PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 3
SINPEEM
COLEGA ASSOCIADO
A exemplo de anos anteriores, o curso preparatório
do SINPEEM para os concursos públicos de ingresso e de
acesso de 2007 para o provimento dos cargos de professor
de educação infantil, de ensino fundamental I e II e de
ensino médio, bem como de coordenador pedagógico, tem
o claro propósito do sindicato de investir cada vez mais
na formação dos profissionais de educação da rede muni-
cipal de ensino.
Milhares de associados ao SINPEEM que se inscre-
veram no prazo determinado farão o curso preparatório,
dividido em duas etapas: legislação e parte pedagógica.
Com base nos editais dos concursos publicados no
Diário Oficial da Cidade (DOC) em 5 de junho de 2007 e
retificados em 22 de junho, elaboramos esta apostila com
a legislação solicitada pela Secretaria Municipal de Edu-
cação (SME). Para facilitar o entendimento, algumas leis
foram resumidas ou tiveram artigos suprimidos.
Apesar de termos reivindicado um prazo de 120 dias
entre a publicação dos editais e a realização do concurso,
essencial para a elaboração do curso e aprendizado dos can-
didatos, a SME desconsiderou a necessidade de um tempo
maior para a preparação dos inscritos. Por isso, contamos
com a colaboração e compreensão para eventuais limita-
ções e problemas.
Desejamos a todos bom aproveitamento e um exce-
lente desempenho nas provas.
A DIRETORIA
CLAUDIO FONSECA
Presidente
4 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
ALARCÃO, Isabel
PROFESSORES REFLEXIVOS EM UMA ESCOLA REFLEXIVA.................................................................................................................... 6
BRUNEL, Carmem
JOVENS CADA VEZ MAIS JOVENS NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS .................................................................................. 12
CANDAU, Vera Maria (organizadora)
SOCIEDADE, EDUCAÇÃO E CULTURA(S): QUESTÕES E PROPOSTAS.............................................................................................. 19
CARVALHO, Rosita Edler
EDUCAÇÃO INCLUSIVA: COM OS PINGOS NOS “IS”...................................................................................................................... 25
CASTORINA, J. A.
PIAGET-VYGOTSKY: NOVAS CONTRIBUIÇÕES PARA O DEBATE..................................................................................................... 36
COLL, César
APRENDIZAGEM ESCOLAR E CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO.............................................................................................. 40
FREIRE, Paulo
PEDAGOGIA DA AUTONOMIA – SABERES NECESSÁRIOS À PRÁTICA EDUCATIVA ....................................................................... 43
FREITAS, Luiz Carlos de
CICLOS, SERIAÇÃO E AVALIAÇÃO: CONFRONTO DE LÓGICAS ..................................................................................................... 48
GARCIA, Olgair Gomes
A AULA COMO MOMENTO DE FORMAÇÃO DE EDUCANDOS E EDUCADORES.......................................................................... 52
GONÇALVES, Luiz Alberto Oliveira & SILVA, Petronilha Beatriz Gonçalves
O JOGO DAS DIFERENÇAS: O MULTICULTURALISMO E SEUS CONTEXTOS .................................................................................. 54
HADJI, Charles
AVALIAÇÃO DESMISTIFICADA ........................................................................................................................................................... 64
HARGREAVES, Andy
O ENSINO NA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: EDUCAÇÃO NA ERA DA INSEGURANÇA...................................................... 71
HOFFMANN, Jussara
O JOGO DO CONTRÁRIO EM AVALIAÇÃO ...................................................................................................................................... 78
LERNER, Delia
LER E ESCREVER NA ESCOLA – O REAL, O POSSÍVEL E O NECESSÁRIO .......................................................................................... 86
LIBÂNEO, José Carlos; OLIVEIRA, João Ferreira; TOSCHI, Mirza Seabra
A EDUCAÇÃO ESCOLAR PÚBLICA E DEMOCRÁTICA NO CONTEXTO ATUAL: UM DESAFIO FUNDAMENTAL ........................... 91
MACEDO, Lino de
ENSAIOS PEDAGÓGICOS: COMO CONSTRUIR UMA ESCOLA PARA TODOS? .................................................................................. 98
ÍNDICE
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 5
SINPEEM
MELLO, Guiomar Namo de
EDUCAÇÃO ESCOLAR BRASILEIRA - O QUE TROUXEMOS DO SÉCULO XX? ...........................................................................105
MOLL, Jaqueline (org.)
EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS............................................................................................................................................. 108
MORAN, José Manuel; MACETTO, Marcos T; BEHRENS, Marilda Aparecida
NOVAS TECNOLOGIAS E MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA .................................................................................................................116
MUNANGA, Kabengele; GOMES, Nilma Lino
PARA ENTENDER O NEGRO NO BRASIL DE HOJE: HISTÓRIA, REALIDADES, PROBLEMAS E CAMINHOS.............................124
PERRENOUD, Phillipe
AVALIAÇÃO: DA EXCELÊNCIA À REGULAÇÃO DAS APRENDIZAGENS - ENTRE DUAS LÓGICAS ...........................................128
PERRENOUD, Phillipe
DEZ NOVAS COMPETÊNCIAS PARA ENSINAR ..............................................................................................................................138
RIBEIRO, Vera Masagão
EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: NOVOS LEITORES, NOVAS LEITURAS ...........................................................................140
SACRISTÁN, J. Gimeno
COMPREENDER E TRANSFORMAR O ENSINO .............................................................................................................................146
STAINBACK, Suzan; STAINBACK, William
INCLUSÃO – UM GUIA PARA EDUCADORES ...............................................................................................................................154
TAILLE, Yves de La
O ERRO NA PERSPECTIVA PIAGETIANA ........................................................................................................................................157
TEBEROSKY, Ana.
COMPREENSÃO DA LEITURA: A LÍNGUA COMO PROCEDIMENTO ..........................................................................................159
THURLER, Mônica Gather
INOVAR NO INTERIOR DA ESCOLA ..............................................................................................................................................167
TORRES, Rosa Maria
O QUÊ (E COMO) É NECESSÁRIO APRENDER?.............................................................................................................................174
VASCONCELLOS, Celso
AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM: PRÁTICAS DA MUDANÇA - POR UMA PRÁXIS TRANSFORMADORA .............................178
VYGOTSKY, L. S.
A CONSTRUÇÃO DO PENSAMENTO E DA LINGUAGEM ............................................................................................................183
WEISZ, Telma
O DIÁLOGO ENTRE O ENSINO E A APRENDIZAGEM .................................................................................................................195
ZABALA, Antoni
ENFOQUE GLOBALIZADOR E PENSAMENTO COMPLEXO: UMA PROPOSTA PARA O CURRÍCULO ESCOLAR.....................197
ZABALA, Antoni
A PRÁTICA EDUCATIVA - COMO ENSINAR...................................................................................................................................205
6 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
ALARCÃO, Isabel.
4ª ed., São Paulo, Cortez, 2003
A autora relata um fato que ocorreu no Brasil. Foi
a um hotel no Nordeste e a maneira como foi recebi-
da pareceu-lhe padronizada. Segundo a autora, o fato
fez com que refletisse sobre os temas que havia tra-
balho em suas palestras anteriores: reflexividade,
contextualização, pessoalidade, cidadania e comu-
nicação, sendo que “numa delas tinha situado o tra-
tamento destes temas no contexto da sociedade da
informação globalizante em que vivemos”. Esse exer-
cício reflexivo fez com que ela pensasse sobre como
ocorrem os processos de transição dos alunos de uma
escola para outra ou de um grau para outro, preocu-
pando-se em como são contextualizados, quais as
informações que recebem para se integrarem, quem
os receberá para que possam “viver a escola em vez
de se isolarem e quererem apenas passar o mais rá-
pido possível”.
Capítulo 1 - Alunos, professores e escola face
à sociedade da informação
Para Alarcão, “a sociedade da informação, como
sociedade aberta e global, exige competência de
acesso, avaliação e gestão da informação oferecida”.
As principais idéias que irá desenvolver ao longo do
capítulo são: o problema de acesso à informação e a
igualdade de oportunidades para não gerar a info-
exclusão; a necessidade de a pessoa desenvolver a
capacidade de avaliar a informação e a competên-
cia de organização do pensamento e da ação em fun-
ção da informação.
A sociedade da informação em que vivemos
Estamos na era da informação e também era da
comunicação. O avanço das mídias é grande e o ci-
dadão comum dificilmente consegue lidar com as
novas informações que chegam se não desenvolver
um grande espírito crítico.
Raposo (2001), afirma que cabe ao homem dis-
cernir o que “constitui fator de valorização do co-
nhecimento, da liberdade, da solidariedade do que
é alienação, manipulação, opressão ou injustiça”.
Alarcão cita também Morin o qual afirma que
só o pensamento pode organizar o conhecimento.
Para conhecer é preciso pensar, ser capaz de trans-
formar a informação em conhecimento pertinente.
É fundamental pensar na compreensão entendida
como a capacidade de perceber os objetos, as pes-
PROFESSORES REFLEXIVOS
EM UMA ESCOLA REFLEXIVA
soas, os acontecimentos e as relações que entre to-
dos se estabelecem.
A educação também está em crise e faz-se ne-
cessário compreender o que está acontecendo. A
escola mudou: não detém o monopólio do saber. O
papel do professor mudou e o papel do aluno tam-
bém mudou “Ele tem de aprender a gerir e a relacio-
nar informações para transformar no seu conhecimen-
to e no seu saber”.
A sociedade da informação passou a se denomi-
nar sociedade da informação e do conhecimento e
mais recentemente sociedade da aprendizagem. Cita
Morin: a informação se não for organizada, não se
constitui em conhecimento, não é saber. O conheci-
mento tornou-se e tem de ser um bem comum.
As novas competências exigidas pela sociedade
da informação e da comunicação, do conhecimento
e da aprendizagem
Hoje o valor está na capacidade do homem em
transformar informações em conhecimento. O pen-
samento e a compreensão são grandes fatores de
desenvolvimento pessoal, social, institucional, na-
cional e internacional.
O que se propõe é um conceito de competência
de modo que uma pessoa saiba viver na contempo-
raneidade com sabedoria, de uma forma mais holís-
tica, para além da informação e do conhecimento,
que possa apresentar certas capacidades, além do
conhecimento: saber o que fazer e como, capacida-
de de aprender com o sucesso e com os erros, capa-
cidades sociais, redes de contatos e influência, von-
tade de agir, acreditar, empenhar-se, aceitar respon-
sabilidades e poder.
A cidadania exige das pessoas a capacidade de
pensar e a sabedoria para decidir com base numa
informação e em conhecimentos sólidos. Cada cida-
dão deve estar preparado para encontrar a informa-
ção necessária, para decidir sobre sua relevância e
para avaliar sua fidedignidade e caso ele não possa
ter acesso à informação e não tenha um pensamento
crítico e independente, ele pode ser manipulado e
info-excluído. É preciso que se perceba a importân-
cia da formação de uma pessoa.
Alarcão justifica o uso de competência a partir
da obra de Perrenoud: a noção de que competência
é a capacidade de utilizar os saberes para agir em
situação, constituindo-se assim como uma mais va-
lia relativamente aos saberes.
Para que os cidadãos possam assumir um pa-
pel de atores críticos têm de desenvolver a grande
competência da compreensão, mas também capa-
cidade de utilizar várias linguagens e, hoje temos
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 7
SINPEEM
mais uma linguagem: a linguagem informática.
A competência para lidar com a informação
na sociedade da aprendizagem
É necessário lidar com a informação de modo
rápido e flexível, é preciso saber o que procurar e
onde. É preciso distinguir o que é relevante do que
não é. Pelo fator da multiplicidade e quantidade de
informações quem a recebe precisa reorganizá-la,
colocando em ação sua mente interpretativa, seleti-
va, sistematizadora e criadora.
Para que todos tenham acesso à informação e não
sejam marginalizados é necessário criar essas condi-
ções na escola e na comunidade para que compen-
sem a falta que possa existir nas famílias. A escola
tem papel central na questão do acesso à informa-
ção e na criação de comunidades de aprendizagem.
Os alunos na sociedade da aprendizagem
Ser aluno é ser aprendente. Ele tem que se con-
vencer de que é necessário ir à procura do saber,
confiar no professor, mas é o aluno quem tem que
descobrir o prazer de ser uma mente ativa e não
meramente receptiva.
A concepção de educação, nesta abordagem é
de caráter construtivista, sócio-cultural. Uma boa
parte das competências hoje exigidas precisa ser de-
senvolvida num contexto em que haja um apelo para
atitudes mais autônomas, dialogantes e colaborati-
vas e em projetos de reflexão e pesquisa.
O papel da aprendizagem muda e muda o con-
ceito da sala de aula que passa a ser um espaço onde
se procura e onde se produz conhecimento. A orga-
nização das aprendizagens deve focar no próprio
aluno e promover sua capacidade de auto e hetero-
aprendizagem.
Há no texto um exemplo de três estudos de pes-
quisa-ação. Com a criação de comunidades de apren-
dizagem, os alunos da pesquisa passaram a definir
seus objetivos e tentar alcançá-los, assumiram uma
atitude de pesquisa colaborativa para resolver pro-
blemas, tarefas e interagiram com o conhecimento
de forma autônoma, flexível e criativa.
Os professores na sociedade da aprendizagem
O professor de hoje tem de desenvolver algumas
competências: criar, estruturar e dinamizar situações
de aprendizagem e estimular a aprendizagem e a auto-
confiança nas capacidades individuais para aprender.
É importante que o aluno aprenda a ser aluno, para
aprender a conhecer, a fazer e a viver com os outros.
E para tanto os professores são estruturadores e ani-
madores das aprendizagens e não apenas estrutura-
dores do ensino. Ele tem novos papéis e precisa re-
pensar seu papel, pois se é certo que continuam a ser
fontes de informação, têm de se conscientizar que são
apenas uma fonte de informação, entre muitas outras.
Para não se sentirem ultrapassados, os professo-
res, precisam se recontextualizarem na sua identida-
de e responsabilidades profissionais. Precisam ser -
professor reflexivo numa escola reflexiva.
A escola na sociedade da aprendizagem
As mudanças estendem-se ao nível da organiza-
ção que é a escola, para dar conta dessa mudança no
modo de conceber os processos de aprendizagem.
De modo geral as escolas não compreenderam
que elas também precisam se repensar e que só elas
podem transformar a si próprias, com as pessoas que
as constituem: professores, alunos, funcionários, em
interação com a comunidade circundante.
As escolas que já perceberam, começaram a fun-
cionar como comunidades auto-críticas, aprenden-
tes e reflexivas. “Constituem aquilo que chamei a
escola reflexiva que defini como ”organização que
continuadamente se pensa a si próprias, na sua mis-
são social e na sua organização, e se confronta com
o desenrolar da sua atividade em um processo heu-
rístico simultaneamente avaliativo e formativo”.
Alarcão cita o exemplo de uma escola que ava-
liou a sua missão, direção e professores. Reafirma que
a escola reflexiva não é telecomandada do exterior. É
auto-gerida. Tem o seu projeto próprio, construído com
a colaboração dos seus membros. Sabe para onde quer
ir e avalia-se permanentemente na sua caminhada.
Contextualiza-se na comunidade que serve e com esta
interage. Acredita nos seus professores, cuja capaci-
dade de pensamento e ação sempre fomenta. Envolve
os alunos na construção de uma escola cada vez me-
lhor. Não esquece o contributo dos pais e de toda a
comunidade. Considera-se uma instituição em desen-
volvimento e em aprendizagem. Pensa-se, avalia-se e
constrói conhecimento sobre si própria.
Cita a idéia de Morin: é preciso organizar o pen-
samento para compreender e poder agir, dizendo
que esta idéia precisa ser introduzida nos paradig-
mas de formação das pessoas e no funcionamento
das instituições. Destaca também o papel da gestão
da informação.
Capítulo 2 - A formação do professor reflexivo
A concepção de professor reflexivo atraiu muitos
educadores e formadores de professores na década
de 90 e de lá para cá a concepção tem começado a
sofrer críticas. Alarcão propõe-se a fazer a descons-
trução do conceito. Trata também de como compre-
ender a transposição deste paradigma do nível de
formação dos professores individualmente, para o
nível de formação situado no contexto da escola, a
8 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
qual concebe como escola reflexiva desde 2001.
Em que se baseia a noção de professor reflexivo
Baseia-se na consciência da capacidade de pen-
samento e reflexão que caracteriza o ser humano como
criativo e não como mero reprodutor de idéias e prá-
ticas que lhe são exteriores. É o profissional que age
de modo inteligente e flexível, situado e reativo. Em
Schön (1983,1987), temos que é uma atuação produ-
to de uma mistura integrada de ciência, técnica e arte.
Como se explica o fascínio que atraiu?
Por que a atual desilusão?
Alarcão apresenta o fascínio como a falta de con-
fiança na competência de alguns profissionais, a re-
ação perante a tecnocracia, a relatividade inerente
ao espírito pós-moderno, o valor atribuído a episte-
mologia da experiência, a fragilidade do papel do
professor, a dificuldade de formar bons profissionais
e outras tantas evidências. Cita Pimenta para mostrar
como no Brasil ampliam-se os motivos em função
do panorama político brasileiro. Reafirma que conti-
nua a acreditar nas potencialidades da proposta de
formação reflexiva.
A autora destaca três hipóteses para a atual desi-
lusão: se as expectativas foram elevadas e pensou-se
que a concepção poderia resolver todos os proble-
mas de formação; se o conceito de reflexão não foi
compreendido em sua profundidade e que é neces-
sário reconhecer as dificuldades de se colocar em
prática de forma sistêmica programas de formação
de natureza reflexiva
Qual a relação entre o professor reflexivo
e a escola reflexiva?
O professor não pode agir isoladamente na sua
escola. É neste local que ele, com os seus colegas,
constrói a profissionalidade docente. A escola tem
de ser organizada de modo a criar condições de re-
flexividade individuais e coletivas. A idéia do pro-
fessor reflexivo, que reflete em situação e constrói
conhecimento a partir do pensamento sobre a sua
prática é transponível para a comunidade educati-
va que é a escola.
Como formar professores reflexivos para e
numa escola reflexiva?
Ao citar Schön, a autora põe em destaque os li-
mites do ato de ensinar em relação às potencialida-
des do ato de aprender, bem como a importância de
estabelecer um diálogo consigo mesmo, com o ou-
tro e com a situação.
Comenta que observa nos espaços de formação a
dificuldade que as pessoas revelam em por em ação
mecanismos reflexivos, sejam crianças, adolescentes
ou adultos. “É preciso fazer um esforço grande para
passar do nível meramente descritivo ou narrativo para
o nível em que se buscam interpretações articuladas e
justificadas e sistematizações cognitivas”.
Aponta a importância do diálogo que não pode
acontecer num nível apenas descritivo e que preci-
sa atingir um nível explicativo e crítico que permita
aos profissionais de ensino agir e falar com o poder
da razão.
Apresenta a metodologia da pesquisa-ação como
possibilidade de avançar numa formação reflexiva,
pois nesta abordagem há a idéia de que a experiên-
cia profissional, se sobre ela se refletir e conceituali-
zar, tem um enorme valor formativo.
A pesquisa ação, a aprendizagem experiencial
e a abordagem reflexiva
A pesquisa-ação é uma metodologia de interven-
ção social e desenvolve-se em ciclos de planifica-
ção, ação, observação, reflexão. Parte da clara iden-
tificação de um problema e tem como característica
o trabalho cooperativo no planejamento do trabalho
e na avaliação dos resultados.
Na abordagem experiencial (Kolb;1984), a apren-
dizagem é um processo transformador da experiên-
cia no decorrer do qual se dá a construção do saber.
O processo compreende quatro fases: experiência
concreta, observação reflexiva, conceitualização e
experimentação ativa.
Há uma relação entre esses dois processos (da
pesquisa-ação e da aprendizagem), bem como se
analisa uma situação do ponto de vista da aborda-
gem reflexiva (Schön). Em sua teoria encontramos os
componentes da reflexão na ação, reflexão sobre a
ação e a meta reflexão: reflexão sobre a reflexão na
ação. Alarcão acrescenta a reflexão para a ação iden-
tificada com a questão da pesquisa-ação.
Cita ainda outras estratégias de desenvolvimento
da capacidade de reflexão: análise de casos; as nar-
rativas; a elaboração de portfolios; o questionamen-
to dos outros atores educativos entre outros.
A análise de casos / As narrativas - Os casos são
a expressão do pensamento sobre uma situação con-
creta que, pelo seu significado, atraiu nossa atenção
e merece nossa reflexão. Segundo Shulman (1986),
os casos só são casos porque representam conheci-
mento teórico e assumem um valor explicativo que
vai além da mera descrição.
As narrativas revelam o modo como os seres hu-
manos experienciam o mundo. Serão tanto mais ri-
cas quanto mais elementos significativos se regis-
trarem, sendo que é importante que se registrem não
apenas os fatos, mas também o contexto físico, so-
cial e emocional do momento.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 9
SINPEEM
Elas podem registrar as questões do professor, mas
também podem ter como foco os alunos, a escola, o
comportamento da sociedade ou dos políticos pe-
rante a educação. Ajudam a analisar a vida, desdo-
brar percursos profissionais, revelam filosofias e pa-
drões de atuação, registram aspectos conseguidos e
a melhorar; constituem-se num manancial de refle-
xão profissional a partilhar com os colegas.
Narrativas e casos: que relação? - As narrativas
estão na base dos casos, mas os casos implicam em
uma teorização. Os casos não são meras narrativas;
eles encerram em si conhecimento sobre a vida. São
narrativas elaboradas com um objetivo: darem visi-
bilidade ao conhecimento. Muitas vezes os casos são
escritos pelos próprios professores no sentido de ex-
primirem as suas teorizações.
Os portfólios - Segundo Alarcão, portfolio é “um
conjunto coerente de documentação refletidamente
selecionada, significativamente comentada e siste-
maticamente organizada e contextualizada no tem-
po, reveladora do percurso profissional.
O conceito vem da área de Artes. Há duas carac-
terísticas a destacar: por um lado a sua originalidade
(construção pessoal do autor). Por outro lado ele tem
uma finalidade que é dar-se a conhecer, revelar-se.
A autora cita o trabalho de Idália Sa-Chaves que
tem se dedicado à teorização e à prática desta estra-
tégia formativa no contexto da abordagem reflexiva
em formação de professores e a qual utiliza a desig-
nação de portfólios reflexivos e lhes atribui alguns
significados específicos.
As perguntas pedagógicas
Como atributo do ser humano, a capacidade de
questionarmos e de nos questionarmos a nós pró-
prios é um motor de desenvolvimento e aprendiza-
gem. As perguntas, para merecerem a designação
de pedagógicas, têm de ter uma intencionalidade
formativa e isso, independentemente de quem as
faz, quer o próprio professor quer um seu colega ou
supervisor.
Tom (1987) e Smyth (1989) têm salientado o va-
lor das perguntas pedagógicas como meio de desen-
volvimento profissional: emancipação e manifesta-
ção do espírito crítico pelos professores como inte-
lectuais e cidadãos interventivos na sociedade. Smyth
apresenta quatro tipos fundamentais: descrição, in-
terpretação, confronto e reconstrução.
Conclusão
As estratégias que possam colaborar para uma
formação reflexiva têm como objetivo que os profes-
sores tornem-se mais competentes para analisarem
as questões do cotidiano e agirem, não só na resolu-
ção dos problemas mais imediatos, mas situando-os
num plano mais abrangente, considerando a escola,
a educação e a sociedade.
Alarcão ressalta a importância do crescimento do
professor através dos degraus que vão dar na sabe-
doria, desde ter a informação, mas saber que só o
conhecimento que resulta de sua interpretação per-
mitirá a visão e sabedoria necessárias para mudar a
qualidade do ensino e da educação.
Capítulo 3 - Contributos da supervisão
pedagógica para a construção reflexiva do
conhecimento profissional dos professores
Neste capítulo a autora irá apresentar algumas
reflexões sobre o papel do supervisor na sua relação
com o professor e com os saberes de referência. Co-
loca-se uma questão: como é que a supervisão pode
contribuir para a construção do conhecimento pro-
fissional do professor e como devem articular estes
dois vetores.
Conhecimento profissional dos professores
Várias abordagens foram construídas a partir dos
estudos sobre o pensamento do professor e basica-
mente há: a abordagem que procura compreender o
conhecimento do professor partindo de elementos
cognitivos; a vertente prática, experiencial, contex-
tualizada e outra que reconhece a importância dos
referentes teóricos e experienciais (Shulman, 1986;
Barth, 1993).
A autora apresenta algumas dimensões do conhe-
cimento profissional do professor: o conhecimento
científico-pedagógico (modo como se organiza o
conteúdo ou conteúdos disciplinares); conhecimen-
to do conteúdo escolar (compreensão profunda e o
domínio da matéria a ensinar); conhecimento peda-
gógico geral (Shulman – general pedagogical know-
ledge) domínio dos princípios pedagógicos genéri-
cos comuns às várias disciplinas; conhecimento do
currículo (compreensão do conjunto das áreas disci-
plinares e não disciplinares, bem como a estrutura
dos seus programas); o conhecimento do aluno e das
suas características; o conhecimento dos contextos;
o conhecimento dos fins educativos; o conhecimen-
to de si mesmo e Alarcão acrescenta mais um: co-
nhecimento da sua filiação profissional.
Supervisão pedagógica
A supervisão não se limita ao contexto da forma-
ção inicial nem da profissionalização em serviço, mas
também da formação continuada, supervisão curri-
cular, supervisão como vertente formativa da inspe-
ção e como conseqüência natural da avaliação de
10 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
desempenho. O objetivo principal da supervisão é
criar condições de aprendizagem e de desenvolvi-
mento profissionais dos professores, entendidas como
dimensão do conhecimento e da ação, desde uma
situação pré-profissional até uma situação de acom-
panhamento no exercício da profissão e na inserção
na vida na escola.
Ela transcende a ação do professor e atinge a for-
mação do aluno, a vida na escola e a educação; é
uma atividade de natureza psico-social e centrada
nos contextos formativos. O contexto formativo da
supervisão deve favorecer a competência profissio-
nal (natureza holística e integrada).
O supervisor é um gestor de situações formativas
que implicam em capacidades humanas e técnico-
profissionais específicas, portanto pressupõe pré-re-
quisitos e formação especializada.
O supervisor e a construção do
conhecimento pedagógico
O supervisor pedagógico pode ajudar na cons-
trução do conhecimento pedagógico pela sua pre-
sença e atuação, pelo diálogo propiciador da com-
preensão dos fenômenos educativos e das potencia-
lidades dos professores, pela monitorização avaliati-
va de situações e desempenhos. A fala em diálogo
formativo, alicerçada na capacidade de observação
e de escuta atenta, são a pedra angular na constru-
ção do conhecimento profissional.
Análise de uma interação discursiva em
contexto de supervisão pedagógica
A situação apresenta uma análise da supervi-
são da universidade. Esta ocorreu numa sessão se-
manal de reflexão sobre as práticas vividas por alu-
nos estagiários da universidade no curso de for-
mação de professores do 1º ciclo (6 a 10 anos). Os
alunos da universidade tinham supervisão da uni-
versidade e do professor da classe, chamado de
professor cooperante.
“A supervisora seguiu seu esquema habitual: des-
crição do que tinha acontecido na aula feita pelo
estagiário que tinha assumido a condução da classe
e completada pelos colegas que tinham assistido e
realizado intervenções pontuais; análise interpretati-
va e negociada dos acontecimentos a partir das vári-
as vozes que contribuíram para a análise multivisio-
nal do que tinha sido observado na sala de aula. A
partir da sala de aula como microcontexto de refe-
rência, partiu-se para outros contextos: as vivências
dos participantes, os quadros teóricos de referência...
O ponto de chegada foi a síntese da conceitualiza-
ção realizada a partir da prática que, permitiu tam-
bém a identificação de conceitos teóricos, base con-
ceptual e permitiu interpretações de outros contex-
tos num desenvolvimento espiralado”.
A finalizar
Na análise do episódio de aula, utilizaram-se pro-
cessos de construção do conhecimento que passa-
ram pela: clarificação do episódio, caracterização da
situação, compreensão do episódio à luz de referen-
tes, estruturação de conceitos. Esses processos são
característicos da situação formativa em contextos
de supervisão. Focalizou-se a reflexão em todas as
dimensões do conhecimento profissional e num pro-
cesso de transformação e através de perguntas peda-
gógicas, passou-se da descrição à representação cog-
nitiva. O episódio transformou-se num caso.
Capítulo 4 - Gerir uma escola reflexiva
Neste capítulo aborda-se o conceito de escola
reflexiva, as características da liderança institucio-
nal, a centralidade do currículo, o papel dos profes-
sores e dos alunos, a interação com a comunidade, a
permanente qualificação profissional e o renovado
desenvolvimento institucional.
Uma nota autobiográfica, enquadradora do tema
Alarcão relata seu percurso profissional desde que
era professora até estar em cargos de gestão e como
sempre tentou compreender o que é ser professor e
como poderia e deveria formar aquele profissional
que é o professor. Comenta sobre a descoberta de
que para ser professora não era suficiente saber bem
os conteúdos que devia ensinar, pois dava-se conta
que havia mensagens que não passavam.
Aponta a abordagem da teoria da aprendizagem
experiencial elaborada por David Kolb (1984) como
um referencial importante para suas análises. Nessa
perspectiva, Alarcão escreveu duas obras com José
Tavares. Interessou-se pela perspectiva humanista,
segundo a qual, a formação de professores é um pro-
cesso pessoal de se tornar professor. Mais tarde abra-
çou a noção de professor reflexivo que encontrou
em Shon (1987) e Zeichner (1993).
Compreendeu em seu percurso que o professor
não podia ser um ser isolado na sua escola, mas ti-
nha de construir, com os seus colegas, a profissiona-
lidade docente. A partir de sua vida profissional, pen-
sou sobre a escola como comunidade socialmente
organizada e dinamizada por um projeto próprio: o
projeto educativo. Apresenta como conclusão que
ou a escola é uma comunidade reflexiva, ou então, é
um edifício sem alma.
A autora desenvolve a idéia de escola reflexiva,
também em desenvolvimento e aprendizagem e pro-
põe refletir sobre a gestão de uma escola reflexiva
como uma gestão integrada de pessoas e processos,
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 11
SINPEEM
uma gestão realizada com pessoas e a bem das pes-
soas, trazendo assim para o centro da arena educati-
va não apenas o aluno, mas todo os elementos hu-
manos que constitui a escola.
Pensando sobre a essência da escola
Compartilhando a reflexão de Macedo (1995:68),
Alarcão diz que a escola é uma comunidade. A es-
cola estabelece a interface entre a sociedade adulta
e as crianças e jovens em desenvolvimento. A escola
surge como um todo e não um ajuntamento de pes-
soas. É uma comunidade social, organizada para exer-
cer a função de educar e instruir.
A escola como eu gostaria que ela fosse
Apoiada nas palavras de Maria do Céu Roldão
(2001), apresenta a caracterização da escola como
gostaria que fosse: uma comunidade dotada de pen-
samento e vida próprios, contextualizada na cultura
local e integrada no contexto nacional e global; que
conceba, projete, atue e reflita; que tenha ambição
estratégica; que questione o insucesso nas suas cau-
sas para, relativamente a elas, traçar planos de ação;
uma escola que reflita sobre os seus próprios proces-
sos e a suas formas de atuar e funcionar; que analise,
desconstrua e refaça suas opções e a sua vida curricu-
lar; que saiba criar as suas próprias regras e que saiba
prestar contas de sua atuação, justificar os seus resul-
tados e auto-avaliar-se para definir o seu desenvolvi-
mento; uma escola que se alimente do saber, da pro-
dução e da reflexão dos seus profissionais, os profes-
sores que, por isso mesmo, não se sentem meros assa-
lariados; uma escola que conheça as suas necessida-
des, cria os seus contextos de formação e integra a
formação no seu desenvolvimento institucional.
Uma escola onde os professores se sintam felizes
e úteis à sociedade e onde os alunos apreciem como
é bom crescer em saber.
Como cheguei ao conceito de escola reflexiva
A escola reflexiva encontra-se sempre em cons-
trução, em desenvolvimento; é uma construção so-
cial, mediada pela interação dos diferentes atores
sociais que nela vivem e com ela convivem. Da de-
finição de escola reflexiva destacam-se as idéias de
pensamento e reflexão, organização e missão, ava-
liação e formação. Por detrás desta concepção re-
conhece-se a idéia de professor reflexivo de Schön,
mas também a noção de organização aprendente
de Senger (1994).
A idéia do profissional que reage em situação,
interagindo com ela e sobre ela refletindo (de Schön)
é transponível para a idéia de organização apren-
dente que se sustenta em Senger: “uma organização
que está continuamente expandindo a sua capaci-
dade de criar o futuro”.
A escola tem uma missão: educar. Investiga-se e
avalia-se a si própria. É uma escola que sabe onde
está e para onde quer ir, pensa-se, tem um projeto
orientador de ação e trabalha em equipe. É uma co-
munidade pensante. A escola é uma organização si-
multaneamente aprendente e qualificante.
Escola, comunidade com projeto
Segundo Canário, o estabelecimento de ensino
assume cada vez maior importância nos discursos e
práticas educativas a partir de três níveis distintos: o
nível da investigação educacional; o nível da mu-
dança educacional e o nível da formação.
O projeto educativo “surge como o instrumento,
excelência, da construção da autonomia do estabe-
lecimento de ensino”. O projeto da escola é a carta
de definição da política educativa da escola e deve-
se centrar no modo como se organiza para criar as
condições de aprendizagem e desenvolvimento ine-
rentes ao currículo.
O currículo no centro do projeto da escola
Alarcão considera currículo em seu sentido lato,
ou seja, conjunto de aprendizagens proporcionadas
pela escola e consideradas socialmente necessárias
num dado tempo e contexto. A noção de currículo é
central na noção de escola e tem de assumir um lugar
de primeiro plano no projeto educativo de escola.
A autora comenta que Roldão designou quatro
princípios acerca da organização da escola: homo-
geneidade, segmentação, seqüencialidade e confor-
midade. As escolas, os professores, os políticos e os
pais começam a interrogar-se sobre o paradigma de
uniformidade e o paradigma de educação que lhe
está subjacente.
Em 1995, Alarcão e Tavares alertavam para a ne-
cessidade de romper com os paradigmas tradicionais
da educação, bem como Roldão (2001) que apre-
senta a substituição dos princípios tradicionais por
diversificação, finalização, reflexividade e eficácia.
Perrenoud (2001) idealizou uma nova organiza-
ção de trabalho na escola baseada em objetivos, em
ciclos de aprendizagem pluri-anuais, em grupos fle-
xíveis, em módulos intensivos, em projetos pluridis-
ciplinares e em tarefas escolares à base de proble-
mas e de projetos. Há, no entanto, uma dificuldade
para se romper com os paradigmas e para Alarcão
seria perigoso uma ruptura brusca, mas identifica o
afastamento progressivo do status quo para mudar a
cara da escola.
Neste sentido, entra a concepção de escola refle-
xiva como escola inteligente que decide o que deve
fazer em cada situação específica e registra o seu
12 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
pensamento no projeto educativo. - projeto de toda
a escola reveladora de um pensamento sistemático
baseado no confronto de idéias e no diálogo cons-
trutivo que solidifica as comunidades. O projeto edu-
cativo da escola, uma vez aprovado, tem de passar a
constituir-se como referência para a ação.
Gerir uma escola reflexiva é gerir uma
escola com projeto
Para gerir uma escola reflexiva é preciso pensar
numa organização e gestão caracterizadas como:
participada, determinada, coerente, desafiadora, exi-
gente, interativa, flexível e resiliente face à situações,
avaliadora e formadora.
Há aspectos que a pesquisa de Zabalza (1992)
sobre escolas eficazes apresenta e são denominado-
res comuns da escola reflexiva. Só o modelo demo-
crático de gestão se coaduna com o conceito de es-
cola reflexiva, ou seja, um modelo organizacional
em que todos e cada um se sente pessoa – e, pessoa
é ter papel, ter voz e ser responsável.
A gestão de uma escola reside na capacidade de
mobilizar cada um para a concretização do projeto
institucional, sem perder nunca a capacidade de de-
cidir. Gerir uma escola reflexiva é nortear-se pelo
projeto de escola, em constante desenvolvimento e
tomar as decisões adequadas no momento certo, ser
capaz de mobilizar as pessoas para serem atores so-
ciais e transformarem o projeto enunciado em proje-
to conseguido. Implica em ter um pensamento e uma
visão sistêmica.
A reflexão sobre escola reflexiva leva a pensar
nas cinco dimensões identificadas por Senge para as
instituições aprendentes: liderança, modelo mental,
visão partilhada, aprendizagem em grupo e pensa-
mento sistêmico.
Conclusão
Gerir uma escola reflexiva é: ser capaz de liderar
e mobilizar as pessoas; saber agir em situação; nor-
tear-se pelo projeto da escola; assegurar uma atua-
ção sistêmica; assegurar a participação democrática;
pensar e escutar antes de decidir; saber avaliar e dei-
xar-se avaliar; ser conseqüente; ser capaz de ultra-
passar dicotomias paralizantes; decidir; acreditar que
todos e a própria escola se encontram num processo
de desenvolvimento e aprendizagem.
Síntese realizada por Sandra Giovina Ponzio Fer-
reira, mestranda na FEU/USP – área de psicologia e
educação.
BRUNEL, Carmen. Porto Alegre, Mediação, 2004
Conforme o censo escolar divulgado em 2004, a
procura pelo Ensino Médio por jovens cresceu, com
maior ingresso na EJA e no profissionalizante do que
no Ensino Médio convencional. O aumento na pro-
cura por matrículas mostra que os jovens percebem
a importância da escolaridade para o ingresso no
mercado de trabalho, contudo uma parcela cada vez
maior não cursa o ensino regular.
No presente trabalho a professora de Biologia,
mestre em Educação e doutoranda pela UFRGS, Car-
men Brunel, baseando-se em seus estudos que obje-
tivavam esclarecer as razões dos “jovens cada vez
mais jovens” procurar a EJA, analisa e ilustra, com
depoimentos de estudantes, as questões que os im-
pediram de se manter na educação básica e/ou os
levaram a essa modalidade de ensino.
EJA: uma população cada dia mais jovem
A autora inicia abordando o rejuvenescimento da
JOVENS CADA VEZ MAIS JOVENS
NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
população que freqüenta a Educação de Jovens e
Adultos (EJA), fato que vem progressivamente ocu-
pando a atenção dos educadores e pesquisadores
na área da educação. Os diversos espaços da EJA
têm recebido nos últimos anos, um número cada
vez maior de jovens e adolescentes das mais dife-
rentes classes sociais que, de acordo com a autora,
têm modificado o cotidiano escolar e as relações
que se estabelecem entre os sujeitos ocupantes desse
espaço. Esta modalidade de ensino é a alternativa
mais procurada por jovens que não lograram con-
cluir seus estudos na escola regular, na maioria com
histórico de várias repetências, muitos com proble-
mas de indisciplina, bem como aqueles cujos pais
consideram a última alternativa para manter o filho
na vida escolar.
Esses novos aspectos levaram a indagações con-
centradas nas seguintes reflexões: por que tantos
jovens optam por essa modalidade de ensino?
Como esta trajetória se constituiu ao longo de suas
vivências e como chegaram até aqui? Frente à ansie-
dade de alunos e professores, neste contexto, Brunel
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 13
SINPEEM
foi impulsionada a pesquisar estas questões.
Primeiramente, foi desenvolvido um estudo nos
diversos espaços da EJA do Rio Grande do Sul e, em
especial, em Porto Alegre com o objetivo de com-
provar, com dados estatísticos, a realidade e exten-
são do fenômeno. Em um segundo momento foi rea-
lizado um estudo no interior de uma escola privada
de educação de jovens e adultos, os alunos de uma
turma de ensino médio, com faixa etária entre 18 e
25 anos, foram ouvidos, durante cinco encontros,
sendo discutidos temas como: escola, violência, se-
xualidade, drogas e juventude. Foi realizado um es-
tudo sobre a trajetória escolar de seis e ouvidos tam-
bém professores dessa rede.
Mostrar a realidade dos jovens que freqüentam a
EJA, os aspectos políticos e legais que facilitam o in-
gresso desses alunos, cada vez mais cedo é o que a
autora apresenta como objetivo para o capítulo I.
No capítulo II, a apresentação da metodologia usada
no trabalho inserindo o leitor nos espaços investiga-
dos e no III, uma reflexão sobre a modernidade e a
escola. A escola onde foi realizado o estudo, a legis-
lação que a rege, as relações sociais e as trocas de
saberes que se estabelecem neste ambiente é a pro-
posta do IV, o último capítulo deste livro.
Para a realização desse trabalho, segundo a es-
critora, vários autores contribuíram para a compre-
ensão do fenômeno e a tessitura do texto, citando
com mais detalhes Freire, Morin, Spósito e Charlot,
como os grandes referenciais teóricos.
A autora inicia com Paulo Freire, cuja visão hu-
manista de mundo, mostra a escola como lugar de
troca de saberes e afetividade, onde educadores e
educandos se encontram para uma tarefa conjunta,
alertando também, para a necessidade do diálogo e
reflexão entre os sujeitos que ocupam esse espaço.
Edgar Morin contribuiu, nesse estudo, para o en-
tendimento do pensamento moderno, mais global e
conseqüentemente mais complexo que na opinião
da autora é fundamental para podermos entender a
sala de aula de uma escola de EJA, na qual a diversi-
dade das pessoas é uma de suas características bási-
cas. Morin diz que a razão não explica tudo, o diálo-
go deve superar as polaridades e a verdade não está
só numa direção.
Para entender os jovens, camada da população
que freqüentemente é citada como categoria proble-
ma, suas inquietudes e anseios, a autora baseou-se
em Marília Sposito que além de, historicamente, de-
senvolver um trabalho relevante na área da EJA, atra-
vés de seus escritos sobre a juventude brasileira, tem
uma voz que ecoa de maneira generosa e responsá-
vel sobre essa realidade.
A autora relata a influência dos estudos e leituras
das obras de Bernard Charlot e das informações re-
cebidas nas palestras proferidas por este pesquisa-
dor. Ressalta que a realização de um estágio, na Uni-
versidade de Paris sob a orientação desse professor,
foi fundamental para o desenvolvimento de seu es-
tudo e entendimento sobre seus alunos. Destaca a
leitura positiva que o pesquisador faz acerca dos alu-
nos que “fracassam na escola”, geralmente rotula-
dos: de “inferiores”. Aqueles, como dizia Charlot,
viveram “situações de fracasso” que fizeram com que
repetissem na escola ou a abandonassem.
De acordo com Charlot, diante de um aluno
que fracassa em um aprendizado, em geral, fala-
se em deficiências, carências, lacunas, ou seja, faz-
se uma leitura negativa da situação enquanto uma
leitura positiva busca compreender como as situa-
ções de fracasso foram se constituindo na trajetó-
ria escolar deste aluno e quer saber: o que está
acontecendo com este aluno? O que fez? O que
pensou? Enfim, a leitura positiva quer saber o que
está ocorrendo, em que situação fracassa e em
quais consegue ter sucesso.
A partir dos produtos de seu trabalho, Carmen
Brunel, considera que vários são os motivos pelos
quais os jovens optam pela EJA cada vez mais cedo
e que os fatores emocionais, socioeconômicos e
familiares foram mais determinantes do que os cog-
nitivos.
Um passeio pelo tempo - Relatando de forma
breve, Brunel faz uma retrospectiva de sua trajetória
profissional, as relações com alunos da EJA e a im-
portância de suas vivências para a constituição de
seus estudos. Relata que iniciou como docente, em
uma escola privada, na área de Ciências em 1987,
permanecendo durante dez anos, período, segundo
a autora, foi importante para perceber as característi-
cas, de forma crítica, dessa modalidade de ensino e
as mudanças ocorridas no perfil dos alunos, situa-
ções essas que a levaram a indagações e a necessi-
dade de investigações mais apuradas e nessa dire-
ção ingressou no curso de Mestrado, em Educação
na UFRGS, em 1999. Destaca ainda que nesse cur-
so, um dos autores que mais a impressionou foi Pau-
lo Freire e considera que “este trabalho é uma aposta
na educação e no prazer que o ensinar e o aprender
pode proporcionar a alunos e professores”.
Capítulo 1 - Jovens na EJA: um fenômeno
dos anos 90
De acordo com Brunel, o rejuvenescimento da
população da EJA surge no panorama brasileiro a
partir dos anos 90 em uma modalidade de ensino
que, na sua gênese, destinava-se mais ao público
adulto do que ao jovem. Para analisar a trajetória
escolar de alguns alunos e os motivos pelos quais
optaram pela EJA foi preciso ouvi-los mais densamen-
te para entender esse fenômeno.
Segundo a autora, fatores pedagógicos, políticos,
14 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
legais e estruturais fazem com que muitos jovens pro-
curem cada vez mais a EJA e a cada ano mais preco-
cemente: a falta constante de professores na escola
pública, a carência evidenciada nas condições físi-
cas e de material didático-pedagógico de muitas es-
colas bem como os que facilitam o ingresso dos alu-
nos tanto do ponto de vista legal - houve um rebai-
xamento na idade mínima para matrícula, quanto do
político – existem procedimentos praticados no sis-
tema de ensino que “estimulam” os alunos em defa-
sagem idade/série a deixarem o ensino regular e in-
gressarem na EJA, fato evidente, no decorrer da pes-
quisa nas falas de alguns professores e diretores.Outra
situação problemática dentro do sistema de ensino
sentida pelos diretores, professores e que afetam di-
retamente a vida de muitos jovens e adolescentes é
que a oferta de escolas públicas de ensino médio,
principalmente no turno da noite, é menor que a
demanda existente e dessa forma os alunos acabam
indo para a EJA.
Em relação aos professores da EJA, Brunel cita
que diariamente depara-se com jovens com históri-
co de repetência, de abandono da escola e desmoti-
vados, a ponto de comprometer um possível sucesso
escolar. Nesse sentido, alerta sobre a importância
de ouvir estes jovens excluídos do ensino regular,
(re)significarmos o lugar desses alunos, superarmos
o rótulo de fracassados e retomar com eles sua po-
sição de sujeitos no processo educativo. Ressalta
ainda que, reconhecer as capacidades individuais
e criativas destes alunos faz com que adquiram no-
vamente um sentimento perdido de pertencer ao es-
paço escolar advindo, em geral, de diversas repetên-
cias, históricos de violência, exclusão da escola re-
gular, envolvimento com drogas, abandono da famí-
lia, entre outros fatores.
O significado da escuta no ato pedagógico - A
autora relata que em uma de suas aulas relembrou
seu passado na escola - época chamada primária e
de cenas na sala de aula. Todos os alunos uniformi-
zados, sentados enfileirados, sem poder falar, quase
imóveis e a professora em pé à frente dos alunos, em
uma escola que tinha por objetivo formar futuros ci-
dadãos praticamente iguais, obedientes e passivos.
Era uma outra época, com poucas informações, en-
tretanto, nos últimos trinta anos, o conjunto de mu-
danças socioculturais delineia um panorama diferente
para os jovens que, na sua maioria, têm acesso à te-
levisão, muitos aos computadores e a liberdade, tan-
to na família, quanto na escola é bem maior.
Brunel frente a esses saberes acredita que a esco-
la atual não está mais satisfazendo as expectativas
de muitos jovens e precisa rever conceitos e posicio-
namentos e nesse sentido, conclui que precisamos
repensar o espaço escolar e trabalharmos na cons-
trução de novas relações entre todos seus ocupan-
tes. Fundamentando-se em Paulo Freire, aborda a
importância na sala de aula do diálogo, da reflexão e
da comunicação: dar voz aos nossos alunos,ouvi-
los, incentivar e propiciar que participem do proces-
so pedagógico e que junto, tenhamos nossa fala res-
peitada; enfim, que o ambiente escolar ensine a vi-
ver com o outro, respeitando-o e sendo respeitado.
Salienta que escutar é mais do que o simples ou-
vir: é tentar, pela fala do outro, entendê-lo na sua
inteireza; é prestar atenção nos seus gestos, nas emo-
ções que as palavras suscitam, é construir junto um
diálogo prazeroso.E complementa: o professor que
trabalha na EJA precisa estar aberto para um “ouvir”
mais personalizado, levando em conta a idade do
aluno, sua situação financeira, seus sonhos e medos,
sua posição na família, para compreender sua fala, e
assim, nesse estudo se propôs a ouvir com cuidado
os jovens, em uma escuta sensível, a fim de entendê-
los melhor e compreender os motivos pelos quais
optaram pela EJA.
Capítulo 2 - As idéias, os espaços e os sujeitos
Segundo a autora, a EJA, oferecida pela rede pri-
vada, recebe a cada ano um contingente cada vez
maior de adolescentes e jovens. A categoria jovem
ou juventude não tem uma definição rígida, pois de-
pende mais de circunstâncias históricas do que da
condição biológica. No Brasil, segundo dados esta-
tísticos, jovens seriam os indivíduos entre os 17 e 25
anos, cuja denominação liga-se principalmente à
dependência financeira da família e à inserção no
mercado de trabalho. Brunel explica que como o
estudo foi realizado com jovens de um curso de en-
sino médio da EJA, não poderiam ter menos de 18
anos, idade mínima legalmente estabelecida para o
ingresso nesta modalidade de ensino.
Os espaços percorridos - O estudo desenvolveu-
se basicamente com jovens de uma escola particular
de EJA, situada no centro de Porto Alegre, turma da
manhã, na etapa final de ensino médio, entretanto,
de acordo com a autora, para que não ficasse com
uma visão parcial da realidade, outros espaços na
esfera pública, municipal e estadual, na cidade de
Porto Alegre, e no Rio Grande do Sul, foram também
pesquisados. Nesses espaços foram adquiridos do-
cumentos, com dados estatísticos para a pesquisa,
registrados depoimentos e informações sobre proje-
tos desenvolvidos na área, por meio de entrevistas
com membros da equipe pedagógica.
Com os jovens que constituíam essa turma foram
programados seis encontros: um encontro de diálo-
go com os alunos para a explicação sobre o estudo e
a participação deles nos cinco posteriores, onde se-
riam discutidos temas ligados à vida escolar e assun-
tos ligados à realidade da juventude, além da obser-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 15
SINPEEM
vação pela autora de atividades realizadas pela tur-
ma. Na opinião da pesquisadora, esses alunos va-
lorizam o tempo atual dedicado à escola, pois sua
trajetória escolar foi permeada por reprovações e
períodos de ausência por vários motivos.
Para serem ouvidos mais densamente, entre os
jovens da turma, foram escolhidos seis: dois rapazes
e quatro moças, de acordo com vários critérios como
gênero, etnia, naturalidade, escola de origem, entre
outros. O número maior de moças foi decorrente da
maior disponibilidade para permanecer após o horá-
rio normal para conversas, entrevistas, gravações e
entrega de material escrito. Foram entrevistados, tam-
bém, sete professores e a equipe pedagógica da es-
cola, bem como representantes de outras instituições
na área de educação de jovens e adultos.
Dessa forma, a análise de documentos, os relatos
orais, os depoimentos por escrito, as entrevistas, a
elaboração de um diário de campo, a observação de
tudo que acontecia, constituíram o material neces-
sário para a pesquisa.
Conhecendo os sujeitos - Foi fundamental co-
nhecer a trajetória escolar dos seis jovens que fo-
ram ouvidos, dos demais da turma e de seus profes-
sores para desvelar alguns dos motivos pelos quais
os alunos optaram pela EJA e conseqüentemente
conhecer as possíveis causas do rejuvenescimento
desta população.
Reconhece a autora que muitos são os fatores que
atraem os jovens para escola de EJA, principalmente
a privada: a agilidade e rapidez na conclusão dos
cursos; o convívio mais direto com a diferença de
classe, etnia, idade, cultura; a flexibilidade de seus
horários e currículos e a liberdade, um pouco maior,
em relação à postura e à fala do aluno e professor.
Alerta ainda para o fato de que muitos dos estabele-
cimentos privados, preocupados com o lucro, com-
prometem o saber.
Frente a essa realidade ressalta que o papel do
professor de EJA além de extremamente importan-
te, haja vista que esses jovens possuem um históri-
co escolar repleto de problemas nos campos cogni-
tivo, social, econômico e emocional, é complexo,
visto que muitos se sentem perdidos diante da rea-
lidade em relação ao saber, emprego e sobre a im-
portância do estudo para a sua vida e inserção no
mercado de trabalho.
Nas entrevistas observou-se que esses alunos pro-
curam um professor mais acessível ao diálogo e atento
às suas dificuldades, e em conversas em sala de aula
percebe-se que respondem positivamente às expec-
tativas quanto ao aprender na medida em que são
provocados e recebem muito carinho de seus pro-
fessores, contrariando o estigma sobre o aluno da EJA
(aquele que não gosta de estudar, não gosta de seus
professores e não tem interesse pelo saber). Na opi-
nião dos próprios professores, o trabalho com esses
alunos exige um professor mais flexível, atento às
dificuldades de cada um e que mantenha um diálo-
go constante com os alunos e lhes ajude a recuperar
a auto-estima na sala de aula, e, muitas vezes, na
vida particular.
O mercado de trabalho instável, as relações fa-
miliares freqüentemente fragilizadas, a falta de con-
fiança no futuro são fatores que perturbam esses jo-
vens, muitas vezes atirando-os às drogas, motivan-
do-os a comportamentos de violência ou a uma ati-
tude de apatia e desânimo.
Capítulo 3 - A escola no contexto da
modernidade: algumas reflexões
Levando em conta que a escola não está aten-
dendo às expectativas de uma boa parcela de jovens,
a autora acredita que entender o pensamento mo-
derno, a mentalidade atual e como a instituição es-
cola surgiu e se constituiu ao longo do tempo, apon-
te caminhos para o entendimento do fato. Para tan-
to, aborda as modificações na maneira de pensar da
humanidade ocidental nos séculos XVIII, XIX e du-
rante o XX.
Com o advento do século XVIII, a modernidade,
estilo novo de vida e o pensamento do homem per-
meado de dúvidas sobre sua vida, questionando suas
crenças, limites e certezas, procurando suas respos-
tas, não mais nos mitos e tradições, mas nas razões
explicitadas pela razão e ciência. O pensamento deste
século foi marcado pelo desenvolvimento do espíri-
to de análise, baseado na influência de Descartes.
A racionalidade científica, própria da cultura da
modernidade implantou na educação uma sobrepo-
sição do saber científico ao saber popular e, em con-
seqüência, o homem esquece suas origens, o respei-
to pela natureza, os ritos de seus ancestrais até se
tornar frio, calculista e racional. Neste quadro, sur-
gem então os processos educacionais institucionali-
zados, a escola e os professores e ao sistema educa-
cional é atribuído relevante papel, estruturando-se
como um aparato do Estado.
Em meados do século XIX, a quebra da dinâmica
da emancipação social e regulação: processo histó-
rico de transformação das energias emancipatórias
em energias regulatórias – o homem moderno deve-
rá aceitar as regras impostas pela sociedade.
Por fim, a autora, ao refletir sobre o impacto que
o pensamento moderno causou na humanidade, cuja
proposta carregava uma nova maneira de ver e viver
no mundo, leva a entender como as relações huma-
nas e sociais se constituíram ao longo do século. Cita
também que o pensamento iluminista, propalado pela
Modernidade, na tentativa de livrar o homem das tre-
vas libertando-o dos mitos, crenças, da magia, ins-
taurando o seu poder sobre a ciência, tornou-o víti-
16 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
ma de um novo engodo: o progresso da dominação
técnica. Assim, toda maneira de pensar, determinista
e mecânica, deixou de fora o amor, a fé, as paixões,
a desordem e a certeza.
A escola e seu projeto civilizatório - A autora se
reporta às características da escola em sua origem:
responsável pela reprodução de um saber científico
sistematizado e domínio da cultura escrita, manten-
do a mentalidade racionalista, utilitária e tecnicista,
divulgada como verdade pela Modernidade, tinha
como idéia qualificar o indivíduo para o mercado de
trabalho ao sobrepor o desejo de formar homens com-
prometidos com o social, questionadores, capazes
de produzir novas maneiras de pensar e agir.
Essa escola chega aos nossos dias como uma
instituição questionável nos seus conceitos básicos
necessitando de uma nova roupagem, frente às de-
mandas do mundo atual. O modelo capitalista atu-
al não se baseia mais na mão-de-obra em massa,
como na origem da Modernidade e da escola, exi-
ge sim, pouca e muito especializada e, dessa forma
agrava-se a situação de desemprego, fome e misé-
ria na sociedade como um todo que afeta, em espe-
cial, a juventude. Uma sociedade em que as rela-
ções humanas estão conturbadas, onde as pessoas,
freqüentemente sozinhas, podem ter no computa-
dor e na TV a resolução da solidão, onde paira o
medo da violência nas ruas, do desemprego e de
um futuro sem perspectivas.
Entretanto, acredita Brunel que a crescente pro-
cura pela religião, pelo esotérico e a preocupação
com a natureza, estabelecerá uma nova mentalida-
de e palavras no discurso em muitos setores da so-
ciedade como: diferença, solidariedade, fé, amor,
carinho, afeto, o que pode representar indícios de
grandes transformações na maneira de agir e viver
da humanidade.
Explicita também que a razão, definida pela Mo-
dernidade, não explica tudo, de forma que o diálo-
go deve superar as polaridades e o conhecimento
deve negociar com a incerteza. Ao trazer todo o
pensamento não-linear, não determinista para sua
pesquisa explica que sentiu a necessidade de pen-
sar a sala de aula de uma escola de EJA sob uma
lógica não mais dual, como por exemplo: aluno-
professor, o que sabe e o que não sabe, entre ou-
tras, mas sob uma lógica mais global, com outros
olhares, percepções, em um pensamento mais inte-
racionista e abrangente.
Nesse sentido, lembra o que Morin diz: deve-
mos abandonar um tipo de explicação linear por
um movimento circular, das partes ao todo e do todo
às partes, para compreendermos uma situação ou
fenômeno. Baseando-se nestes aspectos e conside-
rando a educação, sobretudo a escolar, comparti-
mentada e disciplinar, adverte que deve ser trans-
disciplinar e o ensino fragmentado deve dar lugar a
um conhecimento mais global, não perdendo de
vista as diferentes áreas e abordagens, promovendo
um diálogo entre elas.
A educação do futuro, de acordo com Morin,
requer saberes que toda a sociedade deveria saber
e transmitir, não prontos e limitados, mas de acordo
com as regras próprias de cada sociedade, respei-
tando os seus conhecimentos e sua cultura. Com-
plementa a autora que a educação do futuro não
deve desprezar o saber científico e o técnico, con-
tudo adicionar o humano para entendermos o alu-
no é preciso vê-lo com um todo: ser biológico, cul-
tural e social.
Dialogando com as diferenças: por um contrato
social - Fundamentando-se em Morin, a autora re-
conhece cada ser humano como único e ao mesmo
tempo, parte de uma humanidade que, quando en-
tramos em uma sala de aula, se apresenta. Cabe aos
professores fazer com que o aluno se apresente por
inteiro, nos seus conhecimentos cognitivos e possa
compartilhar seus saberes e vivências diárias em
uma relação de respeito pelas diferenças. Nesse
sentido, para entendermos os jovens da EJA, com
suas diversidades e problemas é preciso vê-los mais
do que simples alunos: é preciso saber como vêem
a vida, a situação de seu país, suas trajetórias esco-
lares e como percebem a escola, seus traumas, uto-
pias, medos, paixões, desejos e as relações que es-
tabelecem com o mundo; é necessário por parte do
professor um pensamento complexo com circula-
ção de idéias, com uma reflexão de caráter multidi-
mensional, valorizando as dimensões biológica,
social e individual desses jovens.
Capítulo 4 - Um espaço da EJA:
de retorno à escola
Levando em conta suas experiências como pro-
fessora e coordenadora em escolas de EJA, no antigo
supletivo voltado para o ensino médio, com alunos
maiores de idade, a autora explica que isso possibili-
tou conhecer suas dificuldades. Depois as escolas
passaram a oferecer as séries finais do ensino funda-
mental o que por disposição legal, possibilitou o in-
gresso de alunos a partir de quinze anos, fato que
estimulou a procura de jovens e adolescentes por esta
modalidade de ensino.
Escolas de EJA: espaços em mutação - Há al-
guns anos atrás, os cursos privados de EJA prepara-
vam os alunos para os exames supletivos e eram
realizados, em geral, em estabelecimentos com ca-
racterísticas semelhantes a cursinhos pré-vestibula-
res. A partir de 1999, por efeito legal, enquadrados
na categoria de escolas de educação de jovens e
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 17
SINPEEM
adultos, estes estabelecimentos passaram a reali-
zar avaliações em suas sedes e emitir certificados
oficiais e tiveram que se adaptar às exigências le-
gais de ampliação de seu espaço físico, com dispo-
nibilização para bibliotecas e laboratórios, além de
aumento de carga horária das disciplinas.
Entretanto, de acordo com as observações feitas,
a implementação dessas modificações não alterou
algumas das características próprias deste tipo de
escola, as quais atraem os jovens e são determinan-
tes na escolha e continuação deles nesse espaço:
prédios comerciais, na maioria em centros urbanos;
na duração de seus cursos; nos regimentos escola-
res; na flexibilização de seus currículos, na metodo-
logia usada, e, principalmente o ambiente escolar, a
diversidade dos alunos e a relação de amizade entre
professores/alunos e alunos/alunos. Nas entrevistas
e depoimentos por escrito de professores e alunos,
no decorrer do trabalho, a autora observou a atitude
compreensiva dos professores relacionados ao con-
teúdo e problemas emocionais que trazem para o
cotidiano escolar.
O aumento de jovens nas salas de aula de EJA,
exige do professor, acostumado com alunos não tão
jovens, em geral, longe da escola por muito tempo,
um novo olhar para os recém-egressos da dita escola
regular. O trabalho com estes alunos cada vez mais
jovens é um desafio para o professor, mas ficou visí-
vel, apesar de todos os problemas, um ambiente fa-
vorável para o trabalho com as diferenças individu-
ais, dada a compreensão dos professores e alunos. O
professor enfrenta várias dificuldades: espaço físico,
grande número de alunos e, em conseqüência, co-
nhecer todos individualmente e saber de seus pro-
blemas mais imediatos.
Na fala dos professores, percebe-se, que o tem-
po em sala de aula é usado para tratar de conheci-
mento e também para o diálogo com os alunos. Opor-
tunizar que falem da sua vida, dos seus sentimentos
é importante nesse contexto, pois são encontrados
os mais diversos tipos de alunos, com histórias, mun-
dos e comportamentos diferentes: os que pararam
de estudar por dificuldades financeiras, alguns por-
que reprovaram mais de uma vez, outros porque na
adolescência desistiram dos estudos por não ser, na-
quele momento, prioridade. Na fala dos jovens, fi-
cou claro que não existe apenas um motivo para
explicar o rejuvenescimento desta população e sim
vários fatores que foram identificados como: a ne-
cessidade de recuperar o tempo perdido, os “pro-
blemas” com a escola pública, as reprovações, em
suma, cognitivos, pessoais e emocionais. Nos três
turnos foram encontrados jovens com dificuldades
graves de aprendizagem (provavelmente classifica-
dos em outras escolas como especiais), alunos com
deficiência visual e de locomoção, bem como com
históricos de violência e com passagem por insti-
tuições para menores infratores.
Ressalta ainda que, além da constatação desse
rejuvenescimento, ainda é possível encontrar muitos
adultos, principalmente no noturno, que desejam
recuperar a auto-estima perdida ou pela necessida-
de de qualificação para o mercado de trabalho. Cita:
policiais civis e militares, funcionários públicos, pro-
fissionais liberais ou assalariados, garotas de progra-
ma, mulheres que abandonaram o estudo porque
casaram e moças que engravidaram e desistiram de
estudar. Um outro aspecto é o envolvimento de al-
guns jovens com drogas, ficando evidente, nos de-
poimentos dos alunos em geral, a necessidade do
diálogo familiar.
Enfim, no universo trabalhado, verificou-se uma
mudança no perfil do aluno que freqüenta a EJA, e
nesse sentido, Brunel afirma que a postura do profes-
sor deve ser afetiva em sala de aula, e ao mesmo
tempo não pode esquecer do seu papel de orientar e
dar uma diretividade neste espaço, lembrando que a
autoridade não se baseia em atitudes duras e agressi-
vas, surge da generosidade, segurança e competên-
cia profissional aliadas a sua experiência de vida.
Os encontros: relatos, debates e descobertas - A
partir dos encontros com os alunos, com temas es-
pecíficos já citados, segundo a autora, surgiram as
interlocuções, que foram anotadas e os diálogos mais
abertos, lembrando que foram ouvidos, mais densa-
mente, os seis alunos selecionados. Pontos impor-
tantes do trabalho foram consolidados por meio dos
depoimentos por escrito, respostas a um questioná-
rio sobre a trajetória escolar dos alunos e relatos. Que
nas palavras da pesquisadora, que a seguir, de forma
resumida, são apresentadas:
“os conceitos desses jovens sobre a vida, juven-
tude, violência, escola e o amor são impressionan-
tes, de uma sensibilidade e compreensão que ia me
surpreendendo, fazendo acreditar na possibilidade
de sonhar com um mundo mais generoso para to-
dos”; “a aluna é ótima, lê bastante, tira boas notas,
tem consciência da sua realidade e sabe que não é
inferior, nem seu professor é pior ou melhor que ou-
tro, por isso sofre quando é discriminada”. “este tipo
de discriminação soma-se aos traumas, às reprova-
ções, às diversas dificuldades dos jovens durante sua
trajetória escolar... ”
Os jovens: resistência, sonho e esperança - Con-
siderando as falas dos jovens, Brunel explica: “para
eles o bom professor é aquele que prende a atenção
do aluno, explica bem a matéria e ao mesmo tempo
mantém a disciplina”. Outro aspecto apontado por
duas das quatro alunas selecionadas na turma, está
relacionado a traumas causados por certas atitudes
de professores, decisivos na vida particular e no seu
processo escolar, pois acarretaram atrasos nesta tra-
18 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
jetória. Mas, não podemos esquecer de atitudes/
posturas de professores que podem repercutir po-
sitivamente na vida escolar dos alunos e causar, o
que Charlot chama de declic - uma “luz” ou estalo
que surge e permite ao aluno perceber coisas an-
tes não percebidas; é como se não existisse saída
e começasse a surgir uma outra imagem de si , uma
outra relação consigo, com o outro e com o mun-
do. Segundo o mesmo autor, o declic, pode surgir
através da religião, de um amor, de um amigo ou
pessoa especial.
Assim, nossas atitudes são determinantes na vida
daqueles que compartilham o mesmo espaço, mes-
mo que seja por poucas horas na sala de aula; o ou-
tro é que dá sentido aos nossos atos. Lembrando Paulo
Freire, o diálogo é uma exigência existencial, e neste
contexto, um estar junto, mais dialógico e prazeroso
com esses jovens é importante para a continuidade
de seus estudos e talvez para a diminuição de alguns
“traumas” que a escola regular tenha deixado.
“Uma escola onde todos tenham os mesmos di-
reitos...” - São citados como fatores relevantes na
opção dos alunos pela EJA, a falta de uma política
pública eficiente na área da educação e o conse-
qüente descaso com a escola pública. A autora cons-
tata que, apesar das descontinuidades e rupturas na
trajetória escolar de cada um, a escola ocupa um
espaço importante na vida deles e continua sendo
uma referência positiva, e defende: “cabe aos edu-
cadores, também ter uma visão positiva sobre a si-
tuação deles”.
Os jovens, a escola e o saber - Retomando a
necessidade da leitura positiva defendida por Char-
lot, a pesquisadora se detém em três questões bási-
cas, que o autor considera para reflexão: qual é o
sentido da escola para o jovem?Como se mobiliza
até ela? Como se vê dentro e fora dela? Ainda de
acordo com Charlot, esses questionamentos também
valem para o professor.Sem saber o porquê está na
escola, o aluno faz de conta que estuda e o mesmo
pode acontecer com os professores, fazem de con-
ta que ensinam. Para Charlot é a crise da escola.
Brunel entende que a grande procura pela EJA por
alunos de todas as idades e, em especial, pelos jo-
vens, está relacionada também com a crise da es-
cola que é também social, política e econômica; e
pensando de forma mais ampla é a crise da pró-
pria modernidade, nos seus pressupostos básicos.
Se a modernidade está em crise, a escola também
está.; se a modernidade fracassa em muitos de seus
pressupostos, a instituição escolar fracassa e mui-
tos alunos também. Dessa forma, nem sempre o
“fracasso” é uma carência ou falta, pois o aluno
pode fracassar em uma escola e ter sucesso em
outra; a análise da situação de fracasso dever vista
em relação aos aspectos cognitivos, bem como aos
individuais, sociais e econômicos.
O sentido e o prazer de estar na escola - Para
que o processo educativo seja eficiente três elemen-
tos são primordiais: um sentido real de ir à escola, o
prazer de estar nela para aprender e a atividade inte-
lectual a ser desenvolvida.
“Ser jovem é esperar que o melhor ainda acon-
teça...” - A pesquisa mostrou muitos alunos tem um
capital cultural que os possibilita a avançarem no
processo escolar- muitos escrevem poesias, letras
de músicas, fazem teatro, entre outras atividades.
Alunos que sonham com uma vida mais digna para
todos, e esperam que uma nova ordem se estabeleça
e novas relações se construam. As “falas” dos jovens
retratam que se aposta num futuro melhor, tanto para
eles quanto para os seus, apesar dos estigmas, do
difícil caminho já percorrido por muitos e que ainda
terão de percorrer para alcançarem seus objetivos.
Considerações finais
A ausência de políticas públicas eficientes na área
da educação, a repetência, os problemas de ordem
pessoal, são alguns dos fatores responsáveis pelo
abandono da escola regular por parte de muitos jo-
vens e ingressassem na EJA, que se apresenta como
opção atraente, uma vez que lhes proporciona a
oportunidade de concluir seus estudos num curto
espaço de tempo. Para muitos desses jovens, voltar a
estudar é acreditar em um futuro melhor, em cursar
uma faculdade ou sonhar com um bom emprego.
A autora considera que pode descobrir nesse tra-
balho indivíduos criativos, sensíveis, conscientes do
seu entorno e que procuram um espaço no qual acre-
ditam ter de direito, mas por outro lado, muitos des-
ses jovens sofrem por serem tachados de irresponsá-
veis, terem sua imagem ligada às drogas, à promis-
cuidade, ao desemprego e ainda por freqüentarem a
EJA, modalidade vista ainda como de segunda classe
cujos alunos são inferiores. Em relação aos professo-
res, também historicamente considerados como de
segunda classe, estão junto com os alunos para su-
perarem barreiras, quebrarem tabus e resgatarem a
auto-estima perdida do aluno.
Neste sentido, o rejuvenescimento dessa popu-
lação foi entendido como um processo complexo e
multifacetado que parte de fatores sócio-econômi-
cos e se estende até as relações familiares, afetivas
e culturais.
Síntese elaborada por Helena Ignácio de Mora-
es, graduada em Biologia (USP) com pós-graduação
em Tecnologias Interativas aplicadas em Educação
pela PUC/SP.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 19
SINPEEM
CANDAU, V. M. (org) Petrópolis, Vozes, 2002
Questões como multiculturalismo, raça, gênero,
identidade, poder, conhecimento, pertinência, ética
exercem um papel importante na definição do signi-
ficado e das finalidades da escolarização, no que sig-
nifica ensinar e na forma como os (as) alunos (as)
devem cumprir o processo, para viver em um mun-
do que está cada vez mais globalizado, tecnológico
e racialmente diverso, que em qualquer outra época
da História.
A instituição escolar está construída sobre uma
afirmação de igualdade (de acesso, de formas de
aprender e de ensinar), enfatizando uma base cultu-
ral comum a que “todos” os cidadãos e cidadãs de-
veriam ter acesso. Articular igualdade e diferença,
essa base cultural comum e expressões de uma plu-
ralidade social e cultural é, hoje, um grande desafio
para os educadores.
Globalização - A globalização é um tema muito
tratado em nossos dias por pensadores, intelectuais
e analistas de diversos campos. A favor ou contra,
muitos pronunciamentos, sob os mais variados ân-
gulos: econômico, político, antropológico, socioló-
gico, lingüístico, educacional...
Uma das tendências atuais na literatura é de per-
ceber a globalização a partir de três perspectivas: 1)
ela é plural – são várias globalizações; 2) ela é não
linear, ou seja, não há “etapas” ou passos que indi-
cam um estado final “globalizado” e 3) não recente,
a imposição de modelos dos vencedores é antiga na
história da Humanidade. Assim, cada país, depen-
dendo de sua posição na lógica do capitalismo (cen-
tral ou periférico) viverá um tipo de globalização, que
será também vivida diferentemente entre os grupos
sociais internos de cada Nação.
O ser humano se depara com múltiplas identida-
des – individuais, familiares, comunitárias, locais,
regionais, supranacionais – que, ao mesmo tempo
em que contribuem para a desconstrução de concei-
tos genéricos (brasileiro, ser humano, morador da
comunidade X, etc), também dão sentido à vida dos
indivíduos e exatamente pela percepção de múlti-
plos pertencimentos: etnia, gênero, religião, estilo de
vida, etc. Ou seja, assume-se uma forma de ver, pen-
sar e explicar o mundo do “outro” (o que Roberto Da
Matta chama de difusão) que será interpretada e ado-
tada de uma forma específica pelo grupo que a assu-
me (aculturação).
A cultura nacional e a religiosa, que teriam fun-
SOCIEDADE, EDUCAÇÃO E CULTURA(S):
QUESTÕES E PROPOSTAS
cionado até hoje como elementos de ligação, inte-
gração e unidade das sociedades, passam por uma
mudança que, ao afirmarem suas diferenças, geram
justamente a fragmentação social, ou seja, globali-
zação, na esfera cultural, num contexto de comuni-
cação de massa, não é necessariamente uma homo-
geneização. Ao contrário, a) os meios de comunica-
ção uniformizam ao emitir uma mensagem “única”
por canal por vez, mas de uma forma relativa, pois
os indivíduos não são folhas em branco; b) a identi-
dade é constituída pela ação de diversos agentes que
também podem ser conflitantes entre si (TV, família,
escola, igreja); c) a comunicação de massa não é
homogênea, emite diferentes mensagens, em diferen-
tes horários, em diferentes programas, em diferentes
canais; d) a cultura de massas reflete visões de mun-
do das pessoas que a fazem, estando, portanto, inse-
rida dentro de uma determinada visão cultural ela
também e e) o processo de recepção e interpretação
das mensagens culturais não é uniforme.
Cinco grandes mudanças na segunda metade do
século XIX explicam esse movimento de criação de
identidades flexíveis, abertas e contraditórias:
1 - A concepção materialista do mundo social e
a noção de sujeito histórico da obra de Karl Marx;
2 - A elaboração da idéia de inconsciente por
Freud e os estudos posteriores que mostram que a
identidade é uma construção dinâmica com base em
processos psíquicos e simbólicos;
3 - A conceituação de Saussure na lingüística, que
estabelece que uma língua é um sistema social, um
artefato cultural;
4 - O poder redefinido por Foucault, algo dinâ-
mico, de dupla face (coletivo e individual), relações
onde a disciplina conforma os indivíduos e
5 - O surgimento do feminismo como crítica teó-
rica a concepções rígidas e genéricas de gênero, que,
junto com movimentos outros (de jovens, homosse-
xuais, negros, pacifistas, etc), fragmentaram a arena
política, iniciando um processo histórico de “reco-
nhecimento”.
O papel da Escola e da Educação - Duas ques-
tões, entre os diversos recortes possíveis, se desta-
cam para a análise: a qualidade de ensino e a diver-
sidade cultural. A qualidade de ensino se liga à glo-
balização por três grandes fios: o econômico (a glo-
balização é um processo de lógica de mercado, que
exige um novo perfil de mão-de-obra com forma-
ção geral e profissional qualificada); o político (as
utopias pelas quais se luta, um projeto de sociedade,
20 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
de ser humano, de relações, de participação, vida e
interferência na vida coletiva, a escola como um es-
paço de luta, de afirmação das identidades nacio-
nais e de resistência a dominações), e o tecnológico
(que tanto engloba a vertente de que a educação eli-
tiza como a que democratiza o acesso a tecnologias
informatizadas ou não, inclui e emancipa e abrange
tanto o uso de tecnologias como instrumento como
as relações com os meios de comunicação e infor-
mação que caracterizam a sociedade contemporâ-
nea) . A diversidade cultural implica em pensar uma
educação escolarizada que possibilite práticas que
tanto tragam a globalização e mundialização como
a afirmação de identidades. Assim, se, por um lado,
um dos trunfos da legitimação da escola tem sido o
seu papel de formadora de identidades, sejam estas
individuais, sociais e/ou culturais (o perfil de cida-
dão, identidades a reforçar ou combater, a pluralida-
de do mundo), por outro, a trama que reúne cultura,
educação e globalização leva à discussão da capa-
cidade da escola em absorver e trabalhar as dife-
renças culturais cada vez mais visíveis nas últimas
décadas. É na discussão do currículo que se coloca
a perspectiva cultural, um campo minado de ten-
sões, e, simultaneamente, um campo de discussão
acerca das possibilidades e modalidades de diálo-
go entre os diversos grupos sociais, étnicos e cultu-
rais. Trata-se de perceber a escola como espaço
construído no cotidiano, na possibilidade de se pen-
sar o processo escolar educativo como heterogê-
neo, fruto de uma ação recíproca sujeito-institui-
ção, capaz de reconhecer e incorporar positivamen-
te a diversidade no desenvolvimento dos alunos e
alunas enquanto sujeitos culturais.
Cultura e Identidade - A identidade é um con-
ceito de muitos sentidos, representando tanto o que
diferencia, ou torna exclusiva uma pessoa como a
pertinência a um grupo específico. Seja no sentido
jurídico, psicológico ou cultural, é fundamental na
compreensão das relações humanas, sociais e edu-
cativas, uma vez que também representa a consci-
ência que alguém tem de si mesmo. A cultura pode
ser entendida como um iceberg, na parte visível,
elementos como a arte, literatura, produção cientí-
fica, músicas popular e erudita etc; na parte sub-
mersa os valores, papéis relativos a gênero, idade,
classe social, conceitos de justiça, amor, relações
parentais, entre muitos outros. A identidade cultu-
ral, portanto, são os aspectos de nossas identidades
que surgem de nossa “pertença” a culturas étnicas,
raciais, lingüísticas, religiosas, regionais, nacionais,
etc e é o que nos inclui e nos define com marcas
próprias de uma turma, “tribo” ou instituição. Esse
caráter é, ao mesmo tempo o que define e o que ex-
clui/inclui num sistema social. Ou seja, a identidade
é uma concepção relacional e situacional, que coe-
xiste e convive num determinado tempo-espaço-
contexto. Surge a questão, porém, que é a de defi-
nir, dar um limite. Por exemplo, o que é o Brasil?
Um país tropical, bonito por natureza (Jorge Bem),
uma grande pátria sem importância [onde] será meu
fim ver TV na taba de um índio programado para só
dizer sim (Cazuza), mulatas, futebol, praias, condu-
ção superlotada, favela sem luz e saneamento e Sho-
pping Center tecnológico? Qual a música brasilei-
ra: samba, mangue beat, bossa nova, ciranda, for-
ró, fandango, sertanejo, MPB? É menos brasileiro
o rap, o reggae ou o rock? É aí que surge o concei-
to de cultura híbrida, um processo onde distintas
misturas culturais coexistem e convivem, cruzadas,
sincretizadas ou miscigenadas e interpretadas e ain-
da assim, distintas e específicas.
Nem todas as igualdades são idênticas, nem to-
das as diferenças são desiguais (Milton Santos). Dife-
renciar algo não é necessariamente discriminar e a
diversidade não equivale a desigualdade. Um dos
desafios lançados às sociedades hoje é justamente o
de articular os valores de autonomia, liberdade, di-
reito à diferença, solidariedade e igualdade. Como
afirma o sociólogo português Boaventura de Sousa
Santos: “as pessoas e os grupos sociais têm o direito
a serem iguais quando a diferença os inferioriza e o
direito a ser diferentes quando a igualdade os desca-
racteriza”. Com a tecnologia de comunicação e in-
formação, circulam dados e conhecimentos que atra-
vessam o planeta, pelos rádios, TVs, jornais, compu-
tadores, correios, telefones... e a questão continua:
quem tem acesso? Potencialmente todos, porém não
basta o “contato” com o suporte comunicacional (ver
a TV ou ouvir o rádio), mas uma mediação, que pode
ser o nível de alfabetização, a compreensão e a tra-
dução do que é dito/ouvido/visto. A desigualdade de
acesso à capacidade tecnológica, não só entre paí-
ses, mas também entre os habitantes de um mesmo
território, geram periferias que consumirão e critica-
rão os produtos culturais e ideológicos veiculados
de formas diferentes. Isso compromete o desenvolvi-
mento democrático e o desenvolvimento das socie-
dades. Os povos que foram colônias são os mesmos
que hoje recebem a parcela “enlatada” do conheci-
mento que circula rápido pelo mundo, são os que
não têm condições de produzir e desenvolver seus
próprios interesses, pois os meios de efetivar sua pro-
dução cultural estão vinculados a grandes empresas
transnacionais.
Democracia e Pluralidade Cultural - Falar em
democracia é falar também de cidadania. Conceitos
que não são os mesmos da Grécia e Roma antigas,
pois uma das necessidades do mundo atual é a de
caracterizar esse direito de participação social e po-
lítica. Assim, à cidadania passiva, outorgada pelo
Estado, se diferencia a cidadania ativa, na qual o ci-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 21
SINPEEM
dadão, portador de direitos e deveres é essencialmen-
te criador de direitos para abrir novos espaços e par-
ticipação política, alguém que reconhece diferentes
sujeitos, com interesses diversos e válidos, valores
pertinentes e demandas legítimas. A cidadania cul-
tural, segundo Marilena Chauí, implica nos direitos
de a) criar, ampliar, transformar símbolos sem ser
apenas via belas-artes; b) fruir os bens culturais, ou a
recusa de exclusão social; c) informação e comuni-
cação sem monopólios e d) diferença e expressão de
uma forma própria de seu grupo, sem hierarquia en-
tre essas formas. A convivência entre os grupos, inte-
resses e culturas se estabelece pelo jogo político,
pela superação da rotulação como minoria (mulhe-
res, crianças, idosos, minorias étnicas, sexuais, reli-
giosas...) para usufruir um direito a ter voz e vez. A
democracia não é apenas um regime político com
partidos e eleições livres, mas uma forma de existên-
cia social, aberta, que abrange liberdade e igualda-
de de direitos sociais. A assunção de identidades,
porém, provoca reações de grupos contrários ou que
se sentem prejudicados, num processo complexo:
quanto mais visíveis as identidades e a pluralidade,
maior o nível de tensão a ser superado. A identida-
de só se afirma diante do diferente. Assim, a globa-
lização em diferentes níveis e estágios ao longo do
planeta apresenta também diferentes efeitos sobre
os diversos extratos de populações. Daí surgirem
conceitos como multiculturalismo (justaposição e/
ou presença de várias culturas em uma mesma so-
ciedade), interculturalismo (relações entre diferen-
tes culturas), transculturalismo (componentes cul-
turais que vão além das particularidades, passando
a estar presentes em todas as culturas que lhes ser-
viram de base), bem como uma revisão das noções
de maioria (grupo estruturado, autodeterminado) e
minoria (grupo cujo destino coletivo é dependente
da boa vontade de um outro grupo, afastadas e/ou
tratadas diferencial e desigualmente), além, portan-
to da visão estatístico-numérica.
Desenvolvimento - Durante décadas, assumiu-
se que o sentido de desenvolvimento era necessaria-
mente econômico. Isso teve, como conseqüência
uma excessiva concentração de riqueza, uma pro-
funda injustiça social (analfabetismo e fome de imen-
so contingente de pessoas), um alarmante esgotamen-
to e deterioração dos recursos naturais e sistemas de
sustentação da vida no planeta, uma dominação cul-
tural e redução da diversidade cultural e uma con-
centração de poder (tanto em nível global como in-
ternos aos países) que não permite às populações
participarem do processo de tomada de decisão so-
bre assuntos importantes que as afetam. O filósofo
Mario Bunge, porém, apresenta aspectos do desen-
volvimento que vão além e se inter-relacionam e
complementam: o biológico (aumento do bem-estar
e melhoria da saúde), o econômico (crescimento fi-
nanceiro pela ampliação do comércio e industriali-
zação), o político (expansão da liberdade, garantia
de direitos e democratização da tomada de decisões)
e o cultural (pelo enriquecimento de sentidos, difu-
são da educação e avanço tecnológico e científico).
A ligação entre cultura e desenvolvimento é o que
define, em uma sociedade o que ela é e o que quer
ser. Uma das condições para o sucesso do desenvol-
vimento, portanto, é o exercício e a valorização do
diálogo entre os diferentes grupos, via contato social
ou mediado pelas tecnologias de informação e co-
municação. O equilíbrio entre desenvolvimento eco-
nômico, democracia política e equidade social é a
única garantia de um desenvolvimento harmônico,
eficiente e humano.
Antecedentes - Tanto na Europa como na Améri-
ca Latina e nos Estados Unidos, as propostas que vi-
sam articular a educação e a diversidade cultural
partem do reconhecimento da pluralidade de mani-
festações e expressões culturais, sociais, étnicas, etc
que moldam a sociedade contemporânea e suas re-
lações. Nos Estados Unidos, principalmente a partir
dos embates e na defesa da identidade racial dos
negros, superando o melting pot (caldeirão misto) que
apenas reconhece a diversidade étnica na origem.
Da mesma forma no Brasil com a idéia de “cadinho
de raças”. Ou seja, reconhece uma diversidade na
origem, mas na “atualidade” essa diversidade teria
se homogeneizado, não faria mais sentido. Assim, às
experiências sociais e políticas de luta por direitos
civis liderada pelos afro-americanos juntaram-se as
reivindicações de mulheres, homossexuais, latinos e
outros tantos grupos. A Europa, nos anos 1950-1960
já enfrentou o mesmo problema, trazido pela migra-
ção de trabalhadores pouco qualificados, das ex-co-
lônias (América Latina, Caribe, África, Ásia...). Um
processo reverso do que houve durante o processo
de expansão européia. Os europeus não encontra-
ram na América Latina ou na África, “um” povo indí-
gena, mas dezenas de “povos”, com costumes, orga-
nização social e familiar, língua, cultos e conflitos
internos de variedade incalculável. Europeus, africa-
nos e ameríndios, povos já em si múltiplos e diver-
sos, aqui viveram e conviveram com encontros, cho-
ques, distanciamentos, diálogos, guerras, inter-rela-
ções, dominações e acordos. Junte-se a isso a movi-
mentação humana do século XX, de italianos, ale-
mães, suíços para o Brasil, com vantagens de acesso
à terra e emprego que jamais foram imaginadas pe-
los negros que já estavam aqui. É nos números de
fracasso e exclusão, nos números de tempo de esco-
larização e de resultados dessa escolarização que se
aproxima todo esse debate da educação formal. Nes-
se sentido, foram os diferentes movimentos (negros,
feministas, estudantes, etc) que trouxeram a discus-
22 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
são para o campo da educação. Com Paulo Freire
no início dos anos 60, “ninguém educa ninguém,
ninguém educa a si mesmo, os homens se educam
entre si, mediatizados pelo mundo”. É a educação
como prática da liberdade, a inserção dos homens
na realidade de interações e simultaneidades, num
universo de culturas, no plural. A educação assume
um dever de ação dialógica, um encontro de diálo-
go entre os homens e mulheres que, “mediatizados
pelo mundo o pronunciam, o transformam, e, trans-
formando-o, o humanizam, para a humanização de
todos”. Enquanto o fracasso escolar foi entendido
como um “problema exclusivo” do aluno enquanto
indivíduo, a psicologia foi, obviamente a ciência pri-
vilegiada nas pesquisas e na formação dos professo-
res. Contudo, as migrações, as diferenças de classe,
credo, etnia, gênero etc, têm levado os educadores a
buscar aplicações em áreas lingüísticas, sociológi-
cas, políticas, antropológicas além da psicologia.
Fracasso escolar - Considerar os alunos e suas
famílias culpados foi e tem sido uma postura bastan-
te comum. Dois tipos de respostas são as mais co-
muns: as teorias racistas e as teorias de privação cul-
tural. As racistas (principalmente entre 1850 e 1930),
afirmavam os fracassados como intelectualmente in-
feriores. Sem comentários! As teorias de Privação
Cultural são as utilizadas para programas de educa-
ção compensatória, (supletivas ou não) que visam
superar, compensar supostas desvantagens, de ordem
intelectual, lingüística, afetiva, etc. As perguntas po-
rém são outras: estão social e culturalmente margi-
nalizadas de quê, exatamente? De qual cultura?
Quem determina essa deficiência? Com que crité-
rios? Isso remete à teoria crítico-reprodutivista, que
afirma que a culpa do fracasso escolar é da escola,
que é meramente uma agência reprodutora das dis-
criminações que ocorrem fora dela, na sociedade. A
resposta a isso é que a escola não apenas reproduz,
mas produz (conhecimentos, técnicas, culturas, prá-
ticas, etc) e interage com a sociedade mais ampla,
com seu contexto, e, nessa relação, também trans-
forma a si mesma. De certa forma, a diversidade foi
encarada como uma patologia, o que serviu, ao lon-
go da história da educação, de explicação e justifi-
cativa para o fracasso. De um lado, ignorar a diversi-
dade sob o ideal da igualdade de trato e, de outro,
fazer do espaço escolar um espaço múltiplo e capaz
de propiciar a todos um ambiente de construção de
conhecimento e formação humana e cidadã.
Educação Multicultural / Intercultural - Não é
possível definir multiculturalismo de forma definiti-
va, pois é uma realidade dinâmica, que apresenta,
em cada contexto sociocultural e político configura-
ções específicas. Como conceito de trabalho, apre-
senta-se como a realidade social onde convivem di-
ferentes grupos culturais. A descoberta da diversida-
de, para muitos, é ameaçadora e marcada por este-
reótipos, o que leva á conclusão de que a convivên-
cia social não leva necessária, nem espontaneamen-
te ao desenvolvimento social. Os profissionais de
educação, assim, também refletem a diversidade de
conceitos e posturas, havendo os acríticos (os confli-
tos e tensões são de nível individual e relacional, não
afetando a dinâmica escolar); os transculturais (que
enfatizam o papel da escola na sociedade enquanto
transmissora de conhecimentos universais historica-
mente produzidos, uma escola de igualdade e uni-
versalidade e não de diferenças e particularidades);
os assimilacionistas (que percebem as diferenças e
buscam integrá-las a uma cultura de base, a hege-
mônica ou dominante, mais “importante”); os radi-
cais (que têm as escolas diferenciadas, específicas
para cada grupo sociocultural, como única opção
para a preservação das diferenças e sua não-anula-
ção) e os interculturais (que valorizam a interação, a
comunicação recíproca, o reconhecimento do direi-
to à diferença e a negação de todas as formas de dis-
criminação, através do diálogo). Os critérios para
considerar processos educativos como interculturais
são: a) a visão de educação como prática social in-
serida num contexto histórico e social determinado;
b) o reconhecimento e valorização da diversidade
cultural ao nível de políticas e práticas pedagógicas;
c) a não-redução a situações e atividades de momen-
tos específicos ou limitado a áreas curriculares ou
grupos específicos; d) o questionamento de um et-
nocentrismo que justifica uma hierarquização e uma
escolha de temas de aula e e) a mudança não apenas
no currículo explícito (objetivos, conteúdos, propos-
tos, métodos e estilos de ensino, materiais didáticos
etc) como também no currículo oculto e nas rela-
ções entre os agentes do processo educativo, traba-
lhando os ritos, símbolos, imagens e a auto-estima,
de forma a superar o autoritarismo e o machismo for-
temente arraigados nas culturas latino-americanas.
Uma outra visão é a pela finalidade (Bartolomé Pina),
o que dá sentidos diferentes: I) manter a cultura he-
gemônica de uma determinada sociedade; II) reco-
nhecer a existência de uma sociedade multicultural;
III) fomentar solidariedade e reciprocidade entre cul-
turas, denunciando injustiças da assimetria cultural;
IV) avanço num projeto educativo global. Para Ja-
mes Banks, o modelo holístico de abordagem onde
a educação intercultural na escola, a partir de um
enfoque institucional; incorpora elementos de denún-
cia e luta contra a discriminação e o racismo e tem
como finalidade desenvolver habilidades, atitudes e
conhecimentos necessários para atuar no contexto
de sua própria cultura étnica, no da cultura domi-
nante, assim como para interagir com outras cultu-
ras e situar-se em contextos diferentes do seu de ori-
gem. Pode ser medida através dos critérios: grau de
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 23
SINPEEM
integração dos conteúdos, processo de construção
de conhecimentos, redução de preconceito, peda-
gogia da equidade e empoderamento (“empower-
ment”) dos diferentes grupos.
Educação, (in) diferença e (des) igualdade.
Cinco idéias principais:
1 - A escola, historicamente é um ambiente mo-
nocultural, que privilegia o discurso científico dos
conteúdos, em detrimento de vários outros (religio-
so, étnico, etc);
2 - Não há oposição entre igualdade e diversida-
de que possa realmente ser sustentada, não há dico-
tomia, mas uma oportunidade de articulação na edu-
cação;
3 - A articulação entre igualdade e diversidade
nas práticas pedagógicas se constrói no dia a dia, na
experimentação, no ensaio e erro;
4 - É preciso evitar o exagero tanto da igualdade
quanto da diferença, pois ambas têm problemas: o
discurso da igualdade leva a uma homogeneização,
ao totalitarismo, à padronização, à exclusão, enquan-
to o discurso do diferencialismo pode levar ao fe-
chamento, à radicalização do relativismo, ao gueto;
5 - A intolerância, enquanto fenômeno de reco-
nhecimento e negação da diferença, pode ser abor-
dado e trabalhado na prática escolar.
Respeito à diferença, enquanto direito à igualda-
de remete a uma questão ética, pois se refere a como
tratamos e nos relacionamos com o outro, o diferen-
te. Somos, na medida em que nos relacionamos. Por
outro lado, como colocar a diferença num campo de
significação positiva, que leve não à discriminação,
mas à idéia de que para a diferença não se opor à
igualdade, deve-se exigir o combate à indiferença,
que significa desinteresse, desprezo, insensibilidade,
negligência, apatia. Afirmar positivamente a diferen-
ça é, então, estar atento ao outro, à alteridade, ao
que não sou, e, por isso mesmo, igual e diferente.
Igualdade e diferença afirmam a inclusão e a abertu-
ra ao outro. Desigualdade e indiferença negam o
outro, excluem-no, desqualificam-no. Por fim, como
compreender a tolerância, já que a intolerância cega
é assassina, leva à agressão (o fogo do índio Galdi-
no, 1997, os carecas do ABC matando um homos-
sexual em 2000, ou o espancamento da doméstica
confundida com prostituta no RJ, 2007) ou à lin-
guagem preconceituosa sem consciência (p.ex. para
com os nordestinos por paulistas - “esses baianos”
– e por cariocas -“os paraíbas”). A não aceitação do
diferente no Brasil tem sido marcada pelo precon-
ceito dissimulado, que atravessa a nossa linguagem,
as nossas piadas, a nossa expectativa de mundo, a
nossa representação de brasilidade, as nossas práti-
cas nas relações com grupos social e culturalmente
discriminados.
Exemplos de relação escola e cultura
O pré-vestibular para Negros e Carentes (movi-
mento que teve suas origens na Bahia e atua hoje no
Rio de Janeiro), ligado a diferentes instituições como
igrejas de várias denominações, universidades, dife-
rentes vertentes do Movimento Negro, além de ou-
tras organizações não governamentais (ONGs) e que
busca promover uma educação multi/intercultural..
A Escola Plural, proposta política e pedagógica
do governo municipal de Belo Horizonte, que pro-
põe autonomia da escola, a partir da evidenciação
da tensão entre as práticas tradicionais e as ações
renovadoras, inovadoras, uma “escola emergente”.
Duas grandes contribuições: primeira, que a edu-
cação escolar pode reforçar a crítica a uma visão
de mundo na qual o próprio grupo é tomado como
centro, colaborando com o combate à intolerância,
ao etnocentrismo, à xenofobia, ao racismo, à ho-
mofobia, ao sexismo e a todo tipo de preconceito e,
segunda, que a escola pode desenvolver práticas
educativas que articulem a igualdade e a diversida-
de, o global e o local, o universal e o particular,
superando os sentimentos de estranheza, medo e
hostilidade.
A composição de Sambas por compositores de
Escolas de Samba no Rio de Janeiro, ao discutir a
cultura do samba e o papel da escolarização na pro-
dução dos compositores de samba, evidenciaram
inúmeros aspectos discriminatórios e culturais que
afetam a escolarização de afro-brasileiros. A compo-
sição de um samba-enredo não é tarefa fácil, pois,
além da inspiração, tem-se que dar conta de diver-
sos enredos nos versos para permitir a pontuação
máxima em cada quesito. Para isso, é necessária a
pesquisa em jornais e livros, freqüentar bibliotecas
e procurar quem os ajude, se não sabem ler. No
princípio, existiu o recurso à história oficial, esco-
larizada, própria da cultura escolar, onde heróis ofi-
ciais de um Brasil oficial, cuja elite e sua versão dos
fatos compuseram os enredos. Uma marca caracte-
rística da escola tradicional que reproduz enfoques
não críticos. Com a ampliação da importância das
Escolas de samba e dos desfiles, surge o carnava-
lesco, que vai elaborar a sinopse do enredo aos sam-
bistas para orientar a composição do samba-enre-
do. Os que fugiram da glorificação das elites trou-
xeram fatos, personagens e cultura ligados à sua
própria história, na troca típica da cultura do sam-
ba, que aproveita os batuques, o maxixe e até o tan-
go. Os espaços de socialização do mundo do sam-
ba constituem exercícios de diversidade cultural e
são educadores da interculturalidade. Se os sam-
bistas não aprenderam samba na escola, isso não
significa que ela não contribuiu para o desenvolvi-
mento das suas qualidades de compositor, ainda que
não intencionalmente.
24 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
Elementos que compõem a discussão entre es-
cola e cultura - O ambiente escolar, composto pelo
conjunto de materiais de apoio (giz, lousa, quadros e
mapas), o tamanho físico da escola e das salas, a
população atendida, a figura e imagem da Direção,
o conjunto de professores, bem como o processo de
acolhimento e tratamento do alunado. Outro elemen-
to é a relação dos pais/mães com a escola, sua proxi-
midade ou distanciamento, a participação, a mani-
festação de interesse. Já a ação efetiva educativa se
mostra no grau de consciência da realidade multi-
cultural que os membros da comunidade educativa
possuem, expresso na negativa (“para mim todos são
iguais”) ou na discriminação positiva (“precisam/
merecem mais atenção que os outros”). A aula, en-
quanto ambiente físico, psicológico, afetivo, tempo-
ral, bem como sua organização (distribuição dos alu-
nos na aula, dos temas, forma e conteúdo, disciplina
e uso de recursos) e avaliação também são elemen-
tos que evidenciam como é tratada culturalmente a
pluralidade existente. Da mesma forma, o modelo
educativo, expresso na organização curricular, na
participação permitida em sala, na adaptação dos
temas e materiais às diferentes realidades culturais.
O estilo de comunicação permite verificar não ape-
nas a direção da comunicação como a atenção que
é dada/recebida pelos diferentes compostos culturais
presentes. Já os tipos de disciplina evidenciam os
valores e o contexto de fundo que justificam a evi-
denciação (prêmios e castigos), tais como o modo
de o(a) professor(a) exercer o controle da sala, a exis-
tência de normas e a freqüência de citação destas; a
distribuição de prêmios e castigos, trabalhando ou
não a motivação intrínseca.
Assim, pode-se identificar três grandes objetivos
no trabalho de multiculturalidade na escola: 1) Fo-
mentar o desenvolvimento da identidade étnica,
através da busca, conhecimento, valorização, afir-
mação e expressão das características culturais e
pessoais; 2) fomentar o conhecimento, valorização
e aceitação das características culturais e pessoais
dos outros e 3) explorar, identificar e avaliar critica-
mente os próprios estereótipos e julgamentos e pré-
julgamentos sobre outros grupos culturais. Coeren-
temente, há quatro grandes blocos de avaliação do
processo: 1) a avaliação diagnóstica (que propõe
também uma leitura de contexto), 2) a avaliação do
processo (temporização e adaptação), 3) a avalia-
ção dos resultados imediatos (níveis de sucesso das
propostas do programa, abrangência e mudanças
efetivadas) e 4) a permanência da mudança (aos ní-
veis institucional e pessoal).
Outras delimitações conceituais
Identidade racial - Muitos estudos superaram a
questão do determinismo bio-genético ou a distin-
ção com base em características físicas ou descrição
biológica das raças. Os estudos apontam mais para
uma raça “humana” que “negra”, ou “branca” ou
“ameríndia”, classificação que foi utilizada para con-
trolar os grupos étnicos visíveis, na medida em que
explicava e justificava a marginalização, a escravi-
dão e a opressão a esses grupos. O tema central do
desenvolvimento da identidade racial é o de reco-
nhecer e superar as manifestações psicológicas do
racismo internalizado.
Identidade étnica - Fenômeno psicossocial, que
se baseia não apenas nas características físicas como
também num sentido subjetivo de comprometimen-
to com valores culturais, papéis e herança manifes-
tada pelos membros de um grupo étnico. A identida-
de étnica é um tipo de idéia sobre a pertinência a um
grupo, sobre o próprio sujeito que pensa, sua com-
preensão, valores, comportamentos e sentimentos,
que têm implicações diretas nessa pertinência. In-
clui os costumes, a linguagem e os pontos de vista
sociais usualmente associados com um grupo étnico
em particular. Não há “escolha” mas “nascimento”
no grupo, um “contrato psicológico” de formas e
modos de pensar, agir e sentir, que posiciona a pes-
soa em relação a um grupo de referência.
Aculturação - São os fenômenos resultantes do
contato direto de grupos de indivíduos com culturas
diferentes e as mudanças subseqüentes nos padrões
de cultura originais de cada um dos grupos. Fenô-
meno psicossocial multidimensional, que reflete as
mudanças psicológicas que ocorrem nos indivíduos
como resultado de seu encontro com uma nova cul-
tura. Essas mudanças psicossociais não são indepen-
dentes das características dos indivíduos ou da in-
tensidade e importância do contato entre vários gru-
pos. Essa aprendizagem e mudança de atitudes po-
dem se dar em três níveis ou graus: I) superficial -
aprendizado de feitos, (acontecimentos sociais ou
históricos); II) médio - a aprendizagem que afeta
aspectos centrais da pessoa, como a preferência e
uso de um idioma, etnicidade dos amigos, da espo-
sa, preferência por determinados ambientes; III) sig-
nificativo - mudanças no nível de crenças, valores
que afetam a cosmovisão das pessoas e seus pa-
drões de interação. Por isso, afirma-se o componente
da identidade étnico interna: a cognitiva (auto ima-
gens, heranças, valores e conhecimento de seu gru-
po); a afetiva (sentimentos de pertinência, dividido
em simpatia e /ou satisfação) e a moral (sentimen-
tos de obrigação para com o grupo, compromisso e
solidariedade com ele).
As instituições educativas não podem ser as últi-
mas a interar-se ou atuar diante da realidade social. O
tema central da educação, segundo Bell, é formar um
diálogo crítico, onde temas controversos são tratados,
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 25
SINPEEM
marcados pela democracia (entendida como igualda-
de de oportunidades). A educação para a democracia
implica em métodos de ensino democráticos.
De concreto, dever-se-ia:
a) Promover e estimular a diversidade étnica e
cultural entre os professores em todos os tipos de ins-
tituições educativas e
b) Incorporar as inovações nos currículos, para
que favoreçam o desenvolvimento da identidade,
incluir temas supranacionais e globais, que superem
as orientações etnocêntricas e eurocêntricas atuais.
Resumo realizado por Antonio Carlos Berardi Junior,
antropólogo e professor, mestre em Educação.
CARVALHO, Rosita Edler.
Editora Mediação, Porto Alegre, 2004
Introdução
A organização do texto leva em consideração os
encontros que a autora teve com os professores e
suas questões diante dos discursos a respeito da in-
clusão escolar e as diversas fontes de informações
que atravessam esta discussão. Também faz pontua-
ções a respeito da legislação e das discussões inter-
nacionais que tem este tema como pauta.
Propõe uma análise crítica sobre a educação in-
clusiva e suas implicações sociais e políticas.
Rosita toma como ponto de partida uma revisão
histórica sobre o tema e uma síntese sobre os siste-
mas educacionais inclusivos, enfatizando a remoção
das barreiras que impedem a implementação desta
reforma e conseqüentemente a aprendizagem de to-
dos os alunos.
Usa a expressão “pingos nos is”como jogo de
palavra para discutir a questão da inclusão, integra-
ção, inserção, individualização, identidade, identifi-
cação, ideais democráticos...
Coloca-se como partidária de uma posição não
radical para atingir os ideais da educação inclusiva.
Toma a escola como instituição social e como tal
depositária dos ideais e valores que circulam fora dela
e a incluem, dentre as quais os conceitos sobre igual-
dade e diferenças individuais.
Defende a idéia de uma inclusão cautelosa, que
não negue as diferenças e construa uma discursivi-
dade sobre a igualdade de direitos. Isto vai além das
características pessoais.
Vê a educação inclusiva como um espaço de re-
estruturação das escolas, regulares ou especiais, ten-
do em vista, inclusive, desfazer esta dicotomia.
EDUCAÇÃO INCLUSIVA:
COM OS PINGOS NOS “IS”
1 - Correntes teóricas e sua influência no
processo educacional
A autora desenvolve o texto neste ponto levando
em consideração as diferentes correntes de pensa-
mento sobre educação e práticas pedagógicas. Re-
laciona teoria e prática, texto e contexto, reflexão e
ações efetivas.
Considera que a educação ocupa um lugar fun-
damental na construção da civilização.
A educação além de praticada precisa também
ser pensada em toda a sua complexidade. Pensada
tendo em vista o contexto histórico, a educação ab-
sorve as condições e contradições de seu tempo, le-
vando em conta o ideal de homem a ser alcançado.
Atualmente, vivendo a aceleração das mudanças e o
contínuo de informações, a educação busca conti-
nuamente uma acomodação.
Este capítulo traz uma retrospectiva sobre o pen-
samento educacional traçado ao longo do tempo.
A chamada pedagogia da exclusão tem origens
remotas e sempre foi condizente com a concepção
de homem e de mundo.
Na antiguidade primitiva era voltada para o coti-
diano e a satisfação do cotidiano. Da antiguidade
clássica, na Grécia, destaca-se a Paidéia, educação
integral, que incluía a formação do homem entendi-
do como um ser de corpo (Esparta) e espírito/intelec-
to (Atenas).
A contribuição do pensamento romano influen-
cia também o pensamento moderno, desenvolven-
do uma educação integral e diferenciando homens
livres e escravos (excluídos).
Na Idade Média, a ideologia inspirada no cristia-
nismo, a educação tinha uma circulação privilegia-
da nos conventos, abadias e nos círculos de nobres.
Os trabalhadores aprendiam na tradição oral aqui-
lo que lhes serviria para a sobrevivência.
26 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
Surgem as universidades como centros de saber
universal.
Na seqüência, o Renascimento, o acesso à edu-
cação ainda permanecia nos círculos da nobreza e
burguesia emergente. Não havia um conceito de edu-
cação para todos.
A Idade Moderna caracterizou-se pela ascensão
de uma classe social que se opunha aos modelos
vigentes. A Revolução Francesa representa um mar-
co para o período, denominado pelos historiadores
de Iluminismo, onde as liberdades individuais e a
racionalidade são considerados os marcos. Nascia
a burguesia. A teoria educacional neste contexto
apóia o humanismo igualitário e universal. Também
o conceito de individualidade compõe as concep-
ções educativas.
Nasce o conceito de meritocracia, fazendo uma
apologia da autonomia econômica conquistada pe-
los méritos pessoais.
A classe trabalhadora tem na educação um apren-
dizado para o trabalho e a classe dirigente tem a edu-
cação para governar.
No séc. XIX, os ideais iluministas inspiram os pro-
jetos positivistas e socialistas. O primeiro atribuía à
educação e a ciência a capacidade de renovar os
costumes e reorganizar a sociedade. A educação
deveria conferir a ricos e pobres as mesmas oportu-
nidades considerando as aptidões individuais. A de-
ficiência era considerada como incompetência ou
incapacidade.
O positivismo traz como benefício uma crítica
do pensamento pedagógico exercendo muita influ-
encia no movimento da Escola Nova. O escolano-
vismo valorizava a atividade espontânea da criança
e colocando o aluno como centro do processo edu-
cacional.
Era um movimento de escola ativa, onde apren-
der é aprender fazendo.
O movimento socialista originado nas camadas
populares contribui para um repensar do contexto
social.
Na década de 50, a visão critica do socialismo
tendo em vista o ranço positivista que atravessa a
Escola Nova, apresenta a educação como uma insti-
tuição capaz de transformar a sociedade. Paulo Frei-
re e Ira Shor vêem a escola como um lugar apara a
construção da cidadania e da pratica libertadora.
Atualmente convivem a tecnologia e sua enorme
parafernália e uma rede imensa de informações.
A sociologia da educação contribuiu para uma
analise critica da escola. Deixa de ser vista com oti-
mismo e passa a ser lida como lugar de exercício de
poder e violência simbólica. Ocupa-se de reprodu-
zir o status quo vigente e alimenta os movimentos
geradores da desigualdade social.
A autora considera que a educação atualmente
tem como centro a valorização da pessoa do edu-
cando como aprendiz e como ser histórico, político,
social e cidadão.
No ideal inclusivo está implícito o ideal democrá-
tico que leva em consideração os direitos humanos.
Apesar de estar sendo discutida neste contexto
da democracia e do direito, ainda fica restrita nos
fóruns de educação especial considerando apenas
as crianças que freqüentam estas escolas.
É preciso que sejam ampliados os conceitos em
torno do tema.
Muitas resistências de professores e pais formam-
se por conta da insegurança no trabalho educacio-
nal de profissionais não especializados. Outros tam-
bém desconfiam que a qualidade do trabalho peda-
gógico poderá ser prejudicada pela presença de alu-
nos considerados deficientes em classes regulares.
Os cursos de formação de professores não apre-
sentam um currículo que dê conta de torná-los pro-
fissionais capazes de ensinar alunos que deveriam
freqüentar as classes e escolas especiais.
A maioria dos interlocutores não consideram que
alem dos alunos com deficiência, também os alunos
com dificuldades de aprendizagem e altas habilida-
des podem beneficiar-se de uma abordagem inclusi-
va na educação.
Alguns autores apontam que o desmonte da edu-
cação especial, seja através do fechamento das es-
colas especiais, classes especiais, salas de recurso e
serviços itinerantes como uma forma de desonerar o
orçamento da educação.
Paralelamente, pais e educadores exprimem seu
entusiasmo diante de uma educação que considera
a diversidade como um avanço e um desafio.
Os quatro pilares da educação para o século XXI
propostos pela UNESCO sustentam a idéia de novos
paradigmas: aprender a aprender, aprender a fazer,
aprender a ser e a viver junto.
Ainda permanece uma dicotomia entre os termos
inclusão e integração que a autora procura dissolver
durante todo o texto.
Tanto na sociologia como na psicologia social, a
integração representa a interação, as relações que
envolvem a reciprocidade.
Alguns autores consideram a integração como um
passo anterior à inclusão, onde os alunos devem
adaptar-se às propostas da escola.
Do ponto de vista da inclusão, cuja metáfora é
o caleidoscópio, qualquer aluno pode e deve parti-
cipar da vida escolar em escolas comuns e estas
devem organizar-se administrativa e pedagogica-
mente para isto.
É preciso, no entanto, considerar a implementa-
ção de projetos que ofereçam suporte aos educado-
res e as famílias para que de fato uma inclusão não
seja a qualquer preço.
Para renomados pensadores das escolas inclu-
sivas, os caminhos passam: pela valorização profis-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 27
SINPEEM
sional do professor; pelo aperfeiçoamento das es-
colas; pelo acompanhamento de professores espe-
cialistas; pelo trabalho em equipe e pelas adapta-
ções curriculares.
As escolas inclusivas são escolas para todos que
reconhecem as diferenças individuais de qualquer
aluno. Não só os alunos portadores de deficiência
serão considerados de inclusão, mas todos aqueles
que por causas endógenas ou exógenas, temporárias
ou permanentes, apresentem um quadro de dificul-
dades de aprendizagem ou no desenvolvimento.
O termo inclusão não deve ser considerado auto-
explicativo das razoes que cunharam seus objetivos,
tais como solidariedade e cooperação, que devem
atravessar qualquer proposta educativa.
A inclusão institui a integração de maneira mais
radical e sistemática, alertando para a necessidade
das implicações praticas da integração.
A expressão alunos com necessidades educacio-
nais especiais é genérica e abrangente. O sistema
educacional esta alicerçado em uma dicotomia: es-
colas especiais e normais/regulares. Isto tem reforça-
do a idéia de um grupo de alunos ser considerado a
clientela da educação especial.
A autora grifa a importância de considerarmos a
idéia de inclusão escolar como algo que vai alem do
“como incluir” para a melhoria das respostas educa-
tivas para todos.
A proposta de educação inclusiva não foi conce-
bida apenas para determinados alunos pois é consi-
derável a produção de fracasso escolar, excludente.
O processo educacional tem sofrido as influen-
cias das concepções sobre educação, sobe gênero
humano e sobre sociedade, que atravessaram a his-
tória da humanidade.
A prática pedagógica deve ser inclusiva, no sen-
tido de envolver a todos e cada um.
O papel do professor na pratica inclusiva deixa
de ser o de profissional do ensino para ser o profis-
sional da aprendizagem.
2 - A contribuição da historia, da filosofia,
da ciência para a proposta inclusiva
A década de 20 é o auge da corrente positivista,
com o método indutivo e das experiências como es-
tratégias de se fazer ciência.
Ao termino do século passado, assistimos ao nas-
cimento de uma nova ciência onde a vida e a cons-
ciência entram em cena.
Altera-se o olhar diante da alteridade e os senti-
mentos em relação ao outro, ao próximo, principal-
mente quando este apresenta características diferen-
ciadas das de seus pares.
A nova ética envolve novos valores como igual-
dade de direitos e equidade, promovendo a supera-
ção de qualquer forma de discriminação étnicas, so-
cioeconômicas, de gênero, de classes sociais ou sin-
gularidades.
O papel da escola muda e a seletividade e segre-
gação saem de cena e cedem lugar a uma educação
“para todos nós”. O ensino vai alem do da valoriza-
ção da transmissão de conhecimentos. A idéia de
escola inclusiva é aquela que prepara para a vida.
Esta mudança de papel envolve uma mudança
no conceito de escola e de escola especial.
O direito à igualdade de oportunidades não sig-
nifica que devemos educar a todos de modo igual.
Fala-se em equidade como um movimento de res-
peito as diferenças individuais sem que quais mani-
festações de dificuldades traduza um impedimento
para aprender.
Saímos do paradigma do defeito a ser compensa-
do para um remodelagem nas crenças e princípios
institucionais que se afastam de modelos discrimina-
tórios e opressivos.
As concepções a cerca da educação especial pre-
cisam ser revistas e abolidas. A autora não refere-se
às práticas.
Para tornar as escolas brasileiras em escolas in-
clusivas, a autora destaca: a valorização do magisté-
rio; as melhoras nas condições de trabalho; a forma-
ção continuada; as condições de aprendizagem em
clima prazeroso e criativo.
3 - A autorização da diferença de pessoas
com deficiência
Este capitulo tem como objeto de análise a dife-
rença. Discute os aspectos éticos na percepção das
diferenças.
Em geral os paradigmas são baseados em pressu-
postos de normalidade. Neste pressuposto, sempre
há um ideal, um modelo a ser seguido.
Algumas dessemelhanças são entendidas como
naturais, como os caracteres fenotipicos, por exem-
plo. Já no caso de diferenças significativas, isto não
se dá desta maneira. Pessoas com diferenças signifi-
cativas geram impacto no olhar do outro, dito nor-
mal. As reações podem ser de comiseração ou senti-
mentos de filantropia.
Estão em oposição binária o normal e o anormal,
o saudável e o doente. A ênfase neste caso recai so-
bre a deficiência.
Os índices de normalidade excluem aqueles que
não se encaixam. O deficiente reforça normalidade.
Os desvios tornam-se patologias.
O ser e o não ser aparecem como as duas únicas
opções possíveis.
A idéia da educação inclusiva é dispensar com-
parações com modelos normativos. Deve-se então
valorizar e respeitar o outro como ele é, livre de com-
parações classificatórias ou categorizadoras.
A autora promove uma discussão em torno de
28 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
uma metáfora. Usa um artigo para ilustrar aquilo que
esta entre o sadio/normal e o doente/anormal. Colo-
ca a diferença como um desafio, saindo dos critérios
estatísticos, estruturais, funcionais ou na compara-
ção com o ideal.
Considera o desenvolvimento das potencialida-
des como uma maneira de autorizar a diferença em
nosso cotidiano.
Propõe um deslizamento da dinâmica da dialéti-
ca para a tetralética como possibilidade de expan-
são dos paradigmas binários e reducionistas.
Neste ponto fala de uma inversão discursiva que
ao invés de defender o direito dos deficientes em se-
rem incluídos defende os direitos dos ditos normais
em enriquecerem suas experiências com o exercício
da alteridade.
O convívio deixar de estar definido apenas como
um direito passa a representar uma oportunidade de
construção de vínculos.
4 - A exclusão como processo social
Neste capitulo a autora fala da chamada inclu-
são marginal, onde a sociedade capitalista faz um
movimento de exclusão para incluir a “seus moldes”,
segundo suas regras.
Pontua sobre a normalidade individual.
Sob o olhar ocidental, a exclusão social deve ser
considerada em termos das relações interpessoais que
se manifestam como praticas hostis e de rejeição que
formam guetos.
Distingue os conceitos de solidariedade mecâ-
nica e solidariedade orgânica baseando-se em Du-
rkheim.
Na primeira forma solidariedade exprime-se por
proximidade ou contato entre os homens. No se-
gundo caso, as agregações são cooperativas e se
constroem através de valores e crenças comuns que
fazem funcionar o coletivo.
Para haver inserção é preciso que haja reciproci-
dade que implica em uma serie de ressignificações
das percepções do outro e um conjunto de mudan-
ças que envolvem desde os espaços físicos e simbó-
licos até a qualidade dos laços estabelecidos.
Os níveis de acolhimento e a natureza dos laços
sociais evidenciam três conceitos vizinhos: a inser-
ção, onde prevalece a solidariedade mecânica; a in-
tegração, que prevê a reciprocidade nas interações,
onde prevalece a solidariedade orgânica e a assimi-
lação, que indica a unidade do grupo como espaço
ultimo de referencia.
Os vínculos sociais e simbólicos ligam cada in-
dividuo a sociedade e a seus semelhantes.
O discurso tem poder instituinte da realidade e
desta forma, podemos fazer representações a seu res-
peito sem que elas de fato sejam a realidade. Muitas
praticas de exclusão partem de pressupostos imaginá-
rios de representação, por exemplo da deficiência.
Calcados na concepção de normalidade, cons-
truímos um imaginário acerca dos deficientes e os
colocamos em pólos opostos a normalidade. Deixa-
mos assim de pensar por contradição, ou seja, admi-
tir que os fatos e fenômenos humanos não podem
ser pensados como engessados em uma certeza, pois
sempre variam segundo condições em que se mani-
festam e as expectativas sociais.
A intimidade entre o conceito de deficiência e o
orgânico gerou uma certeza imaginaria sobre a defi-
ciência como sinônimo de doença.
O sujeito deficiente é etiquetado de diversas for-
mas, sempre como um desviante. Se na antiguidade
defendia-se o extermínio dos desviantes, na atuali-
dade estes são considerados como merecedores de
proteção e caridade.
Os processos de inclusão escolar em sua maioria
pretender colocar na escola regular os ditos defici-
entes e interagir com eles através de uma solidarie-
dade mecânica.
Não há respostas que expliquem o fracasso esco-
lar. A autora traz a reflexão de Alicia Fernandez que
pondera sobre o fracasso estar sempre do lado do alu-
no, daquele que não aprende. Desconsidera-se assim
o espaço intersubjetivo da relação professor aluno.
Esta constatação tira alunos e professores do ban-
co das réus.
Ainda trazendo as idéias de Fernandez, a autora
fala sobre a importância de professores e alunos fala-
rem o mesmo idioma. No trabalho com a diversida-
de o professor precisa lançar mão de diversos idio-
mas. O não reconhecimento dos diversos idiomas
do aprendente aprisiona o mesmo e faz do saber algo
monolítico e acabado.
O aprisionamento diante daquilo que convenci-
onou-se como não saber, transforma os alunos em
deficientes.
A escolarização especial deve estar a serviço da-
queles que verdadeiramente precisam dela.
Não é possível negar a deficiência mas é preci-
so implementar ações que removam as barreiras para
quem estes alunos aprendam, mesmo que de forma
singular.
A autora neste ponto do texto apresenta uma de-
fesa frente a uma inclusão responsável e a conside-
ração que alguns alunos se beneficiariam mais de
uma escolarização em escolas ou classes especiais.
Defende as seguintes idéias: universalização da
educação; inclusão em salas regulares quando hou-
ver praticas pedagógicas que garantam as remoção
das barreiras de acesso;constituição de redes de apoio;
formação continuada de professores, ressignificaçao
do papel e das praticas da educação especial.
Critica a inclusão irresponsável; o desmonte pre-
cipitado da educação especial; extinção dos servi-
ços de apoio; a falta de oportunidade de escolha dos
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 29
SINPEEM
deficientes e suas famílias; desconsideração dos ape-
los dos professores.
Fala também da necessidade de transformação do
cotidiano escolar oferecendo educação de qualidade
para todos sem que esta seja idêntica para todos.
Uma escola verdadeiramente democrática pres-
supõe: boas condições de trabalho; maiores investi-
mentos em formação; avaliações sistemáticas do pro-
cesso ensino-aprendizagem; capacitação dos gesto-
res; educação na diversidade; relações dialógicas
entre professores e entre escolas.
5 - Educação inclusiva: alguns aspectos
para a reflexão
A idéia de educação inclusiva remete para a dis-
cussão antiga de escola com qualidade.
Neste ponto do texto a autora fala sobre a dife-
rença entre os aspectos conotativos e denotativos de
uma mensagem.
Como aspectos denotativos considera aquilo que
leva em conta a acepção da palavra. Quanto aos as-
pectos conotativos, considera aquilo que é interpre-
tado com subjetividade, com atribuições de sentido.
O conceito de educação envolve sempre a espé-
cie humana e a integralidade na qual o homem deve
ser mergulhado sempre integrado com a cultura em
que vive. Engloba aspectos físicos, intelectuais, afe-
tivos e político sociais.
O ato de educar em seu sentido etimológico
significa conduzir e fazer explicitar as próprias ex-
periências associadas às novas aprendizagens.
Na LDBEN(1996) a educação especial é concei-
tuada como uma modalidade de educação ofereci-
da preferencialmente na escola regular para alunos
com necessidades educacionais especiais.
Esta definição pode conter uma idéia de bipola-
ridade entre educação especial e educação regular.
Podemos pensar sobre o atendimento educacio-
nal especializado do ponto de vista de quem ofere-
ce, que tem uma formação especializada quanto do
ponto de vista de quem precisa de uma atenção es-
pecializada.
Retoma os conceitos de integração e inclusão,
usando agora os conceitos de conotação e denota-
ção e apresentando a discussão sobre a importância
de desfazer-se o equivoco de que bastaria incluir
qualquer aluno em uma escola regular sem que as
devidas modificações sejam feitas para se falar da
superação dos paradigmas da integração.
Diferencia também igualdade e equidade, dizen-
do que igualdade prevê direitos iguais previstos por
lei e equidade é a garantia do acesso a aprendiza-
gem considerando as diferenças.
Considera que os termos necessidades educa-
cionais especiais e necessidades especiais com
muito genéricos.
Os excluídos são todos aqueles que não ingres-
sam na escola ou que o fazem sem as condições
mínimas de apropriar-se dos conhecimentos.
Dentre os fatores que contribuem para que au-
mentem as estatísticas de fracasso escolar e exclusão
estão listados aqueles oriundos do modelo social e
econômico vigente e a falta de políticas publicas
para remover estas dificuldades.
Os processos que viabilizam os ideais de igual-
dade e equidade dependem da mudança de atitudes
dos sujeitos, autores da historia.
O implemento de políticas publicas precisam
prever a desfragmentação entre e intra-segmentos.
Os textos internacionais já registram a mensagem
da remoção das barreiras para a aprendizagem e
participação. A exclusão não se refere apenas aos
deficientes.
É preciso que aquilo que se encontra na lei possa
fazer parte das ações que promovam um acesso e
apoio para aprender. É preciso facilitar o aprender.
Mesmo as pesquisas acadêmicas muitas vezes não
contemplam a complexidade das questões sociais.
As resistências sejam dos professores sejam dos
familiares destes alunos também precisam ser consi-
deradas neste contexto de dificuldades para remo-
ção de barreiras da educação inclusiva.
É fundamental experimentar um escuta que pos-
sa considerar a queixa de um professor como legiti-
ma diante do enigma de um aluno que não aprende.
6 - Concepções, princípios e diretrizes de
um sistema educacional inclusivo
Na última década, muitas reflexões tem sido fei-
tos a respeito da educação escolar e estas discussões
tem gerado reformas nos sistema educativos da Amé-
rica Latina e Caribe.
