TURBULÊNCIA GLOBAL


    A crise                                                                                                                              Tradicional ponto de encontro
                                                                                                                                         para empresários e executivos
                                                                                                                                         discutirem temas de interesse


    na mesa cinco                                                                                                                        comum, reunião-almoço da
                                                                                                                                         Federasul teve como prato
                                                                                                                                         principal a economia mundial




                                                                                                                                                                                                       FEDERASUL, DIVULGAÇÃO
                                                                                                                                                                              CARDÁPIO INDIGESTO
                                                                                                                                                                             expectativas quanto ao
      SEBASTIÃO RIBEIRO                            tiga CRT que reivindicam perdas na emis-          escassez de cré-                                                            futuro dos negócios
                                                   são dos papéis nas décadas de 1980 e 1990.        dito, que resultou        ANDRÉ AZEVEDO,                              dominaram as conversas




      Q
                    uarta-feira. Reunião almoço Quem ganha esse tipo de contenda recebe              em juros mais                                                        de participantes do evento
                    Tá na Mesa, da Federação das um valor indexado pelas ações da Brasil Te-         altos. Funcioná-           ECONOMISTA
                    Associações Comerciais e de lecom, empresa que ficou com o que era a             rios temem que a
                    Serviços do Estado (Federa- CRT após a privatização. O problema é que            redução da ven-       “Não tenho feito outra
                    sul), um dos mais tradicionais os papéis da BrT caíram 45% desde o pico          da de produtos
                    pontos de encontro dos ho- da Bovespa, em maio, até o dia do almoço.             financeiros nas
                                                                                                                           coisa senão falar                            se limita a essa roda
      mens e mulheres de negócios gaúchos. Na         – Às vezes, tem um carinha lá no Interior,     agências afete as     sobre isso (a situação                       de conversa. Crise, cri-
      mesa cinco, um grupo de empresários do que não tem nada a ver com essa crise e en-
      ramo da construção, funcionários do Ban- trou com ação esperando ganhar R$ 15 mil
                                                                                                     contas do banco.
                                                                                                        Mesmo para
                                                                                                                           econômica)”                                  se, crise. Assim come-
                                                                                                                                                                        ça o dia de Zelio Hocs-
      co do Brasil (BB) e um advogado dividem ou R$ 20 mil. Hoje vai ganhar bem menos                quem está longe                                                    man, corretor da Bolsa
      o espaço. Habitué do evento, ainda durante – cita como exemplo Damim, entre uma                da boca do caixa, a crise se faz presente. No Brasileira de Mercadorias (BBM) que atua
      o couvert, pão com pasta temperada, a ge- garfada e outra no quiche de alho-poró ser-          setor de Rosângela, que gerencia obras, o com contratos de arroz. Antes de debater o
      rente do centro de serviços de logística do vido de entrada.                                   problema maior é o câmbio. Com a dispa- tema no Tá Na Mesa, ele já havia participa-
