ESTUDO DAS FONTES SALESIANAS

Uma leitura histórico-crítica



Introdução

Fonte não pode ser algo que encerra um conteúdo positivo ou negativo ou uma realidade onde
posso abeberar-me, enriquecer-me de conhecimentos, experiências e mensagens de quem viveu
antes de mim. Significa ainda: princípio, causa, testo original de uma obra. Fonte é ainda tudo o
que deu origem, que forma o arcabouço, o patrimônio científico, pedagógico, espiritual de uma
Instituição.

Neste aspecto, ao estudarmos as fontes da Congregação salesiana colocamos em primeiro plano
o fundador da Sociedade, Dom Bosco, com sua vida e seus escritos.Nosso trabalho apresentará
genérica e não exclusivamente as seguintes fontes que formam hoje o patrimônio pedagógico-
espiritual dos Salesianos:

                1. A vida do fundador.

                2. Sua produção escrita.

                3. O patrono da Sociedade: São Francisco de Sales “pastor zeloso e doutor da
                   caridade”.1

                4. Suas Memórias Biográficas.

                5. Os Arquivos, como o Arquivo Central da Casa Geral de Roma, onde se
                   encontram milhões de documentos, recolhidos em todo o mundo sobre a
                   Sociedade Salesiana.

                6. Os salesianos passados e presentes que construíram ou constroem uma memória e
                   uma tradição, à medida que os tempos vão se sucedendo.

                7. Os Monumentos referentes ao fundador ou à história da Fundação.



       1. DOM BOSCO (1815-1888)

Entre as diversas e multiformes fontes, que nos oferecem abundantes e ricos conhecimentos
sobre a história primitiva ou atual da Congregação dos Salesianos/as estão sem dúvida os fatos
ocorridos com o próprio D. Bosco, durante seus setenta e três anos de existência. Por ser um
marco fundamental de sua vida e sua obra falaremos desde logo de três episódios fundamentais
1
    Const. 9.


                                                  1
para o entendimento da vida espiritual e apostólica de Dom Bosco, o sonho dos “nove anos”, o
encontro com Bartolomeu Garelli e a Carta de Roma.



1.1 O sonho dos nove anos2

Na biografia de João Melchior Bosco narram-se uma série de sonhos. O primeiro destes
fenômenos aconteceu quando ele era ainda uma criança. Tinha nove anos e se encontra em meio
a diversos meninos que riam e blasfemavam. Ouvindo as blasfêmias ele parte para a luta corporal
com eles, tentando fazer com que se calassem. Naquele momento aparece um homem bem
vestido e de rosto resplandecente, que ao observar a pancadaria, aproxima-se de Bosco e lhe diz
que não era com pancadas, mas com mansidão e carinho que ele conseguiria conquistar aqueles
jovens para seus amigos.

Há discussões se estes acontecimentos seriam realmente sonhos ou visões. Dom Bosco mesmo
não nos deixou muito clara a idéia de ter compreendido plenamente o valor daqueles eventos.
Não obstante, aquele sonho ficou profundamente gravado em sua mente, durante toda a sua vida.

Não pode deixar de dar-lhes atenção, sobretudo porque em certas ocasiões funcionaram como
premonição chamando atenção sobre a morte próxima de algum aluno ou salesiano.

O carinho, a caridade e a mansidão apresentados pelo homem venerando e de aspecto varonil,
personagem do sonho dos nove anos foi aceito por D. Bosco como um dos tripés da práxis
pedagógica, de seu Sistema Preventivo.

A Senhora majestosa e resplandecente que juntamente com a figura masculina apareceu naquele
sonho-visão tornou-se a conselheira diuturna, a Mãe e Mestra da obra bosquiana em favor dos
jovens. Ela “indicou a Dom Bosco seu campo de ação entre os jovens e constantemente o guiou e
sustentou3, sobretudo na fundação da nossa Sociedade.4


1.2 Bartolomeu Garelli, o Oratório e a Congregação Salesiana

Outro marco indelével e fundamental de sua vida apostólica está no encontro com o jovem
camponês analfabeto, Bartolomeu Garelli. O diálogo aconteceu na sacristia da Igreja de São
Francisco de Sales em Turim, aos oito de dezembro de 1841. Celebrava-se então a festa da
Imaculada Conceição. Naquela data e naquela sacristia nascia o primeiro Oratório Salesiano,
hoje difundido por todo o mundo pelos filhos do amigo dos jovens.

2
  Vide ANEXO II
3
  Const. 8.
4
  Idem.


                                              2
Após a Missa, D. Bosco realizou a primeira reunião de sua futura Sociedade religiosa. Começou
com uma Ave Maria e um jovem que aos 16 anos não sabia ainda fazer o sinal da Cruz.5
Os salesianos consideram o encontro com Garelli como o início da Sociedade. Ali plantava a
pedra fundamental da Congregação dos jovens. Com uma prece à Auxiliadora o santo piemontês
dava início ao «movimento de pessoas que de vários modos trabalhariam para a salvação da
juventude».6
Uma sacristia tornava-se o símbolo da pesca milagrosa das águas da Galiléia. Dois Mestres, o de
Simão e o de Bartolomeu (Garelli). Ambos precisariam de colaboradores. Assim o foi no
episódio das águas do Tiberíades, assim seria na sacristia turinesa, imagem e início do mar
bosquiano.
O Oratório, lugar catequético de D. Bosco, instrumento de salvação da juventude, continua sendo
um abrigo para todos aqueles que hoje, como em 1841, vivem nas ruas, praças, botecos, pontes,
canteiros de obras ou em cárceres.7 É ainda a casa que acolhe, o refúgio daqueles que procuram
uma «sacristia», onde deverão encontrar um padre amigo e não um sacristão violento e mal
humorado.
O Oratório salesiano consolida-se em 1842, acolhendo inicialmente só os jovens mais perigosos,
especialmente os saídos das prisões. Embora existissem entre eles também rapazes de boa
conduta e instruídos. Os trabalhos eu executavam consistia em ajudar na disciplina e na
moralidade, nas leituras e cânticos das funções litúrgicas.8 Chamavam-se os “maestrini”,
pequenos mestres e deveriam mais tarde, integrar o «grupo de estudantes» de onde surgiriam
colaboradores mais preparados. À medida que os freqüentadores do Oratório iam crescendo,
fazia-se necessário criar um corpo de normas administrativas e disciplinares, a fim de que o
grupo não fosse um aglomerado sem ordem, indisciplinado. D. Bosco começou assim a preparar
um Regulamento para aqueles jovens. Consultou diversos outros Regulamentos de Oratórios
como As Regras do Oratório de S. Luís, de Milão e As Regras para os Filhos do Oratório.

5
  João Bosco, Memórias do Oratório:1815-1855, São Paulo, Editora Salesiana, 1982, p. 18ss.
6
  Const. 1 e 5.
7
   As Memórias Biográficas falam das “pescas” de D. Bosco a esses lugares, onde sabia que iria encontrar jovens,
famintos e abandonados. MB XVIII, p, 258. Const. 1.
f
  Alguns Oratórios da época:
Oratório do Anjo da Guarda, fundado em Turim, pelo P. João Cocchi (1813-1895)
O famoso Oratório de Valdocco ou S. Francisco de Sales (ou ainda D. Bosco)
Fundado em 1847, encontramos no Bairro de Porta Nova, O. de S. Luiz Gonzaga.
Ainda em Turim, em 1851, P. Cocchi abre O. de S. Martinho, no bairro de Porta Palazzo. Este Oratório estava a 50
metros do O. de S. Francisco de Sales. P. Cocchi, apadrinhado pela Marquesa Barolo, não se afinava muito com D.
Bosco que jamais quis saber de suas idéias políticas. A insistência de Cocchi em formar uma sociedade com D.
Bosco também não era aceita por este. O local escolhido para a fundação do S. Martinho poderia ser uma
provocação, uma prova de força do grupo de Cocchi. São coisas de nossa Igreja também formada por homens. Deus
deve rir muito de nossas bobagens…
Em Brescia havia o Oratório do Pe. Ludovico Pavoni (1774-1849)
Algumas cidades francesas, como Marselha apresentavam os Oratórios fundados pelo sacerdote Jean-Joseph
Allemand (1772-1836), chamado também “l`apôtre de la jeunesse”.
Os Oratório de Milão. Por130 km de Turim, volta de 1850 eram 15, alguns com mais de um século de fundados
(Cf. Pietro STELLA. Storia della Religiosità Catolica , pg., 106, nota 15).
zendo de tudo, menos coisas louváveis. Lembram-nos ainda aquelas fontes as astúcias, perigos e perseguições de
que várias vezes foi alvo pelo fato de ser amigo dos jovens (Cf. MB III,
52ss e 392ss).
8
  Os primeiros Oratorianos em geral eram escultores, pedreiros, assentadores de ladrilhos, estucadores. Trabalhavam
nas obras de Turim. A partir de 1842, o setor construção começou a apresentar grande surto na cidade.


                                                        3
Um dos cuidados principais era deixar claro o objetivo de seu trabalho educativo com a
juventude.9 Tratava-se do início da sistematização do organismo que iria ser a sua Congregação,
uma “Sociedade que não nasceu de simples projeto humano, mas por iniciativa de Deus”.10

1.3 A Carta de Roma11 (10 de maio de 1884)12

Estamos na Primavera de 1884. Dom Bosco está em Roma preocupado com diversos problemas:
    • A construção da Igreja do Sagrado Coração (próxima à grande Estação Termini) exige
      grandes somas que ele tem que conseguir através de pedidos e doações;
    • O pensamento de conseguir um Estatuto jurídico para sua Congregação não lhe sai da
      mente.
    • Uma de suas grandes preocupações era também o desejo de estabilizar e dar unidade às
      sua obras e concretizar o estilo de educação, próprio de seu sistema preventivo.
    • Todas estas dificuldade parecem aumentar, e ele o sabe e sente, face ao crescente estado
      de debilidade de sua saúde.

É nesta atmosfera que vem a lume a Carta de Roma escrita aos jovens e educadores de
Valdocco, a quem ele chama de Caríssimos filhos em Jesus Cristo.
Figuras de proa da Congregação, como Don Álbera e Pietro Stella referiram-se a este documento
afirmando que é “o comentário mais autêntico do Sistema Preventivo” (Dom Álbera); e P. Stella
escreveu que “o seu conteúdo é de se considerar como um dos mais ricos documentos
pedagógicos de Dom Bosco”.
Ao refletirmos sobre o hino da caridade, composto por S. Paulo13 e a Carta de Roma, creio que
não estaremos equivocados se dissermos como Gianni Ghiglione que Dom Bosco fez quase um
comentário perfeitamente educativo ao hino de S. Paulo. Para Aubry a Carta é como um
testamento. Deve ser encarado com seriedade, pois o que um testamento pede deve ser cumprido.
Pe. Bartolomeu Fascie, quando Conselheiro escolástico, em uma apresentação sobre o texto
escrevia:

                «O senhor nos dê a graça de lê-la com filial e devota atenção para extrair dela aquele fruto de
                verdadeira caridade que é alma e vida do Sistema preventivo».14

        1.3.1 O sentimento de paternidade na Carta de Roma

     Amar e ser amado são dos sentimentos mais nobres do coração do homem: materializados na
     paternidade e na filiação. Não faz muito houve quem tentasse eliminar estas características
     existentes entre filiação e paternidade.
     Freud anunciou “a morte do pai”, procurando anular desautorizar a autoridade:
         • O pai cultural>os professores;
         • O pai político> a coronelança, triste fenômeno ainda hoje encontradiço no Brasil;
         • O pai capitalista> os patrões;
9
  MB III, 86 - 92.
10
   Const. 1
11
   Vide ANEXO I.
12
   Este comentário baseia-se em Don Gianni GHIGLIONE, Lettera da Roma 10 maggio 1884.
13
   1 Cor, 13.
14
   Cf. G. GHIGLIONE, Lettera da Roma..., p. 4.


                                                      4
•    O pai biológico> os genitores;
           •    O pai religioso> os padres;
           •    O Pai de todos os pais>Deus.

A missiva de Dom Bosco trata de um tema que hoje se tenta renovar, reconquistar. E também
neste ponto está sua atualidade. Os nossos tempos procuram redescobrir a figura paterna, sente-
se a necessidade de sua presença, da figura paterna. Muito embora tantos genitores vivam
separados, ou por motivos vários (emprego, viagens de negócio etc.) se encontrem com os filhos
apenas nos finais de semana; não obstante, o pai de nossos dias não é mais visto como alguém a
ser removido do caminho dos filhos e sim uma figura necessário para a formação e educação da
prole. Alguém vizinho ao filho em quem ele confie, imite, tenha como um ídolo.
Não se pode negar que uma das características da personalidade de Dom Bosco era precisamente
a paternidade. Pode-se afirmar que era uma de suas originalidades. Parece até que a perda do pai
aos dois anos veio reforçar este sentimento, tão explícito e notório que a Igreja o chama de Pai e
Mestre dos jovens. Sua bondade paterna não pode ser separada de seu estilo educativo.
O educador dos jovens de Turim soube ser para eles um pai bondoso, terno e ao mesmo tempo
firme. Corrigia-os amando-os com um ilimitado sentido de responsabilidade e dedicação. Não se
cansava de estar com eles, não reclamava. Estava sempre alegre mesmo quando sua enorme
resistência ao trabalho, encontrava-se combalida pela enfermidade. Somente se ausentou
fisicamente dos seus jovens quando por eles deu seu último suspiro. Amou-os até o fim,
seguindo o exemplo do mártir do Gólgota de quem foi perfeito imitador. Basta que sejais jovens
para que eu vos ame.

1.3.2 Chamai-me sempre pai e eu serei feliz

Toda paternidade no céu e na terra vem do Pai.15
A vida de Dom Bosco e sua Carta romana mostram uma sensibilidade que não é simplesmente
uma característica da bondade humana. Sua maneira de ser e agir era fruto do convencimento de
que só através do amor paterno aos jovens ele poderia conquistá-los para o verdadeiro Pai, fonte
de toda paternidade no céu e na terra.
Vejamos o que nos diz o Padre Aubry que intuiu no educador de Valdocco duas paternidades:

                             «Dom Bosco me aparece assim: um padre educador, cujo coração se anima dos
                             sentimentos e das dedicações de um verdadeiro pai de família da terra; mas também dos
                             mesmos sentimentos de Deus Pai. Estamos aqui em um dos pontos mais claros da figura
                             também espiritual de Dom Bosco, talvez ao centro de sua santidade pessoal como
                             também de seu êxito educativo. Nele vida espiritual e método educativo fazem parte de
                             um só e mesmo movimento do coração e da vida. Se esta paternidade ativa é autêntica e
                             plena, só imitando e prolongando a paternidade infinita de Deus, exige que o educador se
                             mantenha em contacto com aquele Pai supremo, que conheça os costumes do seu coração
                             infinitamente paterno e deixe o Coração divino difundir alguma coisa deste amor no seu
                             coração para fazê-lo extravasar os limites. Verdadeiramente não se é pai se não com Deus
                             e como Ele. Exercitar a autêntica paternidade é, portanto unir-se a Deus, é cumprir o seu
                             dever providencial e ao mesmo tempo empenhar-se na vida da santidade».16



15
     Cf. Ef. 3, 15.
16
     Cf. G. GHIGLIONI, op. cit. pp. 7, 8.


                                                           5
A mensagem que Dom Bosco parece querer passar à Igreja e a todos os educadores que exercem
qualquer tipo de paternidade material ou espiritual é que sua riqueza e grandeza devem estar
próximas a Deus. Ambas devem conduzir a Ele. Para G. Ghiglione, o fundador dos Salesianos
assume as duas expressões do Evangelho de João: como o Pai me amou, assim eu também vos
amo (Jo. 15, 9); e como o Pai me enviou eu também vos envio (Jo. 20, 21).
A paternidade vivida por nosso Santo fundador foi a execução prática da paternidade invisível de
Deus Pai. Ele a traduziu no mundo para felicidade de muitos, especialmente dos jovens.Não
compreenderá verdadeiramente Dom Bosco quem não conseguir vê-lo como um pai no meio de
seus filhos.

Podemos observar na Carta de Roma algumas características do amor de Dom Bosco que são as
mesmas do amor do Pai.

1.3.3 Um amor que não espera, mas tem a iniciativa, é preventivo

São João nos avisa que foi Deus quem nos amor por primeiro e não nós e S. Paulo reforça a
afirmação, dizendo que este fato aconteceu antes mesmo da criação do mundo(Ef. 1, 4).
As parábolas da ovelha perdida, do pai que sai de casa para abraçar o filho que retorna da miséria
são entre outras, provas de que Deus na maioria dos casos é quem dá o primeiro passo.
Dom Bosco nos ensina que o amor deve ser preventivo. São sua palavras:

                             «Não esperai que os jovens venham a vós. Ide a eles, daí o primeiro passo. E para serem
                             acolhidos, descei da vossa altura. Colocai-vos no seu nível, do lado deles».

É certamente com tristeza que o santo da juventude relembra, nos tempos de menino e mais tarde
no Seminário de Chieri, fatos acontecidos com alguns reverendos.

                             «Quantas vezes quis falar, pedir-lhes conselhos ou soluções de dúvidas e não podia.
                             Antes, acontecendo que algum superior passasse no meio dos seminaristas, sem saber a
                             razão, cada um fugia precipitadamente para a direita e para a esquerda... Aquilo
                             inflamava sempre mais meu coração para ser logo padre para entreter-me no meio dos
                             jovenzinhos, para atendê-los, para ouvi-los em cada necessidade».

1.3.4 Um amor que se aproxima das pessoas

A vida de Jesus Cristo nos mostra como Ele se fazia próximo, às pessoas, de modo especial
daquelas mais carentes, sofridas, abandonadas. Para o Filho de Deus não há diferenças, nem
distâncias, Ele veio para todos, é o bom Samaritano universal. Ide ao mundo e conquistai-o pelo
amor, ajudando-o, servindo-o. É o que Jesus nos pede, o amor ao próximo é a nossa alforria.
É o que o apóstolo dos jovens fez e nos pede que façamos: aproximar-nos deles, acolhê-los sem
prejulgamentos. Não nos escandalizarmos com seu modo de encarar a vida, com suas limitações
ou falhas, mas desculpá-los17. Assim eles serão conquistados pelo coração, pois educação é coisa
do coração. Amai as coisas que os jovens amam, estejais sempre no meio deles.
Quantos jovens, nós educadores não encontramos em nossa vida e que nos deram a oportunidade
de vivermos com eles esta experiência de nosso fundador. Um deles me dizia: “muito obrigado,
pelo que me disse, não tenho fé, mas reze ao seu Deus por mim. Gostei do senhor”.

17
     Diante da horta arruinada o filho dizia a Mamãe Margarida: “são jovens”.


                                                           6
1.3.5 Um amor personalizado

   Na parábola do Bom Pastor cada ovelha é conhecida pessoalmente pelo seu dono. O bom pastor
   conhece suas ovelhas... as chama pelo nome e elas o seguem, porque conhecem sua voz. Como é
   bonito e como seria maravilhoso se em todos os redis acontecesse essa afirmação do Senhor.
   Contudo, é assim que o Pai celeste age, conhecendo e amando cada uma de suas criaturas
   pessoalmente e pedindo que façamos o mesmo. Chega mesmo a contar os fios de nossos cabelos,
   a saber quantas são as estrelas e o nome de cada uma.
   O amor, sob esta característica é a constância na vida de Jesus, a todos acolheu e ajudou, como o
   sol e a chuva descem também sobre todos.
   O fundador do Oratório de Valdocco conhecia e amava cada um de seus jovens. E eles sabiam e
   gostavam dessa atitude e a retribuíam. Desta maneira educador e educandos realizaram naquele
   bairro de Turim o milagre educativo de transformação de muitos jovens do perfil daqueles do
   Sonho dos nove anos.

   1.3.6 A prática de um amor positivo

   Olhando novamente para o Senhor Jesus, a Fonte de todas as fontes, notamos como ele acredita
   nas pessoas que encontra em seu caminho. Foi assim com os pescadores de Tiberíades, com o
   baixinho e tímido Zaqueo, com a escorregadia Samaritana e tantos outros.
   Cristo confiou nos pequenos, nos simples, nos pobres, porque sabia que eles não fariam objeções
   ao Reino dos Céus; eles seriam os donos daquele Reino.
   O otimismo bosquiano baseia-se nessa fé. Ele sabia e acreditava quer cada um tem um ponto
   positivo, acessível ao bem. Seu mestre S. Francisco de Sales também pensava o mesmo: cada um
   tem pelo menos uma zona positiva dentro de si. O educador, o pastor tem que encontrá-la.
   Dom Bosco era um ingênuo? Ele sabia que tanto o bem como o mal agem no mundo. Não era
   adepto de Rousseau, muito pelo contrário. Sua inabalável confiança em transformar pela
   educação fundava-se em três fontes poderosas que fortificam e conduzem o jovem à casa do Pai.
   Estas riquezas são: a Palavra, a Reconciliação e a Eucaristia. Toda sua vida foi uma contínua
   dedicação à Catequese, à Penitência e ao Sacerdócio. Como se transformava e se sentia feliz,
   como vivia sua paternidade espiritual, quando distribuía o Pão da Vida aos seus meninos. E não
   se cansava de dizer-lhes: meus filhos, todos juntos caminhamos em direção a Deus.

   1.3.7 Uma mensagem para o mundo

   Dom Bosco envia de Roma uma preciosa mensagem a todos os homens e mulheres de boa
   vontade ou não. Ele nos recorda que não há nada mais sublime do que ser pai ou mãe, filho ou
   filha. Duas atitudes devem acompanhar toda a vida de um vocacionado, de quem foi chamado
   para viver eternamente nas mansões celestes, na Casa eterna do Pai comum: a primeira é a de
   viver como filho para com Deus Pai e segunda, a de cultivar uma postura de pai bondoso e
   compreensivo diante dos filhos ou destinatários que forem confiados a cada um.

2. A produção escrita de Dom Bosco

   2.1 “Um grande educador, cujos escritos são procurados em vão”



                                                  7
Em 1926 um jornal italiano publicou uma declaração sobre os escritos de D. Bosco que muito
    incomodou os estudiosos de sua obra, de modo especial os salesianos. A afirmação era de
    Giovanni Gentile, que reconhecia o valor do educador turinês, mas ao mesmo tempo falava da
    impossibilidade de se encontrar suas obras: “grande educador, mas (um) autor do qual seus
    escritos são procurados em vão”.18 A afirmação de Gentile, era no entanto, uma convicção para
    muitos admiradores e pessoas que estudavam os acontecimentos dos anos oitocentos na Itália.
    O ISS (Istituto Storico Salesiano)19 apresenta seis momentos da história da publicação das obras
    de D. Bosco.

    2.2 Setembro de 1898: VIII Capítulo Geral

    Na sessão vespertina foram discutidos 16 artigos com propostas apresentadas pelos sócios, cujo
    tema era: “sente-se cada vez mais a necessidade e o dever que o espírito de D. Bosco se conserve
    intacto e em todos os lugares entre nós seus filhos. Que propostas nos pareceriam mais propícias
    para nos levar a este fim, tão santo e de capital importância para nossa Pia Sociedade”?
    O art. 12 teve a formulação seguinte: “faça-se uma edição completa de todas as obras de D.
    Bosco: destas haja uma biblioteca circulante em cada casa e se incentive a leitura aos irmãos”.
    Ao final da discussão suprimiram-se o artigo 12 e o 15. Possivelmente pelas dificuldades que
    teriam que ser enfrentadas na prática dos mesmos.

    2.3 Dezembro de 1914: Capítulo Superior

    Lê-se nos verbais do mês de Dezembro: “o Secretário encarrega-se de preparar um elenco de
    todas as escritos de D. Bosco e se pede ao senhor Pe. Cerruti que prepare uma edição de todas as
    obras de D. Bosco, também para dar trabalho à Tipografia do Oratório que não o tem, faz tempo,
    com prejuízo não só material, mas moral dos jovens. Para algumas obras, como a História
    Sagrada, colocar oportunas notas, exigidas pelo progresso feito por tal ciência”.

    2.4 Março de 1915: circular e comissão

    Pe. Cerruti com a circular de 18 de março daquele ano comunicava que o Cap. Superior tinha
    aprovado “que se preparasse uma edição autêntica, completa das obras de D. Bosco”. Na mesma
    circular convidavam-se os destinatários para fazerem parte de uma “comissão de Salesianos,
    cada um dos quais tenha o pensamento de tudo que diz respeito à pesquisa, o exame, a
    disposição, à impressão daquela qualidade de trabalho que lhe foi confiado”.

As secções e relativos encargos ficaram assim constituídas:

•   Epistolário                              Angelo Amadeo
•   Escrito marianos                         Augusto Amossi
•   Escritos biográficos e amenos            Giuseppe Binelli
•   Vidas dos Papas                          Giovanni Battista Borino
•   Obras históricas                         Alberto Caviglia
    18
      1926, p. 313.
    19
       Vide ANEXOS.


                                                   8
•   Obras pedagógicas                       Vincenzo Cimatti
•   Obras catequéticas e polêmicas          Sante Garelli
•   Obras religiosas                        Giacomo Mezzacasa
    A Comissão encarregada de acolher os critérios propostos para a edição das Obras e dos Escritos
    de D. Bosco reuniu-se no dia 31 de março. Infelizmente dos fatos vieram por termo à iniciativa:
    o falecimento de Pe. Cerruti e o agravamento dos problemas bélicos da I Guerra Mundial.

    2.5 1928-1933: Pe. Alberto Caviglia

    •   1922 a 1932: após ser encarregado oficialmente pelo Conselho Superior, Pe. Caviglia
        publicou os quatro primeiros volumes da Secção Escritos históricos.
    • 1929: Vol. I/1 História Sagrada. Vol. I/2 História Eclesiástica.
    • 1932: Vol. II/1-2 As vidas dos Papas.
    • 1932: Vol. III A História da Itália.20
    Segundo o documento do ISS, citado anteriormente, o testo crítico da História da Itália não
    corresponde a nenhuma das edições publicadas enquanto D. Bosco vivia, une partes de várias
    edições. Trata-se de uma espécie de coletânea com trechos de várias edições. Lemos ainda
    naquele mesmo estudo:

                              «O valor atribuído à História da Itália é desproporcional com respeito às mais modestas
                              intenções do escritor. Do ponto de vista crítico os resultados foram insatisfatórios, até
                              porque muitas achegas afastaram da intenção original e do que foi prometido pelo título
                              da série: Obras e escritos publicados e inéditos de “Dom Bosco”, novamente publicados e
                              revistos segundo as edições originais e manuscritos supérstites aos cuidados da Pia
                              Sociedade Salesiana».

    As dimensões do projeto foram apresentadas no Boletim Salesiano do mês de abril de 1933.
    Previam-se, em cinco séries, 14 volumes ou tomos, cada um com mais de 500 páginas contendo
    Anexos, Fragmentos e Índices:

   Obras históricas.
   Obras religiosas.
   Obras pedagógicas.
   Escritos morais e amenos.
   Instituição da Obra Salesiana.

    Cada volume viria enriquecido com notas preliminares de caráter documental ou editorial e
    oportunas anotações ou comentários entre as várias edições. O trabalho era enriquecido ainda
    com lembretes de retorno às fontes ou a circunstancias históricas que dissessem respeito à
    composição dos escritos.

    2.6 Trabalhos publicados a partir de 1943

    * 1943: Vol. IV - A vida de Domingos Sávio e o estudo Domingos Sávio e Dom Bosco.
    Trata-se de um trabalho de muito valor, utilizado por muitos.
    20
      Francisco Motto, diretor do ISS, apresentou recentemente um episodio ainda desconhecido sobre a História
    Sagrada de Dom Bosco.


                                                            9
* 1965: Vol. V - O primeiro livro de Dom Bosco: Traços sobre a vida de Luís Comolo e Miguel
Magone. Trata-se de uma experiência pedagógica clássica.
* 1965: Vol. VI – A vida de Francisco Besucco. Texto e estudo (escrito em 1940).

2.7 1963 – 1973: Universidade Pontifícia Salesiana

Na sexta etapa da publicação das Obras de D. Bosco encontramos duas iniciativas, ambas unidas
à Universidade de Roma e à Direção Central dos Salesianos. Durante o reitorado do Pe. Renato
Ziggiotti e com sua aprovação, constituiu-se um grupo redacional21 com a finalidade de publicar
uma edição crítica dos escritos publicados e inéditos de D. Bosco e das testemunhas
contemporâneas. A equipe se encarregaria de escrever sobre a vida e atividade do santo.
Em 1965 o Cap. Geral XIX propôs:

                           «compilar uma antologia de todos os tesouros educativos herdados de D. Bosco e dos
                           primeiros salesianos, mediante a criação de um Centro de estudos históricos salesianos,
                           que ilustre sempre melhor a obra educativa de S. João Bosco, e expresse com precisão as
                           linhas de seu método e do seu espírito».22

O Cap. Geral de 1971 recomendou que se estudassem os meios necessários e mais idôneos para
garantir o desenvolvimento do “Centro de Estudos Don Bosco”. Em 6 de fevereiro de 1973,
fundou-se o Centro sendo confiado “ad experimentum” à Faculdade Salesiana. Uma de suas
atribuições era efetuar uma série de publicação e estudos sobre a história das Missões Salesianas
por ocasião de seu centenário.
Os Atos do Cap. Superior publicava, naquele mesmo ano de 1973, a fundação na Casa Geral de
um “Centro de Estudos para a história da Congregação Salesiana”. No ano seguinte surgiu o
“Centro de Estudos de História das Missões Salesianas”.23

2.8 1978-1982:.. Casa Geral Salesiana – ISS (Istituto Storico Salesiano)

O Capítulo Geral XXI estabelecia:24

«O Conselho Superior, no mais breve tempo possível criará um Instituto Histórico Salesiano, que nas formas ideal e
tecnicamente mais válidas coloque à disposição da Família Salesiana, da Igreja e do mundo da cultura e da ação
social os documentos do rico patrimônio espiritual deixado por D. Bosco e desenvolvido pelos seus continuadores e
promova em todos os níveis o aprofundamento, a ilustração e a difusão. Toda a Congregação concorrerá para a
realização e a vitalidade da importante iniciativa com o pessoal e os meios disponíveis.»25

O Instituto Histórico Salesiano, com sede em Roma, foi criado em 23 de Dezembro de
1891.26Seu grupo de pesquisadores de várias nacionalidades tem realizado uma série importante
de trabalhos, impressos nas mais diversas línguas.

DOM BOSCO: FONTES (seus escritos)

21
    Entre 28 e 29 de Dezembro de 1963.
22
    Atti del Cap. Gen. XIX, Roma 1966, p. 201.
23
   (http://www.ups.urbe.it Settori Centro St. don Bosco).
24
    26 de janeiro de 1978.
25
    Estatuto.
26
    Vide ANEXO IV


                                                            10
1. JOÃO BOSCO
 Constituições da Sociedade de S. Francisco de Sales [1858] – 1875
 Testos críticos aos cuidados de Francesco Motto
 (ISS, Fonti, Serie prima, 1). Roma – LAS 1981.

O responsável pela crítica deste trabalho faz a seguinte observação:

«Entre a notável massa de documentos disponíveis (além dos 40), em sua maior parte manuscritos, o curador para
                 efeito editorial privilegiou 5 documentos do testo e 4 do testo latino, considerando etapas bem
                 individuais e significativa do longo e complexo processo redacional. Desses 8 foram colocados em
                 paralelo...; Uma que apresenta exigências particulares, foi editada à parte. Cada um dos 8 testos é
                 conjugado a um riquíssimo aparato das variantes, que se unem entre si sem solução de
                 continuidade ao texto sucessivo. “ É de se considerar a empresa de significado excepcional e
                 incontestável valor histórico-espiritual”».27

2. JOÃO BOSCO
 Constituições para o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora (1872-1825)
 Testos críticos aos cuidados de Cecília Romero
 (ISS, Fonti, Serie prima, 2). ROMA – LAS 1982.

Explicações de Madre Romero a respeito do documento:

«Edição crítico-genética, nas formas costumeiras e felizmente entrelaçadas, do último manuscrito disponível das
                 Constituições das FMA (1872-1885), da qual dependem os primeiros dois testos a serem
                 impressos (1878,1885). O aparado das variantes leva em conta, quer documentos que entram na
                 história redacional do texto, quer separadamente, aqueles paralelos, embora significativos. Na
                 introdução a problemática dos testos constitucionais enquadra-se naquela humana das Filhas da
                 Imaculada contidas em parte no Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora».

3. Francisco MOTTO (ed)
 Lembranças confidenciais aos Diretores
 (Picola Biblioteca dell’ISS, 1). ROMA – LAS 1984.

Neste documento Dom Bosco deixou à Congregação sua grande experiência espiritual e
pedagógica. A carta foi escrita a D. Rua, em Outubro de 1863. Ele que foi, o primeiro diretor de
uma comunidade salesiana educadora, fora de Turim em Mirabello Monferrato. Posteriormente
ampliada, era enviada aos novos Diretores das casas salesianas.

4. Jesus BORREGO (ed)
 Lembranças de Dom Bosco aos primeiros missionários
 Pequena biblioteca do IHS, 2). Roma – LAS 1984.

5. Pedro BRAIDO (ed)
 Carta de Roma (10 de maio de 1884)
 (Piccola Biblioteca dell’ISS, 2). Roma – LAS 1984.



27
     RSS 2, 1983, p. 170).


                                                        11
Trata de um sonho que Dom Bosco teve em Roma em 10 de Maio de 1884. Seu biografo, Pe.
Lemoyne o descreve em duas formas: aos jovens e à comunidade salesiana de Turim – Valdocco.
É um dos documentos mais ricos para se compreender o Sistema educativo de Dom Bosco. A
amorevolezza e o relacionamento educador-jovem são dos temas mais importantes desta Carta,
famosa em toda a Congregação.

6. Francisco MOTTO
 Memórias de 1841 a 1884-5-6 (escritas) pelo Sacerdote João Bosco aos seus filhinhos
                salesianos (Testamento espiritual).
 (Piccola Biblioteca dell’ISS, 4). Roma - LAS 1985.

Transcrevo o comentário ao documento feito pelo diretor do ISS, Dom Motto:

                «Para a compreensão de Dom Bosco e do seu espírito, para o aprofundamento da sua concepção
                pedagógico-religiosa, para o conhecimento de suas ânsias em ordem à salvação da alma e ao
                futuro da sociedade salesiana o documento constitui um dos escritos mais eloqüentes. Trata-se de
                recordações e conselhos escritos em épocas diferentes, para os Salesianos, as Filhas de Maria
                Auxiliadora, para os Cooperadores e Benfeitores das obras salesianas. Numerosas as
                recomendações para quem exerce autoridade nos vários níveis».

7. JOÃO BOSCO
 O Sistema Preventivo na educação da juventude
 Introdução e testos críticos aos cuidados de Pietro Braido
 (Piccola Biblioteca dell’ISS, 5). Roma – LAS 1985.

Don Braido afirma que este pequeno escrito de 1887 tornou-se famosíssimo. Nele encontramos
em síntese o pensamento pedagógico de Dom Bosco. O conjunto das informações, das variantes
e das fontes paralelas são de grande auxílio à compreensão do texto.28

8. JOÃO BOSCO
 Valentim ou a vocação contrariada
 Introdução e texto crítico aos cuidados de Mathew Pulingathil
 (Piccola Biblioteca dell’ISS, 6). Roma – LAS 1987.

Em 1866 as Leituras Católicas publicaram este romance de fundo histórico. Tinha sido
precedido de um manuscrito autografado com correções e achegas. A edição crítica é
interessante e oferece ao leitor aspectos da concepção religioso-pedagógica de Dom Bosco “em
um momento significativo de sua evolução espiritual”.

9. JOÃO BOSCO
 Escritos pedagógicos e espirituais
 Aos cuidados dos historiadores e escritores:Jesús Borrego, Pietro Braido, Antonio da Silva
 Ferreira, Francesco Motto, José Manuel Prellezo.
 (ISS, Fonti, Serie prima, 3). Roma – LAS 1987
 [Ed. esgotada, cf 3ª edição n. 18].


28
     Vide ANEXOS.


                                                     12
10. BRAIDO PIETRO (ed)
 Dom Bosco para os jovens: O “Oratório” uma “Congregação dos Oratórios”. Documentos.
 Piccola Biblioteca dell’ISS, 9). Roma – LASS 1988.

Estes dois documento fazem história, afirma Pe. P. Braido. Pelo momento significativo em que
foram compostos (1854, 1863, 1873/1874), pelo contesto e pela finalidade. E continua o mestre
de nossa história:

               «Se na realidade, Dom Bosco nos deixou vários testemunhos sobre “as origens” de sua obra – a
               mais notável são as “Memórias do Oratório de S. Francisco de Sales” - nenhuma delas é simples,
               linear, privada de supra-estrutura, interpretações e comentários, interpretações e comentários,
               quanto os dois breves testos aqui assinalados, riquíssimos de informações historicamente
               significativas dos primeiros anos do Oratório. Não se pode prescindir deles.»

11. JOÃO BOSCO
 A Patagônia e as terras austrais do Continente americano
 Introdução e testo crítico de Jesus Borrego
 Piccola Biblioteca dell’ISS, 11). Roma – LASS 1988.

A obra foi encontrada por Ernesto Zsanto na Biblioteca da Pontifícia Universidade Urbaniana de
Roma. Ele a definiu como o “Projeto patagônico de Dom Bosco”. O principal autor é o Pe.
Giulio Barberis, embora Dom Bosco tenha sido o inspirador, revisor e por vezes, tenha corrigido
algumas páginas. O santo lhe deu o seu jeito (impronta) e o assinou em 20 de Agosto de 1876,
assumindo assim a responsabilidade por ele.
Pe. Barberis recolheu tudo o que na época havia em Turim sobre aquelas terras setentrionais da
Argentina. O estudo apresenta cinco partes: Descrição física, História da descoberta da
Patagônia, Os habitantes: caráter e costumes, Religião e Missões.
Na conclusão alude-se ao Presente estado da Patagônia e Novo Projeto para sua evangelização.

12. JOÃO BOSCO
 Memórias do Oratório de S. Francisco de Sales de 1815 a 1855
 Introdução, notas e testo crítico aos cuidados de Antônio da Silva Ferreira
 ISS, Fonti, Serie prima, 4). ROMA – LAS 1991.

A obra em pauta, surgida possivelmente entre os anos de 1873-1875, é de grande importância
para todos os que se debruçam sobre a história salesiana. No julgamento do historiador Pe.
Antônio Ferreira as Memórias do Oratório de S. Francisco de Sales constituem

                       «a fonte primaria para a compreensão de sua mentalidade (Dom Bosco) e de seu projeto
                       operativo global: é ao mesmo tempo re-evocação, reflexão e projeção para o futuro.»

O aparato das variantes vem provar sobejamente o que se afirma acima.

13. JOÃO BOSCO
 Memórias do Oratório de S. Francisco de Sales de 1815 a 1855
 ISS, Fonti, Serie prima, 5). ROMA – LAS 1991.




                                                    13
Edição como a precedente, mas sem o conjunto da crítica testual.

14. JOÃO BOSCO
 Epistolário
 Introdução, testos críticos e notas aos cuidados de Francisco Motto.

Primeiro Volume (1835-1863). Correspondências (cartas): 1-726
(ISS, Fonti, Seria prima, 6). Roma – LAS 1991.

Segundo Volume (1864-1868). Correspondências (cartas): 727-1263).
(ISS, Fonti, Serie prima, 8). Roma – LAS 1996.

Terceiro Volume (1869-1872). Correspondências (cartas): 1264-1714.
(ISS, Fonti, Serie prima, 10). Roma – LAS 1999.

Quarto Volume (1873-1875). Correspondências (cartas) 1715-2243). (ISS, Fonti, ISS, Fonti,
Serie prima, 11). Roma – LAS 2003.

Não seria necessário reforçar que a correspondência epistolar que Dom Bosco manteve, com
inúmeras e variadas pessoas e por dezenas de anos, é de enorme utilidade para seu conhecimento
humano e espiritual. É uma grande riqueza para os estudiosos de sua espiritualidade e de seu
método pedagógico.
Ao lermos estas correspondência, muitas inéditas, descobrimos outro Dom Bosco, um homem
sempre mais coerente com seu projeto de servir aos jovens, até o último respiro.

15. BRAIDO PIETRO (ed)
Dom Bosco educador. Escritos e testemunhas
Aos cuidados de Jesús Borrego, Pietro Braido, Antônio da Silva Ferreira, Francesco Motto,
José Manuel Prellezo
(ISS, Fonti, Serie Prima, 7). Roma-LAS 1992
[Esgotado: 3ª ediz. N.18].


16. PRELLEZO José Manuel
Valdocco nos anos oitocentos, entre real e ideal (1866-1889)
Documentos e testemunhos
(ISS, Fonti, Serie seconda, 3). Roma- LAS 1992.

Prelezzo dividiu o trabalho em quatro partes:

1. O Oratório de Valdocco no “Diário” do Pe. Chiala e Pe. Lazzero (1875-1888 e 1895).
2. O Oratório de Valdocco nas “Reuniões Capitulares’ (1866-1877).
3. O Oratório de Valdocco nos “Encontros do Capítulo da Casa” e nas “Reuniões mensais”
   (1871-1884).
4. Valdocco 1884.




                                                14
Neste capítulo temos as seguintes testemunhas:
   • Tommaso Pentore (1860-1908)
   • Stefano Febraro (1856-)
   • Domenico Canepa (1858-1930)
   • Secondo Marchisio (1857-1914)
   • Serafino Fumagali (1855-1907)
   • Giacomo Ruffino (1850-1913)
   • Giovanni Bonetti (1838-1916)
   • Giovanni Battista Lemoyne (1839-1916).

   Planta do complexo dos edifícios do Oratório de Dom Bosco:1869 – 88).




                                            15
VALDOCCO 2002



    16
17. JOÃO BOSCO
             [Dom Bosco Fundador]. “Aos sócios Salesianos” (1875-1885)
             Introdução e testos críticos os cuidados de Pietro Braido
             (Piccola Biblioteca dell’ISS, 15. Roma- LAS 1995.

             Trata-se de um libreto com 38 paginas dirigidas aos Sócios Salesianos em 1875. É
                uma fonte de suma importância para se conhecer a figura de Dom Bosco
                fundador.

         3. Uma palavra sobre as fontes da doutrina espiritual de Dom Bosco29

             Na Introdução de Scritti Spirituali Aubry faz de imediato dos questionamentos sobre
                os escritos e a espiritualidade de Dom Bosco. Ele mesmo responde, dizendo que
                as duas afirmações contêm ao mesmo tempo a razão de ser e a dificuldade de seu
                trabalho.

                  1. Dom Bosco é um “escritor espiritual”? Certamente que não, responde o autor.
                  2. É um “mestre espiritual”? Certamente que sim.

             3.1 Um mestre espiritual
             Como mestre espiritual, não há dúvidas que Deus enriqueceu sua Igreja com a
                 presença e atuação de Dom Bosco.

                           «Para o imaginário popular, Dom Bosco é aquele padre dinâmico que consagrou sua vida
                           aos jovens mais pobres e fundou para eles a sociedade Salesiana. Para o cristão um pouco
                           mais informado, é o fundador das Filhas de Maria Auxiliadora e dos Cooperadores
                           Salesianos, autor de um método de educação particularmente eficaz, um dos padres do
                           século XIX que viveu da forma mais dolorosa, mas também mais positiva o drama da
                           unidade italiana, enfim, um dos grandes servidores da Igreja no campo missionário».30

         No entanto, sua vida e seus escritos mostram-nos um homem providencial que deu à
            Igreja uma nova fisionomia, um carisma especial, capaz de atrair um numeroso grupo
            de cristãos e cristãs para um novo estilo de vida que leva à santidade. Santidade esta,
            em poucos anos, reconhecida pela Igreja que elevou aos altares como exemplos do
            seguimento evangélico vários homens e mulheres, inclusive jovens adolescentes de
            ambos os sexos. Aí estão o próprio fundador Dom Bosco, santa Maria Domingas
            Mazzarello, São Domingos Sávio, e dezenas de outros santos, beatos e servos de
            Deus.
            Pio XI, por ocasião do decreto para a beatificação de Madre Mazzarello fala de Dom
                Bosco como: “este sapientíssimo doutor em cujo magistério ela foi conduzida até
                ao mais alto vértice da perfeição cristã e religiosa”.31
            Anos mais o Papa Pio XII dirá aos Cooperadores Salesianos:



29
   Cf; Giovanni BOSCO, Scritti spirituali, a cura di Joseph Aubry, pp, 24ss.
30
   Giovanni BOSCO, Scritti…p.11.
31
   Acta Apostolicae Sedis, 30 [agosto, 1938], p 272, apud Aubry, op. cit, p, 13.


                                                         17
«O santo da ação bem proveu a vossa vida interior, ditando-vos nada menos que à sua
                          dúplice família dos Salesianos e das Filhas de Maria Auxiliadora uma regra de vida
                          espiritual, destinada a formar-vos.»32



             Dom Bosco passou em poucos anos a ter uma grande família 33, uma “numerosa
               posteridade”. Não obstante, pode-se dizer que ele em sua humildade não pensava
               em se apresentar como mestre e doutor. Pensava, desejava sim, difundir um
               método de vida cristã. Suas atitudes demonstram que desejava que no conjunto
               sua Família (SDB, Irmãs Salesianas, Cooperadores, alunos das casas salesianas)
               seguissem um só “espírito”. Através de suas convicções pedagógicas e espirituais,
               de sua liderança, de seu fascínio, de seus dons conseguiu que muitos de seus
               colaboradores, onde quer que fossem, seguissem voluntária e afetuosamente suas
               orientação, seu “espírito”.
               Não é comum que os fundadores possam formar ainda em vida seus
               colaboradores, ainda jovens. Isso Dom Bosco o fez, quando viveu no seu Oratório
               de Valdocco. Pe. Rua, seu primeiro sucessor, viveu com ele cerca de 40 anos
               abeberando-se de sua espiritualidade, de seu carisma.34

             3.2 Dom Bosco não é um autor espiritual (Aubry)

                 Dom Bosco, para Aubry, “não tem nada de teólogo especulativo e é avesso à
                 introspecção espiritual). Ao contrário de São F. de Sales não produziu obras
                 comparáveis ao Tratado do amor divino, ou Introdução à vida devota, ou ainda
                 História de uma alma, de Santa Teresinha.
                 Dom Bosco continua um homem de sua terra, camponês do Piemonte. Homem
                 inteligente e prático, deixa a roça e vai para a cidade, agradando-lhe mais a
                 experiência do que as idéias.
                 Em sua trajetória de estudos vêem-se como suas preferências são para as ciências
                 positivas como a Sagrada Escritura ou a história da Igreja. Por outro lado, o
                 apostolado da escrita é um dos principais trabalhos de sua existência. Quando
                 escreve não produz tratados,

                          «mas é para “falar” aos seus jovens, ao povo, aos seus Salesianos e aos Cooperadores e
                          propor-lhes uma doutrina simples, conselhos práticos, exemplos concretos que têm toda a
                          aparência de serem “ordinários”, mas que representam o sinal de suas mais profundas
                          convicções e mais vivas insistências. Sua doutrina espiritual aparece como envolta na sua
                          simplicidade de escritor popular e seus diversos elementos estão dispersos em numerosos
                          opúsculos, sem pretensão especulativa ou literária. E, apenas tenta uma coordenação de
                          princípios, parece perder a inspiração e seus manuscritos se adensam de inumeráveis
                          correções.»35

32
   Discorso 12 sett. 1952. Acta Apost. Sedis, 44 [ottobre 1952], p. 778, apud Aubry, op. cit. p. 13.
33
   Vide ANEXO VII.
34
   Em conversa com Dom Barberis, no dia 17 de maio de 1876, Dom Bosco lhe falava sobre a importância deste seu
trabalho de preparação dos primeiros salesianos, seus sucessores: «Todas as outras Congregações no seu início
tiveram ajudas de pessoas doutas... que se associavam ao fundador. Entre nós, não: são todos ex-alunos de Dom
Bosco. Isso me custou um trabalho duríssimo e contínuo de cerca de trinta anos, porém com a vantagem, tendo sido
todos educados por dom Bosco, têm os mesmos métodos e sistemas.». MB XIII, 221).
35
   Giovanni BOSCO, Scritti…p.15.


