INTRODUÇÃO GERAL

   A BÍBLIA. -- "Nós não sentimos necessidade de      conceito e vocábulo esses tomados da própria
apoios e alianças, tendo em mãos, para nosso          Bíblia.
conforto, os livros sagrados" (1Mac 12,9). Assim,         O Antigo Testamento consta dos livros
em 154 a.C, em nome de toda a nação, da qual          seguintes, comumente agrupados em quatro
era chefe, escrevia Jonatas Macabeu ao rei de         classes:
Esparta. Nessas suas palavras, já se apresenta            V Pentateuco ou cinco livros de Moisés:
o termo usual, o valor singular e o emprego           Gênesis,        Êxodo,      Levítico,     Números,
prático da obra cuja versão apresentamos. Do          Deuteronômio.
termo: os livros -- no texto grego um neutro             2° Livros históricos: Josué, Juízes, Rute, Reis,
plural tà biblía -- em nossa língua, através do       Crônicas, Esdras e- Neemias, Tobias, Judite,
latim vulgar, formou-se o feminino singular: a        Ester, Macabeus.
Bíblia.
                                                          3? Livros didáticos ou poéticos: Jó, Salmos,
   Outros         sinônimos,       encontramo-los     Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos,
freqüentemente na própria Bíblia: a Escritura ou      Sabedoria, Eclesiástico (ou Sabedoria de Jesus,
as Escrituras, as santas Escrituras, e mais           filho de Sirac).
raramente, as sagradas Letras. A Bíblia,
                                                          4° Livros proféticos: Isaías, Jeremias,
portanto, não é um livro só, mas muitos, uma
                                                      Lamentações, Baruc, Ezequiel, Daniel, os Doze
coletânea, cuja unidade consiste no argumento
                                                      profetas menores, isto é: Amós, Oséias, Joel,
comum e na origem sobre-humana.
                                                      Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc,
   E de "livros santos" que a Bíblia se compõe,       Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias.
porque dentro de sua grande variedade eles
coincidem em tratar de religião, tendo um                 No Novo Testamento, o primeiro e mais
objetivo essencialmente religioso. Com mais           conspícuo       lugar    compete      aos   quatro
razão ainda chamam-se "livros santos" ou              Evangelhos: segundo Mateus, Marcos, Lucas,
"sagrados" porque, como ensina a fé, tanto            João. Seguem-se: um livro histórico, os Atos
judaica como cristã, não foram escritos por mero      dos Apóstolos; catorze epístolas de S. Paulo:
talento humano, mas sob a influência de               aos Romanos, duas aos Coríntios, aos Gálatas,
inspiração divina especial.                           aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses,
                                                      duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo,
   Ê desta origem sobrenatural que a Bíblia           uma a Tito, a Filemon, aos Hebreus; sete
recebe a sua dignidade de "livro por excelência"      epístolas chamadas católicas, ou canónicas:
e o seu lugar único na vida dos povos que             uma de Tiago, duas de Pedro, três de João,
tiveram o primado na civilização. Ela é, com          uma de Judas; finalmente, um livro profético, o
efeito, o fundamento e o alimento da fé para          Apocalipse.
todos os povos cristãos, e nenhum outro livro no      O elenco oficial dos livros sagrados chama-se
mundo pode ser a ela comparado, nem de                cânon, no sentido de norma. Expusemos aqui o
longe, seja pelo número de tiragens de edições,       cânon católico, formado já no séc. IV nas cartas
quer manuscritas, quer impressas, seja pela           pontifícias e nos concílios provinciais da África,
influência sobre a vida individual e pública, sobre   sancionado depois solenemente pelos concílios
a literatura e as artes figurativas. Qualquer fiel    ecumênicos de Florença (1441) e de Trento
sinceramente apegado à sua religião tem-na, por       (1546) e confirmado pelo Concílio Vaticano I
assim dizer, constantemente em mão, como              (1870). Para a integridade do cânon não importa
Jonatas o apontava, para nela encontrar               a ordem dos livros, porque, exceto o primeiro
conforto em todas as vicissitudes da vida.            lugar reservado constantemente, no Antigo
                                                      Testamento, ao Pentateuco e no Novo, aos
   DIVISÃO E NÚMERO DE LIVROS. -- CÂNON. -- Com       Evangelhos, no restante diferem muito entre si
o nome de Bíblia, pois, compreendem-se os             os manuscritos, os autores, os catálogos oficiais
livros sagrados da religião cujo centro é Jesus       de igrejas e de seitas.
Cristo. Partindo deste ponto de convergência, a
Bíblia divide-se em duas séries desiguais, a
primeira, anterior a Jesus Cristo, a segunda,
posterior.    A   primeira   chama-se     Antigo
Testamento, a segunda Novo Testamento,
Os livros históricos mais extensos do Antigo        babilónico (séc. VI a.C). Dois livros, o segundo
Testamento, Samuel-Reis e Crônicas, na                 dos Macabeus e a Sabedoria, foram escritos
antiquíssima versão grega (dos LXX, veja               originariamente em grego. Dos livros de Judite,
abaixo), por razões práticas foram divididos em        Tobias, Baruc, Eclesiástico e parte também de
dois; além disso, considerando Samuel e Reis           Daniel e Ester, perdeu-se, como no caso do
como uma obra só, chegou-se a contar 4 livros          Evangelho de Mateus, o texto original, hebraico
dos Reis e dois das Crônicas, costume esse             ou aramaico, sendo substituído pela versão
que se estendeu aos latinos e dura ainda em            grega.
parte entre nós. No texto hebraico, adotada               Essas diferenças lingüísticas não deixaram de
semelhante divisão, conhecem-se dois livros de         exercer a sua influência sobre a extensão do
Samuel, dois dos Reis, dois das Crônicas.              cânon dos livros sagrados. Enquanto os judeus
Esdras e Neemias são chamados também de                disseminados no mundo greco-romano não
primeiro e segundo de Esdras. Também dos               tinham dificuldades em introduzir os livros
Macabeus contam-se dois livros, que na                 redigidos em grego, os judeus da Palestina não
realidade são duas obras perfeitamente                 queriam conformar-se com isso. Além disso, foi-
distintas. Na Vulgata, a Carta de Jeremias             se formando entre eles a opinião de que, depois
constitui o último cap. (6?) de Baruc. Tudo bem        de Esdras (séc. V a.C), faltando ou sendo incerto
calculado, o Antigo Testamento consta de               o dom profético (veja IMac 4,46; 14,41), nem
quarenta e seis livros, o Novo, de vinte e sete.       sequer admitiam pudessem ser escritos livros
   Por razões igualmente práticas, desde os            inspirados por Deus. Por isso, quando nos fins
primeiros séculos da nossa era, cada livro foi         do séc. I d.C, os doutores da Sinagoga fixaram o
dividido em seções de várias extensões,                cânon das Sagradas Escrituras, foram excluídos
conforme sistemas bastante diversos para               até os livros escritos em hebraico depois daquela
lugares e épocas. Para eliminar os                     época, como o Eclesiástico. Daí resultou um
inconvenientes dessas antigas divisões e               cânon hebraico em que faltam sete livros:
facilitar o estudo uniforme, no início do séc. XIII,   Tobias, Judite, os dois dos Macabeus,
na Universidade de Paris, Estêvão Langton              Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e a Carta de
(depois cardeal) introduziu a divisão em               Jeremias, e mais algumas partes de Ester e de
capítulos de extensão mediana, que depois,             Daniel.
pela sua utilidade prática, propagou-se em                O veredito dos doutores hebreus não deixou
todas as escolas e em todas as edições, e é            de repercutir na Igreja cristã. Enquanto no uso
ainda      hoje   de     uso   universal,    agora     comum se difundia o cânon mais pleno,
insubstituível.                                        concretizado na versão dos LXX, empregada e
   Mais tarde, no séc. XVI, os mesmos capítulos        recomendada pelos apóstolos, alguns escritores
foram divididos em versículos numerados (por           (Melitão de Sardes, Sto. Atanásio de Alexandria,
Sante Pagnini, para o Antigo Testamento                S. Gregório de Nazianzo, entre os gregos; Sto.
[1528], por Roberto Estêvão, para o Novo               Hilário de Poitiers, Rufino de Aquilêia e
[1550]), tendo sido também essa numeração,             principalmente S. Jerônimo, entre os latinos)
pela comodidade das citações, aceita logo e            adotaram o cânon mais restrito dos hebreus, e,
perdura até agora em toda parte. Entende-se,           devido à autoridade desses antigos doutores
entretanto, que essas divisões são apenas de           cristãos, toda hesitação entre os católicos não foi
valor prático, não científico.                         eliminada senão pelo sagrado Concílio de Trento
                                                       (1546).
                                                          No entanto, em virtude de tais vozes
   LÍNGUAS ORIENTAIS E CÂNONES DIVERSOS. -- O          discordantes da crença comum, chegou-se a
Novo Testamento inteiro foi escrito em grego;          fazer distinção entre "livros reconhecidos"
só o Evangelho de Mateus, conforme                     (homologúmenos), admitidos por todos (os do
testemunhos de antigos, teve uma primeira              cânon hebraico), e "livros controversos"
redação em aramaico, a qual, porém, se perdeu          (antilogúmenos), não admitidos por todos, os oito
sem deixar vestígios; em lugar dela temos uma          acima enumerados, constantes do cânon cristão.
tradução, ou melhor, uma redação grega.                Na terminologia moderna, os primeiros se
   Quanto ao Antigo Testamento, temos três             chamam        protocanônicos,     os     segundos
idiomas originais. A maior parte foi escrita e         deuterocanônicos, ou seja, canónicos de
chegou até nós em língua hebraica. Alguns              primeira e de segunda época, à medida que a
capítulos dos livros de Esdras e de Daniel, e um       unanimidade a seu respeito foi alcançada logo
versículo de Jeremias, estão em aramaico, que          no começo ou só mais tarde. Entende-se, porém,
foi o idioma falado na Palestina depois do exílio      que, com esses vocábulos, não se queria
distinguir o valor ou a autoridade das duas         mesmo havemos de acreditar que os Livros da
categorias de livros, e sim lembrar somente um      Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem
fato histórico e servir para maior brevidade e      erro a verdade relativa à nossa salvação, que
clareza no tratamento destas matérias.              Deus quis fosse consignada nas sagradas
Analogamente, no Novo Testamento, por outras        Letras. Por isso, 'toda Escritura divinamente
razões, porém, alguns livros nem sempre foram       inspirada é útil para ensinar, para argüir, para
admitidos, e nem em todas as Igrejas, entre as      corrigir, para instruir na justiça: a fim de que o
divinas Escrituras; tais como a Epístola aos        homem de Deus seja perfeito, experimentado em
Hebreus, a de Tiago, a segunda de Pedro, a          todas as boas obras' (2Tim 3,16-17 gr.).
segunda e terceira de João, a de Judas e o
Apocalipse; aos quais, por isso, também se             Mas como Deus na Sagrada Escritura falou
aplicou a designação de deuterocanônicos, no        por meio de homens e à maneira humana, o
sentido explicado.                                  intérprete da Sagrada Escritura, para saber o
   Tudo o que foi dito até aqui vale para os        que Ele quis nos comunicar, deve investigar com
autores católicos. Compreende-se que os             atenção o que os hagiógrafos realmente
hebreus rejeitem, em sua totalidade, o Novo         quiseram significar e aprouve a Deus manifestar
Testamento, além dos deuterocanônicos do            por meio das palavras deles.
Antigo. Os protestantes ocupam uma posição            Para descobrir a intenção dos hagiógrafos,
de meio termo. No Novo Testamento, depois           devem-se ter em conta, entre outras coisas,
das primeiras incertezas de seus fundadores         também os 'gêneros literários'. A verdade é
admitiram integralmente e sem distinção o           proposta e expressa de modos diferentes,
Cânon católico. No An-tigo Testamento, ao           segundo se trata de textos históricos de várias
invés, seguindo o cânon mais restrito dos           espécies, ou de textos proféticos ou poéticos ou
hebreus, rejeitam, como fora da série dos livros    ainda de outros modos de expressão. Ê preciso,
sagrados, sob o nome de "apócrifos", os que         então, que o intérprete busque o sentido que o
nós chamamos deuterocanônicos.                      hagiógrafo -- em determinadas circunstâncias,
    Para os católicos, os apócrifos são certos      segundo as condições do seu tempo e da sua
livros antigos, semelhantes a livros bíblicos,      cultura -- pretendeu exprimir e de fato exprimiu
quer do Novo, quer do Antigo Testamento, o          usando os 'gêneros literários' então em voga.
mais das vezes atribuídos a personagens             Para entender retamente o que o autor sagrado
bíblicas, mas não inspirados, como os livros        quis afirmar por escrito, deve-se atender bem
canónicos, e nem sempre escritos por pessoas        quer aos modos peculiares de sentir, dizer ou
fidedignas, nem de doutrina segura. Os              narrar em uso nos tempos do hagiógrafo, quer
apócrifos do Antigo Testamento .são chamados        àqueles que na mesma época costumavam
"pseudo-epígrafos" pelos protestantes.              empregar-se nos intercâmbios humanos.
                                                       Mas, como a Sagrada Escritura deve ser lida e
   INSPIRAÇÃO E INTERPRETAÇÃO. -- "As coisas        interpretada com a ajuda do mesmo Espírito que
reveladas por Deus, que se encontram e              levou à sua redação, ao investigarmos o sentido
manifestam na Sagrada Escritura, foram              bem exato dos textos sagrados, não devemos
escritas por inspiração do Espírito Santo. De       atender menos ao conteúdo e à unidade de toda
fato, a Igreja, por fé apostólica, considera como   a Escritura, tendo em conta a Tradição viva de
sagrados e canônicos os livros inteiros tanto do    toda a6 Igreja e a analogia da fé. Cabe aos
Antigo como do Novo Testamento, com todas           exegetas, de harmonia com estas regras,
as suas partes, porque, tendo sido escritos por     trabalhar para entender e expor mais
inspiração do Espírito Santo (cf. Jo 20,31; J2Tim   profundamente o sentido da Escritura, para que,
3,16; 2Pdr 1,19-21; 3,15 --16), têm a Deus por      graças a este estudo de algum modo
autor e como tais foram confiados à própria         preparatório, chegue a termo o juízo da Igreja.
Igreja. Todavia, para escrever os Livros            Com efeito, tudo quanto diz respeito à
sagrados, Deus escolheu homens, que utilizou        interpretação da Escritura está sujeito ao juízo
na posse das faculdades e capacidades que           último da Igreja, que tem o divino mandato e
tinham, para que, agindo Deus neles e por meio      ministério de guardar e interpretar a palavra de
deles, pusessem por escrito, como verdadeiros       Deus.
autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele
quisesse.                                             Portanto, na Sagrada Escritura, salvas sempre
                                                    a verdade e a santidade de Deus, manifesta-se a
  Portanto? como tudo quanto afirmam os             admirável    'condescendência'     da     eterna
autores inspirados ou hagiógrafos se deve ter       Sabedoria, 'para nos levar a conhecer a inefável
como afirmado pelo Espírito Santo, por isso         benignidade de Deus e a grande acomodação
que     usou     nas   palavras, tomando             desde as primeiras cópias até à invenção da
antecipadamente cuidado da nossa natureza'           imprensa (séc. XV), era moralmente impossível
(S. João Crisóstomo).                                que dois exemplares de um mesmo livro, ao
                                                     menos os mais extensos, fossem exatamente
  As palavras de Deus, expressas em línguas          iguais, e Deus, que: preservou de todo erro os
humanas,        tornaram-se        intimamente       originais dos livros sagrados, não quis obrigar-se
semelhantes à linguagem humana, como                 a milhares de milagres que seriam necessários
outrora o Verbo do Eterno Pai, tomando a carne       para que se conservassem intactas as cópias.
da fraqueza humana, se tornou semelhante aos         Bastava conservar inalterada a substância do
homens". (Dei Verbum, 11-13).                        depósito da fé contido nos livros sagrados. E
                                                     para tanto foi magnificamente providenciado,
   A inspiração bíblica, segundo o conceito          como precisamente nos ensina a historia do
católico, não é uma moção mecânica, nem um           texto.
ditado, como se o autor humano fosse passivo
e nada de próprio assentasse no livro inspirado.        Os textos originais da Bíblia, em particular os
Não; a força inspiradora age no homem de             do Novo Testamento, são comprovados por
maneira digna dele, condizente com sua               tamanha abundância          e antigüidade de
natureza de criatura inteligente e livre. Antes de   documentos, que também sob o aspecto da
tudo, a inspiração é uma luz intelectual, que, ou    transmissão textual a Bíblia mantém o seu
descobre ao homem aquilo que antes ignorava          primado, o seu lugar eminente na literatura
(e então tem-se a revelação), ou com novo            mundial. Confrontada aos mais célebres
esplendor lhe apresenta aquilo que já sabia.         monumentos da literatura profana, tais como as
Sob a sua ação, a inteligência humana não é          obras-primas da literatura grega e latina, ela
perturbada, não perde a consciência de si,           brilha como o sol entre as estrelas. As obras de
como afirmavam os antigos acerca dos oráculos        autores gregos e latinos, não raramente, nos
pagãos; pelo contrário, é mais do que nunca          chegaram num único manuscrito, e as mais
lúcida e inteligente. Nem a vontade é arrastada      afortunadas gloriam-se de algumas dezenas
à força contra a sua inclinação; antes, mais do      deles; os manuscritos do Novo Testamento,
que      nunca      livre,   segue      dócil    e   porém, contam-se às centenas e aos milhares.
espontaneamente o impulso divino. A ação             Deles possuímos ainda códices inteiros em
inspiradora estende-se a todas as faculdades         pergaminho, do século IV; com fragmentos de
do homem, a todas as suas ações empregadas           papiros podemos remontar aos séculos III e II,
ao escrever, até à redação completa; mas a           isto é, a menos de um ou dois séculos da morte
todas e a cada uma toca e dirige segundo a           dos autores, enquanto que para Cícero e Virgílio
natureza de cada uma e segundo a parte que           a distância das cópias mais antigas é de cinco
tomam no trabalho complexo de escrever. Daí          ou seis séculos, para Homero de um milênio e
se segue que a inspiração não suprime nem            mais. O testemunho da transmissão direta dos
atenua a personalidade do escritor humano, e         códices gregos é reforçado quer por
nos vários livros da Bíblia pode-se ver refletida    antiquíssimas versões -- já no séc. II, como a
a índole e o estilo de cada autor.                   antiga versão latina --, quer pelas abundantes
                                                     citações de escritores cristãos, a partir do séc. II.
                                                     Ora,     nesses    antiquíssimos      testemunhos
   TEXTOS E VERSÕES. -- "Todos os Padres e           encontramos a máxima parte do texto das
Doutores tiveram firmíssima persuasão" --            modernas versões. Verdade é que a própria
escreve Leão XIII na citada encíclica                quantidade de manuscritos (além de versões e
Providentissimus -- "de que as divinas               citações) ocasionou, pela razão já dita, um
Escrituras, quais saíram da pena dos autores         número proporcionado de variantes, ou seja, de
sagrados, são inteiramente isentas de qualquer       alterações;    pretende-se     que      no    Novo
erro". Mas será que todas nos chegaram tais          Testamento inteiro, em 150.000 palavras, haja
"quais saíram da pena dos autores sagrados?"         200.000 variantes, mas na maioria são minúcias
Nenhum autógrafo, nem sequer do último dos           que não atingem absolutamente o sentido.
autores inspirados, chegou até nós, como             Ademais, a riqueza de documentação oferece à
também o de nenhum escritor da antigüidade           crítica meios mais eficientes para precisar o texto
profana; só possuímos deles cópias remotas.          original. Segundo o cálculo de juízes tão
Ora, os copistas não tiveram a assistência do        competentes como os críticos Westcott e Hort,
Espírito Santo como os hagiógrafos, e enquanto       sete oitavos de todo o Novo Testamento são
copiavam à mão, era natural que se                   transmitidos, concordemente, sem variantes, por
introduzissem no texto alterações de várias          todas as testemunhas. Quanto às variantes,
espécies. No longo período de 1500-3000 anos,        somente a milésima parte atinge o sentido e só
umas vinte assumem verdadeira importância.          acima foi dito. Entra aqui o testemunho --
Nenhuma atinge a alguma verdade de fé.              precioso pelo fato e pela época -- do neto do
Auxiliados pela crítica textual podemos concluir,   autor do Eclesiástico, o qual, no prólogo de sua
com os supracitados críticos, que o texto           tradução da obra do avô, assevera ter ido ao
genuíno do Novo Testamento é assegurado não         Egito pelo ano XXXVIII do rei Evérgetes (cerca
só na substância, mas também em quase todos         de 132 a.C.) e ali já ter encontrado traduzidos
os minuciosos particulares.                         em grego, a Lei (Pentateuco), os Profetas e os
   Quanto ao Antigo Testamento, as coisas           outros Escritos, isto é, as três partes em que os
apresentam-se um pouco diversamente. Antes          judeus dividem a sua Bíblia,
das recentes descobertas junto ao mar Morto            Assim, a versão grega dos LXX tem para nós
(1947), os códices hebraicos conhecidos, não        valor de um manuscrito hebraico do séc. III a.C.
anteriores aos séculos VIII-X d.C, dependiam        ou mais antigo, representando um tipo de texto
todos de uma recensão ou arquétipo do fim do        sensivelmente diferente, como o demonstra um
séc. I d.C, posterior, portanto, a cinco ou mais    confronto com o texto corrente na Palestina. Ela
séculos dos originais. Dessa fonte temos o texto    é para nós, portanto, o instrumento principal para
consonântico, isto é, só as consoantes das          a emenda crítica do texto hebraico. È, contudo,
palavras hebraicas, segundo o uso das línguas       um instrumento de emprego freqüentemente
semíticas, de não escreverem as vogais.             delicado. Além de, por causa das divergências
Somente por volta do séc. VII d.C, para facilitar   dos tradutores, alguns literais e até servis, outros
a leitura e para uso didático, foram inventados     mais livres, não termos um critério geral para
os sinais vocálicos e inseridos no texto, quando    remontar da tradução grega ao original hebraico,
o hebraico tinha cessado há séculos (pelo séc.      o próprio texto dos LXX, através de tantas
IV a.C), de ser idioma falado. No longo período     vicissitudes de séculos, chegou-nos em
do séc. I ao X d.C, o texto hebraico foi objeto     manuscritos com tão grande número de
dos mais minuciosos e diligentes cuidados da        variantes que nem sempre é fácil, entre essa
parte dos rabinos, chamados massoretas (de          selva de variantes, descobrir o texto genuíno.
massorá = tradição). Ê ao trabalho infatigável         Causaram enorme confusão, sem o querer,
deles que se deve a conservação inalterável do      três recensões feitas no séc. III e difundidas
texto e dos manuscritos tão uniformes que não       largamente na Igreja grega. Um século depois,
apresentam senão raríssimas variantes e de          um ótimo perito e testemunha ocular dos fatos,
leve monta. Também as antigas versões, com          S. Jerônimo (Prefação às Crônicas) escreve:
uma só exceção, quer as gregas do séc.              "Alexandria com todo o Egito, nos seus LXX
II (Áquila, Símaco, Teodocião, dos quais            louva a obra de Hesíquio; de Constantinopla até
contudo não nos chegaram senão fragmentos),         Antioquia usam-se os exemplares do mártir
quer a siríaca, chamada Pechitta, o Targum          Luciano; as províncias situadas entre essas duas
aramaico     (também       chamado      paráfrase   regiões lêem os códices palestinenses,
caldaica), e a latina de S. Jerônimo, sendo         elaborados por Orígenes e divulgados por
todas posteriores à recensão do séc. I, e dela      Eusébio e Pânfilo; de modo que todo o orbe se
dependentes raras vezes supõem forma diversa        debate entre esta tríplice variedade". Felizmente
do texto hebraico normal (massorético).             nos foi conservado em poucos manuscritos,
   Tanto mais preciosa, em tais circunstâncias,     sobretudo no famoso Vaticano 1209 (assinalado
é para nós a antiga versão grega, feita no Egito    com a sigla B), um texto anterior àquelas
(mais exatamente, em Alexandria, motivo por         recensões e por elas tomado por base, o que
que também é chamada "alexandrina") entre os        facilita o trabalho do crítico em busca da forma
séc.                                                primitiva.
III e II a.C Considerada até os tempos                 Todavia, o exame atento e consciencioso nos
modernos como obra coletiva de setenta e dois       revela que também o texto hebraico usado pela
doutos hebreus vindos para isso de Jerusalém,       vetusta versão grega já estava bem afastado da
a pedido de Ptolomeu Filadelfo (285-247 a.C),       primitiva pureza e integridade, e que a maioria
como narra uma pseudocarta de Aristéia,             das alterações agora deploradas no texto
continua ainda a chamar-se a versão dos             massorético, já existiam nos séculos imediatos
Setenta ou os Setenta (LXX). Na realidade,          ao exílio babilónico. Faltando o apoio dos LXX
como mostra o exame interno, os tradutores          para emendar um texto corrompido, não nos
foram muitos, traduzindo quem este, quem            resta senão o recurso à crítica interna, ou seja, à
aquele livro, em épocas diversas, até que,          reconstituição conjetural. A legitimidade e a
reunidas as traduções, formou-se um A.              medida da aplicação destes critérios no Antigo
Testamento totalmente grego, mais amplo do          Testamento, provam-nos alguns capítulos que,
que o hebraico massorético, segundo o que           nos próprios livros canónicos, nos foram
transmitidos em dois exemplares diversos.            falando, seja sinônimo da versão de S. Jerônimo,
Como., por exemplo, o salmo 18 (Vulgata 17),         denominando-se o todo pela parte principal e
reproduzido em 2Rs 22 e, no próprio Saltério, o      mais extensa.
salmo 14 (Vulgata 13) repetido com o número
53 (Vulgata 52). So tocante ao Pentateuco,              O VALOR DA VULGATA. -- Entre os tradutores
além disso, temos como reforço o texto               antigos da Bíblia, S. Jerônimo foi o último no
conservado entre os samaritanos, pertencente a       tempo, embora o primeiro pelo mérito: não só
um tipo mais antigo que o massorético,               por se ter podido valer dos trabalhos dos seus
abstração feita de certos acréscimos e               antecessores, mas sobretudo porque, pela
adaptações em favor do culto deles no monte          prática constante, adquiriu domínio tal das
Garizim (veja Jo 4,20). O arcaísmo do                línguas bíblicas (hebraico, aramaico, grego), que
Pentateuco samaritano reflete-se até na forma        entre os antigos cristãos não se conhece igual.
de, escritura que eles ainda adotam. Trata-se        Acrescente-se um conhecimento igualmente
dum descendente direto da primitiva escrita          único da literatura exegética, tanto judaica como
hebraica, mais próxima das origens fenícias (e       cristã. Com uma bagagem de cultura literária
portanto também de nosso alfabeto), do que o         incomum, com ótima preparação e excelentes
alfabeto em uso há séculos entre os hebreus.         critérios, pôs mãos. ao árduo trabalho. Começou
De fato, a hodierna escrita hebraica (chamada,       por corrigir (em Roma, em 384, a convite do
pela forma geral das letras, quadrada) deriva do     papa S. Dâmaso) os Evangelhos latinos,
ramo aramaico do alfabeto adotado por eles na        auxiliado para isso pelos melhores códices
época persa (cerca do séc. V a.C.) em lugar da       gregos. Transferindo-se depois para a Palestina
antiga, na qual anteriormente foram escritos os      (386), com o intuito de levar uma vida de
livros sagrados. No exame crítico do texto           ascetismo e de estudo, estendeu o mesmo
original, esta mudança de alfabeto deve ser          trabalho de paciente revisão, baseado no original
levada em conta. Ê o primeiro estudo a ser feito     grego, aos livros do Antigo Testamento; mas,
por todo bom tradutor ou intérprete da Bíblia,       tendo terminado uma parte deles, sobretudo os
como de qualquer outro livro: certificar-se da       Salmos, que passaram depois à Vulgata,
leitura genuína, isto é, das palavras exatas         compreendeu que prestaria um serviço muito
escritas pelo autor. "O primeiro cuidado de          melhor à Igreja, fazendo uma nova versão
quem quer entender a divina Escritura                diretamente do texto hebraico. E sem esmorecer
[sentencia Sto. Agostinho no seu magistral De        diante das ingentes dificuldades, e sem se
Doctrina Christiana, 1. II, c. 21] deve ser o de     cansar no longo e áspero caminho, a ela se
corrigir os códices". Traduzido em linguagem         dedicou com admirável constância pelo espaço
moderna pelo Pontífice Leão XIII, na encíclica       de uns quinze anos, de 390 a 404, até o
Providentissimus Deus, este preceito soa             acabamento feliz da obra. Não traduziu os livros
assim: "Examinada com todo cuidado a leitura         pela ordem que têm no cânon. Começou com os
genuína do texto, quando for o caso, passar-se-      livros de Samuel, aos quais antepôs o conhecido
á a sondar e expor o sentido" do texto sagrado.      Prólogo galeato, que é como que o programa de
                                                     toda a sua versão. Passou depois aos Salmos,
   A VULGATA, -- Vulgata, por antonomásia,           aos Profetas, a Jó, a Esdras e às Crônicas, aos
chamase a versão latina em uso na Igreja             três livros atribuídos a Salomão (Provérbios,
latina. Ela é, em sua máxima parte, obra de S.       Ecle-siastes, Cânticos). Em seguida, passando
Jerônimo, doutor da Igreja (cerca de 350-420),       para o início, pôs mãos ao Pentateuco, e
pois resulta da união de três categorias de          prosseguindo por Josué, Juízes e Rute, terminou
livros: V livros que ele traduziu diretamente do     com Ester. Não traduziu todos os livros com a
texto original: todos os protocanônicos do           mesma aplicação. Com maior cuidado traduziu e
Antigo Testamento, com exceção dos Salmos,           corrigiu (como se exprime ele mesmo) os
mais Tobias e Judite; 2°- os livros de uma antiga    primeiros livros, isto é, Samuel e Reis; os três
versão latina por ele revista e corrigida à luz do   livros ditos de Salomão concluiu-os em apenas
texto grego: os Salmos, do Antigo Testamento;        três dias; o de Tobias, num dia; o de Judite,
ao certo os Evangelhos e provavelmente o             numa noite. Destas e de outras causas resulta
restante do Novo Testamento; 3° cinco                certa desigualdade entre os vários livros, e
deuterocanônicos do Antigo Testamento, que           também na unidade fundamental da versão. Em
tinham ficado na antiga versão latina, não           geral, tendo-se formado uma idéia clara do que
tocados por S. Jerônimo, a saber: os dois dos        queria dizer o autor sagrado, procurou produzi-la
Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc            com a mesma clareza em latim, cuidando mais
(com a Carta de Jeremias). Não é, portanto,          do sentido do que da letra, sem menosprezar a
inexato dizer que o termo Vulgata, comumente         exigência da boa latinida-de. Guiado por esses
critérios, conseguiu imprimir à sua tradução, de   primeiros passos para uma edição crítica da
modo geral, uma propriedade de sentido e uma       Vulgata; no entanto, outros a corrompiam ainda
beleza de expressão tais, que só se apreciam       mais, corrigindo-a a bel-prazer com o texto
plenamente quando comparadas com as                hebraico; outros ainda mais radicalmente,
versões rivais gregas ou latinas, em geral         segundo o caminho aberto pela reforma
rudemente literárias e bárbaras e, portanto,       protestante, a repudiavam. Estes          fatos
também obscuras. Todavia, também S.                motivaram a intervenção do
Jerônimo, especialmente nos primeiros livros       Concílio de Trento na importante questão.
traduzidos, às mais das vezes por veneração à
                                                      Na sessão IV (8 de abril de 1546) o Tridentino,
palavra divina, não se afasta de um duro
                                                   depois de haver definido o cânon das divinas
literalismo e por amor à clareza não foge de
                                                   Escrituras, como dissemos, para enfrentar as
termos e construções vulgares; nos seus
                                                   desordens introduzidas no uso dos livros
escritos originais brilha muito mais pela
                                                   sagrados, decretou que a Vulgata, venerada pela
linguagem e pelo estilo.
                                                   antigüidade e pelo uso diuturno da Igreja, fosse
                                                   considerada versão autêntica e, além disso,
   VICISSITUDES E ESTADO ATUAL. -- Ás traduções    fosse impressa com a máxima correção. A
de S. Jerônimo não encontraram imediatamente       execução da segunda parte deste decreto, isto é,
no mundo latino a acolhida que mereciam. A         a edição correta da Vulgata, foi confiada pelo
propagação, devido em parte às dificuldades da     próprio Concílio à Santa Sé. Os Sumos
época, foi lenta, mas em constante progresso,      Pontífices, desde Pio IV até Clemente VIII,
de sorte que dois séculos depois Sto. Isidoro de   nomearam para esse fim quatro comissões
Sevilha (+ 636) pôde escrever que ela já estava    sucessivas, cujos trabalhos, não obstante as
em uso em toda a Igreja do Ocidente, e mais        numerosas dificuldades e várias vicissitudes,
tarde o renascimento carolíngio consagrou-lhe      terminaram com a edição oficial vaticana que,
definitivamente o triunfo sobre as antigas         sobre a base lançada por Sixto V, foi publicada
versões latinas. Formou-se assim, entre o séc.     por Clemente VIII em 1592, chamando-se, por
V e o IX, a versão que, propriamente é             isso, sixto-clementina; a essa, a qual se
chamada Vulgata: fundo jeronimiano com             seguiram outras duas reedições vaticanas em
algumas partes da antiga latina, como              1593 e em 1598, tiveram que se conformar todas
evidenciamos acima. No curso dos séculos,          as edições subseqüentes em qualquer parte do
porém,      transmitindo-se    em    exemplares    mundo, até aos nossos dias.
manuscritos, perdeu, ora mais, ora menos, da
sua primitiva pureza, seja por causa dos              A autenticidade da Vulgata, primordial decreto
copistas, seja por infiltrações de antigas         Tridentino, foi muitas vezes mal compreendida.
versões. Não faltaram, de vez em quando,           Antes de tudo, com este privilégio conferido à
doutos e zelosos varões para opor-se à invasão     Vulgata, de ser a única versão autêntica, o
corruptora, emendando o texto corrente a fim de    Concílio não entendeu colocá-la acima dos
reconduzi-lo à primitiva integridade. Digna de     textos originais, nem diminuir o valor intrínseco
memória pelo valor dos resultados e pela           das outras versões, sobretudo das antigas, mas
influência eficaz a revisão efetuada por Alcuíno   também das modernas, como declaram
(801), ordenada por Carlos Magno. Mas nem          expressamente as atas do concílio. O decreto
sequer esta escapou à rápida degeneração,          põe diante da Vulgata somente as outras
nem impediu que se formassem outros tipos de       versões em língua latina; o resto (seja texto,
textos, sobretudo na Espanha e na Itália.          sejam versões em outras línguas) não é
Quando, no séc. XIII, afluíam à Universidade de    alcançado pelo decreto. Em relação às versões
Paris estudantes de toda a Europa, trazendo        latinas afora a Vulgata, portanto, o decreto é
cada qual o seu texto bíblico, sentiu-se a         negativo; não lhes confere o valor reservado à
necessidade, para uso escolar, de uniformizar      Vulgata, mas não as rejeita nem as condena.
os textos muitas vezes discordantes entre si; e    Todo o peso do decreto, portanto, se concentra
isso foi feito, enxertando-se sobre o fundo        sobre o caráter positivo reconhecido à Vulgata;
alcuiniano as variantes dos outros. Originou-se    de autêntica.
daí um texto de valor discutível que, todavia,
graças à enorme influência exercida pela
célebre Universidade, teve grande sucesso e          AVE-MARIA
propagou-se por toda a "Europa, primeiro em           A Bíblia “Ave Maria” é uma versão da Bíblia
cópias manuscritas, e depois, inventada a arte     cristã publicada pela Editora Ave Maria em
tipográfica, também nas edições impressas. Só      1959, traduzida do grego e hebraico, por monges
na primeira metade do séc. XVI deram-se os         beneditinos de Maredsous (Bélgica). Foi
considerada uma das melhores traduções do
mundo na época e em sua primeira edição teve
uma tiragem de 42.000 exemplares. É uma das
traduções mais populares no Brasil. Com
poucas notas de rodapé, tem uma linguagem
coloquial, porém sem prejuízo para a
compreensão dos aspectos históricos e
culturais. Na década de 50 publicaram a Bíblia
católica do Brasil, cuja tradução, supervisionada
pelo frei João José Pedreira de Castro, vice-
presidente da LEB – Liga de Estudos Bíblicos –
e fundador do Centro Bíblico de São Paulo, foi
feita a partir da versão francesa dos monges
beneditinos, de Maredsous, Bélgica, uma
tradução direta do hebraico, grego e aramaico.
    Com uma linguagem popular, que tornou sua
leitura bastante acessível, a Bíblia Ave-Maria
encontra-se agora ONLINE!
ANTIGO TESTAMENTO

   Nos relatos do Antigo Testamento             por exemplo, de quem narra os
presenciamos a história do povo hebreu          pormenores do adultério e do homicídio
durante quase dois mil anos, desde a            (2Sam 11). Mas ao lado do escândalo
vinda de Abraão à Palestina até a               aparece a correção. Que há de mais
instalação da dinastia dos Hasmoneus            edificante do que a santa ousadia de
(cerca dos séc. XX-II a.C): história essa em    Natan em lançar à face de seu soberano
conexão, ora maior ora menor, ora direta        o duplo delito, do que o arrependimento
ora indiretamente, com a dos povos              e a humilde confissão de Davi, o perdão
vizinhos,     sobretudo      dos     grandes    da culpa, seguido da execução dum
impérios, entre os quais a Palestina jazia      castigo da parte de Deus? (2Sam 12).
como ponte: ao sul, o Egito; ao norte,          Outras vezes o pecado é censurado mais
sucessivamente, Babilônia, a Assíria, a         abertamente (Gên 38,9-10). Só os
Pérsia e a Síria. Constituíam eles outros       fariseus poderiam escandalizar-se com
tantos centros de civilização, que se           tais narrativas, motivos de ensinamento!
irradiava entre os povos submetidos ou          Além disso, quão poucos são eles em
vizinhos, formando uma vasta unidade            comparação com tantos exemplos de
cultural. No meio dessa civilização             nobres virtudes! São apenas sombras
comum movia-se o povo de Israel,                humanas a dar maior realce às luzes
sofrendo a sua influência. Nas artes e na       divinas da história sagrada. As não
indústria, Israel jamais desenvolveu uma        poucas cenas de sangue que ela relata,
civilização própria; ficou devedor ao           não passam dum reflexo daqueles
estrangeiro, como também a sua língua e         tempos rudes e ferozes. Também os
literatura trazem o cunho da origem             anais de outros povos orientais estão
comum ou do prestígio de outros povos           repletos delas, distinguindo-se os dos
socialmente mais evoluídos. No entanto,         hebreus até por um maior senso de
a      ausência    de     originalidade    e    humanitarismo; os reis de Israel gozavam
independência de civilização material,          de fama universal de clemência (lRs
põe em muito maior relevo o valor das           20,31).
instituições     religiosas     e     morais,      A relativa brandura dos hebreus
elementos básicos da civilização genuína        derivava da legislação que Deus lhes dera
e completa que foram glória exclusiva           por intermédio de Moisés. A pena de
desse povo eleito.                              morte é aplicada mais raramente do que
                                                no código de Hamurabi, e quase só por
   VALOR DA INTERPRETAÇÃO. — O Antigo           meio de apedrejamento. Reconhece a lei
Testamento         é     uma        obra        de talião, em voga nos costumes dos
verdadeiramente divina porque inspirada         povos, mas a mitiga (Êx 21, 23125.28-
por Deus e porque nos apresenta, pode-          32). Assim em outras asperezas
se dizer, em cada uma de suas páginas, a        (vingança do sangue) ou relaxamento de
ação de Deus sobre os homens. Ao                costumes (poligamia, divórcio) a lei,
mesmo tempo, porém, é uma obra                  encontrando costumes inveterados e
profundamente        humana,     porque         não podendo desarraigá-los totalmente,
destinada aos homens, fala uma                  intervém para os refrear e regulamentar
linguagem humana e nos apresenta, na            (cf. Mt 19,8). Doutra parte, impõe os
sua história, os homens tais quais são,         deveres de humanitarismo também para
com suas deficiências e rebeldias contra        com o próprio adversário (Êx 23,4-5) e
os desígnios divinos. Não costuma               estabelece a medida da mútua
encobrir as faltas dos seus heróis; Davi,       benevolência, com o preceito: "Amarás o
teu próximo como a ti mesmo" (Lev             fatos históricos e às pessoas desse
19,18), donde a norma: "Não faças aos         "drama" divino, que no Novo
outros o que não te agrada" (Tob 4,16).       Testamento recebem a sua conclusão. Os
Para com os estrangeiros, as viúvas, os       apóstolos e o próprio Jesus (Mt 12,40;
órfãos, em suma, os mais necessitados,        Jo3,14;6,32) indicaram-nos algumas
recomenda considerações especiais (ÊX         dessas imagens antecipadas que, a
22,21-23; Dt passim). Muitas vezes o          exemplo de S. Paulo, costumam chamar-
próprio Deus, especialmente pela              se tipos ou figuras; o objeto por elas
pregação dos profetas, faz-se seu             vislumbrando chama-se antítipo ou
advogado e protetor. Contra o abuso da        figurado. Daí se segue que no Antigo
escravidão, praga da sociedade antiga, a      Testamento, além do sentido das
lei mosaica, além de múltiplas restrições     palavras chamado verbal ou literal, há
(Êx 21,1-11; Lev 25,39-45; Dt 15,12-18),      que reconhecer um sentido das coisas,
já defende o princípio de igualdade dos       chamado real ou típico, e às vezes menos
homens perante Deus (Lev 25,42). Nada         felizmente, místico e alegórico. Entre
disso se encontra em outros códigos           estas duas categorias de sentido há
orientais, sem falar na genuína doutrina      conexão, mas ao mesmo tempo grande
religiosa, própria do Antigo Testamento,      diferença. O sentido literal (que pode ser
que também ê fator autêntico de               próprio ou impróprio, isto é, metafórico)
verdadeira civilização. Por outro lado, as    não pode faltar em nenhum dito da
suas mais nobres eminências o Antigo          Escritura e acha-se freqüentemente sem
Testamento as atinge nos seus profetas,       o típico, do qual é fundamento
figuras grandiosas de poetas e de heróis.     necessário. O típico, ao invés, jamais
   Em comparação com a sublime                pode disjungir-se do literal e não existe
doutrina evangélica, a lei antiga,            em toda parte, mas tão-somente onde
evidentemente, é bem imperfeita; para         há verdadeira semelhança e relação com
aqueles tempos e povos antigos, porém,        algo de análogo no Novo Testamento.
era uma lei santa, que trazia em si os           A autêntica originalidade do Antigo
germes de um pleno aperfeiçoamento.           Testamento consiste na sua doutrina
Era uma instituição religiosa preparatória    religiosa e moral, cujo centro ocupa-o a
para um regulamento definitivo, que           idéia do monoteísmo. Na expressão
devia ser trazido pelo Messias, por Cristo.   artística do pensamento, porém, não
S. Paulo, com razão (Gál 3,24), comparou      difere muito dos produtos das línguas e
a lei mosaica ao pedagogo, que conduz         literaturas irmãs, em particular da
os discípulos à escala do Mestre, de          acádica e da fenícia (ugarítica). A língua
Cristo. As próprias falhas do Antigo          hebraica, bastante parca de conjunções
Testamento levavam a desejar o Senhor         subordinativas, costuma exprimir-se em
e Salvador, cujo advento fora anunciado       proposições breves coordenadas com a
pelos profetas.                               simples aditiva: e . . . e . . . Resulta daí
   Observa-se, puis, um progresso vital       certa dureza e monotonia, sobretudo na
do Antigo ao Novo Testamento, como do         parte narrativa, que as versões modernas
embrião que se desenvolve num                 devem atenuar, ligando e construindo à
organismo perfeito. Deste caráter do          nossa maneira usual.
Antigo Testamento e desta sua relação            O estilo hebraico é imaginoso e
com o Novo, deriva uma conseqüência           concreto; exprime-se com metáforas
importante para a sua correta                 ousadas e imagens exuberantes,
interpretação, pois as suas instituições      apresentando as coisas abstratas e
deviam ter alguma semelhança com as           espirituais com termos realistas capazes
do Novo; eram as suas imagens                 de chocar nossos costumes e gostos mais
antecipadas. Analogamente quanto aos          refinados. Em particular fala de Deus e
de suas ações em termos de atividade        leitor não se admire disso, nem se deixe
humana:      mãos,     olhos,    ouvidos    levar a erro. Sob a aparência muitas
(antropomorfismo),      ficar    sentido,   vezes áspera, oculta-se sempre um
comover-se,                arrepender-se    pensamento nobre e puro.
(antropopatismos), e semelhantes. Que o
O PENTATEUCO

   O primeiro lugar de ordem e de honra        antiga e para a história especial do povo
entre os livros do Antigo Testamento           hebreu.
ocupa-o aquele que os gregos chamaram             Quem ê o autor do Pentateuco? Desde
Pentateuco, isto é, obra em cinco tomos.       a mais remota antigüidade foi
Para os hebreus é a "tora", ou seja, a lei,    considerado seu autor o próprio Moisés,
nome tomado da matéria central.                o protagonista dos últimos quatro livros.
Também os hebreus o dividiram nos              Já nos livros posteriores da Bíblia citam-
mesmos cinco livros que os gregos,             se-lhe várias sentenças com a fórmula:
distinguindo--os com a palavra inicial. Nós    "Está escrito na lei de Moisés", ou "no
usamos exclusivamente os nomes                 livro de Moisés", ou "no volume da lei de
impostos pelos gregos, que de maneira          Moisés". Assim, para não falar do livro de
graciosa lhes caracterizaram o conteúdo:       Josué, que é a continuação imediata e
Gênesis, Êxodo, Levítico, Números,             como que o complemento do Pentateuco
Deuteronômio. De jato, o Gênesis narra         (Jos 8,31;23,6), em lRs 2,3; 2Rs 14,6;
as origens do universo e do gênero             2Crôn 23,18;25,4;35,12; Esdr 3,2;6,18; Ne
humano até à formação paulatina do             8,1; 10,34; 13,1; Bar 2,2; Dan 9,11 etc. Os
povo de Israel na sua estada no Egito. O       Evangelhos nos apresentam a convicção
Êxodo narra a saída dos israelitas do          de que Moisés é autor da lei, difundida e
Egito, conduzidos por Moisés aos pés do        radicada entre os judeus; o próprio Jesus,
Sinai, para aí receberem de Deus a sua lei     bem como os apóstolos admitem-na e a
religiosa e civil e se constituírem, por       confirmam (veja Mt 8,4; Mc 12,26; Lc
meio      de      um     pacto     sagrado     20,37; Jo 5,46; At 3,32;15,21; Rom 10,5
("testamento"), em peculiar "povo de           etc.). Entre as testemunhas eloqüentes da
Deus (Javê)". O Levítico regula o culto        fé judaica figuram Fílon, José Flávio, e
religioso à maneira de ritual, dirigido        com maior crédito e ressonância o
especialmente aos levitas, que formavam        Talmud (tratado Baba batra, f. 14,15);
o clero consagrado ao serviço do               entre os cristãos, os Padres da Igreja são
santuário. Os Números recebem o nome           unânimes em reconhecer Moisés autor
dos recenseamentos do povo contidos na         do Pentateuco.
primeira parte, estendendo-se, depois,            Não contraria essa atribuição o fato de
em referir fatos e providências legislativas   que de Moisés se fale sempre em terceira
correspondentes a cerca de quarenta            pessoa; Xenofonte e Júlio César (para
anos de vida nômade no deserto da              falar só em nomes célebres), fizeram o
península sinaítica. No Deuteronômio, ou       mesmo. Nem suscita a menor dificuldade
segunda lei, emanada pelo fim da jornada       a grande antigüidade de Moisés (cerca do
no deserto, Moisés retoma a legislação         século xiv a.C), pois agora sabemos por
precedente para adaptá-la às novas             documentos originais recentemente
condições de vida sedentária, em que o         descobertos, que naquela época, não só a
povo viria a se encontrar com a conquista      escrita já era conhecida desde séculos,
iminente da Palestina.                         mas até o próprio alfabeto fenicio-
   Neste rápido apanhado aparece num só        hebraico já fora inventado. Nem
lance tanto a unidade como a variedade         derrogam esta convicção universal a
do Pentateuco, bem como a sua                  opinião de alguns, já na Idade Média, de
importância fundamental para a religião        que um outro trecho breve, como os oito
últimos versículos do Deuteronômio, que       de Esdras (século v a.C). Com tais
narram a morte de Moisés, tenha sido          conclusões, nada mais resta a Moisés do
acrescentado mais tarde ao Pentateuco.        Pentateuco, exceto um ou outro
Só nos tempos modernos é que surgiram         fragmento, como o Decálogo (Êx 20),
dúvidas e negações radicais.                  incorporado         pelos         primeiros
   A partir do século xvin vem-se fazendo     colecionadores das antigas memórias (J E)
pesquisas perspicazes em três sentidos:       à própria obra.
composição, autor, idade do Pentateuco.          Esta teoria, que se estriba, em boa
A composição: é fruto ou não da união de      parte, no princípio filosófico da evolução
vários documentos ou de mais escritos         aplicado à religião e à história do povo
originariamente distintos? O autor: de        hebreu, se bem que tenha encontrado a
quem são as partes individuais ou os          maior aceitação entre os protestantes,
documentos, quem as reuniu num todo,          teve na própria Alemanha, fortes
ou seja, de quem é a redação definitiva       opositores entre os críticos de primeira
do atual Pentateuco? A idade: quando          ordem, especialmente no que concerne
viveu cada um dos autores e redatores?        às datas atribuídas aos supostos
São três questões distintas entre si, mas     documentos, que, se na verdade é o
tão conexas que podem e habitualmente         ponto mais revolucionário, é também o
são tratadas como um tema comum: a            mais vulnerável de todo o sistema. Para
questão mosaica. Para responder a tais        desmenti-lo neste ponto, surgiram no
questões elaboraram-se, no século xix,        século xx novas escolas; novas
vários sistemas; mas prevaleceu sobre         orientações emergiram do solo, com as
todos, no fim do século, o defendido por      escavações no Oriente, importantíssimos
K. H. Graf (1866) e aperfeiçoado por J.       documentos, tais como o código de
Wellhausen (1876-78). Ele distingue no        Hamurabi, rei de Babilônia, os arquivos
Pentateuco quatro autores ou escritores       dos heteus, ou hititas, em Bogazkõy, na
diferentes: dois narradores denominados       Ásia Menor, e os poemas ugaríticos
pelo uso diferente do nome de Deus, um        descobertos em Ras Shamra, no litoral da
¡avista (abreviado }), o outro eloísta (E),   Síria, para só mencionar os principais. Eles
aos quais se deve a maior parte dos fatos     trazem à luz costumes, instituições e ritos
referidos no Gênesis, Êxodo, Números;         análogos aos do Pentateuco de tempos
um deuteronomista (D), autor quase            até mais antigos de Moisés, e que os
exclusivo do Deuteronômio; e um tratado       críticos julgavam próprios de época mais
presbiteral (P) ou código sacerdotal, que     recente, e nos revelam fatos que se
compreende todo o Levítico e muitas           refletem na vida dos patriarcas (Gên 12,
partes narrativas de Gênesis, Êxodo e         fim), com matizes que poucos séculos
Números. Esses os documentos. Para as         atrás teria sido impossível imaginar.
respectivas datas, segundo a supracitada         Conseqüentemente,         a    brilhante
escola, o código sacerdotal (P) seria         concepção arquitetada por Wellhausen
posterior ao profeta Ezequiel (primeira       acha-se em plena dissolução. Resiste
metade do século vi a.C), o Deuteronômio      ainda       tenazmente         a     análise
teria sido composto pouco antes da            documentária, ou seja, a distinção de
reforma religiosa de Josias, ou seja, pelo    quatro (ou mais) fontes, de cuja fusão
ano de 621 a.C, o eloísta e o ¡avista         teria resultado o Pentateuco.
seriam mais antigos (século viu e ix). A         Remetendo,      para    mais    amplas
união de todos esses escritos no atual        explicações, a tratados especializados de
Pentateuco ter-se-ia realizado no tempo       introdução bíblica, ou a comentários mais
desenvolvidos, exporemos aqui os fatos         Eloim 6 Javé. Na tradução, a Vulgata nem
objetivos, sobre os quais se quer              sempre conserva a distinção.
fundamentar a prova da estrutura                  O emprego alternado dos dois nomes
compósita do Pentateuco, para indicar          divinos não é casual; nem é sem motivo
depois uma via de solução, e mostrar           que cessa em Êx 6, predominando depois
como esses fatos, quando reduzidos ao          quase exclusivamente Javé; isso está
seu justo valor, não impedem que Moisés        manifestamente em relação com o que aí
possa ser verdadeiramente chamado              se lê; às gerações precedentes Deus se
autor do Pentateuco. A exposição que           revelava como Sadai, pois desconheciam
segue auxiliará o leitor a formar-se uma       o nome sagrado de Javé, revelado pela
compreensão mais clara destes livros.          primeira vez a Moisés (veja também Êx
   Nomes divinos. — Para exprimir a idéia      3,13-15,). Compreende-se, pois, porque
de Deus, a língua hebraica dispõe de           nas narrativas precedentes o nome usado
muitos termos. O mais freqüente (1.440         seja Eloim. Mas, como explicar a presença
vezes no Pentateuco, mais de 6.800 em          de Javé em tantas partes do Gênesis?
toda a Bíblia) é "Javé" (ou "Jeová",           Depois de Astruc viu-se aqui a prova
segundo      uma       pseudo     pronúncia    tangível de duas fontes ou dois autores
introduzida entre os séculos xvi e xix),       diferentes, chamados um eloísta (sigla E),
nome próprio, pessoal. " 'Elohim" (975         outro javista (sigla J). Veremos se com
vezes no Pentateuco, cerca de 2.500 na         razão.
Bíblia) é nome de natureza, como se               Língua e estilo. — No entanto, estão já
disséssemos:            a         divindade;   todos concordes que o argumento dos
gramaticalmente plural (a forma singular,      nomes divinos, por si só, não é suficiente
" 'eloah", é poética e existe só 2 vezes no    para se distinguirem solidamente fontes
Pentateuco), quanto ao sentido é singular      ou autores. Este argumento por isso é
"El", de igual valor, mas arcaico e poético,   acompanhado de provas subsidiárias.
46 vezes no Pentateuco; " 'Adonai" =           Com efeito, observam eles, à alternação
Senhor, 17 vezes; "Saddai" = o                 dos nomes divinos acha-se associada a
                                e
Onipotente (?), 9 vezes; " Elion" = o          semelhantes mudanças de vocábulos e
Altíssimo, 6 vezes. À questão mosaica          construções. Por exemplo, o ato criador
interessam principalmente os dois              em Gên 1 exprime-se com "bara' ", em 2
primeiros. Foi observado (e o primeiro a       com "yasar"; os habitantes da Palestina
dar pelo fato foi o médico católico francês    antes dos hebreus são chamados
                                                                    (í
Jean Astruc em 1756) que no Gênesis e          "cananeus" por J, amor eus" por E; a
no início do Êxodo capítulos inteiros          serva, "sifha" por J, * 'amah" por E; o
empregam exclusivamente, ou quase, o           patriarca Jacó só em J toma o nome de
nome Javé; outros, ao invés, com a             Israel. A diversidade prolonga-se além do
mesma exclusividade e constância rezam         Gênesis; o monte onde foi promulgada a
Eloim. Assim, por exemplo, em Gên 1, lê-       lei, em J chamava-se "Sinai", em E "Ho-
se 33 vezes Eloim, e nunca Javé; em Gên        reb"; o sogro de Moisés, em J tem o nome
4, uma vez Eloim e 10 vezes Javé (em 2-3       de "Raguel", em E de "Jetro", e assim por
diga-se de passagem, estão juntos Javé e       diante, igualmente, mudando os nomes
Eloim); em Gên 10,16 nenhum Eloim, 36          divinos, muda o estilo. J é mais abundante
Javé (com 2 Adonai); em Gên 17, ao invés,      e minucioso; condescendente e popular,
7 Eloim, 1 Javé; em Gên 24 nenhum              não      evita    os    mais      chocantes
Eloim, 19 Javé; em Gên 30-35 contra 32         antropomorfismos; vivaz e dramático,
                                               tem um colorido poético, fascinante. E é
mais seco, anedótico, um pouco               permitir a ereção de um altar em
descuidado.                                  qualquer lugar, memorável por alguma
   Observando-se a diversidade de estilo,    intervenção divina, e aí imolar vítimas
descobrem-se mais duas fontes ou             sagradas. Lev 17,3-9 não admite
autores: um segundo eloísta que, nas         nenhuma matança de animal longe do
partes     legislativas,   ocupa-se     de   altar, sobre o qual deve ser derramado o
preferência do culto religioso, donde foi    sangue, sendo este altar, em união com o
chamado sacerdote e autor do "código         tabernáculo sagrado, o único para todos.
sacerdotal" (P); e na seção narrativa ele    Em Dt 12,1-28, segundo a interpretação
aprecia as estatísticas, anotações           comum e óbvia, únicos são o templo e o
cronológicas, fórmulas esquemáticas          altar, e fora deles não é permitido
(exemplo seja a narração da criação, Gên     oferecer sacrifícios a Deus. Permite-se, no
1), a linguagem precisa e quase pedante      entanto, que se matem animais em
do jurista. E, enfim, o pregador que         qualquer lugar, para o uso comum,
escreveu o Deuteronômio (D) num estilo       derramando-lhes o sangue por terra, ação
amplo, parenético, cheio de afeto            declarada profana e não mais sagrada.
humanitário e de suave insinuação.              A esta variedade de leis corresponde —
   Os duplicados. — Para provar a            observa-se — a prática na história,
pluralidade de autores do Pentateuco         conforme vem narrada pela própria
surge um terceiro argumento, mais            Bíblia. De fato, vemos nos livros dos Juízes
valioso do que os dois antecedentes.         (6,24-28; 13,15-23), de Samuel (ISam 6,
Certos acontecimentos — diz-se — e não       9.17;9,12; 2Sam 15,7-12;24,18-25), dos
poucas leis, ocorrem duas e até três vezes   Reis (IRs 3,2-4; 15,14 etc.), altares erigidos
em forma pouco diversa. Assim, a criação     e sacrifícios oferecidos quase por toda
do mundo é narrada duas vezes (Gên 1,1-      parte, segundo as circunstâncias, em
2,3 e 2, 4-24); duas vezes Agar é expulsa    harmonia com a lei do Êxodo. Mas, em
da casa de Abraão (16 e 21); duas vezes      2Rs 22,23, lemos que o rei Josias no
acha-se em perigo a honestidade de Sara      sétimo ano de seu reinado (621 a.C.),
(12 e 20) e uma terceira a de Rebeca (26);   tendo-se encontrado como que por
as duas genealogias de Caim (4) e de Set     acaso, no templo, um exemplar da lei, fez
(5) têm em comum a maior parte dos           dela uma aplicação imediata, que
nomes; no dilúvio (6-8) são entrelaçadas     corresponde exatamente às prescrições
duas narrações distintas. Duas vezes é       do Deuteronômio, particularmente acerca
repetida a vocação de Moisés (Êx 3 e 6), a   da unicidade do santuário e do altar.
queda do maná e a pousada das co-            Trata-se da chamada reforma de Josias,
dornizes no deserto (Êx 16 e Núm 11), a      precedida, um século antes, por uma
prova junto às águas de Meribá (Êx 17 e      tentativa de Ezequias no mesmo sentido
Núm 20). O preceito das três solenidades     (2Rs 17,22; 2Crôn 32,12; Is 36,7).
anuais é repetido até cinco vezes (Êx           Esses os fatos. A supradita escola crítica
23,14-19;34,23-26; Lev 23; Núm 28; Dt        tira daqui as conseqüências que temos
16).                                         visto: o Deuteronômio, o primeiro a
  Variações nas leis. — Entre os             ostentar a lei do altar único, foi composto
duplicados legais, especial atenção          no século vil a.C, pouco antes da reforma
reclamam os que introduzem uma               de Josias. O Levítico, que já supõe essa lei,
modificação. A mais célebre e mais grave     bem como todo o código sacerdotal ao
de tais modificações diz respeito ao lugar   qual pertence, é posterior a Josias e ao
do culto (templo e altar). Êx 20,24 parece   exílio, acrescentado pouco depois. Os
dois escritos narrativos, o javis-ta e o     repetido na eloísta (um "duplicado"
eloísta, que já circulavam separadamente,    análogo aos do Pentateuco) sem outra
o primeiro desde o século ix na Judéia, o    variante, ou quase, senão justamente
segundo desde o século viu no reino de       esses nomes divinos. Ora, assim como
Israel, refletem a prática mais antiga.      ninguém duvida que os salmos assim
   Essas conseqüências sustentam-se?         repetidos, por exemplo, 13 e 52 sejam do
Será que os fatos acima mencionados,         mesmo autor, assim também não está
reduzidos aos seus justos limites, não       provado que seções ¡avistas e eloístas no
comportam outra explicação? A solução        Pentateuco devam pertencer a autores
da questão da autenticidade mosaica do       diferentes.
Pentateuco depende da resposta a esses          A língua e o estilo não dependem
dois quesitos.                               unicamente do autor, mas também do
   Partindo do primeiro argumento, o dos     assunto e do gênero literário. Santo
nomes divinos, afirmamos antes de mais       Agostinho ditava os seus trabalhos
nada que nem sempre esteve ao arbítrio       dogmáticos de modo diverso dos seus
do escritor usar Javé ou Eloim; o matiz      sermões populares. O Deuteronômio, que
sutil de sentido e a associação diferente    é a promulgação oral de uma lei, em
de idéias contidas nos dois nomes, levam,    reunião pública, não pode ter o estilo
em dadas circunstâncias, a usar um com       lapidar de um código gravado em tábuas,
exclusão de outro, e em certas               nem as disposições rituais do código
construções o uso, sem razão aparente,       sacerdotal têm que se amoldar às leis
ligou-se exclusivamente a um ou ao           civis do código da aliança (Êx cc. 21-23). A
outro. Ê daí que se diz: " 'is Elohim" =     variedade, por maior que seja, não se
homem de Deus, mas "debar Jahvé" =           opõe à unicidade substancial do autor.
palavra do Senhor, e não o contrário. O      Além disso, não está excluído, como
critério dos nomes divinos, portanto, está   veremos, o emprego de fontes e de
sujeito à cautela. Além disso, será que      colaboradores que também deixam a sua
estamos certos de que os nomes divinos,      marca na obra definitivamente concluída.
como figuram no texto atual, são                Distinguimos duas espécies dos
originais, isto é, remontam ao próprio       chamados duplicados: duas vezes ocorre
autor?                                       um fato semelhante (duplicado real), ou
   A tese crítica o supõe, e é para ela      duas vezes narra-se o mesmo fato
indispensável. Há, porém, boas razões        (duplicado literário); para a questão de
para duvidar. A alternação dos nomes         unicidade ou pluralidade de autor,
divinos não é particularidade do             somente a segunda espécie tem valor.
Pentateuco: constata-se também em            Ora, que, por exemplo, a beleza de Sara
outros livros da Bíblia, especialmente no    tenha excitado duas vezes, em duas
Saltério, onde os primeiros quarenta e os    cidades diversas, a cobiça de um déspota
últimos sessenta salmos usam quase           oriental (Gên 12 e 20) nada tem de
exclusivamente Javé, ao passo que os         improvável. Ê também positivamente
demais cinqüenta, do meio, empregam          verossímil que em quarenta anos mais de
geralmente Eloim. Ora (e isto é de           uma vez se tenha verificado a passagem
importância capital), pode-se demonstrar     das codornizes nas suas migrações
com vários argumentos que também             através do deserto (Êx 16; Núm 11); estes
naqueles salmos, agora eloísticos,           são duplicados reais. Cumpre examinar,
originalmente no lugar de Eloim havia        assim, caso por caso. Para a repetição em
Javé. Mais de um salmo da seção javista é    que o mesmo ato não pareça admissível,
isto é, em se tratando de verdadeiros         (talvez também, parcialmente, por
duplicados literários, tem valor a solução    escrito) às gerações do povo de Israel,
que delinearemos mais adiante.                cujas memórias o grande legislador teria
   É insito em toda lei, civil ou religiosa   registrado, deixando às narrações o seu
que, permanecendo inalterados os              matiz original. Um exemplo claro deste
pontos fundamentais, em muitos outros         gênero temo-lo no capítulo 14 (expedição
esteja sujeita a variações com o decorrer     de Abraão e encontro com Mel-quisedec),
do tempo e as mudanças de                     de características tão individuais, que a
circunstâncias. Nem a lei mosaica podia       crítica o atribui a uma fonte especial, não
escapar a essa necessidade quase vital.       pertencente a nenhuma das quatro
Mas o próprio texto apresenta a razão         habituais. No tocante aos quatro livros
das variações observadas no Pentateuco.       posteriores, que versam exatamente
Desde a primeira legislação no Sinai          sobre os tempos de Moisés, já indicamos
(código da aliança) e a segunda, às           as      razões      que    explicam      as
margens do Jordão, o Deuteronômio,            particularidades estilísticas de dois
passam-se cerca de quarenta anos, e, o        grandes documentos legislativos, o
que mais importa, o povo de Israel, no fim    Código sacerdotal e o Deuteronômio.
desse período, encontra-se prestes a             Outra hipótese, baseada na analogia do
sofrer uma profunda transformação, ao         Saltério, é a seguinte: o Pentateuco,
passar da vida nômade ou pastoril, à          composto inteiramente por Moisés, parte
sedentária e agrícola. Impunha-sef            baseado em suas recordações, parte em
portanto, uma adaptação do antigo             documentos fornecidos pela tradição e
direito às novas condições. Da não            pela casta sacerdotal, propagou-se na
observância rigorosa, durante séculos, da     sociedade hebraica, e, durante a
lei deuteronômica sobre a unicidade do        transmissão, sofrendo modificações na
altar, não prova de per si que não            forma, em nada insólitas na transcrição
existisse. De resto, um ou outro              de obras literárias, chegou, com o tempo,
acréscimo ou modificação pode ter-se          a receber, em dois pontos diversos da
introduzido com o tempo nas leis              área israelita, por exemplo, no reino de
mosaicas sem derrogar ou diminuir a           Efraim e no reino de Judá, duas formas
paternidade de Moisés do Pentateuco.          um tanto diferentes; em uma delas, entre
   A escola crítica, portanto, não provou,    outras coisas, o primitivo nome de Javé
contra o testemunho claro da própria          foi substituído por Eloim. Mais tarde (no
Bíblia, a sua tese de que o Pentateuco em     reinado de Ezequias ou Josias), quando se
nada      pertence     a    Moisés.     Das   sentiu a necessidade ou a oportunidade
discrepâncias, quaisquer sejam, de            de unificar as duas recensões, um redator
vocabulário, de estilo, de leis, dão-se       fundiu-as, extraindo ora desta ora
outras explicações conciliáveis com a         daquela, muitas vezes contentando-se
autenticidade mosaica. No Gênesis, por        com justaposições, sem alterar as feições
exemplo, não se lhe opõe a distinção de       próprias de cada uma. Destarte explicar--
fontes, pois trata-se de acontecimentos       se-iam os fenômenos que levaram a
anteriores a Moisés, transmitidos, ao         acreditar na existência de fontes diversas.
menos em grande parte, oralmente
INTRODUÇÃO AO GENESIS                       do homem sobre a terra. A Bíblia não
                                            é contrária a resultados certos de tais
   O Gênesis narra as primeiras             ciências, também porque as listas
origens do mundo, do gênero humano,         genealógicas do Gênesis poderiam
do povo hebreu, tudo relacionado com        ser incompletas, ou seja, com
Deus, com sua revelação, com seu            omissões de elos intermediários.
culto. Deus cria o universo, revela-se         Do nascimento de Abraão à
aos primeiros homens, Deus escolhe          descida dos israelitas ao Egito -- 290
uma       família    (Abraão     e    sua   anos -- (Gên 21,5 + 25,26 + 47,28), a
descendência), para no seio dela            cronologia respectiva é mais ou
conservar e desenvolver os germes da        menos certa. Para a cronologia
primitiva revelação e a verdadeira          absoluta (baseada na era vulgar) ter-
religião, no intuito de preparar a solene   se-ia um ponto fixo no sincronismo de
revelação do Sinai, narrada no Êxodo.       Abraão com Hamurabi, o célebre rei
   A criação do céu e da terra (1,1-2,3),   da Babilônia, cujo famoso código de
é como que o prólogo do grandioso           leis foi descoberto em 1902. A
drama, que se divide em duas partes,        identificação, porém, de Amrafel, rei
e tem por protagonistas os cinco            de Senaar (Gên 14,1), com Hamurabi
grandes patriarcas: Adão e Noé,             da Babilônia, é hoje mais do que
patriarcas do gênero humano; Abraão,        duvidosa; tampouco a data do
Isaac e Jacó, patriarcas do povo            reinado       deste     último    está
hebreu.                                     definitivamente fixada; atualmente
   O todo ê enquadrado pelo autor           tende-se a colocar-Ihe o início por
sagrado em dez tábuas genealógicas          volta de 1728 a.C. Tomando como
(2,4; 5,1; 6,9; 10,1; 11,10; 11,27;         ponto de partida a data em que os
25,12; 25,19;36, 1;37,2) dispostas de       israelitas saíram do Egito sob o faraó
tal modo que, após ter registrado os        Menefta pelo ano de 1200 a.C, e
ramos secundários da propagação             remontando o curso dos séculos com
humana, volta a narrar difusamente os       os dados da própria Bíblia (Ex 12, 40
destinos do ramo patriarcal, isto é, da     e passagens acima citadas), Abraão
descendência eleita, portadora da           teria nascido por volta de 1900 a.C,
revelação divina e da verdadeira            mas não é certo qual seja o faraó do
religião.                                   Êxodo.
   O Gênesis abrange na sua narração           Muitas páginas do Gênesis têm
uma longa série de séculos, e               correspondência nos monumentos
colocando (no tronco principal das          babilónicos e egípcios: nos primeiros,
suas genealogias) ao lado dos nomes         a história primitiva, isto é, os
também números de anos, forneceria          primeiros 11 capítulos; nos egípcios,
os elementos de uma cronologia.             o resto, especialmente a história de
Infelizmente as cifras não parecem          José (37-50). Com os dois primeiros
bem       conservadas,     porque     nos   capítulos (a criação) têm algo de
números dos capítulos 5 e 11 os três        semelhante         vários      poemas
textos independentes: o hebraico, o         babilónicos entre si discordantes e
samaritano e o grego divergem entre         que são uma fantasiosa mitologia de
si. Baseando-se sobre o seu texto, os       crasso politeísmo; quão mais sublime
gregos do império bizantino colocavam       pela nobreza de pensamento é a
a criação do homem 5.508 anos a.C.          prosa simples da Bíblia! Também a
Os hebreus ainda usam uma era que           tradição babilônica conhece dez reis,
no mesmo período conta 3.760 anos.          como Gên 5, dez patriarcas, de vida
As ciência antropológicas exigem um         longuíssima antes do dilúvio. Este
tempo assaz maior para a existência         cataclisma foi narrado em muitas
lendas babilônicas, uma das quais foi
inserida    no    romanesco     poema
"Gilgames", assim chamado por causa
do herói protagonista. Os pontos de
contato com a narração bíblica (Gên 7;
8) são numerosos e típicos. A narração
da torre de Babel (Gên 11,1-9) é toda
tecida de elementos babilônicos; mas
um paralelo exato não foi ainda
encontrado na literatura cuneiforme.
Nada ainda se encontrou nessa
literatura de verdadeiramente análogo
à narração do paraíso terrestre e da
queda do homem (Gên 3).
   Nos monumentos egípcios temos
representadas       muitas       cenas
semelhantes às narradas no Gên cc.
12,37-50.
INTRODUÇÃO AO ÊXODO

   O segundo livro do Pentateuco toma o       17), reside a verdadeira prerrogativa do
nome de Êxodo da saída dos hebreus do         povo de Israel; nada de semelhante se
Egito, onde, depois dos bons tempos de        encontra em nenhum outro povo. Citam-
José, passaram a sofrer a mais dura           se, é certo, da literatura egípcia, certas
escravidão. Esse acontecimento, porém,        desculpas espirituais como: "Não cometi
nada mais foi do que o prelúdio de jatos      injustiça, não roubei, não matei'' etc., ou
muito mais importantes na vida dos filhos     da babilônia, os esconjuros, onde se
de Israel, os quais, de um conglomerado       pergunta se o exorcizado ultrajou alguma
de famílias que eram, recuperando a           divindade, se desprezou pai e mãe, se
liberdade,     conquistaram      verdadeira   mentiu ou praticou obscenidades etc. Mas
unidade de nação independente e               não há proporção entre os protestos de
receberam uma legislação especial, uma        um particular para evitar o castigo
forma de vida moral e religiosa, pelas        (finalidade daquelas fórmulas rituais) e a
quais se distinguiram de todos os outros      autoridade soberana que impõe a lei a
povos da terra.                               todo um povo. Entre os próprios egípcios e
    Com toda facilidade compreender-se-á      babilônios, nada há de correspondente, na
a importância deste livro, sobretudo em se    legislação, àquelas fórmulas cerimoniais.
pensando que, se a história civil das         O decálogo de Moisés não tem rivais no
nações, mormente as antigas, acha-se          mundo.
intimamente vinculada à religião e essa à        Pelas       razões      citadas,      os
moral, isto jamais foi tão verídico como a    acontecimentos narrados no Êxodo
respeito dos hebreus. As leis contidas no     tiveram um eco enorme na memória das
Êxodo formam a essência da vida civil e       tribos israelitas. Em quase todas as
religiosa do povo eleito.                     páginas do Antigo Testamento são
   Ê bem verdade que, de todas essas          recordadas a libertação da escravidão do
leis, e especialmente as do chamado           Egito, a prodigiosa passagem do mar
código da aliança (21-23), foram              Vermelho, os golpes tremendos com os
encontradas analogias notáveis no código      quais foi dominada a tenaz oposição do
de Hamurabi (rei babilônico, que viveu        opressor      egípcio,   as     grandiosas
alguns séculos anteriormente a Moisés),       manifestações divinas no Sinai, o sustento
que foi descoberto, traduzido e publicado     milagroso de povo tão numeroso no
pelo dominicano Pe. Scheil, em 1902. De       deserto. Daí Israel deduzia os motivos
tais analogias não se infere, porém, em       mais fortes para ser grato e fiel a Deus, e
absoluto, como pretendem alguns, a            conservar uma confiança inabalável na
dependência do código mosaico do              sua providência soberana e nos seus
babilônico. Elas têm sua explicação           próprios destinos.
adequada nos fatores comuns às duas              A cronologia do Êxodo, ou seja, o ano
sociedades, israelita e babilônica, tão       em que os hebreus saíram do Egito, está
próximas no tempo, no lugar e também na       naturalmente ligada à história desse país.
origem, pois os patriarcas do povo hebreu     Mas, já que a Bíblia não fornece os nomes
procediam do vale do Tigre.                   dos dois faraós, o da opressão (1,8;2,23) e
   Realmente, na legislação decretada no      o da saída (14,5), duas opiniões diversas
Sinai, nem tudo foi criado desde a raiz;      se equilibraram entre os doutos, com
muitos usos e costumes já introduzidos na     autoridade e número de defensores quase
prática social foram confirmados pela         iguais. Para uns, o opressor seria Totmés
aprovação divina. De resto, também nas        III (1500--1450) e o outro Amenofis II
famosas leis romanas das doze tábuas          (1447-1420), da XVIII dinastia; para
descobrem-se semelhanças com o código         outros, no entanto, Ramsés II (1292--
mosaico, sem que ocorra a alguém o            1225), da XIX dinastia, teria oprimido os
pensamento de querer estabelecer um           hebreus, e seu sucessor, Menefta (1225-
parentesco entre as primeiras e o             1215), tê-los-ia libertado. A segunda
segundo.      Providências     semelhantes    opinião, que estabelece o século XIII a.C.
surgem          espontaneamente         de    para o Êxodo, parece-nos mais condizente
necessidades sociais do gênero. No            com o texto (1,11) e mais coerente com
decálogo, porém, e na doutrina religiosa      outros dados da história sagrada e
que lhe forma a base inconcussa (20,2-        profana.
INTRODUÇÃO                    AO LEVÍTICO

   Este livro traz o nome de Levítico, por    festivos: solenidades anuais e o sábado
tratar quase exclusivamente dos deveres       (23).
sacerdotais. Poder-se-ia compará-lo a um         5- Determinações diversas: lâmpadas
ritual.                                       no santuário e pães da apresentação
   Com exceção de dois trechos históricos     (24,1-9); pena para o blasfemador
(8      a    10;24,10-23),     compõe-se      (24,10-23); prescrições para o ano
inteiramente de leis que visam à              sabático e jubileu (25); promessas e
santificação individual e nacional.           ameaças relativas a observância da lei
Santificação, de per si ritual e exterior,    (26); votos e dízimos (27).
que, porém, simboliza e promove certa         O sacrifício, o ato mais sagrado da
santidade interior e moral. Toda a            religião, isto é, oferecer a Deus vítimas,
matéria pode ser dividida em cinco            animais ou vegetais, não foi instituído
partes:                                       por Moisés, mas remonta às próprias
   1- Leis relativas aos sacrifícios (1-7).   origens da humanidade (Gên 4,3-4).
Os sacrifícios são de cinco espécies; duas    Moisés encontrou o seu uso estabelecido
séries de leis: V série — o rito de cada      e arraigado entre todos os povos. Nas
sacrifício (1-5), holocausto (1), oblação     tabuinhas recentemente descobertas em
de vegetais (2), sacrifício salutar (3),      Ras Shamra (antiga Ugarit), na Fenícia
sacrifício expiatório (4), sacrifício de      setentrional, anteriores alguns séculos a
reparação (5). 2? série — direitos e          Moisés, são mencionadas espécies
deveres dos sacerdotes em cada espécie        idênticas de sacrifícios, até mesmo com
de sacrifícios (6-7).                         nomes iguais (afinidade das duas línguas)
   2- Consagração dos sacerdotes (8-9).       aos do Pentateuco. Moisés, com suas
Nadab e Abiú são punidos por terem            leis, só regulamentou e consagrou ao
usurpado um ofício sagrado (10-1-7).          culto do verdadeiro Deus um cerimonial
Várias prescrições para os sacerdotes         já praticado, deixando ainda toda essa
(10,8-20).                                    legislação dos sacrifícios separada das
                                              condições essenciais do pacto celebrado
   3- Leis sobre a pureza legal (11-16):
                                              entre Deus e o seu povo (Êx 19,23).
dos alimentos (11), da puérpera (12),
                                              Nesse sentido deve-se entender aquele
da lepra nas pessoas (13,1-46; 14,1-
                                              protesto do próprio Deus contra os
32), nas vestes (13,47-59) e casas
                                              judeus, por boca de Jeremias (7,22-23):
(14-33-57); sobre a gonorréia (15).
                                              "Em matéria de sacrifícios e holocaustos,
Rito para o dia solene de expiação (16).
                                              eu nada disse e nada ordenei aos vossos
   4- Leis sobre a santidade (17-23): a)      pais ao tirá-los do Egito; dei-lhes
do povo (17-20); matança dos animais,         somente esta ordem: — Escutai a minha
uso do sangue, unicidade do santuário         voz; eu serei vosso Deus e vós sereis o
(17); prescrições que regulam os atos         meu povo —" cf. Êx 19,5).
sexuais (18); várias prescrições religiosas
                                                 Nada, portanto, impede atribuir-se ao
e morais (19); punição para os
                                              próprio Moisés a legislação cerimonial do
transgressores (20); b) dos sacerdotes:
                                              Levítico, embora seja óbvio que não a
núpcias e luto (21,1-15); irregularidades
                                              tenha escrito toda de uma vez e se tenha
(21,16-24); impureza cerimonial (22,1-
                                              servido, para a fixar, da obra de algum
16; qualidades das vítimas (22, 17-30);
                                              sacerdote ou levita de profissão. Nem se
conclusão (22,31-33); c) dos dias
                                              exclui que algumas destas leis tenham
recebido em tempos posteriores
modificações e acréscimos.
  Devemos observar ainda, que todas
essas leis cerimoniais foram ab-rogadas
depois de Jesus Cristo. Entretanto, os
sacrifícios da antiga lei haviam
prefigurado o seu sublime sacrifício na
cruz, no qual, único e perfeito sacrifício,
te-ve cumprimento toda a variedade dos
sacrifícios do Antigo Testamento. Ou
melhor, como nos ensina S. Paulo (Hebr
9,9; 10,10), os sacrifícios levíticos
recebiam sua principal eficácia de aplacar
a Deus daquele valor figurativo, pois que
"é impossível que, por si só, o sangue dos
touros e dos cabritos cancele os
pecados" (Hebr 10,4). Considerados no
seu significado típico e simbólico, os ritos
escritos no Levítico continuam e
continuarão a ser instrutivos.
INTRODUÇÃO AOS NÚMEROS

   O quarto livro do Pentateuco recebeu o            serpente de bronze (21, 1-9); vitória sobre
nome de Números (em grego Arith-moi, que             os amorreus e conquista de Basan (21,10-
aqui tem o sentido de "recenseamentos") por          35).
causa dos "recenseamentos" (1,1-4,26), que             3a Parte. Na margem oriental do Jordão:
são próprios deste livro e que lhe dão a sua         cerca de cinco meses. A matéria desta
feição particular. Contém, além disso, alguns        parte, mais por ordem lógica do que por
fatos que se ligam imediatamente aos                 ordem do texto, pode ser assim agrupada:
acontecimentos narrados no Êxodo, e leis                1) Últimos encontros com os povos da
semelhantes às do Levítico. Pode ser dividido        Trans Jordânia; Balaão e seus vaticínios
facilmente, de acordo com os lugares e               (22-24); prostituição a Beelfegor (25);
tempos, em três partes: no Sinai (1,1-10,10);        guerra santa contra os ma-dianitas e leis
viagens através do deserto (10,11-21,35); na         sobre a divisão dos despojos (31); lista das
margem oriental do Jordão (22-36).                   etapas (33).
   1a Parte. No Sinai: disposições para a               2) Grupo de leis: herança (27,1-11),
partida: 20 dias.                                    festas e sacrifícios (28-29), votos (30).
   1) Recenseamento das tribos e respectivas            3) Disposições para a ocupação da
posições no acampamento (1-2).                       terra prometida. Segundo recenseamento
   2) Os levitas: seu destino e recenseamento        (26); nomeação de Josué (27,12-23).
(3); divisão por famílias e por ofícios (4).         Distribuição da Transjordânia (32); normas
   3) Leis:      banimento       dos      impuros,   para a ocupação e distribuição da
restituições, ciúmes (5), nazireato, bênção          CisJordânia (33,50-34,12); designação das
litúrgica (6).                                       cidades levíticas e de refúgio (35);
   4) Últimos fatos: donativos dos chefes das        disposições para manter inalterada a
tribos ao santuário (7), consagração dos levitas     primitiva distribuição (36).
(8), segunda Páscoa (9,1-14), sinais para a            A julgar pelo resumo, o presente livro
partida e para a parada, as trombetas (9,15-         compreende um período de cerca de trinta
10,10).                                              e oito anos e meio. Sobre a maior parte
                                                     desse período (os trinta e oito anos no
2a Parte. Viagem através do deserto:
                                                     deserto) narra-nos apenas uns poucos
   1) Do Sinai a Cades: partida e ordem de
                                                     fatos, mas muito notáveis pelo significado
marcha (10,11-36), murmuração do povo, as
                                                     religioso, como a serpente de bronze, a
codornizes (11), a lepra de Maria, irmã de
                                                     sedição de Coré, os vaticínios de Balaão, a
Moisés (12).
                                                     água brotada da rocha; fatos dos quais os
   2) Parada em Cades: missão dos doze
                                                     apóstolos no Novo Testamento tiraram
exploradores (13) e queixas do povo (14); leis       utilíssimas lições (ICor 10,1-11; Hebr 3,12-
sobre as oblações e primícias, sobre o sábado
                                                     19; Jo 3,14-15). No centro do drama
e os filactérios (15); sedição de Coré, Datan e
                                                     acham-se dois fatos semelhantes entre si,
Abirão, e sua punição (16) e confirmação do
                                                     duas sedições do povo contra Moisés,
sacerdócio na família de Arão (17); relações
                                                     executor das ordens divinas; a primeira
entre sacerdotes e levitas, emolumentos de
                                                     (14), originada pela repugnância em
uns e de outros (18); a água lustral (19);
                                                     empreender a conquista da Palestina; a
sedição do povo por falta de água (20,1-13).         segunda (20), por falta de água.
   3) De Cades ao Jordão: os edomitas negam          Conseqüência ou punição da primeira foi a
passagem pelas suas terras; morte de Arão            longa demora da nação inteira no deserto
(20,14-29); queixas do povo e castigo, a             da península sinaítica; a segunda deixou a
mais profunda impressão na consciência
nacional e na literatura posterior (cf. SI
80;94;105), envolvendo o próprio Moisés, que
por um instante duvidou da clemência divina e
por isso teve de deixar a outros o remate de
sua obra, a conquista de Canaã (cf. Dt 32).
   O livro dos Números é importante para a
literatura porque, entre outras coisas, nos
conservou fragmentos de antiquíssimos
cânticos populares (21; 23; 24), com a
indicação de coleções já existentes, como "o
Livro das guerras de Javé" (21,14), do qual não
se tem outra menção.
INTRODUÇÃO AO DEUTERONÔMIO

                                               (7), benefícios de Deus, censura da
O quinto e último livro do Pentateuco foi
chamado       Deuteronômio,        isto   é,   infidelidade anterior de Israel, promessas
                                               e ameaças (8-11). Leis especiais: 1)
"segunda lei", talvez porque assim tenha       Deveres religiosos. Unicidade do
sido traduzida, embora inexatamente
pelos LXX, uma frase hebraica em 17,18.        santuário e disposições relativas (12, 1-
                                               28); contra a apostasia (12,29-13-18);
No entanto, convém-lhe perfeitamente           alimentos e dízimos (14); ano da remissão
esse nome. O livro não é uma simples
repetição da legislação contida nos livros     (15); as três grandes solenidades anuais
                                               (16,1-17). 2) Direito público. Juízes
precedentes, mas além de leis novas,           (16,18-17,13),        rei      (17,14-20),
oferece complementos, esclarecimentos e
modificações às primeiras. É, de certo         sacerdotes (18,1-8), profetas (18,9-22);
                                               homicídio involuntário (19), guerra (20),
modo, uma segunda lei, promulgada no           homicídio por mão desconhecida (21,1-
fim da longa peregrinação dos israelitas,
paralela à lei dada no Sinai e destinada a     9). 3) Direito familiar e privado. Grande
                                               variedade; os pontos principais são:
regular mais de perto a vida do povo           matrimônio (21,10-14;22,13-23,1) e
escolhido, no solo da Terra Prometida à
qual eles estavam para chegar e dela           filhos (21,15-20), o divórcio (20,1-4),
                                               levirato    (25,5-10),      deveres     de
tomar posse definitiva. Não é, porém,          humanidade      (22,1-12;23,16-20;24,6-
simples      enumeração      de     leis   e
determinações; o que caracteriza esse          25,4), honestidade (25,11-19), votos
                                               (23,22-24), primícias e dízimos (26).
livro, o que lhe constitui a alma, é um
ardente sabor oratório. O hagiógrafo nos
faz ouvir um Moisés que exorta, encoraja,      3ª parte: 3o e 4o discursos: ordem de
                                               promulgar a lei em Siquém, maldições
invectiva; inculca a observância das leis, a   para os transgressores (27), ameaças e
começar dos grandes princípios morais;
apela para os mais poderosos motivos,          promessas (28). Exortação à observância
                                               da lei, com a recordação dos fatos
evoca a glória do passado, a missão            históricos, das promessas e das ameaças
histórica de Israel, os triunfos do porvir.
Na mente do autor sagrado temos o              (29-30).
testamento definitivo, que o grande guia e
legislador deixa ao povo de Deus às            4ª parte. Apêndice histórico. Últimas
vésperas da sua morte. Pelo estilo, o          disposições de Moisés, nomeação de
                                               Josué, seu sucessor (31); cântico de
Deuteronômio é um discurso, ou melhor,         Moisés (32), bênção das doze tribos (33),
vários discursos, dirigidos por Moisés aos
israelitas. Deduz--se daí a divisão do livro   morte de Moisés (34).
em quatro partes:
                                               Amor de Deus, beneficência, alegria no
                                               cumprimento do dever, eis as principais
1a parte: 1o discurso (14): olhar              características    do       Deuteronômio,
retrospectivo aos fatos acontecidos            princípios inculcados e repetidos com
desde a partida do Horeb até às últimas
conquistas da TransJordânia (1-3);             solicitude incansável. Por isso, perpassa-o
                                               um sopro ardente de sincera e profunda
exortação geral à observância da lei (4,1-     piedade para com Deus e uma ternura
40).
                                               simpática pelo homem, que edifica e
                                               comove. Há páginas que se aproximam da
2a parte: — 2o discurso: renovação da          sublimidade divina dos ensinamentos
lei 4,44-26,19). Princípios gerais: o
Decálogo (5), o culto e o amor ao único        evangélicos, mais do que quaisquer
                                               outras.
Deus verdadeiro (6), guerra à idolatria
LIVROS HISTÓRICOS
   Entre os vários gêneros literários da Bíblia, a   contra o jugo dos selêucidas e a reconquista
história, por sua extenção, ocupa o primeiro         da soberania política (séc. ii a.C).
lugar. Esse fato já prova quanto a história             A série dos livros históricos Josué-Reis,
fosse cultivada pelo antigo povo de Israel. O        considerados como grupo autônomo, os
fato é confirmado pelas fontes de que logo           hebreus chamam-nos "Profetas anteriores",
falaremos. E comparando, sob esse aspecto, a         formando com os "Profetas posteriores"
Bíblia com a literatura dos demais povos do          (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os Doze
Oriente antigo, notaremos o lugar preeminente        menores) a segunda classe ("os Profetas") da
e singular que cabe aos Livros Sagrados. A           sua Bíblia tripartida. Os livros históricos
abundante literatura histórica que os egípcios e     contidos     na    série    Crônicas-Macabeus
os assírio-babilônios, os dois povos mais            recebem apreciações diversas dos hebreus. A
poderosos e evoluídos da antigüidade, nos            maioria deles admitem no seu cânone as
transmitiram, consiste quase toda em                 Crônicas, Esdras-Neemias e Ester, mas
documentos, tais como as inscrições dos              colocam-nos, com os restantes Livros
soberanos, onde se narram com intenção e             Sagrados, na terceira classe dos "Escritos".
estilo laudatórios, as façanhas dos mesmos.             Essa divisão é antiga (atesta-a já S.
Mais tarde, entre os babilónicos, surge o            Jerônimo no "Prólogo Galeato" ou prefação à
gênero, menos oficial e mais literário, da           sua tradução de Samuel e Reisj, não, porém,
crônica que registra, ano por ano, os                primitiva. Nos manuscritos da antiquíssima
acontecimentos mais importantes. Nenhum              tradução grega dos LXX, e nas listas
povo, porém, nos legou, como os israelitas,          (cânones) das igrejas ou escritores cristãos,
uma série de escritos que, reunidos, formam          os livros das Crônicas e, com diferença de
como que uma história nacional desde as              ordem, os outros, são anexados aos
origens até os tempos do cristianismo;               precedentes Reis com o título comum de
tampouco quadros históricos de períodos              "histórias". Os dois dos Macabeus nas Bíblias
particulares comparáveis aos dos Juízes e de         latinas apareciam habitualmente no fim do
Samuel.                                              Antigo Testamento, mas a conveniência da
   Rigorosamente falando, devia figurar entre        matéria e razões práticas persuadem-nos,
os livros históricos grande parte do                 seguindo, além disso, o exemplo de tradutores
Pentateuco, assinaladamente o Gênesis; estas         modernos católicos, a não separá--los do
partes, porém, devido à sua estreita relação         grupo dos outros livros de caráter narrativo, e
com a legislação mosaica, formam um só               o leitor os encontrará, quase em ordem
corpo com o nome de lei.                             cronológica, depois de Judite.
   Os escritos históricos da Bíblia propriamente
ditos Livros históricos, pela matéria e pelos           Quase todos os livros históricos da Bíblia
caracteres internos, são divididos em três           indicam, ainda que parcamente, uma ou mais
categorias:                                          fontes escritas donde tiraram o material e às
   V Josué, Juízes, Rute, Samuel e Reis              quais remetem o leitor para maiores e mais
relatam a história do povo de Israel desde a         amplas informações (Num 21,14 o livro das
conquista da Palestina até o exílio na Babilônia     batalhas do Senhor; ib., 27 os poetas).
(586 a.C.);                                          Tornam-se mais freqüentes nos livros
   2- as Crônicas e Esdras-Neemias retomam           seguintes, especialmente nos Reis e Crônicas.
essa mesma história sob pontos de vista              Desde os primeiros tempos da monarquia
particulares desde o reino de Davi (as idades        (2Sam 8,16), entre outros oficiais do rei
precedentes, desde as origens do homem,              encontramos um "monitor" ou "chanceler"
estão, como que resumidas, no princípio 1Crôn        encarregado de registrar os acontecimentos
1-9 em tábuas genealógicas) até à formação           do reino (cf. 1Rs 11,41). Daí o encontrarem-se
da sociedade judaica depois do retorno do            freqüentemente alusões a tais memórias dos
exílio (cerca de 430 a.C.);                          reis de Judá e de Israel desde 1Rs 14,19-29
            3? os livros de Tobias, Judite e Ester   até 2Rs 24,5. O autor das Crônicas cita
ilustram alguns episódios notáveis dos últimos       escritos de vários profetas: Samuel, Natan,
séculos (VII-V a.C); nos dois livros dos             Gad (1Crôn 29,29), Aia, Ado (2Crôn 9,29),
Macabeus narra-se a resistência dos judeus           Semeia, Jeú, Hozai (ib. 12,15; 20,34;33,19). O
                                                     primeiro deles provavelmente é o livro
canônico de Samuel; os outros se perderam,         de     outrem;     2°    que    não    pretenda
excetuando-se,      talvez}   alguma     parte     responsabilizar-se pelo conteúdo da citação,
incorporada aos livros canónicos dos Reis.         mas deixá-lo no seu valor original.
                                                      Para apreciar devidamente os livros
   Comparando-se as passagens paralelas dos
                                                   históricos do Antigo Testamento é mister levar
livros das Crônicas e dos Reis — quer os Reis
                                                   em conta a finalidade dos autores sagrados,
tenham servido de fonte ao redator das
                                                   bem como o espírito que os animava ao
Crônicas ou quer ambos haurissem duma fonte
                                                   escreverem seus livros. Os escritores bíblicos
comum — observamos que a fonte geralmente
                                                   não pretendem escrever história propriamente
é transcrita literalmente conforme os hábitos da
                                                   dita, nem narrar para satisfazer a sede de
historiografia semítica, numa época que não
                                                   saber. Eles querem evidenciar a mão de Deus
conhecia os direitos de propriedade literária.
                                                   no dirigir a sociedade humana segundo as
Nesse caso, o autor sagrado, apropriando-se
                                                   altas finalidades de sua Providência,
das palavras da fonte, torna-as expressão do
                                                   especialmente de acordo com a religião e com
seu próprio pensamento e, através do carisma
                                                   a salvação do gênero humano. A sua
da inspiração divina, que não se opõe ao uso
                                                   historiografia é religiosa e não profana. Daí a
de fontes profanas, imprime-lhe o selo da sua
                                                   escolha, sensível de modo especial, nos livros
infalibilidade.
                                                   dos Reis e das Crônicas, de poucos fatos
   Pode acontecer que o autor sagrado julgue       dentre      a     enorme      quantidade     de
útil citar um documento como notícia               acontecimentos que, mesmo limitando-se à
interessante deixando, porém, quanto à             Palestina, decorreram nos largos tempos
exatidão dos fatos, a responsabilidade pela        abrangidos pela sua narrativa; enquanto se
afirmação ao autor primitivo. Isto pode-se         atribui um papel importante aos profetas,
sempre admitir no caso de citação explícita,       ministros e porta-vozes de Deus, junto do seu
isto é, com a expressa designação da fonte,        povo. Segue-se que não devemos esperar dos
como nas cartas citadas em Esdras 4,7-16;          hagiógrafos um quadro completo da
IMac 12,5-23; 2Mac 11,16-38. Não havendo           sociedade israelita da época. Apesar disso
indicação da fonte, e, portanto, quando a          oferecem sempre excelente material para a
citação    é   implícita,  requer-se   maior       reconstrução da história profana, completando
circunspecção. Para se afirmar que o autor         os dados transmitidos pelos documentos
sagrado não garante a verdade do que refere,       extra-bíblicos, principalmente as inscrições
a Pontifícia Comissão Bíblica (13 de fev. de       cuneiformes dos reis assírios e babilónicos,
1905) exige duas condições, duas provas com        onde se registram muitos fatos e personagens
argumentos sólidos: V que o autor inspirado        dos livros dos Reis.
realmente cite um documento ou uma palavra
INTRODUÇÃO A JOSUÉ

