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INTRODUÇÃO GERAL

   A BÍBLIA. -- "Nós não sentimos necessidade de      conceito e vocábulo esses tomados da própria
apoios e alianças, tendo em mãos, para nosso          Bíblia.
conforto, os livros sagrados" (1Mac 12,9). Assim,         O Antigo Testamento consta dos livros
em 154 a.C, em nome de toda a nação, da qual          seguintes, comumente agrupados em quatro
era chefe, escrevia Jonatas Macabeu ao rei de         classes:
Esparta. Nessas suas palavras, já se apresenta            V Pentateuco ou cinco livros de Moisés:
o termo usual, o valor singular e o emprego           Gênesis,        Êxodo,      Levítico,     Números,
prático da obra cuja versão apresentamos. Do          Deuteronômio.
termo: os livros -- no texto grego um neutro             2° Livros históricos: Josué, Juízes, Rute, Reis,
plural tà biblía -- em nossa língua, através do       Crônicas, Esdras e- Neemias, Tobias, Judite,
latim vulgar, formou-se o feminino singular: a        Ester, Macabeus.
Bíblia.
                                                          3? Livros didáticos ou poéticos: Jó, Salmos,
   Outros         sinônimos,       encontramo-los     Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos,
freqüentemente na própria Bíblia: a Escritura ou      Sabedoria, Eclesiástico (ou Sabedoria de Jesus,
as Escrituras, as santas Escrituras, e mais           filho de Sirac).
raramente, as sagradas Letras. A Bíblia,
                                                          4° Livros proféticos: Isaías, Jeremias,
portanto, não é um livro só, mas muitos, uma
                                                      Lamentações, Baruc, Ezequiel, Daniel, os Doze
coletânea, cuja unidade consiste no argumento
                                                      profetas menores, isto é: Amós, Oséias, Joel,
comum e na origem sobre-humana.
                                                      Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc,
   E de "livros santos" que a Bíblia se compõe,       Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias.
porque dentro de sua grande variedade eles
coincidem em tratar de religião, tendo um                 No Novo Testamento, o primeiro e mais
objetivo essencialmente religioso. Com mais           conspícuo       lugar    compete      aos   quatro
razão ainda chamam-se "livros santos" ou              Evangelhos: segundo Mateus, Marcos, Lucas,
"sagrados" porque, como ensina a fé, tanto            João. Seguem-se: um livro histórico, os Atos
judaica como cristã, não foram escritos por mero      dos Apóstolos; catorze epístolas de S. Paulo:
talento humano, mas sob a influência de               aos Romanos, duas aos Coríntios, aos Gálatas,
inspiração divina especial.                           aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses,
                                                      duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo,
   Ê desta origem sobrenatural que a Bíblia           uma a Tito, a Filemon, aos Hebreus; sete
recebe a sua dignidade de "livro por excelência"      epístolas chamadas católicas, ou canónicas:
e o seu lugar único na vida dos povos que             uma de Tiago, duas de Pedro, três de João,
tiveram o primado na civilização. Ela é, com          uma de Judas; finalmente, um livro profético, o
efeito, o fundamento e o alimento da fé para          Apocalipse.
todos os povos cristãos, e nenhum outro livro no      O elenco oficial dos livros sagrados chama-se
mundo pode ser a ela comparado, nem de                cânon, no sentido de norma. Expusemos aqui o
longe, seja pelo número de tiragens de edições,       cânon católico, formado já no séc. IV nas cartas
quer manuscritas, quer impressas, seja pela           pontifícias e nos concílios provinciais da África,
influência sobre a vida individual e pública, sobre   sancionado depois solenemente pelos concílios
a literatura e as artes figurativas. Qualquer fiel    ecumênicos de Florença (1441) e de Trento
sinceramente apegado à sua religião tem-na, por       (1546) e confirmado pelo Concílio Vaticano I
assim dizer, constantemente em mão, como              (1870). Para a integridade do cânon não importa
Jonatas o apontava, para nela encontrar               a ordem dos livros, porque, exceto o primeiro
conforto em todas as vicissitudes da vida.            lugar reservado constantemente, no Antigo
                                                      Testamento, ao Pentateuco e no Novo, aos
   DIVISÃO E NÚMERO DE LIVROS. -- CÂNON. -- Com       Evangelhos, no restante diferem muito entre si
o nome de Bíblia, pois, compreendem-se os             os manuscritos, os autores, os catálogos oficiais
livros sagrados da religião cujo centro é Jesus       de igrejas e de seitas.
Cristo. Partindo deste ponto de convergência, a
Bíblia divide-se em duas séries desiguais, a
primeira, anterior a Jesus Cristo, a segunda,
posterior.    A   primeira   chama-se     Antigo
Testamento, a segunda Novo Testamento,
Os livros históricos mais extensos do Antigo        babilónico (séc. VI a.C). Dois livros, o segundo
Testamento, Samuel-Reis e Crônicas, na                 dos Macabeus e a Sabedoria, foram escritos
antiquíssima versão grega (dos LXX, veja               originariamente em grego. Dos livros de Judite,
abaixo), por razões práticas foram divididos em        Tobias, Baruc, Eclesiástico e parte também de
dois; além disso, considerando Samuel e Reis           Daniel e Ester, perdeu-se, como no caso do
como uma obra só, chegou-se a contar 4 livros          Evangelho de Mateus, o texto original, hebraico
dos Reis e dois das Crônicas, costume esse             ou aramaico, sendo substituído pela versão
que se estendeu aos latinos e dura ainda em            grega.
parte entre nós. No texto hebraico, adotada               Essas diferenças lingüísticas não deixaram de
semelhante divisão, conhecem-se dois livros de         exercer a sua influência sobre a extensão do
Samuel, dois dos Reis, dois das Crônicas.              cânon dos livros sagrados. Enquanto os judeus
Esdras e Neemias são chamados também de                disseminados no mundo greco-romano não
primeiro e segundo de Esdras. Também dos               tinham dificuldades em introduzir os livros
Macabeus contam-se dois livros, que na                 redigidos em grego, os judeus da Palestina não
realidade são duas obras perfeitamente                 queriam conformar-se com isso. Além disso, foi-
distintas. Na Vulgata, a Carta de Jeremias             se formando entre eles a opinião de que, depois
constitui o último cap. (6?) de Baruc. Tudo bem        de Esdras (séc. V a.C), faltando ou sendo incerto
calculado, o Antigo Testamento consta de               o dom profético (veja IMac 4,46; 14,41), nem
quarenta e seis livros, o Novo, de vinte e sete.       sequer admitiam pudessem ser escritos livros
   Por razões igualmente práticas, desde os            inspirados por Deus. Por isso, quando nos fins
primeiros séculos da nossa era, cada livro foi         do séc. I d.C, os doutores da Sinagoga fixaram o
dividido em seções de várias extensões,                cânon das Sagradas Escrituras, foram excluídos
conforme sistemas bastante diversos para               até os livros escritos em hebraico depois daquela
lugares e épocas. Para eliminar os                     época, como o Eclesiástico. Daí resultou um
inconvenientes dessas antigas divisões e               cânon hebraico em que faltam sete livros:
facilitar o estudo uniforme, no início do séc. XIII,   Tobias, Judite, os dois dos Macabeus,
na Universidade de Paris, Estêvão Langton              Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e a Carta de
(depois cardeal) introduziu a divisão em               Jeremias, e mais algumas partes de Ester e de
capítulos de extensão mediana, que depois,             Daniel.
pela sua utilidade prática, propagou-se em                O veredito dos doutores hebreus não deixou
todas as escolas e em todas as edições, e é            de repercutir na Igreja cristã. Enquanto no uso
ainda      hoje   de     uso   universal,    agora     comum se difundia o cânon mais pleno,
insubstituível.                                        concretizado na versão dos LXX, empregada e
   Mais tarde, no séc. XVI, os mesmos capítulos        recomendada pelos apóstolos, alguns escritores
foram divididos em versículos numerados (por           (Melitão de Sardes, Sto. Atanásio de Alexandria,
Sante Pagnini, para o Antigo Testamento                S. Gregório de Nazianzo, entre os gregos; Sto.
[1528], por Roberto Estêvão, para o Novo               Hilário de Poitiers, Rufino de Aquilêia e
[1550]), tendo sido também essa numeração,             principalmente S. Jerônimo, entre os latinos)
pela comodidade das citações, aceita logo e            adotaram o cânon mais restrito dos hebreus, e,
perdura até agora em toda parte. Entende-se,           devido à autoridade desses antigos doutores
entretanto, que essas divisões são apenas de           cristãos, toda hesitação entre os católicos não foi
valor prático, não científico.                         eliminada senão pelo sagrado Concílio de Trento
                                                       (1546).
                                                          No entanto, em virtude de tais vozes
   LÍNGUAS ORIENTAIS E CÂNONES DIVERSOS. -- O          discordantes da crença comum, chegou-se a
Novo Testamento inteiro foi escrito em grego;          fazer distinção entre "livros reconhecidos"
só o Evangelho de Mateus, conforme                     (homologúmenos), admitidos por todos (os do
testemunhos de antigos, teve uma primeira              cânon hebraico), e "livros controversos"
redação em aramaico, a qual, porém, se perdeu          (antilogúmenos), não admitidos por todos, os oito
sem deixar vestígios; em lugar dela temos uma          acima enumerados, constantes do cânon cristão.
tradução, ou melhor, uma redação grega.                Na terminologia moderna, os primeiros se
   Quanto ao Antigo Testamento, temos três             chamam        protocanônicos,     os     segundos
idiomas originais. A maior parte foi escrita e         deuterocanônicos, ou seja, canónicos de
chegou até nós em língua hebraica. Alguns              primeira e de segunda época, à medida que a
capítulos dos livros de Esdras e de Daniel, e um       unanimidade a seu respeito foi alcançada logo
versículo de Jeremias, estão em aramaico, que          no começo ou só mais tarde. Entende-se, porém,
foi o idioma falado na Palestina depois do exílio      que, com esses vocábulos, não se queria
distinguir o valor ou a autoridade das duas         mesmo havemos de acreditar que os Livros da
categorias de livros, e sim lembrar somente um      Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem
fato histórico e servir para maior brevidade e      erro a verdade relativa à nossa salvação, que
clareza no tratamento destas matérias.              Deus quis fosse consignada nas sagradas
Analogamente, no Novo Testamento, por outras        Letras. Por isso, 'toda Escritura divinamente
razões, porém, alguns livros nem sempre foram       inspirada é útil para ensinar, para argüir, para
admitidos, e nem em todas as Igrejas, entre as      corrigir, para instruir na justiça: a fim de que o
divinas Escrituras; tais como a Epístola aos        homem de Deus seja perfeito, experimentado em
Hebreus, a de Tiago, a segunda de Pedro, a          todas as boas obras' (2Tim 3,16-17 gr.).
segunda e terceira de João, a de Judas e o
Apocalipse; aos quais, por isso, também se             Mas como Deus na Sagrada Escritura falou
aplicou a designação de deuterocanônicos, no        por meio de homens e à maneira humana, o
sentido explicado.                                  intérprete da Sagrada Escritura, para saber o
   Tudo o que foi dito até aqui vale para os        que Ele quis nos comunicar, deve investigar com
autores católicos. Compreende-se que os             atenção o que os hagiógrafos realmente
hebreus rejeitem, em sua totalidade, o Novo         quiseram significar e aprouve a Deus manifestar
Testamento, além dos deuterocanônicos do            por meio das palavras deles.
Antigo. Os protestantes ocupam uma posição            Para descobrir a intenção dos hagiógrafos,
de meio termo. No Novo Testamento, depois           devem-se ter em conta, entre outras coisas,
das primeiras incertezas de seus fundadores         também os 'gêneros literários'. A verdade é
admitiram integralmente e sem distinção o           proposta e expressa de modos diferentes,
Cânon católico. No An-tigo Testamento, ao           segundo se trata de textos históricos de várias
invés, seguindo o cânon mais restrito dos           espécies, ou de textos proféticos ou poéticos ou
hebreus, rejeitam, como fora da série dos livros    ainda de outros modos de expressão. Ê preciso,
sagrados, sob o nome de "apócrifos", os que         então, que o intérprete busque o sentido que o
nós chamamos deuterocanônicos.                      hagiógrafo -- em determinadas circunstâncias,
    Para os católicos, os apócrifos são certos      segundo as condições do seu tempo e da sua
livros antigos, semelhantes a livros bíblicos,      cultura -- pretendeu exprimir e de fato exprimiu
quer do Novo, quer do Antigo Testamento, o          usando os 'gêneros literários' então em voga.
mais das vezes atribuídos a personagens             Para entender retamente o que o autor sagrado
bíblicas, mas não inspirados, como os livros        quis afirmar por escrito, deve-se atender bem
canónicos, e nem sempre escritos por pessoas        quer aos modos peculiares de sentir, dizer ou
fidedignas, nem de doutrina segura. Os              narrar em uso nos tempos do hagiógrafo, quer
apócrifos do Antigo Testamento .são chamados        àqueles que na mesma época costumavam
"pseudo-epígrafos" pelos protestantes.              empregar-se nos intercâmbios humanos.
                                                       Mas, como a Sagrada Escritura deve ser lida e
   INSPIRAÇÃO E INTERPRETAÇÃO. -- "As coisas        interpretada com a ajuda do mesmo Espírito que
reveladas por Deus, que se encontram e              levou à sua redação, ao investigarmos o sentido
manifestam na Sagrada Escritura, foram              bem exato dos textos sagrados, não devemos
escritas por inspiração do Espírito Santo. De       atender menos ao conteúdo e à unidade de toda
fato, a Igreja, por fé apostólica, considera como   a Escritura, tendo em conta a Tradição viva de
sagrados e canônicos os livros inteiros tanto do    toda a6 Igreja e a analogia da fé. Cabe aos
Antigo como do Novo Testamento, com todas           exegetas, de harmonia com estas regras,
as suas partes, porque, tendo sido escritos por     trabalhar para entender e expor mais
inspiração do Espírito Santo (cf. Jo 20,31; J2Tim   profundamente o sentido da Escritura, para que,
3,16; 2Pdr 1,19-21; 3,15 --16), têm a Deus por      graças a este estudo de algum modo
autor e como tais foram confiados à própria         preparatório, chegue a termo o juízo da Igreja.
Igreja. Todavia, para escrever os Livros            Com efeito, tudo quanto diz respeito à
sagrados, Deus escolheu homens, que utilizou        interpretação da Escritura está sujeito ao juízo
na posse das faculdades e capacidades que           último da Igreja, que tem o divino mandato e
tinham, para que, agindo Deus neles e por meio      ministério de guardar e interpretar a palavra de
deles, pusessem por escrito, como verdadeiros       Deus.
autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele
quisesse.                                             Portanto, na Sagrada Escritura, salvas sempre
                                                    a verdade e a santidade de Deus, manifesta-se a
  Portanto? como tudo quanto afirmam os             admirável    'condescendência'     da     eterna
autores inspirados ou hagiógrafos se deve ter       Sabedoria, 'para nos levar a conhecer a inefável
como afirmado pelo Espírito Santo, por isso         benignidade de Deus e a grande acomodação
que     usou     nas   palavras, tomando             desde as primeiras cópias até à invenção da
antecipadamente cuidado da nossa natureza'           imprensa (séc. XV), era moralmente impossível
(S. João Crisóstomo).                                que dois exemplares de um mesmo livro, ao
                                                     menos os mais extensos, fossem exatamente
  As palavras de Deus, expressas em línguas          iguais, e Deus, que: preservou de todo erro os
humanas,        tornaram-se        intimamente       originais dos livros sagrados, não quis obrigar-se
semelhantes à linguagem humana, como                 a milhares de milagres que seriam necessários
outrora o Verbo do Eterno Pai, tomando a carne       para que se conservassem intactas as cópias.
da fraqueza humana, se tornou semelhante aos         Bastava conservar inalterada a substância do
homens". (Dei Verbum, 11-13).                        depósito da fé contido nos livros sagrados. E
                                                     para tanto foi magnificamente providenciado,
   A inspiração bíblica, segundo o conceito          como precisamente nos ensina a historia do
católico, não é uma moção mecânica, nem um           texto.
ditado, como se o autor humano fosse passivo
e nada de próprio assentasse no livro inspirado.        Os textos originais da Bíblia, em particular os
Não; a força inspiradora age no homem de             do Novo Testamento, são comprovados por
maneira digna dele, condizente com sua               tamanha abundância          e antigüidade de
natureza de criatura inteligente e livre. Antes de   documentos, que também sob o aspecto da
tudo, a inspiração é uma luz intelectual, que, ou    transmissão textual a Bíblia mantém o seu
descobre ao homem aquilo que antes ignorava          primado, o seu lugar eminente na literatura
(e então tem-se a revelação), ou com novo            mundial. Confrontada aos mais célebres
esplendor lhe apresenta aquilo que já sabia.         monumentos da literatura profana, tais como as
Sob a sua ação, a inteligência humana não é          obras-primas da literatura grega e latina, ela
perturbada, não perde a consciência de si,           brilha como o sol entre as estrelas. As obras de
como afirmavam os antigos acerca dos oráculos        autores gregos e latinos, não raramente, nos
pagãos; pelo contrário, é mais do que nunca          chegaram num único manuscrito, e as mais
lúcida e inteligente. Nem a vontade é arrastada      afortunadas gloriam-se de algumas dezenas
à força contra a sua inclinação; antes, mais do      deles; os manuscritos do Novo Testamento,
que      nunca      livre,   segue      dócil    e   porém, contam-se às centenas e aos milhares.
espontaneamente o impulso divino. A ação             Deles possuímos ainda códices inteiros em
inspiradora estende-se a todas as faculdades         pergaminho, do século IV; com fragmentos de
do homem, a todas as suas ações empregadas           papiros podemos remontar aos séculos III e II,
ao escrever, até à redação completa; mas a           isto é, a menos de um ou dois séculos da morte
todas e a cada uma toca e dirige segundo a           dos autores, enquanto que para Cícero e Virgílio
natureza de cada uma e segundo a parte que           a distância das cópias mais antigas é de cinco
tomam no trabalho complexo de escrever. Daí          ou seis séculos, para Homero de um milênio e
se segue que a inspiração não suprime nem            mais. O testemunho da transmissão direta dos
atenua a personalidade do escritor humano, e         códices gregos é reforçado quer por
nos vários livros da Bíblia pode-se ver refletida    antiquíssimas versões -- já no séc. II, como a
a índole e o estilo de cada autor.                   antiga versão latina --, quer pelas abundantes
                                                     citações de escritores cristãos, a partir do séc. II.
                                                     Ora,     nesses    antiquíssimos      testemunhos
   TEXTOS E VERSÕES. -- "Todos os Padres e           encontramos a máxima parte do texto das
Doutores tiveram firmíssima persuasão" --            modernas versões. Verdade é que a própria
escreve Leão XIII na citada encíclica                quantidade de manuscritos (além de versões e
Providentissimus -- "de que as divinas               citações) ocasionou, pela razão já dita, um
Escrituras, quais saíram da pena dos autores         número proporcionado de variantes, ou seja, de
sagrados, são inteiramente isentas de qualquer       alterações;    pretende-se     que      no    Novo
erro". Mas será que todas nos chegaram tais          Testamento inteiro, em 150.000 palavras, haja
"quais saíram da pena dos autores sagrados?"         200.000 variantes, mas na maioria são minúcias
Nenhum autógrafo, nem sequer do último dos           que não atingem absolutamente o sentido.
autores inspirados, chegou até nós, como             Ademais, a riqueza de documentação oferece à
também o de nenhum escritor da antigüidade           crítica meios mais eficientes para precisar o texto
profana; só possuímos deles cópias remotas.          original. Segundo o cálculo de juízes tão
Ora, os copistas não tiveram a assistência do        competentes como os críticos Westcott e Hort,
Espírito Santo como os hagiógrafos, e enquanto       sete oitavos de todo o Novo Testamento são
copiavam à mão, era natural que se                   transmitidos, concordemente, sem variantes, por
introduzissem no texto alterações de várias          todas as testemunhas. Quanto às variantes,
espécies. No longo período de 1500-3000 anos,        somente a milésima parte atinge o sentido e só
umas vinte assumem verdadeira importância.          acima foi dito. Entra aqui o testemunho --
Nenhuma atinge a alguma verdade de fé.              precioso pelo fato e pela época -- do neto do
Auxiliados pela crítica textual podemos concluir,   autor do Eclesiástico, o qual, no prólogo de sua
com os supracitados críticos, que o texto           tradução da obra do avô, assevera ter ido ao
genuíno do Novo Testamento é assegurado não         Egito pelo ano XXXVIII do rei Evérgetes (cerca
só na substância, mas também em quase todos         de 132 a.C.) e ali já ter encontrado traduzidos
os minuciosos particulares.                         em grego, a Lei (Pentateuco), os Profetas e os
   Quanto ao Antigo Testamento, as coisas           outros Escritos, isto é, as três partes em que os
apresentam-se um pouco diversamente. Antes          judeus dividem a sua Bíblia,
das recentes descobertas junto ao mar Morto            Assim, a versão grega dos LXX tem para nós
(1947), os códices hebraicos conhecidos, não        valor de um manuscrito hebraico do séc. III a.C.
anteriores aos séculos VIII-X d.C, dependiam        ou mais antigo, representando um tipo de texto
todos de uma recensão ou arquétipo do fim do        sensivelmente diferente, como o demonstra um
séc. I d.C, posterior, portanto, a cinco ou mais    confronto com o texto corrente na Palestina. Ela
séculos dos originais. Dessa fonte temos o texto    é para nós, portanto, o instrumento principal para
consonântico, isto é, só as consoantes das          a emenda crítica do texto hebraico. È, contudo,
palavras hebraicas, segundo o uso das línguas       um instrumento de emprego freqüentemente
semíticas, de não escreverem as vogais.             delicado. Além de, por causa das divergências
Somente por volta do séc. VII d.C, para facilitar   dos tradutores, alguns literais e até servis, outros
a leitura e para uso didático, foram inventados     mais livres, não termos um critério geral para
os sinais vocálicos e inseridos no texto, quando    remontar da tradução grega ao original hebraico,
o hebraico tinha cessado há séculos (pelo séc.      o próprio texto dos LXX, através de tantas
IV a.C), de ser idioma falado. No longo período     vicissitudes de séculos, chegou-nos em
do séc. I ao X d.C, o texto hebraico foi objeto     manuscritos com tão grande número de
dos mais minuciosos e diligentes cuidados da        variantes que nem sempre é fácil, entre essa
parte dos rabinos, chamados massoretas (de          selva de variantes, descobrir o texto genuíno.
massorá = tradição). Ê ao trabalho infatigável         Causaram enorme confusão, sem o querer,
deles que se deve a conservação inalterável do      três recensões feitas no séc. III e difundidas
texto e dos manuscritos tão uniformes que não       largamente na Igreja grega. Um século depois,
apresentam senão raríssimas variantes e de          um ótimo perito e testemunha ocular dos fatos,
leve monta. Também as antigas versões, com          S. Jerônimo (Prefação às Crônicas) escreve:
uma só exceção, quer as gregas do séc.              "Alexandria com todo o Egito, nos seus LXX
II (Áquila, Símaco, Teodocião, dos quais            louva a obra de Hesíquio; de Constantinopla até
contudo não nos chegaram senão fragmentos),         Antioquia usam-se os exemplares do mártir
quer a siríaca, chamada Pechitta, o Targum          Luciano; as províncias situadas entre essas duas
aramaico     (também       chamado      paráfrase   regiões lêem os códices palestinenses,
caldaica), e a latina de S. Jerônimo, sendo         elaborados por Orígenes e divulgados por
todas posteriores à recensão do séc. I, e dela      Eusébio e Pânfilo; de modo que todo o orbe se
dependentes raras vezes supõem forma diversa        debate entre esta tríplice variedade". Felizmente
do texto hebraico normal (massorético).             nos foi conservado em poucos manuscritos,
   Tanto mais preciosa, em tais circunstâncias,     sobretudo no famoso Vaticano 1209 (assinalado
é para nós a antiga versão grega, feita no Egito    com a sigla B), um texto anterior àquelas
(mais exatamente, em Alexandria, motivo por         recensões e por elas tomado por base, o que
que também é chamada "alexandrina") entre os        facilita o trabalho do crítico em busca da forma
séc.                                                primitiva.