                                                       18
No entanto, este homem de Deus, tornou-se um dos maiores carismáticos da Igreja. Sendo que o
   lugar por excelência de sua doutrina é justamente sua vida, sua experiência espiritual,
   extremamente rica.



BRAIDO Pietro (ed)

Dom Bosco educador. Escritos e testemunhas
Uma nova terceira edição aumentada. Colaboraram: Antônio da Silva Ferreira, Francesco
  Motto, José Manuel Prellezo.
(ISS, Fonti, Serie prima, 9). Roma- LAS 1996.


O trabalho recolhe escritos e documentos relacionados com as experiências e as idéias
    pedagógico-espirituais de Dom Bosco.
                                 «Aos documentos fragmentários do primeiro decênio de trabalho educatico em Turim-
                                 Valdocco (1845-1854) juntam-se os de pedagogia narrativa [entre eles Cenno storico
                                 (nota breve, explicação) e Cenni storici: 1854-1862] e os escritos normativos e
                                 programáticos (Lembrança aos diretores, Dialogo com o mestre Francisco Bodrato,
                                 Lembrança aos missionários, Sistema preventivo na educação da juventude, Artigos
                                 gerais do “Regulamento para as Casas”, Sistema preventivo aplicado entre os jovens
                                 abandonados (pericolanti):1863-1878). A coleção conclue-se com os conselhos e as
                                 lembranças da ancianidade: a longa carta sobre os castigos de 1883, as duas cartas de
                                 Roma de 1884, o “Testamento espiritual” e três cartas aos salesianos da América
                                 (1885)».36




   3      O projeto de um santo

                                 «D. Bosco era um gigante que despontava entre os educadores católicos do `800.
                                 “Promotor de uma educação completa, sobretudo porque aparecia em contraposição
                                 àquela que se baseava no adestramento físico e no mito da força conquistadora, coisas
                                 que levavam ao encontro violento de povos e a uma nova e desumana conflagração
                                 mundial».37



   36
        Alguns destes testos foram publicados na Piccola Biblioteca do Instituto Histórico Salesiano nn, 1-5 e 9.
   37
        Mario MIDALI (a cura di), Don Bosco nella storia. Roma, LAS 1990, p. 22. n. 6.


                                                               19
O século XIX, também chamado de século da pedagogia, trouxe para a Europa e em especial
para a Itália uma série de movimentos políticos,38 sócio - religiosos que muito viriam influir no
Continente e além mar.
A nova problemática atingiu de cheio sobretudo a juventude.O jovem Bosco observando a
situação começou a angustiar-se. Quanta tristeza não sentia ao observar tantos jovens destruídos
física e moralmente, já nos primeiros anos de idade. A existência degradante e aviltante daqueles
moços atingiria profundamente os sentimentos e o coração do novel sacerdote. De tal modo lhe
impressionaram as cenas que via todos os dias, que resolveu dedicar toda sua vida ao bem da
juventude necessitada. Seu relacionamento de amizade com os moços basear-se-ia na
aproximação, no diálogo e na amizade, tentando fazer com que eles descobrissem que eram
pessoas humanas e amadas por Deus. Tinham uma dignidade e deveriam dar um sentido
humano-cristão às suas vidas.
D. Bosco muito se preocupava com as crescentes transformações e materialização do mundo,
com as novas exigências, com a Igreja e os jovens dentro do novo contexto da sociedade. O
mundo do seu tempo queria ver o clero trabalhar, fundar obras de instrução e educação da
juventude pobre, abandonada. Os padres deveriam abrir colégios, obras de caridade, escolas
profissionais. A sociedade para ser cristianizada deveria começar com a instrução religiosa da
juventude.
   O Pe. João Batista Lemoyne cita as categorias de garotos que na época perambulavam nas
imediações de Porta Palazzo, um dos bairros da Capital do Reino piemontês. Ali se
acotovelavam camelôs ambulantes, vendedores de fósforos, engraxates, limpa-chaminés, moços
encarregados de cocheiras, distribuidores de volantes, carregadores, todos pobres meninos que
sobreviviam daqueles magros negócios. Como o profeta da Galiléia, o santo de Turim também se
compadecia daquelas multidões.
O ajuntamento de rapazes e trabalhadores dos mais diferentes lugares gerava nas cidades o
problema demográfico das massas humanas, impulsionadas pelo início da industrialização, o
novo motor da história que viria transformar com sua tecnologia revolucionária o ritmo da
sociedade universal. Famílias inteiras do Piemonte, da Lombardia e alhures procuravam a
Capital piemontesa desestruturada e sem condições edilícias e sociais para atendê-las.39
O jovem sacerdote, cada vez mais tinha consciência de ter sido chamado por Deus para cumprir
uma missão especial no meio da juventude. Sua vida era dominada pela presença insistente do
38
   Apenas lembramos entre outros fatos o ofuscamento definitivo e inexorável da estrela napoleônica em Waterloo.
As mutações drásticas impostas pelo Congresso de Viena, em se tratando da geopolítica européia. Os diversos
movimentos revolucionários nacionalistas que transformaram o velho Continente.
39
   O recenseamento de 1838 revelou na cidade a presença de 117.072 habitantes. Em 1848 eram 136.849. As
habitações de 2.615 passaram para 3.289. As famílias eram em 1838, 26.351, (10,08 pessoas por casa); em 1848
eram 33.040 (10,45 por habitação). A média familiar em 1838 era de 4,44 indivíduos, enquanto que 10 anos mais
tarde, de 4,14.
Em 10 anos a população havia aumentado de 19.777, exatamente 16,89 por cento. (G. MELANO. La popolazione di
Torino e del Piemonte nel secolo XI, Torino 1961, p.73, apud Pietro STELLA, Don Bosco nella Storia della
Religiosità Cattolica, Vol. I p.103.


                                                      20
divino. «Nele era profunda e constante a consciência de ser instrumento do Senhor para uma
missão singularíssima».40
No início das Memórias do Oratório, interrogando-se sobre a finalidade daquele manual, DB
afirma que servirá como norma para se superar as dificuldades futuras, a fim de que se aprenda
as lições do passado. Demonstrará como Deus tenha dirigido cada coisa a seu tempo. Servirá
para que seus filhos se entretenham, quando lerem os fatos dos quais seu pai foi protagonista.
As Constituições Salesianas no seu primeiro artigo lembram que a Sociedade de S. Francisco de
Sales não nasceu de um simples projeto humano. Nossa Sociedade é obra de uma iniciativa de
Deus, em favor da salvação da juventude «a porção mais delicada e preciosa da sociedade
humana».41 O artigo constitucional reforça ainda a idéia de que a intervenção de Maria, fez com
que o Espírito Santo, suscitasse D. Bosco para um apostolado específico. Não se cansava de
afirmar que na execução de seu projeto Nossa Senhora havia realizado tudo. Ela tinha sido a Mãe
e a Mestra que sempre o acompanhara no desenrolar de sua obra. Certa vez, ao visitar em Turim
a Casa da Divina Providência, seu amigo Cotolengo fez-lhe um prognóstico, cuja realização foi
realmente uma constante em sua vida. Ao despedir-se, apertando entre as mãos as mangas da sua
batina, o colega também santo, fixou-o vaticinando:


                          «Sua batina é muito tênue e fina. Arranje uma de tecido muito mais forte e consistente, a
                          fim de que os jovens não possam rompê-la. Virá um tempo em que será puxada por muita
                          gente».42



Um dos jovens Domingos Bosso, no momento próximo aos dois santos, escutara a profecia.
Mais tarde, sacerdote e sucessor do Cotolengo, não esquecia o episódio. A história irá mostrar na
prática aquela profecia, o que ocorrerá ali mesmo naquela Casa de Caridade.
A vida de D. Bosco foi realmente uma total doação aos jovens. Seu propósito de consumir-se por
eles foi cumpriu inexoravelmente até o fim de seus dias. Nos últimos anos tornava-se para ele
muito difícil confessar, dado o cansaço que o acometia, a falta de forças que toda uma vida de
esforços constantes lhe consumira. Uma ocasião em 1886, seu médico sugeriu ao Pe. Viglietti
que lhe dissesse que parasse um pouco. Ele, rindo responde: «Êh, meu caro, se ao menos não



40
   P. STELLA, Don Bosco nella storia, Vol. II, Mentalità Religiosa e Spiritualità. Zürich, PAZ VERLAG, 1969, p.
32 [Giovanni BOSCO], Memorie dell’Oratorio di San Francesco di Sales, (a cura di) Antônio Ferreira, LAS, 1992,
p.5, n.4.
41
   MB II, 45.
42
   Em diversas ocasiões D. Bosco teve dificuldades com sua a “veste”. Foi roubada (MB III, 80). Certa feita,
enquanto dava aulas de catecismo no coro da Capela de S. F. de Sales, recebe um tiro que lhe estraçalha a batina
sobre o peito e na manga esquerda. (MB III, 300). É distribuída com as pessoas (MB V, 617; VI, 112-113. Torna-se
puída e imprestável (III, 24); é cortada em pedacinhos para ser ofertada como relíquia (XVI 58,118. Hoje em uma
das passagens do pórtico, onde se localiza a veneranda Capelinha, outrora local da Tetóia Pinardi, observa-se uma
placa, mostrando o local do atentado. (172-193).


                                                       21
confesso os jovens, que farei então? Prometi a Deus que até o meu último respiro seria para meus
pobres jovens».43


4    São Francisco de Sales (1567 – 1622) (vide Anexo V)


Achamos importante, por diversas razões colocar Francisco de Sales entre as Fontes Salesianas,
logo após o fundador da Congregação. Entre outros motivos porque ele é o protótipo de nossa
espiritualidade. Como salesianos devemos estudá-lo sempre mais, para imitá-lo cada vez mais e
assim nos tornarmos a cada dia salesianos mais próximos de Dom Bosco. É nesta intenção que
ousamos apresentar também alguns delineamentos histórico-espirituais sobre a figura do santo
do Chablais.44
Monsenhor Francis Vincent45 em uma de suas conferencias sobre a espiritualidade de S. F. de
Sales começa afirmando que para se compreendê-la e defini-la, deve-se primeiro perguntar o que
o santo pensava sobre Deus e o homem.46
Sabe-se que na época do santo havia concepções diferentes sobre a vida religiosa em relação a
Deus. Para uns, como Monsenhor de Saint-Cyran, Deus era um Mestre terrível. Santa Teresinha
do Menino Jesus se dirigia a Ele como um Pai amável, bondoso. Sobre o homem, Pascal dizia
que é um anjo e não uma besta, um animal. Nossa concepção religiosa irá ser diferente, se
tendermos para o que conhecemos como teologia do otimismo ou do pessimismo. Diante dessas
duas correntes não há dúvida que pela vida e atuação de nosso santo ele estava muito longe de
ser um pessimista.


                         «São Francisco de Sales era decididamente otimista em teologia. Ele era
                         impressionadíssimo com a abundancia dos meios de salvação...Nada poderia ser mais
                         contrário ao sentimento (tremor, medo) que Monsenhor de Saint-Cyran experimentava e
                         inspirava.»47



Vejamos o que pensava o santo a respeito de Deus.
Aos dezoito anos e após sua famosa crise que chamou de tentação ele tornou-se definitivamente
um otimista. Não foi fácil. As lutas que teve antes de se decidir entre as diferentes teodicéias,

43
   MB XVIII, pg, 258. Const. 1.
44
   Cidade ao Sul do lago de Genebra (Suíça) na Sabóia, onde o santo trabalhou incansavelmente, durante os cinco
primeiros anos de sacerdote, para converter os Calvinistas.
45
   Reitor emérito das Faculdades Católicas do Oeste (França?).
46
   THE SPIRITUALITY OF SAINT FRANCIS OF SALES by Mgr Francis ... spirituality of Saint Francis of
Sales we must first ask what the Saint thought of God and man. ...
www.ewtn.com/library/SPIRIT/SALESPIR.TXT - 85k - Cached
47
   Francis VINCENT, The Spirituality of Saint Francis of Sales (Conferência).


                                                        22
quase o levaram às raias do desespero, quando na Universidade de Paris, ele estava no meio dos
grandes debates sobre a predestinação.


4.1 Predestinação e pré-conhecimento (pré-monição)
Na época duas correntes teológicas opunham-se fortemente. Uma afirmava que Deus predestinou
para a salvação aqueles aos quais Ele tinha decretado dar a salvação e os meios necessários para
alcançá-la. Isto significava que Deus predestina à salvação, os que Ele predestina para a salvação
e não os que ele vê, através de sua pré-cognição que corresponderão à sua graça. O assunto era
muito sério e preocupante: a predestinação não se basearia no pré-conhecimento, mas era o
contrário, a pré-cognição estava baseada na predestinação. Deus sabe quem vai se salvar, porque
Ele já decretou sua salvação. A conclusão é que se Deus não salvou a todos, aqueles que se
condenam, não o fazem porque não corresponderam com a graça, ou pela conseqüência de sua
própria recusa, mas porque o próprio Deus os recusou. Estes que assim pensavam seguiam nada
mais, nada menos que Santo Agostinho e Santo Tomás.
O jovem estudante descobriu que os Jesuítas, seus professores, não seguiam o mesmo parecer,
discordavam de Agostinho e Tomás. Eles seguiam os ensinamentos de Santo Ambrósio, São
João Crisóstomo e os Padres Gregos. Substancialmente a doutrina destes santos tinha a seguinte
exposição:


                      «Em Deus o decreto da predestinação à glória baseia-se primeiramente, se assim
                      podemos falar, não no simples prazer divino, mas, na previsão dos méritos e santidade do
                      eleito. “Deus prevê seus méritos e segundo o resultado desta previsão, Ele o predestina
                      para a salvação.»



4.2 Um Deus de amor e misericordioso
Francisco não podia entender um Deus que não fosse um Deus de amor que quisesse salvar todos
os homens. Sua mente e seu coração refutaram espontaneamente a predestinação, embora a dupla
autoridade de Agostinho e Tomás pesassem fortemente em seu espírito. Antes de decidir-se
viveu cinco ou seis longas semanas de incertezas (e) angústia mental, minando suas forças
física. Atormentava-o atrozmente o pensamento se ele estaria “a priori” incluído no misterioso
decreto da predestinação.
Sua escolha foi realizada, após uma oração fervorosa e sofrida aos pés de Nossa Senhora.
Naquela ocasião ele ouviu uma voz que lhe dizia: Eu não sou Aquele que condena. Meu nome é
Jesus.




                                                   23
Separando-se de Tomás e Agostinho, a quem pediu perdão, Francisco a abraçou, até ao final de
sua vida, a doutrina, denominada Molinismo48. Para ele Deus é “Alguém que não deseja
condenar”. Conseqüentemente dá a todos as graças suficientes para se salvarem. Francisco
ensina que o mecanismo dos atos divino-humanos, quando coordenados, se o quisermos, nos
levam diretamente ao Céu. O próprio Deus, após o pecado de Adão desejou verdadeiramente que
todos os homens fossem salvos.
A decisão de Deus sobre cada um de nós, só é tomada depois de Ele ter visto como é que nós
vamos nos comportar. Os homens se condenam não por falta da graça, mas porque eles não
aceitam a graça, não porque a graça lhes falte, mas porque eles faltam à graça. São Francisco
estava tão convencido da munificência da graça de Deus, que seu convencimento era que Deus
jamais abandona um pecador. Ele pensava que Já condenação de Judas aconteceu somente por
causa de sua obstinação e frieza. Mesmo após sua ação criminosa Deus ainda esperou por ele,
ainda lhe ofereceu sua graça. “Ó homem infeliz, ele não sabia bem que nosso Senhor... era o
Salvador e que Ele tem a salvação em suas mãos?”49
Esta certeza de que Deus não abandona o pecador levava nosso santo a jamais anatematizar,
mesmo o mais obstinado dos pecadores. Eis o que ele chegou a afirmar:


                             «Quando pecadores se tornam tão empedernidos, endurecidos em seus pecados, de tal
                             modo que vivam como se não existisse nem Deus, nem céu, nem inferno, então é quando
                             Deus faz com que eles conheçam sua piedade e a doçura de sua graça».50



No Tratado sobre a graça encontramos afirmações como estas:


                             «Quando Ele (Deus) vê que a alma mergulha profundamente na iniqüidade é seu costume
                             oferecer sua ajuda e com incomparável graça Ele escancara a porta de seu coração.»51



Freqüentemente o pessimismo tem escurecido a mente dos homens. Arnauld e Saint-Cyran
acreditavam que chegaria um momento em que Deus se afastaria do pecador e suspenderia sua
graça, deixando-o viver em sua impiedade e perdição. Foi assim que Port-Royal tratou Pascal e
Racine. Porque eles abandonaram Deus, este por sua vez também se afastou deles. Este, porém,
não é o Deus de São Francisco. O Deus da vida não nos abandonou. O profeta Ezequiel já nos
dizia que Ele não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (Ez. 18, 32).

48
     Molinismo é a doutrina criada pelo jesuíta Luis Molina (1547-1551). O teólogo espanhol procura conciliar a idéia
de livre-arbítrio à graça e onisciência divina, as teses dos reformadores com o Concílio de Trento.
49
   Sermon of March 22, 1622.
50
   Idem, ibidem.
51
   Book 3, chapter 3.


                                                          24
A confiança do Bispo de Genebra em Deus é paralela à sua confiança na bondade natural do
homem. Seu otimismo envolve a ambas. Esta atitude está, no entanto longe do otimismo frio e
absoluto de J. Jacques Rousseau e do mesmo modo distante da posição dos Jansenistas que
ensinavam que o homem é radicalmente corrupto.
Neste aspecto entre o pensamento Salesiano (de São Francisco de Sales) e o dos Calvinistas há
também um enorme fosso. Para nosso Bispo o ponto de partida é o amor de Deus, enquanto para
o pensamento calvinista é o forte sentimento de afastamento da parte de Deus.
Francisco não deixa de ensinar que a tendência natural que existe no homem de amar a Deus não
pode durar muito tempo se não é fortificada pela graça. Afirma ainda que esta graça encontra no
homem um aliado e não um inimigo, como acreditam seus opositores. E é através desta graça
que Deus quer salvar todos os homens, pois Ele é sempre Aquele que não deseja condenar
ninguém e que oferece a todos as graças suficientes para que não se percam. A concepção
otimista da divindade fez com que tudo que o santo do Chablais escreveu se baseasse na
concepção otimista da graça, da salvação


4.3. O centro de sua espiritualidade: o amor, a caridade, a doçura
Nosso amor para com Deus que nos ama é tudo aquilo que devemos desejar e procurar praticar.
“Tudo na santa Igreja é por amor, no amor, para o amor e do amor”, afirma nas primeiras
páginas do Tratado sobre o amor divino. Não se trata apenas de um ideal que buscamos
intensamente, mas é o princípio e a fonte deste ideal. No amor estão todas as virtudes. É a
linguagem do Apostolo São João repetida e vivida por outro santo.
No livro Histoire du sentiment religieux aux XVIIe siecle M. Strowsky afirma que São F. de
Sales efetuou uma “verdadeira revolução” no asceticismo.


                         «Ele é o grande mestre e técnico da espiritualidade do amor. Houve homens antes dele
                         que praticaram o asceticismo, homens que o viveram, nós diríamos hoje. Mas quem o
                         formulou numa teoria ou o reduziu em um sistema?»52



Não são poucos os santos que escreveram e viveram o amor: São Paulo, Agostinho, Boaventura,
Santa Teresa, São João da Cruz. O bispo saboiense reuniu suas próprias experiências,
estabeleceu uma doutrina coordenada, uma arquitetura da vida espiritual baseada no amor.
Para ele a doçura era uma virtude mais rara do que a perfeita castidade é, a flor da caridade.
A uma jovem superiora de um Mosteiro “recomendava sobretudo o espírito de doçura que
esquenta os coração e conquista as almas”. 53

52
  Francis VINCENT, The Spirituality of Saint Francis of Sales (Conferência).
53
  François de Sales a Madama Bourgeois, 3 maggio 1604, in Oeuvres XII 272, apud F. Desramaut: Spiritualità
Salesiana, Cento parole chiave, verbete Dolcezza, p. 241.


                                                      25
O que acima dissemos sobre a mansidão que não é fraqueza, nem covardia, afirmamos
semelhantemente a respeito da doçura que não é melifluosidade, afetação, debilidade.
Dom Bosco era afável, amigável, mas firme quando precisava sê-lo. São Paulo nos lembra que
os frutos do Espírito são doçura e domínio de si.54
A filosofia grega fala do domínio de si, da vontade sobre as paixões. Neste sentido a doçura
cristã é diferente e distante de tudo o que possa dar a impressão de moleza. Pelo contrário ela
libera a pessoa da escravidão de si e a conduz á mliberdade.


4.4 Ama (Deum) et fac quod vis55
A famosa frase de Santo Agostinho “ama e faze o que quiseres” jamais foi tão vivida na prática
como na vida de Francisco de Sales. Ele demonstrou como alguém pode realmente amar a Deus
no mais íntimo e no mais acessível de sua alma, como fazer de cada momento de seu dia, o que é
melhor e mais justo, precisamente aquilo que Deus deseja que se faça.


4.5 O amor, princípio e fim de toda sua espiritualidade
Estabelecer e desenvolver nos corações a caridade eis o Alfa e Ómega de toda sua pregação.
Muitos santos desde São Paulo intuíram o eminente papel do amor na santidade, sua importância
fundamental. Não obstante, eles jamais o colocaram como objeto de uma demonstração
metódica.
São Jerônimo parece ter escolhido a castidade como o fundamento de seu asceticismo; Francisco
de Assis dialogava com a irmã pobreza; São Bernardo escolheu a mortificação; São Benedito foi
o homem da liturgia.
Não há dúvidas que estes santos tinham na caridade a fonte de toda a santidade e jamais negaram
o seu papel. Talvez se, eles fossem diretamente questionados, respondessem que essa verdade
estava implícita, não era necessário que se dissesse. A esta resposta, São Francisco de Sales teria
respondido: “mas, é melhor que seja dita”. Assim ele o fez com uma insistência inigualável.
Santo Inácio, a quem Sales muito cultuou, também não insistiu tanto no valor da caridade em sua
estratégia para a conquista da perfeição. O jesuíta, Pe. Brou observa inteligentemente:


                          «Todo autor tem suas fórmulas (sinais) favoritas que aparecem constantemente e
                          informam as preocupações de sua alma... para Santo Inácio estas fórmulas testemunham,
                          mostram a autoridade de Deus sobre as criaturas.»56



54
   Gal. 5, 23.
55
   Ama (Deus) e faze o que quiseres.
56
   Francis VINCENT, The Spirituality of Saint Francis of Sales (Conferência).


                                                        26
Sales entende que estas fórmulas provam o amor de Deus pelas suas criaturas e são meios para
provocar da alma uma resposta de amor. Brou nos diz que Santo Inácio fala nas “Constituições”
259 vezes sobre a Maior Glória de Deus. Para São Francisco de Sales pode-se afirmar que ele
substituiu “Caridade” por “Maior Glória de Deus”.
Sempre foi o grande apaixonado: “quando estava em Pádua estudava Direito para agradar a meu
pai e para me agradar estudava Teologia. Sua maior paixão foi ser o grande enamorado de Deus.


4.6 Não escolher, mas deixar que Deus escolha
Neste particular São Francisco de Sales colocava o dever como sinal incontestável da vontade
Deus. Dom Bosco insistia muito sobre este aspecto da vida religiosa, com Domingos Sávio e
com todos os jovens por ele dirigidos espiritualmente. Aceitar a obrigação como algo que vem da
vontade de Deus, faz-nos indiferentes a tudo o mais. Às vezes cumprir uma obediência, pelo
menos inicialmente, é como correr sobre brasas.


4.7 Indiferença
A obediência vista na ótica de São Francisco e podemos dizer na de Dom Bosco pode conduzir a
uma heróica indiferença.


                            «Se amo somente o meu Salvador, porque do mesmo modo não amarei o Calvário e o
                            Tabor, dado que é sempre Ele que se encontra, tanto em um como no outro? E por que
                            não deverei dizer com igual amor, tanto no Calvário como no Tabor: é bom estarmos
                            aqui?»

Não fica por aqui a típica indiferença de Francisco:


                            «Se desejo somente água pura, que me importa que me seja entregue em uma taça de
                            ouro, ou em um copo se, de qualquer modo quero somente água? “Pelo contrário,
                            preferirei num copo, porque não tem outra cor senão aquela da água que, em tal caso,
                            vejo também melhor.»57



4.8 Ser você mesmo
Este é outro ponto de insistência da espiritualidade franciscana. Devemos ser aquilo que Deus
quer que sejamos. Como Dom Bosco os santos de nossos dias procuram seguir os passos de São
Francisco. Vejamos os que nos dizem dois Papas que conhecemos:
João XXIII, grande devoto de São Francisco de Sales, escreveu durante um retiro espiritual:
hoje, não devo desejar o aquilo não sou, mas de ser muito bem o que sou. E em outro discurso:
57
     Carta III a Bassura.


                                                        27
«Se devesse ser como ele, não me aconteceria nada, mesmo quando me fizessem Papa...
                              “Minha vida, o Senhor me diz, deve ser uma cópia perfeita da de São Francisco de Sales,
                              se quer ser fecunda em alguma coisa boa.»58



Outro Pontífice de muita intimidade e familiaridade com a doutrina do Sales foi João Paulo I.
Inspirou-se e moldou sua ação pastoral nos escritos e discursos.


                              «Se os políticos vos escutassem! Eles medem a própria ação pelo sucesso. Conseguem?
                              Tudo bem. Para vós, a ação deve valer também se não chegou a ter sucesso, se feita por
                              amor de Deus. O mérito da cruz carrega, não é o seu peso, mas o modo pelo qual é
                              carregada.»



4.9 Descomplicador do caminho espiritual
Deixar-se guiar pelo amor, este é o segredo de Francisco. Tudo então se simplifica. Não gostava
de problemáticas complicadas e por vezes inúteis. Olhava com certa compaixão para as almas
que se deixavam enredar por semelhantes caminhos. Coitados! Angustiam-se procurando a arte
de amar a Deus e não sabem que não há outra, senão a de amá-Lo. Falando desta problemática,
chega a ser até um tanto satírico: Torturam-se tanto, pensando como fazê-lo que não têm mais
tempo de fazer nada.
J. Auman
Antes de morrer deixou às suas irmãs um convite em sete palavras que podem ser o resumo de
toda sua espiritualidade: Fazei tudo por amor e não por obrigação.
No Oratório de São Francisco de Sales, em Valdocco, a santidade consistia na alegria, em
viverem sempre alegres. Havia até a mesmo a Sociedade da Alegria, fundada por Dom Bosco e
seus colegas seminaristas, quando estudavam no Seminário de Chieri.


4.10 O Tratado do amor de Deus (Teótimo)


Um dos livros mais lidos em seu tempo e que teve inúmeras edições. Nos primeiros anos uma
por ano. Na obra ele fala do fogo que lhe queima por dentro. Muito recatado, por vezes recorre a
artimanhas literárias, evitando falar de si mesmo. Eis um exemplo:




5
58
     Il giornale dell’anima


                                                           28
«Vimos uma alma agarrada fortemente ao seu Deus, todavia tinha o intelecto e a
                          memória tão livres de qualquer ocupação interior, que percebia muito claramente o que se
                          dizia ao seu redor e lembrasse completamente, embora lhe fosse impossível responder e
                          separar-se de Deus, ao qual estava unida por adesão de sua vontade. De tal modo unida,
                          digo, que não podia ser tolhida daquela doce ocupação, sem experimentar uma grande
                          dor que provocava lamentos, ainda mais intensos se vinha ininterrupta no ápice de sua
                          consolação e quietude».

Em sua simplicidade e ao mesmo tempo sabedoria considera esta sua obra de tal modo acessível
a todos que seria, segundo ele, como uma carta enviada aos amigos.
Eis os termos com que escreve ao amigo duque Roger de Bellegarde:


                          «Mando-lhe o livro do Amor de Deus, ninguém o viu ainda. Se em algum momento a
                          consideração que tem por mim, dá-lhe vontade de receber uma minha carta, tome este
                          tratado e leia um capítulo.»59




                 5. Dom Bosco, São Francisco de Sales e ( a Família Salesiana) os Salesianos


A figura e a obra de um grande teólogo espiritual contemplada por Dom Bosco em São Francisco
de Sales impressionaram menos que a vida cotidiana do apóstolo, plena de caridade e bondade.
Foi esta faceta do santo saboiano que conquistou o santo piemontês e fez com que ele decidisse
seguir os seus passos.
Na primeira Missa do filho de Margarida ele formulou dez propósitos. No quarto ele escrevia: a ,
a caridade, a bondade e a doçura de São Francisco de Sales guiem-me em tudo. O sonho de
188360, traz uma sugestão para o missionários: com a doçura de São Francisco de Sales, os
salesianos atrairão a Jesus Cristo os povos da América.
Entre as oito bem-aventuranças da Família Salesiana de Dom Bosco uma nos diz que sejamos
dóceis, mansos: bem-aventurados os mansos. É através desta virtude que conquistaremos os
corações e os educaremos. Educação, obra que nasce no coração.
Por que o pregador de Nazaré conquistou e continua conquistando tantos corações nos quatro
quadrantes do orbe? Porque era manso e humilde de coração (Cfr. Mt. 11, 29).

59
  16 de Agosto de 1616.
60
  É o ano em que os Salesianos chegaram ao Brasil e fundaram sua primeira Comunidade em nossa terra, o Colégio
Santa Rosa, na cidade de Niterói, em 14 de julho de 1883. O primeiro diretor foi o Pe. Miguel Borghino. Certamente
Dom Bosco, então com 60 anos, estava preocupado com o êxito daquela missão e pedia ao santo da bondade que
intercedesse pelos seus missionários do Brasil.


                                                       29
A mansidão, a doçura não pode ser confundida com fraqueza ou covardia. É coragem, firmeza
capazes de enfrentar as violências e truculências de um mundo hostil e insensível. Sem iras nem
rancores, mas com modos pacíficos, com benignidade e amabilidade. Desde o sonho dos nove
anos que Dom Bosco assumiu esta atitude, aceitando o conselho da Senhora que lhe apareceu
naquela noite: não com maus tratos, mas com caridade, com amor deverás conquistar estes teus
amigos. A violência é a mãe da violência. A amabilidade, a doçura vence a maldade. Só assim se
construirá no mundo uma civilização do amor.
Não se pense que a doçura era um dom natural de Dom Bosco. No sonho dos nove anos ele nos
diz que acordou com os punhos doloridos pelos murros que deu nos jovens blasfemadores. Em
Chieri, nos primeiros anos de seminarista era tido como o mais colérico dos alunos.61
Paulatinamente e com muita vontade iniciou um árduo trabalho de renovação. Nesta conversão
muito ajudaram as pregações que no Seminário ouvia sobre S. Francisco de Sales, sobretudo as
do dia 29 de janeiro de cada ano, quando da celebração da festa do Santo saboiano. Já falamos
sobre seu propósito no dia da ordenação, quando escreveu que a caridade e a doçura de São
Francisco de Sales deveriam orientá-lo em todas as suas atitudes. Nota-se este seu
comportamento, de modo especial ao tratar com os jovens.
Dom Bosco nas Memórias do Oratório fez questão de explicar porque preferiu que São
Francisco de Sales fosse patrono e modelo de sua obra. No incipiente e humilde Oratório de
1884 seus meninos se reuniam diante de um quadro de São Francisco de Sales. A primeira
Capela do Oratório e posteriormente o próprio Oratório receberam o título de São Francisco de
Sales.
Dom Bosco apresenta ainda outro motivo para esta sua escolha:


                            «Por causa do nosso ministério, exigindo grande calma e mansidão, colocamo-nos sobre
                            a proteção deste grande Santo, a fim de que nos obtivesse de Deus a graça de poder imitá-
                            lo na sua extraordinária mansidão e na conquista das almas.»



Mais tarde62, possivelmente com os problemas pastorais criados pela atuação dos protestantes
valdenses e com reflexos perigosos para a fé popular, Dom Bosco acrescenta mais uma razão
para seguir o apóstolo de Chablai. A atuação firme e ao mesmo tempo fraterna e bondosa de
Francisco de Sales no combate à heresia valdense motivou ainda mais Dom Bosco a imitar o
santo em seu trabalho apostólico de Turim.




61
     Cf. F. Desramaut, Don Bosco em son temps, 120.
62
     Possivelmente entre 1848 e 1850.


                                                         30
«Outra razão era a de colocar-me sob a proteção deste santo, a fim de que do céu nos
                        ajudasse no combate aos erros contra a religião especialmente o protestantismo, que
                        insidioso, começava a insinuar-se nas nossas vilas e especialmente na cidade de Turim.»63



Os títulos de São Francisco de Sales ou Salesianos, Salesianas, através de Dom Bosco haveriam
eternizasse-iam pelo mundo afora através de Dom Bosco, dos Salesianos e suas obras:
      •   Sua primeira obra, o Oratório chamou-se de São Francisco de Sales;
      •   O Oratório de Valdocco, Casa Mãe em Turim, levou o nome de São Francisco de Sales;
      •   Em 1859, a sociedade religiosa fundada por Dom Bosco é denominada Sociedade de São
          Francisco de Sales;
      •   O patrono da Congregação de Dom Bosco é São Francisco de Sales;
      •   Os religiosos da Sociedade de São Francisco de Sales serão chamados Salesianos, em
          homenagem a Francisco de Sales, e, não Bosquianos, de João Bosco;
      •   As religiosas da segunda Congregação fundada por Dom Bosco e Madre Mazzarello, as
          Filhas de Maria Auxiliadora, são também conhecidas por Salesianas;
      •   Ao correr do tempo foram surgindo os vários grupos que formam a Família Salesiana de
          Dom Bosco (Salesianos Cooperadores, Cooperadoras Salesianas, Salesianos externos,
          Associação das Damas Salesianas);
      •   Nossos ex-alunos ou ex-alunas são: ex-alunos salesianos, ex-alunas salesianas.
Hoje todos esses grupos continuam a encontrar e imitar em São Francisco de Sales uma
espiritualidade do quotidiano, da alegria e do otimismo. Uma casa salesiana sem estes
componentes: alegria, bondade, otimismo não é verdadeiramente uma casa salesiana.
O Capítulo Geral XXIV estabelece que “o Conselho Geral promova e apóie outras...experiências
e escolas para a formação de formadores...Seja dada atenção particular à espiritualidade de
Francisco de Sales”. 64
Por que esta preocupação da Assembléia Geral da Congregação Salesiana? Os padres capitulares
bem sabiam que foi a espiritualidade do missionário da Sabóia que delineou o coração de Dom
Bosco, através da tradução prática que ele fez daquela espiritualidade e que posteriormente
alimentou nossa formação. As nossas Constituição nos lembram:


                        «O salesiano, inspirando-se no humanismo de São Francisco de Sales acredita nas
                        riquezas materiais e sobrenaturais do homem, embora não lhe ignorando a fraqueza.»




63
     MO 133.
64
     N. 148.


                                                     31
O patrimônio típico do salesiano é, portanto a bondade, a doçura e o otimismo. Diz-se que S. F.
   de Sales era tão bom que causava admiração em quem dele se aproximava. Certa feita, alguém
   que o conheceu exclamou: se um homem é tão bom, como não será a bondade de Deus!


5.1 Amizade cultivada por S. F. de Sales, uma prática constante em Valdocco
   Como vimos, a caridade foi uma das características mais apreciadas e mais cultivadas pelo santo
   do Chablay, durante toda a sua vida.
   O sistema posto em prática por Dom Bosco no Oratório tem a amizade como ponto essencial:
   sou teu amigo, considera-me sempre um teu amigo, dizia aos seus jovens.
5.2 A bondade
   Ele a via como uma espécie de primado entre as demais virtudes. Eis o que escreveu a respeito:


                           «É um fato real: não existe ninguém no mundo, pelo menos penso, que goste mais
                           cordialmente, mais ternamente e com um amor maior que o meu. E foi Deus que me deu
                           um coração assim.»



   Vemos este primado da bondade em relação aos jovens também em Dom Bosco. Suas palavras
   são quase as mesmas ditas por S. Francisco. “Podeis encontrar alguém mais inteligente que eu,
   mas não encontrareis ninguém que vos ame mais que eu”.
   Nota-se esta atitude de São Francisco também com relação ao mundo. Sua intenção é conquistá-
   lo com a bondade. Preocupado com a situação em seu tempo escrevia em 1620:



                   «O mundo está se tornando tão delicado, que daqui para frente, não se ousará tocá-lo a não ser
                   com luvas de veludo e suas chagas não poderão ser curadas senão com delicadeza. Mas, que
                   importa, para que os homens sejam curados e por fim salvos!»



   Pe. Pascoal Liberatore, ex-procurador salesiano das causas de nossos santos, comentando este
   trecho diz: “quanta sensibilidade hoderna e quanto espirito ecumênico nesta sua postura! É toda
   uma bondade dirigida para Deus, com a finalidade de se fazer com que Ele seja amado e nao de
   uma maneira comum, mas de um amor dirigido à santidade”.



   5.2 Santidade




                                                         32
São Francisco de Sales, como todos os santos fundadores de uma nova espiritualidade, traçou seu
caminho próprio de santidade. Dom Bosco o assumiu e deu-lhe novos contornos, determinados
traços. Um dos elementos adotados pelo santo piemontês, embora muito conhecido por nós, vale
ser recordado. Neste capítulo colocaremos alguns trabalhos e seus autores, considerados como
fontes enriquecedoras de contribuição para nossa Sociedade



                   6. Outras fontes


                       1. Francis Desramaut

a) Les Memorie I (Étude d’um ouvrage fondamental sur La jeunesse de Saint Jean Bosco).

De Giovanni Battista Lemoyne. Maison D’Étude Sanint-Jean – BOSCO

47. chemin de Fontanières LYON (5e), 1962.

Este trabalho, segundo o próprio autor, é de fundamental importância para se conhecer a
juventude de São João Bosco.

O estudante curioso e amante da história, ao entrar em uma biblioteca de nossas comunidades
salesianas, logo é atraído para os volumosos testos intitulados: Memórias biográficas de Dom
Bosco. E se ele se tornar salesiano esses tomos irão lhe acompanhar por toda sua vida.

O estudo de Desramaut intitula-se: As Memórias I. precisamente este era o titulo do primeiro
tomo que se transformou nos volumes atuais, durante a evolução das causas de beatificação e
canonização.



O conjunto da obra

1 - As Memórias I.

Título do primeiro tomo: Memorie Biografiche di Don Giovanni Bosco raccolte dal Sac.
Salelsiao Giovanni Battista Lemoyne, vol. I, San Bennigno Canavese, 1898.

Com a evolução das causas da beatificação e canonização de Dom Bosco este primeiro tomo se
transformou nos 19 volumes atuais,

As Memórias Biográficas têm precisamente 16.121 páginas, sem contarmos com o Índice
analítico, o vol. XX com mais 620.65
65
     Cf. Lês Memorie I de Giovanni Battista Lemoyne, par Francis DESRAMAUT, S.D.B, p, 1 nota 2.


                                                       33
Vejamos como ficou a modificação do titulo primitivo, durante a evolução da causa de
canonização de Dom Bosco.

   1. Memorie Biografiche Del Venerabile Servo di Dio Don Giovanni Bosco..., vo.l VI, 1907.

   2. Memorie Biografiche del Venerable Don Giovanni Bosco..., vo.l VII, 1909.

   3. Memorie Biografiche del Beato Giovanni Bosco..., vol. XI, 1930.

   4. Memorie Biografiche di San Giovanni Bosco, vol. XVI, 1935.

Em 1939, veio a lume o X volume. Três autores: João Batista Lemoyne, A. Amadei e E. Foglio
assumiram a tarefa de narrar por partes, a vida de Dom Bosco, através dos anos.

          G. B. Lemoyne         I         1815 - 1841, S. Benigno, 1898, XXIV
                 532 p.

          •         id              II       1841 – 1847, S. Benigno, 1901, XII         594 p.

          •         id              III      1847 – 1850, S. Benigno, 1903, VIII        661 p.

          •         id              IV       1850 – 1853, S. Benigno, 1904,             766 p.

          •         id              V        1854 – 1857, S. Benigno, 1905,             953 p.

          •         id              VI       1858 – 1861, S. Benigno, 1907,            1102 p.

          •         id              VII      1862 – 1864, S. Benigno, 1909,             931 p.

          •         id              VIII     1865 – 1867, Turim,      1912,            1110 p.

          •         id              IX       1869 – 1871, Turim,      1917,            1032 p.

          G. B. Lemoyne, A. Amadei, E. Ceria

          •         id              X        1871 – 1874, Turim,        1939,     VI    1384
              p.

          •         id              XI       1875.         Turim,       1930,              623
              p.

          •         id              XII      1876          Turim         1931,             711
              p.

          •        id               XIII     1877 – 1878     Turim        1932,         1018
              p.

          •        id               XIV      1879 – 1880      Turim       1933,            855
              p.


                                               34
•          id                  XV       1881 – 1882.........Turim           1934,                871
                 p.

             •          id                  XVI      1883                   Turim        1935,                731
                 p.

             •          id                  XVII 1884 – 1885                 Turim       1936,                967
                 p.

             •          id                  XVIII 1886 – 1888                Turim       1937,                884
                 p.

             •          id                  XIX      1888 – 1938              Turim      1939,                456
                 p.

Em 1948, saiu em Turim o XX volume com 620 páginas, preparado por E. Foglio.66



b) Don Bosco e la vita Spirituale.67 (Francis Desramaux, incaricato presso le Facoltà cattoliche di
Lione).

O autor nas primeiras linhas da introdução esclarece que o livro “nasceu do desejo de esclarecer
e ambientar o pensamento religioso de um santo do século XIX, santo quase nosso
contemporâneo”. O trabalho se inicia com a descrição das convicções fundamentais de Dom
Bosco sobre no campo espiritual. Divide-se em sete capítulos e uma conclusão.



Capítulo I – Dom Bosco no seu século68



      •    A formação clerical em um ambiente antes rigorista, depois ligoriano

     O jovem Bosco inicialmente pensou entrar nos Franciscanos, chegando mesmo a ser
     postulante na Ordem. Convencido de que não era seu caminho, em Novembro de 1835
     ingressa no Seminário de Chieri. Ali dominava o espírito do séc. XVIII, rigorista ou mesmo
     jansenista orientado mais à piedade do que à ciência. Reinava a mentalidade probabiliorista,
     sob a influência da Universidade de Turim, de orientação tomística.


66
   Idem, op. cit. p. 19,20.
67
   Título original: Don Bosco et la vie spirituelle. Beauchesne,Paris, 1967. Tradução: Luigi Motatto – Dino
Donadoni a cura del CENTRO CATECHISTICO SALESIANO di Torino-Leuman.
68
   De cada título apresento apenas alguns sub-títulos que julguei mais pertinentes.


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Em 1817, o teólogo Luiz Guala funda em Turim o Convitto, cuja finalidade era a formação
     pastoral do jovem clero. Sua atuação era bem diferente do que reinava em Chieri, o
     benignismo substituía o rigorismo. Os jesuítas com o teólogo Guala à frente, difundiam o
     espírito que reinava então na Itália: «a ascética inaciana, luta aberta contra o jansenismo e o
     regalismo, devoção sincera e terna ao Sagrado Coração, a Nossa Senhora e ao Papa,
     freqüência aos Sacramentos»69 O Convitto moldou Dom Bosco nos seus três primeiros anos
     de sacerdócio (ordenado em 5 de junho de 1841). Ali “aprendeu a ser padre”, o que não
     aconteceu suficientemente no Seminário de Chieri, segundo ele.

      •    O apostolado citadino entre os jovens abandonados

     Ao concluir os estudos estava com 29 anos. Conservará em sua vida certas características ded
     sua doutrina e s eu espírito.



                        «Ele será sempre liguoriano (...) sem renegar completamente o Deus severo da sua
                        juventude. Combinará o humanismo, que lhe era conatural, com o sentido da fraqueza
                        extrema da criatura, do domínio de Satanás sobre o mundo e da atração da concupiscência
                        sobre o homem»70



     Não obstante, a vida e as experiências pessoais lhe trarão mudanças, o sentido de Igreja, se
     afirmará sua confiança na ação santificadora, sua piedade sacramental.

      •    A luta contra os Valdenses.

     Os Valdenses conquistavam muitos adeptos, sobretudo no meio popular71. Suas ações eram
     facilitadas pela igualdade de direitos e pela liberdade de imprensa.

     Dom Bosco contra atacou em 1850, com Avisos aos Católicos. A aceitação foi muito boa.
     Em dois meses foram divulgados mais de duzentos mil exemplares.72 Em 1853 a ofensiva foi
     realizada através das Leituras Católicas, que eram uma resposta às publicações dos Valdeses
     Leituras Evangélicas. Dom Bosco foi visitado, ameaçado, provocado pelos adversários,
     sofreu atentados. Não cedeu, pelo contrário, contra atacou.

      •    As fontes de Dom Bosco.

     Dom Bosco, muito embora fosse um homem de ação, tinha uma biblioteca bastante boa.
69
   Cf. Fancis DESRAMAUT, Don Bosco e la vita spirituale. Elle Di Ci, Torino-Leuman, p.21.
70
   Idem. Don Bosco e la vita... p. 23.
71
   De acordo com as estatísticas em 1848 dois quintos dos turineses não sabiam ler nem escrever (MO, 241).
72
   MO, 241.


                                                       36
«Poder-se-ia discutir bastante sobre sua cultura bíblica – que não se pode esquecer, até
                           porque escreveu uma História Sagrada -, patrística – obtida sempre em segunda mão,
                           parece, - ou histórica – Causa os Acta sanctorum e os Annales do Barônio.»73


               Seguindo Desramaut citemos apenas alguma obra ou mestres de espírito que
               influenciaram nosso fundador na formação de seu pensamento e elaboração de sua obra:
           •    Imitação de Cristo. Don Céria nos diz que Dom Bosco meditava alguns de seus
                versículos antes de repousar à noite.
           •    São Felipe Néri, São Francisco de Sales, Santo Inácio, embora indiretamente, através
                dos jesuítas da Itália. Uma de suas leituras no Seminário era o livro o Cristão
                prevenido de Paulo Segneri (1624-1694), jesuíta. A tradição espiritual de Diessbach,
                jesuíta, deixou-lhe fortes marcas na formação de seu pensamento. O superior da casa
                dos Jesuítas em Turim, Pe. Secondo Franco (1817-1893) “devia fornecer-lhe três títulos
                das suas Leituras Católicas”. Ceria relata que o Pe. Secondo participava e usava da
                palavra nas reuniões plenárias do primeiro Capítulo dos salesianos. A vida de São Luiz
                Gonzaga, resumida e comentada por Dom Bosco seria o canal para o contato com a
                espiritualidade de Santo Inácio.
           •    Na lista dos que influenciam nosso santo estão ainda São Carlos Borromeu (1538-1584)
                e São Vicente de Paulo (1518-1660). Muito importante é a influencia espiritual de
                Santo Alfonso de Liguori, explicado pelo professor Cafasso enquanto Dom Bosco
                estudava no Convitto.


           •    Dom Bosco no novo Estado Italiano.

       Hábil diplomata Dom Bosco fio um elo de valor entre o Governo italiano e a Santa Sé.Em
       dois momentos sobretudo ele exerceu sua atividade: na nomeação dos Bispos para as Sedes
       vacantes e nas provisões dos bens temporais das mesmas.



       Capítulo II – O Caminho da Vida
       •       Uma antropologia muito simples até porque não era um teólogo.

       Os problemas mais importantes em matéria espiritual Dom Bosco os abordava do modo mais
       simples. Escrevendo um livro também de espiritualidade para os jovens, O jovem instruído
       ele fala de Deus, do homem e do seu destino.
       •       A maravilhosa natureza humana.



73
     F. DESRAMAUT. Don Bosco e ..., p. 34.


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De formação liguoriana e anti jansenista Dom Bosco admirava e acreditava na natureza
humana. A perfeição dos sentidos era para ele obras primas criadas por um artífice de
“habilidade infinita”.

