercado, o mais negro dos mercados negros, faz
lembrar a alguns a maneira como, não há muito tempo, os Nazis transformavam os
judeus em barras de sabão. Nalguns círculos, as reacções a estes factos padecem de
falta de lógica. Aqueles magnânimos que condenam a experimentação com fetos na
investigação médica não têm quaisquer escrúpulos em relação à destruição dos fetos
para bem de ninguém a não ser talvez da perfeita saúde de uma mãe. Se o feto é
humano, não deveria ele ser respeitado e considerado sagrado? Se é sub-humano,
mero tecido descartável, por que não ser comprado e vendido ou objecto de
experimentação ou transformado em produto de beleza? A verdade é que ele só tem
utilidade para estes fins porque é de facto especificamente humano.
Outra anomalia: numa altura em que as grávidas são avisadas pelos médicos de
que não devem fumar, nem beber, nem tomar drogas, para não prejudicarem o bebé,
dá-se-lhes também a liberdade legal de os destruir, mais ou menos à sua vontade.
Numa altura em que os que nascem deficientes são tratados com grande consideração,
a sociedade permite que aqueles que se sabe que virão, ou poderão vir a ser
deficientes sejam mortos no ventre materno. Trata-se de uma mensagem implícita para
os deficientes: «Se a vossa situação tivesse sido diagnosticada mais cedo, ter-nos-
íamos visto livres de vocês». A sociedade parece dizer dos deficientes o que Jesus
disse de Judas: «Seria melhor que nunca tivesse nascido». Seria provavelmente mais
seguro e em termos médicos faria mais sentido se se deixasse todos os fetos
desenvolverem-se completamente e depois se matassem os deficientes. Hoje não se
executam os criminosos porque pode vir a provar-se mais tarde que estão inocentes.
Não deveríamos também impedir a morte de possíveis deficientes — por causa da
rubéola, por exemplo — para o caso de eles virem a ser saudáveis? Se o não forem,
então matem-se. As razões para justificar o aborto justificariam certamente também o
infanticídio, ou não? Será que essa susceptibilidade também vai desaparecer com o
tempo? Não irá a sociedade, também aqui, imitar os romanos, deixando os bebés a
morrer não em frias encostas mas em baldes de aço inoxidável? Há investigações que
revelam que o infanticídio já acontece de facto em clínicas de aborto. O feto pode estar
333
mais desenvolvido do que se esperava. Para desespero do médico, nasce um bebé
perfeitamente saudável e viável. Em vez de extrair o líquido amniótico e de proceder à
aspiração e aquecimento daquele ser humano, o médico mete-lhe um dedo enluvado
pela garganta abaixo ou, depois de um rápido olhar apressado para ver se o feto respira
— isto para sua salvaguarda — deita-o num balde.
As anomalias multiplicam-se. Nalguns sítios as crias das gatas são liquidadas com
mais consideração do que a que se dispensa aos bebés no ventre materno. Numa
época em que se acha a pena de morte cada vez mais odiosa, matam-se bebés a
sangue frio aos milhões à luz de uma moderna lei de Lynch. Os infanticidas, os
violadores, os sádicos, os espiões não são executados; só os inocentes no ventre
materno ou aqueles que, para aborrecimento dos implicados no processo, dele sae
Vigde cristo
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  • 1.
  • 2.
    Sobre o autor Peterde Rosa, licenciado pela Universidade Gregoriana de Roma, foi Professor de Metafísica e Ética no Westinster Seminary e Deão de Teologia no Corpus Christi College de Londres. As suas obras incluem: Rebels: The Irish Rising of 1916 e o romance Pope Patrick. Deixou o sacerdócio em 1970 e vive actualmente na Irlanda com a mulher e dois filhos.
  • 3.
    Peter de Rosa OsVigários de Cristo O Lado Negro do Papado Traduzido do original por Luís Varela Pinto Espinho 2000/2001
  • 4.
    Título do original:Vicars of Christ, The Dark Side of the Papacy Edição que serviu de base à tradução: Poolbeg Press Ltd, 123, Baldoyle Industrial Estate, Dublin 13, Ireland 2000
  • 5.
    A Todas as Vítimasdo Holocausto, com Humildade e Penitência
  • 7.
    Índice Um Novo Prefáciopara um Novo Milénio 9 Prólogo: O Grande Encobrimento 13 Primeira Parte: O Poder 17 1 Do Calvário ao Vaticano 19 2 A Busca do Poder Absoluto 35 3 A Pornocracia Papal 51 4 O Apogeu do Papado 59 5 O Poder em declínio 75 6 A Descida do Papado aos Infernos 87 7 A Inevitável Reforma 107 8 O Crepúsculo do Poder Absoluto 117 Segunda Parte: A Verdade 131 9 O Esmagamento da Dissidência 133 10 A Imposição da Verdade 145 11 A Perseguição às Bruxas e aos Judeus 171 12 As Heresias Papais 191 13 O Primeiro Papa Infalível 219 14 A Grande Purga 235 Terceira Parte: O Amor 247 15 O Papa que Amava o Mundo 249 16 O Novo Caso Galileu 261 17 Uma Visão Pouco Amorosa do Sexo 289 18 Os Papas, Pioneiros do Divórcio 303 19 O Holocausto Silencioso 329 20 Celibatários Pouco Castos 351 Epílogo 391 Cronologia 395 Os Papas 403 Os Concílios 409 Nota sobre as Fontes 414 Bibliografia Selecta 415
  • 9.
    9 Um Novo Prefáciopara um Novo Milénio O sucesso internacional de Os Vigários de Cristo: O Lado Negro do Papado foi para mim uma surpresa. Muitos católicos escreveram-me a agradecer. Com uma educação baseada apenas no lado eternamente luminoso do papado, ficaram com a ideia de que, à parte uma ocasional maçã podre, como o Papa Bórgia, Alexandre VI, os papas eram escolhidos pela sua santidade. Este livro mostra que nos primeiros dois mil anos o papado foi campo de muito mais escândalos clericais do que a Irlanda ou a América hoje. Muitos papas, como Benedito IX, eleito em 1032 quando tinha onze anos, foram desumanos; outros foram assassinos; Júlio II, que lutou pelos Estados Papais envergando a sua armadura, estava convencido de que Jesus tinha dado ao Pescador e seus herdeiros uma boa fatia da Itália Central a título perpétuo. Foi este o papa que proibiu toda a gente de beijar-lhe os pés na Sexta-Feira Santa de 1508. A sífilis estava a matá-lo. O papa é católico? O leitor de Os Vigários de Cristo pode ficar surpreendido ao descobrir que alguns não o eram. Segundo o Papa Adriano VI (1522-3), muitos pontífices romanos eram hereges. Marcelino (296-304) foi apóstata. Vigílio (537-55) e Honório (625-38) foram condenados como hereges por Concílios Gerais da Igreja. Como disse Adriano VI, «Não há dúvida de que o Papa pode errar em matéria de fé quando ensina a heresia». Muitos papas criaram culturas de morte e cometeram crimes contra a humanidade. As Cruzadas, que levaram ao massacre de centenas de milhar de vítimas, não foram ideia de católicos renegados, mas de papas renegados. Impiedosamente, eles puseram as suas jihads ou Guerras Santas sob a protecção de Jesus, que em Getsémani obrigou Pedro a embainhar a espada. Também foram os papas que inventaram a Inquisição, o gueto e as roupas que identificavam os Judeus, a destruição pelo fogo de cidades heréticas e a fogueira para velhas mulheres apelidadas de bruxas. Foram milhões os que morreram às ordens dos papas. Alguns papas, que podiam ter dado lições de brutalidade a Cromwell, foram canonizados. Muitos papas do Renascimento, ao serviço de um Cristo da Wall Street, não conseguiram passar sem meter a mão na gaveta. Foram simoníacos em grande escala. Para conseguirem a eleição subornaram cardeais oferecendo-lhes abadias e montes de ouro e prata. Uma vez em exercício, usavam os lucros das vendas de bispados e indulgências para enriquecer as amantes, os filhos, os netos, os irmãos e as irmãs. Apropriaram-se do equivalente a milhões de dólares. O Bispo Casey, de Galway, ao entregar 125.000 dólares dos fundos da diocese à sua amante americana Annie Murphy quase não deixa marcas numa escala de Richter das más acções do clero. O que é que por fim pôs o papado num caminho mais próximo de Cristo? A Reforma. Foram homens devotados, como o destroçado Lutero, que levou cebolas para Roma e de lá voltou com alhos, foi o protesto de cristãos sérios, a maioria protestantes, que finalmente obrigaram Roma a arrepiar caminho. Nessa altura o mal para a unidade dos cristãos já estava feito. E continuou até hoje, como está à vista de toda a gente. Isto não se encontra nos sermões, nem nas encíclicas papais, nem no Catecismo Católico. Esta a razão por que muitos católicos, incluindo prelados do Vaticano, tendem
  • 10.
    10 a presumir queo papa tem sempre razão e portanto tem de ser cegamente obedecido. De facto, é muito perigoso para os católicos escutar os papas que não escutam a Igreja. Este livro pergunta: não poderão os papas modernos, como Paulo VI e João Paulo II, errar da mesma maneira que os seus antecessores que obrigaram católicos leais a aceitar a Inquisição, a venda de indulgências, os guetos para os Judeus, a fogueira para as bruxas? E se não podem, por que é que não podem? Muitos apreciadores deste livro concluíram: «Nós temos sorte por o papado já se ter reformado». Discordo. O poder absoluto investido nos papas desde 1870 levou Roma a doutrinar com fundamento no papado. Esse mesmo poder absoluto fez com que, ao invés de acabarem, os crimes papais se multiplicassem. Consideremos a actual condenação da contracepção, contrária à crença quase universal da Igreja. Isto constitui uma moderna heresia papal. A comunidade mundial está a crescer um bilião em cada doze anos. A população cresce mais num ano do que cresceu nos quinze séculos que se seguiram à morte de Cristo. O diálogo morreu. João Paulo proibiu mesmo os bispos de discutirem a contracepção. Em África e na América do Sul esta cruzada papal levou a mais campos de concentração de miséria, a mais abortos provocados e, devido à pandemia da SIDA, a mais mortes do que em qualquer outra época da história do Cristianismo. As mulheres católicas em particular andam perturbadas. Os papas insultam-nas com cortesia requintada assegurando-lhes que a sua contribuição é indispensável em toda a parte, menos na Igreja. São filhas de um Deus menor. O maior escândalo da Igreja Católica desde a Reforma é o abuso sexual de crianças por parte do clero. Estranhamente, não houve da parte de João Paulo II, um homem nobre e bom, uma palavra de condenação. Entretanto, os seus ataques à contracepção saltavam como o sal do saleiro. O verdadeiro mistério da história papal não é o facto de os homens maus cometerem más acções. É sim o de os homens bons cometerem más acções e de os melhores homens cometerem as piores de todas acções. Edward Gibbon disse: «Os vícios do clero são muito menos perigosos do que as suas virtudes». A frase de Lord Acton «O poder absoluto corrompe absolutamente» serviu de guia às minhas investigações para este livro. Pouca gente sabe como essa frase termina: «Os grandes homens são quase sempre perversos. Não há maior heresia do que aquela em que o gabinete santifica o seu detentor». O amor do poder sempre há-de destruir o poder do amor. A Igreja Católica entra no terceiro milénio com uma moral do século XIX e uma estrutura medieval baseada no absolutismo papal e um clero masculino celibatário. Não admira que noventa por cento dos católicos modernos discordem do papa em questões- chave como a contracepção, o divórcio, o celibato do clero, as mulheres no sacerdócio e o aborto. A minha esperança é que este livro encoraje os católicos, clero e leigos, a exigir uma voz num terceiro Concílio Vaticano. Sem isso, não há a mínima possibilidade de a Igreja se reformar e enfrentar um futuro desconhecido mas excitante.
  • 11.
  • 13.
    13 Prólogo O Grande Encobrimento Facilmentese pode considerar o maior encobrimento da história. Dura há séculos, tendo sacrificado, primeiro, milhares e depois milhões de vidas. Embora perfeitamente visível, ninguém parece ter reparado nele. Inconscientemente, muitos artistas, grandes e menos grandes, contribuíram para ele. E a camuflagem tem apenas o tamanho de um pequeno pedaço de pano — aquele pano que cobre o ventre de Jesus Cristo crucificado. No princípio, a cruz nunca era representada na arte ou na escultura. Enquanto Jesus foi adorado pelo seu despojamento e a cruz era o centro da fé, ninguém se atreveu a representá-lo na sua extrema humilhação. Diz-se que os exércitos de Constantino ostentavam a cruz nas suas insígnias. Isto não era bem assim. O escudo e o estandarte tinham as duas primeiras letras do nome grego de Cristo, , fundidas assim: .. Só quando a memória dos milhares que morreram crucificados por todo o mundo romano se desvaneceu é que os cristãos se sentiram livres para representar a cruz como símbolo da paixão de Cristo. Era uma cruz vazia. Quem é que se atrevia a recrucificar Cristo? Mais tarde, este simples símbolo da sua vitória sobre as forças do mal começou a parecer demasiado austero. Os artista do século V começaram a pintar uma cruz com um cordeiro junto a ela, porque Jesus era «o Cordeiro de Deus» sacrificado pelos pecados do mundo. Depois, com crescente ousadia, começaram a pintar um Jesus junto da cruz. Só nos fins do século VI, e apenas com duas excepções, é que ele foi representado mesmo na cruz. E ainda assim, o artista não se atreveu a reproduzir a dor e a humilhação. Jesus estava envolto numa comprida túnica e só as mãos e os pés estavam nus para mostrar de maneira estilizada os pregos que o prendiam à madeira. Era uma imagem de triunfo, ele não estava a sofrer e a morrer, mas a reinar, de olhos abertos e por vezes coroado, no trono da cruz. A primeira representação grega de Jesus em sofrimento na cruz, do século X, foi condenada por Roma como blasfema. Mas a Igreja de Roma depressa se rendeu ao seu fascínio. Com Jesus cada vez mais longínquo e com a teologia medieval cada vez mais seca e mais escolástica, a devoção exigia um Cristo mais humano: um homem que se pudesse ver e quase tocar, um homem com as provações e sofrimentos por que eles próprios passavam em cada dia das suas vidas curtas e sofridas. Os artistas agora representavam livremente Cristo em agonia na cruz; feridas profundas e sangue, agonia em cada membro, abandono no olhar. Reduziram-lhe as vestes para inculcar no espírito dos fiéis a dimensão da humilhação do Senhor. E por aí se ficaram: uma tanga. Se o artista tivesse ido mais longe, quem teria tido a coragem de olhar Cristo tal como ele estava: nu como um escravo? O que deteve a mão do artista não foi o decoro mas a teologia. A culpa não foi dos artistas. Afinal, como é que eles podiam perceber que o sofrimento do Cristo recrucificado, sem a verdade última que só a nudez integral consegue revelar, levaria a uma catástrofe? Ao conceder a Jesus os farrapos finais da decência, aquela tanga retirou-lhe a condição de judeu. Cobriu-lhe literalmente a dignidade e tornou-o um não- judeu honorário. Porque o que aquilo escondia não era apenas o sexo mas aquela
  • 14.
    14 cicatriz na suacarne, a circuncisão, que mostrava que ele era judeu. Era isso o que os cristãos receavam ver. Nas crucificações de Rafael e Rubens, e mesmo nas de Bosch e Grünwald, a tanga torna-se ornamental; ela cai decorosamente em pregas. Na crucificação Colmar de Grünwald, diz Husmans, Jesus está curvado em arco; o corpo torturado brilha palidamente, polvilhado de sangue, eriçado de espinhos como a casca da castanha da Índia. Foi isto, parece o artista dizer, o que o pecado fez a… quem? A Deus, é a resposta da teologia. Isto é a morte de Deus. Quanto mais intensa for a agonia, quanto menos a Sua glória transparecer, mais aterradora ela é. «Deus morreu no Calvário». Isto parece boa teologia. Poderia ter sido, não fora aquele pedaço de pano. Porque, parece o artista dizer, alguém é responsável por aquilo que fizeram a Deus. Mas quem? Uma leitura superficial do Evangelho Segundo S. Mateus dá a resposta: os Judeus. Eles gritaram a Pilatos: «Crucifica-o. Que o seu sangue caia sobre nós e sobre os nossos filhos». A palavra de Deus parece culpar os judeus contemporâneos de Jesus e seus descendentes pela Morte de Deus. Os Judeus são, portanto, deicidas. Uma gota daquele Sangue salvaria um milhar de mundos; os judeus derramaram-no todo. Para eles, o Sangue não é a salvação, mas antes uma eterna maldição. Com a sua descrença, os judeus continuam a matar Deus. Tendo assassinado Cristo, sendo culpados do maior crime que se pode imaginar, eles eram certamente capazes de tudo. É esta a calúnia. É esta a grande heresia. Por via disto, as estórias de rituais de judeus a assassinarem crianças cristãs e a beberem o seu sangue enquadravam-se no padrão estabelecido pelo Crime da Morte de Deus. Essas falsidades ainda circulam por aí. Sem o encobrimento, sem aquele pedaço de pano, teria sido evidente para toda a gente que o que se passou no Calvário foi também o assassinato de um judeu. Deus era judeu. Não era tanto o facto de os Judeus matarem Deus, mas o de um judeu derramar o seu sangue pelo pecado do mundo. Teriam os cristãos ao longo dos séculos instituído pogroms contra os Judeus em nome da Cruz se nela Jesus ostentasse a marca da circuncisão? Teria um judeu autorizado o massacre de Judeus? Não seria natural que Jesus estivesse presente em todos os pogroms a dizer: «Por que me perseguis? Porque o que fazeis ao mais humilde dos meus irmãos, fazei-lo a mim»? Esse encobrimento, agora com quase vinte séculos, não foi perpetrado por uma seita dissidente, mas pela linha principal da Cristandade, pela Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Nenhuma outra doutrina foi ensinada mais universalmente, com menos reservas — mais infalivelmente, em termos católicos — do que a que reza que «Os Judeus são malditos por matarem Deus», uma acusação ainda não retirada oficialmente. Numa reviravolta bizarra, os Judeus, donde proveio o Salvador, foram os únicos culpados pela sua morte. Não foi Jesus que foi recrucificado, mas a raça donde ele proveio. No Terceiro e Quarto Concílios de Latrão (1179 e 1215), a Igreja codificou todas as leis anteriores contra os Judeus. Eles tinham de usar um distintivo da vergonha. Na Inglaterra era cor de açafrão, e com o alegado formato das tábuas de Moisés. Na França e na Alemanha era amarelo e redondo. Na Itália o distintivo era um chapéu vermelho, até que um prelado romano míope tomou um judeu por um cardeal e a cor foi mudada para o amarelo. Aos Judeus era proibido todo o contacto com cristãos, a administração estava-lhes vedada e as suas terras eram-lhes confiscadas, não podiam ser proprietários de lojas e eram arrebanhados para guetos que à noite eram fechados. Nenhum outro sistema de apartheid foi imposto com tanto rigor. Por se recusarem a negar a sua fé ancestral e a converterem-se ao Cristianismo, os Judeus foram enxotados de terra para terra. Um papa deu-lhes um mês para abandonarem as suas
  • 15.
    15 casas na Itália,deixando-lhes apenas dois locais de refúgio. Durante as Cruzadas, eles foram chacinados aos milhares por devoção a Cristo. Um judeu que pusesse o nariz de fora na Sexta-feira Santa estava virtualmente a cometer um suicídio, isto apesar de o Homem na Cruz ter um nariz judeu. Assim, ao longo dos séculos foram milhões os que sofreram e morreram. Uma arte deficiente e uma teologia desastrosa prepararam o caminho para Hitler e a sua «solução final». Para começar, na Alemanha Nazi pintavam estrelas nas casas e lojas de judeus; era o sinal de que podiam ser destruídas e pilhadas. As cidades gabavam-se, tal como tinham feito nos tempos medievais, de estarem Judenrein, livres da contaminação judia. Muito tipicamente, nos arredores da aldeia de Oberstdorf havia umas alminhas à borda da estrada com um crucifixo. Sobre a cabeça de Jesus estava a inscrição INLI («Jesus da Nazaré, Rei dos Judeus»). Em primeiro plano lia-se um aviso: «Juden sind hier nicht erschwüncht» — «Os judeus não são benvindos aqui.» Em 1936, o Bispo Berning de Osnabrüch esteve a falar com o Führer durante mais de uma hora. Hitler assegurou a Sua Reverência que não havia qualquer diferença fundamental entre o Nacional Socialismo e a Igreja Católica. Não é verdade, argumentava ele, que a Igreja tinha considerado os Judeus como parasitas e os tinha fechado em guetos? «Eu só estou a fazer» gabava-se ele «o que a Igreja fez durante mil e quinhentos anos, só que com mais eficácia». Sendo ele próprio católico, disse ele a Berning, «admirava e queria promover a Cristandade». Parece que nunca lhe ocorreu a ele, Hitler, que Jesus, a quem ele se referiu em Mein Kampf como «o Grande Fundador deste novo credo» e o flagelo dos Judeus, era ele próprio judeu; e se de facto nunca lhe ocorreu, por que não? A partir de Setembro de 1941, todos os judeus do Reich com mais de seis anos tinham que usar em público, em sinal de vergonha, a Estrela de David. Por que é que Hitler não obrigou a que na tanga de todos os Cristos crucificados em exposição no Reich fosse afixada essa mesma Estrela de David? Teria ele sido tão veemente a promover a sua qualidade de cristão se só uma vez que fosse tivesse visto Cristo crucificado exactamente como ele era? Suponhamos que Jesus aparecia nu em todas as cruzes da Alemanha? Teriam os bispos alemães e Pio XII mantido o silêncio durante tanto tempo se tivessem o seu Senhor crucificado sem a tanga? Apesar da crueldade cristã, que em certa medida preparou o Holocausto, alguns católicos continuam a dizer que a sua Igreja nunca pecou. Quinze anos depois de os portões de Auschwitz, Bergen-Belsen, Dachau, Ravensbruch e Treblinka terem sido misericordiosamente abertos, um papa, João XXIII, como que para confundir os críticos que dizem que o papado nunca muda, compôs esta notável oração: «A marca de Caim está-nos estampada na testa. Ao longo dos séculos, o nosso irmão Abel tem estado banhado em sangue que nós derramámos e tem chorado as lágrimas que nós provocámos ao esquecer o Vosso amor. Perdoai-nos, Senhor, pela maldição que nós erradamente atribuímos ao seu nome de Judeus. Perdoai-nos por Vos crucificarmos pela segunda vez na sua carne. Porque nós não sabíamos o que fazíamos.» Foi uma expiação por mais de uma centena de documentos publicados pela Igreja entre os séculos sexto e vinte. Não há um único decreto conciliar, encíclica papal, Bula ou directiva pastoral que sugira que o mandamento de Jesus «Ama o próximo como a ti mesmo» se aplicava aos Judeus. Contra toda esta tradição, João o Bom apontou a marca de Cain na sua própria testa. Ele aceitou a culpa da Igreja de derramar sangue judeu ao longo dos séculos, de acusá-los de serem amaldiçoados por Deus. E ainda mais comovidamente, afirma que a perseguição dos católicos aos judeus resultou na
  • 16.
    16 segunda crucificação deJesus na carne do seu próprio povo. O papa, representante de uma igreja sagrada e infalível, pediu perdão por estes terríveis pecados e erros. A nossa única desculpa, disse ele, foi a ignorância. Antes de se tornar Sumo Pontífice, João já tinha sido delegado apostólico para a Turquia e Grécia, quando Hitler subiu ao poder. Emitiu certificados de baptismo falsos para quatro mil judeus para eles poderem afirmar-se como cristãos e assim escaparem ao Holocausto. Quando a guerra acabou e ele foi nomeado núncio em Paris, foi a um cinema ver as primeiras imagens dos sobreviventes do campo de morte de Belsen. Saiu em lágrimas dizendo, «Isto é o Corpo Místico de Cristo». Foi talvez esta traumática experiência que fez com que ele fosse o primeiro papa a ver Jesus na cruz sem o pano à volta da cintura. O Papa João não teve qualquer dificuldade em reconhecer que a Igreja errou. Errou desastrosamente — e errou ao longo de muitos séculos. Foi um dos raros pontífices que viram que o único caminho da Igreja era encarar sem medo o próprio passado, por muito pouco cristão que ele pudesse ter sido. Quase um quarto de século depois da sua morte, ainda há alguns crentes que insistem que a Igreja deve ter sido sempre aquilo que é hoje — a despeito das provas irrefutáveis em contrário. Esses, que são milhões, acham que não é fácil aceitar que a Igreja Cristã, a Igreja de Roma, inspirada por papas, muitos deles canonizados, tenha sido tão cruel. Nem que pontífices após pontífices tenham quase invertido o texto das Escrituras que diz «Vale mais um homem morrer por amor do povo» que passou a ler-se, «Vale mais um povo sofrer por amor de um homem». Há, tragicamente, um inegável elo entre o fogo, as cruzes, a legislação papal, os pogroms — e as câmaras de gás e os fornos crematórios dos campos de morte nazis. Há outras matérias vitais nas áreas do poder, da verdade e do amor sobre as quais a Igreja errou desastrosamente século após século. O Concílio Vaticano II convocado pelo Papa João em 1962 começou a aceitar isto. De uma maneira revolucionária, João, o Sumo Pontífice, tornou-se o Advogado do Diabo da própria Igreja. No processo de canonização, o Advogado do Diabo tem um papel central, porque a santidade de um candidato a santo tem de ser sujeita ao mais intenso escrutínio. É como se a Igreja deixasse Satanás completamente livre para atirar sobre a memória do santo toda a sujidade que possa encontrar — para ver se alguma cola. Só então é que esse homem, essa mulher ou essa criança serão dignos de veneração pública. Claro que o Advogado do Diabo é, na realidade, o defensor da Igreja. Quando o Papa João disse que a Igreja precisa de constantes reformas, parecia sugerir que precisa de um Advogado do Diabo permanente. Como historiador que era, ele sabia que a Igreja tinha causado muitos danos. Como ser humano afectuoso e indulgente, sabia que qualquer outra instituição que durasse tanto tempo e tivesse tanto poder teria provavelmente feito muitíssimo mais mal e muitíssimo menos bem. Finalmente, ele deixou atrás de si a clara impressão de que o mal feito pela sua Igreja não deve ser escamoteado, nem a história falsificada.
  • 17.
    Primeira Parte O Poder «Todoo poder tende a corromper; o poder absoluto corrompe absolutamente» Lord Acton, em carta ao Bispo Mandell Creighton, 1887
  • 19.
    19 1 Do Calvário aoVaticano Nesta grande festividade de Pedro e Paulo, o dia vinte e nove de Junho, vieram todos, novos e velhos, pecadores e santos, de todos os cantos do mundo, para estarem com o Bispo de Roma, Vigário de Cristo, Sucessor dos Apóstolos, Sumo Pontífice da Igreja Universal, Patriarca do Ocidente, Primaz da Itália, Arcebispo e Metropolita da Província de Roma, Chefe de Estado da Cidade do Vaticano e Servidor dos servidores de Deus, o Papa João Paulo II. Alguns peregrinos vêm vestidos em tons escuros, outros com vistosos trajos folclóricos das suas terras. Há também turistas entre eles, mas a maioria são peregrinos. Uma visita a Roma e assistir a uma missa papal são a realização de uma ambição de uma vida. Antes do amanhecer, começaram a sair da colmeia que Roma é. Emergiram dos caros hotéis de luxo da Via Veneto, de tranquilos conventos e pensões baratas. Na sua curta viagem passaram por vivendas a cair, palácios renascentistas cujas enormes portas tachonadas dão a impressão de que os seus donos se estão a preparar para uma nova invasão de Godos e Vândalos. Atravessam piazzas com fontes a borbulhar, mal identificando as quatrocentas igrejas de Roma, muitas das quais só se encontram abertas um dia por ano, o dia da sua festividade. Atravessam o Tibre, que durante séculos serviu à cidade simultaneamente de esgoto e de cemitério. O Tibre contabilizou provavelmente mais mortes do que qualquer outro rio fora da China; num só dia morreram lá milhares afogados. Esta manhã corre devagar e está acastanhado como o hábito dos franciscanos. Finalmente, os peregrinos chegaram à Via della Conciliazione, de cujo extremo se desfruta uma das vistas mais impressivas do mundo. À luz trémula do calor de verão, a cúpula da Basílica de S.Pedro parece flutuar no espaço. Miguel Ângelo, que a desenhou, exprimiu, mais do que qualquer papa, a força maciça e pertinaz da maior instituição que o mundo alguma vez conheceu. Ela preservou a velha herança. Deu às hordas bárbaras uma nova religião e uma lei. Criou a Europa, dando a povos diversos uma lealdade e um destino que ultrapassam todas as fronteiras. Como disse Lord Macauley há mais de um século, ao reflectir sobre a Igreja de Roma: Já era grande e respeitada antes de os saxões porem o pé na Grã- Bretanha, e de os franceses passarem o Reno, quando a eloquência grega ainda florescia em Antióquia, quando em Meca ainda se adoravam os ídolos. E talvez ainda exista com o mesmo vigor quando um qualquer viajante da Nova Zelândia, no meio de vasta solidão, tomar posição num arco quebrado da Ponte de Londres para fazer um esboço das ruínas da Catedral de S. Paulo. Enquanto entram na Praça de S. Pedro, rodeada pela pavorosa arcada de Bernini, os fiéis observam a janela do terceiro andar do palácio apostólico de onde o papa, aos domingos ao meio-dia, abençoa a multidão. Poucos sabem como o palácio é vasto. Quando um envelhecido Leão XIII queria dar um passeio pelos jardins do Vaticano, sentava-se numa pequena cadeira no seu gabinete. Depois os criados levavam-no por
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    20 uma escada decaracol, ao longo de um labirinto de corredores, através de salas e galerias cheias de alguns dos maiores tesouros do mundo, num percurso de mais de quilómetro e meio dentro do palácio para chegar até uma carruagem puxada a cavalos. Quarenta anos depois da morte de Leão XIII o Vaticano foi profanado. As únicas bombas lançadas sobre a cidade eram de fabrico britânico. Numa noite sem lua, durante a Segunda Guerra Mundial, um avião alemão lançou quatro bombas capturadas em Tobruk, para fazer crer que os Aliados tinham atacado o mais sagrado santuário católico. Embora o Vaticano tenha apenas o tamanho de um campo de golfe, os peregrinos ficam esmagados diante da extensão daquilo que os circunda. No centro da praça está o obelisco de Calígula de 322 toneladas e 40 metros de altura, que originalmente se encontrava no circo de Nero junto do local onde S.Pedro foi crucificado. Este monumento fá-los lembrar que estão em solo sagrado. Subindo os degraus de pedra, chegam ao pórtico. É também enorme e cheio de história. À direita fica a Porta Santa, agora selada, uma vez que este não é Ano de Jubileu. Por cima do arco central, está uma representação do Navicella, o frágil barco de S.Pedro que resistiu às intempéries dos tempos. Este fragmento de mosaico, que sobreviveu à demolição da primeira Basílica de S.Pedro, foi obra de Giotto, o artista do século XIII que impressionou o papa reinante por ser capaz de desenhar um círculo perfeito à mão livre. Em frente da porta central, está colocado um disco porfitírico que assinala o local onde Carlos Magno, no dia de Natal de 800, depois de subir os degraus de joelhos, beijando cada um deles, ajoelhou e recebeu de Leão III a coroa do Sacro Império Romano. Afastando as pesadas cortinas de couro, os fiéis entram na basílica. Mesmo num dia cinzento, uma luz dourada escorre das altas janelas. O chão de mármore de várias cores cobre uma extensão de 24.000 metros quadrados. A nave tem 182 metros de comprimento e 24 de largura, e no topo, mais altas do que qualquer palácio de Roma, erguem-se as colunas espiraladas de Bernini. As colunas coríntias, ornamentadas neste dia das festividades dos Apóstolos de colgaduras no vermelho do martírio, sustentam uma abóbada amarela de 40 metros de altura. As pias de água benta são do tamanho de banheiras e os anjos sobre elas têm 1,80 metros de altura. Para a esquerda e direita há estátuas gigantescas e capelas do tamanho de igrejas. A mais apreciada obra de Miguel Ângelo, a Pietà, que ele esculpiu quando tinha vinte e cinco anos e que é a única que tem o seu nome, ergue-se por detrás de um vidro protector. Há túmulos de papas a que os escultores deram anos das suas vidas. Chateaubriand, o escritor francês que viveu a Revolução, anotou nas suas Memoires que em Roma há mais túmulos do que cadáveres; e imagina os esqueletos a mudar de um túmulo de mármore para outro para se manterem frescos, tal como um doente se mudaria de uma cama para outra mais confortável. No topo da nave lateral esquerda há um altar sob o qual jaz o corpo do Papa Leão o Grande. Um dos mais nobres papas, ele foi o primeiro a ser sepultado na Basílica de S.Pedro no ano de 688. A partir de então instalou-se o costume de construir mais do que um altar nos locais de oração. Agora, a Basílica de S.Pedro, mais do que qualquer outra igreja do mundo cristão, está cheia de altares. No topo da abside encontra-se a gigantesca Cadeira de S.Pedro, de bronze dourado, sustentada por efígies de quatro Doutores da Igreja. A decoração cobre uma vulgar cadeirinha, tipo liteira, que data pelo menos do século II. Este é provavelmente o mais antigo dos tronos. A “Cadeira dentro da Cadeira” foi vista pela última vez na Festividade dos Apóstolos em 1867. O que se viu foi uma peça
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    21 de carvalho gastae lascada com retalhos de madeira de acácia e enfeitada com figuras de marfim, algumas de cabeça para baixo. Dando uma volta para a direita, da abside para a nave, os peregrinos chegam à famosa estátua de bronze de S.Pedro. Nesta altura, na festa dos santos, ela está paramentada com um manto de brocado dourado e coroada com uma tiara enfeitada de jóias. A superfície do pé direito estendido está gasta e macia dos beijos de todos os outros peregrinos que os antecederam. É uma lembrança de tempos bastante recentes em que o papa nas audiências era obrigado a pôr o pé numa almofada própria para os visitantes o beijarem. Em 26 de Setembro de 1967, Paulo VI, já com a morte espelhada no rosto, veio aqui, qual passarinho condenado, antes da abertura do primeiro Sínodo dos Bispos. Colocou uma vela acesa no chão e depois, envolto numa nuvem de incenso, inclinou-se para beijar o pé da estátua. Muitos pontífices devem certamente ter feito o mesmo, vindo orar na Vigília de Pedro e Paulo no santuário do Príncipe dos Apóstolos. * * * Na capela do Abençoado Sacramento, prepara-se a procissão papal. A viagem de João Paulo foi a mais curta de todas; veio apenas do seu gabinete no terceiro andar do palácio. Contudo, em muitos aspectos, ele viajou mais nos últimos minutos do que qualquer outra pessoa. Deixou os assuntos de Estado, os problemas da Cidade do Vaticano, e assumiu o papel de que mais gosta: o de chefe da Igreja. Por momentos, pode incluir as preocupações da igreja nas suas orações. Ninguém melhor do que ele sabe que entre aquela multidão ali reunida e de que ouve murmúrios há muitos membros do seu rebanho que andam desorientados. Os padres andam em conflito com os seus bispos, as freiras com as madres superioras; os leigos andam mais do que nunca activos contra os ensinamentos morais da Igreja. Nenhum papa foi tão adulado e tão pouco obedecido. Nestes tempos tão sagrados, ele concentra-se no seu papel de Pastor da Igreja Universal. Os membros do seu séquito multicor — prelados, camareiros, príncipes da igreja, Guardas Suíços — atarefam-se a compor a procissão pela ordem que o protocolo estabelece, fazendo os ajustes finais nos seus uniformes. Paulo VI acabou com toda a agitação de penas, aparato militar, armas desembainhadas. Mas as armas estão lá na mesma. Diferentemente de qualquer outro papa, à volta do Papa João Paulo andam os membros vestidos de azul do Ufficio centrale di vigilanza. Eles constituem o corpo de segurança efectivo da pequena cidade-estado. Não só andam armados como também têm ordens para atirar a matar no caso de a vida do papa estar em perigo. Os walky- talkies, sob os casacos, estão ligados aos quartéis-generais da polícia da cidade de Roma e às repartições da Digos, a brigada anti-terrorista italiana. Na linguagem da segurança, o papa é irreverentemente referido como “Il Bersaglio“ (“O Alvo”). Finalmente, ao som de trombetas, o pontífice avança a passos largos pela nave abençoando a multidão de pescoço estendido. Os fiéis não reparam nos bispos vestidos de branco, nos cardeais geminados ou nos monsenhores vestidos de púrpura. Só têm olhos para o papa com o solidéu branco, o homem que chefia uma igreja de quase um bilião de fiéis, 4000 bispos, 400000 padres e um milhão de freiras. Embora estejam alegres na basílica, embora ajoelhem e batam palmas e desfaleçam e mesmo as freiras de mais idade esqueçam pela primeira vez em anos as suas inibições, todos eles sentem que ele está concentrado no Outro, no Deus que ele representa na terra e a única entidade a quem tem de prestar contas. O papa não é nenhum ídolo pop, mas o vigário de Cristo, e, logo abaixo de Cristo, essencial para a
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    22 salvação. No meiode ondas e mais ondas de adulação, flashes e o coro da Capela Sistina que mal se ouve a cantar Tu es Petrus, «Tu és Pedro», o papa chega ao altar- mor. O seu séquito dispersa-se tomando os seus lugares em cadeiras menores. Os homens da segurança desaparecem nas capelas laterais. O papa está agora só, em todos os sentidos. Sempre assim foi com os pontífices romanos, mas nenhum esteve jamais tão só e vulnerável como João Paulo II. Nas listas do Vaticano ele é considerado como o 263º pontífice, mas o número não está correcto. Houve alturas em que ninguém sabia quem era o papa de direito de entre diversos reclamantes. Além disso, só no ano de 1073 é que o Papa Gregório VI proibiu os católicos de chamarem papa a alguém para além do Bispo de Roma. Antes disso, muitos bispos eram carinhosamente chamados de «papa» ou «papá». Mesmo o título «Bispo de Roma» tem hoje um peso dignitário que nem sempre teve. Um chefe ou administrador de uma inicialmente pequena comunidade cristã dificilmente se pode comparar com um bispo moderno em poder e jurisdição. Muitas outras coisas estão também longe de estar claras. Por exemplo, quanto tempo é que Pedro viveu em Roma? Há um relato de fins do século IV segundo o qual ele teria lá vivido durante vinte e cinco anos, mas não há qualquer fundamento histórico para isto. O que se sabe é que cerca do ano 58, Paulo o Apóstolo escreveu mais uma das suas cartas, desta vez aos romanos. Nela saudava famílias inteiras e mencionava vinte e nove pessoas individualmente pelo nome. Mas não saudava Pedro. Isto seria certamente uma omissão surpreendente se Pedro lá estivesse a residir e fosse o Bispo de Roma. E mais, Eusébio de Cesareia, reconhecido como o Pai da História da Igreja, ao escrever sobre o ano de 300, dizia: «Diz-se que Pedro pregou aos Judeus por todas as terras de Pôncio, Galateia, Bithnya, Capadócia e que, para o fim dos seus dias, detendo-se em Roma, foi crucificado». Hoje, os historiadores dizem que Pedro teria vivido em Roma durante três ou quatro anos no máximo. Não há qualquer testemunho que indique que ele tivesse chefiado aquela comunidade. Isso não pode ter sido automático. Ele nem sequer tinha sido bispo em Jerusalém depois da morte de Jesus. Jaime, irmão do Senhor, é que o foi. Depois há este facto surpreendente: nas primeiras listas de bispos de Roma o nome de Pedro nunca apareceu. Por exemplo, Ireneu, Bispo de Lyons de 178 a 200, foi discípulo de Policarpo, Bispo de Esmirna, que foi por sua vez discípulo de Paulo o Apóstolo. Ele enumerou todos os bispos de Roma até ao décimo segundo, Eleutério. Segundo Ireneu, o primeiro bispo de Roma não foi Pedro nem Paulo, mas Lino. A Constituição Apostólica de 270 também mencionava Lino como o primeiro bispo de Roma, nomeado por S.Paulo. Depois de Lino foi Clemente, escolhido por Pedro. O mistério adensa-se. Em todos os seus escritos, Eusébio nem uma só vez fala de Pedro como Bispo de Roma. Como é que isto se pode explicar? Parece que no espírito dos primeiros comentadores cristãos os apóstolos constituíam uma classe à parte. Não pertenciam a nenhuma igreja em particular, nem mesmo quando eles a «plantavam», isto é, quando a fundavam, como Paulo fez por toda a Ásia Menor. Os apóstolos pertenciam a toda a Igreja. Ser apóstolo impossibilitava um homem de ser bispo de um só lugar. Também Pedro, fossem quais fossem as momentosas decisões que tomou em Jerusalém, Antióquia ou fosse onde fosse, continuava a ser um apóstolo de toda a comunidade. A Igreja Católica considerou uma questão de fé que os papas fossem os sucessores de Pedro como Bispo de Roma. Mas Pedro nunca teve esse título; apenas lhe foi atribuído alguns séculos depois da sua morte. Naturalmente que ele deve ter tido uma enorme autoridade moral na comunidade judaico-cristã de Roma, mas ao contrário de Paulo, que era um cidadão romano, deve ter sido considerado estrangeiro. Quase dois mil anos
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    23 mais tarde, outroestrangeiro, um homem de um país distante, senta-se naquilo a que se chama a Cadeira de Pedro, enquanto a toada de um motete de Palestrina se eleva na cúpula. * * * Já se passaram quase dez anos desde que Karol Wojtyla de Cracóvia se tornou pontífice quando o primeiro João Paulo morreu, muito chorado, depois de trinta e três dias de reinado. Depois da eleição, Albino Luciani apareceu na galeria da Basílica de S.Pedro e em poucos segundos sorriu mais do que o seu antecessor Paulo VI em quinze anos, e depois, profeticamente, sem dirigir uma só palavra à multidão, desapareceu nas sombras do Vaticano. Diz a anedota, em Roma, que a mais velha, a mais secreta e a mais poderosa das instituições é a Sagrada Congregação para a Disseminação de Boatos. Acredita-se em alguma coisa na Cidade Eterna que não seja dito num sussurro? Correu o boato de que João Paulo I tinha sido envenenado. Coisas deste tipo sempre se disseram durante séculos quando um pontífice adoecia e morria subitamente. Muitos destes boatos eram falsos. Mas nem todos. No dia 27 de Julho de 1304, ao fim de nove meses de reinado, Benedito XI estava em Perugia quando um jovem disfarçado de irmã da Ordem de S.Petronilla se apresentou a Sua Santidade com uma salva de prata cheia de figos. «É um presente da Madre Abadessa,» murmurou a recatada “irmã“. Toda a gente sabia que Benedito tinha uma paixão pelos figos. Poucos dias depois, era enterrado. Fosse este ou aquele boato verdadeiro ou não, o facto é que os papas eram sempre aconselhados a empregar um provador de vinhos e a inspeccionar os figos. Mas no caso do antecessor de João Paulo II onde está a prova? Uma autópsia teria esclarecido o assunto. E apesar das negações, provavelmente houve uma autópsia que o fez. Sobre assuntos destes o Vaticano mantém sempre os lábios bem cerrados. No conclave que se seguiu à inesperada morte de Luciani em 1978, foi eleito Karol Wojtyla. Quando foi entronizado parecia mais jovem do que os cinquenta e oito anos que tinha. Agora parece mais velho do que os sessenta e sete que tem. Os ombros estão mais arredondados. Está mais magro, tem as veias do pescoço salientes. Os olhos ficaram mais estreitos traindo a sua origem eslava. Como o cabelo ficou para trás sob o solidéu, as orelhas tornaram-se proeminentes como quando era um rapaz. Muitas coisas contribuíram para o envelhecer. As penosas viagens. O atentado contra a sua vida em 13 de Maio de 1981, que quase foi bem sucedido, tendo sido necessária uma transfusão de seis quartilhos de sangue numa operação de cinco horas e meia. Os papeis que se amontoam todos os dias sobre a sua secretária — «Para livrar o papa de qualquer maldade» como dizia um seu ajudante. E a Cúria. Um papa e os seus funcionários sobrevivem, no melhor dos casos, num compromisso nada fácil. A Cúria tem em João Paulo um pontífice que a princípio nada sabia das suas artimanhas. Os sussurros — outra vez essa poderosa Congregação — chegam até às suas instalações. Os poucos prelados liberais que sobreviveram em Roma não gostam dele por causa daquilo a que eles chamam a sua intransigência. Alguns conservadores da sua entourage nesta grande festividade dos Apóstolos são também muito críticos. Aos seus olhos, João Paulo fez uma coisa que é quase uma heresia: desmitificou o papado. Fotografias nos meios de comunicação revelam um papa mediático de sombrero, um papa de mãos dadas com jovens a balançar-se ao som de música rock, um papa na Austrália abraçado por um coala meio confundido. Porquê, perguntam estes conservadores, por que é que ele não se deixa estar no Vaticano
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    24 mantendo um perfilde mistério e temor, como o velho Leão XIII, que foi suficientemente sensato para olhar o mundo através de uma janela — uma janela fechada, ao contrário, acrescentam eles, daquele cripto-comunista João XXIII que abriu a janela e deixou entrar um furacão? O papa está acima desse tipo de conversas. Tem os olhos bem fechados enquanto reza por todo o seu rebanho, não só por aqueles que estão reunidos em S.Pedro, mas também por todos os que se encontram espalhados pelo mundo. Está convencido de que só a sua voz, a voz de Pedro, a voz de Cristo, é suficientemente forte para deter a precipitação do mundo moderno no lago da morte. Fica aterrado perante a insensível indiferença em relação aos vindouros. Fica consternado por a virgindade ser quase um palavrão e a homosexualidade se ter tornado não apenas legal, mas romântica. Teme que mesmo os padres e as freiras estejam a perder a dedicação aos seus votos. Enquanto o Evangelho é lido por um diácono, ele sabe que é a Pedra, ele, pelo menos, tem de se manter firme. Os erros podem ser corrigidos, as tendências invertidas, bastando para isso que a sua fé não lhe falte. Agora os seus olhos estão húmidos, a dor orla-lhe a boca. Nestes dias, a sua expressão é triste mesmo quando, cada vez mais raramente, sorri, como se a tristeza da sua Polónia natal lhe tivesse inundado a alma. No memento de todas as missas ele nunca deixa de mencionar os vivos e os mortos da sua pátria. Como é polaco, nunca esperou ser papa. Nem mesmo quando foi feito cardeal em 1964, nem quando Paulo VI o escolheu em 1976 para o retiro quaresmal da casa papal ele alimentou esse pensamento. Isso era contra a corrente da história. Há quatro séculos e meio que o papado era italiano. Durante esse retiro quaresmal, Karol Wojtyla ouviu o Papa Paulo em confissão e sem dúvida que fez os possíveis por fortalecer a sua determinação, mas como é que ele podia imaginar que um dia viria a celebrar missa solene em S. Pedro como Sumo pontífice? Os seus antecedentes: operário fabril, alpinista, actor amador, resistente espiritual contra o nazismo e, mais tarde, contra o comunismo, sonhador, poeta nas horas vagas. Um dos seus poemas, “O Operário da Fábrica de Armamento”, começa assim: «Eu não posso influenciar o destino do mundo». Os fiéis reunidos à sua frente, pelo contrário, pensam que a sua influência para o bem do mundo é a maior. A sua integridade ilumina. Eis aqui um homem que não se pode comprar ou vender, um prelado à maneira de Thomas à Becket que preferiu morrer a ceder nas exigências da igreja. Da sua figura, quando se dirige para o altar para iniciar a missa, irradia um sentido de majestade. João Paulo é o último dos monarcas absolutos. Os católicos em S.Pedro, que agora ficaram em silêncio, não aceitariam outra coisa. Ele é o oráculo supremo, Senhor da Igreja, Vigário de Cristo. Para eles, ele possui o dom da infalibilidade, que é pouco menos do que divino. Conforta-os a ideia de saberem que de todos os religiosos na Terra — Judeus, Hindus, Protestantes, Budistas — Deus fala para eles uma linguagem especial através de Sua Santidade. Dele flui a sua vida espiritual; como chefe da Igreja, ele é o laço que os une a Deus e uns aos outros. Muitos pensam, porém erradamente, que a sua fé deriva dele e que os bispos dele derivam o seu poder. Não são poucos os não católicos em S.Pedro para esta missa festiva que também sentem que o Papa João Paulo II é o melhor baluarte do mundo contra o comunismo ateu de Leste e o muito espalhado e mais subtil ateísmo de um Ocidente secularizado. O papa diz as palavras da missa em voz baixa mas clara. Cada gesto está de acordo com as rubricas do missal, porque ele sabe que se se afastar delas, os padres em toda a parte vão decidir fazer alterações da sua lavra. Enquanto ele prossegue, os fiéis na basílica interrogam-se sobre como João Paulo se verá a si mesmo. Em certo sentido, não é difícil saber. Apesar das suas viagens, das suas intermináveis alocuções, mesmo
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    25 depois do VaticanoII — talvez por causa do Vaticano II — ele compreende que este cerimonial em S.Pedro não é a verdade toda sobre a igreja que ele chefia. Quando pára para lembrar os vivos, o seu muito disperso rebanho, a sua oração é influenciada por todas aquelas estatísticas desanimadoras empilhadas sobre a sua secretária. Os padres são a primeira preocupação do pontífice. Em 1971, uma fuga de informação levou até à imprensa um estudo encomendado pela Sagrada Congregação para a Fé. Revelava que entre 1963 e 1969 mais de 8000 padres tinham pedido dispensa dos seus votos e quase mais outros 3000 não tinham esperado pela permissão. O estudo estimava que nos cinco anos seguintes 20000 abandonariam. Este cálculo veio a mostrar-se demasiado optimista. O pior passava-se nos países em que os papas confiavam para fornecer missionários. A Holanda, por exemplo, costumava produzir mais de 300 padres por ano. Agora as ordenações são lá quase tão raras como as montanhas. Na Irlanda, nos fins de 1987, havia 6000 padres e mais de 1000 ex-padres. Nos Estados Unidos da América, calcula- se que existam mais de 17000 ex-padres. A média de idades dos que ficaram é surpreendentemente alta: 54 anos. Também o futuro parece negro. Nos últimos vinte anos, o número de seminaristas nos Estados Unidos caiu de 50000 para 12000. O pontífice reza pelos leigos com as suas variadas preocupações. Reza pelos presentes e por aqueles que, por todo o mundo, começaram a desfilar a sua desobediência. Antes da sua viagem à América, em Setembro de 1987, deve ter lido a sondagem da revista Time. Ela revelava que 93% dos católicos defendiam que «é possível discordar do papa e continuar a ser um bom católico». Mesmo na Irlanda, uma sondagem da mesma altura mostrava que só um em cada três jovens concordava com ele sobre a contracepção. Todos os indicadores apontam para uma comunidade mundial em retirada napoleónica. A igreja continua a ensinar, mas cada vez há menos pessoas a ouvir. A missa devia dar ao pontífice uma trégua nas preocupações e na sobrecarga do governo. Em certo sentido, ela aprofunda essas preocupações. Ele tem que deixar que Jesus, cujo sacrifício vai comemorar, o alivie desses fardos. À medida que a consagração se aproxima, talvez o espírito de João Paulo regresse ao passado, à sua infância em Wadowice quando ajudava no altar e aprendeu os responsos da missa em latim. Nesses tempos, Catolicismo é que era a palavra do papa. É desanimador para ele descobrir que, agora que é o pontífice, em muitas matérias que considera cruciais está em minoria. Esta a razão por que nesta missa papal ele não vê os cardeais magníficos, quais flamingos à sua volta, os prelados, como Ratzinger de Munique, de cabelo branco, Prefeito, desde 1982, da Congregação para a Fé, antigamente chamada de Santa Inquisição. O papa também não dá pelas manchas vermelhas e purpúreas dos mantos prelatícios de todos os graus. Não se dá ao trabalho de olhar para as tribunas apinhadas de embaixadores, personagens reais obscuras e ainda mais obscuros príncipes e princesas num esplendor de ouro e diamantes. Ele não vê ninguém; e ninguém vê mais ninguém senão a ele. «Este é o meu corpo». O papa pronuncia estas palavras com esmagadora devoção, tão cheio de temor religioso hoje como quando as pronunciou na sua primeira missa há quarenta anos. «Este é o meu sangue». Agora já não é o Vigário de Cristo mas o próprio Cristo o centro de convergência da congregação silenciosa. É assim em todas as missas, quer seja dita na mais humilde igreja de aldeia ou numa basílica como a de S.Pedro. Jesus Cristo é o Senhor; e o papa representa-o a ele e à
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    26 sua autoridade doutrinalno mundo de hoje. Não tem a congregação razão em ver o papa como a pessoa mais livre e mais soberana do mundo? A verdade é que o pontífice é um prisioneiro. A primeira consequência do absolutismo é que os que estão mais próximos da fonte do poder inalam o mesmo ar do monarca. No caso do papa, há homens sem rosto, burocratas, em gabinetes escuros no Vaticano e imediações que providenciam para que a visão do papa corresponda à deles próprios. Fornecem-lhe informações seleccionadas; escamoteiam tudo o que possa contradizer uma causa que eles desejam promover. Estes são os primeiros carcereiros do papa. O Concílio Vaticano II, 1962-65, pretendia liberalizar a Igreja Romana. Mal acabou logo os velhos burocratas tomaram o controle; e continuam no controle desde então, interpretando os decretos liberais de uma maneira iliberal. Mesmo o Concílio Vaticano I, convocado por Pio IX em 1869 para o declarar infalível, recusou discutir os projectos de decretos redigidos pela Cúria. Eles não representavam, diziam os bispos, a fé da igreja, mas apenas uma escola teológica tendenciosa. Mas, no fim, os burocratas acabam sempre por vencer. Eles permanecem nos seus lugares enquanto os homens de espírito mais liberal se dispersam. Os funcionários da Cúria, muitos dos quais estão presentes nesta missa, sempre detestaram os concílios por ousarem ameaçar a sua infalibilidade. Como disse recentemente um bispo diocesano amargurado: «A Cúria é um Concílio da Igreja em sessão permanente». Apesar de toda a sua força aparente, João Paulo continua a assinar os documentos preparados pelos prelados do Santo Ofício ou da Secretaria de Estado. Alguém sugere- lhe que um determinado bispo da América do Norte não é muito ortodoxo, na interpretação que a Cúria faz desta palavra. Não seria prudente mantê-lo sob vigilância? Depois há aqueles volumosos dossiers do Santo Ofício sobre teólogos como Küng de Tübigen ou Currant de Washington. E também sobre clérigos prometedores. Onde é que este padre ou aquele monsenhor se situam em relação a Cristo, a Maria, à prática frequente da confissão? Já alguma vez se mostraram flexíveis sobre a contracepção? Já alguma vez tomaram parte em manifestações anti-nucleares? Revelaram simpatias por Karl Marx? Muitos clérigos empreendedores podem ser permanentemente retidos nas suas carreiras por uma simples insinuação. Muito do veneno da Cúria é administrado por via auricular. Pode-se dizer que neste aspecto o pontífice não é servido de maneira muito diferente de qualquer outro líder apanhado na teia da função pública. Só que o próprio papa tem um exército de “observadores” a vigiá-lo a ele. Um pontífice, mais do que qualquer outro monarca, está prisioneiro do passado. A congregação pode ver sinais disto mesmo no vestuário do papa. Na mitra, no pálio, no Anel do Pescador. Não apenas a basílica em si mesma, as famosas relíquias que contém; mesmo as peças de vestuário mostram que o pontífice está, ele próprio, prisioneiro da história. Mas a maioria das grilhetas está no espírito. O pontífice nunca pode falar sem ter em atenção aquilo que os seus antecessores disseram sobre o mesmo assunto ou assunto relacionado. Em qualquer encíclica papal, por cada citação bíblica haverá provavelmente uma dúzia de referências a papas anteriores. Todos os pontífices conduzem com os olhos fixos no espelho retrovisor. Um passado há muito morto, muitas vezes chamado de tradição, dita o caminho para o futuro. Um papa morto é mais poderoso do que mil bispos vivos. «Pax vobiscum», diz o papa. «A paz esteja convosco». Os membros da congregação abraçam-se e passam este sinal de paz. Mas quem quer que carregue o fardo da infalibilidade nem sempre pode ser um homem de paz; carrega também uma espada. Porque não pode, por suposta compaixão, nem uma única vez, cometer, ou correr o
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    27 risco de cometero mais ligeiro erro na doutrina ou na moral. Tem de ter o cuidado de não contradizer um pontífice de há sete ou dez séculos. Não admira que a sua Cúria nem sempre consiga fazer a distinção entre inovação e originalidade. O Papa João Paulo, de olhos reverentemente fechados, recebe o corpo e o sangue de Cristo. Por toda a basílica surgem os padres de sobrepliz e estola para distribuírem a comunhão, o corpo de Cristo, aos fiéis. A própria Igreja é chamada de o corpo de Cristo. Ao receberem a comunhão, os fiéis ficam em contacto com o seu Senhor crucificado e ressuscitado e com todos os seus irmãos cristãos, vivos e mortos. Aquela pequena hóstia liga-os sacramentalmente a toda a história da igreja. Essa história foi boa e má, cheia de feitos heróicos e de crimes ignóbeis. O pontífice está prisioneiro mesmo desses crimes. Ele sabe que a Igreja foi responsável por perseguições aos Judeus, pela Inquisição, por chacinar hereges aos milhares, por reintroduzir a tortura na Europa como parte do processo judicial. Mas tem de ter cuidado. As doutrinas responsáveis por essas coisas terríveis ainda escoram a sua posição. Os métodos podem diferir, os objectivos continuam os mesmos. Todo o mundo tem de ser levado a reconhecer Cristo e a sua Igreja. Governada e guiada pelo papa, a Igreja Católica tem a plenitude da verdade, da qual as outras religiões podem, quando muito, aproximar-se. João Paulo, a rezar enquanto a comunhão é distribuída, não quer que as pessoas pensem que a compaixão é incompatível com a inflexibilidade em relação à verdade. A liberdade de ensinar o que está mal, quanto a ele, é um erro. Como é que alguém pode ter o direito de ensinar como verdadeiro aquilo que a Igreja diz que não é verdade ou é imoral? Tal como todos os pontífices, ele tem como certo que onde a Igreja é forte o seu poder deve ser usado para ilegalizar aquilo que ela condena. Pio IX, proclamado infalível nesta mesma basílica em 1870, era bastante aberto a este respeito. Nos arquivos do Foreign Office, em Londres, há uma carta classificada como “confidencial”. Era de Odo Russel, representante do governo britânico no Vaticano. Relatava o que o papa lhe disse numa audiência: «Aquela liberdade de consciência e tolerância que aqui [em Roma] condeno, reivindico eu na Inglaterra e noutros países estrangeiros para a Igreja Católica». Pio IX estava apenas preocupado com um juízo político: suportaria a Igreja perder ou ganhar por recusar aos outros a liberdade que exige para si própria? Pio IX, tal como o actual pontífice, estava convencido de que a Igreja conseguiu permanecer doutrinariamente imutável através dos tempos. Os fiéis em S.Pedro partilham essa convicção, acreditando que o papado é que é o principal responsável por esta continuidade quase miraculosa. A verdade é que a Igreja mudou radicalmente mesmo em áreas vitais como o sexo, o dinheiro e a salvação. Tomemos dois dos exemplos mais interessantes. Todos os pontífices até ao século dezanove, inclusive, condenavam a cobrança de juros sobre os empréstimos (a usura) em quaisquer circunstâncias. Não importava se os juros estabelecidos eram altos ou baixos, se o empréstimo era feito a um pobre camponês ou a um imperador. Séculos depois de as comunidades de camponeses deixarem de ser a norma, a Igreja continuou a condenar a cobrança de juros e, surpreendentemente, nunca retirou a sua interdição. Contudo, hoje o Vaticano tem o seu próprio banco, fundado em 1942 por Pio XII, o qual foi recentemente o centro de terríveis escândalos financeiros. Uma segunda prova de mudança radical diz respeito aos ensinamentos da Igreja. «Não há salvação fora da igreja». Esta doutrina foi inicialmente formulada para excluir todos os não baptizados, como os Judeus e os não crentes. Mesmo os bebés de pais
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    28 cristãos que morressemantes de serem baptizados eram tidos como excluídos do Céu. Hoje João Paulo continua a ensinar que não há salvação fora da Igreja, mas “Igreja” e “salvação” são interpretadas de uma maneira tão alargada que todas as pessoas de boa vontade, mesmo os ateus, podem ser salvos. Este truque linguístico evita que os católicos pensem que houve uma inversão nos ensinamentos tradicionais. Admitir uma mudança exporia uma parte demasiado grande do passado como um pesadelo. Essa a razão por que, tal como todos os corpos autoritários, a Igreja Católica se recusa a admitir que tenha mudado no essencial, mesmo quando isso representa um aperfeiçoamento. À parte estes indicadores, basta lembrar que quase todos os documentos do Vaticano II teriam sido condenados como heréticos pelo Vaticano I. A ortodoxia de uma época não é a ortodoxia de outra. A principal desvantagem de uma instituição infalível é que nenhuma afirmação pode ser retirada, nenhuma doutrina negada, nenhuma decisão moral invertida, mesmo quando novos argumentos sugerem um exame radical. Nada disto preocupa os fiéis em S.Pedro. Eles acreditam que João Paulo é infalível e, embora não estejam agora a pensar nessa questão, isso influencia o seu amor e lealdade. Enquanto ele faz as suas orações depois da comunhão, eles vêem-no no altar com os olhos da fé. Em frente daquele altar em que só ele diz missa há um espaço oval. É a Confissão ou o Túmulo dos Mártires. Está iluminado, como todos os dias, por noventa e três candeeiros de feixe triplo; as paredes e soalhos são cobertos de jaspe, ágata e pórfiro. Santos como Domingos e Inácio de Loiola, imperadores como Carlos Magno e Frederico Barbarrossa ajoelharam aqui para honrar Pedro. Porque por baixo dos pés de João Paulo está sepultado S.Pedro, cujas ossadas consagraram não só esta poderosa basílica mas também os seus sucessores na Sé de Roma. Nem uma só pessoa duvida que S.Pedro esteja sepultado nesta igreja que tem o seu nome. Mas estará de facto? A Igreja Católica por vezes é dogmática quando estão em causa dúvidas ou pelo menos reservas. De facto, não há uma resposta simples sobre a questão do lugar onde Pedro estará sepultado. Nos primeiros tempos após a morte de Pedro, as suas ossadas foram transferidas por duas vezes para lugares mais seguros. Quando as coisas serenaram, o corpo foi levado de volta para o lugar onde Pedro deu testemunho da sua vida. Por cima do túmulo, foi erigido um pequeno oratório, e, mais tarde, no século IV, foi construída a basílica de Constantino, que ali ficou durante mil e cem anos. Poucos dos fiéis em S.Pedro nestas festividades dos Apóstolos sabem que foi há mais de mil anos que se tomou a decisão de separar as cabeças de Pedro e Paulo dos respectivos troncos. As cabeças têm estado desde então em S.João de Latrão, que é a catedral do papa e a igreja-mãe da Cristandade. S.João de Latrão foi também construída por Constantino junto do palácio de Latrão, que ele outorgou ao Bispo de Roma. De acordo com as antigas leis de Roma e com os cânones da teologia católica, conclui-se que Pedro não está realmente sepultado em S.Pedro, mas, juntamente com Paulo, em S.João de Latrão. O local onde está a cabeça, assim reza a antiga máxima, é o local da sepultura. Mesmo hoje, a prática pastoral considera a cabeça a parte mais importante dos restos mortais. No caso de decapitação ou de uma morte com mutilação é a cabeça que é ungida com a sagrada crisma. Houve uma ocasião em que a cabeça de Pedro se juntou ao tronco. Em 1241, o Imperador Frederico II marchou sobre Roma. Muitos cidadãos, desgostosos com o
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    29 comportamento do papado,preparavam-se para escancarar os portões da cidade para deixar entrar os invasores. O Papa Gregório IX, pouco antes de morrer, teve a ideia de trazer em procissão as cabeças dos dois grandes apóstolos de Latrão para S.Pedro. A ideia resultou. Os cidadãos de Roma, compreendendo que se arriscavam a perder não só a sua herança mas também a sua principal fonte de rendimento, cerraram fileiras e o perigo foi afastado. Em 1370, o Papa Urbano V meteu as cabeças em bustos de prata encrostados com pedras preciosas. Desta maneira, abriu caminho a outro drama. Em 1438, um veneziano rico estava às portas da morte. Perdida a esperança com os médicos, rezou a Pedro e Paulo, prometendo que adornaria os seus relicários com uma pérola de grande valor se recuperasse a saúde. Recuperou e cumpriu a promessa. Pouco depois, descobriu-se que faltava uma dúzia de pérolas nos relicários, bem como dois rubis de quarenta e sete e quarenta e oito quilates, uma safira e dois grandes diamantes. A pérola do veneziano também fora arrancada, provavelmente durante as próprias festividades de S.Pedro e S.Paulo, quando os relicários estavam em exposição. Os culpados foram logo descobertos. Dois primos confessaram terem escondido o fruto da sua pilhagem em casa de um tio. Tornaram-se motivo de divertimento em Roma. Como ponto alto de uma festança, na praça de S.João de Latrão, deceparam a mão direita dos jovens antes de os queimarem. O tio, simples receptador, foi tratado com mais clemência. Depois de agrilhoado com tenazes em brasa, foi enforcado. Em 1799, os soldados de Napoleão roubaram os relicários. Meteram ao bolso as pedras preciosas, incluindo a pérola, mas deixaram as relíquias. Diz-se que estas foram encontradas com o lacre original intacto. Nada restou a não ser vértebras, um maxilar com alguns dentes soltos e um pedaço de crânio. Fizeram-se novos relicários e as cabeças repousam agora no santuário por sobre o altar papal de Latrão. É ali, em sentido restrito, que ambos os apóstolos estão enterrados juntos. Uma vez que S.João de Latrão é também «a Mãe e chefe de toda a igreja da cidade e do mundo», era certamente ali que o Santo Padre devia ter celebrado a missa das festividades de S.Pedro e S.Paulo. Há uma razão primordial para que ele não tenha procedido assim. O papa diz a missa com o tronco de Pedro sob os seus pés. Setenta metros acima da sua cabeça, há qualquer coisa muito mais importante do que os restos mortais de Pedro: as palavras do Senhor. Em letras de um metro e meio de altura, à volta da cúpula, está o mais famoso de todos os trocadilhos: «Tu es Petrus, et super hanc petram aedificabo ecclesiam meam, et portae inferi non praevalebunt adversus eam» («Tu és Pedro e sobre esta Pedra construirei a minha igreja, e os portões do inferno não prevalecerão sobre ela»). Os eruditos assumem que no aramaico original o trocadilho era perfeito: Pedro e Pedra são ambos Cepha. É este o texto que constitui o pano de fundo de todo o pensamento do Papa João Paulo. Quem duvidaria de que ele pega neste texto, com toda a humildade, para as suas meditações? Este texto é a razão por que os pontífices agora celebram as festas de S.Pedro e S.Paulo em S.Pedro, de preferência ao local mais óbvio de S.João de Latrão. Porque os pontífices romanos afirmaram-se sucessores não de Pedro e Paulo, mas apenas e só de Pedro. O Novo Testamento fala de Pedro como o apóstolo para os Judeus e de Paulo como o apóstolo para os cristãos. Mas no espírito do papa, Pedro era o superior de Paulo; Pedro tinha jurisdição sobre Paulo e os outros discípulos. Esta autoridade foi outorgada a Pedro pelo próprio Senhor naquelas palavras que se encontram à volta da grande cúpula. Foi esta autoridade suprema que ele, João Paulo II, herdou. Por que é que os Protestantes não hão-de ser lógicos? —
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    30 deve Sua Santidadepensar. Jesus, o Filho de Deus, deu a Pedro supremacia sobre a Igreja; esta supremacia deve continuar na Igreja como um ofício permanente; ele, João Paulo, é o actual detentor de tal ofício. Há, porém, uma outra interpretação deste texto com uma linhagem melhor do que aquela de que a maioria dos católicos se dá conta. Pode chocá-los ouvir dizer que os grandes Padres da Igreja não viam qualquer relação entre ele e o papa. Nenhum deles aplica o «Tu és Pedro» a ninguém senão a Pedro. Um após outro todos o analisam: Cipriano, Orígenes, Cirilo, Hilário, Jerónimo, Ambrósio, Agostinho. E eles não são propriamente Protestantes. Nenhum deles chama ao Bispo de Roma uma Pedra ou lhe aplica especificamente a ele o compromisso das Chaves. Isto para os católicos é tão chocante como se não encontrassem nos Padres qualquer menção ao Espírito Santo ou à ressurreição dos mortos. O grande trocadilho, o jogo de palavras, foi aplicado apenas a Pedro. E as surpresas não acabam aqui. Para os Padres é a fé de Pedro — ou o Senhor em que Pedro tem fé — que se chama Pedra, e não Pedro. Todos os Concílios da Igreja, desde Niceia, no século IV, a Constança, no século XV, concordam que o próprio Cristo é o único fundamento da Igreja, isto é, a Pedra em que a Igreja assenta. Talvez por isso, nem um só dos Padres fale da transferência de poder de Pedro para aqueles que lhe sucederam; nenhum deles fala, como fazem os documentos da Igreja hoje, de uma “herança”. Não há qualquer indício de um ofício Petrino perdurável. Ao falar de um ofício, a referência é ao episcopado em geral. Todos os bispos são sucessores de todos os apóstolos. A análise de um outro texto do Evangelho produz o mesmo resultado. Jesus disse a Pedro: «Rezei por ti para que a tua fé não te falte; e quando estiveres convertido, crisma os teus irmãos». Esta afirmação aplica-se apenas e pessoalmente a Pedro. Nunca ocorreu aos cerca de dezoito Padres da Igreja que comentaram este texto que houvesse nele um compromisso para com os “sucessores de Pedro”. Pedro, individualmente considerado, não teve sucessores. Então, e os compromissos que se diz terem sido feitos via Pedro para com os seus “sucessores”, os papas? Então os papas não herdam de Pedro a infalibilidade e a jurisdição sobre todo o mundo? O primeiro problema da infalibilidade é que o Novo Testamento deixa muito claro que o próprio Pedro cometeu erros tremendos tanto antes como depois da morte de Cristo. Quando, por exemplo, Jesus insistiu que tinha de ir até Jerusalém, onde seria crucificado, Pedro protestou de tal maneira que Jesus lhe disse que ele era o “Satanás“ no seu caminho. Alguns teólogos católicos sugeriram que as palavras «Sai do meu caminho Satanás» deviam ser acrescentadas ao texto Petrino já inscrito à volta da cúpula de Miguel Ângelo. Depois da ressurreição de Jesus, Pedro fez outro enorme disparate. “Heresia” não é uma palavra excessiva para o descrever. O maior jurista canónico da Igreja de todos os tempos, Graciano, disse em 1150: «Petrus cogebat Gentes Judaizare et a veritate evangelii recedere», «Pedro obrigou os não-Judeus a viverem como Judeus e a afastarem-se da verdade do Evangelho». Quanto à jurisdição em todo o mundo, quando Pedro pregava ao seu rebanho em Antióquia ou em Roma, alguma vez lhe passou pela cabeça a ideia de que dirigia toda a Igreja? Tal ideia teve de esperar até a Cristandade ser integrada no Império Romano. Mesmo nessa altura, o papado ainda levou algum tempo a atingir a estatura que tornou tal pretensão plausível. E as dificuldades não se ficam por aqui. Os papas só são considerados infalíveis quando se dirigem a toda a Igreja. E quando é que eles o fizeram pela primeira vez? Certamente não durante o primeiro milénio. Neste período todos concordam que só os
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    31 Concílios Gerais exprimiamo pensamento da Igreja. Então, o poder supremo do papa esteve suspenso todo esse tempo? Se a Igreja conseguiu funcionar sem ele durante mil anos, por que é que havia de precisar dele? Por pouca sorte, um dos primeiros, senão mesmo o primeiro documento papal dirigido à Igreja universal foi a Unam Sanctam, uma Bula de Bonifácio VIII, em 1302. Era um documento tão forçado que levantou questões delicadas sobre a infalibilidade no Concílio Vaticano I, em 1870. Assim, a Igreja dos primeiros tempos não considerava Pedro como Bispo de Roma, nem pensava, portanto, que cada Bispo de Roma sucedia a Pedro. No entanto, Roma era tida na mais alta consideração por razões bastante diferentes. Em primeiro lugar, foi aqui que Pedro e Paulo viveram a sua vida. Depois, Roma era um lugar sagrado porque aí os fiéis, clérigos e leigos, conservaram os seus corpos e reverenciaram-nos. Esses corpos foram uma espécie de garantia da ortodoxia através dos tempos. Passaram-se décadas. O Bispo de Roma tornou-se cada vez mais importante, especialmente quando a corte imperial foi transferida para Constantinopla, no século IV. Isto deixou um enorme vazio político, administrativo e emocional. Os Bispos de Roma estavam, por assim dizer, ali à mão para o preencher. A partir de então, os Bispos de Roma começaram a separar Pedro de Paulo e aplicaram a si próprios as promessas feitas a Pedro no Evangelho. O prestígio do Bispo de Roma era agora tal que os eruditos procuraram nas Escrituras textos que sustentassem o seu papel de líder e patriarca do Ocidente. Nada mais limpo do que aplicar ao bispo que governa a cidade onde Pedro morreu textos que nos Evangelhos se referem apenas a Pedro. Os Evangelhos não criaram o papado; o papado é que, uma vez criado, procura suporte nos Evangelhos. Este suporte não apareceu facilmente; foi necessária muita perícia para pegar em afirmações feitas por um pobre Carpinteiro a um igualmente pobre Pescador e aplicá-las a um pontífice régio que em breve viria a ser chamado de Senhor do Mundo. Em S.Pedro, nestas festividades, João Paulo não está a pensar em si próprio como Senhor do Mundo, mas sim como o Pastor Chefe do rebanho. Dá a sua bênção final e a multidão rompe em aplausos. Pela primeira vez desde que entrou na basílica, o pontífice permite-se um sorriso. A liturgia sagrada está terminada e ele volta a descer pela nave em direcção à Capela do Santíssimo Sacramento, distribuindo bênçãos pelo caminho. Para muitas das pessoas que vão a sair da basílica este foi o dia mais memorável das suas vidas. Enquanto a basílica volta ao normal, apetece perguntar: Se Pedro se levantasse do túmulo sob a cúpula e lhe dissessem que tudo aquilo foi erigido em sua honra, como é que ele reagiria? Claro que alguém que regressasse do mundo dos mortos apenas quinze dias depois da sua morte ficaria completamente aturdido, e Pedro morreu por Cristo há mais de dezanove séculos. Quem é que pode saber como ele reagiria às maravilhas da moderna tecnologia: aviões, automóveis, televisão, telefones? Só em S.Pedro há oitenta telefones — se se marcar o 3712 o telefone tocará na obscuridade do altar-mor. O crescimento e a organização da Igreja também o espantariam. Uma vaga ligação de uns poucos pescadores e os seus convertidos, na sua maioria camponeses, tem de ser diferente de uma igreja de malha bem apertada que se estende pelo mundo inteiro e abrange quase um bilião. A única pergunta certa é esta: se Pedro voltasse como peregrino, como é que ele julgaria, à luz dos Evangelhos, o que se passa no Vaticano? Jesus nasceu num estábulo. Durante o seu ministério, não tinha onde pousar a cabeça.
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    32 Hoje, o seuVigário habita um palácio com onze mil salas. E depois há ainda Castelgandolfo, sobranceiro ao Lago Albano, onde os pontífices se resguardam do calor do verão. O belo Castelgandolfo, ligeiramente maior do que o Vaticano, foi onde João Paulo, com algum dispêndio, mandou construir uma piscina para seu uso pessoal. Jesus renunciou aos seus bens. Ele ensinava constantemente: «Vai vender tudo o que possuis e dá aos pobres, e depois vem comigo». Ele condenava os ricos e os poderosos. Armazenai para vós tesouros no Céu, dizia ele, onde nem a ferrugem nem a traça conseguem estragá-los. O Vigário de Cristo vive rodeado de tesouros, alguns de origem pagã. Qualquer sugestão no sentido de que o papa devia vender tudo o que tem e dar aos pobres é recebida com irrisão, como impraticável. O jovem rico dos Evangelhos reagiu da mesma maneira. Durante toda a sua vida, Jesus viveu de maneira simples; morreu nu, oferecendo o seu sacrifício na cruz. Quando o papa renova esse sacrifício na missa solene pontifical, maior contraste não se poderia imaginar. Sem qualquer ironia, o Vigário de Cristo está vestido de ouro e das sedas mais caras. Isto tem sido frequentemente fonte de escândalo. Por exemplo, no século XIV o grande Petrarca descrevia assim uma missa papal em Avignon, que era muito menos esplendorosa do que a recente cerimónia em S.Pedro: «Fico espantado quando recordo os antecessores do papa e vejo estes homens carregados de ouro e vestidos de púrpura. Parece que estamos entre os reis dos Persas ou dos Partianos, diante dos quais nos temos de prostrar e venerar. Ó apóstolos e primeiros papas, rudes velhos definhados, foi para isto que trabalhastes, vós?» O único título de Jesus foi Pilatos que lho atribuiu por troça: “Rei dos Judeus”. No anuário pontifício, Pedro vê que o papa tem uma dúzia de títulos ilustres: incluindo o de chefe de estado. Ele acharia o de Pontifex Maximus o mais surpreendente, porque no seu tempo era esse o título do Sumo Sacerdote de Roma. Além disso, Jesus era apenas um leigo. Os assistentes do papa também têm títulos algo inesperados à luz do Sermão da Montanha: Excelência, Eminência, Vossa Graça, Meu Senhor, Ilustre, Reverendíssimo, etc.. Contudo os chapéus cardinalícios, que outrora renderam milhões aos cofres do papa, são agora distribuídos gratuitamente. Mas suas Eminências continuam a vestir-se como realezas, mesmo que as suas caudas tenham sido reduzidas recentemente de alguns metros. As impressões é que contam. Aqueles que vestem púrpura e seda, vivem em palácios, sentam-se em tronos — não lhes é fácil agir como servos de Deus ou representar o Pobre de Nazaré perante os pobres e os famintos do mundo. João Paulo apenas reuniu os seus cardeais por duas vezes. E em ambos os casos foi para discutir o estado perigoso das finanças do Vaticano. Pedro, sempre sem tostão, ficaria intrigado ao saber que, de acordo com o cânone 1518 do código de 1917, o seu sucessor é o «administrador e gestor supremo de todos os bens da Igreja». E também que o Vaticano tem o seu próprio banco, que só admite como cliente quem, além de sólidas referências, possa fornecer uma coisa que o próprio Pedro nunca teve: um certificado de baptismo. O celibato do clero, papa incluído, devia também surpreender Pedro, ao pensar como Jesus o escolheu a ele sabendo que era casado. E finalmente Pedro ficaria desconcertado só com o simples número de imagens em S.Pedro. Ele e o Mestre, como judeus que eram, opunham-se às imagens religiosas. Deus, cujo simples nome não podia ser pronunciado, também não podia ser representado. Alguém que reside numa luz inacessível exige as maiores reticências.
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    33 Mesmo o maisSagrado dos Sagrados no Templo de Jerusalém não era mais do que uma sala despida e escura. Em S.Pedro Jesus está crucificado em todos os altares. A basílica está decorada com estátuas de papas ajoelhados e inclinados numa vénia. Algumas figuras são muito pouco edificantes. O Papa Paulo III, por exemplo, jaz enterrado na ábside. O seu monumento está decorado com belezas reclinadas, uma das quais é a Justiça. Originalmente nua, ajustaram-lhe, por ordem de Pio IX, uma camisa metálica pintada para parecer o mármore original. Sua Santidade tinha descoberto que o modelo para a Justiça fora a irmã de Paulo III, Giulia, a amante do Papa Alexandre VI. Pedro assistiu à simples cerimónia da Ceia na noite da véspera em que Jesus morreu. Ele soube que na colina rochosa dos arredores de Jerusalém, Jesus, depois de ultrajado, açoitado, cuspido, coroado com espinhos, foi despido e crucificado entre dois ladrões. Que ligação há, se alguma poderá haver, perguntar-se-ia Pedro, entre esses acontecimentos e uma missa papal? Será que todo este cerimonial distorceu e banalizou a mensagem de Jesus? Como e por que tortuosos caminhos é que uma pequena comunidade perseguida transpôs a aparentemente infinita distância entre o Calvário e o Vaticano?
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    35 2 A Busca doPoder Absoluto Os milhões que todos os anos visitam o Vaticano pressentem o poder da Igreja. As paredes, as estátuas, as gigantescas colunas, aquela cúpula omnipresente, tudo isto exala poder. Se têm a sorte de ter uma audiência com o Santo Padre, ou simplesmente recebem a sua bênção da janela do seu gabinete, a maioria dos peregrinos sente uma força passar dele para si próprios. Ele possui, crêem eles, o dom do Espírito de Deus num grau elevado. Mesmo um rosário abençoado pelo pontífice tem uma significação especial; é como um autógrafo invisível. Ele tem um grande poder vindo de Deus e tem o compromisso de o usar para o bem da humanidade. O prestígio do papa hoje é enorme. Neste século, os pontífices adquiriram renome mundial. Os acontecimentos históricos e as comunicações instantâneas contribuíram para os tornar os “Porta-vozes da religião”. As suas personalidades também tiveram alguma coisa a ver com o facto. Os antecessores próximos de João Paulo também foram homens eminentes: Pio XI, Pio XII, João XXIII, Paulo VI, João Paulo I. Tiveram os seus críticos dentro e fora da Igreja. Pouca gente negaria que o seu objectivo principal foi seguir Jesus Cristo. O resultado é que João Paulo II é comummente considerado como o único líder cuja reputação na religião iguala a influência política do presidente americano e do secretário-geral soviético. Como não entendem que o passado é imprevisível, muitos católicos estão convencidos de que a maior parte dos papas seguiu este padrão. Desconhecedores da história, permitem-se, como diz Acton, «ser governados pelo Passado Desconhecido». Podem ter ouvido falar do Papa Alexandre VI, o infame Bórgia. Ele foi, sem dúvida, a excepção que confirma a regra. Além disso, por muito mau papa que fosse, eles têm a convicção, tal como Joseph de Maistre, o historiador do século XIX, de que «as Bulas destes monstros foram irrepreensíveis». Fosse qual fosse o seu comportamento moral, nunca comprometeram a fé da Igreja. Neste contexto, até Judas Iscariote é reconfortante. Se um dos discípulos mais próximos de Jesus traiu o Senhor, não devemos ficar surpreendidos se um ou alguns papas abusaram do poder que Deus lhes conferiu. A traição de Judas levou à salvação do mundo. Será que Deus usa o mau papa ocasional para provar que na providência divina mesmo Alexandre VI serve de medianeiro da verdade e do amor de Deus? Em 1895, o Cardeal Vaughan de Westminster afirmou num sermão: «A vida do papado é, como a do próprio Cristo, marcada por sofrimento e por tempos tranquilos; hossanas hoje, a paixão e crucificação amanhã; mas seguida, depois, da ressurreição. O Vigário de Cristo e a sua Igreja estão necessariamente em conflito com as falsas máximas do mundo; o sofrimento e as perseguições são consequência inevitável». Quem é que não perdoará aos seus ouvintes por concluírem que a maioria dos papas foram uma imagem de Cristo? Mas este lado eternamente luminoso do papado tem de ser complementado com o lado mais negro. A maioria dos católicos nunca ouve durante a sua vida, na escola ou na igreja, uma só palavra de censura a qualquer papa. Contudo, um católico devoto como Dante não teve qualquer escrúpulo em lançar pontífice após pontífice para as profundezas do Inferno. Se os Judeus nos seus salmos
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    36 condenam — eaté amaldiçoam — Deus, não podem os católicos condenar os papas quando eles o merecem? A história dos papas está, para utilizar uma expressão do senhor Gorbachev, cheia de páginas em branco. Nem todos os papas foram santos, muitos mal cristãos foram. Antes de Pio IX perder os Estados Papais em 1870, os papas raramente eram amados. Eram muitas vezes odiados e temidos. A distorção começa logo nas listas dos papas, onde, dentre os primeiros trinta, todos, excepto um, são descritos como mártires. Provavelmente foram mártires no sentido de “testemunhas da fé”. Não há provas de que todos tenham morrido por Cristo. Mais ainda: entre os papas houve um grande número de homens casados, alguns dos quais trocaram a mulher e os filhos pelo ofício papal. Muitos eram filhos de padres, bispos e papas; alguns, bastardos; um era viúvo, outro um ex-escravo; vários foram assassinos, alguns, descrentes; alguns eram eremitas, outros, hereges, sádicos ou sodomitas; muitos tornaram-se papas comprando o cargo (simonia) e continuaram os seus dias a vender coisas sagradas para encher os bolsos; pelo menos um era adorador de Satanás; alguns tinham filhos ilegítimos, outros eram fornicadores e adúlteros em grande escala; alguns eram espantosamente velhos e outros ainda mais espantosamente jovens; alguns foram envenenados, outros, estrangulados; e, pior do que todos, foram aqueles que veneraram um deus granítico. Mas houve igualmente muitos que foram papas bons, santos e generosos, e mais uns poucos mártires. É tempo de se deixar de tratar o papado em termos hagiográficos. O silêncio estudado sobre os pecados do papado é um escândalo e uma forma errada de fé. Pior, faz com que a presente crise da Igreja se torne insolúvel. O maior dos pecados do papado, origem da maioria dos outros, foi o abuso do seu imenso poder. É estranho pensar que a pessoa de que esse poder alegadamente derivou viveu e morreu sem poder absolutamente nenhum. “O Primeiro Papa” Esteve tanto tempo nas masmorras que perdeu a noção do tempo. As paredes e o chão estavam cobertas de crostas de sangue. O calor e a pestilência eram insuportáveis. Mordido das pulgas e das ratazanas, velho e magro, estava deitado numa cama de palha húmida. Era o homem mais feliz de Roma, talvez mesmo do mundo. Os seus carcereiros chamavam a isto “reclusão solitária”; o prisioneiro sabia que nunca estivera menos só. No seu coração estava o Mestre que ele servira todos aqueles anos na sua terra junto das águas azuis de um lago interior. Na escuridão, vivia à luz deslumbrante de Cristo. Com as grilhetas, era um homem livre. As recordações inundavam-no. Recordou o chamamento: «Vem, segue-me». Ele deixou tudo: redes, modo de vida, independência. Deu a sua palavra e nunca voltou atrás, apesar da ocasional renegação. Havia realmente coisas que envergonhavam. Quando, por exemplo, o Mestre sugeriu que tinham de ir a Jerusalém, onde a morte o esperava, Pedro protestou. Jesus caiu sobre ele: «Sai do meu caminho, Satanás». Aquilo ainda lhe soava nos ouvidos. Pedro, então, não entendeu. Como é que ele podia entender? O pior ainda estava para vir. No jardim de Getsâmani, à noite, já tarde, depois de uma ceia de Páscoa, Jesus, muito só, muito temeroso, pediu-lhe para velar e rezar. O prisioneiro era então jovem, precisava de dormir mais do que agora, mas aquela lembrança envergonhava-o. Sentia ainda aquela mão sobre o seu ombro a procurar mantê-lo acordado e aquela voz suave, magoada mas não ressentida: «Não podias velar uma hora comigo?» Os servos do Alto Sacerdote vieram com bordões e espadas para prender Jesus. O prisioneiro pegou numa espada e deu um golpe numa orelha de
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    37 um servo chamadoMalchus. Jesus odiava as espadas. Disse a Pedro que o lugar das espadas era nas bainhas e fez o melhor que pôde por Malchus, pedindo desculpa o tempo todo. Foi então que Pedro e os outros fugiram. Para quê ficar com um homem que recusava defender-se e tratava os inimigos como trataria um amigo? Pedro dirigiu-se para o pátio do Alto Sacerdote. Tentou aquecer-se à fogueira mas o frio que o dominava não estava nos seus membros. Agora, no sufocante calor da cela, tremia à amarga lembrança de renegar o Mestre diante de uma serva. Nunca ia esquecer o olhar que Jesus lhe lançou quando foi levado como um cordeiro para a matança. Nem uma palavra, apenas um olhar. Ele tinha obrigação de ser duro, mas não aguentou; foi-se embora a chorar como uma criança. No dia seguinte, assistiu, sem dúvida, de longe, à crucificação. Era então aquele o fim? Ou iria Deus intervir e salvar Jesus, arrancar os pregos, devolvê-lo aos seus seguidores incólume e triunfante? Se assim fosse, seria a prova de que ele era o Messias, o ungido de Deus, que os guiaria à glória. O que é extraordinário é que nada aconteceu. Não veio nenhum anjo confortá-lo. Morreu, simplesmente. Pedro viu os soldados levarem o corpo e os dos dois que foram crucificados com ele. Ficou arrasado. A cruz parecia mostrar que Jesus era, apesar de todo o seu espírito cativante, um falso messias, enganado como tantos outros. Pedro foi para casa com os seus amigos galileus. Foi na Galileia, onde Jesus outrora o chamara, junto ao lago, que ele teve uma experiência de ressurreição. Paulo iria dizer que Pedro foi o primeiro que viu o Senhor. Por uma inspiração, uma visão não atribuível à carne e ao sangue, ele entendeu que a cruz não era o fim, mas o princípio; era um escândalo mas também a salvação. Convenceu os outros discípulos; eles tiveram a mesma experiência. Também eles viram o Senhor. Mais tarde, espalharam-se algumas estórias complicadas contando que Jesus fora enterrado num túmulo não usado, com uma pedra por cima, e como, no dia que viria a ser chamado de Páscoa, a pedra foi removida revelando um cova vazia. As estórias contradiziam-se em muitos pontos. Mas expressavam, à maneira dos Judeus, a experiência dos discípulos: Jesus não foi amaldiçoado na cruz; tornou-se por seu intermédio o Senhor e Cristo. Afinal ele era de facto o Messias. Ele ressuscitou. Os discípulos tinham voltado a Jerusalém pregando a sua fé. As suas histórias falavam de comer e beber com Jesus depois da ressurreição para fazer com que os outros acreditassem. Pedro adquiriu um prestígio especial. Foi a Pedra sobre a qual o novo grupo — mais tarde chamado Igreja — foi edificado. A sua fé tinha crismado os seus irmãos. Foi o pastor que trouxe para o redil o rebanho perdido. Era o pescador chefe de homens. Foi o primeiro cristão. Juntos, os discípulos leram outra vez Moisés e os profetas. Estes também deixavam claro que a cruz era parte do plano de Deus. Os homens devem viver a sua vida à sombra da cruz que os salvaria tal como outrora tinha elevado Jesus da agonia até à glória. O prisioneiro passou todos os seus dias a sorrir na escuridão de Mamertine. Nada lhe interessava, nem a ele nem aos discípulos, depois de saberem que o Senhor ressuscitara dos mortos. Ele era o Sofredor Servo de Deus. Que mais é que ele lhes tinha pregado e mostrado senão que tinha vindo não para ser servido mas para servir, para dar a vida pelos outros? Isto explica a razão por que ele virou costas à força, por que ele se riu com a ideia de uma espada a ajudar a promover a sua mensagem. Ele viera não para ferir e matar mas para ser ferido e, se necessário, morrer para que o amor e a compaixão de Deus brilhassem por entre as feridas abertas no seu corpo.
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    38 Por um momento,uma coisa preocupou Pedro: que pessoas podiam ser discípulos de Jesus? Só judeus? Se os não-judeus também pudessem, teriam eles de se tornar judeus primeiro? Encontrou a resposta num estranho sonho que o convenceu de que nada era exigido aos não-judeus convertidos a não ser a fé em Cristo. Mais tarde recuou. Instou os não-judeus a seguirem as leis da dieta dos judeus. Foi então que um enérgico recém-convertido mostrou o seu fervor: «Quando Cephas [Pedro] veio a Antióquia» disse Paulo, «eu contestei-o frontalmente, porque era evidente que ele não tinha razão. […] Eu disse a Cephas em frente de toda a gente “Tu és judeu e vives como um não-judeu. Como é que queres obrigar os não-judeus a viver como judeus?» Pedro aceitou a correcção. Tinha cometido um erro terrível. Se Paulo o não tivesse corrigido, a mensagem de que o homem se justifica apenas pela fé teria ficado arruinada desde o começo. Depois disto, Pedro e Paulo dividiram a missão: Pedro pregava aos judeus e Paulo, cidadão romano, aos não-judeus. Depois de organizar a Igreja em muitos lugares, Pedro, muito mais tarde, sentiu-se atraído pela capital do Império. Quando Jesus nasceu foi registado num censo ordenado por Augusto. Foi executado pelos Romanos. Como eles eram donos do mundo, era em Roma, onde, segundo Tácito, todas as vergonhas e todos os vícios do mundo se congregavam, que Pedro tinha de converter. Os Judeus estavam há muito estabelecidos em Roma. Eram olhados com desconfiança por causa da sua recusa em venerarem os deuses do Panteão, como faziam os imigrantes bem educados,. Isto era traição, mas os Romanos eram geralmente tolerantes em assuntos de religião. Os Judeus sobreviveram, foram dispensados de adorar os manes. Com o tempo vieram a conceder-lhes mesmo estatuto legal. Pedro tinha uma tarefa difícil em pregar Jesus aos Judeus. Para estes, Pedro era um herege. Aceitava a Bíblia Judaica, mas não a circuncisão. Venerava Abraão, Moisés e David, mas não manteve as suas festividades. Venerava mesmo Deus num Sabath próprio. Os Judeus não aceitavam sobretudo a ideia de um messias crucificado. Jesus não convenceu ninguém enquanto vivo, morreu como um fora de lei que era, e a sua chamada ressurreição baseava-se no testemunho de umas poucas mulheres loucas. Na Roma do tempo de Pedro, o Forum e o Palatino impressionavam mesmo à distância. O palácio de Augusto brilhava ao sol na sua brancura. Pedro sentia-se contente por os cristãos não possuírem nada senão algumas sepulturas subterrâneas. Ele não podia deixar de pôr em contraste os Césares e o seu Mestre. Jesus não tinha exércitos, nem armas, à parte uma espada ferrugenta que um dos seus seguidores tinha apanhado no caminho. A sua única autoridade era o amor; era a única autoridade que legava aos seus discípulos. Todas as formas de coacção e títulos mundanos lhe eram estranhos. Fugiu a esconder-se nos montes quando a multidão queria fazê-lo rei. A lei régia era a de Deus e realizava-se pela misericórdia, pela pobreza, pela entrega a Deus e ao próximo. Mesmo depois da morte, Jesus continuou a sofrer nos seus irmãos. Ele ajudá-los-ia a carregarem a sua cruz; nunca aprovaria qualquer crueldade que fizessem. O império de Jesus era o do amor e da paz. Os cristãos eram considerados pelos Romanos como uma seita judaica. Também eles eram considerados hostis à sociedade. Eram mesmo acusados de terem o seu próprio rei. Pedro sabia que Cristo não era nenhum rival de César, nem os cristãos traidores por o venerarem. A fé era uma coisa distinta da cidadania; fazia deles melhores cidadãos.
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    39 O Imperador Neronão concordava. Gostava de perseguir estes rebeldes. Obrigou os cristãos a fazerem o papel de Actéon. Vestidos com peles de animais, eles eram despedaçados pelos cães. No dia 19 de Julho do ano 64, Roma ardeu. As circunstâncias eram suspeitas. Nero estava a gozar os ares do mar em Anzio; os triumviri nocturnii, soldados vigilantes dos fogos, estavam de folga. O fogo durou uma semana destruindo dez das catorze regiões da cidade. Quando Nero regressou, Popeia, a imperatriz, e o actor Alituro sussurraram- lhe: «Os cristãos». Claro, eram eles os responsáveis. No circo, construído nos belos prados Quintilianos, os cristãos foram devidamente punidos. O circo, com o obelisco de Heliópolis no topo, brilhou noite após noite de velas acesas. Os cristãos, homens, mulheres e crianças, presos em cruzes, arderam bem. De facto, morreram magnificamente, os primeiros de muitos. Pouco depois do fogo, Pedro foi preso. Era com a sua própria morte que ele agora contava, sem medo. O seu desejo era ir para junto de Deus, tal como Jesus. E o seu desejo cumpriu-se. Um dia levaram-no para o ar livre, que quase o sufocou, e para o sol, que cegava. Entregaram-lhe uma cruz e disseram-lhe que começasse a andar. A notícia espalhou-se e logo Lino apareceu em cena. O Grande Pescador ia para junto de Jesus. Discretamente, à distância, eles viram como ele estava magro e fraco depois daquela longa prisão. Mas estava feliz, também repararam nisso. Quando chegaram ao lado norte do circo, Pedro pediu para ser crucificado de cabeça para baixo por respeito ao seu Mestre. Os soldados não levantaram objecções. O último desejo de um criminoso devia, se possível, ser respeitado. A morte veio depressa; o sangue afluiu-lhe à cabeça. Passou da inconsciência à glória. Nessa noite, os seus seguidores reclamaram o corpo e enterraram-no junto do muro onde as vítimas do circo eram geralmente sepultadas. O terreno era junto do primeiro marco miliário na Via Cornélia. Trinta anos depois, Anacleto viria a construir sobre ele uma capelinha onde podiam rezar três ou quatro ao mesmo tempo. O escritor Tertuliano disse: «Orientem fidem primus Nero cruentavit […]» («Nero foi o primeiro a manchar de sangue a fé nascente. Pedro, como Cristo previu, foi atado por outro, quando foi preso à cruz; foi então que Paulo conseguiu, no seu sentido mais elevado, a liberdade de Roma. […] Que feliz é esta igreja cujos ensinamentos os Apóstolos regaram com o seu sangue»). Não passará muito tempo e os sucessores de Pedro deixarão de ser os servos para passarem a ser os donos do mundo. Vestir-se-ão de púrpura, como Nero, e chamar-se- ão de Pontifex Maximus. Irão referir-se ao Pescador como “o primeiro papa” e não apelarão para a autoridade do amor, mas para o poder nele investido para agirem como Nero. Em oposição a Jesus, os cristãos vão fazer aos outros o que lhes fizeram a eles, e pior ainda. A religião que se orgulhava de ter triunfado sobre as perseguições pelo sofrimento, irá tornar-se a fé mais perseguidora que o mundo alguma vez conheceu. Irão perseguir até a raça de que Pedro — e também Jesus — eram oriundos. Irão ordenar, em nome de Cristo, que todos aqueles que discordem sejam torturados e algumas vezes crucificados sobre a fogueira. Farão uma aliança entre o trono e o altar; insistirão em que o trono é o guardião do altar e o garante da fé. A sua ideia será a de o trono (o Estado) impor a religião cristã a todos os seus súbditos. Não os perturbará o facto de que Pedro lutou contra tal aliança e morreu por causa dela. Durante três séculos, após a morte do apóstolo no Monte do Vaticano, a Igreja, apesar da perseguição, cresceu em força até chegar o dia em que se deixou tentar em partilhar a sorte de César.
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    40 A grande tentação Erao amanhecer, os dedos rosados do sol começavam a abraçar as colinas. Antes de o sol estar visível, houve um silêncio longo e profundo apenas quebrado pela música palpitante da cotovia e o ladrar de um cão algures no deserto da Campânia. Precisamente quando o sol se erguia acima do horizonte, ouviu-se um novo som: os passos de um exército em marcha. Levantou-se uma nuvem de poeira na grande Estrada do Norte. No meio da poeira e da neblina tomaram forma filas sobre filas de homens armados. No escudo e no estandarte o exército tinha um símbolo na diagonal que representava Christos, Cristo. O comandante-em-chefe apareceu à vista a cavalgar. Montado em magnífico corcel, Constantino tinha acabado de tomar sozinho o poder do Império. Ele não pensava ter muitas possibilidades. O seu rival, Maxêncio, tinha os trunfos todos. As suas tropas eram mais numerosas e estavam mais frescas. Bastava manter-se dentro das muralhas de Roma para ficar inexpugnável. Mas mesmo assim, Constantino continuou a sua marcha; não tinha outra saída. Tinha de combater até ao fim. No dia anterior, tivera uma estranha experiência. Ninguém podia ser mais devoto do Deus-Sol do que ele; também venerava frequentemente Apolo. Então, estava ele de joelhos, virado para o sol, venerando aquela divindade incandescente quando — seria uma visão? Uma ilusão devida a tonturas? Um sonho? — viu uns raios negros a saltar do sol na diagonal e ouviu na sua cabeça um nome: Christos. A mãe, Helena, era cristã; andava sempre com Christos na boca, mas Constantino nem nunca tinha pensado nele. Nunca, até então. Uma voz vinda de outro mundo parecia estar a dizer: «Por este sinal vencerás». Estava a agarrar-se a ilusões, sem dúvida, mas deu ordens aos seus oficiais para que substituíssem a Águia Imperial pelo símbolo de Cristo. Diziam que aquele Cristo, pensou ele, tinha ressuscitado dos mortos. Quando se defrontasse com Maxêncio, ele próprio precisaria provavelmente de um truque desses. Durante a marcha, os seus batedores informaram-no de que Maxêncio tinha saído da cidade e se dirigia para Saxa Rubra, nove milhas a norte de Roma. Sabia agora que afinal tinha uma possibilidade. Naquele ponto a estrada tornava-se um desfiladeiro entre duas colinas. Traçou planos para cortar a retirada a Maxêncio pela retaguarda. Nessa noite rezou com fervor dirigindo-se ao sol e pronunciando o nome da sua nova divindade. Na manhã seguinte, 27 de Outubro de 312, esperou pelo nascer do sol para ter a certeza de que Jesus estava com ele, e ordenou um ataque. Cercado, o inimigo ficou descontrolado na Ponte Milviana. Maxêncio tentou escapar mergulhando no Tibre, mas a armadura arrastou-o para o fundo e, tal como muitos dos seus soldados, morreu afogado. Constantino entrou triunfalmente em Roma, como o novo imperador, com mais uma divindade a protegê-lo. Pouco tempo depois já ele tratava com o novo papa, Silvestre, que sucedeu ao mais cauteloso Miltíades como Bispo de Roma. Silvestre, tal como muitos prelados depois dele, não via nada de estranho num guerreiro convertido à fé num Cristo crucificado por via da chacina dos seus inimigos. Assim começou a aliança entre César e Papa, entre o Trono e o Altar. Com o tempo isto viria a tornar-se parte da ortodoxia católica. O Imperador Constantino nunca renunciou ao título de Pontifex Maximus, chefe do culto pagão oficial. Quando, no ano 315, a sua vitória se consolidou, atribuiu-a à «inspiração da divindade» não especificada. Nas suas moedas continuava a aparecer a
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    41 imagem do Deus-Sol.Não aboliu as Vestais nem o Altar da Vitória no Senado. Jamais fez do Cristianismo a religião oficial. Nascido em 274 de uma ligação de Constâncio com uma mera concubina, Helena, ele nunca teria sido elegível para honras imperiais. Conseguiu a consagração pela espada. Casado por duas vezes, assassinou Crispo, seu filho da primeira mulher, em 326. Mandou matar a segunda mulher por afogamento no banho; matou o sobrinho de onze anos e a seguir o cunhado depois de ter jurado garantir-lhe segurança. Não perseguiu os cristãos, apenas familiares e amigos. Longe de ser o modelo de príncipe cristão, nunca deixou de ser um político intransigente e, segundo Jacob Burckhardt, com «uma terrível e fria ambição de poder». Patrocinou o Cristianismo porque se mostrara útil ao dar-lhe a vitória numa batalha decisiva. A Igreja curvou-se-lhe, sem grande susceptibilidade em relação aos seus enredos matrimoniais, porque ele era útil à sua causa. Pouco depois disto, Constantino fez com Licínio, o seu rival do Oriente, um acordo, conhecido como o Édito de Milão. Já há muito tempo que consideramos que não se deve negar a ninguém a liberdade de culto. Pelo contrário, o pensamento e o desejo de cada um deve ser garantido, permitindo-lhe tratar das coisas do espírito de acordo com as suas opções. Esta a razão por que demos ordens no sentido de que a cada um seja permitido ter as suas próprias crenças e fazer as suas devoções conforme queira. Isto era uma expressão exemplar dos direitos religiosos de todas as pessoas sem distinção. A tolerância que isto revelava permitiu aos cristãos saírem das catacumbas para a plenitude dos direitos de cidadania. O que é trágico é que este princípio nunca foi aceite pela Igreja Católica. A verdade, insistia ela, nunca pode ser objecto de compromisso. Daí que, sempre que teve o controle, ela negou aos outros a liberdade de religião. Quando a Paz de Westfália em 1648 estabeleceu que «Os cidadãos cuja religião seja diferente da do seu soberano devem ter direitos iguais aos outros cidadãos» isto foi condenado por Inocêncio X. Outras declarações de liberdade religiosa semelhantes foram anatemizadas século após século pela Igreja Católica como não cristãs, perniciosas, insensatas, e em nada diferentes do ateísmo. É irónico que nenhum documento da história da Igreja, nem mesmo do Concílio Vaticano II, seja tão tolerante, generoso e sensato como o Édito de Milão, elaborado por dois guerreiros sanguinários. No ano de 380 aconteceu ao Cristianismo uma coisa que teria espantado Jesus e Pedro: tornou-se a religião oficial do Império Romano. Nas palavras de Acton, a Igreja tornou-se «a muleta dourada do absolutismo». Com o novo prestígio da Igreja vieram também perigos sempre presentes. No princípio, o estado entrou nos domínios da Igreja tentando moldar a fé aos seus requisitos da lei e da ordem. A partir de então, a Igreja, que começou por ser um movimento de massas e de libertação espiritual, adoptou um padrão conservador que se manteve até hoje. Muito frequentemente, os prelados alinharam com os ricos contra os pobres; fizeram escolhas à direita e não à esquerda. Temiam instintivamente mais o comunismo do que o fascismo. Com o tempo, a Igreja começou a inverter as posições invadindo os direitos dos príncipes. Os papas nomeavam e destituíam até os imperadores exigindo que estes impusessem o Cristianismo aos seus súbditos sob a ameaça da tortura e da morte.
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    42 O resultado finalfoi a Cristandade. Em muitos aspectos esta foi a maior força civilizadora jamais vista no mundo. Os custos para a mensagem do Evangelho foram terríveis. Tudo isto foi no futuro. Nos primeiros tempos depois de Constantino, a Igreja, já respeitável, contentou-se em tirar partido da Pax Romana: uma língua comum, um sistema jurídico e estradas directas para levar a mensagem de Jesus a todo o Império. A Igreja já não tinha de temer perseguições. Os Judeus e os “descrentes“ é que estavam agora ameaçados. Agora, eles é que seriam torturados, queimados e crucificados em nome de Jesus, o Judeu Crucificado. Os primeiros pontífices Segundo o historiador germânico Gregorovius, «Até ao reinado de Leão I, no século V, a Cadeira de Pedro nunca fora ocupada por um simples bispo de importância histórica». Houve razões para isto. Nos primeiros tempos, a comunidade cristã estava empenhada na sobrevivência num meio hostil. Eram detestados pelos Judeus e olhados com suspeita pelos Romanos por não venerarem as divindades locais. E os cristãos também não se alistavam no exército, levantando assim dúvidas sobre a sua fidedignidade como cidadãos. Apesar disto, o Cristianismo cresceu, especialmente entre os escravos e as classes mais pobres. Estes responderam com ardor ao Sermão da Montanha e à pregação de Jesus, que foi crucificado como um escravo e ressuscitado dos mortos como precursor da Ressurreição Final. Foi quando a Igreja emergiu da sombra, quando as perseguições de Nero e Diocleciano já se tinham tornado más recordações que as coisas começaram a piorar. Já havia sinais disso mesmo antes da conversão de Constantino. Por exemplo, depois da morte de Marcelino, em 304, não houve bispo de Roma durante quatro anos por causa de uma disputa dentro da comunidade cristã sobre se os apóstatas que regressassem deviam ou não fazer penitência. Embora os tempos fossem difíceis para a fé e as heresias estivessem a crescer, a escolha de um novo bispo (papa) não era de primordial importância. Quando a Igreja se tornou respeitável, depois do Imperador Constantino, é que as querelas viciosas rebentaram. A comunidade recebeu terras e muitos privilégios. Para o diaconato e sacerdócio perfilou-se o tipo errado de candidatos. Mamona entrou em conflito directo com Deus na Igreja. Com a morte de um papa revelavam-se muitas azedas rivalidades. Por exemplo, quando Libério morreu, em 366, duas facções elegeram cada uma o seu sucessor. Ursino era um papa, Dâmaso, outro. Depois de muita luta nas ruas, os seguidores de Ursino trancaram-se no interior da Basílica de Santa Maria Maior, conhecida como Nossa Senhora da Neve, acabada de construir pouco tempo antes. Alguns apoiantes de Dâmaso subiram ao telhado, fizeram nele um buraco e bombardearam os ocupantes com telhas e pedras. Entretanto outros atacavam a porta principal. Quando esta cedeu, seguiu-se uma luta sangrenta que durou três dias. No fim, 137 corpos foram trazidos para fora, todos eles de seguidores de Ursino. O representante do imperador mandou Ursino para o exílio, mas o crime de Santa Maria Maior ficou como um borrão indelével no caderno de Dâmaso. Como compensação, Dâmaso acentuou a sua autoridade espiritual como “sucessor de S.Pedro“, um direito, como já foi assinalado, não reconhecido pelos Pais da Igreja. «Só depois de Dâmaso, em 382,» escreve Henry Chadwick, «é que este texto Petrino [«Tu
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    43 és Pedro»] secomeçou a tornar importante como fonte de fundamentação teológica e evangélica em que se baseava o direito à dignidade de primaz». Por essa altura, o Bispo de Roma era um grande proprietário de terras e um líder civil. O paradoxo é que os papas só se tornaram papas quando, a juntar ao seu papel religioso, começaram a tomar outros cargos completamente seculares. «O resultado desta associação,» diz Jeffrey Richards no seu livro The Popes and the Papacy in the Early Middle Ages, «foi um papado cujo poder aumentou para além dos seus sonhos mais extravagantes». Dâmaso ilustra bem este facto. Chegou ao poder à custa de muito sangue. Tornou-se por esse meio um homem muito rico e poderoso. Quando pediu ao prefeito de Roma, um pagão com muitos títulos sacerdotais, que se convertesse, este respondeu-lhe:«De boa vontade, se o senhor me fizer Bispo de Roma». O escritor dessa época Aniano Marcelino sugeriu que devia haver uma concorrência muito viva para um cargo tão lucrativo. «Porque uma vez obtido esse cargo, um homem goza em paz um destino assegurado pela generosidade das matronas; pode viajar em carruagem, vestido com magníficos mantos; pode oferecer banquetes cujo luxo ultrapassa o da mesa do imperador». O secretário de Dâmaso, o ascético S.Jerónimo, descreveu o tipo de clérigos que rodeavam Dâmaso; tinham mais o aspecto de noivos, disse ele. E o papa, que chegara ao poder com a ajuda da guarda, precisava constantemente da protecção desta contra os seguidores de Ursino. Episódios desagradáveis como este não foram assim tão raros. Noutras ocasiões houve dois ou até três candidatos rivais para o bispado. Às vezes o lugar ficava vago durante meses e anos, porque os Romanos não se entendiam. Uma vez dois rivais foram derrubados por um terceiro que dera ao exarca em Ravena, o representante do imperador, cem libras em ouro pelo seu apoio. A tradição da eleição do Bispo de Roma pelo povo da cidade remontava aos tempos apostólicos. Isto levou muitas vezes à confusão. No século XI puseram ordem nas coisas tornando-se os cardeais, representantes do clero local, os únicos eleitores. Os leigos nunca mais recuperaram o seu direito a uma palavra na escolha do seu bispo. Mas nem mesmo os conclaves de cardeais resolveram o problema, tanto assim que na Idade Média e posteriormente houve muitas vezes mais do que um “papa”. Mas nestes primeiros tempos a situação foi algumas vezes crónica. Gregorovius salientou que nos séculos VI e VII a maior parte dos papas reinou apenas dois ou três anos. Será que eles eram escolhidos quando já estavam perto da morte, ou a sua morte era apressada por facções rivais? Ele não sabia. De acordo com Richards, a maioria dos papas foi escolhida segundo o critério da recompensa por serviços prestados, de modo que quase todos eram de idade e doentes. O Papa Sisino, por exemplo, foi consagrado em 15 de Janeiro de 708. Estava tão diminuído pela artrite que nem sequer conseguia levar a comida à boca para se alimentar. Morreu vinte dias depois. Escreve Richards: «Com esta parada de enfermidades e incapacidades é de admirar que o papado tenha conseguido alguma coisa». Assim, mesmo as eleições que envolviam corrupção, suborno e derramamento de sangue resultavam muito frequentemente na entrega do cargo papal a homens velhos e doentes. Richards relata o seguinte: «O fogo e os condimentos desses tempos chegam até nós nos documentos desse período que sobreviveram. […] Esta é que é a carne vermelha crua da história do papado, e não as doses dissecadas e pré-embaladas servidas à moda da história papal». Apesar de toda esta chicana e corrupção, não passou muito tempo sem que aquele período fosse olhado como cândido, quase como a Idade de Ouro do Papado.
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    44 Um documento assombroso EstêvãoIII tornou-se pontífice no ano 752 depois de o seu antecessor, Estêvão II ter reinado apenas quatro dias, o reinado mais curto de que há registo. O novo pontífice tinha sido educado praticamente na corte papal. Sabia que o papa não era um líder meramente religioso, mas, como vassalo leal do imperador, também governador civil com extensos territórios sob a sua jurisdição. A secularização da Igreja iniciada por Constantino estava no bom caminho. Ele tinha visto o potencial da hierarquia como classe governante. Estavam tão bem organizados como o seu próprio funcionalismo civil, que foram lentamente substituindo nos tribunais e na diplomacia. Quando, no ano 330, o imperador levou a sua entourage para Constantinopla, local da antiga cidade grega de Bizâncio, os bispos de Roma envolviam- se cada vez mais nos assuntos civis. Dois papas em particular contam-se entre os maiores homens de sempre. Leão o Grande (440-61) num acto de grande coragem salvou Roma de Átila o Huno. Gregório o Grande (590-604) foi efectivamente o líder civil, bem como o Patriarca, do Ocidente. Com este duplo papel lançado sobre eles, houve um inevitável crescimento da burocracia. Trabalharam heroicamente, mas na Roma cristã nunca mais se viu a simplicidade cristã. Quando os Lombardos, uma tribo bárbara do Báltico, se estabeleceram na Itália depois do ano 568, o papado deixou de ter paz. Os recém-chegados tomaram a maior parte do norte. Gradualmente convertidos, os Lombardos nunca tiveram a confiança da Santa Sé. Quando os laços que ligavam os papas e os imperadores, seus vassalos, abrandaram, os pontífices tiveram de forjar uma nova aliança militar, para conservar Roma e os territórios vizinhos. Teria sido provavelmente melhor se as tivessem restituído, mas para os grandes proprietários isso sempre foi impensável. Após um ano de pontificado, Estêvão III viajou para o norte, no inverno, para se avistar com Pepino, Rei dos Francos. Nunca um papa tinha procurado auxílio junto de um soberano ocidental; e este viria a ser o primeiro de muitos pedidos de auxílio militar. Vestido de negro, o cabelo coberto de cinzas, o papa ajoelhou aos pés do rei implorando-lhe que usasse os seus exércitos para salvar os interesses de Pedro e Paulo e da comunidade de Roma. Aí, na Abadia de S.Dinis, sagrou Pepino e seu filho Carlos Magno como “patrícios dos Romanos“. É muito provável que neste encontro Estêvão tivesse mostrado ao seu anfitrião real um documento muito antigo. Cheio de pó e a desfazer-se, tinha sido preservado durante séculos nos arquivos papais. Datado de 15 de Março de 315, chamava-se “A Doação de Constantino”. Era uma escritura ou um presente do primeiro imperador ao Papa Silvestre. A Doação conta a comevedora estória de como Constantino contraiu a lepra por todo o corpo. Os sacerdotes pagãos erigiram uma fonte no Capitólio e tentaram persuadi-lo a enchê-la de sangue de crianças. Enquanto o sangue estivesse quente, Constantino deveria banhar-se nele para ficar curado. Arrebanharam muitas crianças acompanhadas das mães em lágrimas. O imperador, comovido com as suas lágrimas, mandou-as para casa carregadas de presentes. Nessa noite ele teve um sonho. Pedro e Paulo disseram- lhe que contactasse o Papa Silvestre, então escondido no Monte Soracte. O papa mostrar-lhe-ia o verdadeiro “lago da piedade”. Uma vez recuperada a saúde, teria de restaurar as igrejas cristãs em todo o mundo, deixar de rezar aos ídolos e venerar o verdadeiro Deus. Constantino fez como lhe disseram. «Quando eu estava no fundo da
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    45 fonte,» disse ele,«vi uma mão vinda do Céu a tocar-me». Voltou do seu baptismo curado. Silvestre pregou-lhe a Trindade e repetiu as palavras de Jesus para Pedro: «Tu és Pedro […] e eu vou entregar-te as Chaves do Reino». Convencido de que se tinha curado pelo poder do Apóstolo, Constantino, em nome do Senado e de todo o povo de Roma, ofereceu um presente ao Filho do Vigário de Deus e a todos os seus sucessores: Considerando que o nosso poder imperial é terreno, decretámos que ele venerará e honrará a sua muito santa Igreja Romana e que a sagrada Sé do Abençoado Pedro será gloriosamente exaltada mesmo acima do nosso Império e trono terreno. […] Ele dirigirá as quatro principais Sés, Antióquia, Alexandria, Constantinopla e Jerusalém, como todas as igrejas de Deus em todo o mundo… Finalmente, vede, transferimos para Silvestre, papa universal, a propriedade do nosso palácio assim como de todas as províncias e palácios e distritos da cidade de Roma e Itália e das regiões de ocidente. Constantino também deu uma explicação até então desconhecida sobre a razão por que se mudara para o oriente. Desejava que Roma, onde a religião cristã foi fundada pelo Imperador do Céu (Cristo), não tivesse rival na terra. A Roma pagã abdicara em favor da Roma cristã. O Rei Pepino ficou impressionado. O documento provava que o papa era o sucessor de Pedro e também de Constantino. O imperador tinha mesmo agido como vassalo de Silvestre, inspirando muitos reis e imperadores a imitarem a sua humildade nas coroações papais nos séculos seguintes. Quando Pepino desbaratou os Lombardos, devolveu ao papa todas as terras que eram suas por direito devido à Doação. Foi um desenvolvimento surpreendente dos Evangelhos. Jesus só possuía as roupas que trazia no corpo. Os seus principais discípulos agora não só tinham enormes territórios a que se tornaram excessivamente apegados, como também precisavam de alianças militares para os manter. A Doação continuou a ter influência. Por exemplo, o único papa inglês, Adriano IV, recorreu a ela quando deu a Irlanda a Henrique II da Inglaterra. Adriano fora anteriormente Nicholas Breakspear, filho de um padre. Quando Henrique iniciou a longa e trágica ocupação da Irlanda em 1171, o episcopado irlandês, reunido em Cashel, reconheceu-o e aos seus sucessores como legítimos reis da Irlanda. Isto foi depois confirmado pelo novo papa, Alexandre III, não sem antes ter insistido em que teria de receber uma quantia anual por cada membro do seu pessoal. Este era o preço do papado por entregar estas muito católicas e célticas terras ao normando inglês. O que torna isto mais difícil de suportar é que a Doação foi uma falsificação. A Doação foi uma invenção, provavelmente maquinada por um padre de Latrão pouco antes da visita de Estêvão III ao Rei Pepino. Tal era o estado da erudição nesse tempo. Todos se deixaram enganar por uma coisa que hoje não enganaria um miúdo da escola. Só quando um assessor papal, Lorenzo Valla, o analisou linha por linha em 1440 é que ficou provado que era uma fraude. Valla mostrou que o papa naquela alegada data da Doação não era Silvestre mas Miltíades. O texto refere “Constantinopla”, enquanto a cidade de Constantino no Oriente ainda conservava o nome original de Bizâncio. A Doação não estava escrita em latim clássico mas numa forma abastardada posterior. Também se dão explicações sobre, por
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    46 exemplo, as insígniasde Constantino, que não teriam sido necessárias no século IV, mas que o eram no século VIII. De inúmeras e irrefutáveis maneiras, Valla desfez completamente o documento. Fê-lo com apreensão porque sabia que muitos prelados romanos iriam vingar-se. Como eu ataquei não os mortos, mas os vivos, não meramente um qualquer legislador, mas o mais alto legislador, nomeadamente, o Sumo Pontífice, contra cuja excomunhão nenhum príncipe pode proteger. […] O papa não tem o direito de me intimar por defender a verdade. […] Quando tantos suportam a morte em defesa de uma pátria terrena, não havia eu de correr perigo por amor da minha pátria celeste? Só em 1517 é que o livro de Valla foi publicado. Foi no crítico ano em que Lutero atacou as indulgências. Uma cópia chegou às mãos de Lutero, que viu pela primeira vez que muitas das suas crenças sobre o papado se baseavam em falsidades como a da Doação. Embora todos os eruditos se tivessem rendido aos argumentos de Valla, Roma não os aceitou; continuou a afirmar durante séculos a autenticidade da Doação. E foi pena, na medida em que a verdade sobre ela era muito mais incrível do que a série de mentiras que ela continha. A estória da lepra de Constantino e da sua subsequente cura baptismal foi uma invenção piedosa do século V. A lenda ficou perpetuada no baptistério de S.João de Latrão em Roma. Uma inscrição relata a maneira como o imperador lá foi baptizado pelo Papa Silvestre. Os factos são estes: Constantino foi um militar num tempo em que para a Igreja o derramamento de sangue era inaceitável. Talvez seja esta a razão por que ele adiou o baptismo para uma altura em que já estava à beira da morte e não tinha já forças para pecar ou matar mais alguém. Não muito tempo antes, a sua mãe, Helena, morrera com mais de oitenta anos. Só então é que o imperador se juntou aos catecúmenos, não na sede da Igreja, mas na distante Helenópolis, no Oriente. Foi aí baptizado não pelo papa, nem sequer por um bispo ou padre, mas por um bispo ariano herege chamado Eusébio. Morreu no último dia do período do Pentecostes no ano de 337. Isto lança algumas sombras sobre muitos dos mais significativos acontecimentos da história dos primeiros tempos da Igreja. Quando chamou aos bispos seus queridos irmãos e se intitulou ele próprio “Bispo dos Bispos”, nome de que os papas se apropriaram mais tarde, Constantino não era cristão nem sequer catacúmeno. Contudo, ninguém se lhe podia comparar em estatura e autoridade. Mesmo o Bispo de Roma — que não havia de se chamar “o papa” ainda durante muitos séculos — era, em comparação, uma pessoa sem importância. Em termos civis, era vassalo do imperador; em termos espirituais, era, comparado com Constantino, um bispo de segunda categoria, com um título honorífico superior à maioria dos outros bispos porque detinha a Sé Apostólica onde Pedro e Paulo tinham trabalhado e estavam sepultados. Como Burckhardt acentua na sua obra The Age of Constantine, o título de bispo ecuménico do imperador «não era uma simples maneira de dizer; na realidade, a Igreja não tinha qualquer outro centro de poder». Não era o papa, mas sim ele, tal como, mais tarde, Carlos Magno, que era o chefe da Igreja, a sua fonte de unidade, perante quem o Bispo de Roma se tinha de prostrar e jurar a sua lealdade.