O direito universal para a educação consta na
Constituição Brasileira e em documentos internacio-
nais como: a Declaração Universal dos Direitos Hu-
manos; a Declaração Mundial sobre Educação para
Todos e Declaração de Salamanca e Linha de Ação,
elaboradas na Conferência Mundial sobre Necessi-
dades Educacionais Especiais.
Os efeitos da globalização e da imensa veloci-
dade das mudanças ocorridas na atualidade tam-
bém influem as decisões dos dirigentes dos diferen-
tes países que compartilham de interesses comuns
tem em vista a superação do fracasso escolar e a
ampliação dos benefícios de uma proposta educa-
tiva de qualidade.
Perguntam-se sobre como garantir a criação de
escolas inclusivas que respondam às necessidades
individuais de aprendizagem de cada um de seus
aprendizes.
A autora deixa claro que as leis e os textos teóri-
cos asseguram os direitos, mas o que garante a im-
30 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
plementação destas leis e discursos são ações, espe-
cialmente o provimento de recursos.
Mesmo aparentemente paradoxal, as transforma-
ções almejadas não dependem apenas das políticas
educacionais e sim de articulações entre elas e as
outras políticas públicas como saúde, nutrição, bem
estar familiar, trabalho e emprego, ciência e tecnolo-
gia, transportes, desporto e lazer.
É preciso enfrentar também a fragmentação de
planos setoriais para educação infantil, ensino fun-
damental, médio, educação de jovens e adultos, edu-
cação profissionalizante e superior.
Um sistema educacional inclusivo pressupõe o
enfrentamento da fragmentação interna e a busca das
diferentes formas de articulação, envolvendo todos
os setores nacionais e a cooperação internacional.
É preciso que a educação especial deixe de ocu-
par um lugar de sub-sistema de atendimento para
alunos com deficiências. Ela deve ocupar-se de for-
necer um conjunto de serviços e recursos de apoio
para a educação regular.
Os princípios que fundamentam os sistemas edu-
cacionais inclusivos são princípios educacionais.
Devem estabelecer programas, projetos e ativi-
dades que permitam o desenvolvimento pleno dos
indivíduos, fortalecendo o respeito aos direitos hu-
manos e as liberdades fundamentais descritas pela
Declaração Universal dos Direitos Humanos.
No texto do Marco de Ação de Dakar, adotado
no Fórum Mundial sobre Educação (2000), um dos
trechos dizia:
Esses programas devem favorecer o entendimen-
to , a tolerância e a amizade entre todas as nações e
todos os grupos étnicos e religiosos; hão de ser sen-
síveis às identidades culturais e lingüísticas e respei-
tosos à diversidade e, por ultimo, devem reforçar uma
cultura de paz. A educação tem que promover não
só a aquisição de habilidades, como a prevenção, a
solução, pacifica dos conflitos e, também, valores
sociais e éticos.
A educação inclusiva pode ser considerada como
um processo que permite colocar estes valores em
prática, sem que se caracterizem as ações como pie-
guismos, caridade ou filantropia. Esta alicerçada em
valores que defendem a igualdade de todos, sem dis-
tinções.
O ideário dos sistemas educacionais inclusivos
podem ser resumidos a: direito à educação; direito a
igualdade de oportunidades, mesmo que de manei-
ras diferentes; escolas de boa qualidade; direito de
aprendizagem e direito a participação.
Os documentos nacionais e internacionais apre-
sentam diretrizes, orientações para atingirem-se os
objetivos traçados para a educação.
Em Santo Domingo, no Chile, em 2002, foram
traçadas orientações para implementações e implan-
tações de ações inclusivas. Entre elas destacam-se:
estabelecer relações entre os dados estatísticos e as
tomadas de decisões; formular políticas educativas
inclusivas e articulá-las com outras políticas sociais;
incrementar as políticas de recursos; garantir a equi-
dade na distribuição de recursos públicos e priva-
dos; escutar as vozes de diferentes setores; promover
formação continuada aos técnicos que atuam nos
diferentes ministérios e órgãos de planejamento; va-
lorização do magistério através de medidas financei-
ras e melhoria das condições de trabalho; dispor e
fazer cumprir as determinações legais; divulgar in-
formações para diferentes grupos; estimular praticas
dialógicas, combinando centralizações e descentra-
lizações; criar redes de escolas envolvendo famílias
e comunidade; desenvolver avaliações constantes
sobre o impacto das propostas de educação inclusi-
va ; aproveitar mais e melhor os recursos tecnológi-
cos e meios de comunicação; sustentar e ampliar o
acesso à educação básica e identificar grupos ainda
excluídos; continuar os processos de reforma curri-
cular; estimular as ações de educação para o traba-
lho; promover programas de apoio aos estudantes e
famílias mais pobres; promover a educação intercul-
tural e bilíngüe em sociedades multiétnicas, plurilín-
gües e multiculturais.
Os equívocos quanto aos “beneficiários”de uma
educação inclusiva, no caso, os portadores de defi-
ciência tem gerado inúmeras resistências sejam do
encontro com estes alunos nas salas de aulas regula-
res, seja pela desconsideração das importantes con-
tribuições que educação especial pode trazer a edu-
cação inclusiva.
7 - Políticas publicas para a educação inclusiva
O ideal da educação inclusiva, segunda a auto-
ra, é o oferecimento de uma educação de qualidade
para todos, independentes de suas capacidades ou
deficiências.
Retoma a questão referente a ampliação do con-
ceito da educação inclusiva para os alunos com ne-
cessidades educacionais especiais ou não. O Plano
Nacional de Educação prevê isto em seus textos.
Um dos equívocos de muitos educadores é que a
inclusão escolar deve levar em conta somente a
movimentação de alunos da educação especial para
a rede regular.
A proposta inclusiva: vai além da educação es-
pecial; é dirigida para todos os alunos, portadores ou
não de deficiências, condutas típicas ou quadros
psicológicos graves; deve considerar os alunos com
altas habilidades; não precisa exigir diagnóstico cli-
nico para inclusão de deficientes; considera o para-
digma da integração como reciprocidade nas rela-
ções dentro da escola; considera qualquer necessi-
dade como desafio para implementos de ensino-
aprendizagem; não confunde inclusão com inserção;
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 31
SINPEEM
deve considerar a importância fundamental dos as-
pectos cognitivos; ampliar o conceito de inclusão
para fora da sala de aula.
Muitos mecanismos compensatórios têm sido
adotados como salas de aceleração, progressão, pro-
moção automática, dentre outras coisas. Estes meca-
nismos indicam a grande massa de excluídos sejam
portadores de deficiências reais e circunstanciais.
São inúmeras as ultrapassagens requeridas para
vencer as diversas barreiras da inclusão.
Deve-se considerar a proposta de educação in-
clusiva numa perspectiva pluridimensional. Os me-
canismos de exclusão social são também reproduzi-
dos nas escolas.
Muitos professores consideram-se inaptos para
trabalhar com a diversidade, pois foram formados
em uma idéia de classes hegemônicas e com alu-
nos “normais”.
Por esta razão, a formação continuada de profes-
sores é uma das ações que devem ser implementa-
das, com o objetivo de promover o desenvolvimento
pedagógico e organizacional dentro da escola.
Em 1979, no México, os Ministros da Educação
de paises da América Latina e Caribe, identificou-se
a extrema pobreza da população; a baixa escolari-
zação da maioria dos alunos; os altos índices de anal-
fabetismo repetência e evasão além da inadequação
dos currículos escolares. Diante deste quadro, foi
solicitado à UNESCO que elaborasse um Projeto
objetivando superar estes desafios.
A proposta básica foi de cooperação horizontal
dentro de cada pais e entre os paises formando-se
parcerias internacionais e regionais.
Todos os documentos dão prioridade aos grupos
desfavorecidos e vulneráveis através da articulação
de políticas publicas.
Equidade, redução de desigualdades e amplia-
ção dos acessos a serviços beneficiando a qualidade
de vida devem ser consideradas fundamentais na
saúde e na educação.
A ampliação das ofertas de educação para o tra-
balho tornou-se uma questão inadiável.
A Lei Orgânica da Assistência Social preconiza a
universalização das políticas publicas na área além
da organização de ações sociais com sistemas parti-
cipativos e descentralizados.
Todos os programas neste sentido têm alto im-
pacto social.
Para atender à crescente demanda de implemen-
tações de ações que visem a concretização dos ob-
jetivos da inclusão social e escolar, foi criado o FUN-
DEF (1998) para distribuir recursos destinados ao
Ensino Fundamental. A maior inovação foi a mudan-
ça da estrutura de financiamento do Ensino Funda-
mental no país. O FUNDEF tem financiado a univer-
salização da educação e não sua qualidade.
Muitos avanços devem ser considerados, entre
os quais a fixação de parâmetros curriculares nacio-
nais para a educação fundamental, infantil e indíge-
na; o programa de livros didáticos, a criação de um
canal de TV exclusivo para a capacitação de profes-
sores; a municipalização da merenda escolar; a re-
forma do ensino médio e técnico; os novos currícu-
los para os cursos superiores e a ampliação do siste-
ma de informação e avaliação educacionais.
8 - Planejamento e administração escolar para
a educação inclusiva
Em 2000, em Dakar, foi reconhecido que todas
as crianças, jovens e adultos tem direito de benefici-
ar-se de uma educação que possa satisfazer suas ne-
cessidades básicas de aprendizagem, aprendendo e
assimilando conhecimentos, aprendendo a fazer, ser
e conviver. Assim estes sujeitos serão capazes de
melhorar sua vida e transformar a sociedade.
Estes são os princípios da educação inclusiva.
O Estado deve assumir a responsabilidade e con-
cretizar ações para a educação inclusiva contando
sempre com a parceria da sociedade no planejamento
e na administração de sua implantação.
Os planejamentos devem ser realizados em ní-
veis macro e micro políticos (ministérios e dirigentes
de escolas).
Para que os gestores educacionais se apropriem
dos ideais da educação inclusiva precisam adotar
metodologias de trabalho compartilhado.
O estreitamento entre as previsões tecnocratas
e as ações devem considerar as questões políticas
removendo as barreiras para a aprendizagem de
todos.
Os administradores precisam dotar-se de autori-
dade profissional e conhecimento na área para a qual
estão planejando. É preciso vontade política para fa-
zer que as coisas aconteçam.
Deve-se considerar a interlocução com alunos e
professores, além de outros gestores. Os professores
são os grandes executores do planejamento.
Outra consideração diz respeito às orientações
das Secretarias de Educação, mesmo considerando
a autonomia das escolas.
Na reunião de Dakar em 2000 concluiu-se que
apesar dos avanços das discussões sobre a educação
para todos, ainda existem mais de 113 milhões de
crianças sem acesso à educação primária e 800 mi-
lhões de adultos analfabetos.
Em decorrência destes dados foram firmados seis
compromissos dentre os quais a autora destaca três:
extensão e melhoria da proteção e a educação in-
tegral desde a primeira infância especialmente às
crianças mais vulneráveis; cuidar para que antes de
2015 todos os alunos e alunas tenham acesso a um
ensino primário gratuito, obrigatório de boa qualida-
de; melhorar os aspectos qualitativos da educação
32 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
especialmente em leitura, escrita, aritmética e com-
petências práticas essenciais.
A Declaração de Cochabamba, 2001, aproxi-
ma-se das traçadas em Dakar e traçam algumas di-
retrizes para políticas publicas: eixos prioritários
para a aprendizagem de qualidade e atenção à di-
versidade; fortalecimento do papel do docente;
colocar os processos de gestão a serviço das apren-
dizagens e da participação da comunidade educa-
tiva; financiamentos que garantam uma oferta edu-
cacional universal.
Todas as recomendações servem como diretrizes
para o estabelecimento de objetivos que orientam o
processo decisório. A própria LDB 9394/96 determi-
na que todas as escolas elaborem sua proposta pe-
dagógica. Os documentos devem contemplar tam-
bém as questões filosóficas e pedagógicas escritas
sob a ótica da educação inclusiva.
Para que o projeto político-pedagógico exprima
a escola que queremos é preciso que a gestão seja
democrática. Assim também esperamos dos proces-
sos de descentralização político-administrativo das
ações do estado.
O processo de construção desta proposta deve
ser contínuo e conhecido por todos os funcionários
da escola.
Este planejamento pressupõe que a equipe co-
nheça os documentos nacionais e internacionais que
a amparam teoricamente e estejam atualizadas quan-
to ao campo do desenvolvimento humano e das teo-
rias da aprendizagem.
O projeto político-pedagógico da escola é como
sua “carteira de identidade” e deve considerar as
dimensões da cultura, da política administrativa e a
pratica pedagógica geral e particular considerando a
sala de aula. É preciso construir indicadores que fa-
cilitem a coleta de dados a serem organizados de
forma qualitativa e quantitativa.
As diretrizes traçadas permitem nortear a pratica
pedagógica de classes comuns e o trabalho com a
diversidade. Planejamento e organização da escola
estarão a serviço da aprendizagem na diversidade.
O direito a uma escola voltada ao acolhimento
de alunos com necessidades educacionais especiais
deixa assim de ser algo da ordem da caridade ou
filantropia e mesmo como cumprimento a ordens
superiores e passa a ser a introjetado por todos.
Toda tarefa pedagógica é também um ato políti-
co e o maior e mais importante recurso para o pro-
fessor é o próprio aprendiz.
As práticas tradicionais são em geral voltadas para
um aluno “normal” e preocupam-se com o rendi-
mento escolar e com o aproveitamento. Desta for-
ma, distanciam-se daqueles que não correspondem
às suas expectativas, pois são diferentes e generica-
mente, “não aprendem”. Ocupam um lugar em nú-
cleos de reclusão.
É preciso ressignificar a prática pedagógica nas
classes comuns fazendo uma revisão metodológi-
ca e didática, considerando práticas cooperativas,
uso de recursos tecnológicos e práticas de adapta-
ções curriculares.
9 - A função da escola na perspectiva da
educação inclusiva
A autora busca a conceituação dicionarizada do
vocábulo escola para pensar nas funções esperadas
dela segundo a proposta da educação inclusiva.
Encontra treze significações de escola e esco-
lhe aquela que a conceitua como um estabeleci-
mento público ou privado onde se ministra um
ensino coletivo.
Toma também o termo inclusão e encontra: “ato
pelo qual um conjunto contém, inclui outro”; “inse-
rir, introduzir, fazer parte, fazer constar, figurar”.
Usando também os conceitos de conotação e
denotação, diz que a função da escola inclusiva se-
ria introduzir alunos que estavam excluídos de seu
interior.
Estas crianças seriam aquelas que historicamen-
te estavam excluídas, escolarizadas em ambientes
segregados e vistas conotativamente como sujeitos
incapazes de aprender, resultantes daquilo que lhes
falta em relação aos outros ditos normais.
Nestes espaços segregados não ficam garanti-
das as aprendizagens de habilidades e competên-
cias requeridas para o exercício da cidadania ple-
na, ficando limitados à socialização e ao desen-
volvimento psicomotor, especialmente no caso de
deficiência mental.
Também não defende que estes alunos sejam in-
seridos no sistema regular como “figurantes” pois a
inclusão tem objetivos muito mais amplos que a sim-
ples presença física.
O equivoco está em tomar a escola como um lu-
gar onde o professor é um transmissor de um ensino
e os alunos de inclusão apenas devem ser inseridos
sem uma proposta especificamente cunhada para eles
em suas singularidades. Uma escola implica valo-
res, princípios e todas as relações que se estabele-
cem dentro dela e assim forma-se uma comunidade
de aprendizagem.
A autora pontua que a inserção de alunos com
deficiência nas escolas do ensino regular tem sido
uma providência mais freqüente, porém pouco te-
mos avançado com relação aos alunos com dificul-
dades de aprendizagem.
A autora pretende alertar que a inclusão para to-
dos deve preocupar-se com a remoção de barreiras
para a aprendizagem e para a participação de toso
os alunos.
Tomando dados estatísticos de uma publicação a
autora constata que 2/3 dos alunos não logram pros-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 33
SINPEEM
seguir nos estudos de Ensino Médio e estes não são
alunos com deficiências.
Não atribui esta responsabilidade toda à escola,
considerando-a como reflexo de uma sociedade, sem
desconsiderar, porém, os aspectos psicopedagógicos
e as necessidades especificas dos alunos, como te-
mas pertinentes ao escolar propriamente dito.
Muitos temas estão orbitando esta questão como
o despreparo do professor para lidar com as diferen-
ças, os baixos salários, o excesso de jornadas de tra-
balho, a qualidade das praticas pedagógicas, as la-
cunas na formação...
É preciso considerar sempre, o processo de apren-
dizagem como algo dinâmico e dialético entre o
ensinar e o aprender entendendo o não aprender
como um aprender diferente.
As funções das escolas inclusivas são: desenvol-
ver culturas, políticas e práticas inclusivas capazes
de acolher e responder as demandas de aprendiza-
gem dos alunos; promover condições para respon-
der as necessidades educacionais especiais; criar es-
paços dialógicos entre os professores; criar víncu-
los mais estreitos com as famílias; estabelecer par-
ceria com a comunidade; acolher todos os alunos;
operacionalizar o aprender a aprender,aprender a
fazer, aprender a conviver e a ser; respeitar as dife-
renças individuais; valorizar o trabalho educacio-
nal escolar na diversidade; buscar todos os recur-
sos humanos, materiais e financeiros possíveis e
desenvolver estudos e pesquisas que permitam a
ressignificação da prática.
10 - Removendo barreiras para a aprendizagem
e para a participação na educação inclusiva
Pensar sobre a educação inclusiva é refletir so-
bre a remoção de barreiras para a aprendizagem e
para a participação de todos em uma escola de
qualidade.
Nas Diretrizes Nacionais para a Educação Es-
pecial na Educação Básica, decorrente do Parecer
CNE/CEB no. 17 de 2001 e que inspirou a Resolu-
ção no. 2, de 11 de setembro de 2001, conside-
ram-se educandos com necessidades educacionais
especiais aqueles que apresentarem durante o pro-
cesso educacional:
I – dificuldades acentuadas de aprendizagem ou
limitações no processo de desenvolvimento que difi-
cultem o acompanhamento das atividades curricula-
res, compreendidas em dois grupos:
a) aquelas não vinculadas a uma causa orgânica
especifica;
b) aquelas relacionadas a condições, disfunções,
limitações ou deficiências;
II – dificuldades de comunicação e sinalização
diferenciadas dos demais alunos, demandando a uti-
lização de linguagem e códigos aplicáveis;
III – altas/habilidades/superdotação, grande faci-
lidade de aprendizagem que os leve a dominar rapi-
damente conceitos, procedimentos e atitudes.
O texto procura descaracterizar o acento nos pro-
blemas de aprendizagem dos alunos, sejam eles sur-
dos, cegos ou com paralisia cerebral. A dificuldade
encontra-se na remoção de barreiras para a aprendi-
zagem, que estão fora destes alunos.
Também fica clara a distinção dos alunos que
possuem ou não causas orgânicas limitantes da
aprendizagem. Segundo a autora, o texto procura
dar destaque, na alínea “a” que alguns fatores como
os econômicos e sociais podem ser geradores de
dificuldades.
Algumas dificuldades podem ser transitórias e sem
causas orgânicas. Caso não seja tomada uma deci-
são para remover as barreiras que dificultam o aces-
so destes alunos ao conhecimento, estas podem tor-
nar-se permanentes. Muitos acabam abandonando a
escola e tornando-se até mesmo agressivos quando
expurgados dos processos de ensino-aprendizagem
por portarem dificuldades e estarem em situações de
desvantagem de conhecimentos e experiências.
A formação de professores é apontada pela au-
tora como um dos pontos principais da proposta
de remoção de barreiras para a aprendizagem des-
tes alunos.
A alínea “b”refere-se às dificuldades acentua-
das de aprendizagem cuja conceituação e classifi-
cação é bastante complexa como: quadros especí-
ficos de leitura e escrita(dislexias) e à área da mate-
mática; lesões cerebrais; problemas de natureza
psíquicas, neurológicas ou psicológicas além das
condutas típicas.
O destaque importante fica por conta da cons-
tatação que nos casos de dificuldades de leitura e
escrita, tão freqüentes entre os alunos, não se pode
caracterizá-los como deficientes mentais e encami-
nhá-los automaticamente para classes ou escolas es-
peciais.
Fica evidente a importância de entender as bar-
reiras intrínsecas para a aprendizagem de alguns alu-
nos pra então promover ações no sentido de remo-
vê-las.
A autora levanta alguns dados através de pes-
quisas que fez ao longo de seus encontros com os
professores.
Os professores mostram-se muitas vezes reticen-
tes quanto a suas condições de trabalho diante des-
tes quadros, mas, poucos questionam as práticas pe-
dagógicas tradicionais que ainda vigoram promo-
vendo o fracasso também de outros alunos, os ditos
normais.
Poucos professores consideram como barreiras
suas próprias posturas diante do ensino-aprendiza-
gem, tomando as dificuldades particulares dos alu-
34 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
nos ou suas famílias como responsáveis pelo fracas-
so. Muitos apontam o despreparo para enfrentar a
diversidade.
As atitudes imediatas seriam as mudanças das
ações pedagógicas, um repensar do trabalho desen-
volvido.
É indispensável que as barreiras conceituais, ati-
tudinais e pedagógicas sejam removidas.
É necessário também que sejam removidas as
barreiras da produção do fracasso escolar. No ima-
ginário coletivo dos educadores o fracasso é produ-
zido sempre do lado dos alunos, sejam por conta de
sua pouca inteligência ou comportamentos inopor-
tunos, famílias muito pobres ou desajustadas.
A remoção desta barreira encontra-se no deslo-
camento do foco atual para um reposicionamento
tendo em vista reconhecimento de variáveis extrín-
secas aos alunos.
A responsabilidade na remoção destas barreiras
cabe tanto ao professor quanto ao poder público. É
preciso que sejam consideradas instâncias formati-
vas e informativas para os professores e que estes
possam estabelecer parcerias de trabalho que visem
o aprimoramento da equipe. Além disso, a imple-
mentação de projetos de trabalho é uma proposta
que visa além de outras coisas, facilitar a interven-
ção em classes muito numerosas.
É preciso também estabelecer parcerias coma as
famílias e os outros setores como a saúde e o apoio
das escolas especiais.
Os processos avaliativos costumam levar em con-
ta os diagnósticos do caso e a importância do profes-
sor ter acesso ao laudo. Isto é um equívoco uma vez
que não é a classificação que permite traçar o me-
lhor procedimento para este ou aquele aluno. Isto
poderia acirrar as barreiras uma vez que aprofunda
os estigmas.
As avaliações escolares devem estar a serviço da
transformação e não do rótulo. Não deve ser encara-
da como uma medida do que o aluno aprendeu ou
não. Ela deve estará serviço da identificação das ne-
cessidades dos alunos numa perspectiva de escola
inclusiva.
11 - Experiências de assessoramento a sistemas
educativos governamentais, na transição para
a proposta inclusiva
No Brasil, muitas solicitações de assessoramento
especializadas estão sendo feitas para que sejam de-
senvolvidas práticas inclusivas nas escolas.
Muitas destas demandas apelam por procedimen-
tos de uso imediato em sala de aula, ou sugestões
metodológicas de ensino sem dar atenção às prati-
cas reflexivas sobre o tema.
A autora levantou alguns dados onde ressalta que
as professoras quanto mais jovens, mais receptivas
estão para as mudanças e que nem sempre o nível
de escolaridade está associado às atitudes de acolhi-
mento e mudanças de práticas pedagógicas.
Notou-se durante a pesquisa da autora que os
professores ainda associam a educação inclusiva
como aquela que deva tender alunos com deficiên-
cias que devem ter as mesmas oportunidades em
escolas adaptadas do ponto de vista arquitetôni-
co, da redução de numero de alunos nas salas, su-
pervisão de especialistas e formação continuada
de professores.
Em geral são simpáticos à idéia de inclusão mas
tem uma visão parcial sobre ela, alem de traçarem
algumas condições par que ela aconteça.
Para atingir os objetivos durante os trabalhos
de assessoria, a autora procurou evoluir a matriz
do pensamento substituindo o pensar a contradi-
ção pelo pensar por contradição. Saia assim das
alternativas exclusivas, concentradas nas certezas
e passava ao paradigma da incerteza, do sim e do
não, negando o absoluto.
Considerou também que palestras não são sufi-
cientes para mudar as atitudes frente a diferença.
Deve-se partir do pressuposto que o professor é
um profissional da aprendizagem e tem enorme res-
ponsabilidade social e política.
A autora acentua a necessidade de uma revisão
conceitual para o implemento de uma nova postura
diante da educação inclusiva.
Fala do imaginário coletivo sempre muito impreg-
nado do imaginário individual.
A própria palavra deficiência é cercada de uma
pluralidade de sentidos que acentuam a diferença e
o estigma. A trajetória histórica dessas pessoas está
marcada por práticas segregatórias e excludentes. A
luta empreendida pelas famílias e educadores espe-
cializados agora está defendida por elas próprias e
por uma disseminação do conceito de universaliza-
ção da educação.
É preciso desfazer os núcleos de representação
que segregam e ampliam as propostas de funciona-
mento nas quais as diferenças individuais são vistas
apenas como diferenças e não mais como represen-
tações de incompetências.
É preciso deslocar o eixo da análise para o im-
plemento de respostas educativas diante das dife-
renças.
Devem ser consideradas as necessidades básicas
de aprendizagem (leitura, escrita e cálculo), e as ne-
cessidades básicas para a aprendizagem (que levam
em conta as relações entre os alunos, seus professo-
res, as aprendizagens e as relações interpessoais).
É preciso também expandir os debates sobre a
educação inclusiva levando em consideração con-
textos teóricos mais amplos.
A setorização dos sistemas educacionais ainda
geram uma fragmentação nos processos decisórios
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 35
SINPEEM
sendo então uma das barreiras para as práticas de
uma educação inclusiva e de qualidade.
Um dos componentes que contribuem para a
desigualdade é a falta de conscientização diante do
significado da diversidade, uma vez que engessam
os processos e não apostam em novas práticas que
consideram as necessidades, interesses e motivações
de cada um.
As escolas especiais precisam redimensionar seu
papel.
As universidades precisam universalizar seus pro-
jetos visando uma formação de professores mais
ampla e qualificada, assim como de outros profissio-
nais responsáveis pelo desenho universal que garan-
ta o acesso a todos com conforto e segurança.
O aprimoramento dos projetos políticos pedagó-
gicos das escolas e avanço nas discussões de um
currículo comum que envolva o respeito às diferen-
ças através das adaptações curriculares.
A revisão salarial dos profissionais de educa-
ção e a expansão das ofertas na rede pública pre-
cisam ser de fato colocadas como pautas prioritá-
rias do governo.
As redes de apoio, já descritas nas Diretrizes
Nacionais precisam de fato fazer parte das parce-
rias indispensáveis para a construção de uma es-
cola para todos.
12 - Os pingos nos “is” da proposta de
educação inclusiva
Os movimentos internacionais de Jomtien (1990)
e Salamanca (1994) geraram algumas incompreen-
sões quanto ao alunado aos quais se referem. Muitos
educadores consideram que o documento de 1990
dirigiu-se às necessidades de aprendizagem dos alu-
nos ditos normais e os deficientes e os que apresen-
tam distúrbios de aprendizagem (com exceção dos
deficientes mentais, sensoriais ou com condutas típi-
cas) como os sujeitos de Salamanca.
O processo educacional escolar apresenta-se nos
dois documentos com as mesmas finalidades: formar
cidadãos plenos, contributivos à sua coletividade e
que sejam felizes.
A autora ressalta que os “is” da inclusão escolar
exigem uma reflexão no que dizem respeito a: consi-
deração da individualidade; ao reconhecimento da
identidade e suas características distintas, não negan-
do nem mascarando as deficiências; aos ideais de-
mocráticos, buscando a equidade e equiparação de
oportunidades; a remoção de barreiras pra a apren-
dizagem e para a participação de todos.
Destaca também neste capítulo final o uso da ter-
minologia necessidades educacionais especiais e seu
uso inadvertido adquirindo um sinônimo de mani-
festações de deficiência. Para a autora o termo é
amplo e impreciso. As necessidades educacionais não
se referem apenas aos alunos, mas também às esco-
las que precisa prover-se de recursos para atender à
diversidade.
Volta a considerar o projeto político-pedagógico
da escola como uma identidade institucional e como
tal deve respeitar o principio democrático do respei-
to aos interesses e necessidades de cada um. Este
projeto deve se discutido por toda a comunidade
escolar e estar sempre em processo de aprimoramento
levando em consideração a dimensão cultural, polí-
tica e prática das propostas.
A inclusão envolve a reestruturação das culturas,
políticas e práticas de nossas escolas. Para incluir um
aluno com singularidades em uma sala regular é pre-
ciso criar mecanismos que permitam que ele se inte-
gre, com sucesso, nos processos educacionais, soci-
ais e emocionais envolvidos nas relações com seus
pares, os professores e os conteúdos.
A formação continuada é uma das estratégias que
permitem renovar e elaborar novas construções so-
bre o ensinar e o aprender. O fazer pedagógico tam-
bém deve ter como premissa a troca e o envolvimen-
to de todos os educadores.
É preciso valorizar o desejo e a escuta nos pro-
cessos de aprendizagem.
Considerar as flexibilidades e adaptações curri-
culares como adequações da prática pedagógica é
certamente uma das formas de eliminação de barrei-
ras para uma educação para todos.
Os diagnósticos servem à escola como subsídios
para a análise das práticas educativas e políticas ado-
tadas junto aos alunos. Não podem estar a serviço
de estigmatizar os alunos ou considerar que a ques-
tão que envolve uma especificidade para aprender
esteja só do lado deles.
A autora acentua a necessidade de registros da
prática baseados em elementos teóricos e metodoló-
gicos que embasem as propostas que efetivamente
dão resultado.
Na escola inclusiva acredita-se numa proposta
de aprendizagem onde o mundo e as experiências
de alunos e professores possam fazer parte do cotidi-
ano escolar contribuindo para a construção de co-
nhecimentos de forma coletiva e agradável.
A solidariedade e a cooperação são elementos
essenciais na educação inclusiva.
Resumido por Maria Eugenia Capraro de Toledo,
especialista em tratamento e escolarização de crian-
ças com distúrbios globais do desenvolvimento,
Orientadora Educacional e Consultora em Educação
Inclusiva.
36 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
CASTORINA, J.A ET ALI. São Paulo, Ed. Ática, 2001
O objetivo desse livro é discutir as contribuições
de Piaget e Vygotsky à educação, no sentido de com-
preender questões relativas à prática educativa. O
livro é composto por quatro artigos de autores reno-
mados da área: José Antonio Castorina, Emilia Fer-
reiro, Delia Lerner e Marta Kohl de Oliveira.
O debate Piaget-Vygotsky:
a busca de um critério para sua avaliação
José Antonio Castorina
Uma compreensão rasa dos autores em foco im-
pede uma real confrontação entre suas perspectivas
e evita a realização de indagações conjuntas entre
piagetianos e vygotskianos. Nesse sentido, esse arti-
go propõe alguns critérios epistemológicos de com-
paração entre os dois autores.
Alguns traços são comuns às duas teorias: um
estruturalismo fraco (em Vygotsky, um estudo não
reducionista das funções psicológicas, e em Pia-
get, a análise da constituição dos sistemas estrutu-
rais da inteligência); um enfoque genético; a ênfa-
se na atividade do sujeito na aquisição do conhe-
cimento; o caráter qualitativo das mudanças no de-
senvolvimento.
Porém, as diferenças entre os autores são mais
relevantes que suas semelhanças. Em Piaget vemos
uma teoria universalista e individualista do desen-
volvimento, capaz de oferecer um sujeito ativo, po-
rém abstrato (epistêmico), a aprendizagem deriva do
desenvolvimento. Por outro lado, Vygotsky apresen-
ta uma teoria histórico-social do desenvolvimento e
analisa as funções psíquicas superiores como “inter-
nalização” mediada da cultura, o sujeito não é ape-
nas ativo, mas interativo.
Em relação às conseqüências de ambas as posi-
ções para a prática educativa, existe uma forte con-
traposição. Em Vygotsky, há uma importância cru-
cial à transmissão dos conteúdos objetivos por parte
da escola. Ao contrário, em Piaget, embora não se
rejeite a importância da instrução, a escola se limita-
ria à tarefa de facilitar a construção do conhecimen-
to pela criança.
Outra questão que deve ser colocada nesse de-
bate é se Piaget e Vygotsky levantaram os mesmos
problemas com relação ao desenvolvimento cogni-
tivo, ou seja, investigar quais são seus projetos de
pesquisa.
PIAGET-VYGOTSKY -
NOVAS CONTRIBUIÇÕES PARA O DEBATE
O projeto de Vygotsky, orientado por uma con-
cepção marxista, é obter uma explicação sócio-his-
tórica da constituição das funções psíquicas supe-
riores a partir das inferiores. O esforço do pesquisa-
dor foi mostrar o lugar crucial dos sistemas de sig-
nos na constituição da subjetividade humana. Os
sistemas de signos não são meros “facilitadores” da
atividade psicológica, mas seus formadores. Essa
perspectiva investiga como os indivíduos de uma
cultura internalizam e controlam o sistema de sig-
nos correspondente. No marco da atividade institu-
cionalizada, investiga-se como as formas do discur-
so escolar fornecem as condições para as mudan-
ças conceituais nos escolares.
O projeto de Piaget vincula-se a problemática
epistemológica, cuja pergunta central é: como se
passa de um estado de menor conhecimento para
outro de maior conhecimento. Esse enfoque busca
superar o dualismo entre o sujeito e o objeto de co-
nhecimento na interpretação do desenvolvimento dos
conhecimentos. Daí decorre o mecanismo de equili-
bração entre a assimilação e a acomodação que dão
conta de como sujeito e objeto interagem.
Colocadas as diferenças e semelhanças entre os
autores é possível discutir as relações que estes esta-
belecem, por exemplo, entre desenvolvimento e
aprendizagem. Para Vygotsky, esses processos estão
inter-relacionados, produzindo a hipótese da zona
proximal – distância entre o que a criança faz sozi-
nha e o que ela é capaz de fazer com a colaboração
de um adulto. Em Piaget, os estudos sobre a aprendi-
zagem tiveram um recorte epistemológico. Entende-
se que para utilizar os resultados de uma experiên-
cia, é preciso que os mesmos sejam assimilados a
sistemas prévios de conhecimento. Nessa temática
há uma oposição evidente entre os autores: para
Vygotsky, há um processo de internalização da cul-
tura, a aprendizagem produz desenvolvimento, e para
Piaget, uma mecanismo interno para o desenvolvi-
mento e o aprendizado, o desenvolvimento é condi-
ção para a aprendizagem.
Outro debate polêmico sobre os autores refere-
se à formação de conceitos cotidianos e científicos.
Segundo Vygotsky, os conceitos científicos são intro-
duzidos na escola explicitamente pelos professores.
Sua apresentação sistemática exige uma atitude me-
tacognitiva dos alunos e um uso deliberado de suas
operações mentais, o pensamento sobre as idéias
científicas realiza uma “generalização de generali-
zações”. Para Piaget, a gênese dos conceitos de cau-
salidade, das conservações físicas, das noções es-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 37
SINPEEM
paciais permite a busca de mecanismos comuns de
construção. Enquanto Piaget investigou a gênese da
lógica dos conceitos, Vygotsky enfocou-a no contex-
to de sua aquisição escolar. Para o primeiro há uma
continuidade entre os conceitos cotidianos e cientí-
ficos, para o segundo, uma descontinuidade.
Tais diferenças de concepção questionam a rela-
ção de complemento entre as duas teorias. A ques-
tão é outra: articular os níveis de explicação, e não
de completá-los entre si. A comparação entre os au-
tores leva-nos a defender uma relação de compatibi-
lidade, no sentido que nenhuma das teorias em foco
implica a aceitação ou rejeição da outra. A relação
de compatibilidade abre, em princípio, um espaço
de intercâmbio entre as teorias, favorecido pela exis-
tência de um espírito dialético em ambas. De qual-
quer maneira, as pesquisas devem supor uma auto-
nomia, a fim de facilitar o intercâmbio e a revisão
das hipóteses em caso de necessidade.
Pensar a educação: contribuições de Vygotsky
Marta Kohl de Oliveira
O objetivo desse texto é buscar em Vygotsky ele-
mentos que subsidiem a reflexão na área da educa-
ção. Para tanto, duas questões sobre a relação teo-
ria e prática são fundamentais: 1) a relação entre
teoria e prática é complexa e parece inadequado
ao pesquisador buscar extrair da teoria, de forma
imediata, um “como fazer” eficiente; 2) a compre-
ensão de certas peculiaridades da obra de Vygotsky
é importante para o dimensionamento de sua con-
tribuição à educação.
A relação entre desenvolvimento e aprendiza-
gem é tema central da obra de Vygotsky. Sua posi-
ção é essencialmente genética, isto é, procura com-
preender a origem e o desenvolvimento dos pro-
cessos psicológicos. Essa abordagem desdobra-se
em níveis: filogenético (desenvolvimento da espé-
cie humana); sociogenético (história dos grupos so-
ciais); ontogenético (desenvolvimento do indivíduo)
e microgenético (aspectos específicos do desenvol-
vimento do indivíduo).
Ao lado da postura genética, está a dimensão
sócio-histórica do funcionamento psicológico e a
interação social na construção do ser humano, o que
confere à aprendizagem um lugar central na teoria
de Vygotsky. A aprendizagem está relacionada ao
desenvolvimento desde o início da vida humana e é
ela que possibilita o despertar de processos internos
de desenvolvimento. As funções psicológicas supe-
riores dependem dos processos de aprendizagem.
Para Vygotsky, a aprendizagem é um processo que
sempre inclui relações entre os indivíduos, a intera-
ção do sujeito com o mundo se dá pela mediação
feita por outros sujeitos.
Dois aspectos são fundamentais da concepção
de Vygotsky sobre a relação desenvolvimento e apren-
dizagem: 1) a idéia de um processo que envolve
quem ensina e quem aprende não se refere necessa-
riamente a situações em que haja um educador fisi-
camente presente; 2) quando a aprendizagem é o
resultado de um processo deliberado, intencional, a
intervenção pedagógica é um mecanismo privilegia-
do e a escola é o lugar, por excelência, onde ocorre
o processo intencional de ensino-aprendizagem.
A partir dessas concepções decorrem três idéias
básicas de Vygotsky importantes para o ensino esco-
lar: 1) O desenvolvimento psicológico deve ser olha-
do de maneira prospectiva, o que traz a idéia de trans-
formação no processo de desenvolvimento, vincula-
da ao conceito de zona de desenvolvimento proxi-
mal. Sobre a atuação pedagógica, o professor tem o
papel de provocar nos alunos avanços que não ocor-
reriam espontaneamente: o único bom ensino é aque-
le que se adianta ao desenvolvimento; 2) Os proces-
sos de aprendizado movimentam os processos de
desenvolvimento, ou seja, a trajetória do desenvol-
vimento humano se dá “de fora para dentro”, por
meio da internalização de processos interpsicológi-
cos; 3) A atuação dos outros membros do grupo so-
cial na mediação entre a cultura e o indivíduo é fun-
damental na promoção dos processos de internali-
zação. Nesse sentido, a intervenção do professor tem
um papel central na trajetória dos indivíduos que
passam pela escola.
A discussão sobre os processos de aquisição da
linguagem escrita é fundamental na obra de Vygotsky,
que contou com o apoio e continuidade dos estudos
de Luria. Em sua concepção sobre a alfabetização, a
escrita é um artefato que funciona como suporte para
certas ações psicológicas, como uma espécie de fer-
ramenta externa, que estende a potencialidade do
ser humano para fora do seu corpo.
As colocações de Vygotsky e Luria assemelham-
se as proposições de Emilia Ferreiro. Uma das seme-
lhanças refere-se à idéia de que a escrita não é um
código de transcrição da língua oral, é um sistema
de representação da realidade, e a alfabetização é o
domínio progressivo desse sistema, começando muito
antes da criança entrar na escola. Uma diferença entre
a concepção desses autores centra-se no foco de aten-
ção de cada uma das teorias: Ferreiro analisa a natu-
reza interna da escrita como sistema, refere-se ao
processo pelo qual a criança adquire seu domínio;
já Vygotsky e Luria centram-se nas funções do siste-
ma de escrita aos usuários, investigam como a crian-
ça apreende as funções da escrita e a necessidade de
usá-la como instrumento psicológico. Mas, embora,
as perspectivas em foco sejam complementares, não
é possível fazer uma soma das teorias, dado os pon-
tos de partira serem bastante diferentes.
Há alguns pontos polêmicos na teoria vygotskia-
38 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
na que frequentemente emergem no debate educa-
cional contemporâneo: 1) a intervenção do outro
social postulado por Vygotsky não deve ser confun-
dida com controle ou determinismo cultural; 2) o
lugar da maturação biológica em seus postulados:
para Vygotsky o cérebro é a base material do funcio-
namento psicológico e fornece as condições neces-
sárias a esse funcionamento, mas fundamentalmen-
te o desenvolvimento ocorre “de fora para dentro”;
3) a questão da especificidade do conhecimento es-
colar: o autor defende que há uma descontinuidade
entre o conhecimento escolar e pré-escolar, mas sua
abordagem da questão traduz a base marxista de seu
pensamento, ou seja, apresenta uma análise pautada
na ruptura, contradição e síntese dialética; 4) Esse
ponto está diretamente ligado aos demais e refere-se
ao questionamento contemporâneo acerca do papel
da escola como instituição privilegiada na promo-
ção do desenvolvimento psicológico frente a mar-
cante presença dos meios de comunicação de mas-
sa e do desenvolvimento da informática. Entende-se
que esses meios de comunicação são potenciais
mediadores das relações entre o sujeito e o objeto de
conhecimento e um desafio que se impõem é com-
preender os efeitos de novos artefatos simbólicos na
constituição do psiquismo, o que exige constantes
recontextualizações teóricas.
O ensino e o aprendizado escolar:
argumentos contra uma falsa oposição
Delia Lerner
O objetivo desse texto é mostrar que, no plano
didático, é possível ser piagetiano e ao mesmo tem-
po tomar como eixo a comunicação dos saberes cul-
turais, colocar em primeiro plano a construção so-
cial do conhecimento e atribuir um papel funda-
mental à intervenção do professor nessa constru-
ção. Nesse sentido, a pergunta-chave da didática
construtivista é: como fazer com que os alunos pas-
sem de um estado de menor conhecimento a um
estado de maior conhecimento com relação aos
conteúdos ensinados na escola?
Os estudos de Piaget e seus colaboradores dei-
xam claro que não é possível uma aplicação di-
reta do saber da psicologia à pedagogia. Como
exemplo, saber que a cooperação no jogo ou na
vida social provoca efeitos na construção moral
das crianças, não é suficiente para estabelecer que
a cooperação possa ser generalizada como pro-
cedimento educativo.
Um dos riscos da tentativa “aplicacionista” é fo-
car os mecanismos operacionais de aprendizagem
independentemente do conteúdo específico. O me-
nosprezo pelos conteúdos escolares dista muito de
ser compartilhado pelas concepções didáticas vin-
culadas à teoria psicogenética. Por outro lado, a aná-
lise didática não pode se limitar a considerar separa-
damente o aluno, o professor e o saber, devendo
abranger o conjunto das interações entre eles.
Duas categorias de trabalhos devem articular-se
dialeticamente na pesquisa educacional: os que pre-
tendem uma compreensão fundamental da prática
do ensino e dos processos educacionais em seu con-
junto e os que estão pensados em termos de enge-
nharia didática, ou seja, com estudos sobre projetos
de ensino.
Quando se fala da relação entre teoria e prática,
frequentemente se está pensando na “teoria psicoló-
gica” e na “prática didática”. Mas é impossível pas-
sar diretamente de uma para outra, pois a primeira
alimenta a prática e nutre-se dela. E a prática didáti-
ca só pode sustentar-se numa relação dialética com
a teoria, mas os problemas colocados pelo ensino de
cada conteúdo particular só podem ser resolvidos
através de pesquisas didáticas.
Um dos temas debatidos por Piaget é a constru-
ção social do conhecimento. Em sua teoria há um
lugar central à elaboração cooperativa do conheci-
mento, ou seja, a cooperação entre as crianças é
importante para o progresso do conhecimento, as-
sim como a ação dos adultos e as situações de dis-
cussão entre pares. Tais situações são insubstituí-
veis como meio de incentivar a formação do pensa-
mento crítico e de um pensamento objetivo, evitan-
do os “defeitos” da escola tradicional, pois ao se
verem obrigados a levar em consideração pontos
de vista diferentes do seu, as crianças teriam menos
possibilidades de formar hábitos intelectuais rígidos
e estereotipados.
Junto aos fatores biológicos e aos de equilibra-
ção das ações, Piaget enuncia dois tipos de fatores
sociais: os de coordenação interindividual – gerais
para todas as sociedades – e os de transmissão edu-
cativa e cultural, próprios de casa sociedade. A aqui-
sição de saberes específicos está, nesse sentido, liga-
da à influência dos diversos meios sociais. Já a cons-
trução das estruturas intelectuais mais gerais corres-
ponde à coordenação interindividual que caracteri-
za todas as sociedades humanas.
Segundo Piaget, a socialização do pensamento é
progressiva, tornando possível a verdadeira coope-
ração apenas a partir do operatório concreto. No
entanto, a relação entre operação e cooperação não
é unilateral, é uma relação de interdependência. As-
sim, é inegável que Piaget atribuía considerável im-
portância aos fatores sociais no desenvolvimento.
Entretanto, seus estudos centraram-se na equilibra-
ção das estruturas cognoscitivas e a ação dos fatores
sociais começou a ser explorada mais tarde.
Uma das importâncias da interação é que ao par-
tilhar a elaboração com outros sujeitos ocorrem con-
flitos sociocognitivos, que são produtivos para o pro-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 39
SINPEEM
gresso do conhecimento mesmo quando nenhum dos
participantes possua a resposta correta. Em determi-
nados momentos, os esforços para resolver a situa-
ção de conflito e chegar a um acordo leva os partici-
pantes a construírem novas coordenações entre os
diversos posicionamentos em jogo. Dessa forma, são
produzidos avanços cognitivos ao facilitarem a to-
mada de consciência pelos envolvidos sobre respos-
tas diferentes, obrigando-os a descentrar suas respos-
tas iniciais. O conflito pressupõe: desequilíbrio inte-
rindividual e intra-individual.
Por outro lado, existem interações mais produti-
vas que outras. As mais produtivas são as realizadas
entre sujeitos que estão em níveis diferentes, mas
próximos de desenvolvimento. Quando a diferença
é muito grande, o sujeito menos avançado pode ig-
norar o conflito ou não compreendê-lo.
Voltando à aprendizagem escolar, deve-se ressal-
tar que os educadores piagetianos estão autorizados
a elaborar hipóteses didáticas que colocam em pri-
meiro plano não só a interação entre sujeito e obje-
to, mas também a interação entre sujeitos que estão
conhecendo esse objeto.
Algumas indagações fazem-se necessárias: qual
é o lugar do professor em um modelo que concebe o
aluno como produtor do conhecimento? Piaget afir-
ma que uma cooperação autentica somente é possí-
vel porque o poder do adulto é coativo sobre o pen-
samento infantil. Mas, como fazer para que a autori-
dade do professor seja usada não para impor idéias,
mas para propor situações problemáticas que tornem
a elaboração de novos conhecimentos necessária às
crianças? A primeira intervenção imprescindível é
delegar aos alunos parte da responsabilidade, é fa-
zer devolução explícita da situação problema a par-
tir da qual será possível construir o conhecimento.
Isso evidencia o total desacordo da autora com as
posições que condenam o professor a esperar passi-
vamente a construção do conhecimento pela crian-
ça, a “pedagogia da espera”. A intervenção do pro-
fessor é sempre imprescindível. Aceitar que as crian-
ças são intelectualmente ativas não significa supor
que o professor é passivo.
Nessa perspectiva, o ensino construtivista pode
ser enunciado da seguinte maneira: ensinar é colo-
car problemas a partir dos quais seja possível reela-
borar os conteúdos escolares e também fornecer a
informação necessária para as crianças poderem
avançar na reconstrução desses conteúdos. Ensinar
é promover a discussão sobre os problemas coloca-
dos, é oferecer a oportunidade de coordenar dife-
rentes pontos de vista, é orientar para a resolução
cooperativa das situações problemas. É incentivar a
formulação de conceitualizações necessárias para o
progresso no domínio do objeto de conhecimento, é
propiciar redefinições sucessivas até atingir um co-
nhecimento próximo ao saber socialmente estabele-
cido. Finalmente, é fazer com que as crianças colo-
quem novos problemas que não teriam levantado fora
da escola.
Tal concepção de ensino pressupõe uma pro-
funda modificação do paradigma que está há sécu-
los vigorando na escola: “Passo a passo e definiti-
vamente” deve ser substituído por “complexa e pro-
visoriamente”.
Sobre a necessária coordenação entre
semelhanças e diferenças
Emilia Ferreiro
O objetivo desse texto é esclarecer as diferenças
e semelhanças entre a visão do desenvolvimento da
escrita apresentada por Luria e Vygotsky e os traba-
lhos da própria autora.
Analisando os textos de Luria, a partir de nossos
atuais “cânones” de “relatório científico”, aparecem
sinais de “falta de capricho”, pois não aparece como
ele realizou a investigação. O sensacional é o olhar
psicológico de Luria.
A comparação mais óbvia entre os achados de
Luria e os de Emilia Ferreiro consiste na considera-
ção da quantidade de níveis evolutivos distinguidos
e no modo de distingui-los. Para Luria, a escrita é
uma técnica sociocultural muito importante, que afeta
as funções psíquicas superiores. Ele atribui à escrita
duas funções fundamentais: mnemônica e comuni-
cativa. Como a criança pequena não tem acesso à
função comunicativa, cabe estudar a função mne-
mônica. Cabe ressaltar que Luria não busca identifi-
car as funções que a escrita poderia desempenhar
para um sujeito em desenvolvimento. Ao contrário,
trata de observar como a criança assume as funções
da escrita atribuídas pelo adulto.
Ferreiro, por outro lado, não coloca as mes-
mas perguntas, não caracteriza a escrita como
uma técnica, mas sim como um objeto, como um
modo particular de existência no contexto socio-
cultural. Investiga que tipo de objeto é a escrita
para a criança em desenvolvimento e, portanto,
não atribui apressadamente à escrita as funções
que essa cumpre no adulto.
A discrepância mais importante entre os autores
é que Luria está fortemente influenciado pela versão
dominante da sua época sobre a evolução histórica
da escrita. Outro ponto de discordância está em que
para Luria o ingresso da criança na escola cria, por si
só, uma ruptura com seus conhecimentos prévios.
Para Ferreiro, a escola interage com as concepções
prévias das crianças. Mais uma diferença: Luria fala
de suas etapas nas quais existe uma substituição de
uma técnica por outra. Essa idéia contrapõe-se a Fer-
reiro que postula a construção.
Não é possível pressupor ou indicar que a opção
40 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
pedagógica atual sobre a evolução da escrita na
criança corresponda a Luria ou Ferreiro, um excluin-
do o outro. De qualquer maneira, o importante é re-
alizar as experimentações necessárias para atualizar
o debate, completando o que Luria deixou apenas
esboçado.
Interpretação, intérprete e interpretantes: Emi-
lia Ferreiro, num segundo momento do capítulo, dis-
cute o lugar do social da psicogênese da língua es-
crita. Qualquer escrita é um conjunto de marcas in-
tencionais sobre uma superfície, porém são as práti-
cas sociais de interpretação que transformam essas
marcas em objetos lingüísticos. A interpretação é o
ato que transforma essas marcas em objetos lingüísti-
cos. O sujeito que realiza o ato de interpretação é o
intérprete. Quando esse ato é realizado por e para um
“outro”, o intérprete converte-se em interpretante.
O interpretante informa à criança, ao efetuar um
ato de leitura, que essas marcas têm poderes espe-
ciais, basta olhá-las para produzir linguagem. O ato
de leitura é um ato mágico. O fascínio da criança
pela leitura e releitura da mesma história tem a ver
com a descoberta que a escrita fixa a língua, contro-
la-a de tal maneira que as palavras não se dispersam.
Para que esse ato de outro (a leitura) se transfor-
me em conhecimento próprio é necessário haver
uma atividade específica do destinatário. Aqui é
onde os mecanismos de assimilação e acomoda-
ção encontram sua razão de ser. O drama de mui-
tas crianças é que o professor não age nem como
intérprete, nem como interpretante, mas como de-
codificadora, reduzindo o mistério da leitura a so-
letrações e famílias silábicas.
Síntese elaborada por Flávia da Silva Ferreira Asbahr,
Psicóloga e doutoranda em Psicologia pelo IPUSP.
COLL, César. Editora Artmed, 1994
Contexto geral do livro
César Coll Salvador é diretor do Departamento
de Psicologia Evolutiva e professor da Faculdade de
Psicologia da Universidade de Barcelona, Espanha.
Lá foi o coordenador da reforma do ensino de1990,
a Renovação Pedagógica. O modelo desenvolvido
por ele e sua equipe inspirou mudanças na educa-
ção de diversos países, inclusive do Brasil. Como
consultor do Ministério da Educação (MEC) entre
1995 e 1996, colaborou na elaboração dos nossos
Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), publica-
dos em 1997.
O autor se dedica nas suas obras em estabelecer
relação entre Psicologia e a Pedagogia. Apóia-se nas
contribuições de Piaget, Vigotsky , Ausubel, entre
outros. Neste livro faz uma análise de alguns concei-
tos da Psicologia Evolutiva, discutindo as implica-
ções práticas na sala de aula. O livro está organiza-
do em nove capítulos.
Capítulo I – A significação psicopedagógica
das atividades espontâneas de exploração
No capítulo o autor apresenta uma visão peda-
gógica as situações experimentais que muitas vezes
são realizadas com o objetivo de desvendar as leis
físicas que as crianças se apóiam. Defende que essas
APRENDIZAGEM ESCOLAR
E CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO
situações apesar de importantes, não são suficientes,
por desconsiderar vários fatores. Prefere sim, substi-
tuir o termo “condutas experimentais” por “ativida-
des exploratórias espontâneas” no sentido que na
busca de uma resolução de problemas, as crianças
operam com uma série de leis das ciências experi-
mentais. Faz uma análise que apesar dos currículos
escolares incorporarem tal área de estudo, ainda é
de difícil delimitação qual o conteúdo de ensino que
leve em consideração como a criança elabora co-
nhecimento nessa área. Sugere trabalhos que têm sido
desenvolvidos em vários lugares do mundo cuja ên-
fase colocada é numa atitude científica e experimental
, ou seja, situações de investigação e elaboração de
hipóteses explicativas pelos alunos sobre os diferen-
tes fenômenos. Ao longo do capítulo, relata uma si-
tuação de pesquisa com crianças de diferentes ida-
des. Materiais diversos são espalhados e observa a
exploração que fazem. Essa situação se repete du-
rante algumas sessões e os resultados apontam para
algumas implicações pedagógicas. A primeira delas
diz respeito aos materiais que despertam mais inte-
resse das crianças (isso tem relação com as temáti-
cas que podem ser trabalhadas). Em segundo lugar, a
atividade exploratória favorece o desenvolvimento
de um método de trabalho; quanto maior o sujeito,
mais tempo ele se dedica à uma única situação. Res-
salta, finalmente, que os avanços observados não
podem ser condicionados unicamente ao modelo de
estágios cumulativos.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 41
SINPEEM
Capítulo II – Conservação e Resolução de
problemas: o valor instrumental de uma
conduta pré-operatória
No segundo capítulo as investigações vão se cen-
trar na relação entre o desenvolvimento do conheci-
mento e a capacidade de utilizá-lo. O autor se apóia
na descrição dos estágios cognitivos de Piaget e co-
laboradores – que centraram o trabalho nos aspectos
mais gerais: espaço, tempo, casualidade, lógica,lógica
de classes, das relações...e nas provas operatórias
propostas. A pesquisa investiga a idéia de conserva-
ção de peso e como é utilizada para a resolução de
problemas. O trabalho constata que por volta dos 9
anos as crianças são capazes de conservar pesos, mas
essa condição nem sempre é levada em conta na re-
solução dos problemas propostos.
Capítulo III – Natureza e planejamento das
atividades no Jardim da Infância
O autor faz uma discussão sobre a idéia de como
na Educação Infantil a pedagogia da atividade está
presente- dada às características de idade das crian-
ças. Defende muito mais a atividade funcional, que
leva em consideração o interesse do sujeito que a
realiza, diferenciando-a da atividade de efetuação,
ou seja, aquelas em que os alunos simplesmente
realizam sem atribuir significação.Aponta também,
as diferenças entre atividade funcional e atividade
auto-estruturante, onde o aluno desenvolve autono-
mia, pois ela permite organizar e estruturar suas
ações.O capítulo visa pois, investigar quais os tipos
de atividades (efetuação, funcional e auto-estrutu-
rante) que aparecem nas salas de Educação Infantil.
Constata que o tipo de atividade mais observada
são as relacionadas à efetuação. Na análise das ati-
vidades desenvolvidas tem importância considerá-
vel a atividade do professor. O autor denomina esse
aspecto de interatividade – atuação do professor du-
rante a atividade. Apresenta dimensões dessa inte-
ratividade. Uma delas é quanto a existência ou não
de um saber que estrutura a atividade; outra é em
relação à atuação do professor – que vai desde a
ausência total de intervenção até aquelas de con-
trole o tempo todo. No campo da atuação do alu-
no, também faz uma análise dos tipos de atividades
propostas que vão desde aquelas em estão integral-
mente na mão do aluno – que tomas todas as deci-
sões – à aquelas em que as responsabilidades são
compartilhadas.
Capítulo IV – Alguns problemas propostos pela
metodologia observacional: níveis de descrição
e instrumentos de validação
Neste capítulo o autor aborda questões que inte-
ressam diretamente pesquisadores. Após fazer uma
discussão entre as metodologias experenciais e ob-
servacionais no trabalho dos psicopedagogos, se con-
centra na última como objeto de análise, propondo
um modelo investigativo. Aponta dois grandes mo-
mentos. O primeiro é o de descrição, onde o obser-
vadros faz um recorte da realidade, a partir de crité-
rios pré-estabelecidos (o que o autor denomina de
descrição ética. Um segundo momento é o de cons-
trução, ou seja, os dados recolhidos e descritos na
observação devem servir para elaboração (constru-
ção) de um modelo explicativo que deve ser passível
de ser “testado”, ou seja, validado.
Capítulo V – Estruturação grupal, interação
entre alunos e aprendizagem escolar
No capítulo VI o objeto da discussão é o papel
da interação aluno-aluno. Identifica na pesquisa al-
guns níveis de interação: cooperativa, competitiva
e individualista. Na primeira, os objetivos dos par-
ticipantes estão vinculados e a “recompensa”pelo
produto final é diretamente ligada ao grupo como
um todo. Já na interação competitiva a relação
entre os objetivos age de forma excludente e a “re-
compensa” é oferecida à apenas um aluno, e por
fim, na individualista ,não existe qualquer relação
entre os objetivos que os membros do grupo devem
alcançar e os resultados são “recompensados”de
forma individual.
A investigação realizada pelo autor e colabora-
dores avalia o desempenho escolar nas situações
entre os diferentes tipos de interação com uma van-
tagem substancial para as interações cooperativas.
Também se dedica à uma análise as interações e os
processos cognitivos. Um deles que merece desta-
que, é sem dúvida, o conflito sociocognitivo no
sentido de propiciar avanços na construção do co-
nhecimento: quando o aluno entra em contato com
outra forma de representação, há um conflito entre
os esquemas construídos e os apresentado na situa-
ção de interação, o que obriga o aluno à uma revi-
são do seu próprio pensamento.
Capítulo VI – Ação, interação e construção
do conhecimento
Se no capítulo anterior, o foco foi a interação alu-
no-aluno, agora o autor se dedica inicialmente a dis-
cutir a importância da relação aluno-professor. Ela
não pode ser confundida com a ausência total de
intervenção do professor: responsável pela organi-
zação didáticas de situações de ensino. Discutir os
aspectos da aprendizagem, não exclui pensar a in-
tervenção docente como condição importante. Em
alguns momentos, segundo o autor, há uma ambi-
güidade na definição do papel do professor.
42 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
No meio do capítulo, o autor retoma a questão
do desenvolvimento proposto por Vigotsky na teoria
sobre a “zona de desenvolvimento proximal” como
a distância entre a capacidade de resolver um pro-
blema individualmente, fazendo uso de recursos pró-
prios e a resolução com uma parceria (colega ou pro-
fessor). Por fim, faz algumas sugestões ao currículo
escolar. Considera que na elaboração de uma se-
qüência de aprendizagem as organização das situa-
ções de interação é etapa importante.
Capítulo VII – Um marco psicológico para o
currículo escolar
No capítulo, o autor aponta algumas contribui-
ções importantes da psicologia na elaboração dos
currículos (que nortearam a Reforma Curricular da
Espanha). Alguns dos princípios descritos pelo au-
tor são:
- Considerar o nível operatório dos alunos: o que
é possível aprender
- Levar em conta os conhecimentos prévios (ela-
boração que os alunos têm dos conhecimentos)
- Articulação entre o que é possível aprender (es-
tágios de desenvolvimento) e o que já sabe (conhe-
cimentos prévios)
- Levar em conta a diferença entre o que é capaz
de fazer por si só e o que é capaz de fazer em parce-
ria com outro (professor e colegas)
- Aprendizagem significativa (é significativa por-
que os alunos podem atribuir um significado por dis-
por de conhecimentos prévios)
- Os conteúdos selecionados devem ser poten-
cialmente significativos
- Aprender a aprender, ou seja, aprendizagem de
procedimentos e estratégias de aprendizagem.
Capítulo VIII – A construção do conhecimento
no âmbito das relações interpessoais e suas
implicações para o currículo escolar
A questão das relações interativas é retomada
neste capítulo. Logo no início do capitulo, o autor
retoma que numa concepção construtivista de apren-
dizagem espera-se que o aluno: construa, modifique,
diversifique e coordene seus esquemas estabelecen-
do verdadeiras redes de significação.Ressalta a edu-
cação escolar como ação intencional que visa inci-
dir sobre a modificação dos esquemas de conheci-
mento. Nesse sentido defende uma ênfase na inter-
venção pedagógica com um aspecto a ser conside-
rado no currículo. Essa intervenção deve-se se ca-
racterizar por ajudas contingentes no processo de
aprendizagem que necessitam ser planejadas. O au-
tor está defendo a discussão das estratégias didáti-
cas como objeto da discussão curricular: não basta
definir por que ensinar e o que ensinar; o como tam-
bém, deve ser objeto de estudo.
Capítulo IX – Significado e sentido na
aprendizagem escolar: reflexões em torno
do conceito de aprendizagem escolar
Finalmente, neste capítulo o autor retoma a cola-
boração de Ausubel e colaboradores sobre a idéia
de aprendizagem significativa. Faz uma retomada da
idéia de significação ao longo da história da educa-
ção. Em alguns momentos da pedagogia ela foi trata-
da como algo extrínseco (baseada em recursos exter-
nos ao sujeito).
Para Ausubel e colaboradores uma aprendizagem
significativa é aquela em que o aluno pode atribuir o
significado, pois permite estabelecer relação entre
aquilo que sabe e o novo material de aprendiza-
gem. Para a aprendizagem ser significativa, há cer-
tas condições:
- Os conteúdos devem ser potencialmente signi-
ficativo o que significa possuir uma estrutura lógica
interna que possibilite relacioná-lo de forma não ar-
bitrária com o que sabe.
- Além dessa estrutura lógica, a forma de apre-
sentação do conteúdo pode ou não possibilitar essas
relações entre o já sabido e o novo conteúdo de
aprendizagem.
- O aluno deve ter uma atitude favorável ao co-
nhecimento, condição essa construída ao longo da
escolaridade.
Resumo realizado por Suzana Mesquita Moreira,
pedagoga e assistente social. PUC/SP
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 43
SINPEEM
FREIRE, Paulo. Editora Paz e Terra S/A,
18ª edição, 2000, São Paulo
Ao tratar da importância de uma reflexão sobre a
formação docente e a prática educativa, tendo em
vista a autonomia dos educandos, Paulo Freire trata
dos saberes que considera indispensáveis a essa prá-
tica para que ela seja caracterizada como crítica ou
progressista, devendo esses saberes serem conteú-
dos obrigatórios à organização de programas de for-
mação docente.
Discute os saberes, agrupando-os em três gran-
des áreas: a relação intrínseca docência-discência,
ensino como não transferência de conhecimento e
ensino como uma especificidade humana.
Passemos a sintetizar cada agrupamento desses
saberes.
1º – NÃO HÁ DOCÊNCIA SEM DISCÊNCIA
Na relação docente-discente, os sujeitos, apesar
de suas diferenças, não se reduzem à condição de
objeto, um do outro. “Quem ensina aprende ao ensi-
nar e quem aprende ensina ao aprender”(p.25). Foi
no decorrer dos tempos que os homens e mulheres,
socialmente aprendendo, perceberam a possibilida-
de e a necessidade de trabalhar maneiras, métodos
de ensinar. Freire defende o ensino que prima pela
necessária criatividade do educando e do educador.
1 - Ensinar exige rigorosidade metódica
O educador democrático deve reforçar a capaci-
dade crítica do educando, a sua curiosidade, esti-
mulando sua capacidade de arriscar-se, deixando de
ser um professor “bancário” aquele que transfere
conteúdos, conhecimentos.
Ele se esmera em trabalhar com os alunos a rigo-
rosidade metódica com que eles devem se aproxi-
mar dos objetos do conhecimento. Tanto aluno, quan-
to professor vão se tornando sujeitos da construção e
reconstrução do saber ensinado. O professor ensina
os conteúdos e também ensina a pensar certo.
Uma das condições para pensar certo é não es-
tarmos exageradamente certos de nossas certezas; à
medida que vamos intervindo no mundo, mais va-
mos conhecendo esse mundo; o nosso conhecimen-
to é histórico.
O ciclo gnosiológico se caracteriza por dois mo-
mentos: um em que se ensina e se aprende o conhe-
cimento já existente e o outro em que se trabalha a
PEDAGOGIA DA AUTONOMIA: SABERES
NECESSÁRIOS À PRÁTICA EDUCATIVA
produção do conhecimento não existente. A docên-
cia-discência e a pesquisa são práticas indissociá-
veis do ciclo gnosiológico.
2 - Ensinar exige pesquisa
A busca e a pesquisa fazem parte da natureza da
prática docente. O professor pesquisa para conhecer
o que ainda não conhece e comunicar ou anunciar a
novidade. O pensar certo implica por parte do pro-
fessor em respeitar o senso comum, a curiosidade
ingênua, estimulando a capacidade criadora do edu-
cando, para que ele desenvolva a “curiosidade epis-
temológica”, que leva ao conhecimento mais elabo-
rado do mundo.
3 - Ensinar exige respeito aos saberes
dos educandos
É preciso estabelecer relações entre os saberes
curriculares fundamentais e a experiência social
dos alunos.
4 - Ensinar exige criticidade
Uma das tarefas inerentes da prática educativa
progressista é o desenvolvimento da curiosidade crí-
tica, é a superação da ingenuidade para a criticida-
de, com um maior rigor metodológico em relação ao
objeto do conhecimento, a procura de maior exati-
dão. É aí que a curiosidade se torna epistemológica.
5 - Ensinar exige ética e estética
Na prática educativa, a decência e a boniteza
devem estar juntas da necessária promoção da inge-
nuidade à criticidade.
Na condição de seres humanos, somos éticos. O
ensino dos conteúdos não pode acontecer de forma
a ignorar a formação moral dos educandos; por isso
é criticável restringir-se a tarefa educativa em aspec-
tos só ligados a treinamento técnico. A tecnologia só
pode ser pensada a serviço dos seres humanos.
Pensar certo exige que se aprofundem a compre-
ensão e a interpretação dos fatos.
6 - Ensinar exige a corporeificação das
palavras pelo exemplo
Pensar certo é fazer certo. O clima favorável para
se pensar certo se caracteriza pelo uso de uma argu-
44 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
mentação segura por parte daquele que discorda
de quem se opõe às suas idéias; não há necessida-
de de ter raiva do seu oponente, é preciso ter ge-
nerosidade.
7 - Ensinar exige risco, aceitação do novo e
rejeição a qualquer forma de discriminação
Pensar certo implica em disponibilidade para o
risco, em aceitar o novo não só porque é novo, mas
também não recusar o velho só pelo critério crono-
lógico. Implica também em rejeitar qualquer prática
de discriminação, de raça, de classe, de gênero, pois
isso nega radicalmente a democracia.
8 - Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática
Na formação permanente do professor é funda-
mental a reflexão crítica sobre a prática. É preciso
fazer uma operação de distanciamento da prática para
melhor analisá-la, percebê-la como é e quais são suas
razões de ser. Isso é que vai permitindo com que se
supere a curiosidade ingênua pela curiosidade epis-
temológica.
9 - Ensinar exige o reconhecimento e a assunção
da identidade cultural
Fazem parte da questão da identidade cultural,
as dimensões individuais e de classe dos educandos,
que necessariamente devem ser valorizadas na prá-
tica educativa progressista.
Pensando-se na formação do professor, não po-
demos esquecer da assunção do sujeito: assunção
de nós por nós mesmos, da solidariedade social e
política que precisamos para construir uma socieda-
de democrática. Para isso, temos que rechaçar o trei-
namento pragmático, o elitismo autoritário de edu-
cadores que se pensam donos da verdade e do saber
pronto e acabado.
Nesse sentido, é muito importante refletirmos
sobre o caráter socializante da escola, com todas as
experiências informais que nela ocorrem, no seu es-
paço e tempo. Experiências essas ricas de significa-
dos, emoções, afetividades, cuja abordagem podem
enriquecer muito o entendimento sobre o ensino e a
aprendizagem.
2º - ENSINAR NÃO É TRANSFERIR
CONHECIMENTO
Ensinar é criar as possibilidades para a própria
construção do conhecimento.
Ao saber que ensinar não é transferir conheci-
mento, estou pensando certo, processo esse difícil,
porque envolve cuidado constante para eu não res-
valar para análises simplistas, considerações grossei-
ras, preciso ter humildade ao perseguir a rigorosida-
de metódica.
1 - Ensinar exige consciência do inacabamento
A inconclusão do ser é própria da experiência
de vida humana e é consciente, o que diferencia os
seres humanos dos outros animais. Estes estão no
suporte, que é o espaço necessário para o seu cresci-
mento, não havendo entre eles a linguagem concei-
tual que é própria do ser humano. O ser humano
tem a liberdade de opção, que falta aos animais.
Somos seres éticos, capazes de intervir no mun-
do, comparar, decidir, romper, escolher, julgar, lutar,
fazer política.
A nossa passagem pelo mundo não é pré deter-
minada, vivemos num mundo histórico, de possibili-
dades e não de determinismo. Isso repercute na prá-
tica educativa e formadora, que lida com a proble-
matização do futuro.
2 - Ensinar exige o reconhecimento de ser
condicionado
A construção da presença do ser humano no
mundo se faz nas relações sociais; ela compreende
a tensão entre o que é herdado geneticamente e o
que é herdado social, cultural e historicamente.
“...minha presença no mundo não é a de quem
se adapta mas a de quem nele se insere. É a posição
de quem luta para não ser apenas objeto, mas sujei-
to também da história”(p. 60).
Nós, como seres inacabados e conscientes de
nosso inacabamento, nos inserimos num permanen-
te movimento de busca, com o mundo e com os
outros. Nessa inconclusão é que se insere a educa-
ção como processo permanente, em que nossa ca-
pacidade de ensinar e aprender se faz presente. Daí
se pensar no educador que não tolha a liberdade
do educando e sua curiosidade, em nome da eficá-
cia de uma memorização mecânica do ensino dos
conteúdos.
3 - Ensinar exige respeito à autonomia do ser
do educando
O respeito à autonomia e à dignidade de cada
um é um imperativo ético. Quem desviar do padrão
ético, está transgredindo a natureza humana, está
rompendo com a decência. Por exemplo, o profes-
sor que faz algum tipo de discriminação, que desres-
peita a curiosidade do educando, seu gosto estético,
sua linguagem, que o trata com ironia ou aquele pro-
fessor que se omite do dever de propor limites à li-
berdade do aluno, fugindo ao seu dever de ensinar.
Ambos estão transgredindo a ética.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 45
SINPEEM
4 - Ensinar exige bom senso
Só é possível respeitar os educandos, sua digni-
dade, sua identidade se forem consideradas as con-
dições em que eles existem, suas experiências vivi-
das e os conhecimentos com que chegam à escola.
Quanto mais rigorosa, mais crítica é a minha prá-
tica de conhecer, mais respeito devo ter pelo saber
ingênuo a ser superado pelo saber produzido por
meio do exercício da curiosidade epistemológica. Isso
envolve uma constante reflexão crítica sobre a mi-
nha prática, sobre o meu fazer com os meus alunos,
avalio-a constantemente.
O bom senso implica em coerência entre o dis-
curso e a prática do nosso trabalho educativo, que é
profundamente formador, ético; daí exigir que tenha-
mos seriedade e retidão.
5 - Ensinar exige humildade, tolerância e luta
em defesa dos direitos dos educadores
A prática docente, enquanto prática ética, apre-
senta em sua constituição a luta pela defesa de direi-
tos e da dignidade dos professores.
Só posso respeitar a curiosidade do educando se
apresento humildade e compreensão quanto ao pa-
pel da ignorância na busca do saber, se percebo que
não sei sobre tudo. Preciso aprender a conviver com
os diferentes, a desenvolver a amorosidade aos edu-
candos e ao meu trabalho.
6 - Ensinar exige apreensão da realidade
O professor precisa conhecer as diferentes dimen-
sões da prática educativa, investindo-se na capaci-
dade de aprender, intervindo, recriando a realidade.
Essa capacidade implica na habilidade de apreender
a substantividade do objeto aprendido, estabelecen-
do relações, constatando, comparando, construindo,
reconstruindo, sujeitando-se aos riscos do novo.
Por ser especificamente humana, a educação é
diretiva, política, artística e moral, usa meios, técni-
cas, envolve as diferentes emoções. Exige do profes-
sor um competência geral e domínio de saberes es-
peciais, ligados à sua atividade docente.
7 - Ensinar exige alegria e esperança
Existe uma relação entre a alegria necessária à
atividade educativa e a esperança. Pelo fato do ser
humano ser inacabado e consciente da sua incon-
clusão, ele participa de um movimento constante de
busca com esperança . A esperança faz parte da
natureza humana, é uma forma de ímpeto natural
possível e necessário. Ela é indispensável à experi-
ência histórica, senão cairíamos num fatalismo imo-
bilizante, sem problematizar o futuro.
Sem alegria e esperança no ensinar, o educa-
dor cairia na negação do sonho de lutar por um
mundo justo.
8 - Ensinar exige a convicção de que a
mudança é possível
Temos que considerar a História como possibili-
dade e não como determinação. “O mundo não é. O
mundo está sendo” (p. 85). Na relação dialética en-
tre o ser humano e o mundo, aquele intervém como
sujeito das ações, decidindo, escolhendo, intervin-
do na realidade, assumindo a sua não neutralidade.
No processo radical de transformação do mun-
do, a rebeldia enquanto denúncia precisa tornar-se
mais crítica, revolucionária, anunciadora. É preciso
considerar que mudar é difícil, mas é possível. É
preciso programar a ação político-pedagógica para
que os educadores auxiliem os grupos populares a
perceber as injustiças a que são submetidos no seu
cotidiano e não se tornem passivos, acreditando que
nada muda.
O educador, além do domínio específico de sua
tarefa educativa, precisa aprimorar sua leitura do
mundo para que nas suas relações político-pedagó-
gicas com os grupos populares, os saberes desses
sejam sempre considerados e respeitados. O empre-
go do diálogo é fundamental; é importante que o gru-
po vá sentindo a necessidade de superar os saberes
que não conseguem explicar os fatos, na direção de
ampliar sua compreensão do contexto e generalizar
o seu conhecimento.
9 - Ensinar exige curiosidade
Pode ser dada como exemplo de prática educati-
va que nega o seu aspecto formador aquela que ini-
be ou dificulta a curiosidade do educando e, em con-
seqüência, do educador. “A curiosidade que silencia
a outra se nega a si mesma também” (p. 95).
Na existência de um bom clima pedagógico-de-
mocrático, o aluno vai aprendendo pela sua prática
que a sua curiosidade e a sua liberdade possuem li-
mites, embora estejam em contínuo exercício.
O exercício da curiosidade implica na capacida-
de crítica do sujeito distanciar-se do objeto, obser-
vando-o, delimitando-o, aproximando-se metodica-
mente dele, comparando, perguntando.
Tanto professor quanto o aluno devem ter uma
postura dialógica, aberta, curiosa, indagadora, mes-
mo em momentos em que o professor expõe sobre o
objeto; o importante é não ter uma postura passiva
frente ao conhecimento. Quanto mais a curiosidade
espontânea se exercita, se intensifica, mais ela vai se
tornando metódica, epistemológica, isto é, “mais me
aproximo da maior exatidão dos achados de minha
curiosidade” (p.98).
46 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
Na prática educativa, a ruptura entre o tenso equi-
líbrio da autoridade e liberdade gera o autoritarismo
e a licenciosidade, nomeados por Paulo Freire como
formas indisciplinadas de comportamento que ne-
gam uma educação libertadora que considera edu-
cador e educando como sujeitos da ação formadora.
3º - ENSINAR É UMA ESPECIFICIDADE
HUMANA
O professor, numa prática educativa que se con-
sidere progressista, ao lidar com as liberdades dos
seus alunos, deve expressar segurança através da fir-
meza de suas ações, do respeito a eles, da forma com
que discute as próprias posições, aceitando rever-se.
1 - Ensinar exige segurança, competência
profissional e generosidade
A autoridade do professor se assenta na sua com-
petência profissional: ele tem que estudar, levar a sério
sua formação profissional.
A generosidade é outra qualidade necessária à
ação formadora, que possibilita que se instale um
clima saudável e respeitoso nas relações de ensinar
e aprender, gerando uma disciplina que não minimi-
za a liberdade, pelo contrário, desafia-a sempre, ins-
tigando a dúvida, despertando a esperança.
A autoridade do professor não pode resvalar para
a rigidez, para o “mandonismo”, nem para a omis-
são. Há um esforço para a construção da autonomia
do aluno, que vai assumindo gradativamente a res-
ponsabilidade dos seus próprios atos.
É impossível separar o ensino dos conteúdos da
formação ética dos alunos, assim como é impossível
separar a teoria da prática, a autoridade da liberda-
de, a ignorância do saber, o respeito ao professor do
respeito aos alunos, o ensinar do aprender.
2 - Ensinar exige comprometimento
A presença do professor na escola é uma presen-
ça em si política, aí não cabe a neutralidade. Ele ex-
pressa aos alunos sua capacidade de analisar, com-
parar, avaliar, fazer justiça, ser coerente ao discursar
e agir, enfim ele se mostra como ser ético.
3 - Ensinar exige compreender que a educação
é uma forma de intervenção no mundo
A prática do educador nunca é neutra, é contra-
ditória, dialética. Ela implica, além de ensinar con-
teúdos, num esforço para reproduzir a ideologia do-
minante, ou para desmascará-la.
É um erro considerar a educação só como repro-
dutora da ideologia dominante ou então uma força
de desmascaramento da realidade, que possa atuar
livremente, sem obstáculos. Isso expressa uma visão
equivocada da História e da consciência: no 1º caso,
uma compreensão mecanicista que reduz a consci-
ência a mero reflexo da materialidade; no 2º caso, a
defesa de um subjetivismo idealista, em que o papel
da consciência é supervalorizado, como se os seres
humanos pudessem atuar livres de condicionamen-
tos econômicos, sociais, culturais.
Paulo Freire critica veementemente o discurso e
a política neoliberal, que se baseiam na ética do
mercado, que são imobilizadores, pois consideram
inevitável essa realidade miserável para a maioria dos
povos do mundo. Ele luta por um mundo que priori-
ze a sua humanização.
4 - Ensinar exige liberdade e autoridade
O educador democrático se depara com a difi-
culdade de como trabalhar para que “a necessidade
do limite seja assumida eticamente pela liberdade”
(p.118), ou seja, possibilitar que a liberdade seja exer-
citada de modo a cada vez mais ela ir amadurecen-
do frente à autoridade, seja dos pais, do professor,
do Estado.
Sem os limites, a liberdade se resvala para a li-
cenciosidade e a autoridade para o autoritarismo.
É necessário que os pais participem das discus-
sões com os filhos sobre o seu futuro, tendo cons-
ciência que não são donos desse futuro, tenham um
papel de assessores dos filhos. A autonomia destes
vai se constituindo através das várias experiências
que envolvem decisões que eles vão tomando; ela é
um processo.
5 - Ensinar exige tomada consciente de decisões
Considerando-se a educação como intervenção,
esta pode ter duas direções: aspira a mudanças radi-
cais na sociedade ou pretende paralisar a História e
manter a ordem social vigente. Frente a essas dire-
ções temos que fazer opção consciente procurando
ser coerentes no nosso discurso e na nossa prática.
Não dá para escondermos nossa opção, em fun-
ção de acreditarmos na neutralidade da educação;
esta não existe.
Um educador crítico, democrático, competen-
te, coerente deve pensar que “se a educação não
pode tudo, alguma coisa fundamental a educação
pode” (p 126).Ele deve dar sua contribuição às mu-
danças com sua prática autêntica em prol de um
mundo justo.
6 - Ensinar exige saber escutar
O educador que considera a educação como for-
mação integral do ser e não como um treinamento,
tem que ser coerente com a maneira de falar com
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 47
SINPEEM
seus alunos: não de cima para baixo, impositivamen-
te, como se fosse dono de uma verdade a ser trans-
mitida para os outros, mas falar com, escutá-los pa-
ciente e criticamente.
O papel fundamental do educador democrático
é aprender a falar escutando, de modo a que o edu-
cando consiga entrar no movimento interno do seu
pensamento, para expressar-se, comunicando suas
dúvidas e criações. Estabelece-se o diálogo, em que
o aluno é estimulado, com o uso dos materiais ofere-
cidos pelo professor, a compreender o objeto do co-
nhecimento e não recebê-lo passivamente; assim o
aluno se torna sujeito da aprendizagem.
Saber escutar não implica em restringir a liberda-
de de discordar. Pode-se opor a idéias do outro, acei-
tando e respeitando a diferença, considerando que
ninguém é superior a ninguém, cultivando a humil-
dade no trato com os outros. Nesse sentido, o profes-
sor deve respeitar a leitura de mundo com que o edu-
cando chega à escola e que se expressa pela lingua-
gem, para conseguir ir além dela à medida que vai
se aproximando metodicamente de conhecimentos
mais profundos.
7 - Ensinar exige reconhecer que a educação
é ideológica
A ideologia - que tem a ver com o ocultamento
da realidade – tem um grande poder de persuasão.
O discurso ideológico tem o poder de “anestesiar a
mente, de confundir a curiosidade, de distorcer a
percepção dos fatos, das coisas, dos acontecimentos
“ (p. 149 ).
Uma forma de resistir a esse poder, segundo Frei-
re, é criar uma atitude sempre aberta às pessoas e
aos dados da realidade e também recusar posições
dogmáticas como quem se sente dono da verdade.
8 - Ensinar exige disponibilidade para o diálogo
O professor deve sempre testemunhar aos alunos
a sua segurança ao discutir um tema, ao analisar um
fato, ao expor sua posição frente a decisões políticas
de governantes. Essa confiança se funda na consci-
ência da sua própria inconclusão, como ser históri-
co, que atesta, de um lado, a ignorância e de outro o
caminho para conhecer, a busca constante e não a
imobilidade frente ao mundo.
Ele deve estar disponível para conhecer o con-
torno ecológico, social e econômico em que se vive.
Também tem que dominar outros saberes técnicos,
como os da comunicação que têm influência forte
na formação em geral das pessoas. Nesse sentido, a
linguagem da televisão merece cuidados para o de-
senvolvimento da consciência crítica, para o qual o
professor deve investir no seu trabalho de formador.
9 - Ensinar exige querer bem aos educandos
É natural do educador expressar afetividade aos
seus educandos e à sua prática educativa. A cognos-
cibilidade não exclui a afetividade, assim como a
seriedade docente não exclui a alegria; esta faz parte
do processo de conhecer o mundo: “ a alegria não
chega apenas ao encontro do achado mas faz parte
do processo de busca” (p. 160).
A experiência pedagógica é capaz de estimular e
desenvolver o gosto de querer bem e o gosto da ale-
gria; sem isso, esta experiência perderia sentido. Isso
não quer dizer que ela prescinda da seriedade da
formação científica e da clareza política dos educa-
dores sobre as mudanças sociais necessárias do país.
Resumo revisto por Neusa Cristina Assi, pedago-
ga e professora
48 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
FREITAS, Luiz Carlos de. São Paulo, Moderna, 2003
Este resumo terá como finalidade apresentar os
aspectos relevantes de cada parte, a partir das pala-
vras do próprio autor, considerando os conceitos
desenvolvidos ou explicitados por ele, bem como as
articulações estabelecidas para justificar sua funda-
mentação teórico-metodológica.
I - Apresentação
- Lei de diretrizes e Bases da Educação Nacional
(LDB) apresenta a possibilidade da educação básica
se organizar em ciclos.
- Duas experiências importantes:
1 - Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, que
trabalha com ciclos, desde 1994; ou seja, estratégia
de organizar a escola por ciclos de formação que se
baseiam em experiências socialmente significativas
para a idade do aluno.
2 - Secretaria de Educação do Estado de SP, que
trabalha com a Progressão continuada, desde 1998;
ou seja, com o agrupamento por séries com o propó-
sito de garantir a progressão continuada do aluno.
- Observação: chamaremos de ciclo apenas ex-
periências como a primeira, realizada em BH, fazen-
do, ao longo dos capítulos, distinção entre ciclo e
progressão continuada.
II - A lógica da escola
Para os que olham para a eficácia da escola na
perspectiva ingênua da eqüidade, o que resta a fazer
é estudar e divulgar quais fatores intrínsecos à escola
(recursos pedagógicos e escolares, tamanho da es-
cola, estilo de gestão, treinamento do professor etc.)
afetam o aumento da qualidade da aprendizagem
(proficiência do aluno), apesar das influências do ní-
vel socioeconômico sobre o qual, dizem, nada se
pode fazer.
É de se duvidar da função social da escola pro-
clamada pelos liberais: “ensino de qualidade para
todos”. Aqui é necessário diferenciar entre o desejo
e a realidade. Aliás, esse é aparentemente o perma-
nente confronto existente na implantação dos ci-
clos e da progressão continuada. Caso se queira
unificar desempenhos (nível elevado de domínio
para todos), há que se diversificar o tempo de apren-
CICLOS, SERIAÇÃO E AVALIAÇÃO:
CONFRONTO DE LÓGICAS
dizagem. Para tal, é preciso permitir que cada um
avance a seu ritmo usando todo tempo que lhe seja
necessário, desde que tenha ajuda igualmente dife-
renciada para aprender.
Em que pese o avanço desses autores (os libe-
rais) no que tange à crítica da curva normal (Bloom
e seus colaboradores) e ao reconhecimento explíci-
to da perversidade dos tempos escolares unificados
na formação de desempenhos diversificados (J. Car-
roll), suas propostas não conseguiram superar a idéia
de que os recursos pedagógicos devem compensar
os efeitos das condições sociais perversas que insti-
tuem os diferentes ritmos de aprendizagem nos alu-
nos. Isso os coloca no campo dos autores que vêem
a escola como forma de compensar as desigualda-
des sociais. A progressão continuada é herdeira des-
sa tradição.
A questão que estamos perseguindo neste capí-
tulo é o entendimento da forma como a escola fun-
ciona atualmente. Há um processo histórico de dis-
tanciamento da escola em relação à vida, em rela-
ção à prática social. Esse afastamento foi ditado por
uma necessidade ligada à formação social capita-
lista, a qual, para apoiar o desenvolvimento das for-
ças produtivas, necessitou de uma escola que pre-
parasse rapidamente, e em série, recursos humanos
para alimentar a produção de forma hierarquizada
e fragmentada.
Os processos de avaliação (provas, testes etc.)
tomam o lugar dos motivadores naturais e passam a
ser a principal ancoragem além da pressão familiar,
para produzir a motivação para o estudo. O aluno é
cada vez mais conformado a ver a aprendizagem
como algo que só tem valor a partir da nota (ou apro-
vação social), que lhe é externa.
A introdução da progressão continuada trouxe
uma nova visão sobre a exclusão do aluno da esco-
la. Entendida como “fisicamente” para fora da esco-
la, há também uma exclusão no interior da escola e
no retornar à sociedade. Assim, os ciclos e mesmo a
progressão continuada contrariam – cada um a seu
modo – uma lógica escolar que não é desconstruída
sem resistência. Vemos os ciclos positivamente como
um longo e necessário processo de resistência de
professores, alunos e pais à lógica excludente e sele-
tiva da escola.
A lógica da exclusão se completa com a lógica
da submissão: uma dá suporte para a outra. Os pro-
cessos avaliativos possuem lado destinado ao con-
trole do comportamento, além da dimensão da ava-
liação instrucional. A escola eficaz seria aquela que,
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 49
SINPEEM
além de ensinar o conteúdo, prepara o estudante-
cidadão para a autonomia e para a auto-organiza-
ção, para a intervenção na sociedade com vistas a
torná-la mais justa, no sentido da eliminação da ex-
ploração do homem pelo homem.
III - A lógica da avaliação
Aprender para “mostrar conhecimento ao pro-
fessor” tomou lugar do “aprender para intervir na
realidade”. Essa é a raiz do processo avaliativo ar-
tificializado da escola que tem pelo menos três
componentes:
- O primeiro é o aspecto “instrucional”, pelo qual
se avalia o domínio de habilidades e conteúdos em
provas, chamadas, trabalhos etc.
- O segundo componente é a avaliação do “com-
portamento” do aluno em sala, um poderoso instru-
mento de controle, já que permite ao professor exigir
do aluno obediência às regras, criando uma estrutu-
ra de poder do professor sobre o aluno em relação à
reprovação. Os ciclos e a progressão continuada, ao
contrário, impedem o uso da avaliação como forma
de reprovar ou reter o aluno.
- O terceiro aspecto é a avaliação de “valores e
atitudes” em sala de aula: consiste em expor o aluno
a reprimendas verbais e físicas, comentários críticos
e até humilhação. Instaura-se, preferencialmente, no
segundo e terceiro aspectos, a lógica da submissão.
A avaliação ocorre em dois planos: um “formal”
e outro “informal”
- No plano da avaliação formal, estão as técnicas
e os procedimentos palpáveis de avaliação, com pro-
vas e trabalhos que conduzem a uma “nota”.
- Na avaliação informal, estão os “juízos de va-
lor” (a parte mais dramática e relevante da avalia-
ção), invisíveis e que acabam por influenciar os re-
sultados das avaliações finais.
Os procedimentos de avaliação estão articula-
dos com a forma que a escola assume como institui-
ção social, o que, em nossa sociedade, corresponde
a determinadas funções:
- hierarquizar,
- controlar e
- formar os valores impostos pela sociedade (sub-
missão, competição, entre outros).
Mesmo que se tire a avaliação formal, como no
caso da progressão continuada ou dos ciclos, os as-
pectos perversos da avaliação informal continuam a
atuar e a zelar pela exclusão dos alunos.
Os ciclos e a progressão continuada abrem pos-
sibilidades importantes de luta e resistência, desde
que revelemos essas lógicas e nos preparemos para
enfrentá-las em articulação com os pais e alunos. A
visibilidade do aluno que não aprende é percebida,
erradamente, pelos pais e pela sociedade como um
problema do ciclo ou da progressão continuada.
No esquema seriado, tais alunos não incomoda-
vam, porque eram eliminados do sistema. Nos ciclos
e na progressão continuada, esses alunos permane-
cem no interior da escola, exigindo reparação.
IV - A lógica dos ciclos
Os ciclos não eliminam a avaliação formal, mui-
to menos a informal, mas redefinem seu papel e a
associam com ações complementares – reforço ou
recuperação paralela. Os ciclos desejam contrariar a
lógica da seriação que é constituída a partir de deter-
minado tipo de organização sóciopolítica que, his-
toricamente, construiu a “forma escola” com uma
função social excludente e de dominação. Gostaría-
mos de expandir um modo de conceber a dinâmica
da formação do aluno que contrarie tanto a lógica
da exclusão como da submissão:
a - Formação na atualidade
Entende-se por tudo aquilo que na vida da socie-
dade do nosso tempo tem requisitos para crescer e
desenvolver-se e que em nosso caso tem a ver com
as grandes contradições da sociedade capitalista. A
contradição básica a ser superada é a que faz dos
homens os próprios exploradores dos homens. Por-
tanto, os ciclos devem planejar suas vivências so-
ciais com forte vínculo com a realidade social, com
a atualidade, e não apenas como vivências associa-
das aos interesses de uma certa faixa de desenvol-
vimento da criança.
b - Auto-organização do estudante
A relação pedagógica não deve ser baseada na
exploração nem preparar a aceitação da explora-
ção do homem pelo homem. Não basta que os ci-
clos contraponham à seriação, alterando tempos e
espaços. É fundamental alterar também o poder in-
serido nesses tempos e espaços, formando para a
autonomia, favorecendo a auto-organização dos es-
tudantes. Isso significa criar coletivos escolares nos
quais os estudantes tenham identidade, voz e voto.
Significa permitir que os estudantes construam a vida
escolar.
Os ciclos, portanto, não podem constituir-se em
uma mera “solução pedagógica”, visando superar a
seriação – são instrumentos de desenvolvimento de
novas relações sociais, de resistência. Devem ser vis-
tos como instância política de resistência à escola
50 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
convencional. Posicionamo-nos favoravelmente aos
ciclos, na forma aqui descrita. Em vez de querermos
voltar à seriação, devemos lutar pelo aprofundamento
da noção de ciclos e exigir condições adequadas para
sua instalação e seu funcionamento.
V - A lógica das políticas públicas
Além do envolvimento daqueles que conduzem
o dia-a-dia escolar, dois atores são de extrema im-
portância no desenvolvimento dos ciclos, embora
preteridos nas políticas: os professores e os pais.
Se perdermos os professores, isso afeta diretamen-
te o processo ensino-aprendizagem. Os pais são
vitais para a aceitação dos ciclos, pois eles rea-
gem com as expectativas que têm, com sua cons-
ciência ingênua em relação ao papel da escola
como fator de ascensão social. É preciso envolvê-
los no processo de implantação dos ciclos, para
que possam apreciar adequadamente o lado for-
mativo da educação nos ciclos e deixar de ver a
escola como local em que se deva aprender ape-
nas Português e Matemática.
Em nossa opinião, os ciclos não devem ser im-
plantados como política pública que determine em
massa sua adoção. O caminho mais frutífero será o
convencimento por indução, a partir de experiên-
cias bem sucedidas apoiadas pelos governos, envol-
vendo pais e professores no processo. As escolas
devem ter autonomia para optar pela introdução da
organização ciclada em seu interior e serem apoia-
das nessa decisão.
É preciso esclarecer que os conceitos de pro-
gressão continuada e de ciclos, bem como suas con-
cepções de educação e de políticas públicas, não
são iguais.
- A progressão continuada é herdeira da concep-
ção conservadora liberal, e a avaliação assume pa-
pel de controle e atua para implementar verticalmente
uma política pública.
- Os ciclos são de formação mais ligados às pro-
postas transformadoras e progressistas. Aqui, a ava-
liação assume papel de crescimento e melhoria da
escola a partir de dentro – ainda que sob estímulo da
política pública.
Segue quadro que destaca um conjunto de di-
mensões que orienta nossa compreensão sobre as
condições políticas em que a noção de ciclos e a de
progressão continuada estão inseridas.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 51
SINPEEM
Dimensões contraditórias de concepções de Educação, Ciclos e Avaliação
Progressão Continuada Ciclos
Projeto histórico conservador de otimização da
escola atual, imediatista e que visa ao alinhamen-
to da escola às necessidades da reestruturação pro-
dutiva.
Projeto histórico transformador das bases de
organização da escola e da sociedade, de médio e
longo prazo, que atua como resistência e fator de
conscientização, articulado aos movimentos.
Fragmentação curricular e metodológica que
no máximo prevê a articulação artificial de disci-
plinas e séries (temas transversais, por exemplo).
Unidades curricular e metodológica de estu-
dos em torno de aspectos da vida, respeitando as
experiências significativas para a idade (ensino por
complexo, por exemplo).
Conteúdo preferencialmente cognitivo-verbal. Desenvolvimento multilateral, baseado nas
experiências de vida e na prática social.
Aponta para a alienação, para o individualis-
mo do aluno e a subordinação do professor e do
aluno, aprofundando relações de poder verticali-
zadas na escola (incluindo a ênfase no papel do
diretor e do especialista).
Favorece a auto-organização do aluno, o tra-
balho coletivo e a cooperação no processo, crian-
do mecanismos de horizontalização do poder na
escola.
Treinamento do professor; preparação do pe-
dagogo como especialista distinto do professor (e
vice-versa), com o fortalecimento da separação en-
tre o pensar e o fazer no processo coletivo.
Formação do professor em educador.
Uso de tecnologias para substituir o professor
e/ou acelerar os tempos de estudo.
Subordinação das tecnologias ao professor,
com a finalidade de aumentar o tempo destinado
pela escola à formação crítica do aluno.
Sistema excludente e/ou hierarquizador (auto-
exclusão pela inclusão física na escola).
Educação como direito de todos e obrigação
do Estado.
Desresponsabilização da escola pelo ensino.
Terceirização / privatização.
Educação de tempos integral.
Retirada da aprovação do âmbito profissional
do professor, mantendo inalterada a avaliação in-
formal com característica classificatória.
Ênfase na avaliação informal com finalidade
formativa e ênfase no coletivo como condutor do
processo educativo.
“Avaliação” formal externa do aluno e do pro-
fessor (de difícil utilização local) como controle.
Avaliação compreensiva, coletiva e com utili-
zação local.
Avaliação referenciada em conteúdos instruti-
vos de disciplinas, padronizados em habilidades e
competências.
Avaliação referenciada na formação e no pró-
prio aluno, ante os objetivos da educação e a vida
(formação + instrução).
52 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
A avaliação, nas políticas públicas que usam
os ciclos, não quer classificar alunos nem escolas.
Na acepção que defendemos, o que o ciclo (e a
progressão continuada) faz é manter o aluno que
não sabe ler na escola, enquanto no regime seria-
do ele é “expulso”. Permanecendo na escola, de-
nuncia a qualidade do sistema. Não somos ingê-
nuos a ponto de pensar que isso ocorra para de-
nunciar, de fato, o próprio sistema ou ocorra de
forma acidental. Para as políticas públicas neoli-
berais, os ciclos e a progressão continuada têm
outra finalidade. A repetência e a evasão geram
custos que oneram o Estado indevidamente – não
são apenas uma questão de qualidade da escola.
O que está em jogo não é apenas o lado huma-
no e formativo da eliminação da reprovação ou da
evasão, mas o lado econômico, isto é, custo e be-
nefício. Essa é a visão de qualidade que informa
as políticas públicas neoliberais que se valem de
sistemas nacionais de “avaliação” (ENC-Provão,
SARESP etc.), para:
- monitorar os resultados das escolas de forma
quantitativa e genérica (comparativa),
- criar competição (segundo elas, a mola-mestra
da qualidade) e
- reduzir gastos, modelo amplamente aplicado no
campo empresarial.
Uma das grandes contradições que está posta com
a utilização dos ciclos como forma de organizar a
escola é aquela entre “formar e instruir”, posta pela
sociedade capitalista. Nossas escolas funcionam em
tempo parcial (quatro horas), sendo obrigada a se
contentar com a instrução. Uma luta fundamental
para os educadores, além da implantação dos ciclos,
é a aplicação do dispositivo da LDB que prevê que a
educação no Brasil será, progressivamente, de tem-
po integral. Somente assim poderemos falar em ins-
trução associada à formação, contribuindo para re-
solver essa contradição.
Resumo elaborado por Eliane Aguiar, bacharel em
Letras, doutoranda em educação - FEUSP.
GARCIA, Olgair Gomes.
Revista de educação da AEC, nº 104, 1997
Grande parte dos professores não consegue de-
senvolver suas aulas sem o poder da freqüência e da
avaliação. Esta situação transforma a aula em um
momento de opressão para os alunos e de angústia e
sofrimento para os professores. Como tornar a aula
mais produtiva e interessante tanto para os educan-
dos quanto para os educadores?
Através de uma reflexão com professores de es-
colas públicas, chegou-se à desmistificação do con-
teúdo como o eixo principal da aula. A aula signifi-
cativa para os alunos está sustentada por quatro pila-
res e o grande desafio é o equilíbrio, a sintonia e a
harmonia entre eles.
1º Pilar: Conhecimento – “O conhecimento está
no mundo, presente,visível nas coisas e circunstân-
cias mais simples e o homem constrói,/reconstrói
constante e ininterruptamente” Compete à escola aju-
dar e facilitar o acesso dos estudantes no processo
de busca e construção do conhecimento, selecionan-
do conceitos e situações, fazendo recortes na reali-
dade, problematizando e tematizando estes recortes
que se constituirão em conteúdos de ensino. Através
A AULA COMO MOMENTO DE FORMAÇÃO
DE EDUCANDOS E EDUCADORES
do conteúdo o conhecimento chega à sala de aula, e
as maneiras mais comuns de dar forma aos conteú-
dos são os programas.
O conhecimento é processo e o sujeito que está
lidando com o conhecimento vive a experiência de
vê-lo crescer em complexidade, significação e criti-
cidade. Esse dinamismo do conhecimento depende
em grande parte do educador enquanto atua com
reflexão e crítica. Educando e educadores precisam
ser pessoas curiosas.
2º Pilar: O relacionamento interpessoal – Até
hoje a relação entre professor e aluno se caracteri-
za como uma relação autoritária entre alguém que
sabe e outros que pouco ou nada sabem. Esse tipo
de relação acarreta conseqüências comportamen-
tais e fingimento de ambas as partes: o educador
não se dando a conhecer para os alunos para “man-
ter sua autoridade” e os educandos sendo dissimu-
lados, espertos, tapeadores, falsos para não desper-
tar a cólera do educador. Perdem a chance de ter
experiências desafiadoras, prazerosas e estimulado-
ras em sala de aula.
È necessário não se cair em outro extremo em
que educador e educandos embarcam em uma rela-
ção espontaneísta ou paternalista em que tudo pode
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 53
SINPEEM
e em que a camaradagem substitui o rigor e a serie-
dade necessários para que a aprendizagem se esta-
beleça. Esse tipo de relação gera insegurança, medo
e desrespeito.
Fugindo de ambos os extremos, se aceitarmos que
a relação professor -aluno é uma relação entre sujei-
tos que se respeitam, haverá também um código de
compreensão, tolerância, colaboração, compromis-
so e seriedade, pois reconhece-se que a aprendiza-
gem é de ambos e que ambos estão perseguindo os
mesmos objetivos: que cada aluno construa sua au-
tonomia e o próprio conhecimento com sua própria
organização pessoal , como necessidade interior sua
e não imposta de fora pelo professor.
O professor precisa repensar sua prática e cons-
truir seu papel em outras bases, pois tanto nos traba-
lhos individuais, quanto nos coletivos há necessida-
de da autoridade do professor, articulando a organi-
zação e a disciplina coletiva, para o bom desenvol-
vimento individual. Esse tipo de relação só pode ser
alicerçada no respeito mútuo em que existe uma pré-
via organização e discussão sobre o compromisso
de ambos para o trabalho a ser feito.
3º Pilar: A comunicação – Constata-se um gran-
de predomínio da comunicação oral na sala de aula
que pode ser desencadeadora do pensar da curiosi-
dade e da vontade de conhecer, mas pode ser tam-
bém ser um jeito de tolher a comunicação dos alu-
nos e submetê-los ao modo de pensar do professor,
ou ainda, como observa Marilena Chauí, ser uma
posição arriscada em que o professor esquece seu
papel de provocador da aprendizagem dos alunos e
usa o espaço da sala de aula para exibir seus própri-
os conhecimentos. Tradicionalmente, o professor vem
explicando o conteúdo “empacotado” nos livros di-
dáticos, mas atualmente esse tipo de atitude justifica
a opinião de alguns alunos de que não é necessário
assistir as aulas, que podem estudar por conta pró-
pria. Aí, reside a “ educação bancária”, segundo
Paulo Freire, em que os alunos recebem os depósi-
tos, guardam e arquivam as informações recebidas.
Muitos alunos preferem que os professores “dêem
aulas”, pois é mais cômodo receber tudo mastigado
e não ter o trabalho de pensar, refletir e participar.
A participação pode ser melhor entendida, se
olharmos a sala de aula como um espaço para o diá-
logo entre professor e alunos, que devem decidir jun-
tos quais os melhores meios , recursos, técnicas e
atividades para enriquecer as situações de aprendi-
zagem de forma que essas escolhas não morram em
si mesmas, mas que garantam a construção, a cria-
ção e a recriação do conhecimento.
Parte do professor a primeira identificação do
conhecimento que vai ser o objeto do processo en-
sino-aprendizagem, num conjunto significativo de
ações dimensionadas, dentro de um contexto de
tempo e espaço reais e possíveis.
O espaço de sala de aula, para ter credibilidade
precisa se converter num espaço de comunicação
verdadeira, a serviço da transformação dos sujeitos
envolvidos.
4º Pilar: O compromisso de educador – A práti-
ca educativa é algo sério e exigente cuja seriedade e
exigência não deve ter como conseqüência a reten-
ção de alunos. Quem alega que a reprovação é feita
em nome da seriedade, advoga que educar é trans-
mitir um conteúdo considerado obrigatório e igual
para todos.
Se se conceber a educação como prática social e
humanizadora, o foco de seriedade é o compromis-
so na formação das crianças e adolescentes.Para isso
é necessário que se pratique um ensino de qualida-
de que garanta a aprendizagem esperada.
Algumas práticas docentes em uso formam obstá-
culos intransponíveis para um bom desenvolvimento
do processo de ensino - aprendizagem.A avaliação
como é vista em sala de aula é uma dessas práticas à
medida que permeia a relação professor-aluno e to-
das as ações e organização do trabalho aí praticadas.
Nesse caso, o foco da avaliação é o desempenho
dos alunos num dado período de tempo e não o pró-
prio aluno.
Quando o foco muda de direção surgem algu-
mas questões: por que o aluno fracassa ou tem su-
cesso?
O que fazer com os resultados das avaliações,
que não seja reter ou aprovar?.
A educação vista de maneira humanizadora deve
avaliar múltiplos focos: o professor e sua ação, a pro-
posta curricular, o processo ensino-aprendizagem, a
escola.
A avaliação deve sempre estar atrelada ao plane-
jamento. A ressignificação do planejamento e da ava-
liação permitirá ao professor repensar:
· Sua organização, evitando a improvisação;
· Dar tarefas somente para manter os alunos ocu-
pados, desenvolvendo automatismos;
· Permitir que os alunos aprendam a se organizar
com autonomia e responsabilidade ensinando-os a
pensar, estabelecer relações, questionar, se expres-
sarem com maior precisão, criatividade e liberdade;
· Ensiná-los a fazer registros e sistematização do
que estudam e, sobretudo ensiná-los a estudar.
O professor deve se comprometer também em
denunciar as condições que os impedem de desem-
penhar com maior seriedade uma educação com-
prometida e desafiadora.
A aula e a formação permanente do educador
e dos educandos
A partir das reflexões desse artigo chega-se à con-
54 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
clusão que uma sala de aula em que o professor “não
dá aula”, mas em que haja um clima de seriedade,
rigor e de comprometimento dos alunos e do profes-
sor regula as ações, mais que a pressão do final do
processo. Os desajuste que possam existir num de-
terminado ponto do processo devem ser resolvidos
em prol da harmonia e da sintonia para desenvolve-
rem a tarefa de ensinar e aprender
Professor e aluno desafiam-se, exigindo um cons-
tante pensar, refletir, criar, ajustar-se ao pensamento
do outro. O professor precisa aprender a superar im-
passes, aceitar desafios cada vez maiores com flexi-
bilidade, versatilidade e bom humor.
A disputa entre sujeitos pela construção do co-
nhecimento é que torna a aula interessante.
Resumo realizado por Neusa Cristina Assi, pro-
fessora e pedagoga
GONÇALVES, Luiz Alberto Oliveira.
& SILVA, Petronilha B. G.
Belo Horizonte, Autêntica, 2001
Na apresentação os autores dizem que falar de
multiculturalismo é falar do jogo das diferenças, onde
os protagonistas são as pessoas vítimas de discrimi-
nação e preconceito na sociedade onde vivem. Para
tanto é necessário sempre que se diga de qual con-
texto sócio-histórico está se falando. O que é depre-
ciativo para uma mulher dos Estados Unidos, pode
não ser para mulheres de outras partes do mundo.
Os negros dos Estados Unidos, ao se definirem como
“afro-americanos” como forma de fugirem aos este-
reótipos sugeridos pela palavra negro (black ) caem
em contradição, afinal também são americanos os
negros brasileiros de qualquer parte da América do
Sul ou Central. O termo afro-americano, usado pelos
negros estadunidenses, visto de fora dos Estados
Unidos, pode parecer justamente o oposto do politi-
camente correto pretendido, se colocado em nosso
contexto histórico e social.
O livro pretende mostrar que antes de ser tema
obrigatório de currículos defendidos por professores
pós-modernos bem comportados, o multiculturalis-
mo foi resultado de intensas lutas sociais e que o sig-
nificado do termo pode se modificar a todo o mo-
mento em que novos grupos sociais surgirem na cena
social, modificando as regras do jogo.
Capítulo 1 - O multiculturalismo e seus
significados
Esse capítulo versa sobre a dificuldade em se es-
crever sobre o assunto. O ponto de partida do multi-
culturalismo, enquanto movimento de idéias, é a
admissão da pluralidade de experiências e a rejei-
ção de qualquer “centrismo” cultural, ou seja, qual-
quer etnocentrismo.
O JOGO DAS DIFERENÇAS:
O MULTICULTURALISMO E SEUS CONTEXTOS
A proposta multiculturalista, tem que conviver,
entretanto, com outras possibilidades de propostas
de políticas culturais existentes no mundo que tam-
bém colocam a multiplicidade cultural como preo-
cupação central de suas ações.
Os opositores da proposta multiculturalista a acu-
sam de ser uma proposta política ingênua e leviana
que parte de uma falsa consciência a respeito dos
problemas culturais. Para outros, ela é apenas um
estímulo à fragmentação da vida social que tem por
conseqüência a desintegração nacional.
Mesmo entre os defensores o consenso é quase
impossível. Alguns grupos defendem a idéia de que
o multiculturalismo é uma estratégia política de inte-
gração social. Embora salientem as vantagens do
caráter pluricultural de suas sociedades, admitem a
necessidade de se conservar um núcleo de valores
comuns (nacionais) para os quais todos deveriam
convergir. Outros combatem essa idéia dizendo que
qualquer convergência para valores comuns, hierar-
quiza as culturas, visto que uma suposta cultura na-
cional seria superior às outras. Cair-se-ia novamente
em um etnocentrismo o que impediria a execução
de políticas multiculturais.
Entre as diferentes definições de grupos acadê-
micos e políticos acerca do conceito de multicultu-
ralismo encontramos aqueles que o definem enquan-
to estratégia política ou como uma espécie de corpo
teórico que deveria orientar a produção do conheci-
mento. Parte-se de uma visão crítica de qualquer ins-
tituição produtora ou veiculadora de conhecimento:
escolas, universidades, museus, livros, filmes, víde-
os e outros.
Expostos à mídia, pais, alunos e professores são
influenciados pela etnia de apresentadores e perso-
nagens, reforçando ou negando valores, com forte
impacto na escola e nos propósitos de educação
multicultural.
O multiculturalismo é reivindicado como um
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 55
SINPEEM
antídoto ao eurocentrismo, ao conhecimento euro-
ocidental (branco, masculino, cristão, capitalista, ci-
entificista, predatório, racionalista etc.) veiculado pela
mídia e instituições em geral.
Considerando o peso que os sistemas educacio-
nais têm na formação dos indivíduos é compreensí-
vel que os multiculturalistas tenham feito da escola,
seu espaço privilegiado de atuação. Não foi no am-
biente escolar, entretanto, que surgiu o multicultura-
lismo. A própria prática de condicionar conteúdos e
disciplinas escolares sob a forma de currículos é her-
deira das culturas euro-ocidentais, contra as quais o
movimento multicultural vem lutando.
De qualquer maneira, pode-se começar a refletir
sobre o multiculturalismo a partir das práticas edu-
cativas, fazendo que as teorias sociológicas e as pes-
quisas em educação convirjam para pensar melhor
as práticas de um e outro setores.
Os confrontos culturais, inicialmente se deram
nos espaços públicos dos centros urbanos. Essas
tensões, pouco a pouco, penetraram nas institui-
ções das sociedades, como escolas e instituições
jurídicas que passaram a ser pensadas numa pers-
pectiva multicultural.
Os autores convidam o leitor a pensar nas espe-
cificidades sócio históricas de cada movimento mul-
ticultural. Na América do norte e no oeste da Europa
empresta-se ao multiculturalismo um sentido muito
diverso da América Latina, onde os grupos que rei-
vindicam o reconhecimento de seu patrimônio cul-
tural são justamente aqueles que construíram as na-
ções onde vivem.
Ao se ler literatura sobre movimentos multicultu-
ralistas, pesquisadores europeus podem escrever li-
vros muito críticos em relação ao etnocentrismo de
sua civilização, sem se afastarem, entretanto, um
milímetro sequer de seus valores culturais. Muitas
vezes, os argumentos defensivos de determinadas
posições advém do próprio universo cultural de quem
está escrevendo, ao invés de partir do universo de
quem se pretendia defender.
Esse paradoxo faz com que alguns opositores do
multiculturalismo argumentem que não há necessi-
dade de se afastar dos valores humanistas ociden-
tais, para se reconhecer o direito à diferença, como
querem certos grupos, para eles, mesmo que os po-
vos não ocidentais se sintam excluídos desses valo-
res, já são por esses contemplados.
Pelos motivos expostos acima não se pretende
definir multiculturalismo de maneira linear, por isso
os autores pretenderam apresentar as condições so-
cio-históricas nas quais o fenômeno desponta com
um dos princípios norteadores de políticas cultu-
rais com o intuito de interferir nas relações de po-
der que excluem imensas parcelas da população dos
centros de decisão.
A origem do fenômeno multicultural
contemporâneo
O multiculturalismo teve origem em países que
tiveram problemas com a diversidade cultural na
construção de suas identidades nacionais. Surgiu
como princípio ético orientador de grupos cultu-
ralmente dominados para reivindicar seus direitos
civis.
Os movimentos étnicos antecederam outras for-
mas de protesto cultural especialmente em países das
três Américas, onde ocorreu um embate cultural (ét-
nico, religioso, lingüístico) entre europeus, amerín-
dios e africanos. Citando Roger Bastide,os autores
lembrar que a chegada dos europeus à América le-
vou-os a se deparar como uma pluralidade de hábi-
tos e costumes desconhecidos pelos recém chega-
dos ao Novo Mundo.
O contato entre ameríndios e euro-ocidentais foi
dramático para os primeiros. Para Bastide a resistên-
cia exprimiria o lado trágico no choque das civiliza-
ções, depois, num segundo nível, ocorreria um mo-
vimento de contra-aculturação, quando o desejo de
estabelecer um equilíbrio, após o choque de civili-
zações, estimularia um retorno ao passado, onde gru-
pos culturalmente dominados reconstituiriam parte
de sua tradição cultural.
O contato cultural prolongado produziria o que
Bastide chamou de “interpenetração das civiliza-
ções”. Processo desigual, pois os colonizadores dei-
xam-se impregnar pela cultura dos colonizados,
sem, contudo, perder a referência de sua própria
civilização. Opostamente, o colonizado acaba se
aculturando, aceitando a cultura do dominador
como referência.
O processo de aculturação dos africanos no Novo
Mundo foi muito diferente dos ameríndios. Arranca-
dos à força de seu continente, aos povos de diferen-
tes etnias, restou apenas a religião e seus deuses.
Como mostram os estudos feitos no Caribe e em ou-
tros países da América Latina, com destaque para o
Brasil, os afro-descendentes foram revitalizando suas
tradições religiosas que serviram de suporte ideoló-
gico para suas revoltas.
Os autores citam a experiência multicultural que
se processou nos quilombos, objetos de observação
de vários estudiosos. Foram encontrados em quilom-
bos – obra de africanos não aculturados – templos
católicos ao lado de outros, devotados aos deuses
africanos. Até mesmo brancos e mestiços foram abri-
gados no interior dessas comunidades.
No final do século XIX, os conflitos étnicos na
América se agravaram com a chegada de novas on-
das de europeus e asiáticos. Embora em alguns paí-
ses tenha ocorrido um processo significativo de mis-
cigenação, a herança escravista fez permanecer as
barreiras sociais e os preconceitos raciais.
56 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
Conflitos étnicos existiram desde o início da co-
lonização européia na América, mas apenas se trans-
formaram em movimentos políticos – na acepção
moderna do termo – na primeira metade do século
XX. A própria formação dos estados nacionais na
América, justifica o aparecimento de conflitos étni-
cos nas sociedades americanas que foram as pri-
meiras formas de manifestação do multiculturalis-
mo. Com o passar do tempo, as questões étnicas
perderam a centralidade nos movimentos multicul-
turais e hoje convivem com outras formas de pro-
testo cultural.
As imagens unitárias da sociedade no jogo
das diferenças
Apesar do esforço de algumas sociedades, como
a brasileira e a estadunidense, em criarem uma auto-
imagem unitária se si mesmos, em torno de uma iden-
tidade nacional, as mesmas sempre foram vistas de
fora como sociedades pluriétnicas; outros países
como a França, contrariamente, só reconheceram sua
diversidade recentemente.
Os cientistas sociais sempre procuram investigar
questões postas por suas respectivas sociedades e
épocas. Por isso que nos Estados Unidos e no Brasil
o tema da diversidade cultural já era crucial no iní-
cio do século XX, enquanto na França essa preocu-
pação passou a inquietar os cientistas sociais france-
ses apenas nos anos 70.
Os estudos antropológicos, ditos culturalistas,
vieram superar explicações dominantes no século
XIX, chamadas de naturalistas que explicavam a pre-
tensa superioridade de raças ou gêneros humanos
em função de uma suposta ordem natural das coisas.
Os culturalistas insistem no fato que aquilo que cha-
mamos de natureza depende de uma interpretação
que varia de uma cultura para outra.
A Antropologia Culturalista gerou um conjunto
de conhecimentos sobre a diversidade do gênero
humano, que permitiu ver todas as formas de domi-
nação – antes vistas como naturais – como atos de
pura arbitrariedade.
Os movimentos de protesto contra os modelos
de dominação cultural vigentes embasaram-se nes-
ses estudos culturalistas. A partir de então, negros,
índios e minorias étnicas começaram a questionar
os critérios que os classificavam como inferiores.
Mulheres passaram a questionar a pretensa superio-
ridade dos homens, homossexuais passaram a pro-
duzir novas imagens de si mesmos e a combater, por
vias judiciais, preconceitos em relação ao seu com-
portamento sexual.
Tantas adesões ao multiculturalismo acabaram
criando um problema: a fragmentação que ameaça
o movimento por dentro. O movimento de mulhe-
res, por exemplo, não pode desconhecer que exis-
tem diferenças entre mulheres brancas, negras e mes-
tiças e devem modular seu discurso para abarcar to-
das essas realidades. Os jovens têm trazido deman-
das de geração que têm impulsionado o multicultu-
ralismo, em todos os sentidos. Tendo como suporte a
mídia e o sistema informacional disponível no mer-
cado globalizado, vemos os jovens criando movimen-
tos culturais que extrapolam as fronteiras nacionais.
As artes ofereceram uma linguagem adequada
para a difusão do movimento multiculturalista na
esfera pública.
Os estetas do multiculturalismo
A emergência de uma nova estética musical – et-
nicamente elaborada – pode explicar a popularida-
de do multiculturalismo, especialmente entre os jo-
vens. Os autores não estão falando de etno-música
que, para eles são formas de manifestação de gru-
pos étnicos muito específicos que não se deixam
influenciar por influências estranhas à própria tradi-
ção como é o caso das músicas cigana, hebraica ou
árabe, entre outras. Para eles o fenômeno musical
do multiculturalismo é híbrido, miscigenado. Tal
qual ocorreu com o rap e o reggae, ambos surgidos
na Jamaica, acabaram por congregar jovens negros
de várias áreas urbanas pelo mundo, incorporando
elementos culturais locais. Em alguns lugares do Bra-
sil, por exemplo, temos o samba-reggae. O rap tor-
nou-se importante veículo de protesto em várias
partes do mundo entre os jovens das periferias e
mesmo, entre os de classe média. Obviamente essa
massificação não ocorreu de forma inocente, mas
foi produto da expansão da indústria cultural pelo
mundo globalizado.
O cinema tem contribuído enormemente para a
difusão da estética do multiculturalismo. Filmes que
abordam problemas raciais, discriminação contra
homossexuais ou que nos trazem problemas de so-
ciedades distantes, como a islâmica, fazem do cine-
ma uma arma poderosa para a divulgação dos valo-
res multiculturais.
Educação multiculturalista: os novos sujeitos
das políticas sociais
Toda vez que uma sociedade não se representa
enquanto plural mas como monocultural, como é o
caso do Brasil, tem-se muitas dificuldades para esta-
belecer políticas públicas para promoção de grupos
menos favorecidos.
No caso do Brasil, os sujeitos das políticas públi-
cas são sempre definidos vagamente sem distinção
de gênero ou raça. Até mesmo os projetos educacio-
nais preferem expressões baseadas na condição de
classe como “camadas populares”, “classe operária”,
“classe trabalhadora.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 57
SINPEEM
O multiculturalismo não interessa à sociedade
como um todo, mas apenas aos grupos excluídos dos
centros de decisão, por questões econômicas e, prin-
cipalmente culturais. Partindo dessa premissa os au-
tores questionam se é mesmo possível pensar em
políticas públicas que consideram os problemas ét-
nicos das sociedades, atendendo às demandas espe-
cíficas de negros, índios, mulheres, homossexuais,
deficientes físicos, etc.
Dessa maneira tanto no Brasil como nos Esta-
dos Unidos, os afro-descendentes foram os primei-
ros a reivindicar o multiculturalismo. No caso dos
EUA, ocorreu o progressivo acesso dos jovens ne-
gros às universidades, a partir de 1968 com o fim
do sistema de segregação e a absorção de 434.000
estudantes negros em universidades freqüentadas até
então apenas por alunos brancos. O acesso a edu-
cação fez que os negros passassem a exigir sua par-
ticipação no sistema educacional, exigindo a inclu-
são de temas de seu interesse nos currículos e a
participação dos mesmos no controle dos cursos e
na escolha de professores.
Os autores lembram, citando N. Glazer que a
partir da década de 70 pôde-se observar uma mu-
dança significativa no comportamento dos negros nos
EUA. Eles deixaram de se preocupar com a integra-
ção, ignorando a sua própria cultura, pois queriam
ser como os brancos e passaram a se debruçar sobre
a sua própria herança, buscando dialogar com o seu
passado, em busca da própria identidade.
No Brasil, foi a partir dos anos 50 com uma nova
onda de protestos do movimento negro, no Rio de
Janeiro, que os afro-brasileiros começaram a reivin-
dicar dos educadores brancos e negros o reconheci-
mento do valor da cultura afro-brasileira. Diferente
dos EUA, esse movimento desenvolveu-se fora do
sistema oficial de ensino e pretendia mudar a ima-
gem tão negativa que a sociedade brasileira tinha
criado da cultura e da história negras. O fato de os
negros brasileiros serem uma minoria no sistema su-
perior de ensino (apenas 4% segundo o censo de-
mográfico de 1990) pode ser uma explicação para o
fato das universidades brasileiras terem ficado à mar-
gem desse movimento.
Nos Estados Unidos o multiculturalismo teve
como alvo principal o sistema de ensino e provo-
cou reações contrárias de setores conservadores da
sociedade, tanto intelectuais liberais como de es-
querda. Como exemplo, os autores citam um certo
Schlesinger que afirmou ao jornal Le Monde que os
negros teriam promovido a divisão da sociedade
americana e corrompido os currículos escolares com
suas demandas.
No Brasil, a resistência à educação multicultural
tem sua origem naqueles que acreditam que o único
conhecimento crítico possível só pode ser o “conhe-
cimento socialmente acumulado, dominante e uni-
versal” qual seja o euro-ocidental.
As críticas de intelectuais brasileiros e estaduni-
denses em relação ao multiculturalismo baseiam-se
no argumento de que ele leva ao esfacelamento da
suposta unidade nacional e que incentiva o fecha-
mento de grupos em seus universos culturais, vistos
erroneamente, como restritos. Ambas as críticas vêem
o movimento em defesa dos direitos à diferença como
blocos monolíticos, homogêneos e sem contradições.
Os autores lembram que essas tendências de gueti-
zação não são consensuais e citam os conflitos ocor-
ridos dentro do movimento negro estadunidense dos
anos 60. Alguns grupos recusavam-se a reconhecer
os Estados Unidos como unidade nacional de refe-
rência, opondo-se a outras correntes que envolve-
ram amplos setores liberais na defesa dos direitos ci-
vis. Os questionamentos das alianças entre liberais e
parcelas do movimento negro fizeram emergir gru-
pos de esquerda, bem como fez com que os republi-
canos, mudando de tática, criassem setores negros
dentro do próprio partido.