•   O caminho da vida e o caminho da salvação.

A frase se Santo Afonso Maria de Ligorio “a vida é uma viagem para a eternidade” era
totalmente assumida por ele. E acrescentava que essa estrada se for bem escolhida levará ao
céu. De um humanismo objetivo, se preocupava para tornar o mundo mais fácil de se vivido
pelos jovens e a trabalhava ao mesmo tempo pelo bem de toda a sociedade humana. Essa
postura não obstante, não o fazia esquecer a transitoriedade do universo e seus problemas.

O descanso seguro e a alegria perfeita só em Deus. Enquanto nos dirigimos a Ele a vida é
uma viagem penosa e vamos peregrinando de lugar em lugar.

•   Confiança equilibrada no homem.

Confiava e desconfiava ao mesmo tempo de um homem fraco e pecador. Os princípios
severos que o formaram na juventude tinham sido somente amainados, stemperati pela escola
liguoriana. Conhecia a debilidade e a boa vontade do jovem, sempre lhe dando uma
oportunidade. Acreditava também na atuação do príncipe das trevas, por isso temos que estar
ao lado do jovem para ajudá-lo.

•   A “razão” na procura de Deus.

«A “razão” assumia um aspecto de primeiro plano na pedagogia religiosa de Dom Bosco e
por isso mesmo no conjunto de sua espiritualidade». O educador deve apelar para a “razão”
de educando, deste modo justificando até as chamadas de atenção. “Somos racionais, assim
em nós deve imperar a razão e não a força repetia freqüentemente”.

A doutrina do Vaticano I sobre o papel ativo da razão relacionado com as verdades
sobrenaturais foi acolhida sem dificuldades por dom Bosco. Para ele o desenvolvimento da
santidade se articularia a um conhecimento cada vez mais completo da doutrina cristã. Claro,
acrescentamos, que este fato vai depender de receptividade do individuo, da boa vontade que
ele tiver. Como exemplo o mesmo Dom Bosco apresenta Domingos Sávio.«O sfruttamento
religioso de sua “razão” está na base de seu maravilhosos progresso no conhecimento e no
amor de Deus».



•   O “coração” na procura de Deus.




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Além da faculdade nobre Dom Bosco não tinha dúvidas sobre o papel do coração na procura
       de Deus. Seu temperamento e suas experiências pedagógicas o levavam a essa conclusão.
       Para ele o que definia o coração, de acordo com o contesto era tudo que representava os
       sentimentos, a vontade, o amor. Ter um bom coração era ser sensível, compreensivo,
       disposto a fazer o bem e amar.



       Capítulo III – O mundo sobrenatural.



       •   Deus, pai infinitamente bom

       Dom Bosco nos últimos anos de sua vida provavelmente se comprazia em ver em Deus um
       Pai amoroso e terno.74 Transferência para o plano religioso dos problemas de sua infância,
       quando perdeu o pai aos quatro anos. Ele agora, ancião colocava-se como pai dos jovens
       abandonados.

       •   O Cristo, companheiro amado e modelo a ser imitado.

       •   Maria no mundo de Dom Bosco.

       •   A Igreja visível no mundo religioso.

       A realidade celeste de Deus, de Cristo, de Maria, dos anjos e dos santos descia no mundo dos
       homens através da igreja. Ele foi um grande defensor da Igreja de Pedro, incentivado pela
       formação no Convitto e sua experiência nas lutas da vida.



                        «A propaganda valdense, da qual foi um forte opositor; a questão romana que fez dele um
                        dos homens de Pio IX em Turim; a criação da Sociedade Salesiana, favorecida por aquele
                        Pontífice, o estimularam a difundir a teoria de uma Igreja fortemente unida em torno ao
                        Papa de Roma».75



       •   O mundo religioso de Dom Bosco.

           Constata-se que no universo espiritual de Dom Bosco os seres concretos têm um lugar de
           muita importância. Por outro lado “a profundidade de Deus, a alma da Igreja e até mesmo


74
     F. DESRAMAUT, Don Bosco e la vita spirituale. Elle Di Ci, TORINO-LEUMAN, p. 73.
75
     Idem. Don Bosco..., p. 89.


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o Espírito Santo aparecem pouco”. Sua mentalidade, seu berço levavam-no a estar com a
           gente simples, com o que lhe pareceria mais prático e melhor.

                         «Camponês na juventude, homem de negócio na idade madura, sempre piemontês, isto é
                         pouco inclinado às construções nebulosas e ineficazes, ele desconfiava das abstrações de
                         qualquer gênero e também dos trabalhos simplesmente teóricos».76

       Essa mentalidade que vinha do berço ele a transfere para o mundo religioso. Em sua vida,
       certas atitudes e comportamentos podem ser entendidos, explicados “com uma formação,
       com os sinais dos tempos, com os desejos dos seus ouvintes e leitores”. Com esta premissa
       podemos melhor compreendê-lo,



                         «que tenha vivido sob o olhar de um Deus juiz e pai, em companhia de um Jesus Cristo
                         histórico, afável e bondoso, de um Cristo eucarístico “presente no tabernáculo”, de uma
                         Virgem Imaculada e rainha, “terrível como um exército enfileirado em ordem de batalha”,
                         de legiões de anjos e de santos capazes de indicar o caminho da salvação e da perfeição aos
                         homens de “toda idade e condição”».77



       Tudo isto é explicável tendo em vista sua formação.



       Capítulo IV – Os instrumentos da perfeição

           •   A Palavra de Deus

           É o primeiro alimento da alma, assim como alimento material é o do corpo. Para dom
           Bosco a Palavra de Deus não era só a Bíblia. No Jovem Instruído ele a define como sendo
           também as pregações, a explicação do Evangelho e o Catecismo. Deve ser ouvida, pois
           bem escutada gera a fé e explicada pelos ministros sagrados: fides ex auditu, auditus
           autem per verbum Christi.;

           •   A leitura espiritual

           O estudo da Palavra deve se unir à leitura espiritual. Aconselhava que se fizesse durante o
           dia, de manha ou à tarde. Indicava o Evangelho, a Filotea de São Francisco de Sales,
           Jesus Cristo de Santo Afonso M. de Ligório. Através do prefácio de sua Historia
           Sagrada percebe-se que Dom Bosco lia a Bíblia e a fazia ler.
76
     Idem. Don Bosco..., p. 95.
77
     Idem. Don BOSCO..., p. 95.


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•   A vida dos santos e “exemplos”

        Na Idade Média havia uma tradição muito seguida no Piemonte que ensinava que os
        ensinamentos morais devem não só ser ensinados, mas demonstrados através dos
        exemplos. Dom Bosco falando de exemplos seguia aquela máxima, pois creditava na
        força do testemunho.

        A espiritualidade reformada ou jansenista trouxe nova semântica negativa para o termo
        usado na literatura religiosa. Em uma marca página de seu breviário Céria encontrou
        escrita a velha máxima de São Máximo de Turim: “Os exemplos são mais eficazes do
        que as palavras e se ensina melhor com as obras do que com os discursos”.78



        •   Capítulo V – Perfeição cristã e complemento humano



        •   As razões morais e sociais da cultura intelectual

        Certa feita dom Bosco comunicara a Dom Barberis que “o verdadeiro fim da educação
        intelectual é acostumar o aluno a perceber, a refletir, a julgar e a raciocinar
        corretamente”.79 No entanto, “em geral se tem a impressão que a obra literária de nosso
        santo não dê muita atenção a estes excelentes motivos para cultivar o espírito”.80 O estudo
        era dever do próprio estado e produzia efeitos purificadores e energéticos da alma:
        combatia o ócio e desenvolvia a vontade. Havia também além de motivos morais, os
        motivos sociais: o mundo precisa de uma certa cultura social, de pessoas instruídas, de
        estudiosos.81 A Igreja e sua Congregação tinham que possuir mestres de renomada
        cultura. Contrariamente ao pensamento de certos eclesiásticos de Turim, os salesianos
        deveriam ser laureados nas Universidades oficiais de Turim. Isso não para mérito ou
        aproveitamento pessoal, mas para o bem da obra salesiana.82 Estivessem em qualquer
        idade seus estudantes ouviam-no sempre dizer: “depois da piedade o que mais vos
        recomendamos é o amor aos estudos”.

        •   A grandeza moral

78
   E. CERIA. M. Biografiche..., t. XVIII, doc, 93, p. 806-808.
79
   P. RICALDONE, Don Bosco educatore, t.II, Colle Don Bosco, 1952, p.107.
80
   F. DESRAMAUT, Don Bosco e la vita..., p. 132.
81
   Lembro que no auge da Teologia da Libertação, ou T. da Libertinação, alguns afirmavam que íamos trabalhar com
o povo, por isso não precisávamos estudar tanto...não conheciam ou não aceitavam o pensamento de Dom Bosco,
bem o contrário.
82
   Cf E. CERIA, Memorie Biografiche, t. XI, p. 292.



                                                      41
Para ele o desenvolvimento das virtudes morais andava paralelo ao progresso na
         santidade. Por isso insistia muito com seus alunos no desenvolvimento delas. Além da
         caridade e outras virtudes, como a castidade, Dom Bosco sublinhava a energia, a audácia,
         a prudência, a bondade sorridente. Seus discípulos como Domingos Sávio assimilaram
         heroicamente os seus conselhos.

         •   A audácia e a prudência

         Não fosse a audácia extraordinária favorecida por Deus e correspondida por Dom Bosco
         e ele não teria sido o apóstolo dos jovens abandonados, o editor católico, o construtor de
         Igrejas e fundador de Instituições religiosas.

                        «Com a energia no trabalho, as virtudes conjugadas da fortaleza e da prudência cristã lhe
                        permitiram viver sua santidade em uma época de evolução, de interesses contrastantes e
                        inumeráveis pressões Ele encontrava o modo de se afirmar e com toda caridade de ser o
                        oposto de um imitador submisso.83»



C. Pera observou que o dom da sabedoria era a característica de sua santidade.84



         •   A bondade e a doçura

         Quem o conheceu que se trata de um homem que jamais gritou se alterou com ninguém.
         Sorridente, simples, de uma bondade especialmente afável. Conservava habitualmente a
         vontade de fazer o próximo feliz, fazendo o possível para que não se entristecesse. De
         índole naturalmente boa não aceitava os métodos rígidos, militarescos, repressivos.
         Agradava-lhe a prática da bondade visível, a mansidão no agir, valorizava as qualidades
         alheias, ao mesmo tempo silenciando sobre os defeitos das pessoas. Procurava
         sistematicamente o bem humano e sobrenatural.

         Em uma carta a Dom Cagliero lemos: «caridade, paciência, doçura, jamais admoestações,
         correções humilhantes, jamais castigos, fazer o bem a quem se pode e o mal a
         ninguém».85 Aconselhava ao Pe. Bonetti: “Faze de tal modo que todos aqueles a quem
         fales, tornem-se teus amigos”.86 A convivência com Luiz Comolo e Pe. Cafasso muito
         influenciaram o comportamento bondoso de João Bosco. As fontes primárias no entanto
83
   F. DESRAMAUT, Don Bosco..., p. 138.
84
   C. Pera, o.p, I doni delle Spirito Santo nell´anima del beato Giovanni Bosco, Torino, 1930, pp. 291-309, apud F.
Desramaut.
85
   G. Bosco – G. Cagliero, 6 de agosto de 1885, in Epistolario, t. IV. 328, apud Desramaut.
86
   G. Bosco – Bonetti, 30 dicembre 1874, in Epistolario, t. II, p. 434. apud Desramaut.


                                                         42
são o Cristo do Evangelho, seu Apóstolo Paulo e o missionário do Chablay, o Sales. Aos
        Coríntios, o Cavaleiro de Damasco escreve “a caridade é benigna e paciente;sofre tudo,
        mas espera tudo e suporta qualquer dificuldade”87

        •   A alegria e a paz

        Dom Bosco via na alegria e na paz os frutos da caridade. Sensível e fino observador
        gostava de aproveitar as situações humorísticas para fazer suas piadas que incluíam
        Cônegos,88 companheiros do Convitto,89 domésticas. Pe. Caviglia diz que ele “era um
        santo de bom humor”. Chamava trabalhadores humildes de cavaleiros, marqueses, poetas,
        brincava com um padre que não gostava de ser baixinho e ria de um Ministro que lhe
        tinha oferecido uma quantia irrisória para suas missões. A respeito dizia em seu dialeto
        piemontês: «L`è mei ch`un pugn ant`jeui (isso é melhor do que um murro em um olho)».

        Havia compreendido e vivia a frase bíblica: compreendi que não há outra felicidade para
        eles do eu gozar e fazer a vida alegre.90 Note-se que Dom Bosco atribuía a esta frase um
        sentido moral, diferente do contesto do livro bíblico, natural, mundano, diríamos.

        No Oratório em 1841, uma das finalidades era justamente conservar alegres os jovens de
        Turim. Procurava-se viver o que tinha sido dito três séculos antes por São Felipe Néri
        «Filhinhos, estais alegres: não quero escrúpulos nem malinconias, tristezas, basta-me que
        não façais pecados».

        •   Um humanismo aberto.

        Humanismo é a doutrina que pretende fazer o homem feliz, aproveitando-se de suas
        potencialidades, riquezas humanas. Neste sentido a espiritualidade de Dom Bosco é
        também uma forma de humanismo. As preocupações de Dom Bosco eram fazer com que
        o homem construísse sua felicidade com sua natureza, suas possibilidades físicas e
        morais e neste mundo onde ele viverá até o ultimo de seus dias. Não se esquecia porém
        que nesta caminhada não se pode prescindir de Deus. Deve-se cultivar um constante
        relacionamento com Ele, participando de sua graça.

                       «Vemos que aqueles que vivem na graça de Deus estão sempre alegres e mesmo nas
                       aflições conservam um coração alegre. Ao contrário aqueles que se entrega aos prazeres
                       vivem enraivecidos e procuram encontrar a paz em seus passatempos, mas são sempre mais
                       infelizes: non est pax impiis (o ímpio não tem paz)».91
87
   Cf. 1 Cor. 13, 4-7.
88
   Cf. Memórias do Oratório..., p. 72,73 e
89
   Cf. G. B. LEMOYNE, Memorie biografiche, t. II, pp. 99-102.
90
   Eclo. 3, 12.
91
   F. DESRAMAUT, Don Bosco..., p. 149.


                                                       43
Podemos descobrir um certo exagero pedagógico na afirmação acima, uma oposição
            sumaria entre a alegria do justo, do cumpridor da norma cristã e o tormento do ímpio.
            Pensemos porém, que para Dom Bosco a função da “religião” é, através do contato com
            Deus, criar na criatura a “verdadeira alegria” dos seus filhos. E é o que ele fez no
            Oratório e procurou ensinar em toda sua vida.

            Acreditava que somente a prática constante da religião poderia fazer alguém feliz no
            tempo e na eternidade.



            Capítulo VI – A ascese indispensável

            •   Os motivos da ascese

Em Dom Bosco não vamos encontrar a prática de penitencias extraordinárias e martirizantes
(severos jejuns, cilícios, disciplinas), embora as respeitasse e até por vezes fosse de acordo com
elas, como uma forma de ascese. Sua vida não nos apresenta muitas justificações humanas às
suas austeridades. São Paulo nos fala de coroas transitórias, a do atleta que se impões severas
disciplinas para conseguir uma vitória passageira.92 Nosso santo não parece preocupar-se com os
benefícios naturais dos exercícios ascéticos. Podemos encontrar em seus escritos, influência
antropológica platônica, raras frases como “o corpo é o opressor da alma”, ou quando o compara
com um cavalo selvagem que precisa ser domado. São espécies de exceções em sua práxis
ascética.

Sua ascese era motivada mais freqüentemente pela necessidade de se prevenir ou expiar o
pecado, de se conduzir a pessoa à contemplação e, sobretudo reproduzir na vida o Cristo
crucificado.

            •   A fuga do «mundo»

Dom Bosco freqüentemente surpreendia seus ouvintes ou leitores. Por exemplo, quando
recomendava a fuga do «mundo», realidade na qual ele vivia. A “fuga do ócio” era para ele o
aspecto negativo do amor ao “trabalho”. Às vezes significava também a ruptura com “mundo”.
Nesta particular falava das companhias perigosas para a fé e os costumes, de fugas das ocasiões
perigosas, das amizades particulares, dos livros maus. Suas Leituras Católicas eram fortes
baluartes contra esses erros. AQ frase em que ele resumia todos esses conselhos era “fugir do
mundo e de suas máximas”, mundo atraente, mas pecaminoso, enganador. Deixa o mundo que te
engana, dizia ao Pastorzinho dos Alpes.


92
     1 Cor, 9, 25.


                                                   44
•    O pobre segundo Dom Bosco

Qualquer um de nós, leigo, religioso, ou sacerdote deve viver de modo que faça diferença, o
cristão deve praticar uma austeridade o mais possível evidente. Seus jovens não possuíam muita
coisa ou quase nada, no entanto Bosco pregava também a eles o desapego das coisas materiais.
Falava-lhes inclusive do modo como deviam vestir-se, como se desejassem aparecer diante dos
outros. Em nossas Constituições mais antigas estava escrito: A observância do voto de pobreza
na nossa Congregação consta essencialmente no destaque de todo bem terreno.

Os bens são para os pobres como para os ricos, que devem ficar somente com o necessário. O
supérfluo deve ser distribuído a quem precisa. Certa feita um “respeitável cooperador” de
Marselha fazia uma “cortes observação” sobre o que seria o supérfluo. O Boletim Salesiano
francês em julho de 1882 publicava o seguinte como resposta ao cooperador:



                             «Dizei-me: que entendeis por supérfluo? Escutai, meus respeitáveis cooperadores. Todo o
                             bem temporal, todas as riquezas vos foram dadas por Deus. Mas, dando-as, Ele nos dá a
                             liberdade de escolher tudo o que é necessário para nós. Nada mais. Deus, que é nosso
                             patrão, de nossas propriedades e de todo o nosso dinheiro, Deus pede conta severa de
                             todas as coisas que não nos são necessárias, se nós não lhes damos,segundo o seu
                             mandamento (...). Direis: é uma obrigação dar todo o supérfluo em boas obras? Não
                             quero dar-vos uma outra resposta além aquela que o nosso Divino Salvador nos manda
                             dar: daí o supérfluo. Não quis fixar limites e eu não tenho a audácia de trocar sua
                             doutrina.»93



           •    A ascese sexual

“Deixemos de lado a teologia, a moral a mística e a ascética. Tudo se reduz a isto: conservar-se
santo e puro diante de Deus”.94 Dom Bosco fazia de tudo, usava de todos os meios, para que seus
jovens conservassem ou readquirissem a pureza. Suas armas “positivas” eram a oração, a
devoção a Maria, a vida sacramental, enquanto considerava “meios negativos” os exercícios de

ascese da vida sexual.

A separação entre os sexos era fundamental na conservação da castidade. Nos colégios os SDB e
FMA viviam esta práxis no isolamento entre meninos e meninas. Os colégios masculinos eram
como a casa de Mamãe Margarida, onde só havia meninos. Não só nos seminários, mas também
93
     F. DESRAMAUT. Don Bosco e la ... p. 168.
94
     Cf. A. CAVIGLIA. Conferenze sullo spirito salesiano. Torino, 1949, p. 55.


                                                          45
nos internatos para alunos ou alunas que não pensavam em ser padres ou freiras. Nas missões
havia de um lado os estabelecimentos para os índios, do outro as instalações para as índias.
Havia ainda as divisões rígidas entre maiores, médios e menores. Esta divisão foi por alguns
comentaristas classificada de “selvagem”, talvez sem terem uma visão global da situação. Lia-se
em um dos marcadores de páginas de seu breviário: “Os teus passos (estejam) longe dela (da
mulher), não te aproximes da porta de sua casa”. A fuga era praticamente o que cada um devia
praticar. Santo Agostinho usava o seguinte principio: foge, se queres ser vitorioso95 Os outros
vícios devem ser enfrentados, se os quisermos combater, este, só os poltrões podem vencê-los,
ensinava São Felipe. Luiz Gonzaga e Comollo eram os espelhos que Dom Bosco oferecia aos
seus jovens. Domingos Sávio que fugia do vai e vem das ruas de Turim fez-se santo seguindo as
orientações do mestre.

         •   Uma submissão humilde e alegre

Os sacrifícios quotidianos que Dom Bosco bem conhecia desde sua origem humilde e
necessitada ele praticava e recomendava a todos. Aos seus jovens e salesianos que provinham
também de classes simples e não abastadas não oferecia comodidades, vidas tranqüilas,
guloseimas reais. Mas viviam satisfeitos ao lado do pai espiritual que lhes dava pão e a promessa
de um pedaço de paraíso no céu.

Uma obediência, pronta, humilde e alegre era a garantia de um grande valor ascético. No
Regulamento para as Casas oferecia uma receita tantas vezes repetidas:



«a vossa obediência seja pronta, respeitosa e alegre... não fazendo observações para vos eximir do que se manda.
Obedecei, embora o que se manda não seja de vosso agrado».96



Comollo e Cafasso eram freqüentemente citados como paradigmas de obediência submissa e
alegre. O primeiro suspendia o trabalho ao ouvir o primeiro toque da campainha do Seminário. A
esta atitude de prontidão os discípulos de Dom Bosco uniam a humildade, a submissão do súdito
ao superior. Isso os levava a não criticar as normas, as determinações e até a prevenir, a
adivinhar afetuosamente o que Dom Bosco desejava. A obediência alegre97 é garantia das
benesses divinas, pois como ensinava o São F. de Sales ela vem diretamente de Deus.

         •   Ascese e felicidade
95
   Apprehende fugam si vis referre victoriam.
96
   Regolamento per le case..., Torino, 1877, parte seconda c, 8 art, 6, p. 76, apud Desramaut, Don Bosco et la vita...,
p. 179, nota 120.
97
   Hilarem datorem diligit Deus (Deus ama o que dá com alegria).


                                                          46
A paz, segundo nosso fundador, habita o coração de quem pratica uma ascese de renúncia e
aceitação. Deus recompensará largamente este penitente.

Sabemos como Dom Bosco vivia sorridente uma vida de sacrifícios, muito difícil desde sua
meninice. Sua vida apostólica, as enfermidades trouxeram-lhe muitas provas. Tudo indica que
uma de suas cruzes profundamente martirizantes ele a contraiu, supõe-se em 1845, no hospital do
Cotolengo, durante uma epidemia. Essa enfermidade, uma espécie de herpes, foi conhecida
somente no momento após sua morte, quando do revestimento de sua Salma. Céria escreveu que
ele não teria suportado cilício mais horrível. Ele porem, continuou sua vida sempre alegre e
sorridente. Sabia que precisa sofrer com Cristo para ser com Ele glorificado.



        Capítulo VII – O serviço da maior glória de Deus



        •   O serviço do Senhor

Àqueles que escutavam suas pregações no mês de Maio ele repetia: Fui criado por Deus, a fim
de que, eu O conheça, O ame, O sirva nesta vida e com este meio vá um dia gozá-Lo no Paraíso.
Dos três verbos conhecer, amar e servir, o mais querido por para ele era SERVIR. O serviço era
uma caridade, uma entrega ao outro, uma de suas maneiras e amar a Deus. E não foi este o
programa de Cristo! Ele amou a Deus servindo-O e não nos criou para conhecê-Lo, amá-Lo e
SERVI-LO? Tudo seja feito para o Senhor, para sua maior gloria, depois repousaremos no
Paraíso. Sirvamos pois, ao Senhor com santa alegria como fez Davi e todos os santos.

        •   O único absoluto

Dom Bosco via em Deus e sua glória o único absoluto. Tudo o mais era relativo: dever, trabalho,
serviço, a própria salvação eram valores relativos. Tudo seja feito para o Senhor, para sua maior
gloria, depois repousaremos no Paraíso são afirmações unânimes das testemunha da
canonização.

Ao escrever a Historia Eclesiástica em, 1845, afirmava que seu único escopo era unicamente a
maior gloria de Deus e a vantagem espiritual principalmente da juventude. Possivelmente no
ano seguinte vem a lume o Sistema Métrico Decimal, onde novamente se Le:




                                               47
«se meus débeis esforços não puderem apagar tudo, serão pelo menos dignos de (uma)
                           benigna piedade. Experimente-se tudo e se retenha o que parecer melhor sempre para a
                           maior gloria daquele Deus que é o Doador de todas as coisas.»98



         •   As virtudes do leigo cristão

O leigo pela profissão cristã torna-se um combatente. Certas posições de Dom Bosco neste
aspecto são vivamente atuais. O “respeito humano” é um grande inimigo da fé: impede os fracos
de rezar em publico, freqüentar os sacramentos, defender a verdade”. Vejamos o que escreveu
em 1856, ao escrever uma vida de São Pedro:



                           «se os cristãos dos nossos dias tivessem a coragem dos fieis dos primeiros tempos e,
                           superando todo respeito humano professassem intrépidos a sua fé, certamente não se
                           veria tanto desprezo de nossa santa a religião; e talvez tantos que procuram chacotear
                           tanto a religião como os ministros sagrados seriam tanto pela justiça quando pela
                           inocência levados a venerarem a mesma religião juntamente com seus ministros
                           sagrados.»99



Além da luta corajosa pela fé Dom Bosco encorajava os discípulos de Cristo a praticarem outra
virtude, cuja necessidade é também hoje muito de se desejar, pois o mesmo conselho cai muito
bem em nossos dias. Havia certa idéia da Providência feita para favorecer a preguiça. Dom
Bosco não tolerava este ponto de vista.



                           «Naturalmente, não reclamava sistematicamente a promoção social das classes
                           necessitadas, e acontecia mesmo, muito raramente, de pregar aos menos afortunados o
                           simples conformar-se».100



Em Allegro, simpático personagem da Casa da Sorte, encontram-se as seguintes frases de Dom
Bosco:



98
   F. DESRAMAUT. Don Bosco e la..., p. 183.
99
   G. BOSCO. Vita di S. Pietro ..., Torino, 1856, c. 14, 80-81, apud F. Desramaut, p, 206, n. 124.
100
    Idem, op. cit, p, 2206-207.


                                                         48
«Não, não, o dinheiro e a riqueza não acalmam o coração do homem, mas o bom uso
                         delas Cada um, portanto se contente com seu estado, sem pretender mais do que lhe é
                         necessário. Um pedaço de pão, uma fatia de polenta, um pratinho de sopa me bastam.»101



Pode-se perguntar como o retrato do leigo, pintado por Dom Bosco, tão fortemente carregado
com as tintas da mentalidade laborista, operária do século XIX, comportasse e em que medida, o
espírito de serviço. Sabe-se que na época a mentalidade dominante era indiscutivelmente o
individualismo, o que realmente não batia com o entendimento do santo.

Ele concebia o leigo como um apóstolo através do exemplo e da ação. Como cristãos eles
difundiam a verdade evangélica, trabalhavam na procura e no sustento das vacações sacerdotais,
preocupavam-se pela educação dos jovens, pensando no futuro da sociedade e da Igreja.

Não vamos considerá-lo o pioneiro da espiritualidade e do apostolado dos leigos que vai ter um
grande impulso algumas décadas mais tarde. Não se pode, no entanto esquecer que ele se
preocupou nos cristãos adultos, no seu modo de ser e atuar dentro da Igreja e na santificação dos
mesmos no apostolado direto. Dom Bosco não se interessou apenas pelos jovens, foi um dos
apóstolos do século XIX que se colocou entre aqueles que prepararam os cristãos para as
intempéries e lutas do século XX.

        •   O padre

Como todo homem de Deus, Dom Bosco colocava no centro de sua existência o serviço do
Senhor. O padre é o grande e constante defensor “do interesse de Deus”, sem esperar
recompensa. Certa feita uma Marquesa lhe agradecia o fato de ele ter introduzido em suas
instituições «o canto dos Cânticos, o gregoriano, a musica, a aritmética e até o sistema métrico».
Ele então respondeu: «não precisa agradecimentos. Os padres devem trabalhar pelo próprio
dever. Deus pagará tudo e não se fale mais disto».102

Uma das testemunhas do processo de canonização afirmava que Dom Bosco dizia: «Um padre é
sempre padre..., Ser padre significa ter continuamente presente o grande interesse de Deus, isto é,
a salvação das almas».103




101
    F. DESRAMAUT. Don Bosco e la..., p, 207, n, 125.
102
    MO, p, 161.
103
    G. B. LEMOYNE. Processo diocesano di canonizzazione ad 13; in Positio super introductione causae,
Summarium, p. 122, apud F. Desramaut, p. 215, n. 153.


                                                      49
Assim se expressava um colega, pároco da cidade de Forlì: « é preciso trabalhar ? Morro no
campo de trabalho sicut bonus miles Christi».104 Alguém o chamou de “turíbulo da divindade”.105



        Conclusão



        •    Características do pensamento espiritual de Dom Bosco



Já vimos que Dom Bosco era um otimista. Em uma de suas frases escritas em um marca páginas
está escruto: «Compreendi que não há outra felicidade para eles senão gosar e tornar a vida
alegre».106 Admirava o homem e confiava em suas capacidades. É o que se vê em São F. de Sales
ao contrário do agostinianismo, cujos traços não se observa em seu pensamento maduro. Mas,
não se pense que Dom Bosco visse a pessoa humana como angelical, sua concepção do homem
não era simplesmente um humanismo. Para ele devemos sempre estar atentos ao fomes peccati
(fome, inclinação ao pecado), até porque um homem sem religião é um eterno infeliz.

Um observador superficial pode ver nele um asceta medíocre, muito pelo contrario era muito
exigente temos visto em nossas reflexões. “Trabalho e temperança” era o mote seu e de seus
discípulos e isso obrigava a uma continua vigilância sobre si mesmo.

Não era seu forte, mesmo porque não aprovava penitencias rígidas exteriores ou macerações
exorbitantes. Preferia as mortificações espirituais que subjugam a vontade ou ainda as
mortificações que se aceitam como submissão a Deus e, portanto voluntárias. Sua ascese era
escondida, modelada no Cristo crucificado. Insistia muito na Penitência e na Eucaristia.

A ação era a escada que escolheu para santificar a si e aos seus discípulos. Uma espiritualidade
dinâmica sem renunciar a um estado de contemplação habitual alimentado pelo “espírito de
oração”. Dizei-me quando dom Bosco rezava”, mas ele estava sempre em oração, dizei-me
quando não rezava.

Dom Bosco queria que o homem se penitenciasse em segredo, se santificasse com a prática
sacramental e a caridade a ativa sustentada pela oração constante.

        •    O inserção de Dom Bosco em uma tradição espiritual


104
    25 de Outubro de 1878, in Epistolario, tomo III, p. 399, apud F. Desramaut, p. 214, n. 155.
105
    Foglietto di risoluzioni prese da Don Bosco dopo gli esercizi spirituali del 1847, secondo E. CERIA, Don Bosco
com Dio, Ed. Cit., p. 93, apud F. Desramaut, p. 214, n. 156.
106
    Eclesiastes 3,2.


                                                        50
O fundador dos Salesianos foi possivelmente de todos os santos o mais admirador de São Felipe
Neri e São F. de Sales. Esta sua característica já permite definir seu pensamento espiritual. Claro
que este santo do século XIX teve suas características especificas originais. Ele não foi um
espelho um clone de outros santos e sua preocupação não foi reformar o Cristianismo ou
modificar os princípios gerais da perfeição, até porque não poderia abandonar a lógica de seu
anti-jansenismo ou anti- protestantismo. A tradição espiritual que ele recebeu e continuou em sua
vida foi mais ou menos aquela de Santo Afonso Maria de Ligório condimentada com a de outros
autores espirituais dos anos 1850 a 1860.



        •    Dom Bosco, homem espiritual do século XIX



Um historiador da espiritualidade contemporânea escreveu que «a postura de Dom Bosco...
resume todas as correntes espirituais do tempo».107 Ele no entanto, foi um homem
espiritualmente original, após o Vaticano I e a Rerum Novarum.

Era um santo sintonizado com o seu tempo. Nela se encontravam a piedade pelo homem e pelo
jovem, prezava os valores humanos era apaixonado pela educação, amigo dos pobres e deseja
que houvesse justiça para com aqueles, tanto nos países desenvolvidos como nos
subdesenvolvidos, que eram carentes de meios materiais.

Dois pontos são bem definidos em sua espiritualidade, o amor ao Papa, sobretudo na segunda
parte de sua vida e o trabalho como meio de santificação. O trabalho, realidade irrefutável do
primeiro século industrial, Dom Bosco o encarnava voluntariamente no mundo em que vivia.

A este ponto, perguntamos então, qual seria finalmente a originalidade de seu pensamento em se
tratando de vida espiritual?

Ao se estudar a trajetória terrena deste servo de Deus não se pode deixa de reconhecer que ele foi
um personagem sui generis que viveu no século XIX, fazendo uma experiência espiritual
concreta, calcada nas tendências de sua pátria e seguindo a caminhada de alguns mestres. Esta
experiência realizada em meio a uma conjuntura histórica particular foi ao mesmo tempo
singular, única e pessoal, não só porque foi acompanhada por orientações da Providência (seus
“sonhos”, por exemplo, que sempre o influenciaram e conservaram na órbita divina e da Virgem
Auxiliadora) mas porque estas orientações providencias foram por ele assumidas, consideradas
como tais. Percebeu, ele mesmo o diz, a influencia de Deus em sua obra, acreditou nela e a

107
  F. WEYERGANS, Mystiques parmi nous (coll. Je sais, je crois), Paris, 1959, p. 89, apud F. Desramaut. p. 226, n.
22.


                                                       51
seguiu, tornando-se mais um santo, sem plagiar nenhum outro. Aprendeu a ser santo lutando e
dominando seu temperamento forte, mas generoso. Ele é São João Bosco, embora admirasse
tantos outros de elevada estatura espiritual como Felipe Neri, Antônio M. Zaccaria, Inácio de
Loiola, José Cafasso.



c) Saint Jean Bosco108

O Instituto Histórico Salesiano e a Faculdade de Ciências da Educação dos Salesianos
organizaram em Roma um Congresso Internacional por ocasião do centenário da morte de Dom
Bosco (1815-1888). O encontro, teve lugar entre os dias 16 e 20 de janeiro de 1989 na
Universidade Pontifícia Salesiana.

Sua finalidade era sobretudo: «interessar o mundo cientifico na figura e na obra de um homem,
até então muito mais celebrado pelos devotos de sua memória que analisado objetivamente pelos
historiadores do assunto». Outro desejo dos organizadores era apresentar uma espécie de balanço
dos cem anos de estudos sobre Dom Bosco e iniciar, se possível, uma nova fase de estudos mais
críticos em termos dos métodos e mais aprofundados em se referindo ao aprofundamento.

Diversos especialistas foram convocados, italianos ou não e encarregados de prepararem um
balanço de cem anos de estudos sobre Dom Bosco. Os trabalhos tiveram a seguinte organização:

       •   Pietro Stella se encarregaria da evolução, das produções hagiográficas dos primeiros
           tempos, às interpretações recentes.

       •   Francis Desramaut procuraria mostrar como trabalharam os autores das Memórias
           Biograficas.

       •   Francisco Motto falaria sobre o projeto da edição crítica do Epistolário de Dom Bosco.

       •   Rafael Farina se encarregaria da organização do Arquivo Central Salesiano.

Nos demais dias trataram-se temas como: relação entre Dom Bosco e a sociedade civil, entre
Dom Bosco e a comunidade eclesiástica, a experiência educativa de Dom Bosco, inclusive a
popular, esta abordada no ultimo dia do evento.

Desramaut apresenta neste seu trabalho Saint Jean Bosco contribuições na língua francesa, de
interesse do publico francofono, já que as comunicações lidas durante o Congresso foram
editadas nas línguas de seus autores: italiano, inglês e espanhol. Este trabalho será muito útil,



108
      Editado e apresentado por Francis DESRAMAUT. LAS-ROMA, 1990.


                                                   52
«já que até agora o público de língua francesa, muito freqüentemente só conhece João
                         Bosco, através de biografias piedosas e divertidas, que com certeza, não lhes faltarão
                         jamais».109



Em São João Bosco Desramaut apresenta três capítulos realmente interessantes para os
estudiosos do santo. O primeiro é um balanço dos estudos sobre Dom Bosco. O segundo mostra
Dom Bosco na sociedade de seu tempo e o terceiro apresenta Dom Bosco e a educação. Capítulo
está seguido pelos diversos autores que neles trabalharam.

Elenco alguns dos sub títulos da obra.



                       I Don Bosco na historiografia



                            Balanço dos estudos sobre Dom Bosco (Pe. Stella)



       1. A reflexão salesiana sobre o sistema de educação de Dom Bosco até à Segunda Guerra
       mundial.

       2. Da pesquisa filológica e literária à re-interpretação global.

       3. Contribuição de estudos e formas recentes e conhecimentos no mundo não salesiano.

                                         Como trabalharam os autores das Memórias Biográficas (F.
                                                              Desramaut).



       1. Os três autores das Memórias (João Batista Lemoyne (1839-1916), Ângelo Amadei
          (1868-1945), após a morte de Lemoyne) e Eugenio Ceria, mandado vir de Roma durante
          o verão de 1926, ano da beatificação de Dom Bosco).

       2. Predominância de Dom Lemoyne sobre o conjunto da obra.

       3. A explicação carismática de Dom Bosco por Dom Lemoyne.



                                II : Dom Bosco na sociedade de seu tempo

109
      F. DESRAMAUT, Saint Jean... p.9.


                                                         53
•   Dom Bosco e a Igreja no mundo de seu tempo. É. Poulat.

                •   O conflito entre Dom Bosco e o Arcebispo de Turim Lourenço Gastaldi
                    ( 1871-1883). G. Tuninetti.

                •   O Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora e seu relacionamento com Dom
                    Bosco. M. E. Posada.

       1. A nova orientação espiritual (1860-1870)

       2. Uma verdadeira escolha histórica: o «momento» da fundação (1871-1872)

       3. Uma consciência progressiva de pertença jurídica (1872-1876)

       4. Observações conclusivas.

No final de suas reflexões Pe. Desramaut diz que foi exemplar o relacionamento entre as
primeiras Filhas de Maria Auxiliadora e Dom Bosco. Apos os momentos difíceis da separação
jurídica sancionada pelas Constituições de 1906, o Instituto sem abdicar de sua autonomia
jurídica, não deixou de conservar o espírito original, através do liame espiritual com o Reitor
Mor dos Salesianos.110

Outros itens deste capítulo podem ser vistos em Saint Jean Bosco, à pagina 190 (Tables de
matières).



                                          III. Dom Bosco e a educação



       •    A pedagogia de São João Bosco, em seu século. G. Avanzini

       •    A escolha dos jovens e a proposta (proposition) educativa de Dom Bosco. L. Pazzaglia.



                                                  IV : Conclusões

Perspectivas de pesquisas sobre Dom Bosco. P. Braido111

       1. A utilização criticamente controlada da literatura existente

       2. Estabelecer (disposer) uma documentação de valor cientifico bem estabelecida

       3. Um problema capital: uma história de Dom Bosco.

110
      Desramaut apresenta outras reflexões em Saint Jean Bosco, p. 95,96.
111
      Pedro Braido foi diretor do Instituto Histórico Salesiano de Roma.


                                                          54
Eis o que escreveu Pe. Braido a respeito do problema de uma outra historia de Dom Bosco.



                        «O trabalho empreendido sobre as fontes e os outros documentos não atenua a necessidade
                        de uma nova síntese biográfica de conjunto sobre Dom Bosco. Uma história que apresente
                        com rigor sua vida e suas obras, suas idéias e seus projetos, sua significação e sua
                        influência, no curso do século XIX e posteriormente. As monografias variadas são
                        certamente importantes, quer sejam de ordem biográficas, hagiográficas, pedagógicas,
                        espirituais, psicológicas, sociológicas teológicas etc».112



      4. Exemplos de temas para pesquisas.

No final do Congresso observou-se certos pontos julgados «críticos» de notável importância
notável, que merecem a atenção particular das pessoas de estudo e dos pesquisadores. Certos
problemas surgidos condicionam no conjunto a compreensão da personalidade de nosso
fundador, a avaliação daquilo que ele mesmo chamava de seus começos (“debuts”), quer se
tratasse de sua vida, estudos ou do Oratório.

Alguns dos temas elencados pelos congressista:113

      •   Relacionamento de Dom Bosco com a Igreja local ou universal;

      •   A consciência que formou sobre sua «missão» ao serviço da juventude;

      •   A consciência de suas responsabilidades como «fundador»;

      •   O papel externamente com relação aos leigos na Igreja e internamente com relação «ao
          movimento salesiano» (colaboradores, benfeitores, cooperadores, ex-alunos, os inúmeros
          simpatizantes ou não simpatizantes);

      •   Relacionamento com a sociedade civil e «outras culturas»;

      •   Dom Bosco e a cultura popular;

      •   Dom Bosco escritor e editor popular;

      •   Dom Bosco e o problema dos emigrantes e das missões;

      •   Estrutura e «fundação» da Congregação «problema das “origens”». O problema aqui é
          apontar

112
   F. DESRAMAUT, Saint Jean...p. 182.
113
   Os motivos, interessantes por sinal, pelos quais os temas são sugeridos podem ser vistos em Saint Jean Bosco,
p.184 e ss.


                                                          55
«a contribuição real de Dom Bosco na constituição da Congregação, na realidade religiosa e
                           educativa de acordo com sua visão característica e de seu espírito. Conseqüentemente seu
                           papel na organização do curriculum de formação inicial e permanente, de seus membros
                           eclesiásticos e leigos em sua tripla dimensão de educadores, de religiosos e de homens
                           profissionalmente competentes».114



       •    “Dom Bosco fundou o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora”. Aprofundar a realidade
            histórica concreta e não apenas no plano jurídico e formal da “relatio cofundatorum”
            (relação dos co-fundadores).

       •    Dom Bosco sonhador e taumaturgo.

       Sobre o tema ha uma literatura acrítica de vulgarização. Pietro Stella tem trazido novas e
       interessantes contribuições,115 que por sinal incomodaram alguns tradicionalistas que não
       aceitaram as novas reflexões do estudioso demitizando alguns fatos considerados
       indiscutíveis na vida de Dom Bosco.

       Outra contribuição neste sentido é da Irmã Cecília Romero no livro O sogni di Dom Bosco.
       Trata-se de uma edição critica sobre dez sonhos importantes de Dom Bosco, dos quais há
       ainda alguns manuscritos autográficos.

       No entanto ainda não dispomos de uma edição critica das fontes, de um estudo aprofundado
       da totalidade dos sonhos que tantas vezes deixaram Dom Bosco sem dormir. Será um
       trabalho árduo, ainda desafiando os estudiosos e pesquisadores.




                                                              ANEXO - I




114
      F. DESRAMAUT, Saint Jean ..., p. 186.
115
      P. STELLA, Don Bosco nella storia della religiosità cattolica, II, p. 507-569.


                                                            56
Carta de Dom Bosco sobre o Oratório (Carta de
                            Roma)




Perto ou longe, eu penso sempre em vós. Meu único desejo é ver-vos felizes no tempo e na
eternidade. Esse pensamento e esse desejo é que me levaram a escrever-vos esta carta. Sinto,
meus caros, o peso do afastamento, e o fato de não vos ver nem ouvir me aflige como não podeis
imaginar. Desejaria por isso escrever-vos estas linhas há uma semana, mas as contínuas
ocupações me impediram. Todavia, embora faltem poucos dias para minha volta, quero antecipar
minha chegada ao menos por carta, já que não posso fazê-lo pessoalmente. São palavras de quem
vos ama carinhosamente em Jesus Cristo e tem obrigação de falar-vos com a liberdade de um
pai. Haveis de permiti-lo, não é verdade? E me prestareis atenção e poreis em prática o que vou
dizer-vos.

Afirmei que sois o único e contínuo pensamento de minha mente. Ora, numa das noites passadas,
havia-me recolhido ao quarto, e, enquanto me dispunha a repousar, tinha começado a rezar as
orações que minha boa mãe me ensinou. Nesse momento, não sei bem se dominado pelo sono ou
fora de mim por uma distração, pareceu-me ver dois dos antigos jovens do Oratório virem ao
meu encontro.Um deles aproximou-se e saudando-me afetuosamente me disse:

— Dom Bosco, não me conhece?

— Se te conheço, respondi.

— E lembra-se ainda de mim? — acrescentou o homem.

— De ti e de todos os outros. És Valfrè e estavas no Oratório antes de 1870.

— Diga — continuou Valfrè —, quer ver os jovens que estavam no Oratório no meu tempo?


                                               57
— Sim, mostra-me — respondi —, isso vai dar-me grande prazer.

Então Valfrè mostrou-me todos os jovens com o mesmo semblante, estatura e idade daquele
tempo. Parecia-me estar no antigo Oratório na hora do recreio. Era uma cena cheia de vida,
movimento, alegria. Quem corria, quem pulava, quem fazia pular. Aqui brincava-se de rã, de
barra, ou com bola. Num lugar uma roda de jovens pendia dos lábios de um padre, que lhes
contava uma história. Noutro, um clérigo no meio de outros meninos brincava de burro voa e de
jerônimo. Cantava-se, ria-se por todos os cantos e em toda parte encontravam-se padres e
clérigos, e ao redor deles jovens brincando e gritando alegremente. Via-se que entre jovens e
superiores reinava a maior cordialidade e confiança. Eu estava encantado com o espetáculo.
Valfrè me disse então:

— Veja, a familiaridade gera o afeto e o afeto produz confiança. Isto é que abre os corações, e os
jovens manifestam tudo sem temor aos mestres, assistentes e superiores, Tornam-se sinceros na
confissão e fora da confissão e se prestam docilmente a tudo o que porventura lhes mandar
aquele de quem têm certeza de serem amados.

Nesse instante aproximou-se de mim o outro ex-aluno, de barba toda branca, e me disse:— Dom

 Bosco, quer conhecer e ver agora os jovens que atualmente estão no Oratório? (Era José
Buzzetti).

— Sim, respondi; porque há já um mês que não os vejo!E apontou-os para mim: vi o Oratório e
todos vós no recreio. Mas já não ouvia gritos de alegria e cantos, não via o movimento e a vida
da cena anterior.

Nos modos e nos rostos de muitos jovens lia-se enfado, cansaço, mau humor, desconfiança que
me fazia sofrer o coração. Vi, é verdade, muitos a correr, brincar, agitar-se, com feliz
despreocupação, mas muitos outros estavam sós, encostados às colunas, dominados por
pensamentos desalentadores; encontravam-se outros pelas escadas e nos corredores ou na sacada
perto do jardim para evitar o recreio comum; outros passeavam lentamente em grupos falando
em voz baixa, lançando ao derredor olhares desconfiados e maliciosos. Sorriam de vez em
quando, mas com um sorriso acompanhado de olhares que faziam suspeitar e até mesmo
acreditar que S. Luis haveria de corar se andasse em tal companhia; mesmo entre os que
brincavam alguns havia tão enfarados, que mostravam claramente não achar nenhum gosto nos
divertimentos.Viu seus jovens? — perguntou-me o ex-aluno. Vejo-os —, respondi suspirando.

— Como são diferentes do que éramos nós em nosso tempo! — exclamou o ex-aluno.— É Pena!
Quanta falta de vontade nesse recreio!— De aí é que vem a frieza de tantos meninos na
freqüência dos santos Sacramentos, o desleixo das práticas de piedade na igreja e fora; o estar de
má vontade num lugar onde a Divina Providência os cumula,de todo bem para o corpo, para a
alma, para a inteligência. De aí não corresponderem muitos à sua vocação; de aí a ingratidão para




                                               58
com os superiores; de aí os segredinhos e as murmurações, com todas as demais deploráveis
conseqüências.

— Compreendo, entendo — respondi —. Mas como reanimar estes meus caros jovens, para que
retomem a antiga vivacidade, alegria, expansão?— Com o amor!— Com o amor? Mas os meus
jovens não são bastante amados? Sabes quanto os amo. Sabes quanto por eles sofri e tolerei no
decorrer de bem quarenta anos, e quanto suporto e sofro mesmo agora. Quantas privações,
quantas humilhações, quantas oposições, quantas perseguições para dar-lhes pão, casa,
professores e especialmente para garantir-lhes a salvação da alma. Fiz tudo quanto soube e pude
por eles, que são o amor de toda a minha vida.— Não falo do senhor!