  O livro de Josué toma o nome do                coincidiram com o fim do reinado de
protagonista   dos   fatos   nele    contidos.   Ramsés III (1198-1167) e de seus fracos
Moisés, libertando o povo da escravidão          sucessores. Duas indicações do próprio
dos egípcios, organizou-o na península do        livro de Josué estariam a favor dessa data:
Sinai e o conduziu até às margens do             não existe indício algum duma dominação
Jordão. Para continuar a mesma missão            dos egípcios na Palestina; pelo contrário,
de Moisés, sucede-lhe Josué. Tinha na            encontramos firmemente estabelecidos e
sua frente duas tarefas: ocupar a terra de       fortalecidos os filisteus (13,2-3), dois fatos
Canaã ou Terra Prometida, expulsando os          explicados pela decadência do Egito sob a
antigos habitantes, e dividir o país entre as    dinastia (XX) dos Ramésidas.
várias tribos de Israel. O livro de Josué é a      O relato do glorioso passado visa à uma
narração, ora pormenorizada e viva, ora          dupla finalidade: evidenciar a fidelidade
esquematizada, desta grande empresa.             divina   no     cumprimento      das      suas
Daí a divisão lógica do livro em duas            promessas (vide 21,43) e agir sobre o
partes: ocupação da Terra Prometida e            povo como um estímulo a repelir o
sua partilha; segue-se um apêndice sobre         desânimo no tempo da provação e a
os últimos fatos de Josué.                       confiar fielmente no serviço do Senhor.
  Os fatos aqui resumidos abrangem um              O livro de Josué foi considerado pelas
período de cerca de 30 anos, como se             escolas críticas do século XIX, intimamente
pode inferir de dois indícios oferecidos pelo    ligado   ao    Pentateuco.    Os     mesmos
próprio livro. Josué, sendo quase da             documentos do Pentateuco teriam servido
mesma idade de Caleb (Num 13,6-8;                para a sua compilação, que seria obra de
14,6-38), tinha, no tempo do Êxodo,              vários autores sucessivos, e cuja última
aproximadamente 40 anos (Jos 14, 7);             redação teria visto a luz por volta dos
morreu com 110 anos. Tendo em conta os           séculos V ou IV a.C.
40 anos passados no deserto, resulta que           Hoje, a dita crítica modificou bastante a
empreendeu a ocupação da Palestina aos           sua hipótese; começa-se, também por
80 anos, sobrevivendo mais trinta.               parte da maioria dos racionalistas, a
  Cronologicamente,     esses       30   anos    considerar o livro de Josué como um livro
coincidiram com a época de 'el-Amarna se,        independente; reconhece-se que a sua
conforme alguns, colocarmos o Êxodo no           composição é diferente da composição do
reinado de Amenófis II; se, conforme             Pentateuco, formando um conjunto distinto
outros, o colocarmos no de Menefta, então        e bastante harmônico. É uma espécie de
retorno ao que a tradição judaica e cristã        seus relatos são confirmados, em muitos
sempre defenderam.                                pontos,     pelos    documentos     oficiais
  Apesar dessas concessões, entretanto,           encontrados em 'el-Amarna, a oriente do
não se deixa de impugnar, embora sem              Egito, bem como pelas escavações feitas
sólido fundamento, a unidade do livro e a         na Palestina desde 1902 especialmente
sua origem antiga. É verdade que se               em Jericó, Betel, Gezer e Laquis, que nos
encontram     alguns    trechos    de    estilo   revelaram    vestígios   da   invasão   dos
diferente, certas expressões e algumas            israelitas, ou pouco antes.
repetições discordantes do corpo do livro,
mas para explicar isso seria suficiente
supor    um    único     autor    que    tenha
aproveitado documentos parciais.
  Da unidade do livro não se pode fa-
cilmente chegar à determinação concreta e
segura nem da data de origem nem do
autor. Alguns indícios levariam a concluir
que o livro é anterior ao tempo de Isaías
(cf. 8,28 com Is 10,28), de Salomão
(16,10 com 1Rs 9,16), de Davi (15,63
com       2Sam       5,6-9).     Não    faltam,
entretanto, dificuldades em contrário, que
podem,      porém,     ser     adequadamente
solucionadas. Uma das principais é a
repetição da fórmula: "até o dia de hoje"
(4,9;5,9;6,25;7,26;8,29;9,27;10,
27;13,13;14,14;15,63;16,10;22,3.17),
que faz supor se tenha passado um longo
período de tempo entre os fatos e a com-
posição do livro. Mas, os trinta anos de-
corridos entre estes fatos e a morte de
Josué são espaço de tempo suficiente
para legitimar tais expressões.
  A origem antiga do livro de Josué e o fim
que o autor sagrado se propôs contribuem
para fortalecer a autoridade do livro. Os
INTRODUÇÃO AOS JUÍZES
    Juízes     foram     chamadas      certas    sepultura,          sem             especificar            o
personagens insignes que, depois da              empreendimento;              ao     passo       que      dos
morte de Josué até à constituição do             maiores       narra      a     história        com     mais
reino — isto é, desde o século XII ao XI         particularidades, segundo um esquema
a.C.      —     libertaram,     em      várias   fixo, que comporta quatro momentos: o
circunstâncias, o povo de Israel dos             pecado do povo (práticas ido-látricas), o
inimigos.                                        castigo       (dominação            estrangeira),          o
    Não formaram uma série ininterrupta,         arrependimento e a libertação por obra de
mas      eram chamados         pelo    Senhor    um juiz.
segundo as necessidades. Eram uma                  Esse        esquema          está        em        perfeita
espécie de "ditadores" que, cumprida a           harmonia com o pensamento dominante
missão       libertadora,    continuavam    a    (2,11-19) da introdução especial (2,6 ■—
exercer autoridade sobre o povo pelo             3,6) ao corpo do livro, que defende a tese
resto da vida. Não dominavam sobre               segundo a qual Israel foi feliz enquanto se
todo o povo, mas só nas tribos que               manteve fiel ao Senhor, e infeliz quando
libertavam i do inimigo; desta forma não         se apartou dele. Com isto dá-nos a
é      impossível      que    alguns    juízes   conhecer a finalidade do autor: afastar
exercitassem ao mesmo tempo sua                  eficazmente         os        israelitas        do     culto
função.                                          idolátrico.
    O livro dos Juízes narra as empresas           Destarte      o     corpo        da      obra      resulta
desses beneméritos libertadores do               composto, com sua própria introdução, à
povo eleito. Em vez de uma história              qual foi anteposta outra introdução geral
propriamente dita, da época, é uma               (1,1-2,5) e foram acrescentados dois
coleção de memórias dos diversos                 apêndices (17—18 e 19—221).
heróis. São doze ao todo, classificados            Não é fácil precisar a data dos dois fatos
em maiores e menores, não tanto pela             narrados nesses apêndices; há, contudo,
diferente           importância            dos   razões sérias para admitir que ambos se
empreendimentos e dos heróis, quanto             deram nos primeiros tempos dos juízes,
pelo modo de serem apresentados. Dos             pois no episódio dos dani-tas aparece
menores, o autor contenta-se com citar           como sacerdote um neto de Moisés (Jz
o nome, alguma notícia da família, a             18,30)     e     um          neto         de    Arão       é
duração de sua atividade e o lugar da            contemporâneo            de       outro    episódio.       A
cronologia do corpo do livro é uma das       fatos de máxima importância e que um
dificuldades   mais     laboriosas     que   escritor menos escrupuloso teria ampliado
possam ocupar os intérpretes e entre as      a seu bel-prazer.
soluções propostas não há nenhuma              Quando foi composto o livro? Com boa
que satisfaça plenamente. Como quer          verossimilhança pode-se crer que foi nos
que seja, sem entrar em discussões           primeiros anos do reinado de Saul. Com
inúteis, basta recordar que segundo lRs      efeito,   quatro    vezes   observa-se   nos
6,1, entre o Êxodo e a construção do         apêndices que os inconvenientes narrados
templo (4° ano do reinado de Salomão)        aconteceram quando "em Israel não havia
passaram 480 anos. Portanto, se desse        rei e cada um fazia o que lhe agradava".
número    subtrairmos      4    anos    de   Tal coisa só podia ter sido escrita nos
Salomão, 40 de Davi e outros tantos de       primeiros tempos da monarquia, quando
Saul (At 13,21), e ainda 70 anos que         se gozava dos seus bons efeitos e ainda
decorreram desde o Êxodo à primeira          não pesavam gravames que sobreviriam
opressão, restariam ainda 330 anos           mais tarde.
para o período dos Juízes. Esse
resultado estaria suficientemente de
acordo com o que disse Jefté ao rei de
Amon (11,26). Somando-se, porém,
todos os tempos das opressões e os
dos domínios dos juízes, obtêm-se 410
anos. Deve-se, portanto, admitir que o
autor relatou números aproximados.
  A parte principal (2,6—16,31) é obra
de um só autor, como prova o esquema
delineado e fielmente seguido em toda
a narração. O autor, porém, não podia
ter sido testemunha de tudo o que
narra, já que sua história abrange um
período de quase dois séculos. Serviu-
se,    portanto,      de       documentos
preexistentes e de tradições orais. A
sua fidelidade às várias fontes se
manifesta na concisão com que narra
INTRODUÇÃO A RUTE
  A comovente história de Rute, que dá o                Superado o obstáculo pela desistência
título a este opúsculo, é um edílio pela                deste parente, Booz desposa Rute, que
suavidade e pelo ambiente campestre; um                 o torna pai de Obed, de quem nasceu
pequeno       drama       pela   variedade         e    Isaí (Jessé), pai, por sua vez, do
vivacidade das cenas. Apenas um terço de                grande     rei    Davi,   antepassado      do
todo o livro pertence ao gênero narrativo,              Messias.
sendo o resto, diálogo.                                   Dessa relação com Davi, provém a
  Os quatro capítulos em que se costuma                 importância do opúsculo, bem como o
dividi-lo são como quatro atos no drama;                seu lugar no cânon, entre Juízes e
podemos assim resumi-los:                               Samuel, ao primeiro dos quais pertence

  1. Em companhia da sogra que volta à                  pela      época     dos      acontecimentos

pátria. Rute, jovem moabita, viúva sem                  narrados (Rut 1,1), e com o segundo se

filhos, de um hebreu que emigrara de                    relaciona pela fundação da dinastia da-

Belém, não abandona a sogra que, depois                 vídica, cf. ISam 16; 2Sam 2-8. É aqui,

da morte do marido e dos filhos, deseja                 portanto, que as Bíblias gregas e

voltar ao torrão natal.                                 latinas    o      inserem;    os    hebreus,
                                                        antigamente,       também     o    colocavam
  2. A    respigadura.      Para      o     sustento
                                                        aqui, e só na Idade Média, devido ao
próprio e o da sogra, Rute vai respigar
                                                        uso litúrgico, foi colocado, juntamente
atrás dos segadores, conquistando com os
                                                        com os outros quatro opúsculos (Cânt,
seus encantos e suas virtudes a afeição
                                                        Ecl, Lam, Est)t entre os componentes
de Booz, rico proprietário, parente de seu
                                                        da última das três partes na qual eles
sogro.
                                                        dividem os Livros Sagrados.
  3. A    noite   passada        na       eira.   Por
                                                          Além     desta    importância     histórica,
conselho da sogra, que pensa em casá-la
                                                        Rute oferece numerosos e preciosos
com Booz, Rute passa uma noite junto de
                                                        ensinamentos. A protagonista é um
Booz na eira da colheita e aproveita a
                                                        modelo de piedade filial, de dócil
ocasião para lembrar ao mesmo o dever
                                                        obediência para com a sogra, de
de desposar a viúva do parente falecido
                                                        espírito de sacrifício no cumprimento
sem filhos.
                                                        destes seus deveres. Na sua história
  4. As núpcias de Booz com Rute. O
                                                        sobressai o papel da divina Providência
convite de Rute agrada a Booz, mas há
                                                        que, por caminhos inesperados, premia
outro parente com direito de precedência.
                                                        a virtude de Rute, dando-lhe uma
posição social elevada. Além disso, sob o     dúvida correu muito tempo entre os
aspecto religioso, é digno de nota como       acontecimentos e sua narração (cf.
esta estrangeira, que deixa a pátria e os     4,7).   A   linguagem,   afora   algumas
concidadãos para não abandonar a sogra        particularidades, é da boa época da
hebréia, não somente é recebida na            monarquia; o estilo, simples e polido, a
verdadeira fé para fazer parte do povo de     beleza da narrativa, a pintura viva dos
Deus, mas também teve a honra de ser          caracteres e dos costumes colocam
inscrita na genealogia do Messias (Mt 1,5).   Rute entre os melhores modelos de

  O autor de Rute nos é totalmente            prosa narrativa do Antigo Testamento.

desconhecido. O tempo em que foi escrito,     Em Rute temos a amenidade da novela

deve-se deduzir do próprio livro. Sem         unida à singela veracidade histórica.
INTRODUÇÃO A SAMUEL
   O livro de Samuel, dividido pelos gregos e       3a parte. Davi, fundador da dinastia (2Sam
pelos latinos — não pelos hebreus — em dois,        2-24)
recebe o nome do santo profeta, cujas gestas
constituem os seus primeiros capítulos, e cuja         1) Rei de Judá em Hebron (2,1-7); guerra
ação o dominam inteiramente. A matéria              civil entre os dois partidos, progressos de Davi
tratada divide-se marcadamente em três              (2,8-3,5); assassínio de Abner (3,6-39) e de
partes, segundo as três personagens que             Isboset (4).
governam sucessivamente o povo de Israel:              2) Rei de todos os israelitas em Jerusalém
Samuel, Saul e Davi.                                (5,1-16); vitória sobre os filisteus (5,17-25);
    1ª parte. Samuel, o último Juiz                 transladação da arca para Sião (6); promessa
   1) Nascimento de Samuel (1,1-2,10); sua          messiânica (7); conquistas no exterior (8);
juventude a serviço do templo; reprovação do        favores ao filho de Jônatas (9).
sacerdote Heli e de seus filhos (2,11-3,21).           3) Desordens domésticas. Guerra amonita
   2) Primeira guerra filistéia; derrota, captura   (10);     duplo     pecado     de    Davi    (11);
da arca, morte de Heli e de seus filhos (4).        arrependimento de Davi (12); incesto de Amnon
Retorno da arca santa (5-7,2).                      (13,1-22); vingança de Absalão (13,23-36);
   3) Judicatura de Samuel: reforma religiosa,      seu exílio e repatriação (13,37-14,33).
segunda guerra filistéia, vitória; governo de          4) Revolta de Absalão (15,1-12); fuga de
Samuel (7,3-17).                                    Davi (15,13-16,14) e entrada de Absalão em
   4) Mau governo dos filhos de Samuel. O           Jerusalém (16,15-17,23); guerra civil (17,24-
povo pede um rei (8); Saul é ungido e               18,8); morte de Absalão e luto de Davi (18,9-
proclamado rei (9-10). Vitória sobre os             19,8). Davi retorna à capital (19,9-43); a
amonitas (11). Samuel abdica e despede-se           rebelião de Seba é dominada (20,1-22);
do povo (12).                                       governo (20,23-26).
    2ª parte. Saul, primeiro rei                       5) Diversos episódios. Cessa a fome, dando
   1) Terceira guerra filistéia; desobediência      satisfação aos gabaonitas (21,1--14). Heroísmo
de Saul; audácias de seu filho Jonatas; vitórias.   de alguns homens contra os filisteus (21,15-22).
Sumário do reinado de Saul (13-14).                 Cântico triunfal de Davi (22). Ultimas palavras de
   2) Vitória sobre os amalecitas, e outra          Davi (23,1-7). Os heróis campeões (23, 8-39).
desobediência de Saul, que é por isso               Recenseamento do reino; a peste; ereção de um
reprovado (15).                                     altar sobre o Sião (24).
   3) Samuel unge secretamente rei a Davi,             Todos esses acontecimentos encheram o
que é chamado à corte de Saul, assaltado por        período de cerca de um século e meio,
mania furiosa (16).                                 aproximadamente os anos 1120-970 a.C, um
   4) Quarta guerra filistéia. Davi vai ao          lapso de história israelita isento de toda
acampamento e mata o gigante Golias (17,1-          interferência quer do Egito, quer da Assíria e da
54). Amizade de Jonatas com Davi e inveja de        Babilônia.
Saul para com o mesmo (17,55-18,9).                    Ao escrever o livro, o autor sagrado tem por
                                                    finalidade mostrar-nos as vias providenciais pelas
   5) Saul procura matar Davi, o qual foge da
                                                    quais foi estabelecida no povo de Deus a
corte (18,10-19,17); vai ter com Samuel,
                                                    monarquia e a dinastia davídica, de cuja cepa
renova com Jônatas o pacto de amizade
                                                    devia nascer o Messias, cujas glórias ter-lhe-ia
(19,18-21,1).
                                                    perpetuado. Em Samuel apresenta-nos o modelo
   6) Davi anda errante por vários lugares
                                                    do ministro fiel de Deus, em Davi o tipo de
(21,2-22,5); Saul mata os sacerdotes fautores
                                                    magnanimidade aliada a uma sincera piedade.
de Davi (22,6-23). Davi em Ceila (23,1-13);
em Zif salva-se de grave perigo (23,14-28);
em Engadi poupa a vida a Saul (24); ofendido
por Nabal, é aplacado por Abigail, que depois
desposa (25); novamente poupa a vida a Saul
(26); vive entre os filisteus (27).
   7) Quinta guerra filistéia. Saul consulta a
nigromante de Endor (28). Davi. afastado
pelos filisteus (29), vence os amalecitas (30).
Saul morre no campo de batalha (31) e Davi
pranteia a sua perda (2Sam 1).
INTRODUÇÃO AOS REIS

   Aos livros de Samuel, que narram a fundação        profana, cabendo a primazia à assírio-
da monarquia hebraica seguem-se Reis, cuja            babilônica, que aqui se nos apresenta com tão
história continua até sua queda sob os assaltos       grande riqueza, não igualada para nenhum
dos poderosos impérios da Assíria e da                outro livro do Antigo Testamento.
Babilônia, isto é, desde os últimos dias de Davi         Não nos foi transmitido quem seja o autor de
{cerca de 970 a.C) até à tomada de Jerusalém          Reis nem a data da sua existência; seu nome
em 587 a.C, uma duração de cerca de quatro            permanecerá provavelmente para sempre
séculos. A cisão política e religiosa, que se         ignorado, ao passo que a idade pode ser
seguiu à ascensão ao trono do segundo sucessor        deduzida do próprio livro. Se os últimos quatro
de Davi, cindiu a nação em dois reinos rivais, o      vv. (2Rs 25,27-30) não são um apêndice ou
de Israel e o de Judá, e findou com o                 acréscimo posterior, como em si é possível,
desaparecimento do primeiro na luta com a             sem, contudo, parecer provável, o autor teria
Assíria (721 a.C), delimitando este lapso de          terminado a sua obra entre os anos 560 (37- da
tempo em três períodos, com reflexos análogos         prisão de Joiaquin) e 538 a.C, que marca o fim
na composição da obra.                                do exílio babilónico, porque não faz nunca
   O livro é escrito à base de um esquema             alusão ou referência a este grande
simples e transparente, sobretudo na segunda e        acontecimento.
maior parte, daquela dos reinos separados. Seu
enredo é formado pelas notícias sobre cada um            É visível o caráter essencialmente religioso
dos reis, quer de Judá, quer de Israel, redigido      desta     história   dos      reis.   Numerosos
com um cunho uniforme e distribuído em três           ensinamentos de doutrina e vida religiosa estão
partes: 1) Introdução: sincronização do outro         contidos especialmente na atividade dos
reino com o rei contemporâneo, duração do             profetas, que ocupam continuamente o centro
reinado no momento e para os reis de Judá             da cena, e nas reflexões do autor sagrado
também os anos de idade à elevação ao trono e         sobre o procedimento dos reis e dos povos, que
nome da rainha-mãe. 2) Corpo: qualidades              freqüentemente rematam o quadro. Cumpre
morais relativamente à religião e ao culto            não deixar de notar o impressionante fato de
mosaico, e breves referências a algum fato mais       que, enquanto no reino cismático de Israel
relevante. 3) Epílogo: envio para notícias mais       houve em apenas dois séculos (c. 930-730
amplas, aos "anais dos reis" (de Judá ou de           a.C), nada menos de oito mudanças de
Israel, segundo o caso), morte e sepultura.           dinastia, no vizinho e politicamente mais fraco
   Nas linhas deste traçado, inserem-se os mais       reino de Judá dominou, por mais de 4 séculos
amplos e minuciosos relatos de coisas                 (c. 1010-586 a.C), constante e invariavelmente
concernentes à religião e a atividade dos             a descendência de Davi, embora não faltassem
profetas, entre os quais avultam as grandiosas        as violências e os contrastes a partir do exterior
figuras de Elias e Eliseu. O interesse religioso,     (intromissões de Atália, de Necao, de
sobre o qual se fixa o olhar do autor sagrado,        Nabucodonosor).      Verificava-se     assim     a
manifesta-se,       inclusive      nos      poucos    promessa divina feita a Davi por boca do
acontecimentos       políticos    narrados     com    profeta Natan (2Sam 7), anúncio e penhor do
abundância de pormenores fora do comum, como          reino do Messias, filho de Davi por excelência
as ações de Acab (lRs cc. 20-22), a ascensão de       (Lc 1,32), insigne pedra miliar na preparação da
Jeú ao trono (2Rs 9,1-7), o cerco e libertação de     salvação humana.
Jerusalém do exército de Senaquerib (2Rs 18,13-
19, 37). Essas notícias mais abundantes formam
o fundo do livro, ao passo que os esquemáticos
perfis dos reis, donde lhe vem o título usual,
constituem-lhe como que a moldura e o enredo.
As primeiras, o autor hauriu-as das histórias dos
profetas, transmitidas, por escrito ou de viva voz,
pelos discípulos dos mesmos. Nos segundos, isto
é, na mencionada moldura, devemos ver um
trabalho mais pessoal do redator final, baseado
por certo em bons documentos.
   O valor histórico do livro dos Reis é
incontestável. Garantido pela inspiração divina, é
confirmado por documentos paralelos da história
INTRODUÇÃO                  ÀS CRÔNICAS

  Samuel e Reis receberam uma obra          coletiva: assim as importantes
paralela nas Crônicas. Nas Bíblias          genealogias, que eram verdadeiros
hebraicas constituem os mesmos uma          documentos oficiais para provar o
só livro e tem o título equivalente ao      direito que todo o levita tinha de
nosso termo "anais". Ê aquilo que nos       exercer os atos de culto; assim, as
Reis se lê tantas vezes no epílogo dos      minuciosas normas litúrgicas, as
respectivos reinados. Seguindo uma          amplas descrições de solenidades
sugestão de S. Jerônimo (no "prólogo        (da Páscoa, sobretudo), com o
galea-to" ou prefácio aos livros de         número das vítimas imoladas, sem
Samuel e Reis), os modernos dão             faltar sequer as várias exceções ao
comumente a esta obra o nome de             rito legítimo, e todos os trabalhos
"Crônicas". Na versão grega dos LXX         executados no próprio edifício, desde
acha-se dividida em dois livros e           os preparativos feitos por Davi até à
intitula-se    Paralipômenos,        que    restauração de Josias.
significa      "coisas         omitidas";      Paralela, mas subordinada a esta
subentende-se, nos livros dos Reis.         idéia principal, desenvolve-se outra, a
Este título com a respectiva divisão        da dinastia davídica. A família
introduziu-se na Igreja latina.             davídica é a única depositária do
                                            poder legítimo sobre todo o Israel. Os
  A     narração     das     Crônicas,
                                            seus membros, portanto, são os
excetuando-se as genealogias dos
                                            principais servos de Javê, e os reis
nove primeiros capítulos e a alusão ao
                                            que dela descendem têm como dever
decreto de Ciro nos dois últimos vv.,
                                            primordial o cuidado do templo, pois
abrange o mesmo espaço de tempo
                                            a sua autoridade régia é um reflexo
de Samuel e Reis. Distingue-se deles,
                                            da autoridade divina, que brilha no
porém, pela extensão da matéria,
                                            templo. Todavia, a distinção entre o
pois, de um lado, restringe-se ao reino
                                            poder régio e o sacerdotal é radical: o
de Judá e, de outro, acrescenta
                                            rei não deve usurpar funções
muitas notícias relativas ao culto
                                            sacerdotais. O monarca é realmente
divino.
                                            o primeiro servo do templo, mas é o
Na verdade, a grande idéia central de       primeiro servo "externo", fora do
toda a obra é o templo. O templo,           recinto sagrado.
único lugar destinado ao culto legítimo        Destas duas grandes idéias
no Deus de Israel, é o centro vital de      basilares, tomadas em conjunto,
Jerusalém; Jerusalém é o centro de          explica-se por que o autor se estenda
todo o Judá, que é a parte fiel do povo     tanto na citação das genealogias de
eleito. Destarte toda a vida de Israel      Levi e de Judá (à qual pertencia a
palpita em torno do templo, o qual não      família de Davi) e por que se
é considerado como simples edifício         desinteresse do reino do norte, que
material, fosse embora simbólico, mas       constituía a parte mais numerosa do
como verdadeiro fator de unidade            povo eleito. Este reino rebelara-se
religiosa e nacional para todo Israel,      contra a dinastia davídica e rejeitara
mediante o único culto legítimo,            o culto do templo de Jerusalém,
exercido somente pelos descendentes         fabricando para si os bezerros de
de Levi. Donde o cuidado especial, a        ouro. Por isso, depois de narrar a sua
insistência, dir-se--ia, com que o autor    defecção, o autor alija-o do esquema
desce a certas particularidades que a       de sua obra.
nós, tão afastados da sua época, nos           Ê evidente, e em mais de uma
parecem supérfluas, mas que então           passagem (1Crôn 10,13-20,1 etc.),
constituíam o fundamento da vida            que o autor supõe conhecida a
história que narra, ao passo que,
excetuadas        as     particularidades
litúrgicas, raríssimos são os fatos que
narra com exclusividade. Destes
fatos, porém, um há que, em 1880,
recebeu esplêndida confirmação das
descobertas arqueológicas (cf. 2Crôn
32, 30). Quanto às freqüentes
divergências entre as cifras de
Crônicas e Reis, cumpre recordar que
os números, no texto hebraico, têm
muitas      vezes    contra     si   uma
componente desfavorável; e muito
mais      em      Crônicas,    que     na
transmissão manuscrita são dos livros
mais corrompidos e mal conservados
de toda a Bíblia.
   Literariamente, Crônicas são um
produto da decadência. O material
linguístico situa-o entre as obras mais
tardias da Bíblia hebraica. O fraseado
tortuoso, duro e insistente, é
testemunho de uma época em que o
hebraico já não era a língua comum,
mas ia cedendo lugar ao aramaico.
INTRODUÇÃO A ESDRAS

  No texto hebraico e na versão dos LXX,                    1. Regresso, sob as ordens de ZOROBABEL,
Esdras e Neemias constituem um só livro,               no tempo de Ciro (no 537 a.C.) e reconstrução
com o título comum de Esdras. Mas já no                do templo (Esd 1-6).
tempo de Orígenes (inícios do séc. III) eram
                                                           Decreto de Ciro permitindo a reconstrução
divididos em dois. Na Vulgata latina são
                                                       do    templo      (1); elenco        dos     judeus   que
intitulados I e II de Esdras. Desde épocas
                                                       regressaram         guiados       por   Zorobabel     (2).
longínquas, porém, chamam-se habitualmente
                                                       Ereção do altar (3,1-6) e início da construção
Esdras e Neemias, nomes tomados da
                                                       do templo (3,7-13); obstáculos da parte dos
principal personagem de cada um deles.
                                                       adversários e suspensão dos trabalhos (4,1-5).
  Com o título de 3? de Esdras, as Bíblias             Obstáculos opostos mais tarde pelos inimigos
latinas (1 Esdras nas gregas) contam com um            à      reconstrução         da       cidade      (4,6-24).
livro   composto    de     9 capítulos,     e   que    Prosseguimento da construção do templo,
apresenta versão diferente daquela dos dois            término      e      inauguração         entre    grandes
últimos capítulos das Crônicas, de todo o              solenidades (5-6).
Esdras (com a transposição de 4,7-24 no fim
                                                            2. Retorno sob a direção de ESDRAS, no
do c. 1) e de Neemias 8,1-12. Além disso, tem
                                                       sétimo ano de Artaxerxes, e reforma dos
de próprio a longa descrição (3,1-5,6, antes
                                                       costumes (Esd 7,10).
de Esdras 2) de uma disputa literária entre
                                                           Esdras     obtém        de     Artaxerxes     rescrito
três pagens da corte de Dario, o terceiro dos
                                                       favorável (7); preparativos para a volta (8,1-
quais, Zorobabel, tendo saído vencedor,
                                                       30); partida e chegada a Jerusalém (8,31-36).
obteve do rei todas as facilidades para
                                                       Deploração da desordem dos matrimônios
reconduzir à pátria os seus compatriotas
                                                       mistos (9), que são suprimidos (10,1-17). Rol
judeus. Por causa desse relato não canônico,
                                                       dos culpados (10, 18-44).
isto é, não inspirado, todo o livro foi colocado
                                                            3. Regresso de NEEMIAS, no vigésimo ano
pela Igreja católica entre os apócrifos.
                                                       de Artaxerxes, reconstrução da cidade e
  O     livro   canónico    de    Esdras-Neemias
                                                       restauração religiosa (Ne 1-13).
descreve a volta dos judeus do exílio
                                                           Tendo        recebido        notícias     alarmantes,
babilónico e a restauração religiosa, e, em
                                                       Neemias obtém do rei permissão para ir a
parte, também a política da sua comunidade.
                                                       Jerusalém (1,1-2,10); inspeção das muralhas e
  Por sua própria natureza divide-se em três           decisão de reconstruí-las (2, 11-20); elenco
partes,    em    cujo    centro   estão    as   três   dos que restauraram alguma parte delas (3);
personagens que encabeçam o movimento.                 oposição e insídias de Sanabalat e outros
                                                       inimigos     (4).     Extirpação        da      desordem
econômico-social (5). Novas insídias dos
inimigos; apesar delas, a muralha é terminada
(6). Recenseamento do povo: elenco dos
repatriados (7,6-57 = Esdr 2,1-55). Leitura
pública   da    lei      mosaica   e     festa     dos
Tabernáculos      (8).     Confissão     pública    e
penitência (9); solene renovação da aliança
com Deus (10). Medidas para repovoar
Jerusalém       (11,1-24);      outras      cidades
repovoadas (11,25-36). Lista dos sacerdotes e
levitas (12,1-26). Dedicação das muralhas de
Jerusalém (12,27--42). Regulamentação das
ofertas sagradas e dos matrimônios mistos
(12,43-13,     14.23-31);     medidas      para     a
observância do sábado, no ano trigésimo
segundo de Artaxerxes (13,15-22).
  Os fatos aqui narrados abrangem o período
de um século aproximadamente (537-432
a.C.), período importantíssimo para a história
do povo eleito e da religião em geral. O autor
não pretende, porém, deixar-nos uma história
completa daquele período memorável, mas
descreve-nos apenas os fatos principais,
agrupados mais segundo uma ordem lógica
do que segundo a sucessão cronológica.
INTRODUÇÃO A TOBIAS

Semelhante ao livro de Rute pela         rivais, de resto, irmãos) Sinaítico
suavidade de cenas domésticas,           (atualmente no Museu Britânico) e
Tobias supera-o pela variedade e         Vaticano (grego 1209, conhecido
entrelaçamento de acontecimentos e       com a sigla B) do séc. IV. A redação
pela riqueza de ensinamentos morais.     do Sinaítico difunde-se mais na
O livro de Tobias foi escrito em         narração, valendo-se de uma
hebraico ou aramaico. Encontraram-       expressão mais vulgar, de colorido
se fragmentos em ambas as línguas        mais semítico; a do Vaticano é mais
(1952) nas grutas próximas do mar        sucinta e de grecidade mais pura.
Morto. S. Jerônimo verteu-o para o       Existe grande discordância entre os
latim, servindo--se de uma redação       doutos em determinar qual das duas
aramaica, e assim foi inserido na        esteja mais próxima do original
Vulgata. A versão grega dos LXX          semítico; mas atualmente vai
deriva do texto original, seguindo       prevalecendo a opinião em favor da
outra via; dessas duas fontes, a grega   redação sinaítica, a qual tem por
e a latina, surgiram todas as outras     seguidora fiel a antiga versão latina e
versões chegadas até nós.                por aliados os fragmentos semíticos
A primeira e mais palpável diferença     encontrados às margens do mar
entre essas duas versões é que na        Morto.
Vulgata toda a narração, desde o         Discutiu-se também se o livro de
princípio, desenvolve-se em terceira     Tobias seria uma história verdadeira
pessoa, ao passo que no grego o          ou uma novela com finalidade moral.
preâmbulo (1,1-2,6) ê narrado por        Não obstaria ao ensinamento da
Tobias na primeira pessoa. Na            Igreja católica considerá-lo, em
Vulgata é mais abundante o               abstrato, uma narração de livre
elemento parenético, no grego            invenção (Encíclica Divino afilante
prevalece o biográfico. Na Vulgata,      Spiritu). Mas, se por um lado, parece
pai e filho têm o mesmo nome:            manifesta a intenção do autor, em
Tobias; no grego, ao invés, o pai        vista do cuidado que emprega em
chama-se       Tobit,     ou      mais   referir nomes de pessoas e lugares, e
corretamente, Tobi, e somente o          circunstâncias pormenorizadas, de
filho, Tobias.                           narrar fatos realmente ocorridos,
A própria versão grega, porém,           doutro lado, porém, às razões
chegou-nos em três formas ou             aduzidas contra a historicidade dos
redações, duas principais e completas    fatos narrados, como anacronismos
e uma secundária e incompleta. As        de        pessoas       e      alguma
duas principais têm os seus              pseudoqualificação,       responde-se
representantes mais antigos e            facilmente que, faltando-nos o texto
autorizados, respectivamente, nos        original, os erros podem provir de
dois re-putadíssimos códices (aqui       traduções incorretas ou de falhas de
copistas. O maravilhoso que ressalta
no livro pode criar dificuldades
somente para quem, por princípio,
nega-se a admitir o sobrenatural. Isto
posto, nada nos veda que
retenhamos a estrita historicidade de
Tobias, ou pelo menos com alguns
escritores católicos, admitamos um
amplo fundo histórico com acessórios
embele-zadores.
A primeira documentação dos fatos
narrados neste livro deve ter sido,
indubitavelmente, o testemunho dos
dois protagonistas, Tobi e Tobias, e
nada obsta que tenha sido escrita por
eles; contudo, tampouco está
provado, nem mesmo pelo emprego
da primeira pessoa em 1-3, que eles
sejam os autores do nosso livro; um
escritor posterior pode muito bem
ter-se servido daquilo que eles
deixaram dito ou escrito.
Judeus      e      protestantes     não
reconhecem o livro de Tobias como
canónico,      isto     é,   inspirado,
relegando-o entre os "Apócrifos".
Mas a Igreja católica, tanto latina
como oriental, recebeu-o desde o
princípio no cânone das divinas
Escrituras, não obstante a opinião
contrária de alguns Padres da
antiguidade. Com isso a Igreja
oferece-nos para instrução um
delicioso modelo de prosa narrativa,
"pleno de ensinamentos religiosos e
morais" (S. Beda). Nele, virtudes
domésticas e sociais, sobretudo o
exercício     de      uma     generosa
beneficiência,      e      a   paternal
providência de Deus para com os seus
servos fiéis fulgem numa luz tão viva
quão suave.
INTRODUÇÃO A ESTER
   É provável que desde o séc. V a.C.     PLUTARCO, Vida de Artaxerxes, I),
(cf. 2Mac 15-27), os hebreus tenham       forma abreviada ou carinhosa de
celebrado a festa chamada "purim",        Hsajarsu. O caráter efeminado de
em memória da eliminação do perigo        ambos os monarcas, como no-lo dão
de exílio decretado contra os seus        a conhecer os escritores profanos,
antepassados durante a dominação          condiz admiravelmente com o que se
persa. O livro de Ester narra os fatos    reflete no livro de Ester.
que deram origem a essa festa,               Ambos entregues aos prazeres,
mostrando a providência especial          ambos dominados pela influência de
usada por Deus com o seu povo             cortesãos e de mulheres, as histórias
eleito, naquela ocasião tão crítica.      dos seus reinados são tecidas de
   Duas redações nos chegaram deste       intrigas, de amores ilícitos e também
livro: a hebraica e a grega dos LXX,      de crueldades. Sobre Xerxes veja-se
com a única diferença, entre si, de       HERÓDOTO, Histórias, IX, 108-110. A
que a grega, além da versão fiel do       respeito de Artaxerxes II, Plutarco, na
hebraico, contém mais seis seções,        vida do mesmo, carrega as tintas
que, tomadas em conjunto, igualam         sobre a sua moleza e volubilidade e
a dois terços do livro hebraico.          afirma que no seu gineceu
   O rei da Pérsia, sob o qual se         sustentava tantas mulheres quantos
desenrolam esses acontecimentos, é        eram os dias do ano (24,3;27,1-3; cf.
chamado Ahasveros no texto                Est 2,1-4.12-14).
hebraico (donde "Assuero" na                 Esta é já uma das provas da
Vulgata), transcrição imperfeita do       verdade histórica do livro. Outras
nome persa Hsarjarsa, que os gregos       são: o conhecimento exato dos
transcreveram como Xerxes. A versão       costumes persas, a descrição precisa
grega, ao invés, traz constantemente      do palácio real em Susa, confirmada
"Artaxerxes" no livro inteiro. Daqui as   por escavações recentes, a narração
divergências em torno da pessoa do        cheia     de     vida,     colorido   e
rei assim denominado. Hoje, a             particularizada, a ausência de todo
opinião mais comum e provável             anacronismo, a reiterada referência
sustenta que seja Xerxes I, o qual        aos anais oficiais do reino
reinou de 485 a 465 a.C. e ê              (2,23;6,10,2); o próprio fato da
conhecido sobretudo por sua               celebração da festa dos purim, desde
campanha infeliz contra a Grécia.         tempos imemoriais, como foi dito
Não perdeu, porém, a sua boa              acima, fato que, sem dúvida, deve
probabilidade a opinião dos antigos,      sua origem a algum evento
assinaladamente de Eusébio e S.           extraordinário na vida da nação
Jerônimo, de que se trata, ao invés,      hebraica; e não se tem provas para
de Artaxerxes II, chamado o Mnemon        indicar outro qualquer, a não ser
(405-365 a.C.), que antes de subir ao     exatamente o que vem narrado neste
trono tinha o nome de Arsu (v.            livro.
Pode-se ter como provável que,
sobre um fundo comum, oral ou
escrito, foram inicialmente redigidas:
a narração hebraica atual e uma
redação grega mais ampla; feita
depois a tradução grega da narração
hebraica, passou ela a ser adotada,
inserindo-se as seções excedentes da
redação grega, isto é, as seções
deuterocanônicas. Assim chegou-se a
atual versão grega, ao que parece,
por obra do Lisímaco.
   No que tange ao gênero literário,
já S. Jerônimo notava grande
diferença entre as duas redações,
hebraica e grega, diferença que tem
suas raízes profundas nos costumes
estilísticos das respectivas literaturas.
  Mas, seja qual for o modo de
pensar em torno disso, nenhuma das
duas composições do livro de Ester
tem por finalidade única recordar a
origem da festa de purim, e sim
também,              e            mesmo
preponderantemente, mostrar os
cuidados que Deus teve por seu povo
naquele terrível transe da sua
história sob a dominação persa; e
bastaria isso, sem dúvida, para levar-
nos a apreciá-lo altamente.
  Costuma-se lamentar sobre o livro
o nacionalismo acanhado dos
protagonistas hebreus e a sua dureza
para com os adversários. Decerto, os
seus sentimentos e atos estão assaz
afastados da abertura de coração e
mansidão do espírito cristão. Mas,
cumpre julgar os homens pelo seu
tempo. Em todas as épocas, até nos
tempos modernos, acontecem casos
de crueldades Incompreensíveis.
INTRODUÇÃO AO I MACABEUS

  O título de I ou II Macabeus deve      facilmente      em     três     partes,
ser tomado em sentido totalmente         correspondendo cada uma ao
diferente de I ou II Samuel, ou Reis     governo respectivamente dos três
ou Crônicas. Nestes últimos, que         irmãos Macabeus.
formam uma única obra literária, a          Do epílogo pode-se deduzir que o
divisão em dois livros é artificial,     autor, cujo nome e profissão se
arbitrária e nada original, ao passo     desconhecem, escreveu o livro no
que os dois livros dos Macabeus são      tempo de João Hircano (134-103
duas obras originariamente distintas.    a.C); isto é, em tempos não muito
Tomam o nome de Judas, apelidado         afastados     da     ocorrência    dos
Macabeu, figura central da história      acontecimentos narrados; sendo,
que narram (1Mac 2,4). O objeto          portanto, muito provável que tenha
comum dos dois livros é a libertação     tido acesso a fontes e a testemunhas
da nação judaica do jugo dos se-         diretas. Cita doze documentos
lêucidas, os soberanos gregos do         oficiais por extenso: cartas entre
mais vasto dos reinos surgidos após a    chefes de estado (12,5-23; 14,20-23),
divisão do império de Alexandre          indultos dos reis (10,17-45; 11,30-37;
Magno. O primeiro livro abrange um       13,36-40; 15,2-29), documentos cuja
período de 41 anos (175-135 a.C), ou     exatidão estilística e diplomática foi
seja, desde o início do reinado de       recentemente             demonstrada
Antíoco IV Epifanes (175-163) até ao     mediante o confronto com papiros e
assassínio de Simão, chefe do novo       inscrições daquela época.
estado judaico (135 a.C). O segundo         Outra prova da exatidão do autor
inicia-se um pouco antes, desde os       sagrado são as freqüentes datas
últimos dias de Seleuco IV Filópator,    precisas de cada acontecimento
predecessor de Antíoco Epifanes,         (1,10.54.59; 2, 70; 4,52; 6,20.49;
mas vai somente até a morte de           7,1.43; 9,3.54 etc.) Conta os anos
Nicanor, general do rei se-lêucida, no   segundo a era dos gregos (cf. 1,10),
ano 161 a.C, pouco tempo antes da        outrora dita dos Selêucidas, que
morte heróica de Judas Macebeu,          começava oficialmente no ano 312
abrangendo assim um período de           a.C; mas para os acontecimentos
cerca de 15 anos. Em extensão de         especificamente judaicos emprega o
            o
tempo, o l livro alcança quase o         início do ano no equinócio da
triplo do 2°, mas na narração do         primavera (cf. 4,52; 10,21); o que
período comum é quase um quarto          demonstra que toma as datas de
mais breve (IMac 1-7; 2Mac desde         documentos oficiais, de fontes de
4,7 até o fim). O seu conteúdo,          primeira ordem. Tudo isso nos leva a
depois de expostas, à guisa de           concluir quão importante seja o valor
introdução, as causas e as origens da    histórico deste livro.
insurreição     judaica,     divide-se
A obra revela a índole da antiga
literatura hebraica, em estilo simples
e conciso, elegante e nervoso no
conjunto, mas, às vezes, se alonga
em lamentações, descrições e júbilos
de colorido poético (cf.1,25-28.37-
40; 2,7-13; 3,3-9.45; 14,4-15),
também essas recolhidas, com
reservas embora, das fontes orais ou
escritas, das quais o autor se serviu.
Escreveu em hebraico, mas o
original, que são Jerônimo ainda
conseguiu ter em mãos, perdeu-se;
para nós ocupa-Ihe o lugar uma
antiquíssima versão grega.
   O espírito que perpassa toda a
narração é um apego fervoroso à
religião tradicional e à santa lei de
Deus, com cordial adesão à dinastia
sacerdotal que havia restituído a
liberdade religiosa e civil ao povo
hebreu. A intervenção divina é
notória e marcante através do livro
inteiro. Não obstante, nunca se lê o
nome de Deus ou Senhor. Em
substituição, o autor sagrado
emprega uma dúzia de vezes o
vocábulo         "Céu"        (note-se
especialmente em 4,24, a antífona
ou estribilho tão freqüente nos
Salmos e em outros livros: 2Crôn
5,13; 7,3; 20,21; Jer 33,11; Esdr 3,11;
Dan 3, 89). É uma forma de religioso
respeito para com o augusto nome
de Deus, que passou também para a
linguagem do Novo Testamento. Em
conjunto, pelas suas eminentes
qualidades históricas, literárias e
religiosas, este livro é tido com
justiça como uma pérola do cânon
católico da Sagrada Escritura.
INTRODUÇÃO AO II MACABEUS

   O segundo livro dos Macabeus,           leva-nos a crer que as tenha escrito
conforme, testemunho do próprio            quando ainda vivas as testemunhas
autor (2,23), é o resumo de uma            oculares dos fatos, e que, portanto,
obra mais vasta, composta de cinco         sua obra tenha sido escrita nos
livros, que não chegou até nós, e de       últimos 20 anos do séc. II a.C.
autoria de Jasão de Cirene, autor, de        Ignoramos também o autor do
resto, completamente desconhecido,         resumo, isto é, do presente livro.
como desconhecidas nos são as              Reve-la-se-nos ele como homem de
características    de     sua      obra.   índole piedosa, zeloso da sua fé e do
Podemos, todavia, compreender              seu templo, amante das memórias
perfeitamente que um historiador de        pátrias e profundo conhecedor da
certa importância pudesse surgir de        retórica grega (cf. especialmente o
Cirene, na África do norte, porque         prólogo e o epílogo), muito estudada
não ignoramos que no séc. I a.C.           naquela época.
existia     ali   uma       florescente      Faltam-nos provas para afirmar
comunidade judaica. As informações         que toda a obra original tenha sua
que Jasão possuía — segundo o que          parte representativa no compêndio
podemos deduzir do resumo fiel —           também e, em que relação estejam,
especialmente as notícias minuciosas       quanto à extensão, as duas obras.
e       exatas       sobre        certas   Parece que o autor do resumo não
particularidades da história dos           seguiu um critério constante de
Selêucidas, informações precisas           composição.
sobre títulos, cargos etc, nos levam a       Quanto ao conteúdo, a obra relata
crer que tenha consultado arquivos         essencialmente os feitos de Judas
palestinenses e        ouvido      boas    Macabeu, precedidos, porém, de
testemunhas. É sabido, com efeito,         uma longa apresentação das
que os judeus cultos da época              condições em que surgiu a revolta, e,
costumavam        empreender        tais   antes ainda, de duas ou três cartas
viagens e pesquisas. Memórias              de judeus de Jerusalém aos do Egito,
escritas já haviam sido recolhidas por     documentos que não têm por fonte
Judas Macabeu (2,14); e, por               Jasão e. que talvez nem mesmo
ocasião das festas da Dedicação e de       tenham sido apostos ao livro pelo
Nicanor, não deviam faltar os              autor do resumo, mas são de
habituais rolos narrativos para uso        autenticidade comprovada.
"litúrgico". As interessantes cartas         No tocante à inspiração, o livro
dos cc. 9 e 11, agora ilustradas por       oferece possibilidades especiais de
descobertas papirológicas, provêm          observação, além de no prólogo e no
de arquivos.                               epílogo, na abundância de citações
  A exatidão das notícias, que Jasão       documentadas. Quanto a estas,
só poderá ter recolhido por via oral,      aplica-se o princípio comum em tais
casos: o autor garante que o
documento foi realmente escrito, e
nas circunstâncias em que ele o
coloca; pelo simples fato de citá-lo,
porém, não lhe garante o conteúdo
(S TO A GOSTINHO , A Orósio contra os
Priscilianos, 9). Isto é, esses
documentos não são em si
inspirados, ao passo que é inspirada
a sua inserção no texto sagrado. O
resto do texto está nas condições
costumeiras dos livros históricos;
inspirado é o texto grego, não,
porém, a obra de Jasão, que ele
compendia. O livro não era
geralmente       reconhecido    como
sagrado pelos judeus palestinenses,
que consideravam encerrado o
cânon no tempo dos Macabeus. Mas
era tido como tal em Alexandria,
bem         como       os     demais
deuterocanônicos, e nesta qualidade
passou à Igreja.
   O livro contém ensinamentos já no
próprio espírito com que foi escrito,
espírito     de    entusiasmo    pela
liberdade do povo, de fé na
providência divina, de piedade.
Diretamente, e com palavras de
profunda convicção religiosa, são
ensinados, de modo particular,
alguns pontos: a ressurreição da
carne (cf. especialmente 7,11;
12,43-44; 14,46), a eficácia do
sacrifício e da oração pelos defuntos
e da oração dos santos por aqueles
que ainda militam na terra (12,43-
45; 15,12-16), a existência dos
anjos e suas intervenções, também
com efeitos miraculosos, em auxílio
do povo de Deus, nos momentos
mais críticos.
LIVROS POÉTICOS
Os Salmos, Jó e os Provérbios, nas Bíblias hebraicas, formam um grupo à parte, com a denominação de Livros
poéticos. No uso comum, cristão e moderno, porém, acrescenta-se-lhes também o Eclesiastes, o Cântico dos
Cânticos, o livro da Sabedoria e o Eclesiástico ou Jesus de Sirac; e é freqüente entre os Padres gregos bem como
entre os autores modernos, estender a todos o nome de Livros poéticos. E com razão; pois o Cântico dos Cânticos e o
Eclesiástico são escritos em versos como os Provérbios. O Eclesiastes e o livro da Sabedoria possuem, outrossim,
forma poética, embora menos rigorosa. Trata-se, portanto, de um elemento comum a todos esses livros.
São também chamados livros didáticos ou sapienciais, por falarem muito de sabedoria. Mas o título de sapienciais é
reservado especialmente aos últimos cinco livros (Prov, Ecl, Cânt, Sab e Eclo); os salmos são na máxima parte de
gênero lírico, sem, todavia, lhes faltar o elemento didático; o gênero do Cântico dos Cânticos é exclusivamente o
lírico. De resto, lírico e didático são os dois gêneros de poesia cultivada pelos hebreus.

O que caracteriza toda a poesia hebraica é o chamado paralelismo. Ordinariamente, o verso compõe-se de dois
membros ou hemistiquios, o segundo dos quais forma certa simetria com o primei-do, ora repetindo com outras
palavras o conceito (paralelismo sinonímico), como, por exemplo:
"Quando Israel saiu do Egito, e a casa de Jacó do meio dum povo bárbaro, Deus consagrou ao seu serviço o povo de
Judá, e estabeleceu em Israel o seu império; (SI 113,1-2); ora destacando o mesmo conceito por meio de contrastes
(paralelismo antitético), como, por exetriplo: "Um filho sábio é a alegria de seu pai, porém um filho insensato é a
tristeza de sua mãe" (Prov 10,1). O segundo hemistiquio não é, às vezes, a repetição, e sim o complemento do
primeiro (paralelismo sintético ou progressivo), como, por exemplo: "Com a minha voz clamei ao Senhor, e ele
ouviu-me do seu santo monte" (SI 3,5).

A observância dos paralelismos ajuda a compreensão do verso, visto que a segunda parte repete e, muitas vezes,
esclarece obscuridades ou figuras contidas no primeiro hemistiquio. Por exemplo: Sab 33,6 o "sopro da boca" de
Deus não é senão a sua "palavra", o "fiat" da criação (cf. v. 9); SI 71,1 "o filho do rei" não é pessoa diversa do "rei" do
primeiro hemistiquio. Deve-se notar de maneira especial que freqüentes vezes os dois hemistiquios paralelos
apresentam cada um uma parte e aspecto da idéia, e unidos formam um só conceito. Destarte o citado Prov 10,1
quer significar que o filho sábio é a glória dos pais, ao passo que o insensato causa-lhes tristeza. Assim no SI 91,3
proclamar pela manhã a bondade de Deus, e pela tarde a sua fidelidade tem o sentido de: exaltar dia e noite a
liberalidade constante de Deus.

Muito se disputou nos últimos tempos se o verso hebraico tenha um determinado ritmo e qual, sem contudo se ter
chegado a um acordo entre os estudiosos a respeito. Mais solidamente provadas parecem estas normas: 1° O verso,
ou melhor dito, o hemistiquio hebraico, deve ter um determinado número de sílabas acentuadas, nada mais. 2o O
número de sílabas acentuadas varia de duas a cinco em cada hemistiquio. 3° Quando o hemistiquio possui cinco
acentos, ordinariamente entre o terceiro e o quarto interpõe-se uma cesura, resultando assim um ritmo elegíaco
(com dois períodos de comprimento desigual). 4° Entre as duas sílabas acentuadas estão em geral uma, duas ou três
não acentuadas. Portanto, o número de sílabas num verso ou hemistiquio ê indeterminado, mas conservado dentro
de certos limites.

A observação exata desse ritmo é de grande utilidade para a pontuação, isto é, a divisão entre os hemistiquios e
também entre os versículos, que não raro são mal distinguidos, inclusive na divisão massorética, introduzida pelos
mestres hebreus, e geralmente seguida, como se pode ver em Jó 15,23-24.31-32; 16,7-8; 19,14-15, ou nos SI 16,3-
4;30,11-12;39 7-9; 64.2-4 etc. Conseqüência dessa atenção às exigências do ritmo é a restituição da composição do
poeta sagrado a toda a sua natural beleza e a projeção de uma luz intensa para a compreensão do seu pensamento,
animado pelo sopro divino.
INTRODUÇÃO A JÓ
O livro, que recebe o título de Jó, do nome de um protagonista, pode ser considerado com toda justiça um
dos mais belos poemas da literatura mundial. Tema apaixonante, drama a um só tempo profundamente
humano e divinamente sublime, é desenvolvido com tal riqueza de colorido, vigor de afeto e tantos
artifícios de forma, que ê permitido afirmar que nele o idioma hebraico exauriu a sua facúndia, e a arte, o
seu estilo.

Na verdade, a ação é simples. Um homem de proceder irrepreensível é alvo de infortúnios de toda sorte,
ao ponto de não lhe restarem senão poucas carnes semicorrompidas a cobrir-lhe o esqueleto. Alguns de
seus amigos, vindos para consolá-lo, vêem nesse cúmulo de sofrimentos a prova tangível de gravíssimos
pecados, pelos quais ele o teria merecido, e o exprobam. Jó, paciente, protesta a sua inocência, sem,
porém, conseguir vencer os preconceitos dos seus acusadores. O próprio Deus parece surdo aos brados
dilacerantes do infeliz Jó, cujo espírito é torturado ainda mais do que a sua carne. Contudo, sua fé na
bondade da própria causa e na justiça de Deus não desfalece, e, superada a prova, Deus intervém para
defendê-lo e para restituir-lhe a antiga prosperidade. A conclusão é que, embora por uma misteriosa e
sábia disposição divina, às vezes também os justos sofrem sem culpa nenhuma; e que, finalmente, Deus
recompensa a virtude desconhecida pelos homens.

O objetivo do livro é a discussão, concretizada num fato, em tomo da razão e da origem ontológica da dor.
A discussão, desenvolvida em forma de diálogo entre Jó e seus amigos, e em versos de esmerada feitura,
constitui a parte principal e como que o corpo da obra, o poema propriamente dito (3-41). Precede a
introdução em prosa (1-2) e encerra-o um epílogo, também em prosa (42), à guisa de coroamento.
Esse o grandioso drama, no qual uma rara profundidade de sentimentos, unida a uma incomparável beleza
literária, mantém-se até ao toque final.
A diferença entre o Jó paciente e resignado (1-2) e o Jó queixoso e agressivo (3-31) explica-se pelos gêneros
literários diferentes das seções. Os discursos de Eliú (32-37) podem ter sido inseridos posteriormente, para
completar o assunto, deixado sem solução nos capítulos anteriores. O mesmo se diga quanto à teofania
(38-41).

Quem foi o autor desta obra maravilhosa? Ante o silêncio completo do próprio texto, as conjeturas não
tem conta. Um dos grandes profetas pré-exílicos? Estariam a seu favor o estilo e a linguagem. Um dos
sábios doutores da lei pós-exílicos? O assunto e o modo de dialogar justificariam essa suposição. Seja como
for, o autor foi um dos grandes representantes da língua e do pensamento do povo hebraico.
Da natureza poética do livro se segue que não se deve insistir na veracidade histórica de cada passo da
discussão. Além disso, a própria índole do diálogo supõe que o autor não tenha querido aprovar todas as
idéias expressas pelos interlocutores. A chave da composição conexa está em 42,1-8: Jó, embora tendo um
conceito elevado de Deus, pecou por presunção e violência; aos seus amigos, pelo contrário, faltou o
conceito adequado de Deus e de sua Providência.
O prólogo e o epílogo são ficções literárias. Discute-se a historicidade da pessoa de Jó; a opinião mais
plausível é a de que também seja uma personagem fictícia, pois o objetivo da obra não é contar a história
de um sofredor, e sim, oferecer uma solução e um consolo a todos os que sofrem. A cena passa-se nas
fronteiras entre a Idumêia e a Arábia. A antigüidade cristã venerava a terra de Jó nas vizinhanças de
Carnaim, hoje Cheh Sa'ad, na Batanéia (cf. IMac 5,26), onde subsistem reminiscências na toponomástica
local.

Jó raras vezes é mencionado no resto da Sagrada Escritura. Em Ez 14, 14.20 é posto entre os homens
renomados pela sua justiça e virtude. Em Tob 2,12-15 (segundo a Vulgata) e em Tg 5,11 é proposto como
exemplo de paciência heróica. Com efeito, a paciência de Jó tornou-se proverbial. Se hoje, à luz da doutrina
evangélica, encontramos motivos de conforto bem mais eficazes do que os que Jó podia encontrar na luz
imperfeita da razão e mesmo da antiga lei, tanto mais valem a sua heróica resignação e constância sob o
peso de tamanhas desgraças.
INTRODUÇÃO AOS SALMOS
É uso vindo das Bíblias gregas e latinas, chamar Salmos aos cânticos sagrados que os hebreus, e também os
gregos e os latinos, bem como as nossas antigas vulgarizações, com mais propriedade intitulam hinos. São
poesias religiosas de argumentos variados, o mais das vezes orações ou louvores a Deus.
A coleção desses hinos, chamada, por analogia, Saltério, nas Bíblias hebraicas divide-se em cinco livros,
separados entre si pela doxologia ou aclamação ("Bendito seja o Senhor" etc.), que se lê no final dos salmos
41,72,89,106. Mas é divisão recente, introduzida, ao que parece, por volta do séc. III a.C. Em tempos mais
remotos, compunha-se de três grandes coletâneas, que se distinguem pelo emprego dos nomes para
invocar a divindade. A V (salmos 1-40) e a y (91-150) empregam Senhor (hebr. "Javé"), a 2? (41-88), Deus
(hebr. "Eloim").
Distinguem-sé ainda pelos nomes dos autores, que cada salmo traz no cabeçalho. Na 1', quase todos os
salmos, exceto 1,2,32, são intitulados de Davi; na 2* são três séries, intituladas, respectivamente, dos filhos
de Coré, ou coreí-tas, de Davi e de Asaf; na 3- quase todos os salmos são anônimos. Com os títulos, varia
também o teor geral do argumento.

Os salmos atribuídos a Davi são, em máxima parte, pedidos de auxílio em todas as aflições, de modo
especial nas enfermidades e nas perseguições. Os cantos dos filhos de Coré, conforme sua condição de
levitas (cf. Núm 16,1), têm por tema central o culto, o templo, a cidade santa. Os de Asaf são cânticos
nacionais ou didáticos, que celebram o triunfo ou deploram as derrotas de todo o povo, ou têm por fim
ensinar verdades morais. A coleção anônima compõe-se na maioria de hinos de louvor ou de ações de
graças ao Senhor. Nela sobressai também uma coletânea partícula} de salmos breves, chamados graduais
(119-133), de índole levítica.

Do exposto infere-se que a atual coleção de salmos ou Saltério, foi se formando aos poucos, desde os
tempos de Davi (cerca de 1000 a.C.) até depois de Neemias (cerca de 400 a.C). Em todo esse longo período,
em todas as gerações, os piedosos poetas, inspirados por
Deus, transfundiram nos salmos os seus santos afetos, suas fervorosas súplicas, os transportes de sua alma
profundamente religiosa. Destarte, recolhendo o Saltério o eco de todo um povo e de tantos séculos, era,
por natureza, apto a se tornar, como de fato se tornou, o livro de orações, o manual de piedade, primeiro
para a Sinagoga israelita, depois para toda a Igreja cristã.

Muito importantes, relativamente aos nossos conceitos, são dois vocábulos que raramente aparecem nos
títulos, mas são freqüentes no texto dos Salmos: "tefilã = súplica" e tehilã = louvor". É assim que são
designados os gêneros mais freqüentes dos Salmos. No primeiro, na súplica, que compreende mais de um
terço de todo o Saltério, um indivíduo ou (mais raramente) a nação, assaltado por males de toda a espécie,
recorre a Deus para deles se livrar. Destarte, na sua abundância e variedade, os salmos oferecem modelos
de oração para todas as circunstâncias da vida humana. O outro gênero, de louvor ou hino a Deus, era
indicado de maneira especial para o culto público nas funções religiosas do templo e está concentrado
sobretudo nos livros IV e V. Em menor número são os salmos didáticos ou sapienciais e morais, cheios dos
mais diversos ensinamentos para a vida, e os salmos históricos, que rememoram, para exaltação de Deus
ou ação de graças, ou para ilustração dos pósteros, os grandes acontecimentos da vida nacional. Restam
ainda salmos que escapam a qualquer categoria, tão grande é a variedade desta nobilíssima antologia de
poesia religiosa.

Para melhor lhe saborear toda a beleza e experimentar a eficácia, esforce-se o leitor por se apossar dos
sentimentos e afetos expressos pelo texto sagrado. Se alguma passagem, como nos chamados salmos
imprecatorios (58-69; 83; 109), parece dura e chocante para almas acostumadas à suavidade evangélica (cf.
Mt 5,43), lembremos o zelo puro pela justiça e honra de Deus que animava os autores sagrados (cf. 5,11;
69,10; 139,21), e poderemos manifestar para com o pecado todo o rigor da antiga lei, ao passo que
reservaremos toda a caridade e a misericórdia da nova lei para o pecador.
INTRODUÇÃO AOS PROVÉRBIOS

Entre os hebreus, como em todas as nações, eram correntes os provérbios
vulgares, patrimônio comum da sabedoria popular. Por exemplo: "Dos
maliciosos procede a malícia" (1Sam 24,14) ou: "Tal mãe, tal filha" (Ez 16,44).
                                                                          5
Bem superior a este gênero popular eleva-se o provérbio douto, o "masar dos
sábios, fruto da reflexão, digamos, filosófica. Ê uma sentença breve e
conceituosa que, sob forma sutil e freqüentemente figurada, dita
ensinamentos úteis para a vida. Sua origem e nome parece ter sido a
semelhança ou comparação (tal o sentido primitivo da palavra "masal";
exemplos: 26,1-2), passada, portanto, para o sentido de comparação ou
semelhança abreviada (p. ex., 25,25-26) para a antítese (10,1-5) e, enfim, para
o dito sentencioso em geral. Na sua expressão mais pura, consta de duas
frases ou hemistíquios paralelos, o segundo dos quais corresponde ao
primeiro numa das diversas maneiras de paralelismo poético. É a forma com
que se expressava comumente a filosofia elementar e prática dos hebreus,
conhecida com o nome de "Sabedoria". Os escritos em que foi consignada
formam a literatura propriamente sapiencial, que podemos chamar de poesia
gnómica.
Composto em grande parte desses ditos, em forma de masal, é deles que
toma nome o presente livro dos Provérbios. O argumento e a finalidade estão
claramente expostos nos versos iniciais (1,1-6).
Observando-se com atenção, notar-se-á sem dificuldade que o fundo ou corpo
do livro é formado por duas coleções de sentenças salomônicas (10,1-22, 16 e
25-29), às quais os capítulos 1-9 servem de introdução e que as outras
coleções menores constituem, às vezes, como que apêndices. Esta a razão por
que o livro, tomando o nome do autor principal, é chamado, no título (1,1), e
com ele na linguagem eclesiástica, Provérbios (ou sentenças) de Salomão.
Este breve esboço pode dar uma idéia da riqueza e da variedade que este livro
apresenta sob o duplo aspecto da matéria e da forma. Pode-se dizer que à
vida toda da antiga sociedade israelita é passada revista, analisada, julgada
segundo uma moral toda impregnada de bom senso e praticidade. As fontes
desta moral são a experiência e a religião. Da experiência, mestra da vida, o
autor sagrado tira lições práticas, ou recolhe simplesmente os fatos (20,4). A
religião, ainda que não seja sistematicamente exposta, quer nos seus
fundamentos dogmáticos, quer nas suas práticas cultuais (em geral os
Provérbios não querem ser uma exposição sistemática da moral, mas sim
ditames práticos), todavia é sempre pressuposta, ou, é posta como base de
toda a moral (1,7;9,10; 14,2 etc.) e declarada fonte de toda a verdadeira
felicidade (14,26-27; 15,16). Muitas e muitas vezes são inculcados nesta obra
os grandes fundamentos de uma moral íntima, forte e convicta, como, p. ex., a
de que Deus tudo vê (5,21; 15,3-11), tudo toma em consideração até os mais
recônditos sentimentos do coração (16,2; 17,3), tudo governa (20,12-
24;22,2;29,13) e tudo pode (19,21;21, 30); que longe de Deus não pode haver
bem (15,29), que entregar-se a ele é encontrar a força, a sabedoria, a alegria
(3,5; 16,20; 18,10 etc). Quanta eficácia na simplicidade da expressão do
motivo tão freqüentemente repetido para afastar do vício: "desagrada a Deus,
Deus o abomina" (3,32; 11,1-20; 12,22;24,18 etc.)!
É com razão, portanto, que a Igreja considera os Provérbios uma pérola entre
os livros inspirados por Deus. Evidentemente, não podemos esperar encontrar
nos ditos do Sábio toda a sublime elevação da moral evangélica, mas são-lhe
uma boa preparação, e não raro muito se lhe aproximam. Razão por que
freqüentemente os apóstolos e o próprio Jesus Cristo repetiram formalmente
os Provérbios (Jo 7,38; Rom 12, 20; Tg 4,6) ou os seus ensinamentos (cf. Lc
14,10 com Prov 25,7; 1Pdr 4,8 e Tg 5,20 com Prov 10,12).
INTRODUÇÃO AO ECLESIASTES

Singular entre todos os livros do Antigo Testamento é, sob diversos aspectos, o presente. Seu título, Eclesiastes, é a
tradução grega do nome hebraico, que no próprio texto designa-lhe o nome, isto é, Cohelet, particípio (feminino) do
verbo "cahal", cujo significado é "reunir, convocar". É porque em grego "ecclesiastes" significa também "orador que
fala na assembléia", certo tempo acreditou-se que esse livro fosse um discurso, um sermão feito ao povo israelita em
assembléia pública. Mas, na realidade, o presente opúsculo nada tem de oratório, e deve ser incluído no gênero de
filosofia fragmentária, que, com o título de "Pensamentos", é conhecida também nas literaturas profanas, antigas e
modernas.

Dada essa índole geral do livro, não causará maravilha o fato de não se encontrar nele uma ordem estritamente lógica
no desenvolvimento das idéias. Os intérpretes também discordam entre si na divisão das diversas matérias.

O Eclesiastes é misto de reflexões em prosa e de sentenças em versos. São seis ordens de reflexões intercaladas por
cinco grupos de sentenças, com um prólogo que precede o corpo da obra e um epílogo que o encerra. O argumento
geral da reflexão é a vaidade das coisas humanas; a insensatez da excessiva solicitude pelos bens terrestres,
marcadamente as riquezas e os prazeres; a moderação em todas as coisas, quer na busca do bem-estar e da própria
virtude, quer na fruição das alegrias que Deus difundiu na vida presente.

O livro todo é matizado de suave colorido de serena melancolia e profunda compaixão pelos sofrimentos humanos, o
que o torna poderosamente simpático. Sua doutrina valeu-lhe a tacha de cético e epicureu, mas não passa de
julgamento superficial e errôneo. Não obstante Cohelet deplore em muitos pontos a ignorância humana, causa de não
poucas aflições, e a impotência da razão para solucionar os mais cruciantes problemas da vida e para dar a felicidade
plena, não nega, todavia, a possibilidade de chegar a certo conhecimento de muitas coisas, e, sobretudo, tem uma fé
inabalável em Deus e na sua ação no universo e na sociedade humana. Convidando-nos a gozar dos bens desta vida
com a devida moderação, honestidade e gratidão para com o Doador, bem longe está de pôr o fim da existência no
prazer, e ensina também uma virtude, se bem que nem toda a virtude. Sua moral não é perfeita, como tampouco o era
a lei antiga (Hebr 7,19), mas ê sadia e proporcionada aos tempos do autor. Ainda hoje ela é capaz de inspirar
magnânimos propósitos a um coração cristão.

A linguagem e o estilo do Eclesiastes distinguem-se entre todas as páginas do Antigo Testamento pelos vocábulos e
construções de uma era bastante tardia, e formam como que a transição entre o hebraico da era clássica e o do
Talmude (sêc. II-V d.C). Muito se discutiu sobre quem seja o autor. Pode-se ao certo, dizer que foi um mestre de
sabedoria popular (12,9), e que Cohelet foi seu nome literário ou acadêmico, e não próprio.

Outra questão ainda debatida é se na composição do livro além de Cohelet tenham tomado parte outras mãos
(unidade ou pluralidade de autores). Pode-se facilmente conceder que o epílogo (12,9-14) tenha sido acrescentado
pelo editor do livro, presumivelmente um discípulo do próprio Cohelet. Mas será necessário, para explicar a variedade
e às vezes o choque de sentimentos que se notam em todo o livro (cf. p. ex., 2,15-17 com 7,19-24;3,6-19;7,2-4 com 2,2
e 8,15;8,10-13;11,9), supor, como o fazem alguns modernos, que no opúsculo, radicalmente pessimista e deleitoso de
Cohelet, outros, como, p. ex., um sábio ou piedoso fiel, tenham inserido sentenças morais, a fim de temperar-lhe a
crueza? Não parece; o gênero literário dos "Pensamentos" e o humor pessoal de Cohelet, levado a refletir sobre os
vários aspectos das coisas humanas e a passar de um a outro afeto, bastam para dar uma explicação adequada aos
vários matizes que no Eclesiastes se alternam ou temperam, aumentando-lhe o valor e a atração. Ademais um mesmo
é o estilo, tão característico no livro inteiro; mesmo é o Espírito, que lhe garante cada palavra.
INTRODUÇÃO AO CÂNTICO DOS CÂNTICOS

O Cântico, ou, como de costume se traduz literalmente do hebraico, o Cântico dos Cânticos, apresenta-se-nos na
estrutura de pequeno poema, entre o lírico e o dramático, no colorido de um idílio e com o teor de um cântico de
amor, qualidades essas que lhe conferem um lugar todo particular nas Sagradas Escrituras, ao passo que pela
elegância literária deve ser posto entre as mais preciosas páginas da pura poesia hebraica. Se, porém, cantasse
propriamente amores profanos, não teria sido por certo jamais inserido entre os livros inspirados das Escrituras. Foi,
portanto, tradição constante e unânime da Sinagoga judaica, como o é da Igreja cristã, que no Cântico, sob a alegoria
de amores profanos, celebrase o amor mútuo entre Deus e seu povo, entre Deus e o fiel piedoso. Somente o
racionalismo moderno tentou despojá-lo dessa auréola divina, reduzindo-o a um eco de simples amores profanos.
Com essa atitude, porém, ele levantou para si uma barreira que lhe impede a reta compreensão do livro.

A alegoria, admitida comumente por cristãos e judeus, não foi, porém, interpretada de igual maneira, e há muitos e
diversos sistemas de interpretação. Destas, a que se segue parece, a um só tempo, a mais simples e a que melhor
corresponde aos dados intrínsecos do livro e às condições históricas do antigo Israel.
A ação do Cântico é uma parábola e um contraste: uma parábola de fundo idílico, e um contraste entre duas vidas,
entre dois amores. Uma ingênua pastorinha, alcunhada a Sulamita (6,12; 7,1), ama intensa e ternamente um jovem
pastor, seu coetâneo e conterrâneo, pelo qual é cordialmente correspondida no amor: os dois protagonistas são
chamados, no texto, "amado" e "amiga" respectivamente (só em 4,8-9, "irmã" ou "esposa"), mas pelo uso comum
também "esposo" e "esposa". O afeto mútuo ê estreitado pelo arroubo comum diante da vida inocente dos campos e
ante o encanto da natureza virgem. Ê o idílio.

Com esta vida simples e pura, contrasta a vida da cidade com suas comodidades, a corte com suas seduções, um rei
potentado (simbolizado aqui e ali por Salomão, o mais rico e faustoso monarca que a história de Israel conheceu), o
qual desejaria atrair a jovem pastora ao seu amor, à honra de ser sua consorte. Mas a generosa donzela recusa
desdenhosamente as ofertas do rico soberano e sente-se satisfeita com a vida simples dos campos, desejando
permanecer para sempre fiel ao seu pastor, único objeto dos seus castos amores.

Isso tudo entremostra a alma de Israel posta em risco entre a fidelidade à sua religião austera e os deslumbrantes
esplendores da civilização pagã; entremostra toda alma fiel, atraída pelos amores antagônicos de Deus e do mundo.
De fato, embora o povo de Israel, pela sua doutrina religiosa e moral, superasse incomparavelmente qualquer outro
povo da antigüidade, é, todavia, inegável que, na civilização material e em poderio político, ficava muito aquém dos
poderosos impérios vizinhos do Egito, da Assíria, da Grécia, com os quais a sua história o colocou num contato quase
contínuo. Essa esmagadora superioridade das nações pagãs podia ser um escândalo para as almas fracas, podia, pelo
menos, perturbar as almas piedosas, e debilitar, se não abalar, o seu apego a Deus, à religião avita. Dão--no-lo a
entender não poucas páginas da Sagrada Escritura, como Dt 17,14-20; 2Rs 18,17-37; Jer 2,18; Bar 6; IMac 1,12-15. O
próprio Salomão, que promoveu mais do que qualquer outro a cultura civil em Israel e imitou o fausto e a moleza das
cortes orientais (lRs 10, 14-11,13), e foi, sem dúvida, um sério perigo para a religião. A fim de fortalecer os espíritos no
amor ao culto severo dos antepassados, e para precavê-los contra a sedução da deslumbrante civilização pagã, o
Cântico descreve, nos seus castos e jucundos amores da Sulamita para com seu amado, a felicidade do povo eleito na
fidelidade ao seu Deus.
INTRODUÇÃO À SABEDORIA

Entre todos os livros didáticos do Antigo Testamento, o presente traz por excelência o título de Sabedoria porque canta mais
longamente e com acentos mais sublimes do que qualquer outro o elogio da verdadeira sabedoria, que tem por objeto a
verdadeira religião e a virtude, mas o seu princípio no próprio Deus. Este conceito liga, como fio de ouro, numa maravilhosa
unidade, as variedades notáveis das cinco partes, sensivelmente iguais, que compõem o livro.

1- Admoestação a praticar a justiça e a religião, e como motivo para assim agir, a oposição entre a sorte final dos bons e dos
maus, prêmio dos justos e castigo dos ímpios na vida futura (1-5).
2- Elogio da Sabedoria pelas suas qualidades intrínsecas e pelos bens que proporciona ao espírito humano. Fala Salomão (6-9).
3- Qualidades da Sabedoria patenteadas na história sagrada; bens que a Sabedoria trouxe aos patriarcas desde Adão até
Moisés (10-12).
4- Origem, insensatez e imoralidade da idolatria (13-15): animismo (13,1--9); fetichismo (13,10-14,11); divinização de homens
(14,12-20); corrupção profunda (14,21-31); a religião de Israel e o politeísmo egípcio (15).

Ao tomar e desenvolver o seu argumento, o autor sagrado teve por finalidade imediata confirmar na fé e na prática da santa
religião os judeus do Egito, sustentá-los nas opressões, que por causa dela deviam sofrer, e preservá-los da sedução, que sobre
eles podia exercer a brilhante civilização pagã sob a dinastia grega dos Ptolomeus.

Com efeito, não pode haver dúvidas de que o livro foi escrito primitivamente em grego, idioma usado pelos judeus do Egito,
especialmente em Alexandria, nos últimos séculos que precedem a era vulgar. Nota-se nele não só o colorido grego da língua e
do estilo, mas também o reflexo das escolas filosóficas e dos costumes da douta Grécia pagã.

Estes reflexos indicam aproximadamente a época em que viveu o autor, fá que no seu tempo (como se releva de 2,10-3,4; 5,1) os
judeus tinham que sofrer bastante, quer da parte dos pagãos, quer dos seus correligionários apóstatas, podemos precisar esta
época um pouco melhor. Ê historicamente fundado o fato de que nos reinados de Ptolomeu Alexandre (106-88 a.C.) e Ptolomeu
Dionísio (80-52 a.C.) tiveram lugar no Egito sublevações populares contra os judeus.
O livro, portanto, deve ter sido escrito entre os anos 100 e 50 a, C.

Autores houve que pretenderam baixar a idade até à época romana (30 a. C.) e na antigüidade algum escritor, segundo S.
Jerônimo (Praef. aos liv. de Salom.), atribuiu-o a Fílon hebreu (cerca de 20 a. C. — 40 d. C.). Mas o livro da Sabedoria versa com
demasiada insistência e predileção sobre fatos e costumes especificamente egípcios, para se poder referi-los a povos e soberanos
cuja sede não se achava no Egito. Além disso não se pode afirmar que os romanos houvessem "tiranizado o povo de Deus"
(15,14) antes de Vespasiano e de Tito (70 d. C.). Também as doutrinas e o estilo diferem notavelmente dos de Fílon. Pode-se, isto
sim, colocar o autor do presente livro entre os primeiros e mais ilustres mestres daquela escola judaica de Alexandria, da qual
Fílon foi mais tarde o astro mais luminoso.

Verdade é que nos cc. 7-9 o autor fala e escreve como se fora Salomão, rei de Israel, que reinou em Jerusalém no séc. X a. C. (cf.
lRs 3,5-12) e por isso nos códices gregos o livro tem ordinariamente o título de Sabedoria de Salomão. Mas isto é um inócuo
artifício literário empregado nas antigas literaturas, uma espécie de prosopopéia, visando a dar ao discurso maior atração e
eficácia, tomando para tanto o tom de insigne personagem antiga.

Este artifício humano nada tira à autoridade divina do livro, isto é, à sua inspiração, que é assegurada não só pelo magistério da
Igreja, mas também pelo uso que do presente livro fizeram os autores do Novo Testamento, os quais, se o não citaram
nominalmente, apropriaram-se de pensamentos e construções que lhe são próprios. Confrontem-se por exemplo, principalmente,
Sab 12. 12-22 com Rom 9,19-23; Sab 9,15 com 2Cor 5,4; Sab 3,5-6 com lPdr 1,6-7; Sab 7,25-26 com Hebr 1,3; Sab 7 em geral com
Jo 1.
INTRODUÇÃO AO ECLESIÁSTICO

O presente livro, que na Igreja latina, desde o fim dos primórdios (por exemplo, desde S. Cipriano até ao séc. III)
passou a chamar-se o Eclesiástico por excelência, porque o mais notável dos livros lidos nas igrejas para instrução dos
catecúmenos ou dos neocristãos, é o mais extenso e o mais rico de ensinamentos entre os livros do Antigo
Testamento. Entre os gregos tem o nome de Sabedoria de Jesus, filho de Sirac, ou simplesmente Sirac, do nome de
seu autor. No texto original hebraico, segundo testemunho de S. Jerônimo (Prefácio aos livros de Salomão),
confirmado por citações de rabinos, chamava-se como o correspondente livro de Salomão, Provérbios do filho de
Sirac (cf. 50,27). Mas entre os hebreus era também conhecido, como na versão siríaca, sob o titulo de Sabedoria,
comum entre os gregos.
Efetivamente, o Eclesiástico (como o chamaremos, segundo o nosso uso) toma o argumento e a divisão da Sabedoria.
Distinguem-se nele dez partes, começando todas com o elogio da Sabedoria ou com um hino a Deus, autor de toda a
sabedoria; seguem-se dois pequenos apêndices.
No fim da 10a parte (50,27), como pós-escrito, o autor dá-nos o seu nome: Jesus, filho de Eleazar, filho de Sirac. O
tradutor grego, que certamente andava bem informado, acrescentou-lhe a terra natal: jerosolimitano. Sirá (em grego
"Sirac” ) parece mais o sobrenome de família do que de avô; daí o dizer-se muitas vezes sirácida. O tempo em que
viveu nos é indicado por duas datas aproximativas. No próprio livro (c. 50), Sirac nos descreve Simão, filho de Onias, o
sumo sacerdote, com cores tais, que demonstra muito bem tê-lo visto e admirado ocularmente no exercício de suas
sagradas funções. Dos dois sumos pontífices que trouxeram este nome, o primeiro dos quais viveu por volta do ano
300 a.C, e o segundo um século mais tarde, deve-se por certo entender o segundo. Com efeito, o tradutor grego, que
no prólogo à sua tradução declara-se neto do autor, informa-nos ter ido ao Egito por volta do ano 38 do reinado do
Ptolomeu Evérgetes. Ora, visto que dos dois Ptolomeus que tiveram o nome de Evérgetes (I, 247-222; II, 171-117 a.C.)
só o II alcançou e superou o ano trigésimo oitavo de reinado (iniciado em 171 a.C.), assim aquela data leva-nos ao ano
132 a.C. Entre este e a época de Simão II (219-199 a.C.) passam-se exatamente duas gerações, que são as que
intercorrem entre avô e neto. Jesus, filho de Sirac, viveu, portanto, entre os séc. III e II a.C, e deve ter escrito o seu
livro entre os anos 200 e 180 a.C.
Escreveu em hebraico, mas o texto original, visto por S. Jerônimo (Prefação acima mencionada) e muitas vezes citado
por escritores judeus da Idade Média, havia séculos estava perdido, até que entre 1896 e 1900 foram encontrados
cerca de dois terços do mesmo (3,8--16, 26;30-33;35-fim, além de poucos trechos intermediários) num escaninho de
uma velha sinagoga no Cairo em fragmentos de cinco manuscritos diversos. Porém encontra-se num estado formal
bem menos satisfatório do que o texto hebraico dos livros protocanônicos. Amanuenses e recenseadores permitiram-
se muito mais liberdade ou negligência com o livro de Sirac do que com as Escrituras do cânone hebraico. Por isso
maior valor do que de ordinário têm também as duas antigas versões independentes, a grega e a siríaca,
especialmente a primeira.
O livro foi traduzido para o grego pelo neto do próprio autor, pelo fim do séc. II a.C, como, aliás, ele mesmo nos
informa no prólogo da sua versão.
Este prólogo é importante, não só porque nos oferece as datas da composição e da tradução do livro, mas ainda
porque nos mostra como no séc. II a.C. os livros sagrados do Antigo Testamento já se distinguiam, entre os judeus, nas
três ordens que passaram a ser depois tradicionais: lei (Pentateuco), profetas e escritos, e como cada uma dessas
ordens estava traduzida, ao menos em boa parte, para o grego. Da versão grega do Eclesiástico, além do texto comum
e mais castiço, que se encontra no códice Vaticano 1209 (B), publicado por ordem de Sixto V (1587), eram correntes
também, códices dos quais ainda restam, com não poucas edições da primeira parte (1-26). Com base num desses
códices foi feita a tradução latina da Vulgata.

Bíblia Vulgata Ed. 36.
O PROFETISMO

Com os profetas, o Antigo Testamento alcança o ápice, seja como valor espiritual absoluto, seja como preparação para
o Novo Testamento. Os profetas eram homens que Deus investia diretamente do seu espírito para uma missão
espiritual no seio do seu povo, em tempos de perigo ou de necessidade religiosa e moral. Tornavam-se assim, guias
espirituais do povo de Israel, pelo mesmo título com que outrora os juízes suscitados por Deus, eram os chefes
políticos e militares, os libertadores no tempo de aflição.
Embora tenha havido pessoas dotadas de espírito profético desde as origens do povo hebreu (cf. Gên 20,7; Núm
11,25-26; Dt 34,10), contudo, somente a partir de Samuel esses homens inspirados por Deus e por ele enviados ao
povo sucedem-se com tal freqüência, que chegam a formar uma cadeia ininterrupta durante cerca de seis séculos
(aproximadamente desde 1050 a 450 a.C). Cf. 1Sam 3,1.
Considerando o exercício do ministério profético, este longo intervalo de tempo divide-se em dois períodos
sensivelmente iguais. Nos três primeiros séculos, isto é, até por volta de 750 a.C. temos os profetas de ação, como,
por exemplo, Elias (1Rs—2Rs 2), que pregam energicamente, mas não escrevem, ao passo que os profetas escritores
viveram todos nos séculos seguintes: são os profetas cujos vaticínios ou mensagens nos foram transmitidos por
escrito. Estes últimos costuma-se dividi-los, com base na extensão de seus escritos, em duas categorias: Profetas
Maiores e Menores. Os primeiros são, por ordem cronológica, Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel (sobre este último,
porém, confronte-se a introdução ao seu livro. Os Menores, em número de doze, foram por algum tempo reunidos
num só volume, em ordem aproximadamente cronológica, ou, ao menos, na que era julgada tal.
Objeto da pregação tanto dos profetas de ação como dos escritores, era defender a pureza do monoteísmo ¡avista
contra as contaminações ou infiltrações idolátricas, concitar o povo à santidade dos costumes, exigida pela lei divina,
combater as desordens sociais, principalmente a opressão dos humildes, opor-se ao formalismo religioso, inculcando
o primado do espírito interior sobre os ritos externos, anunciar a cada cidadão e a toda a nação os tremendos castigos
de Deus, em conseqüência das culpas cometidas, como também oferecer a perspectiva de um futuro melhor, fruto do
arrependimento, porvir radioso, o mais das vezes compendiado em termos esperançosos e genéricos de paz e de
salvação.
Nesta ordem de idéias, própria dos profetas escritores, apresenta-se-nos a majestosa e cativante figura de um
descendente de Davi, mediante o qual se realizarão as venturosas promessas. Ele é o Salvador dos povos, o
restaurador da religião e da justiça, o soberano de um reino eterno de paz. Os profetas designam-no com diversos
nomes ou títulos: Emanuel, Servo de Javé, Rebento de Davi, Davi por antonomásia, Germe divino etc. Somente uma
vez (Dan 9,26) é denominado com o apelativo de Masiah f ou Messias, que mais tarde se tornará termo técnico e
pessoal. Compreende-se, assim, como os apóstolos citem freqüentemente no Novo Testamento os vaticínios dos
profetas para provar aos judeus que o Messias que eles preanunciaram é o seu Mestre, Jesus de Nazaré.
Esse prenúncio constitui o ponto alto da missão dos profetas. Mas não se limita a isso, como, tampouco, à predição do
futuro em geral, se limitaria a missão própria dos profetas, como erroneamente poder-se-ia deduzir deste vocábulo
vernáculo, derivado do grego. Em hebraico, o termo correspondente é "nabi", que, propriamente, significa um arauto
(da divindade), um mensageiro. Os profetas eram, pois os porta-vozes de Javé, que transmitiam ao povo aquilo que
Deus lhes ordenava transmitir; eram os pregoeiros da mensagem divina à nação ou aos indivíduos. O termo mais
comum para indicar a mensagem divina era também o mais amplo: "a palavra de Javé", que no seu objeto desconhece
limites.
Deus, portanto, falava aos profetas, os quais, por sua vez, transmitiam sua palavra aos homens. De que maneira e por
quais caminhos chegava a palavra divina a esses espíritos de eleição, é um segredo da mística sobrenatural. Em muitos
casos, porém, eles mesmos no-lo revelam em seus escritos. Assim, descrevem-nos as visões com que foram
favorecidos (Is 6; Jer 1,11-19; Ez 1-6; Am 7-8; Zac 1-6), mediante uma ação sobrenatural, exercida quer sobre os
sentidos exteriores, quer sobre a imaginação e as faculdades interiores. Outras vezes era uma voz que lhes falava, de
maneira semelhante, seja sensivelmente, seja mediante uma ação interior. O objeto da revelação podia apresentar-
se-lhes na sua realidade direta, como em Is 6, ou por meio de símbolos, como em Am 7-8. Outras vezes a lição era
sugerida pela observação de um fato sensível, como em Jer 18. Na maioria das vezes, porém, havia uma iluminação
direta da mente do profeta. Sempre, porém, este percebia que Deus lhe falava, e era da indesmoronável convicção da
origem divina do seu mandato que hauria uma força sobre-humana, capaz de vencer qualquer obstáculo (cf. Is 50,4-8;
Jer 1,17-19;20,7-12; Ez 3,8-9; Am 3,7-8;7, 12-17).
A mensagem divina era comunicada, em geral, mediante a pregação (cf. Jer 7,1-15); outras vezes, mediante uma ação
simbólica, realizada publicamente, com a finalidade de causar maior impressão sobre o povo (Is 20; Jer 13; 19; Ez 4-5).
Já no segundo período, as mensagens proféticas passavam mui freqüentemente da pregação viva para o escrito (cf.
Jer 36) e então assumiam facilmente forma mais literária, geralmente mais concisa e muitas vezes eram exaradas ou
refundidas em formas poéticas mais apuradas, que juntavam à fascinação da beleza poética a vantagem de imprimir
mais facilmente a palavra divina na memória. Ê até provável que, unindo ao verso a melodia, muitos desses poemas
fossem cantados pelas praças e ruas, por zelosos discípulos dos profetas, para fins de propaganda.
Ao passarem, pois, da pregação oral para a escrita, esses "homens de Deus" (título honroso, reservado por
antonomásia aos profetas; cf. 1Sam 2,27;9,6; 1Rs 13,1; 17,18; 2Rs 4,7 etc.) recebiam um carisma especial de
inspiração, que conferia a seus escritos o valor de livros sagrados, dignos de ser inseridos no cânon das Escrituras
divinas. Essa inspiração recebe esse caráter específico do seu termo, a escrita, que faz com que a palavra seja fixa,
duradoura e imutável, o que a expressão oral não é. Na sua natureza de oráculo divino não difere, porém, da
inspiração profética comum. É por isso que os teólogos, como Sto. Tomás de Aquino (Suma Teológica, 2?-2?, q. 171-
178) costumavam tratar da inspiração bíblica juntamente com o carisma profético, e os antigos Padres chamavam
freqüentemente "profeta" a qualquer escritor bíblico, porque inspirado.
O profetismo ergue-se, portanto, paralelo à lei e, juntamente com ela, sustém o edifício sagrado da religião hebraica,
quer em função social no seio do povo de Israel, quer como monumento literário no Livro divino, a Bíblia. Daí a razão
por que em linguagem bíblica, de modo especial no Novo Testamento, é de uso corrente o binômio "Lei e Profetas"
para indicar todo o Antigo Testamento (cf. Is 2,3; 2Mac 15,9; Mt 11,13; Lc 24, 27 etc.)
O profetismo era uma instituição divina em Israel, prevista e aprovada pela lei (Dt 18,15-20). O profeta, porém,
recebia diretamente de Deus a investidura de sua missão, independente da aprovação da autoridade civil ou do
sacerdócio (cf. 1Rs 18,16-18; Jer 1,17-19; Am 7,10-17). Testemunha de que Deus lhe tinha falado e de que o enviava,
era o profeta mesmo, e devia ser acreditado na sua palavra. Garantia suficiente da sua sinceridade e da sua vocação
divina, era sua pureza de vida e de doutrina, ou, em alguns casos, a realização de seu vaticínio (Dt 13,1-3; 18,21-22).
Foi assim que já no limiar do Novo Testamento apresentaram-se às turbas de Israel, João Batista e Jesus de Nazaré.
Continuação e coroamento da antiga mensagem profética foi a mensagem evangélica.


Bíblia Vulgata Ed.36
INTRODUÇÃO A ISAÍAS

Nas Bíblias de língua hebraica e latina, o livro de Isaías costuma figurar em primeiro lugar na série dos livros profé-
ticos. Não tanto por ser o mais antigo entre os Profetas Maiores ou por ser o livro ao qual empresta o nome um dos
mais extensos, mas sobretudo porque excede a todos os outros pela quantidade e grandiosidade dos vaticínios
messiânicos.
Julga-se que o profeta Isaías tenha nascido em Jerusalém, de família nobre, pois encontramo-lo continuamente em
contato com a corte e com pessoas influentes do reino. Era casado e tinha pelo menos dois filhos, aos quais deu
nomes proféticos (7,3;8,3), como, aliás, era o seu próprio nome, cujo significado é "Javé salva". No ano 738 foi
chamado ao ministério profético mediante uma célebre visão (cap. 6), que teve imensa repercussão na teologia e na
liturgia. A partir de então vemo-lo ao lado dos reis de Judá, Acaz e Ezequias, animando-os na dura crise que atra-
vessava a nação, assegurando-lhes a proteção divina em virtude das promessas feitas a Davi. Após o ano 700 perde-
mo-lo de vista.
Relativamente às condições políticas, morais e religiosas de Jerusalém e de Judá nos tempos de Isaías, temos notícias
abundantes em 2Rs 15-20 e 2Crôn 26-32, além das reflexões do presente livro. O longo e benéfico reinado de Azarias
ou Ozias (cf. 2Rs 15,1), que tão grandemente favoreceu a agricultura e o comércio no reino, trouxe com a
prosperidade também o luxo e a despreocupação, fatores de corrupção e conseqüentes desventuras. As baixas ca-
madas populacionais eram descuidadas, oprimidas pelos ricos e potentados. A prática da religião exteriorizava-se em
numerosos atos públicos de culto, em funções litúrgicas, mas era destituída de sincero sentimento interior e de vida
moral correspondente. Pior ainda, ao lado da legítima religião monoteísta, do javismo puro, vicejavam práticas abo-
minadas pela lei, e até mesmo atos de idolatria, especialmente depois que o crescente poderio assírio prestigiou os
cultos babilônicos, favorecendo-lhes a penetração entre as populações palestinenses. O reinado de Ezequias promo-
veu uma ação enérgica e salutar contra essas aberrações. Mas as suas sábias reformas não tiveram grande duração
nem penetraram totalmente na sociedade judaica. Durante o reinado de seu degenerado filho e sucessor, Manasses,
grassou mais do que nunca a corrupção na religião e nos costumes. À propagação do mal opôs-se em vão a voz enér-
gica dos profetas; não eram atendidos. Chaga tão maligna só podia ser curada com um tratamento radical. E eis os
profetas, especialmente Isaías, a anunciar os castigos divinos, que se sucederiam implacáveis, até quase o aniquila*
mento da nação culpada. Mas do terrível cadinho sairá um pequeno resto, completamente purificado, germe sagrado
de um povo novo. E a nação ressurgida e transformada gozará de paz sem fim e de bem-estar invejável. Esta, em
linhas gerais, a mensagem do profeta.
Instrumento da catástrofe, humanamente tão terrível, mas ao mesmo tempo, por disposição divina, tão salutar, devia
ser o poderoso monarca do vizinho setentrião, primeiro o assírio, depois o babilônico. Contra a ameaçadora arrancada
do temível colosso ergue-se o Egito, seja para defender a própria independência, seja pela saudosa ambição de
dominar, como outrora, a Palestina e parte da Síria. Espremidos entre os dois poderosos contendores, os pequenos
estados do Oriente Próximo viam-se na contingência de se arranjarem como podiam. Daí a formação, particularmente
em Jerusalém, de dois partidos opostos, um propenso a negociar com a Assíria, outro a formar com a oposição
encabeçada pelo Egito. Isaías, em nome de Deus, pregava a neutralidade, combatia toda a esperança fundamentada
nos homens e incitava a pôr toda a confiança em Javé, fundador e protetor da nação. A esta política, ao mesmo tempo
prudente e corajosa naquelas circunstâncias, o profeta animava o rei Ezequias, mesmo depois que, com a queda do
reino de Efraim (queda da Samaria em 721 a.C.) o perigo para o reino de Judá, menor e mais fraco, apresentava-se
mais ameaçador. Graças a essa política, o pequeno reino saiu ainda incólume da tempestade (701 a.C), naufragando
em novo embate somente após mais de um século (587).

Bíblia Vulgata Ed.36
INTRODUÇÃO A JEREMIAS

Jeremias é o mais simpático dos profetas e também aquele de quem possuímos notícias mais abundantes, quase
todas transmitidas por seu próprio livro.
Nascido por volta do ano 646 a.C, em Anatot, nas proximidades de Jerusalém, de família sacerdotal e já predestinado
ao ministério profético (Jer 1,5), no décimo terceiro ano do reinado de Josias (626 a.C.) foi chamado por Deus e por
ele enviado a levar a sua mensagem aos reinos e às nações, mensagem em que predominam as ameaças e as ruínas,
mas que é rica também de promessas de restauração (1,9-10). Apesar da relutância por parte de sua índole
bonachona e um pouco tímida, o jovem Jeremias respondeu ao apelo divino com generoso espírito de sacrifício,
acrescido em face das oposições que lhe foram preditas (1,17-19) e do celibato que lhe foi imposto por expressa
ordem divina.
Sua atividade desenvolveu-se nos momentos mais críticos da nação judaica, num período dos mais convulsionados do
antigo Oriente semítico. Conheceu o colapso do poderio assírio e o nascimento do segundo império babilônico, que
cedo iria destruir a bruxuleante chama da independência de Israel. No interior da nação, as condições religiosas e
sociais não eram menos inquietantes. Ao iniciar Jeremias o seu ministério, perduravam ainda os péssimos efeitos do
nefando reinado de Manasses, que abrira tas portas às infiltrações idolátricas na prática religiosa do povo de Israel
(2Rs 21,2-6). Foi contra essas aberrações e contra o formalismo religioso que o profeta teve de bradar,
principalmente nos primeiros anos de sua pregação (Jer 1-6), e não apenas nesses anos. Realmente, embora o
piedoso rei Josias tivesse iniciado, a partir do ano 621, com zelo enérgico a purificação do país de todo o vestígio de
idolatria, repristinando, com a concentração do culto no templo de Jerusalém, a observância da lei mosaica em todo o
seu vigor, todavia, a morte trágica e prematura do próprio Josias (609 a.C.) decretou um fim rápido para essa rígida
reforma. Durante este decênio, satisfeito com secundar a ação governativa, Jeremias parece conservar-se por detrás
dos bastidores (nenhum discurso seu deste tempo nos foi transmitido); depois, deplorada a morte do rei com elegias
que infelizmente não chegaram até nós (2Crôn 35« 25), ele entra de novo em cena com energia ainda mais vibrante,
profligando os vícios renascentes sob os sucessores de Josias, não poupando sequer os poderosos, os sacerdotes, os
profetas mendazes, aduladores do povo ou de partidos. Muitos males trouxe-lhe esta pregação desassombrada,
porque os poderosos alvejados por ele não lhe pouparam violências, perseguições, vilipêndios, cárceres (Jer 20,1-3
J;26,7-24;32,l--2;37;38).
No plano político, encontrou-se Jeremias em idêntica posição à de Isaías (cf. p. 796). Renovava-se o contraste entre
o Egito e o império oriental, nas mãos dos babilônios ou caldeus. Ante a avançada ameaçadora destes, Jeremias
recomenda, em nome de Deus, a aceitação e a submissão aos novos senhores. Mas o forte partido da oposição
incitava à resistência, apoiando-se novamente no Egito, e quis abafar a voz do profeta já malvisto, lançando-o numa
escura prisão (Jer 37;38), donde foi libertado, após a tomada da cidade, pelos caldeus, que, conhecedores dos seus
sentimentos, tomaram-no sob a sua proteção (40,1-6). Nem mesmo isto, entretanto, lhe valeu algo contra o cego
furor dos egiptófilos, que, conseguindo escapar dos caldeus, asilaram-se no Egito, arrastando consigo, à força, o
desditoso profeta (43,1-7). Também ali, fiel à ordem divina, Jeremias continuou a missão de corrigir costumes e
pacificar os espíritos entre seus compatriotas (44).
Jeremias possuía um coração extremamente sensível, e o patético, quer do amor quer do sofrimento, atinge às vezes
o ápice no seu livro. A ternura de Deus para com o seu povo e a mágoa de se ver por ele incorrespondido, o
esmagamento do profeta ante a ruína moral e política de sua amada nação, as alegrias pela reconciliação e o feliz
reflorir, fazem vibrar as cordas mais íntimas do seu coração. A alma comovida de Jeremias irrompe então em
calorosas estrofes de lirismo sublime e comovedor. Se em grandiosidade de imagens, vôos de fantasia e esplendor de
fraseado cede o lugar a Isaías, no que tange à espontaneidade e à intensidade de afeto, Jeremias supera a todos os
poetas hebraicos.

Bíblia Vulgata Ed.36
INTRODUÇÃO ÀS LAMENTAÇÕES

A tomada de Jerusalém, com o séquito de todas as suas dolorosas conseqüências, predita e depois descrita no livro de
Jeremias, não deixou de produzir no coração dos judeus piedosos a mais viva dor e o mais acerbo pranto. Os
sentimentos excitados por esse terrível golpe na parte mais eleita da nação estão refletidos nas Lamentações,
chamadas também em grego "Trenos" ( = cantos fúnebres), pequeno livro que, pela afinidade de matéria, nas Bíblias
cristãs se acha unido ao livro de Jeremias.
Compõe-se de cinco carmes elegíacos, usualmente considerados e citados como outros tantos capítulos duma só obra
literária. Além da matéria, têm em comum uma estrutura poética peculiar. No hebraico são todos alfabéticos, isto é,
regulados pela ordem e pelo número das letras do alfabeto, mas de maneira diversa. Os quatro primeiros são também
acrósticos. As iniciais de cada verso poético formam um alfabeto completo e ordenado, como em diversos salmos e na
última seção dos Provérbios (Prov. 31,10-31).
Essa estrutura artificial, que não se percebe na nossa tradução, limita todos os carmes e influi no andamento do
pensamento. Inútil, portanto, esperar um desenvolvimento lógico do tema; o poeta desafoga os seus afetos segundo
lhe são sugeridos pelo coração dominado pela comoção, ou conforme o alfabeto lhe desperta uma idéia. Inexiste,
entretanto, de carme para carme, ou no mesmo carme, aquela desordem por muitos lamentada. Não raro uma
interpretação mais exata ou uma leitura correta do texto remove a causa de queixas. Os cinco carmes — ou elegias,
como os chamaremos, com termo apropriado, — deploram a tremenda catástrofe nacional, cada uma sob um aspecto
diferente. Na primeira, o motivo principal ê a perda dos bens morais: independência, glória, poderio, e o aviltamento
da nação; na segunda, pranteiam-se as ruínas materiais e o massacre de vidas humanas na tomada da cidade; na
terceira, põe-se e se resolve o problema religioso: como permitiu Deus tão grande esfacelamento? que mais esperar
dele? como a salvação pode estar num sincero arrependimento e na reforma dos costumes?; na quarta deploram-se
os males sofridos por todas as classes da sociedade judaica e as culpas dos principais responsáveis; a quinta, enfim, é
um súplica que descreve a escravidão que se seguiu à derrota, e se destina a mover o Senhor à compaixão, e conclui
com um suspiro de confiança no porvir. Também na estrutura de cada elegia não falta certa ordem e harmonia entre
as diversas partes.
As cinco elegias são dum só autor? Quem foi ele? A questão é muito discutida e tem sido resolvida em diversos
sentidos pelos autores modernos. A antigüidade, quer cristã quer judaica, atribui-as todas a Jeremias de quem nos é
formalmente atestado que compôs lamentações ou cantos fúnebres por ocasião da morte de Josias, que não devem,
entretanto, ser confundidas com estas elegias. Teríamos aqui uma coletânea de carmes independentes entre si,
embora semelhantes, análoga à dos salmos graduais no Saltério (SI 120-134).
Podemos aceitar, portanto, que as Lamentações tenham autores diferentes e desconhecidos. Todas, porém, devem
ser reconhecidas como igualmente inspiradas por Deus, porque fizeram sempre e sem contestação, parte do cânon
das Sagradas Escrituras, tanto na Sinagoga judaica, como na Igreja cristã, embora nas listas dos Livros sagrados, como
também no decreto do Concílio Tridentino, na maioria das vezes não sejam especificadamente nomeadas, porque
subentendidas e compreendidas com o livro de Jeremias. Esta sua qualidade eminente de Escritura inspirada faz com
que a nossa ignorância acerca dos seus autores humanos nada tolha ao seu valor religioso, como palavra de Deus que
ê, do mesmo modo que nada tolhe à sua beleza poética, ao seu valor literário, que não é de forma alguma comum.