      BB, Rosângela Schuch, quebra o gelo com o       O que é ruim para o cliente também é           rada do dólar, empreiteiras ou empresas for- do de uma reunião da BBM e de outra da
      desconhecido engravatado que senta a sua ruim para o advogado, cujos honorários                necedoras de materiais de construção para o diretoria da Federasul, ambas sobre o mes-
      frente.                                      correspondem a 20% do valor da causa.             banco têm os custos aumentados. O proble- mo assunto.
         – E tu, com o que trabalhas?              Não bastasse isso, Damim teve prejuízos           ma é que não podem repassar o aumento ao        – Por onde eu ando se fala de crise. Até o
         – Sou advogado – diz Cícero Damim.        diretos. Profissional liberal, passou a aplicar   BB, porque assumiram o compromisso em Grêmio, que é líder do campeonato, querem
         – Ah, então deve ganhar muito dinheiro na bolsa há um ano e meio. Investiu todas            licitações.                                   inventar que está em crise – brinca o gre-
      – brinca Rosângela.                          as suas economias em ações. E viu o valor            – Fica mais difícil para eles honrarem os mista.– Falando sério, o sentimento geral é
         – Com esta crise, nem tanto – retruca.    dos papéis despencar 60% de abril deste           contratos em reais, porque recebem os pro- de que virá uma onda maior do que a ma-
         É a senha para o início da mesma conver- ano até a metade de outubro.                       dutos importados com preço maior – expli- rola que estamos sentindo hoje – afirma.
      sa que domina outras rodas empresariais. A      – Cheguei a tirar as aplicações logo que       ca Rosângela, abanando-se com o cardápio        É o que prevê o economista da Federasul,
      descontração do bate-papo é o invólucro a bolsa despencou, mas achei que já tinha              para enfrentar o calor do salão lotado, onde André Azevedo. Nos últimos tempos, o as-
      para a preocupação geral com a turbulência caído bastante e recoloquei. Reduzi as per-         o ar-condicionado estragou.                   sunto crise tomou conta da sua rotina. Nas
      financeira internacio-                                                das, mas acho que           Diretor de engenharia da Buildway, uma escadas da entidade empresarial ou nos
      nal. Na mesa cinco, a                                                 vai levar dois ou três   das empresas que executa obras para o BB, corredores da Unisinos, onde leciona, todo
      mais de 8 mil quilô-         SÉRGIO BORGES,                           anos para recuperar      Sérgio Borges confirma a dificuldade, mas mundo quer saber: e agora?
      metros de Wall Street,                                                – projeta.               conta que a dependência dos produtos im-        – Não tenho feito outra coisa senão falar
      a crise já é uma reali-      EMPRESÁRIO                                 Não é difícil ima-     portados já foi maior:                        sobre isso. Todos me perguntam o que ocor-
      dade para os comen-                                                   ginar como o as-            – Se (a desvalorização do real) fosse há rerá com o lado real da economia, para onde
      sais. Damim é sócio         “Se a desvalorização                      sunto crise domina       uns dois ou três anos, bah!, teria sido um vão os juros, que setores sofrerão mais...
      de um escritório de         do real fosse há dois                     o ambiente bancá-        inferno. O carpete era 100% importado. O        Nas 31 mesas do almoço da Federasul ou
      advocacia. Das quase
      2 mil causas da ban-
                                  ou três anos, teria                       rio vivenciado por
                                                                            Rosângela. Um dos
                                                                                                     forro também. Usávamos 32% de materiais em qualquer conversa empresarial, é difícil
                                                                                                     importados. Hoje, são de 10% a 15%. Há escapar da crise. Ela está no corredor, no ele-
      ca, cerca de 150 são        sido um inferno”                          primeiros efeitos        mais fornecedores aqui no Brasil.             vador, no cafezinho. Tá na mesa cinco e em
      de acionistas da an-                                                  da turbulência foi a        A situação financeira global, porém, não toda parte.