— De quem então? Dos que me fazem as vezes? Dos diretores, prefeitos, professores,
assistentes? Não vês como são mártires do estudo e do trabalho? Como consomem sua juventude
por aqueles que a Divina Providência lhes confiou?— Vejo, sei perfeitamente; mas isso não
basta. Falta o melhor.— Que é que falta, então?— Que os jovens não somente sejam amados,
mas que eles próprios saibam que são amados.— Mas, afinal, não têm olhos? Não têm a luz da
inteligência? Não vêem que tudo o que por eles se faz é por amor deles?— Não, repito, isso não
basta.
— Que é preciso, então?— Que sendo amados nas coisas que lhes agradam, com participar em
suas inclinações infantis, aprendam a ver o amor nas coisas que naturalmente pouco lhes
agradam, como a disciplina, o estudo, a mortificação de si mesmos; e aprendam a fazer essas
coisas com entusiasmo e amor. Explica-te melhor.

Observe os jovens no recreio.Observei e respondi: — E que há de especial para ver?

— Há já tantos anos que vive a educar os jovens e não entende? Olhe melhor! Onde estão os
nossos salesianos?

Observei e vi que bem poucos padres e clérigos se misturavam com os jovens e bem menos
ainda eram os que tomavam parte em seus divertimentos. Os superiores já não eram a alma do
recreio. A maior parte deles passeava conversando entre si, sem ligar ao que faziam os alunos;
outros olhavam o recreio sem se preocuparem absolutamente com os jovens; outros vigiavam,
mas tão de longe que não poderiam perceber se os jovens cometiam alguma falta; um ou outro
avisava mas em atitude ameaçadora e bem de raro. Ainda havia um ou outro salesiano que
gostaria de intrometer-se no meio dos jovens; vi, porém, que estes procuravam propositalmente
afastar-se dos professores e superiores.Então meu amigo continuou: — Nos velhos tempos do
Oratório o senhor não estava sempre no meio dos jovens, especialmente na hora do recreio?
Lembra aqueles belos anos? Era um santo alvoroço, um tempo que lembramos sempre com
saudade, porque o afeto é que nos servia de regra, e nós não tínhamos segredos para o senhor.

— Certamente. Tudo então era alegria para mim. Os jovens corriam ao meu encontro, para falar-me;
ansiavam por ouvir meus conselhos e pô-los em prática. Vês, porém, que agora as contínuas audiências,
os muitos afazeres e minha saúde não o permitem.


                                                 59
— Está bem: mas se o senhor não pode, por que seus salesianos não o imitam? Por que não insiste, não
exige que tratem os jovens como o senhor os tratava?

— Eu falo, canso-me de falar, entretanto muitos não se sentem dispostos a enfrentar os trabalhos como
outrora.
— E então descuidando o menos, perdem o mais, e esse “mais” são seus trabalhos. Amem o que agrada
aos jovens e os jovens amarão o que aos superiores agrada. E assim ser-lhes-á fácil o trabalho. A causa da
mudança atual no Oratório é que bom número de jovens não tem confiança nos superiores. Antigamente
os corações estavam todos abertos aos superiores, a quem os jovens amavam e obedeciam prontamente.
Mas agora os superiores são considerados como superiores e não como pais, irmãos e amigos; são pois
temidos e pouco amados. Por isso, se se quiser formar um só coração e uma só alma, é preciso que por
amor de Jesus se rompa a barreira fatal da desconfiança e se lhe substitua uma confiança cordial. Guie
pois a obediência o aluno como a mãe guia o filhinho; reinará então no Oratório a paz e a antiga alegria.
— Como fazer então para romper a barreira?

— Familiaridade com os jovens especialmente no recreio. Sem familiaridade não se demonstra afeto e
sem essa demonstração não pode haver confiança. Quem quer ser amado deve demonstrar que ama. Jesus
Cristo fez-se pequeno com os pequenos e carregou as nossas fraquezas. Aí está o mestre da familiaridade!
O professor visto apenas na cátedra é professor e nada mais, mas se está no recreio com os jovens torna-
se                                                                                                irmão.
Se alguém é visto somente a pregar do púlpito, dir-se-á que está fazendo apenas o próprio dever; mas se
diz uma palavra no recreio, é palavra de alguém que ama. Quantas conversões não provocaram algumas
palavras suas ditas ocasionalmente aos ouvidos de um jovem enquanto brincava!

Quem sabe que é amado, ama; e quem é amado alcança tudo, especialmente dos jovens. A confiança
estabelece uma corrente elétrica entre jovens e superiores. Os corações se abrem e dão a conhecer suas
necessidades e manifestam seus defeitos. Esse amor faz os superiores suportarem canseiras,
aborrecimentos, ingratidões, desordens, faltas e negligências dos meninos. Jesus Cristo não quebrou a
cana já partida, nem apagou a mecha que fumega. Eis vosso modelo. Então não se verá ninguém mais
trabalhar apenas por vanglória; punir somente para satisfazer o amor próprio ofendido, retirar-se do
campo da vigilância tão-somente por ciúme de temida preponderância alheia; murmurar dos outros
querendo ser amado e estimado pelos jovens, com exclusão de todos os demais superiores, ganhando nada
mais que desprezo e falsas manifestações de carinho; deixar-se roubar o coração por uma criatura e, para
fazer-lhe corte, descuidar todos os outros meninos; por amor da própria comodidade julgar de somenos
importância o dever importantíssimo da vigilância; por vão respeito humano deixar de advertir quem deve
ser advertido. Se houver esse verdadeiro amor, não se haverá de procurar senão a glória de Deus e a
salvação das almas. Se vier a definhar, então é que as coisas já não vão bem. Por que se quer substituir à
caridade a frieza de um regulamento? Por que se afastam os superiores da maneira de educar que Dom
Bosco ensinou? Por que ao sistema de prevenir com a vigilância e amorosamente as desordens, se vai
substituindo pouco a pouco o sistema, menos pesado e mais cômodo para quem manda, de impor leis que
se mantêm com castigos, acendem ódios e geram desgostos, e se não se cuida de as fazer observar, geram
desprezo aos superiores e causam gravíssimas desordens? É o que acontece necessariamente se faltar a
familiaridade. Se se quiser, pois, que o Oratório volte à antiga felicidade, reponha-se em vigor o antigo
sistema: O superior seja tudo para todos, sempre disposto a ouvir qualquer dúvida ou queixa dos jovens,
todo olhos para vigiar-lhes paternamente a conduta, todo coração para procurar o bem espiritual e



                                                   60
temporal dos que a Providência lhe confiou. Então, já não haverá corações fechados e não se alastrarão
mais certos segredinhos que acabam matando. Somente em caso de imoralidade os superiores sejam
inexoráveis. É melhor correr perigo de expulsar de casa um inocente, que conservar um escandaloso. Os
assistentes considerem gravíssimo dever de consciência relatar aos superiores tudo o que souberem ser de
algum modo ofensa de Deus.Então indaguei:— Qual é o meio mais indicado para que reine essa
familiaridade, esse amor e confiança?— A observância exata das regras da casa.

— E nada mais?— O melhor prato de um jantar é o bom humor.Enquanto meu antigo aluno acabava de
falar e eu continuava a observar com vivo desprazer o recreio, pouco a pouco senti-me abatido por grande
canseira, que ia crescendo cada vez mais. E chegou a tal ponto que não podendo mais resistir, estremeci e
acordei.

Encontrei-me de pé junto à cama. As pernas estavam tão inchadas e me doíam tanto que não podia ficar
de pé. A hora já ia muito adiantada, de modo que me deitei resolvido a escrever estas linhas a meus filhos.

Desejo não ter sonhos assim, por que me cansam demais. No dia seguinte sentia-me todo moído e não via
a hora de descansar na próxima noite. Eis, porém, que, apenas me deitei, o sonho recomeçou. Reaparece o
pátio, os jovens que atualmente estão no Oratório, e o mesmo aluno do Oratório. Comecei a interrogá-lo:
— Comunicarei aos salesianos o que me disseste; mas que devo dizer aos jovens do Oratório?
Respondeu-me:— Que reconheçam quanto superiores, mestres e assistentes trabalham e estudam por
amor deles, pois se não fosse pelo bem deles não se haviam de sujeitar a tantos sacrifícios; que se
lembrem ser a humildade a fonte de toda tranqüilidade; que saibam suportar os defeitos dos outros,
porque a perfeição não é deste mundo, mas somente do paraíso; que deixem de murmurar, porque as
murmurações esfriam os corações; e sobretudo que procurem viver na santa graça de Deus. Quem não
tem paz com Deus, não tem paz nem consigo nem com os outros.— Queres dizer então que há entre meus
jovens alguns que não estão em paz com Deus?

— Entre as causas do mal-estar que Dom Bosco conhece, e não vou recordar agora, e às quais deve pôr
remédio, esta é a principal. Com efeito, não desconfia senão quem tem segredos a guardar, senão quem
teme que tais segredos venham a ser conhecidos, porque sabe que isso lhes traria vergonha e desgraça. Ao
mesmo tempo se o coração não está em paz com Deus, fica angustiado, irrequieto, rebelde à obediência,
irrita-se por um qualquer coisa, parece-lhe que tudo vai mal, e por não ter amor, julga que os superiores
não o amam.— Entretanto, meu caro, não vês quanta freqüência de confissões e comunhões há no
Oratório?— É verdade que é grande a freqüência das confissões, mas o que falta radicalmente em muitos
meninos que se confessam é a firmeza nos propósitos. Confessam-se, mas sempre das mesmas faltas, das
mesmas ocasiões próximas, dos mesmos maus hábitos, das mesmas desobediências, das mesmas
transgressões dos deveres. E vai-se assim para a frente meses e meses, e também por vários anos, e alguns
chegam assim até o fim do curso secundário. São confissões que pouco ou nada valem; conseqüentemente
não trazem a paz. Se o menino fosse chamado nesse estado ao tribunal de Deus, que desgraça não seria.

— E há muitos assim no Oratório?— Poucos em comparação com o grande número de jovens que se
encontram na casa. Veja. E apontava.Olhei e vi os tais jovens um por um. Nesses poucos, porém, vi
coisas que me amarguraram profundamente o coração. Não quero pô-las no papel, mas quando voltar
quero contar a cada um dos interessados. Aqui apenas vos direi que é tempo de rezar e de tomar firmes
resoluções: tomar propósitos não com palavras, mas com fatos, e demonstrar que os Comolos, os
Domingos Sávios, os Besuccos e os Saccardis ainda vivem entre nós. Perguntei por fim ao meu


                                                    61
amigo: — Não tens mais nada a dizer-me? — Pregue a todos, grandes e pequenos, que se
lembrem sempre de Maria SS. Auxiliadora. Que ela os reuniu aqui para tirá-los dos perigos do
mundo, para que se amassem como irmãos, e para que dessem glória a Deus e a ela, com o bom
procedimento; que é Nossa Senhora que lhes providencia pão e meios para estudar mediante
graças e portentos. Lembrem-se de que estão na vigília da festa de sua Mãe S., e com sua ajuda
deve cair a barreira da desconfiança que o demônio soube erguer entre jovens e superiores, e da
qual se aproveita para ruína de certas almas.— E conseguiremos destruir essa barreira?— Sim,
certamente, contanto que grandes e pequenos estejam dispostos a sofrer alguma pequena
mortificação por amor de Maria e ponham em prática o que eu disse. Entrementes, eu continuava
a olhar meus jovenzinhos, ante o espetáculo dos que via encaminhar-se para a eterna perdição
senti tamanho aperto no coração que acordei. Muitas coisas importantíssimas que eu vi gostaria
de contar-vos, mas o tempo e as conveniências não permitem.

Vou concluir. Sabeis o que deseja de vós este pobre velho, que gastou toda a vida por seus caros
jovens? Nada mais do que, feitas as devidas proporções, retornem os dias felizes do Oratório
primitivo. Os dias do afeto e da confiança cristã entre jovens e superiores; os dias do espírito de
condescendência e tolerância por amor de Jesus Cristo de uns para com outros; os dias dos
corações abertos com toda a simplicidade e candura; os dias da caridade e da verdadeira alegria
para todos. Tenho necessidade de que me consoleis, dando-me a esperança e a promessa de que
fareis tudo o que desejo para o bem de vossas almas. Não conheceis suficientemente que
felicidade é a vossa de haverdes sido recebidos no Oratório. Diante de Deus declaro: Basta que
um jovem entre numa casa salesiana, para que a Virgem SS. o tome imediatamente debaixo de
sua especial proteção, Ponhamo-nos, pois, todos de acordo. A caridade dos que mandam, a
caridade dos que devem obedecer faça reinar entre nós o espírito de S. Francisco de Sales. Ó
meus caros filhinhos, aproxima-se o tempo em que me deverei separar de vós e partir para a
minha eternidade. (Nota do secretário: Neste ponto Dom Bosco suspendeu o ditado; os olhos se
lhe encheram de lágrimas, não por desgosto, mas por inefável ternura que ressumava de seu
olhar e do tom de sua voz; depois de alguns instantes continuou). Desejo, portanto, deixar-vos a
todos, padres, clérigos, jovens caríssimos, no caminho do Senhor, em que Ele próprio vos
deseja.Para tal fim, o Santo Padre, que vi sexta-feira, 9 de maio, vos manda de todo o coração
sua bênção.No dia da festa de Nossa Senhora Auxiliadora estarei convosco ante a imagem de
nossa amorosíssima Mãe. Quero que essa grande festa se celebre com toda a solenidade, e o Pe.
Lazzero e o Pe. Marchisio providenciem para que estejamos todos alegres também no refeitório.
A festa de Maria Auxiliadora deve ser o prelúdio da festa eterna que deveremos celebrar um dia,
todos juntos, no paraíso.

Vosso af.mo amigo em J. C.Sac. João Bosco.



                                                      ANEXO - II



                                                62
DOM BOSCO                SONHO DOS 9 ANOS



                 Na idade de 9 anos tive
                 um sonho, que me ficou
                 profundamente impresso
                 na mente por toda a vida.
                 Pareceu-me estar perto de
                 casa. Numa área bastante
                 espaçosa     onde     uma
                 multidão de meninos
                 estava a brincar. Alguns
                 riam, outros divertiam-se,
                 não poucos blasfemavam.
                 Ao ouvir as blasfêmias,
                 lancei-me de pronto no
                 meio deles, tentando, com
                 socos e palavras, fazê-los
                 calar.
                 Neste momento apareceu
                 um homem venerando, de
                 aspecto           varonil,
                 nobremente vestido. Um
                 manto branco cobria-lhe o
                 corpo; seu rosto, porém,
                 era tão luminoso que eu
                 não conseguia fitá-lo.
                 Chamou-me pelo nome e
                 mandou que me pusesse à
                 frente daqueles meninos,
                 acrescentando        estas
                 palavras:

                 Não é com pancadas, mas
                 com a mansidão e a
                 caridade que deverás
                 ganhar esses teus amigos.
                 Põe-te imediatamente a
                 instruí-los    sobre    a
                 fealdade do pecado e a


            63
preciosidade da virtude.
Confuso e assustado, repliquei que eu era um
menino pobre e ignorante, incapaz de lhes
falar de religião. Senão quando aqueles
meninos, parando de brigar, de gritar e
blasfemar juntaram-se ao redor do personagem
que estava a falar. Quase sem saber o que
dizer, acrescentei: - Quem sois vós que me
ordenais coisas impossíveis?

Justamente porque te parecem impossíveis,
deves torná-las possíveis com a obediência e a
aquisição da ciência.

- Onde, com que meios poderei adquirir a
ciência?

- Eu te darei a mestra, sob cuja orientação
poderás tornar-te sábio, e sem a qual toda
sabedoria se converte em estultície. - Mas
quem sois vós que assim falais? - Sou o filho
daquela que tua mãe te ensinou a saudar três
vezes ao dia. - Minha mãe diz que sem sua
licença não devo estar com gente que não
conheço; dizei-me, pois, vosso nome.

Pergunta-o à minha mãe
Nesse momento vi ao seu lado uma senhora de aspecto majestoso, vestida de um manto todo
resplandecente, como se cada uma de suas partes fosse brilhantíssima estrela. Percebendo-me
cada vez mais confuso em minhas perguntas e respostas, acenou para que me aproximasse e,
tomando-me com bondade pela mão, disse:

Olha.

Vi então que todos os meninos haviam fugido, e em lugar deles estava uma multidão de cabritos,
cães, gatos, ursos, e outros animais.

Eis o teu campo, onde deves trabalhar. Torna-te humilde, forte, robusto; e o que agora vês a
esses animais, deves fazê-los aos meus filhos.




                                                 64
Tornei então a olhar, e em vez de animais ferozes
                    apareceram mansos cordeiros que, saltitando e
                    balindo, corriam ao redor daquele homem e
                    daquela senhora, como a fazer-lhes festa.
                    Neste ponto, sempre no sonho, desatei a chorar, e
                    pedi que falassem de maneira que eu pudesse
                    compreender, porque não sabia o que significava
                    tudo aquilo. A senhora descansou a mão em
                    minha           cabeça         dizendo:
                       A seu tempo tudo compreenderás.
                    Após essas palavras, um ruído qualquer me
                    acordou,      e      tudo      desapareceu.
                    Permaneci atônito. Parecia que minhas mãos
                    doíam devido aos socos que tinha dado, que
                    minha face doía pelos socos recebidos. Aquele
                    personagem, aquela senhora, as coisas ditas e
                    ouvidas, me ocuparam de tal forma a mente que
                    não consegui retomar o sono aquela noite."

                                                      P. João Bosco


                         ANEXO – III




O Sistema Preventivo na Educação dos Jovens


                    65
Fui instado várias vezes a expressar, verbalmente
ou por escrito, o meu pensamento sobre o chamado
Sistema Preventivo, que se costuma praticar em nossas
casas. Por falta de tempo, não pude ainda satisfazer
esse desejo. Querendo agora imprimir o Regulamento,
que até hoje tem sido usado sempre tradicionalmente
entre nós, julgo oportuno expor aqui um rápido esboço.
Isso será como o índice de um opúsculo que estou
elaborando, se Deus me der vida para levá-lo a termo.
Move-me a isso apenas a vontade de colaborar na
difícil arte da educação juvenil. Direi, portanto, em
que consiste o Sistema Preventivo, e por que se deve
preferir; sua aplicação prática e vantagens.

Em que consiste o Sistema Preventivo
e por que se deve preferir

São dois os sistemas até hoje usados na educação
da juventude: o Preventivo e o Repressivo. O Sistema
Repressivo consiste em fazer que os súbditos conheçam
a lei, e depois vigiar para saber os seus transgressores e
infligir-lhes, quando necessário, o merecido castigo. Nesse
sistema, as palavras e o semblante do superior devem
constantemente ser severos e até ameaçadores, e ele próprio
deve evitar toda a familiaridade com os dependentes.
O diretor, para dar mais prestígio à sua autoridade, raro
deverá achar-se entre os dependentes e quase unicamente
quando se trata de ameaçar ou punir. Esse sistema é fácil,
menos trabalhoso. Serve especialmente para soldados
e, em geral, para pessoas adultas e sensatas, que devem,
por si mesmas, estar em condições de saber e lembrar o
que é conforme às leis e outras prescrições.
Diferente e, eu diria, oposto é o Sistema Preventivo.
Consiste em tornar conhecidas as prescrições e as
regras de uma instituição, e depois vigiar de modo que os
alunos estejam sempre sob os olhares atentos do diretor
ou dos assistentes. Estes, como pais carinhosos, falem,
sirvam de gula em todas as circunstâncias, dêem conselhos
e corrijam com bondade. Consiste, pois, em colocar
os alunos na impossibilidade de cometerem faltas.
O sistema apóia-se todo inteiro na razão, na religião
e na bondade. Exclui, por isso, todo o castigo violento,
e procura evitar até as punições leves. Parece preferível
pelas seguintes razões:
1. O aluno, previamente avisado, não fica abatido pelas faltas


                                               66
cometidas, como sucede quando são levadas ao conhecimento
do superior. Não se irrita pela correção feita nem pelo castigo
ameaçado, ou mesmo infligido, pois a punição contém em si um
aviso amigável e preventivo que o leva a refletir e, as mais das
vezes, consegue granjear-lhe o coração. Assim o aluno reconhece
a necessidade do castigo e quase o deseja.
2. A razão mais essencial é a volubilidade do menino, que num
instante esquece as regras disciplinares e o castigo que ameaçam.
Por isso é que, amiúde, se torna um menino culpado e
merecedor de uma pena em que nunca pensou, e de que absolutamente
não se lembrava no momento da falta cometida, e que
teria por certo evitado, se uma voz amiga o tivesse advertido.
3. O Sistema Repressivo pode impedir uma desordem, mas dificilmente
melhorará os culpados. Diz a experiência que os jovens
não esquecem os castigos recebidos, e geralmente conservam
ressentimento acompanhado do desejo de sacudir o jugo e até
de tirar vingança. Podem, às vezes, parecer indiferentes; mas
quem lhes segue os passos sabe quão terríveis são as reminiscências
da juventude. Esquecem facilmente os castigos que
recebem dos pais; muito dificilmente, porém, os dos educadores.
Há casos de alguns que na velhice se vingaram com brutalidade
de castigos justos que receberam nos anos de sua educação. O
Sistema Preventivo, pelo contrário, granjeia a amizade do menino,
que vê no assistente um benfeitor que o adverte, quer fazê-lo
bom, livrá-lo de dissabores, castigos e desonra.
4. O Sistema Preventivo predispõe e persuade de tal maneira o
aluno, que o educador poderá em qualquer lance falar-lhe com
a linguagem do coração, quer no tempo da educação, quer ao
depois. Conquistado o ânimo do discípulo, poderá o educador
exercer sobre ele grande influência, avisá-lo, aconselhá-lo, e
também corrigi-lo, mesmo quando já colocado em qualquer trabalho
ou empregos públicos, ou no comércio. Por essas e muitas
outras razões, parece que o Sistema Preventivo deve preferir-se
ao Repressivo.

Aplicação do Sistema Preventivo

A prática desse sistema baseia-se toda nas
palavras de S. Paulo: “Charitas benigna est, patiens est;
omnia suffert, omnia sperat, omnia sustinet”. A caridade é
benigna e paciente; tudo sofre, mas espera tudo e suporta
qualquer incômodo. Por isso, somente o cristão pode
aplicar com êxito o Sistema Preventivo. Razão e Religião
são os instrumentos de que o educador se deve servir;
deve inculcá-los, praticá-los ele mesmo, se quiser ser
obedecido e alcançar os resultados que deseja.


                                               67
1. Deve, pois, o diretor consagrar-se totalmente aos seus educandos:
jamais assuma compromissos que o afastem das suas
funções, Pelo contrário, permaneça sempre com seus alunos,
todas as vezes que não estiverem regularmente ocupados, salvo
estejam por outros devidamente assistidos.
2. A moralidade dos professores, mestres de oficina, assistentes,
deve ser notória. Esforcem-se eles por evitar, como epidemia,
toda a sorte de afeições ou amizades sensíveis com os alunos, e
lembrem-se de que o descaminho de um só pode comprometer
um instituto educativo. Veja-se que os alunos não fiquem
jamais sozinhos. Porquanto possível, os assistentes sejam os
primeiros em achar-se no lugar onde os alunos se devem reunir;
entretenham-se com eles enquanto não vier um substituto; nunca
os deixem desocupados.
3. Dê-se ampla liberdade de correr, pular e gritar, à vontade. Os
exercícios ginásticos e desportivos, a música, a declamação, o
teatro, os passeios, são meios eficacíssimos para se alcançar
a disciplina, favorecer a moralidade e conservar a saúde. Mas
haja cuidado em que a matéria das diversões, as pessoas que
tomam parte, as falas, não sejam repreensíveis. “Fazei quanto
quiserdes”, dizia o grande amigo da juventude, S. Filipe Néri, “a
mim me basta não cometais pecados”.
4. A confissão freqüente, a comunhão freqüente e a missa cotidiana
são as colunas que devem sustentar um edifício educativo,
do qual se queira eliminar a ameaça e a vara. Nunca se obriguem
os jovens a freqüentar os santos sacramentos: basta encorajá-
los e dar-lhes comodidade de se aproveitarem deles. Nos
exercícios espirituais, tríduos, novenas, pregações, catecismos,
ponha-se em relevo a beleza, a sublimidade, a santidade da Religião,
que oferece meios tão fáceis, tão úteis à sociedade civil, à
paz do coração, à salvação da alma, como são precisamente os
santos sacramentos. Dessa maneira, estimulam-se os meninos
a querer, espontaneamente, essas práticas de piedade; haverão
de cumpri-las de boa vontade, com prazer e fruto.
5. Use-se a máxima vigilância para impedir que entrem no instituto
companheiros, livros ou pessoas que tenham más conversas.
A escolha de um bom porteiro é um tesouro para uma casa de
educação.
6. Todas as noites, após as orações de costume e antes que os
alunos se recolham, o diretor, ou quem por ele, dirija em público
algumas afetuosas palavras, dando algum aviso ou conselho sobre
o que convém fazer ou evitar. Tire-se a lição moral de acontecimentos
do dia, sucedidos em casa ou fora; mas a sua alocução
não deve passar de dois ou três minutos. Essa é a chave da
moralidade, do bom andamento e do bom êxito da educação.
7. Afaste-se como a peste a opinião dos que pretendem diferir a



                                              68
primeira comunhão para uma idade demasiado adiantada, quando
em geral o demônio já se apossou do coração dos meninos,
com incalculável dano da sua inocência. Conforme a disciplina
da Igreja primitiva, costumava dar-se às crianças as hóstias consagradas
que sobravam da comunhão pascal. Isso demonstra
quanto preza a Igreja sejam os meninos admitidos mais cedo à
santa comunhão. Quando uma criança pode distinguir entre Pão
e pão, e revela instrução suficiente, já não se olhe para a idade, e
venha o Soberano Celeste reinar nessa alma abençoada.
8. Os catecismos recomendam a comunhão freqüente: S. Filipe
Néri aconselhava-a cada oito dias e ainda mais amiúde. O Concílio
Tridentino diz claro que deseja sumamente que todos os fiéis,
quando ouvem a santa missa, façam também a comunhão. Porém
seja a comunhão não só espiritual, mas ainda sacramental,
a fim de que se tire maior fruto desse augusto e divino sacrifício
(Concílio Tridentino, Sess. XXII, capítulo VI).

Utilidade do Sistema Preventivo

Dir-se-á que esse sistema é difícil na prática.
Observo que da parte dos alunos torna-se bastante mais
fácil, agradável e vantajoso. Para o educador, encerra
alguma dificuldade que, porém, diminuirá se ele se
entregar com zelo à sua missão. O educador é um indivíduo
consagrado ao bem de seus alunos: por isso, deve estar
pronto a enfrentar qualquer incômodo e canseira, para
conseguir o fim que tem em vista: a formação cívica, moral
e científica dos seus alunos.
Além das vantagens acima expostas, acrescentase
ainda o seguinte:
1. O aluno conservará sempre grande respeito para com
o educador e lembrará com gosto a educação recebida e
considerará ainda os seus mestres e demais superiores como
pais e irmãos. Esses alunos, nos lugares para onde forem, serão,
as mais das vezes, o consolo da família, cidadãos prestimosos
e bons cristãos.
2. Qualquer que seja o caráter, a índole, o estado moral do aluno
ao ser admitido, podem os pais viver seguros de que seu filho
não vai piorar, e considera-se como certo que se alcançará
sempre alguma melhora. Antes, meninos houve que depois de
terem sido por muito tempo o flagelo dos pais, e, até, rejeitados
pelas casas de correção, educados segundo esses princípios,
mudaram de índole e caráter, deram-se a uma vida morigerada,
e presentemente ocupam posição distinta na sociedade, tornando-
se, desse modo, o amparo da família e honra do lugar em que
moram.


                                               69
3. Os alunos que por acaso entrassem num instituto com maus
hábitos, não podem prejudicar os seus companheiros. Nem os
meninos bons poderão ser por eles contaminados, porque não
haveria tempo, nem lugar, nem ocasião, pois o assistente, que
supomos presente, logo lhes acudiria.

Uma palavra sobre os castigos

Que norma seguir para dar castigos? — Por quanto
possível, jamais se faça uso de castigos. Quando, porém, a
necessidade o exige, observe-se quanto segue:
1. O educador entre os alunos procure fazer-se amar se quer fazer-
se respeitar. Nesse caso, a subtração da benevolência é um
castigo que desperta emulação, infunde coragem sem deprimir.
2. Entre os meninos é castigo o que se faz passar por castigo.
Observou-se que um olhar não amável produz para alguns maior
efeito que uma bofetada. O elogio quando uma ação é bem feita.
a repreensão quando há desleixo, é já um prêmio ou castigo.
3. Salvo raríssimos casos, as correções, os castigos, nunca se
dêem em público, mas em particular, longe dos companheiros, e
empregue-se a máxima prudência e paciência para que o aluno
compreenda a sua falta, à luz da razão e da religião.
4. Bater, de qualquer modo que seja, pôr de joelhos em posição
dolorosa, puxar orelhas, e outros castigos semelhantes, devem se
absolutamente banir, porque são proibidos pelas leis civis, irritam
sobremaneira os jovens e desmoralizam o educador.
5. Torne o diretor bem conhecidas as regras, os prêmios e os
castigos sancionados pelas leis disciplinares, a fim de que o aluno
não possa desculpar-se dizendo: “Eu não sabia que isso era
mandado ou proibido”.
Se em nossas casas se puser em prática este
sistema, creio poderemos alcançar grande resultado,
sem recorrermos a pancadarias, nem a outros castigos
violentos. Há quarenta anos, mais ou menos, que trato com
a juventude, não me lembra ter usado castigo de espécie
alguma. Com o auxílio de Deus, não só obtive sempre
o que era de dever, mas ainda o que eu simplesmente
desejava, e isso daqueles mesmos meninos dos quais se
havia perdido a esperança de bom resultado.


                                                     ANEXO – IV


ARQUIVO SALESIANO CENTRAL – ROMA



                                               70
O Arquivo Salesiano Central compreende três seções: Arquivo Histórico, Arquivo Corrente e
Arquivo Fotográfico. O Arquivo Histórico é a seção do Arquivo Salesiano Central que conserva
documentos que chegaram realmente ao termo, em sentido `arquivístico`.As práticas atuais, de
uso corrente, e ainda `abertas`, são conservadas no Arquivo Corrente (seção particular do
Arquivo Salesiano Central).O material fotográfico é conservado no Arquivo Fotográfico (outra
seção do Arquivo Salesiano Central)




ARQUIVO HISTÓRICO


Surgiu com o próprio início da vida salesiana de Valdocco. Interessava ao próprio Dom Bosco a
documentação pontual e ordenada de tudo o que acontecia no Oratório.O material arquivístico
está codificado segundo os critérios vigentes da disciplina arquivística e as estruturas e
instrumentos de trabalho estão igualmente atualizados e melhorados.O material no arquivo é
dividido em unidades orgânicas (chamados de `Fundos`), conservadas em armários especiais de
arquivamento, localizados em pastas adequadas (já são 7000).Critérios precisos regulam a
consulta ao Arquivo. Quem a ele acede, concluído o trabalho de pesquisa, envia cópia de suas
pesquisas ou teses ao próprio Arquivo.

  O MATERIAL ARQUIVÍSTICO


O material que chega ao Arquivo Salesiano Central articula-se em - Cartas - Documentos
relativos a Casas e Inspetorias, - Crônicas de Casas e Inspetorias, - Documentos pessoais e fichas
pessoais dos Salesianos,- Documentos de contendo variado, - Documentos de Capítulos
Inspetoriais e Capítulos Gerais, - Periódicos, Revistas, Noticiários, - Outros. Todo o material
arquivístico é conservado na ampla sala de depósito, dividido segundo unidades orgânicas
(chamadas de “Fundos”) em armários arquivísticos, e conservado em pastas adequadas.
Apresentamos aqui a lista dos principais Fundos, com as relativas posições arquivísticas
(números de colocação) afixadas nos próprios recipientes.




                                               71
Fundo Dom Bosco                                     A000 - A310
Fundo Causas dos Santos                 A311 - A519 A762 - A804
                                A520 - A761 C504 - C589 D823 -
Fundo Secretaria Geral
                                                        D923

Fundo Missões                                       A805 - A924
Fundo Comunicação Social                            A936 - A979
Fundo Maria Auxiliadora                             A980 - B015
Fundo Reitores-Mores                                 B025 - B187
Fundo SDB defuntos e egressos (até a                 B192 - B662
1931)
Fundo Bispos SDB defuntos                            B664 - B742
Fundo SDB defuntos e egressos (após 1931)         B744 - C503

Fundo Instituto FMA                                  C592 - C638
Fundo Família Salesiana                              C642 - C700
Fundos diversos                         C701 - C759 G389 - G547
Fundo Conselheiros Gerais. e Reg.                   C760 - D091
(1965-84)
Fundo Padre Viganò                                  D094 - D280
Fundo Práticas Particulares                         D281 - D424
Fundo Sociedade Salesiana               D425 - D544 D559 - D568
Fundo Procuradoria Geral                            D545 - D558
Fundo Capítulos Gerais e Inspetoriais               D576 - D822
Fundo SDB defuntos e egressos (desde                 D978 - E052
1985)
Fundo Setores Operativos dos SDB                     E171 - E550
Fundo Oratório-Valdocco                              E551 - E897
Fundo Inspetorias Salesianas                         E898 - F378




                                   72
Fundo Casas Salesianas (Documentos)           F380 - F737
Fundo Casas Salesianas (Crônicas)             F740 - F963
Fundo    Casas     Salesianas    (Novas       F964 - G004
Fundações)
Fundo Padre Cimatti                          G008 - G034
                                                  G036 -
Fundo Capítulos Insp. - UPS - Particulares
                                                  G109

Fundo Padre Ziggiotti                        G110 - G121
Fundo Capítulos Isp. e Gerais. e Outros      G122 - G342
Fundo Dom Bosco 88                           G343 - G388
Fundo Economato Geral                        ------- - -------
  ESTRUTURAS E EQUIPAMENTOS TÉCNICOS
                                              Fichário    de
                                              microfilmes

                                              Os Fundos Dom
                                              Bosco e Padre
                                              Rua estão micro
                                              filmados: 2664
                                              microfilmes do
                                              Fundo       Dom
                                              Bosco e 1758
                                              microfilmes do
                                              Fundo       Padre
                                              Rua.
                                              O microfilme é
                                              um subsídio de
                                              trabalho para os
                                              arquivistas e um
                                              meio           de
                                              conhecimento do
                                              documento       a
                                              disposição dos




                                    73
estudiosos.

                                                                  Outros
                                                                  equipamentos e
                                                                  instrumentos de
                                                                  trabalho

                                                                  Estão à
                                                                  disposição dos
                                                                  arquivistas
                                                                  Elencos e
                                                                  Anuários
                                                                  eclesiásticos e
                                                                  civis, os
                                                                  volumes das
                                                                  Memórias
                                                                  Biográficas, as
                                                                  coleções do
                                                                  Boletim
                                                                  Salesiano, os
                                                                  Anais da
                                                                  Congregação,
                                                                  Dicionários,
                                                                  fotocopiadoras e
                                                                  outros
                                                                  equipamentos.




             A   CONSULTA  POR             ESTUDIOSOS         E
             PESQUISADORES




A consulta de um Arquivo por estudiosos e pesquisadores, independente
da identidade ou profissão dos que dele se servem, ou do tipo e
consistência do trabalho, é regulada por um atento critério:




                                            74
Identificação
pessoal         do
pesquisador       e
relativo registro
(documento
pessoal; carta de
apresentação de
seu professor ou
superior;
compilação       de
uma ficha de
identificação e
relativo registro).
Verificação da
entidade e da
finalidade para a
qual o estudioso-
pesquisador veio
ao Arquivo.
        Premissas
suficientes      de
garantia        no
tratamento dos
documentos
(máxima atenção
em relação ao
documento;
recolocação
atenta no modo
correto e na
posição material
de     onde     foi
retirado).




                      75
Acompanhamento do trabalho do pesquisador com noções
metodológicas de base, tanto em relação à conservação intacta dos
documentos, quanto em relação ao procedimento do trabalho.
Controle posterior à consulta: posição, ordem, integridade dos
documentos. O elenco acima deve ser sempre praticado em qualquer
estudo,      redação,       uso       do      computador,     etc
Os estudiosos e pesquisadores, concluídos os seus estudos momento ou
fase da permanência dos estudiosos no Arquivo: pesquisa, , pesquisas ou
teses, enviam cópia de seus trabalhos ao ASC.
                     ARQUIVO
                     FOTOGRÁFICO


Faz parte do Arquivo Salesiano Central e conserva material fotográfico de aproximadamente 150
anos. São mais de um milhão de fotografias e outro material iconográfico classificado por
assunto. O material conservado refere-se às obras salesianas (desde os inícios), às expedições
missionárias, à vida das missões salesianas, às descobertas geográficas (De Agostini e outros), ·
a pessoas, a atividades salesianas, etc. 116



                                                  ANEXO V


                             São Francisco de Sales (1567 – 1622)

       Uma das maiores figuras da Contra-Reforma católica na França, tido pelos seus
      contemporâneos -- incluído o grande São Vicente de Paulo -- como a mais perfeita
                       imagem do Salvador então existente na Terra.

                                                                           Plinio Maria Solimeo


         No início de novembro de 1622, São Francisco de Sales, Bispo-Príncipe de Genebra,
  acompanhava o Duque da Sabóia na comitiva que ia de Chambéry a Avignon encontrar-se
  com o Rei Cristianíssimo, que era então o soberano francês Luís XIII. O Prelado aproveitou a
  ocasião para visitar os mosteiros da Visitação existentes no percurso, como cofundador que
  era dessa Congregação. Assim, chegou no dia 11 ao (mosteiro) de Belley.


116
      http://www.sdb.org/PR/SottoSezioni/_5_10_13_.htm


                                                         76
Entre as freiras que, pressurosas, correram-lhe ao encontro, encontrava-se uma que ele
muito estimava por sua inocência, virtude e
simplicidade, e a quem por isso dera o nome de Clara
Simpliciana. Esta, iluminada por luzes sobrenaturais,
chorava desoladamente: "Oh, excelentíssimo Senhor!"
disse-lhe sem subterfúgios, "vós morrereis neste ano! Eu
vos suplico que peçais a Nosso Senhor e à Sua
Santíssima Mãe que isso não ocorra".
       -- "Como, minha filha?!", respondeu surpreso o
Prelado. "Não, não o farei. Não vos alegrais pelo fato de
eu ir descansar? Veja: estou tão cansado, com tanto
peso, que já não posso comigo. Que falta vos farei?
Tendes a Constituição e deixar-vos-ei Madre Chantal,
que vos bastará . Ademais, não devemos pôr nossas
esperanças nos homens, que são mortais, mas só em Deus, que vive eternamente".
       Tais palavras como que resumem a vida e a obra de São Francisco de Sales, cuja festa
comemoramos no dia 24 de janeiro. Embora ele contasse então com apenas 55 anos de idade
e aparentemente não estivesse doente, entregou sua grande alma a Deus três dias antes que o
ano terminasse, conforme predissera Irmã Simpliciana...


      A grande provação


       Francisco de Sales, primogênito entre os 13 filhos dos Barões de Boisy, nasceu no
castelo de Sales, na Sabóia, em 21 de agosto de 1567. Por devoção dos pais ao Poverello de
Assis, recebeu seu nome e, chegado ao uso da razão, o menino escolheu-o por patrono e guia.
       A virtuosa baronesa dedicou-se ela mesma, com a ajuda de bons preceptores, à
educação de sua numerosa prole. Para seu primeiro filho escolheu, por sua piedade e ciência,
o Pe. Déage, o qual, até sua morte, foi para Francisco um pai espiritual e guia. Acompanhava-
o sempre, mesmo a Paris, onde o jovem barão radicou-se durante seus estudos universitários
no Colégio de Clermont, dos jesuítas.
       Com um precoce senso de responsabilidade e intuito de fazer sempre tudo que fosse da
maior glória de Deus, Francisco estudou retórica, filosofia e teologia com um empenho que
lhe permitiu ser depois o grande teólogo, pregador, polemista e diretor de consciências que
caracterizaram seu trabalho apostólico.




                                             77
Francisco, como primogênito, era herdeiro do nome de família e continuador de sua
tradição. Por isso, recebeu também lições de esgrima, dança e equitação. Convencia-se
porém, cada vez mais, que Deus o chamava inteiramente a Seu serviço. Fez voto de castidade
perfeita e colocou-se sob a proteção da Virgem das virgens.
       Aos 18 anos, o jovem enfrentou a mais terrível provação de sua vida: uma tão violenta
tentação de desespero, que lhe causava a impressão de ter perdido a graça divina e estar
destinado a odiar eternamente a Deus com os réprobos. Tal obsessão diabólica perseguia-o
noite e dia, abalando-lhe até a saúde.
       Ora, para alguém que, como ele, desde o início do uso da razão não procurava senão
amar ardentemente a Deus, tal provação era o que havia de mais terrível.
       Seria necessário um ato heróico para dela livrá-lo e ele o praticou: não se revoltava
contra Deus, mesmo se Ele lhe fechasse as portas do Céu, e pedia, nesse caso, para amá-Lo ao
menos nesta Terra.
       "Senhor!" -- exclamou certo dia na igreja de Saint Etienne des Grés, no auge de sua
angústia --, "fazei com que eu jamais blasfeme contra Vós, mesmo que não esteja
predestinado a ver-Vos no Céu. E se eu não hei de amar-Vos no outro mundo, concedei-me
pelo menos que, nesta vida, eu Vos ame com todas as minhas forças!".
       Rezando depois humildemente o "Lembrai-Vos", aos pés de Nossa Senhora, invadiu-
lhe a alma uma tão completa paz e confiança, que a provação esvaiu-se como fumaça.


      Calcando o mundo aos pés


       Aos 24 anos, Francisco, com os estudos brilhantemente concluídos e já doutor em leis,
voltou para junto da família. O pai escolhera para ele a jovem herdeira de uma das mais
nobres famílias do lugar. Apesar de sua pouca idade, ofereceram ao jovem doutor o cargo de
membro do Senado saboiano. Humanamente falando, não se podia desejar mais.
       Para espanto do pai, seu primogênito recusou tanto um quanto outro oferecimento. Só à
mãe, que sabia de sua entrega a Deus, e a um tio, cônego da catedral de Genebra, explicou
Francisco o motivo desse ato tido por insensato.
       Faleceu nesse tempo o deão da catedral de Chambéry. O cônego Luís de Sales
imediatamente obteve do Papa que nomeasse seu sobrinho para o posto vacante. Com muita
dificuldade o Barão de Boisy consentiu enfim que aquele, no qual depositava suas maiores
esperanças de triunfo neste mundo, se dedicasse inteiramente ao serviço de Deus. Não podia
ele prever que Francisco estava destinado à maior glória que um mortal pode atingir, que é a




                                            78
de ser elevado à honra dos altares; e, por acréscimo, como Doutor da Igreja!...


      Zelo anticalvinista


       Os cinco primeiros anos após sua ordenação, o Pe. Francisco consagrou-os à
evangelização do Chablais, cidade situada na margem sul do lago de Genebra, convertendo,
com o risco da própria vida, empedernidos calvinistas. Para isso, divulgava folhetos nos quais
refutava suas heresias, contrapondo-lhes as lídimas verdades católicas. O missionário
precisou fugir muitas vezes e esconder-se de enfurecidos hereges, e em algumas ocasiões só
se salvou por verdadeiro milagre.
       Assim, reconduziu ao seio da verdadeira Igreja milhares de almas seduzidas pela
heresia de Calvino. Ao mesmo tempo dava assistência religiosa aos soldados do castelo de
Allinges, os quais, apesar de católicos de nome, eram ignorantes em religião e dissolutos. Seu
renome começava já a repercutir como grande confessor e diretor de consciências.
       Em 1599, o deão de Chambéry foi nomeado Bispo-coadjutor de Genebra; e, três anos
depois, com o falecimento do titular, assumiu a direção dessa diocese.


      Apóstolo entre os nobres


       Esse fato ampliou muito o âmbito de ação de D. Francisco de Sales. Fundou escolas,
ensinou catecismo às crianças e adultos, dirigiu e conduziu à santidade grandes almas da
nobreza, que desempenharam papel preponderante na reforma religiosa empreendida na
época, como Madame Acarie (depois uma das primeiras religiosas carmelitas na França,
morta em odor de santidade), Santa Joana de Chantal, com quem fundou a Visitação.
Inúmeras donzelas da mais alta nobreza abandonaram o mundo, entrando nos mosteiros dessa
nova congregação, na qual brilharam pelo esplendor de sua virtude.
       Todos queriam ouvir o santo Bispo. Convidado a pregar em toda parte, era sempre
rodeado de grande veneração, tornando-se necessário escolta militar para protegê-lo das
manifestações do entusiasmo popular.
       A família real da Sabóia não resistia à atração do Bispo-Príncipe de Genebra,
convidando-o constantemente para pregar também na Corte. E não era a mais alta nobreza
menos ávida que o povinho de ouvir aquele que já consideravam santo em vida.
       Em 1608, ordenou e publicou as notas e conselhos que dera a uma sua prima por
afinidade, a Sra. de Chamoisy, num livro que se tornaria imortal: Introdução à vida devota.




                                              79
Essa obra foi ocasião de várias conversões e carreou muitas vocações para os conventos da
Visitação.
       São Francisco de Sales desenvolveu seu lema no extraordinário livro que escreveu para
suas filhas da Visitação, a pedido de Santa Joana de Chantal, o célebre Tratado do Amor de
Deus: "a medida de amar a Deus é amá-lo sem medida".


      Glorificado na Terra e no Céu


       Os contemporâneos do Bispo-Príncipe de Genebra não tinham dúvidas a respeito de
sua santidade. Santa Joana de Chantal, sua dirigida e cooperadora que o conheceu tão
intimamente, escreveu: "Oh! meu Deus! Atrever-me-ei a dizê-lo? Sim, di-lo-ei: parece-me
que nosso bem-aventurado pai era uma imagem viva do Filho de Deus, porque
verdadeiramente a ordem e a economia desta santa alma era toda sobrenatural e divina.
Muitas pessoas me disseram que, quando viam este bem-aventurado, parecia-lhes ver a Nosso
Senhor na terra" (4). E São Vicente de Paulo, sempre que saia de algum encontro mantido
com São Francisco de Sales, exclamava: "Ah! quão bom deve ser Deus quando o
excelentíssimo Bispo de Genebra é tão bondoso! (5)
       Em seu leito de morte, o resplendor de seu rosto, que já era visível em seus últimos
anos de vida, aumentava por vezes muito mais, arrebatando de admiração os que o
contemplavam.
       Assim que faleceu, verdadeira multidão invadiu o convento das Visitandinas, em Lyon,
na França, para oscular-lhe os pés, tocar-lhe tecidos em seu corpo, encostar-lhe rosários. Ao
abrirem seu corpo, os médicos constataram que o fígado do Santo se petrificara com o esforço
que fizera sempre para dominar seu temperamento sangüíneo, e conservar constantemente
aquela suavidade e, aparentemente tão naturais nele, que conquistavam os corações mais
empedernidos.
       O culto ao santo começou no próprio momento de sua morte. E foi sempre
recompensado, algumas vezes com estupendos milagres.
       Durante a peste em Lyon, as irmãs visitandinas não bastavam para distribuir ao povo
pedaços de tecido tocados no corpo do santo. Em Orleans, a Madre de la Roche mergulhava
uma relíquia do venerado Prelado em água, a qual era distribuida à multidão enquanto durou
a peste: um tonel por dia em média. Em Crest e em Cremieux, os representantes da cidade
foram à igreja da Visitação fazer, em nome da cidade, voto solene de irem peregrinação ao
sepulcro do Bispo, caso cessasse a peste. E todos foram ouvidos.




