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Potências imperialistas mostram sua impotência diante da
escalada da crise
Escrito por Plínio de Arruda Sampaio Jr.
28-Out-2008
A crise financeira que eclodiu com a intensidade de um furacão tropical nas últimas
semanas gerou um estado de absoluta incerteza em relação ao futuro da ordem global. A
desconfiança na solidez das instituições financeiras, provocada pela quebra em cadeia de
bancos que até há pouco pareciam inabaláveis, desencadeou um colapso generalizado do
crédito que tende a desorganizar o sistema capitalista mundial. Ao expor a extraordinária
fragilidade do sistema monetário internacional e os precários fundamentos que
sustentam a globalização dos negócios, a crise pôs por terra os parâmetros que
balizavam os cálculos capitalistas, deixando o mundo sob a ameaça de uma depressão
sem precedentes.
A origem dos problemas encontra-se no processo de liberalização que solapou as
restrições institucionais que impunham limites à atuação do capital financeiro, com
o objetivo de minimizar os impactos perversos da livre concorrência sobre a economia
popular. Ao levar ao paroxismo a liberdade de movimento dos capitais e a
desregulamentação dos mercados financeiros, os Estados Unidos e os organismos
financeiros internacionais criaram condições ideais para o pleno desenvolvimento
da especulação produtiva e financeira em escala global.
O neoliberalismo premiou os especuladores mais ousados, desencadeando uma
concorrência desenfreada pelo lucro fácil que só poderia terminar em catástrofe. O
resultado era previsível: a valorização do capital fictício descolou-se completamente
da valorização produtiva e a acumulação produtiva descolou-se completamente da
capacidade de consumo da sociedade. Em poucas palavras, o mundo encontra-se
diante de uma clássica crise de superprodução, cuja solução demandará uma brutal
queima de capital, produtivo e financeiro, com tudo o que vem junto: desemprego, crise
social e instabilidade política.
Em relação às inúmeras turbulências que marcaram a conturbada trajetória das finanças
internacionais na era neoliberal, há pelo menos duas mudanças significativas no
caráter da crise atual, ambas convergindo para a configuração de uma crise geral –
um fenômeno estrutural que terá repercussões de longo alcance.
Em primeiro lugar, a profundidade e a extensão dos desequilíbrios que precisam ser
digeridos superam as crises anteriores em todas as suas dimensões e só são comparáveis
à hecatombe que desarticulou o sistema monetário internacional nos anos 30. Como
todas as economias nacionais estão fortemente interconectadas entre si e fortemente
dependentes do que ocorre na economia norte-americana, não há como conter o processo
de disseminação da crise sem subverter os alicerces da ordem econômica internacional
montada nas últimas quatro décadas, sob a batuta dos próprios Estados Unidos.
Em segundo lugar, a impotência do poder político para lidar com a situação não
permite que se vislumbre uma solução rápida e indolor para o impasse da economia
mundial. A superação dos entraves que bloqueiam a acumulação de capital exige uma
ação coordenada, de caráter transnacional, envolvendo todas as dimensões da vida
econômica - financeira, monetária, comercial e produtiva -, cuja possibilidade de
concretização, até o momento, sequer foi cogitada. Os Estados Unidos, que deveriam
liderar este processo, têm se revelado totalmente impotentes para enfrentar a situação e
não há o menor indício de que alguma outra potência imperialista possa assumir o seu
papel.
Enganam-se os que imaginam que a recente atuação conjunta dos governos dos países
desenvolvidos para salvar os bancos seja um sintoma de que o poder público começa a
sair da inércia. Por enquanto os Estados têm se restringido a uma atuação reativa,
sempre atrás dos acontecimentos, comandada pela histeria desesperada dos "mercados" –
eufemismo para designar os interesses do capital financeiro.
Não é impossível que o esforço para "administrar" a crise protele o desmoronamento dos
mercados financeiros por mais algum tempo, dando para muitos a impressão de que os
problemas poderão ser contornados sem maiores traumatismos. Ainda que a
possibilidade de um colapso espetacular do sistema monetário internacional não possa
ser descartada, o mais provável é que o desdobramento da crise se arraste por tempo
indefinido, alternando momentos de pânico com momentos de relativo alívio, numa lenta
agonia.
