Desenvolvendo projetos de
Educação Ambiental e Educação em
Ciências a partir da escola
Leonardo Kaplan (EDU/UERJ)
Maria Jacqueline Girão S. Lima (FE/UFRJ)
Natalia Rios (CAp/UFRJ)
A inserção da educação ambiental
nas escolas e a questão da
interdisciplinaridade
• LOUREIRO, C. F. B.; LIMA, M. J. G. S. A educação ambiental e a
escola: uma tentativa de (re)conciliação. In: Paz, R. J. (Org.).
Fundamentos, reflexões e experiências em Educação
Ambiental. João Pessoa: Ed. Universitária/UFPB, 2006
• LIMA, M. J. S. Reflexões sobre a prática interdisciplinar da
educação ambiental no contexto escolar. In: Anais da 29ª
Reunião Anual da ANPEd: Educação, Cultura e Conhecimento
na contemporaneidade: desafios e compromissos, v. 1, pp. 1-
6, 2006
• LOUREIRO, C. F. B.; LIMA, M. J. G. S. Hegemonia do discurso
empresarial de sustentabilidade nos projetos de educação
ambiental no contexto escolar: nova estratégia do capital.
Revista Contemporânea de Educação, vol. 7, n. 14, pp. 289-
303, agosto/dezembro 2012.
EA como campo de pesquisas
• Pesquisadores oriundos de diferentes áreas
• EA como linha de pesquisa em muitos
programas de pós, GTs em associações de
pesquisa, diversos grupos de pesquisa pelo
país
• Dissertações de mestrado e teses de
doutorado
EA nos contextos escolares
• Censo Escolar 2003: 65% das escolas do EF inserem a
temática ambiental em suas disciplinas de 1ª à 4ª série; 27%
tem projetos específicos
• Apesar das pesquisas e investimentos públicos e privados, a
EA praticada nas escolas não tem atendido às expectativas
de pesquisadores, alunos e professores, encontrando-se
fragilizada (Guimarães, 2004)
• Cabem, portanto, reflexões sobre problemas identificados na
EA como atividade escolar
• Perspectiva adotada aqui: EA Escolar Crítica, Transformadora
e Emancipatória
EA Crítica, Transformadora e Emancipatória
“Em uma Educação Ambiental que se afirme como emancipatória ou a
transformação que se busca é plena, o que significa englobar as
múltiplas esferas da vida planetária e social, inclusive individual, ou o
processo educativo não pode ser subentendido como transformador.
Podemos afirmar que a prática educativa que ignora tal entendimento
do sentido transformador, a problematização crítica da realidade e a
possibilidade de atuação consciente nesta, se configura como
politicamente compatibilista, socialmente reprodutora e
metodologicamente não dialógica, adequando sujeitos a padrões,
modelos idealizados de natureza, dogmas e relações opressoras de
poder. Essa é a conotação pseudotransformadora da educação
hegemônica, que prega a mutabilidade das coisas pelo movimento
progressivo e linear de conhecimento da realidade, numa atividade
individual-atomística isenta de condicionamento social.”
(Loureiro, C. F. B. Educar, participar e transformar em Educação
Ambiental, 2004, pp. 92-93).
Identificação de problemas na EA nas escolas
• Existiriam limitações discursivas e epistemológicas (“armadilhas
paradigmáticas”) evidenciadas por currículos disciplinares,
ultrapassados e distanciados da realidade dos alunos
• Contradições entre discursos e práticas de professores que, mesmo
bem intencionados, não conseguem realizar uma EA interdisciplinar
e transformadora
• Grün, 1996; Viégas, 2002; Guimarães, 2004; Carvalho, 2004;
Layrargues, 2004; Fracalanza, s.d.
Visão hegemônica sobre currículos escolares
• Escola, saberes escolares e currículos são vistos como
engessados, mecanicistas e reprodutivistas
• Aos professores são apontadas limitações diversas, sem
situar suas contradições no escopo das contradições da
sociedade como uma totalidade historicamente
construída
• Muitos destes autores críticos raramente buscam seus
referenciais teóricos no campo da Educação, o que faz
com que nem sempre sejam consideradas as
especificidades da escola definidas por seus objetivos,
características da profissão docente, espaço físico,
clientela e políticas públicas educacionais
Visão hegemônica sobre currículos escolares
• Nesta conjuntura, é comum que se atribua à escola um grau de
responsabilidade no processo de formação de valores e
comportamentos que só é cabível se a imaginarmos ou como algo
cuja dinâmica independa da sociedade da qual é uma prática social,
ou como sendo a reprodução direta e fiel da sociedade
• Pesquisas que apontam problemas e erros da EA nas escolas, mas
não dialogam com as mesmas, não trazendo grande contribuições
para a sua melhoria
Relação escola-sociedade
Adaptado de Cortella, M. S. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e
políticos. São Paulo: Cortez, 2003.