Bíblia Vulgata Ed.36
INTRODUÇÃO A BARUC

A respeito de Baruc, associado ao ministério de Jeremias, temos notícias seguras no livro deste profeta,
especialmente nos cc. 36,43,45. Sabemos daqui que foi arrastado à viva força pelos judeus rebeldes,
juntamente com Jeremias, para o Egito (Jer 43,5-7), mas do confronto de Jer 44,28 com 45,5 podemos
deduzir que mais tarde retornou à Judéia, donde pôde ir à Babilônia para consolar os exilados. Ali,
efetivamente, o encontramos no início do pequeno livro que traz o seu nome.

Este compõe-se de três partes, nitidamente distintas:
1ª Prece pública, em prosa ritual (1, 1-3,8): a nação em peso reconhece ter merecido tantas desgraças e o
próprio exílio, por causa dos pecados pessoais e dos antepassados; pede misericórdia e a cessação de
tantos males.
2ª Elogio da sabedoria, em elevado estilo poético (3,9-4,4): na lei divina, que é concretamente a mais
elevada sabedoria, está a verdadeira glória e felicidade de Israel; o exílio foi causado pelo abandono da
mesma; cumpre voltar à perfeita observância da lei.
3ª Deplorada a amargura do exílio, anuncia-se a alegria do repatriamento (4,5-5,9), em prosa cadenciada,
que, pelo fundo, recorda Is 40-66 e, pela forma, o estilo de Jeremias, oscilando, freqüentemente entre a
poesia e a prosa.

Como se vê, as três partes acham-se ligadas entre si pelo fundo histórico do argumento e sucedem-se em
certa ordem lógica. No tocante à qualidade literária e à composição diferenciam-se, entretanto,
notavelmente, de sorte que o exame intrínseco não oferece razões decisivas que abonem a unidade de
autoria de todo o livro. O testemunho extrínseco, dado no texto 1,1, para a atribuição a Baruc, vale
somente para a primeira parte, a qual está tão impregnada do fracasso de Jeremias, que, negá-la ao
secretário do profeta, é o que de mais irrazoável possa haver.

Menos rica, mas não isenta de contatos com o livro de Jeremias, é a terceira parte. Nada nos diz a respeito
o belo poemeto central.

Todas as três partes foram originariamente escritas em hebraico, entre 582 e 540 a.C, aproximadamente.
Provam--no as numerosas alusões ao exílio babilônico e os diversos equívocos das antigas versões,
explicáveis unicamente por uma leitura ou interpretação incorreta de uma palavra hebraica, coisa que se
nota igualmente em todas essas versões. O texto hebraico original, porém, foi perdido. Para nós, toma-lhe
o lugar a versão grega dos LXX. Em segundo lugar vem a Pessitta siríaca, que também deriva do hebraico.
Na Vulgata temos uma antiga tradução latina feita à base do grego e não retocada por S. Jerônimo.

Os judeus da Palestina excluíram Baruc do rol dos livros sagrados, e nisso foram seguidos também por
alguns Padres da Igreja, na antigüidade, e por todos os protestantes. Acolheram-no, ao invés, os judeus da
diáspora, anexando-o ao livro de Jeremias no volume dos profetas maiores. Desta crença e costume
tornou-se herdeira a Igreja cristã, razão por que vemos, desde o fim do séc. II, os Padres Atenágoras, Irineu,
Clemente Alexandrino, citarem as palavras de Baruc com o nome de Jeremias. Nos cânones bíblicos das
Igrejas do Oriente e do Ocidente, nos séculos seguintes, o mais das vezes Baruc não é especificado (como
também as Lamentações), justamente porque compreendido com Jeremias. O cânon do Tridentino
nomeia-o expressamente: "Jeremias com Baruc". Destarte elimina-se qualquer dúvida acerca do caráter
divinamente inspirado deste opúsculo, tão breve quão rico de doutrina, não lhe faltando mesmo algumas
raras belezas literárias.
INTRODUÇÃO A EZEQUIEL

    Ezequiel, pertencente à linhagem sacerdotal, viveu, como Jeremias, no período mais tormentoso da
história hebraica.
    Em 598/97 a.C, antes de ter completado 30 anos, foi deportado de Jerusalém para a Caldeia,
juntamente com a rei Joiakim (ou Jeconias) e mais dez mil pessoas entre nobres, guerreiros e artesãos.
Permaneceu no exílio até à morte, ocorrida entre os anos 571 a 561 a.C.
    Jerusalém não fora ainda destruída, porque o rei Joiakim, tendo sucedido a seu pai Joiaquim (talvez
assassinado quando o exército de Nabucodonosor se aproximava da cidade santa), rendera-se ao cabo de
três meses de assédio.
    Todavia, a deportação da corte e do escol da população enfraqueceu-a sobremaneira, constituindo uma
lição tremenda, mas infelizmente inútil. Entre a população deixada no país, sob o governo de Sedecias,
nutriam-se veleidades de independência, que explodiram , em aberta rebelião no ano 588, causando
finalmente a tomada e a destruição de Jerusalém e do seu templo (Jer 37-39 e 52).
    Todas as visões do profeta exilado, como as de Jeremias, que permaneceu na pátria, vendo e vivendo o
trágico destino da cidade santa, vinculam-se intimamente a esses acontecimentos. Ambos os profetas
vêem e anunciam continuamente, em todas as formas, o futuro imediato, imersos na angústia de ver um
povo que não lhes presta ouvidos e se atira ao báratro.
    A própria morte da esposa de Ezequiel, lembrada pelo profeta, tornou-se um símbolo da ruína de
Jerusalém e do templo, ocorrida na mesma época. Não faltam, porém, alguns clarões que permitem visões
longínquas, as quais se multiplicam e até se tornam constantes, quando aos primeiros deportados se
juntou a avalanche dos novos, trazendo gravados no espírito os horrores do cerco, do morticínio e da
deportação.
    Ao contrário de Jeremias, que tem páginas patéticas, transbordantes de extrema sensibilidade, Ezequiel
é, muitas vezes, áspero, duro, quase desapiedado. Mas as suas predições e ações simbólicas, bem como as
suas mortificações voluntárias, para inclinar, se possível fora, Israel a uma conduta de fidelidade para com
Deus e a uma sabedoria política, são inspiradas por um coração magnânimo e forte ao mesmo tempo,
baseado na fé, na dedicação ao seu povo e no amor à pátria.
    Em seu estilo abundam as ações simbólicas, originais e mudas, apresentadas como narrações. As partes
poéticas são raras e encontram-se quase exclusivamente nas profecias contra as nações. Ezequiel é
minucioso nas descrições, preciso e até cansativo às vezes. O projeto da divisão da Terra Prometida, o
desenho do novo templo e a indicação das leis ao mesmo atinentes, parecem mais obra de técnico do que
de profeta.
    Profecias nitidamente messiânicas são os trechos: 17,22-24;34,11-16;47;48. Mas toda a terceira parte,
do c. 33 em diante, é concebida em termos de expectação messiânica.
    Ezequiel é o primeiro representante dum novo gênero literário de mensagem profética, muito
desenvolvido, em seguida, na literatura judaica do séc. II a.C. Trata-se do gênero apocalíptico. No Novo
Testamento, ele figura no livro do Apocalipse (termo grego que significa "revelação"). O próprio S. João deu
ao seu livro o nome de f<profecia" (Apoc 1,3), termo não muito apropriado ao caráter da obra.
    Eis as características principais do gênero apocalíptico:
    1. A mensagem profética limita-se à predição do futuro, especialmente à era messiânica e ao fim do
mundo.
    2. Esse futuro, ora radiante, ora pavoroso, aparece ao vidente sob a forma de cenas simbólicas em que
atuam seres humanos e sobre-humanos, animais e astros, quais outras tantas figuras dos acontecimentos
vindouros.
    3. A intervenção freqüente de anjos, como guias e intérpretes dos cenários contemplados pelo profeta.
    4. Os eventos relacionados com o fim dos tempos, quer messiânicos, quer cósmicos, revestem-se dum
colorido empolgante de convulsões cósmicas e telúricas, e isso, de tal maneira, que este motivo, embora
acessório, é considerado comumente como propriedade prevalente do estilo apocalíptico.
INTRODUÇÃO A DANIEL
A respeito de Daniel nada mais sabemos além do que nos diz este livro, pois não traz nenhuma novidade a
única menção dele, feita no Antigo Testamento (IMac 2,60) e a igualmente única do Novo Testamento (Mt
24,15).

Descendente de nobre família do reino de Judá, muito jovem ainda (13,45), teria sido deportado cerca do
ano 605 a.C. para Babilônia e agregado aos pajens da corte do rei Nabucodonosor, com o nome de Baltasar
(1,7). Desde os primeiros atos (cf. 13,45-62) revela-se senhor daquela sabedoria que constitui o fundo de
sua figura moral. Modelo e mártir da fidelidade à lei divina, foi enriquecido por Deus com um dom
extraordinário de penetração nos mistérios contidos nas visões e nos sonhos proféticos que Deus envia a
ele e a algumas personagens daquela época (2,17-35;4,2;5,13-16).

Em virtude dessas suas capacidades, fez carreira entre os soberanos babilônios, desde Nabucodonosor até
Ciro, que o honraram, confiando-lhe cargos. De dois anos destes soberanos são datadas as revelações que
ele teve, a última das quais (10,1) se deu no terceiro ano de Ciro. Além dessa data, nada mais sabemos
dele.

Nas Bíblias hebraicas o livro de Daniel tem menor extensão do que nas cristãs, e dentre estas, as latinas
têm ordem um tanto diversa daquela das gregas. Em hebraico compõe-se de 12 capítulos e de 357
versículos; nas versões gregas e latinas são inseridos (no c. 3) 67 versículos, que constituem a primeira das
três partes ditas deuterocanônicas deste livro. Além disso, acrescentaram-se outras partes em dois
capítulos distintos, que em grego se acham, o mais das vezes, um no início e outro no fim; nas versões
latinas sempre no fim.

No livro a idéia central que predomina, é aquela do reino de Deus, isto é, do supremo domínio de Deus
sobre a natureza e sobre os eventos humanos, que culmina no estabelecimento do "reino dos santos" (os
adoradores do verdadeiro Deus) sobre as ruínas dos mais poderosos impérios humanos.

As observações críticas, porém, não diminuem o valor do ensinamento religioso e moral do livro. Reduz-se
ele a pontos de importância capital. Jamais se lê o nome divino "]avé", mas sempre El ou Eloim (também
Eloah, no singular) ou uma circunlocução "Deus do céu" (8 vezes), "o Altíssimo Deus" (5 vezes). A tendência
de todas as narrações é a de exaltar o Deus de Israel, donde resulta que somente ele é que tudo pode e
tudo sabe; lê nas mentes humanas e vê os acontecimentos futuros; dele é que vem todo o saber humano e
em suas mãos estão os destinos dos indivíduos e dos impérios. A ele somente se deve adoração e culto, e
para não transgredir sua santa lei, devemos estar prontos mesmo a morrer, se necessário.


O messianismo de Daniel é sumário, de poucos elementos, mas de relevância extraordinária. É um
messianismo quase exclusivamente coletivo, isto é, visando antes a sociedade religiosa do que o seu chefe;
suas características são todas de origem espiritual: cessação do pecado, triunfo da justiça, inauguração de
uma eminente santidade (9,24); o reino anunciado será o "reino dos santos", que se poderia traduzir
também por "reino de Deus", tal como foi depois anunciado na primeira pregação do Evangelho (Mc 1,14).
Particularidade de Daniel é que ele anuncia a vinda desse reino, isto é, o seu início, indicando datas e
números cerca de 500 anos depois da queda de Jerusalém (9,24); daí o lugar de primeira ordem que ocupa
este vaticínio na demonstração da doutrina cristã.


O que ele diz sobre a vida futura ou sobre a escatológica é pouco, mas este pouco assinala um progresso da
revelação nessa matéria. É ele o primeiro a insinuar um despertar dos mortos no fim dos tempos, um
despertar para uma nova existência que será para uns a vida eterna e para outros a eterna condenação.
Entre os primeiros, os que tiverem demonstrado zelo pela santificação própria e a dos outros gozarão de
esplendor especial (12,2-3).
INTRODUÇÃO AOS PROFETAS MENORES

   OSÉIAS
    O profeta Oséias era natural do reino de Israel ou Efraim, como se costuma chamar. Profetizou sob o
reinado de Jeroboão II e de seu sucessor, a partir da queda de Samaria e de todo o reino (721 a.C).
    Os três primeiros capítulos do livro de Oséias formam um conjunto todo especial. Sob a forma de drama
simbólico é-nos posta diante dos olhos a infidelidade do povo de Israel para com o seu Deus, representada,
figuradamente, na infidelidade duma esposa para com seu legítimo marido; anuncia-se o seu castigo, mas
também o seu arrependimento, a sua reconciliação e, enfim, sua vida renovada e mais feliz (2,16-24; cf. 2,1-
2; 3,5).
    Nos capítulos restantes (4-14) voltam os mesmos motivos, a saber: a culpa de Israel, principalmente as
práticas idolátricas, o culto do bezerro de Betei, as alianças com os poderosos pagãos, a Assíria e o Egito, a
falta de confiança e de apelo ao único Deus; daí os castigos proporcionados às culpas. Nem faltam
vislumbres dum retorno a Deus e dum futuro melhor. Nesta sucessão de quadros, o mais das vezes
obscuros, pode-se notar certo progresso. No c. 1 os acontecimentos políticos que, entre 745 e 725 a.C.
elevaram tantos reis ao trono e outros tantos derrubaram dele, aparecem como fatos já passados; no c. 13
o castigo do povo ingrato é anunciado já como sentença irrevogável de uma destruição total do reino, e no
último, o 14, com cores mais ricas e suaves promete-se a salvação definitiva.
    No estilo de Oséias sucedem-se, em breves sentenças, pinceladas rápidas, imagens ousadas, passagens
bruscas e como por saltos. Seu vocabulário ê rico, e seu estilo característico, devido, talvez, às
particularidades do dialeto de sua região. Por estas mesmas razões o seu texto, maltratado pelos copistas,
conservou-se num estado assaz deplorável. Desse complexo de causas origina-se a obscuridade
desmesurada deste livro. Escrito no reino de Israel, foi-nos conservado e transmitido por mãos judaicas,
através das quais é verossímil que tenha sofrido retoques lingüísticos e talvez também algum acréscimo,
como a menção do reino de Judá nalguns contextos onde menos se esperariam (cf. 5,5;6, 11).
    Das páginas de Oséias transparece um caráter impressionante, ardente e patético a um só tempo, mas
sensível sobretudo às ternuras e às fogosidades do amor. Sob este aspecto é um precursor de Jeremias.
Particularmente suas são as muitas reminiscências da antiga história do povo de Israel, sobretudo do
patriarca Jacó, que tornam duplamente precioso o seu livro, cuja extensão supera, em três ou quatro partes
a maioria dos doze profetas menores.
    O método de Oséias se destaca peta descrição das relações entre Deus e Israel propostas sob a figura do
amor conjugal. Ele é o primeiro profeta que recorre a esta comparação tão fecunda e repetida pelos
profetas seguintes. A bem dizer, ele insiste mais no aspecto negativo do matrimônio, nas infidelidades e nas
rupturas, do que no amor propriamente dito. A descrição deste amor será reservada ao Cântico dos
Cânticos. A Oséias, pelo contrário, Deus faz sentir as suas amarguras de esposo traído, ameaçando e
executando os duros castigos que o caso reclama. Tudo termina com a expectativa da reconciliação dos
esposos a da restauração.

   JOEL
    O nome de Joel (hebr. Jõ'el = Javé é Deus) ocorre umas quinze vezes no Antigo Testamento. Discute-se
até agora a respeito da época em que teria vivido o profeta Joel; mas pouco nos adianta examinarmos sua
vida, pois chegaremos às mais desencontradas conclusões. Com maior atenção devemos, por isso, entregar-
nos à leitura do próprio texto.
    Distingue-se Joel pela amplitude e vivacidade das descrições, que constituem quase toda a matéria do
seu livro. Ao contrário dos grandes profetas, Joel jamais especifica as faltas censuradas por ele; contenta-se
com a exortação geral: "Voltai a Deus de todo o coração" (2, 12). Além disso, jamais menciona rei ou reino.
Isso induziu a maior parte dos modernos a situar o profeta numa época posterior ao exílio, à qual parecem
convir melhor as condições sociais e históricas próprias de sua mensagem. Joel conhece a dispersão do povo
de Israel entre as nações e descreve sumariamente os seus horrores (3,1-6). Na sua mensagem já não se
dirige aos reis, mas somente aos anciãos (1,2) e aos sacerdotes (1, 13). São indícios que mostram que a
organização prê-exílica acabou, e, que, portanto, o livro não é dessa época.
Importante ê o (<Dia de Javé" (em nossa tradução "Dia do Senhor",), na primeira parte, referência a um
castigo grave, mas transitório. Na segunda parte, com cores sombrias e insistência, refere-se ao castigo
definitivo dos infiéis.

   AMOS
    Os críticos modernos consideram Amós, e com razão, como o primeiro dos profetas escritores (cf. Am 1,1
com Os 1,1 e Is 1,1). O seu livro, por raros méritos de estilo e de substância, é realmente digno de abrir a
inestimável literatura profética de Israel. Acrescentam valor às suas mensagens as humildes origens do
profeta e sua vocação, na qual brilha tanto mais intensamente a força do seu espírito sobre-humano.
    O profeta Amós é distinto de Amós, pai do profeta Isaías (Is 1,1: os dois nomes são de grafia diferente no
hebraico). O livro fornece-nos bastante pormenores sobre sua vida. Natural de Técua, aldeia situada a uns 8
km ao sul de Belém, tirava o seu sustento do pastoreio de rebanhos e do cultivo de sicómoros, cujos frutos
constituíam o alimento da gente pobre (Am 1,1;7,14). Corriam os tempos dos longos e prósperos reinados
de Ozias, em Judá (cf. 2Rs 15,2.5) e de Jeroboão II, em Israel (783-743 a.C), que davam à nação poder e
riqueza de que há muito tempo não gozava. Daí que a própria religião auferia vantagens, pela abundância
das vítimas imoladas nos altares e pela pompa dos ritos. Mas ficaram prejudicadas a moral e a piedade
sincera, os costumes pioravam, e os israelitas, deslumbrados pela prosperidade, caminhavam alegres e
inconscientes para a ruína. Crescia, para infelicidade deles, o poderio assírio. Nesta altura, o humilde pastor
de Técua sente-se chamado a pregar o arrependimento aos desavisados, revelando aos culpados os castigos
iminentes. E ei-lo a percorrer, vaticinando, as cidades de Israel Enfrentou corajosamente a oposição dos
sacerdotes de Betel, o principal santuário do reino (Am 7,10-17); depois, não se sabe qual tenha sido o seu
fim. Uma tradição conservada pelo ignoto autor das "Vidas dos profetas" e acolhida no Martirológio
Romano a 31 de março, narra que, ferido na têmpora com uma maçã, pelo filho do sacerdote Amasias, foi
levado agonizante à própria aldeia, onde morreu pouco depois.
    O livro de Amós nos apresenta, mais do que qualquer outro dos profetas, uma disposição clara e uma
bela ordem das mensagens.
    O estilo simples e não obstante cheio de dignidade, a forma escorreita, a pureza e o vigor da linguagem
fazem do livro de Amós um modelo de literatura hebraica. Para torná-lo mais atraente, acrescenta-se a feliz
circunstância de que o texto geralmente foi bem conservado como poucos outros.
    Acima dos méritos literários, porém, estão a elevação de pensamento, a doutrina moral e religiosa. O
monoteísmo ético puro atinge o auge. O Deus de Israel não é somente o único verdadeiro Deus, criador e
governador de todo o Universo, mas por sua santidade essencial é também o autor e guarda zeloso de uma
lei moral, cuja observância ele exige de todos os povos, e pune o delito onde quer que sua onisciência o
descubra. A escolha especial e gratuita do povo de Israel não é nenhum privilégio sob este aspecto (3,2;9,7-
10). Para lhe tributar as honras a que tem direito, é necessária antes de mais nada a santidade de
costumes, sem a qual nada valem os atos dum culto cerimonioso e os sacrifícios de numerosas vítimas (5,
21-24). Amós condena a moleza, o luxo, a ambição (6,4-6;8,5-7), e também, com mais energia e maior
freqüência, a injustiça e a crueldade para com o próximo, seja ele quem for, a opressão dos pobres.

   ABDIAS
   Com o nome de Abdias, que quer dizer "Servo de Javé", temos o mais breve escrito do Antigo
Testamento: consta de um só e não longo capítulo de 21 versículos.
   Ê todo ele uma mensagem dirigida contra os edomitas ou idumeus, dos quais se recriminam:
   1. O orgulho e a ousada confiança que depositam na posição geográfica, defendida pelos fortes
baluartes naturais de seu país (vv. 2-9).
   2. Sua cumplicidade e alegria feroz a quando da desgraça dos hebreus (vv. 10-15).
   3. O castigo até o aniquilamento, em contraste com a restauração de Israel em suas possessões e até no
predomínio deste sobre a Iduméia (vv. 16-21).
   Muito se tem discutido sobre a desgraça nacional de Israel a que se alude nos vv. 10,14; comparando-se
esta passagem com SI 136,7; Ez 25,12;35,5 e Jer 49,7-18, não resta dúvida de que se trata da queda de
Jerusalém nas mãos dos caldeus em 587 a.C.
Com isso temos a época aproximada em que o autor viveu. Escreveu talvez quando os acontecimentos
aos quais alude eram ainda recentes, isto é, na primeira metade do séc. VI a.C. Era, portanto, um
contemporâneo de Jeremias e de Ezequiel. Não se pode, pois, identificá-lo, como fizeram outrora judeus e
cristãos, com Abdias, mordomo do rei Acab, que tanto se esforçou em favor dos profetas.

   JONAS
    Um "profeta Jonas, filho de Hamitai, nascido em Gad-Heber" (na Galiléia, cf. Jos 19,13), é mencionado
em 2Rs 14,25, referindo-se a uma predição verificada sob o reinado de Jeroboão II de Israel (783-743 a.C).
Esse profeta deve ter vivido no início do séc VIII a.C, e trata-se, sem dúvida, do Jonas do presente livro.
    Com isso não está ainda afirmado que o próprio Jonas tenha escrito o livro que traz seu nome.
Diferentemente de todos os demais livros proféticos, o presente tem a singularidade de ser apenas uma
narração, e seu objeto não é a transmissão de uma mensagem profética, e sim apresenta, na prática, na
narração do acontecimento, uma elevada lição de doutrina religiosa. Propriamente, pertence ao gênero
narrativo.
    Duas coisas ressaltam nesta narração: a mesquinhez do espírito humano (nos temores e nas iras do
profeta) e a infinita bondade e clemência de Deus. Não menos importante é, porém, o universalismo
religioso. Temos o caso único de um profeta de Israel ser enviado a pregar a gentios, e vemos o Deus de
Israel dispensar tanto cuidado a uma nação idólatra. Pressentimos já o conceito universalista do
cristianismo (Rom 3,29-30; Col 3,11). Largueza de espírito e de coração da segunda parte.
    Outro aspecto de grande alcance na história religiosa apresenta-nos a primeira parte. No episódio de
Jonas saindo vivo do ventre do peixe, depois de passar três dias ali, Jesus viu uma figura de sua ressurreição
dos mortos, prova máxima da sua divindade (Mt 12,38-40). Daí também o renome de Jonas na literatura e
na arte cristã. O mesmo divino Mestre intima os ninivitas convertidos pela pregação de Jonas, a deporem
contra os judeus que não acreditam na palavra dele, que é muito mais que Jonas (Mt 12, 41; Lc 11,52). Sem
dúvida não é necessário mais do que isso para compreender a importância religiosa deste livro.
    Bastaria isto também para provar-lhe o caráter histórico? Notamos que a sua finalidade é dar uma lição
moral quanto à largueza de espírito e à bondade de coração. Ora, um ensinamento pode ser dado também,
e não em último lugar, com uma construção imaginária. O próprio divino Mestre disso nos deu o mais
ilustre exemplo com as suas parábolas. Seria, portanto — pode-se perguntar — o livro de Jonas uma
parábola, e não o relato de fatos realmente ocorridos? É o que pensam hoje muitos, fora da Igreja católica e
também alguns de seus membros. Mas não se apresentam razões decisivas para essa afirmação. Aquilo que
a obra nos conta de maravilhoso, não constitui dificuldade para quem admite, como se deve admitir, a
possibilidade do milagre. O fim didático funda a possibilidade, não a necessidade de uma ficção literária. Os
fatos reais têm igualmente força para instruir a mente e maior eficácia para mover a vontade. Estando
assim neste ponto as conclusões, não é de prudência cristã duvidar da realidade histórica dos fatos, levada
em conta pelo próprio Jesus.
   MIQUÉIAS
   Miquéias profetizou sob os mesmos monarcas que Isaías, exceto sob o primeiro, Osias, em cujo último
ano de reinado e de vida Isaías foi chamado ao ministério profético. Miquéias era, portanto,
contemporâneo de Isaías, florescendo entre 738 e 700 a.C, mais ou menos. A idade, a terra natal, o livro de
Miquéias nos são confirmados (felicidade única para um escritor bíblico) pela citação pública dum célebre
vaticínio seu (3,12), feita apenas um século depois (608 a.C.) e conservada no livro canônico de Jeremias (Jer
26,18). Nasceu o profeta numa obscura aldeia a sudoeste da Judeia, a atual Bet-Gibrin e parece que na
mesma região tenha desenvolvido o seu ministério profético (cf. 1,10-12) com feliz resultado, como se pode
deduzir do que lemos em Jer 26,19. Mais do que isso não sabemos a respeito dele. O autor das Vidas dos
profetas, que o dá como martirizado sob o reinado de "Jorão, filho de Acab", mostra tê-lo confundido com
outro profeta homônimo, filho de Jemla, mais antigo, pelo menos de um século (1Rs 22,9-28), e por isso não
merece fé.
   O livro de Miquéias, ainda que lhe falte a bela ordem de Amós, e se aproxime antes do estilo patético de
Oséias, apresenta, todavia, seções bastante nítidas.
   O argumento dos vaticínios de Miquéias é, portanto, semelhante aos de Isaías, especialmente Is cc. 1-12.
Os dois profetas têm até mesmo em comum um dos mais belos vaticínios messiânicos (Is 2,2-4 = Miq 4,1-3).
Em Miquéias, porém, o lado positivo da mensagem, isto é, a promessa de um futuro melhor, ocupa um
lugar relativamente mais amplo. Notável é também que entre as culpas exprobradas por Miquéias aos
hebreus de seu tempo, têm grande prevalência as faltas de justiça e de humanitarismo para com o próximo,
os crimes contra a boa ordem social. Redunda em honra singular para o profeta e o seu livro o fato de que
duas das suas mais insignes predições sejam expressamente citadas à letra, quer pelo Antigo Testamento
(3,12: em Jer 26, como já foi dito), quer pelo Novo (5,1: em Mt 2,5-6; cf. Jo 7,42), e que o próprio Jesus, na
instrução aos seus apóstolos, expressou um ponto do seu programa (Mt 10,35-36) com as palavras de
Miquéias (7,6).
   NAUM
   O livro do profeta Naum é a única fonte que a ele se refere. Dá-nos a conhecer tão somente a terra natal
do profeta, Elcos, lugar jamais citado em outra passagem da Bíblia. Os informantes judeus de S. Jerônimo
(Prefação ao seu comentário) o situam na Galiléia. Outra tradição, menos antiga, e acolhida pelo autor das
Vidas dos Profetas, localizava-o na Judéia, próximo de Eleuterópolis ou Bet-Gibrin. A época de Naum deve
ser posta entre a queda de Tebas, no Egito, sob as armas do assírio Assurbanípal, em 663 a.C, e a queda de
Nínive, sob os golpes conjugados dos babilônios e dos persas, em 612. A primeira é recontada no seu livro
(3,8-10) como acontecimento passado; a segunda constitui o objeto quase único de sua mensagem
profética.
   Em confronto com os demais profetas menores, o conteúdo ideal de Naum não é novo, mas a todos
supera em lances líricos e na expressão. Infelizmente, o texto em muitos lugares está corrompido, deixando
por vezes o sentido incerto.
   HABACUC
   Na Bíblia hebraica o nome Habacuc (Habaqquq encontra-se somente nos títulos dos cc. 1 e 3 deste livro
a ele atribuído, o qual, outra notícia expressa não nos oferece, além daquela que se refere ao nome pessoal
do profeta. Resta-nos unicamente o conteúdo para deduzirmos a época em que viveu e o espírito que o
animava.
   O livro versa todo sobre um ponto crucial da doutrina religiosa: o problema de saber se há uma justiça
que governa o mundo e por que os bons são domina-nados pelos maus. O tema é desenvolvido em três
seções: duas queixais em forma de diálogo e um canto final à maneira de contemplação.
   A mensagem de Habacuc tem em comum com a de Jeremias, o fato de pôr em discussão o problema
moral da prosperidade dos maus (Jer 12,1-3), e com a de Isaías o pensamento de que Deus se serve das
ambições humanas, da tirania estrangeira, para castigar os pecados do seu povo, sem, porém, deixar
impunes os excessos dos tiranos (10,3-19). Especial em Habacuc é o grande princípio, promulgado com
insólita solenidade (2,4), de que a fonte da vida é a fé em Deus, que são Paulo fará um dos pontos básicos
da sua doutrina religiosa.
   Na Bíblia grega o nome deste profeta é "Ambacum", e da mesma maneira está grafado o nome daquele
"profeta na Judéia", que, agarrado pelos cabelos por um anjo, levou a refeição a Daniel na cova dos leões,
em Babilônia (Dan 14,33-39). Por razões cronológicas, quando não por outras, as duas personagens são
consideradas distintas.

   SOFONIAS
    De oito dos dezesseis profetas escritores não conhecemos sequer o nome do pai, ao qual se restringe na
maior parte a genealogia dos outros (Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oséias, Joel, Jonas). De Zacarias, além do
pai, cita-se também o avô. Sofonias, singular entre todos, prolonga a cadeia ascendente até ao trisavô,
chamado Ezequias (cf. 1,1, nota) . Pensou-se que este Ezequias se identificasse com o conhecido rei de Judá,
filho de Acaz, que reinou de 720 a 690 a.C, mais ou menos. Visto que Sofonias profetizou durante o reinado
de Josias, o terceiro sucessor e bisneto de Ezequias (ib.), a cronologia não opõe dificuldades insuperáveis a
essa opinião. O silêncio, porém, quer da história» quer do próprio profeta em torno dessa sua relação com a
dinastia régia, torna-a de todo improvável. Além disso, esse nome não é raro na Bíblia.
    O tempo em que vaticinou Sofonias pode ser deduzido da sua mensagem. Pregando sob Josias e entre
outras coisas acusando os jerosolimitanos de perversões idólatras e práticas gentilicias em religião (1,4-6),
isso deve ter acontecido antes da célebre reforma religiosa de Josias, que se iniciou em 621 a.C. (cf. 2Rs
22,3-23,20). Diremos, portanto, que Sofonias exercitou o seu ministério profético pelo ano 625 a.C, quando
surgiu também o profeta Jeremias no mesmo ministério.

   AGEU
   Afora o que nos refere o seu breve escrito, que ocupa o décimo lugar na série canônica dos profetas
menores, a respeito do profeta Ageu sabemos apenas que foi contemporâneo do profeta Zacarias, com o
qual compartilhou a missão de assistir os repatriados na obra de construção do templo.
   A atividade do profeta Ageu desenvolveu-se durante poucos meses, no segundo ano de Dario I (cf. Ag
1,1;2,11), rei da Pérsia, de 521 a 485 a.C
   Sem valor especial quanto ao estilo ou à poesia, o escrito de Ageu recebe sua eficácia e interesse da
grande paixão do profeta pelo templo. Animada pela recordação do esplendor do antigo templo,
contemplado talvez numa juventude muito remota, esta paixão é alimentada sobretudo pela certeza de que
a reconstrução do templo é a premissa indispensável para um renascimento seguro da vida nacional. A isso
acrescenta-se a visão sobrenatural daquilo que o novo templo é destinado a simbolizar e como que a
preludiar: a gloriosa construção espiritual do futuro reino messiânico. Certo deste destino, o profeta
encontra palavras inflamadas para sacudir o povo de seu letargo, torna-se ousado diante dos tímidos
representantes oficiais da nação e arrasta todos a um grande fervor.
   ZACARIAS
    Do profeta Zacarias (em hebr. "]avé se recordou") fala também Esdr 5,1 ;6,
    14. Era filho de Baraquias (Zac 1,1.7) e neto de Ado (Zac 1,1.7; Esdr 5,1 ;6, 14), provavelmente o mesmo
citado entre o$ sacerdotes que voltaram de Babilônia com Zorobabel, no ano 537 (cf. Ne 12,4). Isso
pareceria confirmado também pela indicação de Ne 12,16, segundo a qual um certo Zacarias era chefe da
família sacerdotal de Ado, no tempo do sumo sacerdote Jesus, contemporâneo de Zorobabel (cf. Zac 4, 14;
Ag 1,1; Esdr 3,2).
    Como a Ageu, coube também a Zacarias a missão de apoiar os repatriados na obra de reconstrução do
templo.
    Zacarias iniciou a sua atividade profética alguns meses depois de Ageu (cf. Ag 1,1 e Zac 1,1.7), no mesmo
segundo ano do rei persa Dario I (520 a.C.), mas a estendeu por mais tempo. Ao menos, pelo que se narra
nos oito primeiros capítulos do seu livro, alcançou-se o quarto ano do reinado do mesmo soberano (cf. Zac
7,1).
    Pertence o livro por inteiro ao profeta do qual traz o nome? A maioria dos críticos estima a segunda
parte como uma compilação, feita em época mais recente, de escritos de autores diversos e desconhecidos.
Segundo alguns, os escritos seriam de origem helenista (séc. IV a.C); segundo outros, do tempo da revolta
dos Macabeus (175-161 a.C.) ou de ambas as épocas.
    Não obstante as múltiplas diferenças de argumentos, de perspectiva, de gênero literário e de estilo entre
a primeira e a segunda parte, os católicos geralmente aderem hoje também à opinião tradicional que
atribui todo o livro ao profeta Zacarias.
    O livro inteiro é perpassado por uma profunda espiritualidade. Ressalta nele a doutrina sobre os anjos,
que velam pela sorte do reino de Deus e desempenham, cuidadosos, a missão de intermediários entre o céu
e a terra. Expondo os diversos motivos sobre o Messias e o seu reino futuro, Zacarias realça o elemento
interior da santidade e o da luta contínua contra o mal até o surgimento de seu último estádio, glorioso e
sem fim.

   MALAQUIAS
   O último escrito profético traz na Bíblia grega o título, mais comum entre nós, de Malaquias, que em
hebraico quer dizer "Anjo [ou mensageiro] de Javé", e como nome próprio se encontra alhures no texto
bíblico. A Bíblia hebraica intitula-o de Malaqui, que pode ser forma abreviada do precedente, ou significar,
por si, "Anjo [mensageiro] meu".
   Para determinar a época da atividade profética de Malaquias, não estamos melhor informados;
devemos contentar-nos exclusivamente com os dados fornecidos pela análise interna do seu escrito. A
semelhança, e às vezes a identidade, entre os abusos que Malaquias repreende e aqueles contra os quais
tiveram de lutar freqüentemente Esdras e Neemias, nos levam a supor, com bastante fundamento, que
também o presente profeta viveu durante o período persa, numa época mais ou menos próxima da dos dois
grandes reformadores do séc. V.
NOVO TESTAMENTO

Passando do Antigo para o Novo Testamento, principalmente se o lermos na ordem tradicional do texto,
não teremos a sensação de mudar de ambiente. Sua primeira página (Mt 1,1) apresenta-nos um quadro
genealógico à maneira dos que, tão freqüentemente, encontramos nos livros históricos do Antigo
Testamento. Uma genealogia que começa com Abraão, antepassado-cabeça do povo hebreu. Logo depois
(Lc 3,23-38), outra cadeia genealógica se nos apresenta, a qual nos faz remontar até ao primeiro homem,
esse Adão sobre o qual um capítulo inicial do Antigo Testamento chamou a nossa atenção. Teatro dos
acontecimentos são as regiões, cidades e campos da Palestina. Vive-se num mundo judaico, entre
instituições e recordações da lei antiga. As personagens dessa nova história falam-nos numa linguagem
característica, à qual nos haviam habituado as páginas dos livros sagrados precedentes.

Não mudou o ambiente, mas outro é o ar que se respira. O espetáculo dum povo, duma nação singular, que
no Antigo Testamento concentrava a atenção e o interesse do leitor, alarga-se aqui e restringe-se a um só
tempo, sob aspectos diversos. De um lado, o objeto das promessas divinas, a salvação que nelas se anuncia,
uma vez derrubadas todas as barreiras entre os povos, já não se restringe a uma pequena parte da
humanidade, mas estende-se a todas as nações da terra. Por outro lado, a mensagem divina dirige-se
diretamente a todos os povos, e cada qual, por si mesmo, aproximasse da nova aliança, assume-Ihe
pessoalmente as obrigações e usufrui-lhe os privilégios. A lei divina já não é escrita em tábuas de pedra,
mas é impressa no coração do homem e, deste modo, torna-se ao mesmo tempo, mais humana, mais
suave e mais eficaz. Ê um arauto da antiga aliança que, nestes termos, nos delineia a essência e nos dita,
por primeiro, o nome do "Novo Testamento" ("Nova Aliança": Jer 31, 31-34).

A religião torna-se, assim, mais íntima, mais espiritual. No Novo Testamento já não ouvimos falar de
conquistas e de reinos terrenos, mas anuncia-se-nos um reino de Deus que está dentro de nós (Lc 17,21;
Rom 14,17). No Antigo Testamento, o horizonte humano restringia-se ao círculo da existência terrena e da
vida ultraterrena não temos senão raras e vagas notícias. No Novo, ao invés, o espírito alça-se
continuamente para o céu, e as promessas melhores e as mais fortes aspirações têm por objeto a vida
futura. Na vida terrena, com o salmista (SI 38,13), o hebreu piedoso professava ser "adventício (hóspede)
junto de Deus" e, por afeição ao seu Deus, pedia para ficar aí o mais possível. Os crentes do Novo
Testamento sentem-se "exilados do Senhor" e anelam por "exilar-se do corpo" e chegar à pátria (2Cor 5, 6-
8), para dar o eterno abraço ao Pai celeste. Característico é o título, que Deus tem, de "Adonai" (Senhor) no
Antigo Testamento, e de "Pai" no Novo, onde a primeira e mais comum oração inicia-se com a suave
invocação: "Pai nosso, que estás nos céus" (Mt 6,9).

Respira-se um ar mais puro, mais suave, porque somos levados mais para o alto, para o cimo do monte
sagrado. O valor do homem está inteiramente nas virtudes morais, e para as próprias virtudes é proposto o
ideal mais sublime (Mt 5,21-48). Temos no Novo Testamento a plenitude da revelação e a perfeição da
moral. Tangível, sem dúvida, no Antigo Testamento um progresso da doutrina revelada, uma purificação da
espiritualidade religiosa, um melhoramento correspondente dos costumes. Esta linha de elevação
progressiva, realizada por especial providência de Deus, sobretudo por meio dos profetas, alcança o seu
termo, tocando o vértice, no Novo Testamento. Sazonou aqui o fruto que se vinha preparando na
florescência esplêndida das antigas Escrituras, o que vem dar ao Novo Testamento, com relação ao Antigo,
uma superioridade de valor, para a nossa formação espiritual, que está em razão inversa da respectiva
extensão do texto escrito e dos tempos abrangidos.

O Novo Testamento compõe-se, no cânon completo e definitivo de 27 escritos distintos: 5 livros históricos
(os quatro Evangelhos e os Atos dos Apóstolos), 21 Epístolas de diversos apóstolos e 1 livro de índole
profética, o Apocalipse. Tomados em conjunto, formam, em extensão, um quinto de toda a Bíblia e um
quarto apenas do Antigo Testamento. Como espaço de tempo abrangem, quando muito, cerca de um
século: desde o nascimento de Jesus Nazareno (5 a.C.) até à morte do seu mais novo amado discípulo
(cerca do ano 100 d.C.). Era o primeiro e o mais feliz dos séculos daquela longa pax romana, que,
irmanando sob o cetro de um único monarca a imensa bacia mediterrânea, facilitava providencialmente a
propagação da Boa-nova, pregada, primeiramente, num canto das fronteiras orientais do vastíssimo
império. Nesse variado organismo de tão numerosos povos de origens e línguas diversas, uma língua
sobressaía-se sobre as demais como a língua da cultura e ainda como a mais conhecida e difundida nas
relações comerciais: a língua grega. E foi precisamente nessa língua universal que foram escritos e
transmitidos até nós todos os livros do Novo Testamento (exceção apenas do Evangelho de S. Mateus).

É um grego fácil, claro, temperado pelo uso da linguagem falada, adequado à inteligência até das camadas
mais humildes da sociedade, às quais era dirigida, com certa predileção, a nova mensagem da salvação
evangélica. Nessa roupagem popular, os escritos neotestamentários difundiram-se rapidamente pelo
Oriente inteiro, bem como pelo Ocidente, o mais das vezes escritos em papiros (cf. 2Jo 12), matéria vulgar
e de baixo preço, que facilmente se rasgava e muito depressa se estragava. Por esta razão, somente
fragmentos nos chegaram das cópias dos três primeiros séculos, preciosos, sem dúvida, como testemunhos
da autenticidade daquelas veneráveis páginas. Do IV século em diante (antigüidade esta que, no caso, é de
grande valor), generalizando-se o uso do pergaminho ou pele de carneiro, matéria muito mais sólida e
resistente, chegaram até nós cópias inteiras, não só de cada um dos escritos, mas também do Novo
Testamento inteiro.


Com a difusão e a multiplicação das cópias, o texto, como acontece com as coisas humanas, sofreu, pelas
mãos dos copistas, alterações de diversas espécies, que lhe ofuscaram a pureza primitiva, sem, todavia,
prejudicar-lhe a substância. Surgiram, assim, tipos diversos de texto, com discrepâncias de códices, como
lamentava, já no seu tempo (pelo ano 383), S. Jerônimo, o qual, emendando a antiga versão latina, com o
auxílio de bons e antigos manuscritos gregos, reproduziu, na sua Vulgata, especialmente nos Evangelhos, o
texto sagrado até bem próximo da pureza original, e nesse estado passou ao uso da Igreja latina. No
império bizantino, prevaleceu, na idade média, um tipo de texto, no qual a união de leituras diversas, a
conformação dos textos paralelos, o amaciamento das asperezas ou dificuldades, o brilho da língua
fundiram-se numa composição temperada e descolorida, capaz de satisfazer as exigências de um público
ávido de um alimento espiritual fácil, de preferência à precisão exegética. Dos manuscritos tardios dessa
época esse texto obscuro passou à imprensa do século XIV e dominou durante três séculos nos estudos
bíblicos, contrapondo-se ao teor mais vetusto e austero da Vulgata latina. Daquele texto traduziram-se os
Livros Sagrados nas línguas modernas com as versões do século XVI, de protestantes e de católicos.

Conhecendo, depois, os doutos os manuscritos mais antigos, sobretudo o Vaticano 1209 (B), apareceu logo
a superioridade do texto aí contido, e o texto bizantino, já pomposamente proclamado "texto aceito por
todos" (textus ab omnibus receptus), começou a perder o crédito, até que na segunda metade do século
XIX foi definitivamente afastado não só das edições críticas, como também das manuais e escolásticas.
Críticos de grande renome, depois de longos e severos estudos, seguindo vias diversas, concordaram em
aprovar um texto sensivelmente igual, tanto próximo dos mais antigos manuscritos e da Vulgata, distante
do texto outrora em vigor. Graças aos progressos da crítica moderna, podemos dar hoje o texto genuíno
dos Evangelhos e dos escritos apostólicos, e não somente quanto à substância, como também quanto aos
pormenores.

Cronologia
Os escritos neotestamentários abrangem, como foi dito, um século apenas. Embora seja tão breve o
espaço, a cronologia dos fatos nos apresenta, por falta de dados suficientes e precisos, dificuldades e
incertezas. Daí a grande variedade de opiniões entre os estudiosos. As datas que, para utilidade dos
leitores, apresentamos, são as mais comumente admitidas, tendo, porém, valor apenas aproximativo.
Como ponto de partida, no uso da era vulgar ou cristã, enquanto o ano 1 deveria ser o do nascimento de
Jesus, cumpre dizer, de fato, que, por causa de um erro inicial de cálculo cometido pelo primeiro que
introduziu essa era no cômputo das datas (o monge Dionísio, o Pequeno, no ano 525; cf. MIGNE, Patrologia
latina, 67, 497-502), deve-se transportar aquele memorável e fundamental acontecimento para alguns
anos atrás. Com efeito, consta, com certeza, do Evangelho (Mt 2,1-15; Lc 1,5), que Jesus nasceu antes da
morte de Herodes, o Grande, que caiu (como podemos deduzir por vários fios da história profana) no início
de abril do ano 750 de Roma, que corresponde ao 4º antes da era vulgar. Colocamos o nascimento de Jesus
Cristo no ano anterior (assinalado — 5), embora permanecendo incerto quantos meses se passaram desde
o seu nascimento até à morte do tirano. Outro caso grave de incerteza é a duração da vida pública de Jesus.
A opinião que mais respeita os dados do texto evangélico é a que a fixa em dois anos e alguns meses. A esta
atemo-nos, também nós, no seguinte quadro:

ANO
- 5. Nascimento de Jesus Cristo (Mt 2,1; Lc 2,1-7).
+ 8. Jesus perdido e encontrado no templo aos 12 anos (Lc 2,41-51).
28. Pregação de S. João Batista (Lc 3,1-3). Batismo de Jesus e início de sua vida pública (Mt 3,13-4, 17 e
paralelos).
30. Paixão, morte e ressurreição de Jesus; com a descida do Espírito Santo começa a pregação dos
apóstolos e constitui-se a Igreja primitiva.
34. Martírio de Sto. Estêvão. Conversão de Saulo (S. Paulo).
37. S. Paulo, fugindo de Damasco, faz sua primeira visita a Jerusalém, hóspede de S. Pedro (At 9,23-28; Gál
1,18). S. Pedro evangeliza a Judéia e a Samaria; acolhe na Igreja os gentios convertidos (At 9,31-11,18).
Cristandade de Antioquia.
43. Martírio de S. Tiago. S. Pedro, libertado do cárcere, "dirige-se para outro lugar (At 12,1-17),
provavelmente para Roma. Dispersão dos apóstolos por toda a terra.
45. Primeira viagem apostólica de S. Paulo (At 13,1-14,25).
50. Concílio dos apóstolos em Jerusalém; decreto para os convertidos do gentilismo (At 15,1-31).
50-52. Segunda viagem apostólica de S. Paulo, através da Ásia Menor, pela Acaia da Macedônia e da Grécia
(At 15,36-18,22). Suas Epístolas aos fiéis de Tessalônica.
53-57. Terceira viagem apostólica de S. Paulo, pela Ásia Menor e pela Macedônia (At 18,23-21,2). As
grandes Epístolas aos coríntios e aos romanos.
57-59. S. Paulo prisioneiro em Cesaréia da Palestina (At 21,17-26,32).
60-62. S. Paulo preso em Roma (At 27,1-28,30); Epístolas do cativeiro (Col, Ef, Flp, Fim). S. Tiago, o Menor, é
morto em Jerusalém.
63-66. Últimas viagens apostólicas de S. Paulo. Epístolas pastorais.
67. Martírio de S. Pedro e de S. Paulo em Roma.
c. 90. S. João evangelista é exilado, por causa da fé, para a ilha de Patmos, onde escreve o Apocalipse (Apoc
1,9-11).
c. 100. S. João morre em Éfeso, depois de escrever o seu Evangelho e suas três Epístolas canônicas.
Encerramento da idade apostólica e dos tempos bíblicos.
INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS

Evangelho, do grego evangelion, que significa "alegre notícia", "boa-nova", é como foi chamada, com
vocábulo adequado, a mensagem de salvação e de redenção que Jesus Cristo trouxe ao mundo. Depois, por
extensão, o mesmo vocábulo passou a designar o livro portador da narração dessa mensagem.
Jesus, o verdadeiro autor, sob qualquer aspecto, do Evangelho, pregou, e não escreveu, mas a primeira
origem do Evangelho escrito data, pode-se dizer, do primeiro dia em que o Mestre divino foi arrebatado ao
céu. Ao pregarem, os apóstolos, instruindo os novos fiéis, contavam os fatos e as palavras de Jesus. Essas
instruções, tão freqüentemente repetidas, tomaram, com o tempo, uma forma que diríamos estereotipada;
imprimiram-se na memória dos fiéis, que as transmitiam nas reuniões públicas ou nas conversas
particulares. Nasceu, deste modo, o primeiro regato que concorreu para formar os Evangelhos, a tradição
que remonta aos apóstolos. Com efeito, não tardou muito a se sentir a necessidade ou, ao menos, a
utilidade de se fixar e, mais largamente, propagar, com a escrita, a mensagem evangélica. S. Lucas (1,1) fala
de "muitos" que antes dele (pelo ano 60 d.C.) haviam resolvido escrever uma narração do "que Jesus fez e
ensinou" (At 1,1). Nesse "muitos" ou "vários" estão, ao certo, incluídos alguns a mais do que os nossos dois
primeiros evangelistas (Mateus e Marcos), anteriores a Lucas; mas é pelo menos duvidoso que aqueles
lógia (palavras de Jesus não contidas nos Evangelhos canônicos), que o Egito, recentemente, restituiu à luz
com os seus papiros, sejam fragmentos ou restos de alguns dos escritos visados aqui pelo evangelista.
Podem, porém, remontar àqueles primeiros tempos, pelo menos quanto ao núcleo, alguns evangelhos,
como o chamado dos hebreus, dos ebionitas, dos doze ou dos egípcios, dos quais os Padres da Igreja,
principalmente S. Jerônimo e Sto. Epifânio, nos transmitiram alguns trechos. Não assim outros evangelhos,
dos quais nos chegaram quase que só os nomes (e precisamente nomes de apóstolos: de Pedro, de Tomé,
de Bartolomeu etc.) os quais são todos de origem posterior (séculos II ou III d. C; cf. ALTANER, Patrologia, §
9). De toda essa floração de evangelhos, quatro somente a Igreja reconheceu como inspirados por Deus e
dignos de serem equiparados, por autoridade inigualável, aos livros sagrados do Antigo Testamento. São os
Evangelhos que, por cadeia ininterrupta de testemunhos, a qual, de elo em elo, remonta aos discípulos
imediatos dos apóstolos, nos são atestados como obras dos apóstolos Mateus e João e dos discípulos
Marcos e Lucas.
De fato, Papias, bispo de Hierápolis na Frigia, que viveu nos primeiros decênios do II século, nos cinco livros
de Esclarecimentos (ou Explicações), lembrando com quanto cuidado, na juventude, ele procurava
interrogar os discípulos dos apóstolos sobre o que tinham dito aqueles anciãos, afirma que "Marcos,
intérprete de Pedro, escreveu cuidadosamente tudo o que recordava das suas instruções", que "Mateus
compôs em língua hebraica os discursos (tá lógia) *, que "o Evangelho de João foi publicado e comunicado
às Igrejas pelo próprio João, ainda vivo". Destarte três dos nossos Evangelhos recebem já um testemunho
explícito. Irineu, bispo de Lião, de uma geração apenas posterior a Papias, no terceiro dos livros Contra as
heresias (c. 9-11), acrescentando-lhes Lucas, dá-lhes a série completa e, com energia, adverte
expressamente que, nem mais nem menos de quatro são ou podem ser os Evangelhos (ib. 11). Ou melhor,
com mais exatidão, tendo em conta que a "boa-nova" é propriamente uma: a mensagem de Jesus Cristo, e
que esses quatro livros são redações ou aspectos diversos daquele Evangelho único (donde o uso
constante, na Igreja, de dizer "Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus, segundo Marcos" etc), criou a
feliz e expressiva locução de "Evangelho tetramorfo", isto é, "quadriforme".
Pelo tempo de Irineu, como revelam estudos recentes (veja Revue bénédictine, 1928, pp. 193-214), um
católico desconhecido, provavelmente romano, compôs, contra a serpeteante heresia de Marcião, os mais
antigos prólogos aos Evangelhos com notícias inéditas sobre cada um dos evangelistas. Dentro ainda do
mesmo II século, narra-nos o chamado Cânon muratoriano, fragmento de um escrito a nos atestar a crença
comum da Igreja romana, a origem e difusão dos quatro Evangelhos e precisamente na ordem tradicional e
comuníssima de Mateus, Marcos, Lucas e João. Taciano, na Síria, por volta do ano 180, funde os Evangelhos
numa narração única e intitulada "diatessáron", isto é, resultante de quatro, professando deste modo, no
próprio nome da obra, o número fixo quaternário dos verdadeiros Evangelhos. O mesmo afirmam, em seus
escritos, pelo mesmo tempo, no Egito, Clemente Alexandrino e, em Cartago, Tertuliano. No século
seguinte, o III, com os escritores Origines, Hipólito, Cipriano, Vitório de Petau, com as versões latinas,
coptas, siríacas, com o número crescente dos manuscritos do texto, é o coro de todas as Igrejas do Oriente
e do Ocidente que se forma e proclama unanimemente os quatro Evangelhos segundo Mateus, segundo
Marcos, segundo Lucas e segundo João, sem se erguer uma voz sequer em contrário até ao século XIX. Que
outro escrito da antigüidade pode ostentar aprovação tão abundante, tão variada e tão próxima das
origens?
Os próprios Evangelhos, apenas consultados e examinados, apresentam um testemunho concorde com a
tradição. O de Mateus (para tocar aqui somente alguns passos mais notáveis) apresenta-se dirigido aos
judeus, para os persuadir, com as contínuas chamadas às profecias do Antigo Testamento, de que Jesus de
Nazaré é verdadeiramente o Messias prometido à nação escolhida. O de Marcos, reflexo das instruções de
S. Pedro aos fiéis de Roma, é o mais entremeado de vocábulos e construções latinas, e a respeito de S.
Pedro, mesmo omitindo certos fatos que mais o honram (caminhar sobre as águas, o primado, a taxa paga
juntamente com a de Jesus), sabe dizer-nos mais do que os outros evangelistas. Em Lucas, além da maior
pureza da língua e do estilo gregos, encontramos idéias, frases, relatórios (por exemplo, sobre a instituição
da Eucaristia, cf. Lc 22,19-20 e 1Cor 11,24-25), que se conformaram com os de S. Paulo, de quem foi,
durante anos, companheiro fiel. O quarto Evangelho mostra-se-nos claramente escrito por um dos doze
que mais perto estiveram de Jesus, por alguém que sempre se acha presente nos acontecimentos, mas que
nunca se nomeia e oculta-se sob a circunlocução "aquele discípulo que Jesus amava". Posto em confronto
com os outros Evangelhos, deduz-se, por exclusão, que aquele "discípulo que Jesus amava" só pode ser
João. Além disso, em muitos pontos da sua estrutura, esse Evangelho supõe claramente a narração dos três
outros, e está inteiramente preocupado em apresentar as provas da divindade de Jesus, posta em dúvida
ou negada pelas heresias, que germinaram na Ásia Menor, como sabemos pela História Eclesiástica. São
precisamente as circunstâncias e os motivos aduzidos ou supostos pelos testemunhos acima citados.
Atestações externas e qualidades intrínsecas confirmam-se, portanto, e sustentam-se reciprocamente para
escoimar de qualquer dúvida ponderável a autenticidade dos quatro Evangelhos canônicos.
Por que quatro, e não mais? E por que precisamente esses e não outros são os Evangelhos reconhecidos e
aceitos pela Igreja? A razão verdadeira e essencial é que só esses, e não outros, foram compostos por
inspiração divina e foram comunicados à Igreja como palavra de Deus escrita. Esse é o sentido claro dos
testemunhos antiquíssimos acima citados. A origem apostólica, isto é, o terem por autores apóstolos
(Mateus e João) ou discípulos dependentes dos apóstolos (Marcos e Lucas) era uma garantia para eles, mas
não constituía o seu motivo próprio e adequado. Estabelecido, porém, o fato da inspiração divina e, por
isso, da canonicidade desses quatro somente, nada impede que descubramos, para esse número, outras
razões de conveniência, como já fêz Sto. Irineu, no lugar acima citado (III, 11), e entrevermos algum
símbolo nas próprias Escrituras divinas do Antigo e do Novo Testamento. Entre todos, célebre é um que
teve imensa ressonância na literatura e nas artes: os quatro seres das quatro faces ou rostos, de homem,
de leão, de touro e de águia, que sustentavam e puxavam o carro divino visto por Ezequiel (Ez 1,4-10) e
pelo evangelista S. João, em êxtase (Apc 4,2-7). Encontram-se, outrossim, interessantes analogias e
comparações entre cada um desses animais e um dos nossos Evangelhos, de modo que o homem se tornou
símbolo de Mateus; o leão, de Marcos; o touro, de Lucas e a águia, de João. Pode-se afirmar que as suas
figuras são reproduzidas em todas as igrejas cristãs e em cada exemplar ilustrado da Bíblia.
Literariamente, os Evangelhos pertencem ao gênero histórico. Não são propriamente uma história, pois
concentram toda a atenção sobre uma única pessoa: Jesus de Nazaré. Não são, tampouco, apenas uma
biografia propriamente dita, pois não pretendem narrar toda a vida e atividade de seu herói, com o intuito
de informação. Têm por objetivo narrar a mensagem da renovação moral e religiosa que Jesus trouxe ao
mundo, e mostrar a sua obra redentora em atuação. Fazem, por isso, uma seleção entre o muito que
podiam dizer e aproximam-se, destarte, do gênero dos "fatos e ditos memoráveis", mas com referência
específica à finalidade mencionada.
Seja qual for, porém, o modo com que se queira determinar ou não o gênero próprio dos Evangelhos, o
certo é que, do gênero histórico, eles possuem o que constitui o seu supremo e primeiro valor, a finalidade
própria e suprema: a veracidade da relação e a realidade objetiva dos fatos registrados. Do historiador
verdadeiro e perfeito, os evangelistas possuem o amor da verdade na indagação, e a sinceridade e
imparcialidade no referir. Não foram paixões políticas, nem preconceitos ideais, nem interesses pessoais
que os moveram e sustentaram ao escrever. Não há vestígios desses sentimentos, que poderiam ofuscar o
juízo sereno do escritor, em sua prosa límpida e serena. Simples e desataviado, claro e popular é o seu
estilo. Pessoalmente, quanto eles amam o divino Mestre, mostrá-lo-ão mais tarde ao darem por ele o
sangue e a vida. Ao escrever, porém, essa chama eles a conservam encerrada no coração, não permitindo
que se exteriorize e lhe inflame a pena. Narram os milagres do Nazareno sem se admirarem com eles.
Referem os aplausos e o entusiasmo populares, mas não compartilham das aclamações; registram, apenas,
fatos, Não silenciam os insucessos do Mestre e a nenhum período de sua vida narram com tanta difusão
como sua dolorosa e humilhante paixão. Entre tantas amarguras e ultrajes, porém, que relatam
pormenorizadamente, não lhes foge um só gemido de compaixão pelo inocente torturado, nem um grito
sequer de indignação contra os seus cruéis crucificadores. Dir-se-ia que são impassíveis, mas é a
impassibilidade do historiador integral. E como é próprio do historiador narrar o que vê e o que ouve, o que
cai sob a esfera dos seus sentidos e pode ser afirmado, os evangelistas, em seus depoimentos, jamais
ultrapassam o limite dos fatos sensíveis e como tais atestados. Da própria ressurreição de Jesus, fato da
maior importância por numerosas razões, eles não nos dizem quando nem como se deu, porque nenhum
deles esteve presente. Falam do sepulcro aberto encontrado vazio, porque assim o viram os discípulos e as
piedosas mulheres, falam das aparições de Jesus redivivo, porque as pessoas favorecidas com tais aparições
afirmaram concorde e repetidamente que o tinham visto, tinham falado com ele, tinham comido e bebido
em sua companhia, depois da sua ressurreição (At 10,41). Não se poderia desejar atitude mais objetiva e
mais própria num puro historiador. Nada falta aos evangelistas daquilo que se pode referir aos fatos que
narram, nem que se relaciona com a imparcialidade e exatidão em os referir como haviam chegado ao seu
conhecimento. Somente isto, mesmo prescindindo da assistência do Espírito Santo que os animava, confere
à narração toda a garantia da verdade. Não é sem razão que o próprio termo "evangelho" tornou-se, no
uso, sinônimo de verdade evidente. Nossa fé, que tem suas raízes no Evangelho, também humanamente
falando, apóia-se sobre as mais sólidas bases. Intenção sinceramente desejosa de verdade e coração dócil
para a abraçar tal qual ela é, são as disposições mais adequadas para a leitura proveitosa do Evangelho.
INTRODUÇÃO A MATEUS

Mateus (nome talvez abreviado de Matadas) exercia, antes de seu chamamento ao apostolado, a profissão
de cobrador de impostos, profissão, já de per si, detestada por todos, que se tornava ainda mais antipática
ao povo judeu por favorecer, tal cobrança, a dominação romana. Os publicanos, os cobradores de
impostos, eram considerados como pecadores públicos.

Mateus estava sentado à sua banca de trabalho quando foi chamado por Jesus. Levantou-se logo e o
seguiu, dando adeus ao mundo com um banquete oferecido a Jesus e aos próprios colegas de profissão,
"publicanos e pecadores" (Mt 9,9-10). Nas passagens paralelas de Marcos (2,14) e Lucas (2,27), por
delicada consideração, é ele chamado Levi, outro nome seu, segundo um costume freqüente entre os
hebreus.

A partir de então entra a fazer parte do colégio dos doze, sem que nada de importante o pusesse em
evidência. No catálogo dos apóstolos é colocado invariavelmente junto a Tomé, ao qual, por sentimento de
humildade, se pospõe no seu Evangelho, lembrando o seu ofício de publicano.

Depois da ascensão de Jesus, ficou algum tempo na Palestina, evangelizando seus compatriotas. A que
regiões tenha depois levado a luz da fé, que ele confirma com seu sangue (se a Arábia, a Etiópia, a Pérsia ou
a região dos partos), não nos foi transmitido com certeza.

Em ordem cronológica, S. Mateus é o primeiro evangelista, conforme resulta da tradição. Pelo testemunho
de Papias (95,165), bispo de Hierápolis na Frigia, sabe-se que escreveu em aramaico "ta lógia kyriaká", mas
esta expressão, segundo o pensamento do próprio Papias, quando fala do Evangelho de S. Marcos,
compreende não só os discursos, como também os fatos da vida de Jesus. Mateus não escreveu, portanto,
uma simples coletânea dos discursos de Jesus, como afirmam, sem razão, alguns críticos, mas escreveu o
"Evangelho do Senhor".

O texto aramaico não chegou até nós, pois perdeu-se, quiçá, nas agitações e destruições devidas à guerra
do ano 70. Cedo, porém, desde os primeiros anos do cristianismo, fêz-se a redação, ou melhor, a versão
grega do Evangelho deMateus, sem, contudo, podermos saber qual o seu autor; talvez o próprio apóstolo.
Com efeito, a tradição atribui-lhe também unanimemente o texto grego; pelo menos quanto à essência, é
plenamente idêntico ao texto aramaico. Os Padres apostólicos citam-no sempre, desde o início, como texto
sagrado e inspirado, à semelhança das outras Escrituras, e foi unicamente sobre ele que se fizeram todas as
versões.

Pelo que se deduz da tradição e do exame interno, Mateus escreveu o seu Evangelho na Palestina,
destinando-o aos judeus convertidos e em geral aos seus compatriotas. A tese que visa a demonstrar é que
Jesus é o filho de Davi, prometido e esperado, o Messias, ou melhor, o verdadeiro Filho de Deus. Provar a
messianidade, a divindade de Jesus Cristo, constitui, portanto, a finalidade do primeiro evangelista. E o faz
não tanto referindo os milagres de Jesus, quanto fazendo notar nele a realização das antigas profecias e
insistindo nas provas que Jesus deu de sua divindade.

Não se pode estabelecer com certeza a data da composição do primeiro Evangelho. Pode-se, sem temor
algum de errar, estabelecer o termo inferior, abaixo do qual certamente não foi escrito. De fato, conforme
o testemunho unânime e constante da tradição (não faz exceção a voz ambígua de Clemente Alexandrino)
o Evangelho de Mateus deve ter sido o primeiro a ser escrito, por isso, antes do de Lucas, cuja composição,
como se verá, não pode nem deve ser posposta ao ano 63 d. C. Quanto ao termo superior, as opiniões são
divergentes: muitos dão--Ihe por data de composição o ano 50 ou mesmo antes. Deve-se, contudo, dizer
que é falsa a afirmação dos racionalistas, segundo os quais teria sido escrito após o ano 70.

O quadro seguinte do Evangelho de S. Mateus colocará sob nossas vistas toda a sua estrutura.
I parte - História da infância de Jesus Cristo. (1-2).
Genealogia de Jesus (1,1-17). Seu nascimento virginal (1,18-25). Adoração dos magos (2,1-12). Fuga para o
Egito (2,13-18). Volta a Nazaré (2,19-23).

II parte - Vida pública de Jesus Cristo (3-25).
1. Preparação para a vida pública (3,1-4,11). Pregação de João Batista (3,1-12). Batismo de Jesus (3,13-17).
Tentação no deserto (4,1-11).
2. Ministério de Jesus na Galileia (4,12-18,35). Jesus doutor e promul-gador da nova lei (4,12-7,29). Jesus
operador de milagres (8,1-9,34). Jesus mestre dos apóstolos (9,35-10,42). Jesus recrimina os fariseus (11-
12). Expõe, com parábolas, o reino de Deus (13). Confirma a fé dos discípulos com novos milagres e fustiga
a inveja dos fariseus (14,1-16,12). Promete a Pedro o primado (16,13-20), prediz sua paixão (16,21-28),
transfigura-se no monte (17, 1,13) e dá instruções diversas aos apóstolos (17,14-18,35).
3. Ministério na Judeia (19,25). Viagem a Jerusalém (19-20). Entrada triunfal na cidade santa e purificação
do templo (21,1-17). Jesus manifesta e censura os vícios dos fariseus e dos saduceus (21,18-23.39). Prediz a
destruição de Jerusalém e o fim do mundo (24-25).

III parte - Vida dolorosa e vida gloriosa (26-28).
Preparação para a paixão (26,1-46). Paixão e morte de Jesus (26,47-27,66). Ressurreição, aparição de Jesus
ressuscitado, missão dos apóstolos (28).


Aqui vem, no entanto, a propósito notarmos alguma coisa sobre a chamada "questão sinótica". Os três
primeiros Evangelhos assemelham-se mais entre si e distinguemse do quarto, segundo João, na narração da
vida pública de Jesus, principalmente de três modos: estendem-se mais difusamente sobre o ministério na
Galileia e regiões limítrofes; para eles Jesus vai a Jerusalém uma só vez, pouco antes da paixão; referem os
fatos e os discursos de Jesus em proporções quase iguais. Em João, ao contrário, predomina o ministério
exercido em Jerusalém, para onde se vê Jesus dirigir-se pelo menos cinco vezes, e os discursos
preponderam sobre os fatos. Além disso, os três primeiros nos referem muitas vezes os mesmos fatos na
mesma ordem e até mesmo com idênticas palavras. Esta particularidade mereceu-lhes dos críticos a
denominação de "Evangelhos sinóticos". A tamanha semelhança correspondem, porém, de outra parte,
divergências assaz notáveis, que dão a cada um dos Evangelhos a fisionomia própria. De tudo isso o leitor
encontrará confirmação com uma leitura atenta e comparativa dos sinóticos ou mesmo depois que com
eles se familiarizar. Trata-se agora de explicar, ao mesmo tempo, semelhanças e disse-melhanças com uma
sentença harmônica sobre a origem dos Evangelhos e relações mútuas. Ê a chamada "questão sinótica". Há
dois séculos apresentaram-se várias e discordantes soluções, sem ter-se chegado a uma sentença
comumente aceita. A seguinte, que leva em conta todos os dados do problema, inclusive os testemunhos
históricos dos santos Padres, vai-se firmando sempre mais nos meios católicos.


Ao Evangelho escrito precedeu o Evangelho pregado, por um período de cerca de vinte anos, durante os
quais a vida de Jesus, exposta nas instruções ou catequeses dos apóstolos, foi assumindo, pela escolha e
organização do material, um esquema determinado e uniformemente repetido. Formou-se deste modo
uma tradição oral, que serviu de base aos escritores. Com essa tradição, confirmada, enriquecida pela
própria experiência pessoal, Mateus compôs o seu Evangelho em aramaico. Transplantado para Roma por
S. Pedro, que já na Palestina fora o seu mais eficaz formador, esse esquema de catequese oral foi
literalmente consignado por S. Marcos, em língua grega. Nessa mesma Roma, pelos anos 60-61, senão
antes, S. Lucas deve ter conhecido bem esse Evangelho grego, e serviu-se dele para escrever o seu
elaborado, para o qual consultou fontes orais e escritas (Lc 1,1-4). Tendo-se propagado not Oriente de
língua grega o Evangelho de S. Marcos, dele se serviu também aquele que, qualquer que tenha sido (veja
acima), traduziu para o grego o Evangelho aramaico de S. Mateus, dando-nos, deste modo, o texto
canónico do primeiro de nossos Evangelhos. Resta explicar, para dar uma razão de todos os acordos e
desacordos, as coincidências, mesmo verbais, entre Mateus e Lucas, nas passagens em que Marcos nada
tem que lhes corresponda. Para essas, não parecendo verossímil que Lucas tenha conhecido Mateus em
grego (pense-se, por exemplo, na história da infância e na genealogia de Jesus, tão diversas nos respectivos
Evangelhos), autores católicos são inclinados a postular uma fonte comum escrita.
INTRODUÇÃO A MARCOS

O autor do segundo Evangelho é Marcos. Unânime é o acordo sobre este ponto, não havendo notas
discordantes nem mesmo da parte dos críticos mais radicais. Tão claro e unânime é o sufrágio da tradição,
que remonta, com os mais autorizados testemunhos das Igrejas em peso, até aos últimos anos do século I,
à primeira geração cristã pós--apostólica.

Outro ponto certo e admitido por todos: assim como Marcos foi colaborador de Pedro na pregação do
Evangelho, foi também o porta-voz e o intérprete autorizado na elaboração do Evangelho e transmitiu-nos,
por meio desse texto, a catequese do príncipe dos apóstolos, tal qual ele a ensinava aos primeiros cristãos,
principalmente da Igreja de Roma. Sobre isso também temos o testemunho claro e preciso da tradição.

Um fragmento de Papias, bispo de Hierápolis, na Frigia, pelos anos 110--130, conservado por Eusébio na
sua História Eclesiástica (liv. III, fim), afirma expressamente, referindo-se às declarações do presbítero
João: "Eis o que dizia o presbítero: — Marcos, tendo sido intérprete de Pedro, escreveu com exatidão, não,
porém, de modo ordenado, tudo o que recordava das coisas que o Senhor disse ou fez". O primeiro elo da
tradição não é, portanto, Papias, e sim o presbítero João, que, segundo os melhores críticos, deve-se
identificar com o apóstolo S. João. Outros elos dessa tradição temo-los nos testemunhos de Irineu, Justino,
Clemente Alexandrino, Tertuliano, Origines etc., que nos relatam o pensamento autêntico das Igrejas dos
primeiros séculos.

Nos Atos dos Apóstolos o futuro evangelista é chamado ora João Marcos (12, 12-25; 15,37), ora João
(13,5.13), ora simplesmente Marcos (15,39), pois nessas passagens trata-se sempre da mesma pessoa,
a qual, segundo um costume então em voga na Palestina, tinha, além do nome judaico, um nome greco-
romano, como, por exemplo, o grande Apóstolo dos gentios, que se chamava Saulo e Paulo.

Marcos devia pertencer a família bastante rica e de grande ascendente na comunidade cristã de Jerusalém.
Com efeito, em sua casa "onde várias pessoas se haviam reunido para orar" (At 12, 12), refugiou-se o
apóstolo Pedro quando o anjo o libertou do cárcere de Herodes. Pretendem alguns deduzir disso que a
casa de Marcos deve-se identificar com o cenáculo.

Marcos era primo de Barnabé (Col 4,10), levita, natural de Chipre e, quando este, juntamente com Paulo,
foi designado pelos irmãos da comunidade de Antioquia para levar as esmolas à Igreja de Jerusalém, na
volta levou consigo Marcos, para lhe servir de auxiliar (At 13,5) no labor da evangelização. Efetivamente,
Paulo e Barnabé o levaram como colaborador na primeira viagem apostólica. Mas ao chegarem a Perga, na
Panfília, Marcos separou-se dos dois missionários e achou melhor voltar a Jerusalém. Esta fraqueza e
inconstância de caráter não agradaram a Paulo, que se recusou a levar Marcos como companheiro na
segunda viagem missionária, pelo que o próprio Barnabé, separando-se de Paulo, foi com Marcos para a
ilha de Chipre, enquanto Paulo e Silas rumaram primeiro para a Síria e para a Cilicia e depois para a Grécia.
Deste modo, por disposição providencial de Deus, a boa-nova difundiu-se mais largamente.

Aquela nuvem passageira não diminuiu e muito menos rompeu as relações fraternas entre os dois
apóstolos. Com efeito, Marcos foi depois colaborador fiel de Pedro e de Paulo. Este escrevia, de Roma,
onde se achava prisioneiro, aos fiéis de Colossas (4,10): "Saúda-vos Marcos, primo de Barnabé"; e a
Filemon: "Saúda-te Marcos, meu colaborador" (v. 24). Estava, pois, Marcos, nessa época, por volta do ano
61-62, com Paulo. Alguns anos mais tarde, pelo ano 63-64, ele cuidava da evangelização juntamente com
Pedro, o qual escrevia de Babilônia (' — Roma) na sua primeira carta (5,13): "Saúda-vos meu filho Marcos",
palavras que nos deixam crer que Marcos recebeu de Pedro o batismo.

Deve ter deixado Roma antes da perseguição de Nero} no ano 64, pois quando Paulo aí esteve para a
segunda prisão, Marcos não estava. De fato, na sua segunda epístola a Timóteo (4,11) Paulo pede-lhe que
venha a Roma e traga Marcos consigo.

Antigas tradições muito autorizadas atestam que nos anos seguintes Marcos evangelizou o Egito e fundou a
Igreja de Alexandria, onde morreu mártir por Jesus Cristo.

Em Roma, Marcos escreveu o Evangelho, como no-lo confirma a tradição representada por Papias, Irineu,
Clemente de Alexandria, Tertuliano e outros, não para os judeus, e sim para os cristãos da Igreja romana,
convertidos do paganismo. Segundo Clemente de Alexandria, ele escreveu a pedido de muitos cristãos que
tinham ouvido a pregação de Pedro (cf. EUSÉBIO, História Eclesiástica, Vl, 14,6). Essa notícia encontra
confirmação evidente em não poucas indicações, resultantes do exame interno do segundo Evangelho.
Efetivamente, Marcos propõe-se como fim demonstrar que Jesus é verdadeiro Filho de Deus, e o faz
especialmente com a narração de muitos milagres que ele operou, sinais evidentes de que é o senhor
supremo da natureza, dos elementos, da vida, que tem poder para ler nos corações e no livro do futuro. Não
insiste sobre o seu caráter de Messias, nem cita as antigas profecias que em Jesus tiveram a sua
realização, com exceção de uma só vez (1,2-3). Não relata longos discursos de Jesus nem suas
discussões com os fariseus, nem as questões relativas ao valor da lei e ao espírito dos fariseus, coisas
essas todas que não teriam impressionado o espírito dos seus leitores. Usa, porém, freqüentemente, de
grecismos e traduz algumas expressões aramaicas; explica aos destinatários do seu Evangelho algumas
indicações geográficas da Palestina, usos e costumes próprios dos judeus. Entre os evangelistas é ele o
único a lembrar que Simão de Cirene era pai de Alexandre e de Rufo, membros da comunidade cristã de
Roma (cf. Rom 16,13). Indícios todos estes bastante persuasivos de que o segundo Evangelho foi escrito,
como afirma a tradição, em Roma, com referência particular aos cristãos romanos convertidos do
paganismo.

A composição do segundo Evangelho deve ser colocada antes do ano 70, ou melhor, antes do ano 63,
época em que já tinha sido publicado o Evangelho de Lucas, o qual, como já admitem também os críticos
acatólicos, depende de S. Marcos. Ora, sabemos pela tradição, como foi dito ao falarmos do Evangelho de
S. Mateus, que, em ordem cronológica, este Evangelho ocupa o primeiro lugar, e que teria sido escrito,
provavelmente, entre os anos 50 e 54. Podemos, portanto, afirmar que Marcos escreveu o seu Evangelho
depois do ano 54 e antes do ano 61, no período em que ele devia encontrar-se em Roma, junto com o
apóstolo Pedro, como seu auxiliar na fundação da Igreja de Roma.

Eis um resumo esquemático do Evangelho de Marcos:

Introdução. Preparação para a vida pública de Jesus (1,1-13). Pregação de João Batista (1,1-8); batismo
de Jesus; tentação no deserto (1,9-13).

I parte - Ministério público de Jesus (1,14-10,52).

1. Ministério na Galiléia. Inauguração da pregação de Jesus (1,14-45). Conflitos com os escribas e os
fariseus (2,1-3,6). Milagres de Jesus; escolha dos apóstolos; parábolas (3,7-4,43). Outros milagres e
episódios do ministério de Jesus na Galiléia (4,35-7,23).

2. Viagens de Jesus fora da Galiléia. À região de Tiro e de Sidônia (7,24-30); à Decápole (7,31-8,26);
à região de Cesaréia de Filipe (8,27-9,29); volta à Galiléia e viagem a Jerusalém 9,30-10,52).

II parte - Paixão e glorificação de Jesus (11,1-16,20).

Ingresso triunfal de Jesus em Jerusalém (11,1-11). Conflitos com os fariseus (11,12-12,44). Predição da
destruição de Jerusalém, e do juízo final (13). Paixão e morte (14,1-15,47). Glorificação de Jesus (16).

Por este sumário pode-se notar uma característica do segundo Evangelho: a brevidade.

Além disso, outra característica do Evangelho de Marcos ê a vivacidade intuitiva da narração. Seu
vocabulário é mais pobre e restrito; o estilo, monótono e descuidado, reflete o modo de pensar e de
expressar-se próprios de um oriental simples e rude, bem longe da riqueza de linguagem e da perfeição do
período elaborado do grego clássico. A narração, entretanto, ê viva, colorida, pitoresca até nos mínimos
particulares e faz os acontecimentos reviverem ante os olhos do leitor, quais os tinha tantas vezes ouvido o
próprio Marcos dos lábios do apóstolo Pedro. Nisto está a explicação da característica do segundo
Evangelho. Marcos apenas reproduz e retrata a partir do natural a história evangélica, revivida e descrita por
uma testemunha ocular, que tomou parte nela e que a tinha sempre presente.
INTRODUÇÃO A LUCAS

O Evangelho de S. Lucas ocupa o terceiro lugar entre os Evangelhos canônicos, e isso em ordem de lugar e
de tempo também, segundo a tradição mais certa. As poucas notícias que dizem respeito à vida deste
evangelista tiram-se sobretudo dos Atos dos Apóstolos, escritos por ele.

Nascido em Antioquia, segundo uma antiga e autorizada tradição recolhida por Eusébio (Hist. Ecles., III, 4-
6), de família pagã, grego de estirpe e por educação, possuía, além do domínio da língua grega que
aprendera na infância, também uma boa cultura, como se pode ver pelos seus escritos, dedicando-se à
profissão de médico, como no-lo atesta S. Paulo (Col 4,14). Conheceu e abraçou a religião de Cristo, talvez
por obra dos primeiros pregadores do Evangelho em Antioquia (At 11,19-24).

Com S. Paulo, que jamais diz tê-lo gerado para Cristo, encontramo-lo, pela primeira vez, em Trôade, na
segunda viagem missionária do grande Apóstolo, que então (pelo ano 50 d. C.) estava para fazer a
travessia da Ásia, com destino à Grécia. Daí por diante, esteve quase continuamente ao seu lado
(executando, nas várias ausências, missões confiadas pelo próprio Paulo), qual discípulo afeiçoado e
colaborador zeloso no ministério sagrado da palavra. "Somente Lucas está comigo", escreve tristemente o
Apóstolo, prisioneiro pela segunda vez, em Roma, na 2? Epístola a Timóteo (4,11) que é como que o seu
testamento espiritual. Não se sabe pois com certeza onde nem até quando o evangelista viveu depois do
martírio de S. Paulo.

O próprio Lucas diz-nos (1,3) ter realizado indagações e ter recolhido informações a respeito dos atos e das
palavras de Jesus, justo dos que os haviam presenciado. Dentre esses informantes, sobretudo nos
primeiros capítulos do seu Evangelho, pode-se ouvir ainda a voz suave da própria mãe de Jesus. Mas o
Evangelho de S. Lucas recebeu de S. Paulo, senão o primeiro impulso, certamente sua característica: a
universalidade da salvação, as portas da salvação abertas aos gentios, a inexaurível misericórdia divina, o
perdão dos pecados, a oração e a perseverança são os temas que de mais relevância se revestem neste
Evangelho, que, pela suavidade de afetos de que ê impregnado e péla graça da expressão, é de todos o
mais atraente.

É também sua especialidade o prólogo de sabor clássico, com a dedicatória a um ótimo cristão de nome
Teófilo e a disposição peculiar da matéria, como se pode ver pelo sumário abaixo, no qual nos estão
indicados, em caracteres normandos, as partes peculiares de Lucas.

Prólogo. - Motivo, modo e finalidade que o levaram a escrever o Evangelho (1,1-4).

I parte - Infância e vida privada de Jesus (1,5-2,52).

Um anjo anuncia o próximo nascimento do Precursor (1,5-25). O anjo anuncia a Maria o nascimento do
Salvador, Jesus (1,26-38). Maria vai visitar Isabel (1,39-56). Nasce o Precursor e recebe o nome de João
(1,57-80). Nasce e é circuncidado o Salvador (2,1-21). Jesus é oferecido no templo na purificação de Maria
(2,22-39). Jesus fica perdido e é encontrado no templo (2,40-50). Sua vida oculta em Nazaré (2,51-52).

II parte - Vida pública de Jesus (3,21). A preparação (3,1-4,3): João, o Precursor, prega o batismo de
penitência (3,1-19). Jesus (sua genealogia, 3,23-28) é batizado por João, retira-se para o deserto e é
tentado pelo demônio (3, 21-4,13).

O ministério: pregação e milagres (4, 14-21,38) em três regiões distintas:

1. Na Galiléia (4,14-9,50), em três fases:

A) Até à escolha dos apóstolos (4,14--6,11). Sermão infrutífero e perigo que corre em Nazaré (4,14-30);
pregação e curas de doentes em Cafarnaum (4,31--44); pregação feita de dentro da barca de Pedro e
pesca milagrosa (5,1-11); cura do leproso (5,12-16) e do paralítico (5,17-26); o chamamento do publicano
(Levi-Mateus), nova vida e novos costumes (5,27-39); observância do sábado (6,1-11).

B) Até à missão dos apóstolos (6,12--8,56). Jesus escolhe doze e chama-os de apóstolos (6,12-16);
profere-lhes o sermão ou discurso do monte (6,17-49); cura do servo do centurião (7,1-10); ressuscita o filho
da viúva de Naim (7, 11-17); recebe os discípulos de João, do qual faz o elogio (7,18-35); recebe e louva a
pecadora arrependida (7,36-50); as piedosas mulheres que o seguem (8,1-3); parábola do semeador (8,4-
18); os parentes de Jesus (8,19-21); a tempestade acalmada (8,22-25); curas de endemoninhados (8,26-
39), da hemorroíssa (8,40-48); ressuscita a filha de Jairo (8,49-56).
C) Até à partida da Galiléia (9,1-50). Jesus envia os apóstolos a pregar e a curar os doentes (9,1-9); com
poucos pães sacia 5000 pessoas (9,10-17); responde a Pedro, (que o reconhece como Messias)
predizendo a própria paixão e recomendando a abnegação de si mesmo (9,18-27); transfigura-se no monte
(9, 28-36); cura um menino possesso (9,37-42); dá lição de humildade e de moderação (9,43-50).

2. Em viagem para Jerusalém, na Peréia (9,51-19,28). Jesus envia os discípulos na frente e dá-lhes
diversas instruções (9,51-10,24); parábola do bom samaritano (10,25-37); em casa de Marta e Maria (10,38-
42); força da oração (11,1-13); o poder de expulsar demônios (11,14-26); a verdadeira bem-aventu-rança
(11,27-28); o sinal de Jonas (11, 29-36); censura os fariseus e os escribas (11,37-54); advertências às
turbas contra a vanglória, o respeito humano, a avareza, a solicitude excessiva dos bens temporais (12,1-
34); vigilância (12,35-48); sinais e tempo para fazer penitência (12,49-13,9); curas em dia de sábado, o reino
de Deus e sua obtenção (13, 10-14,24); disposições para seguir a Jesus (14,25-35); alegria por um pecador
convertido (15,1-10); parábola do filho pródigo (15,11-32); do feitor infiel (16,1-18); do rico glutão (16,19-31),
outros avisos (17,1-10); cura dos dez leprosos (17,11-19); preparação para a vinda do reino de Deus (17,20-
37); parábolas do juiz e da viúva (18,1-8); do fariseu e do publicano (18,9-14); condições para entrar no
reino de Deus (18,15-30); Jesus em Jericó prediz sua paixão (18,31-34); cura um cego (18,35-43); entra em
casa do publicano Zaqueu e converte-o (19, 1-10); parábola dos servos e das dez minas (19,11-28).

3. Em Jerusalém (19,29-21,28). Jesus entra festivamente em Jerusalém (19, 2940) e chora sobre sua sorte
(19,41-44); expulsa os mercadores do templo (19,45-48); responde às queixas dos invejosos (20,1-8);
parábolas dos maus vinhateiros (20,9-19); o tributo a César (20,20-26); e ressurreição dos mortos (20,27-
40); Davi e Cristo (20,21-44); contra a vanglória (20,45-47); o óbolo da viúva (21,1-4); Jesus prediz a
destruição do templo e de Jerusalém (21,5- I 24) e, aludindo ao fim do mundo (21, 25-28), exorta à vigilância
(21,29-38).

III parte - Paixão e ressurreição de Jesus (22-24).

Nesta parte são especiais a Lucas: a primeira distribuição do cálice na ceia pascal (22,15-17); a discussão
entre os apóstolos por causa da promessa e da missão confiada a Pedro (22,24-32); as duas espadas
(22,35-38); o suor de sangue no horto (22,43-44); o olhar de Jesus a Pedro (22,61); o conciliábulo da
manhã (22,66-71); Jesus no tribunal de Herodes (23,6-12); suas palavras às piedosas mulheres (23,27-31);
o bom ladrão (23,39-43); aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos de Emaús (24,13--35); a ascensão
de Jesus ao céu (24, 44-53).

Que o médico Lucas, companheiro de S. Paulo, seja o autor deste Evangelho, não pode haver dúvida
nenhuma, pelo testemunho constante e unânime de todos os antigos, quer aqueles dos manuscritos ou
versões do texto, quer os dos escritores de todos os quilates, tanto hereges (como Marcião) quanto
católicos, testemunhos estes confirmados pelo exame intrínseco deste Evangelho. De fato, como obra de
um grego de nascimento, ele não contêm (caso único entre os Evangelhos) nenhuma palavra aramaica,
nem mesmo o comuníssimo "rabi", e entre todos os escritos do Novo Testamento (exceção feita da Epístola
aos Hebreus) é o que tem a locução mais conforme ao gênio da língua grega.

Escreveu Lucas o seu Evangelho antes dos Atos dos Apóstolos, que são como que a continuação daquele
(At 1, 1) e, por isso, provavelmente não só antes da morte de S. Paulo (ano 67), que nos Atos é ignorada,
mas também antes do fim da prisão do Apóstolo (ano 63), com a qual se encerra esse último livro. Em
suma, por volta do ano 60.
INTRODUÇÃO A JOÃO

O quarto Evangelho, pela feição particular que o caracteriza, afasta-se dos Evangelhos sinóticos. Seu fim
principal, como o nota o próprio autor (20,31), é fazer ressaltar a divindade de Cristo, e para tal fim convergem
tanto a elevação dos discursos, reproduzidos com os mesmos milagres narrados e o prólogo admirável, que se
refere ao "Verbo que se fez carne, e nós vimos a sua glória como de filho unigênito do Par (1,14).

Por causa desse caráter transcendente que o reveste, os antigos Padres chamaram o quarto Evangelho com
um termo próprio: Evangelho espiritual; os gregos, por sua vez, deram a João o título de Teólogo.

Não é que a figura de Jesus nele delineada seja diferente da que dele traçam os sinóticos, pois, ainda que o
quarto Evangelho realce mais o aspecto divino, não se descuida do seu aspecto humano e aquele seu Jesus
combina perfeitamente em tudo com o dos sinóticos.

Da leitura de muitas de suas páginas, como, por exemplo, de alguns milagres como a cura do cego de
nascença, a ressurreição de Lázaro etc., escritas com tão admirável simplicidade e vivacidade de colorido, que
revelam a testemunha ocular, surge bela, eloqüente a figura humano-divina de Jesus, todo bondade e
misericórdia, como o dos sinóticos. Aí encontramos identificada a doutrina com as mesmas verdades e os
mesmos preceitos, ainda que mais desenvolvida e mais elevada. Ê que cada um dos evangelistas escolheu e
narrou o que da vida e dos ensinamentos do Mestre interessava ao seu objetivo, sem pretender esgotá-lo sob
todos os aspectos.

Compare-se o seguinte quadro do quarto Evangelho com os que apresentamos nos três precedentes estudos.

Prólogo. O Verbo divino que se faz carne (1,1-18).

1-parte - Jesus manifesta sua divindade e é reconhecido pelos homens de boa vontade (1,19-4,54).

Pregação de S. João Batista e seu testemunho a respeito de Jesus (1,19-35); primeiros discípulos de Jesus
(1,36-51).

Primeiro milagre de Jesus nas bodas de Caná (2,1-12). Em Jerusalém, Jesus purifica o templo (2,13-22); faz
milagres e muitos crêem nele (2,2325); instrui Nicodemos (3,1-21). Na Judéia com os discípulos, que
batizam; novo testemunho de João Batista (3,22-36).

Colóquio com a samaritana (4,1-42) e volta à Galiléia; cura o filho de um oficial (4,43-54).

II-parte - Oposição dos judeus à pregação de Jesus (5-12).

Em Jerusalém: cura do paralítico (5, 1-9); os judeus são pela observância do sábado (5,10-16). As ações de
Jesus, Filho do Pai (Deus) e tríplice testemunho em seu favor (5,17-47).

Na Galiléia, Jesus multiplica uns poucos pães para 5.000 homens (6,1-15) e em Cafarnaum profere um
sermão às turbas sobre o pão que desce do céu (promessa da eucaristia; 6,16-60); defecção de muitos de
seus discípulos (6, 61-7,1).

Em Jerusalém, na festa dos Tabernáculos; pregação no templo e hostilidade dos judeus (7,2-52); acusação e
absolvição da mulher adúltera (7,53-8,11). Jesus é a luz do mundo (8,12-20), o Salvador e Filho de Deus
(8,21-59). Cura do cego de nascença e irritação da oposição (9). O bom pastor (10,1-18). Dissensões entre
os judeus (10,19-21).

Em Jerusalém, na festa da Dedicação (10,22-39). Na Peréia (10,40-42), Jesus ressuscita Lázaro (11,1-46);
os judeus deliberam fazê-lo morrer (11,47-57). A ceia em Betânia, seis dias antes da Páscoa (12,1-11).
Ingresso triunfal em Jerusalém (os Ramos: 12,12-19); pressentimento da paixão (12,20-28); último apelo à
f é (12,29-36). Causas da incredulidade dos judeus (12,37-50).

III-parte - Paixão, morte e ressurreição de Jesus (13-21).

Ultima ceia: Lava-pés (13,1-20); saída de Judas (13,21-32); longo sermão após a ceia (13,33-16,33);
oração de Jesus ao Pai (17).

No horto, Jesus é capturado (18,1-12), levado a Anás e depois a Caifás, é negado por Pedro (18,13-27).
Jesus no pretório de Pilatos; primeiro interrogatório, flagelação e coroação de espinhos (18. 28-19,3).
Segundo interrogatório e condenação (19,4-16).

No Calvário: crucifixão e morte (19, 17-30); golpe de lança no lado de Jesus e sepultura (19,31-41);
aparições de Jesus ressuscitado: à Madalena (20,1-
18); aos discípulos, na ausência de Tomé (20,19-23); ainda aos discípulos, com Tomé (20,24-31); às sete
pessoas perto do lago de Tiberíades (21,1-14). Confirmação do primado a Pedro (21,15-19). Destino e
veracidade do evangelista (21, 20-25).

Procurou o autor conservar-se anônimo, mas ocultou seu nome sob um véu tênue e transparente, que se intui
com toda a facilidade. Com efeito, por um exame atento resulta que o autor é judeu, que conhece, até mesmo
nos mínimos particulares, as instituições judaicas e os acidentes topográficos da Palestina e de Jerusalém, no
tempo de Cristo.

Desse exame resulta ainda ser o escritor um judeu de origem, que, escrevendo em grego vulgar, revela-se
judeu no estilo, no desenrolar dos períodos, em muitas locuções próprias das línguas semíticas, no paralelismo
que usa quando se lhe apresenta a ocasião e na modalidade mesma dos conceitos. Essas características —
cumpre notá-lo — oferecem-nos valioso argumento para afirmar a unidade do quarto Evangelho, sem eruditos
acréscimos de vários elementos hauridos de fontes diversas e também sem descontinuidade de pensamento e
de finalidade, como pretenderam certos críticos, guiados por seus preconceitos apriorísticos.

Resulta outrossim ser o autor um judeu que afirma com insistência, para garantir a verdade do que narra, ter
sido testemunha ocular dos fatos (1,14; 19, 35), como o afirma também o autor da primeira epístola atribuída
a S. João, a qual é como que a introdução e o complemento do seu Evangelho (cf. 1Jo 1, 1-3).

Resulta, além disso, que o autor é um discípulo de João Batista, que se tornou um dos primeiros discípulos de
Jesus; que pertence ao colégio apostólico e que foi o discípulo predileto de Jesus. Coisa estranha: ele jamais
fala dos dois filhos de Zebedeu, Tiago e João. Ora, dos três discípulos que Jesus amava mais, o autor do
quarto Evangelho não pode ser Pedro, pois mais de uma vez se percebe que é distinto dele. Tiago, irmão de
João, também não pode ser, pois foi condenado à morte por Herodes Agripa (no ano 43).

Todos os dados apresentados verificam-se com exatidão no apóstolo S. João, confirmando plenamente a voz
autorizada da tradição. Aos testemunhos implícitos, isto é, às citações anônimas do quarto Evangelho, que se
encontram nalguns Padres apostólicos e que remontam aos primeiros decênios do século II, poucos anos após
ter sido escrito, unem-se os testemunhos explícitos das várias Igrejas do Oriente e do Ocidente, representadas
por nomes e documentos autorizados, como Papias, Polícrates, Irineu, Justino, Teófilo de Antioquia, o
Fragmento muratoriano, para falarmos somente dos mais antigos.

Esse conjunto de testemunhos implícitos e explícitos ê unânime em afirmar que o quarto Evangelho foi escrito
pelo apóstolo João, o discípulo predileto de Jesus.

Pela leitura do quarto Evangelho vemos que João já supõe conhecida pelos seus leitores a vida de Jesus,
antes narrada pelos sinóticos e que ele quer completar o que aqueles escreveram. Quando o escreveu, o
cristianismo já se achava amplamente difundido, de modo especial no império romano, e o clima religioso da
Igreja bastante mudado em relação ao tempo em que os evangelistas escreveram os sinóticos.

Na Ásia Menor tinham começado a pulular os multiformes erros do gnosticismo, que negavam a divindade de
Cristo e sob o rótulo aparente de ciência superior, tentavam insinuar-se nas comunidades cristãs. Para
combater esses erros sedutores e estabelecer as bases irrefragáveis da divindade de Jesus Cristo, João
escreve então o seu Evangelho. Com essa finalidade, ele narra muitos discursos de Jesus e alguns milagres
que projetam mais luz sobre a divindade do Salvador. Não nos deve causar admiração o fato de Jesus ter
dirigido discursos mais elevados aos escribas e aos fariseus do que os que dirigiu às turbas da Galiléia, e que
esses discursos — não referidos pelos sinóticos por não se enquadrarem com o seu escopo — proferidos à
maneira de perguntas e respostas, com sentenças curtas e pejadas de conceitos, como era então costume
fazer-se entre os rabinos, tenham ficado indelevelmente impressos na mente de João, que os meditava
diariamente e repetia com freqüência, em suas catequeses aos primeiros cristãos. Reproduziu-os, por isso,
fielmente no seu Evangelho, pelo menos quanto à substância, e o mais das vezes também com as próprias
palavras que o Mestre pronunciou.
INTRODUÇÃO AOS ATOS DOS APÓSTOLOS

O título que este livro de Atos (sem artigo) dos Apóstolos (de todos os apóstolos, em geral) tem nos manuscritos do texto
original exprime, se bem examinado, exatamente o seu conteúdo. Seus protagonistas são os dois príncipes dos apóstolos:
Pedro, nos primeiros doze capítulos, e Paulo, nos dezesseis restantes. Contudo, quer nos primeiros, quer nos segundos,
entrelaçam-se também ações de outros apóstolos e tanto Pedro como Paulo (embora este menos visivelmente) agem,
mais do que à primeira vista pode parecer, em função do colégio apostólico, um como cabeça, outro, como pioneiro.

Para melhor esclarecimento, será de muita utilidade o sumário seguinte, que apresenta a unidade orgânica compacta do
livro e o concatenamento das partes entre si, convergindo para o objeto indicado no título, e que correspondem às fases
da propagação do Evangelho.

Introdução (1,1-26). Proêmio em que o autor se reporta ao seu Evangelho como para continuá-lo (1-3). Jesus dá às
últimas instruções aos apóstolos e sobe ao céu (4-11); estes retiram-se com os outros fiéis para o cenáculo à espera do
Espírito Santo (12-14); elegem Matias em substituição a Judas (15-26).

1a parte (2,1-8,3). A mensagem evangélica em Jerusalém.

1. Descida do Espírito Santo e inícios da Igreja (2,1-47).

2. Cura do paralítico, lutas de Pedro e dos apóstolos contra o Sinédrio e primeira perseguição (3,1-4,31).

3. Progresso e vida interna da Igreja, como efeito da obra e dos prodígios dos apóstolos. Ananias e Safira. Segunda
perseguição (4,32-5,42).

4. Eleição dos diáconos helenistas; missão de Estêvão e seu martírio; terceira perseguição com a conseqüente dispersão
dos fiéis (6,1-8,3).

II parte (8,4-12,25). A mensagem evangélica na Judéia e na Galiléia, na Samaria e entre os -gentios, até Antioquia.

1. Missão de Filipe (confirmada por Pedro) entre os samaritanos e com o eunuco etíope (8,4-40).

3. Missão de Pedro na Judéia e entre os gentios, em Cesaréia (9,31-11,18).

4. A Igreja entre os gentios na Fenícia, Síria e Antioquia (11,19-30).

5. Quarta perseguição, morte de Tiago, prisão e libertação de Pedro, morte do perseguidor (12,1-25).

III parte (13,1-28,31). A mensagem evangélica no mundo greco-romano.