                                             80
Foi Santa Joana de Chantal quem iniciou as gestões para o processo de canonização de
 seu pai espiritual. Recolheu seus escritos privados, cartas, mesmo rascunhos não terminados,
 e trabalhou com afinco nesse sentido. Escreveu a autoridades civis e eclesiásticas e mesmo a
 Roma, pedindo que urgissem o início do processo de beatificação.
        Mas a alegria de vê-lo elevado à honra dos altares ela só a teria no Céu, pois a
 celeridade dos processos humanos ficavam muito aquém dos desejos de seu ardente coração.
        São Francisco de Sales faleceu em 28 de dezembro de 1622, tendo sido canonizado em
 19 de abril de 1665.
        O Papa Pio IX declarou-o Doutor da Igreja em 7 de julho de 1877. E Pio XI, na
 encíclica Rerum omnium, de 1923, atribuiu-lhe o glorioso título de Patrono dos jornalistas e
 escritores católicos.
                                          (Artigo extraído da Revista Catolicismo Janeiro de 1999)




                                                     ANEXO VI

               A fundação dos Salesianos

                Dom Bosco pensava em organizar uma associação religiosa, contudo, o contexto
político da unificação da Itália, a disputa pela separação entre Estado e Igreja, não estimulavam a
criação de uma ordem religiosa nos moldes tradicionais. O ministro Umberto Ratazzi lhe sugeriu
organizar uma sociedade de cidadãos que se dedicasse às atividades educativas realizadas pelos
oratórios em moldes civis. Bosco propõe a Sociedade de São Francisco de Europa.Sales, que
seria vista como uma associação de cidadãos aos olhos do Estado e como uma associação de
religiosos perante a Igreja. Após consultar o Papa Pio IX, Bosco recebeu de seus companheiros
padres, seminaristas e leigos a adesão à Sociedade de São Francisco de Sales em 18 de dezembro
de 1859 e em 14 de março de 1862, os primeiros salesianos fizeram os votos religiosos de
castidade, pobreza e obediência. A partir de 1863, além dos oratórios, os salesianos passam a se
dedicar também aos colégios e escolas católicas para meninos e jovens. Com a separação entre
Estado e igreja, há forte demanda por escolas católicas, fazendo com que esse tipo de instituição
se dissemine rapidamente. As regras da Sociedade, chamadas de Constituições, foram aprovadas
pela igreja em 1874. Em sua morte, em 1888, a Sociedade contava com 768 membros, com 26
casas fundadas nas Américas e 38 na Europa.




                                                81
ANEXO VII


Família salesiana117
Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
A família salesiana é um conjunto de diferentes instituições e movimentos católicos que se
propõem a seguir a espiritualidade e a missão propostas por Dom Bosco. Como essa
espiritualidade se fundamenta nos escritos de São Francisco de Sales, que propôs a alegria como
caminho de santidade, é denominada salesiana.

Composição

A família salesiana é atualmente composta por vinte e três grupos de institutos de vida
consagrada e associações de leigos católicos, aqui classificados segundo a sua forma de
instituição canônica segundo as diretrizes da Igreja Católica Apostólica Romana:

        1. Congregações religiosas masculinas de Direito Pontifício:
               Pia Sociedade de São Francisco de Sales (sdb)
               Congregação de São Miguel Arcanjo
        2. Institutos religiosos femininos de Direito Pontifício
               Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora (fma)
               Filhas dos Sagrados Corações de Jesus e Maria
               Salesianas Oblatas do Sagrado Coração de Jesus
               Apóstolas da Sagrada Família
               Irmãs Missionárias de Maria Auxiliadora dos Cristãos
        3. Institutos seculares de Direito Pontifício
               Instituto Secular das Voluntárias de Dom Bosco
        4. Associações eclesiais públicas de fiéis católicos
               A Associação Internacional dos Cooperadores Salesianos (CCSS)
               Associação de Maria Auxiliadora
        5. Associação eclesial privada de fiéis
               Associação das Damas Salesianas
        6. Associação pública de fiéis leigos de vida consagrada
               Voluntários com Dom Bosco (CDB) (Instituto Secular masculino)
        7. Associações leigas reconhecidas como Organizações Mundiais Católicas
117
      Página modificada em 23/12/2007.


                                                    82
   Associação Internacional de Ex-Alunas e Ex-Alunos das Filhas de Maria Auxiliadora
      Associação Internacional de Ex-Alunas e Ex-Alunos Salesianos
8. Institutos religiosos femininos de Direito Diocesano
      Irmãs de Caridade de Miyazaki (Miyazaki - Japão)
      Filhas do Divino Salvador (S. Vicente - El Salvador)
      Servas do Imaculado Coração de Maria (Bang Nok Khuek - Tailândia)
      Irmãs de Jesus Adolescente (Campo Grande - Brasil)
      Irmãs Catequistas de Maria Imaculada Auxiliadora (Khrshnagar - Índia)
      Filhas da Realeza de Maria Imaculada (Bangkok - Tailândia)
      Congregação das Irmãs da Ressurreição (San Pedro Carchá- Guatemala)
      Irmãs Anunciadoras do Senhor (Shiu Chow - China)
9. Movimento Espiritual
      Testemunhas do Ressuscitado.

                                                                                      ).