O fato é que a economia mundial está a léguas de qualquer tipo de ação "reguladora",
capaz de pôr ordem na anarquia da iniciativa privada e de conter o caráter ultra-
regressivo do padrão de acumulação neoliberal – as causas últimas da crise. Os que
confundem a estatização do sistema financeiro em curso com a volta da regulação
de tipo keynesiana tomam a nuvem por Juno, pois não é o Estado que está
comandando o capital, mas exatamente o contrário, o grande capital que está
comandando o Estado.
Em nome da necessidade inquestionável de evitar uma crise sistêmica da economia
mundial, de efeitos potenciais catastróficos, a ação dos Estados capitalistas está
promovendo o maior ataque à economia popular de que se tem notícia na história. Os
recursos que até ontem faltavam para financiar as políticas públicas, agora sobram para
socorrer os bancos, sem que nada garanta, diga-se de passagem, que o cataclismo seja
evitado. Para se aquilatar a magnitude de riqueza transferida para o grande capital, basta
lembrar que, no intervalo de poucas semanas, os maiores bancos do mundo receberam
um montante de recursos públicos equivalente a vários PIBs anuais do Brasil.
Além da ausência de uma potência hegemônica em condições de liderar a reorganização
do sistema capitalista mundial, a crise atual apresenta outra importante diferença em
relação ao contexto histórico da crise do liberalismo que marcou toda a primeira metade
do século XX. A complexa teia de relações comerciais e produtivas que unifica o
sistema capitalista mundial bloqueia a possibilidade de soluções "nacionais" para a crise
global.
Iludem-se, portanto, aqueles que apostam na eventualidade de um retorno a Keynes. As
bases objetivas e subjetivas que davam sustentação ao arcabouço de política econômica
baseado em um regime central de acumulação encontram-se pura e simplesmente
corroídas. O grau de socialização das forças produtivas já alcançado pelo
desenvolvimento capitalista não comporta a possibilidade de um recuo "nacional", pois
isto implicaria grande perda de eficiência econômica (devido à menor economia de
escala), representando uma inusitada regressão na divisão social do trabalho. Além
disso, o controle absoluto do Estado capitalista pelos grandes conglomerados
internacionais torna muito pouco provável a possibilidade de um recuo protecionista,
pois o grau de internacionalização do capital é incompatível com o espaço econômico
nacional como horizonte de sua reprodução ampliada.
Sabe-se pela tumultuada história do capitalismo que, enquanto não houver uma
alternativa a este regime, de uma ou de outra maneira, mais tempo menos tempo, com
maior ou menor sacrifício, as condições para a retomada da acumulação de capital serão
restauradas um dia. Qualquer que seja o caminho para a superação da crise, uma coisa é
certa. Na ausência de forças capazes de deter a fúria especulativa do grande capital, o
capitalismo tende a ficar ainda mais regressivo e predatório, pois é gigantesco o volume
de capital sobreacumulado que precisa ser digerido antes que as condições para a
reprodução ampliada do capital sejam restabelecidas. E, pelas tendências em curso, tudo
se encaminha para uma socialização dos prejuízos sem precedentes em escala global. No
caso da crise do liberalismo, que desarticulou a divisão internacional do trabalho que
gravitava em torno da economia inglesa, o mundo teve de passar por duas guerras
mundiais, duas revoluções socialistas e uma depressão de longa duração antes que o
sistema capitalista mundial fosse reorganizado – um processo que durou cerca de meio
século.
Ao contrário do que ocorreu nas inúmeras turbulências que marcaram a era neoliberal,
desta vez a população norte-americana não será poupada de sacrifícios. Instigados pela
ortodoxia neoliberal e pela grande mídia a acreditarem que o mundo havia entrado em
uma era de prosperidade sem fim, trabalhadores e aposentados apostaram suas
poupanças suadas – e muitos endividaram além de suas posses - na esperança de ganhos
patrimoniais meteóricos. Os que não pularam fora da ciranda especulativa a tempo,
acabaram com o mico na mão e, agora, se encontram na iminência de ficarem sem casa,
sem aposentadoria e sem emprego. É bem pouco provável que aceitem a nova situação
docilmente.