III e II a.C Considerada até os tempos                 Todavia, o exame atento e consciencioso nos
modernos como obra coletiva de setenta e dois       revela que também o texto hebraico usado pela
doutos hebreus vindos para isso de Jerusalém,       vetusta versão grega já estava bem afastado da
a pedido de Ptolomeu Filadelfo (285-247 a.C),       primitiva pureza e integridade, e que a maioria
como narra uma pseudocarta de Aristéia,             das alterações agora deploradas no texto
continua ainda a chamar-se a versão dos             massorético, já existiam nos séculos imediatos
Setenta ou os Setenta (LXX). Na realidade,          ao exílio babilónico. Faltando o apoio dos LXX
como mostra o exame interno, os tradutores          para emendar um texto corrompido, não nos
foram muitos, traduzindo quem este, quem            resta senão o recurso à crítica interna, ou seja, à
aquele livro, em épocas diversas, até que,          reconstituição conjetural. A legitimidade e a
reunidas as traduções, formou-se um A.              medida da aplicação destes critérios no Antigo
Testamento totalmente grego, mais amplo do          Testamento, provam-nos alguns capítulos que,
que o hebraico massorético, segundo o que           nos próprios livros canónicos, nos foram
transmitidos em dois exemplares diversos.            falando, seja sinônimo da versão de S. Jerônimo,
Como., por exemplo, o salmo 18 (Vulgata 17),         denominando-se o todo pela parte principal e
reproduzido em 2Rs 22 e, no próprio Saltério, o      mais extensa.
salmo 14 (Vulgata 13) repetido com o número
53 (Vulgata 52). So tocante ao Pentateuco,              O VALOR DA VULGATA. -- Entre os tradutores
além disso, temos como reforço o texto               antigos da Bíblia, S. Jerônimo foi o último no
conservado entre os samaritanos, pertencente a       tempo, embora o primeiro pelo mérito: não só
um tipo mais antigo que o massorético,               por se ter podido valer dos trabalhos dos seus
abstração feita de certos acréscimos e               antecessores, mas sobretudo porque, pela
adaptações em favor do culto deles no monte          prática constante, adquiriu domínio tal das
Garizim (veja Jo 4,20). O arcaísmo do                línguas bíblicas (hebraico, aramaico, grego), que
Pentateuco samaritano reflete-se até na forma        entre os antigos cristãos não se conhece igual.
de, escritura que eles ainda adotam. Trata-se        Acrescente-se um conhecimento igualmente
dum descendente direto da primitiva escrita          único da literatura exegética, tanto judaica como
hebraica, mais próxima das origens fenícias (e       cristã. Com uma bagagem de cultura literária
portanto também de nosso alfabeto), do que o         incomum, com ótima preparação e excelentes
alfabeto em uso há séculos entre os hebreus.         critérios, pôs mãos. ao árduo trabalho. Começou
De fato, a hodierna escrita hebraica (chamada,       por corrigir (em Roma, em 384, a convite do
pela forma geral das letras, quadrada) deriva do     papa S. Dâmaso) os Evangelhos latinos,
ramo aramaico do alfabeto adotado por eles na        auxiliado para isso pelos melhores códices
época persa (cerca do séc. V a.C.) em lugar da       gregos. Transferindo-se depois para a Palestina
antiga, na qual anteriormente foram escritos os      (386), com o intuito de levar uma vida de
livros sagrados. No exame crítico do texto           ascetismo e de estudo, estendeu o mesmo
original, esta mudança de alfabeto deve ser          trabalho de paciente revisão, baseado no original
levada em conta. Ê o primeiro estudo a ser feito     grego, aos livros do Antigo Testamento; mas,
por todo bom tradutor ou intérprete da Bíblia,       tendo terminado uma parte deles, sobretudo os
como de qualquer outro livro: certificar-se da       Salmos, que passaram depois à Vulgata,
leitura genuína, isto é, das palavras exatas         compreendeu que prestaria um serviço muito
escritas pelo autor. "O primeiro cuidado de          melhor à Igreja, fazendo uma nova versão
quem quer entender a divina Escritura                diretamente do texto hebraico. E sem esmorecer
[sentencia Sto. Agostinho no seu magistral De        diante das ingentes dificuldades, e sem se
Doctrina Christiana, 1. II, c. 21] deve ser o de     cansar no longo e áspero caminho, a ela se
corrigir os códices". Traduzido em linguagem         dedicou com admirável constância pelo espaço
moderna pelo Pontífice Leão XIII, na encíclica       de uns quinze anos, de 390 a 404, até o
Providentissimus Deus, este preceito soa             acabamento feliz da obra. Não traduziu os livros
assim: "Examinada com todo cuidado a leitura         pela ordem que têm no cânon. Começou com os
genuína do texto, quando for o caso, passar-se-      livros de Samuel, aos quais antepôs o conhecido
á a sondar e expor o sentido" do texto sagrado.      Prólogo galeato, que é como que o programa de
                                                     toda a sua versão. Passou depois aos Salmos,
   A VULGATA, -- Vulgata, por antonomásia,           aos Profetas, a Jó, a Esdras e às Crônicas, aos
chamase a versão latina em uso na Igreja             três livros atribuídos a Salomão (Provérbios,
latina. Ela é, em sua máxima parte, obra de S.       Ecle-siastes, Cânticos). Em seguida, passando
Jerônimo, doutor da Igreja (cerca de 350-420),       para o início, pôs mãos ao Pentateuco, e
pois resulta da união de três categorias de          prosseguindo por Josué, Juízes e Rute, terminou
livros: V livros que ele traduziu diretamente do     com Ester. Não traduziu todos os livros com a
texto original: todos os protocanônicos do           mesma aplicação. Com maior cuidado traduziu e
Antigo Testamento, com exceção dos Salmos,           corrigiu (como se exprime ele mesmo) os
mais Tobias e Judite; 2°- os livros de uma antiga    primeiros livros, isto é, Samuel e Reis; os três
versão latina por ele revista e corrigida à luz do   livros ditos de Salomão concluiu-os em apenas
texto grego: os Salmos, do Antigo Testamento;        três dias; o de Tobias, num dia; o de Judite,
ao certo os Evangelhos e provavelmente o             numa noite. Destas e de outras causas resulta
restante do Novo Testamento; 3° cinco                certa desigualdade entre os vários livros, e
deuterocanônicos do Antigo Testamento, que           também na unidade fundamental da versão. Em
tinham ficado na antiga versão latina, não           geral, tendo-se formado uma idéia clara do que
tocados por S. Jerônimo, a saber: os dois dos        queria dizer o autor sagrado, procurou produzi-la
Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc            com a mesma clareza em latim, cuidando mais
(com a Carta de Jeremias). Não é, portanto,          do sentido do que da letra, sem menosprezar a
inexato dizer que o termo Vulgata, comumente         exigência da boa latinida-de. Guiado por esses
critérios, conseguiu imprimir à sua tradução, de   primeiros passos para uma edição crítica da
modo geral, uma propriedade de sentido e uma       Vulgata; no entanto, outros a corrompiam ainda
beleza de expressão tais, que só se apreciam       mais, corrigindo-a a bel-prazer com o texto
plenamente quando comparadas com as                hebraico; outros ainda mais radicalmente,
versões rivais gregas ou latinas, em geral         segundo o caminho aberto pela reforma
rudemente literárias e bárbaras e, portanto,       protestante, a repudiavam. Estes          fatos
também obscuras. Todavia, também S.                motivaram a intervenção do
Jerônimo, especialmente nos primeiros livros       Concílio de Trento na importante questão.
traduzidos, às mais das vezes por veneração à
                                                      Na sessão IV (8 de abril de 1546) o Tridentino,
palavra divina, não se afasta de um duro
                                                   depois de haver definido o cânon das divinas
literalismo e por amor à clareza não foge de
                                                   Escrituras, como dissemos, para enfrentar as
termos e construções vulgares; nos seus
                                                   desordens introduzidas no uso dos livros
escritos originais brilha muito mais pela
                                                   sagrados, decretou que a Vulgata, venerada pela
linguagem e pelo estilo.
                                                   antigüidade e pelo uso diuturno da Igreja, fosse
                                                   considerada versão autêntica e, além disso,
   VICISSITUDES E ESTADO ATUAL. -- Ás traduções    fosse impressa com a máxima correção. A
de S. Jerônimo não encontraram imediatamente       execução da segunda parte deste decreto, isto é,
no mundo latino a acolhida que mereciam. A         a edição correta da Vulgata, foi confiada pelo
propagação, devido em parte às dificuldades da     próprio Concílio à Santa Sé. Os Sumos
época, foi lenta, mas em constante progresso,      Pontífices, desde Pio IV até Clemente VIII,
de sorte que dois séculos depois Sto. Isidoro de   nomearam para esse fim quatro comissões
Sevilha (+ 636) pôde escrever que ela já estava    sucessivas, cujos trabalhos, não obstante as
em uso em toda a Igreja do Ocidente, e mais        numerosas dificuldades e várias vicissitudes,
tarde o renascimento carolíngio consagrou-lhe      terminaram com a edição oficial vaticana que,
definitivamente o triunfo sobre as antigas         sobre a base lançada por Sixto V, foi publicada
versões latinas. Formou-se assim, entre o séc.     por Clemente VIII em 1592, chamando-se, por
V e o IX, a versão que, propriamente é             isso, sixto-clementina; a essa, a qual se
chamada Vulgata: fundo jeronimiano com             seguiram outras duas reedições vaticanas em
algumas partes da antiga latina, como              1593 e em 1598, tiveram que se conformar todas
evidenciamos acima. No curso dos séculos,          as edições subseqüentes em qualquer parte do
porém,      transmitindo-se    em    exemplares    mundo, até aos nossos dias.
manuscritos, perdeu, ora mais, ora menos, da
sua primitiva pureza, seja por causa dos              A autenticidade da Vulgata, primordial decreto
copistas, seja por infiltrações de antigas         Tridentino, foi muitas vezes mal compreendida.
versões. Não faltaram, de vez em quando,           Antes de tudo, com este privilégio conferido à
doutos e zelosos varões para opor-se à invasão     Vulgata, de ser a única versão autêntica, o
corruptora, emendando o texto corrente a fim de    Concílio não entendeu colocá-la acima dos
reconduzi-lo à primitiva integridade. Digna de     textos originais, nem diminuir o valor intrínseco
memória pelo valor dos resultados e pela           das outras versões, sobretudo das antigas, mas
influência eficaz a revisão efetuada por Alcuíno   também das modernas, como declaram
(801), ordenada por Carlos Magno. Mas nem          expressamente as atas do concílio. O decreto
sequer esta escapou à rápida degeneração,          põe diante da Vulgata somente as outras
nem impediu que se formassem outros tipos de       versões em língua latina; o resto (seja texto,
textos, sobretudo na Espanha e na Itália.          sejam versões em outras línguas) não é
Quando, no séc. XIII, afluíam à Universidade de    alcançado pelo decreto. Em relação às versões
Paris estudantes de toda a Europa, trazendo        latinas afora a Vulgata, portanto, o decreto é
cada qual o seu texto bíblico, sentiu-se a         negativo; não lhes confere o valor reservado à
necessidade, para uso escolar, de uniformizar      Vulgata, mas não as rejeita nem as condena.
os textos muitas vezes discordantes entre si; e    Todo o peso do decreto, portanto, se concentra
isso foi feito, enxertando-se sobre o fundo        sobre o caráter positivo reconhecido à Vulgata;
alcuiniano as variantes dos outros. Originou-se    de autêntica.
daí um texto de valor discutível que, todavia,
graças à enorme influência exercida pela
célebre Universidade, teve grande sucesso e          AVE-MARIA
propagou-se por toda a "Europa, primeiro em           A Bíblia “Ave Maria” é uma versão da Bíblia
cópias manuscritas, e depois, inventada a arte     cristã publicada pela Editora Ave Maria em
tipográfica, também nas edições impressas. Só      1959, traduzida do grego e hebraico, por monges
na primeira metade do séc. XVI deram-se os         beneditinos de Maredsous (Bélgica). Foi
considerada uma das melhores traduções do
mundo na época e em sua primeira edição teve
uma tiragem de 42.000 exemplares. É uma das
traduções mais populares no Brasil. Com
poucas notas de rodapé, tem uma linguagem
coloquial, porém sem prejuízo para a
compreensão dos aspectos históricos e
culturais. Na década de 50 publicaram a Bíblia
católica do Brasil, cuja tradução, supervisionada
pelo frei João José Pedreira de Castro, vice-
presidente da LEB – Liga de Estudos Bíblicos –
e fundador do Centro Bíblico de São Paulo, foi
feita a partir da versão francesa dos monges
beneditinos, de Maredsous, Bélgica, uma
tradução direta do hebraico, grego e aramaico.
    Com uma linguagem popular, que tornou sua
leitura bastante acessível, a Bíblia Ave-Maria
encontra-se agora ONLINE!
ANTIGO TESTAMENTO

   Nos relatos do Antigo Testamento             por exemplo, de quem narra os
presenciamos a história do povo hebreu          pormenores do adultério e do homicídio
durante quase dois mil anos, desde a            (2Sam 11). Mas ao lado do escândalo
vinda de Abraão à Palestina até a               aparece a correção. Que há de mais
instalação da dinastia dos Hasmoneus            edificante do que a santa ousadia de
(cerca dos séc. XX-II a.C): história essa em    Natan em lançar à face de seu soberano
conexão, ora maior ora menor, ora direta        o duplo delito, do que o arrependimento
ora indiretamente, com a dos povos              e a humilde confissão de Davi, o perdão
vizinhos,     sobretudo      dos     grandes    da culpa, seguido da execução dum
impérios, entre os quais a Palestina jazia      castigo da parte de Deus? (2Sam 12).
como ponte: ao sul, o Egito; ao norte,          Outras vezes o pecado é censurado mais
sucessivamente, Babilônia, a Assíria, a         abertamente (Gên 38,9-10). Só os
Pérsia e a Síria. Constituíam eles outros       fariseus poderiam escandalizar-se com
tantos centros de civilização, que se           tais narrativas, motivos de ensinamento!
irradiava entre os povos submetidos ou          Além disso, quão poucos são eles em
vizinhos, formando uma vasta unidade            comparação com tantos exemplos de
cultural. No meio dessa civilização             nobres virtudes! São apenas sombras
comum movia-se o povo de Israel,                humanas a dar maior realce às luzes
sofrendo a sua influência. Nas artes e na       divinas da história sagrada. As não
indústria, Israel jamais desenvolveu uma        poucas cenas de sangue que ela relata,
civilização própria; ficou devedor ao           não passam dum reflexo daqueles
estrangeiro, como também a sua língua e         tempos rudes e ferozes. Também os
literatura trazem o cunho da origem             anais de outros povos orientais estão
comum ou do prestígio de outros povos           repletos delas, distinguindo-se os dos
socialmente mais evoluídos. No entanto,         hebreus até por um maior senso de
a      ausência    de     originalidade    e    humanitarismo; os reis de Israel gozavam
independência de civilização material,          de fama universal de clemência (lRs
põe em muito maior relevo o valor das           20,31).
instituições     religiosas     e     morais,      A relativa brandura dos hebreus
elementos básicos da civilização genuína        derivava da legislação que Deus lhes dera
e completa que foram glória exclusiva           por intermédio de Moisés. A pena de
desse povo eleito.                              morte é aplicada mais raramente do que
                                                no código de Hamurabi, e quase só por
   VALOR DA INTERPRETAÇÃO. — O Antigo           meio de apedrejamento. Reconhece a lei
Testamento         é     uma        obra        de talião, em voga nos costumes dos
verdadeiramente divina porque inspirada         povos, mas a mitiga (Êx 21, 23125.28-
por Deus e porque nos apresenta, pode-          32). Assim em outras asperezas
se dizer, em cada uma de suas páginas, a        (vingança do sangue) ou relaxamento de
ação de Deus sobre os homens. Ao                costumes (poligamia, divórcio) a lei,
mesmo tempo, porém, é uma obra                  encontrando costumes inveterados e
profundamente        humana,     porque         não podendo desarraigá-los totalmente,
destinada aos homens, fala uma                  intervém para os refrear e regulamentar
linguagem humana e nos apresenta, na            (cf. Mt 19,8). Doutra parte, impõe os
sua história, os homens tais quais são,         deveres de humanitarismo também para
com suas deficiências e rebeldias contra        com o próprio adversário (Êx 23,4-5) e
os desígnios divinos. Não costuma               estabelece a medida da mútua
encobrir as faltas dos seus heróis; Davi,       benevolência, com o preceito: "Amarás o
teu próximo como a ti mesmo" (Lev             fatos históricos e às pessoas desse
19,18), donde a norma: "Não faças aos         "drama" divino, que no Novo
outros o que não te agrada" (Tob 4,16).       Testamento recebem a sua conclusão. Os
Para com os estrangeiros, as viúvas, os       apóstolos e o próprio Jesus (Mt 12,40;
órfãos, em suma, os mais necessitados,        Jo3,14;6,32) indicaram-nos algumas
recomenda considerações especiais (ÊX         dessas imagens antecipadas que, a
22,21-23; Dt passim). Muitas vezes o          exemplo de S. Paulo, costumam chamar-
próprio Deus, especialmente pela              se tipos ou figuras; o objeto por elas
pregação dos profetas, faz-se seu             vislumbrando chama-se antítipo ou
advogado e protetor. Contra o abuso da        figurado. Daí se segue que no Antigo
escravidão, praga da sociedade antiga, a      Testamento, além do sentido das
lei mosaica, além de múltiplas restrições     palavras chamado verbal ou literal, há
(Êx 21,1-11; Lev 25,39-45; Dt 15,12-18),      que reconhecer um sentido das coisas,
já defende o princípio de igualdade dos       chamado real ou típico, e às vezes menos
homens perante Deus (Lev 25,42). Nada         felizmente, místico e alegórico. Entre
disso se encontra em outros códigos           estas duas categorias de sentido há
orientais, sem falar na genuína doutrina      conexão, mas ao mesmo tempo grande
religiosa, própria do Antigo Testamento,      diferença. O sentido literal (que pode ser
que também ê fator autêntico de               próprio ou impróprio, isto é, metafórico)
verdadeira civilização. Por outro lado, as    não pode faltar em nenhum dito da
suas mais nobres eminências o Antigo          Escritura e acha-se freqüentemente sem
Testamento as atinge nos seus profetas,       o típico, do qual é fundamento
figuras grandiosas de poetas e de heróis.     necessário. O típico, ao invés, jamais
   Em comparação com a sublime                pode disjungir-se do literal e não existe
doutrina evangélica, a lei antiga,            em toda parte, mas tão-somente onde
evidentemente, é bem imperfeita; para         há verdadeira semelhança e relação com
aqueles tempos e povos antigos, porém,        algo de análogo no Novo Testamento.
era uma lei santa, que trazia em si os           A autêntica originalidade do Antigo
germes de um pleno aperfeiçoamento.           Testamento consiste na sua doutrina
Era uma instituição religiosa preparatória    religiosa e moral, cujo centro ocupa-o a
para um regulamento definitivo, que           idéia do monoteísmo. Na expressão
devia ser trazido pelo Messias, por Cristo.   artística do pensamento, porém, não
S. Paulo, com razão (Gál 3,24), comparou      difere muito dos produtos das línguas e
a lei mosaica ao pedagogo, que conduz         literaturas irmãs, em particular da
os discípulos à escala do Mestre, de          acádica e da fenícia (ugarítica). A língua
Cristo. As próprias falhas do Antigo          hebraica, bastante parca de conjunções
Testamento levavam a desejar o Senhor         subordinativas, costuma exprimir-se em
e Salvador, cujo advento fora anunciado       proposições breves coordenadas com a
pelos profetas.                               simples aditiva: e . . . e . . . Resulta daí
   Observa-se, puis, um progresso vital       certa dureza e monotonia, sobretudo na
do Antigo ao Novo Testamento, como do         parte narrativa, que as versões modernas
embrião que se desenvolve num                 devem atenuar, ligando e construindo à
organismo perfeito. Deste caráter do          nossa maneira usual.