Expansão para menos da escolas públicas
no Brasil
 Escola pública e pobreza no Brasil: a ampliação para menos – Eveline Algebaile
(2005)
 A expansão da oferta de vagas nas escolas públicas para atender a entrada dos
pobres se deu com a precarização das condições (físicas, de trabalho, de
currículo, etc) das escolas públicas
Expansão da educação ambiental nas
escolas
 Censo escolar 2001: 61,2% das escolas ofereciam EA (25,3 mi de matr.)
 Censo escolar 2004: 94% das escolas ofereciam EA (32,3 mi de matr.)
 Como se insere a educação ambiental nas escolas?
 2005-2006: Pesquisa do MEC/INEP/Universidades “O que fazem as escolas que dizem que
fazem educação ambiental?”
 418 escolas públicas e privadas de 10 estados (4 municípios por estado, 10 escolas por
município)
 Norte: PA; AP -> UFPA
 Nordeste: Ceará; RN -> UFRN
 Centro-Oeste: MS (38 escolas); MT -> UFMS
 Sudeste: MG; RJ; SP (2 municípios) -> UFRJ
 Sul: SC; RS -> FURG
 RJ: Rio de Janeiro, Niterói, Macaé e Maricá
Perfil da EA nas escolas
 Modalidades de Inserção da EA: projetos, disciplinas especiais e inserção da temática
ambiental nas disciplinas (MEC/INEP, 2006, p. 34)
Perfil da EA nas escolas
Perfil da EA nas escolas
Perfil de EA nas escolas
Perfil da EA nas escolas
Perfil da EA nas escolas
Na escola...
 discurso empresarial preocupado com o ambiente e com a
sociedade: empresa socialmente responsável ou “marketing
verde” (LAMOSA, 2010).
 Empresas passaram a investir nas escolas, reforçando a
ideologia do cada um faz a sua parte.
 Ambientalização do currículo escolar promovida pela iniciativa
das empresas: cursos de formação continuada e materiais
didáticos.
Cabe perguntar que concepções
de ambiente, sociedade, ciência,
cultura e educação têm sido
difundidas nestes cursos e
materiais e quais as implicações
destas concepções na prática do
professor e, acima de tudo, na
formação da consciência
ambiental dos alunos (BAGNOLO,
2009:588).
23
Projetos empresarias nas escolas
públicas
 Rede Municipal de Teresópolis/RJ: projetos de responsabilidade social com temas (água, energia,
reciclagem) e materiais didáticos definidos pelas empresas (Nova Cedae, Indústria Comary, Ampla) –
(Lamosa, 2010)
 Programa “Agronegócio na escola”: redes municipais e estadual de SP
 Escola Sustentável (C. E. Erich Walter
Heine): parceria entre governo estadual RJ e
TKCSA, Santa Cruz/RJ
 Projeto escolas sustentáveis
CGEA/MEC:
–Espaço físico;
–Currículo;
–Gestão escolar;
O Caso “Escolas sustentáveis TKCSA-Governo do
estado do RJ
 Contexto geral da TKCSA (instalação na Baía de Sepetiba)
 Conflitos socioambientais:
– Expulsão de assentados (MST) – 75 famílias;
– Impactos a saúde (doenças de pele, irratações nos olhos e vias respiratórias);
– Impactos ao meio ambiente 76% CO2 na cidade do Rio de Janeiro;
– “Chuva de prata” (folhigens de grafite);
– Ressupensão de metais pesados no mar;
 Batalha jurídica:
– Auto de infração (IEF);
– Embargo da obra e multa (IBAMA);
– Interdição e embargo (MPT);
– 9 ações civis públicas;
– Inquérito no MPF;
– Multa de 1,8 milhão (Inea);
 Manifestações e denúncias (moradores, pescadores, pesquisadores, movimentos
sociais)
“Desenvolvimento a ferro e fogo”
 Colégio Estadual Erich Walter Heine:
– Primeira escola sustentável da América Latina;
– Início: 2011;
– 200 alunos;
– Horário integral – 7 as 17h;
– Investimento da TKCSA: 11 milhões de reais
– Ensino Médio Integrado:
Curso técnico em administração
Parceria público-privada: formar mão-de-obra para TKCSA
– Selo LEED (118 nos EUA, 1 Noruega, 1 Indonésia):
 Certificação de edifícios sustentáveis (ONG US Green Building Council;)
Ecotelhado, reaproveitamento de água da chuva, ecopiso, ar-
condicionado (40% -), sensores de luz nas salas, lâmpadas led, captação
de luz solar e ventos, coleta seletiva de lixo, sistema acústico,
acessibilidade para cadeirantes, plantio de espécies nativas, etc.