Elo fraco do sistema capitalista mundial e zona de influência dos Estados Unidos, a
América Latina sentirá o impacto da crise de maneira redobrada. A crise será
transmitida pelos processos históricos tradicionais - queda do comércio
internacional, contração dos preços das commodities, paralisia dos fluxos de crédito
e investimentos, fuga de capitais, crises fiscais e financeiras, forte instabilidade da
moeda - bem como por processos novos -, paralisação do fluxo de remessas dos
imigrantes, exacerbação dos obstáculos das economias desenvolvidas à imigração,
intensificação do racismo contra os povos do chamado terceiro mundo, inversão do
fluxo de imigrações. Se não houver uma pronta reação dos países da região,
centralizando o câmbio e desatrelando o sistema de financiamento interno do mercado
financeiro internacional, os efeitos serão fulminantes.
A forma imediata assumida pela crise não deve destoar do padrão conhecido,
combinando estrangulamento cambial, desorganização das finanças, instabilidade
monetária, estagnação econômica, quebra de empresas e ampliação do desemprego.
Instaurado o caos econômico, as pressões do imperialismo para despejar o ônus da crise
nas economias da região serão cada vez maiores. Ao encerrar o efêmero ciclo de
crescimento que tinha interrompido três décadas de estagnação, a ordem econômica
internacional recolocará toda a periferia latino-americana na rotina de Sísifo do ajuste
econômico permanente. O novo marco histórico tende a acelerar o processo de reversão
neocolonial em curso.
A crise do ciclo expansivo neoliberal aprofundará a barbárie capitalista. Abre-se um
período de grandes convulsões sociais e acirramento das rivalidades entre os Estados
nacionais. Nos marcos da ordem burguesa, o futuro é sombrio. Mais do que nunca, o
regime do capital virá acompanhado de crescente instabilidade econômica, absoluta
irracionalidade na utilização da riqueza, gritantes desigualdades sociais, escalada da
prepotência imperialista e inexorável comprometimento da democracia.
Plínio de Arruda Sampaio Jr., economista, é professor do Instituto de Economia da
UNICAMP.
A crise e o
Brasil
Escrito por Wladimir Pomar
28-Out-2008
Os impactos da crise sistêmica do capitalismo sobre o Brasil não podem ser avaliados
fora do contexto da nova divisão internacional do trabalho e do capital. Não se pode
subestimar, por exemplo, que um dos fatos mais significativos deste início do século 21
foi o surgimento da China, e de outros países em desenvolvimento, como novas
potências industriais.
Nas crises anteriores do capital, o que valia era a atitude e a capacidade de
resposta dos países centrais. Na atual crise, o decisivo será a atitude e a capacidade
de resposta dos países emergentes, em especial da China. Em termos mais concretos,
espera-se que o mercado interno chinês seja capaz de absorver a redução de suas
exportações para os EUA e para a Europa e, além disso, continuar importando os
produtos dos países em desenvolvimento e pobres.
O Prêmio Nobel Joseph Stiglitz considera que a China será capaz de cumprir esse papel
porque o interesse dela "não é o de fazer todo o dinheiro que seja possível e
promover o capitalismo... Seu interesse principal é a estabilidade". Por quê? Porque
a estabilidade, em seus aspectos econômicos, financeiros, sociais, políticos e
diplomáticos, é fundamental para que a China mantenha seus programas de
desenvolvimento econômico e social, nos próximos 30 a 50 anos.
A soma da poupança e das reservas internacionais chinesas está próxima dos cinco
trilhões de dólares. É com isso que o governo chinês conta, neste momento, para
elevar o padrão de vida dos seus 300 milhões de camponeses, e dar um novo salto no
consumo doméstico. Com isso, e outras medidas de ajuste, a China tem condições de
enfrentar a crise de 2008 em condições melhores do que enfrentou a crise de 1999.
O mesmo ocorre, em certa medida, com outros países da Ásia do Pacífico, e da África e
América Latina. Os países sul-americanos terão que se voltar ainda mais para o
fortalecimento das relações econômicas, comerciais, tecnológicas, políticas e culturais
com os países da Ásia do Pacífico, como China, Vietnã, Cingapura, Tailândia e
Indonésia, e regiões como Hong Kong, Macau e Taiwan, além da índia e África do Sul.
