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 Sementes
No. 50 ­ 09/12/2014
A PÉ ONDE A NATUREZA ACONTECE
Ensaio sobre a inserção do ecoturismo no projeto político pedagógico, com elenco de aspectos a considerar durante a
organização e realização de estudos do meio com a rede de estudantes. Elaborado a convite de Berenice Gehlen Adams para a
seção Sementes, na 50ª edição da Revista Educação Ambiental em Ação, cujo tema “Educação Ambiental é participação” pautou
os trabalhos, também inspirados pela expressão de Declev Reynier Dib­Ferreira “Educar ambientalmente é educar para a
participação, para a luta, para a política, para a mudança” (2011).
A PÉ ONDE A NATUREZA ACONTECE
 
José André Verneck Monteiro
Mestrando em Práticas em Desenvolvimento Sustentável
Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro
http://lattes.cnpq.br/3632798164833445
Email: educativo@live.com
 
 
RESUMO
 
Ensaio sobre a inserção do ecoturismo no projeto político pedagógico, com elenco de aspectos a
considerar  durante  a  organização  e  realização  de  estudos  do  meio  com  a  rede  de  estudantes.
Elaborado a convite de Berenice Gehlen Adams para a seção Sementes, na 50ª edição da Revista
Educação  Ambiental  em  Ação,  cujo  tema  “Educação  Ambiental  é  participação”  pautou  os
trabalhos,  também  inspirados  pela  expressão  de  Declev  Reynier  Dib­Ferreira  “Educar
ambientalmente é educar para a participação, para a luta, para a política, para a mudança”
(2011).
 
 
IMPACTO ANTRÓPICO POSITIVO
 
 
“Ecoturismo  é  um  segmento  da  atividade  turística  que
utiliza,  de  forma  sustentável,  o  patrimônio  natural  e
cultural, incentiva sua conservação e busca a formação de
uma consciência ambientalista através da interpretação do
ambiente,  promovendo  o  bem­estar  das  populações
envolvidas”. Ministério do Turismo do Brasil (2014).
Conceber  e  empreender  no  projeto  político  pedagógico  uma  série  de  expedições
ecoturísticas  amplia  as  possibilidades  para  pesquisa  e  prática  da  educação  ambiental,
transversalmente, em ambas as disciplinas.
Inevitavelmente, deixamos rastro ­ visível ou não ­ por onde passamos durante a nossa
jornada.  A  cada  vez  que  optamos  e  tomamos  alguma  decisão,  influenciamos  no
desenvolvimento  de  alguma  população  e  de  algum  lugar,  por  vezes  bem  distante  de  onde  a
decisão foi tomada e a opção posta em prática.
Assim, até passear pode vir a ser um ato político. Portanto estimar o impacto ocasionado
pela jornada ecoturística de grupos estudantis torna possível aperfeiçoar o uso dos recursos, de
modo a se reduzir a pegada ecológica de ida, permanência e retorno dos grupos viajantes.
Este é sempre um desafio trazido à comissão organizadora dos estudos do meio, para se
ampliar  o  uso  didático  do  próprio  planejamento  da  viagem  com  o  grupo,  bem  como  para
conservar as condições de habitabilidade e sustentabilidade dos destinos ecoturísticos. A prática
do  ecoturismo  deve  ser  proveitosa  para  os  grupos,  simultaneamente  para  as  pessoas  e
localidades anfitriãs.
Há  diversos  modelos  consagrados  de  boas  práticas  em  ecoturismo.  São  exemplos  de
ambientes conservados, beneficiados, e não prejudicados pela gestão de pessoas e empresas que
aprenderam juntos, como oferecer sistemas de atendimento por pessoas motivadas e estrutura
ideal para o ecoturismo.
No  sentido  inverso,  ainda  se  observa  ampla  divulgação  sobre  atrativos  ecoturísticos
inaptos, em funcionamento. Por aí se encontra notória falta de zelo e cuidado, por gente que tem
o ambiente como lugar de trabalho e fonte de sustento familiar.
Já se tem notícias bastantes desde propaganda enganosa, comida deteriorada servida em
restaurante,  ecoresort  onde  se  queima  lixo  e  desfloresta  sorrateiramente,  até  os  memoráveis
passeios em barco furado.
Como em todos os outros segmentos do mercado turístico há empresas idôneas, e outras
não. 
A cada temporada se registram inúmeras queixas por turistas: por haverem sido tratados
à  deriva  por  pseudoguias  e  por  se  sentirem  lesados  ao  participar  de  passeios  adquiridos  em
agências de turismo informais, cujo único registro é o do telefone móvel impresso em folhetos,
apregoados às dúzias pelas ruas.
Felizmente, há também notáveis elogios.
Empresarialmente,  oferecer  ecoturismo  prescinde  pesquisa  e  prática,  para  operar  no
ecossistema, junto a pessoas, com qualidade, segurança e valorização do capital socioambiental,
para além do financeiro.
 