– Simulação de ambiente empresarial:
Empresa júnior
– Formação (Ciclos Consultoria Ambiental):
Programa de Comunicação e Educação Ambiental;
Reportagem CNT
Protesto dos alunos
Hegemonia do discurso empresarial
em projetos de EA nas escolas públicas
• Noção de desenvolvimento sustentável
• Leitura idealizada das relações sociais,
pragmática e instrumentalizadora
• Ideologia da sustentabilidade no interior da
EA: ex. -> discurso da UNESCO
Hegemonia do discurso empresarial
em projetos de EA nas escolas públicas
• Qual é o discurso hegemônico nas práticas
escolares em EA?
• De que forma professores e professoras vêm
lidando com o mesmo?
• Práticas escolares vêm sendo crescentemente
promovidas por empresas e ONGs que prestam
serviços a essas e reproduzem um discurso de
capitalismo verde (“economia verde”)
Hegemonia do discurso empresarial
em projetos de EA nas escolas públicas
• Até o final dos anos 1990, a disputa por
hegemonia discursiva no campo da EA dava-
se, principalmente, entre conservacionista e
socioambientalistas
• Nos anos 2000, a disputa passou a ser entre
conservacionistas, pragmáticos e críticos, com
predomínio de proposta de EA dentro da
perspectiva do “capitalismo verde”
“Capitalismo verde”
• Defende o “uso mais racional” dos recursos naturais
(sem refletir e buscar romper com as relações
econômicas de mercado e o processo de
acumulação de riqueza material)
• Ênfase nos aspectos comportamentais, técnico-
gerenciais e éticos da relação humana com a
natureza dita não humana
• Caráter instrumental e de aplicação imediata na vida
de cada indivíduo: poderoso meio de reprodução
ampliada de ideologias compatibilistas entre
sustentabilidade e capitalismo que veicula
“Capitalismo verde”
• Naturalização do modo de produção e
organização social dominante
• Abordagem tangencial e estritamente moral,
quando se fala, a questão das desigualdades
sociais que determina o acesso assimétrico ao
que a natureza dispõe, ao saneamento, à
habitação e outros fatores associados à
sobrevivência das sociedades humanas.
(LAYRARGUES e LIMA, 2011)
EA hegemônica e mudança social
• Criou-se uma expectativa de que cabe à EA “conscientizar” e
“sensibilizar” sobre questões como consumo, uso de energia,
mudanças climáticas, biodiversidade, conservação, etc
• Isso levaria a uma transformação em direção a uma “sociedade
sustentável”
• O indivíduo é fetichizado, com ações pontuais e
comportamentais, muitas vezes confundidas com políticas
públicas
• Temas como modo de produção, distribuição de bens
materiais, acesso à terra e à cidade ou não são tratado ou são
secundarizados
EA hegemônica e mudança social
• Propagação da ideia falaciosa de “salvação
planetária” fundada em uma concepção não-
conflitiva de sociedade (“todos no mesmo
barco”)
• Discurso harmonioso de parceria entre
sujeitos e concialiação de classe na promoção
da sustentabilidade de fácil assimilação
EA hegemônica nas escolas públicas
• Novo padrão de sociabilidade promovido pelo
empresariado e por ONGs
• Lógica de prestação de serviços, dissociadas das lutas
sociais e ligadas a setores empresariais
• Movimento vinculado à atuação crescente do
empresariado nas escolas públicas por meio de projetos
de responsabilidade social
• Atuação de agentes de fora para dentro da escola que
afirmam o diálogo e o consenso, negando os conflitos
estruturais
Hegemonia do discurso empresarial de
sustentabilidade nas escolas
• Sustentabilidade como premissa, mas sem
aprofundamento da polissemia do termo
• Principal meio de difusão do discurso de
sustentabilidade do capital via relação escola-
empresa (Bagnolo, 2009)
• Grande entusiasmo e ampla aceitação a esses
projetos empresariais e relação dependente de
professores aos recursos das empresas
Hegemonia do discurso empresarial de
sustentabilidade nas escolas
• Ambientalização curricular das escolas por
iniciativa das empresas: cursos de formação
continuada e materiais didáticos
• “Cabe perguntar que concepções de ambiente,
sociedade, ciência, cultura e educação têm sido
difundidas nestes cursos e materiais e quais as
implicações destas concepções na prática do
professor e, acima de tudo, na formação da
consciência ambiental dos alunos”
(Bagnolo, 2009, p. 588).