1. Primeira viagem apostólica de Paulo: na Ásia Menor (13,1-14,27).

2. Concílio de Jerusalém, que sanciona a independência em face da lei para os gentios (15,1-34).

3. Segunda viagem apostólica de Paulo: na Macedônia e na Grécia (15, 35-18,22).

4. Terceira viagem apostólica de Paulo: na Ásia Proconsular, na Grécia e na Macedônia, até ao Epiro (18,23--21,16).

5. Prisão de Paulo em Jerusalém e mensagem ao Sinédrio (21,17-23,11).

6. Prisão em Cesaréia e mensagem para Félix, Festo e Agripa (23,12-26,32).

7. Viagem até Roma, prisão e mensagem aos judeus e aos gentios (27,1-28,31).

Importância histórica e apologética

Grande é, sem dúvida, a importância do livro dos Atos na história primitiva das origens cristãs, como transparece já do
sumário acima. Traça Lucas um esboço compendioso, é certo, mas completo no seu gênero, da Igreja primordial na sua
hierarquia e na vida do dogma, da disciplina e do culto, como se desenrolava na primeira geração cristã, ainda repleta da
recordação imediata dos ensinamentos, das obras e dos preceitos do Mestre divino. Temos assim, na vida e no
pensamento dos primeiros seguidores de Jesus, o mais precioso reflexo e como que a contraprova da vida e do
pensamento dele e de sua mensagem de salvação, qual foi ouvida de sua boca e vivida pelos seus discípulos imediatos. Ê,
portanto, decisivo o valor apologético dessas resultantes históricas, confrontando-se as duas interpretações contrárias, a
católica e a racionalista, sobre a vida e o ensino de Jesus. Se o retrato que S. Lucas nos apresenta da primeira geração
cristã na vida da Igreja é autêntico, então são insustentáveis as posições negativas da crítica racionalista contra o
sobrenatural que se manifesta nos Evangelhos e nos Atos, e as suas pretensas afirmações sobre uma longa evolução da
primeira tradição cristã, em sucessivas fases e formas. Não resta outra solução senão afirmar que essa tradição continua
viva e imutável na duas vezes milenar tradição católica. Ê daí que surgem os acirrados ataques lançados pela corrente
adversária contra a autenticidade e a veracidade histórica do livro dos Atos.



Autor, valor histórico, finalidade e data do livro

As questões atinentes ao autor e ao valor histórico do presente livro acham-se interligadas de modo especial.

Quanto ao autor, por ser, evidentemente, o mesmo que o do terceiro Evangelho (cf. Lc 1,1-4 e At 1,1), valem as mesmas
razões já aduzidas na introdução àquele Evangelho, para identificá-lo com S. Lucas. Acrescentamos, porém, aqui uma
ainda mais direta e de autoridade maior. A certa altura (15,10), o próprio autor entra em cena, narrando os fatos com um
"nós", que o caracteriza como testemunha ocular e participante dos acontecimentos. E, deste modo, com verbos ou
pronomes na primeira pessoa se nos apresenta, de vez em quando, até ao fim. São as chamadas "seções do nós" (16,10-
17;20,5-15;21,1--18;27,1;28,16), tão discutidas entre os críticos, seções nas quais, como o restante do livro, apresentam
idênticas particularidades de vocabulário, de estilo, de composição, de expressões características, muitas vezes únicas no
Novo Testamento. O autor da obra deve ser procurado entre os companheiros de S. Paulo, mencionados como tais nos
Atos (por exemplo: 20,4) ou nas Epístolas do Apóstolo, entre os quais está Lucas (Col 4,14; 2Tim 4,11; Fim 24). Excluem-
se, no entanto, todos os outros por se acharem ausentes dos acontecimentos narrados em algumas dessas "seções do
nós", e porque de nenhum outro se sabe que tenha escrito a narração da vida inteira de Jesus como fez o autor dos Atos
(1,1), dedicando-a, além disso, a um mesmo "Teófilo".

Lucas busca, portanto, os fatos que narra nos Atos, na própria experiência pessoal ou segundo o seu programa traçado
(Lc 1,2), nos atores e espectadores dos fatos, fontes de primeira ordem e de credibilidade insuperável. Do mesmo valor
são também alguns documentos que ele insere textualmente na narração, como o "decreto apostólico" (15, 23-29) e a
carta de Lísias (23-26-30) que são uma confirmação do seu escrupuloso cuidado com a exatidão. Essa rigorosa exatidão é
confirmada pelas inscrições recentemente trazidas à luz, até nos mínimos particulares, como quanto à nomenclatura das
autoridades municipais (asiarcas, em Éfeso, 19,31; politarcas, em Tessalônica, 17,6; estrategistas, em Filipos, 16,20; o
"primeiro", em Malta, 28,7).

A finalidade que Lucas se propõe aparece já, como foi indicado anteriormente no título da obra, mas ainda mais nas
palavras de Jesus: "E me sereis testemunhas. . . até as extremidades da terra" (1,8). Narra Lucas, nos limites consentidos
por um livro destinado ao uso da época, a propagação da Igreja e suas fases sucessivas até sua extensão à capital do
império romano, através da obra daqueles que foram em todas as fases os seus principais artífices: os apóstolos Pedro e
Paulo e seus colaboradores. Em nada revela-se Lucas tendencioso em seu modo de falar. Simples, ágil e compreensivo,
deixa aos próprios fatos a incumbência de indicarem as conseqüências deles resultantes. De cada uma das páginas de sua
narração transparece que a finalidade é simplesmente a de relatar os acontecimentos relacionados com a vida da Igreja e
informar sobre a realização das disposições de Jesus a respeito da mesma Igreja, tudo a título de edificação e de
instrução religiosa, conforme o que o próprio Lucas afirma ao se dirigir ao Teófilo do seu outro livro, o terceiro Evangelho.
Finalidade idêntica para destinatário idêntico. Fixa-se como data da composição dos Atos antes do fim da prisão de dois
anos que S. Paulo sofreu em Roma, como se evidencia pela conclusão mesma do livro (28,30-31), isto é, nos anos 61-63.
INTRODUÇÃO ÀS EPÍSTOLAS DE SÃO PAULO
A parte mais importante e mais conspícua dos escritos apostólicos são as epístolas de S.
Paulo, inclusive pelo volume do texto, pois, sozinhas, constituem mais da metade desses
escritos, mas sobretudo pela profundeza e vastidão de doutrina teológica e pela
abundância de ensinamentos morais de que estão repletas.

São escritos ocasionais, como costumam ser precisamente as cartas; nasceram da
necessidade que o Apóstolo sentiu de intervir com a pena onde não podia chegar com a
voz, a fim de apaziguar litígios, dissipar dúvidas, aconselhar, aplicar remédio a
inconvenientes, dirigir e iniciar ao bem, segundo as situações originadas pela vida interna
das Igrejas por ele fundadas ou dependentes, de alguma maneira, da sua pregação. Mas
nessas contingências é tão grande a variedade de casos e sobretudo a abundância de
pensamentos e de afetos que afluem à mente e ao coração de Paulo, que se pode afirmar
que nas páginas inspiradas do Apóstolo se expande toda a substância da doutrina e da
moral cristã.

Conforme o uso dos antigos escritores, S. Paulo não escrevia de próprio punho as suas
cartas, mas ditava-as a algum amanuense profissional de sua confiança. Pelo menos de
uma (Rom 16,22) conhecemos o nome de quem a escreveu. Paulo punha, no fim, de seu
próprio punho, a assinatura, com algumas palavras de saudação ou bênção. Em toda a
antiguidade oriental, as cartas começavam sempre com a fórmula estereotipada: "Fulano
[remetente] e beltrano [destinatário] saudações" (temos exemplo disso em At 23,26). O
Apóstolo seguiu o uso corrente, mas em lugar da saudação ordinária introduziu o augúrio
cristão: "graça e paz", repetido também no fecho, em lugar do vulgar " ;Passe bem", e de
ordinário adornado com o nome de Jesus Cristo.

Do uso de ditar as cartas, que tomava tempo à reflexão, costumavam derivar defeitos de
composição de que um estilista como S. Jerônimo tão freqüentemente se desculpa. Esta
é a causa, pelo menos parcial, da aspereza não rara do estilo de S. Paulo, não obstante
saiba ele manejar egregiamente a língua grega do tempo. A maior parte, porém, dessa
aspereza (anacolutos, elipses, hipérbatos etc.) deve-se ao turbilhão das idéias que lhe
afluíam à mente e à profundidade e novidade dos pensamentos que buscavam uma
expressão própria. Nem sempre ê fácil a leitura dos escritos do grande Apóstolo, mas
com o estudo paciente, ruminando-os demoradamente, tira-se-lhes em abundância o
suco mais substancioso e ao mesmo tempo mais delicado.

As cartas de S. Paulo são dirigidas, em primeiro lugar, às Igrejas ou pessoas segundo as
quais são intituladas, mas ele próprio, o grande Apóstolo, já convidava à comunicação
dessas suas cartas de uma Igreja para outra (Col 4,16). As trocas deviam ser freqüentes
entre aquelas comunidades fervorosas que ele fundara. Destarte foram-se formando
várias coleções das epístolas paulinas, que acabaram confluindo no epistolário paulino
admitido no cânon de todas as Igrejas e que chegou até nós. Esse cânon não
compreende a totalidade das cartas que se originam do Apóstolo. Na 1Cor 5,9 há notícias
de uma epístola anterior, cujos vestígios se perderam totalmente; entre a primeira e a
segunda carta aos mesmos coríntios, intercalou-se, como opinam autores de renome,
outra ainda. Além disso, a epístola aos laodicenses, mencionada em Col 4,16 não se
identifica com a dos efésios (veja Introdução a esta), deve-se dizer que também essa se
perdeu.
INTRODUÇÃO À EPÍSTOLA AOS ROMANOS

Entre todas as epístolas que nos restam do apóstolo Paulo, esta, escrita aos romanos, ocupa no consenso
universal, o lugar mais eminente. Com ampla visão, com vigor de pensamento, de estilo, ele expõe nesta
epístola o Evangelho de Cristo, que, já por longos anos, vem pregando em suas viagens missionárias pelo
mundo greco-romano: o fiel, seja pagão seja judeu, com a fé no Evangelho participa da justiça de Deus,
justiça que nele vai crescendo sem cessar, tornando-se sempre mais perfeita (cf. 1,16).
Desenvolve o Apóstolo a sua tese com demonstração progressiva e bem concatenada, na qual não procede à
maneira de mestre especulativo, frio e sistemático, e sim, na própria exposição doutrinal, revela o seu caráter
ardente, a sua aguda sensibilidade, o seu coração que vibra de entusiasmo por Cristo, a sua inteligência
exuberante de idéias que fluem numa seqüência rápida e como que a se atropelarem. Nada há de mais pessoal
do que as epístolas de S. Paulo.
Na Epístola aos Romanos não trava polêmicas, nem pretende refutar algum erro em particular ou combater os
costumeiros judaizantes, que lhe criavam obstáculos à pregação. Parte notável da comunidade cristã de Roma
compunha-se de cristãos oriundos do paganismo. Muitos dentre eles, escravos ou libertos, eram de condição
servil. Alguns pertenciam a classes mais elevadas. Havia, outrossim, certo número de judeus convertidos.
Paulo dirige-se, por esse motivo, de modo especial aos fiéis de proveniência judaica, mas com facilidade passa
de um a outro grupo.
Dispôs a Providência que Paulo, quando prisioneiro, apelasse para César, na presença do governador Festo (At
25,12), razão por que foi remetido para Roma, algemado, onde permaneceu durante dois anos completos,
dando testemunho de Cristo (At 28,30-31). Dessa forma, teve ele, juntamente com S. Pedro, a honra de ser
fundador da Igreja de Roma.
A Epístola aos romanos foi escrita em Corinto, como se pode concluir de muitos indícios, mesmo que se não
tome em conta o c. 16. Dirigira-se o Apóstolo para essa cidade, passando pela Macedônia, depois do levante
provocado contra ele pelos ourives efésios (At 19,21--20,1). Encontrava-se, nesse tempo, já em preparativos
para seguir a Jerusalém, a fim de levar as esmolas coletadas pelas Igrejas da Acaia e pelas da Macedônia, que
se destinavam aos pobres daquela comunidade cristã. Deve-se, portanto, fixar como data para essa carta o fim
da terceira missão apostólica e, com toda a probabilidade, os primeiros meses do ano 57, antes da Páscoa.
Não obstante haja sido negada por alguns hiper críticos, a autenticidade manifesta da Epístola aos Romanos já
não comporta discussão, pois os argumentos extrínsecos, e intrínsecos são tantos, que sua demonstração
alcança plena evidência.

Sumário
Introdução (1,1-17). Cabeçalho (1, 1-7). Paulo e a Igreja de Roma (1,8-15). Tema da epístola: a salvação para
todos consiste em ter fé no Evangelho (1, 16-17).

I parte, dogmática (1,18-11,36).

I. NECESSIDADE DO EVANGELHO PARA A JUSTIFICAÇÃO (1,18-4,25).
1. Sem fé em Jesus Cristo não há salvação (1,18-3,20). Os pagãos, privados da fé, descambaram, por própria
culpa, para as mais abomináveis aberrações (1,18-32). Mas os judeus, ainda que se gloriem da lei, são
pecadores como os pagãos (2,1-16); transgridem a lei e não têm o espírito da circuncisão (2,17-29).
Conseqüentemente, todos os homens, tanto pagãos como judeus, são pecadores (3,1-20).
2. A justificação por meio da fé em Jesus Cristo (3,21-4-25). Quem crê, é justificado gratuitamente, sem as
obras da lei (3,21-31). Essa verdade foi ensinada pela lei e pelos profetas. Exemplo de Abraão, justificado por
meio da fé, e não mediante a lei, nem pela circuncisão (4,1-25).

II. FRUTOS DA JUSTIFICAÇÃO (CC. 5-8),
1. Paz e reconciliação com Deus e esperança certa da glória futura (5,1-11), Adão, com sua desobediência, foi
causa de pecado para todos (5,12-21).
2. Libertação da escravidão do pecado mediante o batismo. Mortos para o pecado, devemos viver para Deus
(c 6).
3. Libertação da escravidão da lei, que era ocasião de pecado para o homem privado da graça, pois ela levava
a conhecer o mal, sem que proporcionasse a força para o evitar (c. 7).
4. Filiação adotiva concedida por Deus e herança certa da vida eterna (8,1-30). Hino final ao amor de Cristo
(8,31-39).

III. PROBLEMA DA INCREDULIDADE DOS JUDEUS (CC. 9,11) .
1. Tristeza do Apóstolo (9,1-5). Deus não falhou em suas promessas, nem pode ser acusado de injustiça (9,6-
18). Há um mistério em sua maneira de agir, mistério que para nós é impenetrável. Deus é senhor de seus
dons (9,19-29).
2. Os judeus são responsáveis por sua reprovação, porque não quiseram compreender que a salvação está na
fé em Jesus Cristo, anunciado através do Evangelho (9,30-10,21).
3. A reprovação dos judeus é parcial e temporária (11,1-24); também eles hão de se converter, quando tiver
chegado a seu termo a conversão dos pagãos (11,
25-32). Hino à sabedoria, bondade e onipotência de Deus (11,33-36).

II parte, moral (cc. 12,1-15,13).

1. Deveres dos cristãos em suas relações recíprocas, fundadas sobre a vontade de Deus e reguladas por ele
(c. 12).
2. Deveres para com as autoridades (13,1-7). O mandamento da caridade, resumo de todos os deveres sociais
(13, 8-10). Exortação à vigilância (13,11-14).
3. Deveres para com os cristãos fracos na fé (14,1-15,13).

Epílogo: Intenção de Paulo (15,14--33). Recomendações e saudações (16, 1-24). Doxologia final (16,25-27).
PRIMEIRA EPÍSTOLA AOS CORÍNTIOS

Como hábil general, o Apóstolo procura os pontos mais estratégicos de onde, como de centros, se pudesse
irradiar a luz do Evangelho. Por isso, na sua segunda viagem missionária deixa Atenas, onde a vã e soberba
sabedoria humana era refratária à pregação do cristianismo, e parte para Corinto.

Corinto era a capital da província romana da Acaia. Isso devido à sua admirável posição, dominadora de dois
mares, às letras e às artes, e sobretudo ao comércio e às riquezas que para lá afluíram da Itália e da Ásia. Era
cidade muito florescente e importantíssima, freqüentada, especialmente por causa do comércio, por gente de
todos os países, de todas as raças e de todas as camadas sociais. Havia também numerosos judeus que
tinham aí também, como em outras cidades, pelo menos uma sinagoga. Corinto era proverbialmente conhecida
por sua corrupção moral. Na Acro corinto, ao lado do culto de Isis e de Serápis, praticava-se o culto de Vênus
Afrodite, que tinha aí o seu templo. Mil jovens sacerdotisas, cortesãs complacentes, eram adidas ao serviço da
deusa do prazer.

No meio dessa grande população tão variada, constituída sobretudo de escravos e da plebe, Paulo deu início à
sua pregação, como costumava fazer, na sinagoga dos judeus, mas entrando em graves dissensões com eles,
dirigiu-se aos gentios (At 18,6). Sua pregação foi coroada de grande êxito.

Na terceira viagem missionária, o Apóstolo fixou sua residência particularmente em Éfeso, capital da província
romana da Ásia. Mas, como um pai solícito pelas comunidades cristãs que fundara, mantinha-se sempre
informado a respeito do seu estado, procurando ir ao encontro das suas dificuldades e mantê-las no fervor
primitivo. Haviam surgido divisões entre os cristãos de Corinto: partidos mais inclinados a um do que a outro
pregador do Evangelho.

Entretanto, uma delegação da mesma comunidade de Corinto, composta de Estéfanas, Fortunato e Acaio, foi a
Éfeso, a fim de pedir a Paulo a solução de vários casos de consciência (cf. 16,17, nota).

Foi esse conjunto de circunstâncias que motivou a primeira Epístola aos coríntios.

Nela Paulo trata dos mais variados argumentos, começando, na primeira parte, por corrigir os abusos, para, na
segunda, responder aos quesitos que lhe foram propostos. Mas como sempre costuma fazer, eleva-se de
questões particulares a princípios e motivos gerais e sublimes, aos fundamentos da religião, ou melhor, pode-
se dizer que une quase todas as questões, embora tão disparatadas, com o fio de ouro da doutrina do corpo
místico, do qual Jesus é a cabeça e os cristãos são os membros.

A esta epístola conferem um interesse todo particular as preciosas notícias que nos oferece acerca da vida da
Igreja apostólica a respeito da celebração do ágape e dos mistérios sagrados e a respeito dos dons
carismáticos. Foi escrita em Éfeso, pouco depois das festas pascais (5,7), na primavera do ano 56, ou mais
provavelmente do ano 57, poucos meses antes de o Apóstolo deixar a cidade (cf. 16,8).

Sumário

Saudação augurai (1,1-3) e agradecimento a Deus pelos benefícios que lhes concedeu (1,4-9).

I parte - reprovação dos abusos (1, 10-6,20).

1. Partidos que se formaram com relação aos diversos pregadores do Evangelho (1,10-17). Paulo pregou a
doutrina da cruz com simplicidade, em oposição à sabedoria humana, que é contrária à sabedoria divina (1,18-
2,11); ele a anuncia aos perfeitos e aos espirituais, e não aos carnais (2,12-3,4). Os pregadores são
colaboradores de Deus, dispensadores dos seus mistérios, sujeitos ao juízo divino (3,5-4,5). Exorta a
corresponder generosamente às fadigas dos apóstolos e ao afeto paterno dele, Paulo (4,6-13), e anuncia o
envio de Timóteo e a sua própria ida (4,14-21).

2. A tolerância para com o incestuoso: censura por esse procedimento e excomunhão do escandaloso (5,1-8);
como proceder com os pecadores públicos (5,9-13).

3. Os litígios entre os cristãos e o recurso aos tribunais pagãos (6,1-11).

4. O vício impuro (6,12-20).
II parte - resposta â diversas questões (cc.7-15).

1. Matrimônio e celibato: legitimidade do matrimônio e direitos dos esposos (7,1-11); indissolubilidade do
vínculo conjugal (7,1-14); caso de dissolução (7,15-17); circuncisão e escravidão (7,18-24); virgindade e
viuvez (7,25-40).
2. As carnes imoladas aos ídolos: normas a serem seguidas, tendo-se em conta os fracos na fé, para evitar
todo o escândalo (c. 8); é preciso saber renunciar às coisas lícitas, às quais se tem direito (c. 9), e evitar atos
idolátricos (10,1-13); casos práticos (10,14-11,1).
3. Ordem nas assembléias litúrgicas: as mulheres usem o véu (11,2-16); abusos a se evitarem na celebração
do ágape e dos mistérios sagrados (11,17-22); a instituição da eucaristia (11,23-34).
4. Os carismas e seu uso: noções gerais sobre os carismas (12,1-30); a caridade é superior a eles (12,31-
13,13); deve-se preferir o dom da profecia ao da glossolalia (14,1-25); regras que se devem seguir (14,26-
40).
5. A ressurreição dos mortos: certeza da ressurreição de Cristo, à qual está ligada indissoluvelmente a nossa
ressurreição (15,1-34); o modo da ressurreição explicado com analogias tomadas das coisas materiais (15,35-
49); a transformação dos corpos não é só possível, mas necessária (15,50-58).

Epílogo: o Apóstolo lembra a coleta pelos pobres de Jerusalém (16,1-4); anuncia seu projeto de uma viagem
à Macedônia e à Grécia (16,5-12); recomendações particulares (16,13-18); saudações (16,19-20); assinatura
autografa e votos (16,21-24).
SEGUNDA EPÍSTOLA AOS CORÍNTIOS

Cerca de seis meses após a primeira Epístola aos coríntios seguiu esta segunda, ocasionada pela mudança de condições na
Igreja de Corinto. Como transparece de um exame atento dos textos das duas epístolas, os acontecimentos ter-se-iam
desenrolado, com toda a probabilidade, da seguinte maneira:

Tendo aparecido em Corinto inovadores judaizantes, contrários ao Apóstolo, lançam a agitação no seio dessa comunidade, e
Paulo vai a Corinto, numa breve visita, a fim de restabelecer a paz (12,14; 13,1-2); essa visita deixa-lhe a alma amargurada por
uma ofensa que um cristão faz à sua própria pessoa (2,5;7,12).

Voltando a Éfeso, ele escreve aos coríntios (2,3-4.9;7,8.12) uma carta enérgica e severa, que se perdeu (não é a 1Cor, que é
calma e tranqüila).

Entrementes, envia Tito com a missão de restabelecer a paz na Igreja de Corinto e conseguir um relatório fiel do seu estado e
dos sentimentos dos cristãos para com ele. Sobrevindo inesperadamente o violento tumulto dos ourives de Éfeso contra ele (At
19,23-40), Paulo parte e, antes do tempo que ele mesmo havia estabelecido, dirige-se para Trôade, onde marcara encontro com
Tito. Não o tendo encontrado aí, passa para a Macedônia, onde, finalmente, encontra Tito, que lhe transmite as mais
consoladoras notícias. Assim consolado, o Apóstolo reenvia Tito a Corinto, com a finalidade de organizar a coleta em favor dos
pobres de Jerusalém. Entrementes escreve, talvez de Filipos, no fim de sua terceira viagem missionária, no ano de 57, a
primeira e a segunda parte da segunda epístola, que possuímos.

Serenara o céu em Corinto, mas ainda havia nuvens escuras, cheias de tempestade: os judaizantes, depois da partida de Tito,
haviam retomado a sua campanha de acusações e de calúnias contra Paulo, a fim de o enxovalhar e tolher-lhe a autoridade. O
Apóstolo foi informado prontamente a esse respeito; retoma sua epístola e, numa terceira parte, ataca os seus adversários, os
falsos apóstolos, os ministros de satanás, como ele os chama, com o máximo vigor.

Esta segunda epístola aos coríntios é a mais pessoal dentre as epístolas paulinas. Nela sente-se vibrar mais intensamente os
diversos sentimentos que agitam o espírito tão sensível de Paulo. "Paulo não escreveu nada de mais eloqüente, nada de mais
comovente, de mais apaixonado do que esta epístola. A tristeza e alegria, o temor e a esperança, a ternura e o desdém vibram
nela com a mesma energia" (F. PRAT).

Já na primeira parte encontram-se algumas amostras polêmicas contra seus adversários, aos quais ataca depois com todas as
forças, na terceira parte, talvez por causa das notícias que recebera de Corinto enquanto ditava a carta, trabalho esse que devia
durar muitos dias ou mesmo várias semanas.

Não existem, pois, razões bastante plausíveis para pôr em dúvida a sua integridade, como querem alguns críticos modernos, e
fazer da segunda Epístola aos coríntios um mosaico variegado, formado de várias cartas escritas pelo Apóstolo.

A primeira Epístola aos coríntios faz--nos reviver grande parte da vida cristã da Igreja primitiva; a segunda é uma expressão
prática da vida do Apóstolo, inteiramente consagrada à causa de Jesus Cristo e ao bem dos seus fiéis, e movido unicamente por
motivos sobrenaturais.

Sumário

Cabeçalho e saudação (1,1-2). Ação de graças a Deus pelas consolações que lhe concedeu, para poder consolar também os
outros (1,3-11).

I parte - Apologia do próprio ministério (1,12-7,16).

1. Paulo defende-se da acusação de mutabilidade e de inconstância, e de habilidade demasiado humana (1,12-2,17).
2. Defende-se da acusação de arrogância e de orgulho, com a glorificação do ministério apostólico (3,1-6,10).
3. Exorta a corresponder ao seu amor, a evitar os vícios dos gentios (6, 11-7,16).

II parte - Disposições para a coleta (8,1-9,15).

1. Motivos para se mostrarem generosos (8,1-15).
2. Recomenda Tito e os demais delegados (8,16-24).
3. Grandes benefícios provenientes da esmola (9,1-15).

III parte - Defende-se de seus adversários (10,1-13,10).

1.   Responde à acusação de debilidade (10,1-11).
2.   Responde à acusação de ambição (10,12-18).
3.   Depois de ter pedido desculpas, vê-se constrangido a enumerar os seus títulos de glória (11,1-12,18).
4.   Apreensões e inquietações (12, 19-13,10).

Epílogo: Recomendações, saudações, votos finais (13,11-13).
EPÍSTOLA AOS GÁLATAS

Quem são os gálatas? Quando foi escrita a Epístola aos gálatas? São duas questões conexas, discutidas ainda em nossos dias,
sem que se lhes possa dar uma solução plena e evidente.

No tempo de Paulo, a palavra Galácia tinha dois sentidos: 1º etnográfico, significando a Galácia propriamente dita, habitada
pelos descendentes dos gauleses que na segunda metade do século III a.C. foram levados, na sua migração, até à Ásia Menor e
haviam fixado a sua sede nas regiões sitas entre a Capadócia e o Ponto; 2° administrativo, significando a província romana da
Galácia que, além da Galácia propriamente dita, compreendia também várias regiões da Ásia Menor, ao norte da Paflagônia, e
parte do Ponto, ao sul da Pisídia, a Licaônia e parte da Frigia.

Quem são, portanto, os destinatários da carta aos gálatas? Os gálatas propriamente ditos? Ou os gálatas da província romana da
Galácia? Ou ainda exclusivamente os da parte meridional?

É certo que estes últimos, os meridionais, foram evangelizados por S. Paulo na sua primeira viagem apostólica, narrada com
certa amplitude em At 13, 13-14,25, mas sem alusão alguma à enfermidade a que se refere o próprio Paulo nesta epístola (Gál
4,13). Nas narrações da segunda e da terceira viagem (At 15,35-21,15), não se diz sobre a Galácia, senão que Paulo
"atravessou [ou percorreu; cf. 15,41] a Frigia e a região galática" (16,6; 18,23). Qualquer seja a amplitude ou restrição que se
queira emprestar a essa expressão geográfica, nem por isso fica claro que nessa "travessia" o Apóstolo haja fundado aí novas
Igrejas. Apesar disso, a maioria dos intérpretes modernos pensa que os gálatas da presente epístola sejam os setentrionais da
Galácia estritamente dita. Menos numerosos, mas não de menor autoridade, são os que se decidem pela parte meridional da
Galácia romana. Cf. Gál 2,1-2.

O motivo da carta foi o seguinte: Alguns cristãos vindos do judaísmo e muito apegados às práticas legais, introduziram-se nas
Igrejas da Galácia, sustentando que a circuncisão e outras práticas da lei eram necessárias a todos para se salvarem e serem
herdeiros das promessas messiânicas (cf. At 15,1). Era distorção do genuíno Evangelho de Cristo que Paulo pregava. Aqueles
turbulentos, para insinuarem com mais segurança os seus erros, afirmavam que Paulo não era verdadeiro apóstolo, por não ter
recebido a missão diretamente de Cristo; que estava em desacordo com os verdadeiros apóstolos e que era um oportunista que
andava à procura unicamente de favores dos homens.

Sob os embates dessa violenta tempestade, a fé daquela jovem cristandade corria o perigo de naufragar miseravelmente. Paulo
não tardou a vir em auxílio dos seus queridos gálatas, para sustentá-los na fé, escrevendo a epístola na qual refuta as acusações
que levantaram contra ele e expõe a verdadeira doutrina.

O ponto fundamental dessa epístola, a inutilidade da lei para a justificação e salvação cristã, é também o objeto da primeira
parte da epístola aos romanos (cc. 1-4) e, portanto, a epístola aos gálatas está bem colocada antes e junto da dos romanos,
sem prejuízo da distância de tempo existente entre uma e outra: um ano no máximo, se a presente epístola foi dirigida à Galácia
setentrional; de cerca de seis ou sete na opinião contrária mencionada acima.

A autenticidade da Epístola aos gálatas, impugnada apenas por alguns críticos racionalistas radicais, não pode ser razoavelmente
posta em dúvida, tantos são os argumentos internos e os documentos que a comprovam.

Sumário

Cabeçalho e saudações (1,1-5); o Evangelho pregado aos gálatas é o verdadeiro Evangelho de Cristo (1,6-10).

I parte - apologética: Paulo reivindica a sua autoridade apostólica (1,11-2,21).

1. Recebeu a sua missão diretamente de Cristo (1,11-12).
2. O seu Evangelho foi aprovado por Pedro (2,1-10).
3. O incidente de Antioquia: Paulo defende a sua doutrina perante Pedro (2,11-21).

II parte - dogmática: a justificação obtém-se mediante a fé e não mediante as obras (3-4).

Paulo demonstra essa verdade:

1. pela experiência dos gálatas (3, 1-5);
2. pela Sagrada Escritura: o exemplo de Abraão (3,6-14);
3. pela natureza da lei e da promessa (3,15-18);
4. pelo fim da lei que era como um pedagogo para conduzir os homens a Jesus Cristo (3,19-4,11). Exortação com efusão do
coração (4,12-20).

5. Inutilidade da lei (4,21-31).

III parte - moral: (5,1-6,10).

1. Deve-se conservar a liberdade que Jesus Cristo nos deu (5,1-12).

2, Os fiéis devem praticar a virtude, a abnegação, a caridade, a beneficência (5,13-6,10).
Epílogo: Paulo retoma de próprio punho a parte polêmica e moral (6,11-16); saudações e bênção (6,17-18).
EPÍSTOLA AOS EFÉSIOS

A Carta aos efésios não possui o desenvolvimento e o tom de uma carta íntima e familiar, como aquela aos Filipenses, nem o
Apóstolo combate, com o vigor e o arrojo que lhe são próprios, alguns erros particulares, como nas cartas aos gálatas e aos
coríntios. Excetuando-se algumas fórmulas convencionais, faltam a essa carta as costumeiras saudações a pessoas particulares e
as notícias pessoais do Apóstolo, encontradas nas demais cartas e que não deveriam faltar numa carta dirigida à comunidade de
Éfeso, onde Paulo havia trabalhado e sofrido diversos anos. Ao que parece (cf. 1,15;3,2), ela foi escrita a cristãos que o Apóstolo
não conhecia pessoalmente. Por outro lado, podemos assiná-la com certeza a um determinado período da vida de S. Paulo, isto
é, ao período do primeiro cativeiro romano, quando escreveu a Carta aos Colossenses. Efetivamente, possui muitos pontos de
contato e grandes analogias com esta última, quer pelo tema tratado, quer pelo estilo e pelo vocabulário. Col, nalguns pontos de
doutrina, é o esboço de Ef. Querendo oferecer um quadro completo de doutrina em torno de Cristo, o Apóstolo, depois de indicar
(1,10,21-22) o primado de Jesus Cristo, assunto já desenvolvido em Col 1,15-24, retoma e desenvolve amplamente dois temas
tratados brevemente em Col: antes de mais nada "o arcano", isto é, a universalidade da salvação, não reservada exclusivamente
aos judeus, mas oferecida também aos gentios, em Cristo Jesus, e a seguir a verdade da Igreja, corpo místico de Cristo, do qual
ele é a cabeça. Destas verdades, o Apóstolo deduz conseqüências práticas de ordem moral.

Evidentemente, as duas cartas foram ditadas por Paulo com breve intervalo de tempo e foram confiadas ao mesmo portador,
Tíquico (cf. 6,21-22; Col 4, 7,9).

Cumpre, portanto, concluir que a Carta aos efésios nada mais é do que uma carta pastoral encíclica, destinada às comunidades
cristãs da província da Ásia, com o objetivo de instruí-las sobre pontos importantes de doutrina. Ela deve ter tomado o nome de
"Carta aos efésios" da igreja-mãe e mais ilustre, talvez porque foi entregue a esta em primeiro lugar por Tíquico. Alguns críticos
modernos pretendem ver nesta a carta que Paulo diz (em Col 4,16) ter enviado à Igreja de Laodicéia. Mas, em tal hipótese, o
Apóstolo, como fez em Col, teria dado suas notícias pessoais aos laodicenses e não teria deixado de acrescentar as saudações de
praxe. Ademais, como explicar o título de uma carta "aos efésios", afirmado por documentos antigos, ao passo que somente o
herege Marcião, segundo expressão de Tertuliano (Adv. Mare, v, 7), diz que foi escrita aos laodicenses? A carta foi escrita em
Roma, pelos fins da primeira prisão romana, e não durante a primeira detenção em Cesaréia, como sustentam alguns críticos
modernos.

A autenticidade de Ef, negada por alguns críticos acatólicos, é resolutamente mantida e defendida por numerosos outros críticos,
também não católicos. Tem a seu favor o peso unânime dos testemunhos da antigüidade cristã inteira. Igualmente o estilo, o
vocabulário, próprios do Apóstolo e, acima de tudo, a doutrina do corpo místico, a qual já emerge em cartas precedentes e é
magistralmente desenvolvida em Ef, oferecem-nos a marca inconfundível de S. Paulo. Ê mister repelir decididamente a hipótese,
avançada por alguns, de que Ef seja um mosaico marchetado de textos autênticos do Apóstolo e de observações de estranhos.
Basta examinar o nexo lógico do pensamento, que se desenvolve progressivamente conforme o plano estabelecido, e o estilo
inteiramente próprio do Apóstolo.

Sumário

Cabeçalho e saudação aos destinatários (1,1-2).

I parte, dogmática: o divino arcano da nossa união com Cristo (1,3-3,21).

1. Arcano decretado por Deus desde a eternidade. Ê a nossa filiação adotiva para com Deus pela nossa união em Cristo (1,3-6);
Jesus Cristo nos mereceu esta filiação com o seu sangue (1,7-8); vocação dos judeus e chamada dos gentios, que o Espírito
Santo confirma com seus dons (1,9-14).
2. Arcano realizado na Igreja. Jesus Cristo é a cabeça da Igreja, que é o complemento dele (1,15-23); chamada dos gentios e
dos judeus à salvação por meio de Cristo, que os reconcilia num só corpo e os reúne num só edifício espiritual (2,1-22).

3. Arcano revelado. Paulo recebeu a missão de anunciar a universalidade da salvação em Jesus Cristo (3,1-13) e suplica a Deus
que os fiéis possam compreender a sua imensa caridade (3, 14-19). Doxologia (3,20-21).

II parte, moral (4,1-6,20).

1.   Virtude principal da vida cristã: caridade na unidade, pureza de vida (4,1-24).
2.   Advertências gerais a todos os cristãos (4,25-5,20).
3.   Deveres dos membros da família cristã (5,21-6,9).
4.   A armadura do cristão (6,10-20).

Epílogo: missão de Tíquico (6,21-22); saudação (23-24).
EPÍSTOLA AOS FILIPENSES
S. Paulo levou a luz do Evangelho a Filipos na sua segunda viagem missionária (anos 50-53). Depois de ter confirmado na fé as
Igrejas fundadas na sua primeira missão, Paulo nutria o desejo de passar para a Bitínia, juntamente com Silas e Timóteo; mas
uma revelação divina conduziu-o a Trôade, onde, em visão, lhe foi mostrado um macedônio implorando o seu auxílio (At 16,9).
Deus chamava-o a um novo e vasto campo de apostolado no continente europeu.

Aportou em Neápolis, hoje Kavala, de onde seguiu para Filipos, acompanhado pelos seus colaboradores, aos quais se unira
também Lucas (At 16,10). Este último, testemunha ocular, narrados com cores vivas a pregação apostólica, os frutos das
conversões, os incidentes extraordinários ocorridos, a prisão de Paulo e Silas, seus sofrimentos e a libertação milagrosa.

A Igreja de Filipos perseverou sempre firme na fé afeiçoada a Paulo, e ocupou o primeiro lugar no seu coração de pai. Visitou-a
outras vezes, mais provavelmente quando, depois dos tumultos de Éfeso, passou para a Macedônia com destino à Grécia e,
depois, no seu retorno (At 20,1-6), e quase certamente após a sua primeira prisão em Roma (1Tim 1,3). Paulo, que jamais
aceitou ajuda das outras Igrejas, abriu uma exceção para a Igreja de Filipos, aceitando suas ofertas (4,16; 2Cor 11, 8-9). Assim
quiseram proceder os Filipenses quando tiveram notícia de que o Apóstolo se encontrava preso por Cristo, e lhe envia um
representante, Epafrodito, para levar-lhe os seus presentes e assisti-lo no cárcere. Recuperando-se Epafrodito de uma grave
enfermidade e devendo retornar a Filipos, Paulo fê-lo portador de uma carta para essa comunidade cristã.

Essa Carta aos Filipenses foge ao ciclo das demais cartas paulinas e possui uma fisionomia inconfundível. Nela, Paulo não é tanto
o doutor e o mestre, quanto o pai, a entreter-se afavelmente com seus caros neófitos; comunica-lhes suas notícias, exorta-os à
virtude, propondo-lhes o exemplo de Jesus Cristo, previne-os contra os falsos irmãos e agradece-lhes a afetuosa generosidade. É
a leitura da alegria cristã a transbordar do coração de Paulo prisioneiro, desejoso de transfundi-la no coração dos seus cristãos.

A autenticidade da Carta aos Filipenses é hoje admitida pela totalidade dos críticos, comprovada por todos os testemunhos
extrínsecos e, acima de tudo, pelos caracteres paulinos intrínsecos, in-controvertíveis, que tornam impossível a hipótese de uma
falsificação.

Foi escrita durante a primeira prisão romana, conforme a opinião tradicional, e inexistem razões plausíveis para afastar-se dela a
fim de atribuí-la a uma suposta prisão em Éfeso. As alusões ao "pretório" (1,14) e à "casa de César" (4,22) entendem-se
perfeitamente dentro da opinião tradicional. De resto (e isso parece decisivo), os Atos, que se estendem amplamente sobre os
acontecimentos de Éfeso, não aludem sequer longinquamente à pretensa prisão de Paulo, que, ademais, deveria ter sido
prolongada, como se depreende da nossa carta.

Filipenses tem grande valor apologético, levando-nos a apalpar o poder transcendente da mensagem de Cristo, anunciada pelos
apóstolos, que em tão breve tempo transformou aqueles pagãos e os uniu a Cristo e entre si com um vínculo indissolúvel de
caridade; leva-nos a conhecer o fervor daquela comunidade, que tem por fundamento a fé em Cristo Jesus e por norma
constante de vida os seus ensinamentos e os seus exemplos.
EPÍSTOLA AOS COLOSSENSES
Colossas, cidade da Frigia, situada no vale do Lico, floresceu bastante antes de Cristo; depois decaiu por causa da prevalência
das duas cidades vizinhas: Hierápolis e Laodicéia; atualmente restam apenas poucas ruínas e, quiçá, ter-se-ia até olvidado o seu
nome, se a epístola de S. Paulo não a houvesse celebrizado.

A Igreja de Colossas não foi fundada nem visitada pelo Apóstolo (1,4-9; 2,1). Fundou-a Epafras, "um dos vossos", um gentio
convertido à fé pelo Apóstolo (cf. 4,12 em oposição a 11), quando se encontrava em Éfeso, no decurso de sua terceira viagem
apostólica.

A comunidade de Colossas era formada, em grande parte, por étnico-cristãos, se bem que não faltassem convertidos entre os
hebreus, numerosos no vale do Lico. Era uma comunidade fervorosa e bem instruída na fé, como resulta claramente desta carta;
mas rondava-a um grande perigo proveniente de algumas doutrinas errôneas, que começavam a serpear entre os cristãos,
disseminadas por falsos doutores. Paulo, informado da situação de Igreja de Colossas por Epafras, que viera visitá-lo na prisão,
escreveu aos Colossenses, subordinados à sua jurisdição e muito afeiçoados a ele, com o objetivo de precavê-los contra os erros
então incipientes: culto de seres espirituais intermediários entre

Sumário

Cabeçalho (1,1-2) e ação de graças a Deus pelos benefícios concedidos aos Filipenses (1,3-11).

Corpo da carta (1,12-4,9).

1.   Notícias pessoais: a prisão de Paulo e a pregação do Evangelho (1,12-17); seus sentimentos (1,18-26).
2.   Exortação à caridade e à humildade (1,27-2,4), a exemplo de Jesus Cristo (2,5-11), e ao fervor (2,12-18).
3.   Missão de Timóteo e de Epafrodito (2,19-30).
4.   Advertências contra os judaizantes (3,1-11) e exortação à perfeição (3, 124,1) e à paz (4,2-9).

Epílogo: Agradecimento pelos presentes recebidos (4,10-18) e saudações finais (4,19-23).

Deus e o homem, que Paulo chama de "anjos" (2,18), como se Jesus não fora o único mediador; restrições nas comidas e nas
bebidas; observância de festas anuais, de novilúnios e de sábados. Paulo alude ainda à circuncisão, talvez recomendada pelos
inovadores, embora não imposta.

É assaz difícil determinar a natureza desses erros combatidos por S. Paulo, mas pode-se afirmar, com toda a probabilidade, que
são derivações do judaísmo. Inexistem razões para recorrer aos germes do gnosticismo, desenvolvido mais tarde, no século II,
para encontrar a origem de tais erros. Existiam, efetivamente, então, seitas judaicas fortemente propensas a um ascetismo
rígido e a idéias errôneas sobre as hierarquias angélicas; seitas que facilmente encontraram adeptos também na Frigia, cujos
habitantes eram inclinados a cultos mistéricos. A tais erros, o Apóstolo opõe um esplêndido quadro sintético de Jesus Cristo e da
sua obra, não apenas sob o aspecto soteriológico, mas também cósmico. Jesus detém o primado sobre a criação inteira, da qual
é a causa eficiente, exemplar e final, e com a redenção por ele efetuada restaura no universo a ordem querida pelo Criador.

É uma das mais belas páginas do epistolário paulino, brotada do seu coração pleno de amor pelo seu Mestre: e é ainda o ponto
culminante do seu pensamento em torno da obra salvífica de Jesus Cristo.

A carta, segundo opinião tradicional, foi escrita em Roma por volta do fim da primeira prisão romana (ano 63), juntamente com
a Carta aos efésios e o bilhete a Filêmon, e, confiada a Tíquico, o "ministro fiel" (4,7), encarregado de fazê-la chegar aos
destinatários. Deve ser descartada sem hesitação a hipótese de ter sido redigida durante uma suposta prisão em Éfeso, à qual os
Atos não fazem a mínima referência. Tampouco são suficientes as razões de alguns críticos protestantes, ao lado de alguns
católicos, para atribuí-la ao tempo da prisão em Cesaréia (anos 57-59).

A autenticidade da Carta aos Colossenses é hoje admitida pela quase totalidade dos críticos, inclusive protestantes e
racionalistas. Ela tem, para aboná-la, o peso de toda a tradição cristã, e o próprio exame da carta, no que tange do vocabulário
e ao estilo, atesta sua origem paulina. Algumas particularidades explicam-se facilmente pela diversidade do argumento e dos
conceitos a exprimir.

Sumário

Introdução (1,1-14), cabeçalho (1,1--2), ação de graças a Deus pelo progresso dos Colossenses (1,3-8) e oração para o porvir
(1,9-14).

I parte, dogmático-polêmica (1,15-2, 23):

1. Preeminência de Jesus Cristo, filho de Deus, cabeça do universo criado, cabeça da Igreja (1,15-20). Ele nos reconciliou com
Deus mediante o seu sangue (1,21-24).
2. Paulo é o Apóstolo dos gentios e cumpre o seu ministério também para as igrejas da Ásia (1,25-2,5).
3. Contra os falsos doutores: em Cristo habita a plenitude da divindade e dele somente vem a salvação em tudo (2,6-15);
conseqüências práticas para os Colossenses (2,16-23).
II parte, moral (3,1-4,6).

1. Os cristãos, unidos e incorporados em Cristo, devem levar uma vida de virtude e de santidade (3,1-17).
2. Deveres mútuos dos esposos, dos pais e dos filhos, dos escravos e dos patrões (3,18-4,1).
3. Deveres de oração, especialmente por Paulo, e de apostolado (4,2-6).

Epílogo: missão confiada a Tíquico (4,7-9), saudações (4,8-15), recomendações (4,16-17), assinatura autografa (4, 18).
PRIMEIRA EPÍSTOLA AOS TESSALONICENSES

Com as marcas de sangue e os vergões nos membros, produzidos pelos açoites que receberam em Filipos, Paulo e Silas,
libertados do cárcere e rogados pelos magistrados a abandonarem a cidade, refugiaram-se em Tessalônica (At 16, 22-24).

Tessalônica, hoje Salonica, era, por causa da posição que ocupava, importante centro comercial. Paulo pensou em fazer dela um
centro de irradiação de apostolado. Seus habitantes eram na maioria gentios, mas não faltavam também judeus, atraídos pelo
comércio e pelo desejo de lucro. Paulo, de acordo com o seu costume, dirigiu-se primeiro aos seus concidadãos, que na intenção
divina deviam ser as primícias do Evangelho, e por três sábados consecutivos anunciou-lhes Jesus Cristo na sinagoga,
demonstrando pelas Sagradas Escrituras que Jesus era o Messias prometido e o Filho de Deus (At 17,2-3). O fruto, não
proporcional ao trabalho, foi escasso; poucos judeus abraçaram o cristianismo, mas em compensação, graças à pregação que
Paulo e Silas continuaram por alguns meses, bom número de pagãos converteu-se à nova religião, entre eles muitos prosélitos e
algumas mulheres da nobreza (At 17,14). Os judeus mais recalcitrantes, cheios de inveja, atiçaram os elementos mais
irrequietos da plebe e encenaram uma sedição contra Paulo e Silas, os quais, por esse motivo, houveram por bem abandonar a
cidade. A nova comunidade cristã, constituída sobretudo de gentios, estava, portanto, exposta a graves perseguições e a perigos
na fé.

Paulo, depois de chegar a Beréia e a Atenas, imensamente ansioso por seus caros neófitos tessalonicenses, enviou-lhes Timóteo,
a fim de os sustentar e confirmar no espírito de união com Cristo: Ele, entretanto, tendo deixado Atenas, passara-se para
Corinto que devia tornar-se o principal campo de apostolado da sua segunda viagem apostólica. Aí alcançou Timóteo, já de
regresso de sua missão, trazendo ao Apóstolo as mais consoladoras notícias. Os cristãos, afeiçoados a Paulo, eram fervorosos e
fortes na fé, mesmo no meio das perseguições. Havia, porém, alguma leve nuvem, resíduos da vida pagã antecedente, em
questões de moral, em alguns cristãos, dúvidas a respeito da sorte dos falecidos, na parusia. Paulo, não podendo, como era seu
desejo, ir pessoalmente ter com os seus tessalonicenses, escreveu-lhes sua primeira epístola. Ela abre condignamente o
epistolário paulino e talvez seja o primeiro escrito inspirado do Novo Testamento, se é que o Evangelho de S. Mateus já não
estava escrito e publicado, pois coincidências surpreendentes de vocabulário e de idéias encontradas entre as partes
apocalípticas das epístolas aos tessalonicenses e o assim chamado "apocalipse" de S. Mateus (Mt cc. 24-25) fazem-no supor com
razão.

A carta foi escrita de Corinto, provavelmente no ano 51, ou o mais tardar no início de 52, quando Timóteo se encontrava com
Paulo. De fato, como se infere da inscrição de Delfos, publicada em 1905, Galião, a cujo tribunal foi levado Paulo (At 18,11-13),
chegou a Corinto como procônsul da Acaia provavelmente na primavera de 52, quando Paulo já se encontrava aí havia dezoito
meses.

Sumário Cabeçalho e saudação (1,1).

I parte (1,2-3,13): Paulo agradece ao Senhor pelo modo com que os tessalonicenses receberam o Evangelho, a ponto de
servirem de exemplo às outras Igrejas (1,2-10); recorda o seu trabalho apostólico no meio deles, as suas fadigas para não ser
pesado a ninguém, a sua ternura materna para com eles (2,1-16); manifesta o desejo de revê-los, alegrando-se com as boas
notícias que recebeu por meio de Timóteo (2,17-3,13).

II parte (4-5): exortação a evitar alguns vícios (4,1-12); fala da condição dos que já faleceram, à segunda vinda de Cristo (4,13-
18); diz que o tempo da parusia é desconhecido e por isso é necessário conservar-se prontos (5,1-11) e conclui com alguns
preceitos morais (5,12-22).

Conclusão: votos e saudações, com a recomendação de fazer com que a carta seja lida "a todos os irmãos (5,23-28).
SEGUNDA EPÍSTOLA AOS TESSALONICENSES

A primeira epístola de S. Paulo à comunidade nascente de Tessalonica atingira o seu objetivo de iluminar e consolar os cristãos
acerca da sorte dos falecidos, por ocasião da vinda gloriosa de Cristo. O Apóstolo havia integrado, com autorizada precisão e
clareza, os ensinamentos de sua catequese oral sobre esse ponto de doutrina. Bem depressa, porém, novas nuvens surgiram no
horizonte, ofuscando-o e perturbando as almas. Alguns cristãos, mais enfatuados e entusiastas da proximidade da parusia,
difundiam essa persuasão entre os outros, procurando convidá-los, seja com algumas frases mal interpretadas da epístola de S.
Paulo, seja com pretensas declarações de carismáticos, que preanunciavam a iminência da vinda gloriosa do Senhor, e também
com supostas epístolas do Apóstolo (2Tes 2, 1-2). Conseqüência do estado de alma que se determinara em muitos era uma
plena ociosidade, abstenção do trabalho e desinteresse pelas coisas materiais, na expectativa do grande dia. Dominava,
portanto, entre os cristãos de Tessalonica um erro teórico e prático, grandemente funesto. Paulo, que se mantinha
constantemente informado do estado de sua amada cristandade, intervém 'com outra epístola, a fim de instruir esses neófitos e
pô-los de sobreaviso contra os semeadores de falsas doutrinas.

Sumário

Cabeçalho e saudação (1,1-2).

1. Ação de graças a Deus pela caridade e constância na fé dos tessalonicenses (1,3-5); justo juízo de Deus, que dará a cada um
segundo os seus méritos (1,6-12).

2. O tempo da parusia é incerto, não é iminente e será precedido de sinais precursores: a apostasia e a vinda do anticristo (2,1-
4). Os tessalonicenses conhecem o obstáculo que o retém. Tirado este, manifestar-se-á o homem do pecado, que será destruído
por Jesus Cristo (2,5-12). Exortação a permanecerem firmes na fé (2,13-17).
3. Preceitos morais, conseqüências práticas da parte doutrinal (3,1-15).

Conclusão: votos (3,16), assinatura autografa de reconhecimento (3,17), saudação final (3,18).

Infelizmente, devido à falta de alguns elementos da catequese oral de Paulo, permanecemos no escuro a respeito de alguns
pontos de sua doutrina escatológica, que permanecerão sempre um enigma insolúvel: quem é o anticristo, qual o obstáculo que
o retém etc. Completa o Apóstolo, com sua epístola, os ensinamentos do Evangelho e do Apocalipse no que diz respeito aos
últimos acontecimentos do gênero humano e à segunda vinda de Cristo.
EPÍSTOLAS A TITO E A TIMÓTEO
As epístolas que se seguem, uma a Tito e duas a Timóteo, inter-relacionam-se estreitamente pelo assunto, pela data e pelas
características formais de que se revestem. Daí o uso moderno de apresentá-las sempre enfeixadas, com a denominação geral de
"epístolas pastorais", por versarem sobre as qualidades requeridas nos pastores da Igreja, bem como sobre os deveres que lhes
incumbem no governo das comunidades cristãs que lhes são confiadas.

Muitos críticos protestantes, liberais e racionalistas, puseram em dúvida, desde o início do século XIX até aos nossos dias, a
autenticidade do Apóstolo dos gentios das referidas cartas. Numa modalidade um tanto diversa, críticos recentes quiseram ver nelas
uma espécie de florilégio, formado com fragmentos autênticos compilados de cartas de S, Paulo. Encontram-se, todavia, citações
dessas cartas e alusões a elas, já nos escritos dos Padres Apostólicos, a partir do fim do século I e do início do século II. Daí por
diante a sua autenticidade aparece claramente afirmada pelos santos Padres, pelos escritores e pelos documentos eclesiásticos.
Tudo isso evidencia a tradição constante da Igreja.

Examinando-as com atenção, verifica-se que tudo quanto está escrito nelas concorda exatamente com o que consta, por outras
fontes acerca da vida de S. Paulo, de Timóteo e de Tito e com as condições das comunidades cristãs nos últimos anos da vida do
Apóstolo.

Paulo encontra em Listra, por ocasião de sua primeira viagem apostólica, a Timóteo e o converte. Por ser ele filho de pai pagão e de
mãe judia convertida ao cristianismo, e sendo, por conseguinte, considerado judeu, ele o submeteu, no decorrer de sua segunda
viagem, à circuncisão e o leva consigo através da Ásia Menor à Macedônia (At 16,1-4), e ainda, com toda a probabilidade, a Filipos e
a Tessalonica. Deixa-o em Beréia (At 17,14), donde Timóteo parte para se encontrar com ele em Atenas. Envia-o em missão a
Tessalonica (1Tes 3,2), e ao seu regresso, o recebe em Corinto (At 18,5). Na terceira viagem apostólica encontramos Timóteo em
companhia do Apóstolo em Éfeso (At 19,22) e na Macedônia (2Cor 1,1). Sabemos ainda que acompanhou Paulo a Trôade, na Ásia
Menor (At 20,4). Reencontramo-lo em Roma, durante a primeira prisão de S. Paulo (Col 1,1; Flp 1,1; Fim 1). Finalmente, ei-lo
radicado em Éfeso (ITim 1,3), onde recebe duas cartas do Apóstolo.

Quanto a Tito, grego de origem (Gál 2,3), foi também convertido por S. Paulo, de quem veio a ser fiel colaborador. Acompanhou-o
na viagem a Jerusalém, por ocasião do Concílio Apostólico (Gál 2,1). Na terceira viagem missionária acompanhou o Apóstolo a
Éfeso. Foi enviado a Corinto, com a incumbência de amainar as discórdias e restabelecer a paz naquela Igreja, e, com toda a
probabilidade, foi ele o portador de uma severa epístola de S. Paulo, que se perdeu. Foi encontrar-se com Paulo na Macedônia, onde
consolou o Apóstolo com as boas notícias que trazia de Corinto (2Cor 2,13). Foi enviado novamente a essa cidade, a fim de fazer a
coleta destinada aos pobres de Jerusalém (2Cor 8,16). Notícias posteriores a seu respeito não as possuímos, até que o vamos
encontrar em Creta, como destinatário da epístola de Paulo.

Note-se que essas indicações relativas a Timóteo e a Tito são confirmadas nas cartas pastorais. O mesmo pode-se dizer de outras
informações de pessoas que já conhecemos através dos Atos dos Apóstolos e das demais epístolas de S. Paulo. Além disso, as
condições da Igreja descritas nas cartas pastorais, coincidem com as normas que os apóstolos observavam. Se bem que Timóteo e
Tito houvessem recebido a sagração episcopal, não eram, contudo, bispos, respectivamente, da Igreja de Éfeso e da de Creta, no
sentido atual do vocábulo "bispo" e sim, delegados dos apóstolos, com a missão de supervisionar as referidas Igrejas por um certo
período de tempo. Tudo isso é reflexo do estado ainda fluido da organização e da terminologia eclesiástica, que foi lembrado a
propósito dos Atos. Aparece em 1Tim 3,8.12 o termo "diácono" para indicar os adidos à administração e à beneficência (cf. At 6,1-
6), mas o mesmo termo encontra-se já em Flp 1,1.

O conjunto das observações precedentes constitui um poderoso sustentáculo da autenticidade das "epístolas pastorais", negadas,
em geral, hoje em dia, por heterodoxos, pelo fato de apresentarem, como alegam, linguagem e estilo diversos dos escritos
autênticos de S. Paulo. Observam, por exemplo, que nelas ocorrem cerca de 300 vocábulos não empregados nas epístolas do
Apóstolo. Todavia, devemos lembrar que a diversidade de tema e outras circunstâncias trazem naturalmente consigo variações de
vocabulário e aqui entra, além disso, a liberdade do autor, que não está obrigado a lançar mão sempre dos mesmos termos.
Ademais, o estilo e o temperamento podem modificar-se com a idade, sendo que Paulo escreveu as pastorais, especialmente a
2Tim, quando já era velho, estando próximo à morte, pela qual deu testemunho de Cristo. O estilo das pastorais é simples e
familiar, dada a índole das questões tratadas, que não são dogmáticas nem polêmicas, pelo que se assemelha ao estilo da parte
moral das outras cartas de S. Paulo.

Emprega-se ainda como objeção a referência (1Tim 6,20; 2Tim 2,16) a erros e conversas fúteis, próprios do gnosticismo, que
surgiram no século II. Entretanto, esses erros não são peculiares dos gnósticos do século II, pois já haviam sido difundidos pelos
judeus ou judaizantes, que preludiaram o gnosticismo. Tais erros consistem em fábulas judaicas, proibição de alimentos, hostilidade
ao matrimônio com o fim de adquirir ciência superior.

Feita essa introdução geral, só nos resta antepor a cada uma das três epístolas o respectivo sumário.
PRIMEIRA EPÍSTOLA A TIMÓTEO
Cabeçalho e saudação (1,1-2).

Corpo da Epístola (1,3-6,19): ordens e conselhos para a boa administração da Igreja.

1. Luta contra as falsas doutrinas e vãs especulações, a fim de conservar íntegra e pura a doutrina e a moral de Jesus Cristo (1,3-
20).

2. Regulamento para a oração pública: deve-se orar por todos os homens, a fim de que todos obtenham a salvação (2,1-7); como
se deve orar (2,8); traje feminino e atitude das senhoras em família e na sociedade (2,9-15).

3. Virtudes e predicados exigidos nos ministros sagrados, quer os de grau superior (3,1-7), quer os de grau subalterno

(3,8-13). Grandeza admirável da Igreja (3,14-16).

4. Erros contra os quais é preciso preparar-se para lhes dar combate (4,1-10). Timóteo deve mostrar-se modelo de virtude (4,11-
16).

5. Como devem ser tratados os homens idosos e os jovens (5,1-2); solicitude especial para com as viúvas (5,3--16); desvelos
devidos aos presbíteros (5,17-22); solicitude pelas enfermidades do próprio Timóteo (5,23-25); deveres dos servos (6,1-2).

6. Alerta contra novidades doutrinais e contra o perigo das riquezas; bom uso dessas últimas (6,3-19).

Epílogo: Guarda ciosa do depósito sagrado da fé (6,20-21).




SEGUNDA EPÍSTOLA A TIMÓTEO
Cabeçalho e saudação (1,1-2); agradecimento a Deus, com elogio a Timóteo (1,3-5).

Corpo da Epístola (1,6-4,18).

1. Exortação à coragem e à constância. Timóteo deve professar a fé com generosidade (1,6-8), recordando os benefícios recebidos
(1,9-10), o exemplo de Paulo (1,11-12) e o modelo, que é Cristo (1,13-14), e deve defender a fé contra os adversários (1,15-2,13).

2. Como se deve proceder em face dos inovadores: pregar corretamente a verdade, evitando questões inúteis (2,14-26), prevenir-
se contra os futuros disseminadores de escândalos (3,1-9), desmantelar o erro com o exemplo de vida santa e cumprir o próprio
dever solicitamente até o fim (3,10-4,8).

Epílogo: diversas recomendações e notícias (4,9-18); saudações e bênção (4,19-22).




EPÍSTOLA A TITO
Cabeçalho, com a afirmação de sua autoridade, como apóstolo de Jesus Cristo, para a salvação dos homens (1,1-4).

Corpo da epístola (1,5-3,11).

1. Qualidades dos presbíteros: dotes que se requerem para os que vão ser sacerdotes e vícios de que devem estar isentos (1,5-16).

2. Reforma dos costumes: deveres peculiares a serem inculcados aos homens de idade, às senhoras idosas, aos jovens esposos,
aos moços e aos escravos (c. 2).

3. Deveres gerais dos cristãos: a submissão às autoridades constituídas, a caridade para com o próximo, a prática das boas obras;
exortação para prevenir os cristãos contra as novidades vãs e contra os mestres do erro (3,1-11).

Epílogo (3,12-15): recomendações, avisos (3,12-14), saudações e augúrio final (3,15).
EPÍSTOLA DE SÃO PAULO AOS HEBREUS

Entre as catorze cartas do epistolado paulino, a que se costuma intitular “aos hebreus” é a mais
singular de todas. Falta-lhe o habitual cabeçalho "Paulo apóstolo etc."; tem assunto e tom de carta
somente no último capítulo (13), no qual o remetente fala de si próprio em primeira pessoa, mas
sem mencionar nome algum (v. 22; cf. 2Tes 3,17; 1Cor 16,21; Fim 19). No restante, ora apresenta
desenvolvimento dialético de um tratado, ora o estilo oratório de uma homilia; usa, ademais, uma
linguagem e um estilo todo próprio, o mais aproximado do grego clássico, entre os escritores do
Novo Testamento.

Também na tradição esta Carta seguiu um roteiro todo particular. Como nenhuma outra, possui a
mais antiga atestação, que vem do século I e se encontra na Carta de S. Clemente Romano aos
coríntios, não porém mediante citações expressas ou menção do nome do autor, mas por
identidade de pensamento ou através de frases extraídas sem modificação nenhuma, às vezes
misturadas com outras da Bíblia, e sem qualquer distinção. Ela é admitida pelos mais antigos
escritores da escola alexandrina entre os escritos inspirados no Novo Testamento, mas no que
concerne ao autor, manifestam-se dúvidas e flutuações. Julga-se que tenha sido concebida por S.
Paulo, mas redigida por outro, como, por exemplo, S. Lucas, ou até mesmo o já citado Clemente
Romano; ou ainda que, escrita por S. Paulo em hebraico (ou aramaico), haja sido depois traduzida
por um especialista grego (E USÉBIO , História Eclesiástica, III, 38; VI, 14,25). Orígenes, o maior
escritor sobre a Bíblia, da idade antiga, depois de expor os vários elementos e juízos sobre a
questão, concluiu: "para expressar o meu parecer, diria que os pensamentos são do Apóstolo
[Paulo], mas.. . quem a redigiu, só Deus o sabe" (Apud Eusébio no último lugar citado).

Há muitas outras sombras na Igreja latina. Dir-se-ia que depois do citado Clemente Romano a
presente epístola caiu no esquecimento. O cânon de Muratori e Vitorino de Petau (+304) fazem o
elenco das epístolas de são Paulo, silenciando sobre essa aos hebreus e observam que são apenas
sete as que o Apóstolo dirige às igrejas inteiras (não a pessoas particulares), e assim,
implicitamente, excluem-na dos Livros Sagrados. Santo Irineu, Bispo de Lião, e S. Cipriano, de
Cartago, jamais a citam em seus escritos. Tertuliano (séc. III) e Gregório de Elvira (séc. IV, fim)
conhecem-na e citam-na com o nome de S. Barnabé. Finalmente, S. Jerônimo, ainda no séc. V,
escreve que "o costume dos latinos não admite a Epístola aos hebreus entre as canônicas" (Carta,
129,3; Com. a Is 6,2).

Todavia, entre os gregos chegou-se logo à unanimidade em considerar a Epístola aos hebreus
como escrito canônico e de S. Paulo, e, por influência dos Padres gregos, também os latinos, na
segunda metade do século IV e na primeira do V, convieram, bem como os sírios e outros
orientais, na mesma opinião. As vicissitudes transcorridas, porém, e a natureza do assunto
apresentam ainda aos modernos várias questões, das quais falaremos depois de termos tomado
conhecimento geral da epístola, na seguinte exposição esquemática de sua finalidade, argumento
e divisão.

A Epístola aos hebreus é definida pelo seu próprio autor como "um discurso de exortação" (13,22).
Exortar os seus destinatários a perseverarem firmemente na fé cristã, a não se deixarem vencer
pela tentação de regressarem à fé do judaísmo incrédulo de que haviam saído; confortá-los nas
dificuldades que deviam enfrentar e nas vexações que suportavam da parte de seus antigos
correligionários; encorajá-los na luta pela aquisição dos bens que Jesus Cristo prometeu aos fiéis:
tal é a finalidade que se propõe o remetente e que estabelece o argumento de seu escrito.
A fim de conseguir o escopo que se propôs, o autor apresenta aos leitores, na parte mais ampla e
substancial da epístola (1,1-10.18), um único tema, grandioso: a excelência da religião cristã sobre
a judaica. Demonstra-a em três pontos: o fundador, o sacerdócio, o rito sacrificai, isto é, a pessoa
de Jesus Cristo, a sua dignidade sacerdotal, o seu sacerdócio.

Dessa demonstração, ou em conexão com ela, inferem-se, na segunda partem (10,19-12,28),
vários motivos complementares de perseverança na fé cristã.

O último capítulo (13) contém recomendações de caráter particular.

A doutrina dessa carta, como se vê, é cristocêntrica, isto é, gravita em torno da pessoa de Jesus
Cristo e dela se irradia. Está, além disso, totalmente fundada no Antigo Testamento, interpretado à
luz da revelação cristã. Tem muita analogia com a doutrina de S. Paulo. O leitor atento notará aí a
ocorrência freqüente de idéias, muitas vezes mesmo de expressões, já encontradas nas epístolas
precedentes do Apóstolo. Mas não lhe passarão despercebidas também diferenças de relevo ou
quanto ao modo de apresentar as mesmas idéias.

Por exemplo, na presente epístola (cc. 1-2) os espíritos inferiores a Jesus não têm senão um nome,
um mesmo grau: "os anjos". S. Paulo distingue os principados, as potestades, as dominações, os
tronos (Col 1,16; Ef 1,21). Para S. Paulo a "ressurreição" ou o "ressuscitar" de Jesus ocupa o
primeiro lugar em freqüência e em importância na economia da salvação. Em Hebreus é
mencionada uma única vez com um vocábulo diferente (13,20).

Especial nessa epístola é, entre todos os escritos neotestamentários, a figura dominante de Jesus
sacerdote e vítima (4,14-10,18), tema central, amplamente desenvolvido. As outras epístolas
paulinas possuem a • esse respeito apenas duas lacônicas frases: "Cristo ê o cordeiro pascal
imolado por nós" (1Cor 5,7) e "se entregou a si mesmo por nós a Deus, como oferenda e hóstia de
suave odor" (Ef 5,2), e nem sequer uma vez traz a palavra "sacerdote" e "sacerdócio". Mais
próxima da concepção de Hebr 9,11-12,24 é a visão do cordeiro de pé no céu "como imolado", em
Apoc 5,6-13.

Do que vimos expondo a respeito dessa epístola surgem quatro questões: 1? Ê inspirada e parte
integrante da Sagrada Escritura? (canonicidade). — 2? Quem é seu autor? (autenticidade). — 3-
Quem são os "hebreus" aos quais ele se dirige? (destinatários). — 4? Quando foi escrita? (data).

1. Quanto à canonicidade ou inspiração da epístola, nenhuma dúvida podia subsistir depois do
reconhecimento unânime que alcançou em tempo relativamente breve na antiga Igreja. Em todo o
caso, foi ela solenemente ratificada pelo sagrado Concílio de Trento (sessão IV, decreto de 8 de
abril de 1546), que coloca nominalmente "ad Hebraeos" entre as "Escrituras canônicas" do Novo
Testamento.

2. No que concerne ao autor, a atribuição constante a S. Paulo na tradição oriental e o exame
interno da própria epístola dão-nos a certeza de que de algum modo ela promana do Apóstolo, e
neste sentido o Tridentino coloca-a, como última, entre as "14 epístolas de Paulo Apóstolo". Com
isso, porém, não se diz que ela deva ser considerada "não só concebida e inspirada, mas também
redigida por S. Paulo na forma que chegou até nós". Assim sentenciou a Pontifícia Comissão Bíblica
na Resposta de 24 de junho de 1914, no III. Pode-se, pois, atribuir a redação dela a algum dos
colaboradores de Paulo no apostolado.
3. Os destinatários eram cristãos oriundos do judaísmo, pois a carta, inteiramente impregnada de
citações e de alusões aos Livros Sagrados do Antigo Testamento, supõe que eles tenham um
perfeito conhecimento do mesmo, como não podiam ter os fiéis convertidos do gentilismo. Pelas
alusões que o autor faz ao passado deles (2,3-4;6,9-10;32-34), infere-se que esses cristãos haviam
pertencido à primitiva comunidade de Jerusalém. Todavia, a língua em que a epístola foi redigida
leva-nos longe de uma região como a Judéia, na qual falava-se o aramaico (At 21,40).
Provavelmente eram aqueles judeu-cristãos que por causa da perseguição movida à Igreja
nascente (At 8,1) de Jerusalém, emigraram "até a Fenícia, Chipre e Antioquia" (ibid., 11,19),
estabelecendo-se nalgumas cidades helenísticas da costa mediterrânea.

4. A epístola foi escrita quando existia ainda o templo de Jerusalém e aí se celebravam
regularmente os ritos que a lei mosaica prescrevia (9,6-10), pois não apresenta indício algum a
respeito da destruição que lhe foi infligida por Tito e a cessação conseqüente de todo o sacrifício, a
não ser um vago pressentimento de que estaria próxima a acontecer (10,25). Foi, portanto,
composta antes do ano 70.
INTRODUÇÃO ÀS EPÍSTOLAS CATÓLICAS
Ao lado do grande epistolado paulino, outras sete epístolas de apóstolos (uma de Tiago,
duas de Pedro, três de João e uma de Judas) constituem grupo à parte no cânon do Novo
Testamento. Desde os primeiros séculos, foram denominadas, tanto em grupo como
individualmente, católicas, isto é, "universais" provavelmente porque não são dirigidas,
como as de S. Paulo, a Igrejas particulares, mas a muitas ao mesmo tempo, ou aos fiéis
cristãos em geral. Fazem exceção a segunda e a terceira de S. João, porém são tão breves
que se podem considerar como apêndices da irmã maior.

Entre os latinos, foram também chamadas epístolas "canônicas", talvez como protesto da
fé no seu caráter de livros sagrados, que à maior parte delas foi reconhecido em era muito
tardia. De fato, somente a primeira de Pedro e a primeira de João foram, desde o
princípio, consideradas sem contestações nas Igrejas como inspiradas e, portanto,
canônicas. Todas as outras, umas mais outras menos, encontraram oposição em diversos
tempos e lugares (E USÉBIO , História Ecles., III, 25, 1-3). No Ocidente, o grupo
encontra-se já constituído em sua integridade e autoridade canônica, no princípio do
século V (Concílio Plenário da África, 393; Papa Inocêncio I, 405). Nas Igrejas orientais,
não antes dos séculos VI e VIL

No seio do grupo, a ordem das epístolas varia muito nos manuscritos e documentos
antigos. A mais comum, já indicada acima, põe em primeiro lugar Tiago e em último,
Judas. Pelo seu caráter arcaico, ainda muito próximo à literatura sapiencial do Antigo
Testamento, Tiago fica muito bem à testa do grupo. Parece-nos bem não separar Judas da
segunda de Pedro, com a qual tem inúmeros pontos em comum, como se verá adiante.
Desta forma, as três de João vêm a encontrar-se em contato imediato com o Apocalipse,
do mesmo autor. É a ordem que parece mais lógica e que melhor favorece uma leitura
ordenada destes escritos apostólicos.

Pelo seu conteúdo prevalentemente prático, essas epístolas traçam-nos as linhas mestras
de uma vida profundamente cristã. Não estão ausentes delas os ensinamentos
dogmáticos, lavrados em fórmulas breves e incisivas. Em Tg 5,14 lemos a mais
importante alusão bíblica ao Sacramento da Unção dos Enfermos. Um dos artigos do
Símbolo apostólico, a descida de Jesus Cristo ao limbo, onde se achavam os santos
patriarcas, encontra o mais claro e formal testemunho da Escritura em 1Pdr 3,18--19. O
mesmo Apóstolo declara-nos que a graça é uma íntima participação da natureza divina
(2Pdr 1,4). São João lança o brado sublime: "Deus é amor" (1Jo 4,8) e replica com a
mesma sublimidade: "E nós cremos no amor" (ibid., 16). Ê ele ainda que nos dá a idéia
mais exata da felicidade eterna dos eleitos: "Veremos a Deus como ele é" (ibid., 3,2). Eis
um pequeno ensaio que nos exorta a pesar cada palavra destes veneráveis escritos.
EPÍSTOLA DE SÃO TIAGO
A Epístola de Tiago distingue-se entre todas as outras epístolas apostólicas por três
características: 1° Sendo essencialmente moral, tem pouco de especificamente cristão e,
pelo conteúdo e pela forma, marca como que a passagem do Antigo para o Novo
Testamento. 2° Manuseia, porém, a língua grega com raro bom gosto e mestria. 3 ? De
estilo epistolar, tem quase somente a saudação inicial; falta-lhe a conclusão e na maior
parte usa de um tom exortativo semelhante ao dos livros sapienciais, especialmente os
Provérbios e o Eclesiástico.

Como para estes livros, também da Epístola presente não se deve pretender uma ordem
rigorosa. As reflexões ou lições morais sucedem-se como lhas sugeria ao autor o seu zelo
impetuoso. Podem-se, todavia, reduzir a três argumentos gerais: a verdadeira alegria
(1,2-25), a verdadeira religião (1,26-3,12), a verdadeira sabedoria (3,13-5,12).
Fecham--nas algumas recomendações para com o próximo. Dividi-la-emos, pois, em três
partes e um apêndice.

I parte: A verdadeira alegria consiste em suportar as tribulações e tentações

(1,2-8.12-18), a pobreza (1,9-11), e na prática do bem (1,19-25).

II parte: A verdadeira religião consiste concretamente em evitar a ambição mundana
(2,1-13); nas boas obras (2, 14-26); em refrear a língua (3,1-12).

III parte: A verdadeira sabedoria consiste em refrear as paixões (3,13-4, 12); em
desprezar as riquezas (4,14-5, 6); na paciência (5,7-12).

Apêndice: Ministério de assistência aos enfermos (5,13-15), de oração (5, 16-18), de
correção fraterna (5,19-20).

Tanto do endereço (1,1) como do conteúdo, pejado de frases e de idéias do Antigo
Testamento, transparece de modo claro que a epístola é dirigida aos judeu-cristãos
disseminados entre as populações de língua grega.

O autor, que a si mesmo se denomina (1,1) "Tiago, servo de Deus e de nosso Senhor
Jesus Cristo" e que evidentemente goza de autoridade no seio da comunidade israelita, ê
com toda a probabilidade o mesmo Tiago que conhecemos através dos Atos e das
epístolas de S. Paulo, distinto do apóstolo homônimo, filho de Zebedeu (At 12,2;17), e
personagem influente da cristandade de Jerusalém (ibid., 15,13; Gál 2,9). Ê também
"irmão do Senhor" (Gál 1,19), isto é, primo de Jesus Cristo (cf. Mt 12,46-49, nota).
Pela história eclesiástica, sabemos que foi bispo de Jerusalém (E USÉBIO , Hist. Ecl., II,
1,2-3) e que foi morto pelos judeus, por ódio contra a fé, no ano 62 (F LÁVIO J OSEFO ,
Antigüidades, XX, 9,1; H EGESIPO , apud. E USÉBIO , Hist. Ecl., II, 23).

Questão bem distinta e de solução menos fácil, mas também de menor importância para
o estudo da nossa epístola, é a de determinar se o seu autor deve ser identificado com
aquele "Tiago, filho de Alfeu", que em todas as listas dos doze apóstolos do Senhor (Mt
10,3 e paralelos; At 1,13) é colocado em nono lugar. A maior parte dos exegetas
católicos toma partido por essa identificação.

No entanto, no mencionado ano do martírio do nosso autor, temos a época mais recente
em que se pode colocar a composição da epístola. Mas o caráter arcaico que frisamos e a
ausência de qualquer alusão à questão agitada no Concílio de Jerusalém, no ano 50 (At
15,1-29), aconselham-nos a remontar a uma época bem anterior, mais ou menos ao
ano 48 ou 49. Seria, portanto, esta Epístola um dos primeiros escritos canônicos do
Novo Testamento. A dificuldade mais forte que se costuma opor a data tão remota, —
isto é, a de que o passo de 2,14-26 seja uma polêmica direta contra uma falsa
interpretação da doutrina exarada por S. Paulo em Rom 4,2-5 e que, portanto, a epístola
de Tiago é posterior à Epístola aos Romanos (escrita no ano 57 aproximadamente), —
repousa sobre um confronto superficial e sobre uma compreensão inexata dos dois
textos.
PRIMEIRA EPÍSTOLA DE SÃO PEDRO
Das muitas alusões aos sofrimentos a que eram submetidos os cristãos, pode-se deduzir
que esta Epístola foi escrita em tempo de perseguição, com o fito de confortar os fiéis e
incitá-los a permanecerem firmes na fé. A esta, que é a principal finalidade da epístola,
juntam-se muitas recomendações e exortações a uma vida santa, digna da condição de
cristãos.

Introdução (1,1-12): Saudações (1, 1-2) e louvor a Deus pelas grandezas da fé e da
salvação cristã (1,3-12).

I parte: exortação geral a uma vida santa, digna da condição de cristãos (1,13,2,10), e
em particular à caridade fraterna (1,22-25).

II parte: como proceder com relação aos pagãos, especialmente para com os
perseguidores (2,11-4,6): às autoridades (2,11-17); aos patrões (2.18-25); ao
cônjuge (3,1,17); ao próximo em geral (3,8--12); paciência, nas perseguições (3,13--
22); fuga dos vícios peculiares aos gentios (4,1-6).

III parte: vida interna da comunidade em vista do juízo divino (4,7-5,11): amor e
auxílio mútuo (4,7-11); coragem nas perseguições (4,12-19); deveres do presbítero
para com os fiéis e vice-versa (5,1-7); vigilância para todos (5,8-11).

Conclusão: saudações e votos (5. 12-14).

Como destinatários da Epístola são indicados, no cabeçalho, os fiéis dispersos nas regiões
situadas no centro e ao norte da Ásia Menor e convertidos da gentilidade, em grande
parte por obra de S. Paulo. Os cristãos eram aí mais numerosos do que em outros
lugares e tinham mais que sofrer, tanto da parte do povo como dos magistrados pagãos.
Os vários indícios convergem para os tempos que precederam ou se seguiram
imediatamente à perseguição de Nero, isto é, por volta do ano 64 d. C.

O autor da epístola é, sem dúvida, S. Pedro, o príncipe dos apóstolos, que então se
encontrava em Roma, e daí (cf. 5,13) escreveu aos longínquos fiéis da Ásia, embora
não tenham sido convertidos por ele (2Pdr 3,2), servindo-se de Silvano (cf. 5,12),
como escrivão, e talvez também como redator da epístola, notável não só pela força do
pensamento, como também porque exarada em excelente grego.

Desde que se formou o cânon escriturístico do Novo Testamento, a presente Epístola foi
incluída nele. Nenhuma dúvida, portanto, foi levantada contra a sua divina inspiração e
conseqüente canonicidade. O mesmo se deve dizer a respeito da sua autenticidade, isto
ê,,se teve como autor Pedro, cujo nome figura no seu cabeçalho. Não se opõe, a tal
autenticidade, o concurso subsidiário de um amanuense ou redator, como foi mencionado
acima com relação a Silvano.

Serve, ao invés, para confirmar tal autenticidade o confronto desta epístola com os
discursos de S. Pedro, relatados nos At 2,14-36;3,12-26; 10,34-42. A doutrina é a
mesma, idênticos são os conceitos, expressos até mesmo em raras e características
locuções, sobre a pessoa de Jesus, a sua obra redentora, o seu soberano poder e a
universalidade da salvação que ele veio trazer à terra. O autor da Epístola haure da fonte
dos seus conhecimentos pessoais. Alguém notou que nela se encontram mais
reminiscências dos Evangelhos, do que em todas as epístolas paulinas juntas. A nossa
tem de comum tão somente a noção das ordens angélicas dos principados e potestades
(3,22), mas, ao que parece, sem dependência direta. (cf. Col 1,16-17).
SEGUNDA EPÍSTOLA DE SÃO PEDRO
Os fiéis aos quais é dirigida esta segunda Epístola do príncipe dos apóstolos são os
mesmos a que foi dirigida a primeira (cf. 3,1). Aliás, ao passo que na primeira o seu
intento era encorajá-los nas perseguições desencadeadas contra eles pelos pagãos, com
esta quer chamar-lhes a atenção para os inimigos internos, para erros perniciosos que,
infelizmente, começavam a infiltrar-se nas comunidades cristãs. O Apóstolo, prevendo
próxima a sua morte (1;13), apressa-se a prevenir os fiéis do perigo, enviando-lhes,
como última recordação (1,12,15), este afetuoso escrito. Os três capítulos, em que se
divide, tratam de três argumentos distintos.

C. 1. Saudação e votos (1-2); santidade de vida (3-11); firmeza na fé (12-21), que
deve ser ornato do cristão.

C. 2. Os falsos mestres: insinuam doutrinas perniciosas, atraindo sobre si a perdição (1-
3); antigos exemplos de pecadores terrivelmente punidos por Deus (4-9); aplicação
àqueles falsos doutores (10-16); o mal que fazem e sua condenação (17-21).

C. 3. Refutação do erro a respeito da proximidade da parusia ou vinda do Senhor (1-3);
ocasião do erro (1-4). Refutação: as três fases do mundo (5-7); o tempo ante a
eternidade de Deus (8-9); aquele dia virá, mas de improviso (10); conseqüências
práticas (11-13).

Conclusão: estejamos preparados (14); advertência sobre as epístolas de S. Paulo (15-
16); votos e doxologia (17-18).

Digno de nota é o c. 2 (mais 3,1-3), porque corre paralelo com a Epístola de Judas:
mesmo argumento, exposto na mesma ordem, muitas idéias iguais, freqüentemente
expressas com as mesmas palavras. A dependência direta de uma epístola para com a
outra parece inegável. Menos fácil é determinar quem é que depende do outro, e as
opiniões dos doutos não são unânimes. Considerando aquilo que Pedro apresenta a mais
(por exemplo, Noé e o dilúvio, 2,5; cf. 1Pdr 3,20), e o que não apresenta em
confronto com Judas (por exemplo, Jud 9,14) e outras particularidades de estilo,
devemos dizer (como opina a maior parte dos autores) que a 2Pdr é mais extensa e
melhorada e, portanto, posterior à de Judas. Isto possui uma certa importância para as
questões da canonicidade, autenticidade e data da presente epístola.

Nos séculos II e III, a 2Pdr era pouco conhecida, ao menos fora do Egito, e a sua
canonicidade, ou caráter sagrado, era posta em dúvida, quando não negada. Mas no
século IV começou a ser mais bem conhecida no Ocidente e, simultaneamente, foram-se
desvanecendo as dúvidas a respeito do seu valor de livro sagrado. Entre o IV e o V
século ocupou um lugar definitivo no cânon das Igrejas da Europa e da África, enquanto
que na Síria continuou a ser ignorada por mais alguns séculos.

O mesmo não se deu com o reconhecimento da sua autenticidade, isto é, de que S.
Pedro é verdadeiramente o seu autor. S. Jerônimo não registrava senão os fatos quando
afirmava, no ano 392, que Pedro "escreveu duas epístolas denominadas católicas, a
segunda das quais muitos afirmam não ser de sua autoria, porque lavrada em estilo
diferente da primeira (De viris 111. c. 1). Partilhando da opinião de que ambas eram
genuínas, ele explica as diversidades de linguagem e de estilo pelo fato de S. Pedro as
ter ditado a dois tradutores ou redatores gregos diversos (Carta 120, a Edibia, c. 9). É
uma hipótese provável, que agrada ainda hoje a muitos dos que sustentam a
genuinidade da 2Pdr, como o fazem a grande maioria dos católicos e alguns
protestantes. Os que a negam, exageram demasiadamente as diferenças entre as duas
epístolas e não consideram, como deveriam, a influência das fontes e das circunstâncias.
O c. 2, por exemplo, sendo modelado, como ficou dito acima, sobre a epístola de Judas,
é óbvio que não pode assemelhar-se à 1Pdr. Afora isso e poucas outras coisas, no resto
da 2Pdr encontrar-se-á uma semelhança tal com 1Pdr e com os discursos de S. Pedro
nos Atos, como não se encontra em nenhum outro escrito do Novo Testamento.

Por outra parte, não é necessário ir, como se pretende, além do ano 70 d.C, para situar,
na história da Igreja, os aberrantes doutores de que se fala no c. 2 ou os novos
sentimentos em relação à "parusia" (3,4), ou a alusão às cartas de S. Paulo (3,15-16).
Em poucas palavras, pode-se sustentar muito bem, até mesmo com argumentos
internos, que a 2Pdr foi mesmo ditada pelo príncipe dos apóstolos, cujo nome ela traz.

Dado que o autor anuncia, também por revelação divina, como próximo o fim da sua
existência terrena (1,14), a composição da epístola pode ser colocada aproximadamente
no ano 67, cerca de três anos após a 1Pdr. O lugar em que foi escrita não é referido
expressamente. A única hipótese provável é que tenha sido escrita em Roma, como a
primeira, pois aí S. Pedro pôs fecho, com um nobre martírio, ao seu glorioso apostolado.
EPÍSTOLAS DE SÃO JOÃO
Das três epístolas seguintes, somente a segunda e a terceira apresentam as
características do gênero epistolar: saudações no início e no fim e alusões pessoais no
meio. A primeira parece mais uma alocução a discípulos, ou melhor, uma circular a
leitores amigos. Mas a afinidade evidente e estreita de idéias, de estilo e de linguagem,
que se encontra nelas, une-as todas num grupo homogêneo.

P RIMEIRA

À semelhança do quarto Evangelho, esta epístola do apóstolo predileto de Jesus pode-se
dizer que é toda espiritual e teológica. Nela S. João fala de Deus com as expressões mais
tocantes e dos seus atributos deduz os nossos deveres morais. Combate, ao mesmo
tempo, os erros que então começavam a pulular a respeito da pessoa de Jesus Cristo, ao
qual presta também entusiástico testemunho. O curso do pensamento ê deixado ao
sabor da exaltação do sentimento místico. Podem-se, porém, distinguir, além da
introdução e da conclusão, três partes ou etapas, compostas, cada uma, de três
elementos: teológico, moral e cristológico.

Introdução (1,1-4): apoiado em sua própria experiência, atesta a verdade a respeito da
pessoa e da obra de Jesus Cristo.

I parte:

1. Verdade teológica: Deus é luz- (1,5).

2. Conseqüência prática: devemos "andar na luz", isto é, viver uma vida de luz
espiritual, que consiste na comunhão dos santos (1,6-7) e compreende a fuga ao
pecado (1,8-2,2), a observância dos mandamentos (2,3-11), a fuga ao mundo (2,12-
17).

3. Verdade cristológica: Jesus é o verdadeiro Messias (2,18-28).

II parte:

1. Verdade teológica: Deus é justo (2,29).

2. Conseqüência prática: dado que somos filhos de Deus, devemos praticar a justiça,
evitando o pecado (3,1-10) e amando o nosso próximo (3,10-24).

3. Verdade cristológica: Jesus é verdadeiro homem (4,1-6).

III   parte:

1. Verdade teológica: Deus ê amor (4,7).

2. Conseqüência prática: devemos amar-nos reciprocamente, a fim de encontrarmos no
exercício da caridade a Deus e observar os seus mandamentos (5,1-4).

3. Verdade cristológica: Jesus é verdadeiro Deus (5,5-12).

Conclusão: oração e perseverança (5, 13-21).
Todo o pensamento e o estilo, tão característicos, dessa Epístola são tão semelhantes
aos do quarto Evangelho, que se devem atribuir, sem hesitações, ao mesmo autor,
como, aliás, o garante a própria tradição. Ê até provável (cf. 1,3; 2,14) que a epístola
tenha sido escrita para acompanhar e como que apresentar o Evangelho que o autor
enviou às Igrejas e às famílias cristãs.

Se essa hipótese for verdadeira, fica desde já determinado, aproximativamente, o tempo
e o lugar em que foi escrita a epístola, a saber: pelos fins do séc. I e em Éfeso.

S EGUNDA

Após as costumeiras saudações de introdução (1-3), exorta a caminhar sempre na
verdade e no amor (4-6) e põe de sobreaviso contra os que disseminam erros
cristológicos (7-11). Compendia, deste modo, a substância da primeira epístola.
Seguem o anúncio de uma próxima visita e as saudações finais (12-13).

Discute-se a respeito dos destinatários da carta: trata-se de pessoa particular ou de uma
comunidade de fiéis? A segunda hipótese é mais provável.

Não obstante o autor se oculte sob o nome indeterminado de "presbítero" (ou
"sacerdote", revela-se, todavia, pela doutrina e pelo estilo. Toda a carta deixa
transparecer a mente e o coração de S. João evangelista. Todavia, em razão de sua
brevidade, demorou um pouco a tomar o seu lugar no cânon de todas as Igrejas.

A dificuldade aumenta quando se trata de determinar quando e onde foi escrita. Visto,
porém, que nela se combate (v. 7) o mesmo erro cristológico da primeira (1Jo 4,2),
pode-se situá-la mais ou menos na mesma época e no mesmo lugar.

T ERCEIRA

É ainda mais pessoal do que a segunda. Dirigida a certo "Gaio", aliás, desconhecido,
tece, após as saudações (1), louvores à sua virtude, especialmente à caridade, e
recomenda-lhe os portadores do bilhete (2-8). Reprova o proceder de Diótrefes (9-10)
e elogia largamente Demétrio (11-12). Anuncia uma visita para breve e encerra com as
saudações (13-15).

Devido ao tom familiar, particularmente no início e no fim, essa terceira epístola revela-
se irmã da segunda, cujas vicissitudes na tradição e na crítica também compartilhou.

Foi escrita em favor dos missionários volantes que corriam de Igreja em Igreja, levando
o conforto da sua palavra e da sua ação apostólica e conservando viva a comunhão entre
as Igrejas.

A epístola deve, pois ter sido escrita na década final do século I, como as suas duas
irmãs.
EPÍSTOLA DE SÃO JUDAS
Estrutura simples e finalidade única encontram-se nesta breve epístola: acautelar os fiéis
contra os falsos mestres, os semeadores de doutrinas corruptas, de que fala também a
segunda de S. Pedro, no c. 2. Tem um só capítulo, assim dividido, segundo o argumento:

Introdução: Saudações (1-2) e motivo da epístola: os mestres ímpios (3-4).

Corpo:

1. Castigos divinos já infligidos aos ímpios: aos israelitas incrédulos no deserto (5); aos
anjos rebeldes (6); aos sodomitas (7).

2. Descrição dos Ímpios mestres, que, chafurdando-se na carne, ultrajam os espíritos
angélicos (8-10); êmulos de Caim, Balaão e Coré, atiram-se a todos os vícios (11-13);
espera-os, porém, um juízo terrível, já predito por Henoc (14-16).

3. Admoestação a que se guardem desses tais, e como devem comportar-se com os
demais (17-23).

Conclusão: glória a Deus, autor da salvação.

Esta curta epístola encontrava-se, já no século II, segundo o testemunho do cânon
Muratoriano (linha 68), incluída no cânon escriturístico da Igreja de Roma. Não faltou, já
então, e mais ainda depois, quem pusesse em dúvida ou negasse principalmente sua
canonicidade, como atesta S. Jerônimo (De vir. ill., IV), por causa da citação do livro
apócrifo de Henoc (vv. 14-15). Prevaleceu, porém, o uso antigo e a autoridade da
Igreja, segundo testemunho do mesmo S. Jerônimo, e bem cedo as oposições cessaram
no Ocidente e mais tarde também no Oriente.

O autor, Judas, nome muito comum, distingue-se dos homônimos contemporâneos,
qualificando-se "irmão de Tiago". Quem haveria de ser esse Tiago, senão o autor da
primeira epístola católica e bispo de Jerusalém, de quem se falou à p. 1318? Por
conseguinte, também o Judas da presente epístola era "irmão do Senhor", mencionado
com os outros em Mt 13,55; Mc 6,3 (no sentido já explicado em Mt 12,46-49).

Assim como a respeito de Tiago, existe também a respeito de Judas, por motivos
diferentes, porém, a questão de saber se ele era também apóstolo, um dos doze,
identificado com "Judas, filho de Tiago" de Lc 6,16; At 1,13. Sobre esse ponto também
os modernos exegetas católicos não se acham de acordo.

Admitida, como mais provável, a dependência de 2Pdr em relação a Judas (p. 1320),
esta epístola deve ter sido escrita alguns anos antes daquela. Pode-se situar a sua
composição no ano 65, aproximadamente.

Os destinatários da Epístola são saudados (v. 1) em termos tão gerais, que se podem
aplicar a todos os cristãos. Mas arguindo do uso que o autor faz do Antigo Testamento e
de tradições judaicas (vv. 9-14), pode-se deduzir que ele se dirige a fiéis vindos do
judaísmo, a comunidades judeu-cristãs, provavelmente da Ásia Menor. A segunda de
Pedro é dirigida a um público inteiramente diverso (cf. pp. 1320 e 1321). Podemos
reconstituir os fatos assim: Os erros combatidos por Judas surgiram e propagaram-se
primeiramente no sudoeste da Ásia Menor (v. 4, tempo passado). Vindo a conhecê-los
através da Epístola de Judas, e temendo que tão perniciosa propaganda se estendesse
também ao centro e ao norte da Ásia Menor, onde residiam os destinatários da sua
primeira epístola, Pedro, na segunda epístola, adverte-os contra uma provável difusão
próxima de tais erros no país deles (2Pdr 2,1, tempos futuros). Harmoniza-se e
confirma-se deste modo tudo o que dizíamos acerca da relação genética entre as duas
epístolas. Não se pode saber com certeza de onde foi enviada a epístola de Judas:
provavelmente da Palestina e, talvez, até mesmo de Jerusalém.
INTRODUÇÃO AO APOCALIPSE

Ficou explicado anteriormente que este vocábulo grego, com que o próprio autor
intitulou o seu livro, o último da Bíblia (segundo a ordem do cânon), significa
"revelação", forma particular de "profecia" ou escrito profético. No lugar citado acima
foram expostas as características principais deste gênero literário em grau eminente no
livro ora apresentado.

A natureza mesma das duas primeiras características — 1º o tema do "fim dos tempos"
ou escatologia, com a sua subdivisão em duas espécies, messiânica e cósmica, nem
                                           o
sempre claramente distintas entre si, e 2 a linguagem simbólica, que dá azo a diversas
interpretações, — criou dificuldades aos exegetas, dando origem a grande número de
opiniões diversas e, por conseguinte, à falsa reputação de que o Apocalipse é o livro mais
obscuro e mais difícil da Bíblia. Para não nos perdermos neste emaranhado, fixemos
alguns pontos que são mais ou menos certos, graças ao próprio tema ou à estrutura
literária do livro.

1º O intento do autor é animar os cristãos à constância na fé, malgrado os assaltos e as
insídias de satanás e do mundo, pondo-lhes ante os olhos a certeza da vitória e do
prêmio.

2° Dirige ele a sua mensagem (como os profetas, seus predecessores) sobretudo à
geração contemporânea e às imediatamente sucessivas, e descreve o mundo de então, o
paganismo dominante, com a abjeção ignominável das honras divinas prestadas aos
imperadores romanos. Sem deixar de constituir alimento vital para todas as gerações
vindouras, contudo, é principalmente contra tal politeísmo que arremete a veemência de
suas palavras.

3º A linguagem é simbólica, pelo que não se deve atribuir a cada pormenor uma
correspondência na realidade. Isto é próprio da alegoria. No símbolo, o que importa é a
substância, a generalidade.

4º O predomínio do número 7 é evidente em todo o livro. É um número consagrado
desde a primeira página da Bíblia, com a criação: 7 Igrejas e 7 espíritos (14), 7
candelabros (1,12), 7 estrelas (1,16), 7 lâmpadas (4,5), 7 selos (5,1), 7 chifres e 1 olhos
(5,6), 7 anjos e 1 trombetas (8,6), 7 trovões (10, 3), 7 taças e 1 pragas (15,5-7) etc.

Cumpre, porém, evitar dois exageros: o de atribuir a esse número, todas as vezes que ele
ocorre, um valor particular, presente na realidade e o de, pela análise, ver números
setenários que não vêm expressos.
 o
5 Três desses setenários encadeiam-se, na segunda parte do livro — que é também a
mais extensa — e inserem-se uns nos outros: à ruptura dos 7 selos, aparecem sete
trombetas (8,1-2) e o toque da sétima trombeta encerra um ciclo de visões e abre outro
semelhante (11,19-12,1), que culmina com o derramamento das sete taças da ira de
Deus (16,1). É muito provável que todos os três ciclos se refiram ao mesmo período da
história da Igreja. Mas não é igualmente justificável concluir, apenas pela semelhança de
cenas e expressões, que duas visões distanciadas anunciem os mesmos acontecimentos.

Com essas premissas, parece impor-se aqui, como a mais coerente e a menos espinhosa,
a divisão do Apocalipse em cinco partes, desiguais em extensão, mas de igual
importância substancial, precedidas de uma breve introdução e seguidas de longo
epílogo. Para se chegar a uma compreensão mais perfeita, consultem-se também as
notas do texto.

Sumário

Exórdio: título e convite à leitura (1,1-3).

I parte: mensagens às sete Igrejas da Ásia (1,413,22).

Prólogo comum a todas (1,4-20), mensagem à Igreja de Éfeso (2,1-7), à de Esmirna (2,8-
11), à de Pérgamo (2,12-17), à de Tiatira (2,18-19), à de Sardes (3,1-6), à de Filadélfia
(3,7-13), à de Laodicéia (3,14-22). Seguem todas o mesmo esquema: Jesus Cristo ê
apresentado cada vez sob um título diferente (esses títulos reaparecerão depois na
segunda parte); descreve as condições morais da Igreja ou do seu chefe: repreende e
encoraja. Promete o prêmio eterno aos que permanecerem constantes na fé, aos
vencedores na batalha, e promete-o sob símbolos diversos, que reaparecerão também
na última parte.

II parte: vitória do monoteísmo cristão sobre o politeísmo pagão (cc. 4-19) ou, mais
concretamente, da Igreja sobre o império romano perseguidor.

Esta vitória é apresentada numa série de visões que, na sua maior parte, mostram as
graves calamidades que deverão abater-se sobre a terra, para provação dos cristãos fiéis
e punição dos inimigos do nome de Cristo. O restante manifesta as atividades nefastas
das forças do mal e sua derrota e destruição, seguida pelo canto triunfal dos vencedores:
Jesus Cristo e os seus fiéis seguidores. Tais calamidades são apresentadas sob a forma de
símbolos nos quais predomina o número 7. Dir-se-ia que no conjunto, constituem uma
profecia "da morte dos perseguidores", como o estilista Lactando denominou a sua
relação histórico-apologética.

Visão de abertura: o cenário celeste (c. 4). O livro fechado por sete selos (c. 5). À
abertura de cada um dos quatro primeiros selos sai um cavalo de cor diferente, com um
cavaleiro portador de males para os habitantes da terra (6, 1-8). Ao se abrirem o 5- e o 7-
selos, vêem-se as primeiras vítimas da perseguição e lúgubres sinais do drama já em
ação (6,9-17).

Interlúdio: os 144.000 assinalados (7, 1-8) e o repouso eterno dos justos (7, 9-17).
Rompido o 7° selo, saem sete trombetas empunhadas por sete anjos. Ao soar das quatro
primeiras trombetas, derrama-se igual número de desgraças sobre a terra (8,1-12); as
outras três trombetas preanunciam três grandes ais! 1- ai!, invasão de gafanhotos
mortíferos (8,13-9,12); 2º ai!, um exército de cavalaria que mata a terça parte da
humanidade (9,13-20).

Interlúdio: o anúncio do 3º ai! (última e decisiva fase da luta horrível) está escrito num
livro aberto, que o vidente é obrigado a devorar (c. 10); as duas testemunhas de Deus
pregam durante 1.200 dias, são mortas, ressuscitam e sobem ao céu (11,1-12).