                                          83

Salesian founts2 2

  • 1.
    ESTUDO DAS FONTESSALESIANAS Uma leitura histórico-crítica Introdução Fonte não pode ser algo que encerra um conteúdo positivo ou negativo ou uma realidade onde posso abeberar-me, enriquecer-me de conhecimentos, experiências e mensagens de quem viveu antes de mim. Significa ainda: princípio, causa, testo original de uma obra. Fonte é ainda tudo o que deu origem, que forma o arcabouço, o patrimônio científico, pedagógico, espiritual de uma Instituição. Neste aspecto, ao estudarmos as fontes da Congregação salesiana colocamos em primeiro plano o fundador da Sociedade, Dom Bosco, com sua vida e seus escritos.Nosso trabalho apresentará genérica e não exclusivamente as seguintes fontes que formam hoje o patrimônio pedagógico- espiritual dos Salesianos: 1. A vida do fundador. 2. Sua produção escrita. 3. O patrono da Sociedade: São Francisco de Sales “pastor zeloso e doutor da caridade”.1 4. Suas Memórias Biográficas. 5. Os Arquivos, como o Arquivo Central da Casa Geral de Roma, onde se encontram milhões de documentos, recolhidos em todo o mundo sobre a Sociedade Salesiana. 6. Os salesianos passados e presentes que construíram ou constroem uma memória e uma tradição, à medida que os tempos vão se sucedendo. 7. Os Monumentos referentes ao fundador ou à história da Fundação. 1. DOM BOSCO (1815-1888) Entre as diversas e multiformes fontes, que nos oferecem abundantes e ricos conhecimentos sobre a história primitiva ou atual da Congregação dos Salesianos/as estão sem dúvida os fatos ocorridos com o próprio D. Bosco, durante seus setenta e três anos de existência. Por ser um marco fundamental de sua vida e sua obra falaremos desde logo de três episódios fundamentais 1 Const. 9. 1
  • 2.
    para o entendimentoda vida espiritual e apostólica de Dom Bosco, o sonho dos “nove anos”, o encontro com Bartolomeu Garelli e a Carta de Roma. 1.1 O sonho dos nove anos2 Na biografia de João Melchior Bosco narram-se uma série de sonhos. O primeiro destes fenômenos aconteceu quando ele era ainda uma criança. Tinha nove anos e se encontra em meio a diversos meninos que riam e blasfemavam. Ouvindo as blasfêmias ele parte para a luta corporal com eles, tentando fazer com que se calassem. Naquele momento aparece um homem bem vestido e de rosto resplandecente, que ao observar a pancadaria, aproxima-se de Bosco e lhe diz que não era com pancadas, mas com mansidão e carinho que ele conseguiria conquistar aqueles jovens para seus amigos. Há discussões se estes acontecimentos seriam realmente sonhos ou visões. Dom Bosco mesmo não nos deixou muito clara a idéia de ter compreendido plenamente o valor daqueles eventos. Não obstante, aquele sonho ficou profundamente gravado em sua mente, durante toda a sua vida. Não pode deixar de dar-lhes atenção, sobretudo porque em certas ocasiões funcionaram como premonição chamando atenção sobre a morte próxima de algum aluno ou salesiano. O carinho, a caridade e a mansidão apresentados pelo homem venerando e de aspecto varonil, personagem do sonho dos nove anos foi aceito por D. Bosco como um dos tripés da práxis pedagógica, de seu Sistema Preventivo. A Senhora majestosa e resplandecente que juntamente com a figura masculina apareceu naquele sonho-visão tornou-se a conselheira diuturna, a Mãe e Mestra da obra bosquiana em favor dos jovens. Ela “indicou a Dom Bosco seu campo de ação entre os jovens e constantemente o guiou e sustentou3, sobretudo na fundação da nossa Sociedade.4 1.2 Bartolomeu Garelli, o Oratório e a Congregação Salesiana Outro marco indelével e fundamental de sua vida apostólica está no encontro com o jovem camponês analfabeto, Bartolomeu Garelli. O diálogo aconteceu na sacristia da Igreja de São Francisco de Sales em Turim, aos oito de dezembro de 1841. Celebrava-se então a festa da Imaculada Conceição. Naquela data e naquela sacristia nascia o primeiro Oratório Salesiano, hoje difundido por todo o mundo pelos filhos do amigo dos jovens. 2 Vide ANEXO II 3 Const. 8. 4 Idem. 2
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    Após a Missa,D. Bosco realizou a primeira reunião de sua futura Sociedade religiosa. Começou com uma Ave Maria e um jovem que aos 16 anos não sabia ainda fazer o sinal da Cruz.5 Os salesianos consideram o encontro com Garelli como o início da Sociedade. Ali plantava a pedra fundamental da Congregação dos jovens. Com uma prece à Auxiliadora o santo piemontês dava início ao «movimento de pessoas que de vários modos trabalhariam para a salvação da juventude».6 Uma sacristia tornava-se o símbolo da pesca milagrosa das águas da Galiléia. Dois Mestres, o de Simão e o de Bartolomeu (Garelli). Ambos precisariam de colaboradores. Assim o foi no episódio das águas do Tiberíades, assim seria na sacristia turinesa, imagem e início do mar bosquiano. O Oratório, lugar catequético de D. Bosco, instrumento de salvação da juventude, continua sendo um abrigo para todos aqueles que hoje, como em 1841, vivem nas ruas, praças, botecos, pontes, canteiros de obras ou em cárceres.7 É ainda a casa que acolhe, o refúgio daqueles que procuram uma «sacristia», onde deverão encontrar um padre amigo e não um sacristão violento e mal humorado. O Oratório salesiano consolida-se em 1842, acolhendo inicialmente só os jovens mais perigosos, especialmente os saídos das prisões. Embora existissem entre eles também rapazes de boa conduta e instruídos. Os trabalhos eu executavam consistia em ajudar na disciplina e na moralidade, nas leituras e cânticos das funções litúrgicas.8 Chamavam-se os “maestrini”, pequenos mestres e deveriam mais tarde, integrar o «grupo de estudantes» de onde surgiriam colaboradores mais preparados. À medida que os freqüentadores do Oratório iam crescendo, fazia-se necessário criar um corpo de normas administrativas e disciplinares, a fim de que o grupo não fosse um aglomerado sem ordem, indisciplinado. D. Bosco começou assim a preparar um Regulamento para aqueles jovens. Consultou diversos outros Regulamentos de Oratórios como As Regras do Oratório de S. Luís, de Milão e As Regras para os Filhos do Oratório. 5 João Bosco, Memórias do Oratório:1815-1855, São Paulo, Editora Salesiana, 1982, p. 18ss. 6 Const. 1 e 5. 7 As Memórias Biográficas falam das “pescas” de D. Bosco a esses lugares, onde sabia que iria encontrar jovens, famintos e abandonados. MB XVIII, p, 258. Const. 1. f Alguns Oratórios da época: Oratório do Anjo da Guarda, fundado em Turim, pelo P. João Cocchi (1813-1895) O famoso Oratório de Valdocco ou S. Francisco de Sales (ou ainda D. Bosco) Fundado em 1847, encontramos no Bairro de Porta Nova, O. de S. Luiz Gonzaga. Ainda em Turim, em 1851, P. Cocchi abre O. de S. Martinho, no bairro de Porta Palazzo. Este Oratório estava a 50 metros do O. de S. Francisco de Sales. P. Cocchi, apadrinhado pela Marquesa Barolo, não se afinava muito com D. Bosco que jamais quis saber de suas idéias políticas. A insistência de Cocchi em formar uma sociedade com D. Bosco também não era aceita por este. O local escolhido para a fundação do S. Martinho poderia ser uma provocação, uma prova de força do grupo de Cocchi. São coisas de nossa Igreja também formada por homens. Deus deve rir muito de nossas bobagens… Em Brescia havia o Oratório do Pe. Ludovico Pavoni (1774-1849) Algumas cidades francesas, como Marselha apresentavam os Oratórios fundados pelo sacerdote Jean-Joseph Allemand (1772-1836), chamado também “l`apôtre de la jeunesse”. Os Oratório de Milão. Por130 km de Turim, volta de 1850 eram 15, alguns com mais de um século de fundados (Cf. Pietro STELLA. Storia della Religiosità Catolica , pg., 106, nota 15). zendo de tudo, menos coisas louváveis. Lembram-nos ainda aquelas fontes as astúcias, perigos e perseguições de que várias vezes foi alvo pelo fato de ser amigo dos jovens (Cf. MB III, 52ss e 392ss). 8 Os primeiros Oratorianos em geral eram escultores, pedreiros, assentadores de ladrilhos, estucadores. Trabalhavam nas obras de Turim. A partir de 1842, o setor construção começou a apresentar grande surto na cidade. 3
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    Um dos cuidadosprincipais era deixar claro o objetivo de seu trabalho educativo com a juventude.9 Tratava-se do início da sistematização do organismo que iria ser a sua Congregação, uma “Sociedade que não nasceu de simples projeto humano, mas por iniciativa de Deus”.10 1.3 A Carta de Roma11 (10 de maio de 1884)12 Estamos na Primavera de 1884. Dom Bosco está em Roma preocupado com diversos problemas: • A construção da Igreja do Sagrado Coração (próxima à grande Estação Termini) exige grandes somas que ele tem que conseguir através de pedidos e doações; • O pensamento de conseguir um Estatuto jurídico para sua Congregação não lhe sai da mente. • Uma de suas grandes preocupações era também o desejo de estabilizar e dar unidade às sua obras e concretizar o estilo de educação, próprio de seu sistema preventivo. • Todas estas dificuldade parecem aumentar, e ele o sabe e sente, face ao crescente estado de debilidade de sua saúde. É nesta atmosfera que vem a lume a Carta de Roma escrita aos jovens e educadores de Valdocco, a quem ele chama de Caríssimos filhos em Jesus Cristo. Figuras de proa da Congregação, como Don Álbera e Pietro Stella referiram-se a este documento afirmando que é “o comentário mais autêntico do Sistema Preventivo” (Dom Álbera); e P. Stella escreveu que “o seu conteúdo é de se considerar como um dos mais ricos documentos pedagógicos de Dom Bosco”. Ao refletirmos sobre o hino da caridade, composto por S. Paulo13 e a Carta de Roma, creio que não estaremos equivocados se dissermos como Gianni Ghiglione que Dom Bosco fez quase um comentário perfeitamente educativo ao hino de S. Paulo. Para Aubry a Carta é como um testamento. Deve ser encarado com seriedade, pois o que um testamento pede deve ser cumprido. Pe. Bartolomeu Fascie, quando Conselheiro escolástico, em uma apresentação sobre o texto escrevia: «O senhor nos dê a graça de lê-la com filial e devota atenção para extrair dela aquele fruto de verdadeira caridade que é alma e vida do Sistema preventivo».14 1.3.1 O sentimento de paternidade na Carta de Roma Amar e ser amado são dos sentimentos mais nobres do coração do homem: materializados na paternidade e na filiação. Não faz muito houve quem tentasse eliminar estas características existentes entre filiação e paternidade. Freud anunciou “a morte do pai”, procurando anular desautorizar a autoridade: • O pai cultural>os professores; • O pai político> a coronelança, triste fenômeno ainda hoje encontradiço no Brasil; • O pai capitalista> os patrões; 9 MB III, 86 - 92. 10 Const. 1 11 Vide ANEXO I. 12 Este comentário baseia-se em Don Gianni GHIGLIONE, Lettera da Roma 10 maggio 1884. 13 1 Cor, 13. 14 Cf. G. GHIGLIONE, Lettera da Roma..., p. 4. 4
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    O pai biológico> os genitores; • O pai religioso> os padres; • O Pai de todos os pais>Deus. A missiva de Dom Bosco trata de um tema que hoje se tenta renovar, reconquistar. E também neste ponto está sua atualidade. Os nossos tempos procuram redescobrir a figura paterna, sente- se a necessidade de sua presença, da figura paterna. Muito embora tantos genitores vivam separados, ou por motivos vários (emprego, viagens de negócio etc.) se encontrem com os filhos apenas nos finais de semana; não obstante, o pai de nossos dias não é mais visto como alguém a ser removido do caminho dos filhos e sim uma figura necessário para a formação e educação da prole. Alguém vizinho ao filho em quem ele confie, imite, tenha como um ídolo. Não se pode negar que uma das características da personalidade de Dom Bosco era precisamente a paternidade. Pode-se afirmar que era uma de suas originalidades. Parece até que a perda do pai aos dois anos veio reforçar este sentimento, tão explícito e notório que a Igreja o chama de Pai e Mestre dos jovens. Sua bondade paterna não pode ser separada de seu estilo educativo. O educador dos jovens de Turim soube ser para eles um pai bondoso, terno e ao mesmo tempo firme. Corrigia-os amando-os com um ilimitado sentido de responsabilidade e dedicação. Não se cansava de estar com eles, não reclamava. Estava sempre alegre mesmo quando sua enorme resistência ao trabalho, encontrava-se combalida pela enfermidade. Somente se ausentou fisicamente dos seus jovens quando por eles deu seu último suspiro. Amou-os até o fim, seguindo o exemplo do mártir do Gólgota de quem foi perfeito imitador. Basta que sejais jovens para que eu vos ame. 1.3.2 Chamai-me sempre pai e eu serei feliz Toda paternidade no céu e na terra vem do Pai.15 A vida de Dom Bosco e sua Carta romana mostram uma sensibilidade que não é simplesmente uma característica da bondade humana. Sua maneira de ser e agir era fruto do convencimento de que só através do amor paterno aos jovens ele poderia conquistá-los para o verdadeiro Pai, fonte de toda paternidade no céu e na terra. Vejamos o que nos diz o Padre Aubry que intuiu no educador de Valdocco duas paternidades: «Dom Bosco me aparece assim: um padre educador, cujo coração se anima dos sentimentos e das dedicações de um verdadeiro pai de família da terra; mas também dos mesmos sentimentos de Deus Pai. Estamos aqui em um dos pontos mais claros da figura também espiritual de Dom Bosco, talvez ao centro de sua santidade pessoal como também de seu êxito educativo. Nele vida espiritual e método educativo fazem parte de um só e mesmo movimento do coração e da vida. Se esta paternidade ativa é autêntica e plena, só imitando e prolongando a paternidade infinita de Deus, exige que o educador se mantenha em contacto com aquele Pai supremo, que conheça os costumes do seu coração infinitamente paterno e deixe o Coração divino difundir alguma coisa deste amor no seu coração para fazê-lo extravasar os limites. Verdadeiramente não se é pai se não com Deus e como Ele. Exercitar a autêntica paternidade é, portanto unir-se a Deus, é cumprir o seu dever providencial e ao mesmo tempo empenhar-se na vida da santidade».16 15 Cf. Ef. 3, 15. 16 Cf. G. GHIGLIONI, op. cit. pp. 7, 8. 5
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    A mensagem queDom Bosco parece querer passar à Igreja e a todos os educadores que exercem qualquer tipo de paternidade material ou espiritual é que sua riqueza e grandeza devem estar próximas a Deus. Ambas devem conduzir a Ele. Para G. Ghiglione, o fundador dos Salesianos assume as duas expressões do Evangelho de João: como o Pai me amou, assim eu também vos amo (Jo. 15, 9); e como o Pai me enviou eu também vos envio (Jo. 20, 21). A paternidade vivida por nosso Santo fundador foi a execução prática da paternidade invisível de Deus Pai. Ele a traduziu no mundo para felicidade de muitos, especialmente dos jovens.Não compreenderá verdadeiramente Dom Bosco quem não conseguir vê-lo como um pai no meio de seus filhos. Podemos observar na Carta de Roma algumas características do amor de Dom Bosco que são as mesmas do amor do Pai. 1.3.3 Um amor que não espera, mas tem a iniciativa, é preventivo São João nos avisa que foi Deus quem nos amor por primeiro e não nós e S. Paulo reforça a afirmação, dizendo que este fato aconteceu antes mesmo da criação do mundo(Ef. 1, 4). As parábolas da ovelha perdida, do pai que sai de casa para abraçar o filho que retorna da miséria são entre outras, provas de que Deus na maioria dos casos é quem dá o primeiro passo. Dom Bosco nos ensina que o amor deve ser preventivo. São sua palavras: «Não esperai que os jovens venham a vós. Ide a eles, daí o primeiro passo. E para serem acolhidos, descei da vossa altura. Colocai-vos no seu nível, do lado deles». É certamente com tristeza que o santo da juventude relembra, nos tempos de menino e mais tarde no Seminário de Chieri, fatos acontecidos com alguns reverendos. «Quantas vezes quis falar, pedir-lhes conselhos ou soluções de dúvidas e não podia. Antes, acontecendo que algum superior passasse no meio dos seminaristas, sem saber a razão, cada um fugia precipitadamente para a direita e para a esquerda... Aquilo inflamava sempre mais meu coração para ser logo padre para entreter-me no meio dos jovenzinhos, para atendê-los, para ouvi-los em cada necessidade». 1.3.4 Um amor que se aproxima das pessoas A vida de Jesus Cristo nos mostra como Ele se fazia próximo, às pessoas, de modo especial daquelas mais carentes, sofridas, abandonadas. Para o Filho de Deus não há diferenças, nem distâncias, Ele veio para todos, é o bom Samaritano universal. Ide ao mundo e conquistai-o pelo amor, ajudando-o, servindo-o. É o que Jesus nos pede, o amor ao próximo é a nossa alforria. É o que o apóstolo dos jovens fez e nos pede que façamos: aproximar-nos deles, acolhê-los sem prejulgamentos. Não nos escandalizarmos com seu modo de encarar a vida, com suas limitações ou falhas, mas desculpá-los17. Assim eles serão conquistados pelo coração, pois educação é coisa do coração. Amai as coisas que os jovens amam, estejais sempre no meio deles. Quantos jovens, nós educadores não encontramos em nossa vida e que nos deram a oportunidade de vivermos com eles esta experiência de nosso fundador. Um deles me dizia: “muito obrigado, pelo que me disse, não tenho fé, mas reze ao seu Deus por mim. Gostei do senhor”. 17 Diante da horta arruinada o filho dizia a Mamãe Margarida: “são jovens”. 6
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    1.3.5 Um amorpersonalizado Na parábola do Bom Pastor cada ovelha é conhecida pessoalmente pelo seu dono. O bom pastor conhece suas ovelhas... as chama pelo nome e elas o seguem, porque conhecem sua voz. Como é bonito e como seria maravilhoso se em todos os redis acontecesse essa afirmação do Senhor. Contudo, é assim que o Pai celeste age, conhecendo e amando cada uma de suas criaturas pessoalmente e pedindo que façamos o mesmo. Chega mesmo a contar os fios de nossos cabelos, a saber quantas são as estrelas e o nome de cada uma. O amor, sob esta característica é a constância na vida de Jesus, a todos acolheu e ajudou, como o sol e a chuva descem também sobre todos. O fundador do Oratório de Valdocco conhecia e amava cada um de seus jovens. E eles sabiam e gostavam dessa atitude e a retribuíam. Desta maneira educador e educandos realizaram naquele bairro de Turim o milagre educativo de transformação de muitos jovens do perfil daqueles do Sonho dos nove anos. 1.3.6 A prática de um amor positivo Olhando novamente para o Senhor Jesus, a Fonte de todas as fontes, notamos como ele acredita nas pessoas que encontra em seu caminho. Foi assim com os pescadores de Tiberíades, com o baixinho e tímido Zaqueo, com a escorregadia Samaritana e tantos outros. Cristo confiou nos pequenos, nos simples, nos pobres, porque sabia que eles não fariam objeções ao Reino dos Céus; eles seriam os donos daquele Reino. O otimismo bosquiano baseia-se nessa fé. Ele sabia e acreditava quer cada um tem um ponto positivo, acessível ao bem. Seu mestre S. Francisco de Sales também pensava o mesmo: cada um tem pelo menos uma zona positiva dentro de si. O educador, o pastor tem que encontrá-la. Dom Bosco era um ingênuo? Ele sabia que tanto o bem como o mal agem no mundo. Não era adepto de Rousseau, muito pelo contrário. Sua inabalável confiança em transformar pela educação fundava-se em três fontes poderosas que fortificam e conduzem o jovem à casa do Pai. Estas riquezas são: a Palavra, a Reconciliação e a Eucaristia. Toda sua vida foi uma contínua dedicação à Catequese, à Penitência e ao Sacerdócio. Como se transformava e se sentia feliz, como vivia sua paternidade espiritual, quando distribuía o Pão da Vida aos seus meninos. E não se cansava de dizer-lhes: meus filhos, todos juntos caminhamos em direção a Deus. 1.3.7 Uma mensagem para o mundo Dom Bosco envia de Roma uma preciosa mensagem a todos os homens e mulheres de boa vontade ou não. Ele nos recorda que não há nada mais sublime do que ser pai ou mãe, filho ou filha. Duas atitudes devem acompanhar toda a vida de um vocacionado, de quem foi chamado para viver eternamente nas mansões celestes, na Casa eterna do Pai comum: a primeira é a de viver como filho para com Deus Pai e segunda, a de cultivar uma postura de pai bondoso e compreensivo diante dos filhos ou destinatários que forem confiados a cada um. 2. A produção escrita de Dom Bosco 2.1 “Um grande educador, cujos escritos são procurados em vão” 7
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    Em 1926 umjornal italiano publicou uma declaração sobre os escritos de D. Bosco que muito incomodou os estudiosos de sua obra, de modo especial os salesianos. A afirmação era de Giovanni Gentile, que reconhecia o valor do educador turinês, mas ao mesmo tempo falava da impossibilidade de se encontrar suas obras: “grande educador, mas (um) autor do qual seus escritos são procurados em vão”.18 A afirmação de Gentile, era no entanto, uma convicção para muitos admiradores e pessoas que estudavam os acontecimentos dos anos oitocentos na Itália. O ISS (Istituto Storico Salesiano)19 apresenta seis momentos da história da publicação das obras de D. Bosco. 2.2 Setembro de 1898: VIII Capítulo Geral Na sessão vespertina foram discutidos 16 artigos com propostas apresentadas pelos sócios, cujo tema era: “sente-se cada vez mais a necessidade e o dever que o espírito de D. Bosco se conserve intacto e em todos os lugares entre nós seus filhos. Que propostas nos pareceriam mais propícias para nos levar a este fim, tão santo e de capital importância para nossa Pia Sociedade”? O art. 12 teve a formulação seguinte: “faça-se uma edição completa de todas as obras de D. Bosco: destas haja uma biblioteca circulante em cada casa e se incentive a leitura aos irmãos”. Ao final da discussão suprimiram-se o artigo 12 e o 15. Possivelmente pelas dificuldades que teriam que ser enfrentadas na prática dos mesmos. 2.3 Dezembro de 1914: Capítulo Superior Lê-se nos verbais do mês de Dezembro: “o Secretário encarrega-se de preparar um elenco de todas as escritos de D. Bosco e se pede ao senhor Pe. Cerruti que prepare uma edição de todas as obras de D. Bosco, também para dar trabalho à Tipografia do Oratório que não o tem, faz tempo, com prejuízo não só material, mas moral dos jovens. Para algumas obras, como a História Sagrada, colocar oportunas notas, exigidas pelo progresso feito por tal ciência”. 2.4 Março de 1915: circular e comissão Pe. Cerruti com a circular de 18 de março daquele ano comunicava que o Cap. Superior tinha aprovado “que se preparasse uma edição autêntica, completa das obras de D. Bosco”. Na mesma circular convidavam-se os destinatários para fazerem parte de uma “comissão de Salesianos, cada um dos quais tenha o pensamento de tudo que diz respeito à pesquisa, o exame, a disposição, à impressão daquela qualidade de trabalho que lhe foi confiado”. As secções e relativos encargos ficaram assim constituídas: • Epistolário Angelo Amadeo • Escrito marianos Augusto Amossi • Escritos biográficos e amenos Giuseppe Binelli • Vidas dos Papas Giovanni Battista Borino • Obras históricas Alberto Caviglia 18 1926, p. 313. 19 Vide ANEXOS. 8
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    Obras pedagógicas Vincenzo Cimatti • Obras catequéticas e polêmicas Sante Garelli • Obras religiosas Giacomo Mezzacasa A Comissão encarregada de acolher os critérios propostos para a edição das Obras e dos Escritos de D. Bosco reuniu-se no dia 31 de março. Infelizmente dos fatos vieram por termo à iniciativa: o falecimento de Pe. Cerruti e o agravamento dos problemas bélicos da I Guerra Mundial. 2.5 1928-1933: Pe. Alberto Caviglia • 1922 a 1932: após ser encarregado oficialmente pelo Conselho Superior, Pe. Caviglia publicou os quatro primeiros volumes da Secção Escritos históricos. • 1929: Vol. I/1 História Sagrada. Vol. I/2 História Eclesiástica. • 1932: Vol. II/1-2 As vidas dos Papas. • 1932: Vol. III A História da Itália.20 Segundo o documento do ISS, citado anteriormente, o testo crítico da História da Itália não corresponde a nenhuma das edições publicadas enquanto D. Bosco vivia, une partes de várias edições. Trata-se de uma espécie de coletânea com trechos de várias edições. Lemos ainda naquele mesmo estudo: «O valor atribuído à História da Itália é desproporcional com respeito às mais modestas intenções do escritor. Do ponto de vista crítico os resultados foram insatisfatórios, até porque muitas achegas afastaram da intenção original e do que foi prometido pelo título da série: Obras e escritos publicados e inéditos de “Dom Bosco”, novamente publicados e revistos segundo as edições originais e manuscritos supérstites aos cuidados da Pia Sociedade Salesiana». As dimensões do projeto foram apresentadas no Boletim Salesiano do mês de abril de 1933. Previam-se, em cinco séries, 14 volumes ou tomos, cada um com mais de 500 páginas contendo Anexos, Fragmentos e Índices:  Obras históricas.  Obras religiosas.  Obras pedagógicas.  Escritos morais e amenos.  Instituição da Obra Salesiana. Cada volume viria enriquecido com notas preliminares de caráter documental ou editorial e oportunas anotações ou comentários entre as várias edições. O trabalho era enriquecido ainda com lembretes de retorno às fontes ou a circunstancias históricas que dissessem respeito à composição dos escritos. 2.6 Trabalhos publicados a partir de 1943 * 1943: Vol. IV - A vida de Domingos Sávio e o estudo Domingos Sávio e Dom Bosco. Trata-se de um trabalho de muito valor, utilizado por muitos. 20 Francisco Motto, diretor do ISS, apresentou recentemente um episodio ainda desconhecido sobre a História Sagrada de Dom Bosco. 9
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    * 1965: Vol.V - O primeiro livro de Dom Bosco: Traços sobre a vida de Luís Comolo e Miguel Magone. Trata-se de uma experiência pedagógica clássica. * 1965: Vol. VI – A vida de Francisco Besucco. Texto e estudo (escrito em 1940). 2.7 1963 – 1973: Universidade Pontifícia Salesiana Na sexta etapa da publicação das Obras de D. Bosco encontramos duas iniciativas, ambas unidas à Universidade de Roma e à Direção Central dos Salesianos. Durante o reitorado do Pe. Renato Ziggiotti e com sua aprovação, constituiu-se um grupo redacional21 com a finalidade de publicar uma edição crítica dos escritos publicados e inéditos de D. Bosco e das testemunhas contemporâneas. A equipe se encarregaria de escrever sobre a vida e atividade do santo. Em 1965 o Cap. Geral XIX propôs: «compilar uma antologia de todos os tesouros educativos herdados de D. Bosco e dos primeiros salesianos, mediante a criação de um Centro de estudos históricos salesianos, que ilustre sempre melhor a obra educativa de S. João Bosco, e expresse com precisão as linhas de seu método e do seu espírito».22 O Cap. Geral de 1971 recomendou que se estudassem os meios necessários e mais idôneos para garantir o desenvolvimento do “Centro de Estudos Don Bosco”. Em 6 de fevereiro de 1973, fundou-se o Centro sendo confiado “ad experimentum” à Faculdade Salesiana. Uma de suas atribuições era efetuar uma série de publicação e estudos sobre a história das Missões Salesianas por ocasião de seu centenário. Os Atos do Cap. Superior publicava, naquele mesmo ano de 1973, a fundação na Casa Geral de um “Centro de Estudos para a história da Congregação Salesiana”. No ano seguinte surgiu o “Centro de Estudos de História das Missões Salesianas”.23 2.8 1978-1982:.. Casa Geral Salesiana – ISS (Istituto Storico Salesiano) O Capítulo Geral XXI estabelecia:24 «O Conselho Superior, no mais breve tempo possível criará um Instituto Histórico Salesiano, que nas formas ideal e tecnicamente mais válidas coloque à disposição da Família Salesiana, da Igreja e do mundo da cultura e da ação social os documentos do rico patrimônio espiritual deixado por D. Bosco e desenvolvido pelos seus continuadores e promova em todos os níveis o aprofundamento, a ilustração e a difusão. Toda a Congregação concorrerá para a realização e a vitalidade da importante iniciativa com o pessoal e os meios disponíveis.»25 O Instituto Histórico Salesiano, com sede em Roma, foi criado em 23 de Dezembro de 1891.26Seu grupo de pesquisadores de várias nacionalidades tem realizado uma série importante de trabalhos, impressos nas mais diversas línguas. DOM BOSCO: FONTES (seus escritos) 21 Entre 28 e 29 de Dezembro de 1963. 22 Atti del Cap. Gen. XIX, Roma 1966, p. 201. 23 (http://www.ups.urbe.it Settori Centro St. don Bosco). 24 26 de janeiro de 1978. 25 Estatuto. 26 Vide ANEXO IV 10
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    1. JOÃO BOSCO Constituições da Sociedade de S. Francisco de Sales [1858] – 1875 Testos críticos aos cuidados de Francesco Motto (ISS, Fonti, Serie prima, 1). Roma – LAS 1981. O responsável pela crítica deste trabalho faz a seguinte observação: «Entre a notável massa de documentos disponíveis (além dos 40), em sua maior parte manuscritos, o curador para efeito editorial privilegiou 5 documentos do testo e 4 do testo latino, considerando etapas bem individuais e significativa do longo e complexo processo redacional. Desses 8 foram colocados em paralelo...; Uma que apresenta exigências particulares, foi editada à parte. Cada um dos 8 testos é conjugado a um riquíssimo aparato das variantes, que se unem entre si sem solução de continuidade ao texto sucessivo. “ É de se considerar a empresa de significado excepcional e incontestável valor histórico-espiritual”».27 2. JOÃO BOSCO Constituições para o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora (1872-1825) Testos críticos aos cuidados de Cecília Romero (ISS, Fonti, Serie prima, 2). ROMA – LAS 1982. Explicações de Madre Romero a respeito do documento: «Edição crítico-genética, nas formas costumeiras e felizmente entrelaçadas, do último manuscrito disponível das Constituições das FMA (1872-1885), da qual dependem os primeiros dois testos a serem impressos (1878,1885). O aparado das variantes leva em conta, quer documentos que entram na história redacional do texto, quer separadamente, aqueles paralelos, embora significativos. Na introdução a problemática dos testos constitucionais enquadra-se naquela humana das Filhas da Imaculada contidas em parte no Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora». 3. Francisco MOTTO (ed) Lembranças confidenciais aos Diretores (Picola Biblioteca dell’ISS, 1). ROMA – LAS 1984. Neste documento Dom Bosco deixou à Congregação sua grande experiência espiritual e pedagógica. A carta foi escrita a D. Rua, em Outubro de 1863. Ele que foi, o primeiro diretor de uma comunidade salesiana educadora, fora de Turim em Mirabello Monferrato. Posteriormente ampliada, era enviada aos novos Diretores das casas salesianas. 4. Jesus BORREGO (ed) Lembranças de Dom Bosco aos primeiros missionários Pequena biblioteca do IHS, 2). Roma – LAS 1984. 5. Pedro BRAIDO (ed) Carta de Roma (10 de maio de 1884) (Piccola Biblioteca dell’ISS, 2). Roma – LAS 1984. 27 RSS 2, 1983, p. 170). 11
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    Trata de umsonho que Dom Bosco teve em Roma em 10 de Maio de 1884. Seu biografo, Pe. Lemoyne o descreve em duas formas: aos jovens e à comunidade salesiana de Turim – Valdocco. É um dos documentos mais ricos para se compreender o Sistema educativo de Dom Bosco. A amorevolezza e o relacionamento educador-jovem são dos temas mais importantes desta Carta, famosa em toda a Congregação. 6. Francisco MOTTO Memórias de 1841 a 1884-5-6 (escritas) pelo Sacerdote João Bosco aos seus filhinhos salesianos (Testamento espiritual). (Piccola Biblioteca dell’ISS, 4). Roma - LAS 1985. Transcrevo o comentário ao documento feito pelo diretor do ISS, Dom Motto: «Para a compreensão de Dom Bosco e do seu espírito, para o aprofundamento da sua concepção pedagógico-religiosa, para o conhecimento de suas ânsias em ordem à salvação da alma e ao futuro da sociedade salesiana o documento constitui um dos escritos mais eloqüentes. Trata-se de recordações e conselhos escritos em épocas diferentes, para os Salesianos, as Filhas de Maria Auxiliadora, para os Cooperadores e Benfeitores das obras salesianas. Numerosas as recomendações para quem exerce autoridade nos vários níveis». 7. JOÃO BOSCO O Sistema Preventivo na educação da juventude Introdução e testos críticos aos cuidados de Pietro Braido (Piccola Biblioteca dell’ISS, 5). Roma – LAS 1985. Don Braido afirma que este pequeno escrito de 1887 tornou-se famosíssimo. Nele encontramos em síntese o pensamento pedagógico de Dom Bosco. O conjunto das informações, das variantes e das fontes paralelas são de grande auxílio à compreensão do texto.28 8. JOÃO BOSCO Valentim ou a vocação contrariada Introdução e texto crítico aos cuidados de Mathew Pulingathil (Piccola Biblioteca dell’ISS, 6). Roma – LAS 1987. Em 1866 as Leituras Católicas publicaram este romance de fundo histórico. Tinha sido precedido de um manuscrito autografado com correções e achegas. A edição crítica é interessante e oferece ao leitor aspectos da concepção religioso-pedagógica de Dom Bosco “em um momento significativo de sua evolução espiritual”. 9. JOÃO BOSCO Escritos pedagógicos e espirituais Aos cuidados dos historiadores e escritores:Jesús Borrego, Pietro Braido, Antonio da Silva Ferreira, Francesco Motto, José Manuel Prellezo. (ISS, Fonti, Serie prima, 3). Roma – LAS 1987 [Ed. esgotada, cf 3ª edição n. 18]. 28 Vide ANEXOS. 12
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    10. BRAIDO PIETRO(ed) Dom Bosco para os jovens: O “Oratório” uma “Congregação dos Oratórios”. Documentos. Piccola Biblioteca dell’ISS, 9). Roma – LASS 1988. Estes dois documento fazem história, afirma Pe. P. Braido. Pelo momento significativo em que foram compostos (1854, 1863, 1873/1874), pelo contesto e pela finalidade. E continua o mestre de nossa história: «Se na realidade, Dom Bosco nos deixou vários testemunhos sobre “as origens” de sua obra – a mais notável são as “Memórias do Oratório de S. Francisco de Sales” - nenhuma delas é simples, linear, privada de supra-estrutura, interpretações e comentários, interpretações e comentários, quanto os dois breves testos aqui assinalados, riquíssimos de informações historicamente significativas dos primeiros anos do Oratório. Não se pode prescindir deles.» 11. JOÃO BOSCO A Patagônia e as terras austrais do Continente americano Introdução e testo crítico de Jesus Borrego Piccola Biblioteca dell’ISS, 11). Roma – LASS 1988. A obra foi encontrada por Ernesto Zsanto na Biblioteca da Pontifícia Universidade Urbaniana de Roma. Ele a definiu como o “Projeto patagônico de Dom Bosco”. O principal autor é o Pe. Giulio Barberis, embora Dom Bosco tenha sido o inspirador, revisor e por vezes, tenha corrigido algumas páginas. O santo lhe deu o seu jeito (impronta) e o assinou em 20 de Agosto de 1876, assumindo assim a responsabilidade por ele. Pe. Barberis recolheu tudo o que na época havia em Turim sobre aquelas terras setentrionais da Argentina. O estudo apresenta cinco partes: Descrição física, História da descoberta da Patagônia, Os habitantes: caráter e costumes, Religião e Missões. Na conclusão alude-se ao Presente estado da Patagônia e Novo Projeto para sua evangelização. 12. JOÃO BOSCO Memórias do Oratório de S. Francisco de Sales de 1815 a 1855 Introdução, notas e testo crítico aos cuidados de Antônio da Silva Ferreira ISS, Fonti, Serie prima, 4). ROMA – LAS 1991. A obra em pauta, surgida possivelmente entre os anos de 1873-1875, é de grande importância para todos os que se debruçam sobre a história salesiana. No julgamento do historiador Pe. Antônio Ferreira as Memórias do Oratório de S. Francisco de Sales constituem «a fonte primaria para a compreensão de sua mentalidade (Dom Bosco) e de seu projeto operativo global: é ao mesmo tempo re-evocação, reflexão e projeção para o futuro.» O aparato das variantes vem provar sobejamente o que se afirma acima. 13. JOÃO BOSCO Memórias do Oratório de S. Francisco de Sales de 1815 a 1855 ISS, Fonti, Serie prima, 5). ROMA – LAS 1991. 13
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    Edição como aprecedente, mas sem o conjunto da crítica testual. 14. JOÃO BOSCO Epistolário Introdução, testos críticos e notas aos cuidados de Francisco Motto. Primeiro Volume (1835-1863). Correspondências (cartas): 1-726 (ISS, Fonti, Seria prima, 6). Roma – LAS 1991. Segundo Volume (1864-1868). Correspondências (cartas): 727-1263). (ISS, Fonti, Serie prima, 8). Roma – LAS 1996. Terceiro Volume (1869-1872). Correspondências (cartas): 1264-1714. (ISS, Fonti, Serie prima, 10). Roma – LAS 1999. Quarto Volume (1873-1875). Correspondências (cartas) 1715-2243). (ISS, Fonti, ISS, Fonti, Serie prima, 11). Roma – LAS 2003. Não seria necessário reforçar que a correspondência epistolar que Dom Bosco manteve, com inúmeras e variadas pessoas e por dezenas de anos, é de enorme utilidade para seu conhecimento humano e espiritual. É uma grande riqueza para os estudiosos de sua espiritualidade e de seu método pedagógico. Ao lermos estas correspondência, muitas inéditas, descobrimos outro Dom Bosco, um homem sempre mais coerente com seu projeto de servir aos jovens, até o último respiro. 15. BRAIDO PIETRO (ed) Dom Bosco educador. Escritos e testemunhas Aos cuidados de Jesús Borrego, Pietro Braido, Antônio da Silva Ferreira, Francesco Motto, José Manuel Prellezo (ISS, Fonti, Serie Prima, 7). Roma-LAS 1992 [Esgotado: 3ª ediz. N.18]. 16. PRELLEZO José Manuel Valdocco nos anos oitocentos, entre real e ideal (1866-1889) Documentos e testemunhos (ISS, Fonti, Serie seconda, 3). Roma- LAS 1992. Prelezzo dividiu o trabalho em quatro partes: 1. O Oratório de Valdocco no “Diário” do Pe. Chiala e Pe. Lazzero (1875-1888 e 1895). 2. O Oratório de Valdocco nas “Reuniões Capitulares’ (1866-1877). 3. O Oratório de Valdocco nos “Encontros do Capítulo da Casa” e nas “Reuniões mensais” (1871-1884). 4. Valdocco 1884. 14
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    Neste capítulo temosas seguintes testemunhas: • Tommaso Pentore (1860-1908) • Stefano Febraro (1856-) • Domenico Canepa (1858-1930) • Secondo Marchisio (1857-1914) • Serafino Fumagali (1855-1907) • Giacomo Ruffino (1850-1913) • Giovanni Bonetti (1838-1916) • Giovanni Battista Lemoyne (1839-1916). Planta do complexo dos edifícios do Oratório de Dom Bosco:1869 – 88). 15
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    17. JOÃO BOSCO [Dom Bosco Fundador]. “Aos sócios Salesianos” (1875-1885) Introdução e testos críticos os cuidados de Pietro Braido (Piccola Biblioteca dell’ISS, 15. Roma- LAS 1995. Trata-se de um libreto com 38 paginas dirigidas aos Sócios Salesianos em 1875. É uma fonte de suma importância para se conhecer a figura de Dom Bosco fundador. 3. Uma palavra sobre as fontes da doutrina espiritual de Dom Bosco29 Na Introdução de Scritti Spirituali Aubry faz de imediato dos questionamentos sobre os escritos e a espiritualidade de Dom Bosco. Ele mesmo responde, dizendo que as duas afirmações contêm ao mesmo tempo a razão de ser e a dificuldade de seu trabalho. 1. Dom Bosco é um “escritor espiritual”? Certamente que não, responde o autor. 2. É um “mestre espiritual”? Certamente que sim. 3.1 Um mestre espiritual Como mestre espiritual, não há dúvidas que Deus enriqueceu sua Igreja com a presença e atuação de Dom Bosco. «Para o imaginário popular, Dom Bosco é aquele padre dinâmico que consagrou sua vida aos jovens mais pobres e fundou para eles a sociedade Salesiana. Para o cristão um pouco mais informado, é o fundador das Filhas de Maria Auxiliadora e dos Cooperadores Salesianos, autor de um método de educação particularmente eficaz, um dos padres do século XIX que viveu da forma mais dolorosa, mas também mais positiva o drama da unidade italiana, enfim, um dos grandes servidores da Igreja no campo missionário».30 No entanto, sua vida e seus escritos mostram-nos um homem providencial que deu à Igreja uma nova fisionomia, um carisma especial, capaz de atrair um numeroso grupo de cristãos e cristãs para um novo estilo de vida que leva à santidade. Santidade esta, em poucos anos, reconhecida pela Igreja que elevou aos altares como exemplos do seguimento evangélico vários homens e mulheres, inclusive jovens adolescentes de ambos os sexos. Aí estão o próprio fundador Dom Bosco, santa Maria Domingas Mazzarello, São Domingos Sávio, e dezenas de outros santos, beatos e servos de Deus. Pio XI, por ocasião do decreto para a beatificação de Madre Mazzarello fala de Dom Bosco como: “este sapientíssimo doutor em cujo magistério ela foi conduzida até ao mais alto vértice da perfeição cristã e religiosa”.31 Anos mais o Papa Pio XII dirá aos Cooperadores Salesianos: 29 Cf; Giovanni BOSCO, Scritti spirituali, a cura di Joseph Aubry, pp, 24ss. 30 Giovanni BOSCO, Scritti…p.11. 31 Acta Apostolicae Sedis, 30 [agosto, 1938], p 272, apud Aubry, op. cit, p, 13. 17
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    «O santo daação bem proveu a vossa vida interior, ditando-vos nada menos que à sua dúplice família dos Salesianos e das Filhas de Maria Auxiliadora uma regra de vida espiritual, destinada a formar-vos.»32 Dom Bosco passou em poucos anos a ter uma grande família 33, uma “numerosa posteridade”. Não obstante, pode-se dizer que ele em sua humildade não pensava em se apresentar como mestre e doutor. Pensava, desejava sim, difundir um método de vida cristã. Suas atitudes demonstram que desejava que no conjunto sua Família (SDB, Irmãs Salesianas, Cooperadores, alunos das casas salesianas) seguissem um só “espírito”. Através de suas convicções pedagógicas e espirituais, de sua liderança, de seu fascínio, de seus dons conseguiu que muitos de seus colaboradores, onde quer que fossem, seguissem voluntária e afetuosamente suas orientação, seu “espírito”. Não é comum que os fundadores possam formar ainda em vida seus colaboradores, ainda jovens. Isso Dom Bosco o fez, quando viveu no seu Oratório de Valdocco. Pe. Rua, seu primeiro sucessor, viveu com ele cerca de 40 anos abeberando-se de sua espiritualidade, de seu carisma.34 3.2 Dom Bosco não é um autor espiritual (Aubry) Dom Bosco, para Aubry, “não tem nada de teólogo especulativo e é avesso à introspecção espiritual). Ao contrário de São F. de Sales não produziu obras comparáveis ao Tratado do amor divino, ou Introdução à vida devota, ou ainda História de uma alma, de Santa Teresinha. Dom Bosco continua um homem de sua terra, camponês do Piemonte. Homem inteligente e prático, deixa a roça e vai para a cidade, agradando-lhe mais a experiência do que as idéias. Em sua trajetória de estudos vêem-se como suas preferências são para as ciências positivas como a Sagrada Escritura ou a história da Igreja. Por outro lado, o apostolado da escrita é um dos principais trabalhos de sua existência. Quando escreve não produz tratados, «mas é para “falar” aos seus jovens, ao povo, aos seus Salesianos e aos Cooperadores e propor-lhes uma doutrina simples, conselhos práticos, exemplos concretos que têm toda a aparência de serem “ordinários”, mas que representam o sinal de suas mais profundas convicções e mais vivas insistências. Sua doutrina espiritual aparece como envolta na sua simplicidade de escritor popular e seus diversos elementos estão dispersos em numerosos opúsculos, sem pretensão especulativa ou literária. E, apenas tenta uma coordenação de princípios, parece perder a inspiração e seus manuscritos se adensam de inumeráveis correções.»35 32 Discorso 12 sett. 1952. Acta Apost. Sedis, 44 [ottobre 1952], p. 778, apud Aubry, op. cit. p. 13. 33 Vide ANEXO VII. 34 Em conversa com Dom Barberis, no dia 17 de maio de 1876, Dom Bosco lhe falava sobre a importância deste seu trabalho de preparação dos primeiros salesianos, seus sucessores: «Todas as outras Congregações no seu início tiveram ajudas de pessoas doutas... que se associavam ao fundador. Entre nós, não: são todos ex-alunos de Dom Bosco. Isso me custou um trabalho duríssimo e contínuo de cerca de trinta anos, porém com a vantagem, tendo sido todos educados por dom Bosco, têm os mesmos métodos e sistemas.». MB XIII, 221). 35 Giovanni BOSCO, Scritti…p.15. 18
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    No entanto, estehomem de Deus, tornou-se um dos maiores carismáticos da Igreja. Sendo que o lugar por excelência de sua doutrina é justamente sua vida, sua experiência espiritual, extremamente rica. BRAIDO Pietro (ed) Dom Bosco educador. Escritos e testemunhas Uma nova terceira edição aumentada. Colaboraram: Antônio da Silva Ferreira, Francesco Motto, José Manuel Prellezo. (ISS, Fonti, Serie prima, 9). Roma- LAS 1996. O trabalho recolhe escritos e documentos relacionados com as experiências e as idéias pedagógico-espirituais de Dom Bosco. «Aos documentos fragmentários do primeiro decênio de trabalho educatico em Turim- Valdocco (1845-1854) juntam-se os de pedagogia narrativa [entre eles Cenno storico (nota breve, explicação) e Cenni storici: 1854-1862] e os escritos normativos e programáticos (Lembrança aos diretores, Dialogo com o mestre Francisco Bodrato, Lembrança aos missionários, Sistema preventivo na educação da juventude, Artigos gerais do “Regulamento para as Casas”, Sistema preventivo aplicado entre os jovens abandonados (pericolanti):1863-1878). A coleção conclue-se com os conselhos e as lembranças da ancianidade: a longa carta sobre os castigos de 1883, as duas cartas de Roma de 1884, o “Testamento espiritual” e três cartas aos salesianos da América (1885)».36 3 O projeto de um santo «D. Bosco era um gigante que despontava entre os educadores católicos do `800. “Promotor de uma educação completa, sobretudo porque aparecia em contraposição àquela que se baseava no adestramento físico e no mito da força conquistadora, coisas que levavam ao encontro violento de povos e a uma nova e desumana conflagração mundial».37 36 Alguns destes testos foram publicados na Piccola Biblioteca do Instituto Histórico Salesiano nn, 1-5 e 9. 37 Mario MIDALI (a cura di), Don Bosco nella storia. Roma, LAS 1990, p. 22. n. 6. 19
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    O século XIX,também chamado de século da pedagogia, trouxe para a Europa e em especial para a Itália uma série de movimentos políticos,38 sócio - religiosos que muito viriam influir no Continente e além mar. A nova problemática atingiu de cheio sobretudo a juventude.O jovem Bosco observando a situação começou a angustiar-se. Quanta tristeza não sentia ao observar tantos jovens destruídos física e moralmente, já nos primeiros anos de idade. A existência degradante e aviltante daqueles moços atingiria profundamente os sentimentos e o coração do novel sacerdote. De tal modo lhe impressionaram as cenas que via todos os dias, que resolveu dedicar toda sua vida ao bem da juventude necessitada. Seu relacionamento de amizade com os moços basear-se-ia na aproximação, no diálogo e na amizade, tentando fazer com que eles descobrissem que eram pessoas humanas e amadas por Deus. Tinham uma dignidade e deveriam dar um sentido humano-cristão às suas vidas. D. Bosco muito se preocupava com as crescentes transformações e materialização do mundo, com as novas exigências, com a Igreja e os jovens dentro do novo contexto da sociedade. O mundo do seu tempo queria ver o clero trabalhar, fundar obras de instrução e educação da juventude pobre, abandonada. Os padres deveriam abrir colégios, obras de caridade, escolas profissionais. A sociedade para ser cristianizada deveria começar com a instrução religiosa da juventude. O Pe. João Batista Lemoyne cita as categorias de garotos que na época perambulavam nas imediações de Porta Palazzo, um dos bairros da Capital do Reino piemontês. Ali se acotovelavam camelôs ambulantes, vendedores de fósforos, engraxates, limpa-chaminés, moços encarregados de cocheiras, distribuidores de volantes, carregadores, todos pobres meninos que sobreviviam daqueles magros negócios. Como o profeta da Galiléia, o santo de Turim também se compadecia daquelas multidões. O ajuntamento de rapazes e trabalhadores dos mais diferentes lugares gerava nas cidades o problema demográfico das massas humanas, impulsionadas pelo início da industrialização, o novo motor da história que viria transformar com sua tecnologia revolucionária o ritmo da sociedade universal. Famílias inteiras do Piemonte, da Lombardia e alhures procuravam a Capital piemontesa desestruturada e sem condições edilícias e sociais para atendê-las.39 O jovem sacerdote, cada vez mais tinha consciência de ter sido chamado por Deus para cumprir uma missão especial no meio da juventude. Sua vida era dominada pela presença insistente do 38 Apenas lembramos entre outros fatos o ofuscamento definitivo e inexorável da estrela napoleônica em Waterloo. As mutações drásticas impostas pelo Congresso de Viena, em se tratando da geopolítica européia. Os diversos movimentos revolucionários nacionalistas que transformaram o velho Continente. 39 O recenseamento de 1838 revelou na cidade a presença de 117.072 habitantes. Em 1848 eram 136.849. As habitações de 2.615 passaram para 3.289. As famílias eram em 1838, 26.351, (10,08 pessoas por casa); em 1848 eram 33.040 (10,45 por habitação). A média familiar em 1838 era de 4,44 indivíduos, enquanto que 10 anos mais tarde, de 4,14. Em 10 anos a população havia aumentado de 19.777, exatamente 16,89 por cento. (G. MELANO. La popolazione di Torino e del Piemonte nel secolo XI, Torino 1961, p.73, apud Pietro STELLA, Don Bosco nella Storia della Religiosità Cattolica, Vol. I p.103. 20
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    divino. «Nele eraprofunda e constante a consciência de ser instrumento do Senhor para uma missão singularíssima».40 No início das Memórias do Oratório, interrogando-se sobre a finalidade daquele manual, DB afirma que servirá como norma para se superar as dificuldades futuras, a fim de que se aprenda as lições do passado. Demonstrará como Deus tenha dirigido cada coisa a seu tempo. Servirá para que seus filhos se entretenham, quando lerem os fatos dos quais seu pai foi protagonista. As Constituições Salesianas no seu primeiro artigo lembram que a Sociedade de S. Francisco de Sales não nasceu de um simples projeto humano. Nossa Sociedade é obra de uma iniciativa de Deus, em favor da salvação da juventude «a porção mais delicada e preciosa da sociedade humana».41 O artigo constitucional reforça ainda a idéia de que a intervenção de Maria, fez com que o Espírito Santo, suscitasse D. Bosco para um apostolado específico. Não se cansava de afirmar que na execução de seu projeto Nossa Senhora havia realizado tudo. Ela tinha sido a Mãe e a Mestra que sempre o acompanhara no desenrolar de sua obra. Certa vez, ao visitar em Turim a Casa da Divina Providência, seu amigo Cotolengo fez-lhe um prognóstico, cuja realização foi realmente uma constante em sua vida. Ao despedir-se, apertando entre as mãos as mangas da sua batina, o colega também santo, fixou-o vaticinando: «Sua batina é muito tênue e fina. Arranje uma de tecido muito mais forte e consistente, a fim de que os jovens não possam rompê-la. Virá um tempo em que será puxada por muita gente».42 Um dos jovens Domingos Bosso, no momento próximo aos dois santos, escutara a profecia. Mais tarde, sacerdote e sucessor do Cotolengo, não esquecia o episódio. A história irá mostrar na prática aquela profecia, o que ocorrerá ali mesmo naquela Casa de Caridade. A vida de D. Bosco foi realmente uma total doação aos jovens. Seu propósito de consumir-se por eles foi cumpriu inexoravelmente até o fim de seus dias. Nos últimos anos tornava-se para ele muito difícil confessar, dado o cansaço que o acometia, a falta de forças que toda uma vida de esforços constantes lhe consumira. Uma ocasião em 1886, seu médico sugeriu ao Pe. Viglietti que lhe dissesse que parasse um pouco. Ele, rindo responde: «Êh, meu caro, se ao menos não 40 P. STELLA, Don Bosco nella storia, Vol. II, Mentalità Religiosa e Spiritualità. Zürich, PAZ VERLAG, 1969, p. 32 [Giovanni BOSCO], Memorie dell’Oratorio di San Francesco di Sales, (a cura di) Antônio Ferreira, LAS, 1992, p.5, n.4. 41 MB II, 45. 42 Em diversas ocasiões D. Bosco teve dificuldades com sua a “veste”. Foi roubada (MB III, 80). Certa feita, enquanto dava aulas de catecismo no coro da Capela de S. F. de Sales, recebe um tiro que lhe estraçalha a batina sobre o peito e na manga esquerda. (MB III, 300). É distribuída com as pessoas (MB V, 617; VI, 112-113. Torna-se puída e imprestável (III, 24); é cortada em pedacinhos para ser ofertada como relíquia (XVI 58,118. Hoje em uma das passagens do pórtico, onde se localiza a veneranda Capelinha, outrora local da Tetóia Pinardi, observa-se uma placa, mostrando o local do atentado. (172-193). 21
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    confesso os jovens,que farei então? Prometi a Deus que até o meu último respiro seria para meus pobres jovens».43 4 São Francisco de Sales (1567 – 1622) (vide Anexo V) Achamos importante, por diversas razões colocar Francisco de Sales entre as Fontes Salesianas, logo após o fundador da Congregação. Entre outros motivos porque ele é o protótipo de nossa espiritualidade. Como salesianos devemos estudá-lo sempre mais, para imitá-lo cada vez mais e assim nos tornarmos a cada dia salesianos mais próximos de Dom Bosco. É nesta intenção que ousamos apresentar também alguns delineamentos histórico-espirituais sobre a figura do santo do Chablais.44 Monsenhor Francis Vincent45 em uma de suas conferencias sobre a espiritualidade de S. F. de Sales começa afirmando que para se compreendê-la e defini-la, deve-se primeiro perguntar o que o santo pensava sobre Deus e o homem.46 Sabe-se que na época do santo havia concepções diferentes sobre a vida religiosa em relação a Deus. Para uns, como Monsenhor de Saint-Cyran, Deus era um Mestre terrível. Santa Teresinha do Menino Jesus se dirigia a Ele como um Pai amável, bondoso. Sobre o homem, Pascal dizia que é um anjo e não uma besta, um animal. Nossa concepção religiosa irá ser diferente, se tendermos para o que conhecemos como teologia do otimismo ou do pessimismo. Diante dessas duas correntes não há dúvida que pela vida e atuação de nosso santo ele estava muito longe de ser um pessimista. «São Francisco de Sales era decididamente otimista em teologia. Ele era impressionadíssimo com a abundancia dos meios de salvação...Nada poderia ser mais contrário ao sentimento (tremor, medo) que Monsenhor de Saint-Cyran experimentava e inspirava.»47 Vejamos o que pensava o santo a respeito de Deus. Aos dezoito anos e após sua famosa crise que chamou de tentação ele tornou-se definitivamente um otimista. Não foi fácil. As lutas que teve antes de se decidir entre as diferentes teodicéias, 43 MB XVIII, pg, 258. Const. 1. 44 Cidade ao Sul do lago de Genebra (Suíça) na Sabóia, onde o santo trabalhou incansavelmente, durante os cinco primeiros anos de sacerdote, para converter os Calvinistas. 45 Reitor emérito das Faculdades Católicas do Oeste (França?). 46 THE SPIRITUALITY OF SAINT FRANCIS OF SALES by Mgr Francis ... spirituality of Saint Francis of Sales we must first ask what the Saint thought of God and man. ... www.ewtn.com/library/SPIRIT/SALESPIR.TXT - 85k - Cached 47 Francis VINCENT, The Spirituality of Saint Francis of Sales (Conferência). 22
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    quase o levaramàs raias do desespero, quando na Universidade de Paris, ele estava no meio dos grandes debates sobre a predestinação. 4.1 Predestinação e pré-conhecimento (pré-monição) Na época duas correntes teológicas opunham-se fortemente. Uma afirmava que Deus predestinou para a salvação aqueles aos quais Ele tinha decretado dar a salvação e os meios necessários para alcançá-la. Isto significava que Deus predestina à salvação, os que Ele predestina para a salvação e não os que ele vê, através de sua pré-cognição que corresponderão à sua graça. O assunto era muito sério e preocupante: a predestinação não se basearia no pré-conhecimento, mas era o contrário, a pré-cognição estava baseada na predestinação. Deus sabe quem vai se salvar, porque Ele já decretou sua salvação. A conclusão é que se Deus não salvou a todos, aqueles que se condenam, não o fazem porque não corresponderam com a graça, ou pela conseqüência de sua própria recusa, mas porque o próprio Deus os recusou. Estes que assim pensavam seguiam nada mais, nada menos que Santo Agostinho e Santo Tomás. O jovem estudante descobriu que os Jesuítas, seus professores, não seguiam o mesmo parecer, discordavam de Agostinho e Tomás. Eles seguiam os ensinamentos de Santo Ambrósio, São João Crisóstomo e os Padres Gregos. Substancialmente a doutrina destes santos tinha a seguinte exposição: «Em Deus o decreto da predestinação à glória baseia-se primeiramente, se assim podemos falar, não no simples prazer divino, mas, na previsão dos méritos e santidade do eleito. “Deus prevê seus méritos e segundo o resultado desta previsão, Ele o predestina para a salvação.» 4.2 Um Deus de amor e misericordioso Francisco não podia entender um Deus que não fosse um Deus de amor que quisesse salvar todos os homens. Sua mente e seu coração refutaram espontaneamente a predestinação, embora a dupla autoridade de Agostinho e Tomás pesassem fortemente em seu espírito. Antes de decidir-se viveu cinco ou seis longas semanas de incertezas (e) angústia mental, minando suas forças física. Atormentava-o atrozmente o pensamento se ele estaria “a priori” incluído no misterioso decreto da predestinação. Sua escolha foi realizada, após uma oração fervorosa e sofrida aos pés de Nossa Senhora. Naquela ocasião ele ouviu uma voz que lhe dizia: Eu não sou Aquele que condena. Meu nome é Jesus. 23
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    Separando-se de Tomáse Agostinho, a quem pediu perdão, Francisco a abraçou, até ao final de sua vida, a doutrina, denominada Molinismo48. Para ele Deus é “Alguém que não deseja condenar”. Conseqüentemente dá a todos as graças suficientes para se salvarem. Francisco ensina que o mecanismo dos atos divino-humanos, quando coordenados, se o quisermos, nos levam diretamente ao Céu. O próprio Deus, após o pecado de Adão desejou verdadeiramente que todos os homens fossem salvos. A decisão de Deus sobre cada um de nós, só é tomada depois de Ele ter visto como é que nós vamos nos comportar. Os homens se condenam não por falta da graça, mas porque eles não aceitam a graça, não porque a graça lhes falte, mas porque eles faltam à graça. São Francisco estava tão convencido da munificência da graça de Deus, que seu convencimento era que Deus jamais abandona um pecador. Ele pensava que Já condenação de Judas aconteceu somente por causa de sua obstinação e frieza. Mesmo após sua ação criminosa Deus ainda esperou por ele, ainda lhe ofereceu sua graça. “Ó homem infeliz, ele não sabia bem que nosso Senhor... era o Salvador e que Ele tem a salvação em suas mãos?”49 Esta certeza de que Deus não abandona o pecador levava nosso santo a jamais anatematizar, mesmo o mais obstinado dos pecadores. Eis o que ele chegou a afirmar: «Quando pecadores se tornam tão empedernidos, endurecidos em seus pecados, de tal modo que vivam como se não existisse nem Deus, nem céu, nem inferno, então é quando Deus faz com que eles conheçam sua piedade e a doçura de sua graça».50 No Tratado sobre a graça encontramos afirmações como estas: «Quando Ele (Deus) vê que a alma mergulha profundamente na iniqüidade é seu costume oferecer sua ajuda e com incomparável graça Ele escancara a porta de seu coração.»51 Freqüentemente o pessimismo tem escurecido a mente dos homens. Arnauld e Saint-Cyran acreditavam que chegaria um momento em que Deus se afastaria do pecador e suspenderia sua graça, deixando-o viver em sua impiedade e perdição. Foi assim que Port-Royal tratou Pascal e Racine. Porque eles abandonaram Deus, este por sua vez também se afastou deles. Este, porém, não é o Deus de São Francisco. O Deus da vida não nos abandonou. O profeta Ezequiel já nos dizia que Ele não quer a morte do pecador, mas que se converta e viva (Ez. 18, 32). 48 Molinismo é a doutrina criada pelo jesuíta Luis Molina (1547-1551). O teólogo espanhol procura conciliar a idéia de livre-arbítrio à graça e onisciência divina, as teses dos reformadores com o Concílio de Trento. 49 Sermon of March 22, 1622. 50 Idem, ibidem. 51 Book 3, chapter 3. 24