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    47 Todos os bisposconcordavam em que ele era o «oráculo inspirado, o apóstolo da sabedoria da Igreja». Até ao fim da sua vida, Constantino construiu magníficas igrejas na Palestina e noutros locais e ao mesmo tempo construía templos pagãos igualmente magníficos em Constantinopla. Isto foi claramente entendido como a primeira afirmação da “Questão Romana”. O imperador foi considerado pessoa sagrada, Pontifex Maximus, outro título que o papa havia de assumir mais tarde. Daí que o imperador, e só ele, tivesse autoridade para convocar assembleias religiosas como o Concílio de Arles no ano de 314. Como diz um bispo seu contemporâneo: «A Igreja fazia parte do Estado. A Igreja nasceu dentro do Império e não o Império dentro da Igreja». Era, portanto, Constantino, e não o Bispo de Roma, quem marcava a data e o local dos sínodos da Igreja e até a maneira como os votos eram distribuídos. Sem a sua aprovação não podiam ser transformados em lei; ele era o único legislador do Império. Outro paradoxo da história é que foi Constantino, um pagão, quem inventou a ideia de um concílio de todas as comunidades cristãs. Só desta maneira, dizia-lhe o seu génio, é que a fé da Igreja seria formulada de maneira incontestável e para sempre. Nenhum bispo desse tempo teria pedido ao Bispo de Roma para decidir sobre espinhosas questões de crença. Depois de derrotar Licínio no Oriente em 321, Constantino convocou o Primeiro Concílio Geral da Igreja, que se realizou em 325 na Bitínia, num lugar chamado Niceia, que significa “Vitória”. Foi talvez a mais importante assembleia cristã da história. O Arianismo, uma heresia que subordinava o Filho ao Pai, tinha-se espalhado por todo o mundo. A controvérsia não foi simplesmente amarga, foi sangrenta. Ter os cristãos a guerrearem-se uns aos outros não era do interesse do imperador; eles deviam ser a força estabilizadora do Império. Ficou desanimado quando descobriu que, depois de os libertar das perseguições, estavam a despedaçar-se uns aos outros em nome da Santíssima Trindade. Em Niceia o Pai Fundador dos Concílios Ecuménicos reuniu 300 bispos, tendo providenciado transporte gratuito. Todos eles, à excepção de uma dúzia, eram do Oriente. Silvestre, o Bispo de Roma, não assistiu; enviou dois presbíteros. Silvestre não teve, sem sombra de dúvida, qualquer papel na convocação do Concílio, nem na sua direcção. Este foi completamente controlado por um imperador pagão que o realizou no grande átrio do seu palácio. Segundo o historiador Eusébio, ele era alto e magro, cheio de graça e majestade. Para fazer sentir a sua presença abriu os trabalhos «rígido no seu manto de púrpura, ouro e pedras preciosas». Cedo ficou claro que a maioria dos bispos era a favor da posição ariana. Constantino não tinha quaisquer preferências teológicas conhecidas, mas ergueu-se do seu trono dourado para pôr fim à discussão. Provavelmente queria apenas mostrar quem mandava. Propôs aquilo que veio a chamar-se «o ponto de vista ortodoxo» do facto de o Filho de Deus ser «de uma única substância» com o Pai. Todos os bispos dissidentes cederam, à excepção de dois que Constantino imediatamente destituiu mandando-os fazer as malas. Depois, escreveu para Alexandria, onde os Arianos ainda tinham apoio: «Aquilo que satisfez trezentos bispos não foi senão a vontade de Deus». O resultado não foi aquele que ele esperava. A “heresia” ariana continuou por gerações. E o mesmo se passou com a completa imersão do Estado nos assuntos da Igreja. A política eclesiástica substituiu as prioridades do Evangelho. A religião não era importante, o que era sumamente importante era a Igreja. O resultado, é Burckhardt quem o diz, foi uma «Igreja a desintegrar-se rapidamente na vitória». O preço da “conversão” de Constantino ao Cristianismo foi a perda da inocência. O cínico uso que fez de Cristo, com que toda a gente condescendeu, incluindo o Bispo de
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    48 Roma, significou umaprofunda falsificação da mensagem do Evangelho e a introdução de valores a ela estranhos. A partir de então, o Catolicismo floresceu em detrimento do Cristianismo e de Jesus, que não pretendia qualquer papel no mundo do poder e da política e que preferiu ser crucificado a impor as suas opiniões a quem quer que fosse. * * * Na altura em que Estêvão III se tornou papa, a Igreja já se tinha completamente convertido no Império Romano. A partir da Doação, é muito claro que o Bispo de Roma se parecia com Constantino: vivia como ele, vestia-se como ele, habitava os seus palácios, governava as suas terras, tinha exactamente o mesmo aspecto imperial. Também o papa queria ser senhor da Igreja e do Estado. Apenas setecentos anos após a morte de Pedro, os papas tinham-se tornado obcecados pelo poder e pelos bens. O pontífice passeava-se pomposamente pela terra, figura da mundanidade e da espiritualidade. Queria, literalmente, o melhor dos dois mundos, mas alguns imperadores controlaram a sua ambição. O Sacro Império Romano Carlos Magno tinha cinquenta e oito anos, estatura enorme para aquele tempo, cabeça redonda e cabelo branco, nariz comprido e olhos grandes e vivos. Inteligente e capaz de conversar em latim, fundador de universidades, nunca conseguiu dominar a leitura, nem nunca foi capaz, apesar de ter os melhores tutores, de escrever o nome. Nos cinquenta e três anos que se seguiram a Estêvão III, crescera a necessidade de auxílio militar por parte do papado. Os laços que ligavam Roma e Constantinopla, devido à distância e à diferença de pontos de vista, estavam já quase completamente quebrados. Carlos Magno, rei dos Francos, era homem para aproveitar a brecha para entrar. No ano 782 tinha feito prisioneiros quatro mil e quinhentos saxões, mandando-os decapitar nas margens do Rio Aller. Era perfeitamente capaz de tratar dos Lombardos, que continuavam a ameaçar o papado. O novo defensor da Igreja não era mais virtuoso do que Constantino. Tinha-se divorciado da primeira mulher e teve seis filhos da segunda. Depois de dispensar os serviços desta, teve duas filhas da terceira e ainda mais uma filha de uma amante. Sem filhos da quarta mulher, quando ela morreu mantinha quatro amantes — doze foi a sua conta ao longo da vida — e teve pelo menos um filho de cada. Einhard, o seu biógrafo franco que forneceu estes pormenores, insiste que ele sempre foi um pai dedicado. Alcuin, um inglês, o monge mais erudito da época, já há muito que tinha pressionado Carlos Magno a aceitar a coroa do Ocidente. Havia apenas três grandes homens no mundo, disse ele ao seu mestre, sendo dois deles o papa e o imperador de Constantinopla. «O terceiro é a dignidade real que por disposição de Nosso Senhor Jesus Cristo vos é conferida como governador do povo cristão; e esta é mais excelente do que as outras dignidades do poder, mais forte em sabedoria, mais sublime em categoria». O papa reinante, Leão III, estava ansioso pela vinda de Carlos Magno para Roma. Precisava de protecção contra os intrusos; também queria ter o seu nome limpo ao mais alto nível de insistentes acusações de adultério. Pouco antes de Carlos Magno chegar, Leão foi atacado por uma turba hostil. Rasgaram-lhe os olhos e cortaram-lhe a língua. O resultado foi que a coroação de 800 não teve nada do esplendor e do aparato da de
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    49 Napoleão quando em1804 este se coroou como “Imperador dos Franceses“ em Notre Dame de Paris. Carlos Magno estava ajoelhado em frente do túmulo de Pedro quando Leão, a tactear á procura da cabeça onde devia colocar a coroa balbuciou que Carlos Magno era Imperador e Augusto e ajoelhou a venerá-lo. Segundo Einhard, o seu mestre ficou vermelho de raiva. Mais tarde Einhard ouviu Carlos Magno dizer «que não teria ido à igreja naquele dia mesmo que se tratasse de uma festa solene [o Natal] se tivesse adivinhado os planos do pontífice». Ele queria as honras, claro, mas não à custa de ter de as receber de um vassalo. Tendo tido a maçada de vir a Roma para desculpar um miserável súbdito, não queria aparecer como objecto da sua bênção. Carlos Magno intuiu aquilo que os historiadores haviam de ver muito claramente. Com um golpe de mestre, Leão III estava a afirmar um poder que, nos seus sucessores, iria triunfar sobre os grandes soberanos temporais da terra. Carlos Magno não tardou a agir como governador supremo da Igreja, legislando, escolhendo de entre os nobres os bispos, arcebispos e abades. Tentou fazer com que os monges deixassem de fornicar e, pior, de praticar a sodomia. Também punia com a morte qualquer saxão que, fingindo ser cristão, se escusasse a ser baptizado. Carlos Magno cumpriu de todas as maneiras os desejos de Aluin. Agiu como chefe da Comunidade Cristã. Havia uma lógica nisto, na medida em que o antecessor de Leão, Adriano I, já lhe tinha dado, como recompensa por ele ter aumentado os Estados do Papado, o considerável privilégio de escolher o pontífice Romano. Acontece que o futuro da Europa foi escrito naquele momento de surpreendente ambiguidade em que um papa, criado por Carlos Magno, o coroou como imperador. Qual deles era o maior? De momento, não havia dúvidas acerca disso: Carlos Magno. Mas nos anos que se seguiriam, por este coup de théâtre, Leão tinha assegurado ao papado uma suada oportunidade de supremacia. Foi assim que a Basílica de S.Pedro viu o começo do Sacro Império Romano que, como até uma criança sabe, não foi nem sacro, nem romano, nem império. Havia de vir a durar mil anos, até que, em 1806, Napoleão destronou um monarca de Habsburgo e o dissolveu. Tinham passado então mil e quinhentos anos durante os quais o papado, não contente em confiar apenas no poder de Deus, se tinha apoiado nos príncipes para se proteger contra os portões do inferno. Mas os ataques mais ferozes contra a Igreja não vieram de fora; vieram de dentro — vieram de facto do próprio papado.
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    51 3 A Pornocracia Papal Avinte e cinco quilómetros de Roma, no cimo dos Montes Albanos, moravam no século X os famosos Conti, os Condes Alberico de Túscolo. Estes senhores da guerra tomaram completo controle das eleições papais. Desta única família saíram sete papas, três seguidos, e todos eles, quase sem excepção, ajudaram a dar forma à Roma Deplorabilis (“Roma da Vergonha”). A História desmente o mito popular de que Bórgia foi a maçã podre do papado. Não muito tempo depois de Carlos Magno, e durante bem mais de século e meio, toda a fornada foi podre. Eram discípulos mais de Belial, o Príncipe das Trevas, do que de Cristo. Muitos eram libertinos, assassinos, adúlteros, amantes da guerra, tiranos, simoníacos, prontos a vender tudo o que era sagrado. Quase todos eles estavam mais envolvidos com o dinheiro e a intriga do que com a religião. Com incessantes manobras políticas e uma obsessão pelas questões temporais, por meio do abuso do poder e com uma espantosa perversidade, os papas, supostamente o núcleo da unidade, corromperam toda a Cristandade. Foi o papado, e não a heresia, que finalmente abriu brechas na Igreja. Há realmente um mistério em tudo isto: como é que a Igreja do Ocidente, apesar dos papas, se conseguiu manter unida durante tanto tempo? Para começar, busquemos a ajuda de um exame a uma qualquer lista dos papas a partir do ano 880. Nos cento e cinquenta anos seguintes houve trinta e cinco pontífices que reinaram em média quatro anos cada. Já anteriormente se verificara o mesmo tipo de transmissões de poder; isto explica-se pelo facto de os papas serem escolhidos por serem já velhos e doentes. Mas nos séculos VIII e IX muitos papas andavam na casa dos vinte anos, e vários eram adolescentes. Alguns reinaram vinte dias, um mês, ou três meses. Seis deles foram destronados, e alguns outros assassinados. É de facto impossível saber ao certo quantos papas e antipapas (falsos) houve neste período, porque nessa altura não havia ainda um método de eleição fixo nem um número certo de pretendentes. Quando um papa desaparecia subitamente, não se sabia se lhe teriam cortado o pescoço e atirado ao Tibre; se teria sido estrangulado na prisão; se teria passado a noite num bordel; se lhe teriam cortado as orelhas e o nariz, como em 930 fizeram a Estêvão VIII, que, compreensivelmente, nunca mais mostrou a cara em público; se teria fugido, como Benedito V em 964, que, depois de desonrar uma jovem, partiu imediatamente para Constantinopla com todo o tesouro da Basílica de S.Pedro, para apenas voltar quando os fundos se esgotaram e provocar ainda mais estragos em Roma. Gerbert, o piedoso historiador da Igreja, chamou a Benedito «o mais iníquo de todos os monstros da impiedade», mas o seu juízo foi prematuro. Este pontífice foi por fim assassinado por um marido ciumento. O seu corpo, com centenas de punhaladas, foi arrastado pelas ruas antes de ser lançado para um esgoto. Estes pontífices constituem, sem dúvida, o mais desprezível grupo de líderes, religiosos ou leigos, da História. Eles eram, com toda a evidência, selvagens. A antiga Roma não se lhes comparava em podridão.
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    52 Estêvão VII eracompletamente louco. Desenterrou um seu antecessor corso, o Papa Formoso (891-6), mais de nove meses após a sua morte. Naquilo que veio a ser conhecido como o Sínodo Cadavérico, vestiu o fétido cadáver com todas as vestes pontifícias, colocou-o no trono em Latrão e fez-lhe pessoalmente um interrogatório. Formoso era acusado de se ter tornado papa por meios ilegais; era bispo em outro lugar e portanto inelegível para Roma. Segundo o Papa Estêvão, isto tornava todos os seus actos inválidos, especialmente as suas ordenações. Um diácono fala-barato, ainda adolescente, respondeu em nome de Formoso. Depois de considerado culpado, o cadáver foi condenado como antipapa, despido de todas as roupas excepto uma camisa de cilício colada à carne engelhada e, sem os dois dedos com que tinha dado as suas falsas bênçãos, foi lançado ao Tibre. Alguns admiradores de Formoso recuperaram o corpo, qual carcassa de carne, ainda inteiro graças à camisa de cilício, e fizeram-lhe um funeral discreto. Mais tarde foi trazido de novo para o seu túmulo na Basílica de S.Pedro. O próprio Estêvão foi estrangulado passado pouco tempo. Os papas mutilaram e foram mutilados, mataram e foram mortos. As suas vidas não se assemelhavam em nada aos Evangelhos. Tinham mais em comum com os modernos meninos ricos transformados em hooligans e rufiões que infestam os cafés de praia e clubes nocturnos do que com os pontífices tal como o mundo os vê hoje. Uns ficaram a dever a sua nomeação a pais ambiciosos, outros à espada, outros ainda à influência de belas amantes bem nascidas, naquilo que ficou conhecido como “O Reinado das Prostitutas“. Entre as cortesãs, salientou-se Marózia da família Teofilato. Segundo o Bispo Liutprand de Cremona, seu contemporâneo, ela fora bem treinada pela mãe, Teodora, que teve uma segunda filha, também chamada Teodora, do Papa João X (914-29). Aqueles que dizem que as mulheres nunca tiveram qualquer influência na maneira como a Igreja é governada nunca conheceram estas duas mulheres incrivelmente determinadas. Em menos de uma década, elas criaram — e, quando isso lhes conveio, destruíram — nada menos do que oito papas. No seu Decline and Fall, Gibbon sugere que foram estes “papas-fêmeas“ que condensaram a política do sexo que deu origem à lenda, ou sátira, da Papisa Joana. Durante vários séculos, até à Reforma, acreditou-se na existência deste pontífice feminino. Para os ingleses é uma consolação saberem que a única papisa foi uma bela rapariga anglo-saxónica. Reza a estória que, vestida a rigor com as vestes papais, ela deu à luz um filho quando viajava do Coliseu para a Igreja de S.Clemente e, coitada, morreu ali mesmo. Esta lenda gerou outras lendas. Em S.João de Latrão havia uma cadeira de mármore cor de sangue com um buraco no assento. Todos os papas recém-eleitos se sentavam nela para receberem a afirmação de obediência dos seus clérigos. Mas corria o boato de que depois da papisa Joana todos os papas eram obrigados a sentar-se nesta cadeira e a submeter-se a uma espécie de exame ginecológico para evitar que uma segunda mulher ascendesse ao trono papal. O exame — feito por cardeais-mulheres? — era acompanhado por orações em latim. De facto, há um completo ritual escrito que aparece em muitos manuscritos medievais com toda a seriedade. Uma outra interpretação mais prosaica desta cadeira era que ela era na verdade uma cadeira-sanita, símbolo visível do facto de o papa ter sido promovido da esterqueira, como um pedinte, e colocado por Deus entre os príncipes. Parece não haver qualquer obstáculo teológico ao desempenho do cargo de papa por uma mulher, mesmo, como diz João Paulo, estando as mulheres proibidas pela lei divina de serem padres. Muitos arcebispos e bispos não tinham ordens. Por exemplo, Adriano V aparece nas listas de pontífices, embora tenha reinado apenas seis semanas, de 11 de Julho a 18 de Agosto de 1276. Não era bispo, nem sequer padre, mas foi um papa legítimo.
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    53 A Bela Prostituta Marózia,a principal fonte da lenda da Papisa Joana, esteve primeiro intimamente envolvida com o papado na pessoa de Sérgio III (904-11). A barrar o caminho deste para o trono, estivera Leão V, que após um mês de reinado foi preso por um usurpador, o Cardeal Cristóvão. Sérgio procedeu a uma limpeza assassinando ambos. Sérgio exumou uma vez mais o Papa Formoso, já morto então há dez anos e fê-lo condenar outra vez. Como tinha sido ordenado por Formoso, Sérgio devia realmente ter-se considerado ilegítimo a si próprio, mas as argumentações teológicas eram estranhas à sua natureza. E ainda não satisfeito, mandou que decapitassem o cadáver e também lhe arrancou mais três dedos antes de o lançar ao Tibre. Quando o corpo sem cabeça ficou preso na rede de um pescador, o cadáver foi mais uma vez milagrosamente salvo, sendo pela segunda vez restituído à Basílica de S.Pedro. Marózia tinha quinze anos quando se tornou amante de Sérgio, que tinha quarenta e cinco. Dele, ela teve um filho a cuja carreira se devotou. Sérgio viria a morrer cinco anos mais tarde, depois de um pontificado de sete anos carregado de sangue, intrigas e paixão. Marózia nunca iria esquecer o seu amor da juventude. A relação íntima com o papa tinha-lhe dado um desígnio e uma satisfação que nem os seus três casamentos e inúmeras ligações amorosas posteriores conseguiram apagar. A primeira vez que o Papa Sérgio a seduziu foi no palácio de Latrão. Os seus caminhos tinham-se cruzado porque ela passara ali grande parte da juventude, dado que o pai era senador em Roma. Mas depois chegou a altura em que Sérgio se apercebeu de que aquela que outrora fora uma criança espantosa se tinha tornado uma mulher de uma beleza de cortar a respiração. Pela parte de Marózia, não era tanto o prazer que procurava nos braços papais, mas antes o êxtase do poder. A mãe, Teodora, já tinha feito e desfeito dois papas quando, em contravenção da lei canónica, pegou na mão do seu amante favorito e o levou do bispado de Bolonha ao arcebispado de Ravena e por fim à Cadeira de Pedro, como João X. Liutprand, Bispo de Cremona, escreveu: «Teodora, prostituta como era, temendo ter poucas oportunidades de partilhar a cama com o seu amado, obrigou-o a abandonar o bispado e tomar para si — oh, crime monstruoso - o papado de Roma». Isto aconteceu em Março de 914 quando Marózia tinha vinte e dois anos. Não se importou muito com isso; o filho dela e de Sérgio tinha apenas seis anos, muito novo ainda para o papado, mesmo nesses tempos ímpios. Foi neste ponto que os Albericos da Toscânia, oriundos do norte, entraram em cena. O Papa João sugeriu a Teodora, sua companheira de cama, que um casamento entre Marózia e Alberico poderia vir a ser benéfico para todas as partes. Marózia sabia reconhecer uma estrela em ascensão, e dessa união nasceu Alberico Júnior. Alberico Sénior, provavelmente induzido pela mulher, tentou prematuramente tomar o controle de Roma e foi morto. O Papa João obrigou a jovem viúva a ver o cadáver mutilado. Isto foi um erro. Uma mulher que dormira com o Papa Sérgio sabia tudo sobre a vingança. Quando Teodora morreu, em 928, Marózia mandou prender o pontífice e depois deu ordens para que fosse morto por asfixia. O seu primeiro filho tinha agora dezassete anos. Em breve, muito em breve, teria já a experiência suficiente para o papado. Uma vida totalmente sensual e imoral tinha-o preparado para isso. Os dois papas seguintes tiveram reinados curtos, tendo ambos desaparecido em circunstâncias misteriosas. Então, com vinte anos, o filho de Marózia e do Papa Sérgio tornou-se o Papa João XI. Mas Marózia tinha ainda outras ambições. Morto o seu segundo marido, Gui, casou com o meio irmão deste, o Rei Hugo da Provença. Hugo já era casado, mas foi fácil
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    54 despachar a mulher.Para Marózia foi uma sorte o filho ser o papa, pois este conseguiu dispensar o feliz casal de todos os impedimentos, tais como o incesto. O que é que podia impedir o seu novo marido de se tornar imperador e ela própria imperatriz? Isto era uma coisa que Sérgio teria desejado. João XI oficiou o casamento de sua mãe em Roma na primavera de 932. Depois tudo se desfez por causa do segundo filho de Marózia, o ciumento Alberico Júnior, de dezoito anos, que tomou o poder em Roma para se tornar o novo fazedor de papas. Hugo da Provença abandonou a mulher e fugiu em desgraça. Alberico pôs João XI, seu meio irmão e filho de uma papa, sob prisão permanente em Latrão — morreu aí quatro anos mais tarde — e, o mais cruel golpe de todos, mandou prender a própria mãe. Passado o seu apogeu, Marózia conservou a sua distinção quando pela primeira vez pisou o Mausoléu de Hadrian, popularmente conhecido como o Castel Sant’Ângelo. Iria ficar naquele terrível lugar junto ao Tibre, durante mais de cinquenta anos, sem um único dia de redução. Já tinha passado dos sessenta quando soube, na prisão, que Alberico tinha morrido aos quarenta e o filho, seu neto, chamado Octaviano, se tinha introduzido na Igreja como papa. Chamou-se João XII, tendo sido o primeiro pontífice a mudar de nome. Isto passou-se no inverno de 955. Ela virou as costas ao assunto e mergulhou no seu sonho de passadas glórias com o seu amante Sérgio. A juventude do novo papa pode explicar em parte o seu comportamento muito pouco religioso, uma vez que tinha apenas dezasseis anos quando assumiu o pesado cargo. Mosteiros inteiros passavam os dias a rezar pela sua morte. Mesmo para um papa desse período, ele era tão mau que os cidadãos queriam vingança. Inventou pecados desconhecidos desde o princípio do mundo, diziam eles, incluindo o de dormir com a mãe. Tinha um harém no palácio de Latrão. Jogava com as ofertas dos peregrinos. Mantinha uma coudelaria de dois mil cavalos que alimentava com almôndegas e figos passados por vinho. Recompensava as companheiras das suas noites de amor com cálices de ouro da Basílica de S.Pedro. Não fez nada pelo negócio turístico mais lucrativo da época, nomeadamente, as peregrinações. As mulheres em particular eram avisadas de que não deviam entrar em S.João de Latrão se prezavam a sua honra; o papa andava sempre em busca de uma presa. Chegou até a brindar ao Diabo em frente do altar-mor da igreja-mãe da Cristandade. O Papa João provocou tal ira que, temendo pela sua vida, saqueou a Basílica e fugiu para o Tivoli. Quando soube disto, Otão da Saxónia, de cinquenta anos — coroado imperador em S.Pedro em 961 — ordenou ao jovem que regressasse imediatamente. Não convinha aos seus planos ter um pontífice ausente; era mau para os negócios do império. Foi convocado um sínodo para pôr as coisas em ordem. Estiveram presentes dezasseis cardeais, todos os numerosos bispos italianos e muitos outros que foram recrutados na Alemanha. O Bispo de Cremona deixou um registo preciso das acusações feitas ao papa. Tinha dito missa sem comungar. Tinha ordenado um diácono num estábulo. Tinha levado dinheiro pelas ordenações. Tinha tido relações sexuais com uma quantidade de damas, incluindo a velha paixão de seu pai e a sua própria sobrinha. Tinha cegado o seu próprio director espiritual. Tinha castrado um cardeal, causando-lhe a morte. Todas estas acusações foram confirmadas sob juramento. Depois Otão escreveu a João uma carta que deve figurar entre as grandes curiosidades de todos os tempos.
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    55 Toda a gente,clérigos e leigos, acusa Vossa Santidade de homicídio, perjúrio, sacrilégio, incesto com parentes, incluindo duas de vossas irmãs, e de terdes, como um pagão, invocado Júpiter, Vénus e outros demónios. João respondeu ditando uma carta dirigida aos bispos e destituída de gosto e de gramática. Avisava-os de que se o depusessem os excomungaria a todos, impedindo-os assim de ordenar e celebrar missa. Depois montou num cavalo e foi caçar. Quando Otão por fim se cansou de esperar e voltou à Saxónia, a família de João reuniu um exército para lhe assegurar um regresso seguro a casa. Em Roma, retomou as suas funções Petrinas. Não satisfeito com uma coisa tão suave como a excomunhão, mutilou ou executou todos aqueles que tinham contribuído para o seu exílio. Papa nenhum foi para Deus numa situação tão embaraçosa. Uma noite, um marido ciumento, um dos muitos, apanhou Sua Santidade com a mulher in flagrante delicto e deu-lhe os últimos sacramentos com uma martelada na cabeça. Tinha ele vinte e quatro anos. Os Romanos, conhecidos pelo seu espírito selvagem, disseram que aquilo foi o clímax da sua carreira. Pelo menos teve a sorte de morrer na cama, mesmo sendo a de outrem. O Cardeal Belarmino no seu livro sobre o papado De Romano Pontifice, no século XVII, havia de dizer: «O papa é o juiz supremo para decidir as questões da fé e da moral». Este grande defensor do papado escreveu no mesmo livro: «Se o papa errasse impondo os pecados e proibindo as virtudes, a Igreja teria mesmo assim de considerar os pecados bons e as virtudes como vícios, senão pecaria contra a consciência». Não admira que os papas adolescentes fizessem tanta coisa impunemente. Contudo, mesmo Belarmino, que sabia tudo acerca dos Bórgias, teve de admitir que João XII «era a escória». Fuerit fieri omnium deterrimus. Com um monstro fora do caminho, os Romanos escolheram Benedito V para o substituir. Otão, sentindo-se enganado, ficou furioso. «Ninguém pode ser papa sem o consentimento do imperador» declarou ele. «Sempre assim foi». A sua escolha recaiu em Leão VIII. O Cardeal Barónio, no seu Ecclesistical Annals do século XVI, a que Acton chamou «a maior história da Igreja jamais escrita», sustentou que Benedito era o verdadeiro papa e Leão o antipapa. É difícil discutir isto. Contudo, Benedito prostrou-se aos pés de Otão e declarou-se um impostor. Para o provar, tirou as suas insígnias e confessou, de joelhos, perante Leão que ele, Leão, era o sucessor legítimo de S.Pedro. Não é muito claro se a afirmação genuína de um papa de que ele próprio não é legítimo é um exercício de infalibilidade, embora deva transmitir uma mensagem para toda a Igreja sobre a fé e a moral. Quando Leão e Benedito morreram, Otão colocou no trono João XIII. Não foi uma escolha sensata. Os romanos mandaram-no imediatamente fazer as malas. Otão trouxe- o de volta para apenas chegar à conclusão de que o instinto local estava correcto. O novo papa cometeu actos de uma crueldade incrível. Segundo Liutprand, nas suas crónicas, ele arrancava os olhos aos inimigos e passou metade da população à espada. Pouco depois de João XIII, veio Benedito VII, outro que viria a morrer em pleno acto de adultério às mãos de um marido furioso. O Cardeal Barónio ficou compreensivelmente embaraçado com os acontecimentos que relatou com notável honestidade. Chamou aos pontífices deste período “invasores da Santa Sé, mais apóstatas do que apóstolos” (non apostolicos sed apostaticos). Confessa que treme ao ter de escrever sobre eles. Na Cadeira de S.Pedro sentaram-se não homens mas monstros com a forma de homens. «Messalinas presunçosas cheias
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    56 de luxúria eastúcia em todas as formas da maldade governaram Roma e prostituíram a Cadeira de S.Pedro para seus lacaios e amantes. À luz dos decretos do Concílio Vaticano I, em 1870, as suas conclusões são surpreendentes. A principal lição destes tempos é que a Igreja pode viver muito bem sem os papas. O que é vital para a sobrevivência não é o papa mas Jesus Cristo. Ele é que é o chefe da Igreja, não o papa. Alguns séculos mais tarde, Barónio teria sido estigmatizado como herege. Agora a fé católica define-se assim: o papa é o chefe da Igreja na terra, o Vigário de Cristo, a Pedra sobre a qual a Igreja está edificada, o laço da unidade, o que preserva a fé e a moral. Mas o longo período em revista revela um retrato inteiramente diferente. Não só Barónio mas também o povo de Roma teriam rido de tamanha patetice. Para eles era evidente que as Portas do Inferno tinham prevalecido. Se isto não era a vitória do Príncipe das Trevas, o que é que o era, então? A única questão que os intrigava não era «Como é que o papa pode salvar a Igreja?», mas «Como é que o papa pode salvar a própria alma?» Durante todos estes tempos tempestuosos e outros que se seguiram, Marózia continuou na sua cela da prisão. Aquela que outrora fora a criatura mais arrebatadora do seu tempo, estava reduzida a um monte de ossos engelhado e viscoso envolto em trapos. Agora já nos noventa e cinco anos, a recordação de ter dormido com um papa e de lhe ter dado um filho que ela por sua vez fez papa também, deve ter-lhe dado forças para sobreviver. Abandonada, nunca, porém, foi completamente esquecida na alta roda do poder. Na primavera de 986, o Papa Gregório V, com vinte e três anos, e seu primo, o Imperador Otão III, com quinze, decidiram que a pobre velha já tinha definhado na prisão tempo suficiente. O papa mandou um bispo submisso exorcizá-la dos seus demónios e levantar-lhe a sentença de excomunhão. Foi absolvida dos seus pecados. Depois foi executada. O Papa-Menino Quase cinquenta anos mais tarde, em 1032, o Papa João XIX da Casa de Túscolo morreu. O Conde Alberico III pagou uma fortuna para manter o cargo na família. Quem melhor para preencher a vaga do que o seu próprio filho Teofilato? Raoul Glaber, um monge de Cluny, conta que, na altura da sua eleição, em Outubro de 1032, Sua Santidade Benedito IX tinha onze anos de idade. Segundo Monsenhor Louis Duchesne, Benedito era «apenas um garoto que em pouco tempo se havia de tornar diligentemente agressivo». Era um espectáculo singular: um miúdo que ainda nem adolescente era, que nem tinha ainda mudado de voz, era o principal legislador e governante da Igreja Católica, chamado a usar a tiara, a celebrar missa solene em S.Pedro, a conceder benefícios eclesiásticos, a nomear bispos e a excomungar hereges. As proezas de Sua Santidade com as damas provam que o papa-menino atingiu a puberdade muito cedo. Aos catorze anos, diz um cronista, já tinha superado em devassidão e extravagância todos os que o precederam.
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    57 S.Pedro Damião, umfino juiz do pecado, exclamou: «Esse miserável regalou-se com imoralidades do princípio ao fim da sua vida». Outro observador escreveu: «Um demónio do inferno disfarçado de padre ocupou a Cadeira de Pedro». Teve muitas vezes de sair de Roma à pressa. A primeira vez, nas festividades de S.Pedro e S.Paulo em 1033, um eclipse do sol que deu ao interior da Basílica um tom fantasmagórico de açafrão foi o pretexto para o expulsar. Quando regressou, alguns nobres tentaram derrubá-lo durante a missa. Falharam. Quando Benedito foi de novo varrido de Roma, o exército do Imperador Conrado empurrou-o de novo para lá. Em 1046, tendo sido uma vez mais expulso por saque, assassínio e opressão, voltou para o seu Túscolo natal. Na sua ausência, os Romanos escolheram outro pontífice, Silvestre III, um homem dos Montes Sabinos. Decidiram que era de longe melhor violar a lei canónica e ofender a divindade do que suportar Benedito IX. Depois de cinquenta dias felizes, o papa-menino foi reposto pela família, que persuadiu Silvestre a ir-se embora. Por fim, Benedito quis resignar. Tinha debaixo de olho a sua bela prima, filha de Girard de Saxo. Girard deu o seu consentimento na condição de que o papa abdicasse. Num surpreendente ataque de escrúpulos, Benedito decidiu verificar se esse era um dos seus direitos. Consultou o seu padrinho, João Graciano, Arcipreste de S.João ad Portam Latinam. Graciano era um homem notável; completamente analfabeto, vivia em castidade, como um lírio entre espinhos. Graciano assegurou-lhe que tinha o direito de resignar. E mais, já tinha um sucessor alinhado. E bateu no peito. Feliz por resignar, Benedito exigiu um prémio de despedida de uma a duas mil libras (peso). Depois de uma difícil negociação fixou-se na totalidade da Caixa das Esmolas de Pedro na Inglaterra. Nenhuma colecta feita pelos católicos ingleses foi alguma vez tão bem empregue. Por entre manifestações de júbilo, Benedito, depois de se dispensar da obrigação de celibato, abdicou no Primeiro de Maio de 1045. «Devotado ao prazer,» havia de escrever o Papa Victor II, «preferiu viver mais como Epicuro do que como bispo… Saiu da cidade e mudou-se para um dos seus castelos no campo». João Graciano, agora Gregório VI, foi alvo de severas críticas. Muitos papas houve que compraram o papado; nenhum, senão ele, jamais o tinha comprado de volta. Gregório argumentava que tinha feito um favor à Igreja. E Benedito salientava que não tinha sido pago para sair; tinha simplesmente recuperado a despesa original feita pelo pai. Gregório poderia ter conseguido os seus intentos se Benedito, agora o civil Teofilato de Túscolo não tivesse sido rejeitado pela sua amada dama. Estava determinado a voltar. Com Silvestre ainda no activo, havia agora três reclamantes ao trono: Silvestre em S.Pedro, Gregório em Latrão e Benedito à espera do momento propício nos Montes Albanos. Entretanto em Roma os cofres estavam vazios; toda a gente, desde os papas ao mais insignificante porteiro, era simoníaca; todos os clérigos tinham pelo menos uma amante; e as igrejas estavam a cair. Neste momento crítico, entra em cena Henrique da Alemanha. Era conhecido por duas coisas: detestava a simonia e queria ser imperador mais do que qualquer outra coisa no mundo. A força venceu onde a exortação moral tinha falhado. Em Sutria, no caminho para Roma, convocou um sínodo. Sob a sua direcção, Silvestre foi julgado como impostor; foi reduzido à condição de leigo e condenado a passar o resto dos seus dias num mosteiro muito rigoroso, se havia algum assim. Benedito tinha resignado e, segundo Henrique, destruíra ele mesmo qualquer possibilidade de regresso. Quanto a Gregório VI, Henrique agradeceu-lhe o ter livrado a
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    58 Igreja de umapeste mas não devia ter usado da simonia para o fazer. Isto era motivo para resignação. Literalmente confrontado com o poder temporal, Gregório declarou: «Eu, Gregório, bispo, Servo dos servos de Deus, por causa da simonia que, por astúcia do demónio, entrou na minha eleição, decidi que devo ser deposto do bispado de Roma». Presente na sua queda estava o seu jovem capelão, o monge Hildebrando, o futuro Gregório VII. Viu o servo a bater no amo e nunca mais havia de o esquecer ou perdoar. Henrique escolheu Clemente II para novo pontífice. No dia da sua nomeação, coroou Henrique como imperador, após o que Henrique, antecipando Napoleão, colocou na própria cabeça o diadema que os Romanos usavam para coroar os seus patrícios. Com este gesto, Henrique mostrou que era ele o chefe da Cristandade; o Bispo de Roma era apenas o seu capelão particular. Levou o velho papa com ele para a Alemanha para evitar que se tornasse incómodo. Em breve Gregório morreu no exílio e, quando Clemente também foi para junto do Criador, Benedito atirou-se ao trono papal onde ficou mais oito meses. Henrique andava demasiado atarefado para tratar dele, mas mandou que o Conde Bonifácio de Túscolo obrigasse Teofilato a cumprir as leis de uma vez por todas. O novo papa, Dâmaso II, depressa deu o último suspiro — envenenado, dizia-se, por Benedito. Provavelmente foi apenas o clima. Com a sua morte, Benedito tinha mais uma vez o caminho livre, mas decidiu desistir. Retirou-se para o mosteiro de Grotta Ferrata onde, segundo se dizia com alguma ambiguidade, a sua vida foi um exemplo para o resto da comunidade. Neste momento negro do papado, parecia que Deus se apiedara da Igreja. Mandou dois pontífices considerados por muitos historiadores católicos como os maiores que a Igreja alguma vez produziu: Gregório VII e Inocêncio III.
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    59 4 O Apogeu doPapado Foi o único papa que se canonizou a si próprio, mas é mais lembrado como um homem obcecado por uma única recordação que o perseguiu durante quase quarenta anos até que veio a morrer como o pontífice mais venerado da história. A recordação que praticamente transtornou a cabeça de Hildebrando, o Papa Gregório VII, foi a do seu homónimo Gregório VI a ser deposto e humilhado em 1046. O pecador que isto fez foi o Imperador Henrique III, que pôs uma marioneta no trono em sua substituição. Foi isto que o atormentou enquanto jovem, quando acompanhou Gregório VI no exílio na Alemanha; e também quando entrou para os beneditinos de Cluny e ascendeu gradualmente a prior. E ainda lhe doía quando, chamado a Roma, foi conselheiro durante mais de dezoito anos de quatro papas e por fim o seu chanceler. Esta amarga recordação veio sobretudo à tona quando na Basílica de Latrão apinhada para o funeral de Alexandre II, em 1073, a congregação exclamou espontaneamente: «Hildebrando é o papa. S.Pedro escolheu-o». Em circunstâncias normais Hildebrando teria rejeitado aquela maneira tão grosseira de escolher um pontífice. Tinha convencido um papa anterior a deixar a escolha exclusivamente ao Colégio dos Cardeais. Mas naquela altura aceitou «a vontade de S.Pedro». O novo papa, homem de muito pequena estatura, homuncio, não perdeu tempo e mandou sem demora uma mensagem ao jovem Imperador Henrique IV solicitando o seu reconhecimento. Nada em toda a sua vida foi feito tão a contragosto como apresentar uma petição a um inferior ímpio; ele, Hildebrando, que era o maior homem da terra. Porquê fazê-lo se era contra os seus princípios? Porque não queria que se levantasse qualquer dúvida subsequente sobre a sua legitimidade. Mas não estava longe o dia do ajuste de contas, o dia em que o cordeiro se transformaria em leão. Os conselheiros de Henrique avisaram-no de que Hildebrando era perigoso. Como era um asceta tratava os outros como se tratava a si próprio — abominavelmente. O inexperiente imperador não lhes deu ouvidos. Não é verdade que o pai tinha deposto um papa e nomeado sucessivamente os três seguintes? Como é que ele podia perceber que estava ali um pontífice cujos braços iriam crescer cada vez mais e que caminhava sobre andas? Gregório VII foi o último papa cuja eleição teve de ser confirmada pelo imperador e cuja consagração se realizou na presença de legados imperiais. Depois de obter a aprovação que desprezava, Gregório estava decidido a fazer vergar os príncipes de uma vez por todas. Para ele, todos eram corruptos. Tinham direito a menos respeito do que o mais mesquinho exorcista, que pelo menos expulsava os demónios e não lhes oferecia hospitalidade principesca. Os monarcas apenas desejam dominar, dizia este orgulhoso pontífice. Seria necessária uma magnanimidade obscena da parte de Deus para salvar um só que fosse das chamas eternas. Tudo o que eles fazem radica no orgulho e contudo o que é que eles têm para oferecer? Um rei moribundo vai ter com o mais humilde padre de aldeia para se confessar. Quando é que mesmo uma mulher leiga vai ter com o imperador para lhe pedir o perdão de Deus? Onde é que está o imperador que pode garantir a salvação ou fazer o Corpo e o Sangue de Cristo com um simples movimento dos lábios? Qualquer desmiolado percebe que os
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    60 padres são superioresaos reis. Então, a que distância acima de todos eles é que está o papa, sucessor de Pedro? Não era seu dever reduzir os príncipes ao seu real tamanho para lhes dar uma lição de humildade? Aquela recordação inapagável fez com que este homem de vontade inflexível desprezasse toda a autoridade civil. E um dia, estava decidido a isso, iria vingar-se. Gregório VII e a sua escola de falsificadores Desde os seus tempos de rapaz na Toscânia, Hildebrando, que era filho de um carpinteiro de aldeia, sempre teve uma devoção apaixonada por S.Pedro. Como Príncipe dos Apóstolos, o poder de Pedro não tinha limites. Era o Pastor-chefe, podia unir e desunir no céu e na terra. Quando Hildebrando se tornou papa, elaborou um Dictatus, ou lista, de vinte e sete teses que esquematizavam os seus poderes como vigário de Pedro. Entre elas estavam as seguintes: O papa não pode ser julgado por ninguém na terra. A Igreja Romana nunca errou, nem pode errar até ao fim dos tempos. Só o papa pode depor os bispos. Só ele tem direito às insígnias imperiais. Pode destronar imperadores e reis e dispensar os seus súbditos dos juramentos de fidelidade. Todos os príncipes são obrigados a beijar-lhe os pés. Os seus legados, mesmo não sendo padres, têm precedência sobre todos os bispos. Um papa eleito legitimamente é, sem dúvida, um santo assim tornado pelos méritos de Pedro. Esta santidade, afirmava ele tê-la experimentado de maneira esmagadora na sua eleição. Esta foi, aliás, uma ideia que os seus sucessores deixaram cair como se fosse carvão a arder. Tais afirmações eram muito estranhas, na medida em que Hildebrando tinha conhecido o papa-menino Benedito IX. É difícil saber se ele tinha consciência de que a maior parte das suas teses eram baseadas em documentos falsificados. O menos que se pode dizer é que a sua ingenuidade era alarmante, especialmente se tivermos em conta aquilo que o Novo Testamento diz sobre os erros de S.Pedro. Estas falsificações faziam crer que as suas pretensões em relação ao poder absoluto eram baseadas em antigos registos zelosamente guardados nos arquivos de Roma. Durante sete séculos, os Gregos chamaram a Roma a pátria das falsificações. Sempre que tentavam falar com Roma, os papas apresentavam documentos falsos, e até alguns acrescentos a documentos conciliares que os Gregos, naturalmente, nunca tinham visto. Gregório foi mais longe do que a Doação de Constantino. Ele tinha toda uma escola de falsificadores mesmo debaixo do seu nariz a produzir documentos atrás de documentos, com o aval do selo papal, para alimentar todas as suas necessidades. Os líderes da escola eram Anselmo de Lucca, sobrinho do pontífice anterior, o Cardeal Deusdedit e, depois deles, o Cardeal Gregório de Pavia. Se o Papa Gregório (e mais tarde Urbano II) precisavam de qualquer justificação para uma acção contra um príncipe ou um bispo, logo estes prelados produziam, literalmente, o documento apropriado. Não era necessário procurar; era tudo feito ali mesmo.
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    61 Muitos documentos maisantigos eram retocados para ficarem a dizer o contrário daquilo que originalmente diziam. Alguns destes documentos mais antigos eram, eles próprios, falsificações. A escola de Hildebrando tratava todos os papeis, forjados ou genuínos, com uma desonestidade totalmente imparcial. O 1984 de Orwell foi antecipado de nove séculos, não num qualquer estado ímpio, às ordens do Big Brother, mas no coração do Catolicismo Romano e a favor do papa. Este método expedito de inventar a história foi extraordinariamente bem sucedido, especialmente quando as falsificações eram imediatamente inseridas na lei canónica. Por meio de inúmeras mudanças subtis eles fizeram com que o Catolicismo parecesse imutável. Mudaram o “hoje” para “sempre foi e será”, o que mesmo agora, contrariamente às descobertas da História, é a marca peculiar do Catolicismo. Assim se cumpriu a serena e mais longa de todas as revoluções, toda ela feita no papel. Isto não teria sido possível numa época de literacia universal, de imprensa, de fotocópias, de datação por carbono; foi possível sem o mínimo sobressalto numa época de raros manuscritos, de erudição nula, e quando até alguns imperadores não sabiam ler nem escrever. Gregório não ficou isento de uma fraude própria. A mais influente de todas as falsificações foram os Decretais Pseudo-Isidorianos, de origem francesa, de que Roma se apossou avidamente e que Gregório, que «não podia errar», tomou como autênticos. Consistiam de 115 documentos alegadamente escritos pelos primeiros bispos de Roma, a começar por Clemente (88-97). Outros 125 documentos tinham acrescentos falsificados que aumentavam o poder e o prestígio do papado. Segundo o falsificador, os primeiros papas proibiram todo o comércio com uma pessoa excomungada. Em 1078, Gregório, sabendo que não havia precedentes para isso, estendeu este princípio aos imperadores e aos reis. Se um papa excomungava um imperador e os seus súbditos ficavam proibidos de tratar com ele, para que servia esse imperador? Apenas lhe restava ser destronado, o que Gregório gostava muito de fazer. Mesmo os papistas mais ardentes acharam que era difícil perdoar tal coisa. Gregório confundia deliberadamente dois códigos de leis, o canónico e o civil, e fazia de um princípio espiritual de excomunhão uma arma política. Nas suas mãos esta arma foi devastadora. Depôs o imperador grego, bem como Baleslaus, o rei polaco, proibindo a Polónia de voltar a intitular-se reino. Semeou a intranquilidade civil em país após país; houve rebeliões e guerras civis. Avançando por momentos no tempo, os documentos forjados em Roma nesta altura foram sistematizados nos meados dos anos 1100 em Bolonha por Graciano, um monge beneditino. O seu Decretum, ou Código de Lei Canónica, facilmente se pode considerar como tendo sido o livro mais influente alguma vez escrito por um católico. Estava salpicado de três séculos de falsificações e conclusões delas retiradas com os seus próprios acrescentos fictícios. Das 324 citações que ele faz dos papas dos primeiros quatro séculos só onze são genuínas. Entre os seus acrescentos pessoais havia uma série de cânones que tratavam todas as pessoas excomungadas como hereges. Isto era alarmante tendo em vista a maneira como os hereges eram tratados. Urbano II já tinha decretado nos fins do século XI que eles deviam ser torturados e mortos. Graciano inventou de forma notável uma maneira de aumentar o poder papal. O papa, declarou ele com a aprovação de Roma, é superior a todas as leis e a sua fonte sem restrições. Portanto tem de estar em pé de igualdade com o filho de Deus. Esta
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    62 apoteose tornou-se ainspiração da Cúria, que agia em nome do papa. Todo o plumitivo era, em certo sentido, um deus. Avançando ainda mais, para o século XIII, o Decretum foi a fonte de Tomás de Aquino para as citações dos Padres e dos papas quando escreveu o seu magistral Summa Theologica, a segunda mais famosa obra de um católico. Tomás de Aquino, que pouco ou nada sabia de grego, foi induzido em erro por Graciano, especialmente no que diz respeito ao papado. Claro que Aquino teve uma enorme influência na Igreja, especialmente durante o Concílio Vaticano I, quando a infalibilidade papal foi definida. Uma pequena ironia: no seu Summa, Aquino diz que os hereges deviam ser executados com os mesmos fundamentos dos falsários. Os hereges não falsificam dinheiro, mas uma coisa muito mais preciosa: a fé. Não perguntava quais eram os castigos apropriados para os criminosos que forjaram os documentos que induziram em erro a Igreja, ele próprio incluído, geração atrás de geração. As falsificações de Gregório tinham a vantagem de ser simultaneamente originais e sacrossantas, novas e contudo antigas. Não era sensato da parte de um príncipe opor- se ao papa quando anteriores pontífices como Inocêncio I e Gregório o Grande tinham deposto um imperador e um rei. Não que eles tivessem feito tal coisa, embora Gregório VII tivesse um documento a prová-lo. Os próprios falsários acreditavam de todo o coração que Gregório tinha o poder de depor monarcas, e se com um toque de caneta aqui e ali eles podiam ajudar um mundo ímpio a acreditar o mesmo, onde é que estava o mal? A História tornou-se um ramo menor da Teologia e assim ficou desde então. Afinal, mesmo a História não pode contradizer a verdade infalível. Daí que nos anos de formação do Cristianismo Católico Romano toda a discussão fosse abafada pelas “citações“ que eram imediatamente fabricadas. O desenvolvimento não veio espontaneamente, foi antes metido à força em padrões preestabelecidos. A tradicional sujeição dos papas aos Concílios Gerais em matérias de fé e de moral foi invertida. Opiniões controversas e por vezes absurdas tornaram-se dogmas; opiniões parciais eram consagradas como ensinamentos católicos intemporais e irreversíveis. Fabricar a História não é uma pequena coisa. Mal foi eleito, Gregório VII começou a reformar tudo. Primeiro, para assegurar que a Igreja nunca fosse despojada dos seus bens, tentou eliminar a “fornicação“ universal, isto é, o casamento do clero. A lei do celibato do clero tinha sido praticamente esquecida, mas não por Gregório. Se os padres não emendassem o seu comportamento seriam suspensos e os leigos não poderiam aceitar o seu ministério. Era como se os padres deixassem de ser padres. Perguntava um crítico: «Será que o papa diria que um homem que peca deixa de ser homem?» O resultado desta legislação foi, de acordo com Ray C. Petry, «fazer das inocentes mulheres dos pequenos clérigos desnorteados e zangados potenciais prostitutas aos milhares». Diz Lecky: «Quando Hildebrando separou as mulheres dos padres e as deixou arruinadas, inconsoláveis e desesperadas, muitas delas recorreram ao suicídio para acabar com a sua agonia». O clero germânico queria saber onde é que Gregório, depois de suspender os homens do sacerdócio, iria buscar os anjos para os substituir». Um grupo de bispos italianos reuniu-se em concílio em Pavia em 1076 e excomungou o papa por separar maridos e mulheres e por preferir a licenciosidade entre os padres ao casamento respeitável. Se Gregório tivesse concretizado a sua ameaça de suspender os padres incontinentes, teria praticamente varrido o Catolicismo do mapa. Feliz ou infelizmente, a sua campanha não obteve sucesso duradouro. O celibato podia ele impor, mas não a
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    63 castidade. Contudo, porvia do celibato, conseguiu garantir o perpétuo sistema de apartheid no Catolicismo entre os clérigos que têm direitos e os leigos, homens e mulheres, que os não têm. Curiosamente, foram mais leigos do que padres os que se separaram das mulheres, talvez por se deixarem impressionar mais pelos ideais ascetas de Gregório. Os padres, depois de uma acalmia, continuaram a seguir a ideia de que o que faziam na cama só a eles dizia respeito. A seguir, Gregório voltou-se para a simonia, a compra e venda de coisas sagradas. Para os cardeais a excomunhão para estes casos parecia excessiva, pois eles sabiam que tudo, a começar pelo próprio papado, tinha muito naturalmente o seu preço. Contra uma prática velha de séculos, Gregório excomungava qualquer membro do clero que recebesse uma remuneração de um leigo, fosse ele duque ou príncipe. Isto fazia parte da sua busca de poder absoluto. Ninguém da Igreja podia dever lealdade a ninguém a não ser a ele próprio, Gregório. Contrariando uma tradição de mil anos, obrigou todos os bispos a um voto pessoal de lealdade ao papa. A partir de então, eles eram bispos por «concessão da Sé Apostólica». De um só golpe, os bispos diocesanos, sucessores dos apóstolos, perderam a independência que nem o Vaticano II conseguiu restaurar. A partir de Gregório VII, e apesar dos desmentidos, o papa é realmente o bispo de todas as dioceses. Qualquer membro do clero que entre em conflito com o papa sobre qualquer assunto pode ser demitido com a mesma facilidade com que foi nomeado. Se isto não é ser o bispo de facto, será difícil saber o que é que o é realmente. O grande confronto Gregório andara mais de trinta anos à espera de uma oportunidade para desafiar o imperador. Finalmente, acusou Henrique IV de simonia e de interferir nos assuntos da Igreja. Henrique ficou genuinamente espantado. Imiscuíra-se de facto, mas não fez nada mais do que os imperadores desde Constantino sempre tinham feito. Não é verdade que lhe tinham pedido o seu consentimento para a eleição de Gregório, e ele a tinha concedido? O que é que levava este papa a pensar que lhe podia dar ordens? Melindrado, Henrique convocou um concílio em Worms e declarou nula a eleição. Não tinha sido previamente consultado, na sua qualidade de imperador. Gregório respondeu com um anátema sobre Henrique seguido de uma carta circular. Em nome de Deus omnipotente, proíbo Henrique de governar os reinos de Itália e Alemanha. Dispenso todos os seus súbditos de todos os votos que façam ou tenham feito, e excomungo todos aqueles que o sirvam como rei. Isto foi a bomba papal daquele tempo. Os imperadores tinham destituído muitos papas: Gregório tinha testemunhado um desses sacrilégios. Nunca antes um papa ousara depor um imperador. Qual seria o resultado disto? Havia bons presságios. A mãe de Henrique, a Imperatriz Agnes, pôs-se ao lado do papa, assim como a prima, a temível Matilde, Condessa da Toscânia. Para desgosto de Henrique, aquele louco de Roma estava a obter bons resultados mesmo na Alemanha. Os príncipes começaram a denunciar a sua fidelidade. Para consolidar a sua vantagem, Gregório apoiou Rudolfo, Duque da Suábia e vassalo de Henrique, como primeiro sucessor ao trono.
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    64 Henrique, agora comvinte e um anos, compreendeu que estava encostado à parede. Aproximava-se o aniversário da sua excomunhão, altura em que perderia o reino oficialmente e para sempre, a menos que fizesse a paz com o papa. Com uma pequena comitiva, atravessou a Borgonha e passou um natal familiar agradável, mas apreensivo, em Besançon. Depois, a meio do Inverno de 1077, atravessou os Alpes. Com ele, seguiam a mulher e o filho bebé, Conrado. Os guias camponeses tiveram de escavar uma passagem na neve e puxar a rainha num trenó de pele de boi. Caíram por ravinas e perderam a maior parte dos cavalos. Uma vez em Itália, reuniram-se ao enorme exército Lombardo que esperava que ele viesse pôr o papa no seu lugar. Mas ele desiludiu-os. Gregório estava protegido dos Lombardos dentro das paredes triplas da fortaleza de Matilde, em Canossa. Esta fortaleza erguia-se no cume de uma colina escarpada, matizada de vermelho, nos contrafortes dos Apeninos. Trinta quilómetros para noroeste ficava Parma, invisível no meio das brumas daquele inverno particularmente rigoroso. Em Canossa Henrique apelou à paz. Através de intermediários Gregório impôs as regras. Henrique devia enviar a coroa e demais adereços reais para Sua Santidade se desfazer deles. Devia confessar publicamente que era indigno de ser imperador depois do seu vergonhoso comportamento em Worms e finalmente devia prometer cumprir a penitência que lhe fosse imposta pelo papa, fosse ela qual fosse. Depois de manifestar o seu acordo, Henrique subiu a branca encosta até à fortaleza, temeroso e só. Passada a primeira portada, detiveram-no no cercado seguinte. Muito acima dele apareceu o papa com todos os adereços pontifícios para saborear a sua humilhação. Com um vento de leste a assobiar à sua volta, Henrique foi despojado das suas insígnias reais e obrigado a despir-se. Atiraram-lhe uma túnica de lã tão grosseira como uma camisa de cilício. Veste isso. Gregório, com a sua própria camisa de cilício bem chegada às costas fustigadas e escondida pelas roupas, apenas gesticulou, não se dignando a falar para alguém que não estava em comunhão com Deus e com a Igreja. Henrique, a bater o dente, a pele roxa do frio, obedeceu. Em cabelo e descalço, estava de pé, enterrado na neve até aos tornozelos, envolto no pano de cilício de mendicância e penitência. Tinha numa das mãos um vasculho e na outra uma tesoura de tosquiar, símbolos da sua vontade em ser chicoteado e ciliciado. E o imperador do Sacro Império Romano, herdeiro de Carlos Magno, ali esteve três dias e três noites, em jejum do nascer do sol até muito depois das estrelas começarem a brilhar, num espectáculo tão deplorável que os parentes nas ameias choravam sonoramente, incapazes de continuar a olhar. Hora após hora, Henrique com os cabelos e sobrancelhas hirtos do gelo, rezou a Deus e ao papa por misericórdia com estremecidos suspiros. Mais tarde, naquele mesmo ano, Gregório fez um relato das suas próprias acções numa carta aos príncipes germânicos: As pessoas que intercederam por Henrique murmuraram sobre a grande crueldade do Papa. Algumas ousaram mesmo dizer que tal comportamento era mais próprio da bárbara crueldade de um tirano do que da justa severidade de um juiz eclesiástico.
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    65 O que endureceuGregório foi a distante lembrança do que o pai de Henrique fizera ao seu antecessor. Como dizem os italianos, a vingança serve-se fria. Só quando a sua anfitriã Matilde ao quarto dia alegou que o primo morreria se continuasse por mais tempo na neve é que o papa se compadeceu. Henrique foi arrastado para dentro, um monte de carne gelada, para se apresentar esfarrapado perante o pontífice de tiara na cabeça. Esbelto e bem parecido, aquele dominava o feio anão moreno da Toscânia com o seu grande nariz e olhar fixo e frio. Henrique teve de jurar que se submetia ao julgamento do papa em data e local a anunciar. Entretanto, não podia exercer a sua soberania até que o papa se pronunciasse. Como Maquiavel observou na sua História de Florença, «Henrique foi o primeiro príncipe que teve a honra de sentir a estocada cortante das armas espirituais». Mas Henrique também tinha o seu orgulho. Só pediu ao papa que mandasse levantar a condenação. Regressado à pátria, iniciou um campanha contra Rudolfo, o que fez com que Gregório lhe impusesse de novo a condenação. Numa batalha à distância, Henrique convocou um concílio para depor o papa. O Bispo Berno de Osnabrüch escondeu-se debaixo dos panos do altar da Catedral de Brixen até que terminassem os trabalhos contra Gregório e depois reapareceu como que por magia. Henrique escolheu Guibert de Ravena para ser o papa Clemente III. Com este procedimento, Gregório profetizou que Henrique morreria nesse ano. Ao invés disso, depois de duas estrondosas vitórias, Henrique marchou sobre Roma e pôs Clemente no trono. Gregório, velho, cansado e abandonado pelos seus cardeais, fugiu para Salerno, no Reino de Nápoles. Tinha sido papa durante doze anos. Era um típico verão napolitano, mas ele nunca tinha sentido tanto frio desde que estivera nas ameias de Canossa. Arrogante até ao fim, deu a sua absolvição à raça humana «excepto ao chamado rei Henrique», a quem, para que não ficassem dúvidas, excomungou pela quarta vez. Nem mesmo um pontífice com poderes divinos podia redimi-lo. Contrariando factos que são conhecidos, murmurou: «Amei a justiça e odiei a iniquidade e por isso morro no exílio». Esta falta de lógica não escapou a um assessor episcopal. «Como no exílio, se todo o mundo é vosso?» Gregório morreu em 25 de Maio de 1085. Gregório é tido em grande consideração pelos católicos. O seu prestígio reside no seu ascetismo, nas suas invectivas contra a simonia e a fornicação dos padres, na sua tentativa de fazer recuar a maré de séculos de imoralidade papal, na sua capacidade de, por força de uma única ideia, destronar monarcas. É também o expoente clássico do Catolicismo Romano, que praticamente criou. Nunca teve uma dúvida ou uma opinião; tinha sempre a certeza de tudo. Contudo, deixando de parte as falsificações que sustentaram as suas duvidosas pretensões, mesmo os seus admiradores têm de admitir que antes dele o trono e o altar eram aliados. Os papas e os príncipes nunca deixaram de medir forças e por vezes lutaram como tigres. Primeiro, um usurpava as terras do outro, depois invertiam-se os papeis. Mas, como representantes sagrados de Deus, nunca eles duvidaram de que, em certo sentido profundo e sagrado, estavam ligados. Gregório começou a estilhaçar essa frágil harmonia. Vira um imperador destronar um papa e havia de destronar um imperador desse por onde desse. Se tivesse posto um imperador no seu lugar, teria ficado acima de qualquer crítica. Mas fez muito mais do que isso. Ao introduzir uma doutrina perniciosa e herética, pôs-se no lugar do imperador. Em nome do Homem Pobre de Nazaré, que renunciou a todos os reinos, reclamava-se não só de Bispo dos bispos, mas também de rei dos reis.
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    66 Parodiando os Evangelhos:o diabo levou-o ao cimo de uma alta montanha e mostrou- lhe todos os reinos do mundo e Gregório VII exclamou: São todos meus. Como escreveu Henry Charles Lea, o mais objectivo dos historiadores, na sua obra The Inquisition in the Middle Ages: «Devotou a sua vida à realização deste ideal [a supremacia papal] com um zelo ardente e um propósito inabalável que não recuou perante obstáculo nenhum, e a ele estava pronto a sacrificar não só os homens que se lhe atravessassem no caminho, mas também os princípios imutáveis da verdade e da justiça». Desta maneira, Gregório deitou à terra as sementes que, depois de florescerem trouxeram não só o fim da Cristandade, mas também a Reforma. O Bispo de Trier apercebeu-se do perigo. Acusou Gregório de destruir a unidade da Igreja. O Bispo de Verdun disse que o papa estava errado na sua incrível arrogância. A nossa crença é pertença da nossa Igreja, o coração, do nosso país. O papa, disse ele, não deve roubar a fidelidade do coração. E isto foi precisamente o que Gregório fez. Quis tudo; não deixou nada para os imperadores e para os príncipes. Ao minar o patriotismo, o papado, tal como ele o moldou, minou a autoridade dos governantes seculares; estes sentiam-se ameaçados pelo Altar. Na Reforma, em Inglaterra e em toda a parte, os governantes viram-se obrigados a banir o Catolicismo das suas terras para se sentirem seguros. Outro legado de Gregório VII foi a imposição do Romanismo na Igreja. Depois dele, um Catolicismo genuíno, um Catolicismo enraizado e enriquecido por cada localidade e por cada cultura já não era possível. Todas as igrejas tinham de seguir a norma romana, por muito estranha que ela fosse para as suas origens e experiência. O latim, o celibato, a teologia escolástica, tudo isto foi imposto a tal ponto que a unanimidade foi substituída pela uniformidade baseada em Roma. As mudanças operadas por Gregório reflectiram-se na linguagem. Antes dele, o título tradicional do papa era o de “Vigário de S.Pedro”. Depois ele, era o de “Vigário de Cristo”. Só “Vigário de Cristo” podia justificar as suas pretensões absolutistas, que os seus sucessores herdaram, não de Pedro nem de Cristo, mas, de facto, dele mesmo. Ele estabeleceu uma tendência. Nos cem anos que a ele se seguiram, os papas excomungaram nada menos do que oito imperadores, depondo vários deles, e sempre perturbando a comunidade cristã. Os historiadores registaram setenta e cinco batalhas sangrentas directamente relacionadas com a contenda de Gregório com o imperador. Um resultado final paradoxal das reformas do ascético Gregório: as suas pretensões absolutistas abriram o caminho para papas como o licencioso Alexandre Bórgia. Mesmo quando havia um Satanás no trono papal, quem é que se atrevia a questionar o Vigário de Cristo? Gregório VII teve de esperar cinco séculos para que fosse canonizado oficialmente por outro papa que não ele próprio. Esse papa, Pio V, também tinha uma propensão para depor monarcas com resultados igualmente desastrosos. Mas, de todos os louvores póstumos que recebeu aquele que Gregório teria guardado como mais precioso seria certamente o que lhe foi dado, não por outro pontífice, mas pelo maior inimigo da Igreja do século XIX. «Se eu não fosse eu próprio, gostaria de ser Gregório VII». Quem assim falou foi Napoleão após a batalha de Austerlitz. Se Napoleão escolheu Gregório em vez de Inocêncio foi provavelmente em resultado de moeda ao ar.
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    67 Inocêncio III, osenhor do mundo Foi o mais extraordinário encontro entre dois homens desde que Jesus esteve perante Pilato no Pretório. Aquele que envergava mantos reais no trono de púrpura era o mais poderoso homem do mundo; o outro, o que tinha vinte e sete anos e estava ajoelhado a seus pés de vestes esfarrapadas e remendadas como um mendigo tinha apostado em afirmar-se o mais pobre dos pobres. Foi no verão de 1209. O Papa Inocêncio III tinha finalmente concordado em receber aquele pobre homem enxovalhado que tinha fama de santo. Aquele esquelético requerente tinha cabelo escuro e sobrancelhas regulares, dentes brancos, orelhas pequenas mas salientes. A barba era rara e esparsa. Os olhos negros e a piscar cintilavam, a voz era forte e musical e dele irradiava uma alegria peculiar. Era um poeta, diziam alguns. Falava do Irmão Sol e do Irmão Vento. A Lua, a Água, a Terra e até a Morte eram suas irmãs. Dizia-se que pregava aos pássaros e aos animais selvagens e que estes o escutavam. O seu grande amor era a Pobreza, a que ele chamava a Dama mais rica e mais generosa do mundo. Inocêncio não se lembrava, mas já uma vez se tinha cruzado com este estranho homenzinho. Francisco conseguiu chegar ao Palácio de Latrão. O seu objectivo era ir direito ao topo para conseguir a aprovação para a irmandade religiosa que pretendia fundar. Cruzou-se por acaso com Inocêncio num corredor. Francisco viera de S.Pedro onde tinha trocado as suas roupas com um mendigo cujos trapos estavam ainda mais mal cheirosos e andrajosos do que os dele. O pontífice fungou e expulsou-o. Só Ugolino, cardeal de Óstia, o conseguiu convencer a conceder uma audiência a Francisco. Ugolino, o futuro Gregório IX, também não compreendia Francisco, mas pensava que ele tinha alguma coisa a oferecer à Igreja. Nunca havia de o compreender, nem mesmo quando o canonizou com reservas, em 1228. A entrevista com Inocêncio III foi curta. O papa não concordava nem discordava de Francisco e do seu amor pela pobreza. Tinha coisas mais importantes na cabeça. Como, por exemplo, governar o mundo. O Cardeal Lothaire tinha sido eleito por unanimidade em 8 de Janeiro de 1198. Inocêncio, tal como o papa-menino Benedito IX, pertencia à família dos Albericos de Túscolo, uma família que havia de vir a gabar-se de ter tido treze papas, três anti-papas e quarenta cardeais. Aos trinta e oito anos, Inocêncio era o mais jovem membro do Sacro Colégio. Era baixo, entroncado, bem parecido, eloquente, de olhos cinzentos duros e queixo firme. Tinha estudado nas melhores universidades de Paris e Bolonha. De temperamento impetuoso, com grandeza estampada em todo ele, nasceu para governar a qualquer preço. Depois da sua sagração em S.Pedro, Inocêncio foi coroado numa tribuna cá fora. O Cardeal Arcediago tirou-lhe a mitra e substituiu-a pelo principesco Regnum. Originalmente feito de penas de pavão brancas, era agora um diadema com jóias, encimado por um carbúnculo. «Toma esta tiara», entoou o Arcediago num ritual que teria surpreendido S.Pedro, «e fica a saber que tu és o Pai de príncipes e reis, Governador do Mundo, o Vigário na Terra do nosso Salvador Jesus Cristo, cuja honra e glória perdurarão por toda a eternidade». O pontífice, discípulo de Gregório VII, nunca duvidou que aquela blasfémia lhe era devida.
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    68 Ele era areencarnação de Constantino. A famosa mofa de Thomas Hobbes em Leviathan parece justificada: «O Papado não passa de um fantasma do falecido Império Romano, coroado e sentado sobre o túmulo deste». Com as suas vestes a brilhar de ouro e jóias, Inocêncio montou um cavalo branco coberto de vermelho e reuniu-se à cavalgada pela cidade engalanada ao longo da Via Papae, que serpenteava sob os velhos arcos imperiais. Na Torre de Estêvão Petri, um velho rabino, com os ombros envoltos no códice do Pentateuco, avançou para lhe prestar homenagem. «Nós reconhecemos a Lei», declarou Inocêncio formalmente, «mas condenamos os princípios do Judaísmo; porque a Lei já foi cumprida por meio de Cristo, que o cego povo de Judá ainda espera como seu Messias». O rabino, de olhos no chão, agradeceu ao pontífice as suas amáveis palavras e retirou-se, não fossem ainda mandar açoitá-lo. O cortejo prosseguiu atravessando o Fórum. Roma, tal como Inocêncio a herdou, não era mais do que um vasto campo por cultivar rodeado pela muralha Aureliana cheia de brechas e coberta de musgo. O pontífice decidiu mandar limpar o local e construir ali, para a família, uma torre, Torre de’ Conti, que dominasse toda a cidade. Passando por montes de entulho de templos, balneários e aquedutos destruídos, Inocêncio contornou o Coliseu e dirigiu-se para Latrão. Aí recebeu o voto de fidelidade do Senado Romano, prelados e príncipes beijaram-lhe os pés e depois de distribuir dádivas pelos pobres e menos pobres convidou os nobres para um banquete. O pontífice ficou isolado, como é próprio das divindades. O serviço era do mais caro. O príncipe mais velho presente serviu-lhe o primeiro prato antes de tomar o seu lugar à mesa com os cardeais. Inocêncio não comeu muito; a sua saúde nunca foi muito boa. Compensava um corpo frágil com a mais férrea vontade que um pontífice alguma vez teve. Já estava a planear tornar o seu título mais querido, o de “Governador do Mundo”, uma realidade. O papado estava praticamente impotente quando da sua posse. O seu primeiro objectivo, tal como o de muitos papas antes e depois dele, era restaurar os seus domínios temporais. Pouco tempo depois já ele tinha feito de Roma um estado clerical. Um crítico do Senado queixava-se deste modo: «Ele depenou Roma como um falcão depena uma galinha». Passados dois anos era ele, e não o imperador, o senhor de Roma e da Itália. Mas nem tudo correu como ele queria. Em princípios de Maio de 1203, durante um curto levantamento dos cidadãos romanos, teve de fugir para Palestrina. No ano seguinte andava demasiado doente para ouvir as estórias sobre a maneira como os cavaleiros da Quarta Cruzada tinham cometido o mais bárbaro dos crimes medievais: o saque de Constantinopla. Na grande catedral de Santa Sofia violaram túmulos de imperadores, roubaram relíquias, violaram e mataram mulheres, incluindo freiras. A cidade mais prestigiada do mundo foi arrasada por soldados católicos que pareciam pensar que os cismáticos não tinham direitos neste mundo nem no próximo. Isto, que foi o primeiro grande exemplo de vandalismo civil dentro da Cristandade, nunca foi esquecido pelos gregos. E Inocêncio não ajudou nada ao nomear um veneziano para Patriarca Latino de Bisâncio. Dois anos mais tarde, Inocêncio fez a paz com a cidade de Roma e voltou para retomar o seu cargo. O exílio apenas tinha feito aumentar o seu ardor pela dominação. Os primeiros papas não desgostavam de ser chamados de “Vigário de S.Pedro”. Ele
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    69 rejeitou o título.«Nós somos os sucessores de Pedro, mas não os seus vigários, nem os de qualquer homem ou apóstolo. Nós somos o Vigário de Jesus Cristo perante quem todos os joelhos se hão-de dobrar». Mesmo — melhor, especialmente — os joelhos de reis e imperadores. A Igreja, dizia ele, é a alma e o Império apenas o corpo do mundo. A Igreja é o sol e o Império uma lua morta que reflecte a luz da grande Orbe, a Igreja de Cristo. Os ensinamentos de Inocêncio sobre a sociedade contradiziam a Bíblia. Para ele, o poder dos príncipes é uma forma de usurpação; só o poder do clero provém de Deus. Isto era maniqueísmo aplicado às relações entre a Igreja e o Estado. A Igreja, espiritual, era boa; o Estado, material, era essencialmente obra do Demónio. Este puro absolutismo político minava a autoridade dos reis. Tomadas seriamente, as suas teorias conduziriam à anarquia. Inocêncio não pensava assim, claro, porque se sentia capaz de dirigir a Igreja e o Estado. Era este o seu objectivo expresso. Mas com que pretexto poderia ele governar a sociedade secular? A resposta era esta: o Pecado. Onde quer que houvesse pecado, o papa era omnipotente. E onde é que, na Igreja e no Estado, não havia pecado? Convinha-lhe pintar os soberanos nas cores mais negras. Isto dava-lhe o direito, quanto a ele, de legislar para todo o mundo. Precisava de instrumentos maleáveis. Escolheu Otão IV para imperador porque ele prometeu fazer tudo o que o papa mandasse. Otão foi o primeiro “Rei dos Romanos” a ser chamado de “eleito pela graça de Deus e do papa“. Passado um ano Otão revoltou-se alegando, com razão, que a sua promessa não tinha base legal. Inocêncio excomungou-o e escolheu outro. E havia também de coroar Pedro de Aragão e o Rei de Inglaterra. Nem mesmo Gregório VII tinha conseguido dominar o rei de Inglaterra. Guilherme, o Conquistador, recusou ser seu feudo dizendo: «Eu devo o meu reino a Deus e à minha espada». João, que foi coroado quando Ricardo Coração de Leão morreu em 1199, era de calibre diferente. João Lackland, que tinha apenas um metro e sessenta de altura, era, segundo as palavras de um cronista, “um rei trapaceiro”. Mimado em criança, cresceu desregrado, rabugento e imprevisível. Tinha os olhos enviesados como um oriental e uma pele sempre pálida num rosto de raposa. Só em matéria de higiene é que não dava motivo a críticas; era conhecido por tomar oito banhos por ano. O seu desequilíbrio ficou patente na coroação. Contrariando o protocolo, recusou os sacramentos. Em momentos solenes, dizia gracejos obscenos. O seu desprezo pela Igreja já era evidente dez anos antes quando casou com a prima Isabel de Gloucester sem a devida dispensa. Uma ano após se ter tornado rei, apaixonou-se pela jovem e bela, e já noiva, Isabel de Angoulême. Depois de arquivado o seu próprio decreto de nulidade, casou com a sua segunda Isabel e fez dela a sua rainha. Quando Inocêncio mostrou o seu desagrado, João compensou-o enviando um milhar de homens para as Cruzadas e construindo uma abadia cisterciense com dinheiro roubado. Inocêncio consentiu tacitamente a segunda união. O papa acabou por entrar em conflito com João, não por causa do casamento, mas por motivos de dinheiro. O rei andava a interferir com as liberdades da Igreja — uma maneira de dizer que ele andava a cobrar impostos ao clero para pagar as suas guerras com a França. Quando João nomeou o seu próprio candidato para a sé de Canterbury o papa achou que já era demais e nomeou Stephen Laughton, que João se recusou a reconhecer. Inocêncio deu-lhe três meses para mudar de ideias, caso contrário iria sentir toda a força da lei canónica. Longe de ceder, João expulsou do reino os monges de Canterbury.
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    70 Todos, à excepçãode um bispo, se puseram ao lado de Inocêncio e partiram para o exílio. Assim começara um conflito de sete anos entre o rei e o papa. Inocêncio mostrou até onde podia ir o seu espírito implacável, interditando toda a Inglaterra. Foi uma punição de uma severidade incrível. Já a aplicara à França, que interditara por oito meses pouco depois da sua eleição. João jurou «pelos dentes de Deus» que se algum bispo divulgasse esta punição em Inglaterra mandaria ao papa todos os clérigos com os olhos arrancados e os narizes cortados. Quando a interdição foi publicada, no Domingo de Ramos de 1208, a primeira reacção de João foi confiscar os bens da Igreja com a ajuda da cobiça dos barões. Ele próprio, vítima intencional do castigo, divertiu-se imenso. Lançou impostos sobre o clero, não enviando nada para Roma. O seu divertimento favorito era correr as paróquias à noite e tirar da cama dos párocos as esposas canonicamente ilegais — as focariae (companheiras). Se estes cavalheiros tonsurados quisessem as mulheres de volta tinham de pagar um alto resgate. Isto não era muito diferente das estropelias do oficial de diligências do arcediago, o mais odiado dos funcionários. Quando este desencantava a amante de um padre — e a sua média de sucesso era extremamente alta — cobrava- lhe uma “renda de pecado“ de duas libras por ano. O sofrimento atingiu a maior parte da Inglaterra. E as vítimas foram crianças e adultos. A religião, distracção e refrigério do povo, foi ilegalizada. As igrejas, únicos pontos de encontro, foram fechadas e trancadas contra tudo excepto os morcegos nas torres e os falcões que faziam ninho nos cumes das catedrais. Esta censura silenciou o mais encantador dos sons de toda a Inglaterra: o dos sinos. Não mais se ouviu na cidade e nos campos o dobre de finados ou o repicar do Gabriel de Angelus, nem a música com sabor a bronze, mas subtil, dos campanários, que afogava os gritos das gaivotas e dos corvos e que, segundo a crença popular, esvaziava a pressão do ar das tempestades. Os moribundos eram ungidos, os penitentes absolvidos e os recém-nascidos baptizados. Quanto ao resto, a Inglaterra tornou-se um estado pagão. Com oito mil catedrais e igrejas paroquiais fechadas, milhares de padres e clérigos menores ficaram desempregados. Não se realizavam serviços religiosos no Natal nem na Páscoa, não se diziam missas, nem mesmo nos conventos e mosteiros, não se dava a comunhão, não se celebravam casamentos, não havia sermões, nem se ensinava a doutrina; não se realizavam procissões nem peregrinações a santuários como o de Ely, Walsingham ou Canterbury. Os mortos eram envoltos nas suas mortalhas e enterrados como cães. Passou o verão, veio o inverno e voltou o verão sem uma única celebração cristã. Esta longa Sexta-feira Santa imposta pelo papa na sua misericórdia viria a durar, na Inglaterra, seis anos, três meses e catorze dias. À interdição seguiu-se a excomunhão do rei, em Outubro de 1209. Três anos depois, o papa depôs João e sugeriu a Filipe de França que se preparasse para o expulsar e tomar o trono da Inglaterra. Quem obedecesse ao papa tinha garantidas as mesmas indulgências dos Cruzados. A Inglaterra ansiava ver-se livre de um tirano que dormia com a mulher de qualquer homem quando muito bem lhe apetecia. Arrancava um a um os dentes dos judeus ricos que não lhe apareciam com o dinheiro. Fazia reféns e, quando houve um levantamento no País de Gales, mandou enforcar vinte e oito jovens, filhos de chefes galeses no Castelo de Nottingham no verão de 1212. Enquanto Filipe reunia as suas tropas junto da foz do Sena, João jogou a sua cartada mais forte: pediu a Roma que lhe enviasse um legado para fazer a paz.
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    71 Satisfeitíssimo, o papaenviou o Cardeal Pandulf. No dia 13 de Maio de 1213, perante uma assembleia de barões e povo, em Dover, João capitulou. Prometeu a restituição integral dos fundos e das terras da Igreja. Dois dias mais tarde, assinou de bom grado um segundo documento em que entregava a própria Inglaterra «a Deus e ao Nosso Senhor Papa Inocêncio e aos seus sucessores católicos». E selou o documento, não com o habitual selo de cera, mas com um selo de ouro. João prometia que, daí em diante, ele e os seus sucessores deteriam os seus domínios como vassalos do papa e pagariam uma renda anual de mil marcos pelo privilégio. Esta vitória deu a Inocêncio um enorme prazer, mas foi mais um exemplo de excesso papal. A suserania papal sobre a Inglaterra terminou efectivamente em 1333, ano em que Eduardo III se recusou a pagar ao papa qualquer renda. Quando o papa Urbano V impassivelmente pediu o pagamento de trinta e três anos de dívidas atrasadas, Eduardo, depois de consultar os seus assessores concluiu que a doação da Inglaterra feita por João à Santa Sé ia contra o seu juramento da coroação e, portanto, era inválida. Os papas não concordaram e esta questão viria a contribuir directamente para a secessão da Inglaterra da fé católica no reinado de Isabel I. Para esta não era importante ser chamado de feudo do papa ou pensar que a Inglaterra esteve apenas arrendada a um potentado estrangeiro. Filipe de França ficou furioso com Inocêncio III. Tinha despejado sessenta mil libras no Canal, mas não se atreveu a pôr pé em solo inglês, e agora papal. Embora João fosse absolvido da excomunhão, a interdição manteve-se até Junho de 1214, altura em que ele pagou o resto do dinheiro. Só então é que as portas da igreja se abriram, se cantou o Te Deum, e os sinos voltaram a tocar. E por gentil permissão do Papa Inocêncio III, Cristo pôde de novo entrar em Inglaterra. Entretanto, o ódio dos barões a João atingiu um tal ponto que eles elaboraram a Magna Carta, que garantia os direitos da Igreja e do povo, especialmente os dos barões, e obrigaram João a apor-lhe o selo real. Nos termos da Carta, o rei, tal como todos os homens livres, estava sujeito às leis; e o corpo da lei não podia ser secreto, tinha de ser conhecido. João, agora piamente católico, informou naturalmente Sua Santidade. Inocêncio, quando soube, exclamou: «Por S.Pedro, nós não podemos deixar passar tal insulto sem punição». O documento, muitas vezes considerado como a fundação das liberdades inglesas, foi formalmente condenado pelo papa como «contrário à lei moral». O rei, explicava ele, não era, de modo nenhum, súbdito dos barões e do povo. Só o era de Deus e do papa. Consequentemente, os barões que tinham erradamente retirado prerrogativas a um vassalo do papa tinham de ser punidos. Numa Bula, Inocêncio, «na plenitude do seu poder e autoridade ilimitados, os quais lhe foram cometidos por Deus para sujeitar e destruir reinos, para plantar e extirpar», anulou a Carta; dispensou o rei de a cumprir. Excomungaria «quem quer que continuasse a manter tais pretensões traidoras e iníquas». Tem de se concluir que todos os ingleses continuam excomungados. Stephen Langton, Arcebispo de Canterbury, recusou-se a publicar a sentença. O poder do papa não era ilimitado, dizia ele. «A lei natural vincula príncipes e bispos igualmente: não há que fugir disto. Está acima do próprio papa». Langton foi suspenso. Para Inocêncio, que já dominara reis, os bispos foram uma pêra doce. Intitulou-se “Bispo Universal”, título repudiado por muitos dos primeiros pontífices. Com Inocêncio, a Igreja alcançou o ideal de Gregório; tornou-se uma diocese única. Inocêncio promulgou mais leis do que cinquenta dos papas que o precederam; ele próprio não estava sujeito
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    72 a qualquer lei.Até hoje, foram publicadas seis mil das suas cartas. O seu alcance é extraordinário. Depõe e substitui bispos e abades. Impõe penas para um vasto leque de ofensas. Por exemplo, um homem de nome Roberto foi capturado pelos Sarracenos, junto com a mulher e a filha. O chefe sarraceno promulgou uma ordem segundo a qual, devido à fome, os prisioneiros com filhos deviam matá-los e comê-los. «Este malvado», escreveu Inocêncio, «impelido pela agonia da fome, matou e comeu a própria filha. E quando, em outra ocasião, saiu outra ordem, matou a própria mulher; mas quando a sua carne foi cozinhada e lhe foi servida não conseguiu comê-la». Parte da sua penitência foi que nunca mais comeria carne. Nem nunca mais poderia voltar a casar. Inocêncio completou o seu domínio sobre a Igreja no Quarto Concilio de Latrão em 1215. Uma assembleia massiva de mil e quinhentos prelados escutou educadamente os seus decretos e aprovou-os sem uma pergunta ou uma palavra de debate. Uma das leis que eles aprovaram foi que todos os católicos tinham de confessar os seus pecados ao padre local e comungar pelo menos uma vez por ano. Desta maneira, os leigos ficaram sujeitos aos clérigos, os clérigos aos bispos e os bispos ao papa. Os únicos dissidentes eram os hereges. A segunda parte deste livro tratará da glória maior do reinado de Inocêncio, nomeadamente, o esmagamento dos Albigenses no Sul de França. Centenas de milhar deles foram mortos pelo fogo ou à espada por sua ordem. Na qualidade de único depositário da verdade, Inocêncio sentiu-se no direito de erradicar as heresias por quaisquer meios à sua disposição. Foi ele que deu um novo impulso à Inquisição e injectou no Catolicismo um tipo especial de intolerância que iria durar séculos. Inocêncio III, estadista de génio, pontífice de «uma espantosa força de vontade», governou o mundo com uma majestosa tranquilidade por um período de perto de vinte anos. Durante a maior parte do tempo cercou a Cristandade de terror. Coroou e depôs soberanos, interditou nações, criou praticamente os Estados Papais em toda a Itália central, do Mediterrâneo ao Adriático. Não perdeu uma única batalha. Perseguindo os seus objectivos, fez derramar mais sangue do que qualquer outro pontífice. Desvirtuou profundamente os Evangelhos, a Igreja, o papado e até a distinção entre o bem e o mal. A prodigiosa perversão que operou em tudo isto revela-se claramente numa simples afirmação de cortar a respiração: «Todo o clero tem de obedecer ao Papa, mesmo que ele ordene o que é mau; porque o papa não pode ser julgado por ninguém». Estava em Perugia quando o seu fim chegou, em Julho de 1216. Tinha-lhe chegado a notícia de que os Franceses tinham ousado uma vez mais assaltar o seu reino de Inglaterra. Como que para se retirar com sangue, fez uma comunicação final contra Luís e Filipe Augusto: «Espada, espada, salta da tua bainha. Espada, espada, afia-te e extermina». Ao morrer, deve ter voltado o olhar pisco, por sobre o vasto manto da Planície da Úmbria, para a pequena cidade sonolenta de Assis, aninhada na encosta de uma colina. Talvez uma distante lembrança o tenha feito estremecer. Aquele dia em que um pedinte de olhar brilhante veio ter com ele para lhe pedir o reconhecimento de uma irmandade que queria fundar. E ele concedeu-lho ou não? Posto na grande balança das coisas, isto não pode ter sido importante. O pedinte que ele expulsou do Palácio de Latrão, que não era uma ameaça para ninguém e que teria preferido morrer a privar alguém da consolação da religião, iria em breve sofrer no corpo as feridas do Cristo crucificado. Dele disse Dante no Paradiso: «Nacque al mondo un Sole» («Nasceu um Sol para o mundo»).
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    73 Inocêncio III, overdadeiro “Augusto do papado”, já só é conhecido dos historiadores. Mas não há ninguém que não tenha ouvido falar, com alegria e afeição, de Francisco de Assis. * * * Os sucessores de Inocêncio continuaram as suas pretensões absolutistas, e vieram mesmo a aumentá-las. Gregório IX (1227-41), que canonizou o Pobre Homenzinho de Assis, declarou solenemente que o papa é o dono e senhor do universo, das coisas bem como das pessoas. Inocêncio IV (1243-54) decidiu que a Doação de Constantino estava mal apelidada. Constantino não deu poder secular aos papas; eles já tinham o poder secular supremo vindo de Cristo. Só faltava o papa a quem Dante chamou a Besta Negra, Bonifácio VIII, para selar o absolutismo papal.
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    75 5 O Poder emDeclínio Benedito Gaetani foi coroado papa, com o nome de Bonifácio VIII, em 1294. Jacopone da Todi, o poeta que escreveu o famoso hino Stabat Mater, observou que nenhum nome lhe podia assentar tão mal. A sua não era nada uma “boa cara“. Alto e corpulento, tinha, aos oitenta anos, o olhar mais frio jamais visto num homem. Llanduff, um cardeal da Cúria, disse dele esta coisa notável: «Ele é todo língua e olhos e o resto está tudo podre». Uma vez recusou-se a confirmar a nomeação de um bispo metropolitano simplesmente porque não gostou da sua cara e disse-lhe isso mesmo. Até um cardeal com uma deficiência, por exemplo, com artrite numa perna ou uma corcunda, podia ser ridicularizado sem misericórdia. Dizia missa com ardor e lágrimas nos olhos como se estivesse no Calvário e estivesse a ver Jesus crucificado. Acabada a missa, era capaz de atirar com as cinzas da penitência para a cara de qualquer arcebispo que lhe desagradasse. Segundo F. M. Powick, «Era admirado por muitos, temido por todos e amado por ninguém». Bonifácio era calvo e tinha as orelhas espetadas num rosto oval inflamado da arrogância própria de alguém que sabe que não tem igual na terra. «O coração do pontífice romano», decretou ele, «é o repositório e fonte de toda a lei. Esta a razão por que a submissão cega à sua autoridade é essencial para a salvação». No Jubileu de 1300, encontraram-no sentado no trono com a coroa de Constantino na cabeça, uma espada na mão e a repetir impiedosamente: «Eu sou o pontífice, eu sou o imperador». As suas vestes eram das mais dispendiosas, vindas de Inglaterra e do Oriente, e andava coberto de peles e pedras preciosas. Quando falava, cuspia as palavras pelo espaço onde lhe faltavam dois dentes no maxilar superior. O seu antecessor, Celestino V, dizia sobre ele: «Saltaste para o trono como uma raposa, vais reinar como um leão e morrerás como um cão». Poucos papas fizeram enriquecer tanto os familiares como Bonifácio. Um diplomata espanhol dizia: «Este papa só se preocupa com três coisas: uma vida longa, uma vida rica e uma família bem dotada à sua volta». Conhecido como “O Pecador Magnânimo”, Magnanimus Peccator, não perdeu tempo e logo fez de três sobrinhos cardeais, outorgando-lhes vastas terras e bens. Nas palavras de Dante, ele fez do sepulcro de Pedro um esgoto. Era um libertino, que uma vez teve como amantes uma mulher casada e a filha desta. Num daqueles comentários de improviso por que era conhecido disse: «Fazer sexo é como esfregar as mãos». Depois, quando envelheceu, o seu único passatempo era, além de fazer dinheiro, fazer inimigos. O médico espanhol que lhe salvou a vida tornou- se o segundo homem mais odiado de Roma. Apesar de toda a sua aparente autoconfiança, Bonifácio teve uma preocupação que o acompanhou até ao fim da vida. Muitos prelados desconfiavam que ele tinha astuciosamente induzido o seu antecessor a resignar. Trata-se de uma das mais estranhas estórias da história da Igreja Católica e que começou no ano de 1292 com a morte do Papa Nicolau IV. O conclave, que se realizou em Perugia, não chegou a acordo quanto a um sucessor. Os onze eleitores estavam divididos entre os Colonnas e os Orsinis de tal maneira que a discussão se prolongou sem resultado por semanas e meses. Benedito Gaetani
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    76 manteve-se à parte,talvez na esperança de, numa solução de compromisso, vir ele a ser escolhido. Depois de dois anos de impasse, Gaetani fingiu ter recebido uma “carta inflamada” de um velho eremita. Pedro de Morone, que vivia escondido numa gruta nos Abruzzi, tinha fama de santo. Na pretensa carta exigia que os cardeais dessem um papa à órfã Igreja. Em vez de Gaetani, o Deão propôs, com sucesso, o próprio Pedro de Morone. No verão de 1294 partiu de Perugia uma comitiva papal. Após uma viagem de 240 quilómetros e uma escalada de trezentos metros, encontraram o novo papa. Magro, esfarrapado, sujo, espreitava por entre as grades da sua cela improvisada como um macaco desnorteado. O odor de santidade não era agradável. A comitiva papal, encabeçada pelo Cardeal Pedro Colonna, ajoelhou com as palavras «Vossa Santidade». Quando percebeu que aquilo não era uma piada e que não estava a sonhar, Pedro de Morone aceitou. Tomou o nome de Celestino V. O novo pontífice não concordava com a vida licenciosa de Roma e assim insistiu em estabelecer-se em Nápoles. Gaetani, para conquistar a sua confiança construiu-lhe uma cela de madeira numa das enormes salas do Castello Nuovo, o castelo de cinco torres sobranceiro ao mar. Aí, nas palavras de um seu contemporâneo, Sua Santidade esperava esconder-se como um camponês nas moitas. Este era o seu ambiente e aqueles príncipes mundanos eram-lhe completamente estranhos. Não conseguia entender as frases em latim erudito que eles usavam. Esvaziou os estábulos e quando tinha de viajar, fazia-o de burro, como Jesus. A Igreja tinha mudado tanto desde os primeiros tempos que o próprio Jesus não caberia nela. Os cardeais depressa compreenderam o seu erro. Celestino estava a desfazer-se dos bens da Igreja dando-os a pessoas indignas, como os pobres e os monges empobrecidos com quem sempre andara associado. Não tinha jeito para a simonia. Iria levar a Igreja à bancarrota em três tempos. Ele nem frequentava os banquetes, preferindo mordiscar uma côdea de pão e beberricar água em retiro. Alguém tinha de fazer qualquer coisa, e quem melhor para essa tarefa do que Benedito Gaetani? Este abriu um orifício na parede da cela do papa e introduziu nele um tubo para por ele se poder falar. A meio da noite, sussurrava através do tubo: «Celestino, Celestino, resigna do teu cargo. É um fardo grande demais para ti». Depois de muitas noites a ouvir a voz do Espírito Santo, o simplório monge abdicou. Apenas quinze dias após a sua coroação convocara os cardeais e pedira-lhes, sem grande esperança de sucesso, que mandassem as amantes para conventos e vivessem em pobreza como Jesus. Trocou os mantos papais pelo seu grosseiro hábito de eremita, resignou e partiu. Gaetani, jurista de formação, tinha engendrado este final bem sucedido; e agora, sendo a antítese de Celestino, reclamava o trono por direito. Subiu ao poder em Dezembro de 1294 e regressou imediatamente a Roma. Mas, temendo que Celestino pudesse reaparecer acompanhado de espirituais fanáticos como Jacopone da Todi, tomou a precaução de o fechar no castelo de Fumone; o velho eremita aí morreu, poucos meses mais tarde, de fome e abandono. A família Colonna veio a saber a maneira como Gaetani tinha forçado Celestino a resignar e usou este conhecimento para questionar a sua legitimidade. Bonifácio VIII, apesar de todo o seu poder, nunca se sentiu seguro no trono papal. Os Colonnas eram descendentes dos Condes de Túscolo. Além de usurpar o trono, o seu trono, eles acusavam ainda Bonifácio de se apossar das suas terras à volta de Roma e de as doar a membros da sua família. Quando os Colonnas armaram uma emboscada a uma escolta papal que carregava ouro, Bonifácio tratou-os como turcos,
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    77 pregando uma cruzada,com indulgências, contra eles. Quando por precaução eles sairam furtivamente de Roma, acusou-os de conspirarem com os franceses para o destituírem. Em retaliação, mandou os exércitos para destruir as suas cidadelas nas colinas à volta de Roma, matando os camponeses nas suas terras ou vendendo-os como escravos. Em breve, só as muralhas rochosas de Palestrina podiam arcar com o santuário dos Colonnas. Os dois cardeais Colonna não tinham outro remédio: tiveram de pedir misericórdia. Dirigiram-se apressadamente para Rieti, onde o papa estava instalado, e prostraram-se a seus pés com cordas à volta do pescoço e envergando mantos negros de penitência. Bonifácio, com um olhar mais brilhante do que a tiara, poupou-lhes a vida mas tirou- lhes uma coisa que eles prezavam ainda mais: a honra. Expulsou-os do Sacro Colégio e quebrou os seus selos com um martelo. Depois viajou para Anagni, a sua cidade favorita, situada sobre o vasto vale do Sacco, sessenta e cinco quilómetros a oriente de Roma. Aí, no cume inferior do Monte San Giorgio, nascera e fora criado. Dirigiu-se à janela da sala superior do palácio papal, donde desfrutava uma vista arrebatadora da vegetação primaveril. Palestrina, um dos sete pilares da Igreja Romana, empoleirava-se na encosta de uma colina, rodeada de oliveiras e loureiros. Horácio escreveu uma das suas mais belas Carmina em louvor de Palestrina, e foi aí que, no século III, o menino-mártir, Agapito, foi assassinado por amor de Cristo. Depois de murmurar uma oração, o pontífice ergueu e deixou cair o braço qual divindade vingadora. Logo uma bandeira foi arreada nas muralhas do palácio, sinal para as forças do papa começarem a atacar Palestrina. Nada foi poupado. Houve relatos que falavam em seis mil mortos, embora muitos dos habitantes tivessem fugido para as regiões circunvizinhas. Os palácios, incluindo a casa de Júlio César, antiguidades e belos mosaicos, um templo circular da Virgem Maria no cimo de uma escadaria de mármore com cem degraus, tudo teve o mesmo fim. Só a catedral foi poupada. O resto foi tudo destruído de maneira tão cruel como a antiga Cartago. O solo foi lavrado e espalharam sal nos sulcos para a desolação ser completa. Ali iria nascer outra cidade, prometeu Bonifácio, uma Civitas Papalis, uma cidade que soubesse ser leal a Sua Santidade. Por este acto monstruoso na primavera de 1299, Dante enterrou Bonifácio VIII no Oitavo Círculo do Inferno, de cabeça para baixo, nas fendas da rocha. Três anos mais tarde, num dia frio de meados de Novembro do ano de 1302, Bonifácio estava de volta a Anagni. A sua disposição era de tal maneira abominável que nem a vista de uma Palestrina arrasada lhe aliviou o espírito. A que ponto estava a Cristandade a chegar quando ele não podia confiar no seu filho mais velho? A sua disputa com Filipe o Belo de França continuara a arrastar-se. O rei estava furioso com o pontífice por não o ter feito imperador como prometera. Por vingança tinha lançado impostos sobre o clero para financiar as suas campanhas militares. Bonifácio tinha retaliado seis anos antes com a sua Bula Clericis Laicos. Pegou nela e voltou a lê-la. Ainda ficava maravilhado com a sua intransigência. Gregório VII não podia ter feito melhor. «Os leigos sempre foram hostis ao clero». Tão verdadeiro, suspirou ele, no seu habitual tom sibilino. Filipe era um perfeito exemplo daquele princípio. Bonifácio tinha emitido excomunhões contra qualquer clérigo que pagasse um tostão que fosse a um leigo, fosse ele rei ou imperador. De facto ele decretou que se um monarca cobiçoso deitasse a mão a uma simples peça da baixela da Igreja seria imediatamente excluído de Jesus Cristo, e se não se arrependesse perderia o seu reino. Filipe ficou curado da sua loucura? De modo nenhum. Proibira a exportação de ouro e prata; o ladrão andava a embolsar todos os lucros da Igreja; e o pior de tudo é que
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    78 prendeu um bispo.A tremer de raiva, Bonifácio pegou na pena. Uma nova Bula. Esta seria dirigida à Igreja universal. Depois dele, muitos católicos, incluindo alguns papas, desejariam que ele nunca a tivesse escrito. A Bula “Unam Sanctam” e o fragor das espadas O pontífice estava sentado à secretária, absorto, e o único som que se ouvia era o da pena a arranhar o papel. As suas primeiras palavras iriam correr mundo: Unam Sanctam. «Só há uma única Santa Igreja Católica e Apostólica fora da qual não há salvação ou remissão de pecados». O melhor era fazer as suas alegações alto e bom som e de maneira clara. Ele, o papa, com Cristo e Pedro, era o único chefe da Igreja. Esta Igreja é a Arca da Salvação; alguém que esteja fora dela está condenado a afogar-se para sempre, especialmente os cristãos gregos que se recusam a admitir que o papa é o Pastor de todo o rebanho. Veio-lhe à ideia uma imagem menos pastoral. O olhar iluminou-se-lhe: as Duas Espadas. «Os apóstolos disseram a Jesus, "Estão aqui duas espadas". O Senhor não responde "É demais", mas sim, "Chegam!"» A exegese medieval raramente passou deste nível. Agora a pena corria. Aquele que nega que Pedro tem o poder da espada temporal está a interpretar erradamente as palavras do Senhor, «Embainha a tua espada». Ambas as espadas, a espiritual e a material, estão em poder da Igreja. A espiritual é manejada pela Igreja; a material para a Igreja. Uma pela mão do padre; a outra pela mão dos reis e cavaleiros segundo a vontade e consentimento tácito do padre. Uma espada tem de estar sob a outra; a material sob a espiritual, tal como a autoridade temporal em geral está sob a espiritual. Bonifácio fez uma pausa para olhar as ruínas de Palestrina. Que melhor prova da ordem correcta das coisas numa comunidade espiritual? «O poder espiritual», continuou ele, «tem de estabelecer o poder terreno e julgar se é bom ou não. Como disse Jeremias, "Vede, hoje pus-vos acima das nações e dos reinos"». Esperava que desta vez Filipe e todos os monarcas prestassem atenção às suas palavras. Um toque autoritário final para que as suas palavras não fossem mal interpretadas: «Nós declaramos, anunciamos e definimos que é absolutamente necessário para a salvação de todas as criaturas ser súbdito do Pontífice Romano». Para acentuar a sua autoridade, a Bula ia assinada do seu palácio de Latrão, no oitavo do seu pontificado. Chamando o secretário, um bispo, entregou-lhe a Unam Sanctam para copiar e distribuir por toda a Igreja. Em França a reacção não foi favorável. Um assessor do rei comentou: «A espada do Papa é feita apenas de palavras; a do meu Mestre é de aço». Filipe espalhou o boato de que Bonifácio tinha obrigado o seu antecessor a resignar, o tinha depois prendido e assassinado. Bonifácio é um tirano, declarou ele, um herege, uma presa de todos os vícios». O rei sabia que só as palavras não chegavam. Tinha de agir vigorosamente e com rapidez antes de ser excomungado. Convocou o seu chanceler, Guilherme de Nogaret. Em conjunto maquinaram uma trama ousada. Um esquadrão de homens armados seria
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    79 treinado com oobjectivo de apanhar o papa e trazê-lo de volta a França. Aí seria submetido a julgamento por um Concílio Geral que, sem dúvida, o deporia. Nogaret fez uma vénia a sua Majestade e semanas depois a expedição estava pronta a partir. Em Roma Bonifácio exultava. A Unam Sanctam tinha-lhe dado mais prazer do que a destruição de Palestrina, mais ainda do que ter visto dois milhões de peregrinos a dirigirem-se para Roma em rebanho para lhe encher os cofres durante o Ano Santo dois anos antes. Era como se Deus lhe tivesse autenticado a Bula fazendo com que Filipe tivesse sido derrotado no campo de batalha pelas forças flamengas em Courtrai. Agora toda a Igreja sabia que as coisas de Deus são de Deus; e as coisas de César são… bem, também elas são de Deus. Evidentemente. Mesmo que alguns papas não tivessem tido estômago para o dizer. Afinal, todas as coisas são de Deus, porque foi ele que as criou, e o papa representa Deus. O papa, como Primeiro Pastor, tem o dever de alimentar todo o rebanho, incluindo as maiores ovelhas de todas: reis e imperadores. Saboreou de novo a sua frase favorita da Unam Sanctam: Ninguém pode ser salvo se não obedecer ao pontífice romano. Agora nem mesmo Filipe se atreveria a opor-se- lhe. Não era Filipe mas a família Colonna que o preocupava. Depois de ter despromovido os seus cardeais, eles não lhe tinham mostrado qualquer gratidão por ter poupado as suas vidas, antes fugiram da cidade. Não fazia ideia onde eles se encontrariam, mas estavam com certeza a tramar alguma coisa algures. Arrependia-se de não os ter logo executado. Passou-se um ano. Bonifácio estava uma vez mais no seu retiro favorito em Anagni. Estava a dar os últimos retoques numa Bula que excomungava Filipe e o expulsava do trono. Sim, ia despedi-lo como a um moço de estrebaria. A esplêndida sensação que isto lhe provocava só era estragada por uma estória singular vinda de Florença. Algum tempo antes, ele tinha doado àquela cidade um leão adulto. Os florentinos mantiveram- no acorrentado num cortile no coração da cidade. Um dia, um burro descobriu o caminho para o pátio e — mal podia acreditar — escoicinhou o rei dos animais até à morte. Os florentinos diziam que aquilo pressagiava os últimos dias de Bonifácio VIII. Donde viria uma calamidade daquelas? Ele não tinha o mínimo conhecimento de que Nogaret tinha reunido forças com Sciarra Colonna, sobrinho e irmão dos ex-cardeais. Sciarra, jovem voluntarioso e sanguinário, estivera em Rieti, também vestido de negro de penitência, quando os seus parentes foram depostos, lançando a vergonha sobre todo o clã Colonna. Sciarra nunca iria esquecer o ter-se ajoelhado aos pés daquele monstro e ouvido a sentença de excomunhão. Com esta, o papa baniu-o da irmandade dos cristãos e obrigou-o a um exílio perpétuo. Isto era praticamente uma sentença de morte, e ele tinha passado quatro anos nas galés até que um parente o resgatou. Esta aliança com os franceses daria a Sciarra a possibilidade de ajustar todas as suas contas — de um só golpe. Num sábado, dia 7 de Outubro, os portões de Anagni foram traiçoeiramente abertos de madrugada pelo capitão da guarda do papa. Para as estreitas ruas entraram seiscentos cavaleiros e mil montadas. Esta cidade de escuras vielas escarpadas vibrava sob o som de patas dos cavalos e do bater de pés. Mesmo isto foi rapidamente abafado pelo clangor dos sinos de alarme. Os invasores depressa retiraram as barreiras erguidas à pressa e saquearam os palácios dos cardeais fieis ao papa. O palácio do papa estava bem fortificado no topo de uma colina e defendido pelos Gaetanis. De lá, o papa mandou às seis da manhã, um mensageiro a pedir uma trégua.
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    80 Secretamente pediu aoscidadãos mais importantes que viessem em seu auxílio. Prometeu-lhes imensas riquezas em troca da sua aliança nesta hora de necessidade. Eles recusaram. Esteve sentado na sala do trono durante horas a pensar, a rezar, e a dar de novo uma vista de olhos à Unam Sanctam, espantado pelo facto de um príncipe temporal ter ousado erguer a espada contra o Ungido de Deus, o Senhor do Mundo. À hora de vésperas, foram-lhe entregues as condições da trégua. Tinha de readmitir os cardeais Colonna no Sacro Colégio, resignar e render-se incondicionalmente a Sciarra Colonna. Para Bonifácio VIII, orgulhoso membro dos Gaetanis, isto significava luta até à morte. Os invasores começaram a destruir pelo fogo os portões principais da catedral para conseguirem entrar no palácio que ficava para além dela. Os clérigos nas suas compridas alvas brancas fugiam como gaivotas. Quando entraram, os homens de Sciarra saquearam a catedral e mataram toda a gente que lá se encontrava. Avançaram depois para o palácio, rebentando janelas e arrombando portas. Os guardas da segurança do papa, em inferioridade, renderam-se e ofereceram-se para lhes mostrar o desenho do edifício. Aos gritos, desvairadamente, as tropas, comandadas por Sciarra, abriram caminho até à grande escadaria que dava acesso aos aposentos privados do papa. Sciarra não se preocupara em contar quantos tinha matado nas últimas horas. Lembrava-se de se ter atirado a um arcebispo, mas o resto era tudo muito vago. Tinha o peitoral salpicado de sangue e a cheirar a ferrugem; a espada e o punhal estavam vermelhos até ao punho. Quando empurrou a porta da enorme câmara de audiências de altos tectos, ele e os seus homens foram engolidos por um tremendo silêncio. O velho papa, de oitenta e seis anos, estava majestosamente sentado no trono, só, salvo um cardeal auxiliar encolhido num canto. Estava imóvel, envergando todas as vestes e símbolos pontifícios: a tiara, que simbolizava que ele era o Senhor do Mundo; nos dedos, além da grande safira oval a brilhar, tinha o Anel do Pescador. A mais elevada fonte do seu poder tinha-a na mão, uma cruz de ouro. Sciarra ficou tão aterrado que a princípio nem conseguiu mexer-se. Quando se dirigiu lentamente para Bonifácio, de espada desembainhada, o pontífice beijou altivamente a cruz. Este gesto, o sonoro estalar dos lábios, teria feito parar um católico devoto, mas não Sciarra Colonna. Deu uma bofetada na cara manchada e marcada das veias do Vigário de Cristo que ecoou na câmara das audiências e que fez com que os seus próprios homens recuassem e se benzessem. Aquilo era um sacrilégio. E se Deus, como vingança, os fulminasse? A praguejar para manter a coragem, Sciarra gritou que aquele homem não era o papa, mas um impostor, filho de Satanás. «Resigna» ordenou ele. Bonifácio beijou de novo a cruz. «Antes morrer», murmurou. Orgulhoso demais para implorar misericórdia àquele patife excomungado, baixou a cabeça. Depois, naquele seu tom irritante, «Ec le col, ec le cape» («Aqui tens o meu pescoço; aqui tens a minha cabeça»). Nascera em Anagni; não se importava de ali morrer. Este pontífice que afirmava que a espada temporal estava ao seu serviço tinha agora essa mesma espada sobre o seu pescoço esquelético. Em ponto algum da história da Igreja há momento mais simbólico. Isto era a prova de que a aliança da Igreja e do Estado tinha atingido o ponto de rotura. Mesmo o sanguinário Sciarra hesitou. Seria ele capaz de cortar a Cabeça da Igreja? Tendo feito uma jura de vendetta, não tinha outro caminho. Num êxtase de alegria sádica, ergueu a espada e apontou cuidadosamente.
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    81 Foi então queNogaret entrou de rompante a gritar que o rei de França queria o pontífice de volta a Lyons para enfrentar a deposição perante um concílio ecuménico. Sciarra, com o rosto cheio de sombras purpúreas, embainhou a espada. Para parcial compensação, começou a despir Bonifácio da sua dignidade. Derrubou-lhe a tiara, deixando à mostra uma careca oval, depois divertiu-se a arrancar-lhe, por vezes com o punhal, as caras vestes papais, peça por peça. Os seus homens, aliviados por não terem tido de participar na morte de um papa, saquearam as salas. Ficaram espantados como é que até um papa durante uma vida longa feita de cobiça podia ter acumulado tais tesouros. Bonifácio, de pé, como uma estátua, aparentemente esquecido da humilhação, continuava a repetir em tom irritado a lamentação de Job, «Dominus dedit, Dominus abstulit» («O Senhor deu, o Senhor tirou»). E por fim ficou ali de pé naquela câmara vazia praticamente nu. O corpo, amarelo, enrugado e supliciado, estava cheio de piolhos. Quando os medievais descreviam os tormentos do inferno, não era o fogo mas os piolhos o que eles mais temiam. O cronista disse friamente: «O pontífice teve uma má noite». O alívio chegou inesperadamente. Muitos dos homens de Sciarra eram mercenários e já tinham ido embora com os seus despojos. O povo da cidade estava com receio que Anagni viesse a ser interdita; nunca mais haveria missa. Podia mesmo vir a ser destruída como Palestrina. Três dias mais tarde, armaram-se e obrigaram o inimigo a retirar e libertaram o papa da sua masmorra. Ele estava mudado. Ao contrário do que fora o seu hábito de uma vida, falava entre soluços e lágrimas que lhe corriam pelas faces marcadas de negro. Tinha ressuscitado ao terceiro dia tal como Cristo, seu Mestre. «Obrigado» gemia ele repetidamente. «Obrigado». A senilidade apossara-se provavelmente dele; por orgulho ou por receio de ser envenenado, tinha recusado todo o alimento na prisão. A fome e a sede, as noites de solidão no escuro, com ratazanas a correrem sobre ele, a proximidade da morte, tudo isto o tinha desarticulado. Levado de volta para Roma sob escolta, ficou fechado no seu quarto em Latrão durante trinta e cinco dias. Segundo rumores que corriam, provavelmente fantasiosos, batia repetidamente com a cabeça na parede e mordia incessantemente o braço, como um cão de volta de um osso. E aí, na solidão e totalmente desprezado — «Morieris ut canis» foi a profecia de Celestino — morreu. No dia do funeral houve uma tremenda tempestade e ele foi enterrado com o mínimo cerimonial no imenso túmulo que ele próprio tinha preparado na velha Basílica de S.Pedro. Há uma curiosa nota de rodapé na história da Besta Negra de Dante, um pontífice ímpio que afirmava que tinha tantas possibilidades de sobreviver à morte como um frango assado. Quando, para acabar a construção da nova Basílica de S.Pedro, em 1605, o seu túmulo teve de ser mudado, fendeu e abriu-se. Para consternação geral, o corpo do pontífice, passados três séculos, estava incorrupto. Só o nariz e os lábios estavam ligeiramente mordidos. Mediram-no: um metro e setenta; ainda tinha no dedo o anel oval de safira; parecia em paz. Bonifácio tinha dado forma final à heresia do poder papal. Também noutros aspectos ele não era um bom adorno para uma Igreja que ao menos foi poupada, por cortesia de Nogaret, à última das indignidades: ter de o venerar como S.Bonifácio, papa e mártir. O exílio babilónico
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    82 Os problemas dopapado não terminaram com Bonifácio VIII. Filipe de França, ainda não satisfeito de ver o seu grande inimigo dar a alma ao Criador, estava determinado a dessacralizar a sua memória. Benedito IX, que sucedeu a Bonifácio, tentou apaziguar sua Majestade absolvendo-o de toda a culpa de sacrilégio perpetrado contra o seu antecessor. Quando Benedito morreu, um ano depois, uma maquinação escandalosa no conclave levou à eleição de Bertrand de Grot, Arcebispo de Bordéus, como Clemente V. Filipe via finalmente satisfeitos os seus desejos: um papa francês, que ele podia moldar à sua vontade. Clemente fez imediatamente saber aos seus auxiliares atónitos que eles o iriam acompanhar para além dos Alpes. Anagni já fora revés bastante, mas isto era a humilhação final do papado: deixar o lugar do antigo império e os túmulos de S.Pedro e S.Paulo. Clemente temia, nas suas palavras, «desgostar o nosso querido filho, o Rei de França». Em breve se estabelecia dentro dos domínios do rei, sob o seu olhar vigilante, em Avignon, uma pequena cidade da Provença, na margem oriental do Ródano. Com Filipe a ameaçar julgar Bonifácio postumamente por ser uma fraude e um herege, o papa cedeu a sua Majestade em toda a linha. Filipe foi louvado pelo seu zelo religioso contra Bonifácio, e Celestino V, que Bonifácio enganara levando-o a resignar, foi canonizado com o nome de S.Pedro de Morone. O prestígio do papado sofreu um golpe quase fatal, e uma sucessão de pontífices cobiçosos e sensuais levaram o ofício de Pedro ao nível mais baixo desde o Reinado das Meretrizes. O paraíso papal da Provença Os papas de Avignon não foram uniformemente nem bons nem maus. Um bom representante foi Clemente VI, eleito no ano de 1342. Homem sem malícia nem princípios morais, teve o mérito de ser um bom pagão. O seu nome civil era Pierre Roger de Beaufort, monge beneditino, Arcebispo de Rouen, chanceler de sua Majestade o Rei de França. O rei deu-lhe a protecção de que sua Santidade precisava se quisesse viver comme il faut. O facto é que Clemente não gostava da Itália nem dos italianos. Tinham passado quarenta e cinco anos desde que Clemente V tinha feito aquela inspirada troca: o Tibre pelo Ródano; os pântanos de Roma cheios de malária, cólera e tifo, onde parecia que todos se queriam matar uns aos outros, pela perfumada Provença. Antes do seu tempo, vários papas — Celestino V, por exemplo — nunca tinham visto Roma; o próprio Clemente VI nunca tinha posto os pés na Itália. Nem os seus antecessores próximos, João XXII e Benedito XII. Clemente estava determinado a manter esta bela tradição francesa. Isto explica a enorme despesa que fez no seu novo palácio no Rocher de Doms, junto do Ródano. Ao contrário de Benedito XII, que era um desmancha-prazeres, Clemente sabia como gastar. «Antes de mim ninguém fazia ideia de como ser papa» brincava ele muitas vezes. «Se o rei da Inglaterra quiser fazer do seu burro bispo, é só pedir». Uma vez, um burro entrou no consistório com um cartaz pendurado ao pescoço: «Por favor, faça-me também bispo». Clemente não levou a mal, como aconteceu também quando recebeu uma carta em pleno consistório. A carta dizia: «Do Diabo para o seu irmão Clemente». Ele e os seus “diabinhos”, os cardeais, desataram às gargalhadas.
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    83 O único objectivode Clemente era fazer os seus súbditos felizes. Conseguia isto esbanjando com o mais cobiçoso dos peticionários mais do que aquilo que ele se atreveria a pedir. Alguns cardeais tinham entre quatrocentos e quinhentos dos maiores rendimentos. Isto significava que podiam ter os rapazinhos mais formosos, se tivessem essa inclinação, ou as mais belas damas de companhia. Em Avignon toda a gente vivia bem: músicos, artesãos, banqueiros, ourives, astrólogos, carteiristas e as espectaculares prostitutas. Poucos se queixavam por Baco e Vénus serem mais venerados em Avignon do que Jesus Cristo. Um dos que realmente se queixaram foi Petrarca, o grande académico e Poeta Laureado do Império. Uma coisa que o deixou irritado foi o facto de Benedito XII ter desejado a sua irmã. Recusou mesmo um chapéu de cardeal como parte do negócio. Mas Benedito, mesmo assim, conseguiu tê-la; subornou o irmão do poeta, Gerardo. Depois de ter estado em Avignon, Petrarca descreveu — anonimamente, porque não queria ir para a fogueira — a corte papal como «a vergonha da humanidade, uma sarjeta de vícios, um esgoto onde se junta toda a porcaria do mundo. Lá, Deus é desprezado, só o dinheiro é que é venerado, e as leis de Deus e dos homens são espezinhadas. Tudo lá exala mentira: o ar, a terra, as casas e sobretudo os quartos de dormir». O Papa Clemente sofria de uma “enfermidade” diagnosticada oficialmente como um problema de rins, mas que tinha sido contraído no seu quarto de dormir. Ele não fora prudente nas suas aventuras amorosas, toda a gente o sabia, mas isso fazia parte da sua liberalidade. Nunca foi capaz de negar os seus favores, mesmo na cama. “Sessões de indulgência plena”, assim eram chamadas. Mas ultimamente tinha já legitimado todos os filhos. Uma grande parte do seu palácio foi entregue à Inquisição. A câmara de tortura era ampla, sólida e aberta no topo, com paredes irregulares, nas quais ecoavam os gritos estridentes dos prisioneiros no meio do silêncio. Para encorajar os frades, Clemente trepou uma ou duas vezes a escada em caracol de La Salle de Torture até à masmorra por cima daquela, onde havia um buraco no meio do soalho. De gosto delicado como era, não gostava de ver os corpos estropiados a serem lançados pelo buraco e a caírem na câmara de tortura, mas, raciocinava ele, a heresia tinha de ser eliminada de qualquer maneira. Froissart, o diarista francês, viria a chamar ao palácio de Avignon «o edifício mais belo e mais forte do mundo». Sete torres erguiam-se para o céu e, em frente, espessas paredes brancas com balestreiros belamente guarnecidos de mísulas reflectiam o sol. Do cume, Clemente podia olhar em baixo o Ródano correndo sob a grande ponte de Saint-Bénézet. Esta ponte, com o seus dezanove arcos, levou doze anos a construir e alguns dos arcos assentam na ilha no meio do rio. Os jovens costumavam dançar e cantar debaixo dela e fazer amor sobre a relva. «Sou le pont d’Ávignon on y dance tout en rond». Sua Santidade admirava a beleza de todas as coisas. Em primeiro lugar, a da mulher, essa puríssima arquitectura de carne, mas também a dos edifícios de pedra. As suas tapeçarias vinham de Espanha e da Flandres, os tecidos de ouro, de Damasco, na Síria, as sedas, da Toscânia, os tecidos de lã, de Carcassonne. A baixela de ouro e prata que pesava à volta de duzentos quilos, era-lhe muito querida. Ele queria desesperadamente ganhar as guerras italianas e reconquistar a Terra Santa para Cristo, mas não se isso significasse ter de vender a sua baixela. Ficaria muito mais barato mandar os seus trinta capelães rezar por milagres. Desconfiava que fora Petrarca que escrevera aquele malévolo poema sobre como em Avignon os cavalos tinham ferraduras de ouro. O pontífice sabia que uma tal calúnia
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    84 não afectava asua reputação. Só os freios é que eram de ouro. Ele era o papa; tinha de pôr um certo ar. Os cardeais em particular apreciavam muito esta sua generosidade. Não era com tostões que se podia construir as suas grandes habitações do outro lado do Ródano, em Villeneuve, ou mantê-las com o necessário corpo de cento e cinquenta serviçais. O refúgio favorito de Clemente era um pequeno quarto na torre, com um cama de casal, com a fragrância do perfume da Condessa de Turenne. No tempo de Clemente V, aqueles que procuravam as bênçãos do pontífice deixavam as suas petições no seio sedoso da bela Perigord, filha do Conde de Foix. Mas Clemente VI achava que a sua condessa não tinha comparação. De todos os colos em que a sua nobre cabeça repousara, o de Cecília era de longe o mais doce. Apesar de ter feito da Cúria a máquina financeira mais eficiente da história, andava sempre com dificuldades de dinheiro. A compra da cidade inteira em 1348 tinha-lhe custado oitenta mil florins. Considerava este negócio o melhor investimento alguma vez feito por um papa, mas alguns andavam a dizer que a Igreja nunca mais se recomporia daquela sua imprevidência. Em 1350, o distrito de Avignon estava muito movimentado com os peregrinos a caminho de Roma. Chegavam aos milhares, vestidos com os tradicionais mantos de viajante ou trajos nacionais. Uns vinham a cavalo, outros em carroças a abarrotar com os seus haveres; a maioria vinha a pé, de cajado na mão. Clemente apreciava o simplismo da sua piedade. Levavam semanas a chegar a Roma, para o Jubileu, trilhando sombrios desfiladeiros alpinos cobertos de neves eternas antes de chegarem às encostas revestidas de ciprestes e vinhas da Itália e iniciarem a longa jornada para sul. Muitos nunca lá chegavam; morriam de velhice ou de doença, eram assaltados ou assassinados. Os mais afortunados depunham as suas dádivas no túmulo de S.Pedro para os clérigos as apanharem como feno e as mandarem ao sucessor de Pedro em Avignon. Bonifácio VIII decretara um Jubileu em cada século. Para Clemente isto parecia mesquinho. Reduziu o prazo para cinquenta anos. Os resultados surpreenderam-no a ele próprio, mas a maioria dos peregrinos queria agradecer a Deus o ter escapado à Peste Negra. Em três anos, a Peste dizimou um terço da Cristandade, incluindo Roma. Avignon perdera mais de metade da população. Quando a doença começou a atacar, como não notasse qualquer movimento no interior do mosteiro Carmelita, uma alma corajosa forçou a entrada e encontrou todos os 166 monges mortos. Num único dia, o balanço das vítimas na cidade foi de 1312. As pessoas contaminadas morriam geralmente em quarenta e oito horas. Algumas cidades ficaram vazias. O gado nos prados e colinas morria por falta de assistência. Os barcos no mar, com a tripulação toda morta, despedaçavam-se contra as rochas. Muitos culpavam os Judeus, queimando, enforcando e afogando milhares deles num piedoso esforço para se verem livres da peste. Em Avignon, Clemente protegera os Judeus. Portanto não lhe agradava nada ouvir dizer que não foram os Judeus, mas sim a vida dissoluta do papa que provocou aquela calamidade. Se ele tivesse descoberto o autor desta afirmação tê-lo-ia mandado torturar e queimar como àqueles monges e frades, chamados “espirituais”, que insistiam, contra toda a evidência, que Jesus tinha vivido na pobreza e não como as «prostitutas da Nova Babilónia», como Avignon era conhecida. Havia muitas pessoas em Roma que desejavam que o pontífice regressasse à sua diocese. A Rainha Bridget da Suécia era uma delas, e a jovem Catarina de Siena era outra. As duas, que mais tarde viriam a ser canonizadas, passavam os dias a rezar e a
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    85 escrever longas cartasa Clemente. Apelavam a que pusesse fim àquele escândalo e regressasse a casa. Bridget, com quase cinquenta anos, era famosa pelas suas visões e sonhos. Por vezes, quando contava os mais perturbadores de entre eles, os cidadãos cercavam-lhe a casa na Piazza Farnese, em Roma, gritando que a Principessa, como lhe chamavam, devia ser queimada como bruxa. Jesus falara com ela pela primeira vez quando ela era ainda uma criança. Nunca mais esqueceu aquela visão do seu amado estendido sobre as tábuas, como uma ave de rapina pregada na porta de um celeiro. Na sua noite de núpcias, só pediu ao esposo Ulf uma coisa: que o casamento deles fosse virginal. E assim foi durante dois anos. Depois, teve oito filhos em rápida sucessão. Houve um sonho que abalou mesmo esta austera dama. Apareceu-lhe S.Lourenço, o diácono. «Este Bispo» disse ele, sem querer mencionar o nome do papa, «permite aos padres a fornicação. Dá os bens da Igreja aos ricos». O santo desapareceu para dar lugar a um alto cavaleiro em brilhante armadura. Bridget aproximou-se dele, tirou-lhe o elmo, mas não foi uma forma humana que ela viu. Apenas uma carcassa mal cheirosa de ossos ocos e vermes a contorcerem-se. Isto, ela sabia, era o papa cheio de pústulas, moribundo e já mostrando sinais de decomposição. Se se lhe pudesse tirar a cabeça e olhar-lhe a alma era isto o que se veria. Aquela massa fedorenta tinha orelhas na testa para escutar a adulação; olhos na parte de trás da cabeça para ver só a podridão; e no coração abrigava um enorme verme. Nem mesmo Bridget podia prever que a nobre cabeça de Clemente, acariciada pelas mais encantadoras damas da Provença, seria um dia usada como bola pelos Huguenotes ou que o seu crânio acabaria como taça na mesa do Marquês de Courton. Em 3 de Dezembro de 1352, um vento quente e húmido, fora de época, vindo de África, atingiu Roma. O calor era insuportável, estava a gerar-se uma trovoada. A escuridão ameaçadora foi subitamente rasgada por relâmpagos; nesse mesmo momento, houve um estalido muito vivo e um estranho toque metálico de sinos. Bridget sentiu que o raio tinha caído perto. Saindo de casa no meio da escuridão de breu e da chuva torrencial, dirigiu-se instintivamente para a Basílica de S.Pedro. A basílica tinha sido atingida e os sinos tinham derretido. No mercado, toda a gente começou a festejar. «Morreu. Sim, o papa morreu e está enterrado bem fundo no Inferno». Três dias depois, os sinos de Avignon dobravam a anunciar oficialmente que o Bispo de Roma, Clemente VI, de feliz memória, já não vivia. Durante nove dias seguidos, naquela enorme capela, agora a gelar, cinquenta padres disseram missa pelo repouso da sua alma. Os misericordiosos diziam: Não chega. Os desapiedados diziam: Nunca será demais.
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    87 6 A Descida doPapado aos Infernos Em muitas gerações de católicos se disse: «O papado atingiu agora o seu nível mais baixo». Disse-o Dante de Bonifácio VIII. Disse-o Petrarca do Exílio Babilónico no período de Avignon. Ambos os eminentes poetas estavam enganados. Os dias mais negros ainda estavam para vir. A podridão instalou-se quando Catarina de Siena foi a Avignon para pressionar o pontífice reinante, Gregório XI, a voltar para Roma. Era o ano de 1377. Sete papas franceses seguidos tinham tornado o seu cantinho da Provença a maravilha do mundo. As mulheres da corte papal, despeitadas, não tiveram piedade de Catarina, aquela freira pálida e rude da Toscânia que parecia ter encantado sua Santidade. Talvez ele tivesse ficado impressionado com o seu êxtase na comunhão. Se ela se tornasse muito influente, elas teriam de fechar os seus salons, onde jovens deslumbrantes, filhos de duques e príncipes, vinham à procura de cargos eclesiásticos. Na capela revezavam-se para lhe picarem e beliscarem o corpo insensível para ver se o seu transe era genuíno ou não. Uma malvada furou-lhe um pé com uma agulha comprida de tal maneira que Catarina ficou impossibilitada de andar durante dias. No fim ela ganhou. Gregório voltou para Roma, sem seis dos seus cardeais que não conseguiam deixar as suas casas apetecíveis, as suas mulheres provençais e os seus vinhos da Borgonha. Um ultimato dos Romanos, segundo o qual se ele não voltasse eles elegeriam outro papa, pode também tê-lo influenciado. Em 278 anos, desde 1100, os papas só tinham passado oitenta e dois em Roma. Estes papas nómadas tinham passado uns longos 196 anos noutras partes. Não era um bom recorde; e o exemplo não se ficou pela Igreja. A Cidade Eterna depressa acabou com Gregório. Depois é que a verdadeira tragédia de Avignon se revelou. Um papa, dois papas Depois da morte de Gregório, o conclave, reunido para nomear o sucessor, estava dividido em duas facções, franceses e italianos. Durante o exílio, sete papas de Avignon tinham feito 134 cardeais, todos eles franceses, à excepção de vinte e dois. Os franceses estavam naturalmente determinados a manter o papado para si próprios. Como Latrão tinha ardido, o conclave reuniu no Vaticano. Lá fora, uma multidão de, segundo se dizia, trinta mil pessoas gritava-lhes que escolhessem finalmente um italiano. A escolha era muito limitada. Havia apenas quatro cardeais italianos e nenhum deles papabile. Para lograr o seu intento, a multidão encheu de lenha a sala que ficava por cima do local da reunião e por baixo passaram toda a noite a bater nas tábuas do soalho com lanças e alabardas. E como se isto não bastasse, tocaram o sino do Capitólio, a que se juntaram os sinos da Basílica de S.Pedro. De manhã a multidão perdeu completamente a paciência e arrombou a porta do conclave.