Alguns economistas consideram que o Brasil depende dos mercados mexicano, chileno
e chinês para suas exportações. Parecem desconhecer que, nos últimos anos, o governo
brasileiro trabalhou para diversificar suas exportações, que eram dependentes dos
Estados Unidos e Europa. México e Chile são parceiros menores do Brasil na América
Latina. E embora a China receba mais de 10 bilhões de dólares em exportações
brasileiras, isto ainda representa uma parcela muito pequena das exportações totais do
país.
Portanto, não é aí que residem as vulnerabilidades externas do Brasil. No momento,
elas se concentram na falta de regras para a atuação dos capitais de curto prazo.
Este é, provavelmente, o principal ponto fraco do Brasil frente à crise financeira e
sistêmica internacional. O Brasil permite que estrangeiros e brasileiros convertam
seus ativos em dólar, e os mandem para o exterior, sem qualquer restrição séria.
Nessas condições, com a saída de capitais para a compra de bônus do Tesouro
americano, ou para cobrir rombos em outras áreas, a volatilidade do câmbio exigirá
um sucessivo desencaixe das reservas nacionais pelo Banco Central, que podem
chegar a 100 bilhões de dólares, ou mais. Se ultrapassarmos esse ponto, a crise do
capitalismo pode bater fortemente sobre o Brasil.
Wladimir Pomar é escritor e analista político.
com os países da Ásia do Pacífico, como China, Vietnã, Cingapura, Tailândia e
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Crise plínio e wladimir pomar

  • 1. Potências imperialistas mostram sua impotência diante da escalada da crise Escrito por Plínio de Arruda Sampaio Jr. 28-Out-2008 A crise financeira que eclodiu com a intensidade de um furacão tropical nas últimas semanas gerou um estado de absoluta incerteza em relação ao futuro da ordem global. A desconfiança na solidez das instituições financeiras, provocada pela quebra em cadeia de bancos que até há pouco pareciam inabaláveis, desencadeou um colapso generalizado do crédito que tende a desorganizar o sistema capitalista mundial. Ao expor a extraordinária fragilidade do sistema monetário internacional e os precários fundamentos que sustentam a globalização dos negócios, a crise pôs por terra os parâmetros que balizavam os cálculos capitalistas, deixando o mundo sob a ameaça de uma depressão sem precedentes. A origem dos problemas encontra-se no processo de liberalização que solapou as restrições institucionais que impunham limites à atuação do capital financeiro, com o objetivo de minimizar os impactos perversos da livre concorrência sobre a economia popular. Ao levar ao paroxismo a liberdade de movimento dos capitais e a desregulamentação dos mercados financeiros, os Estados Unidos e os organismos financeiros internacionais criaram condições ideais para o pleno desenvolvimento da especulação produtiva e financeira em escala global. O neoliberalismo premiou os especuladores mais ousados, desencadeando uma concorrência desenfreada pelo lucro fácil que só poderia terminar em catástrofe. O resultado era previsível: a valorização do capital fictício descolou-se completamente da valorização produtiva e a acumulação produtiva descolou-se completamente da capacidade de consumo da sociedade. Em poucas palavras, o mundo encontra-se diante de uma clássica crise de superprodução, cuja solução demandará uma brutal queima de capital, produtivo e financeiro, com tudo o que vem junto: desemprego, crise social e instabilidade política. Em relação às inúmeras turbulências que marcaram a conturbada trajetória das finanças internacionais na era neoliberal, há pelo menos duas mudanças significativas no caráter da crise atual, ambas convergindo para a configuração de uma crise geral – um fenômeno estrutural que terá repercussões de longo alcance. Em primeiro lugar, a profundidade e a extensão dos desequilíbrios que precisam ser digeridos superam as crises anteriores em todas as suas dimensões e só são comparáveis à hecatombe que desarticulou o sistema monetário internacional nos anos 30. Como todas as economias nacionais estão fortemente interconectadas entre si e fortemente dependentes do que ocorre na economia norte-americana, não há como conter o processo de disseminação da crise sem subverter os alicerces da ordem econômica internacional montada nas últimas quatro décadas, sob a batuta dos próprios Estados Unidos. Em segundo lugar, a impotência do poder político para lidar com a situação não permite que se vislumbre uma solução rápida e indolor para o impasse da economia mundial. A superação dos entraves que bloqueiam a acumulação de capital exige uma ação coordenada, de caráter transnacional, envolvendo todas as dimensões da vida econômica - financeira, monetária, comercial e produtiva -, cuja possibilidade de concretização, até o momento, sequer foi cogitada. Os Estados Unidos, que deveriam