O movimento negro brasileiro também tem suas
divisões manifestadas especialmente na dualidade
entre política e cultura. Clivagens internas surgem
como mulheres negras ou ainda diferentes organiza-
ções religiosas ou concepções políticas de esquer-
da, direita ou de centro.
Os autores argumentam que essa diversidade in-
terna é mal interpretada, como se fossem fragmenta-
dos desconectados uns dos outros, mas essa diversi-
dade pode ser justamente vista como uma forma de
reformular o conceito de resistência, bastando para
isso que se leve em conta o contexto sócio-histórico
onde se desenvolvem.
Nos EUA, o multiculturalismo acabou enrijecen-
do as relações sociais, causando, por vezes, inciden-
tes sangrentos. Após as primeiras manifestações dos
anos 60 na costa oeste, o movimento institucionali-
zou-se de maneira surpreendentemente rápida. As
universidades estadunidenses criaram departamen-
tos, cursos de especialização e de pós graduação
sobre estudos afro-americanos, sobre a condição fe-
minina, sobre os hispano-americanos, os gays, os
nativo-americanos (índios) etc.
No Brasil, a integração dos negros e índios se deu
pela mediação de um Estado altamente interventor e
o racismo foi dissimulado pelo mito da democracia
racial. Isso fez com que o multiculturalismo não se
institucionalizasse e a diversidade étnica e cultural
não fosse contemplada na formação de docentes ou
nos programas de pós-graduação. Para os autores, o
tema da pluralidade cultural preconizados pelos Pa-
râmetros Curriculares Nacionais levarão muito tem-
po para chegar às salas de aula, justamente pela au-
sência desse paradigma na formação dos profissio-
nais de educação nas universidades brasileiras.
58 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
Capítulo 2 - Multiculturalismo e Educação
nos Estados Unidos
Dada à longevidade do tratamento desse tema nos
Estados Unidos da América do Norte, os autores acre-
ditam ser importante estudar o processo de reformula-
ção dos currículos escolares naquela país, para que se
possa extrair da experiência deles, alguns parâmetros
para as reformas, em curso no Brasil.
Nos anos 60, estudantes e líderes religiosos no
sul dos Estados Unidos iniciaram a luta por igual-
dade de acesso aos direitos civis. A eles, juntaram-
se outros cidadãos negros e outros grupos margina-
lizados. Martin Luther King, Malcom X e grupos
como os Black Panthers e os Black Powers forma-
ram alianças construindo estratégias de luta para par-
ticiparem do poder público.
A luta pelos direitos civis, encabeçada pelos ne-
gros americanos, inspirou diversos outros grupos ali-
jados da vida social, como aqueles que lutaram con-
tra a guerra do Vietnã e outros grupos de origem his-
pânica ou asiática. Inclua-se também, as feministas
que procuraram valorizar a experiência de ser mu-
lher em uma sociedade dividida por diferenças étni-
cas, de classe, de escolhas sexuais, profissionais, etc.
Enfim, o multiculturalismo nos EUA surgiu num
clima político extremamente favorável e constituiu-
se, pouco a pouco em proposta pedagógica, disci-
plina curricular e área de pesquisa.
Black Studies
Já no final do século XIX intelectuais estaduni-
denses produziram obras questionando os parâme-
tros culturais de seus colegas brancos. Seus traba-
lhos eram divulgados em escolas dedicadas ao en-
sino dos negros e também em igrejas e associações
afro-estadunidenses. Esses novos estudos ofereciam
um novo conhecimento da história do negro, a par-
tir de seu próprio ponto de vista. Além de apoiarem
o debate intelectual, estimulavam a auto-estima da
população segregada e, com argumentos científi-
cos, preparavam os grupos excluídos para reclama-
rem por seus direitos. Note-se que além da divul-
gação de trabalhos acadêmicos, houve ênfase na
produção de material didático para a populariza-
ção de seus trabalhos.
Nos anos 20, jovens negros americanos já pe-
diam uma educação que reconhecesse o patrimônio
cultural de seus ancestrais, desafiando a hegemonia
cultural européia na academia.
Em 1968 foram criados os primeiros programas e
departamentos de Black Studies na San Francisco
State University, seguida de perto por outras univer-
sidades. A iniciativa foi resultado da exigência do
próprio movimento estudantil que agregava estudan-
tes negros e outros oriundos de países do Terceiro
Mundo. Estudantes brancos, contrários à guerra do
Vietnã também apoiaram a iniciativa.
Os Black Studies possibilitaram a produção e di-
vulgação de um conhecimento novo, conectando os
afro-descendentes à produção e mudança do co-
nhecimento nos EUA, a serviço das comunidades
negras e da sociedade como um todo.
Os Estudos Negros nos EUA desenvolveram em
dupla dimensão: acadêmica e social. Formaram um
campo de pesquisa interdisciplinar nas Ciências So-
ciais com foco nos pensamentos e práticas dos afri-
canos e seus descendentes, repercutindo não ape-
nas na comunidade e nos estudantes negros, mas em
toda a sociedade, beneficiando essa última pelo co-
nhecimento produzido nas universidades.
Notas sobre o afrocentrismo e outros
estudos étnicos
Alguns questionam se os estudos africanos ou
afro-americanos pretendem apenas substituir uma
perspectiva hegemônica eurocêntrica por uma afro-
cêntrica. Asante, criador da disciplina Africanolo-
gia justificou-se dizendo que o pesquisador que
adota uma perspectiva afrocentrista, coloca ideais
e valores africanos no centro da investigação. O pes-
quisador coloca-se conscientemente em um lugar,
assumindo suas escolhas ideológicas e teórico-me-
todológicas.
Da mesma forma que se buscam as origens do
pensamento europeu na Grécia e em Roma, a his-
tória e as experiências dos negros devem ser procu-
radas no Egito e nas várias culturas do continente
africano.
O afrocentrismo distingue “estudos negros” de
“estudos sobre negros”. Estes têm sido feitos numa
perspectiva européia e não de concepções e vivên-
cias dos africanos. O afrocentrismo seria, para Mun-
ford, uma ideologia que previne “a síndrome da víti-
ma queixosa”.
A inclusão dos Black Studies nos currículos esco-
lares e universitários incentivou outros grupos discri-
minados institucionalmente a produzirem seus pró-
prios estudos, divulgados numa gama de livros, ma-
teriais didáticos e propostas curriculares focalizando
esses grupos, evidenciando perspectivas da história
dos EUA até então silenciadas.
Os estudos étnicos também garantiram políticas
de acesso a todos os níveis de escolaridade de dife-
rentes grupos étnicos e obrigou educadores a formu-
larem políticas públicas contemplando clivagens in-
ternas dentro de grupos, tidos outrora como homo-
gêneos, como por exemplo, notaram que nem todos
os negros eram oriundos dos EUA, mas também do
Caribe, da América Latina ou da África e que tinham,
portanto, necessidades diferentes. Problemas seme-
lhantes foram colocados para os estudantes porto-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 59
SINPEEM
riquenhos, índio-americanos, asiáticos etc. Muitas
vezes os estudos étnicos atendem apenas parcialmen-
te as demandas de seus destinatários porque não
chegam a provocar mudanças necessárias nas práti-
cas administrativas e na organização das escolas, para
garantir igualdade de oportunidade de acesso aos
conhecimentos difundidos pelas escolas.
Educação multicultural
Professores doutores dos EUA repensaram a edu-
cação em uma perspectiva multiculturalista propon-
do novas metodologias, principalmente para o en-
sino de estudos étnicos e reformulações de currí-
culos e ambientes escolares, articulando cultura e
identidade.
A educação multicultural propõe a reforma das
escolas e outras instituições educacionais, com o
intuito de criar iguais oportunidades de sucesso es-
colar para todos os alunos, quaisquer que sejam seus
grupos: social, étnico/racial, gênero e excepciona-
lidade.
Bennett argumenta que resolver problemas mul-
ticulturalmente será habilidade tão requerida como
ler, escrever e manejar computadores. Nesse senti-
do, uma das metas mais importantes da educação
multicultural é desenvolver nos estudantes habilida-
des para agir efetivamente numa sociedade demo-
crática plural, bem como interagir, negociar e comu-
nicar-se com pessoas de diferentes grupos.
Inicialmente vista como um esforço de combate
ao racismo, a educação multicultural se transformou
em um movimento de reforma do ensino e dos am-
bientes escolares para abarcar a gama de necessida-
des específicas de grupos diversos, inclusive daque-
les que não falam a lingua inglesa.
A pedagogia da eqüidade: sucesso escolar
combate aos preconceitos
Na construção do conhecimento numa perspec-
tiva multicultural, os professores devem ajudar os
alunos a compreender como o conhecimento é cria-
do e como é influenciado pela posição que pessoas,
grupos étnicos e grupos sociais ocupam na socieda-
de. Dessa maneira questionam-se marcos históricos
como a “ocupação do oeste” e a escravidão.
Banks situa a reforma de currículos multicultu-
rais em quatro níveis: no primeiro, os professores
apresentam contribuições de grupos étnicos apresen-
tando heróis e heroínas, datas comemorativas e co-
midas, além de algum dado cultural fundamental; no
segundo, adicionam ao currículo existente, sem ne-
nhuma mudança em sua estrutura conteúdos e te-
mas relativos a um determinado grupo; no terceiro
nível modifica-se a estrutura curricular para que os
alunos aprendam conceitos, analisem fatos e temas
na perspectiva de diferentes grupos sociais; no quar-
to nível, o currículo é construído de forma a permitir
que os alunos reflitam e tomem decisões quanto a
solução de problemas sociais.
Segundo MacLaren, nos dias atuais os indiví-
duos brancos dificilmente desqualificam os não
brancos, mas atribuem aos mesmos déficits cultu-
rais resultados de famílias desestruturadas e caren-
tes de valores positivos. Defendem uma cultura
comum que desvaloriza as raízes não-européias e
que assimila todos os grupos étnicos aos ideais de
branquidade. Para o mesmo autor, alguns liberais
de esquerda desprezam os processos históricos e
sociais, levando muitas vezes um representante de
um determinado grupo como representante de todo
um grupo esvaziando as experiências acumuladas
de determinado setor social. O diálogo multicul-
tural acaba assim, se restringindo a representantes
políticos e acadêmicos e não entre grupos. Sem
uma agenda política de transformação o multicul-
turalismo pode transformar-se apenas em outra for-
ma de acomodação a uma ordem social maior.
MacLaren entende que a diversidade não é uma
meta a se atingida, mas uma afirmação crítica e
um compromisso com a justiça social.
Formação de professores: aprendizado
da diversidade
Nos estados Unidos, desde os anos 70, políti-
cas públicas com o intuito de garantir iguais opor-
tunidades na educação são incentivadas com o
apoio de professores e militantes pesquisadores.
Entre eles até mesmo membros do grupo hegemô-
nico branco participam, pois o multiculturalismo
é um movimento popular com participação de pro-
fessores, pais e alunos.
Os sujeitos de políticas públicas são estudantes
não brancos, com limitada proficiência em língua
inglesa; estudantes do sexo feminino, deficientes,
portadores de alguma doença e integrantes de famí-
lias de baixa renda. Muitas vezes, porém, os aportes
financeiros tem sido insuficientes para o sucesso des-
sas políticas que incluem atenção aos conteúdos
curriculares, à elaboração de livros e materiais didá-
ticos e à formação de professores.
A formação de professores tem merecido espe-
cial atenção de entidades profissionais. Inicialmente
foram criados workshops para sensibilizar os profes-
sores, depois os currículos de formação desses pro-
fissionais foram alterados para tentar satisfazer os
desafios de uma educação multicultural. Vários ca-
minhos para tentar superar uma educação monocul-
tural têm sido tentados: desde trocas interpessoais
com o intuito de eliminar preconceitos contra mino-
rias até treinamentos específicos para lidar com de-
terminadas comunidades ou áreas geográficas com
60 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
problemas. Cursos têm incentivado professores a
desenvolverem estratégias de ensino adequadas a
grupos específicos e incentivado estudantes a fazer
uma análise crítica da sociedade e de suas circuns-
tâncias de vida.
Pesquisas demonstram que professores que se
solidarizam com suas comunidades assumindo a
educação completa de crianças e jovens, têm tido
mais sucesso como educadores numa perspectiva
multicultural.
Críticas à educação multicultural
As críticas feitas à educação multicultural si-
tuam-se em dois pólos que a qualificam como extre-
mista ou como conservadora.
Os conservadores que julgam a educação multi-
cultural extremista acusam-na de causar divisões no
seio da sociedade, de diminuir a excelência acadê-
mica e ainda abominam o afrocentrismo. Argumen-
tam que afro-descendentes e hispano-americanos
teriam melhor desempenho escolar se suas famílias
fossem mais bem estruturadas, se seus professores
fossem mais bem remunerados e se os estudantes
participassem de programas de aceleração de estu-
dos. Ignoram completamente estudos que se debru-
çam sobre as práticas educativas multiculturais. Con-
sideram-se apolíticos e seus argumentos baseiam na
noção de unidade social, e não na supressão das
desigualdades e injustiças.
As críticas vindas da esquerda acusam a educa-
ção multicultural de incentivar a mobilidade indivi-
dual na sociedade, ao invés da mobilidade coletiva,
de não promover uma crítica aos sistemas de opres-
são impostos pelo sistema capitalista e vêm o discur-
so da diversidade cultural como forma de ocultar o
racismo, retificando e despolitizando as culturas. Es-
ses críticos crêem que a educação multicultural é uma
estratégia de acomodação e que não levaria a uma
mudança social significativa.
Para Sleeter, embora as críticas sejam pertinen-
tes, elas foram feitas de fora do campo de ação da
educação, sem conhecimento específico de suas prá-
ticas e desconsideram que a educação multicultural
pressupõe mudança de decisão quanto às formas de
educação; esse poder passaria dos grupos dominan-
tes para os oprimidos.
Os autores citam os trabalhos de duas estudiosas
e militantes da educação multicultural nos EUA: Joyce
Elaine King e Sylvia Wynter. As duas estudiosas par-
ticiparam, desde os anos 60, do movimento pelos
Direitos Civis. Elas centraram suas críticas aos livros
didáticos produzidos então que, apesar de se dize-
rem multiculturais, cristalizavam preconceitos e ra-
cismos. Para elas não era suficiente falar de uma edu-
cação pluriétnica, mas privilegiar maneiras alternati-
vas de produção de conhecimento. Seria preciso evi-
tar a diluição das experiências próprias de grupos
nas referências européias pretensamente dominan-
tes. Afirmaram também que a educação multicultu-
ralista deve incentivar transformações profundas nas
sociedades para eliminar a pobreza global em todos
os níveis.
Vê-se pelas críticas apresentadas, dentro da ex-
periência estadunidense, que educar numa perspec-
tiva multiculturalista significa destrinchar as práticas
e as teorias que norteiam a educação.
Capítulo 3 - O Multiculturalismo na
América Brasileira
Sabe-se que a tão decantada imagem de paraíso
racial criada no Brasil está bastante abalada. Reno-
mados cientistas sociais brasileiros ajudaram a criar
uma das mais eficientes ideologias de dominação em
todo o mundo: ao mesmo tempo em que os brasilei-
ros não abrem mão do orgulho de se auto-definirem
como uma sociedade pluriétnica, índios negros e
mestiços são, a um só tempo, objetos de exaltação e
de exclusão num jogo perverso.
Os autores lembram que esse jogo ajudou a pre-
servar os privilégios das elites dominantes e que o
aprendizado da linguagem também fez parte desse
jogo paradoxal. A língua que dá suporte para que
negros, índios e mestiços compreendam e expres-
sem sua experiência social, contempla, ao mesmo
tempo,um regime particular de representação que
legitima certa realidade cultural.
Os negros e mestiços que adentram no jogo com-
petitivo de nossa sociedade urbana e moderna é que
iniciaram os primeiros questionamentos para denun-
ciar as falácias desse modelo. Os primeiros estudos
clássicos sobre relações raciais,embrião de uma pers-
pectiva multiculturalista no Brasil, em sua versão afro-
brasileira, defendiam uma perspectiva integracionis-
ta, incentivando os negros a se adaptarem à socieda-
de dos brancos.
Os estudos feitos por Roger Bastide e Florestan
Fernandes alertavam para o fato de cidades, como
São Paulo, terem fundado seus padrões culturais em
representações de modernidade que excluíram por
completo uma perspectiva afro-brasileiro, privilegi-
ando os imigrantes europeus na cena cultural e sub-
traindo todo traço de africanidade. Para Fernandes,
a cidade moderna não rejeitava o negro, mas sim
aquilo que havia de africano em sua alma.
Os militantes negros da década de 20, devido a
proximidade com a escravidão tinham muita dificul-
dade em construir uma história centrada em valores
africanos pois suas referências ancestrais mais próxi-
mas eram a senzala, um passado escravocrata recente
que procuravam eliminar.
Foi apenas dos anos 40 que os negros brasileiros
passaram a contar com algumas condições culturais
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 61
SINPEEM
que lhes permitiram questionar as estruturas ideoló-
gicas de construção de sentido então vigentes. Os
autores classificam esse fatores em fatores exógenos
e endógenos.
Os fatores exógenos começaram com o contato
de militantes afro-brasileiros com o movimento pan-
africano nos EUA, na África e na América Central. O
Brasil era a maior diáspora africana do mundo e não
podia ficar de fora dos movimentos de liberação dos
“povos negros”.
As organizações negras dos anos 50 questiona-
ram o fato de a representação diplomática brasileira
ser feita apenas por brancos que nas Nações Unidas
condenavam abertamente o apartheid na África do
Sul e esqueciam completamente o sofrimento dos
negros brasileiros. Tratava-se de reconhecer o valor
dos afro-brasileiros para representar o Brasil fora,
como dizia Abdias do Nascimento, para negociar os
interesses nacionais. Esse movimento, em direção ao
exterior, nutria-se de idéias pan-africanistas e pela
primeira vez, ouviu-se falar da Teoria da Negritude.
A Negritude foi um movimento surgido na Fran-
ça e procurava valorizar as subjetividade negra nas
artes, procurando inverter o estigma da herança
africana como algo negativo. A produção de poe-
sia, veiculada pela revista “Presença Africana” teve
no brasileiro Solano Trindade sua principal expres-
são. Abdias do Nascimento e Guerreiro Ramos fo-
ram pioneiros na defesa da produção artística espe-
cificamente negra.
Lembrando a ação desses militantes negros, os
autores afirmam ser temerário afirmar ser a Negritude
uma teoria que descartasse o problema fundamental
da exclusão social através da ótica da luta de classes.
Outro fator exógeno importante ocorreu com
os estudos financiados pela UNESCO. Após os efei-
tos nefastos da segunda guerra mundial, as Nações
Unidas incentivaram esforços para o aperfeiçoa-
mento de políticas públicas que evitassem a todo
custo o racismo.
O estudos feitos no Brasil, financiados pelas Na-
ções Unidas ajudaram a por por terra o suposto pa-
raíso racial brasileiro. Ao mesmo tempo a constru-
ção da unidade nacional, através da intervenção de
um estado forte impedia o confronto direto entre os
grupos sociais, mas não eliminava as heranças colo-
niais que geravam as desigualdades na sociedade
brasileira. Nesse período uma corrente culturalista
enfatizava o caráter pluriétnico da sociedade brasi-
leira sem descartar as contribuições de outras cultu-
ras, fora a euro-ocidental.
Como fatores endógenos os autores citam a es-
tratégia das elites brasileiras em construir uma pacto
social, incentivando a propagação da cultura popu-
lar. Sem dúvida, a estratégia surtiu efeito no desen-
volvimento econômico, mas criou sérios obstáculos
para a mobilização de grupos de forma autônoma
que pudessem superar as diferenças sociais no país.
A intervenção estatal, especialmente entre 1930 e
1945 fechou partidos políticos e enquadrou patrões
e empregados numa política sindical. O Estado cria-
va a sociedade, construindo um sentimento de brasi-
lidade, impondo de cima para baixo uma identidade
nacional. O Estado assumiu o controle da esfera cul-
tural, servindo-se dela como canal de difusão de sua
doutrina. Dessa maneira, foram consolidada os três
pilares ideológicos da construção da unidade nacio-
nal: a unidade lingüística, a hegemonia do catolicis-
mo e a submissão da diversidade e das desigualda-
des raciais a um modelo cultural dominante.
Entretanto, nem tudo foi tão harmonioso. Reações
contrárias ao projeto de unidade nacional surgiram
nos movimentos populares, em particular nas orga-
nizações negras que questionavam a suposta unida-
de nacional. Grupos como a CNNB (Convenção Na-
cional do Negro Brasileiro) foram criadas para interfe-
rir na reforma constitucional de 1946 e tiveram cará-
ter eminentemente político com o objetivo de aumen-
tar o acesso a cidadania. Estabeleciam alianças táticas
com outros grupos sem abrir mão das especificidades
de suas reivindicações. Outros grupos foram criados
como a Associação dos Negros Brasileiros (ANB) e o
Comitê Democrático Afro-brasileiro (CDA) com o in-
tuito de interferir no processo constituinte. Todos es-
ses grupos concentravam sobretudo militantes cario-
cas e paulistas, pois, de fato, essas cidades estavam na
vanguarda dos movimentos populares.
Todas essas mobilizações formaram a base para
o desenvolvimento das idéias multiculturalistas no
Brasil. Segundo os autores, as transformações cultu-
rais pretendidas pelos afro-brasileiros tinham por
objetivo educar o branco como forma de extirpar o
sentimento de inferioridade do negro enraizado em
nossa cultura.
O trabalho desenvolvido por intelectuais não era
isolado. Organizações que conservavam as tradições
africanas (religiosas e artísticas) tem um papel decisi-
vo para mostrar aos afro-brasileiros que eles são des-
cendentes de culturas ancestrais exuberantes e que
não precisam ter vergonha de suas origens.
O movimento multicultural no Brasil, dentro dessa
perspectiva étnica conservou, inovou e valorizou o
patrimônio cultural afro-brasileiro. As alianças entre
intelectuais, adeptos das religiões afro-brasileiras e
artistas, propiciaram um cenário propício, para que,
através da conscientização de práticas comunitárias
tradicionais, se organizasse melhor os movimentos
multiculturais no Brasil.
Teatro Experimental do Negro:
laboratório de novas subjetividades
Os autores destacam o papel do Teatro Experi-
mental do Negro (TEN) como projeto de vanguarda
62 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
de experiência educativa e de formação de militan-
tes da causa negra no Brasil.
Lembram que na história do cenário artístico e
cultural entre 1940 e 1960 citam-se muitas vezes o
teatro do oprimido, o teatro de arena, o cinema novo
e outros gêneros, esquecendo-se quase por comple-
to o TEN e suas relações com Nélson Rodrigues (que
escreveu em 1946 “Anjo Negro” para o grupo) e das
ligações com Augusto Boal. As experiências desse
grupo serviram como importante “técnica social” de
formação de líderes e para a tomada de consciência
de afro-brasileiros. Pela primeira vez o grupo – que
teve Abdias do Nascimento e Guerreiro Ramos como
líderes – reivindicou publicamente compensações e
facilidades de acesso as escolas e Universidades para
os negros brasileiros.
A aliança com intelectuais, especialmente bran-
cos, visto que na década de cinqüenta menos de 1%
dos professores das universidades eram negros, foi
debatida exaustivamente por intermédio do Jornal
Quilombo. Essa estratégia era vista como fundamen-
tal, apesar de ser extremamente conflitiva em muitas
ocasiões já que os intelectuais brancos deveriam
colocar em cheque as próprias bases da produção
de conhecimento de suas afamadas instituições.
Um diálogo em branco e preto
Os autores descrevem o debate envolvendo dois
emitentes sociólogos, engajados na revisão da cultu-
ra. Guerreiro Ramos – negro, criticava os estudos an-
tropológicos e sociológicos feitos no Brasil que trata-
vam o negro como “objeto” de estudo, tendo por ob-
jetivo a domesticação dos sentidos e estando comple-
tamente alienados da realidade dos negros. Para ele,
apenas uma teoria da negritude, feita por negros po-
deria superar os acentos nos aspectos exóticos e pito-
rescos, feitos por estudiosos brasileiros que se com-
portavam como se acabassem de ter chegado ao país.
Roger Bastide – branco, batia-se frontalmente às
posições de Guerreiro Ramos. Argumentava que raça
e cultura eram coisas diferentes e que era possível
ser africano sem ser negro. Para ele, para ser africa-
no, era preciso estar aberto para incorporar sua cul-
tura e, em seguida, ser aceito em seu mundo.
Os autores sublinham que os debates não se cir-
cunscreveram aos dois autores expostos acima e que
embora as bases do multiculturalismo no Brasil te-
nham sido fincadas pelos movimentos dos anos 50,
elas inda não eram suficientes para produzir modifi-
cações no “jogo de representações” onde se prolife-
ravam imagens negativas dos negros brasileiros.
Multiculturalismo e diversidade
O Teatro Experimental do Negro teve forte in-
fluência nos eventos culturais nos anos 70 e 80. Jo-
vens negros partiriam dessa experiência para organi-
zar uma série de encontros para refletir sobre a con-
dição social do negro no Brasil.
Movimentos como o MNU (Movimento Negro
Unificado) propunham que o protesto racial fosse
formulado em todos os meios onde o negro vive:
partidos políticos, sindicatos, organizações religio-
sas, bairros, comunidades e escolas. Um exemplo
dessa mudança de estratégia são os “blocos afro” de
Salvador que aliam a “tradição dos orixás” a protes-
tos políticos e têm realizado experiências educacio-
nais bem interessantes e surtido efeito na formação
multicultural da sociedade.
Poetas e escritores negros também tiveram im-
portante papel na produção de uma literatura negra,
fundamental para o combate multiculturalista. Os
Cadernos Negros foram, talvez, um dos mais expres-
sivos empreendimentos nesse sentido.
A partir dos anos 80, o multiculturalismo foi co-
locado na agenda dos próprios militantes do movi-
mento negro que se deram conta de sua diversidade
interna. Não formavam um grupo monolítico, mas
abrigavam mulheres, homossexuais, jovens e mem-
bros de religiões não necessariamente afro-brasilei-
ras e que tinham suas especificidades. Cada qual
começou a se destacar e reivindicar políticas públi-
cas que defendessem seus interesses.
Pode-se afirmar que nos últimos vinte anos a le-
gislação brasileira se tornou um importante indutor
de políticas públicas multiculturais, obtendo-se avan-
ços como o reconhecimento de crime racial como
inafiançável, pela constituição de 1988; o debate em
torno da união civil entre pessoas do mesmo sexo e
a proteção e divulgação da cultura de raiz africana.
A década de 90 foi decisiva no campo da luta
contra o racismo no Brasil. A “Marcha de Zumbi con-
tra o Racismo e a Discriminação Racial” realizada
em Brasília teve um estrondoso sucesso em mobili-
zar entidades do movimento negro, organismos in-
ternacionais e organizações defensoras dos diretos
humanos.
Um seminário, organizado pelo Ministério da Jus-
tiça em Brasília reuniu celebridades nacionais e in-
ternacionais do mundo acadêmico para discutir de-
safios e impasses produzidos por políticas públicas
voltadas para grupos discriminados racialmente. Pela
primeira vez, o próprio chefe de estado brasileiro
reconheceu que o Brasil era um país racista e a ne-
cessidade do Estado promover políticas públicas de
promoção social.
Como resposta aos reclamos da “Terceira Confe-
rência Mundial Contra o Racismo, Discriminação
Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas”, em
2001, em Durban, na África do Sul, o governo brasi-
leiros criou o “Programa de Ações Afirmativas para
homens e mulheres negros. Foram criadas cotas por
raça em concursos públicos.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 63
SINPEEM
A gestão federal de 1999 a 2002 esquivou-se da
criação de cotas raciais nas universidades públicas,
limitando-se à tentativa de melhoria da qualidade do
ensino médio.
A atual gestão federal criou a partir de 2003 a
Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Ra-
cial e a Secretaria Especial de Políticas da Mulher,
ambas com status de ministério.
Dessa maneira criaram-se condições favoráveis
para implementar políticas multiculturais no Brasil,
especialmente com a promulgação da lei 10.639 que
obriga a introdução de estudos de cultura e História
da África e dos afro-descendentes em todos os níveis
de ensino. Esforços têm sido feitos por universidades
para se formarem educadores que dêem conta dessa
nova demanda.
Embora ainda seja cedo para avaliar os resulta-
dos de tais iniciativas, os autores consideram que os
alicerces estão postos para a implementação de uma
educação multicultural no Brasil.
Estudos Culturais e Pesquisa em Educação
no Brasil
Para concluir o volume os autores discorrem so-
bre os obstáculos atuais para construir uma educa-
ção multicultural no Brasil. Para efetivá-la são ne-
cessárias duas condições básicas.
Primeira: a educação multicultural não pode ser
separada do contexto de luta dos grupos culturalmen-
te dominados. No Brasil, esses movimentos não tem
efetiva relação com os sistemas de ensino. Duas ex-
periências são destacadas como bons exemplos: a
educação indígena, que respaldada em dispositivo
constitucional privilegia a formação de professores
em várias nações indígenas. Outras experiências re-
ferem-se a educação de jovens e crianças negras. No
estado de São Paulo, a secretaria de educação intro-
duziu nos currículos escolares a obrigatoriedade de
temas pertinentes à cultura negra. Em Salvador, des-
tacam-se as iniciativas de influentes grupos culturais.
Em várias escolas brasileiras, em particular no sul
do Brasil, o ensino bilíngue também tem se mostra-
do uma importante ferramenta rumo à diversidade
cultural.
Já o caso de estudos em torno da questão femini-
na, sem apelo étnico tem tido pouco destaque nos
sistemas escolares.
A segunda condição básica para a efetivação de
políticas culturais é a produção acadêmica em torno
de tema que possam dar sustentação aos projetos
educacionais desenvolvidos pelos sistemas de ensi-
no. Segundo levantamentos apresentados pelos au-
tores, levando em consideração teses e dissertações,
nos períodos 1981-1997 e 1998-2004, os estudos
envolvendo educação e multiculturalismo são muito
escassos no Brasil. Além de poucas, 90% concentra-
vam-se no sul e sudeste, 60% nos estados de São
Paulo e Rio Grande do Sul.
Apesar de repercutirem pouco a pouco as deman-
das sociais apresentadas às universidades brasileiras,
esses números indicam o largo caminho a percorrer
na formação de profissionais voltados para a proble-
mática da educação multiculturalista em nosso país.
Resumo realizado por Lourival dos Santos, dou-
tor em História Social pela USP.
64 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
AVALIAÇÃO DESMISTIFICADA
HADJI, Charles. Porto Alegre, Artmed, 2001
Este resumo terá como finalidade apresentar os
aspectos relevantes de cada parte, a partir das pala-
vras do próprio autor, considerando os conceitos de-
senvolvidos ou explicitados por ele, bem como as
articulações estabelecidas para justificar sua funda-
mentação teórico-metodológica.
Da utopia à realidade: seria finalmente
possível passar à ação?
A idéia de “aprendizagem assistida por avalia-
ção”, uma avaliação capaz de compreender tanto a
situação do aluno quanto de “medir” seu desempe-
nho; fornecer-lhe indicações esclarecedoras, mais do
que oprimi-lo com recriminações; preparar a opera-
cionalização das ferramentas do êxito, mais do que
resignar a ser apenas um termômetro (instrumento)
do fracasso; uma avaliação que se consagre à regu-
lação das aprendizagens, capaz de orientar o aluno
para que o próprio possa situar suas dificuldades,
analisá-las e descobrir ou operacionalizar os proce-
dimentos que lhe permitam progredir. Assim, o erro
seria uma fonte de informação tanto para o professor
como para o aluno. O que está em jogo é a existên-
cia de uma atividade autônoma de avaliação.
1ª parte: COMPREENDER que a avaliação
formativa não passa de uma “utopia promissora”
A questão da avaliação é multidimensional. A
avaliação a serviço das aprendizagens pressupõe o
princípio de que avaliar deve tornar-se auxiliar do
aprender. O que é ensinar senão ajudar os alunos a
construir saberes e competências que a “freqüência”
às disciplinas escolares apela e cuja construção per-
mite? A avaliação tem o objetivo de contribuir para o
êxito do ensino, para a construção desses saberes e
competências pelos alunos. O que parece legítimo
esperar do ato de avaliação depende da significação
essencial do ato de ensinar.
- Avaliação de referência normativa, avaliação de
referência criteriada: toda avaliação socialmente or-
ganizada, anunciada e executada como tal dentro de
uma instituição é normativa. A norma, em si, não é
nem subjugante nem liberadora. No sentido social,
uma norma é um modelo de comportamento valori-
zado por um grupo. No sentido estatístico, o compor-
tamento mais corrente. É dita normativa uma avalia-
ção cuja ambição é situar os indivíduos uns em rela-
ção aos outros. A avaliação normativa opõe-se à ava-
liação criteriada: designa-se por essa expressão uma
avaliação que aprecia um comportamento, situando-
o em relação a um alvo. Ou, tecnicamente, um modo
de proceder em que se considera a distância em rela-
ção aos outros antes de considerar a distância em re-
lação ao alvo visado. Poder-se-ia pensar que, a priori,
é mais formativa uma avaliação centrada em objeti-
vos claramente definidos. Parece-nos certo que a per-
cepção correta, pelo aluno, do alvo visado é uma das
condições de seu êxito. A “formatividade” não reside
na forma externa da atividade de avaliação.
- Avaliações prognóstica, formativa e cumulati-
va: 1) A avaliação precede a ação de formação. Ava-
liação prognóstica (ou diagnóstica) tem a função de
permitir um ajuste recíproco aprendiz/programa de
estudos (seja pela modificação do programa, que será
adaptado aos aprendizes, seja pela orientação dos
aprendizes para subsistemas de formação mais adap-
tados a seus conhecimentos e competências. 2) A
avaliação ocorre depois da ação. Avaliação cumula-
tiva tem a função de verificar se as aquisições visa-
das pela formação foram feitas, para expedir ou não
o “certificado” de formação no final. 3) A avaliação
situa-se no centro da ação de formação. Formativa,
porque sua função principal é contribuir para uma
boa regulação da atividade de ensino. Toda avalia-
ção tem uma dimensão cumulativa. Deveria ter, tam-
bém, uma dimensão prognostica no sentido de con-
duzir a um melhor ajuste ensino/aprendizagem.
- Avaliação formativa como utopia promissora:
É uma avaliação informativa. a) Torna-se formativa
na medida em que se inscreve em um projeto educa-
tivo específico, o de favorecer o desenvolvimento da-
quele que aprende. A partir do momento em que in-
forma, ela é formativa. b) Uma avaliação formativa
informa os dois principais atores do processo. O pro-
fessor seria informado dos efeitos reais de seu traba-
lho pedagógico. O aluno poderá tomar consciência
das dificuldades que encontra, tornando-se capaz de
reconhecer e corrigir os próprios erros. c) Função
“corretiva”. A avaliação formativa implica, por parte
do professor, flexibilidade e vontade de adaptação,
provocando o aumento da variabilidade didática. O
ato de formação se traduz por uma melhor articula-
ção entre a coleta de informações e a ação remedi-
adora. Sintetizando, a idéia de avaliação formativa
corresponde ao modelo ideal de uma avaliação.
- Os obstáculos à emergência de uma avaliação
formativa: a) A primeira maneira de deixar de lado
as representações inadequadas é voltar-se para o sa-
ber sem esperar milagres da difusão desse saber. b)
Necessário voltar-se para o saber para superar um
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 65
SINPEEM
segundo obstáculo constituído pela pobreza atual dos
saberes necessários, pois a EVF implica trabalho de
interpretação das informações coletadas. Exige, “a
princípio”, poder “referir-se a um quadro teórico que
dê conta dos múltiplos aspectos (cognitivo, afetivo,
social) das aprendizagens”. c) O terceiro obstáculo é
a preguiça, ou o medo, dos professores, que não
ousam imaginar remediações.
Resumindo, a avaliação formativa não é nem um
modelo científico, nem um modelo de ação direta-
mente operatório. Não é mais do que uma utopia
promissora, capaz de orientar o trabalho dos profes-
sores no sentido de uma prática avaliativa colocada
a serviço das aprendizagens.
2 - COMPREENDER que avaliar não é medir,
mas confrontar em um processo de negociação:
A avaliação não é uma medida.
A prova pela notação.
- A impossível reforma do instrumento-avaliador:
é inútil insistir em tornar a avaliação tão objetiva
quanto uma medida, razão pela qual todos os proce-
dimentos de redução de divergências das notas re-
velam-se pouco eficazes. a) a maior parte não passa
de procedimentos de moderação estatística, atenu-
ando os efeitos mais visíveis da incerteza da corre-
ção. b) os procedimentos a priori (acordo entre cor-
retores, tabela comum) também não são muito efica-
zes quando se trata da operacionalização de uma
tabela, da qual se podia esperar muito.
Assim, a progressão para a objetividade depende
de uma especificação do objeto da avaliação, de
maneira a relacionar coerentemente o objeto avalia-
do e o exercício de avaliação. Para isso, será preciso
construir, no ato da avaliação, o objeto de avaliação.
- Avaliação é um ato que se inscreve em um pro-
cesso geral de comunicação / negociação, é “uma
interação, uma troca, uma negociação entre um ava-
liador e um avaliado, sobre um objeto particular e
em um ambiente social dado”(Weiss). As práticas ava-
liativas apresentam-se como trocas de questões e de
respostas, no decorrer das quais se instaura um certo
número de mal-entendidos sobre, no que diz respei-
to ao aluno, o sentido das questões e sobre o que o
professor espera. Para o aluno pode ser difícil distin-
guir os momentos de aprendizagem e os momentos
de avaliação. Dessa forma, o erro é permitido no pri-
meiro caso. Sancionado no segundo. Os processos
psicossociais complexos postos em jogo pela avalia-
ção dependem também das condições sociais da pró-
pria prova de avaliação. Os alunos têm comporta-
mentos diferentes em situação de anonimato ou de
visibilidade; e seus desempenhos também mudam
se estiverem em situação de comparação social (de-
clara-se que todos têm o mesmo nível ou diferentes).
Conclui-se: “os desempenhos cognitivos não são
independentes das condições sociais”. O aluno deve
interpretar a situação de avaliação para imaginar a
intenção provável daquele que o interroga. Seu de-
sempenho depende dessa interpretação.
- A percepção que o examinador tem do desem-
penho é igualmente dependente do contexto social
– A avaliação é sempre influenciada pela conside-
ração de informações a pirori: a) o conhecimento
das notas anteriormente obtidas pelo produtor do
trabalho influencia a avaliação deste; b) o conheci-
mento do estatuto escolar do aluno (nível forte, fra-
co) influencia a correção; c) a posse de informações
referentes à origem socioeconômica do produtor do
trabalho também influencia a correção.
- avaliação escolar traduz arranjos em uma di-
nâmica de negociações: é um ato de comunicação
em um contexto social de negociação; inscreve-se
em um processo de negociação didática. Negocia-
ção e comunicação andam juntas. O que a avalia-
ção escolar precisa para progredir (mais justiça e ob-
jetividade) é de um “contrato social”.
- A AVALIAÇÃO é um ato de entre uma situação
real e expectativas referentes a essa situação: é uma
leitura influenciada por expectativas específicas re-
ferentes à produção de um produtor particular, em
função do que se sabe, ou do que se descobre, pro-
gressivamente, sobre ele. Avaliar um trabalho con-
siste em dizer o que ele vale, dar uma nota. Mas,
deve-se observar que essa atribuição de valor pode
assumir a forma de um discurso(é bom; ele é muito
bom), de um sorriso… ou de uma careta.
Resumindo: todo julgamento de avaliação é ins-
titucional. Existe uma equivocidade dos vereditos. Ela
não é uma operação científica; expressa a adequa-
ção ou não com saber.
- a avaliação é uma leitura orientada por uma
grade que expressa um sistema de expectativas jul-
gadas legítimas, que constitui o referente da avalia-
ção: é uma relação de não-indiferença com o objeto
avaliado. Exige: a) a construção daquilo que foi de-
signado como seu referente, ou seja, um conjunto
de critérios especificando um sistema de expectati-
vas. Cada critério define o que se julga poder esperar
legitimamente do objeto avaliado. b) o que percebe-
mos como caráter vago do objeto de avaliação tem
sua origem, além da “espessura” e da opacidade do
“objeto” avaliado, na imprecisão e no caráter vago
das expectativas. A leitura se faz graças aos critérios,
através deles. c) o ato de avaliar implica bem mais
66 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
do que objetividade ou verdade, um imperativo de
legitimidade. d) o referente de cada operação de ava-
liação deve ser construído a partir de um sistema plu-
ral de expectativas, selecionando, escolhendo as ex-
pectativas a considerar prioritariamente para deter-
minada avaliação.
- a avaliação é uma leitura que implica constru-
ção de um “modelo reduzido” do objeto avaliado,
que será o referente da avaliação:
a) o indicador jamais é um dado imediato, que
bastaria apanhar, abaixando-se. É sempre o resulta-
do de um trabalho de elaboração, de construção, feito
à luz dos critérios. Um indicador não indica nada
que não esteja relacionado a um critério; b) é a coe-
rência critérios/indicadores que importa. Nisso resi-
de a objetividade que se pode esperar de um julga-
mento de avaliação. Ele deve dizer o valor, basean-
do-se nos sinais (indicadores) mais característicos da
realidade (é preciso que os indicadores desvelem o
próprio objeto), mas com referência às expectativas;
c) Sendo o referido – aquilo a partir do que se pode-
rá fazer o julgamento de valor – assim construído
por meio de levantamento de indícios ou de indica-
dores (pelo termo referido= conjunto de informação
que foi possível produzir para a avaliação), o ato es-
pecífico de avaliação, que leva à produção de um
julgamento de valor, consiste em relacionar um refe-
rido e um referente para dizer em que medida a rea-
lidade apreendida por meio do referido esta de acor-
do com o ideal que transparece no referente.
3 - COMPREENDER que é possível responder a
três questões pertinentes: Deve –se abandonar
toda pretensão à objetividade Quantitativa?
1ª Hipótese: a avaliação é um ato sincrético es-
sencialmente baseado na intuição do avaliador. Os
julgamentos dos professores, baseados em impres-
sões cotidianas e que traduzem uma intuição glo-
bal, prevêem melhor o êxito escolar do que os re-
sultados cifrados fornecidos pelas provas aparente-
mente mais rigorosas e objetivas. Como dar conta
desse paradoxal valor prognóstico das apreciações
“subjetivas” dos professores?
a) os professores são aqueles que mais conhecem
os seus alunos. Desse ponto de vista, há uma verdade
da intuição, como se o professor dispusesse de um
“sexto sentido” que lhe permitisse integrar informa-
ções difusas (dimensão sincrética da avaliação) e dar-
lhes sentido no contexto escolar e social próprio ao
aluno; b) os professores são aqueles que mais conhe-
cem o funcionamento do sistema escolar, assim como
“as exigências escolares formais, as expectativas soci-
ais dominantes, freqüentemente implícitas”; c) a ava-
liação é um ato de correlação. Os professores correla-
cionam as características, não somente escolares, mas
também comportamentais e sociais dos alunos, com
as expectativas do sistema escolar; d) se as avaliações
qualitativas dos professores revelam-se mais confiá-
veis do que as avaliações quantitativas dos especialis-
tas, é porque a avaliação é um procedimento interati-
vo e social; e) os professores têm a possibilidade de
ajustar os resultados escolares às suas representações
dos alunos, o que explica que os resultados obtidos
nas diversas avaliações formais, virão coincidir com a
imagem intuitiva que tinham feito.
2ª Hipótese: avaliação é um ato que tem mais a
função de explicar do que descrever. O avaliador en-
contra-se diante de dois riscos simétricos: 1º - reduzir a
realidade e seu sentido, contentando-se com um único
indicador; 2º - diluir esse saber em um número excessi-
vo de indicadores, o que obscurece o essencial e não
mais possibilita extrair o sentido das constatações fei-
tas. Nos dois casos existe um terceiro risco que é o de
tomar um indicador por um critério (ou de se satisfazer
com critérios que não são senão indicadores). Conten-
tar-se com indicadores equivale a estancar a reflexão
prévia e agir como se ela tivesse sido feita.
3ª Hipótese: avaliar é fazer agir a descontinui-
dade dos valores, não a continuidade das cifras.
Avaliar significa dizer o valor, pronunciar-se sobre
um aumento de valor, em nome de uma expectativa
que só se legitima na medida em que ocorre sobre
um aspecto do real que pode ser “lido” através de
um valor. Medir consiste produzir um “descritivo or-
ganizado” da realidade que se apreende e encerra
em uma “cadeia quantitativa”. Avaliar consiste “que-
brar a continuidade dessa cadeia”. A afirmação de
que a avaliação é qualitativa equivale assim a uma
chamada à ordem. O essencial é organizar-se para
dizer se o fato aproxima-se do valor. Desse ponto de
vista, para o avaliador, é um erro recusar-se a enun-
ciar os valores em nome dos quais ele decide. Isso
não acarreta uma recusa à quantificação. As cifras
podem ser úteis… quando se sabe a que objetivo e a
que valor elas remetem. Assim como a ausência de
indicadores cifrados torna a avaliação incerta, o es-
quecimento dos critérios torna-a impossível…
- DEVE-SE recusar-se a julgar? Recusar o julga-
mento parece excessivo: a) o ato avaliativo situa-se
em um contexto de valorização. A escola já toma
partido ao impor dados! À arbitrariedade do ato de
imposição acrescenta-se, com efeito, a arbitrarie-
dade do conteúdo imposto; b) se há avaliação há
julgamento, na medida que todo objetivo implica
valorização da ação; todo sentimento de êxito ou
de fracasso relacionam-se a critérios caracterizados
por sua pluralidade e por sua exterioridade em rela-
ção aos dados simplesmente observáveis; a especi-
ficidade do ato de avaliação é pronunciar-se sobre
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 67
SINPEEM
uma situação real observada. Conclui-se que não é
possível avaliar sem julgar, e o problema do avalia-
dor é não se deixar levar por uma embriaguez judi-
cial, e fornecer as informações que permitam ao
aluno julgar com conhecimento de causa: conheci-
mento das expectativas legítimas, do objetivo valo-
rizado, de sua situação, de suas próprias modalida-
des de funcionamento intelectual.
- DEVE-SE… continuar a avaliar? Avaliação é ape-
nas um auxiliar da ação pedagógica. O importante
para os professores-avaliadores é ensinar, ajudar os
alunos a progredirem em suas aprendizagens. Com
a avaliação formadora, tudo se reordena em torno
da atividade do aprendiz. A regulação externa cede
lugar à auto-regulação. E a auto-avaliação torna-se
chave do sistema. É a preocupação de facilitar as
aprendizagens que lhe dá sentido e coerência: Con-
cluiremos: a) o interesse da avaliação formadora é
inegável. Sempre se ganhará privilegiando a auto-
regulação, facilitando a apropriação pelo aluno dos
critérios de realização e dos critérios de êxito; b) há
nisso uma prática pedagógica bem mais do que uma
de avaliação. Ela não é exclusiva e não poderia por
um termo na busca de práticas pedagógicas sensatas
e eficazes; c) no que diz respeito à atividade de ava-
liação, a análise das tarefas é um fato importante,
mas não é a totalidade dessa atividade. É preciso sa-
ber como o processo de avaliação escolar pode se
organizar de modo pertinente (em relação às suas
intenções, e em coerência com o que a pesquisa
ensinou). Ainda que avaliar não seja medir, e que
não haja, em última hipótese, a avaliação senão
qualitativa,é possível, com a condição de não come-
ter o erro que consiste em acreditar que basta obser-
var o real para avaliar, buscar uma maior objetivida-
de, no que tange ao referido, na consideração de
dados quantificáveis. Embora a avaliação, sobretu-
do com intenção formativa, deva imperativamente
tornar-se informativa, ela só existe com a condição
de se pronunciar sobre a adequação da realidade às
expectativas. Embora o essencial, para uma avalia-
ção com intenção formativa, seja integrar-se em pro-
cesso pedagógico, o ato de avaliação não deixa de
permanecer autônomo e necessário, necessário em
sua autonomia.
2ª parte: AGIR – Guia metodológico para tornar
a avaliação mais formativa
Dos pontos de vista: 1) dos objetivos da prática
avaliativa, compreendemos que se deva privilegiar a
auto-regulação; desvincular, na medida do possível,
o escolar do social; pela designação e pela explicita-
ção do que se espera construir e desenvolver do en-
sino; de maneira que o aluno perceba o “alvo” visa-
do; aproprie-se tanto dos critérios de realização quan-
to dos critérios de êxito… e esteja em condições de
julgar sua situação com conhecimento de causa; tor-
nando-se o professore capaz de fundamentar as re-
mediações feitas sobre os diagnósticos elaborados;
diversificar sua prática pedagógica, por meio de um
aumento de sua “variabilidade didática”. 2) das mo-
dalidades da prática avaliativa, compreendemos que
o professor não devia autolimitar sua criatividade e
sua imaginação; que devia ter a preocupação de fa-
lar “correta” e pertinentemente; privilegiando a ava-
liação em segunda ou até em primeira pessoa. 3) das
condições técnicas da avaliação, compreendemos
que se trata de relacionar de maneira coerente o exer-
cício de avaliação ao objeto avaliado; de explicitar
os exercícios; de especificar o sistema de expectati-
vas e os critérios; de não se afogar em um mar de
observáveis, ampliando, entretanto, o campo das
observações a fim de tornar a avaliação mais infor-
mativa. 4) da deontologia do trabalho do avaliador,
compreendemos que tem o dever de jamais se pro-
nunciar levianamente; de construir um “contrato so-
cial”, fixando as regras do jogo; de despender tempo
para refletir e identificar o que julgava poder esperar
dos alunos; de desconfiar do que parece ser eviden-
te; de enunciar os valores em nome dos quais se to-
mava decisões (transparência); de não se deixar le-
var por uma embriaguez judiciária.
Condições do professor para avaliar:
1ª - Ter sempre o objetivo de esclarecer os atores
do processo de aprendizagem;
2ª - Recusar limitar-se a uma única maneira de
agir, a práticas estereotipadas;
3ª - Tornar os dispositivos transparentes;
4ª - Desconfiar dos entusiasmos e dos abusos
de poder.
4 - AGIR DESENCADEANDO DE MANEIRA
ADEQUADA
- A questão do dispositivo: a) para o profissional
em atividade, avaliar significa escolher exercícios,
provas, aos quais submeter os alunos. Interroga-se
como apreciar os conhecimentos: avaliação oral ou
escrita? Construir um dispositivo de avaliação con-
siste em determinar condições. Trata-se de dizer so-
bre o que será a avaliação, quando ocorrerá, o tem-
po que lhe será concedido, as tarefas que o aluno
deverá realizar, o tipo de atuação que será levado
em conta, o suporte privilegiado (escrita ou fala) etc.
b) Levantar a questão do dispositivo não nos afas-
ta do problema da construção do referente. O disposi-
tivo é constituído pelo exercício de avaliação: o pro-
blema a resolver; o tema da dissertação etc. Como
escolher pertinentemente esses exercícios? Uma ma-
neira de fazê-lo é buscar um banco de instrumentos.
A escolha dos exercícios é o último momento
68 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
de um processo que poderíamos resumir em qua-
tro regras:
1ª - Determinar as questões que devem ser res-
pondidas por meio da avaliação;
2ª - Determinar, eventualmente, decisões que
podem ser tomadas após a avaliação;
3ª - Estabelecer os espaços de observação;
4ª - Escolher, enfim, os instrumentos de coleta
de dados.
- A necessária articulação objeto-exercícios. De
quatro exemplos de procedimentos que terminam pela
construção de exercícios/desencadeadores, podemos
reter que: a) o essencial é situar-se em um procedi-
mento que vai das intenções (objetivos) aos instrumen-
tos. Somente no âmbito de tal conduta os exercícios
poderão encontrar sua validade ou sua pertinência;
b) nessa linha de conduta, uma tarefa fundamental
(critério de realização da construção do desencadea-
dor) é determinar os comportamentos que se deverá
observar em função dos objetivos perseguido no pla-
no pedagógico. São esses comportamentos que deter-
minam os “espaços de observação”, quer sejam de-
signados como grandes tipos de atividades ou capaci-
dades, atividades observáveis, competência a revelar
ou competências requeridas; c) a preocupação cons-
tante é a de articular os exercícios de avaliação ao
objeto avaliado; d) Essa conduta pode ser realizada
de modo solitário; mas pode ser mais fecunda se exe-
cutada na base de um grupo de trabalho como lugar
de trocas, distanciamento e de confronto; e) a escolha
do que será observado dependerá das expectativas
referentes aos alunos. Os procedimentos ou métodos
supracitados trazem respostas operatórias à questão
da construção do referente, em uma perspectiva didá-
tica (dos conteúdos do ensino aos objetos a avaliar).
- A tarefa, como desencadeador privilegiado:
uma tarefa é um trabalho determinado, com vistas a
um produto final que constitui um objeto que tem
sua própria consistência. Analisar a tarefa é eviden-
ciar o que se poderia chamar de sua arquitetura, em
torno de quatro dimensões fundamentais: a) O alvo
ou objetivo da tarefa corresponde ao produto alme-
jado. Essa produção será o resultado material da ati-
vidade desenvolvida pelo sujeito; b) os critérios de
realização ou procedimentos das tarefas, que repre-
sentam as ações ou operações constitutivas de cada
tarefa escolar específica. Por isso, são designados
como “regras” a respeitar, procedimentos fixos e ca-
racterísticos, conjunto de atos concretos almejados,
invariantes constitutivas; c) os critérios de êxito fi-
xam limiares de aceitabilidade para os resultados das
operações que correspondem aos critérios de realiza-
ção; d) as condições de realização constituem a últi-
ma série dos elementos em jogo na base de orienta-
ção. Podem distinguir condições externas (tempo con-
cedido; trabalho individual ou grupo etc.) e internas
(conhecimentos mobilizados etc.). A ficha da tarefa
deverá esclarecer as condições externas. Cabe ao alu-
no conduzir a análise das condições internas (e ao
professor, tê-lo treinado para fazer tal análise!).
Existe um risco do ponto de vista da aprendiza-
gem e da avaliação: uma fixação sobre as tarefas
poderia levar a aceitar, como evidente, as tarefas es-
colares tradicionais; e perder seu sentido na rotina
da atividade escolar e não passar de uma tarefa for-
mal. Há a necessidade de buscar tarefas cada vez
mais pertinentes e rumo a tarefas cada vez mais com-
plexas, definidas por meio de quatro características:
pluralidade das habilidades requeridas; autonomia
de resposta deixada ao indivíduo; multidimensiona-
lidade; variabilidade.
A avaliação de uma tarefa complexa deverá atentar
para a definição de seus objetivos; determinação de
critérios de realização claramente identificáveis e ex-
plicitados;determinaçãodeespaçosdeobservaçãocuja
pluralidade corresponda àquela das dimensões da ta-
refa; operacionalização de uma estratégia de avaliação
que permita observar o aprendiz em várias situações
que podem corresponder à “competência geral”.
5 - AGIR observando/interpretando de
maneira pertinente
O exame das dificuldades e dos limites inerentes
à tarefa de observar vai permitir que compreenda-
mos melhor como se pode superar a dificuldade cons-
tituída pelo intricamento das duas.
- A tensão observável/inobservável: o desempe-
nho jamais é um indicador claro da competência, que
é sempre inferida. Todo o problema é encontrar os
observáveis capazes de “manifestar” a competência
da maneira menos ambígua. Como não tem solução
imediata, distinguem-se níveis de avaliação baseada
na existência de níveis de competência: 1º é aquele
dos comportamentos esperados; 2º dos procedimen-
tos utilizados pelos alunos na execução da tarefa; um
3º nível é o das representações e dos processos.
- O problema da análise dos erros: deve-se defi-
nir quais informações será pertinente reter, com a
necessidade de um bom acordo quantidade/quali-
dade. Seria mais satisfatório substituir o sistema bi-
nário (acerto/erro) por um sistema de codificação
compreendendo as categorias seguintes: resposta
exata; resposta parcialmente exata; resposta pouco
exata; reposta inexata; ausência de resposta? Por um
lado, em caso de resposta não prevista nas instruções,
o professor “saberá interpretar”. Por outro, o essencial
é poder determinar tipos de erro. O desafio é passar
da questão “quantos erros?” à questão “que tipo de
erros?”. O essencial é ter vontade de compreender os
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 69
SINPEEM
erros para criar as condições de sua superação.
- Facilitar um procedimento de auto-avaliação:
o primado da auto-avaliação não é, na verdade, se-
não a expressão de uma dupla vontade: 1ª) a vonta-
de de privilegiar a regulação da ação de aprendiza-
gem, em relação à constatação dos efeitos produzi-
dos por essa ação ( perspectivas dinâmica e pedagó-
gica); 2ª) A vontade de desenvolver atividades de
metacognição. Por meio desse processo, o sujeito
toma distancia em relação aos conteúdos envolvi-
dos pelas atividades cognitivas em andamento. A
metacognição é sinônimo de atividade de autocon-
trole refletido das ações e condutas do sujeito que
aprende. Implica uma tomada de consciência, pelo
sujeito, de seu próprio funcionamento. Por meio da
auto-avaliação, é visado exatamente o desenvolvimen-
to das atividades de tipo cognitivo, como forma de
uma melhoria da regulação das aprendizagens, pelo
aumento do autocontrole e da diminuição da regula-
ção externa do professor. Em resumo, poder-se-ia dis-
tinguir, do próprio ponto de vista da auto-avaliação,
quatro atividades que correspondem (a grosso modo)
a quatro momentos na “construção” da auto-avalia-
ção como “habilidade”, conforme esquema:
autocontrole espontâneo ou regulação
cognitiva implícita
autonotação autobalanço autocontrole crítico regulação
autoconstatação instrumentalizado metacognitiva
auto-regulação
Os instrumentos de auto-avaliação não terão o
mesmo sentido e não produzirão os mesmos efeitos,
conforme seu lugar nos diferentes momentos desse
processo de construção de auto-avaliação como ha-
bilidade.
6 – AGIR, comunicando de modo útil
- Algumas pistas para uma comunicação mais for-
mativa: é saber captar as reações dos alunos, suas
questões sobre o sentido e o alcance do que foi dito
pelo avaliador, seus pedidos de explicação sobre as
apreciações e notas. Organizar o feedback, institucio-
nalizando momentos de trocas e de questionamentos
sobre as “avaliações” do professor. Uma grade de ques-
tionamento bastante operatória para o professor:
- A quem se dirige precisamente minha mensa-
gem? Ela é suficientemente explicita?
- O código escolhido (nota cifrada, apreciação) é
plenamente acessível ao aluno receptor?
- Estabeleci as possibilidades necessárias de “fe-
edback” para estar certo de que a mensagem foi com-
preendida?
- Comunicação, Deontologia, Ética à Como cons-
truir a ética do “agir avaliacional”? Observando que o
ato de avaliação é um ato de posicionamento, no sen-
tido de: tomada de posição sobre. Desse ponto de vis-
ta, avaliar é, talvez o mais primitivo ato da mente hu-
mana. Para avaliar, é preciso ter a sensação de que as
coisas valem.O ato de avaliação implica uma relação
não indiferente com o mundo, pois capaz de corres-
ponder, ou não, a expectativas valorizadas. As situa-
ções são “lidas” através de um projeto (em pedagogia:
o projeto de instruir) que as atravessa e lhes dá senti-
do. O avaliador não pode ser neutro ou ausente. Ele
toma partido (sobre a satisfação de suas expectativas).
Uma ética da fala avaliativa leva ao princípio de
ação que pode ser assim resumido: assumir o risco
de falar verdadeiramente, dando um verdadeiro con-
teúdo à comunicação. A ética é a busca de imperati-
vos categóricos que expressem regras necessárias,
que valham universalmente, quaisquer que sejam as
circunstâncias. Propomos um método simples para
conduzi-la: fazer incessantemente a pergunta: “E por
que?” Princípios surgirão então: 1º) princípios de or-
dem ética - deve-se fazer o que se revela eficaz em
um campo de exercício profissional determinado. E
por quê? Porque uma ação deve atingir seus objeti-
vos; 2º) princípios de ordem deontológica - etimolo-
gicamente, a ciência dos deveres. Deve-se fazer o
que é considerado legítimo em uma comunidade de
ação determinada. E por quê? Porque é razoável e
prudente respeitar as regras morais que formam con-
senso em um determinado campo de atividade, em
dado momento. A deontologia definirá os compor-
tamentos que se impõem e aqueles que devem ser
proscritos; 3º) princípios de ordem ética - A máxima
será enfim: deve-se fazer o que se impõe como um
dever absoluto, por referência a um fim absoluto.
Deixando a cada um o cuidado de realizar esse
trabalho, daremos um único exemplo:
- Risco fundamental: abusar de sua posição su-
perior (humilhar o avaliado);
- “Remédio” de ordem técnica: tornar seus dispo-
sitivos transparentes (aumenta eficácia da avaliação;
- “Remédio” de ordem deontológica: recusar-se
a avaliar em um contexto de relação de forças;
- “Remédio” de ordem ética: somente aceitar exer-
cer seu poder de avaliador se ele contribuir para que
o avaliado assuma o poder sobre si mesmo (o desen-
volvimento de um sujeito autônomo e senhor de si é
o fim “absoluto” de um trabalho de tipo educativo).
7 - AGIR remediando de modo eficaz
- Remediação, como ato pedagógico: a remedia-
ção não é uma atividade de ordem avaliativa, mas
pedagógica. Em sua análise do processo de formação,
Marcel Lesne distingue quatro grupos de elementos,
que dizem respeito ao projeto, ao planejamento, ao
70 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
“processo pedagógico” e à regulação. Deste último,
ele identifica a atividade de controle, de condução e
de avaliação. O controle tende a manter a coerência
entre objetivos e meios de ação, e de evolução das
pessoas. A condução visa à manutenção da coerência
entre o processo de formação e o contexto (a situa-
ção). A Avaliação tem o objetivo de julgar a adequa-
ção dos resultados ou efeitos aos objetivos.
Quando se trata de regulação de atividades de
aprendizagem, o encaminhamento (ajuste ou reo-
rientação da ação) pode pertencer ao aluno (auto-
controle, auto-regulação), ou ao professor (regula-
ção externa). Porém, nos dois casos, a adaptação
é um trabalho de ordem pedagógica e /ou dialéti-
ca. A Avaliação situa-se na vertente feedback,
quando este se traduz por um julgamento. É uma
atividade explicitada pela avaliação, mas que es-
capa à avaliação enquanto tal. Avaliar é informar-
se para julgar. Remediar é ajustar a ação, apoian-
do-se no feedback. Pode então haver:
a) remediação sem avaliação prévia. O esquema
é: feedback à remediação;
b) remediação após avaliação, quando o julga-
mento foi formulado e a ação se apóia sobre suas
“conclusões”. O esquema é: (feedback à julgamen-
to) à remediação.
c) avaliação não seguida de remediação: é o caso
da avaliação cumulativa. O esquema é: (feedback à
julgamento) à nada.
- Algumas referências para uma “remediação”
eficaz:
a) não se limitar a uma visão estreita da remediação;
b) ter clara consciência dos eixos possíveis de ação;
É preciso pensar seu trabalho de ensino como
atividade de estruturação e de apoio a partir da ação
de aprendizagem do aluno. Ainda que o problema
da “remediação” nos faça sair da problemática da
avaliação no sentido estrito, vê-se que a vontade de
tornar a avaliação formativa passa por um melhor
conhecimento e por um melhor acompanhamento
do processo de aprendizagem.
CONCLUINDO PROVISORIAMENTE
- O que é, finalmente, avaliar? Não é medir um
objeto, nem observar uma situação, nem pronunciar
incisivamente julgamento de valor. É pronunciar-se,
isto é, tomar partido, sobre a maneira como expecta-
tivas são realizadas; ou seja, sobre a medida na qual
uma situação real corresponde a uma situação dese-
jada. Isso implica que se saiba o que se deve desejar
(para pronunciar um julgamento sobre o valor, des-
se ponto de vista, daquilo que existe); e que se ob-
serve o real (será preciso coletar observáveis) no eixo
do desejado. A Avaliação é uma operação de leitu-
ra orientada da realidade.
- Pode a avaliação ser objetiva? A avaliação es-
colar efetua-se em um contexto social e inscreve-se
em um processo geral de comunicação/negociação.
O julgamento do ator-avaliador é então alterado por
fatores sociais; sua história, suas representações, sua
percepção do contexto. O objeto avaliado é ele pró-
prio um ator social cujo comportamento reflete a in-
fluência de fatores sociais de mesmo tipo. Isso quer
dizer que a objetividade é impossível? Estritamente
falando, sim. Todavia: a) nada impede que se tente
delimitar melhor o objeto da avaliação fazendo o
esforço de designá-lo, o que equivale a construí-lo,
no eixo de uma “linha de coerência” objetivo
(pedagógico)à objeto (a avaliar) à observáveis (a de-
terminar); b)se tente neutralizar os vieses sociais, pro-
gredindo para uma maior transparência pela deter-
minação de um “contrato social”.
- A avaliação é importante? Sim,
- em seus efeitos: construção do destino escolar
do aluno (êxito… ou fracasso);
- em seu uso social dominante em situação de clas-
se, como elemento chaves de negociação didática;
- objetivamente, como momento forte em um pro-
cesso de regulação.
- Qual é, em avaliação, a utilidade da pesquisa?
Para avaliar bem, é preciso primeiro avaliar, isto é,
executar corretamente um ato conforme sua essên-
cia, ao invés de aproveitar de sua ambigüidade (que
o saber produzido pela pesquisa contribuiu para eli-
minar) para fazer qualquer outra coisa (assumir seu
apetite de poder, por exemplo).
- A avaliação não deveria ser utilizada com pre-
caução? Certamente. A avaliação pode revelar-se
extremamente perigosa. Os remédios são técnicos
(situar-se o mais próximo possível do ato de avalia-
ção em sua essência), deontológicos e/ou éticos. A
urgência é trabalhar para a emergência de uma ética
do agir avaliacional.
- A avaliação poderá (enfim) tornar-se formati-
va? Será necessário que os professores dêem provas,
antes de tido, de coragem. A coragem necessária para
ousar falar, e “julgar”. Colocar o julgamento de ava-
liação, que o aluno começa por sofrer, a serviço de
uma dinâmica que lhe permitirá tornar-se ele pró-
prio soberano, e não mais submeter, este é o desafio
àqueles que desejam tornar a avaliação formativa.
Resumo elaborado por Eliane Aguiar – Bacharel
em Letras – FFLCH/USP e doutoranda em Educação-
FEUSP.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 71
SINPEEM
HARGREAVES, Andy. Porto Alegre, Artmed, 2004
Nesta obra, Hargreaves analisa o significado da
expressão “sociedade do conhecimento” e suas im-
plicações na vida dos professores da atualidade.
Embora baseado em experiências norte-americanas
e canadenses, as reflexões do autor têm repercus-
sões mundiais, isto porque, a sociedade do conheci-
mento depende das escolas como um todo para tor-
nar-se uma sociedade aprendende criativa e solidá-
ria. Ao longo de todo o livro o autor deixa claro que
o futuro da transformação educacional deve basear-
se em um pequeno número de políticas estratégicas,
mas que com um poder de “alta alavancagem” e bem
articuladas com redes de apoio serão responsáveis
pela melhora na qualificação da prática docente.
Introdução
Vivemos em uma economia do conhecimento,
em uma sociedade do conhecimento. As economias
do conhecimento são estimuladas e movidas pela
criatividade e pela inventividade, e as escolas da so-
ciedade do conhecimento precisam gerar essas qua-
lidades, caso contrário, seus povos e suas nações fi-
carão para trás.
As escolas de hoje servem e moldam um mundo
no qual pode haver grandes oportunidades de me-
lhorias econômicas se as pessoas puderem aprender
a trabalhar de forma mais flexível, investir em sua
segurança financeira futura, reciclar suas habilida-
des, ir reencontrando seu lugar enquanto a econo-
mia se transforma ao seu redor e valoriza o trabalho
criativo e cooperativo. O mundo a que as escolas
servem também se caracteriza por uma crescente
instabilidade social. Mesmo assim, em lugar de esti-
mular a criatividade e a inventividade, os sistemas
educacionais se tornam cada vez mais obcecados
com a imposição e a microgestão da uniformidade
curricular. As escolas e os professores têm sido es-
premidos na visão estreita dos resultados de provas,
das metas de desempenho e das linhas de classifica-
ção das escolas segundo os resultados de seus alu-
nos. Em termos gerais, nossas escolas não estão pre-
parando os jovens para bem trabalhar na economia
do conhecimento nem para viver em uma sociedade
civil fortalecida. Em vez de promover a criatividade
econômica e a integração social, muitas escolas es-
O ENSINO NA SOCIEDADE DO
CONHECIMENTO: EDUCAÇÃO NA
ERA DA INSEGURANÇA
tão se enredando na regulamentação de rotinas da
padronização insensível.
Como alternativa, podemos promover um siste-
ma educacional de alto investimento e alta capaci-
dade, no qual professores extremamente qualifica-
dos sejam capazes de gerar criatividade e inventivi-
dade entre seus alunos, experimentando, eles pró-
prios, essa criatividade e a flexibilidade na forma
como são tratados e qualificados como profissionais
da sociedade do conhecimento. Nesse segundo ce-
nário, o ensino e os professores irão muito além das
tarefas técnicas de produzir resultados aceitáveis nas
provas, chegando a buscar o ensino como, mais uma
vez, uma missão social que molda a vida e transfor-
ma o mundo. Neste novo sistema, os professores
devem assumir novamente seu lugar entre os inte-
lectuais mais respeitados da sociedade, indo além
do âmbito da sala de aula, para tornarem-se, e pre-
parar seus alunos para serem, cidadãos do mundo.
Eles devem fazer o melhor que podem para garantir
que os estudantes promovam os bens privados da
economia do conhecimento e que prosperem a par-
tir deles. Também deverão ajudá-los a se compro-
meter com os bens públicos vitais, dos quais os in-
teresses empresariais da economia do conhecimento
não são capazes de tomar conta: uma sociedade
civil fortalecida e vigorosa, desenvolvendo o cará-
ter que promove o envolvimento da comunidade
e o cultivo das disposições de simpatia e cuidado
para com as pessoas de outras nações e culturas,
as quais são o coração da identidade cosmopolita.
Esses são os desafios enfrentados por professores
na sociedade do conhecimento atual e que repre-
sentam o foco deste livro, que trata do mundo em
transformação, bem como do trabalho do ensino,
também este em transformação. Desta forma, a
expressão mais adequada para o título deste livro
seria “sociedade de aprendizagem”, entretanto, o
título original se mantém em função de sua utili-
zação ampla e aceitabilidade.
Na sociedade do conhecimento, a riqueza e a
prosperidade dependem da capacidade das pessoas
de superar seus concorrentes em criação e astúcia,
sintonizar-se com os desejos e demandas do merca-
do consumidor e mudar de emprego ou desenvolver
novas habilidades à medida que as flutuações e os
momentos de declínio econômico assim o exigirem.
Desta forma, ensinar na sociedade do conhecimento
72 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
envolve o cultivo dessas capacidades nos jovens, o
desenvolvimento da aprendizagem cognitiva profun-
da, da criatividade e da inventividade entre os estu-
dantes, a utilização da pesquisa, o trabalho em re-
des e equipes, a busca de aprendizagem profissio-
nal contínua como professores e a promoção da
solução de problemas, da disposição de correr ris-
cos, da confiança nos processos cooperativos, da
capacidade de lidar com a mudança e do compro-
misso com a melhoria contínua das organizações.
I – O ensino para a sociedade do conhecimento:
educar para a inventividade
A Profissão paradoxal
Ensinar é uma profissão paradoxal. Entre todos
os trabalhos que são, ou aspiram a ser profissões,
apenas do ensino se espera que gere as habilidades
e as capacidades humanas que possibilitarão a in-
divíduos e organizações sobreviver e ter êxito na
sociedade do conhecimento dos dias de hoje. Dos
professores, mais do que de qualquer outra pessoa,
espera-se que construam comunidades de aprendi-
zagem, criem a sociedade do conhecimento e de-
senvolvam capacidades para a inovação, a flexibi-
lidade e o compromisso com a transformação, es-
senciais à prosperidade econômica. Ao mesmo
tempo, os professores também devem mitigar e
combater muitos dos imensos problemas criados
pelas sociedades do conhecimento, tais como o
consumismo excessivo, a perda da comunidade e
o distanciamento crescente entre ricos e pobres; de
alguma forma devem tentar atingir simultaneamen-
te esses objetivos aparentemente contraditórios. Aí
reside o paradoxo profissional.
Enquanto isso, os gastos, bem como a educação
e o bem-estar públicos, foram as primeiras baixas do
Estado enxuto que as economias do conhecimento
têm exigido. Os salários e as condições de trabalho
dos professores têm estado entre os itens mais caros
no topo da lista de baixas do serviço público. A pro-
fissão, classificada como importante para a socieda-
de do conhecimento, tem sido desvalorizada por tan-
tos grupos, com mais e mais pessoas querendo dei-
xá-la, cada vez menos querendo se juntar a ela, e
muito poucas desejando assumir sua liderança. Isso,
mais do que um paradoxo, representa uma crise de
proporções perturbadoras.
Sendo assim, os professores de hoje se encon-
tram presos em um triângulo de interesses e impera-
tivos conflitantes: ser catalisadores da sociedade do
conhecimento e de toda a oportunidade e prosperi-
dade que ela promete trazer; ser contrapontos a ela e
à suas ameaças à inclusão, à segurança e à vida pú-
blica; ser baixas dessa sociedade do conhecimento
em um mundo onde as crescentes expectativas com
relação à educação estão sendo respondidas com
soluções padronizadas, fornecidas a custos mínimos.
Essas três forças, suas interações e seus efeitos estão
moldando a natureza do ensino, aquilo que significa
ser um professor, e a própria viabilidade da ativida-
de, como profissão, na sociedade do conhecimento.
Antes da Sociedade do conhecimento
Desde o surgimento da educação escolar com-
pulsória e de sua difusão pelo mundo, espera-se que
a educação pública salve a sociedade. As expectati-
vas em relação à educação pública sempre foram
altas, mas nunca se expressaram da mesma forma.
Nos 30 anos posteriores à Segunda Guerra Mundial,
a educação nas principais economias do mundo foi
vista amplamente como um investimento em capital
humano, no desenvolvimento científico e tecnológi-
co, em um compromisso com o progresso. Mas em
termos práticos, pouco foi feito para transformar a
natureza fundamental da educação oferecida ou a
forma como os professores lecionavam. Foram pou-
cas as inovações que duraram por muito tempo, e a
retórica da mudança em sala de aula geralmente so-
brepujava a realidade. Para além de toda autonomia,
tentativas de inovação e expansão educacional, per-
maneceram uma “gramática” básica de ensino e
aprendizagem em que a maioria dos professores le-
cionava de forma como se havia feito por gerações,
na frente da sala, por meio de aulas expositivas, tra-
balhos para serem realizados por alunos sentados e
métodos de perguntas e resposta, com aulas separa-
das para crianças da mesma idade, avaliadas por
métodos escritos padronizados.
A crise do petróleo de 1973 e o colapso da eco-
nomia keynesiana puseram fim aos pressupostos edu-
cacionais otimistas em muitas economias desenvol-
vidas do Ocidente. A educação passou subitamente
a ser o problema, e não a solução. Nas economias
altamente endividadas, os estados de bem-estar so-
cial começaram a entrar em colapso e, com eles, os
recursos para a educação. As nações ocidentais se
voltaram para dentro, e muitas delas perderam a con-
fiança, visto que foram eclipsadas pelas economias
dos “tigres” asiáticos. Nesse meio tempo, os perfis
demográficos se inverteram, as populações dos alu-
nos encolheram e os professores perderam sua atra-
tividade no mercado e seu poder de barganha e gran-
de parte da força de trabalho remanescente no ensi-
no começou a envelhecer.
No final da década de 80 os governos começa-
ram a vincular mais intimamente a educação aos
negócios, ao trabalho, à ciência e à tecnologia. As
estruturas foram reorganizadas, os recursos restringi-
dos novamente e as políticas de opção de mercado e
competição entre escolas começaram a proliferar. O
controle curricular foi muitas vezes enrijecido em
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 73
SINPEEM
alguns lugares, ligado à tarefa explícita de restabele-
cer o orgulho da nação. Os professores passaram a
ser responsabilizados pela maior parte dos proble-
mas, por governos e pela mídia e as recém-estabele-
cidas classificações de escola, segundo o desempe-
nho escolar humilhavam os docentes por fracassa-
rem com seus alunos. (geralmente os das comuni-
dades mais pobres). Segundo alguns críticos, tais
eventos foram medidas deliberadas, voltadas a tor-
nar malvistos o ensino e as escolas públicas, estimu-
lar muitos pais a financiar de forma privada a educa-
ção de seus filhos e forçar à aposentadoria precoce
de professores mais velhos e mais caros, que esta-
vam impedindo a nova agenda da reforma.
Um dos pretextos mais fortes para a reforma es-
colar nas nações ocidentais foi a introdução das com-
parações internacionais de exames. O milagre eco-
nômico dos “tigres” e do Japão levou os formulado-
res de políticas no Ocidente a supersimplificar e sin-
gularizar as contribuições dos sistemas educacionais
dessas sociedades para seu sucesso econômico. Os
resultados internacionais de exames de matemática
e ciências provocaram ansiedade pública e deram
munição para que muitos governos ocidentais refor-
mulassem os sistemas educacionais, o que levou a
maior padronização e microgestão do ensino e da
aprendizagem por meio de sistemas mais rígidos de
inspeção, pagamento de acordo com desempenho e
reformas curriculares prescritas minuciosamente, que
reduziram em muito a latitude das decisões pedagó-
gicas dos professores.
Lucrando a partir da sociedade do conhecimento
Nessa sociedade em constante transformação e
autocriação, o conhecimento é um recurso flexível,
fluido, em processo de expansão e mudança inces-
sante. Na economia do conhecimento, as pessoas
não apenas evocam e utilizam o conhecimento “es-
pecializado” externo, das universidades e de outras
fontes, mas conhecimento, criatividade e inventivi-
dade são intrínsecos a tudo o que elas fazem. O co-
nhecimento não é apenas um apoio para o trabalho
e a produção, mas sim a forma fundamental do pró-
prio trabalho e da própria produção, visto que mais
e mais pessoas instruídas trabalham nos campos das
idéias, da comunicação, das vendas, do marketing,
da acessória, da consultoria, do turismo, da organi-
zação de eventos e assim por diante.
Assim sendo, a sociedade do conhecimento tem
três dimensões. Em primeiro lugar, engloba uma es-
fera científica, técnica e educacional ampliada; em
segundo, envolve formas complexas de processamen-
to e circulação de conhecimento e informações em
uma economia baseada nos serviços; em terceiro lu-
gar, implica transformações básicas da forma como
as organizações empresariais funcionam de modo a
poder promover a inovação contínua em produtos e
serviços, criando sistemas, equipes e culturas que
maximizem a oportunidade para a aprendizagem
mútua e espontânea. O segundo e o terceiro aspec-
tos dependem de se ter uma infra-estrutura sofistica-
da de tecnologia de informação e comunicação que
torne toda essa aprendizagem mais rápida e mais fa-
cial. A chave para uma economia do conhecimento
forte, entretanto, não é apenas as pessoas poderem
acessar a informação, mas também o quão bem elas
conseguem processar essa mesma informação.
Desenvolvendo a sociedade do conhecimento
A sociedade do conhecimento é uma sociedade
de aprendizagem. O sucesso econômico e uma cul-
tura de inovação contínua dependem da capacida-
de dos trabalhadores de se manter aprendendo acer-
ca de si próprios e uns com os outros. Uma econo-
mia do conhecimento não funciona a partir da força
das máquinas, mas a partir da força do cérebro, do
poder de pensar, aprender e inovar.
As escolas e os professores não podem e nem de-
vem renunciar a suas responsabilidades de promover
as oportunidades, o envolvimento e a inclusão dos
jovens no mundo altamente especializado do conhe-
cimento, da comunicação, da informação e da inova-
ção. Todas as crianças devem ser preparadas para a
sociedade do conhecimento e para a sua economia.
Entretanto, a mudança não está em mais educação na
forma atual. Salas de aula mais eficientes, que se con-
centrem no ensino e na aprendizagem, em vez de dis-
ciplina, mais tempo gasto em alfabetização e outros
aspectos básicos, mais cursos de férias e aulas aos sá-
bados para alunos que estão com dificuldades de
aprendizagem, um dia de aula com mais horas, um
ano escolar com mais dias: todas essas coisas ajudam
a melhorar o desempenho dos alunos, mas apenas
aquele desempenho já existente. Elas não transformam
esse desempenho ao sujeitá-los a mais quantidade das
estratégias que já existem.
O ensino para a sociedade do conhecimento
Como catalisadores das sociedades do conhe-
cimento bem-sucedidas, os professores devem ser
capazes de construir um tipo especial de profissio-
nalismo, do qual os principais componentes são:
promover a aprendizagem cognitiva profunda;
aprender a ensinar por meio de maneiras pelas quais
não foram ensinados; comprometer-se com apren-
dizagem profissional contínua; trabalhar e apren-
der em equipes de colegas; tratar os pais como par-
ceiros na aprendizagem; desenvolver e elaborar a
partir da inteligência coletiva; construir uma capa-
cidade para a mudança e o risco e estimular a con-
fiança nos processos.
74 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
O ensino para a sociedade do conhecimento atual
é tecnicamente mais complexo e mais abrangente
do que jamais foi e tem como referência uma base
de pesquisa e experiências sobre o ensino eficaz, que
está mudando e se ampliando. Novas abordagens à
aprendizagem demandam novas abordagens ao en-
sino. Entre elas estão um ensino que enfatize habili-
dades de raciocínio de ordem mais elevada, a meta-
cognição (a reflexão sobre o pensamento), aborda-
gens construtivistas da aprendizagem e da compre-
ensão, a aprendizagem baseada no cérebro, estraté-
gias cooperativas de aprendizagem, inteligências
múltiplas e diferentes “hábitos da mente”, empregan-
do uma ampla gama de técnicas de avaliação e utili-
zando a informática e outras tecnologias de informa-
ção que capacitem os alunos para acessá-la de for-
ma independente. Os professores de hoje, portanto,
precisam estar comprometidos e permanentemente
engajados na busca, no aprimoramento, no auto-
acompanhamento, na análise de sua própria apren-
dizagem profissional e análise de seu relacionamen-
to com os pais.
Além de tais aspectos, cabe ao professor dessa
nova sociedade um alto grau do que Daniel Gole-
man chamou de inteligência emocional. A inteli-
gência emocional acrescenta valor à inteligência
cognitiva, diferenciando líderes brilhantes daque-
les que são simplesmente adequados. As cinco com-
petências básicas que compõem a inteligência emo-
cional são: conhecer e ser capaz de expressar as pró-
prias emoções; ser capaz de criar empatia para com
as emoções de outros; conseguir monitorar e regular
as próprias emoções de forma que elas não saiam de
controle; ter capacidade de motivar a si e aos outros;
ter as habilidades sociais para colocar em ação as
quatro primeiras competências.
Em síntese, ensinar para a sociedade do conheci-
mento estimula e floresce a partir de: criatividade,
flexibilidade, solução de problemas, inventividade,
inteligência coletiva, confiança profissional, disposi-
ção para o risco e aperfeiçoamento permanente.
II – O ensino para além da sociedade do
conhecimento: do valor do dinheiro aos
valores do bem
A bolha dos mares do sul
O autor cita alguns exemplos de empreendimen-
tos financeiros com excesso especulativo (South Sea
Company - 1711; febre ferroviária do século XIX e a
explosão imobiliária do final da década de 1980) e
os compara à revolução do conhecimento ou da in-
formação do século XXI, afirmando que todos são
“bolhas especulativas”.
A bolha do conhecimento e da informação
Todas as bolhas de investimentos acabam por
explodir, com conseqüências dramáticas e, por ve-
zes, cataclísmicas. Quando falamos sobre o futuro
da sociedade do conhecimento, se não tivermos em
mente e aprendermos a partir do que aconteceu a
bolhas anteriores, seremos condenados a repetir a
mesma tragédia histórica.
No final da década de 1990, as possibilidades da
nova sociedade do conhecimento se apresentaram
ilimitadas. A sociedade da informação e a economia
do conhecimento pareciam representar uma nova era
de otimismo e oportunidade. Todos os indicativos
apontavam para uma expansão massiva na tecnolo-
gia da informação e do entretenimento. Contudo, com
o passar dos anos, começaram a se instalar dúvidas
de que o consumo galopante de novas tecnologias
estivesse realmente melhorando as vidas ou os rela-
cionamentos das pessoas. A sociedade do conheci-
mento ameaça cada vez mais nos levar para um
mundo que não oferece solidão nem comunidade. A
utilização excessiva de computadores e outras tec-
nologias também está sendo vinculada a taxas cres-
centes de obesidade infantil e outros transtornos. Nos
meses do novo século, a bolha da economia do co-
nhecimento começou a explodir. O ano de 2000 foi
o primeiro na história em que a venda de computa-
dores caíram no mundo todo.
Da informação à insegurança
O dia 11 de setembro de 2001 foi uma data em
que os norte-americanos compreenderam que nem
todas as fronteiras de suas costas tampouco as ferra-
mentas de vigilância tecnológica, ou seu poderio mi-
litar poderiam tornar seu país inexpugnável em face
da globalização do terror. A “América” deixara se ser
apenas o gerador de mercados globalizadores de co-
nhecimento e informações; era agora o alvo de um
outro tipo de globalização que levou o mundo, em
alguns minutos, da era otimista da informação para
uma era de insegurança, tomada pela ansiedade.
Diferentemente da incerteza e da complexida-
de, a insegurança geral não é uma condição inevi-
tável, mas uma opção política na sociedade do co-
nhecimento.
Fundamentos ou fundamentalismo
O que está por detrás da violência de 11 de se-
tembro é a “economia do lucro, sem sangue nas
veias” na qual apenas os interesses das pessoas como
consumidores privados são tratados abertamente, ao
passo que suas preocupações como cidadãos, como
partes do bem público, são postas de lado. É o que
Benjamin Barber chamou de McMundo.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 75
SINPEEM
O paradoxo da globalização é o fato de que ela e
a homogeneização levam muitos daqueles que não
podem compartilhar seus benefícios a se voltar para
dentro, para a cultura, a religião e a etnicidade como
fontes alternativas de sentido e identidade. A expres-
são extrema dessa resposta é a jihad, termo islâmico
que se refere à luta religiosa em nome da fé, contra
os infiéis. Em sua manifestação política, significa a
guerra sagrada em nome da identidade partidária
metafisicamente definida e defendida de forma faná-
tica. Ela surge no Islã, mas não é essencial a ele.
Ainda assim, proporciona foco e direção àqueles que
lutam contra o que consideram influências cultural-
mente corruptoras dos valores de mercado ociden-
tais, da modernização e da degradação moral.
Comunidade e caráter
A sociedade de alto risco de hoje em dia se ca-
racteriza pelo perigo crescente da destruição terro-
rista e da devastação ambiental em grande escala.
Esses riscos também se estendem a nossas vidas pes-
soais, nossas famílias e comunidades. Pais com so-
brecarga de trabalho estão ocupados tentando se li-
vrar da pobreza ou acompanhar o padrão dos vizi-
nhos e concorrentes que têm pouco ou nenhum tem-
po para seus filhos. Cada vez mais esses pais têm
terceirizado seus filhos para outros cuidadores, re-
duzindo seu próprio comprometimento de tempo e
suas responsabilidades emocionais no processo. Nos
sistemas escolares de nível médio que se baseiam
nos resultados do desempenho à custa de relaciona-
mentos, muitos adolescentes se encontram cada vez
mais desligados da aprendizagem e alienados da so-
ciedade conhecimento. A economia do conhecimen-
to e o investimento que ela requer estão destruindo
formas existentes de vida e de trabalho.
Diante disso, um sistema forte de educação pú-
blica não só é parte integrante de uma economia do
conhecimento próspera, como também é vital para
a proteção e o fortalecimento da democracia que
constrói comunidade e desenvolve caráter. Hoje em
dia, mais do que nunca, os professores devem ser
não apenas catalizadores da economia do conheci-
mento, como também seus contrapontos essenciais,
construindo e preservando a democracia pública e
comunitária que acompanha essa sociedade e tam-
bém é ameaçada por ela.
Cultivando o capital social
Os professores que ensinam para além da socie-
dade do conhecimento desenvolvem o capital inte-
lectual de seus alunos, mas também seu capital so-
cial, ou seja, a capacidade de estabelecer redes, for-
jar relacionamentos e contribuir fazendo uso dos re-
cursos humanos da comunidade e da sociedade
como um todo. Francis Fukuyama define o capital
social como um conjunto de valores e normas infor-
mais compartilhados por membros de um grupo, que
lhes permite cooperar entre si e que estabelece uma
base de confiança. O capital social dá suporte à
aprendizagem, alimenta-a, encontra uma forma de
lhe dar vazão e propósito. Se os professores, as esco-
las e as comunidades não o cultivarem, os alunos
gerarão o seu próprio, de formas invertidas e perver-
tidas, nas subculturas dos banheiros e outros cantos
escuros de suas turmas, onde a amizade consolida o
fracasso e a oportunidade econômica é negada por
meio de exclusão social e educacional compartilha-
da. O capital social está na base da prosperidade e
da democracia, e seu desenvolvimento é essencial
do ponto de vista educacional
Educando para a democracia
Na arena internacional, organizações como a
Unesco mantêm vivo o discurso democrático na
educação. O relatório Delors dessa instituição, cha-
mado Educação, um tesouro a descobrir, identifi-
cou quatro pilares essenciais da aprendizagem. Dois
deles são as bases da economia do conhecimento:
aprender a conhecer e aprender a fazer. O apren-
der a ser e o aprender a viver juntos não são menos
importantes.
Ensinando para além as sociedade
do conhecimento
Os valores, a justiça social e a solidariedade de-
vem ser centrais ao desenvolvimento profissional para
professores, ao desenvolvimento comunitário para os
pais e à agenda da formulação de políticas em gran-
de escala, se quisermos tornar as escolas melhores.
Ensinar para além da sociedade do conhecimento
significa servir-lhe de contraponto corajoso, com vis-
tas a estimular os valores de comunidade, democra-
cia, humanitarismo e identidade cosmopolita.
III – O ensino apesar da sociedade do
conhecimento I: o fim da inventividade
O custo da sociedade do conhecimento
Ensinar para a sociedade do conhecimento e en-
sinar para além dela não precisam ser incompatíveis.
Reconciliar os objetivos econômicos e sociais da
educação e preparar as pessoas para ganhar a vida e
viver têm se revelado tarefas historicamente difíceis,
levando a oscilações intermináveis do pêndulo das
políticas. Os professores e outros devem se dedicar a
unir essas duas missões em uma só.
76 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
O fundamentalismo de mercado
No final do século XX, as políticas econômicas e
públicas de muitas nações foram dominadas pela
ideologia do fundamentalismo de mercado, no qual
o interesse público seria melhor servido pelos efeitos
acumulados da liberação das pessoas para que bus-
cassem seus próprios interesses privados. Gerou-se a
concorrência do setor privado com o setor público.
Os resultados na educação pública se fizeram sentir
nos cortes de custos e no enxugamento da abertura
de escolas; no aumento dos incentivos fiscais ou das
campanhas para desacreditar o sistema público, que
estimularam os pais a redirecionar seus investimen-
tos para a educação privada.
A educação descarrilada
Os professores estão presos em um triângulo de
pressões e expectativas contraditórias. Eles lutam para
atingir um máximo de realização profissional, mas são
continuamente arrastados pelas reações dos funda-
mentalistas de mercado aos custos da economia do
conhecimento. No lugar de promover a aprendiza-
gem profunda e o envolvimento emocional dos alu-
nos com sua aprendizagem e uns com os outros, os
professores se encontram cada vez mais preocupados
em treinar crianças para exames padronizados.
Políticas padronizadas
O enxugamento e a padronização desgastam a
colaboração, esgotam professores que exercem car-
gos de coordenação e reduzem seu investimento na
própria aprendizagem profissional. A padronização
aumenta a exclusão das escolas e dos alunos dos ní-
veis inferiores, que consideram os padrões para além
do seu alcance. Diante da padronização os profes-
sores, exaustos e desmoralizados, recorrem à demis-
são e à aposentadoria precoce, criando imensos pro-
blemas de recrutamento e retenção nessa profissão
baseada no conhecimento.
IV- O ensino apesar da sociedade do
conhecimento: a perda da integridade
Este capítulo apresenta os resultados de pesqui-
sas realizadas pelo autor em escolas americanas e
canadenses de nível médio. A análise observa a subs-
tância da reforma nas áreas de mudança de currícu-
lo e avaliação, examina o processo de implementa-
ção, o caráter da mudança e as alterações nas condi-
ções de trabalho que acompanharam essas transfor-
mações. Entre os principais aspectos apresentados
pelos professores entrevistados estão: o pouco tem-
po destinado ao estudo, a ineficiência e inadequa-
ção do desenvolvimento profissional, o isolamento
profissional, a perda da eficácia do trabalho docen-
te, a pouca criatividade e inventividade, a ausência
de integridade, a perda de propósito profissional, a
desmoralização, a política de humilhação e a exaus-
tão. Tais aspectos foram ocasionados pelo ritmo in-
sustentável da reforma e atingiram a saúde dos pro-
fessores. Lecionar tornou-se mais difícil e estressan-
te, e muito menos agradável.
Uma conclusão perturbadora é a de que não são
apenas os professores mais velhos que estão se desi-
ludindo com a profissão, mas também os mais jo-
vens. Nessas condições, a profissão do ensino terá
cada vez mais dificuldades de atrair candidatos de
boa qualidade, com capacidade intelectual e, espe-
cialmente, quando outras ocupações com menos re-
gulamentação e mais incentivo estão concorrendo
por seu talento.
V - A escola da sociedade do conhecimento:
uma entidade em extinção
Este capítulo apresenta a bem sucedida expe-
riência de uma escola de nível médio canadense -
Blue Mountain, considerada a síntese de uma escola
da sociedade do conhecimento.
As escolas em sociedades complexas deveriam
se tornar organizações de aprendizagem eficazes,
desenvolvendo estruturas e processos que lhes ca-
pacitem para aprender no interior de seus ambientes
imprevisíveis e mutantes e responder a eles com ra-
pidez. As escolas eficazes devem operar como sóli-
das comunidades de aprendizagem profissional a
partir de três componentes: o trabalho cooperativo;
o foco no ensino e na aprendizagem e avaliações
permanentes para investigar avanços e problemas.
Na escola analisada evitava-se a departamenta-
lização a partir da idéia da aprendizagem organiza-
cional e do pensamento sistêmico, segundo os quais
todas as decisões da escola devem ser tomadas de
acordo com os interesses da comunidade organiza-
cional. O entusiasmo e a empolgação de trabalhar
se refletiam na postura inovadora e inventiva do
currículo e no ensino de sala de aula. As avalia-
ções eram diferenciadas (portifólios e apresenta-
ções), a informática não se limitava a laboratórios
fechados, os alunos tinham liberdade para utilizar
qualquer tecnologia disponível. Entretanto, as pres-
sões econômicas também afetaram a rotina da es-
cola que passou a conviver com os problemas apre-
sentados anteriormente. Mesmo assim, nela ainda
acontece muita interação profissional entre seus
grupos, muito mais do que em quase todas as ou-
tras escolas, mas, como comunidade de aprendi-
zagem, um exemplo de escola da sociedade do
conhecimento, a Blue Mountain é, sem dúvida al-
guma, uma espécie em extinção.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 77
SINPEEM
VI – Para além da padronização: comunidades
de aprendizagem profissional ou seitas de
treinamento para o desempenho?
Rumo a uma profissão de aprendizagem
Ensinar é um trabalho cada vez mais complexo,
exigindo os padrões mais elevados de prática profis-
sional para um desempenho adequado. É a profissão
central, o agente fundamental da mudança na socie-
dade do conhecimento de nossos dias. Mesmo as-
sim, o ensino está em crise. A rotatividade demográ-
fica entre os professores, durante anos de desgaste e
desilusão com as reformas amplas, está esgotando a
profissão. A atração do ensino como carreira entre
novos candidatos, reais e potenciais, está desapare-
cendo rapidamente.
Felizmente, nos últimos anos, muitos começam
a se dar conta de que o desenvolvimento profissio-
nal de alta qualidade para professores é indispensá-
vel à geração de mudanças profundas e duradouras
na aquisição dos alunos. Em quase toda parte (Aus-
trália, Estados Unidos, Inglaterra) os governos estão
começando a elogiar os professores e o ensino, con-
ferindo a honra e o respeito onde haviam prevaleci-
do a acusação e o descaso no passado recente. Já é
tempo de repensarmos como deveria ser o ensino e
a aprendizagem para os alunos, e o ensino e o apoio
profissional para os professores. A reforma educaci-
onal não pode mais ser construída nas costas dos
professores.
Futuros para o ensino na sociedade
do conhecimento
A OCDE projetou seis prováveis cenários para o
futuro da educação pública na sociedade do conhe-
cimento. Dois deles partem de um desdobramento
de arranjos já existentes, que irá levar a uma buro-
cracia mais arraigada nos sistemas escolares, ou ao
aumento da ênfase no mercado e nas soluções base-
adas nas opções, em função da difusão da insatisfa-
ção das pessoas com a educação pública. O segun-
do par de opções supõe um encolhimento da educa-
ção pública, seja por atrofia, à medida que a falta de
professores e uma proliferação desesperada de ino-
vações gerarem pânico e desagregação nas políticas
educacionais, seja pelo incentivo em alternativas fora
da escola, na aprendizagem eletrônica e não-formal.
Apenas dois dos cenários, os quais a organiza-
ção chama de re-schooling, ou “reescolarização”, isto
é, a transformação das características fundamentais
da escola típica, presumem que a formação escolar
pública possa ser salva e melhorada. Um deles vê a
escola sendo reinventada na forma de uma organi-
zação de aprendizagem dirigida, que enfatize a
aprendizagem para a sociedade do conhecimento.
O outro visualiza as escolas como pontos focais para
redes de relacionamentos comunitários mais amplos,
desenvolvendo o capital social dos estudantes e lhes
possibilitando viver bem e trabalhar produtivamente
na sociedade do conhecimento.
Culturas, contratos e mudança
A partir de vários subtítulos relacionados a cultu-
ras, contratos e mudança, o autor apresenta caracte-
rísticas indispensáveis à sociedade do conhecimen-
to. Entre elas destacam-se: a importância da combi-
nação entre a confiança pessoal dos relacionamen-
tos com a confiança e a responsabilização profissio-
nal dos contratos de desempenhos (garantia de qua-
lidade por meio da obrigação mútua), a substituição
do individualismo profissional permissivo pelo tra-
balho cooperativo, o rompimento com o regime de
contratos que mercantilizaram a educação e a elimi-
nação da cultura do individualismo competitivo en-
tre as escolas. O autor também apresenta algumas
maneiras pelas quais as políticas podem promover
as comunidades de aprendizagem no interior e além
das escolas: desenvolvimento de liderança; inspeção
e credenciamento escolar; recertificação e gestão de
desempenho; dinheiro para início de projetos de auto-
aprendizagem, auto-regulamentação profissional;
redes profissionais; regionalização dos serviços de
desenvolvimento e apoio profissional e normas adul-
tas de comunidade profissional.
VII – O futuro do ensino na sociedade do
conhecimento: repensar o aprimoramento,
eliminar o empobrecimento.
O futuro do ensino está em combinar os esforços
das comunidades de aprendizagem e das seitas de
treinamento (grupos que buscam a melhora do de-
sempenho – alfabetização e matemática – em testes
padronizados), eliminando assim, o apartaheid de
desenvolvimento e aprimoramento escolar. Os pri-
meiros, pautados em princípios amplos, na promo-
ção da cooperação e no trabalho em rede, tendem a
ser adotados por escolas de comunidades mais aflu-
entes e os segundos, por sua vez, caracterizados por
programas rigidamente definidos, estritamente mo-
nitorados e com treinamentos intensivos, tendem a
ser adotados por escolas de localidades mais pobres,
isto porque, diferentes escolas se beneficiam de abor-
dagens diferenciadas do aperfeiçoamento.
Conclusão
Este livro demonstrou que a reforma padroniza-
da na educação prejudica a capacidade dos profes-
sores de lecionar para a sociedade do conhecimento
e para além dela. A padronização expande a exclu-
78 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
são educacional. Estratégias diferenciadas de apri-
moramento oferecem uma maneira de ir além das
falhas da abordagem “tamanho único” da padroni-
zação insensível, mas a forma como a diferença está
sendo definida tranca a pobreza e o fracasso jun-
tos, dentro de uma linguagem neutra de “subdesen-
volvimento” que é politicamente evasiva e engana-
dora, seja na política escolar, seja na política mun-
dial. Nossa prosperidade depende dos atributos cen-
trais da economia do conhecimento: a criatividade
e inventividade, a cooperação, a flexibilidade, a ca-
pacidade de aproveitar e desenvolver a inteligência
coletiva, de solucionar problemas de desenvolver
redes, de lidar com a mudança e o compromisso
com a aprendizagem por toda a vida. Logo, nosso
futuro significa os professores reconquistarem seu
status e sua dignidade entre os principais intelec-
tuais da sociedade.
Síntese elaborada por Edna Prado – doutora em
Educação Escolar pela Universidade Estadual Pau-
lista/UNESP.
HOFFMANN, Jussara.
Porto Alegre, Editora Mediação, 2005
O livro é dividido em duas partes:
1 - “Entre claros e escuros da avaliação”
Estão os “princípios do jogo do contrário”, cuja
discussão permeia algumas questões polêmicas re-
lacionadas à avaliação da aprendizagem, à concep-
ção mediadora.
2 - “Fazendo o jogo do contrário em avaliação”
Convida os professores a repensarem as práticas
avaliativas, com estratégias que valorizem as dife-
renças, respeitando a individualidade dos alunos.
Tanto faz começar por uma parte ou pela outra.
É um exercício de estranheza que poderá propiciar
um novo significado em relação à avaliação, à apren-
dizagem.
A partir de estudos de casos de alunos em um
programa de assessoria, que coordeno, apresento três
tempos em termos de avaliação mediadora: o tem-
po da admiração dos alunos; o tempo da reflexão
sobre suas tarefas e manifestações de aprendizagem
e o tempo da reconstrução das práticas avaliativas.
Parte 1 - “O jogo do contrário em avaliação”
Observar um por um - Ao invés de um olhar pe-
riférico, genérico e circunstancial, cada aluno deve
ser olhado em sua singularidade, pois a aprendiza-
gem envolve as dimensões afetivas, éticas, estéticas,
epistêmicas de um sujeito.
Os “difíceis estudos de caso -Desde 1998 coor-
deno o PAAE (Programa de Assessoria em Avaliação
Educacional) para professores das redes pública e pri-
vada no Rio Grande do Sul. Desenvolve-se, nesse pro-
grama, de 2001 a 2003, estudos de casos em institui-
O JOGO DO CONTRÁRIO EM AVALIAÇÃO
ções de ensino médio, técnico profissionalizante e
superior, com acompanhamento intensivo de um ou
dois alunos participantes do programa via instituições
nas quais estavam inseridos. São diferentes séries e
níveis de ensino cujo processo de aprendizagem esti-
vesse sendo considerado “difícil” pelos professores.
Com objetivo de desenvolver projetos e práticas
inovadoras de avaliação reuniram-se, quinzenal-
mente, por aproximadamente três meses, grupos de
30 educadores, da educação infantil à universida-
de, com funções diversas (estudantes, professores,
orientadores, supervisores, diretores, secretários etc.).
Foram 80 estudos de casos de alunos (de 6 a 36
anos), da educação infantil à universidade. Devido
a participação maior de professores do ensino fun-
damental, houve maior concentração nesses casos.
Entre as redes pública e privada, o número de parti-
cipação foi aproximado. O relato não é de cunho
acadêmico, pois não é pesquisa, sim assessoria.
Avaliação mediadora em três tempos - Cada eta-
pa levou um mês, juntamente com as aulas teóricas,
as leituras e os debates em grupo, apresentação dos
estudos de casos.
1 - Tempo de admiração dos alunos - Inicia-se a
partir do histórico do aluno registrado nos arquivos
das instituições. Esse tempo é prospectivo e não li-
near, implicando um olhar “curioso” sobre o outro e
sobre os próprios pensamentos.
O princípio de compreender
Vai além do explicar. Exige, segundo Morin, en-
volvimento, relação humana e visa entender o ser
humano como objeto, mas também como sujeito.
O exercício do aprendizado do olhar
Admirar o aluno pressupõe:
- A atenção e a presença do educador. Inclui a
escuta de silêncios e ruídos na comunicação;
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 79
SINPEEM
- Entrega ao outro. Ouvir suas hipóteses, seu pen-
sar, sua história;
- Olhar pesquisador. Selecionar dados, ordenar,
classificar, comparar, interpretar os significados.
Algumas questões iniciais
- Quem é o aluno? O que se conhece de sua
história de vida?
- Como é percebido no contexto familiar e escolar?
- Como ele próprio se refere a esses contextos e
como se percebe neles?
- Como se deu a sua escolarização até esse mo-
mento?
- Quais são os seus interesses pessoais e/ou pro-
fissionais, projetos de vida, conquistas, necessida-
des, dificuldades?
- Como ele estuda na escola e fora dela? Tempo
e recursos que dispõem para isso?
- Que apoios e orientações recebe em termos de
suas atitudes e aprendizagens?
- O que revelam suas tarefas anteriores, testes,
cadernos, registros escolares?
O compartilhamento do olhar avaliativo
Pressupõe o diálogo contínuo com o aluno, fa-
miliares, amigos e com todos os profissionais que
compartilham os espaços escolares. Há um pedido
de “socorro” generalizado. O “verdadeiro” diálogo
pressupõe retorno, interlocução, reconstrução con-
junta das práticas avaliativas.
A multidimensionalidade do olhar
Necessita da “consciência” como elemento es-
sencial da avaliação mediadora. Devido sua com-
plexidade, caracteriza-se por interpretações de dife-
rentes intensidades e matizes (qualidade), sobre as
múltiplas dimensões do aprender de cada aluno
(aprendizagem), que se realizam a partir de concep-
ções de educação, de sujeito, de sociedade também
diferentes (avaliação).
E o que se admira afinal dos e nos alunos?
Para compreender a trajetória de um aluno, é ne-
cessária uma observação em ação, isto é, uma recons-
trução permanente de hipóteses. Algumas dimensões
investigadas em seus estudos: o aluno em relação ao
contexto sociocultural e a sua própria história de vida;
o cenário educativo; o currículo em desenvolvimen-
to; as questões da aprendizagem: histórico de apren-
dizagem, afetividade, contextos de aprendizagem ex-
tra-curriculares, projetos pessoais de estudo.
A perigosa prioridade às questões atitudinais -
Abandonar as velhas posturas de encontrar justificati-
vas diante dos casos “difíceis” não é tarefa das mais
fáceis. É preciso considerar o sujeito em sua singulari-
dade. Agressividade, apatia, desinteresse, agitação,
ausência não explicam nem justificam problemas de
aprendizagem na escola. O inverso é muito mais fre-
qüente. Em muitos casos acompanhados, as condutas
dos alunos melhoraram sensivelmente à medida que
avançaram na alfabetização, na escrita, na leitura, nas
disciplinas nas quais estavam sendo orientados.
Valoração objetiva e subjetiva: um olhar em ação
- Refere-se ao olhar subjetivo da avaliação: Só posso
ver no “outro” o que entra em sintonia comigo, com
meus próprios conhecimentos, experiências, senti-
mentos; assemelha contemplação em arte, isto é: de
decifração (ativamente, dar sentido ao que vê); de
mediação (multiplicar as direções do seu olhar... atri-
buindo significados) e de realização (interagir com o
aluno, para ter consciência de suas aprendizagens);
de realização (interagir com o aluno, para ter cons-
ciência de suas aprendizagens). São necessários os
princípios de provisoriedade e complementarieda-
de, isto é, olhar que vai além da primeira impressão,
privilegiando as diferenças em detrimento de possi-
bilidades homogeneizadoras.
Auto-avaliação: um olhar que “realiza” o pró-
prio aluno - O aluno precisa saber dos cuidados
que lhe são destinados, responsabilizando-se pela
própria aprendizagem. Quando professores dialo-
gam continuamente com os alunos a respeito do
fazer pedagógico, desfaz-se o mistério e o temor
do processo avaliativo, cria-se a empatia, reconhe-
ce-se a pluralidade de idéias, valorizam-se as indi-
vidualidades.
Conselhos de Classe: compreender para enca-
minhar?
Compreender é reunir os vários elementos de
uma dada explicação. O sentido dos Conselhos é o
de definir ações diversificadas pelo coletivo dos pro-
fessores em termos do trabalho de formação dos alu-
nos e do acompanhamento de suas aprendizagens
nas diferentes áreas.
Alguns princípios sobre Conselho de Classe:
1 - É espaço pedagógico de compartilhamento
de juízos avaliativos sobre aprendizagens e de troca
de experiências docentes nesse sentido.
2 - Delibera ações futuras e compartilhadas so-
bre casos individuais e/ou de grupo.Seu propósito é
uma leitura integral e interdisciplinar de aluno por
aluno pelo coletivo dos professores em determina-
dos momentos do processo(…)
3 - É necessária a presença de um mediador que
assegure o diálogo entre os professores.
80 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
4 - Dedicar um tempo maior a alguns alunos e/
ou algumas turmas.
5 - Lembrar que (…) questões atitudinais, fatores
emocionais, de saúde e familiares não explicam to-
das as questões de aprendizagem.
6 - É preciso constituir arquivos, fazer e refazer
trajetórias percorridas pelo grupo, buscando estraté-
gias que foram positivas e reconstruindo novas for-
mas de atuar.
Arquivos e registros: constituindo histórias - Pro-
fessores constituam um dossiê do aluno, com tarefas
de acompanhamento de etapas evolutivas; faça co-
mentários nessas tarefas, articulando-as, em outro
momento, com observações mais recentes.
Leitura positiva com apoio multidisciplinar - A ava-
liação (como ato valorativo) faz emergir muitos senti-
mentos da própria história do professor, e isso deve ser
considerado no processo avaliativo. Os pais não de-
vem ser responsabilizados pela aprendizagem de seus
filhos. Compartilhar o projeto pedagógico é dialogar
com familiares e responsáveis, condição fundamental
para uma boa condução do processo avaliativo.
1 - Tempo de reflexão: Corrigir tarefas ou inter-
pretar situações de aprendizagem?
Esse tempo exige um silêncio que permita a ex-
ploração, o alargamento da visão, a introspecção
antes do agir, um olhar reflexivo do avaliador, man-
tendo uma postura investigativa, uma atitude de to-
lerância e de diálogo frente às novidades, além de
uma conduta de responsabilidade compartilhada:
dialogar com colegas e alunos, transformando refle-
xões e estudos em práticas individuais.
Interpreta-se para compreender - Requer a in-
tenção pedagógica do professor no sentido de que
se faça o “silêncio” que permita refletir, interpretar
as situações de aprendizagem e transformar as práti-
cas avaliativas em mediadoras. Assim, é necessário:
- ultrapassar o “pensar como fazer atarefado” da
sala de aula em direção à ação reflexiva intencional,
planejada e longitudinal, em relação a cada aluno e
em relação ao saber pedagógico;
- levar mais a sério as observações do dia-a-dia
da sala de aula, anotando-as, identificando os sujei-
tos dessas observações;
- perceber as faltas, as dissonâncias, os obstácu-
los espistemológicos possíveis decorrentes das pro-
postas pedagógicas, para vir a ajustar e detalhar os
rumos do planejamento;
- interpretar o sentido das aprendizagens cons-
truídas nas tarefas avaliativas e situações de apren-
dizagem dos estudantes (para além de apenas corri-
gi-las), arquivando informações que considerar rele-
vantes para o seu acompanhamento;
- conversar com os alunos sobre as situações ob-
servadas e as tarefas analisadas, mediando aprendi-
zagens em construção;
- reunir, de tempos em tempos, tarefas parciais e
gradativas dos alunos que permitam a elaboração
de sínteses para a compreensão do conjunto e a to-
mada de decisões pedagógicas em relação às apren-
dizagens individuais do grupo.
Algumas questões, a partir de tais premissas:
- Que instrumentos são utilizados para observar
as aprendizagens dos alunos?
- Que acompanhamento se faz do material do
aluno e de que forma (em grupo, individuais, textos,
exercícios, cadernos, outros)?
- Como o professor corrige/interpreta os instru-
mentos (formas de correção, de anotação no instru-
mento do aluno, registro no material do professor,
etc.)?
- Como procede em termos de devolução dessas
correções ( tempo que leva para isso, retomada indi-
vidual ou coletiva, devolução ou não do instrumen-
to, etc.)?
- De que forma trabalha a partir das dificuldades
e necessidades percebidas nos alunos nesses instru-
mentos?
- Como procede em relação a erros e acertos (que
anotações faz nos instrumentos ou nos seus regis-
tros, comentários ao grupo ou individuais, planeja-
mento de outras atividades referentes, etc.)?
- Que códigos/anotações registra sobre o desem-
penho do aluno (notas, conceitos, registros descri-
tivos)?
- Como o professor chega ao resultado final do
bimestre, trimestre, semestre (como realiza essa sín-
tese)? Segue o regimento da escola ou faz adapta-
ções próprias?
- Como leva em conta as atitudes do aluno?
- Como se dão os Conselhos de Classe e qual a
forma de participação de alunos, professores, pais e
outros?
- Como se tomam as decisões de aprovação e
reprovação?
- Quais os procedimentos pedagógicos decorren-
tes dos Conselhos de Classe?
- Como são feitos os estudos de recuperação?
- Qual a participação dos pais na entrega de re-
sultados e outras questões da avaliação?
- Que formas de registro, relatórios, dossiês ou
documentos sobre o aluno são arquivados na escola
(por quem, de que forma, para quê)?
Tempo de reflexão: entrelaçando olhares - A prá-
tica da sala de aula exige estratégias que vão além
da base teórica. Uma reflexão necessária em rela-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 81
SINPEEM
ção ao cenário avaliativo, às relações afetivas, à di-
nâmica das aprendizagens.
Sobre o cenário avaliativo
Tom afetivo ou agressivo na condução dos traba-
lhos pode ser diretivo e limitador das respostas dos
alunos ou provocativo e convidativo à aprendizagem.
Sobre as relações afetivas
Propiciar o diálogo entre os envolvidos no pro-
cesso avaliativo, evitando o clima de disputa. É pre-
ciso pensar algumas questões:
- Qual é o significado das tarefas avaliativas?
- Como proceder em termos de devolução das
tarefas e testes para que se mantenha o tom afetivo
em relação ao educando?
- Como conversar com os alunos sobre o que se
observa deles?
- Como e quando os professores poderão trocar
suas observações sobre diferentes testes, tarefas e
situações de aprendizagem?
- Como assegurar a participação dos alunos nes-
se processo?
- De que forma e em que tempos isso poderá
ocorrer?
Sobre a dinâmica das aprendizagens
As propostas pedagógicas mobilizam os alunos
de forma diferente. São etapas cíclicas e evolutivas
de mobilização do seu desejo ou necessidade de
aprender (Charlot)
Desenvolvendo o tema:
DINÂMICA DA AVALIAÇÃO
Mediar a mobilização
Manter-se atentos às possibilidades dos alunos.
Ajustar tempos, espaços e recursos às necessidades
de cada um.
Mediar a experiência educativa
Promover a inserção afetiva entre todos os ele-
mentos da ação educativa. Desenvolver situações
diversificadas em diferentes tempos do processo.
Mediar a expressão do conhecimento
Interpretar a “expressão” das aprendizagens in-
dividuais. Adequar tarefas avaliativas ao contexto
educativo.
Acompanhar a evolução e o conjunto das apren-
dizagens dos alunos por meio de tarefas gradativas e
complementares.
Indaga-se:
O aluno se envolve com a tarefa de aprender?
A participação dos alunos processo avaliativo é
essencial à formação de sua autonomia. Diligenti diz
que os educadores devem voltar “seus olhares para
compreensões educativas menos absolutas, mais ter-
nas e acolhedoras”.
Como o aluno interage com os outros?
Proporcionar ao aluno integração em um grupo
de trabalho, com momentos de argumentação e tro-
ca de idéias, fundamentais à superação intelectual,
contando com a mediação do professor.
Mediar a expressão de sentido?
É buscar entender o que o aluno aprende na sua
prática escolar através da manifestação de suas múl-
tiplas linguagens (fala, escrita, desenho, gestos etc.),
que são interpretadas pelo olhar avaliativo de um
professor consciente de que o observável é a expres-
são da aprendizagem do aluno. No entanto, uma ta-
refa ou situação observada só poderá ser considera-
da significativa para um processo avaliativo media-
dor se as intenções do educador estiverem claras a
priori, e não a posteriori.
Análise epistemológica dos avanços e necessi-
dades percebidas - O objetivo da interpretação das
tarefas e das situações de aprendizagem é o de tra-
duzir as reflexões em estratégias pedagógicas. O pro-
fessor, como mediador, deve propor situações-pro-
blema e desafios adequados para que os alunos os
vivencie e possam ultrapassá-los.
Percursos possíveis de um olhar reflexivo
Toda manifestação do aluno tem de se conside-
rada relevante para o avaliador.
Em idéias interessantes e diferentes?
O que depende do cenário educativo, que é de
responsabilidade da escola e dos professores.
Em progressos significativos nas várias áreas do
conhecimento?
O educador deve ser capaz de perceber os saltos
qualitativos, intelectuais e afetivos do aluno na escola.
Em conteúdos aprendidos ou em suas formas de
expressão?
O educador precisa mediar saberes diferentes
com estratégias pedagógicas pertinentes.
No conteúdo das perguntas ou nas perguntas
feitas?
Uma mesma pergunta pode ser entendida dife-
rentemente por cada aluno.
82 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
No aprender a aprender?
Dúvidas não são erros e processos não são resul-
tados. Acompanhar um processo de aprendizagem
requer observação, diálogo, anotações etc.
No saber ler e no gostar de ler?
Gostar não é sinônimo de aprender. Desenvol-
ver o desejo de aprender e o compromisso do aluno
com sua tarefa de aprender...
- No aprender a ser e a conviver?
Valorizar histórias, retomar diálogo entre os en-
volvidos na ação educativa e o bom senso, preci-
sam ser resgatados.
A qualidade dos instrumentos de avaliação -
Como instrumentos são considerados algo concre-
to, uma observação só se tornará instrumento se for
transformada em registro. Os instrumentos só terão
sentido para quem os interpretar. Algumas reflexões:
1 - Toda produção escolar com intencionalidade
do professor são tarefas avaliativas.
2 - Tarefa elaborada pressupõe um tempo “a
priori” de observação e reflexão.
3 - Nitidez progresso intelectual e moral, articu-
lando-se cada etapa às etapas posteriores.
4 - Refletir sobre as tarefas feitas versus o mo-
mento/intenção em que elas ocorrem.
Aspectos que devem ser levados em conta ao se
elaborar tarefas avaliativas?
- Não têm a finalidade de comparar alunos e se-
lecioná-los.
- Devem conter diferentes questões sobre uma
mesma noção para que o professor possa fazer uma
interpretação consistente dos avanços e das necessi-
dades dos alunos na área investigada.
- Evitar questões objetivas e privilegiar questões
dissertativas, produção textual.
- Tarefas que permitam melhor identificar e des-
crever as aprendizagens individuais.
- Reunir professores de uma mesma área para
analisar um conjunto de tarefas respondidas e já cor-
rigidas. É compartilhar.
O tempo de reflexão e a dimensão do sensível -
A aprendizagem é traduzida por meio de palavras
e dos sentimentos; a mediação é como produção
de sentidos: encontro, aproximação, interlocução,
convivência. Esse é o objetivo de uma escola e da
educação.
3 - Tempo de reconstrução: Avaliar para apro-
var e reprovar ou formar para a vida?
Defende-se a possibilidade de escolhas das ava-
liações que o educador pode praticar nas escolas.
Apresenta-se a experiência de alguns países que
avançaram nesse processo, ressaltando o olhar con-
servador e talvez “esperançoso” do Brasil para ado-
tar práticas já prontas. No Seminário Internacional
“Educação, Ciência e Tecnologia como Estratégia de
desenvolvimento” (UNESCO/MEC), realizado em Se-
tembro de 2003, em Brasília, especialistas da Coréia
do Sul, Espanha, Finlândia, Irlanda, Malásia e Reino
Unido relataram suas experiências de sucesso nas
mudanças educacionais, resultando bons indicado-
res de qualidade de educação básica no instrumen-
to de avaliação internacional, PISA.
Na última pesquisa do PISA, para a Cooperação
e desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil, en-
tre 41 países, ficou nos últimos lugares do ranking.
O objetivo era analisar como os especialistas desses
países percebiam as repercussões das mudanças edu-
cacionais em relação a questões sociais. Outras pes-
quisas, como a do Sistema de Avaliação do Ensino
Básico (SAEB), também apontam que as políticas
educacionais brasileiras não estão sendo adequadas,
por manterem a mesma lógica do sistema, a sele-
ção, a competição o instrucionismo.
Experiências e estudos no país - Caminhos que
as secretárias de educação, escolas e professores vêm
trilhando em busca do sucesso, em relação:
Ao processo de reconstrução, qual a direção que
as instituições costumam seguir?
- buscam melhoria das relações grupais, salariais;
integração do corpo docente e diálogo com os en-
volvidos no processo de aprendizagem; participa-
ção docente na elaboração de projeto político-pe-
dagógico; formação continuada etc.
Às práticas avaliativas, que ações vêm sendo
implementadas por essas instituições e professores?
- visão integral do aluno (aspectos afetivos e dia-
lógicos), integrando ao processo avaliativo as tare-
fas e situações de aprendizagem, com cuidado de
registrar para contribuir com a construção de um
dossiê de cada aluno. Planejar e mediar os espaços
que facilitam a interação de todos. Pensar os Con-
selhos de Classe de forma construtiva, estreitando
a reflexão entre os professores sobre a aprendiza-
gem como processo. Dispor do apoio de grupos
multidisciplinares.
Aos entraves percebidos?
- Um entrave em termos administrativos, consta-
tado na escola privada, é a família não aceitar a abo-
lição do sistema de notas. Outro, é a adoção do sis-
tema de apostilas, destituindo o professor como au-
tor em sala de aula.
- A rotatividade dos professores que também ca-
recem de uma formação adequada e formação con-
tinuada.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 83
SINPEEM
As últimas páginas dessa parte do livro apresen-
ta alguns Relatos de casos “difíceis”, com a intenção
de desvelar possibilidades de fazer diferença nas es-
colas. É ilusão esperar que as condições sociocultu-
rais melhorem para se cuidar das crianças e jovens
desse país como eles tanto precisam. Prefiro fazer o
jogo do contrário: cuidar deles primeiro, para que
eles transformem esse país. O essencial no jogo do
contrário em avaliação é DUVIDAR SEMPRE DO
PRIMEIRO OLHAR!
Parte 2 - Entre claros e escuros da avaliação
Avaliação formativa ou avaliação mediadora?
Contrapõe-se a idéia de testes, provas ou exercí-
cios (instrumentos de avaliação), boletins, relatórios,
fichas, dossiê do aluno (registros de avaliação) como
avaliação. Avaliar é um processo contínuo, múltiplo
e complexo. Antes de mudar metodologias, é preci-
so pensar como os educadores significam / pensam
a avaliação. Esse processo só se constitui quando
ocorrem esses três tempos.
Processo subjetivo e multidimensional - Em toda
relação educador / educando faz-se necessário o pro-
cesso avaliativo mediador, favorecendo procedimen-
tos dialógicos. Reforça-se a idéia de que o olhar ava-
liativo deve se preocupar com as singularidades dos
educandos, justamente para que as estratégias pe-
dagógicas não sejam homogeneizantes. Assim, além
de prezar pela evolução individual, a avaliação deve
promover espaços interativos frente a um contexto
da diversidade.
Uma ação em três tempos - A observação, a re-
flexão e a ação não se dão em tempos lineares, exi-
gindo do professor uma flexibilidade para o diferen-
te, implicando no diversificar sem rotular, sem dis-
criminar, mantendo o respeito na relação dialógica.
Sempre estão presentes, na dinâmica escolar, os três
tempos da avaliação mediadora: da admiração, da
reflexão, da reconstrução das práticas avaliativas.
Tempo de admiração
Aprende-se a “ad-mirar” o aluno. É através de
um olhar ingênuo que ocorre a percepção do objeto
“ad-mirável” como um dar-se conta, uma pura opi-
nião. Mas quando se adentra o que se admira, se
alcança, de fato, o conhecimento sobre o objeto “ad-
mirado”. (Freire)
Tempo da reflexão
Propõe questionar as hipóteses constantemente.
Tempo da ação reflexiva / da mediação
Pressupõe a tomada de consciência, do com-
prometimento dos professores.
Uma concepção formativa e mediadora - Ao
considerar um processo de avaliação formativa a
partir do pressuposto da continuidade do processo
de aprendizagem e intervenção pedagógica perme-
ada por desafios, é preciso ressaltar que a avaliação,
mediante testes, é classificadora. Afinal, a essência
de uma concepção formativa implica o estreitamen-
to da relação do professor com o aluno, promoven-
do, ao tomar consciência de sua responsabilidade
na aprendizagem, o desenvolvimento de seus alu-
nos mediante intervenções pedagógicas. Ou seja,
assumindo uma postura mediadora que realmente
faça a diferença.
As contribuições de Piaget e Vygotsky - Tanto
Piaget quanto Vygotsky valorizam as interferências
mediadoras significativas.