Hegemonia do discurso empresarial de
sustentabilidade nas escolas
• Claro que também há rejeição a esses
projetos, mas a presença de empresas nas
escolas não é inócua
• Pesquisa de Lamosa (2010) na rede municipal
de Teresópolis: projetos unilateralmente
formulados pelas empresas
Parcerias público-privadas nas escolas
“(...) com a parceria público/privada e o
fortalecimento do terceiro setor, o privado
acaba influenciando ou definindo o público,
não mais apenas na agenda, mas na execução
das políticas, definindo o conteúdo e a gestão
da educação” (Peroni, 2009, p. 139)
Estudo sobre PPPs no Rio
(Monteiro, 2009)
• Algumas conclusões:
1) Normalmente são os parceiros privados que procuram
as instâncias de ensino público;
2) As propostas acabam refletindo o perfil e os interesses
do financiador ou executor privado;
3) Poucos projetos iniciam com um diagnóstico de
problemas da rede de ensino ou da escola;
4) Há indícios de que as ofertas de parceria são desiguais
entre as CREs e relacionadas à localização ou ao desejo da
organização parceira;
Estudo sobre PPPs no Rio
(Monteiro, 2009)
• Algumas conclusões:
5) 81% das parcerias têm um projeto escrito, porém
em 60% dos casos a escola não participaram de sua
elaboração;
6) As organizações parceiras já chegam até as
escolas com o projeto financiado e nem sempre a
escola localiza o papel do agente financiador;
7) Não se verificou correlação significativa entre a
existência de parcerias e a melhora dos indicadores
educacionais, como a Prova Brasil e o IDEB.
Estudo sobre PPPs no Rio
(Monteiro, 2009)
• Por sua vez, as escolas investigadas justificaram
o estabelecimento das parcerias face à carência
das redes de ensino e diante da possibilidade de
os trabalhos desenvolvidos na escola ganharem
visibilidade dentro da rede.
• Muitos defendem que os projetos se adequem
às necessidades da escola, mas essa é uma
premissa que vem sendo descumprida
sistematicamente (MONTEIRO, 2009).
Estudo sobre PPPs no Rio
(Monteiro, 2009)
• Tanto pode haver adesão aos projetos
empresariais quanto resistência a eles
• Mas faltam condições para as escolas exercerem
sua função crítica e desenvolverem um trabalho
autônomo de qualidade considerando a
ausência de recursos para isto
Concluindo
• Disputas no campo da EA: necessidade de explicitação das
perspectivas teóricas, desfazendo supostos consensos em torno de
objetivos, conceitos, pressupostos e práticas
• Crítica ao discurso hegemônico de sustentabilidade do capital
• Crescente número de pesquisas sobre as graves consequências da
entrada do discurso empresarial nas escolas em projetos de EA
• Recomendação que essas vozes de resistência e crítica sejam
ouvidas e potencializadas nos contextos de elaboração de políticas
educacionais
• Se não para impedir, pelo menos para criar rigorosos processos de
seleção e avaliação desses projetos no interior de cada escola.
• A partir da leitura do texto “reflexões sobre a
prática interdisciplinar da educação ambiental
no contexto escolar”, em grupo, responda à
questão para debate:
• Quais são as possibilidades e os limites da
interdisciplinaridade na educação ambiental
escolar?
• A interdisciplinaridade é fundamental para uma
boa prática de EA?