  • 2. liderar este processo, têm se revelado totalmente impotentes para enfrentar a situação e não há o menor indício de que alguma outra potência imperialista possa assumir o seu papel. Enganam-se os que imaginam que a recente atuação conjunta dos governos dos países desenvolvidos para salvar os bancos seja um sintoma de que o poder público começa a sair da inércia. Por enquanto os Estados têm se restringido a uma atuação reativa, sempre atrás dos acontecimentos, comandada pela histeria desesperada dos "mercados" – eufemismo para designar os interesses do capital financeiro. Não é impossível que o esforço para "administrar" a crise protele o desmoronamento dos mercados financeiros por mais algum tempo, dando para muitos a impressão de que os problemas poderão ser contornados sem maiores traumatismos. Ainda que a possibilidade de um colapso espetacular do sistema monetário internacional não possa ser descartada, o mais provável é que o desdobramento da crise se arraste por tempo indefinido, alternando momentos de pânico com momentos de relativo alívio, numa lenta agonia. O fato é que a economia mundial está a léguas de qualquer tipo de ação "reguladora", capaz de pôr ordem na anarquia da iniciativa privada e de conter o caráter ultra- regressivo do padrão de acumulação neoliberal – as causas últimas da crise. Os que confundem a estatização do sistema financeiro em curso com a volta da regulação de tipo keynesiana tomam a nuvem por Juno, pois não é o Estado que está comandando o capital, mas exatamente o contrário, o grande capital que está comandando o Estado. Em nome da necessidade inquestionável de evitar uma crise sistêmica da economia mundial, de efeitos potenciais catastróficos, a ação dos Estados capitalistas está promovendo o maior ataque à economia popular de que se tem notícia na história. Os recursos que até ontem faltavam para financiar as políticas públicas, agora sobram para socorrer os bancos, sem que nada garanta, diga-se de passagem, que o cataclismo seja evitado. Para se aquilatar a magnitude de riqueza transferida para o grande capital, basta lembrar que, no intervalo de poucas semanas, os maiores bancos do mundo receberam um montante de recursos públicos equivalente a vários PIBs anuais do Brasil. Além da ausência de uma potência hegemônica em condições de liderar a reorganização do sistema capitalista mundial, a crise atual apresenta outra importante diferença em relação ao contexto histórico da crise do liberalismo que marcou toda a primeira metade do século XX. A complexa teia de relações comerciais e produtivas que unifica o sistema capitalista mundial bloqueia a possibilidade de soluções "nacionais" para a crise global. Iludem-se, portanto, aqueles que apostam na eventualidade de um retorno a Keynes. As bases objetivas e subjetivas que davam sustentação ao arcabouço de política econômica baseado em um regime central de acumulação encontram-se pura e simplesmente corroídas. O grau de socialização das forças produtivas já alcançado pelo desenvolvimento capitalista não comporta a possibilidade de um recuo "nacional", pois isto implicaria grande perda de eficiência econômica (devido à menor economia de escala), representando uma inusitada regressão na divisão social do trabalho. Além