Com o soar da sétima trombeta, chega o tempo do 3º ai! (11,13-19). Antes, porém,
aparecem sinais terrificantes: satanás, sob a figura de enorme dragão, arrastando
consigo a terça parte das estrelas (anjos), combate, no céu, contra os anjos bons,
chefiados por S. Miguel. Satanás é derrotado, expulso do céu e lançado sobre a terra,
onde começa a fazer guerra aos seguidores de Cristo (c. 12). Sai do mar uma besta de 1
cabeças (13,1-10), e da terra surge outra besta com chifres (13,11-18). Ambas, sob a
dependência do dragão (satanás), combatem a religião de Cristo e procuram induzir os
homens a adorarem as criaturas (o dragão e a primeira besta) contra o verdadeiro Deus.

Interlúdio: a falange de 144.000 virgens que acompanham o Cordeiro divino no céu
(14,1-5; cf. 7,1-8). Três anjos anunciam a iminência e o resultado da luta e do juízo divino
entre bons e maus (14,6-13); outros três anjos, anunciam, sob a figura da ceifa, o final já
próximo do drama (14,14-20).

Prepara-se a realização do 3º ai! com a entrega a 1 anjos de 7 pragas, encerradas em 7
taças "cheias da ira de Deus" (c. 15). A uma ordem, os 7 anjos derramam sobre a terra,
uma após outra, as sete taças, causando grande mortandade entre os pagãos que se
obstinam na sua impiedade (c. 16).

Descrição do centro e baluarte do paganismo: uma grande cidade, chamada pelo nome
simbólico de Babilônia, ou, por causa de seu crasso politeísmo, a grande meretriz.
Reconhece-se facilmente nessa cidade a Roma imperial dos três primeiros séculos (c. 17).
Queda, abandono e punição da ímpia cidade (18,1-8); pranto de seus amigos e cúmplices
(18,9-19); gesto simbólico, que representa o seu desaparecimento definitivo (18,20-24).
Festa no céu pelo castigo da "grande meretriz" (19,1-9).

As duas bestas, aliadas do dragão na luta contra os seguidores de Cristo, são
mergulhadas vivas no fogo eterno; os homens, seus cúmplices, são mortos e atirados
como alimento aos abutres (19, 11-21).

III parte: o dragão é atado durante 1000 anos; Jesus Cristo reina na sociedade humana
que ele mesmo transformou (20,1-6).

IV parte: depois dos mil anos, satanás, livre dos grilhões, desencadeia seus últimos e
furiosos ataques contra a Igreja de Cristo. Mas é vencido e precipitado no fogo eterno,
juntamente com as duas bestas (20,7-10). Os mortos ressuscitam, são julgados todos
segundo as suas ações e ouvem o próprio destino eterno (20,11-14). É o fim deste
mundo.

V parte: sorte oposta dos justos é a dos maus, por toda a eternidade (21, 1-8); felicidade
eterna dos justos, representada em dois quadros: primeiro quadro: a cidade, a Jerusalém
celeste de estrutura perfeita, com os mais preciosos materiais, iluminada e cumulada
pessoalmente por Deus de toda a sorte de bens (21,9-27); segundo quadro: um jardim
cheio de árvores que produzem continuamente o fruto da vida, onde se gozará da visão
de Deus (22,1-5).

Conclusão de toda a série das visões e testemunho do autor, João (22,6-11).

Epílogo: Jesus mesmo, compendiando em poucas palavras a substância do livro, atesta
que foi escrito por sua ordem expressa e promete vir muito em breve; invocação e
saudação (22,12-21).

Segundo essa interpretação, a maior parte do livro (cc. 9-19) descreve as perseguições
romanas até à paz que Constantino concedeu à Igreja. Deve isto causar-nos admiração?
É um fato que, pelos fins do séc. IV, que fora iniciado com a mais feroz das perseguições,
o império romano já se tornara sinônimo de cristandade, terra dos cristãos, evento esse
realmente digno de ser preanunciado por uma profecia, como foi mais tarde celebrado
pela eloqüência dos oradores. Vêm mesmo a pelo estas belas palavras de S. Leão Magno:
"Enquanto esta cidade [Roma] dominava sobre todos os povos, era escrava dos erros de
todos eles, e tinha em conta de grande religiosidade o não recusar nenhuma falsidade.
Por essa razão, sendo grande a afoiteza com que o diabo a mantinha vinculada, tornou
mais admirável o fato de a ter Cristo libertado" (Sermão I na festa de S. Pedro e S. Paulo).
Nenhum outro exemplo de triunfo tão vasto e radical como esse da fé cristã conhece a
história mundial.

Dos outros sistemas de interpretação, mencionaremos apenas os dois mais célebres: o
histórico, já fora de moda, que vê representadas nas cenas do Apocalipse as personagens
e os fatos da história eclesiástica no volver dos séculos; e o escatológico, hoje o mais
seguido, segundo o qual todas as visões e predições se referem aos últimos tempos da
história humana, ao fim do mundo. Roma imperial, significada muito claramente nos cc.
17-18, seria apenas um tipo ou figura do perseguidor da Igreja, o Anticristo.

Quanto à composição do livro, convém frisar } sobretudo isto: que do início ao fim
(especialmente nas visões) vêm à tona símbolos, cenas e locuções tomadas de vários
livros do Antigo Testamento, principalmente de Ezequiel e de Daniel. Poder-se-ia
comparar o Apocalipse a um grandioso mosaico, cujas pedrinhas provêm do vasto
repertório dos antigos autores bíblicos, mas reordenadas e dispostas segundo um
harmonioso projeto, absolutamente novo e original. Esse fato, além de nos dissuadir de
procurar outras fontes fora da Bíblia para o Apocalipse; ê também um modo indireto de
insinuar que nos acontecimentos anunciados se realizarão decisiva e plenamente as
profecias do Antigo Testamento.

Quem é o autor do Apocalipse? Ele mesmo se identifica no texto, quatro vezes pelo
menos: duas na terceira pessoa (1,1-4) e duas na primeira: "Eu, João" (1,9;22,8). Seria o
mesmo autor do quarto Evangelho? Ao contrário do autor do Apocalipse, o evangelista
jamais declina o próprio nome, mas oculta-se sempre sob a circunlocução "discípulo
predileto de Jesus".

Existe uma diferença, talvez mais notável ainda: o Evangelho de João é o menos judaico
dos livros do Novo Testamento. Pelo menos no sentido em que "judeus" designa aí
quase sempre os inimigos de Jesus. O Apocalipse, pelo contrário, pode ser chamado o
mais judaico porque, como ficou dito acima, é quase inteiramente uma trama de idéias,
de imagens, de frases tomadas da Bíblia hebraica. Também a linguagem e o estilo de
João são notavelmente melhores do que os do Apocalipse. Por essas razões, desde a
antigüidade, alguns autores, encabeçados por S. Dionísio de Alexandria (séc. III),
atribuíram o Apocalipse a outro João, que não ao apóstolo evangelista. Mas nas idéias e
na linguagem teológica existem semelhanças tais e tão pessoais entre João e o
Apocalipse, que nos levam a optar pela identidade do autor. Mencionemos as principais:
Os títulos "Verbo de Deus" (Jo 1,1; Apoc 19,13) e "Cordeiro" (Jo 1,29; Apoc 5,6 e mais
vinte outras vezes) atribuídos a Jesus Cristo; "verdadeiro" como atributo de Deus (Jo
17,3; Apoc 3,7); "testemunho" no campo da religião (Jo 17,19; Apoc í] 2.9); "água viva"
para designar os dons (graça e glória) de Jesus Cristo (Jo 4,10; 7,38- Apoc 7,17;21,6).