Apresentação cespeb 2016 - A inserção da EA nas escolas e a tensão público-privado

  • 1.
    Desenvolvendo projetos de EducaçãoAmbiental e Educação em Ciências a partir da escola Leonardo Kaplan (EDU/UERJ) Maria Jacqueline Girão S. Lima (FE/UFRJ) Natalia Rios (CAp/UFRJ)
  • 2.
    A inserção daeducação ambiental nas escolas e a questão da interdisciplinaridade
  • 3.
    • LOUREIRO, C.F. B.; LIMA, M. J. G. S. A educação ambiental e a escola: uma tentativa de (re)conciliação. In: Paz, R. J. (Org.). Fundamentos, reflexões e experiências em Educação Ambiental. João Pessoa: Ed. Universitária/UFPB, 2006 • LIMA, M. J. S. Reflexões sobre a prática interdisciplinar da educação ambiental no contexto escolar. In: Anais da 29ª Reunião Anual da ANPEd: Educação, Cultura e Conhecimento na contemporaneidade: desafios e compromissos, v. 1, pp. 1- 6, 2006 • LOUREIRO, C. F. B.; LIMA, M. J. G. S. Hegemonia do discurso empresarial de sustentabilidade nos projetos de educação ambiental no contexto escolar: nova estratégia do capital. Revista Contemporânea de Educação, vol. 7, n. 14, pp. 289- 303, agosto/dezembro 2012.
  • 4.
    EA como campode pesquisas • Pesquisadores oriundos de diferentes áreas • EA como linha de pesquisa em muitos programas de pós, GTs em associações de pesquisa, diversos grupos de pesquisa pelo país • Dissertações de mestrado e teses de doutorado
  • 6.
    EA nos contextosescolares • Censo Escolar 2003: 65% das escolas do EF inserem a temática ambiental em suas disciplinas de 1ª à 4ª série; 27% tem projetos específicos • Apesar das pesquisas e investimentos públicos e privados, a EA praticada nas escolas não tem atendido às expectativas de pesquisadores, alunos e professores, encontrando-se fragilizada (Guimarães, 2004) • Cabem, portanto, reflexões sobre problemas identificados na EA como atividade escolar • Perspectiva adotada aqui: EA Escolar Crítica, Transformadora e Emancipatória
  • 7.
    EA Crítica, Transformadorae Emancipatória “Em uma Educação Ambiental que se afirme como emancipatória ou a transformação que se busca é plena, o que significa englobar as múltiplas esferas da vida planetária e social, inclusive individual, ou o processo educativo não pode ser subentendido como transformador. Podemos afirmar que a prática educativa que ignora tal entendimento do sentido transformador, a problematização crítica da realidade e a possibilidade de atuação consciente nesta, se configura como politicamente compatibilista, socialmente reprodutora e metodologicamente não dialógica, adequando sujeitos a padrões, modelos idealizados de natureza, dogmas e relações opressoras de poder. Essa é a conotação pseudotransformadora da educação hegemônica, que prega a mutabilidade das coisas pelo movimento progressivo e linear de conhecimento da realidade, numa atividade individual-atomística isenta de condicionamento social.” (Loureiro, C. F. B. Educar, participar e transformar em Educação Ambiental, 2004, pp. 92-93).
  • 8.
    Identificação de problemasna EA nas escolas • Existiriam limitações discursivas e epistemológicas (“armadilhas paradigmáticas”) evidenciadas por currículos disciplinares, ultrapassados e distanciados da realidade dos alunos • Contradições entre discursos e práticas de professores que, mesmo bem intencionados, não conseguem realizar uma EA interdisciplinar e transformadora • Grün, 1996; Viégas, 2002; Guimarães, 2004; Carvalho, 2004; Layrargues, 2004; Fracalanza, s.d.
  • 9.
    Visão hegemônica sobrecurrículos escolares • Escola, saberes escolares e currículos são vistos como engessados, mecanicistas e reprodutivistas • Aos professores são apontadas limitações diversas, sem situar suas contradições no escopo das contradições da sociedade como uma totalidade historicamente construída • Muitos destes autores críticos raramente buscam seus referenciais teóricos no campo da Educação, o que faz com que nem sempre sejam consideradas as especificidades da escola definidas por seus objetivos, características da profissão docente, espaço físico, clientela e políticas públicas educacionais
  • 10.