Antigo Testamento e desta sua relação            O estilo hebraico é imaginoso e
com o Novo, deriva uma conseqüência           concreto; exprime-se com metáforas
importante para a sua correta                 ousadas e imagens exuberantes,
interpretação, pois as suas instituições      apresentando as coisas abstratas e
deviam ter alguma semelhança com as           espirituais com termos realistas capazes
do Novo; eram as suas imagens                 de chocar nossos costumes e gostos mais
antecipadas. Analogamente quanto aos          refinados. Em particular fala de Deus e
de suas ações em termos de atividade        leitor não se admire disso, nem se deixe
humana:      mãos,     olhos,    ouvidos    levar a erro. Sob a aparência muitas
(antropomorfismo),      ficar    sentido,   vezes áspera, oculta-se sempre um
comover-se,                arrepender-se    pensamento nobre e puro.
(antropopatismos), e semelhantes. Que o
O PENTATEUCO

   O primeiro lugar de ordem e de honra        antiga e para a história especial do povo
entre os livros do Antigo Testamento           hebreu.
ocupa-o aquele que os gregos chamaram             Quem ê o autor do Pentateuco? Desde
Pentateuco, isto é, obra em cinco tomos.       a mais remota antigüidade foi
Para os hebreus é a "tora", ou seja, a lei,    considerado seu autor o próprio Moisés,
nome tomado da matéria central.                o protagonista dos últimos quatro livros.
Também os hebreus o dividiram nos              Já nos livros posteriores da Bíblia citam-
mesmos cinco livros que os gregos,             se-lhe várias sentenças com a fórmula:
distinguindo--os com a palavra inicial. Nós    "Está escrito na lei de Moisés", ou "no
usamos exclusivamente os nomes                 livro de Moisés", ou "no volume da lei de
impostos pelos gregos, que de maneira          Moisés". Assim, para não falar do livro de
graciosa lhes caracterizaram o conteúdo:       Josué, que é a continuação imediata e
Gênesis, Êxodo, Levítico, Números,             como que o complemento do Pentateuco
Deuteronômio. De jato, o Gênesis narra         (Jos 8,31;23,6), em lRs 2,3; 2Rs 14,6;
as origens do universo e do gênero             2Crôn 23,18;25,4;35,12; Esdr 3,2;6,18; Ne
humano até à formação paulatina do             8,1; 10,34; 13,1; Bar 2,2; Dan 9,11 etc. Os
povo de Israel na sua estada no Egito. O       Evangelhos nos apresentam a convicção
Êxodo narra a saída dos israelitas do          de que Moisés é autor da lei, difundida e
Egito, conduzidos por Moisés aos pés do        radicada entre os judeus; o próprio Jesus,
Sinai, para aí receberem de Deus a sua lei     bem como os apóstolos admitem-na e a
religiosa e civil e se constituírem, por       confirmam (veja Mt 8,4; Mc 12,26; Lc
meio      de      um     pacto     sagrado     20,37; Jo 5,46; At 3,32;15,21; Rom 10,5
("testamento"), em peculiar "povo de           etc.). Entre as testemunhas eloqüentes da
Deus (Javê)". O Levítico regula o culto        fé judaica figuram Fílon, José Flávio, e
religioso à maneira de ritual, dirigido        com maior crédito e ressonância o
especialmente aos levitas, que formavam        Talmud (tratado Baba batra, f. 14,15);
o clero consagrado ao serviço do               entre os cristãos, os Padres da Igreja são
santuário. Os Números recebem o nome           unânimes em reconhecer Moisés autor
dos recenseamentos do povo contidos na         do Pentateuco.
primeira parte, estendendo-se, depois,            Não contraria essa atribuição o fato de
em referir fatos e providências legislativas   que de Moisés se fale sempre em terceira
correspondentes a cerca de quarenta            pessoa; Xenofonte e Júlio César (para
anos de vida nômade no deserto da              falar só em nomes célebres), fizeram o
península sinaítica. No Deuteronômio, ou       mesmo. Nem suscita a menor dificuldade
segunda lei, emanada pelo fim da jornada       a grande antigüidade de Moisés (cerca do
no deserto, Moisés retoma a legislação         século xiv a.C), pois agora sabemos por
precedente para adaptá-la às novas             documentos originais recentemente
condições de vida sedentária, em que o         descobertos, que naquela época, não só a
povo viria a se encontrar com a conquista      escrita já era conhecida desde séculos,
iminente da Palestina.                         mas até o próprio alfabeto fenicio-
   Neste rápido apanhado aparece num só        hebraico já fora inventado. Nem
lance tanto a unidade como a variedade         derrogam esta convicção universal a
do Pentateuco, bem como a sua                  opinião de alguns, já na Idade Média, de
importância fundamental para a religião        que um outro trecho breve, como os oito
últimos versículos do Deuteronômio, que       de Esdras (século v a.C). Com tais
narram a morte de Moisés, tenha sido          conclusões, nada mais resta a Moisés do
acrescentado mais tarde ao Pentateuco.        Pentateuco, exceto um ou outro
Só nos tempos modernos é que surgiram         fragmento, como o Decálogo (Êx 20),
dúvidas e negações radicais.                  incorporado         pelos         primeiros
   A partir do século xvin vem-se fazendo     colecionadores das antigas memórias (J E)
pesquisas perspicazes em três sentidos:       à própria obra.
composição, autor, idade do Pentateuco.          Esta teoria, que se estriba, em boa
A composição: é fruto ou não da união de      parte, no princípio filosófico da evolução
vários documentos ou de mais escritos         aplicado à religião e à história do povo
originariamente distintos? O autor: de        hebreu, se bem que tenha encontrado a
quem são as partes individuais ou os          maior aceitação entre os protestantes,
documentos, quem as reuniu num todo,          teve na própria Alemanha, fortes
ou seja, de quem é a redação definitiva       opositores entre os críticos de primeira
do atual Pentateuco? A idade: quando          ordem, especialmente no que concerne
viveu cada um dos autores e redatores?        às datas atribuídas aos supostos
São três questões distintas entre si, mas     documentos, que, se na verdade é o
tão conexas que podem e habitualmente         ponto mais revolucionário, é também o
são tratadas como um tema comum: a            mais vulnerável de todo o sistema. Para
questão mosaica. Para responder a tais        desmenti-lo neste ponto, surgiram no
questões elaboraram-se, no século xix,        século xx novas escolas; novas
vários sistemas; mas prevaleceu sobre         orientações emergiram do solo, com as
todos, no fim do século, o defendido por      escavações no Oriente, importantíssimos
K. H. Graf (1866) e aperfeiçoado por J.       documentos, tais como o código de
Wellhausen (1876-78). Ele distingue no        Hamurabi, rei de Babilônia, os arquivos
Pentateuco quatro autores ou escritores       dos heteus, ou hititas, em Bogazkõy, na
diferentes: dois narradores denominados       Ásia Menor, e os poemas ugaríticos
pelo uso diferente do nome de Deus, um        descobertos em Ras Shamra, no litoral da
¡avista (abreviado }), o outro eloísta (E),   Síria, para só mencionar os principais. Eles
aos quais se deve a maior parte dos fatos     trazem à luz costumes, instituições e ritos
referidos no Gênesis, Êxodo, Números;         análogos aos do Pentateuco de tempos
um deuteronomista (D), autor quase            até mais antigos de Moisés, e que os
exclusivo do Deuteronômio; e um tratado       críticos julgavam próprios de época mais
presbiteral (P) ou código sacerdotal, que     recente, e nos revelam fatos que se
compreende todo o Levítico e muitas           refletem na vida dos patriarcas (Gên 12,
partes narrativas de Gênesis, Êxodo e         fim), com matizes que poucos séculos
Números. Esses os documentos. Para as         atrás teria sido impossível imaginar.
respectivas datas, segundo a supracitada         Conseqüentemente,         a    brilhante
escola, o código sacerdotal (P) seria         concepção arquitetada por Wellhausen
posterior ao profeta Ezequiel (primeira       acha-se em plena dissolução. Resiste
metade do século vi a.C), o Deuteronômio      ainda       tenazmente         a     análise
teria sido composto pouco antes da            documentária, ou seja, a distinção de
reforma religiosa de Josias, ou seja, pelo    quatro (ou mais) fontes, de cuja fusão
ano de 621 a.C, o eloísta e o ¡avista         teria resultado o Pentateuco.
seriam mais antigos (século viu e ix). A         Remetendo,      para    mais    amplas
união de todos esses escritos no atual        explicações, a tratados especializados de
Pentateuco ter-se-ia realizado no tempo       introdução bíblica, ou a comentários mais
desenvolvidos, exporemos aqui os fatos         Eloim 6 Javé. Na tradução, a Vulgata nem
objetivos, sobre os quais se quer              sempre conserva a distinção.
fundamentar a prova da estrutura                  O emprego alternado dos dois nomes
compósita do Pentateuco, para indicar          divinos não é casual; nem é sem motivo
depois uma via de solução, e mostrar           que cessa em Êx 6, predominando depois
como esses fatos, quando reduzidos ao          quase exclusivamente Javé; isso está
seu justo valor, não impedem que Moisés        manifestamente em relação com o que aí
possa ser verdadeiramente chamado              se lê; às gerações precedentes Deus se
autor do Pentateuco. A exposição que           revelava como Sadai, pois desconheciam
segue auxiliará o leitor a formar-se uma       o nome sagrado de Javé, revelado pela
compreensão mais clara destes livros.          primeira vez a Moisés (veja também Êx
   Nomes divinos. — Para exprimir a idéia      3,13-15,). Compreende-se, pois, porque
de Deus, a língua hebraica dispõe de           nas narrativas precedentes o nome usado
muitos termos. O mais freqüente (1.440         seja Eloim. Mas, como explicar a presença
vezes no Pentateuco, mais de 6.800 em          de Javé em tantas partes do Gênesis?
toda a Bíblia) é "Javé" (ou "Jeová",           Depois de Astruc viu-se aqui a prova
segundo      uma       pseudo     pronúncia    tangível de duas fontes ou dois autores
introduzida entre os séculos xvi e xix),       diferentes, chamados um eloísta (sigla E),
nome próprio, pessoal. " 'Elohim" (975         outro javista (sigla J). Veremos se com
vezes no Pentateuco, cerca de 2.500 na         razão.
Bíblia) é nome de natureza, como se               Língua e estilo. — No entanto, estão já
disséssemos:            a         divindade;   todos concordes que o argumento dos
gramaticalmente plural (a forma singular,      nomes divinos, por si só, não é suficiente
" 'eloah", é poética e existe só 2 vezes no    para se distinguirem solidamente fontes
Pentateuco), quanto ao sentido é singular      ou autores. Este argumento por isso é
"El", de igual valor, mas arcaico e poético,   acompanhado de provas subsidiárias.
46 vezes no Pentateuco; " 'Adonai" =           Com efeito, observam eles, à alternação
Senhor, 17 vezes; "Saddai" = o                 dos nomes divinos acha-se associada a
                                e
Onipotente (?), 9 vezes; " Elion" = o          semelhantes mudanças de vocábulos e
Altíssimo, 6 vezes. À questão mosaica          construções. Por exemplo, o ato criador
interessam principalmente os dois              em Gên 1 exprime-se com "bara' ", em 2
primeiros. Foi observado (e o primeiro a       com "yasar"; os habitantes da Palestina
dar pelo fato foi o médico católico francês    antes dos hebreus são chamados
                                                                    (í
Jean Astruc em 1756) que no Gênesis e          "cananeus" por J, amor eus" por E; a
no início do Êxodo capítulos inteiros          serva, "sifha" por J, * 'amah" por E; o
empregam exclusivamente, ou quase, o           patriarca Jacó só em J toma o nome de
nome Javé; outros, ao invés, com a             Israel. A diversidade prolonga-se além do
mesma exclusividade e constância rezam         Gênesis; o monte onde foi promulgada a
Eloim. Assim, por exemplo, em Gên 1, lê-       lei, em J chamava-se "Sinai", em E "Ho-
se 33 vezes Eloim, e nunca Javé; em Gên        reb"; o sogro de Moisés, em J tem o nome
4, uma vez Eloim e 10 vezes Javé (em 2-3       de "Raguel", em E de "Jetro", e assim por
diga-se de passagem, estão juntos Javé e       diante, igualmente, mudando os nomes
Eloim); em Gên 10,16 nenhum Eloim, 36          divinos, muda o estilo. J é mais abundante
Javé (com 2 Adonai); em Gên 17, ao invés,      e minucioso; condescendente e popular,
7 Eloim, 1 Javé; em Gên 24 nenhum              não      evita    os    mais      chocantes
Eloim, 19 Javé; em Gên 30-35 contra 32         antropomorfismos; vivaz e dramático,
                                               tem um colorido poético, fascinante. E é
mais seco, anedótico, um pouco               permitir a ereção de um altar em
descuidado.                                  qualquer lugar, memorável por alguma
   Observando-se a diversidade de estilo,    intervenção divina, e aí imolar vítimas
descobrem-se mais duas fontes ou             sagradas. Lev 17,3-9 não admite
autores: um segundo eloísta que, nas         nenhuma matança de animal longe do
partes     legislativas,   ocupa-se     de   altar, sobre o qual deve ser derramado o
preferência do culto religioso, donde foi    sangue, sendo este altar, em união com o
chamado sacerdote e autor do "código         tabernáculo sagrado, o único para todos.
sacerdotal" (P); e na seção narrativa ele    Em Dt 12,1-28, segundo a interpretação
aprecia as estatísticas, anotações           comum e óbvia, únicos são o templo e o
cronológicas, fórmulas esquemáticas          altar, e fora deles não é permitido
(exemplo seja a narração da criação, Gên     oferecer sacrifícios a Deus. Permite-se, no
1), a linguagem precisa e quase pedante      entanto, que se matem animais em
do jurista. E, enfim, o pregador que         qualquer lugar, para o uso comum,
escreveu o Deuteronômio (D) num estilo       derramando-lhes o sangue por terra, ação
amplo, parenético, cheio de afeto            declarada profana e não mais sagrada.
humanitário e de suave insinuação.              A esta variedade de leis corresponde —
   Os duplicados. — Para provar a            observa-se — a prática na história,
pluralidade de autores do Pentateuco         conforme vem narrada pela própria
surge um terceiro argumento, mais            Bíblia. De fato, vemos nos livros dos Juízes
valioso do que os dois antecedentes.         (6,24-28; 13,15-23), de Samuel (ISam 6,
Certos acontecimentos — diz-se — e não       9.17;9,12; 2Sam 15,7-12;24,18-25), dos
poucas leis, ocorrem duas e até três vezes   Reis (IRs 3,2-4; 15,14 etc.), altares erigidos
em forma pouco diversa. Assim, a criação     e sacrifícios oferecidos quase por toda
do mundo é narrada duas vezes (Gên 1,1-      parte, segundo as circunstâncias, em
2,3 e 2, 4-24); duas vezes Agar é expulsa    harmonia com a lei do Êxodo. Mas, em
da casa de Abraão (16 e 21); duas vezes      2Rs 22,23, lemos que o rei Josias no
acha-se em perigo a honestidade de Sara      sétimo ano de seu reinado (621 a.C.),
(12 e 20) e uma terceira a de Rebeca (26);   tendo-se encontrado como que por
as duas genealogias de Caim (4) e de Set     acaso, no templo, um exemplar da lei, fez
(5) têm em comum a maior parte dos           dela uma aplicação imediata, que
nomes; no dilúvio (6-8) são entrelaçadas     corresponde exatamente às prescrições
duas narrações distintas. Duas vezes é       do Deuteronômio, particularmente acerca
repetida a vocação de Moisés (Êx 3 e 6), a   da unicidade do santuário e do altar.
queda do maná e a pousada das co-            Trata-se da chamada reforma de Josias,
dornizes no deserto (Êx 16 e Núm 11), a      precedida, um século antes, por uma
prova junto às águas de Meribá (Êx 17 e      tentativa de Ezequias no mesmo sentido
Núm 20). O preceito das três solenidades     (2Rs 17,22; 2Crôn 32,12; Is 36,7).
anuais é repetido até cinco vezes (Êx           Esses os fatos. A supradita escola crítica
23,14-19;34,23-26; Lev 23; Núm 28; Dt        tira daqui as conseqüências que temos
16).                                         visto: o Deuteronômio, o primeiro a
  Variações nas leis. — Entre os             ostentar a lei do altar único, foi composto
duplicados legais, especial atenção          no século vil a.C, pouco antes da reforma
reclamam os que introduzem uma               de Josias. O Levítico, que já supõe essa lei,
modificação. A mais célebre e mais grave     bem como todo o código sacerdotal ao
de tais modificações diz respeito ao lugar   qual pertence, é posterior a Josias e ao
do culto (templo e altar). Êx 20,24 parece   exílio, acrescentado pouco depois. Os
dois escritos narrativos, o javis-ta e o     repetido na eloísta (um "duplicado"
eloísta, que já circulavam separadamente,    análogo aos do Pentateuco) sem outra
o primeiro desde o século ix na Judéia, o    variante, ou quase, senão justamente
segundo desde o século viu no reino de       esses nomes divinos. Ora, assim como
Israel, refletem a prática mais antiga.      ninguém duvida que os salmos assim
   Essas conseqüências sustentam-se?         repetidos, por exemplo, 13 e 52 sejam do
Será que os fatos acima mencionados,         mesmo autor, assim também não está
reduzidos aos seus justos limites, não       provado que seções ¡avistas e eloístas no
comportam outra explicação? A solução        Pentateuco devam pertencer a autores
da questão da autenticidade mosaica do       diferentes.
Pentateuco depende da resposta a esses          A língua e o estilo não dependem
dois quesitos.                               unicamente do autor, mas também do
   Partindo do primeiro argumento, o dos     assunto e do gênero literário. Santo
nomes divinos, afirmamos antes de mais       Agostinho ditava os seus trabalhos
nada que nem sempre esteve ao arbítrio       dogmáticos de modo diverso dos seus
do escritor usar Javé ou Eloim; o matiz      sermões populares. O Deuteronômio, que
sutil de sentido e a associação diferente    é a promulgação oral de uma lei, em
de idéias contidas nos dois nomes, levam,    reunião pública, não pode ter o estilo
em dadas circunstâncias, a usar um com       lapidar de um código gravado em tábuas,
exclusão de outro, e em certas               nem as disposições rituais do código
construções o uso, sem razão aparente,       sacerdotal têm que se amoldar às leis
ligou-se exclusivamente a um ou ao           civis do código da aliança (Êx cc. 21-23). A
outro. Ê daí que se diz: " 'is Elohim" =     variedade, por maior que seja, não se
homem de Deus, mas "debar Jahvé" =           opõe à unicidade substancial do autor.
palavra do Senhor, e não o contrário. O      Além disso, não está excluído, como
critério dos nomes divinos, portanto, está   veremos, o emprego de fontes e de
sujeito à cautela. Além disso, será que      colaboradores que também deixam a sua
estamos certos de que os nomes divinos,      marca na obra definitivamente concluída.
como figuram no texto atual, são                Distinguimos duas espécies dos
originais, isto é, remontam ao próprio       chamados duplicados: duas vezes ocorre
autor?                                       um fato semelhante (duplicado real), ou
   A tese crítica o supõe, e é para ela      duas vezes narra-se o mesmo fato
indispensável. Há, porém, boas razões        (duplicado literário); para a questão de
para duvidar. A alternação dos nomes         unicidade ou pluralidade de autor,
divinos não é particularidade do             somente a segunda espécie tem valor.