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    88 Dos dezasseis cardeaispresentes, todos esfomeados e sem dormir, treze votaram num estranho, Bartolomeu Prignano, o Arcebispo de Bari, entroncado, de pequena estatura e rosto amarelado. Não era romano. Um napolitano foi o melhor que eles puderam arranjar. Na dúvida de que aquilo fosse suficiente, vestiram, contra sua vontade, um romano octogenário, o Cardeal Tebaldeschi, com as vestes papais e mostraram-no. Um mensageiro partiu apressadamente para Pisa, onde a eleição de Tebaldeschi foi celebrada com fogo de artifício. Entretanto, os franceses fugiram a sete pés. Durante dois dias ninguém se preocupou em dar a notícia a Prignano nem a prestar-lhe as costumadas homenagens. Quando finalmente soube, tomou posse com o nome de Urbano IV. O Arcebispo de Bari, de família humilde, fora durante quinze anos um funcionário da Cúria muito meticuloso, mas pacífico e obediente. Os nobres cardeais franceses tinham a certeza de que ele continuaria a fazer o que lhe mandassem e que levaria a corte de volta a Avignon. Enganaram-se grave e redondamente sobre o seu homem. Urbano IV veio a revelar-se um dos pontífices mais rancorosos e de temperamento mais vil. O seu médico revelou que ele mal tocava na comida, mas não podia passar sem o álcool. Segundo o Cardeal da Bretanha, no banquete da coroação, ele bebeu oito vezes mais do que qualquer dos outros membros do Sacro Colégio — embora alguns tenham dito que isto não era humanamente possível. A bebida, a religião e a vingança — todos em excesso — provaram ser uma potente mistura. Nascido e criado nas vielas malcheirosas de Nápoles, não tinha estômago para os fracos e pretensiosos cardeais franceses. Contava-se que lhes pregava sermões como Jeremias com dores de barriga. Queria corrigi-los a qualquer preço. Na sua voz aguda de eunuco, falava-lhes abertamente do Cardeal Orsini como sendo sotus (“pateta”). Uma vez, de rosto vermelho de raiva, só não bateu no Cardeal de Limoges porque Robert de Geneva lhe segurou o braço. «Que fazeis, Santo Padre?» Quando estava para excomungar outro membro de Sacro Colégio por simonia e Geneva interveio de novo, Urbano ladrou como um cão: «Eu posso fazer tudo, absolutamente tudo o que quero». Um grande número de cardeais considerava que aquelas fúrias eram sintoma de loucura. Consultaram um jurista respeitado: Haveria algumas circunstâncias em que os cardeais pudessem substituir-se a um papa incapacitado? Urbano soube disto e provou que ainda estava no seu juízo perfeito. Primeiro, excomungou um velho inimigo, o Rei Carlos de Nápoles, que acusou de estar por detrás daquela “rebelião”. O rei reagiu bloqueando Sua Santidade na sua fortaleza de Nocera, perto de Pompeia. Urbano subia às muralhas quatro vezes por dia, e serenamente, com a campainha, o livro e a vela, excomungou todo o exército que o atacava. Parecia ignorar as setas que caíam à sua volta. Resgatado pelos Genoveses, mandou prender os cinco cardeais rebeldes. Foi visto depois em Génova, possivelmente entorpecido pelo álcool, a passear de um lado para o outro no jardim e a recitar o breviário a plenos pulmões. Numa câmara próxima, estavam os rebeldes a ser torturados. Os seus gritos não perturbavam de modo nenhum a sua paz com Deus. Amarrado, o velho Cardeal de Veneza estava a ser levantado e baixado numa roldana. Com a cabeça comprimida contra o tecto, conseguia ver o papa através das grades da janela, e de cada vez resmungava em agonia: «Santo Padre, Cristo morreu pelos nossos pecados». Depois era descido até ao chão. Os prisioneiros nunca mais foram vistos. Alguns cardeais franceses escapuliram-se separadamente e reuniram-se de novo em Anagni, onde prepararam uma Declaratio contra Prignano. Ele não era papa. Apenas o
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    89 tinham elegido, afirmavameles, com medo da multidão. Escolheram outro pontífice: Robert de Geneva, primo do rei de França, que se chamou Clemente VII. Urbano contra- atacou nomeando vinte e seis novos cardeais que lhe deviam fidelidade. Já tinha havido dois papas em numerosas outras ocasiões, mas a presente crise era única. Estes dois papas tinham sido eleitos por mais ou menos o mesmo grupo de cardeais. Assim, quando estes afirmavam que a sua escolha de Urbano não tinha sido genuína, faziam-no com autoridade, mesmo que estivessem a mentir. Na Inglaterra, Wycliff lançou o primeiro sarcasmo: «Eu sempre soube que o papa tinha os cascos fendidos. Agora tem também a cabeça». A Cristandade foi obrigada a tomar partido. Se Urbano tinha sido de facto escolhido sob coacção, a eleição era inválida. Mas se eles estavam assim tão amedrontados por que é que não tinham escolhido um romano — por exemplo, o velho Tebaldeschi — e não se tinham retirado logo para Anagni para registar uma queixa oficial? A escolha de um saudável Napolitano e uma demora de três meses eram suspeitas. Como Catarina de Siena sensatamente lembrou, se eles já tinham um falso papa em Tebaldeschi, para que é que precisavam de outro? Dava a impressão de que os franceses se queriam descartar de alguém com quem não era possível uma relação. Seguiu-se o caos. Um papa ausente já era uma coisa bastante penosa; agora a própria Sede da Unidade estava a tornar-se fonte de desunião. Pelo decreto de eleição de 1059, um papa não canonicamente eleito pontífice romano era chamado de “o Destruidor da Cristandade”. Isto provou-se ser o caso. Se os cristãos não conseguiam identificar o verdadeiro papa, para que servia o papado? O rei da Inglaterra apoiou Urbano, o rei de França, Clemente. Nas universidades não havia consenso. O coxo e vesgo Clemente VII, como era de prever, voltou com os seus seguidores franceses para Avignon, onde a sua conduta foi tão má que não se tornou em nada diferente de um genuíno papa de Avignon. Já provara ser matéria prima papal quando, em 1377, agira como legado do papa em Cesena, no Adriático. Os locais protestaram contra os mercenários que violaram as suas mulheres, e mataram alguns dos culpados. Depois de conferenciar com os responsáveis da cidade, convenceu-os a deporem as armas. Em seguida enviou para lá uma força mista de Ingleses e Bretões para chacinar todos os oito mil habitantes, incluindo as crianças. Dois papas, três papas Em Outubro de 1389, Urbano, o papa que ninguém queria, realizou a única boa acção da sua vida: morreu. Os catorze cardeais que restavam em Roma escolheram para o substituir Bonifácio IX, um assassino e provavelmente o maior simoníaco da história. Vendeu todos os benefícios eclesiásticos a quem deu mais, daí resultando que a Alemanha e a França enxameavam de padres italianos, muitas vezes soldados reformados, que não sabiam uma palavra da língua. Os irmãos de Bonifácio, os sobrinhos e sobretudo a mãe foram quem mais beneficiou desta sua liberalidade. Dizia- se que ninguém jamais fizera tanto dinheiro com as canonizações. Nunca assinava qualquer documento sem logo estender a mão a exigir: «Um ducado». A única coisa por que ele não cobrou dinheiro foi a excomunhão de Clemente de Avignon. Clemente retribuiu-lhe o cumprimento. E assim continuaram as coisas. Quando morria um papa ou um antipapa, em vez de porem um fim à situação, os respectivos grupos de cardeais escolhiam um sucessor. O que são os cardeais sem um papa próprio?
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    90 Por esta altura,a Cristandade começava a ficar farta. Quem é que, afinal, quer comprar um bispado ou uma abadia a um pontífice que se revela um impostor? E se uma indulgência muito cara ou a autenticação de umas relíquias como o prepúcio do Salvador ou o seu umbigo não valessem o pergaminho em que estavam escritos? Havia mesmo confusão no céu. Bridget da Suécia viria a ter um recorde de três canonizações para se ficar com a absoluta certeza de que era mesmo santa. O cisma também era mau para o negócio. Os banqueiros coração-de-pedra rezavam fervorosamente para que aquilo acabasse. Toda a vida do Império estava desintegrada. Quem diabo é que iria coroar o próximo imperador? Das universidades veio a sugestão de que, uma vez que a unidade da Igreja era prioridade maior do que o papado, e que Cristo, e não o pontífice romano, é que era o Chefe supremo da Igreja, era melhor retirar o apoio a ambos os papas. Os historiadores convidaram o imperador a depô-los com o sólido fundamento de que já muitos imperadores tinham feito isso antes e que a sua intervenção seria universalmente aplaudida. Contudo, a partir do papa-menino, no século XI, o papado tornara-se mais poderoso do que qualquer imperador. E agora, apesar de toda aquela confusão, um dos papas era autêntico. E se o imperador destituísse o papa errado? Não seria o mesmo que retirar a Bíblia da Igreja e substituí-la pelo Corão? O mesmo dilema se poria a um Concílio. Se se reunisse um Concílio para depor ambos os pretendentes, uma das deposições seria inválida, mas qual delas? Um outro problema era que os juristas desse tempo afirmavam que só um papa — o genuíno — podia convocar um Concílio. O estado catastrófico da Igreja significava que tinha de se fazer qualquer coisa, a despeito da névoa canónica. Em 1409 foi convocado um Concílio na maravilhosa cidade muralhada de Pisa, cuja torre, tal como a própria Igreja, já estava inclinada. Foi na Duomo, revestida de mármore preto e branco, sob o majestoso retrato de Cristo de Cimabue, que se reuniram os padres mitrados. Declararam solenemente que os papas em conflito, Gregório XII de Roma, e Benedito XIII de Avignon, eram ambos hereges e cismáticos. Foi uma medida inteligente: os papas que caíam em heresia depunham-se, em certo sentido, a si próprios. Em meados de Junho escolheram como substituto o Cardeal Filargi de Milão, um piedoso Franciscano septuagenário e desdentado, de família desconhecida e votado à pobreza. Tinha três defeitos difíceis de esconder. Embora magro e de pequena estatura, passava metade do dia à mesa; mantinha um palácio com quatrocentos serviçais, todos mulheres e todos vestidos de libré; distribuía benefícios eclesiásticos de maneira tão liberal que até os cardeais ficavam admirados. Filargi aceitou o nome de Alexandre V. Ao som dos sinos, vestido a rigor, desde as sapatas vermelhas à tiara, Filargi percorreu as ruas de Pisa, montado num cavalo branco. Os prelados saudaram-no aliviados. Passados trinta confusos anos, o Grande Cisma terminava. Só que Gregório e Benedito não concordaram, e assim o mundo acordou um dia espantado com a notícia que lhe chegava: ontem tínhamos só dois papas, agora temos três. Dizia um galhofeiro que a tiara tripla devia ser dividida, uma vez que a Igreja agora tinha três cabeças para pô-la. Tornou-se muito popular uma nova versão do Credo: «Creio em três Santas Igrejas Católicas». Os fiéis já tinham suportado gerações de papas ausentes, com períodos de dois a três anos em que não havia papa nenhum por os cardeais não se entenderem. O cenário actual era o pior de todos.
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    91 A única certezasaída de Pisa devia ter sido a de que o homem que eles escolheram não era papa; depois seguiu-se um espectáculo nunca visto: três papas infalíveis, todos a reclamarem a suprema autoridade sobre a Igreja, todos a excomungarem solenemente os outros dois, todos a ameaçarem convocar um Concílio próprio em três lugares diferentes. Os dramatis personae deste teatro do absurdo eram os seguintes: (1) Angelo Corrario, Gregório XII, veneziano, com perto de noventa anos e muitos “sobrinhos”, descendente em linha recta do intratável Urbano VI. Fora escolhido pela jurisdição romana porque, como o Cardeal de Florença confessou, «É velho e frágil demais para ser corrupto». Outro erro fatal. O primeiro acto papal do velho homem foi empenhar a tiara por seis mil florins para pagar as suas dívidas de jogo. Foi para Rimini e daí vendeu em Roma tudo o que era móvel e algumas coisas que o não eram, como a própria Roma, por exemplo, ao rei de Nápoles. (2) Piedro da Luna, um espanhol histérico, que representava a ressuscitada jurisdição de Avignon. Era o que menos contava. Deixado cair pelo rei de França e por todos menos três dos seus cardeais, em breve voltou para a sua Espanha natal, onde insistia que era o verdadeiro papa e praticamente excomungou toda a Igreja. (3) Baldassare Cossa, João XXIII. Alexandre V morrera passados apenas dez meses e era Cossa, um pontífice melífluo, encantador e cruel, quem representava a jurisdição de Pisa. Constava que nunca se confessara nem comungara. E nem acreditava na imortalidade da alma nem na ressurreição dos mortos. Alguns duvidavam que ele acreditasse em Deus. Era conhecido como antigo pirata, envenenador de papas (pobre Filargi), assassino em série, fornicador em série, com queda para as freiras, adúltero num grau desconhecido fora da ficção, simoníaco por excelência, chantagista, proxeneta, mestre em estratagemas sujos. Quando da sua eleição para o papado em Bolonha, Cossa era diácono. Ordenado padre num dia, no outro foi coroado papa. Este charlatão foi reconhecido pela maioria dos católicos como senhor e soberano que mantinha a Igreja unida pela sua fé de pedra. Quando um outro Papa João XXIII foi eleito em 1958, várias catedrais católicas tiveram de retirar à pressa o nome do João XXIII do século XV das suas listas de pontífices. Um concílio muito embaraçoso A maré de sorte de Cossa virou quando Segismundo, imperador eleito, o persuadiu a convocar um Concílio «para reduzir o número de papas, de acordo com o Evangelho». O local seria a cidade muralhada de Constança no sul da Alemanha, na fronteira com a Suíça. Em apenas meses a sua população iria aumentar de seis mil para sessenta mil e depois duplicar. Quando o clero se reunia em grande número era sempre prudente escolher uma cidade perto da água — lago ou rio — para se desfazerem dos corpos. O Lago Constança recebeu mais de quinhentos durante os trabalhos do Concílio; também o Reno escondeu muitos segredos. Outro requisito era que o local do encontro fosse suficientemente grande para acomodar o vasto número de prostitutas que achavam que o clero requeria os seus serviços mais urgentemente do que os militares e pagava
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    92 preços mais interessantes.Durante o Concílio foram calculadas em mais de mil e duzentas as prostitutas em Constança a trabalharem vinte e quarto horas por dia. No Dia de Todos os Santos de 1414, João XXIII, um flibusteiro de quarenta e oito anos, cheio de gota, enfeitado de ouro, celebrou missa e pregou na abertura formal do Concílio Geral. Foi uma reunião maciça, que incluiu trezentos bispos, trezentos teólogos de topo e os cardeais de todas as três jurisdições. Huss, reitor da Universidade de Praga, a quem Segismundo tinha garantido segurança, foi imediatamente preso por ordem de Cossa. Era uma lição para todos, especialmente para o Papa Benedito (a quem chamavam Benefictus, - “Falso”) e para o Papa Gregório (que apelidavam de Errorius, - “Erro”). João XXIII tinha corrido um risco ao atravessar os Alpes para entrar em terras imperiais, mas tinha votos suficientes no bolso para se sentir seguro. Havia então, como mais tarde, mais bispos italianos do que de todas as outras nacionalidades juntas. O que o derrotou foi a decisão do Concílio de se votar não individualmente, mas por nações. A sua maioria foi imediatamente varrida e ele viu que havia três para um contra ele. A seguir, às primeiras horas da manhã do dia de Natal, chegou Segismundo, que o mandou resignar. Cossa viu a acusação, um enorme catálogo dos seus delitos redigidos com perversa eficácia. As patroas de todas as casas de prostitutas da Cristandade devem ter testemunhado contra ele. Quando soube das crescentes exigências, especialmente dos ingleses, para que o queimassem para acabar com aquilo, concordou em resignar, desde que os outros dois papas fizessem o mesmo. Depois, disfarçado de criado, saiu de Constança à noite. Sem papa nenhum, não poderia haver Concílio nenhum, deve ele ter raciocinado. Entre a mão cheia de cardeais que se lhe juntaram no seu esconderijo a trinta milhas de distância, em Schaffhausen, estava Oddo Colonna. Os guardas imperiais trouxeram-no de volta para enfrentar a música. O Concílio tinha entretanto assumido plena autoridade. Nas quarta e quinta sessões fez uma declaração de fé unânime, que nunca mais abandonou a Igreja até hoje. O Sagrado Concílio de Constança […] declara, primeiro, que está legalmente reunido no Espírito Santo, que constitui um Concílio Geral que representa a Igreja Católica, e que, portanto, recebeu a sua autoridade de Cristo; e que todos os homens de todas as categorias e condições, incluindo o próprio papa, estão obrigados a obedecer-lhe nas questões de fé, na extinção do cisma e na reforma da chefia e dos membros da Igreja de Deus. Eneias Sílvio, que um dia viria a ser o Papa Pio II, escreveu: «Poucos duvidarão de que um Concílio está acima de um papa». Por que havia alguém de duvidar? A antiga doutrina da Igreja era que um Concílio Geral era soberano na fé e na disciplina. Com base nesta doutrina, mais do que um papa foi condenado em Concílios por heresia, como se verá na Parte 2 deste livro. Foram momentosas as consequências do Concílio de Constança. Se o papa está obrigado a obedecer à Igreja nas questões de fé, não pode por si só, e sem o consentimento da Igreja, ser infalível. De facto, quando fala independentemente do Concílio, o papa pode bem errar na fé. Esta doutrina foi esbatida por papas medievais como Gregório VII e Inocêncio III, por meios duvidosos. O Concílio de Constança, depois de afirmar a sua autoridade sobre o papa, procedeu à aplicação prática dessa autoridade depondo, em primeiro lugar, Benedito, que já estava em fuga para Peñiscola.
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    93 A seguir foiJoão XXIII. Este recusou firmemente a resignação. Os padres do Concílio concordavam que ele era o papa legítimo, mas a Igreja era mais importante do que o papado. As acusações contra ele foram reduzidas de cinquenta e quatro para cinco. Como, caracteristicamente, Gibbon observou em Decline and Fall: «As acusações mais escandalosas foram suprimidas; o Vigário de Cristo era acusado de pirataria, assassínio, violação, sodomia e incesto». Toda a gente sabia que, desde que se tornara Vigário de Cristo, o único ofício que ele exercia era na cama. É muito significativo o facto de João XXIII ter sido absolvido de heresia, provavelmente por nunca ter mostrado interesse bastante pela religião para ser classificado como heterodoxo. Até então, a única acusação suficientemente grave para depor um papa era a de heresia. Cossa foi deposto simplesmente porque não se comportava como um papa se deve comportar. Em 29 de Maio de 1415, os selos oficiais de João XXIII foram solenemente esmagados a martelo. Mas um ex-papa, tal como um ex-presidente, tem direito à consideração. Apesar da sua enorme promiscuidade, apenas lhe aplicaram uma sentença de três anos de prisão. Huss, corajoso, casto, incorruptível, severamente contrário à simonia e à concubinagem do clero, teve um destino mais sombrio. Sem direito a defesa, julgado por uma acusação forjada, interrogado por Dominicanos que não tinham lido os seus livros, nem sequer em tradução, foi condenado à morte. Com um alto chapéu decorado com três diabos dançantes, ladeado pelos espadachins do Conde Palatine, foi levado da prisão num belo dia de verão de 1415. Praticamente toda a cidade seguiu o cortejo, que passou pelo cemitério onde os livros de Huss estavam a ser queimados num brilhante prado verde. Rezou pelos seus perseguidores quando o fogo foi ateado. Por três vezes o ouviram dizer «Cristo, tu que és o filho de Deus vivo, tem misericórdia de mim» antes de o vento lhe ter soprado as chamas para o rosto. Os lábios ainda se moviam quando, sem um gemido, expirou. Para evitar que viesse a ser venerado como mártir, as suas cinzas foram atiradas para o Reno. Era evidentemente maior pecado dizer, como Huss e o Novo Testamento, que depois da bênção a Eucaristia se devia ainda chamar de “pão” do que ser um papa cobiçoso, assassino e incestuoso que enganou a Igreja em tudo. Finalmente, Gregório XII, agora com noventa anos e muito abatido, convocou o Concílio, que tinha estado em funções durante meses, e depois resignou. Completadas estas formalidades, todos os três papas estavam arrumados. A Cristandade podia respirar outra vez. Segismundo, ele próprio um libertino, queria reformar rapidamente a Igreja, antes que um novo pontífice fosse eleito, raciocinando que jamais se poderia confiar num papa para reformar a Igreja. Durante séculos, argumentava ele, o papado não esteve à altura de tal tarefa. Nesta altura, os clérigos castos eram tão poucos que aqueles que não tinham mulher nenhuma eram acusados de vícios ainda piores. Infelizmente Segismundo não foi apoiado pelo rei de França, nem por Henrique V de Inglaterra, acabado de sair vitorioso em Agincourt. O Cardeal Oddo Colonna, que jurara fidelidade a João XXIII quando este fugira para Schaffhausen, foi escolhido sem demora, e chamou-se de Martinho V. Com cinquenta e cinco anos, era um eclesiástico de nascimento e criação, sendo filho de um dos cardeais de Urbano VI, Agapito Colonna. A Igreja tinha de novo um só papa. Agora já não havia qualquer esperança de reforma, embora se pensasse muito em disciplinar o clero. Dois dias depois da eleição, Colonna, que era diácono, foi ordenado padre. Era o dia 13 de Novembro de 1417. No dia seguinte foi sagrado bispo. Uma semana depois,
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    94 após ser coroadopapa, foi para o altar para o beija-pé antes do desfile a cavalo, em procissão, pela cidade. Segismundo e Frederico de Brandenburgo cavalgavam a seu lado, um à sua esquerda e o outro à sua direita. Tal como João XXIII, o único objectivo de Martinho era sair de Constança rapidamente. Não tinha qualquer desejo de reformar a Cúria ou o papado. De facto, quando Cossa foi libertado da sua confortável prisão em Heidelberga e foi para Florença, Martinho reintegrou este assassino e violador confesso, fazendo-o bispo de Frascati e Cardeal de Túscolo. A ansiedade de Martinho por um rápida saída era compreensível. O maior Concílio a que o Ocidente tinha assistido tinha decretado que os Concílios Gerais derivavam a sua autoridade directamente de Cristo. Toda a gente, o papa incluído, está sujeito a ele em questões de fé, resolução de cismas e reforma da Igreja. O que o deixava numa posição delicada é que isto fora aprovado por unanimidade. Ele próprio tinha-o votado favoravelmente como cardeal. Mas a História mostra que o papado quase invariavelmente transforma um homem logo que ele toma o poder. Ele queria voltar para Roma onde afirmaria a sua superioridade sobre o Concílio. Por outras palavras, queria negar o próprio fundamento da sua eleição. Porque se o papa é o chefe supremo da Igreja, João XXIII é que era o papa, não ele. Esta tensão não viria a ser resolvida nos 450 anos seguintes. E só aconteceu quando o Concílio Vaticano I afirmou que a crença na supremacia e infalibilidade papal era necessária para a salvação. Foi elevado o preço desta resolução. O Vaticano I contradizia tudo o que estava implícito nos primeiros Concílios da Igreja e o que fora explicitamente afirmado em Constança. Por exemplo, de acordo com o Vaticano I, quando um papa fala ex cathedra, as suas definições «são irreformáveis por si próprias e não por consentimento da Igreja». O Concílio de Constança declarou que o próprio papa «está obrigado a obedecer-lhe [ao Concílio] em matérias de fé». Esta a razão por que Thomas More, o leigo mais bem informado do seu tempo, escreveu a Thomas Cromwell em 1534 dizendo que enquanto que ele cria que a supremacia de Roma foi instituída por Deus, «contudo nunca pensei que o Papa estivesse acima do Concílio Geral». E se o dogma do absolutismo papal do Vaticano I estivesse em vigor antes do Concílio de Constança? Nesse caso, o Concílio não se teria sentido competente para depor um papa e a Igreja poderia ter sido vítima da praga de uma trindade durante séculos. Só negando pura e simplesmente aquilo que viria a tornar-se o dogma central do Catolicismo Romano é que o Concílio Geral de Constança pôde salvar a Igreja. Prenúncios de tempestade Não que o Concílio de Constança tenha realmente salvo a Igreja. O Concílio terminou sem que fosse aprovada uma única reforma importante. Semanas depois de voltar para Roma, Martinho já tinha dado a sua bênção ao sistema curial, que antes de mais, tinha feito ajoelhar a Igreja. A Cristandade estava em estado de desespero. No século X, apesar de todos os papas adolescentes, adúlteros e assassinos, o papado era um fenómeno localizado. O chefe de uma família romana poderosa punha o seu querido filho adolescente no trono; o rapaz provocava distúrbios durante alguns meses ou anos agitados e era emboscado pelos membros de uma família rival cuja hora tinha chegado.
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    95 Mas a partirdo século XI, Gregório tinha aposto o seu selo no papado, cuja estatura e prestígio cresceram; conseguiu controlar toda a Igreja, desde o mais simples pároco de aldeia até ao mais poderoso arcebispo. O resultado foi a mais terrível corrupção que o Cristianismo jamais vira ou que provavelmente virá a ver. E isto começou de cima. O papado era leiloado em conclave e entregue a quem mais desse, independentemente do mérito do candidato. Um historiador do século XIX, T. A. Trollope, no seu livro The Papal Conclaves (1876) avaliava as coisas assim: «Poucas ou nenhumas eleições papais foram mais do que simoníacas. […] A invenção do Sacro Colégio foi, afinal, talvez a mais fértil fonte de corrupção da Igreja». Muitos cardeais iam para Roma para o conclave acompanhados dos seus banqueiros. Levavam os seus valores, especialmente as suas baixelas de prata; se eram eleitos papas, a multidão romana saqueava os seus palácios, e até levava portas e janelas. Os cardeais raramente eram escolhidos por serviços prestados à Igreja. Deviam a sua posição à trapaça e à intriga. No tempo do Renascimento quase todos tinham as “suas companheiras”. Uma vez escolhido de entre tais homens, o novo papa, com dinheiro fresco para sacar, não perdia tempo e começava logo a promover os familiares — filhos, sobrinhos, sobrinhos bisnetos — sem o mínimo pejo, segundo o princípio italiano “Bisogna far per la famiglia” (“Temos que fazer pela família”). O tempo era um factor essencial uma vez que o papado não é hereditário e o papa podia dispor apenas de alguns meses ou anos para estabelecer uma dinastia. Daí que tantos pontífices, logo que punham a tiara, olhassem à volta à procura de meios para encher os bolsos. Um bom exemplo disto foi, no século XIII, Clemente IV, que era viúvo. Vendeu milhares de italianos do sul a Carlos de Anjou a troco de um tributo anual de oitocentas onças de ouro. De acordo com os termos do contrato, se o duque se atrasasse no pagamento seria excomungado. Se o atraso se mantivesse, todos os seus territórios seriam interditos. Para um papa, privar distritos inteiros de missa e sacramentos simplesmente por os príncipes não honrarem os seus débitos, não constituía pecado. Os cardeais tinham enormes palácios com inúmeros serviçais. Um assessor papal conta que nunca ia falar com um cardeal que não o encontrasse a contar as suas moedas de ouro. A Cúria era composta por homens que tinham comprado o cargo e queriam desesperadamente recuperar a despesa feita. Todos os cargos em todos os departamentos tinham o seu preço. Estes cortesãos exerciam o poder do dia a dia com tremendas sanções à sua disposição. Podiam excomungar qualquer pessoa. Os bispos e os arcebispos tremiam perante eles. Era a Cúria que estabelecia a tarifa da simonia. Para cada benefício de sé, abadia e paróquia, para cada indulgência, havia uma determinada tarifa. O pálio, uma faixa de lã de cinco centímetros de largura, com cruzes bordadas em seda preta, era paga por todos os bispos. Estes modestos enfeites de lã produziram ao longo dos anos centenas de milhões de florins para os cofres papais, de tal maneira que o Concílio de Basle em 1432 havia de lhe chamar «a maquinação mais usurária inventada pelo papado». No século XVI, na Alemanha, dioceses inteiras foram dadas em arrendamento aos banqueiros, como os Fuggers, e a sociedades que vendiam os benefícios a retalho ao licitante que mais oferecesse. As dispensas eram outra fonte de rendimento papal. Aprovaram-se leis extremamente severas ou mesmo impossíveis para que a Cúria pudesse enriquecer com a venda das dispensas. Exigia-se o pagamento das dispensas de jejum durante a Quaresma, como também para autorizar um monge doente ou velho a ficar na cama em vez de se levantar de noite para o seu ofício divino. O casamento, em particular,
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    96 era uma ricafonte de rendimento. Alegava-se haver laços de consanguinidade entre casais que nunca tinham imaginado serem parentes. As dispensas de consanguinidade para casar montavam a um milhão de florins de ouro por ano. Presumia-se durante o Renascimento que os clérigos do topo da hierarquia tinham as mais lindas mulheres, e havia dioceses inteiras onde a concubinagem do clero se passava perfeitamente às claras. O clero romano, ali mesmo debaixo do nariz da Cúria, era o pior de todos. Nada disto é de admirar. Compravam-se e vendiam-se ofícios e benefícios como qualquer outra mercadoria. O clero não tinha qualquer prática de autodisciplina. Eles queriam simplesmente uma sinecura e uma vida ociosa. Muitos não sabiam ler nem escrever; estavam no altar a murmurar idiotices ininteligíveis porque nem conseguiam papaguear o latim. O pior insulto que se podia dirigir a um leigo nesta altura era chamar-lhe padre. Depois do Concílio de Constança, levantaram-se protestos por toda a parte. O próprio Martinho V admitia que muitos estabelecimentos religiosos eram antros de vício. Os bispos, as universidade e os mosteiros clamavam por um Concílio para reformar os abusos. A Cúria, superada e vencida em Constança, persuadiu o papa de que um Concílio não seria vantajoso para ele. Contudo, em Constança, tinha-se tomado um compromisso solene de que haveria um Concílio dentro de dez anos, e depois em intervalos regulares. Apesar dos esforços da Cúria para o inviabilizar, realizou-se um Concílio em Basle em 1432. Os bispos mostraram que as suas intenções eram sérias. A partir de agora, todas as nomeações eclesiásticas serão feitas de acordo com os cânones da Igreja; toda a simonia cessará. A partir de agora, todos os padres, da mais alta ou mais baixa categoria, deixarão as suas concubinas, e quem quer que, a partir de dois meses após este decreto, não cumpra as suas exigências será privado do seu ofício, mesmo que seja o Bispo de Roma. A partir de agora, a administração eclesiástica de cada país deixará de depender do capricho do papa. […] Acabará o abuso, por parte do papa, do banimento e do anátema. […] A partir de agora, a Cúria Romana, isto é, os papas, não exigirão nem receberão quaisquer taxas pelos ofícios eclesiásticos. A partir de agora, um papa deve pensar não nos tesouros deste mundo, mas tão só nos do mundo vindouro. Isto não era brincadeira. Brincadeira nenhuma. O papa em exercício, Eugénio IV, convocou o seu próprio Concílio em Florença. Rotulou o Concílio de Basle de «uma turba de pedintes, simples criaturas ordinárias, a escória do clero, apóstatas, rebeldes blasfemos, sacrílegos, cadastrados, homens que, sem excepção, apenas merecem ser acossados de volta para o diabo de onde vieram». O papado desperdiçou esta oportunidade; e não viria a haver outra. O mesmo século que viu Eugénio IV reprovar os melhores esforços de Basle para uma reforma, acabaria com o papa que, acima de todos, tinha vindo do diabo: Alexandre Bórgia. A tempestade em formação No século XV não houve uma única voz que se levantasse em defesa do papado. Com homens como Francesco de la Rovere no trono não é difícil perceber porquê.
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    97 Francesco tornou-se SistoIV em 1471. Teve vários filhos, a que chamavam, de acordo com o costume da época, “os sobrinhos do papa”. Sisto deu o chapéu cardinalício a três sobrinhos e a seis outros parentes. Entre os beneficiários estava Juliano de Rovere, o futuro Júlio II. O favorito de Sisto era Pietro Riario, que o historiador Theodor Griesinger acreditava ser filho dele e da própria irmã. O novo papa tinha certamente uma grande amizade pelo rapaz. Fê-lo Bispo de Treviso, Cardeal Arcebispo de Sevilha, Patriarca de Constantinopla, Arcebispo de Valência e Arcebispo de Florença. Até então Pietro fora franciscano. Todos os anos queimava o hábito para matar os parasitas. Quando se tornou cardeal, mudou. Tornou-se um perdulário em grande escala, mantendo mulheres a quem fornecia bacios de ouro. Os cronistas da época queixavam-se da vil utilização dada aos tesouros da Igreja. Riario viria a morrer ainda novo, completamente consumido. Sisto IV construiu a capela que tem o seu nome, e onde todos os papas são agora eleitos. A capela já viu pompa e ignomínia. Os cardeais já lá fizeram piqueniques, já lá acamparam, já lá dormiram e até muitas vezes andaram à pancada. Debaixo da abóbada, guardou Napoleão os seus cavalos. A capela Sistina não é mais do que um ornamento num Vaticano que rapidamente ganhou esplendor na arte e na arquitectura, enquanto no seu interior grassava a corrupção. Sisto foi o primeiro papa a licenciar os bordéis de Roma; rendiam-lhe trinta mil ducados por ano. Também ganhou consideravelmente com um imposto lançado sobre os padres que mantinham amantes. Outra fonte de rendimento era garantir privilégios aos ricos «para que eles pudessem consolar certas matronas na ausência dos maridos». Foi no campo das indulgências que Sisto mostrou um toque de génio. Foi o primeiro pontífice a decidir que elas podiam ser aplicadas aos mortos. Até ele ficou admirado com a sua popularidade. Estava ali uma fonte inesgotável de rendimento em que nem mesmo os mais cobiçosos dos seus antecessores tinham sonhado. As suas implicações eram de cortar a respiração: o papa, criatura de carne e osso, tinha poder sobre o mundo dos mortos. As almas a penar pelos seus pecados podiam ser resgatadas pela sua palavra, desde que os seus parentes piedosos esvaziassem os bolsos. E quem é que o não faria se tivesse um pouco de bondade cristã? Viúvos e viúvas, pais que choravam os filhos, gastavam tudo na tentativa de tirar os seus entes queridos do Purgatório, que era pintado com cores cada vez mais lúgubres. Rezar pelos mortos era uma coisa, pagar por eles era outra. As pessoas simples eram levadas a pensar que o papa, ou aqueles que vinham à aldeia vender o perdão do papa, garantiam que os seus mortos iriam para o céu nas asas das indulgências. O potencial para o abuso era considerável. A venda de relíquias do século X já tinha sido um mal bastante. De facto, o maior negócio de exportação de Roma durante muito tempo tinha sido o dos cadáveres, inteiros ou em partes. Eram vendidos aos peregrinos por grandes quantias. T. H. Dyer escreveu: «Um dedo do pé ou da mão de um mártir podia ser um regalo para um homem de poucas posses, mas os príncipes e os bispos podiam comprar um esqueleto inteiro». Com as catacumbas como uma espécie de El Dourado, muitos pontífices doavam os ossos de mártires às cidades para as bajularem. O talento de Sisto consistia no seguinte: não se desfazia de nada, a não ser de bens incorpóreos. Os ossos dos mártires, tal como o petróleo, não eram um produto renovável, mas as indulgências eram ilimitadas e o seu preço podia ser adaptado a todas as bolsas. Nada era exigido ao doador ou ao doado, nem amor, nem compaixão, oração ou arrependimento — apenas dinheiro. Nunca houve prática mais anti-religiosa
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    98 do que esta.O papa enriquecia na mesma medida em que os pobres iam sendo ludibriados. O Purgatório não tinha qualquer justificação, nem nas Escrituras nem na lógica. O seu fundamento era apenas a ganância papal. Um escritor inglês, Simon Fish, em A Supplicacyion for the Beggars, escrito em 1529, viria a denunciar tudo isto irrefutavelmente. Não há em toda a Sagrada Escritura uma só palavra sobre isto, e além disso, se o papa, com o seu perdão, pode, em troca de dinheiro, libertar de lá uma alma, pode libertá-la também sem dinheiro: se ele pode libertar uma, também pode libertar um milhar delas, pode libertá-las a todas; e assim destruir o purgatório: e então, se ele as mantém lá presas, em sofrimento até que alguém lhe dê dinheiro, não passa de um tirano cruel, sem qualquer espécie de espírito caritativo. Em 1478 Sisto publicou uma Bula que ainda causou mais danos à Igreja. Sancionou a Inquisição em Castela. E esta alastrou, literalmente, como fogo. Em 1482, só na Andaluzia, foram queimados dois mil hereges. Dizia-se de Sisto que ele «se afundou em crime e em sangue até à mitra», mergulhando a Itália em guerras infindáveis. Quando morreu, em tempos relativamente pacíficos para o papado, alguém com espírito disse que este senhor da guerra tinha sido «assassinado pela paz». Era tido como tendo «incarnado a maior concentração de maldade humana». Nas palavras do Bispo Creighton, «ele enfraqueceu o carácter moral da Europa». Na morte, foi o seu meticuloso capelão alemão João Burchard que o lavou. Os compartimentos tinham sido saqueados de tal maneira que o capelão não tinha nada com que secar o cadáver. Despiu-lhe a camisa e utilizou-a para isso. Por fim, vestiu-o com uma batina e um par de chinelos emprestados. Oito anos mais tarde, em 1492, Burchard estava a ganhar coragem para desempenhar idêntica tarefa com o sucessor de Sisto, o velho sexagenário Inocêncio VIII. Magro e anémico, o pontífice estava na cama apoiado em almofadas. Dos cantos da boca escorria-lhe leite, o seu único sustento há várias semanas. Olhando para trás, ele sentia que tinha coisas de que se podia orgulhar. Tinha casado o seu filho favorito no seio dos grandes Medicis de Florença, trazendo assim aquela família para a linha de sucessão do papado com resultados desastrosos. Inocêncio também publicou um édito contra os judeus de Espanha. Aqueles que se recusavam a abraçar o Cristianismo eram expulsos da Península. Houve então uma onda de emigração que só teve paralelo nos anos trinta na Alemanha nazi. Cem mil fugiram, outros tantos ficaram fingindo terem-se convertido. «Isto», diz o The Catholic Dictionary com intencional ironia, «garantiu o emprego à Inquisição por muitos séculos». Na sua ficha ficaram uma ou duas nódoas. Por exemplo, não tinha feito nada para pôr a cidade em ordem. O seu vigário foi ter com ele e disse-lhe: «Temos realmente de fazer com que os padres deixem de manter mulheres, Vossa Santidade». A resposta de Inocêncio ficou assim registada: «É uma perda de tempo. Isso está tão espalhado entre os padres, mesmo na Cúria, que dificilmente se encontrará um que não tenha uma concubina». Quando isto constou alguém disse: «Sua Santidade levanta-se da cama das prostitutas para trancar e destrancar as portas do Purgatório e do Céu».
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    99 Na sala contígua,enquanto a sua vida chegava ao fim, o seu médico examinava três formosos jovens. Estava a dizer-lhes que podiam prestar um grande serviço ao Vigário de Cristo. O sangue do papa estava velho e gasto; se eles lhe dessem algum do seu ele poderia continuar a inspirar a Igreja. Burchard deu uma achega oferecendo um ducado a cada. O médico era judeu. Inocêncio acreditava que a própria maldade dos Judeus lhes dava acesso a uma sabedoria oculta que faltava aos médicos cristãos. O médico informou Burchard que estava pronto para começar. Fez uma vénia e dirigiu-se para o quarto do papa e, de mãos a tremer, sangrou o pontífice. Trouxeram o primeiro jovem e, por transfusão directa, o sangue passou daquele para o papa. Isto não era uma prática científica rigorosa. O quarto tresandava; o sangue jorrava para as roupas da cama e para as carpetes no chão. O jovem foi levado para fora meio inconsciente. Chamaram o segundo jovem e depois o terceiro. Em breve todos os três estavam mortos na antecâmara. Burchard abriu-lhes as mãos pegajosas e tirou-lhes o dinheiro de volta. O sacrifício dos jovens foi em vão. Inocêncio confessou os seus pecados e, com o espírito em paz, morreu com um trocadilho nos lábios: «Vou para Vós, Senhor, na minha Inocência». No seu túmulo, disse alguém, estavam enterradas «a imundície, a gula, a avareza e a preguiça». Mais uma vez, parecia que o papado já não podia descer mais baixo. Depois veio o Bórgia. O núcleo da tempestade Era voz corrente que Rodrigo Bórgia, que era catalão, tinha cometido o seu primeiro assassínio quando tinha doze anos. Cravava constantemente a bainha da espada na barriga dos outros rapazes. Quando jovem, as suas inclinações amorosas não eram segredo. O seu azar foi ter um tio papa, Calisto III. Em 1456 Calisto fez Rodrigo, então com vinte e cinco anos, Arcebispo de Valência, a principal diocese de Espanha. Rodrigo já era famoso por ter relações simultâneas com uma viúva e com as suas duas belas filhas, uma das quais foi a sua sempre amada Vanozza Catanei. Chamado a Roma para se tornar cardeal aos vinte e seis anos e Vice-Chanceler da Igreja um ano mais tarde, não suportou a ideia de ficar longe da sua amante, e instalou-a com todo o estilo naquela que era a mais elegante das cidades, Veneza. Quando o tio morreu, o novo papa, Pio II, não foi assim tão tolerante para com ele. Chegou-lhe aos ouvidos uma orgia borgiana em Siena, da qual foram excluídos os maridos, os pais, os irmãos e outros familiares masculinos para que a sensualidade pudesse ter rédea livre. «Achais bem», perguntou-lhe Pio II diplomaticamente, uma vez que ele próprio tinha feito dois filhos, «não terdes nada na cabeça todo o dia senão pensamentos de prazer voluptuoso?» Quando Rodrigo se tornou papa, tomou o nome de Alexandre VI, parecendo não se preocupar muito com o facto de Alexandre V ter sido excluído das listas como o antipapa de Pisa. Depois da eleição, Bórgia rapidamente entrou na depravação. Não foi deposto nem sequer posto em causa. O sistema não o permitia. Lutero tinha nove anos quando Bórgia subiu ao poder. Em Roma tudo estava à venda, desde os benefícios e indulgências aos chapéus de cardeal e até o próprio papado. Segundo João Burchard, que desempenhava a função de Mestre de
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    100 Cerimónias do conclave,Bórgia conseguiu os votos do Sacro Colégio após uma dispendiosa campanha. É elucidativo ver, através dos diários de Burchard, como o Espírito Santo se desempenha da tarefa da escolha do sucessor de S.Pedro. O dinheiro jorrava em Roma vindo de toda a Europa e era canalizado para o conclave pelos banqueiros. Bórgia tinha uma oposição dura. O Cardeal da la Rovere tinha 200.000 ducados do rei de França e mais cem mil da República de Génova. Só cinco votos não foram comprados. Como era Vice-Chanceler, Bórgia era o mais rico dos cardeais. Pôde oferecer vivendas, cidades e abadias. Deu quatro mulas carregadas de prata ao seu grande rival, o Cardeal Sforza, para o convencer a desistir. Praticamente sem um tostão, viu com desgosto que ainda lhe faltava um voto. O Cardeal Gerardo de Veneza assegurou-lho, embora sem qualquer culpa. Há fortes razões para pensar que estava senil. Tinha noventa e seis anos e o mais notável é que não procurou subornar. Depois de elegerem Bórgia, os cardeais agradeceram ao Espírito Santo a escolha de um sucessor para S.Pedro. Mas Giovani de Medici disse depois ao Cardeal CibÒ: «Estamos agora nas garras do lobo mais selvagem que o mundo jamais viu. Se não fugimos ele vai sem dúvida devorar-nos». O Cardeal de la Rovere, o futuro Júlio II, pegou na ideia e fugiu, para regressar só dez anos depois quando o Faraó, o papa Bórgia, morreu. Por enquanto “o lobo” estava bem vivo. Num frenesim de alegria, exclamou: «Eu sou o papa, o Pontífice, o Vigário de Cristo». Nos aposentos de Bórgia do Palácio Apostólico há um retrato de corpo inteiro de Alexandre VI, de Pinturicchio. Mostra-o envolto numa capa de brocado enfeitada de jóias; só a cabeça e as mãos estão à mostra. É um homem alto, de testa estreita, faces e queixo gordos e nariz grande e carnudo. O pescoço é monstruoso, os lábios sensuais, os olhos penetrantes. Tem as mãos, de dedos intumescidos e cheios de anéis, postas em oração. Este homem, a quem Gibbon chamou «o Tibério da Roma Cristã», era perverso, mesmo para um papa do Renascimento. O seu olho para as mulheres bonitas era, dizia-se, infalível, mesmo quando já era velho. Conhecidos, teve dez filhos ilegítimos, quatro dos quais, incluindo os famosos César e Lucrécia, de Vanozza. Quando ela murchou, o papa, já com cinquenta anos, arranjou outra amante. Júlia Farnese tinha quinze anos e casara recentemente com Orsino Orsini. Este era um bom marido: cego de um olho, sabia quando havia de piscar o outro. Esta a razão por que Júlia ficou conhecida em toda a Itália como “a Prostituta do Papa” e “a Noiva de Cristo”. De uma beleza deslumbrante, ela era, nas palavras de um diplomata, «o coração e os olhos» do pontífice, sem quem ele não podia viver. Com as suas ligações papais, ela não teve dificuldade em conseguir um chapéu vermelho para o irmão, o futuro Paulo III, ganhando deste modo o título de “O Cardeal de Saias”. De Júlia o papa teve uma filha chamada Laura. Genericamente um homem honesto, ele seguiu o exemplo de Inocêncio VIII e reconheceu abertamente os filhos naquilo que ficou a chamar-se a Idade de Ouro dos Bastardos. Pio II tinha dito mesmo que Roma era a única cidade do mundo governada por bastardos. Mas Bórgia tentou deixar claro que Laura era uma Orsini; por outras palavras, que o marido de Júlia era o pai da filha de Júlia. Isto era difícil de acreditar. E mais, como Lorenzo Pucci, embaixador no Vaticano, escreveu ao seu mestre em Florença: «A parecença da criança com o papa é tal que ela tem de ser dele». O filho de Júlia chamado João, conhecido como Infans Romanus, a misteriosa Criança Romana, também era dele. Alexandre deve ter repetido até mesmo ao fim a
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    101 oração de SantoAgostinho: «Senhor, fazei-me casto, mas ainda não», porque a La Bella Giulia deu-lhe ainda um último filho, o seu homónimo Rodrigo, como presente de despedida quando ele morreu. A vida no Vaticano naquela época nunca foi monótona nem completamente evangélica. Havia estórias credíveis de orgias de vinho e sexo. Constava que Alexandre tinha tido relações incestuosas com a filha, a bela Lucrécia. Se isto é verdade, não é certo, era um recorde mesmo para um papa da Renascença ter tido relações sexuais com três gerações de mulheres: com a filha e com a mãe e a avó desta. César, o filho, foi o modelo de Maquiavel para o seu cruel Príncipe. O próprio pai temia-o. Sobre ele Lord Acton escreveu o seguinte: «Como não tinha qualquer preferência pelo bem ou pelo mal, avaliava com espírito igual e desapaixonado se era melhor poupar um homem ou cortar-lhe a cabeça». O político florentino Francesco Guicciardini, que se tornou lugar-tenente dos exércitos papais, confiou ao seu diário secreto I Ricordi, que César nasceu para que «haja no mundo um homem bastante vil para cumprir os desígnios do pai, Alexandre VI». Num estilo impressivamente espanhol, César uma vez matou cinco touros com uma lança na Praça de S.Pedro e depois, de um só golpe de espada decapitou um sexto. Não pensava duas vezes antes de roubar uma mulher ao marido, violá-la e depois atirá-la ao Tibre. No princípio do seu reinado, o papa, num gesto nostálgico, deu a César a sua velha diocese de Valência. O filho era então um formoso adolescente de dezassete anos, de nariz direito, olhos negros taciturnos e cabelo escuro matizado de vermelho. Um ano depois, no consistório em que Alexandre promoveu Ippolito d’Este, o irmão de quinze anos da sua amante, César tornou-se cardeal. Isto foi uma trapaça, porque os cardeais têm que ser homens nascidos em cama legal. Alexandre resolveu o problema de maneira brilhante. Em 20 de Setembro de 1493 assinou duas Bulas, ambas afiançadas pelas testemunhas mais fidedignas da sua corte. A primeira provava que César era filho de Vanozza e do marido. Na segunda, publicada secretamente, o papa reconhecia César como seu filho. Nesses tempos havia uma média de catorze assassínios por dia em Roma. Quando o culpado era apanhado, Alexandre não tinha escrúpulos em deixá-lo em liberdade, considerando que, como ele dizia com aquele seu sorriso cativante, «O Senhor exige não a morte do pecador mas sim que ele pague e continue a viver». Um dos seus hábitos menos cativantes era nomear cardeais a troco de uma choruda taxa, e depois mandá-los envenenar para aumentar o negócio. O seu veneno preferido era a cantarella, uma mistura composta na sua maior parte por arsénico branco. A Igreja, decretou ele, podia herdar os bens móveis e imóveis do cardeal. E ele, claro, como Vigário de Cristo, era a Igreja. Um dos poucos que protestaram abertamente contra o escândalo da corte papal foi o Prior Dominicano de S.Marcos em Florença. Savonarola, o maior pregador do seu tempo, foi declarado canonizável por um pontífice posterior, Benedito XIV. Mas esta não era a opinião de Alexandre. Tentou calar o frade prometendo-lhe um chapéu cardinalício de graça. Quando viu, para seu espanto, que isto falhou, não teve outra alternativa senão mandar que ele fosse julgado, enforcado e queimado — embora, como foi dito, não houvesse da parte do papa qualquer rancor. Passaram-se três turbulentos anos antes de se dar um dos acontecimentos mais grotescos da história do Vaticano, na noite do último dia de Outubro de 1501. Burchard, ajudante pessoal de quatro pontífices sucessivos, descreveu-o no seu estilo pedante, nos diários que só por acaso apareceram à luz do dia.
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    102 César convidou airmã favorita, Lucrécia, e o papa, o outro único homem presente, para uma festa chamada “O Torneio das Prostitutas”. Cinquenta das mais belas de Roma dançaram vestidas de roupas que gradualmente se iam tornando cada vez mais escassas para depois começarem a saracotear nuas à volta da mesa do papa. Elas deviam ter ouvido falar no boato que corria em Roma de que o papa preferia uma orgia a uma missa solene. Num final frenético as prostitutas caíram de joelhos, engalfinhando-se a lutar pelas castanhas que os Bórgias lhes atiravam como se faz com os porcos. Mas o papa também teve o seu lado bom. Era um patrono das artes. Patrocinou um jovem monge sem tostão de nome Copérnico. Alexandre tinha olho para o negócio e foi de facto um dos poucos pontífices da época que equilibraram as contas. Não era hipócrita e nunca fingiu ser um cristão sincero, muito menos santo. Contudo, tal como a maioria dos pontífices, era um devoto fervoroso da Virgem Maria. Fez reviver o antigo costume de tocar o sino do Angelus três vezes por dia. Encomendou um quadro de uma soberba Madonna com o rosto de Júlia Farnese para aprofundar o seu amor. Também não era pessoa para esquecer os serviços das antigas amantes. Daí que, quando Vanozza morreu, poucos anos depois dele, com setenta e seis anos, ela tivesse sido tratada como viúva do papa. Foi enterrada com pompa ainda maior do que o próprio Bórgia na Igreja de Santa Maria del Popolo na presença de toda a corte papal «quase como se fosse um cardeal». Deve dizer-se também em abono do papa que ele era um pai orgulhoso e afectuoso. Baptizou os filhos e deu-lhes a melhor educação que a simonia podia pagar. Celebrou no Vaticano os seus casamentos com as mulheres das melhores famílias da época, mas afinal Inocêncio VIII não tinha feito o mesmo? Quando casou Lucrécia na Salla Reale, esta ia acompanhada pela neta do Papa Inocêncio e no cortejo seguiam “A Prostituta do Papa“ e mais 150 emocionadas damas romanas. Para Lucrécia, por ocasião do seu terceiro casamento, ele até adiou o início da Quaresma para que o povo de Ferrara, para onde ela ia, pudesse celebrar os esponsais com carne e danças. A afeição paternal do papa nunca foi tão clara como quando chorou a morte do filho, o Duque de Gandia, assassinado, muito provavelmente pelo seu outro filho, o impiedoso César. Quando Gandia foi retirado do Tibre e depositado aos pés do papa, os cínicos disseram: «Finalmente! Um pescador de homens!» Deve ter provocado lágrimas nos olhos do consistório quando lhes disse que teria dado sete tiaras para ter o filho de volta. E eles choraram ainda mais quando, durante os poucos dias de luto, ele proclamou o fim do nepotismo e ameaçou reformar a Cúria. Todas as concubinas do clero, decretou ele, seriam despedidas dentro de dez dias; mesmo os cardeais teriam de começar a ser frugais e castos. Júlia deve-lhe ter estragado as suas melhores intenções, porque lhe deu um filho no ano seguinte. Os historiadores já têm sugerido que a sua afeição por César estava deslocada. Ele sabia que César trazia sempre veneno consigo para o caso de precisar dele para um inimigo. E, depois de todo o trabalho que teve para fazer César cardeal, este quis renunciar ao chapéu vermelho. Alexandre arriscou provocar a ira do Sacro Colégio autorizando-o a sair do grupo dos “Purpurados“, como Corro lhes chamava. Estava em jogo a salvação da alma de César, alegava o papa. Nessa altura o rosto do filho estava coberto de manchas negras e borbulhas muito vivas, sinais de sífilis secundária. Suas Eminências talvez ficassem aliviadas com a sua partida, mas, como sensatamente observou um ajudante, se fosse permitido aos cardeais resignar por motivos tão triviais, não restaria nenhum. Quando a sífilis se agravou, César começou a usar uma máscara de seda negra em público.
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    103 Tendo-se descartado dochapéu vermelho quando tinha vinte e dois anos, ficou livre para casar e para realizar a sua maior ambição: arrebatar a Gandia o lugar de comandante-chefe dos exércitos papais. O pai devia saber que ele, mesmo só com uma simples faca na mão, não era de confiança. Uma vez, César fez em pedaços um jovem espanhol chamado Perroto, camareiro favorito de Alexandre, por ele ter tido relações com a irmã. Não foi o pecado, mas a insensatez do acto que ele condenou. Era vital para os interesses da família, e especialmente para os de César, que se pusesse fim ao primeiro casamento de Lucrécia com Giovanni Sforza para permitir que ela casasse dentro da família real Napolitana. Os fundamentos da anulação eram a não consumação. A comissão testemunhou a sua virgindade e, implicitamente, acusou o marido de impotência. Roma riu à gargalhada quando a notícia se soube. Lucrécia era conhecida como «a maior prostituta de Roma de todos os tempos». O marido, Sforza, recusou-se a cooperar com a comissão, salientando que tinha havido consumação em grande abundância. Jurou que «a tinha conhecido carnalmente em inúmeras ocasiões». Seu tio, Ludovico de Milão, sugeriu-lhe secamente que demonstrasse a sua capacidade perante testemunhas. Este não foi o único divórcio autorizado por Alexandre quando pretendia anular um casamento. Não que isso ajudasse o novo marido de Lucrécia. Em 1500, depois de ter servido os seus intentos, César mandou-o estrangular. Perroto foi uma primeira vítima. Aos olhos de César, ele era culpado de comprometer a reputação da irmã num momento delicado, e tinha de ser despachado. O papa, a piscar os olhos remelosos, tentou proteger o seu camareiro debaixo do seu manto, gritando em espanhol: «Não, César, por amor de Deus, não». César avançou com o punhal e o sangue saltou para a cara do papa. Depois o corpo levou o tratamento habitual; foi atirado ao Tibre. Durante dias o pontífice continuou a ouvir os gritos do jovem, a sentir o cheiro do sangue que lhe ensopou a sotaina até ao peito vacilante, a sentir os estremeções de Perroto a cada nova estocada até ao estretor final da morte. A morte do próprio Alexandre, pressagiada por uma coruja que lhe entrou pela janela em pleno dia e morreu aos seus pés, foi feita à sua medida. Muito provavelmente, César envenenou-se a si e ao pai por engano. A cantarella no vinho destinava-se a alguns cardeais ricos que era preciso eliminar. César recuperou. Viria a morrer corajosamente três anos mais tarde no campo de batalha em Viana, Espanha, enfrentando sozinho um exército. Quando despiram o corpo, viram que tinha setenta e três golpes. O papa, de setenta e três anos, sucumbiu ao veneno. Burchard nos seus diários e embaixadores nos seus despachos registaram em pormenor os acontecimentos. O arsénico branco criou-lhe uma bola de fogo na barriga. Esteve na cama durante horas, de olhos vermelhos, pele amarela, incapaz de engolir. A princípio, tinha o rosto cor de amora e os lábios intumescidos. A pele, pintalgada como a do tigre, começou a descascar. A gordura da barriga liquefez-se. O estômago e os intestinos começaram a sangrar. Os médicos tentaram os eméticos e a venissecção, mas em vão. Depois de receber os últimos sacramentos, este homem, que, segundo Guicciardini, não tinha religião, deu o último suspiro na Torre Bórgia, num compartimento decorado por Pinturicchio. César, ainda de cama e destroçado pelo desaparecimento do seu papa-pai e patrono mandou selar os aposentos papais para que fossem os seu próprios homens, e não os lacaios dos cobiçosos cardeais, a saqueá-los.
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    104 O corpo foideposto numa essa entre dois círios acesos. Estava negro e começava a entrar em decomposição. Burchard recorda a boca a espumar como uma chaleira ao lume. A língua ficou tão grande que lhe enchia toda a boca e a mantinha toda aberta. O corpo estava deformado e começava a inchar como uma rã, até que ficou tão largo como comprido. Giustiniani, o embaixador veneziano, escreveu num despacho que o corpo de Bórgia era «o cadáver mais feio, mais monstruoso mais horrível jamais visto, sem qualquer forma ou aspecto humano». Os capangas de César foram arrancar os anéis dos dedos do cadáver, tirar os castiçais, os enfeites, as vestes, o ouro, a prata e até as carpetes do chão. Neste cenário, o capelão continuou calmamente a lavar o corpo. Quando o compartimento ficou vazio, o corpo começava a explodir, e de cada orifício saíam vapores sulfurosos. Seis carregadores e dois carpinteiros, a apertar o nariz, tentaram levar a brincar uma experiência horrível. O seu maior problema era conseguir pôr aquele monte de carne mal cheiroso no caixão. Evitando tocar numa tal fonte de contágio, ataram uma corda à volta daquele sagrado pé, tantas vezes beijado por príncipes, prelados e mulheres bonitas, e arrastaram-no da essa. O corpo silvou quando bateu no chão frio. Tiraram-lhe a mitra e ergueram-no com cordas apenas o suficiente para o deixar cair com um chape dentro do caixão. Agora, segundo Burchard, «já não havia círios, nem luzes, nem padres, nem ninguém para velar o pontífice morto». Com a misericórdia de Deus, carregaram sobre o corpo para o abater, mas ele continuava a sair. Foi necessária toda a força de Burchard para o abater de forma a caber no caixão. Por fim, como não havia mais nada, cobriu o Servo dos servos de Deus com um bocado de carpete velha. Os carregadores do palácio tiveram de lutar com os clérigos da basílica que não queriam deixar entrar o cadáver para o enterro. Ao funeral apenas assistiram quatro prelados. O caixão esteve na cripta de S.Pedro por muito pouco tempo. O Papa Júlio afirmou mais tarde que era uma blasfémia rezar por uma alma danada. Portanto, qualquer missa pelo descanso da alma de Alexandre seria um sacrilégio. Em 1610, o corpo foi expulso da basílica e agora repousa na Igreja Espanhola na Via de Monserrato à espera, em ansiedade, do Julgamento Final.
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    107 7 A Inevitável Reforma Poucodepois do Bórgia, ascendeu ao trono papal um dos homens mais notáveis da história, Júlio II. Franciscano de Génova, alto, elegante e sifilítico, usou do suborno, em montantes de centenas de ducados, para alcançar o papado. Depois decretou que a partir de então quem subornasse o conclave seria deposto. Homem atlético, trazia sempre com ele uma bengala com que batia em quem o molestasse. Para este homem tempestuoso a religião nem chegava a ser um hobby. A sua alimentação quaresmal consistia em camarão, atum, lampreia da Flandres e o melhor caviar. É sobretudo lembrado como patrono das artes. Um dia levou um jovem escultor de trinta e um anos até à Capela Sistina. O jovem era magro, de ombros largos, estatura mediana e nariz partido, prémio por ter brigado com um rapaz maior do que ele quando era aprendiz. O Papa Júlio apontou para o tecto com a bengala. «É aquilo. Quero que me pintes aquilo». Miguel Ângelo olhou e reprimiu um gemido. O tecto tinha dezoito metros de altura e era côncavo. Como é que ele, como é que alguém seria capaz de resolver as perspectivas? Além disso, não era pintor. Até então só tinha pintado umas telas e não ficara muito orgulhoso delas. Preferia trabalhar a pedra. A pedra dura. Não, ia recusar. Sem aviso prévio, voltou para a terra natal, Florença, onde tinha sido criado no ar puro dos campos de Arezzo e assimilou o seu ofício de escultor ao leite da ama. Dois anos depois, em 1508, Júlio obrigou-o a voltar para Roma sem escopro nem martelo. Assim começou a pintura que levaria este jovem do anonimato aos píncaros da grandeza. Rebelde, como sempre, escreveu no seu primeiro recibo: «Eu, Miguel Ângelo Buonarotti, escultor, recebi 500 ducados por conta… da pintura da abóbada da Capela Sistina». Júlio viria a impressioná-lo mais do que uma vez na sua cólera por encontrar um homem tão violento como ele próprio. Uma vez, Miguel Ângelo foi obrigado a apresentar-se-lhe com um cabresto em sinal de submissão. Em quatro anos iria cobrir 500 metros quadrados de tecto com 300 figuras. Confidenciou as suas memórias desses anos num poema. De estar tanto tempo deitado de costas desenvolveu uma papeira que se derramava à volta como um balde donde os animais bebem. Ficou com as costas arqueadas como as de um remador. A barba virava-se para o céu de modo que o queixo e a barriga praticamente se fundiam num só. O pincel deixava-lhe cair constantemente um mosaico de tinta sobre o rosto. Isto não é coisa que se pinte, gemia ele, e eu que nem sequer pintor sou. No Dia de Todos os Santos de 1512 este não-pintor abriu as portas da capela. Lá em cima, no alto, naquela superfície impossível, estava mais do que uma obra de arte. Estava uma enciclopédia de humanidade. Os temas do Velho Testamento retratavam a jornada do homem do nascimento até à morte. Ao cantar a missa no altar, o exultante Júlio fazia-o com o conhecimento de que mandara fazer a maior obra de arte que o mundo jamais vira. Por intermédio de Miguel Ângelo, o papa começou a criar um novo Vaticano que se tem mantido como uma maravilha até hoje. Mas a mesma preocupação não teve ele
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    108 em relação àfé cristã. Esta é uma das ironias do Vaticano: exteriormente, em termos de cultura, arte e arquitectura, a Igreja nunca estivera em melhor forma; Bramante, depois Miguel Ângelo e Rafael. Interiormente apenas havia corrupção. A principal e constante paixão de Júlio não era a arte mas a guerra. Como estratego militar poucos o igualavam. Com sessenta anos na altura da eleição, usava uma barba branca impressiva que metia dentro do elmo. Violando a lei canónica, envergou a armadura, montou o seu cavalo de batalha e cavalgou para norte para lutar por Deus e pelos Estados Papais. Também aí foi bem sucedido. Queria-os realmente para a Igreja e não para a sua família como a maioria dos papas do seu tempo. Viria a estabelecer territórios que iriam durar, sem praticamente qualquer alteração, até serem assimilados numa nova Itália nos fins do século XIX. De vez em quando presidia ao serviço religioso em S.Pedro. Mas houve problemas. Como grande mulherengo que era, gerou três filhas quando ainda era cardeal. Daí que na Sexta-Feira Santa de 1508 o seu Mestre de Cerimónias tenha anunciado que Sua Santidade não podia permitir que lhe beijassem o pé, «quia totus erat ex morbo gallico ulcerosus» («estava completamente crivado de sífilis». Isto não o impedia de montar o seu cavalo. Não há cena mais representativa do Renascimento do que a de Júlio II, de armadura completa, a deslizar sobre os fossos gelados para passar as muralhas fendidas de Mirandola, então em mãos francesas, e reclamá-las para Cristo. Nesse terrível inverno o Rio Pó estava gelado. O pontífice pôs um manto branco por cima da armadura, e cobriu a cabeça com uma pele de ovelha, de tal maneira que parecia um urso ao gritar: «Vamos ver quem é que tem as bolas∗ maiores, se o rei de França se o papa». E o italiano deixou bem claro que não se tratava de bolas de canhão. Quando Miguel Ângelo esculpiu uma estátua sua, Júlio examinou-a com uma expressão intrigada. «O que é aquilo que tenho debaixo do braço?» «Um livro, Santidade» «O que é que eu sei de livros?» trovejou o papa. «Põe-me lá antes uma espada.» A preferência de Sua Santidade pela espada em vez da Bíblia, pela sela em vez da Cadeira de S.Pedro, teve os seus efeitos em Roma. Miguel Ângelo, que conhecia a Cidade Eterna como ninguém, deixou num poema as suas impressões sobre os papas que conheceu: Dos cálices elmos e espadas fizeram, Aos baldes, do Senhor o sangue negoceiam, Cruz e espinhos em lâminas envenenadas transformaram E até ao próprio Cristo tiram a resignação.φ Júlio ficou tão zangado com Luís XII de França por este não o ter apoiado nas suas campanhas militares que escreveu uma Bula em que lhe retirava o reino, que ficaria para o piedoso Henrique VIII de Inglaterra, cujo autor preferido era S.Tomás de Aquino, desde que se mostrasse um bom católico ajudando-o nas suas guerras. ∗ Balls no original, que em linguagem informal tem também o significado de testículos. (N. T.) φ No original: Of chalices they make helmet and sword And sell by the bucket the blood of the Lord. His cross, his thorns are blades in poison dipped And even Christ himself is of all patience stripped. (N. T.)
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    109 Júlio morreu antesde a Bula ser publicada. Só por isso é que a França não se tornou Protestante, como a Inglaterra, durante a Reforma, que se aproximava inelutavelmente. A corte de Leão X Após a morte de Júlio, o Cardeal Farnese saiu precipitadamente do conclave para a Praça de S.Pedro a gritar: «Bolas! Bolas!» Esta referência aos Palli do brasão dos Médicis foi logo aproveitada pela multidão espantada. Giovanni de Médicis tinha apenas trinta e oito anos. Ser filho do famoso Lorenzo o Magnífico e de uma Orsini não era desvantagem nenhuma. Tinha sido educado no luxo do seu palácio ancestral na Via Larga de Florença e de outros cenários opulentos. Aos sete anos foi feito abade para a sua primeira comunhão. Aos oito, o rei de França queria que ele fosse feito Arcebispo de Aix-en-Provence; felizmente houve alguém que investigou e descobriu no momento preciso que já havia um Arcebispo dessa sé que ninguém via há anos. Em compensação, o rei deu ao rapaz um priorato perto de Chartres e fê-lo cónego de todas as catedrais da Toscânia. Aos onze anos Giovanni recebeu a histórica abadia de Monte Cassino. Aos treze tornou-se o cardeal mais jovem de sempre, embora não conseguisse o feito de Benedito IX, feito papa aos onze anos. Mesmo o liberal Inocêncio VIII parece ter tido escrúpulos em elevar um adolescente ao Sacro Colégio; insistia em três anos probatórios que dessem ao rapaz todas as oportunidades de dominar a teologia e a lei canónica. Na altura da eleição para o papado, o lívido Giovanni era gordo, míope, de olhos arregalados e, por razões que então não se percebiam muito bem, casto. Isto é, não tinha amantes, nem “sobrinhos” (bastardos). A razão era que ele era provavelmente um ousado homossexual. Guicciardini dizia que o novo papa se devotava demasiado às coisas da carne «especialmente àqueles prazeres que, por questões de decência, não podem ser mencionados». Quando o conclave começou ele estava doente e teve de ser para lá transportado de maca. Uma tal entrada reforçou as suas expectativas. Os eleitores pensavam muito bem dele por outra razão: era conhecido por sofrer de úlceras crónicas nas costas. A cirurgia produziria certamente uma nova eleição. Apesar de tudo isto, Giovanni, que tomou o nome de Leão X, tinha um temperamento exaltado. As suas primeiras palavras como papa foram dirigidas ao seu primo ilegítimo Júlio de Medicis: «Agora é que vou realmente gozar». Ansioso por experimentar a tiara, tirou o chapéu vermelho e entregou-o a Júlio. «Isto é para ti, primo». Júlio usou-o bem. Viria a ser um dos mais desastrosos de todos os papas, Clemente VII. Leão foi coroado num pavilhão provisório em frente de S.Pedro. Da famosa igreja só ficara a fachada, o resto fora deitado abaixo para ser substituído. A concha vazia da velha Basílica de S.Pedro viria a aparecer retrospectivamente como presságio dos negros tempos que se avizinhavam. A basílica de Constantino esteve de pé quase mil e duzentos anos até que Júlio II meteu na cabeça a ideia de a deitar abaixo para construir outra. Os cardeais tentaram dissuadi-lo. O custo seria demasiado elevado; ir- se-iam perder belos mosaicos e relíquias insubstituíveis que ligavam todas as épocas à Igreja das catacumbas. Enquanto a nova basílica estivesse em construção, iria haver uma enorme rotura na fé e devoção do mundo cristão. Júlio não quis ouvir. Pela basílica que ele planeara, a maior do mundo, estava disposto a qualquer sacrifício. Sob Leão, a nova Basílica de S.Pedro iria custar a unidade da Cristandade.
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    110 Em vez dedesistir de tudo para seguir Cristo, Leão apossava-se de tudo em nome de Cristo para si próprio. Jogador e grande perdulário, dizia-se que só obedecia a Jesus numa coisa: não pensava no dia de amanhã. Foi o único tipo de papa com que os romanos se sentiam descansados. Dava-lhes dinheiro, em vez de o esbanjar, como Júlio, em guerras dispendiosas. Foi um tempo de generoso divertimento. Um certo Cardeal Cornaro oferecia jantares de sessenta e cinco pratos, consistindo cada prato de três ementas. Os jantares de Leão rivalizavam com estes. Do menu faziam parte carnes doces, como língua de pavão. Dos pudins saíam rouxinóis a voar; rapazinhos nus saltavam dos doces. O seu principal animador, um frade dominicano anão, Frei Mariano, divertia-o comendo quarenta ovos ou vinte frangos de uma assentada. Durante o Carnaval, passavam dias inteiros a divertir-se com touradas seguidas de banquetes que terminavam com bailes de máscaras em que Leão entretinha os seus cardeais e suas damas. Leão tinha 683 cortesãos na sua folha de pagamentos. Também empregava muitos bobos, uma orquestra, um teatro permanente, especializado em peças de Rabelais, e vários animais selvagens. O seu favorito era um elefante branco, presente do Rei Manuel de Portugal. Em 12 de Março de 1514 realizou-se um cortejo que atravessou Roma em direcção à ponte de Sant’ Ângelo onde Leão se encontrava numa tribuna recebendo as saudações. Depois de um exótico desfile de aves de capoeira indianas, cavalos persas, uma pantera e dois leopardos, vinha Hanno, o elefante branco com um castelo de prata sobre o lombo. De acordo com a rigorosa etiqueta da corte, o elefante, dobrando o joelho saudou por três vezes um pontífice deliciado. Para um grande final, deram-lhe um balde com água para ele aspergir a multidão. Este elefante, alojado no Belvedere, tornou-se uma celebridade e produziu uma literatura completa. Escreveram-se centenas de poemas em sua honra. Ainda existem muitas xilogravuras dele. Rafael pintou-o na cúpula inferior do Vaticano, mas a pintura viria a perder-se em obras de renovação. Na Biblioteca do Vaticano há um diário secreto dos muitos compromissos do elefante, que acabou com uma morte mais chorada do que a de muitos papas: «Lundi XVI Juin, 1516, mourut l’éléphant». Contrariamente ao que diz a lei canónica, Leão caçou durante semanas em Magliana, o seu espectacular retiro, quase tão belo como Castelgandolfo. Magliana ficava a oito quilómetros de Roma, na estrada para Porto. Montava invariavelmente sentado de lado por causa do seu “achaque”, o cheiro que os cortesãos fingiam não sentir. Tal como tantos outros papas da Renascença, Leão foi um entusiástico construtor e patrono das artes. Dele disse o historiador contemporâneo Sarpi: «Teria sido um papa perfeito se a estas realizações [artísticas] tivesse acrescentado um mínimo conhecimento de religião». Nenhum dos interesses de Leão saiu barato, e ele teve de contrair empréstimos de somas fabulosas junto dos banqueiros a um juro de 40 por cento. Os bordéis simplesmente não davam dinheiro suficiente, muito embora houvesse sete mil prostitutas registadas numa população de menos de cinquenta mil. A sífilis era frequente — «um tipo de doença» dizia o sifilítico Benvenuto Celini com genuína compaixão, «muito comum entre os padres». Para reforçar o seu rendimento, Leão inventou os ofícios à volta do palácio. Estes postos trouxeram poder e prestígio e mostraram ser muito populares. Sisto IV tinha só 650 ofícios para venda; Leão tinha 2150. E leiloou-os. A maior procura era de chapéus cardinalícios, que davam em média trinta mil ducados. Suas Eminências recuperavam o dinheiro com vendas corruptas por sua conta.
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    111 Apesar da surpreendenteliberalidade de Leão, muitos cardeais mais novos acusavam-no de não cumprir as promessas que fizera no conclave. Alfonso Petrucci de Siena, que aos vinte e sete anos era um homem de uma profunda impiedade e de um ateísmo inabalável, andava particularmente indignado. Com mais quatro membros do Sacro Colégio, decidiu assassinar o papa. O seu plano era atacar Sua Santidade no seu ponto mais fraco e tinha o mérito da originalidade. Subornou um médico florentino, Battista de Vercelli, para tratar o papa das hemorróidas e durante operação introduzir- lhe-ia veneno directamente pelo recto. Era uma variante para os figos. Leão recusou por duas vezes a oferta de Battista e por fim os seus serviços secretos interceptaram uma carta deste para Petrucci. Ambos os conspiradores foram encarcerados, o cardeal no Marocco, a mais baixa e pior das masmorras do Castel Sant’Angelo. Sob tortura, o médico confessou. Foi enforcado em público e esquartejado por um cirurgião muito menos hábil do que ele próprio. Leão perdoou a quatro dos cardeais rebeldes, mas as compensações foram enormes. O caso de Pertucciu, o líder, foi tratado no recato do Marocco. Sua Santidade não podia permitir que um cristão tocasse sequer com um dedo num antigo príncipe da Igreja e, assim, empregou um mouro como carrasco. O mouro pôs uma corda com nó corredio, apropriadamente de seda carmesim, à volta do pescoço de Petrucci e estrangulou-o lentamente. O maior perigo para Leão vinha de um quadrante que a sua demasiada miopia não o deixava reconhecer. Não vinha da corte papal, nem de Roma, mas da distante Alemanha. Lutero e o escândalo das Indulgências A Alemanha, mais do que qualquer outro país, já vacilava de tantas ofensas papais. Sofria de pesados impostos; o pagamento de um ano de rendimento de um benefício; dízimas impostas sobre os benefícios por Cruzadas contra os Turcos que nunca se realizaram. Por meio da terrível arma que era a excomunhão, o clero acumulou uma imensa riqueza. Muitos homens tornaram-se padres para adquirir imunidade nos tribunais civis. A Chancelaria Romana publicou um livro com os montantes exactos a ser pagos por variadas absolvições. Um diácono culpado de assassínio podia ser absolvido por vinte coroas. Um bispo ou abade que tivesse assassinado um inimigo podia ser absolvido por trezentas livres. O pior dos crimes tinha o seu preço. Estes “malfeitores ungidos”, como eram conhecidos na Alemanha, estavam fora da jurisdição civil. Ao contrário, traziam para dentro da rede eclesiástica, para julgamento, todas as formas de litígio, incluindo, testamentos, legitimação e usura. Qualquer magistrado civil que tentasse impedi-lo era excomungado, o que significava que perdia todos os direitos de cidadão e de homem. Os bens da Igreja, como pertenciam a Deus, eram inalienáveis. A Igreja tinha uma imensa riqueza em todos os países, mas na Alemanha calculava-se que metade estava nas mãos do clero. Estavam isentos de todos os impostos e obrigações, tais como as de defesa nacional. A faísca que incendiou estas terras secas foi inflamada pelo Príncipe Alberto de Hohenzollern. Aos vinte anos já detinha as ricas sés de Magdburgo e Halerstadt, mas a sua ambição era a de se tornar Arcebispo de Mainz e Primaz de Toda a Alemanha. Para isso estava pronto a pagar. Acontecia que o Papa Leão estava com falta de fundos para a nova Basílica de S.Pedro e disposto a negociar. Daria a Alberto a sé de Mainz e, contrariando a lei canónica, deixá-lo-ia ainda, manter as suas duas outras
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    112 dioceses, por dezmil ducados. Isto a acrescentar à taxa do pálio, neste caso vinte mil ducados. Como Alberto não tinha esse dinheiro para entrega imediata, Leão ignorou a condenação da usura pela Igreja. Arranjou maneira de Alberto conseguir um empréstimo do necessário junto dos Fuggers a um juro exorbitante. Como é que Alberto ia pagar a dívida? Leão também tinha pensado nisso. Pegando nos exemplos de Sisto IV e Júlio II, dotou-o de uma lucrativa indulgência que ele podia apregoar durante oito anos, muito embora, antes da sua eleição ele tivesse feito a promessa solene de que revogaria todas essas indulgências. Do lucro assim conseguido metade iria para os banqueiros e a outra metade para o Vigário de Cristo, para a Basílica de S.Pedro. O frade escolhido para pregar a indulgência na Alemanha foi o Dominicano Tetzel. Especulador astuto, de voz forte, foi bem pago pelos seus serviços. O seu salário, fora as despesas, era vinte vezes o de um professor universitário. Como representante do papa, Tetzel fazia sempre uma entrada solene numa cidade, rodeado por dignitários civis e religiosos. Era precedido de um acólito que transportava uma cruz com as armas papais. A Bula de Indulgência era levada em cima de uma almofada de veludo guarnecida a ouro. Com a cruz implantada no meio da praça do mercado, iniciava-se o negócio. À venda estavam salvo-condutos para o Paraíso. Um agente dos Fuggers estava ali a jeito para colocar os proventos num cofre forte. Tetzel era prodigioso a descrever o sofrimento das almas no Purgatório. Como elas se contorciam nas chamas, clamando incessantemente aos parentes na terra: «Tende piedade de nós! Tende piedade de nós!» Doze dinheiros permitiam a um filho libertar o pai da agonia. O refrão mais popular de Tetzel era: Se no cofre cai moedinha Do Purgatório salta alminha. ∗ Um dos associados de Tetzel prometia uma indulgência tão poderosa que era capaz de redimir o pecado de alguém que, nem é bom pensar, tivesse violado a Virgem Maria. É provável que Tetzel tivesse continuado imperturbevelmente a sua tarefa não for a a acção de um pobre monge agostiniano de trinta e quatro anos. De origem camponesa, de olhar mortiço e rosto franco e amigável, Martinho Lutero parecia firme como uma árvore enraizada na terra. A sua paixão era a Bíblia, e não encontrava lá justificação para estes abusos papais. Ficava furioso ao ver os ministros do papa a vender indulgências ao desbarato, chegando mesmo a usá-las como fichas de jogo em estalagens e tabernas. Estes abusos já aconteciam há muito tempo. Em 1491 Inocêncio VIII tinha outorgado a Indulgência Butterbrief por vinte anos. Por um vinteavos de um florim renano os alemães adquiriam anualmente o privilégio de comer alimentos lácteos nos dias de jejum. Isto significava que eles podiam deliciar-se com os seus pratos favoritos e ao mesmo tempo recolher os méritos do jejum. O produto da indulgência foi para a construção de uma ponte sobre o Rio Elbe em Torgau. No ano de 1509 Júlio II renovou a indulgência por mais vinte anos. O que mais encolerizava Lutero era o ludíbrio das pessoas simples que eram levadas a crer que podiam comprar a sua entrada no Céu. ∗ No original: As soon as the coin in the coffers rings A soul from the Purgatory springs. (N. T.)
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    113 Durante as festividadesde Todos os Santos de 1517 Lutero pegou num martelo e pregou as suas Noventa e Cinco Teses sobre Indulgências na grande porta da igreja do castelo de Alberto em Wittenberg. Lá dentro havia relíquias, entre as quais um caracol do cabelo da Virgem que concedia 2 milhões de anos de indulgências. Uma das teses de Lutero dizia: «A riqueza do papa excede em muito a de todos os outros homens. Por que é que ele não constrói a Basílica de S.Pedro com o seu dinheiro em vez de usar o dinheiro dos pobres cristãos?» Segundo este monge rebelde, as Chaves do Reino estavam a abrir todos os cofres de tesouros da Cristandade; a avareza papal estava a transformar o próprio Cristo num cúmplice de ladrões cujo único objectivo era roubar os pobres. Não admira que Lutero ameaçasse rebentar o tambor de Tetzel. Durante muito tempo o papado tinha traído os vulgares cristãos devotos das cidades, vilas e aldeias. Papa após papa tinham virado as costas a Cristo. O papado não só errava como era, ele próprio, o maior erro, porque a verdade não está primariamente no dizer, mas no ser e no fazer. A sua traição ao povo está ainda incorporada nos tijolos e mármores de S.Pedro. O preço daquela basílica foi a desintegração da Igreja que dura há quatro séculos; e que durará ainda muitos mais. O irreformável papado Martinho Lutero não foi o primeiro a querer ajudar e a sair chamuscado. De facto, os críticos mais severos do papado sempre foram não inimigos, mas amigos, incluindo muitos santos — e alguns papas! O seu testemunho data de há muito. Uma das conversas mais intrigantes alguma vez registadas em Roma foi a travada entre o papa inglês Adriano IV (1154-9) e o seu franco compatriota John de Salisbury, mais tarde Bispo de Chartres. «O que é que o povo pensa realmente do Papa e da Igreja?» sussurrou o papa. E John respondeu corajosamente: «O povo anda a dizer que a Igreja se comporta mais como madrasta do que como mãe; que há nela uma veia fatal para a avareza e os escribas e fariseus põem penosos fardos sobre os ombros dos homens, acumulando bens preciosos no mais alto grau. E que o próprio Santo Padre» acrescentou «é opressivo e pouco menos que insuportável». O Papa Inocêncio IV (1243-54), devido a uma disputa com o imperador Frederico II, foi obrigado a deixar Roma. Fez saber que queria exilar-se em Inglaterra. Os pares do reino recusaram recebê-lo. Disseram que a verde e perfumada Inglaterra não podia suportar o cheiro pestilento da corte papal. Em alternativa, Inocêncio levou a Cúria para Lyons. Quando Frederico II morreu, Inocêncio pôde voltar para Roma. O Cardeal Hugo, em nome do papa, escreveu ao povo de Lyons uma carta de gratidão. O documento, datado de 1250, é um dos mais vergonhosos da história papal. Durante a nossa estadia na vossa cidade, nós [a Cúria Romana] prestámo-vos uma assistência muito caritativa. Quando chegámos encontrámos apenas três ou quatro irmãs do amor e quando partimos deixámo-vos, por assim dizer, um bordel que se estende da porta ocidental à oriental. No mesmo século, S.Boaventura, Cardeal e Geral da Ordem dos Franciscanos, comparou Roma à prostituta do Apocalipse, antecipando assim Lutero em três séculos. Esta prostituta, dizia ele, embriagava reis e nações com o vinho da devassidão. Em Roma, afirmava não ter encontrado senão luxúria e simonia, mesmo nos escalões mais
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    114 elevados da Igreja.Roma corrompe os prelados, estes corrompem os padres e os padres corrompem as pessoas. Dante, católico devoto, não só atormentou papa após papa, como tratou com a mesma firmeza a Cúria. Os cardeais, segundo um devoto monge de Duhram, outrora «resplandecentes como prostitutas» jazem nus no Quarto Círculo do Inferno. Grupos destes, até aqui prelados indolentes, são obrigados a empurrar eternamente grandes pedras, que representam as riquezas, contra outras pedras empurradas por outros homens avarentos. O poeta inglês William Langland escreveu: País onde cardeais penetram, Onde eles mais estão e se demoram, O mais odioso de certo será, A devassidão aí reinará. ∗ O Bispo Álvaro Pelayo, assessor em Avinhão, sugeriu que a Santa Sé infectou toda a Igreja com o veneno da avareza. «Se o papa se comporta assim, diz o povo, por que é que nós não havemos de fazer o mesmo?» Num dia perfeitamente normal, o mestre de Pelayo, João XXII, excomungou um patriarca, cinco arcebispos, trinta bispos e quarenta e seis abades. O seu único crime: atrasaram-se no pagamento dos impostos ao papa. Maquiavel, amigo de Petrarca, escreveu: «Os italianos têm uma grande dívida para com a Igreja Romana e seu clero. Com o seu exemplo perdemos toda a verdadeira religião e tornámo-nos totalmente descrentes. É de regra, quanto mais próxima da Cúria Romana está uma nação, menos religiosa ela é». Catarina de Siena disse a Gregório XI que não precisava de visitar a corte papal para lhe sentir o cheiro. «O mau cheiro da Cúria, Santidade, há muito que chegou à minha cidade». No século XV, Santo Antonino, Arcebispo de Florença, criticou a sua cidade por vender obrigações com lucro; isto é usura. Quando os seus críticos diziam «A Igreja Romana autorizou-o», Antonino respondia «Os membros da Cúria têm concubinas. Isto prova que a concubinagem é legal?» A simples vulgaridade do argumento é surpreendente. Uma das razões por que havia mais prostitutas em Roma do que em qualquer outra capital era o grande número de celibatários que lá havia. Os conventos eram muitas vezes bordéis. As mulheres por vezes levavam consigo para a comunhão um punhal como protecção contra o confessor. Os cronistas falam de como os clérigos passavam os dias nas tabernas e as noites nos doces braços das amantes. «O mais santo dos eremitas tem a sua prostituta». Como Santa Bridget disse ao Papa Gregório: «Os clérigos têm pouco de padres e muito de proxenetas do diabo». Os melhores coros romanos cantavam na missa músicas tão lascivas que uma comissão de cardeais discutiu se toda a música não devia ser proibida na igreja. Erasmo, o erudito do século XVI, um dos maiores espíritos do seu tempo, ou mesmo de todos os tempos, dizia que a tirania de Roma era pior do que a dos turcos. Escreveu um quadro teatral em que o Papa Júlio tenta com grandes fanfarronadas passar por S.Pedro nas portas do Céu. Pedro semicerrou os olhos não conseguindo reconhecer naquele guerreiro barbudo um sucessor seu. Júlio tirou o elmo e pôs a tiara. Pedro ∗ No original: The country is the curseder that cardinals come in, And where they lie and linger most, lechery there reigneth. (N. T.)
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    115 ficou ainda maisdesconfiado. Por fim, já exasperado, Júlio põe-lhe as suas chaves à frente do nariz. Depois de as examinar, o apóstolo abana lentamente a cabeça. «Desculpa, mas essas não servem em parte nenhuma deste reino». O Papa holandês Adriano VI confessou à Dieta de Nuremberga em 1522 que todos os males da Igreja vinham da Cúria Romana. «Durante muitos anos passaram-se coisas abomináveis na Cadeira de S.Pedro, abusos em matérias espirituais, transgressões aos Mandamentos, de tal maneira que tudo aqui foi infamemente pervertido». O Cardeal Jesuíta Belarmino tardou em confessar: «Durante alguns anos, antes de Lutero e Calvino, quase não havia na Igreja religião nenhuma». O papado, dizia ele, quase tinha eliminado o Cristianismo. Em 1518, cantando a sua “A Canção do Louco”, Lutero escreveu à nobreza alemã queixando-se da avareza papal. Descrevia a Santa Sé como «mais corrupta do que qualquer Babilónia ou Sodoma. É triste e terrível ver o Chefe da Cristandade, que se gaba de ser o Vigário de Cristo e sucessor de S.Pedro, a viver com uma pompa mundana que nenhum rei ou imperador pode igualar; de tal maneira que naquele que se intitula de muito santo e espiritual há mais mundanismo do que no próprio mundo». Dois anos mais tarde, Lutero foi excomungado pelo Papa Leão. Lutero apelou para um Concílio Geral. Durante vinte e cinco críticos anos os papas e a Cúria recusaram o apelo para o único fórum capaz de resolver as graves questões da Igreja. Por essa altura as coisas estavam tão mal que Contarini disse ao Papa Paulo III (1539-49) que toda a corte papal era herege; era contrária à essência do Evangelho. A lei de Cristo traz a liberdade; o papado, disse Contarini francamente, apenas traz a servidão e o capricho. «Escravidão maior do que esta, Santidade, não podia ser imposta aos fiéis de Cristo». Paulo III, o Cardeal de Saias, cuja única afirmação de eminência foram os irresistíveis encantos da irmã Giulia, não estava talhado para ser um reformador. O Concílio de Paulo — havia de durar vinte anos — começou em Trento em Dezembro de 1545. Edmund Campion, o virtuoso jesuíta que foi martirizado em Londres em 1580, disse orgulhosamente sobre Trento: «Meu Deus! Que variedade de nações! Que lote de bispos de todo o mundo!» A verdade é que em Trento 187 bispos, bastante mais do que metade, eram italianos. Dificilmente se pôde considerar um reunião “católica”. De qualquer maneira, chegou tarde demais para desfazer os danos que o papado já tinha causado. Os padres ficaram espantados ao ouvirem-se descritos, numa sessão aberta, como uma tribo indigna, lobos e não cordeiros, autores da corrupção na Itália e em toda a parte. Como é que Roma, que estava longe de ser a campeã do Evangelho, se tornou, na frase de Contarini, a encarnação da heresia? Foi o poder que esteve na base disso. Como que a confirmar a famosa frase de Acton, o poder absoluto corrompeu não só os detentores de ofícios, mas também o próprio ofício papal. Esta a razão por que homens como o Bórgia, longe de estarem deslocados na Cadeira de Pedro, tão bem nela assentaram. A Reforma não veio quando a Igreja se deteriorou ainda mais, mas quando apareceu a verdadeira santidade. Os Reformadores salvaram o papado, que se tinha afundado demais para se salvar a si próprio ou à Igreja. Jacob Burkhardt disse: «A salvação moral do papado deve-se aos seus inimigos mortais». Mas o preço foi elevado. Trento consagrou a teologia medieval, assegurando assim que o Catolicismo viesse a ser curto de vistas e retrógrado nos séculos seguintes. Foi o principio de uma
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    116 Guerra Fria religiosa.O padre Paulo Sarpi escreveu o seguinte sobre Trento: «Este Concílio, desejado e concretizado por homens piedosos para reunificar a Igreja, que ameaçava rotura, confirmou o contrário, o cisma, e endureceu atitudes tornando os desacordos insolúveis». Trento, em sua opinião, foi responsável pela maior «deformação na ordem eclesiástica jamais vista, com a consequência de que a Cristandade agora é odiada». Depois de Trento, o enorme poder de Roma foi confirmado e os bispos perderam a sua independência, de tal modo que não houve mais concílio nenhum durante mais de trezentos anos. Só então foi convocado um concílio para exprimir formal e finalmente o absolutismo papal. A Igreja Romana, separada dos Protestantes no Ocidente, era a partir de agora menos uma igreja católica do que uma seita temerosa virada para dentro de si própria e dominados pelo papa. O curioso é que Lutero não tinha a intenção de deixar a Igreja. Só que compreendeu que uma Cristandade dividida era melhor do que uma só que o papa governava na negação do Evangelho. É muito melhor ser governado pela Bíblia aberta do que por um papado corrupto e aparentemente irreformável. Os cristãos do Ocidente ainda debatem a sensatez do julgamento de Lutero. A sua análise não diferia muito da de Dante. O que estava mal na Igreja era o libido dominandi do papado, o seu apetite insaciável pelo poder. Leão X foi suficientemente obtuso para excomungar Lutero, mesmo dizendo este que «Queimar hereges é contra a vontade do Espírito Santo». Alguns dos papas seguintes não foram mais perceptivos. A tempestade há muito em formação eclodiu finalmente. O relâmpago rasgou o céu, atroou o trovão — e eles continuaram tranquilos como sempre. Calvino iniciou a Reforma em Genebra em 1541. Lenta e implacavelmente ela alastrou pela França, Holanda e Escócia. E continuava a não haver sinal de reconhecimento no Vaticano de que a sua influência se desvanecia. No ano de 1555 apareceu um novo pontífice. Lutero já morrera há quase uma década, a Cristandade estava praticamente a explodir e uma Igreja dividida já não estava disposta a escutar os delírios de um papa incapaz. E os príncipes muito menos. O novo pontífice era mais cego e mais surdo do que qualquer dos seus antecessores, mas não mudo. Tentou espantar a tempestade e comportou-se como se fosse Gregório VII ressuscitado.
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    117 8 O Crepúsculo doPoder Absoluto Dele diziam os romanos que se a mãe tivesse previsto a sua carreira o teria estrangulado à nascença. O homem em questão era João Pedro Carafa, a encarnação da ira de Deus, que se tornou Paulo IV (1555-9). Alto, magro e calvo, eleito aos setenta e nove anos quando estava atormentado com o reumatismo, Paulo IV ainda tinha um andar enérgico. Os seus gestos, súbitos e impetuosos, atiravam muitas vezes os seus assessores para o chão. O embaixador florentino descrevia-o como um homem de ferro que provocava faíscas nas próprias pedras sobre que caminhava. A cabeça maciça tinha a forma do Vesúvio, a cuja sombra ele tinha nascido. Também ele tinha inesperadas erupções que vomitavam destruição e morte. A barba desgrenhada e as sobrancelhas ásperas davam-lhe um ar selvagem; os olhos encovados, vermelhos e manchados brilhavam como lava incandescente. A voz rouca, quase sempre acompanhada de catarro, trovejava exigindo obediência cega e imediata. Até o historiador papal, Pastor, achou difícil dizer qualquer coisa de bom acerca de Paulo IV. Sulista desbocado, era «tão arrebatado» observou Pastor, «que utilizava expressões que pareceriam incríveis se não fossem confirmadas por testemunhas acima de qualquer suspeita». Completamente católico nas suas imprecações, era capaz de espancar um cardeal como se este fosse um lacaio. Fazia esperar os embaixadores quatro a sete horas, como se isto conviesse à imagem do sucessor de Pedro. Nunca os recebia sem lhes gritar aos ouvidos que era superior a todos os príncipes. Como Vigário de Cristo, dizia ele, era capaz, com um só dedo, de mudar todos os soberanos da terra. No ano de 1557 Paulo publicou a Bula Cum ex Apostolatus officio. Considerou-se Pontifex Maximus, o representante de Deus na Terra. E como tal, tinha poder ilimitado para depor todos os monarcas, entregar todos os países à invasão estrangeira, privar todas as pessoas dos seus bens sem processo legal. Qualquer pessoa que oferecesse ajuda a um deposto — nem que fosse por simples e elementar bondade humana - seria excomungado. Uma nova Rainha para a Inglaterra No princípio de 1559 o embaixador inglês Edward Carne apareceu diante deste papa vulcânico e informou Sua Santidade de que Isabel Tudor, filha de Henrique VIII e Ana Bolena, tinha sucedido a Maria no trono de Inglaterra. Paulo detestava as mulheres com inflexível ferocidade teológica e nunca admitia um único exemplar da espécie nas proximidades. Discordava violentamente de Platão, que dizia que as mulheres eram iguais aos homens. Tomás de Aquino tinha razão: as mulheres são homens inacabados. As suas almas não foram suficientemente potentes para moldar a figura masculina ou o superior intelecto masculino. Apesar de tudo isto, mostrou algum interesse em relação a Maria quando soube da maneira como ela tinha
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    118 tratado os restosmortais de Henrique, seu pai. Desenterrou o seu corpo herege e queimou-o. Alguns anos depois queimou vivos também mais de duzentos protestantes. Com Isabel era diferente. Não sabia essa mulher arrogante, perguntou o pontífice a Carne, que a Inglaterra era, desde o Rei João, um feudo da Santa Sé? E que os filhos ilegítimos não podem herdar? Não tinha ela lido a sua última Bula? Era puro atrevimento da sua parte pretender governar a Inglaterra, quando esta lhe pertencia a ele. Não, não podia deixar passar isto impunemente. Ela era uma usurpadora, uma bastarda, uma herege. Se ela renunciasse às suas ridículas pretensões e viesse imediatamente ter com ele em penitência, iria ver o que podia fazer por ela. Senão… Dois meses depois Isabel cortava relações diplomáticas com Roma. Este arrogante chauvinista do Vaticano não compreendeu a mulher de vinte e cinco anos com que estava a lidar. Apesar dos seus defeitos, ela tinha um coração de carvalho inglês. Isabel nascera numa magnífica cama francesa em Greenwich Palace. Assim que soube que era uma menina, Henrique deixou Greenwich com um ataque de cólera que durou três dias, a gritar que Ana Bolena, a sua segunda mulher, era tão estúpida como a primeira, e por aquilo tinha ele arriscado a excomunhão pelo papa e a perda do seu reino. Ana ficou então a saber que estava condenada. Tinha apenas trinta anos quando foi acusada e considerada culpada de ter amantes e de conspirar para matar as suas rivais. Foi executada com uma pesada espada francesa, deixando Isabel, de três anos, completamente só. A menina tinha os grandes olhos assombrados da mãe e o fino nariz Plantageneta do pai. Vivia de expedientes, é verdade. Mas tinha que ser. Quando cresceu, foi declarada, sucessivamente, legítima e ilegítima, herdeira do trono e, depois da morte do pai, esteve a um passo da execução. Os historiadores divergem sobre se Isabel, quando da sua subida ao trono, estaria já empenhada em reintroduzir o Protestantismo em Inglaterra. Quando Maria, sua meia irmã e a primeira mulher a governar a Inglaterra, se tornou rainha, Isabel mandou imediatamente celebrar missa na sua casa considerando que «uma vida valia bem uma missa». Os insultos gratuitos de Paulo IV selaram o destino dos católicos ingleses. Se ele pensava que era o superior na Inglaterra, ela tornar-se-ia a superiora da Igreja. Este jogo de deposições podia ser jogado por dois, especialmente nos tempos conturbados da Reforma. A acreditar na História, houve mais soberanos que depuseram papas do que o contrário. Excedendo-se e interpretando uma vez mais erradamente os acontecimentos, um papa iria ver mais um país retirar a sua aliança com a Santa Sé. Paulo não conseguiu evitá-lo. A heresia cegava-o para todos os factos e para as consequências. Era uma praga. Numa praga queimam-se as roupas e até as casas. Numa praga da alma o papa não tinha alternativa senão queimar o corpo onde a alma reside. Dessa maneira, os outros não eram contaminados. Isto explica a razão por que ele, apesar de se eximir a numerosas funções, nunca perdeu uma única reunião das Quintas-feiras do Santo Ofício. Mesmo quando já estava a morrer chamou os inquisidores ao seu quarto. Preparados para tratar da heresia, os inquisidores agora condenavam à morte fornicadores, sodomitas, actores, bobos, leigos que não cumpriam o jejum da Quaresma, e até um escultor que tinha esculpido um crucifixo considerado indigno de Cristo. Quando Paulo morreu no verão de 1559, os romanos deitaram fogo à prisão da Inquisição na Via Ripetta e destruíram-na. Uma turba apeou e destruiu a sua estátua no Capitólio, e os judeus, que ele perseguira mais do que qualquer outro pontífice, puseram-lhe um chapéu amarelo sobre a cabeça decepada. O rapazio cuspiu-lhe em
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    119 cima e andouaos pontapés à cabeça e depois arrastou-a pelas ruas para finalmente a atirar ao Tibre. Só ficaram com pena de não lhe poderem rasgar o corpo, membro a membro, com as próprias mãos. Depois de sondarem a opinião pública, as autoridades enterraram o corpo bem fundo em S.Pedro no meio da noite de 19 de Agosto e montaram-lhe uma guarda. Paulo IV nunca duvidara de que, em circunstâncias semelhantes, Jesus, um leal judeu, morto por heresia, teria feito exactamente o mesmo que ele. Ele não era amado. Alguém que em breve lhe sucedeu também não o seria mais. O último soberano a ser deposto Paulo IV sabia o que estava a fazer quando escolheu um Dominicano excessivamente escrupuloso, Michele Ghislieri, para seu Grande Inquisidor. Depois da sua eleição em 1566 com o nome de Pio V, Michele Ghislieri continuou a viver uma vida monástica numa cela no Vaticano. Comia pouco e ameaçou o cozinheiro de excomunhão se lhe pusesse ingredientes proibidos na sopa nos dias de abstinência. O seu principal propósito era transformar Roma num mosteiro. Só falava com Deus e só Deus ele ouvia. De aspecto, Pio era um pacote de pele amarela e ossos vacilantes. Calvo e com uma longa barba branca, a testa cor de cera era alta e estreita sobre um nariz adunco. Os olhos eram minúsculos e os lábios curvos como uma cimitarra. O seu primeiro acto como pontífice foi expulsar todas as prostitutas de Roma. O número de mulheres perdidas na sua diocese envergonhava-o. O Senado Romano resistiu porque, diziam eles, a licenciosidade sempre floresceu onde havia o celibato. Se as prostitutas se fossem embora, não só as rendas das casas cairiam, mas também nenhuma mulher decente estaria a salvo do clero. Pio proibiu os residentes de Roma de entrarem nas tabernas. Esteve à beira de fazer do adultério um pecado capital. Será que ele não sabe absolutamente nada da história papal? — queixava-se um membro da Cúria. A seguir, Pio elaborou aquilo que a comunidade inglesa apelidou de a Última Bula; aboliu as touradas em toda a Cristandade. A bula foi publicada em toda a parte, excepto na Península Ibérica, o que de certa forma diminuiu o seu impacto. A hierarquia espanhola desculpou-se com o fundamento de que não queria criar má reputação à Igreja. Pio depressa voltou a sua atenção para a Inglaterra. Na sombra, encorajou a desobediência civil a Isabel. Contribuiu com doze mil coroas para um levantamento no norte. Estava disposto, dizia ele, a ir pessoalmente, se necessário, ajudar «e empenhar nesse serviço todos os bens da Sé Apostólica». O levantamento falhou. Foi nessa altura que Pio cometeu um estúpido erro fatal. Na primeira semana da Quaresma de 1570, num tribunal de inquérito em Roma, Isabel foi declarada culpada de infidelidade em dezasseis pontos. O veredicto do próprio papa foi incorporado na Bula Regnan in Excelsis de 25 de Fevereiro. Descrevia Isabel como serva do vício e pretensa Rainha de Inglaterra. «Esta mesma mulher, tendo conseguido o reino e escandalosamente usurpado para si própria o lugar de Chefe Supremo da Igreja de Toda a Inglaterra» tinha de ser castigada. Esta última tentativa de um papa derrubar um soberano foi a mais radical e devastadora de todas. Nós declaramos que a sobredita Isabel é herege e instigadora de hereges e Nós declaramos que ela e os seus apoiantes incorreram
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    120 na pena deexcomunhão. […] Declaramos que ela fica privada das suas pretensões ao sobredito reino e de toda a autoridade, dignidade e privilégios. Declaramos também que os nobres, súbditos e povo do sobredito reino e todos os outros que lhe juraram vassalagem ficam para sempre dispensados de qualquer voto de fidelidade e obediência. Consequentemente, Nós absolvemo-los e retiramos à mesma Isabel a sua pretensão ao reino. […] E Nós ordenamos e proibimos os seus nobres, súbditos e povo de lhe obedecer. […] Nós condenaremos aqueles que façam o contrário a uma igual pena de excomunhão. O papa que escreveu isto viria a morrer na cama dois anos depois. Outros iriam pagar na forca os seus erros. Durante doze anos, antes da Regnans in Excelsis, os católicos ingleses, sob Isabel, tinham sido sujeitos a multas por não assistirem a Igreja Anglicana. Nem um só foi executado. O efeito da Bula foi o de transformar os católicos ingleses em traidores. Entre 1577 e 1603, foram executados 120 padres e sessenta leigos que os acolheram. Estes homens e mulheres corajosos tiveram de esperar mais 25 anos do que Pio V pela canonização. Muito depois do seu pontificado os católicos encontravam-se divididos entre a lealdade à Igreja e ao seu país. Foi o papa que decidiu «na plenitude do meu poder apostólico» que uma dupla lealdade era impossível. Fez uma coisa perigosa quando tentou minar o patriotismo dos ingleses. A arma forjada por Gregório VII, que tanta satisfação lhe deu em Canossa, foi afiada na perfeição por Inocêncio IV. E agora reclamava as suas derradeiras vítimas. Gregório tinha feito da excomunhão uma arma política para derrubar imperadores e reis. Esse erro foi o responsável pelo ódio e ilegalização de que os católicos foram alvo em país após país. Uma vez que a sua religião é uma religião de fé e não de raça, os cristãos deviam ser cidadãos do mundo. Pertencem ao Cristo que afirmava sofrer em todos os que sofrem. Um cristão, onde quer que esteja, devia ser um sinal desse amor católico universal. Mas Roma, pela sua tendência para o absolutismo, pela sua ambição de poder, transformou o Catolicismo em Romanismo. Os papas hereges e de heróico ascetismo pessoal exigiam aos católicos não uma obediência meramente espiritual, mas também política. Em resultado disto, parecia que os católicos deviam, e às vezes deviam mesmo, lealdade política a um poder estrangeiro mascarado de vigário de Cristo. Longe de serem um povo universal, eram vistos como menos do que patriotas. Na Inglaterra, Roma dispensou os católicos da obrigação de tentarem derrubar Isabel. No entanto foram avisados de que, se a Inglaterra fosse atacada, teriam de ajudar o invasor a depor a rainha. A partir de então, e durante séculos, os católicos passaram a não ser bem ingleses. Como escreveu Travelyan na sua A Shortened History of England «Enquanto a Igreja Romana não deixasse de usar em todo o mundo os métodos da Inquisição, do Massacre de S.Bartolomeu, da deposição e assassínio de Príncipes, os Estados sobre que ela lançou a sua formidável excomunhão não podiam garantir a tolerância aos seus missionários». No século XVI a Cristandade desintegrou-se. O Protestantismo era um facto consumado. A Reforma tomou de tal maneira conta da Europa que alguns países, antes solidamente católicos, como a Inglaterra, ficaram sob o domínio de monarcas “hereges“. Mesmo em França o Protestantismo foi uma força sujeita às mais cruéis perseguições.
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    121 A Igreja Católicafechou-se em si mesma no período que ficou conhecido como Contra-Reforma. Esta era tão sectária como o Luteranismo e o Calvinismo que se lhe opunham. As polémicas perturbavam-lhe todo o pensamento. A originalidade era um anátema. Era a hora de cerrar fileiras. A sobrevivência era o melhor que se podia esperar; e o papa era o maior sobrevivente da História. A Revolução Francesa em 1789 abalou ainda mais a paz de espírito da Igreja. Lá fora havia um novo espírito, o espírito da «liberdade sem restrições». A Revolução parecia determinada a destruir não só as velhas monarquias absolutas, os anciens régimes, mas também a decência moral e religiosa. Isto, aos olhos dos papas, era trabalho do Demónio. Para uma instituição que representava acima de tudo a ordem, isto era a anarquia. Era inevitável que a Igreja Católica se refugiasse ainda mais em si mesma e se alimentasse da sua velha herança. Como é que se podia esperar que ela se acomodasse à “liberdade“ à moda do ateísmo? Nos anos seguintes Napoleão desferiu mais um grande golpe no papado. Humilhou dois papas sucessivamente. Pio VI foi deposto e obrigado a exilar-se em Valência, onde morreu no último ano do século XVIII. No seu obituário, no registo local, lê-se: «Nome: Cidadão João Braschi. Profissão: pontífice». Também Pio VII, depois de uma concordata falhada em 1801, foi exilado e obrigado a oficiar na coroação de Napoleão em Notre Dame. Naquele momento solene, Napoleão pôs o papa no seu lugar coroando-se a si próprio e a Josefina; depois procedeu à anexação dos Estados Papais. Mas, deve ter pensado Pio IX (1846/78), não tinham aquelas preciosas terras sido devolvidas a Deus, seu dono por direito, pelo Congresso de Viena (1814/15)? O mesmo aconteceria outra vez a seu tempo. Ou seria o Rei Victor Emmanuel mais poderoso do que Napoleão. Era uma mera questão de paciência. Pio IX, um homem de força moral, não conseguiu ver aquilo que saltava à vista. O papado: o fim ou um novo princípio? O velhinho de cabelos brancos e cara vermelha redonda foi acordado pelo som do canhão. As janelas bateram e a sua cama de ferro balançou ligeiramente sobre o chão de mármore. As persianas ainda estavam subidas, mas como aquela manhã de fins de Setembro estava escura, não conseguiu ver as horas no relógio. A respirar pesadamente e a estremecer, o velho soergueu-se com esforço na almofada. O lumbago tornava-lhe cada movimento um tormento; as ancas, principalmente, faziam doer. Uma vez sentado, fez o sinal da cruz. Nesse momento, a porta abriu-se. Uma figura magra, de roupão, com uma lanterna acesa na mão, fez uma vénia antes de entrar e ajoelhou. O homem na cama gemeu: «Che ora?» «Cinco e pouco, Santidade». «Então, Leonardo, aquilo começou». O Cardeal Antonelli, há muito o Secretário de Estado de Pio IX, baixou a cabeça. «E Kanzler?» perguntou o pontífice. «O general está a cumprir as Vossas ordens, Santidade. Vai organizar uma resistência simbólica para mostrar que o inimigo não é bem-vindo. Mas… » Os dedos compridos e ossudos de Antonelli borboletearam para indicar que a cidade estava condenada a cair muito em breve. Depois de se vestir com a ajuda de um criado, Pio dirigiu-se, de muletas para a sua pequena capela para celebrar missa. A sua fervorosa intenção nunca esteve em dúvida. Que Deus preservasse a Cidade Eterna daqueles vândalos piemonteses que se tinham aliado a Satanás. O assobiar e o explodir das bombas eram perfeitamente audíveis enquanto o papa se entregava às suas devoções. As bombas estavam a cair a pouco mais de um
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    122 quilómetro. Era claramenteum ataque em duas frentes. Quando estava a dar graças a Deus, vieram informá-lo de que a principal força sob o comando do General Cadorna estava concentrada na Porta Pia. Vinte dos defensores tinham sido mortos e cinquenta, feridos. «Requiscant in pace» murmurou o Papa, persignando-se. Estes jovens em vão arrancados à vida nos seus melhores anos eram as últimas vítimas das ambições temporais do papado. Pio pediu a Antonelli que arranjasse um encontro dos corpos diplomáticos o mais depressa possível. Os embaixadores reuniram-se a meio da manhã numa sala de audiências à vista do Castel Sant’Angelo. O papa, apontou sem dizer nada. Eles olharam para o sítio onde uma bandeira branca esvoaçava sobre o castelo. Rendição. Estava-se em 1870. Exactamente três séculos depois de Regans in Excelsis, o papa era destituído do seu trono por um monarca terreno. As grandes instituições são vítimas de grandes ironias. Mas durante todos os mil e quinhentos anos de poder temporal do papado nenhum momento foi mais pungente do que este. Contudo, isto era de prever; de facto, pelo menos há duas décadas que era inevitável. Mas Pio IX estava convencido de que o futuro seria sempre como o passado. Já era papa há vinte e quatro anos. Metternich, o chanceler austríaco, que dominava a Europa há quarenta anos, fez sobre ele um juízo rápido que não está longe da verdade: «Coração quente, cabeça fraca e carecendo totalmente de bom senso». Começou em 1846 com a reputação de liberal. Na sua casa ancestral, dizia-se, até os gatos eram nacionalistas. Mal chegou ao trono concedeu logo a amnistia aos presos políticos. Por toda a Península todos os tipos de pessoas sentiam que talvez finalmente o Todo Poderoso tivesse piedade deles. Teria Ele feito um milagre e enviado um papa liberal, um papa que levasse todas as oito regiões separadas da Itália à unidade por que todos ansiavam? Meu Deus, por favor, alguém observou, o pontífice não vai desiludir o gato da família. Os italianos há muito que se queixavam de que Deus não tinha sido bom para a sua bela terra aconchegada ao mar: montanhas inultrapassáveis a norte, dois vulcões a sul e, o mais ameaçador de todos, um papa no meio. Depois de dois anos de reinado de Pio, o cargo apossou-se do homem. Um levantamento republicano em Roma obrigou-o a fugir, de sotaina e óculos escuros, para Gaeta no Reino de Nápoles. Foi nessa altura que ele se converteu à causa reaccionária. Em dois anos de exílio, arrependeu-se de todas as suas simpatias de esquerda para se tornar o mais duro dos da linha dura. O seu único conselheiro nesses anos decisivos foi Antonelli, filho de um bandido napolitano, e conhecido pelas suas aventuras amorosas. Este prelado, que era de antes quebrar que torcer, matar que perdoar, viria a morrer carregado de riquezas cuja origem, até hoje, ninguém sabe. Quando, alguns anos depois da sua primeira experiência amarga, pediram a Pio para chefiar uma federação da Itália, ele recusou liminarmente. Opunha-se a todas as formas de liberdade e mudança constitucional. O seu objectivo único era segurar os estados que governava como monarca absoluto, sem a interferência de ninguém. Estes estados, que os papas tinham entesourado, como o dogma da Trindade, tinham nesta altura o dobro do tamanho da Terra Santa com uma população de quase três milhões. Desde que a Igreja começou a adquiri-los depois de Constantino sair para Bizâncio, o seu efeito final foi sempre o de corromper e estropiar a sua missão espiritual. No século XIV Giovanni de’Mussi escrevera: «Desde o tempo de Silvestre as consequências do poder temporal foram inúmeras guerras… Como é que é possível que nunca tenha havido um papa bom para remediar estes males e que tenha havido tantas guerras por causa destes bens efémeros?»
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    123 Ninguém tinha lutadotão ferozmente por eles como Júlio II. Estavam mais ou menos intactos quando Clemente VII, desorientado pelo saque de Roma em 1527, se encontrou com o embaixador veneziano, Contarini, que em breve viria a ser cardeal. Contarini tentou consolar o papa. Vossa Santidade não deve pensar que o bem estar da Igreja de Cristo reside neste pequeno Estado da Igreja: pelo contrário, a Igreja já existia antes de possuir o Estado, e melhor assim. A Igreja é a comunidade dos cristãos; o Estado Temporal é como qualquer outra província da Itália, e portanto Vossa Santidade deve procurar acima de tudo promover o bem estar da verdadeira Igreja, o qual consiste na paz da Cristandade. Por volta de 1870 só a Rússia csarista era governada de maneira mais perversa do que os Estados Papais. Nestes não havia liberdade de pensamento nem de expressão, nem eleições. Os livros e jornais eram censurados. Os Judeus eram fechados em guetos. A justiça era um leão cego e esfomeado. Era claramente um estado policial sob a bandeira papal, com espiões, inquisidores, represálias, polícia secreta, e as execuções por crimes menores eram um lugar-comum. Uma pequena oligarquia clerical muito fechada, corrupta, lasciva, governava, em nome de Sua Santidade, com mão de ferro. A situação só se tinha deteriorado desde que Lord Macauley visitara a Itália em 1838. Este tentou então imaginar como seria a Inglaterra se todos os membros do parlamento, ministros, juizes, embaixadores, comandantes-em-chefe e lordes do Almirantado fossem bispos ou padres. Pior ainda, bispos e padres celibatários. Para conseguir uma promoção, os homens mais lascivos eram obrigados a tornarem-se clérigos e tomar votos de celibato. O resultado foi, segundo Macauley nas suas Cartas, que «a corrupção infecta todos os serviços públicos… Os Estados do Papa são, suponho, os mais mal governados em todo o mundo civilizado; e a imbecilidade da polícia, a venalidade dos funcionários públicos, a desolação do país mostram-se forçosamente ao viajante mais descuidado. Mais ou menos trinta anos depois, os Estados Papais estavam maduros para a rebelião. Pio recebeu muitas propostas no sentido de salvar a Itália e o papado. Diziam-lhe respeitosamente que Herodes é que era o rei da Judeia e não Jesus; e que no Evangelho não havia qualquer menção ao “poder temporal”. Pelo contrário, Jesus disse firmemente: «O meu reino não é deste mundo». Apesar da Doação de Constantino, os papas nunca foram senhores de nenhuma cidade fora de Roma até o Rei dos Lombardos lhes doar Sutria em 728. Pediam ao papa que se lembrasse de que na Renascença, quando estava no seu apogeu, o papado era tão pouco edificante que perdeu as alianças de metade da Cristandade. Davam-lhe a garantia de plena independência como chefe da Igreja. De facto a sua chefia em matéria de moral e religião seria mais brilhante do que nunca. O papa fez ouvidos de mercador a todos estes apelos. A civilização moderna era obra do Demónio, dizia ele, e recusava parlamentar com o Príncipe das Trevas. O movimento unificador reunia agora forças no Piemonte sob a liderança do Rei Victor Emmanuel II. Cavour, o seu arquitecto, proclamava o ideal de uma Igreja livre num estado livre. Tal como Moisés, ele não iria entrar na Terra Prometida, mas mesmo no leito da morte exclamou para o padre enviado para lhe dar a Extrema Unção:
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    124 «Padre, Padre! UmaIgreja livre num estado livre!» Pio IX pôs sobre este testamento de fé o selo da heresia. Em 1862 recebeu uma petição assinada por doze mil padres. Imploravam a Sua Santidade que lesse os sinais dos tempos. Roma tinha de ser a capital de uma nova Itália. Não quereria ele «pronunciar uma palavra de paz»? A reacção de Pio foi disciplinar aqueles rebeldes, todos eles. Mesmo no fatídico ano de 1870, quando as tropas francesas, que o tinham defendido durante tanto tempo, se retiraram para combater os prussianos, deixando-o com um exército de Gilbert e Sullivan, Pio manteve-se firme. Como ele disse ao corpo diplomático na manhã de 20 de Setembro, não se sentia capaz de se desfazer de uma herança de seis quilómetros quadrados que eram vitais para a sua autonomia espiritual. Assim, quando os canhões de Cadorna romperam a muralha Aureliana na Porta Pia, os emplumados Bersaglieri, parte de um forte exército de sessenta mil homens, inundaram a cidade. Arriaram a bandeira amarela papal em todos os edifícios e hastearam a tricolor. A multidão nas ruas entrou em delírio. Para eles o papa era mais um tirano civil do que o chefe da Igreja. Este era o dia da libertação. Um plebiscito mostrou que só um em cada mil era a favor do papa e contra o rei. Cadorna tinha recebido instruções rigorosas para não bombardear o Vaticano. Pio foi deixado em paz. Mas quando Victor Emmanuel lhe pediu uma audiência, Sua Santidade recusou. A única palavra que ele tinha para dizer ao rei era excomunhão, uma arma espiritual mais uma vez incorrectamente utilizada. E renovou a punição numa espécie de base bienal de modo que o rei foi excomungado quatro vezes antes de morrer em 1878, quando lhe foi permitido fazer as pazes com Deus, que não com o seu representante na Terra. Pio também proibiu os católicos de se envolverem nos processos democráticos da nova Itália, quer como eleitores quer como candidatos. Nos oito anos restantes após a invasão, o pontífice manteve-se no Vaticano, intitulando-se, algo dramaticamente, “O Prisioneiro do Vaticano”. Por toda a parte, especialmente na Irlanda e na Alemanha, circulavam gravuras benzidas que mostravam Pio deitado numa enxerga numa masmorra fétida. As contribuições para a Caixa das Esmolas de Pedro, a dádiva dos pobres, em resultado disto, aumentaram em flecha. A sua prisão era bastante confortável, em nada semelhante à de Pedro na Mamertine. Para falar verdade, ele tinha mais espaço vital do que tiveram todos os judeus de Roma durante séculos. Possuía um esplêndido jardim e inúmeras salas onde descansar ou jogar o bilhar com o Cardeal Antonelli. Um poeta jacobino disse mais prosaicamente do que Pio: «O papa está prisioneiro dele mesmo». Pela Lei das Garantias de 1870, o Rei da Itália propunha um muito generoso acordo. A todas as ofertas, mesmo as financeiras, Pio respondia «Non possumus», (Não podemos), como se tivesse sido convidado para comer carne de vaca em Sexta-feira Santa. E continuou mesmo até ao fim, tal como o Vaticano fazia há séculos, a transformar questões políticas em assuntos chave da religião. Embora afirmasse servir um Mestre que nada possuía de seu, insistia que não podia servir senão como monarca. Pio VII tinha dito o mesmo a Napoleão quando este se apossou do território papal. «Nós exigimos a restauração dos nossos estados, porque eles não são herança pessoal nossa, mas a herança de S.Pedro, que os recebeu de Cristo». Era necessária uma certa audácia para acreditar que Pedro — um pescador da Galileia que provavelmente nunca teve nada de seu a não ser um velho barco de madeira — tivesse recebido de Cristo uma tão grande fatia da Itália Central, sem a qual não podia pregar o Evangelho de Jesus crucificado. Mas Pio IX não recuou em tal crença, o que explica a razão por que o papado teve de ser arrastado à força e a estrebuchar para o Novo Testamento.
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    125 Os não-católicos ficaramdeliciados com o facto de o papado ter sido finalmente reduzido à dimensão de qualquer coisa com o tamanho do Novo Testamento. Os mais desavisados profetizaram a sua extinção. Subvalorizaram a função e o homem. A teologia não era o forte de Pio. O seu secretário particular, Monsenhor Talbot, confessou numa carta a W. G. Ward: «Como o Papa não é grande teólogo, estou convencido de que quando escreve [as suas encíclicas] é inspirado por Deus». A total ignorância não era obstáculo à infalibilidade, dizia ele, porque Deus pode indicar o caminho certo mesmo pela boca de um burro falante. Talbot, sem querer, tinha atingido as alturas de Voltaire. O que lhe faltava em intelecto, colmatava Pio com astúcia animal. Ele já se preparara para um futuro que, de outra maneira, seria negro, com uma jogada que o audacioso Gregório VII teria aplaudido. Dois meses antes da invasão de Roma, Pio tinha presidido à sessão final do Concílio Vaticano. Em contraste com a abertura, um ano antes, S.Pedro estava quase deserta. Na tribuna real estavam duas damas, uma delas a Infanta de Portugal, bem como um decrépito oficial da Ordem de S.Januário, de faixa brasonada sobre o peito. A tribuna diplomática também tinha muitos lugares vagos. Os Grandes Poderes tinham instruído os seus embaixadores para boicotarem uma cerimónia que não lhes traria qualquer vantagem. O tempo estava mau. Uma tempestade ameaçara toda a noite. Para uma manhã romana de meados de Julho, a luz era extremamente fraca. Havia 532 bispos, homens já velhos, vestidos de casula branca e na cabeça a mitra também branca, sentados no transepto norte da basílica. Para muitos, como Manning de Westminster, o único convertido do Concílio, este era o maior dia das suas vidas. Só pela porta principal do transepto é que os de fora podiam vislumbrar os trabalhos. O papa entrou a coxear, quase despercebido; vinha paramentado e a entoar o Veni Creator Spiritus. Depois, no meio de um calor vaporoso, um bispo com voz de baixo numa ópera de Verdi leu a nova Constituição, Pastor aeternus (“Pastor eterno“). Seguiu- se a chamada. Foi então que deflagrou a mais famosa tempestade alguma vez registada, qual ira de Deus, sobre S.Pedro. Nos intervalos entre cada placet dos padres do Concílio ouvia-se o estrépito de um trovão. O timing era liturgicamente preciso. Os relâmpagos entravam por todas as janelas e cintilavam em volta do zimbório e de todas as cúpulas menores, transformando o bronze do baldacchino de Bernini em ouro brilhante. Durante hora e meia a tempestade continuou a rugir até terminar a chamada. Só dois bispos votaram non-placet: Riccio de Cajazzo, de Nápoles, e Fitzgerald, de Little Rock, Arkansas. Mas 140 bispos abstiveram-se. Votar placet ia contra as suas consciências; votar non-placet seria ofender o Santo Padre perante o mundo. Uma análise da votação é esclarecedora. Trezentos dos quinhentos bispos que apoiaram o papa eram bispos titulares ou funcionários do Vaticano que viviam em Roma a expensas do Papa Pio. A maioria dos dissidentes tinha dioceses cujas crenças e sentimentos representavam no Concílio. Pelo menos dois terços dos bispos americanos, liderados por Kenrick de St.Louis, opunham-se à decisão na convicção de que ela tornaria as conversões mais difíceis. A simples dimensão da oposição provava que a Igreja não estava preparada para tão momentosa decisão; ela foi aprovada, mas não reflectia adequadamente o espírito da Igreja Ocidental. Estava em jogo uma verdade muito importante e muitos sentiam que o decreto estava incompleto. Como disse o sincero bispo Strossmayer numa sessão:
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    126 Este Concílio carecede liberdade e verdade… Um Concílio que ignora a velha regra da necessidade da unanimidade moral e começa a decidir sobre propostas por maioria vai, é minha convicção profunda, perder o direito de vincular a consciência do mundo católico como condição da vida e morte eternas. Pio IX recusou ouvir a oposição afirmando que ele era «meramente o porta-voz do Espírito Santo». Ao aprovar o decreto sem se preocupar com a Igreja Ortodoxa nem com os Protestantes, Pio parecia estar a perpetuar a secular fractura entre Roma e as outras grandes comunhões cristãs. As divisões no Concílio de Pio contrastavam cruamente com o Concílio de Constança no século XV em que foi decretado que toda a Igreja, incluindo o papa, está sujeita a um Concílio Geral. Convém lembrar que Constança aprovou isto por unanimidade. Nem a Cúria, nem o futuro papa Martinho V levantaram a mais leve objecção. O Concílio Vaticano viria a provar mais uma vitória de Pirro para o papado, mais terrível até, nas suas consequências, do que a de Gregório VII em Canossa. Mostrou uma vez mais que não foram papas ímpios como Benedito IX e Alexandre VI que provocaram os estragos mais duradouros na Igreja, mas antes os piedosos como Gregório VII, Pio V e Pio IX. Porque a máxima de Acton de que o poder absoluto corrompe absolutamente aplica-se a pecadores e também a santos. Neste caso, Pio IX tinha triunfado; mas semeou a tempestade. Quando lhe levaram os resultados da votação em S.Pedro, a escuridão era tanta que ele não conseguia ver. Acenderam uma vela para que ele desse a sua aprovação à Constituição na sua voz musical: «Nosque sacro approbante Concilio» (Com a aprovação do Santo Concílio, Nós assim decretamos, decidimos e sancionamos o que acabou de ser lido). Os padres bateram palmas, a multidão no corpo da basílica acenou com lenços como asas de pombas fantasmais. A que é que Sua Santidade tinha acabado de dar força de lei? As exclamações da multidão forneceram a resposta: «Viva il Papa infallibile». Pio, a quem Montalembert chamou «o ídolo do Vaticano» tinha-se investido dos poderes de um deus; tinha infalivelmente decretado a sua própria infalibilidade. Aqueles corajosos bispos, que momentos antes a tinham negado, confessavam agora de joelhos a Pio IX — «Modo credo, Sancte Pater» — que criam nela tão sinceramente e sem reservas como criam em Deus e na divindade de Jesus. Foi a mais rápida conversão da História. Os bispos que tinham saído de Roma para evitarem magoar o Santo Padre votando de acordo com as suas consciências, também reconsideraram mais depressa do que seria de esperar e aceitaram o Pastor aeternus. Era uma questão de aceitar ou deixar a Igreja, e a segunda também teria seguramente magoado o Santo Padre. Voltaram para as suas terras para dizer aos fiéis que os decretos do Vaticano foram unânimes, o que ficava bastante aquém da verdade. Alguns até tiveram a coragem de despedir e excomungar teólogos académicos, homens de reputação internacional, como Döllinger de Munique, por continuarem a atrever-se a dizer aquilo que eles próprios tinham dito antes e durante o Concílio. Daqui para a frente, a autoridade vai calcar aos pés a razão e a consciência, porque o Vaticano I abrira um precedente. Qualquer académico católico que promova a democracia ou a liberdade religiosa ou a investigação científica das origens do homem
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    127 tem de estarpreparado para levar umas marteladas - ou, pelo menos, esconder a cabeça num qualquer canto. Porque o que foi decidido no Concílio foi isto: quando o papa exerce a plenitude das suas funções e define uma doutrina para toda a Igreja, as suas decisões são infalíveis por si só, não dependem da aprovação da Igreja. A clara impressão que ficava é que, longe de ser o papa a ir buscar a sua fé à Igreja, é a Igreja que busca a fé no papa. O pontífice é auto-suficiente; não há fiscalização, nem balanços, nem governo, nem oposição parlamentar. O mundo pode tornar-se cada vez mais democrático, um homem (ou mulher), um voto; a Igreja, nunca. No Catolicismo, um homem, um voto tem um tom muito diferente. A Cúria ficou encantada. Eles receavam um Concílio e, passados três séculos sobre Trento, acreditavam sinceramente que os Concílios não eram necessários. Mas agora os bispos tinham generosamente e de uma vez por todas posto nas suas mãos a direcção da Igreja. Eles deram o seu consentimento ao papa e este nunca mais precisou dele. O episcopado católico era finalmente a força vazia que Gregório VII desejara que fosse; os bispos tinham abdicado perante o mundo. Por uma maravilhosa metamorfose, os pastores tinham-se tornado as ovelhas. O Concílio fez um interrupção numa atmosfera internacional tumultuosa. Poucos acreditavam que ele recomeçasse, mas, de qualquer maneira, porquê a preocupação? Este, previam muitos curialistas confiantes, seria o último Concílio da Igreja. Para convocar outro, só um papa completamente louco. Ou, pedindo desculpa à Cúria, um santo. Não-católicos complacentes observavam estarrecidos. Aos olhos de muitos, como por exemplo o Primeiro Ministro britânico, Gladstone, foi um Gigantesco Passo Atrás em direcção à Idade das Trevas. Muitos estavam genuinamente intrigados. Como é que dezoito séculos depois de Pedro, foram precisas semanas de debate agonizante para decidir, com a maioria de votos de um fragmento da Igreja, que uma doutrina, acaloradamente contestada até ao último minuto, era subitamente evangélica e vital para a salvação? Os mais inclinados para a teologia, com um claro sentido de ironia, ficaram satisfeitos por verem que havia pelo menos um Protestante a fazer juízos particulares na Igreja Católica: o papa. Era uma crítica astuta. O Vaticano I tinha transformado o papa de «o Católico dos Católicos» no único Protestante da Igreja. Os críticos mais filosóficos perguntavam como é que o papa pode falar infalivelmente sobre Deus, se Deus é inefável e reside em luz inacessível. Mas os mais sensatos de todos sugeriam: Isto é mais uma afirmação política do que religiosa. Quase a perder os seus estados, o papa estava determinado a ser um monarca absoluto numa terra que nem o monarca mais poderoso lhe pode alguma vez arrancar. A busca do poder absoluto não tinha parado; havia de continuar no campo da verdade. Com a verdade, tal como com o poder, o currículo da Igreja também não era bom.