    Visão hegemônica sobrecurrículos escolares • Nesta conjuntura, é comum que se atribua à escola um grau de responsabilidade no processo de formação de valores e comportamentos que só é cabível se a imaginarmos ou como algo cuja dinâmica independa da sociedade da qual é uma prática social, ou como sendo a reprodução direta e fiel da sociedade • Pesquisas que apontam problemas e erros da EA nas escolas, mas não dialogam com as mesmas, não trazendo grande contribuições para a sua melhoria
  • 11.
    Relação escola-sociedade Adaptado deCortella, M. S. A escola e o conhecimento: fundamentos epistemológicos e políticos. São Paulo: Cortez, 2003.
  • 13.
    Expansão para menosda escolas públicas no Brasil  Escola pública e pobreza no Brasil: a ampliação para menos – Eveline Algebaile (2005)  A expansão da oferta de vagas nas escolas públicas para atender a entrada dos pobres se deu com a precarização das condições (físicas, de trabalho, de currículo, etc) das escolas públicas
  • 14.
    Expansão da educaçãoambiental nas escolas  Censo escolar 2001: 61,2% das escolas ofereciam EA (25,3 mi de matr.)  Censo escolar 2004: 94% das escolas ofereciam EA (32,3 mi de matr.)  Como se insere a educação ambiental nas escolas?  2005-2006: Pesquisa do MEC/INEP/Universidades “O que fazem as escolas que dizem que fazem educação ambiental?”  418 escolas públicas e privadas de 10 estados (4 municípios por estado, 10 escolas por município)  Norte: PA; AP -> UFPA  Nordeste: Ceará; RN -> UFRN  Centro-Oeste: MS (38 escolas); MT -> UFMS  Sudeste: MG; RJ; SP (2 municípios) -> UFRJ  Sul: SC; RS -> FURG  RJ: Rio de Janeiro, Niterói, Macaé e Maricá
  • 15.
    Perfil da EAnas escolas  Modalidades de Inserção da EA: projetos, disciplinas especiais e inserção da temática ambiental nas disciplinas (MEC/INEP, 2006, p. 34)
  • 16.
    Perfil da EAnas escolas
  • 17.
    Perfil da EAnas escolas
  • 18.
    Perfil de EAnas escolas
  • 19.
    Perfil da EAnas escolas
  • 20.
    Perfil da EAnas escolas
  • 21.
    Na escola...  discursoempresarial preocupado com o ambiente e com a sociedade: empresa socialmente responsável ou “marketing verde” (LAMOSA, 2010).  Empresas passaram a investir nas escolas, reforçando a ideologia do cada um faz a sua parte.  Ambientalização do currículo escolar promovida pela iniciativa das empresas: cursos de formação continuada e materiais didáticos.
  • 22.
    Cabe perguntar queconcepções de ambiente, sociedade, ciência, cultura e educação têm sido difundidas nestes cursos e materiais e quais as implicações destas concepções na prática do professor e, acima de tudo, na formação da consciência ambiental dos alunos (BAGNOLO, 2009:588).
  • 23.
    23 Projetos empresarias nasescolas públicas  Rede Municipal de Teresópolis/RJ: projetos de responsabilidade social com temas (água, energia, reciclagem) e materiais didáticos definidos pelas empresas (Nova Cedae, Indústria Comary, Ampla) – (Lamosa, 2010)  Programa “Agronegócio na escola”: redes municipais e estadual de SP  Escola Sustentável (C. E. Erich Walter Heine): parceria entre governo estadual RJ e TKCSA, Santa Cruz/RJ
  • 24.
     Projeto escolassustentáveis CGEA/MEC: –Espaço físico; –Currículo; –Gestão escolar;
  • 25.
    O Caso “Escolassustentáveis TKCSA-Governo do estado do RJ  Contexto geral da TKCSA (instalação na Baía de Sepetiba)  Conflitos socioambientais: – Expulsão de assentados (MST) – 75 famílias; – Impactos a saúde (doenças de pele, irratações nos olhos e vias respiratórias); – Impactos ao meio ambiente 76% CO2 na cidade do Rio de Janeiro; – “Chuva de prata” (folhigens de grafite); – Ressupensão de metais pesados no mar;  Batalha jurídica: – Auto de infração (IEF); – Embargo da obra e multa (IBAMA); – Interdição e embargo (MPT); – 9 ações civis públicas; – Inquérito no MPF; – Multa de 1,8 milhão (Inea);  Manifestações e denúncias (moradores, pescadores, pesquisadores, movimentos sociais) “Desenvolvimento a ferro e fogo”
  • 26.