Pentateuco: constata-se também em            Ora, que, por exemplo, a beleza de Sara
outros livros da Bíblia, especialmente no    tenha excitado duas vezes, em duas
Saltério, onde os primeiros quarenta e os    cidades diversas, a cobiça de um déspota
últimos sessenta salmos usam quase           oriental (Gên 12 e 20) nada tem de
exclusivamente Javé, ao passo que os         improvável. Ê também positivamente
demais cinqüenta, do meio, empregam          verossímil que em quarenta anos mais de
geralmente Eloim. Ora (e isto é de           uma vez se tenha verificado a passagem
importância capital), pode-se demonstrar     das codornizes nas suas migrações
com vários argumentos que também             através do deserto (Êx 16; Núm 11); estes
naqueles salmos, agora eloísticos,           são duplicados reais. Cumpre examinar,
originalmente no lugar de Eloim havia        assim, caso por caso. Para a repetição em
Javé. Mais de um salmo da seção javista é    que o mesmo ato não pareça admissível,
isto é, em se tratando de verdadeiros         (talvez também, parcialmente, por
duplicados literários, tem valor a solução    escrito) às gerações do povo de Israel,
que delinearemos mais adiante.                cujas memórias o grande legislador teria
   É insito em toda lei, civil ou religiosa   registrado, deixando às narrações o seu
que, permanecendo inalterados os              matiz original. Um exemplo claro deste
pontos fundamentais, em muitos outros         gênero temo-lo no capítulo 14 (expedição
esteja sujeita a variações com o decorrer     de Abraão e encontro com Mel-quisedec),
do tempo e as mudanças de                     de características tão individuais, que a
circunstâncias. Nem a lei mosaica podia       crítica o atribui a uma fonte especial, não
escapar a essa necessidade quase vital.       pertencente a nenhuma das quatro
Mas o próprio texto apresenta a razão         habituais. No tocante aos quatro livros
das variações observadas no Pentateuco.       posteriores, que versam exatamente
Desde a primeira legislação no Sinai          sobre os tempos de Moisés, já indicamos
(código da aliança) e a segunda, às           as      razões      que    explicam      as
margens do Jordão, o Deuteronômio,            particularidades estilísticas de dois
passam-se cerca de quarenta anos, e, o        grandes documentos legislativos, o
que mais importa, o povo de Israel, no fim    Código sacerdotal e o Deuteronômio.
desse período, encontra-se prestes a             Outra hipótese, baseada na analogia do
sofrer uma profunda transformação, ao         Saltério, é a seguinte: o Pentateuco,
passar da vida nômade ou pastoril, à          composto inteiramente por Moisés, parte
sedentária e agrícola. Impunha-sef            baseado em suas recordações, parte em
portanto, uma adaptação do antigo             documentos fornecidos pela tradição e
direito às novas condições. Da não            pela casta sacerdotal, propagou-se na
observância rigorosa, durante séculos, da     sociedade hebraica, e, durante a
lei deuteronômica sobre a unicidade do        transmissão, sofrendo modificações na
altar, não prova de per si que não            forma, em nada insólitas na transcrição
existisse. De resto, um ou outro              de obras literárias, chegou, com o tempo,
acréscimo ou modificação pode ter-se          a receber, em dois pontos diversos da
introduzido com o tempo nas leis              área israelita, por exemplo, no reino de
mosaicas sem derrogar ou diminuir a           Efraim e no reino de Judá, duas formas
paternidade de Moisés do Pentateuco.          um tanto diferentes; em uma delas, entre
   A escola crítica, portanto, não provou,    outras coisas, o primitivo nome de Javé
contra o testemunho claro da própria          foi substituído por Eloim. Mais tarde (no
Bíblia, a sua tese de que o Pentateuco em     reinado de Ezequias ou Josias), quando se
nada      pertence     a    Moisés.     Das   sentiu a necessidade ou a oportunidade
discrepâncias, quaisquer sejam, de            de unificar as duas recensões, um redator
vocabulário, de estilo, de leis, dão-se       fundiu-as, extraindo ora desta ora
outras explicações conciliáveis com a         daquela, muitas vezes contentando-se
autenticidade mosaica. No Gênesis, por        com justaposições, sem alterar as feições
exemplo, não se lhe opõe a distinção de       próprias de cada uma. Destarte explicar--
fontes, pois trata-se de acontecimentos       se-iam os fenômenos que levaram a
anteriores a Moisés, transmitidos, ao         acreditar na existência de fontes diversas.
menos em grande parte, oralmente
INTRODUÇÃO AO GENESIS                       do homem sobre a terra. A Bíblia não
                                            é contrária a resultados certos de tais
   O Gênesis narra as primeiras             ciências, também porque as listas
origens do mundo, do gênero humano,         genealógicas do Gênesis poderiam
do povo hebreu, tudo relacionado com        ser incompletas, ou seja, com
Deus, com sua revelação, com seu            omissões de elos intermediários.
culto. Deus cria o universo, revela-se         Do nascimento de Abraão à
aos primeiros homens, Deus escolhe          descida dos israelitas ao Egito -- 290
uma       família    (Abraão     e    sua   anos -- (Gên 21,5 + 25,26 + 47,28), a
descendência), para no seio dela            cronologia respectiva é mais ou
conservar e desenvolver os germes da        menos certa. Para a cronologia
primitiva revelação e a verdadeira          absoluta (baseada na era vulgar) ter-
religião, no intuito de preparar a solene   se-ia um ponto fixo no sincronismo de
revelação do Sinai, narrada no Êxodo.       Abraão com Hamurabi, o célebre rei
   A criação do céu e da terra (1,1-2,3),   da Babilônia, cujo famoso código de
é como que o prólogo do grandioso           leis foi descoberto em 1902. A
drama, que se divide em duas partes,        identificação, porém, de Amrafel, rei
e tem por protagonistas os cinco            de Senaar (Gên 14,1), com Hamurabi
grandes patriarcas: Adão e Noé,             da Babilônia, é hoje mais do que
patriarcas do gênero humano; Abraão,        duvidosa; tampouco a data do
Isaac e Jacó, patriarcas do povo            reinado       deste     último    está
hebreu.                                     definitivamente fixada; atualmente
   O todo ê enquadrado pelo autor           tende-se a colocar-Ihe o início por
sagrado em dez tábuas genealógicas          volta de 1728 a.C. Tomando como
(2,4; 5,1; 6,9; 10,1; 11,10; 11,27;         ponto de partida a data em que os
25,12; 25,19;36, 1;37,2) dispostas de       israelitas saíram do Egito sob o faraó
tal modo que, após ter registrado os        Menefta pelo ano de 1200 a.C, e
ramos secundários da propagação             remontando o curso dos séculos com
humana, volta a narrar difusamente os       os dados da própria Bíblia (Ex 12, 40
destinos do ramo patriarcal, isto é, da     e passagens acima citadas), Abraão
descendência eleita, portadora da           teria nascido por volta de 1900 a.C,
revelação divina e da verdadeira            mas não é certo qual seja o faraó do
religião.                                   Êxodo.
   O Gênesis abrange na sua narração           Muitas páginas do Gênesis têm
uma longa série de séculos, e               correspondência nos monumentos
colocando (no tronco principal das          babilónicos e egípcios: nos primeiros,
suas genealogias) ao lado dos nomes         a história primitiva, isto é, os
também números de anos, forneceria          primeiros 11 capítulos; nos egípcios,
os elementos de uma cronologia.             o resto, especialmente a história de
Infelizmente as cifras não parecem          José (37-50). Com os dois primeiros
bem       conservadas,     porque     nos   capítulos (a criação) têm algo de
números dos capítulos 5 e 11 os três        semelhante         vários      poemas
textos independentes: o hebraico, o         babilónicos entre si discordantes e
samaritano e o grego divergem entre         que são uma fantasiosa mitologia de
si. Baseando-se sobre o seu texto, os       crasso politeísmo; quão mais sublime
gregos do império bizantino colocavam       pela nobreza de pensamento é a
a criação do homem 5.508 anos a.C.          prosa simples da Bíblia! Também a
Os hebreus ainda usam uma era que           tradição babilônica conhece dez reis,
no mesmo período conta 3.760 anos.          como Gên 5, dez patriarcas, de vida
As ciência antropológicas exigem um         longuíssima antes do dilúvio. Este
tempo assaz maior para a existência         cataclisma foi narrado em muitas
lendas babilônicas, uma das quais foi
inserida    no    romanesco     poema
"Gilgames", assim chamado por causa
do herói protagonista. Os pontos de
contato com a narração bíblica (Gên 7;
8) são numerosos e típicos. A narração
da torre de Babel (Gên 11,1-9) é toda
tecida de elementos babilônicos; mas
um paralelo exato não foi ainda
encontrado na literatura cuneiforme.
Nada ainda se encontrou nessa
literatura de verdadeiramente análogo
à narração do paraíso terrestre e da
queda do homem (Gên 3).
   Nos monumentos egípcios temos
representadas       muitas       cenas
semelhantes às narradas no Gên cc.
12,37-50.
INTRODUÇÃO AO ÊXODO

   O segundo livro do Pentateuco toma o       17), reside a verdadeira prerrogativa do
nome de Êxodo da saída dos hebreus do         povo de Israel; nada de semelhante se
Egito, onde, depois dos bons tempos de        encontra em nenhum outro povo. Citam-
José, passaram a sofrer a mais dura           se, é certo, da literatura egípcia, certas
escravidão. Esse acontecimento, porém,        desculpas espirituais como: "Não cometi
nada mais foi do que o prelúdio de jatos      injustiça, não roubei, não matei'' etc., ou
muito mais importantes na vida dos filhos     da babilônia, os esconjuros, onde se
de Israel, os quais, de um conglomerado       pergunta se o exorcizado ultrajou alguma
de famílias que eram, recuperando a           divindade, se desprezou pai e mãe, se
liberdade,     conquistaram      verdadeira   mentiu ou praticou obscenidades etc. Mas
unidade de nação independente e               não há proporção entre os protestos de
receberam uma legislação especial, uma        um particular para evitar o castigo
forma de vida moral e religiosa, pelas        (finalidade daquelas fórmulas rituais) e a
quais se distinguiram de todos os outros      autoridade soberana que impõe a lei a
povos da terra.                               todo um povo. Entre os próprios egípcios e
    Com toda facilidade compreender-se-á      babilônios, nada há de correspondente, na
a importância deste livro, sobretudo em se    legislação, àquelas fórmulas cerimoniais.
pensando que, se a história civil das         O decálogo de Moisés não tem rivais no
nações, mormente as antigas, acha-se          mundo.
intimamente vinculada à religião e essa à        Pelas       razões      citadas,      os
moral, isto jamais foi tão verídico como a    acontecimentos narrados no Êxodo
respeito dos hebreus. As leis contidas no     tiveram um eco enorme na memória das
Êxodo formam a essência da vida civil e       tribos israelitas. Em quase todas as
religiosa do povo eleito.                     páginas do Antigo Testamento são
   Ê bem verdade que, de todas essas          recordadas a libertação da escravidão do
leis, e especialmente as do chamado           Egito, a prodigiosa passagem do mar
código da aliança (21-23), foram              Vermelho, os golpes tremendos com os
encontradas analogias notáveis no código      quais foi dominada a tenaz oposição do
de Hamurabi (rei babilônico, que viveu        opressor      egípcio,   as     grandiosas
alguns séculos anteriormente a Moisés),       manifestações divinas no Sinai, o sustento
que foi descoberto, traduzido e publicado     milagroso de povo tão numeroso no
pelo dominicano Pe. Scheil, em 1902. De       deserto. Daí Israel deduzia os motivos
tais analogias não se infere, porém, em       mais fortes para ser grato e fiel a Deus, e
absoluto, como pretendem alguns, a            conservar uma confiança inabalável na
dependência do código mosaico do              sua providência soberana e nos seus
babilônico. Elas têm sua explicação           próprios destinos.
adequada nos fatores comuns às duas              A cronologia do Êxodo, ou seja, o ano
sociedades, israelita e babilônica, tão       em que os hebreus saíram do Egito, está
próximas no tempo, no lugar e também na       naturalmente ligada à história desse país.
origem, pois os patriarcas do povo hebreu     Mas, já que a Bíblia não fornece os nomes
procediam do vale do Tigre.                   dos dois faraós, o da opressão (1,8;2,23) e
   Realmente, na legislação decretada no      o da saída (14,5), duas opiniões diversas
Sinai, nem tudo foi criado desde a raiz;      se equilibraram entre os doutos, com
muitos usos e costumes já introduzidos na     autoridade e número de defensores quase
prática social foram confirmados pela         iguais. Para uns, o opressor seria Totmés
aprovação divina. De resto, também nas        III (1500--1450) e o outro Amenofis II
famosas leis romanas das doze tábuas          (1447-1420), da XVIII dinastia; para
descobrem-se semelhanças com o código         outros, no entanto, Ramsés II (1292--
mosaico, sem que ocorra a alguém o            1225), da XIX dinastia, teria oprimido os
pensamento de querer estabelecer um           hebreus, e seu sucessor, Menefta (1225-
parentesco entre as primeiras e o             1215), tê-los-ia libertado. A segunda
segundo.      Providências     semelhantes    opinião, que estabelece o século XIII a.C.
surgem          espontaneamente         de    para o Êxodo, parece-nos mais condizente
necessidades sociais do gênero. No            com o texto (1,11) e mais coerente com
decálogo, porém, e na doutrina religiosa      outros dados da história sagrada e
que lhe forma a base inconcussa (20,2-        profana.
INTRODUÇÃO                    AO LEVÍTICO

   Este livro traz o nome de Levítico, por    festivos: solenidades anuais e o sábado
tratar quase exclusivamente dos deveres       (23).
sacerdotais. Poder-se-ia compará-lo a um         5- Determinações diversas: lâmpadas
ritual.                                       no santuário e pães da apresentação
   Com exceção de dois trechos históricos     (24,1-9); pena para o blasfemador
(8      a    10;24,10-23),     compõe-se      (24,10-23); prescrições para o ano
inteiramente de leis que visam à              sabático e jubileu (25); promessas e
santificação individual e nacional.           ameaças relativas a observância da lei
Santificação, de per si ritual e exterior,    (26); votos e dízimos (27).
que, porém, simboliza e promove certa         O sacrifício, o ato mais sagrado da
santidade interior e moral. Toda a            religião, isto é, oferecer a Deus vítimas,
matéria pode ser dividida em cinco            animais ou vegetais, não foi instituído
partes:                                       por Moisés, mas remonta às próprias
   1- Leis relativas aos sacrifícios (1-7).   origens da humanidade (Gên 4,3-4).
Os sacrifícios são de cinco espécies; duas    Moisés encontrou o seu uso estabelecido
séries de leis: V série — o rito de cada      e arraigado entre todos os povos. Nas
sacrifício (1-5), holocausto (1), oblação     tabuinhas recentemente descobertas em
de vegetais (2), sacrifício salutar (3),      Ras Shamra (antiga Ugarit), na Fenícia
sacrifício expiatório (4), sacrifício de      setentrional, anteriores alguns séculos a
reparação (5). 2? série — direitos e          Moisés, são mencionadas espécies
deveres dos sacerdotes em cada espécie        idênticas de sacrifícios, até mesmo com
de sacrifícios (6-7).                         nomes iguais (afinidade das duas línguas)
   2- Consagração dos sacerdotes (8-9).       aos do Pentateuco. Moisés, com suas
Nadab e Abiú são punidos por terem            leis, só regulamentou e consagrou ao
usurpado um ofício sagrado (10-1-7).          culto do verdadeiro Deus um cerimonial
Várias prescrições para os sacerdotes         já praticado, deixando ainda toda essa
(10,8-20).                                    legislação dos sacrifícios separada das
                                              condições essenciais do pacto celebrado
   3- Leis sobre a pureza legal (11-16):
                                              entre Deus e o seu povo (Êx 19,23).
dos alimentos (11), da puérpera (12),
                                              Nesse sentido deve-se entender aquele
da lepra nas pessoas (13,1-46; 14,1-
                                              protesto do próprio Deus contra os
32), nas vestes (13,47-59) e casas
                                              judeus, por boca de Jeremias (7,22-23):
(14-33-57); sobre a gonorréia (15).
                                              "Em matéria de sacrifícios e holocaustos,
Rito para o dia solene de expiação (16).
                                              eu nada disse e nada ordenei aos vossos
   4- Leis sobre a santidade (17-23): a)      pais ao tirá-los do Egito; dei-lhes
do povo (17-20); matança dos animais,         somente esta ordem: — Escutai a minha
uso do sangue, unicidade do santuário         voz; eu serei vosso Deus e vós sereis o
(17); prescrições que regulam os atos         meu povo —" cf. Êx 19,5).
sexuais (18); várias prescrições religiosas
                                                 Nada, portanto, impede atribuir-se ao
e morais (19); punição para os
                                              próprio Moisés a legislação cerimonial do
transgressores (20); b) dos sacerdotes:
                                              Levítico, embora seja óbvio que não a
núpcias e luto (21,1-15); irregularidades
                                              tenha escrito toda de uma vez e se tenha
(21,16-24); impureza cerimonial (22,1-
                                              servido, para a fixar, da obra de algum
16; qualidades das vítimas (22, 17-30);
                                              sacerdote ou levita de profissão. Nem se
conclusão (22,31-33); c) dos dias
                                              exclui que algumas destas leis tenham
recebido em tempos posteriores
modificações e acréscimos.
  Devemos observar ainda, que todas
essas leis cerimoniais foram ab-rogadas
depois de Jesus Cristo. Entretanto, os
sacrifícios da antiga lei haviam
prefigurado o seu sublime sacrifício na
cruz, no qual, único e perfeito sacrifício,
te-ve cumprimento toda a variedade dos
sacrifícios do Antigo Testamento. Ou
melhor, como nos ensina S. Paulo (Hebr
9,9; 10,10), os sacrifícios levíticos
recebiam sua principal eficácia de aplacar
a Deus daquele valor figurativo, pois que
"é impossível que, por si só, o sangue dos
touros e dos cabritos cancele os
pecados" (Hebr 10,4). Considerados no
seu significado típico e simbólico, os ritos
escritos no Levítico continuam e
continuarão a ser instrutivos.
INTRODUÇÃO AOS NÚMEROS

   O quarto livro do Pentateuco recebeu o            serpente de bronze (21, 1-9); vitória sobre
nome de Números (em grego Arith-moi, que             os amorreus e conquista de Basan (21,10-
aqui tem o sentido de "recenseamentos") por          35).
causa dos "recenseamentos" (1,1-4,26), que             3a Parte. Na margem oriental do Jordão:
são próprios deste livro e que lhe dão a sua         cerca de cinco meses. A matéria desta
feição particular. Contém, além disso, alguns        parte, mais por ordem lógica do que por
fatos que se ligam imediatamente aos                 ordem do texto, pode ser assim agrupada:
acontecimentos narrados no Êxodo, e leis                1) Últimos encontros com os povos da
semelhantes às do Levítico. Pode ser dividido        Trans Jordânia; Balaão e seus vaticínios
facilmente, de acordo com os lugares e               (22-24); prostituição a Beelfegor (25);
tempos, em três partes: no Sinai (1,1-10,10);        guerra santa contra os ma-dianitas e leis
viagens através do deserto (10,11-21,35); na         sobre a divisão dos despojos (31); lista das
margem oriental do Jordão (22-36).                   etapas (33).
   1a Parte. No Sinai: disposições para a               2) Grupo de leis: herança (27,1-11),
partida: 20 dias.                                    festas e sacrifícios (28-29), votos (30).
   1) Recenseamento das tribos e respectivas            3) Disposições para a ocupação da
posições no acampamento (1-2).                       terra prometida. Segundo recenseamento
   2) Os levitas: seu destino e recenseamento        (26); nomeação de Josué (27,12-23).
(3); divisão por famílias e por ofícios (4).         Distribuição da Transjordânia (32); normas
   3) Leis:      banimento       dos      impuros,   para a ocupação e distribuição da
restituições, ciúmes (5), nazireato, bênção          CisJordânia (33,50-34,12); designação das
litúrgica (6).                                       cidades levíticas e de refúgio (35);
   4) Últimos fatos: donativos dos chefes das        disposições para manter inalterada a
tribos ao santuário (7), consagração dos levitas     primitiva distribuição (36).
(8), segunda Páscoa (9,1-14), sinais para a            A julgar pelo resumo, o presente livro
partida e para a parada, as trombetas (9,15-         compreende um período de cerca de trinta
10,10).                                              e oito anos e meio. Sobre a maior parte
                                                     desse período (os trinta e oito anos no
2a Parte. Viagem através do deserto:
                                                     deserto) narra-nos apenas uns poucos
   1) Do Sinai a Cades: partida e ordem de
                                                     fatos, mas muito notáveis pelo significado
marcha (10,11-36), murmuração do povo, as
                                                     religioso, como a serpente de bronze, a
codornizes (11), a lepra de Maria, irmã de
                                                     sedição de Coré, os vaticínios de Balaão, a
Moisés (12).
                                                     água brotada da rocha; fatos dos quais os
   2) Parada em Cades: missão dos doze
                                                     apóstolos no Novo Testamento tiraram
exploradores (13) e queixas do povo (14); leis       utilíssimas lições (ICor 10,1-11; Hebr 3,12-
sobre as oblações e primícias, sobre o sábado
                                                     19; Jo 3,14-15). No centro do drama
e os filactérios (15); sedição de Coré, Datan e
                                                     acham-se dois fatos semelhantes entre si,
Abirão, e sua punição (16) e confirmação do
                                                     duas sedições do povo contra Moisés,
sacerdócio na família de Arão (17); relações
                                                     executor das ordens divinas; a primeira
entre sacerdotes e levitas, emolumentos de
                                                     (14), originada pela repugnância em
uns e de outros (18); a água lustral (19);
                                                     empreender a conquista da Palestina; a
sedição do povo por falta de água (20,1-13).         segunda (20), por falta de água.
   3) De Cades ao Jordão: os edomitas negam          Conseqüência ou punição da primeira foi a
passagem pelas suas terras; morte de Arão            longa demora da nação inteira no deserto
(20,14-29); queixas do povo e castigo, a             da península sinaítica; a segunda deixou a
mais profunda impressão na consciência
nacional e na literatura posterior (cf. SI
80;94;105), envolvendo o próprio Moisés, que
por um instante duvidou da clemência divina e
por isso teve de deixar a outros o remate de
sua obra, a conquista de Canaã (cf. Dt 32).
   O livro dos Números é importante para a
literatura porque, entre outras coisas, nos
conservou fragmentos de antiquíssimos
cânticos populares (21; 23; 24), com a
indicação de coleções já existentes, como "o
Livro das guerras de Javé" (21,14), do qual não
se tem outra menção.