Piaget
Privilegia desafios cognitivos nas situações edu-
cativas, responsabilidade do educador, em detrimen-
to do “instrucionismo”. Sua concepção de aprendi-
zagem está permeada pelo pressuposto do desequilí-
brio, do conflito, da reflexão e resolução de proble-
mas, contando com a mediação de um educador.
Vygostsky
A mediação é fundamental para o desenvolvi-
mento humano como um processo sócio-histórico,
uma vez que, como sujeito do conhecimento, seu
acesso aos objetos de conhecimento não é direto.
Ao fala em ZDP (zona de desenvolvimento proxi-
mal), ressalta a importância do papel mediador do
professor no processo da aprendizagem. Ao intervir
na ZDP o professor passa a ser um facilitador da aqui-
sição de novos conhecimentos por parte do aluno.
Deve atentar, no entanto, ao que o aluno já conhece
(desenvolvimento real já conquistado) para o que
possa vir a ser ou conhecer.
Para Piaget e Vygotsky, o papel do educador na
construção do conhecimento é insubstituível. Pre-
zam, nos processos de aprendizagem, a interação
adulto / criança e criança / criança. Assim, avalia-
ção mediadora busca promover o desenvolvimento
dos envolvidos nesse processo, contando com rela-
ções afetivas equilibradas e desafios intelectuais per-
manentes, prezando o diálogo e a interação. Dessa
maneira, transpõe-se três princípios essenciais para
a prática avaliativa:
O princípio dialógico/interpretativo da avaliação
A intenção é a de convergência de significados,
de diálogo, de mútua confiança para a construção
conjunta de conhecimento.
84 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
O princípio da reflexão prospectiva
Quem o aluno é, como se sente e vive as situa-
ções, o que pensa, como aprende, com quem apren-
de? Uma leitura que intenciona, sobretudo, planejar
os próximos passos, os desafios seguintes ajustados
a cada aluno e aos grupos.
O princípio da reflexão-na-ação
Avaliar com um processo mediador se constrói
na prática.
Para acompanhar o “ritmo alucinado de uma es-
cola”, faz-se necessário, também, admitir que não
se sabe, para então tentar descobrir como fazer.
1 - Aprender ou não aprender?
O não aprender de um aluno está diretamente li-
gado a algum parâmetro ou expectativas de desem-
penho definido pela escola, permeando o olhar ava-
liativo do professor. Assim o aluno não aprendeu de-
terminadas informações, no tempo programado, no
ritmo de outros, a responder de acordo com o previs-
to, habilidades previstas, em tarefas propostas.
Com que critérios avaliamos?
Há sempre critérios implícitos nos processos ava-
liativos, uma vez permeados pela subjetividade que
interfere no juízo avaliativo. Demo diz que toda ava-
liação é injusta, incompleta, autoritária, excludente
etc. Os critérios de avaliação devem ser pontos de
partida do olhar avaliativo, e não pontos de chega-
da, abrindo-se à perspectiva multidimensional da
aprendizagem do aluno.
Leituras positivas e negativas - A avaliação clas-
sificatória é uma prática negativa, que destaca o não-
feito, com forte inclinação para reprovar. No jogo
do contrário, propõe-se uma leitura positiva sobre o
aprender, isto é, avaliar para promover, cujo olhar
tem de ser prospectivo, multidimensional, com aten-
ção às potencialidades.
O aprender ser complementos - É necessário fa-
zer a pergunta “o aluno aprendeu?”, ao se pensar o
acompanhamento da aprendizagem, por considerá-
la mais ampla e abrangente. O Relatório da UNES-
CO para a Educação do Séc. XXI (publicado em 1996,
com o título: “Educação, um tesouro a descobrir”)
tem o compromisso de abranger as dimensões do
aprender, do aprender a aprender, do aprender a
fazer, do aprender a viver junto, do aprender a ser.
Pensando a avaliação, o verbo aprender, no sen-
tido multidimensional, propõe acompanhar a apren-
dizagem no seu processo, captando sua dinâmica,
atentando para o provisório e o complementar.
O Avaliador constrói significados na relação
com o aluno, uma vez que seu olhar é interpretati-
vo, que vão muito mais além do que instrumentos
objetivos podem captar. Daí a importância de se
ter valores éticos de dignidade e justiça na condu-
ção desse processo.
Evolução e conjunto das aprendizagens - É uma
visão dialética do conhecimento que permeia a
avaliação aprender/processo, seguindo os princí-
pios da provisoriedade e o da complementarie-
dade, já discutidos anteriormente. A avaliação
mediadora é de caráter longitudinal, isto é, acom-
panha a evolução das aprendizagens nos vários
tempos e no espaço dos múltiplos fazeres, e al-
cança significado por meio de uma visão de con-
junto (diversas situações e manifestações do alu-
no em articulação e complementação).
O aprender e o desejo de aprender - É um equí-
voco das escolas a prática classificatória que trans-
forma a aprendizagem em obrigação, em competi-
ção, destituindo do aluno o prazer e o gosto pela
aprendizagem, além da experiência de alegria, dito
por Fernández. Para entender de avaliação formati-
va/mediadora, é fundamental conceber o aprender
no conceito multidimensional. Portanto:
- A avaliação não tem por objetivo definir se os
alunos aprendem ou não aprendem. (…) todos apren-
dem (…) É preciso perguntar sobre que oportunida-
des podemos criar.
- Não há parâmetros de julgamento que dêem
conta da diversidade do contexto educacional e do
ato criativo nas aprendizagens. Critérios de avalia-
ção são pontos de partida do olhar avaliativo, subje-
tivos, questionáveis e passiveis de dúvidas.
- A leitura sobre o aprender precisa ser positiva,
prospectiva e multidimensional: um olhar confiante
das várias potencialidades dos alunos, não impor-
tando as diferenças.
- É possível e desejável conjugar o verbo apren-
der sem complementos, isto é, de desenvolvimento
do aluno, de formação moral e intelectual. A avalia-
ção mediadora se efetiva se entendida como obser-
vação, análise e mediação acerca do conjunto das
aprendizagens, privilegiando o aprender/processo e
não o aprender/ produto.
- É imperativo ensinar e mediar o prazer de apren-
der nas escolas, valorizando-o e percebendo-o na
dimensão estética do conhecimento.
2 - Respeitar ou valorizar as diferenças
Além do respeito às diferenças, é preciso valori-
zá-las. Isso pressupõe a não uniformidade dos mo-
delos classificatórios de avaliação. A justiça em ava-
liação só é possível mediante a palavra diversidade
(origem em divergir, que significa afastar-se progres-
sivamente dos limites fixos e precisos, discordar, dis-
crepar, questionar padrões, buscar a diferença.) Além
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 85
SINPEEM
de ser justo, é preciso ter outras virtudes: generosi-
dade, humildade e tolerância.
Cuidados especiais - Há alunos que necessitam
de cuidados especiais, como uma criança “surda”,
por exemplo. Neste sentido, faz-se necessária for-
mação profissional adequada para que se possa com-
preender e atuar nesse contexto.
Uma pedagogia do contágio - É fundamental que
o professor compartilhe sua prática, buscando avan-
ço teórico e novos desafios, contando com a contri-
buição de mediadores para seu desenvolvimento
profissional. Há regulares mudanças políticas, o que
causa entraves, principalmente na pressa por resul-
tados imediatos. É preciso investir na formação e al-
cançar o envolvimento de todos. Uma “pedagogia
do contágio”, garantindo ao professor o papel de pro-
tagonista de sua ação.
3 - Quantidade ou qualidade em avaliação?
Os números (notas a testes e tarefas) posicionam
o aluno em uma escala de valor. Essa posição pare-
ce “camuflar” outras questões mais graves da edu-
cação. Por ser superficial, poupa o educador de fa-
zer uma avaliação qualitativa das aprendizagens al-
cançadas.
Qualidade e aprendizagem: conceitos multidi-
mensionais - Ao buscar estratégias mediadoras que
possam promover novas oportunidades de aprendi-
zagem, a avaliação mediadora exige qualidade do
professor no sentido de registrar suas percepções so-
bre o processo vivenciado pelo aluno, consideran-
do as diversidades.
Da observação à ação-reflexiva - Há necessida-
de de uma avaliação mediadora qualitativa, medi-
ante registro e observações do professor sobre o pro-
cesso de aprendizagem do aluno.
Qualidade e diversidade: uma questão de cri-
tério?
Toda avaliação carrega critérios subjetivos, ba-
seados na experiência de vida do mediador. Re-
quer, devido sua complexidade, avaliadores que
tenham responsabilidade, atenção às diferenças e
individualidades, além de bom senso e atenção
aos fatores que interferem nos juízos avaliativos:
a) o efeito de halo (avaliação holística): fatores iso-
lados dos alunos podem levar a interpretações
generalizantes; b) os estereótipos e preconceitos:
apelidos pejorativos, alunos nota dez etc.; c) o foco
em aspectos relevantes para o professor: revelan-
do o caráter sempre interpretativo do processo
avaliativo pelo professor; d) a extensão no tempo:
um fato ocorrido com o aluno afeta, por decorrên-
cia, muitas outras situações de sua trajetória escolar.
Sensibilidade, razão e conhecimento - Sucesso
é cooperar, é aprender junto com o outro, é ser feliz
com o outro, é viver e valorizar as diferenças que
preservam a humanidade. Por isso, a escola não pode
ser considerada um lugar onde se educam “vence-
dores” à custa de perdedores.
4 - Sistema de avaliação é causa ou conseqüên-
cia do fracasso escolar?
As discussões sobre os ciclos - Os resultados do
SAEB 2003 comprovam que em todo o Brasil a apren-
dizagem é deficitária. O desencadeador está na al-
fabetização. Discute-se o sistema de avaliação para
disfarçar o problema. Não se constrói para as crian-
ças espaços efetivos de aprendizagem, que privile-
giem a concepção multidimensional.
Sobre o princípio de não reprovar - Abro os pa-
rênteses para dizer que aprovo plenamente o princí-
pio de não-reprovação, essência de um processo de
avaliação mediadora.
Avaliação e universidade - Sobre o ensino supe-
rior, a avaliação segue os mesmos parâmetros do
ensino fundamental, com discurso semelhante dos
professores. Reclamam dos sistemas menos rigoro-
sos em avaliação, quando comparados com “anti-
gamente”. Na universidade, o pacto é de “mediocri-
dade e laissez-faire”. Falar, então, de rigor nesse pro-
cesso implica retomar a avaliação mediadora que
pressupõe compromisso tantos dos professores como
dos alunos. O primeiro, desafiador e orientador; o
segundo, assumindo o desafio buscando autonomia
em sua aprendizagem.
Movidos pela aprendizagem?
Predominam as discussões sobre as formas de
registro do desempenho escolar, dando-se pouca
atenção ao processo da aprendizagem. São muitos
professores universitários sem formação pedagógi-
ca, reproduzindo modelo classificatório de avalia-
ção. Se não houver mudança de concepção, não
ocorrerão avanços. Afinal, discute-se avaliação para
tentar melhorar a aprendizagem dos alunos, quando
se deveria fazer exatamente o inverso: discutir a
aprendizagem dos alunos para aperfeiçoar o processo
avaliativo e a educação.
Resumo elaborado por Eliane Aguiar, bacharel
em Letras (Lingüística e Português) – FFLCH/USP; li-
cenciada em Português - FEUSP; especialista em Psi-
copedagogia Clínica - PUC/SP; mestre em Lingua-
gem e Educação - FEUSP; doutoranda em Educação
- FEUSP.
86 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
LERNER, Délia. Porto Alegre, Artmed, 2002
A autora apresenta uma reflexão sobre a prática
docente em alfabetização, trazendo a atualização de
conceitos fundamentais de pensamento como o de
“contrato didático” e o de “transposição didática”,
em relação ao ensino da língua escrita. Para isso in-
corpora o pensamento da corrente francesa conhe-
cida como Didática da Matemática, sendo os princi-
pais representantes: Brousseau e Chevallard. Este re-
sumo mantém a organização e os títulos das partes
dos capítulos. .
Parte 1 - Ler e escrever na escola: o real,
o possível e o necessário
Ensinar a ler e a escrever é um desafio que trans-
cende amplamente a alfabetização em sentido estri-
to. Participar na cultura escrita supõe apropriar-se de
uma tradição de leitura e escrita e para concretizar o
propósito de formar alunos praticantes dessa cultu-
ra, é necessário reconceitualizar o objeto de ensino
e construí-lo tomando como referência as práticas
sociais de língua escrita.
O necessário é fazer da escola uma comunidade
de leitores que recorram aos textos buscando respos-
tas para os problemas a resolver, encontrar informa-
ções, compreender melhor o mundo. Fazer da esco-
la um local onde os alunos possam produzir seus
próprios textos e mostrar suas idéias.
Necessário é preservar o sentido do objeto de
ensino para o sujeito da aprendizagem, a fim de que
sejam cidadãos da cultura escrita. .
O real é o que levar à prática e isso implica em
conhecer as dificuldades e analisá-las:
a) Dificuldades envolvidas na escolarização das
práticas: não é simples determinar com exatidão o
que, como e quando os sujeitos aprendem a língua
escrita. Ex.: Em que momento as crianças se apro-
priam da “linguagem dos contos”? Como ter acesso
às interferências ou antecipações que as crianças fa-
zem ao tentar ler um texto?
b) Tensões entre os propósitos escolares e extra-
escolares da leitura e da escrita: se a escola ensina
a ler e escrever com o único propósito de que os
alunos aprendam a fazê-lo, eles não aprenderão a
ler e escrever para cumprir outras finalidades (da vida
social); se a escola abandona os propósitos didáti-
cos estará abandonando sua função de ensinante.
LER E ESCREVER NA ESCOLA:
O REAL, O POSSÍVEL E O NECESSÁRIO
c) Relação saber-duração versus preservação do
sentido: desde o século XVII a opção tradicional, no
caso do ensino da língua escrita, primeiro era preci-
so dominar o código (sílabas, formação de palavras)
e depois iniciava-se a compreensão e produção de
textos simples e breves.Esta organização entra em
contradição com as práticas de leitura e escrita por-
que estas são indissociáveis.
d) Tensão entre duas necessidades institucionais:
ensinar e controlar a aprendizagem: O possível é
fazer o esforço para conciliar as necessidades da ins-
tituição escolar com o propósito educativo de for-
mar leitores e escritores, gerar condições didáticas
que permitam colocar em cena a versão escolar da
língua escrita mais próxima da versão social (não
escolar) dessas práticas.
Parte 2 - Para transformar o ensino da leitura
e da escrita
O desafio é combater a discriminação que a es-
cola opera não apenas criando o fracasso por não
alfabetizar, como também impede aos outros de che-
garem a ser leitores e produtores de textos compe-
tentes e autônomos. Como possibilitar mudanças na
prática dos professores para que todos tenham aces-
so à língua escrita?
a) A capacitação: condição necessária, mas não
suficiente para a mudança na proposta didática.
A atualização é sempre necessária em todas as
profissões e mais ainda para os professores latino-
americanos por conta das mudanças radicais que
ocorrem nos últimos anos em relação à alfabetiza-
ção. Porém, mesmo reconhecendo, que a capaci-
tação não é suficiente para a mudança na propos-
ta didática, é necessário introduzir modificações
no currículo e na organização institucional, desen-
volver a pesquisa de campo da didática da leitura
e da escrita.
O tempo é uma variável importante para a capa-
citação: as “jornadas” de duração muito curta po-
dem ser úteis para dar a conhecer um assunto, mas
são insuficientes; quarenta horas, por exemplo, dis-
tribuídas numa semana não é a mesma coisa que
distribuir em vários meses, já que esta última distri-
buição permite que o professor leia a bibliografia,
ponha em prática, novas atividades e discutam com
seus colegas.
Oficinas, análise de registros de classe, do plane-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 87
SINPEEM
jamento de atividades e da avaliação; durante o pro-
cesso de acompanhamento, condução de situações
didáticas, são condições para que o professor apren-
da “por participação na tarefa concreta”. Estas são
situações que provocam transformações na prática
do professor.
Quanto à dimensão obrigatoriedade-voluntaria-
do cada uma tem vantagens e desvantagens. A obri-
gatoriedade corre o risco de alguns participantes não
se comprometerem seriamente.
b) acerca da transposição didática: a leitura e a
escrita como objeto de ensino
(A autora incorpora o pensamento francês de uma
corrente conhecida como Didática da Matemática,
cujos representantes principais: Brousseau e Che-
vallard, utilizam conceitos de ”transposição didáti-
ca” e “contrato didático”. Lerner interessa-se por este
conceitos nas aprendizagens básicas de Língua e
Matemática – que determinam o êxito ou fracasso
inicial. Ela atualiza estes conceitos para encontrar sua
especificidade no caso da língua escrita.)
· Abismo entre a prática escolar e a prática social
da língua escrita – a língua escrita, criada para repre-
sentar e comunicar significados, aparece na escola
fragmentada.
· Leitura: na escola lê-se somente para a prender
a ler; a leitura em voz alta ocupa mais espaço que a
leitura silenciosa. Na vida social ler é uma atividade
orientada por propósitos – de buscar informação ne-
cessária para resolver problemas práticos.
· Escrita: na escola escreve-se apenas para apren-
der a escrever; na sala de aula espera-se que o aluno
produza textos num tempo muito breve e escreva
diretamente de modo fluente e rápido a versão final.
Fora da escola produzir texto é um longo processo
que requer reiteradas revisões; é considerada uma
tarefa difícil para adultos mesmo para aqueles que o
fazem habitualmente.
Por que ensinar algo tão diferente do que as
crianças terão que usar depois fora da escola?
Atribuiu-se durante muito tempo a concepção
condutista que impera na escola, mas Chevallard com
seus estudos sobre matemática demonstrou que a
distância entre o objeto de conhecimento que existe
fora da escola e o objeto que é ensinado na escola
não ocorre apenas com a leitura e a escrita, mas afe-
ta todos os saberes que ingressam na escola para ser
ensinados e aprendidos.
O saber (Chevallard) adquire sentidos diferen-
tes em diferentes instituições. Todo saber está mo-
delado pelo aqui e agora da situação institucional
em que se produzem.
A escola e o saber – a escola tem a finalidade de
comunicar às novas gerações o conhecimento ela-
borado pela sociedade. Para tanto o saber científico
ou as práticas sociais se transforma em “objetos de
ensino”. Ao se modificarem ocorre a transformação:
é necessário selecionar algumas questões, privilegi-
ar certos aspectos, distribuir as ações no tempo, or-
ganizar os conteúdos. A necessidade de comunicar
o conhecimento leva a modificá-lo.
Tempo – o conhecimento vai se distribuindo atra-
vés do tempo e com isso adquire características par-
ticulares, diferentes do objeto original.
Graduação – A graduação do ensino da língua
escrita: no começo, leitura mecânica e, só mais tarde,
leitura compreensiva; as letras ou sílabas se apresen-
tam de forma seqüenciadas antes da palavra, da ora-
ção, do texto; os alunos devem compreender “literal-
mente” o texto antes de fazer uma interpretação pró-
pria dele e muito antes de fazer uma leitura crítica.
Duas ilusões na tradição escolar:
1 - Contornar a complexidade dos objetos de
conhecimento reduzindo-os a seus elementos mais
simples – a simplificação faz desaparecer o objeto
que se quer ensinar.
2 - Exercer um controle sobre a aprendizagem – o
professor não consegue controlar a compreensão que
as crianças têm da língua escrita nem sobre suas pos-
sibilidades como intérpretes e produtores de texto.
· Transposição didática – deve ser rigorosamente
controlada porque: o propósito da escola é comuni-
car o saber; a intenção de ensino faz com que o ob-
jeto não possa aparecer exatamente, nem ser utiliza-
do da mesma maneira que é utilizado quando esta
situação não existe; deve-se levar em conta os co-
nhecimentos prévios das crianças que estão se apro-
priando do objeto em questão.
· O controle da transposição didática – não pode
ser uma responsabilidade exclusiva do professor.
a) Ao professor cabe prever atividades e interven-
ções que favoreçam a presença na sala de aula do
objeto de conhecimento que foi construído social-
mente, assim como refletir sobre sua prática e refor-
mulá-la se necessário.
b) É de responsabilidade dos governos tornar pos-
sível a participação da comunidade científica que por
sua vez tem a responsabilidade de se pronunciar so-
bre a seleção de conteúdos, formular objetivos, ati-
vidades e formas de avaliação; que tais práticas não
88 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
desvirtuem a natureza dos objetos do conhecimento
e estabelecer formas de trabalho nos diferentes graus
ou ciclos.
Contrato didático – O conceito de “contrato di-
dático” é a relação entre o professor e o aluno. Auto-
ridade do professor de quem “sabe mais” e autorida-
de “institucional”. Que assumem frente aos alunos.
Em relação à criança há também duplo processo:
interpretar o texto e interpretar o que o professor en-
tende e solicita.
Broussseau estabelece que o “contrato” compro-
mete o professor, o aluno e o saber.
Direitos e responsabilidades entre o professor e
os alunos - adquire características específicas em re-
lação a cada conteúdo.
Rockwell – a “clausula” sobre interpretação de
textos parece estabelecer que o direito de decidir
sobre a validade da interpretação é privativo do pro-
fessor, que a autoridade institucional da qual está
investido o exime de apresentar argumentos, o que
não impede, que os professores que assim o desejam
possa fazê-lo – e que os alunos – tenham sido con-
vencidos em favor do professor.
Que efeitos produzirão essa distribuição de di-
reitos e obrigações na formação das crianças como
leitores? Se o aluno não tem o direito de atuar como
leitor reflexivo e crítico na escola, qual será a insti-
tuição social que lhe permitirá formar-se como tal?
É preciso:
· Revisar a distribuição dos direitos e das respon-
sabilidades que o professor e alunos têm em relação
à língua escrita e os propósitos que a instituição se
coloca em relação à formação de leitores e produto-
res de textos.
· Criar na escola âmbitos de discussão para ela-
borar vias de transformação.
· Elaborar “contrato” que responda melhor à ne-
cessidade de formar leitores e escritores competentes.
· Proporcionar elementos para conhecer as regras
implícitas nas interações entre professores e alunos
a cerca da língua escrita.
· Doa formadores de professores criar situações
que permitam aos professores e estudantes compre-
enderem a contradição no ensino da língua escrita,
assumir e superá-la para formar praticantes autôno-
mos da língua escrita.
Ferramentas para transformar o ensino
1 - Estabelecer objetivos por ciclos, em vez de
estabelecer por grau. Não apenas porque isso dimi-
nui o risco de fracasso na aprendizagem da língua
escrita, mas também permite elevar a qualidade da
alfabetização. Atenua a tirania do tempo didático –
prof e aluno dedicando tempo para ler verdadeiros
livros; trabalhar com diferentes tetos; discutir diver-
sas interpretações; cometer erros, refletir sobre eles e
retificá-los. Há tempo para avançar no domínio da
língua escrita.
2 - Atribuir aos objetivos gerais prioridade aos
específicos.
3 - Evitar a correspondência termo a termo ente
os objetivos e atividades, correspondência que leva
ao parcelamento e a fragmentação indevida da lín-
gua escrita.
4 - Superar a tradicional separação ente “alfabe-
tização em sentido estrito” e “alfabetização em sen-
tido amplo” ou entre “apropriação da leitura e da
escrita”. Esta separação é responsável pelo fato do
ensino fundamental centrar-se na sonorização des-
vinculada do significado.
5 - o objetivo é formar leitores; leitura é desde o
começo, um ato centrado na construção do signifi-
cado, o qual não é subproduto da oralização. Para
construir significado ao ler, é fundamental ter opor-
tunidades de se enfronhar na cultura do escrito, de ir
construindo expectativas acerca do que se pode “di-
zer” neste ou naquele texto.
Parte 3 - Apontamentos a partir da
Perspectiva Curricular
Currículo – deve levar em consideração as con-
tribuições das ciências da linguagem, da psicologia,
estudos psicogenéticos, psicolingüísticos, estudos
sociológicos e etnográficos.
Idéias subjacentes à perspectiva curricular ado-
tada:
1 - Somente a didática da língua pode contribuir
para resolver problemas que se enfrenta na produ-
ção curricular.
2 - Quando se propõe uma transformação didáti-
ca é necessário levar em conta a natureza e as pres-
sões próprias que se lhe são inerentes.
3 - O projeto curricular deve preservar o senti-
do do objeto de ensino - no caso da leitura e da
escrita – favorecendo a prática social que se pre-
tende comunicar.
Problemas curriculares: elaborar documentos
curriculares significa tomar decisões que afetarão
muitas escolas. Portanto, faz sentir, fortemente, a
necessidade da pesquisa didática.
Construir o objeto de ensino: Chevallard expli-
cita que a decisão de quais são os conteúdos a en-
sinar e quais serão considerados prioritários supõe
uma verdadeira reconstrução do objeto. Trata-se de
um primeiro nível de transposição didática: a pas-
sagem dos saberes cientificamente produzidos ou
práticas a ensinar.
Tradicionalmente, o que se concebe como objeto
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 89
SINPEEM
de ensino é a língua, em particular seus aspectos des-
critivos e narrativos. Infelizmente, são ausentes na sala
de aula, práticas de leitura e escrita: razão que leva as
pessoas a ler e escrever, as maneiras de ler, tudo o que
fazem os leitores e escritores, as relações que leitores
e escritores têm com o texto. Os efeitos dessa ausên-
cia são evidentes: a reprodução das desigualdades
sociais relacionadas com a leitura e a escrita.
Conteúdos envolvidos nas práticas:
1 - Os comportamentos do leitor e do escritor
são conteúdos e não tarefas, porque são aspectos que
se espera que os alunos aprendam.
2 - O conceito de “comportamentos do leitor e
do escrito” não coincide como de “conteúdos pro-
cedimentais”, porque em um mesmo comportamen-
to pode confluir o atitudinal, o comportamental e o
conceitual. Ao atuar como leitores e escritores, os
alunos têm oportunidades de se apropriar de con-
teúdos lingüísticos que adquirem sentido nas práti-
cas; é assim que as práticas se transformam em fonte
de reflexão metalingüística.
Preservar o sentido dos conteúdos: supõe propi-
ciar que sejam adquiridos por participação nas práti-
cas, que se ponham efetivamente em ação em vez
de ser substituídos por meras verbalizações
Os comportamentos do leitor na escola:
tensões e paradoxos
Fora da escola, a leitura se mantém alheia ao
obrigatório, dentro da escola não escapa da obriga-
toriedade. A escola, por outro lado, tem responsabi-
lidade em relação ao ensino que a obriga a exercer
um forte controle sobre a aprendizagem e com isso
privilegia algumas questões e deixa de lado outra.
Normalmente a escola apresenta para crianças
apenas textos dirigidos às crianças
Mas está muito claro que não se aprende a ler
textos difíceis lendo textos fáceis. Se pretendemos
que os alunos construam comportamentos de ler tex-
tos literários é preciso incorporar esses textos em seu
trabalho e preservar o sentido que a leitura e a escri-
ta tem para os seres humanos.
Parte 4 - É possível ler na escola?
Esta pergunta pode parecer estranha à institui-
ção cuja missão fundamental é
precisamente ensinar a ler e a escrever. No en-
tanto muitas práticas descaracterizam a leitura na
escola, distantes dos propósitos que lhe dão sentido
social. Isso ocorre por dois fatores:
a) a teoria condutista (comportamentalista ou
behaviorista) da aprendizagem - que não se ocupa
do sentido que a leitura possa ter para as crianças e
concebe a aquisição do conhecimento como um pro-
cesso acumulativo e graduado, um parcelamento do
conteúdo em elementos supostamente simples.
b) um conjunto de regras, pressões e exigências
arraigadas na escola - distribuição do tempo escolar
que atribui um período determinado à aprendizagem
de cada um desses elementos, um controle estrito da
aprendizagem de cada parcela e um conjunto de re-
gras que concedem ao professor certos direitos e
deveres que somente ele pode exercer – enquanto o
aluno exerce outros complementares.
Isso torna a leitura impossível na escola.
A escola como microssociedade de leitores e
escritores. (ou – sim é possível ler na escola)
Para que a leitura se transforme num objeto de
aprendizagem é necessário que tenha sentido do
ponto de vista do aluno, isto, que os propósitos didá-
ticos cumpram a função para a realização de propó-
sitos que o aluno conhece e valoriza.
Exemplo: Produção de uma fita de poemas com
propósito comunicativo de compartilhar com pesso-
as textos comovedores e interessantes; tendo como
destinatários grupos de alunos de educação infantil
e biblioteca falante para cegos. Seqüência de ativi-
dades: proposta do projeto; seleção dos poemas; or-
ganização da tarefa; audição das fitas; gravação (en-
saio); audição; regravação; escuta da fita editada e
redação de uma carta coletiva apresentando a fita e
solicitando uma resposta “crítica” construtiva.
Gestão do tempo, apresentação dos conteúdos
e organização das atividades.
Parece necessário romper com a correspondên-
cia linear entre parcelas do conhecimento e parcelas
do tempo e para isso é preciso criar condições com
diferentes modalidades organizativas:
1 - Projetos – permitem organização flexível do
tempo de acordo com o objetivo que se queira al-
cançar; compartilhar o planejamento com os alunos:
discutir etapas, responsabilidades, trabalhar a leitura
sobre vários pontos de vista.
2 - Atividades habituais – oferecem oportunida-
de de interagir intensamente com um gênero de cada
vez. Ex. Hora dos contadores de história. Seqüências
de atividades
3 - Seqüências de atividades – podem ser coleti-
vas, grupais e individuais. Estão direcionadas para se
ler com as crianças diferentes exemplares de um
mesmo gênero ou subgênero (poemas, contos de
aventuras, contos fantásticos...)
4 - Situações independentes
a) Situações ocasionais: quando a professora en-
contra um texto que considera valioso, embora per-
90 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
tença a um gênero, ou a um tema que não tem cor-
respondência com as atividades do momento.
b) Situações de sistematização: Ex. após ter reali-
zado uma seqüência centrada na leitura de fábulas,
propor uma situação cujo objetivo é refletir sobre os
traços que caracterizam as fábulas e as diferenciam
dos contos; depois de ter confrontado certos proble-
mas relativos à pontuação, é possível propor situa-
ção cujo objetivo é “passar a limpo” os conhecimen-
tos construídos ao resolver os problemas.
A gestão do tempo deve respeitar a distribuição
do tempo didático que corresponde à necessidade
de produzir uma mudança qualitativa na apresenta-
ção da leitura. O tempo escolar é insuficiente tam-
bém para a perspectiva aqui proposta. É necessário
selecionar administrando o tempo de tal modo que o
importante ocupe sempre o primeiro lugar.
Acerca do controle: avaliar a leitura
e ensinar a ler
Avaliação é uma necessidade legítima da insti-
tuição escolar, mas para evitar que a pressão da ava-
liação se torne obstáculo para a formação de leito-
res, é preciso por em primeiro plano os propósitos
referentes à aprendizagem, de tal modo que estes não
se subordinem à necessidade de controle e, por ou-
tro lado, criar momentos em que o controle seja res-
ponsabilidade também do aluno.
O professor como ator no papel de leitor – é de
particular importância, na primeira etapa da escola-
ridade a leitura do professor. Depois o professor con-
tinuará atuando como leitor – não com tanta freqüên-
cia como no começo – durante toda escolaridade,
porque é lendo materiais que ele considera interes-
santes, belos ou úteis que poderá comunicar às cri-
anças o valor da leitura.
O problema da leitura é de responsabilidade de
toda instituição escolar.A escola deve se preocupar
em elaborar projetos direcionados em enfrentar a
questão da leitura instalando o “clima leitor” na es-
cola e não apenas na sala de aula.
E assim a autora responde a questão é possível
ler na escola.
Parte 5 - Papel do conhecimento didático na
formação do professor
O conhecimento didático tem de ser o eixo do
processo de capacitação do professor. Para os ca-
pacitadores dois fatores foram essenciais para avan-
çar na análise da situação e produzir progressos no
trabalho de capacitação de professores: a conceitu-
alizacao da especificidade do conhecimento didá-
tico e a reflexão sobre nossa própria prática como
formadores.
Após avaliar as situações, conservar as que con-
sideramos produtivas para a construção de conheci-
mento didático por parte dos professores. Há um
duplo objetivo: conseguir que os professores cons-
truam conhecimentos sobre um objeto de ensino e,
por outro lado, que elaborem conhecimentos refe-
rentes às condições didáticas necessárias para que
seus alunos possam apropriar-se desse objeto.
Neste sentido, duas condições são importantes:
que o capacitador se esforce por entender os proble-
mas que os professores apresentam, por compreen-
der por que pensam o que pensam, ou por que deci-
dem adotar uma proposta e rejeitar outra; por outro
lado, que os professores se sintam autorizados a atu-
ar de forma autônoma, que tenham razões próprias
para tomar e assumir suas decisões.
Síntese elaborada por Martha Sirlene da Silva,
Mestre em educação pela UMESP, membro do GEAL
– Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Alfabetização
e Letramento.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 91
SINPEEM
LIBÂNEO, José Carlos.
OLIVEIRA, João Ferreira.
TOSCHI, Mirza Seabra. Editora Cortez, 2005
1ª parte - cap. 2 e 4ª parte - cap. 1, 2, 3 e 4
1ª Parte
Torna-se cada vez mais evidente o fato de que a
revolução tecnológica está favorecendo o surgimen-
to de uma nova sociedade, marcada pela técnica,
pela informação e pelo conhecimento.Esta se carac-
teriza ainda por um novo paradigma de produção e
de desenvolvimento, que tem como elemento bási-
co a centralidade do conhecimento e da educação.
Essa centralidade ocorre porque educação e co-
nhecimento passam a ser, do ponto de vista do capi-
talismo globalizado, força motriz e eixos de transfor-
mação produtiva e do desenvolvimento econômico.
No novo processo de produção, em que estão
presentes as novas tecnologias e as novas ou mais
flexíveis e eficientes formas de organização da pro-
dução não há praticamente lugar para o trabalhador
desqualificado; a desqualificação passou a significar
exclusão do novo processo produtivo.
No novo sistema produtivo, há lugar para o tra-
balhador cada vez mais polivalente, flexível, versá-
til, qualificado intelectual e tecnologicamente e ca-
paz de se submeter a um contínuo processo de
aprendizagem.
Na ótica economicista e mercadológica, presente
na atual reestruturação produtiva do capitalismo, o
desafio essencial de educação consiste na capacita-
ção da mão de obra e na requalificação dos trabalha-
dores, para satisfazer as exigências do sistema produ-
tivo e formar o consumidor exigente e sofisticado para
um mercado diversificado, sofisticado e competitivo.
No âmbito dos sistemas de ensino e das escolas,
procura-se reproduzir a lógica da competição e as
regras de mercado, com a formação de um mercado
educacional.Busca-se a eficiência pedagógica por
meio da instalação de uma pedagogia da concorrên-
cia, da eficiência e da produtividade.
No entanto, isso não implica em que os impactos
da revolução tecnológica no campo da educação, ani-
quilem as singularidades dos sujeitos.Em uma socieda-
de do conhecimento e de aprendizagem, é preciso do-
tar os sujeitos sociais de competências e de habilidades
pra a participação da vida social, econômica e cultural
afim de não ensejar novas formas de divisão social.
A EDUCAÇÃO ESCOLAR PÚBLICA
E DEMOCRÁTICA NO CONTEXTO ATUAL:
UM DESAFIO FUNDAMENTAL
A educação escolar precisa oferecer respostas
concretas à sociedade, formando quadros profissio-
nais para o desenvolvimento e para a geração de ri-
queza que sejam capazes também de participar cri-
ticamente desse processo.
No contexto da sociedade contemporânea, a edu-
cação pública tem tríplice responsabilidade: ser agente
de mudanças; trabalhar a tradição e os valores nacio-
nais; preparar cidadãos capazes de entender o mundo.
Essas responsabilidades implicam em três objeti-
vos fundamentais que devem servir de base para a
construção de uma educação pública de qualidade
no contexto atual:
· preparação para o processo produtivo e para a
vida em uma sociedade técnico-informacional;
· a formação para a cidadania crítica e partici-
pativa;
· formação ética
4ª PARTE
ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA:
OS PROFESSORES E A CONSTRUÇÃO
COLETIVA DO AMBIENTE DE TRABALHO
As funções específicas de planejar, organizar, di-
rigir e avaliar uma determinada instituição social,
mediante várias ações e procedimentos, é o que se
designa gestão.
No caso da escola essas ações e procedimentos
asseguram a racionalização do uso de recursos -
humanos, materiais, financeiros e intelectuais –as-
sim como a coordenação e o acompanhamento do
trabalho das pessoas.
Conceitualmente a gestão faz parte da organiza-
ção. Na escola a gestão e a organização aparecem
juntos, pois seus objetivos e resultados, seus proces-
sos e meios estão relacionados com a formação hu-
mana Partindo do princípio de que os meios existem
para se alcançarem determinados fins e lhes são su-
bordinados, entendemos que as formas de organiza-
ção e de gestão da escola são meios para a realiza-
ção de seus objetivos específicos. Esses meios visam:
a) prover os recursos necessários ao ótimo funci-
onamento da escola e do trabalho em sala de aula;
b) promover o envolvimento/participação das
pessoas no trabalho e avaliar essa participação;
c) garantir a realização da aprendizagem para
todos os alunos.
92 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
As reformas educacionais exigidas pelas recen-
tes transformações do mundo contemporâneo colo-
cam a escola como unidade básica e como espaço
de realização das metas do sistema escolar.
A gestão educacional centrada na escola pode
ser entendida pela perspectiva neoliberal que con-
cede à comunidade e a escola a iniciativa de plane-
jar, organizar e avaliar os serviços educacionais, e,
libera boa parte das responsabilidades do Estado; ou
pela perspectiva sociocrítica que, pelo interesse pú-
blico do serviço educacional prestado, valoriza as
ações concretas dos profissionais na escola que se-
jam decorrentes de sua iniciativa, mas não desobri-
ga o Estado de suas responsabilidades.
Nessa segunda perspectiva a escola e seu modo
de se organizar constituem um ambiente educati-
vo, pois se entende que todas as pessoas que nela
trabalham, mesmo não tendo as mesmas respon-
sabilidades nem a mesma atuação, realizam ações
educativas.
As escolas são, ambientes formativos e ambien-
tes de aprendizagem, pois suas práticas de organi-
zação e de gestão ao mesmo tempo em que educam
- podem criar ou modificar os modos de agir e de
pensar das pessoas - ,também aprendem –na medida
em que sua gestão pode ser construída pelas mes-
mas pessoas que a compõem. Em síntese, as pessoas
mudam com as práticas organizativas, as organiza-
ções mudam com as pessoas.
A organização do sistema de ensino de um país
pode ser considerada em três grandes instâncias:
o sistema de ensino como tal, as escolas e as salas
de aula.
A escola sendo a instância integrante do todo
social, é o espaço de realização tanto dos objetivos
do sistema de ensino quanto dos objetivos de apren-
dizagem, e é afetada pela estrutura econômica e so-
cial, pelas decisões políticas e pelas relações de po-
der em vigor na sociedade.
Isso significa que as políticas e as diretrizes do
sistema de ensino podem exercer forte influência e
controle na formação das subjetividades de profes-
sores e alunos. Revela-se que as formas de organiza-
ção e gestão desempenham um papel educativo na
medida em que propicia ao professor a necessária
compreensão entre as relações do espaço escolar, o
sistema de ensino e o sistema social mais amplo, uma
vez que é ele, o responsável pela formação intelec-
tual, afetiva e ética dos alunos.
Dessa forma é imperativo que os professores, ten-
do consciência das determinações sociais e políti-
cas, das relações de poder implícitas nas decisões
administrativas e pedagógicas do sistema e como elas
afetam as decisões e as ações levadas a efeito na es-
cola e nas salas de aula, se convençam e legitimem
as normas e diretrizes curriculares em vigor.
Neste sentido, é necessário conciliar as decisões
do sistema e as decisões tomadas no âmbito das es-
colas, e para tal é preciso que a organização e a ges-
tão escolares ocorram mediante formas participati-
vas, concebendo a escola como uma comunidade
democrática de aprendizagem.
É necessário existir uma interdependência entre
os objetivos e as funções da escola e a organização e
a gestão do trabalho escolar, a fim de garantir o obje-
tivo primordial da escola que é o ensino e aprendi-
zagem dos alunos.
É preciso ter clareza de que o eixo da instituição
escolar é a qualidade dos processos de ensino e
aprendizagem que, mediante procedimentos peda-
gógico-didáticos, propiciam melhores resultados de
aprendizagem.
As famílias, a comunidade e os alunos desejam
uma escola em que os próprios alunos estejam moti-
vados para estarem nas aulas e se envolvam com afin-
co nas atividades da classe.Isto significa que quanto
mais uma escola consegue promover a aprendiza-
gem de seus alunos mais ela se diferencia.
A melhor qualidade de aprendizagem dos alu-
nos está associada a alguns fatores como: a capaci-
dade de liderança dos dirigentes, práticas de gestão
participativa, a cultura organizacional instituinte, o
relacionamento entre os membros da escola, a refle-
xão conjunta e troca de experiência entre os profes-
sores, a autonomia escolar que implica em uma ges-
tão descentralizada.
Embora não seja possível padronizar regras e pro-
cedimentos organizacionais de validade geral para o
modo e funcionamento de uma escola, há algumas
características que podem ser úteis como: professo-
res preparados, projeto pedagógico curricular com
plano de trabalho definido, bom clima de trabalho,
estrutura organizacional que motive a aprendizagem,
direção e coordenação pedagógica que articulam o
trabalho dos professores, condições físicas e materi-
ais adequados, estrutura e organização curricular com
conteúdo bem selecionado, e finalmente a disponi-
bilidade da equipe para aceitar inovações.
A eficácia das escolas segundo Nóvoa (1995) está
relacionada também com a articulação curricular,
com a estabilidade profissional do corpo docente,
com a liderança organizacional, com o programa de
formação continuada e com a participação dos pais
entre outros. Todos os aspectos citados somente têm
sentido se estiverem diretamente associados à me-
lhoria das metodologias do ensino e aprendizagem.
O conjunto currículo-ensino constitui os meios
mais diretos para atingir o que é nuclear na escola _
a aprendizagem dos alunos _ com base nos objeti-
vos educacionais que expressam os projetos sociais
e culturais da sociedade e da comunidade, de acor-
do com os interesses em jogo.
A escola é o local do trabalho docente, e a orga-
nização escolar é o espaço de aprendizagem da pro-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 93
SINPEEM
fissão que funciona com base em dois movimentos
inter-relacionados: de um lado a estrutura e a dinâ-
mica organizacional atuando na produção das idéi-
as dos modos de agir, das práticas profissionais dos
professores; de outro, estes são participantes ativos
na organização, contribuindo com a definição de
objetivos, com a formulação do projeto pedagógico-
curricular, com a atuação nos processos de gestão e
de tomadas de decisão, havendo portanto uma con-
comitância entre o desenvolvimento profissional e o
desenvolvimento organizacional.
O professor, na maior parte das vezes, ainda tem
sua participação restrita à sala de aula, mas essa si-
tuação pode ser modificada pela adoção de práticas
participativas em que ele mesmo aprenda nas situa-
ções de trabalho, compartilhe, discuta e tome deci-
são sobre o projeto pedagógico- curricular,sobre as
relações sociais internas,sobre as práticas de avalia-
ção. Esse modo de funcionamento da organização e
da gestão considera a escola uma comunidade de
aprendizagem.
Segundo Pérez Gomes (2000), toda aprendiza-
gem relevante é um processo de diálogo com a reali-
dade natural e social; assim sendo a sala de aula é
um lugar de construção, de reconstrução e de com-
partilhamentos de culturas, como a organização es-
colar é um espaço de compartilhamento de signifi-
cados, de conhecimento e de ação entre as pessoas.
A adoção da gestão participativa para a comuni-
dade de aprendizagem introduz um modelo alterna-
tivo de vida em sociedade, mas que não pode ser
confundida com um falso igualitarismo entre funções
e papéis dos membros da equipe escolar.
O exercício profissional do professor compreen-
de ao menos, três atribuições: a docência, a atuação
na organização e na gestão da escola e a produção
de conhecimento pedagógico.
Como docente, necessita de preparo profissional
para ensinar os conteúdos, acompanhar individual-
mente aos alunos e avaliar a aprendizagem, bem
como, desenvolver conhecimentos e pontos de vista
sobre questões pedagógicas.Como membro da equi-
pe escolar, deve dominar conhecimentos relaciona-
dos à organização e à gestão, desenvolver capacida-
des e habilidades práticas para participar dos pro-
cessos de tomada de decisões. Como profissional que
produz conhecimento sobre seu trabalho precisa
desenvolver competências de elaboração e de de-
senvolvimento de projetos de investigação.
Certos princípios e métodos da organização es-
colar originam-se de experiência administrativa, po-
rém com formas muito peculiares de conceber as
práticas de organização e de gestão escolar, uma vez
que seus objetivos dirigem-se para a educação e for-
mação de pessoas, e portanto, tais práticas se reves-
tem de caráter genuinamente pedagógico.
A organização escolar refere-se aos princípios e
procedimentos relacionados à ação de planejar o tra-
balho da escola, racionalizar o uso de recursos e
coordenar e avaliar o trabalho das pessoas tendo em
vista a consecução de objetivos.
Chiavenato (1989) distingue dois significados de
organização: unidade social e função administrati-
va. Como unidade social, a organização identifica
um empreendimento humano destinado a atingir
determinados objetivos e como função administrati-
va, refere-se ao ato de organizar, estruturar e integrar
recursos e órgãos.
Desse modo, a organização escolar define-se
como uma unidade social que reúne pessoas que
interagem entre si, intencionalmente, operando por
meio de estruturas e processos organizativos própri-
os a fim de alcançar objetivos educacionais.
“Esse conjunto de características é denominado
por Vitor Paro (1996) de administração escolar, que
afirma que tanto na teoria como na prática, a admi-
nistração pode ser entendida como dois campos que
se interpenetram: a “racionalização do trabalho” e a
“coordenação do esforço humano coletivo”.
Alguns autores afirmam que o centro da organi-
zação e do processo administrativo é a tomada de
decisão. Esse processo de chegar a uma decisão e de
fazer a decisão funcionar caracteriza a ação desig-
nada como gestão, que é a atividade pela qual são
mobilizados meios e procedimentos para atingir os
objetivos da organização.
Há várias modalidades e concepções de gestão:
centralizada, colegiada, participativa, co-gestão.
A cultura é um conjunto de conhecimentos e
valores, crenças e costumes modos de agir e de se
comportar, e constitui o contexto simbólico que
nos rodeia e vai formando nosso modo de pensar
e de agir, isto é, nossa subjetividade. A bagagem
cultural dos indivíduos contribui para definir a
cultura organizacional da instituição de que fazem
parte, e considerá-la como um conceito central da
organização das escolas significa buscar a relação
das práticas culturais dos indivíduos e sua subjeti-
vidade com sua influência nas formas de organi-
zação e de gestão escolar.
Podemos entender o assentimento ou a resistên-
cia ante as inovações, se identificamos na escola a
cultura organizacional designada.
Cultura organizacional pode ser definida como
o conjunto de fatores sociais, culturais e psicoló-
gicos que influenciam os modos de agir da organi-
zação como um todo e o comportamento das pes-
soas em particular.Esses fatores são os que dife-
renciam uma escola da outra, e são denominados
de currículo oculto, pois embora não seja explíci-
to e nem claramente perceptível atua de forma
poderosa nos modos de funcionar das escolas e na
prática dos professores.
A cultura organizacional aparece de duas formas:
94 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
como cultura instituída –normas legais definidas
pelos órgãos oficiais, como cultura instituinte - nor-
mas criadas e recriadas pelos membros da escola.
A organização e os processos de gestão assumem
diferentes modalidades, conforme a concepção que
se tenha das finalidades sociais e políticas da educa-
ção em relação à sociedade e à formação de alunos.
Em uma perspectiva linear teríamos em um ex-
tremo a concepção técnico-científica em que preva-
lece uma visão burocrática e tecnicista da escola cuja
decisão vêm de cima para baixo e basta cumprir um
plano previamente elaborado, e no outro extremo a
concepção sociocrítica em que prevalece uma visão
democrática da escola e a tomada de decisões, dá-
se coletivamente, possibilitando ao grupo discutir e
deliberar em uma relação de colaboração.
Os diferentes estilos de gestão fundamentam-se
em quatro concepções: a técnico-científica, a auto-
gestionária, a interpretativa e a democrático-parti-
cipativa.
Entende-se que as concepções de gestão escolar
refletem diferentes posições políticas, e a participa-
ção é o principal meio de assegurar a gestão demo-
crática, pois possibilita o envolvimento de todos os
integrantes da escola no processo de tomada de deci-
sões, proporciona melhor conhecimento dos objeti-
vos e metas de sua estrutura organizacional e de sua
dinâmica e propicia um clima de trabalho favorável.
O conceito de participação fundamenta-se no
princípio da autonomia, que significa a capacidade
das pessoas e dos grupos para a livre determinação
de si próprios, isto é, para a condução da própria
vida. A participação significa, portanto, a interven-
ção dos profissionais da educação e dos usuários (alu-
nos e pais) na gestão da escola, havendo dois senti-
dos de participação articulados entre si: um mais res-
trito que se identifica com a idéia de escola como
comunidade democrática de aprendizagem e outro,
mais amplo que identifica a escola com o status de
comunidade educativa, pois ela deixa de ser uma
redoma, um espaço fechado, separado da realidade.
O caráter pedagógico da ação educativa consis-
te precisamente na formulação de objetivos sócio-
políticos e educativos e na criação de formas de via-
bilização organizativa e metodológica da educação,
tendo em vista dar uma direção consciente e plane-
jada ao processo educacional.
Entende-se o papel do diretor como um líder co-
operativo, que têm a visão de conjunto e de alguém
que consegue aglutinar as aspirações os desejos e as
expectativas da comunidade escolar e articular a
adesão e participação de todos os segmentos da es-
cola na gestão em um projeto comum; uma vez to-
madas as decisões coletivamente é preciso que a es-
cola esteja bem coordenada e administrada a fim de
colocá-las em prática.
Instituição autônoma é a que tem poder de deci-
são sobre seus objetivos e sobre suas formas de orga-
nização, que se mantém relativamente independen-
te do poder central e administra livremente recursos
financeiros.
Dessa forma, as escolas podem traçar seu pró-
prio caminho, porém as escolas públicas têm uma
autonomia relativa, pois integram um sistema esco-
lar e dependem das políticas e da gestão públicas. È
por isso que a autonomia precisa ser gerida, impli-
cando co-responsabilidade consciente, partilhada e
solidária de todos os membros da equipe escolar..
Podemos afirmar que a organização escolar de-
mocrática implica não só a participação na gestão,
mas a gestão da participação. Além disso, a partici-
pação das comunidades escolares em processos de-
cisórios dá respaldo a governos estaduais e munici-
pais para encaminhar ao Poder Legislativo projetos
de lei que atendam às necessidades educacionais da
população (Ciseski e Romão,1997).
A concepção democrático-participativa de ges-
tão valoriza o desenvolvimento pessoal, a qualifica-
ção profissional e a competência técnica.
Toda instituição escolar possui uma estrutura or-
ganizacional interna, geralmente prevista no regimen-
to escolar ou em legislação, específica, estadual ou
municipal, que assegura o funcionamento da mes-
ma, e comumente é representada graficamente em
um organograma.
O conselho de escola tem atribuições consulti-
vas, deliberativas e fiscais em questões definidas na
legislação estadual ou municipal e no regimento
escolar.Sua composição tem certa proporcionalida-
de de participação, observando, em princípio, a pa-
ridade entre integrantes da escola (50%) e comuni-
dade (50%), e tem, como função básica democrati-
zar as relações de poder.
O setor pedagógico compreende as atividades
de coordenação pedagógica e de orientação edu-
cacional. O coordenador pedagógico acompanha,
assessora, apóia e avalia as atividades pedagógico-
curriculares; sua atribuição prioritária é prestar as-
sistência pedagógico-didática aos professores, no
que diz respeito ao trabalho interativo com os alu-
nos, mas também tem a função de relacionar-se com
os pais e a comunidade. O orientador educacional
cuida do atendimento e do acompanhamento indi-
vidual dos alunos em suas dificuldades pessoais e
escolares, do relacionamento escola-pais e de ou-
tras atividades compatíveis com sua formação. Re-
comenda-se que ambos sejam formados em cursos
específicos de Pedagogia.
Paralelamente à estrutura organizacional, muitas
escolas mantêm instituições auxiliares como a Asso-
ciação de Pais e Mestres (APM), o Grêmio Estudan-
til, e a Caixa Escolar com a finalidade de organiza-
ção da assistência social, econômica, alimentar, mé-
dica e odontológica aos alunos carente.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 95
SINPEEM
O corpo docente é o conjunto dos professores
em exercício na escola e compõem com a direção e
os especialistas a equipe escolar.
As escolas buscam resultados, o que implica uma
atividade racional, estruturada e coordenada sendo
que em seu processo de organização dispõe, de fun-
ções com base nas quais se definem ações, opera-
ções necessárias ao funcionamento institucional que
são: planejamento, organização,direção/coordena-
ção e avaliação.
O planejamento consiste em ações e procedimen-
tos para tomada de decisões a respeito de objetivos
e de atividades a ser realizadas em razão desses ob-
jetivos, e possibilita uma previsão de tudo que será
feito, superando a improvisação e a falta de rumo.
A atividade de planejamento resulta em um pro-
jeto pedagógico-curricular, que é um documento que
propõe uma direção política e pedagógica, prevê as
ações, formula metas, institui procedimentos e ins-
trumentos de ação. É pedagógico porque formula
objetivos sociais, políticos e meios formativos para
dar uma direção ao processo educativo e expressa
uma atitude pedagógica, que consiste em dar um
sentido às práticas educativas. É curricular porque
propõe, também, o currículo, que além de ser o refe-
rencial concreto da proposta pedagógica é o desdo-
bramento do projeto pedagógico.
A estrutura organizacional e o cumprimento das
atribuições de cada membro da equipe constituem
elementos indispensáveis para o funcionamento da
escola.Um mínimo de divisão de funções faz parte
da lógica da organização educativa, sem compro-
meter a gestão participativa.
Dirigir e coordenar significa assumir no grupo a
responsabilidade de fazer a escola funcionar medi-
ante o trabalho conjunto e, essas tarefas agrupadas
referem-se à gestão.
É competência da direção, assegurar: a execução
coordenada e integral das atividades dos setores e dos
indivíduos, o processo participativo de tomada de
decisões, a articulação das relações interpessoais.
Todos os profissionais da escola precisam estar
aptos a dirigir e a participar das formas de gestão,
pois é necessário que haja um mínimo de normas,
sempre decididas conjuntamente, garantindo a uni-
dade da ação educativa escolar.
Obedecendo à lógica da administração, isto é da
necessária divisão de funções, o diretor e o coorde-
nador pedagógico, assumem o papel de coordena-
dores de ações voltadas para objetivos coletivamen-
te estabelecidos. Na perspectiva de gestão devem
reconhecer que essa ocupação tem uma característi-
ca genuinamente interativa, ou seja, está a serviço
das pessoas e da organização.
A avaliação supõe acompanhamento e controle
das ações decididas coletivamente permitindo pôr
em evidência as dificuldades surgidas na prática diá-
ria, mediante a confrontação entre o planejamento e
o funcionamento real do trabalho.
A avaliação das atividades implica a análise co-
letiva dos resultados alcançados e a tomada de deci-
sões sobre as medidas necessárias para solucionar
as deficiências encontradas.
Áreas de atuação são as atividades básicas que
identificam uma instituição escolar e asseguram seu
funcionamento, tendo em vista a melhor aprendiza-
gem dos alunos. São seis, as áreas de atuação da or-
ganização e da gestão da escola:
1) O planejamento e o projeto pedagógico cur-
ricular
2) A organização e o desenvolvimento do currículo
3) A organização e o desenvolvimento do ensino
4) As práticas de gestão;
5) O desenvolvimento profissional (formação
continuada)
6) Avaliação institucional da escola e da apren-
dizagem.
Existem diferentes estilos de gestão do trabalho
na escola, sendo eles: o burocrático, com normas e
regras previamente definidas e com forte ênfase no
controle do comportamento das pessoas,o autoges-
tionário valoriza a participação na gestão, mas ex-
clui qualquer forma de diretividade, o democrático-
participativo acentua tanto a necessidade de estabe-
lecer objetivos e metas quanto a de prever formas
organizativas e procedimentos mais explícitos de
gestão e de articulação das relações humanas.
Com base nesse último estilo de gestão citado,
são sugeridas ações concretas e algumas competên-
cias profissionais que assegurem o desenvolvimento
de práticas de gestão participativa.
1 - Ações a ser desenvolvidas:
1) formação de uma boa equipe de trabalho
2) construção de uma comunidade democrática
de aprendizagem que requer:
* consenso mínimo sobre valores e objetivos;
* estabilidade do corpo docente e tempo integral
numa escola;
* metas pertinentes, claras e viáveis;
* capacitação de docentes para o trabalho em
equipe e em habilidades de participação;
* promoção de ações sistemáticas de formação
continuada para o desenvolvimento profissional.
3) promoção de ações de desenvolvimento pro-
fissional
4) envolvimento dos alunos em processos de so-
lução de problemas e de tomada de decisões
5) Envolvimento dos pais na vida da escola
6) Fortalecimento de formas de comunicação e
de difusão de informações
7) Avaliação do sistema escolar, das escolas e da
aprendizagem dos alunos.
96 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
Na avaliação dos sistemas de ensino, o objetivo
é realizar um diagnóstico mais amplo do sistema es-
colar em âmbito nacional ou regional a fim de reori-
entar a política educacional, a gestão do sistema e
das escolas e a pesquisa.
A avaliação do sistema escolar por meio da ava-
liação externa e/ou interna das instituições, desdo-
bra-se em duas modalidades:
a) avaliação institucional que visa à obtenção de
dados quantitativos e qualitativos sobre os alunos e
professores, sobre a estrutura organizacional, sobre
recursos físicos, sobre as práticas de gestão, etc., com
o objetivo de emitir juízos de valor e tomar decisões
acerca do desenvolvimento da instituição.
b) avaliação acadêmica que visa à produção de
informações sobre os resultados da aprendizagem
escolar em função do acompanhamento e da revi-
são das políticas educacionais, do sistema escolar
das escolas, com a intenção de formular indicadores
de qualidade dos resultados do ensino.
Entre uma e outra modalidade está, a avaliação
da escola que abrange o projeto pedagógico-curri-
cular, a organização escolar, os planos de ensino e o
trabalho dos professores e têm como objetivo a aferi-
ção da qualidade de ensino e da aprendizagem dos
alunos.
Os aspectos a ser avaliados no âmbito da organi-
zação escolar:
a) dados estatísticos sobre a população
escolar,reprovação, abandono da escola, etc.;
b) elaboração e desenvolvimento do projeto pe-
dagógico curricular;
c) aspectos da organização geral da escola;
d) clima organizacional da escola;
e) acompanhamento do rendimento escolar dos
alunos;
f) avaliação da execução do projeto pedagógico-
curricular;
g) avaliação do desempenho dos professores;
h) estratégias de relacionamento com os pais e
com a comunidade e as formas de comunicação e
de atendimento.
Os critérios de relevância da avaliação dos alu-
nos devem centrar-se em dimensões qualitativas e
quantitativas da aprendizagem para todos os alunos,
em condições iguais.Desse modo, a justa medida da
eficácia das escolas está no grau em que todos os
alunos incorporam capacidades e competências cog-
nitivas, afetivas e morais para sua inserção produti-
va, criativa e crítica na sociedade contemporânea.
Não se trata, obviamente, de estabelecer diag-
nóstico meramente com base em resultados de de-
sempenho do aluno, mas de pesquisar formas avali-
atórias que contemplem conjuntamente aspectos do
processo e dos resultados.
2 - Competências profissionais do pessoal
da escola
1) Aprender a participar ativamente de um grupo
de trabalho ou de discussão a desenvolver compe-
tência interativa entre si e com os alunos.
São características da competência interativa as
habilidades de comunicação, de expressão e de es-
cuta. Entendendo que o professor em primeiro lugar
é uma pessoa, isso significa que sua atividade se de-
fine tanto por aquilo que ele sabe quanto por aquilo
que ele é “reconhecer que a relação professor-aluno
impregna a totalidade da ação profissional do pro-
fessor implica reconhecer, também, que os professo-
res necessariamente aprendem no contato com os
alunos, e serão melhores professores quanto maior
for a sua capacidade para realizar essa aprendiza-
gem” (Canário,1997, p.12)
2 - Desenvolver capacidades e habilidades
de liderança
Liderança é a capacidade de influenciar, moti-
var, integrar e organizar pessoas e grupos a fim de
trabalharem para a consecução de objetivos.
Kurt Lewin, psicólogo alemão, sugere três estilos
de liderança que contribuem para entender a dinâ-
mica interna das instituições:
· o estilo autoritário - o dirigente decide,distribui
e controla tarefas e não há participação da equipe, e
o grau de satisfação com o trabalho é baixo;
· o estilo democrático – há boas relações inter-
pessoais e as ações propostas pelo dirigente são dis-
cutidas com a participação das pessoas;
· o estilo laisser-faire – o papel do dirigente é quase
ausente, com fraca definição de objetivos e pouco
empenho na organização e na gestão de atividades.
Conforme o estilo de liderança, podem surgir,
diferentes comportamentos entre os membros da
equipe, sendo de hostilidade frente a uma atitude
autoritária, e de ações positivas frente a uma atitude
democrática.
A tendência atual é a de uma liderança coopera-
tiva que envolve determinados requisitos como: ca-
pacidade de comunicação e de relacionamento com
as pessoas; saber escutar; saber expor com clareza
suas idéias; capacidade organizativa; características
sociais, culturais e psicológicas do grupo.
3 - Compreender os processos envolvidos
nas inovações organizativas, pedagógicas
e curriculares
A mudança de uma cultura organizacional insti-
tuída ou de representações que as pessoas têm sobre
o funcionamento da escola é um processo comple-
xo, no qual influem a história de vida, os modos de
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 97
SINPEEM
pensar e de agir já consolidados, as atitudes de aco-
modamento, a resistência à mudança, etc.. O modo
de agir das pessoas está ligado a conceitos subjeti-
vos, a valores, a opiniões, a convicções e interesses
ancorados em uma prática de muitos anos, sendo,
portanto, de difícil mudança. O melhor modo de pro-
mover a gestão participativa é instaurar a prática da
participação em um clima de confiança, de transpa-
rência e de respeito às pessoas, entendendo que é a
própria prática que possibilita o alargamento da cons-
ciência e o sentido da participação na construção de
uma nova cultura organizacional.
4 - Aprender a tomar decisões sobre problemas
e dilemas da organização escolar, das formas
de gestão, da sala de aula
Na prática, a gestão participativa é uma forma de
integrar os membros da organização escolar nos pro-
cessos e procedimentos de tomada de decisões a res-
peito de objetivos, de critérios de realização desses
objetivos, de encaminhamento de soluções para pro-
blemas. Para boa parte das decisões a ser tomadas
no cotidiano da escola existem já normas, procedi-
mentos e orientações aprovadas pelo grupo; no en-
tanto ocorrem acontecimentos e situações imprevi-
síveis, havendo, então, a necessidade de discussões
e de tomadas de decisões coletivas.
5 - Conhecer, informar-se, dominar o
conteúdo da discussão para ser um
participante atuante e crítico
Há três campos de conhecimento sobre os quais
os professores precisam estar muito bem informados:
a legislação,os planos e as diretrizes oficiais; as nor-
mas e rotinas organizacionais;as questões pedagógi-
cas e curriculares. As escolas devem tornar disponí-
vel aos professores e ao pessoal técnico administrati-
vo os documentos básicos da legislação federal, es-
tadual e municipal.
6 - Saber elaborar plano e projetos de ação
Participar da organização da escola e saber or-
ganizar seu trabalho na sala de aula são atividades
que requerem capacidade e habilidades de plane-
jamento.
7 - Aprender métodos e procedimentos
de pesquisa
O professor-pesquisador é profissional que sabe
formular questões relevantes sobre sua própria prá-
tica e tomar decisões que apresentem soluções a es-
sas questões; para isso, precisa dominar alguns pro-
cedimentos básicos da pesquisa.
Os passos de uma prática de pesquisa asseme-
lham-se aos procedimentos para a formulação de
projetos ou para a solução de problemas:
· identificar um problema,com base em uma prá-
tica de ação – reflexão -ação;
· definir meios e instrumentos de busca de
informações,a fim de avaliar se as ações produziram
o efeito esperado;
· analisar os dados para identificar problemas,
necessidades, alimentando o processo ação – refle-
xão – novas ações;
· propor ações e intervenções
8 - Familiarizar-se com modalidades e
instrumentos de avaliação do sistema, da
organização escolar e da aprendizagem escolar
A avaliação caracteriza-se sempre por ser uma vi-
são retrospectiva do trabalho. É etapa necessária de
qualquer plano ou projeto, no âmbito da escola ou da
sala de aula, e, é necessário que todos os que partici-
pem da escola e dos processos de gestão dominem
conhecimentos, instrumentos e práticas de avaliação.
Resumo realizado por Maria Cristina Natel, gradua-
da em pedagogia e especialista em psicopedagogia.
98 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
MACEDO, Lino. Porto Alegre, Artmed, 2005
O autor apresenta reflexões e propostas a respei-
to de uma nova forma de encarar os desafios que a
educação inclusiva gera no cotidiano escolar, tais
como: disciplina, funções da avaliação, docência
reflexiva, etc. O resumo obedece à ordem de orga-
nização de títulos dos capítulos e de seus itens.
1 - Para uma cultura das diferenças
Semelhanças/ Diferenças: Uma escola para todos
parte do princípio do respeito pelas diferenças, entre-
tanto, ainda hoje, a organização da escola está baseada
na cultura das semelhanças. Essa cultura permite orga-
nizar, classificar e atuar sobre algo que nos é conhe-
cido, ou seja, orienta-se pela lógica da semelhança.
A diferença é tudo aquilo que não reconhece-
mos e que não sabemos como lidar. Por isso não
conseguimos encará-la como algo inteiro e imagi-
namos que só é possível compreendê-la por partes,
fragmentos ou pistas. Quando precisamos lidar com
aquilo que consideramos diferentes, percebemos que
as categorias que dominamos são insuficientes, as-
sim construímos novas relações por meio de infe-
rências (deduções). Assim, a lógica da semelhança é
a lógica das classes e a lógica das diferenças é a ló-
gica das relações que nós construímos.
Como nos relacionamos com as diferenças?
Para dominar o que não conhecemos ou excluí-
mos, ou transformamos em outra coisa. Um dos ca-
minhos possíveis diante do que é diferente é respei-
tar, aprendendo a conviver e desenvolvendo ações
comprometidas com a inclusão. A cultura da dife-
rença supõe “a cultura da fraternidade,” na qual di-
ferenças e semelhanças podem conviver juntas.
Para uma cultura das diferenças: Para praticar uma
cultura das diferenças é preciso aprender a se relacio-
nar com os excluídos, que têm um direito a um lugar
e o direito de conviver com aqueles que não o são.
Considerações finais
Uma escola para todos precisa combinar a lógi-
ca da semelhança com aquela da diferença, porque
elas são interdependentes e complementares.
2 - Fundamentos para uma educação inclusiva
É preciso conhecer e pensar nos fundamentos da
ENSAIOS PEDAGÓGICOS: COMO
CONSTRUIR UMA ESCOLA PARA TODOS?
educação inclusiva porque isso define nossa posi-
ção quanto ao assunto e determina as características
de nosso trabalho. Na educação inclusiva a propos-
ta é de que se trabalhe articulando classe e gênero.
Lógica de exclusão é a lógica da classificação,
que reúne tudo o que é igual. Essa lógica exclui
aquilo que não se encaixa nos critérios e cria pre-
conceitos. O problema não é classificar e sim o uso
políticos e a visões educacionais que vêm desse
raciocínio de classes. Na lógica da exclusão quem
está fora do critério (ou referente) é designado pelo
termo sem: sem-terra, sem-teto, etc.
Lógica da inclusão é a lógica de relação, na qual
um é definido em relação do outro. Se analisarmos
uma criança que tem dificuldades de aprendizagem
na lógica da relação, o professor também tem dificul-
dades porque está implicado pela insuficiência de seus
recursos pedagógicos na relação com este aluno.
A relação e suas implicações: Pela lógica da rela-
ção nós nos definimos pela própria relação. Ao incluir,
nós nos abrimos para o que somos em relação ao ou-
tro e para isso é preciso mudar estratégias, organiza-
ção, espaço e tempo em sala de aula. Na exclusão o
referente é externo, a classificação é única, sucessiva,
em espaço e tempo diferentes. Na inclusão o referente
é interno, múltiplo, simultâneo, nos relacionamos de
inúmeras formas, no mesmo espaço e tempo.
Interdependência: Na lógica da classe a estrutura
ou é de dependência ou é de independência. Na ló-
gica da relação a estrutura é de interdependência e
suas características são: indissociabilidade (compar-
tilhamos um mesmo todo), complementaridade (cada
um é a parte que falta para a outra virar um todo),
irredutibilidade (nada se reduz a um único critério).
A co-dependência: A co-dependência é o lado
negativo no qual ficamos em relação ao outro. Na
co-dependência não se permite que o outro altere
sua posição relacional conosco, precisamos que o
outro continue dependente de nós.
Autonomia e educação inclusiva: Ser autônomo
é ser todo e parte ao mesmo tempo. Cada um é todo,
com suas características, com o que tem ou não tem,
isso é sua identidade. A educação inclusiva nos ofe-
rece o desafio de aprender o que não sabíamos; a
oportunidade de rever nossas expectativas e nosso
trabalho como professores. Cientes de nosso própri-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 99
SINPEEM
os medos e preconceitos podemos assumir uma for-
mação que permita a educação inclusiva.
3 - Desafios à prática docente reflexiva
Prática e reflexão são dois aspectos do conheci-
mento que não podem ser dissociados porque são
complementares e fundamentais, visto que hoje a
escola acumula funções socioculturais e que para
cumpri-las é preciso profissionalismo.
Desafio 1 - Atualizar compreensões e procedi-
mento sobre a escola e a prática docente. Como
ensinar (e aprender) pela lógica da inclusão?
No passado, o ensino era guiado pela lógica da
exclusão. Os alunos eram selecionados por caracte-
rísticas e quem não as atendia era excluído quer por
reprovação, quer por abandono às próprias “insufi-
ciências”. Na lógica da exclusão, a escola estabele-
ce critérios e elimina tudo o que os contraria. As
competências de ensinar estão desvinculadas daque-
las de aprender e isso gera a seguinte situação: o
professor ensina o aluno não aprende.
Na lógica da inclusão a relação é precária (por-
que é difícil controlar tudo); é complexa porque já
não se pode decompor as partes do todo escolar pela
redutora lógica da exclusão, e é ambivalente porque
as referências são múltiplas (cada um é algo, depen-
dendo das referências adotadas).
Desafio 2 - Desenvolver novas habilidade e
competências de ensino. Como ensinar em uma
escola para todos?
Há competências e habilidades que sempre fo-
ram e são esperadas nos professores. No passado,
para exercer as habilidades e competências, e exigi-
las dos alunos, o professor dispunha de recursos efi-
cientes como, por exemplo, a reprovação ou exclu-
são dos alunos que não correspondiam às exigênci-
as. Desde que a educação escolar passou a ser obri-
gatória, todos têm o direito a entrar no sistema esco-
lar e cumpri-lo, sem ameaça de repetência ou ex-
clusão. Para tanto, se espera que professore ensine
através de lógica da inclusão, na qual ensinar e apren-
der são indissociáveis.
Desafio 3 - Ensinar em um contexto mais inves-
tigativo do que transmissivo. Como articular no pre-
sente, o passado e o futuro?
Deve-se desenvolver a natureza investigativa do
ensino através de projetos e enfrentamento dos no-
vos problemas. Portanto, o professor já não pode ser
um transmissor daquilo que no passado se julgava
fundamental, precisa ser orientador, gestor e criador
de situações e tarefas de aprendizagem novas.
Desafio 4 - Desejar aprender e não apenas ensinar.
Como praticar uma formação contínua e matizada?
Para aprendizagem do professor, além da forma-
ção continuada, palestras, livros, etc., é preciso que
a sua sala de aula se torne um ambiente investigati-
vo e de aprendizagem para o próprio professor.
Desafio 5 - Tratar prática e reflexão como for-
mas interdependentes de conhecimento. Como as-
sumir uma prática reflexiva?
Prática e reflexão são interdependentes porque re-
presentam dimensões de um mesmo conhecimento.
Muitas vezes, a prática reflexiva é impedida por todo o
tipo de urgência no cotidiano, isso porque a escola está
sobrecarregada de tarefas e expectativas sociais e aca-
ba atuando de forma pouco hábil e profissional.
Desafio 6 - Assumir prática e reflexão nos ter-
mos da lei de tomada de consciência de Piaget
(1974/1978A). Como interiorizar e exteriorizar co-
nhecimento e saberes.
Prática reflexiva implica ponderar, qualquer
tema, na perspectiva de situação-problema. Para
isso é preciso pensar ações/conseqüência e não
objetos e conceitos.
Voltar-se para dentro: A prática reflexiva exige
um voltar-se para dentro de si e do sistema em que
se age, valorizando hipóteses e a expectativa do su-
jeito quanto à produção de conhecimento.
Refletir, para agir e refletir sobre a ação realiza-
da: Refletir sobre a ação é compreender o passado e
fazer disso um conhecimento para corrigir erros,
antecipando ações futuras.
Duplo processo: exteriorização e interiorização:
Todo o conhecimento tem duas marchas: uma em
direção ao sujeito e outra em direção ao objeto. É
preciso realizá-las de modo interdependente porque
ambas têm o sentido de superar e ignorância e tro-
car o sofrimento pela alegria do conhecer.
Prática reflexiva mediada e recursiva: Ninguém
reflete por nós, mas também não é possível refletir
sozinho. Quais são os processos e estratégias da pra-
tica reflexiva?
Reflexão: auto-observação, transformação e
emancipação
Com a prática reflexiva é possível rever hábitos e
padrões de conduta e pensamento. Passar do plano
da ação para o da reflexão pressupõe 3 obstáculos:
aprender a reconstituir no plano da representação o
que está no plano da ação; descentrar-se da ação,
transformando-a em linguagem representativa e dar
estatuto social e interindividual àquilo que era res-
trito ao contexto de aula.
100 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
O antes, o depois e o durante em uma ação ou
reflexão
Muitas vezes, o máximo que conseguimos fazer
é muita ação com pouca reflexão porque estamos
imersos num cotidiano sem tempo ou espaço para
ela, ou o oposto: muita reflexão e ação mínima. Duas
posições extremas e prejudiciais.
Desafio 7 - A docência como profissão. Como
superar a idéia de que ensinar é uma “simples”
ocupação?
Ser professor é uma profissão que supõe uma for-
mação séria, complexa e valiosa. A prática reflexiva é
um dos recursos para realizar bem nossa profissão. Uma
sociedade tecnológica e um mundo globalizado exi-
gem domínios de diferentes formas de leituras e escrita
e diferentes formas de solução de problemas. Portan-
to, a escola não pode mais se manter restrita à trans-
missão de conteúdos disciplinares, deve sim colocar
em prática uma pedagogia diferenciada (que leva em
conta a diversidade) e uma avaliação formativa (que
indica mudanças de posição da criança).
4 - Para a aprendizagem dos que ensinam
Em uma escola para todos é preciso que as rela-
ções do professor com sua aprendizagem sejam apro-
fundadas. Os próprios professores apontam para a
necessidade do aumento de oferta de cursos de ca-
pacitação, para melhoria dos equipamentos e dos
materiais pedagógicos.
Progressão continuada: A progressão continuada
cria um círculo vicioso que substitui o fracasso esco-
lar por um pseudo-sucesso. Entretanto, mesmo que a
progressão continuada não esteja em boas condições
no momento, ser contra ela é ser contra o direito da
criança a um percurso. Ser contra ela é praticar ex-
clusão pela repetência e/ou pelo abandono.
Professores que aprendem: Os professores não
querem só ensinar, querem aprender mais. Os pro-
fessores podem e querem beneficiar-se daquilo que
oferecem aos seus alunos.
Interdependência entre ensinar e aprender: A ló-
gica da inclusão é a de ligar as parte de modo que
sejam interdependentes, formando um todo. Isso vale
para a relação aprender-ensinar. Não basta que o pro-
fessor aprenda e reflita com seus colegas e formado-
res. Ele precisa aprender também em sua sala de aula.
A escola e a sociedade hoje: Uma sociedade glo-
balizada deveria ser uma sociedade para todos, e em-
bora a tecnologia tenha descoberto soluções para pro-
blemas, nem todos têm acesso a esses benefícios. Por-
tanto há solução, mas os excluídos não podem se be-
neficiar dela. Essa nova cultura cria novas formas de
relação e a escola não pode apenas repassar o que a
cultura acumulou, tem que preparar os alunos para este
mundo e para o futuro, no qual todos têm que se rela-
cionar com as diferenças e com as novas demandas.
Contexto de aprendizagem do professor: Além
de palestras, cursos, livros, trocas com colegas e co-
munidade, é contexto de aprendizagem, do profes-
sor, a própria sala de aula, desde que ela se torne via
de enriquecimento pessoal através do planejamento
e execução de novas propostas.
Considerações finais
Valorizar a experiência, a hipótese e a aprendiza-
gem do professor é essencial para o aperfeiçoamento
de sua prática. Só assim ele tomará consciência e se
responsabilizará pelas suas ações e escolhas.
5 - Competências: uma visão construtivista
Podemos dizer que toda a criança tem capacida-
de, esquemas de ação e sentimentos, mas quando
essa criança se torna um aluno, espera-se desenvol-
ver nela, competências escolares. Numa escola para
todos é fundamental estudar estratégias para desen-
volver essas competências.
Competência: jogo de poder?
Competência não é poder sobre o outro, é con-
junto de saberes e possibilidades de atuação ou com-
preensão que expressam nossas formas de realiza-
ção profissional. Competência é o modo de fazer
convergir necessidades, articulando nossas habilida-
des em favor de um objetivo.
Competências: sistemas de saberes
Pode-se definir competência numa visão “perspec-
tiva sistêmica”, nela se considera de um modo interde-
pendente e indissociável: as partes entre si, o todo e
cada parte em relação ao todo. Nesse caso é atribuída
à competência a função de coordenar os múltiplos ele-
mentos que fazem parte do sistema educacional.
Modelo dinâmico da competência
Nesse modelo, há no sistema um ponto de parti-
da (definido por uma tarefa necessária para realiza-
ção de um projeto), um processo (as ações escolhi-
das) e, por fim, um ponto de saída que constitui, por
sua vez, novo ponto de partida.
Competência e conhecimento
Na escola hoje, além domínio dos conceitos, é
necessário o domínio de um conteúdo chamado
procedimental, saber como fazer. A informação está
à nossa disposição, a questão é encontrar e interpre-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 101
SINPEEM
tar as informações para solucionar problemas.
Três formas de se considerar a competência
Competência do sujeito em relação a si mesmo:
É atributo que pertence ao sujeito individual (ou co-
letivo), independente do objeto ou da relação. Essa
forma de competência favorece o desenvolvimento
de uma cultura de semelhança e, portanto, de ex-
clusão de quem não possui esses atributos.
Competência do sujeito em relação a um objeto
pressupõe também a potência dos objetos como, por
exemplo, os recursos pedagógicos que o professor
tem a seu dispor, mas que não resume a isso.
Competência do sujeito em termos relacionais: Ao
contrário das noções anteriores, esta sustenta que não
basta conhecer uma matéria ou possuir objetos ade-
quados, mas sim levar em conta como esses fatores
interagem. É importante então a análise prática e o de-
senvolvimento de projetos que “tenham valor de for-
mação, possibilitando a análise do aspecto relacional”.
Competência e habilidade: A diferença entre
competência e habilidade depende do recorte. É
possível, por exemplo, saber ler, mas essa habilida-
de não ser suficiente para saber ler em público, situ-
ação na qual há necessidade de competência relaci-
onal (em relação ao público). A competência é uma
“habilidade de ordem geral”, enquanto a habilidade
“é uma competência de ordem particular e específi-
ca”. Habilidades são necessárias, porém insuficien-
tes na perspectiva relacional. Pode ocorrer de o pro-
fessor ter competência nos domínio dos conteúdos
e da exposição, e mesmo assim os alunos não apren-
derem. Portanto, competência não é apenas um con-
junto de habilidades, tem a ver com a relação.
Competência, competição e concorrência: Con-
correr significa correr junto para um mesmo ponto.
Em sala de aula várias coisas concorrem e pedem
atenção. O que priorizar?
Não se trata de optar por um ou outro aspecto e
sim responder adequadamente atendendo a tudo que
precisa ser atendido. As demandas não competem,
mas sim concorrem porque todos precisam ser aten-
didos e para articular isso é preciso competência.
Assim, a habilidade será o conjunto de possibilida-
des para o que é esperado e a competência será o
modo como se faz convergir essas necessidades e a
articulação das habilidades para um objetivo.
Competência e aprendizagem escolar: A escola
para todos cumpre obrigação social de respeitar a
educação como direito de todas as crianças e prati-
car uma pedagogia diferenciada. Isso não que dizer
ensino individualizado, que dizer trabalhar com o
coletivo através de métodos condizentes com as de-
mandas. Para praticar uma pedagogia diferenciada
em favor da inclusão das crianças com suas singula-
ridade, é preciso competências tais como: autono-
mia e envolvimento.
Tomar decisão, mobilizar recursos e ativar es-
quemas são domínios da competência. A competên-
cia não é só atribuição profissional, mas é também
atribuição pessoal e para que o professor ponha em
prática as atribuições pessoais, é preciso que ele se
autorize a ensinar. Precisa também saber mobilizar
recursos e, por fim, precisa saber recorrer a esque-
mas. Esquema é o conjunto de nossos saberes; um
esquema é o saber fazer.
Um tabuleiro chamado escola
Há professor que são “maus administradores” e
embora tenham conhecimento dos conteúdos, não
sabem administrar o tempo e o espaço das ativida-
des. Hoje se espera que o professor seja um gestor
da sala de aula, isso é uma competência relacional.
A qualidade de pensar de forma relacional, supõe
autonomia e cooperação.
6 - Por que e quando planejar
Planejar significa perguntar-se o que se pretende
para o ano letivo, o que corrigir do anterior e pré-
corrigir para o atual. Num planejamento deve-se le-
var em conta a educação inclusiva e isso significa
não só receber essas crianças no conjunto de alunos
regulares, mas sim termos essas crianças na sala de
aula convivendo com outras crianças. No planeja-
mento é preciso refletir sobre a psicologia do desen-
volvimento, sobre as características cognitivas, físi-
cas e sociais das crianças, como também pensar
quais são suas necessidades.
Antecipação
“Antecipar é comprometer-se com aquilo que
queremos que algo se torne” (Macedo, 2003c).
Antecipar é regular, no presente, aquilo que ori-
enta um trabalho na direção que desejamos. Refle-
xão no passado, mas também reflexão preventiva.
Regulação: O conhecimento em construção pode
ser valorizado pelo método “retrodutivo”. A retro-
dução é a arte de ir e voltar, tratar as coisas fazendo
recortes, interpretando indícios, pré-corrigindo erros
e confirmando práticas.
Observação: Para conservar, proteger ou preve-
nir é preciso observar, embora nem tudo seja obser-
vável. Construir e acumular situações-problemas re-
lativas à escola para discuti-las, é uma forma de re-
102 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
gular o que não é observável. A situação problema
pode ser um recurso de lidar com propostas e inici-
ativas. É recurso didático para definir tarefas e com-
prometer-se com elas.
7 - Dificuldade de aprendizagem
Ao dizer que a criança é o pai do adulto, Piaget
(2000/1967) referia-se à criança como um sujeito
epistêmico, que constrói conhecimento a partir da
coordenação geral de suas ações e pelo ensinamen-
to e oportunidades proporcionadas pela sociedade.
O sujeito epistêmico não tem dificuldades, mas sim
problemas a resolver e procedimentos a construir.
Psicopedagogia
Psicopedagogia é um termo que reflete a neces-
sidade interdisciplinar, analisando relações entre
quem aprende e o objeto de sua aprendizagem. Uma
visão de dependência/independência reduz uma di-
ficuldade à pessoa que a possui, separando-a da
pessoa que cuida dela. Já a interdependência consi-
dera a dificuldade de aprendizagem na multiplici-
dade de sua expressão, envolve criança e adulto, ou
profissional que está com ela.
Aprender como percorrer um labirinto
O labirinto “opera segunda uma dialética das
inversões”. No sentido negativo, os erros e dificul-
dades são coisas que devemos evitar. No sentido
construtivo, dificuldade e erros são parte do proces-
so que exige aperfeiçoamento e nos levam à supera-
ção, (vencer o labirinto). Numa visão de interdepen-
dência a dificuldade é da criança e do professores,
portanto é interdependente.
8 - funções da avaliação escolar de hoje
Qual é a função da avaliação na escola de hoje?
A escola que se quer para todos precisa superar as
formas tradicional de avaliação. Avaliar não é apenas
é analisar a situação passada, mas interferir naquela
que está acontecendo ou sendo planejada. Um dos
recursos de avaliar é construir indicadores porque
muitas coisas só podem ser avaliadas de forma indi-
reta e só de forma qualitativa. A nota, em geral, é um
conceito equivalente a tudo aquilo que o aluno fez
ou não fez. A proposta é que seja um indicador que
pode sugerir outras coisas. Avaliar por meio de infe-
rência é sair da perspectiva classificatória e, por inter-
médio de indicadores, instaurar desafios e hipóteses.
A nova função da avaliação é analisar o que está bom,
o que pode ser antecipado ou pré-corrigido.
Selecionar era função antiga da avaliação. A se-
leção valoriza a pessoa que se ajusta a certos critéri-
os. Na escola para todos a seleção não vale como
fim, mas como meio de selecionar melhor recursos,
espaço e tempo, considerando a multiplicidade de
características dos alunos.
Como pensar seleção em um contexto de edu-
cação inclusiva?
Na escola inclusiva a excelência não é uma con-
dição de entrada ou permanência. Ela é um norte, a
expressão da realização de um projeto.
Diagnosticar: O problema da avaliação diagnós-
tica é que ela pode culpar algo, ou alguém, por um
efeito do qual ele não é o único responsável, redu-
zindo a complexidade do problema. O desafio é di-
agnosticar recursos e práticas que favoreçam uma
aprendizagem significativa para todas as crianças
Antecipar: A avaliação antecipatória pode ori-
entar para certa direção buscada.
Orientar: A avaliação pode ser coordenadora de
uma intervenção ativa em favor do que pretende-
mos. Na avaliação como orientação, avaliar e inter-
vir ocorrem simultaneamente.
Certificar é uma das funções da avaliação. Uma
criança que está certificada para estar num ciclo, por-
que cumpriu o anterior. Entretanto, a equivalência
entre promoção automática e continua, trata a avalia-
ção de uma forma que rompe com a idéia de certifi-
cação. É preciso introduzir uma forma de certificação
mais condizente com as funções da escola hoje.
Regular: A avaliação como regulação permite
rever questões, metas, intervir naquilo que se deseja
alcançar. A avaliação como regulação valoriza a for-
mação e não só a seleção.
Considerações finais
Sabe-se que todas as formas de avaliação descri-
tas podem acontecer a um mesmo tempo, podem
ser complementares e indissociáveis. É preciso que
a avaliação se torne construção, valorizando aquilo
que pretendemos que algo se torne.
9 - Cotidiano na sala de aula
Observar o cotidiano é prestar atenção nele, re-
gistrar, discutir e selecionar situações-problema para
serem compartilhadas com colegas. O cotidiano da
sala é tão importante quanto os conteúdos que se-
rão tratados nele.
O espaço: guardar, encontrar, devolver: Para
considerar o espaço, a proposta é considerar o signi-
ficado dos verbos ligados às questões espaciais.
Guardar: refere-se ao lugar onde colocamos algo,
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 103
SINPEEM
quer ser seja objeto, pensamento, informação, etc.
A atividade de guardar coisas em seu lugar requer
tomada de decisão que implica: procedimento, ati-
tudes, competências, normas e valores.
Encontrar: é um “jogo de percurso”, significa saber
caminhar no labirinto de nossa vida, quer seja para
encontrar algo em uma mochila, aposento ou cabeça.
Devolver: Para organizar objetos no espaço, exis-
te um código e uma forma de organização que a
criança nem sempre domina.
Dispor/selecionar: Corresponde a definir um lu-
gar no espaço, onde se coloca algo.
Esquecer: Relaciona-se a espaço porque esque-
cer tem a ver com esvaziar e um espaço que não se
esvazia, não pode ser preenchido. Os alunos frequen-
temente têm uma cabeça “cheia”. A escola nem sem-
pre pode concorrer com o que ocupa o espaço da
cabeça da criança. Portanto, a condição vazia do es-
paço depende da condição de reversibilidade. Por isso
guardar, devolver, encontrar, selecionar, esquecer são
verbos que se compensam e complementam.
O tempo: agenda, estimar, antecipar, priorizar,
lembrar-se.
Se espaço é lugar dos objetos, o tempo é o lugar
das ações. Toda a ação precisa de tempo para ser
realizada. Na escola precisamos regular nossas ações,
em função do tempo. Se em relação ao espaço a
questão é: onde está? Em relação ao tempo a ques-
tão é: quando?
Agenda: Ter tempo para aquilo que queremos e
devemos fazer é parte do compromisso pedagógico.
Para agendar tarefas, precisamos estimar sua duração.
Antecipar, no tempo, corresponde a devolver no
espaço. O tempo não se devolve, o espaço sim. Se
não é possível devolver o tempo, é possível anteci-
pá-lo. Antecipar quer dizer que nossas ações serão
realizadas nome de um projeto.
Priorizar, no tempo, corresponde a selecionar no
espaço. Funcionamos numa sociedade governada
pela pressão, tudo tem que ser alcançado. É impor-
tante que o professor anuncie suas metas do dia para
os alunos. Isso tem efeito de autorizar o professor a
fazer o que pretende e a ter a colaboração de seus
alunos para isso.
Lembrar-se, no tempo, corresponde a esquecer no
espaço. Para que as ações sejam lembradas é melhor
que estejam encaixadas num projeto ou objetivo, as-
sim algumas coisas podem ser antecipadas no tempo e
estimadas quanto à sua duração e importância.
Os objetos
É fundamental a questão dos objetos na sala de
aula, objetos são instrumentos de ensino: livro, giz,
vídeo, computador etc., são, enfim, os meios de ser
trabalhar. A cultura tecnológica valoriza a idéia de
objeto como fim e não como meio, mas na escola os
objetos são meios e por isso são fundamentais.
Os relacionamentos
Na escola é preciso relacionar-se com diferentes
pontos de vista ou referências. O professor tem as
suas referências, as crianças têm as delas. Conviver
com as diferenças gera, na prática, desentendimento
e disputas. O professor precisa conviver e negociar,
de forma relacional, com isso.
Relação professor aluno
Hoje são valorizados três tipos de saber: saber
dizer, saber fazer e saber conviver.
Saber conviver é incluir e incluir-se na relação
com os outros. É importante promover discussões e
compartilhar formas de pensamento. Espera-se que
o professor seja um líder, promova desenvolvimento
de esquemas e organize debates em termos de espa-
ços, tempo e conteúdo.
Interação entre as crianças
A intervenção do professor, nos grupos de alunos,
é também uma forma de ensinar, por isso é importante
o modo como reúne as crianças para uma atividade,
como promove desempates entre elas, como ensina a
conversar, a discutir e até a competir. A discussão é
meio de interação. Mesmo que nem sempre seja possí-
vel mudar algo com o qual discordamos, isso não im-
pede a discussão do assunto. Existe o plano da discus-
são, o da decisão e o da gestão das modificações.
A relação com tarefas
Além do relacionamento com pessoas, existe um
relacionamento com a tarefa. Na escola acontecem
crises nos relacionamentos em relação às tarefas. Se
o aluno não vê sentido na tarefa proposta, acontece
a indisciplina e o desinteresse. O desafio é propor
tarefas que façam sentido para alunos e professores.
O relacionamento com uma tarefa pode ser analisa-
do em termos de quatro verbos: envolver-se, respon-
sabilizar-se, cooperar e cuidar.
Envolver-se é o mesmo que comprometer-se, o
que significa ser ativo como parte de um todo. Para
que haja envolvimento é preciso interesse e o obje-
tivo deve valer a pena.
Responsabilizar-se significa ter autonomia para
dizer “quero, faço minha parte”, entretanto, sempre
com a colaboração de outras pessoas. Portanto, au-
tonomia e responsabilização cabem num sistema do
qual fazemos parte.
Cooperar quer dizer operar com, junto, ser parte
e todo ao mesmo tempo.
Cuidar sintetiza os verbos anteriores. Em relação
104 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
às tarefas cuidar é oferecermos, ao outro, algo muito
importante e que não voltará diretamente para nós.
Cuidar de uma tarefa é fazê-la bem para a fase se-
guinte, da qual talvez não participemos, mas da qual
o aluno desfrutará.
Conviver: na escola que se quer para todos o im-
portante é fazer das “diferenças motivo de trabalho e
realização.” Trata-se da tarefa de administrar diferen-
ças como um dos compromissos de ser professor.
Envolvimento, autonomia e cooperação
O grande desafio do relacionamento é conse-
guir envolvimento nas tarefas escolares, mobilizar
o desejo de aprender do professor também. Res-
gatar a estima do professor e qualificá-lo, melho-
rando suas condições de trabalho, pode recuperar
esse desejo.
Autonomia não significa fazer o que se quer,
quando e do jeito que se quer. Autonomia é constru-
tiva, significa ser responsável por sua ação, é ser parte
e todo ao mesmo tempo, permitindo que o outro seja
independente, sem abandoná-lo a si mesmo.
Cooperação, assim como autonomia, pressupõe
responsabilidade e compromisso. Cooperação é uma
qualidade de relacionamento em que as pessoas es-
tão envolvidas em uma tarefa comum. Cada um com
sua colaboração, mas todos envolvidos.
Exercício ou Problema
Pode-se dizer que exercício é o repetir como
meio, por exemplo, caminhar para exercitar o cora-
ção. Problema é o que surpreende esse exercício
(atravessar uma rua movimentada, evitar ataque de
um cachorro, etc.). Problema então é o novo, o que
supõe invenção e astúcia. Cabe perguntar então se
as questões escolares são formas de exercício ou de
problema. O importante é que a questão provoque
um desejo, que o trabalho gere uma necessidade de
encontrar uma solução. O desafio então precisa ser
proporcional ao sujeito que o experimenta. Um pro-
blema precisa envolver interpretação, planejamen-
to, atenção, malícia e reflexão.
Considerações finais
A complexidade do cotidiano é sintetizar todas
as demandas nos atos que o constituem, sem disso-
ciar as questões intelectuais das questões sociais e
afetivas. A escola que se quer para todos faz do coti-
diano algo que integra, porque uma das condições é
refletir sobre ele.
10 - Disciplina: um desafio ao processo
educacional
Ao refletir sobre disciplina, nós a reduzimos à
indisciplina e desobediência. A disciplina é reconhe-
cidamente importante, mas, às vezes, é como se ti-
véssemos que nos desculpar por regular certas coi-
sas, impor limites.
Significado de disciplina
Disciplina é algo que é cultivando desde crian-
ça, na sua relação com o adulto. Algo que ganha
forma, se modela pelas atitudes, valores, relações,
informações e saberes. Disciplina é mais que obe-
decer às regras e superiores, disciplina é a “arte” da
regulação, ou seja, de saber antecipar, planejar, de-
finir limites de espaço de tempo, tarefas, etc. Embo-
ra repreensões e punições possam funcionar em curto
prazo para obter disciplina, estragam a sua base.
A disciplina tem valor de sobrevivência. Ter disci-
plina é importante porque na vida temos limitações
em termos de pessoas e recursos e, portanto, ter disci-
plina é administrar, é aperfeiçoar algo. A disciplina é
meio de observar as limitações que temos, em favor
de algo que precisamos fazer. O desafio é delimitar
regras, objetivos, prazos e tarefas. A disciplina não é
“fim em si mesma,” é mediadora para realizar algo.
Disciplina: uma visão construtivista
“ Ser e tornar-se é o grande desafio de nossa vida”
Como disciplinar-se para obter isso?
Há uma dialética entre ser e tornar-se “algo só é
quando se tornou e ao se tornar passa a ser”. Cons-
trução, portanto é tornar-se. Segundo Piaget, para
algo “tornar-se” há necessidade de três elementos
criativos que são das seguintes ordens: sincrônica,
diacrônica e significativa.
O fator sincrônico é de estrutura; o fator diacrô-
nico é de natureza funcional e o fator significativo é
o de natureza afetiva e de valores. Portanto, o que se
constrói precisa de sentido e razão para ser feito. A
disciplina é uma relação e o trabalho em equipe
ensina a disciplina da cooperação, entretanto é a
autodisciplina, que nos permite autonomia.
Disciplina na educação infantil/ A disciplina na
escola fundamental
Disciplina, em uma perspectiva construtivista,
não quer dizer que qualquer um pode fazer o que
quer quando e como quiser. Isso significa permissi-
vidade, caos e indisciplina. É preciso tornar uma cri-
ança disciplinada naquilo que lhe importante, mas
para ser disciplinada ela, muitas vezes, tem que ab-
dicar de algo que quer fazer, essa é a dificuldade.
Se é dos 7 aos 11 anos, que Piaget localiza as prin-
cipais conquistas com relação aos afetos normativos,
vontade e sentimento morais e autônomos, essa aqui-
sições, sob o ponto de vista cognitivo, se relacionam
ao desenvolvimento de operações concretas. Dessa
forma, os esquemas de conduta relacionados às pes-
soas, assim como os relacionados aos objetos, são si-
multaneamente afetivos e cognitivos. A vida afetiva,
tanto quanto a intelectual, é uma adaptação contí-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 105
SINPEEM
nua. Para a criança superar uma relação calcada so-
mente na antipatia ou simpatia, é preciso o desenvol-
vimento da operação da vontade. Isso é uma capaci-
dade afetiva difícil e a criança que ingressa na escola
fundamental, ainda não a desenvolveu. Talvez a ad-
miração e a tentativa de imitação possam permitir que
ela supere e suporte as frustrações para disciplinar-se.
Considerações finais
É preciso pensar a disciplina com algo complexo
e refletir sobre o que pensamos dela. A disciplina é
condição para a criança realizar percurso escolar,
aproveitando melhor suas possibilidade e é fundamen-
tal adquirir disciplina para a vida escolar. Na escola
para todos não nos livramos mais dos alunos indisci-
plinados e nem devemos nos sentir reféns deles.
11 - Notas para um projeto curricular
Os cincos aspectos para a realização de um pro-
jeto curricular são: trabalhar em equipe, relativizar,
adotar um espírito de pesquisa, sustentar uma dire-
ção e articular os meios e os fins.
Trabalhar em equipe: para desenvolver um proje-
to curricular é preciso adotar, para uma escola, um
conjunto de formulações gerais que deve ser fruto de
um trabalho em equipe. A construção coletiva possi-
bilita instauração de valores que justifiquem a impor-
tância da instituição e das pessoas que nela trabalham.
Saber relativizar: o currículo, na perspectiva de
projeto, considera diferentes perspectivas. O desafio
está em saber relativizar, levando em conta múltiplas
possibilidades de algo ser ou se tornar. Relativizar
implica em coordenar o meio e o fim pretendidos.
Adotar um espírito de pesquisa: Um projeto é
aquilo que queremos que algo se torne. Para isso é
preciso interpretar indícios, fazer antecipações, ob-
servar indicadores para pensarmos na direção certa.
Quais são os objetivos, procedimentos, recursos, re-
sultados que uma escola tem ou quer?
Sustentar uma direção: Um projeto curricular
pressupõe compromisso e direção. Por isso a dire-
ção tem que ser clara, considerando limites de espa-
ço, conteúdos e tempo que competem.
Coordenar meios e fins: Para dispor de meios e
recursos, os fins não devem ser questionáveis. É pre-
ciso avaliar sempre se ganhamos ou perdemos em
relação às práticas anteriores. Assim, a ponderação
é importante para realização do projeto que consi-
dere o tempo, o espaço e os recursos com os quais
se conta. O futuro deve ser pensado como uma pos-
sibilidade, direção e compromisso.
Considerações finais
O projeto é algo que ainda não é, mas pretende
se tornar. A dialética entre “ser e tornar-se” expressa
uma visão construtivista. Portanto são importantes
os desafios da relativação, o trabalho em equipe e
um espírito de pesquisa que favoreçam a direção
buscada. E por fim, visto que atualmente precisamos
considerar a posição da tecnologia (e da educação
necessária para seu uso), é preciso que novamente
pensemos no problema de valores seja na dimensão
afetiva, seja naquela econômica.
Resumo realizado por Anna Rita Sartore, peda-
goga, bióloga. Mestre e doutora em educação pela
Universidade de São Paulo.
MELLO, Guiomar Namo de.
Porto Alegre, Artmed, 2004
Este livro não foi indicado integralmente para o
concurso. No trecho selecionado (capítulos 4 ao
8), a autora enumera algumas das principais dis-
cussões feitas nas 3 últimas décadas do século XX
e que implicam em uma mudança de paradigma
no meio educacional.
Capítulo 4 – Proposta pedagógica e
autonomia da escola
Nas décadas de 80 e 90, as bases da autonomia
da escola foram dadas: gestão democrática e gestão
da aprendizagem. Nesse momento, houve uma mu-
EDUCAÇÃO ESCOLAR BRASILEIRA -
O QUE TROUXEMOS DO SÉCULO XX?
dança de paradigma: a ênfase desloca-se do ensino
para a aprendizagem quando a LDB deslocou o eixo
da liberdade de ensino para o direito de aprender.
Os conteúdos ensinados na escola passaram a
ser vistos como meios para desenvolver competên-
cias, sendo que a contextualização e a interdiscipli-
naridade tornam-se as palavras chave para a mudan-
ça de paradigma: “ensina-se para constituir sentidos,
produzir significados, construir competências” (36).
A proposta pedagógica, entendida não como um
documento formal, mas como um processo perma-
nente de articulação entre diferentes âmbitos, passa
a pressupor: a análise e compreensão dos princípios
e dos conceitos do novo paradigma curricular; a re-
flexão sobre a própria prática pedagógica; o plane-
jamento das ações.
106 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
Articulando intenções (formação para a cidada-
nia e para o trabalho); recursos materiais, humanos
e financeiros; bem como o processo de reflexão e
formação continuada do professor, a proposta peda-
gógica só será eficaz se for fruto de uma reflexão
coletiva. Ela deve refletir a coerência entre a inten-
ção e a ação da equipe escolar na perseguição de
suas metas. Por tudo isso, a autonomia exige res-
ponsabilidade e controle, pois não implica somente
em satisfação de direitos, mas também em cumpri-
mento de objetivos.
Como anexo a este capítulo, a autora insere su-
gestões de roteiros para elaboração da proposta pe-
dagógica da escola. Esses roteiros são estruturados
considerando-se a necessidade de se passar por três
momentos diferentes, que não são linearmente se-
qüenciais: a reflexão sobre o novo paradigma curri-
cular, o diagnóstico e o planejamento em ação.
Capítulo 5 – Projetos como alternativa de
ensino e aprendizagem
Atualmente, a partir do que se sabe sobre a apren-
dizagem e sobre as demandas da sociedade sobre o
aluno, na elaboração de um planejamento as ativida-
des devem ter significado e sentido. De acordo com a
autora, o trabalho com projetos pode ser uma das al-
ternativas de organização do trabalho que potenci-
aliza essa aprendizagem significativa. Isso porque “o
modelo de projetos relaciona-se com as concepções
modernas de ensino e aprendizagem, com os princí-
pios da reforma de contextualização e interdiscipli-
naridade e com as competências relativas ao apren-
der a aprender e a trabalhar solidariamente” (51).
Mello aponta as características que o
desenvolvimento de projetos precisa ter:
· Partir de uma situação ou de um tema-proble-
ma negociado com os alunos;
· Iniciar um processo de pesquisa ou percurso
de busca;
· Entender que o percurso é o trabalho de uma
comunidade de investigação na qual se valoriza a
cooperação, e o professor é um orientador, não um
especialista;
· Discutir e selecionar estratégias de busca e di-
ferentes fontes e tipos de informação;
· Desenvolver atividade de busca planejadas, di-
vidindo-se as tarefas entre o grupo;
· Examinar e discutir as informações coletadas;
· Representar o processo de elaboração do co-
nhecimento;
· Levantar outras questões que possam se consti-
tuir em novos projetos.
Durante esse processo é preciso garantir:
· O protagonismo do aluno durante todo o pro-
cesso;
· A escolha de assuntos contextualizados;
· O tratamento interdisciplinar com o auxílio de
diversos saberes, áreas ou disciplinas;
· O processo de trabalho em equipe no qual to-
dos têm lugar e papel e no qual se aprende a convi-
ver solidariamente;
· O papel do professor como mediador da cultu-
ra e facilitador da aprendizagem;
· A ênfase na avaliação como instrumento de re-
construção e tomada de consciência do aprendizado.
Capítulo 6 – Competência: o conceito e a
aplicação do conceito na educação escolar
Para Mello, um modelo curricular baseado em
competências é um avanço no Brasil por implicar
numa efetiva mudança de paradigma educacional.
Na concepção assumida pela autora, a compe-
tência caracteriza-se como a capacidade de mobili-
zar conhecimentos, valores, decisões para agir de
modo pertinente numa determinada situação.
Competência e habilidade pertencem à mesma
família conceitual e sua diferença é determinada pelo
contexto. “Uma competência é sempre mais geral
em relação às habilidades que ela inclui, mas uma
habilidade, em um determinado contexto, pode ser
uma competência por envolver outras sub-habilida-
des mais específicas. A competência de resolução
de problemas, por exemplo, envolve diferentes ha-
bilidades – acessar e processar informação, selecio-
nar e interpretar dados, estabelecer relações de igual-
dade ou equivalência, fazer comparações” (55).
Nesse contexto, a habilidade de processar informa-
ções envolve outras habilidades específicas, como
leitura de palavras ou gráficos, cálculos, compreen-
são de ordenamentos ou seqüências. Processar in-
formações é, portanto, uma competência em rela-
ção à habilidade de leitura de gráficos.
A autora ressalta que as competências são aprendi-
das quando se constrói conhecimento. Mas não só. É
preciso saber mobilizar esse conhecimento. E, nesse
sentido, o agir competentemente envolve, além de uma
enorme quantidade de conhecimentos, a capacidade
de decidir num ambiente de incerteza, de maneira
improvisada, mas orientada pela experiência. Assim,
a competência só se constitui em situação.
No tocante ao ensino, isso significa trabalhar efeti-
vamente com conteúdos que sejam relevantes para a
vida, tomando-se a aprendizagem como eixo e não o
ensino. Para isso, é preciso superar a concepção de
uma escola organizada em disciplinas e que se enten-
de como detentora da informação e do conhecimento.
O trabalho com competências também contri-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 107
SINPEEM
bui para resolver o impasse instaurado entre a ne-
cessidade de se organizar um currículo nacional que
considere as diferenças regionais. Ao desfocar o con-
teúdo e focar as competências a serem construídas,
pode-se negociar um conjunto de competências bá-
sicas que todos os alunos terão de aprender em toda
e qualquer escola e região. Esse elemento também
fortalece a democratização da escola na medida em
que, ao estar livre para se adaptar às características
da clientela e da região, privilegia-se a diversidade
na estruturação do currículo.
Capítulo 7 – Por uma didática dos sentidos
O objetivo do capítulo é esclarecer os concei-
tos de transposição didática, interdisciplinaridade
e contextualização a fim de que os mesmos se tor-
nem instrumentais na construção e execução de
uma proposta pedagógica.
A transposição didática ocorre a partir da necessi-
dade de transformar o conhecimento para poder ensi-
ná-lo. “Na escola, os objetos de conhecimento – o sa-
ber científico ou as práticas sociais – convertem-se em
‘objeto de ensino’, isto é, em conteúdo curricular” (59).
Algumas competências requeridas para fazer a trans-
posição didática são apontadas pela autora:
· Saber fazer recortes em sua área de especiali-
dade a partir de certos critérios;
· Saber selecionar quais aspectos daquele conhe-
cimento são relevantes;
· Dominar o conhecimento e questão articulada-
mente, incluindo o modo característico e específico
pelo qual esse conhecimento é construído;
· Saber relacionar o conhecimento em questão
com os de outras áreas;
· Saber contextualizar esse conhecimento;
· Ter um pressuposto ou uma “aposta” sobre como
o aluno constrói esse conhecimento e como deveria
conhecer;
· Dominar estratégias de ensino eficazes para
organizar situação de aprendizagem eficazes.
A interdisciplinaridade opõe-se à fragmentação
dos conteúdos provocada pelo currículo disciplinar.
Ela se expressa em vários níveis de cooperação das
disciplinas. O primeiro diz respeito à descrever e/ou
explicar um mesmo fenômeno na perspectiva de di-
ferentes disciplinas. O segundo relaciona-se ao fato
de que o estudante integra os conhecimentos prove-
nientes dos olhares disciplinares. O resultado é um
saber integrado e mais complexo sobre fenômenos
e objetos. Nesse sentido, a constituição de compe-
tências torna-se potencializada.
No que se refere ao conceito de contextualiza-
ção, a autora recupera sua raiz etmológica: enraizar
uma referência em um texto. Ou seja, os conteúdos a
serem ensinados podem sempre ser contextualizados
no mundo físico, social ou psíquico. É desta contex-
tualização que vem a significatividade do ensino, ele-
mento fundamental na promoção da aprendizagem.
A autora indica três grandes categorias de contextos:
· A vida pessoal e cotidiana dos alunos
· A sociedade ou mundo em que o aluno vive
· O ato de descoberta ou produção do conheci-
mento que pode ser reproduzido ou simulado.
Além de responder à vertente da significatividade
dos conteúdos para o aluno, a contextualização tam-
bém deve estar a serviço da preparação do aluno para
a vida e para o trabalho, atendendo portanto aquilo
que é relevante aos objetivos educacionais da escola.
Ao final do capítulo, a autora apresenta um exem-
plo de transposição didática desenvolvida por um pro-
fessor de língua portuguesa no 1º ano do Ensino Médio.
Capítulo 8 – Livro didático: mudar para
manter a identidade
O Brasil é um dos poucos países em desenvolvi-
mento que possui uma política pública de provisão
do livro didático. Esse livro, fornecido às escolas pú-
blicas através do Plano Nacional do Livro Didático, e
às escolas particulares através de aquisição da pró-
pria família, tem estado atrelado à organização curri-
cular por série do sistema educacional brasileiro.
A autora aponta os problemas enfrentados no
decorrer do processo de implantação da política de
provisão do livro didático ao longo do período de
1960 a 1990. Os problemas iam desde a falta de
verbas por irregularidades, até a baixa qualidade do
conteúdo dos livros. No decorrer da década de 90,
Mello aponta a melhora da estrutura do programa,
ressaltando o programa de avaliação do livro didáti-
co e a regularização do fornecimento.
A política de provisão para a escola pública con-
solidou-se no que se refere ao ensino fundamental e
a autora destaca a ampliação do número de alunos
no ensino médio. Segundo ela, há um grande desa-
fio a ser vencido por autores de livros didáticos e
editoras nesse segmento, já que a nova estrutura cur-
ricular prevê a organização por áreas de conheci-
mento, integrando as disciplinas e indo contra a pers-
pectiva disciplinar e fragmentária.
Fecha o capítulo apontando a necessidade das
editoras compreenderem que o livro didático preci-
sa mudar. Para o professor, ele precisa se tornar um
espaço de apoio, com conteúdos complementares
e, ao mesmo tempo, contribuir com a formação pe-
dagógica docente. O livro do aluno precisa ser algo
mais parecido com guias de aprendizagem ou hi-
pertextos, funcionando como um organizador, incen-
tivando um processo de construção do conhecimento
para além do próprio livro.
Síntese elaborada por Maria Lima, doutora em
Educação pela FEUSP, bacharel em história e com-
ponente do GEAL/FEUSP.
108 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
MOLL, Jaqueline (org.),
Porto Alegre, Mediação, 2005
O livro apresenta um conjunto de práticas e pro-
jetos pedagógicos desenvolvidos em programas e
serviços de educação de jovens e adultos. Os textos
organizados pelos autores representam uma afirma-
ção de que é possível construir um espaço escolar
diferente para esses alunos, onde há aprendizagem,
considerando-os plenos de possibilidades em termos
da sistematização de saberes e sem desconsiderar a
sua expectativa de uma escola verdadeira. Desen-
volvem propostas interdisciplinares, passando pela
alfabetização, pela literatura, pela arte, pelo teatro e
por ambientes informatizados, entre outros.
Na apresentação, Jaqueline Moll expõe pontos
relevantes nas políticas públicas que delinearam os
rumos da EJA. Nos debates e discussões de educa-
dores e movimentos, baseadas nas idéias e práticas
desbravadas por Paulo Freire e tendo como marco
principal a Constituição de 1988, que assume o di-
reito de todos ao Ensino Fundamental, independente
da idade, prevalece a luta pela igualdade de direi-
tos para todos. A temática da educação popular, nas
últimas décadas, como objeto de discussão e estu-
do, possibilitou a ressignificação dos saberes aca-
dêmicos face aos saberes cotidianos e, nesse amplo
contexto é que se situam os doze capítulos, escritos
por diferentes autores.
1 - Alfabetização de adultos: desafios à razão
e ao encantamento - Jaqueline Moll
A autora parte da idéia que, para além da impor-
tância de saber e ler e escrever, é necessário movi-
mentar-se reflexivamente pelo universo de códigos
produzidos a partir do mundo escrito, levando-se em
conta os saberes da tradição oral e as experiências
dos alfabetizandos.
Adultos em alfabetização, não alunos analfabe-
tos... Analfabetos, no sentido discursivo, para a au-
tora não existem. Essa concepção está baseada na
idéia histórica de negação de um saber determina-
do, situação diferente da encontrada em relação
àqueles participantes de uma sociedade letrada, que
pela possibilidade e necessidades de leitura varia-
das, em geral, mesmo sem escolaridade advindos de
razões variadas, são adultos mergulhados em situa-
ções de letramento, que desenvolvem estratégias tan-
to sociais quanto cognitivas de decodificação e des-
sa forma, está em processos de alfabetização.
O reencontro com a situação escolar. A expec-
EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS
tativa de muitos alunos é a de encontrar o modelo
de escola, a qual abandonaram ou constituído pe-
las experiências vividas durante a educação de seus
filhos, “silenciosa e silenciadora” onde os professo-
res “dão aulas”, apresentando lições para serem re-
petidas e copiadas pelo aluno obediente. O desafio
do educador, que se propõe a manter a aprendiza-
gem dos alunos em processo de alfabetização, é re-
desenhar essa configuração imaginária da escola,
construindo uma sala de aula como espaço da pa-
lavra e da escuta, onde através das suas histórias do
passado e de sua palavra dita e ouvida possam sis-
tematizar saberes, reconceituá-los através do regis-
tro, da reorganização e da construção de novas dis-
posições, apropriando-se assim, do universo da lei-
tura e da escrita.
A sala de aula: aproximações pedagógicas - Moll
propõe três idéias que considera significativas para o
lugar “sala de aula”: a consciência de que não são
“tabulas rasas”, ou seja, trazem saberes advindos de
suas experiências sociais, culturais e afetivas; a con-
vicção de que a condição de analfabeto, expressão
de uma forma de exclusão social e não de fracasso
individual, não significa nenhum tipo de patologia,
déficit ou deficiência e da compreensão de que a
leitura da palavra escrita é impossível descolada da
leitura de mundo, lembrando Paulo Freire.
Aproximações pedagógicas no campo da alfabe-
tização de adultos podem começar pela escuta do
mundo do qual participam - do ponto de vista freire-
ano, um levantamento do repertório vocabular dos
alunos, em que o professor, como o escrevente da
turma, registra suas falas, aproximando-os da forma
escrita, e explorando as relações entre a pauta oral e
a escrita. Outros recursos podem ser utilizados, sele-
cionados e explorados pelo professor, de diversas
maneiras: os portadores de texto do cotidiano desses
alunos como reportagens, crônicas e outros estilos
literários, secções específicas de jornais e revistas,
embalagens de produtos, jogos, dicionários, enciclo-
pédias, Atlas, entre outros. Nesse sentido, pode-se
trabalhar com os textos em sua totalidade, escolhen-
do palavras para a análise segmental da escrita ou
relacionando-as a outras conhecidas, ou ainda, par-
tindo do conjunto de ilustrações presentes nos mate-
riais, das palavras ou letras que os alunos reconhe-
cem e relacionam com outras. Pode ser incluído,
como recurso, o trabalho pedagógico com os própri-
os nomes dos alunos, tanto pelo resgate de sua ori-
gem, significado e, análise lingüística, significativa
para o processo de alfabetização.
Possível, também, na sala de aula, a literatura
infantil, clássica ou contemporânea, através da leitu-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 109
SINPEEM
ra e da prática de contar histórias, bem como, possi-
bilitar aos alunos suas escolhas literárias ao freqüen-
tar o espaço das bibliotecas; aliados a outros espa-
ços culturais como teatros, cinemas e museus po-
dem possibilitar a significação dos saberes do mun-
do escrito, os quais são sistematizados na sala de aula.
Para concluir: a respeito de fazer-se professor
de adultos: implica na disposição para aproximações,
de forma equilibrada, entre os saberes sistematiza-
dos nos campos das ciências, culturas e das artes e
os vivenciais que poder ser legitimados no espaço
escolar. Fazer-se professor de adultos, que carregam
o estigma de analfabetos, implica numa postura para
a escuta cotidiana e sensível, além de ampliação do
olhar, na medida em que serem ouvidos e vistos, pode
(re) colocá-los na vida pública. Nessa direção, tor-
nar-se alfabetizado, implica participar de processos
escolares contínuos de aprendizagem de leitura e
escrita e inserir-se no universo de saberes e práticas
sociais na escola e fora dela.
2 - O Programa de Ensino Fundamental de
Jovens e Adultos Trabalhadores –
PEFJAT/UFRGS e as múltiplas linguagens
Sita Mara Lopes Sant’anna
O texto apresenta algumas das práticas pedagó-
gicas alicerçadas em referenciais teóricos diversos e
nos resultados de discussões dos professores de ar-
tes, de educação física, de línguas, portuguesa e es-
trangeira moderna, e de literatura, desenvolvidas
durante o Programa de Ensino Fundamental para Jo-
vens e Adultos Trabalhadores - PEFJAT, entre os anos
de 2000 e 2002.
Conhecendo o PEFJAT-UFRGS: Esse programa,
campo de estágios, práticas e diversas pesquisas,
envolvem graduandos das diferentes licenciaturas,
professores e técnicos - administrativos da UFRGS,
em atividades de docência, e recebe como alunos,
os técnicos que não concluíram o ensino fundamen-
tal, entre outros. A estrutura curricular é organizada
nos blocos/áreas do conhecimento: sociedade e ci-
dadania, ciências e tecnologias e linguagens, para a
execução de projetos, por turma, e grupos de estu-
dos e oficinas, podendo ser organizados e desenvol-
vidos por professores e alunos. O currículo é estru-
turado no cotidiano, por meio de reuniões de for-
mação em que participam alunos, professores e téc-
nicos da secretaria. A avaliação tende a ser proces-
sual, com discussão, na sala de aula, sobre a apren-
dizagem e dificuldades, envolvendo os alunos e pro-
fessores, tendo como produtos: auto-avaliações, dos-
siês, pastas e pareceres descritivos.
Linguagens e a constituição de autoria: Esse blo-
co tem atuado no sentido de buscar, em suas ações,
a constituição de diferentes espaços interdisciplina-
res e de autoria, entendida como processo de apro-
priar-se, colocar-se à crítica, responsabilizar-se, do
autorizar-se à prática, da oralidade, produção e cor-
poreidade. As práticas em EJA têm mostrado essa
possibilidade, a partir de estratégias que atendam o
interesse, a motivação, o desejo da descoberta dos
alunos trabalhadores baseados na organização de
projetos, consolidando-se na aproximação das artes,
da língua portuguesa, literatura e educação física.
A leitura como espaço de significação: como
construção de significados e não como mera ativida-
de, mecânica, repetitiva que reproduz as idéias do
autor. Leitores diferentes atribuem significados dife-
rentes ao mesmo texto, baseados em múltiplos ele-
mentos como: histórias de vida, idade, gênero, suas
relações com outros textos, entre outros, e, dessa for-
ma, leitura e produção de textos não podem ser tra-
tados separadamente.
Da prática: os efeitos de sentido da corporeida-
de. Os relatos dos adultos do programa revelam que
têm uma imagem difusa de seu corpo sendo neces-
sário um processo de reflexão e de experimentação
de propostas como forma de introduzir uma ampla
discussão sobre corporeidade, corpo, cultural corpo-
ral, saúde, para que os alunos adultos se autorizem a
práticas como: dinâmicas com o grupo, jogos coo-
perativos e dramáticos, que buscam o desenvolvi-
mento do sujeito em sua complexidade.
Refletindo sobre a oralidade: Trabalhar com a
oralidade, ou fala planejada, tem sido um desafio
para os educadores; implica em ouvir as vozes do
cotidiano, e a partir delas, incluir nos projetos mo-
mentos para que todos falem, não como uma sim-
ples fala de um texto, mas para, além disso, é pen-
sar no como fazer a apresentação desta, desde a
organização, individual ou grupal, chegando até aos
recursos utilizados.
A prática da produção textual. Textos escritos a
partir do diálogo entre alunos e professores, os quais
não são simples respostas às tarefas, como acontecia
com as antigas redação e composição escolar plane-
jadas pelo professor e, que no caso da primeira de-
notava mais o interesse para as aprendizagens sobre
a gramática normativa. Para a produção textual são
necessários vários momentos de escuta para que se-
jam articuladas com as práticas de oralidade, corpo-
reidade, leitura e ensino de gramática.
Ensino de gramática: algumas considerações. A
escola em linguagens tem dado maior ênfase ao en-
110 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
sino da gramática normativa e o aluno vai mostrar,
escrever, falar, produzir para agradar o professor e
dessa forma, morrem as corporeidades, as oralida-
des e as diferenças culturais. O espaço da sala de
aula deve ser local de escrita sem preconceito, onde
os diferentes falares e diferentes gramáticas se mani-
festem, dialoguem entre si e cabe ao professor des-
crevê-las, problematizando-as.
Nossos desafios atuais: Que a avaliação seja pro-
cessual com momentos de reflexão, no grupo, sobre
as aprendizagens dos alunos e professores explicita-
das nas auto-avaliações individuais e coletivas; que
haja o diálogo entre as reflexões das auto-avaliações
orais, gestuais e escritas e os pareceres descritivos,
bem como, que a sistematização dos seus efeitos
possam mostrar, em qualquer tempo, as possibilida-
des de avanços dos alunos para outros níveis.
3 - Interdisciplinaridade na prática
Aline Sapiezinskas Kras Borges
Simone de Azevedo Corrêa
O resgate da dissociação entre a ciência e a filoso-
fia que levou à estruturação de um currículo multidis-
ciplinar, onde as disciplinas são ensinadas, na escola,
sem qualquer articulação, acarretando a fragmenta-
ção do saber e sérios prejuízos na aprendizagem do
aluno como um todo, trazem a interdisciplinaridade
como possibilidade de estabelecimento de um novo
saber, único e resultado dos saberes disciplinares.
Baseando-se em Japiassu, a interdisciplinaridade é
contra: “um saber fragmentado; a separação crescen-
te entre a universidade, cada vez mais compartimen-
tada, e a sociedade, onde a vida é percebida como
um todo complexo e indissolúvel, e ao conformismo
das situações adquiridas e idéias impostas”.
Construindo a interdisciplinaridade na prática.
Os alunos do PEFJAT, em geral, são de uma camada
menos favorecida da sociedade, não freqüentou a
escola regular pela necessidade de trabalhar ou difi-
culdade de acesso à escola. Representam um grupo
bastante heterogêneo, quanto à idade, tempo de es-
colarização, profissão, vivências, além de históricos
de repetência e expulsão, principalmente pelos ado-
lescentes. Durante o programa percebeu-se a grande
dificuldade encontrada pelos alunos em relação à
apropriação e no uso da língua portuguesa na forma
escrita e oral. Na tentativa de integrar os eixos: orali-
dade, corporeidade, produção textual, leitura e ensi-
no de gramática entre as disciplinas do bloco das
linguagens: artes, português e línguas estrangeiras,
optou-se pelo trabalho com teatro, desdobrado em
várias atividades. Em português: trabalho com textos
teatrais, características gerais, regras para a escrita,
leitura, entonação e representação e, em artes, a ex-
pressão criativa na confecção dos bonecos, criação
detalhada dos personagens por escrito e na execu-
ção de peças criadas pelos alunos.
As autoras acreditam estar caminhando para um
trabalho interdisciplinar e salientam que nem todas as
dificuldades no uso da língua desapareceram, contu-
do compreendem que a educação é um processo e
foi iniciada uma reflexão sobre esse tema buscando a
valorização e ampliação dos saberes dos alunos.
4 - Da leitura de imagens à leitura do mundo
Ana Cláudia Ferreira Godinho e Luísa Kakuta Kato
As professoras relatam o desenvolvimento e ava-
liação da oficina “Imagem e leitura” que envolveu
adultos do programa já citado, guiadas pela releitura
de Paulo Freire (a leitura da imagem prescinde da
leitura da palavra), na qual abordaram textos orais,
escritos e imagéticos, priorizando o trabalho com os
textos produzidos pelos alunos. A oficina, um traba-
lho realizado durante vários encontros, estruturado
de forma interdisciplinar e coordenado, entre a dis-
ciplina de língua portuguesa e educação artística, foi
organizada baseada a partir de três temas: ” O que
eu tenho dentro da minha cabeça”, “Memória e his-
tória de vida” e “ Criando personagens”.