     Colégio EstadualErich Walter Heine: – Primeira escola sustentável da América Latina; – Início: 2011; – 200 alunos; – Horário integral – 7 as 17h; – Investimento da TKCSA: 11 milhões de reais – Ensino Médio Integrado: Curso técnico em administração Parceria público-privada: formar mão-de-obra para TKCSA – Selo LEED (118 nos EUA, 1 Noruega, 1 Indonésia):  Certificação de edifícios sustentáveis (ONG US Green Building Council;) Ecotelhado, reaproveitamento de água da chuva, ecopiso, ar- condicionado (40% -), sensores de luz nas salas, lâmpadas led, captação de luz solar e ventos, coleta seletiva de lixo, sistema acústico, acessibilidade para cadeirantes, plantio de espécies nativas, etc. – Simulação de ambiente empresarial: Empresa júnior – Formação (Ciclos Consultoria Ambiental): Programa de Comunicação e Educação Ambiental; Reportagem CNT Protesto dos alunos
  • 27.
    Hegemonia do discursoempresarial em projetos de EA nas escolas públicas • Noção de desenvolvimento sustentável • Leitura idealizada das relações sociais, pragmática e instrumentalizadora • Ideologia da sustentabilidade no interior da EA: ex. -> discurso da UNESCO
  • 28.
    Hegemonia do discursoempresarial em projetos de EA nas escolas públicas • Qual é o discurso hegemônico nas práticas escolares em EA? • De que forma professores e professoras vêm lidando com o mesmo? • Práticas escolares vêm sendo crescentemente promovidas por empresas e ONGs que prestam serviços a essas e reproduzem um discurso de capitalismo verde (“economia verde”)
  • 29.
    Hegemonia do discursoempresarial em projetos de EA nas escolas públicas • Até o final dos anos 1990, a disputa por hegemonia discursiva no campo da EA dava- se, principalmente, entre conservacionista e socioambientalistas • Nos anos 2000, a disputa passou a ser entre conservacionistas, pragmáticos e críticos, com predomínio de proposta de EA dentro da perspectiva do “capitalismo verde”
  • 30.
    “Capitalismo verde” • Defendeo “uso mais racional” dos recursos naturais (sem refletir e buscar romper com as relações econômicas de mercado e o processo de acumulação de riqueza material) • Ênfase nos aspectos comportamentais, técnico- gerenciais e éticos da relação humana com a natureza dita não humana • Caráter instrumental e de aplicação imediata na vida de cada indivíduo: poderoso meio de reprodução ampliada de ideologias compatibilistas entre sustentabilidade e capitalismo que veicula
  • 31.
    “Capitalismo verde” • Naturalizaçãodo modo de produção e organização social dominante • Abordagem tangencial e estritamente moral, quando se fala, a questão das desigualdades sociais que determina o acesso assimétrico ao que a natureza dispõe, ao saneamento, à habitação e outros fatores associados à sobrevivência das sociedades humanas. (LAYRARGUES e LIMA, 2011)
  • 32.
    EA hegemônica emudança social • Criou-se uma expectativa de que cabe à EA “conscientizar” e “sensibilizar” sobre questões como consumo, uso de energia, mudanças climáticas, biodiversidade, conservação, etc • Isso levaria a uma transformação em direção a uma “sociedade sustentável” • O indivíduo é fetichizado, com ações pontuais e comportamentais, muitas vezes confundidas com políticas públicas • Temas como modo de produção, distribuição de bens materiais, acesso à terra e à cidade ou não são tratado ou são secundarizados
  • 33.
    EA hegemônica emudança social • Propagação da ideia falaciosa de “salvação planetária” fundada em uma concepção não- conflitiva de sociedade (“todos no mesmo barco”) • Discurso harmonioso de parceria entre sujeitos e concialiação de classe na promoção da sustentabilidade de fácil assimilação
  • 34.
    EA hegemônica nasescolas públicas • Novo padrão de sociabilidade promovido pelo empresariado e por ONGs • Lógica de prestação de serviços, dissociadas das lutas sociais e ligadas a setores empresariais • Movimento vinculado à atuação crescente do empresariado nas escolas públicas por meio de projetos de responsabilidade social • Atuação de agentes de fora para dentro da escola que afirmam o diálogo e o consenso, negando os conflitos estruturais
  • 35.