INTRODUÇÃO AO DEUTERONÔMIO

                                               (7), benefícios de Deus, censura da
O quinto e último livro do Pentateuco foi
chamado       Deuteronômio,        isto   é,   infidelidade anterior de Israel, promessas
                                               e ameaças (8-11). Leis especiais: 1)
"segunda lei", talvez porque assim tenha       Deveres religiosos. Unicidade do
sido traduzida, embora inexatamente
pelos LXX, uma frase hebraica em 17,18.        santuário e disposições relativas (12, 1-
                                               28); contra a apostasia (12,29-13-18);
No entanto, convém-lhe perfeitamente           alimentos e dízimos (14); ano da remissão
esse nome. O livro não é uma simples
repetição da legislação contida nos livros     (15); as três grandes solenidades anuais
                                               (16,1-17). 2) Direito público. Juízes
precedentes, mas além de leis novas,           (16,18-17,13),        rei      (17,14-20),
oferece complementos, esclarecimentos e
modificações às primeiras. É, de certo         sacerdotes (18,1-8), profetas (18,9-22);
                                               homicídio involuntário (19), guerra (20),
modo, uma segunda lei, promulgada no           homicídio por mão desconhecida (21,1-
fim da longa peregrinação dos israelitas,
paralela à lei dada no Sinai e destinada a     9). 3) Direito familiar e privado. Grande
                                               variedade; os pontos principais são:
regular mais de perto a vida do povo           matrimônio (21,10-14;22,13-23,1) e
escolhido, no solo da Terra Prometida à
qual eles estavam para chegar e dela           filhos (21,15-20), o divórcio (20,1-4),
                                               levirato    (25,5-10),      deveres     de
tomar posse definitiva. Não é, porém,          humanidade      (22,1-12;23,16-20;24,6-
simples      enumeração      de     leis   e
determinações; o que caracteriza esse          25,4), honestidade (25,11-19), votos
                                               (23,22-24), primícias e dízimos (26).
livro, o que lhe constitui a alma, é um
ardente sabor oratório. O hagiógrafo nos
faz ouvir um Moisés que exorta, encoraja,      3ª parte: 3o e 4o discursos: ordem de
                                               promulgar a lei em Siquém, maldições
invectiva; inculca a observância das leis, a   para os transgressores (27), ameaças e
começar dos grandes princípios morais;
apela para os mais poderosos motivos,          promessas (28). Exortação à observância
                                               da lei, com a recordação dos fatos
evoca a glória do passado, a missão            históricos, das promessas e das ameaças
histórica de Israel, os triunfos do porvir.
Na mente do autor sagrado temos o              (29-30).
testamento definitivo, que o grande guia e
legislador deixa ao povo de Deus às            4ª parte. Apêndice histórico. Últimas
vésperas da sua morte. Pelo estilo, o          disposições de Moisés, nomeação de
                                               Josué, seu sucessor (31); cântico de
Deuteronômio é um discurso, ou melhor,         Moisés (32), bênção das doze tribos (33),
vários discursos, dirigidos por Moisés aos
israelitas. Deduz--se daí a divisão do livro   morte de Moisés (34).
em quatro partes:
                                               Amor de Deus, beneficência, alegria no
                                               cumprimento do dever, eis as principais
1a parte: 1o discurso (14): olhar              características    do       Deuteronômio,
retrospectivo aos fatos acontecidos            princípios inculcados e repetidos com
desde a partida do Horeb até às últimas
conquistas da TransJordânia (1-3);             solicitude incansável. Por isso, perpassa-o
                                               um sopro ardente de sincera e profunda
exortação geral à observância da lei (4,1-     piedade para com Deus e uma ternura
40).
                                               simpática pelo homem, que edifica e
                                               comove. Há páginas que se aproximam da
2a parte: — 2o discurso: renovação da          sublimidade divina dos ensinamentos
lei 4,44-26,19). Princípios gerais: o
Decálogo (5), o culto e o amor ao único        evangélicos, mais do que quaisquer
                                               outras.
Deus verdadeiro (6), guerra à idolatria
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BIBLIA AVE MARIA

  • 1. INTRODUÇÃO GERAL A BÍBLIA. -- "Nós não sentimos necessidade de conceito e vocábulo esses tomados da própria apoios e alianças, tendo em mãos, para nosso Bíblia. conforto, os livros sagrados" (1Mac 12,9). Assim, O Antigo Testamento consta dos livros em 154 a.C, em nome de toda a nação, da qual seguintes, comumente agrupados em quatro era chefe, escrevia Jonatas Macabeu ao rei de classes: Esparta. Nessas suas palavras, já se apresenta V Pentateuco ou cinco livros de Moisés: o termo usual, o valor singular e o emprego Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, prático da obra cuja versão apresentamos. Do Deuteronômio. termo: os livros -- no texto grego um neutro 2° Livros históricos: Josué, Juízes, Rute, Reis, plural tà biblía -- em nossa língua, através do Crônicas, Esdras e- Neemias, Tobias, Judite, latim vulgar, formou-se o feminino singular: a Ester, Macabeus. Bíblia. 3? Livros didáticos ou poéticos: Jó, Salmos, Outros sinônimos, encontramo-los Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, freqüentemente na própria Bíblia: a Escritura ou Sabedoria, Eclesiástico (ou Sabedoria de Jesus, as Escrituras, as santas Escrituras, e mais filho de Sirac). raramente, as sagradas Letras. A Bíblia, 4° Livros proféticos: Isaías, Jeremias, portanto, não é um livro só, mas muitos, uma Lamentações, Baruc, Ezequiel, Daniel, os Doze coletânea, cuja unidade consiste no argumento profetas menores, isto é: Amós, Oséias, Joel, comum e na origem sobre-humana. Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, E de "livros santos" que a Bíblia se compõe, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias. porque dentro de sua grande variedade eles coincidem em tratar de religião, tendo um No Novo Testamento, o primeiro e mais objetivo essencialmente religioso. Com mais conspícuo lugar compete aos quatro razão ainda chamam-se "livros santos" ou Evangelhos: segundo Mateus, Marcos, Lucas, "sagrados" porque, como ensina a fé, tanto João. Seguem-se: um livro histórico, os Atos judaica como cristã, não foram escritos por mero dos Apóstolos; catorze epístolas de S. Paulo: talento humano, mas sob a influência de aos Romanos, duas aos Coríntios, aos Gálatas, inspiração divina especial. aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo, Ê desta origem sobrenatural que a Bíblia uma a Tito, a Filemon, aos Hebreus; sete recebe a sua dignidade de "livro por excelência" epístolas chamadas católicas, ou canónicas: e o seu lugar único na vida dos povos que uma de Tiago, duas de Pedro, três de João, tiveram o primado na civilização. Ela é, com uma de Judas; finalmente, um livro profético, o efeito, o fundamento e o alimento da fé para Apocalipse. todos os povos cristãos, e nenhum outro livro no O elenco oficial dos livros sagrados chama-se mundo pode ser a ela comparado, nem de cânon, no sentido de norma. Expusemos aqui o longe, seja pelo número de tiragens de edições, cânon católico, formado já no séc. IV nas cartas quer manuscritas, quer impressas, seja pela pontifícias e nos concílios provinciais da África, influência sobre a vida individual e pública, sobre sancionado depois solenemente pelos concílios a literatura e as artes figurativas. Qualquer fiel ecumênicos de Florença (1441) e de Trento sinceramente apegado à sua religião tem-na, por (1546) e confirmado pelo Concílio Vaticano I assim dizer, constantemente em mão, como (1870). Para a integridade do cânon não importa Jonatas o apontava, para nela encontrar a ordem dos livros, porque, exceto o primeiro conforto em todas as vicissitudes da vida. lugar reservado constantemente, no Antigo Testamento, ao Pentateuco e no Novo, aos DIVISÃO E NÚMERO DE LIVROS. -- CÂNON. -- Com Evangelhos, no restante diferem muito entre si o nome de Bíblia, pois, compreendem-se os os manuscritos, os autores, os catálogos oficiais livros sagrados da religião cujo centro é Jesus de igrejas e de seitas. Cristo. Partindo deste ponto de convergência, a Bíblia divide-se em duas séries desiguais, a primeira, anterior a Jesus Cristo, a segunda, posterior. A primeira chama-se Antigo Testamento, a segunda Novo Testamento,
  • 2. Os livros históricos mais extensos do Antigo babilónico (séc. VI a.C). Dois livros, o segundo Testamento, Samuel-Reis e Crônicas, na dos Macabeus e a Sabedoria, foram escritos antiquíssima versão grega (dos LXX, veja originariamente em grego. Dos livros de Judite, abaixo), por razões práticas foram divididos em Tobias, Baruc, Eclesiástico e parte também de dois; além disso, considerando Samuel e Reis Daniel e Ester, perdeu-se, como no caso do como uma obra só, chegou-se a contar 4 livros Evangelho de Mateus, o texto original, hebraico dos Reis e dois das Crônicas, costume esse ou aramaico, sendo substituído pela versão que se estendeu aos latinos e dura ainda em grega. parte entre nós. No texto hebraico, adotada Essas diferenças lingüísticas não deixaram de semelhante divisão, conhecem-se dois livros de exercer a sua influência sobre a extensão do Samuel, dois dos Reis, dois das Crônicas. cânon dos livros sagrados. Enquanto os judeus Esdras e Neemias são chamados também de disseminados no mundo greco-romano não primeiro e segundo de Esdras. Também dos tinham dificuldades em introduzir os livros Macabeus contam-se dois livros, que na redigidos em grego, os judeus da Palestina não realidade são duas obras perfeitamente queriam conformar-se com isso. Além disso, foi- distintas. Na Vulgata, a Carta de Jeremias se formando entre eles a opinião de que, depois constitui o último cap. (6?) de Baruc. Tudo bem de Esdras (séc. V a.C), faltando ou sendo incerto calculado, o Antigo Testamento consta de o dom profético (veja IMac 4,46; 14,41), nem quarenta e seis livros, o Novo, de vinte e sete. sequer admitiam pudessem ser escritos livros Por razões igualmente práticas, desde os inspirados por Deus. Por isso, quando nos fins primeiros séculos da nossa era, cada livro foi do séc. I d.C, os doutores da Sinagoga fixaram o dividido em seções de várias extensões, cânon das Sagradas Escrituras, foram excluídos conforme sistemas bastante diversos para até os livros escritos em hebraico depois daquela lugares e épocas. Para eliminar os época, como o Eclesiástico. Daí resultou um inconvenientes dessas antigas divisões e cânon hebraico em que faltam sete livros: facilitar o estudo uniforme, no início do séc. XIII, Tobias, Judite, os dois dos Macabeus, na Universidade de Paris, Estêvão Langton Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e a Carta de (depois cardeal) introduziu a divisão em Jeremias, e mais algumas partes de Ester e de capítulos de extensão mediana, que depois, Daniel. pela sua utilidade prática, propagou-se em O veredito dos doutores hebreus não deixou todas as escolas e em todas as edições, e é de repercutir na Igreja cristã. Enquanto no uso ainda hoje de uso universal, agora comum se difundia o cânon mais pleno, insubstituível. concretizado na versão dos LXX, empregada e Mais tarde, no séc. XVI, os mesmos capítulos recomendada pelos apóstolos, alguns escritores foram divididos em versículos numerados (por (Melitão de Sardes, Sto. Atanásio de Alexandria, Sante Pagnini, para o Antigo Testamento S. Gregório de Nazianzo, entre os gregos; Sto. [1528], por Roberto Estêvão, para o Novo Hilário de Poitiers, Rufino de Aquilêia e [1550]), tendo sido também essa numeração, principalmente S. Jerônimo, entre os latinos) pela comodidade das citações, aceita logo e adotaram o cânon mais restrito dos hebreus, e, perdura até agora em toda parte. Entende-se, devido à autoridade desses antigos doutores entretanto, que essas divisões são apenas de cristãos, toda hesitação entre os católicos não foi valor prático, não científico. eliminada senão pelo sagrado Concílio de Trento (1546). No entanto, em virtude de tais vozes LÍNGUAS ORIENTAIS E CÂNONES DIVERSOS. -- O discordantes da crença comum, chegou-se a Novo Testamento inteiro foi escrito em grego; fazer distinção entre "livros reconhecidos" só o Evangelho de Mateus, conforme (homologúmenos), admitidos por todos (os do testemunhos de antigos, teve uma primeira cânon hebraico), e "livros controversos" redação em aramaico, a qual, porém, se perdeu (antilogúmenos), não admitidos por todos, os oito sem deixar vestígios; em lugar dela temos uma acima enumerados, constantes do cânon cristão. tradução, ou melhor, uma redação grega. Na terminologia moderna, os primeiros se Quanto ao Antigo Testamento, temos três chamam protocanônicos, os segundos idiomas originais. A maior parte foi escrita e deuterocanônicos, ou seja, canónicos de chegou até nós em língua hebraica. Alguns primeira e de segunda época, à medida que a capítulos dos livros de Esdras e de Daniel, e um unanimidade a seu respeito foi alcançada logo versículo de Jeremias, estão em aramaico, que no começo ou só mais tarde. Entende-se, porém, foi o idioma falado na Palestina depois do exílio que, com esses vocábulos, não se queria
  • 3. distinguir o valor ou a autoridade das duas mesmo havemos de acreditar que os Livros da categorias de livros, e sim lembrar somente um Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem fato histórico e servir para maior brevidade e erro a verdade relativa à nossa salvação, que clareza no tratamento destas matérias. Deus quis fosse consignada nas sagradas Analogamente, no Novo Testamento, por outras Letras. Por isso, 'toda Escritura divinamente razões, porém, alguns livros nem sempre foram inspirada é útil para ensinar, para argüir, para admitidos, e nem em todas as Igrejas, entre as corrigir, para instruir na justiça: a fim de que o divinas Escrituras; tais como a Epístola aos homem de Deus seja perfeito, experimentado em Hebreus, a de Tiago, a segunda de Pedro, a todas as boas obras' (2Tim 3,16-17 gr.). segunda e terceira de João, a de Judas e o Apocalipse; aos quais, por isso, também se Mas como Deus na Sagrada Escritura falou aplicou a designação de deuterocanônicos, no por meio de homens e à maneira humana, o sentido explicado. intérprete da Sagrada Escritura, para saber o Tudo o que foi dito até aqui vale para os que Ele quis nos comunicar, deve investigar com autores católicos. Compreende-se que os atenção o que os hagiógrafos realmente hebreus rejeitem, em sua totalidade, o Novo quiseram significar e aprouve a Deus manifestar Testamento, além dos deuterocanônicos do por meio das palavras deles. Antigo. Os protestantes ocupam uma posição Para descobrir a intenção dos hagiógrafos, de meio termo. No Novo Testamento, depois devem-se ter em conta, entre outras coisas, das primeiras incertezas de seus fundadores também os 'gêneros literários'. A verdade é admitiram integralmente e sem distinção o proposta e expressa de modos diferentes, Cânon católico. No An-tigo Testamento, ao segundo se trata de textos históricos de várias invés, seguindo o cânon mais restrito dos espécies, ou de textos proféticos ou poéticos ou hebreus, rejeitam, como fora da série dos livros ainda de outros modos de expressão. Ê preciso, sagrados, sob o nome de "apócrifos", os que então, que o intérprete busque o sentido que o nós chamamos deuterocanônicos. hagiógrafo -- em determinadas circunstâncias, Para os católicos, os apócrifos são certos segundo as condições do seu tempo e da sua livros antigos, semelhantes a livros bíblicos, cultura -- pretendeu exprimir e de fato exprimiu quer do Novo, quer do Antigo Testamento, o usando os 'gêneros literários' então em voga. mais das vezes atribuídos a personagens Para entender retamente o que o autor sagrado bíblicas, mas não inspirados, como os livros quis afirmar por escrito, deve-se atender bem canónicos, e nem sempre escritos por pessoas quer aos modos peculiares de sentir, dizer ou fidedignas, nem de doutrina segura. Os narrar em uso nos tempos do hagiógrafo, quer apócrifos do Antigo Testamento .são chamados àqueles que na mesma época costumavam "pseudo-epígrafos" pelos protestantes. empregar-se nos intercâmbios humanos. Mas, como a Sagrada Escritura deve ser lida e INSPIRAÇÃO E INTERPRETAÇÃO. -- "As coisas interpretada com a ajuda do mesmo Espírito que reveladas por Deus, que se encontram e levou à sua redação, ao investigarmos o sentido manifestam na Sagrada Escritura, foram bem exato dos textos sagrados, não devemos escritas por inspiração do Espírito Santo. De atender menos ao conteúdo e à unidade de toda fato, a Igreja, por fé apostólica, considera como a Escritura, tendo em conta a Tradição viva de sagrados e canônicos os livros inteiros tanto do toda a6 Igreja e a analogia da fé. Cabe aos Antigo como do Novo Testamento, com todas exegetas, de harmonia com estas regras, as suas partes, porque, tendo sido escritos por trabalhar para entender e expor mais inspiração do Espírito Santo (cf. Jo 20,31; J2Tim profundamente o sentido da Escritura, para que, 3,16; 2Pdr 1,19-21; 3,15 --16), têm a Deus por graças a este estudo de algum modo autor e como tais foram confiados à própria preparatório, chegue a termo o juízo da Igreja. Igreja. Todavia, para escrever os Livros Com efeito, tudo quanto diz respeito à sagrados, Deus escolheu homens, que utilizou interpretação da Escritura está sujeito ao juízo na posse das faculdades e capacidades que último da Igreja, que tem o divino mandato e tinham, para que, agindo Deus neles e por meio ministério de guardar e interpretar a palavra de deles, pusessem por escrito, como verdadeiros Deus. autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele quisesse. Portanto, na Sagrada Escritura, salvas sempre a verdade e a santidade de Deus, manifesta-se a Portanto? como tudo quanto afirmam os admirável 'condescendência' da eterna autores inspirados ou hagiógrafos se deve ter Sabedoria, 'para nos levar a conhecer a inefável como afirmado pelo Espírito Santo, por isso benignidade de Deus e a grande acomodação