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    A confiança doBispo de Genebra em Deus é paralela à sua confiança na bondade natural do homem. Seu otimismo envolve a ambas. Esta atitude está, no entanto longe do otimismo frio e absoluto de J. Jacques Rousseau e do mesmo modo distante da posição dos Jansenistas que ensinavam que o homem é radicalmente corrupto. Neste aspecto entre o pensamento Salesiano (de São Francisco de Sales) e o dos Calvinistas há também um enorme fosso. Para nosso Bispo o ponto de partida é o amor de Deus, enquanto para o pensamento calvinista é o forte sentimento de afastamento da parte de Deus. Francisco não deixa de ensinar que a tendência natural que existe no homem de amar a Deus não pode durar muito tempo se não é fortificada pela graça. Afirma ainda que esta graça encontra no homem um aliado e não um inimigo, como acreditam seus opositores. E é através desta graça que Deus quer salvar todos os homens, pois Ele é sempre Aquele que não deseja condenar ninguém e que oferece a todos as graças suficientes para que não se percam. A concepção otimista da divindade fez com que tudo que o santo do Chablais escreveu se baseasse na concepção otimista da graça, da salvação 4.3. O centro de sua espiritualidade: o amor, a caridade, a doçura Nosso amor para com Deus que nos ama é tudo aquilo que devemos desejar e procurar praticar. “Tudo na santa Igreja é por amor, no amor, para o amor e do amor”, afirma nas primeiras páginas do Tratado sobre o amor divino. Não se trata apenas de um ideal que buscamos intensamente, mas é o princípio e a fonte deste ideal. No amor estão todas as virtudes. É a linguagem do Apostolo São João repetida e vivida por outro santo. No livro Histoire du sentiment religieux aux XVIIe siecle M. Strowsky afirma que São F. de Sales efetuou uma “verdadeira revolução” no asceticismo. «Ele é o grande mestre e técnico da espiritualidade do amor. Houve homens antes dele que praticaram o asceticismo, homens que o viveram, nós diríamos hoje. Mas quem o formulou numa teoria ou o reduziu em um sistema?»52 Não são poucos os santos que escreveram e viveram o amor: São Paulo, Agostinho, Boaventura, Santa Teresa, São João da Cruz. O bispo saboiense reuniu suas próprias experiências, estabeleceu uma doutrina coordenada, uma arquitetura da vida espiritual baseada no amor. Para ele a doçura era uma virtude mais rara do que a perfeita castidade é, a flor da caridade. A uma jovem superiora de um Mosteiro “recomendava sobretudo o espírito de doçura que esquenta os coração e conquista as almas”. 53 52 Francis VINCENT, The Spirituality of Saint Francis of Sales (Conferência). 53 François de Sales a Madama Bourgeois, 3 maggio 1604, in Oeuvres XII 272, apud F. Desramaut: Spiritualità Salesiana, Cento parole chiave, verbete Dolcezza, p. 241. 25
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    O que acimadissemos sobre a mansidão que não é fraqueza, nem covardia, afirmamos semelhantemente a respeito da doçura que não é melifluosidade, afetação, debilidade. Dom Bosco era afável, amigável, mas firme quando precisava sê-lo. São Paulo nos lembra que os frutos do Espírito são doçura e domínio de si.54 A filosofia grega fala do domínio de si, da vontade sobre as paixões. Neste sentido a doçura cristã é diferente e distante de tudo o que possa dar a impressão de moleza. Pelo contrário ela libera a pessoa da escravidão de si e a conduz á mliberdade. 4.4 Ama (Deum) et fac quod vis55 A famosa frase de Santo Agostinho “ama e faze o que quiseres” jamais foi tão vivida na prática como na vida de Francisco de Sales. Ele demonstrou como alguém pode realmente amar a Deus no mais íntimo e no mais acessível de sua alma, como fazer de cada momento de seu dia, o que é melhor e mais justo, precisamente aquilo que Deus deseja que se faça. 4.5 O amor, princípio e fim de toda sua espiritualidade Estabelecer e desenvolver nos corações a caridade eis o Alfa e Ómega de toda sua pregação. Muitos santos desde São Paulo intuíram o eminente papel do amor na santidade, sua importância fundamental. Não obstante, eles jamais o colocaram como objeto de uma demonstração metódica. São Jerônimo parece ter escolhido a castidade como o fundamento de seu asceticismo; Francisco de Assis dialogava com a irmã pobreza; São Bernardo escolheu a mortificação; São Benedito foi o homem da liturgia. Não há dúvidas que estes santos tinham na caridade a fonte de toda a santidade e jamais negaram o seu papel. Talvez se, eles fossem diretamente questionados, respondessem que essa verdade estava implícita, não era necessário que se dissesse. A esta resposta, São Francisco de Sales teria respondido: “mas, é melhor que seja dita”. Assim ele o fez com uma insistência inigualável. Santo Inácio, a quem Sales muito cultuou, também não insistiu tanto no valor da caridade em sua estratégia para a conquista da perfeição. O jesuíta, Pe. Brou observa inteligentemente: «Todo autor tem suas fórmulas (sinais) favoritas que aparecem constantemente e informam as preocupações de sua alma... para Santo Inácio estas fórmulas testemunham, mostram a autoridade de Deus sobre as criaturas.»56 54 Gal. 5, 23. 55 Ama (Deus) e faze o que quiseres. 56 Francis VINCENT, The Spirituality of Saint Francis of Sales (Conferência). 26
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    Sales entende queestas fórmulas provam o amor de Deus pelas suas criaturas e são meios para provocar da alma uma resposta de amor. Brou nos diz que Santo Inácio fala nas “Constituições” 259 vezes sobre a Maior Glória de Deus. Para São Francisco de Sales pode-se afirmar que ele substituiu “Caridade” por “Maior Glória de Deus”. Sempre foi o grande apaixonado: “quando estava em Pádua estudava Direito para agradar a meu pai e para me agradar estudava Teologia. Sua maior paixão foi ser o grande enamorado de Deus. 4.6 Não escolher, mas deixar que Deus escolha Neste particular São Francisco de Sales colocava o dever como sinal incontestável da vontade Deus. Dom Bosco insistia muito sobre este aspecto da vida religiosa, com Domingos Sávio e com todos os jovens por ele dirigidos espiritualmente. Aceitar a obrigação como algo que vem da vontade de Deus, faz-nos indiferentes a tudo o mais. Às vezes cumprir uma obediência, pelo menos inicialmente, é como correr sobre brasas. 4.7 Indiferença A obediência vista na ótica de São Francisco e podemos dizer na de Dom Bosco pode conduzir a uma heróica indiferença. «Se amo somente o meu Salvador, porque do mesmo modo não amarei o Calvário e o Tabor, dado que é sempre Ele que se encontra, tanto em um como no outro? E por que não deverei dizer com igual amor, tanto no Calvário como no Tabor: é bom estarmos aqui?» Não fica por aqui a típica indiferença de Francisco: «Se desejo somente água pura, que me importa que me seja entregue em uma taça de ouro, ou em um copo se, de qualquer modo quero somente água? “Pelo contrário, preferirei num copo, porque não tem outra cor senão aquela da água que, em tal caso, vejo também melhor.»57 4.8 Ser você mesmo Este é outro ponto de insistência da espiritualidade franciscana. Devemos ser aquilo que Deus quer que sejamos. Como Dom Bosco os santos de nossos dias procuram seguir os passos de São Francisco. Vejamos os que nos dizem dois Papas que conhecemos: João XXIII, grande devoto de São Francisco de Sales, escreveu durante um retiro espiritual: hoje, não devo desejar o aquilo não sou, mas de ser muito bem o que sou. E em outro discurso: 57 Carta III a Bassura. 27
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    «Se devesse sercomo ele, não me aconteceria nada, mesmo quando me fizessem Papa... “Minha vida, o Senhor me diz, deve ser uma cópia perfeita da de São Francisco de Sales, se quer ser fecunda em alguma coisa boa.»58 Outro Pontífice de muita intimidade e familiaridade com a doutrina do Sales foi João Paulo I. Inspirou-se e moldou sua ação pastoral nos escritos e discursos. «Se os políticos vos escutassem! Eles medem a própria ação pelo sucesso. Conseguem? Tudo bem. Para vós, a ação deve valer também se não chegou a ter sucesso, se feita por amor de Deus. O mérito da cruz carrega, não é o seu peso, mas o modo pelo qual é carregada.» 4.9 Descomplicador do caminho espiritual Deixar-se guiar pelo amor, este é o segredo de Francisco. Tudo então se simplifica. Não gostava de problemáticas complicadas e por vezes inúteis. Olhava com certa compaixão para as almas que se deixavam enredar por semelhantes caminhos. Coitados! Angustiam-se procurando a arte de amar a Deus e não sabem que não há outra, senão a de amá-Lo. Falando desta problemática, chega a ser até um tanto satírico: Torturam-se tanto, pensando como fazê-lo que não têm mais tempo de fazer nada. J. Auman Antes de morrer deixou às suas irmãs um convite em sete palavras que podem ser o resumo de toda sua espiritualidade: Fazei tudo por amor e não por obrigação. No Oratório de São Francisco de Sales, em Valdocco, a santidade consistia na alegria, em viverem sempre alegres. Havia até a mesmo a Sociedade da Alegria, fundada por Dom Bosco e seus colegas seminaristas, quando estudavam no Seminário de Chieri. 4.10 O Tratado do amor de Deus (Teótimo) Um dos livros mais lidos em seu tempo e que teve inúmeras edições. Nos primeiros anos uma por ano. Na obra ele fala do fogo que lhe queima por dentro. Muito recatado, por vezes recorre a artimanhas literárias, evitando falar de si mesmo. Eis um exemplo: 5 58 Il giornale dell’anima 28
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    «Vimos uma almaagarrada fortemente ao seu Deus, todavia tinha o intelecto e a memória tão livres de qualquer ocupação interior, que percebia muito claramente o que se dizia ao seu redor e lembrasse completamente, embora lhe fosse impossível responder e separar-se de Deus, ao qual estava unida por adesão de sua vontade. De tal modo unida, digo, que não podia ser tolhida daquela doce ocupação, sem experimentar uma grande dor que provocava lamentos, ainda mais intensos se vinha ininterrupta no ápice de sua consolação e quietude». Em sua simplicidade e ao mesmo tempo sabedoria considera esta sua obra de tal modo acessível a todos que seria, segundo ele, como uma carta enviada aos amigos. Eis os termos com que escreve ao amigo duque Roger de Bellegarde: «Mando-lhe o livro do Amor de Deus, ninguém o viu ainda. Se em algum momento a consideração que tem por mim, dá-lhe vontade de receber uma minha carta, tome este tratado e leia um capítulo.»59 5. Dom Bosco, São Francisco de Sales e ( a Família Salesiana) os Salesianos A figura e a obra de um grande teólogo espiritual contemplada por Dom Bosco em São Francisco de Sales impressionaram menos que a vida cotidiana do apóstolo, plena de caridade e bondade. Foi esta faceta do santo saboiano que conquistou o santo piemontês e fez com que ele decidisse seguir os seus passos. Na primeira Missa do filho de Margarida ele formulou dez propósitos. No quarto ele escrevia: a , a caridade, a bondade e a doçura de São Francisco de Sales guiem-me em tudo. O sonho de 188360, traz uma sugestão para o missionários: com a doçura de São Francisco de Sales, os salesianos atrairão a Jesus Cristo os povos da América. Entre as oito bem-aventuranças da Família Salesiana de Dom Bosco uma nos diz que sejamos dóceis, mansos: bem-aventurados os mansos. É através desta virtude que conquistaremos os corações e os educaremos. Educação, obra que nasce no coração. Por que o pregador de Nazaré conquistou e continua conquistando tantos corações nos quatro quadrantes do orbe? Porque era manso e humilde de coração (Cfr. Mt. 11, 29). 59 16 de Agosto de 1616. 60 É o ano em que os Salesianos chegaram ao Brasil e fundaram sua primeira Comunidade em nossa terra, o Colégio Santa Rosa, na cidade de Niterói, em 14 de julho de 1883. O primeiro diretor foi o Pe. Miguel Borghino. Certamente Dom Bosco, então com 60 anos, estava preocupado com o êxito daquela missão e pedia ao santo da bondade que intercedesse pelos seus missionários do Brasil. 29
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    A mansidão, adoçura não pode ser confundida com fraqueza ou covardia. É coragem, firmeza capazes de enfrentar as violências e truculências de um mundo hostil e insensível. Sem iras nem rancores, mas com modos pacíficos, com benignidade e amabilidade. Desde o sonho dos nove anos que Dom Bosco assumiu esta atitude, aceitando o conselho da Senhora que lhe apareceu naquela noite: não com maus tratos, mas com caridade, com amor deverás conquistar estes teus amigos. A violência é a mãe da violência. A amabilidade, a doçura vence a maldade. Só assim se construirá no mundo uma civilização do amor. Não se pense que a doçura era um dom natural de Dom Bosco. No sonho dos nove anos ele nos diz que acordou com os punhos doloridos pelos murros que deu nos jovens blasfemadores. Em Chieri, nos primeiros anos de seminarista era tido como o mais colérico dos alunos.61 Paulatinamente e com muita vontade iniciou um árduo trabalho de renovação. Nesta conversão muito ajudaram as pregações que no Seminário ouvia sobre S. Francisco de Sales, sobretudo as do dia 29 de janeiro de cada ano, quando da celebração da festa do Santo saboiano. Já falamos sobre seu propósito no dia da ordenação, quando escreveu que a caridade e a doçura de São Francisco de Sales deveriam orientá-lo em todas as suas atitudes. Nota-se este seu comportamento, de modo especial ao tratar com os jovens. Dom Bosco nas Memórias do Oratório fez questão de explicar porque preferiu que São Francisco de Sales fosse patrono e modelo de sua obra. No incipiente e humilde Oratório de 1884 seus meninos se reuniam diante de um quadro de São Francisco de Sales. A primeira Capela do Oratório e posteriormente o próprio Oratório receberam o título de São Francisco de Sales. Dom Bosco apresenta ainda outro motivo para esta sua escolha: «Por causa do nosso ministério, exigindo grande calma e mansidão, colocamo-nos sobre a proteção deste grande Santo, a fim de que nos obtivesse de Deus a graça de poder imitá- lo na sua extraordinária mansidão e na conquista das almas.» Mais tarde62, possivelmente com os problemas pastorais criados pela atuação dos protestantes valdenses e com reflexos perigosos para a fé popular, Dom Bosco acrescenta mais uma razão para seguir o apóstolo de Chablai. A atuação firme e ao mesmo tempo fraterna e bondosa de Francisco de Sales no combate à heresia valdense motivou ainda mais Dom Bosco a imitar o santo em seu trabalho apostólico de Turim. 61 Cf. F. Desramaut, Don Bosco em son temps, 120. 62 Possivelmente entre 1848 e 1850. 30
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    «Outra razão eraa de colocar-me sob a proteção deste santo, a fim de que do céu nos ajudasse no combate aos erros contra a religião especialmente o protestantismo, que insidioso, começava a insinuar-se nas nossas vilas e especialmente na cidade de Turim.»63 Os títulos de São Francisco de Sales ou Salesianos, Salesianas, através de Dom Bosco haveriam eternizasse-iam pelo mundo afora através de Dom Bosco, dos Salesianos e suas obras: • Sua primeira obra, o Oratório chamou-se de São Francisco de Sales; • O Oratório de Valdocco, Casa Mãe em Turim, levou o nome de São Francisco de Sales; • Em 1859, a sociedade religiosa fundada por Dom Bosco é denominada Sociedade de São Francisco de Sales; • O patrono da Congregação de Dom Bosco é São Francisco de Sales; • Os religiosos da Sociedade de São Francisco de Sales serão chamados Salesianos, em homenagem a Francisco de Sales, e, não Bosquianos, de João Bosco; • As religiosas da segunda Congregação fundada por Dom Bosco e Madre Mazzarello, as Filhas de Maria Auxiliadora, são também conhecidas por Salesianas; • Ao correr do tempo foram surgindo os vários grupos que formam a Família Salesiana de Dom Bosco (Salesianos Cooperadores, Cooperadoras Salesianas, Salesianos externos, Associação das Damas Salesianas); • Nossos ex-alunos ou ex-alunas são: ex-alunos salesianos, ex-alunas salesianas. Hoje todos esses grupos continuam a encontrar e imitar em São Francisco de Sales uma espiritualidade do quotidiano, da alegria e do otimismo. Uma casa salesiana sem estes componentes: alegria, bondade, otimismo não é verdadeiramente uma casa salesiana. O Capítulo Geral XXIV estabelece que “o Conselho Geral promova e apóie outras...experiências e escolas para a formação de formadores...Seja dada atenção particular à espiritualidade de Francisco de Sales”. 64 Por que esta preocupação da Assembléia Geral da Congregação Salesiana? Os padres capitulares bem sabiam que foi a espiritualidade do missionário da Sabóia que delineou o coração de Dom Bosco, através da tradução prática que ele fez daquela espiritualidade e que posteriormente alimentou nossa formação. As nossas Constituição nos lembram: «O salesiano, inspirando-se no humanismo de São Francisco de Sales acredita nas riquezas materiais e sobrenaturais do homem, embora não lhe ignorando a fraqueza.» 63 MO 133. 64 N. 148. 31
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    O patrimônio típicodo salesiano é, portanto a bondade, a doçura e o otimismo. Diz-se que S. F. de Sales era tão bom que causava admiração em quem dele se aproximava. Certa feita, alguém que o conheceu exclamou: se um homem é tão bom, como não será a bondade de Deus! 5.1 Amizade cultivada por S. F. de Sales, uma prática constante em Valdocco Como vimos, a caridade foi uma das características mais apreciadas e mais cultivadas pelo santo do Chablay, durante toda a sua vida. O sistema posto em prática por Dom Bosco no Oratório tem a amizade como ponto essencial: sou teu amigo, considera-me sempre um teu amigo, dizia aos seus jovens. 5.2 A bondade Ele a via como uma espécie de primado entre as demais virtudes. Eis o que escreveu a respeito: «É um fato real: não existe ninguém no mundo, pelo menos penso, que goste mais cordialmente, mais ternamente e com um amor maior que o meu. E foi Deus que me deu um coração assim.» Vemos este primado da bondade em relação aos jovens também em Dom Bosco. Suas palavras são quase as mesmas ditas por S. Francisco. “Podeis encontrar alguém mais inteligente que eu, mas não encontrareis ninguém que vos ame mais que eu”. Nota-se esta atitude de São Francisco também com relação ao mundo. Sua intenção é conquistá- lo com a bondade. Preocupado com a situação em seu tempo escrevia em 1620: «O mundo está se tornando tão delicado, que daqui para frente, não se ousará tocá-lo a não ser com luvas de veludo e suas chagas não poderão ser curadas senão com delicadeza. Mas, que importa, para que os homens sejam curados e por fim salvos!» Pe. Pascoal Liberatore, ex-procurador salesiano das causas de nossos santos, comentando este trecho diz: “quanta sensibilidade hoderna e quanto espirito ecumênico nesta sua postura! É toda uma bondade dirigida para Deus, com a finalidade de se fazer com que Ele seja amado e nao de uma maneira comum, mas de um amor dirigido à santidade”. 5.2 Santidade 32
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    São Francisco deSales, como todos os santos fundadores de uma nova espiritualidade, traçou seu caminho próprio de santidade. Dom Bosco o assumiu e deu-lhe novos contornos, determinados traços. Um dos elementos adotados pelo santo piemontês, embora muito conhecido por nós, vale ser recordado. Neste capítulo colocaremos alguns trabalhos e seus autores, considerados como fontes enriquecedoras de contribuição para nossa Sociedade 6. Outras fontes 1. Francis Desramaut a) Les Memorie I (Étude d’um ouvrage fondamental sur La jeunesse de Saint Jean Bosco). De Giovanni Battista Lemoyne. Maison D’Étude Sanint-Jean – BOSCO 47. chemin de Fontanières LYON (5e), 1962. Este trabalho, segundo o próprio autor, é de fundamental importância para se conhecer a juventude de São João Bosco. O estudante curioso e amante da história, ao entrar em uma biblioteca de nossas comunidades salesianas, logo é atraído para os volumosos testos intitulados: Memórias biográficas de Dom Bosco. E se ele se tornar salesiano esses tomos irão lhe acompanhar por toda sua vida. O estudo de Desramaut intitula-se: As Memórias I. precisamente este era o titulo do primeiro tomo que se transformou nos volumes atuais, durante a evolução das causas de beatificação e canonização. O conjunto da obra 1 - As Memórias I. Título do primeiro tomo: Memorie Biografiche di Don Giovanni Bosco raccolte dal Sac. Salelsiao Giovanni Battista Lemoyne, vol. I, San Bennigno Canavese, 1898. Com a evolução das causas da beatificação e canonização de Dom Bosco este primeiro tomo se transformou nos 19 volumes atuais, As Memórias Biográficas têm precisamente 16.121 páginas, sem contarmos com o Índice analítico, o vol. XX com mais 620.65 65 Cf. Lês Memorie I de Giovanni Battista Lemoyne, par Francis DESRAMAUT, S.D.B, p, 1 nota 2. 33
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    Vejamos como ficoua modificação do titulo primitivo, durante a evolução da causa de canonização de Dom Bosco. 1. Memorie Biografiche Del Venerabile Servo di Dio Don Giovanni Bosco..., vo.l VI, 1907. 2. Memorie Biografiche del Venerable Don Giovanni Bosco..., vo.l VII, 1909. 3. Memorie Biografiche del Beato Giovanni Bosco..., vol. XI, 1930. 4. Memorie Biografiche di San Giovanni Bosco, vol. XVI, 1935. Em 1939, veio a lume o X volume. Três autores: João Batista Lemoyne, A. Amadei e E. Foglio assumiram a tarefa de narrar por partes, a vida de Dom Bosco, através dos anos. G. B. Lemoyne I 1815 - 1841, S. Benigno, 1898, XXIV 532 p. • id II 1841 – 1847, S. Benigno, 1901, XII 594 p. • id III 1847 – 1850, S. Benigno, 1903, VIII 661 p. • id IV 1850 – 1853, S. Benigno, 1904, 766 p. • id V 1854 – 1857, S. Benigno, 1905, 953 p. • id VI 1858 – 1861, S. Benigno, 1907, 1102 p. • id VII 1862 – 1864, S. Benigno, 1909, 931 p. • id VIII 1865 – 1867, Turim, 1912, 1110 p. • id IX 1869 – 1871, Turim, 1917, 1032 p. G. B. Lemoyne, A. Amadei, E. Ceria • id X 1871 – 1874, Turim, 1939, VI 1384 p. • id XI 1875. Turim, 1930, 623 p. • id XII 1876 Turim 1931, 711 p. • id XIII 1877 – 1878 Turim 1932, 1018 p. • id XIV 1879 – 1880 Turim 1933, 855 p. 34
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    id XV 1881 – 1882.........Turim 1934, 871 p. • id XVI 1883 Turim 1935, 731 p. • id XVII 1884 – 1885 Turim 1936, 967 p. • id XVIII 1886 – 1888 Turim 1937, 884 p. • id XIX 1888 – 1938 Turim 1939, 456 p. Em 1948, saiu em Turim o XX volume com 620 páginas, preparado por E. Foglio.66 b) Don Bosco e la vita Spirituale.67 (Francis Desramaux, incaricato presso le Facoltà cattoliche di Lione). O autor nas primeiras linhas da introdução esclarece que o livro “nasceu do desejo de esclarecer e ambientar o pensamento religioso de um santo do século XIX, santo quase nosso contemporâneo”. O trabalho se inicia com a descrição das convicções fundamentais de Dom Bosco sobre no campo espiritual. Divide-se em sete capítulos e uma conclusão. Capítulo I – Dom Bosco no seu século68 • A formação clerical em um ambiente antes rigorista, depois ligoriano O jovem Bosco inicialmente pensou entrar nos Franciscanos, chegando mesmo a ser postulante na Ordem. Convencido de que não era seu caminho, em Novembro de 1835 ingressa no Seminário de Chieri. Ali dominava o espírito do séc. XVIII, rigorista ou mesmo jansenista orientado mais à piedade do que à ciência. Reinava a mentalidade probabiliorista, sob a influência da Universidade de Turim, de orientação tomística. 66 Idem, op. cit. p. 19,20. 67 Título original: Don Bosco et la vie spirituelle. Beauchesne,Paris, 1967. Tradução: Luigi Motatto – Dino Donadoni a cura del CENTRO CATECHISTICO SALESIANO di Torino-Leuman. 68 De cada título apresento apenas alguns sub-títulos que julguei mais pertinentes. 35
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    Em 1817, oteólogo Luiz Guala funda em Turim o Convitto, cuja finalidade era a formação pastoral do jovem clero. Sua atuação era bem diferente do que reinava em Chieri, o benignismo substituía o rigorismo. Os jesuítas com o teólogo Guala à frente, difundiam o espírito que reinava então na Itália: «a ascética inaciana, luta aberta contra o jansenismo e o regalismo, devoção sincera e terna ao Sagrado Coração, a Nossa Senhora e ao Papa, freqüência aos Sacramentos»69 O Convitto moldou Dom Bosco nos seus três primeiros anos de sacerdócio (ordenado em 5 de junho de 1841). Ali “aprendeu a ser padre”, o que não aconteceu suficientemente no Seminário de Chieri, segundo ele. • O apostolado citadino entre os jovens abandonados Ao concluir os estudos estava com 29 anos. Conservará em sua vida certas características ded sua doutrina e s eu espírito. «Ele será sempre liguoriano (...) sem renegar completamente o Deus severo da sua juventude. Combinará o humanismo, que lhe era conatural, com o sentido da fraqueza extrema da criatura, do domínio de Satanás sobre o mundo e da atração da concupiscência sobre o homem»70 Não obstante, a vida e as experiências pessoais lhe trarão mudanças, o sentido de Igreja, se afirmará sua confiança na ação santificadora, sua piedade sacramental. • A luta contra os Valdenses. Os Valdenses conquistavam muitos adeptos, sobretudo no meio popular71. Suas ações eram facilitadas pela igualdade de direitos e pela liberdade de imprensa. Dom Bosco contra atacou em 1850, com Avisos aos Católicos. A aceitação foi muito boa. Em dois meses foram divulgados mais de duzentos mil exemplares.72 Em 1853 a ofensiva foi realizada através das Leituras Católicas, que eram uma resposta às publicações dos Valdeses Leituras Evangélicas. Dom Bosco foi visitado, ameaçado, provocado pelos adversários, sofreu atentados. Não cedeu, pelo contrário, contra atacou. • As fontes de Dom Bosco. Dom Bosco, muito embora fosse um homem de ação, tinha uma biblioteca bastante boa. 69 Cf. Fancis DESRAMAUT, Don Bosco e la vita spirituale. Elle Di Ci, Torino-Leuman, p.21. 70 Idem. Don Bosco e la vita... p. 23. 71 De acordo com as estatísticas em 1848 dois quintos dos turineses não sabiam ler nem escrever (MO, 241). 72 MO, 241. 36
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    «Poder-se-ia discutir bastantesobre sua cultura bíblica – que não se pode esquecer, até porque escreveu uma História Sagrada -, patrística – obtida sempre em segunda mão, parece, - ou histórica – Causa os Acta sanctorum e os Annales do Barônio.»73 Seguindo Desramaut citemos apenas alguma obra ou mestres de espírito que influenciaram nosso fundador na formação de seu pensamento e elaboração de sua obra: • Imitação de Cristo. Don Céria nos diz que Dom Bosco meditava alguns de seus versículos antes de repousar à noite. • São Felipe Néri, São Francisco de Sales, Santo Inácio, embora indiretamente, através dos jesuítas da Itália. Uma de suas leituras no Seminário era o livro o Cristão prevenido de Paulo Segneri (1624-1694), jesuíta. A tradição espiritual de Diessbach, jesuíta, deixou-lhe fortes marcas na formação de seu pensamento. O superior da casa dos Jesuítas em Turim, Pe. Secondo Franco (1817-1893) “devia fornecer-lhe três títulos das suas Leituras Católicas”. Ceria relata que o Pe. Secondo participava e usava da palavra nas reuniões plenárias do primeiro Capítulo dos salesianos. A vida de São Luiz Gonzaga, resumida e comentada por Dom Bosco seria o canal para o contato com a espiritualidade de Santo Inácio. • Na lista dos que influenciam nosso santo estão ainda São Carlos Borromeu (1538-1584) e São Vicente de Paulo (1518-1660). Muito importante é a influencia espiritual de Santo Alfonso de Liguori, explicado pelo professor Cafasso enquanto Dom Bosco estudava no Convitto. • Dom Bosco no novo Estado Italiano. Hábil diplomata Dom Bosco fio um elo de valor entre o Governo italiano e a Santa Sé.Em dois momentos sobretudo ele exerceu sua atividade: na nomeação dos Bispos para as Sedes vacantes e nas provisões dos bens temporais das mesmas. Capítulo II – O Caminho da Vida • Uma antropologia muito simples até porque não era um teólogo. Os problemas mais importantes em matéria espiritual Dom Bosco os abordava do modo mais simples. Escrevendo um livro também de espiritualidade para os jovens, O jovem instruído ele fala de Deus, do homem e do seu destino. • A maravilhosa natureza humana. 73 F. DESRAMAUT. Don Bosco e ..., p. 34. 37
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    De formação liguorianae anti jansenista Dom Bosco admirava e acreditava na natureza humana. A perfeição dos sentidos era para ele obras primas criadas por um artífice de “habilidade infinita”. • O caminho da vida e o caminho da salvação. A frase se Santo Afonso Maria de Ligorio “a vida é uma viagem para a eternidade” era totalmente assumida por ele. E acrescentava que essa estrada se for bem escolhida levará ao céu. De um humanismo objetivo, se preocupava para tornar o mundo mais fácil de se vivido pelos jovens e a trabalhava ao mesmo tempo pelo bem de toda a sociedade humana. Essa postura não obstante, não o fazia esquecer a transitoriedade do universo e seus problemas. O descanso seguro e a alegria perfeita só em Deus. Enquanto nos dirigimos a Ele a vida é uma viagem penosa e vamos peregrinando de lugar em lugar. • Confiança equilibrada no homem. Confiava e desconfiava ao mesmo tempo de um homem fraco e pecador. Os princípios severos que o formaram na juventude tinham sido somente amainados, stemperati pela escola liguoriana. Conhecia a debilidade e a boa vontade do jovem, sempre lhe dando uma oportunidade. Acreditava também na atuação do príncipe das trevas, por isso temos que estar ao lado do jovem para ajudá-lo. • A “razão” na procura de Deus. «A “razão” assumia um aspecto de primeiro plano na pedagogia religiosa de Dom Bosco e por isso mesmo no conjunto de sua espiritualidade». O educador deve apelar para a “razão” de educando, deste modo justificando até as chamadas de atenção. “Somos racionais, assim em nós deve imperar a razão e não a força repetia freqüentemente”. A doutrina do Vaticano I sobre o papel ativo da razão relacionado com as verdades sobrenaturais foi acolhida sem dificuldades por dom Bosco. Para ele o desenvolvimento da santidade se articularia a um conhecimento cada vez mais completo da doutrina cristã. Claro, acrescentamos, que este fato vai depender de receptividade do individuo, da boa vontade que ele tiver. Como exemplo o mesmo Dom Bosco apresenta Domingos Sávio.«O sfruttamento religioso de sua “razão” está na base de seu maravilhosos progresso no conhecimento e no amor de Deus». • O “coração” na procura de Deus. 38
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    Além da faculdadenobre Dom Bosco não tinha dúvidas sobre o papel do coração na procura de Deus. Seu temperamento e suas experiências pedagógicas o levavam a essa conclusão. Para ele o que definia o coração, de acordo com o contesto era tudo que representava os sentimentos, a vontade, o amor. Ter um bom coração era ser sensível, compreensivo, disposto a fazer o bem e amar. Capítulo III – O mundo sobrenatural. • Deus, pai infinitamente bom Dom Bosco nos últimos anos de sua vida provavelmente se comprazia em ver em Deus um Pai amoroso e terno.74 Transferência para o plano religioso dos problemas de sua infância, quando perdeu o pai aos quatro anos. Ele agora, ancião colocava-se como pai dos jovens abandonados. • O Cristo, companheiro amado e modelo a ser imitado. • Maria no mundo de Dom Bosco. • A Igreja visível no mundo religioso. A realidade celeste de Deus, de Cristo, de Maria, dos anjos e dos santos descia no mundo dos homens através da igreja. Ele foi um grande defensor da Igreja de Pedro, incentivado pela formação no Convitto e sua experiência nas lutas da vida. «A propaganda valdense, da qual foi um forte opositor; a questão romana que fez dele um dos homens de Pio IX em Turim; a criação da Sociedade Salesiana, favorecida por aquele Pontífice, o estimularam a difundir a teoria de uma Igreja fortemente unida em torno ao Papa de Roma».75 • O mundo religioso de Dom Bosco. Constata-se que no universo espiritual de Dom Bosco os seres concretos têm um lugar de muita importância. Por outro lado “a profundidade de Deus, a alma da Igreja e até mesmo 74 F. DESRAMAUT, Don Bosco e la vita spirituale. Elle Di Ci, TORINO-LEUMAN, p. 73. 75 Idem. Don Bosco..., p. 89. 39
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    o Espírito Santoaparecem pouco”. Sua mentalidade, seu berço levavam-no a estar com a gente simples, com o que lhe pareceria mais prático e melhor. «Camponês na juventude, homem de negócio na idade madura, sempre piemontês, isto é pouco inclinado às construções nebulosas e ineficazes, ele desconfiava das abstrações de qualquer gênero e também dos trabalhos simplesmente teóricos».76 Essa mentalidade que vinha do berço ele a transfere para o mundo religioso. Em sua vida, certas atitudes e comportamentos podem ser entendidos, explicados “com uma formação, com os sinais dos tempos, com os desejos dos seus ouvintes e leitores”. Com esta premissa podemos melhor compreendê-lo, «que tenha vivido sob o olhar de um Deus juiz e pai, em companhia de um Jesus Cristo histórico, afável e bondoso, de um Cristo eucarístico “presente no tabernáculo”, de uma Virgem Imaculada e rainha, “terrível como um exército enfileirado em ordem de batalha”, de legiões de anjos e de santos capazes de indicar o caminho da salvação e da perfeição aos homens de “toda idade e condição”».77 Tudo isto é explicável tendo em vista sua formação. Capítulo IV – Os instrumentos da perfeição • A Palavra de Deus É o primeiro alimento da alma, assim como alimento material é o do corpo. Para dom Bosco a Palavra de Deus não era só a Bíblia. No Jovem Instruído ele a define como sendo também as pregações, a explicação do Evangelho e o Catecismo. Deve ser ouvida, pois bem escutada gera a fé e explicada pelos ministros sagrados: fides ex auditu, auditus autem per verbum Christi.; • A leitura espiritual O estudo da Palavra deve se unir à leitura espiritual. Aconselhava que se fizesse durante o dia, de manha ou à tarde. Indicava o Evangelho, a Filotea de São Francisco de Sales, Jesus Cristo de Santo Afonso M. de Ligório. Através do prefácio de sua Historia Sagrada percebe-se que Dom Bosco lia a Bíblia e a fazia ler. 76 Idem. Don Bosco..., p. 95. 77 Idem. Don BOSCO..., p. 95. 40
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    A vida dos santos e “exemplos” Na Idade Média havia uma tradição muito seguida no Piemonte que ensinava que os ensinamentos morais devem não só ser ensinados, mas demonstrados através dos exemplos. Dom Bosco falando de exemplos seguia aquela máxima, pois creditava na força do testemunho. A espiritualidade reformada ou jansenista trouxe nova semântica negativa para o termo usado na literatura religiosa. Em uma marca página de seu breviário Céria encontrou escrita a velha máxima de São Máximo de Turim: “Os exemplos são mais eficazes do que as palavras e se ensina melhor com as obras do que com os discursos”.78 • Capítulo V – Perfeição cristã e complemento humano • As razões morais e sociais da cultura intelectual Certa feita dom Bosco comunicara a Dom Barberis que “o verdadeiro fim da educação intelectual é acostumar o aluno a perceber, a refletir, a julgar e a raciocinar corretamente”.79 No entanto, “em geral se tem a impressão que a obra literária de nosso santo não dê muita atenção a estes excelentes motivos para cultivar o espírito”.80 O estudo era dever do próprio estado e produzia efeitos purificadores e energéticos da alma: combatia o ócio e desenvolvia a vontade. Havia também além de motivos morais, os motivos sociais: o mundo precisa de uma certa cultura social, de pessoas instruídas, de estudiosos.81 A Igreja e sua Congregação tinham que possuir mestres de renomada cultura. Contrariamente ao pensamento de certos eclesiásticos de Turim, os salesianos deveriam ser laureados nas Universidades oficiais de Turim. Isso não para mérito ou aproveitamento pessoal, mas para o bem da obra salesiana.82 Estivessem em qualquer idade seus estudantes ouviam-no sempre dizer: “depois da piedade o que mais vos recomendamos é o amor aos estudos”. • A grandeza moral 78 E. CERIA. M. Biografiche..., t. XVIII, doc, 93, p. 806-808. 79 P. RICALDONE, Don Bosco educatore, t.II, Colle Don Bosco, 1952, p.107. 80 F. DESRAMAUT, Don Bosco e la vita..., p. 132. 81 Lembro que no auge da Teologia da Libertação, ou T. da Libertinação, alguns afirmavam que íamos trabalhar com o povo, por isso não precisávamos estudar tanto...não conheciam ou não aceitavam o pensamento de Dom Bosco, bem o contrário. 82 Cf E. CERIA, Memorie Biografiche, t. XI, p. 292. 41
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    Para ele odesenvolvimento das virtudes morais andava paralelo ao progresso na santidade. Por isso insistia muito com seus alunos no desenvolvimento delas. Além da caridade e outras virtudes, como a castidade, Dom Bosco sublinhava a energia, a audácia, a prudência, a bondade sorridente. Seus discípulos como Domingos Sávio assimilaram heroicamente os seus conselhos. • A audácia e a prudência Não fosse a audácia extraordinária favorecida por Deus e correspondida por Dom Bosco e ele não teria sido o apóstolo dos jovens abandonados, o editor católico, o construtor de Igrejas e fundador de Instituições religiosas. «Com a energia no trabalho, as virtudes conjugadas da fortaleza e da prudência cristã lhe permitiram viver sua santidade em uma época de evolução, de interesses contrastantes e inumeráveis pressões Ele encontrava o modo de se afirmar e com toda caridade de ser o oposto de um imitador submisso.83» C. Pera observou que o dom da sabedoria era a característica de sua santidade.84 • A bondade e a doçura Quem o conheceu que se trata de um homem que jamais gritou se alterou com ninguém. Sorridente, simples, de uma bondade especialmente afável. Conservava habitualmente a vontade de fazer o próximo feliz, fazendo o possível para que não se entristecesse. De índole naturalmente boa não aceitava os métodos rígidos, militarescos, repressivos. Agradava-lhe a prática da bondade visível, a mansidão no agir, valorizava as qualidades alheias, ao mesmo tempo silenciando sobre os defeitos das pessoas. Procurava sistematicamente o bem humano e sobrenatural. Em uma carta a Dom Cagliero lemos: «caridade, paciência, doçura, jamais admoestações, correções humilhantes, jamais castigos, fazer o bem a quem se pode e o mal a ninguém».85 Aconselhava ao Pe. Bonetti: “Faze de tal modo que todos aqueles a quem fales, tornem-se teus amigos”.86 A convivência com Luiz Comolo e Pe. Cafasso muito influenciaram o comportamento bondoso de João Bosco. As fontes primárias no entanto 83 F. DESRAMAUT, Don Bosco..., p. 138. 84 C. Pera, o.p, I doni delle Spirito Santo nell´anima del beato Giovanni Bosco, Torino, 1930, pp. 291-309, apud F. Desramaut. 85 G. Bosco – G. Cagliero, 6 de agosto de 1885, in Epistolario, t. IV. 328, apud Desramaut. 86 G. Bosco – Bonetti, 30 dicembre 1874, in Epistolario, t. II, p. 434. apud Desramaut. 42
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    são o Cristodo Evangelho, seu Apóstolo Paulo e o missionário do Chablay, o Sales. Aos Coríntios, o Cavaleiro de Damasco escreve “a caridade é benigna e paciente;sofre tudo, mas espera tudo e suporta qualquer dificuldade”87 • A alegria e a paz Dom Bosco via na alegria e na paz os frutos da caridade. Sensível e fino observador gostava de aproveitar as situações humorísticas para fazer suas piadas que incluíam Cônegos,88 companheiros do Convitto,89 domésticas. Pe. Caviglia diz que ele “era um santo de bom humor”. Chamava trabalhadores humildes de cavaleiros, marqueses, poetas, brincava com um padre que não gostava de ser baixinho e ria de um Ministro que lhe tinha oferecido uma quantia irrisória para suas missões. A respeito dizia em seu dialeto piemontês: «L`è mei ch`un pugn ant`jeui (isso é melhor do que um murro em um olho)». Havia compreendido e vivia a frase bíblica: compreendi que não há outra felicidade para eles do eu gozar e fazer a vida alegre.90 Note-se que Dom Bosco atribuía a esta frase um sentido moral, diferente do contesto do livro bíblico, natural, mundano, diríamos. No Oratório em 1841, uma das finalidades era justamente conservar alegres os jovens de Turim. Procurava-se viver o que tinha sido dito três séculos antes por São Felipe Néri «Filhinhos, estais alegres: não quero escrúpulos nem malinconias, tristezas, basta-me que não façais pecados». • Um humanismo aberto. Humanismo é a doutrina que pretende fazer o homem feliz, aproveitando-se de suas potencialidades, riquezas humanas. Neste sentido a espiritualidade de Dom Bosco é também uma forma de humanismo. As preocupações de Dom Bosco eram fazer com que o homem construísse sua felicidade com sua natureza, suas possibilidades físicas e morais e neste mundo onde ele viverá até o ultimo de seus dias. Não se esquecia porém que nesta caminhada não se pode prescindir de Deus. Deve-se cultivar um constante relacionamento com Ele, participando de sua graça. «Vemos que aqueles que vivem na graça de Deus estão sempre alegres e mesmo nas aflições conservam um coração alegre. Ao contrário aqueles que se entrega aos prazeres vivem enraivecidos e procuram encontrar a paz em seus passatempos, mas são sempre mais infelizes: non est pax impiis (o ímpio não tem paz)».91 87 Cf. 1 Cor. 13, 4-7. 88 Cf. Memórias do Oratório..., p. 72,73 e 89 Cf. G. B. LEMOYNE, Memorie biografiche, t. II, pp. 99-102. 90 Eclo. 3, 12. 91 F. DESRAMAUT, Don Bosco..., p. 149. 43
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    Podemos descobrir umcerto exagero pedagógico na afirmação acima, uma oposição sumaria entre a alegria do justo, do cumpridor da norma cristã e o tormento do ímpio. Pensemos porém, que para Dom Bosco a função da “religião” é, através do contato com Deus, criar na criatura a “verdadeira alegria” dos seus filhos. E é o que ele fez no Oratório e procurou ensinar em toda sua vida. Acreditava que somente a prática constante da religião poderia fazer alguém feliz no tempo e na eternidade. Capítulo VI – A ascese indispensável • Os motivos da ascese Em Dom Bosco não vamos encontrar a prática de penitencias extraordinárias e martirizantes (severos jejuns, cilícios, disciplinas), embora as respeitasse e até por vezes fosse de acordo com elas, como uma forma de ascese. Sua vida não nos apresenta muitas justificações humanas às suas austeridades. São Paulo nos fala de coroas transitórias, a do atleta que se impões severas disciplinas para conseguir uma vitória passageira.92 Nosso santo não parece preocupar-se com os benefícios naturais dos exercícios ascéticos. Podemos encontrar em seus escritos, influência antropológica platônica, raras frases como “o corpo é o opressor da alma”, ou quando o compara com um cavalo selvagem que precisa ser domado. São espécies de exceções em sua práxis ascética. Sua ascese era motivada mais freqüentemente pela necessidade de se prevenir ou expiar o pecado, de se conduzir a pessoa à contemplação e, sobretudo reproduzir na vida o Cristo crucificado. • A fuga do «mundo» Dom Bosco freqüentemente surpreendia seus ouvintes ou leitores. Por exemplo, quando recomendava a fuga do «mundo», realidade na qual ele vivia. A “fuga do ócio” era para ele o aspecto negativo do amor ao “trabalho”. Às vezes significava também a ruptura com “mundo”. Nesta particular falava das companhias perigosas para a fé e os costumes, de fugas das ocasiões perigosas, das amizades particulares, dos livros maus. Suas Leituras Católicas eram fortes baluartes contra esses erros. AQ frase em que ele resumia todos esses conselhos era “fugir do mundo e de suas máximas”, mundo atraente, mas pecaminoso, enganador. Deixa o mundo que te engana, dizia ao Pastorzinho dos Alpes. 92 1 Cor, 9, 25. 44
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    O pobre segundo Dom Bosco Qualquer um de nós, leigo, religioso, ou sacerdote deve viver de modo que faça diferença, o cristão deve praticar uma austeridade o mais possível evidente. Seus jovens não possuíam muita coisa ou quase nada, no entanto Bosco pregava também a eles o desapego das coisas materiais. Falava-lhes inclusive do modo como deviam vestir-se, como se desejassem aparecer diante dos outros. Em nossas Constituições mais antigas estava escrito: A observância do voto de pobreza na nossa Congregação consta essencialmente no destaque de todo bem terreno. Os bens são para os pobres como para os ricos, que devem ficar somente com o necessário. O supérfluo deve ser distribuído a quem precisa. Certa feita um “respeitável cooperador” de Marselha fazia uma “cortes observação” sobre o que seria o supérfluo. O Boletim Salesiano francês em julho de 1882 publicava o seguinte como resposta ao cooperador: «Dizei-me: que entendeis por supérfluo? Escutai, meus respeitáveis cooperadores. Todo o bem temporal, todas as riquezas vos foram dadas por Deus. Mas, dando-as, Ele nos dá a liberdade de escolher tudo o que é necessário para nós. Nada mais. Deus, que é nosso patrão, de nossas propriedades e de todo o nosso dinheiro, Deus pede conta severa de todas as coisas que não nos são necessárias, se nós não lhes damos,segundo o seu mandamento (...). Direis: é uma obrigação dar todo o supérfluo em boas obras? Não quero dar-vos uma outra resposta além aquela que o nosso Divino Salvador nos manda dar: daí o supérfluo. Não quis fixar limites e eu não tenho a audácia de trocar sua doutrina.»93 • A ascese sexual “Deixemos de lado a teologia, a moral a mística e a ascética. Tudo se reduz a isto: conservar-se santo e puro diante de Deus”.94 Dom Bosco fazia de tudo, usava de todos os meios, para que seus jovens conservassem ou readquirissem a pureza. Suas armas “positivas” eram a oração, a devoção a Maria, a vida sacramental, enquanto considerava “meios negativos” os exercícios de ascese da vida sexual. A separação entre os sexos era fundamental na conservação da castidade. Nos colégios os SDB e FMA viviam esta práxis no isolamento entre meninos e meninas. Os colégios masculinos eram como a casa de Mamãe Margarida, onde só havia meninos. Não só nos seminários, mas também 93 F. DESRAMAUT. Don Bosco e la ... p. 168. 94 Cf. A. CAVIGLIA. Conferenze sullo spirito salesiano. Torino, 1949, p. 55. 45
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    nos internatos paraalunos ou alunas que não pensavam em ser padres ou freiras. Nas missões havia de um lado os estabelecimentos para os índios, do outro as instalações para as índias. Havia ainda as divisões rígidas entre maiores, médios e menores. Esta divisão foi por alguns comentaristas classificada de “selvagem”, talvez sem terem uma visão global da situação. Lia-se em um dos marcadores de páginas de seu breviário: “Os teus passos (estejam) longe dela (da mulher), não te aproximes da porta de sua casa”. A fuga era praticamente o que cada um devia praticar. Santo Agostinho usava o seguinte principio: foge, se queres ser vitorioso95 Os outros vícios devem ser enfrentados, se os quisermos combater, este, só os poltrões podem vencê-los, ensinava São Felipe. Luiz Gonzaga e Comollo eram os espelhos que Dom Bosco oferecia aos seus jovens. Domingos Sávio que fugia do vai e vem das ruas de Turim fez-se santo seguindo as orientações do mestre. • Uma submissão humilde e alegre Os sacrifícios quotidianos que Dom Bosco bem conhecia desde sua origem humilde e necessitada ele praticava e recomendava a todos. Aos seus jovens e salesianos que provinham também de classes simples e não abastadas não oferecia comodidades, vidas tranqüilas, guloseimas reais. Mas viviam satisfeitos ao lado do pai espiritual que lhes dava pão e a promessa de um pedaço de paraíso no céu. Uma obediência, pronta, humilde e alegre era a garantia de um grande valor ascético. No Regulamento para as Casas oferecia uma receita tantas vezes repetidas: «a vossa obediência seja pronta, respeitosa e alegre... não fazendo observações para vos eximir do que se manda. Obedecei, embora o que se manda não seja de vosso agrado».96 Comollo e Cafasso eram freqüentemente citados como paradigmas de obediência submissa e alegre. O primeiro suspendia o trabalho ao ouvir o primeiro toque da campainha do Seminário. A esta atitude de prontidão os discípulos de Dom Bosco uniam a humildade, a submissão do súdito ao superior. Isso os levava a não criticar as normas, as determinações e até a prevenir, a adivinhar afetuosamente o que Dom Bosco desejava. A obediência alegre97 é garantia das benesses divinas, pois como ensinava o São F. de Sales ela vem diretamente de Deus. • Ascese e felicidade 95 Apprehende fugam si vis referre victoriam. 96 Regolamento per le case..., Torino, 1877, parte seconda c, 8 art, 6, p. 76, apud Desramaut, Don Bosco et la vita..., p. 179, nota 120. 97 Hilarem datorem diligit Deus (Deus ama o que dá com alegria). 46
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    A paz, segundonosso fundador, habita o coração de quem pratica uma ascese de renúncia e aceitação. Deus recompensará largamente este penitente. Sabemos como Dom Bosco vivia sorridente uma vida de sacrifícios, muito difícil desde sua meninice. Sua vida apostólica, as enfermidades trouxeram-lhe muitas provas. Tudo indica que uma de suas cruzes profundamente martirizantes ele a contraiu, supõe-se em 1845, no hospital do Cotolengo, durante uma epidemia. Essa enfermidade, uma espécie de herpes, foi conhecida somente no momento após sua morte, quando do revestimento de sua Salma. Céria escreveu que ele não teria suportado cilício mais horrível. Ele porem, continuou sua vida sempre alegre e sorridente. Sabia que precisa sofrer com Cristo para ser com Ele glorificado. Capítulo VII – O serviço da maior glória de Deus • O serviço do Senhor Àqueles que escutavam suas pregações no mês de Maio ele repetia: Fui criado por Deus, a fim de que, eu O conheça, O ame, O sirva nesta vida e com este meio vá um dia gozá-Lo no Paraíso. Dos três verbos conhecer, amar e servir, o mais querido por para ele era SERVIR. O serviço era uma caridade, uma entrega ao outro, uma de suas maneiras e amar a Deus. E não foi este o programa de Cristo! Ele amou a Deus servindo-O e não nos criou para conhecê-Lo, amá-Lo e SERVI-LO? Tudo seja feito para o Senhor, para sua maior gloria, depois repousaremos no Paraíso. Sirvamos pois, ao Senhor com santa alegria como fez Davi e todos os santos. • O único absoluto Dom Bosco via em Deus e sua glória o único absoluto. Tudo o mais era relativo: dever, trabalho, serviço, a própria salvação eram valores relativos. Tudo seja feito para o Senhor, para sua maior gloria, depois repousaremos no Paraíso são afirmações unânimes das testemunha da canonização. Ao escrever a Historia Eclesiástica em, 1845, afirmava que seu único escopo era unicamente a maior gloria de Deus e a vantagem espiritual principalmente da juventude. Possivelmente no ano seguinte vem a lume o Sistema Métrico Decimal, onde novamente se Le: 47
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    «se meus débeisesforços não puderem apagar tudo, serão pelo menos dignos de (uma) benigna piedade. Experimente-se tudo e se retenha o que parecer melhor sempre para a maior gloria daquele Deus que é o Doador de todas as coisas.»98 • As virtudes do leigo cristão O leigo pela profissão cristã torna-se um combatente. Certas posições de Dom Bosco neste aspecto são vivamente atuais. O “respeito humano” é um grande inimigo da fé: impede os fracos de rezar em publico, freqüentar os sacramentos, defender a verdade”. Vejamos o que escreveu em 1856, ao escrever uma vida de São Pedro: «se os cristãos dos nossos dias tivessem a coragem dos fieis dos primeiros tempos e, superando todo respeito humano professassem intrépidos a sua fé, certamente não se veria tanto desprezo de nossa santa a religião; e talvez tantos que procuram chacotear tanto a religião como os ministros sagrados seriam tanto pela justiça quando pela inocência levados a venerarem a mesma religião juntamente com seus ministros sagrados.»99 Além da luta corajosa pela fé Dom Bosco encorajava os discípulos de Cristo a praticarem outra virtude, cuja necessidade é também hoje muito de se desejar, pois o mesmo conselho cai muito bem em nossos dias. Havia certa idéia da Providência feita para favorecer a preguiça. Dom Bosco não tolerava este ponto de vista. «Naturalmente, não reclamava sistematicamente a promoção social das classes necessitadas, e acontecia mesmo, muito raramente, de pregar aos menos afortunados o simples conformar-se».100 Em Allegro, simpático personagem da Casa da Sorte, encontram-se as seguintes frases de Dom Bosco: 98 F. DESRAMAUT. Don Bosco e la..., p. 183. 99 G. BOSCO. Vita di S. Pietro ..., Torino, 1856, c. 14, 80-81, apud F. Desramaut, p, 206, n. 124. 100 Idem, op. cit, p, 2206-207. 48
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    «Não, não, odinheiro e a riqueza não acalmam o coração do homem, mas o bom uso delas Cada um, portanto se contente com seu estado, sem pretender mais do que lhe é necessário. Um pedaço de pão, uma fatia de polenta, um pratinho de sopa me bastam.»101 Pode-se perguntar como o retrato do leigo, pintado por Dom Bosco, tão fortemente carregado com as tintas da mentalidade laborista, operária do século XIX, comportasse e em que medida, o espírito de serviço. Sabe-se que na época a mentalidade dominante era indiscutivelmente o individualismo, o que realmente não batia com o entendimento do santo. Ele concebia o leigo como um apóstolo através do exemplo e da ação. Como cristãos eles difundiam a verdade evangélica, trabalhavam na procura e no sustento das vacações sacerdotais, preocupavam-se pela educação dos jovens, pensando no futuro da sociedade e da Igreja. Não vamos considerá-lo o pioneiro da espiritualidade e do apostolado dos leigos que vai ter um grande impulso algumas décadas mais tarde. Não se pode, no entanto esquecer que ele se preocupou nos cristãos adultos, no seu modo de ser e atuar dentro da Igreja e na santificação dos mesmos no apostolado direto. Dom Bosco não se interessou apenas pelos jovens, foi um dos apóstolos do século XIX que se colocou entre aqueles que prepararam os cristãos para as intempéries e lutas do século XX. • O padre Como todo homem de Deus, Dom Bosco colocava no centro de sua existência o serviço do Senhor. O padre é o grande e constante defensor “do interesse de Deus”, sem esperar recompensa. Certa feita uma Marquesa lhe agradecia o fato de ele ter introduzido em suas instituições «o canto dos Cânticos, o gregoriano, a musica, a aritmética e até o sistema métrico». Ele então respondeu: «não precisa agradecimentos. Os padres devem trabalhar pelo próprio dever. Deus pagará tudo e não se fale mais disto».102 Uma das testemunhas do processo de canonização afirmava que Dom Bosco dizia: «Um padre é sempre padre..., Ser padre significa ter continuamente presente o grande interesse de Deus, isto é, a salvação das almas».103 101 F. DESRAMAUT. Don Bosco e la..., p, 207, n, 125. 102 MO, p, 161. 103 G. B. LEMOYNE. Processo diocesano di canonizzazione ad 13; in Positio super introductione causae, Summarium, p. 122, apud F. Desramaut, p. 215, n. 153. 49
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    Assim se expressavaum colega, pároco da cidade de Forlì: « é preciso trabalhar ? Morro no campo de trabalho sicut bonus miles Christi».104 Alguém o chamou de “turíbulo da divindade”.105 Conclusão • Características do pensamento espiritual de Dom Bosco Já vimos que Dom Bosco era um otimista. Em uma de suas frases escritas em um marca páginas está escruto: «Compreendi que não há outra felicidade para eles senão gosar e tornar a vida alegre».106 Admirava o homem e confiava em suas capacidades. É o que se vê em São F. de Sales ao contrário do agostinianismo, cujos traços não se observa em seu pensamento maduro. Mas, não se pense que Dom Bosco visse a pessoa humana como angelical, sua concepção do homem não era simplesmente um humanismo. Para ele devemos sempre estar atentos ao fomes peccati (fome, inclinação ao pecado), até porque um homem sem religião é um eterno infeliz. Um observador superficial pode ver nele um asceta medíocre, muito pelo contrario era muito exigente temos visto em nossas reflexões. “Trabalho e temperança” era o mote seu e de seus discípulos e isso obrigava a uma continua vigilância sobre si mesmo. Não era seu forte, mesmo porque não aprovava penitencias rígidas exteriores ou macerações exorbitantes. Preferia as mortificações espirituais que subjugam a vontade ou ainda as mortificações que se aceitam como submissão a Deus e, portanto voluntárias. Sua ascese era escondida, modelada no Cristo crucificado. Insistia muito na Penitência e na Eucaristia. A ação era a escada que escolheu para santificar a si e aos seus discípulos. Uma espiritualidade dinâmica sem renunciar a um estado de contemplação habitual alimentado pelo “espírito de oração”. Dizei-me quando dom Bosco rezava”, mas ele estava sempre em oração, dizei-me quando não rezava. Dom Bosco queria que o homem se penitenciasse em segredo, se santificasse com a prática sacramental e a caridade a ativa sustentada pela oração constante. • O inserção de Dom Bosco em uma tradição espiritual 104 25 de Outubro de 1878, in Epistolario, tomo III, p. 399, apud F. Desramaut, p. 214, n. 155. 105 Foglietto di risoluzioni prese da Don Bosco dopo gli esercizi spirituali del 1847, secondo E. CERIA, Don Bosco com Dio, Ed. Cit., p. 93, apud F. Desramaut, p. 214, n. 156. 106 Eclesiastes 3,2. 50
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    O fundador dosSalesianos foi possivelmente de todos os santos o mais admirador de São Felipe Neri e São F. de Sales. Esta sua característica já permite definir seu pensamento espiritual. Claro que este santo do século XIX teve suas características especificas originais. Ele não foi um espelho um clone de outros santos e sua preocupação não foi reformar o Cristianismo ou modificar os princípios gerais da perfeição, até porque não poderia abandonar a lógica de seu anti-jansenismo ou anti- protestantismo. A tradição espiritual que ele recebeu e continuou em sua vida foi mais ou menos aquela de Santo Afonso Maria de Ligório condimentada com a de outros autores espirituais dos anos 1850 a 1860. • Dom Bosco, homem espiritual do século XIX Um historiador da espiritualidade contemporânea escreveu que «a postura de Dom Bosco... resume todas as correntes espirituais do tempo».107 Ele no entanto, foi um homem espiritualmente original, após o Vaticano I e a Rerum Novarum. Era um santo sintonizado com o seu tempo. Nela se encontravam a piedade pelo homem e pelo jovem, prezava os valores humanos era apaixonado pela educação, amigo dos pobres e deseja que houvesse justiça para com aqueles, tanto nos países desenvolvidos como nos subdesenvolvidos, que eram carentes de meios materiais. Dois pontos são bem definidos em sua espiritualidade, o amor ao Papa, sobretudo na segunda parte de sua vida e o trabalho como meio de santificação. O trabalho, realidade irrefutável do primeiro século industrial, Dom Bosco o encarnava voluntariamente no mundo em que vivia. A este ponto, perguntamos então, qual seria finalmente a originalidade de seu pensamento em se tratando de vida espiritual? Ao se estudar a trajetória terrena deste servo de Deus não se pode deixa de reconhecer que ele foi um personagem sui generis que viveu no século XIX, fazendo uma experiência espiritual concreta, calcada nas tendências de sua pátria e seguindo a caminhada de alguns mestres. Esta experiência realizada em meio a uma conjuntura histórica particular foi ao mesmo tempo singular, única e pessoal, não só porque foi acompanhada por orientações da Providência (seus “sonhos”, por exemplo, que sempre o influenciaram e conservaram na órbita divina e da Virgem Auxiliadora) mas porque estas orientações providencias foram por ele assumidas, consideradas como tais. Percebeu, ele mesmo o diz, a influencia de Deus em sua obra, acreditou nela e a 107 F. WEYERGANS, Mystiques parmi nous (coll. Je sais, je crois), Paris, 1959, p. 89, apud F. Desramaut. p. 226, n. 22. 51
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    seguiu, tornando-se maisum santo, sem plagiar nenhum outro. Aprendeu a ser santo lutando e dominando seu temperamento forte, mas generoso. Ele é São João Bosco, embora admirasse tantos outros de elevada estatura espiritual como Felipe Neri, Antônio M. Zaccaria, Inácio de Loiola, José Cafasso. c) Saint Jean Bosco108 O Instituto Histórico Salesiano e a Faculdade de Ciências da Educação dos Salesianos organizaram em Roma um Congresso Internacional por ocasião do centenário da morte de Dom Bosco (1815-1888). O encontro, teve lugar entre os dias 16 e 20 de janeiro de 1989 na Universidade Pontifícia Salesiana. Sua finalidade era sobretudo: «interessar o mundo cientifico na figura e na obra de um homem, até então muito mais celebrado pelos devotos de sua memória que analisado objetivamente pelos historiadores do assunto». Outro desejo dos organizadores era apresentar uma espécie de balanço dos cem anos de estudos sobre Dom Bosco e iniciar, se possível, uma nova fase de estudos mais críticos em termos dos métodos e mais aprofundados em se referindo ao aprofundamento. Diversos especialistas foram convocados, italianos ou não e encarregados de prepararem um balanço de cem anos de estudos sobre Dom Bosco. Os trabalhos tiveram a seguinte organização: • Pietro Stella se encarregaria da evolução, das produções hagiográficas dos primeiros tempos, às interpretações recentes. • Francis Desramaut procuraria mostrar como trabalharam os autores das Memórias Biograficas. • Francisco Motto falaria sobre o projeto da edição crítica do Epistolário de Dom Bosco. • Rafael Farina se encarregaria da organização do Arquivo Central Salesiano. Nos demais dias trataram-se temas como: relação entre Dom Bosco e a sociedade civil, entre Dom Bosco e a comunidade eclesiástica, a experiência educativa de Dom Bosco, inclusive a popular, esta abordada no ultimo dia do evento. Desramaut apresenta neste seu trabalho Saint Jean Bosco contribuições na língua francesa, de interesse do publico francofono, já que as comunicações lidas durante o Congresso foram editadas nas línguas de seus autores: italiano, inglês e espanhol. Este trabalho será muito útil, 108 Editado e apresentado por Francis DESRAMAUT. LAS-ROMA, 1990. 52