No primeiro encontro, fizeram uma composição
de imagens recortadas de revistas, de variadas áreas
de interesse, previamente selecionadas pelo profes-
sor. Os cartazes, individualmente, elaborados, des-
critos, oralmente e através de um texto escrito, retra-
tavam uma imagem única do pensamento desses
adultos sobre o primeiro tema.Os cartazes foram ex-
postos e à medida que o aluno lia o seu texto, os
demais procuravam-no, guiando-se pela descrição,
e assim, a atividade para além da apresentação pos-
sibilitou a integração do grupo e uma auto-reflexão.
Em um segundo momento, o trabalho se organi-
zou a partir de fotos ou objetos trazidos pelos alu-
nos, cujas lembranças possibilitaram um resgate de
suas memórias, e cada qual se transformou em um
contador de histórias - um sujeito da narrativa e da
narração, e novamente a imagem foi o ponto de par-
tida para a criação verbal. A terceira atividade con-
figurou-se com em um jogo teatral: selecionando
entre os materiais de figurino, ofertados pelo do-
cente, cada adulto compôs um personagem e o de-
senhou. Na seqüência, caracterizados, eram entre-
vistados e apresentavam seu desenho e, com base
na produção coletiva, cada qual narrou, oral ou de
forma escrita, a história vivida pelo seu personagem
com o protagonista, instituído no decorrer da ativi-
dade, no caso, o traficante de drogas. Essa ativida-
de, segundo as autoras, possibilitou, em especial, o
debate sobre as diferenças entre a narrativas, oral e
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 111
SINPEEM
escrita, e o estímulo à criatividade.
Finalizando, ressaltam a viabilidade da proposta
e que a fusão dos trabalhos das duas disciplinas pro-
porcionou a abordagem das linguagens cotidianas e
o diálogo concreto entre os conhecimentos do bloco
de linguagens, a partir dos eixos já citados.
5 - Lá nem tem livro...a prática da leitura
nas vozes de adultas
Rafael Peruzzo Jardim
O texto é um relato da sua experiência de educa-
dor na oficina de leitura, oferecida aos alunos do
PEFJAT, que tinha como objetivo sistematizar uma
história de leitura, através de memorais, relacionan-
do-a com a história de vida do aluno.
Após a oficina, entrevistas foram realizadas e en-
tre elas as de duas alunas, as quais foram estimula-
das a falar sobre suas leituras: o que liam, a impor-
tância da leitura e suas práticas leitoras. Nas pala-
vras do autor: “pude verificar que uma não tem, no
meio em que vive, a condição mínima facilitadora
do nível de letramento condizentes com o uso da
linguagem culta e, a outra, apresenta um grau de le-
tramento maior, expresso na leitura de romances e
revistas...”. E, além disso, para a leitura, dois senti-
dos gerais foram evidenciados: o da dificuldade e o
da necessidade secundária limitada”. Ressalta que o
acesso a livros e revistas parece ser restrito ao con-
texto escolar interrompendo as condições para o le-
tramento e adverte, que isso deve ser considerado
pelos educadores em seu planejamento. É preciso
apresentar ao aluno um leque variado de leituras, ao
qual não terá acesso em outros lugares, é preciso cri-
ar condições sociais para a prática da leitura.
Um trabalho consistente de leitura pode formar
leitores mais competentes e felizes, desde que sejam
observadas as seguintes condições: a formação do
leitor passa pelo estabelecimento das condições efe-
tivas para a prática social da leitura; não há um ler
para, o ato de ler não necessita de fichas e interpre-
tações, a literatura não deve estar a serviço de uma
didática; o que precisa ficar claro, na ação escolar, é
que a leitura já é uma produção, a ficha não justifica
a leitura e sim é esta que justifica a escola; o profes-
sor continua a ter um papel importante na avaliação
da leitura, estipula uma margem de leituras aceitas,
ao invés de privilegiar uma que, às vezes, é do autor
do livro didático; a leitura não precisa coincidir com
a leitura do professor; cabe ao professor estimular a
diversidade de pontos de vista.
Por fim, salienta que é preciso desenvolver no
aluno a autonomia de leitura para que continue len-
do depois de concluir os estudos; o ensino sem leitu-
ra é mera certificação e não produz efeitos na vida
do aluno, pessoal e profissional.
6 - Ambientes de aprendizagem
informatizados no PEFJAT
Evandro Alves
O pesquisador e professor busca discutir alguns
aspectos relacionados ao cotidiano do planejamen-
to e práticas pedagógicas que ocorreram no labora-
tório de informática, no ambiente de aprendizagem
informatizado, e suas inter-relações com a sala de
aula. Nessa experimentação, participaram em mé-
dia, doze alunos de nível I, dito de alfabetização, do
programa já referido, cujo objetivo era fomentar o
encontro destes com as tecnologias digitais, em que,
além das atividades de construção textual na interse-
ção com processadores de texto, foram propostos: o
recebimento e envio de mensagens eletrônicas, tra-
balho com os softwares gráficos, a visita e constru-
ção de páginas da Internet.
Um pequeno estudo sobre as expectativas do
grupo: A partir de entrevistas individuais, pode-se
inferir que os alunos esperavam a supressão das difi-
culdades de aprendizagem e aprendizado mais rápi-
do, principalmente, em relação à leitura, escrita e à
matemática, expondo inclusive, o desejo de escre-
ver livros e de organizar o orçamento doméstico com
o auxílio das tecnologias. Identificar mudanças cog-
nitivas no tocante ao processo conceitual de aquisi-
ção da língua escrita era a expectativa inicial do pes-
quisador, contudo, com o início e desenrolar das ati-
vidades, por parte de todos os pesquisadores, outros
enfoques se delinearam, quanto aos objetivos e con-
ceituações da própria pesquisa.
Planejamento, tecnologias, práticas pedagógicas:
por um ambiente de recíprocas aprendizagens. No-
tadamente, o planejamento conjunto e a participa-
ção ativa dos professores nas atividades no laborató-
rio foram importantes, não somente para a qualida-
de das intervenções, mas também para a formação
de todos: alunos e jovens e adultos professores.
Mudanças de enfoque, resultados e implicações
da investigação para a educação. Dentre os fatores
que reconfiguraram o enfoque do estudo, dois foram
privilegiados: a questão da produção de sentidos e a
das tecnologias da escrita dispostas no ambiente de
aprendizagem, tanto no seu componente em sala de
aula, quanto em relação ao laboratório. A coleta de
dados e análise foram feitas e os resultados aponta-
ram para as seguintes situações: os alunos da EJA,
mesmo em processo de aquisição da escrita, busca-
ram expressar, em sua produção textual, a sua pro-
dução de sentidos tentando elaborar estratégias para
assegurar o entendimento do texto pelo leitor. É pos-
sível pensar-se em uma flexibilização de alguns pré-
112 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
requisitos como: é necessário saber ler e escrever com
lápis e papel para depois tentar com as tecnologias
de escrita digital; os alunos primeiro se alfabetizam e
depois se preocupam com a escrita de textos.
Acompanhando o percurso de construção textu-
al foi possível identificar que a tecnologia mais anti-
ga (a oralidade) serve de modelo, chegando a reor-
ganizar as posteriores (escrita e informática).
À guisa de conclusão: da “alfabetização ao le-
tramento”. Há uma aposta na convivência com a
leitura, a escrita e a informática para além das técni-
cas e o autor, faz um alerta aos colegas: que não se
trata tão somente de uma automatização das técni-
cas e sim de uma convivência com as tecnologias.
Sem reflexões sobre as práticas pedagógicas a partir
da inserção dos computadores na escola, corre-se o
risco de nos submeter às avaliações concernentes ao
funcionamento desses aparelhos.
7 - Os sons da vila: leitura crítica da realidade
Alexandre Pereira Simões
Esse texto relata a forma como se desenvolveu o
planejamento didático-pedagógico com uma turma
de EJA, em uma escola municipal de Porto Alegre,
destacando o seu surgimento e as dificuldades em
colocá-lo em prática, as conquistas, percepções e
as inquietudes que surgiram junto à turma durante
o processo.
Perfil da turma: pertencia à totalidade dois (equi-
vale a uma 3ª série do fundamental), com 16 alunos,
de idade entre 13 e 50 anos, de profissões variadas:
doméstica, gari, separadores no galpão para recicla-
gem e operários da construção civil.
O que estão tramando para mim? O planejamen-
to decorreu da intenção de promover com que os
estudantes fizessem a leitura da palavra através da
leitura de mundo que já possuíam antes da alfabeti-
zação e assim o referido planejamento deveria pro-
curar enfatizar a “informação” do sujeito em sua co-
munidade.
Planejamento didático-pedagógico: os sons da
vila. O tema escolhido: cidadania, contudo por ser
muito abrangente, e pela idéia de fazer com que
aprendessem a realizar uma leitura crítica da reali-
dade próxima, surgiu a proposta “que sons possui a
vila?” Ou a escuta de tudo o que acontece na vida
da comunidade.
Objetivo Geral: procurar levá-los a se situarem
como agentes dentro da comunidade, reconhecen-
do-os como sujeitos da sua transformação pessoal.
“Des/norteando” o leitor : “sulear”, ao invés de
“nortear”. Se pretendemos falar em cidadania, for-
mando pessoas que saibam criticar, opinar e intera-
gir com o outro, devemos, em nossas salas de aula,
possibilitar o entendimento de diferentes pontos de
vista e visões de mundo, abertos à desconstrução de
verdades únicas, à problematização dos discursos...
por isso a opção “sulear”, tomando como referência
a América do Sul, onde habitamos.
Princípios “suleadores”: Fundamentando-se em
Paulo Freire, as idéias de participação, autonomia e
conscientização, devem mostrar que a leitura da pa-
lavra não serve como instrumento de conformação
dos estudantes com a realidade que lhes é dura.
Alguns subtemas propostos para o trabalho com
os alunos: A vila à noite, de dia e nos finais de sema-
na; a atuação da polícia; músicas preferidas; a cultu-
ra da vila; o linguajar; os aspectos da comunidade
no passado; última campanha eleitoral para a pre-
feitura e governo do estado; comparação da vida e o
lixo; as impressões sobre a escola e adultos da EJA; a
concepção de “popular”.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 113
SINPEEM
O quê, com o quê, como e para quê trabalhar em cada área de conhecimento.
Área Trabalhar o quê? Com o quê? Como proceder? Para quê?
Língua
Materna
A ressignificação
social da escrita, e
da leitura, varieda-
de de usos e funci-
onalidades.
Textos do tidiano
(cartas, contrache-
ques, receitas,
placas,etc) literários
(contos, poemas,
letras de música) e
científicos.
Analisar as iferen-
ças lingüísticas de
cada tipo; verificar
as estratégias bási-
cas para escrever
um texto.
Habilitar o aluno à
produção de tex-
tos, à percepção
de processos de
autoria, utilização
da leitura para re-
tirar informações e
poder escrever
melhor, ler critica-
mente e envolver-
se em eventos de
leitura.
Matemática O valor do número,
representação posi-
cional, decomposi-
ção, etc
As 4 operações e
porcentagem (o bá-
sico).
Gráficos, tabelas,
contracheques, le-
gendas, mapas,
contas, problemas
matemáticos, jogos
e dinheiro.
Partindo do conhe-
cimento prévio dos
alunos.
Proporcionar o
aprendizado dos
conceitos lógico-
matemáticos para
a vida em socieda-
de.
Estudos
Sociais
Inter-relações dos
acontecimentos
históricos, políti-
cos, culturais e so-
ciais.
Hipótese da histó-
ria como narração
sob diferentes ver-
sões.
Temas variados li-
gados ao cotidiano.
Maquetes, mapas
da comunidade,
percepção e lista-
gem dos sons certi-
dão de nascimento,
fotos antigas, entre-
vistas, placas, sim-
patias, estatuto da
criança, vídeos, etc.
Promoção do res-
gate da auto-esti-
ma, localização
como sujeito his-
tórico, transforma-
dor e participante,
e dentro de um
contexto histórico
discriminatório.
Ciências Arroio; tipos de
solo do bairro; im-
portância da arbo-
rização; lixo do gal-
pão de reciclagem;
gás de cozinha e do
lixo; chuvas; doen-
ças causadas por
animais domésticos
,insetos e roedores;
energia elétrica; sa-
neamento básico e
drogadição.
Panfletos, reporta-
gens, material de
propaganda das
empresas de água e
luz, receitas de
plantas medicinais,
rótulos, caixa de
medicamentos, li-
vros, etc.
Aprendizagem do
uso correta de me-
dicamentos, desti-
no correto do lixo,
o sensato uso da
energia elétrica e
da água, a preser-
vação das árvores
do bairro; como
acondicionar ali-
mentos.
114 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
Materiais utilizados para o desenvolvimento do
planejamento didático-pedagógico: Vídeos: de cur-
ta-metragem ( Ilha das Flores); Seriado Cidade dos
homens; documentário sobre catadores de papelão,
livros da escrita (Ruth Rocha); Menina Bonita do laço
de fita ( Ana Maria Machado), Palavra do trabalha-
dor ( EJA/SMED), entre outros.
O desenrolar do planejamento: foi trabalhando a
leitura e a interpretação de diferentes textos; do coti-
diano, procurava trazer notícias e desafios matemáti-
cos e conversas sobre assuntos ligados à realidade
deles, como o galpão de reciclagem e o papel em re-
lação ao meio ambiente e quantos empregos ofere-
cia; o papel da escola na comunidade, entre outros.
Conhecendo Porto Alegre e contando sua própria
história. A atividade baseou-se na utilização de um
jogo com cartões, confeccionado pelo professor, onde
estavam fotos antigas, desenhos, mapas e mini-textos
que retratavam a história e geografia do município.
Uma grande conquista e inquietação. Poder as-
sistir a percepção, por eles, dos sons que produzem
foi a conquista e, como não havia planejado em
seu trabalho despertá-los para tal, o autor reconhe-
ce que o auto-conhecimento deveria ser ponto de
destaque em sua proposta de trabalho em se tratan-
do de EJA, e ao dar continuidade ao trabalho, o
fato traz sua inquietação.
8 - Tempo de fazer e de aprender no SEJA
de Porto Alegre: possibilidades e contradições
Anezia Viero e Cléa Penteado
O texto é fruto de um exercício de elaboração
conjunta do grupo que assumiu a coordenação da
política de educação da EJA no Serviço de Educação
de Jovens e Adultos da Administração Popular, SEJA,
de 2001 a 2003, que tem como : dar continuidade
ao exercício da constituição de redes educativas que
buscam efetivar a escolarização nas diferentes comu-
nidades, que se organizam nas escolas, locais de tra-
balhos e em outros espaços de convivência. A fim de
alcançar esse objetivo foi instituída a proposta curri-
cular “Totalidade de Conhecimento” a qual, tem como
características: a possibilidade da criação de novas
alternativas na organização das turmas e dos projetos
pedagógicos; a interdisciplinaridade e a avaliação
emancipatória de caráter dialógico e formativo.
Nesse quadro, a escolarização dialogando com
a formação em serviço, delineia um ensino contex-
tualizado e um fazer pedagógico complexo, neces-
sitando de uma reflexão teórica aliada à práxis, ou
seja, um educador-pesquisador que se encontra per-
manentemente em formação, dialogando com seus
pares e alunos, ressignificando seus conhecimen-
tos e saberes, possibilitando a recriação das práti-
cas pedagógicas para atender às necessidades e
desejos de aprendizagem, tanto dos educandos
como dos educadores.
Procurando a concretização de uma formação
nessa direção, a equipe de coordenação e assessoria
do SEJA organizou uma proposta de trabalho para a
efetivação de um projeto políticopedagógico, tendo
como referência o diálogo. Inicialmente, os profes-
sores tinham vínculo com a Secretaria de Educação,
o qual foi deslocado para as comunidades, levando
em conta a importância de um planejamento que efe-
tivasse a constituição da EJA como parte do projeto
da comunidade.
O projeto de formação enfatizou a constituição
do papel do coordenador pedagógico nas escolas,
fazendo parte da equipe diretiva, buscando concre-
tizar espaços de diálogo dos educadores do SEJA com
a comunidade escolar. Esse papel está em constru-
ção e, é necessário que o coordenador seja o provo-
cador das questões pedagógicas: aquele que ao pla-
nejar as formações, organiza ações que levam os pro-
fessores a compartilharem e se responsabilizarem
pelo projeto da escola, valoriza o lugar da pergunta
e da escuta e, estrutura um currículo que embasa e
sustenta a prática educativa de sala de aula.
Para dar conta das dúvidas e necessidades dos
coordenadores iniciantes, a equipe central do SEJA,
planejou e realizou diferentes estratégias de forma-
ção continuada possibilitando: a troca entre o gru-
po, através de seus relatos e registros, o distancia-
mento necessário para reflexão sobre a prática e o
retorno à escola com novas idéias.Assim, as forma-
ções relacionadas ao processo de alfabetização, en-
volvendo os olhares das diferentes áreas, são discuti-
das, pensadas e realizadas envolvendo professores,
coordenadores das escolas, equipe de coordenação
e assessoria, inclusive externa.
Foram organizadas também formações para a vi-
vência dos professores com o objetivo de consolidar
uma educação que desenvolva o acesso sistemático
aos bens culturais, públicos e privados, oferecidos
pela cidade e nesse sentido, foi criado o “Cine Fó-
rum”, onde educadores e educandos encontram-se
em sessões de projeção de filmes para uma discus-
são sobre o cinema em seus aspectos ideológicos.
9 - O Centro Municipal de Educação dos
Trabalhadores Paulo Freire
Marlize Andrejew, Lauren Betina Veronese,
Graziela Spielmann, Lúcia Barth Ckless,
Eri Domingos da Silva e Marilena Assis.
Esse centro, CMET, funciona nos três turnos aten-
dendo a jovens, a partir de 15 anos, e adultos, tra-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 115
SINPEEM
balhadores ou seus filhos, moradores de ruas, abri-
gados, e os com necessidades especiais, oriundos
de vários bairros de Porto Alegre e de municípios
vizinhos. Além dos princípios da educação popu-
lar, semelhantes aos do SEJA, mais um é acrescen-
tado: a necessidade do trabalho com as diferenças
que tem como base, a identidade na diferença e
igualdade de direitos. O trabalho com as diferenças
tem como condição: o conhecimento das mesmas,
a diversidade dentro das diferenças e o enfoque
participativo, efetivado pelo diálogo entre diferen-
tes conhecimentos, diálogo entre educandos e edu-
cadores e o vínculo da identidade na diferença com
os conceitos construídos historicamente e os do
educando com o cotidiano.
O currículo: trabalha a partir da visão de um ho-
mem concreto numa perspectiva freireana, situado
no tempo e espaço e, na totalidade das relações so-
ciais; com enfoque relacional, contempla a educa-
ção em permanência. A organização curricular está
fundada sobre concepções de: interdisciplinaridade,
formação do senso crítico e aluno como ser-presente.
Apresentando a característica de um espiral cres-
cente, articulando os conhecimentos, no se refere à
educação formal, está organizado em: Alfabetização,
totalidades 1, 2 e 3 (construção, registro e sistemati-
zação dos códigos escritos) e Pós-alfabetização, to-
talidades 4, 5 e 6 (aprofundamento das sistematiza-
ções dos códigos trabalhando com conceitos que
envolvam as relações bio-psico-sociais).
O trabalho com as diferenças: deficiência audi-
tiva. O que diferencia o CMET de outros estabeleci-
mentos que atuam com os surdos no ensino funda-
mental é o tipo de trabalho realizado nas totalidades
finais (4,5 e 6)- professores ouvintes, sem o domínio
da LIBRAS, das diferentes áreas, que contam com in-
térpretes em todas as aulas, eventos, reuniões e ativi-
dades diversas. Os professores têm espaço garantido
para a formação e o aprimoramento da LIBRAS no
sentido de se tornar autônomo tendo em vista um
currículo que atenda às necessidades desses alunos.
O trabalho com as diferenças: deficiência
visual.Com a assessoria da SMED, em questões refe-
rentes à baixa visão e à deficiência múltipla, os pro-
fessores da rede contam com formação específica de
modo a proporcionar aos alunos ( cegos ou de baixa
visão) a participação em todas as atividades propos-
tas, superando barreiras, desafiando limites, crescen-
do como sujeitos construtores de sua história.
Um constante desafio: O centro trabalha relaci-
onando o processo de ensino aprendizagem em in-
teração com a vida, não tem espaço para uma edu-
cação compensatória, e assim, a idéia de aceleração
de aprendizagem para os excluídos da escolariza-
ção quando crianças, não tem lugar.
10 - Uma experiência com teatro no CMET
Isaías Rocha de Quadros
O trabalho se deu com turmas de totalidades finais.
Teatro x teatro-educação: o teatro na educação,
como espaço de aprendizagem, visa a formação do
educando, o desenvolvimento de seu potencial cria-
tivo e comunicativo, objetivo diferente do teatro pro-
fissional que tem como objetivo o sucesso e lucro.
Apesar de obrigatória a arte, e por conseqüência o
teatro-educação, tem enfrentado dificuldades na sua
implantação, geradas por equívocos, na leitura de
sua função: redução da disciplina à mera ilustração
de outras, espaço terapêutico, objeto de auxílio de
outras, montagem de “pecinhas cívico-didáticas” e
lugar de alegres, exóticos, entre outros rótulos.
Um projeto específico para o CMET. O desen-
volvimento do teatro-educação se em etapas que são
não estanques: ressignificação, na qual os alunos têm
a oportunidade de conhecer a existência da rotina
artística; identidade do grupo, através de jogos gru-
pais; linguagem cênica; produção cultural, a elabo-
ração de um roteiro para uma peça curta; apresenta-
ção/avaliação e circulação/reconstrução, vivenciado
somente pelos alunos da oficina de artes, a apresen-
tação do trabalho em outros locais e eventos. Geral-
mente os componentes da oficina, espaço extra-cur-
ricular, são alunos com muitas dificuldades de apren-
dizagem, dificilmente observáveis que traz avanços
consideráveis como: autonomia, maior iniciativa,
improviso, ampliação de repertório, melhor comu-
nicação e desenvoltura corporal, entre outros.
O teatro mostra que a vida começa no corpo... e
que tudo passa por ele, inclusive o pensar e a função
primeira da aula de teatro está em a possibilidade ao
alunos resgatar a infância perdida.
11 - Novas escutas e novos olhares em arte
Carla Maria Fernandes Corral
Cristina Rodrigues de Amorim
Considera-se que o trabalho com arte, área do
conhecimento humano, deva ser articulado sob duas
dimensões: propiciar a produção, leitura e aprecia-
ção de qualquer manifestação artístico-expressiva e
a da sensibilidade.
A proposta é dar ênfase aos processos cogniti-
vos, à construção do conhecimento compartilhado,
para dinamizar os fazeres artísticos.
116 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
A arte, tal qual a leitura e a escrita é um processo
de construção diário e permanente, e pode ser possí-
vel na EJA; ao fazer arte, os alunos, mostram seus
rostos, mostram-se gente e sua essência humana; atra-
vés dela aprendem no, com e para o mundo.
12 - Política e pedagogia na formação do
educador do MOVA/POA
Kelly Cristina Camargo Pulice
O trabalho do Movimento de Alfabetização de
Porto Alegre, MOVA, inspira-se no pensar, crítico e
libertador, do educador Paulo Freire sendo a forma-
ção político-pedagógica dos seus educadores um ele-
mento fundamental para a sua concretização.
A preocupação com uma prática pedagógica fun-
damentada na perspectiva da educação popular e
na teoria psicogenética do construtivismo socioin-
teracionista, representam a base da formação dos
educadores: inicial, quando da participação nos
Seminários e na continuada representada pelas reu-
niões semanais com o assessor pedagógico ou pes-
soas convidadas, bem como, pela participação nos
congressos, fóruns e outras atividades correlatas.
O Seminário de Formação Inicial. Estruturado a
partir da visão de mundo dos futuros educadores e
de suas falas, busca problematizar concepções da
realidade, diagnosticar nível de ansiedade das pes-
soas, questionar estereótipos e comportamentos cris-
talizados. Acredita-se que respeitando seus saberes,
suas representações, sobre a realidade, está se cons-
truindo na prática, uma reflexão sobre a prática, ação
coerente com a concepção de alfabetização propos-
ta. Nesse espaço de discussão, são abordados o his-
tórico da EJA, a história do MOVA, os princípios da
educação popular, a teoria psicogenética de cons-
trução da escrita, alem de momentos para planeja-
mento por temáticas, envolvendo diferentes áreas do
conhecimento, numa visão interdisciplinar.
A formação continuada. Após seminário, a for-
mação continua de maneira permanente, na sala de
aula e fora dela, no movimento popular, nas associa-
ções de bairro, nos clube de mães e nos espaços das
reuniões com a assessoria pedagógica.
Resumo elaborado por Maria Lima, bacharel em
história e doutora em educação pela FEUSP.
MORAN, José Manuel. MASETTO, Marcos T.
BEHRENS, Marilda Aparecida.
Campinas, Papirus, 2000
I – Ensino e Aprendizagem inovadores
José Moran
Perdemos tempo demais, aprendemos muito pou-
co, desmotivamo-nos continuamente, professores e
alunos, temos a clara sensação de que muitas aulas
estão ultrapassadas... Como ensinar e aprender em
uma sociedade mais interconectada? Assim como em
outras épocas, existe uma expectativa de que as no-
vas tecnologias nos trarão soluções rápidas, mas se
ensinar dependesse só de tecnologias, já teríamos
achado as melhores soluções há muito tempo. Existe
uma preocupação maior com o ensino de qualidade
mais do que com uma educação de qualidade. En-
sino é a atividade didática. Educação é integrar ensi-
no e vida, conhecimento e ética, reflexão e ação,
encontrar caminhos intelectuais, emocionais, profis-
sionais que realizem o indivíduo e contribuam para
modificar a sociedade que temos. Ensinar é proces-
NOVAS TECNOLOGIAS
E MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA
so vinculado a uma cultura, e ao mesmo tempo pes-
soal: a sociedade ensina, as instituições ensinam, os
meios ensinam. Educar mostra as atitudes perante a
vida. Os resultados do ensino mostram se aprende-
mos alguns conteúdos e habilidades, os da educa-
ção mostram se evoluímos, que tipo de pessoas nos
transformamos. E tudo depende do aprender, da von-
tade de aprender, da maturidade, da motivação e da
competência anterior adquirida.
Ensino de qualidade é caro e, na verdade, não
temos ensino de qualidade. Temos alguns cursos,
faculdades e universidades com áreas de relativa
excelência, que são tomadas como modelos gerais,
mas são parciais. Demorará décadas para evoluir o
conjunto para um padrão aceitável, pois temos um
ensino muito mais problemático que é divulgado: as
desigualdades são imensas e vende-se o todo pela
parte. Temos um ensino em que, no geral, predomi-
nam a fala massiva, muitos alunos por sala, profes-
sores mal preparados e mal pagos, pouco motiva-
dos, alunos que ainda valorizam mais o diploma do
que o aprender, que fazem o mínimo para ser apro-
vados, que esperam ser conduzidos passivamente,
numa infra-estrutura inadequada, de salas barulhen-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 117
SINPEEM
tas, pouco material avançado, tecnologias pouco
acessíveis à maioria. O ensino está voltado ao lu-
cro, aproveitando a grande demanda existente, com
um discurso teórico (nos documentos) que não se
confirma na prática: mais marketing do que proces-
so real de mudança.
Mudar é difícil, pois não há instituições de refe-
rência, predomina a média: ênfase no intelectual e
separação entre teoria e prática, uma distância imen-
sa entre a ética apresentada nas instituições e a que
os meios de comunicação de massa trazem. O au-
toritarismo da maior parte das relações humanas es-
pelha o estágio atrasado em que estamos e como
ainda não sabemos educar para a autonomia, para a
liberdade que se exerça em processos participativos,
interativos, libertadores, que respeitem as diferenças,
que incentivem, que apóiem e sejam orientados por
pessoas e organizações livres. A maior parte dos pro-
fessores é previsível: repete fórmulas, sínteses, resu-
mos. É importante termos educadores/pais maduros
emocional, intelectual, comunicacional e eticamen-
te, pessoas sensíveis, humanas, que valorizem mais
a busca que o resultado, mais o estímulo que a re-
preensão, mais o apoio que a crítica. As mudanças
em educação dependem também de termos admi-
nistradores, diretores e coordenadores mais abertos,
que entendam todas as dimensões envolvidas, além
das empresariais ligadas ao lucro, que apóiem os
professores inovadores, que equilibrem o gerencia-
mento empresarial, tecnológico e o humano, num
ambiente de maior inovação, intercâmbio e comu-
nicação. E as mudanças dependem também de alu-
nos, que sejam curiosos e motivados, interlocutores
lúcidos, que tenham famílias que os estimulam.
O conhecimento não é algo fragmentado, mas
interdependente, interligado e intersensorial. Conhe-
cer é compreender diferentes dimensões da realida-
de, conectando-as, juntando-as, relacionando-as,
acessando-as por diferentes pontos de vista. Pensar
é aprender a raciocinar, a organizar o discurso, com
critérios, com razões e argumentos, inferências fun-
damentadas, organização de explicações, descrições
e argumentos coerentes.
Além do raciocínio, a emoção facilita ou com-
plica o processo de conhecer, pois processamos a
informação que nos chega segundo nosso objetivo e
nosso universo cultural. A abordagem mais comum
é a lógico-sequencial, uma construção aos poucos,
que se expressa na fala e na escrita pessoal ou colo-
quial com mais liberdade e que é linear. Em outros
momentos, processamos de forma hipertextual, con-
tando histórias, relatando situações que se conec-
tam ou ampliam, ligando um evento ou situação a
outros e assim por diante. A construção é lógica,
coerente, mas sem seguir uma única trilha previsível
ou seqüencial, ramificando-se em “n” direções. Pro-
cessamos também de forma multimídica, juntando
textos de várias linguagens simultâneas, na mesma
tela, conectando com outras telas. Convivemos com
essas diferentes formas, de acordo com a bagagem
cultural, a idade e os objetivos pretendidos. A TV,
multimídica, valoriza uma informação atraente, rá-
pida, sintética, que é a usada no dia a dia, generalis-
ticamente e sem profundidade. Com ela, cada vez
mais respostas instantâneas são valorizadas: crian-
ças e jovens querem tudo na hora e resultados ime-
diatos, por isso preferem as pesquisas síncronas e o
receber tudo mastigado, em sínteses curtas, com res-
postas fáceis e simples. Isso se repete e se incentiva
na internet, na relação com a informação on-line,
de forma hipertextual. Em síntese, cada vez mais
formas multimídica e hipertextual e cada vez menos
a lógico-sequencial.
Uma das tarefas da educação é ajudar a desen-
volver tanto o conhecimento de resposta imediata
como o de longo prazo: muitos dados não signifi-
cam necessariamente mais e melhor conhecimento.
O desafio é ajudar a filtrar e escolher o que é impor-
tante e significativo, é ajudar a construir os referen-
ciais que os alunos precisarão. Aprendemos melhor
quando vivenciamos, estabelecemos vínculos; quan-
do descobrimos novas dimensões, elaboramos pon-
tes entre reflexão e ação; quando equilibramos e in-
tegramos o sensorial o racional, o emocional, o éti-
co, o pessoal e o social; pelo pensamento divergen-
te, pela concentração, quando perguntamos e ques-
tionamos, quando interagimos, quando percebemos
objetivos e utilidades, quando repetimos; pela cre-
dibilidade que outorgamos, pelo estímulo, pelo pra-
zer, pelo interesse e quando conseguimos transfor-
mar nossa vida num processo permanente, pacien-
te, confiante e afetuoso de aprendizagem. Por isso o
conhecer é saber, é desvendar é ir além da superfí-
cie. Ao equilibrar interação e interiorização, conse-
guimos compreender melhor o mundo e os outros.
Só vale a pena ser educador num contexto comuni-
cacional participativo, interativo, vivencial. As orga-
nizações que quiserem evoluir terão que aprender a
reeducar-se em ambientes de confiança, de coope-
ração, de autenticidade. As tecnologias apenas aju-
dam a fazer o que já fazemos: se formos abertos,
ampliam nossa comunicação, se fechados, nos aju-
dam apenas a controlar mais.
A mudança passa por equilibrar o planejamento
institucional e o pessoal, pela flexibilidade sinérgica
com organização, sem improvisação. Para isso, tra-
çam-se linhas de ação pedagógica maiores, sem su-
focar as ações individuais, menos conteúdos fixos e
mais espaços abertos de pesquisa e de comunica-
ção. Temos informações demais e dificuldade em
escolher quais são significativas e quais integrar em
nossas mentes e vidas (papel do professor). O pro-
fessor é um pesquisador em serviço, que aprende
com a prática e ensina a partir do que aprende. É um
118 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
orientador/mediador intelectual (que informa e fil-
tra), emocional (estimulador e incentivador), geren-
cial e comunicacional (ponte entre instituição, alu-
nos e comunidade, pelos grupos, ritmos, interações)
e ético (ensinando a assumir e vivenciar valores).
Para isso, integra metodologias, tecnologias e ativi-
dades, varia a forma de dar aula, planeja e improvi-
sa e valoriza a presença na oportunidade de comu-
nicação que ela favorece. Com um grande leque de
opções metodológicas (passamos do livro para a TV
e vídeo/DVD e destes para o computador e internet
sem aprender a explorar todas as possibilidades de
cada meio), dificilmente o professor não ache seu
próprio caminho.
A criança ao chegar à escola já passou por vári-
os processos de educação importantes: pelo famili-
ar, pela mídia, pelo meio cultural e social que viveu.
A TV desenvolveu a comunicação da criança, com-
binou dimensão espacial com cinestésica, com rou-
pagem sensorial, intuitiva e afetiva. A força da lin-
guagem audiovisual está no fato de ela conseguir
dizer muito mais do que captamos, criando intenci-
onalmente, por analogia e associação, sentidos apa-
rentemente “naturais”. Uma situação isolada con-
verte-se em padrão e não mostrar equivale a não
existir, a não acontecer. O vídeo (e DVD), que para
os alunos significa descanso e não “aula”,,exploram
situações, pessoas, cenários e relações em planos e
muitos ritmos visuais, textos e linguagens, desenvol-
vem múltiplas atitudes perceptivas e oportunidades.
Do simples para o complexo, é possível usá-los como
sensibilização, ilustração, simulação, conteúdo, pro-
dução (documentação da aula) e espelhamento. Isso
permite várias dinâmicas e conseqüentes formas de
pensar: análise em conjunto (todos pensam o vídeo),
análise globalizante (positivo-negativo, significa-
ções), leitura concentrada (cenas marcantes e signi-
ficados), análise “funcional” (tarefas pré-encomen-
dadas), análise de linguagem (recontagem da histó-
ria, análise do discurso), completação (exibição par-
cial, estímulo a diferentes finais e comparação com
o final do diretor), modificação (procura de vários e
montagem), videoprodução (narrativa documental de
assuntos, com pesquisas em outros meios), vídeo-
espelho (autofilmagem), videodramatização (perso-
nagens e situações dos vídeos reproduzidos teatral-
mente em sala), comparar versões (p. ex. o livro com
o vídeo, diferentes vídeos, gravações de músicas etc).
Com o computador, são muitos os caminhos tam-
bém, tanto presenciais como à distância. Da cria-
ção de páginas pessoais (do professor e dos alunos),
pode-se passar por ambientes virtuais onde o pro-
fessor disponibiliza e orienta atividades dos alunos,
pelo uso de e-mails (como lista da turma ou como
conexão virtual entre professor, alunos e outros em
todo o planeta), fóruns (embora é preciso lembrar
que se no presencial não há ou há pouca interação,
isso também ocorrerá provavelmente no virtual).
Aulas-pesquisa, onde o professor inicia, mas quem
completa são os alunos, a partir de grandes temas,
onde as descobertas, ainda que parciais, são com-
partilhadas entre os alunos. Estimula-se a constru-
ção cooperativa, o trabalho conjunto, reportável em
páginas-jornais (blogs), combinando e estimulando
a conhecer-nos, motivar-nos, reencontrar-nos. Muda,
para o professor, a relação espaço-tempo-comuni-
cação com os alunos: aumenta seu espaço de tro-
cas, um papel de animação e coordenação muito
mais flexível e constante, que exige muita atenção,
sensibilidade, intuição e domínio tecnológico.
Para isso, porém, é necessário infra-estrutura (fí-
sica – salas, econômica - acesso, humana - treina-
mentos, aquisições de habilidades), o que depende
de projetos políticos coerentes. Treinamentos para
familiarização com os aplicativos e mecanismos de
uso, incluindo-se as formas pedagógicas e programas
multimídia. Tanto faz se for um período ou sala deter-
minados ou se há acesso em cada sala. A melhor fer-
ramenta a desenvolver ainda é a intuição para, diante
de tantas possibilidades que se abrem com a internet,
(é mais atraente navegar e descobrir coisas novas do
que analisar, comparar e separar o essencial do aci-
dental), conseguir filtrar, priorizar e avaliar.
Alguns alunos e professores podem não aceitar
a mudança, esperando que se continue a “dar aula”
(= professor falar/escrever em lousa e alunos escu-
tarem/anotarem); pode haver muita dispersão, pe-
las imensas possibilidades de navegação e ligação
entre os temas e páginas, pode haver impaciência
gerada pela ansiedade de “ter” que mudar de pági-
na “logo”... A credibilidade do professor e sua ca-
pacidade de estabelecer laços de empatia, de afe-
to, de colaboração, de incentivo e equilíbrio é que
vão gerar a flexibilidade e organização necessária
à aprendizagem.
Caminhamos para formas de gestão mais flexí-
veis, com mais participação, em prédios reorgani-
zados e com alunos e professores mais conectados.
Os cursos serão híbridos no estilo, na presença físi-
ca, na tecnologia, nos requisitos, com muito mais
flexibilidade. O importante é aprender e não im-
por um padrão único de ensinar. Encontrar-se fisi-
camente será para contextualizar ou para comple-
mentar, questionar e relacionar os temas estudados.
Não será no virtual que se resolverá o que não está
resolvido no presencial. Não será “espalhando-nos”
e “conectando-nos à distância” que tudo será re-
solvido automaticamente. A possibilidade de estar
presente em mais de um tempo e espaço diferente
criarão novos tipos de aula. No Ensino Fundamen-
tal, a presença é mais valorizada, enquanto que no
Ensino Médio e Superior provavelmente o virtual
superará o virtual. As empresas já fazem isso, com
formulários, rotinas, e-mail, treinamentos em intra-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 119
SINPEEM
nets, da comunicação off-line evolui para uma co-
municação mista off e online. Educação à distância
não é um fast-food onde o aluno vai e se serve de
algo pronto: é ajudar os participantes a equilibrar
as necessidades e habilidades pessoais com a par-
ticipação em grupos (presenciais e virtuais), e tro-
car experiências, dúvidas e resultados.
Necessitamos de muitas pessoas livres nas em-
presas e nas escolas, que modifiquem as estruturas
arcaicas e autoritárias do ensino escolar e gerencial.
Só pessoas livres, autônomas podem educar para a
liberdade e para autonomia; só elas podem trans-
formar a sociedade. Pessoas livres merecem o di-
ploma de educador. Ensinar com novas mídias é
uma revolução SE mudamos os paradigmas que
mantém distantes professores e alunos. Caso con-
trário será apenas um verniz de modernidade, sem
mexer no essencial.
II – Projetos de Aprendizagem Colaborativa
Marilda Behrens
A humanidade está sendo desafiada a enfrentar
a sociedade do conhecimento e a globalização com
a educação, na criação de ideais de justiça, paz, so-
lidariedade e liberdade. A visão cartesiana, que
acompanhou o conhecimento nos últimos 200 anos
não dá mais conta das exigências científicas atuais,
que implicam em leituras sistêmicas e totais, mais
que fragmentadas e divididas. A “Era das Relações”
exige conexão, inter-relacionamento, interconexão,
visão de rede, de sistemas integrados, um reassumir
o todo. Busca-se, hoje, formar homens responsáveis,
sensíveis e que procurem sentido na vida, na huma-
nidade e em uma sociedade justa e igualitária. Esse
clima de revolução científica, epistemológica, cul-
tural e tecnológica, porém, enfatiza a contradição
entre o imenso avanço da tecnologia e o trágico des-
tino da maior parte da humanidade. As exigências
de uma economia globalizada afetam diretamente a
formação dos profissionais em todas as áreas do co-
nhecimento. Ao terminar um curso de nível superi-
or, o indivíduo não está mais preparado para o exer-
cício de uma profissão, hoje o conceito é o de edu-
cação permanente, de educação continuada, a fun-
ção do professor é passar do ensinar para o aprender
a aprender do aluno. Isso implica em processos de
investigação e pesquisa, mais que a transmissão de
informação.
Com isso, o professor deverá ultrapassar o papel
de “dono da verdade”, para ser um investigador, um
pesquisador crítico e reflexivo, um parceiro dos seus
alunos no aprender. O aluno, por sua vez, precisa
ultrapassar o papel de passivo, de escutar, ler, deco-
rar e ser fiel repetidor do professor e tornar-se críti-
co, pesquisador e atuante. O desafio é aprender a
aprender como acessar a informação, onde buscá-la
e o que fazer com ela. Não se trata de formar ape-
nas em função de um mercado de trabalho, mas de
formar preparando para a busca de uma melhor qua-
lidade de vida. Tornar-se um adulto profissional com-
petente, cidadão crítico, autônomo e criativo, que
saiba solucionar problemas e que, com iniciativa
própria, saiba questionar e transformar a sociedade.
É superar o paradigma de “transmissão”, com
salas de alunos sentados, enfileirados e em silêncio,
de linguagem oral e escrita de repetição, na qual a
quantidade de elementos passados explica se houve
ou não a possibilidade de formação de conhecimento
e com os alunos reclamando que mesmo que “sai-
bam” (= lembrem), não conseguem aplicar. Por que
gastar tanta energia ensinando, se os alunos não es-
tão aprendendo?
O conhecimento, segundo Pierre Lévy pode ser
apresentado na forma oral, escrita e digital. O ele-
mento digital enseja uma prática docente assentada
na construção individual e coletiva do conhecimen-
to. Nessa situação, pode-se romper a sala de aula,
com encontros presenciais e virtuais, consciente de
que a lógica do consumo não pode ultrapassar a ló-
gica da produção do conhecimento: o computador
e a rede (internet) é que devem estar a serviço da
escola e da aprendizagem. A tecnologia digital rom-
pe a narrativa contínua e seqüencial das imagens e
textos escritos e se apresenta como um fenômeno
descontínuo, cuja temporalidade e espacialidade,
expressas em imagens e textos nas telas, estão rela-
cionadas ao MOMENTO de sua apresentação. Des-
contínuos, móveis e imediatos, as imagens e textos
digitais têm seu próprio tempo, sua própria forma de
exposição. O desafio do professor é levar em consi-
deração e contemplar as inteligências múltiplas
(Gardner) e a inteligência emocional. Trata-se de
desenvolver habilidades e talentos que criem fluên-
cia tecnológica, capacidade para resolver problemas
e os 3 “c”: comunicação, colaboração e criativida-
de. É superar as barreiras que separam o espaço e a
criatividade do professor e dos alunos restritos à sala
de aula, ao quadro e o livro-texto. Num mundo glo-
balizado e sem fronteiras tempo-espaço, a tecnolo-
gia facilita uma aprendizagem colaborativa.
Jacques Delors, coordenador do Relatório para a
Unesco da Comissão Internacional sobre Educação
para o século XXI, apontou quatro pilares para a
aprendizagem permanente: a) aprender a conhecer
(o prazer de descobrir, de investigar, de ser curioso,
o aprender a aprender, que usa principalmente a
pesquisa), b) aprender a fazer (não apenas repetir,
mas com criticidade e autonomia, desenvolver ha-
bilidades e unir a teoria com a prática), c) aprender
a viver juntos (a consciência das semelhanças e da
interdependência entre todos os seres humanos, a
convivência harmoniosa com todos os seres vivos,
120 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
mar, terra e ar, a noção holística que torna todos par-
ceiros e cúmplices do futuro) e d) aprender a ser (o
desenvolvimento total da pessoa, espírito e corpo,
inteligência, sensibilidade, sentido estético, respon-
sabilidade pessoal e espiritualidade, pensamento
autônomo e crítico, imaginação, criatividade e ini-
ciativa; a formação que possibilite juízos próprios e
poder responsável de decisão sobre diferentes cir-
cunstâncias na vida).
Nas últimas décadas os homens foram embrute-
cidos pela racionalidade e pela objetividade, des-
truíram a sensibilidade em nome da cientificidade.
A falta de afetividade, de companheirismo e de amor
deixou as pessoas como que insensíveis aos proble-
mas de conflito e injustiça social. O ter superou o
ser. O papel da escola é superar isso, é levar os alu-
nos pela curiosidade, pelo interesse, pela busca de
soluções, pela humanização. Para uma prática
emancipadora, será necessário buscar maior quali-
dade nos relacionamentos e organizar a ação do-
cente numa teia de relações e interdependência, na
qual os trabalhos coletivos e parcerias exigirão cola-
boração e participação de todos.
Essa visão de totalidade, o enfoque da aprendi-
zagem como superação da reprodução para a pro-
dução do conhecimento, uma aliança entre as abor-
dagens construtivista, interacionista, sociocultural
e transcedente têm sido chamada por vários auto-
res de “paradigma emergente”. O conhecimento é
provisório e relativo, por isso é preciso estimular a
análise, a capacidade de compor e recompor da-
dos, informações e argumentos, a reconhecer a re-
alidade e a refletir sobre ela. Uma prática pedagó-
gica que contemple:
Ensino com pesquisa. Uma aprendizagem que
busca superar a reprodução, a cópia e a imitação. O
pressuposto básico é a produção do conhecimento,
a partir da dúvida e da crítica (Paoli, 1988), um tra-
balho com o aluno e não para o aluno, um trabalho
de investigação e busca. Para isso, enfoca a locali-
zação histórica do conhecimento, a análise, a curio-
sidade, a incerteza, a percepção da interdisciplinari-
dade dos temas e eventos, numa prática que proble-
matize, observe, compare, acesse, critique, sistema-
tize, produza conhecimento e se posicione diante
da realidade.
Abordagem Progressista. A busca da transforma-
ção social. A prática pedagógica precisa ser proble-
matizadora, considerando contextos culturais, raci-
ais, históricos, de classe e de gênero; uma responsa-
bilização dos indivíduos por seus atos contra os ho-
mens, contra a natureza e contra si mesmos. O com-
promisso é tornar possível uma aprendizagem signi-
ficativa, reflexiva, crítica e transformadora na cons-
trução da cidadania.
Visão Holística. Baseada em princípios éticos, na
dignidade humana, na paz, na justiça, no respeito,
na solidariedade e na defesa do meio-ambiente, um
conhecimento integrado, interdisciplinar, que vê a
realidade como um tecido de eventos, no qual co-
nexões de diferentes tipos se alternam, se sobrepõem
ou se combinam, e por meio disso, determinam a
textura do todo. É também chamada de visão ecoló-
gica e visão sistêmica. Valoriza a reflexão, a curiosi-
dade, a incerteza, a provisoriedade e o questiona-
mento, utiliza e estimula os dois hemisférios cere-
brais (esquerdo racional e objetivo e direito criativo
e intuitivo) num profundo respeito às diferenças.
Tecnologia como ferramenta. A tecnologia da
informação, ou recursos de hardware, software e re-
des, podem tornar mais acessíveis e conhecidos para
os professores as políticas, projetos e propostas de
diferentes instituições de ensino, bem como os mais
diversos aplicativos. Assim, a pesquisa é facilitada,
pois se pode tanto extrair como publicar nas
redes.Entre os diferentes tipos de programas, temos
os de exercitação (treinar habilidades), os tutoriais
(blocos pedagogicamente organizados como livros
animados ou professores eletrônicos), os aplicativos
(que cumprem funções específicas, como planilhas,
processadores de texto, gerenciadores de bancos de
dados, editores de imagens, criação de apresenta-
ções, etc), os programas de autoria (quase lingua-
gens de programação que permitem a criação de
instruções, programas e apresentações), os jogos (li-
gados ao lazer, mas que, integrados, podem com-
plementar atividades propostas pelo professor) e as
simulações (que possibilitam a interação com situ-
ações complexas e/ou de risco, p. ex. vôo e dire-
ção). A internet, enquanto rede, permite a forma-
ção de grupos de discussão por chats e fóruns, afo-
ra o uso de e-mails e páginas. O recurso por si só
não garante a inovação, mas depende de um proje-
to bem arquitetado, alimentado por professores e
alunos usuários.
Segundo Chilkering e Ehrmann, são sete as con-
tribuições da tecnologia da informação: 1) encora-
jar contato e comunicação entre estudantes e entre
universidades; 2) encorajar a cooperação entre estu-
dantes; 3) encorajar a aprendizagem colaborativa;
4) dar retorno e respostas imediatas, incluindo avali-
ações; 5) enfatizar tempo para as tarefas, um uso do
tempo em que não é a presença física que condicio-
na o aprendizado; 6) comunicar altas expectativas,
na publicação e disponibilização das produções dos
estudantes e nos processos que as geraram; 7) res-
peitar talentos e modos de aprender diferentes, que
supera o “escute, leia, decore e repita” unificados
para a sala de aula como um todo, na direção de um
aluno que decide o avanço, pausa, retrocesso e re-
visão do conhecimento, no seu próprio ritmo.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 121
SINPEEM
O uso do ciberespaço, portanto, é não um fim
em si mesmo, mas um meio para o aprender a apren-
der com interesse, criatividade e autonomia.
Uma das metodologias que melhor se adéqua a
essa abordagem progressista, com ensino baseado
em pesquisa e visão holística é a de projetos. Para
isso, o professor precisa referenciar o dentro e o fora
da sala de aula, o uso de tecnologias inovadoras e,
principalmente, a criação de uma postura coopera-
tiva, o que implica em colaboração dos sujeitos, na
tomada coletiva de decisões, em trocas e conflitos
sociocognitivos, em consciência social, em reflexão
individual e coletiva, na tolerância e convivência
com as diferenças, na responsabilidade do aprendiz
por seu aprendizado e pelo do grupo, em negocia-
ções constantes e ações conjuntas e coordenadas.
Pressupõe consenso e responsabilização pelo suces-
so ou pelo fracasso de forma coletiva.
Como metodologia, apresentam-se as fases ou
passos, em função de experiência com professores
de programa de Mestrado da PUC-PR. São elas:
1ª – Apresentação e discussão do projeto, nego-
ciação temática com os alunos, indicação de biblio-
grafia básica e endereços eletrônicos, estabelecimen-
to dos prazos, critérios, requisitos e instrumentos de
avaliação;
2ª – Problematização do tema, que provoque
reflexão, que seja instigadora na valorização do tema
e na busca de soluções; que tome como ponto de
partida problemas práticos atuais ou futuros, apti-
dões e/ou objetivos a atingir e que gere inquietação,
incômodo, desafio;
3ª – Contextualização, localizando historicamen-
te o tema, suas conexões e inter-relações com outros
tópicos, assuntos, situações, eventos, as/ condições
e aspectos sociais, históricos, econômicos ou outros
referentes à temática proposta e também a dinâmica
de operação do grupo pesquisador, as posturas e
comportamentos esperados;
4ª – Aulas teóricas exploratórias, quando se apre-
sentam os conhecimentos básicos envolvidos, seus
tópicos e subtópicos, um diálogo que permita iden-
tificar os assuntos pertinentes e ligados ao projeto, o
fechamento em foco necessário perante o universo
de pesquisa. Não é um direcionamento do conheci-
mento, mas um estabelecer parâmetros do que pre-
cisa ser investigado. São bússolas.
5ª – Pesquisa individual, quando o aluno busca,
acessa, investiga informações que possam gerar solu-
ções à problemática proposta. Aqui entram as orien-
tações do professor sobre as fontes possíveis e a críti-
ca a estas, (livros, CDs, jornais, vídeo, internet etc. )
bem como os filtros necessários para não se perder
nos nós e ligações hipertextuais das páginas. Com o
uso de chats, fóruns, correios eletrônicos, páginas de
busca, os alunos poderão explorar novos endereços e
compartilhar soluções, ainda que parciais.
6ª – Produção individual, em textos próprios, com
material próprio e do grupo, realizada em sala de
aula ou fora dela. O desafio é a redação, edição e
impressão/publicação de um texto próprio, seguin-
do as normas da ABNT (citações, referências, nume-
ração, composição etc.). É aqui que se exercitam as
habilidades de análise e síntese, de avaliação da
pertinência e relevância das informações, de cola-
boração e visão compartilhada.
7ª – Discussão coletiva, crítica e reflexiva, na
devolução dos textos produzidos e discussão sobre
o problema levantado e pesquisado. É o momento
de apresentação das dúvidas, de exercício de tole-
rância e convivência com as diferenças, o exercício
de defesa e argumentação de idéias e respeito a opi-
niões, idéias, valores e posturas de outros, diferentes
das suas próprias.
8ª – Produção coletiva, não de qualquer texto,
mas de estruturar, discutir e depurar as produções
individuais como uma teia, costuradas e amalga-
madas pelos alunos. Esse é um processo que de-
manda coleguismo, respeito e seriedade. Sugere-se
que sejam grupos de três a quatro elementos, pois
ao final, o material pode ser disponibilizado em
home-pages próprias ou de temática igual à pro-
posta para a turma.
9ª – Produção Final (prática social), que pode ser
a publicação na rede ou em material impresso (jor-
nais, boletins, revistas); a disponibilização em revis-
tas acadêmicas, eletrônicas ou físicas; a gravação e
distribuição de cd-rom, apresentações públicas em
qualquer formato (palestras, encenações)
10ª – Avaliação Coletiva do projeto, a reflexão
sobre a participação dos alunos e do professor no
processo, nas fases e no todo, uma busca de autono-
mia e desenvolvimento das competências.
Os professores que já utilizaram perceberam que
seus alunos estão se tornando pessoas capazes, éti-
cas, talentosas, felizes e humanas.
III – Mediação Pedagógica e Tecnologia
Marcos Masetto
Alguns pressupostos vão servir de pano de fundo
para a discussão do assunto.
O primeiro, é que a educação escolar não valo-
riza a tecnologia como elemento para uma maior
eficiência e eficácia. Para quê? Não basta o domínio
do conteúdo como todos apregoam? Na própria for-
mação dos professores valoriza-se mais a disciplina
específica em detrimento das disciplinas pedagógi-
cas, já que estas são “apenas” para poder exercer o
magistério. No ensino superior, também, o uso de
tecnologia não é tão comum, o que faz com que os
novos professores do ensino fundamental e médio,
ao ministrarem suas aulas, praticamente copiem o
122 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
modo de fazê-lo e o próprio comportamento de
alguns de seus professores de faculdade, dando
aula expositiva e, às vezes, sugerindo algum tra-
balho em grupo com pouca ou nenhuma orienta-
ção. Outro fator para a não valorização da tecno-
logia em educação foi a experiência com a impo-
sição de técnicas nas escolas nas décadas de 1950-
1960, com base em teorias comportamentalistas.
Junto com a defesa da auto-aprendizagem e do rit-
mo de cada aluno, impuseram excessivo rigor e
tecnicismo para a construção de planos de ensi-
no, para a definição de objetivos de forma taxo-
nômica, na implantação de instrução programa-
da, e a padronização de métodos e comportamen-
to. Até hoje provoca calafrios ao se falar em eficá-
cia e eficiência do processo de aprendizagem,
porque não só remete a isso como também ao pro-
cesso de Qualidade Total (trazido do mundo das
empresas privadas) que foi implantado sem críti-
ca, como se escolas e empresas se equivalessem
em objetivos, formas de organização, funciona-
mento e resultados. No entanto, os termos trazem
questões interessantes, como a busca dos melho-
res recursos, a noção de acompanhamento contí-
nuo do aprendiz, a possibilidade de interação à
distância, a avaliação durante o processo e dos
resultados de aprendizagem, a reconsideração da
relação professor-aluno e aluno-aluno.
Segundo, dois fatos: a) o surgimento da infor-
mática e da telemática proporcionando a seus usu-
ários (entre eles professores, alunos) oportunidades
como a de entrar em contato com informações,
pesquisas e produções do mundo todo, em todas
as áreas; o desenvolvimento da auto-aprendizagem
e interaprendizagem à distância, de qualquer lu-
gar; a integração de movimento, luz, som, imagem,
filme, vídeo em novas apresentações; a construção
em conjunto de conhecimentos e b) a abertura para
a formação das competências pedagógicas de pro-
fessores universitários, em todas as áreas, o que é
um processo recente.
Tecnologia e processo de aprendizagem. Há
quatro elementos no processo: a) o conceito do que
seja aprender, centrado mais no aprendiz, enquanto
o de ensinar está centrado no professor b) o papel
do aluno, ativo e participante (não mais passivo e
repetidor), que vê seus colegas como colaboradores
e co-responsáveis pelo aprendizado; c) o papel do
professor, de mediador e orientador, que trabalha
junto com o aluno, consultor de conhecimento e d)
o uso da tecnologia, que sai das aulas expositivo-
dialogadas – contem ou não com o uso de recursos
audiovisuais como vídeo ou transparências, o que
muda apenas a FORMA – e vai coerentemente para
a de mediação, e facilitação, a de trabalho interativo
e colaborativo. As técnicas não se justificarão por si
mesmas, mas pelos objetivos que se pretenda que
elas alcancem.
Tecnologia e mediação pedagógica. A mediação
pedagógica é a atitude, o comportamento do profes-
sor que se coloca como um facilitador, incentivador
ou motivador da aprendizagem, uma ponte “rolan-
te”, que apresenta e trata conteúdos e temas de for-
ma a permitir relações, organizações, manipulações,
discussões e debates entre todos, para a produção
de conhecimento significativo. Para isso, usa do di-
álogo, da troca de experiências, do debate das dúvi-
das, questões ou problemas, da orientação nas ca-
rências e dificuldades técnicas ou de conhecimen-
to, na garantia da dinâmica do processo, na proposi-
ção de situações-problema e desafios, no incentivo
à reflexão e no intercâmbio entre o aprendido e a
sociedade real. Denominamos “novas” tecnologias
as que estão vinculadas ao uso do computador, à
informática, à telemática e à educação à distância.
No entanto, a mediação pedagógica não precisa
necessariamente destas, pois temos várias técnicas à
disposição para os momentos iniciais do trabalho em
grupo (apresentação simples, apresentação em du-
plas, complementação de frases, desenhos em gru-
po, deslocamentos dos alunos, tempestade cerebral),
para o desenvolvimento (baseados principalmente
em simulações como dramatizações, desempenho
de papéis, jogos dramáticos, jogos e estudos de caso
ou em situações reais, como o estágio, excursões,
aulas práticas em clínicas, visitas a obras, indústrias,
empresas, consultórios, escritórios, etc). As técnicas
baseadas em dinâmicas de grupo (e que assumem
também esse nome) são excelentes para gerar maior
envolvimento entre todos. Mesmo os recursos audi-
ovisuais e leituras podem ser mais bem aproveita-
dos, do que simplesmente “expostos” aos alunos. Por
fim, entre as tradicionais, o método de projetos, que
utiliza maior tempo, é mais complexo, mas favorece
de forma ímpar a aprendizagem.
No que se refere a novas tecnologias, como a
informática, o uso do computador, da Internet, do
CD-ROM, da hipermídia, da multimídia, de ferra-
mentas para educação à distância, - como chats, gru-
pos e listas de discussão, correio eletrônico, também
se pode falar que cooperam tanto na forma presen-
cial com à distância. Ao explorar imagem, som e
movimento simultaneamente, colocam professores
e alunos trabalhando e aprendendo juntos, dialogan-
do, discutindo, pesquisando, perguntando, respon-
dendo comunicando informações. Algumas são ex-
celentes para o ensino (=transmissão), enquanto ou-
tras são melhores para a exploração pelo aluno. De
qualquer forma, continuam sendo instrumentos. As
novas tecnologias permitem ampliar o mundo de
experiências e contatos, dada a rapidez e o imedia-
tismo que proporcionam. Já as formas de uso podem
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 123
SINPEEM
estar a servido presencial ou à distância. Não se
pode pensar no uso de uma tecnologia sozinha ou
isolada, o planejamento precisa ser feito no todo,
uma técnica se ligando à outra e integrada.
Seja via teleconferência (que dá a possibilidade
de dar acesso a telespectadores de diversas locali-
dades a um especialista, ainda mais se permitir o
debate ou a colocação de dúvidas ou perguntas), seja
num chat ou bate-papo (que pode ser usado para
funcionar como um disparador de idéias, uma brain-
storm eletrônica, altamente envolvente e produtiva),
seja numa lista de discussão (que permite a discus-
são e a troca de informações ou experiências, a apre-
sentação de dúvidas, com divisão ou não em tópi-
cos, o que leva um tempo maior para se tornar pro-
dutivo, já que não exige a sincronicidade) ou pelo
correio eletrônico (no aumento de número de con-
tatos entre professores e alunos e entre alunos e alu-
nos, na possibilidade de compartilhamento de dúvi-
das, de materiais, de produções, de instruções, de
dados, de textos) a disponibilização de tempo do
professor é fundamental pela exigência de resposta
aos tópicos, convites de chat ou resposta aos e-mails
ou no próprio tempo para atender a um número “x”
de e-mails, tantos quantos são os alunos, o que pode
aumentar até sua carga diária ou tirá-lo de outras
atividades igualmente importantes. Não se conhe-
cem soluções efetivas para esse problema, a não ser
algumas experiências de determinar tempos fixos
(horas ou dias na semana). A internet permite um
maior incentivo à leitura e à pesquisa, pois além do
acesso aos materiais digitalizados, acrescenta a co-
modidade de tempo-espaço, pois se pode acessar,
ler, comparar, reproduzir, construir, produzir, criti-
car, registrar, buscar, pesquisar, organizar, tudo ao
mesmo tempo. Como todo instrumento, precisa ser
ensinado seu uso crítico e reflexivo. Com CDs e pro-
gramas como PowerPoint somam-se os recursos que
integram imagem, luz, som, texto, movimento, pes-
quisa, busca, links já organizados ou tornados pre-
sentes. Ainda assim, deve-se prever atividades, tem-
pos e momentos para o aluno perguntar, refletir, de-
bater, pesquisar, trabalhar, redigir etc.
Tecnologia, avaliação e mediação pedagógica.
Muitas vezes ocorre a perda de um trabalho inova-
dor em função de uma avaliação tradicional e con-
vencional. Alguns pontos básicos são: a) considerar
a avaliação como elemento motivador e incentiva-
dor e não como conjunto de provas e trabalhos para
aprovar ou reprovar um aluno; b) modificar a idéia
de avaliação como indicador de uma nota dada a
acertos e erros, que não colabora com a aprendiza-
gem, pois falta feedback, continuidade e variedade
de técnicas; c) ver a avaliação como um processo
de retroalimentação que traga reflexão e orientação
tanto para o aprendiz como para o professor; d) a
avaliação é um retorno e uma apreciação em rela-
ção aos objetivos, que pode vir tanto do professor
como dos colegas como do próprio aprendiz, em
relação a critérios que foram discutidos e validados;
e) se, presencialmente, há indicadores comunicaci-
onais (olhares, expressões, gestos), no virtual não há,
o que chama atenção para o cuidado com a redação
de respostas e avaliações oferecidas aos alunos; f) o
feedback bom é o claro, direto e contínuo; g) junto
com ele, deve haver um registro individual que per-
mita o diálogo e acompanhamento, não apenas das
atividades mas dos progressos; h) abrir o processo
com os alunos a respeito do programa do curso,
das atividades da pertinência dos temas, tanto pre-
sencialmente com à distância para que haja trocas e
avaliações mútuas de desempenho e i) que as ativi-
dades permitam ao aluno e ao professor desenvol-
ver uma auto-avaliação e registrá-la.
O professor como mediador pedagógico pos-
sui as seguintes características: a) mais voltado para
a aprendizagem do aluno, centro do processo; b)
professor e aluno são a célula básica, por ações e
expectativas mútuas e conjuntas; c) co-responsabi-
lidade; d) considerar a maturidade do aluno, res-
peitando-a com estratégias, atmosfera, planejamen-
to, métodos, recursos e comunicações adequadas;
e) domínio profundo e atualizado de sua área, in-
clusive quanto a técnicas pedagógicas; f) criativi-
dade como atitude de diferenciar cada aluno por si
só; g) disponibilidade para o diálogo, h) a subjeti-
vidade e a individualidade, tanto do professor quan-
to do aluno devem ser respeitadas; i) comunicação
e expressão em função da aprendizagem, com cui-
dado de quem estão limitado ao material escrito
(na comunicação virtual), para transmitir informa-
ções, dialogar e trocar experiências, debater dúvi-
das, relacionar com a realidade, fazer questões éti-
cas, atribuir significado aos eventos e situações,
ajudar a comandar a máquina.
Resumo realizado por Antonio Carlos Berardi
Junior, professor, antropólogo, mestre em educação.
124 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
MUNANGA, Kabengele. GOMES, Nilma Lino.
São Paulo, Global Editora e Ação Educativa, 2004
O livro de 87 páginas (exemplar do profes-
sor) propõe-se a fazer uma reflexão sobre a situa-
ção do negro no Brasil contemporâneo. A metade
do volume é dedicada a explicações sobre o funcio-
namento da coleção Viver, Aprender e seus pressu-
postos teóricos e metodológicos, a segunda metade
explica a concepção do livro dedicado aos estudan-
tes, dividido em sete capítulos: 1) O Brasil, o que é
afinal?; 2) África: berço de diversas civilizações; 3)
A resistência negra no regime escravista; 4) A resis-
tência negra: das revoltas ao movimento negro con-
temporâneo; 5) A produção cultura e artística dos
negros no Brasil; 6) Racismo, discriminação racial e
ações afirmativas: sociedade atual; 7) Homens e
mulheres negros: notas de vida e de sucesso.
A coleção
Na primeira parte encontra-se a organização do
volume que, como nos outros livros da coleção, é
dividido em três partes: livro do estudante com tex-
tos do autor e outros autores e fontes onde se discu-
te a temática proposta; um roteiro de atividades que
vem no livro dos estudantes endereçadas aos mes-
mos; e o livro de professores que contém aborda-
gens metodológicas, propostas de aprendizagens e
sugestões de atividades coletivas para serem feitas
com os estudantes.
A proposta desse e dos outros volumes da cole-
ção é discutir temas que permitam uma abordagem
interdisciplinar, sendo possível o uso dos mesmos
tanto para adolescentes do ensino fundamental II
como para adultos. Dirigida especialmente para esse
segundo segmento, os autores da coleção afirmam a
necessidade de se valorizar os saberes prévios dos
estudantes que já trazem uma trajetória de vida que
não recomenda o ensino seriado, onde os temas são
ensinados em torno de uma suposta gradação de
complexidade. Trata-se, portanto, de resignificar o
conteúdo proposto a partir da experiência de vida
dos estudantes.
Dessa forma o volume encaixa-se nas propostas
atuais de formação por ciclos, opondo-se à concep-
ção de ensino seriado. As propostas promovem a
participação dos estudantes no planejamento e na
execução das atividades solicitando a resolução de
conflitos e situações-problemas que afetam a todos.
PARA ENTENDER O NEGRO NO BRASIL
DE HOJE: HISTÓRIA, REALIDADES,
PROBLEMAS E CAMINHOS
Os conteúdos sugeridos ajudam os jovens e adultos
a compreenderem as mudanças na estrutura econô-
mica e na dinâmica do atual mercado de trabalho.
O material didático oferecido pelo livro quer ser
apenas um aporte, uma referência política e peda-
gógica. Sendo um convite ao estudo e à reflexão, o
volume não tem rupturas ou exercícios intercalados.
Tenta-se evitar assim, o uso do material como “re-
ceita” a ser usada em sala de aula e a absorção de
conteúdos de forma mecânica pelos estudantes.
Exploração didática
Propõe-se que os jovens e adultos dominem
três grandes domínios da cultura escrita: comuni-
cação, acesso a informações em diversas fontes e
investigação e compreensão da realidade. No item
comunicação pretende-se que o aluno exercite di-
ferentes formas de exposição para públicos e situa-
ções distintos, podendo expressar com clareza suas
opiniões. O item “acesso a informação em diversas
fontes” propõe que o aluno aprenda a usar a escrita
para ler e compreender de acordo com as necessi-
dades de sua aprendizagem. Finalmente, no tópico
“investigação e compreensão da realidade, preten-
de-se, antes de tudo, que o aluno possa: traçar um
plano de ação para sua pesquisa, formulando ques-
tões a partir de situações reais; sistematizar informa-
ções; formular hipóteses; avaliar a necessidade de
se buscar mais informações e saber analisar dados
quantitativos e qualitativos”.
Nota-se pelo exposto até agora que a proposta
dos idealizadores da coleção está centrada na cria-
ção de autonomia para que o próprio estudante cons-
trua seu conhecimento.
O livro convida os professores a trabalharem por
meio de formulação de projetos coletivos com a par-
ticipação dos estudantes, transformando esses últi-
mos em sujeitos do aprendizado ao invés de objetos
da ação do professor. Para formular esse projeto, os
autores indicam a necessidade do grupo de profes-
sores e estudantes estabelecerem uma situação-pro-
blema, elegendo temas e subtemas a serem investi-
gados e buscando fontes adequadas para a solução
dos desafios propostos no projeto. Salienta-se ainda
que, ainda de forma coletiva, definam-se os objeti-
vos e produtos a serem alcançados no final do pro-
jeto. Evidentemente, durante a execução do projeto,
será necessária a revisão dos procedimentos e obje-
tivos, visto que a investigação poderá exigir corre-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 125
SINPEEM
ção dos procedimentos e mesmo a reformulação dos
objetivos do projeto à luz da pesquisa realizada.
A avaliação do processo fica por conta do pro-
fessor e dos estudantes. O primeiro deve analisar o
processo coletivo e individual, bem como recolher
e interpretar as hipóteses e produções dos estudan-
tes. Esses, por sua vez, devem fazer uma auto-ava-
liação e comparar os resultados da pesquisa com os
objetivos propostos.
Falar, ler e escrever na escola
Outro trecho do livro traz uma reflexão sobre o
significado de falar, ler e escrever na escola. A escri-
ta e sua utilização é considerada indispensável para
a participação social. Para que seja leitor e escritor
competente, o estudante deverá sempre ter questões
prévias que emprestem à leitura algum objetivo con-
creto e ainda deve identificar quais são interlocuto-
res de seus textos. Sugere ainda procedimentos para
que os alunos aprendam a ler para estudar um as-
sunto: marcando textos; fazendo comentários de
margens; recortando e selecionando fragmentos; ela-
borando esquemas e roteiros de leitura; preparando
sinopses, paráfrases, resumos; fazendo e interpretan-
do tabelas e quadros e organizar arquivos de livros,
textos ou fichas.
A mesma ênfase dada à formação de leitores com-
petentes é dada para a escrita. O estudante é estimu-
lado a produzir textos, identificando diferentes tipos
de produção escrita: pessoais, relativos à vida práti-
ca, relativos à atividade profissional e para produzir
estudos.
Da mesma forma que na leitura, estabelecem-se
os requisitos para se escrever um bom texto: planejar
a ação, fazendo um roteiro ou rascunho; estabelecer
um objetivo (para escrever o texto); identificar para
quem o texto será escrito;estabelecer o que será de-
fendido no texto (tese ou posição);reunir e selecionar
argumentos; construir quadros, tabelas ou listas; fazer
sinopses, paráfrases ou resumos; adaptar o texto aos
padrões de escrita convencional; usar material de
consulta; fazer revisão do texto; fazer avaliação de
um roteiro ou de um texto escrito por outra pessoa.
Para entender o negro no Brasil de hoje: histó-
rias, realidades, problemas e caminhos
Depois de explicitar a concepção que norteou a
produção da coleção e os objetivos das atividades
propostas, o livro passa a tratar o tema central do
volume: o negro no Brasil.
Começa argumentando que o Brasil nasceu do
encontro de diferentes grupos étnico-raciais e conhe-
cer a história desses segmentos equivale a conhecer
o Brasil. De todos os segmentos que formaram o Bra-
sil, o negro é o único que não veio pela própria von-
tade, pois foi trazido à força, o que constitui uma
grande diferença entre os demais brasileiros. Outro
argumento a favor da importância do tema é o fato
de, apesar de constituírem a maioria do povo brasi-
leiro, esse segmento permanece sujeito a toda sorte
de preconceito, discriminação racial e racismo. Sua
história é menos conhecida que a de outros segmen-
tos étnicos o que justifica a lei federal 10.639, pro-
mulgada em 2003 que tornou obrigatório o ensino
da história da África e da cultura afro-brasileira nos
estabelecimentos de ensino brasileiros.
Abordagem dos temas
Toda a discussão gira em torno da diversidade
do povo brasileiro e da necessidade de entendermos
que a discriminação contra o negro liga-se com a
questão do fortalecimento da democracia brasileira,
passando pelo entendimento das especificidades dos
grupos excluídos, postulando que não existe uma
fórmula geral para resolver os problemas sociais de
grupos distintos como negros, índios, mulheres, ho-
mossexuais, portadores de necessidades especiais,
entre outros.
Temas e subtemas
Os subtemas que tomam parte no estudo são: a
história do povo negro, de seu continente de origem
e o tráfico; a vida dos negros na nova terra; a organi-
zação e a resistência dos negros frente ao regime
escravista, a negação de direitos e as desigualdades
sociais; os problemas do negro no Brasil contempo-
râneo, como o preconceito e discriminação racial e
os caminhos para a mudança, para o combate das
desigualdades raciais e a construção da igualdade
de direitos e oportunidades para a população negra
em nossa sociedade.
O livro está organizado em sete capítulos. Cada
capítulo traz orientações para o roteiro de ativida-
des e para as atividades coletivas. Ao final de cada
capítulo ainda são oferecidos indicação de fontes
de pesquisa, bibliografia e textos complementares.
Os conteúdos e as atividades sugeridas são descri-
tos a seguir:
O Capítulo 1, Brasil, o que é afinal, traz à discus-
são quais foram as matrizes populacionais formado-
ras do Brasil e explica as razões que levaram o por-
tuguês a optar pela mão de obra africana. Descreve
as características culturais dos povos escravizados
no Brasil e suas contribuições para o país. A polêmi-
ca sobre a pré-existência de escravos na África, an-
tes da colonização da América, é abordada para re-
chaçar o argumento daqueles que dizem ser dos pró-
prios africanos a culpa pela escravidão, como forma
de combater a reivindicação de indenizações e po-
líticas afirmativas.
Os dados históricos apresentados numa ótica não
colonial procuram colocar o negro como sujeito his-
tórico e social, atribuindo à sua identidade uma nova
e positiva perspectiva.
126 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
Nas orientações para o roteiro de atividades, os
autores propõem o questionamento do subtítulo:
Brasil: país do encontro de culturas e civilizações
através da formulação de questões em que o aluno é
convidado a definir o que é mundo globalizado e
como ele se auto define no contexto nacional, além
disso, convida o aluno a se posicionar ante a afirma-
ção de que “nossa” cultura brasileira é de origem
ocidental, definida a partir da matriz portuguesa.
A proposta de atividade coletiva é para que alu-
no forme sua árvore genealógica e a compartilhe com
os demais colegas. A idéia é observar a diversidade
da formação étnica do grupo, com ênfase na origem
africana. Os alunos seriam estimulados a consultar
parentes e amigos da família, bem como documen-
tos e fotos que ainda podem ser usados para ilustrar
as árvores genealógicas.
Os autores sugerem que os professores elaborem
questões sobre a origem de cada família, enfatizan-
do o que há de comum e de singular nas histórias de
vida apresentadas.
Destaca-se nesse capítulo um trecho da biogra-
fia do famoso jogador de futebol negro, Garrincha.
O Capítulo 2, África: berço de diversas civiliza-
ções procura mostrar a história de algumas civiliza-
ções africanas. O objetivo é desmontar o mito cria-
do por certa tradição histórica, como a do filósofo
Hegel(1770-1831) que afirmou que os povos africa-
nos nada tinham a contribuir para a humanidade. O
desconhecimento da história dos povos que habita-
ram o continente africano nega-lhes a dignidade e
contribui para a baixa auto estima dos afro descen-
dentes no Brasil. Essa baixa auto-estima ainda é re-
forçada pelas imagens veiculadas por filmes e pela
mídia, sempre muito negativas quando se referem
ao negro aqui e na África.
Ao demonstrar a perspectiva eurocentrista de
Hegel, baseada numa geografia determinista, o tex-
to procura indagar o aluno sobre os motivos de se
considerar a África como um continente infantil, re-
pleto de tribos em incessantes guerras (como nos fil-
mes Tarzan ou King Kong), que jamais foi palco pri-
vilegiado das principais conquistas da humanidade.
A orientação para o roteiro de atividades sugere
que sejam feitas questões investigativas para saber
quais os conhecimentos prévios dos alunos a respei-
to das civilizações africanas. Após a leitura do capí-
tulo, os alunos são convidados a escreverem uma
carta para alguém explicando o que aprenderam e a
importância desse aprendizado. Os autores salien-
tam que a carta deve, de fato, ser enviada. Sugerem
ainda indagar os alunos negros se eles sabem a qual
povo pertenciam seus ancestrais e o motivo para
eventual desconhecimento.
Como atividade coletiva sugere-se que, antes da
leitura do capitulo 2, os alunos construam um pai-
nel coletivo, usando fotos retiradas de revistas sobre
o conhecimento prévio que eles têm da África. Pode-
se sugerir que eles ganharam uma visita ao conti-
nente e solicitar que eles descrevam o que crêem
que vão encontrar lá.
Após a leitura do capítulo, os alunos deverão
construir um novo painel e comparar os dois, para
avaliarem o que aprenderam e a importância desse
aprendizado.
Sugere-se ainda que os alunos divididos em gru-
pos apresentem seminários sobre cada um dos po-
vos estudados nos capítulos. Além da produção co-
letiva, os autores sugerem que o professor solicite
relatórios individuais sobre o que cada um apren-
deu ao final das atividades.
O Capítulo 3, A resistência negra no regime es-
cravista, fala dos movimentos de resistência dos ne-
gros escravizados no Brasil. Está muito difundido no
imaginário do brasileiro que o escravo aceitou pas-
sivamente sua condição, estando “acostumado” a
trabalhos forçados. O estudo dos principais movi-
mentos de resistência e rebeliões demonstra que o
regime escravista apesar de humilhante e opressor,
não roubou a humanidade dessas pessoas.
Os autores lembram os professores de alertarem
os alunos de não cometerem o erro de confundir as
estratégias de luta dos escravos com a dos negros
de hoje.
Na orientação para o roteiro de atividades su-
gere-se novamente o mapeamento, através de ques-
tionário, do conhecimento prévio dos estudantes a
respeito das estratégias de resistência negra duran-
te o período escravocrata. Propõe-se que a partir
da leitura das histórias de personalidades negras do
passado, supere-se a concepção de apatia e sub-
missão dos homens, mulheres, velhos e crianças
diante da escravidão.
Como atividade coletiva sugere-se a organização
de uma mostra de vídeos sobre movimentos de re-
sistência negra. O próprio livro traz a sugestão de
cinco filmes, entre ficções e documentários. Sugere-
se que cada grupo de alunos fique encarregado de
assistir previamente o filme para organizar o debate
após a exibição do mesmo. Caso a escola não tenha
os recursos para a exibição sugere-se que os própri-
os alunos ofereçam solução para o problema, dan-
do sugestões de como obter os recursos, ou reivindi-
cando espaços públicos para a exibição que deve
ser estendida a toda a comunidade escolar ou cen-
tro educacional.
Ao final da mostra os alunos devem ser convida-
dos a avaliar o resultado dos debates.
No Capítulo 4, A resistência negra: das revoltas
ao movimento negro contemporâneo, mostra os
movimentos negros após a abolição da escravidão
em 1888. A idéia central é desmistificar a idéia de
que, a partir da lei Áurea, oportunidades foram ofe-
recidas aos negros em pé de igualdade com outros
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 127
SINPEEM
grupos raciais. Esses processos de luta pela constru-
ção da igualdade social e pelo acesso aos diversos
setores sociais são destacados nas histórias da Re-
volta da Chibata, da Frente Negra Brasileira, do Tea-
tro Experimental do Negro e do Movimento das
Mulheres Negras. Cada movimento deverá ser inse-
rido dentro do contexto mais amplo da história e da
sociedade brasileiras.
As questões sugeridas na orientação para o ro-
teiro de atividades incentivam o conhecimento do
negro como sujeito histórico na sociedade brasilei-
ra. Sugere-se ainda que os alunos convidem militan-
tes do movimento negro para serem entrevistados.
Como atividade coletiva sugere-se o estudo do
capítulo e a elaboração de relatórios de leitura de
cada um dos movimentos listados acima com a pos-
sível ampliação de fontes a partir de páginas na in-
ternet e livros sobre os diferentes assuntos.
O Capítulo 5, A produção cultural e artística dos
negros no Brasil trata de aspectos das manifestações
culturais, musicais e artísticas. Dessa forma mostra-
se como a cultura brasileira é africanizada em vários
aspectos da vida cotidiana mesmo que os brasileiros
não a reconheçam.
Entendidas como maneiras de luta e resistência
cultural destacam-se a religiosidade, a corporeida-
de, a música, a dança e os gestos dos negros. A cor-
poreidade é estudada por intermédio da capoeira e
os movimentos musicais e de expressão cultural por
meio do rap e do funk.
Nas orientações para o roteiro de atividades su-
gere-se que os alunos pesquisem manifestações
musicais dentro de seu próprio cotidiano debatendo
inclusive as relações de gênero (entre homem e mu-
lher) e as tensões que elas promovem.
Como atividade coletiva sugere-se que os estu-
dantes leiam as letras e procurem entender quais
mensagens elas pretendem passar. Deve-se traçar, a
partir dessa análise o cotidiano urbano dos jovens
negros. A compreensão dos conteúdos das letras e o
posicionamento diante deles devem ser encorajados.
Pode-se ampliar com exposição de painéis e
mesmo com a organização de uma mostra de cultu-
ra da juventude negra, onde os estudantes convidem
grupos musicais e artísticos para se apresentarem em
uma feira cultural na escola ou centro educacional.
Sugere-se ainda a apresentação de seminários, em
pequenos grupos, onde cada um falará sobre outros
ritmos musicais negros (como as diversas varieda-
des de samba) seus principais representantes, instru-
mentos e características.
O Capítulo 6, Racismo, discriminação racial e
ações afirmativas, aborda conceitos como raça, et-
nia, racismo, etnocentrismo, discriminação racial,
preconceito, ação afirmativa e cotas raciais, com o
objetivo de refletir sobre a compreensão e o uso que
se faz deles nos debates contemporâneos.
Informar os estudantes sobre as desigualdades
entre negros e brancos no Brasil é fundamental nes-
se capítulo. O debate sobre as ações afirmativas e
cotas também é imprescindível.
Nas orientações para o roteiro de atividades in-
dica-se que as questões formuladas aos estudantes
devem levá-los a conhecer dados estatísticos sobre
as desigualdades raciais no Brasil,levantados por
ONGs, órgãos públicos e movimentos sociais. Pro-
cura-se incentivar o entendimento das estratégias de
superação das desigualdades, enfatizando o aperfei-
çoamento jurídico e distinguindo ações afirmativas
de política de cotas.
Como atividade coletiva sugere-se a elaboração
de uma pesquisa para se conhecer a situação sócio
econômica dos negros da comunidade ou centro
escolar, ou, se possível, da comunidade como um
todo. Solicita-se a pesquisa em página do IBGE (Ins-
tituto Brasileiro de Geografia e Estatística) onde é
possível obter informações sobre estratos populaci-
onais de todos os municípios brasileiros. O questio-
nário deve ser elaborado pelos estudantes e testado
previamente, para se ter certeza que se atingirão os
objetivos pretendidos com a pesquisa.
Ao final sugere-se a tabulação coletiva e a exibi-
ção dos resultados por meios de painéis. O conheci-
mento das condições concretas dos negros próximos
aos estudantes podem levá-los a entender as dificul-
dades que esses grupos têm com a educação, a mai-
or parte das vezes, atribuída ao desinteresse dos
mesmos pelos estudos, desconsiderando as condi-
ções objetivas desfavoráveis para o desenvolvimen-
to intelectual dos mesmos.
O Capítulo 7, Homens e mulheres negros: notas
de vida e de sucesso fala da história de celebridades
negras vivas e mortas que representam parte da luta
e da força do povo negro.
A idéia é que as biografias oferecidas nesse capí-
tulo estimulem a pesquisa de outras personalidades
e líderes negros de dentro e de fora da comunidade
que revelem trajetórias de lutas e resistências.
Sugere-se, como orientação de atividade coleti-
va a pesquisa de biografias de personalidades ne-
gras que sejam reunidas em um livro ou painel cole-
tivos. É preferível que cada estudante pesquise a his-
tória de vida de pessoas desconhecidas, próximas
da comunidade e as homenageiem por intermédio
dessas biografias, estimulando especialmente o uso
de relatos orais que devem ser gravados e transcri-
tos. Se for possível a confecção de um livro ou revis-
ta, recomenda-se o levantamento de recursos para
que cada um tenha o seu exemplar.
Resumo realizado por Lourival dos Santos, dou-
tor em história social pela USP.
128 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
AVALIAÇÃO: DA EXCELÊNCIA À REGULAÇÃO
DAS APRENDIZAGENS - ENTRE DUAS LÓGICAS
PERRENOUD, Phillipe.
Porto Alegre, Artes Médicas Sul, 1999
CAPÍTULO 4
OS PROCEDIMENTOS HABITUAIS DE
AVALIAÇÃO, OBSTÁCULOS À MUDANÇA
DAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS
A característica constante de todas as práticas de
avaliação é submeter regularmente o conjunto dos
alunos a provas que evidenciam uma distribuição
dos desempenhos, portanto de bons e maus desem-
penhos, senão de bons e maus alunos. Às vezes,
diz-se que essa avaliação é normativa, no sentido
de criar uma distribuição normal, ou curva de Gauss.
É também comparativa: os desempenhos de alguns
se definem em relação aos desempenhos dos outros
mais do que os domínios almejados ou a objetivos.
É igualmente uma avaliação muito pouco individu-
alizada (a mesma para todos no mesmo momento,
segundo o princípio do exame), mas onde cada um
é avaliado separadamente por um desempenho que
supostamente reflete suas competências pessoais.
Em que e por que os procedimentos de avalia-
ção ainda em vigor na maioria das escolas do mun-
do levantam um obstáculo à inovação pedagógica?
Distinguirei sete mecanismos complementares:
1) O tempo que resta
A avaliação não é uma questão menor. Para fa-
zer com que a máquina avaliativa funcione, traba-
lha-se, tomam-se múltiplas decisões, negocia-se.
Tudo isso deixa finalmente poucos recursos para
pensar em renovar o ensino, para se lançar em ex-
periências didáticas, para transformar os métodos ou
o estilo de administração de aula. Esse obstáculo à
inovação é tão simples quanto importante: a avalia-
ção freqüentemente absorve a melhor parte da ener-
gia dos alunos e dos professores, não restando gran-
de coisa para inovar.
Definitivamente, a avaliação esconde o tempo
escolar de um modo pouco compatível com os rit-
mos da inovação. Relativamente mal-vivenciada
aparentemente irredutível, ela leva muitos professo-
res e alunos a um funcionamento irregular; a uma
alternância entre estresse e relaxamento, nenhum dos
dois sendo favoráveis à transformação das práticas
pedagógicas.
Uma avaliação mais formativa não toma menos
tempo, mas dá informações, identifica e explica er-
ros, sugere interpretações quanto às estratégias e ati-
tudes dos alunos e, portanto, alimenta diretamente a
ação pedagógica, ao passo que o tempo e a energia
gastos na avaliação tradicional desviam da inven-
ção didática e da inovação.
2) Uma relação pervertida com o saber
É preciso ter boas notas (ou seu equivalente qua-
litativo) para progredir na trajetória escolar e ter aces-
so às habilitações mais almejadas. Na prática, é o
resultado que conta. Com dois efeitos perversos bem
conhecidos: estudar apenas para a prova ou "colar".
Estudar apenas para a prova é uma maneira ho-
nesta, mas simplória, de se tornar capaz de um "de-
sempenho de um dia". Isso não constrói uma verda-
deira competência, mas permite iludir, durante uma
prova escrita ou oral. A outra estratégia, menos ho-
nesta, é a "cola". Nela os alunos aprendem que o
importante é dar uma resposta correta, pouco im-
portando os meios de se chegar a ela.
Após vários anos em tal regime, torna-se muito
difícil despertar o interesse dos alunos pelo saber
por si só, pelo sentido que ele dá à realidade, pelo
enriquecimento pessoal que propicia, pela movi-
mentação ou pela satisfação da mente que favore-
ce. Todos os professores do mundo sabem que,
quando propõem um trabalho, a primeira pergunta
de seus alunos não é O que isso vai nos trazer? É
importante, é interessante? Vamos aprender algu-
ma coisa? Vale nota?. Sabendo que, se a resposta
for negativa, eles não julgarão útil despender esfor-
ços sobre-humanos...
Todas as tentativas de nova pedagogia, de esco-
la ativa, de avaliação formativa, de diferenciação
do ensino se chocam com esse minimalismo, com
essa relação estratégica e utilitarista com a apren-
dizagem. Não se poderia culpar os alunos: eles são
simplesmente realistas. Como todo agente social, o
aluno investe, longamente, naquilo que lhe garan-
te lucros tangíveis.
3) Trabalhar sob ameaça é aprender?
Mesmo que os alunos trabalhem pela nota, isso
significa que trabalham! Tanto os pais quanto os pro-
fessores utilizam as notas, por vezes de modo cíni-
co, para obter um mínimo, às vezes um máximo, de
investimento no trabalho escolar. Isso nada tem de
surpreendente: em todos os grupos onde a adesão
às normas não é livremente consentida, um jogo de
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 129
SINPEEM
sanções e de recompensas incita os agentes a se con-
duzirem corretamente e a trabalhar normalmente.
Portanto, o sistema tradicional de avaliação par-
ticipa de uma espécie de chantagem, de uma rela-
ção de força mais ou menos explícita, que coloca
professores e alunos e, mais geralmente, jovens e
adultos, em campos diferentes, aqueles tentando pre-
servar sua liberdade e tranqüilidade, estes se esfor-
çando para fazê-los trabalhar "para seu bem".
É muito difícil, nestas condições, criar uma rela-
ção verdadeiramente cooperativa entre professores
e alunos, porque uma hora ou uma semana depois,
os primeiros vão julgar os segundos, às vezes com
rigor. Aliás, é por isso que é difícil conjugar, na mes-
ma relação pedagógica e no mesmo espaço-tempo,
avaliação formativa e avaliação certificativa: a pri-
meira supõe transparência e colaboração, ao passo
que a segunda se situa no registro da competição e
do conflito e, conseqüentemente, do fingimento e
da estratégia.
4) Uma transposição didática conservadora
Chevallard (1991) mostrou que a transposição
didática mais clássica, tanto em matemática como
nas outras disciplinas, assumia a imagem de uma
progressão regular, o texto do saber, ou seja, o currí-
culo cortado em fatias, capítulos, lições, em páginas
viradas umas após as outras. Do ponto de vista do
professor, esse modo de transposição tem muitas
vantagens, principalmente sob o ângulo do planeja-
mento e da correspondência entre o programa anu-
al e o tempo de ensino disponível a cada semana.
Com efeito, nada mais cômodo e tranqüilizador do
que poder dividir os programas em pequenas unida-
des, de preferência independentes umas das outras,
de modo que, para cada uma delas, possa-se prever
um tempo delimitado de sensibilização, de explica-
ção, de exercício e de controle.
Essas simplicidades na transposição e no plane-
jamento didáticas têm um alto preço do ponto de
vista pedagógico. Eles tornam difícil qualquer dife-
renciação do ensino: os alunos devem progredir no
mesmo ritmo e passa-se ao capítulo seguinte quan-
do uma proporção "decente" da turma parece ter
adquirido o essencial das noções e habilidades. Nes-
sa lógica, exceto algumas revisões, uma vez "virada
a página" (no programa), não se volta mais a ela, de
modo que são bastante freqüentes os mesmos alu-
nos que, quando se passa ao capítulo seguinte, nada
compreenderam ou nada consolidaram; eles se en-
contram, então, no final do ano, em situação de fra-
casso irremediável.
De modo mais global, esse tipo de transposição
didática privilegia, o tempo do ensino e do professor
por oposição ao tempo da aprendizagem e do apren-
diz. Toda abordagem construtivista e genética do
desenvolvimento e dos conhecimentos indica que o
saber jamais se constrói de maneira linear, que há
antecipações, retrocessos, reconstruções intensivas
e fases de latência. Um ensino que quisesse seguir
os ritmos do aluno não poderia se encerrar em uma
estrita progressão.
Uma pedagogia centrada sobre os aprendizes só
pode levar à fragmentação do princípio de uma pro-
gressão paralela de todos os alunos no domínio dos
mesmos conteúdos. A avaliação tradicional, assim
como a transposição didática da qual faz parte, im-
pedem o desenvolvimento de pedagogias ativas e
diferenciadas.
5) O trabalho escolar, preparação à avaliação
A avaliação não é, em um objetivo em si, mas
um meio de verificar se os alunos adquiriram os co-
nhecimentos visados. Recomenda-se, todavia, quan-
do se ensina, ter uma idéia bastante precisa da ma-
neira como se procederá para avaliar os conheci-
mentos, o que evita introduzir uma grande ruptura
entre os conteúdos e as modalidades do ensino e as
exigências no momento da avaliação. Levada ao
extremo, essa correspondência torna-se uma perver-
são: o ensino apenas se define como a preparação à
próxima prova.
A avaliação funciona, sob este aspecto, como um
fortíssimo impedimento. Os professores que tentam
se distanciar dos exercícios escolares mais próximos
das provas escritas sabem bem disto: quando se faz
os alunos trabalharem em grupos, quando se dá im-
portância às situações de comunicação, aos proble-
mas abertos, às pesquisas, as enquetes, as atividade-
meio, ao trabalho por situação-problema, aos pro-
cedimentos de projeto, deve-se afrontar uma certa
angústia, que pode se tornar insustentável. Ela se
deve, inicialmente, à incerteza sobre a relação com
o programa, sobre a natureza dos funcionamentos
intelectuais que se favorece através de tais ativida-
des amplas, sobre o que os alunos aprendem real-
mente. Outras angústias dizem respeito à adminis-
tração do tempo ou à respeitabilidade de certas ati-
vidades aos olhos dos colegas, dos pais e até mesmo
dos alunos. A isso se acrescenta o medo de não po-
der avaliar nas formas tradicionais.Em uma pedago-
gia ativa, nem todo mundo aprende a mesma coisa
no mesmo momento, nem se prepara para a mesma
prova. Uma parte do que se aprende não encontra
nenhum equivalente em questões de múltipla esco-
lha ou exercícios escritos... Ainda aqui, a avaliação
tradicional impede a inovação pedagógica, empo-
brecendo consideravelmente o leque das atividades
praticáveis em aula.
130 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
6) A obsessão da eqüidade formal desvia
das aprendizagens de alto nível
Mesmo quando a avaliação tradicional é contí-
nua, dividida ao longo de todo o ano escolar; ela
guarda do exame uma concepção da eqüidade que
consiste em fazer as mesmas questões a todo mun-
do, no mesmo momento e nas mesmas condições.
Como se houvesse razões para pensar que as apren-
dizagens podem ser sincronizadas a ponto de, du-
rante exatamente o mesmo número de horas ou de
semanas e estritamente em paralelo, os alunos apren-
derem a mesma coisa. Essa ficção, por menos defen-
sável que seja, subentende todo o sistema tradicio-
nal de avaliação formal. Na medida em que está em
vigor e governa o destino escolar dos alunos, é bas-
tante normal que fiquem, como seus pais, fortemen-
te ligados à eqüidade formal diante da nota, na falta
de igualdade real diante do ensino.
Isso leva os professores, na maior parte do tem-
po, a avaliar desempenhos estritamente individuais
a partir de questões padronizadas e fechadas. Com
efeito, quando se avalia o trabalho de um grupo, surge
a suspeita de arbitrariedade.
Do mesmo modo, avaliar produções qualitativa-
mente diferentes ou respostas a questões muito aber-
tas, aumenta o risco de arbitrariedade, de notação
"pela cara do cliente". A produção de texto ou a dis-
sertação beneficiam-se, sob esse aspecto, de um sta-
tus especial e de uma reputação bem-estabelecida
segundo a qual a nota reflete freqüentemente tanto
os gostos e os caprichos do professor quanto às com-
petências do aluno.
O sistema clássico de avaliação é um grande
obstáculo à evolução, porque força os professores a
preferir as competências isoláveis e cifráveis às com-
petências de alto nível - raciocínio, comunicação -,
difíceis de circunscrever em uma prova escrita e em
tarefas individuais.
7) Uma arbitrariedade pouco favorável ao
trabalho em equipe pedagógica
Os procedimentos de avaliação formal, equivale
a dizer que o professor, se respeitar as formas, tem
uma liberdade imensa, que autoriza, no mesmo qua-
dro, avaliações indulgentes ou severas, ingênuas ou
repressoras, flexíveis ou obsessivas, inventivas ou
estereotipadas. Ora, as escolhas de um professor
dependem, em grande parte, de suas crenças pesso-
ais, de sua concepção da avaliação, de sua filosofia
da seleção e do fracasso escolares, daquilo que ele
considera uma avaliação justa ou eficaz.
Quando se quer formar uma equipe pedagógica,
mesmo sem tocar no sistema formal de avaliação,
não se pode deixar cada um continuar a avaliar como
sempre fez, conforme suas preferências ou suas exi-
gências estritamente pessoais. A coerência da equi-
pe pedagógica também é julgada por sua forma de
avaliar, sobretudo se os professores forem responsá-
veis pelos mesmos alunos e devem equiparar suas
avaliações. Este é um obstáculo maior: é preciso,
explicar, justificar práticas cuja arbitrariedade explo-
de repentinamente, ao passo que anteriormente era
ignorada ou minimizada.
Mesmo quando uma equipe pedagógica entra em
acordo sobre seus objetivos principais, corre o risco
de tropeçar em detalhes, porque muitos professores
estão mais presos a seu modo de corrigir ou de notar
do que confessam e se chocam, às vezes, mais com
modalidades, aparentemente menores, do que com
grandes opções pedagógicas.
Mudar a avaliação para mudar a pedagogia?
Nenhuma inovação pedagógica maior pode ig-
norar o sistema de avaliação ou esperar contorná-
lo. Conseqüentemente, é necessário em qualquer
projeto de reforma, em qualquer estratégia de ino-
vação, levar em conta o sistema e as práticas de ava-
liação, integrá-los à reflexão e modificá-los para per-
mitir a mudança.
A avaliação tradicional é importante, impede ou
atrasa todo tipo de outras mudanças. Soltá-la é, por-
tanto, abrir a porta a outras inovações.
Talvez seja exatamente isto, que dá medo e que
garante a perenidade de um sistema de avaliação
que não muda muito, ao passo que, há décadas, vem-
se denunciando suas falhas no plano docimológico
e seus efeitos devastadores sobre a auto-imagem, o
estresse, a tranqüilidade das famílias e as relações
entre professores e alunos.
CAPÍTULO 6
RUMO A DIDÁTICAS QUE FAVOREÇAM
UMA REGULAÇÃO INDIVIDUALIZADA
DAS APRENDIZAGENS
Nenhuma pedagogia, por mais frontal e tradicio-
nal que seja, é totalmente indiferente às questões, às
respostas, às tentativas e aos erros dos alunos. Portan-
to, sempre há um mínimo de regulação da aula, às
vezes das atividades mentais dos alunos e, no melhor
dos casos, de seus processos de aprendizagem.
A idéia de avaliação formativa
A idéia de avaliação formativa sistematiza esse
funcionamento, levando o professor a observar mais
metodicamente os alunos, a compreender melhor
seus funcionamentos, de modo a ajustar de maneira
mais sistemática e individualizada suas intervenções
pedagógicas e as situações didáticas que propõe,
tudo isso na expectativa de otimizar as aprendiza-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 131
SINPEEM
gens. A avaliação formativa está, portanto centrada
essencial, direta e imediatamente sobre a gestão das
aprendizagens dos alunos (pelo professor e pelos
interessados). Essa concepção se situa abertamente
na perspectiva de uma regulação intencional, que
seria determinar ao mesmo tempo o caminho já per-
corrido por cada um e aquele que resta a percorrer
com vistas a intervir para otimizar os processos de
aprendizagem em curso.
A partir do momento em que a avaliação forma-
tiva se define claramente como fonte de regulação,
surge uma questão: ela é única? Ou é uma fonte de
regulação dentre outras? Não se deveria reconhecer
que a regulação dos processos de aprendizagem
pode surgir das interações entre alunos, tal como
permitida e delimitada pelo dispositivo e pela seqüên-
cia didáticos, ou então surgir da atividade metacog-
nitiva do aluno, quando este toma consciência de
seus erros ou de sua maneira de confrontar-se com
os obstáculos? A concepção de avaliação formativa
como intervenção deliberada do professor, induzin-
do uma regulação antecipada, interativa ou retroati-
va de uma aprendizagem em curso, leva a um para-
doxo: o conceito de avaliação formativa, assim com-
preendida em termos de regulação, tende a se fundir
em uma abordagem mais global dos processos de
regulação das aprendizagens em curso em um dis-
positivo, seqüência ou situação didáticos.
A idéia de regulação
Denominarei aqui regulação dos processos de
aprendizagem, em um sentido bastante amplo, o
conjunto das operações metacognitivas do sujeito e
de suas interações com o meio que modificam seus
processos de aprendizagem no sentido de um obje-
tivo definido de domínio. Com efeito, não há regu-
lação sem referência a um estado almejado ou a uma
trajetória ótima.
Falar de regulação a propósito de um processo
de aprendizagem guarda um sentido metafórico, na
medida em que é difícil identificar com certeza as
operações e as interações favoráveis, compreender
exatamente por que otimizam aprendizagem ou ain-
da guiá-las com precisão. No entanto, pensar em
termos de regulação do processo de aprendizagem
é dispensável para colocar a avaliação formativa no
seu lugar exato, para situá-la em um conjunto de
regulações parcialmente prevista, ou pelo menos
autorizadas, pelo dispositivo didático.
Por procedimentos didáticos que sirvam
a todos os terrenos
É difícil chegar a uma definição unânime de didá-
tica. Em seu sentido tradicional, ela é a arte de ensi-
nar, arte que se pode tentar codificar, racionalizar, tor-
nar metódica. Conforme a maneira como se redefine
hoje em dia a didática, assume-se uma distância mais
ou menos radical dessa postura tradicional.
Em um sentido mais moderno, a didática se
apresenta ou como uma disciplina de ação (de crí-
tica e de proposta, baseada nas ciências de refe-
rência (matemática, biologia, lingüística, etc.) e nas
ciências da educação, ou como a ciência dos fatos
didáticos, da formalização, da transposição da ne-
gociação, da apropriação ou da avaliação dos sa-
beres no sistema didático (no famoso triângulo pro-
fessor-aluno - conteúdo), ou ainda a ciência do con-
trato e das interações didáticas. Esta última aborda-
gem pretende ser não-prescritiva, ma antes de tudo
descritiva e explicativa).
O realismo de uma didática tem vários aspectos.
Diz respeito aos saberes, ao poder ao inconsciente
na relação, às condições e ao âmbito institucional
da integração didática, às estratégias de negociação
dos agentes. Limitar-me-ei aqui ao reconhecimento
e ao tratamento das diferenças. Na realidade, a re-
gra é a diversidade.
1 - Reconhecer a diversidade dos aprendizes
Nenhuma didática deveria ignorar a heteroge-
neidade dos aprendizes. Por mais selecionado que
seja, nenhum grupo é totalmente homogêneo do
ponto de vista dos níveis de domínios alcançados
no início de um ciclo de estudos ou de uma seqüên-
cia didática. Por mais "neutro" que seja, nenhum pro-
grama está à mesma distância das diversas culturas
familiares das quais os alunos são os herdeiros.
No que diz respeito à língua materna, a hetero-
geneidade é ainda maior, porque a língua participa
plenamente da diversidade das culturas, dos modos
de vida e de comunicação, dos registros de língua e
das normas.
A consideração da diversidade pode e deve levar
a procedimentos de individualização e de diferencia-
ção das tarefas, das avaliações, dos atendimentos.
2 - Partir dos conhecimentos reais
Há áreas do currículo em que os alunos não tra-
zem senão certas predisposições ou certos códigos
gerais, ou eventualmente, como em física ou quími-
ca, conhecimentos ingênuos ou alguns conhecimen-
tos científicos ultrapassados, que podem mais retar-
dar a aprendizagem do que estimulá-la. No domínio
da língua materna, é exatamente o contrário. O es-
sencial da língua oral se aprende fora da escola e
bem antes da idade escolar obrigatória. Isso é me-
nos evidente quanto à escrita e aos e aos saberes de
ordem metalingüística, mas ainda aí, a escola não
tem o monopólio das situações de aprendizagem: a
vida tomada em sua totalidade, com seus compo-
132 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
nentes tanto escolares quanto extra-escolares cons-
titui o verdadeiro currículo.
A consideração sistemática dos conhecimentos
extra-escolares e das aprendizagens paralelas pode-
ria modificar fundamentalmente a organização do
trabalho em aula. A maioria dos métodos de ensino
age como se todos os alunos reunidos em uma tur-
ma tivessem que realizar as mesmas aprendizagens.
Na realidade, sobretudo no domínio da língua, isso
é pura ficção. Uma parte dos alunos do primeiro ano
primário já sabe ler e gasta inutilmente tempo, espa-
ço, energia que seriam mais bem utilizados em fa-
vor dos alunos que precisam realmente aprender a
ler. Uma parte das atividades orais no decorrer da
escolaridade obrigatória é totalmente supérflua para
alunos que se expressam corretamente e progridem
sem que se organize sua trajetória.
A regulação de base seria renunciar a fazer como
se todo mundo estivesse à mesma distância do obje-
tivo e, ao contrário, partir dos conhecimentos efeti-
vos de cada um e dos recursos que consegue mobi-
lizar para investir em função do caminho que lhe
resta percorrer, dos obstáculos que vai encontrar, de
sua adesão ao projeto de formação, etc. Há espaço,
então, para uma avaliação formativa proativa, ou
seja, para uma atribuição diferenciada a situações
didáticas adequadas.
Apostar na auto-regulação
Para aprender, o indivíduo não deixa de operar
regulações intelectuais. Na mente humana, toda re-
gulação, em última instância, só pode ser uma auto-
regulação, pelo menos se aderirmos às teses básicas
do construtivismo: nenhuma intervenção externa age
se não for percebida, interpretada, assimilada por um
sujeito. Nessa perspectiva, toda ação educativa só
pode estimular o autodesenvolvimento, a auto-apren-
dizagem, a auto-regulação de um sujeito, modifican-
do seu meio, entrando em interação com ele.
1 - Reforçar a auto-regulação
Para que haja auto-regulação da aprendizagem,
supõe-se ser necessário ao aprendiz um motivo forte,
verdadeiros desafios que o sensibilizem profundamen-
te, um desejo de saber e uma decisão de aprender.
Encontramo-nos aqui, mais uma vez, diante das
promessas e dos impasses das novas pedagogias.
Hoje em dia, não se pode mais agir como se todas
as crianças e adolescentes tivessem constantemente
vontade de aprender de modo espontâneo. Eles des-
mascaram, ao contrário, as novas pedagogias, como
as outras. Ninguém pode crer que basta propor pro-
jetos ou apelar para a criatividade dos aprendizes
para que todos se mobilizem, longa e seriamente, e
assumam sua própria aprendizagem. O sentido dos
saberes e do trabalho escolar não se encontra so-
mente no plano didático. Resta, na maioria das pe-
dagogias, uma imensa margem para avançar útil e
pragmaticamente no sentido das pedagogias ativas.
Para a maior parte dos alunos no mundo, ler e escre-
ver permanecem tarefas impostas, deveres, coisas que
se deve fazer para ser "respeitável", mais do que por
razões pessoais. Poderia ser diferente se essas apren-
dizagens tivessem um sentido menos escolar...
2 - De uma pedagogia do projeto a uma
auto regulação- dominada
Uma pedagogia e uma didática que desejem es-
timular a auto-regulação do funcionamento e das
aprendizagens não se contentam com apostar na di-
nâmica espontânea dos aprendizes. São necessári-
os, ao contrário, contratos e dispositivos didáticos
muito engenhosos, estratégias de animação e de
construção dos sentidos muito mais sutis para man-
ter o interesse espontâneo dos alunos, quando exis-
te, para suscitar um interesse suficiente quando a
experiência de vida, a personalidade ou o meio fa-
miliar não predispõe a isso. Não há neste campo,
nenhuma receita simples, que dê sempre certo em
todas as turmas, ou com todos os alunos, sob todas
as latitudes. Entretanto, se de um lado, se partilhas-
sem mais sistematicamente relatos de experiências
e de atividade e, de outro, habilidades em termos de
elaboração e de negociação de projetos, de divisão
do trabalho, de animação de continuidade do pro-
cesso iniciado, dar-se-ia a mais professores vontade
e meios de se laçar em pedagogias mais ativas.
A comunicação como motor da regulação
Se há auto-regulação é, em parte, porque o in-
divíduo se encontra em situações de comunicação
que o colocam em confronto com seus próprios li-
mites e que o levam, no melhor dos casos, a ultra-
passá-los. As situações de comunicação são, para
a língua, mais do que para qualquer outra aprendi-
zagem, pedras de toque, ocasiões de testar e de
manifestar seu domínio.
Porém, não é apenas nesse sentido que a co-
municação pode participar da regulação das apren-
dizagens. Pode-se sustentar que ela é, ao contrário,
o motor principal dos progressos. Não por exercer
uma regulação direta sobre as aprendizagens, mas
por estruturar muito fortemente o funcionamento
da linguagem e, portanto também, indiretamente,
as aprendizagens.
O modelo subjacente é evidentemente aquele da
restrição funcional, mais do que normativa: para
conseguir se fazer ouvir, se fazer compreender ter
ganhado de causa ou simplesmente ter a palavra,
uma criança ou um adolescente devem resolver um
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 133
SINPEEM
certo número de problemas de ordem lingüística e
comunicativa.
Portanto, trata-se de colocar os alunos, tão fre-
qüentemente quanto possível, em situações de con-
fronto, de troca, de interação, de decisão, que os
forcem a se explicar, se justificar, argumentar, expor
idéias, dar ou receber informações para tomar deci-
sões, planejar ou dividir o trabalho, obter recursos
(Pedagogia Interativa).
Uma didática que deposita esperanças na inte-
ração deveria propor inúmeras pistas em matéria de
organização e de estruturação das trocas, sendo que
o motor não é uma injunção externa - como ainda
ocorre freqüentemente no trabalho de equipe -, mas
uma necessidade própria à tarefa, concebida de tal
modo que não se possa realizá-la sem se comunicar.
Portanto, a didática é a arte de criar tais situações e
administrá-las, com os problemas decorrentes de
tempo, de espaço e de autodisciplina.
A intervenção do professor como modo
de regulação
Uma didática orientada para a regulação dos
processos de aprendizagem não deposita muitas es-
peranças nas remediações maciças. Investe mais na
regulação interativa no sentido definido por Allal:
uma observação e uma intervenção em situação,
quando a tarefa não está terminada, sendo o pro-
fessor capaz e assumindo o risco de interferir nos
processos de pensamento e de comunicação em
curso. Assim, o professor desempenha um impor-
tante papel nas regulações que passam pela pró-
pria comunicação.
Ele também pode, por ser seu papel e sua com-
petência, intervir diretamente no nível da regulação
da aprendizagem. Nesse sentido, o professor é um
parceiro específico, cuja lógica é otimizar aprendi-
zagem do outro, em vez de suas próprias vantagens
na situação de comunicação. Porém, quando se fala
de regulação interativa, no sentido dos trabalhos so-
bre a avaliação formativa, não se trata mais somente
de parceria inteligente. É uma intervenção sobre a
própria construção dos conhecimentos.
A Avaliação formativa apresenta-se sob a forma
de uma regulação interativa, isto é, de uma observa-
ção e de uma intervenção em tempo real, pratica-
mente indissociável das interações didáticas propri-
amente ditas; sobretudo se for retroativa, deveria
permanecer uma regulação p que intervém quando
os outros modos de regulação não funcionaram ou
não foram suficientes.
Em outras palavras, deve-se conceber a regula-
ção como produto de múltiplos processos comple-
mentares, tendo a didática à tarefa de orquestrá-los
e estimulá-los mais do que privilegiar um dentre eles.
Nesse sentido, a avaliação formativa está inteiramen-
te do lado da regulação, mas não a esgota. Deveria,
ao contrário, intervir apenas como último recurso.
Em uma pedagógica de sonho, estimulando for-
temente a auto-regulação e a regulação pela comu-
nicação, a avaliação formativa deveria ser marginal
e assumir, sobretudo a forma de uma regulação inte-
rativa em situação. Sendo as coisas o que são tanto
do ponto de vista das condições de trabalho, quanto
dos programas e da formação dos professores, deve-
se provavelmente aceitar que, em muitas classes ain-
da, e por muito tempo, a principal regulação em
andamento seja retroativa. Se esta é a realidade,
melhor reconhecê-la e favorecer essa forma de re-
gulação do que nenhuma. Mas isso é apenas um
paliativo e o desenvolvimento dos trabalhos em di-
dática deveria tornar essa situação excepcional!
Um realismo surrealista?
Para levar em conta as diferenças e pensar as re-
gulações individualizadas, no quadro de um dispo-
sitivo e de seqüências didáticas, é necessário afron-
tar uma complexidade que descarta definitivamente
receitas, modelos metodológicos prontos para uso.
Portanto, aceitar romper com as necessidades de
grande parte dos professores, assumir o risco de lhes
propor procedimentos que não correspondem nem
à sua imagem da profissão, nem a seu nível de for-
mação. E aceitar sem dúvida também entrar em con-
flito com uma classe política e com autoridades es-
colares que não pedem tanto e das quais, ao menos
uma parcela, se conforma muito bem com a relativa
ineficácia das pedagogias em vigor.
É que há realismo e realismo. Um deles conser-
vador, de visão curta, que se esconde por detrás das
tradições e interesses adquiridos para se resignar às
desigualdades com um fatalismo sombrio ou alegre.
Esse realismo não pode persistir senão recusando-se
a ver uma parte da realidade ou inventando fatalida-
des biológicas ou socioculturais que o protejam de
qualquer questionamento.
Existe um outro realismo, mais inovador, que se
preocupa com o futuro, tanto dos indivíduos quanto
das sociedades, que não se conforma com o fato de
que tantas crianças e adolescentes passem tantos
anos na escola para sair dela sem dominar verdadei-
ramente sua língua materna, sem ler correntemente
e gostar disso, desamparados diante de um texto
simples,desprovido de meios de argumentação ou
de expressão dos sentimentos. O realismo didático,
tal qual defendo aqui, consiste em considerar os
aprendizes como são, em sua diversidade, suas am-
bivalências, sua complexidade, para melhor levá-los
a novos domínios. Talvez seja um realismo utópico.
Será que temos realmente escolha?
134 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
CAPÍTULO 9
NÃO MEXA NA MINHA AVALIAÇÃO
UMA ABORDAGEM SISTÊMICA DA MUDANÇA
Mudar a avaliação é fácil dizer! Nem todas as
mudanças são válidas. Pode-se bastante facilmente
modificar as escalas de notação, a construção das
tabelas, o regime das médias, o espaçamento das
provas. Tudo isso não afeta de modo radical o funci-
onamento didático ou o sistema de ensino. As mu-
danças das quais se trata aqui vão mais longe. Para
mudar as práticas no sentido de uma avaliação mais
formativa, menos seletiva, talvez se deva mudar a
escola, pois a avaliação está no centro do sistema
didático e do sistema de ensino. Transformá-la radi-
calmente é questionar um conjunto de equilíbrios
frágeis. Os agentes o pressentem, adivinham que,
propondo-lhes modificar seu modo de avaliar, po-
dem-se desestabilizar suas práticas e o funcionamen-
to da escola. Entendendo que basta puxar o fio da
avaliação para que toda a confusão pedagógica se
desenrole, gritam: "Não mexa na minha avaliação!"
Coloco-me aqui na perspectiva de uma evolu-
ção das práticas no sentido de uma avaliação forma-
tiva, de uma avaliação que ajude o aluno a aprender
e o professor a ensinar. Não retomo a necessária ar-
ticulação entre avaliação formativa e diferenciação
do ensino: a avaliação formativa não passa, no final
das contas, de um dos componentes de um disposi-
tivo de individualização dos percursos de formação
e de diferenciação das intervenções e dos enqua-
dramentos pedagógicos. Se a diferenciação é impos-
sível, a avaliação formativa será apenas uma regula-
ção global e, em resumo, clássica, da progressão de
um ensino frontal.
AAVALIAÇÃONOCENTRODEUMOCTÓGONO
RELAÇÕES ENTRE AS FAMÍLIAS E A ESCOLA
Quando se fala do sistema de avaliação, a esco-
la parece ainda muito próxima daquilo que os pais
conheceram "em sua época", mesmo quando deixa-
ram a escola há quatorze anos.
A avaliação os tranqüiliza sobre as chances de
êxito de seu filho ou os habitua, pelo contrário, à
idéia de um fracasso possível, até mesmo provável.
Mudar o sistema de avaliação leva necessaria-
mente a privar uma boa parte dos pais de seus pon-
tos de referência habituais, criando ao mesmo tem-
po incertezas e angústias. É um obstáculo importan-
te à inovação pedagógica: se as crianças brincam é
porque não trabalham e se preparam mal para a pró-
xima prova; se trabalham em grupo, não se poderá
avaliar individualmente seus méritos; se engajam-se
em pesquisas, na preparação de um espetáculo, na
escrita de um romance ou na montagem de uma
exposição, os pais quase não vêem como essas ati-
vidades coletivas e pouco codificadas poderiam de-
rivar em uma nota individual no boletim.
Se existem relações de confiança, explicações
podem ser dadas, os pais compreendem que uma
avaliação sem notas, mais formativa, é em definitivo
do interesse de seus filhos. Se o diálogo entre a es-
cola e as famílias são rompidas (Montandon e Perre-
noud, 1994), há razões para temer que uma mudan-
ça do sistema de avaliação focalize os temores e as
oposições dos pais. A mudança pode ser bloqueada
por essa única razão.
ORGANIZAÇÃO DAS TURMAS E
POSSIBILIDADES DE INDIVIDUALIZAÇÃO
Uma avaliação somente é formativa se desem-
boca em uma forma ou outra de regulação da ação
pedagógica ou das aprendizagens.
Uma avaliação formativa, no sentido mais am-
plo do termo, não funciona sem regulação individu-
alizada das aprendizagens. A mudança das práticas
de avaliação é então acompanhada por uma trans-
formação do ensino, da gestão da aula, do cuidado
com os alunos em dificuldade. Entre momentos de
apoio - interno ou externo - e verdadeiras pedagogi-
as diferenciadas, há todo o tipo de organizações in-
termediárias, mais ou menos ambiciosas. Não é ne-
cessário, para ir ao sentido da avaliação formativa,
perturbar de alto a baixo a organização do trabalho.
Em contrapartida, lá onde parece impossível romper,
ao menos parcialmente, com uma pedagogia frontal,
por que considerar uma transformação das práticas
de avaliação em um sentido mais formativo.
Uma avaliação formativa coloca à disposição do
professor informações mais precisas, mais qualitati-
vas, sobre os processos de aprendizagem, as atitu-
des e as aquisições dos alunos.
No ensino secundário, acumulam-se outras defi-
ciências maiores: fragmentação extrema do tempo
escolar, tanto para os professores quanto para os alu-
nos; remissão do apoio a estruturas especializadas
(quando existem), por não poder praticar o apoio
integrado no contexto de um horário estourado; di-
visão do trabalho entre especialistas das diversas dis-
ciplinas, cujo funcionamento e nível do aluno nin-
guém percebe globalmente; dificuldade de trabalho
da equipe pedagógica devido à atribuição das horas
e ao número de professores por turma; horário mui-
to pesado dos alunos, todas as atividades de apoio
ou de desenvolvimento somando-se a uma semana
muito cheia; repartição de todas as horas entre as
disciplinas, o que deixa pouco tempo para realizar
projetos interdisciplinares, aproveitar as oportunida-
des ou responder a necessidades não-planejadas;
organização fixa do tempo ao longo de todo o ano;
locais utilizados por várias turmas, nos quais é im-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 135
SINPEEM
possível deixar material e muito difícil de reorgani-
zar o espaço, apenas por um ou dois períodos de
quarenta e cinco minutos.
A escola primária dispõe, a esse respeito, de nu-
merosos trunfos, que tornam ao menos possível uma
diferenciação integrada do ensino. Para ir em dire-
ção a uma individualização dos percursos de forma-
ção (Perrenoud, 1993a, 1996b), deve-se contudo
mudar a organização das turmas, mesmo no primá-
rio, e romper a estruturação do curso em graus (Per-
renoud, 1997a e 1997e).
DIDÁTICA E MÉTODOS DE ENSINO
A idéia de avaliação formativa desenvolveu-se
no quadro da pedagogia de domínio ou de outras
formas de pedagogia diferenciada, relativamente
pouco preocupada com os conteúdos específicos dos
ensinos e das aprendizagens. A ênfase era dada às
adaptações, ou seja, a uma organização mais indivi-
dualizada dos itinerários de aprendizagem, baseada
em objetivos mais explícitos, coletas de informação
mais qualitativas e regulares e intervenções mais di-
versificadas. Hoje, ainda, esse modelo cibernético
mantém toda a sua validade, em um nível relativa-
mente elevado de abstração, em qualquer ordem de
ensino para qualquer disciplina escolar e qualquer
aprendizagem.
No decorrer dos últimos anos, no plano teórico,
assiste-se, especialmente no campo do francês (Allal,
Bain e Perrenoud, 1993), mas isso se estenderá a
outras disciplinas, a uma reintegração da avaliação
formativa à didática. Em campo, contudo, essa rein-
tegração levará tempo. Ainda mais que, como é fre-
qüentemente o caso no ensino secundário, os pro-
fessores se percebem como suas próprias metodolo-
gias ou trabalham como formadores centrados em
uma disciplina e que se preocupam muito pouco com
a avaliação.
CONTRATO DIDÁTICO.
RELAÇÃO PEDAGÓGICA E OFICIO DE ALUNO
Ir em direção a uma avaliação mais formativa é
transformar consideravelmente as regras do jogo
dentro da sala de aula. Em uma avaliação tradicio-
nal, o interesse do aluno é o de iludir, mascarar suas
falhas e acentuar seus pontos fortes. O oficio de alu-
no consiste principalmente em desmontar as arma-
dilhas colocadas pelo professor, decodificar suas
expectativas, fazer escolhas econômicas durante a
preparação e a realização das provas, saber nego-
ciar ajuda, correções mais favoráveis ou a anulação
de uma prova mal-sucedida. Em um sistema escolar
comum, o aluno tem, sinceramente, excelentes ra-
zões para querer, antes de tudo, receber notas sufi-
cientes. Para isso, deve enganar, fingir ter compre-
endido e dominar por todos os meios, inclusive a
preparação de última hora e a trapaça, a sedução e
a mentira por pena.
Toda avaliação formativa baseia-se na aposta
bastante otimista de que o aluno quer aprender e
deseja ajuda para isso, isto é, que está pronto para
revelar suas dúvidas, suas lacunas, suas dificuldades
de compreensão da tarefa.
Se o professor que tenta fazer a avaliação forma-
tiva tem o poder de decidir, praticamente ao mesmo
tempo, o destino escolar do aluno, este último, so-
bretudo em um sistema muito seletivo, terá todas as
razões para conservar suas estratégias habituais,
mobilizar sua energia para iludir. E o professor achar-
se-á reforçado no uso da avaliação como instrumento
de controle do trabalho e das atitudes (Chevallard,
1986a) e de seleção. A avaliação formativa seria
renunciar à seleção, o mecanismo permanente da
relação pedagógica, não fazer os alunos viverem
sob a ameaça da reprovação ou da relegação para
orientações menos exigentes.
ACORDO, CONTROLE, POLÍTICA
INSTITUCIONAL
Não se faz avaliação formativa sozinho, porque
apenas se pode avançar nesse sentido modificando
bastante profundamente a cultura da organização
escolar, não só em escala de sala de aula, mas tam-
bém de estabelecimento.
É dispensável, vencer um obstáculo de peso: o
individualismo dos professores a vontade ciosa de
fazer como se quer, uma vez fechada a porta de sua
sala de aula (Gather Thurler, 1994b, 1996). Também
é provável que uma avaliação formativa favoreça,
sem que isso seja uma necessidade absoluta, uma
divisão do trabalho diferente entre os professores,
porque a explicação dos objetivos, a elaboração dos
testes com critérios ou a construção de seqüências
didáticas ou de estratégias de adaptação ultrapas-
sam as forças de cada um considerado isoladamen-
te. Deve-se, portanto, rumar para uma divisão das
tarefas, um desencerramento dos graus, uma cola-
boração entre professores que ensinam em classes
paralelas ou na mesma disciplina.
Paradoxalmente, uma avaliação formativa pode-
ria dar à administração escolar mais controle sobre
a qualidade e a conformidade do ensino de uns e de
outros. Com certeza, limitaria a parcela das infor-
mações cifradas, mas conduziria a representações
mais precisas daquilo que os alunos sabem fazer re-
almente. Em vez de comparar taxas de fracassos ou
médias de turmas, poder-se-iam comparar as aquisi-
ções reais e, portanto, distinguir mais claramente os
professores mais e menos eficientes.