  • 4. que usou nas palavras, tomando desde as primeiras cópias até à invenção da antecipadamente cuidado da nossa natureza' imprensa (séc. XV), era moralmente impossível (S. João Crisóstomo). que dois exemplares de um mesmo livro, ao menos os mais extensos, fossem exatamente As palavras de Deus, expressas em línguas iguais, e Deus, que: preservou de todo erro os humanas, tornaram-se intimamente originais dos livros sagrados, não quis obrigar-se semelhantes à linguagem humana, como a milhares de milagres que seriam necessários outrora o Verbo do Eterno Pai, tomando a carne para que se conservassem intactas as cópias. da fraqueza humana, se tornou semelhante aos Bastava conservar inalterada a substância do homens". (Dei Verbum, 11-13). depósito da fé contido nos livros sagrados. E para tanto foi magnificamente providenciado, A inspiração bíblica, segundo o conceito como precisamente nos ensina a historia do católico, não é uma moção mecânica, nem um texto. ditado, como se o autor humano fosse passivo e nada de próprio assentasse no livro inspirado. Os textos originais da Bíblia, em particular os Não; a força inspiradora age no homem de do Novo Testamento, são comprovados por maneira digna dele, condizente com sua tamanha abundância e antigüidade de natureza de criatura inteligente e livre. Antes de documentos, que também sob o aspecto da tudo, a inspiração é uma luz intelectual, que, ou transmissão textual a Bíblia mantém o seu descobre ao homem aquilo que antes ignorava primado, o seu lugar eminente na literatura (e então tem-se a revelação), ou com novo mundial. Confrontada aos mais célebres esplendor lhe apresenta aquilo que já sabia. monumentos da literatura profana, tais como as Sob a sua ação, a inteligência humana não é obras-primas da literatura grega e latina, ela perturbada, não perde a consciência de si, brilha como o sol entre as estrelas. As obras de como afirmavam os antigos acerca dos oráculos autores gregos e latinos, não raramente, nos pagãos; pelo contrário, é mais do que nunca chegaram num único manuscrito, e as mais lúcida e inteligente. Nem a vontade é arrastada afortunadas gloriam-se de algumas dezenas à força contra a sua inclinação; antes, mais do deles; os manuscritos do Novo Testamento, que nunca livre, segue dócil e porém, contam-se às centenas e aos milhares. espontaneamente o impulso divino. A ação Deles possuímos ainda códices inteiros em inspiradora estende-se a todas as faculdades pergaminho, do século IV; com fragmentos de do homem, a todas as suas ações empregadas papiros podemos remontar aos séculos III e II, ao escrever, até à redação completa; mas a isto é, a menos de um ou dois séculos da morte todas e a cada uma toca e dirige segundo a dos autores, enquanto que para Cícero e Virgílio natureza de cada uma e segundo a parte que a distância das cópias mais antigas é de cinco tomam no trabalho complexo de escrever. Daí ou seis séculos, para Homero de um milênio e se segue que a inspiração não suprime nem mais. O testemunho da transmissão direta dos atenua a personalidade do escritor humano, e códices gregos é reforçado quer por nos vários livros da Bíblia pode-se ver refletida antiquíssimas versões -- já no séc. II, como a a índole e o estilo de cada autor. antiga versão latina --, quer pelas abundantes citações de escritores cristãos, a partir do séc. II. Ora, nesses antiquíssimos testemunhos TEXTOS E VERSÕES. -- "Todos os Padres e encontramos a máxima parte do texto das Doutores tiveram firmíssima persuasão" -- modernas versões. Verdade é que a própria escreve Leão XIII na citada encíclica quantidade de manuscritos (além de versões e Providentissimus -- "de que as divinas citações) ocasionou, pela razão já dita, um Escrituras, quais saíram da pena dos autores número proporcionado de variantes, ou seja, de sagrados, são inteiramente isentas de qualquer alterações; pretende-se que no Novo erro". Mas será que todas nos chegaram tais Testamento inteiro, em 150.000 palavras, haja "quais saíram da pena dos autores sagrados?" 200.000 variantes, mas na maioria são minúcias Nenhum autógrafo, nem sequer do último dos que não atingem absolutamente o sentido. autores inspirados, chegou até nós, como Ademais, a riqueza de documentação oferece à também o de nenhum escritor da antigüidade crítica meios mais eficientes para precisar o texto profana; só possuímos deles cópias remotas. original. Segundo o cálculo de juízes tão Ora, os copistas não tiveram a assistência do competentes como os críticos Westcott e Hort, Espírito Santo como os hagiógrafos, e enquanto sete oitavos de todo o Novo Testamento são copiavam à mão, era natural que se transmitidos, concordemente, sem variantes, por introduzissem no texto alterações de várias todas as testemunhas. Quanto às variantes, espécies. No longo período de 1500-3000 anos, somente a milésima parte atinge o sentido e só
  • 5. umas vinte assumem verdadeira importância. acima foi dito. Entra aqui o testemunho -- Nenhuma atinge a alguma verdade de fé. precioso pelo fato e pela época -- do neto do Auxiliados pela crítica textual podemos concluir, autor do Eclesiástico, o qual, no prólogo de sua com os supracitados críticos, que o texto tradução da obra do avô, assevera ter ido ao genuíno do Novo Testamento é assegurado não Egito pelo ano XXXVIII do rei Evérgetes (cerca só na substância, mas também em quase todos de 132 a.C.) e ali já ter encontrado traduzidos os minuciosos particulares. em grego, a Lei (Pentateuco), os Profetas e os Quanto ao Antigo Testamento, as coisas outros Escritos, isto é, as três partes em que os apresentam-se um pouco diversamente. Antes judeus dividem a sua Bíblia, das recentes descobertas junto ao mar Morto Assim, a versão grega dos LXX tem para nós (1947), os códices hebraicos conhecidos, não valor de um manuscrito hebraico do séc. III a.C. anteriores aos séculos VIII-X d.C, dependiam ou mais antigo, representando um tipo de texto todos de uma recensão ou arquétipo do fim do sensivelmente diferente, como o demonstra um séc. I d.C, posterior, portanto, a cinco ou mais confronto com o texto corrente na Palestina. Ela séculos dos originais. Dessa fonte temos o texto é para nós, portanto, o instrumento principal para consonântico, isto é, só as consoantes das a emenda crítica do texto hebraico. È, contudo, palavras hebraicas, segundo o uso das línguas um instrumento de emprego freqüentemente semíticas, de não escreverem as vogais. delicado. Além de, por causa das divergências Somente por volta do séc. VII d.C, para facilitar dos tradutores, alguns literais e até servis, outros a leitura e para uso didático, foram inventados mais livres, não termos um critério geral para os sinais vocálicos e inseridos no texto, quando remontar da tradução grega ao original hebraico, o hebraico tinha cessado há séculos (pelo séc. o próprio texto dos LXX, através de tantas IV a.C), de ser idioma falado. No longo período vicissitudes de séculos, chegou-nos em do séc. I ao X d.C, o texto hebraico foi objeto manuscritos com tão grande número de dos mais minuciosos e diligentes cuidados da variantes que nem sempre é fácil, entre essa parte dos rabinos, chamados massoretas (de selva de variantes, descobrir o texto genuíno. massorá = tradição). Ê ao trabalho infatigável Causaram enorme confusão, sem o querer, deles que se deve a conservação inalterável do três recensões feitas no séc. III e difundidas texto e dos manuscritos tão uniformes que não largamente na Igreja grega. Um século depois, apresentam senão raríssimas variantes e de um ótimo perito e testemunha ocular dos fatos, leve monta. Também as antigas versões, com S. Jerônimo (Prefação às Crônicas) escreve: uma só exceção, quer as gregas do séc. "Alexandria com todo o Egito, nos seus LXX II (Áquila, Símaco, Teodocião, dos quais louva a obra de Hesíquio; de Constantinopla até contudo não nos chegaram senão fragmentos), Antioquia usam-se os exemplares do mártir quer a siríaca, chamada Pechitta, o Targum Luciano; as províncias situadas entre essas duas aramaico (também chamado paráfrase regiões lêem os códices palestinenses, caldaica), e a latina de S. Jerônimo, sendo elaborados por Orígenes e divulgados por todas posteriores à recensão do séc. I, e dela Eusébio e Pânfilo; de modo que todo o orbe se dependentes raras vezes supõem forma diversa debate entre esta tríplice variedade". Felizmente do texto hebraico normal (massorético). nos foi conservado em poucos manuscritos, Tanto mais preciosa, em tais circunstâncias, sobretudo no famoso Vaticano 1209 (assinalado é para nós a antiga versão grega, feita no Egito com a sigla B), um texto anterior àquelas (mais exatamente, em Alexandria, motivo por recensões e por elas tomado por base, o que que também é chamada "alexandrina") entre os facilita o trabalho do crítico em busca da forma séc. primitiva. III e II a.C Considerada até os tempos Todavia, o exame atento e consciencioso nos modernos como obra coletiva de setenta e dois revela que também o texto hebraico usado pela doutos hebreus vindos para isso de Jerusalém, vetusta versão grega já estava bem afastado da a pedido de Ptolomeu Filadelfo (285-247 a.C), primitiva pureza e integridade, e que a maioria como narra uma pseudocarta de Aristéia, das alterações agora deploradas no texto continua ainda a chamar-se a versão dos massorético, já existiam nos séculos imediatos Setenta ou os Setenta (LXX). Na realidade, ao exílio babilónico. Faltando o apoio dos LXX como mostra o exame interno, os tradutores para emendar um texto corrompido, não nos foram muitos, traduzindo quem este, quem resta senão o recurso à crítica interna, ou seja, à aquele livro, em épocas diversas, até que, reconstituição conjetural. A legitimidade e a reunidas as traduções, formou-se um A. medida da aplicação destes critérios no Antigo Testamento totalmente grego, mais amplo do Testamento, provam-nos alguns capítulos que, que o hebraico massorético, segundo o que nos próprios livros canónicos, nos foram
  • 6. transmitidos em dois exemplares diversos. falando, seja sinônimo da versão de S. Jerônimo, Como., por exemplo, o salmo 18 (Vulgata 17), denominando-se o todo pela parte principal e reproduzido em 2Rs 22 e, no próprio Saltério, o mais extensa. salmo 14 (Vulgata 13) repetido com o número 53 (Vulgata 52). So tocante ao Pentateuco, O VALOR DA VULGATA. -- Entre os tradutores além disso, temos como reforço o texto antigos da Bíblia, S. Jerônimo foi o último no conservado entre os samaritanos, pertencente a tempo, embora o primeiro pelo mérito: não só um tipo mais antigo que o massorético, por se ter podido valer dos trabalhos dos seus abstração feita de certos acréscimos e antecessores, mas sobretudo porque, pela adaptações em favor do culto deles no monte prática constante, adquiriu domínio tal das Garizim (veja Jo 4,20). O arcaísmo do línguas bíblicas (hebraico, aramaico, grego), que Pentateuco samaritano reflete-se até na forma entre os antigos cristãos não se conhece igual. de, escritura que eles ainda adotam. Trata-se Acrescente-se um conhecimento igualmente dum descendente direto da primitiva escrita único da literatura exegética, tanto judaica como hebraica, mais próxima das origens fenícias (e cristã. Com uma bagagem de cultura literária portanto também de nosso alfabeto), do que o incomum, com ótima preparação e excelentes alfabeto em uso há séculos entre os hebreus. critérios, pôs mãos. ao árduo trabalho. Começou De fato, a hodierna escrita hebraica (chamada, por corrigir (em Roma, em 384, a convite do pela forma geral das letras, quadrada) deriva do papa S. Dâmaso) os Evangelhos latinos, ramo aramaico do alfabeto adotado por eles na auxiliado para isso pelos melhores códices época persa (cerca do séc. V a.C.) em lugar da gregos. Transferindo-se depois para a Palestina antiga, na qual anteriormente foram escritos os (386), com o intuito de levar uma vida de livros sagrados. No exame crítico do texto ascetismo e de estudo, estendeu o mesmo original, esta mudança de alfabeto deve ser trabalho de paciente revisão, baseado no original levada em conta. Ê o primeiro estudo a ser feito grego, aos livros do Antigo Testamento; mas, por todo bom tradutor ou intérprete da Bíblia, tendo terminado uma parte deles, sobretudo os como de qualquer outro livro: certificar-se da Salmos, que passaram depois à Vulgata, leitura genuína, isto é, das palavras exatas compreendeu que prestaria um serviço muito escritas pelo autor. "O primeiro cuidado de melhor à Igreja, fazendo uma nova versão quem quer entender a divina Escritura diretamente do texto hebraico. E sem esmorecer [sentencia Sto. Agostinho no seu magistral De diante das ingentes dificuldades, e sem se Doctrina Christiana, 1. II, c. 21] deve ser o de cansar no longo e áspero caminho, a ela se corrigir os códices". Traduzido em linguagem dedicou com admirável constância pelo espaço moderna pelo Pontífice Leão XIII, na encíclica de uns quinze anos, de 390 a 404, até o Providentissimus Deus, este preceito soa acabamento feliz da obra. Não traduziu os livros assim: "Examinada com todo cuidado a leitura pela ordem que têm no cânon. Começou com os genuína do texto, quando for o caso, passar-se- livros de Samuel, aos quais antepôs o conhecido á a sondar e expor o sentido" do texto sagrado. Prólogo galeato, que é como que o programa de toda a sua versão. Passou depois aos Salmos, A VULGATA, -- Vulgata, por antonomásia, aos Profetas, a Jó, a Esdras e às Crônicas, aos chamase a versão latina em uso na Igreja três livros atribuídos a Salomão (Provérbios, latina. Ela é, em sua máxima parte, obra de S. Ecle-siastes, Cânticos). Em seguida, passando Jerônimo, doutor da Igreja (cerca de 350-420), para o início, pôs mãos ao Pentateuco, e pois resulta da união de três categorias de prosseguindo por Josué, Juízes e Rute, terminou livros: V livros que ele traduziu diretamente do com Ester. Não traduziu todos os livros com a texto original: todos os protocanônicos do mesma aplicação. Com maior cuidado traduziu e Antigo Testamento, com exceção dos Salmos, corrigiu (como se exprime ele mesmo) os mais Tobias e Judite; 2°- os livros de uma antiga primeiros livros, isto é, Samuel e Reis; os três versão latina por ele revista e corrigida à luz do livros ditos de Salomão concluiu-os em apenas texto grego: os Salmos, do Antigo Testamento; três dias; o de Tobias, num dia; o de Judite, ao certo os Evangelhos e provavelmente o numa noite. Destas e de outras causas resulta restante do Novo Testamento; 3° cinco certa desigualdade entre os vários livros, e deuterocanônicos do Antigo Testamento, que também na unidade fundamental da versão. Em tinham ficado na antiga versão latina, não geral, tendo-se formado uma idéia clara do que tocados por S. Jerônimo, a saber: os dois dos queria dizer o autor sagrado, procurou produzi-la Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc com a mesma clareza em latim, cuidando mais (com a Carta de Jeremias). Não é, portanto, do sentido do que da letra, sem menosprezar a inexato dizer que o termo Vulgata, comumente exigência da boa latinida-de. Guiado por esses
  • 7. critérios, conseguiu imprimir à sua tradução, de primeiros passos para uma edição crítica da modo geral, uma propriedade de sentido e uma Vulgata; no entanto, outros a corrompiam ainda beleza de expressão tais, que só se apreciam mais, corrigindo-a a bel-prazer com o texto plenamente quando comparadas com as hebraico; outros ainda mais radicalmente, versões rivais gregas ou latinas, em geral segundo o caminho aberto pela reforma rudemente literárias e bárbaras e, portanto, protestante, a repudiavam. Estes fatos também obscuras. Todavia, também S. motivaram a intervenção do Jerônimo, especialmente nos primeiros livros Concílio de Trento na importante questão. traduzidos, às mais das vezes por veneração à Na sessão IV (8 de abril de 1546) o Tridentino, palavra divina, não se afasta de um duro depois de haver definido o cânon das divinas literalismo e por amor à clareza não foge de Escrituras, como dissemos, para enfrentar as termos e construções vulgares; nos seus desordens introduzidas no uso dos livros escritos originais brilha muito mais pela sagrados, decretou que a Vulgata, venerada pela linguagem e pelo estilo. antigüidade e pelo uso diuturno da Igreja, fosse considerada versão autêntica e, além disso, VICISSITUDES E ESTADO ATUAL. -- Ás traduções fosse impressa com a máxima correção. A de S. Jerônimo não encontraram imediatamente execução da segunda parte deste decreto, isto é, no mundo latino a acolhida que mereciam. A a edição correta da Vulgata, foi confiada pelo propagação, devido em parte às dificuldades da próprio Concílio à Santa Sé. Os Sumos época, foi lenta, mas em constante progresso, Pontífices, desde Pio IV até Clemente VIII, de sorte que dois séculos depois Sto. Isidoro de nomearam para esse fim quatro comissões Sevilha (+ 636) pôde escrever que ela já estava sucessivas, cujos trabalhos, não obstante as em uso em toda a Igreja do Ocidente, e mais numerosas dificuldades e várias vicissitudes, tarde o renascimento carolíngio consagrou-lhe terminaram com a edição oficial vaticana que, definitivamente o triunfo sobre as antigas sobre a base lançada por Sixto V, foi publicada versões latinas. Formou-se assim, entre o séc. por Clemente VIII em 1592, chamando-se, por V e o IX, a versão que, propriamente é isso, sixto-clementina; a essa, a qual se chamada Vulgata: fundo jeronimiano com seguiram outras duas reedições vaticanas em algumas partes da antiga latina, como 1593 e em 1598, tiveram que se conformar todas evidenciamos acima. No curso dos séculos, as edições subseqüentes em qualquer parte do porém, transmitindo-se em exemplares mundo, até aos nossos dias. manuscritos, perdeu, ora mais, ora menos, da sua primitiva pureza, seja por causa dos A autenticidade da Vulgata, primordial decreto copistas, seja por infiltrações de antigas Tridentino, foi muitas vezes mal compreendida. versões. Não faltaram, de vez em quando, Antes de tudo, com este privilégio conferido à doutos e zelosos varões para opor-se à invasão Vulgata, de ser a única versão autêntica, o corruptora, emendando o texto corrente a fim de Concílio não entendeu colocá-la acima dos reconduzi-lo à primitiva integridade. Digna de textos originais, nem diminuir o valor intrínseco memória pelo valor dos resultados e pela das outras versões, sobretudo das antigas, mas influência eficaz a revisão efetuada por Alcuíno também das modernas, como declaram (801), ordenada por Carlos Magno. Mas nem expressamente as atas do concílio. O decreto sequer esta escapou à rápida degeneração, põe diante da Vulgata somente as outras nem impediu que se formassem outros tipos de versões em língua latina; o resto (seja texto, textos, sobretudo na Espanha e na Itália. sejam versões em outras línguas) não é Quando, no séc. XIII, afluíam à Universidade de alcançado pelo decreto. Em relação às versões Paris estudantes de toda a Europa, trazendo latinas afora a Vulgata, portanto, o decreto é cada qual o seu texto bíblico, sentiu-se a negativo; não lhes confere o valor reservado à necessidade, para uso escolar, de uniformizar Vulgata, mas não as rejeita nem as condena. os textos muitas vezes discordantes entre si; e Todo o peso do decreto, portanto, se concentra isso foi feito, enxertando-se sobre o fundo sobre o caráter positivo reconhecido à Vulgata; alcuiniano as variantes dos outros. Originou-se de autêntica. daí um texto de valor discutível que, todavia, graças à enorme influência exercida pela célebre Universidade, teve grande sucesso e AVE-MARIA propagou-se por toda a "Europa, primeiro em A Bíblia “Ave Maria” é uma versão da Bíblia cópias manuscritas, e depois, inventada a arte cristã publicada pela Editora Ave Maria em tipográfica, também nas edições impressas. Só 1959, traduzida do grego e hebraico, por monges na primeira metade do séc. XVI deram-se os beneditinos de Maredsous (Bélgica). Foi
  • 8. considerada uma das melhores traduções do mundo na época e em sua primeira edição teve uma tiragem de 42.000 exemplares. É uma das traduções mais populares no Brasil. Com poucas notas de rodapé, tem uma linguagem coloquial, porém sem prejuízo para a compreensão dos aspectos históricos e culturais. Na década de 50 publicaram a Bíblia católica do Brasil, cuja tradução, supervisionada pelo frei João José Pedreira de Castro, vice- presidente da LEB – Liga de Estudos Bíblicos – e fundador do Centro Bíblico de São Paulo, foi feita a partir da versão francesa dos monges beneditinos, de Maredsous, Bélgica, uma tradução direta do hebraico, grego e aramaico. Com uma linguagem popular, que tornou sua leitura bastante acessível, a Bíblia Ave-Maria encontra-se agora ONLINE!