A escolha é sempre do ecoturista.
 
TRAÇAR O MAPA DO ESTUDO DO MEIO
 
O  que  se  apresenta  adiante  são  algumas  perguntas  e  sugestões  simples,  adaptáveis  à
construção do mapa de cada estudo do meio, por sua comissão organizadora:
    Sua região tem lugares nos quais o ecoturismo pode ser uma prática complementar às
iniciativas de educação ambiental, desenvolvidas junto à rede estudantil?
  A partir da pesquisa inicial, qual a principal contribuição do grupo para o lugar visitado?
    A prática do ecoturismo não é restrita aos interesses da cultura da biodiversidade, aos
detalhes do ecossistema e seus fenômenos naturais. De que maneira cada docente pode
explorar áreas temáticas junto ao grupo?
    O grupo tem interesse, vontade, disponibilidade e recursos para pesquisar, organizar e
realizar o estudo do meio + o trabalho posterior à excursão?
    Ao  retornar,  como  restituir  o  fôlego  do  grupo  para  edificar  melhorias  inspiradas  nos
exemplos vivenciados?
    Qual  melhor  época  do  ano  para  o  estudo  do  meio?  Quando  será  possível  presenciar
alguma festa folclórica ou fenômenos climáticos interessantes? Em que estação se obtém
melhor disponibilidade das agências e guias de turismo?
  Durante a excursão poderá ser requerida a prática de exercícios físicos, tomar sol e chuva,
sujar­se, higienizar­se, alimentar­se e repousar de forma diferente da habitual. Todos os
participantes e respectivos responsáveis devem comparecer à reunião designada para tais
esclarecimentos.
  A vida nas cidades é bem diferente de alguns modos ancestrais de prover ao homem pela
natureza,  ainda  encontrados  em  localidades  rústicas.    Em  cada  lugar  os  recursos
ambientais são manejados de forma distinta, historicamente, pelas pessoas. Isso também
colabora para que cada lugar seja diferente. Conheça e respeite os hábitos da população
do local e contribua para que a paz e a harmonia sejam mantidas.
  O ato de registrar em câmeras não deveria prejudicar o desenvolvimento das atividades.
Quando se tinha de revelar os filmes e copiar as imagens em laboratório, a fotografia era
praticada com mais parcimônia. Com o advento das câmeras digitais e a inundação por
telefones  multifuncionais,  fotografia  e  filmagem  vem  assumindo  relativo  caráter  de
exagero e por vezes, até de inconveniência. Por essa razão é favorável que as atividades
de documentação sejam preestabelecidas, para que se evite algazarra contínua, o que não
raro tem atrapalhado a fruição de algumas atividades educativas ao ar livre, nas quais é
proveitoso  dedicar  coletivamente,  atenção  para  o  que  está  acontecendo  ao  redor  e
individualmente. Ressalte­se que é exigida permissão para o registro e a publicação de
imagem de outras pessoas.
  Os ambientes naturais conservados são habitados por inúmeros outros seres. O indesejável
tumulto costuma subtrair do grupo alguns significados sublimes da experiência.
  Proponha que o grupo se alongue, respire fundo, fale em tom moderado, sem violência,
que se permita sentir integralmente o lugar visitado.
    Atrativos  ecoturísticos  normalmente  exigem  caminhadas  em  distintos  níveis  de
dificuldade e de  extensão. O grupo todo deve ter condições, físicas e psicológicas, de se
locomover e percorrer o roteiro de ida e volta, com segurança e satisfação. Se há pessoas
no grupo com quaisquer limitações, isso deve ser um critério prioritário de decisão para a
escolha de cada atrativo a ser explorado no roteiro. Consultar também se a estrutura de
atendimento  contempla  acessibilidade  para  as  pessoas  portadoras  de  tais  limitações.
Ainda são poucos os lugares com rampas, mobiliário diferenciado, sanitário especial e
cadeiras com rodas apropriadas ao trânsito em superfícies irregulares.
  Ao praticar o ecoturismo com seus colegas, percebam também o potencial de melhoria da
qualidade  de  vida  dos  empreendimentos  humanos  de  impacto  ambiental  positivo.  Ao
retornar  o  grupo  pode  se  juntar  e  construir  atividades  que  complementarão  o
aprendizado, a partir da experiência vivenciada em outro habitat.
  Há quem enfatize que a prática do ecoturismo também serve ao despertar vocacional de
empreendedores,  dada  multiplicidade  observada  no  campo,  de  ofícios  que  ainda  são
feitos à mão, com materiais naturais e ferramentas simples.
  Em localidades de economia simples o grupo pode efetuar compras em locais diferentes
para melhor distribuir recursos financeiros entre a comunidade anfitriã.
  Privilegiar a aquisição de alimentos locais beneficia diretamente aquele lugar e as pessoas
que ali vivem. Também proporciona ao grupo experimentar iguarias que não se tinha por
hábito  ingerir  comumente,  o  que  pode  inclusive,  vir  a  ser  um  dos  aspectos  notáveis
daquele circuito educacional.
  O grupo consente que o estudo do meio possa ter cardápio mais saudável, equilibrado,
com menor ingestão de alimento industrializado?
  Qual ecossistema se visitará em cada etapa do roteiro? Prepare a mochila e lembre­se de
que irá carregá­la. Pode­se precisar de espaço e musculatura disponíveis para a volta,
com o artesanato sustentável de lá. Prefira bagagem ergonômica.
    Alguns equipamentos são importantes para sua segurança, outros para sua comodidade
(pertences  pessoais,  chapéu,  calçado  confortável,  cantil,  bússola,  agasalho,  binóculo,
 