136 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
PROGRAMAS, OBJETIVOS, EXIGÊNCIA
A introdução de uma pedagogia diferenciada e
de uma avaliação formativa leva, a mexer nos pro-
gramas. Inicialmente, para abreviá-los, para extrair
sua essência: não podemos cobrir um programa ex-
cessivamente sobrecarregado senão nos resignarmos
com o êxito de uma importante fração dos alunos.
Buscar na avaliação formativa o não mais fabri-
car tantas desigualdades, é criar meios para as difi-
culdades dos alunos mais lentos, mais fracos. É in-
dispensável, para lutar contra o fracasso escolar, de-
ter-se no essencial, no cerne dos programas, renun-
ciando a todos os tipos de noções e de saberes que
não são indispensáveis, ao menos não para todos os
alunos. Os movimentos de modernização dos pro-
gramas nesse sentido (Perret e Perrenoud, 1990). Não
subestimemos a amplitude da tarefa.
Uma avaliação formativa, posta a serviço da re-
gulação individualizada das aprendizagens, coloca-
rá o dedo, mais rápido do que um ensino frontal,
sobre as incoerências e as ambições desmedidas de
certos planos de estudos. Quando muitos alunos de
determinada idade cometem os mesmos erros e não
se pode facilmente remediar isso, porque ultrapas-
sam seu estágio de desenvolvimento intelectual,
quando certos tipos de saberes marginalizam, siste-
maticamente, uma maioria de alunos, porque se en-
contram demasiadamente afastados de sua experi-
ência e de suas aquisições anteriores, deve-se certa-
mente revisar o plano de estudos ou deixá-lo mais
próximo da vida, ou mais realista em relação às aqui-
sições anteriores e às atitudes dos alunos. Toda pe-
dagogia diferenciada funciona como um analisador
crítico dos planos de estudos.
SISTEMA DE SELEÇÃO E DE ORIENTAÇÃO
A vocação da avaliação formativa é a de contri-
buir para as aprendizagens. Acha-se, portanto, em
uma lógica de ação: não é o momento de se resignar
com as desigualdades e dificuldades.
A articulação da avaliação formativa e da sele-
ção não é evidente: em um determinado momento,
apenas no final de um ano escolar ou de um ciclo
de estudos plurianual, a avaliação muda de lógica.
Quando se quer ajudar o aluno a aprender, estabe-
lece-se bruscamente um balanço que, sem ser defi-
nitivo, comanda decisões em curto prazo, por vezes
dificilmente reversíveis. Portanto, a questão é saber
se os professores podem desempenhar esse duplo
papel, os alunos adivinhando que as dificuldades
reveladas em uma perspectiva formativa podem, em
determinado momento voltar-se contra eles em uma
perspectiva certificativa ou seletiva.
Nós nos encontramos aí diante de um paradoxo:
a avaliação formativa deveria estar inteiramente do
lado do aluno e, portanto, lhe dar recursos para en-
frentar a seleção, melhor seria que esta fosse desem-
penhada por outros agentes, que não tivessem por
tarefa ensinar, mas dizer quem atingiu um domínio
suficiente para obter um diploma ou chegar a um
ciclo de formação.
Se o sistema de seleção e de orientação deixa
as famílias e os alunos assumirem suas responsabi-
lidades, correrem os riscos de uma orientação de-
masiadamente ambiciosa e, portanto, de um fracas-
so algum tempo mais tarde, a escola estaria, no mo-
mento da decisão, em uma relação mais de ajuda
do que de autoridade. Seu papel não seria mais o
de impedir de entrar em determinada habilitação
difícil ou de progredir no curso, mas dar conselhos,
informações, indicações a partir das quais os alu-
nos e suas famílias se determinariam com conheci-
mento de causa. Nesse caso, em vez de se opor à
avaliação formativa, a avaliação seletiva, na mes-
ma lógica cooperativa: quando não é mais tempo
de aprender, quando se deve fazer um balanço e
tomar decisões, restam conselhos a dar, regulações
a operar. A escola poderia assistir aos pais e crian-
ças em sua negociação da orientação (Bain, 1979;
Berthelot, 1993; Duru-Bellat, 1979; Richiardi, 1988)
mais do que decidi-la em seu lugar.
SATISFAÇÕES PESSOAIS E PROFISSIONAIS
A avaliação tradicional é uma fonte de angústia
para os alunos com dificuldade e até para os demais,
que não têm grande coisa a temer, mas não o sa-
bem... Também é uma fonte de estresse e de descon-
forto para uma parte dos professores, que não gos-
tam de dar notas. Mesmo para eles, e para os outros,
o sistema de avaliação é um tipo de "faixa de segu-
rança", bem-vinda face às múltiplas incertezas que
concernem aos objetivos e aos programas, ao pro-
cedimento pedagógico, à disciplina, ao lugar dos pais
na escola, etc. O sistema tradicional de avaliação
oferece uma direção, um parapeito, um fio condu-
tor; estrutura o tempo escolar, mede o ano, dá pon-
tos de referência, permite saber se há um avanço na
tarefa, portanto, se há cumprimento de seu papel.
Não se pode responsabilizar o medo da mudan-
ça por todas as resistências. Muitos professores sa-
bem ou percebem que, sem evolução, estão conde-
nados à rotina e ao tédio (Huberman, 1989). Defini-
tivamente, a mudança não passa de um momento
difícil, por vezes estimulante, caso resulte em uma
renovação e crie equilíbrios mais fecundos. A situa-
ção é mais grave quando os professores pressentem
que não encontrarão, em um novo sistema de avali-
ação, as satisfações, confessáveis ou não, que lhes
proporciona a avaliação tradicional.
Uma avaliação formativa somente pode ser coo-
perativa, negociada, matizada, centrada mais na ta-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 137
SINPEEM
refa e nos processos de aprendizagem do que na
pessoa. Priva definitivamente do poder de classifi-
car, de distinguir, de condenar globalmente alguém
em função de seus desempenhos intelectuais. Toda
mudança, em qualquer instituição, pode colocar em
perigo a economia psíquica dos agentes, o equilí-
brio às vezes frágil que construíram entre os praze-
res e as frustrações, as liberdades e os deveres que
sua tarefa permite ou impõe. Negá-lo leva a uma
análise que ignora uma dimensão essencial dos sis-
temas vivos e de sua complexidade.
ABORDAGEM SISTÊMICA PODE SER
DESMOBILLZADORA?
A abordagem sistêmica aqui adotada nada tem
de original, ela se impõe em todas as ciências so-
ciais que têm por tarefa dar conta das organizações
e das práticas humanas (ver, por exemplo, Amblard,
1996; Bernoux, 1985; Crozier e Friedberg, 1977; Fri-
edberg, 1993). Se em educação se deve incessante-
mente fazer retomadas, isso acontece em razão da
constante tentação de esquecer a complexidade para
acreditar em uma mudança rápida e limitada da es-
cola. Essa tentação é compreensível: se aceitamos a
abordagem sistêmica, avaliamos a impossibilidade
de mudar radicalmente as práticas de avaliação sem
fazer evoluir o conjunto da profissão de professor e
da organização escolar; o que distingue ainda mais
a realização das idéias e de modelos sedutores.
Se, mais do que nunca, é necessário mudar a
avaliação em um sentido mais formativo, importa
integrar o caráter sistêmico das práticas em nossas
estratégias de mudança. Para se opor simultaneamen-
te à avaliação, à didática, à relação entre professo-
res e alunos, aos programas, à organização das tur-
mas e do curso, à seleção, não existe método pron-
to. Pode-se, no entanto, indicar três pistas comple-
mentares que implicam fortemente os primeiros agen-
tes envolvidos:
1 - Fazer evoluir o funcionamento dos estabele-
cimentos em direção a uma autoridade negociada,
verdadeiros projetos, uma autonomia substancial,
resultante de uma real responsabilidade.
2 - Favorecer a cooperação entre professores em
equipes pedagógicas ou em redes.
3 - Agir sobre todos os parâmetros (estatuto dos
professores, formação, gestão) que aumentam o grau
de profissionalização do professor e das profissões
conexas.
Isso deveria conduzir os defensores da avaliação
formativa e da diferenciação, como os didáticos das
disciplinas, os partidários da escola ativa, os defen-
sores das tecnologias novas ou de qualquer outra
modernização dos conteúdos ou dos métodos a tra-
balharem em mais estreita colaboração com aque-
les que refletem sobre a organização escolar como
sistema complexo.
A perspectiva sistêmica ainda não faz parte da
cultura comum de todos os pesquisadores em edu-
cação e de todos os inovadores. Se ela lhes falta,
são fadados a se perguntar, durante décadas ainda,
por que a escola não adota as belas idéias resultan-
tes de seus trabalhos ou da reflexão dos movimen-
tos pedagógicos.
Resumo reescrito por Elizabeth Mariza Marinho
138 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
PERRENOUD, Philippe.
Porto Alegre, Artes Médicas, 2000
A especialização, o pensamento e as competên-
cias dos professores são objetos de inúmeros traba-
lhos, inspirados na ergonomia e na antropologia cog-
nitiva, na psicologia e na sociologia do trabalho, bem
como na análise das práticas.
A obra de Perrenoud pretende ser um convite para
uma viagem, e para debate, a partir de uma grande
constatação: os programas de formação e as estraté-
gias de inovação fundamentam-se, com demasiada
freqüência, em representações pouco explícitas e,
insuficientemente, negociadas do ofício e das com-
petências subjacentes, ou, então, em referenciais téc-
nicos e áridos, cujos fundamentos os leitores nor-
malmente não assimilam.
O ofício de professor não é imutável e por isso
suas transformações passam, principalmente, pela
emergência de novas competências reconhecidas,
por exemplo, para enfrentar a crescente heteroge-
neidade dos efetivos escolares e a evolução dos
programas.
Para Perrenoud, todo referencial tende a se de-
satualizar pela mudança das práticas e, também,
porque a maneira de concebê-las se transforma. Ele
escolhe como referencial aquele que acentua as com-
petências julgadas prioritárias por serem coerentes
com o novo papel dos professores, com a evolução
da formação contínua, com as reformas da forma-
ção inicial, com as ambições das políticas educati-
vas. Enfim, um referencial compatível com os eixos
de renovação da escola; individualizar e diversifi-
car os percursos de formação, introduzir ciclos de
aprendizagem, diferenciar a pedagogia direcionar-
se para uma avaliação mais formativa do que nor-
mativa, conduzir projetos de estabelecimento, de-
senvolver o trabalho em equipe docente e respon-
sabilizar-se coletivamente pelos alunos, colocar as
crianças no centro da ação pedagógica, recorrer aos
métodos ativos, aos procedimentos de projeto, ao
trabalho por problemas abertos e por situações-pro-
blema, desenvolver as competências e a transferên-
cia de conhecimentos, educar para a cidadania. Em
um inventário não definitivo, nem exaustivo, são
tratadas dez grandes famílias de competências. O
autor nos alerta para o fato de nenhum referencial
poder garantir uma representação consensual, com-
pleta e estável de um ofício das competências que
ele operacionaliza.
O referencial escolhido associa a cada compe-
tência principal algumas competências mais especí-
ficas, que são, de certa forma, seus componentes prin-
DEZ NOVAS COMPETÊNCIAS PARA ENSINAR
cipais. Seguem-se abaixo as dez famílias propostas
pelo autor com um referencial que servirá para seu
melhor entendimento e para a formação de repre-
sentações cada vez mais precisas de competências
em questão.
A noção de competência é designada pelo autor
como uma capacidade de mobilizar diversos recur-
sos cognitivos para enfrentar um tipo de situação,
baseando-se em quatro aspectos:
1 - As competências não são saberes ou atitudes,
mas mobilizam, integram e orquestram tais recursos;
2 - Essa mobilização só é pertinente em situa-
ção, sendo cada situação singular, ainda que se pos-
sa tratá-la em analogia com outras, já encontradas;
3 - O exercício da competência passa por opera-
ções mentais complexas subentendidas por esque-
mas de pensamento que permitem determinar (mais
ou menos conscientemente e rapidamente) e reali-
zar (de modo mais ou menos eficaz) uma ação rela-
tivamente adaptada à situação;
4 - As competências profissionais constroem-se,
em formação, mas também ao sabor da navegação
diária de um professor, de uma situação de trabalho
à outra.
Administrar a progressão das aprendizagens
mobiliza cinco competências mais específicas:
1 - Conceber e administrar situações-problema
ajustadas ao nível e às possibilidades dos alunos;
2 - Adquirir visão longitudinal dos objetivos de
ensino;
3 - Estabelecer laços com as teorias subjacentes
às atividades de aprendizagem;
4 - Observar e avaliar os alunos em situações de
aprendizagem, de acordo com uma abordagem for-
mativa;
5 - Fazer balanços periódicos de competências e
tomar decisões de progressão.
Na maioria das vezes, descrever uma compe-
tência equivale a evocar três elementos complemen-
tares:
1 - Os tipos de situações nas quais há um certo
domínio;
2 - Os recursos que mobiliza, os conhecimentos
teóricos ou metodológicos, as atitudes, o “saber fa-
zer” (savoir-faire) e as competências mais específi-
cas, os esquemas motores, os esquemas de percep-
ção, de avaliação, de antecipação e de decisão;
3 - A natureza dos esquemas de pensamento que
permitem a solicitação, a mobilização e a orquestra-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 139
SINPEEM
ção dos recursos pertinentes em situação complexa
e em tempo real.
DEZ NOVAS COMPETÊNCIAS PARA ENSINAR
1 - Organizar e dirigir situações de Aprendizagem:
· Conhecer, para determinada disciplina, os con-
teúdos a serem ensinados e sua tradução em objeti-
vos de aprendizagem;
Construir e planejar dispositivos e seqüências
didáticas
2 - Administrar a progressão das aprendizagens:
· Adquirir uma visão longitudinal dos objetivos
do ensino;
· Observar e avaliar os alunos em situações de
aprendizagem, de acordo com uma abordagem for-
mativa.
3 - Conceber e fazer evoluir os dispositivos de
diferenciação:
· Fornecer apoio integrado, trabalhar com alu-
nos portadores de grandes dificuldades;
· Desenvolver a cooperação entre os alunos e
certas formas simples de ensino mútuo.
4 - Envolver os alunos em sua aprendizagem e
em seu trabalho:
· Suscitar o desejo de aprender, explicitar a rela-
ção com o saber, o sentido do trabalho escolar e de-
senvolver na criança a capacidade de auto-avaliação;
· Favorecer a definição de um projeto pessoal
do aluno.
5 - Trabalhar em equipe:
· Enfrentar e analisar em conjunto situações com-
plexas, práticas e problemas profissionais;
· Administrar crises ou conflitos interpessoais.
6 - Participar da administração da escola:
· Organizar e fazer evoluir, no âmbito da escola,
a participação dos alunos;
· Coordenar, dirigir uma escola com todos os seus
parceiros (serviços paraescolares, bairro, associações
de pais, professores de língua e cultura de origem).
7 - Informar e envolver os pais:
· Dirigir reuniões de informação e de debate;
· Envolver os pais na construção dos saberes.
8 - Utilizar novas tecnologias:
· Utilizar as ferramentas multimídia no ensino;
· Explorar as potencialidades didáticas dos pro-
gramas em relação aos objetivos do ensino.
9 - Enfrentar os deveres e os dilemas éticos da
profissão:
· Lutar contra os preconceitos e as discrimina-
ções sexuais, étnicas e sociais;
· Desenvolver o senso de responsabilidade, a
solidariedade e o sentimento de justiça.
10 - Administrar sua própria formação contínua:
· Saber explicitar as próprias práticas;
· Acolher a formação dos colegas e participar dela
· Negociar um projeto de formação comum com
os colegas.
Resumo revisto por Elizabeth Mariza Marinho,
professora, alfabetizadora e membro permanente do
Fórum do Ensino Fundamental.
140 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
RIBEIRO, Vera Masagão (org.)
Campinas, SP: Marcado de Letras:
Associação de Leitura do Brasil – ALB; São Paulo:
Ação Educativa, 2001. (Coleção Leituras no Brasil)
PARTE I – Alfabetismo e escolarização de
jovens e adultos
1 - JOVENS E ADULTOS COMO SUJEITOS
DE CONHECIMENTO E APRENDIZAGEM
Marta Kohl de Oliveira
O tema EJA não diz respeito apenas à faixa etária
em que se encontram, mas sim a uma questão cultu-
ral. Por isso, apesar de ser uma educação voltada
para “não crianças”, ela é, acima de tudo, voltada
para um grupo de pessoas que não tiveram a oportu-
nidade, na infância, de cursar a escola. Esse adulto
é, geralmente, um migrante de regiões pobres, mui-
tos deles analfabetos, que passaram a idade escolar
trabalhando nas áreas rurais. E o jovem é aquele que
foi excluído das escolas, por ter de trabalhar ou por
falta de incentivo. Ele é rapidamente incorporado aos
supletivos e tem muitas chances de completar o En-
sino Fundamental ou mesmo o Ensino Médio. São,
normalmente, ligado ao mundo urbano, letrado e
escolarizado.
Um primeiro ponto a ser discutido é a adequa-
ção da escola para um grupo que não é o “alvo ori-
ginal” da instituição. Currículos, programas e méto-
dos de ensino foram originalmente concebidos para
crianças e adolescentes que freqüentam a escola re-
gular. Sendo assim, vemos que certos jovens e adul-
tos acabam por desistir da educação tardia por pen-
sarem nesses estereótipos de alunos regulares e não
se enxergarem assim. Pensam que estão “fora dos
padrões de alunos” e acabam desistindo. Outros fa-
tores que impedem a dedicação plena desses alunos
são: o sócio-econômico, o medo do novo, a dificul-
dade de aceitar a “linguagem da escola”, etc.
Tendo tudo isso em vista, faz-se uma questão
importante: há ou não diferenças no funcionamen-
to psicológico em geral, no funcionamento cogniti-
vo em particular, de sujeitos pertencentes a dife-
rentes grupos culturais? Temos, na literatura, três
diferentes modos de pensar: a que afirma a existên-
cia da diferença entre membros de diferentes gru-
pos culturais, a que busca negar a importância da
diferença, e uma terceira, que recupera a idéia da
diferença em outro plano.
De acordo com a primeira idéia, os jovens e adul-
EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS:
NOVOS LEITORES, NOVAS LEITURAS
tos teriam peculiaridades em seu modo de funciona-
mento intelectual, em grande medida atribuídas a
sua falta de escolaridade anterior, mas também às
características de seu grupo de origem. A segunda
abordagem busca a compreensão dos mecanismos
psicológicos que fundamentam o desempenho de
diferentes tarefas em diferentes pessoas. Se não nega
explicitamente a existência de diferenças entre os
indivíduos e grupos culturais, essa abordagem nega
a relevância das diferenças para a compreensão do
funcionamento psicológico. Essa maneira de enfren-
tar a questão acaba por considerar todas as culturas
como sendo aparentemente diferentes, mas, na ver-
dade, iguais ou equivalentes. Todos somos inteligen-
tes, todos pensamos de forma adequada. A terceira
abordagem está claramente associada à teoria histó-
rico-cultural em psicologia e poderia ser considera-
da a mais fecunda para essa compreensão. Postula o
psiquismo como sendo construído ao longo da his-
tória do indivíduo, numa complexa interação entre
quatro planos genéticos: a filogênese, a sociogêne-
se, a ontogênese e a microgênese, não havendo ne-
nhuma espécie de realidade psicológica preexisten-
te a esse complexo processo histórico, mas sim uma
necessária geração de singularidades.
2 - A PROMOÇÃO DO ALFABETISMO
EM PROGRAMAS DE EDUCAÇÃO DE
JOVENS E ADULTOS
Vera Masagão Ribeiro
Com a crescente expansão dos sistemas de ensi-
no fundamental que ocorreu no Brasil, especialmente
a partir dos anos 70, os índices de analfabetismo
absoluto da população jovem e adulta vieram dimi-
nuindo consideravelmente. Entretanto, a crescente
complexidade da estrutura social fizeram com que
se elevassem os níveis de habilidades de leitura e
escrita aliadas às práticas culturais.
O que a prática pedagógica deve almejar é a cri-
ação de oportunidades de se experimentar a leitura
e a escrita de textos significativos que cumpram fun-
ções sociais e psicológicas reais. De fato, trata-se de
mudar a concepção que o jovem ou o adulto já têm
da dimensão cultural das práticas de alfabetismo e
de si mesmo como sujeito da aprendizagem, da cons-
trução e da transmissão do conhecimento.
Bastante sugestivos nessa linha de investigação
são os estudos que focalizam aspectos metacogni-
tivos relacionados ao alfabetismo. O conceito de
metacognição aplicado a esse campo refere-se ao
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 141
SINPEEM
conhecimento reflexivo que o sujeito mobiliza em
atividades de leitura e escrita: inclui uma avaliação
das próprias habilidades e a consciência das estra-
tégias mais apropriadas para enfrentar tarefas mais
específicas.
Devemos considerar ainda que concepções so-
bre o que é ler e escrever e a motivação para enfren-
tar tarefas de leitura e escrita constituem áreas im-
portantes relacionadas à metacognição. Segundo al-
guns autores, há muitos adultos que acreditam que
o bom leitor é aquele que lê rapidamente em voz
alta ou que tal habilidade é adquirida por meio do
exercício repetitivo e da memorização; ao participa-
rem de programas de alfabetização que não venham
ao encontro dessas crenças, tais adultos podem vir a
ter dificuldades.
Ao enfrentar tarefas significativas de leitura e es-
crita, os sujeitos podem experimentar estratégias di-
versas e refletir sobre sua eficácia em cada situação.
A intervenção do educador, no sentido de auxiliar a
tomada de consciência sobre os processos cogniti-
vos e motivacionais envolvidos na aprendizagem,
também se destaca como aspecto essencial. O in-
centivo ao diálogo sobre tarefas de leitura e escrita é
a proposta pedagógica mais efetiva nesse sentido,
na medida em que incentiva os alunos a refletirem
sobre suas próprias concepções e estratégias e a com-
pará-las com as dos demais.
PARTE II – A leitura da escrita e
outras linguagens
3 - TELEDUCAÇÃO, TELEVISÃO E
DESENVOLVIMENTO DA LEITURA
Jane Paiva
Que relação deve se estabelecer entre televi-
são, teleducação e desenvolvimento da leitura em
programas para jovens e adultos? Uma primeira
questão diz respeito à rejeição que muitos de nós
temos em relação aos recursos audiovisuais, espe-
cialmente a televisão. Defendo seu uso como re-
curso educativo, não como recurso didático. Uma
segunda questão é o modo como a televisão pene-
trou em nossa cultura nesses últimos 50 anos. É
impossível descartar sua presença em projetos edu-
cativos, levando em conta as gerações que se for-
maram espectadoras e, além disso, a maneira como
a televisão, no movimento realizado do ponto de
vista tecnológico, reeducou o olhar, o perceber, o
gostar dessas gerações, não apenas quanto ao con-
teúdo veiculado, mas também quanto à forma de
apresentação dos programas, ao ritmo das seqüên-
cias, ao tempo de exposição do espectador às ima-
gens e às informações.
Ao introduzir a idéia da linguagem, e de como
ela é enunciada, inicio a questão apontada anterior-
mente sobre o que considero educativo e didático
no fazer televisão. Por didáticos, relaciono aqueles
programas que têm uma disposição inconteste para
“ensinar” alguma coisa (o que não quer dizer que o
consigam). Mas se armam de seqüências chamadas
lógicas, estruturas de início, meio e fim, que partem
do chamado mais fácil para o mais difícil, de esque-
mas organizativos e recursos de fixação. Como edu-
cativos, entendo os programas que se valem de to-
dos os recursos possíveis da técnica e da tecnologia,
dos acervos de imagens, de situações imprevistas e
de criatividade, para tratar um tema, ou uma ques-
tão de modo a provocar questões (outras) no espec-
tador. Os programas não pretendem ensinar nada,
mas de apresentar situações de impacto, de confron-
to, de questionamento, que coloquem os conheci-
mentos e as experiências anteriores em xeque, obri-
gando o espectador a se indagar e a vasculhar seu
repertório pessoal para tentar se posicionar, decidir,
pensar, discordar, concordar com alguma situação
que lhe é apresentada, ou que o desafie.
Há que se pensar a televisão como um com-
plemento de um processo de ler/aprender a ler,
cujas especificidades não excluem a relação de
sujeitos mediados pelo texto escrito, e seguramente
não se basta na relação de sujeito-texto, mediado
pela televisão.
Este é, sem dúvida, o maior limite da televisão
pensada como alternativas para programas de mas-
sa, sejam eles de alfabetização, sejam de escolariza-
ção. Exatamente por esses limites é que o ensino a
distância, por exemplo, pensa suas modalidades se-
mipresenciais, por não prescindir, para aprender, da
relação humana, direta, entre sujeitos que interagem.
Colocar a televisão no seu justo lugar, com sua lin-
guagem, e não com a da escola, é o desafio da co-
municação, pensada em relação com a educação.
Como beneficiário da teleducação o professor
deve ser olhado, especialmente, pelo foco dos pro-
gramas de formação continuada.
4 - A Transdisciplinaridade pervertida:
uma crônica sobre as relações entre
a educação e os meios de comunicação
Luiz Alberto Sanz
A educação formal e a educação informal por
intermédio dos meios audiovisuais se enfrentam, no
mínimo, há mais de um século, desde que se criou a
indústria do cinema. Parte significativa dos conheci-
mentos humanos, antes transmitidos oral, pictórica
e corporalmente, passou a ser registrada e transmiti-
da quase que exclusivamente pelo processo escrita-
leitura-escrita, eventualmente apoiado por ilustra-
ções. Com isso, ganhou-se em multiplicidade da
142 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
comunicação, perdeu-se no exercício da memória.
A educação formal passou a desempenhar um papel
essencial nesse processo. Com ela, estabeleceram-
se parâmetros para os conhecimentos necessários ao
desenvolvimento e à gestão das sociedades. Entre-
tanto, a difusão das técnicas e equipamentos de im-
pressão possibilitaram a desvinculação do processo
escrita-leitura daquele da educação formal. Nascia
a bandeira da educação para todos, que se expandi-
ria a ponto de, em pouco mais de dois séculos, ser
assimilada por governos e políticos liberais, cujos
empreendimentos não podem sobreviver sem mão-
de-obra parcialmente educada e especializada. In-
felizmente, o pensamento liberal cristalizou o con-
ceito de “igualdade de oportunidades” ao de “edu-
cação para todos”. Reservaram-se assim, mais uma
vez, as migalhas do banquete do conhecimento para
os trabalhadores e seus filhos. Estes precisam de
melhores educadores, de materiais didáticos mais
adequados. Mas, sobretudo, precisam de considera-
ção e respeito para com a sua cultura. Precisam de
uma política educacional verdadeiramente democrá-
tica, que não parta da ficção de que, agora, somos
todos iguais.
A questão é realmente humanizar a televisão, não
para o benefício do lucro, mas para melhorar as con-
dições de vida do homem, melhorar a convivência,
combater a violência, exercer a solidariedade. Se a
televisão não faz isso, ou se faz de maneira incipien-
te e inadequada, na maioria das vezes, cabe ao pro-
fessor, em sala de aula, e aos ativistas da educação
informal dar a esse bom combate, o de utilizar como
fonte e referência os próprios produtos do sistema,
para desmitificá-los e fazer com que estudantes e tra-
balhadores conquistem sua cidadania por meio do
único instrumento que realmente permite isso: a
consciência, a capacidade de reflexão, a indepen-
dência do pensamento.
5 - Uma experiência de formação de leitores,
com camadas populares, através de
rodas de leitura
Pedro Garcia
Como formar leitores de camadas populares, semi-
alfabetizados, a partir da literatura, que supõe o do-
mínio do texto escrito? É possível? De que forma?
Nós, educadores, que usamos a palavra como
instrumento de trabalho, somos submetidos ao de-
safio de dividi-la, de forma criativa, com o outro.
Para que o outro, afiando esse instrumento, possa
potencializá-lo na reconstrução de si mesmo.
A prática da fala, o exercício da fala. A perda da
vergonha do falar, de se expor, de ser. A afirmação
de si mesmo. Um longo caminho, um longo pro-
cesso. No início: “professor, eu não falo porque não
sei nada, não tenho nada a dizer. O pouco que sei
não vale a pena ser dito. Não quero passar vergo-
nha expondo a minha ignorância”. É mais ou me-
nos isto que se depreende da fala do adulto analfa-
beto. Ao homem de baixa auto-estima, que a si
mesmo se nega, é necessário conceder espaço e
dar instrumentos para que possa reverter a postura
do “eu não sei”, “eu não posso”, nomeando as coi-
sas e dela se apropriando.
Em todo esse processo, não se pode perder de
vista o lugar onde essas relações se manifestam: a
escola. Local do instituído, do mesmo que se repro-
duz por meio de um saber instrumental: quem sabe
e quem não sabe. Como quebrar esse circuito?
Minha estratégia parte da gratuidade que se con-
trapõe ao pragmatismo, parte basicamente da poe-
sia. Nela, as palavras encarnam-se em várias possi-
bilidades de significado. É um jogo (de palavras) onde
o campo de interpretação é muito amplo, já que não
se tem um ponto de chegada para um saber que pode
sempre ser refeito. Essa é a particularidade de se tra-
balhar com o campo do simbólico, da metáfora: o
conhecimento não se fecha, pelo contrário, abre-se
em múltiplas possibilidades e a verdade não se ins-
taura em nenhuma delas.
Sendo assim, todos opinam sem o fantasma do
erro. E, além disso – o que não é raro ocorrer – al-
guém descobre uma linha de interpretação que o
professor não previa. É que na leitura compartilhada
de um texto literário a possibilidade da invenção, da
criação, está sempre aberta. Esse talvez seja o as-
pecto mais fascinante de toda essa experiência, abrir
espaço para a criação. E a criação é o caminho para
a autonomia, para a auto-afirmação.
6 - A leitura do texto escrito e o
conhecimento matemático
Dione Lucchesi de Carvalho
Este texto tem por objetivo ressaltar a relação
entre o conhecimento matemático e a interpretação
crítica do texto escrito em jornal. Selecionei três “lei-
turas”, de forma a destacar a importância do saber
matemático para a interpretação crítica do texto jor-
nalístico. A análise da primeira leitura mostra a insu-
ficiência de transformar os símbolos matemáticos
escritos em orais, para a atribuição de significado ao
texto escrito. Na segunda leitura destaquei a “não-
neutralidade” da linguagem matemática. E o tercei-
ro ponto que abordei refere-se à leitura de gráficos.
Pretendo ampliar as idéias relativas ao “uso do
cálculo”, para além da utilização das quatro opera-
ções aritméticas estudadas nas séries iniciais do en-
sino fundamental (adição, subtração, multiplicação
e divisão), tentarei ampliar o estabelecimento de re-
lações um pouco mais complexas, abordadas em
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 143
SINPEEM
outros níveis escolares. Essas considerações revelam
minha posição de que a escolarização restrita às
quatro séries é insuficiente para a inserção, como
cidadão, do adulto em todas as dimensões da socie-
dade contemporânea.
Considero que a aquisição do conhecimento
matemático que possibilite os tipos de análise que
abordei exige uma escolarização de ensino médio.
Tal afirmação pode se configurar como um sonho
irreal e idealizado num país que ainda não resolveu
seus problemas de escolaridade, nem em relação ao
ensino fundamental.
Desejo uma escolarização presencial, na qual
seja possível a construção coletiva de conceitos
matemáticos cada vez mais amplos e gerais. Infe-
lizmente os cursos destinados a jovens e adultos
não têm privilegiado a formação do aluno, não têm
lhes possibilitado compreender a complexidade
cultural da sociedade moderna que abarca o cien-
tífico, o artístico, o filosófico, o psicológico. Esta-
mos aceitando que o cidadão brasileiro seja de se-
gunda linha? Citando novamente as idéias de Pau-
lo Freire, a escola não tem dado conta de ser sim-
ples sem ser simplista.
7 - Álbum Cultural do Recife: a utilização
de imagens como objeto de leitura
Áurea Bezerra
Leila Loureiro
Salete Maldonado
O Álbum Cultural do Recife é um material que
vem sendo produzido pela Secretaria Municipal de
Educação do Recife.
Partindo de uma concepção mais ampla de alfa-
betização, que não se restringe apenas à decodifica-
ção de símbolos, o álbum propõe uma leitura mais
significativa do mundo que circunda os jovens e
adultos, especialmente de sua cidade, o Recife.
Os alunos, além de não conseguirem aprender
aquilo que a escola diz oferecer, não lhes é possí-
vel conviver com boa parte da herança cultural
de sua sociedade, abrigada na mesma cidade onde
moram, o Recife, ícone cultural do Brasil e por
que não do mundo.
Uma vez que a condição de vida dos alunos di-
ficulta-lhes o acesso a essa herança, acreditamos que
a escola poderia criar condições para que eles se
apropriassem dela. O objetivo de tais atividades não
se encerra nas visitas ou na mera observação, o que
se quer é propiciar a descoberta da história e da cul-
tura da cidade, bem como o reconhecimento de cada
um como autor de sua própria história e cultura.
Através do Álbum Cultural do Recife, além de
terem contato com reproduções das obras em sala
de aula, bem como fotos dos locais e monumentos,
os alunos tiveram a oportunidade de conhecer mu-
seus, teatros e ateliês e participar das aulas-passeio,
das quais a equipe pedagógica também participa.
Depois do retorno à escola, ficam abertas as possibi-
lidades de atividades com o material sistematizado.
Os alunos não só reconhecem os textos e as ima-
gens que foram trabalhadas nas aulas-passeio, como
fazem milhões de inferências sobre os mesmos. É o
seu olhar sobre a cidade, é a sua palavra sobre o
mundo que o circunda, é a possibilidade de cons-
truir o seu próprio texto.
PARTE III – A produção de livros para jovens
e adultos estudantes
8 - Almanaque do Aluá: leitura,
formação e cultura
Alexandre Aguiar e Cleide Leitão
Participando da equipe do Sapé, ONG sediada
no Rio de Janeiro, integramos durante dois anos um
projeto de pesquisa sobre o tema “Confronto de Sis-
temas de Conhecimentos na Educação Popular”, fo-
calizando a alfabetização de adultos. A partir de seus
resultados, identificamos a necessidade de investir
na formação de alfabetizadores e produzir material
de apoio para seu desempenho.
A escolha do título de publicação desembocou
num almanaque, não só porque ele seria capaz de
responder à pluralidade de objetivos que se apre-
sentava, mas também pela possibilidade que ofere-
cia de expressar esse conjunto de preocupações le-
vando em conta os diversos contextos histórico/cul-
turais do país, que lhe dariam identidade e moldura.
A escolha do nome Aluá foi motivada pelo seu signi-
ficado. Aluá é uma bebida fermentada nos potes de
barro, feita de cascas de abacaxi ou mandioca, da
farinha de milho ou de arroz, como também o é a
nossa cultura: feita de várias gentes e cores, fermen-
tando no solo desse país. O Almanaque pretende
exprimir essa fermentação em seu interior: idéias,
sonhos, experiências, culturas, vidas.
Assim, o Almanaque do Aluá foi concebido como
um instrumento de apoio à prática pedagógica dos
alfabetizadores, material de leitura para jovens e
adultos recém-alfabetizados e canal de difusão dos
resultados da pesquisa em linguagem adaptada aos
educadores populares.
Baseados nas avaliações e estudos preliminares
que realizamos, podemos afirmar que o caráter pe-
dagógico do Almanaque do Aluá situa-se na luta pelo
aumento do contingente de neoleitores no país, so-
bretudo na faixa específica de jovens e adultos, no
apoio à prática pedagógica do professor, contribuin-
do também na formação dos educadores populares
e dos alfabetizadores, e na valorização da diversida-
144 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
de cultural brasileira, abrindo espaço para sua ex-
pressão e socialização, considerando nossas identi-
dades e a interação entre as diferenças.
9 - Viver, aprender: uma experiência
de produção de materiais didáticos para
jovens e adultos
Cláudia Lemos Vóvio
O presente artigo tem como objetivo apresentar
a estrutura e as opções metodológicas utilizadas para
a elaboração da coleção de materiais didáticos “Vi-
ver, aprender”, enfatizando aquelas que dizem res-
peito à aprendizagem da leitura e à disponibiliza-
ção de textos escritos.
A produção dessa coleção partiu do diagnóstico
das condições em que se desenvolvem os progra-
mas educativos destinados a jovens e adultos. A ne-
cessidade de materiais didáticos é imperiosa nesses
programas, pois, além de atender a grupos de baixo
poder aquisitivo, que não têm condições de arcar
com a compra de livros e outros materiais didáticos,
contam muitas vezes com professores leigos ou que
trabalham em vários turnos e têm pouco tempo para
preparar aulas. Outro aspecto relevante é que a mai-
oria dos professores que trabalha nesses programas
não lidou, em sua formação inicial, com disciplinas
voltadas ao atendimento das especificidades do pro-
cesso de aprendizagem de jovens ou adultos.
A formação de um leitor autônomo e crítico, ob-
jetivo que delineia as atividades propostas nessa
coleção, abrange aprendizagens para além da mera
decodificação de sinais, implicando a compreensão
do texto a partir do diálogo entre texto e leitor, a
recriação de sentidos, o estabelecimento de relações
e a mobilização de seus conhecimentos para dar
coerência àquilo que foi lido. Para a elaboração de
propostas de leitura e seleção de textos, tomou-se o
aluno como sujeito dos processos constituintes do
ato de ler, capaz de refazer o percurso do autor e
trabalhar o texto no sentido de compreendê-lo e res-
significá-lo. Dessa forma, a aprendizagem da leitura
na coleção “Viver, aprender” é tomada como exer-
cício da cidadania, à medida que promove a critici-
dade e a plena inserção de jovens e adultos na soci-
edade da qual fazem parte.
10 - Material didático do Nupep para a
educação de jovens e adultos
João Francisco de Souza
A produção de material didático para a educa-
ção escolar é um dos maiores desafios da prática
pedagógica, sobretudo para a EJA, como educação
básica ofertada àqueles que não a concluíram “em
idade própria”. A EJA continua sendo o maior desa-
fio da estrutura escolar brasileira. Cerca de 80% não
a concluíram. E as experiências existentes, com hon-
rosas exceções, deixam muito a desejar.
As reflexões aqui apresentadas sobre o material
produzido pelo Nupep, do Centro de Educação da
Universidade Federal de Pernambuco, são resultado
de uma experimentação de cinco anos num Centro
de Educação de Jovens e Adultos, em Olinda (PE),
para atender às necessidades básicas de aprendiza-
gem de jovens e adultos trabalhadores e contribuir
na sua profissionalização, bem como na realização
de processos de pesquisas educacionais e formação
do seu professorado.
A proposta curricular para o ensino fundamental
na EJA do Nupep contempla cinco áreas do conhe-
cimento (Ciências Sociais, Ciências Naturais, Arte-
Cultura, Matemática, Língua Portuguesa). Cada uma
dessas cinco áreas do conhecimento, com suas
aprendizagens, estão estruturadas em dez módulos
pedagógicos.
Afirmamos que a educação de pessoas jovens e
adultas, em nível de educação básica, são processos
e experiências de ressocialização (recognição e rein-
venção) de jovens, adolescentes e adultos, orienta-
dos para aumentar e consolidar capacidades indivi-
duais e coletivas desses sujeitos populares mediante
a recuperação e recriação de valores, a produção,
apropriação e aplicação de saberes que permitam o
desenvolvimento de propostas mobilizadoras e con-
tribuam para a transformação da realidade desses
sujeitos.
PARTE IV – Perspectivas em torno da
mobilização social pela alfabetização
11 - Para que ensinar a ler o jornal se não
há jornal na comunidade?
O letramento simultâneo de jovens e adultos
escolarizados e não-escolarizados.
Sylvia Bueno Terzi
Esta pesquisa é parte de um projeto mais amplo
que tem por objetivo recuperar a história do letra-
mento de uma pequena comunidade e analisar a
continuidade do processo após a implementação de
cursos de educação de jovens e adultos. Neste tra-
balho, apresentamos o projeto de letramento simul-
tâneo de membros escolarizados e não-escolariza-
dos da comunidade, analisamos os fatores determi-
nantes das características do projeto e delineamos a
fase inicial de implementação do mesmo.
O PAS foi criado com o objetivo de promover a
inclusão social da população não-escolarizada de
municípios com as mais altas taxas de analfabetis-
mo entre os 12 e 19 anos, levando a essas pessoas
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 145
SINPEEM
a escrita como um instrumento de cidadania, de
forma que, pelo seu uso, possam entender melhor
a realidade em que vivem e, sobre ela, agir na bus-
ca de transformações. Para que tal objetivo seja atin-
gido, coloca-se como essencial a necessidade de o
programa, durante sua permanência no município
(no mínimo 2 anos), colaborar na estruturação e fun-
cionamento eficaz do sistema local de educação,
de forma que o governo municipal assuma sua res-
ponsabilidade em garantir um bom ensino a toda a
população.
Dadas as diversas possibilidades de influências,
o processo de letramento desenvolve-se paulatina-
mente pelas redes de disseminação que, juntamente
com o domínio do código da escrita pelos alfabeti-
zados, deverão possibilitar uma maior homogenei-
zação do letramento da comunidade. É nesse senti-
do que apontam os dados de Inhapi. E como o letra-
mento não é um processo neutro, surgem, no mo-
mento, na comunidade, os primeiros questionamen-
tos sobre as condições de vida local e suas causas,
confirmando o pressuposto subjacente aos objetivos
do PAS, de que o letramento é um importante instru-
mento de transformação social.
12 - Mova – Movimento de alfabetização
de jovens e adultos: um pouco de sua história
no Rio de Janeiro
Sandra Regina Sales
Foi na Prefeitura Municipal de São Paulo, na ges-
tão da prefeita Luiza Erundina (1989-1992), que o
Mova foi criado, superando a idéia de campanha e
incorporando a idéia de movimento. O Mova ex-
pressava a convicção de que a tarefa de superar o
analfabetismo no Brasil exigia a participação da so-
ciedade civil:
“A superação do analfabetismo no Brasil só é
possível em dez anos, ou até em menos tempo ain-
da, se houver a confluência do envolvimento de gru-
pos populares e da decisão política dos governan-
tes.” (Mova 1989).
A proposta pedagógica do Mova passa pela va-
lorização das histórias de vida e das narrativas dos
alfabetizandos. É a partir das experiências de vida
narradas pelos educandos e educadores que serão
levantados os temas a serem aprofundados em sala
de aula, que se constituirão no ponto de partida para
a alfabetização, possibilitando não apenas a codifi-
cação ou decodificação de palavras, mas a leitura
da palavra-mundo. Esse processo pressupõe um per-
manente diálogo entre educadores e educandos, que
por sua vez implica na disposição de falar e ouvir,
de dar vez e voz, numa reflexão individual e coleti-
va, possibilitando a construção de uma cultura de
solidariedade na sala de aula. O objetivo maior do
trabalho é estimular uma compreensão maior da re-
alidade e uma mobilização para a construção de uma
sociedade mais justa.
O Mova-RJ enfrenta, desde seu nascimento, uma
série de desafios. Além de estimular a criação de
novas turmas, precisa apoiar e articular as iniciati-
vas já existentes no âmbito do estado.
Um outro grande desafio é a continuidade da
escolarização das pessoas que se alfabetizarem no
Mova-RJ. Se é fato que o Mova, ao se instalar onde
está localizada a demanda, facilita o acesso àqueles
que foram historicamente excluídos do ingresso à
escola, a continuidade na escolarização deve ser
tarefa assumida pelos poderes públicos. Esse desafio
leva a um outro que é a integração dos educadores
do Mova-RJ aos professores das redes, tanto estadu-
al como municipais no sentido de se construir um
projeto político-pedagógico conjunto.
PARTE V – As políticas para a Educação dos
jovens e adultos no Brasil
13 - A educação continuada e as
políticas públicas no Brasil
Sérgio Haddad
Educação continuada não é um conceito novo,
mas neste fim de milênio ganhou especial relevân-
cia, tendo-se em vista as recentes transformações no
mundo do trabalho e no conjunto da sociedade. Edu-
cação continuada é aquela que se realiza ao longo
da vida, continuamente, é inerente ao desenvolvi-
mento da pessoa humana e relaciona-se com a idéia
de construção do ser. Abarca, por um lado, a aquisi-
ção de conhecimentos e aptidões e, de outro, atitu-
des e valores, implicando no aumento da capacida-
de de discernir e agir. Essa noção de educação en-
volve todos os universos da experiência humana,
além dos sistemas escolares ou programas de edu-
cação não-formal. Educação continuada implica re-
petição e imitação, mas também apropriação, res-
significação e criação. Enfim, a idéia de uma educa-
ção continuada associa-se à própria característica
distintiva dos seres humanos, a capacidade de co-
nhecer e querer saber mais, ultrapassando o plano
puramente instintivo de sua relação com o mundo e
com a natureza.
O conceito de educação continuada, que inclui
a educação escolar fundamental, exige que se con-
siderem as influências dos problemas sociais, eco-
nômicos, políticos, ambientais e culturais no traba-
lho escolar, exige que se reconheça que o modelo
econômico dominante não é compatível com prin-
cípios de equidade educativa.
Precisamos compartilhar a responsabilidade so-
bre os destinos da sociedade global com todos os
146 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
países e com todos os segmentos envolvidos, é pre-
ciso superar um modelo de desenvolvimento que
promove a exclusão e que, portanto, é incompatível
com o preceito de educação para todos. Sem perder
de vista essa problemática mais ampla, é preciso
pensar alternativas de políticas que integrem ações
em diferentes planos, tendo em vista a real necessi-
dade de ampliar as oportunidades de desenvolvimen-
to para todas as pessoas ao longo de sua vida.
14 - As políticas de EJA e as necessidades
de aprendizagem dos jovens e adultos
Leôncio José Gomes Soares
Vivemos um momento de transição entre duas
épocas: um século que termina e outro que se anun-
cia. Momento esse de rápidas e intensas mudanças
que nos trazem, em diversos domínios, possibilida-
des e incertezas. A educação se insere nesse contex-
to: em meio a sua desvalorização e indiferença, con-
vivemos com numerosas iniciativas e consolidação
de propostas em seu âmbito. A educação de jovens
e adultos compreende um leque amplo e heterogê-
neo de experiências educativas de formatos e mo-
dalidades diversos, que não correspondem necessa-
riamente a ações de escolarização.
As Necessidades Básicas de Aprendizagem
(Neba) foram definidas como aqueles conhecimen-
tos teóricos e práticos, destrezas, valores e atitudes
que, em cada caso e em cada circunstância e mo-
mento concreto, resultam indispensáveis para que
as pessoas possam encarar suas necessidades nas
seguintes frentes: a sobrevivência; o desenvolvimento
pleno de suas capacidades; o desfrutar de uma vida
e de um trabalho dignos; a participação plena no
desenvolvimento; a tomada de decisões informadas
e a possibilidade de continuar aprendendo. Partin-
do do principio de que não há educação sem uto-
pia, qualquer esforço educativo se relaciona com a
vontade de construir uma sociedade melhor.
Um novo valor necessário diz respeito à diversi-
dade de oferta de EJA refletida no modelo flexível de
educação básica de adultos. É de fundamental im-
portância a construção do conhecimento em torno
da EJA, de modo a possibilitar a pesquisa básica e
aplicada. Finalmente, temos no horizonte o desafio
de compreender o que significa formar o indivíduo,
em termos de capacidade básica, que lhe permita
colocar-se diante da realidade em que vive, pensar
essa realidade e atuar de forma diferente nela.
Resumo realizado por Maria de Lurdes Valino,
psicóloga, pedagoga, mestre em educação.
SACRISTÁN, J. Gimeno; GÓMEZ, A. Pérez
Porto Alegre, Artmed, 2000
Compreender e transformar o ensino é uma ten-
tativa, por parte se seus autores, de levar aos profis-
sionais da educação, especialmente aos professores/
as, pontos básicos do pensamento e da pesquisa edu-
cativa sobre os problemas fundamentais que a práti-
ca do ensino tem colocado. Sem compreender o que
se faz, a prática pedagógica é mera reprodução de
hábitos, ou respostas que os docentes devem forne-
cer a demandas e ordens externas. Se algumas idéi-
as, valores e projetos se tornam realidade na educa-
ção é porque os docentes os fazem seus de alguma
maneira: em primeiro lugar, interpretando-os, para
depois adaptá-los.
COMPREENDER E TRANSFORMAR O ENSINO
Capítulo 2 – Os processos de
ensino-aprendizagem: análise didática das
principais teorias da aprendizagem
Introdução
A análise e intervenção nos mecanismos de so-
cialização das novas gerações é a meta fundamental
da prática educativa na escola, tendo a pretensão de
provocar a comparação crítica das aquisições espon-
tâneas.
Toda intervenção educativa necessita apoiar-se
no conhecimento teórico e prático, oferecido em
parte pelas disciplinas que investigam a natureza dos
fenômenos envolvidos nos complexos processos
educativos.
Consolidou-se uma forma mecânica, simplista e
hierárquica de transferência desde o conhecimento
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 147
SINPEEM
disciplinar, na verdade desde o conhecimento psi-
cológico, para a organização e o desenvolvimento
da prática pedagógica.
Este capítulo analisa as principais teorias da
aprendizagem a partir da potencialidade de suas
implicações didáticas, oferecendo idéias e reflexões
para alimentar o debate sobre a utilização racional
das teorias da aprendizagem na elaboração da teo-
ria e prática didática. Para tanto, aprofunda o debate
sobre as características e natureza da aprendizagem
na aula e na escola: a aprendizagem relevante, que
supõe a reconstrução do conhecimento que o indi-
víduo adquire em sua vida cotidiana anterior e para-
lela á escola.
Análise didática das principais teorias
da aprendizagem
A maioria das teorias psicológicas da aprendi-
zagem são modelos explicativos que foram obti-
dos em situações experimentais e referem-se a
aprendizagens de laboratório que só relativamen-
te podem explicar o funcionamento real dos pro-
cessos naturais de aprendizagem incidental e da
aprendizagem na aula.
A aprendizagem é um processo de conheci-
mento, de compreensão de relações em que as
condições externas atuam mediadas pelas condi-
ções internas. A explicação de como se constro-
em, condicionados pelo meio, os esquemas inter-
nos que intervêm nas respostas condutuais é seu
problema capital e um propósito prioritário. O foco
do capítulo é ocupar-se dos diferentes enfoques,
tentando esclarecer a virtualidade pedagógica de
seus pressupostos.
Derivações pedagógicas das teorias do
condicionamento
As derivações pedagógicas e didáticas dos prin-
cípios em que se apóiam a s teorias do condicio-
namento são evidentes. O próprio Skinner dedi-
cou parte de seus trabalhos à aplicação prática de
seus esquemas psicológicos sobre a aprendizagem.
Suas teorias da aprendizagem supõem uma con-
cepção do homem é o produto das contingências
reforçantes do meio.
Esta concepção do homem norteia as aplica-
ções pedagógicas e didáticas, transforma a educa-
ção em uma simples tecnologia para programas
reforços no momento oportuno. Ao prescindir das
variáveis internas, da estrutura peculiar de cada
indivíduo, ao desprezar a importância da dinâmi-
ca da própria aprendizagem, o ensino se reduz a
preparar e organizar as contingências de reforço
que facilitam a aquisição dos esquemas e tipos de
conduta desejados.
As diferentes teorias do condicionamento e
aprendizagem contribuíram para a compreensão
dos fenômenos de aquisição, retenção, extinção e
transferência de determinados tipos simples de
aprendizagem ou de componentes de todo pro-
cesso de aprendizagem.
A crítica mais rigorosa do condutismo ou con-
dicionamento é que suas posições teóricas care-
cem de consistência epistemológica, limitando-se
apenas a análise do observável. A seqüência me-
cânica de estímulos, de respostas e de reforços não
funciona na escola, em um esquema demasiado
simplista e não reflete a riqueza de troca da aula.
A singularidade da espécie humana reside princi-
palmente em seu caráter criador, inacabado e em
grande parte indeterminado.
Teorias mediacionais
Durante o século XX e como reações à interpre-
tação behaviorista da aprendizagem, surgem, desen-
volvem-se e transformam-se diversas teorias psico-
lógicas englobadas na corrente cognitiva. Apesar de
importantes e significativas diferenças, essas teorias
coincidem em alguns pontos fundamentais: a impor-
tância das variáveis internas; a consideração da con-
duta como totalidade e a supremacia da aprendiza-
gem significativa que supõe reorganização cogniti-
va e atividade interna.
Derivações da corrente da Gestalt
ou teoria do campo
Wertheirmer, Kofka, Köhler, Wheeler e Lewin são
os principais representantes da interpretação gestal-
tista da aprendizagem. Supõem uma reação contra
a orientação mecânica e atomista do associacionis-
mo condutista. Consideram que a conduta é uma
totalidade organizada e a aprendizagem um pro-
cesso de doação de sentido às situações que o in-
divíduo se encontra. Sob as manifestações obser-
váveis se desenvolvem processos de discernimento
e de busca intencional de objetivos e metas. O in-
divíduo reage à realidade tal como a percebe sub-
jetivamente. Sua conduta responde à sua compre-
ensão das situações, ao significado que confere aos
estímulos que configuram seu campo vital em cada
momento concreto.
É necessário ressaltar a extraordinária riqueza
didática que se aloja na teoria do campo. A interpre-
tação holística e sistêmica da conduta e a considera-
ção das variáveis internas como portadores de signi-
ficação são valorosas para a regulação didática da
aprendizagem humana na escola. Entretanto, apesar
da riqueza didática destas posições é preciso assina-
lar os pontos fracos que exigem um desenvolvimen-
to mais satisfatório: um certo descuido da verifica-
148 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
ção empírica das hipóteses; o não estabelecimento
de um rigoroso isomorfismo entre percepção e apren-
dizagem; uma tendência a interpretar a aprendiza-
gem em termos de percepção, recepção significati-
va, esquecendo a importância da atividade, das ações
e operações subjetivas para a fixação de aquisições
e formulação dos esquemas cognitivos e o desprezo
por todas as descobertas realizadas pela investiga-
ção analítica.
As contribuições da psicologia
genético-cognitiva
Desde o inestimável trabalho e a incompará-
vel clarividência de Piaget e da Escola de Gene-
bra que se formou ao seu redor, a extraordinária
potência teórica dos princípios e proposições da
corrente denominada psicologia psico-cognitiva
não deixou de se impor e se desenvolver. Piaget,
Inhelder, Bruner, Flavell, Ausubel são os represen-
tantes desta vasta e fecunda corrente. Os resulta-
dos teóricos se suas investigações são hoje em dia
imprescindíveis para compreender a complexida-
de da aprendizagem humana.
Desde os postulados defendidos pela Gestalt,
parece óbvia a necessidade de esclarecer o funcio-
namento da estrutura interna do organismo como
mediadora dos processos de aprendizagem. A psi-
cologia genético-cognitiva enfrenta o problema e
apresenta certos princípios de explicação por meio
de seus postulados mais importantes: - A aprendiza-
gem como aquisição não hereditária no intercâmbio
com o meio é um fenômeno incompreensível sem
sua vinculação à dinâmica do desenvolvimento in-
terno. As estruturas iniciais condicionam a aprendi-
zagem que provoca a modificação e a transforma-
ção das estruturas permitindo a realização de novas
aprendizagens mais ricas e complexas;
- As estruturas cognitivas são mecanismos re-
guladores aos quais se subordina a influência do
meio. São o resultado de processos genéticos, por
isso estas posições são denominadas construtivis-
mo genético;
- São dois os movimentos que explicam todo o
processo de construção genética; a assimilação e
acomodação. Ambos os movimentos constituem a
adaptação ativa do indivíduo que atua e reage para
compensar as perturbações geradas em seu equilí-
brio interno pela estimulação do ambiente;
- A vinculação entre aprendizagem e desenvol-
vimento leva ao conceito de “nível de competên-
cia”. Em franca oposição à interpretação conteudis-
ta, Piaget considera que para que o organismo seja
capaz de dar uma resposta é necessário supor um
grau de sensibilidade específica às incitações diver-
sas do meio;
- O conhecimento é uma elaboração subjetiva e
ao distinguir os aspectos figurativos (conteúdos) dos
aspectos operativos (formais) e ao subordiná-los, Pi-
aget estabelece as bases para uma concepção didá-
tica baseada nas ações sensório-motoras e nas ope-
rações mentais (concretas e formais);
- Piaget não enfatiza apenas a primazia da ação,
mas principalmente os processos cognitivos adqui-
rem novas dimensões. A percepção, a representa-
ção simbólica e a imaginação têm implícito um com-
ponente de atividade física, fisiológica ou mental,
com a participação ativa do sujeito nos diferentes
processos de exploração, seleção, combinação e de
organização das informações.
- dentro desse processo dialético, que explica a
gênese do pensamento e da conduta, são quatro os
fatores principais que, segundo Piaget, intervém no
desenvolvimento das estruturas cognitivas: matura-
ção, experiência física, interação social e equilíbrio.
Levando em conta estas colocações, destacam-
se sete conclusões para facilitar e orientar a regula-
ção didática dos processos de ensino-aprendizagem:
o caráter construtivo e dialético de todo processo de
desenvolvimento individual; a enorme significação
que tem para o desenvolvimento das capacidades
cognitivas superiores a atividade do aluno/a, desde
as atividades sensório-motoras de discriminação e
manipulação de objetos, até as complexas operações
formais; a linguagem como instrumento insubstituí-
vel das operações intelectuais mais complexas; a
importância do conflito cognitivo para provocar o
desenvolvimento do aluno/a; a significação da coo-
peração para o desenvolvimento das estruturas cog-
nitivas; - a distinção e a vinculação entre desenvol-
vimento e aprendizagem e a estreita vinculação das
dimensões estrutural e afetiva da conduta.
A aprendizagem significativa de Ausubel
As contribuições de Ausubel são muito impor-
tantes para a prática didática. Ausubel centra sua
análise na explicação da aprendizagem de corpos
de conhecimentos que incluem conceitos, princípi-
os e teorias. Para ele, a aprendizagem significativa,
seja por percepção, seja por descoberta, opõem-se à
aprendizagem mecânica, repetitiva, memorialística.
A chave da aprendizagem significativa está na vin-
culação substancial das novas idéias e conceitos com
a bagagem cognitiva do indivíduo. As dimensões que
Ausubel distingue na significação potencial do ma-
terial de aprendizagem são a significação lógica e a
significação psicológica. O importante nas contribui-
ções de Ausubel é que sua explicação da aprendiza-
gem significativa implica a relação indissociável de
aprendizagem e desenvolvimento.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 149
SINPEEM
A escola soviética
Vygotsky, Luria, Leontiev, Rubinstien, Tayzina,
Galperin são, entre outros, os representantes mais
significativos da escola soviética. Nela, a primeira
proposição a se considerar, já que condiciona as res-
tantes, é a concepção dialética da relação entre
aprendizagem e desenvolvimento. Para a psicologia
soviética a aprendizagem está em função da comu-
nicação e do desenvolvimento.
Para Vygotsky, na perspectiva didática, o nível
de desenvolvimento alcançado não é um ponto es-
tável, mas um amplo e flexível intervalo. Em outras
palavras, corresponde à área de desenvolvimento ou
zona de desenvolvimento proximal, pois é precisa-
mente o eixo da relação dialética entre aprendiza-
gem e desenvolvimento.
Para a psicologia soviética, não são somente a
atividade e a coordenação das ações que o indivíduo
realiza as responsáveis pela formação das estruturas
formais da mente, mas também a apropriação da ba-
gagem cultural, que é produto da evolução histórica
da humanidade transmitida na ação educativa.
A escola de Wallon (Wallon, Zazzo, Merani)
A psicologia genético-dialética francesa de
Wallon reafirma os principais postulados da escola
soviética. Mas, para Wallon, o importante é explicar
a passagem do orgânico para o psicológico por meio
de quatro elementos essenciais: a emoção, a imita-
ção, a motricidade e o socius (repercussões pedagó-
gicas). A emoção é uma expressão corporal de um
estado interno que adquire um caráter de comuni-
cação, de intercâmbio entre indivíduos e as estrutu-
ras psicológicas são a variável mais importante da
aprendizagem, tendo sempre presente que tais es-
truturas são redes complexas e interativas de pensa-
mento, emoção e atividade.
A aprendizagem como procedimento
de informação
Os modelos de processamento de informação
como tentativa de explicar a conduta cognitiva do
ser humano são relativamente recentes. O modelo
de processamento de informação considera o homem
como um processador de informação, cuja ativida-
de fundamental é receber informação, elaborá-la e
agir de acordo com ela.
O processamento da informação começa com os
processos de seleção de estímulos que acontecem
no registro sensitivo em virtude dos mecanismos de
atenção. Uma vez selecionada a informação, codifi-
ca-se e armazena-se por breves períodos de tempo
na memória de curto prazo. A retenção e a recupe-
ração são dois programas de controle que determi-
nam o processamento da informação na memória
de longo prazo. A recuperação é um programa que
implica ativos processos de reconstrução e organi-
zação idiossincrática e situacional do material recu-
perado. O processamento de informações recupera
a noção de mente, reintegra a informação subjetiva
como um dado útil para a investigação e coloca em
lugar privilegiado o estudo da memória ativa como
explicação básica da elaboração de informação e
assim, da execução da atividade humana.
As teorias da aprendizagem na compreensão
e nas práticas educativas
O conceito de aprendizagem é um conceito
prévio, um requisito indispensável para qualquer
elaboração teórica sobre o ensino. As teorias da
aprendizagem dão a informação básica, mas não
suficiente, para organizar a teoria e a prática do en-
sino. Cabe à didática, disciplina científica teórico-
prática, a organização das condições externas da
aprendizagem e o controle do modo de interação
destas; com as condições internas do sujeito, uma
vez identificadas durante todos os processos que
balizam a aprendizagem; com o objetivo de produ-
zir certos resultados determinados que suponham o
desenvolvimento e aperfeiçoamento das próprias
condições internas.
Capítulo 6 – O currículo: os conteúdos do
ensino ou uma análise prática?
Movimentos progressistas, nas últimas décadas,
culpando a escola tradicional de academicismo e
intelectualismo pouco relevante e nessa instituição
a agência reprodutora da cultura dominante, quise-
ram romper a imagem de um ensino transmissor e
reprodutor, seguindo modelos de relação pedagógi-
ca nos quais se diminuía a importância dos conteú-
dos. As preocupações psicológicas referentes ao bem-
estar dos alunos/as, seu desenvolvimento e as rela-
ções com seus professores/as dominaram sobre sen-
tido cultural da escolarização e do ensino.
O currículo como estudo do
conteúdo do ensino
O pensamento pedagógico em torno do currícu-
lo é muito heterogêneo e disperso, podendo encon-
trar inclusive posições que desprezam a análise e
decisões sobre os conteúdos, pretendendo unicamen-
te proporcionar esquemas de como organizá-los e
manejá-los por parte dos professores/as. O estudo
do currículo aborda os temas relacionados com a
justificativa, a articulação, a realização e a compro-
vação do projeto educativo ao qual a atividade e os
conteúdos do ensino servem. É preciso recuperar a
150 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
discussão fundamental sobre a configuração, o pla-
no e o desenvolvimento prático do projeto educati-
vo cultural da escola. É uma forma de integrar o dis-
curso pedagógico desde a racionalização das idéias
e valores que orientam as decisões em torno de seus
conteúdos até a racionalização dos meios para obtê-
los e comprovar seu sucesso.
Um só conceito ou diversas concepções
de currículo?
O termo currículo provém da palavra latina cur-
rere, que se refere à carreira, a um pequeno per-
curso que deve ser realizado. A escolaridade é um
pequeno percurso pra os alunos/as e o currículo é
seu recheio, seu conteúdo, o guia de seu progres-
so escolar.
As diferentes concepções de currículo e as pers-
pectivas são frutos das opções que se tomam no
momento de dizer ao que nos referimos com esse
conceito. Contreras (1990) considera que é preciso
examinar quatro grupos de interrogação para atestar
seu significado: a amplitude variável do significado
– o currículo apresenta significados diversos para
pessoas e correntes de pensamento diferentes; o cur-
rículo dentro de práticas diversas – o contexto soci-
al, econômico, político e cultural que o currículo
representa, ou deixa de fazê-lo, deve ser o primeiro
referencial para análises e avaliações; o oculto e o
manifesto: uma visão dos que aprendem – conside-
rar que o ensino se reduz ao que os programas ofici-
ais ou os próprios professores/as dizem que querem
transmitir é uma ingenuidade. Ao lado do currículo
oficial existe outro que funciona subterraneamente,
que se denomina oculto; ao que chamamos currí-
culo? A um processo ou a alguma representação do
mesmo? – o currículo é um meio para transferir idéi-
as para a prática. O currículo é um processo social
que se cria e passa a ser experiência através de múl-
tiplos contextos que interagem entre si.
Obstáculos para um marco de
compreensão processual
A concepção burocrática da instituição escolar,
a perspectiva de professores/as dependentes quanto
às propostas externas, a concepção técnica – e, às
vezes, mecanicista – levou a que se ocupasse mais
das intenções do ensino, dos planos e currículos pla-
nejados fora da escola que do que realmente se en-
sinava dentro e como se traduziam aquelas inten-
ções externas.
Existe uma definição do que é o currículo?
A compreensão de currículo depende de marcos
muito variáveis, mas em qualquer conceitualização
é preciso considerar: 1º) o estudo do currículo deve
oferecer uma visão da cultura que se dá nas escolas
em suas dimensões oculta e manifesta; 2º) o currí-
culo é um processo historicamente condicionado,
selecionado de acordo com as forças dominantes de
uma sociedade, com capacidade de reproduzir ou
transformá-la; 3º) o currículo é um campo no qual
interagem idéias e práticas reciprocamente; 4º) como
projeto cultural elaborado, o currículo condiciona a
profissionalização do docente e é preciso vê-lo como
uma pauta com diferente grau de flexibilidade para
que os professores/a intervenham nele.
Capítulo 7 – O que são os conteúdos do ensino?
O problema de definir o que é conteúdo do ensi-
no e como chagar a decidi-lo é um dos aspectos mais
conflituosos da história do pensamento educativo e
da prática de ensino, condição que se reflete nos
mais diversos enfoques, perspectivas e opções.
Conteúdos “nebulosos” nos currículos ampliados
A justificativa de um determinado currículo não
pode ficar em critérios de representatividade do se-
lecionado quanto à cultura acadêmica, mas apoiar-
se noutros de caráter social e moral, já que o que se
busca com sua implantação é um modelo de ho-
mem e de cidadão/ã. A incidência real das preten-
sões de alcançar uma educação menos academicis-
ta tem sido mais decisiva na evolução dos métodos
pedagógicos do que nos conteúdos do ensino.
Quando um conteúdo é “valioso” e
“apropriado”? Construção social dos currículos
Um conteúdo passa a ser valioso e legítimo quan-
do goza do aval dos que têm poder para determinar
sua validade, por isso, a fonte do currículo é a cultu-
ra que emana da sociedade. A seleção considerada
como apropriada depende das forças dominantes em
cada momento e dos valores que historicamente fo-
ram delineando o que se acredita que é valioso para
ser ensinado ou transmitido.
As determinações mais próximas dos
conteúdos do currículo
Lecionar um currículo comum para todos, supe-
rar as discriminações produzidas pela separação
dentro do sistema escolar de especialidades curricu-
lares diversificadas socialmente, compensar as defi-
ciências de origem dos alunos/as para enfrentar os
conteúdos curriculares, diversificar as exigências
escolares para que as capacidades de todos tenham
acolhida na escolaridade, suprimir a concorrência
entre os alunos/as, desenvolver os valores da solida-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 151
SINPEEM
riedade por meio do conhecimento e das práticas
pedagógicas, tratar os conflitos sociais estimulando
a tolerância frente às distintas visões são, entre ou-
tras, idéias procedentes das preocupações sociais que
se somarão ao discurso pedagógico e curricular, afe-
tando a seleção de conteúdos e as formas de desen-
volvê-los no ensino.
Conhecimento: base de profissões
Nas sociedades com os sistemas de produção
complexos e diferenciados, as atividades laboriais
também se diversificaram e se ligam a conhecimen-
tos cada vez mais especializados. O discurso edu-
cativo moderno preocupa-se bem menos com a fun-
ção cultural e democratizadora das escolas do que
em ligá-las aos interesses profissionais e produtivos.
A crítica à escola, às suas práticas e ao conhecimen-
to que lecionam é feita do ponto de vista dos inte-
resses da produção.
Efeitos menos evidentes do utilitarismo
do conhecimento
O conhecimento de prestígio é o que se relacio-
na com atividades profissionais também prestigiosas
e rentáveis para proporcionar boa situação econô-
mica aos que as desempenham. Conhecimento que,
ao se ligar tão diretamente com o desenvolvimento
econômico, recebe mais recursos para pesquisa. Às
profissões em alta corresponde o auge de um tipo de
conhecimento: a tendência inversa não é menos
correta. A elaboração intelectual sobre a educação,
o pensamento educativo e a pesquisa ficarão marca-
dos por essa ideologia utilitarista.
A cultura do ensino obrigatório
O conceito de ensino obrigatório serve para in-
troduzir no debate e análise do currículo uma pecu-
liaridade que marca decisivamente a função cultu-
ral dos níveis escolares compreendidos nessa etapa
educativa. A obrigatoriedade do ensino não é só um
referencial básico das políticas educativas, como
também nela se expressa toda uma filosofia pedagó-
gica que se traduz nos conteúdos do currículo.
Significado social do ensino obrigatório
A filosofia básica do ensino obrigatório é a dimi-
nuição das desigualdades de origem entre os cida-
dãos (econômicas, culturais, geográficas), pois se
estes fossem abandonados a seus próprios meios não
poderiam ter acesso por igual à escolarização, o que
em nossa sociedade seria discriminatório devido ao
valor que tem a cultura em abstrato e as validações
de certificados que as instituições escolares propor-
cionam. A educação com seu efeito socializador,
homogeneiza crenças, aspirações, valores e compor-
tamentos básicos para manter a ordem numa socie-
dade complexa.
As potencialidade e condições básicas
do currículo comum
A cultura comum, como qualquer outra idéia a
ser levada à prática, não é implantada pelo fato de
ser prescrita. A própria idéia de que exista um proje-
to cultural de conteúdos escolares comum para to-
dos não deixa de apresentar dificuldades, que vão
desde a objeção a sua própria existência até os in-
convenientes que apresenta seu plano e desenvolvi-
mento nas condições do sistema escolar. A busca de
eficácia em uma série de competências básicas e
necessárias deve aparecer claramente estabelecida
no currículo comum obrigatório. O currículo comum
pode facilitar a contínua avaliação diagnóstica e
democrática do funcionamento e dos resultados do
sistema escolar para sua permanente melhora.
A integração entre conhecimentos
O fato de que o sistema escolar tenha se criado
e expandido enquanto esteve vigente a idéia de que
o currículo deveria estar composto pelo saber par-
cializado em disciplinas, teve sua influência não só
no que se selecionou como saber essencial, mas tam-
bém nas práticas, nas estruturas organizativas e na
mentalidade dos professores/as. A possibilidade e
conveniência de inter-relacionar o saber é geralmente
aceita para orientar a configuração e prática curri-
cular no ensino fundamental, mas é conflitante no
ensino médio, quando os professores/as foram for-
mados em um conceito de cultura especializada em
compartimentos estanques. A integração do conteú-
do é uma aspiração e exigência cujo fim é a forma-
ção geral, que deve facilitar a ordenação do currícu-
lo, a política do professorado e a coordenação do
trabalho nas escolas.
A diversidade e o currículo comum:
respostas políticas, organizativas e didáticas
O problema fundamental é que, em uma socie-
dade com desigualdades, logicamente os pontos de
partida são muito diversos, daí que proporcionar o
mesmo a todos na escolaridade obrigatória não sig-
nifica promover a equidade. Os pontos de partida
desiguais de alunos/as frente ao currículo comum,
ou frente a qualquer de seus componentes, exigem
no ensino obrigatório levar em conta uma preocu-
pação compensatória para aqueles que mais neces-
sitam do ensino, pois seu capital cultural de origem
não lhes foi favorável.
152 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
O problema das diferenças sociais e psicológi-
cas dos indivíduos estabelece um desafio para a or-
ganização de todo sistema de educação, exigindo
uma reconversão de estruturas, currículos, funcio-
namento e mentalidade que veste o sistema vigente,
porque a idéia da obrigatoriedade e do currículo
comum insere-se em um sistema que não foi pensa-
do para isso, mas para responder à diferenciação
social existente.
Algumas condições do currículo e de seu
desenvolvimento no ensino obrigatório
Opção e diferenciação
Os sistemas educativos e as políticas que os re-
gem para enfrentar a heterogeneidade de interesses
e capacidades dos alunos/as optaram pela mudança
da diversificação curricular no último estágio da
obrigatoriedade, para evitar o conflito e atraso acu-
mulado de boa parte dos alunos/as quando a esco-
laridade se prolonga além do era o ensino funda-
mental. As dificuldades para que todos os estudan-
tes acompanhem o currículo comum implica que
essa etapa seja especificamente problemática para
aqueles com menor capital cultural e menos capaci-
dades intelectuais, opta-se por diferenciar conteú-
dos, disciplinas ou currículos completos para distin-
tos grupos de alunos/as como meio de evitar o aban-
dono escolar e o fracasso.
Os métodos pedagógicos e a gestão de
ritmos de aprendizagem
Os recursos metodológicos servem para respon-
der às diferenças psicológicas e culturais, pois vari-
abilidade de traços pessoais, de gênero ou proce-
dências culturais origina que cada atividade ou ta-
refa se acomode melhor a um tipo de aluno/a que
outro. Desta forma, a escolaridade obrigatória para
alunos/as social e pessoalmente heterogêneos exi-
ge variedade de atividades para dar oportunidade
a diferentes interesses, ritmos de aprendizagem e
formas de aprender.
A avaliação
A avaliação a serviço dos ideais da escolarida-
de obrigatória não tem como missão classificar,
hierarquizar, selecionar ou reprimir; não deveria
reprovar ou aprovar. Deve ser entendida como um
diagnóstico a serviço das necessidades de conhe-
cimento do aluno/a. É preciso suprimir controles
que impeçam o progresso na etapa da obrigatorie-
dade, porque todo aluno/a tem direito a chegar
até o topo da idade final ainda que não “progrida
adequadamente”. É preciso tirá-los não apenas das
regulações formais estabelecidas, mas também da
mentalidade seletiva.
Capítulo 8 – Plano do currículo, plano do
ensino: o papel dos professores/as
Aproximação ao conceito: o ensino como
plano e o plano do currículo
A atividade de planejar o currículo refere-se ao
processo de dar-lhe forma e de adequá-lo às peculi-
aridades dos níveis escolares. Desde as explicitações
de finalidade até a prática é preciso planejar as atri-
buições e as atividades com certa ordem, para que
haja continuidade entre intenções e ações. Planejar
é, pois, algo fundamental, porque, por meio do pla-
no, é como se elabora o próprio currículo.
Plano indica a confecção de um apontamento,
rascunho, croqui, esboço ou esquema que repre-
senta uma idéia, um objeto, uma ação ou sucessão
de ações, uma aspiração ou projeto que serve como
guia para ordenar a atividade e produzi-lo efetiva-
mente. O ensino tem uma intencionalidade e deve
ter uma lógica, ainda que não existam planos abso-
lutamente seguros em se possa pensar em um úni-
co caminho possível. O ensino pode ser concebi-
do como uma atividade e uma profissão de plane-
jar, situada entre o conhecer e o atuar. E, como
acontece com tudo o que se relaciona com o cur-
rículo, o planejamento corresponde a um instru-
mento para incidir na prática, o que não pode ser
visto à margem das opções possíveis, papéis que
cada agente está chamado a desempenhar. Não
existe uma fórmula universal válida para planejar
os currículos. A história da didática e as experiên-
cias realizadas por professores/as e especialistas
oferecem “exemplos” muito diversos para consi-
derar. Mais do que buscar a fórmula mágica, será
útil discutir sobre os problemas implicados e as
dimensões sobre as quais optar.
Planejar o currículo depende de sua amplitude
A concepção do plano, as possibilidades de pre-
cisá-lo ou prever a ação, as operações que se reali-
zarão estão relacionadas com as funções educativas
as quais queiram abranger. Como o ensino obrigató-
rio compreende todo um projeto educativo de soci-
alização que atenda a educação geral e integral do
cidadão/ã, é evidente que esta concepção totaliza-
dora exige a observação de aspectos também muito
diversos em seu planejamento, ao serem tão diver-
sas suas finalidades.
É importante afirmar que quanto mais comple-
xo for o currículo ou qualquer parte do mesmo,
mais problemático, difícil e indefinido será seu
possível plano.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 153
SINPEEM
Diante de que tipo de prática nos encontramos?
É prioritário levar em consideração a natureza
de qualquer realidade ou prática para entender como
e em que sentido e medida se pode prever, planejar
ou programar. Propor a análise da prática de ensino
tem sentido agora para se entender que tipo de pla-
no permite aos que operam nela.
A prática de ensino é uma atividade que existe
em certas condições, próprias do tipo de escolariza-
ção dominantes. Em alguma media o professor/a
pode decidir como será sua atuação dentro das pa-
redes da aula e um pouco menos dentro da escola,
mas os parâmetros gerais de sua profissão estão defi-
nidos antes que ele se questione como atuar, se é
que o faz. Precisamente na atividade de planejar é
que se concentram estudos que evidenciam a des-
profissionalização dos docentes, no sentido de ver
aí um exemplo de como a prática do professor/a se
limita a aplicar planos realizados fora, pelos livros-
texto, pelos materiais curriculares e pelas regulações
sobre o currículo.
A prática de ensino e o desenvolvimento do
currículo são processos indeterminados
A educação, o ensino, o currículo são processos
de natureza social que permitem ser dirigidos por
idéias e intenções, mas que não podem ser previstos
totalmente antes de serem realizados. Desde esta
posição epistemológica de origem, qualquer plano
é desencadeado por necessidade, porque não deter-
mina nunca totalmente a prática. Quanto mais com-
plexo for um objetivo pedagógico ou um conteúdo,
menos determinante pode ser o plano para regular a
prática que queira alcançá-lo.
Diferentes atribuições no plano do currículo:
âmbito em que se tomam decisões
A competência de construir um currículo não
será atribuição exclusiva dos professores/as, porque
as decisões implicadas ultrapassam a responsabili-
dade destes e, circunstancialmente, porque podem
não dispor dos instrumentos e da competência para
fazê-lo. Os âmbitos de planejamento não formam
um sistema de níveis totalmente hierarquizados nos
quais o que se faz em um deles determina de todo
o que se realiza em outro em estreita dependência.
Parece mais próprio colocá-los como âmbitos de
decisão que têm relações de interdependência en-
tre si, mas com espaços próprios de autonomia na
decisão em cada caso, e até com contradições en-
tre alguns deles.
Não é possível dispor de um esquema válido de
plano para todos os agentes que inervem na sua rea-
lização. A amplitude, a peculiaridade e a contextua-
lização das decisões em cada âmbito, assim como a
responsabilidade política, social, ética ou profissio-
nal que implicam os dilemas frente aos quais deverá
optar e as razões que deve alegar em cada caso, su-
gerem marcos de decisão distintos, mas completa-
mente independentes.
Agentes decisórios e planejadores
A divisão de competências entre diversos agen-
tes quando se planeja o currículo em um sistema
educativo é o resultado histórico de um equilíbrio
particular que se pode alterar, mas o hábito que se
criou, e continua sendo visto como normal, é que
os currículos comecem a ser configurados, desen-
volvidos e implantados partindo das decisões polí-
tico-administrativas, que os livros-texto se acomo-
dem a elas e que os professores/as atuem no final
de um processo de determinações “fazendo com
lhes é dito” ou sugerido. Os esquemas gerenciais
do currículo em geral e do plano em particular, as-
sentaram essa idéia de hierarquização e dependên-
cia que na prática fica bastante falseada. Entretan-
to, poderia se pensar em uma opção contrária, ab-
solutamente revolucionária entre nós, mas real em
outros contextos: professore/as, agências dedica-
das ao desenvolvimento do currículo e editoras de-
veriam estar dentro de processos de inovação cons-
tante, discutida e avaliada.
Alguns modelos para atuar: formas de pensar
e fazer na prática
Devido à variedade de conteúdos, de situações
nas quais se realiza, considerando as peculiarida-
des da prática educativa e a necessidade de impli-
car as escolas e os professores/as no desenvolvimento
curricular, a utilidade fundamental de qualquer mo-
delo de plano reside em que seja potencializador
da reflexão sobre a prática, o contexto em que se
realiza e os destinatários que fomenta. Foram múl-
tiplas as fórmulas para realizar esse complexo pro-
cesso: de decisões hierárquicas (Tyler e Herrick,
década de 50), passando por uma racionalidade
psicológica com ênfase nos conteúdos (Bruner, dé-
cada de 70), pelo condutismo entendido como um
processo circular sistêmico (Wheeler, década de 70)
até se chegar ao esquema globalizador do espa-
nhol César Coll (1987), entendido como um mode-
lo prescritivo que formaliza os passos a serem da-
dos na configuração do currículo.
Síntese elaborada por Edna Prado, doutora em
educação escolar pela Universidade Estadual Pau-
lista/UNESP.
154 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
STAINBACK, Susan. e STAINBACK, William.
Porto Alegre, Artmed Editora, 1999
Capítulo 20
Apoio e Estratégias de Ensino Positivas
Wade Hitzing
O texto começa apresentando a idéia de que to-
dos os educadores precisam aprender que para aten-
der às necessidades educacionais de todos os alu-
nos e especialmente daqueles com comportamento
desafiador requer que ele se posicione de maneira a
escutar e respeitar seu papel como cliente e crítico
dos programas que oferecemos.
Embora sejam registrados avanços na inclusão
de grupos minoritários e alunos com deficiências im-
portantes há uma longa história de exclusão de alu-
nos cujo comportamento é destrutivo ou perigoso.
O capítulo concentra-se nas causas desses compor-
tamentos e na aplicação desse entendimento para a
indicação de programas escolares que dêem apoio
à inclusão de todos os alunos.
Antes de tomar decisões sobre como proceder
diante de um aluno com comportamento desafiador
é importante observar como pensamos e falamos
sobre tal comportamento, pois isso pode determinar
como estruturamos ou definimos o problema; como
selecionamos os objetivos; como escolhemos os pro-
cedimentos de intervenção adequados e definimos
o sucesso da intervenção.
Quando usamos uma abordagem tradicional de
leitura e definição do comportamento desafiador,
costumamos rotular ou categorizar o indivíduo, to-
mando o comportamento como algo que deve ser
eliminado antes que se possa alcançar “objetivos”
positivos com ele. Nesta abordagem o problema está
no aluno.
A seleção de objetivos também se refere às ten-
tativas do professor de reduzir o comportamento to-
mado como inadequado.
A escolha de procedimentos sempre se ocupa de
ignorar, reforçar comportamentos adequados e punir.
O sucesso é definido como a satisfação dos ob-
jetivos para a redução ou eliminação do comporta-
mento inadequado.
Um jeito diferente de olhar o aluno com com-
portamento desafiador é tomar seu desafio como uma
comunicação de suas necessidades e desejos e mes-
mo sobre a qualidade ou adequação das estratégias
de ensino.
Um ciclo de aprendizagem pode gerar um cir-
culo vicioso de atitudes inadequadas, uma vez que
INCLUSÃO – UM GUIA PARA EDUCADORES
os alunos podem:
· Receber tarefas que não valorizam, não enten-
dem ou não sabem realizar;
· Sentirem-se confusos, zangados ou em sofri-
mento;
· Comportarem-se, então, de modo destrutivo e
perigoso diante de atividades tediosas e confusas;
Os alunos aprendem a partir de experiências e
tendem a repetir atitudes que funcionam. Em geral
atitudes desafiadoras, destrutivas e perigosas funcio-
nam imediatamente, pois o aluno escapa das tarefas
e ganha a atenção do professor.
Apesar desse comportamento resultar em retor-
no imediato, num prazo mais longo eles trazem pro-
blemas, entre os quais a exclusão e desconforto na
vida escolar.
Muitos comportamentos desafiadores, destru-
tivos e perigosos têm uma função de comunica-
ção com o professor. Algumas orientações defen-
dem a idéia do professor ignorar a mensagem até
que ela seja expressa de forma adequada. Isto não
impedirá que o processo desafiador seja refreado
e, ao contrário, reforça a idéia de que o aluno pode
adiar atividades insatisfatórias para ele como uma
tarefa, por exemplo.
Para entender as causas dos comportamentos de
um aluno, é necessário realizar uma análise funcio-
nal desse comportamento, observando o currículo
do aluno, o ambiente escolar e a maneira que esse
comportamento funciona para ele.
Reconhecer que o comportamento destrutivo tem
uma função comunicativa não significa que deva-
mos aceitá-lo e nada fazer para ajudá-lo.
O texto apresenta o exemplo de uma aluna, Ca-
thy, com um diagnóstico de retardo mental que teve
muitas dificuldades em adequar-se ao plano escolar.
Seu comportamento ficou mais difícil quando co-
meçou a vomitar sistematicamente na escola. Todas
as vezes que a menina vomitava, sua mãe era cha-
mada e ela voltava para casa. A equipe escolar e a
professora foram orientadas por um especialista a
ignorar o fato. Assim passados alguns dias, a menina
deixou de vomitar na escola. Atingiu-se o objetivo:
o comportamento foi eliminado.
O plano de comportamento, no entanto, não le-
vava em conta as questões que envolviam a aluna
para proceder daquela forma. Não levou em consi-
deração as preocupações da menina em relação ao
medo da turma, ou dela achar ou não a escola inte-
ressante. O plano não ajudou a resolver as questões
básicas que motivavam aquele comportamento.
Outro relato encontrado no texto diz respeito a
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 155
SINPEEM
um menino com deficiência mental e física que cos-
tumava agredir a si e aos outros. Mesmo com a ajuda
de uma auxiliar, a professora não conseguia que Rob-
bie se interessasse pelas tarefas escolares. Sempre que
era impelido a fazê-las, tornava-se agressivo.
Tentando entender o que acontecia com o meni-
no, nem a professora nem a auxiliar levavam em
conta que as expectativas e as propostas de progra-
mação individualizada que tinham traçado para o
aluno podiam não estar correspondendo aos inte-
resses dele.
Teria sido mais adequado ajudá-lo a entender
que a escola é um lugar onde se pode confiar nos
professores e que a sala de aula é um lugar seguro.
Além disso, apresentar o trabalho cooperativo como
uma maneira interessante, divertida e envolvente. O
comportamento de Robbie sugeria que ele não via
muita razão para cooperar.
É preciso traçar diretrizes para oferecer uma sen-
sação de segurança, confiança e cooperação em alu-
nos em situação de inclusão. O professor pode hie-
rarquizar os objetivos que pretende com seu aluno
em três níveis:
1 - Apresentar o ambiente escolar e sua presença
como seguros;
2 - Apresentar a parceria com o professor e a es-
cola como envolvente, divertida e compensadora;
3 - Apresentar a aquisição de habilidades e com-
petências e a redução de comportamentos proble-
máticos como algo benéfico.
É importante que o professor concentre-se na
segurança, na confiança, na cooperação e na edi-
ficação de um relacionamento de trabalho positi-
vo e forte.
Embora seja possível e adequado lidar simulta-
neamente com os objetivos dos dois primeiros ní-
veis, é importante distingui-los. Em alguns casos o
aluno até já conquistou uma sensação de seguran-
ça, mas, diante das tarefas escolares não consegue
dar conta de cooperar.
O professor precisa estabelecer um projeto de
trabalho que interesse e envolva os alunos estejam
ou não adequados aos padrões dos currículos tradi-
cionais.
A adoção desta abordagem não implica na de-
sistência em ajudar o aluno a mudar o comporta-
mento desafiador.
Muitos alunos, mesmo não apresentando um
comportamento desafiador, estão insatisfeitos com a
proposta escolar. Esses não utilizam, no entanto as
atitudes destrutivas como uma linguagem que atin-
ge a escola.
Estratégias de apoio devem ser utilizadas tendo
em vista o estabelecimento positivo de um vínculo
entre professor e aluno.
É preciso remover os aspectos negativos do ensi-
no levando em conta os pontos de vista do aluno.
Vários estudos demonstram que a redução das
dificuldades das tarefas escolares e a mudança da
freqüência e da forma das diretrizes do ensino po-
dem ter influência na redução dos comportamentos
destrutivos.
Para preparar um plano educacional, os pro-
fessores precisam perguntar-se se os alunos esco-
lheriam ou não realizar aquela tarefa. Sem dúvida,
nem todas as tarefas escolares serão escolhidas pe-
los alunos, mas, isto não pode ser uma desculpa para
que o professor não implemente atividades de estu-
do que interessem aos alunos.
O professor precisa remover parte das fontes de
frustrações dos programas de ensino.
Eventualmente, mesmo usando esforços para
analisar as reações dos alunos, essas não resultam
em mudanças. Nessas circunstancias o professor
pode ter que usar procedimentos de manejo do com-
portamento para reduzir diretamente o comporta-
mento desafiador do aluno. Os procedimentos dis-
ciplinares devem ser brandos, como as restrições às
atividades compensadoras.
Capitulo 21
Uma abordagem funcional para lidar com
o comportamento desafiador grave
David P. Wacker, Wendy Berg,
Jay Harding e Jennifer Asmus
Ao considerar o comportamento desafiador é ten-
tador concentrar-se na forma desse comportamento.
É comum classificá-lo como auto-flagelatório, agres-
sivo ou destrutivo.
As razões para a ocorrência de um comporta-
mento difícil são difíceis de serem identificadas.
As mudanças de comportamento que ocorrem
em diferentes contextos indicam as influências do
ambiente.
Sempre um comportamento serve a um propósi-
to e tem uma função para a criança, independente
do diagnóstico ou da sua vida doméstica.
É preciso identificar o propósito e a função do
comportamento de um aluno e quais os aconteci-
mentos ambientais que o provocam. Diante da mes-
ma situação ambiental um determinado comporta-
mento agressivo pode produzir resultados diferentes
dependendo da maneira de um professor abordá-lo.
Os efeitos de um comportamento podem ser ca-
tegorizados em três funções: conseguir eventos de-
sejados; fugir ou evitar eventos indesejáveis ou con-
seguir efeitos internos ou automáticos.
Até que se tenha identificado a função do com-
portamento problemático não se pode determinar
uma intervenção eficiente.
O propósito especifico da avaliação comporta-
156 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
mental é identificar por que o comportamento ocor-
re dentro de um determinado contexto, para que uma
intervenção adequada seja desenvolvida.
A avaliação pode ser:
· Descritiva – que identifica os momentos do dia
associados ao comportamento;
· Estrutural – que identifica eventos antecedentes
que determinam a ocasião para o comportamento e
· Funcional – que identificaa manutenção dos
eventos para o comportamento.
Quando a função do comportamento difícil é
identificada pode-se iniciar uma intervenção corres-
pondente.
Toda intervenção tem como sentido ensinar uma
nova habilidade que pode encontrar uma barreira
no próprio comportamento. Ela vai precisar de mais
tempo para ser implementada com sucesso.
É preciso de um tempo para apresentar um novo
conjunto de regras. O principal fator para o sucesso
é confiar na intervenção.
Proporcionar reforço apenas aos comportamen-
tos desejados e remover todo reforço ao comporta-
mento desafiador.
Os passos seguintes são essenciais para inter-
venções bem sucedidas:
1 - Identificar a função do comportamento desa-
fiador;
2 - Determinar de forma clara o comportamento
que será reforçado;
3 - Remover todo o esforço ao comportamento
desafiador;
4 - Proporcionar o máximo de reforço ao com-
portamento desejado.
Todas as intervenções comportamentais envol-
vem procedimentos de reforço diferenciais ou varia-
ções desses procedimentos.
Os autores propõem três opções que aumentam
os procedimentos de reforço:
· Treinamento da comunicação funcional
· Procedimentos de intercalação de tarefas
· Realização de escolhas
O TCF é o primeiro passo na intervenção efici-
ente para substituir o comportamento desafiador por
um mand (resposta de comunicação) alternativo.
Quanto mais tempo for suprimido o comporta-
mento difícil, maior a probabilidade de se fazer exi-
gências maiores ao aluno.
Com relação ao comportamento de manutenção
de atenção, usar uma abordagem de adiamento.
Comunicar ao aluno que vai atendê-lo e adiar por
um tempo pequeno no início.
O procedimento de intercalação de tarefas é útil
quando o comportamento desafiador é usado para
adiar as tarefas.
É importante que as crianças persistam diante das
diferentes tarefas propostas ofertadas por professo-
res e pais.
Deve-se usar o procedimento de ofertar tarefas
curtas e familiares às crianças. Assim, a criança con-
segue experimentar o sucesso.
Algumas tarefas consideradas desagradáveis pe-
las crianças podem ser intercaladas por tarefas mais
divertidas. Trata-se de ofertar uma variação da tarefa.
Começar com uma tarefa de alta probabilidade
e intercalar uma tarefa original de baixa probabili-
dade.
Um programa de realização de escolhas é uma
boa opção para os alunos que mantêm o comporta-
mento difícil. Em primeiro lugar é preciso identificar
o que é preferido e reforçador para o aluno.
Neste caso a proposta é possibilitar que o aluno
faça uma escolha das atividades preferidas. Isto ces-
sa as reações agressivas.
É importante que a criança possa exibir o com-
portamento adquirido em várias outras tarefas.
A maioria das pessoas, com ou sem deficiência
no desenvolvimento precisa de uma certa quantida-
de de instrução direta quando está diante de novas
versões de uma tarefa.
Ensinar a generalização às crianças cujo com-
portamento é desafiador deve variar de alguma for-
ma, como, por exemplo, solicitar atenção em situa-
ções individuais, em grupos e com brincadeiras não
estruturadas.
É importante que o aluno possa discriminar situ-
ações de uso de determinadas aprendizagens. A ge-
neralização da resposta aumenta a freqüência de
outros comportamentos socialmente aceitáveis,
como, por exemplo, uso de sinais para conseguir
atenção.
A síntese do capítulo compreende:
1 - Identificação da função do comportamento
desafiador ou seu reforço;
2 - Reforço para o comportamento desejado;
3 - Treino de situações novas para produzir ge-
neralizações do estímulo;
4 - Tirar vantagem das oportunidades de ensino
para reforçar comportamentos novos que substitu-
em comportamentos desafiadores.
Capítulo 22
Estruturando a sala de aula para evitar
comportamentos inadaptados
W. Stainback e S. Stainback
O capitulo prevê a estruturação da sala de aula
para evitar a ocorrência de problemas disciplinares.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 157
SINPEEM
O professor precisa ter consciência do que real-
mente acontece em sala de aula. Uma das formas é
manter o controle visual dos alunos.
É preciso cuidar também dos espaços em sala
para a circulação e o trabalho.
Uma questão importante é o controle do tempo
em que o aluno persiste na atividade.
O tempo na tarefa inclui o tempo de envolvimen-
to tanto em tarefas acadêmicas quanto nas áreas de
interação social.
É preciso fazer com que os alunos responsabili-
zem-se pelas atividades de aprendizagem.
O professor precisa escolher cuidadosamente os
métodos usados para ensinar seus alunos.
Quando uma demanda é ambígua os alunos po-
dem entrar em contato com algum tipo de frustração
e conseqüentemente envolver-se em comportamen-
tos inaceitáveis.
Os alunos precisam saber o que os professores
querem dele. Precisam experimentar o sucesso.
Esse tipo de envolvimento do aluno pode ser um
fator preponderante na prevenção de problemas
disciplinares.
O papel do professor é muito importante para
envolver os alunos de forma ativa. Ele deve propor-
cionar retorno e reconhecimento às realizações de
forma imediata.
As práticas de agrupamento em uma turma po-
dem influir no comportamento.
É preciso organizar as atividades em grupo de
modo cooperativo.
As expectativas e os planos de sucesso mais do
que os de fracasso, podem ajudar e estimular atitu-
des positivas nos alunos em relação a seu próprio
comportamento e ao comportamento dos colegas.
Os alunos gostam de estar com professores posi-
tivos e satisfeitos.
O professor precisa reconhecer os comportamen-
tos adequados e as realizações.
O autoconceito dos alunos pode ser melhora-
do se os professores indicarem a importância de
seus alunos.
É importante comunicar a expectativa de hábi-
tos de trabalho produtivos, usando, por exemplo,
modelos.
É preciso também trabalhar a autonomia dos alu-
nos e apresentar a rotina de modo explícito. O pro-
fessor deve atrair pouca atenção para os comporta-
mentos inadequados e muita atenção para os com-
portamentos adequados.
Resumido por Maria Eugenia Capraro de Toledo,
especialista em tratamento e escolarização de crian-
ças com distúrbios globais do desenvolvimento,
Orientadora Educacional e Consultora em Educação
Inclusiva.
TAILLE, Yves de La. Artigo publicado em
AQUINO, J.G. Erro e fracasso na escola:
alternativas teóricas e práticas -
São Paulo, Summus, 1997
Analisar o erro é uma boa oportunidade para re-
ver a teoria de Piaget, que redimensionou essa ques-
tão sob diferentes ângulos. Nesse sentido, o objetivo
desse texto é fazer uma análise pedagógica do erro,
que não caia nem em sua condenação, nem no opos-
to, sua sacralização.
O conhecimento como interpretação
Um dos conceitos mais importantes da teoria
piagetiana é a assimilação, que na biologia significa
“converter em substância própria”. Esse conceito
deve ser empregado, segundo Piaget, para toda e
qualquer forma de interação entre um organismo e
seu meio. Nesse sentido o exercício da inteligência
traduz-se pela incorporação de elementos do meio.
O ERRO NA PERSPECTIVA PIAGETIANA
Tal incorporação é determinada pela organização
da inteligência. Assim, o ato de conhecer é um ato
de interpretação, já que significa assimilar o objeto
à organização de que a inteligência é dotada, ou
seja, conhecer é conferir sentido, é fruto de um tra-
balho ativo de assimilação. Como exemplo pode-
mos observar a inteligência infantil. As representa-
ções que as crianças têm do mundo não são meras
cópias do real, mas uma interpretação própria, uma
forma singular de tratar as informações recolhidas
do meio. Dessa forma, a qualidade das interpreta-
ções depende dos diversos níveis de estruturação
da inteligência.
Há duas implicações pedagógicas decorrentes
dessa compreensão sobre a inteligência e o erro. Pri-
meiramente é necessário definir o que é erro. Os er-
ros infantis podem ser visto de duas formas: uma
negativa e uma positiva. A forma negativa mostra-se
pela diferença existente entre o conhecimento cor-
reto e incorreto. A forma positiva diz respeito ao tes-
temunho que são da atividade da inteligência infan-
158 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
til, ou seja, significam que a criança está pensando.
Algumas ponderações pedagógicas fazem-se ne-
cessárias. Primeiro, a condenação sumária do erro
não permite avaliar sua qualidade intrínseca, ou seja,
sua relação com os processos de assimilação. Como
decorrência, há um desrespeito à inteligência infan-
til, um menosprezo pela fala das crianças, que pode
levá-las a abandonar seus esforços espontâneos de
reflexão. Segundo, nem sempre é fácil avaliar a qua-
lidade do erro. Dessa forma, é preciso saber como
se organiza a inteligência, seus níveis de estrutura-
ção e como as crianças superam seus erros.
O conhecimento como construção
Para Piaget, a evolução da inteligência é fruto
da interação do sujeito como o meio. Nesse senti-
do, todo construtivismo é necessariamente intera-
cionista.
Além da assimilação, outro conceito piagetiano
fundamental é a acomodação, que é a modificação
dos esquemas de assimilação em função das parti-
cularidades do objeto assimilado. O binômio assi-
milação-acomodação é fundamental para compre-
ender outro conceito fundamental da obra piagetia-
na, a equilibração.
Para Piaget, uma das fontes de progressos no
desenvolvimento é o desequilíbrio. A busca de equi-
líbrio e a superação de conflitos cognitivos explica,
em parte, a evolução da inteligência. Mas, para que
haja conflito, é necessário que o sujeito perceba que
suas formas de assimilação não são suficientes para
o que pretende resolver ou fazer. Nesse sentido, a
educação deve promover conflitos cognitivos.
Outro conceito de Piaget é a regulação, que ex-
plica o processo de evolução da equilibração. Na
regulação há uma retomada de uma ação que modi-
fica seus resultados. Se a retomada desta ação tiver
o resultado esperado, a ação continua a mesma. Se
não tiver, o sujeito busca corrigir a ação. Nesse últi-
mo caso, há uma situação de conflito, chamada de
perturbação, ou seja, aquilo que faz obstáculo à as-
similação. Para Piaget, a evolução da inteligência
tem como fonte essencial as regulações advindas de
situações perturbadoras. Nesse sentido, o erro tem
papel fundamental.
Algumas ponderações pedagógicas são importan-
tes: 1) o erro deve ser observável para o aluno, que
deve ter acesso à qualidade de seu erro; 2) a obser-
vação do erro não depende apenas da organização
da tarefa, mas também do nível de desenvolvimento
do sujeito; 3) o erro tem grande valor no processo de
aprendizagem e desenvolvimento, mas o objetivo da
educação é o acerto.
Conhecimento e socialização
O ser humano é essencialmente social. Mas esse
ser social não é social da mesma maneira em todas
as fases do seu desenvolvimento, há qualidades di-
ferentes da interação entre os sujeitos, que são de-
terminadas pelas progressivas construções de estru-
turas mentais.
Há duas formas de interações sociais: coação e
cooperação. A relação de coação é unilateral, al-
guém impõe seu pensamente ou ordens aos outros.
Já na relação de cooperação há reciprocidade. Para
Piaget, as relações criança-criança facilitam a coo-
peração. Relações de cooperação favorecem a inte-
ligência, pois nestas o erro não só é explicitado, como
são apontadas suas causas.
Conhecimento e motivação
Somente há atividade se há motivação, ou seja,
se há desequilíbrio do sujeito em relação a si mes-
mo ou em relação ao seu meio. Nesse sentido, para
complementar a análise do lugar do erro no desen-
volvimento, deve-se fazer um exame da dimensão
afetiva do homem.
Sobre essa temática, duas afirmações são im-
portantes:
1) Nossos desejos não são sempre sábios. No
caso das crianças, uma das tarefas educativas é
fazer com que cultivem sua afetividade e ampli-
em seu campo de conhecimentos;
2) Não se deve limitar o aspecto afetivo à di-
mensão do puro prazer. Aprender pode e deve ser
mais amplo que um prazer lúdico.
Síntese elaborada por Flavia da Silva Ferreira As-
bahr, doutoranda do programa de Psicologia da USP .
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 159
SINPEEM
TEBEROSKY, Ana et al.
Porto Alegre, Artmed, 2003
Os autores discutem assuntos da atualidade, ofe-
recendo normas e exemplos a respeito da compre-
ensão da leitura. O resumo obedece à ordem dos
capítulos.
1 - Ler, leitura, compreensão: temos falado
sempre do mesmo?
Isabel Sole Gallart
Olhando o passado: quem, o que e como se lia
A leitura não é mera habilidade, e sim modo de
elaborar significado, varia de uma cultura para ou-
tra, entretanto, deveria ser possível desenvolver uma
maneira de estudar suas mudanças dentro de uma
mesma cultura. No passado, a leitura era, um exer-
cício espiritual, exercício transcendente e não ins-
trumental e/ou de fruição e isso gerava conseqüên-
cias na leitura. As crianças aprendiam a ler orações
em latim, portanto não era de compreensão que se
tratava. A leitura passou de intensiva, na idade Mé-
dia, (ler poucos livros, em grupo e de caráter sagra-
do) à extensiva a partir de 1800, (textos variados,
leitura rápida, silenciosa e individual). A leitura ex-
tensiva foi fruto de novas idéias sobre a natureza
do ser humano e cultura, assim como a abundân-
cia de materiais. Isto teve implicações importan-
tes na leitura e no leitor. A finalidade de conhecer,
informar-se leva a interpretar mais do que reve-
renciar. Ler de forma crítica, valorizando, ou não, a
informação e a investigação sistemática, da leitura
é invenção recente.
A investigação da leitura e sua aprendizagem:
alguns dados
Controvérsias sobre como se dá a leitura, se de
forma global ou por letras datam de 1886. Os traba-
lhos sobre a organização da memória e a importân-
cia do conhecimento, Bartlett (1932) influenciaram
as concepções atuais sobre o processamento de in-
formação, embora a idéia de decodificação não te-
nha de todo desaparecido. De forma geral, há con-
senso aproximando a leitura de três modelos genéri-
cos: bottom-up (leitura das unidades para o todo);
top-douwn (do todo para as partes) e interactiva (in-
tegra e transcende os modelos anteriores). As pro-
COMPREENSÃO DA LEITURA:
A LÍNGUA COMO PROCEDIMENTO
postas resultantes são importantes porque a forma
como se aprende está ligada à forma como se dá a
leitura. Nossa concepção atual aproxima-se da inte-
ractiva. Existe ainda a polêmica se compreensão é
uma habilidade básica ou uma série de sub-habili-
dades. Há propostas que se inspiram no modelo pro-
cedimento/produto (como receitas), nessa forma, ele-
mentos da singularidade do leitor não são levados
em conta. De modo geral, dá-se mais importância
ao ensino da leitura do que a auto interrogar-se so-
bre o que melhora sua compreensão. Diante de um
texto, o leitor compreende os propósitos da leitura?
Qual conhecimento prévio o texto demanda?
Para ler, muitas estratégias são postas em prá-
tica, o importante é que o aluno alcance cada vez
mais autonomia, dirija e regule sua própria apren-
dizagem.
O que sabemos e o que fazemos
Ler é uma atividade cognitiva complexa e que
posiciona o leitor diante do texto. Mudaram as for-
mas de ensinar leitura? O que sabemos sobre a lei-
tura modifica seu ensino? É preciso que o ensino
da leitura seja repensado em uma tripla dimensão:
como objetivo de conhecimento em si, como ins-
trumento de conhecimento e como forma de pra-
zer e fruição. De forma geral, complica-se muito a
vida dos estudantes. Há maneiras mais fáceis de
ensinar a ler: ensinado a ler com objetivos diferen-
tes, com consciência do que fazem e com propos-
tas que façam sentido.
2 - ESTRATÉGIA DE LEITURA E COMPREENSÃO
DE TEXTO NO ENSINO OBRIGATÓRIO
Joan Serra Capallera, Charles Oller Barnada
As estratégias utilizadas para ler regulam a pró-
pria leitura e demandam objetivos, avaliação de
resultado e modificação pertinentes. Essas estraté-
gias podem ser objeto de investigação e aplicação
no processo ensino-aprendizagem desde que re-
sultem em maior compreensão. Para tanto, é pre-
ciso estar alerta para: os conteúdos conceptuais
implícitos que são trabalhados; o seu grau de per-
tinência em sala, a clareza de objetivos, a finali-
dade das tarefas e as características do texto para
que a leitura resulte autônoma.
160 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
Aproximação a alguma das principais
estratégias do ensino da leitura
A aprendizagem de habilidades para leitura deve
objetivar a autonomia. Se favorecermos, ao aluno, a
compreensão dos micro processos envolvidos na
leitura, permitimos que ele reconheça sua dificulda-
des e formas de se auto-regular, para tal são neces-
sárias estratégias:
Objetivos: decodificar com fluidez; reler, utili-
zar elementos de ajuda externa para a compreen-
são léxica; avaliar a consistência interna do con-
teúdo que o texto expressa e sua correspondência
com os conhecimentos prévios; distinguir o que fun-
damental daquilo que é pouco relevante; construir
significado global; elaborar e fazer inferências; ter
uma estratégia estrutural e atenção concentrada;
conhecer os objetivos da leitura; ativar os conheci-
mentos prévios pertinentes; avaliar e controlar se
está havendo compreensão e auto-regular a leitura
partindo da revisão da própria atividade ou da re-
capitulação do que foi lido; relacionar conhecimen-
tos prévios com a informação do texto; avaliar e
integrar a nova informação
Estratégia de leitura e processo de
ensino-aprendizagem
As estratégias para ler ocorrem enquanto exerce-
mos a leitura. As características gráficas, lingüísticas e
de conteúdo de um texto determinam a ativação das
estratégias que forem pertinentes a ele. Assim, tanto
as características estruturais como aquelas de conteú-
do e objetivo, condicionam a sua compreensão e de-
termina como e quando ensinar estratégias de leitura.
O tratamento complementar da leitura em aula:
A importância da leitura é incontestável e nos últi-
mos anos têm surgido inúmeros tratados e metodo-
logias sobre seu ensino. Entretanto é preciso reco-
nhecer que trabalha-se com a leitura, em outras áre-
as que não a do ensino do idioma, assumindo que o
aluno tem destreza de leitura. É preciso que convo-
car os professores para o tratamento que a leitura
deve ter em todas as áreas.
Como conseguir isso? Objetivo: Não se trata de
denúncia ou acusação e sim de propor ações con-
cretas. A leitura é base fundamental de toda e qual-
quer aprendizagem e os professores têm buscados
caminhos. Se no ensino do idioma o objetivo priori-
tário é desenvolver a leitura, em matemática, por
exemplo, isso não é encarado como tão importante.
Tratamento didático
A leitura pode aparecer, no processo didático, de acordo com seguinte quadro:
Leitura investigativa: é preciso que o aluno te-
nha claro o que busca, que se estabeleça quais são
os conhecimentos prévios necessários, que se deli-
mite um caminho através de referências, e por fim,
que se propicie oportunidade para o aluno apresen-
tar suas conclusões.
Leitura aprendizagem: favorecer a compreensão
Tipo de leitura Antes Durante Depois
Investigação Classificar objetivo;
relacionar conhecimentos.
Assinala a linha de busca
e investigação
Apresentação esmerada
Representação;
esquema
Aplicação em
atividades
Aprendizagem Preparação: termos e idéias;
apresentação: motivação;
conhecimentos prévios.
Leitura compartilhada
Comentário do grupo
Espontânea Estímulo;
conhecimentos prévios.
Incorporação de conteúdos Deleite pessoal
Resolutiva Centrar atenção;
despertar interesses.
Determinar problema
Identificar índices de leitura
Organizar relações
Planificar a resolução
dos termos difíceis, extrair e classificar as idéias do
texto, estruturado-as organizadamente. Motivar, sen-
sibilizando o aluno para o tema, criar momentos de
leitura compartilhada, discutir quais os novos conhe-
cimentos obtidos pela leitura. Criar meios de repre-
sentação do que foi lido (esquemas, gráficos,
símbolos),avaliar os resultados obtidos da leitura.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 161
SINPEEM
sagrados e reescrever tem como objetivo a memori-
zação da história e apropriação das particularidades
da linguagem do livro.
Leitura na educação infantil? Sim, obrigada
Isabel Sole Gallart
Aprender a ler é distinto de aprender outros pro-
cedimentos escolares. Requer que o aluno atribua
sentido, conte com recursos cognitivos suficientes e
tenha a ajuda, insubstituível, de pessoas em que con-
fie. É um processo no qual intervêm experiências,
motivação e conhecimento, que começa em momen-
tos distintos para cada um e não tem fim.
Cuidado com a leitura!
Há muitas idéias que circulam a respeito do ato
de leitura tais como a necessidade de pré-requisitos,
maturidade e que a aprendizagem depende da cor-
respondência som/letra ou som/palavra global. Es-
sas idéias acabam por retardar a relação das crian-
ças com a leitura e a criar a prática de atividade de
pré-leitura, cuja vinculação com o ato de ler, de fato,
são impossíveis de provar. A resistência de ensinar a
leitura nas primeiras etapas da escolaridade também
está calcadas na idéia dela ser somente um processo
de tradução de códigos.
Leitura sem medo
Há razões suficientes para situar a leitura na edu-
cação infantil, sem medo. Oferecer leitura às crian-
ças na educação infantil não é certamente cercá-los
de regras de decodificação, mas sim proporcionar-
lhes experiências divertidas e gratificantes com algo
que eles, de uma forma ou de outra, já conhecem.
Sabe-se que quando algo tem significado para a
criança, ela se mobilizará para apropriar-se daquilo
que há no universo cultural que a cerca. A interven-
ção do professor pode favorecer essa apropriação,
usando de estratégias que permitam seu crescente
domínio já que não há um caminho único para cons-
truir noções de leitura.
Ler na educação infantil: a leitura tem lugar na
educação infantil, desde que se adotem decisões com
relação a isso.
A leitura na classe: mesmo reconhecendo que a
o sistema da língua escrita é complexo, não há por-
que menosprezar a capacidade das crianças para
deduzi-lo. Aprende-se a ler vendo outras pessoas
lendo, tentado ler, acertando, errando. A criança faz
tentativas de desenhar e escrever e isso pode ser ex-
tensível também à leitura. A educação infantil é um
contexto excelente para o uso funcional da leitura e,
para isso, é necessário aproveitar o interesse das cri-
Leitura espontânea: algumas crianças tomam
contato com textos por curiosidade ou casualmente.
Cabe ao professor abrir o espírito do aluno a novas
descobertas dotando a leitura de maior grau de afe-
tividade.
Leitura resolutiva é aquela que carrega alguma
situação problema. Para tal é preciso favorecer a
concentração do aluno, orientar a compreensão e
planejamento de soluções. Para que qualquer leitu-
ra tenha êxito é preciso o sujeito se disponha a ela,
mantenha uma atitude interativa com o texto e sa-
boreie os resultados de sua atividade.
4 - EDUCAÇÃO INFANTIL:
A iniciação no mundo da escrita
Ana Teberosky
Algumas das maiores inovações, no que diz res-
peito à aprendizagem da escrita, foram influencia-
das pelas investigações psicolingüísticas. Embora
investigação e prática sejam diferentes, esse artigo
tem intenção de propor a organização de atividades
didáticas, úteis e realizáveis, e que sejam justifica-
das psicologicamente. Ultimamente têm-se destaca-
do a importância da escrita como função social, in-
corporando ao estudo de textos literários, textos "re-
ais", que circulam socialmente. Selecionamos duas
funções: a escrita funcional e a escrita ficcional e
também dois tipos de escrita: a escrita do mundo
urbano e a escrita documental. Para que a criança
crie autonomia em relação à escrita, os objetivos
seguem a seguinte progressão: fazer a criança entrar
no mundo da escrita: fazer a escrita entrar na classe,
usar diversos suportes da escrita, iniciá-la na produ-
ção de textos funcionais, fazer a criança conviver
com um leitor e iniciá-la na produção de textos.
Fazer a criança entrar no mundo da escrita:
Exemplo de proposta. Estudar, com um grupo de cri-
anças (5-6 anos), os materiais escritos de um bairro.
Objetivos: Guiar as crianças para planejarem a
ação de encontrar um ponto determinado no bairro,
ajudá-las a observar e registrar, copiando, os escri-
tos encontrados. Na segunda etapa, analisar as có-
pias realizadas, comparando-as com os textos mo-
delos. O professor atua como guia e modelo de pla-
nejamento da atividade.
Fazer a criança conviver com leitores: exemplo
de proposta: leitura diária de textos da leitura uni-
versal (Tristão e Isolda, Robin Hood, As mil e um
noites, etc.). A criação, pelas crianças, do Livro das
versões, no qual podiam desenhar ou reescrever as
histórias ouvidas.
Objetivos: criar ambiente de imersão na leitura,
criar ações, expressões e atitudes de leitura, através
do modelo da professora como leitora. Trabalhar o
gênero (novela narrada), aproximar-se de textos con-
162 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
anças, ler contos, valorizar tentativas de leitura, fo-
mentar conhecimentos a respeito dela, aproveitar o
reconhecimento global de algumas palavras e letras
privilegiadas (o próprio nome, o nome de produtos
conhecidos, etc.). Também é importante aproveitar
as perguntas das crianças a respeito do sistema e usar
estratégias de atividades nas quais ler tenha sentido.
A leitura e os pais: as relações entre crianças, fa-
mília e escola são, na educação infantil, mais estrei-
tas que em outras etapas. Em alguns países, a esco-
la envolve os pais em atividades de leituras com
seus filhos. Os pais oferecem um modelo de leitor
à criança e às vezes basta sugerir que leiam para
eles. Os professores precisariam encontrar formas de
implicar os pais para que colaborem nesse sentido.
Ler como algo central: Propõe-se seriamente o
ensino da leitura na educação infantil e as propostas
e decisões em torno disso devem fazer parte do pro-
jeto pedagógico. Na educação infantil, a leitura tem
um lugar muito definido e amplo. Não se trata de
acelerar nada, nem substituir etapas com relação ao
conteúdo, "trata-se apenas de tornar natural o ensi-
no e a aprendizagem de algo que coexiste com as
crianças, que lhes interessa e que se encontra pre-
sente em sua vida e na nossa e que não há sentido
algum em ignorar".
6 - FORMAR CRIANÇAS LEITORAS/
PRODUTORAS DE TEXTOS: proposta de uma
problemática didática integrada
Josette Jolibert
A problemática geral é uma proposta didática
integrada, globalizante, que abarca aprender a ler e
produzir textos, desde a educação infantil até o tér-
mino do ensino básico.
Aprender a ler é aprender a interrogar textos
completos desde o início: ou seja, texto entendido
como superestrutura completa que funciona em si-
tuações reais de uso. Não oferecer textos completos
às crianças prejudica seu desenvolvimento.
Ler é interrogar um texto, ou seja, construir ati-
vamente um significado, em função de suas ne-
cessidade e projeto a partir de diferenças chaves e
estratégias pertinentes articuladas. Isso não signi-
fica trabalhar com questões de interpretação de
texto, mas sim que a criança interroga o texto para
formar significado.
Toda a aprendizagem é processo de autocons-
trução da estruturação de uma unidade completa
desde o início, portanto deve-se proporcionar às
crianças, desde os dois anos, a possibilidade de in-
terrogar o texto.
Não se pode separa aprender a ler, de aprender
a produzir. Aprende-se a ler produzindo texto e se
aprende a produzir textos lendo, porque são proble-
máticas simétricas e dialéticas.
Há competências lingüísticas comuns utilizadas
tanto para aprender a ler como para produzir textos
que permitem traduzir intenções em marcas lingüís-
ticas características.
Há setes níveis de competências lingüísticas que
podem servir para o professor conceber suas ativi-
dades, são elas: 1 - noção de contexto situacional
(como o texto chega ao leitor); contexto (de onde
vem o texto). 2 - principais parâmetros da situação
comunicativa (quem e para quem foi escrito e com
qual objetivo). 3 - Tipo de texto (como circula soci-
almente). 4 - superestrutura que se manifesta em for-
ma de organização espacial e lógica dos blocos tex-
tuais, o esquema narrativo e a dinâmica interna. 5 -
Lingüística textual opções de enunciado e suas mar-
cas, os substitutos e conectivos, as redes de signifi-
cado. 6 - Lingüística da frase, sintaxe (marcas), vo-
cabulário, ortografia e pontuação da frase. 7 - As pa-
lavras e as microestruturas que as constituem, grafe-
mas, microestruturas sintáticas, microestruturas se-
mânticas.
Essa marcar lingüísticas servem ao leitor, como
pegadas e instalam nos textos os setes níveis de ope-
ração e a utilização dela, como informações, para
construir significado.
Como criar as condições permitindo uma
auto-aprendizagem ativa?
Organizando, na classe, uma vida cooperativa e
pedagógica de projetos e articulando um sistema
estratégico com três tipos de atividades: A - situa-
ções de vida múltipla, desfrutando o ler e produzir;
B - módulos de aprendizagem para que as crianças
aprender a enfrentar cada tipo de texto, C - Ativida-
de de entretenimento e reforço, enfocados e eleitos
singularmente pelos alunos. A elaboração, com os
alunos, de instrumentos e conceitualização e de cri-
térios de auto-avaliação objetivam construção de
competências do leitor, ou seja, suas estratégias.
Um novo rol docente com concepções distintas,
tais como criar condições para a regulação de uma
vida cooperativa, um ambiente estimulante e uma
atitude positiva de estímulo.
Conclusões: superar a querela dos modelos:
pressupõe-se uma concepção holística na qual cada
criança aprende em sua relação com o texto. Levar
a sério a decodificação, mas não com prática impo-
sitiva e de memorização e sim pelo desenvolvimen-
to dos sete níveis lingüísticos. Os modelos que há
hoje, no campo da aprendizagem de leitura, não são
didáticos, mas sim modelos importados que se ela-
boram dentro de outro campo, aquela da psicologia
da aprendizagem e da psicolingüística, confundin-
do investigação dessas ciências com a didática.
É urgente constituir e desenvolver a didática com
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 163
SINPEEM
uma de investigação científica com postulados pró-
prios: 1 - A didática se refere à aprendizagem em
sala de aula e à intervenção dos professores. 2 - Re-
quer uma investigação por equipe que englobe os
diversos profissionais de educação. 3 - O objetivo
da investigação didática integra a problemática a
partir do ponto de vista da aula, com as fontes teóri-
cas. 4 - Os destinatários das investigações são os pro-
fessores que intervêm na sala de aula. 5 - Os postu-
lados acima podem ajudar a desenhar a formação
de professores mais eficazes e criar eixos para novas
investigações.
EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL
Seis leitores em busca de um texto
Liliana Tolchinsky, Mabel Pipkin
Existem diferentes tipos de texto e há diferentes
modos de ler. Esses modos resultam de propósitos e
cumprem funções diversas.
Como foi a atividade pensada: desenvolveu-se
em escola em zona urbana marginal de uma peque-
na cidade (da Argentina) com as crianças que ti-
nham pouco acesso a textos, fora de escola. O
professor propôs uma situação de leitura na qual
todas as crianças tinham o texto e algumas tinham
um papel a cumprir: o detetive (interrompendo a lei-
tura quando do surgimento de palavra que não en-
tendesse), o questionador (perguntando sobre dados
que faltavam para entender o texto), o redator (que
resumiria todo o texto no final), o sábio (relacionan-
do o texto com outras informações) e o adivinho (que
deveria descobrir qual era o final da história).
Os antecedentes dessa atividade: A valorização
da leitura compartilhada entre alunos e professores
que alternam a posição (ensino recíproco de Bro-
wn). A leitura seguiu quatro estratégias fundamen-
tais: o resumo, as questões, questionamento pessoal
e previsão.
O sentido da atividade reside na possibilidade
de retornar ao texto, efetuando operações distintas.
Isto rompe a linearidade da leitura, acessando diver-
sos planos do texto literário. Há ato de apropriação
do sentido e confronto de opiniões. Além disso, pro-
move formas de organizar a comunicação ultrapas-
sando a da posição estabelecida professor/aluno.
Os textos eleitos foram livros que foram escritos
para serem lidos, interpretados, criticados e não aque-
les escritos para, supostamente, aprender a ler.
Importância do suporte material: o livro verda-
deiro, permite a exploração física do suporte, a qua-
lidade da impressão, dos desenhos, etc.
A atividade tal como foi realizada: Foram for-
mados cinco grupos, com crianças de seis anos em
níveis diferentes de competência de leitura. A cada
sessão, as funções dos alunos eram sorteadas. Nas
primeiras sessões a participação do coordenador era
muito mais ativa que a do grupo, entretanto com o
passar do tempo os alunos passaram a atuar e en-
volver-se mais.
Para que serviu essa situação?
A compreensão de textos é processo interativo e
de inferência que requer a construção de modelo
mental do significado do texto. O leitor constrói
marcos interpretativos para completar o que lê, por-
que nunca tudo está explícito no texto. Essa situa-
ção permitiu que se construíssem, de forma colabo-
rativa, as distintas marcas de ler textos literários.
A vivência da tarefa por parte dos professores e
dos alunos: Na medida em que as crianças adquiri-
ram confiança com a indagação ativa dos textos,
expressaram alegria na tarefa. As professoras afirma-
ram que a experiência as havia inspirado para novas
formas de trabalho.
Dúvidas e aprendizagens: Em muitos momentos,
a impressão era de que os alunos haviam passado
por uma "terapia intensiva", os resultados forma evi-
dentes nos alunos e professores.
Variações sobre a mesma atividade: a função de
leitor pode ser preparada especialmente para crian-
ças com dificuldade de leitura; os alunos podem
participar da seleção dos textos visitando bibliote-
cas ou livrarias; um dos alunos pode registrar por
escrito o resumo de cada sessão para ser lido na se-
guinte; podem ser definidas mais funções para os
alunos; cada grupo pode registrar suas próprias im-
pressões, para outras atividades de produção de tex-
to e pode ser realizada só com professores, para que
vivenciem sua própria posição de leitores
8 - Recantos para aprender a ler
Rosa Gil e Maria Soliva
Como local para aprender a ler não se entende
apenas como a prática de organizar espaços para
a atividade em sala de aula, e sim como uma ex-
periência didática sobre espaços para leitura. Esses
espaços formam parte de um modelo organizador,
baseado na autonomia do aluno, no trabalho coo-
perativo e na intervenção pedagógica ajustada à con-
cepção construtivista da aprendizagem.
Aprender a ler: há inúmeros modelos e métodos
para ensinar a ler, oriundos de distintas correntes
pedagógicas e psicológicas, e em geral realizam prá-
ticas aplicadas com excessiva rigidez, controle do
processo didático, a partir da perspectiva do méto-
do. Parte-se do princípio que aprende a ler é apren-
der a compreender o que está escrito e que isso vai
além do domínio das habilidades de decodificação.
Implica o conhecimento e uso de estratégias para
164 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
leitura. O professor, enquanto modelo de leitor para
os alunos pode ensinar a diversidade de estratégias
que podem ser utilizadas para construir o significa-
do de um texto.
Por que recantos de leitura?
Para aprender a ler, como as outras aprendiza-
gens, cada aluno segue seu próprio caminho e ritmo
e os recantos de leitura permitem um ensino que se
ajuste aos distintos ritmos.