  • 9. ANTIGO TESTAMENTO Nos relatos do Antigo Testamento por exemplo, de quem narra os presenciamos a história do povo hebreu pormenores do adultério e do homicídio durante quase dois mil anos, desde a (2Sam 11). Mas ao lado do escândalo vinda de Abraão à Palestina até a aparece a correção. Que há de mais instalação da dinastia dos Hasmoneus edificante do que a santa ousadia de (cerca dos séc. XX-II a.C): história essa em Natan em lançar à face de seu soberano conexão, ora maior ora menor, ora direta o duplo delito, do que o arrependimento ora indiretamente, com a dos povos e a humilde confissão de Davi, o perdão vizinhos, sobretudo dos grandes da culpa, seguido da execução dum impérios, entre os quais a Palestina jazia castigo da parte de Deus? (2Sam 12). como ponte: ao sul, o Egito; ao norte, Outras vezes o pecado é censurado mais sucessivamente, Babilônia, a Assíria, a abertamente (Gên 38,9-10). Só os Pérsia e a Síria. Constituíam eles outros fariseus poderiam escandalizar-se com tantos centros de civilização, que se tais narrativas, motivos de ensinamento! irradiava entre os povos submetidos ou Além disso, quão poucos são eles em vizinhos, formando uma vasta unidade comparação com tantos exemplos de cultural. No meio dessa civilização nobres virtudes! São apenas sombras comum movia-se o povo de Israel, humanas a dar maior realce às luzes sofrendo a sua influência. Nas artes e na divinas da história sagrada. As não indústria, Israel jamais desenvolveu uma poucas cenas de sangue que ela relata, civilização própria; ficou devedor ao não passam dum reflexo daqueles estrangeiro, como também a sua língua e tempos rudes e ferozes. Também os literatura trazem o cunho da origem anais de outros povos orientais estão comum ou do prestígio de outros povos repletos delas, distinguindo-se os dos socialmente mais evoluídos. No entanto, hebreus até por um maior senso de a ausência de originalidade e humanitarismo; os reis de Israel gozavam independência de civilização material, de fama universal de clemência (lRs põe em muito maior relevo o valor das 20,31). instituições religiosas e morais, A relativa brandura dos hebreus elementos básicos da civilização genuína derivava da legislação que Deus lhes dera e completa que foram glória exclusiva por intermédio de Moisés. A pena de desse povo eleito. morte é aplicada mais raramente do que no código de Hamurabi, e quase só por VALOR DA INTERPRETAÇÃO. — O Antigo meio de apedrejamento. Reconhece a lei Testamento é uma obra de talião, em voga nos costumes dos verdadeiramente divina porque inspirada povos, mas a mitiga (Êx 21, 23125.28- por Deus e porque nos apresenta, pode- 32). Assim em outras asperezas se dizer, em cada uma de suas páginas, a (vingança do sangue) ou relaxamento de ação de Deus sobre os homens. Ao costumes (poligamia, divórcio) a lei, mesmo tempo, porém, é uma obra encontrando costumes inveterados e profundamente humana, porque não podendo desarraigá-los totalmente, destinada aos homens, fala uma intervém para os refrear e regulamentar linguagem humana e nos apresenta, na (cf. Mt 19,8). Doutra parte, impõe os sua história, os homens tais quais são, deveres de humanitarismo também para com suas deficiências e rebeldias contra com o próprio adversário (Êx 23,4-5) e os desígnios divinos. Não costuma estabelece a medida da mútua encobrir as faltas dos seus heróis; Davi, benevolência, com o preceito: "Amarás o
  • 10. teu próximo como a ti mesmo" (Lev fatos históricos e às pessoas desse 19,18), donde a norma: "Não faças aos "drama" divino, que no Novo outros o que não te agrada" (Tob 4,16). Testamento recebem a sua conclusão. Os Para com os estrangeiros, as viúvas, os apóstolos e o próprio Jesus (Mt 12,40; órfãos, em suma, os mais necessitados, Jo3,14;6,32) indicaram-nos algumas recomenda considerações especiais (ÊX dessas imagens antecipadas que, a 22,21-23; Dt passim). Muitas vezes o exemplo de S. Paulo, costumam chamar- próprio Deus, especialmente pela se tipos ou figuras; o objeto por elas pregação dos profetas, faz-se seu vislumbrando chama-se antítipo ou advogado e protetor. Contra o abuso da figurado. Daí se segue que no Antigo escravidão, praga da sociedade antiga, a Testamento, além do sentido das lei mosaica, além de múltiplas restrições palavras chamado verbal ou literal, há (Êx 21,1-11; Lev 25,39-45; Dt 15,12-18), que reconhecer um sentido das coisas, já defende o princípio de igualdade dos chamado real ou típico, e às vezes menos homens perante Deus (Lev 25,42). Nada felizmente, místico e alegórico. Entre disso se encontra em outros códigos estas duas categorias de sentido há orientais, sem falar na genuína doutrina conexão, mas ao mesmo tempo grande religiosa, própria do Antigo Testamento, diferença. O sentido literal (que pode ser que também ê fator autêntico de próprio ou impróprio, isto é, metafórico) verdadeira civilização. Por outro lado, as não pode faltar em nenhum dito da suas mais nobres eminências o Antigo Escritura e acha-se freqüentemente sem Testamento as atinge nos seus profetas, o típico, do qual é fundamento figuras grandiosas de poetas e de heróis. necessário. O típico, ao invés, jamais Em comparação com a sublime pode disjungir-se do literal e não existe doutrina evangélica, a lei antiga, em toda parte, mas tão-somente onde evidentemente, é bem imperfeita; para há verdadeira semelhança e relação com aqueles tempos e povos antigos, porém, algo de análogo no Novo Testamento. era uma lei santa, que trazia em si os A autêntica originalidade do Antigo germes de um pleno aperfeiçoamento. Testamento consiste na sua doutrina Era uma instituição religiosa preparatória religiosa e moral, cujo centro ocupa-o a para um regulamento definitivo, que idéia do monoteísmo. Na expressão devia ser trazido pelo Messias, por Cristo. artística do pensamento, porém, não S. Paulo, com razão (Gál 3,24), comparou difere muito dos produtos das línguas e a lei mosaica ao pedagogo, que conduz literaturas irmãs, em particular da os discípulos à escala do Mestre, de acádica e da fenícia (ugarítica). A língua Cristo. As próprias falhas do Antigo hebraica, bastante parca de conjunções Testamento levavam a desejar o Senhor subordinativas, costuma exprimir-se em e Salvador, cujo advento fora anunciado proposições breves coordenadas com a pelos profetas. simples aditiva: e . . . e . . . Resulta daí Observa-se, puis, um progresso vital certa dureza e monotonia, sobretudo na do Antigo ao Novo Testamento, como do parte narrativa, que as versões modernas embrião que se desenvolve num devem atenuar, ligando e construindo à organismo perfeito. Deste caráter do nossa maneira usual. Antigo Testamento e desta sua relação O estilo hebraico é imaginoso e com o Novo, deriva uma conseqüência concreto; exprime-se com metáforas importante para a sua correta ousadas e imagens exuberantes, interpretação, pois as suas instituições apresentando as coisas abstratas e deviam ter alguma semelhança com as espirituais com termos realistas capazes do Novo; eram as suas imagens de chocar nossos costumes e gostos mais antecipadas. Analogamente quanto aos refinados. Em particular fala de Deus e
  • 11. de suas ações em termos de atividade leitor não se admire disso, nem se deixe humana: mãos, olhos, ouvidos levar a erro. Sob a aparência muitas (antropomorfismo), ficar sentido, vezes áspera, oculta-se sempre um comover-se, arrepender-se pensamento nobre e puro. (antropopatismos), e semelhantes. Que o
  • 12. O PENTATEUCO O primeiro lugar de ordem e de honra antiga e para a história especial do povo entre os livros do Antigo Testamento hebreu. ocupa-o aquele que os gregos chamaram Quem ê o autor do Pentateuco? Desde Pentateuco, isto é, obra em cinco tomos. a mais remota antigüidade foi Para os hebreus é a "tora", ou seja, a lei, considerado seu autor o próprio Moisés, nome tomado da matéria central. o protagonista dos últimos quatro livros. Também os hebreus o dividiram nos Já nos livros posteriores da Bíblia citam- mesmos cinco livros que os gregos, se-lhe várias sentenças com a fórmula: distinguindo--os com a palavra inicial. Nós "Está escrito na lei de Moisés", ou "no usamos exclusivamente os nomes livro de Moisés", ou "no volume da lei de impostos pelos gregos, que de maneira Moisés". Assim, para não falar do livro de graciosa lhes caracterizaram o conteúdo: Josué, que é a continuação imediata e Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, como que o complemento do Pentateuco Deuteronômio. De jato, o Gênesis narra (Jos 8,31;23,6), em lRs 2,3; 2Rs 14,6; as origens do universo e do gênero 2Crôn 23,18;25,4;35,12; Esdr 3,2;6,18; Ne humano até à formação paulatina do 8,1; 10,34; 13,1; Bar 2,2; Dan 9,11 etc. Os povo de Israel na sua estada no Egito. O Evangelhos nos apresentam a convicção Êxodo narra a saída dos israelitas do de que Moisés é autor da lei, difundida e Egito, conduzidos por Moisés aos pés do radicada entre os judeus; o próprio Jesus, Sinai, para aí receberem de Deus a sua lei bem como os apóstolos admitem-na e a religiosa e civil e se constituírem, por confirmam (veja Mt 8,4; Mc 12,26; Lc meio de um pacto sagrado 20,37; Jo 5,46; At 3,32;15,21; Rom 10,5 ("testamento"), em peculiar "povo de etc.). Entre as testemunhas eloqüentes da Deus (Javê)". O Levítico regula o culto fé judaica figuram Fílon, José Flávio, e religioso à maneira de ritual, dirigido com maior crédito e ressonância o especialmente aos levitas, que formavam Talmud (tratado Baba batra, f. 14,15); o clero consagrado ao serviço do entre os cristãos, os Padres da Igreja são santuário. Os Números recebem o nome unânimes em reconhecer Moisés autor dos recenseamentos do povo contidos na do Pentateuco. primeira parte, estendendo-se, depois, Não contraria essa atribuição o fato de em referir fatos e providências legislativas que de Moisés se fale sempre em terceira correspondentes a cerca de quarenta pessoa; Xenofonte e Júlio César (para anos de vida nômade no deserto da falar só em nomes célebres), fizeram o península sinaítica. No Deuteronômio, ou mesmo. Nem suscita a menor dificuldade segunda lei, emanada pelo fim da jornada a grande antigüidade de Moisés (cerca do no deserto, Moisés retoma a legislação século xiv a.C), pois agora sabemos por precedente para adaptá-la às novas documentos originais recentemente condições de vida sedentária, em que o descobertos, que naquela época, não só a povo viria a se encontrar com a conquista escrita já era conhecida desde séculos, iminente da Palestina. mas até o próprio alfabeto fenicio- Neste rápido apanhado aparece num só hebraico já fora inventado. Nem lance tanto a unidade como a variedade derrogam esta convicção universal a do Pentateuco, bem como a sua opinião de alguns, já na Idade Média, de importância fundamental para a religião que um outro trecho breve, como os oito
  • 13. últimos versículos do Deuteronômio, que de Esdras (século v a.C). Com tais narram a morte de Moisés, tenha sido conclusões, nada mais resta a Moisés do acrescentado mais tarde ao Pentateuco. Pentateuco, exceto um ou outro Só nos tempos modernos é que surgiram fragmento, como o Decálogo (Êx 20), dúvidas e negações radicais. incorporado pelos primeiros A partir do século xvin vem-se fazendo colecionadores das antigas memórias (J E) pesquisas perspicazes em três sentidos: à própria obra. composição, autor, idade do Pentateuco. Esta teoria, que se estriba, em boa A composição: é fruto ou não da união de parte, no princípio filosófico da evolução vários documentos ou de mais escritos aplicado à religião e à história do povo originariamente distintos? O autor: de hebreu, se bem que tenha encontrado a quem são as partes individuais ou os maior aceitação entre os protestantes, documentos, quem as reuniu num todo, teve na própria Alemanha, fortes ou seja, de quem é a redação definitiva opositores entre os críticos de primeira do atual Pentateuco? A idade: quando ordem, especialmente no que concerne viveu cada um dos autores e redatores? às datas atribuídas aos supostos São três questões distintas entre si, mas documentos, que, se na verdade é o tão conexas que podem e habitualmente ponto mais revolucionário, é também o são tratadas como um tema comum: a mais vulnerável de todo o sistema. Para questão mosaica. Para responder a tais desmenti-lo neste ponto, surgiram no questões elaboraram-se, no século xix, século xx novas escolas; novas vários sistemas; mas prevaleceu sobre orientações emergiram do solo, com as todos, no fim do século, o defendido por escavações no Oriente, importantíssimos K. H. Graf (1866) e aperfeiçoado por J. documentos, tais como o código de Wellhausen (1876-78). Ele distingue no Hamurabi, rei de Babilônia, os arquivos Pentateuco quatro autores ou escritores dos heteus, ou hititas, em Bogazkõy, na diferentes: dois narradores denominados Ásia Menor, e os poemas ugaríticos pelo uso diferente do nome de Deus, um descobertos em Ras Shamra, no litoral da ¡avista (abreviado }), o outro eloísta (E), Síria, para só mencionar os principais. Eles aos quais se deve a maior parte dos fatos trazem à luz costumes, instituições e ritos referidos no Gênesis, Êxodo, Números; análogos aos do Pentateuco de tempos um deuteronomista (D), autor quase até mais antigos de Moisés, e que os exclusivo do Deuteronômio; e um tratado críticos julgavam próprios de época mais presbiteral (P) ou código sacerdotal, que recente, e nos revelam fatos que se compreende todo o Levítico e muitas refletem na vida dos patriarcas (Gên 12, partes narrativas de Gênesis, Êxodo e fim), com matizes que poucos séculos Números. Esses os documentos. Para as atrás teria sido impossível imaginar. respectivas datas, segundo a supracitada Conseqüentemente, a brilhante escola, o código sacerdotal (P) seria concepção arquitetada por Wellhausen posterior ao profeta Ezequiel (primeira acha-se em plena dissolução. Resiste metade do século vi a.C), o Deuteronômio ainda tenazmente a análise teria sido composto pouco antes da documentária, ou seja, a distinção de reforma religiosa de Josias, ou seja, pelo quatro (ou mais) fontes, de cuja fusão ano de 621 a.C, o eloísta e o ¡avista teria resultado o Pentateuco. seriam mais antigos (século viu e ix). A Remetendo, para mais amplas união de todos esses escritos no atual explicações, a tratados especializados de Pentateuco ter-se-ia realizado no tempo introdução bíblica, ou a comentários mais
  • 14. desenvolvidos, exporemos aqui os fatos Eloim 6 Javé. Na tradução, a Vulgata nem objetivos, sobre os quais se quer sempre conserva a distinção. fundamentar a prova da estrutura O emprego alternado dos dois nomes compósita do Pentateuco, para indicar divinos não é casual; nem é sem motivo depois uma via de solução, e mostrar que cessa em Êx 6, predominando depois como esses fatos, quando reduzidos ao quase exclusivamente Javé; isso está seu justo valor, não impedem que Moisés manifestamente em relação com o que aí possa ser verdadeiramente chamado se lê; às gerações precedentes Deus se autor do Pentateuco. A exposição que revelava como Sadai, pois desconheciam segue auxiliará o leitor a formar-se uma o nome sagrado de Javé, revelado pela compreensão mais clara destes livros. primeira vez a Moisés (veja também Êx Nomes divinos. — Para exprimir a idéia 3,13-15,). Compreende-se, pois, porque de Deus, a língua hebraica dispõe de nas narrativas precedentes o nome usado muitos termos. O mais freqüente (1.440 seja Eloim. Mas, como explicar a presença vezes no Pentateuco, mais de 6.800 em de Javé em tantas partes do Gênesis? toda a Bíblia) é "Javé" (ou "Jeová", Depois de Astruc viu-se aqui a prova segundo uma pseudo pronúncia tangível de duas fontes ou dois autores introduzida entre os séculos xvi e xix), diferentes, chamados um eloísta (sigla E), nome próprio, pessoal. " 'Elohim" (975 outro javista (sigla J). Veremos se com vezes no Pentateuco, cerca de 2.500 na razão. Bíblia) é nome de natureza, como se Língua e estilo. — No entanto, estão já disséssemos: a divindade; todos concordes que o argumento dos gramaticalmente plural (a forma singular, nomes divinos, por si só, não é suficiente " 'eloah", é poética e existe só 2 vezes no para se distinguirem solidamente fontes Pentateuco), quanto ao sentido é singular ou autores. Este argumento por isso é "El", de igual valor, mas arcaico e poético, acompanhado de provas subsidiárias. 46 vezes no Pentateuco; " 'Adonai" = Com efeito, observam eles, à alternação Senhor, 17 vezes; "Saddai" = o dos nomes divinos acha-se associada a e Onipotente (?), 9 vezes; " Elion" = o semelhantes mudanças de vocábulos e Altíssimo, 6 vezes. À questão mosaica construções. Por exemplo, o ato criador interessam principalmente os dois em Gên 1 exprime-se com "bara' ", em 2 primeiros. Foi observado (e o primeiro a com "yasar"; os habitantes da Palestina dar pelo fato foi o médico católico francês antes dos hebreus são chamados (í Jean Astruc em 1756) que no Gênesis e "cananeus" por J, amor eus" por E; a no início do Êxodo capítulos inteiros serva, "sifha" por J, * 'amah" por E; o empregam exclusivamente, ou quase, o patriarca Jacó só em J toma o nome de nome Javé; outros, ao invés, com a Israel. A diversidade prolonga-se além do mesma exclusividade e constância rezam Gênesis; o monte onde foi promulgada a Eloim. Assim, por exemplo, em Gên 1, lê- lei, em J chamava-se "Sinai", em E "Ho- se 33 vezes Eloim, e nunca Javé; em Gên reb"; o sogro de Moisés, em J tem o nome 4, uma vez Eloim e 10 vezes Javé (em 2-3 de "Raguel", em E de "Jetro", e assim por diga-se de passagem, estão juntos Javé e diante, igualmente, mudando os nomes Eloim); em Gên 10,16 nenhum Eloim, 36 divinos, muda o estilo. J é mais abundante Javé (com 2 Adonai); em Gên 17, ao invés, e minucioso; condescendente e popular, 7 Eloim, 1 Javé; em Gên 24 nenhum não evita os mais chocantes Eloim, 19 Javé; em Gên 30-35 contra 32 antropomorfismos; vivaz e dramático, tem um colorido poético, fascinante. E é
  • 15. mais seco, anedótico, um pouco permitir a ereção de um altar em descuidado. qualquer lugar, memorável por alguma Observando-se a diversidade de estilo, intervenção divina, e aí imolar vítimas descobrem-se mais duas fontes ou sagradas. Lev 17,3-9 não admite autores: um segundo eloísta que, nas nenhuma matança de animal longe do partes legislativas, ocupa-se de altar, sobre o qual deve ser derramado o preferência do culto religioso, donde foi sangue, sendo este altar, em união com o chamado sacerdote e autor do "código tabernáculo sagrado, o único para todos. sacerdotal" (P); e na seção narrativa ele Em Dt 12,1-28, segundo a interpretação aprecia as estatísticas, anotações comum e óbvia, únicos são o templo e o cronológicas, fórmulas esquemáticas altar, e fora deles não é permitido (exemplo seja a narração da criação, Gên oferecer sacrifícios a Deus. Permite-se, no 1), a linguagem precisa e quase pedante entanto, que se matem animais em do jurista. E, enfim, o pregador que qualquer lugar, para o uso comum, escreveu o Deuteronômio (D) num estilo derramando-lhes o sangue por terra, ação amplo, parenético, cheio de afeto declarada profana e não mais sagrada. humanitário e de suave insinuação. A esta variedade de leis corresponde — Os duplicados. — Para provar a observa-se — a prática na história, pluralidade de autores do Pentateuco conforme vem narrada pela própria surge um terceiro argumento, mais Bíblia. De fato, vemos nos livros dos Juízes valioso do que os dois antecedentes. (6,24-28; 13,15-23), de Samuel (ISam 6, Certos acontecimentos — diz-se — e não 9.17;9,12; 2Sam 15,7-12;24,18-25), dos poucas leis, ocorrem duas e até três vezes Reis (IRs 3,2-4; 15,14 etc.), altares erigidos em forma pouco diversa. Assim, a criação e sacrifícios oferecidos quase por toda do mundo é narrada duas vezes (Gên 1,1- parte, segundo as circunstâncias, em 2,3 e 2, 4-24); duas vezes Agar é expulsa harmonia com a lei do Êxodo. Mas, em da casa de Abraão (16 e 21); duas vezes 2Rs 22,23, lemos que o rei Josias no acha-se em perigo a honestidade de Sara sétimo ano de seu reinado (621 a.C.), (12 e 20) e uma terceira a de Rebeca (26); tendo-se encontrado como que por as duas genealogias de Caim (4) e de Set acaso, no templo, um exemplar da lei, fez (5) têm em comum a maior parte dos dela uma aplicação imediata, que nomes; no dilúvio (6-8) são entrelaçadas corresponde exatamente às prescrições duas narrações distintas. Duas vezes é do Deuteronômio, particularmente acerca repetida a vocação de Moisés (Êx 3 e 6), a da unicidade do santuário e do altar. queda do maná e a pousada das co- Trata-se da chamada reforma de Josias, dornizes no deserto (Êx 16 e Núm 11), a precedida, um século antes, por uma prova junto às águas de Meribá (Êx 17 e tentativa de Ezequias no mesmo sentido Núm 20). O preceito das três solenidades (2Rs 17,22; 2Crôn 32,12; Is 36,7). anuais é repetido até cinco vezes (Êx Esses os fatos. A supradita escola crítica 23,14-19;34,23-26; Lev 23; Núm 28; Dt tira daqui as conseqüências que temos 16). visto: o Deuteronômio, o primeiro a Variações nas leis. — Entre os ostentar a lei do altar único, foi composto duplicados legais, especial atenção no século vil a.C, pouco antes da reforma reclamam os que introduzem uma de Josias. O Levítico, que já supõe essa lei, modificação. A mais célebre e mais grave bem como todo o código sacerdotal ao de tais modificações diz respeito ao lugar qual pertence, é posterior a Josias e ao do culto (templo e altar). Êx 20,24 parece exílio, acrescentado pouco depois. Os
  • 16. dois escritos narrativos, o javis-ta e o repetido na eloísta (um "duplicado" eloísta, que já circulavam separadamente, análogo aos do Pentateuco) sem outra o primeiro desde o século ix na Judéia, o variante, ou quase, senão justamente segundo desde o século viu no reino de esses nomes divinos. Ora, assim como Israel, refletem a prática mais antiga. ninguém duvida que os salmos assim Essas conseqüências sustentam-se? repetidos, por exemplo, 13 e 52 sejam do Será que os fatos acima mencionados, mesmo autor, assim também não está reduzidos aos seus justos limites, não provado que seções ¡avistas e eloístas no comportam outra explicação? A solução Pentateuco devam pertencer a autores da questão da autenticidade mosaica do diferentes. Pentateuco depende da resposta a esses A língua e o estilo não dependem dois quesitos. unicamente do autor, mas também do Partindo do primeiro argumento, o dos assunto e do gênero literário. Santo nomes divinos, afirmamos antes de mais Agostinho ditava os seus trabalhos nada que nem sempre esteve ao arbítrio dogmáticos de modo diverso dos seus do escritor usar Javé ou Eloim; o matiz sermões populares. O Deuteronômio, que sutil de sentido e a associação diferente é a promulgação oral de uma lei, em de idéias contidas nos dois nomes, levam, reunião pública, não pode ter o estilo em dadas circunstâncias, a usar um com lapidar de um código gravado em tábuas, exclusão de outro, e em certas nem as disposições rituais do código construções o uso, sem razão aparente, sacerdotal têm que se amoldar às leis ligou-se exclusivamente a um ou ao civis do código da aliança (Êx cc. 21-23). A outro. Ê daí que se diz: " 'is Elohim" = variedade, por maior que seja, não se homem de Deus, mas "debar Jahvé" = opõe à unicidade substancial do autor. palavra do Senhor, e não o contrário. O Além disso, não está excluído, como critério dos nomes divinos, portanto, está veremos, o emprego de fontes e de sujeito à cautela. Além disso, será que colaboradores que também deixam a sua estamos certos de que os nomes divinos, marca na obra definitivamente concluída. como figuram no texto atual, são Distinguimos duas espécies dos originais, isto é, remontam ao próprio chamados duplicados: duas vezes ocorre autor? um fato semelhante (duplicado real), ou A tese crítica o supõe, e é para ela duas vezes narra-se o mesmo fato indispensável. Há, porém, boas razões (duplicado literário); para a questão de para duvidar. A alternação dos nomes unicidade ou pluralidade de autor, divinos não é particularidade do somente a segunda espécie tem valor. Pentateuco: constata-se também em Ora, que, por exemplo, a beleza de Sara outros livros da Bíblia, especialmente no tenha excitado duas vezes, em duas Saltério, onde os primeiros quarenta e os cidades diversas, a cobiça de um déspota últimos sessenta salmos usam quase oriental (Gên 12 e 20) nada tem de exclusivamente Javé, ao passo que os improvável. Ê também positivamente demais cinqüenta, do meio, empregam verossímil que em quarenta anos mais de geralmente Eloim. Ora (e isto é de uma vez se tenha verificado a passagem importância capital), pode-se demonstrar das codornizes nas suas migrações com vários argumentos que também através do deserto (Êx 16; Núm 11); estes naqueles salmos, agora eloísticos, são duplicados reais. Cumpre examinar, originalmente no lugar de Eloim havia assim, caso por caso. Para a repetição em Javé. Mais de um salmo da seção javista é que o mesmo ato não pareça admissível,
  • 17. isto é, em se tratando de verdadeiros (talvez também, parcialmente, por duplicados literários, tem valor a solução escrito) às gerações do povo de Israel, que delinearemos mais adiante. cujas memórias o grande legislador teria É insito em toda lei, civil ou religiosa registrado, deixando às narrações o seu que, permanecendo inalterados os matiz original. Um exemplo claro deste pontos fundamentais, em muitos outros gênero temo-lo no capítulo 14 (expedição esteja sujeita a variações com o decorrer de Abraão e encontro com Mel-quisedec), do tempo e as mudanças de de características tão individuais, que a circunstâncias. Nem a lei mosaica podia crítica o atribui a uma fonte especial, não escapar a essa necessidade quase vital. pertencente a nenhuma das quatro Mas o próprio texto apresenta a razão habituais. No tocante aos quatro livros das variações observadas no Pentateuco. posteriores, que versam exatamente Desde a primeira legislação no Sinai sobre os tempos de Moisés, já indicamos (código da aliança) e a segunda, às as razões que explicam as margens do Jordão, o Deuteronômio, particularidades estilísticas de dois passam-se cerca de quarenta anos, e, o grandes documentos legislativos, o que mais importa, o povo de Israel, no fim Código sacerdotal e o Deuteronômio. desse período, encontra-se prestes a Outra hipótese, baseada na analogia do sofrer uma profunda transformação, ao Saltério, é a seguinte: o Pentateuco, passar da vida nômade ou pastoril, à composto inteiramente por Moisés, parte sedentária e agrícola. Impunha-sef baseado em suas recordações, parte em portanto, uma adaptação do antigo documentos fornecidos pela tradição e direito às novas condições. Da não pela casta sacerdotal, propagou-se na observância rigorosa, durante séculos, da sociedade hebraica, e, durante a lei deuteronômica sobre a unicidade do transmissão, sofrendo modificações na altar, não prova de per si que não forma, em nada insólitas na transcrição existisse. De resto, um ou outro de obras literárias, chegou, com o tempo, acréscimo ou modificação pode ter-se a receber, em dois pontos diversos da introduzido com o tempo nas leis área israelita, por exemplo, no reino de mosaicas sem derrogar ou diminuir a Efraim e no reino de Judá, duas formas paternidade de Moisés do Pentateuco. um tanto diferentes; em uma delas, entre A escola crítica, portanto, não provou, outras coisas, o primitivo nome de Javé contra o testemunho claro da própria foi substituído por Eloim. Mais tarde (no Bíblia, a sua tese de que o Pentateuco em reinado de Ezequias ou Josias), quando se nada pertence a Moisés. Das sentiu a necessidade ou a oportunidade discrepâncias, quaisquer sejam, de de unificar as duas recensões, um redator vocabulário, de estilo, de leis, dão-se fundiu-as, extraindo ora desta ora outras explicações conciliáveis com a daquela, muitas vezes contentando-se autenticidade mosaica. No Gênesis, por com justaposições, sem alterar as feições exemplo, não se lhe opõe a distinção de próprias de cada uma. Destarte explicar-- fontes, pois trata-se de acontecimentos se-iam os fenômenos que levaram a anteriores a Moisés, transmitidos, ao acreditar na existência de fontes diversas. menos em grande parte, oralmente
  • 18. INTRODUÇÃO AO GENESIS do homem sobre a terra. A Bíblia não é contrária a resultados certos de tais O Gênesis narra as primeiras ciências, também porque as listas origens do mundo, do gênero humano, genealógicas do Gênesis poderiam do povo hebreu, tudo relacionado com ser incompletas, ou seja, com Deus, com sua revelação, com seu omissões de elos intermediários. culto. Deus cria o universo, revela-se Do nascimento de Abraão à aos primeiros homens, Deus escolhe descida dos israelitas ao Egito -- 290 uma família (Abraão e sua anos -- (Gên 21,5 + 25,26 + 47,28), a descendência), para no seio dela cronologia respectiva é mais ou conservar e desenvolver os germes da menos certa. Para a cronologia primitiva revelação e a verdadeira absoluta (baseada na era vulgar) ter- religião, no intuito de preparar a solene se-ia um ponto fixo no sincronismo de revelação do Sinai, narrada no Êxodo. Abraão com Hamurabi, o célebre rei A criação do céu e da terra (1,1-2,3), da Babilônia, cujo famoso código de é como que o prólogo do grandioso leis foi descoberto em 1902. A drama, que se divide em duas partes, identificação, porém, de Amrafel, rei e tem por protagonistas os cinco de Senaar (Gên 14,1), com Hamurabi grandes patriarcas: Adão e Noé, da Babilônia, é hoje mais do que patriarcas do gênero humano; Abraão, duvidosa; tampouco a data do Isaac e Jacó, patriarcas do povo reinado deste último está hebreu. definitivamente fixada; atualmente O todo ê enquadrado pelo autor tende-se a colocar-Ihe o início por sagrado em dez tábuas genealógicas volta de 1728 a.C. Tomando como (2,4; 5,1; 6,9; 10,1; 11,10; 11,27; ponto de partida a data em que os 25,12; 25,19;36, 1;37,2) dispostas de israelitas saíram do Egito sob o faraó tal modo que, após ter registrado os Menefta pelo ano de 1200 a.C, e ramos secundários da propagação remontando o curso dos séculos com humana, volta a narrar difusamente os os dados da própria Bíblia (Ex 12, 40 destinos do ramo patriarcal, isto é, da e passagens acima citadas), Abraão descendência eleita, portadora da teria nascido por volta de 1900 a.C, revelação divina e da verdadeira mas não é certo qual seja o faraó do religião. Êxodo. O Gênesis abrange na sua narração Muitas páginas do Gênesis têm uma longa série de séculos, e correspondência nos monumentos colocando (no tronco principal das babilónicos e egípcios: nos primeiros, suas genealogias) ao lado dos nomes a história primitiva, isto é, os também números de anos, forneceria primeiros 11 capítulos; nos egípcios, os elementos de uma cronologia. o resto, especialmente a história de Infelizmente as cifras não parecem José (37-50). Com os dois primeiros bem conservadas, porque nos capítulos (a criação) têm algo de números dos capítulos 5 e 11 os três semelhante vários poemas textos independentes: o hebraico, o babilónicos entre si discordantes e samaritano e o grego divergem entre que são uma fantasiosa mitologia de si. Baseando-se sobre o seu texto, os crasso politeísmo; quão mais sublime gregos do império bizantino colocavam pela nobreza de pensamento é a a criação do homem 5.508 anos a.C. prosa simples da Bíblia! Também a Os hebreus ainda usam uma era que tradição babilônica conhece dez reis, no mesmo período conta 3.760 anos. como Gên 5, dez patriarcas, de vida As ciência antropológicas exigem um longuíssima antes do dilúvio. Este tempo assaz maior para a existência cataclisma foi narrado em muitas
  • 19. lendas babilônicas, uma das quais foi inserida no romanesco poema "Gilgames", assim chamado por causa do herói protagonista. Os pontos de contato com a narração bíblica (Gên 7; 8) são numerosos e típicos. A narração da torre de Babel (Gên 11,1-9) é toda tecida de elementos babilônicos; mas um paralelo exato não foi ainda encontrado na literatura cuneiforme. Nada ainda se encontrou nessa literatura de verdadeiramente análogo à narração do paraíso terrestre e da queda do homem (Gên 3). Nos monumentos egípcios temos representadas muitas cenas semelhantes às narradas no Gên cc. 12,37-50.