  • 3. disso, o controle absoluto do Estado capitalista pelos grandes conglomerados internacionais torna muito pouco provável a possibilidade de um recuo protecionista, pois o grau de internacionalização do capital é incompatível com o espaço econômico nacional como horizonte de sua reprodução ampliada. Sabe-se pela tumultuada história do capitalismo que, enquanto não houver uma alternativa a este regime, de uma ou de outra maneira, mais tempo menos tempo, com maior ou menor sacrifício, as condições para a retomada da acumulação de capital serão restauradas um dia. Qualquer que seja o caminho para a superação da crise, uma coisa é certa. Na ausência de forças capazes de deter a fúria especulativa do grande capital, o capitalismo tende a ficar ainda mais regressivo e predatório, pois é gigantesco o volume de capital sobreacumulado que precisa ser digerido antes que as condições para a reprodução ampliada do capital sejam restabelecidas. E, pelas tendências em curso, tudo se encaminha para uma socialização dos prejuízos sem precedentes em escala global. No caso da crise do liberalismo, que desarticulou a divisão internacional do trabalho que gravitava em torno da economia inglesa, o mundo teve de passar por duas guerras mundiais, duas revoluções socialistas e uma depressão de longa duração antes que o sistema capitalista mundial fosse reorganizado – um processo que durou cerca de meio século. Ao contrário do que ocorreu nas inúmeras turbulências que marcaram a era neoliberal, desta vez a população norte-americana não será poupada de sacrifícios. Instigados pela ortodoxia neoliberal e pela grande mídia a acreditarem que o mundo havia entrado em uma era de prosperidade sem fim, trabalhadores e aposentados apostaram suas poupanças suadas – e muitos endividaram além de suas posses - na esperança de ganhos patrimoniais meteóricos. Os que não pularam fora da ciranda especulativa a tempo, acabaram com o mico na mão e, agora, se encontram na iminência de ficarem sem casa, sem aposentadoria e sem emprego. É bem pouco provável que aceitem a nova situação docilmente. Elo fraco do sistema capitalista mundial e zona de influência dos Estados Unidos, a América Latina sentirá o impacto da crise de maneira redobrada. A crise será transmitida pelos processos históricos tradicionais - queda do comércio internacional, contração dos preços das commodities, paralisia dos fluxos de crédito e investimentos, fuga de capitais, crises fiscais e financeiras, forte instabilidade da moeda - bem como por processos novos -, paralisação do fluxo de remessas dos imigrantes, exacerbação dos obstáculos das economias desenvolvidas à imigração, intensificação do racismo contra os povos do chamado terceiro mundo, inversão do fluxo de imigrações. Se não houver uma pronta reação dos países da região, centralizando o câmbio e desatrelando o sistema de financiamento interno do mercado financeiro internacional, os efeitos serão fulminantes. A forma imediata assumida pela crise não deve destoar do padrão conhecido, combinando estrangulamento cambial, desorganização das finanças, instabilidade monetária, estagnação econômica, quebra de empresas e ampliação do desemprego. Instaurado o caos econômico, as pressões do imperialismo para despejar o ônus da crise nas economias da região serão cada vez maiores. Ao encerrar o efêmero ciclo de crescimento que tinha interrompido três décadas de estagnação, a ordem econômica internacional recolocará toda a periferia latino-americana na rotina de Sísifo do ajuste
  • 4. econômico permanente. O novo marco histórico tende a acelerar o processo de reversão neocolonial em curso. A crise do ciclo expansivo neoliberal aprofundará a barbárie capitalista. Abre-se um período de grandes convulsões sociais e acirramento das rivalidades entre os Estados nacionais. Nos marcos da ordem burguesa, o futuro é sombrio. Mais do que nunca, o regime do capital virá acompanhado de crescente instabilidade econômica, absoluta irracionalidade na utilização da riqueza, gritantes desigualdades sociais, escalada da prepotência imperialista e inexorável comprometimento da democracia. Plínio de Arruda Sampaio Jr., economista, é professor do Instituto de Economia da UNICAMP. A crise e o Brasil Escrito por Wladimir Pomar 28-Out-2008 Os impactos da crise sistêmica do capitalismo sobre o Brasil não podem ser avaliados fora do contexto da nova divisão internacional do trabalho e do capital. Não se pode subestimar, por exemplo, que um dos fatos mais significativos deste início do século 21 foi o surgimento da China, e de outros países em desenvolvimento, como novas potências industriais. Nas crises anteriores do capital, o que valia era a atitude e a capacidade de resposta dos países centrais. Na atual crise, o decisivo será a atitude e a capacidade de resposta dos países emergentes, em especial da China. Em termos mais concretos, espera-se