Um tempo e um espaço para observar o
conhecimento de cada criança
Organizar um recanto de leitura na sala, pres-
supõe um espaço físico e temporal observando o
que cada aluno sabe e que, muitas vezes, o profes-
sor nem suspeita.
Atender a diversidade, fomentar a cooperação:
Nos recantos se reúnem vinte e duas crianças do
primeiro ciclo, de anos diferentes, reunindo assim
leitores mais avançados servindo de modelos e aju-
dando aqueles que estavam no início do processo.
Trabalhando juntos a mesma tarefa (buscar respos-
tas, ordenar textos, etc.) gera-se o trabalho coopera-
tivo e o professor pode atender melhor a quem ne-
cessita de sua ajuda.
Um tempo e espaço para desenvolvimento da
autonomia: Nos recantos os alunos decidem aonde
e com quais materiais querem trabalhar. Sendo pro-
tagonistas dos próprios trabalhos as crianças se con-
centram para as tarefas e voltam satisfeitos para a
própria sala.
A possibilidade de um acompanhamento indivi-
dualizado e de uma intervenção pedagógica mais
ajustada ao processo individual de aprendizagem.
Nos recantos de leitura é possível observar o com-
portamento da criança individualmente, se ela se
aventura, se cria hipóteses. Observa-se, também, que
cada criança tem um estilo de abordar as tarefas e
isso permite que se compreenda melhor de que for-
ma interferir.
Recantos de leitura: biblioteca e oficina
A organização dos cinco espaços mobiliza um
total de cem alunos, com quatro tutoras, a professo-
ra de reforço e a professora de educação especial.
Cada um é responsável por um dos cinco espaços.
Os critérios de organização são: a diversidade de
nível de conhecimento, a mescla de meninos e me-
ninas, diversidade de sala e ano de origem.
Tempo e espaço: A atividade tem a duração de
uma hora e meia diariamente, os recantos estão
distribuídos em 5 salas de aula, cada sala tem três
espaços.
Áreas curriculares e conteúdos: As áreas traba-
lhadas são Matemática e a Língua, através de: lei-
tura e reflexão sobre o idioma, escrita, números e
cálculos estatísticos, problemas geometria e medi-
da, língua oral. Há um plano semanal para orientar
os alunos.
Um recanto para tornar-se íntimo da leitura:
biblioteca. Nela se dão situações de leitura autôno-
ma, de acordo com as estratégias de cada aluno,
além da potencialização do gosto pela leitura já que
os alunos encontram livros, revistas e textos de sua
preferência.
Um espaço para jogar compondo e decompon-
do textos: a oficina: o objetivo é que, através da
manipulação de materiais diversos, os alunos cons-
tatem que significado do texto varia de acordo com
seus elementos. Compara-se com os alunos, essa
oficina a uma oficina mecânica, em ambas se des-
monta o todo. Os textos são então decompostos,
modificados e remontados novamente. A atividade
permite avançar no processo de codificação alfa-
bética, além de desenvolver habilidades específi-
cas de leitura.
Concluindo: A infra-estrutura dos recantos per-
mite acompanhar o caminho que segue cada aluno
na sua aprendizagem de leitura. A natureza das tare-
fas permite ao professor interagir com cada aluno
planejando estratégias de avanço. Os materiais são
um reflexo de um ensino baseado na funcionalida-
de e significação de leitura.
9 - Avaliação da compreensão da leitura:
uma proposta de observação
M. Teresa Bofarull
O modelo construtivista de ensino-aprendizagem
propõe uma concepção interativa de leitura, que
envolve as informações que facilitam o texto e o
contexto e os conhecimentos prévios que o leitor
possui sobre o texto e o mundo. Para compreender
um texto, são necessária estratégias de reflexão so-
bre a própria aprendizagem e essas estratégias de-
vem ser ensinadas. Para aprendê-las é preferível ini-
ciar por uma leitura compartilhada, com o adulto
interferindo quando necessário, em voz alta. Antes
de serem leitores ativos, as crianças precisam ser
ouvintes ativas.
Como avaliamos: Aproveitando textos habituais
não só da área do idioma, porque isso privilegia a
interdisciplinaridade. Serão avaliados três momen-
tos: avaliação inicial, para conhecer a bagagem do
estudante sobre o tema; avaliação formativa, para
verificar estratégias de leitura; avaliação somatória
para analisar a aprendizagem realizada. Todas se
referem aos progressos, no que diz respeito ao pro-
cesso de cada um. Dessa forma as estratégias estão
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 165
SINPEEM
centradas na produção, e não no resultado final. Pro-
põe-se classificar as estratégias em três grupos:
Antes da leitura: Qual é atitude emocional do
leitor, tem expectativas altas, tem prazer? O objetivo
é ler em voz alta? É buscar informação? Ativa seus
conhecimentos prévios? Faz hipóteses?
Durante a leitura: usa de sinais do texto para
construir significado? Verifica as próprias hipóteses?
Reconhece as próprias dificuldades e utiliza recur-
sos para superá-las?
Depois da leitura: identificou o tema e a idéia
principal? Teve compreensão literal, interpretativa?
Conseguiu responder questões sobre o que leu? Re-
sumiu coerentemente? Destacou idéias principais?
A velocidade da leitura foi adequada para que não
se esquecesse das palavras que leu?
Comentário da proposta: Depois da observação
podemos saber se o aluno é um leitor ativo ou passi-
vo, se compreende ou não o texto, se tem estratégias
de leitura. Isso nos permitirá avaliar se houve apren-
dizagem das estratégias necessárias para leitura evi-
tando que abandone a atividade de ler.
10 - Educação Fundamental II
Eduardo Vidal-Abarca e Gabriel Martinez Rico
Quando o aluno tem dificuldade para compre-
ender o texto, normalmente se atribui esse problema
a ele dizendo que há falta de conhecimento do tema,
que não tem estratégias de compreensão, que não
conhece o vocabulário, etc. Poucas vezes se atribui
o problema ao texto, à sua estrutura e à forma como
o autor expôs suas idéias. Nossa proposta não é lo-
calizar o problema isoladamente no texto ou no lei-
tor, mas sim no processo onde ambos os elementos
de conjugam, ou seja, nas inferências que resultam
de processos mentais específicos.
Processos de compreensão de textos: Para com-
preender um texto temos que captar as idéias explí-
citas e relacioná-las com idéias anteriores que nos
vêem à mente. A leitura então evoca informações
armazenadas pelo leitor e depende do seu conheci-
mento do assunto. A leitura se dá por ciclos de pro-
cessamento, uma frase se conecta à anterior, po-
rém nem sempre há algo explicito para que essa
conexão se dê, portanto, para ocorrer, necessita
de inferências do leitor. Essa construção é chama-
da de macroestrutura do texto, é uma estrutura hi-
erárquica que parte de relações semântica entre
as idéias do texto. O leitor precisa selecionar ou
construir uma síntese das informações mais impor-
tantes do que está lendo e ao mesmo tempo man-
ter ativa essa síntese nos ciclos sucessivos de pro-
cessamento que podem requerer inferências adi-
cionais. Esse processo requer do leitor dois recur-
sos básicos: conhecimento e estratégias. Quanto
mais tem de um recurso, menos precisa do outro.
Dois tipos de inferências: as relações necessári-
as para o entendimento podem estar facilitadas no
texto mediante recursos lingüísticos tais como: re-
petição de termos, explicitação da relação entre as
idéias, etc. Porém quando estão ausentes, o leitor
deve estabelecer essa conexão através de inferên-
cias de dois tipos: inferências de conexão textual
(idéias do texto que estão sucessivas ou próximas) e
de conexão intertextual, que implica um processa-
mento mais profundo para conectar idéias distantes
e são mais dependentes da ativação do conhecimen-
to prévio e de uma representação mental mais glo-
bal do que aquela descrita no texto.
O papel do texto e do leitor nas inferências está
relacionado à própria facilitação dela pelo texto.
Como favorecer as inferências: mediante formu-
lação perguntas do professor, que devem ser de dois
tipos: aquelas que favorecem inferências de cone-
xão textual e outras, que estimulem inferências extra
textuais. As primeiras devem motivar resposta que
conectem as idéias sucessivas do texto, para progres-
são temática estabelecendo vínculos entre os dife-
rentes ciclos de informação. As perguntas efetuadas
para promover as inferências extra textuais reque-
rem um processamento mais profundo da informa-
ção que implica na ativação de idéias prévias.
Ativação de conhecimento prévios: através de
intervenção pedagógica que não deve oferecer no-
vas informações e sim ativar os conhecimentos que
o leitor já possui.
As auto-explicações: propõe-se ao leitor que vá
se auto-explicando aquilo que lê. Esse procedimen-
to tem-se mostrado muito efetivo. Classificou leito-
res como alto e baixos auto explicadores, de acordo
com a contabilização de explicações e paráfrases que
se propuseram. O grupo de altos explicadores per-
mitiu pontuar melhor o papel da auto explicação na
formulação de inferências e consequentemente na
compreensão do texto. A realização de inferência
faz com a leitura seja realmente uma construção do
leitor e se esse conhecimento prévio vai sendo ela-
borado explicitamente, é mais provável que o leitor
se dê conta que um conhecimento pode entrar em
contradição com suas próprias idéias anteriores.
Dessa forma se promove um diálogo entre o texto e
o leitor. Podem surgir limitações para esse procedi-
mento caso os leitores tenham pouco conhecimento
prévio e o texto requeira muitas inferências. Um se-
gundo problema pode ocorrer se os leitores, embora
tenham conhecimentos prévios, produzam paráfra-
ses muito superficiais. Nesses casos, o professor deve
intervir pedindo aos estudantes que se aprofundem
no texto, que expliquem determinadas afirmações
do texto ou mesmo que o professor seja modelo com-
partilhando suas auto explicações.
166 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
11 - Persuasão oculta: textos publicitários
Manuel Cerezo Arriaza
Os professores do Ensino Fundamental II, cada
vez mais descobrem a rentabilidade didática e o in-
teresse que o estudo de textos publicitários no estu-
do do idioma. Quando devidamente abordado, cons-
titui centro de interesse natural dos alunos. A inda-
gação sobre esse repertório de textos permite conec-
tar tarefas escolares com a cultura do cotidiano. É
necessário discutir conteúdos e finalidades das pu-
blicidades, suas conseqüências sociais e a ideologia
que comportam. Desenvolver filtro críticos pode ser-
vir para construir uma barreira racional face às soli-
citações de consumismo que resultam em destrui-
ção do equilíbrio ecológico do planeta.
O questionamento do discurso publicitário per-
mite explorar códigos verbais e não verbais, proce-
dimento estéticos e literários, retóricos e narrativos
contidos neles.
Fundamentação epistemológica: muitas discipli-
nas se ocupam de fenômenos de comunicação como
objeto de conhecimento, visto que há um formato
comunicativo instituído e é vinculado à atividade
econômica. Do ponto de vista do idioma e da litera-
tura, interessam os aspectos comunicativos e prag-
máticos da publicidade, sua intenção diretiva e sua
função de promessa de felicidade ao publico alvo.
Os analistas das mensagens publicitárias advertem
para os recursos inventados pela retórica no plano
verbal e iconográfico. Sua ética é flexível, nos limi-
tes da enganação entre o mundo real e o da fantasia.
Descrição da proposta:objetivos
Descoberta dos procedimentos discursivos e a
função social da publicidade; construção de conhe-
cimento sobre código comunicativos e sua função
manipuladora; desenvolvimento de capacidade de
expressão e compreensão e das potencialidades cri-
ativas; desenvolvimento de atitude crítica, valoriza-
ção dos elementos lingüísticos e não lingüísticos do
discurso publicitário.
Conteúdos e concepções: Componentes e fun-
ções do processo de comunicação; interação dos
códigos verbais e não verbais; concepção de cam-
panha, logotipo, produto, comercial, etc.
Procedimentos: indagações sobre a retórica das
palavras e imagens; reconhecimento e emprego dos
elementos da imagem e da linguagem; análise das
estruturas de coerência, coesão e adequação textu-
al; detecção dos quadros textuais e da intertextuali-
dade dos comerciais.
Metodologia e atividades: Exploração das con-
cepções e experiências dos alunos em relação ao
mundo publicitário. Organizar a classe em grupo
heterogêneos, quanto ao nível, para exame do ma-
terial. O professor guiará a atividade com uma ficha
de análise. As conclusões e observações serão ex-
postas ao resto da sala.
Analise e criação de textos publicitários: a ficha
de análise deverá conter: dados da mensagem, tipo
de campanha, idéia, marca, produto ou serviço. Grau
de integração entre a marca e produto.
Aspectos semióticos:enunciador modelos, hipó-
tese do autor. Consumidos modelo; tipo de publici-
dade; código predominante (imagem ou texto) ele-
mentos sonoros, elementos icônicos e verbais.
Elementos textuais: Componentes do processo
de comunicação, funções da linguagem, estratégias
e coerências textual, procedimento de coesão, es-
trutura enunciativa, denotação/conotação, redundân-
cias, registros lingüísticos, marcos e transgressões
textuais, relações com o mundo, intertextualidade
Dimensões pragmática: intenção enunciativa,
efeitos de identificação e projeção, atos de fala, con-
texto e situação enunciativa, distancia social (formas
de tratamento), suposição de conhecimento e em-
patias do leitor
Elementos de impacto (eróticos, de prazer e eva-
são, frustrações ocultas, narcisismo), argumentação
lógica e retórica, adequação, eficácia.
Leitura crítica: manipulação textual, aspectos
legais, valorização ética; repercussões ecológicas,
capacidade de impor atitudes e valores, elementos
estéticos, valorização global da imagem.
Produção de comercial. Proposta da criação de:
um anti-anúncio; de uma campanha de conscienti-
zação ecológica e de hábitos de saúde. Produção de
spot publicitário irônico, de imagens publicitárias,
de fundo musical, texto sem palavras, etc.
Conclusão: O projeto tem a intenção de mos-
trar aos alunos que a publicidade fala mediante
imagens devido à força das mensagens que com-
portam e que fazem uso de nossa fantasia, alimen-
tando o imaginário individual e social. Partir do
discurso consumista até alcançar o real, rompendo
a ilusão fantasmática. Dessa forma, desenvolver
visão crítica de publicidade, substituindo as ilusões
e fantasias de desejo por aqueles desejos que são
autênticos, tais como aceitar e sermos aceitos, amar
e sermos amados.
Síntese realizada por Anna Rita Sartore, doutora
em educação pela Universidade de São Paulo.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 167
SINPEEM
THURLER, Monica Gather.
Porto Alegre, Artmed, 2001
Introdução: O Estabelecimento Escolar como nó
estratégico da mudança planificada. Em que condi-
ções?
A obra tenta fazer o balanço sobre os conheci-
mentos da pesquisa, sobre as organizações e os pro-
cessos de inovação, assim como de uma observa-
ção participante conduzida no âmbito de diversos
processos de inovação educativa, que compreende
todas as ordens de ensino, mas especialmente o en-
sino fundamental.
Propomo-nos a mostrar que:
O sentido da mudança é uma construção indivi-
dual, coletiva e interativa, pois ela tem sua lógica
própria e varia em função das culturas, das relações
sociais e das transações que se estabelecem entre os
interessados a propósito de uma mudança projetada.
Sejam quais forem sua cultura e seu funciona-
mento, a escola desempenha, um papel não despre-
zível na construção do sentido da mudança, porque
constitue o ambiente do trabalho cotidiano tanto
quanto uma comunidade de integração.
Organização do Trabalho, Lógicas de Ação
e Autonomia
Os estabelecimentos escolares, constituem for-
mas organizacionais que sobrevivem a muitas mu-
danças em sua missão, seu meio, seus recursos e, na
renovação permanente dos alunos, dos professores
e dirigentes. Quando a busca de estabilidade passa
a ser a lógica de uma organização, suas característi-
cas positivas têm um custo elevado em rigidez, pro-
tecionismo territorial e medo da desordem.
Os trabalhos sobre inovação mostram, que a or-
ganização burocrática e hierárquica do trabalho,
não é o único freio a mudança. Nenhuma organi-
zação é tributária de uma só lógica, e a escola se
situa na confluência da lógica burocrática e da ló-
gica profissional.
Existem organizações do trabalho mais abertas
que outras à mudança? Como conseguem encontrar
um meio termo entre a necessidade de abertura e a
tendência natural dos atores em querer preservar
equilíbrios estáveis? Há lógicas organizacionais que
favorecem a mudança, não como resposta a uma si-
tuação excepcional, nem porque seriam mais per-
meáveis do que outras às injunções das autoridades,
mas por integrarem-na sem crise e sem pressa?
INOVAR NO INTERIOR DA ESCOLA
Os novos paradigmas organizacionais convidam
a ultrapassar o pensamento científico clássico. À
visão de um universo como um mecanismo de re-
lojoaria opõe-se àquela de um sistema vivo, instá-
vel e imprevisível, mais aberto e criador. Vistos sob
esse ângulo, os processos de mudança correspon-
dem, inversamente, a uma dinâmica instável, ex-
pressão de uma multiplicidade de forças em intera-
ção que ora convergem, ora se defrontam. Essa ima-
gem está mais próxima da realidade do que os mo-
delos clássicos. Este primeiro capítulo tenta descre-
ver tal evolução, confrontará lógica burocrática e
lógica profissional, apresentará os novos princípios
organizadores.
A lógica burocrática constrói a organização do
trabalho sobre uma regulamentação bastante estrita
dos papéis e das funções a serem preenchidas. O
organograma estabelece relações de autoridade e
cadeias hierárquicas explícitas, os membros da or-
ganização sabem quem concebe e quem executa. A
idéia do estabelecimento escolar como estrutura lo-
cal-padrão, é uma resposta burocrática à questão da
educação escolar; em um sistema unificado apenas
variam o tamanho e, o modo de direção dos estabe-
lecimentos. A lógica burocrática é interiorizada pe-
los atores, eles percebem seu papel e seu estatuto,
sua zona de autonomia, a divisão do trabalho, as
relações de poder, a gestão dos processos da mu-
dança, os mecanismos de controle, os atores não
imaginam poder funcionar de outro modo. Os con-
teúdos das lições são definidos, não de acordo com
as necessidades dos alunos, mas em função de um
número global de horas disponíveis. Tais parâme-
tros gestionários representam uma matriz organiza-
cional que condiciona a vida escolar, reduz forte-
mente o desenvolvimento das competências corres-
pondentes, que se incumbem da elaboração e da
introdução dos novos programas. Esse modelo per-
mitiu ajustar as modalidades de gestão e controle
das escolas, assegurando uma certa coerência e uma
igualdade formal de tratamento. Ele somente provo-
cará mudanças das práticas se a prescrição for tra-
duzida de forma clara, for imposta de cima, for com-
patível com as práticas já em vigor, etc.
Enquanto a lógica burocrática define e impõe
procedimentos de trabalho em vista dos objetivos
fixados, a lógica profissional limita o trabalho pres-
crito em função da complexidade de situações sin-
gulares. A lógica profissional na escola, permane-
ceu por muito tempo limitada ao relacionamento
professores/alunos. Os professores inventam, menos
do que pensam, seus gestos profissionais, muito mais
se apropriam da trama fornecida pela cultura profis-
sional e pela organização escolar. O impacto de tais
168 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
fatores é diferente segundo o grau escolar: na escola
de ensino fundamental, os docentes desempenham
um papel importante, ao passo que a partir do ensi-
no médio a ideologia própria de cada disciplina dita
as regras de funcionamento. A lógica profissional
representa a via menos explícita e formalizada da
mudança, é um lento processo de adaptação duran-
te o qual as novas práticas se instauram conforme as
necessidades. As novas políticas educacionais levam
a uma ampliação da lógica profissional, quando os
professores são convidados a participar mais em todo
o processo de inovação. Entretanto, há o risco de,
através da maior autonomia, se reforçar o isolamen-
to e o individualismo dos diversos atores envolvidos
no processo de inovação. Uma lógica profissional
não harmonizada com um bom nível técnico, leva
os atores a confiarem mais em suas experiências
pessoais do que nas informações que derivam da
pesquisa em educação. Alguns sistemas percebem
os laços dos novos princípios da gestão pública e os
integram em seu discurso oficial, nem por isso pas-
sando ao ato no plano das práticas. Em alguns siste-
mas, essa orientação torna-se progressivamente da
ordem do possível. A organização profissional valo-
riza o funcionamento colegial e participativo, os
processos de decisão são pesados, lentos e inefici-
entes só o que se busca é um amplo consenso. Daí o
número limitado de decisões inovadoras. Em nome
da colegiatura os atores estabelecem a lógica da con-
fiança. Priva-se então de um motor essencial da
mudança: a análise lúcida dos funcionamentos, dos
êxitos e fracassos de uns e de outros. A lógica pro-
fissional aplica-se para apagar as hierarquias. É mais
agradável confessar que todos são pares, graças a
esse igualitarismo, o clima de trabalho é mais agra-
dável, mas é possível haver inovação na negação da
heterogeneidade das competências e na recusa de
reconhecer uma liderança? Uma organização domi-
nada pela lógica profissional é, tão conservadora
quanto o conjunto de seus membros.
As duas lógicas estruturam o sistema escolar e as
escolas. Elas influenciam tanto com a ordem quanto
com a complexidade e garantem a estabilidade. Ao
reunir as duas lógicas organizacionais a escola do-
tou-se de um funcionamento irreversível que a en-
cerra em um círculo vicioso difícil de romper.
Este círculo vicioso, leva tanto as autoridades
escolares quanto os diversos atores a uma estranha
dança que só pode resultar no fechamento e no con-
tra-senso.
É preciso, voltar-se para uma lógica mais flexível
e adaptativa, capaz de ultrapassar o saber prático,
tácito e artesanal de cada um, que é da ordem da
consciência prática.
Atualmente, concebemos o excesso das lógicas
organizacionais existentes como uma evolução in-
certa e local. Os atores devem inventar novas for-
mas de organização sem poder referirem-se a um
modelo claramente estabelecido. É preciso consi-
derar estruturas flexíveis onde tudo se atenue e se
adapte à evolução, cada um toma iniciativas que
permitem garantir a qualidade. Tanto a coordena-
ção e a codificação estrita das atividades quanto o
isolamento e o “consenso frouxo” deixam o campo
livre a uma lógica de arranjo, que permite a reali-
zação de acordos locais não previstos. Existe, pois,
uma relação entre a organização do trabalho e a
mudança. Quanto mais a escola esteja submetida a
injunções de inovação, menos ela poderá regula-
mentar sua atividade.
Os atores do sistema escolar tentam satisfazer
duas necessidades: estabilidade e mudança. A mu-
dança os levará a valorizar a flexibilidade e a nego-
ciação, não poderão, entretanto, renunciar a um
mínimo de estabilidade. Todo sistema escolar à pro-
cura de estabilidade proporcionar-se á uma organi-
zação de trabalho que lhe permita limitar os riscos.
Nossa experiência, mostra que a mudança desen-
volve-se nos espaços ainda não programados, a par-
tir de novas combinações entre os diferentes recur-
sos existentes, em um contexto que reconhece a di-
vergência da maneira de pensar e fazer. Essas com-
binações organizam-se a partir da intuição, do en-
gajamento e da “ousadia”, dos atores do sistema
escolar. A maneira pela qual eles construirão o - sen-
tido da mudança – depende da flexibilidade organi-
zacional que lhes permitirá ou impedirá de integrar
os novos conceitos. Transposto ao sistema escolar e,
à escola, isso leva a um modelo de organização do
trabalho que, fica menos burocrático e mais centra-
dos nos funcionamentos informais. As regras de or-
ganização são definidas em função da natureza das
questões a resolver, a destinação de tarefas é variá-
vel e modulável conforme a quantidade e a nature-
za dos problemas, a capacidade e a vontade dos ato-
res de mobilizarem-se para um projeto. Isso também
significa que as escolas variarão no plano de seu ní-
vel de desempenho, enquanto se adaptarem a seu
meio e explorarem novas vias para melhorar seu pro-
cesso pedagógico.
Tais configurações são novas, alguma equipes de
professores tentam, há anos, romper com a forma
escolar tradicional, tais tentativas isoladas estiveram,
na maioria das vezes, destinadas ao fracasso, pois
permaneceram confinadas em um espaço muito li-
mitado de flexibilidade para “irem ao fim de sua ló-
gica” . Por conseguinte, é lícito esperar que os esta-
belecimentos escolares que se voltam para esse tipo
de nova configuração desenvolvam uma série de
características que modifica favoravelmente a cons-
trução do sentido de mudança.
Quando as escolas funcionam de acordo com
uma lógica flexível, os professores são levados a de-
senvolver uma série de competências que lhes per-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 169
SINPEEM
mitem transformar a pedagogia. Em termos de orga-
nização do trabalho, significa que os professores se
libertem das coações internas, que eles se conce-
dem o direito de se organizarem de outro modo. Uma
organização flexível introduz uma visão diferente da
divisão do trabalho, as tarefas são analisadas e de-
signadas de modo flexível, e não de acordo com re-
gras e prerrogativas estabelecidas pela tradição.
A gestão por redes oferece um meio não apenas
de assegurar a informação e o confronto entre os di-
versos grupos de atores, mas, de permitir-lhes uma
compreensão sistêmica das dinâmicas implicadas; o
sentido é construído por intermédio desta compre-
ensão, ao sabor das controvérsias empreendidas e
das experiências feitas por uns e outros. Isso pode
permitir que se veja mais longe e que se conscienti-
ze que, outros colegas, trabalhando em outras esco-
las, encontram problemas semelhantes, mas os per-
cebem e resolvem de maneiras distintas, o que pode
gerar novas idéias.
Nenhuma pessoa ou instituição é completamen-
te autônoma, é importante, particularizar com muita
clareza o terreno de autonomia buscado pelas esco-
las. Diante da grande diversidade das realidades e
das necessidades do campo, a atitude predominan-
te consiste em não mais investir energia para pro-
duzir uma aparência de homogeneidade, ao con-
trário, aceitar que possam existir modalidades or-
ganizacionais diferentes dentro de um quadro co-
mum aceito pelos parceiros. As escolas assumem a
responsabilidade de desenvolver os dispositivos de
ensino-aprendizagem apropriados em função das
necessidades locais. Trata-se, da vontade explícita
de uma flexibilização em favor de uma maior liber-
dade de ação e decisão concedida aos indivíduos
e/ou escolas. Alguns esperam que a descentraliza-
ção leve os atores a resolverem os problemas com
mais criatividade e responsabilidade, assim como
a desenvolverem soluções menos caras. Imaginam
que a diversidade de soluções introduzirá uma cer-
ta competição e, aumentará a busca de qualidade
nas escolas. Outros temem que a competição acar-
rete conseqüências nefastas, em função de egoís-
mos e disputas de poder.
A escola é um lugar de exercício do poder, estru-
turado pelas estratégias de atores e seus jogos de
poder. Dessas relações de poder depende, a autono-
mia da qual cada um dispõe. As relações de poder
nunca se estabilizam, qualquer novo acontecimen-
to pode ameaçar os equilíbrios estabelecidos. A ino-
vação é sempre suspeita de provocar uma ruptura
nesta relação de poder pré existente. Portanto a ques-
tão de saber quem se beneficia com a mudança é
sempre pertinente.
As relações sociais são arranjos que permitem
viver em paz relativa com os outros, a mudança
pode ameaçar esse arranjo, dividindo grupos, mar-
ginalizando professores, etc. A inovação modifica
os dados do problema e os arranjos que permitiam
o modus vivendi, que deve as vezes ser reconstruí-
do integralmente. É nesse sentido que os proble-
mas produzidos devem levar os atores a se empe-
nharem na busca constante de coerência, é uma
questão de justiça e de justeza. A construção do
sentido de mudança é fortemente influenciada por
esse mecanismo.
Diante dos problemas de poder, de princípios de
justiça e de território, a inovação leva os atores a
empenharem-se na negociação e no regateio, a fim
de construir novos acordos e convenções.
Autonomia parcial significa: projeto coletivo ori-
ginal, explícito e negociado entre os parceiros no
âmbito de um conjunto de direitos e obrigações, re-
lativamente ao Estado e suas leis. A autonomia das
escolas deve ser concedida com um equilíbrio entre
regulamentos centralizadores e iniciativas locais, o
sistema limita-se a prescrever os eixos de orientação
e os regulamentos, e pede às escolas para explica-
rem como trabalham nos campos que acabam de
ser evocados, se estabelece um sistema de acompa-
nhamento e de avaliação externo que permite con-
trolar a qualidade e a coerência da aplicação nos
diversos estabelecimentos.
A autonomia parcial levará, professores e direto-
res de escolas, a afinarem os meios de auto regula-
ção para alcançar os objetivos fixados, não só para
eles mesmos como também para prestarem contas a
seus parceiros externo.
Após a primeira fase de concepção e de elabora-
ção do projeto, o exame da realidade obriga, a redi-
mensionar as exigências de uns e outros, o que exi-
girá negociações para clarificarem as representações,
e as novas responsabilidades que estas acarretam.
Uma gestão que conceda mais autonomia às es-
colas faz emergir um novo problema: como se vai,
como se pode administrar a diversidade? Tais ques-
tões, tornam-se centrais quando a ação de projeto
confronta os diversos parceiros com o indispensável
controle de qualidade.
No contexto de uma organização do trabalho, a
avaliação baseia-se na maneira como os atores obe-
decem às regras. Um dos grandes equívocos que
espreitam as escolas consiste em crer que a autono-
mia concedida lhes permitirá fugir de toda obriga-
ção de prestar contas, no entanto, mais autonomia
implica também em mais responsabilidade e trans-
parência. Para que o sistema escolar permaneça ad-
ministrável ele é levado a estabelecer anteparos ca-
pazes de garantir a coerência da ação pedagógica,
visando a: definir a qualidade dos serviços realiza-
dos; observar e avaliar os processos e condições
básicas que determinam esses serviços realizados;
colocar o resultado desse processo de avaliação a
serviço dos desenvolvimentos ulteriores.
170 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
A avaliação interna começa com um diagnósti-
co empreendido, pelos professores e a direção da
escola, a forma mais simples consiste em conduzir
uma análise do funcionamento do estabelecimento
escolar, consegue-se assim recolher um conjunto de
dados que permitirão compreender melhor como a
escola reage em face da mudança, antecipar proble-
mas, compilar as estratégias de resolução, definir
prioridades e os critérios de êxito para avaliar a efi-
cácia dos procedimentos, prestando contas de seu
funcionamento, uma equipe de professores, conci-
entiza-se de suas forças e fraquezas. Esse passo não
é fácil, exige, uma capacidade de descentração e
vontade de mudança que não prosperam por si. Eis
porque a avaliação interna só é realizável quando é
acompanhada pelo desenvolvimento de um clima
de confiança dentro da escola, sua construção deve
preceder o estabelecimento de uma avaliação inter-
na. A avaliação interna constitui uma condição bá-
sica da transparência e da avaliação externa.
Não se trata de distribuir boas ou más notas, nem
de ceder à última moda, mas sim a construção de
um sistema escolar que permita a reflexão perma-
nente sobre a eficácia das práticas, este é o objetivo
principal de uma avaliação externa. O sistema edu-
cativo só confiará na auto avaliação dos professo-
res, se a sua lucidez estiver acima de qualquer sus-
peita, tendo sido feita com total profissionalismo.
A mudança bem sucedida não é conseqüência
da simples substituição de um modelo de gestão
antigo por um novo. Trata-se sim do resultado de um
processo de construção coletiva que tem sentido
quando os atores se mobilizam, conseguem ultra-
passar os jogos estratégicos e as relações de poder
habituais para criarem e desenvolverem novos re-
cursos e capacidades que permitirão ao sistema gui-
ar-se ou tornar a se orientar como um conjunto hu-
mano e não como uma máquina.
A Cooperação Profissional
A cooperação profissional não corresponde ao
funcionamento da maior parte dos professores e dos
estabelecimentos escolares, o individualismo perma-
nece no âmago da identidade profissional.
Entretanto, na maioria das escolas, já se verifi-
cam mudanças. Na busca de dispositivos de ensino
– aprendizagem, os professores trabalham mais em
equipe, por outro lado a maioria dos sistemas edu-
cacionais aplica-se em reformas que incitam uma
maior cooperação entre os professores.
O modo de cooperação profissional inscritos na
cultura de um estabelecimento escolar influenciam
a maneira como os professores reagem em face de
uma mudança. Os modos de cooperação profissio-
nal seguem algumas tendências mais ou menos co-
muns, a saber:
Individualismo – oferece aos professores uma
esfera quase “privada” contra os julgamentos e as
intervenções externas. o professor operando sozinho
introduz mudanças eficazes em suas classes.
Balcanização – em algumas escolas, os profes-
sores tem a tendência de associarem-se, mais, a de-
terminados colegas criando grupos, cada grupo de-
fende suas posições em detrimento das idéias de
outros, o consenso é praticamente impossível.
Grande Família – um modo dentro do qual os
membros do corpo docente chegam a uma forma de
coexistência pacífica, que garante o respeito e o re-
conhecimento do outro, conquanto que cada qual
se submeta a um determinado conjunto de regras
explícitas ou implícitas.
Colegiatura Forçada – este modo de relaciona-
mento ocorre onde a direção impõe procedimentos,
cuja finalidade é levar os professores a concederem
mais tempo e atenção à planificação e a execução
de uma inovação, tende a provocar desconfiança e
estratégias defensivas.
Cooperação Profissional – pode ser conceituada
como um certo número de atitudes que devem ser
construídas a fim de criar: o hábito da ajuda e do
apoio mútuo; um capital de confiança e franqueza
mútuas; a participação de cada um nas decisões co-
letivas. Essas atitudes representam uma clara evolu-
ção em relação aos funcionamentos mais individua-
listas. Convém lembrar que a cooperação profissio-
nal só se torna possível pela vontade obstinada de
voltar o essencial do processo para a perseguição de
um objetivo comum que vise à ampliação das com-
petências individuais e coletivas que garantam o bom
resultado dos alunos.
A Relação com a Mudança na Cultura do
Estabelecimento Escolar
Cada escola tem sua própria atmosfera, como
reflexo de cultura, exerce uma forte influência sobre
aqueles que ali trabalham. A cultura de uma escola
é construída pelos atores, mesmo que essa constru-
ção permaneça, em grande parte, inconsciente. Ela
é a soma das soluções que funcionaram bem para
acabarem prosperando e serem transmitidas aos re-
cém chegados. A mudança é uma categoria básica
do pensamento, até os professores mais conserva-
dores formam projetos de mudança. A maneira como
cada um pensa a mudança, funda-se em uma histó-
ria pessoal e na integração a diversos grupamentos
sociais, a cultura inerente a cada escola contribui
também para influenciar cada um, ela é um código
comum, que permite ficar no mesmo comprimento
de onda quando sobrevem uma reforma.
De acordo com a situação do estabelecimento
escolar e de suas culturas, pode-se prever que algu-
mas reformas estariam destinadas ao fracasso antes
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 171
SINPEEM
mesmo de terem começado, a cultura local deter-
minará as necessidades sentidas, a maneira como os
professores irão julgar o valor da mudança, intera-
gir, tentar e confrontar suas experiências. A cultura
não tem chefe, mas os dirigentes e os professores
que exercem liderança podem modificá-la progres-
sivamente. Frente a uma inovação prescrita pelo sis-
tema, a cultura da escola sugere prioridades que in-
fluenciam a interpretação do programa.
Quanto à eficácia, é objeto de diferentes percep-
ções, uma vez que, nem todos têm a mesma idéia
do que torna a escola eficaz.
A evolução da cultura depende da maneira como
o corpo docente consegue manter uma reflexão e
comunicação em torno dos problemas profissionais.
Cria-se uma dinâmica pela qual os atores conciliam
seus objetivos, negociando em relação aos objeti-
vos visados, construindo o sentido da mudança.
Um Estabelecimento Escolar em Projeto
As escolas que produzem efeitos notáveis sobre
as aprendizagens dos alunos apoiam-se nas mudan-
ças que o sistema educativo introduz, aproveitam-
se das reformas do sistema educativo, a não ser que
as orientações de fora estejam em forte contradição
com sua cultura. Tal atitude supõe, que as escolas
desenvolvam as competências e posturas necessá-
rias para definirem seus objetivos e construírem um
projeto comum. A existência de um projeto local
poderia, constituir um fator favorável às reformas
de conjunto, substituídas pelo projeto de estabele-
cimento escolar, aumentando a oportunidade de
uma aplicação das reformas. Essa visão da mudan-
ça dos sistemas escolares oferece uma perspectiva
dinâmica. Nessa perspectiva, o desenvolvimento
escolar é percebido como um processo que permi-
te às escolas assimilarem as mudanças exteriores a
seus próprios objetivos.
Nos interrogaremos, aqui, mais sobre o estabe-
lecimento escolar em projeto, do que sobre o “pro-
jeto de estabelecimento escolar” desenvolvido por
administrações centrais que de tanto normatizarem
a ação de projeto correm o risco de esvaziá-la de
seu sentido.
A realidade da escola é feita de urgências, e mui-
tas decisões são tomadas na incerteza. Diante de tal
realidade, uma parte dos atores investe em um pro-
cesso de projeto para lutar contra a desmotivação e
a avareza mental, fixando-se metas coletivas. Mui-
tos sistemas escolares incentivam os estabelecimen-
tos a colocarem seu projeto por escrito, os estabele-
cimentos vêem-se, assim, levados a explicitar o que,
habitualmente, permanece implícito. Mas, afinal, o
que é exatamente um processo de projeto? O proje-
to é a imagem de uma situação, de um estado pen-
sado que se tem a intenção de alcançar. Nas socie-
dades modernas, a idéia de projeto tornou-se inse-
parável de nossa visão da ação e do sentido da ação
seja ela individual ou coletiva.
As novas modalidades de gestão transformam
necessidade em virtude; já que não se pode impedir
os indivíduos e os grupos de terem uma identidade,
um projeto e estratégias, é melhor reconhecê-lo e
integrar, transformando-o em vantagem gestionária,
propiciando maior controle. Essa abordagem consti-
tui os membros de um mesmo estabelecimento es-
colar como ator coletivo, o que os obriga a se colo-
carem em busca de um projeto comum. Quem pen-
sa são indivíduos que, converterão o processo de
projeto em ilusão ou ferramenta para a ação. Sobre
essa base, parece-nos possível apostar no processo
de projeto na escala dos estabelecimentos escola-
res, visto que ele contribui para a construção coope-
rativa da mudança.
O projeto educativo corresponde ao projeto
como visada simbólica, como orientação global. Se
ele existe e os professores a ele aderem, embasa o
projeto de estabelecimento .
O projeto de estabelecimento escolar está mais
próximo de um programa de ação que envolve o
ator coletivo, constituído pelos professores que tra-
balham naquele estabelecimento escolar e que, se
tornou pessoa moral. É importante que a maioria dos
professores associe-se a um projeto de estabeleci-
mento escolar para que ele seja digno desse nome.
A preocupação de clarificar o projeto educativo
comum leva uma comunidade pedagógica a inda-
gar-se sobre sua identidade. Isso leva a enunciar va-
lores que vão inspirar a ação.
Um projeto educativo ao qual os professores ade-
rem convocará, uma mudança organizada que cha-
maremos aqui, de projeto de estabelecimento esco-
lar como programa de ação, cujas componentes de-
finiremos do seguinte modo: uma fixação na história
da organização e seu meio; um objetivo ambicioso
a médio e longo prazo; um código de valores; cená-
rios para realizar o objetivo principal; um plano a
médio prazo e um plano de ação; dimensões econô-
micas, sociais, culturais e pedagógicas; uma inten-
ção de comunicar-se e de avaliar; uma vontade ex-
plícita de capitalizar e teorizar a experiência.
Um projeto de estabelecimento pode, fixar-se em
um projeto educativo explícito ou implícito.
A ação inovadora corre o risco de esvaziar-se de
seu sentido se o projeto não se transformar em um
processo. O processo de projeto não é um fim em si,
mas, um dos componentes do estabelecimento es-
colar que contribui para tornar os professores atores
da construção do sentido da mudança.
O projeto de estabelecimento escolar é levado a
funcionar com três dimensões: capacidade individual
e coletiva de se pro-jetar (lançar) em um futuro in-
certo; identidade dos signatários do projeto; repre-
172 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
sentação coletiva, já que se trata de um processo de
exploração cooperativa. Quando o projeto de esta-
belecimento escolar leva em conta essas três dimen-
sões, ele passa a ser uma ferramenta de mudança,
de aprendizagem organizacional.
Evocamos várias vezes a importância decisiva da
coerência interna entre valores e ações, quando é o
caso, é visível, para os alunos, que seus professores
perseguem os mesmos objetivos e os acompanham
em um percurso de aprendizagem cuja meta é par-
tilhada por todos. Não se deve confundir projeto com
plano de ação, um projeto deve evitar a definição
de um plano de estudos demasiado estreito e rígido,
deve permitir ajustes tanto nas estruturas quanto nas
práticas. O importante é que subsista um quadro es-
tável, que protegerá da dispersão e de um ativismo
extenuante, mais ainda, não seja utilizado por al-
guns para fins de tomada de poder. O essencial con-
siste em estabelecer alguns princípios organizado-
res do pensamento e da ação. Um projeto de estabe-
lecimento escolar terá maiores chances de êxito
quando os objetivos visados forem realistas. Para que
um projeto possa fazer a diferença, é necessário que
ele se inscreva na “zona de desenvolvimento proxi-
mal” dos atores e seja capaz de penetrar em seus
campos de consciência, é indispensável determinar
tal “zona” a fim de saber a quais desafios é possível
se exporem, para chegarem a transformações da iden-
tidade coletiva que permitam a utilização dos novos
saberes de forma duradoura.
Os projetos garantem um desenvolvimento das
competências profissionais que baste para produzir
efeitos duráveis? Os projetos estão fundados em uma
avaliação suficientemente sutil da pertinência das prá-
ticas em curso e garantem um acréscimo de valor?
Se essas possibilidades forem mal avaliadas é
provável que o aluno não obtenha o beneficio es-
perado da situação com que se acha confrontado.
Para que a situação seja portadora de sentido, a
mudança prevista deve estar próxima de suas pre-
ocupações, oferecendo, uma impressão de ruptu-
ra com as rotinas.
Entre investimentos a longo prazo, e resulta-
dos imediatos, a ação educativa muitas vezes he-
sita. A lógica “asseguradora” pode assim, parecer
a única em condições de criar a calma para enca-
rar ações inovadoras.
A multiplicação dos projetos de estabelecimen-
to escolar fez evoluir a maneira de trabalhar em
conjunto. Ao projeto como forma social, associam-
se diversas práticas , reconhecidas como caracte-
rísticas. Não é pequeno o risco de ver a adoção
dessas práticas fazer as vezes de projeto de estabe-
lecimento escolar. É importante associar os proces-
sos de projeto a uma avaliação interna que verifi-
que a coerência entre os objetivos visados e as ações
empreendidas.
Estando a cultura de cooperação e a do projeto
desabrochando, grande parte dos projetos nasce na
mente de algumas pessoas conquistadas pela idéia,
é verdadeiro para os projetos “espontâneos” e tam-
bém para os projetos “solicitados” pelas autoridades
escolares. Em ambos os casos, a questão é saber
como passar da iniciativa de alguns a um consenso
tão amplo quanto possível sobre o principio, o con-
teúdo, e as orientações de um projeto de estabeleci-
mento escolar. Durante o período em que a maioria
vai aderindo a um “projeto de projeto”, manifestam-
se oposições, agravos, tomadas de poder, alianças e
clivagens sem grande relação com o conteúdo. Pro-
curar obter a adesão entusiasta de 99% dos profes-
sores da escola condenaria, qualquer projeto a ser
rapidamente abandonado, em geral dá-se a partida
com uma minoria ativa. Quais os fatores que deter-
minam a adesão?
A adesão só ocorrerá se os interlocutores pude-
rem entrever a manutenção de suas experiências ou
a abertura de demais caminhos de acesso a vanta-
gens simbólicas ou materiais é durante esta delicada
passagem, da concepção por uma minoria à adesão
coletiva, que se executa uma das etapas decisivas
do projeto. Administrar essa etapa com atenção ga-
rante uma saída melhor para o projeto, baseada em
confiança relativa, garantindo sua razão de ser, tan-
to no presente quanto na continuidade. A mobiliza-
ção geral da maioria, o consenso na análise prévia
das necessidades e a identificação coletiva dão lu-
gar às divergências e à dispersão das forças nos mo-
mentos difíceis e precipitam os atores em uma fase
de turbulências que pode representar um simples
vazio do processo de implementação. Numerosas
equipes desistem diante da ausência de efeitos a curto
ou médio prazo, ou mesmo diante da resistência dos
principais interessados: os alunos. Mesmo um pro-
jeto de estabelecimento escolar que obtenha a con-
cordância e o apoio de grande maioria dos parcei-
ros não tem garantia de sua longevidade. Um proje-
to de longa duração nunca será totalmente aplicado
por aqueles que o elaboraram. É necessário conce-
be-lo de maneira que seja possível fazê-lo durar, e
utilizá-lo como instrumento de integração de recém
chegados. o projeto como explicação de uma iden-
tidade coletiva não significa fechamento sobre si
mesmo mas sim, abertura para o futuro e para fora.
Liderança e Modos de Exercício do Poder
Os processos de mudança não se desenvolvem
por si mesmos. Necessitam de uma orquestração ati-
va, a mudança choca-se com ações igualmente de-
liberadas para bloqueá-las. As influências não pro-
vêm unicamente daqueles que detêm uma autorida-
de formal.
As noções de líder e de liderança referem-se mais
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 173
SINPEEM
a uma influência real sobre o curso das coisas do
que ao estatuto dos que a exercem. Qualquer mem-
bro de uma comunidade exerce, de vez em quando
alguma influência, alguns com mais freqüência do
que outros, o que caracterizará uma liderança se esta
se mostrar regularmente sobre as decisões de um
grupo. A noção de liderança como influência regu-
lar define o líder, como “aquele que exerce uma li-
derança em um determinado contexto”.
Os estabelecimentos escolares que se engajam
em um processo de mudança deverão construir uma
nova visão da gestão das relações de força e, se pos-
sível, substituir a liderança autoritária por uma lide-
rança cooperativa. A idéia de liderança cooperativa
designa uma liderança assumida de modo coopera-
tivo por um conjunto de atores, nenhum dos quais é
líder formal ou informal o tempo todo, mas esta aber-
tamente voltado para a ação comum. A liderança
cooperativa rompe com a organização clássica do
trabalho dentro de um estabelecimento escolar, os
membros do grupo acham-se investidos de tarefas
ou de funções que eles assumem sem monopolizá-
las duradouramente. A liderança cooperativa não
reconhece hierarquias estáveis nem líder permanen-
te. A liderança é entendida como uma força de trans-
formação cultural e de desenvolvimento. Ela não
suprime a função de diretor de escola, mas redefine,
o papel consistiria em tornar-se aquele que faz as
competências emergirem, facilita a concepção e a
aplicação de novas modalidades organizacionais, ele
orquestra a ação coletiva para que esta possa tender
para a transformação das práticas.
A liderança cooperativa produz para cada pes-
soa uma sobrecarga de trabalho, daí a necessidade
de estabelecer uma instância de coordenação res-
ponsável por: acompanhar os esforços de coloca-
ção em prática; informar todas as partes envolvidas
sobre o processo em curso; aproximar e ligar os di-
ferentes grupos de trabalho; organizar e animar as
sessões; instituir instâncias de conversa; criar luga-
res de decisão e de regulação. O papel dos líderes
leva-os a verificar constantemente se os diferentes
membros do grupo conseguem aderir aos objetivos
visados, se estão convencidos de que as apostas va-
lem a pena e pensam que eles têm mais a ganhar do
que a perder.
O Estabelecimento Escolar como
Organização Aprendente
Um estabelecimento escolar pode ou não favo-
recer a mudança, é sua capacidade de adquirir ex-
periência que o torna uma organização aprendente,
adotam uma abordagem mais positiva e profissiona-
lizante, centrada na obrigação de competências, vi-
sando à evolução tanto das representações da pro-
fissão quanto das práticas pedagógicas e à transfor-
mação da dinâmica do estabelecimento escolar, em
uma coesão essencialmente pedagógica, constituin-
do este último em organização aprendente.
O estabelecimento escolar é definido como um
grupo de professores que assumem a responsabili-
dade de desenvolver os dispositivos de ensino-apren-
dizagem mais eficazes.
No desenvolvimento organizacional, os proje-
tos de formação comum limitam-se a alguns semi-
nários durante os quais os professores têm a ilusão
de construir uma cultura comum em relação a um
tema que lhes parece central, eles imaginam que
realmente conseguirão modificar sua práticas, en-
quanto observadores externos notam apenas mu-
danças insignificantes.
Já, o desenvolvimento profissional ressalta as
necessidades e apostas das pessoas que coexistem e
cooperam dentro de um estabelecimento escolar,
esboçando e realizando um projeto coletivo. Tal in-
terpretação da formação contínua coloca os atores
do estabelecimento escolar no centro do processo
de desenvolvimento e o liga à mudança.
De acordo com esse modelo, os professores são
percebidos como membros de uma organização so-
cial, co-responsáveis por seu desenvolvimento ulte-
rior. Visto que são responsáveis de seu desenvolvi-
mento profissional, os atores transformam suas ne-
cessidades, formulando projetos coletivos e inves-
tindo-se em sua aplicação.
Para aumentar a eficácia da ação organizada
dentro de uma instituição, é necessário compreen-
der sua cultura, é indispensável que os atores me-
çam a dinâmica e a complexidade do funcionamen-
to coletivo para depois decidirem e colocarem em
prática novos funcionamentos.
A ação organizada não é redutível às aprendi-
zagens individuais , trata-se de um sistema de
aprendizagens coordenadas, sendo suficiente para
fazer funcionar o conjunto, porque é de sua capa-
cidade de transformar-se em organização apren-
dente que depende o resultado de uma maior efi-
cácia da ação coletiva.
Conclusão
O estabelecimento escolar é um nível determi-
nante do destino reservado aos projetos de mudan-
ça, porque é ali que os professores trabalham e cons-
troem o sentido de suas práticas profissionais, bem
como as transformações que lhes são propostas, ve-
nham elas de dentro ou de fora.
Seu resultado será coerente relativamente à cul-
tura e às relações sociais instituídas, nas quais as
conversações se estabelecerão em torno desse
novo objeto, a partir das tentativas e das reposi-
ções em discussão que uns e outros devam ou
queiram permitir.
174 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
Na verdade a mudança leva tempo e só se rea-
liza por etapas, conforme as quais os profissionais
criam vínculos entre seus saberes de experiência e
as novas idéias. O processo de mudança é, pois, um
assunto de evolução conjunta dos valores, crenças,
conceitos e práticas.
Ao começar este trabalho, já estávamos conven-
cidos de que o sentido da mudança não é imposto,
não é dado de antemão nem é imutável. A mudança
é construída na regulação interativa entre atores.
Se a hipótese construtivista é válida não apenas
para os indivíduos, mas para as coletividades, como
conseguir comprometê-las em um processo de cons-
trução coletiva de longa duração?
Numerosos fóruns, publicações e debates são
dedicados a essa problemática. Apesar dos debates,
parece-nos que, nos encontramos atualmente, bem
no início de um longo processo de “profissionaliza-
ção” das práticas de inovação, seja na escala do sis-
tema, do estabelecimento escolar ou da classe. Tal
processo levará todos os atores a conduzirem a es-
cola na aventura de uma “organização aprendente”.
Nessa aventura, o estabelecimento escolar pode
e deve representar um nó estratégico.
Resumo realizado por Elizabeth Mariza Marinho,
professora, alfabetizadora e membro permanente do
Fórum do Ensino Fundamental.
TORRES, Rosa Maria.
São Paulo, Editora Papirus, 1994
O livro apresenta uma visão do estado atual do
Ensino nos países da América Latina, visando a me-
lhoria da situação educativa e propicia a dimensão
do saber no processo educativo. Este livro convida o
leitor a refletir sobre o que se entende por Currículo
e Conteúdos Curriculares e a prática docente no
cotidiano escolar.
Objetivo e alcances deste trabalho - A autora ten-
ta satisfazer um pedido concreto da Unesco-Orealc
conferindo grande atenção a este trabalho, como um
documento base que leve à discussão o tema pro-
posto, que vincula a dimensão do saber nos proces-
sos educativos.
Apresenta o enfoque educativo orientado pela
NEBA - Necessidades Básicas de Aprendizagem e
que foi articulador da Conferência Mundial sobre
“Educação para Todos”(Jomtien, Tailândia, março
1990), posteriormente, retomado em Promedlac IV -
4ª
Reunião Regional Intergovernamental do Projeto
Principal de Educação na América Latina e no Cari-
be (Quito, Equador, abril 1991).
A respeito do enfoque e dos alcances deste tra-
balho é preciso ressaltar: a) a centralização do as-
sunto nos “conteúdos curriculares”, tendo como
ponto de vista a aprendizagem; b) a concentração
dos trabalhos que estão sempre centrados no sis-
tema educativo formal; porém, o papel das outras
instâncias que intervêm na satisfação das Neba são:
a família, o trabalho, a comunidade e os meios de
comunicação; é um ponto importante e chave a
ser sustentado.
O QUÊ (E COMO) É NECESSÁRIO APRENDER?
Currículo e Conteúdos Curriculares - Há muitas
interpretações de currículos e conteúdos que a au-
tora ressalta; observando-os destacamos alguns: às
vezes a noção de currículo é reduzida a de conteú-
dos e estes, aos planos e programas de estudo.Uma
definição ampla abrange conteúdos, objetivos, mé-
todos e critérios de avaliação.Muitos consideram
como currículo, não somente a instrução, mas as
experiências sociais de aprendizagem vividas den-
tro do esquema escolar; outros caracterizam o meio
escolar como um âmbito de comunicação e a edu-
cação como um processo de comunicação, em que
concebem os conhecimentos transmitidos no âmbi-
to escolar não como “dado”, mas como produto de
uma construção dinâmica (a partir dos saberes de
cada um). Estas visões amplas de currículo e conteú-
dos podem assumir mudanças não só dos conteú-
dos, como mudanças nos planos e programas de es-
tudo, num sentido mais amplo.
A crise da teoria do currículo e o desenvolvi-
mento curricular - A crise da teoria clássica do cur-
rículo é um tema abrangente em que os especialis-
tas e estudiosos propõem profundas mudanças. Re-
quer novos princípios, novos métodos que se adap-
tem aos novos problemas.
Concepções curriculares - Concepção curricu-
lar determina uma proposta pedagógica, (sobre como
se deve ensinar, aprender ou avaliar, o papel dos
diferentes sujeitos e seus modos de se relacionar),
que se reflete não só no campo educativo, mas no
social, no político e no cultural.
A elaboração do currículo e a definição dos con-
teúdos - surgem como dados inquestionáveis. Ele
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 175
SINPEEM
responde e representa recursos ideológicos e cultu-
rais definidos através de interesses, visões de mundo
e grupos sociais. O processo histórico determina sig-
nificado (matérias, áreas, conteúdos, métodos, pro-
cedimentos de avaliação.)
As “fontes” do currículo - O problema central
de todo currículo se coloca em relação a: seleção,
organização, apresentação e seqüência do conheci-
mento, ou seja, definir o que ensinar, como e quan-
do ensinar e avaliar. Para tanto há considerações de
diversos tipos e diferentes concepções curriculares,
que organizam essas “fontes”:
a) Considerações socioculturais (necessidades do
aluno e da sociedade);
b) Considerações epistemológicas (traços parti-
culares das disciplinas a serem ensinadas ou da arti-
culação das disciplinas que contribuem para uma
área de conhecimento);
c) considerações psicopedagógicas (características
psico-evolutivas dos alunos e suas competências).
O ponto de partida: Onde estamos?
Uma educação em “crise” e um modelo peda-
gógico obsoleto - A crise educativa é reconhecida
internacionalmente, identificada como um proble-
ma de qualidade. Associa-se, a uma massificação
acelerada que não conseguiu conciliar quantidade
e qualidade. As proposições da Promedlac IV reco-
nhecem o “esgotamento de um velho modelo edu-
cativo que cumpriu sua função, mas que não mais
atende a todas as necessidades”. Transmissão e acu-
mulação de conhecimentos são características de
uma “educação tradicional”.
É, portanto, necessária uma mudança profunda
e integral, uma vez que, tanto o modelo pedagógico
como o modelo educativo, reproduzem-se num cír-
culo vicioso.
É preciso repensar as questões pedagógicas e
curriculares e, especificamente, os conteúdos.
O que foi feito no âmbito curricular na América
Latina durante os últimos anos - No que diz respeito
a mudanças apoiadas nos relatórios e estudos de al-
cance regional, a autora apresenta, sinteticamente,
o estado da questão no que diz respeito a:
a) as inovações curriculares introduzidas;
b) a discussão e
c) pesquisa a respeito do tema em questão.
De acordo com a Unesco/Orealc a respeito das
inovações curriculares temos:
- Foram introduzidos elementos inovadores nos
projetos curriculares e na tecnologia educativa em
mais da metade dos países da região, alguns como
reformas curriculares, e outros como processo de
renovação;
- Aumentos na quantidade de pesquisas e expe-
riências acerca de novas metodologias de ensino:
aritmética, leitura e escrita, tanto para as crianças
quanto para os adultos;
- Observam-se avanços na iniciação das crian-
ças em relação a atitudes, processos e métodos do
pensamento científico, embora muitos países te-
nham dificuldades para definir e pôr em prática um
currículo de ciências, adequado ao nível de criati-
vidade e de desenvolvimento cognitivo da educa-
ção básica primária;
- Em quase todos os países com altas porcenta-
gens de população indígena, estimularam-se pro-
gramas de educação bilíngüe - intercultural, e in-
clusive, em alguns casos, esta educação foi institu-
cionalizada, mediante a criação de departamentos
especiais;
- Os currículos foram atualizados com novas áre-
as e novos conteúdos como: educação quanto aos
valores e à participação do cidadão, educação am-
biental, educação populacional, prevenção ao uso
de drogas e à AIDS, educação em saúde e nutrição,
direitos humanos, educação para a paz e a compre-
ensão internacional.
Mencionam como problema, o tratamento mul-
tidisciplinar que esses conteúdos requerem e a pre-
cária preparação recebida pelos professores para
desenvolvê-los.
A discussão sobre as questões curricular e pe-
dagógica - A questão curricular e a questão pedagó-
gica formam um dos campos menos estudados na
pesquisa, nas discussões e nas práticas educativas
contemporâneas. Por um lado, os setores políticos,
intelectuais e corporativos (voz política, econômica
e educativa constituem um grande silêncio a respei-
to do problema do saber). Por outro lado, o tema dos
conteúdos aparece vinculado ao currículo explícito
(planos e programas de estudos, textos escolares) e
não há preocupações quanto ao conhecimento cons-
truído e recriado na relação professor - alunos na
prática pedagógica.
As buscas e propostas sobre o que fazer - En-
tre elas destacam-se: diversificação do currículo,
(termos regionais), flexibilidade, descentralização
(autonomia, participação), currículo integrado (in-
tegrando as disciplinas), currículo formativo (pre-
domínio de valores e atitudes sobre conteúdos),
vinculação teoria - prática (estudo - trabalho, es-
cola - comunidade).
A pesquisa sobre as questões curriculares e pe-
dagógicas - As conclusões dos estudos são em muitos
176 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
casos contraditórias, e no geral são muito escassos os
estudos sobre o currículo no que diz respeito a:
- como ele é considerado (por professores, pais,
alunos) e como funciona na sala de aula;
- planos de estudo dos docentes;
- como as modificações do trabalho instrucional
desenvolvido pelo professor incide na eficácia do
processo de ensino- aprendizagem;
- avaliação (reprovação e evasão);
- o saber dos professores que reportam à falta de
preparação para o ensino de matérias específicas,
falta de métodos adequados à realidade e às carac-
terísticas dos alunos e o desconhecimento de recur-
sos metodológicos e de metodologias alternativas
para lidar com dificuldades de aprendizado.
A realidade da sala de aula: o simulacro da apren-
dizagem - Pesquisas mostram o fracasso ou o suces-
so escolar existentes de uma margem ampla de ação:
A situação sócio - econômica, cultural, nutricional
dos alunos e de suas famílias que têm servido de
(justificativa) para a inoperância do sistema.
Dilemas surgidos em torno da definição dos con-
teúdos curriculares - Com a possibilidade de articu-
lar diversas alternativas tanto no âmbito curricular
como no desenvolvimento curricular, um conjunto
de questões tem se colocado: exaustividade/seletivi-
dade; homogeneidade/diferenciação; centralização/
descentralização; compartimentação/integração do
conhecimento; currículo instrutivo/formativo, o uni-
versal/o particular, saber comum/elaborado. Segun-
do a autora essas questões, vigentes na região, fre-
qüentemente, são falsos problemas.
O Enfoque das necessidades básicas de aprendi-
zagem (NEBA) - A noção de necessidades básicas
de aprendizagem é o apelo a um empenho mundial
voltado para satisfazê-las por intermédio de uma
educação básica para todos. É o eixo articulador na
central da Conferência Mundial sobre “Educação
para Todos”. Para tanto, torna-se necessário:
a) discutir a proposta quanto às implicações po-
líticas, sociais e pedagógicas;
b) revisar algumas categorias de análise e inter-
pretação;
c) identificar e trabalhar dentro de um contexto
mundial, as especificidades da América Latina.
As necessidades Básicas de Aprendizagem
(NEBA) - artigo primeiro da “Declaração Mundial
sobre Educação para Todos”. Definição resumida no
Glossário da Declaração:
“Necessidades básicas de aprendizagem: conhe-
cimento, capacidade, atitudes e valores necessários
para que as pessoas sobrevivam, melhorem sua qua-
lidade de vida e continuem aprendendo”.
Os conteúdos curriculares e as NEBA - A lingua-
gem (as artes lingüísticas, o discurso) - Ao se compa-
rar planos e programas de estudo da área da lingua-
gem no primeiro grau, em diferentes países, verifica-
se uma coincidência significativa quanto à formula-
ção de objetivos, conteúdos, conceitos, procedimen-
tos, valores e atitudes. Ao completar o primeiro grau
(EF), as crianças deverão ser capazes de expressar-
se, oralmente, e por escrito corretamente, de forma
coerente compreendendo, totalmente, o que lêem e
escrevem, fazendo um uso criativo e crítico de todas
as habilidades e formas da linguagem. A realidade
está longe do registrado em planos e programas. O
mesmo acontece com os programas de alfabetiza-
ção de adultos. Com o surgimento de novos méto-
dos, maior número de informação e formas de aqui-
sição do saber exigem modificar o modelo de acu-
mulação de conhecimento, favorecendo um ensino
que privilegie a aquisição de mecanismos e méto-
dos, permitindo assim descobrir, selecionar e utili-
zar novos conhecimentos de compreensão e inter-
pretação. Como um componente central em todo
currículo, desenvolver em todas as idades os conhe-
cimentos, os valores e as atitudes que possibilitem
as pessoas a aprender.
A operacionalização de um enfoque curricular
orientado pelas NEBA - As diversas leituras das pro-
postas da Tailândia - Leitura radical da proposta da
Tailândia (e da própria realidade da América Lati-
na), que visa à necessidade não de uma reforma es-
colar, mas de um reforma educativa.
Uma leitura crítica da proposta a partir da Amé-
rica Latina - As diversas interpretações, enfoques e
modelos , em alguns casos, podem conduzir a uma
eficiência e qualidade da educação, enquanto em
outras instâncias, podem agravar a ineficiência e a
baixa qualidade. Trata-se de um esforço maior de
contextualização e aprofundamento, assim como
uma contextualização no que diz respeito à realida-
de atual do mundo.
Como entender o “básico” da educação bási-
ca e as Neba? - A questão da educação básica e
das NEBA trata de uma educação que possa for-
mar indivíduos com capacidade para resolver pro-
blemas cotidianos, com habilidades concretas,
com necessidades vinculadas à sua realidade? Ou
uma educação no sentido, eminentemente, práti-
co que dê respostas imediatas de sobrevivência,
trabalho, relações com os outros e com ele mes-
mo? Ou ainda, uma educação que forneça as ba-
ses para um desenvolvimento que inclua: o pra-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 177
SINPEEM
zer de aprender por aprender, o prazer estético, o
desfrute pleno da sexualidade?
Definir o que é básico, está presente na própria
Declaração da Tailândia que incorpora a noção de
“alicerce para aprendizagens posteriores”. A pró-
pria aprendizagem é uma necessidade básica:
aprender a aprender (da própria experiência e da
experiência dos outros). É constituir uma matriz
básica de conhecimentos, valores e atitudes para
que o indivíduo possa seguir um desenvolvimento
mais autônomo.
Diversidade, heterogeneidade e pluralismo -
A diversidade levou ao reconhecimento do hete-
rogêneo. Admite-se a diversidade das Neba, em
virtude dos diferentes interesses/necessidades dos
indivíduos, mas não se admite a existência de inte-
resses/necessidades diversos no âmbito do indivíduo,
do grupo e da nação. Assim sendo, o sistema educa-
tivo pluralista seria um sistema dentro do qual con-
vivem múltiplas formas de organização dos proces-
sos educativos que podem adotar modelos pedagó-
gicos e currículos diversos.
A viabilidade da proposta - inércia e mudança
em educação - (historicamente, resistente à mudan-
ça); a vontade política para mudar ; a crítica do mo-
delo curricular e pedagógico vigente; o desenho de
um novo currículo; a questão da informação e da
comunicação; a questão dos fornecedores/satisfató-
rios de educação básica; a questão docente; a ques-
tão do ritmo; a questão da revisão curricular perma-
nente; a questão da cooperação.
Alguns riscos: uma nova “moda”; passar de um
pólo para outro; partir do nada ou reproduzir o ve-
lho com aparência de “novo”; entender o “básico”
num sentido restrito e limitado; mistificar a deman-
da educativa; uma “participação, inadequadamente
delimitada e indefinida; mudanças parciais, não in-
tegrais; deixar intocado o âmbito da produção de
textos escolares; fácil e rápida “modelização”* de
experiências - * (com o termo “modelização” (mo-
delización), a autora sugere a possibilidade de trans-
formar experiências práticas em modelos, ao con-
trário de se seguir um modelo já existente); uma apro-
ximação aos procedimentos; e finalizando, as con-
siderações pedagógicas.
1 - NEBA - Necessidades Básicas de Aprendi-
zagem
2 - Unesco-Orealc - “Recomendación relativa a
la ejecución de los Planes Nacionales de Acción y
del Segundo Plan Regional de Acción del proyecto
principal de educación en América Latina y el Cari-
be 1990-1995” (Promedlac IV) , en Boletin nº 24,
Proyecto Principal de Educación en América Latina
y el Caribe, Santiago, 1991.
3 - Um evento regional similar, organizado, ime-
diatamente, após o seminário da Unesco-Orelac,
também no Chile («Encontro Latino-americano de
ONGs sobre Educação para todos», Cide-Ceaal, Pun-
ta de Tralca, 23-25 de abril de 1992), para discutir a
estratégia de «Educação para todos» a partir da pers-
pectiva, das ONGS, mostrou o baixo nível de refle-
xão a respeito dessa proposta, do movimento latino-
americano das ONGS envolvidas na educação. De
fato, foi necessário incluir, ao longo do caminho, uma
exposição resumida do documento da Tailândia.
Resumo revisto por Neusa Cristina Assi, pedago-
ga e professora.
178 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
VASCONCELOS, Celso.
São Paulo, Libertad, 2003
Este resumo terá como finalidade apresentar os
aspectos relevantes de cada parte, a partir das pala-
vras do próprio autor, considerando os conceitos
desenvolvidos ou explicitados por ele, bem como as
articulações estabelecidas para justificar sua funda-
mentação teórico-metodológica.
A avaliação, para assumir o caráter transforma-
dor, antes de tudo, deve estar comprometida com a
aprendizagem da totalidade dos alunos. Mas, a ques-
tão principal não é a mudança de técnicas; passa
por técnicas, mas, a priori, é mudança de paradig-
ma, posicionamento, visão de mundo, valores.
I - Representações e práticas relativas
à intencionalidade
Reflexão sobre a mudança essencial no sentido
da avaliação: a intencionalidade atribuída pelo pro-
fessor à avaliação no cotidiano escolar.
1 - Sobre o conceito de intencionalidade – fim
que se propõe atingir; acontece no sujeito, não é algo
exterior (embora mantenha uma dialética com o
mundo objetivo e com os outros sujeitos, já que não
se constitui de forma isolada). Corresponde à essên-
cia do homem como ser criador, a um impulso ou
desejo profundo de transformar. No contexto da ava-
liação, trata-se da essencial tarefa de sua re-signifi-
cação e da conseqüente mudança de postura frente
aos seus resultados.
2 - Centralidade da intencionalidade da avalia-
ção – onde estaria o núcleo do problema da avalia-
ção?
- no seu conteúdo; abrangência;
- na sua forma: exigência quantitativa;
- na sua intencionalidade: finalidade, objetivos;
- nas suas relações: metodologia de trabalho na
sala de aula.
É importante ressaltar que pode haver mudança
no conteúdo e na forma de avaliar, na metodologia
de trabalho em sala de aula e até mesmo na estrutu-
ra da escola. No entanto, para se tocar no que é es-
sência – intervir na realidade a fim de transformar –
não se dando enfoque para a própria intencionali-
AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM:
PRÁTICAS DA MUDANÇA -
POR UMA PRÁXIS TRANSFORMADORA
dade da avaliação, pouco adiantará para o contexto
escolar e seus atores. A concretização de uma nova
intencionalidade é um dos aspectos mais difíceis de
serem trabalhado e explicitados na avaliação da
aprendizagem.
3 - Representações e práticas dos professores
Diante do posicionamento dos professores em
relação ao principal problema da avaliação, além
das questões de forma e conteúdo da avaliação e
das condições de trabalho, há a preocupação com a
intencionalidade (que aparece explicitamente na ‘fa-
cilitação’ da aprovação e está por detrás da ‘falta de
interesse do aluno’). Todavia, essa preocupação passa
longe da perspectiva de uma nova intencionalida-
de, já que há rejeição explícita em se tocar na atual
lógica classificatória.
- O professor percebe o aluno com dificuldade
e...continua a aula!, pois considera que
- não precisa parar: o aluno entenderá mais tar-
de ou será encaminhado (recuperação, direção, ori-
entação, coordenação, supervisão, psicólogo etc);
- não adianta parar: o aluno não é capar de apren-
der ou não merece;
- não pode parar: não pode atrasar o programa,
dispensar outros alunos ou re-agrupar para não per-
der o dia letivo (burocracia, formalismo);
- não quer parar: não pára porque entende que
isso não é problema dele;
- não sabe parar: não sabe ensinar de outra for-
ma (formação precária do professor).
- Visões sobre as causas da não-aprendizagem –
explicações preponderantes entre os docentes sobre
o insucesso dos alunos.
- Dificuldade na aprendizagem: o aluno está com
dificuldade porque “falta base” (problema na apren-
dizagem do aluno ou no ensino da escola?);
- Dificuldade de aprendizagem: por causa da in-
competência (o aluno é “fraco, lento, sem cultura”;
por causa da displicência ( o aluno é “relapso, não
estuda, é bagunceiro, não faz lição de casa”; por
causa da apatia (o aluno não participar da aula, não
presta atenção, não se interessa).
II - Compromisso com a aprendizagem de todos
– esforço de tradução da nova intencionalidade no
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 179
SINPEEM
concreto, desenvolvendo atividades, rituais, normas.
1 - Busca de clareza da intenção – com que in-
tenção trabalhamos? Que projeto defendemos? Na
mudança da intencionalidade, há um duplo desafio:
definir a intenção, a finalidade e traduzi-la em práti-
cas coerentes.
a) Intenção para a Educação – para avaliarmos
bem, devemos saber o que pretendemos. E, para isso,
precisamos de critérios, os quais advém justamente
dos objetivos, da intencionalidade.
b) Intenção para a avaliação – historicamente, a
função do docente foi associada ao controle, à fis-
calização, ao disciplinamento, à medida, à verifica-
ção, a ponto de muitos professores considerarem que
sua tarefa principal é transmitir conteúdo e logo cons-
tatar o quanto os alunos assimilaram, indicando (atra-
vés de notas, conceitos ou menções) quais são ‘ap-
tos’ ou ‘inaptos’.
A avaliação, quando vivida em sua radicalidade,
nos permite questionar essa prática: estamos indo
bem em direção ao que escolhemos? A própria es-
colha continua valendo a pena?
- Intencionalidade em conflito
- A internalização de uma nova intencionalida-
de exige auto-crítica, tomada de consciência, des-
construção de crença. No modelo autoritário de edu-
cação e avaliação, o pressuposto (implícito) é de que
a escola pode não ensinar, ou seja, o professor dar
aula e o aluno não aprender, seria norma...Tal cons-
truto ideológico é sustentado por uma série de mitos
e preconceitos, estratégias, culpabilização da vítima
(os alunos não aprendem por problemas de família,
sociais, neurológicos etc). Nesse contexto, a avalia-
ção, ao invés de ser um processo de qualificar e in-
cluir, seleciona e exclui.
- A lógica classificatória gira em torno do apro-
var-reprovar. No entanto, a tarefa do educador não
é ficar discutindo aprovação-reprovação e sim
aprendizagem efetiva, desenvolvimento humano.
Mas é tão forte a pressão social que, se o profes-
sor não tiver as coisas muito claras, sem querer
adere ao pólo (reprovação-empurração; ou então
fica eternamente oscilando entre os pólos e não
faz o que deveria ser feito.
- Genealogia da intencionalidade
excludente enraizada
A intencionalidade seletiva está enraizada nos
sujeitos (através das representações, hábitos, valo-
res), mas também nas estruturas (através das normas,
leis, rituais, ambiente de trabalho), uma verdadeira
cultura de exclusão. Podemos inferir dessa trama de
relações a necessidade de uma nova ética que é, entre
outras coisas, a busca da percepção do outro (seja o
ser humano, grupo ou natureza), nas suas peculiari-
dades e necessidades para além do micro (antropo-
cêntrico, individualista e linear).
- Pressuposto do trabalho pedagógico – perspec-
tiva democrática e inclusiva:
Todo ser humano é capaz de aprender.
Se não está sendo, tem de ser ajudado e não
rotulado ou excluído.
É uma questão de tempo e de forma, de condi-
ções diferenciadas de aprendizagem: clima peda-
gógico, resgate de representações mentais prévias,
forma de apresentação da matéria, estratégias de
mediação acionadas, disponibilidade de tempo
para o ensino e para o estudo, utilização de mate-
rial didático adequado etc. Nesse contexto, as ava-
liações que os alunos fazem são a expressão da
síntese do conhecimento que estão atingindo, a
partir das condições oferecidas. E, se não chega-
ram a um nível satisfatório de síntese, não devem
ser punidos, mas orientados, retrabalhados e soli-
citados a que elaborem uma nova, retomando a
anterior como ponto de partida, ao mesmo tempo
em que o educador revê suas estratégias e ofertas
de situações de aprendizagem.
- Mudando o paradigma
Para que a avaliação seja um instrumento de aju-
da, deve ser re-enfocada desde sua raiz. Muitas ve-
zes, tenta-se inovar, mas não se supera o núcleo do
problema. No enfrentamento da classificação há uma
pseudo-superação que é aquela de ir “aprovando” o
aluno para que ele não seja retido “como querem os
dirigentes”. Mas o caminho é ensinar; fazer media-
ções para que se aprenda.
2 - “Parar”: enfrentando a não-aprendizagem
O questionamento é: o aluno não está aprenden-
do, e então? O que fazer?
Na educação tradicional a solução era simples:
reprovava-se. E agora, no novo paradigma, o que
fazer se o aluno não está aprendendo? Primeiramen-
te, o educador precisa se fazer duas novas pergun-
tas: 1) Por que o aluno não está aprendendo? 2) O
que podemos fazer para que aprenda mais e me-
lhor?
a) “Parar”, e logo no começo!
Estratégia de regulação do ensino a fim de en-
tender, analisar e, a partir daí, retomar, rever, redire-
cionar, re-enfocar, re-elaborar, reforçar, repensar, re-
planejar, retrabalhar, reconstruir, transformar, mudar,
alterar ritmo/abordagem. Essa investigação inicial que
o professor faz a respeito da dificuldade do aluno é
180 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
influenciada por sua concepção de aprendizagem e
desenvolvimento. Ele pode optar por parar ou não.
No entanto, não parar para atender o aluno em sua
dificuldade é um autêntico suicídio pedagógico. Se
o aluno não está acompanhando, e nada é feito, está
sendo condenado ao fracasso, visto que a reprova-
ção está longe de ser um resultado final; na verdade,
ela é construída, paulatinamente, no dia-a-dia da sala
de aula (Freitas, 1989).
Importância dos momentos iniciais
Os momentos iniciais do processo de ensino-
aprendizagem têm se revelado como fundamentais.
É necessário criar inicialmente um movimento cole-
tivo, vencendo a inércia (as resistências e/ou dificul-
dades iniciais), sendo que depois cada um pode se-
guir seu ritmo, mas a partir de um patamar mínimo
garantido a todos. Diante dos percalços do professor
e das precárias condições de trabalho, devemos pon-
derar que o atendimento que se dá ao aluno logo no
início pode repercutir no resto de ano.
Papel do erro
O erro tem grande importância no trabalho edu-
cativo (assim como no científico), porque pode ser
visto como um indicador de carências e de inade-
quação de estratégias cognitivas, mas também como
abertura de novas possibilidades. Essa nova visão
sobre o erro tem importante repercussão no posicio-
namento do professor em relação à sua prática.
b) A questão da “falta de base”
Queixa recorrente do professor: “o aluno che-
gou na minha turma sem condições da série anteri-
or”. Essa reclamação costuma vir de professores que
passaram a ser “professores de determinado conteú-
do” e não de uma escola, não de alunos concretos:
“tem que dar aquele conteúdo e o aluno tem que
saber tudo o que supostamente já deve ter sido dado”.
No entanto, é preciso que o professor adeque suas
expectativas, tendo o aluno como referência (e não
um programa formal). Tal posicionamento é impor-
tante para superar a “síndrome de falta de base”.
c) Construção dialética do auto-conceito
Um dos fatores fundamentais para garantir a
aprendizagem e a motivação do aluno é acreditar
em suas potencialidades, acreditar que é capaz, que
tem condições a fim de desenvolver um auto-con-
ceito positivo. Essa postura do professor provoca uma
importante mudança na postura do aluno: saber que
está na escola para aprender e não para “ter aula”;
aprender é uma possibilidade e um direito. No en-
tanto, fica muito difícil a pessoa manter um auto-
conceito se o tempo todo for desrespeitada, domi-
nada, ignorada, desprezada. Daí o zelo que o edu-
cador tem no que tange as relações interpessoais na
sala de aula e na escola.
Auto-conceito do professor
Embora em outro patamar, é necessário fazer o
mesmo com os professores: ajudar a perceberem que
são capazes, que podem fazer algo. Se o professor
não acreditar em si , muito provavelmente não acre-
ditará em seus alunos. Além disso, a atitude de im-
perícia ou impotência docente acaba sendo introje-
tada no educando. É fundamental que o docente ,
num exercício de auto-análise, perceba isto como
necessidade de formação e busque ajuda para sair
da perversa e descabida prática de usar justificativas
disponibilizadas na cultura escolar tradicional para
culpar o aluno; é preciso que canalize sua agressivi-
dade, medo, angústia, insegurança, em atividades
construtivas (estudo, denúncia dos fatores opressi-
vos, organização política, criação de caminhos, en-
frentamento de resistências etc.).
d) A questão do tempo: pressa em “cumprir o pro-
grama” versus atender às necessidades dos alunos
É comum o professor ficar preso ao dogma do
‘cumprir o programa custe o que custar’, mesmo que
o custo seja do aluno não aprender. No entanto, se o
professor continuar a ser tutelado por essa exigência
formal, toda solicitação de uma avaliação mais cui-
dadosa carecerá de sentido, visto que quase nada
poderá ser alterado diante das constatações feitas.
Uma outra queixa do professor é justamente não
ter tempo para atender os alunos. Mas não tem cora-
gem de romper com a estrutura (circuito alienado);
continua usando parte significativa de seu tempo (em
sala de aula e em casa) com a classificação do alu-
no. É preciso deixar de ser um mero administrador
de um esquema anacrônico e equivocado para as-
sumir o papel de sujeito, percebendo que existem
coisas que, com ousadia e trabalho coletivo, podem
ser feitas. É importante a clareza de maximizar o tem-
po dedicado à aprendizagem a fim de que a escola
cumpra adequadamente sua função social.
Atender alunos é preciso, “despejar”
conteúdo não é preciso
É preciso coragem para subverter a ordem for-
mal e burocrática que, com freqüência, toma conta
das escolas a fim de cuidar dos alunos com dificul-
dades: parar a aula, embora algo simples, revela uma
nova concepção de trabalho pedagógico e que pode
entrar num saudável conflito existente.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 181
SINPEEM
e) Postura frente ao contexto problemático dos
alunos
Se de imediato, não podemos mudar a condição
de vida do aluno, podemos:
- mudar a forma de relacionarmo-nos com ele;
- ajudá-lo a mudar a compreensão que tem da
sua realidade;
- combater a pobreza política, profundamente
perniciosa (faz com que o pobre não se reconheça
como concreto; é excluído, padece, mas não com-
preende as raízes da exclusão).
3 - Criação de alternativas para favorecer
a aprendizagem
Esgotar as possibilidades
A escola que assume um compromisso democrá-
tico esgota suas possibilidades na busca de ajuda ao
educando antes de solicitar um outro segmento, o
que significa dizer que não fica no modelo tradicio-
nal de transmissão-cobrança-repetição mecânica-
cobrança-classificação.
Ousar nas práticas
É preciso ousar, investigar, procurar caminhos
para assegurar a aprendizagem. Existem soluções
relativamente simples que estão no espaço de auto-
nomia do professor e da escola. São elas:
a) Práticas da Instituição
Projeto político-pedagógico
Construção coletiva do projeto educativo esco-
lar, espaço de expressão da intencionalidade do tra-
balho.
Conselhos de classe
Momentos privilegiados para uma reflexão cole-
tiva sobre a prática escolar, fortalecendo o compro-
metimento com a mudança e melhoria do processo
de ensino-aprendizagem.
Organização das turmas
Sem agrupamento em classes “problema”; supe-
ração do critério de homogeneidade; aproveitamen-
to das diferenças para estimular a interação entre os
alunos.
Professor orientador
Identificação de um professor da escola que
tenha facilidade de aproximação com o aluno que
apresenta dificuldades a fim de ajuda-lo na postu-
ra, hábitos de estudo, relacionamentos, aprendi-
zagem etc.
Avaliação do avaliador
Aulas assistidas e refletidas junto com colegas,
avaliação externa à instituição, reunião pedagógica
para avaliar o trabalho etc.
Atendimento individualizado
A escola se organiza para atender ao aluno fora
da sala de aula a fim de trabalhar questões especí-
ficas.
Laboratório de aprendizagem
Investigação das possíveis causas da dificuldade
de aprendizagem, desenvolvendo estratégias indivi-
duais ou grupais para superação.
Abertura a estagiários
Fazer parceria com estudantes de curso de for-
mação de professores, favorecendo o contato deles
com a realidade educacional.
Ciclos de formação
A própria estrutura da instituição volta-se para as
necessidades educativas dos alunos (e não o oposto
como faz a escola seriada), respeitando a questão
básica dos tempos diversos para a aprendizagem e
desenvolvimento.
Práticas de transição
Ou medidas emergenciais: estudo de férias; es-
tudo de dependência; classes de aceleração
b) Práticas pedagógicas em sala de aula mediante:
Diálogo
Professor dialoga com o aluno; desenvolve es-
cuta sensível; ajuda o aluno a pensar; investiga a
causa da não aprendizagem.
Acompanhamento em sala
Observação e interação no decorrer do traba-
lho em aula; preocupação com a qualidade da in-
tervenção.
Assembléias de classe periódicas
Para refletir sobre a dinâmica do trabalho e das
relações em sala.
Autonomia do aluno
O docente favorece o desenvolvimento da au-
tonomia do aluno a fim de que tome iniciativa de
como estudar, assuma suas dificuldades na apren-
dizagem etc.
Atividades diversificadas
Grupos de alunos em salas com atividades de
acordo com suas demandas.
182 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
Expressão dos alunos
O professor provoca a manifestação do aluno,
incentivando e insistindo para que fale sobre o que
está trabalhando.
Revisão da proposta
O professor revê a proposta de trabalho; entende
o planejamento como método de transformação; o
projeto de ensino-aprendizagem é um instrumento
de reflexão.
Avaliação como aprendizagem
O objetivo maior da avaliação é qualificar a
aprendizagem a fim de saber se o aluno está prepa-
rado, se está motivado etc.
Responsabilidade coletiva pela aprendizagem
O aluno deve perceber que a aprendizagem dele
depende também dos colegas.
Monitoria
Não se trata de fazer pelo colega, mas ajudá-
lo a entender o que o professor está dizendo ou
pedindo.
Avaliação de alunos portadores de direitos es-
peciais
Não se pode cair na avaliação padrão; não dei-
xar de avaliar a fim de não subestimar a capacida-
de do aluno aprender, acomodando-se a seu pon-
to inicial.
Dispensa de parte dos alunos
O professor fica apenas com os que estão preci-
sando de atenção específica, enquanto os demais têm
outra atividade na escola.
Auto-avaliação do professor
Exercício da autocrítica, da auto-observação;
análise de seu prática.
c) Sobre as novas oportunidades de aprendiza-
gem (tipos de recuperação)
Recuperação no ato de ensino
Metodologia interativa, aulas participativas. O
professor observa o aluno em suas dificuldades e
desencadeia abordagens diversificadas do mesmo
conteúdo.
Recuperação no processo
Retomada de assuntos, exercícios, atividades,
tarefas; atendimento durante as aulas; roteiro de
orientação de estudo a extra-sala; trabalhos em
grupo em sala.
Atividades específicas de recuperação
Aulas no contra-turno; trabalho de monitoria;
plantões de dúvidas.
Recuperação de aprendizagem prévias não ocor-
ridas
Espaço de recuperação logo no início do perío-
do letivo a fim de trabalhar conceitos básicos. Meto-
dologia participativa a fim de saber o que e como o
aluno está pensando para poder interagir.
4 - Síntese da postura do educador
a) Comprometer-se verdadeiramente com a apren-
dizagem de todos os alunos. Romper com ideologia e
práticas de exclusão.
b) Abrir mão da ideologia classificatória como
alternativa pedagógica.
Acreditar é preciso
- O professor não pode desistir do aluno. Espe-
rar pouco do outro é uma forma de profundo des-
respeito.
- O professor deve trabalhar prestando atenção
no aluno para não perder o contato: vai ao encon-
tro, entende seu processo de conhecimento e de-
senvolvimento; aprende a ouvi-lo.
- A inteligência humana é complexa: poderosa e
sensível. É o amor que impulsiona o homem a bus-
car o conhecimento, a verdade, o bem, o belo e nos
remete ao encontro dos outros, essencialmente atra-
vés do diálogo. Ensinar é um ato de amor.
- O professor, como parceiro qualificado, está
inteiro, desejando realmente que o aluno aprenda;
confiando; acreditando; tendo uma expectativa po-
sitiva. É isso o que ajuda a acionar as potencialida-
des dos alunos.
Dialética da travessia
A intencionalidade de um sujeito não muda de
uma vez. Numa fase de transição, pode ser mais in-
teressante apontar para a consciência possível, ao
invés de radicalizar e partir logo para o fim da avali-
ação classificatória. Enquanto existe o sistema clas-
sificatório, o professor relaciona-se com os alunos
como se não houvesse a possibilidade da reprova-
ção ou de “empurração” com a barriga. Superar essa
concepção de avaliação está ao alcance do profes-
sor, dentro da sala de aula.
Contribuindo para a mudança de intencionalidade
Algumas iniciativas ajudam na sensibilização
para a mudança de intencionalidade do educador
em relação à avaliação:
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 183
SINPEEM
- contato com educadores que estão mudando;
- contato com prática concretas de avaliação na
nova direção;
- contato com os alunos, pais a fim de ter noção
de como suas ações avaliativas estão repercutindo;
- conhecer a realidade concreta dos alunos;
- sensibilização através da Arte (filmes, poesia,
teatro) relacionada com a educação;
- dramatização como exercício de empatia;
- recordar-se do tempo em que era estudante;
- ter presente as conseqüências de eventuais prá-
ticas equivocadas;
- exercício de auto-crítica etc
5 - Conclusão
O grande desafio colocado para a escola brasi-
leira, hoje, é que favoreça a aprendizagem da totali-
dade dos alunos, especialmente daqueles vindos das
camadas populares. Superar a classificação é ape-
nas um momento da superação maior que tem de
ser feita: superar a não-aprendizagem. É preciso fa-
lar menos da visão estreita da avaliação e mais da
construção do conhecimento, formação de cidada-
nia, projeto político-pedagógico, conquista das con-
dições de trabalho, formação do educador, inova-
ção cultural, distribuição de renda, transformação da
realidade. A avaliação, nesse contexto, é um subsí-
dio para tal.
Através desse novo posicionamento, o professor
pode fazer uso da avaliação como meio para recu-
perar sua dignidade, seu papel social de produtor de
sentido e promotor de aprendizagem e desenvolvi-
mento para todos, contribuindo no processo de hu-
manização, de efetiva democratização da socieda-
de, onde todos – inteiros- caibam.
Resumo elaborado por Eliane Aguiar, bacharel
em letras FFLCH/USP e doutoranda em Educação-
FEUSP.
A CONSTRUÇÃO DO PENSAMENTO
E DA LINGUAGEM
VYGOTSKY, L. S. São Paulo, Martins Fontes, 2001
O livro “A construção do pensamento e da lin-
guagem” é a versão integral traduzida diretamen-
te do russo do livro que no Brasil ficou conheci-
mento por “Pensamento e Linguagem” (publicada
pela Martins Fontes em 1991), tradução que havia
sido feita de um resumo da obra original publica-
do em inglês.
No decorrer da obra, o autor parte da colocação
do problema e analisa os métodos de investigação
empregados na área de Psicologia em investigações
sobre a linguagem. Analisa criticamente as teorias
do desenvolvimento da linguagem e do pensamento
mais elaboradas e mais fortes, como as teorias de
Piaget e Stern a fim de contrapor o método de inves-
tigação e o enfoque. Em seguida, apresenta as duas
investigações experimentais do desenvolvimento dos
conceitos e das formas básicas de pensamento dis-
cursivo que foram desenvolvidas por ele.
Os conceitos fundamentais desse livro são:
· Linguagem egocêntrica (abordada no capítulo 2)
· Linguagem interior (aparece em quase todo o
livro, mas é enfocada nos capítulos 5 a 7)
· Zona de Desenvolvimento Proximal e seu pa-
pel no processo de desenvolvimento dos conceitos
científicos (capítulo 6)
Capítulo 1 – O problema e o método
de investigação
Para Vygotsky, o tema do pensamento e da lin-
guagem tem como uma das questões centrais a rela-
ção entre o pensamento e a palavra. A seu ver, exis-
tiu um erro fundamental na análise do pensamento
e da linguagem realizada pelas pesquisas até aquele
momento (década de 20 do século passado): a sepa-
ração de ambos em unidades independentes.
A forma de dividir os dois é resultado do méto-
do de pesquisa utilizado. A esse respeito, o autor
aponta que há duas espécies de análise aplicadas
em psicologia.
O primeiro método: decomposição das totalida-
des psicológicas complexas em elementos. Na prá-
tica, é como, para tentar entender as propriedades
da água, o pesquisador partisse da separação de seus
componentes em Hidrogênio e Oxigênio. Ao tentar
explicar como a água apaga o fogo considerando os
elementos separados, o cientista não conseguirá por-
que o Hidrogênio é autocombustível e o Oxigênio
conserva a combustão, não obtendo elementos para
explicar as propriedades do todo partindo das pro-
priedades desses elementos.
O segundo método: análise que decompõe em
unidades a totalidade complexa. Diferente do méto-
184 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
do que separa os elementos, as unidades possuem
todas as propriedades que são inerentes ao todo e,
concomitantemente, os elementos são partes vivas e
indecomponíveis dessa unidade. A chave para ex-
plicar certas propriedades da água não é a sua fór-
mula química mas o estudo das moléculas e do mo-
vimento molecular” (08). A psicologia deve encon-
trar, segundo o autor, essa unidade de análise que, a
seu ver é o significado da palavra. É no significado
que está o nó daquilo que é chamado de pensamen-
to verbalizado.
A palavra nunca se refere a um objeto isolado
mas a todo um grupo ou classe de objetos. Toda
palavra é antes de tudo uma generalização. A ge-
neralização é um ato verbal do pensamento ex-
cepcional porque reflete a realidade de modo di-
ferente de como esta é refletida nas sensações e
percepções imediatas.
O significado da palavra tem na sua generaliza-
ção um ato de pensamento. Ao mesmo tempo, é um
ato de linguagem porque uma palavra sem significa-
do é apenas um som vazio. O significado é simulta-
neamente fenômeno da palavra e do pensamento
porque é uma unidade do pensamento verbalizado.
Dessa forma, o método de análise deve ser o de aná-
lise semântica (análise do sentido da palavra).
Outro elemento fundamental no desvendamento
da relação pensamento e palavra é a função comuni-
cativa da linguagem, pois a generalização só se torna
possível se há desenvolvimento da comunicação. A
comunicação só ocorre na medida em que se é ca-
paz de transmitir ao outro uma sensação através de
palavras. Se sinto frio e quero comunicar isso a ou-
trem, só o conseguirei se generalizar e nomear o que
estou vivendo, classificando minhas sensações numa
determinada classe de estados conhecidos pelo meu
interlocutor. A palavra é compreendida então não só
como unidade do pensamento e da linguagem mas
também como unidade da generalização e da comu-
nicação, da comunicação e do pensamento.
Só é possível entender o processo de desenvol-
vimento do pensamento e o desenvolvimento social
da criança quando aprendemos a ver a unidade en-
tre comunicação e generalização. Por isso, a ques-
tão central da pesquisa de Vygotsky diz respeito às
relações entre pensamento/palavra e generalização/
comunicação.
O autor fecha o capítulo ressaltando que a ado-
ção do método de decomposição em unidades mos-
tra que existe um sistema semântico dinâmico que
representa a unidade dos processos afetivos e inte-
lectuais. A adoção de tal método “permite revelar o
movimento direto que vai da necessidade e das mo-
tivações do homem a um determinado sentido do
seu pensamento, e o movimento inverso da dinâmi-
ca do pensamento à dinâmica do comportamento e
à atividade concreta do indivíduo” (16/7).
Capítulo 2 – A linguagem e o pensamento
da criança na teoria de Piaget – estudo crítico
Para Vygotsky, Piaget estudou de maneira siste-
mática, ousada, com profundidade e amplitude de
abrangência as peculiaridades da lógica infantil. Ele
compara a importância do surgimento da obra desse
autor àquelas de Freud, Levy-Bruhl ou Blondel, pen-
sadores nos quais Piaget se apoiou.
Piaget caracterizou positivamente o pensamento
da criança, dizendo que ele apresenta questões de
qualidade e não de quantidade. Para ele, o desen-
volvimento do pensamento infantil deve-se, antes de
mais nada, a mudanças de caráter e não a um au-
mento de experiências e eliminação de erros. Antes
de Piaget, o interesse se concentrava no que a crian-
ça não tem, o que lhe faltava em comparação com o
adulto. Determinavam-se as peculiaridades do pen-
samento infantil pela incapacidade da criança para
produzir pensamento abstrato, formar conceitos, es-
tabelecer vínculos entre os juízos, tirar conclusões,
etc. Nas novas investigações colocou-se no centro
da atenção aquilo que a criança tem, o que há no
seu pensamento como peculiaridades e proprieda-
des distintivas.
No entanto, Vygotsky aponta que ao avançar na
acumulação de material factual, as descobertas mais
modernas e mais importantes acabam resvalando por
concepções pré-científicas advindas de teorias e sis-
temas metafísicos por elas criados. Esses problemas
são derivados do método adotado por Piaget (méto-
do clínico-genético), ao qual Vygotsky opõe o seu
método de decomposição em unidades.
Para tecer sua crítica ao pensamento de Piaget,
Vygotsky enfoca o conceito de linguagem egocêntri-
ca. Piaget considera o pensamento egocêntrico como
a ligação entre o autismo puro e o pensamento racio-
nal. Segundo Vygotsky, Piaget tomou emprestada da
Psicologia a idéia de que o pensamento autista é a
forma mais primitiva de pensamento do ser humano.
O pensamento realista é uma formação tardia, produ-
to imposto pelo exterior à criança. Geneticamente, o
pensamento autista precede ao realista, o qual se
manifesta por volta dos 7/8 anos. A natureza egocên-
trica do pensamento da criança é explicada por Pia-
get em relação com a natureza egocêntrica de sua
atividade que, para ele, são egocêntricas e egoístas.
O pensamento egocêntrico é tão regular, inevitável e
estável que se manifesta independentemente da ex-
periência infantil. Para Piaget, a substância psicológi-
ca da criança assimila as influências do meio social e
as deforma segundo suas próprias leis.
Em oposição a isso, Vygotsky afirma que o pen-
samento autístico não é e nunca foi um ponto de
partida de todo o processo de desenvolvimento hu-
mano. A forma primária da atividade intelectual é o
pensamento efetivo, prático, voltado para a realida-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 185
SINPEEM
de e constituinte de uma das formas fundamentais
de adaptação a novas condições, às situações mu-
tantes do meio exterior. Por isso, o pensamento au-
tístico não pode ser apresentado como um estágio
intermediário e transitório entre a forma primária
básica e as formas superiores de pensamento.
Em linhas gerais, Vygotsky resume a teoria pia-
getiana da linguagem egocêntrica no seguinte: “a lin-
guagem da criança de tenra idade é egocêntrica em
sua maior parte. Não serve para fins de comunica-
ção, não cumpre funções comunicativas, apenas
copia, imprime ritmo, acompanha a atividade e as
vivências da criança como um acompanhamento
segue uma melodia central que ele segue. Entre um
e outro existe antes alguma articulação que relação
interna” (50). Para Piaget, a linguagem egocêntrica
não desempenha nenhuma função objetivamente útil
no comportamento da criança.
Uma segunda tese de Vygotsky está ligada às re-
flexões de Piaget sobre o destino da linguagem ego-
cêntrica infantil. Tomada como um sintoma de fra-
queza e com caráter descartável para o comporta-
mento, a tendência dessa fala é desaparecer no de-
correr do desenvolvimento da criança. Na realida-
de, para Piaget, por volta dos 7 ou 8 anos, o que lhe
parece é que a criança não se despede de seu cará-
ter egocêntrico, o qual se desloca, e começa a do-
minar no campo do pensamento verbal abstrato, re-
velando-se em nova forma.
Vygotsky passa a falar do estudo que desen-
volveu sobre a questão do destino e da função da
linguagem egocêntrica na fase infantil, apontando
os resultados que contrapõem a teoria piagetiana.
Vygotsky verifica que a linguagem egocêntrica da
criança começa muito cedo a desempenhar em sua
atividade um papel sumamente original. Conclui
que essa linguagem não desaparece na idade es-
colar, mas é interiorizada. Esse elemento ficou evi-
dente em seus experimentos, nos quais as crian-
ças pequenas se utilizaram da linguagem para tra-
çar saídas, planejar a ação. As crianças maiores
agiram da mesma forma, só que ao invés de reali-
zar as operações em linguagem aberta, como as
menores, realizaram-nas em forma de linguagem
interior, silenciosa.
A linguagem egocêntrica não paira no ar disso-
ciada da realidade, da atividade prática, da adapta-
ção real dessa criança. Ao contrário, ela é um mo-
mento composicional da atividade racional da cri-
ança. A criança se intelectualiza e ocupa a mente
nessas ações primárias e racionais. Nesse contexto,
a linguagem egocêntrica começa a servir de meio
de formação da intenção e do plano numa atividade
mais complexa da criança.
Organizando esquematicamente o pensamento
de Piaget, da teoria tradicional e a de Vygotsky so-
bre o processo de formação do que Vygotsky cha-
mou de linguagem interior, temos o seguinte:
➞
Piaget
pensamento autístico
extraverbal
linguagem egocêntrica e
pensamento egocêntrico
linguagem socializada
e pensamento lógico
➞
➞➞
Teoria tradicional
linguagem exterior cochicho linguagem interior
➞➞
Vygotsky
linguagem social linguagem egocêntrica linguagem interior
Vygotsky aponta que, no pensamento de Piaget,
o social e biológico são divorciados. Para aquele
autor, o biológico é primário e forma a substancia
psicológica do indivíduo. Piaget vê a relação com o
social como coação de uma força exterior que re-
prime os pensamentos próprios da criança, substi-
tuindo-os por esquemas estranhos. Biológico e o
social são concebidos como duas forças externas
que agem mecanicamente uma sobre a outra. Como
conseqüência, Piaget entende que a criança vive em
uma dupla realidade: 1) um mundo próprio 2) pen-
samento lógico imposto a ela. Assim, para uma du-
pla realidade – dois modos de pensamento (o realis-
ta e o egocêntrico).
Vygotsky ressalta que Piaget cai em contradição
diversas vezes em seu estudo por não assumir os pres-
supostos filosóficos que os fundamenta (qual seja, o
idealismo subjetivo). Aponta elementos dessa con-
tradição e diz que Piaget fica no limiar entre o idea-
lismo e o materialismo, declarando-se agnóstico.
186 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
O autor fecha o capítulo apontando que as con-
clusões de Piaget são restritas ao ambiente dentro
do qual estavam as crianças que ele estudou e não
podem ser entendidas como universais. Nesse sen-
tido, seu pensamento é sócio-historicamente de-
terminado.
Para avançar nos estudos sobre o desenvolvimen-
to infantil, além de ultrapassar aspectos da teoria pi-
agetiana apontados pelo autor, Vygotsky indica a
necessidade de superação de modelos de análise que
vigoram na psicologia russa. No capítulo seguinte
aborda uma dessas em particular.
Capítulo 3 – O desenvolvimento da
linguagem na teoria de Stern
Stern elaborou a teoria intelectualista a respeito
da linguagem infantil e seu desenvolvimento.
Segundo Stern, há três raízes da linguagem:
1 - Tendência expressiva (própria dos homens e
dos animais)
2 - Tendência social para a generalização (tam-
bém homens e animais)
3 - Tendência intencional (específico da lingua-
gem humana)
Partindo da idéia de que a intenção é uma orien-
tação centrada em um determinado sentido, Stern
considera que os atos intencionais são atos de pen-
samento. A certa altura, essa intenção surge. Para
explicar como isso acontece, Stern remete às duas
tendências anteriores. Ou seja, há uma tendência
para a inteligibilidade que vai se manifestando nas
duas primeiras tendências (expressiva e social). Se-
gundo Vygotsky esta explicação não é suficiente
porque parte do que precisa ser explicado.
Stern acredita que uma criança de 2 anos “des-
perta” a consciência dos símbolos e a necessidade
desses símbolos. Segundo ele, uma criança entre um
ano e meio e dois compreende a relação entre signo
e significado, tem consciência da função simbólica
da linguagem, ‘consciência do significado da lingua-
gem e vontade de dominá-lo’(100).
Vygotsky discorda. Segundo ele, experimentos
demonstram que “o perfil intelectual de uma crian-
ça entre um ano e meio e dois anos tem pouquíssi-
mo a ver com a admissão de que nela se desenvolve
uma operação sumamente complexa: ‘a consciên-
cia do significado da linguagem” (100).
O domínio da relação signo/significado e o em-
prego funcional do signo na realidade acontecem
bem mais tarde. A criança não descobre o significa-
do de uma vez como supõe Stern. O processo é com-
plexo e tem sua “histórica cultural de signos” dotada
de uma série de mudanças quantitativas, qualitati-
vas e funcionais, de crescimento e metamorfoses, de
dinâmicas e leis.
As tendências expressiva e comunicativa têm uma
história dentro dos estudos sobre a linguagem, en-
quanto que a tendência intencional não tem. A cri-
ança descobre o significado da linguagem por meio
de uma operação puramente lógica. A causa primei-
ra da linguagem consciente é a intenção.
Vygotsky aponta como esse autor passa à mar-
gem de problemas como a linguagem interior, não
explicando seu surgimento e sua relação com o pen-
samento. O autor fica “à margem das complexas
mudanças funcionais e estruturais do pensamento
em função do desenvolvimento da linguagem” (105).
A referência ao objeto aparece antes da inten-
ção, da descoberta. As palavras são usadas dentro
de um contexto. Assim, não importa traduzir
“mama” para “mamãe, me põe na cadeira”, mas
todo o comportamento da criança nesse momento
(ela se inclina para a cadeira, tenta agarrar-se a ela,
etc.). A orientação afetivo-conativa1
é inseparável
da orientação intencional (ou seja, da linguagem
voltada para um determinado sentido). A orienta-
ção afetivo-conativa e a orientação intencional es-
tão fundidas. Por isso, a única forma de traduzir a
palavra “mama” é o gesto indicativo que é equiva-
lente e substituto convencional.
Vygotsky aponta que a abordagem intelectualis-
ta condiciona toda a análise que Stern faz de outros
aspectos do desenvolvimento infantil como, por
exemplo, a questão do desenvolvimento do concei-
to, dos estágios básicos no desenvolvimento da lin-
guagem e do pensamento, etc. Essa característica do
pensamento de Stern deriva das premissas filosófi-
cas do personalismo e está condicionada por elas.
Stern considera o meio social como o principal
fator de desenvolvimento da linguagem da criança,
mas, na realidade, “ele restringe o papel desse fator
a uma influência puramente quantitativa sobre o re-
tardamento ou a aceleração dos processos de de-
senvolvimento, que, em seu fluxo, estão sujeitos à
sua lei interna, imanente” (109).
Há uma superestimação dos fatores internos. Essa
é a idéia básica do personalismo: o indivíduo como
unidade psicofísica neutra.
Essa concepção essencialmente metafísica e es-
sencialista leva o autor à teoria personalista da lin-
guagem, “isto é, a uma teoria que deduz a lingua-
gem, suas fontes e funções da ‘integridade de um
indivíduo que se desenvolve em função de um
fim”(109).
O resultado é que “em vez da história do desen-
volvimento do próprio indivíduo, na qual cabe um
papel de destaque à linguagem, cria-se uma metafí-
sica do indivíduo, que de si mesma, de sua teleolo-
gia2
, gera a linguagem” (110).
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 187
SINPEEM
Capítulo 4 – As raízes genéticas do
pensamento e da linguagem
A relação entre pensamento e linguagem não é
uma grandeza constante, imutável ao longo de todo
o desenvolvimento, sendo, na realidade, variável.
O desenvolvimento ocorre de forma não paralela e
é desigual tanto para a filogênese, quanto para a
ontegênese3
.
Pensamento e linguagem têm raízes genéticas
inteiramente diversas.
No que diz respeito à filogênese, comprovam isso
os estudos sobre o intelecto e a linguagem nos an-
tropóides, os quais demontram que o pensamento
surge nos animais independentemente do desenvol-
vimento da linguagem.
Vygotsky afirma que o intelecto do chimpanzé e
do homem não são do mesmo tipo porque o empre-
go racional da linguagem é uma função intelectual
que em nenhuma condição é determinada direta-
mente pela estrutura ótica. Além disso, uma vez sem
o recurso visual, os chimpanzés passaram do com-
portamento intelectual para o método de provas e
erros. Esses dois elementos permitem afirmar que não
é possível ensinar o chimpanzé a falar.
Os antropóides apresentam um intelecto pareci-
do ao do homem em alguns sentidos. Há rudimen-
tos de emprego de instrumentos e uma linguagem
parecida à do homem – em aspectos totalmente di-
ferentes (a fonética da fala, a função emocional e os
rudimentos de função social da linguagem).
Assim, é possível afirmar que na filogênese do
pensamento e da linguagem identifica-se uma fase
pré-fala no desenvolvimento do intelecto e uma fase
pré-intelectual no desenvolvimento da fala.
No tocante à ontogênese, a relação entre as duas
linhas de desenvolvimento – do pensamento e da
linguagem – é bem mais obscura e confusa. Apesar
disso é possível estabelecer diferentes raízes genéti-
cas e diferentes linhas de desenvolvimento do pen-
samento e da linguagem.
O grito, o balbucio, os gestos são estágios pré-
intelectuais do desenvolvimento da fala, isto é, não
têm nada em comum com o desenvolvimento do
pensamento. É um estágio afetivo-volitivo (signos
“de desejo ou vontade”). Nesse sentido, as ações da
criança de até 12 meses de idade assemelham-se
àquelas praticadas pelo chimpanzé. Daí chamar essa
fase de chimpanzóide. Apesar dessa semelhança
entre as ações, no ser humano a função social da
fala já é aparente na fase chimpanzóide. O conta-
to social relativamente complexo e rico da crian-
ça leva a um desenvolvimento sumamente precoce
dos meios através dos quais se comunica. A criança
reage à voz humana e as risadas, o balbucio, os ges-
tos, os movimentos são meios de contato social a
partir dos primeiros meses de vida. Assim, as duas
funções da fala já aparecem no primeiro ano de vida.
Aos dois anos, as linhas do pensamento e da lin-
guagem que até então estavam separadas cruzam-
se. É o momento em que a criança descobre que
cada coisa tem o seu nome. Assim, a fala se torna
intelectual e o pensamento verbalizado.
Até 1 ano, a criança assimila e utiliza algumas
palavras de maneira condicionada. A partir dos 12
meses a criança começa a perguntar como as coisas
se chamam. Seu vocabulário amplia-se vertiginosa-
mente. É como se a criança descobrisse a função
simbólica da linguagem.
Depois de abordar as raízes genéticas do pensa-
mento e da linguagem nos níveis filogenético e on-
togenético, Vygotsky procura responder por que se
pode considerar que os processos da linguagem in-
terior e da linguagem exterior, tão diferentes em ter-
mos funcionais (adaptações sociais e individuais) e
estruturais (economia extrema, elíptica da linguagem
interior, que altera o padrão da fala ao ponto de tor-
ná-la quase irreconhecível), possam ser geneticamen-
te paralelos e simultâneos?
Para responder a esta pergunta, é preciso encon-
trar o elo intermediário capaz de reunir os dois pro-
cessos da linguagem interior e exterior. Para Vygotsky,
esse elo intermediário é a linguagem egocêntrica de
Piaget. E isso porque “a defeito dela simplesmente
acompanhar o desempenho infantil, muito facilmente
ela se torna pensamento na verdadeira acepção do
termo, melhor dizendo, assume a função de opera-
ção de planejamento, de solução de tarefas que sur-
gem no comportamento” (136)
A partir dessa constatação Vygotsky concluiu que
a linguagem se torna psicologicamente interior an-
tes de tornar-se fisiologicamente interior.(136)
A linguagem egocêntrica é interior por sua fun-
ção, “é uma linguagem para si, que se encontra no
caminho de sua interiorização, uma linguagem já
metade ininteligível aos circundantes, uma lingua-
gem que já se enraizou fundo no comportamento da
criança e ao mesmo tempo ainda é fisiologicamente
externa, e não revela a mínima tendência a transfor-
mar-se em sussurro ou em qualquer outra linguagem
semi-surda”.
Ele faz outra questão considerada fundamental:
por que a linguagem se interioriza? E responde: Por-
que muda a função. Para Vygotsky esse processo se
dá em três etapas: linguagem exterior, linguagem
egocêntrica e linguagem interior (conforme esque-
ma apresentado no resumo do capítulo 2).
A questão seguinte que Vygotsky coloca é: o pen-
samento e a linguagem estão necessariamente inter-
ligados no comportamento do adulto, é possível iden-
tificar esses dois processos? Sua resposta é negativa.
E isso porque há uma vasta área do pensamento que
não mantém relação direta com o pensamento ver-
bal. Também não há como considerar que todas as
188 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
formas de atividade verbal sejam derivadas do pen-
samento.
Na última parte do capítulo, Vygotsky recupera
em linhas gerais suas principais conclusões.
· As raízes genéticas do pensamento e da lingua-
gem são diferentes, mas suas linhas de desenvolvi-
mento cruzam-se.
· A linguagem interior se desenvolve mediante
um lento acúmulo de mudanças estruturais e fun-
cionais
· A linguagem interior se separa da linguagem
exterior das crianças ao mesmo tempo em que ocor-
re a diferenciação das funções social e egocêntrica
da linguagem
· As estruturas da linguagem dominada pela crian-
ça tornam-se estruturas básicas de seu pensamento.
· Conclusão indiscutível: o desenvolvimento do
pensamento e da linguagem depende dos instru-
mentos de pensamento e da experiência sociocul-
tural da criança.
· O desenvolvimento da linguagem interior de-
pende de fatores externos: o desenvolvimento da
lógica na criança é uma função direta de sua lingua-
gem socializada
· O desenvolvimento do pensamento da criança
depende de seu domínio dos meios sociais do pen-
samento, isto é, da linguagem.
· O pensamento verbal não é uma forma inata de
comportamento, mas uma forma histórico-social.
Capítulo 5 - Estudo experimental do
desenvolvimento dos conceitos
Vygotsky fala em dois métodos tradicionais de
estudo dos conceitos: o método de definição e os
utilizados no estudo da abstração.
O primeiro peca por desprezar o processo de
produção do conceito em detrimento do conceito
pronto. O segundo por simplificar a estrutura com-
plexa do processo, ignorando o papel da palavra,
ou seja, do símbolo, no processo de formação de
conceitos.
Aponta então um terceiro método, o sintético-
genético, considerado pelo autor como mais plau-
sível por estudar “o processo de construção do con-
ceito, de síntese de uma série de traços que for-
mam o conceito, e o processo de desenvolvimento
do conceito (153)”.
Por não tomar o conceito como algo isolado
(como faz o método de definição), o método sintéti-
co-genético coloca no centro da investigação as con-
dições funcionais do surgimento do conceito, consi-
derando que o conceito não é uma formação fossili-
zada e imutável, mas aparece sempre exercendo al-
guma função de comunicar, assimilar, entender e
resolver algum problema. (154)
Assim, “a formação de conceitos não segue o
modelo de uma cadeia associativa, em que um elo
suscita e acarreta outro, mas um processo orientado
para um fim, uma série de operações que servem
como meio para a solução do problema central. A
memorização de palavras e sua associação com os
objetos não leva, por si só, à formação de conceitos:
para que o processo se inicie, deve surgir um pro-
blema que só possa ser resolvido pela formação de
novos conceitos” (157)
É justamente no processo de comunicação que
está a chave do processo. Ao ter que comunicar sua
idéia a um interlocutor, a criança tem que se utilizar
da palavra. Essa se torna o veículo dessa compreen-
são e, simultaneamente, o espaço onde o conceito
se conforma. Na sua comunicação com os adultos,
as crianças utilizam-se da palavra em contextos fun-
cionais, ou seja, para se comunicar. Assim, na solu-
ção de problemas, a criança se utiliza de palavras
que imitam a função de conceitos. É por isso que
podemos dizer que as palavras utilizadas pelas cri-
anças são equivalentes funcionais do pensamento
por conceitos.
No processo de formação de conceitos a palavra
é o signo fundamental. A princípio, a palavra tem o
papel de meio na formação de um conceito, e, pos-
teriormente, torna-se seu símbolo.
Os experimentos aplicados por Vygotsky e sua
equipe possibilitaram elaborar a seguinte conclusão:
“o desenvolvimento dos processos que finalmente
culminam na formação de conceitos começa na fase
mais precoce da infância, mas as funções intelectu-
ais que, numa combinação específica, constituem a
base psicológica do processo de formação de con-
ceitos amadurecem, configuram-se e se desenvol-
vem somente na puberdade. Antes dessa idade, en-
contramos formações intelectuais originais que, apa-
rentemente, são semelhantes ao verdadeiro concei-
to e, em decorrência dessa aparência externa, no
estudo superficial podem ser tomadas como sinto-
mas indicadores da existência de conceitos autênti-
cos já em tenra idade. Em termos funcionais, essas
formações intelectuais são de fato equivalentes aos
conceitos autênticos que só amadurecem bem mais
tarde” (167).
A partir daí, a pergunta que Vygotsky passa a se
fazer é: o que, na adolescência, permite o surgimen-
to dos conceitos autênticos?
O autor aponta que não são fatores como o acú-
mulo de associações; nem o desenvolvimento do
volume e da estabilidade da atenção; nem o acúmu-
lo de grupos de representações que leva à formação
de conceitos. O central (ou seja, o que leva ao ama-
durecimento dos conceitos) é o emprego específico
da palavra, o emprego funcional do signo como meio
de formação de conceitos.
Por que o adolescente consegue formar concei-
tos verdadeiros? Porque o processo de formação de
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 189
SINPEEM
conceitos pressupõe, como parte fundamental, o
domínio do fluxo dos próprios processos psicológi-
cos através do uso funcional da palavra ou do signo.
E é somente na adolescência que se desenvolve esse
domínio dos próprios processos de comportamento
com o emprego de meios auxiliares. As funções ele-
mentares apontadas acima (associação, atenção,
acúmulo de grupos de representações), que já exis-
tiam, mas, na adolescência passam a integrar uma
nova estrutura. Isso quer dizer que as capacidades
do estudante que já existiam antes da adolescência,
desenvolvem-se com maior intensidade. Que capa-
cidades são estas? A de selecionar, analisar, genera-
lizar, abstrair e refletir.
Para Vygotsky, o desenvolvimento dos conceitos
tem quatro estágios básicos:
1 - Formação de amontoados de objetos ou ima-
gens sincréticas (0 aos 5/6 anos)
2 - Formação dos complexos (5 aos 11/12 anos)
3 - Formação de conceitos potenciais (11/12 em
diante)
4 - Formação dos conceitos verdadeiros (14 anos
em diante)
Por sua vez, estes estágios possuem várias fases:
1º estágio - Formação de amontoados de obje-
tos ou imagens sincréticas (0 aos 5/6 anos)
Neste estágio, o significado da palavra é um en-
cadeamento sincrético desordenado de objetos par-
ticulares que, nas representações e na percepção da
criança, estão mais ou menos concatenados em uma
imagem mista.
1ª fase: Tentativa e erro – a criança escolhe os
objetos ao acaso, utilizando provas que se substi-
tuem mutuamente quando se verifica que estão er-
radas.
2ª fase: Organização do campo visual da crian-
ça – os objetos se aproximam em uma série e são
revestidos de um significado comum, não por força
dos seus próprios traços destacados pela criança
mas da semelhança que entre eles se estabelece nas
impressões da criança. Aqui os objetos são agrupa-
dos com base na percepção visual que a criança
tem do objeto.
3ª fase: Elementos tirados de grupos ou amon-
toados diferentes, que já foram formados pela cri-
ança pela maneira adotada na 2ª fase. Diferente-
mente da fase anterior, nesta a criança executa dois
movimentos: primeiro agrupa sincreticamente4
os
objetos, depois tira algum representante deste gru-
po e o reagrupa em outro grupo também sincreti-
camente organizado.
2º estágio - Formação dos complexos (5 aos 11/
12 anos)
Este estágio, como todos os outros, conduz “à
formação de vínculos, ao estabelecimento de rela-
ções entre diferentes impressões concretas, à unifi-
cação e à generalização de objetos particulares,
ao ordenamento e à sistematização de toda a ex-
periência da criança” (178). O estágio se chama
pensamento por complexos porque “as generaliza-
ções criadas por intermédio de desse modo de pen-
samento representam, pela estrutura, complexos de
objetos particulares concretos, não mais unificados
à base de vínculos subjetivos que acabaram de sur-
gir e foram estabelecidos nas impressões da crian-
ça (como no estágio de amontoados), mas de vín-
culos objetivos que efetivamente existem entre tais
objetos” (179). Assim como os amontoados, os com-
plexos têm o mesmo sentido funcional dos concei-
tos verdadeiros.
A criança começa a unificar objetos homogê-
neos em um grupo comum, a complexificá-los já
segundo as leis dos vínculos objetivos que ela des-
cobre em tais objetos. Quando passa a este está-
gio, já superou seu egocentrismo. O pensamento
por complexos já constitui um pensamento coe-
rente e objetivo. No entanto, essa coerência e ob-
jetividade não são as mesmas do pensamento por
conceitos. Nesse estágio a criança pensa em ter-
mos de nome de famílias.
Um complexo não tem em sua base um vínculo
abstrato e lógico, mas um vínculo concreto e factual
(que se revelam na experiência imediata) entre ele-
mentos concretos que integram sua composição.
Como um conceito, o complexo é a generali-
zação ou a unificação de objetos heterogêneos
concretos.
190 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
Complexo Conceito
Baseia-se em vínculos do mesmo tipo, logica-
mente idênticos entre si (181)
Baseia-se nos vínculos factuais mais diversos
Refletem um vínculo essencial e uniforme e
uma relação entre os objetos
Reflete um vínculo concreto, factual e fortuito
(181)
Caracterizado pela uniformidade dos vínculos
que lhe servem de base.
Caracterizado pela diversidade de vínculos que
lhe servem de base
Os vínculos são basicamente uma relação do
geral com o particular e do particular com o parti-
cular através do geral.
Vínculos podem ser tão diversificados quanto
o contato diversamente factual e a semelhança dos
mais diversos objetos, que estão em relação lógica
e concreta entre si.
O estágio de complexos possui 5 fases:
· 1ª fase: Associativo
· 2ª fase: Por coleções
· 3ª fase: Complexo em cadeia
· 4ª fase: Complexo difuso
· 5ª fase: Pseudoconceito (7/8 anos até 11/12 anos)
É o convívio com o adulto que define o caminho
de desenvolvimento dos complexos. É a comunica-
ção com esses adultos, o acesso a palavras que pos-
suem significados constantes e definidos, que cria
as vias de desenvolvimento das generalizações.
A criança recebe os conceitos prontos dos adul-
tos. Ela já recebe em forma pronta a série de objetos
concretos generalizadas por aquela palavra. “Ela não
relaciona espontaneamente uma dada palavra a um
determinado grupo concreto e transfere o seu signi-
ficado de um objeto a outro, ampliando o círculo de
objetos abrangidos pelo complexo. Ela apenas se-
gue o discurso dos adultos, assimilando os significa-
dos concretos das palavras já estabelecidos e dados
a ela em forma pronta. Em termos mais simples, a
criança não cria a sua linguagem mas assimila a lin-
guagem pronta dos adultos que a rodeiam” (196).
3º estágio - Formação de conceitos potenciais
(11/12 em diante)
Este estágio possui 3 fases:
1ª fase: agrupamento de objetos a partir de traços
que refletem em seu conjunto um grau máximo de
semelhanças com o modelo que lhe é apresentado.
2ª fase: Agrupamento de objetos tendo-se por
base um único atributo (conceitos potenciais). Estes
conceitos potenciais podem ser formados na esfera
prática, voltados para a ação, com base em impres-
sões semelhantes. Estas impressões são fonte impor-
tante de conceitos potenciais, muito utilizados na
idade escolar.
3ª fase: adolescência – fase de formação de con-
ceitos verdadeiros
4º estágio – Formação de conceitos verdadeiros
(14 anos em diante)
É só na adolescência que a criança chega ao
pensamento por conceitos. Nesta fase, diminuem
as formas primitivas de pensamento (sincréticos e
por complexos) e o emprego de conceitos potenci-
ais começa a rarear, sendo mais freqüente o uso de
conceitos verdadeiros.
Vygotsky fala que há uma lei psicológica que dá
fundamento a essa nova forma de pensamento.
Elementos que compõem essa lei:
· há uma profunda discrepância entre a forma-
ção do conceito e a sua definição verbal
· o adolescente aplica o conceito em situação
concreta.
A primeira delas é que há uma profunda discre-
pância entre a formação do conceito e a sua defini-
ção verbal, característica não só do pensamento ado-
lescente, mas também do adulto. “A existência de
um conceito e a consciência desse conceito não
coincidem quanto ao momento do seu surgimento
nem quanto o seu funcionamento (...) A análise da
realidade fundada em conceitos surge bem antes que
a análise dos próprios conceitos” (230).
“O adolescente forma o conceito, emprega-o
corretamente em uma situação concreta, mas tão
logo entra em pauta a definição verbal desse con-
ceito o seu pensamento esbarra em dificuldades ex-
cepcionais, e essa definição acaba sendo bem mais
restrita que a sua aplicação viva.”(230)
O outro momento característico da aplicação de
conceitos na adolescência: o adolescente só aplica
o conceito em situação concreta (230)
Ele aplica a palavra como conceito e a define
como complexo. Isso acontece porque o processo
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 191
SINPEEM
de formação dos conceitos acontece em forma de
pirâmide. Ou seja, ao analisar objetos ou fenôme-
nos, no processo de conceitualização, o pensa-
mento se movimenta para o alto e para baixo (da
família à espécie, da espécie à família). Assim, o
conceito não é resultado de uma junção linear de
características comuns de diversos objetos, mas de
um intricado processo de movimento do pensa-
mento na pirâmide dos conceitos, processo esse
que sempre operava uma transição do geral ao par-
ticular e vice-versa.
Esse processo de trânsito para cima e para bai-
xo ocorre também com a criança que, na maior
parte dos casos, utiliza a palavra como generaliza-
ção (exemplo: flor e rosa – p. 234). A criança usa
palavras abstratas, mas não tem pensamento abs-
trato. Ela concebe o respectivo referente de modo
bastante concreto.
“... o conceito surge no processo de operação
intelectual; não é o jogo de associações que leva à
obstrução intelectual; não é o jogo de associações
que leva à obstrução dos conceitos: em sua forma-
ção participam todas as funções intelectuais elemen-
tares em uma original combinação, sendo que o
momento central de toda essa operação é o uso fun-
cional da palavra como meio de orientação arbitrá-
ria da atenção, da abstração, da discriminação de
atributos particulares e de sua síntese e simboliza-
ção com o auxílio do signo” (236).