  • 20. INTRODUÇÃO AO ÊXODO O segundo livro do Pentateuco toma o 17), reside a verdadeira prerrogativa do nome de Êxodo da saída dos hebreus do povo de Israel; nada de semelhante se Egito, onde, depois dos bons tempos de encontra em nenhum outro povo. Citam- José, passaram a sofrer a mais dura se, é certo, da literatura egípcia, certas escravidão. Esse acontecimento, porém, desculpas espirituais como: "Não cometi nada mais foi do que o prelúdio de jatos injustiça, não roubei, não matei'' etc., ou muito mais importantes na vida dos filhos da babilônia, os esconjuros, onde se de Israel, os quais, de um conglomerado pergunta se o exorcizado ultrajou alguma de famílias que eram, recuperando a divindade, se desprezou pai e mãe, se liberdade, conquistaram verdadeira mentiu ou praticou obscenidades etc. Mas unidade de nação independente e não há proporção entre os protestos de receberam uma legislação especial, uma um particular para evitar o castigo forma de vida moral e religiosa, pelas (finalidade daquelas fórmulas rituais) e a quais se distinguiram de todos os outros autoridade soberana que impõe a lei a povos da terra. todo um povo. Entre os próprios egípcios e Com toda facilidade compreender-se-á babilônios, nada há de correspondente, na a importância deste livro, sobretudo em se legislação, àquelas fórmulas cerimoniais. pensando que, se a história civil das O decálogo de Moisés não tem rivais no nações, mormente as antigas, acha-se mundo. intimamente vinculada à religião e essa à Pelas razões citadas, os moral, isto jamais foi tão verídico como a acontecimentos narrados no Êxodo respeito dos hebreus. As leis contidas no tiveram um eco enorme na memória das Êxodo formam a essência da vida civil e tribos israelitas. Em quase todas as religiosa do povo eleito. páginas do Antigo Testamento são Ê bem verdade que, de todas essas recordadas a libertação da escravidão do leis, e especialmente as do chamado Egito, a prodigiosa passagem do mar código da aliança (21-23), foram Vermelho, os golpes tremendos com os encontradas analogias notáveis no código quais foi dominada a tenaz oposição do de Hamurabi (rei babilônico, que viveu opressor egípcio, as grandiosas alguns séculos anteriormente a Moisés), manifestações divinas no Sinai, o sustento que foi descoberto, traduzido e publicado milagroso de povo tão numeroso no pelo dominicano Pe. Scheil, em 1902. De deserto. Daí Israel deduzia os motivos tais analogias não se infere, porém, em mais fortes para ser grato e fiel a Deus, e absoluto, como pretendem alguns, a conservar uma confiança inabalável na dependência do código mosaico do sua providência soberana e nos seus babilônico. Elas têm sua explicação próprios destinos. adequada nos fatores comuns às duas A cronologia do Êxodo, ou seja, o ano sociedades, israelita e babilônica, tão em que os hebreus saíram do Egito, está próximas no tempo, no lugar e também na naturalmente ligada à história desse país. origem, pois os patriarcas do povo hebreu Mas, já que a Bíblia não fornece os nomes procediam do vale do Tigre. dos dois faraós, o da opressão (1,8;2,23) e Realmente, na legislação decretada no o da saída (14,5), duas opiniões diversas Sinai, nem tudo foi criado desde a raiz; se equilibraram entre os doutos, com muitos usos e costumes já introduzidos na autoridade e número de defensores quase prática social foram confirmados pela iguais. Para uns, o opressor seria Totmés aprovação divina. De resto, também nas III (1500--1450) e o outro Amenofis II famosas leis romanas das doze tábuas (1447-1420), da XVIII dinastia; para descobrem-se semelhanças com o código outros, no entanto, Ramsés II (1292-- mosaico, sem que ocorra a alguém o 1225), da XIX dinastia, teria oprimido os pensamento de querer estabelecer um hebreus, e seu sucessor, Menefta (1225- parentesco entre as primeiras e o 1215), tê-los-ia libertado. A segunda segundo. Providências semelhantes opinião, que estabelece o século XIII a.C. surgem espontaneamente de para o Êxodo, parece-nos mais condizente necessidades sociais do gênero. No com o texto (1,11) e mais coerente com decálogo, porém, e na doutrina religiosa outros dados da história sagrada e que lhe forma a base inconcussa (20,2- profana.
  • 21. INTRODUÇÃO AO LEVÍTICO Este livro traz o nome de Levítico, por festivos: solenidades anuais e o sábado tratar quase exclusivamente dos deveres (23). sacerdotais. Poder-se-ia compará-lo a um 5- Determinações diversas: lâmpadas ritual. no santuário e pães da apresentação Com exceção de dois trechos históricos (24,1-9); pena para o blasfemador (8 a 10;24,10-23), compõe-se (24,10-23); prescrições para o ano inteiramente de leis que visam à sabático e jubileu (25); promessas e santificação individual e nacional. ameaças relativas a observância da lei Santificação, de per si ritual e exterior, (26); votos e dízimos (27). que, porém, simboliza e promove certa O sacrifício, o ato mais sagrado da santidade interior e moral. Toda a religião, isto é, oferecer a Deus vítimas, matéria pode ser dividida em cinco animais ou vegetais, não foi instituído partes: por Moisés, mas remonta às próprias 1- Leis relativas aos sacrifícios (1-7). origens da humanidade (Gên 4,3-4). Os sacrifícios são de cinco espécies; duas Moisés encontrou o seu uso estabelecido séries de leis: V série — o rito de cada e arraigado entre todos os povos. Nas sacrifício (1-5), holocausto (1), oblação tabuinhas recentemente descobertas em de vegetais (2), sacrifício salutar (3), Ras Shamra (antiga Ugarit), na Fenícia sacrifício expiatório (4), sacrifício de setentrional, anteriores alguns séculos a reparação (5). 2? série — direitos e Moisés, são mencionadas espécies deveres dos sacerdotes em cada espécie idênticas de sacrifícios, até mesmo com de sacrifícios (6-7). nomes iguais (afinidade das duas línguas) 2- Consagração dos sacerdotes (8-9). aos do Pentateuco. Moisés, com suas Nadab e Abiú são punidos por terem leis, só regulamentou e consagrou ao usurpado um ofício sagrado (10-1-7). culto do verdadeiro Deus um cerimonial Várias prescrições para os sacerdotes já praticado, deixando ainda toda essa (10,8-20). legislação dos sacrifícios separada das condições essenciais do pacto celebrado 3- Leis sobre a pureza legal (11-16): entre Deus e o seu povo (Êx 19,23). dos alimentos (11), da puérpera (12), Nesse sentido deve-se entender aquele da lepra nas pessoas (13,1-46; 14,1- protesto do próprio Deus contra os 32), nas vestes (13,47-59) e casas judeus, por boca de Jeremias (7,22-23): (14-33-57); sobre a gonorréia (15). "Em matéria de sacrifícios e holocaustos, Rito para o dia solene de expiação (16). eu nada disse e nada ordenei aos vossos 4- Leis sobre a santidade (17-23): a) pais ao tirá-los do Egito; dei-lhes do povo (17-20); matança dos animais, somente esta ordem: — Escutai a minha uso do sangue, unicidade do santuário voz; eu serei vosso Deus e vós sereis o (17); prescrições que regulam os atos meu povo —" cf. Êx 19,5). sexuais (18); várias prescrições religiosas Nada, portanto, impede atribuir-se ao e morais (19); punição para os próprio Moisés a legislação cerimonial do transgressores (20); b) dos sacerdotes: Levítico, embora seja óbvio que não a núpcias e luto (21,1-15); irregularidades tenha escrito toda de uma vez e se tenha (21,16-24); impureza cerimonial (22,1- servido, para a fixar, da obra de algum 16; qualidades das vítimas (22, 17-30); sacerdote ou levita de profissão. Nem se conclusão (22,31-33); c) dos dias exclui que algumas destas leis tenham
  • 22. recebido em tempos posteriores modificações e acréscimos. Devemos observar ainda, que todas essas leis cerimoniais foram ab-rogadas depois de Jesus Cristo. Entretanto, os sacrifícios da antiga lei haviam prefigurado o seu sublime sacrifício na cruz, no qual, único e perfeito sacrifício, te-ve cumprimento toda a variedade dos sacrifícios do Antigo Testamento. Ou melhor, como nos ensina S. Paulo (Hebr 9,9; 10,10), os sacrifícios levíticos recebiam sua principal eficácia de aplacar a Deus daquele valor figurativo, pois que "é impossível que, por si só, o sangue dos touros e dos cabritos cancele os pecados" (Hebr 10,4). Considerados no seu significado típico e simbólico, os ritos escritos no Levítico continuam e continuarão a ser instrutivos.
  • 23. INTRODUÇÃO AOS NÚMEROS O quarto livro do Pentateuco recebeu o serpente de bronze (21, 1-9); vitória sobre nome de Números (em grego Arith-moi, que os amorreus e conquista de Basan (21,10- aqui tem o sentido de "recenseamentos") por 35). causa dos "recenseamentos" (1,1-4,26), que 3a Parte. Na margem oriental do Jordão: são próprios deste livro e que lhe dão a sua cerca de cinco meses. A matéria desta feição particular. Contém, além disso, alguns parte, mais por ordem lógica do que por fatos que se ligam imediatamente aos ordem do texto, pode ser assim agrupada: acontecimentos narrados no Êxodo, e leis 1) Últimos encontros com os povos da semelhantes às do Levítico. Pode ser dividido Trans Jordânia; Balaão e seus vaticínios facilmente, de acordo com os lugares e (22-24); prostituição a Beelfegor (25); tempos, em três partes: no Sinai (1,1-10,10); guerra santa contra os ma-dianitas e leis viagens através do deserto (10,11-21,35); na sobre a divisão dos despojos (31); lista das margem oriental do Jordão (22-36). etapas (33). 1a Parte. No Sinai: disposições para a 2) Grupo de leis: herança (27,1-11), partida: 20 dias. festas e sacrifícios (28-29), votos (30). 1) Recenseamento das tribos e respectivas 3) Disposições para a ocupação da posições no acampamento (1-2). terra prometida. Segundo recenseamento 2) Os levitas: seu destino e recenseamento (26); nomeação de Josué (27,12-23). (3); divisão por famílias e por ofícios (4). Distribuição da Transjordânia (32); normas 3) Leis: banimento dos impuros, para a ocupação e distribuição da restituições, ciúmes (5), nazireato, bênção CisJordânia (33,50-34,12); designação das litúrgica (6). cidades levíticas e de refúgio (35); 4) Últimos fatos: donativos dos chefes das disposições para manter inalterada a tribos ao santuário (7), consagração dos levitas primitiva distribuição (36). (8), segunda Páscoa (9,1-14), sinais para a A julgar pelo resumo, o presente livro partida e para a parada, as trombetas (9,15- compreende um período de cerca de trinta 10,10). e oito anos e meio. Sobre a maior parte desse período (os trinta e oito anos no 2a Parte. Viagem através do deserto: deserto) narra-nos apenas uns poucos 1) Do Sinai a Cades: partida e ordem de fatos, mas muito notáveis pelo significado marcha (10,11-36), murmuração do povo, as religioso, como a serpente de bronze, a codornizes (11), a lepra de Maria, irmã de sedição de Coré, os vaticínios de Balaão, a Moisés (12). água brotada da rocha; fatos dos quais os 2) Parada em Cades: missão dos doze apóstolos no Novo Testamento tiraram exploradores (13) e queixas do povo (14); leis utilíssimas lições (ICor 10,1-11; Hebr 3,12- sobre as oblações e primícias, sobre o sábado 19; Jo 3,14-15). No centro do drama e os filactérios (15); sedição de Coré, Datan e acham-se dois fatos semelhantes entre si, Abirão, e sua punição (16) e confirmação do duas sedições do povo contra Moisés, sacerdócio na família de Arão (17); relações executor das ordens divinas; a primeira entre sacerdotes e levitas, emolumentos de (14), originada pela repugnância em uns e de outros (18); a água lustral (19); empreender a conquista da Palestina; a sedição do povo por falta de água (20,1-13). segunda (20), por falta de água. 3) De Cades ao Jordão: os edomitas negam Conseqüência ou punição da primeira foi a passagem pelas suas terras; morte de Arão longa demora da nação inteira no deserto (20,14-29); queixas do povo e castigo, a da península sinaítica; a segunda deixou a
  • 24. mais profunda impressão na consciência nacional e na literatura posterior (cf. SI 80;94;105), envolvendo o próprio Moisés, que por um instante duvidou da clemência divina e por isso teve de deixar a outros o remate de sua obra, a conquista de Canaã (cf. Dt 32). O livro dos Números é importante para a literatura porque, entre outras coisas, nos conservou fragmentos de antiquíssimos cânticos populares (21; 23; 24), com a indicação de coleções já existentes, como "o Livro das guerras de Javé" (21,14), do qual não se tem outra menção.
  • 25. INTRODUÇÃO AO DEUTERONÔMIO (7), benefícios de Deus, censura da O quinto e último livro do Pentateuco foi chamado Deuteronômio, isto é, infidelidade anterior de Israel, promessas e ameaças (8-11). Leis especiais: 1) "segunda lei", talvez porque assim tenha Deveres religiosos. Unicidade do sido traduzida, embora inexatamente pelos LXX, uma frase hebraica em 17,18. santuário e disposições relativas (12, 1- 28); contra a apostasia (12,29-13-18); No entanto, convém-lhe perfeitamente alimentos e dízimos (14); ano da remissão esse nome. O livro não é uma simples repetição da legislação contida nos livros (15); as três grandes solenidades anuais (16,1-17). 2) Direito público. Juízes precedentes, mas além de leis novas, (16,18-17,13), rei (17,14-20), oferece complementos, esclarecimentos e modificações às primeiras. É, de certo sacerdotes (18,1-8), profetas (18,9-22); homicídio involuntário (19), guerra (20), modo, uma segunda lei, promulgada no homicídio por mão desconhecida (21,1- fim da longa peregrinação dos israelitas, paralela à lei dada no Sinai e destinada a 9). 3) Direito familiar e privado. Grande variedade; os pontos principais são: regular mais de perto a vida do povo matrimônio (21,10-14;22,13-23,1) e escolhido, no solo da Terra Prometida à qual eles estavam para chegar e dela filhos (21,15-20), o divórcio (20,1-4), levirato (25,5-10), deveres de tomar posse definitiva. Não é, porém, humanidade (22,1-12;23,16-20;24,6- simples enumeração de leis e determinações; o que caracteriza esse 25,4), honestidade (25,11-19), votos (23,22-24), primícias e dízimos (26). livro, o que lhe constitui a alma, é um ardente sabor oratório. O hagiógrafo nos faz ouvir um Moisés que exorta, encoraja, 3ª parte: 3o e 4o discursos: ordem de promulgar a lei em Siquém, maldições invectiva; inculca a observância das leis, a para os transgressores (27), ameaças e começar dos grandes princípios morais; apela para os mais poderosos motivos, promessas (28). Exortação à observância da lei, com a recordação dos fatos evoca a glória do passado, a missão históricos, das promessas e das ameaças histórica de Israel, os triunfos do porvir. Na mente do autor sagrado temos o (29-30). testamento definitivo, que o grande guia e legislador deixa ao povo de Deus às 4ª parte. Apêndice histórico. Últimas vésperas da sua morte. Pelo estilo, o disposições de Moisés, nomeação de Josué, seu sucessor (31); cântico de Deuteronômio é um discurso, ou melhor, Moisés (32), bênção das doze tribos (33), vários discursos, dirigidos por Moisés aos israelitas. Deduz--se daí a divisão do livro morte de Moisés (34). em quatro partes: Amor de Deus, beneficência, alegria no cumprimento do dever, eis as principais 1a parte: 1o discurso (14): olhar características do Deuteronômio, retrospectivo aos fatos acontecidos princípios inculcados e repetidos com desde a partida do Horeb até às últimas conquistas da TransJordânia (1-3); solicitude incansável. Por isso, perpassa-o um sopro ardente de sincera e profunda exortação geral à observância da lei (4,1- piedade para com Deus e uma ternura 40). simpática pelo homem, que edifica e comove. Há páginas que se aproximam da 2a parte: — 2o discurso: renovação da sublimidade divina dos ensinamentos lei 4,44-26,19). Princípios gerais: o Decálogo (5), o culto e o amor ao único evangélicos, mais do que quaisquer outras. Deus verdadeiro (6), guerra à idolatria