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    131 Segunda Parte A Verdade «Ospapas não só foram assassinos em grande estilo, como também fizeram do assassínio uma base legal da Igreja Cristã e uma condição de salvação.» Lord Acton
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    133 9 O Esmagamento daDissidência A Casa Papal da Esquina Embora se tenha sempre chamado Santa, Católica e Apostólica, poucos ou nenhuns peregrinos a vão ver. Poucos guias turísticos se preocupam em mencioná-la. Tendo em vista a sua história, isto é estranho, porque poderia dizer-se que este edifício tem a chave para a compreensão da Igreja Romana. E é ainda mais estranho na medida em que fica a muito pouca distância da sacristia da Basílica de S.Pedro, numa rua sossegada, à esquerda da Basílica, por detrás da colunata quádrupla de Bernini. Uma grande casa de esquina, esta Casa Santa, com os seus grandes portões, é conhecida localmente como o Palácio da Inquisição. Devido à má reputação que adquiriu, e tal como aconteceu com a polícia secreta soviética, a Santa Inquisição Católica Apostólica, foi rebaptizada por mais de uma vez em anos recentes. Em 1908 a mais antiga das Sagradas Congregações de Roma passou a chamar-se Santo Ofício; e a partir de 1967, mudou o nome para Congregação para a Doutrina da Fé. O seu actual secretário e chefe do executivo — o antigo Grande Inquisidor — é o cardeal bávaro Ratzinger, mas o seu presidente sempre foi o pontífice reinante. Emílio Zola, no seu brilhante mas amargo Roma, escrito nos últimos anos do século XIX, descreve as impressões que o Palácio da Inquisição lhe deixou: É uma zona solitária e silenciosa, raramente perturbada pelos passos de peões ou pelo ruído de rodas. Só o sol ali vive em tiras de luz que alastram lentamente sobre o pequeno pavimento branco. Adivinha-se a proximidade da basílica porque se sente o cheiro do incenso, uma tranquilidade claustral como que de um torpor de séculos. E numa das esquinas ergue-se o Palácio da Inquisição de uma nudez pesada e inquietante, com apenas uma fila de janelas a rasgar a sua majestosa fachada amarela. A parede que margina uma rua lateral tem um aspecto ainda mais suspeito com a sua fila de janelas ainda mais pequenas, meros buracos de caixilhos glaucos. À luz brilhante do sol, este enorme cubo e a alvenaria cor de lama parecem adormecidos, misteriosos e fechados como uma prisão, quase sem qualquer abertura de comunicação com o mundo exterior. A aparente sonolência é uma ilusão. Neste local continua a fazer-se a leitura de uma enorme quantidade de documentos e daqui sai uma infindável corrente de avisos, instruções e censuras. As masmorras, onde num passado não muito distante tantos foram torturados, já o não são. Felizmente um estado secular arrancou o poder temporal das garras de Pio IX.
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    134 Desde 1870 asmasmorras e as celas da Inquisição foram transformadas em gabinetes e arquivos onde o trabalho prossegue metodicamente como outrora, embora de uma maneira muito menos brutal. Os católicos fazem a sua vida em todo o mundo sem pensarem na Inquisição. São conhecidos pela sua devoção e normalidade. Poucos são os maníacos e os fanáticos que se encontram entre eles. O proselitismo esganiçado e ostensivo não é com eles. Os missionários católicos — padres, freiras e leigos — são discretos. Muitos deixam as suas terras para dedicarem a vida ao serviço dos mais necessitados. Quando pensam no Santo Ofício, assumem que ele é um braço essencial da ortodoxia, uma maneira de preservar a fé apostólica. Ficariam chocados se descobrissem os abusos que tiveram origem neste edifício na Via del Sant’Ufficio. O Papa João Paulo II Onde é que o actual pontífice se situa? Ele não está isento de contradições bem aparentes. Em primeiro lugar, é claramente um homem bom e compassivo. Em 1987 deu autorização a Madre Teresa de Calcutá para construir um lar para os sem abrigo dentro do Vaticano. Tem um profundo afecto pelas crianças e pelos doentes. Onde quer que vá, apela eloquentemente para os direitos e dignidade do homem. Por outro lado, aparece muitas vezes como o papa mais severo de que há memória viva. Teríamos de recuar até ao tempo de Pio X, no virar do século, para encontrar um papa que menos ouvisse e mais exigisse pronta obediência. A razão disto é clara. O pontífice é por natureza e por formação um platónico. Crê que a verdade é eterna e imutável. Como Vigário de Cristo, tem uma opinião privilegiada e espiritualmente inspirada sobre aquelas verdades que é seu dever apresentar à Igreja e das quais nenhum católico se pode desviar um centímetro que seja. E mais uma vez, João Paulo diz repetidamente que o clero se deve manter fora da política. Mas quando trabalhava na Polónia como padre, bispo ou cardeal empenhou-se constantemente naquilo que, pelo menos os Comunistas, designavam por «actividades políticas de direita». Além disso, Sua Santidade deve saber que as visitas à sua terra natal não podem deixar de ser interpretadas como actividade política. Isto, de facto, enquadra-se inteiramente na tradição do Vaticano. Durante séculos e séculos, a Igreja Católica foi a primeira força política da Europa. Envolvia-se nas actividades de todos os países como e quando queria. Os papas, quase à sua vontade, depunham imperadores e reis. Pio X, no seu primeiro consistório em 9 de Novembro de 1903, disse: Nós vamos ofender muita gente ao dizermos que temos necessariamente de nos preocupar com a política. Mas qualquer pessoa que julgue esta questão imparcialmente terá de reconhecer que o Soberano Pontífice, investido por Deus na Suprema Magistratura, não tem o direito de separar os assuntos políticos dos do domínio da fé e da moral. Muitos padres e irmãs da África do Sul, confrontados com o apartheid, ficaram perplexos ao ouvir o papa polaco dizer-lhes que o envolvimento na política é contrário à sua missão religiosa. Finalmente, a Igreja Católica é o único corpo religioso existente que é simultaneamente igreja e organização política. Esta a razão por que é a única de entre
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    135 as igrejas queprocede à troca de representantes diplomáticos e reivindica o reconhecimento como membro independente da comunidade das nações. E não o faz como pequeno estado (o Vaticano) mas como organização religiosa mundial. A maioria dos comentadores concorda que João Paulo deu uma volta pelo Vaticano e fechou as janelas e correu os estores. Mesmo depois do Concílio Vaticano II, mandou rever o código canónico da Igreja em 1983 sem se preocupar em pedir a aprovação dos bispos de todo o mundo. Ao contrário do seu antecessor Paulo VI, não é de modo nenhum vítima de dúvidas ou hesitações. Isto explica o facto de ele tratar com severidade qualquer teólogo que ouse questionar as suas decisões, mesmo as não infalíveis. Logo em 1979, revogou a licença ao mais conhecido escritor católico do mundo, Hans Küng. Em consequência disto, Küng deixou de ser considerado como teólogo católico e perdeu o seu lugar na Faculdade Católica da Universidade de Tübingen. Se o reitor não lhe tivesse oferecido um lugar fora da Faculdade Católica, Küng ficaria desempregado. Roma pareceu ficar satisfeita por ele ter sido reduzido ao silêncio e os outros potenciais dissidentes na Europa e na América do Norte ficaram avisados. O teólogo holandês Edward Schillebeeckx é frequentemente repreendido pelo Santo Ofício; o Padre Leonardo Boff do Brasil, especialista em conciliar os pensamentos católico e marxista, também já foi repreendido. Ambos estão em situação probatória com a promessa de se comportarem bem. João Paulo ganhou a sua causa: alinhado com Gregório VII e Pio IX, não se contenta com menos do que a total submissão, mesmo em matérias que são altamente contestadas. Alvo: os Jesuítas Alvo maior do que os teólogos individuais foi a Ordem dos Jesuítas. João Paulo depressa deu mostras de que não estava satisfeito com os tradicionais defensores do papado. O então Geral da Ordem, Padre Pedro Aruppe, tinha fama de liberal. Andava apenas a tentar pôr em prática entre os irmãos os decretos progressistas do Vaticano II. Quando adoeceu, foi nomeado o Padre Vincent O’Keefe para Vigário Geral em exercício. O’Keefe, de nacionalidade americana, fora o reitor de Fordham, a Universidade Jesuíta de Nova Iorque. João Paulo achou que ele era inaceitável. Em 1981 impôs à Ordem o Padre Paolo Dezza, de setenta e nove anos e quase cego, como seu delegado pessoal. Nunca nenhum papa agira assim. Karl Rhoner, o mais distinto teólogo actual, juntamente com mais dezassete Jesuítas de proa da Alemanha Ocidental, apresentou uma petição ao papa: «Santo Padre, permiti que elejamos o nosso Superior Geral com a liberdade que, desde os primórdios da Igreja, sempre representou uma das regras básicas de todas as ordens». O papa ficou irritado. Se não conseguia uma obediência cega da parte dos Jesuítas, a quem mais é que ele podia fazer exigências? Não é verdade que o fundador da Ordem, Inácio de Loyola, na sua obra Exercícios Espirituais, disse aos seus seguidores que «Para chegar à verdade em todas as coisas devemos estar sempre prontos a acreditar que aquilo que nos parece branco é preto se a Igreja assim o decidir»? Não, antes de terem um novo Geral que fosse para ele aceitável, os Jesuítas tinham de deixar de discordar das proclamações papais. Só quando lhe asseguraram que tinham mudado as suas posições e que votariam num Geral que fosse para ele aceitável é que ele os deixou continuar. Mesmo assim, não correu riscos. Procedeu pessoalmente à abertura da 33ª Congregação Geral — o primeiro papa a fazê-lo — na casa dos Jesuítas no Borgo Santo Spirito, próximo do Santo Ofício. A sua presença foi mais uma ameaça do
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    136 que uma honra.Na primeira votação escolheram um moderado, o Padre holandês Piet Hans Kolvenbach. Resolvida a questão dos Jesuítas, o Santo Padre voltou a sua atenção para o maior de todos os alvos. Alvo: A Igreja dos Estados Unidos da América À excepção da Holanda, onde a oposição aos ensinamentos da moral católica é quase total, e onde praticamente deixou de haver ordenação de padres, não há país nenhum onde a crise seja tão palpável como nos Estados Unidos. A crise, deve dizer-se, concerne às estruturas e não ao espírito da comunidade, que continua vibrante e esperançosa. Em 1974, seis anos depois de Paulo VI ter ilegalizado os contraceptivos, só treze por cento dos católicos americanos concordavam com ele. A única coisa que o então Presidente da Conferência Episcopal, Arcebispo Bernardin, soube dizer foi que «Os valores éticos não podem ser alcançados através de uma mera contagem de cabeças». Contudo, havia indícios de que Bernardin não estava completamente satisfeito com a perspectiva de um exército composto apenas de generais. Em 1986 o Bispo James Marlow, de Youngtown, Ohio, Presidente cessante da Conferência Episcopal, admitiu haver «uma crescente e perigosa discórdia entre o Vaticano e a Igreja dos Estados Unidos». Quando, nos fins de 1987, o Santo Padre visitou a América pela segunda vez, o Arcebispo Weakland de Milwaukee disse-lhe que de 1958 a 1987 a frequência da igreja nos Estados Unidos caíra de 75 para 53 por cento. As últimas sondagens mostram que uma enorme maioria dos católicos americanos são activamente favoráveis à contracepção e ao casamento após o divórcio. Só 14 por cento pensam que o aborto devia ser ilegal em todos os casos e 93 por cento são de opinião de que se pode ser um bom católico e discordar do pontífice em questões morais básicas. O panorama da Igreja americana continua tempestuoso e a borrasca começou realmente quando João Paulo castigou o Arcebispo Hunthausen, de Seattle. O arcebispo foi informado secretamente pelo pro-núncio papal Pio Laghi de que lhe ia ser retirada a autoridade em quatro áreas-chave: ensinamentos morais, laicização dos padres, anulação de casamentos e a liturgia e ensino nos seminários. Um seu adjunto, Donald Wuerl, ordenado em Roma por João Paulo II, foi investido de plenos poderes em sua substituição. Contudo, Hunthausen não era propriamente um funcionário do papa, mas, tal como o próprio pontífice, sucessor dos apóstolos. Daí que o Vaticano se sinta na necessidade de recorrer a estas tácticas clandestinas para o conter. João Paulo comporta-se como se fosse ele o Bispo de Seattle e Hunthausen o seu vice. Se o vice lhe desagrada pode ser substituído. Se e quando o vice dá provas de bom comportamento, isto é, de obedecer à letra a todos os decretos do Vaticano, pode vir a ser reinvestido nas suas funções. A livre iniciativa local é reduzida. Em tudo isto, o papa parece não ser apenas o Bispo de Roma, mas também o Bispo do Mundo. Benedito XIV disse o mesmo: «O Papa é o principal padre de toda a Igreja e pode retirar qualquer igreja local da jurisdição do seu bispo sempre que queira». Há uma lógica nisto; os bispos juram servir não a Igreja e a religião mas «manter, defender, aumentar e avançar os direitos, honras, privilégios e autoridade do seu Senhor, o Papa.» A maioria dos outros bispos estava do lado de Hunthausen, mas, como habitualmente, sentiram que não tinham outro remédio senão alinhar com o papa,
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    137 mesmo quando eleagia injustamente em relação a um dos seus. A ordem é a primeira prioridade do catolicismo. Hunthausen foi reinvestido nas suas funções em fins de Maio de 1987, e Wuerl foi transferido para outro posto. Isto aconteceu depois de uma comissão de bispos dos Estados Unidos, ordenada pelo Vaticano, garantir a ortodoxia de Hunthausen, muito embora «sem intenção», dizia o relatório, os outros ficassem com a impressão de que ele concordava com «uma certa permissividade». Assim, o arcebispo de uma grande diocese foi castigado por Roma por causa de impressões erradas com que ficaram alguns católicos “desembaraçados”. No futuro, ficam os bispos avisados de que terão de ter cuidado não só em relação à sua ortodoxia, mas também mesmo quanto às impressões que deixem em pessoas mal intencionadas. Foi também em 1986, em meados de Março, que Ratzinger, o braço direito do papa, retirou ao Padre Charles E. Curran a licença para ensinar. Para João Paulo, a função do teólogo é simplesmente transmitir as decisões vindas de cima. Curran é um ingénuo numa profissão onde a ingenuidade pode pôr a espécie em perigo. Ele pensa que o teólogo tem o sagrado dever de «avaliar e interpretar» as decisões da hierarquia à luz da Palavra de Deus. Curran perdeu o seu lugar na Universidade Católica de Washington em 1987. O Papa João XXIII afirmou no início do Concílio Vaticano II que os dias da condenação tinham acabado. E nenhum teólogo tinha sido demitido com base em questões éticas desde o Concílio. A alegação de Ratzinger de que Curran não é «nem adequado nem elegível» para ensinar num estabelecimento católico foi mais um aviso para os pensadores de espírito independente. Ratzinger também estabeleceu que os católicos leais devem obedecer não só às doutrinas definidas, mas também ao completo magistério ordinário expresso pelo papa e pelos bispos. Em termos práticos, isto é o mesmo que dizer “expresso pelo papa“. O caso do Arcebispo Hunthausen é a prova de que os bispos não usufruem de qualquer independência. Falando claro: os bispos e os teólogos só podem servir a verdade obedecendo ao papa. A dissidência leal é, tragicamente, no Vaticano, tal como no Kremlin, uma contradição. Outro dos “casos” americanos foi o do velho Padre Terence Sweeney, Jesuíta de Los Angeles. Com o encorajamento do seu superior, fez um inquérito aos 312 bispos católicos americanos sobre quatro questões relacionadas com o celibato dos padres e a ordenação das mulheres. Dos 145 que responderam, trinta e cinco eram a favor do casamento dos padres, tendo em vista a carência de vocações. Onze disseram que gostariam de ver mulheres ordenadas. Ratzinger e o Geral dos Jesuítas em Roma disseram-lhe mais do que uma vez: queime as suas investigações ou então abandone a Ordem. Sweeney, Jesuíta há vinte e quatro anos, viu que a única saída que lhe restava era abandonar a Ordem. Como é que ele podia queimar a verdade? Que valor é que tinha a obediência sem o fundamento da verdade e da razão? Esse tipo de obediência, afirmava ele, «não é compatível com a dignidade humana». É difícil de perceber a razão por que um distinto Jesuíta havia de ser obrigado a deixar a Ordem, não por desvios à doutrina ou à moral, mas por tornar públicas as atitudes dos bispos que livremente responderam ao seu inquérito. A impressão que fica é que o papa parece ficar aterrorizado com a ideia de se saber o que os bispos, os seus bispos, realmente pensam. Na cabeça fica-nos esta imagem: o papa pensa nos bispos como altos funcionários públicos. Eles não fazem política, concretizam-na. Quaisquer que sejam as ideias que tenham, devem guardá-las para si. Só ele é fala pela Igreja. Ficou a impressão de que um bispo que discorda do papa já é bastante mau, mas trinta e cinco num só país é intolerável Tal revelação ensombra a fachada de total
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    138 acordo que éo orgulho do Catolicismo. A Igreja do Silêncio também existe deste lado da Cortina de Ferro e inclui prelados que não desejam seguir o exemplo de Hunthausen. É difícil fugir a esta conclusão: os bispos têm muito receio do papa para dizerem o que realmente pensam sobre o que é melhor para a Igreja e para as suas dioceses. Aliás não existe qualquer meio de exprimir uma dissidência. Ao nível da paróquia, a situação é a mesma. Os padres aconselham o rebanho em termos liberais, mas só no confessionário. O papel de mártires públicos não é com eles. Crêem que é melhor ficar calado e sobreviver. Mas onde está o testemunho para a verdade do Evangelho? E o que é que está a acontecer a esta grande instituição que, a tantos níveis de responsabilidade, está a viver uma mentira? O choque frontal de dois sistemas gigantescos A principal razão por que o papa elegeu como alvo para os seus mísseis a Igreja americana foi esta: uma monarquia americana do tipo vaticano está em conflito directo com os ideais fundamentais da primeira e maior república do mundo. A América orgulha- se de ser a terra dos homens livres; e certas formas de liberdade são estranhas à noção de fé cristã do pontífice. Para este, a verdade católica é absoluta e a obediência a ela uma necessidade vital. O papa, como Porta-voz Ungido de Deus, tem a obrigação de exigir de todos, desde o mais humilde paroquiano ao teólogo mais astuto, uma obediência firme e pronta. A História revela um perfeito contraste entre os ideais de liberdade católicos e americanos. É este contraste que subjaz à profunda desconfiança do Vaticano em relação à Igreja americana. Primeiro, a Igreja. Em 1520, Leão X condenou Lutero por este se atrever a dizer que queimar os hereges era contrário à vontade de Deus. Gregório XIII celebrou com alegria o Massacre de S.Bartolomeu na noite de 24 de Agosto de 1572, em que morreram milhares de protestantes Huguenotes. Clemente VIII atacou o Édito de Nantes em 1598 porque ele atribuía igualdade de cidadania a todos, independentemente da sua religião. O Édito foi revogado em 1685 para satisfação da Igreja: nos três anos seguintes cinquenta mil famílias protestantes abandonaram a França, dispersando-se por terras estrangeiras, mais, segundo Voltaire, do que os próprios judeus. Inocêncio X tinha entretanto condenado a Paz de Vestfália por esta ousar garantir a tolerância para com todos os cidadãos, independentemente da sua religião ou da ausência desta. Em todos os casos, e durante séculos, a Igreja Católica proclamou orgulhosamente o seu dogma da intolerância religiosa. No século XIX, a política na Europa alterou-se profundamente, mas o mesmo não se passou com os ensinamentos católicos. A Igreja e o Estado, diziam os papas, estavam indissoluvelmente unidos, como num casamento cristão consumado. A liberdade era não-cristã, a lei e a ordem, o objectivo primordial. Pontífice após pontífice atacaram a liberdade com a veemência que os papas do século XX reservaram para a contracepção. Pareciam temer que o governo do povo pelo povo e para o povo levasse a exigências semelhantes na Igreja. Gregório XVI, em Mirari vos, em Agosto de 1832, descreveu a liberdade de consciência como uma ideia louca. Afirmava-se que a liberdade religiosa fluía da «mais
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    139 fétida fonte doindiferentismo». Condenou a liberdade de religião, de imprensa, de reunião e de educação como um esgoto imundo de um «vómito herege». Pio IX continuou com a arremetida. Na Encíclica Quanta Cura, de 1864, atacou a liberdade religiosa e comparou-a à liberdade de morte. Entre as moções condenadas no seu Manual dos Erros estava esta: «Hoje já não é apropriado que a religião católica seja a única religião do Estado, com a exclusão de todas as outras confissões religiosas». Leão XIII, que se lhe seguiu, compreendeu que o mundo estava a mudar. Contudo, em encíclica após encíclica definiu a liberdade religiosa em termos perfeitamente medievais. A Igreja tem direito ao monopólio da religião em qualquer estado católico. Portanto, não se deve dar ao erro a liberdade de se propagar. Liberdade e verdade são incompatíveis. A verdade deve ser imposta pelo Estado sob a direcção da Igreja onde quer que isso seja possível. Cada estado, insistia ele, deve ainda professar a verdadeira fé como sua política oficial e tolerar a liberdade de consciência o menos possível e pelo mais curto espaço de tempo possível. Este oportunismo, esta abordagem mesquinha da liberdade religiosa está exactamente nos antípodas da experiência americana. Em 1492, devido a um erro de navegação, Colombo aportou às Ilhas Bahamas antes de rumar a sul. Se ele tivesse navegado, como era devido, para oeste e descoberto o Continente Norte-Americano, Os Estados Unidos teriam tido provavelmente uma história religiosa semelhante à do México, Brasil e Argentina. Da maneira como as coisas aconteceram, os primeiros imigrantes na América do Norte, eles próprios vítimas de perseguições no Velho Mundo, trouxeram com eles as tradicionais noções europeias das relações entre Igreja e Estado. Também eles pensavam que a intolerância era uma grande virtude. Daí que na Nova Inglaterra houvesse uma única instituição; religião e governo eram quase indistintos. Impuseram uma ortodoxia religiosa rigorosa e a frequência da igreja era obrigatória. Era uma situação que não podia perdurar. Os súbditos das colónias eram demasiado díspares nas suas crenças para que qualquer sistema único, geralmente o Protestantismo de direita, pudesse prevalecer. As minorias religiosas, perseguidas na Europa, estavam determinadas a edificar não só uma nova terra, mas também um novo paraíso onde todos os homens fossem iguais. No Novo Mundo mesmo a religião foi democratizada, coisa que a Europa não conhecia desde os tempos mais esclarecidos do Império Romano. Providence, mais tarde chamada Rhode Island, e Maryland iniciaram a demolição da velha intolerância religiosa. Em Rhode Island, e pela primeira vez na História, houve uma separação completa entre Estado e Igreja, e liberdade de expressão para todos. Esta extraordinária experiência, não só era ousada, como também foi bem sucedida. Maryland, fundada por Lord Baltimore como refúgio para os católicos, também abriu as portas a todos os que chegavam, apesar de os Jesuítas tentarem obrigar Sua Senhoria a submeter-se à ordem medieval. Por volta de 1660, as tendências liberalizadoras eram fortes na maioria das colónias; era já perceptível uma abordagem distintamente americana. No século XVIII, com a independência nacional veio também a completa liberdade religiosa. Por exemplo, em 1786, Jefferson redigiu um estatuto de liberdade religiosa para a Virgínia, o primeiro alguma vez aprovado por uma assembleia popular. Rezava assim: Que seja portanto decretado pela Assembleia Geral que ninguém seja obrigado a frequentar ou a apoiar qualquer confissão religiosa, local ou ministério […] mas antes que todos os homens sejam livres de professar e de manter, pela discussão, as suas opiniões em
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    140 matéria de religiãoe que as mesmas de maneira nenhuma diminuam ou aumentem ou afectem a sua cidadania. Em 1787 esta liberdade foi instituída no artigo VI da Constituição Federal: «Nunca será exigido qualquer exame religioso como habilitação para o exercício de qualquer profissão ou cargo público nos Estados unidos». Em 1791, veio a primeira Emenda: «O Congresso não pode interferir na liberdade religiosa, na liberdade de expressão, de reunião e de petição. O Congresso não fará qualquer lei sobre o estabelecimento de uma religião, nem proibirá o seu livre exercício». Estas declarações históricas marcam a rotura definitiva com as atitudes religiosas do Velho mundo. Os Estados Unidos exprimiram insatisfação com a noção de “tolerância“; desejavam liberdade e igualdade religiosa para todos os cidadãos. A tolerância era considerada uma forma de hipocrisia; é um insulto para os considerados tolerados. Além disso, aquilo que é tolerado hoje podia não o ser amanhã. Nas palavras de Jefferson, a Constituição edificou acima de tudo «um muro de separação entre a Igreja e o Estado». Qualquer pessoas, católica ou protestante, que tentasse abrir brechas nesse muro ou o destruísse completamente não tinha o direito de se intitular americano. Para espanto de Roma, a Igreja Católica floresceu sob um regime considerado por Roma como hostil aos mais básicos princípios da fé. Gregório XVI (1831-46) disse: «Não há parte alguma do mundo onde eu me sinta mais papa do que nos Estados Unidos». E Pio IX, durante cujo reinado os católicos nos Estados Unidos atingiram os seis milhões e meio, pronunciou a famosa frase: «A América é o único país do mundo onde eu podia ser rei». Parece não ter reparado que os americanos tinham perdido o gosto pela monarquia anos atrás, em 1776, com a Declaração da Independência. À volta de Pio IX teceu-se o mais intrigante caso de podia-ter-sido da história papal. Ameaçado no Vaticano pelo crescente nacionalismo italiano, Pio IX recebeu duas ofertas de ajuda incrivelmente generosas. No ano de 1863, o padre britânico Lord John Russel escreveu ao Cardeal Antonelli a sugerir-lhe que, numa emergência, a Ilha de Malta poderia ser um refúgio paradisíaco para Sua Santidade: «Poderia aí ficar, rodeado dos seus principais cardeais e dos seus conselheiros de confiança. Não lhe seriam exigidas quaisquer condições que ferissem a sua consciência». O governo britânico garantir-lhe-ia completa protecção. Não há provas de que o pontífice tivesse ponderado seriamente esta oferta. Não muito depois, quando o céu começou a escurecer ainda mais, Rufus King, ministro americano acreditado junto dos Estados Papais, foi abordado por um alto funcionário do Vaticano. Disse o funcionário que o único lugar onde Sua Santidade ficaria a salvo era «a grande República da América». A resposta, quando chegou, foi magnânima. «O nosso país é a pátria das liberdades civis e religiosas, bem como o refúgio para todos aqueles que fugiram dos problemas políticos e outros do Velho Mundo. Se Sua Santidade achar conveniente ir para os Estados Unidos, aí encontrará sem dúvida esse tipo de acolhimento e ficará livre para prosseguir sem objecções nem represálias a sua grande obra como Chefe da Igreja Católica». Dois destroyers americanos saíram de Lisboa em direcção a Civita Vecchia e ficaram à espera para transportar Sua Santidade para a América. Ah! Mas o papa nunca chegou a embarcar. Em 1867, com o pequeno exército de Garibaldi numa manobra de antecipação apenas a vinte e cinco quilómetros do Vaticano, o papa, ainda em desafio, disse: «Sim, eu ouço-os a chegar». E apontando o crucifixo: «Aquela será a minha artilharia».
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    141 Assim, a humanidadenão havia de ver um papa a viver numa república, um segundo Avinhão no Novo Mundo. Os Estados Unidos perderam a atracção turística potencialmente mais lucrativa de sempre, e mais do que isso, o papado perdeu a oportunidade de funcionar numa democracia moderna. No Velho Mundo, o papa continuou a insistir numa teocracia medieval, na união da Igreja e do Estado, sob a qual o Estado garantia à Igreja Católica o domínio no campo religioso. Foi sempre este o problema para os católicos americanos. O Cardeal James Gibbons de Baltimore, por exemplo, não hesitou em condenar a Inquisição Espanhola. Afirmava falar em nome de todos os católicos americanos quando escreveu: «Os nossos antepassados católicos sofreram tanto durante os últimos três séculos por amor à liberdade de consciência que se levantariam a condenar-nos se nós nos armássemos em defensores das perseguições religiosas». Estes sentimentos republicanos não caíram bem em Roma. Eram contrários ao Catolicismo tradicional. O Cardeal Gibbons tentou livrar-se da acusação de heresia por meio de uma distinção inventada por um bispo francês alguns anos antes. Num mundo perfeito (tese) aplicar-se-iam os ensinamentos tradicionais da Igreja nas relações Igreja- Estado. Num mundo imperfeito (hipótese), como a América moderna, a Igreja resignava- se a aceitar tacitamente o status quo. Talvez com este subterfúgio, o cardeal levou a que o Vaticano deixasse de condenar a Constituição Americana, como fizera com todas as constituições europeias, embora estas fossem muito menos radicais. A distinção feita pelo cardeal pode ter sido aceite no Vaticano; mas não agradou aos americanos. Estes não consideravam o estilo de vida americano inferior ao europeu. Para eles, era um aperfeiçoamento diferente. Como disse Emerson, a América tinha uma missão especial: «Libertar, abolir a soberania monárquica, o clericalismo, a casta, o monopólio; demolir o patíbulo, queimar o código sangrento». Além disso, a implicação das palavras do cardeal era assustadora: se as conversões se multiplicassem nos Estados Unidos, Sua Eminência ou o seu sucessor teriam de tentar impor um regime medieval à América, em violação da sua Constituição. O mito nasceu da inelegibilidade dos católicos para altos cargos. Este mito fez naufragar as ambições presidenciais de Al Smith, Governador democrata do Estado de Nova Iorque, em 1928. E quase destruiu as esperanças de J.F.Kennedy trinta anos mais tarde. Kennedy era acusado de pretender demolir o muro que separa a Igreja do Estado. Era acusado, por vezes sinceramente, de estar tão prisioneiro de um sistema religioso como Khruschev de um sistema político. Kennedy parecia estar a enfrentar uma escolha clara entre ser um “bom” católico na concepção tradicional e um bom americano. Há trinta anos, quando tudo estava por resolver, declarou: Eu acredito numa América onde a separação da Igreja e do Estado seja absoluta — onde nenhum prelado católico diga ao Presidente (se ele for católico) como agir e nenhum pastor protestante diga aos seus paroquianos em quem votar […] uma América que não seja oficialmente nem católica nem protestante, nem judaica — onde nenhum político peça ou aceite instruções sobre política de […] qualquer fonte eclesiástica […] onde não haja votos católicos ou anti-católicos, nem votações em bloco de qualquer tipo […] e onde a liberdade religiosa seja tão indivisível que um ataque contra uma igreja seja tratado como um ataque a todas elas. […] Eu não sou o candidato católico à Presidência, sou o candidato do Partido Democrático à Presidência, e que por acaso é católico. Não falo pela
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    142 minha igreja sobreassuntos públicos e a minha igreja não fala por mim. Foi uma bela expressão do ideal americano. Kennedy recebeu os melhores conselhos teológicos. Disseram-lhe sem dúvida que o estado cristão foi um produto do século IV engendrado por Constantino. A Igreja primitiva não sabia nada sobre o assunto, nem a Bíblia. Contudo, Kennedy provavelmente não tinha plena consciência de que estava a contrariar séculos de doutrinamento católico. Mesmo Leão XIII, esse sábio papa de grande visão, dizia que politicamente «é sempre urgente, de facto a principal preocupação, pensar na melhor maneira de servir o Catolicismo». Em todas as eleições, continuava ele, os católicos são obrigados a votar naqueles «que se empenhem na causa católica e a nunca preferir a estes alguém hostil à religião [católica] […] que é a única religião verdadeira». Assim, de acordo com o papa, há de facto votação em bloco, o voto em bloco nos candidatos católicos; e um ataque contra o Catolicismo é apenas um ataque ao Catolicismo. Depois da Segunda Guerra Mundial, Pio XII estava pronto a excomungar qualquer católico que desse o seu voto a um candidato comunista em vez de a um católico. Em vista disto, a eleição de Kennedy foi uma vitória não para a Igreja Católica, mas para a democracia americana. Ele ainda tinha de provar, antes e depois da eleição, que o papa não o tinha na mão e que estava bem preparado para dizer Não a todo episcopado católico da América. Kennedy teve a sorte de fazer campanha para a presidência durante o pontificado de João XXIII, o papa menos intolerante e mais católico da história. O dilema dos católicos hoje O dilema dos católicos americanos hoje é simplesmente o óbvio dilema da maioria dos católicos. Vivem entre duas ideologias antagónicas. Patriotismo e religião têm pouco em comum. Na altura do Concílio Vaticano II os católicos deixaram de sentir isto. O Concílio foi uma segunda primavera, uma oportunidade de liberdade e discussão livre a florir e a enriquecer a Igreja ao mesmo tempo que enriquecia o Estado. Mas com Paulo VI e João Paulo II a segunda primavera morreu. No Estado, um católico rejubila com a abertura, com a completa liberdade de culto, com a democracia. Tem como adquirida a liberdade que conduz ao aprofundamento da verdade. Está habituado a que os líderes se lhe apresentem para aprovação. Pode votar neles e pode rejeitá-los. Exige conferências de imprensa, liberdade de informação, uma imprensa sem grilhetas que é como um segundo governo. Na Igreja, um católico tem de suportar um secretismo total e a falta de responsabilização. Não há escolhas nem eleições. Não pode rejeitar ou votar em papas ou bispos. Tem de aceitar aquilo que lhe é oferecido. Na Igreja não há conferências de imprensa, nem verificações ou balanços, nem explicações. O controle a partir de cima é absoluto. A impressão que fica é que a liberdade e a discussão levam à diluição da verdade. Seria insensato olhar o papa e a Cúria como os maus da fita. Também eles são vítimas de um passado desconhecido ou, pelo menos, não reconhecido. João Paulo vê-se como o grande defensor da verdade católica, que é absoluta. Não pode duvidar dela, em todas as suas ramificações, na mesma medida em que não pode duvidar da existência de Deus. Ele sente que tem de ser duro para com os dissidentes para ser afável para a massa dos católicos que têm o direito à totalidade da verdade. Esta a razão por que está sempre pronto a defender a liberdade em toda a parte,
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    143 excepto na suaprópria Igreja. Todas as formas de dissidência da parte dos teólogos, como Küng e Curran, mesmo dos bispos, como Hunthausen, tem de ser suprimida. É tão provável que um académico seja silenciado por propor que os padres sejam autorizados a casar ou que as mulheres possam ser ordenadas como por negar a divindade de Cristo. Nas suas viagens, João Paulo apresenta o papado como o campeão da verdade e dos direitos humanos. Ele tem como certo que os papas nunca se contradisseram uns aos outros no essencial nem se desviaram da verdade do Evangelho. Esta parte da obra sobre a verdade pretende mostrar com inúmeros exemplos que estes pressupostos são falsos. À parte o facto de o papado dos séculos X e XV ser a heresia, ser a negação de tudo aquilo que Jesus representava, muitos papas cometeram erros espantosos. Entraram repetidamente em contradição uns com os outros e com o Evangelho. Longe de defenderem a dignidade do homem, retiraram vezes sem conta a católicos e não católicos os mais elementares direitos. A Casa Papal da Esquina é prova disso mesmo. A História faz explodir o mito de um papado imaculadamente branco em matéria de verdade. Em época de barbárie, os papas lideraram; em época de iluminismo seguiram na cauda do pelotão. E pior que tudo, quando em contradição com o Evangelho tentaram impor a verdade pela força.
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    145 10 A Imposição daVerdade O Papa Inocêncio III estava sentado no trono num misto de excitação e raiva. À sua frente, um assessor tinha na mão um hábito branco cisterciense. O hábito tinha um rasgão no peito e nas costas feitos por uma lança e estava manchado de sangue. «Isto, Santidade, é o hábito do Irmão Pedro de Castelnan». O pontífice corrigiu solenemente o assessor: «S. Pedro de Castelnan». Naquele dia 10 de Maio de 1208, quando Inocêncio canonizou o Irmão Pedro, também publicou a Bula de anátema contra os hereges de Languedoc. Foram eles, decidiu o papa, que assassinaram o seu santo embaixador. Pondo-se de pé, o papa salmodiou: «Morte aos hereges». Uma cruzada sangrenta As coisas não eram assim tão simples como o papa as fazia. Não pode haver dúvida de que ele usou a morte de Pedro como pretexto para fazer uma coisa que há muito desejava. Durante um século, a heresia tinha florescido nas belas terras feudais conhecidas por Languedoc, aquele canto no sudeste de França entre o Ródano e as montanhas, com a cidade de Toulouse por capital. Inocêncio sabia bem que a aberração destes Cátaros ou Albigenses, que tomaram o nome da fortaleza de Albi, era devida à corrupção do clero. Até escreveu: Em toda esta região, os prelados são alvo de troça dos leigos, mas a raiz de todo este mal está no Arcebispo de Narbonne. Este homem não conhece outro deus que não o dinheiro e tem uma bolsa onde devia ter o coração. Durante os dez anos em que exerceu o cargo nunca visitou a sua diocese […] onde se podem ver monges regulares e cónegos que puseram o hábito de lado, arranjaram mulheres ou amantes e andam a viver da usura. Relatos da época concordam em que no Languedoc, tal como em muitos outros locais, os abades e os bispos levavam uma vida dissoluta. Dedicavam-se ao jogo e praguejavam; ouviam as matinas na cama, coscuvilhavam durante os ofícios divinos nas raras ocasiões em que iam à capela, excomungavam a esmo qualquer pessoa que os aborrecesse, cobravam taxas por tudo, desde as sagradas ordens a casamentos ilícitos, e anulavam testamentos legais para embolsarem os proventos. Em contraste com isto, os Albigenses tinham muitos santos homens e mulheres. Estes perfecti abstinham-se do casamento e dos prazeres mundanos. Magros, pálidos, de cabelos compridos e vestidos de negro, eram saudados com alegria onde quer que fossem pela simples bondade das suas vidas. Oradores poderosos, mais próximos dos seus rebanhos do que os padres, a sua autoridade moral era enorme. Deles, os crentes, os
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    146 credentes, recebiam umsó sacramento, o consolamentum (imposição das mãos), em reconciliação, à beira da morte. Negavam os dogmas e os sacramentos da Santa Madre Igreja, desprezavam os padres, chamavam a Roma a Puta da Babilónia e aos bispos o Anti-Cristo. Pregavam a igualdade dos sexos, que Inocêncio dizia ser contrária à Bíblia. Tinham a sua própria versão das Escrituras em vernáculo, que realmente liam. Só por isto, o papa chamava- lhes hereges, merecedores da morte. Parece que os Albigenses pregavam um dualismo. O mau Deus do Velho Testamento era responsável pelo mundo material que era fonte de corrupção e morte. Jesus era o Deus do mundo do espírito. Esta a razão por que eles odiavam o ritual católico. As imagens, as relíquias, a sagrada comunhão, a própria cruz tresandavam ao mundo moribundo da matéria. O corpo era vil, e o sexo, por meio do qual os corpos se multiplicavam, era vil também. O fruto proibido do Jardim do Paraíso era o prazer sexual. A gravidez era pecado; uma mulher grávida tinha um demónio dentro dela e se morresse antes de dar à luz estaria inevitavelmente perdida. O casamento era um estado pecaminoso; o sexo no casamento não era melhor do que o incesto. O seu ódio ao corpo era tal que o suicídio, o endura , era um acto heróico de virtude, o caminho para o Céu. É difícil saber ao certo em que é que os Albigenses realmente criam, uma vez que quase não deixaram documentação nenhuma. Apenas temos a palavra de inquisidores parciais que, tal como o papa, os queriam ver mortos. É possível que estivessem a reagir contra os padres que se faziam passar por celibatários e viviam em pecado e faziam fortunas com as relíquias. Inocêncio, que se considerava o “Alicerce de Toda a Cristandade“, mandou que o hábito manchado de sangue do recente santo fosse exposto em todas as igrejas do Languedoc para promover uma nova Cruzada. Cruzada que era dirigida não contra os Turcos que detinham a Terra Santa, mas contra discípulos de Cristo que tiveram a ousadia de negar a autoridade do papa. Será que eles não sabem, perguntava ele, que sem mim não há Igreja, nem Pedra, nem Fé, nem Salvação? Os novos cruzados gozariam de todos os privilégios dos cavaleiros que foram a Jerusalém. Inocêncio, tal como Maomé, combinava a religião com a guerra. Matando os Albigenses, prometia ele, os Cruzados teriam o lugar mais elevado do Céu. As verdadeiras Cruzadas tinham suscitado sempre entusiasmo desde que Pedro o Eremita respondeu ao apelo de Urbano II em 1096. Pedro, francês de Amiens, baixo, magro, de cabelo negro e barba grisalha até à cintura, pregou a Cruzada aos pobres. Gualter Sem-Tostão, cavaleiro saído das páginas do D.Quixote, juntou-se-lhe, e foram ambos de burro, à frente de um vasto exército que se deslocava a pé ou a cavalo ou em carros puxados por burros, tão bem armados como gafanhotos. A viagem de Colónia a Constantinopla, passando pela Hungria e por Belgrado, levou cem dias. Foi uma marcha épica cheia de sofrimento e horror; contaram-se estórias de bebés que foram cozidos e comidos. Em cada cidade as crianças perguntavam: «Isto é Jerusalém, meu pai?» Apesar dos dez mil que caíram numa batalha no caminho, trinta ∗ Designação dada pelos albigenses, cátaros ou patarinos ao rito que correspondia, na seita, ao baptismo, eucaristia, ordem e extrema unção. Começava pela apostasia da Igreja de Roma, a que se seguiam a profissão de fé cátara e a promessa solene de guarda de todos os preceitos respeitantes à castidade, dieta alimentar e amizade dos correligionários, terminando pela admissão do neófito no número dos perfeitos, com a imposição das mãos por qualquer homem bom ou puro. Esta imposição, feita à hora da morte, levava não raro o doente à recusa do alimento, especialmente carne, queijo e ovos, indo até à endura ou morte por inanição. In Enciclopédia Luso-Brasileira de Cultura, Verbo Editora. (N.T.) ∗ Ver nota anterior sobre o consolamentum. (N.T.)
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    147 mil chegaram aoBósforo em Julho. Aí, no dia 21 de Outubro, foram destroçados pelos Turcos. Pedro o Eremita foi um dos sobreviventes. Quando os cavaleiros do exército cristão chegaram, na primavera seguinte, não encontraram nos arredores de Nicomedia e Civitol nada a não ser montanhas de ossos esbranquiçados. «Oh, quantas cabeças decepadas e ossos formavam a linha da costa». Os franceses misturaram os ossos com cal de maneira que os peregrinos de Pedro o Eremita acabaram nas paredes dos próprios castelos dos Cruzados. Passara já mais de um século quando, em resposta ao recente apelo de Inocêncio III, cidades e aldeias inteiras da Alemanha, na impossibilidade de levarem a Cruz, se desnudaram e correram em silêncio pelas ruas. Foi um tempo de loucura. Quatro anos depois, em 1212, milhares de rapazes e raparigas franceses viriam a ser mobilizados por Estêvão de Vandôme, um jovem pastor. Saíram de casa sem mapas, nem guias, nem comida, para se dirigirem a Marselha. Quando lhes perguntavam para onde iam respondiam: «Jerusalém». Os pais fizeram os possíveis por fechar os filhos, mas eles fugiram. Infelizmente, as águas do Mediterrâneo não se abriram como as do Mar Vermelho. Muitos, atraídos para dentro de barcos, foram vendidos como escravos aos Sarracenos nas costas da Sardenha. Por esta altura, vinte mil crianças alemãs foram aliciadas por um jovem chamado Nicolau. Iniciaram a viagem para a Terra Santa atravessando os Alpes para a Itália. Muitas caíram mortas pelo caminho; algumas voltaram para contar a estória que se veio a tornar a lenda do Tocador de Flauta de Hamlin. Mas nenhuma loucura desta época se compara à do papa. É verdade que ele tentara durante quatro anos livrar-se dos Albigenses por processos mais cristãos. Em 1205, mandara-lhes Dominic, que em breve fundaria a Ordem dos Pregadores. «Eu preguei- vos» disse Dominic após grandes esforços, «Implorei-vos a chorar. Mas, como nós dizemos em Espanha, “Onde a bênção falha, um pau bem grande consegue o truque”. Agora vamos levantar príncipes e prelados contra vós». A partir de então, prometeu ele, Cristo não lhes daria nada senão escravatura e morte. Inocêncio também mandara a Languedoc Pedro de Castelnan e o Irmão Raul. O Irmão Pedro tinha acusado Raimundo IV, Conde de Toulouse e senhor desta vasta terra, de ajudar e instigar os hereges. Ordenaram-lhe que os desalojasse. Isto não era tarefa de pouca monta, considerando que a heresia se tinha desenvolvido com a corrupção do clero durante quatro gerações. Os Albigenses constituíam metade da população do Midi. Esperavam que Raimundo os mandasse queimar aos milhares? O Irmão Pedro, que em breve seria canonizado, acreditava que sim. Excomungou Raimundo por incúria no cumprimento do dever e encorajou os seigneurs de Provence a revoltarem-se contra o seu senhor. «Aquele que vos depuser» declarou o Irmão Pedro na sua interdição «será considerado santo; aquele que vos ferir de morte ganhará uma bênção de Deus». Raimundo apressou-se a garantir a Sua Santidade o seu apoio de todo o coração. No dia seguinte, quando a comitiva papal estava para atravessar o Ródano em Saint- Gilles, um dos oficiais de Raimundo trespassou o Irmão Pedro com uma lança. Este militar nunca foi julgado nem condenado. O papa tinha toda a vantagem em culpar todo o distrito. A “Cruzada” de Inocêncio foi um marco na história do Cristianismo. O chefe da Igreja ordenou e dirigiu uma guerra contra cristãos irmãos numa terra tradicionalmente cristã. O extermínio substituiu a conversão. Contudo, os ortodoxos e não ortodoxos viviam tão
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    148 intimamente juntos queera impossível separá-los. Em surpreendente oposição à parábola de Jesus, queimou-se o trigo e o joio juntos. A violência na tradição cristã Na tradição católica a violência tem tido uma carreira de altos e baixos. De facto, em parte alguma se encontra uma evidência mais clara da mudança de ideias do que na sua doutrina sobre a guerra. De princípio a Igreja tinha um profundo sentido da santidade da vida humana. O derramamento de sangue era um pecado grave. Esta a razão por que os cristãos se opunham aos combates de gladiadores. O exército também era uma ocupação proibida. Cristãos como Maximiliano preferiam morrer a matar. «Eu não posso lutar na guerra» dizia ele simplesmente. «Não posso proceder mal. Sou cristão». Enquanto a guerra e o uso da força foram necessários para preservar Roma, os cristãos sentiam-se incapazes de se alistar. «O mundo» disse Tertuliano, «pode precisar dos seus Césares, mas o Imperador nunca poderá ser cristão, nem um cristão imperador». Os cristãos consideravam-se, tal como Jesus, mensageiros da paz; não poderiam em caso nenhum, ser agentes da morte. Mesmo quando se alistavam no exército ou quando os soldados se convertiam a sua fé não lhes permitia lutar, a não ser pela oração e pelo sacrifício. Depois, Constantino derrotou Maxêncio na Ponte Milviana sob o signo da cruz. Uma vez convertido, mandou pôr no elmo e no freio do cavalo os pregos com que crucificaram Cristo. Para os Cristão de uma época anterior, tal blasfémia seria inimaginável; agora os Cristão faziam parte do establishment, com bens e posição a defender. Um guerreiro sanguinário era o seu bispo supremo e comandante em chefe. Deixaram de ser pacifistas e dos arados fizeram espadas. É verdade que os imperadores e os generais tinham de fazer penitência se tivessem as mãos manchadas de sangue, mesmo em defesa de uma causa justa. Mas os velhos princípios tinham afrouxado. A mesma frouxidão era patente na aplicação da religião. A Igreja era originalmente contra o uso da força para obter conversões ou para reprimir a heresia. Mas Leão o Grande (440-61) viria a elogiar um imperador por este torturar e executar hereges em nome da Igreja. Por esta altura, até Agostinho tinha concordado com a ideia de não matar nem torturar hereges, mas antes ajudá-los a encontrar o caminho certo com a ajuda de um ou dois bons socos. Depressa os cristãos se começaram a sentir francamente satisfeitos pelo facto de a sua religião ser a única que não era perseguida. Só a aversão ao derramamento de sangue os impedia de matar os hereges. Esta aversão foi enfraquecendo gradualmente. Cada vez mais cristãos se alistavam no exército, prontos agora para matar e morrer. Enquanto que até ao ano de 175 não houvera um só soldado cristão, em 416, por um édito de Teodósio, só aos cristãos era permitido o alistamento. Ficava apenas para o clero — bispos e padres que oficiavam no altar do Crucificado — a manutenção da velha aversão da Igreja ao derramamento de sangue. O clero, só ele, criava uma espécie de zona ou testemunho de paz no meio da guerra. Embora a violência como que corresse agora nas veias do Cristianismo, depois das hostes bárbaras terem sido convertidas e mais ou menos civilizadas, seguiu-se um período de paz. No período chamado de Alta Idade Média, a intolerância parece ter sido esquecida, talvez por desinteresse. Até que o Cristianismo ficou sob a influência do seu rival mais mortífero, o Islão.
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    149 A velocidade comque o novo credo se espalhou foi mesmo maior do que a alegada propagação miraculosa do Cristianismo. Abriu caminho violentamente nas velhas terras cristãs da África, Ásia e Espanha. Proclamou um paraíso sensual e um terrível inferno. O seu fatalismo — «O que está escrito, está escrito» — estimulou a coragem nos campos de batalha. Assim, um seguidor devoto de Alá, ensopado em sangue do inimigo era transportado para o Paraíso. «A espada», dizia Maomé, «é a chave para o Paraíso e para o Inferno». Uma só gota de sangue derramado pela causa de Deus era melhor do que a oração e o jejum. Na síntese de Gibbon: «Os pecados são perdoados a quem quer que caia numa batalha; no dia do julgamento as suas feridas ficarão resplandecentes, escarlates, e com o perfume do almíscar; e a perda de membros será compensada com asas de anjos e querubins». No Paraíso, como escreveu Santayana em Pequenos Ensaios sobre Religião, o guerreiro está sentado «em jardins bem regados, com Maomé, vestido de sedas verdes, a beber deliciosos refrescos de frutas e paralisado pelo olhar de gazela de uma jovem, toda inocência e fogo». O retrato de Gibbon no oitavo volume de Decline and Fall é muito menos puritano. Setenta e duas Houris, raparigas de olhos negros, de uma beleza resplandecente, de juventude em floração, de pureza virginal, e de rara sensibilidade, serão criadas para o mais mesquinho dos crentes; um momento de prazer será prolongado por mil anos e as suas faculdades serão aumentadas cem vezes para o tornar digno da felicidade. O Profeta nada disse sobre quantos servidores masculinos seriam criados para as mulheres felizes o bastante para entrarem no Paraíso. Talvez temesse a inveja dos maridos num mundo masculino chauvinista. O avanço do Islão no Ocidente apenas foi quebrado em Poitiers pelo avô de Carlos Magno, Carlos Martel. Daí para a frente, o espírito marcial do Islão passou para o Cristianismo. Maomé substituiu Cristo como “herói”. O Profeta tinha sido chefe de estado, comandante de exércitos, administrador de justiça; Jesus apenas tinha pregado e morreu na cruz. O cristão ideal já não era o monge asceta, mas o guerreiro de espada ensanguentada a vingar-se no infiel que ousara capturar e profanar a Terra Santa. Agora, troçando do Evangelho, os cavaleiros cristãos eram instigados a matar em nome de Jesus. As indulgências papais correspondem exactamente à garantia islâmica de uma bênção perpétua para os guerreiros moribundos. O Cristianismo, numa espécie de milagre perverso, tinha herdado o conceito de Jihad, a Guerra Santa. Durante dois séculos os púlpitos vociferavam não sobre a paz de Cristo mas sobre o dever da guerra contra o infiel. E assim, nos montes e campos de batalha, o Cruzado cravou na terra a espada em forma de cruz e rezou a Cristo para que estivesse com ele na destruição dos inimigos. Se morresse, o papa assegurava-lhe um elevado lugar num paraíso infelizmente sem comida, sem alegria e angelicamente casto. Era aí, em todo o caso, que o Islão marcava pontos. A caminho da Terra Santa, os Cruzados voltaram a sua atenção para os infiéis mais próximos. Os judeus tinham sido os primeiros a profanar a Terra Santa torturando e crucificando Cristo. Os Cruzados ofereceram-lhes o baptismo ou a morte. Eles teriam ficado a saber de cor as frases de S.João Crisóstomo, o Doutor Palavra-de-Ouro da Igreja: «Odeio os Judeus» repetiu ele vezes sem conta. «Não pode haver perdão para os odiosos assassinos do Senhor». «Deus odeia e sempre odiou os Judeus». Daí que
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    150 os judeus, novose velhos, homens e mulheres, caíssem aos golpes de espada do Cruzado. Uma só estocada garantia ao matador o paraíso. No ano de 1096, metade dos judeus de Worms foram assassinados quando os cruzados passaram pela cidade. Os restantes fugiram para a residência do bispo. Este concordou em salvá-los na condição de pedirem para serem baptizados. Os judeus retiraram-se para decidir. Quando a câmara de audiências se abriu todos os oitocentos judeus estavam mortos. Alguns tinham sido decapitados; os pais tinham matados os seus bebés antes de voltarem as facas para as mulheres e para si próprios; um noivo assassinara a noiva. A tragédia de Masala do século I repetia-se em toda a parte na Alemanha e, mais tarde, em toda a França. Quando os Cruzados tomaram o seu grande objectivo, Jerusalém, um dos seus primeiros actos foi lançar fogo à sinagoga com todos os judeus lá dentro. Lecky, no seu clássico em dois volumes History of European Morals (1911) escreveu: «Seria impossível conceber uma mais completa transformação do que aquela que o Cristianismo sofreu desta maneira, e é triste o contraste do aspecto de que se revestiu durante as Cruzadas com a impressão que mais justamente tinha deixado no mundo como o espírito de brandura e de paz a enfrentar o espírito da violência e da guerra». A Igreja estava totalmente convertida ao Império Romano. Os ministros — papa, bispos, padres — negavam as beatitudes ao proclamar o derramamento de sangue como sua doutrina oficial. A antiga crença que assegurava a santidade da vida foi abandonada. Apesar destes precedentes cruéis, a Cruzada de Inocêncio contra os Albigenses foi de um género muito próprio. Sob a bandeira da cruz, esta cruzada viria a ser a campanha mais sangrenta da Idade Média. Os soldados inventaram praticamente a política da terra queimada. Pela primeira vez entregaram-se ao assassínio indiscriminado. E Inocêncio, à medida que cada crime lhe era relatado, instigava-os a continuarem ainda com mais energia os seus esforços em nome de Cristo. Os fins eram sublimes; justificavam todos os meios. Era muito mais fácil matar os hereges do que converter o clero a uma vida sem mácula. Comece-se com a matança Quando o rei de França recusou liderar a Cruzada, Inocêncio fez do seu legado, Arnald-Amalric, Geral Cisterciense de Cîteaux, o seu comandante-chefe. Cavaleiros e impedidos, camponeses e burgueses, bem como hostes de mercenários, responderam ao apelo às armas. Oferecia-se uma indulgência especial para um simples serviço de quarenta dias e, possivelmente, ainda alguma terra no Languedoc. Eram vinte mil cavaleiros e quase dez vezes mais o número de soldados apeados. Havia bispos e senhores feudais, duques e condes, incluindo Raimundo, Conde de Toulouse. Apenas uma semana antes, o conde tinha feito as pazes com a Igreja. Na enorme porta da Catedral de Saint Gilles este senhor das terras foi despido até à cintura como um penitente e obrigado a jurar sobre as relíquias sagradas que obedeceria à Igreja em tudo. Para provar a sua ortodoxia, comprometeu-se a matar todos os hereges das redondezas. De Montpellier, o exército marchou para Béziers, uma praça forte albigense. A cidade estava bem fortificada, embora faltasse a água naquele verão quente e seco. 22 de Julho, festa de Maria Madalena, era um dia providencial, de acordo com o legado, para começar o cerco. Convidou os católicos da cidade a entregarem os cerca de duzentos hereges conhecidos; se o fizessem seriam poupados. A população decidiu unir-se contra os estrangeiros.
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    151 Podiam ter resistidodurante meses, não fora um grupo de temerários deixar a segurança das muralhas para insultar alguns mercenários que andavam a mandriar num campo. Os jovens aperceberam-se tarde demais de que se tinham afastado perigosamente. Correram de volta à cidade, perseguidos de perto pelos mercenários. A população, no meio de grande confusão, refugiou-se na catedral e nas grandes igrejas de S.Judas e Santa Maria Madalena. Os cavaleiros invasores juntaram-se aos mercenários e varreram a cidade saqueando e matando tudo e todos no seu caminho. De Arnald saiu esta ordem: «Matem-nos todos; o Senhor olhará pelos seus». Atrás da porta trancada de Santa Maria Madalena, os clérigos tocaram o sino enquanto os celebrantes se vestiam de negro para um requiem. As igrejas, santuários desde tempos imemoriais, estavam apinhadas. Só em Santa Maria Madalena estavam sete mil mulheres, crianças e velhos. Ao som dos padres que celebravam missa juntou- se o dos machados que despedaçavam a madeira das portas. Quando estas cederam o único som na igreja era o latim da liturgia e o palrar dos bebés ao colo das mães. Os invasores, a cantar energicamente o Veni Sancte Spiritus, não pouparam ninguém, nem mesmo os bebés. Os últimos a serem abatidos foram dois padres junto do altar. Um deles erguia um crucifixo, o outro o cálix. O cálix caiu no chão de pedra com um som metálico e o sangue de Cristo misturou-se com o das pessoas de Bésiers. Foi, disse Lea no seu livro The Inquisition in the Middle Ages, «um massacre quase sem paralelo na história da Europa». Quando o ataque acabou, os mercenários foram informados de que os despojos tinham de ser entregues para financiar a Cruzada. Vingaram-se deitando fogo à cidade. Foi tudo devorado pelas chamas. A famosa catedral de Mestre Gervais abriu-se ao meio com o calor. Tudo o que restou de Bésiers foi um monte de destroços em fogo lento sob o qual jaziam mortos todos os cidadãos. Na frescura do entardecer, o monge Arnald sentou-se a escrever ao seu superior. «Hoje, Santidade, vinte mil cidadãos foram passados à espada, independentemente da idade ou do sexo». Aquele procedimento não era habitual. Depois de um cerco, as mulheres e as crianças eram poupadas, e especialmente o clero, que gozava de imunidade. Matar bebés já era bastante mau, mas liquidar padres quando celebravam o sacrifício ritual do Calvário era um crime inqualificável. O desejo de sangue apoderou-se dos Cruzados do papa e nunca mais havia de afrouxar o seu domínio. Calcula-se que na última e mais selvática perseguição sob o Imperador Diocleciano morreram cerca de dois mil cristãos em todo o mundo. Na primeira intervenção depravada da Cruzada do Papa Inocêncio foram chacinadas dez vezes mais pessoas. E nem todas eram albigenses. É chocante descobrir que, de um só golpe, um papa matou mais cristãos do que Diocleciano. Inocêncio ficou profundamente comovido com a carta de Arnald. Agradeceu a Deus a Sua grande misericórdia. Nunca, nem uma só vez, pôs em causa a legitimidade de um monge matar os hereges e os católicos que os abrigavam. Parecia correcto defender a verdade de Cristo pelos mesmos métodos que levaram à sua crucificação. De Bésiers, os Cruzados marcharam para Carcassonne. Em apenas duas semanas tomaram a fortaleza porque o seu comandante caiu numa armadilha ao pedir a paz. Arnald prendeu-o simplesmente. Ao escrever ao papa sobre esta segunda vitória, o legado pediu muitas desculpas pelo facto de não ter matado ninguém. Outra cidade em chamas, explicava ele, teria privado a força expedicionária de fundos. Deixou sair os habitantes — com os seus pecados como única roupa — com um salvo conduto de um dia. Se fossem recapturados seriam mortos.
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    152 Para o lugardo Conde de Carcassonne, o legado escolheu um cavaleiro normando, Simão de Montfort. De meia idade, Montfort tinha lutado corajosamente na Quarta Cruzada, em 1199. A sua nova missão de manter a paz foi magnífica. Muitos homens estavam a abandoná-lo depois de cumprirem os quarenta dias regulamentares. Iam em paz sabendo que os seus pecados tinham sido perdoados e que tinham entrada garantida no Paraíso. Deixavam para trás duas grandes vitórias, mas nem uma só conversão. Com uma força esgotada, mas unida, Monfort sentiu-se obrigado a tratar toda a região como herética. Com base nos princípios católicos, sentia-se à vontade para exterminar tantas pessoas quantas pudesse. O legado desencorajou-o de fazer prisioneiros. Em Bram, em 1210, Monfort, depois de tomar o castelo, não chacinou os prisioneiros. Homens mortos não fazem bons mensageiros. Mandou que os soldados lhes cortassem o nariz e arrancassem os olhos. Deixaram um olho a um de modo a poder guiar os restantes. Cada um deles punha a mão no ombro do da frente e, qual gigantesco insecto ensanguentado e lamuriento, dirigiram-se para Cabaret para aí incutir no acampamento o temor a Deus. Em Junho do mesmo ano, Monfort cercou Minerve. Quando esta se rendeu, Monfort mandou 140 perfecti para um prado fora da cidade. Não lhes foi lida qualquer acusação; não houve julgamento nem sentença. Juntaram lenha a que atearam o fogo. Os soldados prepararam-se para empurrar os hereges para a fogueira como porcos infectados. Mas como observou o obtuso cronista cisterciense Vaux de Cernay: «Os nossos homens não precisavam de os atirar; não, estavam todos tão obstinados na sua maldade que se atiravam voluntariamente». A rezar, os hereges correram calmamente para a morte. O ar estava pesado com o cheiro de carne queimada, mas das vítimas, nem grito, nem choro. Isto, que foi a primeira grande queima de hereges, foi feito sob o olhar da Igreja e com a sua bênção. Depois, os Cruzados foram para Lavour. O Conde, Roger, foi enforcado e oitenta dos seus cavaleiros queimados. A irmã do conde, conhecida pelo seu espírito caritativo, foi atirada viva para um poço e enterrada sob as pedras. Depois, 400 perfecti foram levados para fora da cidade e queimados numa grande pira funerária. Vaux de Cernay registou para benefício do papa: «Cum ingenti gaudio combusserunt» (Atearam-lhes o fogo com imensa alegria»). Estavam tranquilos, porque sabiam que tinham a bênção de Sua Santidade. Só um dos perfecti renunciou à sua fé. Eles eram pacifistas. Morreram com dignidade, sem se queixarem. O massacre de Lavour foi o mais brutal daquela longa Cruzada. O papa mantinha-se informado de todos os passos. Uma carta sua para Monfort começava com «Glória e graças a Deus por aquilo que Ele realizou através de vós e desses outros a quem o zelo pela fé ortodoxa animou para esta obra contra os seus mais pestilentos inimigos». Não há dúvida de que Inocêncio sancionou previamente tudo o que foi feito por este militar, a quem ele chamou no Quarto Concílio de Latrão, no ano de 1215, «esse corajoso cavalheiro cristão». A lição da Cruzada Inocêncio e Monfort morreram no ano seguinte com apenas meses de diferença. Em 1226, depois de dezoito anos em que morreram centenas de milhar, a Cruzada chegou
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    153 ao fim. Emsentido profundo, ela nunca acabou de facto. Apesar de todas as palavras bonitas do Concílio de Latrão, a Igreja tinha sofrido a sua derrota mais terrível. Sob Inocêncio, a desobediência a qualquer aspecto do sistema papal era imperdoável. O lascivo Arcebispo de Narbonne era um modelo de perfeição quando comparado com os perfecti que viviam altruisticamente e morriam no espírito de Cristo. O seu maior crime era que eles não manifestavam ao papa o respeito que lhe era devido como Vigário de Cristo. A Cruzada de Inocêncio revela a profundidade do sentimento da Igreja em relação à heresia e até onde ela irá para lidar com a questão. Outra lição desse período é que na tradição católica a verdade é primordialmente verbal; a sua principal preocupação são as fórmulas ortodoxas. Inocêncio, em particular, nunca pareceu entender que a mais profunda e perversa das heresias é a negação do Evangelho, a renúncia, na prática, do Sermão da Montanha. Não teve quaisquer escrúpulos em utilizar o nome de Cristo para fazer tudo aquilo a que Cristo se opunha. Na opinião de Inocêncio, era pior os Albigenses chamarem-lhe Anti-Cristo do que ele próprio provar sê-lo queimando-os, homens, mulheres e crianças, aos milhares. As realizações de Inocêncio eram ilusórias. Languedoc acabou por ficar uma região desertificada; as pitorescas tradições da Provença foram irrevogavelmente destruídas. Mas a heresia não morreu; passou à clandestinidade. Tanto assim que a Igreja perdeu não só a sua inocência, como também a batalha pelo espírito e coração do povo. Em vez de pedir perdão a Deus pelos seus crimes sem paralelo, o papado encetara com firmeza o caminho da violência. Para extirpar a heresia no futuro, a Igreja iria precisar não de um grande exército mas de pequenos grupos de homens igualmente cruéis que viajassem por toda a Cristandade em busca dos descrentes, reais ou imaginários. Estes homens foram chamados de inquisidores e foram responsáveis, em nome do papa, pela investida mais selvática e desenfreada contra a dignidade humana da história da raça. O longo reinado do terror O terror começou a sério com Gregório IX, que subiu ao trono papal no ano de 1227. Conde de Segui, membro da família Conti de Inocêncio III, tinha então mais de oitenta anos de idade. Dois anos mais tarde, no Concílio de Toulouse, no Languedoc, Gregório decretou que os hereges tinham de ser entregues ao braço secular para castigo. «É dever de todo o católico» disse ele «perseguir os hereges». O Imperador Frederico, um descrente, tornou-se um feroz defensor da ortodoxia para agradar ao papa. Gregório aprovou toda a sua legislação contra os hereges, acrescentando-lhe alguns toques cruéis de sua própria autoria. No ano de 1232, deu o passo decisivo. Nasce a Inquisição Publicou uma Bula que estabelecia a Inquisição. Os bispos eram demasiado brandos e, de qualquer maneira, não tinham tempo nem talento para desempenhar a tarefa cabalmente. Os hereges, isto é, todos aqueles que se opunham às decisões papais,
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    154 deviam ser entreguesàs autoridades civis para serem queimados. Se se arrependessem, cumpririam uma pena de prisão perpétua. Jamais um papa empunhou o archote do terror com mais entusiasmo. Em Abril de 1233, limitou os inquisidores aos membros das ordens mendicantes, e pouco depois, os Dominicanos tomaram essa honra para si próprios. O dia 27 de Julho de 1233 foi um dia memorável para o pontífice: foram nomeados os dois primeiros inquisidores a tempo inteiro — Pedro Seila e Guilherme Arnald. Foram os primeiros de uma longa série de perseguidores serenos e imperturbáveis da raça humana. Como sketch de abertura, em 1239, dois anos antes da morte de Gregório, o Dominicano Roberto le Bougre foi a Campagne investigar um bispo de nome Moranis. Este era acusado de permitir que os hereges vivessem e se espalhassem pela sua diocese. Numa semana, o Padre Roberto tinha já posto toda a cidade em julgamento. Em 29 de Maio mandou 180 pessoas, incluindo o bispo, para a fogueira. Era o regresso à barbárie. Ainda em 384, um sínodo em Roma denunciou o uso da tortura e Gregório o Grande no século VI ordenou aos juizes que ignorassem os testemunhos prestados sob coacção. Mesmo na Alta Idade Média, Nicolau I tinha condenado a tortura como violação da lei divina. Já desde o tempo de Gregório VII, porém, que o fanatismo se insinuara no papado. Uma vez que o papa não pode cometer erros, tem de ser cegamente obedecido em todas as coisas, por mais triviais que sejam. Entre 1200 e 1500, uma série de leis papais desfez todos os matizes de divergência na fé e na disciplina. A contribuição de Inocêncio IV na sua Bula Ad Extirpanda foi a de permitir que a Inquisição usasse a tortura. A partir de então, qualquer desobediência, mesmo em pensamento, era punível. Os maus pensamentos ameaçavam a unidade da Igreja, que foi criada com base na lealdade ao Vigário de Cristo. A História não dá cobertura à opinião de que a Igreja Católica sempre defendeu os direitos do homem. No século XIII, a Igreja chegou mesmo ao ponto de ensinar aquilo que a Igreja primitiva condenava: os hereges não têm direitos. Podem ser torturados sem quaisquer escrúpulos. Tal como os traidores do Estado, os hereges punham-se à margem da misericórdia da lei. Devem ser executados. Durante mais de três séculos, não houve um só papa que se opusesse a estes ensinamentos, que, portanto, deviam legalmente fazer parte da doutrina católica. Através dela, a Inquisição adquiriu um poder sem precedentes. O resultado foi a intimidação generalizada daqueles que não tinham qualquer protecção contra a acusação ou até a mais leve suspeita de heresia. Tudo é permitido À Inquisição medieval tudo era permitido. Os Inquisidores Dominicanos, sendo de nomeação papal, não estavam sujeitos a ninguém, a não ser a Deus e a Sua Santidade. Estavam fora da jurisdição dos bispos e da lei civil. Nos Estados Papais eram eles a lei, agindo como acusadores e juizes. O seu prinípio-guia era o seguinte: «É melhor que morra uma centena de pessoas inocentes do que deixar um só herege vivo». Agiam arbitrariamente e em total secretismo. Qualquer dos presentes no interrogatório — a vítima, o escrivão, o executor — que quebrasse o silêncio incorria numa repreensão que só o papa podia levantar. Os inquisidores, tal como o papa, não podiam enganar-se ou agir mal. Por ordem papal, estavam explicitamente proibidos de ter misericórdia para com as suas vítimas. A piedade era anti-cristã em tudo o que estivesse relacionado com a
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    155 heresia. Eram informadosde que Sua Santidade assumiria ele próprio qualquer culpa em que eles incorressem se ultrapassassem as marcas inadvertidamente. Tal como as SS nazis no século XX, podiam torturar e destruir tranquilamente porque o seu oficial superior — neste caso, o papa — lhes assegurava que os hereges eram um inimigo sujo, doente e contagioso, que tinha de ser expurgado a todo o custo e por todos os meios. A tortura era usada livremente. Apenas um século antes, havia em exposição na Casa Papal da Esquina, um Livro Negro, Libro Nero, que era o guia dos inquisidores. Este manuscrito em forma de in-fólio, continha as recomendações do Grande Inquisidor. Era popularmente conhecido por O Livro dos Mortos. Eis parte do que nele se podia ler: A pessoa ou confessa e a confissão prova a sua culpa, ou não confessa e é igualmente considerada culpada pelo depoimento das testemunhas. Se uma pessoa confessa tudo aquilo de que é acusada é inquestionavelmente considerada culpada de tudo; mas se ela confessa apenas uma parte tem de ser, mesmo assim, considerada culpada de tudo, porque aquilo que confessou é a prova de que pode ser culpada em relação aos outros pontos da acusação. […] A tortura física sempre foi considerada como o caminho mais salutar e mais eficiente para o arrependimento espiritual. Portanto, cabe ao Juiz da Inquisição escolher o tipo de tortura mais adequado de acordo com a idade, o sexo e a constituição do acusado. […] Se, apesar de todos os meios empregues, o infeliz continuar a negar a sua culpa, deverá ser considerado como vítima do demónio: e, como tal, não merece compaixão da parte dos servidores de Deus, nem a piedade e indulgência da Santa Madre Igreja: é um filho da perdição. Que morra, pois, entre os condenados. Seria difícil encontrar documento tão contrário aos princípios da justiça natural. De acordo com o Livro Negro, um filho deve denunciar os pais, uma mãe deve denunciar um filho. Não proceder assim é um «pecado contra o Santo Ofício» e merece a excomunhão, isto é, a exclusão dos sacramentos e, se não houver emenda, a exclusão do Céu. Ao aplicar a tortura, os inquisidores medievais estavam proibidos de mutilar ou matar. Mas, naturalmente, os acidentes acontecem. Muitas vezes partiam-se braços e pernas e arrancavam-se dedos das mãos e dos pés. Se uma vítima ficava sem dois dedos, não era caso para interromper as investigações. A regra, conforme estava especificada em decreto papal, era a seguinte: A tortura só pode ser usada uma vez. Como não se estabelecia qualquer limite temporal, ninguém sabia o que é que “uma vez“ queria dizer. Uma vítima que não confessasse era deixada em paz por alguns dias até recuperar física e mentalmente. Como ficava incomunicável, agrilhoada, ao frio, na escuridão, no meio dos seus próprios dejectos e alimentada a pequenas quantidades de pão e água, a tortura era considerada, talvez correctamente, como tendo sido contínua. Um aspecto notável da Inquisição medieval era que as testemunhas podiam ser torturadas. As crianças do sexo masculino com menos de catorze anos e feminino com menos de doze estavam dispensadas. Qualquer pessoa que se recusasse a testemunhar ou se queixasse de ter de testemunhar era considerada como tendo inclinações heréticas. Houve casos de
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    156 famílias inteiras queforam torturadas para as obrigarem a incriminar um dos seus membros. Uma faceta macabra deste tribunal era que podia julgar até os mortos. O Sexto Concílio Geral no ano de 680 declarara que a Igreja pode anatemizar os hereges vivos e mortos. Como vimos, o Papa Formoso foi exumado por duas vezes e excomungado. Isto lançou uma moda. Os inquisidores desenterravam os corpos e julgavam-nos. Se não conseguiam encontrar os corpos que procuravam, julgavam-nos à revelia. Depois de ditada a sentença dos mortos, fazia-se uma fogueira com os ossos. Centenas de mortos foram julgados desta maneira. Alguns já tinham morrido há trinta ou quarenta anos; um deles tinha sido enterrado setenta e cinco anos antes. Isto mostra que ninguém devia subestimar a disposição da Igreja em perseguir os hereges até à morte e, se preciso fosse, para além desta. Esta prática também permitia aos inquisidores apoderarem-se de todos os bens dos mortos. Quando um cadáver era considerado culpado, os seus antigos bens eram confiscados. Os herdeiros perdiam a herança. Acontecia muitas vezes que um filho, católico irrepreensível, podia descobrir que, depois da condenação póstuma do pai ficava privado não só dos seus bens mas também de todos os direitos civis. E tinha sorte em ficar com vida, num especial acto de clemência papal. Os inquisidores eram pagos com a colheita da confiscação. Portanto, eram mais temidos pelos ricos do que pelos pobres. Havia vários métodos para dividir os despojos mas, depois de pagas as despesas dos escribas e dos carrascos, metade dos restantes revertia geralmente para os cofres do papa e a outra metade para os inquisidores. Alguns papas, como Nicolau III (1277-80), fizeram uma fortuna. Os inquisidores mais temíveis eram os incorruptíveis; torturavam pura e simplesmente por amor de Deus. Não tinham quaisquer interesses financeiros; tal como, mais tarde, Himmler e Heydrich, agiam somente por amor à causa. O próprio ascetismo da maioria destes piedosos Dominicanos tementes a Deus tornava-os patologicamente cruéis. Habituados ao auto-flagelo, sentiam um desejo ardente de flagelarem os outros. Os gritos das suas vítimas eram uma espécie de música teológica para os seus ouvidos, uma prova de que Satanás estava a levar uma coça. Também se deleitavam como crianças com a benevolência do papa para com eles; este concedia- lhes as mesmas indulgências que concedia aos cavaleiros que iam para as Cruzadas. Os inquisidores nunca perderam uma única causa. Não há registo de qualquer absolvição. Quando, muito raramente, o veredicto era Não Provado, nenhum era considerado inocente. Não interessava se o acusado não era realmente considerado culpado de heresia. Fosse como fosse, os inquisidores acreditavam que apenas uma em cada cem mil almas escaparia à condenação. As vítimas A provação kafkiana das vítimas começava com um bater à porta durante a noite. O homem da família, por exemplo, em França, na Itália ou na Alemanha, levantava-se da cama e à porta dava de caras com o Chefe da Polícia, guardas armados e um dominicano. A partir daí, não lhe restava qualquer esperança. Levado para a Casa Santa, era acusado de heresia. A sua culpa era presumida, embora a política fosse a de nunca lhe dizer quais eram as acusações e ele fosse
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    157 proibido de perguntar.Em fase nenhuma lhe era permitido fazer perguntas. Em breve ficava a saber que lhe iria ser negado qualquer arremedo de justiça. Só e sem amigos, era-lhe negada a representação legal. Aliás, nenhum advogado se atrevia a defendê-lo. Uma vez que não se conhecia qualquer caso de absolvição, um advogado mal sucedido arriscava-se a ficar, ele próprio, marcado como herege. Também ele seria provavelmente excomungado e entregue ao braço secular. Não eram permitidas testemunhas de defesa. Todas as testemunhas de acusação — a sua identidade era mantida em segredo em relação ao prisioneiro — tinham igual estatuto. Entre elas podiam estar os criados do acusado que ele despedira por roubo ou incompetência. Podiam ser pessoas a quem os tribunais civis recusavam depoimentos: perjuros condenados, os excomungados, os hereges. Alguns depoimentos não eram mais do que boatos ou coscuvilhice. Maníacos, pervertidos, pessoas ressentidas ou que queriam vingar-se, todos eram aceites. E o mais triste de tudo é que as testemunhas eram muitas vezes membros da própria família do acusado a quem diziam que, não havendo para ele qualquer esperança, a completa franqueza facilitaria a vida ao resto da família. Não era permitido qualquer recurso da sentença. Que tribunal poderia ser superior àquele que agia em nome do papa? À catolicidade dos testemunhos correspondia uma catolicidade de acusações. A heresia era um conceito fluido. Qualquer coisa minimamente em oposição ao sistema papal era «contra a fé». As declarações dos pontífices medievais criaram este clima opressivo. Isto começou, evidentemente, com a de Gregório VII: «O papa não se engana». Pascal II (1073-85), citando uma carta forjada que sustenta todo o sistema de Santo Ambrósio, disse: «Quem quer que discorde da Sé Apostólica é, sem dúvida, herege». Lúcio III (1181-5) determinou que todas as divergências entre os católicos deviam ser pecados graves porque negam a autoridade do papa que sustenta todo o sistema. Inocêncio III (1198- 1216) disse que aqueles que tomavam a palavra de Jesus à letra e limitavam o seu discurso a Sim ou Não eram hereges e merecedores da morte. Inocêncio IV (1243-54), numa espécie de clímax a esta apoteose, descrevia-se como «praesentia corporalis Christi» (a presença corpórea de Cristo), presumivelmente por uma espécie de transubstanciação na altura da sua eleição. Qualquer pessoa que mostrasse desrespeito por ele ou pelos seus decretos era, naturalmente, herege. Bonifácio VIII (1294-1303), para não ficar atrás, estabeleceu como doutrina católica que «todo o ser humano tem de fazer o que o papa manda». Armados desta elástica noção daquilo que contradizia a fé, os inquisidores prendiam as pessoas por comerem carne à sexta-feira, ignorarem as obrigações pascais, lerem a Bíblia, dizerem que é pecado perseguir alguém por razões de consciência, dizerem mal de um clérigo — padre ou bispo. Qualquer zombaria sobre Sua Santidade era considerada uma ofensa indiciável, mesmo quando feita por um homem embriagado. Qualquer afastamento da vida da comunidade era prova de heresia e merecedora de morte. De tudo isto se conclui claramente que o objectivo da Inquisição era defender, não a fé, mas o sistema papal. Como concluiu uma vítima da Inquisição: «É mais seguro discutir o poder de Deus do que o poder do papa». Outras acusações de heresia eram o sacrilégio, a blasfémia, a bruxaria, a sodomia, o não pagamento dos impostos ao papa e ao clero, dizer que a usura não é pecado. Qualquer pessoa baptizada que não acendesse uma fogueira num Sabbath frio presumia-se que era um judeu convertido merecedor de morte na fogueira. A máxima injustiça era ser acusado de pensar heresia. Para a Inquisição, a ortodoxia não era só falar e agir de maneira ortodoxa (isto é) papal; era também pensar como o
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    158 pontífice queria queuma pessoa pensasse. Se, sob tortura, um prisioneiro provasse que nunca tinha dito ou feito qualquer coisa herética, podia ainda assim ser castigado pelos seus pensamentos, as suas dúvidas, as suas tentações. O processo Logo que chegavam a uma cidade, os inquisidores apresentavam-se às autoridades civis para mostrar as suas credenciais. Em nome do papa, ordenavam ao governador que cooperasse com eles, aceitasse o seu veredicto sobre o acusado e executasse o julgamento. O clero local era obrigado a reunir o seu povo na igreja, onde os inquisidores pregavam contra o pecado da heresia. Davam à congregação em pânico um período de graça — uma semana ou mais — para avançarem e confessarem os seus crimes. Podia ser heresia ou associação com hereges, tais como os pais ou os filhos desencaminhados. Se confessassem voluntariamente, recebiam um ligeira penitência canónica. Depois do sermão, os dominicanos iam para os seus alojamentos e ficavam à espera. Umas vezes, ninguém se apresentava; outras, como em Toulon em 1245-6, vinham oito a dez mil confessar. Contrataram-se mais escrivães para se ocuparem deles. Geralmente os informadores dirigiam-se aos alojamentos dos dominicanos a coberto da noite. Com a garantia do anonimato em nome do papa, qualquer fanático, qualquer vilão se sentia à vontade para mentir como quisesse. O tribunal era formado por um ou dois inquisidores, duas ou mais testemunhas e os elementos do pessoal dos inquisidores. Todos eles estavam encapuzados. A frase constantemente na boca dos juizes era: «Diz a verdade». Sempre que o prisioneiro pedia um esclarecimento, o inquisidor respondia fria e calmamente: «Diz a verdade». Logo que se tornava evidente que o acusado não iria confessar espontaneamente, era levado para a masmorra onde o verdugo já tinha os instrumentos prontos. A sentença de heresia era lida sob um crucifixo, após o que o carrasco despia o prisioneiro e o atava a um cavalete. «Diz a verdade por amor de Deus», recitava o inquisidor ritualmente, «porque os inquisidores não desejam ver-te sofrer». Com todas as partes do corpo acessíveis, atavam-lhe cordas à volta das coxas e dos braços. Passavam-lhe um cinto à volta da cintura e cordas a ele ligadas que lhe passavam pelos ombros da frente para trás. De cada vez que as cordas eram apertadas, o dominicano interrompia a recitação do rosário em honra da Virgem e dizia: «Diz a verdade». Se o prisioneiro era teimoso, metiam paus dentro das cordas para fazer um garrote. O efeito era como o de um torniquete em vários membros ao mesmo tempo. Muitas vezes utilizavam o strappado. A vítima era colocada sobre uma roda e içada do chão, às vezes até ao tecto. Mas havia uma tortura pior que todas as outras. A tortura da água Um caso suave de tortura da água foi descrito em pormenor por Henry Charles Lea na sua incontornável obra em quatro volumes intitulada History of Inquisition in Spain (1907). Elvira del Campo foi presente ao tribunal de Toledo no ano de 1568. Era uma mulher jovem e estava grávida quando foi presa em Julho do ano anterior. O bebé nasceu na prisão, em Agosto, mas não se sabe o que lhe aconteceu. A acusação contra ela era que nunca comia carne de porco e que mudava de roupa interior ao sábado. A presunção era que ela era cripto-judia.
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    159 Elvira era cristã,casada com um cristão. O pai era cristão também, mas a mãe tinha antepassados judeus. Quando Elvira tinha onze anos, a mãe inculcou-lhe uma aversão à carne de porco; mais tarde, quando tentava comê-la ficava enjoada. A mãe também a ensinou a mudar de roupa interior ao sábado. Para a rapariga, nada disto tinha qualquer significado religioso. Dois trabalhadores que estavam hospedados em sua casa denunciaram à Inquisição os seus “hábitos judeus“. Provavelmente não houve aqui maldade premeditada. Eles receavam ser automaticamente excomungados se não denunciassem comportamentos suspeitos. Por falarem até ganhavam três anos de indulgências. As testemunhas concordaram que Elvira era caridosa para com toda a gente, ia à missa e confessava-se regularmente. O processo iniciou-se em 6 de Abril. Para o interrogatório estavam presentes dois dominicanos e um vigário episcopal. Avisaram-na de que seria torturada caso não dissesse toda a verdade. Ela insistia que não sabia nada. Caindo de joelhos implorou que lhe dissessem o que queriam que ela dissesse, que ela o diria de boa vontade. Os inquisidores repetiram-lhe que ela sabia perfeitamente o mal que tinha feito. «Diz a verdade». Sempre a protestar a sua inocência, foi levada para a câmara de tortura e totalmente despida. Deram-lhe zaraguelles, também chamados panos de verguenza, um pequeno par de calções para cobrir as partes. «Señores», gritou ela, «Eu fiz tudo isso que disseram de mim e prestei falsos testemunhos contra mim mesma». Mas isto não satisfez os juizes. «Diz a verdade». Tinha os braços presos e as cordas torciam-nos dolorosamente. «Eu fiz tudo o que eles dizem», declarou Elvira. «Queremos os pormenores» «Não comi carne de porco por que ela me fazia mal, señores. Eu fiz tudo; soltem-me e eu digo a verdade. […] Mas digam-me só o que é que eu tenho de dizer». Esticaram-lhe as cordas até ela gritar que lhe estavam a partir os braços. À décima sexta volta as cordas estalaram. A um sinal do inquisidor, o carrasco transferiu-a para o potro, um cavalete com travessas afiadas, como uma escada de pedreiro. O cavalete foi inclinado de maneira que a cabeça da vítima ficasse mais baixa do que os pés. Enquanto a fixavam nessa posição, os garrotes nos membros eram apertados. «Señores», pediu ela, «recordem-me aquilo que eu não sei. […] Estão a despedaçar- me a alma». «Diz a verdade». «Violei a lei», disse Elvira em desespero. «Qual lei?» «Não sei, señor. Diga-me o señor». Outro sinal com a cabeça e o carrasco abriu-lhe a boca com um bostezo, uma ponta de ferro. Enfiou-lhe uma toca, um pedaço de linho, pela garganta abaixo. «Tira-me isso», gritou ela, «Estou a sufocar, e sinto um enjoo no estômago». De um jarro, o carrasco despejou lentamente água para a toca, fazendo com que pingasse para a garganta. Alguns prisioneiros levaram seis a oito jarros e acabaram por sufocar. Elvira tentou dizer que estava a morrer. Quando lhe tiraram a toca, ficou calada, ou porque não tinha nada a dizer ou porque não conseguia falar. A tortura foi suspensa por quatro dias. Nessa altura Elvira tinha já os braços e pernas rígidos. Fechada numa cela incomunicável, crescera-lhe o terror na antecipação do que seria a sessão seguinte. Mal
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    160 tinha regressado àcâmara de tortura, desfaleceu, pedindo que lhe cobrissem a nudez. Daí para a frente, as suas palavras tornaram-se quase sempre incoerentes. No fim, os inquisidores conseguiram arrancar-lhe a confissão de que a sua recusa em comer carne de porco e a mudança de roupa ao sábado eram prova do seu judaísmo. Quando percebeu o que lhe era exigido, confessou com alívio a sua apostasia e implorou por misericórdia. Um dos juizes propôs que fosse queimada. Era a pena máxima. Os clérigos podiam sancionar a pena da fogueira, mas evitavam a espada por causa da interdição bíblica do derramamento de sangue. Os prisioneiros que se arrependessem ficavam com os seus bens confiscados e eram presos. Se era prisão perpétua nas masmorras da Inquisição, a pena seria curta, devido às condições nelas existentes. Nalguns casos, a pena de prisão tinha uma duração determinada. A pena mínima era a “Cruz da Infâmia”. Duas cruzes de feltro amarelo eram cosidas nas partes da frente e de trás de todas as roupas usadas pelos acusados. Isto era a garantia de que seriam tratados como párias. Elvira não foi queimada. A maioria dos juizes foi a favor da clemência. Ela já tinha passado mais de um ano no cárcere. Os seus bens foram confiscados; ordenaram-lhe que envergasse o manto da vergonha; foi condenada a passar mais três anos na prisão. Por qualquer razão, insanidade mental, talvez, foi libertada seis meses depois. O caso foi encerrado. O caso de Elvira del Campo deve ser representativo de muitos milhares de vítimas. Cristã devota, ela foi presa e torturada sem misericórdia pelos representantes do papa, em nome do papa. O seu único crime foi fazer aquilo que Jesus fez durante toda a sua vida. A Inquisição Espanhola A Inquisição a cujas mãos Elvira tanto sofreu foi autorizada em Espanha por Sisto IV no ano de 1480. Quando Fernando e Isabel derrotaram os Mouros, muitos mouros e judeus, para escaparem ao castigo, converteram-se ao Cristianismo. Os monarcas temiam que eles não fossem verdadeiros cristãos e representassem por isso uma ameaça para o Estado. Pediram portanto ao papa autorização para estabelecer a Inquisição nos seus territórios. O mais famoso de todos os Grandes Inquisidores foi o frade dominicano Tomás de Torquemada. Nomeado em 1483, reinou tiranicamente durante quinze anos. As suas vítimas contam-se em mais de 114000, das quais 10220 foram queimadas. Muitas outras foram condenadas a prisão perpétua. Prior do Convento de Santa Cruz em Segóvia, Torquemada, confessor da Rainha Isabel, vivia santamente. Jejuava frequentemente, nunca comia carne, e recusou a lucrativa Sé de Sevilha. Vivia num palácio, com 250 criados e mantinha cinquenta cavaleiros. Estes eram provavelmente os seus guarda-costas — ele bem precisava deles. Não era nenhum sádico. Mandou queimar milhares de pessoas mas nunca assistiu ao sofrimento das suas vítimas. Era um odium estritamente teológico; ele agia absolutamente por amor a Cristo e devoção ao papa. Uma vez, quando suspeitou que Fernando e Isabel se preparavam para deixar ficar no reino alguns judeus ricos por determinado preço, irrompeu na sua presença brandindo um crucifixo. «Judas vendeu Cristo por trinta dinheiros» trovejou ele. «Vão V. Magestades vendê-lo por mais?» O curioso é que, se este flagelo dos Judeus vivesse no século XX, os Nazis tê-lo-iam mandado para a câmara de gás, pois o Irmão Tomás de Torquemada tinha uma avó judia.
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    161 Llorente, secretário daInquisição em Madrid de 1790 a 1792, em História da Inquisição, estimou em trinta mil o número de pessoas que tinham sido mortas em Espanha até então. Durante o reinado de Filipe II, o marido espanhol de Maria a Sangrenta, calcula-se que o número de vítimas da Inquisição tenha ultrapassado em muitos milhares o de todos os cristãos que sofreram sob os imperadores romanos. Alguns historiadores católicos, como Maistre, são de opinião de que a Inquisição espanhola era uma instituição puramente política. O fundamento disto é que os papas nunca se sentiram satisfeitos com ela. Mas isto devia-se principalmente ao facto de eles quererem o controlo absoluto, sem o qual os seus lucros diminuíam, porque, como observou Pastor em History of the Popes, se tratava de «uma instituição mista, mas primordialmente eclesiástica». Aqueles que eram condenados eram entregues ao braço secular; isto não teria sido necessário se a Inquisição fosse um tribunal civil. Uma prova disto é que nos grandes autos-da-fé o Inquisidor se sentava num trono mais elevado do que o do monarca. Estes “Autos de Fé” eram muito apreciados pelos espanhóis. Charles Lewis, Barão de Pollnitz, faz-nos um interessante relato de um deles nas suas memórias, publicadas em 1738. Lewis fora funcionário superior na corte do Rei da Prússia. Era calvinista e converteu- se ao Catolicismo, o que significa que perdeu o emprego. Bem relacionado como era, procurou recompor-se com uma volta pelo mundo, durante a qual manteve um diário pormenorizado. Numa Páscoa, encontrava-se por acaso em Madrid durante um auto-da-fé. Viu várias pessoas acusadas de Judaísmo serem queimadas. Entre elas estava uma rapariga que aparentava entre dezoito e vinte anos. Mais bela não vira nas suas viagens. «Foi para a execução», escreveu ele, «com a alegria estampada no rosto e morreu com aquela coragem que tornou famosos os nossos próprios mártires». Mais tarde, durante a sua visita, quarenta pessoas foram presas numa só noite, entre elas um famoso cirurgião que Lewis tinha conhecido, de nome Peralte. Parece que estava destinado a morrer nas mãos da Inquisição. A mãe tinha-o dada à luz na prisão e fora imediatamente levada para ser queimada por ser judia. Aos trinta anos foi acusado de professar secretamente a religião da mãe. Esteve preso três anos. Depois de libertado, foi capturado uma segunda vez. Depois de deixar Madrid, Lewis soube que Peralte tinha sido queimado. Foi como se a prece da sua mãe tivesse sido atendida, porque a estória conta que na fogueira ela pedira a Deus para que um dia o filho morresse da mesma maneira que ela. E a conclusão de Lewis é esta: «Ainda bem que eu não estava em Madrid na altura da execução de Peralte, porque eu conhecia-o e, embora ele fosse um verdadeiro fanático, no que ao Judaísmo diz respeito, eu considerava-o um dos homens mais respeitadores do mundo. Quando Napoleão conquistou a Espanha em 1808, um oficial polaco do seu exército, o Coronel Lemanousky, relatou que os dominicanos se bloquearam no seu mosteiro em Madrid. Quando as tropas de Lemanousky forçaram a entrada os inquisidores negaram a existência de câmaras de tortura. Os soldados fizeram uma busca ao mosteiro e descobriram-nas sob os soalhos. As câmaras estavam cheias de prisioneiros, todos nus, muitos já loucos. As tropas francesas, habituadas à crueldade e ao sangue, não tiveram estômago para o que viram. Evacuaram as câmaras de tortura, espalharam pólvora por todo o mosteiro e fizeram-no explodir.
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    162 A Inquisição Romana AInquisição Romana, distinta da Inquisição medieval que tinha florescido durante séculos, foi estabelecida por Paulo III em 21 de Julho de 1542. Esta foi a primeira das Congregações Romanas. Era composta por cardeais, um dos quais, o vulcânico João Pedro Carafa, mais tarde Paulo IV, concebeu a ideia. Como um dos inquisidores gerais, ele tinha o poder de mandar prender qualquer pessoa suspeita de heresia, confiscar-lhe os bens e executar os culpados. À sua própria custa, comprou e equipou imediatamente uma casa com os instrumentos de tortura mais modernos. «Ninguém» dizia ele «pode rebaixar-se tolerando os hereges». Outra das suas máximas era: «Se o meu próprio pai fosse herege, eu mesmo juntaria a lenha para o queimar». Eleito papa em Maio de 1555, estava à vontade para espalhar a sua marca de fanatismo. Asceta como Torquemada, odiava os Judeus e fechou-os em guetos, odiava os sodomitas, que mandou queimar, odiava as mulheres, que proibiu de manchar as portas do Vaticano. Dele disse Ranke que, no fim da sua longa vida «vivia e movia-se no meio das suas reformas e Inquisições, fazia leis, mandava prender, excomungava e mandava fazer os seus autos-da-fé; estas actividades preencheram-lhe a vida». Um dos interesses apaixonados de Paulo era o de reprimir a liberdade de pensamento. Como cardeal, queimara todos os livros que considerava perniciosos. Como papa, introduziu em 1559 o Index dos Livros Proibidos. Da lista constavam todas as obras de Erasmo, Rabelais, e até de Henrique VIII, cujos Seven Sacraments tinha sido saudado por Leão X em pleno consistório como se tivesse caído do céu. Proscrito foi também o Decameron de Bocácio, tão querido de Chaucer, «enquanto não fosse expurgado». Isto era o mesmo que dizer que um livro sobre o mel não podia ser publicado enquanto não lhe fossem retiradas todas as referências às abelhas. Suprimir o pensamento livre tinha-se tornado mais difícil desde 1450 altura em que os livros começaram a chover das novas tipografias. A imprensa foi o maior contributo para a democracia que o mundo jamais vira. O papado não conseguiu então, como mais tarde, chegar a um acordo com ela. Mesmo no campo da censura, o ridículo veio à tona. Em primeiro lugar, Paulo IV realizou o heróico feito de se pôr a ele próprio no Index. É uma estória bizarra. Alguns anos antes, Paulo III tinha nomeado meia dúzia de cardeais, liderados por Carafa, para investigar todos aqueles que andavam a desviar-se da ortodoxia e da moral. «Os culpados e os suspeitos» declarou Paulo «devem ser presos e processados até à sentença final [a morte]». Carafa cumpriu as ordens à letra. O papa não se perturbou, embora fosse um dos principais candidatos à investigação, com as suas amantes, filhos ilegítimos e as ofertas de chapéus vermelhos ao neto e a dois sobrinhos de catorze e dezasseis anos. No Consilium (Recomendação) final dado ao papa, havia de facto críticas explícitas ao absolutismo e simonia papais, bem como aos seus abusos na atribuição de bispados a candidatos indignos deles, e muito mais. Infelizmente para o Vaticano, este documento veio a público. Os Protestantes leram-no deliciados, pois era a confirmação de tudo aquilo que sempre tinham dito sobre o papado. Quando Carafa se tornou papa, não teve outro remédio senão pôr no Index este Consilium que ele próprio tinha escrito. Outra peça de humor não intencional centra-se no Decameron. Cosimo de’ Medici, fundador da sua dinastia familiar, salientou mais tarde, que esta obra era um texto italiano clássico raro. Perguntou ao pontífice reinante se havia alguma possibilidade de a mandar retirar do Index. O resultado foi que o impossível aconteceu. Apareceu uma
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    163 versão expurgada noreinado de Gregório XIII em 1573. Gregório, que tinha um filho, Giovanni Buoncompagni, a que estava muito ligado e que fez cardeal, tinha um espírito mais aberto do que Paulo IV. A nova versão da obra prima de Bocácio deve ser simultaneamente o livro “porco” mais bizarro e mais recomendado da história. Foi precedido de uma Bula papal; teve dois Imprimatur, um do Supremo Tribunal da Inquisição e o outro do Inquisidor Geral de Florença, e recebeu louvores de vários chefes de estado, incluindo os reis de França e Espanha. Como explicar tal aclamação? A resposta é que o censor, Vincenzo Borghini, tinha qualquer coisa de genial. Além de usar a tesoura num ou noutro ponto, fez uma limpeza ao livro utilizando um estratagema muito simples: todos os membros do clero que figuravam no texto de Bocácio foram substituídos por leigos. * * * A parte menos divertida do Index é que no tempo de Paulo IV houve uma tal queima de livros que os editores temiam pelo seu sustento. Os autores, para salvar a pele, deixaram de escrever. O livre pensamento e a livre expressão acabaram na Itália papal, para não mais voltar. O efeito disto na Cúria, e por via desta, na Igreja Católica foi incalculável. Em 1564, o Concílio de Trento preparou um Index mais abrangente. As obras eram condenadas a dez títulos. Sete anos mais tarde, foi estabelecida em Roma uma Congregação do Index que durante séculos fez sair novas listas das obras proibidas. Poucos clássicos escaparam. Assim a Contra-Reforma foi guiada por uma censura tacanha, cujos vestígios ainda podem ser vistos nos livros católicos com o carimbo Imprimatur. Um livro de autoria de um membro de uma ordem religiosa trará provavelmente o nome de cinco censores na guarda. Em tais circunstâncias, entra em acção uma poderosa auto-censura. Este aparelho de repressão tão querido dos regimes totalitários, provocou enormes danos no espírito da informação livre na Igreja. E explica a razão por que em tantos campos — o da teologia, da Bíblia e mesmo da ciência — a contribuição dos católicos se atrasou em relação ao resto do mundo académico. Num clima de medo, a erudição murchou. Gerações de estudantes, eruditos e bispos foram também proibidos de ler livros formativos porque estavam no Index. As falsificações, que tinham contribuído para criar o sistema papal, tais como os Decretais Pseudo- Isidorianos, os textos fabricados que enganaram Graciano e Tomás de Aquino, foram protegidos pelo Index, pelo menos até 1660, altura em que um erudito francês começou a dizer a verdade sobre eles. Claro que também ele foi posto no Index. Só em 1789 é que Pio VI, em resposta a um pedido dos bispos alemães, admitiu que os Decretais eram uma falsificação. A confissão vinha nove séculos atrasada. Como escreveu Lea em Studies in Church History (1883): Não é problema menor o de uma Igreja infalível que não pode abandonar decorosamente qualquer posição anteriormente assumida. Tendo aceitado os falsos decretais como genuínos, e tendo baseado neles as suas afirmações de supremacia temporal universal, quando foi obrigada a abandonar a defesa das falsificações ficou numa posição escandalosamente falsa. Ter sancionado uma mentira desde o século IX ao século XVIII já era bastante mau, mas abandonar os frutos dessa mentira tão engenhosamente transformada em lucrativa causa era mais do que se podia esperar da natureza humana.
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    164 J. H. Ignazvon Döllinger era professor de História da Igreja em Munique nos meados do século XIX. Precisamente antes do Vaticano I, publicou The Pope and the Council, onde tenta mostrar como eram falsas e exageradas as afirmações papais de infalibilidade. Foi posto no Index menos de duas semanas antes do Concílio ter a sua primeira sessão. Roma sempre achou mais fácil suprimir os argumentos do que responder-lhes. O Index foi finalmente extinto por Paulo VI ao fim de mais de quatro séculos. Corria o ano de 1966. A Inquisição Romana continuou as suas actividades abertamente bárbaras até uma data já bem dentro do século XIX. No ano de 1814, depois de libertado do seu cativeiro francês, Pio VII reintroduziu a Santa Inquisição para «a blasfémia, a imoralidade, as atitudes de desrespeito para com a Igreja, a não participação nas suas festas, o incumprimento dos jejuns e especialmente o abandono da verdadeira fé». Em 1829, qualquer pessoa que tivesse consigo um livro escrito por um herege devia ser tratado como herege. Assim falou Pio VIII, que decretou que quem quer que ouvisse uma palavra de acusação contra o Santo Ofício e não o denunciasse seria tão culpado como o infractor e como tal devia ser tratado. Contudo, por esta altura as coisas começavam a ficar mais fáceis. A Inquisição foi suprimida em Espanha em 1813. Três anos mais tarde Pio VII proibiu o uso da tortura nos tribunais da Inquisição, embora ela tivesse continuado de facto por mais vinte anos. Com um atraso de quase seis séculos, Sua Santidade, «mentor dos valores morais absolutos», vira a luz. Embora as fogueiras fossem agora ilegais, Pio IX, por um édito datado de 1856, ainda permitia «a excomunhão, o confisco, o banimento, a prisão, bem como a execução secreta em casos hediondos». E a Inquisição também não deixou de excomungar rapazes e raparigas que não denunciavam os pais por consumirem carne ou leite nos dias de jejum ou por lerem um livro que estivesse no Index. Nos Estados Papais, estes crimes eram puníveis com a prisão. Precisamente até 1870, os infractores políticos eram julgados por um tribunal especial, o Santa Consulta. Do julgamento só faziam parte padres e o seu poder era absoluto. Na melhor tradição da Inquisição, os acusados nunca eram confrontados com as testemunhas nem tinham direito a um advogado de defesa. Sempre que um dos Estados Papais caía nas mãos dos exércitos da nova Itália e se abriam as prisões, dizia-se que as condições dos prisioneiros eram indescritíveis. Os maus hábitos da Inquisição levaram tempo a morrer. O julgamento dos papas O currículo da Inquisição seria embaraçoso para qualquer organização; para a Igreja Católica é devastador. Hoje, a Igreja orgulha-se, e com muita razão, de ser defensora da lei natural e dos direitos humanos. O papado em particular gosta de se ver como o campeão da moralidade. O que a história mostra é que, durante mais de seis séculos sem interrupção, foi o inimigo jurado da justiça mais elementar. De oitenta papas sucessivos do século XIII em diante, nem um só discordou da teologia e do aparelho da Inquisição. Pelo contrário, um após outro, todos eles acrescentaram o seu retoque cruel às actividades desta máquina mortífera.
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    165 O que éintrigante é isto: como é que os papas puderam dar continuidade a esta autêntica heresia geração atrás de geração? Como é que eles puderam negar em toda a linha o Evangelho de Jesus, que sofreu, ele próprio um julgamento injusto e, embora inocente, foi crucificado por heresia? A resposta parece ser esta: uma vez iniciada a Inquisição por um papa como Gregório IX, os pontífices preferiram contrariar o Evangelho a contrariar um antecessor “infalível”, porque o contrário faria ruir o próprio papado. Os historiadores católicos salientam que a Europa nessa altura era uma Cristandade, uma unidade de Igreja e Estado. A heresia era tanto um crime civil como um pecado. De facto, todos os príncipes a olhavam como lèse majesté; um herege fazia perigar a unidade do reino e portanto era um traidor. Isto só prova que a aliança entre a Igreja e o Estado, a que os papas estavam tão ligados, teve efeitos secundários desastrosos. Dessa aliança nasceram as crueldades da Inquisição. Mas nem isto explica completamente os especiais males do Tribunal que a tornou um paradigma de injustiça: a presunção de que o acusado era culpado; a tortura do acusado e das testemunhas e por aí fora. Alguns historiadores têm tentado absolver os papas dos crimes da Inquisição. Mas isto é difícil, porque a raiz do poder dos inquisidores era o conhecimento de que eles eram delegados do papa e agiam inteiramente sob ordens papais. E mais, a extensão de “heresia“ para cobrir todo o afastamento da vida comum foi inteiramente devida aos papas. Como Döllinger observou: «Tanto a iniciação como o cumprimento deste novo princípio tem de ser atribuído exclusivamente aos papas. Não havia nada na literatura do tempo para lhe abrir o caminho». Também só aos papas se deve a reintrodução da tortura nos tribunais. Foi preciso o prestígio papal para passar por cima de uma longa tradição civilizada de que a tortura era muito má. Lea escreveu em The Inquisition in the Middle Ages: Ela [a Inquisição] introduziu um sistema de jurisprudência que infectou a lei criminal de todas as terras sujeitas à sua influência, e fez da administração da justiça papal durante séculos um arremedo cruel. Forneceu à Santa Sé uma arma poderosa para o engrandecimento político, tentou monarcas seculares a imitarem o seu exemplo e prostituiu o nome da religião aos mais vis fins temporais. […] O julgamento imparcial da História deve ser o de que a Inquisição foi o fruto monstruoso do zelo errado, utilizado pela ambição egoísta e pela sede de poder para asfixiar as mais altas aspirações da humanidade e estimular os apetites mais baixos. Os seus defensores, como Maistre, têm argumentado que a Igreja não matou ninguém. Os inquisidores entregavam os culpados ao braço secular com um apelo de clemência. Sendo isto verdade, apenas acrescenta hipocrisia à malvadez. E também é irónico na medida em que, quando os Judeus através dos tempos foram acusados de ter matado Jesus, nenhum teólogo alguma vez lembrou que os Judeus não mataram Jesus, mas apenas o entregaram ao braço secular. Não há notícia de caso algum em que um príncipe ou magistrado secular se tenha recusado a punir alguém condenado por heresia pelos frades da Inquisição. Os papas não fazem segredo disto: qualquer príncipe que não mandasse queimar os hereges acusados pela Inquisição seria ele próprio excomungado e presente ao mesmo tribunal por heresia. Longe de estarem isentos de culpa, os inquisidores eram ainda mais
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    166 culpados por implicaremo poder civil nos seus crimes. O que tornou tão pungente o sofrimento dos católicos às mãos da Inquisição foi que eles estavam a ser torturados e queimados, não pelos inimigos da Igreja mas pelos seus mais sagrados defensores a agir às ordens do Vigário de Cristo. Os defensores da Inquisição poderiam parecer em campo mais seguro quando argumentam que a Inquisição deve ser julgada à luz dos padrões do seu tempo e não dos do século XX. Contudo, a Inquisição não foi só perversa quando comparada com o século XX, foi-o também quando comparada com o século X e XI, quando a tortura era ilegal e os homens e mulheres tinham direito a um julgamento justo. Foi perversa quando comparada com o tempo de Diocleciano, porque nessa altura ninguém era torturado e morto em nome de Jesus crucificado. Também vale a pena comparar os países que alinharam com a Inquisição com aqueles, por exemplo a Inglaterra, que o não fizeram. Desde Guilherme o Conquistador que a lei comum na Inglaterra mantinha um saudável desrespeito pela teocracia. Uma pessoa presumia-se inocente até prova em contrário. A lei comum garantia os elementos básicos da justiça que a Inquisição negava aos acusados: um homem era julgado pelos seus pares, as testemunhas podiam falar em seu nome, tinha direito a advogado em julgamento público. A lei proibia a tortura, sabendo que ela só levava à hipocrisia e ao perjúrio. Digno de nota é o facto de que um dos poucos prelados com peso bastante para enfrentar Inocêncio III foi Stephen Langton, um inglês versado em leis. Num brilhante desafio ao absolutismo papal, escreveu: «A lei natural vincula de igual modo príncipes e bispos; não há que fugir disto. Está fora do alcance do próprio Papa». A intimidação provocada pela Inquisição era tal que nenhum teólogo, à excepção de “hereges“ como Marsilio de Pádua e Martinho Lutero, ergueu a voz contra ela. Se algum tivesse falado, teria sido imediatamente silenciado. Se algum tivesse escrito contra ela, teria sido censurado previamente. A tirania continuava sem oposição. Nem um só bispo durante todos estes séculos ergueu a sua voz para protestar contra a maneira como o seu rebanho estava a ser destroçado, mais uma prova de que os bispos nesses tempos eram marionetas da Santa Sé. Contudo, protestantes como Baltazar Hubmaier tinham uma cabeça mais lúcida e um coração mais corajoso. Hubmaier escreveu um opúsculo inteiro contra a queima dos hereges em 1524. Numa persistente série de propostas, escreveu: Treze: Os inquisidores são os maiores hereges de todos, uma vez que, contra a doutrina e o exemplo de Cristo, condenam os hereges à fogueira. Catorze: Porque Cristo não veio para matar, destruir e queimar mas para que os vivos vivam com mais abundância… Vinte e oito: Queimar os hereges é aparentemente professar Cristo, mas na realidade é negá-lo… Trinta e seis: É claro para toda a gente, mesmo para os cegos, que uma lei para queimar os hereges é uma invenção do demónio. «A verdade é imortal». Tentar desculpar o papado pela Inquisição com o argumento dos padrões contemporâneos peca por outra razão. O papado continuou com a sua má conduta
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    167 muito depois detodos os países civilizados da Europa a terem abandonado. Assim como a Reforma do século XVI ajudou a purificar alguns aspectos do papado, o liberalismo do século XIX, vigorosamente condenado por Roma, varreu finalmente a tirania cruel a que os papas e a Cúria estavam excessivamente ligados. Há uma última falha ao apelar para padrões de comportamento mais antigos numa tentativa de ilibar o papado. Todo o ênfase da doutrina da Igreja Católica Romana hoje é que está acima de considerações temporais e relativizadoras. Outros podem vacilar sobre a contracepção ou o aborto, mas não os Católicos Romanos guiados pelo papa. João Paulo II, por exemplo, afirma ensinar uma moral absoluta, uma moral baseada na lei natural; nem ele, nem o próprio Deus podem mudá-la, uma vez que ela tem as suas raízes e a sua origem na natureza do próprio homem. Se assim é, como é que os papas podem desculpar os julgamentos morais contraditórios, falsos e até perniciosos dos seus muitos antecessores evocando «os padrões do tempo»? A Igreja Católica enfrenta uma escolha difícil: ou a sua doutrina é relativa como qualquer outra, e nesse caso não tem qualquer direito a reclamar que seja ouvida; ou a sua doutrina é absoluta, e então o comportamento dos papas e da sua Inquisição é totalmente indesculpável. O que ela não pode fazer é afirmar-se simultaneamente de sabedoria absoluta e livre de culpa histórica. O ulgamento dos historiadores Em geral, os historiadores não têm sido generosos para com a Inquisição. Lea, um quaker que passou muitos anos da sua vida a examinar as suas actividades, fala de uma « série infinda de atrocidades». Lord Acton, católico, afirma que foi nem mais nem menos do que «um assassínio religioso. […] O princípio da Inquisição era homicida». Quanto aos papas, «foram não só assassinos em grande estilo, como também fizeram do assassínio uma base legal da Igreja Cristã e uma condição de salvação». Mesmo depois da Segunda Grande Guerra, G. G. Colton pôde dizer que a Inquisição foi responsável por «as barbaridades legais mais elaboradas, mais difundidas e continuadas registadas em toda a história civilizada». Nada do que os imperadores romanos fizeram aos cristãos se pode comparar com a sua perversidade sistemática em extensão ou duração. O ocultista egípcio Rollo Ahmed, em The Black Art (1971) descreveu a Inquisição como «a instituição mais feroz e impiedosa que o mundo jamais conheceu. […] As atrocidades que a Inquisição cometeu constituem a mais blasfema ironia da história da religião, manchando a Igreja Católica com a morte de vítimas inocentes que eram queimadas para evitar a máxima Ecclesia non novit sanguinem (A Igreja nunca derramou sangue)». Um testemunho mais pungente foi dado por um devoto católico inglês há 140 anos. Robert Richard Madden fez uma visita a Avinhão com um amigo. Deixou as suas impressões no livro Galileo and the Inquisition. Ficou abalado ao ver a extensão da parte do grande palácio dos papas ocupada pelos tribunais celas e masmorras da Inquisição. Viu a câmara de tortura com o seu dispositivo acústico de paredes irregulares para absorver os gritos das vítimas. Esteve na sala dos julgamentos onde os prisioneiros ficavam e notou por cima da cabeça «várias aberturas circulares no tecto, de cerca de treze ou quinze centímetros de diâmetro e que comunicam com uma câmara em cima,
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    168 onde, diz-se, seinstalavam os acusadores e aqueles que tomavam nota por escrito dos trâmites e das respostas dos prisioneiros; estes não os viam, mas cada uma das suas palavras ficava registada». O que impressionou Madden como particularmente perverso foi o facto de alguém ser julgado e sujeito a pena de morte e não poder ver nem o acusador nem as testemunhas de acusação, nem ser informado da acusação que lhe era feita. Como é que qualquer inocência, por mais ousadamente que procurasse manter-se, podia enfrentar, com alguma confiança, um tribunal secreto deste tipo, por mais justo que fosse? […] Não é nossa estrita obrigação reconhecer os escândalos que os nossos ministros fizeram cair sobre a nossa Igreja e ver mais com piedade do que com raiva a separação dos nossos irmãos cristãos […] quando tentaram ver-se livres dos abusos em que a disciplina da Igreja tinha caído? Madden foi depois para o mais terrível lugar de Avinhão, o lugar onde os alegados hereges eram queimados. Por uma passagem estreita, entrou numa câmara circular «exactamente como a fornalha de uma fábrica ou chaminé», do feitio de um funil. Tinha cerca de trinta metros de altura, com argolas e barras a que os prisioneiros eram acorrentados. Estes tinham de vestir camisas sulfurosas para arderem melhor. O negro das paredes testemunhava quantos homens e mulheres sofreram naquele terrível lugar. Em cima, os papas, como João XXII, fizeram uma fortuna ludibriando os pobres, vendendo benefícios, indulgências e dispensas. Outros, como Clemente VI, divertiram- se entre lençóis de linho marcados a arminho com muitas amantes. Por baixo deles, vítimas sem conto, também nus, gritavam em agonia enquanto eram torturados e queimados, às vezes apenas por comerem carne durante a Quaresma. Quando saíram para a brilhante luz do sol, o amigo de Madden, David Wire, um baptista, perguntou: «E agora, Madden, o que é que tu pensas da tua religião?» Madden pensou bem antes de responder, «Fiquei convencido, Wire, de que deve ser uma religião verdadeira, porque se não tivesse nela um princípio divino e vital, nunca poderia ter sobrevivido aos crimes que foram cometidos em seu nome». Um católico anónimo disse uma vez: «Seria melhor ser ateu do que acreditar no Deus da Inquisição». Outro lembrou que o próprio Jesus teria sofrido e morrido às mãos dos inquisidores do papa. Ele falou com hereges como a Samaritana; comeu com taberneiros e prostitutas; atacou os ministros da religião, os escribas e os fariseus; ele até quebrou o Sabbath ao arrancar e comer milho quando estava com fome. Não surpreende, portanto, que a Casa da Esquina do papa ainda esteja activa. O Cardeal Ratzinger levanta o auscultador e telefona a um padre de Los Angeles a dizer- lhe que acabe com as suas investigações sobre as opiniões dos bispos sobre o celibato ou então que faça as malas e se vá embora dentro de uma hora. Não surpreende que haja teólogos demitidos dos seus postos de ensino, padres suspensos por contraporem uma doutrina não infalível. Não surpreende que um bispo seja admoestado por agir como Jesus agiu, servindo os fracos, recusando excomungar qualquer pessoa com sinceridade e amor no coração. À vista de seis séculos de Inquisição, seria mais surpreendente se estas coisas não estivessem a acontecer. Mas não foram só os hereges que a igreja perseguiu. Também se voltou para duas outras classes de pessoas, também tidas como odiosas: as bruxas e os judeus.
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    171 11 A Perseguição àsBruxas e aos Judeus A superstição sob a forma de feitiçaria e magia foi uma constante na caminhada do homem da ignorância até ao iluminismo. Na era cristã, a Igreja e o Estado já há muito se tinham aliado para reprimir a crença nas bruxas e o mal que elas podiam provocar. Deus, argumentava a Igreja, é o Mestre e Senhor absoluto do universo e o seu domínio é total. Satanás é uma realidade, claro. Mas Jesus tinha consagrado o “homem forte” de tal maneira que Satanás não tinha qualquer poder sobre homem ou animal, excepto na medida em que podia tentar os humanos a fazer o mal, ou infectar o seu espírito com as trevas e a ilusão. Esta sensata abordagem remonta a muito tempo atrás. Nunca houve nos rituais da Igreja nada contra as bruxas. Os cânones da Igreja diziam que os fiéis deviam ser ensinados sobre a falsidade e a insensatez da bruxaria. Dos que a praticavam, uns eram perversos, outros estavam transtornados e todos andavam iludidos. Pensar que as bruxas possuíam poderes sobre-humanos que usavam para fazer mal aos homens era tido como superstição anti-cristã. Os canonistas recorriam ao Concílio de Ancyra, no ano de 314, para fundamentarem os seus argumentos. Ancyra, pensavam eles, tinha doutrinado que a bruxaria é apenas uma ilusão diabólica sem qualquer base na realidade. Todas as compilações primitivas dos canonistas, Regino, Burchard e Ivo, seguem a mesmo linha. Tal como, aliás, o mais influente de todos eles, Graciano, nos seus Decretais, secção 364. Essas bruxas, dizia ele, são loucas que «acreditam e professam abertamente que, a horas mortas da noite, montam certos animais, juntamente com a deusa pagã Diana e uma inúmera horda de mulheres, e nessas horas silenciosas voam sobre vastas regiões do país e lhe obedecem como sua ama». As pessoas vulgares não eram tão sofisticadas. Então, como agora, ficavam fascinadas com as estórias de feitiçaria, com a astrologia e com os horóscopos. Compravam filtros de amor e amuletos nas feiras, anéis encantados e espelhos mágicos. O Cristianismo nunca erradicou completamente os rituais do antigo paganismo. Daí que os fiéis temessem os cometas e os sinais no céu nocturno, que pagassem a pessoas de aspecto estranho para encontrarem água ou um tesouro escondido com um ramo de aveleira e acima de tudo que temessem as bruxas. Estas velhas enrugadas às vezes abençoavam, mas quase sempre amaldiçoavam a aldeia criando a devastação. Se lhes recusavam uma esmola, as suas maldições provocavam danos inimagináveis aos humanos, aos animais e às terras. Atribuíam-lhes a culpa da perda de uma vaca, da morte de um filho ou duma praga de lagartas. Estas bruxas não eram representações inofensivas de um moderno Hallowe’en, embora simples crianças de medonhas máscaras e gorros de borlas pretas ou vassouras e gatos de cartão ainda causem um arrepio numa noite escura. As bruxas reais da Alta Idade Média, sujas e de cabelos desgrenhados, eram uma fonte de infinito terror, mesmo para os padres que as olhavam como rivais em busca das almas das suas gentes.
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    172 Por tudo isto,a ortodoxia lançou durante séculos o escárnio sobre a ideia de que as bruxas «têm o poder de mudar os seres humanos para melhor ou para pior, até mesmo, sim, de lhes dar uma forma diferente». Depois, houve uma grande mudança. Entra a Inquisição Gregório IX, que fundou a Inquisição em 1231, foi o principal responsável. Depressa começou a receber relatórios dos seus inquisidores no sentido de que as bruxas tinham começado a multiplicar-se de maneira alarmante. Embora sempre tivesse havido na aldeia, na vila ou na cidade, aquela bruxa ocasional, agora estabelecera-se na humanidade uma nova maldição terrível. Se estas informações estivessem correctas — e ele nunca duvidou disso — a Igreja não estava a lutar apenas pela sua sobrevivência; estava a lutar pela sobrevivência do mundo. Nos interrogatórios, grande número de mulheres confessavam que eram bruxas e que se entregavam às mais odiosas práticas de que ele jamais ouvira falar. Um dos seus principais informadores era o sádico padre secular Conrado, oriundo da pequena cidade alemã de Magdburgo. Depois de ver um cisterciense ser queimado por heresia, este asceta concebeu a ideia de que a salvação só pode conseguir-se pela dor. A sua mais famosa conversão foi a de Isabel, a viúva de Margrave da Turíngia. Tinha dezoito anos e três filhos para criar quando Conrad a convenceu a abandonar as crianças e a trabalhar com os leprosos e os indigentes. Para a tornar mais espiritual, mandou-a despir e açoitou-a até o sangue escorrer para o chão. Diria ela depois ao confessor: «Se este homem me mete medo, Deus como será?» O Papa Gregório escolheu pessoalmente Conrado para investigar um grupo de hereges chamado os Luciferianos. Por meio da tortura arrancou-lhes a confissão de monstruosidades tais que toda a Alemanha ficou preocupada. Os delírios de lunáticos atormentados eram aceites por Conrado como verdades evangélicas e transmitidas ao papa. Gregório decidiu que estes monstros tinham de ser varridos da terra sem olhar a idades ou ao sexo. Deviam ter feito um pacto com Lucífer, o Príncipe das Trevas, concluiu ele; andavam a poluir a terra. Conrado trabalhou diligentemente para eliminar tantos hereges quantos pudesse. Em Estrasburgo, mandou queimar oitenta homens, mulheres e crianças. Ninguém foi poupado, nem mesmo bispos. Durante seis anos manteve uma campanha de terror até ser assassinado. A sua obra continuou depois dele no espírito e na legislação de Gregório IX. O pontífice aceitou sem reservas que o demónio aparecia nos sabates das bruxas transformado num sapo, num fantasma pálido e num gato preto. E aí incitava os seus seguidores a entregarem-se às práticas mais obscenas. Logo que Inocêncio IV aprovou a tortura, as confissões das bruxas começaram a tornar-se ainda mais incríveis. Regularmente mulheres velhas eram queimadas na fogueira por confessarem terem tido relações sexuais com Satanás e lhe terem dado filhos que ninguém vira. Esta falta de visibilidade dos filhos de Satanás tornava-os ainda mais ameaçadores. O Rei de França convenceu o Papa Clemente V (1305-14) a investigar os Cavaleiros do Templo, uma ordem fundada para proteger o Santo Sepulcro dos Sarracenos. O rei queria desesperadamente apossar-se das suas terras e dos seus bens. Os Templários foram torturados pela Inquisição por heresia, e um deles, com medo da fogueira, gritou: «Eu até era capaz de confessar que matei Deus». O que aconteceu foi mais uma série
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    173 de horrores. Confessaramque adoravam um enorme ídolo com a forma de um bode chamado Baphomet. Disseram que o demónio lhes tinha aparecido na figura de um gato preto e que tinham fornicado com demónios em forma de mulher. Cinquenta e nove Cavaleiros do Templo foram queimados num só holocausto. A credulidade dos papas e os terrores da Inquisição levaram a que a doutrina sobre a bruxaria mudasse. Já não era uma simples ilusão de velhas malucas. E com uma nova percepção veio também um crescente pânico. O Anti-Cristo estava em vias de se apossar da terra. Ninguém sabia ao certo quem eram as bruxas nem onde elas poderiam surgir. Tal como nos modernos romances de ficção científica, os homens acordavam de noite para descobrir que as suas mulheres, que eles conheciam e amavam há anos, eram secretamente bruxas. Os filhos não eram realmente deles, mas do demónio. Nalguns lugares, pensava-se que havia mais bruxas do que não-bruxas, prova de que o fim do mundo se aproximava. Uma orgia de destruição Por muito hedionda que tivesse sido do século XIII ao século XV, a caça às bruxas foi, segundo Lea, apenas o prelúdio de «orgias de destruição cegas e sem sentido que desgraçaram os cento e cinquenta anos seguintes. Parecia que a Cristandade tinha entrado em delírio». Um inverno mais prolongado, um atraso nas colheitas significavam mais uma queima em massa destas infelizes mulheres. O que é que desencadeou esta nova onda de fanatismo? A resposta está na Bula do Papa Inocêncio VIII intitulada Summis desiderantes affectibus de Dezembro de 1484. A Bula ia contra a longa tradição anterior da Igreja. O palavrório de velhas loucas sob tortura era aceite como parte da fé cristã. Os homens e mulheres extraviados da fé católica entregaram-se aos demónios, incubi e succubi [parceiros sexuais masculinos e femininos], e com os seus sortilégios, encantamentos, magias e outras ofensas malditas, mataram crianças ainda no ventre das mães e também crias de gado, destruíram o produto da terra […] impedem os homens de realizarem o acto sexual e as mulheres de conceber, e assim os homens não podem conhecer as suas mulheres nem as mulheres receber os seus maridos. Esta foi a mais clara autenticação da bruxaria. A partir de 1484, quem a negasse, fosse bispo ou teólogo, era classificado como herege. O papa falara; a questão estava arrumada. As bruxas agora confessavam sob tortura adquirirem uma Hóstia sagrada, dá-la de comer a um sapo, queimarem o sapo e misturarem as cinzas com o sangue de um bebé, de preferência não baptizado, juntando isto aos ossos pulverizados de um enforcado, com uma pitada final de ervas. O corpo da bruxa era untado com esta mistura. Punham-lhe então um pau entre as pernas e levavam-na assim para o ponto de reunião das bruxas. Por muito fantástico que fosse o testemunho, estas mulheres tinham de ser exterminadas. Não é verdade que o Livro do Êxodo declara: «Tu não tolerarás que uma bruxa viva»? Para planear o massacre, Inocêncio delegou toda a sua “autoridade suprema” em dois dominicanos. Estes inquisidores, Heinrich Kramer (Institoris) e James Sprenger
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    174 (conhecido como oApóstolo do Rosário), desenvolveram as suas actividades na Alemanha, o primeiro no norte e o segundo ao longo das margens do Reno. Os dois escreveram em conjunto Malleus Maleficarum, O Martelo das Bruxas, em 1486. Segundo os historiadores, esta obra provocou mais desgraça e morte do que qualquer outro livro. Trata-se na realidade de um manual para a descoberta e punição das bruxas. Contém uma teologia completa da bruxaria inultrapassável em absurdidade ao proclamar-se como análise científica. Durante três séculos, esteve na banca de todos os juizes, na secretária de todos os magistrados. O prefácio das numerosas edições deste livro ameaçador era a Bula de Inocêncio VIII. “O Martelo das Bruxas” Os autores afirmam logo de princípio a sua convicção basicamente maniqueísta: Satanás influencia directamente os seres humanos, mesmo ao ponto de lhes mudar a forma e lhes provocar danos permanentes. «Desta maneira» concluem, «eles podem destruir todo o mundo e provocar o caos total». Uma das primeiras perguntas deste livro é: As crianças podem ser geradas pelo demónio? A resposta é afirmativa. As participantes nos sabates das bruxas são para lá transportadas pelo ar montadas numa vassoura ou num banco ou ainda num demónio em forma de cão ou de bode. Encontram-se com o demónio, que está presente em forma de animal com cornos — veado, bode ou touro. Depois dos mais diabólicos rituais e licenciosidades sexuais, as bruxas têm relações com o próprio Satanás. Como é que tal relação sexual é possível? Kramer e Sprenger dão a resposta: inseminação artificial. Os diabos tomam parte na procriação não como causa directa, mas como causa secundária artificial, uma vez que se encarregam de interferir no processo normal de cópula e concepção obtendo a semente humana e transportando-a eles próprios. O diabo incubus desempenha o papel do macho e o diabo succubus o da fêmea no coito com os humanos. No caso do incubus, «o sémen não nasce propriamente dele, porque é o sémen de outro homem recolhido por ele para este fim». A criança nascida da relação satânica não pode ser considerada filha, em sentido restrito, do diabo; este apenas procede à inseminação artificial da mulher. O seu objectivo é contaminar os humanos por via da já contaminada porta do sexo. Não é afinal através do sexo que o pecado original, o pecado que aliena de Deus a raça, é transmitido de geração em geração? Em nenhum outro sítio é mais evidente o ódio do clero medieval à sexualidade do que em O Martelo das Bruxas. O demónio, impotente para afectar outras esferas da actividade humana, lança um feitiço sobre o sexo e o acto sexual. A razão é esta: «O poder do demónio reside nos órgãos genitais do homem». Numa manifestação de pseudo ciência, explicam como é que os demónios transportam a semente masculina a longas distâncias sem perder o seu calor procriador. Eles andam depressa demais para que se possa dar a evaporação. Os demónios têm um outro talento maravilhoso: eles podem fazer com que os machos percam o sexo. Não fora o facto de se encontrarem no livro mais sanguinário
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    175 jamais escrito, osexcertos que se seguem poderiam enfileirar com as mais cómicas passagens de Rabelais. O primeiro é sobre um venerando Padre da Casa das Torres dominicana, conhecido pela honestidade da sua vida e pelo seu saber. «Um dia» diz ele, «enquanto eu estava a ouvir confissões, um jovem veio ter comigo e, no decurso da confissão, disse-me pesaroso que tinha ficado sem o membro. Espantado com isto, e não muito disposto a dar-lhe grande crédito porque na opinião dos mais sensatos acreditar facilmente é sinal de tontice, obtive a confirmação quando não vi nada no sítio que o jovem me mostrou tirando a roupa. Depois, usando de parecer mais avisado, perguntei-lhe se suspeitava de alguém que o tivesse enfeitiçado. E o jovem disse que realmente desconfiava de alguém, mas que essa pessoa estava ausente, a viver em Worms. Então eu disse-lhe: “Aconselho-te a ir ter com ela o mais depressa possível e a fazeres todos os possíveis por a acarinhar com promessas e palavras doces”; e ele assim fez, pois voltou passados alguns dias e agradeceu-me dizendo que já estava inteiro e tinha recuperado tudo. E eu acreditei nas suas palavras, mas confirmei de novo vendo com os meus olhos». As confissões deviam ser muito interessantes nesses tempos. A teologia escolástica — definida por S.Tomás More como «mungir um bode para uma peneira» — é depois utilizada para clarificar este fenómeno. Segundo Kramer e Spenger, o jovem, apesar das aparências, não tinha ficado sem o membro. O demónio não ia tirar-lho de ânimo leve, pois o sexo é a sua principal fonte de controle sobre os homens. O diabo, mais exactamente, por meio de qualquer prestidigitação faz com que o membro deixe de se ver ou sentir. O diabo não seria capaz de enganar um homem casto — não em relação ao seu próprio membro — mas se esse casto homem, como o santo confessor das Torres, olhasse para o de qualquer outra pessoa poderia não conseguir vê-lo. O diabo podia arrancar o membro masculino se assim quisesse, e isso seria muito doloroso. Mas, pelas razões teológicas já apresentadas, está pouco inclinado a chegar a esses extremos. Por meio da tortura, os inquisidores obrigavam as bruxas a confessar que coleccionavam órgãos sexuais, presumivelmente apenas masculinos. O que é que se há-de pensar daquelas bruxas que […] coleccionam órgãos em grande número, vinte ou trinta no total, e os põem nos ninhos das aves ou os fecham numa caixa onde eles se mexem como membros vivos e comem aveia e milho? […] Tudo isto é feito por obra e ilusão do diabo. […] Porque um certo homem contou-me que, quando ficou sem o membro foi ter com uma conhecida bruxa para lhe pedir que lho restituísse. Ela disse ao atormentado homem que subisse a uma certa árvore e escolhesse, de entre os vários membros que se encontravam num ninho, aquele que quisesse. E quando ele tentou tirar um grande, a bruxa disse: «Esse, não» acrescentando «porque pertence a um padre».