ZERO HORA > DOMINGO | 2 | NOVEMBRO | 2008                                                                                                                                             DINHEIRO     9

Crise na Mesa Cinco

  • 1.
    TURBULÊNCIA GLOBAL A crise Tradicional ponto de encontro para empresários e executivos discutirem temas de interesse na mesa cinco comum, reunião-almoço da Federasul teve como prato principal a economia mundial FEDERASUL, DIVULGAÇÃO CARDÁPIO INDIGESTO expectativas quanto ao SEBASTIÃO RIBEIRO tiga CRT que reivindicam perdas na emis- escassez de cré- futuro dos negócios são dos papéis nas décadas de 1980 e 1990. dito, que resultou ANDRÉ AZEVEDO, dominaram as conversas Q uarta-feira. Reunião almoço Quem ganha esse tipo de contenda recebe em juros mais de participantes do evento Tá na Mesa, da Federação das um valor indexado pelas ações da Brasil Te- altos. Funcioná- ECONOMISTA Associações Comerciais e de lecom, empresa que ficou com o que era a rios temem que a Serviços do Estado (Federa- CRT após a privatização. O problema é que redução da ven- “Não tenho feito outra sul), um dos mais tradicionais os papéis da BrT caíram 45% desde o pico da de produtos pontos de encontro dos ho- da Bovespa, em maio, até o dia do almoço. financeiros nas coisa senão falar se limita a essa roda mens e mulheres de negócios gaúchos. Na – Às vezes, tem um carinha lá no Interior, agências afete as sobre isso (a situação de conversa. Crise, cri- mesa cinco, um grupo de empresários do que não tem nada a ver com essa crise e en- ramo da construção, funcionários do Ban- trou com ação esperando ganhar R$ 15 mil contas do banco. Mesmo para econômica)” se, crise. Assim come- ça o dia de Zelio Hocs- co do Brasil (BB) e um advogado dividem ou R$ 20 mil. Hoje vai ganhar bem menos quem está longe man, corretor da Bolsa o espaço. Habitué do evento, ainda durante – cita como exemplo Damim, entre uma da boca do caixa, a crise se faz presente. No Brasileira de Mercadorias (BBM) que atua o couvert, pão com pasta temperada, a ge- garfada e outra no quiche de alho-poró ser- setor de Rosângela, que gerencia obras, o com contratos de arroz. Antes de debater o rente do centro de serviços de logística do vido de entrada. problema maior é o câmbio. Com a dispa- tema no Tá Na Mesa, ele já havia participa- BB, Rosângela Schuch, quebra o gelo com o O que é ruim para o cliente também é rada do dólar, empreiteiras ou empresas for- do de uma reunião da BBM e de outra da desconhecido engravatado que senta a sua ruim para o advogado, cujos honorários necedoras de materiais de construção para o diretoria da Federasul, ambas sobre o mes- frente. correspondem a 20% do valor da causa. banco têm os custos aumentados. O proble- mo assunto. – E tu, com o que trabalhas? Não bastasse isso, Damim teve prejuízos ma é que não podem repassar o aumento ao – Por onde eu ando se fala de crise. Até o – Sou advogado – diz Cícero Damim. diretos. Profissional liberal, passou a aplicar BB, porque assumiram o compromisso em Grêmio, que é líder do campeonato, querem – Ah, então deve ganhar muito dinheiro na bolsa há um ano e meio. Investiu todas licitações. inventar que está em crise – brinca o gre- – brinca Rosângela. as suas economias em ações. E viu o valor – Fica mais difícil para eles honrarem os mista.– Falando sério, o sentimento geral é – Com esta crise, nem tanto – retruca. dos papéis despencar 60% de abril deste contratos em reais, porque recebem os pro- de que virá uma onda maior do que a ma- É a senha para o início da mesma conver- ano até a metade de outubro. dutos importados com preço maior – expli- rola que estamos sentindo hoje – afirma. sa que domina outras rodas empresariais. A – Cheguei a tirar as aplicações logo que ca Rosângela, abanando-se com o cardápio É o que prevê o economista da Federasul, descontração do bate-papo é o invólucro a bolsa despencou, mas achei que já tinha para enfrentar o calor do salão lotado, onde André Azevedo. Nos últimos tempos, o as- para a preocupação geral com a turbulência caído bastante e recoloquei. Reduzi as per- o ar-condicionado estragou. sunto crise tomou conta da sua rotina. Nas financeira internacio- das, mas acho que Diretor de engenharia da Buildway, uma escadas da entidade empresarial ou nos nal. Na mesa cinco, a vai levar dois ou três das empresas que executa obras para o BB, corredores da Unisinos, onde leciona, todo mais de 8 mil quilô- SÉRGIO BORGES, anos para recuperar Sérgio Borges confirma a dificuldade, mas mundo quer saber: e agora? metros de Wall Street, – projeta. conta que a dependência dos produtos im- – Não tenho feito outra coisa senão falar a crise já é uma reali- EMPRESÁRIO Não é difícil ima- portados já foi maior: sobre isso. Todos me perguntam o que ocor- dade para os comen- ginar como o as- – Se (a desvalorização do real) fosse há rerá com o lado real da economia, para onde sais. Damim é sócio “Se a desvalorização sunto crise domina uns dois ou três anos, bah!, teria sido um vão os juros, que setores sofrerão mais... de um escritório de do real fosse há dois o ambiente bancá- inferno. O carpete era 100% importado. O Nas 31 mesas do almoço da Federasul ou advocacia. Das quase 2 mil causas da ban- ou três anos, teria rio vivenciado por Rosângela. Um dos forro também. Usávamos 32% de materiais em qualquer conversa empresarial, é difícil importados. Hoje, são de 10% a 15%. Há escapar da crise. Ela está no corredor, no ele- ca, cerca de 150 são sido um inferno” primeiros efeitos mais fornecedores aqui no Brasil. vador, no cafezinho. Tá na mesa cinco e em de acionistas da an- da turbulência foi a A situação financeira global, porém, não toda parte. ZERO HORA > DOMINGO | 2 | NOVEMBRO | 2008 DINHEIRO 9