BIBLIA AVE MARIA

  • 1.
    INTRODUÇÃO GERAL A BÍBLIA. -- "Nós não sentimos necessidade de conceito e vocábulo esses tomados da própria apoios e alianças, tendo em mãos, para nosso Bíblia. conforto, os livros sagrados" (1Mac 12,9). Assim, O Antigo Testamento consta dos livros em 154 a.C, em nome de toda a nação, da qual seguintes, comumente agrupados em quatro era chefe, escrevia Jonatas Macabeu ao rei de classes: Esparta. Nessas suas palavras, já se apresenta V Pentateuco ou cinco livros de Moisés: o termo usual, o valor singular e o emprego Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, prático da obra cuja versão apresentamos. Do Deuteronômio. termo: os livros -- no texto grego um neutro 2° Livros históricos: Josué, Juízes, Rute, Reis, plural tà biblía -- em nossa língua, através do Crônicas, Esdras e- Neemias, Tobias, Judite, latim vulgar, formou-se o feminino singular: a Ester, Macabeus. Bíblia. 3? Livros didáticos ou poéticos: Jó, Salmos, Outros sinônimos, encontramo-los Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, freqüentemente na própria Bíblia: a Escritura ou Sabedoria, Eclesiástico (ou Sabedoria de Jesus, as Escrituras, as santas Escrituras, e mais filho de Sirac). raramente, as sagradas Letras. A Bíblia, 4° Livros proféticos: Isaías, Jeremias, portanto, não é um livro só, mas muitos, uma Lamentações, Baruc, Ezequiel, Daniel, os Doze coletânea, cuja unidade consiste no argumento profetas menores, isto é: Amós, Oséias, Joel, comum e na origem sobre-humana. Abdias, Jonas, Miquéias, Naum, Habacuc, E de "livros santos" que a Bíblia se compõe, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias. porque dentro de sua grande variedade eles coincidem em tratar de religião, tendo um No Novo Testamento, o primeiro e mais objetivo essencialmente religioso. Com mais conspícuo lugar compete aos quatro razão ainda chamam-se "livros santos" ou Evangelhos: segundo Mateus, Marcos, Lucas, "sagrados" porque, como ensina a fé, tanto João. Seguem-se: um livro histórico, os Atos judaica como cristã, não foram escritos por mero dos Apóstolos; catorze epístolas de S. Paulo: talento humano, mas sob a influência de aos Romanos, duas aos Coríntios, aos Gálatas, inspiração divina especial. aos Efésios, aos Filipenses, aos Colossenses, duas aos Tessalonicenses, duas a Timóteo, Ê desta origem sobrenatural que a Bíblia uma a Tito, a Filemon, aos Hebreus; sete recebe a sua dignidade de "livro por excelência" epístolas chamadas católicas, ou canónicas: e o seu lugar único na vida dos povos que uma de Tiago, duas de Pedro, três de João, tiveram o primado na civilização. Ela é, com uma de Judas; finalmente, um livro profético, o efeito, o fundamento e o alimento da fé para Apocalipse. todos os povos cristãos, e nenhum outro livro no O elenco oficial dos livros sagrados chama-se mundo pode ser a ela comparado, nem de cânon, no sentido de norma. Expusemos aqui o longe, seja pelo número de tiragens de edições, cânon católico, formado já no séc. IV nas cartas quer manuscritas, quer impressas, seja pela pontifícias e nos concílios provinciais da África, influência sobre a vida individual e pública, sobre sancionado depois solenemente pelos concílios a literatura e as artes figurativas. Qualquer fiel ecumênicos de Florença (1441) e de Trento sinceramente apegado à sua religião tem-na, por (1546) e confirmado pelo Concílio Vaticano I assim dizer, constantemente em mão, como (1870). Para a integridade do cânon não importa Jonatas o apontava, para nela encontrar a ordem dos livros, porque, exceto o primeiro conforto em todas as vicissitudes da vida. lugar reservado constantemente, no Antigo Testamento, ao Pentateuco e no Novo, aos DIVISÃO E NÚMERO DE LIVROS. -- CÂNON. -- Com Evangelhos, no restante diferem muito entre si o nome de Bíblia, pois, compreendem-se os os manuscritos, os autores, os catálogos oficiais livros sagrados da religião cujo centro é Jesus de igrejas e de seitas. Cristo. Partindo deste ponto de convergência, a Bíblia divide-se em duas séries desiguais, a primeira, anterior a Jesus Cristo, a segunda, posterior. A primeira chama-se Antigo Testamento, a segunda Novo Testamento,
  • 2.
    Os livros históricosmais extensos do Antigo babilónico (séc. VI a.C). Dois livros, o segundo Testamento, Samuel-Reis e Crônicas, na dos Macabeus e a Sabedoria, foram escritos antiquíssima versão grega (dos LXX, veja originariamente em grego. Dos livros de Judite, abaixo), por razões práticas foram divididos em Tobias, Baruc, Eclesiástico e parte também de dois; além disso, considerando Samuel e Reis Daniel e Ester, perdeu-se, como no caso do como uma obra só, chegou-se a contar 4 livros Evangelho de Mateus, o texto original, hebraico dos Reis e dois das Crônicas, costume esse ou aramaico, sendo substituído pela versão que se estendeu aos latinos e dura ainda em grega. parte entre nós. No texto hebraico, adotada Essas diferenças lingüísticas não deixaram de semelhante divisão, conhecem-se dois livros de exercer a sua influência sobre a extensão do Samuel, dois dos Reis, dois das Crônicas. cânon dos livros sagrados. Enquanto os judeus Esdras e Neemias são chamados também de disseminados no mundo greco-romano não primeiro e segundo de Esdras. Também dos tinham dificuldades em introduzir os livros Macabeus contam-se dois livros, que na redigidos em grego, os judeus da Palestina não realidade são duas obras perfeitamente queriam conformar-se com isso. Além disso, foi- distintas. Na Vulgata, a Carta de Jeremias se formando entre eles a opinião de que, depois constitui o último cap. (6?) de Baruc. Tudo bem de Esdras (séc. V a.C), faltando ou sendo incerto calculado, o Antigo Testamento consta de o dom profético (veja IMac 4,46; 14,41), nem quarenta e seis livros, o Novo, de vinte e sete. sequer admitiam pudessem ser escritos livros Por razões igualmente práticas, desde os inspirados por Deus. Por isso, quando nos fins primeiros séculos da nossa era, cada livro foi do séc. I d.C, os doutores da Sinagoga fixaram o dividido em seções de várias extensões, cânon das Sagradas Escrituras, foram excluídos conforme sistemas bastante diversos para até os livros escritos em hebraico depois daquela lugares e épocas. Para eliminar os época, como o Eclesiástico. Daí resultou um inconvenientes dessas antigas divisões e cânon hebraico em que faltam sete livros: facilitar o estudo uniforme, no início do séc. XIII, Tobias, Judite, os dois dos Macabeus, na Universidade de Paris, Estêvão Langton Sabedoria, Eclesiástico, Baruc e a Carta de (depois cardeal) introduziu a divisão em Jeremias, e mais algumas partes de Ester e de capítulos de extensão mediana, que depois, Daniel. pela sua utilidade prática, propagou-se em O veredito dos doutores hebreus não deixou todas as escolas e em todas as edições, e é de repercutir na Igreja cristã. Enquanto no uso ainda hoje de uso universal, agora comum se difundia o cânon mais pleno, insubstituível. concretizado na versão dos LXX, empregada e Mais tarde, no séc. XVI, os mesmos capítulos recomendada pelos apóstolos, alguns escritores foram divididos em versículos numerados (por (Melitão de Sardes, Sto. Atanásio de Alexandria, Sante Pagnini, para o Antigo Testamento S. Gregório de Nazianzo, entre os gregos; Sto. [1528], por Roberto Estêvão, para o Novo Hilário de Poitiers, Rufino de Aquilêia e [1550]), tendo sido também essa numeração, principalmente S. Jerônimo, entre os latinos) pela comodidade das citações, aceita logo e adotaram o cânon mais restrito dos hebreus, e, perdura até agora em toda parte. Entende-se, devido à autoridade desses antigos doutores entretanto, que essas divisões são apenas de cristãos, toda hesitação entre os católicos não foi valor prático, não científico. eliminada senão pelo sagrado Concílio de Trento (1546). No entanto, em virtude de tais vozes LÍNGUAS ORIENTAIS E CÂNONES DIVERSOS. -- O discordantes da crença comum, chegou-se a Novo Testamento inteiro foi escrito em grego; fazer distinção entre "livros reconhecidos" só o Evangelho de Mateus, conforme (homologúmenos), admitidos por todos (os do testemunhos de antigos, teve uma primeira cânon hebraico), e "livros controversos" redação em aramaico, a qual, porém, se perdeu (antilogúmenos), não admitidos por todos, os oito sem deixar vestígios; em lugar dela temos uma acima enumerados, constantes do cânon cristão. tradução, ou melhor, uma redação grega. Na terminologia moderna, os primeiros se Quanto ao Antigo Testamento, temos três chamam protocanônicos, os segundos idiomas originais. A maior parte foi escrita e deuterocanônicos, ou seja, canónicos de chegou até nós em língua hebraica. Alguns primeira e de segunda época, à medida que a capítulos dos livros de Esdras e de Daniel, e um unanimidade a seu respeito foi alcançada logo versículo de Jeremias, estão em aramaico, que no começo ou só mais tarde. Entende-se, porém, foi o idioma falado na Palestina depois do exílio que, com esses vocábulos, não se queria
  • 3.
    distinguir o valorou a autoridade das duas mesmo havemos de acreditar que os Livros da categorias de livros, e sim lembrar somente um Escritura ensinam com certeza, fielmente e sem fato histórico e servir para maior brevidade e erro a verdade relativa à nossa salvação, que clareza no tratamento destas matérias. Deus quis fosse consignada nas sagradas Analogamente, no Novo Testamento, por outras Letras. Por isso, 'toda Escritura divinamente razões, porém, alguns livros nem sempre foram inspirada é útil para ensinar, para argüir, para admitidos, e nem em todas as Igrejas, entre as corrigir, para instruir na justiça: a fim de que o divinas Escrituras; tais como a Epístola aos homem de Deus seja perfeito, experimentado em Hebreus, a de Tiago, a segunda de Pedro, a todas as boas obras' (2Tim 3,16-17 gr.). segunda e terceira de João, a de Judas e o Apocalipse; aos quais, por isso, também se Mas como Deus na Sagrada Escritura falou aplicou a designação de deuterocanônicos, no por meio de homens e à maneira humana, o sentido explicado. intérprete da Sagrada Escritura, para saber o Tudo o que foi dito até aqui vale para os que Ele quis nos comunicar, deve investigar com autores católicos. Compreende-se que os atenção o que os hagiógrafos realmente hebreus rejeitem, em sua totalidade, o Novo quiseram significar e aprouve a Deus manifestar Testamento, além dos deuterocanônicos do por meio das palavras deles. Antigo. Os protestantes ocupam uma posição Para descobrir a intenção dos hagiógrafos, de meio termo. No Novo Testamento, depois devem-se ter em conta, entre outras coisas, das primeiras incertezas de seus fundadores também os 'gêneros literários'. A verdade é admitiram integralmente e sem distinção o proposta e expressa de modos diferentes, Cânon católico. No An-tigo Testamento, ao segundo se trata de textos históricos de várias invés, seguindo o cânon mais restrito dos espécies, ou de textos proféticos ou poéticos ou hebreus, rejeitam, como fora da série dos livros ainda de outros modos de expressão. Ê preciso, sagrados, sob o nome de "apócrifos", os que então, que o intérprete busque o sentido que o nós chamamos deuterocanônicos. hagiógrafo -- em determinadas circunstâncias, Para os católicos, os apócrifos são certos segundo as condições do seu tempo e da sua livros antigos, semelhantes a livros bíblicos, cultura -- pretendeu exprimir e de fato exprimiu quer do Novo, quer do Antigo Testamento, o usando os 'gêneros literários' então em voga. mais das vezes atribuídos a personagens Para entender retamente o que o autor sagrado bíblicas, mas não inspirados, como os livros quis afirmar por escrito, deve-se atender bem canónicos, e nem sempre escritos por pessoas quer aos modos peculiares de sentir, dizer ou fidedignas, nem de doutrina segura. Os narrar em uso nos tempos do hagiógrafo, quer apócrifos do Antigo Testamento .são chamados àqueles que na mesma época costumavam "pseudo-epígrafos" pelos protestantes. empregar-se nos intercâmbios humanos. Mas, como a Sagrada Escritura deve ser lida e INSPIRAÇÃO E INTERPRETAÇÃO. -- "As coisas interpretada com a ajuda do mesmo Espírito que reveladas por Deus, que se encontram e levou à sua redação, ao investigarmos o sentido manifestam na Sagrada Escritura, foram bem exato dos textos sagrados, não devemos escritas por inspiração do Espírito Santo. De atender menos ao conteúdo e à unidade de toda fato, a Igreja, por fé apostólica, considera como a Escritura, tendo em conta a Tradição viva de sagrados e canônicos os livros inteiros tanto do toda a6 Igreja e a analogia da fé. Cabe aos Antigo como do Novo Testamento, com todas exegetas, de harmonia com estas regras, as suas partes, porque, tendo sido escritos por trabalhar para entender e expor mais inspiração do Espírito Santo (cf. Jo 20,31; J2Tim profundamente o sentido da Escritura, para que, 3,16; 2Pdr 1,19-21; 3,15 --16), têm a Deus por graças a este estudo de algum modo autor e como tais foram confiados à própria preparatório, chegue a termo o juízo da Igreja. Igreja. Todavia, para escrever os Livros Com efeito, tudo quanto diz respeito à sagrados, Deus escolheu homens, que utilizou interpretação da Escritura está sujeito ao juízo na posse das faculdades e capacidades que último da Igreja, que tem o divino mandato e tinham, para que, agindo Deus neles e por meio ministério de guardar e interpretar a palavra de deles, pusessem por escrito, como verdadeiros Deus. autores, tudo aquilo e só aquilo que Ele quisesse. Portanto, na Sagrada Escritura, salvas sempre a verdade e a santidade de Deus, manifesta-se a Portanto? como tudo quanto afirmam os admirável 'condescendência' da eterna autores inspirados ou hagiógrafos se deve ter Sabedoria, 'para nos levar a conhecer a inefável como afirmado pelo Espírito Santo, por isso benignidade de Deus e a grande acomodação
  • 4.
    que usou nas palavras, tomando desde as primeiras cópias até à invenção da antecipadamente cuidado da nossa natureza' imprensa (séc. XV), era moralmente impossível (S. João Crisóstomo). que dois exemplares de um mesmo livro, ao menos os mais extensos, fossem exatamente As palavras de Deus, expressas em línguas iguais, e Deus, que: preservou de todo erro os humanas, tornaram-se intimamente originais dos livros sagrados, não quis obrigar-se semelhantes à linguagem humana, como a milhares de milagres que seriam necessários outrora o Verbo do Eterno Pai, tomando a carne para que se conservassem intactas as cópias. da fraqueza humana, se tornou semelhante aos Bastava conservar inalterada a substância do homens". (Dei Verbum, 11-13). depósito da fé contido nos livros sagrados. E para tanto foi magnificamente providenciado, A inspiração bíblica, segundo o conceito como precisamente nos ensina a historia do católico, não é uma moção mecânica, nem um texto. ditado, como se o autor humano fosse passivo e nada de próprio assentasse no livro inspirado. Os textos originais da Bíblia, em particular os Não; a força inspiradora age no homem de do Novo Testamento, são comprovados por maneira digna dele, condizente com sua tamanha abundância e antigüidade de natureza de criatura inteligente e livre. Antes de documentos, que também sob o aspecto da tudo, a inspiração é uma luz intelectual, que, ou transmissão textual a Bíblia mantém o seu descobre ao homem aquilo que antes ignorava primado, o seu lugar eminente na literatura (e então tem-se a revelação), ou com novo mundial. Confrontada aos mais célebres esplendor lhe apresenta aquilo que já sabia. monumentos da literatura profana, tais como as Sob a sua ação, a inteligência humana não é obras-primas da literatura grega e latina, ela perturbada, não perde a consciência de si, brilha como o sol entre as estrelas. As obras de como afirmavam os antigos acerca dos oráculos autores gregos e latinos, não raramente, nos pagãos; pelo contrário, é mais do que nunca chegaram num único manuscrito, e as mais lúcida e inteligente. Nem a vontade é arrastada afortunadas gloriam-se de algumas dezenas à força contra a sua inclinação; antes, mais do deles; os manuscritos do Novo Testamento, que nunca livre, segue dócil e porém, contam-se às centenas e aos milhares. espontaneamente o impulso divino. A ação Deles possuímos ainda códices inteiros em inspiradora estende-se a todas as faculdades pergaminho, do século IV; com fragmentos de do homem, a todas as suas ações empregadas papiros podemos remontar aos séculos III e II, ao escrever, até à redação completa; mas a isto é, a menos de um ou dois séculos da morte todas e a cada uma toca e dirige segundo a dos autores, enquanto que para Cícero e Virgílio natureza de cada uma e segundo a parte que a distância das cópias mais antigas é de cinco tomam no trabalho complexo de escrever. Daí ou seis séculos, para Homero de um milênio e se segue que a inspiração não suprime nem mais. O testemunho da transmissão direta dos atenua a personalidade do escritor humano, e códices gregos é reforçado quer por nos vários livros da Bíblia pode-se ver refletida antiquíssimas versões -- já no séc. II, como a a índole e o estilo de cada autor. antiga versão latina --, quer pelas abundantes citações de escritores cristãos, a partir do séc. II. Ora, nesses antiquíssimos testemunhos TEXTOS E VERSÕES. -- "Todos os Padres e encontramos a máxima parte do texto das Doutores tiveram firmíssima persuasão" -- modernas versões. Verdade é que a própria escreve Leão XIII na citada encíclica quantidade de manuscritos (além de versões e Providentissimus -- "de que as divinas citações) ocasionou, pela razão já dita, um Escrituras, quais saíram da pena dos autores número proporcionado de variantes, ou seja, de sagrados, são inteiramente isentas de qualquer alterações; pretende-se que no Novo erro". Mas será que todas nos chegaram tais Testamento inteiro, em 150.000 palavras, haja "quais saíram da pena dos autores sagrados?" 200.000 variantes, mas na maioria são minúcias Nenhum autógrafo, nem sequer do último dos que não atingem absolutamente o sentido. autores inspirados, chegou até nós, como Ademais, a riqueza de documentação oferece à também o de nenhum escritor da antigüidade crítica meios mais eficientes para precisar o texto profana; só possuímos deles cópias remotas. original. Segundo o cálculo de juízes tão Ora, os copistas não tiveram a assistência do competentes como os críticos Westcott e Hort, Espírito Santo como os hagiógrafos, e enquanto sete oitavos de todo o Novo Testamento são copiavam à mão, era natural que se transmitidos, concordemente, sem variantes, por introduzissem no texto alterações de várias todas as testemunhas. Quanto às variantes, espécies. No longo período de 1500-3000 anos, somente a milésima parte atinge o sentido e só
  • 5.
    umas vinte assumemverdadeira importância. acima foi dito. Entra aqui o testemunho -- Nenhuma atinge a alguma verdade de fé. precioso pelo fato e pela época -- do neto do Auxiliados pela crítica textual podemos concluir, autor do Eclesiástico, o qual, no prólogo de sua com os supracitados críticos, que o texto tradução da obra do avô, assevera ter ido ao genuíno do Novo Testamento é assegurado não Egito pelo ano XXXVIII do rei Evérgetes (cerca só na substância, mas também em quase todos de 132 a.C.) e ali já ter encontrado traduzidos os minuciosos particulares. em grego, a Lei (Pentateuco), os Profetas e os Quanto ao Antigo Testamento, as coisas outros Escritos, isto é, as três partes em que os apresentam-se um pouco diversamente. Antes judeus dividem a sua Bíblia, das recentes descobertas junto ao mar Morto Assim, a versão grega dos LXX tem para nós (1947), os códices hebraicos conhecidos, não valor de um manuscrito hebraico do séc. III a.C. anteriores aos séculos VIII-X d.C, dependiam ou mais antigo, representando um tipo de texto todos de uma recensão ou arquétipo do fim do sensivelmente diferente, como o demonstra um séc. I d.C, posterior, portanto, a cinco ou mais confronto com o texto corrente na Palestina. Ela séculos dos originais. Dessa fonte temos o texto é para nós, portanto, o instrumento principal para consonântico, isto é, só as consoantes das a emenda crítica do texto hebraico. È, contudo, palavras hebraicas, segundo o uso das línguas um instrumento de emprego freqüentemente semíticas, de não escreverem as vogais. delicado. Além de, por causa das divergências Somente por volta do séc. VII d.C, para facilitar dos tradutores, alguns literais e até servis, outros a leitura e para uso didático, foram inventados mais livres, não termos um critério geral para os sinais vocálicos e inseridos no texto, quando remontar da tradução grega ao original hebraico, o hebraico tinha cessado há séculos (pelo séc. o próprio texto dos LXX, através de tantas IV a.C), de ser idioma falado. No longo período vicissitudes de séculos, chegou-nos em do séc. I ao X d.C, o texto hebraico foi objeto manuscritos com tão grande número de dos mais minuciosos e diligentes cuidados da variantes que nem sempre é fácil, entre essa parte dos rabinos, chamados massoretas (de selva de variantes, descobrir o texto genuíno. massorá = tradição). Ê ao trabalho infatigável Causaram enorme confusão, sem o querer, deles que se deve a conservação inalterável do três recensões feitas no séc. III e difundidas texto e dos manuscritos tão uniformes que não largamente na Igreja grega. Um século depois, apresentam senão raríssimas variantes e de um ótimo perito e testemunha ocular dos fatos, leve monta. Também as antigas versões, com S. Jerônimo (Prefação às Crônicas) escreve: uma só exceção, quer as gregas do séc. "Alexandria com todo o Egito, nos seus LXX II (Áquila, Símaco, Teodocião, dos quais louva a obra de Hesíquio; de Constantinopla até contudo não nos chegaram senão fragmentos), Antioquia usam-se os exemplares do mártir quer a siríaca, chamada Pechitta, o Targum Luciano; as províncias situadas entre essas duas aramaico (também chamado paráfrase regiões lêem os códices palestinenses, caldaica), e a latina de S. Jerônimo, sendo elaborados por Orígenes e divulgados por todas posteriores à recensão do séc. I, e dela Eusébio e Pânfilo; de modo que todo o orbe se dependentes raras vezes supõem forma diversa debate entre esta tríplice variedade". Felizmente do texto hebraico normal (massorético). nos foi conservado em poucos manuscritos, Tanto mais preciosa, em tais circunstâncias, sobretudo no famoso Vaticano 1209 (assinalado é para nós a antiga versão grega, feita no Egito com a sigla B), um texto anterior àquelas (mais exatamente, em Alexandria, motivo por recensões e por elas tomado por base, o que que também é chamada "alexandrina") entre os facilita o trabalho do crítico em busca da forma séc. primitiva. III e II a.C Considerada até os tempos Todavia, o exame atento e consciencioso nos modernos como obra coletiva de setenta e dois revela que também o texto hebraico usado pela doutos hebreus vindos para isso de Jerusalém, vetusta versão grega já estava bem afastado da a pedido de Ptolomeu Filadelfo (285-247 a.C), primitiva pureza e integridade, e que a maioria como narra uma pseudocarta de Aristéia, das alterações agora deploradas no texto continua ainda a chamar-se a versão dos massorético, já existiam nos séculos imediatos Setenta ou os Setenta (LXX). Na realidade, ao exílio babilónico. Faltando o apoio dos LXX como mostra o exame interno, os tradutores para emendar um texto corrompido, não nos foram muitos, traduzindo quem este, quem resta senão o recurso à crítica interna, ou seja, à aquele livro, em épocas diversas, até que, reconstituição conjetural. A legitimidade e a reunidas as traduções, formou-se um A. medida da aplicação destes critérios no Antigo Testamento totalmente grego, mais amplo do Testamento, provam-nos alguns capítulos que, que o hebraico massorético, segundo o que nos próprios livros canónicos, nos foram
  • 6.
    transmitidos em doisexemplares diversos. falando, seja sinônimo da versão de S. Jerônimo, Como., por exemplo, o salmo 18 (Vulgata 17), denominando-se o todo pela parte principal e reproduzido em 2Rs 22 e, no próprio Saltério, o mais extensa. salmo 14 (Vulgata 13) repetido com o número 53 (Vulgata 52). So tocante ao Pentateuco, O VALOR DA VULGATA. -- Entre os tradutores além disso, temos como reforço o texto antigos da Bíblia, S. Jerônimo foi o último no conservado entre os samaritanos, pertencente a tempo, embora o primeiro pelo mérito: não só um tipo mais antigo que o massorético, por se ter podido valer dos trabalhos dos seus abstração feita de certos acréscimos e antecessores, mas sobretudo porque, pela adaptações em favor do culto deles no monte prática constante, adquiriu domínio tal das Garizim (veja Jo 4,20). O arcaísmo do línguas bíblicas (hebraico, aramaico, grego), que Pentateuco samaritano reflete-se até na forma entre os antigos cristãos não se conhece igual. de, escritura que eles ainda adotam. Trata-se Acrescente-se um conhecimento igualmente dum descendente direto da primitiva escrita único da literatura exegética, tanto judaica como hebraica, mais próxima das origens fenícias (e cristã. Com uma bagagem de cultura literária portanto também de nosso alfabeto), do que o incomum, com ótima preparação e excelentes alfabeto em uso há séculos entre os hebreus. critérios, pôs mãos. ao árduo trabalho. Começou De fato, a hodierna escrita hebraica (chamada, por corrigir (em Roma, em 384, a convite do pela forma geral das letras, quadrada) deriva do papa S. Dâmaso) os Evangelhos latinos, ramo aramaico do alfabeto adotado por eles na auxiliado para isso pelos melhores códices época persa (cerca do séc. V a.C.) em lugar da gregos. Transferindo-se depois para a Palestina antiga, na qual anteriormente foram escritos os (386), com o intuito de levar uma vida de livros sagrados. No exame crítico do texto ascetismo e de estudo, estendeu o mesmo original, esta mudança de alfabeto deve ser trabalho de paciente revisão, baseado no original levada em conta. Ê o primeiro estudo a ser feito grego, aos livros do Antigo Testamento; mas, por todo bom tradutor ou intérprete da Bíblia, tendo terminado uma parte deles, sobretudo os como de qualquer outro livro: certificar-se da Salmos, que passaram depois à Vulgata, leitura genuína, isto é, das palavras exatas compreendeu que prestaria um serviço muito escritas pelo autor. "O primeiro cuidado de melhor à Igreja, fazendo uma nova versão quem quer entender a divina Escritura diretamente do texto hebraico. E sem esmorecer [sentencia Sto. Agostinho no seu magistral De diante das ingentes dificuldades, e sem se Doctrina Christiana, 1. II, c. 21] deve ser o de cansar no longo e áspero caminho, a ela se corrigir os códices". Traduzido em linguagem dedicou com admirável constância pelo espaço moderna pelo Pontífice Leão XIII, na encíclica de uns quinze anos, de 390 a 404, até o Providentissimus Deus, este preceito soa acabamento feliz da obra. Não traduziu os livros assim: "Examinada com todo cuidado a leitura pela ordem que têm no cânon. Começou com os genuína do texto, quando for o caso, passar-se- livros de Samuel, aos quais antepôs o conhecido á a sondar e expor o sentido" do texto sagrado. Prólogo galeato, que é como que o programa de toda a sua versão. Passou depois aos Salmos, A VULGATA, -- Vulgata, por antonomásia, aos Profetas, a Jó, a Esdras e às Crônicas, aos chamase a versão latina em uso na Igreja três livros atribuídos a Salomão (Provérbios, latina. Ela é, em sua máxima parte, obra de S. Ecle-siastes, Cânticos). Em seguida, passando Jerônimo, doutor da Igreja (cerca de 350-420), para o início, pôs mãos ao Pentateuco, e pois resulta da união de três categorias de prosseguindo por Josué, Juízes e Rute, terminou livros: V livros que ele traduziu diretamente do com Ester. Não traduziu todos os livros com a texto original: todos os protocanônicos do mesma aplicação. Com maior cuidado traduziu e Antigo Testamento, com exceção dos Salmos, corrigiu (como se exprime ele mesmo) os mais Tobias e Judite; 2°- os livros de uma antiga primeiros livros, isto é, Samuel e Reis; os três versão latina por ele revista e corrigida à luz do livros ditos de Salomão concluiu-os em apenas texto grego: os Salmos, do Antigo Testamento; três dias; o de Tobias, num dia; o de Judite, ao certo os Evangelhos e provavelmente o numa noite. Destas e de outras causas resulta restante do Novo Testamento; 3° cinco certa desigualdade entre os vários livros, e deuterocanônicos do Antigo Testamento, que também na unidade fundamental da versão. Em tinham ficado na antiga versão latina, não geral, tendo-se formado uma idéia clara do que tocados por S. Jerônimo, a saber: os dois dos queria dizer o autor sagrado, procurou produzi-la Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e Baruc com a mesma clareza em latim, cuidando mais (com a Carta de Jeremias). Não é, portanto, do sentido do que da letra, sem menosprezar a inexato dizer que o termo Vulgata, comumente exigência da boa latinida-de. Guiado por esses
  • 7.
    critérios, conseguiu imprimirà sua tradução, de primeiros passos para uma edição crítica da modo geral, uma propriedade de sentido e uma Vulgata; no entanto, outros a corrompiam ainda beleza de expressão tais, que só se apreciam mais, corrigindo-a a bel-prazer com o texto plenamente quando comparadas com as hebraico; outros ainda mais radicalmente, versões rivais gregas ou latinas, em geral segundo o caminho aberto pela reforma rudemente literárias e bárbaras e, portanto, protestante, a repudiavam. Estes fatos também obscuras. Todavia, também S. motivaram a intervenção do Jerônimo, especialmente nos primeiros livros Concílio de Trento na importante questão. traduzidos, às mais das vezes por veneração à Na sessão IV (8 de abril de 1546) o Tridentino, palavra divina, não se afasta de um duro depois de haver definido o cânon das divinas literalismo e por amor à clareza não foge de Escrituras, como dissemos, para enfrentar as termos e construções vulgares; nos seus desordens introduzidas no uso dos livros escritos originais brilha muito mais pela sagrados, decretou que a Vulgata, venerada pela linguagem e pelo estilo. antigüidade e pelo uso diuturno da Igreja, fosse considerada versão autêntica e, além disso, VICISSITUDES E ESTADO ATUAL. -- Ás traduções fosse impressa com a máxima correção. A de S. Jerônimo não encontraram imediatamente execução da segunda parte deste decreto, isto é, no mundo latino a acolhida que mereciam. A a edição correta da Vulgata, foi confiada pelo propagação, devido em parte às dificuldades da próprio Concílio à Santa Sé. Os Sumos época, foi lenta, mas em constante progresso, Pontífices, desde Pio IV até Clemente VIII, de sorte que dois séculos depois Sto. Isidoro de nomearam para esse fim quatro comissões Sevilha (+ 636) pôde escrever que ela já estava sucessivas, cujos trabalhos, não obstante as em uso em toda a Igreja do Ocidente, e mais numerosas dificuldades e várias vicissitudes, tarde o renascimento carolíngio consagrou-lhe terminaram com a edição oficial vaticana que, definitivamente o triunfo sobre as antigas sobre a base lançada por Sixto V, foi publicada versões latinas. Formou-se assim, entre o séc. por Clemente VIII em 1592, chamando-se, por V e o IX, a versão que, propriamente é isso, sixto-clementina; a essa, a qual se chamada Vulgata: fundo jeronimiano com seguiram outras duas reedições vaticanas em algumas partes da antiga latina, como 1593 e em 1598, tiveram que se conformar todas evidenciamos acima. No curso dos séculos, as edições subseqüentes em qualquer parte do porém, transmitindo-se em exemplares mundo, até aos nossos dias. manuscritos, perdeu, ora mais, ora menos, da sua primitiva pureza, seja por causa dos A autenticidade da Vulgata, primordial decreto copistas, seja por infiltrações de antigas Tridentino, foi muitas vezes mal compreendida. versões. Não faltaram, de vez em quando, Antes de tudo, com este privilégio conferido à doutos e zelosos varões para opor-se à invasão Vulgata, de ser a única versão autêntica, o corruptora, emendando o texto corrente a fim de Concílio não entendeu colocá-la acima dos reconduzi-lo à primitiva integridade. Digna de textos originais, nem diminuir o valor intrínseco memória pelo valor dos resultados e pela das outras versões, sobretudo das antigas, mas influência eficaz a revisão efetuada por Alcuíno também das modernas, como declaram (801), ordenada por Carlos Magno. Mas nem expressamente as atas do concílio. O decreto sequer esta escapou à rápida degeneração, põe diante da Vulgata somente as outras nem impediu que se formassem outros tipos de versões em língua latina; o resto (seja texto, textos, sobretudo na Espanha e na Itália. sejam versões em outras línguas) não é Quando, no séc. XIII, afluíam à Universidade de alcançado pelo decreto. Em relação às versões Paris estudantes de toda a Europa, trazendo latinas afora a Vulgata, portanto, o decreto é cada qual o seu texto bíblico, sentiu-se a negativo; não lhes confere o valor reservado à necessidade, para uso escolar, de uniformizar Vulgata, mas não as rejeita nem as condena. os textos muitas vezes discordantes entre si; e Todo o peso do decreto, portanto, se concentra isso foi feito, enxertando-se sobre o fundo sobre o caráter positivo reconhecido à Vulgata; alcuiniano as variantes dos outros. Originou-se de autêntica. daí um texto de valor discutível que, todavia, graças à enorme influência exercida pela célebre Universidade, teve grande sucesso e AVE-MARIA propagou-se por toda a "Europa, primeiro em A Bíblia “Ave Maria” é uma versão da Bíblia cópias manuscritas, e depois, inventada a arte cristã publicada pela Editora Ave Maria em tipográfica, também nas edições impressas. Só 1959, traduzida do grego e hebraico, por monges na primeira metade do séc. XVI deram-se os beneditinos de Maredsous (Bélgica). Foi
  • 8.
    considerada uma dasmelhores traduções do mundo na época e em sua primeira edição teve uma tiragem de 42.000 exemplares. É uma das traduções mais populares no Brasil. Com poucas notas de rodapé, tem uma linguagem coloquial, porém sem prejuízo para a compreensão dos aspectos históricos e culturais. Na década de 50 publicaram a Bíblia católica do Brasil, cuja tradução, supervisionada pelo frei João José Pedreira de Castro, vice- presidente da LEB – Liga de Estudos Bíblicos – e fundador do Centro Bíblico de São Paulo, foi feita a partir da versão francesa dos monges beneditinos, de Maredsous, Bélgica, uma tradução direta do hebraico, grego e aramaico. Com uma linguagem popular, que tornou sua leitura bastante acessível, a Bíblia Ave-Maria encontra-se agora ONLINE!
  • 9.
    ANTIGO TESTAMENTO Nos relatos do Antigo Testamento por exemplo, de quem narra os presenciamos a história do povo hebreu pormenores do adultério e do homicídio durante quase dois mil anos, desde a (2Sam 11). Mas ao lado do escândalo vinda de Abraão à Palestina até a aparece a correção. Que há de mais instalação da dinastia dos Hasmoneus edificante do que a santa ousadia de (cerca dos séc. XX-II a.C): história essa em Natan em lançar à face de seu soberano conexão, ora maior ora menor, ora direta o duplo delito, do que o arrependimento ora indiretamente, com a dos povos e a humilde confissão de Davi, o perdão vizinhos, sobretudo dos grandes da culpa, seguido da execução dum impérios, entre os quais a Palestina jazia castigo da parte de Deus? (2Sam 12). como ponte: ao sul, o Egito; ao norte, Outras vezes o pecado é censurado mais sucessivamente, Babilônia, a Assíria, a abertamente (Gên 38,9-10). Só os Pérsia e a Síria. Constituíam eles outros fariseus poderiam escandalizar-se com tantos centros de civilização, que se tais narrativas, motivos de ensinamento! irradiava entre os povos submetidos ou Além disso, quão poucos são eles em vizinhos, formando uma vasta unidade comparação com tantos exemplos de cultural. No meio dessa civilização nobres virtudes! São apenas sombras comum movia-se o povo de Israel, humanas a dar maior realce às luzes sofrendo a sua influência. Nas artes e na divinas da história sagrada. As não indústria, Israel jamais desenvolveu uma poucas cenas de sangue que ela relata, civilização própria; ficou devedor ao não passam dum reflexo daqueles estrangeiro, como também a sua língua e tempos rudes e ferozes. Também os literatura trazem o cunho da origem anais de outros povos orientais estão comum ou do prestígio de outros povos repletos delas, distinguindo-se os dos socialmente mais evoluídos. No entanto, hebreus até por um maior senso de a ausência de originalidade e humanitarismo; os reis de Israel gozavam independência de civilização material, de fama universal de clemência (lRs põe em muito maior relevo o valor das 20,31). instituições religiosas e morais, A relativa brandura dos hebreus elementos básicos da civilização genuína derivava da legislação que Deus lhes dera e completa que foram glória exclusiva por intermédio de Moisés. A pena de desse povo eleito. morte é aplicada mais raramente do que no código de Hamurabi, e quase só por VALOR DA INTERPRETAÇÃO. — O Antigo meio de apedrejamento. Reconhece a lei Testamento é uma obra de talião, em voga nos costumes dos verdadeiramente divina porque inspirada povos, mas a mitiga (Êx 21, 23125.28- por Deus e porque nos apresenta, pode- 32). Assim em outras asperezas se dizer, em cada uma de suas páginas, a (vingança do sangue) ou relaxamento de ação de Deus sobre os homens. Ao costumes (poligamia, divórcio) a lei, mesmo tempo, porém, é uma obra encontrando costumes inveterados e profundamente humana, porque não podendo desarraigá-los totalmente, destinada aos homens, fala uma intervém para os refrear e regulamentar linguagem humana e nos apresenta, na (cf. Mt 19,8). Doutra parte, impõe os sua história, os homens tais quais são, deveres de humanitarismo também para com suas deficiências e rebeldias contra com o próprio adversário (Êx 23,4-5) e os desígnios divinos. Não costuma estabelece a medida da mútua encobrir as faltas dos seus heróis; Davi, benevolência, com o preceito: "Amarás o
  • 10.
    teu próximo comoa ti mesmo" (Lev fatos históricos e às pessoas desse 19,18), donde a norma: "Não faças aos "drama" divino, que no Novo outros o que não te agrada" (Tob 4,16). Testamento recebem a sua conclusão. Os Para com os estrangeiros, as viúvas, os apóstolos e o próprio Jesus (Mt 12,40; órfãos, em suma, os mais necessitados, Jo3,14;6,32) indicaram-nos algumas recomenda considerações especiais (ÊX dessas imagens antecipadas que, a 22,21-23; Dt passim). Muitas vezes o exemplo de S. Paulo, costumam chamar- próprio Deus, especialmente pela se tipos ou figuras; o objeto por elas pregação dos profetas, faz-se seu vislumbrando chama-se antítipo ou advogado e protetor. Contra o abuso da figurado. Daí se segue que no Antigo escravidão, praga da sociedade antiga, a Testamento, além do sentido das lei mosaica, além de múltiplas restrições palavras chamado verbal ou literal, há (Êx 21,1-11; Lev 25,39-45; Dt 15,12-18), que reconhecer um sentido das coisas, já defende o princípio de igualdade dos chamado real ou típico, e às vezes menos homens perante Deus (Lev 25,42). Nada felizmente, místico e alegórico. Entre disso se encontra em outros códigos estas duas categorias de sentido há orientais, sem falar na genuína doutrina conexão, mas ao mesmo tempo grande religiosa, própria do Antigo Testamento, diferença. O sentido literal (que pode ser que também ê fator autêntico de próprio ou impróprio, isto é, metafórico) verdadeira civilização. Por outro lado, as não pode faltar em nenhum dito da suas mais nobres eminências o Antigo Escritura e acha-se freqüentemente sem Testamento as atinge nos seus profetas, o típico, do qual é fundamento figuras grandiosas de poetas e de heróis. necessário. O típico, ao invés, jamais Em comparação com a sublime pode disjungir-se do literal e não existe doutrina evangélica, a lei antiga, em toda parte, mas tão-somente onde evidentemente, é bem imperfeita; para há verdadeira semelhança e relação com aqueles tempos e povos antigos, porém, algo de análogo no Novo Testamento. era uma lei santa, que trazia em si os A autêntica originalidade do Antigo germes de um pleno aperfeiçoamento. Testamento consiste na sua doutrina Era uma instituição religiosa preparatória religiosa e moral, cujo centro ocupa-o a para um regulamento definitivo, que idéia do monoteísmo. Na expressão devia ser trazido pelo Messias, por Cristo. artística do pensamento, porém, não S. Paulo, com razão (Gál 3,24), comparou difere muito dos produtos das línguas e a lei mosaica ao pedagogo, que conduz literaturas irmãs, em particular da os discípulos à escala do Mestre, de acádica e da fenícia (ugarítica). A língua Cristo. As próprias falhas do Antigo hebraica, bastante parca de conjunções Testamento levavam a desejar o Senhor subordinativas, costuma exprimir-se em e Salvador, cujo advento fora anunciado proposições breves coordenadas com a pelos profetas. simples aditiva: e . . . e . . . Resulta daí Observa-se, puis, um progresso vital certa dureza e monotonia, sobretudo na do Antigo ao Novo Testamento, como do parte narrativa, que as versões modernas embrião que se desenvolve num devem atenuar, ligando e construindo à organismo perfeito. Deste caráter do nossa maneira usual. Antigo Testamento e desta sua relação O estilo hebraico é imaginoso e com o Novo, deriva uma conseqüência concreto; exprime-se com metáforas importante para a sua correta ousadas e imagens exuberantes, interpretação, pois as suas instituições apresentando as coisas abstratas e deviam ter alguma semelhança com as espirituais com termos realistas capazes do Novo; eram as suas imagens de chocar nossos costumes e gostos mais antecipadas. Analogamente quanto aos refinados. Em particular fala de Deus e
  • 11.
    de suas açõesem termos de atividade leitor não se admire disso, nem se deixe humana: mãos, olhos, ouvidos levar a erro. Sob a aparência muitas (antropomorfismo), ficar sentido, vezes áspera, oculta-se sempre um comover-se, arrepender-se pensamento nobre e puro. (antropopatismos), e semelhantes. Que o
  • 12.
    O PENTATEUCO O primeiro lugar de ordem e de honra antiga e para a história especial do povo entre os livros do Antigo Testamento hebreu. ocupa-o aquele que os gregos chamaram Quem ê o autor do Pentateuco? Desde Pentateuco, isto é, obra em cinco tomos. a mais remota antigüidade foi Para os hebreus é a "tora", ou seja, a lei, considerado seu autor o próprio Moisés, nome tomado da matéria central. o protagonista dos últimos quatro livros. Também os hebreus o dividiram nos Já nos livros posteriores da Bíblia citam- mesmos cinco livros que os gregos, se-lhe várias sentenças com a fórmula: distinguindo--os com a palavra inicial. Nós "Está escrito na lei de Moisés", ou "no usamos exclusivamente os nomes livro de Moisés", ou "no volume da lei de impostos pelos gregos, que de maneira Moisés". Assim, para não falar do livro de graciosa lhes caracterizaram o conteúdo: Josué, que é a continuação imediata e Gênesis, Êxodo, Levítico, Números, como que o complemento do Pentateuco Deuteronômio. De jato, o Gênesis narra (Jos 8,31;23,6), em lRs 2,3; 2Rs 14,6; as origens do universo e do gênero 2Crôn 23,18;25,4;35,12; Esdr 3,2;6,18; Ne humano até à formação paulatina do 8,1; 10,34; 13,1; Bar 2,2; Dan 9,11 etc. Os povo de Israel na sua estada no Egito. O Evangelhos nos apresentam a convicção Êxodo narra a saída dos israelitas do de que Moisés é autor da lei, difundida e Egito, conduzidos por Moisés aos pés do radicada entre os judeus; o próprio Jesus, Sinai, para aí receberem de Deus a sua lei bem como os apóstolos admitem-na e a religiosa e civil e se constituírem, por confirmam (veja Mt 8,4; Mc 12,26; Lc meio de um pacto sagrado 20,37; Jo 5,46; At 3,32;15,21; Rom 10,5 ("testamento"), em peculiar "povo de etc.). Entre as testemunhas eloqüentes da Deus (Javê)". O Levítico regula o culto fé judaica figuram Fílon, José Flávio, e religioso à maneira de ritual, dirigido com maior crédito e ressonância o especialmente aos levitas, que formavam Talmud (tratado Baba batra, f. 14,15); o clero consagrado ao serviço do entre os cristãos, os Padres da Igreja são santuário. Os Números recebem o nome unânimes em reconhecer Moisés autor dos recenseamentos do povo contidos na do Pentateuco. primeira parte, estendendo-se, depois, Não contraria essa atribuição o fato de em referir fatos e providências legislativas que de Moisés se fale sempre em terceira correspondentes a cerca de quarenta pessoa; Xenofonte e Júlio César (para anos de vida nômade no deserto da falar só em nomes célebres), fizeram o península sinaítica. No Deuteronômio, ou mesmo. Nem suscita a menor dificuldade segunda lei, emanada pelo fim da jornada a grande antigüidade de Moisés (cerca do no deserto, Moisés retoma a legislação século xiv a.C), pois agora sabemos por precedente para adaptá-la às novas documentos originais recentemente condições de vida sedentária, em que o descobertos, que naquela época, não só a povo viria a se encontrar com a conquista escrita já era conhecida desde séculos, iminente da Palestina. mas até o próprio alfabeto fenicio- Neste rápido apanhado aparece num só hebraico já fora inventado. Nem lance tanto a unidade como a variedade derrogam esta convicção universal a do Pentateuco, bem como a sua opinião de alguns, já na Idade Média, de importância fundamental para a religião que um outro trecho breve, como os oito
  • 13.
    últimos versículos doDeuteronômio, que de Esdras (século v a.C). Com tais narram a morte de Moisés, tenha sido conclusões, nada mais resta a Moisés do acrescentado mais tarde ao Pentateuco. Pentateuco, exceto um ou outro Só nos tempos modernos é que surgiram fragmento, como o Decálogo (Êx 20), dúvidas e negações radicais. incorporado pelos primeiros A partir do século xvin vem-se fazendo colecionadores das antigas memórias (J E) pesquisas perspicazes em três sentidos: à própria obra. composição, autor, idade do Pentateuco. Esta teoria, que se estriba, em boa A composição: é fruto ou não da união de parte, no princípio filosófico da evolução vários documentos ou de mais escritos aplicado à religião e à história do povo originariamente distintos? O autor: de hebreu, se bem que tenha encontrado a quem são as partes individuais ou os maior aceitação entre os protestantes, documentos, quem as reuniu num todo, teve na própria Alemanha, fortes ou seja, de quem é a redação definitiva opositores entre os críticos de primeira do atual Pentateuco? A idade: quando ordem, especialmente no que concerne viveu cada um dos autores e redatores? às datas atribuídas aos supostos São três questões distintas entre si, mas documentos, que, se na verdade é o tão conexas que podem e habitualmente ponto mais revolucionário, é também o são tratadas como um tema comum: a mais vulnerável de todo o sistema. Para questão mosaica. Para responder a tais desmenti-lo neste ponto, surgiram no questões elaboraram-se, no século xix, século xx novas escolas; novas vários sistemas; mas prevaleceu sobre orientações emergiram do solo, com as todos, no fim do século, o defendido por escavações no Oriente, importantíssimos K. H. Graf (1866) e aperfeiçoado por J. documentos, tais como o código de Wellhausen (1876-78). Ele distingue no Hamurabi, rei de Babilônia, os arquivos Pentateuco quatro autores ou escritores dos heteus, ou hititas, em Bogazkõy, na diferentes: dois narradores denominados Ásia Menor, e os poemas ugaríticos pelo uso diferente do nome de Deus, um descobertos em Ras Shamra, no litoral da ¡avista (abreviado }), o outro eloísta (E), Síria, para só mencionar os principais. Eles aos quais se deve a maior parte dos fatos trazem à luz costumes, instituições e ritos referidos no Gênesis, Êxodo, Números; análogos aos do Pentateuco de tempos um deuteronomista (D), autor quase até mais antigos de Moisés, e que os exclusivo do Deuteronômio; e um tratado críticos julgavam próprios de época mais presbiteral (P) ou código sacerdotal, que recente, e nos revelam fatos que se compreende todo o Levítico e muitas refletem na vida dos patriarcas (Gên 12, partes narrativas de Gênesis, Êxodo e fim), com matizes que poucos séculos Números. Esses os documentos. Para as atrás teria sido impossível imaginar. respectivas datas, segundo a supracitada Conseqüentemente, a brilhante escola, o código sacerdotal (P) seria concepção arquitetada por Wellhausen posterior ao profeta Ezequiel (primeira acha-se em plena dissolução. Resiste metade do século vi a.C), o Deuteronômio ainda tenazmente a análise teria sido composto pouco antes da documentária, ou seja, a distinção de reforma religiosa de Josias, ou seja, pelo quatro (ou mais) fontes, de cuja fusão ano de 621 a.C, o eloísta e o ¡avista teria resultado o Pentateuco. seriam mais antigos (século viu e ix). A Remetendo, para mais amplas união de todos esses escritos no atual explicações, a tratados especializados de Pentateuco ter-se-ia realizado no tempo introdução bíblica, ou a comentários mais
  • 14.
    desenvolvidos, exporemos aquios fatos Eloim 6 Javé. Na tradução, a Vulgata nem objetivos, sobre os quais se quer sempre conserva a distinção. fundamentar a prova da estrutura O emprego alternado dos dois nomes compósita do Pentateuco, para indicar divinos não é casual; nem é sem motivo depois uma via de solução, e mostrar que cessa em Êx 6, predominando depois como esses fatos, quando reduzidos ao quase exclusivamente Javé; isso está seu justo valor, não impedem que Moisés manifestamente em relação com o que aí possa ser verdadeiramente chamado se lê; às gerações precedentes Deus se autor do Pentateuco. A exposição que revelava como Sadai, pois desconheciam segue auxiliará o leitor a formar-se uma o nome sagrado de Javé, revelado pela compreensão mais clara destes livros. primeira vez a Moisés (veja também Êx Nomes divinos. — Para exprimir a idéia 3,13-15,). Compreende-se, pois, porque de Deus, a língua hebraica dispõe de nas narrativas precedentes o nome usado muitos termos. O mais freqüente (1.440 seja Eloim. Mas, como explicar a presença vezes no Pentateuco, mais de 6.800 em de Javé em tantas partes do Gênesis? toda a Bíblia) é "Javé" (ou "Jeová", Depois de Astruc viu-se aqui a prova segundo uma pseudo pronúncia tangível de duas fontes ou dois autores introduzida entre os séculos xvi e xix), diferentes, chamados um eloísta (sigla E), nome próprio, pessoal. " 'Elohim" (975 outro javista (sigla J). Veremos se com vezes no Pentateuco, cerca de 2.500 na razão. Bíblia) é nome de natureza, como se Língua e estilo. — No entanto, estão já disséssemos: a divindade; todos concordes que o argumento dos gramaticalmente plural (a forma singular, nomes divinos, por si só, não é suficiente " 'eloah", é poética e existe só 2 vezes no para se distinguirem solidamente fontes Pentateuco), quanto ao sentido é singular ou autores. Este argumento por isso é "El", de igual valor, mas arcaico e poético, acompanhado de provas subsidiárias. 46 vezes no Pentateuco; " 'Adonai" = Com efeito, observam eles, à alternação Senhor, 17 vezes; "Saddai" = o dos nomes divinos acha-se associada a e Onipotente (?), 9 vezes; " Elion" = o semelhantes mudanças de vocábulos e Altíssimo, 6 vezes. À questão mosaica construções. Por exemplo, o ato criador interessam principalmente os dois em Gên 1 exprime-se com "bara' ", em 2 primeiros. Foi observado (e o primeiro a com "yasar"; os habitantes da Palestina dar pelo fato foi o médico católico francês antes dos hebreus são chamados (í Jean Astruc em 1756) que no Gênesis e "cananeus" por J, amor eus" por E; a no início do Êxodo capítulos inteiros serva, "sifha" por J, * 'amah" por E; o empregam exclusivamente, ou quase, o patriarca Jacó só em J toma o nome de nome Javé; outros, ao invés, com a Israel. A diversidade prolonga-se além do mesma exclusividade e constância rezam Gênesis; o monte onde foi promulgada a Eloim. Assim, por exemplo, em Gên 1, lê- lei, em J chamava-se "Sinai", em E "Ho- se 33 vezes Eloim, e nunca Javé; em Gên reb"; o sogro de Moisés, em J tem o nome 4, uma vez Eloim e 10 vezes Javé (em 2-3 de "Raguel", em E de "Jetro", e assim por diga-se de passagem, estão juntos Javé e diante, igualmente, mudando os nomes Eloim); em Gên 10,16 nenhum Eloim, 36 divinos, muda o estilo. J é mais abundante Javé (com 2 Adonai); em Gên 17, ao invés, e minucioso; condescendente e popular, 7 Eloim, 1 Javé; em Gên 24 nenhum não evita os mais chocantes Eloim, 19 Javé; em Gên 30-35 contra 32 antropomorfismos; vivaz e dramático, tem um colorido poético, fascinante. E é
  • 15.
    mais seco, anedótico,um pouco permitir a ereção de um altar em descuidado. qualquer lugar, memorável por alguma Observando-se a diversidade de estilo, intervenção divina, e aí imolar vítimas descobrem-se mais duas fontes ou sagradas. Lev 17,3-9 não admite autores: um segundo eloísta que, nas nenhuma matança de animal longe do partes legislativas, ocupa-se de altar, sobre o qual deve ser derramado o preferência do culto religioso, donde foi sangue, sendo este altar, em união com o chamado sacerdote e autor do "código tabernáculo sagrado, o único para todos. sacerdotal" (P); e na seção narrativa ele Em Dt 12,1-28, segundo a interpretação aprecia as estatísticas, anotações comum e óbvia, únicos são o templo e o cronológicas, fórmulas esquemáticas altar, e fora deles não é permitido (exemplo seja a narração da criação, Gên oferecer sacrifícios a Deus. Permite-se, no 1), a linguagem precisa e quase pedante entanto, que se matem animais em do jurista. E, enfim, o pregador que qualquer lugar, para o uso comum, escreveu o Deuteronômio (D) num estilo derramando-lhes o sangue por terra, ação amplo, parenético, cheio de afeto declarada profana e não mais sagrada. humanitário e de suave insinuação. A esta variedade de leis corresponde — Os duplicados. — Para provar a observa-se — a prática na história, pluralidade de autores do Pentateuco conforme vem narrada pela própria surge um terceiro argumento, mais Bíblia. De fato, vemos nos livros dos Juízes valioso do que os dois antecedentes. (6,24-28; 13,15-23), de Samuel (ISam 6, Certos acontecimentos — diz-se — e não 9.17;9,12; 2Sam 15,7-12;24,18-25), dos poucas leis, ocorrem duas e até três vezes Reis (IRs 3,2-4; 15,14 etc.), altares erigidos em forma pouco diversa. Assim, a criação e sacrifícios oferecidos quase por toda do mundo é narrada duas vezes (Gên 1,1- parte, segundo as circunstâncias, em 2,3 e 2, 4-24); duas vezes Agar é expulsa harmonia com a lei do Êxodo. Mas, em da casa de Abraão (16 e 21); duas vezes 2Rs 22,23, lemos que o rei Josias no acha-se em perigo a honestidade de Sara sétimo ano de seu reinado (621 a.C.), (12 e 20) e uma terceira a de Rebeca (26); tendo-se encontrado como que por as duas genealogias de Caim (4) e de Set acaso, no templo, um exemplar da lei, fez (5) têm em comum a maior parte dos dela uma aplicação imediata, que nomes; no dilúvio (6-8) são entrelaçadas corresponde exatamente às prescrições duas narrações distintas. Duas vezes é do Deuteronômio, particularmente acerca repetida a vocação de Moisés (Êx 3 e 6), a da unicidade do santuário e do altar. queda do maná e a pousada das co- Trata-se da chamada reforma de Josias, dornizes no deserto (Êx 16 e Núm 11), a precedida, um século antes, por uma prova junto às águas de Meribá (Êx 17 e tentativa de Ezequias no mesmo sentido Núm 20). O preceito das três solenidades (2Rs 17,22; 2Crôn 32,12; Is 36,7). anuais é repetido até cinco vezes (Êx Esses os fatos. A supradita escola crítica 23,14-19;34,23-26; Lev 23; Núm 28; Dt tira daqui as conseqüências que temos 16). visto: o Deuteronômio, o primeiro a Variações nas leis. — Entre os ostentar a lei do altar único, foi composto duplicados legais, especial atenção no século vil a.C, pouco antes da reforma reclamam os que introduzem uma de Josias. O Levítico, que já supõe essa lei, modificação. A mais célebre e mais grave bem como todo o código sacerdotal ao de tais modificações diz respeito ao lugar qual pertence, é posterior a Josias e ao do culto (templo e altar). Êx 20,24 parece exílio, acrescentado pouco depois. Os
  • 16.
    dois escritos narrativos,o javis-ta e o repetido na eloísta (um "duplicado" eloísta, que já circulavam separadamente, análogo aos do Pentateuco) sem outra o primeiro desde o século ix na Judéia, o variante, ou quase, senão justamente segundo desde o século viu no reino de esses nomes divinos. Ora, assim como Israel, refletem a prática mais antiga. ninguém duvida que os salmos assim Essas conseqüências sustentam-se? repetidos, por exemplo, 13 e 52 sejam do Será que os fatos acima mencionados, mesmo autor, assim também não está reduzidos aos seus justos limites, não provado que seções ¡avistas e eloístas no comportam outra explicação? A solução Pentateuco devam pertencer a autores da questão da autenticidade mosaica do diferentes. Pentateuco depende da resposta a esses A língua e o estilo não dependem dois quesitos. unicamente do autor, mas também do Partindo do primeiro argumento, o dos assunto e do gênero literário. Santo nomes divinos, afirmamos antes de mais Agostinho ditava os seus trabalhos nada que nem sempre esteve ao arbítrio dogmáticos de modo diverso dos seus do escritor usar Javé ou Eloim; o matiz sermões populares. O Deuteronômio, que sutil de sentido e a associação diferente é a promulgação oral de uma lei, em de idéias contidas nos dois nomes, levam, reunião pública, não pode ter o estilo em dadas circunstâncias, a usar um com lapidar de um código gravado em tábuas, exclusão de outro, e em certas nem as disposições rituais do código construções o uso, sem razão aparente, sacerdotal têm que se amoldar às leis ligou-se exclusivamente a um ou ao civis do código da aliança (Êx cc. 21-23). A outro. Ê daí que se diz: " 'is Elohim" = variedade, por maior que seja, não se homem de Deus, mas "debar Jahvé" = opõe à unicidade substancial do autor. palavra do Senhor, e não o contrário. O Além disso, não está excluído, como critério dos nomes divinos, portanto, está veremos, o emprego de fontes e de sujeito à cautela. Além disso, será que colaboradores que também deixam a sua estamos certos de que os nomes divinos, marca na obra definitivamente concluída. como figuram no texto atual, são Distinguimos duas espécies dos originais, isto é, remontam ao próprio chamados duplicados: duas vezes ocorre autor? um fato semelhante (duplicado real), ou A tese crítica o supõe, e é para ela duas vezes narra-se o mesmo fato indispensável. Há, porém, boas razões (duplicado literário); para a questão de para duvidar. A alternação dos nomes unicidade ou pluralidade de autor, divinos não é particularidade do somente a segunda espécie tem valor. Pentateuco: constata-se também em Ora, que, por exemplo, a beleza de Sara outros livros da Bíblia, especialmente no tenha excitado duas vezes, em duas Saltério, onde os primeiros quarenta e os cidades diversas, a cobiça de um déspota últimos sessenta salmos usam quase oriental (Gên 12 e 20) nada tem de exclusivamente Javé, ao passo que os improvável. Ê também positivamente demais cinqüenta, do meio, empregam verossímil que em quarenta anos mais de geralmente Eloim. Ora (e isto é de uma vez se tenha verificado a passagem importância capital), pode-se demonstrar das codornizes nas suas migrações com vários argumentos que também através do deserto (Êx 16; Núm 11); estes naqueles salmos, agora eloísticos, são duplicados reais. Cumpre examinar, originalmente no lugar de Eloim havia assim, caso por caso. Para a repetição em Javé. Mais de um salmo da seção javista é que o mesmo ato não pareça admissível,
  • 17.
    isto é, emse tratando de verdadeiros (talvez também, parcialmente, por duplicados literários, tem valor a solução escrito) às gerações do povo de Israel, que delinearemos mais adiante. cujas memórias o grande legislador teria É insito em toda lei, civil ou religiosa registrado, deixando às narrações o seu que, permanecendo inalterados os matiz original. Um exemplo claro deste pontos fundamentais, em muitos outros gênero temo-lo no capítulo 14 (expedição esteja sujeita a variações com o decorrer de Abraão e encontro com Mel-quisedec), do tempo e as mudanças de de características tão individuais, que a circunstâncias. Nem a lei mosaica podia crítica o atribui a uma fonte especial, não escapar a essa necessidade quase vital. pertencente a nenhuma das quatro Mas o próprio texto apresenta a razão habituais. No tocante aos quatro livros das variações observadas no Pentateuco. posteriores, que versam exatamente Desde a primeira legislação no Sinai sobre os tempos de Moisés, já indicamos (código da aliança) e a segunda, às as razões que explicam as margens do Jordão, o Deuteronômio, particularidades estilísticas de dois passam-se cerca de quarenta anos, e, o grandes documentos legislativos, o que mais importa, o povo de Israel, no fim Código sacerdotal e o Deuteronômio. desse período, encontra-se prestes a Outra hipótese, baseada na analogia do sofrer uma profunda transformação, ao Saltério, é a seguinte: o Pentateuco, passar da vida nômade ou pastoril, à composto inteiramente por Moisés, parte sedentária e agrícola. Impunha-sef baseado em suas recordações, parte em portanto, uma adaptação do antigo documentos fornecidos pela tradição e direito às novas condições. Da não pela casta sacerdotal, propagou-se na observância rigorosa, durante séculos, da sociedade hebraica, e, durante a lei deuteronômica sobre a unicidade do transmissão, sofrendo modificações na altar, não prova de per si que não forma, em nada insólitas na transcrição existisse. De resto, um ou outro de obras literárias, chegou, com o tempo, acréscimo ou modificação pode ter-se a receber, em dois pontos diversos da introduzido com o tempo nas leis área israelita, por exemplo, no reino de mosaicas sem derrogar ou diminuir a Efraim e no reino de Judá, duas formas paternidade de Moisés do Pentateuco. um tanto diferentes; em uma delas, entre A escola crítica, portanto, não provou, outras coisas, o primitivo nome de Javé contra o testemunho claro da própria foi substituído por Eloim. Mais tarde (no Bíblia, a sua tese de que o Pentateuco em reinado de Ezequias ou Josias), quando se nada pertence a Moisés. Das sentiu a necessidade ou a oportunidade discrepâncias, quaisquer sejam, de de unificar as duas recensões, um redator vocabulário, de estilo, de leis, dão-se fundiu-as, extraindo ora desta ora outras explicações conciliáveis com a daquela, muitas vezes contentando-se autenticidade mosaica. No Gênesis, por com justaposições, sem alterar as feições exemplo, não se lhe opõe a distinção de próprias de cada uma. Destarte explicar-- fontes, pois trata-se de acontecimentos se-iam os fenômenos que levaram a anteriores a Moisés, transmitidos, ao acreditar na existência de fontes diversas. menos em grande parte, oralmente
  • 18.
    INTRODUÇÃO AO GENESIS do homem sobre a terra. A Bíblia não é contrária a resultados certos de tais O Gênesis narra as primeiras ciências, também porque as listas origens do mundo, do gênero humano, genealógicas do Gênesis poderiam do povo hebreu, tudo relacionado com ser incompletas, ou seja, com Deus, com sua revelação, com seu omissões de elos intermediários. culto. Deus cria o universo, revela-se Do nascimento de Abraão à aos primeiros homens, Deus escolhe descida dos israelitas ao Egito -- 290 uma família (Abraão e sua anos -- (Gên 21,5 + 25,26 + 47,28), a descendência), para no seio dela cronologia respectiva é mais ou conservar e desenvolver os germes da menos certa. Para a cronologia primitiva revelação e a verdadeira absoluta (baseada na era vulgar) ter- religião, no intuito de preparar a solene se-ia um ponto fixo no sincronismo de revelação do Sinai, narrada no Êxodo. Abraão com Hamurabi, o célebre rei A criação do céu e da terra (1,1-2,3), da Babilônia, cujo famoso código de é como que o prólogo do grandioso leis foi descoberto em 1902. A drama, que se divide em duas partes, identificação, porém, de Amrafel, rei e tem por protagonistas os cinco de Senaar (Gên 14,1), com Hamurabi grandes patriarcas: Adão e Noé, da Babilônia, é hoje mais do que patriarcas do gênero humano; Abraão, duvidosa; tampouco a data do Isaac e Jacó, patriarcas do povo reinado deste último está hebreu. definitivamente fixada; atualmente O todo ê enquadrado pelo autor tende-se a colocar-Ihe o início por sagrado em dez tábuas genealógicas volta de 1728 a.C. Tomando como (2,4; 5,1; 6,9; 10,1; 11,10; 11,27; ponto de partida a data em que os 25,12; 25,19;36, 1;37,2) dispostas de israelitas saíram do Egito sob o faraó tal modo que, após ter registrado os Menefta pelo ano de 1200 a.C, e ramos secundários da propagação remontando o curso dos séculos com humana, volta a narrar difusamente os os dados da própria Bíblia (Ex 12, 40 destinos do ramo patriarcal, isto é, da e passagens acima citadas), Abraão descendência eleita, portadora da teria nascido por volta de 1900 a.C, revelação divina e da verdadeira mas não é certo qual seja o faraó do religião. Êxodo. O Gênesis abrange na sua narração Muitas páginas do Gênesis têm uma longa série de séculos, e correspondência nos monumentos colocando (no tronco principal das babilónicos e egípcios: nos primeiros, suas genealogias) ao lado dos nomes a história primitiva, isto é, os também números de anos, forneceria primeiros 11 capítulos; nos egípcios, os elementos de uma cronologia. o resto, especialmente a história de Infelizmente as cifras não parecem José (37-50). Com os dois primeiros bem conservadas, porque nos capítulos (a criação) têm algo de números dos capítulos 5 e 11 os três semelhante vários poemas textos independentes: o hebraico, o babilónicos entre si discordantes e samaritano e o grego divergem entre que são uma fantasiosa mitologia de si. Baseando-se sobre o seu texto, os crasso politeísmo; quão mais sublime gregos do império bizantino colocavam pela nobreza de pensamento é a a criação do homem 5.508 anos a.C. prosa simples da Bíblia! Também a Os hebreus ainda usam uma era que tradição babilônica conhece dez reis, no mesmo período conta 3.760 anos. como Gên 5, dez patriarcas, de vida As ciência antropológicas exigem um longuíssima antes do dilúvio. Este tempo assaz maior para a existência cataclisma foi narrado em muitas
  • 19.
    lendas babilônicas, umadas quais foi inserida no romanesco poema "Gilgames", assim chamado por causa do herói protagonista. Os pontos de contato com a narração bíblica (Gên 7; 8) são numerosos e típicos. A narração da torre de Babel (Gên 11,1-9) é toda tecida de elementos babilônicos; mas um paralelo exato não foi ainda encontrado na literatura cuneiforme. Nada ainda se encontrou nessa literatura de verdadeiramente análogo à narração do paraíso terrestre e da queda do homem (Gên 3). Nos monumentos egípcios temos representadas muitas cenas semelhantes às narradas no Gên cc. 12,37-50.
  • 20.
    INTRODUÇÃO AO ÊXODO O segundo livro do Pentateuco toma o 17), reside a verdadeira prerrogativa do nome de Êxodo da saída dos hebreus do povo de Israel; nada de semelhante se Egito, onde, depois dos bons tempos de encontra em nenhum outro povo. Citam- José, passaram a sofrer a mais dura se, é certo, da literatura egípcia, certas escravidão. Esse acontecimento, porém, desculpas espirituais como: "Não cometi nada mais foi do que o prelúdio de jatos injustiça, não roubei, não matei'' etc., ou muito mais importantes na vida dos filhos da babilônia, os esconjuros, onde se de Israel, os quais, de um conglomerado pergunta se o exorcizado ultrajou alguma de famílias que eram, recuperando a divindade, se desprezou pai e mãe, se liberdade, conquistaram verdadeira mentiu ou praticou obscenidades etc. Mas unidade de nação independente e não há proporção entre os protestos de receberam uma legislação especial, uma um particular para evitar o castigo forma de vida moral e religiosa, pelas (finalidade daquelas fórmulas rituais) e a quais se distinguiram de todos os outros autoridade soberana que impõe a lei a povos da terra. todo um povo. Entre os próprios egípcios e Com toda facilidade compreender-se-á babilônios, nada há de correspondente, na a importância deste livro, sobretudo em se legislação, àquelas fórmulas cerimoniais. pensando que, se a história civil das O decálogo de Moisés não tem rivais no nações, mormente as antigas, acha-se mundo. intimamente vinculada à religião e essa à Pelas razões citadas, os moral, isto jamais foi tão verídico como a acontecimentos narrados no Êxodo respeito dos hebreus. As leis contidas no tiveram um eco enorme na memória das Êxodo formam a essência da vida civil e tribos israelitas. Em quase todas as religiosa do povo eleito. páginas do Antigo Testamento são Ê bem verdade que, de todas essas recordadas a libertação da escravidão do leis, e especialmente as do chamado Egito, a prodigiosa passagem do mar código da aliança (21-23), foram Vermelho, os golpes tremendos com os encontradas analogias notáveis no código quais foi dominada a tenaz oposição do de Hamurabi (rei babilônico, que viveu opressor egípcio, as grandiosas alguns séculos anteriormente a Moisés), manifestações divinas no Sinai, o sustento que foi descoberto, traduzido e publicado milagroso de povo tão numeroso no pelo dominicano Pe. Scheil, em 1902. De deserto. Daí Israel deduzia os motivos tais analogias não se infere, porém, em mais fortes para ser grato e fiel a Deus, e absoluto, como pretendem alguns, a conservar uma confiança inabalável na dependência do código mosaico do sua providência soberana e nos seus babilônico. Elas têm sua explicação próprios destinos. adequada nos fatores comuns às duas A cronologia do Êxodo, ou seja, o ano sociedades, israelita e babilônica, tão em que os hebreus saíram do Egito, está próximas no tempo, no lugar e também na naturalmente ligada à história desse país. origem, pois os patriarcas do povo hebreu Mas, já que a Bíblia não fornece os nomes procediam do vale do Tigre. dos dois faraós, o da opressão (1,8;2,23) e Realmente, na legislação decretada no o da saída (14,5), duas opiniões diversas Sinai, nem tudo foi criado desde a raiz; se equilibraram entre os doutos, com muitos usos e costumes já introduzidos na autoridade e número de defensores quase prática social foram confirmados pela iguais. Para uns, o opressor seria Totmés aprovação divina. De resto, também nas III (1500--1450) e o outro Amenofis II famosas leis romanas das doze tábuas (1447-1420), da XVIII dinastia; para descobrem-se semelhanças com o código outros, no entanto, Ramsés II (1292-- mosaico, sem que ocorra a alguém o 1225), da XIX dinastia, teria oprimido os pensamento de querer estabelecer um hebreus, e seu sucessor, Menefta (1225- parentesco entre as primeiras e o 1215), tê-los-ia libertado. A segunda segundo. Providências semelhantes opinião, que estabelece o século XIII a.C. surgem espontaneamente de para o Êxodo, parece-nos mais condizente necessidades sociais do gênero. No com o texto (1,11) e mais coerente com decálogo, porém, e na doutrina religiosa outros dados da história sagrada e que lhe forma a base inconcussa (20,2- profana.
  • 21.
    INTRODUÇÃO AO LEVÍTICO Este livro traz o nome de Levítico, por festivos: solenidades anuais e o sábado tratar quase exclusivamente dos deveres (23). sacerdotais. Poder-se-ia compará-lo a um 5- Determinações diversas: lâmpadas ritual. no santuário e pães da apresentação Com exceção de dois trechos históricos (24,1-9); pena para o blasfemador (8 a 10;24,10-23), compõe-se (24,10-23); prescrições para o ano inteiramente de leis que visam à sabático e jubileu (25); promessas e santificação individual e nacional. ameaças relativas a observância da lei Santificação, de per si ritual e exterior, (26); votos e dízimos (27). que, porém, simboliza e promove certa O sacrifício, o ato mais sagrado da santidade interior e moral. Toda a religião, isto é, oferecer a Deus vítimas, matéria pode ser dividida em cinco animais ou vegetais, não foi instituído partes: por Moisés, mas remonta às próprias 1- Leis relativas aos sacrifícios (1-7). origens da humanidade (Gên 4,3-4). Os sacrifícios são de cinco espécies; duas Moisés encontrou o seu uso estabelecido séries de leis: V série — o rito de cada e arraigado entre todos os povos. Nas sacrifício (1-5), holocausto (1), oblação tabuinhas recentemente descobertas em de vegetais (2), sacrifício salutar (3), Ras Shamra (antiga Ugarit), na Fenícia sacrifício expiatório (4), sacrifício de setentrional, anteriores alguns séculos a reparação (5). 2? série — direitos e Moisés, são mencionadas espécies deveres dos sacerdotes em cada espécie idênticas de sacrifícios, até mesmo com de sacrifícios (6-7). nomes iguais (afinidade das duas línguas) 2- Consagração dos sacerdotes (8-9). aos do Pentateuco. Moisés, com suas Nadab e Abiú são punidos por terem leis, só regulamentou e consagrou ao usurpado um ofício sagrado (10-1-7). culto do verdadeiro Deus um cerimonial Várias prescrições para os sacerdotes já praticado, deixando ainda toda essa (10,8-20). legislação dos sacrifícios separada das condições essenciais do pacto celebrado 3- Leis sobre a pureza legal (11-16): entre Deus e o seu povo (Êx 19,23). dos alimentos (11), da puérpera (12), Nesse sentido deve-se entender aquele da lepra nas pessoas (13,1-46; 14,1- protesto do próprio Deus contra os 32), nas vestes (13,47-59) e casas judeus, por boca de Jeremias (7,22-23): (14-33-57); sobre a gonorréia (15). "Em matéria de sacrifícios e holocaustos, Rito para o dia solene de expiação (16). eu nada disse e nada ordenei aos vossos 4- Leis sobre a santidade (17-23): a) pais ao tirá-los do Egito; dei-lhes do povo (17-20); matança dos animais, somente esta ordem: — Escutai a minha uso do sangue, unicidade do santuário voz; eu serei vosso Deus e vós sereis o (17); prescrições que regulam os atos meu povo —" cf. Êx 19,5). sexuais (18); várias prescrições religiosas Nada, portanto, impede atribuir-se ao e morais (19); punição para os próprio Moisés a legislação cerimonial do transgressores (20); b) dos sacerdotes: Levítico, embora seja óbvio que não a núpcias e luto (21,1-15); irregularidades tenha escrito toda de uma vez e se tenha (21,16-24); impureza cerimonial (22,1- servido, para a fixar, da obra de algum 16; qualidades das vítimas (22, 17-30); sacerdote ou levita de profissão. Nem se conclusão (22,31-33); c) dos dias exclui que algumas destas leis tenham
  • 22.
    recebido em temposposteriores modificações e acréscimos. Devemos observar ainda, que todas essas leis cerimoniais foram ab-rogadas depois de Jesus Cristo. Entretanto, os sacrifícios da antiga lei haviam prefigurado o seu sublime sacrifício na cruz, no qual, único e perfeito sacrifício, te-ve cumprimento toda a variedade dos sacrifícios do Antigo Testamento. Ou melhor, como nos ensina S. Paulo (Hebr 9,9; 10,10), os sacrifícios levíticos recebiam sua principal eficácia de aplacar a Deus daquele valor figurativo, pois que "é impossível que, por si só, o sangue dos touros e dos cabritos cancele os pecados" (Hebr 10,4). Considerados no seu significado típico e simbólico, os ritos escritos no Levítico continuam e continuarão a ser instrutivos.
  • 23.
    INTRODUÇÃO AOS NÚMEROS O quarto livro do Pentateuco recebeu o serpente de bronze (21, 1-9); vitória sobre nome de Números (em grego Arith-moi, que os amorreus e conquista de Basan (21,10- aqui tem o sentido de "recenseamentos") por 35). causa dos "recenseamentos" (1,1-4,26), que 3a Parte. Na margem oriental do Jordão: são próprios deste livro e que lhe dão a sua cerca de cinco meses. A matéria desta feição particular. Contém, além disso, alguns parte, mais por ordem lógica do que por fatos que se ligam imediatamente aos ordem do texto, pode ser assim agrupada: acontecimentos narrados no Êxodo, e leis 1) Últimos encontros com os povos da semelhantes às do Levítico. Pode ser dividido Trans Jordânia; Balaão e seus vaticínios facilmente, de acordo com os lugares e (22-24); prostituição a Beelfegor (25); tempos, em três partes: no Sinai (1,1-10,10); guerra santa contra os ma-dianitas e leis viagens através do deserto (10,11-21,35); na sobre a divisão dos despojos (31); lista das margem oriental do Jordão (22-36). etapas (33). 1a Parte. No Sinai: disposições para a 2) Grupo de leis: herança (27,1-11), partida: 20 dias. festas e sacrifícios (28-29), votos (30). 1) Recenseamento das tribos e respectivas 3) Disposições para a ocupação da posições no acampamento (1-2). terra prometida. Segundo recenseamento 2) Os levitas: seu destino e recenseamento (26); nomeação de Josué (27,12-23). (3); divisão por famílias e por ofícios (4). Distribuição da Transjordânia (32); normas 3) Leis: banimento dos impuros, para a ocupação e distribuição da restituições, ciúmes (5), nazireato, bênção CisJordânia (33,50-34,12); designação das litúrgica (6). cidades levíticas e de refúgio (35); 4) Últimos fatos: donativos dos chefes das disposições para manter inalterada a tribos ao santuário (7), consagração dos levitas primitiva distribuição (36). (8), segunda Páscoa (9,1-14), sinais para a A julgar pelo resumo, o presente livro partida e para a parada, as trombetas (9,15- compreende um período de cerca de trinta 10,10). e oito anos e meio. Sobre a maior parte desse período (os trinta e oito anos no 2a Parte. Viagem através do deserto: deserto) narra-nos apenas uns poucos 1) Do Sinai a Cades: partida e ordem de fatos, mas muito notáveis pelo significado marcha (10,11-36), murmuração do povo, as religioso, como a serpente de bronze, a codornizes (11), a lepra de Maria, irmã de sedição de Coré, os vaticínios de Balaão, a Moisés (12). água brotada da rocha; fatos dos quais os 2) Parada em Cades: missão dos doze apóstolos no Novo Testamento tiraram exploradores (13) e queixas do povo (14); leis utilíssimas lições (ICor 10,1-11; Hebr 3,12- sobre as oblações e primícias, sobre o sábado 19; Jo 3,14-15). No centro do drama e os filactérios (15); sedição de Coré, Datan e acham-se dois fatos semelhantes entre si, Abirão, e sua punição (16) e confirmação do duas sedições do povo contra Moisés, sacerdócio na família de Arão (17); relações executor das ordens divinas; a primeira entre sacerdotes e levitas, emolumentos de (14), originada pela repugnância em uns e de outros (18); a água lustral (19); empreender a conquista da Palestina; a sedição do povo por falta de água (20,1-13). segunda (20), por falta de água. 3) De Cades ao Jordão: os edomitas negam Conseqüência ou punição da primeira foi a passagem pelas suas terras; morte de Arão longa demora da nação inteira no deserto (20,14-29); queixas do povo e castigo, a da península sinaítica; a segunda deixou a
  • 24.
    mais profunda impressãona consciência nacional e na literatura posterior (cf. SI 80;94;105), envolvendo o próprio Moisés, que por um instante duvidou da clemência divina e por isso teve de deixar a outros o remate de sua obra, a conquista de Canaã (cf. Dt 32). O livro dos Números é importante para a literatura porque, entre outras coisas, nos conservou fragmentos de antiquíssimos cânticos populares (21; 23; 24), com a indicação de coleções já existentes, como "o Livro das guerras de Javé" (21,14), do qual não se tem outra menção.
  • 25.
    INTRODUÇÃO AO DEUTERONÔMIO (7), benefícios de Deus, censura da O quinto e último livro do Pentateuco foi chamado Deuteronômio, isto é, infidelidade anterior de Israel, promessas e ameaças (8-11). Leis especiais: 1) "segunda lei", talvez porque assim tenha Deveres religiosos. Unicidade do sido traduzida, embora inexatamente pelos LXX, uma frase hebraica em 17,18. santuário e disposições relativas (12, 1- 28); contra a apostasia (12,29-13-18); No entanto, convém-lhe perfeitamente alimentos e dízimos (14); ano da remissão esse nome. O livro não é uma simples repetição da legislação contida nos livros (15); as três grandes solenidades anuais (16,1-17). 2) Direito público. Juízes precedentes, mas além de leis novas, (16,18-17,13), rei (17,14-20), oferece complementos, esclarecimentos e modificações às primeiras. É, de certo sacerdotes (18,1-8), profetas (18,9-22); homicídio involuntário (19), guerra (20), modo, uma segunda lei, promulgada no homicídio por mão desconhecida (21,1- fim da longa peregrinação dos israelitas, paralela à lei dada no Sinai e destinada a 9). 3) Direito familiar e privado. Grande variedade; os pontos principais são: regular mais de perto a vida do povo matrimônio (21,10-14;22,13-23,1) e escolhido, no solo da Terra Prometida à qual eles estavam para chegar e dela filhos (21,15-20), o divórcio (20,1-4), levirato (25,5-10), deveres de tomar posse definitiva. Não é, porém, humanidade (22,1-12;23,16-20;24,6- simples enumeração de leis e determinações; o que caracteriza esse 25,4), honestidade (25,11-19), votos (23,22-24), primícias e dízimos (26). livro, o que lhe constitui a alma, é um ardente sabor oratório. O hagiógrafo nos faz ouvir um Moisés que exorta, encoraja, 3ª parte: 3o e 4o discursos: ordem de promulgar a lei em Siquém, maldições invectiva; inculca a observância das leis, a para os transgressores (27), ameaças e começar dos grandes princípios morais; apela para os mais poderosos motivos, promessas (28). Exortação à observância da lei, com a recordação dos fatos evoca a glória do passado, a missão históricos, das promessas e das ameaças histórica de Israel, os triunfos do porvir. Na mente do autor sagrado temos o (29-30). testamento definitivo, que o grande guia e legislador deixa ao povo de Deus às 4ª parte. Apêndice histórico. Últimas vésperas da sua morte. Pelo estilo, o disposições de Moisés, nomeação de Josué, seu sucessor (31); cântico de Deuteronômio é um discurso, ou melhor, Moisés (32), bênção das doze tribos (33), vários discursos, dirigidos por Moisés aos israelitas. Deduz--se daí a divisão do livro morte de Moisés (34). em quatro partes: Amor de Deus, beneficência, alegria no cumprimento do dever, eis as principais 1a parte: 1o discurso (14): olhar características do Deuteronômio, retrospectivo aos fatos acontecidos princípios inculcados e repetidos com desde a partida do Horeb até às últimas conquistas da TransJordânia (1-3); solicitude incansável. Por isso, perpassa-o um sopro ardente de sincera e profunda exortação geral à observância da lei (4,1- piedade para com Deus e uma ternura 40). simpática pelo homem, que edifica e comove. Há páginas que se aproximam da 2a parte: — 2o discurso: renovação da sublimidade divina dos ensinamentos lei 4,44-26,19). Princípios gerais: o Decálogo (5), o culto e o amor ao único evangélicos, mais do que quaisquer outras. Deus verdadeiro (6), guerra à idolatria
  • 26.
    LIVROS HISTÓRICOS Entre os vários gêneros literários da Bíblia, a contra o jugo dos selêucidas e a reconquista história, por sua extenção, ocupa o primeiro da soberania política (séc. ii a.C). lugar. Esse fato já prova quanto a história A série dos livros históricos Josué-Reis, fosse cultivada pelo antigo povo de Israel. O considerados como grupo autônomo, os fato é confirmado pelas fontes de que logo hebreus chamam-nos "Profetas anteriores", falaremos. E comparando, sob esse aspecto, a formando com os "Profetas posteriores" Bíblia com a literatura dos demais povos do (Isaías, Jeremias, Ezequiel e os Doze Oriente antigo, notaremos o lugar preeminente menores) a segunda classe ("os Profetas") da e singular que cabe aos Livros Sagrados. A sua Bíblia tripartida. Os livros históricos abundante literatura histórica que os egípcios e contidos na série Crônicas-Macabeus os assírio-babilônios, os dois povos mais recebem apreciações diversas dos hebreus. A poderosos e evoluídos da antigüidade, nos maioria deles admitem no seu cânone as transmitiram, consiste quase toda em Crônicas, Esdras-Neemias e Ester, mas documentos, tais como as inscrições dos colocam-nos, com os restantes Livros soberanos, onde se narram com intenção e Sagrados, na terceira classe dos "Escritos". estilo laudatórios, as façanhas dos mesmos. Essa divisão é antiga (atesta-a já S. Mais tarde, entre os babilónicos, surge o Jerônimo no "Prólogo Galeato" ou prefação à gênero, menos oficial e mais literário, da sua tradução de Samuel e Reisj, não, porém, crônica que registra, ano por ano, os primitiva. Nos manuscritos da antiquíssima acontecimentos mais importantes. Nenhum tradução grega dos LXX, e nas listas povo, porém, nos legou, como os israelitas, (cânones) das igrejas ou escritores cristãos, uma série de escritos que, reunidos, formam os livros das Crônicas e, com diferença de como que uma história nacional desde as ordem, os outros, são anexados aos origens até os tempos do cristianismo; precedentes Reis com o título comum de tampouco quadros históricos de períodos "histórias". Os dois dos Macabeus nas Bíblias particulares comparáveis aos dos Juízes e de latinas apareciam habitualmente no fim do Samuel. Antigo Testamento, mas a conveniência da Rigorosamente falando, devia figurar entre matéria e razões práticas persuadem-nos, os livros históricos grande parte do seguindo, além disso, o exemplo de tradutores Pentateuco, assinaladamente o Gênesis; estas modernos católicos, a não separá--los do partes, porém, devido à sua estreita relação grupo dos outros livros de caráter narrativo, e com a legislação mosaica, formam um só o leitor os encontrará, quase em ordem corpo com o nome de lei. cronológica, depois de Judite. Os escritos históricos da Bíblia propriamente ditos Livros históricos, pela matéria e pelos Quase todos os livros históricos da Bíblia caracteres internos, são divididos em três indicam, ainda que parcamente, uma ou mais categorias: fontes escritas donde tiraram o material e às V Josué, Juízes, Rute, Samuel e Reis quais remetem o leitor para maiores e mais relatam a história do povo de Israel desde a amplas informações (Num 21,14 o livro das conquista da Palestina até o exílio na Babilônia batalhas do Senhor; ib., 27 os poetas). (586 a.C.); Tornam-se mais freqüentes nos livros 2- as Crônicas e Esdras-Neemias retomam seguintes, especialmente nos Reis e Crônicas. essa mesma história sob pontos de vista Desde os primeiros tempos da monarquia particulares desde o reino de Davi (as idades (2Sam 8,16), entre outros oficiais do rei precedentes, desde as origens do homem, encontramos um "monitor" ou "chanceler" estão, como que resumidas, no princípio 1Crôn encarregado de registrar os acontecimentos 1-9 em tábuas genealógicas) até à formação do reino (cf. 1Rs 11,41). Daí o encontrarem-se da sociedade judaica depois do retorno do freqüentemente alusões a tais memórias dos exílio (cerca de 430 a.C.); reis de Judá e de Israel desde 1Rs 14,19-29 3? os livros de Tobias, Judite e Ester até 2Rs 24,5. O autor das Crônicas cita ilustram alguns episódios notáveis dos últimos escritos de vários profetas: Samuel, Natan, séculos (VII-V a.C); nos dois livros dos Gad (1Crôn 29,29), Aia, Ado (2Crôn 9,29), Macabeus narra-se a resistência dos judeus Semeia, Jeú, Hozai (ib. 12,15; 20,34;33,19). O primeiro deles provavelmente é o livro
  • 27.
    canônico de Samuel;os outros se perderam, de outrem; 2° que não pretenda excetuando-se, talvez} alguma parte responsabilizar-se pelo conteúdo da citação, incorporada aos livros canónicos dos Reis. mas deixá-lo no seu valor original. Para apreciar devidamente os livros Comparando-se as passagens paralelas dos históricos do Antigo Testamento é mister levar livros das Crônicas e dos Reis — quer os Reis em conta a finalidade dos autores sagrados, tenham servido de fonte ao redator das bem como o espírito que os animava ao Crônicas ou quer ambos haurissem duma fonte escreverem seus livros. Os escritores bíblicos comum — observamos que a fonte geralmente não pretendem escrever história propriamente é transcrita literalmente conforme os hábitos da dita, nem narrar para satisfazer a sede de historiografia semítica, numa época que não saber. Eles querem evidenciar a mão de Deus conhecia os direitos de propriedade literária. no dirigir a sociedade humana segundo as Nesse caso, o autor sagrado, apropriando-se altas finalidades de sua Providência, das palavras da fonte, torna-as expressão do especialmente de acordo com a religião e com seu próprio pensamento e, através do carisma a salvação do gênero humano. A sua da inspiração divina, que não se opõe ao uso historiografia é religiosa e não profana. Daí a de fontes profanas, imprime-lhe o selo da sua escolha, sensível de modo especial, nos livros infalibilidade. dos Reis e das Crônicas, de poucos fatos Pode acontecer que o autor sagrado julgue dentre a enorme quantidade de útil citar um documento como notícia acontecimentos que, mesmo limitando-se à interessante deixando, porém, quanto à Palestina, decorreram nos largos tempos exatidão dos fatos, a responsabilidade pela abrangidos pela sua narrativa; enquanto se afirmação ao autor primitivo. Isto pode-se atribui um papel importante aos profetas, sempre admitir no caso de citação explícita, ministros e porta-vozes de Deus, junto do seu isto é, com a expressa designação da fonte, povo. Segue-se que não devemos esperar dos como nas cartas citadas em Esdras 4,7-16; hagiógrafos um quadro completo da IMac 12,5-23; 2Mac 11,16-38. Não havendo sociedade israelita da época. Apesar disso indicação da fonte, e, portanto, quando a oferecem sempre excelente material para a citação é implícita, requer-se maior reconstrução da história profana, completando circunspecção. Para se afirmar que o autor os dados transmitidos pelos documentos sagrado não garante a verdade do que refere, extra-bíblicos, principalmente as inscrições a Pontifícia Comissão Bíblica (13 de fev. de cuneiformes dos reis assírios e babilónicos, 1905) exige duas condições, duas provas com onde se registram muitos fatos e personagens argumentos sólidos: V que o autor inspirado dos livros dos Reis. realmente cite um documento ou uma palavra
  • 28.
    INTRODUÇÃO A JOSUÉ O livro de Josué toma o nome do coincidiram com o fim do reinado de protagonista dos fatos nele contidos. Ramsés III (1198-1167) e de seus fracos Moisés, libertando o povo da escravidão sucessores. Duas indicações do próprio dos egípcios, organizou-o na península do livro de Josué estariam a favor dessa data: Sinai e o conduziu até às margens do não existe indício algum duma dominação Jordão. Para continuar a mesma missão dos egípcios na Palestina; pelo contrário, de Moisés, sucede-lhe Josué. Tinha na encontramos firmemente estabelecidos e sua frente duas tarefas: ocupar a terra de fortalecidos os filisteus (13,2-3), dois fatos Canaã ou Terra Prometida, expulsando os explicados pela decadência do Egito sob a antigos habitantes, e dividir o país entre as dinastia (XX) dos Ramésidas. várias tribos de Israel. O livro de Josué é a O relato do glorioso passado visa à uma narração, ora pormenorizada e viva, ora dupla finalidade: evidenciar a fidelidade esquematizada, desta grande empresa. divina no cumprimento das suas Daí a divisão lógica do livro em duas promessas (vide 21,43) e agir sobre o partes: ocupação da Terra Prometida e povo como um estímulo a repelir o sua partilha; segue-se um apêndice sobre desânimo no tempo da provação e a os últimos fatos de Josué. confiar fielmente no serviço do Senhor. Os fatos aqui resumidos abrangem um O livro de Josué foi considerado pelas período de cerca de 30 anos, como se escolas críticas do século XIX, intimamente pode inferir de dois indícios oferecidos pelo ligado ao Pentateuco. Os mesmos próprio livro. Josué, sendo quase da documentos do Pentateuco teriam servido mesma idade de Caleb (Num 13,6-8; para a sua compilação, que seria obra de 14,6-38), tinha, no tempo do Êxodo, vários autores sucessivos, e cuja última aproximadamente 40 anos (Jos 14, 7); redação teria visto a luz por volta dos morreu com 110 anos. Tendo em conta os séculos V ou IV a.C. 40 anos passados no deserto, resulta que Hoje, a dita crítica modificou bastante a empreendeu a ocupação da Palestina aos sua hipótese; começa-se, também por 80 anos, sobrevivendo mais trinta. parte da maioria dos racionalistas, a Cronologicamente, esses 30 anos considerar o livro de Josué como um livro coincidiram com a época de 'el-Amarna se, independente; reconhece-se que a sua conforme alguns, colocarmos o Êxodo no composição é diferente da composição do reinado de Amenófis II; se, conforme Pentateuco, formando um conjunto distinto outros, o colocarmos no de Menefta, então e bastante harmônico. É uma espécie de
  • 29.
    retorno ao quea tradição judaica e cristã seus relatos são confirmados, em muitos sempre defenderam. pontos, pelos documentos oficiais Apesar dessas concessões, entretanto, encontrados em 'el-Amarna, a oriente do não se deixa de impugnar, embora sem Egito, bem como pelas escavações feitas sólido fundamento, a unidade do livro e a na Palestina desde 1902 especialmente sua origem antiga. É verdade que se em Jericó, Betel, Gezer e Laquis, que nos encontram alguns trechos de estilo revelaram vestígios da invasão dos diferente, certas expressões e algumas israelitas, ou pouco antes. repetições discordantes do corpo do livro, mas para explicar isso seria suficiente supor um único autor que tenha aproveitado documentos parciais. Da unidade do livro não se pode fa- cilmente chegar à determinação concreta e segura nem da data de origem nem do autor. Alguns indícios levariam a concluir que o livro é anterior ao tempo de Isaías (cf. 8,28 com Is 10,28), de Salomão (16,10 com 1Rs 9,16), de Davi (15,63 com 2Sam 5,6-9). Não faltam, entretanto, dificuldades em contrário, que podem, porém, ser adequadamente solucionadas. Uma das principais é a repetição da fórmula: "até o dia de hoje" (4,9;5,9;6,25;7,26;8,29;9,27;10, 27;13,13;14,14;15,63;16,10;22,3.17), que faz supor se tenha passado um longo período de tempo entre os fatos e a com- posição do livro. Mas, os trinta anos de- corridos entre estes fatos e a morte de Josué são espaço de tempo suficiente para legitimar tais expressões. A origem antiga do livro de Josué e o fim que o autor sagrado se propôs contribuem para fortalecer a autoridade do livro. Os
  • 30.
    INTRODUÇÃO AOS JUÍZES Juízes foram chamadas certas sepultura, sem especificar o personagens insignes que, depois da empreendimento; ao passo que dos morte de Josué até à constituição do maiores narra a história com mais reino — isto é, desde o século XII ao XI particularidades, segundo um esquema a.C. — libertaram, em várias fixo, que comporta quatro momentos: o circunstâncias, o povo de Israel dos pecado do povo (práticas ido-látricas), o inimigos. castigo (dominação estrangeira), o Não formaram uma série ininterrupta, arrependimento e a libertação por obra de mas eram chamados pelo Senhor um juiz. segundo as necessidades. Eram uma Esse esquema está em perfeita espécie de "ditadores" que, cumprida a harmonia com o pensamento dominante missão libertadora, continuavam a (2,11-19) da introdução especial (2,6 ■— exercer autoridade sobre o povo pelo 3,6) ao corpo do livro, que defende a tese resto da vida. Não dominavam sobre segundo a qual Israel foi feliz enquanto se todo o povo, mas só nas tribos que manteve fiel ao Senhor, e infeliz quando libertavam i do inimigo; desta forma não se apartou dele. Com isto dá-nos a é impossível que alguns juízes conhecer a finalidade do autor: afastar exercitassem ao mesmo tempo sua eficazmente os israelitas do culto função. idolátrico. O livro dos Juízes narra as empresas Destarte o corpo da obra resulta desses beneméritos libertadores do composto, com sua própria introdução, à povo eleito. Em vez de uma história qual foi anteposta outra introdução geral propriamente dita, da época, é uma (1,1-2,5) e foram acrescentados dois coleção de memórias dos diversos apêndices (17—18 e 19—221). heróis. São doze ao todo, classificados Não é fácil precisar a data dos dois fatos em maiores e menores, não tanto pela narrados nesses apêndices; há, contudo, diferente importância dos razões sérias para admitir que ambos se empreendimentos e dos heróis, quanto deram nos primeiros tempos dos juízes, pelo modo de serem apresentados. Dos pois no episódio dos dani-tas aparece menores, o autor contenta-se com citar como sacerdote um neto de Moisés (Jz o nome, alguma notícia da família, a 18,30) e um neto de Arão é duração de sua atividade e o lugar da contemporâneo de outro episódio. A
  • 31.
    cronologia do corpodo livro é uma das fatos de máxima importância e que um dificuldades mais laboriosas que escritor menos escrupuloso teria ampliado possam ocupar os intérpretes e entre as a seu bel-prazer. soluções propostas não há nenhuma Quando foi composto o livro? Com boa que satisfaça plenamente. Como quer verossimilhança pode-se crer que foi nos que seja, sem entrar em discussões primeiros anos do reinado de Saul. Com inúteis, basta recordar que segundo lRs efeito, quatro vezes observa-se nos 6,1, entre o Êxodo e a construção do apêndices que os inconvenientes narrados templo (4° ano do reinado de Salomão) aconteceram quando "em Israel não havia passaram 480 anos. Portanto, se desse rei e cada um fazia o que lhe agradava". número subtrairmos 4 anos de Tal coisa só podia ter sido escrita nos Salomão, 40 de Davi e outros tantos de primeiros tempos da monarquia, quando Saul (At 13,21), e ainda 70 anos que se gozava dos seus bons efeitos e ainda decorreram desde o Êxodo à primeira não pesavam gravames que sobreviriam opressão, restariam ainda 330 anos mais tarde. para o período dos Juízes. Esse resultado estaria suficientemente de acordo com o que disse Jefté ao rei de Amon (11,26). Somando-se, porém, todos os tempos das opressões e os dos domínios dos juízes, obtêm-se 410 anos. Deve-se, portanto, admitir que o autor relatou números aproximados. A parte principal (2,6—16,31) é obra de um só autor, como prova o esquema delineado e fielmente seguido em toda a narração. O autor, porém, não podia ter sido testemunha de tudo o que narra, já que sua história abrange um período de quase dois séculos. Serviu- se, portanto, de documentos preexistentes e de tradições orais. A sua fidelidade às várias fontes se manifesta na concisão com que narra
  • 32.
    INTRODUÇÃO A RUTE A comovente história de Rute, que dá o Superado o obstáculo pela desistência título a este opúsculo, é um edílio pela deste parente, Booz desposa Rute, que suavidade e pelo ambiente campestre; um o torna pai de Obed, de quem nasceu pequeno drama pela variedade e Isaí (Jessé), pai, por sua vez, do vivacidade das cenas. Apenas um terço de grande rei Davi, antepassado do todo o livro pertence ao gênero narrativo, Messias. sendo o resto, diálogo. Dessa relação com Davi, provém a Os quatro capítulos em que se costuma importância do opúsculo, bem como o dividi-lo são como quatro atos no drama; seu lugar no cânon, entre Juízes e podemos assim resumi-los: Samuel, ao primeiro dos quais pertence 1. Em companhia da sogra que volta à pela época dos acontecimentos pátria. Rute, jovem moabita, viúva sem narrados (Rut 1,1), e com o segundo se filhos, de um hebreu que emigrara de relaciona pela fundação da dinastia da- Belém, não abandona a sogra que, depois vídica, cf. ISam 16; 2Sam 2-8. É aqui, da morte do marido e dos filhos, deseja portanto, que as Bíblias gregas e voltar ao torrão natal. latinas o inserem; os hebreus, antigamente, também o colocavam 2. A respigadura. Para o sustento aqui, e só na Idade Média, devido ao próprio e o da sogra, Rute vai respigar uso litúrgico, foi colocado, juntamente atrás dos segadores, conquistando com os com os outros quatro opúsculos (Cânt, seus encantos e suas virtudes a afeição Ecl, Lam, Est)t entre os componentes de Booz, rico proprietário, parente de seu da última das três partes na qual eles sogro. dividem os Livros Sagrados. 3. A noite passada na eira. Por Além desta importância histórica, conselho da sogra, que pensa em casá-la Rute oferece numerosos e preciosos com Booz, Rute passa uma noite junto de ensinamentos. A protagonista é um Booz na eira da colheita e aproveita a modelo de piedade filial, de dócil ocasião para lembrar ao mesmo o dever obediência para com a sogra, de de desposar a viúva do parente falecido espírito de sacrifício no cumprimento sem filhos. destes seus deveres. Na sua história 4. As núpcias de Booz com Rute. O sobressai o papel da divina Providência convite de Rute agrada a Booz, mas há que, por caminhos inesperados, premia outro parente com direito de precedência. a virtude de Rute, dando-lhe uma
  • 33.
    posição social elevada.Além disso, sob o dúvida correu muito tempo entre os aspecto religioso, é digno de nota como acontecimentos e sua narração (cf. esta estrangeira, que deixa a pátria e os 4,7). A linguagem, afora algumas concidadãos para não abandonar a sogra particularidades, é da boa época da hebréia, não somente é recebida na monarquia; o estilo, simples e polido, a verdadeira fé para fazer parte do povo de beleza da narrativa, a pintura viva dos Deus, mas também teve a honra de ser caracteres e dos costumes colocam inscrita na genealogia do Messias (Mt 1,5). Rute entre os melhores modelos de O autor de Rute nos é totalmente prosa narrativa do Antigo Testamento. desconhecido. O tempo em que foi escrito, Em Rute temos a amenidade da novela deve-se deduzir do próprio livro. Sem unida à singela veracidade histórica.
  • 34.
    INTRODUÇÃO A SAMUEL O livro de Samuel, dividido pelos gregos e 3a parte. Davi, fundador da dinastia (2Sam pelos latinos — não pelos hebreus — em dois, 2-24) recebe o nome do santo profeta, cujas gestas constituem os seus primeiros capítulos, e cuja 1) Rei de Judá em Hebron (2,1-7); guerra ação o dominam inteiramente. A matéria civil entre os dois partidos, progressos de Davi tratada divide-se marcadamente em três (2,8-3,5); assassínio de Abner (3,6-39) e de partes, segundo as três personagens que Isboset (4). governam sucessivamente o povo de Israel: 2) Rei de todos os israelitas em Jerusalém Samuel, Saul e Davi. (5,1-16); vitória sobre os filisteus (5,17-25); 1ª parte. Samuel, o último Juiz transladação da arca para Sião (6); promessa 1) Nascimento de Samuel (1,1-2,10); sua messiânica (7); conquistas no exterior (8); juventude a serviço do templo; reprovação do favores ao filho de Jônatas (9). sacerdote Heli e de seus filhos (2,11-3,21). 3) Desordens domésticas. Guerra amonita 2) Primeira guerra filistéia; derrota, captura (10); duplo pecado de Davi (11); da arca, morte de Heli e de seus filhos (4). arrependimento de Davi (12); incesto de Amnon Retorno da arca santa (5-7,2). (13,1-22); vingança de Absalão (13,23-36); 3) Judicatura de Samuel: reforma religiosa, seu exílio e repatriação (13,37-14,33). segunda guerra filistéia, vitória; governo de 4) Revolta de Absalão (15,1-12); fuga de Samuel (7,3-17). Davi (15,13-16,14) e entrada de Absalão em 4) Mau governo dos filhos de Samuel. O Jerusalém (16,15-17,23); guerra civil (17,24- povo pede um rei (8); Saul é ungido e 18,8); morte de Absalão e luto de Davi (18,9- proclamado rei (9-10). Vitória sobre os 19,8). Davi retorna à capital (19,9-43); a amonitas (11). Samuel abdica e despede-se rebelião de Seba é dominada (20,1-22); do povo (12). governo (20,23-26). 2ª parte. Saul, primeiro rei 5) Diversos episódios. Cessa a fome, dando 1) Terceira guerra filistéia; desobediência satisfação aos gabaonitas (21,1--14). Heroísmo de Saul; audácias de seu filho Jonatas; vitórias. de alguns homens contra os filisteus (21,15-22). Sumário do reinado de Saul (13-14). Cântico triunfal de Davi (22). Ultimas palavras de 2) Vitória sobre os amalecitas, e outra Davi (23,1-7). Os heróis campeões (23, 8-39). desobediência de Saul, que é por isso Recenseamento do reino; a peste; ereção de um reprovado (15). altar sobre o Sião (24). 3) Samuel unge secretamente rei a Davi, Todos esses acontecimentos encheram o que é chamado à corte de Saul, assaltado por período de cerca de um século e meio, mania furiosa (16). aproximadamente os anos 1120-970 a.C, um 4) Quarta guerra filistéia. Davi vai ao lapso de história israelita isento de toda acampamento e mata o gigante Golias (17,1- interferência quer do Egito, quer da Assíria e da 54). Amizade de Jonatas com Davi e inveja de Babilônia. Saul para com o mesmo (17,55-18,9). Ao escrever o livro, o autor sagrado tem por finalidade mostrar-nos as vias providenciais pelas 5) Saul procura matar Davi, o qual foge da quais foi estabelecida no povo de Deus a corte (18,10-19,17); vai ter com Samuel, monarquia e a dinastia davídica, de cuja cepa renova com Jônatas o pacto de amizade devia nascer o Messias, cujas glórias ter-lhe-ia (19,18-21,1). perpetuado. Em Samuel apresenta-nos o modelo 6) Davi anda errante por vários lugares do ministro fiel de Deus, em Davi o tipo de (21,2-22,5); Saul mata os sacerdotes fautores magnanimidade aliada a uma sincera piedade. de Davi (22,6-23). Davi em Ceila (23,1-13); em Zif salva-se de grave perigo (23,14-28); em Engadi poupa a vida a Saul (24); ofendido por Nabal, é aplacado por Abigail, que depois desposa (25); novamente poupa a vida a Saul (26); vive entre os filisteus (27). 7) Quinta guerra filistéia. Saul consulta a nigromante de Endor (28). Davi. afastado pelos filisteus (29), vence os amalecitas (30). Saul morre no campo de batalha (31) e Davi pranteia a sua perda (2Sam 1).
  • 35.
    INTRODUÇÃO AOS REIS Aos livros de Samuel, que narram a fundação profana, cabendo a primazia à assírio- da monarquia hebraica seguem-se Reis, cuja babilônica, que aqui se nos apresenta com tão história continua até sua queda sob os assaltos grande riqueza, não igualada para nenhum dos poderosos impérios da Assíria e da outro livro do Antigo Testamento. Babilônia, isto é, desde os últimos dias de Davi Não nos foi transmitido quem seja o autor de {cerca de 970 a.C) até à tomada de Jerusalém Reis nem a data da sua existência; seu nome em 587 a.C, uma duração de cerca de quatro permanecerá provavelmente para sempre séculos. A cisão política e religiosa, que se ignorado, ao passo que a idade pode ser seguiu à ascensão ao trono do segundo sucessor deduzida do próprio livro. Se os últimos quatro de Davi, cindiu a nação em dois reinos rivais, o vv. (2Rs 25,27-30) não são um apêndice ou de Israel e o de Judá, e findou com o acréscimo posterior, como em si é possível, desaparecimento do primeiro na luta com a sem, contudo, parecer provável, o autor teria Assíria (721 a.C), delimitando este lapso de terminado a sua obra entre os anos 560 (37- da tempo em três períodos, com reflexos análogos prisão de Joiaquin) e 538 a.C, que marca o fim na composição da obra. do exílio babilónico, porque não faz nunca O livro é escrito à base de um esquema alusão ou referência a este grande simples e transparente, sobretudo na segunda e acontecimento. maior parte, daquela dos reinos separados. Seu enredo é formado pelas notícias sobre cada um É visível o caráter essencialmente religioso dos reis, quer de Judá, quer de Israel, redigido desta história dos reis. Numerosos com um cunho uniforme e distribuído em três ensinamentos de doutrina e vida religiosa estão partes: 1) Introdução: sincronização do outro contidos especialmente na atividade dos reino com o rei contemporâneo, duração do profetas, que ocupam continuamente o centro reinado no momento e para os reis de Judá da cena, e nas reflexões do autor sagrado também os anos de idade à elevação ao trono e sobre o procedimento dos reis e dos povos, que nome da rainha-mãe. 2) Corpo: qualidades freqüentemente rematam o quadro. Cumpre morais relativamente à religião e ao culto não deixar de notar o impressionante fato de mosaico, e breves referências a algum fato mais que, enquanto no reino cismático de Israel relevante. 3) Epílogo: envio para notícias mais houve em apenas dois séculos (c. 930-730 amplas, aos "anais dos reis" (de Judá ou de a.C), nada menos de oito mudanças de Israel, segundo o caso), morte e sepultura. dinastia, no vizinho e politicamente mais fraco Nas linhas deste traçado, inserem-se os mais reino de Judá dominou, por mais de 4 séculos amplos e minuciosos relatos de coisas (c. 1010-586 a.C), constante e invariavelmente concernentes à religião e a atividade dos a descendência de Davi, embora não faltassem profetas, entre os quais avultam as grandiosas as violências e os contrastes a partir do exterior figuras de Elias e Eliseu. O interesse religioso, (intromissões de Atália, de Necao, de sobre o qual se fixa o olhar do autor sagrado, Nabucodonosor). Verificava-se assim a manifesta-se, inclusive nos poucos promessa divina feita a Davi por boca do acontecimentos políticos narrados com profeta Natan (2Sam 7), anúncio e penhor do abundância de pormenores fora do comum, como reino do Messias, filho de Davi por excelência as ações de Acab (lRs cc. 20-22), a ascensão de (Lc 1,32), insigne pedra miliar na preparação da Jeú ao trono (2Rs 9,1-7), o cerco e libertação de salvação humana. Jerusalém do exército de Senaquerib (2Rs 18,13- 19, 37). Essas notícias mais abundantes formam o fundo do livro, ao passo que os esquemáticos perfis dos reis, donde lhe vem o título usual, constituem-lhe como que a moldura e o enredo. As primeiras, o autor hauriu-as das histórias dos profetas, transmitidas, por escrito ou de viva voz, pelos discípulos dos mesmos. Nos segundos, isto é, na mencionada moldura, devemos ver um trabalho mais pessoal do redator final, baseado por certo em bons documentos. O valor histórico do livro dos Reis é incontestável. Garantido pela inspiração divina, é confirmado por documentos paralelos da história
  • 36.
    INTRODUÇÃO ÀS CRÔNICAS Samuel e Reis receberam uma obra coletiva: assim as importantes paralela nas Crônicas. Nas Bíblias genealogias, que eram verdadeiros hebraicas constituem os mesmos uma documentos oficiais para provar o só livro e tem o título equivalente ao direito que todo o levita tinha de nosso termo "anais". Ê aquilo que nos exercer os atos de culto; assim, as Reis se lê tantas vezes no epílogo dos minuciosas normas litúrgicas, as respectivos reinados. Seguindo uma amplas descrições de solenidades sugestão de S. Jerônimo (no "prólogo (da Páscoa, sobretudo), com o galea-to" ou prefácio aos livros de número das vítimas imoladas, sem Samuel e Reis), os modernos dão faltar sequer as várias exceções ao comumente a esta obra o nome de rito legítimo, e todos os trabalhos "Crônicas". Na versão grega dos LXX executados no próprio edifício, desde acha-se dividida em dois livros e os preparativos feitos por Davi até à intitula-se Paralipômenos, que restauração de Josias. significa "coisas omitidas"; Paralela, mas subordinada a esta subentende-se, nos livros dos Reis. idéia principal, desenvolve-se outra, a Este título com a respectiva divisão da dinastia davídica. A família introduziu-se na Igreja latina. davídica é a única depositária do poder legítimo sobre todo o Israel. Os A narração das Crônicas, seus membros, portanto, são os excetuando-se as genealogias dos principais servos de Javê, e os reis nove primeiros capítulos e a alusão ao que dela descendem têm como dever decreto de Ciro nos dois últimos vv., primordial o cuidado do templo, pois abrange o mesmo espaço de tempo a sua autoridade régia é um reflexo de Samuel e Reis. Distingue-se deles, da autoridade divina, que brilha no porém, pela extensão da matéria, templo. Todavia, a distinção entre o pois, de um lado, restringe-se ao reino poder régio e o sacerdotal é radical: o de Judá e, de outro, acrescenta rei não deve usurpar funções muitas notícias relativas ao culto sacerdotais. O monarca é realmente divino. o primeiro servo do templo, mas é o Na verdade, a grande idéia central de primeiro servo "externo", fora do toda a obra é o templo. O templo, recinto sagrado. único lugar destinado ao culto legítimo Destas duas grandes idéias no Deus de Israel, é o centro vital de basilares, tomadas em conjunto, Jerusalém; Jerusalém é o centro de explica-se por que o autor se estenda todo o Judá, que é a parte fiel do povo tanto na citação das genealogias de eleito. Destarte toda a vida de Israel Levi e de Judá (à qual pertencia a palpita em torno do templo, o qual não família de Davi) e por que se é considerado como simples edifício desinteresse do reino do norte, que material, fosse embora simbólico, mas constituía a parte mais numerosa do como verdadeiro fator de unidade povo eleito. Este reino rebelara-se religiosa e nacional para todo Israel, contra a dinastia davídica e rejeitara mediante o único culto legítimo, o culto do templo de Jerusalém, exercido somente pelos descendentes fabricando para si os bezerros de de Levi. Donde o cuidado especial, a ouro. Por isso, depois de narrar a sua insistência, dir-se--ia, com que o autor defecção, o autor alija-o do esquema desce a certas particularidades que a de sua obra. nós, tão afastados da sua época, nos Ê evidente, e em mais de uma parecem supérfluas, mas que então passagem (1Crôn 10,13-20,1 etc.), constituíam o fundamento da vida que o autor supõe conhecida a
  • 37.
    história que narra,ao passo que, excetuadas as particularidades litúrgicas, raríssimos são os fatos que narra com exclusividade. Destes fatos, porém, um há que, em 1880, recebeu esplêndida confirmação das descobertas arqueológicas (cf. 2Crôn 32, 30). Quanto às freqüentes divergências entre as cifras de Crônicas e Reis, cumpre recordar que os números, no texto hebraico, têm muitas vezes contra si uma componente desfavorável; e muito mais em Crônicas, que na transmissão manuscrita são dos livros mais corrompidos e mal conservados de toda a Bíblia. Literariamente, Crônicas são um produto da decadência. O material linguístico situa-o entre as obras mais tardias da Bíblia hebraica. O fraseado tortuoso, duro e insistente, é testemunho de uma época em que o hebraico já não era a língua comum, mas ia cedendo lugar ao aramaico.
  • 38.
    INTRODUÇÃO A ESDRAS No texto hebraico e na versão dos LXX, 1. Regresso, sob as ordens de ZOROBABEL, Esdras e Neemias constituem um só livro, no tempo de Ciro (no 537 a.C.) e reconstrução com o título comum de Esdras. Mas já no do templo (Esd 1-6). tempo de Orígenes (inícios do séc. III) eram Decreto de Ciro permitindo a reconstrução divididos em dois. Na Vulgata latina são do templo (1); elenco dos judeus que intitulados I e II de Esdras. Desde épocas regressaram guiados por Zorobabel (2). longínquas, porém, chamam-se habitualmente Ereção do altar (3,1-6) e início da construção Esdras e Neemias, nomes tomados da do templo (3,7-13); obstáculos da parte dos principal personagem de cada um deles. adversários e suspensão dos trabalhos (4,1-5). Com o título de 3? de Esdras, as Bíblias Obstáculos opostos mais tarde pelos inimigos latinas (1 Esdras nas gregas) contam com um à reconstrução da cidade (4,6-24). livro composto de 9 capítulos, e que Prosseguimento da construção do templo, apresenta versão diferente daquela dos dois término e inauguração entre grandes últimos capítulos das Crônicas, de todo o solenidades (5-6). Esdras (com a transposição de 4,7-24 no fim 2. Retorno sob a direção de ESDRAS, no do c. 1) e de Neemias 8,1-12. Além disso, tem sétimo ano de Artaxerxes, e reforma dos de próprio a longa descrição (3,1-5,6, antes costumes (Esd 7,10). de Esdras 2) de uma disputa literária entre Esdras obtém de Artaxerxes rescrito três pagens da corte de Dario, o terceiro dos favorável (7); preparativos para a volta (8,1- quais, Zorobabel, tendo saído vencedor, 30); partida e chegada a Jerusalém (8,31-36). obteve do rei todas as facilidades para Deploração da desordem dos matrimônios reconduzir à pátria os seus compatriotas mistos (9), que são suprimidos (10,1-17). Rol judeus. Por causa desse relato não canônico, dos culpados (10, 18-44). isto é, não inspirado, todo o livro foi colocado 3. Regresso de NEEMIAS, no vigésimo ano pela Igreja católica entre os apócrifos. de Artaxerxes, reconstrução da cidade e O livro canónico de Esdras-Neemias restauração religiosa (Ne 1-13). descreve a volta dos judeus do exílio Tendo recebido notícias alarmantes, babilónico e a restauração religiosa, e, em Neemias obtém do rei permissão para ir a parte, também a política da sua comunidade. Jerusalém (1,1-2,10); inspeção das muralhas e Por sua própria natureza divide-se em três decisão de reconstruí-las (2, 11-20); elenco partes, em cujo centro estão as três dos que restauraram alguma parte delas (3); personagens que encabeçam o movimento. oposição e insídias de Sanabalat e outros inimigos (4). Extirpação da desordem
  • 39.
    econômico-social (5). Novasinsídias dos inimigos; apesar delas, a muralha é terminada (6). Recenseamento do povo: elenco dos repatriados (7,6-57 = Esdr 2,1-55). Leitura pública da lei mosaica e festa dos Tabernáculos (8). Confissão pública e penitência (9); solene renovação da aliança com Deus (10). Medidas para repovoar Jerusalém (11,1-24); outras cidades repovoadas (11,25-36). Lista dos sacerdotes e levitas (12,1-26). Dedicação das muralhas de Jerusalém (12,27--42). Regulamentação das ofertas sagradas e dos matrimônios mistos (12,43-13, 14.23-31); medidas para a observância do sábado, no ano trigésimo segundo de Artaxerxes (13,15-22). Os fatos aqui narrados abrangem o período de um século aproximadamente (537-432 a.C.), período importantíssimo para a história do povo eleito e da religião em geral. O autor não pretende, porém, deixar-nos uma história completa daquele período memorável, mas descreve-nos apenas os fatos principais, agrupados mais segundo uma ordem lógica do que segundo a sucessão cronológica.
  • 40.
    INTRODUÇÃO A TOBIAS Semelhanteao livro de Rute pela rivais, de resto, irmãos) Sinaítico suavidade de cenas domésticas, (atualmente no Museu Britânico) e Tobias supera-o pela variedade e Vaticano (grego 1209, conhecido entrelaçamento de acontecimentos e com a sigla B) do séc. IV. A redação pela riqueza de ensinamentos morais. do Sinaítico difunde-se mais na O livro de Tobias foi escrito em narração, valendo-se de uma hebraico ou aramaico. Encontraram- expressão mais vulgar, de colorido se fragmentos em ambas as línguas mais semítico; a do Vaticano é mais (1952) nas grutas próximas do mar sucinta e de grecidade mais pura. Morto. S. Jerônimo verteu-o para o Existe grande discordância entre os latim, servindo--se de uma redação doutos em determinar qual das duas aramaica, e assim foi inserido na esteja mais próxima do original Vulgata. A versão grega dos LXX semítico; mas atualmente vai deriva do texto original, seguindo prevalecendo a opinião em favor da outra via; dessas duas fontes, a grega redação sinaítica, a qual tem por e a latina, surgiram todas as outras seguidora fiel a antiga versão latina e versões chegadas até nós. por aliados os fragmentos semíticos A primeira e mais palpável diferença encontrados às margens do mar entre essas duas versões é que na Morto. Vulgata toda a narração, desde o Discutiu-se também se o livro de princípio, desenvolve-se em terceira Tobias seria uma história verdadeira pessoa, ao passo que no grego o ou uma novela com finalidade moral. preâmbulo (1,1-2,6) ê narrado por Não obstaria ao ensinamento da Tobias na primeira pessoa. Na Igreja católica considerá-lo, em Vulgata é mais abundante o abstrato, uma narração de livre elemento parenético, no grego invenção (Encíclica Divino afilante prevalece o biográfico. Na Vulgata, Spiritu). Mas, se por um lado, parece pai e filho têm o mesmo nome: manifesta a intenção do autor, em Tobias; no grego, ao invés, o pai vista do cuidado que emprega em chama-se Tobit, ou mais referir nomes de pessoas e lugares, e corretamente, Tobi, e somente o circunstâncias pormenorizadas, de filho, Tobias. narrar fatos realmente ocorridos, A própria versão grega, porém, doutro lado, porém, às razões chegou-nos em três formas ou aduzidas contra a historicidade dos redações, duas principais e completas fatos narrados, como anacronismos e uma secundária e incompleta. As de pessoas e alguma duas principais têm os seus pseudoqualificação, responde-se representantes mais antigos e facilmente que, faltando-nos o texto autorizados, respectivamente, nos original, os erros podem provir de dois re-putadíssimos códices (aqui traduções incorretas ou de falhas de
  • 41.
    copistas. O maravilhosoque ressalta no livro pode criar dificuldades somente para quem, por princípio, nega-se a admitir o sobrenatural. Isto posto, nada nos veda que retenhamos a estrita historicidade de Tobias, ou pelo menos com alguns escritores católicos, admitamos um amplo fundo histórico com acessórios embele-zadores. A primeira documentação dos fatos narrados neste livro deve ter sido, indubitavelmente, o testemunho dos dois protagonistas, Tobi e Tobias, e nada obsta que tenha sido escrita por eles; contudo, tampouco está provado, nem mesmo pelo emprego da primeira pessoa em 1-3, que eles sejam os autores do nosso livro; um escritor posterior pode muito bem ter-se servido daquilo que eles deixaram dito ou escrito. Judeus e protestantes não reconhecem o livro de Tobias como canónico, isto é, inspirado, relegando-o entre os "Apócrifos". Mas a Igreja católica, tanto latina como oriental, recebeu-o desde o princípio no cânone das divinas Escrituras, não obstante a opinião contrária de alguns Padres da antiguidade. Com isso a Igreja oferece-nos para instrução um delicioso modelo de prosa narrativa, "pleno de ensinamentos religiosos e morais" (S. Beda). Nele, virtudes domésticas e sociais, sobretudo o exercício de uma generosa beneficiência, e a paternal providência de Deus para com os seus servos fiéis fulgem numa luz tão viva quão suave.
  • 42.
    INTRODUÇÃO A ESTER É provável que desde o séc. V a.C. PLUTARCO, Vida de Artaxerxes, I), (cf. 2Mac 15-27), os hebreus tenham forma abreviada ou carinhosa de celebrado a festa chamada "purim", Hsajarsu. O caráter efeminado de em memória da eliminação do perigo ambos os monarcas, como no-lo dão de exílio decretado contra os seus a conhecer os escritores profanos, antepassados durante a dominação condiz admiravelmente com o que se persa. O livro de Ester narra os fatos reflete no livro de Ester. que deram origem a essa festa, Ambos entregues aos prazeres, mostrando a providência especial ambos dominados pela influência de usada por Deus com o seu povo cortesãos e de mulheres, as histórias eleito, naquela ocasião tão crítica. dos seus reinados são tecidas de Duas redações nos chegaram deste intrigas, de amores ilícitos e também livro: a hebraica e a grega dos LXX, de crueldades. Sobre Xerxes veja-se com a única diferença, entre si, de HERÓDOTO, Histórias, IX, 108-110. A que a grega, além da versão fiel do respeito de Artaxerxes II, Plutarco, na hebraico, contém mais seis seções, vida do mesmo, carrega as tintas que, tomadas em conjunto, igualam sobre a sua moleza e volubilidade e a dois terços do livro hebraico. afirma que no seu gineceu O rei da Pérsia, sob o qual se sustentava tantas mulheres quantos desenrolam esses acontecimentos, é eram os dias do ano (24,3;27,1-3; cf. chamado Ahasveros no texto Est 2,1-4.12-14). hebraico (donde "Assuero" na Esta é já uma das provas da Vulgata), transcrição imperfeita do verdade histórica do livro. Outras nome persa Hsarjarsa, que os gregos são: o conhecimento exato dos transcreveram como Xerxes. A versão costumes persas, a descrição precisa grega, ao invés, traz constantemente do palácio real em Susa, confirmada "Artaxerxes" no livro inteiro. Daqui as por escavações recentes, a narração divergências em torno da pessoa do cheia de vida, colorido e rei assim denominado. Hoje, a particularizada, a ausência de todo opinião mais comum e provável anacronismo, a reiterada referência sustenta que seja Xerxes I, o qual aos anais oficiais do reino reinou de 485 a 465 a.C. e ê (2,23;6,10,2); o próprio fato da conhecido sobretudo por sua celebração da festa dos purim, desde campanha infeliz contra a Grécia. tempos imemoriais, como foi dito Não perdeu, porém, a sua boa acima, fato que, sem dúvida, deve probabilidade a opinião dos antigos, sua origem a algum evento assinaladamente de Eusébio e S. extraordinário na vida da nação Jerônimo, de que se trata, ao invés, hebraica; e não se tem provas para de Artaxerxes II, chamado o Mnemon indicar outro qualquer, a não ser (405-365 a.C.), que antes de subir ao exatamente o que vem narrado neste trono tinha o nome de Arsu (v. livro.
  • 43.
    Pode-se ter comoprovável que, sobre um fundo comum, oral ou escrito, foram inicialmente redigidas: a narração hebraica atual e uma redação grega mais ampla; feita depois a tradução grega da narração hebraica, passou ela a ser adotada, inserindo-se as seções excedentes da redação grega, isto é, as seções deuterocanônicas. Assim chegou-se a atual versão grega, ao que parece, por obra do Lisímaco. No que tange ao gênero literário, já S. Jerônimo notava grande diferença entre as duas redações, hebraica e grega, diferença que tem suas raízes profundas nos costumes estilísticos das respectivas literaturas. Mas, seja qual for o modo de pensar em torno disso, nenhuma das duas composições do livro de Ester tem por finalidade única recordar a origem da festa de purim, e sim também, e mesmo preponderantemente, mostrar os cuidados que Deus teve por seu povo naquele terrível transe da sua história sob a dominação persa; e bastaria isso, sem dúvida, para levar- nos a apreciá-lo altamente. Costuma-se lamentar sobre o livro o nacionalismo acanhado dos protagonistas hebreus e a sua dureza para com os adversários. Decerto, os seus sentimentos e atos estão assaz afastados da abertura de coração e mansidão do espírito cristão. Mas, cumpre julgar os homens pelo seu tempo. Em todas as épocas, até nos tempos modernos, acontecem casos de crueldades Incompreensíveis.
  • 44.
    INTRODUÇÃO AO IMACABEUS O título de I ou II Macabeus deve facilmente em três partes, ser tomado em sentido totalmente correspondendo cada uma ao diferente de I ou II Samuel, ou Reis governo respectivamente dos três ou Crônicas. Nestes últimos, que irmãos Macabeus. formam uma única obra literária, a Do epílogo pode-se deduzir que o divisão em dois livros é artificial, autor, cujo nome e profissão se arbitrária e nada original, ao passo desconhecem, escreveu o livro no que os dois livros dos Macabeus são tempo de João Hircano (134-103 duas obras originariamente distintas. a.C); isto é, em tempos não muito Tomam o nome de Judas, apelidado afastados da ocorrência dos Macabeu, figura central da história acontecimentos narrados; sendo, que narram (1Mac 2,4). O objeto portanto, muito provável que tenha comum dos dois livros é a libertação tido acesso a fontes e a testemunhas da nação judaica do jugo dos se- diretas. Cita doze documentos lêucidas, os soberanos gregos do oficiais por extenso: cartas entre mais vasto dos reinos surgidos após a chefes de estado (12,5-23; 14,20-23), divisão do império de Alexandre indultos dos reis (10,17-45; 11,30-37; Magno. O primeiro livro abrange um 13,36-40; 15,2-29), documentos cuja período de 41 anos (175-135 a.C), ou exatidão estilística e diplomática foi seja, desde o início do reinado de recentemente demonstrada Antíoco IV Epifanes (175-163) até ao mediante o confronto com papiros e assassínio de Simão, chefe do novo inscrições daquela época. estado judaico (135 a.C). O segundo Outra prova da exatidão do autor inicia-se um pouco antes, desde os sagrado são as freqüentes datas últimos dias de Seleuco IV Filópator, precisas de cada acontecimento predecessor de Antíoco Epifanes, (1,10.54.59; 2, 70; 4,52; 6,20.49; mas vai somente até a morte de 7,1.43; 9,3.54 etc.) Conta os anos Nicanor, general do rei se-lêucida, no segundo a era dos gregos (cf. 1,10), ano 161 a.C, pouco tempo antes da outrora dita dos Selêucidas, que morte heróica de Judas Macebeu, começava oficialmente no ano 312 abrangendo assim um período de a.C; mas para os acontecimentos cerca de 15 anos. Em extensão de especificamente judaicos emprega o o tempo, o l livro alcança quase o início do ano no equinócio da triplo do 2°, mas na narração do primavera (cf. 4,52; 10,21); o que período comum é quase um quarto demonstra que toma as datas de mais breve (IMac 1-7; 2Mac desde documentos oficiais, de fontes de 4,7 até o fim). O seu conteúdo, primeira ordem. Tudo isso nos leva a depois de expostas, à guisa de concluir quão importante seja o valor introdução, as causas e as origens da histórico deste livro. insurreição judaica, divide-se