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    «já que atéagora o público de língua francesa, muito freqüentemente só conhece João Bosco, através de biografias piedosas e divertidas, que com certeza, não lhes faltarão jamais».109 Em São João Bosco Desramaut apresenta três capítulos realmente interessantes para os estudiosos do santo. O primeiro é um balanço dos estudos sobre Dom Bosco. O segundo mostra Dom Bosco na sociedade de seu tempo e o terceiro apresenta Dom Bosco e a educação. Capítulo está seguido pelos diversos autores que neles trabalharam. Elenco alguns dos sub títulos da obra. I Don Bosco na historiografia Balanço dos estudos sobre Dom Bosco (Pe. Stella) 1. A reflexão salesiana sobre o sistema de educação de Dom Bosco até à Segunda Guerra mundial. 2. Da pesquisa filológica e literária à re-interpretação global. 3. Contribuição de estudos e formas recentes e conhecimentos no mundo não salesiano. Como trabalharam os autores das Memórias Biográficas (F. Desramaut). 1. Os três autores das Memórias (João Batista Lemoyne (1839-1916), Ângelo Amadei (1868-1945), após a morte de Lemoyne) e Eugenio Ceria, mandado vir de Roma durante o verão de 1926, ano da beatificação de Dom Bosco). 2. Predominância de Dom Lemoyne sobre o conjunto da obra. 3. A explicação carismática de Dom Bosco por Dom Lemoyne. II : Dom Bosco na sociedade de seu tempo 109 F. DESRAMAUT, Saint Jean... p.9. 53
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    Dom Bosco e a Igreja no mundo de seu tempo. É. Poulat. • O conflito entre Dom Bosco e o Arcebispo de Turim Lourenço Gastaldi ( 1871-1883). G. Tuninetti. • O Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora e seu relacionamento com Dom Bosco. M. E. Posada. 1. A nova orientação espiritual (1860-1870) 2. Uma verdadeira escolha histórica: o «momento» da fundação (1871-1872) 3. Uma consciência progressiva de pertença jurídica (1872-1876) 4. Observações conclusivas. No final de suas reflexões Pe. Desramaut diz que foi exemplar o relacionamento entre as primeiras Filhas de Maria Auxiliadora e Dom Bosco. Apos os momentos difíceis da separação jurídica sancionada pelas Constituições de 1906, o Instituto sem abdicar de sua autonomia jurídica, não deixou de conservar o espírito original, através do liame espiritual com o Reitor Mor dos Salesianos.110 Outros itens deste capítulo podem ser vistos em Saint Jean Bosco, à pagina 190 (Tables de matières). III. Dom Bosco e a educação • A pedagogia de São João Bosco, em seu século. G. Avanzini • A escolha dos jovens e a proposta (proposition) educativa de Dom Bosco. L. Pazzaglia. IV : Conclusões Perspectivas de pesquisas sobre Dom Bosco. P. Braido111 1. A utilização criticamente controlada da literatura existente 2. Estabelecer (disposer) uma documentação de valor cientifico bem estabelecida 3. Um problema capital: uma história de Dom Bosco. 110 Desramaut apresenta outras reflexões em Saint Jean Bosco, p. 95,96. 111 Pedro Braido foi diretor do Instituto Histórico Salesiano de Roma. 54
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    Eis o queescreveu Pe. Braido a respeito do problema de uma outra historia de Dom Bosco. «O trabalho empreendido sobre as fontes e os outros documentos não atenua a necessidade de uma nova síntese biográfica de conjunto sobre Dom Bosco. Uma história que apresente com rigor sua vida e suas obras, suas idéias e seus projetos, sua significação e sua influência, no curso do século XIX e posteriormente. As monografias variadas são certamente importantes, quer sejam de ordem biográficas, hagiográficas, pedagógicas, espirituais, psicológicas, sociológicas teológicas etc».112 4. Exemplos de temas para pesquisas. No final do Congresso observou-se certos pontos julgados «críticos» de notável importância notável, que merecem a atenção particular das pessoas de estudo e dos pesquisadores. Certos problemas surgidos condicionam no conjunto a compreensão da personalidade de nosso fundador, a avaliação daquilo que ele mesmo chamava de seus começos (“debuts”), quer se tratasse de sua vida, estudos ou do Oratório. Alguns dos temas elencados pelos congressista:113 • Relacionamento de Dom Bosco com a Igreja local ou universal; • A consciência que formou sobre sua «missão» ao serviço da juventude; • A consciência de suas responsabilidades como «fundador»; • O papel externamente com relação aos leigos na Igreja e internamente com relação «ao movimento salesiano» (colaboradores, benfeitores, cooperadores, ex-alunos, os inúmeros simpatizantes ou não simpatizantes); • Relacionamento com a sociedade civil e «outras culturas»; • Dom Bosco e a cultura popular; • Dom Bosco escritor e editor popular; • Dom Bosco e o problema dos emigrantes e das missões; • Estrutura e «fundação» da Congregação «problema das “origens”». O problema aqui é apontar 112 F. DESRAMAUT, Saint Jean...p. 182. 113 Os motivos, interessantes por sinal, pelos quais os temas são sugeridos podem ser vistos em Saint Jean Bosco, p.184 e ss. 55
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    «a contribuição realde Dom Bosco na constituição da Congregação, na realidade religiosa e educativa de acordo com sua visão característica e de seu espírito. Conseqüentemente seu papel na organização do curriculum de formação inicial e permanente, de seus membros eclesiásticos e leigos em sua tripla dimensão de educadores, de religiosos e de homens profissionalmente competentes».114 • “Dom Bosco fundou o Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora”. Aprofundar a realidade histórica concreta e não apenas no plano jurídico e formal da “relatio cofundatorum” (relação dos co-fundadores). • Dom Bosco sonhador e taumaturgo. Sobre o tema ha uma literatura acrítica de vulgarização. Pietro Stella tem trazido novas e interessantes contribuições,115 que por sinal incomodaram alguns tradicionalistas que não aceitaram as novas reflexões do estudioso demitizando alguns fatos considerados indiscutíveis na vida de Dom Bosco. Outra contribuição neste sentido é da Irmã Cecília Romero no livro O sogni di Dom Bosco. Trata-se de uma edição critica sobre dez sonhos importantes de Dom Bosco, dos quais há ainda alguns manuscritos autográficos. No entanto ainda não dispomos de uma edição critica das fontes, de um estudo aprofundado da totalidade dos sonhos que tantas vezes deixaram Dom Bosco sem dormir. Será um trabalho árduo, ainda desafiando os estudiosos e pesquisadores. ANEXO - I 114 F. DESRAMAUT, Saint Jean ..., p. 186. 115 P. STELLA, Don Bosco nella storia della religiosità cattolica, II, p. 507-569. 56
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    Carta de DomBosco sobre o Oratório (Carta de Roma) Perto ou longe, eu penso sempre em vós. Meu único desejo é ver-vos felizes no tempo e na eternidade. Esse pensamento e esse desejo é que me levaram a escrever-vos esta carta. Sinto, meus caros, o peso do afastamento, e o fato de não vos ver nem ouvir me aflige como não podeis imaginar. Desejaria por isso escrever-vos estas linhas há uma semana, mas as contínuas ocupações me impediram. Todavia, embora faltem poucos dias para minha volta, quero antecipar minha chegada ao menos por carta, já que não posso fazê-lo pessoalmente. São palavras de quem vos ama carinhosamente em Jesus Cristo e tem obrigação de falar-vos com a liberdade de um pai. Haveis de permiti-lo, não é verdade? E me prestareis atenção e poreis em prática o que vou dizer-vos. Afirmei que sois o único e contínuo pensamento de minha mente. Ora, numa das noites passadas, havia-me recolhido ao quarto, e, enquanto me dispunha a repousar, tinha começado a rezar as orações que minha boa mãe me ensinou. Nesse momento, não sei bem se dominado pelo sono ou fora de mim por uma distração, pareceu-me ver dois dos antigos jovens do Oratório virem ao meu encontro.Um deles aproximou-se e saudando-me afetuosamente me disse: — Dom Bosco, não me conhece? — Se te conheço, respondi. — E lembra-se ainda de mim? — acrescentou o homem. — De ti e de todos os outros. És Valfrè e estavas no Oratório antes de 1870. — Diga — continuou Valfrè —, quer ver os jovens que estavam no Oratório no meu tempo? 57
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    — Sim, mostra-me— respondi —, isso vai dar-me grande prazer. Então Valfrè mostrou-me todos os jovens com o mesmo semblante, estatura e idade daquele tempo. Parecia-me estar no antigo Oratório na hora do recreio. Era uma cena cheia de vida, movimento, alegria. Quem corria, quem pulava, quem fazia pular. Aqui brincava-se de rã, de barra, ou com bola. Num lugar uma roda de jovens pendia dos lábios de um padre, que lhes contava uma história. Noutro, um clérigo no meio de outros meninos brincava de burro voa e de jerônimo. Cantava-se, ria-se por todos os cantos e em toda parte encontravam-se padres e clérigos, e ao redor deles jovens brincando e gritando alegremente. Via-se que entre jovens e superiores reinava a maior cordialidade e confiança. Eu estava encantado com o espetáculo. Valfrè me disse então: — Veja, a familiaridade gera o afeto e o afeto produz confiança. Isto é que abre os corações, e os jovens manifestam tudo sem temor aos mestres, assistentes e superiores, Tornam-se sinceros na confissão e fora da confissão e se prestam docilmente a tudo o que porventura lhes mandar aquele de quem têm certeza de serem amados. Nesse instante aproximou-se de mim o outro ex-aluno, de barba toda branca, e me disse:— Dom Bosco, quer conhecer e ver agora os jovens que atualmente estão no Oratório? (Era José Buzzetti). — Sim, respondi; porque há já um mês que não os vejo!E apontou-os para mim: vi o Oratório e todos vós no recreio. Mas já não ouvia gritos de alegria e cantos, não via o movimento e a vida da cena anterior. Nos modos e nos rostos de muitos jovens lia-se enfado, cansaço, mau humor, desconfiança que me fazia sofrer o coração. Vi, é verdade, muitos a correr, brincar, agitar-se, com feliz despreocupação, mas muitos outros estavam sós, encostados às colunas, dominados por pensamentos desalentadores; encontravam-se outros pelas escadas e nos corredores ou na sacada perto do jardim para evitar o recreio comum; outros passeavam lentamente em grupos falando em voz baixa, lançando ao derredor olhares desconfiados e maliciosos. Sorriam de vez em quando, mas com um sorriso acompanhado de olhares que faziam suspeitar e até mesmo acreditar que S. Luis haveria de corar se andasse em tal companhia; mesmo entre os que brincavam alguns havia tão enfarados, que mostravam claramente não achar nenhum gosto nos divertimentos.Viu seus jovens? — perguntou-me o ex-aluno. Vejo-os —, respondi suspirando. — Como são diferentes do que éramos nós em nosso tempo! — exclamou o ex-aluno.— É Pena! Quanta falta de vontade nesse recreio!— De aí é que vem a frieza de tantos meninos na freqüência dos santos Sacramentos, o desleixo das práticas de piedade na igreja e fora; o estar de má vontade num lugar onde a Divina Providência os cumula,de todo bem para o corpo, para a alma, para a inteligência. De aí não corresponderem muitos à sua vocação; de aí a ingratidão para 58
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    com os superiores;de aí os segredinhos e as murmurações, com todas as demais deploráveis conseqüências. — Compreendo, entendo — respondi —. Mas como reanimar estes meus caros jovens, para que retomem a antiga vivacidade, alegria, expansão?— Com o amor!— Com o amor? Mas os meus jovens não são bastante amados? Sabes quanto os amo. Sabes quanto por eles sofri e tolerei no decorrer de bem quarenta anos, e quanto suporto e sofro mesmo agora. Quantas privações, quantas humilhações, quantas oposições, quantas perseguições para dar-lhes pão, casa, professores e especialmente para garantir-lhes a salvação da alma. Fiz tudo quanto soube e pude por eles, que são o amor de toda a minha vida.— Não falo do senhor! — De quem então? Dos que me fazem as vezes? Dos diretores, prefeitos, professores, assistentes? Não vês como são mártires do estudo e do trabalho? Como consomem sua juventude por aqueles que a Divina Providência lhes confiou?— Vejo, sei perfeitamente; mas isso não basta. Falta o melhor.— Que é que falta, então?— Que os jovens não somente sejam amados, mas que eles próprios saibam que são amados.— Mas, afinal, não têm olhos? Não têm a luz da inteligência? Não vêem que tudo o que por eles se faz é por amor deles?— Não, repito, isso não basta. — Que é preciso, então?— Que sendo amados nas coisas que lhes agradam, com participar em suas inclinações infantis, aprendam a ver o amor nas coisas que naturalmente pouco lhes agradam, como a disciplina, o estudo, a mortificação de si mesmos; e aprendam a fazer essas coisas com entusiasmo e amor. Explica-te melhor. Observe os jovens no recreio.Observei e respondi: — E que há de especial para ver? — Há já tantos anos que vive a educar os jovens e não entende? Olhe melhor! Onde estão os nossos salesianos? Observei e vi que bem poucos padres e clérigos se misturavam com os jovens e bem menos ainda eram os que tomavam parte em seus divertimentos. Os superiores já não eram a alma do recreio. A maior parte deles passeava conversando entre si, sem ligar ao que faziam os alunos; outros olhavam o recreio sem se preocuparem absolutamente com os jovens; outros vigiavam, mas tão de longe que não poderiam perceber se os jovens cometiam alguma falta; um ou outro avisava mas em atitude ameaçadora e bem de raro. Ainda havia um ou outro salesiano que gostaria de intrometer-se no meio dos jovens; vi, porém, que estes procuravam propositalmente afastar-se dos professores e superiores.Então meu amigo continuou: — Nos velhos tempos do Oratório o senhor não estava sempre no meio dos jovens, especialmente na hora do recreio? Lembra aqueles belos anos? Era um santo alvoroço, um tempo que lembramos sempre com saudade, porque o afeto é que nos servia de regra, e nós não tínhamos segredos para o senhor. — Certamente. Tudo então era alegria para mim. Os jovens corriam ao meu encontro, para falar-me; ansiavam por ouvir meus conselhos e pô-los em prática. Vês, porém, que agora as contínuas audiências, os muitos afazeres e minha saúde não o permitem. 59
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    — Está bem:mas se o senhor não pode, por que seus salesianos não o imitam? Por que não insiste, não exige que tratem os jovens como o senhor os tratava? — Eu falo, canso-me de falar, entretanto muitos não se sentem dispostos a enfrentar os trabalhos como outrora. — E então descuidando o menos, perdem o mais, e esse “mais” são seus trabalhos. Amem o que agrada aos jovens e os jovens amarão o que aos superiores agrada. E assim ser-lhes-á fácil o trabalho. A causa da mudança atual no Oratório é que bom número de jovens não tem confiança nos superiores. Antigamente os corações estavam todos abertos aos superiores, a quem os jovens amavam e obedeciam prontamente. Mas agora os superiores são considerados como superiores e não como pais, irmãos e amigos; são pois temidos e pouco amados. Por isso, se se quiser formar um só coração e uma só alma, é preciso que por amor de Jesus se rompa a barreira fatal da desconfiança e se lhe substitua uma confiança cordial. Guie pois a obediência o aluno como a mãe guia o filhinho; reinará então no Oratório a paz e a antiga alegria. — Como fazer então para romper a barreira? — Familiaridade com os jovens especialmente no recreio. Sem familiaridade não se demonstra afeto e sem essa demonstração não pode haver confiança. Quem quer ser amado deve demonstrar que ama. Jesus Cristo fez-se pequeno com os pequenos e carregou as nossas fraquezas. Aí está o mestre da familiaridade! O professor visto apenas na cátedra é professor e nada mais, mas se está no recreio com os jovens torna- se irmão. Se alguém é visto somente a pregar do púlpito, dir-se-á que está fazendo apenas o próprio dever; mas se diz uma palavra no recreio, é palavra de alguém que ama. Quantas conversões não provocaram algumas palavras suas ditas ocasionalmente aos ouvidos de um jovem enquanto brincava! Quem sabe que é amado, ama; e quem é amado alcança tudo, especialmente dos jovens. A confiança estabelece uma corrente elétrica entre jovens e superiores. Os corações se abrem e dão a conhecer suas necessidades e manifestam seus defeitos. Esse amor faz os superiores suportarem canseiras, aborrecimentos, ingratidões, desordens, faltas e negligências dos meninos. Jesus Cristo não quebrou a cana já partida, nem apagou a mecha que fumega. Eis vosso modelo. Então não se verá ninguém mais trabalhar apenas por vanglória; punir somente para satisfazer o amor próprio ofendido, retirar-se do campo da vigilância tão-somente por ciúme de temida preponderância alheia; murmurar dos outros querendo ser amado e estimado pelos jovens, com exclusão de todos os demais superiores, ganhando nada mais que desprezo e falsas manifestações de carinho; deixar-se roubar o coração por uma criatura e, para fazer-lhe corte, descuidar todos os outros meninos; por amor da própria comodidade julgar de somenos importância o dever importantíssimo da vigilância; por vão respeito humano deixar de advertir quem deve ser advertido. Se houver esse verdadeiro amor, não se haverá de procurar senão a glória de Deus e a salvação das almas. Se vier a definhar, então é que as coisas já não vão bem. Por que se quer substituir à caridade a frieza de um regulamento? Por que se afastam os superiores da maneira de educar que Dom Bosco ensinou? Por que ao sistema de prevenir com a vigilância e amorosamente as desordens, se vai substituindo pouco a pouco o sistema, menos pesado e mais cômodo para quem manda, de impor leis que se mantêm com castigos, acendem ódios e geram desgostos, e se não se cuida de as fazer observar, geram desprezo aos superiores e causam gravíssimas desordens? É o que acontece necessariamente se faltar a familiaridade. Se se quiser, pois, que o Oratório volte à antiga felicidade, reponha-se em vigor o antigo sistema: O superior seja tudo para todos, sempre disposto a ouvir qualquer dúvida ou queixa dos jovens, todo olhos para vigiar-lhes paternamente a conduta, todo coração para procurar o bem espiritual e 60
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    temporal dos quea Providência lhe confiou. Então, já não haverá corações fechados e não se alastrarão mais certos segredinhos que acabam matando. Somente em caso de imoralidade os superiores sejam inexoráveis. É melhor correr perigo de expulsar de casa um inocente, que conservar um escandaloso. Os assistentes considerem gravíssimo dever de consciência relatar aos superiores tudo o que souberem ser de algum modo ofensa de Deus.Então indaguei:— Qual é o meio mais indicado para que reine essa familiaridade, esse amor e confiança?— A observância exata das regras da casa. — E nada mais?— O melhor prato de um jantar é o bom humor.Enquanto meu antigo aluno acabava de falar e eu continuava a observar com vivo desprazer o recreio, pouco a pouco senti-me abatido por grande canseira, que ia crescendo cada vez mais. E chegou a tal ponto que não podendo mais resistir, estremeci e acordei. Encontrei-me de pé junto à cama. As pernas estavam tão inchadas e me doíam tanto que não podia ficar de pé. A hora já ia muito adiantada, de modo que me deitei resolvido a escrever estas linhas a meus filhos. Desejo não ter sonhos assim, por que me cansam demais. No dia seguinte sentia-me todo moído e não via a hora de descansar na próxima noite. Eis, porém, que, apenas me deitei, o sonho recomeçou. Reaparece o pátio, os jovens que atualmente estão no Oratório, e o mesmo aluno do Oratório. Comecei a interrogá-lo: — Comunicarei aos salesianos o que me disseste; mas que devo dizer aos jovens do Oratório? Respondeu-me:— Que reconheçam quanto superiores, mestres e assistentes trabalham e estudam por amor deles, pois se não fosse pelo bem deles não se haviam de sujeitar a tantos sacrifícios; que se lembrem ser a humildade a fonte de toda tranqüilidade; que saibam suportar os defeitos dos outros, porque a perfeição não é deste mundo, mas somente do paraíso; que deixem de murmurar, porque as murmurações esfriam os corações; e sobretudo que procurem viver na santa graça de Deus. Quem não tem paz com Deus, não tem paz nem consigo nem com os outros.— Queres dizer então que há entre meus jovens alguns que não estão em paz com Deus? — Entre as causas do mal-estar que Dom Bosco conhece, e não vou recordar agora, e às quais deve pôr remédio, esta é a principal. Com efeito, não desconfia senão quem tem segredos a guardar, senão quem teme que tais segredos venham a ser conhecidos, porque sabe que isso lhes traria vergonha e desgraça. Ao mesmo tempo se o coração não está em paz com Deus, fica angustiado, irrequieto, rebelde à obediência, irrita-se por um qualquer coisa, parece-lhe que tudo vai mal, e por não ter amor, julga que os superiores não o amam.— Entretanto, meu caro, não vês quanta freqüência de confissões e comunhões há no Oratório?— É verdade que é grande a freqüência das confissões, mas o que falta radicalmente em muitos meninos que se confessam é a firmeza nos propósitos. Confessam-se, mas sempre das mesmas faltas, das mesmas ocasiões próximas, dos mesmos maus hábitos, das mesmas desobediências, das mesmas transgressões dos deveres. E vai-se assim para a frente meses e meses, e também por vários anos, e alguns chegam assim até o fim do curso secundário. São confissões que pouco ou nada valem; conseqüentemente não trazem a paz. Se o menino fosse chamado nesse estado ao tribunal de Deus, que desgraça não seria. — E há muitos assim no Oratório?— Poucos em comparação com o grande número de jovens que se encontram na casa. Veja. E apontava.Olhei e vi os tais jovens um por um. Nesses poucos, porém, vi coisas que me amarguraram profundamente o coração. Não quero pô-las no papel, mas quando voltar quero contar a cada um dos interessados. Aqui apenas vos direi que é tempo de rezar e de tomar firmes resoluções: tomar propósitos não com palavras, mas com fatos, e demonstrar que os Comolos, os Domingos Sávios, os Besuccos e os Saccardis ainda vivem entre nós. Perguntei por fim ao meu 61
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    amigo: — Nãotens mais nada a dizer-me? — Pregue a todos, grandes e pequenos, que se lembrem sempre de Maria SS. Auxiliadora. Que ela os reuniu aqui para tirá-los dos perigos do mundo, para que se amassem como irmãos, e para que dessem glória a Deus e a ela, com o bom procedimento; que é Nossa Senhora que lhes providencia pão e meios para estudar mediante graças e portentos. Lembrem-se de que estão na vigília da festa de sua Mãe S., e com sua ajuda deve cair a barreira da desconfiança que o demônio soube erguer entre jovens e superiores, e da qual se aproveita para ruína de certas almas.— E conseguiremos destruir essa barreira?— Sim, certamente, contanto que grandes e pequenos estejam dispostos a sofrer alguma pequena mortificação por amor de Maria e ponham em prática o que eu disse. Entrementes, eu continuava a olhar meus jovenzinhos, ante o espetáculo dos que via encaminhar-se para a eterna perdição senti tamanho aperto no coração que acordei. Muitas coisas importantíssimas que eu vi gostaria de contar-vos, mas o tempo e as conveniências não permitem. Vou concluir. Sabeis o que deseja de vós este pobre velho, que gastou toda a vida por seus caros jovens? Nada mais do que, feitas as devidas proporções, retornem os dias felizes do Oratório primitivo. Os dias do afeto e da confiança cristã entre jovens e superiores; os dias do espírito de condescendência e tolerância por amor de Jesus Cristo de uns para com outros; os dias dos corações abertos com toda a simplicidade e candura; os dias da caridade e da verdadeira alegria para todos. Tenho necessidade de que me consoleis, dando-me a esperança e a promessa de que fareis tudo o que desejo para o bem de vossas almas. Não conheceis suficientemente que felicidade é a vossa de haverdes sido recebidos no Oratório. Diante de Deus declaro: Basta que um jovem entre numa casa salesiana, para que a Virgem SS. o tome imediatamente debaixo de sua especial proteção, Ponhamo-nos, pois, todos de acordo. A caridade dos que mandam, a caridade dos que devem obedecer faça reinar entre nós o espírito de S. Francisco de Sales. Ó meus caros filhinhos, aproxima-se o tempo em que me deverei separar de vós e partir para a minha eternidade. (Nota do secretário: Neste ponto Dom Bosco suspendeu o ditado; os olhos se lhe encheram de lágrimas, não por desgosto, mas por inefável ternura que ressumava de seu olhar e do tom de sua voz; depois de alguns instantes continuou). Desejo, portanto, deixar-vos a todos, padres, clérigos, jovens caríssimos, no caminho do Senhor, em que Ele próprio vos deseja.Para tal fim, o Santo Padre, que vi sexta-feira, 9 de maio, vos manda de todo o coração sua bênção.No dia da festa de Nossa Senhora Auxiliadora estarei convosco ante a imagem de nossa amorosíssima Mãe. Quero que essa grande festa se celebre com toda a solenidade, e o Pe. Lazzero e o Pe. Marchisio providenciem para que estejamos todos alegres também no refeitório. A festa de Maria Auxiliadora deve ser o prelúdio da festa eterna que deveremos celebrar um dia, todos juntos, no paraíso. Vosso af.mo amigo em J. C.Sac. João Bosco. ANEXO - II 62
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    DOM BOSCO SONHO DOS 9 ANOS Na idade de 9 anos tive um sonho, que me ficou profundamente impresso na mente por toda a vida. Pareceu-me estar perto de casa. Numa área bastante espaçosa onde uma multidão de meninos estava a brincar. Alguns riam, outros divertiam-se, não poucos blasfemavam. Ao ouvir as blasfêmias, lancei-me de pronto no meio deles, tentando, com socos e palavras, fazê-los calar. Neste momento apareceu um homem venerando, de aspecto varonil, nobremente vestido. Um manto branco cobria-lhe o corpo; seu rosto, porém, era tão luminoso que eu não conseguia fitá-lo. Chamou-me pelo nome e mandou que me pusesse à frente daqueles meninos, acrescentando estas palavras: Não é com pancadas, mas com a mansidão e a caridade que deverás ganhar esses teus amigos. Põe-te imediatamente a instruí-los sobre a fealdade do pecado e a 63
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    preciosidade da virtude. Confusoe assustado, repliquei que eu era um menino pobre e ignorante, incapaz de lhes falar de religião. Senão quando aqueles meninos, parando de brigar, de gritar e blasfemar juntaram-se ao redor do personagem que estava a falar. Quase sem saber o que dizer, acrescentei: - Quem sois vós que me ordenais coisas impossíveis? Justamente porque te parecem impossíveis, deves torná-las possíveis com a obediência e a aquisição da ciência. - Onde, com que meios poderei adquirir a ciência? - Eu te darei a mestra, sob cuja orientação poderás tornar-te sábio, e sem a qual toda sabedoria se converte em estultície. - Mas quem sois vós que assim falais? - Sou o filho daquela que tua mãe te ensinou a saudar três vezes ao dia. - Minha mãe diz que sem sua licença não devo estar com gente que não conheço; dizei-me, pois, vosso nome. Pergunta-o à minha mãe Nesse momento vi ao seu lado uma senhora de aspecto majestoso, vestida de um manto todo resplandecente, como se cada uma de suas partes fosse brilhantíssima estrela. Percebendo-me cada vez mais confuso em minhas perguntas e respostas, acenou para que me aproximasse e, tomando-me com bondade pela mão, disse: Olha. Vi então que todos os meninos haviam fugido, e em lugar deles estava uma multidão de cabritos, cães, gatos, ursos, e outros animais. Eis o teu campo, onde deves trabalhar. Torna-te humilde, forte, robusto; e o que agora vês a esses animais, deves fazê-los aos meus filhos. 64
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    Tornei então aolhar, e em vez de animais ferozes apareceram mansos cordeiros que, saltitando e balindo, corriam ao redor daquele homem e daquela senhora, como a fazer-lhes festa. Neste ponto, sempre no sonho, desatei a chorar, e pedi que falassem de maneira que eu pudesse compreender, porque não sabia o que significava tudo aquilo. A senhora descansou a mão em minha cabeça dizendo: A seu tempo tudo compreenderás. Após essas palavras, um ruído qualquer me acordou, e tudo desapareceu. Permaneci atônito. Parecia que minhas mãos doíam devido aos socos que tinha dado, que minha face doía pelos socos recebidos. Aquele personagem, aquela senhora, as coisas ditas e ouvidas, me ocuparam de tal forma a mente que não consegui retomar o sono aquela noite." P. João Bosco ANEXO – III O Sistema Preventivo na Educação dos Jovens 65
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    Fui instado váriasvezes a expressar, verbalmente ou por escrito, o meu pensamento sobre o chamado Sistema Preventivo, que se costuma praticar em nossas casas. Por falta de tempo, não pude ainda satisfazer esse desejo. Querendo agora imprimir o Regulamento, que até hoje tem sido usado sempre tradicionalmente entre nós, julgo oportuno expor aqui um rápido esboço. Isso será como o índice de um opúsculo que estou elaborando, se Deus me der vida para levá-lo a termo. Move-me a isso apenas a vontade de colaborar na difícil arte da educação juvenil. Direi, portanto, em que consiste o Sistema Preventivo, e por que se deve preferir; sua aplicação prática e vantagens. Em que consiste o Sistema Preventivo e por que se deve preferir São dois os sistemas até hoje usados na educação da juventude: o Preventivo e o Repressivo. O Sistema Repressivo consiste em fazer que os súbditos conheçam a lei, e depois vigiar para saber os seus transgressores e infligir-lhes, quando necessário, o merecido castigo. Nesse sistema, as palavras e o semblante do superior devem constantemente ser severos e até ameaçadores, e ele próprio deve evitar toda a familiaridade com os dependentes. O diretor, para dar mais prestígio à sua autoridade, raro deverá achar-se entre os dependentes e quase unicamente quando se trata de ameaçar ou punir. Esse sistema é fácil, menos trabalhoso. Serve especialmente para soldados e, em geral, para pessoas adultas e sensatas, que devem, por si mesmas, estar em condições de saber e lembrar o que é conforme às leis e outras prescrições. Diferente e, eu diria, oposto é o Sistema Preventivo. Consiste em tornar conhecidas as prescrições e as regras de uma instituição, e depois vigiar de modo que os alunos estejam sempre sob os olhares atentos do diretor ou dos assistentes. Estes, como pais carinhosos, falem, sirvam de gula em todas as circunstâncias, dêem conselhos e corrijam com bondade. Consiste, pois, em colocar os alunos na impossibilidade de cometerem faltas. O sistema apóia-se todo inteiro na razão, na religião e na bondade. Exclui, por isso, todo o castigo violento, e procura evitar até as punições leves. Parece preferível pelas seguintes razões: 1. O aluno, previamente avisado, não fica abatido pelas faltas 66
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    cometidas, como sucedequando são levadas ao conhecimento do superior. Não se irrita pela correção feita nem pelo castigo ameaçado, ou mesmo infligido, pois a punição contém em si um aviso amigável e preventivo que o leva a refletir e, as mais das vezes, consegue granjear-lhe o coração. Assim o aluno reconhece a necessidade do castigo e quase o deseja. 2. A razão mais essencial é a volubilidade do menino, que num instante esquece as regras disciplinares e o castigo que ameaçam. Por isso é que, amiúde, se torna um menino culpado e merecedor de uma pena em que nunca pensou, e de que absolutamente não se lembrava no momento da falta cometida, e que teria por certo evitado, se uma voz amiga o tivesse advertido. 3. O Sistema Repressivo pode impedir uma desordem, mas dificilmente melhorará os culpados. Diz a experiência que os jovens não esquecem os castigos recebidos, e geralmente conservam ressentimento acompanhado do desejo de sacudir o jugo e até de tirar vingança. Podem, às vezes, parecer indiferentes; mas quem lhes segue os passos sabe quão terríveis são as reminiscências da juventude. Esquecem facilmente os castigos que recebem dos pais; muito dificilmente, porém, os dos educadores. Há casos de alguns que na velhice se vingaram com brutalidade de castigos justos que receberam nos anos de sua educação. O Sistema Preventivo, pelo contrário, granjeia a amizade do menino, que vê no assistente um benfeitor que o adverte, quer fazê-lo bom, livrá-lo de dissabores, castigos e desonra. 4. O Sistema Preventivo predispõe e persuade de tal maneira o aluno, que o educador poderá em qualquer lance falar-lhe com a linguagem do coração, quer no tempo da educação, quer ao depois. Conquistado o ânimo do discípulo, poderá o educador exercer sobre ele grande influência, avisá-lo, aconselhá-lo, e também corrigi-lo, mesmo quando já colocado em qualquer trabalho ou empregos públicos, ou no comércio. Por essas e muitas outras razões, parece que o Sistema Preventivo deve preferir-se ao Repressivo. Aplicação do Sistema Preventivo A prática desse sistema baseia-se toda nas palavras de S. Paulo: “Charitas benigna est, patiens est; omnia suffert, omnia sperat, omnia sustinet”. A caridade é benigna e paciente; tudo sofre, mas espera tudo e suporta qualquer incômodo. Por isso, somente o cristão pode aplicar com êxito o Sistema Preventivo. Razão e Religião são os instrumentos de que o educador se deve servir; deve inculcá-los, praticá-los ele mesmo, se quiser ser obedecido e alcançar os resultados que deseja. 67
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    1. Deve, pois,o diretor consagrar-se totalmente aos seus educandos: jamais assuma compromissos que o afastem das suas funções, Pelo contrário, permaneça sempre com seus alunos, todas as vezes que não estiverem regularmente ocupados, salvo estejam por outros devidamente assistidos. 2. A moralidade dos professores, mestres de oficina, assistentes, deve ser notória. Esforcem-se eles por evitar, como epidemia, toda a sorte de afeições ou amizades sensíveis com os alunos, e lembrem-se de que o descaminho de um só pode comprometer um instituto educativo. Veja-se que os alunos não fiquem jamais sozinhos. Porquanto possível, os assistentes sejam os primeiros em achar-se no lugar onde os alunos se devem reunir; entretenham-se com eles enquanto não vier um substituto; nunca os deixem desocupados. 3. Dê-se ampla liberdade de correr, pular e gritar, à vontade. Os exercícios ginásticos e desportivos, a música, a declamação, o teatro, os passeios, são meios eficacíssimos para se alcançar a disciplina, favorecer a moralidade e conservar a saúde. Mas haja cuidado em que a matéria das diversões, as pessoas que tomam parte, as falas, não sejam repreensíveis. “Fazei quanto quiserdes”, dizia o grande amigo da juventude, S. Filipe Néri, “a mim me basta não cometais pecados”. 4. A confissão freqüente, a comunhão freqüente e a missa cotidiana são as colunas que devem sustentar um edifício educativo, do qual se queira eliminar a ameaça e a vara. Nunca se obriguem os jovens a freqüentar os santos sacramentos: basta encorajá- los e dar-lhes comodidade de se aproveitarem deles. Nos exercícios espirituais, tríduos, novenas, pregações, catecismos, ponha-se em relevo a beleza, a sublimidade, a santidade da Religião, que oferece meios tão fáceis, tão úteis à sociedade civil, à paz do coração, à salvação da alma, como são precisamente os santos sacramentos. Dessa maneira, estimulam-se os meninos a querer, espontaneamente, essas práticas de piedade; haverão de cumpri-las de boa vontade, com prazer e fruto. 5. Use-se a máxima vigilância para impedir que entrem no instituto companheiros, livros ou pessoas que tenham más conversas. A escolha de um bom porteiro é um tesouro para uma casa de educação. 6. Todas as noites, após as orações de costume e antes que os alunos se recolham, o diretor, ou quem por ele, dirija em público algumas afetuosas palavras, dando algum aviso ou conselho sobre o que convém fazer ou evitar. Tire-se a lição moral de acontecimentos do dia, sucedidos em casa ou fora; mas a sua alocução não deve passar de dois ou três minutos. Essa é a chave da moralidade, do bom andamento e do bom êxito da educação. 7. Afaste-se como a peste a opinião dos que pretendem diferir a 68
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    primeira comunhão parauma idade demasiado adiantada, quando em geral o demônio já se apossou do coração dos meninos, com incalculável dano da sua inocência. Conforme a disciplina da Igreja primitiva, costumava dar-se às crianças as hóstias consagradas que sobravam da comunhão pascal. Isso demonstra quanto preza a Igreja sejam os meninos admitidos mais cedo à santa comunhão. Quando uma criança pode distinguir entre Pão e pão, e revela instrução suficiente, já não se olhe para a idade, e venha o Soberano Celeste reinar nessa alma abençoada. 8. Os catecismos recomendam a comunhão freqüente: S. Filipe Néri aconselhava-a cada oito dias e ainda mais amiúde. O Concílio Tridentino diz claro que deseja sumamente que todos os fiéis, quando ouvem a santa missa, façam também a comunhão. Porém seja a comunhão não só espiritual, mas ainda sacramental, a fim de que se tire maior fruto desse augusto e divino sacrifício (Concílio Tridentino, Sess. XXII, capítulo VI). Utilidade do Sistema Preventivo Dir-se-á que esse sistema é difícil na prática. Observo que da parte dos alunos torna-se bastante mais fácil, agradável e vantajoso. Para o educador, encerra alguma dificuldade que, porém, diminuirá se ele se entregar com zelo à sua missão. O educador é um indivíduo consagrado ao bem de seus alunos: por isso, deve estar pronto a enfrentar qualquer incômodo e canseira, para conseguir o fim que tem em vista: a formação cívica, moral e científica dos seus alunos. Além das vantagens acima expostas, acrescentase ainda o seguinte: 1. O aluno conservará sempre grande respeito para com o educador e lembrará com gosto a educação recebida e considerará ainda os seus mestres e demais superiores como pais e irmãos. Esses alunos, nos lugares para onde forem, serão, as mais das vezes, o consolo da família, cidadãos prestimosos e bons cristãos. 2. Qualquer que seja o caráter, a índole, o estado moral do aluno ao ser admitido, podem os pais viver seguros de que seu filho não vai piorar, e considera-se como certo que se alcançará sempre alguma melhora. Antes, meninos houve que depois de terem sido por muito tempo o flagelo dos pais, e, até, rejeitados pelas casas de correção, educados segundo esses princípios, mudaram de índole e caráter, deram-se a uma vida morigerada, e presentemente ocupam posição distinta na sociedade, tornando- se, desse modo, o amparo da família e honra do lugar em que moram. 69
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    3. Os alunosque por acaso entrassem num instituto com maus hábitos, não podem prejudicar os seus companheiros. Nem os meninos bons poderão ser por eles contaminados, porque não haveria tempo, nem lugar, nem ocasião, pois o assistente, que supomos presente, logo lhes acudiria. Uma palavra sobre os castigos Que norma seguir para dar castigos? — Por quanto possível, jamais se faça uso de castigos. Quando, porém, a necessidade o exige, observe-se quanto segue: 1. O educador entre os alunos procure fazer-se amar se quer fazer- se respeitar. Nesse caso, a subtração da benevolência é um castigo que desperta emulação, infunde coragem sem deprimir. 2. Entre os meninos é castigo o que se faz passar por castigo. Observou-se que um olhar não amável produz para alguns maior efeito que uma bofetada. O elogio quando uma ação é bem feita. a repreensão quando há desleixo, é já um prêmio ou castigo. 3. Salvo raríssimos casos, as correções, os castigos, nunca se dêem em público, mas em particular, longe dos companheiros, e empregue-se a máxima prudência e paciência para que o aluno compreenda a sua falta, à luz da razão e da religião. 4. Bater, de qualquer modo que seja, pôr de joelhos em posição dolorosa, puxar orelhas, e outros castigos semelhantes, devem se absolutamente banir, porque são proibidos pelas leis civis, irritam sobremaneira os jovens e desmoralizam o educador. 5. Torne o diretor bem conhecidas as regras, os prêmios e os castigos sancionados pelas leis disciplinares, a fim de que o aluno não possa desculpar-se dizendo: “Eu não sabia que isso era mandado ou proibido”. Se em nossas casas se puser em prática este sistema, creio poderemos alcançar grande resultado, sem recorrermos a pancadarias, nem a outros castigos violentos. Há quarenta anos, mais ou menos, que trato com a juventude, não me lembra ter usado castigo de espécie alguma. Com o auxílio de Deus, não só obtive sempre o que era de dever, mas ainda o que eu simplesmente desejava, e isso daqueles mesmos meninos dos quais se havia perdido a esperança de bom resultado. ANEXO – IV ARQUIVO SALESIANO CENTRAL – ROMA 70
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    O Arquivo SalesianoCentral compreende três seções: Arquivo Histórico, Arquivo Corrente e Arquivo Fotográfico. O Arquivo Histórico é a seção do Arquivo Salesiano Central que conserva documentos que chegaram realmente ao termo, em sentido `arquivístico`.As práticas atuais, de uso corrente, e ainda `abertas`, são conservadas no Arquivo Corrente (seção particular do Arquivo Salesiano Central).O material fotográfico é conservado no Arquivo Fotográfico (outra seção do Arquivo Salesiano Central) ARQUIVO HISTÓRICO Surgiu com o próprio início da vida salesiana de Valdocco. Interessava ao próprio Dom Bosco a documentação pontual e ordenada de tudo o que acontecia no Oratório.O material arquivístico está codificado segundo os critérios vigentes da disciplina arquivística e as estruturas e instrumentos de trabalho estão igualmente atualizados e melhorados.O material no arquivo é dividido em unidades orgânicas (chamados de `Fundos`), conservadas em armários especiais de arquivamento, localizados em pastas adequadas (já são 7000).Critérios precisos regulam a consulta ao Arquivo. Quem a ele acede, concluído o trabalho de pesquisa, envia cópia de suas pesquisas ou teses ao próprio Arquivo. O MATERIAL ARQUIVÍSTICO O material que chega ao Arquivo Salesiano Central articula-se em - Cartas - Documentos relativos a Casas e Inspetorias, - Crônicas de Casas e Inspetorias, - Documentos pessoais e fichas pessoais dos Salesianos,- Documentos de contendo variado, - Documentos de Capítulos Inspetoriais e Capítulos Gerais, - Periódicos, Revistas, Noticiários, - Outros. Todo o material arquivístico é conservado na ampla sala de depósito, dividido segundo unidades orgânicas (chamadas de “Fundos”) em armários arquivísticos, e conservado em pastas adequadas. Apresentamos aqui a lista dos principais Fundos, com as relativas posições arquivísticas (números de colocação) afixadas nos próprios recipientes. 71
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    Fundo Dom Bosco A000 - A310 Fundo Causas dos Santos A311 - A519 A762 - A804 A520 - A761 C504 - C589 D823 - Fundo Secretaria Geral D923 Fundo Missões A805 - A924 Fundo Comunicação Social A936 - A979 Fundo Maria Auxiliadora A980 - B015 Fundo Reitores-Mores B025 - B187 Fundo SDB defuntos e egressos (até a B192 - B662 1931) Fundo Bispos SDB defuntos B664 - B742 Fundo SDB defuntos e egressos (após 1931) B744 - C503 Fundo Instituto FMA C592 - C638 Fundo Família Salesiana C642 - C700 Fundos diversos C701 - C759 G389 - G547 Fundo Conselheiros Gerais. e Reg. C760 - D091 (1965-84) Fundo Padre Viganò D094 - D280 Fundo Práticas Particulares D281 - D424 Fundo Sociedade Salesiana D425 - D544 D559 - D568 Fundo Procuradoria Geral D545 - D558 Fundo Capítulos Gerais e Inspetoriais D576 - D822 Fundo SDB defuntos e egressos (desde D978 - E052 1985) Fundo Setores Operativos dos SDB E171 - E550 Fundo Oratório-Valdocco E551 - E897 Fundo Inspetorias Salesianas E898 - F378 72
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    Fundo Casas Salesianas(Documentos) F380 - F737 Fundo Casas Salesianas (Crônicas) F740 - F963 Fundo Casas Salesianas (Novas F964 - G004 Fundações) Fundo Padre Cimatti G008 - G034 G036 - Fundo Capítulos Insp. - UPS - Particulares G109 Fundo Padre Ziggiotti G110 - G121 Fundo Capítulos Isp. e Gerais. e Outros G122 - G342 Fundo Dom Bosco 88 G343 - G388 Fundo Economato Geral ------- - ------- ESTRUTURAS E EQUIPAMENTOS TÉCNICOS Fichário de microfilmes Os Fundos Dom Bosco e Padre Rua estão micro filmados: 2664 microfilmes do Fundo Dom Bosco e 1758 microfilmes do Fundo Padre Rua. O microfilme é um subsídio de trabalho para os arquivistas e um meio de conhecimento do documento a disposição dos 73
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    estudiosos. Outros equipamentos e instrumentos de trabalho Estão à disposição dos arquivistas Elencos e Anuários eclesiásticos e civis, os volumes das Memórias Biográficas, as coleções do Boletim Salesiano, os Anais da Congregação, Dicionários, fotocopiadoras e outros equipamentos. A CONSULTA POR ESTUDIOSOS E PESQUISADORES A consulta de um Arquivo por estudiosos e pesquisadores, independente da identidade ou profissão dos que dele se servem, ou do tipo e consistência do trabalho, é regulada por um atento critério: 74
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    Identificação pessoal do pesquisador e relativo registro (documento pessoal; carta de apresentação de seu professor ou superior; compilação de uma ficha de identificação e relativo registro). Verificação da entidade e da finalidade para a qual o estudioso- pesquisador veio ao Arquivo. Premissas suficientes de garantia no tratamento dos documentos (máxima atenção em relação ao documento; recolocação atenta no modo correto e na posição material de onde foi retirado). 75
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    Acompanhamento do trabalhodo pesquisador com noções metodológicas de base, tanto em relação à conservação intacta dos documentos, quanto em relação ao procedimento do trabalho. Controle posterior à consulta: posição, ordem, integridade dos documentos. O elenco acima deve ser sempre praticado em qualquer estudo, redação, uso do computador, etc Os estudiosos e pesquisadores, concluídos os seus estudos momento ou fase da permanência dos estudiosos no Arquivo: pesquisa, , pesquisas ou teses, enviam cópia de seus trabalhos ao ASC. ARQUIVO FOTOGRÁFICO Faz parte do Arquivo Salesiano Central e conserva material fotográfico de aproximadamente 150 anos. São mais de um milhão de fotografias e outro material iconográfico classificado por assunto. O material conservado refere-se às obras salesianas (desde os inícios), às expedições missionárias, à vida das missões salesianas, às descobertas geográficas (De Agostini e outros), · a pessoas, a atividades salesianas, etc. 116 ANEXO V São Francisco de Sales (1567 – 1622) Uma das maiores figuras da Contra-Reforma católica na França, tido pelos seus contemporâneos -- incluído o grande São Vicente de Paulo -- como a mais perfeita imagem do Salvador então existente na Terra. Plinio Maria Solimeo No início de novembro de 1622, São Francisco de Sales, Bispo-Príncipe de Genebra, acompanhava o Duque da Sabóia na comitiva que ia de Chambéry a Avignon encontrar-se com o Rei Cristianíssimo, que era então o soberano francês Luís XIII. O Prelado aproveitou a ocasião para visitar os mosteiros da Visitação existentes no percurso, como cofundador que era dessa Congregação. Assim, chegou no dia 11 ao (mosteiro) de Belley. 116 http://www.sdb.org/PR/SottoSezioni/_5_10_13_.htm 76
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    Entre as freirasque, pressurosas, correram-lhe ao encontro, encontrava-se uma que ele muito estimava por sua inocência, virtude e simplicidade, e a quem por isso dera o nome de Clara Simpliciana. Esta, iluminada por luzes sobrenaturais, chorava desoladamente: "Oh, excelentíssimo Senhor!" disse-lhe sem subterfúgios, "vós morrereis neste ano! Eu vos suplico que peçais a Nosso Senhor e à Sua Santíssima Mãe que isso não ocorra". -- "Como, minha filha?!", respondeu surpreso o Prelado. "Não, não o farei. Não vos alegrais pelo fato de eu ir descansar? Veja: estou tão cansado, com tanto peso, que já não posso comigo. Que falta vos farei? Tendes a Constituição e deixar-vos-ei Madre Chantal, que vos bastará . Ademais, não devemos pôr nossas esperanças nos homens, que são mortais, mas só em Deus, que vive eternamente". Tais palavras como que resumem a vida e a obra de São Francisco de Sales, cuja festa comemoramos no dia 24 de janeiro. Embora ele contasse então com apenas 55 anos de idade e aparentemente não estivesse doente, entregou sua grande alma a Deus três dias antes que o ano terminasse, conforme predissera Irmã Simpliciana... A grande provação Francisco de Sales, primogênito entre os 13 filhos dos Barões de Boisy, nasceu no castelo de Sales, na Sabóia, em 21 de agosto de 1567. Por devoção dos pais ao Poverello de Assis, recebeu seu nome e, chegado ao uso da razão, o menino escolheu-o por patrono e guia. A virtuosa baronesa dedicou-se ela mesma, com a ajuda de bons preceptores, à educação de sua numerosa prole. Para seu primeiro filho escolheu, por sua piedade e ciência, o Pe. Déage, o qual, até sua morte, foi para Francisco um pai espiritual e guia. Acompanhava- o sempre, mesmo a Paris, onde o jovem barão radicou-se durante seus estudos universitários no Colégio de Clermont, dos jesuítas. Com um precoce senso de responsabilidade e intuito de fazer sempre tudo que fosse da maior glória de Deus, Francisco estudou retórica, filosofia e teologia com um empenho que lhe permitiu ser depois o grande teólogo, pregador, polemista e diretor de consciências que caracterizaram seu trabalho apostólico. 77
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    Francisco, como primogênito,era herdeiro do nome de família e continuador de sua tradição. Por isso, recebeu também lições de esgrima, dança e equitação. Convencia-se porém, cada vez mais, que Deus o chamava inteiramente a Seu serviço. Fez voto de castidade perfeita e colocou-se sob a proteção da Virgem das virgens. Aos 18 anos, o jovem enfrentou a mais terrível provação de sua vida: uma tão violenta tentação de desespero, que lhe causava a impressão de ter perdido a graça divina e estar destinado a odiar eternamente a Deus com os réprobos. Tal obsessão diabólica perseguia-o noite e dia, abalando-lhe até a saúde. Ora, para alguém que, como ele, desde o início do uso da razão não procurava senão amar ardentemente a Deus, tal provação era o que havia de mais terrível. Seria necessário um ato heróico para dela livrá-lo e ele o praticou: não se revoltava contra Deus, mesmo se Ele lhe fechasse as portas do Céu, e pedia, nesse caso, para amá-Lo ao menos nesta Terra. "Senhor!" -- exclamou certo dia na igreja de Saint Etienne des Grés, no auge de sua angústia --, "fazei com que eu jamais blasfeme contra Vós, mesmo que não esteja predestinado a ver-Vos no Céu. E se eu não hei de amar-Vos no outro mundo, concedei-me pelo menos que, nesta vida, eu Vos ame com todas as minhas forças!". Rezando depois humildemente o "Lembrai-Vos", aos pés de Nossa Senhora, invadiu- lhe a alma uma tão completa paz e confiança, que a provação esvaiu-se como fumaça. Calcando o mundo aos pés Aos 24 anos, Francisco, com os estudos brilhantemente concluídos e já doutor em leis, voltou para junto da família. O pai escolhera para ele a jovem herdeira de uma das mais nobres famílias do lugar. Apesar de sua pouca idade, ofereceram ao jovem doutor o cargo de membro do Senado saboiano. Humanamente falando, não se podia desejar mais. Para espanto do pai, seu primogênito recusou tanto um quanto outro oferecimento. Só à mãe, que sabia de sua entrega a Deus, e a um tio, cônego da catedral de Genebra, explicou Francisco o motivo desse ato tido por insensato. Faleceu nesse tempo o deão da catedral de Chambéry. O cônego Luís de Sales imediatamente obteve do Papa que nomeasse seu sobrinho para o posto vacante. Com muita dificuldade o Barão de Boisy consentiu enfim que aquele, no qual depositava suas maiores esperanças de triunfo neste mundo, se dedicasse inteiramente ao serviço de Deus. Não podia ele prever que Francisco estava destinado à maior glória que um mortal pode atingir, que é a 78
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    de ser elevadoà honra dos altares; e, por acréscimo, como Doutor da Igreja!... Zelo anticalvinista Os cinco primeiros anos após sua ordenação, o Pe. Francisco consagrou-os à evangelização do Chablais, cidade situada na margem sul do lago de Genebra, convertendo, com o risco da própria vida, empedernidos calvinistas. Para isso, divulgava folhetos nos quais refutava suas heresias, contrapondo-lhes as lídimas verdades católicas. O missionário precisou fugir muitas vezes e esconder-se de enfurecidos hereges, e em algumas ocasiões só se salvou por verdadeiro milagre. Assim, reconduziu ao seio da verdadeira Igreja milhares de almas seduzidas pela heresia de Calvino. Ao mesmo tempo dava assistência religiosa aos soldados do castelo de Allinges, os quais, apesar de católicos de nome, eram ignorantes em religião e dissolutos. Seu renome começava já a repercutir como grande confessor e diretor de consciências. Em 1599, o deão de Chambéry foi nomeado Bispo-coadjutor de Genebra; e, três anos depois, com o falecimento do titular, assumiu a direção dessa diocese. Apóstolo entre os nobres Esse fato ampliou muito o âmbito de ação de D. Francisco de Sales. Fundou escolas, ensinou catecismo às crianças e adultos, dirigiu e conduziu à santidade grandes almas da nobreza, que desempenharam papel preponderante na reforma religiosa empreendida na época, como Madame Acarie (depois uma das primeiras religiosas carmelitas na França, morta em odor de santidade), Santa Joana de Chantal, com quem fundou a Visitação. Inúmeras donzelas da mais alta nobreza abandonaram o mundo, entrando nos mosteiros dessa nova congregação, na qual brilharam pelo esplendor de sua virtude. Todos queriam ouvir o santo Bispo. Convidado a pregar em toda parte, era sempre rodeado de grande veneração, tornando-se necessário escolta militar para protegê-lo das manifestações do entusiasmo popular. A família real da Sabóia não resistia à atração do Bispo-Príncipe de Genebra, convidando-o constantemente para pregar também na Corte. E não era a mais alta nobreza menos ávida que o povinho de ouvir aquele que já consideravam santo em vida. Em 1608, ordenou e publicou as notas e conselhos que dera a uma sua prima por afinidade, a Sra. de Chamoisy, num livro que se tornaria imortal: Introdução à vida devota. 79
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    Essa obra foiocasião de várias conversões e carreou muitas vocações para os conventos da Visitação. São Francisco de Sales desenvolveu seu lema no extraordinário livro que escreveu para suas filhas da Visitação, a pedido de Santa Joana de Chantal, o célebre Tratado do Amor de Deus: "a medida de amar a Deus é amá-lo sem medida". Glorificado na Terra e no Céu Os contemporâneos do Bispo-Príncipe de Genebra não tinham dúvidas a respeito de sua santidade. Santa Joana de Chantal, sua dirigida e cooperadora que o conheceu tão intimamente, escreveu: "Oh! meu Deus! Atrever-me-ei a dizê-lo? Sim, di-lo-ei: parece-me que nosso bem-aventurado pai era uma imagem viva do Filho de Deus, porque verdadeiramente a ordem e a economia desta santa alma era toda sobrenatural e divina. Muitas pessoas me disseram que, quando viam este bem-aventurado, parecia-lhes ver a Nosso Senhor na terra" (4). E São Vicente de Paulo, sempre que saia de algum encontro mantido com São Francisco de Sales, exclamava: "Ah! quão bom deve ser Deus quando o excelentíssimo Bispo de Genebra é tão bondoso! (5) Em seu leito de morte, o resplendor de seu rosto, que já era visível em seus últimos anos de vida, aumentava por vezes muito mais, arrebatando de admiração os que o contemplavam. Assim que faleceu, verdadeira multidão invadiu o convento das Visitandinas, em Lyon, na França, para oscular-lhe os pés, tocar-lhe tecidos em seu corpo, encostar-lhe rosários. Ao abrirem seu corpo, os médicos constataram que o fígado do Santo se petrificara com o esforço que fizera sempre para dominar seu temperamento sangüíneo, e conservar constantemente aquela suavidade e, aparentemente tão naturais nele, que conquistavam os corações mais empedernidos. O culto ao santo começou no próprio momento de sua morte. E foi sempre recompensado, algumas vezes com estupendos milagres. Durante a peste em Lyon, as irmãs visitandinas não bastavam para distribuir ao povo pedaços de tecido tocados no corpo do santo. Em Orleans, a Madre de la Roche mergulhava uma relíquia do venerado Prelado em água, a qual era distribuida à multidão enquanto durou a peste: um tonel por dia em média. Em Crest e em Cremieux, os representantes da cidade foram à igreja da Visitação fazer, em nome da cidade, voto solene de irem peregrinação ao sepulcro do Bispo, caso cessasse a peste. E todos foram ouvidos. 80
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    Foi Santa Joanade Chantal quem iniciou as gestões para o processo de canonização de seu pai espiritual. Recolheu seus escritos privados, cartas, mesmo rascunhos não terminados, e trabalhou com afinco nesse sentido. Escreveu a autoridades civis e eclesiásticas e mesmo a Roma, pedindo que urgissem o início do processo de beatificação. Mas a alegria de vê-lo elevado à honra dos altares ela só a teria no Céu, pois a celeridade dos processos humanos ficavam muito aquém dos desejos de seu ardente coração. São Francisco de Sales faleceu em 28 de dezembro de 1622, tendo sido canonizado em 19 de abril de 1665. O Papa Pio IX declarou-o Doutor da Igreja em 7 de julho de 1877. E Pio XI, na encíclica Rerum omnium, de 1923, atribuiu-lhe o glorioso título de Patrono dos jornalistas e escritores católicos. (Artigo extraído da Revista Catolicismo Janeiro de 1999) ANEXO VI A fundação dos Salesianos Dom Bosco pensava em organizar uma associação religiosa, contudo, o contexto político da unificação da Itália, a disputa pela separação entre Estado e Igreja, não estimulavam a criação de uma ordem religiosa nos moldes tradicionais. O ministro Umberto Ratazzi lhe sugeriu organizar uma sociedade de cidadãos que se dedicasse às atividades educativas realizadas pelos oratórios em moldes civis. Bosco propõe a Sociedade de São Francisco de Europa.Sales, que seria vista como uma associação de cidadãos aos olhos do Estado e como uma associação de religiosos perante a Igreja. Após consultar o Papa Pio IX, Bosco recebeu de seus companheiros padres, seminaristas e leigos a adesão à Sociedade de São Francisco de Sales em 18 de dezembro de 1859 e em 14 de março de 1862, os primeiros salesianos fizeram os votos religiosos de castidade, pobreza e obediência. A partir de 1863, além dos oratórios, os salesianos passam a se dedicar também aos colégios e escolas católicas para meninos e jovens. Com a separação entre Estado e igreja, há forte demanda por escolas católicas, fazendo com que esse tipo de instituição se dissemine rapidamente. As regras da Sociedade, chamadas de Constituições, foram aprovadas pela igreja em 1874. Em sua morte, em 1888, a Sociedade contava com 768 membros, com 26 casas fundadas nas Américas e 38 na Europa. 81
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    ANEXO VII Família salesiana117 Origem:Wikipédia, a enciclopédia livre. A família salesiana é um conjunto de diferentes instituições e movimentos católicos que se propõem a seguir a espiritualidade e a missão propostas por Dom Bosco. Como essa espiritualidade se fundamenta nos escritos de São Francisco de Sales, que propôs a alegria como caminho de santidade, é denominada salesiana. Composição A família salesiana é atualmente composta por vinte e três grupos de institutos de vida consagrada e associações de leigos católicos, aqui classificados segundo a sua forma de instituição canônica segundo as diretrizes da Igreja Católica Apostólica Romana: 1. Congregações religiosas masculinas de Direito Pontifício:  Pia Sociedade de São Francisco de Sales (sdb)  Congregação de São Miguel Arcanjo 2. Institutos religiosos femininos de Direito Pontifício  Instituto das Filhas de Maria Auxiliadora (fma)  Filhas dos Sagrados Corações de Jesus e Maria  Salesianas Oblatas do Sagrado Coração de Jesus  Apóstolas da Sagrada Família  Irmãs Missionárias de Maria Auxiliadora dos Cristãos 3. Institutos seculares de Direito Pontifício  Instituto Secular das Voluntárias de Dom Bosco 4. Associações eclesiais públicas de fiéis católicos  A Associação Internacional dos Cooperadores Salesianos (CCSS)  Associação de Maria Auxiliadora 5. Associação eclesial privada de fiéis  Associação das Damas Salesianas 6. Associação pública de fiéis leigos de vida consagrada  Voluntários com Dom Bosco (CDB) (Instituto Secular masculino) 7. Associações leigas reconhecidas como Organizações Mundiais Católicas 117 Página modificada em 23/12/2007. 82
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    Associação Internacional de Ex-Alunas e Ex-Alunos das Filhas de Maria Auxiliadora  Associação Internacional de Ex-Alunas e Ex-Alunos Salesianos 8. Institutos religiosos femininos de Direito Diocesano  Irmãs de Caridade de Miyazaki (Miyazaki - Japão)  Filhas do Divino Salvador (S. Vicente - El Salvador)  Servas do Imaculado Coração de Maria (Bang Nok Khuek - Tailândia)  Irmãs de Jesus Adolescente (Campo Grande - Brasil)  Irmãs Catequistas de Maria Imaculada Auxiliadora (Khrshnagar - Índia)  Filhas da Realeza de Maria Imaculada (Bangkok - Tailândia)  Congregação das Irmãs da Ressurreição (San Pedro Carchá- Guatemala)  Irmãs Anunciadoras do Senhor (Shiu Chow - China) 9. Movimento Espiritual  Testemunhas do Ressuscitado. ). 83