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    176 Ao temor dosexo revelado pelos autores, juntava-se um ódio inato às mulheres. Aceitavam com facilidade a ideia de mulheres a tirarem órgãos sexuais masculinos. Sprenger deixou noutra obra o registo da sua opinião: «Eu preferia ter um leão ou um dragão à solta em casa a uma mulher. […] Fracas de espírito e de corpo, não admira que as mulheres se tornem tão frequentemente bruxas. […] Uma mulher é o desejo carnal personificado. […] Se uma mulher não consegue arranjar um homem, é capaz de ter relações com o próprio demónio». A nova grande purga Armados de poder inexpugnável conferido pelo papa, os dois inquisidores «atravessaram a terra», escreve Lea, «deixando atrás de si um rasto de sangue e fogo e despertando em todos os corações o cruel temor inspirado pela crença absoluta assim inculcada em todos os horrores da bruxaria». Os autores de O Martelo das Bruxas estabeleceram o princípio básico de que a bruxa tem de ser condenada pela sua própria boca. Se não voluntariamente, então por outros meios. Uma vez que se presumia que estavam possuídas do demónio, as bruxas não tinham quaisquer direitos. Podia usar-se da mentira com elas, podiam ser maltratadas, torturadas, mortas. Eram tratadas como inimigas alienígenas, não humanas, de Cristo e da humanidade. Os papas, incluindo o actual, dizem frequentemente que não acreditar em Satanás é perigoso para a moralidade. Em oposição a isto está a aterradora injustiça que resultou da crença em Satanás durante as perseguições às bruxas. As torturas usadas eram variadas. Esmagavam-se em tornos os dedos dos pés e das mãos e as pernas. As vítimas eram açoitadas até ficarem a sangrar. Curiosamente, o chicotear e esmagar de dedos, e até o ecúleo eram considerados apenas como parte dos preliminares. Não eram classificados como “verdadeira tortura“. O Arcebispo de Colónia elaborou um Tarifário das Torturas que incluía quarenta e nove medidas e as custas respectivas a serem pagas ao torturador pela família das vítimas. Por exemplo, cortar a língua da vítima e despejar-lhe ferro em brasa na boca custava cinco vezes mais do que o simples chicotear no cárcere. Tratava-se de uma espécie de supermercado de horrores. Se a bruxa sofria a pena máxima, os torturadores celebravam o facto com um banquete que a família da vítima também tinha de pagar. Se uma “bruxa” confessava, não só poupava grande despesa à família como também conseguia para si própria uma passagem menos dolorosa para o outro mundo: era estrangulada antes de ser queimada. Há registos que mostram uma mulher a ser torturada cinquenta e seis vezes e continuar a não confessar. Na Alemanha, no ano de 1629, despejaram álcool sobre os cabelos de uma mulher e depois lançaram-lhe o fogo. A seguir, ataram-lhe as mãos atrás das costas e deixaram-na pendurada do tecto durante três horas antes da começar a “verdadeira tortura“. O Martelo das Bruxas foi seguido de outros manuais. Um deles foi o Tratado sobre a Feitiçaria, dos princípios do século XVII, de um francês de nome Henri Boguet. Em sua opinião, as crianças deviam ser obrigadas a testemunhar contra os pais. Mesmo as mais pequenas tinham de ser torturadas para se chegar à verdade. Se elas próprias também fossem bruxas, deviam ser mortas, embora com mais compaixão — digamos, pela forca. Os caçadores de bruxas parece nunca terem percebido que eram eles que andavam a criar as bruxas. Sob tortura, as suas vítimas diziam tudo o que delas se esperava. Sim, tinham feito um pacto com o diabo à meia-noite e trocaram a sua alma por ouro. Sim, tinham-se transformado em gatos e outros animais, como lobisomens. Sim, com um
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    177 relance do seuMau Olhado, tinham envenenado poços e, com uma maldição, tinham provocado tempestades de granizo e geadas fora do tempo. Sim, já na velhice tinham tido relações sexuais com Satanás — ele tinha o pénis fino e gelado como um pingente de gelo, e o seu sémen, que frio! Ah, é verdade, tinham-lhe dado um filho, um monstro com cabeça de lobo e cauda de serpente, que durante dois anos alimentaram com a carne de bebés recém-nascidos, antes de ele se desvanecer em fino ar. As bruxas confessavam lançar sobre as pessoas feitiços que faziam com que elas deitassem por todos os seus orifícios — boca, pénis, vagina — os objectos mais curiosos: caracóis de cabelo, agulhas, pedras, cerdas, bolas de papel com caracteres demoníacos escritos. Segundo Peel e Southern, «um escritor no limite da sua pervertida imaginação, dotou o diabo de um pénis bifurcado para que ele pudesse gozar simultaneamente o sexo e a sodomia». Conventos inteiros sob investigação pelos inquisidores confessaram alegremente fornicar regularmente com o diabo. Quanto mais ultrajantes eram as suas invenções, mais se iluminavam os olhos dos inquisidores. Confirmavam-se os piores pesadelos. Eles nunca pensaram que as acusadas apenas queriam ver o fim das torturas. Por uma perversidade ainda não completamente compreendida, havia pessoas inocentes que se apresentavam para se acusarem a si próprias dos crimes mais hediondos. Era como se quisessem desfrutar de uma curta notoriedade, mesmo que esta significasse a morte na fogueira. Estas bizarras confissões obrigaram os autores dos manuais a acrescentarem às listas tipos de desvios sexuais até então desconhecidos. A sodomia incluía agora a relação entre um homem e um diabo macho. O adultério incluía uma bruxa fazer sexo com Satanás. Em resultado dos delírios sob tortura, uma das mais honradas profissões tornou-se na mais caluniada de todas. Numa das mais extraordinárias afirmações jamais escritas em qualquer livro, Kramer e Sprenger asseveram: «Não há ninguém que mais mal faça à fé católica do que as parteiras». Qual era o seu crime? Por vezes matavam os bebés ainda no ventre ou logo após o nascimento espetando-lhes agulhas na moleirinha para que eles, ainda não baptizados, fossem directamente para os domínios flamejantes de Satanás. Outras vezes, dedicavam os bebés logo desde o nascimento ao seu Senhor e Mestre, o demónio. Nos esforços do demónio para macaquear Deus e dominar o mundo, as parteiras eram as suas aliadas mais chegadas. Assim, o bando dos maus estava a crescer dia a dia. Durante século e meio, toda a gente, de reis ao cidadão comum, temeu esta organização secreta que estava a minar as fundações do mundo. Havia estórias de sabates de bruxas que atraíam multidões de mais de vinte e cinco mil pessoas, todas de velas acesas nas mãos de tal modo que a noite se fazia dia, todas a adorar Satanás macaqueando rituais sagrados para os cristãos. Depois da Bula de Inocêncio VIII, a necromancia multiplicou-se, e a missa negra tornou-se um lugar-comum. Muitos padres apóstatas oficiavam. Isto era em parte um protesto social contra a autoridade opressiva da Igreja e também o desejo de chafurdar no oculto. Muitas vezes, quando usavam uma hóstia consagrada ela levava inscrições de invocações obscenas em letras de sangue. Nas charnecas ou nas clareiras da floresta iluminadas pelo luar, em reuniões de treze à sexta-feira ou em enormes reuniões sabáticas, as bruxas realizavam a sua mascarada de adoração a Satanás com uma cabeça de bode. Todos os rituais da missa eram alterados. Pisavam a cruz, oravam de costas para o céu e com a cara voltada para a terra, e até dançavam a recuar. O diabo falava-lhes assegurando-lhes que não tinham alma nenhuma e que não havia vida depois da morte. As cerimónias terminavam, dizia-
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    178 se, com obeijar do traseiro do diabo, forjando com ele um pacto de sangue e finalmente com frenéticas orgias sexuais indiscriminadas. A Igreja utilizava as suas próprias formas de magia para contra-atacar a Arte Negra. Havia a água benta, as velas abençoadas, os sinos de igreja, as medalhas, o rosário, a invocação dos santos, as relíquias, os exorcismos e os sacramentos. Apesar de todas estas salvaguardas, a Igreja parecia estar a perder a batalha. A bruxaria continuava a crescer em resultado dos processos adoptados pelos papas para a erradicar. Sob tortura, as bruxas davam os nomes dos cúmplices, que, por sua vez, denunciavam outros. O mundo, que não há muito tinha aquela bruxa extravagante na vila ou na aldeia com o seu amigo gato, cão ou corvo, estava agora cheio de bruxas. Dizia-se que as bruxas tinham mais devotos do que a Virgem Maria. Elas constituíam uma anti-Igreja de que, alegadamente, muitos cardeais faziam parte. O poder de Satanás quase igualava o de Deus. Nem mesmo Kramer e Sprenger foram capazes de explicar a razão por que davam crédito às bruxas, que eram as porta-vozes do “Pai da Mentira“, nem como é que as bruxas, aparentemente tão poderosas, se deixavam capturar, torturar e queimar sem luta. Não há registo de qualquer exemplo de uma bruxa que conseguisse lançar com sucesso uma maldição sobre um inquisidor, cegar um torturador e continuar a viver depois de queimada na fogueira. As execuções multiplicaram-se. Antes havia uma ou duas, agora faziam-se em massa. Entre as condenadas havia meninas de seis anos. «Diz-se que um bispo de Genebra», escreve Lea em A Inquisição na Idade Média «teria queimado quinhentas em três meses, um bispo de Bamberg, seiscentas, um bispo de Wurzburg, novecentas». Assim continuaram as coisas. No ano de 1586, o Arcebispo de Trèves mandou queimar 118 mulheres e dois homens por feitiços que fizeram prolongar o inverno. A responsabilidade papal Seria insensato sugerir que foi o papado que criou a bruxaria. Ela já existia antes de o Cristianismo aparecer e a Igreja nunca a erradicou completamente. Não pode haver dúvidas, contudo, de que o papado teve um papel decisivo no recrudescimento e no cruel tratamento de que as bruxas foram vítimas. Döllinger escreveu em The Pope and the Council: Todo o tratamento dado às bruxas resultou em parte directa e em parte indirectamente da irrefragável autoridade do Papa». E Lea concorda: «A Igreja emprestou a sua autoridade avassaladora para forçar a crença nas almas dos homens. Os poderes malignos das bruxas foram repetidamente realçados nas Bulas dos sucessivos papas para implicitamente levar os fiéis a acreditar». Antes de Inocêncio VIII, afirmar que as bruxas tinham esses poderes era contrário à fé; depois de Inocêncio, negá-lo era heresia punível com a fogueira. A contradição com a doutrina primitiva era tão notória que os teólogos tiveram de recorrer ao subterfúgio para tratar dela. Os inquisidores argumentavam que as bruxas a que Ancyra e Graciano se referiam, as inofensivas, já tinham desaparecido. Uma nova geração mais dura tinha tomado o seu lugar; estas é que estavam em conluio com o diabo para levar a efeito uma espécie de campanha da SIDA satânica para infectar o corpo social. A autoridade papal — nas pessoas de Inocêncio VIII, Alexandre VI, Leão X, Júlio II, Adriano IV e muitos outros — garantiu a existência das bruxas e dos seus poderes sobrenaturais, especialmente no campo do sexo. Já em pleno século XVII, em 1623, Gregório XVI ainda decretou que qualquer pessoa que fizesse um pacto com Satanás para provocar a
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    179 impotência em animaisou para prejudicar os produtos da terra seria condenado pela Inquisição a prisão perpétua. Depois, em 1657, sem aviso ou explicação, uma directiva da Inquisição Romana dizia que durante muito tempo não houvera um único processo correctamente conduzido. Os inquisidores tinham errado na aplicação imprudente da tortura e noutras irregularidades. Nem uma palavra sobre o papel dos papas no sancionamento da tortura e das mentiras, nem sobre a razão por que tantos papas tinham contrariado a tradição afirmando a realidade das bruxas. E, sobretudo, nem uma palavra para lamentar os muitos milhares que tinham morrido num dos períodos mais horripilantes da história europeia. Durante vários séculos, os papas tinham orquestrado uma prática maniqueísta pela qual o diabo reclamava o seu domínio sobre metade da Cristandade. E agora, sem uma palavra de explicação, toda esta doutrina era abandonada, como se jamais tivesse havido qualquer pontífice insensato ao ponto de a sustentar. Nunca é fácil pedir desculpa pelos nossos erros. Para uma autoridade que proclama que não pode errar, pareceria quase impossível. Um aspecto muito preocupante da feitiçaria era que o sabate começava numa sexta- feira à noite. Será que os inquisidores sugeriam isto às suas vítimas porque coincidia com outra cerimónia demoníaca, o Sabbath judeu? A perseguição aos judeus O Papa Paulo IV, que odiava os judeus, trabalhou no documento durante horas de uma só vez, bebericando sem cessar o vinho escuro e espesso como melaço da sua amada Nápoles. Em breve estava terminado. No dia 17 de Julho de 1555, dois meses apenas após a sua eleição, publicou Cum nimis absurdum, uma Bula que nunca apareceu em antologias piedosas de documentos papais. É que isto viria a revelar-se como um marco na história do anti-semitismo. O anti-semitismo papal Por causa desta Bula Paulo viria a fazer jus a um galardão que ele próprio oferecera ao seu sobrinho favorito, o Cardeal Carlo Carafa: «Tem o braço tingido de sangue até ao cotovelo». Não admira que durante o curto pontificado de Paulo a população de Roma tenha ficado reduzida quase a metade. Os judeus, que não tinham para onde fugir, sofreram as consequências do seu fanatismo. O papa sabia de cor todos os éditos da Igreja sobre o Judaísmo. O massacre dos judeus tinha começado muito cedo. No Império Romano, os judeus tinham superado a hostilidade inicial e conquistado para si a plena cidadania pelo Édito de Caracalla no ano de 212. Um século mais tarde, quando Constantino se converteu ao Cristianismo, começou a perseguição aos judeus. Foram excluídos de todos as funções civis e administrativas, proibidos de empregar cristãos e de prestar ou receber deles assistência médica. Os casamentos entre cristãos e judeus eram classificados como adultério e infracção capital. Num processo judicial entre cristãos e judeus só as testemunhas cristãs eram aceites em tribunal. Os Padres da Igreja, como Ambrósio no Ocidente e Crisóstomo no Oriente, forneceram um fundamento teológico para o desprezo pelos judeus, que ainda hoje é capaz de chocar. O próprio Gregório o Grande, o mais bondoso dos papas, embora proibisse a tortura e a perseguição dos judeus, não deixou de usar o suborno para os levar a baptizarem-se.
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    180 Qualquer judeu deRoma que se convertesse teria a sua renda reduzida de um terço. Escreveu ele: Porque mesmo que eles próprios saiam com pouca fé, haverá certamente mais fé nos filhos que forem baptizados, de modo que se não ganharmos os pais, ganharemos com certeza os filhos. Portanto, qualquer redução na renda por amor de Deus não deve ser considerada como uma perda. Inocêncio III e o Quarto Concílio de Latrão em 1215 tomaram em mãos a causa do anti-semitismo com determinação. E Paulo IV, que detestava qualquer forma de dissidência, estava apostado em continuar, com primorosa crueldade, a obra do grande Inocêncio. Cum nimis absurdum acentuava que os assassinos de Cristo, os Judeus, eram escravos por natureza e como tal deviam ser tratados. Pela primeira vez nos Estados Papais foram confinados a uma zona determinada chamada “ghetto” (gueto), nome originário da Fundição Veneziana. Cada gueto devia ter uma só entrada. Os judeus foram obrigados a vender aos cristão todos os seus bens ao desbarato; no melhor dos casos conseguiam 20 por cento do valor e no pior uma casa era vendida por um burro, uma vinha por um fato. Estavam proibidos de se entregarem a actividades comerciais ou de negociar em cereais, mas podiam vender comida e roupas em segunda mão (strazzaria); assim ficou a sua situação limitada à condição de trapeiros. Só podiam ter uma sinagoga em cada cidade. Sete das oito de Roma foram destruídas e na Campânia, dezoito das dezanove. Já não tinham livros; quando ainda era cardeal, Paulo IV tinha-os mandado queimar todos, incluindo o Talmut. Em público eram obrigados a usar como distintivo um chapéu amarelo. Nos seus calendários e nas suas contas e para comunicar só podiam utilizar o italiano e o latim. Não podiam empregar cristãos em função nenhuma, nem mesmo para acender as suas fogueiras do Sabbath no inverno. Não podiam prestar cuidados médicos aos cristãos nem recebê-los destes, nem mesmo os serviços de uma ama de leite. Não podiam ser chamados de signor (senhor), nem sequer pelos pedintes. Tinham de construir uma Casa para os Catecúmenos, isto é, para os judeus convertidos. Os censores dos livros judeus tinham de ser pagos pelos judeus, assim como o guarda-portão pagão, cuja função era fechá-los à noite. Desde os tempos do Império Romano que os judeus tinham tendência para a viver todos juntos na mesma zona. Aí podiam construir o seu açougue para os rituais, os seus balneários, as suas sinagogas, os seus lugares de estudo, os seus tribunais e os seus cemitérios próprios. Sentiam-se mais seguros af der yiddisher gas (na sua própria rua judaica), onde, pelo menos, os deixavam em paz. Mas serem obrigados a viver num certo lugar, como gado, terem de regressar a casa à noite, não poderem ser donos das terras e das casas — isto era uma coisa ameaçadoramente diferente. Os judeus romanos sofreram particularmente na medida em que o gueto era uma faixa de terra ao longo da margem direita do Tibre, malárica e frequentemente inundada, como Veneza. Dentro de um perímetro de quinhentos metros amontoavam-se quatro a cinco mil pessoas. Segundo um escritor judeu, «andavam vestidos com farrapos, viviam no meio de farrapos e cresciam entre os farrapos». Só à sexta-feira à noite é que deixavam os farrapos, quando o velho pregoeiro gritava «O Sabbath começou», porque agora, com o Sabbath, todo o judeu era Rei de Israel. O impacte da Bula de Paulo IV foi imediato. Em alguns dias apenas, já havia um gueto em Veneza e outro em Bolonha, chamado Inferno. O objectivo de Paulo era converter os judeus em massa. Muitos passaram-se para o Cristianismo, mas não a
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    181 maioria. Disto resultaramatrocidades generalizadas. Em Ancona tinham-se estabelecido os Marranos, judeus convertidos de Portugal, com a garantia de pontífices anteriores de que, embora baptizados à força, seriam deixados em paz para praticarem a sua antiga fé. Paulo IV quebrou estas promessas no último dia de Abril de 1556. Os Marranos dispersaram-se rapidamente, mas vinte e quatro homens e uma mulher foram queimados vivos em sucessivos Autos-de-Fé na primavera e verão desse ano. Longe das fogueiras, os judeus recitaram o Kaddish: Yiskaddal veyiskaddash, a sua antiquíssima oração. Paulo morreu em 1559, mas a sua Bula tinha estabelecido um padrão que havia de durar três séculos. Em Junho de 1566, Pio V baptizou pessoalmente dois judeus adultos e os seus três filhos; cinco cardeais serviram de padrinhos. Em 1581, Gregório XIII chegou à espantosa conclusão de que a culpa dos judeus de terem rejeitado e crucificado Cristo «só se aprofunda com as sucessivas gerações, vinculando-os à escravidão perpétua». Na Romagna, dois padres, ex-judeus, receberam a incumbência de forçar a entrada em sinagogas durante o Sabbath. Num acto de profanação, colocaram um crucifixo em frente da Arca e proclamaram Jesus como Deus e Messias. Por toda a parte as sinagogas eram encerradas durante meses seguidos com o pretexto de que fora lá encontrado um livro não autorizado. Evidentemente que muitos desses livros eram lá colocados intencionalmente. Arrombavam-se casas, que eram revistadas e destruídas. Qualquer pretexto servia para mandar o chefe de uma família judia para a Casa dos Catecúmenos para uma lavagem ao cérebro. Um judeu que se aproximasse do edifício sem autorização — digamos, um rabi a tentar dissuadir os seus semelhantes de se converterem — era selvaticamente espancado. No ano de 1604, o Rabi Joshua Ascarelli, a mulher e quatro filhos foram mandados para a Casa. O pai e a mãe, depois de prolongada detenção, continuaram a não ceder; foram libertados. Os filhos ficaram. Sem os pais, sucumbiram por fim e foram baptizados. Quando os pais voltaram a buscá- los disseram-lhes que se fossem antes que os chicoteassem. Em 1639 um judeu de Roma estava a conversar amigavelmente com um padre dominicano quando, por graça, se ofereceu para mandar baptizar os seus filhos na condição de o papa ser o padrinho. A sua leviandade custou-lhe os dois filhos, um deles ainda no berço. Este insulto à raça provocou no gueto um tumulto que foi implacavelmente reprimido. Entre 1634 e 1790, “converteram-se” 2030 judeus de Roma. Benedito XIII (1724-30) baptizou vinte e seis como sinal de estima. As conversões eram acompanhadas de fogo de artifício e procissões nas proximidades dos guetos, onde os judeus, na maioria reduzidos ao silêncio, se agitavam. Quando eles eram obrigados a ir à igreja para ouvir os sermões, os pagãos atiravam-lhes com imundícies para cima. Dentro da igreja, os bedéis andavam à sua volta com varetas para os manter acordados. Por vezes eram submetidos a exames médicos para se ter a certeza de que estes “judeus manhosos” não tinham sido escolhidos pela comunidade por serem surdos. Nenhum pormenor humilhante era descurado. Estavam proibidos de levar círios acesos nos funerais ou de erguer pedras sobre as sepulturas dos seus mortos, em violação da lei romana de que os próprios cristãos tinham beneficiado: um cemitério é tão sagrado como um templo. Uma superstição do tempo era que quem quer que fosse responsável pelo baptismo de um infiel ganhava livre trânsito para o Paraíso. Os fora-da-lei vagueavam pela cidade à caça de crianças judias e baptizavam-nas com água da chuva. No século XVIII Benedito IV decidiu que uma criança baptizada contra a vontade dos pais, mesmo que em violação dos procedimentos da lei canónica, era cristã e tinha de viver como tal. Se o não fizesse era rotulada de herege e incorria na punição que tal implicava. Nos guetos
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    182 havia as manifestaçõesde luto quando tais crimes ocorriam. E também havia manifestações de pesar quando um judeu, convertido ao cristianismo, fazia o que o padre mandava e retirava os filhos do gueto. Uma vez baptizados, a mãe nunca mais os podia ver. Nos piores dias da opressão papal em Roma, os judeus viviam encerrados dentro de altos muros. Naturalmente tinham de construir em altura. Como consequência, as casa desabavam, por vezes durante cerimónias de casamento. O fogo propagava-se rapidamente. A higiene praticamente não existia, o que confirmava o mito de que os judeus exalavam um mau cheiro que só desaparecia com o baptismo. Ramazzini, conhecido como o pai das doenças ocupacionais, estudou os judeus italianos e publicou as conclusões das suas investigações no livro De Morbis Artificum em 1700. Eles revelavam, dizia ele, todos os sintomas de uma vida sedentária. As mulheres, em particular, sofriam de cegueira precoce. Eram vítimas, muito acima da média, de dores de cabeça e de dentes, de infecções de garganta e de doenças pulmonares. Os papas foram os responsáveis por gerações de sofrimento não registadas nos livros de História. A Revolução Francesa abriu caminho às Luzes. Mas a luz não iluminou o Vaticano. Uma sucessão de papas reforçou os antigos preconceitos contra os judeus, tratando-os como leprosos não merecedores da protecção da lei. Pio VII foi seguido por Leão XII, Pio VIII, Gregório XVI, Pio IX — todos bons discípulos de Paulo IV. Se os judeus comprassem ou vendessem algum objecto utilizado no culto católico — um cálice, um rosário, um crucifixo — eram multados em 200 scudi. A mesma multa era aplicada àquele que saísse de Roma sem autorização do Inquisidor. Se um médico cristão fosse chamado para tratar um doente no gueto, primeiro tinha de tentar convertê- lo a Cristo. Se não conseguisse, tinha de ir-se embora imediatamente. Todas as segundas-feiras três ou quatro crianças judias eram levadas para o baptismo e tornadas cristãs. Quem quer que se opusesse, mesmo os pais, era presente à Inquisição. Se dois judeus testemunhassem que um outro judeu, por palavras ou por acções, tinha ofendido um padre católico ou a verdadeira religião, era executado. Leão XII (1823-9) decidiu que os cristãos andavam a desleixar-se. Fechou de novo os judeus em guetos. Também proibiu a vacinação contra a varíola durante uma epidemia porque «era contra a lei natural». Mas a grande desilusão foi Pio IX. Liberal desiludido, fez sair leis ainda mais rigorosas contra a comunidade judaica. Cecil Roth, em History of the Jews in Italy (1946), conta a estória de um judeu de boa posição social que foi mandado para a prisão sob Pio IX por empregar uma senhora de idade cristã para lhe tratar das roupas. Por esta altura os judeus já tinham adquirido a sua liberdade e dignidade em quase todo o mundo. Mas não em Roma e nos Estados Papais. A Casa dos Catecúmenos ainda estava em actividade. No ano de 1858 foi cenário talvez do pior abuso de todos. Uma rapariga de Bolonha disse ao padre, em confissão, que seis anos antes tinha trabalhado ilegalmente como criada em casa de uma família de judeus de nome Mortara. Estes tinham um filho de um ano de idade que a rapariga pensou que estava à morte e baptizou-o. O confessor disse-lhe que ela tinha a obrigação de informar as autoridades. Cumprindo as ordens do clero, a polícia prendeu o Edgardo, agora com sete anos, e mandou-o para Roma para ser educado como cristão. Esta cause célèbre provocou uma tempestade pela Europa fora. Francisco José da Áustria e Napoleão III de França avisaram ambos o papa de que estava a hostilizar a opinião mundial. Em Londres houve uma reunião maciça em Mansion House. O ilustre judeu britânico Sir Moses Montefiore
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    183 viajou para Romapara apelar pessoalmente junto do pontífice. Pio IX continuou renitente. Depois de uma parada triunfal através do gueto romano, Edgardo Mortara recebeu solenemente o baptismo. Foi educado como cristão e mais tarde tornou-se um ilustre missionário. Uma vez mais se viu um papa, pessoalmente devoto, desprovido de todo o sentido de justiça com relação aos judeus. Em Setembro de 1870, as tropas romanas tomaram Roma. Foram saudadas com cenas de júbilo apenas igualadas quando os Aliados recapturaram a cidade depois da ocupação Nazi na Segunda Guerra Mundial. Onze dias depois da queda da cidade, em 2 de Outubro de 1870, foi concedida aos judeus, por um decreto real, a liberdade que o papado lhes negava há mais de mil e quinhentos anos. O último gueto da Europa fora desmantelado. Quando isso aconteceu, os judeus devem ter sentido que as suas provações tinham finalmente terminado. Como é que eles podiam saber que a sua hora mais negra ainda estava para vir? Pio XII e o grande silêncio O Cristianismo tinha preparado o caminho, perseguindo-os por causa da sua religião; o Fascismo persegui-los-ia por causa da sua raça. Os papas, apesar de toda a sua crueldade, tinham tido a esperança de converter os judeus; Hitler, com o seu relutante aliado Mussolini, planeou exterminá-los. Apesar das enormes diferenças, as semelhanças entre os decretos de Inocêncio III e Paulo IV, por um lado, e as Leis de Nuremberga de 1935, por outro, são incontestáveis. Os cristãos fizeram pontaria aos judeus: estes eram os párias, os poluidores da terra que, como raça, perpetraram o maior dos crimes conhecidos do homem, matando Deus. Os cristãos inventaram a ideia de despojar os judeus das suas casas, das suas terras e cemitérios, forçando-os à emigração, forçando-os ao confinamento. Quando os Nazis deram o nome de “gueto“ aos espaços onde os judeus viviam, pretendiam expressamente dar às suas políticas o tom de continuidade em relação às dos papas e uma espécie de respeitabilidade. Pio XI, que morreu em 1939, sabia que Jesus, Maria e José eram judeus. Manifestou a sua oposição a um grosseiro racismo na Alemanha e escreveu uma encíclica antifascista que à data da sua morte não estava publicada. O seu sucessor foi mais cauteloso. Eugénio Pacelli, Pio XII, nasceu numa família patrícia em 1876. Devido à sua pouca saúde, estudou para padre em casa. Ordenado em 1899, foi imediatamente destacado para o Secretariado de Estado do Vaticano. Dezasseis anos mais tarde, foi feito bispo sem ter um só dia de experiência pastoral. Nasceu e cresceu burocrata. O avô, Marcantonio, fora advogado canónico leigo na Rota Romana. O pai, Filippo, também canonista, foi deão do Colégio dos Advogados Consistoriais, e com tal reputação que foi o único leigo a trabalhar no novo código da lei canónica que entrou em vigor em 1918. Eugénio, advogado conforme a tradição da família, era o braço direito do Cardeal Gasparri, cuja ideia era reestruturar o código e que dirigiu os trabalhos em todas as suas fases. Para o fim da Primeira Guerra Mundial, Pacelli era núncio apostólico em Munique. Depois da guerra, foi transferido para Berlim onde testemunhou a ascensão dos
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    184 Camisas Castanhas. Em1929 foi chamado de novo a Roma onde foi elevado a cardeal e Secretário de Estado. Era acompanhado da Irmã Pasqualina, uma freira franciscana alemã, que era a sua governanta. Apesar de ver o Nazismo de tão perto, sempre temeu mais o comunismo. O Cardeal Pacelli foi eleito papa em 2 de Março de 1939. Tinha então sessenta e três anos. Frio, distante, sem expressão, excepto quando reagia às saudações da multidão, tinha olhos castanhos sem força e, de perfil, cara de águia. Quando Mussolini começou a pressionar a comunidade judaica, Pio iniciou o hábito de não dizer nada. No dia 4 de Junho de 1940, a Itália entrou na guerra ao lado de Hitler. Nos fins de 1941, três quartos dos judeus italianos tinham já perdido os seus meios de subsistência. Estava armado o cenário para aquilo que muitos consideram, católicos incluídos, a mais vergonhosa de todas as encíclicas papais, mais terrível ainda do que a Cum nimis absurdum de Paulo IV, aquela que nunca foi escrita. Por toda a Itália e Reich, os judeus estavam a ser sistematicamente vitimizados e, em muitos casos bem conhecidos, mortos. Do Vaticano nem uma palavra inequívoca de condenação. Este silêncio, diz muita gente, era pior do que a heresia. Habitualmente tão lestos a corrigir e a condenar o mais leve desvio da fé, ou qualquer ”erro”, por exemplo, em relação à moralidade sexual, a boca de Roma esteve muito bem e, como se viu depois, permanentemente fechada. Muito antes do fim do ano de 1942, o extermínio em massa dos judeus era já do conhecimento geral. No dia 1 de Julho a BBC transmitiu em francês relatos do massacre de 700.000 judeus polacos. Uma semana mais tarde, o Cardeal Hinsley de Westminster repetiu este número na BBC, acrescentando: «Este sangue inocente clama por vingança». Nesse verão, a França de Vichi mostrava-se pronta a deportar as crianças judias, mesmo antes de os nazis da Zona Ocupada estarem preparados para as receber. De 21 de Julho a 9 de Setembro, um pediatra contou 5.500 crianças que tinham passado por Drancy a caminho do extermínio. Mais de mil tinham menos de seis anos. Os pais já tinham sido despachados. Deram-lhes guardiões judeus para esconder o facto de que eram órfãos. George Wellers, advogado parisiense, era um dos guardiões. Descreveu a cena dos campos de trânsito perto de Paris no seu livro Drancy. As crianças, seis das quais no seu contingente, tinham menos de dois anos, eram como «um rebanho de cordeiros assustados». A descrição que fez da sua difícil condição é obsidiante. Criancinhas que ainda nem sabiam o nome à espera no cais que um adulto as levasse à casa de banho, deitadas no meio da própria imundície resultante da diarreia, a chorar sem parar durante a noite. Em 17 de Agosto, 530 crianças acompanhadas de alguns adultos foram empacotadas e trancadas em vagões de gado. O calor e o fedor eram aterradores. Dois dias depois, já estavam em Auschwitz e, à noite, já mortas. Logo depois, um médico das SS do campo confidenciava no seu diário: «Comparado com aquilo que vi, o Inferno de Dante parece- nos quase uma comédia». O inferno de Hitler viria a consumir um milhão de crianças. O Núncio Apostólico em Paris, Valerio Valeri, enviara em Agosto, ao Cardeal Secretário de Estado em Roma um relatório em que afirmava que as crianças que estavam a ser embarcadas para fora de França se destinavam à Polónia e não à Alemanha. Sete semanas mais tarde, Myron C. Taylor, o embaixador americano, enviou ao mesmo Secretário de Estado, Cardeal Maglione, pormenores do extermínio em massa de judeus polacos e ocidentais na Polónia. A hierarquia francesa fez aquilo que foi descrito como um protesto platónico junto do governo de Quisling. Laval soube dizer a Suhard, Cardeal de Paris, que devia manter-se fora da política e ficar calado, como Sua Santidade. Quando se deram mais prisões,
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    185 Suhard ficou defacto calado. Mas em Janeiro de 1943 foi a Roma para uma audiência com Pio XII. Levara consigo boas notícias em forma de ajuda financeira de Pétain à Igreja. Sobre os judeus não trocaram uma só palavra. O extermínio em massa de judeus era já do conhecimento geral. Um mês antes de Suhard ir a Roma, em 5 de Dezembro de 1942, o Arcebispo de Cantuária escreveu ao The Times a comentar uma reportagem do jornal no dia anterior. «Isto é um horror» dizia Sua Eminência, «para além do que se pode imaginar». Exprimia em seu nome e no da Igreja de Inglaterra e das Igrejas Livres «a nossa ardente indignação por esta atrocidade para a qual dificilmente se encontrará paralelo nos tempos da barbárie». Só havia um homem cujo testemunho Hitler temia, porque muitos dos soldados dos seus exércitos eram católicos. Esse homem não falou. Face àquilo que Winston Churchill viria a chamar «provavelmente o maior e mais horrível crime alguma vez cometido em toda a história do mundo», ele preferiu a neutralidade. No verão de 1943, Mussolini foi deposto e nesse mês de Setembro Roma foi ocupada pelos alemães. Um destacamento das SS chegou à cidade. Exigiu 50 quilos de ouro à comunidade judaica. Se o pagamento não fosse feito dentro de trinta e seis horas, duzentos judeus seriam deportados. Pio XII ofereceu-se para suprir qualquer falta. Mesmo assim, ninguém escapou. Em Outubro, um esquadrão de pára-quedistas das SS, armados de metralhadoras, estacionou nos limites do Vaticano. Estavam lá ostensivamente para proteger Sua Santidade, mas na realidade pretendiam intimidá-lo. Parece que conseguiram. Ele não estava preocupado com a própria segurança, mas, bem ou mal, mergulhou num silêncio ainda mais profundo, temendo que, quebrando-o, viesse a fazer piorar a situação dos judeus. Na noite de 15 para 16 de Outubro, os judeus estavam em casa a celebrar o Sabbath. Mil foram capturados, e entre eles havia mulheres grávidas e velhos. Uma mulher levada num camião militar entrou em trabalhos de parto. Um casal com dez filhos estava entre os que foram levados para a Academia Militar. Aí, na primeira noite, duas mulheres deram à luz. Dois dias depois, uma Segunda-feira, dia 18 de Outubro, todo o grupo de mais de mil pessoas foi transportado para uma via ferroviária de resguardo e metido em vagões de gado. O comboio partiu às 2.05 da tarde. Foram para o Norte, por Orte, Chiusi, Florença e Bolonha, e atravessaram a fronteira alemã. Dirigiam-se para Auschwitz. O Bispo Hurdal, chefe da Igreja alemã em Roma, reconhecendo que o arregimentar de judeus em Roma era um momento chave, informou o comando alemão de que as capturas tinham de acabar. Caso contrário, o papa «teria de tomar uma posição clara que a propaganda anti-germânica aproveitará como arma contra nós». Também o embaixador alemão estava profundamente preocupado. Andavam a apanhar os judeus, mandou ele dizer para Berlim, praticamente debaixo do nariz do papa. E este, tal como muitos bispos franceses, não teria outra alternativa senão protestar contra a política alemã. Estes receios vieram a revelar-se infundados. Pio XII não disse absolutamente nada. Quando o diplomata americano Harold Tittman foi recebido em audiência três dias mais tarde, o papa não falou dos judeus. A sua preocupação eram as pequenas células comunistas espalhadas por Roma. Os Nazis ficaram admirados; não podiam acreditar na sua sorte. Isto encorajou-os a levar a cabo medidas idênticas em Florença, Veneza, Ferrara, Génova e Fiume. Em seis semanas foram arregimentados e levados para Auschwitz dez mil judeus, 7550 dos quais aí morreram. Os italianos abrigaram tantos judeus quanto podiam. Isto era mais fácil na medida em que os judeus não tinham um aspecto muito diferente deles.
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    186 Encorajadas pela SantaSé, as igrejas, conventos e mosteiros, todos desempenharam o seu papel; alguns judeus refugiaram-se no Vaticano. Em Dezembro de 1943, os judeus foram formalmente privados da cidadania italiana. Numa só captura, foram aprisionados 650 judeus romanos, noutra, 244. Havia setenta judeus entre os reféns mortos nas Grutas Ardeantinas, em Março de 1944. Este número representava uma represália de 10 para 1 pelos polícias alemães mortos a tiro em emboscadas pela Resistência, com mais cinco vítimas acrescentadas por engano. Entre os primeiros reféns mortos com um tiro na nuca estava Dominico Rici, funcionário católico de Roma, de trinta e cinco anos e pai de cinco filhos. Num dos seus bolsos foi encontrada uma nota rabiscada em maiúsculas: «Meu Deus, rezamos para que Vós protejais os judeus destas bárbaras perseguições. Um Padre-nosso, dez Ave- marias, um Gloria Patri». Juntamente com Rici, morreram seis judeus chamados Di Consiglio: três irmãos, o pai destes, o avô e o tio. Robert Katz escreveu no seu livro Morte em Roma: Não era necessário um milagre para salvar os 335 homens condenados a morrer nas grutas Ardeantine. Um homem podia, devia e tem de justificar a razão por que não agiu para pelo menos adiar o morticínio alemão. Esse homem é o Papa Pio XII. O papa soube por Dollman, chefe das SS em Roma, e através do Padre Salvatoriano alemão Pancrazio, que ia haver um banho de sangue. Contudo, as simpatias do papa eram mistas. Ele pensava que o ataque da Resistência às forças alemãs foi um crime maior porque não provocado. O dia do massacre encontrou-o em audiência com os cardeais do Santo Ofício e da Congregação dos Ritos e a preparar-se para as cerimónias da Quaresma. O massacre não foi registado pela rádio independente do Vaticano. Se o papa ao menos tivesse arriscado ser preso usando uma estrela de David, ou tivesse falado ao menos uma vez para dizer ao povo judeu que eles não estavam sozinhos na sua agonia…! Muito longe, um dos líderes do Levantamento Polaco lamentava o silêncio de todos os líderes mundiais. Era para ele «espantoso e horrível». A sua mensagem dizia: «O mundo está em silêncio. O mundo sabe, não é possível que não saiba, mas continua calado. O representante de Deus no Vaticano está calado». O horror romano terminou em 5 de Junho de 1944 quando os Aliados libertaram a cidade. O capelão militar removeu os selos, incluindo o de Pio XII, das portas da Grande Sinagoga. Os judeus eram livres de novo. Saíram dos esconderijos para verificarem que faltavam mais de dois mil deles. Cecil Roth exprimiu em 1946 a sua sincera gratidão à Igreja pela ajuda que prestou ao seu povo durante a guerra. «Desta maneira, no século XX o grande erro do Gueto italiano foi resgatado». Pinchas E. Lapide louvou Pio XII pelo seu trabalho silencioso na retaguarda. Muitos observadores são menos caridosos. Para estes, a questão é: Por que é que o papa não ergueu a sua voz? Os seus defensores dizem que ele quis preservar a neutralidade do Vaticano como mediador; receava carregar as consciências dos católicos alemães com um fardo intolerável. Os seus críticos respondem: Pode haver neutralidade entre o bem e tão tremendo mal? Além disso, e o fardo dos judeus que os alemães, católicos e não católicos, estavam a assassinar aos milhões?
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    187 O retrato queHochhuth faz de Pio XII na sua peça O Representante como uma espécie de super capitalista que temia apenas a desvalorização das suas acções, é ridículo. Provavelmente Pio nunca em toda a sua vida pensou em bens pessoais. Hochhuth andou mais perto da questão quando perguntou «como é que, nesta chamada Europa cristã, pode ocorrer o assassínio de um povo inteiro sem que a mais alta autoridade moral da terra tenha dito uma palavra sobre isso?» No próprio Vaticano vieram à tona diferenças de opinião. Depois da guerra, Paulo VI havia de vir em defesa do seu ex-superior dizendo que protestar contra as atrocidades alemãs «teria sido não só em vão como prejudicial». Enquanto que o Cardeal Tisserant, mais tarde Deão do Sacro Colégio, disse, ainda durante a guerra: Receio que a História vá criticar a Santa Sé por ter praticado uma política de conveniência egoísta e pouco mais. Isto é muito triste, especialmente para aqueles [de nós] que viveram sob Pio XII. Toda a gente [em Roma] está convencida de que depois de Roma ser declarada cidade aberta os membros da Cúria não terão de sofrer qualquer dano; isto é uma vergonha. Os tempos da deposição de reis já lá vão há muito. Católicos como Hitler ou Goebels não teriam ficado preocupados com a excomunhão, nem teriam deixado de perseguir os Judeus por o papa lhes pedir. Mas alguns perguntam: Não podia Sua Santidade, que declarou infalivelmente em 1950 que uma judia foi levada de corpo e alma para o Céu, ter dito com autoridade em 1942 que a sua raça não devia ser aniquilada por ser judaica? O que é que o impedia de dizer publicamente, como Tisserant o incitou a fazer, que os católicos não podiam participar num assassínio em massa ou que há situações em que os líderes legais devem ser desobedecidos, qualquer que seja o preço? A única explicação satisfatória para o silêncio de Pio XII é que ele era primeiro e antes de tudo um católico; católico antes de cristão ou ser humano, muito embora fosse um bom cristão e um ser humano profundamente compassivo. O seu admirador judeu Lapide escreveu: «Um simples édito papal dizendo aos cristãos que a lei judaica que Cristo pregou aos discípulos — «Ama o próximo como a ti mesmo» — deve aplicar-se também aos judeus, teria sido mais proveitoso do que longas listas de proibições e restrições. Mas nunca tal carta chegou de Roma». Se ao menos Pio XII tivesse cuidado tanto dos judeus como Pio IX cuidou dos seus Estados Papais…! A Pio seguiu-se João XXIII, de setenta e sete anos, a quinta-essência do ser humano. Expurgou imediatamente a palavra “pérfido”, o adjectivo usado em relação aos judeus na liturgia da Sexta-feira Santa. Ele sabia que a Sexta-feira Santa devia antes ser uma espécie de Yom Kippur em resgate do pecado da Igreja de crucificar Jesus nas pessoas dos irmãos judeus ao longo dos tempos. Certa vez, quando recebeu os líderes americanos do Apelo Judaico Unido, o papa disse com um sorriso: «Eu sou José, vosso irmão» («Son’io Giuseppe il fratello vostro»). José era o irmão mais novo. Sob a direcção de João, o Cardeal Bea preparou um documento sobre os Judeus para ser presente no Concílio Vaticano II. João morreu antes de ele ser aprovado. De qualquer maneira, com alterações que o deixaram quase irreconhecível, acabou por ser escasso demais e tardio demais. Não há nele qualquer verdadeira sugestão de perdão, como há na grande prece de João, pela doutrina e comportamento dos católicos ao longo dos tempos que contribuíram para o anti-semitismo. No Concílio, e satisfazendo as objecções de alguns bispos, os Judeus nem sequer foram ilibados da acusação de deicídio. O novo papa, Paulo VI, defendeu um texto mais fraco. A sua falta de
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    188 sensibilidade em relaçãoaos Judeus revelou-se mais tarde num sermão que ele pregou no Domingo da Paixão de 1965. «Os Judeus» disse ele «foram predestinados para receber o Messias e esperaram por ele durante milhares de anos. Quando Cristo chega, o povo judeu não só não o reconheceu como se lhe opôs, o caluniou e finalmente matou». Depois do Holocausto, depois de todas as deliberações do Concílio, o papa, um homem bondoso, voltou a culpar toda a raça judaica pela morte de Jesus. Monsenhor John M. Oestreicher, que fez o esboço do documento original do Vaticano II sobre os judeus, confessou: «Os padres conciliares podiam ter feito ressoar a Basílica com o grito: “Não mais campos de concentração! Não mais câmaras de gás! Não mais tentativas de extermínio de um povo inteiro! Não mais perseguições aos Judeus!”» Eles nem nunca tiveram coragem de dizer que os judeus não podem ser acusados da morte de Deus. A mais longa viagem de João Paulo Concordaram em encontrar-se na primavera, imediatamente antes da Páscoa Judaica do ano de 1986, segundo o calendário cristão. O Papa João Paulo já viajara por todos os continentes, mas esta seria a sua mais longa viagem. Respirou fundo quando se preparava para entrar no edifício enfeitado que fica praticamente à vista do seu próprio palácio do Vaticano. Talvez mil pessoas apinhavam-se num espaço destinado a poucas centenas. A porta principal estava aberta de par em par quando ele passou do sol brilhante no exterior para a sombra do interior da sinagoga. Em certo sentido, os Judeus são os paroquianos mais antigos do papa. Eles viviam nas ruas de Lungotevere de ‘Cenci quando um pescador veio da Galileia para viver entre eles há quase dois mil anos. Desde então, os judeus e os pontífices, únicos sobreviventes da Roma Imperial, sempre estiveram no pensamento uns dos outros. Neste dia, entre os judeus ali reunidos, estavam quarenta que, quais fantasmas de uma era passada, traziam tatuagens nos braços. Eram sobreviventes dos campos de morte nazis. João Paulo foi recebido pelo Rabi Chefe Elio Toaff, também de branco, salvo as tiras negras verticais do seu manto de orações. Os dois representantes olharam-se nervosos. O rabi cofiava a barba branca e o pontífice agarrava a cruz de ouro que traz ao peito e de que muitos dos congregados não conseguiam tirar os olhos. Tinham sofrido muito por causa daquela cruz. Ambos os homens sabiam que este encontro iria ficar na História. Ambos tinham consciência também de que havia membros de ambas as comunidades que não viam com bons olhos este encontro do Bispo e do Rabi Chefe de Roma naquele solene período litúrgico na sinagoga que foi o coração e a alma do último gueto europeu antes da ascensão de Hitler. Muitos judeus presentes sabiam o que Pio X disse em 1904, porque Golda Meir o relatou na sua Autobiografia: «Não podemos impedir os Judeus de irem a Jerusalém, mas Nós nunca o sancionaríamos. […] Os Judeus não reconheceram Nosso Senhor; Nós não podemos reconhecer os Judeus». Toaff tinha um problema adicional. Não podia esquecer que um seu antecessor, o Rabi Chefe Israel Zolli, se tornou católico em 1945 e tomou o nome de Eugénio em reconhecimento a Pio XII por ter acolhido os judeus durante a Segunda Guerra Mundial. Desde Constantino que não havia tão surpreendente conversão. O pontífice, com um sorriso triste, olhou a congregação com profundo respeito antes de iniciar uma alocução em que deplorou os ódios e as perseguições que “alguém” alimentou e perpetrou contra os Judeus. Repetiu a última expressão e um disperso aplauso estendeu-se a toda a assembleia, fazendo vibrar os travejamentos. Quando exprimiu o seu horror pelo genocídio nazi, muitos choraram abertamente. Eles sabiam
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    189 que ele, umpolaco vindo de Cracóvia, a apenas algumas milhas de Auschwitz, tinha compartilhado seu pesar. Três milhões daqueles que lá foram chacinados eram tanto polacos como judeus. Enquanto o cantor e o coro cantavam Ani Ma’amin, o cântico de fé cantado pelos judeus a caminho da morte, os pensamentos de muitos naquele dia de primavera voltaram-se para Auschwitz, Bergen-Belsen, Dachau e Treblinka. Passados os oitenta minutos da cerimónia na sinagoga da margem do Tibre, havia esmagadoras razões tanto a favor como contra preces conjuntas, e assim pontífice e rabi oraram juntos — em silêncio. Depois, esquecendo o protocolo e a profunda divisão religiosa, com o pensamento apenas na sua humanidade comum, judeu e católico abraçaram-se calorosamente. A assembleia rompeu de novo em aplausos. Nem uma só vez o papa mencionou o Estado de Israel; isso, explicou um assessor mais tarde, é uma questão política. Curiosa reserva num pontífice cujos antecessores desejaram ardentemente adquirir e manter os Estados Papais. Mas aqueles poucos que neste momento sagrado representavam os judeus de todo o mundo sabiam que João Paulo, embora modesta e indirectamente, tinha aceitado alguma da culpa pelas incessantes tragédias do seu povo que culminaram no Holocausto. O longo e desapiedado tratamento dado aos Judeus pelos papas foi o resultado de uma grave má interpretação da verdade evangélica. Porque, segundo a própria interpretação da cruz por parte da Igreja, não foram os Judeus por si só os responsáveis, nem total ou nem parcialmente, pela crucificação, mas os pecados do mundo, isto é, os pecados da raça inteira. Os cristãos, ao perseguirem os Judeus, tentaram talvez escapar à sua própria culpa. Se fizeram dos Judeus os bodes expiatórios foi talvez por nunca terem conseguido perdoar-lhes por eles lhes darem um tão sagrado e exigente Salvador. A maioria dos historiadores concordaria com a profética acusação de Charles Lea, escrita no século passado, no primeiro volume da History of the Inquisition in Spain: A Igreja ensinou que, à excepção do assassínio, nenhum castigo, nem sofrimento, nem desonra eram severos demais para os descendentes daqueles que se recusaram a reconhecer o Messias. […] Não será demais dizer que pelos infindos erros cometidos sobre os Judeus durante a Idade Média, e pelos preconceitos que ainda por aí andam em muitos lugares, a Igreja é a principal, se não a única responsável. Será demasiado cruel classificar como heresia aquilo que muitos pontífices romanos disseram sobre os judeus e a maneira como os trataram?
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    191 12 Heresias Papais «Muitos pontíficesromanos foram heréticos». Para os católicos isto soará como uma citação de um protestante fanático. Um papa herege parece tão contraditório como um círculo quadrado. O Primeiro Concílio Vaticano disse que o papa, sem precisar do consentimento da Igreja, é o juiz infalível da ortodoxia. É certamente impensável que um papa como João Paulo II se pudesse afastar da verdade e, portanto, da Igreja, caindo em heresia. Aquela citação não é, de facto, de um protestante, mas do Papa Alexandre VI em 1523. Se por Igreja Romana se entende o seu chefe ou pontífice, não há dúvida de que ele pode errar, mesmo em matéria de fé. E é o que acontece quando ele ensina a heresia por seu próprio julgamento ou decretal. Na verdade, muitos Pontífices Romanos foram heréticos. O último deles foi o Papa João XXII [1316-1334]. O tema das heresias papais e dos papas excomungados pela Igreja era vulgar na Teologia, mas desde 1870 pouco se ouve falar dele. Mesmo o autoritário Inocêncio III confessava: «Eu posso ser julgado pela Igreja por um pecado em matéria de fé». Inocêncio IV, embora afirmando que, como Vigário do Criador, todas as criaturas a ele estavam sujeitas, admitia contudo que qualquer determinação papal que seja herética ou tenda a dividir a Igreja não deve ser obedecida. «Claro que um papa» dizia ele «pode errar em matéria de fé. Portanto, ninguém deve dizer “Eu acredito nisto porque o Papa também acredita”, mas sim “porque a Igreja também acredita”. Se ele seguir a Igreja, nunca errará.» Por qualquer razão, estas palavras, que apareciam no texto original de Inocêncio IV intitulado Comentário Sobre o Decálogo, foram retiradas das últimas edições. É difícil saber porquê, uma vez que muitos papas disseram mais ou menos o mesmo. Os papas falíveis A aura que hoje envolve o papado é tal que poucos católicos se apercebem de que dizer que um papa não pode cair em heresia vai contra a fé e a tradição. O papa sempre foi falível muito antes de ser infalível. Desde os primeiros tempos que era facto assente que os pontífices romanos não só podiam errar como de facto erraram em matérias fundamentais da doutrina cristã. E nem ninguém se apressou a acrescentar nesses dias longínquos: «Claro que ele só errou como doutrinador ou teólogo particular». Isto sugere que além das suas convicções e das respostas aos seus diocesanos, ele também regulava a fé de toda a Igreja. Não há provas disto. O que hoje é conhecido como infalibilidade papal não era sugerido, nem sequer veladamente, na Igreja primitiva e qualquer ideia de que um Bispo de Roma era, ele próprio, infalível, teria provocado por vezes alguma hilaridade. A fé da Igreja era pertença da Igreja e era
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    192 regulada pelos sucessoresde todos os apóstolos, nomeadamente os bispos. Eles testemunhavam a fé das suas comunidades, especialmente quando se reuniam em Concílio Geral. Um papa que saísse da linha em matéria de fé era condenado como herege. Pedro cometeu erros. E o Bispo de Roma também. Quando isso acontecia a Igreja tinha o direito e o dever de o corrigir ou depor. Afinal, também o papa era um membro da Igreja e não um qualquer tipo de oráculo divino exterior a ela. Não era simplesmente a ideia de infalibilidade, mas o próprio gérmen da ideia que não existia na época patrística. Roma era consensualmente considerada a mais eminente sé do Ocidente. Pedro e Paulo lá ensinaram e morreram. As suas ossadas tornaram-se lugar de peregrinação, de luz e de esperança. Apesar disso, nos primeiros três séculos, um dos Padres, Ireneu, relaciona a primazia de Roma com a doutrina. Nem mesmo ele a relaciona com o Bispo de Roma. Não há nenhum dos Padres Gregos uma só palavra acerca das prerrogativas do Bispo de Roma, não há qualquer sugestão de que ele tivesse jurisdição sobre eles. Ninguém, grego ou latino, apela ao Bispo de Roma como árbitro universal em qualquer disputa sobre a fé. De facto, nenhum bispo de Roma se atrevia a tomar sozinho uma decisão para a Igreja em matéria de fé. Roma locuta est, causa finita est. A frase de Santo Agostinho, «Roma falou, a questão está encerrada» é continuamente citada pelos defensores do Catolicismo. Com razão. Dos dez enormes fólios que constituem a sua obra, esta é a única frase que prova que o Bispo de Roma tem, por si só, o direito de resolver as controvérsias na Igreja. Mas será que prova mesmo? O contexto revela Agostinho a argumentar que depois de dois sínodos, com o concurso do Bispo de Roma, é altura de parar. Agostinho apela repetidamente aos sínodos para resolver controvérsias. Quando o Papa Estêvão tentou resolver uma disputa baptismal para a Igreja Africana e a sua opinião foi rejeitada, Agostinho diz que eles tiveram razão em agir assim. Tratava-se de uma questão para a Igreja e não para um indivíduo. Agostinho passou grande parte da sua vida a discutir com a igreja rival dos Donatistas. Nunca, nem por uma só vez, ele sugere que eles se separaram do centro da unidade, Roma; não reconhece tal centro para a Igreja como um todo. Ele nunca diz, por exemplo, como fazem os papas modernos: «Voltem para Roma, creiam em tudo o que o papa ensina». Em 434, Vincent de Lerins estabeleceu os critérios da doutrina católica: ela deve ser sempre sustentada por todos em toda a parte. Não menciona o papel de Roma nem dos seus bispos. A fé é formulada por um Concílio e não individualmente por um bispo. O Papa Pelágio (556-60) fala dos hereges que se afastam das Sés Apostólicas, isto é, de Roma, Jerusalém e Alexandria, mais Constantinopla. Em todos os escritos primitivos da hierarquia não há qualquer referência especial ao papel do Bispo de Roma, nem sequer ao nome especial de “Papa”. Mencionam-se os Patriarcas, dos quais o de Roma era o primeiro por causa de Pedro e Paulo, os arcebispos, os metropolitas e os bispos. Não há qualquer referência ao papa nem ao seu papel, nem mesmo em Isidro de Sevilha, o grande autor do século VII. Outra omissão surpreendente, à vista do Concílio Vaticano I: das cerca de oitenta heresias dos primeiros seis séculos, não há nenhuma que refira a autoridade do Bispo de Roma, nenhuma é declarada pelo Bispo de Roma. Por vezes ataca-se o episcopado em geral; mas ninguém ataca a autoridade do pontífice romano, porque nunca ninguém ouviu falar de tal coisa. Depois de Pedro passaram-se séculos, cheios de controvérsias, qualquer das quais hoje envolveria o imediato recurso a uma decisão de Roma. Nesses tempos nenhum Bispo de Roma se atreveria a tentar resolvê-las e nenhum bispo lhe pediria que o
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    193 fizesse. O PapaSirício (384-98) não era nenhum Gregório VII. Quando um certo Bispo Bosónio caiu em heresia, recusou-se a pronunciar-se contra ele porque, dizia, não tinha o direito de o fazer. A questão devia ser resolvida pelos bispos da província. Já assinalámos que não há um único Padre que encontre qualquer sugestão de exercício Petrino nos grandes textos bíblicos que se referem a Pedro. A supremacia e infalibilidade papais, hoje tão fundamentais para a Igreja Católica, não são simplesmente referidos. Não há um único credo, uma única confissão, um único catecismo, uma única passagem nos escritos patrísticos que contenha uma palavra que seja acerca do papa, e muito menos a ideia de que a fé e a doutrina derivam dele. Todos os indicadores vão no sentido de que o Bispo de Roma é falível e não infalível. De facto, o primeiro papa a apelar para qualquer coisa do tipo daquilo que nós hoje conhecemos como autoridade papal foi Ágato em 680. E fê-lo por uma razão bastante embaraçosa: um seu antecessor, o Papa Honório, ia ser condenado por heresia por um Concílio Geral. Uma longa lista de papas heréticos A tradição de heresia entre os Bispos de Roma remonta a tempos anteriores a Honório. Libério (352-66), por exemplo. Libério fez os possíveis por resolver a controvérsia Ariana. Ário acreditava que o Filho era menos do que o Pai. O grande defensor da ortodoxia era Atanásio. Libério fora forçado a exilar-se e a condição para o seu regresso era condenar Atanásio. Foi o que ele fez, sugerindo desta maneira que o Filho estava abaixo do Pai. Por isto, ele ganhou a maldição de um Padre muito importante, Hilário de Poitiers, que o acusou de apostasia. «Maldito sejas, Libério» foi a famosa exclamação de Hilário, e todos os bispos ortodoxos a subscreveram. O erro de Libério foi uma prova incontestável ao longo da Idade Média de que os papas podem cair em heresia como qualquer outra pessoa. Outros papas houve que fizeram afirmações infelizes. Gregório o Grande disse que os bebés não baptizados vão directamente para o inferno e lá ficam a sofrer para toda a eternidade. Alguns pontífices foram ainda mais longe. Inocêncio I (401-17) escreveu ao Concílio de Milevis e Gelásio I (492-6) aos bispos de Picenum dizendo que os bebés deviam receber a comunhão. Se morressem baptizados mas sem a comunhão iam directamente para o inferno. Esta opinião foi condenada pelo Concílio de Trento. O mais hamletiano de todos os papas foi Vigílio (573-55), cuja carreira se assemelha a uma farsa teatral. Vigílio era um corpulento funcionário romano sem escrúpulos, que nunca foi popular. O Papa Bonifácio II queria que ele fosse o seu sucessor e escreveu uma carta a nomeá- lo papa após a sua morte. Uma multidão em fúria por o papa se ter atrevido a violar os seus direitos democráticos, enquanto clero e povo de Roma, obrigou-o a queimá-la. Foi um momento interessante. Se tivessem deixado Bonifácio levar a sua avante, talvez nunca mais tivesse havido eleições papais. Certamente que depois de 1870, a nomeação pelo papa do seu sucessor teria sido considerada um dado adquirido. Quem melhor do que o Vigário de Cristo, com a plenitude do poder, para escolher o próximo sucessor de S.Pedro? Mas os romanos do século VI insistiam que Roma era a sua diocese e que tinham o direito de escolher a pessoa que os iria governar. Anos mais tarde, Vigílio conseguiu mesmo ser eleito papa. O seu não foi um reinado feliz. O Imperador Justiniano obrigou-o a juntar-se-lhe em Constantinopla e aí o manteve até o pontífice concordar com as suas próprias opiniões heterodoxas sobre
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    194 Jesus e aautoridade do Concílio da Calcedónia. Vigílio mudava de opinião tantas vezes quantas aquelas em que era pressionado pelo imperador. Por fim, Justiniano convocou o Quinto Concílio Geral, que reuniu em Maio de 553 na galeria sul da Igreja de Santa Sofia em Constantinopla. De um total de 165 bispos presentes, só vinte e cinco eram ocidentais. Vigílio mandou apresentar as suas desculpas, alegando que estava doente. A sua ausência não foi considerada suficientemente importante para adiar os trabalhos. O Concílio reuniu e decidiu, entre outras coisas, que Sua Santidade era herético. Foi, portanto, excomungado. Quando isto chegou ao seu conhecimento, o papa condenou a decisão do Concílio e todos aqueles que o tinham excomungado. Furioso, Justiniano baniu-o para Proconescu, uma sombria enseada rochosa próxima da extremidade ocidental do mar de Mármara. Aí lhe chegaram boatos de que estava iminente uma nova eleição para papa e que o seu nome tinha sido retirado das listas litúrgicas dos papas. Estava mal de saúde; sofria agonias terríveis provocadas por cálculos. Depois de seis meses nesta situação, não aguentou mais. Em 8 de Dezembro de 553 mandou uma carta ao Patriarca de Constantinopla em que alegava que até então tinha sido iludido pelos «embustes do demónio». Satanás tinha-o afastado dos seus irmãos bispos, mas com a pena de excomunhão tinha visto a luz. As suas passadas opiniões, confessou ele, estavam erradas e, tal como o grande Agostinho, queria retractar-se. Aceitou todos os decretos do Quinto Concílio e declarou- os verdadeiros e obrigatórios no Ocidente. Agora que o papa tinha cedido às suas opiniões, o imperador estava pronto a deixá- lo voltar para o seu país. Em Roma esperava-o uma recepção muito pouco amistosa. Só escapou ao linchamento porque morreu em Siracusa em 7 de Junho de 555. Recusaram-lhe o enterro na Basílica de S.Pedro. A Itália sentia-se de tal maneira ultrajada com a conduta de Vigílio e com as suas frequentes mudanças de opinião sobre a questão essencial de Jesus ser uma ou duas pessoas, que a princípio recusou aceitar a legitimidade do Quinto Concílio. O Arcebispo de Milão e o Patriarca de Aquileia, em protesto, afastaram-se da Santa Sé. Ficou para o papa seguinte a tarefa de clarificar a situação com a ajuda do exército. O significado desta controvérsia não reside naquilo que foi debatido na altura. Reside sim no facto de um concílio se considerar acima do papa ao ponto de o excomungar e o depor por heresia. Durante a Idade Média este foi um daqueles casos históricos que provaram a todos os teólogos que um concílio era superior a um papa. Só muito mais tarde é que as falsificações vieram a alterar esta convicção. Antes disso, nunca ninguém considerou que os papas eram ortodoxos por uma espécie de prerrogativa divina; eles tinha de provar a sua ortodoxia como qualquer outra pessoa. O herético Papa Honório Honório, que foi papa de 625 a 638, é o exemplo clássico de um papa condenado pela Igreja por heresia. Era um homem notável, um santo, um bom líder e um belo estadista. É comparável em estatura moral a Gregório o Grande. O seu único defeito fatal era que, sendo um homem de acção, não gostava de controvérsias porque faziam perder tempo que era mais bem empregue em servir a Deus e aos pobres. O Concílio da Calcedónia estabelecera que Cristo tinha duas naturezas; era divino e humano. Punha-se então uma questão suplementar: Cristo tinha uma só vontade ou duas? Numa carta muito publicitada, Honório ridicularizou aqueles «filósofos
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    195 bombásticos que sãouma perda de tempo» que ao pesarem as duas naturezas de Cristo «nos coaxam quais rãs». Ele discordava das duas vontades, embora não seja bem clara a razão porquê. Talvez ele estivesse simplesmente a reagir contra a ideia de duas vontades contraditórias em Cristo. Seja como for, as suas palavras foram classificadas de contrárias à fé. Foi rotulado de Monotelista (defensor da ideia da vontade única). Honório morreu antes de poder explicar-se integralmente. Mas a sua carta provocou a heresia na Igreja oriental. Estes hereges recorreram à carta para provar que o papa concordava com o Monotelismo. Quarenta anos depois da morte de Honório, o imperador quis arrumar o assunto. Sugeriu um Concílio Geral, com que o novo papa, Ágato, concordou e para o qual se preparou realizando os seus próprios sínodos em Roma. O Sínodo da Páscoa de 680 condenou o Monotelismo e declarou pela primeira vez que Roma tinha a supremacia sobre toda a Igreja. Informaram o imperador de que a Igreja Romana era a mãe e que ninguém devia atrever-se a dizer que ela alguma vez errara em questões de fé. Então, o Sínodo nunca tinha ouvido falar de Vigílio? Aquela declaração orgulhosa e sem precedentes foi talvez o que ditou o destino de Honório. O Sexto Concílio Geral realizou-se no Palácio Imperial de Constantinopla; durou de 7 de Novembro de 680 a 16 de Setembro de 681. Os Monotelistas sustentaram que o Papa Honório estava do seu lado. O Concílio concordou. Ao condenarem os Monotelistas, os padres estavam a condená-lo também a ele. Os 174 delegados aprovaram os decretos; os legados papais assinaram primeiro sem quaisquer objecções. O novo pontífice, Leão II, eleito em 682, confirmou a condenação do seu antecessor. Escreveu ele: «Honório tentou, numa profana traição, subverter a fé imaculada». Isto não era uma mera questão de condenar uma qualquer opinião pessoal ou subtileza teológica. Leão condenou-o por minar publicamente a fé da Igreja. Senão, por que estava então um Concílio Geral envolvido na questão? A partir de então, todos os pontífices, quando da sua sagração, estavam obrigados a sancionar a decisão do Concílio, com um juramento em que se condenava a heresia do papa Honório. Gregorovio escreveu em Rome in the Middle Ages: «O único exemplo de papa romano publicamente anatemizado sob a acusação de heresia por um Concílio Ecuménico constitui um dos factos mais notáveis da história eclesiástica». Pouco importa se Honório era herético ou meramente um homem simples e brusco que preferia os actos às palavras e que tentou pôr fim a uma controvérsia com uma carta lançada à pressa. O ponto chave é que um Concílio Geral, confirmado por uma longa geração de papas, testemunhou que a Igreja não acredita que um papa seja infalível. Pelo contrário, quando comete um erro que descaminha a Igreja, o papa tem de ser condenado, como qualquer outra pessoa, como herege. Em matéria de fé, o Bispo de Roma está sujeito a um Concílio, na mesma medida em que está qualquer outro bispo. Assim, numa antecipação de quase doze séculos, negou-se a infalibilidade papal, tal como foi definida num concílio menor da fragmentada Igreja Ocidental em 1870. As heresias sacramentais de Roma A mais persistente falta de ortodoxia de Roma era na área dos sacramentos. Isto explica-se em parte pelo colapso da erudição provocado pelas invasões bárbaras. Os gregos tendiam a olhar maliciosamente Roma como uma cidade de papalvos. A partir do século VIII, certos papas anularam ordenações e reordenaram padres. Isto começou com um anti-papa, Constantino II, no ano de 769. Mas, como já vimos, o Papa
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    196 Formoso, após asua morte em 896, foi não só desenterrado e excomungado por heresia, como também as suas ordenações foram consideradas inválidas. Isto levantava uma questão alarmante: haverá em Itália, de que o papa é o patriarca, algum sacramento válido? Os Papas Estêvão VII e Sérgio III, o amante de Marozia, ensinavam ambos que as ordenações dos papas heréticos eram inválidas. Este ataque aos sacramentos continuou pelo século XI. Os papas decidiram que onde houvesse simonia — isto é, pagamento — envolvido na ordenação de um bispo, esta era inválida. Isto levou Leão IX (1049-54), provavelmente instigado por Hildebrando, a reordenar muitos padres. Quando Hildebrando se tornou Gregório VII, afirmou claramente que todas as ordenações que envolviam dinheiro eram inválidas. Levada a sério, esta decisão teria tornado nulas a maior parte das ordenações no mundo ocidental. Não teria havido missas válidas, nem confissões, nem extrema- unções em país atrás de país. Teria praticamente varrido a Sucessão Apostólica, desastre que Leão XIII havia de dizer que aconteceu à Igreja da Inglaterra depois da Reforma. Urbano II (1088-99) foi ainda mais longe do que Hildebrando. Mesmo que não paga, disse ele, a ordenação de um bispo seria inválida se o bispo que o consagrara tivesse pago pela sua própria ordenação. Esta interpretação dos sacramentos, que era contrária a toda a tradição, penetrou nos Decretais de Graciano. Apesar desta imensa autoridade dos papas e da lei canónica, esta heresia, por qualquer razão inexplicável — o Espírito Santo? — não se vulgarizou no Ocidente. O Oriente manteve-se à parte destas opiniões heterodoxas. Em 1557, Paulo IV, na sua Bula Cum ex Apostolatus officio, determinou «na plenitude do seu poder» que todos os actos dos papas anteriores com inclinações heréticas ou cismáticas eram nulos e sem validade. Isto tinha alguma lógica: um papa herético não era sequer cristão, muito menos pontífice. Mas, posto em prática, teria feito explodir todo o sistema católico de sacramentos, que é hereditário por natureza, isto é, é transmitido de geração em geração. Se uma geração o perde — por exemplo, usando fórmulas erradas ou tendo intenções incorrectas — fica perdido para sempre. Por muito peculiar que isto possa parecer, é doutrina católica ortodoxa. E é peculiar na medida em que deve por natureza gerar a incerteza. Por exemplo, uma criança invalidamente baptizada por um padre que inconscientemente diz as palavras erradas ou usa um líquido que não a água podia vir a ser padre — todas as suas missas e confissões são inválidas; ou bispo — todas as suas ordenações são inválidas; ou papa — a maior parte das obras da Igreja são inválidas. Felizmente, nem Roma, a mais intelectualmente rigorosa das igrejas, leva estas questões até às suas últimas consequências lógicas. Isto pode explicar a razão por que até ela voltou as costas a Gregório VII e a Graciano na questão dos sacramentos. Não foi só na mera questão das ordenações que Roma se desviou do caminho da ortodoxia. O Papa Pelágio já dissera, correctamente, segundo a tradição, que a Trindade tem de ser invocada para um baptismo válido. Nicolau I (858-67) disse que invocar o nome de Cristo era suficiente. Pior do que isto, decidiu que a confirmação ministrada por padres era inválida. De um só golpe, varreu praticamente a confirmação da Igreja grega. Esta tinha permitido desde tempos imemoriais que os padres confirmassem as crianças. O Papa Nicolau disse que a prática era inválida e os bispos orientais teriam de reconfirmar as crianças. Talvez os próprios bispos devessem ser reconfirmados! A decisão de Roma de “anular” séculos de confirmações na sua Igreja naturalmente que
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    197 contrariou os gregose contribuiu para abrir uma brecha permanente entre Oriente e Ocidente. A doutrina de Roma sobre o casamento também não escapou aos erros. Estêvão II (752) foi contra a corrente da tradição quando disse que o casamento entre um homem livre e uma escrava, ambos cristãos, podia ser dissolvido, permitindo que o homem voltasse a casar. Urbano III (1185-7) também sugeriu que havia situações em que um casamento consumado entre cristãos podia ser terminado. Celestino III (1191-8) esclareceu este ponto. Um casamento entre cristãos, disse ele, pode ser dissolvido se uma das partes optar por se tornar herege. Por esta afirmação, o Papa Alexandre VI declarou o Papa Celestino herege. Até Inocêncio III tropeçou neste tópico. Insistiu que os cristãos tinham de seguir o Deutronómio à letra. Sua Santidade ignorava o facto de que o Deutronómio permite que um homem se divorcie da mulher. Os papas erraram até quanto à Eucaristia. Para além dos primeiros papas que, como vimos, diziam que a verdadeira comunhão era necessária para a salvação, mesmo para os bebés, o papa Nicolau II (1059-61) disse que o corpo de Cristo pode ser manifestamente tocado com as mãos e mordido com os dentes. A Igreja rejeitou esta opinião. Nicolau tinha uma noção completamente errada da presença real — de modo nenhum sacramental — e parecia também asseverar que, depois da ressurreição, Cristo continua a sofrer. Foi, porém, um papa de Avinhão, João XXII, que Adriano VI no seu livro sobre os sacramentos seleccionou como um herege de proporções invulgares. As heresias do papa João XXII Quando Clemente V morreu, no ano de 1314, o conclave tentou durante dois anos um acordo sobre o sucessor. Finalmente, em desespero, escolheram Jacques Duèse da Cahors. A data foi 7 de Agosto; o lugar, Lyons. O novo pontífice tomou o nome de João XXII. Parecia o homem certo para a função. Com setenta e dois anos, pequeno, delicado, de aspecto doente, este filho de um sapateiro já não iria provavelmente viver muito tempo. João XXII viria a mostrar-se um pontífice cruel e duradouro, ambicioso, avarento, mais mundano do que um proxeneta, e com um riso que não podia ser mais malicioso. Este frágil e pequeno monstro iria viver ainda mais dezoito anos tempestuosos. Quando tomou posse, o tesouro estava depenado. Clemente V tinha distribuído absolutamente tudo pelos familiares. João tratou de rectificar a situação. Financeiro genial, trabalhou com base no princípio de que aquilo que um papa dá, um papa pode vender. E vendeu tudo aquilo que podia vir à cabeça de um qualquer francês com imaginação. O perdão por todos os crimes tinha o seu preço. Por exemplo, os católicos podiam pagar um tanto para serem absolvidos de homicídios, um tanto, de incesto e de sodomia. Quanto pior se portassem os católicos, tanto mais rico ficava Sua Santidade. Quando foi publicada uma lista clandestina dos pecados e seus preços, pensou-se que seria uma falsificação forjada pelos inimigos da Igreja. E isto era verdade, só que os inimigos eram o papa e a Cúria. Por meio da mais estranha alquimia, estavam a transformar os vícios em ouro. Estavam a dar aos pecadores o direito de pecar e de quebrar os seus votos, ou, pelo menos, a liberdade de evitar as consequências de tais procedimentos. João XXII precisava de dinheiro. Tinha uma paixão pela guerra, especialmente pelas guerras italianas. Sabe-se que despendeu 70 por cento dos seus rendimentos em armamento, o que teria provocado a ira de S.Pedro e a inveja de Júlio II. As contendas
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    198 de João comos Viscontis de Milão, em particular, revelaram-se muito dispendiosas. Um seu contemporâneo diz dele o seguinte: «O sangue que ele fez derramar teria tingido de vermelho as águas do lago Constância, e os corpos dos chacinados poderiam constituir uma ponte de costa a costa. O mais ganancioso dos papas, que proporcionou ao irmão e ao sobrinho uma vida de abundância, entrou em contradição com vários pontífices anteriores sobre a questão da pobreza de Cristo. Ainda em vida de S.Francisco de Assis, apareceram duas facções entre os irmãos, uma a favor da rigorosa observância do princípio, a outra a favor da moderação. No ano de 1279, Nicolau III tinha apaziguado a disputa com uma Bula, Exiit qui seminat. Esta passou a lei canónica. Nicolau dizia que a pobreza não era tanto uma questão individual, mas antes uma questão comunal. Como tal, era meritória e sagrada. Porque era esta a prática de Cristo e dos Apóstolos. Os papas seguintes confirmaram que Cristo e os Apóstolos viveram em pobreza; os Evangelhos assim diziam claramente. Honório III, Inocêncio IV, Alexandre VI, Nicolau III, Nicolau IV, Bonifácio VIII, Clemente V — todos estiveram de acordo. Mas João XXII, não. Numa Bula, Cum inter nonnullos, de 12 de Novembro de 1323, defendia o seguinte: dizer que Cristo e os Apóstolos não possuíam bens nenhuns é uma perversão das Escrituras. Os espirituais Franciscanos, louvados até então pela Santa Sé, eram agora rotulados de hereges; os príncipes eram obrigados a mandá-los para a fogueira ou seriam eles próprios excomungados. Era uma característica dos tempos que esta questão doutrinal fosse transformada num jogo político. O Imperador Luís da Baviera já entrara em conflito com João XXII quando este disse que num interregno se tornaria o administrador do império e o novo imperador teria de lhe prestar juramento de lealdade. João queria virar a História ao contrário. Luís, por seu lado, estava encantado por poder acusar o papa de heresia. Chamou-lhe anti-Cristo, depô-lo e nomeou outro. A escolha do imperador recaiu sobre Pier di Corbario, um decrépito franciscano que tomou o nome de Nicolau V. Infelizmente, Luís não tinha feito o trabalho de casa. Pouco tempo depois apareceu uma dama de idade que afirmava ser a Senhora di Corbario. Isto eram más notícias. Ao que parece, Pier era casado e já tinha filhos quando, sem a autorização da mulher, saíra de casa para entrar num convento. Nos termos da lei canónica, estava em situação ilegal; não era sequer um verdadeiro monge, muito menos pontífice. Também era verdade que João XXII tinha um filho que se estava a sair muito bem como cardeal, mas o papa nunca tinha cometido o pecado do matrimónio. Confrontado com uma escolha entre um papa herege e um anti-papa casado e em situação irregular, Luís optou por este. A mulher de Nicolau V foi indemnizada e ele encetou o processo de nomeação dos cardeais e de uma Cúria própria. Pelo menos, pensou o imperador, o meu papa é católico. Por fim, Luís cansou-se de jogar. Abandonou Nicolau em Pisa e entregou-o às autoridades da Igreja. Foi em Junho de 1329. João prometeu ser um bom pai para o renegado, o que era o mesmo que um gavião prometer o seu amor a um pardal. A caminho de Avinhão, Nicolau foi maltratado de todas as maneiras possíveis. Ficou na memória das pessoas a maldição de João em forma de salmo: «Que os seus filhos fiquem órfãos e a mulher, viúva! Que todos caiam na mendicidade». Quando Nicolau chegou à Provença como cidadão Pier di Corbario, João, ao contrário das previsões, foi amável para com ele. Poupou-lhe a vida, concedeu-lhe residência no palácio papal, embora sob prisão domiciliária. Quando morreu, quatro anos depois, foi enterrado com o hábito franciscano.
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    199 João XXII tinhatriunfado. A doutrina católica oficial era agora esta: Cristo e os Apóstolos não viveram na pobreza. O papa tinha oitenta e sete anos quando provocou um novo escândalo no Dia de Todos os Santos de 1331. O primeiro indício foi quando um dominicano inglês, num sermão perante a corte papal, afirmou que as almas dos justos contemplavam imediatamente Deus. João mandou que ele fosse julgado pela Inquisição. Para satisfazer Sua Santidade, os confusos inquisidores encarceraram o monge e quase o mataram à fome. Na igreja de Notre Dame de Doms, em Avinhão, o papa pregou então um sermão que causou sensação. As almas dos santos, disse ele, não desfrutam da visão de Deus antes da ressurreição do corpo. Estão ainda sub altare Dei, isto é, sob o altar de Deus. Só no Juízo Final é que eles são colocados no altar para contemplar a essência divina. Ninguém da sua entourage teve a coragem de lhe dizer que ele estava a pregar uma heresia. Em Janeiro de 1332, estendeu as suas opiniões aos condenados. Não havia ainda ninguém no inferno, disse ele à congregação espantada. Só no fim do mundo é que os condenados vão para o lugar do tormento. Uma vez mais, uma discussão teológica transformava-se em questão política. O imperador foi apoiado neste caso pelo Geral Franciscano, que João tinha excomungado por causa da questão da pobreza, e pelo grande teólogo franciscano William de Occam. Pela segunda vez, o papa foi declarado herético. Se os santos e a Virgem Maria, argumentava o imperador, não estão no Céu, como é que eles intercedem por nós? Porquê visitar os santuários de santos que não estão com Deus no Céu? E mais incisivamente, por que é que os cristãos hão-de pagar ao papa os perdões e indulgências se, quando morrem, têm de esperar até que chegue o Reino para entrar no Paraíso? Tal como um homem morto já não é homem, o imperador concluiu que um papa herético já não é papa. O ex-Papa João XXII era agora o cidadão Jacques de Cahors. Filipe de Valois apoiou Luís. Escreveu a João dizendo-lhe que as suas opiniões eram heréticas e que se ele não as retirasse iria para a fogueira. A Universidade de Paris manifestou a opinião de que o papa estava gravemente enganado e devia retractar-se imediatamente. João, arrogante como sempre, ofereceu grandes benefícios a quem pudesse mostrar-lhe uma passagem de Santo Agostinho que fundamentasse as suas opiniões. Ninguém o fez. Por fim compreendeu que toda a Igreja se lhe opunha. Contra todas as expectativas, respondeu a Paris dizendo que nunca tinha negado que os santos contemplavam Deus imediatamente após a morte, apenas deixara a questão em aberto. Nem esta mentira foi suficiente. Os teólogos europeus responderam: esta não é uma questão em aberto. O espírito da Igreja não podia ser mais fechado. Neste ponto, a história torna-se obscura. Dizem alguns que ele mudou de ideias exactamente antes de morrer com a idade de noventa anos. Outros afirmam que ele nunca mudou de ideias; morreu como vivera, herege. O que é certo é isto: no dia 3 de Dezembro de 1234, pressentindo que em breve as suas ideias seriam testadas na prática, convocou os cardeais para a sua cabeceira. Instou-os a que após a sua morte, escolhessem «um digno sucessor para a cadeira de S.Pedro». Os cardeais instaram-no, à vez, a salvar a sua alma e a honra da Igreja retirando as suas opiniões heréticas sobre a visão beatífica. Morreu no dia seguinte. Posteriormente foi publicada uma Bula em seu nome revogando tudo o que ele tinha dito e feito que colidia com a Igreja e submetendo-se totalmente ao seu julgamento.
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    200 Reflectiria a Bulagenuinamente o estado de espírito final de João? Mesmo aí ele mantém que as almas separadas «contemplam Deus e a essência divina cara a cara e claramente, na medida em que a condição de uma alma separada o permite». Tais subtilezas não parecem estar ao alcance de um homem de noventa anos à beira da morte. E também não parece fazer muito sentido na medida em que a ideia continuava a não ser aceitável para os teólogos. Julgado á luz da própria doutrina da Igreja este papa era um herege, como Adriano VI admitiu. Obstinadamente e durante toda uma época, ele negou um importante artigo da fé. Quando desafiado, alterou publicamente a sua posição apenas para deixar em aberto uma doutrina que estava oficialmente fechada. Continuava a duvidar, portanto continuava herético. A sua posição final não é clara; mesmo que tivesse sido responsável pela Bula final, esta continuava a ser heterodoxa. O seu sucessor, Bonifácio XII, não tolerou qualquer veleidade sobre o assunto. Em 29 de Janeiro de 1336, um consistório público declarou que depois da morte os santos gozam da visão beatífica sem qualquer demora. Quem defendesse opinião contrária seria punido como herege. Mesmo depois de sair de cena, João XXII continuava uma figura controversa. O flagelo dos hereges foi, ele mesmo, proclamado herético. Ele tinha mandado para a fogueira da Inquisição um grande número de franciscanos — chegou aos 114 — cujo único crime foi dizerem que Jesus e os seus discípulos viveram uma vida de absoluta pobreza. Porque a ironia final é esta: quando ele morreu, o tesouro, que estava exausto na altura da sua posse, estava agora a transbordar. Os banqueiros florentinos chamados para tratar do assunto ficaram espantados. Nunca tinham visto nada de semelhante. Contaram 25 milhões de florins de ouro e uma quantia equivalente em pedras e outros objectos preciosos. A verdadeira heresia de João XXII, vigário de Cristo e sucessor de Pedro, foi que mandou queimar os mais pobres dos pobres de Cristo e morreu como o mais rico homem do mundo. O papa que reescreveu a Bíblia Quando Gregório XIII se tornou papa, no ano de 1572, o Cardeal Franciscano Montalto retirou-se da vida pública. Os seus servidores diziam que Sua Eminência estava já com os pés para a cova e não queria mais nada da vida senão preparar-se para a morte. Nas poucas reuniões do Sacro Colégio a que foi obrigado a assistir, tossia continuamente como se estivesse na fase terminal de uma tuberculose. A todas as propostas, fossem elas quais fossem, dava o seu assentimento com um dócil aceno da cabeça tonsurada. Estava fraco demais para discutir. Quando os colegas protestavam que ele era novo demais para morrer, Felice Peretti de Montalto encolhia tristemente os ombros e acrescentava oito anos à sua idade para os convencer da sua morte iminente. Um inglês de visita a Roma vislumbrou casualmente Sua Eminência, inclinado sobre a lareira, e escreveu para casa sobre aquele «cardeal muito curvado e humilde que estava sempre recolhido num forno». O Papa Gregório morreu em 1585. Montalto apareceu no conclave de rosto chupado e convenientemente enrugado, olhos mortiços, andar vagaroso e voz que mal se ouvia. Andava de muletas e tão curvado que a cabeça quase tocava o chão. Era evidente para os quarenta e dois cardeais eleitores, quando deitaram os votos na urna, que Montalto
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    201 era o homemperfeito para o papado. Logo se desenganaram: segundo o seu biógrafo, Leti, ganha a eleição, endireitou-se de imediato e atirou fora as muletas exclamando: «Agora sou César», antes de entoar o Te Deum em voz de trovão. Em cinco anos, Sisto fez o trabalho de cinquenta. Tinha equipas de homens a trabalhar dia e noite para pôr a cúpula na Basílica de S.Pedro. Por sua ordem centenas de homens e cavalos deslocaram o obelisco, centímetro a centímetro, para o seu local actual no centro da praça. Construiu a Biblioteca do Vaticano. Ergueu um aqueduto sobre vales e colinas para trazer até Roma água de uma distância de trinta quilómetros. Mereceu bem a sua alcunha de “O Furacão Abençoado”. A uma energia titânica aliava um egotismo feroz e clamoroso. Reivindicou a jurisdição temporal sobre todos os reis e príncipes. Quando o jesuíta Roberto Bellarmino, o mais intrépido defensor do papado desde Tomás de Aquino, sugeriu no seu livro de Controvérsias, que o papa só indirectamente tinha jurisdição sobre os governantes temporais, Sisto decidiu censurá-lo. Ele podia nomear ou demitir qualquer pessoa, imperadores incluídos por qualquer motivo, dizia, e sempre que quisesse. Também condenou o teólogo Vittorio por se atrever a escrever que era legítimo desobedecer a ordens injustas do papa. Sim, ele, Sisto, pontífice, baniria os livros de ambos estes renegados. Os cardeais da Congregação do Index ficaram demasiado aterrorizados para dizer a Sua Santidade que aqueles eminentes autores fundamentavam as suas ideias nas obras de inúmeros santos e académicos. O Conde de Olivares, embaixador de Espanha em Roma, escreveu ao seu rei, Filipe II, dizendo que os cardeais se calaram «com medo de que Sisto lhes desse a provar o seu génio cortante e pudesse pôr os próprios santos no Index». Sisto foi particularmente desagradável com Bellarmino. O jesuíta tinha colaborado corajosamente com ele na edição das obras de Santo Ambrósio. E isto não devia ter sido fácil. Sisto denegara em todos os pontos as suas opiniões. Depois mandou que a sua versão fosse agora o texto padrão. Assim foi, e o texto continua a ser o mais duvidoso que existe. A mesma abordagem despótica foi por ele adoptada em relação à Bíblia. Os resultados foram devastadores. * * * A versão latina da Bíblia, a Vulgata, foi obra de S.Jerónimo no século IV. Na Idade Média ocupava lugar proeminente. Por essa altura já nela tinham entrado muitas interpretações erradas devidas a copistas sonolentos. Com o aparecimento da imprensa multiplicaram-se as edições e também os erros. Na Reforma, os Protestantes fizeram as suas próprias versões da Bíblia; para os católicos era imperativo ter um texto fiável da Vulgata em todas as discussões. O Concílio de Trento em 1546 chamara já à Vulgata a verdadeira versão da Bíblia da Igreja. Só ela devia ser utilizada em conferências, discussões e sermões. “Autêntica” significa que os católicos podem ter a certeza de que está isenta de erros de moral e de doutrina. E é substancialmente fiel ao original. Quando os padres de Trento se encarregaram de uma nova edição da Vulgata, não faziam ideia da dimensão de tal tarefa. Onze papas viveram e morreram e nada aconteceu. Até Sisto V. Três anos depois de iniciado o seu pontificado, os académicos que ele nomeara para editarem a Vulgata apresentaram-lhe o seu texto final. Havia nele demasiada erudição, para seu gosto; e também tinham lá posto demasiadas variantes de interpretação. Aos
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    202 gritos o papamandou sair da sala o presidente da comissão, Cardeal Carapa, dizendo que ele próprio, sozinho, era capaz de fazer melhor. E tratou de tentar provar esta sua espantosa afirmação. Numa frase de trezentas palavras, declarou numa Bula que ele, o papa, era a única pessoa certa para decidir a questão da Bíblia autêntica para a Igreja. Trabalhou horas a fio, noites a fio, porque sofria de insónias. Só tinha um único secretário a tempo inteiro e que quase levou à cova. No fundamental Sisto seguiu o texto de Lovaina, que conhecia bem. Não era um texto particularmente erudito. Nos pontos obscuros, não teve qualquer relutância em acrescentar expressões e frases que os clarificassem. Muitas vezes traduziu a seu belo talante. Outra das suas idiossincrasias era alterar as referências. Em 1555, Robert Stephano tinha elaborado um sistema de capítulos e versículos. Não era perfeito, mas era conveniente e usado universalmente. Sisto pô-lo de lado em favor do seu próprio sistema. Todas as versões anteriores da Bíblia se tornaram logo obsoletas; todos os livros das escolas com os seus arsenais de textos, tiveram de ser reimprimidos. Além de alterar os títulos dos salmos, por muitos considerados inspirados, omitiu, talvez por descuido, versos inteiros. Em apenas dezoito meses o trabalho estava concluído. Em 1590 apareceram as primeiras cópias do fólio. «Magnífico» murmurou ele admirando a bela encadernação, até que uma vista de olhos pelo texto revelou muitos erros de impressão. E depois cada vez mais erros. Também os tipógrafos tiveram de trabalhar dia e noite, em turbilhão. Para não perder tempo, Sisto começou ele mesmo a introduzir correcções. Escreveu as emendas a tinta em pequenos bocados de papel — quadrados, rectangulares, triangulares — e colou-os sobre os erros dos tipógrafos. Levou seis meses a fazer isto e emendou uma boa parte da obra. A publicação continuava a ser adiada, enquanto continuava também o pesadelo do papa. A sua Bula Aeternus Ille já estava pronta há muito. Nunca houve documento mais autoritário: Na plenitude do poder apostólico, Nós decretamos e declaramos que esta edição […] aprovada com a autoridade que nos foi outorgada pelo Senhor, deve ser aceite e considerada verdadeira, legítima, autêntica e inquestionável em todas as discussões, palestras, pregações e explicações públicas e privadas. Ninguém, tipógrafo, editor, livreiro, estava autorizado a desviar-se um milímetro que fosse desta versão autêntica da Bíblia latina. Quem quer que violasse a Bula seria excomungado e só o papa o podia absolver. E também havia ameaças de punições seculares. Em meados de Abril foram finalmente distribuídas cópias aos cardeais e embaixadores. Estes examinaram-nas hesitantes. Quatro meses mais tarde, em 27 de Agosto, os sinos do Capitólio anunciavam a morte do papa. Nessa noite levantou-se uma tempestade que foi como se o espírito de Sisto, ao partir, tivesse enlouquecido os elementos. Roma ficou louca de satisfação, mas ninguém ficou tão exultante como os seus inimigos do Sacro Colégio. O papa seguinte morreu após um pontificado de doze dias. Para Gregório XIV (1590- 1) sobrou a tarefa de limitar os estragos. Mas como? O poder papal na sua plenitude e armado da excomunhão impusera a toda a Igreja uma Bíblia — crivada de erros. O mundo académico estava em ebulição; os Protestantes tiravam enorme prazer e divertimento da situação difícil da Igreja. Em 11 de Novembro de 1590, Bellarmino regressou a Roma de uma missão no estrangeiro. Pessoalmente aliviado pelo facto de Sisto, que o quisera pôr no Index, ter
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    203 morrido, temia peloprestígio do papado. Sugeriu ao novo papa a maneira como devia tratar daquele dilema. Viria a contar tudo na sua Autobiografia. Alguns homens cujas opiniões têm grande peso, sustentavam que ela devia ser publicamente proibida. Eu não pensava assim e mostrei ao Santo Padre que, em vez de proibir a edição da Bíblia em questão, seria melhor corrigi-la de modo que pudesse ser publicada sem prejudicar a honra do Papa Sisto. Isto podia ser conseguido com a remoção das alterações insensatas o mais depressa possível, e fazendo depois publicar o livro com o nome de Sisto e um prefácio declarando que, devido à pressa, tinham ocorrido na primeira edição alguns erros com origem nos tipógrafos e outras pessoas. Resumindo, Bellarmino aconselhava o papa a mentir. Alguns dos seus admiradores contestaram isto. A sua tarefa era tremenda. As opções eram claras: admitir publicamente que um papa tinha errado numa matéria crítica da Bíblia ou comprometer-se num encobrimento cujos resultados eram imprevisíveis. Bellarmino propunha a segunda. Ele pode ter sido tentado a seguir esta linha por uma questão de generosidade: estava a defender a honra de um homem que tinha impugnado a sua própria. Pode ter também pretendido incluir Sisto naquela vaga referência aos erros dos tipógrafos «e de outras pessoas». Contudo, poderia algum leitor imaginar que o papa era uma dessas pessoas? Além disso, os únicos erros prejudiciais eram os do papa e não os dos tipógrafos. Mas a fraude não ficou por aqui. Um exame exaustivo à Bíblia de Sisto levaria anos. E anos era o que eles não tinham. Um pequeno grupo de académicos, que incluía Bellarmino, pôs mãos à obra numa casa de campo numa encosta dos Montes Sabinos a trinta quilómetros de Roma. Fizeram um trabalho notável, concluindo a revisão em meados de Junho de 1591. O problema agora era apresentá-lo ao mundo. Bellarmino, a pedido de um novo papa, desenvolveu o encobrimento. A nova versão devia ser impressa imediatamente. A versão de Sisto estava condenada a cair nas mãos de hereges que apontaram as alterações, as omissões, as más traduções e disseram: «Repare-se, os papas não se importam de corromper os textos da Bíblia para servir os seus próprios fins». O novo texto era acompanhado de um prefácio onde se lia que Sisto tinha publicado uma Bíblia revista de acordo com as suas ordens, mas ao examiná-la tinha visto que havia muitos erros devidos a uma pressa inconveniente. Isto não deixava de ser vulgar em primeiras edições. Portanto Sisto decidira que se fizesse tudo de novo. Com a sua morte, os seus sucessores foram lestos a cumprir os seus desejos. Daí aquela nova edição. Isto estava muito longe da verdade. Os únicos erros realmente perturbadores eram aqueles de que Sisto não tinha consciência: os seus próprios. Ele nunca teve a mínima intenção de rever o seu próprio trabalho, mas sim o dos tipógrafos. A decisão de rever e tornar a publicar foi tomada depois da sua morte. A ideia primeira no espírito de Bellarmino era esta: os papas nunca devem ser vistos a condenar os decretos importantes dos seus antecessores. Isso teria maus reflexos na própria autoridade papal. Por outro lado, havia também o respeito devido à Bíblia; esta, tal como o papado, era insusceptível de erro. Da necessidade de conciliar o inconciliável nasceu o encobrimento.
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    204 Bellarmino sugeriu quea nova versão não deveria ser a única autorizada. Tinha sido feita à pressa e continha, sem dúvida, erros que o tempo viria a revelar. Além disso, acrescentou que «embora o papa nos tivesse confiado a missão, não pôde prestar-nos o auxílio do Espírito Santo, que é sua prerrogativa exclusiva». Apesar da sua grandeza e subtileza, havia em Bellarmino uma deformação de espírito quase infantil quando se tratava do papado. Não cuidou de explicar o que aconteceu ao auxílio do Espírito Santo enquanto o Papa Sisto trabalhava na Vulgata. A Bíblia ficou pronta para publicação no fim do ano de 1592, e Clemente VIII concordou que ela saísse apenas com o nome de Sisto. Em The Church and the Papacy (1944), Jallaud diz ironicamente que este assunto serve para fornecer uma prova documental única da possibilidade de mesmo a Santa Sé mudar de ideias. Contudo, o facto foi subsequentemente obscurecido, porque quando a nova edição apareceu em 1592, foi apresentada ao mundo audaciosa e desonestamente como a Bíblia “Sistina”. O facto de mais tarde o nome de Clemente lhe ter sido acrescentado pouco serve para expiar a estranha façanha de desonestidade literária ou para esconder a verdade de que a Santa Sé tinha até então cedido ao clamor popular ao ponto de tratar uma das suas primitivas decisões como reversível. Depois das mentiras, ficava ainda um problema: como recuperar as cópias da verdadeira Bíblia Sistina? Bellarmino aconselhou o papa a comprá-las de volta, sem olhar ao preço, que provavelmente seria elevado. É que elas não eram só um produto esplendoroso; qualquer idiota podia ver o seu valor artístico. A Inquisição de Veneza e o Geral Jesuíta receberam instruções no sentido de fazerem buscas em tipografias e casas particulares, especialmente na Alemanha, para salvar a honra do papado. A busca revestiu aspectos de farsa. Numa altura em que os Protestantes andavam a distribuir Bíblias gratuitamente, a Igreja Católica tentava desesperadamente comprar algumas de volta. Quantas cópias foram recuperadas não se sabe ao certo, mas não foram mais de dez. Uma delas foi parar à Biblioteca Bodleian em Oxford. O bibliotecário, Dr.Thomas James, tratou-a como um maná celestial. Em 1611 escreveu ele um livro em que confrontava as duas bíblias, a de Sisto e a de Sisto-Clemente. Descobriu que «os dois papas diferiam notoriamente entre si, não só no número de versos [a versão posterior remontava ao sistema de referência de Estêvão], mas também no corpo do texto e nos prefácios e nas próprias Bulas». James afirmou ver uma coisa notável: dois papas em aberta contradição conflitual um com o outro. «Nesta guerra, a sua Cadeira foi tão aviltada e a sua Igreja tão mortalmente ferida que nem todo o bálsamo de Galaad as curará. Temos aqui um papa contra o outro, Sisto contra Clemente, Clemente contra Sisto, a discutir a escrever e a lutar sobre a Bíblia de Jerónimo». A Bíblia, no que diz respeito aos católicos, disse James, era um nariz de cera que os papas moldavam segundo as suas conveniências. «Se o papa dizia que o que era branco era preto e o que era preto era branco, nenhum católico se atrevia a discordar». Era uma boa polémica, e Sisto merecia-a inteiramente. Mas nem mesmo o Dr.James descobriu mais do que uma ou duas diferenças fundamentais entre os dois papas ou qualquer tentativa real da parte de ambos de enganar o leitor. Havia ali uma enorme estupidez, mas muito pouca má fé.
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    205 O que aquestão revelou foi uma coisa completamente diferente. Em qualquer instituição, erros como os que Sisto cometeu teriam constituído um simples embaraço passageiro facilmente risível, mas depressa esquecido. Só na Igreja Romana é que ela podia provocar aquilo que, na opinião de Bellarmino, foi a maior crise da Reforma. Reagindo a esta crise, um homem da integridade de Bellarmino sentiu-se obrigado a mentir e a dizer meias verdades, engolidas com alívio por mais do que um papa. Se uma pessoa virtuosa como Bellarmino foi capaz de mentir pelo papado, do que é que outros serão capazes? O que é que outros terão feito? O que é que outros andarão a fazer? Bellarmino, generoso e pobre, emerge como a triste vítima do papado, pelo qual deu a vida. Tão grande, na sua ideia, era o papado, que nele o gracejo do Dr.James se verificava à letra. Para satisfazer o papa, ele dizia de facto que o preto era branco num campo muito perigoso: o da ética. No seu livro sobre o pontífice romano, ele diz que o que quer que o papa ordene, por muito mau ou ridículo que seja, tem de ser cumprido, como se fosse a própria virtude. O que quer que o papa faça, mesmo que se trate da deposição de um imperador com o mais frívolo dos pretextos, tem de ser aceite pelos católicos, que depois terão de obedecer ao papa e não ao imperador. A questão do papa que reescreveu a Bíblia prova uma vez mais que a doutrina segundo a qual o papa não pode errar cria a sua própria versão da história e leva até homens virtuosos a mentir em seu nome. Mas Bellarmino é hoje lembrado não por ter encoberto um papa, mas principalmente porque contribuiu para a ruína da carreira de um leigo — um dos mais famosos que alguma vez viveram. O maior escândalo da Cristandade Galileu já era velho, estava já nos setenta e cinco, e completamente cego. No verão de 1640 ele sabia que tinha os dias contados. Por que é que continuavam a persegui-lo? Na aldeia ainda havia informadores pagos que relatavam à Inquisição tudo a seu respeito. Interceptavam-lhe a correspondência, faziam relatórios sobre todas as visitas que recebia. Sua Santidade o Papa Urbano VIII nunca lhe perdoaria, ele sabia-o. Quando requereu a Roma autorização para ir a Florença para tratamento médico, a Inquisição respondeu: «Sanctissimus (O Santíssimo) recusou deferir o pedido e mandou que o dito senhor fosse aconselhado a deixar de mandar requerimentos, caso contrário será mandado de novo para a prisão do Santo Ofício». Isto magoou o “dito senhor”, não só porque ele sempre considerou o papa como um amigo, mas também porque a resposta chegou no dia em que a filha, de trinta e três anos, morreu de desgosto pelo destino do pai. Ah, mas era bom estar na sua querida vivenda de Il Gioiello (A Jóia) com todos aqueles sons e odores familiares. E as vistas tão suas conhecidas a passar-lhe diante dos olhos do espírito. A passear na frescura da noite, conseguia imaginar Florença, cidade da luz, com muita nitidez sob a sua vivenda de Arcetri, a alta cúpula cor de tijolo da catedral em forma de flor sob o campanário de Giotto, o Palazzo Vechio com a sua torre altaneira, a larga curva do Rio Arno. A toda a volta, no ar sereno, ouvia as cigarras e cheirava as videiras e as oliveiras cor de cinza. Já fora em tempos um especialista em enxertar videiras; o vinho que bebia era sempre produto do seu próprio trabalho. Mas mais precioso ainda do que esta vivenda da Toscânia ou do que Florença, ela própria enquadrada numa suave paisagem, era o céu lá no alto: a lua e as estrelas. Seria orgulho da sua parte sentir que estes corpos celestes eram mais seus do que da maioria dos homens, mais seus até do que Il Gioiello?
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    206 Embora cego, continuava,tal como Homero, a ditar os seus trabalhos científicos ao seu secretário. E estes agora estavam curiosamente entre os seus melhores. A Inquisição tinha-o proibido de publicar qualquer novo trabalho ou de reeditar os antigos. Banido para toda a vida, disseram eles. Mas só na Itália, e não para sempre. Os inquisidores, embora discordassem disto, não eram Deus. Além disso, embora cego, quem é que agora podia arrancar-lhe da memória aquilo que os seus olhos tinham visto? Aqueles seus olhos tinham visto coisas ocultas desde o princípio do mundo. Tinham aberto novas Américas nos céus e um dia, nunca disso duvidou, o seu nome seria tão famoso — não, mais famoso — do que o de Colombo. Galileu Galilei nascera em 1564, ano em que morreu Miguel Ângelo. O pai, Vincenzo, comerciante de tecidos, viera de Florença, mas o seu primeiro filho nasceu em Pisa. Galileu entrou na universidade como estudante de medicina, mas depressa desistiu. O seu interesse ardente era a matemática, pura e aplicada. A matemática, diria ele, dava- lhe asas para se elevar acima do mundo e ver as estrelas. A um nível mais humilde, fez dele um inventor. Foi ele o criador de um instrumento para encontrar o centro de gravidade de corpos com formas variáveis. Em 1589, tornou-se professor de matemática em Pisa. Não se dava bem com os colegas; queixava-se constantemente do seu salário e das condições de trabalho. Quanto mais inúteis são os professores, mais ganham. Mudou-se para Pádua, onde o salário era ligeiramente melhor. Mas continuava a ter de dar lições particulares para prover às suas despesas. E aí ficou durante dezoito anos. Em 1609, tinha quarenta e cinco anos e apenas uma pequena publicação com o seu nome. Um ano depois, em resultado de um panfleto que escreveu, tornava-se um dos homens mais famosos do mundo. Kepler elogiou a sua coragem intelectual e chamou- lhe o maior filósofo do seu tempo. A mudança do seu destino começou com um pouco de sorte fertilizada com génio. Ouviu falar de um aparelho óptico, um óculo (occhiale) inventado por um holandês. Resolveu imediatamente construir um ele mesmo, baseado na teoria da refracção. Pegou num tubo de chumbo oco e adaptou-lhe umas lentes em cada uma das extremidades. As lentes eram planas de um lado e do outro convexa e côncava, respectivamente. Pôs um dos olhos na lente côncava e verificou com espanto que o objecto para que estava a olhar estava três vezes mais perto e era nove vezes maior. Como era especialista no polimento de lentes, construiu outro óculo que aumentava os objectos sessenta vezes. Finalmente, após grandes esforços e despesas, conseguiu um aumento de trinta vezes em proximidade e mil em tamanho. Logo aplicou a invenção para fins militares. Numa cerimónia pública, entregou um telescópio ao Doge de Veneza na presença do Senado. A República ficou deliciada por possuir um instrumento que conseguia detectar exércitos e armadas inimigos muito antes de se poderem ver a olho nu. Confirmaram-no como professor vitalício e duplicaram-lhe o salário em troca daquele instrumento que, a partir de então, qualquer artesão podia fazer. Depois, Galileu virou o óculo para o céu nocturno. Foi esse o momento em que toda a história do homem se alterou. Nascera a revolução científica. A primeira coisa que ele focou foi a Lua. Aquelas manchas na superfície não eram só sombras; eram montanhas. Depressa descobriu a maneira de calcular a sua altura a partir do comprimento das sombras. Também vira vastas planícies que ele pensou serem oceanos e que passaram desde então a chamar-se os Mares da Lua. Numa extrapolação sensacional, concluiu que, para um observador colocado na Lua, a Terra teria exactamente o mesmo aspecto que a Lua tem para um observador na
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    207 Terra. E imaginoumesmo que, vista da Lua, a Terra apareceria dividida em zonas escuras (mar) e zonas claras (terra). Num momento de poesia instintiva, falou de brilho da Terra «a velha Lua nos braços da nova Lua», isto é, a luz do Sol reflectida da Terra para a Lua e regressada à Terra. Conseguiu descobrir a razão por que as superfícies irregulares reflectem mais luz do que as superfícies lisas e por que a orla da Lua parece uma linha direita a olho nu quando afinal não era uma esfera perfeita como parecia ser. Num segundo momento espectacular de revelação, Galileu percebeu que os “cientistas“ andavam enganados há mais de dois mil anos. Aristóteles, seguido de Escolásticos como Tomás de Aquino, tinham como certo que o mundo celeste era totalmente diferente do terrestre. Lá em cima e no exterior, não havia mudança nem declínio, apenas existência eterna. Isto implicava um tipo de matéria diferente do de “cá de baixo“, da Terra. Mas, vista através do seu telescópio a Lua parecia-se suspeitosamente como a Terra. E se toda a criação fosse una, um verdadeiro… universo? E se a Terra não fosse especial, mas apenas um simples pedaço de matéria entre outros pedaços? E, como a Lua anda sem problemas a girar à volta da Terra, por que é que a Terra não há-de, ela também, andar a girar? E se toda a representação da criação concebida pelo monge Copérnico fosse real e não uma mera hipótese matemática? Mais de dez anos antes, Galileu escrevera a Kepler dizendo-lhe que sentia que Copérnico tinha razão. A Terra não estava estática; girava à volta do Sol. E se ele agora conseguisse tornar esta convicção plausível? Não meramente plausível, mas um facto? A partir do momento em que Galileu olhou a Lua através daqueles pedaços de vidro combinados, a Terra experimentou o seu maior abalo. Deixou de ser um centro, o centro do universo. Então, e o homem? Se ele já não estava imóvel nesta prancha de terra, o que é que sobre ele se havia de dizer? Nem mesmo um espírito genial se atrevia a parecer a principio duro demais, receando abalar os fundamentos da sua fé, da sua fé na Bíblia e na Igreja. Às questões que se levantavam umas atrás das outras, dava as respostas que podia. Mas depressa percebeu que o mais importante não era o facto de ele ter aumentado a percepção do universo cem ou mil vezes. O que continuava a ressoar na sua cabeça, a embriagá-lo, era o pensamento de que ninguém até então tinha visto daquela maneira. Para seu desgosto, quando pediu aos Aristotélicos que olhassem pelo telescópio para verificarem as suas descobertas, muitos recusaram. Já sabiam através de cálculos que tinham feito no papel, e pela comparação de textos, diziam, que a Lua era uma superfície plana e polida. Como é que um tubo com um vidro nas extremidades podia contestar Aristóteles e uma interpretação das Escrituras velha de séculos? Dos poucos que ousaram espreitar, a maioria sugeriu com toda a honestidade que o que estavam a ver estava nas lentes e não nas estrelas. Galileu gracejou dizendo que quando morressem, o que ele agora via, também eles iriam ver a caminho do Céu. Quase nos cinquenta, com vinte anos de penúria atrás de si, era finalmente um homem livre. Nuncius Sidereus, o seu livro, conhecido como O Mensageiro [ou Mensagem] das Estrelas, foi um sucesso imediato. Nessa altura Galileu tinha muitos amigos entre o clero — na verdade, apoiantes, até na própria Roma, como o eminente matemático jesuíta Clávio. Clávio confirmou as suas descobertas e disso deu parte a um já idoso Cardeal Bellarmino. Isto deu a Galileu a inspiração para uma visita a Roma na primavera de 1611. O cardeal jesuíta foi amistoso, como também o foi o Cardeal Bellarmino. Ambos o avisaram de que devia exprimir as suas ideias como hipóteses, para evitar problemas com os teólogos. Foi
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    208 feito membro daprestigiosa Academia Lyuceana, a qual chamou pela primeira vez ao instrumento “telescópio”. Voltou para Florença ingenuamente convencido de que tinha feito amizades duradouras e influentes na Cidade Eterna. Esta talvez a razão por que ele começou a falar com menos reservas. Atacou os Aristotélicos sem piedade, escrevendo em italiano para passar por cima dos secos académicos e atrair o público em geral. Apesar das suas melhores intenções, Galileu estava a levantar questões sobre a relação entre a ciência e a revelação, o sistema copernicano e a Bíblia. Seriam compatíveis? Em sua defesa citou o gracejo do cardeal Barónio: «O propósito do Espírito Santo é ensinar-nos a maneira de irmos para o Céu e não a maneira como o Céu anda». A Bíblia não era um texto científico e as suas “afirmações científicas” não tinham de ser tomadas à letra. Há muitas formas literárias nas Escrituras. Se a teoria científica é má ciência, a boa ciência corrigi-la-á mais eficazmente. Ela não representa qualquer desafio para a fé. Pelo contrário, a natureza e a Bíblia são dois textos divinos que não podem contradizer-se. Os seus argumentos convenceriam os homens da Igreja dois séculos mais tarde, mas deixaram reservas ao clero do seu tempo. Galileu parecia estar a contradizer o sentido óbvio das Escrituras. Ao avançar com o sistema de Copérnico como mais do que uma simples teoria matemática, tinha invadido os seus domínios. Uma questão para a Inquisição, talvez? O Bispo de Fisole mandou imediatamente que Copérnico fosse encarcerado. Sua Eminência ficou desolado quando lhe disseram que Copérnico já tinha morrido há setenta anos. Premonitoriamente, um dos livros de Galileu foi parar à temida Casa Santa do Santo Ofício. Tinham-no avisado de que Bellarmino nunca hesitara na sua opinião de que o sistema de Copérnico era contrário às Escrituras se tomado como facto científico. Não obstante, Galileu foi a Roma e tratou de demolir todos aqueles que levantavam dúvidas sobre Copérnico. Mas até ele próprio, tão ingénuo em relação às coisas do mundo, começava a apanhar com o fumo da pólvora. Um padre seu simpatizante mandou-lhe uma cópia de uma carta que tinha recebido de Bellarmino. Segundo o cardeal, quando os padres e todos os investigadores modernos das Escrituras analisam as passagens da Bíblia sobre o assunto todos concordam em interpretá-las literalmente quando ensinam que o Sol está nos céus e gira à volta da Terra em grande velocidade e a Terra fica muito distante dos Céus, no centro do universo, imóvel. Pensai, pois, com a vossa sensatez, se a Igreja pode tolerar que as Escrituras sejam interpretadas de maneira contrária à dos santos Padres e de todos os comentadores, tanto latinos como gregos […] As Escrituras dizem «E o sol nasce e o sol põe-se» Galileu leu-a uma centena de vezes. Continuava a não acreditar. O velho Bellarmino era um homem bom e sábio. Como é que ele podia crer numa opinião tão infantil do Velho Testamento? Sua Eminência prosseguia dizendo que qualquer pessoa, guiando- se simplesmente pelos sentidos, ficava a saber de forma segura que a Terra não se move. Estaria ele à espera de ficar tonto se o mundo andasse a girar à volta do Sol? E se estivesse na Lua, estaria ele à espera de a sentir a mover-se? Bellarmino podia ser um grande teólogo, mas de astronomia sabia tanto como aqueles que diziam seriamente que se a Terra andasse a girar à volta do Sol todas as torres da Itália cairiam. «Os sentidos diziam-lhes» que tudo no universo se movia excepto a Terra!
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    209 Galileu ficou realmentepreocupado. Sua Eminência estava a dizer-lhe que não se metesse com as Escrituras enquanto pontificava na ciência sem prática nenhuma. Ficava agora a saber que Bellarmino não teria qualquer escrúpulo em silenciá-lo mandando-o apresentar-se na Inquisição. Foi o que aconteceu. O Papa Paulo V, piedoso, gordo, míope, com uma pequena barba e um fino bigode, conhecido de toda a gente como filisteu, endereçou o caso à Congregação do Index. Em Março de 1616 foi tomada uma decisão. A opinião de que o Sol é o centro imóvel do universo foi considerada como «disparatada e absurda, filosoficamente falsa e formalmente herética». A opinião de que a Terra não é o centro e de que gira e roda foi tida como pelo menos «errónea na fé» Mas as crenças de Copérnico é que foram censuradas e não Galileu. No entanto, o papa deu instruções a Bellarmino para que este dissesse a Galileu para abandonar as suas ideias. Senão teria de comprometer-se a não ensinar nem defender as suas opiniões, nem sequer a discuti-las. Caso contrário, seria preso. Embora convencido da sua ortodoxia, Galileu deu as necessárias garantias. Apenas pediu a Bellarmino que lhe escrevesse uma carta, o que ele fez em 26 de Maio de 1616. O cardeal testemunhava o facto de que ele não tinha sido obrigado a retractar-se nem a sofrer qualquer penitência. Nem foi obrigado a deixar as suas investigações, mesmo no campo da astronomia. Apenas lhe foi ordenado que não ensinasse ou defendesse o sistema de Copérnico como se fosse verdadeiro. E este foi posto no Index, onde permaneceu até 1822. Galileu, mal de saúde, ficou contente por aquela provação ter terminado. O que o perturbava era que «espíritos criados livres por Deus sejam obrigados a submeter-se abjectamente a uma vontade exterior». Ele é que era o especialista em astronomia e estava a ser julgado por pessoas sem qualquer competência. O papa tinha sancionado pessoalmente a opinião de Bellarmino de que afirmar que a Terra tem movimento de rotação é contra a doutrina infalível da Igreja. Se a Terra se movesse, o Céu não seria “lá em cima“ nem o Inferno “lá em baixo“. Toda a doutrina sobre as Coisas Últimas teria de ser revista. Como dizia um auxiliar do papa, com um suspiro: Agora estamos «de volta à terra firme em segurança e não temos de voar com ela quais formigas à volta de um balão». Passaram-se alguns anos tranquilos e Galileu escreveu Il Saggiatore (O Ensaiador). Era o ano de 1623. Nesse mesmo ano o seu “amigo”, de cinquenta e cinco anos, Cardeal Barberini tornou-se o Papa Urbano VIII. Durante os onze dias da votação, houve uma onda de calor; a malária abateu-se sobre o Conclave. Morreram oito cardeais e quarenta auxiliares. O próprio Urbano contraiu a doença, mas sobreviveu. Foi a ele que Galileu dedicou o seu livro. O papa apreciou o cumprimento. Quando, no ano seguinte, Galileu, já com sessenta anos, foi a Roma, presenteou Sua Santidade com um microscópio. Urbano espreitou por ele e abanou a cabeça maravilhado. Como agradecimento, ofereceu ao grande cientista vários Agnus Dei contra actos de Deus e, mais valiosos ainda, conselhos contra os actos dos homens. O que disse foi o seguinte: «Podeis ter provas irrefutáveis do movimento da Terra. Isso não prova que a Terra realmente se mova». Galileu arregalou os olhos. «Deus está acima da razão humana; e uma coisa que parece perfeitamente razoável aos homens, pode revelar-se um disparate a Deus». E Urbano continuou dizendo que ele, na qualidade de papa, era responsável pela salvação das almas. Por vezes a discussão científica fazia perigar as almas. O sistema Copernicano, se não for tomado como pura invenção matemática, pode lançar a dúvida sobre as Escrituras. Se isso acontecesse, teria de tomar medidas para o destruir.