  • 45.
    A obra revelaa índole da antiga literatura hebraica, em estilo simples e conciso, elegante e nervoso no conjunto, mas, às vezes, se alonga em lamentações, descrições e júbilos de colorido poético (cf.1,25-28.37- 40; 2,7-13; 3,3-9.45; 14,4-15), também essas recolhidas, com reservas embora, das fontes orais ou escritas, das quais o autor se serviu. Escreveu em hebraico, mas o original, que são Jerônimo ainda conseguiu ter em mãos, perdeu-se; para nós ocupa-Ihe o lugar uma antiquíssima versão grega. O espírito que perpassa toda a narração é um apego fervoroso à religião tradicional e à santa lei de Deus, com cordial adesão à dinastia sacerdotal que havia restituído a liberdade religiosa e civil ao povo hebreu. A intervenção divina é notória e marcante através do livro inteiro. Não obstante, nunca se lê o nome de Deus ou Senhor. Em substituição, o autor sagrado emprega uma dúzia de vezes o vocábulo "Céu" (note-se especialmente em 4,24, a antífona ou estribilho tão freqüente nos Salmos e em outros livros: 2Crôn 5,13; 7,3; 20,21; Jer 33,11; Esdr 3,11; Dan 3, 89). É uma forma de religioso respeito para com o augusto nome de Deus, que passou também para a linguagem do Novo Testamento. Em conjunto, pelas suas eminentes qualidades históricas, literárias e religiosas, este livro é tido com justiça como uma pérola do cânon católico da Sagrada Escritura.
  • 46.
    INTRODUÇÃO AO IIMACABEUS O segundo livro dos Macabeus, leva-nos a crer que as tenha escrito conforme, testemunho do próprio quando ainda vivas as testemunhas autor (2,23), é o resumo de uma oculares dos fatos, e que, portanto, obra mais vasta, composta de cinco sua obra tenha sido escrita nos livros, que não chegou até nós, e de últimos 20 anos do séc. II a.C. autoria de Jasão de Cirene, autor, de Ignoramos também o autor do resto, completamente desconhecido, resumo, isto é, do presente livro. como desconhecidas nos são as Reve-la-se-nos ele como homem de características de sua obra. índole piedosa, zeloso da sua fé e do Podemos, todavia, compreender seu templo, amante das memórias perfeitamente que um historiador de pátrias e profundo conhecedor da certa importância pudesse surgir de retórica grega (cf. especialmente o Cirene, na África do norte, porque prólogo e o epílogo), muito estudada não ignoramos que no séc. I a.C. naquela época. existia ali uma florescente Faltam-nos provas para afirmar comunidade judaica. As informações que toda a obra original tenha sua que Jasão possuía — segundo o que parte representativa no compêndio podemos deduzir do resumo fiel — também e, em que relação estejam, especialmente as notícias minuciosas quanto à extensão, as duas obras. e exatas sobre certas Parece que o autor do resumo não particularidades da história dos seguiu um critério constante de Selêucidas, informações precisas composição. sobre títulos, cargos etc, nos levam a Quanto ao conteúdo, a obra relata crer que tenha consultado arquivos essencialmente os feitos de Judas palestinenses e ouvido boas Macabeu, precedidos, porém, de testemunhas. É sabido, com efeito, uma longa apresentação das que os judeus cultos da época condições em que surgiu a revolta, e, costumavam empreender tais antes ainda, de duas ou três cartas viagens e pesquisas. Memórias de judeus de Jerusalém aos do Egito, escritas já haviam sido recolhidas por documentos que não têm por fonte Judas Macabeu (2,14); e, por Jasão e. que talvez nem mesmo ocasião das festas da Dedicação e de tenham sido apostos ao livro pelo Nicanor, não deviam faltar os autor do resumo, mas são de habituais rolos narrativos para uso autenticidade comprovada. "litúrgico". As interessantes cartas No tocante à inspiração, o livro dos cc. 9 e 11, agora ilustradas por oferece possibilidades especiais de descobertas papirológicas, provêm observação, além de no prólogo e no de arquivos. epílogo, na abundância de citações A exatidão das notícias, que Jasão documentadas. Quanto a estas, só poderá ter recolhido por via oral, aplica-se o princípio comum em tais
  • 47.
    casos: o autorgarante que o documento foi realmente escrito, e nas circunstâncias em que ele o coloca; pelo simples fato de citá-lo, porém, não lhe garante o conteúdo (S TO A GOSTINHO , A Orósio contra os Priscilianos, 9). Isto é, esses documentos não são em si inspirados, ao passo que é inspirada a sua inserção no texto sagrado. O resto do texto está nas condições costumeiras dos livros históricos; inspirado é o texto grego, não, porém, a obra de Jasão, que ele compendia. O livro não era geralmente reconhecido como sagrado pelos judeus palestinenses, que consideravam encerrado o cânon no tempo dos Macabeus. Mas era tido como tal em Alexandria, bem como os demais deuterocanônicos, e nesta qualidade passou à Igreja. O livro contém ensinamentos já no próprio espírito com que foi escrito, espírito de entusiasmo pela liberdade do povo, de fé na providência divina, de piedade. Diretamente, e com palavras de profunda convicção religiosa, são ensinados, de modo particular, alguns pontos: a ressurreição da carne (cf. especialmente 7,11; 12,43-44; 14,46), a eficácia do sacrifício e da oração pelos defuntos e da oração dos santos por aqueles que ainda militam na terra (12,43- 45; 15,12-16), a existência dos anjos e suas intervenções, também com efeitos miraculosos, em auxílio do povo de Deus, nos momentos mais críticos.
  • 48.
    LIVROS POÉTICOS Os Salmos,Jó e os Provérbios, nas Bíblias hebraicas, formam um grupo à parte, com a denominação de Livros poéticos. No uso comum, cristão e moderno, porém, acrescenta-se-lhes também o Eclesiastes, o Cântico dos Cânticos, o livro da Sabedoria e o Eclesiástico ou Jesus de Sirac; e é freqüente entre os Padres gregos bem como entre os autores modernos, estender a todos o nome de Livros poéticos. E com razão; pois o Cântico dos Cânticos e o Eclesiástico são escritos em versos como os Provérbios. O Eclesiastes e o livro da Sabedoria possuem, outrossim, forma poética, embora menos rigorosa. Trata-se, portanto, de um elemento comum a todos esses livros. São também chamados livros didáticos ou sapienciais, por falarem muito de sabedoria. Mas o título de sapienciais é reservado especialmente aos últimos cinco livros (Prov, Ecl, Cânt, Sab e Eclo); os salmos são na máxima parte de gênero lírico, sem, todavia, lhes faltar o elemento didático; o gênero do Cântico dos Cânticos é exclusivamente o lírico. De resto, lírico e didático são os dois gêneros de poesia cultivada pelos hebreus. O que caracteriza toda a poesia hebraica é o chamado paralelismo. Ordinariamente, o verso compõe-se de dois membros ou hemistiquios, o segundo dos quais forma certa simetria com o primei-do, ora repetindo com outras palavras o conceito (paralelismo sinonímico), como, por exemplo: "Quando Israel saiu do Egito, e a casa de Jacó do meio dum povo bárbaro, Deus consagrou ao seu serviço o povo de Judá, e estabeleceu em Israel o seu império; (SI 113,1-2); ora destacando o mesmo conceito por meio de contrastes (paralelismo antitético), como, por exetriplo: "Um filho sábio é a alegria de seu pai, porém um filho insensato é a tristeza de sua mãe" (Prov 10,1). O segundo hemistiquio não é, às vezes, a repetição, e sim o complemento do primeiro (paralelismo sintético ou progressivo), como, por exemplo: "Com a minha voz clamei ao Senhor, e ele ouviu-me do seu santo monte" (SI 3,5). A observância dos paralelismos ajuda a compreensão do verso, visto que a segunda parte repete e, muitas vezes, esclarece obscuridades ou figuras contidas no primeiro hemistiquio. Por exemplo: Sab 33,6 o "sopro da boca" de Deus não é senão a sua "palavra", o "fiat" da criação (cf. v. 9); SI 71,1 "o filho do rei" não é pessoa diversa do "rei" do primeiro hemistiquio. Deve-se notar de maneira especial que freqüentes vezes os dois hemistiquios paralelos apresentam cada um uma parte e aspecto da idéia, e unidos formam um só conceito. Destarte o citado Prov 10,1 quer significar que o filho sábio é a glória dos pais, ao passo que o insensato causa-lhes tristeza. Assim no SI 91,3 proclamar pela manhã a bondade de Deus, e pela tarde a sua fidelidade tem o sentido de: exaltar dia e noite a liberalidade constante de Deus. Muito se disputou nos últimos tempos se o verso hebraico tenha um determinado ritmo e qual, sem contudo se ter chegado a um acordo entre os estudiosos a respeito. Mais solidamente provadas parecem estas normas: 1° O verso, ou melhor dito, o hemistiquio hebraico, deve ter um determinado número de sílabas acentuadas, nada mais. 2o O número de sílabas acentuadas varia de duas a cinco em cada hemistiquio. 3° Quando o hemistiquio possui cinco acentos, ordinariamente entre o terceiro e o quarto interpõe-se uma cesura, resultando assim um ritmo elegíaco (com dois períodos de comprimento desigual). 4° Entre as duas sílabas acentuadas estão em geral uma, duas ou três não acentuadas. Portanto, o número de sílabas num verso ou hemistiquio ê indeterminado, mas conservado dentro de certos limites. A observação exata desse ritmo é de grande utilidade para a pontuação, isto é, a divisão entre os hemistiquios e também entre os versículos, que não raro são mal distinguidos, inclusive na divisão massorética, introduzida pelos mestres hebreus, e geralmente seguida, como se pode ver em Jó 15,23-24.31-32; 16,7-8; 19,14-15, ou nos SI 16,3- 4;30,11-12;39 7-9; 64.2-4 etc. Conseqüência dessa atenção às exigências do ritmo é a restituição da composição do poeta sagrado a toda a sua natural beleza e a projeção de uma luz intensa para a compreensão do seu pensamento, animado pelo sopro divino.
  • 49.
    INTRODUÇÃO A JÓ Olivro, que recebe o título de Jó, do nome de um protagonista, pode ser considerado com toda justiça um dos mais belos poemas da literatura mundial. Tema apaixonante, drama a um só tempo profundamente humano e divinamente sublime, é desenvolvido com tal riqueza de colorido, vigor de afeto e tantos artifícios de forma, que ê permitido afirmar que nele o idioma hebraico exauriu a sua facúndia, e a arte, o seu estilo. Na verdade, a ação é simples. Um homem de proceder irrepreensível é alvo de infortúnios de toda sorte, ao ponto de não lhe restarem senão poucas carnes semicorrompidas a cobrir-lhe o esqueleto. Alguns de seus amigos, vindos para consolá-lo, vêem nesse cúmulo de sofrimentos a prova tangível de gravíssimos pecados, pelos quais ele o teria merecido, e o exprobam. Jó, paciente, protesta a sua inocência, sem, porém, conseguir vencer os preconceitos dos seus acusadores. O próprio Deus parece surdo aos brados dilacerantes do infeliz Jó, cujo espírito é torturado ainda mais do que a sua carne. Contudo, sua fé na bondade da própria causa e na justiça de Deus não desfalece, e, superada a prova, Deus intervém para defendê-lo e para restituir-lhe a antiga prosperidade. A conclusão é que, embora por uma misteriosa e sábia disposição divina, às vezes também os justos sofrem sem culpa nenhuma; e que, finalmente, Deus recompensa a virtude desconhecida pelos homens. O objetivo do livro é a discussão, concretizada num fato, em tomo da razão e da origem ontológica da dor. A discussão, desenvolvida em forma de diálogo entre Jó e seus amigos, e em versos de esmerada feitura, constitui a parte principal e como que o corpo da obra, o poema propriamente dito (3-41). Precede a introdução em prosa (1-2) e encerra-o um epílogo, também em prosa (42), à guisa de coroamento. Esse o grandioso drama, no qual uma rara profundidade de sentimentos, unida a uma incomparável beleza literária, mantém-se até ao toque final. A diferença entre o Jó paciente e resignado (1-2) e o Jó queixoso e agressivo (3-31) explica-se pelos gêneros literários diferentes das seções. Os discursos de Eliú (32-37) podem ter sido inseridos posteriormente, para completar o assunto, deixado sem solução nos capítulos anteriores. O mesmo se diga quanto à teofania (38-41). Quem foi o autor desta obra maravilhosa? Ante o silêncio completo do próprio texto, as conjeturas não tem conta. Um dos grandes profetas pré-exílicos? Estariam a seu favor o estilo e a linguagem. Um dos sábios doutores da lei pós-exílicos? O assunto e o modo de dialogar justificariam essa suposição. Seja como for, o autor foi um dos grandes representantes da língua e do pensamento do povo hebraico. Da natureza poética do livro se segue que não se deve insistir na veracidade histórica de cada passo da discussão. Além disso, a própria índole do diálogo supõe que o autor não tenha querido aprovar todas as idéias expressas pelos interlocutores. A chave da composição conexa está em 42,1-8: Jó, embora tendo um conceito elevado de Deus, pecou por presunção e violência; aos seus amigos, pelo contrário, faltou o conceito adequado de Deus e de sua Providência. O prólogo e o epílogo são ficções literárias. Discute-se a historicidade da pessoa de Jó; a opinião mais plausível é a de que também seja uma personagem fictícia, pois o objetivo da obra não é contar a história de um sofredor, e sim, oferecer uma solução e um consolo a todos os que sofrem. A cena passa-se nas fronteiras entre a Idumêia e a Arábia. A antigüidade cristã venerava a terra de Jó nas vizinhanças de Carnaim, hoje Cheh Sa'ad, na Batanéia (cf. IMac 5,26), onde subsistem reminiscências na toponomástica local. Jó raras vezes é mencionado no resto da Sagrada Escritura. Em Ez 14, 14.20 é posto entre os homens renomados pela sua justiça e virtude. Em Tob 2,12-15 (segundo a Vulgata) e em Tg 5,11 é proposto como exemplo de paciência heróica. Com efeito, a paciência de Jó tornou-se proverbial. Se hoje, à luz da doutrina evangélica, encontramos motivos de conforto bem mais eficazes do que os que Jó podia encontrar na luz imperfeita da razão e mesmo da antiga lei, tanto mais valem a sua heróica resignação e constância sob o peso de tamanhas desgraças.
  • 50.
    INTRODUÇÃO AOS SALMOS Éuso vindo das Bíblias gregas e latinas, chamar Salmos aos cânticos sagrados que os hebreus, e também os gregos e os latinos, bem como as nossas antigas vulgarizações, com mais propriedade intitulam hinos. São poesias religiosas de argumentos variados, o mais das vezes orações ou louvores a Deus. A coleção desses hinos, chamada, por analogia, Saltério, nas Bíblias hebraicas divide-se em cinco livros, separados entre si pela doxologia ou aclamação ("Bendito seja o Senhor" etc.), que se lê no final dos salmos 41,72,89,106. Mas é divisão recente, introduzida, ao que parece, por volta do séc. III a.C. Em tempos mais remotos, compunha-se de três grandes coletâneas, que se distinguem pelo emprego dos nomes para invocar a divindade. A V (salmos 1-40) e a y (91-150) empregam Senhor (hebr. "Javé"), a 2? (41-88), Deus (hebr. "Eloim"). Distinguem-sé ainda pelos nomes dos autores, que cada salmo traz no cabeçalho. Na 1', quase todos os salmos, exceto 1,2,32, são intitulados de Davi; na 2* são três séries, intituladas, respectivamente, dos filhos de Coré, ou coreí-tas, de Davi e de Asaf; na 3- quase todos os salmos são anônimos. Com os títulos, varia também o teor geral do argumento. Os salmos atribuídos a Davi são, em máxima parte, pedidos de auxílio em todas as aflições, de modo especial nas enfermidades e nas perseguições. Os cantos dos filhos de Coré, conforme sua condição de levitas (cf. Núm 16,1), têm por tema central o culto, o templo, a cidade santa. Os de Asaf são cânticos nacionais ou didáticos, que celebram o triunfo ou deploram as derrotas de todo o povo, ou têm por fim ensinar verdades morais. A coleção anônima compõe-se na maioria de hinos de louvor ou de ações de graças ao Senhor. Nela sobressai também uma coletânea partícula} de salmos breves, chamados graduais (119-133), de índole levítica. Do exposto infere-se que a atual coleção de salmos ou Saltério, foi se formando aos poucos, desde os tempos de Davi (cerca de 1000 a.C.) até depois de Neemias (cerca de 400 a.C). Em todo esse longo período, em todas as gerações, os piedosos poetas, inspirados por Deus, transfundiram nos salmos os seus santos afetos, suas fervorosas súplicas, os transportes de sua alma profundamente religiosa. Destarte, recolhendo o Saltério o eco de todo um povo e de tantos séculos, era, por natureza, apto a se tornar, como de fato se tornou, o livro de orações, o manual de piedade, primeiro para a Sinagoga israelita, depois para toda a Igreja cristã. Muito importantes, relativamente aos nossos conceitos, são dois vocábulos que raramente aparecem nos títulos, mas são freqüentes no texto dos Salmos: "tefilã = súplica" e tehilã = louvor". É assim que são designados os gêneros mais freqüentes dos Salmos. No primeiro, na súplica, que compreende mais de um terço de todo o Saltério, um indivíduo ou (mais raramente) a nação, assaltado por males de toda a espécie, recorre a Deus para deles se livrar. Destarte, na sua abundância e variedade, os salmos oferecem modelos de oração para todas as circunstâncias da vida humana. O outro gênero, de louvor ou hino a Deus, era indicado de maneira especial para o culto público nas funções religiosas do templo e está concentrado sobretudo nos livros IV e V. Em menor número são os salmos didáticos ou sapienciais e morais, cheios dos mais diversos ensinamentos para a vida, e os salmos históricos, que rememoram, para exaltação de Deus ou ação de graças, ou para ilustração dos pósteros, os grandes acontecimentos da vida nacional. Restam ainda salmos que escapam a qualquer categoria, tão grande é a variedade desta nobilíssima antologia de poesia religiosa. Para melhor lhe saborear toda a beleza e experimentar a eficácia, esforce-se o leitor por se apossar dos sentimentos e afetos expressos pelo texto sagrado. Se alguma passagem, como nos chamados salmos imprecatorios (58-69; 83; 109), parece dura e chocante para almas acostumadas à suavidade evangélica (cf. Mt 5,43), lembremos o zelo puro pela justiça e honra de Deus que animava os autores sagrados (cf. 5,11; 69,10; 139,21), e poderemos manifestar para com o pecado todo o rigor da antiga lei, ao passo que reservaremos toda a caridade e a misericórdia da nova lei para o pecador.
  • 51.
    INTRODUÇÃO AOS PROVÉRBIOS Entreos hebreus, como em todas as nações, eram correntes os provérbios vulgares, patrimônio comum da sabedoria popular. Por exemplo: "Dos maliciosos procede a malícia" (1Sam 24,14) ou: "Tal mãe, tal filha" (Ez 16,44). 5 Bem superior a este gênero popular eleva-se o provérbio douto, o "masar dos sábios, fruto da reflexão, digamos, filosófica. Ê uma sentença breve e conceituosa que, sob forma sutil e freqüentemente figurada, dita ensinamentos úteis para a vida. Sua origem e nome parece ter sido a semelhança ou comparação (tal o sentido primitivo da palavra "masal"; exemplos: 26,1-2), passada, portanto, para o sentido de comparação ou semelhança abreviada (p. ex., 25,25-26) para a antítese (10,1-5) e, enfim, para o dito sentencioso em geral. Na sua expressão mais pura, consta de duas frases ou hemistíquios paralelos, o segundo dos quais corresponde ao primeiro numa das diversas maneiras de paralelismo poético. É a forma com que se expressava comumente a filosofia elementar e prática dos hebreus, conhecida com o nome de "Sabedoria". Os escritos em que foi consignada formam a literatura propriamente sapiencial, que podemos chamar de poesia gnómica. Composto em grande parte desses ditos, em forma de masal, é deles que toma nome o presente livro dos Provérbios. O argumento e a finalidade estão claramente expostos nos versos iniciais (1,1-6). Observando-se com atenção, notar-se-á sem dificuldade que o fundo ou corpo do livro é formado por duas coleções de sentenças salomônicas (10,1-22, 16 e 25-29), às quais os capítulos 1-9 servem de introdução e que as outras coleções menores constituem, às vezes, como que apêndices. Esta a razão por que o livro, tomando o nome do autor principal, é chamado, no título (1,1), e com ele na linguagem eclesiástica, Provérbios (ou sentenças) de Salomão. Este breve esboço pode dar uma idéia da riqueza e da variedade que este livro apresenta sob o duplo aspecto da matéria e da forma. Pode-se dizer que à vida toda da antiga sociedade israelita é passada revista, analisada, julgada segundo uma moral toda impregnada de bom senso e praticidade. As fontes desta moral são a experiência e a religião. Da experiência, mestra da vida, o autor sagrado tira lições práticas, ou recolhe simplesmente os fatos (20,4). A religião, ainda que não seja sistematicamente exposta, quer nos seus fundamentos dogmáticos, quer nas suas práticas cultuais (em geral os Provérbios não querem ser uma exposição sistemática da moral, mas sim ditames práticos), todavia é sempre pressuposta, ou, é posta como base de toda a moral (1,7;9,10; 14,2 etc.) e declarada fonte de toda a verdadeira felicidade (14,26-27; 15,16). Muitas e muitas vezes são inculcados nesta obra
  • 52.
    os grandes fundamentosde uma moral íntima, forte e convicta, como, p. ex., a de que Deus tudo vê (5,21; 15,3-11), tudo toma em consideração até os mais recônditos sentimentos do coração (16,2; 17,3), tudo governa (20,12- 24;22,2;29,13) e tudo pode (19,21;21, 30); que longe de Deus não pode haver bem (15,29), que entregar-se a ele é encontrar a força, a sabedoria, a alegria (3,5; 16,20; 18,10 etc). Quanta eficácia na simplicidade da expressão do motivo tão freqüentemente repetido para afastar do vício: "desagrada a Deus, Deus o abomina" (3,32; 11,1-20; 12,22;24,18 etc.)! É com razão, portanto, que a Igreja considera os Provérbios uma pérola entre os livros inspirados por Deus. Evidentemente, não podemos esperar encontrar nos ditos do Sábio toda a sublime elevação da moral evangélica, mas são-lhe uma boa preparação, e não raro muito se lhe aproximam. Razão por que freqüentemente os apóstolos e o próprio Jesus Cristo repetiram formalmente os Provérbios (Jo 7,38; Rom 12, 20; Tg 4,6) ou os seus ensinamentos (cf. Lc 14,10 com Prov 25,7; 1Pdr 4,8 e Tg 5,20 com Prov 10,12).
  • 53.
    INTRODUÇÃO AO ECLESIASTES Singularentre todos os livros do Antigo Testamento é, sob diversos aspectos, o presente. Seu título, Eclesiastes, é a tradução grega do nome hebraico, que no próprio texto designa-lhe o nome, isto é, Cohelet, particípio (feminino) do verbo "cahal", cujo significado é "reunir, convocar". É porque em grego "ecclesiastes" significa também "orador que fala na assembléia", certo tempo acreditou-se que esse livro fosse um discurso, um sermão feito ao povo israelita em assembléia pública. Mas, na realidade, o presente opúsculo nada tem de oratório, e deve ser incluído no gênero de filosofia fragmentária, que, com o título de "Pensamentos", é conhecida também nas literaturas profanas, antigas e modernas. Dada essa índole geral do livro, não causará maravilha o fato de não se encontrar nele uma ordem estritamente lógica no desenvolvimento das idéias. Os intérpretes também discordam entre si na divisão das diversas matérias. O Eclesiastes é misto de reflexões em prosa e de sentenças em versos. São seis ordens de reflexões intercaladas por cinco grupos de sentenças, com um prólogo que precede o corpo da obra e um epílogo que o encerra. O argumento geral da reflexão é a vaidade das coisas humanas; a insensatez da excessiva solicitude pelos bens terrestres, marcadamente as riquezas e os prazeres; a moderação em todas as coisas, quer na busca do bem-estar e da própria virtude, quer na fruição das alegrias que Deus difundiu na vida presente. O livro todo é matizado de suave colorido de serena melancolia e profunda compaixão pelos sofrimentos humanos, o que o torna poderosamente simpático. Sua doutrina valeu-lhe a tacha de cético e epicureu, mas não passa de julgamento superficial e errôneo. Não obstante Cohelet deplore em muitos pontos a ignorância humana, causa de não poucas aflições, e a impotência da razão para solucionar os mais cruciantes problemas da vida e para dar a felicidade plena, não nega, todavia, a possibilidade de chegar a certo conhecimento de muitas coisas, e, sobretudo, tem uma fé inabalável em Deus e na sua ação no universo e na sociedade humana. Convidando-nos a gozar dos bens desta vida com a devida moderação, honestidade e gratidão para com o Doador, bem longe está de pôr o fim da existência no prazer, e ensina também uma virtude, se bem que nem toda a virtude. Sua moral não é perfeita, como tampouco o era a lei antiga (Hebr 7,19), mas ê sadia e proporcionada aos tempos do autor. Ainda hoje ela é capaz de inspirar magnânimos propósitos a um coração cristão. A linguagem e o estilo do Eclesiastes distinguem-se entre todas as páginas do Antigo Testamento pelos vocábulos e construções de uma era bastante tardia, e formam como que a transição entre o hebraico da era clássica e o do Talmude (sêc. II-V d.C). Muito se discutiu sobre quem seja o autor. Pode-se ao certo, dizer que foi um mestre de sabedoria popular (12,9), e que Cohelet foi seu nome literário ou acadêmico, e não próprio. Outra questão ainda debatida é se na composição do livro além de Cohelet tenham tomado parte outras mãos (unidade ou pluralidade de autores). Pode-se facilmente conceder que o epílogo (12,9-14) tenha sido acrescentado pelo editor do livro, presumivelmente um discípulo do próprio Cohelet. Mas será necessário, para explicar a variedade e às vezes o choque de sentimentos que se notam em todo o livro (cf. p. ex., 2,15-17 com 7,19-24;3,6-19;7,2-4 com 2,2 e 8,15;8,10-13;11,9), supor, como o fazem alguns modernos, que no opúsculo, radicalmente pessimista e deleitoso de Cohelet, outros, como, p. ex., um sábio ou piedoso fiel, tenham inserido sentenças morais, a fim de temperar-lhe a crueza? Não parece; o gênero literário dos "Pensamentos" e o humor pessoal de Cohelet, levado a refletir sobre os vários aspectos das coisas humanas e a passar de um a outro afeto, bastam para dar uma explicação adequada aos vários matizes que no Eclesiastes se alternam ou temperam, aumentando-lhe o valor e a atração. Ademais um mesmo é o estilo, tão característico no livro inteiro; mesmo é o Espírito, que lhe garante cada palavra.
  • 54.
    INTRODUÇÃO AO CÂNTICODOS CÂNTICOS O Cântico, ou, como de costume se traduz literalmente do hebraico, o Cântico dos Cânticos, apresenta-se-nos na estrutura de pequeno poema, entre o lírico e o dramático, no colorido de um idílio e com o teor de um cântico de amor, qualidades essas que lhe conferem um lugar todo particular nas Sagradas Escrituras, ao passo que pela elegância literária deve ser posto entre as mais preciosas páginas da pura poesia hebraica. Se, porém, cantasse propriamente amores profanos, não teria sido por certo jamais inserido entre os livros inspirados das Escrituras. Foi, portanto, tradição constante e unânime da Sinagoga judaica, como o é da Igreja cristã, que no Cântico, sob a alegoria de amores profanos, celebrase o amor mútuo entre Deus e seu povo, entre Deus e o fiel piedoso. Somente o racionalismo moderno tentou despojá-lo dessa auréola divina, reduzindo-o a um eco de simples amores profanos. Com essa atitude, porém, ele levantou para si uma barreira que lhe impede a reta compreensão do livro. A alegoria, admitida comumente por cristãos e judeus, não foi, porém, interpretada de igual maneira, e há muitos e diversos sistemas de interpretação. Destas, a que se segue parece, a um só tempo, a mais simples e a que melhor corresponde aos dados intrínsecos do livro e às condições históricas do antigo Israel. A ação do Cântico é uma parábola e um contraste: uma parábola de fundo idílico, e um contraste entre duas vidas, entre dois amores. Uma ingênua pastorinha, alcunhada a Sulamita (6,12; 7,1), ama intensa e ternamente um jovem pastor, seu coetâneo e conterrâneo, pelo qual é cordialmente correspondida no amor: os dois protagonistas são chamados, no texto, "amado" e "amiga" respectivamente (só em 4,8-9, "irmã" ou "esposa"), mas pelo uso comum também "esposo" e "esposa". O afeto mútuo ê estreitado pelo arroubo comum diante da vida inocente dos campos e ante o encanto da natureza virgem. Ê o idílio. Com esta vida simples e pura, contrasta a vida da cidade com suas comodidades, a corte com suas seduções, um rei potentado (simbolizado aqui e ali por Salomão, o mais rico e faustoso monarca que a história de Israel conheceu), o qual desejaria atrair a jovem pastora ao seu amor, à honra de ser sua consorte. Mas a generosa donzela recusa desdenhosamente as ofertas do rico soberano e sente-se satisfeita com a vida simples dos campos, desejando permanecer para sempre fiel ao seu pastor, único objeto dos seus castos amores. Isso tudo entremostra a alma de Israel posta em risco entre a fidelidade à sua religião austera e os deslumbrantes esplendores da civilização pagã; entremostra toda alma fiel, atraída pelos amores antagônicos de Deus e do mundo. De fato, embora o povo de Israel, pela sua doutrina religiosa e moral, superasse incomparavelmente qualquer outro povo da antigüidade, é, todavia, inegável que, na civilização material e em poderio político, ficava muito aquém dos poderosos impérios vizinhos do Egito, da Assíria, da Grécia, com os quais a sua história o colocou num contato quase contínuo. Essa esmagadora superioridade das nações pagãs podia ser um escândalo para as almas fracas, podia, pelo menos, perturbar as almas piedosas, e debilitar, se não abalar, o seu apego a Deus, à religião avita. Dão--no-lo a entender não poucas páginas da Sagrada Escritura, como Dt 17,14-20; 2Rs 18,17-37; Jer 2,18; Bar 6; IMac 1,12-15. O próprio Salomão, que promoveu mais do que qualquer outro a cultura civil em Israel e imitou o fausto e a moleza das cortes orientais (lRs 10, 14-11,13), e foi, sem dúvida, um sério perigo para a religião. A fim de fortalecer os espíritos no amor ao culto severo dos antepassados, e para precavê-los contra a sedução da deslumbrante civilização pagã, o Cântico descreve, nos seus castos e jucundos amores da Sulamita para com seu amado, a felicidade do povo eleito na fidelidade ao seu Deus.
  • 55.
    INTRODUÇÃO À SABEDORIA Entretodos os livros didáticos do Antigo Testamento, o presente traz por excelência o título de Sabedoria porque canta mais longamente e com acentos mais sublimes do que qualquer outro o elogio da verdadeira sabedoria, que tem por objeto a verdadeira religião e a virtude, mas o seu princípio no próprio Deus. Este conceito liga, como fio de ouro, numa maravilhosa unidade, as variedades notáveis das cinco partes, sensivelmente iguais, que compõem o livro. 1- Admoestação a praticar a justiça e a religião, e como motivo para assim agir, a oposição entre a sorte final dos bons e dos maus, prêmio dos justos e castigo dos ímpios na vida futura (1-5). 2- Elogio da Sabedoria pelas suas qualidades intrínsecas e pelos bens que proporciona ao espírito humano. Fala Salomão (6-9). 3- Qualidades da Sabedoria patenteadas na história sagrada; bens que a Sabedoria trouxe aos patriarcas desde Adão até Moisés (10-12). 4- Origem, insensatez e imoralidade da idolatria (13-15): animismo (13,1--9); fetichismo (13,10-14,11); divinização de homens (14,12-20); corrupção profunda (14,21-31); a religião de Israel e o politeísmo egípcio (15). Ao tomar e desenvolver o seu argumento, o autor sagrado teve por finalidade imediata confirmar na fé e na prática da santa religião os judeus do Egito, sustentá-los nas opressões, que por causa dela deviam sofrer, e preservá-los da sedução, que sobre eles podia exercer a brilhante civilização pagã sob a dinastia grega dos Ptolomeus. Com efeito, não pode haver dúvidas de que o livro foi escrito primitivamente em grego, idioma usado pelos judeus do Egito, especialmente em Alexandria, nos últimos séculos que precedem a era vulgar. Nota-se nele não só o colorido grego da língua e do estilo, mas também o reflexo das escolas filosóficas e dos costumes da douta Grécia pagã. Estes reflexos indicam aproximadamente a época em que viveu o autor, fá que no seu tempo (como se releva de 2,10-3,4; 5,1) os judeus tinham que sofrer bastante, quer da parte dos pagãos, quer dos seus correligionários apóstatas, podemos precisar esta época um pouco melhor. Ê historicamente fundado o fato de que nos reinados de Ptolomeu Alexandre (106-88 a.C.) e Ptolomeu Dionísio (80-52 a.C.) tiveram lugar no Egito sublevações populares contra os judeus. O livro, portanto, deve ter sido escrito entre os anos 100 e 50 a, C. Autores houve que pretenderam baixar a idade até à época romana (30 a. C.) e na antigüidade algum escritor, segundo S. Jerônimo (Praef. aos liv. de Salom.), atribuiu-o a Fílon hebreu (cerca de 20 a. C. — 40 d. C.). Mas o livro da Sabedoria versa com demasiada insistência e predileção sobre fatos e costumes especificamente egípcios, para se poder referi-los a povos e soberanos cuja sede não se achava no Egito. Além disso não se pode afirmar que os romanos houvessem "tiranizado o povo de Deus" (15,14) antes de Vespasiano e de Tito (70 d. C.). Também as doutrinas e o estilo diferem notavelmente dos de Fílon. Pode-se, isto sim, colocar o autor do presente livro entre os primeiros e mais ilustres mestres daquela escola judaica de Alexandria, da qual Fílon foi mais tarde o astro mais luminoso. Verdade é que nos cc. 7-9 o autor fala e escreve como se fora Salomão, rei de Israel, que reinou em Jerusalém no séc. X a. C. (cf. lRs 3,5-12) e por isso nos códices gregos o livro tem ordinariamente o título de Sabedoria de Salomão. Mas isto é um inócuo artifício literário empregado nas antigas literaturas, uma espécie de prosopopéia, visando a dar ao discurso maior atração e eficácia, tomando para tanto o tom de insigne personagem antiga. Este artifício humano nada tira à autoridade divina do livro, isto é, à sua inspiração, que é assegurada não só pelo magistério da Igreja, mas também pelo uso que do presente livro fizeram os autores do Novo Testamento, os quais, se o não citaram nominalmente, apropriaram-se de pensamentos e construções que lhe são próprios. Confrontem-se por exemplo, principalmente, Sab 12. 12-22 com Rom 9,19-23; Sab 9,15 com 2Cor 5,4; Sab 3,5-6 com lPdr 1,6-7; Sab 7,25-26 com Hebr 1,3; Sab 7 em geral com Jo 1.
  • 56.
    INTRODUÇÃO AO ECLESIÁSTICO Opresente livro, que na Igreja latina, desde o fim dos primórdios (por exemplo, desde S. Cipriano até ao séc. III) passou a chamar-se o Eclesiástico por excelência, porque o mais notável dos livros lidos nas igrejas para instrução dos catecúmenos ou dos neocristãos, é o mais extenso e o mais rico de ensinamentos entre os livros do Antigo Testamento. Entre os gregos tem o nome de Sabedoria de Jesus, filho de Sirac, ou simplesmente Sirac, do nome de seu autor. No texto original hebraico, segundo testemunho de S. Jerônimo (Prefácio aos livros de Salomão), confirmado por citações de rabinos, chamava-se como o correspondente livro de Salomão, Provérbios do filho de Sirac (cf. 50,27). Mas entre os hebreus era também conhecido, como na versão siríaca, sob o titulo de Sabedoria, comum entre os gregos. Efetivamente, o Eclesiástico (como o chamaremos, segundo o nosso uso) toma o argumento e a divisão da Sabedoria. Distinguem-se nele dez partes, começando todas com o elogio da Sabedoria ou com um hino a Deus, autor de toda a sabedoria; seguem-se dois pequenos apêndices. No fim da 10a parte (50,27), como pós-escrito, o autor dá-nos o seu nome: Jesus, filho de Eleazar, filho de Sirac. O tradutor grego, que certamente andava bem informado, acrescentou-lhe a terra natal: jerosolimitano. Sirá (em grego "Sirac” ) parece mais o sobrenome de família do que de avô; daí o dizer-se muitas vezes sirácida. O tempo em que viveu nos é indicado por duas datas aproximativas. No próprio livro (c. 50), Sirac nos descreve Simão, filho de Onias, o sumo sacerdote, com cores tais, que demonstra muito bem tê-lo visto e admirado ocularmente no exercício de suas sagradas funções. Dos dois sumos pontífices que trouxeram este nome, o primeiro dos quais viveu por volta do ano 300 a.C, e o segundo um século mais tarde, deve-se por certo entender o segundo. Com efeito, o tradutor grego, que no prólogo à sua tradução declara-se neto do autor, informa-nos ter ido ao Egito por volta do ano 38 do reinado do Ptolomeu Evérgetes. Ora, visto que dos dois Ptolomeus que tiveram o nome de Evérgetes (I, 247-222; II, 171-117 a.C.) só o II alcançou e superou o ano trigésimo oitavo de reinado (iniciado em 171 a.C.), assim aquela data leva-nos ao ano 132 a.C. Entre este e a época de Simão II (219-199 a.C.) passam-se exatamente duas gerações, que são as que intercorrem entre avô e neto. Jesus, filho de Sirac, viveu, portanto, entre os séc. III e II a.C, e deve ter escrito o seu livro entre os anos 200 e 180 a.C. Escreveu em hebraico, mas o texto original, visto por S. Jerônimo (Prefação acima mencionada) e muitas vezes citado por escritores judeus da Idade Média, havia séculos estava perdido, até que entre 1896 e 1900 foram encontrados cerca de dois terços do mesmo (3,8--16, 26;30-33;35-fim, além de poucos trechos intermediários) num escaninho de uma velha sinagoga no Cairo em fragmentos de cinco manuscritos diversos. Porém encontra-se num estado formal bem menos satisfatório do que o texto hebraico dos livros protocanônicos. Amanuenses e recenseadores permitiram- se muito mais liberdade ou negligência com o livro de Sirac do que com as Escrituras do cânone hebraico. Por isso maior valor do que de ordinário têm também as duas antigas versões independentes, a grega e a siríaca, especialmente a primeira. O livro foi traduzido para o grego pelo neto do próprio autor, pelo fim do séc. II a.C, como, aliás, ele mesmo nos informa no prólogo da sua versão. Este prólogo é importante, não só porque nos oferece as datas da composição e da tradução do livro, mas ainda porque nos mostra como no séc. II a.C. os livros sagrados do Antigo Testamento já se distinguiam, entre os judeus, nas três ordens que passaram a ser depois tradicionais: lei (Pentateuco), profetas e escritos, e como cada uma dessas ordens estava traduzida, ao menos em boa parte, para o grego. Da versão grega do Eclesiástico, além do texto comum e mais castiço, que se encontra no códice Vaticano 1209 (B), publicado por ordem de Sixto V (1587), eram correntes também, códices dos quais ainda restam, com não poucas edições da primeira parte (1-26). Com base num desses códices foi feita a tradução latina da Vulgata. Bíblia Vulgata Ed. 36.
  • 57.
    O PROFETISMO Com osprofetas, o Antigo Testamento alcança o ápice, seja como valor espiritual absoluto, seja como preparação para o Novo Testamento. Os profetas eram homens que Deus investia diretamente do seu espírito para uma missão espiritual no seio do seu povo, em tempos de perigo ou de necessidade religiosa e moral. Tornavam-se assim, guias espirituais do povo de Israel, pelo mesmo título com que outrora os juízes suscitados por Deus, eram os chefes políticos e militares, os libertadores no tempo de aflição. Embora tenha havido pessoas dotadas de espírito profético desde as origens do povo hebreu (cf. Gên 20,7; Núm 11,25-26; Dt 34,10), contudo, somente a partir de Samuel esses homens inspirados por Deus e por ele enviados ao povo sucedem-se com tal freqüência, que chegam a formar uma cadeia ininterrupta durante cerca de seis séculos (aproximadamente desde 1050 a 450 a.C). Cf. 1Sam 3,1. Considerando o exercício do ministério profético, este longo intervalo de tempo divide-se em dois períodos sensivelmente iguais. Nos três primeiros séculos, isto é, até por volta de 750 a.C. temos os profetas de ação, como, por exemplo, Elias (1Rs—2Rs 2), que pregam energicamente, mas não escrevem, ao passo que os profetas escritores viveram todos nos séculos seguintes: são os profetas cujos vaticínios ou mensagens nos foram transmitidos por escrito. Estes últimos costuma-se dividi-los, com base na extensão de seus escritos, em duas categorias: Profetas Maiores e Menores. Os primeiros são, por ordem cronológica, Isaías, Jeremias, Ezequiel e Daniel (sobre este último, porém, confronte-se a introdução ao seu livro. Os Menores, em número de doze, foram por algum tempo reunidos num só volume, em ordem aproximadamente cronológica, ou, ao menos, na que era julgada tal. Objeto da pregação tanto dos profetas de ação como dos escritores, era defender a pureza do monoteísmo ¡avista contra as contaminações ou infiltrações idolátricas, concitar o povo à santidade dos costumes, exigida pela lei divina, combater as desordens sociais, principalmente a opressão dos humildes, opor-se ao formalismo religioso, inculcando o primado do espírito interior sobre os ritos externos, anunciar a cada cidadão e a toda a nação os tremendos castigos de Deus, em conseqüência das culpas cometidas, como também oferecer a perspectiva de um futuro melhor, fruto do arrependimento, porvir radioso, o mais das vezes compendiado em termos esperançosos e genéricos de paz e de salvação. Nesta ordem de idéias, própria dos profetas escritores, apresenta-se-nos a majestosa e cativante figura de um descendente de Davi, mediante o qual se realizarão as venturosas promessas. Ele é o Salvador dos povos, o restaurador da religião e da justiça, o soberano de um reino eterno de paz. Os profetas designam-no com diversos nomes ou títulos: Emanuel, Servo de Javé, Rebento de Davi, Davi por antonomásia, Germe divino etc. Somente uma vez (Dan 9,26) é denominado com o apelativo de Masiah f ou Messias, que mais tarde se tornará termo técnico e pessoal. Compreende-se, assim, como os apóstolos citem freqüentemente no Novo Testamento os vaticínios dos profetas para provar aos judeus que o Messias que eles preanunciaram é o seu Mestre, Jesus de Nazaré. Esse prenúncio constitui o ponto alto da missão dos profetas. Mas não se limita a isso, como, tampouco, à predição do futuro em geral, se limitaria a missão própria dos profetas, como erroneamente poder-se-ia deduzir deste vocábulo vernáculo, derivado do grego. Em hebraico, o termo correspondente é "nabi", que, propriamente, significa um arauto (da divindade), um mensageiro. Os profetas eram, pois os porta-vozes de Javé, que transmitiam ao povo aquilo que Deus lhes ordenava transmitir; eram os pregoeiros da mensagem divina à nação ou aos indivíduos. O termo mais comum para indicar a mensagem divina era também o mais amplo: "a palavra de Javé", que no seu objeto desconhece limites. Deus, portanto, falava aos profetas, os quais, por sua vez, transmitiam sua palavra aos homens. De que maneira e por quais caminhos chegava a palavra divina a esses espíritos de eleição, é um segredo da mística sobrenatural. Em muitos casos, porém, eles mesmos no-lo revelam em seus escritos. Assim, descrevem-nos as visões com que foram favorecidos (Is 6; Jer 1,11-19; Ez 1-6; Am 7-8; Zac 1-6), mediante uma ação sobrenatural, exercida quer sobre os sentidos exteriores, quer sobre a imaginação e as faculdades interiores. Outras vezes era uma voz que lhes falava, de maneira semelhante, seja sensivelmente, seja mediante uma ação interior. O objeto da revelação podia apresentar- se-lhes na sua realidade direta, como em Is 6, ou por meio de símbolos, como em Am 7-8. Outras vezes a lição era sugerida pela observação de um fato sensível, como em Jer 18. Na maioria das vezes, porém, havia uma iluminação direta da mente do profeta. Sempre, porém, este percebia que Deus lhe falava, e era da indesmoronável convicção da origem divina do seu mandato que hauria uma força sobre-humana, capaz de vencer qualquer obstáculo (cf. Is 50,4-8; Jer 1,17-19;20,7-12; Ez 3,8-9; Am 3,7-8;7, 12-17). A mensagem divina era comunicada, em geral, mediante a pregação (cf. Jer 7,1-15); outras vezes, mediante uma ação simbólica, realizada publicamente, com a finalidade de causar maior impressão sobre o povo (Is 20; Jer 13; 19; Ez 4-5). Já no segundo período, as mensagens proféticas passavam mui freqüentemente da pregação viva para o escrito (cf. Jer 36) e então assumiam facilmente forma mais literária, geralmente mais concisa e muitas vezes eram exaradas ou refundidas em formas poéticas mais apuradas, que juntavam à fascinação da beleza poética a vantagem de imprimir mais facilmente a palavra divina na memória. Ê até provável que, unindo ao verso a melodia, muitos desses poemas fossem cantados pelas praças e ruas, por zelosos discípulos dos profetas, para fins de propaganda.
  • 58.
    Ao passarem, pois,da pregação oral para a escrita, esses "homens de Deus" (título honroso, reservado por antonomásia aos profetas; cf. 1Sam 2,27;9,6; 1Rs 13,1; 17,18; 2Rs 4,7 etc.) recebiam um carisma especial de inspiração, que conferia a seus escritos o valor de livros sagrados, dignos de ser inseridos no cânon das Escrituras divinas. Essa inspiração recebe esse caráter específico do seu termo, a escrita, que faz com que a palavra seja fixa, duradoura e imutável, o que a expressão oral não é. Na sua natureza de oráculo divino não difere, porém, da inspiração profética comum. É por isso que os teólogos, como Sto. Tomás de Aquino (Suma Teológica, 2?-2?, q. 171- 178) costumavam tratar da inspiração bíblica juntamente com o carisma profético, e os antigos Padres chamavam freqüentemente "profeta" a qualquer escritor bíblico, porque inspirado. O profetismo ergue-se, portanto, paralelo à lei e, juntamente com ela, sustém o edifício sagrado da religião hebraica, quer em função social no seio do povo de Israel, quer como monumento literário no Livro divino, a Bíblia. Daí a razão por que em linguagem bíblica, de modo especial no Novo Testamento, é de uso corrente o binômio "Lei e Profetas" para indicar todo o Antigo Testamento (cf. Is 2,3; 2Mac 15,9; Mt 11,13; Lc 24, 27 etc.) O profetismo era uma instituição divina em Israel, prevista e aprovada pela lei (Dt 18,15-20). O profeta, porém, recebia diretamente de Deus a investidura de sua missão, independente da aprovação da autoridade civil ou do sacerdócio (cf. 1Rs 18,16-18; Jer 1,17-19; Am 7,10-17). Testemunha de que Deus lhe tinha falado e de que o enviava, era o profeta mesmo, e devia ser acreditado na sua palavra. Garantia suficiente da sua sinceridade e da sua vocação divina, era sua pureza de vida e de doutrina, ou, em alguns casos, a realização de seu vaticínio (Dt 13,1-3; 18,21-22). Foi assim que já no limiar do Novo Testamento apresentaram-se às turbas de Israel, João Batista e Jesus de Nazaré. Continuação e coroamento da antiga mensagem profética foi a mensagem evangélica. Bíblia Vulgata Ed.36
  • 59.
    INTRODUÇÃO A ISAÍAS NasBíblias de língua hebraica e latina, o livro de Isaías costuma figurar em primeiro lugar na série dos livros profé- ticos. Não tanto por ser o mais antigo entre os Profetas Maiores ou por ser o livro ao qual empresta o nome um dos mais extensos, mas sobretudo porque excede a todos os outros pela quantidade e grandiosidade dos vaticínios messiânicos. Julga-se que o profeta Isaías tenha nascido em Jerusalém, de família nobre, pois encontramo-lo continuamente em contato com a corte e com pessoas influentes do reino. Era casado e tinha pelo menos dois filhos, aos quais deu nomes proféticos (7,3;8,3), como, aliás, era o seu próprio nome, cujo significado é "Javé salva". No ano 738 foi chamado ao ministério profético mediante uma célebre visão (cap. 6), que teve imensa repercussão na teologia e na liturgia. A partir de então vemo-lo ao lado dos reis de Judá, Acaz e Ezequias, animando-os na dura crise que atra- vessava a nação, assegurando-lhes a proteção divina em virtude das promessas feitas a Davi. Após o ano 700 perde- mo-lo de vista. Relativamente às condições políticas, morais e religiosas de Jerusalém e de Judá nos tempos de Isaías, temos notícias abundantes em 2Rs 15-20 e 2Crôn 26-32, além das reflexões do presente livro. O longo e benéfico reinado de Azarias ou Ozias (cf. 2Rs 15,1), que tão grandemente favoreceu a agricultura e o comércio no reino, trouxe com a prosperidade também o luxo e a despreocupação, fatores de corrupção e conseqüentes desventuras. As baixas ca- madas populacionais eram descuidadas, oprimidas pelos ricos e potentados. A prática da religião exteriorizava-se em numerosos atos públicos de culto, em funções litúrgicas, mas era destituída de sincero sentimento interior e de vida moral correspondente. Pior ainda, ao lado da legítima religião monoteísta, do javismo puro, vicejavam práticas abo- minadas pela lei, e até mesmo atos de idolatria, especialmente depois que o crescente poderio assírio prestigiou os cultos babilônicos, favorecendo-lhes a penetração entre as populações palestinenses. O reinado de Ezequias promo- veu uma ação enérgica e salutar contra essas aberrações. Mas as suas sábias reformas não tiveram grande duração nem penetraram totalmente na sociedade judaica. Durante o reinado de seu degenerado filho e sucessor, Manasses, grassou mais do que nunca a corrupção na religião e nos costumes. À propagação do mal opôs-se em vão a voz enér- gica dos profetas; não eram atendidos. Chaga tão maligna só podia ser curada com um tratamento radical. E eis os profetas, especialmente Isaías, a anunciar os castigos divinos, que se sucederiam implacáveis, até quase o aniquila* mento da nação culpada. Mas do terrível cadinho sairá um pequeno resto, completamente purificado, germe sagrado de um povo novo. E a nação ressurgida e transformada gozará de paz sem fim e de bem-estar invejável. Esta, em linhas gerais, a mensagem do profeta. Instrumento da catástrofe, humanamente tão terrível, mas ao mesmo tempo, por disposição divina, tão salutar, devia ser o poderoso monarca do vizinho setentrião, primeiro o assírio, depois o babilônico. Contra a ameaçadora arrancada do temível colosso ergue-se o Egito, seja para defender a própria independência, seja pela saudosa ambição de dominar, como outrora, a Palestina e parte da Síria. Espremidos entre os dois poderosos contendores, os pequenos estados do Oriente Próximo viam-se na contingência de se arranjarem como podiam. Daí a formação, particularmente em Jerusalém, de dois partidos opostos, um propenso a negociar com a Assíria, outro a formar com a oposição encabeçada pelo Egito. Isaías, em nome de Deus, pregava a neutralidade, combatia toda a esperança fundamentada nos homens e incitava a pôr toda a confiança em Javé, fundador e protetor da nação. A esta política, ao mesmo tempo prudente e corajosa naquelas circunstâncias, o profeta animava o rei Ezequias, mesmo depois que, com a queda do reino de Efraim (queda da Samaria em 721 a.C.) o perigo para o reino de Judá, menor e mais fraco, apresentava-se mais ameaçador. Graças a essa política, o pequeno reino saiu ainda incólume da tempestade (701 a.C), naufragando em novo embate somente após mais de um século (587). Bíblia Vulgata Ed.36
  • 60.
    INTRODUÇÃO A JEREMIAS Jeremiasé o mais simpático dos profetas e também aquele de quem possuímos notícias mais abundantes, quase todas transmitidas por seu próprio livro. Nascido por volta do ano 646 a.C, em Anatot, nas proximidades de Jerusalém, de família sacerdotal e já predestinado ao ministério profético (Jer 1,5), no décimo terceiro ano do reinado de Josias (626 a.C.) foi chamado por Deus e por ele enviado a levar a sua mensagem aos reinos e às nações, mensagem em que predominam as ameaças e as ruínas, mas que é rica também de promessas de restauração (1,9-10). Apesar da relutância por parte de sua índole bonachona e um pouco tímida, o jovem Jeremias respondeu ao apelo divino com generoso espírito de sacrifício, acrescido em face das oposições que lhe foram preditas (1,17-19) e do celibato que lhe foi imposto por expressa ordem divina. Sua atividade desenvolveu-se nos momentos mais críticos da nação judaica, num período dos mais convulsionados do antigo Oriente semítico. Conheceu o colapso do poderio assírio e o nascimento do segundo império babilônico, que cedo iria destruir a bruxuleante chama da independência de Israel. No interior da nação, as condições religiosas e sociais não eram menos inquietantes. Ao iniciar Jeremias o seu ministério, perduravam ainda os péssimos efeitos do nefando reinado de Manasses, que abrira tas portas às infiltrações idolátricas na prática religiosa do povo de Israel (2Rs 21,2-6). Foi contra essas aberrações e contra o formalismo religioso que o profeta teve de bradar, principalmente nos primeiros anos de sua pregação (Jer 1-6), e não apenas nesses anos. Realmente, embora o piedoso rei Josias tivesse iniciado, a partir do ano 621, com zelo enérgico a purificação do país de todo o vestígio de idolatria, repristinando, com a concentração do culto no templo de Jerusalém, a observância da lei mosaica em todo o seu vigor, todavia, a morte trágica e prematura do próprio Josias (609 a.C.) decretou um fim rápido para essa rígida reforma. Durante este decênio, satisfeito com secundar a ação governativa, Jeremias parece conservar-se por detrás dos bastidores (nenhum discurso seu deste tempo nos foi transmitido); depois, deplorada a morte do rei com elegias que infelizmente não chegaram até nós (2Crôn 35« 25), ele entra de novo em cena com energia ainda mais vibrante, profligando os vícios renascentes sob os sucessores de Josias, não poupando sequer os poderosos, os sacerdotes, os profetas mendazes, aduladores do povo ou de partidos. Muitos males trouxe-lhe esta pregação desassombrada, porque os poderosos alvejados por ele não lhe pouparam violências, perseguições, vilipêndios, cárceres (Jer 20,1-3 J;26,7-24;32,l--2;37;38). No plano político, encontrou-se Jeremias em idêntica posição à de Isaías (cf. p. 796). Renovava-se o contraste entre o Egito e o império oriental, nas mãos dos babilônios ou caldeus. Ante a avançada ameaçadora destes, Jeremias recomenda, em nome de Deus, a aceitação e a submissão aos novos senhores. Mas o forte partido da oposição incitava à resistência, apoiando-se novamente no Egito, e quis abafar a voz do profeta já malvisto, lançando-o numa escura prisão (Jer 37;38), donde foi libertado, após a tomada da cidade, pelos caldeus, que, conhecedores dos seus sentimentos, tomaram-no sob a sua proteção (40,1-6). Nem mesmo isto, entretanto, lhe valeu algo contra o cego furor dos egiptófilos, que, conseguindo escapar dos caldeus, asilaram-se no Egito, arrastando consigo, à força, o desditoso profeta (43,1-7). Também ali, fiel à ordem divina, Jeremias continuou a missão de corrigir costumes e pacificar os espíritos entre seus compatriotas (44). Jeremias possuía um coração extremamente sensível, e o patético, quer do amor quer do sofrimento, atinge às vezes o ápice no seu livro. A ternura de Deus para com o seu povo e a mágoa de se ver por ele incorrespondido, o esmagamento do profeta ante a ruína moral e política de sua amada nação, as alegrias pela reconciliação e o feliz reflorir, fazem vibrar as cordas mais íntimas do seu coração. A alma comovida de Jeremias irrompe então em calorosas estrofes de lirismo sublime e comovedor. Se em grandiosidade de imagens, vôos de fantasia e esplendor de fraseado cede o lugar a Isaías, no que tange à espontaneidade e à intensidade de afeto, Jeremias supera a todos os poetas hebraicos. Bíblia Vulgata Ed.36
  • 61.
    INTRODUÇÃO ÀS LAMENTAÇÕES Atomada de Jerusalém, com o séquito de todas as suas dolorosas conseqüências, predita e depois descrita no livro de Jeremias, não deixou de produzir no coração dos judeus piedosos a mais viva dor e o mais acerbo pranto. Os sentimentos excitados por esse terrível golpe na parte mais eleita da nação estão refletidos nas Lamentações, chamadas também em grego "Trenos" ( = cantos fúnebres), pequeno livro que, pela afinidade de matéria, nas Bíblias cristãs se acha unido ao livro de Jeremias. Compõe-se de cinco carmes elegíacos, usualmente considerados e citados como outros tantos capítulos duma só obra literária. Além da matéria, têm em comum uma estrutura poética peculiar. No hebraico são todos alfabéticos, isto é, regulados pela ordem e pelo número das letras do alfabeto, mas de maneira diversa. Os quatro primeiros são também acrósticos. As iniciais de cada verso poético formam um alfabeto completo e ordenado, como em diversos salmos e na última seção dos Provérbios (Prov. 31,10-31). Essa estrutura artificial, que não se percebe na nossa tradução, limita todos os carmes e influi no andamento do pensamento. Inútil, portanto, esperar um desenvolvimento lógico do tema; o poeta desafoga os seus afetos segundo lhe são sugeridos pelo coração dominado pela comoção, ou conforme o alfabeto lhe desperta uma idéia. Inexiste, entretanto, de carme para carme, ou no mesmo carme, aquela desordem por muitos lamentada. Não raro uma interpretação mais exata ou uma leitura correta do texto remove a causa de queixas. Os cinco carmes — ou elegias, como os chamaremos, com termo apropriado, — deploram a tremenda catástrofe nacional, cada uma sob um aspecto diferente. Na primeira, o motivo principal ê a perda dos bens morais: independência, glória, poderio, e o aviltamento da nação; na segunda, pranteiam-se as ruínas materiais e o massacre de vidas humanas na tomada da cidade; na terceira, põe-se e se resolve o problema religioso: como permitiu Deus tão grande esfacelamento? que mais esperar dele? como a salvação pode estar num sincero arrependimento e na reforma dos costumes?; na quarta deploram-se os males sofridos por todas as classes da sociedade judaica e as culpas dos principais responsáveis; a quinta, enfim, é um súplica que descreve a escravidão que se seguiu à derrota, e se destina a mover o Senhor à compaixão, e conclui com um suspiro de confiança no porvir. Também na estrutura de cada elegia não falta certa ordem e harmonia entre as diversas partes. As cinco elegias são dum só autor? Quem foi ele? A questão é muito discutida e tem sido resolvida em diversos sentidos pelos autores modernos. A antigüidade, quer cristã quer judaica, atribui-as todas a Jeremias de quem nos é formalmente atestado que compôs lamentações ou cantos fúnebres por ocasião da morte de Josias, que não devem, entretanto, ser confundidas com estas elegias. Teríamos aqui uma coletânea de carmes independentes entre si, embora semelhantes, análoga à dos salmos graduais no Saltério (SI 120-134). Podemos aceitar, portanto, que as Lamentações tenham autores diferentes e desconhecidos. Todas, porém, devem ser reconhecidas como igualmente inspiradas por Deus, porque fizeram sempre e sem contestação, parte do cânon das Sagradas Escrituras, tanto na Sinagoga judaica, como na Igreja cristã, embora nas listas dos Livros sagrados, como também no decreto do Concílio Tridentino, na maioria das vezes não sejam especificadamente nomeadas, porque subentendidas e compreendidas com o livro de Jeremias. Esta sua qualidade eminente de Escritura inspirada faz com que a nossa ignorância acerca dos seus autores humanos nada tolha ao seu valor religioso, como palavra de Deus que ê, do mesmo modo que nada tolhe à sua beleza poética, ao seu valor literário, que não é de forma alguma comum. Bíblia Vulgata Ed.36
  • 62.
    INTRODUÇÃO A BARUC Arespeito de Baruc, associado ao ministério de Jeremias, temos notícias seguras no livro deste profeta, especialmente nos cc. 36,43,45. Sabemos daqui que foi arrastado à viva força pelos judeus rebeldes, juntamente com Jeremias, para o Egito (Jer 43,5-7), mas do confronto de Jer 44,28 com 45,5 podemos deduzir que mais tarde retornou à Judéia, donde pôde ir à Babilônia para consolar os exilados. Ali, efetivamente, o encontramos no início do pequeno livro que traz o seu nome. Este compõe-se de três partes, nitidamente distintas: 1ª Prece pública, em prosa ritual (1, 1-3,8): a nação em peso reconhece ter merecido tantas desgraças e o próprio exílio, por causa dos pecados pessoais e dos antepassados; pede misericórdia e a cessação de tantos males. 2ª Elogio da sabedoria, em elevado estilo poético (3,9-4,4): na lei divina, que é concretamente a mais elevada sabedoria, está a verdadeira glória e felicidade de Israel; o exílio foi causado pelo abandono da mesma; cumpre voltar à perfeita observância da lei. 3ª Deplorada a amargura do exílio, anuncia-se a alegria do repatriamento (4,5-5,9), em prosa cadenciada, que, pelo fundo, recorda Is 40-66 e, pela forma, o estilo de Jeremias, oscilando, freqüentemente entre a poesia e a prosa. Como se vê, as três partes acham-se ligadas entre si pelo fundo histórico do argumento e sucedem-se em certa ordem lógica. No tocante à qualidade literária e à composição diferenciam-se, entretanto, notavelmente, de sorte que o exame intrínseco não oferece razões decisivas que abonem a unidade de autoria de todo o livro. O testemunho extrínseco, dado no texto 1,1, para a atribuição a Baruc, vale somente para a primeira parte, a qual está tão impregnada do fracasso de Jeremias, que, negá-la ao secretário do profeta, é o que de mais irrazoável possa haver. Menos rica, mas não isenta de contatos com o livro de Jeremias, é a terceira parte. Nada nos diz a respeito o belo poemeto central. Todas as três partes foram originariamente escritas em hebraico, entre 582 e 540 a.C, aproximadamente. Provam--no as numerosas alusões ao exílio babilônico e os diversos equívocos das antigas versões, explicáveis unicamente por uma leitura ou interpretação incorreta de uma palavra hebraica, coisa que se nota igualmente em todas essas versões. O texto hebraico original, porém, foi perdido. Para nós, toma-lhe o lugar a versão grega dos LXX. Em segundo lugar vem a Pessitta siríaca, que também deriva do hebraico. Na Vulgata temos uma antiga tradução latina feita à base do grego e não retocada por S. Jerônimo. Os judeus da Palestina excluíram Baruc do rol dos livros sagrados, e nisso foram seguidos também por alguns Padres da Igreja, na antigüidade, e por todos os protestantes. Acolheram-no, ao invés, os judeus da diáspora, anexando-o ao livro de Jeremias no volume dos profetas maiores. Desta crença e costume tornou-se herdeira a Igreja cristã, razão por que vemos, desde o fim do séc. II, os Padres Atenágoras, Irineu, Clemente Alexandrino, citarem as palavras de Baruc com o nome de Jeremias. Nos cânones bíblicos das Igrejas do Oriente e do Ocidente, nos séculos seguintes, o mais das vezes Baruc não é especificado (como também as Lamentações), justamente porque compreendido com Jeremias. O cânon do Tridentino nomeia-o expressamente: "Jeremias com Baruc". Destarte elimina-se qualquer dúvida acerca do caráter divinamente inspirado deste opúsculo, tão breve quão rico de doutrina, não lhe faltando mesmo algumas raras belezas literárias.
  • 63.
    INTRODUÇÃO A EZEQUIEL Ezequiel, pertencente à linhagem sacerdotal, viveu, como Jeremias, no período mais tormentoso da história hebraica. Em 598/97 a.C, antes de ter completado 30 anos, foi deportado de Jerusalém para a Caldeia, juntamente com a rei Joiakim (ou Jeconias) e mais dez mil pessoas entre nobres, guerreiros e artesãos. Permaneceu no exílio até à morte, ocorrida entre os anos 571 a 561 a.C. Jerusalém não fora ainda destruída, porque o rei Joiakim, tendo sucedido a seu pai Joiaquim (talvez assassinado quando o exército de Nabucodonosor se aproximava da cidade santa), rendera-se ao cabo de três meses de assédio. Todavia, a deportação da corte e do escol da população enfraqueceu-a sobremaneira, constituindo uma lição tremenda, mas infelizmente inútil. Entre a população deixada no país, sob o governo de Sedecias, nutriam-se veleidades de independência, que explodiram , em aberta rebelião no ano 588, causando finalmente a tomada e a destruição de Jerusalém e do seu templo (Jer 37-39 e 52). Todas as visões do profeta exilado, como as de Jeremias, que permaneceu na pátria, vendo e vivendo o trágico destino da cidade santa, vinculam-se intimamente a esses acontecimentos. Ambos os profetas vêem e anunciam continuamente, em todas as formas, o futuro imediato, imersos na angústia de ver um povo que não lhes presta ouvidos e se atira ao báratro. A própria morte da esposa de Ezequiel, lembrada pelo profeta, tornou-se um símbolo da ruína de Jerusalém e do templo, ocorrida na mesma época. Não faltam, porém, alguns clarões que permitem visões longínquas, as quais se multiplicam e até se tornam constantes, quando aos primeiros deportados se juntou a avalanche dos novos, trazendo gravados no espírito os horrores do cerco, do morticínio e da deportação. Ao contrário de Jeremias, que tem páginas patéticas, transbordantes de extrema sensibilidade, Ezequiel é, muitas vezes, áspero, duro, quase desapiedado. Mas as suas predições e ações simbólicas, bem como as suas mortificações voluntárias, para inclinar, se possível fora, Israel a uma conduta de fidelidade para com Deus e a uma sabedoria política, são inspiradas por um coração magnânimo e forte ao mesmo tempo, baseado na fé, na dedicação ao seu povo e no amor à pátria. Em seu estilo abundam as ações simbólicas, originais e mudas, apresentadas como narrações. As partes poéticas são raras e encontram-se quase exclusivamente nas profecias contra as nações. Ezequiel é minucioso nas descrições, preciso e até cansativo às vezes. O projeto da divisão da Terra Prometida, o desenho do novo templo e a indicação das leis ao mesmo atinentes, parecem mais obra de técnico do que de profeta. Profecias nitidamente messiânicas são os trechos: 17,22-24;34,11-16;47;48. Mas toda a terceira parte, do c. 33 em diante, é concebida em termos de expectação messiânica. Ezequiel é o primeiro representante dum novo gênero literário de mensagem profética, muito desenvolvido, em seguida, na literatura judaica do séc. II a.C. Trata-se do gênero apocalíptico. No Novo Testamento, ele figura no livro do Apocalipse (termo grego que significa "revelação"). O próprio S. João deu ao seu livro o nome de f<profecia" (Apoc 1,3), termo não muito apropriado ao caráter da obra. Eis as características principais do gênero apocalíptico: 1. A mensagem profética limita-se à predição do futuro, especialmente à era messiânica e ao fim do mundo. 2. Esse futuro, ora radiante, ora pavoroso, aparece ao vidente sob a forma de cenas simbólicas em que atuam seres humanos e sobre-humanos, animais e astros, quais outras tantas figuras dos acontecimentos vindouros. 3. A intervenção freqüente de anjos, como guias e intérpretes dos cenários contemplados pelo profeta. 4. Os eventos relacionados com o fim dos tempos, quer messiânicos, quer cósmicos, revestem-se dum colorido empolgante de convulsões cósmicas e telúricas, e isso, de tal maneira, que este motivo, embora acessório, é considerado comumente como propriedade prevalente do estilo apocalíptico.
  • 64.
    INTRODUÇÃO A DANIEL Arespeito de Daniel nada mais sabemos além do que nos diz este livro, pois não traz nenhuma novidade a única menção dele, feita no Antigo Testamento (IMac 2,60) e a igualmente única do Novo Testamento (Mt 24,15). Descendente de nobre família do reino de Judá, muito jovem ainda (13,45), teria sido deportado cerca do ano 605 a.C. para Babilônia e agregado aos pajens da corte do rei Nabucodonosor, com o nome de Baltasar (1,7). Desde os primeiros atos (cf. 13,45-62) revela-se senhor daquela sabedoria que constitui o fundo de sua figura moral. Modelo e mártir da fidelidade à lei divina, foi enriquecido por Deus com um dom extraordinário de penetração nos mistérios contidos nas visões e nos sonhos proféticos que Deus envia a ele e a algumas personagens daquela época (2,17-35;4,2;5,13-16). Em virtude dessas suas capacidades, fez carreira entre os soberanos babilônios, desde Nabucodonosor até Ciro, que o honraram, confiando-lhe cargos. De dois anos destes soberanos são datadas as revelações que ele teve, a última das quais (10,1) se deu no terceiro ano de Ciro. Além dessa data, nada mais sabemos dele. Nas Bíblias hebraicas o livro de Daniel tem menor extensão do que nas cristãs, e dentre estas, as latinas têm ordem um tanto diversa daquela das gregas. Em hebraico compõe-se de 12 capítulos e de 357 versículos; nas versões gregas e latinas são inseridos (no c. 3) 67 versículos, que constituem a primeira das três partes ditas deuterocanônicas deste livro. Além disso, acrescentaram-se outras partes em dois capítulos distintos, que em grego se acham, o mais das vezes, um no início e outro no fim; nas versões latinas sempre no fim. No livro a idéia central que predomina, é aquela do reino de Deus, isto é, do supremo domínio de Deus sobre a natureza e sobre os eventos humanos, que culmina no estabelecimento do "reino dos santos" (os adoradores do verdadeiro Deus) sobre as ruínas dos mais poderosos impérios humanos. As observações críticas, porém, não diminuem o valor do ensinamento religioso e moral do livro. Reduz-se ele a pontos de importância capital. Jamais se lê o nome divino "]avé", mas sempre El ou Eloim (também Eloah, no singular) ou uma circunlocução "Deus do céu" (8 vezes), "o Altíssimo Deus" (5 vezes). A tendência de todas as narrações é a de exaltar o Deus de Israel, donde resulta que somente ele é que tudo pode e tudo sabe; lê nas mentes humanas e vê os acontecimentos futuros; dele é que vem todo o saber humano e em suas mãos estão os destinos dos indivíduos e dos impérios. A ele somente se deve adoração e culto, e para não transgredir sua santa lei, devemos estar prontos mesmo a morrer, se necessário. O messianismo de Daniel é sumário, de poucos elementos, mas de relevância extraordinária. É um messianismo quase exclusivamente coletivo, isto é, visando antes a sociedade religiosa do que o seu chefe; suas características são todas de origem espiritual: cessação do pecado, triunfo da justiça, inauguração de uma eminente santidade (9,24); o reino anunciado será o "reino dos santos", que se poderia traduzir também por "reino de Deus", tal como foi depois anunciado na primeira pregação do Evangelho (Mc 1,14). Particularidade de Daniel é que ele anuncia a vinda desse reino, isto é, o seu início, indicando datas e números cerca de 500 anos depois da queda de Jerusalém (9,24); daí o lugar de primeira ordem que ocupa este vaticínio na demonstração da doutrina cristã. O que ele diz sobre a vida futura ou sobre a escatológica é pouco, mas este pouco assinala um progresso da revelação nessa matéria. É ele o primeiro a insinuar um despertar dos mortos no fim dos tempos, um despertar para uma nova existência que será para uns a vida eterna e para outros a eterna condenação. Entre os primeiros, os que tiverem demonstrado zelo pela santificação própria e a dos outros gozarão de esplendor especial (12,2-3).
  • 65.
    INTRODUÇÃO AOS PROFETASMENORES OSÉIAS O profeta Oséias era natural do reino de Israel ou Efraim, como se costuma chamar. Profetizou sob o reinado de Jeroboão II e de seu sucessor, a partir da queda de Samaria e de todo o reino (721 a.C). Os três primeiros capítulos do livro de Oséias formam um conjunto todo especial. Sob a forma de drama simbólico é-nos posta diante dos olhos a infidelidade do povo de Israel para com o seu Deus, representada, figuradamente, na infidelidade duma esposa para com seu legítimo marido; anuncia-se o seu castigo, mas também o seu arrependimento, a sua reconciliação e, enfim, sua vida renovada e mais feliz (2,16-24; cf. 2,1- 2; 3,5). Nos capítulos restantes (4-14) voltam os mesmos motivos, a saber: a culpa de Israel, principalmente as práticas idolátricas, o culto do bezerro de Betei, as alianças com os poderosos pagãos, a Assíria e o Egito, a falta de confiança e de apelo ao único Deus; daí os castigos proporcionados às culpas. Nem faltam vislumbres dum retorno a Deus e dum futuro melhor. Nesta sucessão de quadros, o mais das vezes obscuros, pode-se notar certo progresso. No c. 1 os acontecimentos políticos que, entre 745 e 725 a.C. elevaram tantos reis ao trono e outros tantos derrubaram dele, aparecem como fatos já passados; no c. 13 o castigo do povo ingrato é anunciado já como sentença irrevogável de uma destruição total do reino, e no último, o 14, com cores mais ricas e suaves promete-se a salvação definitiva. No estilo de Oséias sucedem-se, em breves sentenças, pinceladas rápidas, imagens ousadas, passagens bruscas e como por saltos. Seu vocabulário ê rico, e seu estilo característico, devido, talvez, às particularidades do dialeto de sua região. Por estas mesmas razões o seu texto, maltratado pelos copistas, conservou-se num estado assaz deplorável. Desse complexo de causas origina-se a obscuridade desmesurada deste livro. Escrito no reino de Israel, foi-nos conservado e transmitido por mãos judaicas, através das quais é verossímil que tenha sofrido retoques lingüísticos e talvez também algum acréscimo, como a menção do reino de Judá nalguns contextos onde menos se esperariam (cf. 5,5;6, 11). Das páginas de Oséias transparece um caráter impressionante, ardente e patético a um só tempo, mas sensível sobretudo às ternuras e às fogosidades do amor. Sob este aspecto é um precursor de Jeremias. Particularmente suas são as muitas reminiscências da antiga história do povo de Israel, sobretudo do patriarca Jacó, que tornam duplamente precioso o seu livro, cuja extensão supera, em três ou quatro partes a maioria dos doze profetas menores. O método de Oséias se destaca peta descrição das relações entre Deus e Israel propostas sob a figura do amor conjugal. Ele é o primeiro profeta que recorre a esta comparação tão fecunda e repetida pelos profetas seguintes. A bem dizer, ele insiste mais no aspecto negativo do matrimônio, nas infidelidades e nas rupturas, do que no amor propriamente dito. A descrição deste amor será reservada ao Cântico dos Cânticos. A Oséias, pelo contrário, Deus faz sentir as suas amarguras de esposo traído, ameaçando e executando os duros castigos que o caso reclama. Tudo termina com a expectativa da reconciliação dos esposos a da restauração. JOEL O nome de Joel (hebr. Jõ'el = Javé é Deus) ocorre umas quinze vezes no Antigo Testamento. Discute-se até agora a respeito da época em que teria vivido o profeta Joel; mas pouco nos adianta examinarmos sua vida, pois chegaremos às mais desencontradas conclusões. Com maior atenção devemos, por isso, entregar- nos à leitura do próprio texto. Distingue-se Joel pela amplitude e vivacidade das descrições, que constituem quase toda a matéria do seu livro. Ao contrário dos grandes profetas, Joel jamais especifica as faltas censuradas por ele; contenta-se com a exortação geral: "Voltai a Deus de todo o coração" (2, 12). Além disso, jamais menciona rei ou reino. Isso induziu a maior parte dos modernos a situar o profeta numa época posterior ao exílio, à qual parecem convir melhor as condições sociais e históricas próprias de sua mensagem. Joel conhece a dispersão do povo de Israel entre as nações e descreve sumariamente os seus horrores (3,1-6). Na sua mensagem já não se dirige aos reis, mas somente aos anciãos (1,2) e aos sacerdotes (1, 13). São indícios que mostram que a organização prê-exílica acabou, e, que, portanto, o livro não é dessa época.
  • 66.
    Importante ê o(<Dia de Javé" (em nossa tradução "Dia do Senhor",), na primeira parte, referência a um castigo grave, mas transitório. Na segunda parte, com cores sombrias e insistência, refere-se ao castigo definitivo dos infiéis. AMOS Os críticos modernos consideram Amós, e com razão, como o primeiro dos profetas escritores (cf. Am 1,1 com Os 1,1 e Is 1,1). O seu livro, por raros méritos de estilo e de substância, é realmente digno de abrir a inestimável literatura profética de Israel. Acrescentam valor às suas mensagens as humildes origens do profeta e sua vocação, na qual brilha tanto mais intensamente a força do seu espírito sobre-humano. O profeta Amós é distinto de Amós, pai do profeta Isaías (Is 1,1: os dois nomes são de grafia diferente no hebraico). O livro fornece-nos bastante pormenores sobre sua vida. Natural de Técua, aldeia situada a uns 8 km ao sul de Belém, tirava o seu sustento do pastoreio de rebanhos e do cultivo de sicómoros, cujos frutos constituíam o alimento da gente pobre (Am 1,1;7,14). Corriam os tempos dos longos e prósperos reinados de Ozias, em Judá (cf. 2Rs 15,2.5) e de Jeroboão II, em Israel (783-743 a.C), que davam à nação poder e riqueza de que há muito tempo não gozava. Daí que a própria religião auferia vantagens, pela abundância das vítimas imoladas nos altares e pela pompa dos ritos. Mas ficaram prejudicadas a moral e a piedade sincera, os costumes pioravam, e os israelitas, deslumbrados pela prosperidade, caminhavam alegres e inconscientes para a ruína. Crescia, para infelicidade deles, o poderio assírio. Nesta altura, o humilde pastor de Técua sente-se chamado a pregar o arrependimento aos desavisados, revelando aos culpados os castigos iminentes. E ei-lo a percorrer, vaticinando, as cidades de Israel Enfrentou corajosamente a oposição dos sacerdotes de Betel, o principal santuário do reino (Am 7,10-17); depois, não se sabe qual tenha sido o seu fim. Uma tradição conservada pelo ignoto autor das "Vidas dos profetas" e acolhida no Martirológio Romano a 31 de março, narra que, ferido na têmpora com uma maçã, pelo filho do sacerdote Amasias, foi levado agonizante à própria aldeia, onde morreu pouco depois. O livro de Amós nos apresenta, mais do que qualquer outro dos profetas, uma disposição clara e uma bela ordem das mensagens. O estilo simples e não obstante cheio de dignidade, a forma escorreita, a pureza e o vigor da linguagem fazem do livro de Amós um modelo de literatura hebraica. Para torná-lo mais atraente, acrescenta-se a feliz circunstância de que o texto geralmente foi bem conservado como poucos outros. Acima dos méritos literários, porém, estão a elevação de pensamento, a doutrina moral e religiosa. O monoteísmo ético puro atinge o auge. O Deus de Israel não é somente o único verdadeiro Deus, criador e governador de todo o Universo, mas por sua santidade essencial é também o autor e guarda zeloso de uma lei moral, cuja observância ele exige de todos os povos, e pune o delito onde quer que sua onisciência o descubra. A escolha especial e gratuita do povo de Israel não é nenhum privilégio sob este aspecto (3,2;9,7- 10). Para lhe tributar as honras a que tem direito, é necessária antes de mais nada a santidade de costumes, sem a qual nada valem os atos dum culto cerimonioso e os sacrifícios de numerosas vítimas (5, 21-24). Amós condena a moleza, o luxo, a ambição (6,4-6;8,5-7), e também, com mais energia e maior freqüência, a injustiça e a crueldade para com o próximo, seja ele quem for, a opressão dos pobres. ABDIAS Com o nome de Abdias, que quer dizer "Servo de Javé", temos o mais breve escrito do Antigo Testamento: consta de um só e não longo capítulo de 21 versículos. Ê todo ele uma mensagem dirigida contra os edomitas ou idumeus, dos quais se recriminam: 1. O orgulho e a ousada confiança que depositam na posição geográfica, defendida pelos fortes baluartes naturais de seu país (vv. 2-9). 2. Sua cumplicidade e alegria feroz a quando da desgraça dos hebreus (vv. 10-15). 3. O castigo até o aniquilamento, em contraste com a restauração de Israel em suas possessões e até no predomínio deste sobre a Iduméia (vv. 16-21). Muito se tem discutido sobre a desgraça nacional de Israel a que se alude nos vv. 10,14; comparando-se esta passagem com SI 136,7; Ez 25,12;35,5 e Jer 49,7-18, não resta dúvida de que se trata da queda de Jerusalém nas mãos dos caldeus em 587 a.C.
  • 67.
    Com isso temosa época aproximada em que o autor viveu. Escreveu talvez quando os acontecimentos aos quais alude eram ainda recentes, isto é, na primeira metade do séc. VI a.C. Era, portanto, um contemporâneo de Jeremias e de Ezequiel. Não se pode, pois, identificá-lo, como fizeram outrora judeus e cristãos, com Abdias, mordomo do rei Acab, que tanto se esforçou em favor dos profetas. JONAS Um "profeta Jonas, filho de Hamitai, nascido em Gad-Heber" (na Galiléia, cf. Jos 19,13), é mencionado em 2Rs 14,25, referindo-se a uma predição verificada sob o reinado de Jeroboão II de Israel (783-743 a.C). Esse profeta deve ter vivido no início do séc VIII a.C, e trata-se, sem dúvida, do Jonas do presente livro. Com isso não está ainda afirmado que o próprio Jonas tenha escrito o livro que traz seu nome. Diferentemente de todos os demais livros proféticos, o presente tem a singularidade de ser apenas uma narração, e seu objeto não é a transmissão de uma mensagem profética, e sim apresenta, na prática, na narração do acontecimento, uma elevada lição de doutrina religiosa. Propriamente, pertence ao gênero narrativo. Duas coisas ressaltam nesta narração: a mesquinhez do espírito humano (nos temores e nas iras do profeta) e a infinita bondade e clemência de Deus. Não menos importante é, porém, o universalismo religioso. Temos o caso único de um profeta de Israel ser enviado a pregar a gentios, e vemos o Deus de Israel dispensar tanto cuidado a uma nação idólatra. Pressentimos já o conceito universalista do cristianismo (Rom 3,29-30; Col 3,11). Largueza de espírito e de coração da segunda parte. Outro aspecto de grande alcance na história religiosa apresenta-nos a primeira parte. No episódio de Jonas saindo vivo do ventre do peixe, depois de passar três dias ali, Jesus viu uma figura de sua ressurreição dos mortos, prova máxima da sua divindade (Mt 12,38-40). Daí também o renome de Jonas na literatura e na arte cristã. O mesmo divino Mestre intima os ninivitas convertidos pela pregação de Jonas, a deporem contra os judeus que não acreditam na palavra dele, que é muito mais que Jonas (Mt 12, 41; Lc 11,52). Sem dúvida não é necessário mais do que isso para compreender a importância religiosa deste livro. Bastaria isto também para provar-lhe o caráter histórico? Notamos que a sua finalidade é dar uma lição moral quanto à largueza de espírito e à bondade de coração. Ora, um ensinamento pode ser dado também, e não em último lugar, com uma construção imaginária. O próprio divino Mestre disso nos deu o mais ilustre exemplo com as suas parábolas. Seria, portanto — pode-se perguntar — o livro de Jonas uma parábola, e não o relato de fatos realmente ocorridos? É o que pensam hoje muitos, fora da Igreja católica e também alguns de seus membros. Mas não se apresentam razões decisivas para essa afirmação. Aquilo que a obra nos conta de maravilhoso, não constitui dificuldade para quem admite, como se deve admitir, a possibilidade do milagre. O fim didático funda a possibilidade, não a necessidade de uma ficção literária. Os fatos reais têm igualmente força para instruir a mente e maior eficácia para mover a vontade. Estando assim neste ponto as conclusões, não é de prudência cristã duvidar da realidade histórica dos fatos, levada em conta pelo próprio Jesus. MIQUÉIAS Miquéias profetizou sob os mesmos monarcas que Isaías, exceto sob o primeiro, Osias, em cujo último ano de reinado e de vida Isaías foi chamado ao ministério profético. Miquéias era, portanto, contemporâneo de Isaías, florescendo entre 738 e 700 a.C, mais ou menos. A idade, a terra natal, o livro de Miquéias nos são confirmados (felicidade única para um escritor bíblico) pela citação pública dum célebre vaticínio seu (3,12), feita apenas um século depois (608 a.C.) e conservada no livro canônico de Jeremias (Jer 26,18). Nasceu o profeta numa obscura aldeia a sudoeste da Judeia, a atual Bet-Gibrin e parece que na mesma região tenha desenvolvido o seu ministério profético (cf. 1,10-12) com feliz resultado, como se pode deduzir do que lemos em Jer 26,19. Mais do que isso não sabemos a respeito dele. O autor das Vidas dos profetas, que o dá como martirizado sob o reinado de "Jorão, filho de Acab", mostra tê-lo confundido com outro profeta homônimo, filho de Jemla, mais antigo, pelo menos de um século (1Rs 22,9-28), e por isso não merece fé. O livro de Miquéias, ainda que lhe falte a bela ordem de Amós, e se aproxime antes do estilo patético de Oséias, apresenta, todavia, seções bastante nítidas. O argumento dos vaticínios de Miquéias é, portanto, semelhante aos de Isaías, especialmente Is cc. 1-12. Os dois profetas têm até mesmo em comum um dos mais belos vaticínios messiânicos (Is 2,2-4 = Miq 4,1-3).
  • 68.
    Em Miquéias, porém,o lado positivo da mensagem, isto é, a promessa de um futuro melhor, ocupa um lugar relativamente mais amplo. Notável é também que entre as culpas exprobradas por Miquéias aos hebreus de seu tempo, têm grande prevalência as faltas de justiça e de humanitarismo para com o próximo, os crimes contra a boa ordem social. Redunda em honra singular para o profeta e o seu livro o fato de que duas das suas mais insignes predições sejam expressamente citadas à letra, quer pelo Antigo Testamento (3,12: em Jer 26, como já foi dito), quer pelo Novo (5,1: em Mt 2,5-6; cf. Jo 7,42), e que o próprio Jesus, na instrução aos seus apóstolos, expressou um ponto do seu programa (Mt 10,35-36) com as palavras de Miquéias (7,6). NAUM O livro do profeta Naum é a única fonte que a ele se refere. Dá-nos a conhecer tão somente a terra natal do profeta, Elcos, lugar jamais citado em outra passagem da Bíblia. Os informantes judeus de S. Jerônimo (Prefação ao seu comentário) o situam na Galiléia. Outra tradição, menos antiga, e acolhida pelo autor das Vidas dos Profetas, localizava-o na Judéia, próximo de Eleuterópolis ou Bet-Gibrin. A época de Naum deve ser posta entre a queda de Tebas, no Egito, sob as armas do assírio Assurbanípal, em 663 a.C, e a queda de Nínive, sob os golpes conjugados dos babilônios e dos persas, em 612. A primeira é recontada no seu livro (3,8-10) como acontecimento passado; a segunda constitui o objeto quase único de sua mensagem profética. Em confronto com os demais profetas menores, o conteúdo ideal de Naum não é novo, mas a todos supera em lances líricos e na expressão. Infelizmente, o texto em muitos lugares está corrompido, deixando por vezes o sentido incerto. HABACUC Na Bíblia hebraica o nome Habacuc (Habaqquq encontra-se somente nos títulos dos cc. 1 e 3 deste livro a ele atribuído, o qual, outra notícia expressa não nos oferece, além daquela que se refere ao nome pessoal do profeta. Resta-nos unicamente o conteúdo para deduzirmos a época em que viveu e o espírito que o animava. O livro versa todo sobre um ponto crucial da doutrina religiosa: o problema de saber se há uma justiça que governa o mundo e por que os bons são domina-nados pelos maus. O tema é desenvolvido em três seções: duas queixais em forma de diálogo e um canto final à maneira de contemplação. A mensagem de Habacuc tem em comum com a de Jeremias, o fato de pôr em discussão o problema moral da prosperidade dos maus (Jer 12,1-3), e com a de Isaías o pensamento de que Deus se serve das ambições humanas, da tirania estrangeira, para castigar os pecados do seu povo, sem, porém, deixar impunes os excessos dos tiranos (10,3-19). Especial em Habacuc é o grande princípio, promulgado com insólita solenidade (2,4), de que a fonte da vida é a fé em Deus, que são Paulo fará um dos pontos básicos da sua doutrina religiosa. Na Bíblia grega o nome deste profeta é "Ambacum", e da mesma maneira está grafado o nome daquele "profeta na Judéia", que, agarrado pelos cabelos por um anjo, levou a refeição a Daniel na cova dos leões, em Babilônia (Dan 14,33-39). Por razões cronológicas, quando não por outras, as duas personagens são consideradas distintas. SOFONIAS De oito dos dezesseis profetas escritores não conhecemos sequer o nome do pai, ao qual se restringe na maior parte a genealogia dos outros (Isaías, Jeremias, Ezequiel, Oséias, Joel, Jonas). De Zacarias, além do pai, cita-se também o avô. Sofonias, singular entre todos, prolonga a cadeia ascendente até ao trisavô, chamado Ezequias (cf. 1,1, nota) . Pensou-se que este Ezequias se identificasse com o conhecido rei de Judá, filho de Acaz, que reinou de 720 a 690 a.C, mais ou menos. Visto que Sofonias profetizou durante o reinado de Josias, o terceiro sucessor e bisneto de Ezequias (ib.), a cronologia não opõe dificuldades insuperáveis a essa opinião. O silêncio, porém, quer da história» quer do próprio profeta em torno dessa sua relação com a dinastia régia, torna-a de todo improvável. Além disso, esse nome não é raro na Bíblia. O tempo em que vaticinou Sofonias pode ser deduzido da sua mensagem. Pregando sob Josias e entre outras coisas acusando os jerosolimitanos de perversões idólatras e práticas gentilicias em religião (1,4-6), isso deve ter acontecido antes da célebre reforma religiosa de Josias, que se iniciou em 621 a.C. (cf. 2Rs
  • 69.
    22,3-23,20). Diremos, portanto,que Sofonias exercitou o seu ministério profético pelo ano 625 a.C, quando surgiu também o profeta Jeremias no mesmo ministério. AGEU Afora o que nos refere o seu breve escrito, que ocupa o décimo lugar na série canônica dos profetas menores, a respeito do profeta Ageu sabemos apenas que foi contemporâneo do profeta Zacarias, com o qual compartilhou a missão de assistir os repatriados na obra de construção do templo. A atividade do profeta Ageu desenvolveu-se durante poucos meses, no segundo ano de Dario I (cf. Ag 1,1;2,11), rei da Pérsia, de 521 a 485 a.C Sem valor especial quanto ao estilo ou à poesia, o escrito de Ageu recebe sua eficácia e interesse da grande paixão do profeta pelo templo. Animada pela recordação do esplendor do antigo templo, contemplado talvez numa juventude muito remota, esta paixão é alimentada sobretudo pela certeza de que a reconstrução do templo é a premissa indispensável para um renascimento seguro da vida nacional. A isso acrescenta-se a visão sobrenatural daquilo que o novo templo é destinado a simbolizar e como que a preludiar: a gloriosa construção espiritual do futuro reino messiânico. Certo deste destino, o profeta encontra palavras inflamadas para sacudir o povo de seu letargo, torna-se ousado diante dos tímidos representantes oficiais da nação e arrasta todos a um grande fervor. ZACARIAS Do profeta Zacarias (em hebr. "]avé se recordou") fala também Esdr 5,1 ;6, 14. Era filho de Baraquias (Zac 1,1.7) e neto de Ado (Zac 1,1.7; Esdr 5,1 ;6, 14), provavelmente o mesmo citado entre o$ sacerdotes que voltaram de Babilônia com Zorobabel, no ano 537 (cf. Ne 12,4). Isso pareceria confirmado também pela indicação de Ne 12,16, segundo a qual um certo Zacarias era chefe da família sacerdotal de Ado, no tempo do sumo sacerdote Jesus, contemporâneo de Zorobabel (cf. Zac 4, 14; Ag 1,1; Esdr 3,2). Como a Ageu, coube também a Zacarias a missão de apoiar os repatriados na obra de reconstrução do templo. Zacarias iniciou a sua atividade profética alguns meses depois de Ageu (cf. Ag 1,1 e Zac 1,1.7), no mesmo segundo ano do rei persa Dario I (520 a.C.), mas a estendeu por mais tempo. Ao menos, pelo que se narra nos oito primeiros capítulos do seu livro, alcançou-se o quarto ano do reinado do mesmo soberano (cf. Zac 7,1). Pertence o livro por inteiro ao profeta do qual traz o nome? A maioria dos críticos estima a segunda parte como uma compilação, feita em época mais recente, de escritos de autores diversos e desconhecidos. Segundo alguns, os escritos seriam de origem helenista (séc. IV a.C); segundo outros, do tempo da revolta dos Macabeus (175-161 a.C.) ou de ambas as épocas. Não obstante as múltiplas diferenças de argumentos, de perspectiva, de gênero literário e de estilo entre a primeira e a segunda parte, os católicos geralmente aderem hoje também à opinião tradicional que atribui todo o livro ao profeta Zacarias. O livro inteiro é perpassado por uma profunda espiritualidade. Ressalta nele a doutrina sobre os anjos, que velam pela sorte do reino de Deus e desempenham, cuidadosos, a missão de intermediários entre o céu e a terra. Expondo os diversos motivos sobre o Messias e o seu reino futuro, Zacarias realça o elemento interior da santidade e o da luta contínua contra o mal até o surgimento de seu último estádio, glorioso e sem fim. MALAQUIAS O último escrito profético traz na Bíblia grega o título, mais comum entre nós, de Malaquias, que em hebraico quer dizer "Anjo [ou mensageiro] de Javé", e como nome próprio se encontra alhures no texto bíblico. A Bíblia hebraica intitula-o de Malaqui, que pode ser forma abreviada do precedente, ou significar, por si, "Anjo [mensageiro] meu". Para determinar a época da atividade profética de Malaquias, não estamos melhor informados; devemos contentar-nos exclusivamente com os dados fornecidos pela análise interna do seu escrito. A semelhança, e às vezes a identidade, entre os abusos que Malaquias repreende e aqueles contra os quais
  • 70.
    tiveram de lutarfreqüentemente Esdras e Neemias, nos levam a supor, com bastante fundamento, que também o presente profeta viveu durante o período persa, numa época mais ou menos próxima da dos dois grandes reformadores do séc. V.
  • 71.
    NOVO TESTAMENTO Passando doAntigo para o Novo Testamento, principalmente se o lermos na ordem tradicional do texto, não teremos a sensação de mudar de ambiente. Sua primeira página (Mt 1,1) apresenta-nos um quadro genealógico à maneira dos que, tão freqüentemente, encontramos nos livros históricos do Antigo Testamento. Uma genealogia que começa com Abraão, antepassado-cabeça do povo hebreu. Logo depois (Lc 3,23-38), outra cadeia genealógica se nos apresenta, a qual nos faz remontar até ao primeiro homem, esse Adão sobre o qual um capítulo inicial do Antigo Testamento chamou a nossa atenção. Teatro dos acontecimentos são as regiões, cidades e campos da Palestina. Vive-se num mundo judaico, entre instituições e recordações da lei antiga. As personagens dessa nova história falam-nos numa linguagem característica, à qual nos haviam habituado as páginas dos livros sagrados precedentes. Não mudou o ambiente, mas outro é o ar que se respira. O espetáculo dum povo, duma nação singular, que no Antigo Testamento concentrava a atenção e o interesse do leitor, alarga-se aqui e restringe-se a um só tempo, sob aspectos diversos. De um lado, o objeto das promessas divinas, a salvação que nelas se anuncia, uma vez derrubadas todas as barreiras entre os povos, já não se restringe a uma pequena parte da humanidade, mas estende-se a todas as nações da terra. Por outro lado, a mensagem divina dirige-se diretamente a todos os povos, e cada qual, por si mesmo, aproximasse da nova aliança, assume-Ihe pessoalmente as obrigações e usufrui-lhe os privilégios. A lei divina já não é escrita em tábuas de pedra, mas é impressa no coração do homem e, deste modo, torna-se ao mesmo tempo, mais humana, mais suave e mais eficaz. Ê um arauto da antiga aliança que, nestes termos, nos delineia a essência e nos dita, por primeiro, o nome do "Novo Testamento" ("Nova Aliança": Jer 31, 31-34). A religião torna-se, assim, mais íntima, mais espiritual. No Novo Testamento já não ouvimos falar de conquistas e de reinos terrenos, mas anuncia-se-nos um reino de Deus que está dentro de nós (Lc 17,21; Rom 14,17). No Antigo Testamento, o horizonte humano restringia-se ao círculo da existência terrena e da vida ultraterrena não temos senão raras e vagas notícias. No Novo, ao invés, o espírito alça-se continuamente para o céu, e as promessas melhores e as mais fortes aspirações têm por objeto a vida futura. Na vida terrena, com o salmista (SI 38,13), o hebreu piedoso professava ser "adventício (hóspede) junto de Deus" e, por afeição ao seu Deus, pedia para ficar aí o mais possível. Os crentes do Novo Testamento sentem-se "exilados do Senhor" e anelam por "exilar-se do corpo" e chegar à pátria (2Cor 5, 6- 8), para dar o eterno abraço ao Pai celeste. Característico é o título, que Deus tem, de "Adonai" (Senhor) no Antigo Testamento, e de "Pai" no Novo, onde a primeira e mais comum oração inicia-se com a suave invocação: "Pai nosso, que estás nos céus" (Mt 6,9). Respira-se um ar mais puro, mais suave, porque somos levados mais para o alto, para o cimo do monte sagrado. O valor do homem está inteiramente nas virtudes morais, e para as próprias virtudes é proposto o ideal mais sublime (Mt 5,21-48). Temos no Novo Testamento a plenitude da revelação e a perfeição da moral. Tangível, sem dúvida, no Antigo Testamento um progresso da doutrina revelada, uma purificação da espiritualidade religiosa, um melhoramento correspondente dos costumes. Esta linha de elevação progressiva, realizada por especial providência de Deus, sobretudo por meio dos profetas, alcança o seu termo, tocando o vértice, no Novo Testamento. Sazonou aqui o fruto que se vinha preparando na florescência esplêndida das antigas Escrituras, o que vem dar ao Novo Testamento, com relação ao Antigo, uma superioridade de valor, para a nossa formação espiritual, que está em razão inversa da respectiva extensão do texto escrito e dos tempos abrangidos. O Novo Testamento compõe-se, no cânon completo e definitivo de 27 escritos distintos: 5 livros históricos (os quatro Evangelhos e os Atos dos Apóstolos), 21 Epístolas de diversos apóstolos e 1 livro de índole profética, o Apocalipse. Tomados em conjunto, formam, em extensão, um quinto de toda a Bíblia e um quarto apenas do Antigo Testamento. Como espaço de tempo abrangem, quando muito, cerca de um século: desde o nascimento de Jesus Nazareno (5 a.C.) até à morte do seu mais novo amado discípulo (cerca do ano 100 d.C.). Era o primeiro e o mais feliz dos séculos daquela longa pax romana, que, irmanando sob o cetro de um único monarca a imensa bacia mediterrânea, facilitava providencialmente a
  • 72.
    propagação da Boa-nova,pregada, primeiramente, num canto das fronteiras orientais do vastíssimo império. Nesse variado organismo de tão numerosos povos de origens e línguas diversas, uma língua sobressaía-se sobre as demais como a língua da cultura e ainda como a mais conhecida e difundida nas relações comerciais: a língua grega. E foi precisamente nessa língua universal que foram escritos e transmitidos até nós todos os livros do Novo Testamento (exceção apenas do Evangelho de S. Mateus). É um grego fácil, claro, temperado pelo uso da linguagem falada, adequado à inteligência até das camadas mais humildes da sociedade, às quais era dirigida, com certa predileção, a nova mensagem da salvação evangélica. Nessa roupagem popular, os escritos neotestamentários difundiram-se rapidamente pelo Oriente inteiro, bem como pelo Ocidente, o mais das vezes escritos em papiros (cf. 2Jo 12), matéria vulgar e de baixo preço, que facilmente se rasgava e muito depressa se estragava. Por esta razão, somente fragmentos nos chegaram das cópias dos três primeiros séculos, preciosos, sem dúvida, como testemunhos da autenticidade daquelas veneráveis páginas. Do IV século em diante (antigüidade esta que, no caso, é de grande valor), generalizando-se o uso do pergaminho ou pele de carneiro, matéria muito mais sólida e resistente, chegaram até nós cópias inteiras, não só de cada um dos escritos, mas também do Novo Testamento inteiro. Com a difusão e a multiplicação das cópias, o texto, como acontece com as coisas humanas, sofreu, pelas mãos dos copistas, alterações de diversas espécies, que lhe ofuscaram a pureza primitiva, sem, todavia, prejudicar-lhe a substância. Surgiram, assim, tipos diversos de texto, com discrepâncias de códices, como lamentava, já no seu tempo (pelo ano 383), S. Jerônimo, o qual, emendando a antiga versão latina, com o auxílio de bons e antigos manuscritos gregos, reproduziu, na sua Vulgata, especialmente nos Evangelhos, o texto sagrado até bem próximo da pureza original, e nesse estado passou ao uso da Igreja latina. No império bizantino, prevaleceu, na idade média, um tipo de texto, no qual a união de leituras diversas, a conformação dos textos paralelos, o amaciamento das asperezas ou dificuldades, o brilho da língua fundiram-se numa composição temperada e descolorida, capaz de satisfazer as exigências de um público ávido de um alimento espiritual fácil, de preferência à precisão exegética. Dos manuscritos tardios dessa época esse texto obscuro passou à imprensa do século XIV e dominou durante três séculos nos estudos bíblicos, contrapondo-se ao teor mais vetusto e austero da Vulgata latina. Daquele texto traduziram-se os Livros Sagrados nas línguas modernas com as versões do século XVI, de protestantes e de católicos. Conhecendo, depois, os doutos os manuscritos mais antigos, sobretudo o Vaticano 1209 (B), apareceu logo a superioridade do texto aí contido, e o texto bizantino, já pomposamente proclamado "texto aceito por todos" (textus ab omnibus receptus), começou a perder o crédito, até que na segunda metade do século XIX foi definitivamente afastado não só das edições críticas, como também das manuais e escolásticas. Críticos de grande renome, depois de longos e severos estudos, seguindo vias diversas, concordaram em aprovar um texto sensivelmente igual, tanto próximo dos mais antigos manuscritos e da Vulgata, distante do texto outrora em vigor. Graças aos progressos da crítica moderna, podemos dar hoje o texto genuíno dos Evangelhos e dos escritos apostólicos, e não somente quanto à substância, como também quanto aos pormenores. Cronologia Os escritos neotestamentários abrangem, como foi dito, um século apenas. Embora seja tão breve o espaço, a cronologia dos fatos nos apresenta, por falta de dados suficientes e precisos, dificuldades e incertezas. Daí a grande variedade de opiniões entre os estudiosos. As datas que, para utilidade dos leitores, apresentamos, são as mais comumente admitidas, tendo, porém, valor apenas aproximativo. Como ponto de partida, no uso da era vulgar ou cristã, enquanto o ano 1 deveria ser o do nascimento de Jesus, cumpre dizer, de fato, que, por causa de um erro inicial de cálculo cometido pelo primeiro que introduziu essa era no cômputo das datas (o monge Dionísio, o Pequeno, no ano 525; cf. MIGNE, Patrologia latina, 67, 497-502), deve-se transportar aquele memorável e fundamental acontecimento para alguns anos atrás. Com efeito, consta, com certeza, do Evangelho (Mt 2,1-15; Lc 1,5), que Jesus nasceu antes da morte de Herodes, o Grande, que caiu (como podemos deduzir por vários fios da história profana) no início de abril do ano 750 de Roma, que corresponde ao 4º antes da era vulgar. Colocamos o nascimento de Jesus
  • 73.
    Cristo no anoanterior (assinalado — 5), embora permanecendo incerto quantos meses se passaram desde o seu nascimento até à morte do tirano. Outro caso grave de incerteza é a duração da vida pública de Jesus. A opinião que mais respeita os dados do texto evangélico é a que a fixa em dois anos e alguns meses. A esta atemo-nos, também nós, no seguinte quadro: ANO - 5. Nascimento de Jesus Cristo (Mt 2,1; Lc 2,1-7). + 8. Jesus perdido e encontrado no templo aos 12 anos (Lc 2,41-51). 28. Pregação de S. João Batista (Lc 3,1-3). Batismo de Jesus e início de sua vida pública (Mt 3,13-4, 17 e paralelos). 30. Paixão, morte e ressurreição de Jesus; com a descida do Espírito Santo começa a pregação dos apóstolos e constitui-se a Igreja primitiva. 34. Martírio de Sto. Estêvão. Conversão de Saulo (S. Paulo). 37. S. Paulo, fugindo de Damasco, faz sua primeira visita a Jerusalém, hóspede de S. Pedro (At 9,23-28; Gál 1,18). S. Pedro evangeliza a Judéia e a Samaria; acolhe na Igreja os gentios convertidos (At 9,31-11,18). Cristandade de Antioquia. 43. Martírio de S. Tiago. S. Pedro, libertado do cárcere, "dirige-se para outro lugar (At 12,1-17), provavelmente para Roma. Dispersão dos apóstolos por toda a terra. 45. Primeira viagem apostólica de S. Paulo (At 13,1-14,25). 50. Concílio dos apóstolos em Jerusalém; decreto para os convertidos do gentilismo (At 15,1-31). 50-52. Segunda viagem apostólica de S. Paulo, através da Ásia Menor, pela Acaia da Macedônia e da Grécia (At 15,36-18,22). Suas Epístolas aos fiéis de Tessalônica. 53-57. Terceira viagem apostólica de S. Paulo, pela Ásia Menor e pela Macedônia (At 18,23-21,2). As grandes Epístolas aos coríntios e aos romanos. 57-59. S. Paulo prisioneiro em Cesaréia da Palestina (At 21,17-26,32). 60-62. S. Paulo preso em Roma (At 27,1-28,30); Epístolas do cativeiro (Col, Ef, Flp, Fim). S. Tiago, o Menor, é morto em Jerusalém. 63-66. Últimas viagens apostólicas de S. Paulo. Epístolas pastorais. 67. Martírio de S. Pedro e de S. Paulo em Roma. c. 90. S. João evangelista é exilado, por causa da fé, para a ilha de Patmos, onde escreve o Apocalipse (Apoc 1,9-11). c. 100. S. João morre em Éfeso, depois de escrever o seu Evangelho e suas três Epístolas canônicas. Encerramento da idade apostólica e dos tempos bíblicos.
  • 74.
    INTRODUÇÃO AOS EVANGELHOS Evangelho,do grego evangelion, que significa "alegre notícia", "boa-nova", é como foi chamada, com vocábulo adequado, a mensagem de salvação e de redenção que Jesus Cristo trouxe ao mundo. Depois, por extensão, o mesmo vocábulo passou a designar o livro portador da narração dessa mensagem. Jesus, o verdadeiro autor, sob qualquer aspecto, do Evangelho, pregou, e não escreveu, mas a primeira origem do Evangelho escrito data, pode-se dizer, do primeiro dia em que o Mestre divino foi arrebatado ao céu. Ao pregarem, os apóstolos, instruindo os novos fiéis, contavam os fatos e as palavras de Jesus. Essas instruções, tão freqüentemente repetidas, tomaram, com o tempo, uma forma que diríamos estereotipada; imprimiram-se na memória dos fiéis, que as transmitiam nas reuniões públicas ou nas conversas particulares. Nasceu, deste modo, o primeiro regato que concorreu para formar os Evangelhos, a tradição que remonta aos apóstolos. Com efeito, não tardou muito a se sentir a necessidade ou, ao menos, a utilidade de se fixar e, mais largamente, propagar, com a escrita, a mensagem evangélica. S. Lucas (1,1) fala de "muitos" que antes dele (pelo ano 60 d.C.) haviam resolvido escrever uma narração do "que Jesus fez e ensinou" (At 1,1). Nesse "muitos" ou "vários" estão, ao certo, incluídos alguns a mais do que os nossos dois primeiros evangelistas (Mateus e Marcos), anteriores a Lucas; mas é pelo menos duvidoso que aqueles lógia (palavras de Jesus não contidas nos Evangelhos canônicos), que o Egito, recentemente, restituiu à luz com os seus papiros, sejam fragmentos ou restos de alguns dos escritos visados aqui pelo evangelista. Podem, porém, remontar àqueles primeiros tempos, pelo menos quanto ao núcleo, alguns evangelhos, como o chamado dos hebreus, dos ebionitas, dos doze ou dos egípcios, dos quais os Padres da Igreja, principalmente S. Jerônimo e Sto. Epifânio, nos transmitiram alguns trechos. Não assim outros evangelhos, dos quais nos chegaram quase que só os nomes (e precisamente nomes de apóstolos: de Pedro, de Tomé, de Bartolomeu etc.) os quais são todos de origem posterior (séculos II ou III d. C; cf. ALTANER, Patrologia, § 9). De toda essa floração de evangelhos, quatro somente a Igreja reconheceu como inspirados por Deus e dignos de serem equiparados, por autoridade inigualável, aos livros sagrados do Antigo Testamento. São os Evangelhos que, por cadeia ininterrupta de testemunhos, a qual, de elo em elo, remonta aos discípulos imediatos dos apóstolos, nos são atestados como obras dos apóstolos Mateus e João e dos discípulos Marcos e Lucas. De fato, Papias, bispo de Hierápolis na Frigia, que viveu nos primeiros decênios do II século, nos cinco livros de Esclarecimentos (ou Explicações), lembrando com quanto cuidado, na juventude, ele procurava interrogar os discípulos dos apóstolos sobre o que tinham dito aqueles anciãos, afirma que "Marcos, intérprete de Pedro, escreveu cuidadosamente tudo o que recordava das suas instruções", que "Mateus compôs em língua hebraica os discursos (tá lógia) *, que "o Evangelho de João foi publicado e comunicado às Igrejas pelo próprio João, ainda vivo". Destarte três dos nossos Evangelhos recebem já um testemunho explícito. Irineu, bispo de Lião, de uma geração apenas posterior a Papias, no terceiro dos livros Contra as heresias (c. 9-11), acrescentando-lhes Lucas, dá-lhes a série completa e, com energia, adverte expressamente que, nem mais nem menos de quatro são ou podem ser os Evangelhos (ib. 11). Ou melhor, com mais exatidão, tendo em conta que a "boa-nova" é propriamente uma: a mensagem de Jesus Cristo, e que esses quatro livros são redações ou aspectos diversos daquele Evangelho único (donde o uso constante, na Igreja, de dizer "Evangelho de Jesus Cristo segundo Mateus, segundo Marcos" etc), criou a feliz e expressiva locução de "Evangelho tetramorfo", isto é, "quadriforme". Pelo tempo de Irineu, como revelam estudos recentes (veja Revue bénédictine, 1928, pp. 193-214), um católico desconhecido, provavelmente romano, compôs, contra a serpeteante heresia de Marcião, os mais antigos prólogos aos Evangelhos com notícias inéditas sobre cada um dos evangelistas. Dentro ainda do mesmo II século, narra-nos o chamado Cânon muratoriano, fragmento de um escrito a nos atestar a crença comum da Igreja romana, a origem e difusão dos quatro Evangelhos e precisamente na ordem tradicional e comuníssima de Mateus, Marcos, Lucas e João. Taciano, na Síria, por volta do ano 180, funde os Evangelhos numa narração única e intitulada "diatessáron", isto é, resultante de quatro, professando deste modo, no próprio nome da obra, o número fixo quaternário dos verdadeiros Evangelhos. O mesmo afirmam, em seus escritos, pelo mesmo tempo, no Egito, Clemente Alexandrino e, em Cartago, Tertuliano. No século seguinte, o III, com os escritores Origines, Hipólito, Cipriano, Vitório de Petau, com as versões latinas, coptas, siríacas, com o número crescente dos manuscritos do texto, é o coro de todas as Igrejas do Oriente
  • 75.
    e do Ocidenteque se forma e proclama unanimemente os quatro Evangelhos segundo Mateus, segundo Marcos, segundo Lucas e segundo João, sem se erguer uma voz sequer em contrário até ao século XIX. Que outro escrito da antigüidade pode ostentar aprovação tão abundante, tão variada e tão próxima das origens? Os próprios Evangelhos, apenas consultados e examinados, apresentam um testemunho concorde com a tradição. O de Mateus (para tocar aqui somente alguns passos mais notáveis) apresenta-se dirigido aos judeus, para os persuadir, com as contínuas chamadas às profecias do Antigo Testamento, de que Jesus de Nazaré é verdadeiramente o Messias prometido à nação escolhida. O de Marcos, reflexo das instruções de S. Pedro aos fiéis de Roma, é o mais entremeado de vocábulos e construções latinas, e a respeito de S. Pedro, mesmo omitindo certos fatos que mais o honram (caminhar sobre as águas, o primado, a taxa paga juntamente com a de Jesus), sabe dizer-nos mais do que os outros evangelistas. Em Lucas, além da maior pureza da língua e do estilo gregos, encontramos idéias, frases, relatórios (por exemplo, sobre a instituição da Eucaristia, cf. Lc 22,19-20 e 1Cor 11,24-25), que se conformaram com os de S. Paulo, de quem foi, durante anos, companheiro fiel. O quarto Evangelho mostra-se-nos claramente escrito por um dos doze que mais perto estiveram de Jesus, por alguém que sempre se acha presente nos acontecimentos, mas que nunca se nomeia e oculta-se sob a circunlocução "aquele discípulo que Jesus amava". Posto em confronto com os outros Evangelhos, deduz-se, por exclusão, que aquele "discípulo que Jesus amava" só pode ser João. Além disso, em muitos pontos da sua estrutura, esse Evangelho supõe claramente a narração dos três outros, e está inteiramente preocupado em apresentar as provas da divindade de Jesus, posta em dúvida ou negada pelas heresias, que germinaram na Ásia Menor, como sabemos pela História Eclesiástica. São precisamente as circunstâncias e os motivos aduzidos ou supostos pelos testemunhos acima citados. Atestações externas e qualidades intrínsecas confirmam-se, portanto, e sustentam-se reciprocamente para escoimar de qualquer dúvida ponderável a autenticidade dos quatro Evangelhos canônicos. Por que quatro, e não mais? E por que precisamente esses e não outros são os Evangelhos reconhecidos e aceitos pela Igreja? A razão verdadeira e essencial é que só esses, e não outros, foram compostos por inspiração divina e foram comunicados à Igreja como palavra de Deus escrita. Esse é o sentido claro dos testemunhos antiquíssimos acima citados. A origem apostólica, isto é, o terem por autores apóstolos (Mateus e João) ou discípulos dependentes dos apóstolos (Marcos e Lucas) era uma garantia para eles, mas não constituía o seu motivo próprio e adequado. Estabelecido, porém, o fato da inspiração divina e, por isso, da canonicidade desses quatro somente, nada impede que descubramos, para esse número, outras razões de conveniência, como já fêz Sto. Irineu, no lugar acima citado (III, 11), e entrevermos algum símbolo nas próprias Escrituras divinas do Antigo e do Novo Testamento. Entre todos, célebre é um que teve imensa ressonância na literatura e nas artes: os quatro seres das quatro faces ou rostos, de homem, de leão, de touro e de águia, que sustentavam e puxavam o carro divino visto por Ezequiel (Ez 1,4-10) e pelo evangelista S. João, em êxtase (Apc 4,2-7). Encontram-se, outrossim, interessantes analogias e comparações entre cada um desses animais e um dos nossos Evangelhos, de modo que o homem se tornou símbolo de Mateus; o leão, de Marcos; o touro, de Lucas e a águia, de João. Pode-se afirmar que as suas figuras são reproduzidas em todas as igrejas cristãs e em cada exemplar ilustrado da Bíblia. Literariamente, os Evangelhos pertencem ao gênero histórico. Não são propriamente uma história, pois concentram toda a atenção sobre uma única pessoa: Jesus de Nazaré. Não são, tampouco, apenas uma biografia propriamente dita, pois não pretendem narrar toda a vida e atividade de seu herói, com o intuito de informação. Têm por objetivo narrar a mensagem da renovação moral e religiosa que Jesus trouxe ao mundo, e mostrar a sua obra redentora em atuação. Fazem, por isso, uma seleção entre o muito que podiam dizer e aproximam-se, destarte, do gênero dos "fatos e ditos memoráveis", mas com referência específica à finalidade mencionada. Seja qual for, porém, o modo com que se queira determinar ou não o gênero próprio dos Evangelhos, o certo é que, do gênero histórico, eles possuem o que constitui o seu supremo e primeiro valor, a finalidade própria e suprema: a veracidade da relação e a realidade objetiva dos fatos registrados. Do historiador verdadeiro e perfeito, os evangelistas possuem o amor da verdade na indagação, e a sinceridade e imparcialidade no referir. Não foram paixões políticas, nem preconceitos ideais, nem interesses pessoais que os moveram e sustentaram ao escrever. Não há vestígios desses sentimentos, que poderiam ofuscar o juízo sereno do escritor, em sua prosa límpida e serena. Simples e desataviado, claro e popular é o seu
  • 76.
    estilo. Pessoalmente, quantoeles amam o divino Mestre, mostrá-lo-ão mais tarde ao darem por ele o sangue e a vida. Ao escrever, porém, essa chama eles a conservam encerrada no coração, não permitindo que se exteriorize e lhe inflame a pena. Narram os milagres do Nazareno sem se admirarem com eles. Referem os aplausos e o entusiasmo populares, mas não compartilham das aclamações; registram, apenas, fatos, Não silenciam os insucessos do Mestre e a nenhum período de sua vida narram com tanta difusão como sua dolorosa e humilhante paixão. Entre tantas amarguras e ultrajes, porém, que relatam pormenorizadamente, não lhes foge um só gemido de compaixão pelo inocente torturado, nem um grito sequer de indignação contra os seus cruéis crucificadores. Dir-se-ia que são impassíveis, mas é a impassibilidade do historiador integral. E como é próprio do historiador narrar o que vê e o que ouve, o que cai sob a esfera dos seus sentidos e pode ser afirmado, os evangelistas, em seus depoimentos, jamais ultrapassam o limite dos fatos sensíveis e como tais atestados. Da própria ressurreição de Jesus, fato da maior importância por numerosas razões, eles não nos dizem quando nem como se deu, porque nenhum deles esteve presente. Falam do sepulcro aberto encontrado vazio, porque assim o viram os discípulos e as piedosas mulheres, falam das aparições de Jesus redivivo, porque as pessoas favorecidas com tais aparições afirmaram concorde e repetidamente que o tinham visto, tinham falado com ele, tinham comido e bebido em sua companhia, depois da sua ressurreição (At 10,41). Não se poderia desejar atitude mais objetiva e mais própria num puro historiador. Nada falta aos evangelistas daquilo que se pode referir aos fatos que narram, nem que se relaciona com a imparcialidade e exatidão em os referir como haviam chegado ao seu conhecimento. Somente isto, mesmo prescindindo da assistência do Espírito Santo que os animava, confere à narração toda a garantia da verdade. Não é sem razão que o próprio termo "evangelho" tornou-se, no uso, sinônimo de verdade evidente. Nossa fé, que tem suas raízes no Evangelho, também humanamente falando, apóia-se sobre as mais sólidas bases. Intenção sinceramente desejosa de verdade e coração dócil para a abraçar tal qual ela é, são as disposições mais adequadas para a leitura proveitosa do Evangelho.
  • 77.
    INTRODUÇÃO A MATEUS Mateus(nome talvez abreviado de Matadas) exercia, antes de seu chamamento ao apostolado, a profissão de cobrador de impostos, profissão, já de per si, detestada por todos, que se tornava ainda mais antipática ao povo judeu por favorecer, tal cobrança, a dominação romana. Os publicanos, os cobradores de impostos, eram considerados como pecadores públicos. Mateus estava sentado à sua banca de trabalho quando foi chamado por Jesus. Levantou-se logo e o seguiu, dando adeus ao mundo com um banquete oferecido a Jesus e aos próprios colegas de profissão, "publicanos e pecadores" (Mt 9,9-10). Nas passagens paralelas de Marcos (2,14) e Lucas (2,27), por delicada consideração, é ele chamado Levi, outro nome seu, segundo um costume freqüente entre os hebreus. A partir de então entra a fazer parte do colégio dos doze, sem que nada de importante o pusesse em evidência. No catálogo dos apóstolos é colocado invariavelmente junto a Tomé, ao qual, por sentimento de humildade, se pospõe no seu Evangelho, lembrando o seu ofício de publicano. Depois da ascensão de Jesus, ficou algum tempo na Palestina, evangelizando seus compatriotas. A que regiões tenha depois levado a luz da fé, que ele confirma com seu sangue (se a Arábia, a Etiópia, a Pérsia ou a região dos partos), não nos foi transmitido com certeza. Em ordem cronológica, S. Mateus é o primeiro evangelista, conforme resulta da tradição. Pelo testemunho de Papias (95,165), bispo de Hierápolis na Frigia, sabe-se que escreveu em aramaico "ta lógia kyriaká", mas esta expressão, segundo o pensamento do próprio Papias, quando fala do Evangelho de S. Marcos, compreende não só os discursos, como também os fatos da vida de Jesus. Mateus não escreveu, portanto, uma simples coletânea dos discursos de Jesus, como afirmam, sem razão, alguns críticos, mas escreveu o "Evangelho do Senhor". O texto aramaico não chegou até nós, pois perdeu-se, quiçá, nas agitações e destruições devidas à guerra do ano 70. Cedo, porém, desde os primeiros anos do cristianismo, fêz-se a redação, ou melhor, a versão grega do Evangelho deMateus, sem, contudo, podermos saber qual o seu autor; talvez o próprio apóstolo. Com efeito, a tradição atribui-lhe também unanimemente o texto grego; pelo menos quanto à essência, é plenamente idêntico ao texto aramaico. Os Padres apostólicos citam-no sempre, desde o início, como texto sagrado e inspirado, à semelhança das outras Escrituras, e foi unicamente sobre ele que se fizeram todas as versões. Pelo que se deduz da tradição e do exame interno, Mateus escreveu o seu Evangelho na Palestina, destinando-o aos judeus convertidos e em geral aos seus compatriotas. A tese que visa a demonstrar é que Jesus é o filho de Davi, prometido e esperado, o Messias, ou melhor, o verdadeiro Filho de Deus. Provar a messianidade, a divindade de Jesus Cristo, constitui, portanto, a finalidade do primeiro evangelista. E o faz não tanto referindo os milagres de Jesus, quanto fazendo notar nele a realização das antigas profecias e insistindo nas provas que Jesus deu de sua divindade. Não se pode estabelecer com certeza a data da composição do primeiro Evangelho. Pode-se, sem temor algum de errar, estabelecer o termo inferior, abaixo do qual certamente não foi escrito. De fato, conforme o testemunho unânime e constante da tradição (não faz exceção a voz ambígua de Clemente Alexandrino) o Evangelho de Mateus deve ter sido o primeiro a ser escrito, por isso, antes do de Lucas, cuja composição, como se verá, não pode nem deve ser posposta ao ano 63 d. C. Quanto ao termo superior, as opiniões são divergentes: muitos dão--Ihe por data de composição o ano 50 ou mesmo antes. Deve-se, contudo, dizer que é falsa a afirmação dos racionalistas, segundo os quais teria sido escrito após o ano 70. O quadro seguinte do Evangelho de S. Mateus colocará sob nossas vistas toda a sua estrutura.
  • 78.
    I parte -História da infância de Jesus Cristo. (1-2). Genealogia de Jesus (1,1-17). Seu nascimento virginal (1,18-25). Adoração dos magos (2,1-12). Fuga para o Egito (2,13-18). Volta a Nazaré (2,19-23). II parte - Vida pública de Jesus Cristo (3-25). 1. Preparação para a vida pública (3,1-4,11). Pregação de João Batista (3,1-12). Batismo de Jesus (3,13-17). Tentação no deserto (4,1-11). 2. Ministério de Jesus na Galileia (4,12-18,35). Jesus doutor e promul-gador da nova lei (4,12-7,29). Jesus operador de milagres (8,1-9,34). Jesus mestre dos apóstolos (9,35-10,42). Jesus recrimina os fariseus (11- 12). Expõe, com parábolas, o reino de Deus (13). Confirma a fé dos discípulos com novos milagres e fustiga a inveja dos fariseus (14,1-16,12). Promete a Pedro o primado (16,13-20), prediz sua paixão (16,21-28), transfigura-se no monte (17, 1,13) e dá instruções diversas aos apóstolos (17,14-18,35). 3. Ministério na Judeia (19,25). Viagem a Jerusalém (19-20). Entrada triunfal na cidade santa e purificação do templo (21,1-17). Jesus manifesta e censura os vícios dos fariseus e dos saduceus (21,18-23.39). Prediz a destruição de Jerusalém e o fim do mundo (24-25). III parte - Vida dolorosa e vida gloriosa (26-28). Preparação para a paixão (26,1-46). Paixão e morte de Jesus (26,47-27,66). Ressurreição, aparição de Jesus ressuscitado, missão dos apóstolos (28). Aqui vem, no entanto, a propósito notarmos alguma coisa sobre a chamada "questão sinótica". Os três primeiros Evangelhos assemelham-se mais entre si e distinguemse do quarto, segundo João, na narração da vida pública de Jesus, principalmente de três modos: estendem-se mais difusamente sobre o ministério na Galileia e regiões limítrofes; para eles Jesus vai a Jerusalém uma só vez, pouco antes da paixão; referem os fatos e os discursos de Jesus em proporções quase iguais. Em João, ao contrário, predomina o ministério exercido em Jerusalém, para onde se vê Jesus dirigir-se pelo menos cinco vezes, e os discursos preponderam sobre os fatos. Além disso, os três primeiros nos referem muitas vezes os mesmos fatos na mesma ordem e até mesmo com idênticas palavras. Esta particularidade mereceu-lhes dos críticos a denominação de "Evangelhos sinóticos". A tamanha semelhança correspondem, porém, de outra parte, divergências assaz notáveis, que dão a cada um dos Evangelhos a fisionomia própria. De tudo isso o leitor encontrará confirmação com uma leitura atenta e comparativa dos sinóticos ou mesmo depois que com eles se familiarizar. Trata-se agora de explicar, ao mesmo tempo, semelhanças e disse-melhanças com uma sentença harmônica sobre a origem dos Evangelhos e relações mútuas. Ê a chamada "questão sinótica". Há dois séculos apresentaram-se várias e discordantes soluções, sem ter-se chegado a uma sentença comumente aceita. A seguinte, que leva em conta todos os dados do problema, inclusive os testemunhos históricos dos santos Padres, vai-se firmando sempre mais nos meios católicos. Ao Evangelho escrito precedeu o Evangelho pregado, por um período de cerca de vinte anos, durante os quais a vida de Jesus, exposta nas instruções ou catequeses dos apóstolos, foi assumindo, pela escolha e organização do material, um esquema determinado e uniformemente repetido. Formou-se deste modo uma tradição oral, que serviu de base aos escritores. Com essa tradição, confirmada, enriquecida pela própria experiência pessoal, Mateus compôs o seu Evangelho em aramaico. Transplantado para Roma por S. Pedro, que já na Palestina fora o seu mais eficaz formador, esse esquema de catequese oral foi literalmente consignado por S. Marcos, em língua grega. Nessa mesma Roma, pelos anos 60-61, senão antes, S. Lucas deve ter conhecido bem esse Evangelho grego, e serviu-se dele para escrever o seu elaborado, para o qual consultou fontes orais e escritas (Lc 1,1-4). Tendo-se propagado not Oriente de língua grega o Evangelho de S. Marcos, dele se serviu também aquele que, qualquer que tenha sido (veja acima), traduziu para o grego o Evangelho aramaico de S. Mateus, dando-nos, deste modo, o texto canónico do primeiro de nossos Evangelhos. Resta explicar, para dar uma razão de todos os acordos e desacordos, as coincidências, mesmo verbais, entre Mateus e Lucas, nas passagens em que Marcos nada tem que lhes corresponda. Para essas, não parecendo verossímil que Lucas tenha conhecido Mateus em grego (pense-se, por exemplo, na história da infância e na genealogia de Jesus, tão diversas nos respectivos Evangelhos), autores católicos são inclinados a postular uma fonte comum escrita.
  • 79.