que o mercado interno chinês seja capaz de absorver a redução de suas exportações para os EUA e para a Europa e, além disso, continuar importando os produtos dos países em desenvolvimento e pobres. O Prêmio Nobel Joseph Stiglitz considera que a China será capaz de cumprir esse papel porque o interesse dela "não é o de fazer todo o dinheiro que seja possível e promover o capitalismo... Seu interesse principal é a estabilidade". Por quê? Porque a estabilidade, em seus aspectos econômicos, financeiros, sociais, políticos e diplomáticos, é fundamental para que a China mantenha seus programas de desenvolvimento econômico e social, nos próximos 30 a 50 anos. A soma da poupança e das reservas internacionais chinesas está próxima dos cinco trilhões de dólares. É com isso que o governo chinês conta, neste momento, para elevar o padrão de vida dos seus 300 milhões de camponeses, e dar um novo salto no consumo doméstico. Com isso, e outras medidas de ajuste, a China tem condições de enfrentar a crise de 2008 em condições melhores do que enfrentou a crise de 1999. O mesmo ocorre, em certa medida, com outros países da Ásia do Pacífico, e da África e América Latina. Os países sul-americanos terão que se voltar ainda mais para o fortalecimento das relações econômicas, comerciais, tecnológicas, políticas e culturais
  • 5. com os países da Ásia do Pacífico, como China, Vietnã, Cingapura, Tailândia e Indonésia, e regiões como Hong Kong, Macau e Taiwan, além da índia e África do Sul. Alguns economistas consideram que o Brasil depende dos mercados mexicano, chileno e chinês para suas exportações. Parecem desconhecer que, nos últimos anos, o governo brasileiro trabalhou para diversificar suas exportações, que eram dependentes dos Estados Unidos e Europa. México e Chile são parceiros menores do Brasil na América Latina. E embora a China receba mais de 10 bilhões de dólares em exportações brasileiras, isto ainda representa uma parcela muito pequena das exportações totais do país. Portanto, não é aí que residem as vulnerabilidades externas do Brasil. No momento, elas se concentram na falta de regras para a atuação dos capitais de curto prazo. Este é, provavelmente, o principal ponto fraco do Brasil frente à crise financeira e sistêmica internacional. O Brasil permite que estrangeiros e brasileiros convertam seus ativos em dólar, e os mandem para o exterior, sem qualquer restrição séria. Nessas condições, com a saída de capitais para a compra de bônus do Tesouro americano, ou para cobrir rombos em outras áreas, a volatilidade do câmbio exigirá um sucessivo desencaixe das reservas nacionais pelo Banco Central, que podem chegar a 100 bilhões de dólares, ou mais. Se ultrapassarmos esse ponto, a crise do capitalismo pode bater fortemente sobre o Brasil. Wladimir Pomar é escritor e analista político.
  • 6. com os países da Ásia do Pacífico, como China, Vietnã, Cingapura, Tailândia e Indonésia, e regiões como Hong Kong, Macau e Taiwan, além da índia e África do Sul. Alguns economistas consideram que o Brasil depende dos mercados mexicano, chileno e chinês para suas exportações. Parecem desconhecer que, nos últimos anos, o governo brasileiro trabalhou para diversificar suas exportações, que eram dependentes dos Estados Unidos e Europa. México e Chile são parceiros menores do Brasil na América Latina. E embora a China receba mais de 10 bilhões de dólares em exportações brasileiras, isto ainda representa uma parcela muito pequena das exportações totais do país. Portanto, não é aí que residem as vulnerabilidades externas do Brasil. No momento, elas se concentram na falta de regras para a atuação dos capitais de curto prazo. Este é, provavelmente, o principal ponto fraco do Brasil frente à crise financeira e sistêmica internacional. O Brasil permite que estrangeiros e brasileiros convertam seus ativos em dólar, e os mandem para o exterior, sem qualquer restrição séria. Nessas condições, com a saída de capitais para a compra de bônus do Tesouro americano, ou para cobrir rombos em outras áreas, a volatilidade do câmbio exigirá um sucessivo desencaixe das reservas nacionais pelo Banco Central, que podem chegar a 100 bilhões de dólares, ou mais. Se ultrapassarmos esse ponto, a crise do capitalismo pode bater fortemente sobre o Brasil. Wladimir Pomar é escritor e analista político.