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    210 Os pontos devista do papa sobre Deus e sobre a relação entre ciência e religião eram tão absurdos que Galileu não seguiu o excelente conselho que lhe estavam a dar ao mais alto nível. Realmente foi bom da parte de Urbano ter tirado algum tempo aos seus projectos de construção: os palácios Barberini, para os quais foi buscar materiais ao Coliseu, a colonada de Bernini que envolve a Praça de S.Pedro, o baldachino sob a cúpula de Miguel Ângelo, para o qual foi roubar o bronze do Panteão. Os romanos diziam furiosos: «O que os Bárbaros não fizeram, fê-lo Barberini». Um tanto confundido, Galileu regressou a Florença onde, pouco depois, estava a trabalhar em O Sistema do Mundo. Como o pôs em forma de diálogo platónico, pensou, sem dúvida, que isto lhe permitiria esconder as suas convicções, ao mesmo tempo que batia na oposição. Depois de terminado, faltava apenas obter a licença de publicação e, como precaução, o Imprimatur papal. Satisfeito, voltou a Roma onde uma vez mais Urbano o recebeu calorosamente. O papa voltou a realçar a necessidade de fazer saber a toda a gente a natureza hipotética das suas opiniões. Quanto ao livro, Galileu devia talvez intitulá-lo Diálogo dos Dois Principais Sistemas. Sim, sim, prometeu o papa, ele próprio escreveria um prefácio, salientando a natureza experimental da empresa. Quando os censores receberam a sua cópia, ficaram perturbados com os comentários. Mas Sua Santidade tinha dado a sua aprovação ao livro, não é verdade? E não ia ele até escrever o prefácio? Houve inevitáveis demoras na publicação, de modo que Galileu o mandou imprimir em Florença em Fevereiro de 1632. Fez sensação. Os argumentos a favor do movimento da Terra eram apresentados magistralmente. No diálogo, o ponto de vista aristotélico era posto na boca de Simplício, um idiota cujas ideias correspondiam exactamente às do papa, tal como ele as exprimira naquela entrevista com o autor uns anos antes. Quando Urbano teve conhecimento deste insulto aparentemente premeditado, ficou furioso. Entregou o caso ao Santo Ofício e mandou o autor apresentar-se imediatamente em Roma. Quando Galileu, agora com quase setenta anos, respondeu alegando, com verdade, a falta de saúde, Urbano insistiu: ou ele vinha voluntariamente ou viria agrilhoado. Quando chegou a Roma, depois de vinte e três dias na estrada, teve de esperar dois meses pelo começo da sua provação. O tempo passava devagar. Ouviram-no a chorar duas noites seguidas com as dores da ciática. O seu espírito infantil nunca o abandonou. Esperava realmente poder defender-se a si próprio e até discutir sensatamente com os inquisidores, como se estes cavalheiros do clero estivessem interessados em descobrir a verdade. De facto, não se pareciam em nada com os seus colegas professores com quem ele tinha discutido nos salões de ricas damas romanas. Trazia consigo uma espécie de apólice de seguro. Há anos que guardava a carta de Bellarmino fechada a sete chaves precisamente para uma emergência como esta. Quando o julgamento começou, em Abril de 1633, transferiram-no da Embaixada da Toscânia para a Casa do Santo Ofício. A audiência realizou-se na sala superior de um convento dominicano. Foi logo informado de que a Inquisição não estava ali para o ouvir, mas para o julgar. Ele não podia ver as provas nem ouvir as testemunhas. A sua principal infracção foi violar a sentença de 1616, nomeadamente, a de não discutir nem escrever sobre o sistema Copernicano. Galileu pediu perdão a Suas Eminências, mas tinha uma carta do falecido Cardeal Bellarmino que provava que só fora proibido de defender a opinião de Copérnico como se ela fosse a verdadeira
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    211 representação do mundo.E isso nunca ele tinha feito. Apenas a tinha discutido, como mostrava o seu recente livro, de uma maneira hipotética. E apontou o facto de que o diálogo terminava sem quaisquer conclusões. Os inquisidores contra-atacaram com uma acta não assinada e não oficial encontrada nos arquivos e datada de 1616 em que ele era proibido de sequer discutir as teorias de Copérnico. Nunca mostraram a Galileu este documento. Mais ainda, argumentavam Suas Eminências, apesar da forma de diálogo do seu recente livro, nenhum leitor ficaria com dúvidas a respeito da sua posição, e esta era contrária à fé da Igreja. Era culpado de contumácia e heresia. Só poderia esperar clemência se se rendesse incondicionalmente e declarasse o seu apreço pela bondade da Inquisição para consigo. Após quatro sessões, foi ditado o veredicto em fins de Junho de 1633. O papa tinha intervindo para dizer que o seu velho amigo devia ser torturado se não se submetesse. O dito Galileu [é] […] no julgamento do Santo Ofício, fortemente suspeito de heresia, nomeadamente, de ter acreditado e sustentado a doutrina, falsa e contrária às Sagradas e Divinas Escrituras, de que o Sol é o centro do mundo e não se move de oriente para ocidente e que a Terra se move e não é o centro do mundo. […] Os seus livros foram banidos e ele devia ser encarcerado pela Inquisição; exigiram que recitasse os sete Salmos da penitência todas as semanas durante três anos. O documento estava assinado por sete cardeais juizes do Santo Ofício. Galileu já tinha decidido ceder, mas, por uma questão de honra, pediu que duas das acusações fossem retiradas. Ele queria que fosse declarado que não tinha negado a fé católica nem que tinha conscientemente contrariado uma prévia decisão do Santo Ofício. Os juizes aceitaram estas alterações marginais. Galileu tinha concedido que estava enganado acerca da astronomia e que eles é que estavam certos. Assim, naquela quarta-feira de fins de Junho, Galileu Galilei ajoelhou no frio chão de pedra do convento dominicano de Santa Maria Sopra Minerva para fazer a sua confissão: «Eu, Galileu, filho do falecido Vincenzo Galilei, florentino, de setenta anos de idade […] devo abandonar totalmente a falsa opinião de que o Sol é o centro do mundo e está imóvel». Exteriormente, ao negar as suas convicções mais profundas, jurou falso. No seu coração, pelo menos, deve ter dito sobre a Terra: «Contudo ela move-se» («Eppur si muove»). Quando Galileu pôs a mão sobre a Bíblia e confessou a sua «depravação herética» no coração de Roma, foi um momento solene na história da Igreja. Só o julgamento de Jesus perante Pilatus o pode ultrapassar em gravidade. O Fundador da Ciência Moderna, a mandado da Inquisição Romana, foi obrigado a afirmar que a Terra, de acordo com a fé católica, está imóvel no centro do universo. Um investigador que em qualquer lista dos grandes homens do mundo figuraria entre os primeiros vinte, foi condenado por um grupo de clérigos, nenhum dos quais figuraria entre o primeiro milhão. Com Copérnico no Index e Galileu condenado pela Inquisição, os astrónomos católicos tinham agora de escolher entre serem bons católicos ou serem bons elementos da sua profissão. Por todos os critérios normais, a imobilidade da Terra era doutrina católica. Foi defendida por todos os papas, bispos e teólogos durante séculos. E isto não estava apenas implícito. Quando a doutrina foi posta à prova, quando Copérnico e Galileu levantaram dúvidas sobre ela, o papa reinante e os outros papas
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    212 posteriores confirmaram-no duranteséculos explicitamente na plenitude do seu poder. E estavam errados. A Terra move-se mesmo, mas muitos papas negaram-no, dizendo que isso contradizia as Escrituras e a fé. Se os católicos afirmam que isto nunca foi realmente doutrina católica, alguém pode alguma vez ter certezas sobre qualquer doutrina católica? Em 1686, a lei da gravitação de Newton tornou impossível para qualquer cientista crer que o enorme Sol girava em torno da minúscula Terra, que aquele teria como centro. No ano de 1725, esta prova teórica foi confirmada pela observação meticulosa de Bradley. Foram precisos mais cem anos para que Copérnico fosse retirado do Index. No princípio dos anos oitenta, ouviu-se João Paulo II dizer qualquer coisa sobre «reabilitar Galileu», embora até hoje nada tenha acontecido. Passados três séculos e meio, Roma não tem pressa nenhuma em pedir desculpa. Roma recusou a publicação dos documentos sobre o caso Galileu. Depois, Napoleão, numa enorme operação, levou os arquivos do Vaticano para Paris. Quando por fim regressaram, os documentos relacionados com o caso tinham desaparecido. As mais diligentes investigações foram infrutíferas. Os críticos da Igreja presumiram que o grande homem fora torturado. Sem aviso prévio, nem qualquer explicação, os documentos voltaram à superfície. Da sua leitura ficou claro que Galileu tinha sido ameaçado, mas não torturado. E nem a sua prisão foi muito rigorosa. Dez dias depois do julgamento, deixaram-no voltar para uma casa pertencente aos de’ Medici. Por fim, viria a retirar-se para a sua própria vivenda em Arcetri. Isto era um tratamento suave, considerando que Urbano VIII condenava os bígamos às galés para toda a vida. O que mais magoou Galileu foi a desonra. Tinha pago por qualquer coisa que não conseguia compreender. Considerava-se um católico devoto. Como é que alguém podia insistir em tomar o Génesis literalmente quando havia poderosas razões para pensar que era um mito. Estava convencido de que os problemas científicos não podiam ser resolvidos com uma força policial do clero. Apontados contra ele só via a ignorância, a maldade e a impiedade disfarçadas de fé e virtude cristãs. Os clérigos mesquinhos do Vaticano tinham-no humilhado, mas não conseguiam deter o progresso da ciência. O seu era um caso clássico em que a verdade é esmagada pelo poder, o génio silenciado pela insignificante burocracia. Isto mostrou o receio e o ódio de Roma pela curiosidade de espírito, os quais se viriam a repetir uma e outra vez nos séculos seguintes. A marcha atrás da Igreja no caminho do futuro significava que a sua guerra com a ciência e o progresso iria continuar. Fez guerra à liberdade e ao processo democrático durante e depois da revolução Francesa. Fez guerra a Darwin e Freud, à cultura da Bíblia como tentativa de compreender o mundo nos seus próprios termos, livre das divinas «intervenções do exterior». Hoje faz guerra ao controle da natalidade e à igualdade das mulheres. Em todas e cada uma das ocasiões, a Igreja Católica ao mais alto nível faz referência à Bíblia e à lei natural quando tenta, com a melhor das intenções, deter o avanço do mundo. É triste constatar que seria difícil encontrar nos últimos quatro séculos um exemplo em que Roma saúde com alegria incondicional um avanço do espírito humano. Qualquer teólogo que hoje seja censurado pode sentir algum conforto no facto de já não ser tratado tão cruelmente como o Pai da Ciência Moderna. Após oito anos de prisão domiciliária, Galileu Galilei morreu em Janeiro de 1642, ano do nascimento de Newton. O Grão-Duque de Florença queria erigir um monumento sobre o seu túmulo na igreja de Santa Croce, junto de Miguel Ângelo. O Papa Urbano VIII ainda não tinha encerrado a questão com o seu amigo. Avisou o duque de que Galileu tinha persistentemente defendido uma doutrina contrária às Escrituras. Insistiu em que é contra a fé dizer que a Terra se move. Portanto, considerava tal memorial um
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    213 insulto pessoal àsua autoridade. E foi assim que o corpo do maior cientista da sua época esteve sepultado durante quase cem anos na cave da torre sineira de Santa Croce. Urbano, errado em quase tudo, teve ao menos razão na justificação que deu para lhe recusar umas exéquias apropriadas. Galileu com os seus pecados tinha provocado o maior escândalo da Cristandade. O grande erro de Clemente XI Clemente XI estabeleceu a corte no seu palácio no Monte Cavallo. Lá estava mais fresco do que no Vaticano e o ar era menos carregado de pestilência. Na quarta-feira da Semana Santa do ano de 1715 viajou para a Basílica de S.Pedro. No dia seguinte, depois da missa na Basílica, Clemente subiu para a sedia e foi transportado para a galeria. A multidão enchia a Praça de S.Pedro e estendia-se pelas ruas laterais. Logo que ele apareceu, soaram os tambores e os cornetins. No profundo silêncio que se seguiu, um cardeal leu a Bula de excomunhão de Quinta-feira Santa contra todos os hereges, cismáticos, pagãos, piratas mediterrânicos e todos os que não obedeciam ao Santo Padre ou não lhe pagavam os impostos devidos. Esta Bula, In Coena Domini, remontava a 1372. Pio V, em 1562, disse que ela devia ficar como lei eterna da Cristandade e foi confirmada por papa após papa até que foi finalmente abolida, sem explicação, no reinado de Clemente XIV (1769-74). Uma explicação teria sido bem-vinda, uma vez que a Bula exprimia a mais completa de todas as heresias papais: a de que o papa dominava todo o mundo cristão, religioso e secular. Esta convicção nunca foi explicitamente abandonada pelo Vaticano. Durante a leitura da Bula, o papa, com o seu rosto comprido bem escanhoado e cheio de tristeza, empunhava um archote aceso. Quando a leitura terminou, os oito carregadores ergueram o pontífice na sua cadeira e este, em voz alta, pronunciou a excomunhão sobre praticamente todo o mundo, atirando depois o archote por sobre a varanda. Este faiscou e deu voltas no ar antes de atingir a multidão em baixo, um sinal de vingança da Igreja sobre os seus inimigos. Clemente XI era um bom exemplo de homem ameaçador. Contudo, os seus infindáveis anátemas, que os seus contemporâneos tomavam por santidade, escondiam uma terrível insegurança. Aquando da eleição, quinze anos antes, em 20 de Novembro de 1700, Gian Francisco Albani tinha cinquenta e um anos. Ordenado apenas há dois e não se sentindo capaz para a tarefa, a princípio recusou a coroa. Só cedeu quando quatro eruditos religiosos lhe disseram que não aceitar a decisão unânime do Conclave seria resistir à manifesta vontade de Deus. Estranhamente, aceitou imediatamente a sua decisão. Esses quatro religiosos nunca haveriam de saber que, se tivessem dado ao cardeal Albani o conselho oposto, todo a face do Catolicismo, literalmente, podia ter sido diferente. Clemente parecia uma boa escolha para pontífice: disciplinador, erudito, casto, pouco dormia e comia, até dizia missa todos os dias — o que num papa não era vulgar. Mas — mais um indício de uma fraqueza essencial — também confessava diariamente os seus pecados. O seu era um pequeno mundo escrupuloso de piedade pessoal. Na sua ordenação Unigenitus, de 1713, por exemplo, este pontífice, canonicamente inseguro, depois de consultar dois cardeais de espírito idêntico, condenou
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    214 redondamente o Jansenismoem França. Algumas das suas condenações pareciam sensatas; outras haviam de causar em anos futuros o riso e o embaraço. «A leitura das Sagradas Escrituras é para todos os homens». Condenado. A interdição da palavra de Deus, surpreendente à primeira vista, estava de acordo com a abordagem católica desde a Reforma. Havia pessoas a ler a Bíblia insensatamente. Em vez de as ajudar a lê-la sensatamente, não era muito mais fácil proibi-las de a ler? Além disso, esta abordagem deixava claro que Roma está acima da Bíblia e tem a autoridade de Deus para a interpretar. «Os cristãos devem santificar o Dia do Senhor com a leitura dos livros divinos, particularmente as Sagradas Escrituras». Condenado. «Arrancar o Novo Testamento das mãos dos cristãos é como calar a voz de Cristo contra eles». Condenado. «Proibir os cristãos de ler as sagradas Escrituras e especialmente o Evangelho é proibir o uso da Luz pelos filhos da Luz e castigá-los com uma espécie de excomunhão». Condenado. «O receio de excomunhão injusta não nos deve impedir de cumprir o nosso dever». Condenado. Segundo Voltaire, isto significava que Deus manda que nunca cumpramos o nosso dever se temermos a injustiça. A opinião de Clemente era que não há dever mais elevado do que a obediência ao papa. Obedecei-lhe e assim nunca poderá haver condenação de Deus. Uma vez tomada uma decisão, Clemente não deixava à Igreja qualquer dúvida sobre a sua posição. Nós não sancionamos e condenamos todas e cada uma destas asserções declarando-as falsas, capciosas, mal-sonantes. Ofensivas para os piedosos, escandalosas, perniciosas, imprudentes, injuriosas para a Igreja e para as suas práticas, não só ultrajantes para a Igreja mas até para os poderes seculares, sediciosas, ímpias, blasfemas, suspeitas de heresia e elas próprias com sabor a heresia, bem como também estimuladoras da heresia, e mesmo do cisma, erróneas, muitas vezes condenadas, por fim também heréticas, contendo diversas heresias manifestamente tendentes à inovação. O pontífice, conclui-se, não se interessa muito por estas asserções. Clemente, tal como a maioria dos pontífices, assumiu que a discussão não conduz à verdade mas a mais falsidade ou, na melhor das hipóteses, a uma pequena verdade e a uma enorme falsidade. Não vale o risco. Tal como em relação à leitura da Bíblia, é melhor proibir completamente a discussão de questões importantes. Roma falou e Roma é quem sabe. Dois anos depois, Clemente publicaria a Bula Ex Illa Die, com efeitos muito mais devastadores. Para o compreender é preciso recuar mais de século e meio. Em 1552, o mais nobre dos Jesuítas, Francisco Xavier, morreu numa ilha ao largo do continente chinês. O trabalho intenso levou-o a uma morte prematura. Ao morrer, a sua única mágoa era que do outro lado daquela extensão de água havia uma vasta terra cheia de pagãos que, por não serem baptizados, arderiam eternamente no inferno. Trinta anos mais tarde, um outro jesuíta, Mateus Ricci, entrou na corte imperial de Pequim. Pelos seus conhecimentos de matemática, honraram-no como um «erudito do Ocidente», mas ele era também um missionário original e de grande estatura. O seu
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    215 método tinha detornar-se chinês para conquistar os chineses. Ele e os seus assistentes jesuítas compreenderam que era vital apresentar uma Igreja de acordo com as tradições da China. Em parte alguma do mundo havia um maior sentido de piedade filial, de respeito pela autoridade legítima e pelas tradições ancestrais. Quando Ricci morreu, depois de trinta anos de trabalho, deixou atrás de si trezentas igrejas, uma delas mesmo em Pequim. Outros jesuítas se lhe seguiram, a única ordem a que Gregório XIII confiou tal missão. Em 1631, os Dominicanos foram autorizados a juntar-se-lhes. Não passou muito tempo sem que o Padre Morales, O.P., acusasse os Jesuítas de conseguir conversões a troco da permissão de os chineses manterem as suas velhas “idolatrias”. Desde o tempo de Ricci que os Jesuítas adoptavam uma linha de tolerância com os rituais chineses. Diziam que o respeito pelas tábulas dos antepassados, as velas, o incenso, a comida e o dinheiro que lhes eram oferecidos eram uma simples questão de cortesia e gratidão. O respeito dos mandarins por Confúcio, o Professor da Sabedoria, também parecia inofensivo, uma parte da sua cultura que merecia ser preservada. Em 1643, Morales enviou dezassete asserções jesuítas para Roma, pedindo que fossem condenadas. A Inquisição, chefiada como sempre por dominicanos, apoiou-o; Inocêncio X concordou que os Jesuítas deviam recuar até que a questão fosse examinada com mais profundidade. O jesuíta Martini argumentou que aquelas práticas eram puramente civis; condená-las tornaria as conversões impossíveis. A investigação dos eruditos mostrara, dizia ele, que os chineses tinham um conceito de deus único que, na sua pureza, não tinha paralelo entre os pagãos. A controvérsia arrastou-se durante muitos anos. Os jesuítas no terreno eram continuamente chamados a Roma. O ano de 1692 foi importante. Os Jesuítas conseguiram uma conquista que lhes escapava há mais de um século. O imperador Kang Hi deu-lhes autorização para pregarem o Evangelho Cristão em todo o reino e converterem quem quer que o desejasse. Os Jesuítas estavam convencidos de que Kang Hi, com o seu imenso poder e prestígio, seria o Constantino chinês; podia pôr todo o império aos pés de Cristo. Infelizmente, por essa altura, os Jesuítas foram obrigados a receber ordens de vigários apostólicos hostis à sua missão. O predestinado Clemente XI ascendeu ao trono papal. Durante muito tempo não conseguiu tomar uma decisão. Dedicava um dia por semana ao estudo do problema dos rituais chineses. Registou a convicção do imperador de que não havia neles qualquer superstição. «Ninguém acredita realmente» declarou Kang Hi «que as almas dos mortos estão presentes nas tabuínhas dos seus antepassados». Clemente mandou a Pequim um bispo na qualidade de seu emissário para investigar. Sua Senhoria, muito insensatamente, condenou publicamente os rituais como idolatria. O imperador, incomodado e intrigado por os cristãos não só estarem divididos, mas também por se odiarem uns aos outros, mandou prender o bispo. Clemente respondeu promovendo este a cardeal pouco antes de ele morrer corajosamente em Macau em 1710. Clemente tomou a prisão do seu legado como um insulto pessoal. A sua indecisão chegou abruptamente ao fim. Na sua cólera, aprovou todos os decretos da Inquisição contra a abordagem jesuíta. Agora, no ano de 1715, todos os missionários na China tinham de jurar a sua repulsa pelos rituais chineses e prometer nunca os tolerar. Esta mesma intolerância, declarou Clemente, limpará as ervas daninhas e tornará o solo chinês mais frutuoso para a Cristandade. A Igreja tinha que ser romana, mesmo em Pequim.
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    216 Foi uma soluçãoadministrativa, decretada a milhares de quilómetros do local da acção. Nunca houve, provavelmente, erro mais desastroso por parte de um pontífice. Depois da publicação de Ex Illa Die, a missão cristã na China estava condenada. Nesse mesmo ano, 1715, Giuseppe Castiglione, um jovem jesuíta de vinte e sete anos, foi mandado a Pequim pelo seu superior. Foi honrado pelos chineses como um dos estrangeiros mais revolucionários e sabedores que alguma vez lá fora. A sua fama devia-se não à pregação mas aos seus dotes artísticos. No dia 16 de Abril de 1717, os Nove Supremos, conselheiros do imperador, tomaram conhecimento da Ex Illa Die. Aconselharam Sua Majestade a que, devido aos insultos à China vindos dos cristãos e à sua total falta de respeito pelos antepassados, mandasse banir todos os missionários e destruir todas as igrejas e que os convertidos fossem obrigados a renunciar à sua nova fé. O imperador confirmou, com relutância, esta sentença. «O que é que o papa diria» perguntava ele «se o Imperador da China lhe dissesse como devia venerar em Roma?» Mas reservava-se o direito de assegurar um piao (licença especial) aos europeus úteis ao seu reino. Entre os que receberam um piao estava Castiglione, que se tornou o pintor oficial da corte imperial. Só aos pintores e relojoeiros de primeira era concedido o privilégio de deambularem livremente pelo Palácio de verão. A Castiglione foi atribuído um palácio próprio, para poder pintar. O imperador visitava-o quase diariamente e ficava maravilhado com a naturalidade das suas obras, especialmente os cavalos, em que o jesuíta, agora chamado Lang Shining, era excelente. A maior parte da sua obra foi feita dentro de casa. Quando queria pintar a vida, era escoltado por eunucos imperiais ao caminhar em bicos de pés, como um ladrão, por respeito ao imperador. Assim viveu Lang Shining cinquenta anos. Quem dera que o tivessem deixado ensinar aos amáveis chineses qualquer coisa mais do que a técnica de pintar cavalos. Passaram-se dois séculos. No ano de 1939, quando a missão na China estava já morta e enterrada, a Sagrada Congregação para a Propaganda declarou que os tempos tinham mudado. Tinham recebido dos chineses a garantia de que já não havia nada de religioso nos seus ritos. Os convertidos ao Cristianismo não precisavam de deixar de reverenciar os antepassados. Sem o admitir, a Propaganda estava a inverter o sentido da decisão de Clemente. Uma vez que as decisões papais nunca são “invertidas“, tiveram de descobrir um pretexto para este volte-face. O Imperador Kang Hi, aquele que poderia ter sido o Constantino asiático, já deixara claro que não havia nada de blasfemo ou anti-cristão nos ritos; os Jesuítas sempre tiveram razão. Se alguns espiões insensíveis tivessem dito a Kang Hi que em Roma os católicos beijavam os pés do pontífice e até os pés das estátuas, aquele podia ter sido tentado a pensar que os católicos eram idólatras. O erro de Clemente foi desta ordem. As consequências da Ex Illa Die são incalculáveis. A China podia ser hoje tão católica como a Irlanda ou a Polónia. Considerando a oposição da Igreja ao controle da natalidade, em vez de um bilião de comunistas chineses, podia haver hoje dois a três biliões de católicos na China. Dois em cada três católicos no mundo inteiro podiam ter rostos chineses e falar chinês. Mas depois os problemas da humanidade — a fome, o stress, a falta de espaço vital e de recursos naturais — ter-se-iam há muito tornado completamente insolúveis. Ao privar a China do Catolicismo, o Papa Clemente XI, pode afirmar-se, salvou o mundo da catástrofe.
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    217 Conclusões Este breve examemostra que todos os papas são falíveis, que muitos cometeram erros graves e que vários foram heréticos. Contradisseram a doutrina da Igreja, contradisseram-se uns aos outros e, não poucas vezes, contradisseram-se a si próprios sobre pontos essenciais da doutrina cristã. Em resultado disso, a tradição era que qualquer papa, incluindo o reinante, pode enganar-se como outra pessoa qualquer. Não tem nenhuma graça especial que o impeça de cair em heresia. Mais ainda: não se pode pôr a questão de um papa ter razão e a Igreja não a ter. Se o papa se afasta da Igreja — talvez por não a ouvir — é o papa, e não a Igreja, que tem de mudar de ideias. Se se recusa a ouvir e cai em heresia, já não é papa, porque, tendo abandonado a fé, nem sequer cristão é. Os teólogos tendem a dizer que tem de se fazer aqui uma distinção. Um papa, como qualquer cristão, pode errar em questões particulares da fé. O que o Espírito garante é que ele não desviará a Igreja do caminho certo quando profere uma definição ex- cathedra a respeito da fé e da moral. A distinção entre o papa a falar (1) como papa e (2) noutro papel — quer como teólogo particular, quer como bispo diocesano ou pregador pastoral, tem uma falha importante: nunca se ouviu falar de tal coisa na Igreja primitiva. Jamais alguém disse, quando um papa era condenado por heresia: «Ele é herético, mas felizmente para nós não estava a falar ex-cathedra». Porquê? Porque ninguém o considerava competente para definir a fé da Igreja. Isso competia aos Concílios Gerais. E era isso que os Concílios Gerais faziam. Um papa podia fazer perigar a fé da Igreja, como aconteceu com Honório, mas nenhum papa, por si só, alguma vez definiu a fé da Igreja. Houve situações em que tal dom teria sido uma vantagem - por exemplo, durante a controvérsia ariana ou quando a divindade do Espírito foi posta em causa. Hoje, todos os católicos se virariam para Roma à espera de uma decisão em pequenas questões; naquele tempo, ninguém apelava para Roma à espera de uma “última palavra“, mesmo quando os fundamentos da fé estavam a vacilar. A infalibilidade papal incorre ainda numa dificuldade maior. Se as heresias papais do passado não estão incluídas nas afirmações feitas ex-cathedra, quais são as doutrinas papais que o estão? Quando é que os papas falaram pela primeira vez para e por toda a Igreja de maneira definitiva? Certamente que não no primeiro milénio. Alguns diriam que nunca antes de 1302, outros, de 1854. Se assim é, os pontífices romanos não erraram nessa qualidade simplesmente porque não exerciam em absoluto essa função. A infalibilidade papal deve ser crucial para a fé da Igreja e uma maneira de a regular. Como é que isto pode ser assim, quando ela não foi exercida durante a maior parte da história da Igreja? Pode compreender-se que a Igreja seja infalível, quer em Concílio, quer através da normal doutrinação episcopal em todo o mundo. Mas é difícil dar sentido a um papel crucial do papa que nunca exerceu a infalibilidade até ser proclamado infalível por um concílio e que só uma vez a exerceu durante o século passado. Esta análise não é completamente rigorosa. Um papa houve que exerceu efectivamente a infalibilidade antes do Concílio Vaticano I. Pio IX é tão crucial para a compreensão do papado moderno que requer um capítulo só para si.
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    219 13 O Primeiro PapaInfalível No dia 8 de Dezembro de 1854, o Papa Pio IX definiu a imaculada concepção da Virgem Maria em Inefabilis Deus: Nós declaramos, proclamamos e definimos que a doutrina que sustenta que a muito abençoada Virgem Maria, no primeiro instante da sua concepção, por graça singular e privilégio concedido por Deus Todo Poderoso, considerando os méritos de Jesus Cristo, o Salvador da raça humana, foi preservada de toda a mácula do pecado original, é uma doutrina revelada por Deus e portanto deve ser crença firme e constante de todos os fiéis. Este acto de devoção para com a Mãe de Jesus foi também a mais bem imaginada decisão política de qualquer pontífice em tempos recentes. É comparável à deposição por Gregório VII e posterior humilhação do imperador no meio do vento e da neve de Canossa. A Imaculada Concepção Até ao século XII, os cristãos davam como adquirido o facto de que Maria foi concebida em pecado original. O Papa Gregório o Grande disse enfaticamente: «Só Cristo foi concebido sem pecado». E repetiu uma e outra vez que todos os seres humanos são pecadores, mesmo os santos, com a única excepção de Cristo. O seu raciocínio, bem como o de todos os Padres, não deixa dúvidas sobre o assunto. O acto sexual envolve sempre o pecado. Maria foi concebida normalmente, logo, em pecado; Jesus foi concebido virginalmente, logo, sem pecado original. Enquanto que Ambrósio e Agostinho seguiram a linha segundo a qual Maria não cometeu pecado, muitos Padres discordam. Tertuliano, Ireneu, Crisóstomo, Origen, Basílio, Cirilo de Alexandria e outros acusaram Maria de muitos pecados, argumentando com textos bíblicos. Ela foi concebida em pecado e cometeu o verdadeiro pecado; assim diz o Novo Testamento. A tradição de que Maria foi concebida em pecado era tão forte que o único problema para um santo erudito medieval como Anselmo era o de saber como é que o Cristo sem pecado podia ter nascido de uma pecadora. Anselmo louvava Maria de muitas maneiras: a sua plenitude espiritual tornava «de novo viçosas todas as criaturas». Contudo, seguiu firmemente o Papa Gregório e a grande tradição: «A Virgem, ela própria, foi concebida em pecado, e foi em pecado que a sua mãe a concebeu, e em pecado nasceu, porque também ela pecou em Adão, como todos nós». As Igrejas Ortodoxas Grega e Russa continuaram a seguir esta tradição. Sugerir que Maria foi concebida sem pecado é despojá-la da sua grandeza e da sua realização, que são em tudo as de um ser humano como nós.
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    220 No Ocidente, emcontraste, o culto da Virgem desenvolveu-se rapidamente na Idade Média. Os católicos tendiam a perder de vista a humanidade de Cristo. Em resultado disto, ele aparecia distante, não tanto como Mediador entre Deus e os homens, mas mais como o próprio Deus. Isto criou a necessidade de um mediador para o Mediador, alguém santo e poderoso. O nascimento do culto Mariano coincidiu com o declínio do culto de Cristo. Maria era a mãe de Cristo, tivera-o nos braços. As suas virtudes sempre foram enaltecidas. Nos tempos Patrísticos, era vista como o modelo de virgindade. Agora, tinha um papel mais importante a desempenhar. Em meados do século XII, em Lyons, celebrou-se uma nova festa em honra da concepção da Virgem. S.Bernardo de Clairvaux ficou horrorizado. Escreveu aos cónegos de Lyons avisando- os de que os seus argumentos para a concepção sem pecado de Maria se aplicaria a todos os seus antepassados, homens e mulheres. Todos seriam obrigados a postular toda uma linha — uma espécie de regressão até ao infinito — dos antepassados de Maria que foram imaculadamente concebidos. O pesadelo não acabaria aí. Se todos eles foram concebidos sem pecado, todos têm de ter nascido virginalmente. Bernardo seguiu os Padres nas suas opiniões sobre a relação sexual. Esta sempre envolvia o pecado. Daí que pergunte aos prelados de Lyons: «O Espírito Santo participou no pecado de concupiscência [dos pais de Maria]? Ou teremos nós de admitir que não houve pecado de luxúria?» Bernardo apenas repetia o argumento de Gregório: o sexo significa luxúria. Maria resultou de uma relação sexual, foi concebida em pecado. Ele sustentava que ela nasceu santificada. Tratava-se de uma festa da natividade de Maria e não da sua concepção. Pedro Lombard, o mais influente teólogo anterior a Aquino, seguiu o Padre grego João de Damasco. Maria foi concebida em pecado original e só foi purificada quando acedeu em conceber o Salvador. Inocêncio III concordava com esta ideia. Mas nem isto evitou que o novo culto se espalhasse, embora não propriamente em Roma. Boaventura, o Doutor Seráfico do século XIII, negava que Maria estivesse purificada do pecado herdado. O seu contemporâneo Tomás de Aquino, o Doutor Angélico, concordava. Seguiu Aristóteles, que afirmava que a animação do feto é um processo gradual. Inicialmente, o conceptus é vegetativo. Assim, para Aquino, a ideia de concepção imaculada era quase tão inteligível como uma cenoura sem pecado. Acreditava realmente que a Virgem Maria foi santificada em qualquer altura não especificada antes do nascimento. Os Dominicanos, tal como, durante algum tempo, os Franciscanos, concordavam com o seu herói Aquino. No século XIV, o Bispo Pelayo, Penitenciário-Mor de João XXII, não tinha dúvidas de que Maria foi concebida em pecado original. Mesmo assim, o culto cresceu e pela primeira vez foi apoiado por um teólogo de estatura, o Franciscano Duns Scotus. O problema do Subtil Doutor era saber como é que Maria podia figurar entre os salvos se não tinha pecado original de que ser salva. A sua solução baseava-se no princípio de que mais vale prevenir do que remediar. Maria não se curou do pecado, foi antes prevenida pelos previstos méritos de Cristo de nele incorrer. Isto dificilmente resiste a uma análise. Um bebezinho pode ser imunizado contra, digamos, a difteria, o tétano, a poliomielite e por aí fora. Com o avanço da medicina, é possível proceder à imunização pre-parto, quando a criança ainda se encontra no ventre materno. Mas como é que um bebé pode ser “imunizado“ antes da concepção? Segundo Scotus, Maria foi “imunizada” contra o pecado original antes de ter sido concebida. Provavelmente nunca mais se teria ouvido falar desta estranha ideia,
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    221 não fora PioIX tê-la utilizado como suporte para a sua infalível definição da concepção imaculada de Maria. Depois de Scotus ter tomado o caminho oposto ao de Aquino, começaram a formar- se facções. Os Franciscanos e os Dominicanos envolveram-se em batalhas terríveis, não só literárias. Os imperadores juntaram-se-lhes, como quando Carlos IV obrigou os Dominicanos a saírem de Paris e mandou encarcerar quem quer que fosse encontrado na rua e negasse a concepção imaculada. As discussões e as lutas continuaram durante séculos. Cada uma das facções acusava a outra de heresia. Se alguma vez foi necessária uma decisão papal para pôr cobro a uma disputa, esta foi uma delas. Havia boas razões para que ela não surgisse. A Escritura nada dizia sobre a concepção imaculada; todos os Padres da Igreja se opunham; antes de Scotus, nenhum teólogo digno de menção a tinha aceitado e os maiores tinham-na negado. Contudo, havia uma poderosa vaga de opinião popular a seu favor. Sisto IV mandou que se mantivesse a Festa da Concepção em todas as igrejas; para isso concedeu, a título gratuito, uma indulgência especial. Isto provocou uma controvérsia ainda mais amarga entre os Dominicanos e os Franciscanos. Para lhe pôr fim, o papa escreveu outra Bula. A Festa era em honra da Concepção de Maria, dizia ele, e não da sua santificação. Os Dominicanos terão de aceitar isto ou então serão excomungados; mas se os Franciscanos se vangloriarem diminuindo os Dominicanos, serão eles os excomungados. Esta Bula foi confirmada por Alexandre VI. Mas Bórgia, um realista, ameaçou chamar o exército para manter a paz entre os monges se estes não se acalmassem. Os Dominicanos mantiveram-se inabaláveis. O seu herói Aquino saíra a terreiro contra a imaculada concepção, e não era verdade que João XXII, deliciado com a opinião que eles tinham sobre o papado, tinha dito que negar qualquer coisa que Aquino dissesse equivalia a heresia? Portanto, embora os Dominicanos espalhassem a devoção ao rosário, eram alvo da troça dos Franciscanos, como “maculistas”. Foi então que algo aconteceu que fez inclinar os pratos da balança para o lado dos Dominicanos. No ano de 1507, no convento dominicano de Berne, Maria apareceu a um humilde frade, o irmão Letser. A Letser ela revelou a sua irritação por os Franciscanos ensinarem a sua chamada imaculada concepção. Confirmou-lhe que ela tinha sido concebida em pecado original. Só três horas depois da concepção é que foi santificada. A opinião de S.Tomás de Aquino era, confirmou a Virgem, a este respeito e em todos os outros, perfeitamente ortodoxa. Para provar a fidedignidade daquela visão, Maria deu ao frade uma cruz tingida com o sangue de Jesus e mais três das suas lágrimas derramadas sobre Jerusalém. Também lhe entregou uma carta dirigida ao papa reinante, Júlio II, que nessa altura estava empenhado, de armas na mão, nas guerras italianas. Aquela aparição foi a sensação da época. Multidões dirigiram-se em rebanho para o convento em Berne. O Irmão Letser era um bom sujeito para as revelações Marianas: era casto, fazia jejum; flagelava-se; caía facilmente em êxtase; criava estigmas, aquelas chagas nas mãos e nos pés do Crucificado que têm autenticado muitos santos. Na capela do convento havia uma imagem da Virgem que chorava perpetuamente pelos erros dos Franciscanos, a quem Maria implorava que aceitassem a sua Maculada Concepção. Então, inesperadamente, aconteceu algo ainda mais surpreendente. Entrou em cena o próprio Irmão Letser. Fez a sua aparição, isto é, apresentou-se ao magistrado de
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    222 Berne a pedirasilo. Os seus superiores, alegava ele, andavam a torturá-lo e a tentar envenená-lo. O que ele revelou foi uma trama dominicana. Os superiores da Ordem em assembleia de cónegos em Wimpffen tinham decidido provar a falsidade da imaculada concepção por meio de um milagre doméstico. Berne foi o local escolhido, porque tinha uma população vasta e crédula. Os quatro priores do convento lembraram-se de João Letser, alfaiate, que tinha sido admitido recentemente na Ordem, como o visionário adequado. Prepararam-no, drogando-o. Letser foi completamente enganado. Até que um dia entrou no gabinete do leitor Bolshorst sem bater e o encontrou vestido com as roupas de mulher da Virgem Santíssima. Isto foi um choque muito maior do que a verdadeira aparição da Virgem. Quis abandonar os seus serviços, mas, ameaçado, continuou até não aguentar mais. A questão foi presente à Inquisição. Letser e os quatro conspiradores foram submetidos à tortura. Estes confessaram que tinham pintado uma hóstia de vermelho, tinham feito uma imagem chorar por meio de esponjas molhadas e com um pincel tinham pintado as chagas no Irmão Letser. Embora os quatro tivessem sido queimados, a Ordem dos Dominicanos declarou-os mártires da causa. E contra-atacou publicando um manual com todos os grandes pensadores da Igreja que tinham discordado da imaculada concepção. O manual incluía a maior parte dos teólogos de nomeada e numerosos papas. Na lista havia muitos franciscanos, incluindo Santo António de Pádua e S.Boaventura. A Igreja oficial continuou a contemporizar. O Concílio de Trento não conseguiu decidir sobre o assunto, e Paulo IV baniu toda a discussão sobre a matéria. Mas a maré estava adversa para os Dominicanos. De um médico romano, Paulo Zacchia, veio uma contribuição para a causa. Negou a teoria de Aristóteles da animação progressiva do feto. Zacchia disse, em 1621, que uma alma racional é impregnada no exacto momento da concepção. Aplicado a Maria: se ela não foi concebida primeiro como vegetal, fazia ligeiramente mais sentido dizer que foi concebida sem pecado. Em 1622, Gregório XVI disse que ninguém podia discordar, mesmo em privado, da Festa da Concepção, embora proibisse o uso de “imaculada”. No ano de 1701, Clemente XI tornou a Imaculada Concepção uma festa obrigatória em toda a Igreja, reforçando assim a opinião de Zacchia da animação instantânea. Benedito XIV (1831-46), no seu decreto sobre a Beatificação, disse que a Igreja se inclina para a imaculada concepção mas nunca fez dela um artigo de fé. O seu sucessor não teve tais reservas. Pio IX, tal como Gregório VII, tinha faro para a política. Sabia que os Estados Papais tinham os dias contados. Pouco depois de eleito, foi estabelecida uma república provisória em Roma, e ele fugiu para Gaeta. Aí teve tempo para reflectir sobre a única área em que podia reinar. Preparou o caminho com a Encíclica Ubi primum, de 2 de Fevereiro de 1849, onde traçava este retrato de Maria: A glória resplandecente dos seus méritos, que excedem largamente todos os coros dos anjos, eleva-se até aos degraus do trono de Deus. Os seus pés calcaram a cabeça de Satanás. Colocada entre Cristo e a sua Igreja, Maria, sempre amorável e cheia de graça, aliviou os cristãos das suas desgraças e das ciladas e arremetidas dos seus inimigos, resgatando-os sempre da sua ruína. O retrato de Maria de Pio IX devia mais à angélica Bela de cabelo escuro de Murillo do que ao Evangelho.
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    223 Em Gaeta, comos Jesuítas e seus mentores, Pio começou a “consultar” os bispos sobre a conveniência de definir a doutrina da imaculada concepção. Recebeu o apoio quase unânime dos quase quinhentos bispos italianos, espanhóis e portugueses. Os restantes não mostraram grande entusiasmo. Um ou dois dias antes da definição, em 1854, o secretário particular do papa, Monsenhor Talbot, confidenciava a um amigo: «Estás a ver, o mais importante não é o novo dogma, mas a maneira como ele for proclamado». O papa estava claramente a escorregar, por assim dizer, na sua própria infalibilidade. Antes de 1870, esta questão estava longe de ser aceite universalmente. A Igreja francesa, por exemplo, era conhecida pela sua oposição. O Quarto dos Artigos Galeses de 1682, assinados pelo grande Bispo Bossuet, dizia: «O papa tem o principal quinhão em questões de fé […] contudo, o seu julgamento não é irreformável sem a concordância da Igreja». Os decretos do Concílio de Constança ainda estavam em vigor em França no século XVIII e, apesar de Roma, muitos ainda assim continuaram até 1870. Também o mundo de língua inglesa estava longe de aceitar unanimemente a infalibilidade papal. Em 1822, o Bispo Barnes, Vigário Apostólico inglês, disse: «Bellarmino e outros teólogos, sobretudo italianos, acreditavam num papa infalível quando ele apresentava ex-cathedra um artigo de fé. Mas não acredito que qualquer católico da Inglaterra e da Irlanda sustente a infalibilidade do papa». Ainda mais tarde, o Cardeal Wiseman, que em 1850 encabeçava a restaurada hierarquia da Inglaterra e País de Gales, disse: «A Igreja Católica tem um dogma, frequentemente proclamado, que afirma que, em matéria de fé, ela (isto é, a Igreja, e não o papa) é infalível». E continuava: «Todos concordam que a infalibilidade reside no sufrágio unânime da Igreja». John Henry Newman, um convertido e o maior teólogo do século XIX, disse dois anos antes do Concílio Vaticano I: «Eu sustento a infalibilidade do papa, mas como uma opinião teológica, isto é, não como uma certeza, mas como uma probabilidade». Nos Estados Unidos, antes do Vaticano I, foi publicado o muito popular Controversial Cathecism, do Reverendo Stephen Keenan. Trazia o Imprimatur do Arcebispo Hughes de Nova Iorque. Eis um extracto: «Pergunta: Os católicos têm de crer que o próprio papa é infalível? Resposta: Isso é uma invenção dos protestantes; não é um artigo de fé católica; nenhuma decisão sua pode vincular com pena de heresia, a não ser que seja aceite e imposta pelo corpo doutrinal, isto é, pelos bispos da Igreja». Era algo embaraçoso que em 1870 uma “invenção dos Protestantes” tivesse sido definida como fé católica. Na edição seguinte do Cathechism esta pergunta e resposta foram retiradas sem uma palavra de explicação. Pio IX, ao obter o apoio da maioria dos bispos italianos e outros latinos em 1854, estava já a canonizar a “doutrina italiana” da infalibilidade papal. O processo de proclamação da imaculada concepção foi único. Não emanou de um Concílio Geral; foi da exclusiva responsabilidade do papa. Dez anos mais tarde, o teólogo jesuíta Clemens Schrader, havia de chamar a esta definição «um acto peculiar do pontificado de Pio IX que não tem paralelo em qualquer outro pontificado anterior». A muito discutida doutrina da imaculada concepção foi apenas o balão de ensaio para a definição da infalibilidade papal de 1870. O que era intragável para todos os bispos que se opuseram à definição no Concílio Vaticano I é que apenas dezasseis anos antes, Pio já exercera esse poder perante o mundo — e eles não fizeram nada. Pio IX tinha transformado a infalibilidade da Igreja numa prerrogativa pessoal para ser usada independentemente da Igreja ou do Concílio. Depois de 1854 os Dominicanos tiveram de submeter-se. Já não havia aparição da Virgem Santíssima que lhes valesse.
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    224 Os cristãos nãocatólicos ficaram ainda mais perturbados. A definição veio confirmar os seus piores receios sobre o papado. A imaculada concepção já não era uma crença piedosa que os católicos podiam aceitar ou rejeitar. Estes eram agora ameaçados de excomunhão se dela descressem ou simplesmente lhe retirassem o seu acordo. Foram informados por Pio IX de que sem um explícito acto de fé nessa crença não podiam ser salvos. Aqueles que pensam de maneira diferente «estão condenados por seu próprio julgamento, destruíram a fé e afastaram-se da unidade da Igreja». Mas isso não foi necessário para S.Gregório o Grande, nem para os Padres da Igreja, Santo Anselmo, S.Bernardo, S.Boaventura, S.Tomás de Aquino — que a negaram. Nem para Ireneu, Jerónimo, Crisóstomo que, com S.Pedro e S.Paulo, nunca sequer pensaram em tal. Mais de dezoito séculos e meio depois da concepção de Maria, era uma heresia negar que ela foi concebida imaculada. Esta opinião marginal era agora tão importante para a salvação como a crença na Trindade, na divindade de Cristo, na Expiação e na Ressurreição. O poder absoluto tinha moldado uma “verdade” absoluta; e os outros cristãos encontraram mais uma enorme barreira entre eles próprios e a Igreja Romana. Alguns perguntavam-se onde é que aquilo iria acabar. Talvez um futuro pontífice viesse a definir que também Maria foi virginalmente concebida. O fenomenal progresso da imaculada concepção desde a redonda negação até à definição papal mostra que nada é impossível. Porque nesta questão o papa contradisse princípios básicos: que os Evangelhos fornecem os fundamentos da crença; que nenhum indivíduo, nem mesmo o papa, pode decidir sobre a doutrina católica, que ela carece de todo o episcopado em Concílio ou em doutrinação geral representativa da fé das suas igrejas; que o Catolicismo não pode tratar desta maneira despótica uma tradição que data dos tempos patrísticos. Contra isto, a única coisa que Pio IX podia dizer era: «Eu sou a tradição». Homem amável, ele viria a revelar-se o pontífice mais autocrático desde a Idade Média. A definição da imaculada concepção não foi extraordinária só no seu conteúdo e processo de proclamação. A despeito de todo o seu significado marginal, influenciou quase toda a teologia da Igreja Católica. Isto é manifesto em relação à autoridade papal, especialmente ao definir doutrina. Mas também influenciou a teologia do pecado original e da sexualidade. Pecado original: Pio reforçou o conceito de pecado original como herança de um remoto antepassado (Adão) que pecou e transmitiu este pecado ao resto da espécie. Pio IX foi o principal responsável pelo facto de a Igreja Católica não poder aceitar as descobertas de Darwin, tal como, dois séculos antes, não pudera aceitar o que Galileu dizia. A Origem das Espécies veio a lume cinco anos depois da definição da imaculada concepção. Apesar das provas científicas que se multiplicavam de que durante muitos milhões de anos o homem tinha evoluído de formas inferiores, Roma continuava, e continua, a insistir em que houve originalmente apenas um casal, perfeito em corpo e em espírito, do qual nasceu toda a espécie. Mesmo em termos éticos, uma teoria como a de Darwin teria ajudado a Igreja a resolver uma dificuldade. Porque, se foi um só casal que esteve na origem da espécie, segundo o plano de Deus, a humanidade só podia ter começado a propagar-se por meio do incesto, o que, de acordo com os moralistas católicos, vai contra a lei natural e o próprio Deus não pode tolerar. Sexo: a doutrina da imaculada concepção também afectou a doutrina católica sobre a sexualidade e, particularmente, sobre o controle da natalidade, o aborto e a fertilização in vitro.
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    225 Desde 1854, oscatólicos têm vindo a acreditar cada vez mais que a alma é animada por Deus nos primeiros momentos da concepção. Maria foi santificada, segundo Pio IX, no primeiro momento da concepção. Isto reforça a ideia de que no momento da concepção já há no ventre da mulher um ser humano com todos os direitos inerentes. E daí que o aborto, em qualquer estádio da gravidez, seja um crime. A contracepção é o pior mal, depois do aborto, pois impede a produção de mais um ser humano. Isto mostra a firme relação que existe entre o decreto de Pio IX de 1854 e a Encíclica de Paulo VI de 1968 sobre o controle da natalidade. Estes temas serão tratados com mais profundidade na terceira parte, onde veremos que o celibato também está relacionado com a doutrina de Roma sobre a imaculada concepção. Os celibatários, que fizeram voto de não dar expressão à sua sexualidade, isto é, de não propagarem o pecado original, são considerados como vivendo uma vida mais perfeita do que as pessoas casadas. O Manual dos Erros Dez anos depois do dia em que definiu a imaculada concepção, Pio IX publicou o Manual dos Erros, acompanhado de uma encíclica, a Quanta Cura. Durante dezanove anos, Pio condenou tudo o que era novo, quer fosse bom ou mau. Em desacordo com os ideais da Revolução Francesa, foi particularmente duro com tudo o que cheirasse a liberdade. Pio acreditava que a Igreja Romana detém a mais completa verdade possível do mundo e estava portanto divinamente obrigada a ser intolerante. Exemplificou isto dois anos antes de fazer publicar o seu manual quando assinou uma concordata com o Presidente do Equador. Este católico de direita tinha chegado ao poder por meio de um golpe contra os elementos liberais e anti-clericais. A concordata foi um dos documentos mais injustos alguma vez assinados por dois poderes soberanos. O Catolicismo Romano devia ser a única religião permitida no Equador. À Igreja era garantido o completo controle da educação e um papel dominante na vida do país. Isto era o sonho de Pio IX. Ele sonhava que um dia o resto do mundo, especialmente a França e a América, seguiria o mesmo caminho. A Encíclica Quanta Cura é mais um pesadelo do que um sonho. Cheio de receios e de pressentimentos, Pio escreve como alguém sem esperança. Ele representava o absolutismo: a Igreja e o Estado deviam, entre os dois, moldar o mundo, como já faziam há séculos; o Estado devia estar sujeito à Igreja nas questões morais e ser o seu protector, mesmo quando esta propõe completa intolerância em relação às outras religiões. Também o Manual dos Erros de Pio IX é reaccionário de princípio ao fim. Entre as ideias contemporâneas que condenou estão estas: 15. Todo o homem é livre de abraçar e professar a religião que, guiado pela luz da razão, considere como a verdadeira. 24. A Igreja não tem o poder de usar a força nem tem qualquer poder temporal directo ou indirecto. 30. A imunidade da Igreja e do clero advêm da lei civil.
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    226 38. Os pontíficesromanos têm contribuído, com a sua conduta demasiado arbitrária, para a divisão da Igreja em Ocidental e Oriental. 76. A abolição do poder temporal que a Sé Apostólica detém contribuiria no mais alto grau para a liberdade e prosperidade da Igreja. 77. Actualmente já não é conveniente que a religião católica seja tida como a única religião do Estado, com a exclusão de todas as outras formas de culto. 79. Por isso, foi sensatamente decidido por lei em alguns países católicos que as pessoas que lá venham a residir possam gozar do exercício público do seu culto particular. 80. O pontífice romano pode e deve reconciliar-se e chegar a acordo com o progresso, o liberalismo e a moderna civilização. No seu contexto, sobretudo italiano, de anti-clericalismo que a intransigência de Roma tinha levado ao ponto de ebulição, estes ensinamentos medievais eram bastante maus. Fora do contexto, o conjunto parece uma caricatura do Catolicismo. Nenhum inimigo da Igreja conseguia fazer-lhe metade do mal que Pio IX lhe fez. Gladstone, na Inglaterra, e Lincoln, na América, ficaram escandalizados ao ouvir o papa condenar o progresso, o liberalismo e a moderna civilização. A reacção da imprensa mundial era previsível. A Grã-Bretanha em particular exprimiu a sua incredulidade. O manual saiu na época de Natal de 1864. No primeiro número do novo ano, o Punch trazia um palhaço a declamar: Eu estava pronto a engolir com inquestionável docilidade As maiores coisas ditadas p’la Superior Infalibilidade; Não teria objectado a esticar a boca toda; De vontade a abriria quanto me fosse mandado Mas realmente esta Encíclica, que é tão contrária à razão, Foi mesmo p’ra publicação a mando da Santidade Nesta especial estação, insistindo na verdade Da clerical dominação sobre o poder civil, família e educação. Denunciando a revolta contra governo despótico; Negando ao povo dos líderes a eleição; Afirmando da Igreja a estrita obrigação De apoiar o Estado em toda a repressão; Condenando da imprensa e consciência a liberdade, E qualquer liberal constituição.∗ ∗ No original: I was prepared to swallow with unquestionable docility, The biggest things delivered by Superior Infallibility;
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    227 E tudo istoera demais para engolir, mesmo para um palhaço de boca grande. O Spectator sugeria que o papa devia «igualmente rezar contra a primeira lei do movimento». O anglicano Church Times via o papa como o divisor e não o unificador da Cristandade e recebeu a encíclica «com repugnância e escárnio». O editor assinalava que Pio não tinha qualquer simpatia pela civilização, pelo progresso, pela ciência ou pelo intelecto. Olhava-os como «inimigos mortais da fé». O comentário do The Times era o mais cortante: «Será difícil encontrar um sistema político na Europa, à excepção do governo papal, que não assente nos princípios que aqui são declarados como erros condenáveis». E isto era verdade. Durante o século XIX o papado andou a pressionar os governos para que negassem aos seus cidadãos aqueles direitos que eram negados aos cidadãos dos Estados Papais. Desde 1831 que os papas atacavam cada nova constituição — a austríaca, a francesa, a belga — apelidando-as de “ímpias”. Porquê? Porque ousavam, como ateístas que eram, garantir a liberdade de consciência, a liberdade de imprensa, instituições parlamentares livres para as quais todos os cidadão tinham o direito de votar, independentemente da sua religião ou ausência dela, e completa igualdade dos cidadãos perante a lei. O papado continuava a instar os outros estados italianos a imitar a sua própria repressão. Por exemplo, em 1852, Pio IX persuadiu a Toscânia a proibir os médicos judeus de exercer a medicina. A impressão que ficava era que a única coisa que Roma não podia tolerar era qualquer forma de liberdade. Durante todo este tempo os papas andaram a alimentar o anti-clericalismo por toda a Itália. Pio IX, por fim, podia até ter sido compreendido e popular na Igreja; mas na Itália era quase universalmente detestado. Uma das consequências da rejeição do papado das novas constituições foi que os cidadãos católicos das repúblicas emergentes eram vistos como anti-patriotas. Quando, por exemplo, a constituição austríaca foi publicada, o Vaticano disse: Nós declaramos que estas leis e as suas consequências foram e serão no futuro nulas e inválidas. Nós exortamos e suplicamos aos seus autores, especialmente àqueles que se intitulam de católicos, e todos os que ousem propô-las, aceitá-las, aprová-las e executá-las que se lembrem das censuras e penas espirituais em que incorrem ipso facto, de acordo com as constituições apostólicas e decretos dos Concílios Ecuménicos, aqueles que violarem os direitos da Igreja. Pio IX foi ao ponto de condenar esta constituição por permitir que os Protestantes e Judeus tivessem as suas escolas e universidades. To stretch my mouth from ear to ear I shouldn’t have objected, Would willingly have opened it to any width directed. But really that Encyclical, so contrary to reason, Your Holiness had published just at this special season, Insisting on the divine right of priestly domination O’er civil power, the family, and public education; Against despotic government denouncing insurrection, Denying people’s rights to choose their rulers by elections, Proclaiming the Church bound to back the State in persecution, (N. T.) Condemning free press, conscience, free and liberal constitution…
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    228 Em França, oBispo Dupanloup ficou tão preocupado que introduziu uma distinção que, como vimos, o Cardeal Gibbons de Baltimore achou muito útil. O manual do papa aplicava-se a um mundo perfeito (tese); não a um mundo imperfeito (hipótese). Infelizmente, a noção de perfeição do papa não era a mesma da maioria dos católicos, que desconfiavam de um estado teocrático. Como comentava um gracejo parisiense, «A tese é quando a Igreja condena os Judeus; a hipótese, quando o núncio papal janta com o Barão de Rothschild». Já não faltava muito para que a democracia que Pio IX persistentemente condenava libertasse os próprios católicos da tirania dos Estados Papais e trouxesse à Igreja uma aragem de liberdade que Pio IX, se pudesse, lhe teria tirado para sempre. Dificilmente poderia ter havido um pontífice na história a quem a Igreja pudesse atribuir a dignidade de “infalível” com mais apreensão. A supremacia papal Sintomaticamente, a data escolhida para a abertura do Primeiro Concílio Vaticano em 1869 foi o dia 8 de Dezembro, o aniversário da definição papal da imaculada concepção. De acordo com o Pastor aeternus, o principal decreto do Vaticano I, o papa não é apenas um supervisor ou administrador de topo da Igreja. Ele detém também a «jurisdição suprema e total da Igreja nas questões que dizem respeito à disciplina e direcção da Igreja espalhada pelo mundo». O poder do papa é supremo; estende-se directa e imediatamente a todas as igrejas, a todos os pastores, a todos os leigos. O Concílio sustenta que ao dizer isto «se baseia no testemunho claro da Sagrada Escritura e se apoia nos claros e explícitos decretos tanto dos nossos antecessores, os pontífices romanos, como dos Concílios Gerais». Estas afirmações não resistem a uma análise. Analisemos resumidamente as provas: Quanto à Sagrada Escritura: nem um só dos primeiros Padres da Igreja viu na Bíblia qualquer referência à jurisdição papal sobre a Igreja. Ao contrário, eles consideram um dado adquirido que os bispos, especialmente os metropolitanos, têm todo o direito de governar e administrar o seu território sem interferência de ninguém. A Igreja Oriental nunca aceitou a supremacia papal; a tentativa de Roma de a impor levou ao cisma. Quanto aos Concílios Gerais: o Concílio de Constança do século XV, em muitas áreas pôs os concílios acima dos papas. Isto seria o bastante para destruir a confiança do Vaticano I nos concílios. Mas as coisas são ainda piores. Os oito concílios da Igreja quando ainda una não foram convocados pelo Bispo de Roma. A começar pelo de Niceia em 325, os concílios eram convocados pelo imperador, que aprovava os decretos. Era o imperador que reinava; era ele que impunha os credos. O Cânone 6 de Niceia decidia que todas as sés deviam manter os seus antigos direitos. Alexandria governaria o Egipto, a Líbia e Pentápolis «porque há um costume semelhante no caso do Bispo de Roma. O mesmo em Antióquia». Cinquenta anos mais tarde, no Concílio de Constantinopla de 381, o Bispo de Constantinopla foi considerado hierarquicamente o segundo depois do Bispo de Roma. O Cânone 3 do Concílio explicava porquê. «Depois do Bispo de Roma, o Bispo de Constantinopla terá a primazia, porque Constantinopla é a nova Roma». Este Cânone foi repetido em 451 no Concílio da Calcedónia. O Papa Leão o Grande queria maior reconhecimento para a sua Sé de Roma. Mas não o conseguiu. O Concílio disse simplesmente:
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    229 Os padres atribuíramcorrectamente a primazia ao Trono da Velha Roma, porque ela foi a Cidade Imperial. E os cento e cinquenta muito religiosos bispos, movidos pela mesma intenção, deram iguais privilégios ao muito sagrado Trono da Nova Roma [Constantinopla], julgando com razão que a cidade, que foi honrada com a soberania e o senado e que goza dos mesmos privilégios que a velha Roma, deve também, tal como ela, ser glorificada em questões eclesiásticas, sendo a segunda a seguir a ela. Não há nenhuma referência ao Evangelho ou ao papel de Pedro, que o Bispo de Roma herdou, nenhuma supremacia atribuída «ao papa». O papa é venerado porque é o Bispo da Sé Imperial da Velha Roma. Longe de ser claro, como o Vaticano I declarou, que o Evangelho e os Concílios Ecuménicos atribuíram ao papa jurisdição universal, não há nenhuma prova disso. Como disse o Cardeal Manning de Westminster: «O dogma tem de sobrepor-se à História». Mesmo os testemunhos papais sobre a jurisdição do papa apenas vieram á superfície depois de Constantino deixar Silvestre abandonado em Roma como seu vassalo. Um tom de ameaça depressa começou a ouvir-se na Sé Romana. Depois Leão I intitulou-se Pontifex Maximus e depôs um bispo. Apesar disto, é em vão que se pode procurar no primeiro milénio uma única doutrina ou artigo de legislação imposta exclusivamente por Roma ao resto da Igreja. As únicas leis gerais saíram de concílios como o de Niceia. De qualquer maneira, como é que o Bispo de Roma podia ter exercido jurisdição universal naqueles primeiros séculos, quando não havia Cúria, quando os outros bispos não toleravam qualquer interferência de quem quer que fosse nas as suas dioceses, quando Roma não emitia dispensas nem exigia qualquer tributo ou imposto, quando todos os bispos, e não apenas o Bispo de Roma, tinham o poder de vincular e desvincular, quando nenhum bispo nem nenhuma igreja era censurado por Roma? Mais ainda: durante séculos, o Bispo de Roma foi escolhido pelos cidadãos locais — clero e leigos. Se ele tivesse jurisdição sobre a Igreja universal, o resto do mundo não quereria ter uma palavra a dizer na sua nomeação? Quando se acreditou que ele tinha a supremacia, o resto do mundo exigiu mesmo ter uma palavra na sua eleição. Isto apenas aconteceu na Idade Média. O Vaticano I definiu a supremacia papal em termos com que os pontífices medievais teriam concordado, mas que não tem qualquer relação com o Evangelho, a tradição ou a história dos concílios ecuménicos da Igreja ainda una. A infalibilidade papal A infalibilidade do papa foi vista pelo Vaticano I como parte da supremacia do papa sobre toda a Igreja. São os seguintes os termos da definição: O Pontífice Romano, quando fala ex-cathedra, isto é, quando no exercício da sua função de pastor e doutrinador de todos os cristãos, define, em virtude da sua suprema autoridade apostólica, a doutrina sobre a fé e a moral que deve ser seguida pela Igreja universal, está, pela divina assistência que lhe foi assegurada na pessoa de S.Pedro, possuído daquela infalibilidade com a qual o divino Redentor quis que a Sua Igreja fosse dotada ao definir a doutrina
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    230 respeitante à fée à moral; e que por esta razão tais definições do Pontífice Romano são irreformáveis por si só e não por consentimento da Igreja. Analisando resumidamente as provas contra a infalibilidade papal: Pedro era falível, tanto antes como depois da crucificação. Também não há qualquer indício no Novo Testamento de que Pedro tivesse algum tipo de poder que um seu sucessor viesse a herdar. De acordo com os Padres, Pedro nessa qualidade não teve sucessor. Todos vêem os bispos como sucedendo aos apóstolos, e não um bispo individualmente a suceder a um apóstolo em particular, Pedro, neste caso. Portanto, não podiam ter aceitado a afirmação de que o “sucessor de Pedro” tivesse de governar a Sé de Roma. Já vimos também que todas as grandes afirmações doutrinárias, especialmente os credos, não vieram dos papas, mas dos concílios. Nos primeiros séculos, nunca ocorreu aos Bispos de Roma que pudessem definir doutrina para toda a Igreja. O Vaticano I precisava realmente de explicar por que razão, se a infalibilidade é crucial para a Igreja, os credos e concílios da Igreja ainda não dividida não lhe fazem qualquer menção e por que é que ela não foi imposta antes de 1870. Anteriormente, a infalibilidade papal não foi de modo nenhum exigida pelos católicos. Estes podiam negá-la, e países inteiros fizeram-no, sem qualquer ideia de que eram maus católicos. Mas se os católicos não eram obrigados a acreditar na infalibilidade papal antes de 1870, eram livres de acreditar ou não naquilo que qualquer papa dissesse. Nas palavras do Cardeal Newman, era uma «opinião teológica, […] uma probabilidade». Até 1870, os católicos nunca criam numa doutrina com base numa definição papal; na melhor das hipóteses, eram livres de a considerarem provável. Mas, se esta opção existia, o papa não pode ter regulado a fé da Igreja como faziam os concílios. Numa palavra, as afirmações papais ex-cathedra ao longo da História — mesmo admitindo por uma questão de argumentação que houve alguma — só foram impostas à Igreja a partir de 1870. Claro que podia haver outros fundamentos para a infalibilidade do papa, e havia de facto. Ele era um bispo, ao lado de outros bispos, a doutrinar naquilo que é chamado de magistério ordinário. Mas precisamente nos termos estabelecidos pelo Vaticano I, os fiéis podiam aceitar o que ele dizia ou rejeitá-lo. Por outras palavras, a infalibilidade papal não afectou de maneira crucial a Igreja até 1870. A noção que alguns católicos têm de que vão buscar ao papa, como tal, a fé em Deus, em Jesus e na Igreja está errada. A Igreja nunca teve nem nunca careceu da infalibilidade papal para a sua fé cristã. Segundo o Vaticano I, o papa só é infalível quando fala ex-cathedra. Pode parecer então mais correcto dizer que o papa é falível, excepto quando faz afirmações ex- cathedra, o que raramente acontece. Como foi observado por um bispo no próprio Concílio, dizer «o papa é infalível» é como dizer «o senhor X é um bêbado porque se embriagou uma vez»; ou, pior ainda, «o senhor X é um bêbado porque o tetra-avô dele se embriagou uma vez», visto que as declarações ex-cathedra são extremamente raras. Seria difícil encontrar uma única antes da definição de 1854 sobre a imaculada concepção. E, como todos concordam, só houve uma depois de 1870. Isso aconteceu quando Pio XII definiu outra doutrina Mariana, a Assunção, em 1950. Ele declarou que no fim da vida, Maria foi levada, corpo e alma, para o Céu. Mesmo com a sua «especial ajuda divina», não conseguiu dizer com certeza se ela tinha morrido ou não. Isto não o impediu de acrescentar o habitual anátema: «Se alguém ousar, Deus nos livre, negar voluntariamente ou levantar dúvidas sobre aquilo que Nós definimos, que fique a saber que se desviou completamente da divina fé católica […]».
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    231 A raridade dasdeclarações ex-cathedra torna a observação de João XXIII algo mais do que um gracejo: «Eu não sou infalível. Só seria infalível se falasse ex-cathedra, coisa que não tenciono fazer». Nem mesmo Paulo VI invocou a infalibilidade quando condenou o controle da natalidade em 1968. A pouca frequência das declarações infalíveis dificilmente satisfaria aqueles católicos do século XIX que ansiavam por um novo dogma no prato, juntamente com o The Times, ao pequeno almoço. Mas não podia um papa ao menos fornecer uma lista das declarações ex-cathedra feitas até agora, ou dos critérios para as identificar? A incerteza sobre se certas afirmações são ou não infalíveis tende a abalar a confiança no sistema. E também os não católicos gostariam de saber em que acreditar antes da reunificação. Os teólogos católicos fazem questão de assinalar que a infalibilidade não significa que o papa seja inspirado, possa ver o futuro, possa decidir qualquer questão como e quando lhe apetece, ou exprima necessariamente a verdade tão perfeitamente que não precise de revisão ou desenvolvimento. O que quase nenhum observa é que mesmo com fundamento nos princípios católicos, os papas de uma maneira geral não são mesmo infalíveis. Não falam infalivelmente nem mesmo quando a Igreja e o mundo clamam por uma luz na escuridão. Desde 1870 que toda a gente gostaria de saber as respostas para muitas perguntas assombrosas: há pessoas noutros planetas? E, se houver, como é que a Encarnação de Cristo as toca? A guerra nuclear é justificável em quaisquer circunstâncias? E pode um católico empenhar-se na investigação e desenvolvimento de tais armas? Centenas de questões semelhantes têm sido levantadas pela ciência e tecnologia. Nem uma só resposta infalível saiu de Roma. Seria uma ajuda se o papa tivesse declarado, com o suporte da Bíblia, «Jesus, um Homem pobre, está sempre do lado dos pobres». Ou: «Aquele que tem o poder de alimentar os famintos e o não faz está a matar à fome o próprio Cristo». Pio IX e Pio XII optaram por exercer a sua infalibilidade sobre as doutrinas Marianas sem qualquer suporte na Bíblia ou na tradição. É pobre a colheita da infalibilidade. A infalibilidade papal não faz nada para esclarecer a Igreja. Qual é então a sua função? Parece ter menos a ver com a verdade do que com o controle. O prestígio do papa reside não na infalibilidade mas naquilo a que se tem chamado “infalibilidade rastejante”. O papa é infalível, por assim dizer, mesmo quando não o é. Isto explica a razão por que o papa e o Santo Ofício se sentem à vontade para impor o silêncio mesmo em questões que não são de fé. O debate arruinaria a harmonia, que é a bênção que o papa traz à Igreja. Ah, mas o seu preço é a verdade, pois a verdade só pode resultar do debate franco e aberto. A falta de debate é a razão por que durante séculos, desde Galileu, Roma tende a chegar tarde e já ofegante ao palco de todos os genuínos avanços humanos, como a liberdade de expressão, o sufrágio universal, a abolição da escravatura, o papel da mulher na sociedade e no sacerdócio, o controle da população por métodos científicos, etc.. Nos últimos cem anos, especialmente, a Igreja já teve de passar por aquilo que Newman profetizou no seu diário: «uma severa vingança por actos autoritários […] um uso tirânico do seu [de Pio XII] poder espiritual. […] Ele reclamou e exerceu um poder maior do que algum papa jamais exerceu». A infalibilidade dá também a impressão de omnisciência, ou, pelo menos, de um domínio da verdade dificilmente respeitável. Deus é o Desconhecido e o Inatingível. Segundo Joseph Pieper, Tomás de Aquino não terminou o seu Summa Theologica, não por a morte o ter levado antes de o poder terminar, mas porque tinha uma ideia de Deus
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    232 que tornava insignificantetudo aquilo que escrevia. Passou meses sem conseguir escrever por causa daquilo que tinha compreendido e era incapaz de exprimir. Se os líderes da Igreja deixassem essa impressão de que mesmo os seus melhores esforços eram insignificantes, a intolerância resultaria muito menor. Pio IX e o poder de deposição Pouco depois do Vaticano I, a publicação jesuíta Civiltà Cattolica reproduziu um sermão de Pio IX. Falava ele iradamente dos «muitos erros mal intencionados a respeito da infalibilidade». O mais malicioso, dizia ele, diz respeito ao direito do papa de depor soberanos e de declarar os seus súbditos dispensados de obediência. Este direito, concordava ele, foi exercido «por vezes pelos papas em casos extremos». Mas isto não tinha «nada que ver com infalibilidade». Era uma questão de autoridade, «aquela autoridade de acordo com a lei então em vigor e com o acordo das nações cristãs, que veneravam o papa como o juiz supremo da Cristandade, mesmo em assuntos temporais, de príncipes e estados». E Pio continuava, dizendo que os tempos tinham mudado completamente. «E só a malícia podia confundir coisas e tempos tão diferentes, como se um julgamento infalível a respeito de um princípio de verdade revelada tivesse alguma relação com um direito que os papas, por vontade do povo, tinham de exercer quando o bem comum o exigia». Pio sabia a razão por que em 1871 se estava a vulgarizar «ideia tão absurda, em que já ninguém pensa, muito menos o Supremo Pontífice. Eles procuram pretextos, mesmo os mais frívolos e menos verdadeiros, para pôr os príncipes contra a Igreja». Mesmo vindo de Pio IX no rescaldo do Vaticano I, isto é notável. Quase todos os papas desde Gregório VII afirmaram que o seu poder de depor soberanos lhes vinha de Deus. O papa governa na terra, quer na Igreja quer na política, em nome de Deus; e o poder de Deus não conhece limites. Por outro lado, nenhum pontífice alguma vez atribuiu o seu poder a uma dádiva da comunidade cristã. Se fosse uma dádiva, onde é que está uma única afirmação de pontífice, imperador ou rei nesse sentido, lei ou código que lhe conceda esse direito? Um historiador do século XVIII contou noventa e cinco papas que afirmaram ter o poder divino de depor reis. Todos os seus argumentos eram baseados — tem de admitir-se que mal — nas Escrituras. «Tudo quanto ligares na terra», disse Cristo. Isto, diziam os papas, era absoluto. Cristo deu aos papas as chaves do Céu e da terra; ele alimenta todo o rebanho, incluindo a Ovelha Chefe, o imperador. Quando Gregório VII depôs Henrique IV, quando Pio V depôs Isabel I, ambos invocaram o poder de Deus para o fazerem. Quando Bellarmino tentou limitar ligeiramente o poder de deposição do papa, Sisto V tentou pô-lo no Index. Não é a maldade dos não católicos que relaciona com a infalibilidade a autoridade papal para depor. São sim os inúmeros papas cuja doutrina Pio IX tem de distorcer ou ignorar porque ela não se ajusta à sua tese. Confrontada com o enorme peso destas provas, qualquer outra instituição diria: os nossos antecessores cometeram um erro. Interpretaram mal o Evangelho. Os papas estavam errados ao depor imperadores como os imperadores ao deporem papas. Não devemos julgá-los com demasiada severidade; eles pertenciam ao seu tempo tal como nós pertencemos ao nosso. O que nós podemos e devemos fazer é procurar que estas coisas não aconteçam nunca mais.
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    233 Infelizmente, uma Igrejainfalível não está em posição de reconhecer um erro deste tipo. Ela não pode errar nem pode contradizer-se. É tentada a dizer, como Pio IX, que os seus críticos ou são cegos ou mal intencionados. Assim, a infalibilidade tende a fazer da História um ramo menor da teologia. Os erros passados dos papas são ilusões. Por uma forma católica de Orwellianismo, a história tem de ser oficialmente “esquecida“ — ou então reescrita de modo que todo o percurso do papado, em termos doutrinários, possa parecer imaculado. Nenhum erro é possível mesmo nos papas que se contradisseram flagrantemente uns aos outros. Pio IX morreu em 1878. Vinte e cinco anos mais tarde, ascendeu ao trono de Pedro outro Pio. Também este estava convencido de que nenhum papa, ele próprio incluído, podia jamais cometer um erro.
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    235 14 A Grande Purga Foino princípio de Agosto de 1903 na Capela Sistina. Quando sob o fresco do Juízo Final de Miguel Ângelo, a votação parecia decorrer de acordo com o previsto, estalou a crise. O Cardeal Puszyna, Bispo polaco de Cracóvia, então parte da Áustria, levantou-se e dirigiu-se aos seus sessenta e um colegas do conclave. Antes da terceira votação para o sucessor de Leão XIII, tinha uma mensagem a transmitir. Tossiu embaraçado. A mensagem era de Francisco José. Em razão do seu já antigo privilégio de chefe do Império Austro-Húngaro, Sua Majestade ia exercer o seu direito de veto contra um deles: o Cardeal Rampolla, Secretário de Estado de Leão XIII. A temperatura na Capela Sistina, já elevada apesar dos altos tectos, subiu ainda mais. Suas Eminências agitaram-se. Aquilo era uma evidente interferência na liberdade da Igreja numa altura das mais sensíveis: uma eleição papal. Era duplamente insultuosa na medida em que há trinta e três anos que o papado tinha sido privado do poder temporal. E agora, eis que um soberano secular vinha dizer, por intermédio desta marioneta escarlate, quem podia ou não podia usar a coroa papal. O Sempiterno Padre Gioacchino Pecci, Leão XIII, morrera em 19 de Julho de 1903. O calor em Roma era tal que temiam que o corpo se decompusesse diante dos seus olhos. Leão e o seu antecessor Pio IX, em cuja cabeça o próprio Leão, na qualidade de Camarlengo, tinha dado na hora da morte as pancadinhas com um martelo de prata, tinham ambos reinado durante mais tempo do que quaisquer outros pontífices. Os dois tinham totalizado uns longos cinquenta e sete anos. Já velho quando eleito, Leão tinha noventa e quatro anos e sessenta encíclicas com o seu nome quando morreu. Nos seus últimos anos, ouvia-se com frequência os seus auxiliares a dizerem: «Procurámos em Pecci um Santo Padre, não um Sempiterno Padre». De constituição frágil, com um enorme nariz abicado donde pingava sobre a sotaina o rapé liquefeito, lábios finos e uma pele de uma brancura diáfana, Leão dominara a Igreja. Os fiéis iam sentir a falta daqueles olhos enormes, quais diamantes negros, e daquelas mãos finas de cisne com as quais abençoava os súbditos com uma bondade de velhinho. É verdade que, tal como Pio IX, ele tinha estado “prisioneiro“ do Vaticano. Nunca pôde visitar a sua própria basílica, S.João de Latrão, ou escapar à canícula com umas refrescantes visitas à sua vivenda de Castelgandolfo, à beira do lago Albano. Mas ainda podia passear nos seus jardins e sentir os doces odores dos pinheiros e eucaliptos e das frescas flores de laranjeira. Leão tinha fama de liberal. Mas dificilmente se lhe pode chamar tal coisa, embora tivesse de facto aberto os arquivos do Vaticano dizendo que «A Igreja não tem medo da História». Continuava a exigir o tipo de obediência que achava que lhe era devida como monarca absoluto da verdade de Deus. O seu amigo e biógrafo Julien de Narfon relata uma conversa típica do Vaticano desse tempo: «O que é que o senhor faria» perguntaram a um dos príncipes da Igreja, «se a Santa Sé tentasse obrigá-lo a aceitar
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    236 que dois edois são seis?» «Aceitava de imediato» foi a resposta; «e antes de assinar, perguntava, “Não deseja que eu diga que são sete?”». Em 1896 Leão decidiu que as ordenações anglicanas eram inválidas. Isto significava que esta comunidade mundial não tinha clérigos cristãos nem nenhuns sacramentos, excepto o baptismo. O chefe da comunidade anglicana era um simples leigo, baptizado, valha-nos isso, de uma igreja que não tinha fundamento apostólico. Esta a razão por que, até 1950, o jornal do Vaticano Osservatore Romano se referia a ele desta maneira: “o arcebispo de Canterbury”. A palavra “arcebispo” sempre em minúsculas e o título entre aspas. Era um insulto literário muito bem premeditado. Apesar de tudo isto, Leão, ao contrário de Pio IX, começara já a reconhecer as realidades políticas da Europa. Insistira já com os bispos franceses para que reconhecessem a república e deixassem de repisar nos tempos da monarquia absoluta. Uma lufada de ar fresco tinha pois agitado ao de leve algumas sotainas da entourage papal. Um papa campónio O Secretário de Estado de Leão, Rampolla, era o favorito para lhe suceder. Foi para o Conclave cheio de esperanças, naquele fatídico verão de 1903. Na primeira votação obteve vinte e quatro dos sessenta e dois votos. O seu mais directo rival era o Cardeal carmelita Gotti, calvo, de estranhos olhos assombrados. Gotti obteve dezassete votos e Sarto, Patriarca de Veneza, cinco. Sarto, de rosto largo e agradável e cabelo branco espesso, interpretou os votos obtidos, talvez correctamente, como uma pequena piada por parte dos seus pares. Não tinha realmente estofo para papa; não tinha cabeça nem experiência para a função, sobretudo depois do nível a que Leão a tinha elevado. Além disso, quase com setenta anos, era já burro velho demais para aprender nova andadura. Na segunda votação, Rampolla subiu para os vinte e cinco, Gotta teve dezasseis e Sarto, dez. Mais um empurrão final para Rampolla e a eleição estaria terminada. Foi então que se deu a intervenção do Cardeal de Cracóvia. Depois de passada a onda inicial de indignação, Rampolla levantou-se sob o seu baldaquino. O seu formoso rosto comprido revelava a tensão de uma ira contida. Os olhos escuros inteligentes brilhavam-lhe, as narinas do seu clássico nariz comprido tremiam-lhe. A brancura do rosto parecia brilhar contra o fundo negro do cabelo liso e a cor púrpura do seu manto. «Lamento profundamente» conseguiu ele dizer, com a serenidade dos diplomatas experimentados «este sério golpe dirigido pelo poder civil contra a dignidade do Sacro Colégio e a liberdade da Igreja na escolha do seu chefe. Esta a razão por que eu protesto veementemente». E num tom de voz consideravelmente mais baixo, acrescentou: «Pelo que me diz respeito, nada mais agradável me poderia ter acontecido». E Sua Eminência sentou-se, remetendo-se ao silêncio. Procedeu-se à terceira votação. Rampolla não perdeu um único voto. Foi Gotti quem acabou por sofrer com o veto. Sabia-se que ele apoiava a causa austríaca, tal como Rampolla apoiava a França. Gotti teve nove votos, enquanto que Sarto, o candidato surpresa, alcançou os vinte e um. Seguiu-se nova votação. Trinta para Rampolla. Apenas com três, Gotti ficou fora da corrida. Sarto subiu para os vinte e quatro. Quando os cardeais se foram deitar, na segunda noite, já sabiam que, apesar da indignidade do facto, a intervenção do cardeal de Cracóvia tinha alterado o curso da
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    237 eleição. Ele mostraraque a escolha de Rampolla conduziria a um antagonismo entre dois poderes católicos tradicionais. Nessas circunstâncias era vital que se escolhesse um candidato de compromisso. A próxima ronda, calculavam eles, seria decisiva. E assim foi. A partir do momento em que Sarto conseguiu vinte e sete votos, mais três do que Rampolla, toda a gente ficou a saber quem seria o próximo papa. Só era preciso que ele estivesse disposto a isso. Séculos antes, os canonistas tinham estabelecido um critério para a escolha de um papa. O problema era este: se o papa só por si tem a plenitude do poder, como é que este lhe pode ser outorgado pela Igreja, seja pelos cardeais, seja, mais remotamente, pelo clero e pelos leigos de Roma? E a resposta favorita era esta: o Sacro Colégio, com os seus votos, apenas apontava um candidato. Era necessária a aceitação do próprio nomeado para que Deus lhe entregasse directamente a plenitude do poder. A única questão agora era a de saber se Sarto aceitaria ou não. Monsenhor Merry del Val, o secretário do Conclave, de trinta e oito anos, inglês por nascimento e de família de origem espanhola, foi encarregado de pedir a Sarto que aceitasse. Quando o encontrou, o cardeal estava banhado em lágrimas; tinha-se intensificado a sua relutância. Mas na votação seguinte, com trinta e cinco votos, obteve mais do dobro dos de Rampolla. Na quarta manhã, à sétima votação, Sarto obteve cinquenta votos: era ele o papa, se aceitasse. O Cardeal Gibbons, de Baltimore, que tinha deixado Roma estupefacta quando lá apareceu de fato preto e chapéu de palha sobre o solidéu vermelho, estava entre os que o instaram a aceitar. Angustiado, Sarto acabou por aceitar e tomou o nome de Pio X, porque associava a sofrimento os seus antecessores com esse nome. Merry del val, que em breve seria nomeado Secretário de Estado, ia mesmo assim dar uma reprimenda ao Cardeal Puszyna. Dizia-se que nunca, nem mesmo nos calmos tempos de Alexandre VI, o ambiente das salas de Bórgia fora tão triste. O novo pontífice, prisioneiro como era do Vaticano, deu a sua bênção, não da varanda sobranceira à praça, mas da galeria interior da Basílica. O simbolismo deste facto havia de mostrar-se decisivo: no momento em que assumia funções, o papa voltava as costas ao mundo. Como logo observou o Cardeal dela Chiesa, futuro Benedito XV, Pio X era sinistramente parecido com Pio IX. Origem humilde Filho de um trabalhador, Giuseppe Sarto, nasceu na pequena cidade provinciana nortenha de Riese em 1834. Era o segundo de dez filhos. O pai, varredor de profissão, varria a câmara municipal. O pequeno Giuseppe havia de tornar-se infalível e varrer a Igreja universal. O rapaz era piedoso, afectuoso, esguio, de cabelo encaracolado e devotado à mãe. Sentindo desde cedo vocação para o sacerdócio, entrou para o seminário menor em Castelfranco. Fazia muitas vezes o caminho, sete quilómetros para cada lado, de pés descalços para poupar as solas. Nunca mudou a sua atitude para com a vida; era de uma bondade natural. Foi para o seminário maior em Pádua, onde seguiu o habitual curso de teologia e filosofia medieval. Foi ordenado padre quando tinha vinte e três anos, no ano de 1858. Depois disso, foi coadjutor em Tombolo durante nove anos — empenhou o relógio para dar de comer aos famintos. Foi prior de Salzano durante mais nove anos — a sua porta nunca se fechava — até que, aos quarenta e um anos, se tornou chanceler diocesano em Treviso. Vivia no
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    238 seminário, num quartoque dava para a colorida planície. Sentia-se feliz no seu ministério. Era conhecido pela sua bondade e generosidade para com os pobres. Trabalhava muito sem outra motivação que não fosse o amor de Deus e do seu semelhante. Em 1884, Sarto foi nomeado Bispo de Mântua. Ficou espantado, achando que o bispado estava para além das suas capacidades. Fez os possíveis por recusar, mas o Papa Leão insistiu. Em Junho de 1893, quando tinha cinquenta e nove anos, foi feito Patriarca de Veneza. Durante dezasseis meses não pôde tomar posse da sua Sé porque um governo anti-clerical lhe recusou um Exsequatur. Era outro sinal dos tempos. A Igreja estava a correr perigo por toda a parte. Uma consolação que ele teve foi uma visita de três dias à sua casa em Riese onde pôde confortar a mãe — encamada, aos oitenta anos — envergando o manto cardinalício. O Exsequatur chegou finalmente em Setembro de 1894, e Sarto celebrou o facto fazendo sair a sua primeira carta pastoral. Este homem bondoso e cordial mostrou que, como bispo, conseguia ser tão belicoso como os seus inimigos. «Deus» escreveu ele «foi expulso da vida pública pela separação da Igreja do Estado». A sua atitude em relação ao papado era do tipo mais rigoroso. «Quando falamos do Vigário de Cristo, não podemos estar com rodeios, temos de obedecer; não podemos medir o que ele disse para limitar a nossa obediência. […] A sociedade está doente. […] A única esperança, o único remédio, está no Papa». Mesmo para este homem santo e profundamente infeliz a única esperança não está em Cristo mas no Papa. Mal foi nomeado patriarca começou a denunciar as «pérfidas maquinações» do liberalismo, e especialmente dos católicos liberais que chamava de «lobos disfarçados de cordeiros». Em 24 de Novembro dirigiu-se de gôndola cardinalícia para a Cidade de Ouro. Havia multidões em cada ponte, em cada varanda; as pessoas debruçavam-se das janelas e empoleiravam-se perigosamente em estreitas saliências sobre o canal para receber a sua bênção. A gôndola deslizou até ao Cais e o Cardeal Sarto desembarcou na Praça de S.Marcos. Todos os edifícios estavam engalanados, excepto o da Câmara Municipal. Foi uma afronta dos anti-clericais que ele nunca mais esqueceu nem perdoou. Assim foi a entrada na vida daquele que se intitulava de «um pobre cardeal campónio». As suas duas irmãs tratavam de tudo aquilo de que ele precisava e que era muito pouco. Das cinco da manhã até à meia-noite, trabalhava sem parar. Não se importava que lhe chamassem Don Beppe. O rendimento da Igreja, dizia este homem que nunca tinha tido dinheiro nenhum, era património dos pobres. Insistia numa liturgia digna de Deus e não da habitual e fortuita história italiana. Devia ser abrilhantada com cânticos gregorianos, a música dos anjos; a Eucaristia devia ser frequente. Desta maneira passou ele nove anos relativamente tranquilos até partir para votar para a sucessão de Leão XIII. Comprou um bilhete de comboio de ida e volta e prometeu aos seus diocesanos que voltaria vivo ou morto. Foi a única promessa que não cumpriu. Um estranho no Vaticano Era um perfeito estrangeiro em Roma. Habituara-se em toda a sua vida a pessoas simples e a problemas simples que podiam ser resolvidos com muito trabalho e bondade
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    239 pessoal. O seureinado não viria a ser feliz. Os seus olhos grandes e luminosos eram de uma permanente tristeza. Os seus ajudantes, como Merry del Val e o Cardeal de Lai, traziam-lhe não apenas factos, mas interpretações dos factos que o convenciam, se não estava já convencido, de que a humanidade estava doente. O principal dos males era a abjuração de Deus. Ele falava em privado e em público da depravação moral, de um mundo a desfazer-se. Depois da Revolução Francesa, a maioria dos papas, foram pessimistas incuráveis. Aquilo que Pio IX vira como um desastre era o advento da democracia. Aquilo que Pio X via como um mundo moribundo não era senão um novo mundo a nascer. Faziam-se avanços sem precedentes na ciência e tecnologia. A arqueologia revelava a idade do mundo. Os cristãos, seguindo as ideias de John Lightfoot, um académico de Cambridge do século XVII, supunham que a criação tinha tido lugar numa manhã de outono — isto é, no Hemisfério Norte — no ano 4004 a. C. Mais precisamente, Deus disse «Faça-se luz» em 23 de Outubro de 4004 a.C. às nove da manhã. Os eruditos andavam agora a negar que o homem foi criado perfeito, tal como sugeria uma leitura literal do Génesis; o homem fazia também parte do processo da evolução. Os historiadores revelavam coisas até então desconhecidas sobre o passado da Igreja, especialmente sobre os anos da formação. E o mais alarmante de tudo, do ponto de vista de Pio X, era que a exegese estava a pôr em questão uma interpretação literal do Velho e Novo Testamentos. A Vie de Jésus de Renan tinha gerado inúmeras obras de “infidelidade”, como Pio IX profetizara. Pio X ficou desconcertado com a dimensão da tarefa que Deus lhe reservara a ele, um camponês de Riese. Mais um exemplo de que Deus escolhe as coisas absurdas do mundo para confundir os sábios. Ele era o pontífice, a única esperança e remédio para um mundo doente. Da sua exaltada, quase divina, elevação estava pronto a exigir para si próprio a obediência cega que ele próprio tinha tido para com Leão XIII. Confiava no Espírito para o ajudar a salvar a Igreja dos graves perigos que a ameaçavam de dentro. Havia uma conspiração em marcha no próprio coração da Igreja, estava convencido disso. Os teólogos, os investigadores das Escrituras aliaram-se com todas as forças anti- Deus num mundo pós-revolucionário. O seu único objectivo: aniquilar a Igreja. A segunda encíclica de Pio X apareceu nessa data mágica de 8 de Dezembro de 1904. Era o quinquagésimo aniversário da definição da imaculada concepção. A sua Carta revela o tipo de espírito que ele trouxe para suportar os problemas com que a humanidade se estava a debater naqueles tempos, dos mais originais e excitantes da história. Adão chorou com o seu castigo, mas viu que Maria despedaçou a cabeça da serpente. Noé a salvo na Arca antecipou-a. O mesmo se passou com Abraão quando o seu braço se deteve. E também com Jacob quando viu na terra uma escada a chegar ao Céu; uma escada para os anjos de Deus subirem e descerem. Moisés viu-a nas moitas que se incendiaram e não arderam. David cantou-a quando dançou diante da arca das promessas de Deus. Elias viu-a na pequena nuvem que se ergueu do mar. Mas para quê continuar? A aplicação errada das Escrituras podia ter passado despercebida numa aldeia obscura da Itália daquele tempo; não augurava nada de bom como meditação de um papa no período pós-Vaticano I. Ele tinha a plenitude do poder. Era o governador supremo da Igreja. Pessoalmente infalível, esperavam-se dele, e praticamente só dele, as respostas a todas as dificuldades que a ciência estava a levantar ao Catolicismo
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    240 tradicional. Não admiraque se sentisse esmagado pelos problemas que, depois de 1870, esperavam que ele resolvesse sozinho. A Verdade Bíblica para os católicos Mesmo antes de Pio X, a Igreja já se tinha metido em confusões sobre a Bíblia, particularmente sobre uma passagem da Primeira Epístola de S.João (5:7), conhecida como o Comma Joanino. Porque são três a dar testemunho no céu: o Pai, o Verbo e o Espírito Santo; e estes três são um só. E são três a dar testemunho na terra: o Espírito, a água e o sangue, e estes três são um só. Em 1897 o Santo Ofício chamou a si a decisão de que isto era Evangelho genuíno. E proibiu os investigadores de o dizerem de maneira diferente. Este foi o primeiro de uma longa série de erros. O testemunho celeste não figura em um único manuscrito grego. Foi acrescentado aos manuscritos latinos, provavelmente no Norte de África, porque Cipriano o mencionou em 258, tal como Agostinho cerca do ano 400. Nos seus textos os testemunhos terrenos vinham primeiro. No século XIV o texto foi adulterado para pôr o testemunho celeste em primeiro lugar. Isto era uma discussão puramente académica. A intervenção do Santo Ofício significava que os autores católicos eram obrigados a esquecer as provas e a inclinarem-se perante um juízo insensato na base de uma obediência cega. Como resultado, tiveram de fingir que o Santo Ofício tinha razão, quando qualquer investigador digno desse nome sabia bem que não tinha. A partir de então o estudo da Bíblia na Igreja Católica passou a ser uma ocupação arriscada. O decreto de 1897 esteve em vigor durante trinta anos. Depois, ignorando a verdade, o Santo Ofício disse que aquele pretendera simplesmente refrear a “audácia” dos doutrinadores particulares que, em vez de deixarem as coisas para o papa, chamavam a si o julgamento da autenticidade dos textos bíblicos. Assim, a partir de 1927, os católicos tinham o direito de «se inclinarem para a não genuinidade do Comma, desde que se mostrassem prontos a apoiar o julgamento da Igreja à qual Jesus Cristo confiou a função não só de interpretar a Sagrada Escritura mas também de a preservar fielmente». Isto implicava que a Igreja não precisava dos investigadores. O papel destes é apenas o de transmitir as decisões dos papas, que são os únicos que podem dizer ao mundo o verdadeiro sentido do Evangelho. A longa lista de interpretações papais erradas dos Evangelhos — mesmo ao ponto de fazer do imperador uma marioneta do papa - não dava aos investigadores garantias de total confiança nas suas decisões. Leão XIII compreendeu que havia qualquer coisa de errado nos seus cães de guarda do Santo Ofício que pontificavam sobre os Evangelhos e criou uma Comissão Bíblica nos anos que precederam a sua morte. Nomeou quarenta e um consultores, muitos dos quais liberais. Pio X substituiu imediatamente os liberais por reaccionários e, entre 1906 e 1914, estes emitiram uma série de fantásticas decisões a que todos os investigadores católicos da Bíblia tiveram de aderir. Depois do Vaticano I, tudo na Igreja ficou centralizado. Todos os problemas bíblicos, todos os quebra-cabeças morais eram levados a Roma, geralmente pelos bispos e investigadores ultra-conservadores, para uma decisão.
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    241 Ao concordarem comos decretos da Comissão Bíblica, os investigadores católicos colocavam-se efectivamente fora da vida académica de reputação. Contra toda as evidências que se vinham acumulando, tinham de aceitar que Moisés escreveu todo o Pentateuco (os cinco primeiros livros da Bíblia), e que os capítulos 40-66 de Isaías eram de um só autor. Cinquenta anos depois da Origem das Espécies, tinham de defender e ensinar que os três primeiros capítulos do Génesis eram rigorosamente históricos. A primeira mulher foi criada a partir de uma costela de Adão; o primeiro pecado foi a transgressão de um específico mandamento divino pela tentação do demónio em forma de serpente. Em 1907, a Comissão Bíblica “decidiu” que todos os quatro Evangelhos foram escritos por aqueles de que têm os nomes e que Paulo escreveu todas as epístolas pastorais bem como a Epístola aos Hebreus. Os investigadores católicos da Bíblia fugiam a esconder-se como caranguejos assustados. Viviam com medo de serem denunciados a Roma pelos seus estudantes ou colegas. Perseguidos pelo medo da excomunhão ao mais pequeno passo em falso, só podiam no melhor dos casos relatar as investigações esclarecidas dos seus irmãos protestantes manifestando ostensivamente a sua desaprovação: era a única maneira de fazerem passar opiniões sensatas. Só assim podiam sobreviver na esperança de melhores dias. Mesmo o melhor investigador da Bíblia desse tempo, Père Lagrange, foi proibido de publicar o seu Comentário sobre o Génesis. E contudo, durante bem mais de cem anos, muito antes de Darwin, nenhuma pessoa qualificada, religiosa ou não, foi ao ponto de tomar os primeiros capítulos do Génesis à letra. Se a Igreja não tivesse posto Voltaire no Index, talvez tivesse aprendido com ele. Na sua Homilia sobre o Velho Testamento ele apontava os erros e contradições do texto do Génesis. A ideia de que todo o sofrimento humano, mesmo a doença e a morte, são devidas a um pecado do Primeiro Pai da raça já não é mais credível do que a caixa de Pandora. Só quando o mito é aceite como mito é que tem beleza e significado. Voltaire foi mais satírico quando tratou do Dilúvio e da Arca de Noé: É inútil as pessoas argumentarem que nos anos mais chuvosos não se consegue ter setenta centímetros de chuva […] que os animais da América ou das terras do sul não conseguiam alcançar a arca; que sete casais de animais puros e dois casais de não puros não cabiam em vinte arcas. […] As dificuldades não têm fim. Mas todas elas se resolvem dizendo que todo este grande acontecimento foi um milagre — isto põe fim a toda a discussão. Mais de cem anos antes de Voltaire, Galileu oferecera praticamente às autoridades da Igreja a mesma chave para desvendar os mitos e os mistérios do Génesis. A razão estava séculos à frente da Igreja naquilo que devia ter sido a sua principal área de competência: as Escrituras. Em vez disso, no dizer de Voltaire, a Igreja alimentava os filhos com «uma dieta de bolota». No tempo de Pio X, os investigadores católicos estiveram sujeitos a uma terrível perseguição. A sua causa imediata foi o entendimento de Pio daquilo a que ele chamava “Modernismo”. O ataque ao Modernismo Precisamente como Pio IX publicou o seu Manual dos Erros contra todas as tendências liberais, também Pio X, em 1907, escreveu Lamentabili, um ataque às
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    242 “inovações”. Foi particularmenteduro para com a mais recente interpretação dos dogmas e das Escrituras. Entre as afirmações que escolheu ao acaso de entre os escritos de teólogos e exegetas a condenar estavam estas: 2. A interpretação da Igreja dos Livros Sagrados não deve de modo nenhum ser rejeitada; contudo, está sujeita ao julgamento e correcção mais exactos dos exegetas. 5. Como o sedimento da Fé contém apenas verdades reveladas, a Igreja não tem o direito de julgar as afirmações da ciência. 12. Se o exegeta deseja aplicar-se utilmente aos estudos bíblicos, tem primeiro de pôr de lado todas as opiniões preconcebidas sobre a origem sobrenatural da Sagrada Escritura e interpretá- la como qualquer outro documento humano. 16. As narrações de João não são propriamente história, mas apenas uma contemplação mística do Evangelho. As exposições contidas no Evangelho são meditações teológicas que carecem de verdade histórica a respeito do mistério da salvação. 13. Os exegetas heterodoxos exprimiram o verdadeiro sentido das Escrituras mais fielmente do que os exegetas católicos. 22. Os dogmas que a Igreja sustenta como revelados não são verdades que caíram do céu. São interpretações de factos religiosos que o espírito humano adquiriu com laborioso esforço. 33. Todos os que não sejam levados por opiniões preconcebidas podem ver prontamente que ou Jesus professou um erro a respeito da imediata Vinda Messiânica, ou então a maior parte da sua doutrina contida nos Evangelhos carece de autoridade. 53. A constituição orgânica da Igreja não é imutável. Tal como a sociedade humana, a sociedade cristã está sujeita a perpétua evolução. Com algumas pequenas restrições, estas afirmações representariam hoje uma expressão daquilo em que muitos investigadores crêem. Lamentabili foi uma triste tentativa de reprimir todo o progresso como se se tratasse de uma seita herética. Pio X deixa muitas vezes a impressão de estar a condenar a sua própria fantasia. Muito daquilo que ele censura está deturpado e é duvidoso que alguma vez alguém o tenha defendido. Ele tinha a tendência para meter no mesmo saco tudo aquilo de que discordava, rotulando-o de «Modernismo, um compêndio de heresias» e avisava os católicos de que não deviam meter-se nisso. Ele, Vigário de Cristo, é que os guiaria para a segurança através dos pântanos do mundo moderno. Evidentemente que tinha razão para preocupações. A Igreja, retrógrada há séculos, estava agora a ser revelada como tal pela história, pela ciência, pela paleontologia, pela exegese. A Igreja
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    243 tinha de escolherentre aprender muito depressa ou enquistar. A Encíclica Pascendi que em pouco tempo se seguiu à Lamentabili mostrou que Pio tinha optado por enquistar. Aquela encíclica está infelizmente cheia da retórica negra das afirmações papais desse período. Há inimigos da Cruz de Cristo, Protestantes no próprio seio da Igreja, cujo objectivo é destruir a Igreja de Cristo e anular a sua obra. Estes cripto-Protestantes querem reduzir Cristo ao estatuto de homem vulgar. Estes “Modernistas“, disse ele, não crêem na revelação, nem em Deus, nem na Igreja como instituição divina. São uma organização bem urdida; escondem-se em todas as áreas, na filosofia, na teologia, nos estudos bíblicos, na política. Nada disto era, nem sequer remotamente, plausível. É difícil acreditar que os católicos, com explícitas convicções protestantes, se escondessem no seio da Igreja com o único fim de a destruir espalhando a sua descrença. O que estava realmente a acontecer era que o mundo estava a atingir a maioridade. Estava a dar-se uma revolução no espírito do homem, que era uma extensão daquilo que tinha acontecido no espírito de Galileu. A ciência começava a dar resposta às questões que as gerações anteriores tinham deixado aos padres e às orações. Pio vivia ainda mentalmente num mundo medieval onde Deus intervinha “lá de fora” ou “lá de cima” por meio de milagres e afirmações feitas ao ouvido dos profetas e dos papas. Acreditava, por exemplo, que só por olhar para um texto da Bíblia um papa, só por si, sem qualquer competência especial nas Escrituras, podia interpretar o seu significado para sempre. Pio representava a intemporalidade, o absolutismo de todas as doutrinas num período da História em que se tornava cada vez mais claro que a relatividade entrava em todos os juízos morais e expressões de fé. Os investigadores diziam que tudo tinha de ser pensado de novo e em termos diferentes. O homem não é uma criatura do absoluto, excepto na sua busca do Além; faz necessariamente parte integrante de um mundo em mudança. Tudo está em mudança, incluindo o seu entendimento de si próprio, de Deus e da revelação. O Velho Testamento fornece exemplos disto. Gradualmente, um Deus judeu local com poderes limitados e ainda mais limitado número de simpatizantes, transforma-se num Deus de Exércitos até que por fim teve a percepção de que era o Deus da criação e da História. O Novo Testamento também mostra que Jesus não é uma criatura de fora do mundo que irrompeu nele, mas um ser humano que em certo sentido, tal como todos os seres humanos, estava sempre presente. A revelação do Novo Testamento não é o dar e receber das divinas afirmações mas uma gradual percepção do significado da vida e da morte, e da ressurreição de Jesus, moldada pela pregação e ensinamentos numa ferramenta pedagógica, em lugares diferentes e de acordo com as diversas necessidades das diferentes comunidades, a grega e a judaica. A historicidade do homem, que tanto excitou os investigadores do tempo, era um anátema para Pio X. Este sente-a como uma ameaça para a Igreja e para a sua posição dentro dela como Voz das verdades eternas. Dois modernistas A melhor forma de julgar um regime é talvez observar a maneira como esse regimetrata os intelectuais. No tempo de Pio X os intelectuais católicos foram tratados com muita severidade. George Tyrrel foi um deles. Nascido em Dublin em 1861, foi educado na Igreja da Irlanda, mas aos dezoito anos foi para Inglaterra onde se tornou católico e jesuíta. Era um belo escritor e parecia estar destinado a integrar a elite da Congregação. Isto até
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    244 chegar à conclusãode que S.Tomás de Aquino não dava resposta a todas as perguntas que o homem moderno estava a pôr. Era absurdo pensar que se Aquino tivesse podido ler Galileu, Newton e Darwin não teria mudado uma única das suas ideias. Teria, pelo contrário, alterado quase todas as linhas que escreveu. Contudo, Pio X na sua encíclica sobre o sacerdócio, Pieni l’anima, de 1906, disse: «Deixe-se que o estudo da filosofia, da teologia e outros relacionados, especialmente a Sagrada Escritura, continuem no espírito dos documentos papais e de S.Tomás de Aquino». Sentindo-se ameaçado, Tyrrel escreveu alguns livros sob vários pseudónimos: A. R. Waller, Hilaire Bourdon, Dr.Ernest Engels. Foi descoberto e demitido da Congregação no primeiro dia de Janeiro de 1906. Foi proibido de celebrar missa, embora nunca tenha sido formalmente acusado de heresia. O Arcebispo Mercier Malines estava pronto a recebê-lo na sua diocese. Mas o Cardeal Ferrata, Prefeito da Sagrada Congregação dos Bispos e Clero Regular, pôs condições prévias muito rigorosas. O famoso Tyrrel, de quarenta e cinco anos, devia «garantir formalmente que não publicaria nada sobre questões religiosas, nem manteria correspondência sem o acordo prévio de pessoa competente nomeada pelo arcebispo». Tyrrel não podia suportar a ideia de ter a sua correspondência censurada. Isto, disse ele, é «o tratamento dado pelo Czar a um anarquista». Mas afinal, aos olhos da Igreja, ele era de facto um anarquista aliado a outros anarquistas para minar as fundações da Igreja. Escreveu uma carta pessoal ao papa. «Nós temos o direito de buscar em Vossa Santidade uma direcção tanto positiva como negativa; uma construção da verdade, mas também uma destruição do erro». Nunca obteve resposta. Quando Frei Tyrrel escreveu uma crítica à Encíclica Pascendo no último dia de Setembro de 1907, proibiram-no de receber os sacramentos. Nessa altura já ele sofria muito de enxaqueca e dos rins. Sentiu-se tentado a voltar para a Igreja da sua infância, mas tinha sofrido muito pelo Catolicismo e ansiava por ser útil aos seus irmãos católicos. Deixou-se ficar à fria porta da Madre Igreja, na esperança de uma palavra de simpatia que nunca chegou. No leito da morte, foi absolvido dos seus pecados, embora tivesse deixado claro que não se retractaria. Isto foi na aldeia de Sorrington, à beira dos Downs do sul. Chamaram o seu velho amigo Abade Bremond. Num momento de lucidez Tyrrel conseguiu falar com ele. O abade absolveu-o uma vez mais dos seus pecados. Apesar disto, proibiram-lhe uma missa de requiem. Não se tinha submetido à Santa Sé. Recusaram-lhe o enterro num talhão católico e os amigos enterraram-no num cemitério anglicano. No funeral, depois de algumas simples orações, o Abade Bremond fez um magnífico elogio fúnebre que deve ter chegado aos ouvidos do Bispo de Southwark, pois, três dias mais tarde, o Prior de Sorrington recebeu dele um telegrama: «Não permiti que Bremond diga missa». Mesmo antes do fim, Tyrrel tinha escrito a um amigo: «O meu próprio trabalho — que considero acabado — foi levantar uma questão a que não consegui responder». Isto é um bom epitáfio para um grande e santo padre para quem não havia espaço em Roma. Outro padre vítima da perseguição papal foi o Abade Loisy. Aluno do grande Monsenhor Louis Duchesne, depressa viu que aquela posição de Roma sobre as Escrituras não era sustentável. Mesmo fingir-lhe lealdade era ruinoso para a consciência cristã. Em 1903 publicou L’Evangile et l’Église. Pio X respondeu com uma censura imediata. Em Março do ano seguinte, Loisy escreveu ao papa. Foi um acto de grande humildade para um homem para quem a humildade não era fácil.
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    245 A carta começava:«Santíssimo Padre, conheço bem a bondade do vosso coração e é ao vosso coração que agora me dirijo». Ofereceu-se para denunciar publicamente o seu recente livro, para renunciar ao seu leitorado na École des Hautes Études e para suspender as publicações científicas que tinha entre mãos. Pio X não lhe respondeu. Em vez disso, escreveu ao conservador Cardeal Richard, de Paris: «Recebi uma carta do Rev. Abade Loisy em que ele apela ao meu coração, mas a carta não foi escrita com o coração». Insistia numa submissão absoluta e sem restrições por parte do abade. Deve ser particularmente instado a «queimar o que adorou e adorar o que queimou». Quando esta informação foi transmitida a Loisy, este confessou que alguma coisa tinha estalado dentro de si. Teria sido o último elo que o ligava à sua fé da infância? «Naquela carta» escreveu ele, «estava a última gota que restava da minha alma católica». Pio X tinha apagado a chama e quebrado o elo já fendido. Em Março de 1908, Pio X excomungou Loisy, apelidando-o de vitandus, a forma mais severa de censura conhecida na lei canónica. Significava ela que os católicos ficam proibidos, excepto em estrito caso de necessidade, de manter qualquer relação com ele, não simplesmente dentro da igreja, mas também fora dela. Para Pio, o Abade Loisy tinha deixado de existir. Quando o Abade Bremond, amigo de Tyrrel e de Loisy foi feito membro da Académie Française em 1924, disse no seu discurso: «Vivi sob quatro pontífices: Pio IX, Leão XIII, Benedito XV e Pio XI». O que é que isto implicava? Que nem ele nem ninguém tinha vivido sob o santo Pio X? Ou que para ele Pio X deixara de existir? De que é que servia a Tyrrel ou a qualquer outra pessoa levantar uma questão, se Pio X tinha as respostas todas na manga? O rescaldo Tyrrel e Loisy não foram as únicas vítimas. Pio X instigou uma tal purga de investigadores que cinquenta anos depois da sua morte os seus efeitos ainda se fazem sentir. Lagrange nas Escrituras e Duchesne na História foram obrigados a seguir a linha papal, caso contrário seriam atirados para o monte dos descartados. Duchesne viu-se obrigado a deixar a sua cadeira no Instituto Católico de Paris; o seu livro seminal sobre as origens do Cristianismo foi posto no Index. Foi imposta uma rigorosa censura prévia à publicação de todos os livros e revistas. Os padres tinham de pedir autorização para escrever para ou nos jornais. Foi criado um conselho de vigilância em todas as dioceses. Havia mesmo uma sociedade secreta, patrocinada pelo papa, para contrabalançar as obras da alegada “sociedade secreta” dos inimigos de Cristo. Nos seminários e universidades os professores eram escrutinados e se lhes era descoberta qualquer falta de “lealdade“ eram substituídos. Felizmente para o futuro da Igreja Católica, um padre que ficou sob suspeita era um jovem italiano; recebeu ordem para se apresentar em Roma para exame como possível “Modernista”. Chamava-se Angelo Roncalli, o futuro João XXIII. Pio X elaborou um voto anti-modernista que todos os padres e professores eram obrigados a jurar. Nem a Inquisição nos seus melhores dias foi mais eficiente a extirpar todo o sinal de dissidência. Para muitos católicos leais ainda hoje, Pio X salvou a Igreja.
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    246 Para outros, estesanto e trágico papa apenas a “salvou“ de influenciar, acelerando-o, o progresso da espécie humana. Diz-se que cerca de 1910 o Modernismo estava morto. É mais certo dizer que, tal como Pio o entendeu, nunca esteve vivo. No entanto, entre as afirmações que condenou havia elementos fadados a perseguir a Igreja Romana durante gerações futuras. Os problemas que confrontam a Igreja em todos os campos não podiam ser adiados para sempre. O Catolicismo andava a reboque do mundo. Havia o perigo de que se assim continuasse por tempo demais, intelectualmente falando, a Igreja Católica se tornasse motivo de troça. Os dois papas seguintes, Benedito XV e Pio XI, foram intelectualmente pesos-leves. Pouco fizeram para ajudar a Igreja a enfrentar o mundo moderno. Pio XI foi um pontífice muito na tradição de Pio IX. Sobre o ecumenismo teve isto para dizer: Esta Sé Apostólica nunca permitiu aos seus súbditos que tomassem parte em reuniões de não católicos. Só há uma maneira possível de promover a unidade dos cristãos que é a de incrementar o regresso à única Igreja verdadeira daqueles que dela se separaram. Pio XII foi, em comparação com Pio XI, um intelectual gigantesco. Tem-se dito que poucos foram os avanços feitos no Vaticano II que não foram de alguma forma esboçados na sua obra. Mas poucos pontífices neste século exemplificaram melhor do que ele o absolutismo do papado. A impressão que deixava era que ele e só ele tinha a solução para todos os problemas. Como Igreja, o Catolicismo estava a ficar cada vez mais longe das descobertas da ciência e das aspirações do homem moderno. Quando Pio XII morreu em 1958, o mundo católico chorou o desaparecimento de um grande homem cujo lugar parecia não haver no horizonte ninguém capaz de preencher. Nesse momento negro, deu-se um milagre.
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    Terceira Parte O Amor «Nuncao diabo prejudicou tanto a Igreja como quando a própria Igreja adoptou o voto do celibato» Peter Comestor, no Século XII
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    249 15 O Papa queAmava o Mundo Mas a aparência das coisas não era de facto a de um milagre quando, em 1958, Angelo Roncalli se encaminhou vagarosamente para a varanda da Basílica de S.Pedro para dar a sua bênção Urbi et Orbi, à Cidade e ao Mundo. O novo papa mais parecia uma bondosa avó italiana do que o Sumo Pontífice. Pio XII acostumara os católicos a uma presença majestática e reveladora de uma fina inteligência. Roncalli, como se veria, era um papa de transição, um velho que asseguraria o lugar durante uns anos até os cardeais poderem decidir quem, na próxima ronda, substituiria o insubstituível. Seria provavelmente Montini, de Milão, outrora confidente de Pio. Se Montini fosse já cardeal quando o conclave de 1958 começou talvez tivesse sido ele a suceder-lhe logo nessa altura. E qual o nome deste afável velho? João XXIII. Já não havia um papa João há mais de quinhentos anos. Antes disso, este fora claramente o nome mais popular para os pontífices. Afinal, era o nome do bem-amado Discípulo Baptista. Os mais cultos no meio daquela multidão na Praça de S.Pedro sabiam que já tinha havido um Papa João XXIII. E foi este, de facto, o responsável pela maldição que caiu sobre esse nome. Foi deposto pelo Concílio de Constança em 1415. Ficou sepultado num túmulo desenhado por Donatello no baptistério octogonal da Catedral de Florença. A sua efígie de pedra sustenta a inscrição “Aqui jaz o corpo de Baldassare Cossa, João XXIII, que foi papa”. Naquele ambiente tenso próprio da eleição, nenhum papa desde Cossa se arriscou a assumir o nome de João. Porquê começar um pontificado com um sopro de polémica? Roncalli viria a explicar que, tanto quanto sabia, os Joãos não tinham vivido muito tempo, e ele já estava quase nos oitenta. A situação era ainda mais estranha do que aquilo que o próprio Roncalli provavelmente sabia. Além de Cossa (“João XXIII”), houve também o caso de João XVI (997-8) que foi um anti-papa. Mais: não há na lista nenhum João XX. O papa que podia ter tomado esse nome em 1276 chamou-se João XXI porque estava convencido de que tinha havido um papa extra no século IX. Este papa “extra“ foi o Papa João (aliás, Papisa Joana)! Enquanto Roncalli intrigava muita gente por não se intitular João XXIV, a verdade é que ele era de facto apenas João XXI. Angelo Roncalli nasceu em 25 de Novembro de 1881 na aldeia de Sotto il Monte, perto de Bérgamo, no norte da Itália. O pai, Giovanni Battista, era um pobre lavrador. Angelo era o terceiro de treze filhos e o mais velho dos rapazes. A casa onde nasceu tinha três divisões, contando com a cozinha, mas pouco depois de Angelo nascer a família mudou-se para uma casa ligeiramente mais espaçosa. Angelo foi baptizado no dia em que nasceu. O seu cuidadoso Tio Zaverio agasalhou- o do frio gelado e da chuva que cegava e levou-o à pequena igreja de Santa Maria, em Brusico. Foi ao principio da tarde. O pároco estava ausente em visitas e eles tiveram de voltar mais tarde, nesse mesmo dia, já à noite. Por essa altura já Giovanni Battista tinha mandado registar o recém-nascido. O atraso deveu-se à tenacidade da mulher, Marianna, que também esteve presente.
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    250 As recordações deAngelo dos seus primeiros anos continuaram vivas até ao fim. A casa estava sempre cheia, com os irmãos e as irmãs e os numerosos primos. Às vezes a vida da família era feita da sobrevivência do dia a dia. Escreveu ele: Na nossa mesa nunca havia pão, apenas polenta [feito de farinha de milho]; nem vinho para as crianças e jovens; e raramente havia carne; só no Natal e na Páscoa é que comíamos uma fatia de bolo feito em casa. […] E contudo, quando um pedinte nos batia à porta da cozinha, na altura em que as crianças esperavam impacientemente pela malga de minestra [sopa de legumes], havia sempre lugar para ele, e a minha mãe apressava-se a sentar o desconhecido à nossa mesa. Mas é claro que o pedinte não era de facto um desconhecido. Aos olhos de Marianna Roncalli era o próprio Jesus. Aquela percepção transmitia-a ela a todos os filhos com este simples gesto de caridade. Aos dez anos, Angelo concluiu que tinha vocação para o sacerdócio. Isto representava um grande sacrifício para a família, mas conseguiram-lhe um lugar no Seminário Menor de Bérgamo. Por essa altura já ele tinha aprendido os rudimentos de latim com o pároco local. Em 1900, entrou para o Collegio Cesarola em Roma. Ordenado em 10 de Agosto de 1904, disse a primeira missa no Altar da Confissão da Basílica de S.Pedro. Depois de obter o doutoramento em Teologia, foi nomeado secretário do liberal Bispo de Bérgamo, lugar que exerceu durante nove anos, período em que também ensinou História da Igreja no seminário. Durante a Primeira Grande Guerra, serviu como assistente hospitalar. Por qualquer razão nunca explicada deixou crescer um farfalhudo bigode preto. Talvez fosse apenas uma experiência. Em 1922, enquanto fazia investigação na Biblioteca de Milão, conheceu o director, Monsenhor Achille Ratti, futuro Pio XI, que simpatizou com aquele padre impaciente, de olhos afastados. Três anos mais tarde, em 19 de Março de 1925, Angelo Roncalli foi nomeado bispo. Celebrou missa uma vez mais sobre o túmulo de S.Pedro. Já com quarenta e quatro anos, entrou para o corpo diplomático da Igreja. Aqueles que pensam que o Papa João era um homem inculto devem lembrar-se de que, além do italiano, sua língua mãe, ele falava fluentemente latim, grego, francês e búlgaro. Falava também um pouco de espanhol, turco e romeno. Lia em inglês, alemão e russo. Teve uma carreira longa e distinta nos Balcãs antes de ser enviado para Paris como núncio no fim da guerra. A sua missão era a de aí devolver à Igreja a respeitabilidade abalada pelo seu pobre desempenho durante a ocupação nazi, quando os bispos colaboraram com o inimigo. Fez um trabalho extraordinário de reconciliação. Como decano do corpo diplomático, competia-lhe representá-lo nos actos oficiais. Os seus discursos estão registados e revelam uma paz interior e uma tranquilidade invulgares. A ideia que não se cansava de acentuar era a da liberdade e do respeito pelos direitos de toda a gente. Numa alocução dirigida ao Presidente Auriol em 1947, referiu-se ao Novo Testamento como a Magna Carta da civilização que nos fez grandes. «Abençoados os humildes porque eles herdarão a terra; abençoados os pacificadores porque serão chamados filhos de Deus». Num outro discurso de Ano Novo dirigido ao Presidente falou de liberdade, liberdade em todos os sectores da vida […]
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    251 Entre as recordaçõesda minha infância ainda nutro especial carinho por uma poderosa afirmação de Cícero que nós tínhamos de aprender nas nossas primeiras lições de latim: é uma nobre expressão de sabedoria romana: Legum servi sumus, ut liberi esse possumus (Estamos sujeitos à lei para sermos livres). Por esta altura — estávamos em 1947 — já ele dizia em cartas pessoais que, embora estivesse bem de saúde, estava já «a ficar velho e mostro sinais da idade». Era inequivocamente o Papa João tal como a história o recordará. Tudo nele era grande, excepto a altura: os olhos, as orelhas, a boca, o nariz, o pescoço, o coração. Sobretudo o coração. O rosto era como um puzzle de peças desirmanadas, o coração, uma das obras primas de Deus. Embora fosse um homem do mundo, nunca perdeu a visão de uma criança. A falar com os jovens ficava no seu melhor. Num discurso dirigido a um Congresso de Juventude, em Angers, em 1946, revelou a sua postura fundamental em relação à vida. A vossa vida, jovens, está virada para o futuro. Peço-vos: não percam tempo a culpar o presente ou a suspirar pelo passado, que não tem interesse para vós, excepto na medida em que vos pode oferecer úteis lições e avisos para que não repitam aqueles erros que foram e ainda são fatais para os homens e para as nações. Tal como uma criança, Angelo Roncalli estava inteiramente virado para o futuro. Foi este dom inestimável que ele trouxe ao papado. Isto e a sua intrepidez absoluta. No seu discurso final ao Presidente Auriol, após oito anos como decano, disse: «Se mantivermos uma sólida fé, um invencível optimismo e o coração sensível aos apelos sinceros à fraternidade humana e cristã, todos temos direito à coragem de esperar com confiança a ajuda de Deus». Amor, amizade, optimismo eram virtudes que ele tinha em abundância. E os seus colegas reconheciam isso, tal como os seus opositores, que se recusavam a chamar-lhe inimigo. Roncalli ficava fora de tais categorias. No banquete de despedida em sua honra, em Paris, Edouard Herriot, líder do Partido Radical, deu o seu próprio testemunho. «Se todos os padres fossem como o Núncio Roncalli» disse ele, «não restaria ninguém anti-clerical». Era altura de tomar o seu novo lugar de Patriarca de Veneza. Numa cerimónia no Palácio do Eliseu, o seu amigo Presidente Auriol insistiu no seu já antigo privilégio de conferir o barrete vermelho a um homem que ele acabara por respeitar profundamente. No seu discurso, Roncalli disse que iria ter sempre em Veneza uma lâmpada acesa pelos seus amigos. Cuidado, disse em resposta o vice-decano, o General canadiano Varrier. «Todos nós somos vossos amigos e quando formos a Veneza, a primeira coisa que vamos procurar é a lâmpada acesa em frente da casa do Patriarca. Nós sabemos que nos basta bater para que a porta logo se abra». Depois de uma curta estadia em Roma para uma audiência com Pio XII, Roncalli tomou conta do seu novo cargo em Veneza. A grandiosidade da recepção deixou-o confundido. Foi uma semana triunfal, disse ele. E escreveu a um antigo colega de Paris: «Oh! Quanto entusiasmo! Que entrada triunfal no cenário incomparável da Laguna, toda enfeitada como se para uma festa». Tomou posse da catedral oitocentista de S.Marcos, a que os turcos trouxeram os seus padrões depois da Batalha de Lepanto em 1571. A esta grande diocese disse ele: «Sou filho de pais pobres. Mandou a Providência que eu deixasse a minha casa e saísse para o mundo. […] Pensai no vosso arcebispo não como um político, mas como um pastor». Era este o seu tema constante e invariável. O
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    252 seu papel nãoera senão o do Bom Pastor de Deus. «Envolvo num abraço de especial protecção paternal as crianças, os pobres, os sofredores e os trabalhadores» disse ele. Como patriarca, Roncalli teve uns bons anos de paz e satisfação. O seu optimismo era contagioso. Parecia ter chegado ao topo de uma carreira admirável. De origem camponesa como era, podia dizer como Homero na Odisseia: «Muitas cidades eu vi e muitos homens». Tinha atrás de si dez anos em Sófia, Bulgária, e mais dez em Istambul. Paris foi o seu último posto no estrangeiro. Estava pronto para dizer adeus a um mundo que ele tinha feito os possíveis por servir. Voltava todos os anos à sua terra, Sotto Il Monte, para recuperar energias, para se sentir ele mesmo entre os irmãos e irmãs. Era uma família com tradição de longevidade. O pai morreu aos noventa e seis anos e a mãe aos noventa e quatro. As fotografias da época mostram o patriarca com os irmãos Giovanni, Zaverio, Alfredo e Giuseppe, todos de fato preto e sapatos a brilhar e, à excepção de Angelo, todos com ar algo desconfortável. O rosto de Angelo, o único gordo, apenas revela orgulho nos irmãos. Tal como Giuseppe Sarto antes dele, Roncalli esperava naturalmente acabar os seus dias em Veneza. Também ele se enganou. Eram cinquenta e um os cardeais que iriam votar para a eleição do sucessor de Pio XII. A primeira votação realizou-se em 26 de Outubro de 1958. Só à décima primeira votação é que Roncalli foi eleito papa de transição, e foi o Cardeal Canali que o apresentou à multidão de 300.000 pessoas que se encontravam na Praça de S.Pedro. Não foi preciso muito tempo para se perceber que João XXIII era diferente de qualquer outro papa. Era primeiro e antes de tudo um ser humano. Era um humilde cristão. Era um católico católico. Era o papa do mundo. De facto, dele se podia dizer que era o primeiro papa não italiano em muitos séculos. Não vigiava permanentemente a situação na Itália, nem comprometeu a Igreja e o papado dando-lhe a prioridade. Os seus ajudantes viriam a queixar-se amargamente de que conquistou muitos votos para os comunistas nas eleições nacionais. Tinha até dado uma entrevista ao genro de Khrushchev, editor do Izvestia, num momento extremamente delicado da política italiana. Tornou-se assim o primeiro papa a ser atacado pela imprensa da direita do seu próprio país. A verdade é que a sua preocupação primeira não era salvar a Itália do Comunismo; a sua prioridade era levar o Evangelho de Cristo a toda a humanidade e sobretudo à Igreja. Enquanto que os seus antecessores tinham admoestado o mundo, o tinham denunciado, avisado, condenado, João XXIII amava-o, encorajava-o, sorria-lhe como um anjo. De Giotto, o artista do século XIII, dizia-se que «tinha esculpido com tinta». Tinha dado na tela perspectivas inteiramente novas de tal modo que parecia que um novo mundo tinha «irrompido», um mundo novo que viria a tornar-se o Renascimento. João era o grande artista do Espírito. Deu ao Catolicismo uma nova dimensão utilizando velhos materiais, e é esta a razão por que os homens, mesmo homens da astúcia do cardeal Heenan de Westminster, não tiveram a percepção da sua originalidade. Heenan dizia repetidamente: «Já conheço o homem. É simplesmente um católico antiquado do tipo Jardim das Almas». Sua Eminência não era o único a mostrar-se cego à verdadeira grandeza deste homem extraordinário que humanizou o rosto da Igreja Romana. Com João começava — pelo menos assim parecia — o Renascimento do próprio papado. Por via do mais absoluto dos cargos absolutos, ele estava a par do mundo inteiro, porque nunca perdeu o Evangelho de vista. Provou que era de facto possível ser santo e ao mesmo tempo bom no desempenho da sua função.