    INTRODUÇÃO A MARCOS Oautor do segundo Evangelho é Marcos. Unânime é o acordo sobre este ponto, não havendo notas discordantes nem mesmo da parte dos críticos mais radicais. Tão claro e unânime é o sufrágio da tradição, que remonta, com os mais autorizados testemunhos das Igrejas em peso, até aos últimos anos do século I, à primeira geração cristã pós--apostólica. Outro ponto certo e admitido por todos: assim como Marcos foi colaborador de Pedro na pregação do Evangelho, foi também o porta-voz e o intérprete autorizado na elaboração do Evangelho e transmitiu-nos, por meio desse texto, a catequese do príncipe dos apóstolos, tal qual ele a ensinava aos primeiros cristãos, principalmente da Igreja de Roma. Sobre isso também temos o testemunho claro e preciso da tradição. Um fragmento de Papias, bispo de Hierápolis, na Frigia, pelos anos 110--130, conservado por Eusébio na sua História Eclesiástica (liv. III, fim), afirma expressamente, referindo-se às declarações do presbítero João: "Eis o que dizia o presbítero: — Marcos, tendo sido intérprete de Pedro, escreveu com exatidão, não, porém, de modo ordenado, tudo o que recordava das coisas que o Senhor disse ou fez". O primeiro elo da tradição não é, portanto, Papias, e sim o presbítero João, que, segundo os melhores críticos, deve-se identificar com o apóstolo S. João. Outros elos dessa tradição temo-los nos testemunhos de Irineu, Justino, Clemente Alexandrino, Tertuliano, Origines etc., que nos relatam o pensamento autêntico das Igrejas dos primeiros séculos. Nos Atos dos Apóstolos o futuro evangelista é chamado ora João Marcos (12, 12-25; 15,37), ora João (13,5.13), ora simplesmente Marcos (15,39), pois nessas passagens trata-se sempre da mesma pessoa, a qual, segundo um costume então em voga na Palestina, tinha, além do nome judaico, um nome greco- romano, como, por exemplo, o grande Apóstolo dos gentios, que se chamava Saulo e Paulo. Marcos devia pertencer a família bastante rica e de grande ascendente na comunidade cristã de Jerusalém. Com efeito, em sua casa "onde várias pessoas se haviam reunido para orar" (At 12, 12), refugiou-se o apóstolo Pedro quando o anjo o libertou do cárcere de Herodes. Pretendem alguns deduzir disso que a casa de Marcos deve-se identificar com o cenáculo. Marcos era primo de Barnabé (Col 4,10), levita, natural de Chipre e, quando este, juntamente com Paulo, foi designado pelos irmãos da comunidade de Antioquia para levar as esmolas à Igreja de Jerusalém, na volta levou consigo Marcos, para lhe servir de auxiliar (At 13,5) no labor da evangelização. Efetivamente, Paulo e Barnabé o levaram como colaborador na primeira viagem apostólica. Mas ao chegarem a Perga, na Panfília, Marcos separou-se dos dois missionários e achou melhor voltar a Jerusalém. Esta fraqueza e inconstância de caráter não agradaram a Paulo, que se recusou a levar Marcos como companheiro na segunda viagem missionária, pelo que o próprio Barnabé, separando-se de Paulo, foi com Marcos para a ilha de Chipre, enquanto Paulo e Silas rumaram primeiro para a Síria e para a Cilicia e depois para a Grécia. Deste modo, por disposição providencial de Deus, a boa-nova difundiu-se mais largamente. Aquela nuvem passageira não diminuiu e muito menos rompeu as relações fraternas entre os dois apóstolos. Com efeito, Marcos foi depois colaborador fiel de Pedro e de Paulo. Este escrevia, de Roma, onde se achava prisioneiro, aos fiéis de Colossas (4,10): "Saúda-vos Marcos, primo de Barnabé"; e a Filemon: "Saúda-te Marcos, meu colaborador" (v. 24). Estava, pois, Marcos, nessa época, por volta do ano 61-62, com Paulo. Alguns anos mais tarde, pelo ano 63-64, ele cuidava da evangelização juntamente com Pedro, o qual escrevia de Babilônia (' — Roma) na sua primeira carta (5,13): "Saúda-vos meu filho Marcos", palavras que nos deixam crer que Marcos recebeu de Pedro o batismo. Deve ter deixado Roma antes da perseguição de Nero} no ano 64, pois quando Paulo aí esteve para a segunda prisão, Marcos não estava. De fato, na sua segunda epístola a Timóteo (4,11) Paulo pede-lhe que venha a Roma e traga Marcos consigo. Antigas tradições muito autorizadas atestam que nos anos seguintes Marcos evangelizou o Egito e fundou a Igreja de Alexandria, onde morreu mártir por Jesus Cristo. Em Roma, Marcos escreveu o Evangelho, como no-lo confirma a tradição representada por Papias, Irineu, Clemente de Alexandria, Tertuliano e outros, não para os judeus, e sim para os cristãos da Igreja romana, convertidos do paganismo. Segundo Clemente de Alexandria, ele escreveu a pedido de muitos cristãos que tinham ouvido a pregação de Pedro (cf. EUSÉBIO, História Eclesiástica, Vl, 14,6). Essa notícia encontra confirmação evidente em não poucas indicações, resultantes do exame interno do segundo Evangelho. Efetivamente, Marcos propõe-se como fim demonstrar que Jesus é verdadeiro Filho de Deus, e o faz especialmente com a narração de muitos milagres que ele operou, sinais evidentes de que é o senhor
  • 80.
    supremo da natureza,dos elementos, da vida, que tem poder para ler nos corações e no livro do futuro. Não insiste sobre o seu caráter de Messias, nem cita as antigas profecias que em Jesus tiveram a sua realização, com exceção de uma só vez (1,2-3). Não relata longos discursos de Jesus nem suas discussões com os fariseus, nem as questões relativas ao valor da lei e ao espírito dos fariseus, coisas essas todas que não teriam impressionado o espírito dos seus leitores. Usa, porém, freqüentemente, de grecismos e traduz algumas expressões aramaicas; explica aos destinatários do seu Evangelho algumas indicações geográficas da Palestina, usos e costumes próprios dos judeus. Entre os evangelistas é ele o único a lembrar que Simão de Cirene era pai de Alexandre e de Rufo, membros da comunidade cristã de Roma (cf. Rom 16,13). Indícios todos estes bastante persuasivos de que o segundo Evangelho foi escrito, como afirma a tradição, em Roma, com referência particular aos cristãos romanos convertidos do paganismo. A composição do segundo Evangelho deve ser colocada antes do ano 70, ou melhor, antes do ano 63, época em que já tinha sido publicado o Evangelho de Lucas, o qual, como já admitem também os críticos acatólicos, depende de S. Marcos. Ora, sabemos pela tradição, como foi dito ao falarmos do Evangelho de S. Mateus, que, em ordem cronológica, este Evangelho ocupa o primeiro lugar, e que teria sido escrito, provavelmente, entre os anos 50 e 54. Podemos, portanto, afirmar que Marcos escreveu o seu Evangelho depois do ano 54 e antes do ano 61, no período em que ele devia encontrar-se em Roma, junto com o apóstolo Pedro, como seu auxiliar na fundação da Igreja de Roma. Eis um resumo esquemático do Evangelho de Marcos: Introdução. Preparação para a vida pública de Jesus (1,1-13). Pregação de João Batista (1,1-8); batismo de Jesus; tentação no deserto (1,9-13). I parte - Ministério público de Jesus (1,14-10,52). 1. Ministério na Galiléia. Inauguração da pregação de Jesus (1,14-45). Conflitos com os escribas e os fariseus (2,1-3,6). Milagres de Jesus; escolha dos apóstolos; parábolas (3,7-4,43). Outros milagres e episódios do ministério de Jesus na Galiléia (4,35-7,23). 2. Viagens de Jesus fora da Galiléia. À região de Tiro e de Sidônia (7,24-30); à Decápole (7,31-8,26); à região de Cesaréia de Filipe (8,27-9,29); volta à Galiléia e viagem a Jerusalém 9,30-10,52). II parte - Paixão e glorificação de Jesus (11,1-16,20). Ingresso triunfal de Jesus em Jerusalém (11,1-11). Conflitos com os fariseus (11,12-12,44). Predição da destruição de Jerusalém, e do juízo final (13). Paixão e morte (14,1-15,47). Glorificação de Jesus (16). Por este sumário pode-se notar uma característica do segundo Evangelho: a brevidade. Além disso, outra característica do Evangelho de Marcos ê a vivacidade intuitiva da narração. Seu vocabulário é mais pobre e restrito; o estilo, monótono e descuidado, reflete o modo de pensar e de expressar-se próprios de um oriental simples e rude, bem longe da riqueza de linguagem e da perfeição do período elaborado do grego clássico. A narração, entretanto, ê viva, colorida, pitoresca até nos mínimos particulares e faz os acontecimentos reviverem ante os olhos do leitor, quais os tinha tantas vezes ouvido o próprio Marcos dos lábios do apóstolo Pedro. Nisto está a explicação da característica do segundo Evangelho. Marcos apenas reproduz e retrata a partir do natural a história evangélica, revivida e descrita por uma testemunha ocular, que tomou parte nela e que a tinha sempre presente.
  • 81.
    INTRODUÇÃO A LUCAS OEvangelho de S. Lucas ocupa o terceiro lugar entre os Evangelhos canônicos, e isso em ordem de lugar e de tempo também, segundo a tradição mais certa. As poucas notícias que dizem respeito à vida deste evangelista tiram-se sobretudo dos Atos dos Apóstolos, escritos por ele. Nascido em Antioquia, segundo uma antiga e autorizada tradição recolhida por Eusébio (Hist. Ecles., III, 4- 6), de família pagã, grego de estirpe e por educação, possuía, além do domínio da língua grega que aprendera na infância, também uma boa cultura, como se pode ver pelos seus escritos, dedicando-se à profissão de médico, como no-lo atesta S. Paulo (Col 4,14). Conheceu e abraçou a religião de Cristo, talvez por obra dos primeiros pregadores do Evangelho em Antioquia (At 11,19-24). Com S. Paulo, que jamais diz tê-lo gerado para Cristo, encontramo-lo, pela primeira vez, em Trôade, na segunda viagem missionária do grande Apóstolo, que então (pelo ano 50 d. C.) estava para fazer a travessia da Ásia, com destino à Grécia. Daí por diante, esteve quase continuamente ao seu lado (executando, nas várias ausências, missões confiadas pelo próprio Paulo), qual discípulo afeiçoado e colaborador zeloso no ministério sagrado da palavra. "Somente Lucas está comigo", escreve tristemente o Apóstolo, prisioneiro pela segunda vez, em Roma, na 2? Epístola a Timóteo (4,11) que é como que o seu testamento espiritual. Não se sabe pois com certeza onde nem até quando o evangelista viveu depois do martírio de S. Paulo. O próprio Lucas diz-nos (1,3) ter realizado indagações e ter recolhido informações a respeito dos atos e das palavras de Jesus, justo dos que os haviam presenciado. Dentre esses informantes, sobretudo nos primeiros capítulos do seu Evangelho, pode-se ouvir ainda a voz suave da própria mãe de Jesus. Mas o Evangelho de S. Lucas recebeu de S. Paulo, senão o primeiro impulso, certamente sua característica: a universalidade da salvação, as portas da salvação abertas aos gentios, a inexaurível misericórdia divina, o perdão dos pecados, a oração e a perseverança são os temas que de mais relevância se revestem neste Evangelho, que, pela suavidade de afetos de que ê impregnado e péla graça da expressão, é de todos o mais atraente. É também sua especialidade o prólogo de sabor clássico, com a dedicatória a um ótimo cristão de nome Teófilo e a disposição peculiar da matéria, como se pode ver pelo sumário abaixo, no qual nos estão indicados, em caracteres normandos, as partes peculiares de Lucas. Prólogo. - Motivo, modo e finalidade que o levaram a escrever o Evangelho (1,1-4). I parte - Infância e vida privada de Jesus (1,5-2,52). Um anjo anuncia o próximo nascimento do Precursor (1,5-25). O anjo anuncia a Maria o nascimento do Salvador, Jesus (1,26-38). Maria vai visitar Isabel (1,39-56). Nasce o Precursor e recebe o nome de João (1,57-80). Nasce e é circuncidado o Salvador (2,1-21). Jesus é oferecido no templo na purificação de Maria (2,22-39). Jesus fica perdido e é encontrado no templo (2,40-50). Sua vida oculta em Nazaré (2,51-52). II parte - Vida pública de Jesus (3,21). A preparação (3,1-4,3): João, o Precursor, prega o batismo de penitência (3,1-19). Jesus (sua genealogia, 3,23-28) é batizado por João, retira-se para o deserto e é tentado pelo demônio (3, 21-4,13). O ministério: pregação e milagres (4, 14-21,38) em três regiões distintas: 1. Na Galiléia (4,14-9,50), em três fases: A) Até à escolha dos apóstolos (4,14--6,11). Sermão infrutífero e perigo que corre em Nazaré (4,14-30); pregação e curas de doentes em Cafarnaum (4,31--44); pregação feita de dentro da barca de Pedro e pesca milagrosa (5,1-11); cura do leproso (5,12-16) e do paralítico (5,17-26); o chamamento do publicano (Levi-Mateus), nova vida e novos costumes (5,27-39); observância do sábado (6,1-11). B) Até à missão dos apóstolos (6,12--8,56). Jesus escolhe doze e chama-os de apóstolos (6,12-16); profere-lhes o sermão ou discurso do monte (6,17-49); cura do servo do centurião (7,1-10); ressuscita o filho da viúva de Naim (7, 11-17); recebe os discípulos de João, do qual faz o elogio (7,18-35); recebe e louva a pecadora arrependida (7,36-50); as piedosas mulheres que o seguem (8,1-3); parábola do semeador (8,4- 18); os parentes de Jesus (8,19-21); a tempestade acalmada (8,22-25); curas de endemoninhados (8,26- 39), da hemorroíssa (8,40-48); ressuscita a filha de Jairo (8,49-56).
  • 82.
    C) Até àpartida da Galiléia (9,1-50). Jesus envia os apóstolos a pregar e a curar os doentes (9,1-9); com poucos pães sacia 5000 pessoas (9,10-17); responde a Pedro, (que o reconhece como Messias) predizendo a própria paixão e recomendando a abnegação de si mesmo (9,18-27); transfigura-se no monte (9, 28-36); cura um menino possesso (9,37-42); dá lição de humildade e de moderação (9,43-50). 2. Em viagem para Jerusalém, na Peréia (9,51-19,28). Jesus envia os discípulos na frente e dá-lhes diversas instruções (9,51-10,24); parábola do bom samaritano (10,25-37); em casa de Marta e Maria (10,38- 42); força da oração (11,1-13); o poder de expulsar demônios (11,14-26); a verdadeira bem-aventu-rança (11,27-28); o sinal de Jonas (11, 29-36); censura os fariseus e os escribas (11,37-54); advertências às turbas contra a vanglória, o respeito humano, a avareza, a solicitude excessiva dos bens temporais (12,1- 34); vigilância (12,35-48); sinais e tempo para fazer penitência (12,49-13,9); curas em dia de sábado, o reino de Deus e sua obtenção (13, 10-14,24); disposições para seguir a Jesus (14,25-35); alegria por um pecador convertido (15,1-10); parábola do filho pródigo (15,11-32); do feitor infiel (16,1-18); do rico glutão (16,19-31), outros avisos (17,1-10); cura dos dez leprosos (17,11-19); preparação para a vinda do reino de Deus (17,20- 37); parábolas do juiz e da viúva (18,1-8); do fariseu e do publicano (18,9-14); condições para entrar no reino de Deus (18,15-30); Jesus em Jericó prediz sua paixão (18,31-34); cura um cego (18,35-43); entra em casa do publicano Zaqueu e converte-o (19, 1-10); parábola dos servos e das dez minas (19,11-28). 3. Em Jerusalém (19,29-21,28). Jesus entra festivamente em Jerusalém (19, 2940) e chora sobre sua sorte (19,41-44); expulsa os mercadores do templo (19,45-48); responde às queixas dos invejosos (20,1-8); parábolas dos maus vinhateiros (20,9-19); o tributo a César (20,20-26); e ressurreição dos mortos (20,27- 40); Davi e Cristo (20,21-44); contra a vanglória (20,45-47); o óbolo da viúva (21,1-4); Jesus prediz a destruição do templo e de Jerusalém (21,5- I 24) e, aludindo ao fim do mundo (21, 25-28), exorta à vigilância (21,29-38). III parte - Paixão e ressurreição de Jesus (22-24). Nesta parte são especiais a Lucas: a primeira distribuição do cálice na ceia pascal (22,15-17); a discussão entre os apóstolos por causa da promessa e da missão confiada a Pedro (22,24-32); as duas espadas (22,35-38); o suor de sangue no horto (22,43-44); o olhar de Jesus a Pedro (22,61); o conciliábulo da manhã (22,66-71); Jesus no tribunal de Herodes (23,6-12); suas palavras às piedosas mulheres (23,27-31); o bom ladrão (23,39-43); aparição de Jesus ressuscitado aos discípulos de Emaús (24,13--35); a ascensão de Jesus ao céu (24, 44-53). Que o médico Lucas, companheiro de S. Paulo, seja o autor deste Evangelho, não pode haver dúvida nenhuma, pelo testemunho constante e unânime de todos os antigos, quer aqueles dos manuscritos ou versões do texto, quer os dos escritores de todos os quilates, tanto hereges (como Marcião) quanto católicos, testemunhos estes confirmados pelo exame intrínseco deste Evangelho. De fato, como obra de um grego de nascimento, ele não contêm (caso único entre os Evangelhos) nenhuma palavra aramaica, nem mesmo o comuníssimo "rabi", e entre todos os escritos do Novo Testamento (exceção feita da Epístola aos Hebreus) é o que tem a locução mais conforme ao gênio da língua grega. Escreveu Lucas o seu Evangelho antes dos Atos dos Apóstolos, que são como que a continuação daquele (At 1, 1) e, por isso, provavelmente não só antes da morte de S. Paulo (ano 67), que nos Atos é ignorada, mas também antes do fim da prisão do Apóstolo (ano 63), com a qual se encerra esse último livro. Em suma, por volta do ano 60.
  • 83.
    INTRODUÇÃO A JOÃO Oquarto Evangelho, pela feição particular que o caracteriza, afasta-se dos Evangelhos sinóticos. Seu fim principal, como o nota o próprio autor (20,31), é fazer ressaltar a divindade de Cristo, e para tal fim convergem tanto a elevação dos discursos, reproduzidos com os mesmos milagres narrados e o prólogo admirável, que se refere ao "Verbo que se fez carne, e nós vimos a sua glória como de filho unigênito do Par (1,14). Por causa desse caráter transcendente que o reveste, os antigos Padres chamaram o quarto Evangelho com um termo próprio: Evangelho espiritual; os gregos, por sua vez, deram a João o título de Teólogo. Não é que a figura de Jesus nele delineada seja diferente da que dele traçam os sinóticos, pois, ainda que o quarto Evangelho realce mais o aspecto divino, não se descuida do seu aspecto humano e aquele seu Jesus combina perfeitamente em tudo com o dos sinóticos. Da leitura de muitas de suas páginas, como, por exemplo, de alguns milagres como a cura do cego de nascença, a ressurreição de Lázaro etc., escritas com tão admirável simplicidade e vivacidade de colorido, que revelam a testemunha ocular, surge bela, eloqüente a figura humano-divina de Jesus, todo bondade e misericórdia, como o dos sinóticos. Aí encontramos identificada a doutrina com as mesmas verdades e os mesmos preceitos, ainda que mais desenvolvida e mais elevada. Ê que cada um dos evangelistas escolheu e narrou o que da vida e dos ensinamentos do Mestre interessava ao seu objetivo, sem pretender esgotá-lo sob todos os aspectos. Compare-se o seguinte quadro do quarto Evangelho com os que apresentamos nos três precedentes estudos. Prólogo. O Verbo divino que se faz carne (1,1-18). 1-parte - Jesus manifesta sua divindade e é reconhecido pelos homens de boa vontade (1,19-4,54). Pregação de S. João Batista e seu testemunho a respeito de Jesus (1,19-35); primeiros discípulos de Jesus (1,36-51). Primeiro milagre de Jesus nas bodas de Caná (2,1-12). Em Jerusalém, Jesus purifica o templo (2,13-22); faz milagres e muitos crêem nele (2,2325); instrui Nicodemos (3,1-21). Na Judéia com os discípulos, que batizam; novo testemunho de João Batista (3,22-36). Colóquio com a samaritana (4,1-42) e volta à Galiléia; cura o filho de um oficial (4,43-54). II-parte - Oposição dos judeus à pregação de Jesus (5-12). Em Jerusalém: cura do paralítico (5, 1-9); os judeus são pela observância do sábado (5,10-16). As ações de Jesus, Filho do Pai (Deus) e tríplice testemunho em seu favor (5,17-47). Na Galiléia, Jesus multiplica uns poucos pães para 5.000 homens (6,1-15) e em Cafarnaum profere um sermão às turbas sobre o pão que desce do céu (promessa da eucaristia; 6,16-60); defecção de muitos de seus discípulos (6, 61-7,1). Em Jerusalém, na festa dos Tabernáculos; pregação no templo e hostilidade dos judeus (7,2-52); acusação e absolvição da mulher adúltera (7,53-8,11). Jesus é a luz do mundo (8,12-20), o Salvador e Filho de Deus (8,21-59). Cura do cego de nascença e irritação da oposição (9). O bom pastor (10,1-18). Dissensões entre os judeus (10,19-21). Em Jerusalém, na festa da Dedicação (10,22-39). Na Peréia (10,40-42), Jesus ressuscita Lázaro (11,1-46); os judeus deliberam fazê-lo morrer (11,47-57). A ceia em Betânia, seis dias antes da Páscoa (12,1-11). Ingresso triunfal em Jerusalém (os Ramos: 12,12-19); pressentimento da paixão (12,20-28); último apelo à f é (12,29-36). Causas da incredulidade dos judeus (12,37-50). III-parte - Paixão, morte e ressurreição de Jesus (13-21). Ultima ceia: Lava-pés (13,1-20); saída de Judas (13,21-32); longo sermão após a ceia (13,33-16,33); oração de Jesus ao Pai (17). No horto, Jesus é capturado (18,1-12), levado a Anás e depois a Caifás, é negado por Pedro (18,13-27). Jesus no pretório de Pilatos; primeiro interrogatório, flagelação e coroação de espinhos (18. 28-19,3). Segundo interrogatório e condenação (19,4-16). No Calvário: crucifixão e morte (19, 17-30); golpe de lança no lado de Jesus e sepultura (19,31-41); aparições de Jesus ressuscitado: à Madalena (20,1-
  • 84.
    18); aos discípulos,na ausência de Tomé (20,19-23); ainda aos discípulos, com Tomé (20,24-31); às sete pessoas perto do lago de Tiberíades (21,1-14). Confirmação do primado a Pedro (21,15-19). Destino e veracidade do evangelista (21, 20-25). Procurou o autor conservar-se anônimo, mas ocultou seu nome sob um véu tênue e transparente, que se intui com toda a facilidade. Com efeito, por um exame atento resulta que o autor é judeu, que conhece, até mesmo nos mínimos particulares, as instituições judaicas e os acidentes topográficos da Palestina e de Jerusalém, no tempo de Cristo. Desse exame resulta ainda ser o escritor um judeu de origem, que, escrevendo em grego vulgar, revela-se judeu no estilo, no desenrolar dos períodos, em muitas locuções próprias das línguas semíticas, no paralelismo que usa quando se lhe apresenta a ocasião e na modalidade mesma dos conceitos. Essas características — cumpre notá-lo — oferecem-nos valioso argumento para afirmar a unidade do quarto Evangelho, sem eruditos acréscimos de vários elementos hauridos de fontes diversas e também sem descontinuidade de pensamento e de finalidade, como pretenderam certos críticos, guiados por seus preconceitos apriorísticos. Resulta outrossim ser o autor um judeu que afirma com insistência, para garantir a verdade do que narra, ter sido testemunha ocular dos fatos (1,14; 19, 35), como o afirma também o autor da primeira epístola atribuída a S. João, a qual é como que a introdução e o complemento do seu Evangelho (cf. 1Jo 1, 1-3). Resulta, além disso, que o autor é um discípulo de João Batista, que se tornou um dos primeiros discípulos de Jesus; que pertence ao colégio apostólico e que foi o discípulo predileto de Jesus. Coisa estranha: ele jamais fala dos dois filhos de Zebedeu, Tiago e João. Ora, dos três discípulos que Jesus amava mais, o autor do quarto Evangelho não pode ser Pedro, pois mais de uma vez se percebe que é distinto dele. Tiago, irmão de João, também não pode ser, pois foi condenado à morte por Herodes Agripa (no ano 43). Todos os dados apresentados verificam-se com exatidão no apóstolo S. João, confirmando plenamente a voz autorizada da tradição. Aos testemunhos implícitos, isto é, às citações anônimas do quarto Evangelho, que se encontram nalguns Padres apostólicos e que remontam aos primeiros decênios do século II, poucos anos após ter sido escrito, unem-se os testemunhos explícitos das várias Igrejas do Oriente e do Ocidente, representadas por nomes e documentos autorizados, como Papias, Polícrates, Irineu, Justino, Teófilo de Antioquia, o Fragmento muratoriano, para falarmos somente dos mais antigos. Esse conjunto de testemunhos implícitos e explícitos ê unânime em afirmar que o quarto Evangelho foi escrito pelo apóstolo João, o discípulo predileto de Jesus. Pela leitura do quarto Evangelho vemos que João já supõe conhecida pelos seus leitores a vida de Jesus, antes narrada pelos sinóticos e que ele quer completar o que aqueles escreveram. Quando o escreveu, o cristianismo já se achava amplamente difundido, de modo especial no império romano, e o clima religioso da Igreja bastante mudado em relação ao tempo em que os evangelistas escreveram os sinóticos. Na Ásia Menor tinham começado a pulular os multiformes erros do gnosticismo, que negavam a divindade de Cristo e sob o rótulo aparente de ciência superior, tentavam insinuar-se nas comunidades cristãs. Para combater esses erros sedutores e estabelecer as bases irrefragáveis da divindade de Jesus Cristo, João escreve então o seu Evangelho. Com essa finalidade, ele narra muitos discursos de Jesus e alguns milagres que projetam mais luz sobre a divindade do Salvador. Não nos deve causar admiração o fato de Jesus ter dirigido discursos mais elevados aos escribas e aos fariseus do que os que dirigiu às turbas da Galiléia, e que esses discursos — não referidos pelos sinóticos por não se enquadrarem com o seu escopo — proferidos à maneira de perguntas e respostas, com sentenças curtas e pejadas de conceitos, como era então costume fazer-se entre os rabinos, tenham ficado indelevelmente impressos na mente de João, que os meditava diariamente e repetia com freqüência, em suas catequeses aos primeiros cristãos. Reproduziu-os, por isso, fielmente no seu Evangelho, pelo menos quanto à substância, e o mais das vezes também com as próprias palavras que o Mestre pronunciou.
  • 85.
    INTRODUÇÃO AOS ATOSDOS APÓSTOLOS O título que este livro de Atos (sem artigo) dos Apóstolos (de todos os apóstolos, em geral) tem nos manuscritos do texto original exprime, se bem examinado, exatamente o seu conteúdo. Seus protagonistas são os dois príncipes dos apóstolos: Pedro, nos primeiros doze capítulos, e Paulo, nos dezesseis restantes. Contudo, quer nos primeiros, quer nos segundos, entrelaçam-se também ações de outros apóstolos e tanto Pedro como Paulo (embora este menos visivelmente) agem, mais do que à primeira vista pode parecer, em função do colégio apostólico, um como cabeça, outro, como pioneiro. Para melhor esclarecimento, será de muita utilidade o sumário seguinte, que apresenta a unidade orgânica compacta do livro e o concatenamento das partes entre si, convergindo para o objeto indicado no título, e que correspondem às fases da propagação do Evangelho. Introdução (1,1-26). Proêmio em que o autor se reporta ao seu Evangelho como para continuá-lo (1-3). Jesus dá às últimas instruções aos apóstolos e sobe ao céu (4-11); estes retiram-se com os outros fiéis para o cenáculo à espera do Espírito Santo (12-14); elegem Matias em substituição a Judas (15-26). 1a parte (2,1-8,3). A mensagem evangélica em Jerusalém. 1. Descida do Espírito Santo e inícios da Igreja (2,1-47). 2. Cura do paralítico, lutas de Pedro e dos apóstolos contra o Sinédrio e primeira perseguição (3,1-4,31). 3. Progresso e vida interna da Igreja, como efeito da obra e dos prodígios dos apóstolos. Ananias e Safira. Segunda perseguição (4,32-5,42). 4. Eleição dos diáconos helenistas; missão de Estêvão e seu martírio; terceira perseguição com a conseqüente dispersão dos fiéis (6,1-8,3). II parte (8,4-12,25). A mensagem evangélica na Judéia e na Galiléia, na Samaria e entre os -gentios, até Antioquia. 1. Missão de Filipe (confirmada por Pedro) entre os samaritanos e com o eunuco etíope (8,4-40). 3. Missão de Pedro na Judéia e entre os gentios, em Cesaréia (9,31-11,18). 4. A Igreja entre os gentios na Fenícia, Síria e Antioquia (11,19-30). 5. Quarta perseguição, morte de Tiago, prisão e libertação de Pedro, morte do perseguidor (12,1-25). III parte (13,1-28,31). A mensagem evangélica no mundo greco-romano. 1. Primeira viagem apostólica de Paulo: na Ásia Menor (13,1-14,27). 2. Concílio de Jerusalém, que sanciona a independência em face da lei para os gentios (15,1-34). 3. Segunda viagem apostólica de Paulo: na Macedônia e na Grécia (15, 35-18,22). 4. Terceira viagem apostólica de Paulo: na Ásia Proconsular, na Grécia e na Macedônia, até ao Epiro (18,23--21,16). 5. Prisão de Paulo em Jerusalém e mensagem ao Sinédrio (21,17-23,11). 6. Prisão em Cesaréia e mensagem para Félix, Festo e Agripa (23,12-26,32). 7. Viagem até Roma, prisão e mensagem aos judeus e aos gentios (27,1-28,31). Importância histórica e apologética Grande é, sem dúvida, a importância do livro dos Atos na história primitiva das origens cristãs, como transparece já do sumário acima. Traça Lucas um esboço compendioso, é certo, mas completo no seu gênero, da Igreja primordial na sua hierarquia e na vida do dogma, da disciplina e do culto, como se desenrolava na primeira geração cristã, ainda repleta da recordação imediata dos ensinamentos, das obras e dos preceitos do Mestre divino. Temos assim, na vida e no pensamento dos primeiros seguidores de Jesus, o mais precioso reflexo e como que a contraprova da vida e do pensamento dele e de sua mensagem de salvação, qual foi ouvida de sua boca e vivida pelos seus discípulos imediatos. Ê, portanto, decisivo o valor apologético dessas resultantes históricas, confrontando-se as duas interpretações contrárias, a católica e a racionalista, sobre a vida e o ensino de Jesus. Se o retrato que S. Lucas nos apresenta da primeira geração cristã na vida da Igreja é autêntico, então são insustentáveis as posições negativas da crítica racionalista contra o sobrenatural que se manifesta nos Evangelhos e nos Atos, e as suas pretensas afirmações sobre uma longa evolução da primeira tradição cristã, em sucessivas fases e formas. Não resta outra solução senão afirmar que essa tradição continua
  • 86.
    viva e imutávelna duas vezes milenar tradição católica. Ê daí que surgem os acirrados ataques lançados pela corrente adversária contra a autenticidade e a veracidade histórica do livro dos Atos. Autor, valor histórico, finalidade e data do livro As questões atinentes ao autor e ao valor histórico do presente livro acham-se interligadas de modo especial. Quanto ao autor, por ser, evidentemente, o mesmo que o do terceiro Evangelho (cf. Lc 1,1-4 e At 1,1), valem as mesmas razões já aduzidas na introdução àquele Evangelho, para identificá-lo com S. Lucas. Acrescentamos, porém, aqui uma ainda mais direta e de autoridade maior. A certa altura (15,10), o próprio autor entra em cena, narrando os fatos com um "nós", que o caracteriza como testemunha ocular e participante dos acontecimentos. E, deste modo, com verbos ou pronomes na primeira pessoa se nos apresenta, de vez em quando, até ao fim. São as chamadas "seções do nós" (16,10- 17;20,5-15;21,1--18;27,1;28,16), tão discutidas entre os críticos, seções nas quais, como o restante do livro, apresentam idênticas particularidades de vocabulário, de estilo, de composição, de expressões características, muitas vezes únicas no Novo Testamento. O autor da obra deve ser procurado entre os companheiros de S. Paulo, mencionados como tais nos Atos (por exemplo: 20,4) ou nas Epístolas do Apóstolo, entre os quais está Lucas (Col 4,14; 2Tim 4,11; Fim 24). Excluem- se, no entanto, todos os outros por se acharem ausentes dos acontecimentos narrados em algumas dessas "seções do nós", e porque de nenhum outro se sabe que tenha escrito a narração da vida inteira de Jesus como fez o autor dos Atos (1,1), dedicando-a, além disso, a um mesmo "Teófilo". Lucas busca, portanto, os fatos que narra nos Atos, na própria experiência pessoal ou segundo o seu programa traçado (Lc 1,2), nos atores e espectadores dos fatos, fontes de primeira ordem e de credibilidade insuperável. Do mesmo valor são também alguns documentos que ele insere textualmente na narração, como o "decreto apostólico" (15, 23-29) e a carta de Lísias (23-26-30) que são uma confirmação do seu escrupuloso cuidado com a exatidão. Essa rigorosa exatidão é confirmada pelas inscrições recentemente trazidas à luz, até nos mínimos particulares, como quanto à nomenclatura das autoridades municipais (asiarcas, em Éfeso, 19,31; politarcas, em Tessalônica, 17,6; estrategistas, em Filipos, 16,20; o "primeiro", em Malta, 28,7). A finalidade que Lucas se propõe aparece já, como foi indicado anteriormente no título da obra, mas ainda mais nas palavras de Jesus: "E me sereis testemunhas. . . até as extremidades da terra" (1,8). Narra Lucas, nos limites consentidos por um livro destinado ao uso da época, a propagação da Igreja e suas fases sucessivas até sua extensão à capital do império romano, através da obra daqueles que foram em todas as fases os seus principais artífices: os apóstolos Pedro e Paulo e seus colaboradores. Em nada revela-se Lucas tendencioso em seu modo de falar. Simples, ágil e compreensivo, deixa aos próprios fatos a incumbência de indicarem as conseqüências deles resultantes. De cada uma das páginas de sua narração transparece que a finalidade é simplesmente a de relatar os acontecimentos relacionados com a vida da Igreja e informar sobre a realização das disposições de Jesus a respeito da mesma Igreja, tudo a título de edificação e de instrução religiosa, conforme o que o próprio Lucas afirma ao se dirigir ao Teófilo do seu outro livro, o terceiro Evangelho. Finalidade idêntica para destinatário idêntico. Fixa-se como data da composição dos Atos antes do fim da prisão de dois anos que S. Paulo sofreu em Roma, como se evidencia pela conclusão mesma do livro (28,30-31), isto é, nos anos 61-63.
  • 87.
    INTRODUÇÃO ÀS EPÍSTOLASDE SÃO PAULO A parte mais importante e mais conspícua dos escritos apostólicos são as epístolas de S. Paulo, inclusive pelo volume do texto, pois, sozinhas, constituem mais da metade desses escritos, mas sobretudo pela profundeza e vastidão de doutrina teológica e pela abundância de ensinamentos morais de que estão repletas. São escritos ocasionais, como costumam ser precisamente as cartas; nasceram da necessidade que o Apóstolo sentiu de intervir com a pena onde não podia chegar com a voz, a fim de apaziguar litígios, dissipar dúvidas, aconselhar, aplicar remédio a inconvenientes, dirigir e iniciar ao bem, segundo as situações originadas pela vida interna das Igrejas por ele fundadas ou dependentes, de alguma maneira, da sua pregação. Mas nessas contingências é tão grande a variedade de casos e sobretudo a abundância de pensamentos e de afetos que afluem à mente e ao coração de Paulo, que se pode afirmar que nas páginas inspiradas do Apóstolo se expande toda a substância da doutrina e da moral cristã. Conforme o uso dos antigos escritores, S. Paulo não escrevia de próprio punho as suas cartas, mas ditava-as a algum amanuense profissional de sua confiança. Pelo menos de uma (Rom 16,22) conhecemos o nome de quem a escreveu. Paulo punha, no fim, de seu próprio punho, a assinatura, com algumas palavras de saudação ou bênção. Em toda a antiguidade oriental, as cartas começavam sempre com a fórmula estereotipada: "Fulano [remetente] e beltrano [destinatário] saudações" (temos exemplo disso em At 23,26). O Apóstolo seguiu o uso corrente, mas em lugar da saudação ordinária introduziu o augúrio cristão: "graça e paz", repetido também no fecho, em lugar do vulgar " ;Passe bem", e de ordinário adornado com o nome de Jesus Cristo. Do uso de ditar as cartas, que tomava tempo à reflexão, costumavam derivar defeitos de composição de que um estilista como S. Jerônimo tão freqüentemente se desculpa. Esta é a causa, pelo menos parcial, da aspereza não rara do estilo de S. Paulo, não obstante saiba ele manejar egregiamente a língua grega do tempo. A maior parte, porém, dessa aspereza (anacolutos, elipses, hipérbatos etc.) deve-se ao turbilhão das idéias que lhe afluíam à mente e à profundidade e novidade dos pensamentos que buscavam uma expressão própria. Nem sempre ê fácil a leitura dos escritos do grande Apóstolo, mas com o estudo paciente, ruminando-os demoradamente, tira-se-lhes em abundância o suco mais substancioso e ao mesmo tempo mais delicado. As cartas de S. Paulo são dirigidas, em primeiro lugar, às Igrejas ou pessoas segundo as quais são intituladas, mas ele próprio, o grande Apóstolo, já convidava à comunicação dessas suas cartas de uma Igreja para outra (Col 4,16). As trocas deviam ser freqüentes entre aquelas comunidades fervorosas que ele fundara. Destarte foram-se formando várias coleções das epístolas paulinas, que acabaram confluindo no epistolário paulino admitido no cânon de todas as Igrejas e que chegou até nós. Esse cânon não compreende a totalidade das cartas que se originam do Apóstolo. Na 1Cor 5,9 há notícias de uma epístola anterior, cujos vestígios se perderam totalmente; entre a primeira e a segunda carta aos mesmos coríntios, intercalou-se, como opinam autores de renome, outra ainda. Além disso, a epístola aos laodicenses, mencionada em Col 4,16 não se identifica com a dos efésios (veja Introdução a esta), deve-se dizer que também essa se perdeu.
  • 88.
    INTRODUÇÃO À EPÍSTOLAAOS ROMANOS Entre todas as epístolas que nos restam do apóstolo Paulo, esta, escrita aos romanos, ocupa no consenso universal, o lugar mais eminente. Com ampla visão, com vigor de pensamento, de estilo, ele expõe nesta epístola o Evangelho de Cristo, que, já por longos anos, vem pregando em suas viagens missionárias pelo mundo greco-romano: o fiel, seja pagão seja judeu, com a fé no Evangelho participa da justiça de Deus, justiça que nele vai crescendo sem cessar, tornando-se sempre mais perfeita (cf. 1,16). Desenvolve o Apóstolo a sua tese com demonstração progressiva e bem concatenada, na qual não procede à maneira de mestre especulativo, frio e sistemático, e sim, na própria exposição doutrinal, revela o seu caráter ardente, a sua aguda sensibilidade, o seu coração que vibra de entusiasmo por Cristo, a sua inteligência exuberante de idéias que fluem numa seqüência rápida e como que a se atropelarem. Nada há de mais pessoal do que as epístolas de S. Paulo. Na Epístola aos Romanos não trava polêmicas, nem pretende refutar algum erro em particular ou combater os costumeiros judaizantes, que lhe criavam obstáculos à pregação. Parte notável da comunidade cristã de Roma compunha-se de cristãos oriundos do paganismo. Muitos dentre eles, escravos ou libertos, eram de condição servil. Alguns pertenciam a classes mais elevadas. Havia, outrossim, certo número de judeus convertidos. Paulo dirige-se, por esse motivo, de modo especial aos fiéis de proveniência judaica, mas com facilidade passa de um a outro grupo. Dispôs a Providência que Paulo, quando prisioneiro, apelasse para César, na presença do governador Festo (At 25,12), razão por que foi remetido para Roma, algemado, onde permaneceu durante dois anos completos, dando testemunho de Cristo (At 28,30-31). Dessa forma, teve ele, juntamente com S. Pedro, a honra de ser fundador da Igreja de Roma. A Epístola aos romanos foi escrita em Corinto, como se pode concluir de muitos indícios, mesmo que se não tome em conta o c. 16. Dirigira-se o Apóstolo para essa cidade, passando pela Macedônia, depois do levante provocado contra ele pelos ourives efésios (At 19,21--20,1). Encontrava-se, nesse tempo, já em preparativos para seguir a Jerusalém, a fim de levar as esmolas coletadas pelas Igrejas da Acaia e pelas da Macedônia, que se destinavam aos pobres daquela comunidade cristã. Deve-se, portanto, fixar como data para essa carta o fim da terceira missão apostólica e, com toda a probabilidade, os primeiros meses do ano 57, antes da Páscoa. Não obstante haja sido negada por alguns hiper críticos, a autenticidade manifesta da Epístola aos Romanos já não comporta discussão, pois os argumentos extrínsecos, e intrínsecos são tantos, que sua demonstração alcança plena evidência. Sumário Introdução (1,1-17). Cabeçalho (1, 1-7). Paulo e a Igreja de Roma (1,8-15). Tema da epístola: a salvação para todos consiste em ter fé no Evangelho (1, 16-17). I parte, dogmática (1,18-11,36). I. NECESSIDADE DO EVANGELHO PARA A JUSTIFICAÇÃO (1,18-4,25). 1. Sem fé em Jesus Cristo não há salvação (1,18-3,20). Os pagãos, privados da fé, descambaram, por própria culpa, para as mais abomináveis aberrações (1,18-32). Mas os judeus, ainda que se gloriem da lei, são pecadores como os pagãos (2,1-16); transgridem a lei e não têm o espírito da circuncisão (2,17-29). Conseqüentemente, todos os homens, tanto pagãos como judeus, são pecadores (3,1-20). 2. A justificação por meio da fé em Jesus Cristo (3,21-4-25). Quem crê, é justificado gratuitamente, sem as obras da lei (3,21-31). Essa verdade foi ensinada pela lei e pelos profetas. Exemplo de Abraão, justificado por meio da fé, e não mediante a lei, nem pela circuncisão (4,1-25). II. FRUTOS DA JUSTIFICAÇÃO (CC. 5-8), 1. Paz e reconciliação com Deus e esperança certa da glória futura (5,1-11), Adão, com sua desobediência, foi causa de pecado para todos (5,12-21). 2. Libertação da escravidão do pecado mediante o batismo. Mortos para o pecado, devemos viver para Deus (c 6). 3. Libertação da escravidão da lei, que era ocasião de pecado para o homem privado da graça, pois ela levava a conhecer o mal, sem que proporcionasse a força para o evitar (c. 7). 4. Filiação adotiva concedida por Deus e herança certa da vida eterna (8,1-30). Hino final ao amor de Cristo (8,31-39). III. PROBLEMA DA INCREDULIDADE DOS JUDEUS (CC. 9,11) . 1. Tristeza do Apóstolo (9,1-5). Deus não falhou em suas promessas, nem pode ser acusado de injustiça (9,6- 18). Há um mistério em sua maneira de agir, mistério que para nós é impenetrável. Deus é senhor de seus dons (9,19-29). 2. Os judeus são responsáveis por sua reprovação, porque não quiseram compreender que a salvação está na fé em Jesus Cristo, anunciado através do Evangelho (9,30-10,21). 3. A reprovação dos judeus é parcial e temporária (11,1-24); também eles hão de se converter, quando tiver chegado a seu termo a conversão dos pagãos (11, 25-32). Hino à sabedoria, bondade e onipotência de Deus (11,33-36). II parte, moral (cc. 12,1-15,13). 1. Deveres dos cristãos em suas relações recíprocas, fundadas sobre a vontade de Deus e reguladas por ele (c. 12). 2. Deveres para com as autoridades (13,1-7). O mandamento da caridade, resumo de todos os deveres sociais (13, 8-10). Exortação à vigilância (13,11-14). 3. Deveres para com os cristãos fracos na fé (14,1-15,13). Epílogo: Intenção de Paulo (15,14--33). Recomendações e saudações (16, 1-24). Doxologia final (16,25-27).
  • 89.
    PRIMEIRA EPÍSTOLA AOSCORÍNTIOS Como hábil general, o Apóstolo procura os pontos mais estratégicos de onde, como de centros, se pudesse irradiar a luz do Evangelho. Por isso, na sua segunda viagem missionária deixa Atenas, onde a vã e soberba sabedoria humana era refratária à pregação do cristianismo, e parte para Corinto. Corinto era a capital da província romana da Acaia. Isso devido à sua admirável posição, dominadora de dois mares, às letras e às artes, e sobretudo ao comércio e às riquezas que para lá afluíram da Itália e da Ásia. Era cidade muito florescente e importantíssima, freqüentada, especialmente por causa do comércio, por gente de todos os países, de todas as raças e de todas as camadas sociais. Havia também numerosos judeus que tinham aí também, como em outras cidades, pelo menos uma sinagoga. Corinto era proverbialmente conhecida por sua corrupção moral. Na Acro corinto, ao lado do culto de Isis e de Serápis, praticava-se o culto de Vênus Afrodite, que tinha aí o seu templo. Mil jovens sacerdotisas, cortesãs complacentes, eram adidas ao serviço da deusa do prazer. No meio dessa grande população tão variada, constituída sobretudo de escravos e da plebe, Paulo deu início à sua pregação, como costumava fazer, na sinagoga dos judeus, mas entrando em graves dissensões com eles, dirigiu-se aos gentios (At 18,6). Sua pregação foi coroada de grande êxito. Na terceira viagem missionária, o Apóstolo fixou sua residência particularmente em Éfeso, capital da província romana da Ásia. Mas, como um pai solícito pelas comunidades cristãs que fundara, mantinha-se sempre informado a respeito do seu estado, procurando ir ao encontro das suas dificuldades e mantê-las no fervor primitivo. Haviam surgido divisões entre os cristãos de Corinto: partidos mais inclinados a um do que a outro pregador do Evangelho. Entretanto, uma delegação da mesma comunidade de Corinto, composta de Estéfanas, Fortunato e Acaio, foi a Éfeso, a fim de pedir a Paulo a solução de vários casos de consciência (cf. 16,17, nota). Foi esse conjunto de circunstâncias que motivou a primeira Epístola aos coríntios. Nela Paulo trata dos mais variados argumentos, começando, na primeira parte, por corrigir os abusos, para, na segunda, responder aos quesitos que lhe foram propostos. Mas como sempre costuma fazer, eleva-se de questões particulares a princípios e motivos gerais e sublimes, aos fundamentos da religião, ou melhor, pode- se dizer que une quase todas as questões, embora tão disparatadas, com o fio de ouro da doutrina do corpo místico, do qual Jesus é a cabeça e os cristãos são os membros. A esta epístola conferem um interesse todo particular as preciosas notícias que nos oferece acerca da vida da Igreja apostólica a respeito da celebração do ágape e dos mistérios sagrados e a respeito dos dons carismáticos. Foi escrita em Éfeso, pouco depois das festas pascais (5,7), na primavera do ano 56, ou mais provavelmente do ano 57, poucos meses antes de o Apóstolo deixar a cidade (cf. 16,8). Sumário Saudação augurai (1,1-3) e agradecimento a Deus pelos benefícios que lhes concedeu (1,4-9). I parte - reprovação dos abusos (1, 10-6,20). 1. Partidos que se formaram com relação aos diversos pregadores do Evangelho (1,10-17). Paulo pregou a doutrina da cruz com simplicidade, em oposição à sabedoria humana, que é contrária à sabedoria divina (1,18- 2,11); ele a anuncia aos perfeitos e aos espirituais, e não aos carnais (2,12-3,4). Os pregadores são colaboradores de Deus, dispensadores dos seus mistérios, sujeitos ao juízo divino (3,5-4,5). Exorta a corresponder generosamente às fadigas dos apóstolos e ao afeto paterno dele, Paulo (4,6-13), e anuncia o envio de Timóteo e a sua própria ida (4,14-21). 2. A tolerância para com o incestuoso: censura por esse procedimento e excomunhão do escandaloso (5,1-8); como proceder com os pecadores públicos (5,9-13). 3. Os litígios entre os cristãos e o recurso aos tribunais pagãos (6,1-11). 4. O vício impuro (6,12-20).
  • 90.
    II parte -resposta â diversas questões (cc.7-15). 1. Matrimônio e celibato: legitimidade do matrimônio e direitos dos esposos (7,1-11); indissolubilidade do vínculo conjugal (7,1-14); caso de dissolução (7,15-17); circuncisão e escravidão (7,18-24); virgindade e viuvez (7,25-40). 2. As carnes imoladas aos ídolos: normas a serem seguidas, tendo-se em conta os fracos na fé, para evitar todo o escândalo (c. 8); é preciso saber renunciar às coisas lícitas, às quais se tem direito (c. 9), e evitar atos idolátricos (10,1-13); casos práticos (10,14-11,1). 3. Ordem nas assembléias litúrgicas: as mulheres usem o véu (11,2-16); abusos a se evitarem na celebração do ágape e dos mistérios sagrados (11,17-22); a instituição da eucaristia (11,23-34). 4. Os carismas e seu uso: noções gerais sobre os carismas (12,1-30); a caridade é superior a eles (12,31- 13,13); deve-se preferir o dom da profecia ao da glossolalia (14,1-25); regras que se devem seguir (14,26- 40). 5. A ressurreição dos mortos: certeza da ressurreição de Cristo, à qual está ligada indissoluvelmente a nossa ressurreição (15,1-34); o modo da ressurreição explicado com analogias tomadas das coisas materiais (15,35- 49); a transformação dos corpos não é só possível, mas necessária (15,50-58). Epílogo: o Apóstolo lembra a coleta pelos pobres de Jerusalém (16,1-4); anuncia seu projeto de uma viagem à Macedônia e à Grécia (16,5-12); recomendações particulares (16,13-18); saudações (16,19-20); assinatura autografa e votos (16,21-24).
  • 91.
    SEGUNDA EPÍSTOLA AOSCORÍNTIOS Cerca de seis meses após a primeira Epístola aos coríntios seguiu esta segunda, ocasionada pela mudança de condições na Igreja de Corinto. Como transparece de um exame atento dos textos das duas epístolas, os acontecimentos ter-se-iam desenrolado, com toda a probabilidade, da seguinte maneira: Tendo aparecido em Corinto inovadores judaizantes, contrários ao Apóstolo, lançam a agitação no seio dessa comunidade, e Paulo vai a Corinto, numa breve visita, a fim de restabelecer a paz (12,14; 13,1-2); essa visita deixa-lhe a alma amargurada por uma ofensa que um cristão faz à sua própria pessoa (2,5;7,12). Voltando a Éfeso, ele escreve aos coríntios (2,3-4.9;7,8.12) uma carta enérgica e severa, que se perdeu (não é a 1Cor, que é calma e tranqüila). Entrementes, envia Tito com a missão de restabelecer a paz na Igreja de Corinto e conseguir um relatório fiel do seu estado e dos sentimentos dos cristãos para com ele. Sobrevindo inesperadamente o violento tumulto dos ourives de Éfeso contra ele (At 19,23-40), Paulo parte e, antes do tempo que ele mesmo havia estabelecido, dirige-se para Trôade, onde marcara encontro com Tito. Não o tendo encontrado aí, passa para a Macedônia, onde, finalmente, encontra Tito, que lhe transmite as mais consoladoras notícias. Assim consolado, o Apóstolo reenvia Tito a Corinto, com a finalidade de organizar a coleta em favor dos pobres de Jerusalém. Entrementes escreve, talvez de Filipos, no fim de sua terceira viagem missionária, no ano de 57, a primeira e a segunda parte da segunda epístola, que possuímos. Serenara o céu em Corinto, mas ainda havia nuvens escuras, cheias de tempestade: os judaizantes, depois da partida de Tito, haviam retomado a sua campanha de acusações e de calúnias contra Paulo, a fim de o enxovalhar e tolher-lhe a autoridade. O Apóstolo foi informado prontamente a esse respeito; retoma sua epístola e, numa terceira parte, ataca os seus adversários, os falsos apóstolos, os ministros de satanás, como ele os chama, com o máximo vigor. Esta segunda epístola aos coríntios é a mais pessoal dentre as epístolas paulinas. Nela sente-se vibrar mais intensamente os diversos sentimentos que agitam o espírito tão sensível de Paulo. "Paulo não escreveu nada de mais eloqüente, nada de mais comovente, de mais apaixonado do que esta epístola. A tristeza e alegria, o temor e a esperança, a ternura e o desdém vibram nela com a mesma energia" (F. PRAT). Já na primeira parte encontram-se algumas amostras polêmicas contra seus adversários, aos quais ataca depois com todas as forças, na terceira parte, talvez por causa das notícias que recebera de Corinto enquanto ditava a carta, trabalho esse que devia durar muitos dias ou mesmo várias semanas. Não existem, pois, razões bastante plausíveis para pôr em dúvida a sua integridade, como querem alguns críticos modernos, e fazer da segunda Epístola aos coríntios um mosaico variegado, formado de várias cartas escritas pelo Apóstolo. A primeira Epístola aos coríntios faz--nos reviver grande parte da vida cristã da Igreja primitiva; a segunda é uma expressão prática da vida do Apóstolo, inteiramente consagrada à causa de Jesus Cristo e ao bem dos seus fiéis, e movido unicamente por motivos sobrenaturais. Sumário Cabeçalho e saudação (1,1-2). Ação de graças a Deus pelas consolações que lhe concedeu, para poder consolar também os outros (1,3-11). I parte - Apologia do próprio ministério (1,12-7,16). 1. Paulo defende-se da acusação de mutabilidade e de inconstância, e de habilidade demasiado humana (1,12-2,17). 2. Defende-se da acusação de arrogância e de orgulho, com a glorificação do ministério apostólico (3,1-6,10). 3. Exorta a corresponder ao seu amor, a evitar os vícios dos gentios (6, 11-7,16). II parte - Disposições para a coleta (8,1-9,15). 1. Motivos para se mostrarem generosos (8,1-15). 2. Recomenda Tito e os demais delegados (8,16-24). 3. Grandes benefícios provenientes da esmola (9,1-15). III parte - Defende-se de seus adversários (10,1-13,10). 1. Responde à acusação de debilidade (10,1-11). 2. Responde à acusação de ambição (10,12-18). 3. Depois de ter pedido desculpas, vê-se constrangido a enumerar os seus títulos de glória (11,1-12,18). 4. Apreensões e inquietações (12, 19-13,10). Epílogo: Recomendações, saudações, votos finais (13,11-13).
  • 92.
    EPÍSTOLA AOS GÁLATAS Quemsão os gálatas? Quando foi escrita a Epístola aos gálatas? São duas questões conexas, discutidas ainda em nossos dias, sem que se lhes possa dar uma solução plena e evidente. No tempo de Paulo, a palavra Galácia tinha dois sentidos: 1º etnográfico, significando a Galácia propriamente dita, habitada pelos descendentes dos gauleses que na segunda metade do século III a.C. foram levados, na sua migração, até à Ásia Menor e haviam fixado a sua sede nas regiões sitas entre a Capadócia e o Ponto; 2° administrativo, significando a província romana da Galácia que, além da Galácia propriamente dita, compreendia também várias regiões da Ásia Menor, ao norte da Paflagônia, e parte do Ponto, ao sul da Pisídia, a Licaônia e parte da Frigia. Quem são, portanto, os destinatários da carta aos gálatas? Os gálatas propriamente ditos? Ou os gálatas da província romana da Galácia? Ou ainda exclusivamente os da parte meridional? É certo que estes últimos, os meridionais, foram evangelizados por S. Paulo na sua primeira viagem apostólica, narrada com certa amplitude em At 13, 13-14,25, mas sem alusão alguma à enfermidade a que se refere o próprio Paulo nesta epístola (Gál 4,13). Nas narrações da segunda e da terceira viagem (At 15,35-21,15), não se diz sobre a Galácia, senão que Paulo "atravessou [ou percorreu; cf. 15,41] a Frigia e a região galática" (16,6; 18,23). Qualquer seja a amplitude ou restrição que se queira emprestar a essa expressão geográfica, nem por isso fica claro que nessa "travessia" o Apóstolo haja fundado aí novas Igrejas. Apesar disso, a maioria dos intérpretes modernos pensa que os gálatas da presente epístola sejam os setentrionais da Galácia estritamente dita. Menos numerosos, mas não de menor autoridade, são os que se decidem pela parte meridional da Galácia romana. Cf. Gál 2,1-2. O motivo da carta foi o seguinte: Alguns cristãos vindos do judaísmo e muito apegados às práticas legais, introduziram-se nas Igrejas da Galácia, sustentando que a circuncisão e outras práticas da lei eram necessárias a todos para se salvarem e serem herdeiros das promessas messiânicas (cf. At 15,1). Era distorção do genuíno Evangelho de Cristo que Paulo pregava. Aqueles turbulentos, para insinuarem com mais segurança os seus erros, afirmavam que Paulo não era verdadeiro apóstolo, por não ter recebido a missão diretamente de Cristo; que estava em desacordo com os verdadeiros apóstolos e que era um oportunista que andava à procura unicamente de favores dos homens. Sob os embates dessa violenta tempestade, a fé daquela jovem cristandade corria o perigo de naufragar miseravelmente. Paulo não tardou a vir em auxílio dos seus queridos gálatas, para sustentá-los na fé, escrevendo a epístola na qual refuta as acusações que levantaram contra ele e expõe a verdadeira doutrina. O ponto fundamental dessa epístola, a inutilidade da lei para a justificação e salvação cristã, é também o objeto da primeira parte da epístola aos romanos (cc. 1-4) e, portanto, a epístola aos gálatas está bem colocada antes e junto da dos romanos, sem prejuízo da distância de tempo existente entre uma e outra: um ano no máximo, se a presente epístola foi dirigida à Galácia setentrional; de cerca de seis ou sete na opinião contrária mencionada acima. A autenticidade da Epístola aos gálatas, impugnada apenas por alguns críticos racionalistas radicais, não pode ser razoavelmente posta em dúvida, tantos são os argumentos internos e os documentos que a comprovam. Sumário Cabeçalho e saudações (1,1-5); o Evangelho pregado aos gálatas é o verdadeiro Evangelho de Cristo (1,6-10). I parte - apologética: Paulo reivindica a sua autoridade apostólica (1,11-2,21). 1. Recebeu a sua missão diretamente de Cristo (1,11-12). 2. O seu Evangelho foi aprovado por Pedro (2,1-10). 3. O incidente de Antioquia: Paulo defende a sua doutrina perante Pedro (2,11-21). II parte - dogmática: a justificação obtém-se mediante a fé e não mediante as obras (3-4). Paulo demonstra essa verdade: 1. pela experiência dos gálatas (3, 1-5); 2. pela Sagrada Escritura: o exemplo de Abraão (3,6-14); 3. pela natureza da lei e da promessa (3,15-18); 4. pelo fim da lei que era como um pedagogo para conduzir os homens a Jesus Cristo (3,19-4,11). Exortação com efusão do coração (4,12-20). 5. Inutilidade da lei (4,21-31). III parte - moral: (5,1-6,10). 1. Deve-se conservar a liberdade que Jesus Cristo nos deu (5,1-12). 2, Os fiéis devem praticar a virtude, a abnegação, a caridade, a beneficência (5,13-6,10).
  • 93.
    Epílogo: Paulo retomade próprio punho a parte polêmica e moral (6,11-16); saudações e bênção (6,17-18).
  • 94.
    EPÍSTOLA AOS EFÉSIOS ACarta aos efésios não possui o desenvolvimento e o tom de uma carta íntima e familiar, como aquela aos Filipenses, nem o Apóstolo combate, com o vigor e o arrojo que lhe são próprios, alguns erros particulares, como nas cartas aos gálatas e aos coríntios. Excetuando-se algumas fórmulas convencionais, faltam a essa carta as costumeiras saudações a pessoas particulares e as notícias pessoais do Apóstolo, encontradas nas demais cartas e que não deveriam faltar numa carta dirigida à comunidade de Éfeso, onde Paulo havia trabalhado e sofrido diversos anos. Ao que parece (cf. 1,15;3,2), ela foi escrita a cristãos que o Apóstolo não conhecia pessoalmente. Por outro lado, podemos assiná-la com certeza a um determinado período da vida de S. Paulo, isto é, ao período do primeiro cativeiro romano, quando escreveu a Carta aos Colossenses. Efetivamente, possui muitos pontos de contato e grandes analogias com esta última, quer pelo tema tratado, quer pelo estilo e pelo vocabulário. Col, nalguns pontos de doutrina, é o esboço de Ef. Querendo oferecer um quadro completo de doutrina em torno de Cristo, o Apóstolo, depois de indicar (1,10,21-22) o primado de Jesus Cristo, assunto já desenvolvido em Col 1,15-24, retoma e desenvolve amplamente dois temas tratados brevemente em Col: antes de mais nada "o arcano", isto é, a universalidade da salvação, não reservada exclusivamente aos judeus, mas oferecida também aos gentios, em Cristo Jesus, e a seguir a verdade da Igreja, corpo místico de Cristo, do qual ele é a cabeça. Destas verdades, o Apóstolo deduz conseqüências práticas de ordem moral. Evidentemente, as duas cartas foram ditadas por Paulo com breve intervalo de tempo e foram confiadas ao mesmo portador, Tíquico (cf. 6,21-22; Col 4, 7,9). Cumpre, portanto, concluir que a Carta aos efésios nada mais é do que uma carta pastoral encíclica, destinada às comunidades cristãs da província da Ásia, com o objetivo de instruí-las sobre pontos importantes de doutrina. Ela deve ter tomado o nome de "Carta aos efésios" da igreja-mãe e mais ilustre, talvez porque foi entregue a esta em primeiro lugar por Tíquico. Alguns críticos modernos pretendem ver nesta a carta que Paulo diz (em Col 4,16) ter enviado à Igreja de Laodicéia. Mas, em tal hipótese, o Apóstolo, como fez em Col, teria dado suas notícias pessoais aos laodicenses e não teria deixado de acrescentar as saudações de praxe. Ademais, como explicar o título de uma carta "aos efésios", afirmado por documentos antigos, ao passo que somente o herege Marcião, segundo expressão de Tertuliano (Adv. Mare, v, 7), diz que foi escrita aos laodicenses? A carta foi escrita em Roma, pelos fins da primeira prisão romana, e não durante a primeira detenção em Cesaréia, como sustentam alguns críticos modernos. A autenticidade de Ef, negada por alguns críticos acatólicos, é resolutamente mantida e defendida por numerosos outros críticos, também não católicos. Tem a seu favor o peso unânime dos testemunhos da antigüidade cristã inteira. Igualmente o estilo, o vocabulário, próprios do Apóstolo e, acima de tudo, a doutrina do corpo místico, a qual já emerge em cartas precedentes e é magistralmente desenvolvida em Ef, oferecem-nos a marca inconfundível de S. Paulo. Ê mister repelir decididamente a hipótese, avançada por alguns, de que Ef seja um mosaico marchetado de textos autênticos do Apóstolo e de observações de estranhos. Basta examinar o nexo lógico do pensamento, que se desenvolve progressivamente conforme o plano estabelecido, e o estilo inteiramente próprio do Apóstolo. Sumário Cabeçalho e saudação aos destinatários (1,1-2). I parte, dogmática: o divino arcano da nossa união com Cristo (1,3-3,21). 1. Arcano decretado por Deus desde a eternidade. Ê a nossa filiação adotiva para com Deus pela nossa união em Cristo (1,3-6); Jesus Cristo nos mereceu esta filiação com o seu sangue (1,7-8); vocação dos judeus e chamada dos gentios, que o Espírito Santo confirma com seus dons (1,9-14). 2. Arcano realizado na Igreja. Jesus Cristo é a cabeça da Igreja, que é o complemento dele (1,15-23); chamada dos gentios e dos judeus à salvação por meio de Cristo, que os reconcilia num só corpo e os reúne num só edifício espiritual (2,1-22). 3. Arcano revelado. Paulo recebeu a missão de anunciar a universalidade da salvação em Jesus Cristo (3,1-13) e suplica a Deus que os fiéis possam compreender a sua imensa caridade (3, 14-19). Doxologia (3,20-21). II parte, moral (4,1-6,20). 1. Virtude principal da vida cristã: caridade na unidade, pureza de vida (4,1-24). 2. Advertências gerais a todos os cristãos (4,25-5,20). 3. Deveres dos membros da família cristã (5,21-6,9). 4. A armadura do cristão (6,10-20). Epílogo: missão de Tíquico (6,21-22); saudação (23-24).
  • 95.
    EPÍSTOLA AOS FILIPENSES S.Paulo levou a luz do Evangelho a Filipos na sua segunda viagem missionária (anos 50-53). Depois de ter confirmado na fé as Igrejas fundadas na sua primeira missão, Paulo nutria o desejo de passar para a Bitínia, juntamente com Silas e Timóteo; mas uma revelação divina conduziu-o a Trôade, onde, em visão, lhe foi mostrado um macedônio implorando o seu auxílio (At 16,9). Deus chamava-o a um novo e vasto campo de apostolado no continente europeu. Aportou em Neápolis, hoje Kavala, de onde seguiu para Filipos, acompanhado pelos seus colaboradores, aos quais se unira também Lucas (At 16,10). Este último, testemunha ocular, narrados com cores vivas a pregação apostólica, os frutos das conversões, os incidentes extraordinários ocorridos, a prisão de Paulo e Silas, seus sofrimentos e a libertação milagrosa. A Igreja de Filipos perseverou sempre firme na fé afeiçoada a Paulo, e ocupou o primeiro lugar no seu coração de pai. Visitou-a outras vezes, mais provavelmente quando, depois dos tumultos de Éfeso, passou para a Macedônia com destino à Grécia e, depois, no seu retorno (At 20,1-6), e quase certamente após a sua primeira prisão em Roma (1Tim 1,3). Paulo, que jamais aceitou ajuda das outras Igrejas, abriu uma exceção para a Igreja de Filipos, aceitando suas ofertas (4,16; 2Cor 11, 8-9). Assim quiseram proceder os Filipenses quando tiveram notícia de que o Apóstolo se encontrava preso por Cristo, e lhe envia um representante, Epafrodito, para levar-lhe os seus presentes e assisti-lo no cárcere. Recuperando-se Epafrodito de uma grave enfermidade e devendo retornar a Filipos, Paulo fê-lo portador de uma carta para essa comunidade cristã. Essa Carta aos Filipenses foge ao ciclo das demais cartas paulinas e possui uma fisionomia inconfundível. Nela, Paulo não é tanto o doutor e o mestre, quanto o pai, a entreter-se afavelmente com seus caros neófitos; comunica-lhes suas notícias, exorta-os à virtude, propondo-lhes o exemplo de Jesus Cristo, previne-os contra os falsos irmãos e agradece-lhes a afetuosa generosidade. É a leitura da alegria cristã a transbordar do coração de Paulo prisioneiro, desejoso de transfundi-la no coração dos seus cristãos. A autenticidade da Carta aos Filipenses é hoje admitida pela totalidade dos críticos, comprovada por todos os testemunhos extrínsecos e, acima de tudo, pelos caracteres paulinos intrínsecos, in-controvertíveis, que tornam impossível a hipótese de uma falsificação. Foi escrita durante a primeira prisão romana, conforme a opinião tradicional, e inexistem razões plausíveis para afastar-se dela a fim de atribuí-la a uma suposta prisão em Éfeso. As alusões ao "pretório" (1,14) e à "casa de César" (4,22) entendem-se perfeitamente dentro da opinião tradicional. De resto (e isso parece decisivo), os Atos, que se estendem amplamente sobre os acontecimentos de Éfeso, não aludem sequer longinquamente à pretensa prisão de Paulo, que, ademais, deveria ter sido prolongada, como se depreende da nossa carta. Filipenses tem grande valor apologético, levando-nos a apalpar o poder transcendente da mensagem de Cristo, anunciada pelos apóstolos, que em tão breve tempo transformou aqueles pagãos e os uniu a Cristo e entre si com um vínculo indissolúvel de caridade; leva-nos a conhecer o fervor daquela comunidade, que tem por fundamento a fé em Cristo Jesus e por norma constante de vida os seus ensinamentos e os seus exemplos.
  • 96.
    EPÍSTOLA AOS COLOSSENSES Colossas,cidade da Frigia, situada no vale do Lico, floresceu bastante antes de Cristo; depois decaiu por causa da prevalência das duas cidades vizinhas: Hierápolis e Laodicéia; atualmente restam apenas poucas ruínas e, quiçá, ter-se-ia até olvidado o seu nome, se a epístola de S. Paulo não a houvesse celebrizado. A Igreja de Colossas não foi fundada nem visitada pelo Apóstolo (1,4-9; 2,1). Fundou-a Epafras, "um dos vossos", um gentio convertido à fé pelo Apóstolo (cf. 4,12 em oposição a 11), quando se encontrava em Éfeso, no decurso de sua terceira viagem apostólica. A comunidade de Colossas era formada, em grande parte, por étnico-cristãos, se bem que não faltassem convertidos entre os hebreus, numerosos no vale do Lico. Era uma comunidade fervorosa e bem instruída na fé, como resulta claramente desta carta; mas rondava-a um grande perigo proveniente de algumas doutrinas errôneas, que começavam a serpear entre os cristãos, disseminadas por falsos doutores. Paulo, informado da situação de Igreja de Colossas por Epafras, que viera visitá-lo na prisão, escreveu aos Colossenses, subordinados à sua jurisdição e muito afeiçoados a ele, com o objetivo de precavê-los contra os erros então incipientes: culto de seres espirituais intermediários entre Sumário Cabeçalho (1,1-2) e ação de graças a Deus pelos benefícios concedidos aos Filipenses (1,3-11). Corpo da carta (1,12-4,9). 1. Notícias pessoais: a prisão de Paulo e a pregação do Evangelho (1,12-17); seus sentimentos (1,18-26). 2. Exortação à caridade e à humildade (1,27-2,4), a exemplo de Jesus Cristo (2,5-11), e ao fervor (2,12-18). 3. Missão de Timóteo e de Epafrodito (2,19-30). 4. Advertências contra os judaizantes (3,1-11) e exortação à perfeição (3, 124,1) e à paz (4,2-9). Epílogo: Agradecimento pelos presentes recebidos (4,10-18) e saudações finais (4,19-23). Deus e o homem, que Paulo chama de "anjos" (2,18), como se Jesus não fora o único mediador; restrições nas comidas e nas bebidas; observância de festas anuais, de novilúnios e de sábados. Paulo alude ainda à circuncisão, talvez recomendada pelos inovadores, embora não imposta. É assaz difícil determinar a natureza desses erros combatidos por S. Paulo, mas pode-se afirmar, com toda a probabilidade, que são derivações do judaísmo. Inexistem razões para recorrer aos germes do gnosticismo, desenvolvido mais tarde, no século II, para encontrar a origem de tais erros. Existiam, efetivamente, então, seitas judaicas fortemente propensas a um ascetismo rígido e a idéias errôneas sobre as hierarquias angélicas; seitas que facilmente encontraram adeptos também na Frigia, cujos habitantes eram inclinados a cultos mistéricos. A tais erros, o Apóstolo opõe um esplêndido quadro sintético de Jesus Cristo e da sua obra, não apenas sob o aspecto soteriológico, mas também cósmico. Jesus detém o primado sobre a criação inteira, da qual é a causa eficiente, exemplar e final, e com a redenção por ele efetuada restaura no universo a ordem querida pelo Criador. É uma das mais belas páginas do epistolário paulino, brotada do seu coração pleno de amor pelo seu Mestre: e é ainda o ponto culminante do seu pensamento em torno da obra salvífica de Jesus Cristo. A carta, segundo opinião tradicional, foi escrita em Roma por volta do fim da primeira prisão romana (ano 63), juntamente com a Carta aos efésios e o bilhete a Filêmon, e, confiada a Tíquico, o "ministro fiel" (4,7), encarregado de fazê-la chegar aos destinatários. Deve ser descartada sem hesitação a hipótese de ter sido redigida durante uma suposta prisão em Éfeso, à qual os Atos não fazem a mínima referência. Tampouco são suficientes as razões de alguns críticos protestantes, ao lado de alguns católicos, para atribuí-la ao tempo da prisão em Cesaréia (anos 57-59). A autenticidade da Carta aos Colossenses é hoje admitida pela quase totalidade dos críticos, inclusive protestantes e racionalistas. Ela tem, para aboná-la, o peso de toda a tradição cristã, e o próprio exame da carta, no que tange do vocabulário e ao estilo, atesta sua origem paulina. Algumas particularidades explicam-se facilmente pela diversidade do argumento e dos conceitos a exprimir. Sumário Introdução (1,1-14), cabeçalho (1,1--2), ação de graças a Deus pelo progresso dos Colossenses (1,3-8) e oração para o porvir (1,9-14). I parte, dogmático-polêmica (1,15-2, 23): 1. Preeminência de Jesus Cristo, filho de Deus, cabeça do universo criado, cabeça da Igreja (1,15-20). Ele nos reconciliou com Deus mediante o seu sangue (1,21-24). 2. Paulo é o Apóstolo dos gentios e cumpre o seu ministério também para as igrejas da Ásia (1,25-2,5). 3. Contra os falsos doutores: em Cristo habita a plenitude da divindade e dele somente vem a salvação em tudo (2,6-15); conseqüências práticas para os Colossenses (2,16-23).
  • 97.
    II parte, moral(3,1-4,6). 1. Os cristãos, unidos e incorporados em Cristo, devem levar uma vida de virtude e de santidade (3,1-17). 2. Deveres mútuos dos esposos, dos pais e dos filhos, dos escravos e dos patrões (3,18-4,1). 3. Deveres de oração, especialmente por Paulo, e de apostolado (4,2-6). Epílogo: missão confiada a Tíquico (4,7-9), saudações (4,8-15), recomendações (4,16-17), assinatura autografa (4, 18).
  • 98.
    PRIMEIRA EPÍSTOLA AOSTESSALONICENSES Com as marcas de sangue e os vergões nos membros, produzidos pelos açoites que receberam em Filipos, Paulo e Silas, libertados do cárcere e rogados pelos magistrados a abandonarem a cidade, refugiaram-se em Tessalônica (At 16, 22-24). Tessalônica, hoje Salonica, era, por causa da posição que ocupava, importante centro comercial. Paulo pensou em fazer dela um centro de irradiação de apostolado. Seus habitantes eram na maioria gentios, mas não faltavam também judeus, atraídos pelo comércio e pelo desejo de lucro. Paulo, de acordo com o seu costume, dirigiu-se primeiro aos seus concidadãos, que na intenção divina deviam ser as primícias do Evangelho, e por três sábados consecutivos anunciou-lhes Jesus Cristo na sinagoga, demonstrando pelas Sagradas Escrituras que Jesus era o Messias prometido e o Filho de Deus (At 17,2-3). O fruto, não proporcional ao trabalho, foi escasso; poucos judeus abraçaram o cristianismo, mas em compensação, graças à pregação que Paulo e Silas continuaram por alguns meses, bom número de pagãos converteu-se à nova religião, entre eles muitos prosélitos e algumas mulheres da nobreza (At 17,14). Os judeus mais recalcitrantes, cheios de inveja, atiçaram os elementos mais irrequietos da plebe e encenaram uma sedição contra Paulo e Silas, os quais, por esse motivo, houveram por bem abandonar a cidade. A nova comunidade cristã, constituída sobretudo de gentios, estava, portanto, exposta a graves perseguições e a perigos na fé. Paulo, depois de chegar a Beréia e a Atenas, imensamente ansioso por seus caros neófitos tessalonicenses, enviou-lhes Timóteo, a fim de os sustentar e confirmar no espírito de união com Cristo: Ele, entretanto, tendo deixado Atenas, passara-se para Corinto que devia tornar-se o principal campo de apostolado da sua segunda viagem apostólica. Aí alcançou Timóteo, já de regresso de sua missão, trazendo ao Apóstolo as mais consoladoras notícias. Os cristãos, afeiçoados a Paulo, eram fervorosos e fortes na fé, mesmo no meio das perseguições. Havia, porém, alguma leve nuvem, resíduos da vida pagã antecedente, em questões de moral, em alguns cristãos, dúvidas a respeito da sorte dos falecidos, na parusia. Paulo, não podendo, como era seu desejo, ir pessoalmente ter com os seus tessalonicenses, escreveu-lhes sua primeira epístola. Ela abre condignamente o epistolário paulino e talvez seja o primeiro escrito inspirado do Novo Testamento, se é que o Evangelho de S. Mateus já não estava escrito e publicado, pois coincidências surpreendentes de vocabulário e de idéias encontradas entre as partes apocalípticas das epístolas aos tessalonicenses e o assim chamado "apocalipse" de S. Mateus (Mt cc. 24-25) fazem-no supor com razão. A carta foi escrita de Corinto, provavelmente no ano 51, ou o mais tardar no início de 52, quando Timóteo se encontrava com Paulo. De fato, como se infere da inscrição de Delfos, publicada em 1905, Galião, a cujo tribunal foi levado Paulo (At 18,11-13), chegou a Corinto como procônsul da Acaia provavelmente na primavera de 52, quando Paulo já se encontrava aí havia dezoito meses. Sumário Cabeçalho e saudação (1,1). I parte (1,2-3,13): Paulo agradece ao Senhor pelo modo com que os tessalonicenses receberam o Evangelho, a ponto de servirem de exemplo às outras Igrejas (1,2-10); recorda o seu trabalho apostólico no meio deles, as suas fadigas para não ser pesado a ninguém, a sua ternura materna para com eles (2,1-16); manifesta o desejo de revê-los, alegrando-se com as boas notícias que recebeu por meio de Timóteo (2,17-3,13). II parte (4-5): exortação a evitar alguns vícios (4,1-12); fala da condição dos que já faleceram, à segunda vinda de Cristo (4,13- 18); diz que o tempo da parusia é desconhecido e por isso é necessário conservar-se prontos (5,1-11) e conclui com alguns preceitos morais (5,12-22). Conclusão: votos e saudações, com a recomendação de fazer com que a carta seja lida "a todos os irmãos (5,23-28).
  • 99.
    SEGUNDA EPÍSTOLA AOSTESSALONICENSES A primeira epístola de S. Paulo à comunidade nascente de Tessalonica atingira o seu objetivo de iluminar e consolar os cristãos acerca da sorte dos falecidos, por ocasião da vinda gloriosa de Cristo. O Apóstolo havia integrado, com autorizada precisão e clareza, os ensinamentos de sua catequese oral sobre esse ponto de doutrina. Bem depressa, porém, novas nuvens surgiram no horizonte, ofuscando-o e perturbando as almas. Alguns cristãos, mais enfatuados e entusiastas da proximidade da parusia, difundiam essa persuasão entre os outros, procurando convidá-los, seja com algumas frases mal interpretadas da epístola de S. Paulo, seja com pretensas declarações de carismáticos, que preanunciavam a iminência da vinda gloriosa do Senhor, e também com supostas epístolas do Apóstolo (2Tes 2, 1-2). Conseqüência do estado de alma que se determinara em muitos era uma plena ociosidade, abstenção do trabalho e desinteresse pelas coisas materiais, na expectativa do grande dia. Dominava, portanto, entre os cristãos de Tessalonica um erro teórico e prático, grandemente funesto. Paulo, que se mantinha constantemente informado do estado de sua amada cristandade, intervém 'com outra epístola, a fim de instruir esses neófitos e pô-los de sobreaviso contra os semeadores de falsas doutrinas. Sumário Cabeçalho e saudação (1,1-2). 1. Ação de graças a Deus pela caridade e constância na fé dos tessalonicenses (1,3-5); justo juízo de Deus, que dará a cada um segundo os seus méritos (1,6-12). 2. O tempo da parusia é incerto, não é iminente e será precedido de sinais precursores: a apostasia e a vinda do anticristo (2,1- 4). Os tessalonicenses conhecem o obstáculo que o retém. Tirado este, manifestar-se-á o homem do pecado, que será destruído por Jesus Cristo (2,5-12). Exortação a permanecerem firmes na fé (2,13-17). 3. Preceitos morais, conseqüências práticas da parte doutrinal (3,1-15). Conclusão: votos (3,16), assinatura autografa de reconhecimento (3,17), saudação final (3,18). Infelizmente, devido à falta de alguns elementos da catequese oral de Paulo, permanecemos no escuro a respeito de alguns pontos de sua doutrina escatológica, que permanecerão sempre um enigma insolúvel: quem é o anticristo, qual o obstáculo que o retém etc. Completa o Apóstolo, com sua epístola, os ensinamentos do Evangelho e do Apocalipse no que diz respeito aos últimos acontecimentos do gênero humano e à segunda vinda de Cristo.
  • 100.
    EPÍSTOLAS A TITOE A TIMÓTEO As epístolas que se seguem, uma a Tito e duas a Timóteo, inter-relacionam-se estreitamente pelo assunto, pela data e pelas características formais de que se revestem. Daí o uso moderno de apresentá-las sempre enfeixadas, com a denominação geral de "epístolas pastorais", por versarem sobre as qualidades requeridas nos pastores da Igreja, bem como sobre os deveres que lhes incumbem no governo das comunidades cristãs que lhes são confiadas. Muitos críticos protestantes, liberais e racionalistas, puseram em dúvida, desde o início do século XIX até aos nossos dias, a autenticidade do Apóstolo dos gentios das referidas cartas. Numa modalidade um tanto diversa, críticos recentes quiseram ver nelas uma espécie de florilégio, formado com fragmentos autênticos compilados de cartas de S, Paulo. Encontram-se, todavia, citações dessas cartas e alusões a elas, já nos escritos dos Padres Apostólicos, a partir do fim do século I e do início do século II. Daí por diante a sua autenticidade aparece claramente afirmada pelos santos Padres, pelos escritores e pelos documentos eclesiásticos. Tudo isso evidencia a tradição constante da Igreja. Examinando-as com atenção, verifica-se que tudo quanto está escrito nelas concorda exatamente com o que consta, por outras fontes acerca da vida de S. Paulo, de Timóteo e de Tito e com as condições das comunidades cristãs nos últimos anos da vida do Apóstolo. Paulo encontra em Listra, por ocasião de sua primeira viagem apostólica, a Timóteo e o converte. Por ser ele filho de pai pagão e de mãe judia convertida ao cristianismo, e sendo, por conseguinte, considerado judeu, ele o submeteu, no decorrer de sua segunda viagem, à circuncisão e o leva consigo através da Ásia Menor à Macedônia (At 16,1-4), e ainda, com toda a probabilidade, a Filipos e a Tessalonica. Deixa-o em Beréia (At 17,14), donde Timóteo parte para se encontrar com ele em Atenas. Envia-o em missão a Tessalonica (1Tes 3,2), e ao seu regresso, o recebe em Corinto (At 18,5). Na terceira viagem apostólica encontramos Timóteo em companhia do Apóstolo em Éfeso (At 19,22) e na Macedônia (2Cor 1,1). Sabemos ainda que acompanhou Paulo a Trôade, na Ásia Menor (At 20,4). Reencontramo-lo em Roma, durante a primeira prisão de S. Paulo (Col 1,1; Flp 1,1; Fim 1). Finalmente, ei-lo radicado em Éfeso (ITim 1,3), onde recebe duas cartas do Apóstolo. Quanto a Tito, grego de origem (Gál 2,3), foi também convertido por S. Paulo, de quem veio a ser fiel colaborador. Acompanhou-o na viagem a Jerusalém, por ocasião do Concílio Apostólico (Gál 2,1). Na terceira viagem missionária acompanhou o Apóstolo a Éfeso. Foi enviado a Corinto, com a incumbência de amainar as discórdias e restabelecer a paz naquela Igreja, e, com toda a probabilidade, foi ele o portador de uma severa epístola de S. Paulo, que se perdeu. Foi encontrar-se com Paulo na Macedônia, onde consolou o Apóstolo com as boas notícias que trazia de Corinto (2Cor 2,13). Foi enviado novamente a essa cidade, a fim de fazer a coleta destinada aos pobres de Jerusalém (2Cor 8,16). Notícias posteriores a seu respeito não as possuímos, até que o vamos encontrar em Creta, como destinatário da epístola de Paulo. Note-se que essas indicações relativas a Timóteo e a Tito são confirmadas nas cartas pastorais. O mesmo pode-se dizer de outras informações de pessoas que já conhecemos através dos Atos dos Apóstolos e das demais epístolas de S. Paulo. Além disso, as condições da Igreja descritas nas cartas pastorais, coincidem com as normas que os apóstolos observavam. Se bem que Timóteo e Tito houvessem recebido a sagração episcopal, não eram, contudo, bispos, respectivamente, da Igreja de Éfeso e da de Creta, no sentido atual do vocábulo "bispo" e sim, delegados dos apóstolos, com a missão de supervisionar as referidas Igrejas por um certo período de tempo. Tudo isso é reflexo do estado ainda fluido da organização e da terminologia eclesiástica, que foi lembrado a propósito dos Atos. Aparece em 1Tim 3,8.12 o termo "diácono" para indicar os adidos à administração e à beneficência (cf. At 6,1- 6), mas o mesmo termo encontra-se já em Flp 1,1. O conjunto das observações precedentes constitui um poderoso sustentáculo da autenticidade das "epístolas pastorais", negadas, em geral, hoje em dia, por heterodoxos, pelo fato de apresentarem, como alegam, linguagem e estilo diversos dos escritos autênticos de S. Paulo. Observam, por exemplo, que nelas ocorrem cerca de 300 vocábulos não empregados nas epístolas do Apóstolo. Todavia, devemos lembrar que a diversidade de tema e outras circunstâncias trazem naturalmente consigo variações de vocabulário e aqui entra, além disso, a liberdade do autor, que não está obrigado a lançar mão sempre dos mesmos termos. Ademais, o estilo e o temperamento podem modificar-se com a idade, sendo que Paulo escreveu as pastorais, especialmente a 2Tim, quando já era velho, estando próximo à morte, pela qual deu testemunho de Cristo. O estilo das pastorais é simples e familiar, dada a índole das questões tratadas, que não são dogmáticas nem polêmicas, pelo que se assemelha ao estilo da parte moral das outras cartas de S. Paulo. Emprega-se ainda como objeção a referência (1Tim 6,20; 2Tim 2,16) a erros e conversas fúteis, próprios do gnosticismo, que surgiram no século II. Entretanto, esses erros não são peculiares dos gnósticos do século II, pois já haviam sido difundidos pelos judeus ou judaizantes, que preludiaram o gnosticismo. Tais erros consistem em fábulas judaicas, proibição de alimentos, hostilidade ao matrimônio com o fim de adquirir ciência superior. Feita essa introdução geral, só nos resta antepor a cada uma das três epístolas o respectivo sumário.
  • 101.
    PRIMEIRA EPÍSTOLA ATIMÓTEO Cabeçalho e saudação (1,1-2). Corpo da Epístola (1,3-6,19): ordens e conselhos para a boa administração da Igreja. 1. Luta contra as falsas doutrinas e vãs especulações, a fim de conservar íntegra e pura a doutrina e a moral de Jesus Cristo (1,3- 20). 2. Regulamento para a oração pública: deve-se orar por todos os homens, a fim de que todos obtenham a salvação (2,1-7); como se deve orar (2,8); traje feminino e atitude das senhoras em família e na sociedade (2,9-15). 3. Virtudes e predicados exigidos nos ministros sagrados, quer os de grau superior (3,1-7), quer os de grau subalterno (3,8-13). Grandeza admirável da Igreja (3,14-16). 4. Erros contra os quais é preciso preparar-se para lhes dar combate (4,1-10). Timóteo deve mostrar-se modelo de virtude (4,11- 16). 5. Como devem ser tratados os homens idosos e os jovens (5,1-2); solicitude especial para com as viúvas (5,3--16); desvelos devidos aos presbíteros (5,17-22); solicitude pelas enfermidades do próprio Timóteo (5,23-25); deveres dos servos (6,1-2). 6. Alerta contra novidades doutrinais e contra o perigo das riquezas; bom uso dessas últimas (6,3-19). Epílogo: Guarda ciosa do depósito sagrado da fé (6,20-21). SEGUNDA EPÍSTOLA A TIMÓTEO Cabeçalho e saudação (1,1-2); agradecimento a Deus, com elogio a Timóteo (1,3-5). Corpo da Epístola (1,6-4,18). 1. Exortação à coragem e à constância. Timóteo deve professar a fé com generosidade (1,6-8), recordando os benefícios recebidos (1,9-10), o exemplo de Paulo (1,11-12) e o modelo, que é Cristo (1,13-14), e deve defender a fé contra os adversários (1,15-2,13). 2. Como se deve proceder em face dos inovadores: pregar corretamente a verdade, evitando questões inúteis (2,14-26), prevenir- se contra os futuros disseminadores de escândalos (3,1-9), desmantelar o erro com o exemplo de vida santa e cumprir o próprio dever solicitamente até o fim (3,10-4,8). Epílogo: diversas recomendações e notícias (4,9-18); saudações e bênção (4,19-22). EPÍSTOLA A TITO Cabeçalho, com a afirmação de sua autoridade, como apóstolo de Jesus Cristo, para a salvação dos homens (1,1-4). Corpo da epístola (1,5-3,11). 1. Qualidades dos presbíteros: dotes que se requerem para os que vão ser sacerdotes e vícios de que devem estar isentos (1,5-16). 2. Reforma dos costumes: deveres peculiares a serem inculcados aos homens de idade, às senhoras idosas, aos jovens esposos, aos moços e aos escravos (c. 2). 3. Deveres gerais dos cristãos: a submissão às autoridades constituídas, a caridade para com o próximo, a prática das boas obras; exortação para prevenir os cristãos contra as novidades vãs e contra os mestres do erro (3,1-11). Epílogo (3,12-15): recomendações, avisos (3,12-14), saudações e augúrio final (3,15).
  • 102.
    EPÍSTOLA DE SÃOPAULO AOS HEBREUS Entre as catorze cartas do epistolado paulino, a que se costuma intitular “aos hebreus” é a mais singular de todas. Falta-lhe o habitual cabeçalho "Paulo apóstolo etc."; tem assunto e tom de carta somente no último capítulo (13), no qual o remetente fala de si próprio em primeira pessoa, mas sem mencionar nome algum (v. 22; cf. 2Tes 3,17; 1Cor 16,21; Fim 19). No restante, ora apresenta desenvolvimento dialético de um tratado, ora o estilo oratório de uma homilia; usa, ademais, uma linguagem e um estilo todo próprio, o mais aproximado do grego clássico, entre os escritores do Novo Testamento. Também na tradição esta Carta seguiu um roteiro todo particular. Como nenhuma outra, possui a mais antiga atestação, que vem do século I e se encontra na Carta de S. Clemente Romano aos coríntios, não porém mediante citações expressas ou menção do nome do autor, mas por identidade de pensamento ou através de frases extraídas sem modificação nenhuma, às vezes misturadas com outras da Bíblia, e sem qualquer distinção. Ela é admitida pelos mais antigos escritores da escola alexandrina entre os escritos inspirados no Novo Testamento, mas no que concerne ao autor, manifestam-se dúvidas e flutuações. Julga-se que tenha sido concebida por S. Paulo, mas redigida por outro, como, por exemplo, S. Lucas, ou até mesmo o já citado Clemente Romano; ou ainda que, escrita por S. Paulo em hebraico (ou aramaico), haja sido depois traduzida por um especialista grego (E USÉBIO , História Eclesiástica, III, 38; VI, 14,25). Orígenes, o maior escritor sobre a Bíblia, da idade antiga, depois de expor os vários elementos e juízos sobre a questão, concluiu: "para expressar o meu parecer, diria que os pensamentos são do Apóstolo [Paulo], mas.. . quem a redigiu, só Deus o sabe" (Apud Eusébio no último lugar citado). Há muitas outras sombras na Igreja latina. Dir-se-ia que depois do citado Clemente Romano a presente epístola caiu no esquecimento. O cânon de Muratori e Vitorino de Petau (+304) fazem o elenco das epístolas de são Paulo, silenciando sobre essa aos hebreus e observam que são apenas sete as que o Apóstolo dirige às igrejas inteiras (não a pessoas particulares), e assim, implicitamente, excluem-na dos Livros Sagrados. Santo Irineu, Bispo de Lião, e S. Cipriano, de Cartago, jamais a citam em seus escritos. Tertuliano (séc. III) e Gregório de Elvira (séc. IV, fim) conhecem-na e citam-na com o nome de S. Barnabé. Finalmente, S. Jerônimo, ainda no séc. V, escreve que "o costume dos latinos não admite a Epístola aos hebreus entre as canônicas" (Carta, 129,3; Com. a Is 6,2). Todavia, entre os gregos chegou-se logo à unanimidade em considerar a Epístola aos hebreus como escrito canônico e de S. Paulo, e, por influência dos Padres gregos, também os latinos, na segunda metade do século IV e na primeira do V, convieram, bem como os sírios e outros orientais, na mesma opinião. As vicissitudes transcorridas, porém, e a natureza do assunto apresentam ainda aos modernos várias questões, das quais falaremos depois de termos tomado conhecimento geral da epístola, na seguinte exposição esquemática de sua finalidade, argumento e divisão. A Epístola aos hebreus é definida pelo seu próprio autor como "um discurso de exortação" (13,22). Exortar os seus destinatários a perseverarem firmemente na fé cristã, a não se deixarem vencer pela tentação de regressarem à fé do judaísmo incrédulo de que haviam saído; confortá-los nas dificuldades que deviam enfrentar e nas vexações que suportavam da parte de seus antigos correligionários; encorajá-los na luta pela aquisição dos bens que Jesus Cristo prometeu aos fiéis: tal é a finalidade que se propõe o remetente e que estabelece o argumento de seu escrito.
  • 103.
    A fim deconseguir o escopo que se propôs, o autor apresenta aos leitores, na parte mais ampla e substancial da epístola (1,1-10.18), um único tema, grandioso: a excelência da religião cristã sobre a judaica. Demonstra-a em três pontos: o fundador, o sacerdócio, o rito sacrificai, isto é, a pessoa de Jesus Cristo, a sua dignidade sacerdotal, o seu sacerdócio. Dessa demonstração, ou em conexão com ela, inferem-se, na segunda partem (10,19-12,28), vários motivos complementares de perseverança na fé cristã. O último capítulo (13) contém recomendações de caráter particular. A doutrina dessa carta, como se vê, é cristocêntrica, isto é, gravita em torno da pessoa de Jesus Cristo e dela se irradia. Está, além disso, totalmente fundada no Antigo Testamento, interpretado à luz da revelação cristã. Tem muita analogia com a doutrina de S. Paulo. O leitor atento notará aí a ocorrência freqüente de idéias, muitas vezes mesmo de expressões, já encontradas nas epístolas precedentes do Apóstolo. Mas não lhe passarão despercebidas também diferenças de relevo ou quanto ao modo de apresentar as mesmas idéias. Por exemplo, na presente epístola (cc. 1-2) os espíritos inferiores a Jesus não têm senão um nome, um mesmo grau: "os anjos". S. Paulo distingue os principados, as potestades, as dominações, os tronos (Col 1,16; Ef 1,21). Para S. Paulo a "ressurreição" ou o "ressuscitar" de Jesus ocupa o primeiro lugar em freqüência e em importância na economia da salvação. Em Hebreus é mencionada uma única vez com um vocábulo diferente (13,20). Especial nessa epístola é, entre todos os escritos neotestamentários, a figura dominante de Jesus sacerdote e vítima (4,14-10,18), tema central, amplamente desenvolvido. As outras epístolas paulinas possuem a • esse respeito apenas duas lacônicas frases: "Cristo ê o cordeiro pascal imolado por nós" (1Cor 5,7) e "se entregou a si mesmo por nós a Deus, como oferenda e hóstia de suave odor" (Ef 5,2), e nem sequer uma vez traz a palavra "sacerdote" e "sacerdócio". Mais próxima da concepção de Hebr 9,11-12,24 é a visão do cordeiro de pé no céu "como imolado", em Apoc 5,6-13. Do que vimos expondo a respeito dessa epístola surgem quatro questões: 1? Ê inspirada e parte integrante da Sagrada Escritura? (canonicidade). — 2? Quem é seu autor? (autenticidade). — 3- Quem são os "hebreus" aos quais ele se dirige? (destinatários). — 4? Quando foi escrita? (data). 1. Quanto à canonicidade ou inspiração da epístola, nenhuma dúvida podia subsistir depois do reconhecimento unânime que alcançou em tempo relativamente breve na antiga Igreja. Em todo o caso, foi ela solenemente ratificada pelo sagrado Concílio de Trento (sessão IV, decreto de 8 de abril de 1546), que coloca nominalmente "ad Hebraeos" entre as "Escrituras canônicas" do Novo Testamento. 2. No que concerne ao autor, a atribuição constante a S. Paulo na tradição oriental e o exame interno da própria epístola dão-nos a certeza de que de algum modo ela promana do Apóstolo, e neste sentido o Tridentino coloca-a, como última, entre as "14 epístolas de Paulo Apóstolo". Com isso, porém, não se diz que ela deva ser considerada "não só concebida e inspirada, mas também redigida por S. Paulo na forma que chegou até nós". Assim sentenciou a Pontifícia Comissão Bíblica na Resposta de 24 de junho de 1914, no III. Pode-se, pois, atribuir a redação dela a algum dos colaboradores de Paulo no apostolado.
  • 104.
    3. Os destinatárioseram cristãos oriundos do judaísmo, pois a carta, inteiramente impregnada de citações e de alusões aos Livros Sagrados do Antigo Testamento, supõe que eles tenham um perfeito conhecimento do mesmo, como não podiam ter os fiéis convertidos do gentilismo. Pelas alusões que o autor faz ao passado deles (2,3-4;6,9-10;32-34), infere-se que esses cristãos haviam pertencido à primitiva comunidade de Jerusalém. Todavia, a língua em que a epístola foi redigida leva-nos longe de uma região como a Judéia, na qual falava-se o aramaico (At 21,40). Provavelmente eram aqueles judeu-cristãos que por causa da perseguição movida à Igreja nascente (At 8,1) de Jerusalém, emigraram "até a Fenícia, Chipre e Antioquia" (ibid., 11,19), estabelecendo-se nalgumas cidades helenísticas da costa mediterrânea. 4. A epístola foi escrita quando existia ainda o templo de Jerusalém e aí se celebravam regularmente os ritos que a lei mosaica prescrevia (9,6-10), pois não apresenta indício algum a respeito da destruição que lhe foi infligida por Tito e a cessação conseqüente de todo o sacrifício, a não ser um vago pressentimento de que estaria próxima a acontecer (10,25). Foi, portanto, composta antes do ano 70.
  • 105.
    INTRODUÇÃO ÀS EPÍSTOLASCATÓLICAS Ao lado do grande epistolado paulino, outras sete epístolas de apóstolos (uma de Tiago, duas de Pedro, três de João e uma de Judas) constituem grupo à parte no cânon do Novo Testamento. Desde os primeiros séculos, foram denominadas, tanto em grupo como individualmente, católicas, isto é, "universais" provavelmente porque não são dirigidas, como as de S. Paulo, a Igrejas particulares, mas a muitas ao mesmo tempo, ou aos fiéis cristãos em geral. Fazem exceção a segunda e a terceira de S. João, porém são tão breves que se podem considerar como apêndices da irmã maior. Entre os latinos, foram também chamadas epístolas "canônicas", talvez como protesto da fé no seu caráter de livros sagrados, que à maior parte delas foi reconhecido em era muito tardia. De fato, somente a primeira de Pedro e a primeira de João foram, desde o princípio, consideradas sem contestações nas Igrejas como inspiradas e, portanto, canônicas. Todas as outras, umas mais outras menos, encontraram oposição em diversos tempos e lugares (E USÉBIO , História Ecles., III, 25, 1-3). No Ocidente, o grupo encontra-se já constituído em sua integridade e autoridade canônica, no princípio do século V (Concílio Plenário da África, 393; Papa Inocêncio I, 405). Nas Igrejas orientais, não antes dos séculos VI e VIL No seio do grupo, a ordem das epístolas varia muito nos manuscritos e documentos antigos. A mais comum, já indicada acima, põe em primeiro lugar Tiago e em último, Judas. Pelo seu caráter arcaico, ainda muito próximo à literatura sapiencial do Antigo Testamento, Tiago fica muito bem à testa do grupo. Parece-nos bem não separar Judas da segunda de Pedro, com a qual tem inúmeros pontos em comum, como se verá adiante. Desta forma, as três de João vêm a encontrar-se em contato imediato com o Apocalipse, do mesmo autor. É a ordem que parece mais lógica e que melhor favorece uma leitura ordenada destes escritos apostólicos. Pelo seu conteúdo prevalentemente prático, essas epístolas traçam-nos as linhas mestras de uma vida profundamente cristã. Não estão ausentes delas os ensinamentos dogmáticos, lavrados em fórmulas breves e incisivas. Em Tg 5,14 lemos a mais importante alusão bíblica ao Sacramento da Unção dos Enfermos. Um dos artigos do Símbolo apostólico, a descida de Jesus Cristo ao limbo, onde se achavam os santos patriarcas, encontra o mais claro e formal testemunho da Escritura em 1Pdr 3,18--19. O mesmo Apóstolo declara-nos que a graça é uma íntima participação da natureza divina (2Pdr 1,4). São João lança o brado sublime: "Deus é amor" (1Jo 4,8) e replica com a mesma sublimidade: "E nós cremos no amor" (ibid., 16). Ê ele ainda que nos dá a idéia mais exata da felicidade eterna dos eleitos: "Veremos a Deus como ele é" (ibid., 3,2). Eis um pequeno ensaio que nos exorta a pesar cada palavra destes veneráveis escritos.
  • 106.
    EPÍSTOLA DE SÃOTIAGO A Epístola de Tiago distingue-se entre todas as outras epístolas apostólicas por três características: 1° Sendo essencialmente moral, tem pouco de especificamente cristão e, pelo conteúdo e pela forma, marca como que a passagem do Antigo para o Novo Testamento. 2° Manuseia, porém, a língua grega com raro bom gosto e mestria. 3 ? De estilo epistolar, tem quase somente a saudação inicial; falta-lhe a conclusão e na maior parte usa de um tom exortativo semelhante ao dos livros sapienciais, especialmente os Provérbios e o Eclesiástico. Como para estes livros, também da Epístola presente não se deve pretender uma ordem rigorosa. As reflexões ou lições morais sucedem-se como lhas sugeria ao autor o seu zelo impetuoso. Podem-se, todavia, reduzir a três argumentos gerais: a verdadeira alegria (1,2-25), a verdadeira religião (1,26-3,12), a verdadeira sabedoria (3,13-5,12). Fecham--nas algumas recomendações para com o próximo. Dividi-la-emos, pois, em três partes e um apêndice. I parte: A verdadeira alegria consiste em suportar as tribulações e tentações (1,2-8.12-18), a pobreza (1,9-11), e na prática do bem (1,19-25). II parte: A verdadeira religião consiste concretamente em evitar a ambição mundana (2,1-13); nas boas obras (2, 14-26); em refrear a língua (3,1-12). III parte: A verdadeira sabedoria consiste em refrear as paixões (3,13-4, 12); em desprezar as riquezas (4,14-5, 6); na paciência (5,7-12). Apêndice: Ministério de assistência aos enfermos (5,13-15), de oração (5, 16-18), de correção fraterna (5,19-20). Tanto do endereço (1,1) como do conteúdo, pejado de frases e de idéias do Antigo Testamento, transparece de modo claro que a epístola é dirigida aos judeu-cristãos disseminados entre as populações de língua grega. O autor, que a si mesmo se denomina (1,1) "Tiago, servo de Deus e de nosso Senhor Jesus Cristo" e que evidentemente goza de autoridade no seio da comunidade israelita, ê com toda a probabilidade o mesmo Tiago que conhecemos através dos Atos e das epístolas de S. Paulo, distinto do apóstolo homônimo, filho de Zebedeu (At 12,2;17), e personagem influente da cristandade de Jerusalém (ibid., 15,13; Gál 2,9). Ê também "irmão do Senhor" (Gál 1,19), isto é, primo de Jesus Cristo (cf. Mt 12,46-49, nota). Pela história eclesiástica, sabemos que foi bispo de Jerusalém (E USÉBIO , Hist. Ecl., II, 1,2-3) e que foi morto pelos judeus, por ódio contra a fé, no ano 62 (F LÁVIO J OSEFO , Antigüidades, XX, 9,1; H EGESIPO , apud. E USÉBIO , Hist. Ecl., II, 23). Questão bem distinta e de solução menos fácil, mas também de menor importância para o estudo da nossa epístola, é a de determinar se o seu autor deve ser identificado com aquele "Tiago, filho de Alfeu", que em todas as listas dos doze apóstolos do Senhor (Mt 10,3 e paralelos; At 1,13) é colocado em nono lugar. A maior parte dos exegetas católicos toma partido por essa identificação. No entanto, no mencionado ano do martírio do nosso autor, temos a época mais recente em que se pode colocar a composição da epístola. Mas o caráter arcaico que frisamos e a ausência de qualquer alusão à questão agitada no Concílio de Jerusalém, no ano 50 (At 15,1-29), aconselham-nos a remontar a uma época bem anterior, mais ou menos ao
  • 107.
    ano 48 ou49. Seria, portanto, esta Epístola um dos primeiros escritos canônicos do Novo Testamento. A dificuldade mais forte que se costuma opor a data tão remota, — isto é, a de que o passo de 2,14-26 seja uma polêmica direta contra uma falsa interpretação da doutrina exarada por S. Paulo em Rom 4,2-5 e que, portanto, a epístola de Tiago é posterior à Epístola aos Romanos (escrita no ano 57 aproximadamente), — repousa sobre um confronto superficial e sobre uma compreensão inexata dos dois textos.
  • 108.
    PRIMEIRA EPÍSTOLA DESÃO PEDRO Das muitas alusões aos sofrimentos a que eram submetidos os cristãos, pode-se deduzir que esta Epístola foi escrita em tempo de perseguição, com o fito de confortar os fiéis e incitá-los a permanecerem firmes na fé. A esta, que é a principal finalidade da epístola, juntam-se muitas recomendações e exortações a uma vida santa, digna da condição de cristãos. Introdução (1,1-12): Saudações (1, 1-2) e louvor a Deus pelas grandezas da fé e da salvação cristã (1,3-12). I parte: exortação geral a uma vida santa, digna da condição de cristãos (1,13,2,10), e em particular à caridade fraterna (1,22-25). II parte: como proceder com relação aos pagãos, especialmente para com os perseguidores (2,11-4,6): às autoridades (2,11-17); aos patrões (2.18-25); ao cônjuge (3,1,17); ao próximo em geral (3,8--12); paciência, nas perseguições (3,13-- 22); fuga dos vícios peculiares aos gentios (4,1-6). III parte: vida interna da comunidade em vista do juízo divino (4,7-5,11): amor e auxílio mútuo (4,7-11); coragem nas perseguições (4,12-19); deveres do presbítero para com os fiéis e vice-versa (5,1-7); vigilância para todos (5,8-11). Conclusão: saudações e votos (5. 12-14). Como destinatários da Epístola são indicados, no cabeçalho, os fiéis dispersos nas regiões situadas no centro e ao norte da Ásia Menor e convertidos da gentilidade, em grande parte por obra de S. Paulo. Os cristãos eram aí mais numerosos do que em outros lugares e tinham mais que sofrer, tanto da parte do povo como dos magistrados pagãos. Os vários indícios convergem para os tempos que precederam ou se seguiram imediatamente à perseguição de Nero, isto é, por volta do ano 64 d. C. O autor da epístola é, sem dúvida, S. Pedro, o príncipe dos apóstolos, que então se encontrava em Roma, e daí (cf. 5,13) escreveu aos longínquos fiéis da Ásia, embora não tenham sido convertidos por ele (2Pdr 3,2), servindo-se de Silvano (cf. 5,12), como escrivão, e talvez também como redator da epístola, notável não só pela força do pensamento, como também porque exarada em excelente grego. Desde que se formou o cânon escriturístico do Novo Testamento, a presente Epístola foi incluída nele. Nenhuma dúvida, portanto, foi levantada contra a sua divina inspiração e conseqüente canonicidade. O mesmo se deve dizer a respeito da sua autenticidade, isto ê,,se teve como autor Pedro, cujo nome figura no seu cabeçalho. Não se opõe, a tal autenticidade, o concurso subsidiário de um amanuense ou redator, como foi mencionado acima com relação a Silvano. Serve, ao invés, para confirmar tal autenticidade o confronto desta epístola com os discursos de S. Pedro, relatados nos At 2,14-36;3,12-26; 10,34-42. A doutrina é a mesma, idênticos são os conceitos, expressos até mesmo em raras e características locuções, sobre a pessoa de Jesus, a sua obra redentora, o seu soberano poder e a universalidade da salvação que ele veio trazer à terra. O autor da Epístola haure da fonte dos seus conhecimentos pessoais. Alguém notou que nela se encontram mais reminiscências dos Evangelhos, do que em todas as epístolas paulinas juntas. A nossa tem de comum tão somente a noção das ordens angélicas dos principados e potestades (3,22), mas, ao que parece, sem dependência direta. (cf. Col 1,16-17).
  • 109.
    SEGUNDA EPÍSTOLA DESÃO PEDRO Os fiéis aos quais é dirigida esta segunda Epístola do príncipe dos apóstolos são os mesmos a que foi dirigida a primeira (cf. 3,1). Aliás, ao passo que na primeira o seu intento era encorajá-los nas perseguições desencadeadas contra eles pelos pagãos, com esta quer chamar-lhes a atenção para os inimigos internos, para erros perniciosos que, infelizmente, começavam a infiltrar-se nas comunidades cristãs. O Apóstolo, prevendo próxima a sua morte (1;13), apressa-se a prevenir os fiéis do perigo, enviando-lhes, como última recordação (1,12,15), este afetuoso escrito. Os três capítulos, em que se divide, tratam de três argumentos distintos. C. 1. Saudação e votos (1-2); santidade de vida (3-11); firmeza na fé (12-21), que deve ser ornato do cristão. C. 2. Os falsos mestres: insinuam doutrinas perniciosas, atraindo sobre si a perdição (1- 3); antigos exemplos de pecadores terrivelmente punidos por Deus (4-9); aplicação àqueles falsos doutores (10-16); o mal que fazem e sua condenação (17-21). C. 3. Refutação do erro a respeito da proximidade da parusia ou vinda do Senhor (1-3); ocasião do erro (1-4). Refutação: as três fases do mundo (5-7); o tempo ante a eternidade de Deus (8-9); aquele dia virá, mas de improviso (10); conseqüências práticas (11-13). Conclusão: estejamos preparados (14); advertência sobre as epístolas de S. Paulo (15- 16); votos e doxologia (17-18). Digno de nota é o c. 2 (mais 3,1-3), porque corre paralelo com a Epístola de Judas: mesmo argumento, exposto na mesma ordem, muitas idéias iguais, freqüentemente expressas com as mesmas palavras. A dependência direta de uma epístola para com a outra parece inegável. Menos fácil é determinar quem é que depende do outro, e as opiniões dos doutos não são unânimes. Considerando aquilo que Pedro apresenta a mais (por exemplo, Noé e o dilúvio, 2,5; cf. 1Pdr 3,20), e o que não apresenta em confronto com Judas (por exemplo, Jud 9,14) e outras particularidades de estilo, devemos dizer (como opina a maior parte dos autores) que a 2Pdr é mais extensa e melhorada e, portanto, posterior à de Judas. Isto possui uma certa importância para as questões da canonicidade, autenticidade e data da presente epístola. Nos séculos II e III, a 2Pdr era pouco conhecida, ao menos fora do Egito, e a sua canonicidade, ou caráter sagrado, era posta em dúvida, quando não negada. Mas no século IV começou a ser mais bem conhecida no Ocidente e, simultaneamente, foram-se desvanecendo as dúvidas a respeito do seu valor de livro sagrado. Entre o IV e o V século ocupou um lugar definitivo no cânon das Igrejas da Europa e da África, enquanto que na Síria continuou a ser ignorada por mais alguns séculos. O mesmo não se deu com o reconhecimento da sua autenticidade, isto é, de que S. Pedro é verdadeiramente o seu autor. S. Jerônimo não registrava senão os fatos quando afirmava, no ano 392, que Pedro "escreveu duas epístolas denominadas católicas, a segunda das quais muitos afirmam não ser de sua autoria, porque lavrada em estilo diferente da primeira (De viris 111. c. 1). Partilhando da opinião de que ambas eram genuínas, ele explica as diversidades de linguagem e de estilo pelo fato de S. Pedro as ter ditado a dois tradutores ou redatores gregos diversos (Carta 120, a Edibia, c. 9). É uma hipótese provável, que agrada ainda hoje a muitos dos que sustentam a genuinidade da 2Pdr, como o fazem a grande maioria dos católicos e alguns protestantes. Os que a negam, exageram demasiadamente as diferenças entre as duas
  • 110.
    epístolas e nãoconsideram, como deveriam, a influência das fontes e das circunstâncias. O c. 2, por exemplo, sendo modelado, como ficou dito acima, sobre a epístola de Judas, é óbvio que não pode assemelhar-se à 1Pdr. Afora isso e poucas outras coisas, no resto da 2Pdr encontrar-se-á uma semelhança tal com 1Pdr e com os discursos de S. Pedro nos Atos, como não se encontra em nenhum outro escrito do Novo Testamento. Por outra parte, não é necessário ir, como se pretende, além do ano 70 d.C, para situar, na história da Igreja, os aberrantes doutores de que se fala no c. 2 ou os novos sentimentos em relação à "parusia" (3,4), ou a alusão às cartas de S. Paulo (3,15-16). Em poucas palavras, pode-se sustentar muito bem, até mesmo com argumentos internos, que a 2Pdr foi mesmo ditada pelo príncipe dos apóstolos, cujo nome ela traz. Dado que o autor anuncia, também por revelação divina, como próximo o fim da sua existência terrena (1,14), a composição da epístola pode ser colocada aproximadamente no ano 67, cerca de três anos após a 1Pdr. O lugar em que foi escrita não é referido expressamente. A única hipótese provável é que tenha sido escrita em Roma, como a primeira, pois aí S. Pedro pôs fecho, com um nobre martírio, ao seu glorioso apostolado.
  • 111.
    EPÍSTOLAS DE SÃOJOÃO Das três epístolas seguintes, somente a segunda e a terceira apresentam as características do gênero epistolar: saudações no início e no fim e alusões pessoais no meio. A primeira parece mais uma alocução a discípulos, ou melhor, uma circular a leitores amigos. Mas a afinidade evidente e estreita de idéias, de estilo e de linguagem, que se encontra nelas, une-as todas num grupo homogêneo. P RIMEIRA À semelhança do quarto Evangelho, esta epístola do apóstolo predileto de Jesus pode-se dizer que é toda espiritual e teológica. Nela S. João fala de Deus com as expressões mais tocantes e dos seus atributos deduz os nossos deveres morais. Combate, ao mesmo tempo, os erros que então começavam a pulular a respeito da pessoa de Jesus Cristo, ao qual presta também entusiástico testemunho. O curso do pensamento ê deixado ao sabor da exaltação do sentimento místico. Podem-se, porém, distinguir, além da introdução e da conclusão, três partes ou etapas, compostas, cada uma, de três elementos: teológico, moral e cristológico. Introdução (1,1-4): apoiado em sua própria experiência, atesta a verdade a respeito da pessoa e da obra de Jesus Cristo. I parte: 1. Verdade teológica: Deus é luz- (1,5). 2. Conseqüência prática: devemos "andar na luz", isto é, viver uma vida de luz espiritual, que consiste na comunhão dos santos (1,6-7) e compreende a fuga ao pecado (1,8-2,2), a observância dos mandamentos (2,3-11), a fuga ao mundo (2,12- 17). 3. Verdade cristológica: Jesus é o verdadeiro Messias (2,18-28). II parte: 1. Verdade teológica: Deus é justo (2,29). 2. Conseqüência prática: dado que somos filhos de Deus, devemos praticar a justiça, evitando o pecado (3,1-10) e amando o nosso próximo (3,10-24). 3. Verdade cristológica: Jesus é verdadeiro homem (4,1-6). III parte: 1. Verdade teológica: Deus ê amor (4,7). 2. Conseqüência prática: devemos amar-nos reciprocamente, a fim de encontrarmos no exercício da caridade a Deus e observar os seus mandamentos (5,1-4). 3. Verdade cristológica: Jesus é verdadeiro Deus (5,5-12). Conclusão: oração e perseverança (5, 13-21).
  • 112.
    Todo o pensamentoe o estilo, tão característicos, dessa Epístola são tão semelhantes aos do quarto Evangelho, que se devem atribuir, sem hesitações, ao mesmo autor, como, aliás, o garante a própria tradição. Ê até provável (cf. 1,3; 2,14) que a epístola tenha sido escrita para acompanhar e como que apresentar o Evangelho que o autor enviou às Igrejas e às famílias cristãs. Se essa hipótese for verdadeira, fica desde já determinado, aproximativamente, o tempo e o lugar em que foi escrita a epístola, a saber: pelos fins do séc. I e em Éfeso. S EGUNDA Após as costumeiras saudações de introdução (1-3), exorta a caminhar sempre na verdade e no amor (4-6) e põe de sobreaviso contra os que disseminam erros cristológicos (7-11). Compendia, deste modo, a substância da primeira epístola. Seguem o anúncio de uma próxima visita e as saudações finais (12-13). Discute-se a respeito dos destinatários da carta: trata-se de pessoa particular ou de uma comunidade de fiéis? A segunda hipótese é mais provável. Não obstante o autor se oculte sob o nome indeterminado de "presbítero" (ou "sacerdote", revela-se, todavia, pela doutrina e pelo estilo. Toda a carta deixa transparecer a mente e o coração de S. João evangelista. Todavia, em razão de sua brevidade, demorou um pouco a tomar o seu lugar no cânon de todas as Igrejas. A dificuldade aumenta quando se trata de determinar quando e onde foi escrita. Visto, porém, que nela se combate (v. 7) o mesmo erro cristológico da primeira (1Jo 4,2), pode-se situá-la mais ou menos na mesma época e no mesmo lugar. T ERCEIRA É ainda mais pessoal do que a segunda. Dirigida a certo "Gaio", aliás, desconhecido, tece, após as saudações (1), louvores à sua virtude, especialmente à caridade, e recomenda-lhe os portadores do bilhete (2-8). Reprova o proceder de Diótrefes (9-10) e elogia largamente Demétrio (11-12). Anuncia uma visita para breve e encerra com as saudações (13-15). Devido ao tom familiar, particularmente no início e no fim, essa terceira epístola revela- se irmã da segunda, cujas vicissitudes na tradição e na crítica também compartilhou. Foi escrita em favor dos missionários volantes que corriam de Igreja em Igreja, levando o conforto da sua palavra e da sua ação apostólica e conservando viva a comunhão entre as Igrejas. A epístola deve, pois ter sido escrita na década final do século I, como as suas duas irmãs.
  • 113.
    EPÍSTOLA DE SÃOJUDAS Estrutura simples e finalidade única encontram-se nesta breve epístola: acautelar os fiéis contra os falsos mestres, os semeadores de doutrinas corruptas, de que fala também a segunda de S. Pedro, no c. 2. Tem um só capítulo, assim dividido, segundo o argumento: Introdução: Saudações (1-2) e motivo da epístola: os mestres ímpios (3-4). Corpo: 1. Castigos divinos já infligidos aos ímpios: aos israelitas incrédulos no deserto (5); aos anjos rebeldes (6); aos sodomitas (7). 2. Descrição dos Ímpios mestres, que, chafurdando-se na carne, ultrajam os espíritos angélicos (8-10); êmulos de Caim, Balaão e Coré, atiram-se a todos os vícios (11-13); espera-os, porém, um juízo terrível, já predito por Henoc (14-16). 3. Admoestação a que se guardem desses tais, e como devem comportar-se com os demais (17-23). Conclusão: glória a Deus, autor da salvação. Esta curta epístola encontrava-se, já no século II, segundo o testemunho do cânon Muratoriano (linha 68), incluída no cânon escriturístico da Igreja de Roma. Não faltou, já então, e mais ainda depois, quem pusesse em dúvida ou negasse principalmente sua canonicidade, como atesta S. Jerônimo (De vir. ill., IV), por causa da citação do livro apócrifo de Henoc (vv. 14-15). Prevaleceu, porém, o uso antigo e a autoridade da Igreja, segundo testemunho do mesmo S. Jerônimo, e bem cedo as oposições cessaram no Ocidente e mais tarde também no Oriente. O autor, Judas, nome muito comum, distingue-se dos homônimos contemporâneos, qualificando-se "irmão de Tiago". Quem haveria de ser esse Tiago, senão o autor da primeira epístola católica e bispo de Jerusalém, de quem se falou à p. 1318? Por conseguinte, também o Judas da presente epístola era "irmão do Senhor", mencionado com os outros em Mt 13,55; Mc 6,3 (no sentido já explicado em Mt 12,46-49). Assim como a respeito de Tiago, existe também a respeito de Judas, por motivos diferentes, porém, a questão de saber se ele era também apóstolo, um dos doze, identificado com "Judas, filho de Tiago" de Lc 6,16; At 1,13. Sobre esse ponto também os modernos exegetas católicos não se acham de acordo. Admitida, como mais provável, a dependência de 2Pdr em relação a Judas (p. 1320), esta epístola deve ter sido escrita alguns anos antes daquela. Pode-se situar a sua composição no ano 65, aproximadamente. Os destinatários da Epístola são saudados (v. 1) em termos tão gerais, que se podem aplicar a todos os cristãos. Mas arguindo do uso que o autor faz do Antigo Testamento e de tradições judaicas (vv. 9-14), pode-se deduzir que ele se dirige a fiéis vindos do judaísmo, a comunidades judeu-cristãs, provavelmente da Ásia Menor. A segunda de Pedro é dirigida a um público inteiramente diverso (cf. pp. 1320 e 1321). Podemos reconstituir os fatos assim: Os erros combatidos por Judas surgiram e propagaram-se primeiramente no sudoeste da Ásia Menor (v. 4, tempo passado). Vindo a conhecê-los através da Epístola de Judas, e temendo que tão perniciosa propaganda se estendesse também ao centro e ao norte da Ásia Menor, onde residiam os destinatários da sua
  • 114.
    primeira epístola, Pedro,na segunda epístola, adverte-os contra uma provável difusão próxima de tais erros no país deles (2Pdr 2,1, tempos futuros). Harmoniza-se e confirma-se deste modo tudo o que dizíamos acerca da relação genética entre as duas epístolas. Não se pode saber com certeza de onde foi enviada a epístola de Judas: provavelmente da Palestina e, talvez, até mesmo de Jerusalém.
  • 115.
    INTRODUÇÃO AO APOCALIPSE Ficouexplicado anteriormente que este vocábulo grego, com que o próprio autor intitulou o seu livro, o último da Bíblia (segundo a ordem do cânon), significa "revelação", forma particular de "profecia" ou escrito profético. No lugar citado acima foram expostas as características principais deste gênero literário em grau eminente no livro ora apresentado. A natureza mesma das duas primeiras características — 1º o tema do "fim dos tempos" ou escatologia, com a sua subdivisão em duas espécies, messiânica e cósmica, nem o sempre claramente distintas entre si, e 2 a linguagem simbólica, que dá azo a diversas interpretações, — criou dificuldades aos exegetas, dando origem a grande número de opiniões diversas e, por conseguinte, à falsa reputação de que o Apocalipse é o livro mais obscuro e mais difícil da Bíblia. Para não nos perdermos neste emaranhado, fixemos alguns pontos que são mais ou menos certos, graças ao próprio tema ou à estrutura literária do livro. 1º O intento do autor é animar os cristãos à constância na fé, malgrado os assaltos e as insídias de satanás e do mundo, pondo-lhes ante os olhos a certeza da vitória e do prêmio. 2° Dirige ele a sua mensagem (como os profetas, seus predecessores) sobretudo à geração contemporânea e às imediatamente sucessivas, e descreve o mundo de então, o paganismo dominante, com a abjeção ignominável das honras divinas prestadas aos imperadores romanos. Sem deixar de constituir alimento vital para todas as gerações vindouras, contudo, é principalmente contra tal politeísmo que arremete a veemência de suas palavras. 3º A linguagem é simbólica, pelo que não se deve atribuir a cada pormenor uma correspondência na realidade. Isto é próprio da alegoria. No símbolo, o que importa é a substância, a generalidade. 4º O predomínio do número 7 é evidente em todo o livro. É um número consagrado desde a primeira página da Bíblia, com a criação: 7 Igrejas e 7 espíritos (14), 7 candelabros (1,12), 7 estrelas (1,16), 7 lâmpadas (4,5), 7 selos (5,1), 7 chifres e 1 olhos (5,6), 7 anjos e 1 trombetas (8,6), 7 trovões (10, 3), 7 taças e 1 pragas (15,5-7) etc. Cumpre, porém, evitar dois exageros: o de atribuir a esse número, todas as vezes que ele ocorre, um valor particular, presente na realidade e o de, pela análise, ver números setenários que não vêm expressos. o 5 Três desses setenários encadeiam-se, na segunda parte do livro — que é também a mais extensa — e inserem-se uns nos outros: à ruptura dos 7 selos, aparecem sete trombetas (8,1-2) e o toque da sétima trombeta encerra um ciclo de visões e abre outro semelhante (11,19-12,1), que culmina com o derramamento das sete taças da ira de
  • 116.
    Deus (16,1). Émuito provável que todos os três ciclos se refiram ao mesmo período da história da Igreja. Mas não é igualmente justificável concluir, apenas pela semelhança de cenas e expressões, que duas visões distanciadas anunciem os mesmos acontecimentos. Com essas premissas, parece impor-se aqui, como a mais coerente e a menos espinhosa, a divisão do Apocalipse em cinco partes, desiguais em extensão, mas de igual importância substancial, precedidas de uma breve introdução e seguidas de longo epílogo. Para se chegar a uma compreensão mais perfeita, consultem-se também as notas do texto. Sumário Exórdio: título e convite à leitura (1,1-3). I parte: mensagens às sete Igrejas da Ásia (1,413,22). Prólogo comum a todas (1,4-20), mensagem à Igreja de Éfeso (2,1-7), à de Esmirna (2,8- 11), à de Pérgamo (2,12-17), à de Tiatira (2,18-19), à de Sardes (3,1-6), à de Filadélfia (3,7-13), à de Laodicéia (3,14-22). Seguem todas o mesmo esquema: Jesus Cristo ê apresentado cada vez sob um título diferente (esses títulos reaparecerão depois na segunda parte); descreve as condições morais da Igreja ou do seu chefe: repreende e encoraja. Promete o prêmio eterno aos que permanecerem constantes na fé, aos vencedores na batalha, e promete-o sob símbolos diversos, que reaparecerão também na última parte. II parte: vitória do monoteísmo cristão sobre o politeísmo pagão (cc. 4-19) ou, mais concretamente, da Igreja sobre o império romano perseguidor. Esta vitória é apresentada numa série de visões que, na sua maior parte, mostram as graves calamidades que deverão abater-se sobre a terra, para provação dos cristãos fiéis e punição dos inimigos do nome de Cristo. O restante manifesta as atividades nefastas das forças do mal e sua derrota e destruição, seguida pelo canto triunfal dos vencedores: Jesus Cristo e os seus fiéis seguidores. Tais calamidades são apresentadas sob a forma de símbolos nos quais predomina o número 7. Dir-se-ia que no conjunto, constituem uma profecia "da morte dos perseguidores", como o estilista Lactando denominou a sua relação histórico-apologética. Visão de abertura: o cenário celeste (c. 4). O livro fechado por sete selos (c. 5). À abertura de cada um dos quatro primeiros selos sai um cavalo de cor diferente, com um cavaleiro portador de males para os habitantes da terra (6, 1-8). Ao se abrirem o 5- e o 7- selos, vêem-se as primeiras vítimas da perseguição e lúgubres sinais do drama já em ação (6,9-17). Interlúdio: os 144.000 assinalados (7, 1-8) e o repouso eterno dos justos (7, 9-17).
  • 117.
    Rompido o 7°selo, saem sete trombetas empunhadas por sete anjos. Ao soar das quatro primeiras trombetas, derrama-se igual número de desgraças sobre a terra (8,1-12); as outras três trombetas preanunciam três grandes ais! 1- ai!, invasão de gafanhotos mortíferos (8,13-9,12); 2º ai!, um exército de cavalaria que mata a terça parte da humanidade (9,13-20). Interlúdio: o anúncio do 3º ai! (última e decisiva fase da luta horrível) está escrito num livro aberto, que o vidente é obrigado a devorar (c. 10); as duas testemunhas de Deus pregam durante 1.200 dias, são mortas, ressuscitam e sobem ao céu (11,1-12). Com o soar da sétima trombeta, chega o tempo do 3º ai! (11,13-19). Antes, porém, aparecem sinais terrificantes: satanás, sob a figura de enorme dragão, arrastando consigo a terça parte das estrelas (anjos), combate, no céu, contra os anjos bons, chefiados por S. Miguel. Satanás é derrotado, expulso do céu e lançado sobre a terra, onde começa a fazer guerra aos seguidores de Cristo (c. 12). Sai do mar uma besta de 1 cabeças (13,1-10), e da terra surge outra besta com chifres (13,11-18). Ambas, sob a dependência do dragão (satanás), combatem a religião de Cristo e procuram induzir os homens a adorarem as criaturas (o dragão e a primeira besta) contra o verdadeiro Deus. Interlúdio: a falange de 144.000 virgens que acompanham o Cordeiro divino no céu (14,1-5; cf. 7,1-8). Três anjos anunciam a iminência e o resultado da luta e do juízo divino entre bons e maus (14,6-13); outros três anjos, anunciam, sob a figura da ceifa, o final já próximo do drama (14,14-20). Prepara-se a realização do 3º ai! com a entrega a 1 anjos de 7 pragas, encerradas em 7 taças "cheias da ira de Deus" (c. 15). A uma ordem, os 7 anjos derramam sobre a terra, uma após outra, as sete taças, causando grande mortandade entre os pagãos que se obstinam na sua impiedade (c. 16). Descrição do centro e baluarte do paganismo: uma grande cidade, chamada pelo nome simbólico de Babilônia, ou, por causa de seu crasso politeísmo, a grande meretriz. Reconhece-se facilmente nessa cidade a Roma imperial dos três primeiros séculos (c. 17). Queda, abandono e punição da ímpia cidade (18,1-8); pranto de seus amigos e cúmplices (18,9-19); gesto simbólico, que representa o seu desaparecimento definitivo (18,20-24). Festa no céu pelo castigo da "grande meretriz" (19,1-9). As duas bestas, aliadas do dragão na luta contra os seguidores de Cristo, são mergulhadas vivas no fogo eterno; os homens, seus cúmplices, são mortos e atirados como alimento aos abutres (19, 11-21). III parte: o dragão é atado durante 1000 anos; Jesus Cristo reina na sociedade humana que ele mesmo transformou (20,1-6). IV parte: depois dos mil anos, satanás, livre dos grilhões, desencadeia seus últimos e furiosos ataques contra a Igreja de Cristo. Mas é vencido e precipitado no fogo eterno,
  • 118.
    juntamente com asduas bestas (20,7-10). Os mortos ressuscitam, são julgados todos segundo as suas ações e ouvem o próprio destino eterno (20,11-14). É o fim deste mundo. V parte: sorte oposta dos justos é a dos maus, por toda a eternidade (21, 1-8); felicidade eterna dos justos, representada em dois quadros: primeiro quadro: a cidade, a Jerusalém celeste de estrutura perfeita, com os mais preciosos materiais, iluminada e cumulada pessoalmente por Deus de toda a sorte de bens (21,9-27); segundo quadro: um jardim cheio de árvores que produzem continuamente o fruto da vida, onde se gozará da visão de Deus (22,1-5). Conclusão de toda a série das visões e testemunho do autor, João (22,6-11). Epílogo: Jesus mesmo, compendiando em poucas palavras a substância do livro, atesta que foi escrito por sua ordem expressa e promete vir muito em breve; invocação e saudação (22,12-21). Segundo essa interpretação, a maior parte do livro (cc. 9-19) descreve as perseguições romanas até à paz que Constantino concedeu à Igreja. Deve isto causar-nos admiração? É um fato que, pelos fins do séc. IV, que fora iniciado com a mais feroz das perseguições, o império romano já se tornara sinônimo de cristandade, terra dos cristãos, evento esse realmente digno de ser preanunciado por uma profecia, como foi mais tarde celebrado pela eloqüência dos oradores. Vêm mesmo a pelo estas belas palavras de S. Leão Magno: "Enquanto esta cidade [Roma] dominava sobre todos os povos, era escrava dos erros de todos eles, e tinha em conta de grande religiosidade o não recusar nenhuma falsidade. Por essa razão, sendo grande a afoiteza com que o diabo a mantinha vinculada, tornou mais admirável o fato de a ter Cristo libertado" (Sermão I na festa de S. Pedro e S. Paulo). Nenhum outro exemplo de triunfo tão vasto e radical como esse da fé cristã conhece a história mundial. Dos outros sistemas de interpretação, mencionaremos apenas os dois mais célebres: o histórico, já fora de moda, que vê representadas nas cenas do Apocalipse as personagens e os fatos da história eclesiástica no volver dos séculos; e o escatológico, hoje o mais seguido, segundo o qual todas as visões e predições se referem aos últimos tempos da história humana, ao fim do mundo. Roma imperial, significada muito claramente nos cc. 17-18, seria apenas um tipo ou figura do perseguidor da Igreja, o Anticristo. Quanto à composição do livro, convém frisar } sobretudo isto: que do início ao fim (especialmente nas visões) vêm à tona símbolos, cenas e locuções tomadas de vários livros do Antigo Testamento, principalmente de Ezequiel e de Daniel. Poder-se-ia comparar o Apocalipse a um grandioso mosaico, cujas pedrinhas provêm do vasto repertório dos antigos autores bíblicos, mas reordenadas e dispostas segundo um harmonioso projeto, absolutamente novo e original. Esse fato, além de nos dissuadir de procurar outras fontes fora da Bíblia para o Apocalipse; ê também um modo indireto de
  • 119.
    insinuar que nosacontecimentos anunciados se realizarão decisiva e plenamente as profecias do Antigo Testamento. Quem é o autor do Apocalipse? Ele mesmo se identifica no texto, quatro vezes pelo menos: duas na terceira pessoa (1,1-4) e duas na primeira: "Eu, João" (1,9;22,8). Seria o mesmo autor do quarto Evangelho? Ao contrário do autor do Apocalipse, o evangelista jamais declina o próprio nome, mas oculta-se sempre sob a circunlocução "discípulo predileto de Jesus". Existe uma diferença, talvez mais notável ainda: o Evangelho de João é o menos judaico dos livros do Novo Testamento. Pelo menos no sentido em que "judeus" designa aí quase sempre os inimigos de Jesus. O Apocalipse, pelo contrário, pode ser chamado o mais judaico porque, como ficou dito acima, é quase inteiramente uma trama de idéias, de imagens, de frases tomadas da Bíblia hebraica. Também a linguagem e o estilo de João são notavelmente melhores do que os do Apocalipse. Por essas razões, desde a antigüidade, alguns autores, encabeçados por S. Dionísio de Alexandria (séc. III), atribuíram o Apocalipse a outro João, que não ao apóstolo evangelista. Mas nas idéias e na linguagem teológica existem semelhanças tais e tão pessoais entre João e o Apocalipse, que nos levam a optar pela identidade do autor. Mencionemos as principais: Os títulos "Verbo de Deus" (Jo 1,1; Apoc 19,13) e "Cordeiro" (Jo 1,29; Apoc 5,6 e mais vinte outras vezes) atribuídos a Jesus Cristo; "verdadeiro" como atributo de Deus (Jo 17,3; Apoc 3,7); "testemunho" no campo da religião (Jo 17,19; Apoc í] 2.9); "água viva" para designar os dons (graça e glória) de Jesus Cristo (Jo 4,10; 7,38- Apoc 7,17;21,6).