    Hegemonia do discursoempresarial de sustentabilidade nas escolas • Sustentabilidade como premissa, mas sem aprofundamento da polissemia do termo • Principal meio de difusão do discurso de sustentabilidade do capital via relação escola- empresa (Bagnolo, 2009) • Grande entusiasmo e ampla aceitação a esses projetos empresariais e relação dependente de professores aos recursos das empresas
  • 36.
    Hegemonia do discursoempresarial de sustentabilidade nas escolas • Ambientalização curricular das escolas por iniciativa das empresas: cursos de formação continuada e materiais didáticos • “Cabe perguntar que concepções de ambiente, sociedade, ciência, cultura e educação têm sido difundidas nestes cursos e materiais e quais as implicações destas concepções na prática do professor e, acima de tudo, na formação da consciência ambiental dos alunos” (Bagnolo, 2009, p. 588).
  • 37.
    Hegemonia do discursoempresarial de sustentabilidade nas escolas • Claro que também há rejeição a esses projetos, mas a presença de empresas nas escolas não é inócua • Pesquisa de Lamosa (2010) na rede municipal de Teresópolis: projetos unilateralmente formulados pelas empresas
  • 38.
    Parcerias público-privadas nasescolas “(...) com a parceria público/privada e o fortalecimento do terceiro setor, o privado acaba influenciando ou definindo o público, não mais apenas na agenda, mas na execução das políticas, definindo o conteúdo e a gestão da educação” (Peroni, 2009, p. 139)
  • 39.
    Estudo sobre PPPsno Rio (Monteiro, 2009) • Algumas conclusões: 1) Normalmente são os parceiros privados que procuram as instâncias de ensino público; 2) As propostas acabam refletindo o perfil e os interesses do financiador ou executor privado; 3) Poucos projetos iniciam com um diagnóstico de problemas da rede de ensino ou da escola; 4) Há indícios de que as ofertas de parceria são desiguais entre as CREs e relacionadas à localização ou ao desejo da organização parceira;
  • 40.
    Estudo sobre PPPsno Rio (Monteiro, 2009) • Algumas conclusões: 5) 81% das parcerias têm um projeto escrito, porém em 60% dos casos a escola não participaram de sua elaboração; 6) As organizações parceiras já chegam até as escolas com o projeto financiado e nem sempre a escola localiza o papel do agente financiador; 7) Não se verificou correlação significativa entre a existência de parcerias e a melhora dos indicadores educacionais, como a Prova Brasil e o IDEB.
  • 41.
    Estudo sobre PPPsno Rio (Monteiro, 2009) • Por sua vez, as escolas investigadas justificaram o estabelecimento das parcerias face à carência das redes de ensino e diante da possibilidade de os trabalhos desenvolvidos na escola ganharem visibilidade dentro da rede. • Muitos defendem que os projetos se adequem às necessidades da escola, mas essa é uma premissa que vem sendo descumprida sistematicamente (MONTEIRO, 2009).
  • 42.
    Estudo sobre PPPsno Rio (Monteiro, 2009) • Tanto pode haver adesão aos projetos empresariais quanto resistência a eles • Mas faltam condições para as escolas exercerem sua função crítica e desenvolverem um trabalho autônomo de qualidade considerando a ausência de recursos para isto
  • 43.
    Concluindo • Disputas nocampo da EA: necessidade de explicitação das perspectivas teóricas, desfazendo supostos consensos em torno de objetivos, conceitos, pressupostos e práticas • Crítica ao discurso hegemônico de sustentabilidade do capital • Crescente número de pesquisas sobre as graves consequências da entrada do discurso empresarial nas escolas em projetos de EA • Recomendação que essas vozes de resistência e crítica sejam ouvidas e potencializadas nos contextos de elaboração de políticas educacionais • Se não para impedir, pelo menos para criar rigorosos processos de seleção e avaliação desses projetos no interior de cada escola.
  • 44.
    • A partirda leitura do texto “reflexões sobre a prática interdisciplinar da educação ambiental no contexto escolar”, em grupo, responda à questão para debate: • Quais são as possibilidades e os limites da interdisciplinaridade na educação ambiental escolar? • A interdisciplinaridade é fundamental para uma boa prática de EA?