câmera, bloco e lápis para anotações do diário de campo, seu kit básico de higiene e
saúde).
  Usar roupas de cores parecidas às do ambiente melhora o conforto térmico em trilhas ao
ar livre.
    Evitar o uso de cosméticos com fragrâncias fortes, pode inclusive reduzir a atração de
insetos,  mas  em  alguns  lugares  o  uso  de  repelentes  será  inevitável.  Pesquise  sobre  a
necessidade  de  vacinas  e  com  quanto  tempo  de  antecedência  à  viagem  deverá  ser
vacinado.  Verifique  sua  compatibilidadde  para  ingerir  mais  alimentos  fontes  de
vitaminas do complexo B, antes de ir a ambientes naturais.
  Alguém do grupo tem alergia à picada de inseto, pólen, treliça de bambu, tetos vivos? Há
alguém  no  grupo  capaz  de  prestar  socorro  e  resgate?  O  telefone  funciona  no  lugar
visitado? Caso precise, há banco?
  Uns andam melhor com as mãos desimpedidas, outros preferem usar bastão para auxiliar
no equilíbrio. Andar somente nas trilhas estabelecidas, em fila. Os atalhos favorecem a
erosão e podem até afugentar a fauna, também.
  Viagens em grupos menores tendem a reduzir o impacto de visitação, porém nem sempre
é possível levar grupos de até 10 pessoas em cada estudo do meio com alunos.
    Para  o  bem  estar  dos  animais  silvestres,  não  leve  animais  domésticos  para  ambientes
naturais.
  É severamente prejudicial o tráfego de veículos movidos a combustível em praias, matas,
dunas, córregos, rios ou qualquer outro ambiente natural.
  Cuidar para que os alunos não arremessem nenhum objeto ou detrito para fora do veículo,
bem como para que estejam com o cinto de segurança afivelado.
  Programe a saída da escola de modo a aproveitar integralmente o tempo destinado para a
visita. Caso ocorra atraso na chegada, o tempo de visitação poderá vir a ser reduzido.
  Durante a visita o guia é beneficiado quando os alunos tem seu nome em local visível, em
etiqueta ou crachás feitos por eles próprios.
    Alguns  ecoturistas  sentem­se  movidos  à  água  de  coco,  outros  precisam  ser  lembrados
sobre a necessidade de hidratação constante ao ar livre!
  Muitíssimo cuidado com fogo. Tenha certeza de haver apagado­o completamente antes de
o grupo deixar o local.
  Continuam valendo as recomendações de não desperdiçar alimento, água, energia elétrica
e a paciência alheia.
  Essa lista será acrescida pelas considerações do grupo no percurso...
 
 
DESDOBRAMENTO DO MAPA
 
o   Quais outros aspectos percebidos e significados construídos pelo grupo durante o estudo
serão adicionados ao mapa inicial?
o      Quais  os  principais  aspectos  socioambientais  de  cada  lugar  que  serão  trazidos  pelos
integrantes do grupo ao retorno de cada circuito ecoturístico?
o   Que diferenças mais notáveis o grupo identificou em relação ao seu habitat?
o      Quem se interessou em registrar a jornada pode colaborar para o painel, varal, mural,
jardim, cordel, jornal, internet, peça e tantos outros meios de expressão do Brasil.
o   Para que o próximo estudo do meio seja ainda melhor, o que precisará ser adequado pelo
grupo?
 