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    253 Corriam inúmeras estóriasa seu respeito. Mas a verdade era ainda melhor do que muitas das lendas. No dia de Santo Estêvão de 1958, trocou o Vaticano pela Prisão de Regina Coeli. «Como vós não podeis vir ter comigo» disse aos presos «venho eu ter convosco». Uma criança escreveu-lhe a dizer que não conseguia decidir-se sobre se queria ser papa ou polícia. João respondeu-lhe: «Para ti deve ser mais seguro treinares- te para polícia. Papa, qualquer pessoa pode ser, como estás a ver pelo meu caso». Não punha especiais cuidados a preparar os seus passeios nos jardins, e os visitantes da Cúpula da Basílica viam recusadas as visitas à última hora com a alegação de que o papa andava a apanhar ar nos jardins, ficando à vista de quem se encontrasse na abóbada. — Mas qual é o problema? — perguntou João a um desolado funcionário da Basílica. — Eles vêem Vossa Santidade. — E então? — perguntou o Papa João genuinamente intrigado — Eu não estou a fazer nada de mal, pois não? Um dia, Monsenhor Helm, o seu ex-secretário suíço em Paris, trouxe-lhe o desenho de um novo brasão que tinha feito para Sua Santidade. Ostentava um Leão de S.Marcos de ar feroz e garras estendidas. João observou-o por momentos. «Não acha» perguntou bondosamente «que ele é feroz demais para mim?» Olhou-o outra vez. «Um tanto germânico?» E acrescentou a sorrir: «Esse estaria bem para Gregório VII, não lhe parece? Não poderia torná-lo… mais humano?» Helm levou outra vez o desenho e voltou com um leão veneziano que, disse o Papa João numa audiência em Abril de 1963, «não metia medo a ninguém». Há uma fotografia que retrata o papa João na perfeição. Está a falar com uma criança de vestido branco de comunhão que condiz com a sua própria sotaina. Estão com as cabeças muito juntas e absorvidos um com o outro. Ele sabia que a pequenina estava a morrer de leucemia; ele próprio viria a morrer em breve de cancro. O papa olha esta criança com profundo respeito, numa veneração de rara beleza. É como se o pontífice estivesse a olhar o rosto de Deus. O mundo estava a gostar do que via. João dava a primazia ao amor e tinha um sentido paternal que até os Protestantes invejavam. Nada era impossível com um tal ser humano no trono papal. Já se falava da mudança da maré da Reforma. Os Ortodoxos, acerbos críticos do absolutismo papal, não punham objecções à primazia de Roma ao amor apostólico e estava ali um homem que o encarnava na perfeição. Os tempos dos hinos fúnebres do Vaticano já tinham acabado; a música que emanava de Roma era mais como a Sagração da Primavera de Stravinsky. Em que é que João XXIII é diferente de Pio X? Ambos eram de origem camponesa. Ambos eram profundamente santos e generosos, homens de Deus com uma vida privada sem mácula. Foram diferentes na maneira como pensaram o papado e, portanto, o seu papel como pontífices. Pio X, homem de enorme humildade, exigia para si, como papa, uma obediência cega, uma submissão até servil, que ele nunca pensaria exigir para si, Giuseppe Sarto. Já no tempo em que era bispo, e mais tarde como Patriarca de Veneza, sentia a obrigação de afirmar a sua autoridade como representante do papa e de Cristo. É claro que nunca esqueceu a desconsideração que recebeu do Município de Veneza quando tomou posse da sua diocese. Aquilo era uma afronta não a ele, mas a Cristo, na sua pessoa. Pio X era hostil por igual a qualquer pessoa que ele considerasse inimiga do Evangelho de Cristo, daí o tratamento severo dos “Modernistas” como Tyrrel e Loisy. João XXIII era globalmente mais desprendido. Não tinha medos de espécie nenhuma, excepto o de não agir como Cristo agiria. Não havia nele qualquer divórcio
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    254 entre o serum simples cristão e o ser papa. E também não pensava, como Pio X, que como papa tinha de resolver todos os problemas do mundo. Não era nenhum extraterrestre, nem nenhum Supremo Teólogo. Não era nada mais do que um Bom Pastor. As suas palavras sobre isto, logo a seguir à eleição, são talvez as mais notáveis da sua carreira. Alguns esperam que o Papa seja estadista, diplomata, erudito, administrador — um homem que compreende todas as formas de progresso humano sem excepção. Mas esses enganam-se redondamente, porque interpretam erradamente a verdadeira função do papado. Para Nós, a função do Papa é a de ser um Pastor para todo o seu Rebanho. Isto explica a razão por que João não tinha a habitual frieza magistral dos pontífices. E também a razão por que não precisava de lembrar à Igreja a sua autoridade; ele tinha a maior e mais significativa autoridade, a do amor e do serviço. A sua bênção abraçava todo o mundo e não apenas os católicos. Era simplesmente o pai da humanidade. Para ser um bom papa, pensava ele, não era preciso perseguir ninguém, nem atemorizar os teólogos, nem emitir terríveis avisos sobre o futuro ou fazer leis cada vez mais severas; o que era preciso era simplesmente ser bom cristão. E confiar em toda a gente era uma parte disso mesmo. Não precisava de fazer tudo sozinho. Afastava-se completamente da ideia que Pio X tinha do papado e que era a mesma que tinham Pio IX, Inocêncio III e Gregório VII. Esta a razão por que um “ancião dos anciãos” teve a coragem de convocar um concílio. Depois de muita ponderação e oração, anunciou a sua decisão a dezoito cardeais numa cerimónia em S.Paulo Fora de Muros em 25 de Janeiro de 1959. Estes ficaram completamente espantados. Ele era um papa de transição - por que é que agia daquela maneira? João pediu-lhes a opinião. Mas eles não tinham nenhuma. Mais tarde confessou por escrito: «Humanamente falando, Nós estávamos à espera que os cardeais, depois de ouvir a nossa comunicação, nos rodeassem para manifestar a sua aprovação e os seus bons votos. […] Em vez disso, seguiu-se um silêncio impressivo e devoto». Por que é que eles haviam de mostrar entusiasmo? O único concílio em mais de quatrocentos anos tinha proclamado a infalibilidade do papa. Para que é que o papa João precisava de um concílio? A inspiração de convocar um concílio distinguiu João como qualquer coisa muito especial. Era o primeiro pontífice a convocar um concílio sem que houvesse sobre ele qualquer pressão nesse sentido. A Igreja não estava em estado de revolta; não havia questões dogmáticas importantes. Ele avançou com a ideia porque acreditava que um concílio seria bom para a Igreja e para o mundo. Queria que a Igreja «se actualizasse», o aggiornamento, e abrisse os braços aos irmãos separados. Simbolicamente, ele escancarou as janelas daquele último dos guetos, o Vaticano, para deixar sair o bafio e entrar o ar fresco. Não admira que a Cúria fizesse os possíveis por dissuadi-lo. Uma coisa daquelas levaria vinte anos a preparar, diziam-lhe. Estas coisas não devem ser feitas apressadamente. E depois, a organização precisava de trazer 2.500 bispos dos quatro cantos do mundo e instalá-los satisfatoriamente! E as despesas? E por que não um sínodo em Roma, Santidade, para, por assim dizer, preparar o terreno? João ficou entusiasmado com a ideia do sínodo, mas optou por um concílio também. O Sínodo, com os seus limitados objectivos, foi um sucesso. Os seus ajudantes disseram-lhe que não foi legislativamente satisfatório. João sabia que isto queria dizer que eles só ficariam satisfeitos com leis e castigos. Ele não queria nada disso. O tempo
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    255 das condenações játinha passado há muito. A própria Igreja é que precisava da compaixão de Cristo. Daquela compaixão que ele estendeu aos padres que tinham abandonado o seu ministério. Até a lei italiana era injusta para com eles, vedando-lhes muitos empregos por causa da Concordata de 1929. Pediu aos padres que saudassem os seus ex-colegas com o amor de Cristo e, quando necessário, com uns poucos milhares de liras. Começa o Concílio O Papa João tinha oitenta e um anos de idade quando numa bela manhã de Outubro de 1962 foi transportado na sua sedia gestatoria para o interior da Basílica de S.Pedro. Tinha o rosto molhado das lágrimas. Nunca o papado tinha gozado de tão alta estima pública. Se todos os papas fossem como ele, dizia-se, toda a gente se poria em bicha para se tornar católica. Ele personificou a frase de Horácio: «Nada impede uma pessoa de dizer a verdade com um sorriso nos lábios». O Concílio mostrou que mesmo um papa estava pronto a ouvir e aprender. No seu discurso de abertura deixou claro que a Igreja não dará ouvidos aos profetas da desgraça. A Igreja tinha de actualizar-se radicalmente e sem medo. A Guerra Fria das igrejas, pelo que dizia respeito a Roma, estava acabada. Não haveria anátemas; haveria sim um regresso ao Evangelho do Mestre, Jesus Cristo. A presença de observadores não católicos no auditório era sinal de mudança do espírito da Igreja. João já imaginava que seria difícil para os bispos falar de banalidades na presença de visitantes ilustres de ambos os sexos. Alguns dos seus ajudantes já murmuravam «Communicatio in Sacris», o que significava que o papa andava a manter relações proibidas com hereges. Alguns dos prelados ali reunidos não aceitavam facilmente a ideia de renovação. Os Cardeais Spellman, de Nova Iorque, McIntyre, de Los Angeles, e Godfrey, de Westminster, não viam necessidade de tal coisa. O Catolicismo andava na crista da onda. Todos os dias se acabavam escolas e igrejas que desde o primeiro dia se enchiam a deitar por fora. Multidões de convertidos vinham procurar nele refúgio para a permissividade da vida moderna. O que era preciso era mais do mesmo e não coisas novas ainda não experimentadas. E que distinção era aquela entre as antigas verdades e a sua expressão? Não era a verdade inseparável da sua expressão? A força da Igreja não residia exactamente no facto de as antigas expressões serem sempre válidas, estabelecendo assim um relação de continuidade entre os dias de hoje e todos os outros dias da longa marcha da Igreja através da história? A Cúria estava impregnada deste espírito reaccionário. Os esboços dos documentos do Concílio foram feitos por mãos da Cúria. Era uma linguagem legalista e de confronto, na tradição da Contra-Reforma. Conta uma estória bem fundamentada que o Papa João recebeu um padre, um velho amigo seu, no Vaticano. Este sugeria uma régua imaginária para a última oblação da Cúria. «Olha, dez centímetros de ordens e vinte de condenações». Na primeira reunião da mais importante das comissões do Concílio sobre doutrina, os da velha guarda, liderados pelo Cardeal Ottaviani, um homem de pescoço tourino, prefeito do Santo Ofício, falaram à vez durante quase duas horas. Explicaram aos membros eleitos a razão por que nada devia ser alterado nos documentos preparatórios. Era “imperativo” opor firme resistência às «tendências heréticas». De acordo com o testemunho do Padre Bernard Häring, teólogo moral que
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    256 estava presente, oCardeal Léger, de Montreal, por fim, já não aguentou mais. «Se a vossa postura é a de que vós sois ortodoxos e todos os outros são heréticos», disse ele, «tereis de fazer o trabalho sozinhos. Adeus». A primeira derrota da velha guarda ficou a dever-se à coragem de dois cardeais, Frings, de Colónia, e Liénart, de Lille, que na primeira sessão aberta levantaram objecções à constituição das comissões, todas de nomeação curial. A sua revolta foi apoiada pela maioria do Concílio. A assistir por circuito fechado de televisão, João deve ter posto aquele sorriso de Mona Lisa em sinal de aprovação. Já tinham aprendido uma lição importante. A Cúria, que durante tanto tempo tinha dominado a doutrina e a política, começava a não representar a Igreja. Foi prudente o Concílio de Constança ao exigir frequentes concílios para informar, doutrinar e guiar a Igreja, exigência que foi contrariada por papas e cúrias ao longo dos tempos. A burocracia czarista e centralizada de Roma opunha-se à catolicidade da Igreja. Muitos dos presentes no Vaticano II só agora começavam a perceber isto. Mas o papa teve outro gesto que provocou uma espécie de pânico nas fileiras da Cúria. Criou um pequeno grupo ou comissão encarregada de o aconselhar a ele e ao Concílio sobre o controle da natalidade. Porque é que ele está a fazer isto? — era a pergunta mais ouvida das bocas da Cúria. O espírito da Igreja era claro: todos os actos de contracepção são pecados mortais. Nenhuma circunstância, por muito pungente que seja, pode tornar boa e moral uma coisa que, na sua essência, é má. Todos concordavam que é aí que tudo começa e acaba. Está errado, está sempre errado, penosamente errado. Pio XI dissera isto mesmo em 1930 na Casti connubii, reforçando séculos de uma firme tradição católica. O que é que João XXIII pretendia? Os críticos do papa ficaram ainda mais indignados quando lhes constou que a maioria dos membros da comissão era constituída por leigos. O que é que eles sabiam sobre o controle da natalidade? Aquilo era uma questão estritamente teológica, e os teólogos não andavam de modo nenhum confusos. Os especialistas leigos podiam informar Sua Santidade sobre o crescimento demográfico, as atitudes de governos hostis, etc.. Mas devia ter ficado bem claro desde o início que não havia a mínima possibilidade de mudança. Era a eterna lei de Deus. Mal o Concílio começou, logo um homem emergiu como figura profética. De oitenta e quatro anos, era um homem venerável. Tinha os dias contados; viria de facto a morrer pouco depois de o Concílio terminar. Distinguia-se da maioria dos outros prelados até pelo vestuário, porque era um patriarca oriental. Maximos IV Saigh, de Antióquia, na sua comprida túnica escura e chapéu redondo, com uma grande barba grisalha, não temia ninguém, a não ser o seu Senhor. Pertencia aos Melchites, a Igreja Católica grega de Antióquia, que se submeteu à Santa Sé no início do século XVIII. O seu clero menor podia casar antes da ordenação. Esta Igreja tem membros na Síria, no Egipto e na Galileia, bem como comunidades espalhadas pelos Estados Unidos da América. O Papa João deve ter ficado grudado à televisão no dia 28 de Outubro quando o patriarca espantou toda a gente ao falar não em latim mas em francês. O moderador daquele dia era o Cardeal Spellman, que em 1932 tinha terminado uma comissão em Roma. Foi o primeiro americano a estar oficialmente ligado à Secretaria de Estado. Spellman foi apanhado de surpresa e perdeu o desafio logo na abertura da intervenção de Maximos: «Abençoados». O Papa João deve-se ter rido com isto. Maximos ia primeiro, como pensava que devia ser, prestar homenagem aos seus colegas patriarcas. Na sua ideia, os cardeais eram uma categoria inferior do clero que se tinha tornado proeminente muito tardiamente. Noutros tempos os patriarcas vinham logo a seguir ao papa em importância; tinham tomado parte nos primeiros concílios da Igreja ainda não dividida. Onde é que estavam os cardeais em Niceia? Mesmo o Quarto
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    257 Concílio de Latrãoem 1215 tinha observado a primazia dos patriarcas, e não era verdade que Maximos era patriarca da primeira sé estabelecida pelo próprio Pedro? Mas porquê o francês? Foi a sua maneira de acentuar que o latim não é a língua da igreja que ele representava. Essa a razão por que optou por falar numa língua mais católica. Através do uso do francês, Maximos fez um ataque velado ao estreito pensamento curialista que tinha organizado o Concílio. Continuou, criticando um documento preparatório por tratar as prerrogativas do chefe da Igreja «tão isoladamente que o resto do corpo, em comparação, parecia um anão». Como não latino, protestou contra a tentativa de Roma de se impor ao seu povo. Depois pôs a tónica nos esquemas delineados pela Cúria. Demasiado legalistas, sem relação com a vida. A actual apresentação da fé estava completamente errada. A Idade Média já passou; o homem cresceu. Era inútil impor as leis sem explicar a sua razão de ser. E o patriarca continuou lembrando que a doutrina moral católica precisava de ser actualizada dos pés à cabeça. Vejamos o catecismo, por exemplo. Nós tornamos obrigatório para os fiéis a abstinência às sextas-feiras e a assistência à missa ao domingo, sob pena de cair em pecado mortal. Será isto razoável? E quantos católicos é que acreditam nisto? E quanto aos descrentes, esses apenas têm pena de nós. Por muito simples que fossem, os comentários do patriarca tiveram um efeito dramático nos padres. A maioria já suspeitava que os canonistas tinham reescrito o Sermão da Montanha, retratando um Deus de olhos de Argo em relação aos pecados dos homens. Pode imaginar-se realmente Jesus a dizer que é pecado mortal merecedor do fogo eterno comer carne à sexta-feira ou faltar à missa aos domingos? Todas as coisas, continuou Maximos, devem ser estabelecidas em nome do amor. Não ordens, mas linhas de orientação sugeridas e inspiradas pelo amor. «Uma mãe não gosta de castigar o filho com um cacete». O Papa João, fluente em francês depois dos anos que esteve em Paris como núncio, deve ter seguido esta intervenção, abanando vigorosamente a cabeça em aprovação. Toda a gente sabia que as crianças católicas com mais de sete anos “a idade da razão” eram doutrinadas à base do medo. Impunham-se aos pequeninos de Cristo regras pormenorizadas com sanções que deixariam Cristo branco de ira. Era difícil encontrar o amor naquele labirinto negro da lei. Nem a sagrada comunhão, a recepção de Cristo na Eucaristia, escapava. Os católicos tinham de fazer jejum antes da comunhão. Mas “comida e bebida” o que eram? Ter um bocado de caramelo na boca, restos da noite anterior, era “comida”? Engolir um golo de água ao lavar os dentes era “bebida”? Como se nunca tivessem lido a denúncia de Jesus dos chicaneiros que discutiam interminavelmente a questão da lavagem dos copos e dos pratos, os moralistas perguntavam solenemente: «Será que mastigar um fósforo ou engolir uma mosca quebra o jejum antes da comunhão?» Este péssimo tipo de casuística era aplicado a todos os pormenores da moralidade. E isto paralisava a vida do espírito. Deus não aparecia como um Deus de amor que tinha incarnado na vida, morte e ressurreição de Jesus, mas como um juiz legalista a tentar apanhar as suas criaturas em falta e, quando elas não estavam conformes, a mandá-las, ao mínimo deslize, para o inferno. A ideia do inferno era muito mais forte do que a do Céu, lugar que parecia pouco melhor do que um convento medieval. Não havia comida nem sexo. Não ficava muito
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    258 clara a razãopor que precisávamos de um corpo ressuscitado. O que é que uma pessoa fazia no Céu senão entregar-se a exercícios altamente intelectuais, contemplando sem cessar a essência divina, como se a morte nos deixasse uma obsessão pela teologia? Quanto mais se prolongava o Concílio, mais os conservadores se viam a travar uma luta de retaguarda. Estavam a bater em retirada em todas as frentes. O Manual dos Erros de Pio IX, a Lamentabili de Pio X estavam a ser postos de lado pelo Concílio como se nunca tivessem sido escritos. Eles sabiam que João XXIII tinha cometido um erro. As posições por eles consideradas como doutrina católica sagrada e irrevogável estavam a ser alegremente abandonadas pela enorme maioria dos padres. O Concílio estava a revelar-se como uma educação para a maioria dos bispos. As ideias que eles tinham acalentado no segredo dos seus corações como talvez idiossincráticas estavam a vir à tona e a conseguir aceitação. Esta lição era crucial: longe de ser uma instituição imutável, a vocação da Igreja era mudar com os tempos em mudança. A Igreja é tão amiga da tradição, dizia um bispo, que anda constantemente a forjar novas tradições. Mas uma preocupação havia que nas discussões em privado se mantinha à superfície e por fim encontrou expressão nos documentos finais. Por causa do mito de ensinar verdades eternas, o Concílio queria negar que estava a mudar no próprio momento em que mudava para melhor. Falava-se de “evolução” ou “desenvolvimento“ da doutrina, o que em alguns casos era verdadeiro, mas noutros manifestamente falso. A metáfora não explicava a mudança, apenas tornava obscuro o que estava realmente a acontecer. Uma bolota evolui “miraculosamente” para carvalho e não para barco. Como dizia um escritor católico: «A Igreja começou com o princípio da tolerância absoluta e acabou no princípio da fogueira». Era isto o verdadeiro “desenvolvimento”? Da mesma maneira, todos os pontífices do século XIX falavam da liberdade de culto como insana, ateísta, um insulto a Deus. Será que era “evolução” o Concílio Vaticano II querer incluir a liberdade de culto nos direitos do homem? À parte isto, uma outra falha se revelaria num futuro próximo. Em vez de repensar a constituição da Igreja por inteiro, os padres consideraram o Vaticano I como obra acabada e fixa nos seus próprios acrescentos. O Concílio Vaticano I tinha deixado o papa como praticamente o único Protestante da Igreja Católica. O Vaticano II apenas acrescentou bonitas palavras sobre o magistério episcopal. Na prática, o concílio anterior continuava em vigor. E era inevitável que, acabado o Concílio, a Cúria tomasse as rédeas e fizesse com que tudo voltasse ao estado anterior. Haveria uma promessa de um sínodo de bispos, mas este era apenas um órgão consultivo. Mas quando a primeira sessão do Concílio chegou ao fim, em 8 de Dezembro de 1962, ninguém, católico ou não católico, duvidava de que a Igreja Católica começava a mudar-se como um todo para o século XX. No seu discurso de encerramento João fez saber que não estava muito satisfeito com o ritmo do progresso. Instou os bispos a continuarem com o aggiornamento, que, como em surdina dizia um cardeal da Cúria, era aquilo que Pio IX tinha condenado na 80ª proposição do seu Manual. Em Março de 1963, o Papa João recebeu o Prémio Balsan da Paz. Os quatro soviéticos do comité foram obviamente instruídos por Khrushchev no sentido de votarem nele. E ele foi uma vez mais criticado pelos membros da Cúria por apertar «mãos manchadas de sangue». Além disso, o que é que um papa, Vigário de Cristo, anda a fazer ao receber prémios de terceira categoria de comités seculares? O homem era um cripto-comunista. Não admira que o Izvestia tivesse publicado integralmente o seu discurso de abertura do Concílio.
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    259 Nessa mesma primaverade 1963, João publicou a Encíclica Pacem in Terris. Saudava o progresso. Proclamava o direito de todos de «venerar Deus de acordo com os ditames da sua consciência e de professar a sua religião tanto em privado como publicamente». Aqui estava um pontífice que não andava constantemente a olhar por cima do ombro. Como escreveu E. E. Hales em Pope John and his Revolution: A posição do Papa João em relação aos justos ditames da consciência do homem representa um claro avanço nos ensinamentos dos seus antecessores oitocentistas que envolve mesmo um repúdio de muito do que eles ensinaram, e era bom que este simples facto fosse abertamente reconhecido. Na altura da publicação da Pacem in Terris, João já mostrava sintomas de doença fatal. Em fins de Maio, começou a sofrer de hemorragias internas e depois contraiu uma peritonite. Deram-lhe a Extrema Unção. Antes do fim, chegaram três dos seus irmãos e a irmã Assunta. Estes apenas o viam como o seu querido irmão, não como papa ou santo. Com a sua presença, João sentia- se em casa. Sofreu muito, mas com um coração cheio de satisfação pela sua Igreja, especialmente pelo seu Concílio, e pelo mundo que ele tinha olhado com um amor sem paralelo. O dia 3 de Junho foi uma segunda-feira, um dia cheio de um sol brilhante. Celebraram uma missa por ele na Praça de S.Pedro. Mais tarde, pouco antes das oito horas da noite, morreu. Na grande praça estava uma multidão de dez mil pessoas de joelhos, nas sombras. Abriram-se as cortinas do quarto e apareceu uma luz crua; ficaram a saber que o seu querido papa tinha ido ter com Deus. A imagem que tinha de si próprio era a de alguém que queria a paz a qualquer preço. Via-se realmente como um cobarde receoso de correr riscos. Terminara um breve interlúdio encantado. Quando apareceu pela primeira vez à varanda de S.Pedro, foi saudado com algum desalento; a sua morte deixou no mundo um hiato que mais ninguém podia preencher. Tinha tornado a santidade e a bondade atraentes; tinha tornado a Igreja Romana verdadeiramente católica. Dera ao Catolicismo um novo espírito e um novo coração. Mas o trabalho apenas tinha começado. O Concílio não tinha ainda aprovado um único documento. Quem seria o seu sucessor e como é que iria agir? O conclave reuniu, na sua primeira sessão, na Capela Sistina em 17 de Junho. Como se previa, escolheram Montini, de Milão, que tomou o nome de Paulo VI.
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    261 16 O Novo CasoGalileu Giovanni Battista Montini nasceu em 26 de Setembro de 1897 na cidade de Brescia, no norte de Itália. Educado em casa, tal como Pio XII, foi ordenado em 1920. Dois anos mais tarde foi mandado para a Secretaria de Estado do Vaticano, onde serviu sob dois pontífices autoritários, Pio XI e Pio XII. Em 1954 Pio XII exilou-o em Milão como Arcebispo da cidade, talvez por causa das suas simpatias por certos elementos da esquerda do movimento laico. Pio XII nunca o elevou a cardeal. Logo que sucedeu a Pio XII, João XXIII promoveu Montini para o Sacro Colégio, pondo-o no topo da lista. Quando o Concílio Vaticano II começou, Montini foi o único prelado observador que foi instalado no Palácio do Vaticano. Parece que, embora descrevesse Montini como “Amletico”, uma figura hamletiana, incapaz de tomar decisões, João XXIII percebeu, contudo, que ele seria provavelmente o seu sucessor. O cinzento Paulo VI era de estatura mediana e constituição frágil, rosto pálido e olhos azulados de nortenho — olhos que, à medida que os anos passavam e a ansiedade crescia, se começaram a tornar turvos de dor. Uma das suas prioridades foi alargar a comissão para o controle da natalidade. Em 1964 já era constituída por mais de sessenta elementos, um terço dos quais eram padres e os restantes, leigos. Seria mais tarde alargada a dezasseis cardeais e bispos. Para consternação da Cúria, Paulo não fez sair os leigos. Seria que ele ia seguir os passos de João XXIII? Para os cardeais da Cúria a única consolação era que o grosso dos teólogos que ele escolheu eram ultra-conservadores. O horror instalou-se quando os três teólogos liberais começaram a fazer “convertidos”. Discutiram-se livremente novas soluções, abandonaram-se velhas posições. Num espaço de tempo espantosamente curto todos os leigos ficaram convencidos — e isto era crucial - de que não havia nenhuma diferença moral entre o método de determinação dos períodos seguros pelas temperaturas e, digamos, um preservativo. O facto de um casal ter relações de maneira a evitar que o sémen e o óvulo se encontrassem era, segundo os princípios tradicionais, um pecado grave. Revelava uma intenção deliberada de exprimir o amor apenas pelo amor e de ter prazer só pelo prazer. Antes de Pio XII, isto era considerado uma forma de masturbação mútua. Ao permitir que se usasse o período seguro como método de controle da natalidade, Pio XII abandonou implicitamente a ideia da procriação como objectivo único de todos e cada um dos actos sexuais. Admitindo que a doutrina em vigor era uma embrulhada, a opção tinha certamente de ser esta: ou condenar simultaneamente a contracepção e o período infértil, aquela como barreira espacial e este como barreira temporal, ou permitir ambos. Mais surpreendente do que a conversão dos leigos foi o facto de quatro quintos dos teólogos da comissão terem ficado convencidos. Longe de ser impossível, eles consideraram mesmo que a mudança era imperativa. Todas as áreas da investigação — a teologia, a história, a demografia — lhes apontavam um único caminho: uma mudança radical. Quando os rumores destas tendências começaram a circular pelo Vaticano, o desânimo e o desespero instalaram-se na velha guarda e envolveram Sua Santidade. Este fez saber que ia retirar ao Concílio a competência para tratar a questão
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    262 da contracepção. Erauma questão demasiado controversa para ser tratada perante o mundo e demasiado dolorosa para ser debatida na presença de não católicos. Ele próprio tomaria em mãos as conclusões da Comissão, reflectiria sobre elas e teria a última palavra. Foi uma decisão surpreendente vista à luz de tudo aquilo que o Concílio tinha aprendido com o Papa João XXIII em relação à honestidade e transparência; de como aprendemos uns com os outros; de como a Igreja deve ser um collegium de amor e fraternidade. Foi este o pecado original do Concílio. Dele derivaram todos os males que viriam a afligir a Igreja Católica nos anos seguintes. Já nessa altura, alguns dos prelados tiveram o discernimento bastante para ver que o Concílio Vaticano II já tinha regressado à postura básica do Vaticano I. O papa era o único bispo de toda a Cristandade; os restantes eram, quando muito, apenas seus funcionários. Assim, e uma vez mais, a Igreja Católica adoptou a atitude pós-1870 do “il Papa é que sabe”. O Catolicismo, com um concílio exactamente em meio das suas deliberações, teria de ficar à espera — com esperança? com apreensão? — que o papa lhe dissesse o que pensar. Era uma coisa tão absurda como Niceia ou Constança se terem realizado para discutir a divindade de Cristo e, com todos os bispos reunidos, lhes dissessem que o Papa ia resolver a questão sozinho. O Padre F. X. Murphy, antes mesmo de Paulo divulgar a sua decisão em 1968, escreveu: A falta de envolvimento explícito da hierarquia na discussão [sobre a contracepção] é pouco menos que criminosa. Deixar o fardo apenas nas mãos do Papa não parece correcto nem conveniente, nas presentes circunstâncias. Os bispos cederam. Aceitaram a opinião do papa e da Cúria de que, mesmo no caso de as exigências sobre a contracepção serem rejeitadas pelo Concílio, o mundo poderia ver que um grande número de bispos estava a favor dela. E isso seria mau para a imagem do Catolicismo. Paulo considerava-se superior a um concílio. Era prerrogativa sua agir da maneira que achasse melhor. Proibiu os bispos, que tinham vindo de todos os cantos do mundo para repartir a sua sabedoria colectiva, de exprimir as suas convicções e as dos seus rebanhos. Os bispos mais progressistas, já conhecedores, possivelmente, da tendência dentro da comissão da contracepção, pensaram que o papa não teria outro remédio senão ceder. À luz da História, isto foi um erro enorme pelo qual devem ser responsabilizados. A falta de contestação da sua parte deve enfileirar com a dos bispos dissidentes no Concílio Vaticano I na votação da infalibilidade papal, mesmo quando as suas consciências lhes diziam o contrário. Mas alguns bispos disseram mesmo aquilo que pensavam, permitindo assim que o mundo vislumbrasse o que poderia ter acontecido, não tivesse o papa vetado a discussão livre. Uma revolta menor Os dois dias mais explosivos do Concílio foram 29 e 30 de Outubro de 1964. Estavam os padres a debater “A Igreja no Mundo Moderno” quando a câmara ficou electrizada com as intervenções de três bispos.
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    263 Primeiro, o CardealLéger, de Montreal. A sua ideia era que o casamento sem filhos não se devia relacionar com o acto sexual individualmente considerado, mas com o casamento como um todo. O amor, insistia, devia ser visto como um fim em si mesmo, e não como estando ao serviço de qualquer outro fim, como por exemplo a fecundidade. «Caso contrário, este medo em relação ao amor conjugal, que há tanto tempo paralisa a nossa teologia, poderá persistir». Qualquer leigo casado consideraria isto como um dado adquirido. Mas, vindo de um prelado da Igreja Romana, cuja hierarquia, toda ela, é celibatária, tinha um sabor original. A seguir foi o Cardeal belga Suenens. Exigiu que a doutrina clássica sobre a contracepção fosse reanalisada à luz da ciência moderna. Em palavras que desde então têm perseguido a Igreja Romana, disse ele: «Peço-vos, meus bispos irmãos, evitemos um novo “Caso Galileu”. Para a Igreja, um já chega». Nem mesmo Suenens tinha a potência de fogo dos oitenta e sete anos do Patriarca Maximos IV Saigh, que exprimiu a preocupação dos prelados liberais de que a Igreja que ele amava e a que tinha dedicado a sua vida estava à beira do desastre. Este é um problema urgente porque está na raiz de uma grande crise da consciência católica. Há aqui a questão de um hiato entre a doutrina oficial da Igreja e a prática da imensa maioria dos casais cristãos. A autoridade da Igreja foi posta em causa em grande escala. Os fiéis vêem-se obrigados a viver em conflito com a lei da Igreja, afastados dos sacramentos, em angústia constante, incapazes de encontrar uma solução viável entre dois imperativos contraditórios: a consciência e a vida conjugal normal. Segundo o patriarca, o Concílio tinha de apresentar simplesmente uma resposta prática; era seu dever como pastores que eram. Ele devia saber que, considerando o veto de Paulo à discussão, era culpado de desobediência. Mas, já próximo do fim de uma longa vida, compreendeu que o seu primeiro dever era para com Deus, a sua consciência e o seu rebanho. «Veneráveis padres», apelou ele, «atentai no Senhor que morreu e se ergueu de novo para salvação dos homens, atentai na crise de consciência realmente triste dos nossos fiéis e tende a coragem de atacar o problema sem preconceitos». Clamava por uma franca revisão da posição oficial à luz da teologia e da ciência moderna. Punha de lado a distinção entre o objectivo “primário” do casamento (a procriação) e os objectivos secundários (o amor e o companheirismo dos membros do casal). Com todos os bispos na sala apinhada sentados agora na ponta das cadeiras, Maximos disse: Não temos nós o direito de perguntar se certas posições não são o resultado de ideias ultrapassadas e, talvez, de uma psicose de celibatário da parte daqueles que não estão familiarizados com este sector da vida? Não estamos nós inconscientemente a estabelecer uma concepção maniqueísta do homem e do mundo, em que os trabalhos da carne, impuros em si mesmos, só são tolerados em vista dos filhos? Será que a rectidão exterior e biológica de um acto é o único critério da moralidade, independentemente da vida da família, do seu ambiente, conjugal e moral, e dos sérios imperativos da prudência que devem ser a regra básica de toda a actividade humana?
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    264 Nestas curtas observações,o patriarca levantou todas as questões que viriam a perseguir a Igreja Católica nas gerações seguintes e que provavelmente continuarão a persegui-la no próximo século. A distinção em que a oposição ao controle da natalidade se baseava, os objectivos primários e secundários do casamento, não é bíblica. Foi o medo do corpo que fez levantar a questão, disse ele, um ódio quase maniqueísta ao corpo, reforçado por uma psicose de celibato, que faz da procriação a única justificação para o sexo. Esta exigência celibatária de mais bebés fazia-se sem atenção às obrigações dos membros da família. Ceder a estas exigências, lembrou o patriarca, seria negar uma virtude cardeal, nomeadamente, a prudência, pela qual toda a moralidade se deve avaliar. E não há provas de que Jesus apregoasse a imprudência. Depois, Maximos disse que, em vez de um critério moral, se estava a usar de um critério biológico como base da moralidade sexual. Mas ele ainda não tinha acabado. Não é evidente, perguntou, que a Igreja tinha excluído durante demasiado tempo os especialistas no campo do casamento, nomeadamente, proeminentes cristãos casados? Além disso, por que é que o Concílio andava a louvar os nossos irmãos separados e, ao mesmo tempo, ignorava a sua experiência quer como pessoas casadas, quer como igrejas? Isto não é um problema católico, mas um problema da humanidade. E concluiu: Abramos os olhos e sejamos práticos. Vejamos as coisas como elas são e não como gostaríamos que fossem. De outra maneira, arriscamo-nos a pregar no deserto. O que está em causa é o futuro da missão da Igreja no mundo. Com esta nota dramática, o ancião sentou-se no meio de fortes aplausos que o moderador logo abafou. Era agora a vez de outro corajoso homem de idade, o Cardeal Alfredo Ottavianni, da região Trastevere de Roma, Grande Inquisidor encarregado da Casa Papal da Esquina, e que tem sido descrito como um homem insensível, o que está longe da verdade. Era simplesmente um homem extremamente conservador. Desde a sua brilhante juventude que este conservadorismo o levara paradoxalmente a defender uma abordagem liberal da dissolução do casamento. O Vigário de Cristo, defendia ele, tinha um tal poder que podia dissolver muito mais casamentos do que até então se pensara. Nesta manhã de outono ele estava com uma disposição soturna. Havia no texto de “A Igreja no Mundo Moderno” qualquer coisa que o estava a incomodar. O seu improviso traiu a profundidade da sua preocupação. Não era ele o único membro da Cúria que pensava que os fundamentos da fé estavam a mudar. Numa voz trémula e em crescendo, disse: «Não estou satisfeito com o texto quando diz que os casais podem decidir por si próprios o número de filhos que querem ter. Nunca se ouviu uma coisa destas na Igreja». Isto era uma confissão surpreendente deste zeloso guardião da fé católica, tendo em vista aquilo que finalmente foi aprovado pelo Concílio. Os padres aprovaram a “paternidade responsável“, com a primeira implicação de sempre por parte do Catolicismo de que ter um filho podia ser um acto irresponsável, isto é, pecado. Por outro lado, Ottaviani sabia que Pio XII se tinha referido ao “planeamento familiar“ como se fosse uma maquinação diabólica. Assim, uma ideia de que Ottaviani confessava nunca ter ouvido falar, tornava-se parte essencial da moralidade católica. A sua oposição, nascida da “ignorância“, sugeria que se algum teólogo tivesse proposto essa ideia perante o Concilio, ele, como responsável do Santo Ofício, tê-la-ia condenado. Isto
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    265 levantava uma questão:até que ponto é que o Santo Ofício representa o espírito da Igreja? E se os “guardiões da fé” estiverem desfasados do resto da Igreja? E, se o papa confiava no seu conselho, que esperança havia de uma solução católica para o problema do controle da natalidade? Menos de dois dias depois, às 11:15 de sexta-feira, dia 30 de Outubro, numa altura em que muita coisa havia ainda para dizer sobre a contracepção, o Cardeal Agagianian fez a chamada para uma votação final de pé. Alguns bispos encontravam-se no bar, e os que estavam na sala, em grande número, o que era pouco vulgar, permaneceram sentados. Aparentemente alheio a este facto, Agagianian declarou a moção aprovada. Foi esta a última vez que os bispos católicos puderam entregar-se a um debate livre sobre este assunto, o mais importante que está a afectar a Igreja. Depois, os bispos, como as mulheres, foram mandados “calar na igreja”. Tanto quanto se sabe, não houve qualquer contestação à decisão do papa de reservar a questão para si. Mesmo o Cardeal Suenens disse numa conferência de imprensa: «Os métodos a ser seguidos nestes estudos [sobre o controle da natalidade] teriam de ser submetidos ao papa e julgados pela sua suprema autoridade». Muitos periti, especialistas em teologia, acharam que isto era difícil de cumprir. Se o papa havia de decidir sobre o assunto ex-cathedra, teria primeiro de examinar em pormenor o espírito da Igreja. E ele não tinha feito tal. Pelo contrário, tinha suprimido o exame ao mais alto nível de um concílio. Por outro lado, se se pronunciasse, mas não ex-cathedra, a sua decisão, embora autorizada, não poderia impor o tipo de sancionamento que desse a questão por encerrada de uma vez por todas. Este resultado podia ser pior do que o primeiro. Dificilmente se pode negar que os bispos faltaram ao desafio de Maximos. Em nome de Cristo crucificado e ressuscitado, deviam ter-se apresentado com uma solução prática; sem ela, a missão da Igreja no mundo ficou em perigo. No dia 25 de Novembro, um mês depois do explosivo debate fracassado, o papa enviou cinco modi ou emendas ao texto sobre o casamento no documento sobre “A Igreja no Mundo Moderno”. Estas iriam alterar o texto depois de aprovado por dois terços do Concílio. A Comissão Conciliar ficou irritada. O Cardeal Léger ergueu o seu protesto dizendo que se tratava de uma infracção às regras estabelecidas por João XXIII e pelo próprio Papa Paulo. A isto respondeu o teólogo do papa, o Cardeal Dominicano irlandês Michael Browne dizendo que o papa já se pronunciara e portanto o assunto estava encerrado. O que ele pretendia era uma clara reafirmação da Encíclica Casti connubii. Quando a Comissão recusou, Ottaviani teve de dizer ao surpreendido papa que uma grande maioria da Comissão tinha dito Não. Outro cardeal, Garrone, informou francamente o papa de que andava a brincar com o fogo. Primeiro, tinha vetado o direito dos padres a discutir o controle da natalidade; e agora tencionava impor unilateralmente a sua própria solução e mascará-la de conciliar! Conseguiu-se uma solução de compromisso. As emendas deviam ser aceites, mas não textualmente e não haveria nenhuma repetição da Casti connubii. Estava armada a ratoeira. E Paulo VI, um homem generoso, embora indeciso, preparava-se para cair nela. Ou, pelo menos, para pensar se o devia fazer. Hamlet lança-se ao trabalho Paulo via a questão que enfrentava como a mais grave da história da Igreja. E disse isto mesmo numa declaração datada de 23 de Junho de 1964. Seria ele a tomar a
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    266 decisão final. «Masentretanto Nós dizemos francamente que até agora Nós não temos motivos suficientes para considerarmos desactualizadas e consequentemente não vinculativas as normas estabelecidas por Pio XII a este respeito. Portanto, elas devem ser consideradas válidas, pelo menos até que Nós nos sintamos obrigados em consciência a alterá-las». Para muitos comentadores, o seu espírito parecia mais vacilante do que fechado à mudança. Na verdade, no seu magnífico discurso sobre a paz, nas Nações Unidas, em 4 de Outubro de 1965, disse: «É preciso que vos empenhais em multiplicar o pão de modo que este chegue para as mesas da humanidade, em vez de defender um controle artificial da natalidade, que seria irracional, para diminuir o número dos convidados para o banquete da vida». A alternativa simplista — pão ou controle da natalidade — era de mau agouro para a Igreja. Por outro lado, nesse mesmo dia, o diário italiano Corriere de la Sera publicava uma entrevista com o papa na qual o seu hamletianismo parecia ter- se agravado. O mundo interroga-se sobre o que Nós pensamos e Nós temos de dar uma resposta. Mas qual? Nunca a Igreja se confrontou com um tal problema na sua história. É uma estranha questão para ser discutida por homens da Igreja, humanamente embaraçosa mesmo. As comissões estão a trabalhar e os relatórios amontoam-se. Está a estudar-se muito; mas Nós temos de tomar uma decisão. Ela é de Nossa exclusiva responsabilidade. Decidir não é tão fácil como estudar. Mas Nós temos de dizer qualquer coisa. O quê? […] Deus tem realmente de Nos iluminar. A humildade perante tão momentosa tarefa era compreensível. Tal como todos os clérigos, era celibatário de toda a vida, sem conhecimento directo e pouca percepção imaginativa do assunto que tinha de julgar. Admite mesmo que a questão era «embaraçosa». Estava quase com setenta anos, gasto e cansado, e com uma preocupação por toda a Igreja. Todos os dias era solicitado a resolver disputas, a sancionar milhares de documentos, a receber dignitários e embaixadores estrangeiros. E em cima de tudo isto, estava uma “montanha” de relatórios sobre o controle da natalidade, a questão mais preocupante que um papa moderno já tinha enfrentado. Para os observadores independentes, a situação estava à beira de se tornar uma farsa. Uma instituição grande e resistente estava em ebulição por causa de uma questão que a maioria das pessoas dentro e fora da Igreja já tinha resolvido há séculos. 700 milhões de pessoas viam neste velho santo celibatário encasulado a concentração da sabedoria sobre o sexo e o casamento. Paulo era um homem intelectualmente capaz, especialmente no seu campo de eleição, a diplomacia; mas era preciso génio para tratar de um problema com cuja resolução ele resolvera arcar sozinho. Com a ajuda dos bispos no Concílio podia ter adoptado uma atitude mais progressista, como acontecera com o Judaísmo, com a liberdade de culto, etc.. Mas dispensara a sabedoria colectiva dos bispos e, qual Atlas, tinha tomado o mundo sobre os ombros. Isto era heróico, mas seria prudente? Os seus únicos conselheiros mais chegados eram agora membros da Cúria, como Ottaviani e Browne, aqueles cujas opiniões tinham sido rejeitadas pelas comissões conciliares e pelos padres quando se chegou à votação. O Sumo Pontífice estava nas mãos da velha guarda que, se isso estivesse no seu poder, nunca teria promovido concílio nenhum.
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    267 E ao falarpara os delegados da Sociedade Italiana de Obstetrícia e Ginecologia, em 29 de Outubro de 1966, Paulo em nada contribuiu para aumentar a confiança numa sua decisão final. Num desempenho digno de Salvador Dali, disse ele: Para Nós, a Mulher é o reflexo de uma beleza que a transcende, é o sinal de uma bondade que Nos parece infinita, é a imagem reflectida do homem ideal tal como Deus o concebeu à Sua imagem e semelhança. Para Nós, a Mulher é uma visão de pureza virginal que renova os mais elevados sentimentos emocionais do coração humano. […] Para Nós, ela é a criatura mais dócil para a formação. […] Portanto, a cantar, a rezar, a anelar, a chorar, ela parece convergir naturalmente para uma única figura, imaculada e pesarosa, em que uma Mulher privilegiada, abençoada entre todas, estava destinada a tornar-se, a Virgem Mãe de Cristo, Maria. Não há registos que nos elucidem sobre se os ginecologistas reconheceram nestas palavras a mulher grávida média que os procura no consultório. É um facto que sempre que um documento papal se refere conjuntamente às mulheres e a Maria, a causa das mulheres no mundo moderno tende a sofrer. «Como vedes, meus senhores», disse Paulo, «é neste plano que Nós conhecemos a Mulher. […] Não duvideis. Isto fornecer- vos-á matéria para novos pensamentos nobres e bons e vós acrescentareis dignidade e mérito à vossa profissão». A seguir, o pontífice virou-se para o controle da natalidade. O facto de a venda de contraceptivos ser então ilegal em Itália e as leis da família favorecerem as famílias grandes, muito grandes mesmo, não ajudava nada. Tinham passado já dois anos sobre o Concílio e ele continuava a estudar, disse, os dados científicos e demográficos, bem como as implicações doutrinais e pastorais. Nunca nenhum papa estivera tão rodeado de papeis desde que Sisto V fizera sozinho a revisão da Bíblia. Paulo falou da sua comissão como sendo «alargada, variada e extremamente competente». «Esta comissão […] já concluiu os seus grandes trabalhos e já Nos apresentou as suas conclusões». Ao reconhecimento da sua extrema competência seguiu-se um acrescento tipicamente hamletiano: «Parece-Nos, porém, que essas conclusões não podem ser consideradas definitivas». O relatório tinha graves implicações cuja resoçução era responsabilidade exclusivamente sua. Entretanto, lembrou-lhes, as normas de comportamento ensinadas pela Igreja até então ainda em vigor. Elas não podem ser consideradas não vinculativas como se o magistério da Igreja estivesse presentemente num estado de dúvida, quando está, isso sim, num momento de estudo e reflexão de matérias que lhe foram presentes como dignas da mais atenta ponderação. Os comentadores ficaram intrigados. Tinham passado já vários anos desde que João XXIII tinha criado a comissão. Paulo tinha-a alargado e instado a que tratasse do assunto imediatamente. Se não havia dúvidas, por que é que, afinal, era precisa uma comissão? E por que não simplesmente repetir, nesta fase tardia, a doutrina dos seus antecessores, como a Cúria desejava? Ao mais baixo nível, começava a desenrolar-se uma revolução silenciosa e durável, inédita na história do Catolicismo. Muitos leigos, encorajados pelos seus párocos, começavam a pensar pela própria cabeça. Pensavam que não havia explicação para a
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    268 interminável demora dopapa, a não ser uma dúvida genuína; entretanto tinham resolvido a questão em sua própria consciência. O método do período seguro — conhecido como a Roleta Vaticana — era inconveniente e verdadeiramente artificial. Chegou mesmo a frustar os cálculos de matemáticos superiores, assistidos por computadores, dando origem a alguns gracejos: «O período seguro só é permitido porque o papa sabe que não é seguro» e «O único período seguro para certas mulheres é entre os sessenta e noventa anos de idade». Do ponto de vista médico, o método funcionava bem para aqueles que menos precisavam dele. Para uma rapariga solteira é relativamente fácil determinar os seus períodos estéreis. Para uma mãe de família é praticamente impossível. Ela passa provavelmente as noites a saltar da cama para tratar dos filhos; está sujeita a apanhar os germes dos filhos, o que lhe faz aumentar a temperatura e interfere nos seus cálculos. O método também é inútil durante a aleitação quando a menstruação cessa mas ela continua a poder conceber. Finalmente, o método do período seguro é inútil no caso da mulher que se aproxima da menopausa, altura em que os seus períodos se tornam desesperadamente irregulares. A falta de confiança pode provocar as suas próprias ansiedades, ou mesmo uma amargura e um sentimento de revolta quando, a despeito de todas as precauções o método falha. Algumas mulheres acham-no tão artificial, tão contrário ao verdadeiro amor, que preferem a abstinência total. Outras, quando o método falha e ficam grávidas, rejubilam com a ideia de um aborto. São estas algumas das fatídicas consequências do “método natural“ de controlo da natalidade. Para aquelas mulheres que têm de evitar a gravidez a todo o custo — devido a problemas de saúde próprios, da família, do marido ou de um filho deficiente — o período seguro torna-se um pesadelo. Isto acontece quando elas têm duas ovulações num mês ou a menstruação não aparece durante anos devido a um parto seguido de amamentação e, depois, de outra gravidez. Como é que estas mulheres podem explicar aos seus párocos que, mesmo admitindo que o sexo durante o período seguro seja natural, o casamento em si mesmo é desesperadamente artificial? No princípio dos anos sessenta já muitos casais começavam a interrogar-se. Estará certo deixar o clero na sua ignorância e na sua arrogância? A ignorância das muitas facetas do sexo e do caos dos filhos, e a arrogância que os leva à convicção de que a ignorância é a melhor base para pontificar sobre o casamento? Como escrevia uma mulher em The Experience of Marriage (1964): «Por que é que os padres adoptam um ponto de vista tão pouco complacente em relação aos problemas que os pais enfrentam? Provavelmente porque não são casados. […] Talvez baseiem muitas das suas ideias sobre a vida familiar nas recordações das suas famílias, no meio das quais viveram como crianças e não como adultos que tinham de se preocupar com os problemas. As responsabilidades da paternidade têm de ser vividas para se poderem compreender integralmente». Nos anos imediatamente posteriores ao Concílio Vaticano II muitos casais, antecipando a mudança, tomaram as suas próprias decisões. Não estavam dispostos a correr o risco de sobrecarregar a família ou de provocar o gradual afastamento um do outro por não poderem exprimir o seu amor ou por terem de o fazer segundo os ditames do calendário. A abstinência do sexo antes do casamento era uma coisa; a abstinência depois do casamento, outra completamente diferente. Como explicar aos padres que o sexo não era crua paixão, mas sim a realização do amor, às vezes essencial numa crise familiar ou como meio de reconciliação quando o casal tinha uma zanga? Absterem-se como se fossem celibatários minaria os fundamentos físicos do casamento e roubar- lhes-ia um direito fundamental. Usar contraceptivos pouco mais “anti-natural” era do que
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    269 um casamento semsexo ou com sexo destruído pela ansiedade. Se os clérigos pensavam que era “natural“ os jovens casais apaixonados dormirem juntos durante anos sem exprimirem esse amor integralmente, que experimentassem. Nascia assim uma geração de casais que era uma espécie de cunha a separar os católicos de antes e depois da comissão para o controle da natalidade. Mesmo o clero conservador apontava o dedo ao Papa Paulo pelo caos da Igreja desde o Concílio Vaticano II. Em vista da sua tentativa de impor a Casti connubii ao Concílio, é necessário tomar as palavras de Paulo pelo seu valor facial. Pessoalmente, ele nunca duvidou da doutrina “tradicional” sobre a contracepção. Todos os métodos restritivos eram condenáveis. Podia haver razões terapêuticas para tomar a Pílula — por exemplo, para regular o ciclo menstrual — mas não havia justificação nenhuma para a usar como contraceptivo. Talvez ele tivesse a esperança de que a comissão o apoiasse nesta matéria, lhe fornecesse argumentos sólidos da “lei natural” que todos os homens de boa vontade pudessem aceitar. As suas esperanças goraram-se. Uma esmagadora maioria da Comissão manifestou-se contra ele. Os seus quatro teólogos conservadores confessaram que não conseguiam justificar a velha posição com base exclusivamente na razão ou na lei natural. Era necessário o apoio da autoridade e da revelação. Em resumo: depois de anos de estudo por aquele grupo de especialistas, o papa encontrou-se de novo no ponto de partida. Não só a Comissão lhe negou o seu apoio, como ainda por cima os seus membros conservadores vieram dizer que não havia argumentos convincentes na fundamentação tradicional da proibição. Ottaviani, embora co-presidente da Comissão, recusou-se a apresentar ao Papa Paulo o relatório da maioria. Os quatro teólogos conservadores radicais apresentaram particularmente ao pontífice um sumário. Os dois relatórios De acordo com o relatório da maioria, dizer que a contracepção nem sempre está errada é uma “evolução“ da doutrina católica à luz de circunstâncias que se alteraram. Uma vez que a doutrina tradicional dizia que a contracepção é intrinsecamente condenável e nenhuma circunstância pode alterar esse facto essencial, seria pedir muito a um papa indeciso que aceitasse o que nele se dizia. A maneira como o relatório está impregnado de uma filosofia personalista também tornava a sua aceitação improvável. O relatório falava de “o princípio da totalidade”. A faculdade do sexo não deve ser olhada como uma pessoa; é uma parte da pessoa. E a pessoa é, no casamento, uma das partes de um casal e um membro de uma família. Daí que a moralidade da relação sexual não seja avaliada pelo exame do exercício de uma faculdade, nem na base de actos sexuais isolados. O casamento deve ser olhado como um todo. É o casamento assim considerado que pode estar ou não de acordo com a lei de Deus, isto é, ser fecundo ou estéril. A maioria também se refere à doutrina do Concílio que afirma o direito dos casais de decidirem por si próprios, em conformidade com Deus, sobre o número de filhos que desejam ter. A paternidade responsável era uma condição da castidade conjugal. Como conseguir hoje tal paternidade? Usando métodos modernos, um dos quais, primeiro permitido por Pio XII, é o aproveitamento do período infértil. O relatório repete a afirmação do Concílio — nunca antes aceite pela Igreja — de que a ausência prolongada de relações no casamento pode levar à infidelidade.
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    270 A comissão concluiuque, uma vez que o sexo já não é visto primária e invariavelmente como gerador de filhos e numa altura em que a sexualidade é vista, no contexto do casamento, como fazer amor e nem sempre como fazer bebés, não há qualquer objecção aos contraceptivos. Os valores morais e espirituais, e não os biológicos, é que devem ditar os comportamentos. O documento, aqui apenas resumido, estava bem fundamentado, mas para o Papa Paulo não tinha de modo nenhum a força argumentativa do relatório da minoria. «Será que a contracepção é sempre um mal?» O resumo da minoria — que nunca foi um relatório oficial — ia direito ao alvo. Com a enganosa lucidez de um texto escolástico, os autores analisam cada um dos termos da questão. Contracepção: qualquer utilização do casamento em cujo exercício se priva o acto, por intervenção humana, do seu natural poder de procriar. Sempre um mal: qualquer coisa que nunca se pode justificar por qualquer motivo ou circunstância. É sempre um mal porque o é intrinsecamente, por via da lei natural. Não é um mal por ser proibido. Depois o resumo pergunta: «Que resposta é que a Igreja tem dado a esta questão até agora? Nos documentos do magistério e em toda a história da doutrina sobre o assunto encontra-se uma resposta afirmativa constante e perene». O resumo cita as fontes. Significativamente não recua para além da encíclica de Pio IX Casta connubii de 1930. Seria isto suficiente para os seus fins na medida em que a encíclica falava da “ininterrupta tradição cristã”? Havia outra razão para não ir mais longe no recuo até ao passado que será referida mais adiante. De acordo com Pio XI, a contracepção é uma «violação criminosa». Não há razão nenhuma, por muito séria que seja, para que qualquer coisa intrinsecamente contra a natureza se possa tornar conforme a ela e moralmente boa. Como, portanto, o acto conjugal se destina por natureza à procriação, aqueles que ao praticá-lo frustem deliberadamente o seu poder e fins naturais pecam contra a natureza e cometem um acção vergonhosa e intrinsecamente imoral. «A Majestade Divina», continua Pio, «detesta esse crime indizível com a mais profunda aversão e por vezes pune-a com a morte». A ideia de uma divindade pronta a dar a morte por causa da contracepção é realmente assustadora. Depois Pio XI falava da Igreja Católica que «se impunha no meio da ruína moral que a rodeava para evitar que a castidade na união nupcial fosse conspurcada por esta suja mancha». Aqueles que «praticam» a contracepção «são culpados de um grave pecado». Foi uma performance de virtuosismo na melhor tradição da ópera italiana, motivada pela Conferência Lambeth, que no princípio de 1930 tinha sancionado o controle artificial da natalidade. Em 1951, Pio XII ainda se opunha àquilo que era conhecido nos círculos católicos como “O Descarrilamento de Lambeth“. «Este preceito [contra a contracepção]», disse Pio XII, «é tão válido hoje como o era ontem e será amanhã e sempre, porque não implica um preceito da lei humana, mas é antes a expressão de uma lei que é natural e divina». Depois de citarem Pio XI e Pio XII, os autores do resumo fazem agora o mais constrangedor apelo ao Papa Paulo. Durante séculos, e sem uma única excepção, a Igreja condenou a contracepção. Se mudar de ideias estará não só a negar-se a si própria e à sua afirmação de que ensina uma verdade válida para todos os tempos; terá também de se submeter a qualquer coisa de muito mais humilhante.
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    271 Se a contracepçãofosse declarada como não intrinsecamente um mal, teria de se reconhecer honestamente que o Espírito Santo em 1930, em 1951 e 1958 [datas de declarações papais] apoiou as Igrejas Protestantes e que durante meio século Pio XI, Pio XII e uma grande parte da hierarquia católica não protestou contra um erro muito grave, um erro extremamente pernicioso para as almas; porque assim estaria a sugerir-se que eles condenaram muito imprudentemente sob pena de castigo eterno milhares e milhares de actos humanos que agora eram aceites. Seria difícil encontrar na literatura católica argumento mais brilhante. Eles estavam praticamente a desafiar o Papa Paulo a dizer que afinal a Reforma foi uma coisa boa e que os Protestantes, com um julgamento particular, tinham feito melhor do que o Catolicismo com os papas. Se o papa agora permitir a contracepção, isso significará o fim da autoridade papal. Seria então melhor abdicar. Destruirá a sua própria autoridade bem como a dos seus antecessores; admitirá tacitamente que a Igreja Anglicana era mais inspirada do que a Romana; concordará que muitos católicos foram condenados por fazerem aquilo que ele, Paulo VI, irá proclamar como não sendo pecado nenhum — ou melhor, como sendo um acto de virtude matrimonial. Toda aquela angústia, todos os sacrifícios dos católicos leais e obedientes, todas aquelas almas perdidas, por causa de um erro papal? Apesar de brilhante, deve acrescentar-se aqui que o argumento não é inteiramente honesto. Os autores acentuavam a constância da tradição no que respeita ao controle da natalidade, mas não diziam que esta “tradição” se baseava numa visão do sexo que a Igreja já tinha decisivamente rejeitado. Não recuaram para além de Pio XI para confirmarem os seus pontos de vista porque não podiam. Antes dele apenas encontrariam uma confirmação parcial. Durante mais de mil e quinhentos anos a Igreja concordou com uma visão do sexo que era agora abandonada. Tinham, por exemplo, Pio XII do seu lado neste aspecto: Pio XII disse que a contracepção era sempre um erro. Mas também disse que o sexo no casamento é puro e sagrado. A primeira afirmação é da tradição, a segunda é totalmente contra ela. Se os autores tivessem apontado este desagradável facto, o Papa Paulo teria provavelmente continuado com a sua indecisão hamletiana até morrer. O relatório resumido da minoria sugeria que se o papa fosse ceder ao controle da natalidade provocaria um efeito de dominó. Haveria imediatamente um clamor pela legitimação do sexo antes do casamento, da masturbação, da esterilização, do divórcio e do aborto. Uma vez repudiado o objectivo primário do casamento, os teólogos liberais começariam a argumentar que o sexo fora do casamento era moralmente aceitável, desde que se usassem contraceptivos. Contudo, foi a atitude da minoria em relação à autoridade papal que mais impressionou o pontífice. Depois de ler os dois relatórios, o papa compreendeu que a sua posição era intolerável. Invadiu-o um enorme desânimo que nunca mais o abandonaria, embora ainda viesse a viver mais doze anos. O seu dilema era: se dissesse Não à contracepção, levantaria uma enorme oposição ao papado dentro da Igreja; se dissesse Sim, do papado não ficaria pedra sobre pedra. Do papado tal como ele o entendia. Infelizmente, pouco tendo aprendido com o Papa João, continuava agarrado à noção medieval do papado que prevalecia desde Gregório VII.
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    272 Todo o mundoandava intrigado com o que se estava a passar no Vaticano. Nunca uma encíclica foi aguardada com tanto interesse. Porém, Paulo levou ainda dois anos a finalizar o seu pensamento. Hamlet ainda tinha muitas leituras a fazer. * * * Havia para começar, o ataque de Pio XII à paternidade planeada, em 1958, quando se dirigiu às Associações Italianas para as Famílias Numerosas. As suas palavras pareceram então piedosos e de modo nenhum um arremedo. Disse o pontífice: Sempre que se encontram famílias numerosas em grande número, elas apontam para um povo cristão física e moralmente saudável. […] O bom senso sempre e em toda a parte olhou as famílias numerosas como sinal, prova e fonte de saúde física. […] A virtude floresce espontaneamente nos lares onde sempre se ouve o choro de um bebé vindo do berço. […] Mal acaba uma série de alegres peregrinações à pia baptismal já uma outra começa para a confirmação e a primeira comunhão. […] Mais casamentos, mais baptizados, mais primeiras comunhões seguem-se uns aos outros como primaveras sempre renovadas. […] A sua [dos pais] juventude parece nunca se desvanecer enquanto se mantém no lar a doce fragrância de um berço, enquanto as paredes da casa ecoam as vozes prateadas dos filhos e dos netos. O pontífice lembrou que os santos são oriundos de famílias numerosas. Bellarmino tinha onze irmãos, Pio X, nove, Catarina de Siena, vinte e quatro. Mas é difícil de acreditar que mesmo em 1958 todas as “peregrinações” dos pais italianos à igreja fossem assim tão alegres. Continuando a leitura de Pio XII, Paulo deve ter reparado que uma importante previsão sua de dez anos antes se tinha revelado falsa. As novas fontes de energia, dizia ele, hão-de garantir «a prosperidade para todos os habitantes da terra por muito tempo». Paulo sabia que o mundo tinha mudado profundamente desde o optimismo dos tempos de Pio. Entre os documentos que se amontoavam sobre a sua secretária estavam alguns fornecidos pelos demógrafos. Eram uma leitura sombria. A sentença bíblica “Multiplicai-vos e enchei a terra“ já tinha sido amplamente cumprida. A fecundidade humana é tremenda; tem de ser assim para garantir a sobrevivência em tempos de peste, guerra, mortalidade infantil elevada, morte precoce. Depois veio a moderna medicina e o cenário mudou rapidamente. Nos países desenvolvidos, a mortalidade infantil é quase nula, os idosos morrem cada vez mais tarde. Mesmo entre os países em desenvolvimento, muita gente morria de fome enquanto a medicina garantia a sobrevivência de gente que em épocas passadas teria morrido, um quarto deles antes do primeiro ano de vida e um terço dos restantes antes dos quarenta e cinco anos. Isto implicava uma revisão radical das ideias sobre a procriação. Era verdadeiro para as nações e também para as famílias que as constituíam. A nível nacional, estimava-se que em França, se a mortalidade tivesse baixado sem uma correspondente baixa da natalidade, o país teria agora uma população de 500
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    273 milhões. A populaçãoda França e da Grã-Bretanha juntas podiam hoje igualar a da China. O Papa Paulo lera certamente os Dados sobre a População Mundial baseados em fontes das Nações Unidas e publicados pelo Population Reference Bureau of Washington. As estatísticas mostravam que a população mundial estava a crescer 1,9 por cento. Desde 1958, quando o alarme soou pela primeira vez, havia mais 500 milhões de pessoas vivas; havia um total de 3.520 milhões de habitantes. Os 500 milhões da Índia estavam a aumentar em 2,7 por cento; o Paquistão estava a tomar a dianteira com 3,1 por cento. A América Latina vinha logo depois com 3 por cento. O último aumento significava que a população duplicaria em pouco mais de vinte e três anos. Os bairros de lata crescem mais do que os outros; os pobres são cada vez mais pobres, os famintos cada vez mais famintos. No princípio dos anos 60 — muito antes da actual crise — não havia qualquer esperança para as nações com uma alta taxa de crescimento de virem a ter suficiente alimentação, educação, cuidados de saúde, habitação, lazer e, perigosamente, empregos. Nem subsídio de desemprego. A contracepção nunca foi só por si a resposta para um problema tão vasto e tão complexo; mas sem ela não havia resposta possível. Se toda a gente, incluindo os pobres, continuasse a procriar em termos próximos do máximo biológico, nações inteiras ficariam reduzidas à mendicidade. A humanidade ao nível ou abaixo do nível de subsistência seria confrontada com os habituais flagelos: a doença e a guerra. Nos anos 60, quando Paulo estava a escrever a encíclica, os povos da América do Sul viviam em condições piores do que aquelas que os europeus foram obrigados a suportar nos dias mais negros da Revolução Industrial. Uma das maneiras de melhorar as condições era o aborto. Sabe-se que Paulo tinha sobre sua secretária relatórios oficiais sobre quase todos os países da América do Sul. No Chile, segundo um censo de 1967, uma em cada duas a três gravidezes era interrompida; durante anos, mais de um terço da mortalidade materna era causada pelo aborto. Na Colômbia 60 por cento dos abortos ocorriam em mulheres já com sete ou mais gravidezes. O Uruguai encimava a lista; as investigações mostravam uma taxa de 750 abortos em cada 1000 gravidezes. Uma ética estritamente católica estava a levar a uma fertilidade descontrolada, que, por sua vez, provocava um número maciço de abortos causadores da morte de muitas mães. A Índia, a maior democracia do mundo, já estava superpovoada; as restrições eram vitais. Uma adesão muito estreita à doutrina católica depressa teria destruído a democracia na Índia. Se a China, só ela, adoptasse a doutrina católica, não haveria qualquer esperança para a humanidade. Em 1965, um em cada quatro habitantes da terra era chinês. Os prelados católicos, como o Cardeal Heenan, de Westminster, argumentavam que poucos indianos e praticamente nenhum chinês eram católicos; de qualquer maneira não davam ouvidos ao papa. Mas não era este o ponto. Dificilmente se poderá dizer que qualquer doutrina que, se praticada generalizadamente destruiria o planeta, tem a razão do seu lado. Além disso, a doutrina católica é supostamente parte da lei natural inscrita no coração dos homens. O resto do mundo bem podia agradecer a Deus por os chineses e os indianos não a lerem nos seus corações. A única solução da Igreja para a sobre-povoamento era a total abstinência sexual ou a limitação do sexo ao “período seguro“. Pedir aos governos, já à beira do desespero, para banirem a Pílula, os dispositivos intra-uterinos, os preservativos e substituí-los por termómetros e calendários, bem como fornecer um vasto exército de educadores para assegurarem uma boa compreensão do método, era irrealista. Além disso, são os pobres, os que vivem nas barracas, os subnutridos — aqueles que mais precisam limitar
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    274 o seu número— que acham a abstinência sexual intolerável e o período seguro impossível. Passando do nível nacional para o familiar, a doutrina católica proibia a contracepção em todos os casos. Deus entenderia, evidentemente, que algumas pessoas fossem tentadas até ao limite da sua resistência. Mas nunca para além dela. Com a graça de Deus, todos os casais podem agir de acordo com a doutrina da lei natural. Os casos dolorosos fazem más leis. Conquanto o Papa Paulo, devido à sua falta de experiência pastoral, não tivesse tido conhecimento de tais casos pessoalmente, eles constavam dos dossiers que se encontravam sobre a sua secretária. Um marido vive do subsídio de desemprego e sem qualquer perspectiva de emprego. Ele e a mulher vêem-se obrigados a viver com os pais desta — ou em instalações miseráveis alugadas ou num sótão de um bloco de apartamentos. Têm três filhos. Demais para as suas apertadas circunstâncias. Dizem-lhes que se devem abster de sexo, o que pode significar absterem-se do amor e da compaixão, ou então utilizarem o período seguro. Todas as três crianças são fruto desse método. Deus providebit, Deus providenciará. Depois de um acidente de viação, um homem fica incapacitado para toda a vida. A mulher trabalha para sustentar o casal; uma gravidez deixá-los-ia sem tostão. Deus… Depois da sua sexta gravidez em sete anos, uma mulher acaba de sair de um hospital psiquiátrico. Receia desesperadamente outra gravidez. Deus… O último filho de um casal nasceu mentalmente deficiente e exige toda a atenção da mãe. Deus… Uma mulher é avisada pelo seu médico de que mais uma gravidez afectaria gravemente a sua saúde, poderia até matá-la. Ela já tem oito filhos. Deus… Hoje, muitas mulheres não estão dispostas a arriscar-se a ter uma família numerosa. Não o desejam, nem se sentem espiritual nem emocionalmente capazes de lidar com tal situação. Deus… Uma mulher teve trigémeos; outra, com drogas fertilizantes, teve seis gémeos. Ambas estão a ter muita dificuldade em gerir a situação. Deus providebit, Deus providenciará. Em Setembro de 1967, o Presidente Carlos Lieras Restrepo, da Colômbia, um país firmemente católico, fez uma intervenção na Conferência Inter-Americana. Visitei os mais pobres bairros de lata do país e recomendo esta visita às pessoas que analisam a população de um ponto de vista moral. […] O que é que podemos dizer do frequente incesto, da experiência sexual primitiva, do tratamento miserável dado às crianças, da terrível proliferação da prostituição de ambos os sexos, do aborto frequente, das relações quase animalescas por causa dos excessos do álcool? Consequentemente, não posso ficar sentado a analisar a moralidade ou imoralidade das práticas contraceptivas sem pensar ao mesmo tempo nas condições imorais e muitas vezes criminosas que um simples acto de concepção pode produzir com o decurso do tempo. Um ano depois disto, o Papa Paulo deu por terminado o seu demorado estudo do controle da natalidade. As sua conclusões eram tão inevitáveis como uma tragédia grega. A sua origem remonta aos tempos do Papa Gregório VII e Pio IX. Quem dera que Sua Santidade tivesse ido viver nos bairros da lata da Colômbia enquanto tomava a sua decisão.
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    275 Uma pílula amarga AEncíclica Humanae Vitae foi apresentada ao mundo em 25 de Julho de 1968. As palavras de abertura dão o tom do que viria a seguir: «O mais sério dever de transmitir a vida humana […] ». A frase seguinte também contém a palavra “dever”. Mas também faz um rapapé aos problemas modernos, como, por exemplo, que a população está a crescer mais depressa do que os recursos disponíveis. Faz uma breve análise à ideia de que a vida sexual dos casais deve ser julgada moralmente e em todos os seus aspectos e não apenas em termos de órgãos biológicos e suas funções. O que dele se exige como pontífice, lembra, é uma nova reflexão, mais profunda, sobre princípios morais básicos que subjazem ao casamento. Esta reflexão nova e mais profunda acaba por ser: mudança nenhuma, seja ela qual for, na doutrina da Igreja. Refere-se repetidamente a esta como “constante”. Não se apercebe do atraso com que esta doutrina “constante” ia entrar em cena. Paulo sanciona o período infértil nos casos em que os casais sentem que não querem mais filhos nessa altura ou por um período indeterminado. O aborto e a esterilização são ambos condenados. Igualmente condenado é qualquer acto que, quer no momento da relação sexual, quer antes, quer depois, se destine especificamente a evitar a procriação — seja como um fim, seja como um meio. […] Nunca é legítimo, mesmo por razões as mais sérias, fazer o mal para que dele resulte o bem […] mesmo que a intenção seja a de proteger ou promover o bem-estar de um indivíduo, da família ou da sociedade em geral. Pode morrer uma pessoa, uma família ou uma nação; mas usar preservativos é que nunca. Isto condiz com o famoso dito de Newton: A Igreja sustenta que era melhor que o sol e a lua caíssem do céu, que a terra falhasse e que todos os muitos milhões que nela habitam morressem de fome em extrema agonia, do que uma só alma, não direi se perdesse, mas praticasse um único pecado venial, dissesse uma mentira intencional, embora não prejudicando ninguém, ou roubasse um miserável tostão sem justificação. Para Paulo, qualquer utilização de contraceptivos não é, em si mesma, um pecado venial. Embora não fale da sua gravidade, também não estava obviamente a suavizar a doutrina de Pio XI de que a contracepção é sempre um pecado mortal. Portanto, impedir a concepção de um filho que irá nascer para a miséria e a fome ou que os médicos dizem estar condenado a ser um deficiente é pecado mortal. Impedir a concepção quando ela, como admite Pio XII, poderia afectar gravemente a saúde da mãe ou a sua morte, é pecado mortal. A única opção para o casal é levar uma vida completamente sem sexo; Deus providenciará, através da graça do matrimónio, a força necessária para levarem uma vida de celibato. Por mais dura que seja a situação da família, por mais doente que seja a mãe, a Igreja não pode aprovar nenhuma excepção. Esta é uma doutrina extremista. O único paralelo — embora de modo nenhum extremista a este ponto - é a recusa das Testemunhas de Jeová da transfusão de
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    276 sangue a umacriança moribunda. Para fundamentar a sua opinião o papa não consegue apresentar um único texto bíblico específico. A proibição do divórcio, o poder do papa de dissolver certos casamentos têm alguma justificação bíblica. A condenação da contracepção não tem nenhuma. Paulo cita várias vezes o Segundo Concílio Vaticano na Encíclica Humanae Vitae, muito embora tivesse proibido o Concílio de contribuir para a discussão que então assolava a Igreja. E mais: a Humanae Vitae fundamenta-se na (ou cai por terra por via da) distinção entre os objectivos primário e secundário do casamento, que o Concílio recusou utilizar. A tentativa do papa de a incluir através dos seus modi foi rejeitada pela comissão teológica. «Deus», prossegue o papa, «ordenou sabiamente as leis da Natureza e a incidência da fertilidade de tal maneira que os sucessivos nascimentos já são naturalmente espaçados». Mesmo os católicos conservadores consideram isto de difícil aceitação. À parte a sua habitual identificação das leis da Natureza (biológicas) com a lei natural (moral), o que é esta “sábia ordenação”, este “espaçamento natural” dos nascimentos? Com certeza que ele não quer dizer que se uma mulher conceber em Março não pode conceber em Abril, Maio ou Junho, etc., evitando assim o efeito de correia transportadora de bebés a saírem todos os meses. E também não pode ignorar que, embora a ovulação só tenha lugar uma vez por mês, os nascimentos podem acontecer regularmente todos os anos — a não ser que se tomem precauções. O facto é que nos animais o instinto sexual está essencialmente relacionado com a preservação da espécie. Esta a razão por que há as épocas de acasalamento. Paulo parece equiparar os humanos aos animais; o objectivo primeiro da sexualidade humana é também a preservação da espécie, e a ele tudo o resto se deve subordinar. O ser humano é de facto bastante menos afortunado do que os animais porque não tem épocas de acasalamento, os seus nascimentos não são naturalmente espaçados. Isto deixa a ideia de que no ser humano o sexo tem algo mais do que um significado puramente procriador. Os seres humanos têm relações sexuais quando, por exemplo, a mulher está grávida ou já está em período pós-menopausa. Por outras palavras, o sexo tem no ser humano um significado muito mais vasto do que nos animais, mas qual ele é, o papa não é capaz de dizer, porque com o seu critério puramente biológico de moralidade equipara os humanos aos sub-humanos. De facto, com “espaçamento natural” o papa apenas pode querer significar que os casais têm a liberdade de adivinhar quando é que a ovulação ocorre e ter a esperança de despistar a natureza com termómetros e calendários. Mas se Deus fez com que fosse tão difícil despistar a natureza, também dificilmente se poderá chamar a isto uma “sábia ordenação” em nome da humanidade. E o papa prossegue dizendo: «Nós cremos que os nossos contemporâneos estão particularmente aptos a compreender que esta doutrina está em harmonia com a razão». Escreve isto sabendo que alguns dos mais velhos cardeais no Vaticano II viam exactamente o contrário. E a maioria dos cardeais da sua comissão não viam assim a questão, nem nenhum dos leigos. Os quatro teólogos conservadores radicais da comissão disseram que a doutrina não podia ser vista só à luz da razão. As estatísticas mostraram que a maioria dos católicos também não entendia assim. O que Paulo devia ter dito era: Os nossos contemporâneos, mesmo com a melhor das boas vontades, não poderão aceitar isto. Os católicos têm de aceitá-lo porque eu mando. Uma vez que as objecções de Paulo à contracepção se baseiam na ideia de que ela constitui uma interferência na obra da Natureza, por que é que não condenou também a medicina moderna? É a favor dos medicamentos, das operações para curar a infertilidade, dos by-passes do coração, dos transplantes de rins. Porquê, se é
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    277 exactamente esta interferêncianos processos naturais que o leva a condenar a contracepção? Como dizia um católico angustiado: «Será que o papa me deixa usar óculos?» Certamente que parece estranho dizer-se: «Evitar que uma mulher conceba quando já tem seis filhos é pecado mortal; ajudar uma mulher estéril a conceber seis gémeos artificialmente está de acordo com a Natureza e é moralmente aceitável». Da Humanae Vitae ressalta um retrato da mulher que condiz com anteriores considerações de Paulo sobre as mulheres e a Virgem Maria. Um homem que se habitua ao uso dos métodos de contracepção pode esquecer o respeito devido a uma mulher e, sem olhar ao seu equilíbrio físico e emocional, reduzi-la a um mero instrumento para satisfação dos seus próprios desejos. Estaria ele a pensar numa mulher a viver numa barraca de um bairro de lata da Colômbia, já com uma dúzia de filhos? Ou numa mulher casada com um bêbado de fim- de-semana? E então os homens cujo único objectivo é tratar as mulheres como suas parceiras iguais e não como meras máquinas de fazer bebés, homens que querem decidir juntamente com as suas mulheres, responsavelmente, em conformidade com Deus, sobre qual o número certo de filhos para eles como família? Em qualquer sondagem feita em qualquer país do mundo, a grande maioria das mulheres concordaria que os contraceptivos melhoraram a sua condição, bem como o seu equilíbrio físico e emocional. Depois de condenar todas as formas de contracepção, o pontífice fica com receio de que as autoridades públicas ignorem as suas opiniões. Aos governos diz ele: «Não tolerai qualquer legislação que introduza na família essas práticas que se opõem à lei natural de Deus». Alguns governos da América do Sul responderam positivamente a este apelo de um pontífice que, dois anos mais tarde, fazia os possíveis por impedir o divórcio civil na Itália. No final da Humanae Vitae o papa convidava os padres a agirem com aquela obediência sincera, interior e exterior, que é devida ao magistério da Igreja. Porque, como sabeis, os pastores da Igreja gozam de uma luz especial do Espírito Santo ao ensinarem a verdade. E é esta, mais do que os argumentos que são apresentados, a razão por que sois obrigados a essa obediência. Será isto uma sugestão de que o Santo Padre sabe que não tem para oferecer aos seu padres argumentos da lei natural que fundamentem uma moralidade de lei natural? Uma vez que também não há qualquer prova bíblica, diz-se aos padres que obedeçam com base apenas na autoridade. Em relação à lei papal, nenhum padre pode ser “objector de consciência“. Embora a autoridade papal tenha há séculos um péssimo currículo no que respeita aos direitos humanos, os padres têm pura e simplesmente de entregar a sua consciência ao papa. As primeiras reacções A reacção dos jornais foi a que já se previa. Desde o Manual dos Erros, que em 1864 condenou todo o progresso humano, que os jornalistas não tinham uma oportunidade como esta.
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    278 Na Inglaterra oGuardian chamava à Humanae Vitae «um dos mais fatídicos disparates dos tempos modernos». As sondagens mostraram que «entre metade e dois terços dos católicos dos países desenvolvidos não concordavam nem aderiam aos ensinamentos da sua Igreja sobre a contracepção, e a prolongada perturbação do Vaticano mais encorajou os padres a abrirem a porta a uma decisão individual». O The Times dizia: O sancionamento com restrições do “período seguro” ou método do ritmo do controle da natalidade mais confusão provoca ainda porque parece admitir que a relação sexual pode praticar-se licitamente para outros fins que não a procriação. O The Economist apontava o exemplo da América do Sul, que o papa iria visitar nesse Agosto. O crescimento de 3 por cento fazia prever uma miséria quase inimaginável. «Embora venha a tornar-se alvo de amarga controvérsia, a encíclica, ainda apenas com alguns dias de vida, já está intelectualmente obsoleta». Até o semanário católico The Tablet queria saber «onde está a nova e mais profunda reflexão» que fora prometida à Igreja. Claro que alguns bispos ficaram satisfeitos. O Bispo (pouco tempo depois Cardeal) Wright, de Pittsburg apoiou entusiasticamente a encíclica. Ficou radiante por o papa não se ter «deixado influenciar pelas estatísticas», como se os milhões de crianças esfomeadas e as muitas mães que abortavam não contassem para os círculos do clero. O Cardeal Heenan, de Westminster, que tinha sido co-presidente da comissão do papa, escreveu: «As opiniões maioritárias são notoriamente de pouca confiança. […] Uma maioria de Nazis decretou a esterilização dos incapacitados e a liquidação dos Judeus». Esta analogia não cativou os leitores, a maioria dos quais não via qualquer relação entre o uso de um preservativo e a decisão de Hitler de mandar milhões para as câmaras de gás. E mais: Heenan esqueceu-se de dizer que quando a comissão do papa chegou ao momento da votação, se absteve por não ter conseguido tomar uma decisão; foi o papa que a tomou por ele. O Arcebispo Murphy, de Cardiff, disse que os contraceptivos eram para o homem «uma maneira barata de controlar os seus instintos e evitar as responsabilidades». No futuro, profetizou Sua Eminência, «esta encíclica há-de ser saudada como a Magna Carta, não só de todas as mulheres, mas também de todos os homens e de todas as crianças». Evidentemente que Sua Eminência não sabia que o Papa Inocêncio III tinha declarado a Magna Carta nula e inválida. As secções de cartas ao director em todo o mundo encheram-se de intervenções de católicos, na maioria hostis. Um leigo inglês, o deputado Norman St John Stevas, referiu-se à «esterilidade teológica da encíclica, à sua falta de realismo e à sua imprudência. Convidar as autoridades públicas na nossa sociedade pluralista contemporânea a banir a contracepção revela um divórcio inacreditável e alarmante das realidades do mundo contemporâneo». Para a maioria dos correspondentes católicos, a posição do papa parecia insensível à enorme variedade dos dilemas humanos. Ficava indiferente às consequências do banimento. Nem sequer se interrogava sobre se seria preferível evitar a vinda ao mundo de uma criança a tê-la, fazendo-a passar fome ou mesmo morrer à nascença. Muitos opunham-se ao ataque à pureza da maioria dos casamentos católicos e praticamente à de todos os casamentos não católicos. Alguns diziam que o Papa Paulo tinha condenado mais gente a uma vida de miséria e a uma morte ignóbil do que Hitler. A encíclica criaria novos guetos e campos de concentração, especialmente nos países católicos do Terceiro Mundo.
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    279 Os católicos conservadoresrejubilaram. Paulo reafirmara a doutrina tradicional e conservara o seu papel de doutrinador da verdade moral absoluta. Depois, Monsenhor Ferdinando Lambruschini, de cinquenta e sete anos, apresentou o documento à comunicação social. Disse então que uma leitura atenta do documento torna claro que ele não tem o cunho da infalibilidade. Os conservadores ficaram despedaçados. Se a Humanae Vitae exprimia a firme tradição da Igreja, então estava seguramente apta a levar o carimbo de aprovação infalível do papa. Se assim não era em relação a esta questão, a qual seria, então? Eles entendiam que a longa demora e o caos e a amargura que se lhe seguiram não podiam ser compensados por um pronunciamento infalível. Sendo falível, não vinculava as consciências em termos absolutos. A discussão continuaria, provocando provavelmente mais divisões do que nunca. Os católicos liberais foram ainda mais atingidos. O papa, ao repudiar todo o conselho, excepto o da Cúria, tinha agido como um protestante. Parafraseando uma frase famosa, tinha voltado as costas à Igreja e vinha depois queixar-se de que a Igreja se tinha deixado ultrapassar. A esperança que eles alimentavam de que o sexo e o casamento seriam vistos em termos morais e não biológicos gorou-se. Já não havia qualquer esperança de “cristianizar” o controle da natalidade, consciencializando as pessoas dos seus benefícios e perigos num contexto cristão de amor e preocupação. O papa dissera que o controle da natalidade não trazia quaisquer benefícios; era, isso sim, perigoso. Com esta decisão, os católicos arriscavam-se a perder a sua influência moral no mundo; daqui para a frente, seriam classificados como labregos, sobreviventes da Idade Média. Muitos sentiam que o papa tinha travado a batalha errada. Tinha condenado a contracepção, e sem esta o aborto era inevitável. Devia era ter condenado o aborto, diziam eles, em vez de o ter tornado mais provável. Reacções acreditadas O sentimento de medo e de intimidação na Igreja era tal que os padres e os teólogos se juntaram em busca de segurança. Na Inglaterra, cinquenta e cinco padres escreveram ao The Times discordando respeitosamente da Humanae Vitae. Nos Estados Unidos da América, um grupo de oitenta e sete teólogos, encabeçados pelo Padre Charles Curran, exigiam para si próprios um papel mais criativo do que simplesmente dizer que sim a toda a encíclica. Documentos papais houve, no passado, que causaram um mal tremendo — por exemplo, aos Judeus, às bruxas, a católicos comuns que caíram vítimas da Inquisição. «A História mostra», diziam eles, «que um grande número de afirmações de semelhante, ou mesmo maior peso autoritário se revelaram posteriormente inadequadas ou mesmo erróneas. Afirmações autoritárias do passado sobre liberdade religiosa, sobre os juros, sobre o direito ao silêncio e sobre os fins do matrimónio foram todas corrigidas em datas posteriores». Entre as deficiências da encíclica, estes teólogos apontam o «demasiado ênfase nos aspectos biológicos das relações conjugais como eticamente normativas; ênfase indevido sobre os actos sexuais e sobre a faculdade do sexo vista em si mesma separada do todo da pessoa e do casal […] um quase total menosprezo pela dignidade de milhões de seres humanos trazidos ao mundo sem a mais leve possibilidade de serem decentemente alimentados e educados». Nem o Manual dos Erros de Pio IX provocara uma tal irritação e dissidência nos padres e teólogos católicos em todo o mundo. E por que é que isto acontecia? É que ainda estava muito viva a memória do Concílio do Papa João. O Concílio tinha vindo contradizer, com abertura e coragem, aquilo que a maioria dos papas do século XIX
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    280 tinham dito emmatérias tão diferentes como o Judaísmo e a liberdade religiosa. A Igreja tinha avançado; estava agora comprometida com ideias que muitos papas tinham chamado de insensatas e ateístas. O maior erro de Paulo foi avançar sozinho. Muito honestamente, ele não conseguia entender como é que uma coisa que os seus antecessores tinham rotulado de “obscenidade moral” podia evoluir para um “acto de graça”. Tratava-se, portanto, para ele, de uma escolha clara entre persistir na sua infalibilidade ou aliviar a miséria de milhões. Não se importara de dar o seu assentimento à evolução de uma “insensatez” para um “direito do homem“, nomeadamente, a liberdade de culto; mas isso foi quando tinha o apoio do Concílio. O que a Humanae Vitae provava mais uma vez era que o exercício da supremacia papal sem a aprovação da Igreja, e especialmente dos bispos, nem sempre une a Igreja; por vezes divide-a. A Encíclica Humanae Vitae, de um só golpe, desfez muito do que o Concílio tinha conseguido. O papa já não podia apresentar-se como o campeão dos direitos humanos, como o ponto de convergência da unidade de todos os cristãos. Tinha mesmo provocado a divisão na sua própria igreja. Se a Humanae Vitae tivesse sido apresentada ao Concílio em 1962 como documento preparatório, teria sido imediatamente rejeitada, juntamente com os documentos preparatórios da Cúria, como sendo arcaica e incorporando um ponto de vista teológico muito estreito. Paulo retirou a contracepção da competência do Concílio, na esperança de que a sua autoridade fosse a garantia de que o resultado final obteria a aprovação unânime. Mas foi o contrário que aconteceu. Esta única decisão puramente papal estilhaçou a Igreja. Outra razão para esta revolta sem precedentes dos teólogos católicos era que eles sabiam que a Humanae Vitae iria reforçar a casuística do sexo que há tanto tempo denegria as páginas da teologia moral. O assunto é demasiado desagradável para se entrar em grandes pormenores e mesmo alguns moralistas que escrevem em inglês põem a discussão do sexo em latim. Há páginas de alguns respeitáveis moralistas mais cruas do que as de Rabelais e tão obscenas como as de O Martelo das Bruxas. Pois Paulo VI repetia que a moralidade do acto sexual deve ser julgada inteiramente do ponto de vista biológico. Tem de haver penetratio e inseminatio; o pénis tem de depositar o sémen na vagina. O sémen não deve ser retido num preservativo nem impedido de atingir o seu destino natural por um diafragma. Isto, diz o Papa, repetindo os seus recentes antecessores, é que é moral; tudo o mais não o é. As consequências disto só com muita prudência podem ser dadas à estampa. Se, por exemplo, um marido procura a mulher equipado com um preservativo, aquela deve resistir-lhe, dizia o Sagrado Penitenciário, «tal como uma virgem faria em relação a um violador». Se não conseguir resistir-lhe sem risco de ficar gravemente ferida ou mesmo de ser morta, pode submeter-se-lhe «passivamente», isto é, não pode ter prazer no acto sexual, mas antes conter-se rigidamente até ao fim. No caso de um casal católico incapacitado de ter filhos, o ginecologista achá-los-á provavelmente menos cooperantes do que os outros doentes — isto é, se eles obedecerem à Igreja. Porque não há excepções à regra que diz que o único destino legítimo do sémen do homem é a vagina da mulher. E então, como é que um médico obtém o sémen dos católicos para examinar o seu potencial, sendo certo que esse sémen ainda nunca fertilizara um óvulo? Ao homem não é permitida a masturbação. Esta é sempre condenável, mesmo quando para fins de procriação. Quando um renomado teólogo sugeriu que o sémen fosse retirado directamente dos testículos, uma vez que isso não envolvia prazer, Roma disse não, porque o sémen deve ser obtido “naturalmente”, isto é, numa relação sexual normal. Os moralistas sugerem que marido
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    281 e mulher tenhamrelações imediatamente antes do exame pelo ginecologista, embora o médico prefira sem dúvida o sémen de uma forma mais prontamente acessível. Além disso, não é verdade que de qualquer maneira, ele é obrigado a retirar o sémen «do seu receptáculo natural»? É verdade, respondem os moralistas, mas o sémen foi inicialmente depositado no sítio certo e in situ fica o tempo bastante para fertilizar o óvulo, se for essa a vontade da Natureza e de Deus. Alguns moralistas vieram com uma ideia ousada aprovada por Roma: marido e mulher podiam ter relações sexuais com preservativo desde que este fosse previamente perfurado. Não esclarecem sobre a extensão da perfuração, mas presume-se que deva ser o suficiente para deixar passar sémen bastante para fertilizar a mulher se for essa a vontade de Deus. O preservativo perfurado será então entregue ao ginecologista que procederá ao exame do sémen do marido. Não há dúvida de que o médico prefere esta a uma outra solução dos moralistas que consiste em utilizar uma espátula cervical depois do acto sexual realizado imediatamente antes de o casal entrar para o consultório. Estes são apenas dois exemplos das muito curiosas consequências da lei papal segundo a qual a justeza ou não do acto sexual deve ser julgada segundo padrões biológicos e não morais. Mesmo assim, apesar da sua erudição teórica, não há qualquer lógica na doutrina dos moralistas, pois, se aderirmos à “biologia correcta”, a remoção de qualquer porção de sémen da vagina ou a sua retenção num preservativo, tem de ser imoral. Enquanto que a água deve ser avaliada como um todo igual, desde que mate a sede, cada espermatozóide é diferente dos outros. Tirando alguns para análise, o médico corre o risco de tirar aquele, de entre milhões, que poderia ir fertilizar o óvulo. Com base nestas premissas biológicas, certamente que é sempre condenável o uso do preservativo, quer ele seja “seguro“ como Fort Knox, quer esteja perfurado como uma peneira. Numa lógica rigorosa, nunca se devia permitir a colocação de sémen em parte alguma, a não ser na vagina. Isto significaria que toda a análise científica do sémen seria imoral. Também os bispos, tal como os teólogos liberais, mostravam algum desconforto com a Humanae Vitae. Claro que, à semelhança dos seus antecessores após o Concílio Vaticano I, imediatamente cerraram fileiras. Mas uma análise das suas afirmações mostra a profundidade do dilema que o papa lhes deixara nas mãos. Na África do Sul, o Bispo Van Nielsen, membro do Secretariado para a Unidade Cristã, disse que a proibição do papa era «mais uma disciplina do que uma doutrina e deixa a porta aberta a uma decisão pessoal». Mas o papa, na verdade, tinha deliberadamente fechado a porta bem fechada. O Arcebispo Hurley, de Durban, admitiu que a encíclica foi «o caso mais penoso da minha vida de bispo. […] Nunca me senti tão dividido». Em resultado do Concílio tinha abandonado a sua posição conservadora de uma vida. O Concílio mostrou «os resultados magníficos que é possível obter através de um debate completo e aberto. […] Foi a colegialidade no seu melhor, ou quase no seu melhor, porque a extensão da consulta pode ser alargada para incluir mais gente de Deus - o seu clero, religioso e laico. […] Como irmãos do Papa Paulo no episcopado, os bispos não podem fugir à questão de como pensam que a autoridade do seu irmão mais velho deve ser exercida. Discutir o assunto com ele não é deslealdade, mas antes dizer a verdade no amor». As cartas pastorais conjuntas revelam o mesmo embaraço pós-Vaticano II. Na Holanda, onde uma sondagem mostrou que 80 por cento dos católicos eram contra a Humanae Vitae, os bispos disseram calmamente: «Que a discussão sobre esta encíclica contribua para uma apreciação e um funcionamento mais claros da autoridade dentro da Igreja».
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    282 Os bispos canadianostambém levantaram objecções, tal como os belgas, liderados pelo Cardeal Suenens. Num gesto sem precedentes, os belgas acentuaram que os católicos não estavam obrigados a obedecer incondicionalmente a este documento não infalível. Uma pessoa que seja competente e conscienciosa nestas questões «tem o direito de seguir as suas próprias convicções». Mesmo os argumentos usados pelo papa eram considerados deficientes e portanto aqueles que dele discordassem não podiam ser acusados de egoístas ou hedonistas. E os bispos continuavam: Temos de reconhecer que, de acordo com a doutrina tradicional, a norma prática fundamental da acção é a consciência, que foi devidamente esclarecida por todos os factores apresentados em Gaudium et Spes [o documento do Concílio]. Além disso, temos de reconhecer que a decisão básica sobre a oportunidade da transmissão de uma nova vida compete aos pais e estes devem tomar a decisão em conformidade com Deus. As hierarquias mais conservadoras, como a britânica e a americana, realçaram a obediência a Sua Santidade. Exortaram os católicos a continuarem a receber os sacramentos. Como muitas das suas paroquianos estavam a usar a Pílula, era difícil entender como é que elas podiam ter um propósito de arrependimento, pré-requisito para uma confissão sincera e uma sagrada comunhão. Encorajavam-se os católicos a olharem-se não meramente como pecadores, mas como pecadores arrependidos, enquanto utilizadores diários da Pílula como contraceptivo. A Humanae Vitae estava à beira de causar o regresso aos piores excessos da moral teológica. Muitas mulheres cujo único objectivo era evitarem a concepção estavam a tomar a Pílula com o pretexto de que ela ajudava a regular o seu ciclo menstrual. A maior parte dos bispos, por ordem do Santo Ofício, repreenderam os padres dissidentes — aqueles que, nas palavras de Mill, «sofriam da doença do pensamento». Diziam-lhes os bispos: «Ou o silêncio ou a expulsão». Não é verdade que na Humanae Vitae o papa insiste que os padres tinham de prestar obediência interior e exterior à sua doutrina? Os padres ponderados achavam isto incompreensível. Será que não podia haver liberdade religiosa mesmo em questões contestadas e susceptíveis de correcção? Viam a questão desta maneira: se a Humanae Vitae não é infalível, é falível. Se é falível, o papa pode estar enganado. Se ele pode estar enganado, é perigoso tratar a sua doutrina como se ela não pudesse estar errada. A única atitude sensata é tratá-la com prudência, tanto mais que está em causa a felicidade de milhões de pessoas casadas. Se Paulo VI tivesse dito: «Isto é infalível, isto é, é a fé da Igreja, portanto Deus exige obediência interior e exterior», isso teria feito sentido. Mas, para ele, dizer «Isto não é infalível mas Eu, o papa, insisto, mesmo assim, na obediência interior e exterior a um pronunciamento que pode estar errado» é pedir demais. Alguns crêem sinceramente que aquilo era imoral, porque o papa exigia o acordo para uma coisa que não está absolutamente certa. A não ser que garantisse a sua verdade, o papa não devia exigir obediência sem restrições. De qualquer maneira, se um padre estava convencido da bondade do controle da natalidade, como é que ele podia estar interiormente de acordo com o ponto de vista contrário? Muitos bispos perceberam isto e apenas exigiram obediência exterior ao regulamento do papa. Isto era, mais uma vez, uma atitude piedosa, mas de dupla face e encorajava o sicofantismo. Se os próprios bispos iam desobedecer ao papa não exigindo obediência interior bem como exterior, não deviam ter imposto nada aos seus padres.
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    283 Apesar dos persistentesesforços para controlar os estragos, foi como se um furacão tivesse atingido a Igreja. Sondagens feitas depois da Humanae Vitae mostraram que havia agora ainda mais católicos a favor da contracepção. Isto provava que na cama a maioria dos católicos se tornavam protestantes. O laicado começava a ficar zangado com a hierarquia. Começavam a pensar que a ignorância, única habilitação do clero em matéria de sexo, não era suficiente. Qualquer mulher ou homem casado tem mais conhecimentos sobre o sexo do que todos os padres juntos. Muitos leigos começavam a dizer que um clero celibatário, apesar de todos os seus sacrifícios em nome da Igreja, era um luxo que já não podiam sustentar. A atitude dos padres parecia ser esta: se uma pessoa não tem força moral para ser celibatária como nós, tem de arrostar com as consequências — incluindo todos os filhos que Deus lhe der. Um jesuíta americano sugeriu que o celibato devia ser opcional para os padres, mas obrigatório para os bispos, para eles aprenderem a ter algum senso. Como insinuava o Arcebispo Hurley, nem mesmo em Concílio a Igreja está toda representada. Como é que os velhos celibatários podem representar o sensus fidelium em matérias em que não têm competência, matérias em que mesmo o uso da imaginação livre os fará cair em pecado? Isto era tão irrealista como pôr os leigos a ensinar aos monges e clérigos como deviam viver a sua vida de celibato. A riqueza em sabedoria que o laicado possuía não estava simplesmente a ser aproveitada para o fundo comum que devia alimentar a Igreja. Vinte e cinco anos depois do Concílio, o clero continua a defender sínodos «sobre o laicado» sem que um único leigo tenha voto. As mulheres em particular sentiram que a Humanae Vitae as tratara injustamente. A encíclica retratava um Deus que não ama as mulheres. Em Cristo não há masculino nem feminino, mas na Igreja só há masculino. Apesar de todas as suas bonitas palavras sobre a dignidade das mulheres, Paulo VI estava realmente a descrever seres que nunca existiram, a não ser na sua imaginação. Pela primeira vez, era possível às mulheres serem parceiros iguais no casamento; o preconceito na evolução a favor do homem estava a ser grandemente rectificado pelos avanços científicos. Os prelados católicos não viam isto. Eles preferiam que as mulheres fossem a eterna gente da “Casa das Bonecas”, amarradas à casa e à procriação. As mulheres viam a coisa de maneira diferente. Para elas, o controlo da natalidade não tinha apenas igualado as relações no casamento, tinha também humanizado a sexualidade. O sexo era agora um motivo de alegria para homem e mulher, sem o omnipresente medo da concepção. Tinha feito da concepção e criação dos filhos uma questão de opção. Os casais podiam finalmente ter filhos quando estivessem preparados para tal, quando isso fosse melhor para toda a família, de maneira que cada filho fosse um filho desejado. Não se podia esperar que o clero, treinado para, e impregnado de solidão, compreendesse as mulheres. Para os padres, as mulheres representam a tentação, o renegar da sua vocação. Esta a razão por que “a mulher” nos documentos papais é realmente um retrato da Virgem Maria; só ela, entre todas as mulheres, não constitui um perigo para a vocação de um padre. No século XIX, os papas atacaram constantemente a liberdade religiosa; no século XX a sua preocupação é o sexo. Têm tentado, com a melhor das intenções, reprimir a liberdade nesta área muito íntima e privada do amor. Confrontada com a explosão demográfica — casas e até continentes a abarrotar de pessoas — a única coisa que a sabedoria papal pode oferecer para controlar a fertilidade é o método altamente inseguro do “período seguro” e a abstinência no casamento. Ambos mostraram até que
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    284 ponto o cleroestava fora da realidade. Falavam como se o desejo sexual fosse qualquer coisa que se pode ligar e desligar á nossa vontade. Os leigos ficaram desiludidos. Os padres foram afectados de outra maneira pela A Humanae Vitae. A encíclica obrigou-os a repensar a sua própria sexualidade. Muitos encararam o celibato pela primeira vez. A encíclica mostrou-lhes que o papa estava errado acerca do sexo no matrimónio. E se ele estivesse errado acerca da sexualidade em geral? Como é que eles ficavam? Seja qual for a razão, o que é certo é que, levantada a questão do controle da natalidade em 1962, Roma foi inundada por uma onda de requerimentos de padres que pretendiam abandonar o ministério. A principal razão apresentada era a incapacidade para observar a disciplina do celibato. A história mostra que o celibato foi quase sempre desastroso, mas nunca antes tantos padres o tinham declarado e requerido a Roma a sua renúncia. Quando a comissão papal procedeu à votação, um dos seus membros não estava presente: Karol Wojtyla, Cardeal de Cracóvia. A sua ausência nunca foi explicada. Não há dúvida de que, tal como Paulo VI, ele não acreditava que fosse possível mudar alguma coisa. Talvez quisesse dissociar-se daquilo que parecia prenunciar um desastre. Em Novembro de 1978, precisamente três semanas depois de se tornar o pontífice, mandou reimprimir dois dos seus anteriores artigos no Osservatore Romano. O primeiro intitulava-se A Verdade sobre a Encíclica Humanae Vitae. Vinte anos se passaram já sobre a Humanae Vitae e desde então nada de fundamental mudou. Se alguma coisa mudou foi no sentido do endurecimento das posições. Muito estranhamente, o próprio papado tem sido a principal vítima das suas próprias decisões. A América é a prova provada disto mesmo. Durante anos o trabalho do Padre Andrew Greely e da sua equipa de investigadores reuniu os dados que ajudam a explicar a razão por que a Igreja Católica se encontra hoje em declínio acentuado. A razão principal não é o Vaticano II, como os teólogos tendem a pensar. É, isso sim, a liderança papal nos domínios da moral sexual. Em 1977, no seu livro The American Catholic, Greely pôde dizer: Não conseguimos encontrar qualquer prova da relação do Concílio com o declínio da crença e prática católicas; encontrámos, isso sim, provas substanciais da relação entre o declínio e a rejeição da ética sexual da Igreja e a erosão da credibilidade da liderança papal. […] As pessoas discordam da doutrina sexual da Igreja, rejeitam a autoridade do líder que tenta reafirmar a sua doutrina e depois afastam-se de outras dimensões da crença e da prática religiosa. A conclusão só pode ser esta: o Concílio Vaticano II sem a Humanae Vitae teria dado à Igreja a possibilidade de dar um enorme passo em frente no mundo moderno. A Humanae Vitae sem o Vaticano II teria sido um desastre total, nada menos do que um regresso ao Catolicismo obscurantista da Idade Média. O Concílio Vaticano II e a Encíclica Humanae Vitae juntos constituem um desastre mitigado. O sofrimento actual é o resultado do conflito entre duas forças poderosas e irreconciliáveis desta notável instituição. O declínio da liderança papal levou ao declínio dos padres, dos seminaristas, das freiras, de todos aqueles que estão de acordo com a doutrina da Igreja em todas as questões morais. Levou até ao declínio dos fundos, porque as colectas da Igreja
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    285 baixaram dramaticamente. Asfrias estatísticas mostram que, mesmo que Paulo VI e João Paulo II tenham razão, eles não conseguiram convencer senão uma pequeníssima minoria de devotos católicos e os da faixa etária mais elevada. Uma das razões tem de ser a de que os católicos têm uma opinião sobre a população mundial muito menos optimista do que os papas. Um olhar apenas de relance ao gráfico da população mostra que a humanidade precisou do tempo que decorreu do ano zero ao ano 1800 para a atingir o bilião de nascimentos. De 1800 a 1920, nasceu mais um bilião. O terceiro bilião foi atingido em 1958, o quarto em 1975 e o quinto no verão de 1987. De todos os bebés nascidos, estão hoje vivos perto de quatro dos cinco biliões. A maioria vive no Terceiro Mundo. Apesar da Revolução Verde, há gente com fome hoje mais do que nunca. Há milhões em África e na América do Sul que comem pouco e mal; nunca utilizam uma casa de banho; vivem e morrem em sarjetas por onde escorrem dejectos humanos, lixo e água poluída. Em 1920, o México tinha uma população de 20 milhões. Hoje, só a Cidade do México tem quase esse número. No fim do século, o México terá pelo menos 100 milhões de habitantes. Mesmo hoje, na capital, há um grupo conhecido por pepinadores; é uma associação de varredores que partilham o direito de se alimentar das lixeiras locais. Nas palavras de um funcionário do Vaticano, João Paulo II recusa-se a jogar o jogo dos números. Em Junho de 1987, um mês antes de as Nações Unidas anunciarem o nascimento do bebé número cinco biliões, repetiu ele uma vez mais: «Aquilo que a Igreja ensina sobre a contracepção não é coisa que possa ser discutida livremente por teólogos». Quando os teólogos católicos se reunirem para discutir a contracepção têm de começar pela presunção de que nenhuma mudança é possível. Uma vez que na sua maioria pensam que a mudança é inevitável, acham mais sensato ficarem calados. «Todo o acto sexual deve ser aberto à transmissão da vida» diz João Paulo. O facto de que uma tal doutrina posta em prática por uma só nação — a China ou a Índia, por exemplo — provocaria um enorme excesso de população no mundo, levaria à miséria e à fome em massa e a conflitos internacionais, não perturba a sua fé. Deus providenciará. Parece não haver qualquer hipótese de mudança no pensamento oficial durante este século. João Paulo encheu o episcopado de homens que ou concordam plenamente com a Humanae Vitae ou não lhe manifestaram qualquer oposição, mesmo quando convencidos de que está errada. Hierarquias inteiras, como a holandesa e a americana, estão a ser preenchidas com bispos de uma só crença teológica. Isto é a garantia, humanamente falando, de que quando João Paulo partir a sua doutrina perdurará. Nesta atmosfera altamente carregada, o mais leve desacordo da parte dos bispos e teólogos leva à imediata dispensa. Uma doutrina periférica, sem fundamento bíblico, tornou-se, para o bem e para o mal, a pedra de toque da ortodoxia. É uma situação a que só Voltaire e Jonathan Swift podiam fazer justiça. Entre muitos católicos devotos levanta-se esta obsidiante pergunta: Estará o papa, nesta questão, a ser católico? Será que ele está a agir como protestante na Igreja, fazendo o seu próprio julgamento particular, contrário ao sensus fidelium, o verdadeiro espírito do Catolicismo em toda a parte? A partir de 1968, para além do maciço crescimento da população, que já era esperado, entrou para o debate um outro factor inteiramente imprevisível: a pandemia da SIDA. O Papa Paulo decretou que todos os meios artificiais de controle da natalidade, incluindo os processos de obstrução, são intrinsecamente um mal. Mas hoje os médicos são de opinião de que o preservativo é o melhor processo de controlar a infecção. Sem preservativos, muitos parceiros de casamento e seus filhos estarão condenados a uma morte aterradora. E também os hemofílicos têm contraído a infecção
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    286 através das transfusõesde sangue. Quererá a Igreja Católica acrescentar à sua já dupla calamidade uma terceira: o celibato? É esta a lógica da posição da Igreja, estabelecida pelo Papa Paulo e reforçada pelo actual pontífice. O uso do preservativo viola a integridade biológica do acto sexual e é condenável mesmo quando contribui para prevenir a disseminação de uma doença que é provavelmente a pior desde a Peste Negra de 1348. Nada pode justificar o uso de uma coisa que é intrinsecamente um mal, nem mesmo a sobrevivência da espécie. A situação hipotética de Newman tornou-se realidade. Segundo a Humanae Vitae, os fins nunca podem justificar os meios. Os católicos estão proibidos de argumentar que a contracepção é apenas um efeito secundário do uso do preservativo. É evidente que o preservativo só evita a disseminação da SIDA porque impede a entrada do sémen na vagina da mulher, violando assim a integridade da relação sexual. A Igreja Católica, segundo Paulo VI, não pode levar em linha de conta quaisquer parâmetros mais alargados do que as próprias faculdades do sexo. Quando a finalidade primária dessas faculdades é bloqueada, como é o caso da utilização do preservativo, o acto é intrinsecamente condenável, um pecado mortal. E isto é assim, mesmo quando um marido está infectado, por ter tido relações com uma prostituta, ou por ter usado uma agulha infectada ao injectar uma droga, ou, sendo hemofílico, por ter recebido uma transfusão com sangue infectado. Ele e a mulher não devem usar métodos contraceptivos de obstrução. Devem ter relações sem preservativo ou simplesmente não as ter. Actualmente com milhões de portadores de SIDA, as únicas opções da Igreja Católica são: rezar a Deus por um rápido antídoto para o vírus ou pregar o celibato no casamento a milhões de casais. Para o resto do mundo, esta atitude não é racional, é sim irresponsável e uma ameaça à vida. É altura de perguntar: o papa Paulo tinha razão quando disse que a sua doutrina na Humanae Vitae era tradição católica “constante”? A pergunta “Qual é a tradição católica na sexualidade?” acaba por ter algumas respostas bastante surpreendentes. Para começar a procurá-las temos de recuar imenso no tempo.
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    289 17 Uma Visão PoucoAmorosa do Sexo Era um homem de pequena estatura aquele que chegou à pequena e buliçosa cidade portuária. Fazia lembrar um pássaro, de olhos grandes e profundos. Tinha trinta e seis ou trinta e sete anos. Vestido com uma grosseira túnica cinzenta, tinha percorrido a pavimentada estrada romana, em direcção ao norte, através de campos sem árvores, ricos em cereais. Conhecido como o Grande Pecador, vangloriava-se do seu título. Quem é que nunca ouvira falar da sua submissão ao desejo, da fogosa sensualidade da sua vida de estudante em Cartago, da sua primeira amante, de quem teve um filho, da sua segunda amante, que ele arranjou enquanto esperava que a noiva que lhe fora destinada atingisse a idade de casar? Quem é que nunca ouvira falar da sua paixão pelo teatro e pelos combates de gladiadores, do seu fascínio por tudo o que fossem heresias sórdidas? Nove anos de uma vida de excessos sem limite tinham-lhe deixado marcas no rosto e no coração. O ano era o de 391, o local, Hippo Regis, na província romana de Numídia, a actual Argélia. O estranho era Agostinho, antigo professor de retórica, o génio que viria a ensinar a Cristandade do Ocidente a falar latim e que imporia uma grande parte da sua versão da mensagem de Cristo para os mil e quinhentos anos seguintes. Era um convertido. Dentro em pouco, algumas das frases das suas Confissões viriam a andar na boca de toda a gente. «Vós fizestes-nos à Vossa imagem, meu Deus, e os nossos corações anseiam por repousar em Vós». «Eu fervi como a água, aquecido pelas fornicações». E a mais famosa de todas: «Tarde demais Vos vim amar, Ó Belo, tão antigo e tão justo». A pedido da congregação, o velho Bispo Valério concordou em fazer deste estranho o seu assistente. Agostinho acabou por lhe suceder e tornou-se o maior teólogo que o Ocidente produziu. A maior parte das suas ideias foi formulada em sermões e daí, talvez, a razão por que elas se tornaram tão populares. Era um excelente comunicador. O medo do sexo O sexo, queixava-se muitas vezes a sua congregação, era o seu tópico preferido. Exigia os mesmos padrões a homens e mulheres. Protestava contra os homens que mantinham amantes. Mas havia outras facetas mais discutíveis nos seus ensinamentos; e tanto as más como as boas viriam a tornar-se a norma da fé cristã. Os seus admiradores dizem que depois da conversão ele era puro espírito. A verdade é que nunca se libertou da carne. Sempre albergou uma profunda desconfiança em relação a ela, e uma aversão que nunca conseguiu disfarçar. A sua experiência sexual limitara-se a amores ilícitos dos quais retirou um sentimento de culpa e de desgraça. E fazendo mais tarde a extrapolação, cobriu todo o sexo, mesmo o do casamento, de maldade e de pecado. «Não há nada que mais rebaixe o espírito do homem», escreveu ele nos seus Solilóquios, «do que as carícias de uma mulher e aquela relação sexual que faz parte do casamento». Por medo, por se lembrar das suas próprias quedas, nunca permitiu
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    290 que uma mulherentrasse na sua casa ou sequer falasse com ele, a não ser na presença de outras pessoas. E não fazia qualquer excepção, nem sequer com a irmã mais velha. A castidade era o princípio do serviço do Senhor, mas ele entendia-o num sentido rigoroso. A sagrada fonte da vida, dizia, sempre foi conspurcada pelo desejo (libido), mesmo na pureza do jardim do matrimónio. A sua convicção de que o apetite sexual é por sua própria natureza um mal tornou-se a grande tradição da Igreja. Por causa da Queda, o homem foi atacado no seu ponto mais vulnerável: o sexo. Mesmo no casamento, ele é conspurcado pelo desejo. Foi esse o principal e inevitável castigo de Adão pelo seu pecado. O apetite sexual só pode justificar-se pelo desejo de procriar. Sem esse desejo, o pecado venial da luxúria dentro do casamento transforma-se num pecado mortal contra o próprio matrimónio. O casal passa a "prostituir-se"; a sua relação passa a ser um adultério sistemático. Em sermão após sermão repete: «Maridos, amai as vossas esposas, mas amai-as castamente. Persisti nos trabalhos da carne, mas apenas na medida em que isso seja necessário para a procriação. Como não podeis ter filhos de outra maneira, deveis descer até isso com relutância, porque é esse o castigo de Adão. […] Um homem deve aspirar a um amplexo em que já não possa haver corrupção». Quem dera que um casal pudesse ter filhos sem ter de recorrer à sordidez do sexo, por exemplo, rezando juntos de joelhos. Segundo Agostinho, um homem nos braços da mulher deve concentrar-se friamente no filho e ansiar ardentemente pelo céu, onde poderá abraçá-la como se fosse uma estátua. Isto ajuda a explicar a razão por que ele tanto louva a virgindade. Esta está livre do desejo que envergonha mesmo a utilização legítima do casamento. Uma pessoa virgem está próxima de Deus porque ele ou ela se afastou dos inevitáveis pecados do matrimónio. É difícil de perceber como é que ele pode dizer que o casamento é um bem quando os actos próprios do matrimónio são necessariamente um mal. No tempo de Agostinho, houve uma tentativa grosseira de calcular o "período seguro". Os Maniqueus, que odiavam a carne, conseguiram-no e instruíram os seus seguidores no sentido de limitarem as relações a esse período. Desta maneira evitavam o pior aspecto da sensualidade, que era o de trazer ao mundo mais um corpo. O corpo, produto de uma divindade maléfica, tinha a corrupção como destino. Agostinho tinha sido maniqueu; foi o primeiro santo de sempre a usar o período seguro. Isso também lhe foi útil, na medida em que em mais de onze anos ele e a amante apenas tiveram um filho, o belo Adeodato, que morreu ainda jovem. Tal como muitos convertidos, Agostinho era implacável com os seus antigos amigos. Ficava horrorizado não apenas com a fornicação, mas também com a aprovação do período seguro por parte dos Maniqueus. Quando ouviu dizer que os católicos tinham começado a utilizar o período seguro para evitarem a concepção, disse categoricamente que isso era um grave pecado. É buscar prazer no sexo, sem a intenção de procriar. Este ponto de vista prevaleceu na Igreja Católica até Pio XII considerar, em 1951, o período seguro como o único processo aprovado por Deus. As virtudes do matrimónio No ano de 401, Santo Agostinho escreveu um tratado, Das Virtudes do Matrimónio (De Bono Conjugali), que viria a influenciar toda a tradição cristã. Aí estabelece ele as três bona, as virtudes, os valores, os fins do matrimónio. Eram elas: os filhos, a indissolubilidade e a fidelidade. Quinze séculos mais tarde, em 1930, Pio XI usou estas categorias como fundamento da Encíclica Casta connubii. São estas, disse ele, que
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    291 constituem um casamento;sem qualquer delas, o casal não estaria a cumprir o contrato de um verdadeiro matrimónio. Isto foi, de certa maneira, uma imprudência da sua parte, na medida em que assim tornava nulos a maior parte dos casamentos do mundo. No século XX, o tratado de Agostinho é intragável por causa da sua crueza e da sua interpretação profundamente errada da sexualidade. O seu princípio básico é este: a relação sexual no casamento com vista à concepção dos filhos está correcta e é legítima; para qualquer outro fim, é pecado. As consequências que tirou deste princípio parecem hoje algo peculiares. As pessoas mais velhas «quanto mais cedo começarem a refrear as relações sexuais melhor ficam». Quando já não podem ter filhos, devem procurar a castidade da alma, isto é, passar completamente sem sexo. Para os jovens, «a relação marital transforma o mal da luxúria numa coisa boa» — desde que ao terem relações eles pensem em si próprios não como marido e mulher mas como pai e mãe. Mas suponhamos que a mulher não pode conceber. O que é que justifica que um homem tenha relações com ela? Bem, contribui para evitar que ele ande por aí a dormir com umas e com outras. É a opção do mal menor. Mesmo com base nos próprios princípios de Agostinho, isto dificilmente se justifica. Aproxima-se perigosamente do princípio de que o fim (evitar o adultério) justifica os meios (o pecado matrimonial da luxúria). E isto não faria da relação com uma mulher grávida um pecado de luxúria? Claro que sim. Escreve ele: «Há homens de uma incontinência tal que não poupam as mulheres quando estas estão grávidas». A conclusão deve ser certamente que a mulher deve recusar e não permitir que o marido peque com ela. Pelo contrário, argumenta Agostinho, ela deve aceitar o marido porque ele tem autoridade sobre ela. Além disso, para a mulher, é melhor que ele peque com ela do que com outra mulher. À parte o chauvinismo masculino, isto também é ilógico. Não seria melhor o homem pecar com uma prostituta a isso disposta do que com uma esposa contrariada cuja castidade ele está a violar? Na linguagem da moralidade teológica, não deveria a esposa grávida repeli-lo como uma virgem faria a um violador? Uma vez parceiros no pecado, pelo menos venial, mesmo quando tencionam ter um filho, seguem-se ainda outras estranhas conclusões, que Agostinho aceita de bom grado. «A abstenção de toda a relação sexual é certamente melhor do que a própria relação marital que se realiza com vista a ter filhos». O casamento ideal é uma união de "celibatários". S.Paulo foi uma grande vítima dos comentadores, mas quem é que ia supor que ele pretendesse significar uma coisa destas? Segundo Agostinho, a maioria dos casais tem de se decidir por qualquer coisa um pouco menos do que ideal. «Embora a continência [no matrimónio] seja mais meritória, não é pecado consumar o casamento, mas fazê-lo para além da necessidade de procriar é um pecado venial». Fica claro que o sexo no casamento é apenas para aqueles que não conseguem controlar-se. O ideal é nenhum sexo hoje e sempre, para toda a eternidade. A Virgem é aqui o modelo utilizado. Maria era totalmente casta, uma virgem. Mas também combinava "impossíveis" em si: a virgindade e a maternidade. Isto era a perfeição: a maternidade sem sexo, a virgindade com a bênção de um filho. É quase como se Agostinho desejasse que Deus tivesse feito da concepção virginal a norma. De facto, a única maneira que ele tem de absolver Deus da culpa de instituir o casamento é dizer que a inevitável luxúria do sexo é culpa de Adão e não de Deus. O filho como que justifica o casamento tal como o conhecemos. Deus extrai do mal a virtude. Contudo, é a frigidez (Agostinho chamava-lhe "espiritualidade") que se deve
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    292 almejar, não oprazer sexual (libido). O casamento perfeito devia seguir este padrão: marido e mulher, antes de exigirem a consumação do casamento, deviam procurar saber se o seu parceiro estava com disposição sagrada, isto é, não sexualmente excitado e com o propósito de procriar. Agostinho não se esquiva à mais paradoxal das conclusões: o casamento ideal é formado por duas pessoas virgens. Se isto se tornasse a norma, a Cidade de Deus em breve estaria acabada. O mínimo que os casais podem fazer é esforçarem-se, à medida que envelhecem, por se tornarem castos, isto é, sexualmente inactivos e, a longo prazo, esperemos, impotentes. Não fora o facto de S.Paulo ter escrito que um homem não peca por deixar que uma filha case, teria sido muito difícil para Agostinho, com base nos seus próprios princípios, fazê-lo. O sexo sem os filhos no pensamento — pior ainda, o sexo durante o período seguro, quando não há a intenção de ter filhos — é gravemente pecaminoso. «Porque a relação sexual que vai para além da necessidade de procriar já não obedece à razão mas à paixão». Os casais idosos sexualmente activos ou aqueles que têm relações quando a mulher está grávida ou é estéril estão sujeitos a incorrer num enorme número de pecados. Então e os patriarcas judeus que, segundo as Escrituras, tinham várias mulheres? A resposta de Agostinho é que eles tinham mais do que uma mulher, não pelo prazer da variedade, mas sim pela necessidade de ter mais filhos. Ao manter as suas esposas e concubinas, estas nobres figuras agiam presumivelmente sem paixão e com um profundo sentido do dever para com a espécie. Era um altruísmo heróico. Isto é também, incidentalmente, mais um exemplo do princípio de que os fins (o aumento do número dos eleitos) justificam os meios (ter relações sexuais fora do casamento). Agostinho era o modelo do moralista: um rigorista com um especial talento para arranjar justificações para quase tudo. O ênfase de Agostinho na virgindade de Maria encorajou o celibato na Igreja, não obstante Maria ter tido um marido e, segundo o Evangelho, outros filhos além de Jesus. Com a crítica bíblica ainda na sua infância, os Padres não compreenderam que a virgindade de Maria não tinha nada a ver com castidade. Foi um expediente teológico pelo qual os evangelistas exprimiram o facto de Jesus ser filho de Deus, fruto não de um homem e de poder humano, mas de Deus e do poder divino. O Velho Testamento tinha expedientes semelhantes: bebés nascidos de mães estéreis, ou, como no caso de Sara, de mães centenárias. Infelizmente, a "virgindade" de Maria não inspirou simplesmente as mulheres a fazerem grandes coisas por Deus e pelos seres humanos seus semelhantes, contribuiu também para o declínio do casamento cristão. Reforçou a crescente convicção de que a virgindade era superior ao casamento, que na sua essência era impuro; alimentou a ideia de que os ministros do altar deviam ser celibatários. Esta preferência tornou-se mais tarde obrigação; os ministros tinham de ser celibatários, o que trouxe muitas vezes consequências graves para o bom nome da Igreja. A principal influência sobre Agostinho, tivesse-o ele entendido, não veio da Bíblia, mas dos Estóicos. Nos escritos de Séneca, por exemplo, o dever era soberano. Na sua austera filosofia, sempre que leva a melhor, a razão mata as emoções, que não eram senão uma doença. O objectivo da vida era aniquilar o egoísmo; nada se devia fazer à espera de recompensa. Em vista disto, o sexo só tinha um fim: a procriação. As alegrias, a satisfação, o prazer estavam proscritos e deviam ser, tanto quanto possível, extintos. O ideal era uma relação sexual fria e sem paixão. Agostinho chegou à aversão pelo sexo por outra via: analisou as consequências do pecado original. Aquilo a que os Estóicos chamavam perturbatio, chamava ele
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    293 concupiscência, mas elaseram uma e a mesma coisa. Aguentar estoicamente o sofrimento só tem um nome e dificilmente se adequa a um casal na excitação da relação sexual. Mas uma frieza premeditada, o abafar de sentimentos humanos na cama matrimonial é, em sentido restrito, anti-natural, isto é, contrário à natureza humana. Não valeria a pena ressuscitar esta doutrina de um grande, embora pouco sensato doutrinador, se a Igreja Católica não a tivesse aceitado totalmente. Não houve papa nenhum, nem teólogo, que não seguisse as opiniões de Agostinho sobre o sexo e o casamento. Com estas, ele influenciou gerações atrás de gerações de leigos. A ideia dos Estóicos de que o sexo se destina exclusivamente à procriação tornou-se ortodoxia católica durante mais de mil anos. O que os leigos concluíram daqui foi que o sexo é uma coisa obscena e ridícula. Uma constante sensação de pecado penetrou no quarto de dormir, daí resultando que muitos cristãos identificavam o pecado com a incontinência. E não foram poucos os papas que reforçaram esta impressão ao criticarem a impureza mais do que qualquer outro vício, como a cobiça ou a insensibilidade. Agostinho não foi o único doutrinador do seu tempo com um preconceito anti-sexo; foi apenas o mais influente. O ênfase na castidade e na virgindade significava que o casamento era olhado como a mais moderada e menos censurável forma de luxúria. Para os casados, tal como para os ricos, a entrada no paraíso, embora não impossível, era difícil. A superioridade da virgindade sobre o casamento, disse João Crisóstomo, é como a do céu sobre a terra ou a dos anjos sobre os homens. "Vocação" significava "esquecer o sexo". Jerónimo disse que o próprio S.Pedro só conseguiu lavar a sujidade do casamento com o sangue do martírio. O objectivo do santo é, segundo Jerónimo, «cortar o tronco do matrimónio com o machado da virgindade». A única justificação do casamento é que ele produz virgens. Na sua History of European Morals, Lecky diz que só conseguiu encontrar duas ou três belas descrições do casamento numa enorme quantidade de escritos patrísticos. «Seria difícil conceber coisa mais grosseira e repugnante do que a maneira como eles o olhavam». O sexo era visto como apenas desejo desenfreado. Ter relações quando a mulher está grávida era universalmente considerado pecado, era desperdiçar uma semente de vida num campo já semeado. Nem os animais fazem coisa "tão imunda". Não houve, nos tempos patrísticos, uma única referência ao amor terno que as pessoas casadas têm uma pelo outra, um único sinal de que os Padres tenham compreendido que o acto sexual era de facto uma acto de amor. A prova da sua torpeza eram as dores de parto. A mulher em particular — também Deus era machista — sofre no mesmo lugar onde pecou. Mesmo quando uma criança vem ao mundo Deus denuncia a culpa. Abundavam as estórias "edificantes" de maridos que abandonavam as mulheres e os filhos para "viverem uma vida casta", de mulheres que imploravam que a sua honra fosse respeitada na noite de núpcias. Herói era o homem que deixava a mulher na noite do casamento para viver a sua vida no deserto. O ideal era o ascetismo, interpretado como libertação da sexualidade. Isto foi subscrito por todos os papas, Gregório I incluído. O Papa Gregório o Grande Gregório, que reinou de 590 a 604, foi uma das maravilhas do seu tempo. Só Leão I (440-61) rivaliza com ele como bispo pastoral e teólogo. Gregório era de estatura mediana, com uma enorme cabeça calva, de cuja relíquia muitas cidades — Constança, Praga, Lisboa, Sens — viriam a reclamar-se detentoras.
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    294 A testa eraalta e os olhos pequenos e castanho-amarelados. O nariz era aquilino, de grandes narinas, e os lábios grossos e rosados. Descendente de família nobre e senatorial, cedo decidiu tornar-se monge. Nunca gozou de boa saúde, especialmente nos últimos quinze anos de vida. Arruinou-a com os jejuns e penitências. Sofria também de indigestões e foi uma vítima da gota. Isto devia-se talvez ao vinho que importava directamente de Alexandria, aromatizado com resina, chamado Cognidium. O Papa Gregório foi um dos primeiros pontífices a pôr o seu carimbo de aprovação na obra de Agostinho. A relação sexual, disse ele, é pecaminosa não só durante a gravidez, mas também durante a aleitação. Depois de dormir com a mulher, um homem não pode entrar na igreja enquanto não se purificar pela penitência e pela lavagem, porque a sua vontade permanece maléfica. O casamento não é pecaminoso, mas o sexo realizado pelos cônjuges certamente que o é. Gregório também segue Agostinho ao estabelecer uma estreita relação entre sexo e pecado original. O pecado original é uma corrupção inata da alma. Reveste a forma de luxúria e concupiscência, é uma revolta da carne contra o espírito. Deriva em última instância de Adão, o primeiro representante da raça humana. Por causa do pecado de Adão, a substância mesma da humanidade ficou manchada. É como se Adão, o primeiro homem, tivesse contraído uma doença infecciosa que leva inevitavelmente à morte. Esta doença é transmitida a todos os membros da espécie ao nascer. Adão agiu em nome da humanidade — não havia mais ninguém nessa altura — daí que o que ele fez, toda a gente o fizesse também. Portanto, toda a gente é responsável por aquilo que ele fez. Neste assunto, Gregório tomou S.Paulo à letra: «Em Adão todos pecámos». Isto quer dizer que há culpa desde o primeiro momento da nossa existência. Não é uma mácula pessoal, mas uma mácula da natureza, portanto inevitável. A natureza vem dos pais. Desde o princípio a alma do bebé é poluída por este pecado original, este pecado herdado. Gregório não ignorava os problemas que isto levantava. Por exemplo, os pais eram purificados do pecado original no baptismo. Como é que eles podiam transmitir o pecado original aos filhos? Ele responde: Embora eles próprios estivessem purificados, transmitiam a natureza corrupta pelo sexo, o desejo galvanizado pela luxúria. Os bebés nascem como fruto condenado da luxúria dos seus pais redimidos. São desde logo o produto de Gehenna ou Inferno; são justamente filhos da ira porque são pecadores. Se morrerem sem serem baptizados, estão condenados a tormentos eternos por mera culpa do seu nascimento. A própria existência é um estado de pecado; nascer é habilitar-se a penas eternas. Para provar que as opiniões de Gregório não têm interesse apenas para os historiadores, basta analisar o cânone 747 do código de leis da Igreja de 1917. Este cânone, embora retirado do código revisto de 1983, ainda determina as práticas impostas pelos moralistas. Poucos textos literários haverá mais tristes do que este. Se um bebé corre o perigo de morrer ainda no ventre, deve ser baptizado antes de nascer. O grande apelo de Cristo «Ide, baptizai todas as nações», fica reduzido a alguém — um médico, uma enfermeira, um padre, um marido — às apalpadelas dentro do ventre durante um parto difícil para baptizar o não-nascido com água de uma seringa. Pode-se imaginar o duplo terror da mãe. Nem Swift com toda a sua inventiva satírica podia ter imaginado tal comportamento. Gregório concorda com Agostinho que o desejo sexual é pecaminoso em si mesmo. Escreveu ao outro Agostinho, o apóstolo de Inglaterra: «O desejo sexual é absolutamente impossível sem pecado», de modo que todo o acto sexual no casamento carece de penitência para a sua expiação.