 
O GUIA DEVE SER LEGAL
 
Sem nenhum tipo de demérito à experiência profissional e ao conhecimento da comissão
organizadora que integra o grupo, preliminarmente se deve esclarecer que no Brasil, a condução
de  visitas  com  pessoas  em  atrativos  turísticos  é  uma  das  atribuições  do  guia  de  turismo,
profissional regulamentado e com formação específica, apto a atender a todos os passageiros
com  segurança  e  qualidade,  do  início  ao  término  dos  serviços  contratados.  Saiba  mais  em
BRASIL Decreto 946, de 01/10/1993. Regulamenta a Lei nº 8.623, de 28 de janeiro de 1993,
que dispõe sobre a profissão de Guia de Turismo e dá outras providências.
Isso traz algumas responsabilidades adicionais à organização do grupo: colaborar para
que o grupo usufrua da atuação do guia de turismo que estiver realizando o roteiro e quando
oportuno, complementar as informações pertinentes ao plano educativo gerador do percurso.
A parceria entre guia, organização e grupo faz toda diferença positiva durante a vivência
do  circuito.  Desde  o  detalhamento  do  estudo  do  meio,  preze  sempre  que  possível,  pela
contratação de empresas e guias de turismo devidamente habilitados no CadasTur.
Confirme previamente junto aos guias de turismo os detalhes de que precisará saber para
o planejamento correto da viagem.
Atualmente,  há  disponível  nos  diversos  guias  turísticos  já  publicados,  bastante
informação digital e virtual, mas sem sempre confiável, o que amplia a importância de obter o
contato complementar com as pessoas da base na qual o roteiro será realizado.
O detalhamento prévio de cada etapa do roteiro que será realizado é fundamental. Cada
lugar  tem  suas  regras  de  visitação  e  segurança,  mesmo  que  tais  informações  não  estejam
expressas  em  uma  placa,  por  exemplo.  Quando  a  informação  sobre  os  lugares  é  construída
previamente, além de se evitar contratempos, se amplia o interesse do grupo pela descoberta.
Buscando  reduzir  a  chance  de  ocorrerem  imprevistos  e  transtornos  ao  grupo,  tenha
clareza  do  que  está  sendo  adquirido  e  contratado  junto  aos  fornecedores  de  serviços  como
transporte, alimentação e hospedagem. O grupo deve colaborar para o cumprimento dos horários
de permanência em cada atividade, para que o estudo tenha a sequência prevista.
Cada integrante é responsável pela sua segurança e deverá zelar também pela segurança
dos demais integrantes do grupo. Deve ser combinado de forma clara e unânime, que não se
infringirá o limite de segurança estabelecido em cada etapa do roteiro.
 
DESDE O SÉCULO PASSADO
 
Em 1988, Ecotourism Association of Australia valida o Código de Práticas para Operadoras
de Ecoturismo, em que se propõe o ecoturismo útil para:
    Fortalecer  os  esforços  para  a  conservação  e  aumentar  a  integridade  natural  dos  locais
visitados;
  Respeitar as características de outras culturas;
  Ser eficiente no uso de recursos naturais (água, energia);
  Garantir que o descarte de lixo tenha um impacto mínimo, ambiental e estético;
  Desenvolver um programa de reciclagem de lixo;
  Apoiar fornecedores que seguem uma ética de conservação;
  Manter­se atualizado em assuntos políticos e ambientais da região visitada;
    Trabalhar  em  rede  com  outros  interessados,  para  troca  de  informações  a  respeito  de
desenvolvimentos relevantes, bem como estimular o uso deste Código de Práticas;
  Divulgar as Diretrizes para aumentar a consciência ambiental dos consumidores;
  Apoiar a educação e o treinamento ecoturístico para guias e administradores;
  Empregar guias instruídos e credenciados, que respeitem os ambientes e culturas locais;
    Fornecer  educação,  interpretação  e  diretrizes  apropriadas  aos  clientes,  respeitando  a
história natural e cultural da área visitada;
  Usar produtos locais que beneficiem a comunidade, sem estimular o comércio de artefatos
feitos a partir de espécies ameaçadas;
  Não perturbar intencionalmente ou encorajar a perturbação da vida selvagem, bem como
de seus habitats;
    Manter  veículos  nas  rotas  indicadas,  aceitar  as  regras  das  áreas  naturais  e  padrões  de
segurança;
  Assegurar a verdade na publicidade e maximizar a qualidade da experiência para hóspede
e anfitrião.
 
AGRADECIMENTOS
 
Pela boa vontade da equipe editorial da Revista Educação Ambiental em Ação e das demais
pessoas que, voluntariamente, ajudam a construir esta publicação.
Pelo privilégio de ser brasileiro e colaborar para a conservação de nosso patrimônio.
 
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