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    295 «Nós chegamos aomundo», diz Gregório com imponência, «vindos da corrupção, com corrupção e transportamos connosco a corrupção». É sua convicção que «o Príncipe deste mundo está envolvido na acção, na palavra e no pensamento daqueles que estão relacionados com o prazer carnal». Só Jesus conseguiu escapar. «Só Aquele que nasceu verdadeiramente santificado para que pudesse conquistar essa mesma condição de uma natureza corrupta, não foi concebido por conjunção carnal». Há aqui, como já apontámos, uma negação da concepção imaculada de Maria. Nada do que aqui se diz tem como intenção ofender a memória de Gregório. As suas ideias foram partilhadas por muitos homens de grande estatura antes e depois dele. O problema apenas se levanta porque ele era papa; e os papas agora são tidos como guias infalíveis; ensinam doutrina eterna e estabelecem absolutos morais. As opiniões de Gregório apenas são um embaraço por causa da crença católica de que os papas não podem ter errado, e errado gravemente, sobre uma coisa tão básica como o sexo e o casamento. Há uma outra enorme dificuldade para os católicos que aqui deve ser referida. Se quando escreveu a Humanae Vitae Paulo se sentiu obrigado a concordar com os seus ilustres antecessores, como Pio XI e Pio XII, por que é que não reparou no Papa Gregório? Ele não era propriamente um peso-leve. Em qualquer lista de pontífices, teria de figurar entre os primeiros seis. Herdou uma Roma em ruínas, cercada de bárbaros. Numa década tornou-a herdeira do Império dos Césares do Ocidente. Se o papado ensina de facto absolutos morais, certamente que Paulo VI devia ter tido tanta preocupação em ensinar aquilo que Gregório ensinou no século VI como teve em repetir os ensinamentos de Pio XI no século XX. Ou será que o facto de os pontífices modernos contradizerem a doutrina de Gregório não é relevante? Depois do Papa Gregório O profundo pessimismo de Agostinho acerca do sexo, do casamento e do pecado original encontrou o seu campeão supremo no Papa Gregório. A sua doutrina passou incólume para a Idade Média. Os casais eram avisados de que não deviam ter relações na noite de núpcias porque profanavam o sacramento do matrimónio. Como é que o tempo diminuía o mal de uma coisa intrinsecamente sórdida nunca ficou muito claro. Lecky relembra a visão de Santo Alberico do século XII em que no Inferno há um lago de tormentos — resina, chumbo em brasa, pez incandescente — à espera dos casais que tiveram a ousadia de dormir juntos nas festas da Igreja ou em dias de jejum. No centro de O Martelo das Bruxas, de Kramer e Sprenger estava a crença de que o sexo é tão irrevogavelmente mau que é a porta principal por onde Satanás entra no mundo. Distintos teólogos da Idade Média interpretaram simplesmente as ideias de Gregório de uma maneira mais escolástica. Os séculos sucedem-se e o acto sexual é descrito em termos de pecado e nunca em termos de amor. Os teólogos, todos celibatários, não conseguiram apreender o ponto mais básico da relação sexual entre os humanos, em oposição aos animais: que ele é um acto de amor. Esta atitude negativa prevaleceu na teologia moral deste século. Em 1966, em Inglaterra, foi publicado um livro chamado Birth Regulation and Catholic Beliefs. Fora alegadamente escrito por G.Egner e publicado em Munique. Tem uma dedicatória alemã e um prefácio de agradecimento ao tradutor. Na verdade foi escrito em inglês por um padre com um nome muito irlandês. O Padre Egner seleccionou interessantes excertos dos mais respeitáveis teólogos morais desse período sobre o sexo, os quais constituem uma leitura sombria.
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    296 Capello, ao falarde jogos amorosos, diz que os cônjuges podem praticar quaisquer actos lascivos incompletos. Estes incluem contactos oral-genitais, pois embora extremamente obscenos, são porém legítimos. Génicot, para quem tais actos são imundíssimos e normalmente pecado mortal, fala de actos lúbricos permitidos aos cônjuges, de palavras e aspectos sujos, de toques nas partes do corpo decentes, menos decentes e indecentes. Como Egner salienta, as opiniões destes moralistas são tão lamentáveis como a sua própria linguagem. Os jogos amorosos são praticados «naquilo que só pode ser descrito como um ambiente de pecado venial tolerado», como se o pecado fosse «uma infracção técnica a um qualquer regulamento». Teve a coragem de repescar dos livros de texto estas e outras observações e permitir que os católicos vissem como o seu clero era treinado para entender estes problemas. Porque o que Egner revelou foi que os guias morais não faziam ideia nenhuma daquilo de que estavam a falar. Carecendo totalmente, como um todo, de experiência prática, eram como um grupo de cegos congénitos a pontificar sobre «a cor na arte moderna». Contra este pano de fundo, a encíclica de 1930, Casta connubii, de Pio XI, ficou clara. O que nesta mais intriga é a maneira como o pontífice selecciona os ensinamentos dos seus antecessores. Na secção 14, segue o Papa Gregório ao dizer que mesmo os pais purificados não podem transmitir a pureza aos filhos. O nascimento é «uma condição de morte pela qual o pecado original é transmitido para a posteridade». O bebé carece de ser regenerado nas águas do baptismo. Por que é que Pio XI não completa a doutrina de Gregório e insiste que os bebés são o produto do Inferno e que estão condenados, se morrerem sem o baptismo, a acabar em tormentos eternos? Por que é que Pio aceita os princípios de Gregório e não aceita também as suas conclusões? Na secção 23, Pio XI cita a expressão de Santo Agostinho «a fé da castidade». Cita, em concordância, as palavras de Agostinho «A fé matrimonial exige que o marido e a mulher se juntem num amor especialmente sagrado e puro e não que se amem como adúlteros». O que ele não diz é que o propósito de Agostinho era, com isto, o de condenar aquilo que ele, Pio, permite. Porque na secção 59 Pio escreve: Aqueles que, na situação de casados, usem os seus direitos de maneira adequada, também não são considerados como agindo contra a natureza, embora por razões de ordem natural, quer de tempo quer de certos defeitos, não possa ser produzida uma nova vida. Porque no matrimónio, bem como no uso dos direitos matrimoniais, há também fins secundários, tais como a ajuda mútua, o cultivo de amor mútuo e o acalmar do desejo, os quais não estão vedados a marido e mulher desde que estejam subordinados ao objectivo primário e também que a natureza intrínseca do acto seja preservada. Embora Pio tivesse pouco antes falado (secção 54) de «tradição cristã ininterrupta», quase tudo neste excerto é contra a tradição cristã. Agostinho e Gregório contradiziam tudo isto expressamente. Não faziam a distinção entre fins primários e secundários do casamento. O casamento destinava-se à procriação; este não era o fim primário, mas o único fim que podia justificar a relação sexual. Qualquer outro fim que se acrescentasse
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    297 ao da procriaçãoera pecado. Portanto é uma ingenuidade da parte de Pio dizer que não havendo interferência na natureza não há pecado; um casal pode ter relações sexuais para alimentar o amor mútuo, para apaziguar o desejo, etc.. O Papa Gregório teria dito que o sexo não é para isso, não é senão para ter filhos. Tudo o resto tem de ser pecado. Esta é que era a tradição cristã ininterrupta e não a opinião de Pio XI. Até Inocêncio XI (1676-89) decretou solenemente que ter relações sexuais por puro prazer é pecado. Isto era lógico. Se o sexo era para procriar e não podia produzir um filho ou por a mulher ser estéril, ou por estar grávida ou ter já passado a menopausa, o acto sexual tinha de ser pecado. Uma coisa é Pio XI alterar radicalmente a tradição, outra muito diferente é dizer que a sua doutrina está de acordo com ela. Porque ao fazer a distinção entre os objectivos primário e secundário do casamento e permitir o secundário na condição de que se não impeça o objectivo primário, ele introduziu um critério inteiramente novo para julgar a sexualidade. E que critério é este? A tradição era que a moralidade do sexo é julgada por uma única coisa, a saber, se se destina à procriação. Pio substituiu isto pela integridade da relação sexual. Se o acto sexual for consumado, isto é, se houver penetração e inseminação, nada mais interessa. Portanto, se a mulher já estiver grávida ou for estéril, havendo penetração e inseminação, trata-se de um acto virtuoso. Há duas importantes falhas nesta opinião. Primeiro, ela vai contra mais de mil e quinhentos anos de tradição cristã. Segundo, substitui um critério moral, por muito inadequado que seja, por um critério biológico. Pio iniciou uma nova tradição: a de julgar a moralidade do sexo não olhando às pessoas e ao que elas fazem como pessoas mas à “integridade“ física de um acto. Obviamente que se o biológico é a única coisa a considerar, nada pode justificar a contracepção, nem o amor dos parceiros, nem a saúde da mulher, nem a estabilidade da família, etc.. Deve dizer-se, portanto, que quando invocou a tradição «constante» da Igreja sobre a contracepção Paulo VI estava na realidade a invocar uma doutrina que remontava a quarenta anos antes, à Encíclica Casti connubii, e que ia contra a genuína tradição. A recusa do Concílio Vaticano II de fazer a distinção entre fins primário e secundário do casamento foi de grande sensatez. Essa distinção tornava impossível qualquer solução para o dilema da contracepção. Em tempos recentes os moralistas tomaram consciência das muitas dimensões da sexualidade. Freud mostrara que o sexo não é primordialmente de ordem genital ou de contactos genitais mas envolve o ser humano e o seu relacionamento. A velha doutrina fazia uma abordagem da sexualidade inteiramente genital. Uma vez reconhecido que o sexo diz respeito às pessoas e ao amor, era vital que isto fosse integrado na moralidade cristã do sexo. Em vez de repensar a sexualidade, os moralistas foram obrigados pelo Santo Ofício e pela Encíclica Casti connubii a simplesmente acrescentar às velhas as novas descobertas. O resultado foi um híbrido. A Encíclica Casti connubii tem de facto elementos modernos — a ajuda mútua, o amor mútuo — mas estes estão presos àquilo que agora se chama o fim primário do casamento, isto é, a procriação. Contudo, a nova solução híbrida é tão inaceitável como a solução tradicional e é muito menos lógica. De facto, a nova não é de modo nenhum uma solução moral. Classifica o amor de “secundário” e subordina-o a um critério biológico da sexualidade. O que realmente importa é o coito correcto. O amor, o respeito, a compaixão, a preocupação pelos filhos já nascidos — todos estes elementos morais são secundários em relação ao elemento biológico, isto é, a penetração e inseminação. Se estes elementos biológicos estiverem presentes, o acto sexual está de acordo com a “lei natural”. Mas os elementos verdadeiramente da lei natural, o amor e a compaixão, não podem desempenhar o papel determinante naquele que é o mais moral de todos os
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    298 actos, a relaçãosexual entre marido e mulher. Na Encíclica Casti connubii já estava inscrita a tragédia que por fim se desenrolou na Humanae Vitae. Pode dizer-se justamente que hoje a Igreja Católica está mergulhada numa tragédia porque os papas interpretaram mal a sua própria tradição. Pio XI estruturou uma encíclica baseada na doutrina de Agostinho e depois completou-a com muitas coisas contrárias a toda a tradição que Agostinho influenciou. Pio XII pareceu ignorar que também ele negou a longa tradição da Igreja. Em 1940, numa alocução a recém-casados disse: O mesmo Criador, que na Sua bondade e sabedoria quis que o trabalho do homem e da mulher unidos pelo casamento servisse a conservação e propagação da raça humana, também dispôs que nessa função, o casal devia experimentar o prazer e a felicidade no corpo e na alma. Portanto, o casal, ao procurar gozar este prazer, não age mal. O pontífice fala de prazer, aparentemente incapaz de se resolver a falar da relação sexual como um acto, o acto de amor. Esta escolha que faz da linguagem é interessante por duas razões. Primeiro, contradiz a doutrina da maioria dos pontífices anteriores, que disseram que o prazer sexual nunca está isento de pecado e que os casais não deviam comungar na manhã seguinte às relações. Segundo, ao concentrar- se no prazer, recusando pronunciar a palavra "amor", coloca a procriação como fim primário do casamento. Mas, se "prazer" tem um ligeiro sabor a hedonismo, então e "amor"? Será que à luz do Evangelho Pio XII podia tão facilmente ter subordinado "o amor" à procriação? Certamente que não. Mas onde Pio XII mais se afastou da tradição foi nas palavras que em 1951 dirigiu às parteiras. Aí, e pela primeira vez, um pontífice acolheu com reservas o método do ritmo para a prevenção da natalidade. Embora no século XIX se tivessem feito algumas tentativas para lhe dar um carácter científico, este método revelou-se demasiado falível até Ogino e Knaus publicarem as suas descobertas, nos fins dos anos 20. Enquanto que Roma já anteriormente se pronunciara contra a moralidade do método, o discurso de Pio XII provocou uma alteração completa no pensamento da Igreja. Segundo ele, a utilização do período infértil era legítima porque não corrompia a natureza do acto. «Eles não impedem nem prejudicam de nenhuma maneira a consumação do acto natural e das suas posteriores consequências naturais». Marido e mulher precisariam de uma boa razão para utilizarem o período seguro, mas, em si mesmo, isso não é condenável. É esta doutrina que Paulo VI repete na Humanae Vitae, secção 11. Parece que nenhum dos dois pontífices reparou que era a primeira vez na história do Catolicismo que se dizia que o acto sexual era virtuoso em si mesmo, não simplesmente quando a procriação não era possível, mas porque a procriação não era possível. Infelizmente, Pio XII, tal como Pio XI, fizeram da biologia o critério da moralidade, o que veio quebrar os tradicionais laços entre sexo e procriação. Mas ao mesmo tempo que garantia aos católicos o direito de regularem por si próprios os nascimentos, não deixando toda a questão nas mãos da "providência", também os privava dos meios satisfatórios de o fazer. Com esta única decisão, Pio XII pôs os católicos num caminho atulhado de termómetros e calendários. Melhor seria ter-lhes deixado a única alternativa tradicional, isto é, a de procriarem ou absterem-se completamente do sexo.
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    299 Para o futuro,e previsivelmente, a Igreja Católica carrega uma doutrina sobre o controle da natalidade que cortou todos os laços não só com o seu passado cristão mas também com o mundo moderno. Apegar-se a velhos princípios em face do hedonismo contemporâneo é uma coisa; produzir um novo princípio que impede os casais de regularem a sua família em face da explosão demográfica é outra completamente diferente. Um exemplo histórico já aqui referido pode ajudar ao esclarecimento do actual dilema católico. O Pecado Original e o controle da natalidade De acordo com a tradição de séculos, formulada por Agostinho e sancionada pelo Papa Gregório e por todos os seus sucessores, o baptismo era um pré-requisito para a salvação. Os bebés apenas com dias nascidos de pais cristãos iam para o inferno se morressem sem serem baptizados. O mesmo acontecia com os catecúmenos se morressem inesperadamente. Claro que todo o mundo pagão estava condenado à danação. Segundo Agostinho, mesmo o Bom Ladrão só foi salvo porque foi baptizado de maneira não especificada. Não há melhor prova da falibilidade da Igreja do que esta. Não é que os pontífices e os padres dissessem que não sabiam como é que os bebés podiam salvar-se; diziam era categoricamente que isso era impossível. Não alegavam ignorância sobre o destino da enorme parte da humanidade que nunca ouvira falar de Cristo; afirmavam, isso sim, sem reservas que todos eles iriam para o inferno. Fora da Igreja não havia salvação e com “Igreja” eles queriam dizer Igreja Católica, onde só se entrava através do baptismo da água. Estas ideias foram repetidas século após século sem uma única voz dissidente. Era a doutrina católica sempre pregada por toda a gente em toda a parte. Já vimos que quando Francisco Xavier foi para a Índia, tinha a certeza de que os pagãos não baptizados, por muito virtuosos que fossem, não podiam ir para o Céu. A impiedade dos cristãos das primeiras gerações espanta toda a gente hoje, mas, fossem quais fossem as razões, ela é um facto. Qualquer católico que duvidasse disto teria sido queimado pela Inquisição. Segundo Lecky, esta doutrina ultrapassava em atrocidade qualquer dogma adoptado pelos pagãos. Mereceu de Tácito o rótulo de «superstição perniciosa». Escreve Lecky: Que uma criancinha que morra antes de ser aspergida com água benta apenas alguns minutos depois de nascer seja neste sentido responsável por o seu antepassado há seis mil anos atrás ter comido o fruto proibido, que ela seja com perfeita justiça ressuscitada e atirada para o abismo do fogo eterno em expiação pelo crime ancestral, que o todo justo e misericordioso Criador, no exercício pleno destes atributos, traga ao mundo seres conscientes que Ele da eternidade destinou irrevogavelmente a sofrer implacavelmente torturas indizíveis, são propostas simultaneamente tão extravagantemente absurdas e tão inefavelmente atrozes que a sua adopção podia bem levar os homens a duvidar da universalidade da percepção moral. Tal doutrina é, de facto, simplesmente demonismo e demonismo na sua forma extrema.
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    300 Demonismo extremo ounão, isto foi ortodoxia católica quase até aos tempos modernos. Nem nos manuais das bruxas a imagem de Deus foi tão denegrida. As mais monstruosas crueldade perpetradas por Átila, o Huno, ou por Hitler empalidecem quando comparadas com as crueldades atribuídas a Deus, o Pai do Nosso Senhor Jesus Cristo, pelos gentis teólogos e pelos contemplativos monges. De facto, nem o diabo foi pintado com cores tão sinistras. O verdadeiro mistério é por que é que os cristãos mantiveram estas ideias durante tanto tempo. Só há uma resposta: a autoridade. A autoridade da Bíblia, na primeira instância, mas a Bíblia interpretada pelos doutrinadores da Igreja (o magisterium). As místicas palavras de S.Paulo «Em Adão todos pecámos» foram estupidamente interpretadas como implicando que até os recém-nascidos eram responsáveis pelo pecado original e condenados ao inferno se morressem sem serem baptizados. cristãos que nunca se teriam perdoado se tivessem magoado gratuitamente uma criança, ficavam satisfeitos ao pensar que Deus a puniria com indizíveis tormentos eternos por uma coisa que não estava no seu poder evitar. Nenhum pai ou mãe cristão podia jamais acreditar sinceramente; mas consentiam-no. Este é talvez o melhor exemplo da história em que a autoridade católica, sem a razão nem a humanidade do seu lado, exige obediência a uma doutrina moralmente absurda. Como Lecky também observou: Os cristãos consideram uma questão de dever e um recomendável exercício de humildade reprimir o sentimento moral da sua natureza e conseguem por fim convencer-se que a sua Divindade ficaria extremamente ofendida se eles hesitassem em Lhe atribuir as qualidades de um demónio. […] A sua doutrina é aceite como uma espécie de milagre moral e, como é costume numa certa escola de teólogos, quando eles enunciam uma proposição que é claramente contraditória, chamam-lhe mistério e uma questão de fé. Isto pode equiparar-se à doutrina papal sobre o controle da natalidade. Precisamente como o Deus do Papa Gregório condenava as crianças ao fogo eterno do inferno, o Deus do Papa Paulo condena milhões de seres humanos a um inferno na terra. A diferença é que hoje os católicos comuns dizem que pensam que o Papa Paulo errou. Não há argumentos válidos que apoiem a opinião de Paulo VI sobre a moralidade ou a sua ideia da Divindade por detrás da natureza humana. O que continua a intrigar é a razão por que o Papa Paulo, que subscreveu o mito de que todos os papas dizem o mesmo, foi tão selectivo na escolha dos seus antecessores que não quis contradizer. Por que é que não se importou de contradizer o Papa Gregório, cuja ideia de que o sexo é sempre pecaminoso, mesmo quando dele resulta um filho, foi repetida por muitos papas, incluindo Gregório VII e Inocêncio III? Por que é que não se importou de ir contra a tradição segundo a qual as crianças que morrem sem o baptismo vão direitas para o inferno para toda a eternidade? Por que é que ele não se importou de contradizer o grande número de pontífices que disseram que sexo e amor são incompatíveis? E Sisto V que disse que a contracepção é uma forma de homicídio? Por que é que a grande preocupação de Paulo foi a de não contradizer Pio XI e Pio XII? Será que a resposta é simplesmente que Paulo vivera sob Pio XI e Pio XII? Que este facto ocasional como que tornava o desacordo com eles mais intragável do que o desacordo com Gregório, com Agostinho e com a grande tradição? Ou não saberia ele que aquilo que chamou de «tradição constante» tinha apenas uns confusos quarenta anos de idade?
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    301 Seja qual fora razão desta inconsistência, para a Igreja ficou a tentativa de arcar com uma moralidade biológica. Uma ética celibatária já tinha posto o laicado na prateleira. Um casal a viver numa barraca com uma dúzia de filhos tem de usar o período seguro ou então dormir de costas voltadas. A masturbação é sempre pecado mortal, mesmo quando o objectivo é averiguar a razão por que o marido não consegue engravidar a mulher. De acordo com a lógica, a masturbação é mais imoral do que o adultério, por menos natural. Um violador que usa um preservativo peca mais do que aquele que o não usa. A fertilização in vitro está automaticamente banida, por maior que seja o progresso da ciência neste campo, porque o único processo “natural“ de um casal ter filhos é a relação sexual; se para eles o processo não resulta, têm de conformar-se com a situação e ficar sem filhos. Em todos os seus estádios, a moralidade católica sobre o sexo trai a sua origem clerical. Não se trata de despeito de celibatários contra os homens que eles invejam ou contra as mulheres que eles odeiam; eles simplesmente não compreendem. Um último ponto: Pio XII, contrariado, deu o seu nihil obstat ao uso do período seguro. Agora, este é o método padrão católico para evitar a concepção. A doutrina oficial é que é moralmente correcto ter relações sem a intenção de procriar, conseguir satisfação sexual sem os inconvenientes da gravidez. É curioso como Marie Stopes, na Inglaterra, e Margaret Sanger, na América, foram simultaneamente atacadas pela Igreja católica por defenderem os mesmos princípios gerais. Levanta-se então a questão: se Pio XII queria realmente continuar a grande tradição católica, o que é que devia ter dito? Logicamente que devia ter argumentado: o sexo destina-se apenas à procriação. Tudo o resto que envolva relações sexuais para além do desejo de procriar é pecado. Portanto, usar o período seguro é, como Agostinho claramente ensinou, tão pecaminoso como usar o preservativo. Pio XII devia, na verdade, ter ido mais além. Se a tradição é que o sexo se destina unicamente à procriação, mais uma razão para a Igreja saudar a descoberta do período seguro. Os casais deviam considerar seu dever descobrir a altura em que o sexo não é seguro e restringir as relações apenas a esse período. Dessa maneira, não estariam a desperdiçar preciosas sementes de vida, coisa que todos os Padres da Igreja disseram que estava errado. Isto significa que os católicos devotos, longe de se limitarem ao período seguro, deviam era evitá-lo. Uma vez completas, as famílias dirão adeus ao sexo. O facto de Pio XII e os seus sucessores não terem seguido esta linha dá mais créditos à sua bondade do que ao seu espírito lógico ou à sua compreensão da história da Igreja. Como os pontífices recentes, apesar de toda a retórica sobre a “constância”, rejeitaram, na sua maioria, as ideias dos seus antecessores sobre o sexo e o controle da natalidade, talvez também se tenham afastado da tradição noutros assuntos. Por exemplo, sobre o aborto. E, primeiro que tudo, sobre o divórcio.
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    303 18 Os Papas, Pioneirosdo Divórcio A Igreja Católica, diz-se repetidamente, é contra o divórcio. A proscrição estende-se a toda a parte. O Vaticano não aceita credenciais de embaixadores e de outros diplomatas menores que sejam divorciados ou casados com pessoas divorciadas. Podem ser protestantes ou até ateus, mas eles e as esposas têm de estar, em termos matrimoniais, acima de qualquer suspeita. A maioria das pessoas, incluindo as católicas, sustenta que o divórcio nunca é autorizado pela Igreja, embora muitas, à socapa, murmurem que a Igreja o permite sob outros nomes. Mesmo os católicos divorciados tendem a acreditar que a sua igreja defende que todos os casamentos são para toda a vida e recusa o divórcio a qualquer pessoa, sejam quais forem as razões. Os católicos falam com orgulho da recusa do Papa Clemente VII em conceder o divórcio a um monarca tão poderoso como Henrique VIII, que queria trocar Catarina de Aragão pela jovem e bela Ana Bolena. Em rigor, Henrique apenas pediu a anulação do seu primeiro casamento, favor que o Papa Alexandre VI concedeu à sua filha Lucrécia após três anos de um casamento abundantemente consumado. Os fundamentos de Henrique eram melhores do que os de Lucrécia. Catarina foi primeiro para a cama e depois casou com o irmão de Henrique, Artur, que morreu. Daí que a dispensa papal que lhe permitiu casar com Catarina, argumentava ele, fosse inválida. Isto afligia-o. Provavelmente o facto de Catarina não lhe ter dado um herdeiro varão e também estar a envelhecer tivesse alguma coisa a ver com os seus escrúpulos. Mas a sua irmã Margarida, Rainha da Escócia, tinha conseguido recentemente que Roma lhe anulasse o casamento com um pretexto menos consistente do que o seu. Infelizmente para Henrique, o sobrinho de Catarina, o Imperador Carlos V, tinha o papa na mão, nessa altura. Primeiro, o papa deixou a impressão de que a pretensão de Henrique não apresentava grandes problemas. Mas quando Carlos V fez valer o seu considerável peso, a petição de Henrique no sentido de ser considerado como solteiro após vinte anos de casamento foi finalmente rejeitada. Toda a gente conhece casos piores do que o de Henrique VIII, mulheres que se vêem abandonadas, às vezes semanas apenas depois do casamento. Os seus parceiros constituíram talvez uma nova família algures, num outro país ou até noutro continente. Mulheres ligadas a bêbados e jogadores, a brutos que lhes batem a elas e aos filhos. E para sermos justos, devemos acrescentar também os homens casados com mulheres que lhes batem regularmente. Pessoas que descobrem tarde demais que se uniram a alguém que é homossexual ou bissexual, que sofre de doença venérea, ou que enlouquece, ou que tem uma tara religiosa. Todas estas alterações no drama doméstico são o manancial básico das novelas televisivas. Para todas estas complexas situações, a Igreja Católica só tem uma única solução: a separação, mas nunca o divórcio. Os laços do matrimónio, dizem os pontífices um após outro, são por sua própria natureza indissolúveis. «Os casamentos são feitos no Céu», mesmo que possam acabar no inferno. Nenhum poder terreno pode quebrar estes laços. «O que Deus uniu, não o separe o homem». Qualquer abrandamento desta regra abriria as comportas do dilúvio.
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    304 E não foiisto que aconteceu? No mundo ocidental houve um tremendo aumento da incidência do divórcio. No Reino Unido, antes de 1858, o divórcio só era concedido por uma lei especial do Parlamento. Entre 1669 e 1858, houve apenas 229 divórcios, dos quais só três ou quatro foram concedidos a mulheres. Hoje, os casamentos duram em média nove anos e o fundamento para o divórcio é o colapso irrecuperável da relação. Nos Estados Unidos, onde não havia divórcio antes da Revolução, este tornou-se um negócio como qualquer outro — como, digamos, a venda de automóveis ou de amendoins. Os divórcios contribuem para a produtividade nacional. Em 1930, ano da Encíclica Casti connubii, houve menos de 200.000. Por volta de 1975, havia já mais de um milhão por ano. Hoje, a taxa do divórcio nos Estados Unidos é a mais elevada do mundo. Na Inglaterra seiscentista, John Milton foi uma voz isolada a protestar contra a não existência do divórcio. Hoje, está acompanhado de multidões. O poeta, cuja mulher o abandonou, fez, no seu Tetrarchordon, um comentário sobre as palavras «O que Deus uniu»: Havemos nós de dizer que Deus uniu o erro, a fraude, a incapacidade, a ira, a discórdia, a eterna solidão, o eterno desacordo; se o desejo, ou o vinho, ou a bruxaria, a ameaça ou a incontinência, a avareza ou a ambição uniram fiel e infiel, cristão e anti-cristão, ódio e ódio ou ódio e amor — havemos nós de dizer que foi Deus que os uniu? Só o papa pode conceder o divórcio Até há bem pouco tempo, os católicos que se divorciavam e voltavam a casar viam- se como "maus católicos". A viver em pecado, estavam a caminho do inferno. Sondagens recentes, além de revelarem que as percentagens de divórcios entre os católicos estão pouco abaixo da média, mostram que os divorciados já não se vêem como maus católicos. Tal como desafiam o papa ao usarem os contraceptivos, os católicos também se divorciam sem um sentimento de culpa ou de vergonha. É verdade que o divórcio é normalmente uma experiência traumática, mas os católicos divorciados hoje já não carregam o fardo acrescido dos seus antepassados: já não se consideram condenados. Muitas vezes parecem sentir não que falharam no casamento, mas que o casamento os enganou. De qualquer maneira, uma vez acabado, o casamento está acabado de vez, mesmo quando reconhecem a responsabilidade parcial ou total que tiveram na sua destruição. Para quê fingir que existe um qualquer tipo de laço — místico, metafísico — quando sabem que entre eles tudo acabou? O amor morreu. Viver sem amor é pecado. Não voltar a casar seria tentar viver sem amor e um pecado mais. O clero celibatário não compreende que tentar remendar um casamento desfeito é muitas vezes como tentar refazer uma teia de aranha com as mãos. Hoje, se as sondagens estão certas, a maioria dos católicos pensa que a Igreja devia permitir o divórcio. É que, depois do divórcio, a vida de facto continua, e muitos querem viver essa vida por si mesmos e pelos filhos. Por que é que a Igreja prefere que os filhos sejam criados sem uma família à sua volta? Isto não quer dizer, porém, que os católicos acreditem na possibilidade de uma mudança. Como se viu no caso da Encíclica Humanae Vitae, a Igreja nunca muda. A sua força reside em não mudar. Isso mostra uma firmeza de objectivos, uma recusa em comprometer-se em termos de princípios básicos da moral. Quando pressionados,
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    305 muitos católicos defensoresdo divórcio possivelmente concordariam que se a Igreja realmente mudasse de acordo com os tempos poderia perder autoridade moral e muitos dos seus seguidores. Ela consola os seus filhos ensinando-lhes verdades eternas, em vez de se curvar aos ventos da moda. As verdades podem já não convencer ninguém, a moral pode já não ser aceite, mas elas estão lá, e os católicos, regra geral, sentem-se felizes por o papa manter de pé esses padrões como ideais a atingir. É como se as crenças fossem muito importantes mesmo quando não são verdadeiras. Este livro já mostrou algumas das muitas questões em que a Igreja mudou, mesmo quando proclama que a mudança é impossível. O génio da Igreja reside na mudança mesmo naqueles momentos em que mais alto clama: Mudanças nunca. Depois de analisadas, as chamadas "tradições" acabam por ter a idade de uma geração. Como John T. Noonan mostrou no seu livro Power to Dissolve, ao contrário da crença popular, a Igreja mudou em relação ao divórcio mais do que em relação à maioria das coisas. Isto dificilmente poderá surpreender se considerarmos a complexidade da condição humana e a variedade das experiências sociais. Era bom que a Igreja não se escondesse por detrás do mito de que nunca permite o divórcio, quando a verdade é quase o oposto disto. A Igreja permite o divórcio — ela prefere a expressão "dissolução dos laços" — em todos os casos, com uma excepção: o casamento consumado entre dois cristãos. Longe de ser totalmente contra o divórcio sob qualquer forma, o papa considera-se a única pessoa no mundo com o poder de o conceder. Pio XI disse que este poder de Deus nem aos governos pode ser confiado. Os governos podem legislar, julgar, prender, até executar, mas o divórcio não lhes pode ser confiado. O facto espantoso que temos de encarar é que o papado foi pioneiro do divórcio na Europa, tal como o foi da tortura. Foi o papado, e não os governos, que no século XVI reintroduziu o divórcio na Cristandade, depois de vários séculos em que este foi ilegal, no tempo em que a legislação eclesiástica prevalecia mesmo nos tribunais civis. Bonifácio VIII afirmava que todas as criaturas estão sujeitas ao pontífice romano. Esta ideia foi transportada pelos papas até ao presente século para cobrir todos os casamentos. Mesmo os casamentos dos descrentes, dos infiéis, dos judeus e maometanos. Todos eles estão sujeitos ao pontífice romano, e este pode dissolvê-los para salvação das almas, o que na prática, é o mesmo que dizer para benefício da Igreja Romana. A qualquer hora, há milhões de casamentos desfeitos por abandono, crueldade, incompatibilidade, maus tratos aos filhos e mulheres, infidelidade — casos que se encontram em cidades e aldeias obscuras de países tão afastados como o Zaire e a Escócia, a Finlândia e o Canadá. Mas só uma pessoa no mundo, um velho celibatário, que reside num palácio no Vaticano, foi dotado por Deus do poder de os dissolver. E isto nunca ele faz, a não ser que envolva qualquer interesse católico, caso em que age na qualidade de Vigário de Cristo, para trazer refrigério. Isto descredibiliza um pouco a ideia. Os laços naturais são tão fortes — "indissolúveis", como diz Roma — que é um erro grave um governo dos Estados Unidos, da Grã-Bretanha, da China ou da União Soviética legislar no sentido de os quebrar. Mas nas mãos do pontífice romano estes laços indissolúveis por natureza podem ser tranquilamente quebrados e os cônjuges autorizados a voltar a casar. Nos anos 40 e 50, Pio XII aumentou este poder de dissolver casamentos a um ponto que era impensável para qualquer cristão de apenas uma geração atrás. Todos os concílios primitivos da Igreja o teriam deposto por heresia. Como o papa, longe de ser contrário ao divórcio, pode dissolver todos os tipos de casamentos excepto um, pergunta-se, poderá ele dissolver mesmo esse? A maioria dos
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    306 católicos gostaria queele dissolvesse casamentos cristãos consumados, para fechar o ciclo, mas será que pode? A História tem algo a dizer sobre isto. Antecipando um pouco e resumindo: alguns papas, por iniciativa pessoal a roçar o quixotesco, dissolveram casamentos. Ao fazê-lo desencadearam o movimento de forças que acelerou até quase a perder o controle. Tem havido momentos na História — o nosso é um deles — em que os papas emitiram decretos que implicitamente puseram em causa ou anularam a maioria dos casamentos do mundo. Neste cenário, o divórcio civil não provoca o mal, antes ajuda a pôr fim à concubinagem pública. A imagem de uma Igreja Católica que nunca muda a sua doutrina sobre o casamento é tão falsa que um cristão do século III teria ficado espantado com os ensinamentos medievais; um medieval teria ficado ainda mais espantado com a doutrina do século XX. Sem dúvida que um cristão de hoje ficaria espantado se soubesse o que a Igreja irá ensinar no próximo século ou no seguinte. À luz da História, a única improbabilidade é que a doutrina actual seja a última palavra. Independentemente daquilo que os papas pensam, ou digam que pensam, o facto é que a tradição católica não é uma mera repetição do passado, e também nem sempre é uma evolução do passado. É muitas vezes um afastamento radical de tudo aquilo que a precedeu. A doutrina de Jesus sobre o matrimónio A doutrina de Jesus, tal como vem relatada no Evangelho de S.Mateus, parece clara. [Na Bíblia Judaica] disse-se: «Aquele que se divorcia da mulher, que lhe dê uma carta de divórcio». Mas eu digo-vos que todo aquele que repudiar a mulher, excepto por motivos de incontinência [porneia, no grego], torna-a adúltera; e aquele que casar com a mulher repudiada comete adultério. Mais adiante no Evangelho Segundo S.Mateus, perguntaram a Jesus: Então, por que é que Moisés permite o divórcio? Ele disse-lhes: «Por causa da dureza do vosso coração, Moisés permitiu que repudiasseis as vossas mulheres, mas ao princípio não foi assim. Ora eu digo-vos: se alguém repudiar sua mulher, excepto em caso de adultério, e casar com outra, comete adultério.» As diversas interpretações que se fizeram desta passagem ao longo dos tempos mostram que as coisas não são assim tão simples como parecem. O primeiro problema centra-se na expressão «excepto por motivo de incontinência». O que é que se pretendia significar com «incontinência»? Teria a expressão sido usada no sentido formal de que alguém que violasse uma regra não era realmente casado? Quereria ele dizer simplesmente "infidelidade"? Seja qual for o significado, não é óbvio que o próprio Jesus considerava algumas excepções à regra? Muitos Padres da Igreja e a maioria dos Padres do Oriente, com destaque para S.Basílio, têm como certo que o divórcio era permitido por motivos de infidelidade. Esta tradição, aceite por todos os primeiros sínodos da Gália, da Espanha e do Reino dos Francos, mantém-se em vigor na Igreja Oriental. Dizer, portanto, que a Igreja sempre ensinou que nenhum matrimónio cristão pode ser dissolvido em caso algum é historicamente falso. A menos que, convém acrescentar, a Igreja Oriental não fosse
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    307 verdadeiramente católica, mesmoantes do Cisma, isto é, antes da sua separação formal de Roma em 1054. Depois da Reforma, no século XVI, só a Igreja Católica continua a afirmar que o divórcio é proibido a todos os cristãos cujo casamento se consumou. Estas duras palavras continuam em vigor mesmo quando um cônjuge inocente é abandonado. Outras igrejas consideram possível que os cônjuges inocentes abandonados casem de novo depois do divórcio. Ao contrário do que vulgarmente se crê, a Igreja Católica nunca definiu que os casamentos católicos consumados não podiam ser dissolvidos. O Concílio de Trento esteve quase a fazê-lo em 1563 quando, delicadamente, os embaixadores da República de Veneza recordaram aos padres que a Igreja Oriental concedia o divórcio. Este costume, acrescentaram, nunca fora condenado por nenhum papa nem por nenhum concílio ecuménico. Assim prevenidos, os bispos recuaram. Alteraram o texto. Em vez de condenar sem reservas as práticas orientais, limitaram-se a dizer: «Se alguém disser que a Igreja [Católica] erra quando ensina […] que os laços do matrimónio não podem ser dissolvidos, que seja anatemizado». Isto deixava em aberto a possibilidade de a Igreja reavaliar esta posição em data futura. Desde o Concílio de Trento, isto nunca aconteceu. A porta não se fechou. Especialistas das Escrituras sugeriram recentemente que as Igrejas Oriental e Ocidental abordaram os textos das Escrituras de forma errada. Jesus era visto principalmente como um fazedor de leis, muito à maneira de Moisés. De facto, ele era visto como um advogado canónico apostado em estabelecer critérios precisos para o matrimónio e para o divórcio. Esta a razão por que, ao longo dos séculos, a Igreja transformou esta parte do Sermão da Montanha num documento legal. Desde então os canonistas têm-se atirado aos pormenores como cães a um osso. Quais as condições de um matrimónio legal e válido? Quais são as razões válidas para dispensar os impedimentos da consanguinidade, dos casamentos mistos ou de um casamento com uma pessoa não baptizada? E por aí adiante. Claro que o matrimónio faz parte da lei da Igreja e, à medida que a sociedade evolui, ela tem de responder com legislação por vezes complexa. O erro foi pensar que o Sermão da Montanha tinha alguma coisa a ver com este tipo de questões. Jesus apresentou aos discípulos o ideal do casamento. É muito pouco provável que tivesse na ideia qualquer excepção particular, quer por abandono, quer por infidelidade. Mas estabelecer um ideal de casamento é uma coisa e legislar em questões que montam a uma complexidade Talmúdica, outra coisa completamente diferente. O contexto das palavras de Jesus torna isto muito claro. No Sermão da Montanha, imediatamente antes de falar do casamento, Jesus disse: «Se a tua mão ou o teu pé são para ti ocasião de pecado, corta-os e lança-os para longe de ti; mais vale entrar na vida manco ou coxo do que seres lançado no fogo eterno, com as duas mãos ou com os dois pés ». Um dos Padres gregos, Origen, tomou isto à letra e cortou o membro pecador, que não era a mão nem o pé. Isto foi uma tragédia pessoal na medida em que Origen, que se distinguiu em interpretações místicas, não tomou quase mais nada da Bíblia literalmente. A Igreja reprovou o uso que Origen fez da faca, temendo que se tornasse moda. Jesus não queria que nenhum seguidor seu cortasse a mão ou qualquer outra coisa. Mas o caso era diferente quando os papas, Padres e teólogos tratavam da questão do fogo do inferno que nunca se extingue. Isto, diziam eles, tinha de ser tomado à letra. Este erro foi pior do que o de Origen; levou-os a fazer, durante vários séculos, perguntas como estas: Que tipo de fogo é esse que pode arder perpetuamente sem
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    308 nunca se extinguir?Que tipo de corpo é o dos mortos ressuscitados que pode arder perpetuamente? Onde é esse fogo? Nas entranhas da terra? E como é que uma pessoa pode sentir o sofrimento do fogo antes de o seu corpo ressuscitar no dia final? E havia também questões éticas sem resposta. Como é que se pode justificar um castigo eterno para um acto cometido no tempo? Deus é infinito, logo, argumentavam eles superficialmente, um pecado contra Ele também é infinito. E levantaram-se também questões psicológicas. Como é que os pais podem rejubilar no Céu sabendo que os filhos e filhas estão a assar no inferno? Já vimos como ao longo da maior parte da história do Cristianismo a Igreja sempre condenou ao fogo eterno os bebés não baptizados, como veredicto justo de Deus para eles. Este facto, misteriosamente, não diminui a bem-aventurança dos pais que alcançaram o paraíso. Como é que isto é possível? E os teólogos estavam metidos em mais uma trapalhada perfeitamente inútil. Para os exegetas modernos, a resposta é simples. Jesus não falava literalmente quando se referiu ao «fogo eterno». Referia-se ao cemitério de Gehenna, nos subúrbios de Jerusalém, que fumegava dia e noite, alimentado pelo lixo da cidade e pelos cadáveres dos criminosos crucificados. Uma interpretação literal banaliza o que ele estava a dizer. O mesmo se aplica à sua doutrina sobre o matrimónio. Ele fala profeticamente. Considera o casamento como um compromisso vitalício entre um homem e uma mulher. Pecar contra esse compromisso é adultério. Interpretar isto seriamente não é o mesmo que tomá-lo à letra, o que, infelizmente, foi o que a Igreja muitas vezes fez e levou os canonistas a meterem-se exactamente pelos mesmos caminhos pedregosos que os teólogos tomaram em relação ao inferno e ao fogo do inferno. Um ideal não comporta excepções e Jesus estava a exprimir um ideal. Interpretar erroneamente uma questão como esta é transformar um ideal de matrimónio num regulamento de divórcio. Uma vez cometido esse erro, os canonistas começaram a perguntar-se: O que é que é necessário para um casamento legítimo e válido? O que é uma dispensa válida? E por aí adiante. Se a Igreja pode ou não pode permitir o divórcio e, em caso afirmativo, em que circunstâncias, são assuntos que não interessavam minimamente a Jesus. Ele era profeta e não canonista. O curioso é que a Igreja sustenta que no Sermão da Montanha Jesus ensinou uma doutrina que é universal e não tem excepções. É obrigação da Igreja defendê-la. Contudo, nem um só elemento desta doutrina se pode encontrar no texto. Em primeiro lugar, Jesus, que era judeu, dirigiu o Sermão da Montanha aos seus concidadãos judeus. Estes não eram baptizados e provavelmente nenhum deles viria alguma vez a sê-lo. Diz-se que Jesus lhes ditou a "lei" de que os casamentos de cristãos baptizados, uma vez consumados, não podem ser dissolvidos. Por outras palavras, pressupõe-se que Jesus proibiu o divórcio, em quaisquer circunstâncias, à própria classe de pessoas a quem os papas ordinariamente o permitiram. Há registos de que Martinho V (1417-31) permitiu a judeus o divórcio e um segundo casamento de acordo com a sua lei. De facto, por todos os Estados Papais, era permitido aos judeus divorciarem-se e voltarem a casar com a aprovação dos papas. Estes eram verdadeiros potentados; podiam, com um simples toque da pena, tê-los proibido, mas não o fizeram. Nos tempos modernos, os papas têm dissolvido, perfeitamente à vontade, os casamentos dos judeus que querem converter-se ao Catolicismo. Isto significa que, na prática, embora interpretem o ideal de Jesus como lei rigorosa, os próprios papas abrem excepções. Uma estranha evolução, à luz da História.
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    309 A doutrina daIgreja primitiva sobre o divórcio A Igreja nasceu no tempo do Império Romano. Os romanos tinham uma atitude liberal em relação ao divórcio. Cícero separou-se da mulher porque precisava de um dote extra. Augusto obrigou o marido de Lívia a divorciar-se dela quando estava grávida para casar ele próprio com ela. As esposas, segundo um escritor romano, eram como os sapatos: magoavam em sítios que as outras pessoas não viam. Quando os sapatos nos magoam, calçamos outros. S.Jerónimo conta que na Roma do seu tempo uma mulher ia casar-se pela vigésima terceira vez, e seria a vigésima primeira mulher do futuro marido. O casamento não era, claramente, mais do que uma ligação ocasional que podia ser dissolvida quase à vontade do freguês. A Igreja, pelo contrário, insistia que as relações sexuais são proibidas excepto no contexto de uma relação com carácter permanente. Quando o Cristianismo se institucionalizou, os matrimónios passaram a ser consagrados numa cerimónia religiosa especial. Até ao século X, porém, a bênção da Igreja não era obrigatória. A natural união entre homem e mulher passava agora a ficar sob o controle do clero. Contudo, só depois do Concílio de Trento, em 1563, é que o cerimonial do matrimónio ficou definitivamente estabelecido. A partir de então, o casamento não mais seria válido a não ser que cada um dos membros desse o seu consentimento perante o padre da paróquia (ou de um seu delegado) e duas testemunhas. Mesmo isto só se tornou universal na Igreja com a publicação de Ne Temere, no ano de 1908. Nos primeiros séculos, o casamento, abençoado ou não pela Igreja, reconhecido ou não pelo Estado, era considerado indissolúvel pelos cristãos. «O que Deus uniu, não o separe o homem». A lei civil continuou durante muito tempo a permitir o divórcio. Algumas tentativas feitas pelos imperadores, como por exemplo, Constantino, no sentido de o limitar falharam. O direito ao divórcio continuou intacto no código Justiniano que regulava o Império. Assim, durante séculos, a Igreja e o Estado seguiram os seus próprios caminhos. A Igreja, no máximo, só permitia o divórcio e um novo casamento a um cônjuge abandonado, enquanto que o Estado reconhecia este privilégio a toda a gente. Carlos Magno, como chefe da Cristandade, fez os possíveis por harmonizar os dois códigos. Sendo ele próprio divorciado, declarou o divórcio crime, embora, prudentemente, não lhe tivesse estabelecido qualquer pena. A Igreja excomungou algumas vezes pessoas divorciadas, mas claro que ninguém tão importante como Constantino ou Carlos Magno. Só no século XII, quando a Europa era uma Cristandade, é que a Igreja e o Estado se juntaram na proibição do divórcio. A Igreja ganhara a parada. E o mais estranho é que foi a Igreja e não o Estado que começou a minar a instituição do casamento. * * * Os casamentos mistos são uma área em que ocorreram mudanças enormes no decurso dos tempos. Trata-se dos casamentos entre cristãos e pagãos. A Igreja proibiu-os desde o princípio, por serem contrários ao Evangelho. Como é que um cristão podia unir-se a alguém que, como ele acreditava, estava condenado ao fogo do inferno por não ser crente? Como é que um cristão podia aceitar que os seus filhos fossem criados sob influência pagã, ou até mesmo como pagãos, condenando-os assim aos tormentos eternos? Antes do Cristianismo, as diferenças religiosas não eram tomadas muito a sério. Só o Cristianismo é que foi tão exclusivista ao ponto de
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    310 considerar todos osdescrentes como material combustível. E, incidentalmente, também foi o Cristianismo que introduziu um temor da morte até então desconhecido. Os Padres apelidavam grosseiramente o casamento de um cristão com um pagão de "adultério" ou "fornicação", pois prostituía os próprios membros de Cristo ao uni-los aos membros de uma prostituta herege. Logo que a Igreja se tornou a religião do Império, o casamento de um judeu com um cristão passou a ser pecado capital. Um após outro, os concílios denunciaram todos os casamentos entre cristãos e "outros" como um crime. Esta atitude era tão vulgar que Graciano, no século XII, descreveu todos os casamentos entre crentes e descrentes como «contrários aos mandamentos de Deus e da Igreja». Se um cristão encetasse uma tal ligação, devia separar-se imediatamente. A sua fé corria perigo, ele estava a corromper a moral e a fazer perigar a salvação dos seus filhos. A maioria dos teólogos, como Peter Lombard, dizia que os casamentos mistos eram nulos e inválidos. Esta tradição não admitia excepções. A partir do Concílio de Trento, e até ao século XIX, a Inquisição providenciou para que nenhum católico, homem ou mulher, casasse com um protestante. Porém, embora os casamentos mistos fossem contrários à lei divina, em países como a Inglaterra e a Alemanha começaram a surgir costumes em sentido oposto. Sendo uma minoria, os católicos não tinham muitas vezes outra alternativa senão a de casarem com protestantes ou então simplesmente não casarem. E outras excepções houve autorizadas oficialmente por Roma. Clemente VIII permitiu, no ano de 1604, que um príncipe católico casasse com uma princesa protestante «para o bem comum». Nunca ficou muito claro como é que uma coisa contrária à lei divina e intrinsecamente má podia resultar num bem, comum ou não. Para minimizar os efeitos perversos dos casamentos mistos, Roma exigia certas garantias. O cônjuge católico tinha de fazer todos os possíveis para converter o outro; os filhos de ambos os sexos tinham de ser educados como católicos. Tudo isto tinha de ser confirmado por escrito. No século XIX, na Inglaterra e na Alemanha, passou a ser proibido aos católicos casarem com protestantes sem autorização prévia. Em compensação, esta autorização começou a ser dada com cada vez mais facilidade. Aquilo que a Igreja condenara sem reservas estava a tornar-se prática comum. Aquilo que tinha sido banido como contrário à lei divina e intrinsecamente mau passava agora a lei canónica. Enquanto que a linguagem dos papas continuava a mesma, a prática tinha mudado consideravelmente. No ano de 1748, Benedito XIV, numa carta enviada à hierarquia polaca, chamava ao casamento entre católicos e protestantes «união sacrílega». Em 25 de Março de 1830, na Litteris alto referia-se aos casamentos mistos como «crimes graves». «A Igreja», dizia ele, «tem horror a estas uniões que tantas deformações e perigos espirituais apresentam». Tais uniões eram «pecados directos contra a lei canónica e divina». A Igreja primitiva dizia o mesmo e baniu-os. Seria isto realmente uma evolução ou uma mudança de ideias fundamental? Em 1858, Pio IX, no seu habitual estilo bombástico, disse que a Santa Sé só permite tais casamentos «perniciosos e detestáveis» por motivos sérios. Sem um motivo justo e sério, acrescentava a Propaganda Fide∗ , as dispensas não seriam válidas. Mas quando em 1877 a Propaganda Fide publicou uma lista de dezasseis motivos «justos e sérios» que asseguravam uma dispensa, muitos deles eram afinal triviais. Por exemplo, é automaticamente concedida uma dispensa se a mulher tiver mais de vinte e quatro anos de idade (superadulta). Ou se a parte católica estiver firmemente determinada a casar de qualquer maneira, não sendo na igreja, então, pelo civil. Um belíssimo exemplo de desobediência recompensada. A partir de 1970 nem as garantias escritas são exigidas; ∗ Sagrada Congregação para a Propagação da Fé (N.T.)
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    311 a palavra docatólico de que fará o melhor pelos futuros filhos é suficiente. Por vezes, um católico num casamento misto pode até ser casado por um pastor protestante. Nesta questão parece que a Igreja chegou ao fim. Os papas pareciam ter a esperança de que uma linguagem idêntica — tão feroz como a usada pelos Padres — ocultasse o facto de que houvera realmente mudanças. A magnitude das mudanças é tal que qualquer Padre da Igreja que ressuscitasse hoje pensaria que Satanás tinha triunfado e a Santa Madre Igreja se tinha rendido ao paganismo. Da doutrina sobre os casamentos mistos tira-se a seguinte lição: quando a Igreja Católica muda radicalmente diz que se estão a aplicar com benevolência os princípios imutáveis às circunstâncias que mudaram; quando recusa mudar — como até agora em relação à contracepção e ao divórcio para os cristãos — diz que os seus princípios imutáveis não permitem qualquer mudança em circunstância nenhuma. Um cristão primitivo teria achado igualmente inacreditável qualquer mudança, fosse qual fosse o motivo, em questões de contracepção, casamentos mistos ou divórcio. A Igreja mudou em relação aos casamentos mistos. E quanto ao divórcio? O divórcio papal de casamentos não consumados Em meados do século XII, o Bispo inglês de Exeter pôs ao Papa Alexandre III um problema de algibeira. Nos seus esponsais, um nobre da sua diocese tinha jurado solenemente casar com a noiva. Contudo, antes do casamento sentiu uma vocação para a vida religiosa. Havia um conflito entre o seu juramento de casar e a sua divina vocação para servir Deus como monge. Alexandre era o melhor advogado do seu tempo. A solução que adoptou não tinha precedentes nem lógica e levantou uma lebre canónica que ainda hoje continua a correr. Muitas outras lebres loucas se lhe seguiram. Segundo o papa, o nobre estava obrigado a cumprir o juramento casando com a noiva. Logo após a cerimónia, e sem qualquer união carnal, deixá-la-ia e entraria para o convento. A sua decisão foi influenciada por estórias de santos — homens e mulheres com uma fobia ao sexo — que deixaram os esposos na noite de núpcias. Só um celibatário total, encharcado de uma tradição anti-casamento podia ter arquitectado este joguinho sujo. O casamento do nobre, disse Alexandre, seria válido porque, segundo Graciano, é o consentimento e não o acasalamento que faz o casamento. Não é verdade que Maria e José eram casados, embora a sua união fosse virginal? Mais ainda: a sua união virginal não era um casamento apenas genuíno, era o casamento ideal. Depois de celebrado o matrimónio, o nobre de Exeter podia dissolver o casamento não consumado tornando-se monge. Era como que uma abordagem cavalheiresca do grande sacramento de Cristo e da sua Noiva, a Igreja. E onde é que estava a justiça para com a noiva? Os seus direitos conjugais, a sua honra e a da sua família foram completamente ignorados. Sua Santidade não reparou nas palavras de S.Paulo: «O marido não tem poder sobre o seu próprio corpo, mas sim a mulher». A pergunta que os canonistas faziam era esta: Como é que a decisão unilateral do marido podia desfazer o casamento? No seu decreto Commissum, Alexandre respondeu que este era um caso especial. O bem da religião sobrepunha-se ao bem menor do casamento, os votos religiosos anulavam os votos do casamento. Os papas afirmam-se capazes de interpretar a Bíblia. Será que Jesus estava a pensar nesta excepção quando disse: «O que Deus uniu, não o separe o homem»? Teria Santo Agostinho concordado que os fins do matrimónio — a procriação, a indissolubilidade, a fidelidade — tinham sido salvaguardados por Sua Santidade ao permitir que um marido
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    312 abandonasse a mulherlogo após a cerimónia do casamento? Além disso, não significava a decisão do papa que o matrimónio ideal, aquele que une duas pessoas virgens como Maria e José, era o único dissolúvel? Sempre foi muito difícil de entender como é que um casamento virginal pode ser o ideal se o principal fim do casamento é a procriação. A decisão de Alexandre sobre a dissolubilidade passou por cima do problema. Como Alexandre era o papa, da sua absurda decisão surgiu uma coisa importante. Ele concordava com a ideia de que para que um casamento seja absolutamente indissolúvel é preciso o consentimento e o acasalamento, dizer o Sim e ter relações sexuais. Um dos seus ajudantes devia ter lembrado a Sua Santidade que daí resultam duas consequências absurdas. Em primeiro lugar, se a relação sexual é necessária para a indissolubilidade, qualquer pessoa que tencionasse não ter relações sexuais não pretenderia a indissolubilidade, portanto não pretenderia casar. O nobre tinha-se submetido à cerimónia mas não tinha realmente casado. Não cumpriu o juramento que fizera à noiva, ao contrário, quebrou-o. Em segundo lugar, durante séculos a Igreja ensinou que o sexo no casamento era invariavelmente pecaminoso. Como é que este elemento pecaminoso pode tornar o casamento tão sagrado ao ponto de o tornar indissolúvel? Ou deveremos nós, em vez de «O que Deus uniu», dizer antes «O que o desejo uniu, não o separe o homem»? Uma vez que «o papa não pode errar», a Igreja tem de viver com este naco de frivolidade papal. Graças a Alexandre, nasceu uma nova categoria de casamentos cristãos dissolúveis. Um homem, por sua própria iniciativa, podia divorciar-se da mulher! Uma igreja que diz que qualquer excepção abre as portas do dilúvio tinha aberto uma enorme brecha na instituição do casamento. A decisão de Alexandre passou naturalmente a fazer parte da ortodoxia. Em 1563, o Concílio de Trento decretou que a profissão religiosa dissolvia o casamento. Como? Surgiu a noção mística de que a profissão religiosa era uma espécie de morte espiritual que, tal como a morte física, punha fim ao casamento. Não era o papa que dissolvia o casamento, mas a profissão religiosa. Mas já os papistas mais ardorosos começavam a cheirar novos poderes papais. Se um simples marido podia dissolver o seu próprio casamento, talvez o papa também pudesse dissolver certos casamentos por motivos espirituais. Afinal, ele era o vigário de Deus na terra. Quem é que se atrevia a limitar-lhe antecipadamente a autoridade? Tinham-se já passado trezentos anos quando, em meados do século XV, Antonino, Arcebispo de Florença e antigo distinto membro da Cúria, afirmou ter visto as Bulas de dois papas que dissolveram casamentos não consumados. Em ambos os casos o marido foi autorizado a voltar a casar. Apesar das suas credenciais — foi o mais importante teólogo moral do seu tempo — ninguém acreditou em Sua Graça. A profissão religiosa podia dissolver um casamento. E o papa? Claro que não. E um cônjuge divorciado podia voltar a casar? Impossível! Jesus disse: «O que Deus uniu…» O que aconteceu muito mais tarde foi que o costume papal de dissolver tais casamentos, isto é, de conceder o divórcio, foi muito atrás, para além do tempo do Papa Martinho V, contemporâneo de Antonino. Como é que se justificava esta inversão da clara doutrina do Mestre? Os casos em questão eram os seguintes: depois de casar e antes de consumar o casamento, um homem descobre que a mulher está grávida de outro homem. Pede que o casamento seja dissolvido para poder casar de novo com uma virgem. Um outro homem casa por procuração. Quando viajava para ir ao encontro do marido, a mulher é
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    313 capturada por piratas.O marido nunca a encontrou e era pouco provável que viesse a encontrá-la. Embora casado com ela, foi autorizado a voltar a casar. Os canonistas argumentaram que os papas tinham de dissolver esses casamentos na qualidade de vigários de Cristo. O motivo foi, presumivelmente, a misericórdia. Mas evocar a misericórdia como motivo para conceder o divórcio parece estranho numa Igreja que recusa sem misericórdia o divórcio aos seus filhos em circunstâncias tão pungentes como aquelas acabadas de mencionar. Além disso, estas excepções dificilmente se podem justificar com o Sermão da Montanha, que a Igreja continua a interpretar como lei férrea: divórcio nunca. Tem de ser dito que a Igreja não tem cumprido a indissolubilidade em absoluto. Os papas violaram-na, para grande incredulidade inicial dos canonistas. Devido à paixão de Roma pelo secretismo, estes importantes documentos sobre o divórcio não viram a luz do dia durante quinhentos anos. E portanto o testemunho de Antonino não pôde ser verificado. Contudo, uma vez estabelecida a prática papal sobre o divórcio, a pergunta nos círculos da Cúria era esta: Como é que o papa pode fazer isto se nenhum homem pode quebrar os laços do casamento? A resposta veio clara e estrondosa: o papa não é um homem, é o vigário de Deus. Usa o poder divino para dissolver o indissolúvel. Falando claro, a indissolubilidade tem diversos tipos, um dos quais é o dissolúvel. Se os canonistas tivessem tomado o ensinamento de Jesus como um ideal de casamento tudo teria ficado resolvido. Mas como peça de legislação, tinha de ser interpretado de maneira ainda mais abstrusa. Jesus quis dizer evidentemente que o que Deus uniu tem de continuar unido em quaisquer circunstâncias. Roma, na prática, discorda e, para justificar a sua discordância, recorre a distinções subtis. A passagem que proíbe o divórcio tem, portanto, de ser ligada, no espírito católico, a outras passagens-chave das Escrituras: «Tu és Pedro» e «Aquilo que desatares na terra será desatado no Céu». Implícita está também a crença de que no Sermão da Montanha Jesus quis entregar este poder de conceder o divórcio não apenas a Pedro mas também aos seus sucessores, os Bispos de Roma. Não é por nada que os papas afirmam saber interpretar a Escritura. Há ainda uma outra estranha consequência dos primeiros divórcios papais. Nos documentos da Igreja, os laços do matrimónio são considerados de lei natural e divina. Tal linguagem é tida como significando que nem Deus lhes pode abrir excepções. Neste caso, porém, a lei natural pode ser violada. Por qualquer razão não explicada, a Igreja afirma ter o poder de modificar ou revogar a lei natural do divórcio, mas não a da contracepção. Quando Roma continua a dizer que o próprio papa não pode dissolver um casamento cristão consumado, as pessoas querem saber porquê. Os teólogos apontam as Escrituras e dizem que um casamento cristão reflecte o amor de Cristo e da sua Igreja. Mas antes do século XV os teólogos também apontavam as Escrituras para provarem que o papa também não podia dissolver casamentos não consumados. Mas isto é dar um grande salto em frente. A estranha decisão de Alexandre III sobre o nobre de Exeter gerou um grande número de divórcios papais. Em resultado dela, Martinho V e outros papas dissolveram casamentos confirmados mas não consumados. Aquilo que deixou Antonino perplexo em meados do século XV e que os académicos de então disseram que era incrível, era agora, no século XVII, prática comum. Com base no seu poder divino, o papa dissolvia casamentos não consumados. Poderia ele também dissolver alguns casamentos consumados?
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    314 O divórcio papalde casamentos consumados À excepção da "incontinência", a Igreja primitiva tinha como certo que Jesus tinha proibido qualquer dissolução de casamento. Mas havia uma passagem da Primeira Carta de S.Paulo aos Coríntios que parecia admitir outras excepções: Eu digo, e não o Senhor, que se algum irmão tiver uma mulher descrente e ela consentir em viver com ele, não deve divorciar-se dela. Se alguma mulher tiver um marido descrente e ele consentir em viver com ela, não deve divorciar-se dele. Porque o marido descrente é santificado pela mulher e a mulher descrente é santificada pelo marido. Caso contrário, os vossos filhos seriam impuros, quando na realidade são santos. Mas se o descrente se quiser separar, que se separe; neste caso, o irmão ou a irmã não estão sujeitos à servidão. Porque Deus nos chamou para a paz. S.Paulo respondia a perguntas postas pelos seus convertidos. Os pagãos tinham-se convertido. A pergunta subjacente ao texto acima pode ter sido: Os cristão recém- baptizados são autorizados a continuar casados com os cônjuges que ainda são pagãos? Teriam de continuar casados? Paulo, como bom diplomata que era, responde: Se o casamento funciona, deixá-lo continuar. É um casamento verdadeiro; ele fala de cônjuges descrentes como "marido e mulher". É um casamento bom, porque o crente santifica o descrente. Os filhos também são santos, o que significa que o casamento já está santificado por Deus. Contudo, se o descrente considera a conversão do cônjuge intolerável e se separa, que assim seja. O crente não deve tomar a iniciativa. E Paulo continua, dizendo que depois da separação o irmão ou irmã «não estão sujeitos à servidão». Quererá isto dizer que o cristão abandonado tem o direito de voltar a casar? Agostinho, pioneiro da doutrina católica sobre o matrimónio, respondeu: Claro que não. A proibição de Jesus do divórcio não tem excepções. Mesmo entre pagãos, o matrimónio constitui um laço que nenhum homem pode quebrar. Isto implicava que o cristão abandonado deve continuar fiel ao casamento; se ele ou ela voltarem a casar cometem adultério. A alternativa era sugerir que poucos anos depois da Crucificação um apóstolo "criou" um grupo especial de pessoas cujos laços do matrimónio eram dissolúveis. Se assim fosse, onde é que isto iria acabar? A despeito da sua autoridade, a opinião de Agostinho foi rejeitada. Um advogado romano do seu tempo, convertido do Judaísmo e chamado Isaac, seguiu uma linha diferente. O facto de o livro de Isaac sobre o assunto ter sido mais tarde atribuído a Gregório o Grande contribuiu para lhe aumentar o prestígio. Isaac interpretou as palavras do apóstolo desta maneira: o que Paulo tinha na ideia era um pagão que, por ódio a Deus, desfaz o casamento com uma cristã convertida. O cônjuge convertido não tem culpa. Ele ou ela simplesmente optaram por responder ao chamamento de Deus, e se isto significar o fim do casamento, que assim seja. Em linguagem canónica, o pagão recusou-se a confirmar o casamento após a conversão do cônjuge. Foi o ódio a Deus por parte do pagão que dissolveu o casamento, deixando o cristão livre para voltar a casar. Isto veio a chamar-se “Privilégio Paulino“. A interpretação de Isaac levantava tantas questões quantas aquelas a que dava resposta. A casuística que se lhe seguiu, especialmente na Idade Média, foi labiríntica. O que é que constitui este «ódio a Deus», de que não há aliás o mínimo vestígio em S.Paulo? Um crente abandonado podia voltar a casar. Isto veio a ser incluído nos
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    315 Decretais de Gracianoe a tornar-se lei da Igreja em 1142. Inocêncio III sancionou-o no seu decretal Quanto te do ano de 1199. Os teólogos começaram então a explorar o filão. Quando e como é que o casamento original era dissolvido? Seria dissolvido logo que o pagão abandonava o cônjuge? A opinião popular era a de que o casamento só era dissolvido quando o cônjuge abandonado voltava a casar. O ponto crucial era que um papa, o sentencioso Inocêncio III, concordou com a ideia de que um casamento consumado podia ser dissolvido. E nem sequer era dissolvido pelo papa ou pela hierarquia, mas simplesmente pelo cônjuge cristão. Fora aberta uma brecha fatal na convicção de que o casamento era indissolúvel em termos absolutos e fossem quais fossem as circunstâncias. E era uma boa razão aquela que era apresentada: a causa de Deus tinha mais peso do que o valor de um casamento naturalmente válido e consumado. Mas por muito misericordioso que fosse, isto era seguramente um passo curioso que a Igreja dava, considerando que continuava a insistir na interpretação literal das palavras de Jesus. Jesus falara sem reservas da unidade irrefragável do casamento. Se estivesse a legislar, não seria lógico que dissesse que o convertido abandonado não pode voltar a casar, para demonstrar a indissolubilidade dos laços do matrimónio tal como Deus os concebeu desde o princípio dos tempos? Uma vez aberta a brecha, novas questões se levantaram numa corrente infindável, não necessariamente de imediato, mas inevitavelmente. Por exemplo, se o ódio a Deus por parte de um descrente permite a um cristão pôr fim ao casamento, por que é que um cristão não pode pôr fim a um casamento cristão se o cônjuge perder a fé e impossibilitar uma vida verdadeiramente cristã? A própria Igreja estava a derrubar a primeira pedra do dominó. O que pouca gente sabe é que dois papas do século XII, anteriores a Inocêncio III, nomeadamente, Urbano III e Celestino III, chegaram mesmo a dizer que certos casamentos cristãos consumados podiam ser dissolvidos. Celestino tomou como exemplo o caso seguinte: uma mulher cristã é abandonada pelo marido cristão que abjura da sua fé e casa com uma pagã. Ela é livre, diz o papa, de voltar a casar, com o consentimento do seu pároco. Se o marido mudar de ideias e quiser voltar para a primeira mulher, esta não é obrigada a aceitá-lo de volta. Celestino cita o livro de Isaac, que ele acredita ter sido escrito pelo Papa Gregório, e argumenta que foi o “ódio a Deus” do marido que dissolveu o casamento. Esta a razão por que a mulher fica completamente livre em relação ao marido. Pode ser uma surpresa encontrar dois papas medievais que afirmam que há boas razões para dissolver um casamento cristão consumado. Na realidade eles não foram os primeiros. Gregório II antecipou-se-lhes. Em 22 de Novembro de 726 escreveu a S.Bonifácio, o apóstolo da Germânia, a determinar o destino de um homem cuja mulher estava tão gravemente doente que não podia viver com ele. Este não devia voltar a casar, decidiu Gregório, mas era livre de o fazer desde que sustentasse a primeira mulher. Os comentadores católicos depois de Graciano não ficaram muito satisfeitos ao depararem com um papa que concedia o divórcio a um homem pelo facto de a mulher estar incapacitada para o sexo. Um autor jesuíta, Padre G. H. Joyce, escreve: «É razoável supor que [a carta do papa] dizia respeito a um casamento em que, antes da consumação, a noiva tinha contraído uma doença que tornava a vida conjugal impossível». Por outras palavras, é impensável que um papa viesse contradizer a fé da Igreja mesmo quando aquele o tinha claramente feito. Gregório II, diz Joyce, deve ter dissolvido um casamento não consumado. A belíssima hipótese de que a mulher contraíra uma doença entre o casamento e a sua consumação é muito difícil de aceitar.
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    316 Mas ele tambémnão reparou que a dissolução por não consumação só apareceu cinco séculos depois. Mesmo então, esta só era considerada para os casos de entrada na vida religiosa e não para uma reentrada no casamento. Também não se pode argumentar, como alguns tentaram fazer, que Gregório II estava a anular um casamento devido à impotência da mulher. Porque Gregório II sempre insistiu que nos casos de impotência os cônjuges tinham de viver juntos como irmão e irmã. De facto, a impotência é mais um exemplo da confusão em que os papas, longe de estarem de acordo, andaram metidos durante vários séculos. É mais um campo em que a ideia de consenso papal em relação à doutrina é um mito. Voltando à “heterodoxa” opinião de Celestino III sobre a dissolução de casamentos consumados, é bom lembrar que o sucessor daquele, Inocêncio III, não ficou muito perturbado com ela. Diz ele, muito tranquilamente: «Embora um dos nossos antecessores pareça ter julgado de maneira diferente», o casamento de dois cristãos é para toda a vida e não pode ser dissolvido pelo facto de um dos cônjuges se ter tornado descrente. Depois de confirmada pela relação sexual, uma união não pode ser destruída. Os canonistas ficaram mais nervosos do que Inocêncio. Para eles, depararem com um papa que contradizia a fé da Igreja era de tal maneira desagradável que as opiniões de Celestino não foram incluídas na colecção de decretais papais um quarto de século mais tarde. Cajetano, o cardeal e académico dominicano que entrou em conflito directo com Lutero, tinha opiniões semelhantes às de Celestino. Ensinava ele que os casamentos cristãos consumados podiam ser dissolvidos por motivo de adultério. Jesus disse-o. A Igreja Oriental sempre o dissera. Se os papas não concordavam, não interessava. Os papas, dizia Cajetano, já antes tinham cometido muitos erros. O divórcio papal para as Missões Nos fins do século XV, como Noonan mostra em Power to Dissolve, a expansão da Igreja na América começou a criar novos problemas. Os chefes índios, que tinham várias mulheres, foram convertidos. Mais tarde, os escravos negros, que tinham deixado as mulheres nas suas terras, tornaram-se cristãos; não tinham quaisquer perspectivas de se virem a reunir às suas famílias. A Igreja Católica, que se orgulha de nunca ter mudado os seus princípios básicos, certamente que os adaptou genialmente e com grande simpatia nesta situação nova. A questão principal era esta: teriam estes convertidos de manter, por assim dizer, o celibato? E se não, por que não? A primeira resposta de Roma foi uma prudente negativa: estes convertidos teriam de manter-se fiéis à primeira mulher. Depois, o Papa Paulo III, perguntado sobre os chefes que tinham várias mulheres, respondeu que se o chefe não conseguisse lembrar-se de qual fora a primeira mulher podia escolher a que quisesse. Era uma decisão de ajuda aos índios de fraca memória. Trinta anos depois, Pio V disse que um chefe com várias mulheres, depois da conversão, ficava livre para escolher a mulher que seria baptizada juntamente com ele, mesmo que não fosse a primeira. Mas Pio acautelou-se insistindo que, se fosse possível encontrar a primeira mulher com facilidade, o chefe teria de continuar casado com ela. Depois veio Gregório XIII, que no ano de 1585 dilatou a autoridade papal sobre o casamento de maneira notável. Concedeu uma dispensa colectiva aos escravos
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    317 convertidos casados paravoltarem a casar. As suas uniões originais eram casamentos autênticos mas não confirmados após o baptismo do escravo de modo a serem indissolúveis em todas as circunstâncias. Na sua qualidade de pontífice ele era o juiz de quais as circunstâncias que permitiam o divórcio. E delegava livremente este poder nos bispos e padres. Foi um enorme passo em frente. Isto queria dizer que o papa se sentia competente para dissolver casamentos entre crentes e descrentes. Com que fundamento? Presumivelmente a favor da fé. Quando um cônjuge descrente abandonava um cristão, não era caso para o Privilégio Paulino. Era uma reviravolta no texto de S.Paulo. Em certo sentido, era o mesmo que um cristão abandonar um cônjuge descrente. Este poder de dissolver os laços naturais não vinha de S.Paulo, portanto tinha de vir de Cristo, e o papa era o Vigário de Cristo. Para alguns canonistas, isto foi uma verdadeira prenda de Natal. Começaram a procurar cobiçosamente outros casos em que o papa pudesse conceder o divórcio. Depois de 1585, porém, a Cúria acalmou. Era tempo de reflexão no Vaticano. Ficaram tranquilos porque nenhum desses três extraordinários documentos papais sobre as Missões foi publicado. Aparentemente, os papas não queriam que o mundo soubesse que nos bastidores se atarefavam a desfazer casamentos, sobretudo porque o estado não estava autorizado a fazê-lo. Este é um daqueles factos espantosos com que o historiador se depara de vez em quando. Não foram os governos mas sim o papado que re-introduziu o divórcio, depois de este ter sido ilegal durante mais de quatrocentos anos. O potencial para a mudança era agora enorme. No princípio, o interesse estava centrado nos convertidos abandonados pelos cônjuges pagãos: o Privilégio Paulino. Na era missionária, Gregório XIII dissolveu em segredo casamentos entre pagãos e cristãos recém-convertidos. Então, e os cristãos abandonados pelos cônjuges pagãos? A esta questão Roma respondeu com um estrondoso Não. O primeiro teólogo americano notável, Francis P. Kenrick, mais tarde, em meados do século XIX, Arcebispo de Baltimore, foi audaz. Pensava ele que os cristãos que tivessem casado com pagãos e fossem abandonados tinham o direito de voltar a casar. Ninguém partilhava esta opinião. Em resposta a perguntas, o Santo Ofício sempre respondeu: se uma pessoa cristã casar com um pagã com uma dispensa da Igreja, o casamento é indissolúvel. Contudo, à medida que corria o século XIX, os decretos secretos de Paulo II, Pio V e Gregório XIII começaram a transpirar. Os canonistas começaram a compreender aquilo que os papas tinham andado a fazer todo aquele tempo. Se eles tinham o poder de dissolver os casamentos não consumados e os casamentos entre pagãos e cristãos recém-convertidos, onde é que acabava o poder dos papas? Os divórcios concedidos pelos papas modernos Leão XIII denunciou muitas vezes o divórcio. O divórcio nasceu, dizia ele, «da moral pervertida de um povo e leva […] a maus hábitos na vida pública e privada. […] Uma vez permitido o divórcio, não haverá meios suficientes para o controlar». Isto faz com que seja difícil de compreender uma decisão que ele tomou no ano de 1894 e que nunca foi publicada nas Acta oficiais (Actos da Sé Apostólica). O caso foi o seguinte:
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    318 Dois jovens, Isaace Rebeca, casaram e divorciaram-se. Rebeca converteu-se ao Catolicismo e Isaac casou com uma católica, de nome Antónia, pelo civil. A seguir, Isaac quis converter-se ao catolicismo para oficializar a sua união com Antónia aos olhos da Igreja. Em 23 de Maio de 1894, Leão XIII, severo opositor do divórcio, divorciou pura e simplesmente Isaac e Rebeca. Este espantoso caso foi avisadamente mantido em segredo durante quarenta anos. Em 1917 os três documentos missionários de Paulo III, Pio V e Gregório XIII, foram publicados em apêndice ao novo código da Lei Canónica. Estas excepções outrora particulares e concedidas em situação de emergência no Novo Mundo tornaram-se subitamente parte da lei geral da Igreja. Os canonistas viram nelas possibilidades nunca antes sonhadas. Por exemplo, não poderia o papa dissolver até o casamento de dois não-católicos, por exemplo, de protestante e judeu? E inesperadamente, um papa dissolve mesmo um casamento entre protestante e judeu. A mulher protestante já era baptizada quando casou, portanto não era uma questão para recorrer ao Privilégio Paulino. Queria tornar-se católica e casar com um católico. O Papa Pio IX, numa decisão histórica, dissolveu o primeiro casamento em Abril de 1924. Três meses mais tarde, agindo por conta própria, dissolveu o casamento de protestante com pagão. Mas foi o terceiro caso que causou maior agitação. Em 1922, Gerald G. Marsh, não baptizado, fez uma petição ao Bispo de Helena, Montana, John P. Carroll. Três anos antes tinha casado com uma anglicana. O casamento acabara em divórcio e a sua ex-mulher casara de novo. Marsh apaixonou-se por uma católica com um nome próprio de personagem de Tennessee Williams, Lulu La Hood, e exprimiu o desejo de se converter ao Catolicismo. O Bispo Carroll, desactualizado em relação à lei canónica, apelou para Roma para ver se o primeiro casamento de Marsh poderia ser anulado com fundamento na disparidade de cultos. O novo código de 1917 dizia claramente que no seu caso aquilo já não era fundamento para nulidade. O Santo Ofício, ignorando o raciocínio da petição do bispo, transformou-o numa petição ao papa para dissolver o casamento para benefício da fé. Em Novembro de 1924, Pio XI concedeu o divórcio a Marsh. Não havia no édito qualquer referência à condição de Marsh se converter ao Catolicismo. Para espanto dos canonistas, o papa tinha simplesmente rompido o primeiro casamento. Um casamento válido, vinculativo e indissolúvel por natureza tinha sido simplesmente desfeito pelo Sim de Pio XI. Quatro anos mais tarde, na altura do Tratado de Latrão, o mesmo pontífice conseguiu que Mussolini garantisse que o divórcio civil na Itália seria ilegalizado. No ano seguinte, era publicada a Encíclica Casta connubii, onde, além de condenar a contracepção, Pio XI vociferava contra o divórcio. Os advogados do neo-paganismo hoje […] continuam a atacar, na legislação, a indissolubilidade dos laços matrimoniais, proclamando que a legitimidade do divórcio deve ser reconhecida e que as leis antiquadas devem dar lugar a uma legislação nova e mais humana. […] Em oposição a estas irresponsáveis opiniões está a inalterada lei de Deus totalmente confirmada por Cristo. […] O que Deus uniu, não o separe o homem. […] Estas palavras referem-se a todos os tipos de casamento, mesmo àqueles que apenas são naturais e legítimos; porque […] a indissolubilidade, por via da qual é retirada de uma vez por todas do arbítrio das partes qualquer afrouxamento dos laços, é uma propriedade de todo o casamento autêntico.
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    319 Isto partindo deum homem, ele próprio envolvido na concessão de divórcios. A sua altivez rivaliza com a dos pontífices medievais, como Gregório VII ou Bonifácio VIII. Ninguém na terra pode fender um casamento por mais intolerável que este seja. Mas o papa pode, porque este, muito acima de todos os governos seculares, o único homem no mundo a quem Deus confiou uma questão tão sensível, age em nome de Deus e para o bem da Igreja de Deus. Este pontífice, que negou ter qualquer poder para alterar a "tradição" relativa ao controle da natalidade, operou uma mudança radical na natureza do matrimónio e do divórcio. O código saiu em 1917. Nos quatro anos seguintes, o papa foi muito além do código e, para um mundo católico impreparado para tal, dissolveu casamentos consumados entre cristãos e não cristãos. Nenhum teólogo lhe pedira para fazer tal coisa. Durante duzentos anos, o Santo Ofício negou imperturbavelmente que um pontífice o pudesse fazer. Pio XI — por bondade, por desejo de relaxar o músculo papal, por pura ignorância? — fê-lo pura e simplesmente. Ao Privilégio Paulino acrescentava-se agora o Privilégio Petrino. E este foi de tal maneira alargado que o outro se tornou simplesmente redundante. Os canonistas, com o seu assombroso gosto das hipóteses, viriam a dizer que S.Paulo devia ter pedido a opinião de S.Pedro. Pedro deve ter ratificado o Privilégio de Paulo, uma vez que este não era senão parte de um poder muito mais alargado que ele, Pedro, e os papas seus sucessores têm de dissolver casamentos. E uma pessoa pergunta-se se Paulo não teria passado isto a escrito. Pio XI, tal como muitos papas antes dele, revelou-se capaz de conseguir a quadratura do círculo. Dissolveu uma coisa que ele próprio classificava como indissolúvel, transformou o perpétuo em temporário simplesmente para "o bem das almas", interpretado muito generosamente. Marsh afinal não era católico; o édito que dissolveu o seu primeiro casamento não dizia que ele tinha de prometer converter-se. O "bem" que o papa, tinha em mente era o da segunda mulher (católica) daquele. Quatro anos após a Encíclica Casta connubii, Pio XI aprovou as Normas para a Dissolução do Casamento para Bem da Fé pela Autoridade Suprema do Soberano Pontífice. As condições para um divórcio papal eram simples: que uma das partes não fosse baptizada e o casal original não tivesse tido relações sexuais após o baptizado do não-cristão. Nestas condições o próprio papa podia pronunciar o seu Sim a toda a fornada de casos de divórcio anteriores que lhe fossem apresentados por um assessor da Cúria. Mas Roma não revelou tudo. As normas não foram tornadas públicas. Só aqueles que estavam no segredo dos deuses podiam beneficiar delas. Era necessário o secretismo à boa maneira conspirativa do Vaticano. O receio do papa, perfeitamente justificado, era o de deixar a impressão de que era muito menos contrário ao divórcio do que aquilo que os ataques fulminantes da sua encíclica deixavam entender. Além disso, Roma queria manter a pretensão de que o Santo Padre só concedia o divórcio como um favor (ou privilégio). Os favores não precisam de ser concedidos. A ideia popular de que as palmeiras de Roma são tão oleosas que são mesmo escorregadias é quase totalmente falsa. Muito pior do que a corrupção fortuita é um sistema de favores só alcançáveis com um piscar de olhos ou um toque de cotovelo. Mil favores não substituem uma lei justa. Tem de ser dito que as novas normas de Pio XI só funcionavam porque o divórcio civil já estava em vigor. A Cristandade já não existia. Passados oitocentos anos, as leis civis e eclesiásticas relativas ao casamento seguiam agora o seu próprio caminho,
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    320 excepto em paísescomo a Itália, onde existia um entendimento entre Mussolini e Pio XI. Cada vez se dissolviam mais casamentos nos tribunais civis. A despeito dos protestos em sentido contrário, a própria Igreja beneficiava com isto. Na questão do divórcio o Estado fizera "o trabalho sujo" para a Igreja. Tornara o divórcio respeitável. E também se encarregara dos pormenores legais, como os dos bens e da herança. A Igreja nunca tinha de tomar a iniciativa ou de conceder o divórcio em primeira instância. Aparentemente, limitava-se a separar as consequências sacramentais sem encorajar ou condenar o divórcio. Também aqui a Igreja mostrou o seu génio habitual em adaptar-se, mesmo havendo alguma hipocrisia à mistura. Em vez de agradecer ao Estado, os papas acusaram invariavelmente os governos de fazerem o trabalho do demónio. No Vaticano, o papa continuava calmamente a conceder os seus próprios divórcios. Com as normas de 1934, houve uma sensível aceleração do divórcio e dos segundos casamentos dentro da Igreja. Em Roma crescia a convicção de que o poder do papa era tão grande como o do Todo Poderoso. Todos os povos, cristãos e não cristãos, estavam sujeitos a ele no campo do matrimónio. Pio XII confirmou isto mesmo dois anos após a sua eleição. Em Outubro de 1941, dirigiu uma alocução ao Rota, o Tribunal Romano do Matrimónio. Em relação ao normal casamento cristão consumado, disse, exercia a sua protecção paternal. Todas as outras formas de casamento eram «intrinsecamente indissolúveis». Significava isto que ninguém os podia dissolver? Nem tanto. Ele podia. Não era ele o Vigário de Cristo na terra? Pio XII desenvolveu este tema na sua encíclica de 1942, Mystici Corporis. Citou a Bula Unam Sanctum para mostrar que Cristo e o papa são um só como chefes da Igreja. Poder-se-ia pensar que Pio XII se teria demarcado de um monstro como Bonifácio VIII. Não afirma ter duas espadas à sua disposição; o poder temporal já tinha desaparecido, o que, como vimos, inúmeros papas diziam ser teologicamente impossível. Mas Pio XII segue realmente Bonifácio quando afirma que lidera o mundo inteiro, pelo menos até ao ponto em que exerce o seu domínio sobre todos os casamentos. Na qualidade de Vigário de Cristo, pode, se for preciso, dissolver estes casamentos para salvação das almas. Sete anos depois de iniciado o seu pontificado, Pio recebeu uma petição do Bispo de Monterey-Fresno, Califórnia. Foi o primeiro de três casos que o Bispo Willinger viria a pôr a Roma e que fizeram história. Uma mulher não baptizada casou com um católico. Este tinha obtido uma dispensa com fundamento na disparidade de culto. Era o procedimento normal e sem custos. Os dois casaram perante um padre e duas testemunhas. Mais tarde a mulher divorciou-se do marido católico, mas tendo, ao que parece, um fraco pelos católicos, casou com outro pelo civil. Agora ela própria queria converter-se ao catolicismo. Parecia não haver qualquer esperança. O sereno Bispo Willinger pediu a Roma a regularização da segunda união. Apresentou como fundamento o facto de o primeiro casamento poder ter sido anulado por não ter sido consumado. Isto diminuía consideravelmente as desvantagens. Só que, de acordo com as rigorosas leis de Roma, a não consumação não podia provar-se. A questão parecia de novo sem esperança. Até que o Santo Ofício alterou a petição do bispo, recomendando ao Santo Padre que dissolvesse o casamento para benefício da fé. Foi o que Pio XII fez no dia 17 de Julho de 1947. Concedeu o divórcio ao cônjuge não crente de um matrimónio com um católico, casamento celebrado com uma dispensa e presumivelmente consumado. A lei canónica nunca previra tal coisa.
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    321 Três anos maistarde, o Bispo Willinger tentou de novo a sua sorte. Pôs a questão da dissolução, num caso semelhante, sobre se não só o futuro convertido poderia voltar a casar, mas também o seu anterior marido católico: Afirmativo. Willinger, convencido de que estava em maré de vitórias, pôs a Roma uma terceira questão. Pedia a dissolução de um casamento entre um católico e uma pessoa não baptizada, a pedido do cônjuge católico. Era uma questão completamente nova. O católico era Alfred Cinelli, de Bakersfield, Califórnia. Casara com Elinor Robbins, primeiro pelo civil e depois pela Igreja com a devida dispensa. De regresso da guerra no estrangeiro, veio encontrar alguma frieza da parte da mulher. Em Abril de 1946, esta divorciou-se dele e voltou a casar. Cinelli queria casar com uma futura convertida. O Bispo Willinger apoiou a pretensão, alegando eloquentemente que estava em causa a fé de uma convertida e a fé dos futuros filhos, e o dito Cinelli era de origem solidamente católica, italiano como o Santo Padre e ninguém se escandalizaria minimamente; pelo contrário, toda a gente aplaudiria a grande bondade da Igreja. Resumindo, fez desfilar todas as razões que os Padres da Igreja, os teólogos e os papas ao longo dos séculos tinham unanimemente recusado como fundamento para o divórcio. Em 23 de Janeiro de 1955, Pio XII dissolveu o primeiro casamento. O Privilégio Petrino foi usado de uma maneira que seria impensável apenas uma geração antes. Nos fins dos anos 50, outras dioceses saltaram para o comboio posto em andamento por Monterey-Fresno. Em países como os EUA, onde havia muita gente não baptizada e o divórcio estava a atingir proporções endémicas, choveram as petições. Tanto assim foi que a hierarquia americana teve medo e avisou Roma de que estava a deixar a impressão errada — ou seria a impressão certa? — de que Roma favorecia activamente o divórcio, pelo menos em certas circunstâncias. Roma disse-lhes que não se preocupassem. Entretanto, havia já um impresso próprio para a petição do Privilégio Petrino e, claro, uma (modesta) taxa própria. Durante os primeiros mil anos, nenhum papa tinha aprovado o raro caso do Privilégio Petrino. E foram necessários mais quatro séculos para que o papa dissolvesse os casamentos de escravos índios e americanos. Passaram mais três séculos e meio até que este poder de dissolver casamentos passasse a figurar na lei canónica, em 1917. Trinta anos depois de Cinelli conseguir do papa o divórcio é que veio o último — ou penúltimo, segundo certo ponto de vista teológico — divórcio. Nunca papa algum tinha divorciado dois não-crentes absolutos. Aconteceu em 1957. Em 12 de Março desse ano, Pio XII dissolveu o casamento de dois maometanos. Depois de divorciada civilmente, a mulher ficou com a custódia do filho. O marido foi para França, onde casou numa Conservatória do Registo Civil, sendo a noiva católica. E tencionava converter-se. O Santo Padre, sob a orientação do Cardeal Ottaviani, recomendou o Privilégio Petrino — levava menos tempo do que o Privilégio Paulino. Pio XII dissolveu esse casamento, tal como viria a dissolver mais tarde outros cinco que não envolviam qualquer cônjuge cristão. Seguiu, de facto, os passos de Bonifácio VIII. Depois foi João XXIII. Já estava estabelecido que a expressão «em favor da fé» tinha um sentido tão lato que incluía qualquer vantagem que adviesse do divórcio. Paulo VI interrompeu a escrita da Encíclica Humanae Vitae para conceder o divórcio a um casal de judeus de Chicago em 7 de Fevereiro de 1964. O marido, depois de divorciado, tinha casado com uma católica. Não tinha qualquer intenção de se converter; foi muito claro em relação a esse ponto. Queria simplesmente tranquilizar o espírito da sua nova mulher. O Arcebispo Meyer apoiou a sua petição no sentido de regularizar a união. A Igreja primitiva teria dito que qualquer matrimónio entre católicos e judeus era um crime e um sacrilégio; quanto a um segundo casamento… Mas Paulo VI foi levado pela piedade. Mostrou pela jovem católica uma compaixão que, em
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    322 consciência, se sentiaincapaz de estender aos milhões que estavam a sofrer pela condenação dos contraceptivos. O facto de ao conceder um divórcio estar a contradizer uma centena de pontífices não o preocupou. Se Pio XII disse que estava certo, também para ele estava certo. Uma vez mais, escolheu cuidadosamente os papas com quem estar de acordo. Com todas estas mudanças, as mais importantes das quais foram as mais recentes, a Igreja adaptou-se a situações novas. Alguma coisa tinha de ser feita em relação aos convertidos do Novo Mundo que tinham sido criados em estruturas societais estranhas à Cristandade, e a Igreja fê-lo. Nos tempos modernos, a Igreja adaptou-se à expansão do divórcio civil concedendo os seus próprios divórcios nos seus próprios termos, geralmente na forma de "rebuçados para os convertidos" ou de consolação para os seus cônjuges católicos. Estas práticas levantaram a seguinte questão: por que é que a Igreja não é mais honesta e coerente? Se continua a tomar a doutrina de Jesus à letra, por que é que não mantém a ideia de que os futuros convertidos, anteriormente casados, deverão continuar celibatários, tal como, por exemplo, os cônjuges católicos de um casamento cristão consumado que foram abandonados? Ou, olhando a questão por outro prisma, porquê punir apenas os católicos de origem? Ao continuar a tratar o Sermão da Montanha como uma peça de legislação, a Igreja apenas tem andado a remendar um problema de magnitude alarmante. Continua a manter a pretensão de que é totalmente contra a dissolução do matrimónio, de que nunca o tolerará em circunstância nenhuma, de que os governos estão a fazer uma coisa indizivelmente má ao permitir o divórcio. E, ao mesmo tempo, atropela as suas próprios leis para tentar, sem sucesso, manter o passo certo com a sociedade civil. Ao não legislar com sensatez, ao transformar a concessão de todos os divórcios num favor — e pior ainda, num favor feito por um único homem — criou uma classe especial de advogados curiais, bons espíritos empenhados em causas triviais. Vê-los a trabalhar é como ver enguias a lutar. Longe de serem parciais a favor dos ricos e poderosos, como muitas vezes se diz, eles não estão verdadeiramente interessados no ser humano. Só os princípios e a sua aplicação é que lhes interessam. Não são eles que têm culpa de o seu trabalho ser muitas vezes absurdo. Podem ser obrigados a ler os testemunhos das pessoas que afirmam lembrar-se com angélica clareza de incidentes acontecidos trinta anos antes. A memória das testemunhas melhora com os anos, tal como o vinho, porque geralmente funciona melhor uma década depois do primeiro testemunho. Os funcionários da Cúria têm de ler ou ouvir educadamente quando os requerentes italianos reúnem a famiglia inteira — irmãos, irmãs, pais, avós, tios, tias, amas, primos muito afastados, ex-amantes, amantes de ex-amantes — todos lealmente aliados para ajudarem um dos seus metido numa embrulhada matrimonial. Acontece muitas vezes que um requerente, bem à maneira de Dickens, inicia um caso quando jovem, envelhece com ele e acaba por morrer com ele. Alguns casos, por motivo de repetição do julgamento estiveram pendentes na Cúria durante vinte ou trinta anos. E, como salienta Noonan, não há registo de um só exemplo de qualquer matrimónio que tenha beneficiado com os trabalhos da Cúria. Não há um único requerente de anulação do seu primeiro casamento que tenha voltado para a primeira mulher. Em todo este triste processo, as regras do casamento podem ter ficado esclarecidas, mas o casamento propriamente dito nunca beneficiou. Em oposição ao Evangelho de Jesus, são as regras que tudo determinam. Logo que Roma começou a conceder dispensas estas tornaram-se imediatamente parte integrante deste processo louco. À disputa sobre casamentos válidos juntaram-se as
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    323 disputas sobre dispensasválidas. Teriam os requerentes obtido uma dispensa correcta? Se alguém a requeria em seu nome sem os informar, seria ela válida ou não? Hoje um grande número de inquéritos sobre casamentos acabam em inquéritos sobre o baptismo das partes! É muito importante que um cônjuge tenha sido baptizado como católico. Mesmo quando uma pessoa é educada como não crente ou ateu, o mero facto de ter sido baptizada por um padre católico significa que está sujeita à legislação da Igreja. Portanto, se essa pessoa não tiver casado perante o padre da paróquia e duas testemunhas, o casamento é inválido. Cada desvio ou mudança da legislação abre novos campos de complexidade. Os canonistas que regem este sistema em nome do pontífice são mais dignos de piedade do que culpados. O que torna a sua sorte ainda mais triste é que ainda não há muito tempo os advogados trabalhavam durante vinte ou mais anos para, no fim, conseguirem apenas uma resposta negativa para um caso que um papa moderno dissolve com um simples acenar da cabeça. A maioria, senão todos estes procedimentos morosos e caprichosos, podia ser posta de lado, bastando para tal que a Igreja aceitasse o facto de que há casamentos que acabam. Se depois de tentativas de reconciliação, eles acabam irremediavelmente, devia-lhes ser concedido o divórcio como única solução equilibrada e cristã. Mesmo os divórcios de Roma estão sujeitos a intermináveis minúcias. E o que é estranho é que só os cônjuges cristãos de casamentos consumados é que não podem beneficiar desta recém-descoberta generosidade da Igreja. Contudo, também aqui tem havido grandes passos em frente. Quando um divórcio não é divórcio Os papas modernos, ao contrário de Gregório II e Celestino III, disseram e repetiram que nenhum poder celestial ou terreno pode dissolver um casamento cristão consumado. A união carnal de dois cristãos foi selada com um sacramento. É a encarnação viva do amor de Cristo e da sua Igreja. Sem o matrimónio, a Igreja não podia continuar a dar testemunho a Cristo e ao carácter infalível do seu amor. É um ideal magnífico: filhos, indissolubilidade, fidelidade. A Igreja terá de pregar sempre isto, porque não o fazer seria uma grave perda para si e para a humanidade. Infelizmente, toda a gente sabe que a vida nem sempre permite a realização de um ideal. O fracasso muitas vezes não é culpa de ninguém. Dois jovens, namorados de infância, casam jurando amor eterno. Um ano depois, o jovem cansa-se da mulher e sai à procura de novas pastagens. A jovem abandonada tem de sobreviver sozinha. A Igreja diz que ela continua casada com o marido desertor. A maioria das pessoas, católicos incluídos, pensa que ela devia ser encorajada a casar de novo. Os católicos que apreciam a disciplina da Igreja não procuram o divórcio quando os seus casamentos falham. Alguns, como Henrique VIII, requerem a nulidade. Também aqui é considerável o potencial para a casuística. O matrimónio, diz a Igreja, tem como objectivo primordial os filhos. E se um dos cônjuges não tencionar ter filhos? Isso, aparentemente, anularia um casamento. Mas teria esse cônjuge de declarar expressamente que não quer filhos? Ou seria o casamento anulado se um deles resolvesse em privado excluir os filhos? A importância desta questão tem crescido com a expansão dos contraceptivos. Será que o seu uso ou até a utilização permanente do período seguro provam a intenção de
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    324 não ter filhos,intenção que é contrária ao objectivo primeiro do matrimónio? A consumação, dizem os moralistas, requer o penetratio e inseminatio. Se se usar sempre os contraceptivos, poderá o casamento ser anulado com fundamento na não consumação, mesmo depois de frequentes relações sexuais? E os problemas da indissolubilidade. Na hipótese, que é real, de um dos cônjuges nunca ter tido a intenção de casar «até que a morte nos separe», será que uma declaração expressa nesse sentido anularia o casamento? E uma tal decisão implícita teria esse efeito? E os problemas da fidelidade. Consideraria a Igreja um casamento autêntico se um dos cônjuges, na altura da cerimónia, estivesse envolvido numa relação com outra pessoa? Ou se um homem dissesse expressamente a um amigo que se a sua mulher não se mostrasse fiel se divorciaria dela? As questões não têm fim, como também o não têm as possibilidades de manipular as regras com o auxílio de um advogado canónico. Para além da intenção, há a questão do consentimento. Nem Deus pode dar o seu consentimento se uma das partes tiver uma reserva interior ou se esse consentimento for o resultado de coacção. Mas o que é que constitui coacção? Não estará ela dependente da pessoa coagida? Em tempos recentes, são sobretudo os jovens e as pessoas influenciáveis que alegam coacção. Um famoso caso passado na América envolveu Consuela Vanderbilt, que casou com Charles Spencer, Duque de Marlborough em 1916. Após dez anos de casamento, abençoado com dois filhos, a mulher pediu a Roma a nulidade da sua união com fundamento no facto de a sua mãe a ter pressionado a casar. A opinião pública ficou espantada ao ouvir falar da anulação por parte de Pio XI do casamento de dois protestantes feito por um bispo protestante. Manning, Bispo de Nova Iorque, chamou a esta decisão de Roma um «ataque espantoso e incrível» àquilo que o casamento tem de «permanente e sagrado». Em certas regiões da Itália e da Espanha, hoje, as coisas são mais planeadas. Há casos conhecidos de pessoas ricas que, antes da cerimónia, escrevem cartas ditadas pelos seus advogados alegando coacção ou referindo implicitamente falta de intenção. Estas cartas são guardadas num cofre para o caso de o casamento não vir a ser bem sucedido. Durante séculos, depois de Inocêncio III, a Igreja deu como adquirido o facto de que toda a gente que se casava dava o seu consentimento e tinha rectas intenções. Afinal, o que é que eles faziam senão obedecer aos ditames da natureza? Depois do código de 1917 estes pressupostos foram postos em causa. Os canonistas começaram a ter cada vez mais consciência de que as orações da cerimónia nupcial não correspondiam ao espírito e à vontade das partes. Até há pouco tempo, um cônjuge que apelasse para a anulação tinha de mostrar perante duas testemunhas credíveis que negara expressamente que se ia casar para toda a vida. Hoje, esta negação pode ser inferida das suas crenças, das crenças da sua família e da sua comunidade, do seu comportamento antes e imediatamente após o casamento. Foi um grande passo que a Igreja deu quando começou a aceitar, embora com muita prudência, o facto de que em muitas culturas as partes não têm provavelmente a intenção correcta de contrair matrimónio. Quantos é que hoje, por exemplo, se comprometem a um amor exclusivo e por toda a vida? A velha assunção por parte da Igreja da lei natural está a ruir à escala global.
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    325 A partir doDecretal Gaudemus, de Inocêncio III, do ano de 1202, a Igreja tem fugido às inevitáveis consequências da sua doutrina, nomeadamente a de que a maioria dos casamentos modernos são nulos e inválidos. Pensemos na China, onde há uma política restritiva em relação aos limites de uma família. A maioria dos casais só pode ter um filho. É inegável que, à estrita luz dos princípios católicos, praticamente não há casamentos na China, e portanto essas uniões também não recebem as graças divinas. Mas não é preciso ir tão longe. No Ocidente, a convicção expressa de muita gente é a de que manter um casamento em que já não há quaisquer laços de afecto está errado. Aos seus olhos, é a continuação de tal união, e não o divórcio, que é pecado. A negação de princípios fundamentais para o matrimónio cristão já afectou a prática canónica tanto em Roma como nas dioceses que lidam em primeira instância com casamentos problemáticos. Os católicos são inevitavelmente parte integrante da sua cultura. Partilham os seus pressupostos, os seus padrões e as suas aspirações. E estes são incompatíveis com a tradição do matrimónio cristão. Não é necessária uma investigação muito apurada para descobrir que as normas da Igreja, longe de reflectirem as convicções da comunidade mundial, nem sequer reflectem as verdadeiras convicções dos seus próprios filhos. Quando os católicos divorciados requerem a Roma a anulação dos seus casamentos é que se levanta a suspeita de que a Igreja permite o divórcio sob um nome diferente. É facto conhecido que são concedidas anulações eclesiásticas de casamentos de católicos depois de, digamos, vinte anos de vida em comum, com meia dúzia de filhos. Como é que se pode justificar este fenómeno, especialmente quando, antes de casarem, um padre os guiou cuidadosamente pelos caminhos daquilo que a Igreja pretende significar com um casamento autêntico? Perante isto, é como se o casamento fosse a realidade e a anulação uma ficção. Para se verem livres de um cônjuge que já não amam, as pessoas são obrigadas a fingir que nunca foram casadas, que viveram em pecado durante todo esse tempo e que os filhos são ilegítimos aos olhos de Deus. Como é que um tribunal eclesiástico pode declarar como nula uma realidade tão profunda? Isto requer não pouca subtileza e implica que uma qualquer falta grave na lei permita estas grosseiras excepções. As razões que justificam estas anulações são muitas, mas todas elas têm em comum a descoberta de uma qualquer "falha". Pode ser a falta de consentimento: houve o emprego do medo ou da força. Ou a falta de intenção de uma ou outra das partes expressa de maneira aberta ou apenas velada ou fragmentária. Ou pode encontrar-se uma falha no seu comportamento posterior. Resumindo, os casamentos católicos também se rendem à evidência da falta de qualquer elemento vital na altura da cerimónia, mas que só se revela mais tarde, às vezes muito mais tarde. Os tribunais de Roma e de algumas dioceses locais em particular, usando de grande discrição, parecem concordar que o necessário compromisso para toda a vida, mesmo para os católicos, está longe de ser universal. A Igreja Católica está agora a colher o pior dos vários mundos. Depois de transformar a doutrina de Jesus relativa ao ideal do casamento numa lei férrea que proibia o divórcio, suavizando depois essa lei para toda a gente, excepto para os seus próprios filhos, descobre agora que mesmo para estes ela não é satisfatória tendo em conta a fluidez do actual estado da sociedade. Os próprios católicos se queixam amargamente de que "a Igreja", isto é, o clero celibatário, encabeçado pelo papa, não os compreende, nem a eles nem aos seus problemas. O ideal do casamento, dizem, não devia ser usado para amachucar as pessoas e fazer delas celibatárias, para transformar os laços em grilhetas, quando uma união acaba
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    326 clara e definitivamente.O casamento devia pôr fim à solidão e não perpetuá-la, proibindo que os casais voltem a casar. Como é que a Igreja pode obrigar um homem ou uma mulher a ficarem sós para sempre por causa do casamento? Isto é repetir a palavra de Cristo sem o espírito de Cristo. Se a liberdade faz parte da essência do casamento e a obrigatoriedade o anularia, será que esta obrigatoriedade o não dissolve? O objectivo do casamento é o de viver uma vida em comunhão de amor. Quando acontece que, sem culpas para ninguém, essa comunhão se torna impossível, o casamento deixa de existir. Sem amor, não serão dois numa só carne, mas, como diz Milton «duas carcaças unidas de maneira anti-natural». Como é que o clero celibatário podia saber que o casamento pode dividir e destruir assim como unir? A pergunta decisiva que emerge directamente da Bíblia é esta: foi o casamento que foi feito para o homem ou o homem para o casamento? Como já aqui se mostrou, a Igreja mudou de facto e mais radicalmente neste século do que em qualquer outro. Mas a mudança tomou a forma de remendos no sistema. A Igreja recusou repensá-lo na grande escala que um novo entendimento da Bíblia em termos psicológicos e sociológicos, e também teológicos, exigia. As pressões sobre o sistema católico são agora prodigiosas. As normas do matrimónio começam rapidamente a parecer-se com as regras da gramática inglesa: tudo é excepção à regra. Cada vez mais casais católicos requerem ser classificados como excepções. Os seus divórcios estão dentro da média geral, como se esperava. Em tempos passados, e em cenários sociais diferentes, os casamentos uniam famílias e clãs inteiros. Hoje, os casamentos unem geralmente duas pessoas solitárias. Uma vez instalado o desentendimento, não resta mais nada. Com a rotura, a coisa desfaz-se. Calcula-se que o número de católicos americanos envolvidos em casamentos destruídos exceda os 10 milhões. Seria absurdo tentar resolver mesmo os casos americanos como se todos eles fossem candidatos à anulação, exigindo infindáveis investigações sobre as razões que pudessem provar que nunca foram, desde logo, casamentos. Além disso, mesmo na Igreja, cresce a convicção de que as anulações são divórcios com outro nome. O próprio João Paulo II parece partilhar este receio. No seu solene discurso no Rota em Fevereiro de 1987, disse que havia casamentos a serem destruídos sob a alegação da nulidade, da qual havia um «aumento exagerado e quase automático». Isto devia-se, disse ele depreciativamente, à influência dos psicólogos especialistas cujos pontos de vista são muitas vezes inconciliáveis com a doutrina da Igreja. Tal brandura, disse ele, aumenta as roturas dos casamentos. «Deve ficar claro o princípio de que só a incapacidade, e não apenas a dificuldade em acordar e realizar uma autêntica comunhão de vida e de amor pode anular um casamento». E quem é que vai julgar se uma dificuldade é uma impossibilidade? Os canonistas? O próprio papa? Entretanto, os católicos, leais em todos os outros aspectos, são ilegalizados pela própria Igreja que amam; e os seus filhos ficam a interrogar-se sobre a razão por que o pai e a mãe não recebem a comunhão juntamente com eles. Estes católicos ficam a pensar, pesarosos, por que é que tiveram a infelicidade de terem sido baptizados pela Igreja. Se ao menos se tivessem convertido depois do primeiro casamento, talvez tivessem podido voltar a casar pela Igreja. Por que é que a Igreja persegue os seus próprios fiéis? Acima de tudo, eles exigem uma explicação racional do motivo por que não podem divorciar-se pela Igreja, quando até alguns papas disseram que podiam. Por que é que no divórcio, tal como na contracepção, não havendo motivos satisfatórios para a interdição, eles se hão-de considerar pecadores?
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    327 O derradeiro divórciopapal É um dado adquirido em círculos católicos que Roma está irrevogavelmente comprometida a nunca permitir que os cristãos se divorciem e voltem a casar depois de um casamento consumado. A História, ao contrário, poderia fazer crer que se trata apenas de uma questão de tempo até que se verifique a mudança, embora não se possa prever quando e de que forma. Seja como for, é sempre perigoso dizer Nunca, tratando-se de qualquer instituição, principalmente de uma com o génio de Roma. Já vimos que, ao permitir o uso do período seguro, Roma aprovou recentemente uma coisa completamente oposta à tradição: a dissociação de sexo e procriação. Depois de Agostinho e do papa Gregório, isto teria sido chamado de pecado mortal. Estas autoridades teriam também achado impensável que os papas pudessem permitir casamentos mistos, o divórcio de casamentos não consumados, o divórcio de casamentos consumados em que uma das partes não seja católica. O Papa João Paulo II parece não ter consciência de quantas das coisas que diz teriam sido condenadas pelos seus antecessores no princípio deste século. Por exemplo, nas suas audiências regulares das quartas-feiras entre 5 de Agosto de 1979 e 21 de Maio de 1980, o pontífice fez uma série de alocuções sobre o amor e a sexualidade. Numa delas reconheceu no Livro do Génesis, duas linhas literárias distintas. Na primeira delas, chamada J, Deus é referido como Yahweh; na segunda, linha posterior chamada E, Deus é referido com o plural da palavra hebraica Elohin. Só por isto, Pio X tê-lo-ia condenado e ter-lhe-ia retirado o título de teólogo católico. O Santo Ofício insistia que Moisés escreveu todo o Pentateuco. Noutra alocução, João Paulo falou em termos calorosos da justeza do «êxtase sexual» desde que o acto nupcial seja realizado sem contraceptivos. Contudo, durante mais de mil e quinhentos anos, os papas, um após outro, longe de aprovarem o êxtase do sexo, disseram que ele era sempre e em todas as circunstâncias, um pecado. Se ao menos o actual pontífice reflectisse mais sobre a história do papado antes de falar de «verdades eternas» e da «inalterável lei de Deus» transmitidas pelos sucessores de Pedro! Tendo em vista as tremendas mudanças operadas pela Igreja no matrimónio, mesmo neste século, quem poderá dizer que um dia a Igreja Católica não abrandará a sua disciplina para permitir o divórcio entre cristãos? O Concílio de Trento deixou a questão em aberto e ainda nenhum concílio ou papa a fechou. Os Ortodoxos e outras igrejas continuam como uma espécie de farol a apontar para uma abordagem mais bíblica do problema da separação marital. É evidente que o actual tumulto na Igreja de Roma não vai amainar. As coisas irão piorar antes de melhorarem. As anulações fragmentárias de casamentos, muitos dos quais eram, à luz de quaisquer padrões, casamentos autênticos, não são só inadequadas, como tiveram também um efeito prejudicial no estado de espírito da Igreja. A justificação racional para o divórcio vai levar tempo a ser elaborada, tal como aconteceu com a dos casamentos mistos e com a dos divórcios para outros tipos de casamento. Como primeiro passo, os católicos que se divorciaram e voltaram a casar pelo civil poderiam ser autorizados a seguir a sua consciência e voltar aos sacramentos. De facto, muitos padres em todo o mundo já estão a aconselhar os católicos divorciados a receber a comunhão sem um sentimento de culpa. Os bispos sabem disto e calam-se. De qualquer maneira, está no espírito do Vaticano II deixar aos casais a liberdade de decidirem da justeza ou não do seu estilo de vida. Se considerassem que pecaram, poderiam pedir para cumprir uma penitência durante algum tempo antes da comunhão,
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    328 como se faziana igreja primitiva. Para o segundo casamento, a lei Tridentina que exige um consentimento mútuo perante um padre e duas testemunhas teria de ser posta de lado. Seja como for, esta legislação, em termos históricos, é de origem recente. O segundo casamento seria considerado como agente da dissolução oficial do primeiro, exactamente como diziam alguns papas, com muito menos justificação, relativamente aos votos religiosos, que dissolviam o casamento de um monge. Outra vantagem desta abordagem é que o papa não seria solicitado para divorciar indivíduos católicos — atingem muitos milhões — que se divorciaram civilmente e voltaram a casar. Além disso, o clero não teria capacidade para tal avalanche; iriam estar a oficiar em casamentos todo o dia durante meses seguidos. Mais tarde, quando a Igreja Católica, tal como outras igrejas, se habituar ao divórcio, o assunto pode tornar-se canonicamente mais preciso. O que há a considerar em primeiro lugar deve ser que milhões de católicos em todo o mundo, a quem agora estão vedados os sacramentos, deviam ser autorizados a regressar, em consideração a eles próprios, e para bom exemplo dos seus filhos. Por que é que a Igreja, ao recusar aos pais aquilo que os Ortodoxos e outras igrejas cristãs concedem aos seus seguidores sem qualquer confusão digna de registo, corre o risco de fazer com que milhões de crianças possam deixar o Catolicismo? Uma vez destruído o mito da “imutabilidade” e quando os católicos compreenderem a extensão das mudanças da Igreja em resposta às necessidades sociais ao longo dos séculos, a dissolução do casamento cristão não parecerá assim tão espantosa, Se a Igreja aprendeu alguma coisa com a débacle da Humanae Vitae, foi que as questões momentosas não podem ser deixadas nas mãos de um só homem, por mais eminente que ele seja. Cabe a toda a Igreja, ao clero e aos leigos, discutir livremente e sem medo aquilo em que acreditam. Tem de ser dito, a propósito, que o currículo de João Paulo II parece sugerir que nada disto acontecerá durante o seu pontificado. Portanto, o divórcio católico por enquanto terá de ficar na prateleira, juntamente com a contracepção, como «contrário à eterna lei de Deus». Na mesma categoria vamos encontrar a questão mais espinhosa de todas: o aborto.
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    329 19 O Holocausto Silencioso Háduas imagens que são a cristalização de um violento choque de opiniões. Um médico católico exibe, num frasco, um feto desenvolvido; o feto revela todas as características de um ser humano minúsculo, mas inequivocamente humano. Isto, diz ele arrebatadamente, é o que o aborto é na realidade, o assassínio de um bebé. O seu opositor, uma mulher não menos arrebatada, ostenta na mão uma cruzeta de fato. Isto, diz ela, era o que matava uma mulher quando o aborto era um crime. Será que queremos voltar aos dias negros em que as mulheres tinham de recorrer a carniceiras clandestinas? E para quê? Simplesmente para usarem do direito elementar da mulher de não querer ser mãe. O aborto é o tema de debate mais doloroso e polarizador dos tempos modernos. Os papas, representantes da Igreja Católica, ensinam que o aborto não tem justificação em circunstância nenhuma; é sempre a morte directa de uma criança inocente no ventre materno. No outro extremo estão aqueles que dizem que o aborto é uma opção arbitrária da mulher; no útero não há criança nenhuma, há apenas uma criança em potência. Os papas acentuam que toda a vida desde a concepção é uma dádiva de Deus; no primeiro momento miraculoso já há um ser humano que Deus criou e ama e a quem destinou uma vida eterna. Os que estão no polo oposto respondem que o que está dentro da mulher não é mais do que tecido fetal; ela pode ver-se livre dele com a mesma tranquilidade com que se sujeitaria a uma cirurgia plástica para melhorar a forma do nariz. Afinal, é do corpo dela que se trata. Quem é que tem o direito de a condenar a nove meses de trabalhos forçados? Como disse Stella Brown em 1915, «O direito da mulher ao aborto é um direito absoluto. Qualquer mulher devia ter acesso ao aborto sem estar sujeita a perguntas insolentes nem a custos financeiros ruinosos, porque o nosso corpo é só nosso». Segundo sondagens recentes, a maioria das pessoas que reflectem sobre este assunto parecem optar pelo meio termo. Rejeitam os absolutos, não gostam de extremos. O aborto nem sempre é um mal, porque pode haver sinais claros que deviam permitir que a mulher abortasse. Por outro lado, o que está no ventre materno não é apenas tecido; é, em certo sentido, uma coisa sagrada. Portanto, não podemos desfazer-nos dela sem grande ponderação e angústia moral. Uma nova sensibilidade à vida O Cristianismo trouxe ao mundo, desde o princípio, um novo respeito e reverência pela vida em todos os seus estádios. O Novo Testamento contribuiu para isto com textos como aquele em que o filho salta de alegria no ventre de Isabel quando Maria a veio visitar. Para gregos e romanos, o aborto e o infanticídio eram ocorrências do dia a dia. Os antigos em geral não tinham sentimentos muito profundos em relação às primeiras fases da gravidez. Isto explica-se em parte pelo facto de muitos pensarem que um ser
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    330 só se tornavahumano quando pela primeira vez inspirava o ar. Aristóteles via o aborto como uma necessidade quando a população excedia limites razoáveis. Abundavam os manuais sobre o aborto e havia profissionais para os fazer. Destruíam o embrião por meio de purgas no abdómen, exercícios violentos, banhos com várias misturas, sangrias da mulher, supositórios, drogas mortais, instrumentos afiados. As mulheres submetiam-se a isto por várias razões: porque corriam perigo de vida, para esconder um adultério, porque não queriam estragar a figura. O que o aborto tem de errado nunca era uma coisa penosa. O Cristianismo, disse Lecky, prestou um grande serviço à humanidade «ao afirmar definitiva e dogmaticamente que toda a destruição da vida humana para divertimento ou por mera conveniência era pecaminosa, criando assim um novo padrão mais elevado do que qualquer outro então existente no mundo». «Ama o próximo como a ti mesmo» aplicava-se antes de tudo ao próximo pequenino junto do coração da mãe. A proscrição do aborto por parte da Igreja foi reforçada pela sua doutrina sobre o pecado original, mas não foi criada por ela. Se a salvação dependia do baptismo, é evidente que matar uma criança no ventre materno era mais do que um crime; era, em certo sentido, matá-la para sempre. Esta a razão por que o aborto foi considerado um pecado quase imperdoável. As penitências impostas por esse pecado eram severas, e podiam incluir nalguns casos, a exclusão dos sacramentos para toda a vida. Fazer abortar um feto era considerado pior do que matar uma criança já nascida e baptizada. Os papas modernos consideram-se o sustentáculo desta grande tradição. Na Encíclica Casta connubii, diz Pio XI: Podemos sentir piedade pela mãe cuja saúde e mesmo a vida correm perigo em consequência do cumprimento do dever que a natureza lhe reservou, contudo, o que é que pode alguma vez constituir razão suficiente para desculpar, seja de que forma for, o assassínio directo dos inocentes? Vinte e um anos mais tarde, em 1951, diz Pio XII: Uma vida humana inocente, sejam quais forem as circunstâncias, tem de ser preservada, desde o primeiro momento, de qualquer ataque directo voluntário. Isto é um direito fundamental da pessoa humana, generalizadamente valorizado na concepção cristã da vida; e é válido tanto para a vida ainda escondida no ventre materno como para a vida que já o deixou; e vai da mesma forma contra o aborto e o assassínio da criança durante ou após o nascimento. Nas suas viagens ao estrangeiro, João Paulo nunca perde a oportunidade de repetir a mesma mensagem. Nos Estados Unidos da América, onde o aborto foi considerado um direito constitucional para todas as mulheres, insistiu no carácter sagrado da vida no ventre materno; o feto tem tanto direito à vida como a mãe ou os filhos já nascidos. Na sua primeira viagem à América, em 1979, frente ao Mall, em Washington, ele realçou um dos principais temas do seu pontificado: o carácter sagrado da vida «desde o primeiro momento da concepção e durante todos os estádios subsequentes». Por via de Cristo, toda a vida humana foi redimida. Portanto, «todos os seres humanos (também
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    331 aqueles que aindaestão no ventre materno) […] são considerados como irmãos ou irmãs de Cristo em razão da Encarnação e da redenção universal». Desde 1979, sempre que falou do aborto João Paulo deu testemunho de um fogo interior que o consome. Acredita com todas as fibras do seu ser que esta questão é que vai decidir se a nossa geração tem ou não o direito de se considerar civilizada. Repete constantemente uma ideia que desenvolveu muito antes de se tornar pontífice. Aqueles que se opõem ao aborto estão na linha da frente da batalha contra o novo paganismo; estão a lutar pela dignidade do homem e pelo carácter sagrado de toda a vida desde a primeira partícula no ventre materno até ao último suspiro de um idoso moribundo. Onde quer que se abra uma brecha no respeito pela vida, a mensagem cristã está ameaçada na sua integridade. Essa mensagem é a do amor de Deus por toda a pessoa humana, por muito frágil, doente ou insignificante que possa parecer. Esta a razão por que ele manifesta um especial afecto pelas crianças e também pelos velhos e pelos doentes. É a teoria do dominó aplicada ao nível mais elevado da vida. A contracepção conduz ao aborto, ao infanticídio, à eutanásia. É parte de um todo: desperdiçar o sémen numa relação sexual leva necessariamente, por uma lógica cruel e por muito misericordiosa que seja a intenção, ao assassínio dos deficientes e dos velhos, que não "contribuem", que são um sorvedouro de recursos. João Paulo evoca os seus primeiros dias em Cracóvia, tão próximo de Auschwitz. Não pode deixar de ver que as clínicas de aborto em Nova Iorque e Londres, Paris e Amsterdão não são mais do que pequenos campos de morte geridos muito higienicamente — mas, afinal, Auschwitz não era um modelo de eficiência? Uma mudança radical de atitude Não há dúvida de que a atitude actual em relação ao aborto revela uma das mais espantosas inversões éticas da história moral. Ainda em 1939, não havia um único país no mundo onde uma mulher pudesse optar livremente pelo aborto, embora de facto com algumas excepções. Por exemplo, na católica Polónia uma lei de 1932 permitiu o aborto para salvaguarda da saúde da mulher após violação ou incesto. Lecky e outros moralistas dos fins do século XIX não teriam acreditado que as transformações actuais fossem possíveis. Mesmo pouco antes de 1960, os moralistas teriam achado o cenário actual uma reminiscência do mundo greco-romano anterior à influência do Cristianismo. Vinte séculos depois de Cristo, as mulheres andam mais uma vez a abortar porque a gravidez lhes vai estragar as férias ou a figura. Os papas não estão sozinhos na convicção de que isto é o grande escândalo do nosso tempo. De crime punível por lei, o aborto passou a ser um direito inscrito nas leis e constituições. Nalguns países é subsidiado pelo dinheiro dos contribuintes. Foi-se o estigma. As mulheres que abortam estão a prestar um serviço à comunidade, especialmente quando se recusam a trazer ao mundo um bebé deficiente. Poupam-se por ano biliões à comunidade em serviços médicos, escolas e subsídios a deficientes. São os pobres quem mais beneficia: não nascem. Elimina-se a fome eliminando-se os potenciais famintos. Aqueles que pressionam a favor do aborto a pedido assumem-se como filantropos. Na nossa sociedade há muita gente preocupada com o facto de o filho, outrora visto como uma bênção de Deus, ser agora olhado como uma ameaça, um obstáculo à felicidade da família. Ainda não há muito tempo, o Estado queria proteger os nascituros a todo o custo; agora são descartáveis. «Se o teu feto te aborrece, arranca-o». O grande arquétipo de cuidados e preocupação, o amor de uma mãe pelo filho, foi minado
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    332 e desvalorizado. Orespeito foi substituído pelo frio calculismo. Há uma praga de morte, um holocausto silencioso, um massacre dos inocentes, que está muito para além das ideias mais selváticas de Herodes. No Japão e América juntos há, por ano, 2 milhões de abortos e na Itália à volta de 800 000. Segundo Colin Francone em Abortion Freedom, calcula-se em 55 milhões o número de abortos anuais em todo o mundo. O aborto é muitas vezes usado como meio de planeamento familiar. Grande número de mulheres de todas as idades vão ao hospital para não terem um filho. O ventre tornou-se mais perigoso do que uma zona de guerra. Nos Estados Unidos da América o número de bebés que morrem anualmente no ventre materno é superior ao dos soldados que morreram no Vietname e ao das vítimas mortais dos acidentes de viação. Nas silenciosas salas de operações de clínicas de luxo procede-se a uma carnificina equivalente à da Batalha do Somme ou à dos oito anos do conflito Irão-Iraque. Nalgumas cidades, o aborto é um negócio de tal monta que se cometem erros elementares. Há mulheres que "abortam" sem estarem grávidas. E os médicos ganham milhões a lidar com a morte. Tradicionais guardiões da vida e da saúde, despendem toda a sua carreira a matar. A prodigiosa mudança de sensibilidade entre o comum das pessoas deve-se ao facto de já não serem carniceiros que realizam os abortos, mas cirurgiões de bata branca e máscara cirúrgica. Há relatos que testemunham que alguns destes médicos, depois de realizarem centenas de abortos, sofrem de efeitos psicológicos graves. Os fetos abortados são por vezes vendidos para experiências e para o fabrico de produtos de saúde e beleza. Este mercado, o mais negro dos mercados negros, faz lembrar a alguns a maneira como, não há muito tempo, os Nazis transformavam os judeus em barras de sabão. Nalguns círculos, as reacções a estes factos padecem de falta de lógica. Aqueles magnânimos que condenam a experimentação com fetos na investigação médica não têm quaisquer escrúpulos em relação à destruição dos fetos para bem de ninguém a não ser talvez da perfeita saúde de uma mãe. Se o feto é humano, não deveria ele ser respeitado e considerado sagrado? Se é sub-humano, mero tecido descartável, por que não ser comprado e vendido ou objecto de experimentação ou transformado em produto de beleza? A verdade é que ele só tem utilidade para estes fins porque é de facto especificamente humano. Outra anomalia: numa altura em que as grávidas são avisadas pelos médicos de que não devem fumar, nem beber, nem tomar drogas, para não prejudicarem o bebé, dá-se-lhes também a liberdade legal de os destruir, mais ou menos à sua vontade. Numa altura em que os que nascem deficientes são tratados com grande consideração, a sociedade permite que aqueles que se sabe que virão, ou poderão vir a ser deficientes sejam mortos no ventre materno. Trata-se de uma mensagem implícita para os deficientes: «Se a vossa situação tivesse sido diagnosticada mais cedo, ter-nos- íamos visto livres de vocês». A sociedade parece dizer dos deficientes o que Jesus disse de Judas: «Seria melhor que nunca tivesse nascido». Seria provavelmente mais seguro e em termos médicos faria mais sentido se se deixasse todos os fetos desenvolverem-se completamente e depois se matassem os deficientes. Hoje não se executam os criminosos porque pode vir a provar-se mais tarde que estão inocentes. Não deveríamos também impedir a morte de possíveis deficientes — por causa da rubéola, por exemplo — para o caso de eles virem a ser saudáveis? Se o não forem, então matem-se. As razões para justificar o aborto justificariam certamente também o infanticídio, ou não? Será que essa susceptibilidade também vai desaparecer com o tempo? Não irá a sociedade, também aqui, imitar os romanos, deixando os bebés a morrer não em frias encostas mas em baldes de aço inoxidável? Há investigações que revelam que o infanticídio já acontece de facto em clínicas de aborto. O feto pode estar
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    333 mais desenvolvido doque se esperava. Para desespero do médico, nasce um bebé perfeitamente saudável e viável. Em vez de extrair o líquido amniótico e de proceder à aspiração e aquecimento daquele ser humano, o médico mete-lhe um dedo enluvado pela garganta abaixo ou, depois de um rápido olhar apressado para ver se o feto respira — isto para sua salvaguarda — deita-o num balde. As anomalias multiplicam-se. Nalguns sítios as crias das gatas são liquidadas com mais consideração do que a que se dispensa aos bebés no ventre materno. Numa época em que se acha a pena de morte cada vez mais odiosa, matam-se bebés a sangue frio aos milhões à luz de uma moderna lei de Lynch. Os infanticidas, os violadores, os sádicos, os espiões não são executados; só os inocentes no ventre materno ou aqueles que, para aborrecimento dos implicados no processo, dele sae