O que faz com que esses processos sejam as ra-
ízes do conceito é a sua criação através da aplica-
ção da palavra.
Capítulo 6 – Estudo do desenvolvimento dos
conceitos científicos na infância – experiência
de construção de uma hipótese de trabalho.
O capítulo visa responder a algumas questões
sobre o processo de desenvolvimento dos conceitos
científicos na mente da criança, área considerada
pelo autor como incipiente. Suas perguntas básicas
são: “como se desenvolvem os conceitos científicos
na mente de uma criança em processo de aprendi-
zagem escolar? Em que relação se encontram aí os
processos de ensino e aprendizagem de conhecimen-
tos propriamente dito e os processos de desenvolvi-
mento interior do conceito científico na consciência
da criança? Coincidem entre si, sendo essencialmen-
te, apenas duas faces de um mesmo processo?
Existem duas escolas que dão resposta a estas
questões: a primeira acredita que não há um proces-
so de desenvolvimento, a criança absorve o concei-
to pronto.
A segunda acredita na existência de um proces-
so de desenvolvimento, só que este não difere do
desenvolvimento de conceitos na vida cotidiana da
criança, valendo por extensão para os conceitos ci-
entíficos. Alguns como Piaget, questionam esta vali-
dade, estabelecendo uma fronteira entre as idéias
adquiridas espontaneamente, por seu próprio desen-
volvimento mental (espontâneas) e aquelas influen-
ciadas pelos adultos (não-espontâneas). No entanto,
Vygotsky acredita que Piaget se equivoca ao afirmar
que ocorre um processo de substituição das idéias
da criança pelas idéias que vêm do exterior.
Vygotsky acredita que as idéias espontâneas e
não-espontâneas conjugam-se num processo de for-
mação de conceitos que “é afetado por diferentes
condições externas e internas, mas que é essencial-
mente um processo unitário, e não um conflito entre
formas de intelecção antagônicas e mutuamente ex-
clusivas.”(74)
Vygotsky passa então a apresentar suas próprias
razões para diferenciar o aprendizado dos conceitos
não-espontâneos (cotidianos) dos espontâneos (ou
científicos).
Ele argumenta que há uma diferença no aprendi-
zado dos conceitos espontâneos e não espontâneos.
A mente da criança se depara com problemas dife-
rentes na relação com eles. Num aprendizado siste-
mático possibilitamos o contato com situações que
ela não vivencia diretamente.
Os experimentos de Vygotsky demonstraram que
é justamente na idade escolar que as funções inte-
lectuais superiores, cujas características principais
são a consciência reflexiva e o controle deliberado,
adquirem um papel de destaque no processo de de-
senvolvimento. A atenção passa a ser voluntária, a
memória mecânica torna-se memória lógica.
Afirma que há um processo em que primeiro fa-
zemos uso de uma determinada função para depois
tomarmos consciência dela. Para submeter uma fun-
ção ao controle da volição e do intelecto, temos pri-
meiro que nos apropriar dela.
Vygotsky esclarece que usa o termo consciência
para referir-se à percepção da atividade da mente - a
consciência de estar consciente. Ou seja, quando
consigo perceber todo o percurso de uma ação (como
dei um nó), por exemplo.
Com base em experimentos (os quais descreve
neste capítulo), Vygotsky comprovou as hipóteses
de que os processos de aprendizagem e desenvol-
vimento não são independentes (como aponta Pia-
get), nem são os mesmos processos. Para ele, existe
uma relação complexa entre desenvolvimento e
aprendizagem sendo que a aprendizagem está
sempre adiante do desenvolvimento, pois a crian-
ça adquire certos hábitos e habilidades numa área
específica antes de aprender a aplicá-los de modo
consciente e arbitrário.
Vygotsky examinou também questões da relação
entre o aprendizado das matérias do ensino e as fun-
ções delas participantes. Suas pesquisas mostraram
que as diferentes matérias do ensino escolar intera-
192 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
gem no processo de desenvolvimento da criança.
A tomada de consciência e a apreensão ocupam o
primeiro plano no desenvolvimento de igual ma-
neira na aprendizagem da gramática e da escrita.
O pensamento abstrato da criança se desenvolve
em todas as aulas, e esse desenvolvimento de for-
ma alguma se decompõem em cursos isolados de
acordo com as disciplinas em que se decompõe o
ensino escolar.
Por fim, Vygotsky apresenta o conceito de zona
de desenvolvimento proximal5
. A maior parte das
investigações psicológicas media o nível de apren-
dizagem da criança fazendo-a resolver problemas
que a sua idade permitia. Vygotsky deu a duas crian-
ças de idade mental de 8 anos, problemas mais difí-
ceis do que era suposto elas conseguirem resolver.
Uma delas, em cooperação, pôde resolver proble-
mas para crianças de 12 anos, enquanto que a outra
não conseguia ir além daqueles para as de 9. Por
isso, a ZDP é entendida como “... a discrepância entre
a idade mental real ou nível de desenvolvimento real,
que é definida com o auxílio dos problemas resolvi-
dos com autonomia, e o nível que ela atingir ao re-
solver problemas sem autonomia, em colaboração
com outra pessoa” (327).
“O desenvolvimento dos conceitos científicos
começa no campo da consciência e da arbitrarieda-
de e continua adiante, crescendo de cima para bai-
xo no campo da experiência pessoal e da concretu-
de. O desenvolvimento dos conceitos espontâneos
começa no campo da concretude e do empirismo e
se movimento no sentido das propriedades superio-
res dos conceitos: da consciência e da arbitrarieda-
de. O vínculo entre o desenvolvimento dessas duas
linhas diametralmente opostas revela indiscutivel-
mente a sua verdadeira natureza: é o vínculo da zona
de desenvolvimento proximal e do nível atual de
desenvolvimento” (350).
A arbitrariedade e a tomada de consciência dos
conceitos ocorrem na zona de desenvolvimento
proximal. Por isso, a aprendizagem de conceitos
científicos só se dá na colaboração com o pensa-
mento do adulto e, o que a criança é capaz de
fazer em colaboração hoje, amanhã terá condi-
ções de fazer sozinha.
Vygotsky pergunta no que a aprendizagem de
conceitos científicos pode contribuir para o desen-
volvimento da criança. A partir daí, passa a conside-
rar as características de um conceito.
Afirma que todo conceito é uma generalização e
cada conceito interrelaciona-se com outros concei-
tos. Assim, a própria natureza de cada conceito par-
ticular já pressupõe a existência de um determinado
sistema de conceitos, fora do qual ele não pode exis-
tir. Os estudos demonstram que a generalidade é a
relação mais substancial e natural entre os significa-
dos (conceitos). Assim, a relação entre conceitos é
uma relação de generalidade.
Sabendo-se que uma criança, no desenvolvi-
mento de seus conceitos, percorre a via lógica dos
mais gerais para os mais particulares (ela assimila
“flor” antes de assimilar “rosa”), Vygotsky indaga-
se sobre as leis desse movimento do mais geral para
o mais particular.
Ele conclui que “existe um sistema de relações e
de generalidade para cada fase de generalização;
segundo a estrutura desse sistema, dispõem-se em
ordem genética os conceitos gerais e particulares,
de forma que o movimento do geral ao particular e
do particular ao geral no desenvolvimento dos con-
ceitos vem a ser diferente em cada fase do desenvol-
vimento dos significados, em função da estrutura de
generalização dominante nessa fase. Na passagem
de uma fase a outra modificam-se o sistema de ge-
neralidade e toda a ordem genética do desenvolvi-
mento dos conceitos superiores e inferiores” (364).
Capítulo 7 – Pensamento e palavra
Vygotsky retoma todo o percurso de seu trabalho
apresentado nesse livro nos capítulos anteriores, re-
afirmando que o significado da palavra é a unidade
de análise que lhe permitiu verificar as relações en-
tre pensamento e linguagem considerando toda a sua
complexidade.
A palavra é um fenômeno do discurso e o signifi-
cado de toda palavra é generalização ou conceito.
Assim, generalização e palavra são sinônimos. Para,
além disso, o significado da palavra é, ao mesmo
tempo, um fenômeno de discurso e intelectual. O
significado da palavra é um fenômeno do pensamen-
to discursivo ou da palavra consciente, é a unidade
da palavra com o pensamento.
No entanto, o autor considera que o novo em
sua pesquisa é a descoberta de que os significados
das palavras se desenvolvem. Para Vygotsky a rela-
ção entre o pensamento e a palavra é, antes de tudo,
não uma coisa mas um processo, é um movimento
do pensamento à palavra e da palavra ao pensamen-
to. O pensamento não se exprime na palavra mas
nela se realiza. Por isto, seria possível falar de for-
mação do pensamento na palavra.
Ao analisar os movimentos que levam o pensa-
mento à palavra e a palavra ao pensamento, Vygotsky
aponta alguns elementos. O primeiro deles diz res-
peito à existência de dois planos na própria lingua-
gem. O aspecto semântico interior da linguagem e o
aspecto físico e sonoro exterior, ainda que constitu-
am uma unidade autêntica, têm cada um as suas leis
de desenvolvimento.
Inicialmente, a criança não diferencia o signifi-
cado verbal e o objeto, o significado e a forma so-
nora da palavra. No processo de desenvolvimento,
essa diferenciação ocorre na medida em que se de-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 193
SINPEEM
senvolve a generalização, e no final do desenvolvi-
mento, quando já encontramos conceitos verdadei-
ros, surgem aquelas relações complexas já apresen-
tadas anteriormente quando se abordou os estágios
de desenvolvimento do pensamento e da lingua-
gem no capítulo 5.
Vygotsky ressalta que nesse processo ainda te-
mos o desenvolvimento do pensamento. “O ato de
falar requer a transição do plano interior para o pla-
no exterior, enquanto a compreensão pressupõe o
movimento inverso do plano externo da linguagem
para o plano interno” (421).
Mas a reflexão não estaria completa sem a refe-
rência à linguagem interior.
“A linguagem interior é uma formação particular
por sua natureza psicológica, uma modalidade es-
pecífica de linguagem dotada de particularidades
absolutamente específicas e situada em uma rela-
ção complexa com as outras modalidades de pensa-
mento” (425)
Vygotsky aponta que para entender o que é a lin-
guagem interior é preciso diferenciá-la tanto do pen-
samento, quando da palavra. Assim, a linguagem
interior, em primeiro lugar, é uma linguagem para si.
A linguagem exterior é uma linguagem para os ou-
tros (425). Ela é oposta à linguagem exterior.
A linguagem exterior é o processo de transfor-
mação do pensamento em palavra, é sua materiali-
zação e sua objetivação.
A linguagem interior:
· Possui uma sintaxe específica – abreviada,
condensada, fragmentada em comparação com a
exterior.
· É predicativa – “apresenta não uma simples
transmissão para o estilo telegráfico, mas uma ten-
dência totalmente original para a abreviação da fra-
se e da oração no sentido da manutenção do predi-
cado e dos termos integrantes da oração a ele vincu-
lados à custa da omissão do sujeito e das palavras a
ele vinculadas”6
(447)
· Opera preferencialmente com a semântica e
não com a fonética. Há uma independência do sig-
nificado.
· O sentido predomina sobre o significado.
Para poder explicitar mais algumas característi-
cas da linguagem interior, Vygotsky compara a lin-
guagem exterior à linguagem escrita e, depois, a lin-
guagem interior à linguagem escrita.
Discurso escrito:
· Discurso desenvolvido ao máximo porque é feito
na ausência do interlocutor
· Forma de discurso sintaticamente complexa
· A linguagem escrita e interior são monológicas.
A linguagem externa é dialógica.
· O diálogo sempre pressupõe a percepção vi-
sual e acústica do interlocutor.
· É constituído de sujeito e predicado
Quais são as peculiaridades da semântica da lin-
guagem interior?
· Predomínio do sentido7
da palavra sobre o seu
significado8
na linguagem interior. Tomada isolada-
mente do léxico, a palavra tem apenas um significa-
do. O sentido enriquece o significado a partir do
contexto. O sentido é inesgotável. “Da mesma for-
ma que o sentido de uma palavra está relacionado
com toda a palavra e não com sons isolados, o sen-
tido de uma frase está relacionado com toda a frase
e não com palavras isoladas.
· Processo de unificação das palavras e sua com-
binação e fusão. A aglutinação ocorre com freqüên-
cia cada vez maior.
· O sentido das palavras revela leis de fusão e
unificação diferentes daquelas dos seus significados.
O sentido amplia quase ao infinito o âmbito do sig-
nificado. Daí que, no que se refere à linguagem ego-
cêntrica, é impossível compreendê-la se ignorarmos
a que se refere o seu predicado, o que só pode ser
deduzido do contexto da enunciação, dos objetos
que o falante tem diante de si.
Tese básica de Vygotsky: a linguagem interior é
uma função absolutamente específica, independen-
te, autônoma e original da linguagem. A linguagem
interior é um plano específico do pensamento ver-
bal, que medeia a relação dinâmica entre pensamen-
to e palavra (473).
A linguagem exterior é o processo de transfor-
mação do pensamento em palavras, a materializa-
ção e a objetivação do pensamento.A linguagem in-
terior é o processo inverso – ela ocorre de fora para
dentro, há um processo de evaporação da lingua-
gem no pensamento. Ela é pensamento vinculado à
palavra. É um momento dinâmico, instável, fluído e
está entre o pensamento e a palavra. O discurso não
desaparece em sua forma interior. Ele se torna um
pensamento por significados puros.
Plano do pensamento discursivo
IDÉIA
Pensamento puro
PALAVRA
Linguagem Externa
LINGUAGEM INTERIOR
Abreviação
Condensação
Ampliação do significado pelo sentido
➞ ➞
194 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
O pensamento tem a sua estrutura específica e o
seu fluxo, e a passagem deste para a estrutura e para
o fluxo da linguagem representa grandes dificulda-
des. Ele não coincide diretamente com a sua expres-
são verbalizada, nem consiste em unidades isoladas
como a linguagem. O pensamento é sempre algo
integral, consideravelmente maior por sua extensão
e o seu volume que uma palavra isolada. Um pensa-
mento pode ser comparado a uma nuvem parada,
que descarrega uma chuva de palavras.
O pensamento não é o último plano em todo o
processo. O próprio pensamento não nasce de ou-
tro pensamento, mas do campo da nossa consciên-
cia que o motiva, que abrange os nossos pendores
e necessidades, os nossos interesses e motivações,
os nossos afetos e emoções. Por trás do pensamen-
to existe uma tendência afetiva e volitiva9
. Só ela
pode dar a resposta ao último porquê na análise do
pensamento.
Para entender o discurso do outro, nunca é ne-
cessário entender apenas umas palavras; precisamos
entender o seu pensamento. A compreensão do pen-
samento do interlocutor é incompleta se não conhe-
cermos o motivo que o levou a emiti-lo.
Na relação entre palavra e pensamento, Vygotsky
ressalta a importância da relação palavra e consci-
ência. Se a consciência, que sente e pensa, dispõe
de diferentes modos de representação da realidade,
estes representam igualmente diferentes tipos de
consciência (os diferentes modos de representação
da realidade).
Por isso, o pensamento e a linguagem são a cha-
ve para a compreensão da natureza da consciência
humana. Se ‘a linguagem é tão antiga quanto a cons-
ciência’, ‘se a linguagem é uma consciência prática
que existe para outras pessoas e, consequentemen-
te, para mim’, se a ‘maldição da matéria, a maldição
das camadas móveis do espírito paira sobre a cons-
ciência pura’, então é evidente que não é um sim-
ples pensamento mas toda a consciência em seu
conjunto que está vinculada em seu desenvolvimento
ao desenvolvimento da palavra”.
“A palavra é a expressão mais direta da natureza
histórica da consciência humana” (486).
“A consciência se reflete na palavra como o sol
em uma gota de água. A palavra está para a consci-
ência como o pequeno mundo está para o grande
mundo, como a célula viva está para o organismo,
como o átomo para o cosmo. Ela é o pequeno mun-
do da consciência. A palavra consciente é o micro-
cosmo da consciência humana” (486).
1
Que denota uma tentativa de realizar uma ação.
2
qualquer doutrina que identifica a presença de
metas, fins ou objetivos últimos guiando a natureza
e a humanidade, considerando a finalidade como o
princípio explicativo fundamental na organização e
nas transformações de todos os seres da realidade;
teleologismo, finalismo.
1.1 - doutrina inerente ao aristotelismo e a seus
desdobramentos, fundamentada na idéia de que tanto
os múltiplos seres existentes, quanto o universo como
um todo direcionam-se em última instância a uma
finalidade que, por transcender a realidade material,
é inalcançável de maneira plena ou permanente.
1.2 - teoria característica do hegelianismo e seus
epígonos, segundo a qual o processo histórico da
humanidade - assim como o movimento de cada
realidade particular - é explicável como um trajeto
em direção a uma finalidade que, em última instân-
cia, é a realização plena e exeqüível do espírito hu-
mano. (Houaiss).
3
Para poder explicar como se dá o desenvol-
vimento do ser humano a partir de uma perspecti-
va da complexidade, identificando simultaneamen-
te aquilo que faz os seres humanos iguais e o que
os faz diferentes, Vygotsky fez suas pesquisas con-
siderando quatro planos genéticos: a filogênese (o
desenvolvimento da espécie), a ontogênese (o de-
senvolvimento do ser dentro dessa espécie), a so-
ciogênese (o desenvolvimento histórico-cultural
dos seres humanos), e a microgênese (o desenvol-
vimento do sujeito).
4
Sincretismo: apreensão global, mais ou menos
confusa, de um todo (Dicionário Houaiss)
Caminho do pensamento verbal:
Motivo Pensamento
puro
Pensamento
enformado
Pensamento
significado em
palavras
(Está no espaço
da consciência)
(é a Idéia) (é a Linguagem
interior)
(é a Linguagem
exterior)
➞ ➞ ➞
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 195
SINPEEM
5
Nessa tradução, o autor chamou a ZDP de Zona
de Desenvolvimento Imediato. Resolvi manter o ter-
mo “Zona de Desenvolvimento Proximal” que no
Brasil ficou mais conhecido por ter sido elaborado
pelo tradutor da edição de 1991 do livro “Pensa-
mento e Linguagem”.
6
A predicatividade pura ocorre em duas situa-
ções: de resposta ou em que o sujeito do juízo a ser
enunciado é de conhecimento antecipado dos inter-
locutores. “Perguntado se quer uma xícara de chá,
ninguém vai responder com a frase desenvolvida:
‘não, eu não quero uma xícara de chá’. A resposta
será puramente predicativa: “Não”. Ela trará apenas
o predicado. É evidente que essa oração puramente
predicativa só é possível porque o seu sujeito – aquilo
de que se fala na oração – é subentendido pelos in-
terlocutores.” (447)
7
Sentido da palavra é a soma de todos os fatos
psicológicos que ela desperta em nossa consciên-
cia. Assim, o sentido é sempre uma formação di-
nâmica, fluida, complexa, que tem várias zonas
de estabilidade variada. Em uma operação a pala-
vra aparece com um sentido, em outra, adquire
outro (465).
8
O significado é um ponto imóvel e imutável
que permanece estável em todas as mudanças de
sentido da palavra em diferentes contextos.
9
Que provém da volição, da vontade ou que
a exprime. Etimologia: que é relativo à vontade
(Houaiss).
Resumo elaborado por Maria Lima, bacharel em
história e doutora em educação pela FEUSP.
WEISZ, Telma. São Paulo, Ática, 2000
Este livro trata da questão do processo de ensino
e da compreensão da aprendizagem sob a ótica cons-
trutivista. Aborda aspectos essenciais das mudanças
em curso na educação. Embora o livro enfoque ques-
tões da língua escrita, a autora nos leva a refletir so-
bre a importância da reflexão sobre situações didáti-
cas para qualquer área do conhecimento.
Um novo olhar sobre a aprendizagem
As pesquisas realizadas por Emília Ferreiro e Ana
Teberosky (1970), sobre como pensam as crianças a
respeito do sistema alfabético da escrita - psicogê-
nese da língua escrita , tem evidenciado que a meto-
dologia embutida nas cartilhas de alfabetização tem
contribuído para o fracasso na escola. As cartilhas
trabalham com a concepção de língua escrita como
transcrição da fala. Apresenta textos que na verdade
são apenas agregados de frases desconectadas.
Uma concepção que considera o processo de
aprendizagem como resultado da ação do aprendiz
consegue enxergar o que o aluno já sabe a partir do
que ele produz e pensar no que fazer para que apren-
da mais. Conhecimento prévio não deve ser confun-
dido com conteúdo já ensinado pelo professor. Isso
só é possível se o professor se colocar numa posição
de observador cuidadoso daquilo que o aluno diz
ou faz em relação ao que está sendo ensinado.
Na concepção da aprendizagem construtivista na
qual o conhecimento é visto como produto da ação
O DIÁLOGO ENTRE O ENSINO
E A APRENDIZAGEM
e reflexão do aprendiz - esse aprendiz é alguém que
sabe algumas coisas e que diante de novas informa-
ções que para ele fazem sentido, realiza um esforço
para assimilá-las. Neste sentido, é preciso conside-
rar o conhecimento prévio do aprendiz e as contra-
dições que ele enfrenta no processo.
Para que ocorra a aprendizagem, a criança pas-
sa por um processo que não tem a lógica do co-
nhecimento final, como é visto pelos adultos. A
postura intelectual do professor é que vai lembrá-
lo que o seu olhar já é construído e, portanto dife-
rente do olhar da criança.
Desde os anos 20, discute-se a questão de que
a criança não é um adulto em miniatura. Pensa-
dores da Escola Nova como Dewey, Claparède,
Decroly, Montessori e Freinet assumiram princípi-
os como a valorização do indivíduo como ser li-
vre, ativo e social. Porém a Escola Nova deixou
de lado o produto da aprendizagem e falhou em
não oferecer condições de aprendizagem a todas
as crianças, principalmente, aquelas pertencentes
às camadas populares.
Foi com a criação, por Piaget, de um modelo do
processo geral de aprendizagem que instigou Emília
Ferreiro a investigar a construção da leitura e da es-
crita pelas crianças. À luz destas pesquisas, o mo-
delo de ensino relacionado ao construtivismo, cha-
ma-se aprendizagem pela resolução de problemas e
pressupõe uma intervenção pedagógica, pois apren-
der a aprender é algo possível apenas a quem já
aprendeu alguma coisa.
196 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
Idéias, concepções e teorias que sustentam a
prática de qualquer professor, mesmo quando
ele não tem consciência delas.
Para compreender a ação do professor é preci-
so analisá-la com o objetivo de desvelar a concep-
ção que o professor tem e que se expressa em seus
atos, do conteúdo que ele espera que o aluno apren-
da, do processo de aprendizagem e de como deve
ser o ensino.
Teoria empirista se expressa num modelo de
aprendizagem conhecido como “estímulo-respos-
ta”; na crença de que o aluno precisa memorizar
e fixar informações; o conhecimento está fora do
sujeito e é interiorizado através dos sentidos; o su-
jeito da aprendizagem é “vazio” na sua origem,
sendo preenchido pelas experiências que tem com
o mundo; “educação bancária” (metáfora usada
por Paulo Freire).
A metodologia de ensino expressa nas cartilhas
concebe os caminhos pelos quais a aprendizagem
acontece.
Centrada na teoria empirista está a cartilha: a
língua (conteúdo) é vista como transcrição da fala; a
aprendizagem se dá pelo acúmulo de informações e
o ensino investe na memorização.
Para mudar é preciso reconstruir toda a prática
através de um novo paradigma teórico:
· Um grande equívoco é pensar que alguns con-
teúdos se constroem e outros não.
· Outro entendimento distorcido influenciado por
práticas espontaneístas é pensar que como o conhe-
cimento se constrói não há necessidade de interven-
ção do professor.
· Para inovar sua prática o professor tem que com-
preender suficientemente as questões que lhe dão
sustentação.
· Se o professor parte do princípio que a língua
escrita é complexa, ela deve ser oferecida aos alu-
nos por inteiro e de forma funcional como é usada
realmente.
Para fazer o conhecimento do aluno avançar as
atividades propostas devem reunir algumas condi-
ções e respeitar alguns princípios. Boas situações de
aprendizagem são aquelas em que:
· Os alunos precisam pôr em jogo tudo o que sa-
bem e pensam sobre o conteúdo que se quer ensinar.
· Os alunos têm problemas a resolver e decisões
a tomar em função do que se propõem produzir.
· A organização da tarefa pelo professor garante
a máxima circulação de informação possível.
· O conteúdo trabalhado mantém suas caracte-
rísticas de objeto sóciocultural real, sem se transfor-
mar em objeto escolar vazio de significado social.
Quando corrigir quando não corrigir
· Na concepção construtivista, a função da inter-
venção do professor é atuar para que seus alunos
transformem seus esquemas interpretativos em ou-
tros que dêem conta de questões mais complexas
que as anteriores.
· Os erros devem ser corrigidos no momento cer-
to, que nem sempre é o momento em que foram
cometidos.
· Do outro lado do extremo do professor que não
permite erros está o professor que permite todos. É
importante entender que certos erros, depois de um
tempo de escolaridade são inaceitáveis.
· As correções feitas pelo professor não podem
ser todas da mesma natureza, porque os conteúdos
também não o são.
Os bons usos da avaliação
· Avaliação inicial - necessidade de se ter claro o
que o aluno já sabe sobre o conteúdo novo, já que o
conhecimento a ser construído por ele é na verdade,
uma reconstrução que se apóia no conhecimento
prévio de que dispõe.
· Avaliação de percurso ou formativa – serve para
verificar se o trabalho do professor está sendo pro-
dutivo e se os alunos estão, de fato, aprendendo com
as situações didáticas propostas.
· Se a maioria da classe vai bem e alguns não,
estes devem receber ajuda do professor. Suas dúvi-
das devem ser detectadas, para que eles sejam apoi-
ados e continuem progredindo.
Como os alunos se vêem e se sentem
como estudantes
Um desempenho insatisfatório pode ser resulta-
do de baixa-estima. Não há prejuízo maior do que
professores descrentes da capacidade dos alunos.
Reforça, para todos do grupo uma idéia negativa
desses alunos, e não é difícil prever as conseqüên-
cias desastrosas para o convívio social da classe.
E os alunos que chegam no final do período
sem aprender o que a escola pretendia?
Deve-se pensar o que é melhor para o próprio
aluno considerando os diferentes aspectos envol-
vidos na questão. Diante de tudo que se sabe do
aluno, o desafio é identificar o que poderia bene-
ficiar sua escolaridade e a ele próprio: seguir com
sua classe ou começar uma nova história escolar
com outra classe?
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 197
SINPEEM
Formação do professor deve ser permanente
Mesmo que a formação inicial se transforme, o
trabalho de estudo e reflexão deve ser permanente.
A bagagem de conhecimento que o professor sai do
curso inicial será sempre insuficiente para desem-
penhar sua tarefa em sala de aula.
Tematização da prática – é a análise que parte
da prática documentada para explicar as hipóteses
didáticas subjacentes, ou melhor trata-se de olhar
para a prática de sala de aula como um objeto sobre
o qual se pode pensar. Visa desvelar as teorias em
inúmeras situações de observação e análise para for-
mar o tipo de profissional de que precisamos e que
tem sido chamado de prático - reflexivo. Para isso é
importante o registro:
· Registro de seu trabalho por escrito levará a
construir uma prática de reflexão.
· Registro coletivo para difundir as característi-
cas do projeto pedagógico.
Finalizando, autora ressalta que se a sociedade
quer um ensino de qualidade terá de assumir que
isso implica um professor mais bem qualificado e
remunerado.
Síntese elaborada por Martha Sirlene da Silva,
pedagoga, mestre em educação e membro do GEAL/
FEUSP.
ENFOQUE GLOBALIZADOR
E PENSAMENTO COMPLEXO:
UMA PROPOSTA PARA O
CURRÍCULO ESCOLAR
ZABALA, Antoni. Porto Alegre, Artmed, 2002
O livro está dividido em cinco capítulos. No pri-
meiro, ele apresenta o percurso histórico que levou
à constituição do enfoque globalizador, ressaltando
sua necessidade premente na sociedade complexa
em que vivemos atualmente. No segundo, discute
como uma determinada opção sobre a função so-
cial que o ensino deve cumprir concretiza-se em
algumas finalidades educativas. No terceiro capí-
tulo, a partir da análise das contribuições do refe-
rencial teórico que investiga os processos de ensi-
no/aprendizagem, discorre sobre os princípios so-
bre como organizar os conteúdos que podem ser
elaborados a partir da concepção construtivista. No
quarto capítulo, demonstra como as contribuições
dos referenciais teóricos apresentados podem ser
sintetizadas em algumas fases de intervenção e em
alguns princípios conjuntos que dão espaço ao que
o autor chama de enfoque globalizador. No último
capítulo, Zabala apresenta uma revisão de méto-
dos globalizados, comparando-os ao enfoque glo-
balizador, e falando do tempo exigido para traba-
lhar com esses modelos. Apresenta também alguns
exemplos de como podem ser utilizados em dife-
rentes etapas educativas.
Capítulo 1 – Organização dos conteúdos
de aprendizagem
Dando início à sua reflexão, o autor aponta que
a organização dos conteúdos é a mais importante
das diferentes variáveis que determinam a forma
como se ensina. Apesar dessa importância, esta
variável tem sido pouco debatida, aderindo-se a
um ensino muito calcado na lógica formal das dis-
ciplinas.
No entanto, “uma coisa é a organização dos sa-
beres a partir de uma perspectiva científica e outra,
bastante distinta, é como devem ser apresentados e
ensinados os conteúdos desses saberes para que se-
jam aprendidos em um maior grau de profundida-
de” (16).
Zabala indaga se temos certeza de que a estrutu-
ra lógica das disciplinas é a mais apropriada para
promover aprendizagem.
A natureza da finalidade da ciência é simples-
mente diferente da natureza das finalidades edu-
cativas. Nesse sentido, é preciso estabelecer crité-
rios de seleção de conteúdos a partir da explicita-
ção de algumas finalidades do ponto de vista es-
tritamente escolar.
A diferenciação em áreas de conhecimento obe-
198 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
deceu, desde suas origens, a critérios fundamental-
mente educativos. Da Grécia antiga ao século XIX,
o princípio diretor era a unidade do conhecimento,
nunca sua fragmentação. Na modernidade, assisti-
mos a fragmentação dos saberes, cada vez mais es-
pecializados. “...aquilo que em seu início era o re-
sultado de algumas finalidades basicamente forma-
tivas, fragmentou-se em dois mundos artificialmente
separados e determinados por um falso, mas ao mes-
mo tempo real, corte entre o âmbito “humanístico”
e que agora denominaríamos âmbito “científico e
tecnológico” (18)
Atualmente, a organização dos conteúdos que
compõem o currículo escolar te um caráter priorita-
riamente propedêutico1
, demonstrando que a fun-
ção social da escola está limitada à preparar seus
alunos para o nível seguinte.
Em que pese essa preponderância, muitas críti-
cas têm sido tecidas contra essa concepção. Uma
série de escolas tem desenvolvido o conceito de
“educar para a vida”, introduzindo novos conteú-
dos de aprendizagem.
As pesquisas recentes têm enfatizado os proces-
sos de aprendizagem, destacando que o protagonis-
ta da escola é o estudante e não o que se ensina,
deslocando as preocupações do o que ensinar para
o como ensinar. Assim, a seleção dos conteúdos tem
a ver com a compreensão do como as pessoas per-
cebem a realidade, assim como à aspectos da moti-
vação e do interesse pelo que têm de aprender.
A partir de estudos do início do século passado,
já se sabe hoje que a percepção da realidade jamais
é analítica e sim global. A síntese é algo que advém
de um primeiro estudo global e para isso intervém a
escola. Com base nessa idéia, uma série de movi-
mentos de renovação que se desenrolaram ao longo
do século XX procurou estruturar currículos que fu-
gissem à lógica disciplinar e propedêutica.
A estruturação de uma lógica interdisciplinar de
organização dos conteúdos é uma necessidade que
tem se colocado não só no âmbito escolar, mas tam-
bém no científico. Cada vez mais se acredita que a
integração dos diversos saberes deva ocorrer preser-
vando-se a especificidade de cada área. À escola
cabe considerar essa necessidade de integração a
partir da necessidade de educar o indivíduo.
Em oposição à lógica disciplinar, tem se afirma-
do na escola a dois conceitos: os métodos globali-
zados e o enfoque globalizador.
Os métodos globalizados (método de projetos,
centros de interesse, complexos, tópicos, etc) ten-
tam romper a estrutura parcializada do ensino em
disciplinas, propondo uma organização dos conteú-
dos de caráter “global” (27).
Por outro lado, na escola, a partir de uma posi-
ção ideológica que entende o ensino como o desen-
volvimento de todas as capacidades do ser humano
para intervir na sociedade e de um conhecimento
atual dos processos de aprendizagem, surge a ne-
cessidade de uma atuação pedagógica que tenha um
enfoque globalizador, em que os conteúdos de apren-
dizagem são sempre os meios para conhecer e res-
ponder a questões que uma realidades experiencial
dos alunos proporciona: realidade que sempre é glo-
bal e complexa (28).
Sob o nome de métodos globalizados encontram-
se aqueles métodos que organizam os conteúdos de
aprendizagem a partir de situações, temas ou ações,
independentemente da existência de disciplinas. As
disciplinas deixam de ser objeto de estudo para se
tornar o meio para obter o conhecimento.
Zabala se atém a 4 métodos ditos globalizados e
que obedecem aos princípios expostos anteriormen-
te: os centros de interesse de Decroly; o método de
projetos de Klipatrick; a investigação do meio do MCE
(Movimento de Cooperazione Educativa de Itália);
os projetos de trabalho global.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 199
SINPEEM
Tabela 1: Características diferenciais dos métodos globalizados (p. 30)
INTENÇÃO FASES
Centros de
Interesse
Tema que se deve
conhecer
1. Observação 2. Associação:
- espaço
- tempo
- tecnologia
- causalidade
3. Expressão
Método de
projetos
Projeto que se
pretende realizar
1. Intenção
2. Preparação
3. Execução 4. Avaliação
Investigação
do meio
Perguntas ou
questões
1. Motivação
2. Perguntas
3. Hipóteses
4. Informação
5. Coleta de dados
6. Seleção
7. Conclusões
8. Expressão
e comunicação
Projetos de
trabalho global
Elaboração do
dossiê
1. Escolha do
tema
2. Planejamento
3. Informação
4. Informação
5. Coleta de dados
6. Seleção
7. Conclusões
8. Expressão
e comunicação
Projetos de
trabalho global
Elaboração do
dossiê
1. Escolha do
tema
2. Planejamento
3. Informação
4. Tratamento de
informações
5. Desenvolvimento
do índice
6. Avaliação
7. Novas
perspectivas
Os conteúdos da aprendizagem provêm das produções da Academia, mas a lógica de organização do
trabalho não é o das disciplinas. O enfoque globalizador exige a mudança da forma de relacionar as disci-
plinas. O autor apresenta os diferentes conceitos elaborados ao longo do século passado em torno das
possíveis relações que podem ser estabelecidas entre as disciplinas.
Tabela 2: Diferentes tipos de relações entre as disciplinas (p. 32)
Multidisciplinaridade Pluridisciplinaridade Interdisciplinaridade Transdisciplinaridade
Somativa Contigüidade Interação Unificação
Justaposição de di-
ferentes disciplinas, às
vezes sem relação apa-
rente entre si. Por exem-
plo: música + matemá-
tica + história.
Justaposição de disci-
plinas mais ou menos
próximas em um mesmo
setor de conhecimentos.
Por exemplo: matemáti-
ca + física ou, no campo
das letras, francês + latim
+ grego.
Interação entre duas
ou mais disciplinas que
pode ir desde a simples
comunicação até a inte-
gração recíproca dos
conceitos fundamentais
e da teoria do conheci-
mento, da metodologia
dos dados da investiga-
ção e do ensino.
Execução axiomáti-
ca comum a um conjun-
to de disciplinas (por
exemplo: a antropologia
considerada, segundo a
definição de Linton
como “a ciência do ser
humano e suas obras”).
200 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
O enfoque globalizador é justificado pela idéia
de que a finalidade do sistema educativo é o desen-
volvimento de todas as capacidades da pessoa para
dar resposta aos problemas que a vida em socieda-
de coloca. Com o termo enfoque globalizador (ou
perspectiva globalizadora ou, ainda, visão globali-
zadora) define-se a maneira de organizar os conteú-
dos a partir de uma concepção de ensino na qual o
objeto fundamental de estudo para os alunos seja o
conhecimento e a intervenção na realidade (35).
A sociedade atual exige um sujeito cada vez mais
habilitado a lidar com a complexidade e o enfoque
globalizador permite esse aprendizado. A aproxima-
ção dos conteúdos se dá através da resolução de si-
tuações problema que coloquem o aluno diante da
complexidade da vida real.
“Em síntese, podemos dizer que, ao organizar
os conteúdos de aprendizagem e ensino, podemos
partir de modelos nos quais não eiste nenhum tipo
de relação enre os conteúdos das diferentes disci-
plinas (multidisciplinaridade), de modelos nos quais
se estabelece algum tipo de relação entre duas ou
mais disciplinas (interdisciplaridade), e, inclusive,
de modelos nos quais a aproximação ao objeto de
estudo realiza-se prescindindo da estrutura por dis-
ciplinas (metadisciplinaridade) e cujo desenvolvi-
mento didático é abordado sob um enfoque globa-
lizador. Este pode concretizar-se às vezes em méto-
dos globalizados nos quais os diferentes conteúdos
de aprendizagem (procedentes de diversas discipli-
nas) são trabalhados de forma inter-relacionada
(uma pretensa transdisciplaridade e uma real inter-
disciplinaridade)” (39).
Para definir os princípios e as fases do enfoque
globalizador é preciso considerar os referenciais te-
óricos que embasam as opções no que se refere ao
ensino, a partir de uma opção sobre sua função so-
cial, assim como aqueles que explicam os processos
de ensino/aprendizagem. Esses são os temas dos ca-
pítulos 2 e 3, respectivamente.
Capítulo 2 – Função social do ensino e
enfoque globalizador
Toda atividade educativa reproduz ideais, va-
lores e pautas de comportamento que são reflexos
de uma determinada concepção de pessoa e de
sociedade.
Valores, idéias e pautas de comportamento são
transmitidos em todas as ações que envolvem o
ensinar. A escolha do o quê ensinar em cada uma
das disciplinas até o como ensinar e como avaliar
são elementos formativos decorrentes da concep-
ção de educação, pessoa e sociedade que os gru-
pos possuem.
Alijados dos processos decisórios que ficam nas
mãos dos grupos hegemônicos que detém o poder
político em uma sociedade, os professores raramen-
te têm clareza sobre a relação existente entre a sele-
ção do conteúdo, as formas de ensinar, os modelos
e os ideais de pessoa e sociedade. Isso impede que
eles vejam com clareza outras variáveis do ensino.
Os sistemas educativos, sem dúvida alguma, são
reprodutores da ordem social vigente. “O modelo
capitalista imperante promoveu, sob uma distribui-
ção de tarefas fordista, uma contínua especialização
no trabalho, desmembrando em diferentes fases os
processos de produção em uma atomização de su-
perespecializações, transferindo a lógica parcializa-
dora do âmbito produtivo para o próprio sistema
educativo” (47).
Por trás das tensões no falso debate entre huma-
nismo e tecnologia esconde-se um conflito ideoló-
gico que, do ponto de vista do autor, é a questão
crucial: a função social que o ensino deve cumprir.
Os professores ficam perdidos na definição de crité-
rios sobre o que ensinar porque, ao longo desse de-
bate, não se enfoca a verdadeira questão de fundo:
o papel da educação em um sistema democrático.
Só é possível desligar-se da visão parcelada do
saber que acredita que toda a organização de con-
teúdos deve obedecer a lógica disciplinar se o papel
do ensino for assumido com profundidade.
Ao situar-se em uma sociedade democrática, a
escola precisa revisar permanentemente as necessi-
dades formativas em função da permanente trans-
formação às quais as relações estão submetidas. Mas
isso implica não se deixar levar pelos relativismos e
niilismos. A escola precisa promover a discussão
sobre a necessidade de se obter liberdade com igual-
dade na distribuição das riquezas.
A primeira aproximação da discussão sobre as
finalidades da educação passa pela abordagem do
tipo de sujeito que se quer formar. Faz-se necessário
o investimento nas diferentes dimensões de desen-
volvimento da pessoa:
Dimensão social - “participar ativamente da trans-
formação da sociedade, o que significa compreen-
dê-la, avaliá-la e intervir nela, de maneira crítica e
responsável,com o objetivo de que seja cada vez
mais justa, solidária e democrática” (53).
Dimensão interpessoal - “saber relacionar-se
e viver positivamente com as demais pessoas, co-
operando e participando de todas as atividades hu-
manas com compreensão, tolerância e solidarie-
dade” (54).
Dimensão pessoal - “conhecer-se e compreen-
der a si mesmo, às demais pessoas, à sociedade e ao
mundo em que se vive, capacitando o indivíduo para
exercer responsável e criticamente a autonomia, a
cooperação, a criatividade e a liberdade” (55)
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 201
SINPEEM
Dimensão profissional - “dispor dos conhecimen-
tos e das habilidades que permitam às pessoas exer-
cer uma tarefa profissional adequada às suas neces-
sidades e capacidades” (56). Uma educação para o
trabalho onde o ensino facilite o desenvolvimento
das capacidades profissionais das pessoas, mas sem
perder a visão global da pessoa como ser crítico di-
ante das desigualdades e comprometido com a trans-
formação social e econômica.
Educar para a complexidade é uma das necessi-
dades atuais. Nesse sentido, homens e mulheres pre-
cisam desenvolver uma série de competências numa
relação com o saber que extrapole os problemas in-
ternos e específicos das disciplinas. Deve-se optar
por uma aprendizagem por problemas, complexa,
na qual o saber científico esteja a serviço do desen-
volvimento humano em suas vertentes pessoais e
sociais, capacitando-os a lidar com problemas reais.
Num ensino que se entende a necessidade de
trazer problemas da vida real para a sala de aula,
qual o papel das disciplinas? Para responder a esta
questão é necessário acabar com a dicotomia entre
conhecimento cotidiano e conhecimento científico.
Se o ensino for voltado para a intervenção na reali-
dade, temos que falar de um conhecimento cotidia-
no com diferentes graus de cientificidade. Assim, as
disciplinas contribuem com saberes especializados
no enriquecimento do conhecimento cotidiano.
“...o conhecimento escoar será constituído pela
seleção dos conteúdos de aprendizagem que de-
vem intervir no processo de melhora do conheci-
mento cotidiano. Conteúdos que, logicamente, se-
rão providos do saber culturalmente constituído, isto
é, das diferentes disciplinas ou matérias do conhe-
cimento científico” (62/3) No entanto, a estrutura
fragmentada que hoje está presente na escola não
responde a essas necessidades, por isso a impor-
tância do enfoque globalizador.
Num modelo de aprendizagem entende-se a
aprendizagem como um processo de interação dos
conhecimentos do sujeito com novos. Nesse senti-
do, o conhecimento formado por um conjunto mais
ou menos estruturado de conteúdos conceituais, pro-
cedimentais e atitudinais pode ser denominado de
conhecimento cotidiano. Ao mesmo tempo, existem
os conhecimentos científicos, constituídos pela soma
dos saberes que diferente disciplinas tradicionais
proporcionam e que formam um conjunto organiza-
do por matérias de fatos, conceitos, sistemas con-
ceituais, métodos, técnicas.
O conhecimento cotidiano é pessoal, elaborado
de maneira circunstancial e arbitrária, não existindo
separação entre os diferentes âmbitos de conheci-
mento e sem ausência de uma reflexão sobre o pró-
prio conhecimento. O conhecimento científico, por
outro lado, é universal, seguiu um processo histórico
com certa linearidade, estado rigidamente parcializa-
do, sendo a reflexão seu elemento constituinte.
A escola tradicional separou esses dois tipos de
conhecimento. No enfoque globalizador a idéia é
melhorar o conhecimento cotidiano a partir das con-
tribuições do conhecimento científico, visando o
enriquecimento do conhecimento das pessoas atra-
vés da melhora e da reconstrução do conhecimen-
to já existente.
Considerando-se que o objetivo da escola seja
a melhora e reconstrução dos conhecimentos pré-
existentes, dois problemas se colocam: 1) como de-
terminar o conhecimento escolar (conteúdos con-
ceituais, procedimentais e atitudinais que promo-
verão a reconstrução e ampliação dos conhecimen-
tos preexistentes)? 2) Como promover situações que
potencializem a significação e a funcionalidade da
aprendizagem?
A partir de uma clara definição das finalidades
de educação, é possível definir os conhecimentos
escolares. Esse conjunto de saberes devem ser o meio
para a consecução de objetivos educativos preten-
didos e não algo relevante por valores intrínsecos.
Poderão ser conteúdos: aprender a aprender, a
cooperação e a solidariedade, o conhecimento das
próprias limitações e possibilidades, a adaptabili-
dade às mudanças, a compreensão e o posiciona-
mento diante dos conflitos sociais e ambientais, a
resolução de problemas de todo tipo, etc., todos
eles relacionados a uma realidade vital e, por isso,
complexa (67).
Na perspectiva do enfoque globalizador, a reali-
dade deve ser abordada pela escola em sua forma
global. Isso implica libertar-se da servidão de esque-
mas predeterminados por diferentes pontos de vistas
das matérias. Contribui para isso a perspectiva me-
tadisciplinar (a disposição de se acercar da realida-
de com o conhecimento de que ela só é apreensível
em sua globalidade).
Para constituir um currículo escolar que realmen-
te integre as disciplinas é preciso encontrar concei-
tos que sejam transferíveis para todas as disciplinas.
Por exemplo, no caso de modelos biológicos, eco-
nômicos, ecológicos, sociológicos, podemos relaci-
onar conceitos comuns como energia, fluxo, ciclos,
redes de intercambio, equilíbrio, evolução, etc (76).
Nesse trabalho, o grande objetivo deve ser o de
prover o estudante da capacidade de diferenciação
dos instrumentos conceituais ou procedimentais ne-
cessários para atender às necessidades de resposta
diante dos problemas da realidade. Além disso, é pre-
ciso que ele aprenda a relacionar os conteúdos pro-
porcionados pelas diferentes disciplinas para que, de
maneira conjunta ou integrada, sejam potencializa-
das as capacidades explicativas de cada um deles.
O autor conclui o capítulo enumerando os três
princípios e algumas fases de intervenção daquilo
que ele denomina de enfoque globalizador.
202 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
Princípios:
· O objeto de estudo do ensino é a realidade: a
compreensão da realidade para intervir nela e trans-
formá-la
· A realidade, sua compreensão e atuação nela
são complexas
· Apesar de suas deficiências , as disciplinas são
os principais instrumentos para o conhecimento da
realidade
Fases:
1) Apresentação dos objetos de estudo em sua
complexidade
2) Processo de análise: identificação e explicita-
ção das diferentes questões que o conhecimento
coloca e a intervenção na realidade
3) Delimitação do objeto de estudo
4) Identificação dos instrumentos conceituais e
metodológicos que podem ajudar-nos a dar resposta
aos problemas colocados
5) Utilização do saber disciplinar ou dos saberes
disciplinares para chegar a um conhecimento que é
parcial
6) Integração das diferentes contribuições e re-
construção
7) Visão global e ampliada
Capítulo 3 – Concepção da aprendizagem
e enfoque globalizador
A partir de uma determinada opção acerca da
função social do ensino, o autor apresenta nesse
capítulo os critérios necessários para a constituição
de um enfoque globalizador considerando a organi-
zação dos conteúdos em função das características
das estruturas cognoscitivas2
(a, b e c), o próprio pro-
cesso de aprendizagem (d até g) e o fomento da
motivação para a aprendizagem (h até l). Além dis-
so, apresenta também as fases de trabalho.
Princípios:
a) O objetivo básico da aprendizagem consis-
te na revisão e na modificação da estrutura cog-
noscitiva, com a finalidade de que seja cada vez
mais potente.
b) Os conteúdos de aprendizagem, para que pos-
sam ser aprendidos, devem ter uma organização
conceitual lógica e uma coerência interna.
c) A capacidade de atualização dos conhecimen-
tos prévios está vinculada à sua riqueza e à sua ver-
satilidade para se relacionar com toda classe de no-
vos conteúdos.
d) Para alcançar o imprescindível desequilíbrio
dos esquemas, é necessário promover o conflito cog-
nitivo que o possibilita.
e) O reequilíbrio não é automático, porque de-
pende da natureza das atividades de aprendizagem,
do grau e do tipo de ajuda pedagógica que implica.
f) A melhora nas aprendizagens ocorre quando
há uma análise e uma reflexão sobre o processo se-
guido
g) As capacidades para o conhecimento e para a
ação estão ligadas ao domínio de estratégias de pla-
nejamento da atividade e de aprender a aprender
h) A maneira como os alunos e as alunas se auto-
representam em uma tarefa que devem realizar, ou
seja, seu autoconceito e sua auto estima, incide na
atitude para aprender significativamente.
i) A motivação depende do sentido atribuído à
tarefa, que a torna atrativa, interessante, pertinente a
uma necessidade.
j) O melhor incentivo do interesse é a gratifica-
ção da experiência de que se aprende e de que se
pode aprender
k) O papel das avaliações do próprio trabalho, o
momento e a forma como se produzem incidem
quase de maneira definitiva na motivação para a
aprendizagem
l) Os conteúdos de aprendizagem devem ser in-
teressantes por si mesmos.
Fases:
1 - Atividade motivadora que promova o fomen-
to da atitude favorável para aprender
2 - Criação do conflito cognitivo, reconhecimento
e ativação dos conhecimentos prévios
3 - Negociação compartilhada e definição dos
objetivos
4 - Planejamento das tarefas que devem ser rea-
lizadas
5 - Realização das tarefas que desenvolvem a
atividade mental necessária para a construção dos
significados
6 - Conclusões, descontextualização e generali-
zação
7 - Avaliação do processo e dos resultados: auto-
reflexão
8 - Estratégias para ajudar a lembrar
Capítulo 4 – Princípios e fases do
enfoque globalizador
O autor reconhece que, no estágio atual de or-
ganização dos sistemas escolares, o enfoque globa-
lizador pode ser pensado a partir de uma lógica dis-
ciplinar. Por isso, nesse capítulo, ele enumera os prin-
cípios e pautas sobre seqüências didáticas3
, consi-
derando a organização curricular por disciplina to-
mando como referencial as contribuições da teoria
construtivista sobre a aprendizagem.
Ele condensa os princípios e fases apresentados
nos capítulos 2 e 3.
Analisando as possibilidades de organização
disciplinar que se colocam para as escolas, suge-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 203
SINPEEM
re algumas estratégias de atuação.
Nas escolas que ainda tenham um modelo de
disciplinas independentes, é possível criar seqüên-
cias didáticas a partir dos princípios do enfoque glo-
balizador: situação de realidade, apresentação de
questões, utilização de instrumentos e recursos dis-
ciplinares, formalização segundo os critérios da dis-
ciplina e aplicação em outras situações para facilitar
a generalização e o domínio de conceitos e das ha-
bilidades aprendidos. O autor adverte, no entanto,
que, na organização disciplinar, corre-se o risco de
não introduzir o máximo possível de relações, não
só no âmbito de cada disciplina e na situação real
de partida, mas também deixando-se à margem as
relações e os vínculos entre os conteúdos das dife-
rentes disciplinas. Além disso, perde-se de vista qual
a disciplina responsável pelo desenvolvimento de
conteúdos atitudinais (respeito, solidariedade, coo-
peração, valores não-sexistas, etc).
Nas escolas em que já existe colaboração entre
os professores ou onde um professor seja responsá-
vel por diferentes disciplinas é possível chegar a um
modelo assimilável às propostas dos métodos glo-
balizados.
O autor passa a enumerar uma série de exem-
plos projetos desenvolvidos na perspectiva do enfo-
que globalizador, a saber:
· Projeto Educação global - Pike e Selvy (1988) –
, definido a partir de um sistema de objetivos educa-
tivos (envolvendo objetivos de conhecimento e ob-
jetivos de atitude).
· Critérios de globalização a partir dos temas trans-
versais – Fernando Lucini (1995) e Rafael Yus (1996)
· Currículo Integrado - Jurjo Torres (1994a), dan-
do ênfase especial a conteúdos cotidianos, tais como
as culturas infantis e juvenis, o mundo feminino, a
sexualidade lésbica e homossexual, a classe traba-
lhadora e o mundo das pessoas pobres, o mundo
rural e marítimo, entre outros.
· Educação ambiental - M.P. Jiménez e R. Lopes
(1995) –, na área de ciências naturais, integrando a
física, a química, a biologia e a geologia.
· Em ciências humanas ele cita o Projeto Aula
Sete (1995), Projeto Cronos (1997), Projeto Insula
Barataria (1995), Humanities Curriculum Project
(1984), Projeto MACOS (1969).
· Integrando meio ambiente e matemática - Kurt
Kreit (1995)
· Matemática e vida cotidiana - Fernando Corba-
lán (1995)
Por fim, da página 165 a 194, o autor dá uma
série de exemplos de unidades didáticas por áreas (e
para os diferentes níveis – de Educação Infantil ao
Ensino Médio) em um enfoque globalizador a partir
das fases apresentadas no capítulo 3.
Capítulo 5 – Os métodos globalizados
Segundo o autor, quando há as condições que
o tornam possível, o enfoque globalizador pode
concretizar-se em um método globalizado. No ca-
pítulo, ele apresenta quatro diferentes métodos glo-
balizados (os centros de interesse, o método de pro-
jetos de Kilpratick, a investigação do meio do MCE
– Movimento de Cooperazione Educativa de Itália),
os projetos de trabalho globais), examinado suas
dimensões formais, seu objeto de estudo e a seqüên-
cia didática, comparando-os com as do enfoque glo-
balizador4
.
Por fim, fornece exemplos de unidades didáticas
nas etapas da educação infantil, ensino fundamen-
tal e médio.
Os centros de interesse de Decroly partem de um
núcleo temático motivador para os alunos e, seguin-
do os processos de observação, associação e expres-
são, integram conteúdos de diferentes áreas de co-
nhecimento.
O método de projetos de Kilpatrick consiste, ba-
sicamente, na elaboração de algum objeto ou na
confecção de uma montagem (uma máquina, um
audiovisual, uma estufa, uma horta escolar, um jor-
nal, etc).
A investigação do meio do MCE (Movimento de
Cooperazione Educativa de Itália) tenta fazer com
que as crianças construam o conhecimento através
da seqüência do método científico (problemas, hi-
póteses, confirmação).
Os projetos de trabalho globais, com o objetivo
de conhecer um tema que os alunos escolheram,
propõem que é preciso elaborar um dossiê ou uma
monografia como resultado de uma pesquisa pesso-
al ou de grupo.
Zabala apresenta uma tabela comparativa das
principais características dos métodos globalizados
e do enfoque globalizador.
204 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
Tabela 3: Comparação entre os métodos globalizados e o enfoque globalizador (p. 200)
Duas críticas feitas aos métodos globalizados são
rebatidas pelo autor. A primeira diz respeito à difi-
culdade de integrar todos os conteúdos ou muitas
das atividades previstas. A segunda refere-se à possi-
bilidade de entediar os estudantes pelo fator de tra-
balharem sobre o mesmo tema durante um certo pe-
ríodo de tempo. Ele aponta que a solução está em
dividir o tempo escolar em dois períodos, um dedi-
cado ao desenvolvimento de método globalizado e
outro a sessões de trabalhos específicos por área.
1
Que visa dar ao aluno a formação geral e bási-
ca para que possa ingressar num curso superior (dic.
Houaiss)
2
Que tem o poder ou a capacidade de conhecer
(dicionário Houaiss).
3
Segundo Zabala, a seqüência didática é um
conjunto de atividades organizado pelas aprendiza-
gens. É caracterizada por uma progressão de desafi-
os (problemas) a serem enfrentados (resolvidos) pe-
los alunos. A resolução desses problemas, por hipó-
tese provoca mudanças qualitativas nos esquemas
de conhecimento do aluno sobre o conteúdo que a
seqüência focaliza. Por isso, pressupõe conhecimen-
to sobre o conteúdo a ser aprendido e uma visão
didática sobre os processos de aprendizagem na área
de conhecimento a que ele pertence.
4
As seqüências apresentadas no livro foram tira-
das do capítulo 6 do livro também escrito por Zaba-
la, intitulado “A prática educativa – como ensinar”.
Síntese elaborada por Maria Lima, doutora pela
FEUSP.
Primeiro Momento Segundo Momento Terceiro momento
A. Situação
da realidade
B. Aprendizagem
específica
C. Integração
Tipos de Relações disciplinares
Enfoque globalizador
1. Perspectiva
metadisciplinar
2. Processo
disciplinar
3. Processo
interdisciplinar
(perspectiva
metadisciplinar)
1. Motivação
2. Apresentação
3. Análise
4. Delimitação
5. Identificação
de instrumentos
6. Utilização
de instrumentos
7. Integração
8. Visão global
e ampliada
9. Memorização
Intenção
Centros de
Interesse
Tema que se
quer estudar
(Sincrise)
1. Observação
(Análise)
2. Associação:
- no espaço
- no tempo
- tecnologia
- de causalidade
(Síntese)
3. Expressão
Métodos de
projeto
Projeto que se
quer realizar
1.Intenção
2. Preparação
3. Execução 4. Avaliação
Investigação
do meio
Perguntas ou
questões
1. Motivação
2. Perguntas
3. Hipóteses
4. Informação
5. Coleta de dados
6. Seleção
7. Conclusões
8. Expressão
e comunicação
Projetos de
trabalho global
Elaboração do
dossiê
1. Escolha do tema
2. Planejamento
3. Informação
4. Tratamento
da informação
5. Desenvolvimento
do índice
6. Avaliação
7. Novas
Perspectivas
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 205
SINPEEM
ZABALA, Antoni. Porto Alegre, Artmed, 1998
O autor apresenta nesse livro alguns critérios para
o que chamou de uma prática reflexiva e coerente,
fornecendo elementos que possibilitem a análise das
condições dessa prática, a qual precisa ser interro-
gada a partir de determinados referenciais teóricos.
Inicia o livro abordando os referenciais necessá-
rios para a análise da prática educativa, discorren-
do, em seguida, sobre as variáveis que tradicional-
mente foram utilizadas para interpretar prática do-
cente, em particular as relações interativas, a orga-
nização social da aula, o tempo e o espaço, a orga-
nização dos conteúdos, os materiais curriculares, os
recursos didáticos e a avaliação.
Capítulo 1 - A prática educativa:
unidades de análise
O autor afirma que a prática docente deve se
pautar no pensamento prático sem deixar de lado a
capacidade reflexiva, conseguida a partir de recur-
sos teóricos que potencializem a atuação.
Uma série de variáveis configura a prática edu-
cativa, tais como os parâmetros institucionais, orga-
nizativos, tradições metodológicas, possibilidades
reais dos professores, dos meios e condições físicas
existentes. Mas a prática educativa é complexa e seu
estudo envolve a consideração de aspectos muito
concretos relacionados à aula e à intervenção peda-
gógica, como as atividades ou tarefas, unidade bási-
ca do processo ensino/aprendizagem.
O autor chama a organização das atividades de
seqüências didáticas e as considera a unidade prefe-
rencial para análise da prática. As seqüências didá-
ticas (sinônimo de unidade didática, unidade de pro-
gramação ou unidades de interação pedagógica) são
definidas por Zabala como um conjunto de ativida-
des ordenadas, estruturadas e articuladas para a rea-
lização de certos objetivos educacionais, que têm
um princípio e um fim, conhecidos tanto pelos pro-
fessores como pelos alunos. Para analisar a comple-
xidade da prática educativa no contexto das seqüên-
cias didáticas, o autor ressalta ser preciso identificar
as variáveis metodológicas que a envolvem. A seu
ver, as principais variáveis, à reflexão das quais ele
destina todo o livro, são: a seqüência de atividades
de ensino/aprendizagem (seqüência didática); o pa-
pel dos professores e dos alunos (relações interati-
vas e situações comunicativas); organização social
da aula (formas de agrupamentos); utilização dos
espaços e dos tempos; maneira de organizar os con-
teúdos; uso de materiais curriculares e outros recur-
A PRÁTICA EDUCATIVA - COMO ENSINAR
sos didáticos; o sentido e o papel da avaliação – uma
variável determinante, uma peça-chave para deter-
minar as características de qualquer metodologia.
Capítulo 2 - A função social do ensino e a
concepção sobre os processos de aprendizagem:
instrumentos de análise
A função social do ensino e ao conhecimento
sobre como se dá a aprendizagem estão dentre os
referenciais mais importantes para a reflexão sobre a
prática educativa, segundo Zabala. O domínio des-
ses dois âmbitos de conhecimento é fundamental
para lidar com as variáveis que configuram a prática
educativa. Por conseguinte, os objetivos educacio-
nais cumprem um papel central. Por trás de qual-
quer intervenção pedagógica consciente se escon-
dem uma análise sociológica e uma tomada de posi-
ção que é sempre ideológica. É necessária uma re-
flexão profunda e permanente quanto à condição de
cidadão e cidadã e quanto às características da soci-
edade que os alunos irão viver. É preciso insistir que
tudo o que fazemos em aula, por menor que seja,
incide em maior ou menor grau na formação de nos-
sos alunos.
É nesse contexto que os conteúdos de aprendi-
zagem assumem o papel de instrumento de explici-
tação das intenções educativas. Numa perspectiva
mais ampla, o conceito de conteúdo amplia-se, dei-
xando de se restringir aos conteúdos conceituais, que
abrangem apenas as capacidades cognitivas, passan-
do a englobar as capacidades motora, afetivas, de
relação interpessoal e de inserção social. Dá-se visi-
bilidade a um currículo oculto que, apesar de serem
aprendizagens realizadas na escola, não apareciam
de forma explícita nos planos de ensino. Assim, ve-
mos surgir conteúdos de diferentes naturezas: os
conceituais, os procedimentais e os atitudinais.
Num ensino que propõe a formação integral a
presença dos diferentes tipos de conteúdos estará
equilibrada, conhecendo-se aquilo que se trabalha
e o que se pretende trabalhar. Além disso, para ensi-
nar é preciso partir de uma idéia de como as apren-
dizagens se produzem. Hoje, tem-se claro que as
aprendizagens dependem das características singu-
lares de cada um dos aprendizes, correspondendo,
em grande parte, às experiências que cada indiví-
duo viveu desde o nascimento. De acordo com as
capacidades, as motivações e interesses de cada um
dos meninos e meninas, a forma como se aprende e
o ritmo da aprendizagem variam. As aprendizagens
são, portanto, o resultado de processos que sempre
são singulares e pessoais, o que pressupõe um enfo-
206 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
que pedagógico que tenha como eixo estruturador a
observação à atenção a diversidade dos alunos.
Os princípios psicopedagógicos em torno da con-
cepção construtivista da aprendizagem estabelecem
referências e critérios relevantes para a análise da
prática e da intervenção pedagógica. No tocante à
aprendizagem, considera-se que a estrutura cogniti-
va do estudante configurada por uma rede de esque-
mas de conhecimento deve ser atualizada através
de comparações com o que é novo e da identifica-
ção de semelhanças e diferenças..
No que se refere ao ensino, concebe-se a inter-
venção pedagógica como uma ajuda adaptada ao
processo de construção do conhecimento pelo alu-
no; uma intervenção que vai criando zonas de de-
senvolvimento proximal e que ajuda os alunos a
percorrê-la.
O autor considera que a classificação dos con-
teúdos segundo a tipologia (conceituais, atitudinais
e procedimentais) potencializa a ação do ensino no
sentido de promover uma aprendizagem significati-
va, pois em torno deles as diferentes disciplinas po-
dem se integrar. Assim, ele propõe que se conheça
algumas das características da aprendizagem de cada
um desses conteúdos para que se potencialize a ação
do ensino.
O primeiro tipo de conteúdo está relacionado ao
conhecimento de fatos, acontecimentos, situações,
dados e fenômenos concretos e singulares. Para po-
der compreender a maioria das informações e pro-
blemas que surgem na vida cotidiana e profissional
é preciso que estes dados, fatos e acontecimentos
disponham dos conceitos associados que permitam
interpretá-los. Consideramos que um aluno ou alu-
na aprendeu um conteúdo factual quando é capaz
de reproduzi-lo. Este tipo de conhecimento se apren-
de basicamente mediante atividades de cópia, a fim
de ser integrado na memória.
O segundo tipo de conteúdo, os conceitos, se
referem ao conjunto de fatos, objetos ou símbolos
que têm características comuns. Os princípios se re-
ferem às mudanças que se produzem num fato, ob-
jeto ou situação em relação a outros fatos, objetos
ou situações. Normalmente, os princípios descrevem
relações de causa e efeito ou de correlação. Ambos
(conceitos e princípios) têm como denominador co-
mum a necessidade de compreensão. Para que o
estudante possa utilizar um conceito ou princípio
para a interpretação, o conhecimento de situações,
ou mesmo para a construção de outras idéias é ne-
cessário que a aprendizagem envolva um verdadei-
ro processo de elaboração e construção pessoal. Para
tanto, ela deve se dar num contexto complexo de
resolução de problemas.
O conteúdo procedimental (regras, técnicas,
métodos, as destrezas ou habilidades, as estratégias,
os procedimentos entre outras coisas) é um conjun-
to de ações ordenadas dirigidas para a realização de
um objetivo. Aprendem-se os conteúdos procedi-
mentais a partir de modelos especializados. Para esse
tipo de conteúdo, a partir da realização de ações, é
necessário considerar a exercitação múltipla, a re-
flexão sobre a própria atividade e a aplicação em
contextos diferenciados.
Zabala fecha o capítulo abordando a aprendiza-
gem dos conteúdos atitudinais. O termo engloba uma
série de conteúdos que podem ser agrupados em
valores, atitudes e normas. Estes conteúdos estão
estreitamente relacionados e cada um deles está con-
figurado por componentes cognitivos, afetivos e con-
dutais. A aprendizagem supõe um conhecimento e
uma reflexão sobre os possíveis modelos, uma aná-
lise e uma avaliação das normas, uma apropriação
e elaboração do conteúdo, que implica a análise
dos fatores positivos e negativos, uma tomada de
posição, um envolvimento afetivo e uma revisão e
avaliação da própria atuação.
Capítulo 3 – As seqüências didáticas e as
seqüências de conteúdo
Muitas propostas didáticas têm sua especificida-
de determinada pelo tipo de atividades e a maneira
de organizá-las. Assim, a identificação das fases de
uma seqüência didática, as atividades que a confor-
mam e as relações que se estabelecem devem nos
servir para compreender o valor educacional que
tem, as razões que as justificam e a necessidade de
introduzir mudanças ou atividades novas. O autor
sugere um roteiro de investigação para o desvenda-
mento desses elementos, a partir de questões que
permitam analisar se na seqüência didática existem
atividades: a) que possibilitem determinar os conhe-
cimentos prévios que cada aluno tem em relação aos
novos conteúdos de aprendizagem? b) cujos con-
teúdos são propostos de forma que sejam significati-
vos e funcionais para os meninos e meninas? c) que
representam um desafio alcançável para o aluno,
quer dizer, que levam em conta suas competências
atuais e as façam avançar com a ajuda necessária;
portanto, que permitam criar zonas de desenvolvi-
mento proximal e intervir? d) que estimulem a auto-
estima e o auto-conceito em relação às aprendiza-
gens que se propõem, quer dizer, que o aluno possa
sentir que em certo grau aprendeu, que seu esforço
valeu a pena?
O autor propõe também que se analise a seqüên-
cia didática a partir da todos os conteúdos que apa-
recem ao longo da unidade. Torna-se necessário es-
tabelecer algumas características dessa unidade
básica sobretudo nas áreas de caráter mais proce-
dimental e para os conteúdos de caráter atitudi-
nal. Importante também considerar os conteúdos
dos denominados eixos transversais e aqueles ob-
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 207
SINPEEM
jetivos relacionados com a moral e a ética.
Uma vez identificadas as seqüências de conteú-
dos, o passo seguinte consiste em relacioná-las com
o conhecimento que temos sobre os processos sub-
jacentes à aprendizagem dos diferentes conteúdos.
As atividades básicas para as seqüências de con-
teúdos factuais terão de ser aquelas que têm exercí-
cios de repetição e, conforme a quantidade e a com-
plexidade da informação, utilizem estratégias que
reforcem as repetições mediante organizações signi-
ficativas ou associações. O próprio aluno precisa
realizar os exercícios por sua conta até que seja ca-
paz de assimilar o conteúdo.
No tocante aos conceitos e princípios, por serem
temas abstratos, requerem uma compreensão do sig-
nificado e, portanto, um processo de elaboração
pessoal. São totalmente necessárias as condições
estabelecidas sobre a significância na aprendizagem.
No ensino de conteúdos procedimentais, de téc-
nicas ou estratégias, existe a necessidade de realizar
exercícios suficientes e progressivos das diferentes
ações que os formam. Nesse sentido, as seqüências
dos conteúdos dos procedimentos deverão conter
algumas condições: a) devem partir de situações sig-
nificativas e funcionais; b) a seqüência deve con-
templar atividades que apresentem os modelos de
desenvolvimento do conteúdo de aprendizagem; c)
é necessário que as atividades de ensino/aprendiza-
gem se ajustem ao máximo a uma seqüência clara
com uma ordem de atividades que siga um processo
gradual; d) são necessárias atividades com ajudas
de diferente grau e prática guiada; e) atividades de
trabalho independente.
Na aprendizagem do conteúdo atitudinal têm que
abarcar, junto com os campos cognitivos, os afeti-
vos e condutuais, dado que os pensamentos, os sen-
timentos e o comportamento de uma pessoa não
dependem só do socialmente estabelecido, como
sobretudo, das relações pessoais que cada um esta-
belece com o objeto da atitude ou do valor. É preci-
so sensibilizar o aluno sobre as normas existentes na
escola e na aula através da participação ativa do alu-
no. A assembléia de alunos como recurso didático
pode responder às necessidades de formação dos
valores que queremos para a escola. Nas seqüênci-
as de aprendizagem será preciso levar em conta tam-
bém algumas medidas: 1) adaptar o caráter dos con-
teúdos atitudinais às necessidades e situações reais
dos alunos; 2) partir da realidade e aproveitar os
conflitos que nela se apresentam; 3) introduzir pro-
cessos de reflexão crítica para que as normas sociais
de convivência integrem as próprias normas; 4) fa-
vorecer modelos de atitudes que se queiram desen-
volver, não apenas por parte dos professores; e) fo-
mentar a autonomia de cada aluno.
Capítulo 4 - As relações interativas em sala
de aula: o papel dos professores e dos alunos
Na perspectiva construtivista, o ensino se articu-
la em torno do princípio da atividade mental dos alu-
nos e é visto como um processo de construção com-
partilhada de significados, orientados para a auto-
nomia dos estudantes. Disso decorre algumas fun-
ções dos professores: 1) planejar a atuação docente
de uma maneira suficientemente flexível para per-
mitir a adaptação às necessidades dos alunos em todo
o processo de ensino/aprendizagem; 2) contar com
as contribuições e os conhecimentos dos alunos, tan-
to no inicio das atividades como durante sua reali-
zação; 3) ajudá-los a encontrar sentido no que estão
fazendo para que conheçam o que têm de fazer, sin-
tam que podem fazê-lo e que é interessante fazê-lo;
4) estabelecer metas ao alcance dos alunos para que
possam ser superadas com o esforço e a ajuda ne-
cessários; 5) oferecer ajudas adequadas, no proces-
so de construção do aluno, para os progressos que
experimenta e para enfrentar os obstáculos com os
quais se depara; 6) promover atividade mental auto-
estruturante que permita estabelecer o máximo de
relações com o novo conteúdo, atribuindo-lhe sig-
nificado no maior grau possível e fomentando os
processos de metacognição que lhe permitam asse-
gurar o controle pessoal sobre os próprios conheci-
mentos e processos durante a aprendizagem; 7) es-
tabelecer um ambiente e determinadas relações pre-
sididos pelo respeito mútuo e pelo sentimento de
confiança, que promovam a auto-estima e o auto-
conceito; 8) promover canais de comunicação que
regulem os processos de negociação, participação e
construção; 9) potencializar progressivamente a au-
tonomia dos alunos na definição de objetivos, no
planejamento das ações que os conduzirão a eles e
em sua realização e controle, possibilitando que
aprendam a aprender; 10) avaliar os alunos confor-
me suas capacidades e seus esforços, levando em
conta o ponto pessoal de partida e o processo atra-
vés do qual adquirem conhecimento e incentivando
à auto-avaliação das competências.
A estruturação das relações interativas e o tipo
de atuação do professor também são determinados
pelo tipo de conteúdo. Assim, a condição ativa dos
conteúdos procedimentais obriga a incluir ativida-
des que permitam realizar as ações que comportam
estes conteúdos tantas vezes quantas for necessário.
Ademais, é preciso incluir formas organizativas que
facilitem as ajudas adequadas às necessidades espe-
cíficas de cada um dos alunos. A ação dos alunos
deve ser precedida da observação de modelos e sua
realização deve contar com apoio constante.
A aprendizagem dos conteúdos atitudinais, re-
quer uma reflexão mais profunda a respeito das rela-
ções interativas que devem ser promovidas. O fato
208 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
de que para a aprendizagem dos conteúdos atitudi-
nais seja preciso articular ações formativas, nas quais
estes conteúdos sejam “vividos” pelos alunos, obri-
gada a integrar em aula não apenas as tarefas con-
cretas, como principalmente formas específicas de
desenvolvê-las em clima e em relações adequadas
entre professores e alunos e entre os próprios alu-
nos. O ambiente geral, as avaliações que se faz e as
relações que se estabelecem têm que traduzir os va-
lores que se quer ensinar (105).
Capítulo 5 - A organização social das classes
O autor ressalta que os processos individuais
têm sido, historicamente, a forma mais habitual de
preparar as pessoas mais jovens, de qualquer gru-
po social para se inserir na coletividade. A necessi-
dade de resolver o problema de como ensinar ao
mesmo tempo a um número máximo de alunos
ocorreu quando se considerou necessário generali-
zar o ensino da leitura e da escrita, denominada
“cultura geral”. Decorreu daí uma forma de organi-
zação que privilegiava a reunião de grandes gru-
pos coordenados por um preceptor. No início do
século XX, evoluiu-se para outras formas de orga-
nização da escola e dos alunos em função das dife-
rentes concepções educativas e conhecimentos psi-
copedagógicos que nasceram.
As diferenças mais características das diversas
formas de agrupamentos estão determinadas por seu
âmbito de intervenção: grupo/escola e grupo/classe.
Em cada uma delas conforme o trabalho a ser reali-
zado temos todo o grupo trabalhando junto ou equi-
pes fixas ou móveis.
As características da organização grupal neste
âmbito estão determinadas, em primeiro lugar, pela
organização e pela estrutura de gestão da escola e,
em segundo lugar pelas atividades que toda escola
realiza de forma coletiva. Além disso, a estrutura e a
organização da escola como grupo se define pelo
grau de envolvimento e atribuição de responsabili-
dade dos professores e dos próprios alunos e pela
definição de papéis dos diferentes segmentos que
compõem a comunidade escola. Este funcionamen-
to também define determinadas relações interpesso-
ais que podem ser de ajuda, de colaboração, de con-
fiança ou exatamente o contrário. O grau e a manei-
ra em que os diferentes segmentos da comunidade
escolar participam nas decisões da escola são igual-
mente básicos na formação dos alunos.
No caso dos grupos/classe fixos, estes devem ser
heterogêneos para que ocorra a aprendizagem entre
iguais, o contraste entre modelos diferentes de pen-
sar e atuar e o surgimento de conflitos cognitivos, a
possibilidade de receber ajuda dos colegas que sa-
bem mais etc.
No grupo/classe móvel, os componentes são di-
ferentes conforme as atividades, áreas ou matérias
e que pode chegar a ter professores diferentes para
cada aluno. A razão fundamental que deu origem a
esta forma organizativa foi a preocupação em aten-
der aos diferentes interesses e capacidades dos
meninos e meninas.
No espaço da aula, Zabala aponta a diversidade
de agrupamentos possíveis: em grande grupo (todos
fazem o mesmo ao mesmo tempo); em equipes fixas
(grupos de alunos de 5 a 8 componentes por um lon-
go período de tempo); em equipes móveis ou flexí-
veis (alunos que se agrupam pelo tempo de realiza-
ção de uma atividade); trabalho individual.
Zabala destaca a importância das variáveis tem-
po e espaço na determinação das diferentes formas
de intervenção pedagógica. Quando o foco é a apren-
dizagem e não mais o ensino, tanto o espaço, quan-
to o tempo, ajustam-se em função dos objetivos edu-
cativos que nascem de uma certa concepção de edu-
cação. E nesse sentido, a estrutura rígida das salas
de aula e períodos de tempo de trabalho inflexíveis
podem inviabilizar uma efetiva transformação das
maneiras de ensinar.
Capítulo 6 - A organização dos conteúdos
Para o autor, o modelo disciplinar, utilizado pela
maioria das escolas, e o método globalizado são as
duas formas básicas de organizar os conteúdos na
escola atualmente. Os métodos globalizados nasce-
ram quando o aluno se transformou no protagonista
do ensino. Neles, os conteúdos que são trabalhados
procedem de diferentes disciplinas, apesar de não
seguir uma lógica disciplinar.
Existem vários métodos que podem ser conside-
rados globalizadores na perspectiva de Zabala. O
autor detém-se em quatro deles: 1) os centros de in-
teresse de Decroly: parte de núcleo temático moti-
vador para o aluno e segue pelos processos de ob-
servação, associação e expressão, integrando dife-
rentes áreas do conhecimento; 2) o método de pro-
jetos de Kilpratick: consiste na elaboração e produ-
ção de algum objeto ou montagem; designa a ativi-
dade espontânea e coordenada de um grupo de alu-
nos que se dedicam metodicamente à execução de
um trabalho globalizado e escolhido livremente por
eles mesmos; 3) o método do estudo do meio: con-
sidera a pesquisa como um método de aprendiza-
gem, possibilitando que o aluno conheça o mundo
cientificamente; 4) os projetos de trabalho: com o
fim de se conhecer um tema, as crianças elaboraram
um dossiê, individualmente ou em equipe, mobili-
zando para isso uma série de habilidades, estratégi-
as e conhecimentos procedentes de diferentes disci-
plinas, áreas ou matérias.
Os quatro diferentes métodos globalizados pro-
põem diferentes formas de seqüenciar os conteúdos,
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 209
SINPEEM
de organizar os grupos, de usar materiais e de avali-
ar. Eles tomam como objetivo fundamental a inter-
venção na realidade, pois se entende que esse é o
principal elemento para fomentar uma atitude favo-
rável à aprendizagem.
Capítulo 7 - Os materiais curriculares e
outros recursos didáticos
Zabala aponta que os materiais curriculares (ou
materiais de desenvolvimento curricular) considera-
dos essenciais em muitas propostas pedagógicas, são
todos aqueles instrumentos que proporcionam ao
educador referências e critérios para tomar decisões
(planejamento, intervenção direta e avaliação).
Desse ponto de vita, a noção de materiais curri-
culares se amplia e pode incluir propostas para a
elaboração de projetos educativos e curriculares da
escola; propostas relativas ao ensino em determina-
das matérias ou áreas, ou em determinados níveis,
ciclos ou etapas; propostas para o ensino destinado
a alunos com necessidades educativas especiais;
descrição de experiências de inovação educativa;
materiais para o desenvolvimento de unidades didá-
ticas; avaliação de experiências e dos próprios ma-
teriais curriculares, etc (168).
No referente aos materiais de aula e materiais
para o aluno, o autor ressalta que cada meio oferece
algumas potencialidades específicas e é importante
determinar em que podem ser mais úteis. Entre os
mais utilizados na escola ele cita os suportes: em
papel, a projeção estática; imagem e movimento; o
suporte da informática e o suporte multimídia.
Para a análise e a seleção dos materiais curricu-
lares dirigidos aos alunos, Zabala aponta a necessi-
dade de se determinar critérios e referências a fim
de se detectar os objetivos educativos subjacentes
num determinado material, por exemplo, num pro-
jeto editorial; verificar que conteúdos são trabalha-
dos, comprovando se existe uma correspondência
entre os objetivos e os conteúdos; verificar que se-
qüências de atividades são propostas para cada um
dos conteúdos.
O autor ressalta a importância da existência de
materiais curriculares diversificados. Quanto mais
variados sejam os materiais, mais fácil será a elabo-
ração de propostas singulares, ajustados às necessi-
dades específicas de um grupo/classe e à especifici-
dade tipológica de cada conteúdo.
Capítulo 8 - A Avaliação
É possível distinguir claramente dois processos
avaliáveis, segundo o autor: como o aluno aprende
e como o professor ou professora ensina.
Muitos dos pressupostos da avaliação (qualificar
e sancionar) mudam quando a formação integral é a
finalidade principal do ensino e, portanto, seu maior
objetivo é o desenvolvimento de todas as capacida-
des da pessoa e não apenas as cognitivas. O objeti-
vo do ensino não centra sua atenção em certos parâ-
metros finalistas para todos, mas nas possibilidades
pessoais de cada um dos alunos. O resultado é a
transformação das formas de avaliar em função das
novas necessidades que se instauram.
Na análise da avaliação que tem a concepção
construtivista do ensino e a aprendizagem como re-
ferencial psicopedagógico, o objeto da avaliação
deixa de se centrar exclusivamente nos resultados
obtidos e se situa prioritariamente no processo de
ensino/aprendizagem, tanto do grupo/classe como
de cada um dos alunos. Por outro lado, o sujeito da
avaliação não apenas se centra no aluno, como tam-
bém na equipe que intervém no processo. Nesse
contexto, a avaliação torna-se formativa, de manei-
ra que o processo avaliador, independentemente de
seu objeto de estudo, tem que observar as diferentes
fases de uma intervenção que deverá ser estratégica.
A avaliação deve, então, possibilitar: 1) que se
conheça a situação de partida, em função de deter-
minados objetivos gerais bem definidos (avaliação
inicial); 2) um planejamento da intervenção funda-
mentado e, ao mesmo tempo, flexível, entendido
como uma hipótese de intervenção; 3) uma atua-
ção na aula, em que as atividades e tarefas e os
próprios conteúdos de trabalho se adequarão cons-
tantemente (avaliação reguladora) às necessidades
que vão se apresentando para chegar a determina-
dos resultados (avaliação final); 4) Uma compreen-
são e valoração sobre o processo seguido, que per-
mita estabelecer novas propostas de intervenção
(avaliação integradora).
A avaliação na perspectiva formativa considera
as diferentes características dos tipos de conteúdos
em função das características de sua aprendizagem.
Uma aprendizagem significativa de fatos envol-
ve sempre a associação dos fatos aos conceitos que
permitem transformar este conhecimento em instru-
mento para a concepção e interpretação das situa-
ções ou fenômenos que explicam. Se o que interes-
sa saber, neste momento, é se são capazes de lem-
brar os nomes, os dados, os títulos, as datas, etc, a
atividade mais apropriada para avaliar o que o alu-
no sabe será a simples pergunta. As provas denomi-
nadas objetivas podem ser bastante úteis para a ava-
liação do domínio do conhecimento dos fatos.
As atividades para conhecer qual é a compreen-
são de um determinado conceito não podem se ba-
sear na repetição de algumas definições. Mesmo que
se pedisse que o aluno fosse capaz de definir auto-
nomamente, sem repetir uma definição padroniza-
da, deveríamos saber que este é um dos graus mais
difíceis de conceitualização. As atividades que po-
dem garantir um melhor conhecimento do que cada
210 PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM
SINPEEM
aluno compreende implicam a observação do uso
de cada um dos conceitos em diversas situações e
nos casos em que o menino ou a menina os utilizam
em suas explicações espontâneas.
Os conteúdos procedimentais implicam saber
fazer, e o conhecimento sobre o domínio deste sa-
ber fazer só pode ser verificado em situações de apli-
cação destes conteúdos. O que se pede é sua capa-
cidade de uso, a competência na ação, o saber fa-
zer. Por isso, são potenciais as atividades e situações
que nos permitam realizar a observação sistemática
de cada um dos alunos, sendo que as habituais pro-
vas de papel e lápis servem só para alguns casos .
A avaliação dos conteúdos atitudinais é a mais
complexa e o problema não está na dificuldade de
expressão do conhecimento que os meninos e me-
ninas têm, mas na dificuldade da aquisição deste
conhecimento. A fonte de informação para conhe-
cer os avanços nas aprendizagens de conteúdos ati-
tudinais será a observação sistemática de opiniões e
das atuações nas atividades grupais, nos debates das
assembléias, nas manifestações dentro e fora da aula,
nas visitas, passeios e excursões, na distribuição de
tarefas e responsabilidades, durante o recreio, nas
atividades esportivas, etc.
A observação da atuação dos alunos em situa-
ções o menos artificiais possíveis, com um clima de
cooperação e cumplicidade, é a melhor maneira,
para não dizer a única, de que dispomos para reali-
zar uma avaliação que pretenda ser formativa.
Por fim, levando-se em consideração que é pre-
ciso avaliar os processos que cada aluno segue, a
fim de obter o máximo rendimento de suas possibili-
dades, é preciso compartilhar todos os dados consi-
derados significativos com o grupo/classe, alunos,
família, grupo de professores ou a administração
da escola. Essa socialização deve ocorrer: 1) ao lon-
go das diferentes etapas do ensino obrigatório, di-
ferenciando-se o processo que cada aluno segue e
os resultados ou competências que vai adquirindo;
2) diferenciar o que representam os resultados ob-
tidos de acordo com os objetivos previstos para cada
menino e menina, conforme sua possibilidades, e
o que estes resultados representam em relação aos
objetivos gerais para todo o grupo; 3) na análise e
avaliação das aprendizagens é indispensável dife-
renciar os conteúdos que são de natureza diferente
e não situá-los num mesmo indicador (factuais, con-
ceituais, procedimentais e atitudinais); 4) diferen-
ciar as demandas da administração e as necessida-
des de avaliação que se tem na escola.
O autor encerra o livro ressaltando que, muito
embora a análise da prática seja inseparável de ino-
vação e de formação, é também indissociável de re-
ferenciais, de marcos que permitam fazer estas aná-
lises. Além de se vincularem à ação conjunta, tais
marcos precisam permitir a superação dos níveis
puramente descritivos, que não se contentem com
a constatação do que se faz, mas que permitam ava-
liar sua pertinência e adequação.
Resumo realizado por Sandra Giovina Ponzio
Ferreira, psicóloga pela PUC/SP; mestranda na FEUSP
e membro do GEAL.
PEDAGÓGICA – CONCURSO 2007 – SINPEEM 211
SINPEEM
Anotações

Apostila pedagógica

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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 3 SINPEEM COLEGA ASSOCIADO A exemplo de anos anteriores, o curso preparatório do SINPEEM para os concursos públicos de ingresso e de acesso de 2007 para o provimento dos cargos de professor de educação infantil, de ensino fundamental I e II e de ensino médio, bem como de coordenador pedagógico, tem o claro propósito do sindicato de investir cada vez mais na formação dos profissionais de educação da rede muni- cipal de ensino. Milhares de associados ao SINPEEM que se inscre- veram no prazo determinado farão o curso preparatório, dividido em duas etapas: legislação e parte pedagógica. Com base nos editais dos concursos publicados no Diário Oficial da Cidade (DOC) em 5 de junho de 2007 e retificados em 22 de junho, elaboramos esta apostila com a legislação solicitada pela Secretaria Municipal de Edu- cação (SME). Para facilitar o entendimento, algumas leis foram resumidas ou tiveram artigos suprimidos. Apesar de termos reivindicado um prazo de 120 dias entre a publicação dos editais e a realização do concurso, essencial para a elaboração do curso e aprendizado dos can- didatos, a SME desconsiderou a necessidade de um tempo maior para a preparação dos inscritos. Por isso, contamos com a colaboração e compreensão para eventuais limita- ções e problemas. Desejamos a todos bom aproveitamento e um exce- lente desempenho nas provas. A DIRETORIA CLAUDIO FONSECA Presidente
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    4 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM ALARCÃO, Isabel PROFESSORES REFLEXIVOS EM UMA ESCOLA REFLEXIVA.................................................................................................................... 6 BRUNEL, Carmem JOVENS CADA VEZ MAIS JOVENS NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS .................................................................................. 12 CANDAU, Vera Maria (organizadora) SOCIEDADE, EDUCAÇÃO E CULTURA(S): QUESTÕES E PROPOSTAS.............................................................................................. 19 CARVALHO, Rosita Edler EDUCAÇÃO INCLUSIVA: COM OS PINGOS NOS “IS”...................................................................................................................... 25 CASTORINA, J. A. PIAGET-VYGOTSKY: NOVAS CONTRIBUIÇÕES PARA O DEBATE..................................................................................................... 36 COLL, César APRENDIZAGEM ESCOLAR E CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO.............................................................................................. 40 FREIRE, Paulo PEDAGOGIA DA AUTONOMIA – SABERES NECESSÁRIOS À PRÁTICA EDUCATIVA ....................................................................... 43 FREITAS, Luiz Carlos de CICLOS, SERIAÇÃO E AVALIAÇÃO: CONFRONTO DE LÓGICAS ..................................................................................................... 48 GARCIA, Olgair Gomes A AULA COMO MOMENTO DE FORMAÇÃO DE EDUCANDOS E EDUCADORES.......................................................................... 52 GONÇALVES, Luiz Alberto Oliveira & SILVA, Petronilha Beatriz Gonçalves O JOGO DAS DIFERENÇAS: O MULTICULTURALISMO E SEUS CONTEXTOS .................................................................................. 54 HADJI, Charles AVALIAÇÃO DESMISTIFICADA ........................................................................................................................................................... 64 HARGREAVES, Andy O ENSINO NA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: EDUCAÇÃO NA ERA DA INSEGURANÇA...................................................... 71 HOFFMANN, Jussara O JOGO DO CONTRÁRIO EM AVALIAÇÃO ...................................................................................................................................... 78 LERNER, Delia LER E ESCREVER NA ESCOLA – O REAL, O POSSÍVEL E O NECESSÁRIO .......................................................................................... 86 LIBÂNEO, José Carlos; OLIVEIRA, João Ferreira; TOSCHI, Mirza Seabra A EDUCAÇÃO ESCOLAR PÚBLICA E DEMOCRÁTICA NO CONTEXTO ATUAL: UM DESAFIO FUNDAMENTAL ........................... 91 MACEDO, Lino de ENSAIOS PEDAGÓGICOS: COMO CONSTRUIR UMA ESCOLA PARA TODOS? .................................................................................. 98 ÍNDICE
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 5 SINPEEM MELLO, Guiomar Namo de EDUCAÇÃO ESCOLAR BRASILEIRA - O QUE TROUXEMOS DO SÉCULO XX? ...........................................................................105 MOLL, Jaqueline (org.) EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS............................................................................................................................................. 108 MORAN, José Manuel; MACETTO, Marcos T; BEHRENS, Marilda Aparecida NOVAS TECNOLOGIAS E MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA .................................................................................................................116 MUNANGA, Kabengele; GOMES, Nilma Lino PARA ENTENDER O NEGRO NO BRASIL DE HOJE: HISTÓRIA, REALIDADES, PROBLEMAS E CAMINHOS.............................124 PERRENOUD, Phillipe AVALIAÇÃO: DA EXCELÊNCIA À REGULAÇÃO DAS APRENDIZAGENS - ENTRE DUAS LÓGICAS ...........................................128 PERRENOUD, Phillipe DEZ NOVAS COMPETÊNCIAS PARA ENSINAR ..............................................................................................................................138 RIBEIRO, Vera Masagão EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: NOVOS LEITORES, NOVAS LEITURAS ...........................................................................140 SACRISTÁN, J. Gimeno COMPREENDER E TRANSFORMAR O ENSINO .............................................................................................................................146 STAINBACK, Suzan; STAINBACK, William INCLUSÃO – UM GUIA PARA EDUCADORES ...............................................................................................................................154 TAILLE, Yves de La O ERRO NA PERSPECTIVA PIAGETIANA ........................................................................................................................................157 TEBEROSKY, Ana. COMPREENSÃO DA LEITURA: A LÍNGUA COMO PROCEDIMENTO ..........................................................................................159 THURLER, Mônica Gather INOVAR NO INTERIOR DA ESCOLA ..............................................................................................................................................167 TORRES, Rosa Maria O QUÊ (E COMO) É NECESSÁRIO APRENDER?.............................................................................................................................174 VASCONCELLOS, Celso AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM: PRÁTICAS DA MUDANÇA - POR UMA PRÁXIS TRANSFORMADORA .............................178 VYGOTSKY, L. S. A CONSTRUÇÃO DO PENSAMENTO E DA LINGUAGEM ............................................................................................................183 WEISZ, Telma O DIÁLOGO ENTRE O ENSINO E A APRENDIZAGEM .................................................................................................................195 ZABALA, Antoni ENFOQUE GLOBALIZADOR E PENSAMENTO COMPLEXO: UMA PROPOSTA PARA O CURRÍCULO ESCOLAR.....................197 ZABALA, Antoni A PRÁTICA EDUCATIVA - COMO ENSINAR...................................................................................................................................205
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    6 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM ALARCÃO, Isabel. 4ª ed., São Paulo, Cortez, 2003 A autora relata um fato que ocorreu no Brasil. Foi a um hotel no Nordeste e a maneira como foi recebi- da pareceu-lhe padronizada. Segundo a autora, o fato fez com que refletisse sobre os temas que havia tra- balho em suas palestras anteriores: reflexividade, contextualização, pessoalidade, cidadania e comu- nicação, sendo que “numa delas tinha situado o tra- tamento destes temas no contexto da sociedade da informação globalizante em que vivemos”. Esse exer- cício reflexivo fez com que ela pensasse sobre como ocorrem os processos de transição dos alunos de uma escola para outra ou de um grau para outro, preocu- pando-se em como são contextualizados, quais as informações que recebem para se integrarem, quem os receberá para que possam “viver a escola em vez de se isolarem e quererem apenas passar o mais rá- pido possível”. Capítulo 1 - Alunos, professores e escola face à sociedade da informação Para Alarcão, “a sociedade da informação, como sociedade aberta e global, exige competência de acesso, avaliação e gestão da informação oferecida”. As principais idéias que irá desenvolver ao longo do capítulo são: o problema de acesso à informação e a igualdade de oportunidades para não gerar a info- exclusão; a necessidade de a pessoa desenvolver a capacidade de avaliar a informação e a competên- cia de organização do pensamento e da ação em fun- ção da informação. A sociedade da informação em que vivemos Estamos na era da informação e também era da comunicação. O avanço das mídias é grande e o ci- dadão comum dificilmente consegue lidar com as novas informações que chegam se não desenvolver um grande espírito crítico. Raposo (2001), afirma que cabe ao homem dis- cernir o que “constitui fator de valorização do co- nhecimento, da liberdade, da solidariedade do que é alienação, manipulação, opressão ou injustiça”. Alarcão cita também Morin o qual afirma que só o pensamento pode organizar o conhecimento. Para conhecer é preciso pensar, ser capaz de trans- formar a informação em conhecimento pertinente. É fundamental pensar na compreensão entendida como a capacidade de perceber os objetos, as pes- PROFESSORES REFLEXIVOS EM UMA ESCOLA REFLEXIVA soas, os acontecimentos e as relações que entre to- dos se estabelecem. A educação também está em crise e faz-se ne- cessário compreender o que está acontecendo. A escola mudou: não detém o monopólio do saber. O papel do professor mudou e o papel do aluno tam- bém mudou “Ele tem de aprender a gerir e a relacio- nar informações para transformar no seu conhecimen- to e no seu saber”. A sociedade da informação passou a se denomi- nar sociedade da informação e do conhecimento e mais recentemente sociedade da aprendizagem. Cita Morin: a informação se não for organizada, não se constitui em conhecimento, não é saber. O conheci- mento tornou-se e tem de ser um bem comum. As novas competências exigidas pela sociedade da informação e da comunicação, do conhecimento e da aprendizagem Hoje o valor está na capacidade do homem em transformar informações em conhecimento. O pen- samento e a compreensão são grandes fatores de desenvolvimento pessoal, social, institucional, na- cional e internacional. O que se propõe é um conceito de competência de modo que uma pessoa saiba viver na contempo- raneidade com sabedoria, de uma forma mais holís- tica, para além da informação e do conhecimento, que possa apresentar certas capacidades, além do conhecimento: saber o que fazer e como, capacida- de de aprender com o sucesso e com os erros, capa- cidades sociais, redes de contatos e influência, von- tade de agir, acreditar, empenhar-se, aceitar respon- sabilidades e poder. A cidadania exige das pessoas a capacidade de pensar e a sabedoria para decidir com base numa informação e em conhecimentos sólidos. Cada cida- dão deve estar preparado para encontrar a informa- ção necessária, para decidir sobre sua relevância e para avaliar sua fidedignidade e caso ele não possa ter acesso à informação e não tenha um pensamento crítico e independente, ele pode ser manipulado e info-excluído. É preciso que se perceba a importân- cia da formação de uma pessoa. Alarcão justifica o uso de competência a partir da obra de Perrenoud: a noção de que competência é a capacidade de utilizar os saberes para agir em situação, constituindo-se assim como uma mais va- lia relativamente aos saberes. Para que os cidadãos possam assumir um pa- pel de atores críticos têm de desenvolver a grande competência da compreensão, mas também capa- cidade de utilizar várias linguagens e, hoje temos
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 7 SINPEEM mais uma linguagem: a linguagem informática. A competência para lidar com a informação na sociedade da aprendizagem É necessário lidar com a informação de modo rápido e flexível, é preciso saber o que procurar e onde. É preciso distinguir o que é relevante do que não é. Pelo fator da multiplicidade e quantidade de informações quem a recebe precisa reorganizá-la, colocando em ação sua mente interpretativa, seleti- va, sistematizadora e criadora. Para que todos tenham acesso à informação e não sejam marginalizados é necessário criar essas condi- ções na escola e na comunidade para que compen- sem a falta que possa existir nas famílias. A escola tem papel central na questão do acesso à informa- ção e na criação de comunidades de aprendizagem. Os alunos na sociedade da aprendizagem Ser aluno é ser aprendente. Ele tem que se con- vencer de que é necessário ir à procura do saber, confiar no professor, mas é o aluno quem tem que descobrir o prazer de ser uma mente ativa e não meramente receptiva. A concepção de educação, nesta abordagem é de caráter construtivista, sócio-cultural. Uma boa parte das competências hoje exigidas precisa ser de- senvolvida num contexto em que haja um apelo para atitudes mais autônomas, dialogantes e colaborati- vas e em projetos de reflexão e pesquisa. O papel da aprendizagem muda e muda o con- ceito da sala de aula que passa a ser um espaço onde se procura e onde se produz conhecimento. A orga- nização das aprendizagens deve focar no próprio aluno e promover sua capacidade de auto e hetero- aprendizagem. Há no texto um exemplo de três estudos de pes- quisa-ação. Com a criação de comunidades de apren- dizagem, os alunos da pesquisa passaram a definir seus objetivos e tentar alcançá-los, assumiram uma atitude de pesquisa colaborativa para resolver pro- blemas, tarefas e interagiram com o conhecimento de forma autônoma, flexível e criativa. Os professores na sociedade da aprendizagem O professor de hoje tem de desenvolver algumas competências: criar, estruturar e dinamizar situações de aprendizagem e estimular a aprendizagem e a auto- confiança nas capacidades individuais para aprender. É importante que o aluno aprenda a ser aluno, para aprender a conhecer, a fazer e a viver com os outros. E para tanto os professores são estruturadores e ani- madores das aprendizagens e não apenas estrutura- dores do ensino. Ele tem novos papéis e precisa re- pensar seu papel, pois se é certo que continuam a ser fontes de informação, têm de se conscientizar que são apenas uma fonte de informação, entre muitas outras. Para não se sentirem ultrapassados, os professo- res, precisam se recontextualizarem na sua identida- de e responsabilidades profissionais. Precisam ser - professor reflexivo numa escola reflexiva. A escola na sociedade da aprendizagem As mudanças estendem-se ao nível da organiza- ção que é a escola, para dar conta dessa mudança no modo de conceber os processos de aprendizagem. De modo geral as escolas não compreenderam que elas também precisam se repensar e que só elas podem transformar a si próprias, com as pessoas que as constituem: professores, alunos, funcionários, em interação com a comunidade circundante. As escolas que já perceberam, começaram a fun- cionar como comunidades auto-críticas, aprenden- tes e reflexivas. “Constituem aquilo que chamei a escola reflexiva que defini como ”organização que continuadamente se pensa a si próprias, na sua mis- são social e na sua organização, e se confronta com o desenrolar da sua atividade em um processo heu- rístico simultaneamente avaliativo e formativo”. Alarcão cita o exemplo de uma escola que ava- liou a sua missão, direção e professores. Reafirma que a escola reflexiva não é telecomandada do exterior. É auto-gerida. Tem o seu projeto próprio, construído com a colaboração dos seus membros. Sabe para onde quer ir e avalia-se permanentemente na sua caminhada. Contextualiza-se na comunidade que serve e com esta interage. Acredita nos seus professores, cuja capaci- dade de pensamento e ação sempre fomenta. Envolve os alunos na construção de uma escola cada vez me- lhor. Não esquece o contributo dos pais e de toda a comunidade. Considera-se uma instituição em desen- volvimento e em aprendizagem. Pensa-se, avalia-se e constrói conhecimento sobre si própria. Cita a idéia de Morin: é preciso organizar o pen- samento para compreender e poder agir, dizendo que esta idéia precisa ser introduzida nos paradig- mas de formação das pessoas e no funcionamento das instituições. Destaca também o papel da gestão da informação. Capítulo 2 - A formação do professor reflexivo A concepção de professor reflexivo atraiu muitos educadores e formadores de professores na década de 90 e de lá para cá a concepção tem começado a sofrer críticas. Alarcão propõe-se a fazer a descons- trução do conceito. Trata também de como compre- ender a transposição deste paradigma do nível de formação dos professores individualmente, para o nível de formação situado no contexto da escola, a
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    8 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM qual concebe como escola reflexiva desde 2001. Em que se baseia a noção de professor reflexivo Baseia-se na consciência da capacidade de pen- samento e reflexão que caracteriza o ser humano como criativo e não como mero reprodutor de idéias e prá- ticas que lhe são exteriores. É o profissional que age de modo inteligente e flexível, situado e reativo. Em Schön (1983,1987), temos que é uma atuação produ- to de uma mistura integrada de ciência, técnica e arte. Como se explica o fascínio que atraiu? Por que a atual desilusão? Alarcão apresenta o fascínio como a falta de con- fiança na competência de alguns profissionais, a re- ação perante a tecnocracia, a relatividade inerente ao espírito pós-moderno, o valor atribuído a episte- mologia da experiência, a fragilidade do papel do professor, a dificuldade de formar bons profissionais e outras tantas evidências. Cita Pimenta para mostrar como no Brasil ampliam-se os motivos em função do panorama político brasileiro. Reafirma que conti- nua a acreditar nas potencialidades da proposta de formação reflexiva. A autora destaca três hipóteses para a atual desi- lusão: se as expectativas foram elevadas e pensou-se que a concepção poderia resolver todos os proble- mas de formação; se o conceito de reflexão não foi compreendido em sua profundidade e que é neces- sário reconhecer as dificuldades de se colocar em prática de forma sistêmica programas de formação de natureza reflexiva Qual a relação entre o professor reflexivo e a escola reflexiva? O professor não pode agir isoladamente na sua escola. É neste local que ele, com os seus colegas, constrói a profissionalidade docente. A escola tem de ser organizada de modo a criar condições de re- flexividade individuais e coletivas. A idéia do pro- fessor reflexivo, que reflete em situação e constrói conhecimento a partir do pensamento sobre a sua prática é transponível para a comunidade educati- va que é a escola. Como formar professores reflexivos para e numa escola reflexiva? Ao citar Schön, a autora põe em destaque os li- mites do ato de ensinar em relação às potencialida- des do ato de aprender, bem como a importância de estabelecer um diálogo consigo mesmo, com o ou- tro e com a situação. Comenta que observa nos espaços de formação a dificuldade que as pessoas revelam em por em ação mecanismos reflexivos, sejam crianças, adolescentes ou adultos. “É preciso fazer um esforço grande para passar do nível meramente descritivo ou narrativo para o nível em que se buscam interpretações articuladas e justificadas e sistematizações cognitivas”. Aponta a importância do diálogo que não pode acontecer num nível apenas descritivo e que preci- sa atingir um nível explicativo e crítico que permita aos profissionais de ensino agir e falar com o poder da razão. Apresenta a metodologia da pesquisa-ação como possibilidade de avançar numa formação reflexiva, pois nesta abordagem há a idéia de que a experiên- cia profissional, se sobre ela se refletir e conceituali- zar, tem um enorme valor formativo. A pesquisa ação, a aprendizagem experiencial e a abordagem reflexiva A pesquisa-ação é uma metodologia de interven- ção social e desenvolve-se em ciclos de planifica- ção, ação, observação, reflexão. Parte da clara iden- tificação de um problema e tem como característica o trabalho cooperativo no planejamento do trabalho e na avaliação dos resultados. Na abordagem experiencial (Kolb;1984), a apren- dizagem é um processo transformador da experiên- cia no decorrer do qual se dá a construção do saber. O processo compreende quatro fases: experiência concreta, observação reflexiva, conceitualização e experimentação ativa. Há uma relação entre esses dois processos (da pesquisa-ação e da aprendizagem), bem como se analisa uma situação do ponto de vista da aborda- gem reflexiva (Schön). Em sua teoria encontramos os componentes da reflexão na ação, reflexão sobre a ação e a meta reflexão: reflexão sobre a reflexão na ação. Alarcão acrescenta a reflexão para a ação iden- tificada com a questão da pesquisa-ação. Cita ainda outras estratégias de desenvolvimento da capacidade de reflexão: análise de casos; as nar- rativas; a elaboração de portfolios; o questionamen- to dos outros atores educativos entre outros. A análise de casos / As narrativas - Os casos são a expressão do pensamento sobre uma situação con- creta que, pelo seu significado, atraiu nossa atenção e merece nossa reflexão. Segundo Shulman (1986), os casos só são casos porque representam conheci- mento teórico e assumem um valor explicativo que vai além da mera descrição. As narrativas revelam o modo como os seres hu- manos experienciam o mundo. Serão tanto mais ri- cas quanto mais elementos significativos se regis- trarem, sendo que é importante que se registrem não apenas os fatos, mas também o contexto físico, so- cial e emocional do momento.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 9 SINPEEM Elas podem registrar as questões do professor, mas também podem ter como foco os alunos, a escola, o comportamento da sociedade ou dos políticos pe- rante a educação. Ajudam a analisar a vida, desdo- brar percursos profissionais, revelam filosofias e pa- drões de atuação, registram aspectos conseguidos e a melhorar; constituem-se num manancial de refle- xão profissional a partilhar com os colegas. Narrativas e casos: que relação? - As narrativas estão na base dos casos, mas os casos implicam em uma teorização. Os casos não são meras narrativas; eles encerram em si conhecimento sobre a vida. São narrativas elaboradas com um objetivo: darem visi- bilidade ao conhecimento. Muitas vezes os casos são escritos pelos próprios professores no sentido de ex- primirem as suas teorizações. Os portfólios - Segundo Alarcão, portfolio é “um conjunto coerente de documentação refletidamente selecionada, significativamente comentada e siste- maticamente organizada e contextualizada no tem- po, reveladora do percurso profissional. O conceito vem da área de Artes. Há duas carac- terísticas a destacar: por um lado a sua originalidade (construção pessoal do autor). Por outro lado ele tem uma finalidade que é dar-se a conhecer, revelar-se. A autora cita o trabalho de Idália Sa-Chaves que tem se dedicado à teorização e à prática desta estra- tégia formativa no contexto da abordagem reflexiva em formação de professores e a qual utiliza a desig- nação de portfólios reflexivos e lhes atribui alguns significados específicos. As perguntas pedagógicas Como atributo do ser humano, a capacidade de questionarmos e de nos questionarmos a nós pró- prios é um motor de desenvolvimento e aprendiza- gem. As perguntas, para merecerem a designação de pedagógicas, têm de ter uma intencionalidade formativa e isso, independentemente de quem as faz, quer o próprio professor quer um seu colega ou supervisor. Tom (1987) e Smyth (1989) têm salientado o va- lor das perguntas pedagógicas como meio de desen- volvimento profissional: emancipação e manifesta- ção do espírito crítico pelos professores como inte- lectuais e cidadãos interventivos na sociedade. Smyth apresenta quatro tipos fundamentais: descrição, in- terpretação, confronto e reconstrução. Conclusão As estratégias que possam colaborar para uma formação reflexiva têm como objetivo que os profes- sores tornem-se mais competentes para analisarem as questões do cotidiano e agirem, não só na resolu- ção dos problemas mais imediatos, mas situando-os num plano mais abrangente, considerando a escola, a educação e a sociedade. Alarcão ressalta a importância do crescimento do professor através dos degraus que vão dar na sabe- doria, desde ter a informação, mas saber que só o conhecimento que resulta de sua interpretação per- mitirá a visão e sabedoria necessárias para mudar a qualidade do ensino e da educação. Capítulo 3 - Contributos da supervisão pedagógica para a construção reflexiva do conhecimento profissional dos professores Neste capítulo a autora irá apresentar algumas reflexões sobre o papel do supervisor na sua relação com o professor e com os saberes de referência. Co- loca-se uma questão: como é que a supervisão pode contribuir para a construção do conhecimento pro- fissional do professor e como devem articular estes dois vetores. Conhecimento profissional dos professores Várias abordagens foram construídas a partir dos estudos sobre o pensamento do professor e basica- mente há: a abordagem que procura compreender o conhecimento do professor partindo de elementos cognitivos; a vertente prática, experiencial, contex- tualizada e outra que reconhece a importância dos referentes teóricos e experienciais (Shulman, 1986; Barth, 1993). A autora apresenta algumas dimensões do conhe- cimento profissional do professor: o conhecimento científico-pedagógico (modo como se organiza o conteúdo ou conteúdos disciplinares); conhecimen- to do conteúdo escolar (compreensão profunda e o domínio da matéria a ensinar); conhecimento peda- gógico geral (Shulman – general pedagogical know- ledge) domínio dos princípios pedagógicos genéri- cos comuns às várias disciplinas; conhecimento do currículo (compreensão do conjunto das áreas disci- plinares e não disciplinares, bem como a estrutura dos seus programas); o conhecimento do aluno e das suas características; o conhecimento dos contextos; o conhecimento dos fins educativos; o conhecimen- to de si mesmo e Alarcão acrescenta mais um: co- nhecimento da sua filiação profissional. Supervisão pedagógica A supervisão não se limita ao contexto da forma- ção inicial nem da profissionalização em serviço, mas também da formação continuada, supervisão curri- cular, supervisão como vertente formativa da inspe- ção e como conseqüência natural da avaliação de
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    10 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM desempenho. O objetivo principal da supervisão é criar condições de aprendizagem e de desenvolvi- mento profissionais dos professores, entendidas como dimensão do conhecimento e da ação, desde uma situação pré-profissional até uma situação de acom- panhamento no exercício da profissão e na inserção na vida na escola. Ela transcende a ação do professor e atinge a for- mação do aluno, a vida na escola e a educação; é uma atividade de natureza psico-social e centrada nos contextos formativos. O contexto formativo da supervisão deve favorecer a competência profissio- nal (natureza holística e integrada). O supervisor é um gestor de situações formativas que implicam em capacidades humanas e técnico- profissionais específicas, portanto pressupõe pré-re- quisitos e formação especializada. O supervisor e a construção do conhecimento pedagógico O supervisor pedagógico pode ajudar na cons- trução do conhecimento pedagógico pela sua pre- sença e atuação, pelo diálogo propiciador da com- preensão dos fenômenos educativos e das potencia- lidades dos professores, pela monitorização avaliati- va de situações e desempenhos. A fala em diálogo formativo, alicerçada na capacidade de observação e de escuta atenta, são a pedra angular na constru- ção do conhecimento profissional. Análise de uma interação discursiva em contexto de supervisão pedagógica A situação apresenta uma análise da supervi- são da universidade. Esta ocorreu numa sessão se- manal de reflexão sobre as práticas vividas por alu- nos estagiários da universidade no curso de for- mação de professores do 1º ciclo (6 a 10 anos). Os alunos da universidade tinham supervisão da uni- versidade e do professor da classe, chamado de professor cooperante. “A supervisora seguiu seu esquema habitual: des- crição do que tinha acontecido na aula feita pelo estagiário que tinha assumido a condução da classe e completada pelos colegas que tinham assistido e realizado intervenções pontuais; análise interpretati- va e negociada dos acontecimentos a partir das vári- as vozes que contribuíram para a análise multivisio- nal do que tinha sido observado na sala de aula. A partir da sala de aula como microcontexto de refe- rência, partiu-se para outros contextos: as vivências dos participantes, os quadros teóricos de referência... O ponto de chegada foi a síntese da conceitualiza- ção realizada a partir da prática que, permitiu tam- bém a identificação de conceitos teóricos, base con- ceptual e permitiu interpretações de outros contex- tos num desenvolvimento espiralado”. A finalizar Na análise do episódio de aula, utilizaram-se pro- cessos de construção do conhecimento que passa- ram pela: clarificação do episódio, caracterização da situação, compreensão do episódio à luz de referen- tes, estruturação de conceitos. Esses processos são característicos da situação formativa em contextos de supervisão. Focalizou-se a reflexão em todas as dimensões do conhecimento profissional e num pro- cesso de transformação e através de perguntas peda- gógicas, passou-se da descrição à representação cog- nitiva. O episódio transformou-se num caso. Capítulo 4 - Gerir uma escola reflexiva Neste capítulo aborda-se o conceito de escola reflexiva, as características da liderança institucio- nal, a centralidade do currículo, o papel dos profes- sores e dos alunos, a interação com a comunidade, a permanente qualificação profissional e o renovado desenvolvimento institucional. Uma nota autobiográfica, enquadradora do tema Alarcão relata seu percurso profissional desde que era professora até estar em cargos de gestão e como sempre tentou compreender o que é ser professor e como poderia e deveria formar aquele profissional que é o professor. Comenta sobre a descoberta de que para ser professora não era suficiente saber bem os conteúdos que devia ensinar, pois dava-se conta que havia mensagens que não passavam. Aponta a abordagem da teoria da aprendizagem experiencial elaborada por David Kolb (1984) como um referencial importante para suas análises. Nessa perspectiva, Alarcão escreveu duas obras com José Tavares. Interessou-se pela perspectiva humanista, segundo a qual, a formação de professores é um pro- cesso pessoal de se tornar professor. Mais tarde abra- çou a noção de professor reflexivo que encontrou em Shon (1987) e Zeichner (1993). Compreendeu em seu percurso que o professor não podia ser um ser isolado na sua escola, mas ti- nha de construir, com os seus colegas, a profissiona- lidade docente. A partir de sua vida profissional, pen- sou sobre a escola como comunidade socialmente organizada e dinamizada por um projeto próprio: o projeto educativo. Apresenta como conclusão que ou a escola é uma comunidade reflexiva, ou então, é um edifício sem alma. A autora desenvolve a idéia de escola reflexiva, também em desenvolvimento e aprendizagem e pro- põe refletir sobre a gestão de uma escola reflexiva como uma gestão integrada de pessoas e processos,
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 11 SINPEEM uma gestão realizada com pessoas e a bem das pes- soas, trazendo assim para o centro da arena educati- va não apenas o aluno, mas todo os elementos hu- manos que constitui a escola. Pensando sobre a essência da escola Compartilhando a reflexão de Macedo (1995:68), Alarcão diz que a escola é uma comunidade. A es- cola estabelece a interface entre a sociedade adulta e as crianças e jovens em desenvolvimento. A escola surge como um todo e não um ajuntamento de pes- soas. É uma comunidade social, organizada para exer- cer a função de educar e instruir. A escola como eu gostaria que ela fosse Apoiada nas palavras de Maria do Céu Roldão (2001), apresenta a caracterização da escola como gostaria que fosse: uma comunidade dotada de pen- samento e vida próprios, contextualizada na cultura local e integrada no contexto nacional e global; que conceba, projete, atue e reflita; que tenha ambição estratégica; que questione o insucesso nas suas cau- sas para, relativamente a elas, traçar planos de ação; uma escola que reflita sobre os seus próprios proces- sos e a suas formas de atuar e funcionar; que analise, desconstrua e refaça suas opções e a sua vida curricu- lar; que saiba criar as suas próprias regras e que saiba prestar contas de sua atuação, justificar os seus resul- tados e auto-avaliar-se para definir o seu desenvolvi- mento; uma escola que se alimente do saber, da pro- dução e da reflexão dos seus profissionais, os profes- sores que, por isso mesmo, não se sentem meros assa- lariados; uma escola que conheça as suas necessida- des, cria os seus contextos de formação e integra a formação no seu desenvolvimento institucional. Uma escola onde os professores se sintam felizes e úteis à sociedade e onde os alunos apreciem como é bom crescer em saber. Como cheguei ao conceito de escola reflexiva A escola reflexiva encontra-se sempre em cons- trução, em desenvolvimento; é uma construção so- cial, mediada pela interação dos diferentes atores sociais que nela vivem e com ela convivem. Da de- finição de escola reflexiva destacam-se as idéias de pensamento e reflexão, organização e missão, ava- liação e formação. Por detrás desta concepção re- conhece-se a idéia de professor reflexivo de Schön, mas também a noção de organização aprendente de Senger (1994). A idéia do profissional que reage em situação, interagindo com ela e sobre ela refletindo (de Schön) é transponível para a idéia de organização apren- dente que se sustenta em Senger: “uma organização que está continuamente expandindo a sua capaci- dade de criar o futuro”. A escola tem uma missão: educar. Investiga-se e avalia-se a si própria. É uma escola que sabe onde está e para onde quer ir, pensa-se, tem um projeto orientador de ação e trabalha em equipe. É uma co- munidade pensante. A escola é uma organização si- multaneamente aprendente e qualificante. Escola, comunidade com projeto Segundo Canário, o estabelecimento de ensino assume cada vez maior importância nos discursos e práticas educativas a partir de três níveis distintos: o nível da investigação educacional; o nível da mu- dança educacional e o nível da formação. O projeto educativo “surge como o instrumento, excelência, da construção da autonomia do estabe- lecimento de ensino”. O projeto da escola é a carta de definição da política educativa da escola e deve- se centrar no modo como se organiza para criar as condições de aprendizagem e desenvolvimento ine- rentes ao currículo. O currículo no centro do projeto da escola Alarcão considera currículo em seu sentido lato, ou seja, conjunto de aprendizagens proporcionadas pela escola e consideradas socialmente necessárias num dado tempo e contexto. A noção de currículo é central na noção de escola e tem de assumir um lugar de primeiro plano no projeto educativo de escola. A autora comenta que Roldão designou quatro princípios acerca da organização da escola: homo- geneidade, segmentação, seqüencialidade e confor- midade. As escolas, os professores, os políticos e os pais começam a interrogar-se sobre o paradigma de uniformidade e o paradigma de educação que lhe está subjacente. Em 1995, Alarcão e Tavares alertavam para a ne- cessidade de romper com os paradigmas tradicionais da educação, bem como Roldão (2001) que apre- senta a substituição dos princípios tradicionais por diversificação, finalização, reflexividade e eficácia. Perrenoud (2001) idealizou uma nova organiza- ção de trabalho na escola baseada em objetivos, em ciclos de aprendizagem pluri-anuais, em grupos fle- xíveis, em módulos intensivos, em projetos pluridis- ciplinares e em tarefas escolares à base de proble- mas e de projetos. Há, no entanto, uma dificuldade para se romper com os paradigmas e para Alarcão seria perigoso uma ruptura brusca, mas identifica o afastamento progressivo do status quo para mudar a cara da escola. Neste sentido, entra a concepção de escola refle- xiva como escola inteligente que decide o que deve fazer em cada situação específica e registra o seu
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    12 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM pensamento no projeto educativo. - projeto de toda a escola reveladora de um pensamento sistemático baseado no confronto de idéias e no diálogo cons- trutivo que solidifica as comunidades. O projeto edu- cativo da escola, uma vez aprovado, tem de passar a constituir-se como referência para a ação. Gerir uma escola reflexiva é gerir uma escola com projeto Para gerir uma escola reflexiva é preciso pensar numa organização e gestão caracterizadas como: participada, determinada, coerente, desafiadora, exi- gente, interativa, flexível e resiliente face à situações, avaliadora e formadora. Há aspectos que a pesquisa de Zabalza (1992) sobre escolas eficazes apresenta e são denominado- res comuns da escola reflexiva. Só o modelo demo- crático de gestão se coaduna com o conceito de es- cola reflexiva, ou seja, um modelo organizacional em que todos e cada um se sente pessoa – e, pessoa é ter papel, ter voz e ser responsável. A gestão de uma escola reside na capacidade de mobilizar cada um para a concretização do projeto institucional, sem perder nunca a capacidade de de- cidir. Gerir uma escola reflexiva é nortear-se pelo projeto de escola, em constante desenvolvimento e tomar as decisões adequadas no momento certo, ser capaz de mobilizar as pessoas para serem atores so- ciais e transformarem o projeto enunciado em proje- to conseguido. Implica em ter um pensamento e uma visão sistêmica. A reflexão sobre escola reflexiva leva a pensar nas cinco dimensões identificadas por Senge para as instituições aprendentes: liderança, modelo mental, visão partilhada, aprendizagem em grupo e pensa- mento sistêmico. Conclusão Gerir uma escola reflexiva é: ser capaz de liderar e mobilizar as pessoas; saber agir em situação; nor- tear-se pelo projeto da escola; assegurar uma atua- ção sistêmica; assegurar a participação democrática; pensar e escutar antes de decidir; saber avaliar e dei- xar-se avaliar; ser conseqüente; ser capaz de ultra- passar dicotomias paralizantes; decidir; acreditar que todos e a própria escola se encontram num processo de desenvolvimento e aprendizagem. Síntese realizada por Sandra Giovina Ponzio Fer- reira, mestranda na FEU/USP – área de psicologia e educação. BRUNEL, Carmen. Porto Alegre, Mediação, 2004 Conforme o censo escolar divulgado em 2004, a procura pelo Ensino Médio por jovens cresceu, com maior ingresso na EJA e no profissionalizante do que no Ensino Médio convencional. O aumento na pro- cura por matrículas mostra que os jovens percebem a importância da escolaridade para o ingresso no mercado de trabalho, contudo uma parcela cada vez maior não cursa o ensino regular. No presente trabalho a professora de Biologia, mestre em Educação e doutoranda pela UFRGS, Car- men Brunel, baseando-se em seus estudos que obje- tivavam esclarecer as razões dos “jovens cada vez mais jovens” procurar a EJA, analisa e ilustra, com depoimentos de estudantes, as questões que os im- pediram de se manter na educação básica e/ou os levaram a essa modalidade de ensino. EJA: uma população cada dia mais jovem A autora inicia abordando o rejuvenescimento da JOVENS CADA VEZ MAIS JOVENS NA EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS população que freqüenta a Educação de Jovens e Adultos (EJA), fato que vem progressivamente ocu- pando a atenção dos educadores e pesquisadores na área da educação. Os diversos espaços da EJA têm recebido nos últimos anos, um número cada vez maior de jovens e adolescentes das mais dife- rentes classes sociais que, de acordo com a autora, têm modificado o cotidiano escolar e as relações que se estabelecem entre os sujeitos ocupantes desse espaço. Esta modalidade de ensino é a alternativa mais procurada por jovens que não lograram con- cluir seus estudos na escola regular, na maioria com histórico de várias repetências, muitos com proble- mas de indisciplina, bem como aqueles cujos pais consideram a última alternativa para manter o filho na vida escolar. Esses novos aspectos levaram a indagações con- centradas nas seguintes reflexões: por que tantos jovens optam por essa modalidade de ensino? Como esta trajetória se constituiu ao longo de suas vivências e como chegaram até aqui? Frente à ansie- dade de alunos e professores, neste contexto, Brunel
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 13 SINPEEM foi impulsionada a pesquisar estas questões. Primeiramente, foi desenvolvido um estudo nos diversos espaços da EJA do Rio Grande do Sul e, em especial, em Porto Alegre com o objetivo de com- provar, com dados estatísticos, a realidade e exten- são do fenômeno. Em um segundo momento foi rea- lizado um estudo no interior de uma escola privada de educação de jovens e adultos, os alunos de uma turma de ensino médio, com faixa etária entre 18 e 25 anos, foram ouvidos, durante cinco encontros, sendo discutidos temas como: escola, violência, se- xualidade, drogas e juventude. Foi realizado um es- tudo sobre a trajetória escolar de seis e ouvidos tam- bém professores dessa rede. Mostrar a realidade dos jovens que freqüentam a EJA, os aspectos políticos e legais que facilitam o in- gresso desses alunos, cada vez mais cedo é o que a autora apresenta como objetivo para o capítulo I. No capítulo II, a apresentação da metodologia usada no trabalho inserindo o leitor nos espaços investiga- dos e no III, uma reflexão sobre a modernidade e a escola. A escola onde foi realizado o estudo, a legis- lação que a rege, as relações sociais e as trocas de saberes que se estabelecem neste ambiente é a pro- posta do IV, o último capítulo deste livro. Para a realização desse trabalho, segundo a es- critora, vários autores contribuíram para a compre- ensão do fenômeno e a tessitura do texto, citando com mais detalhes Freire, Morin, Spósito e Charlot, como os grandes referenciais teóricos. A autora inicia com Paulo Freire, cuja visão hu- manista de mundo, mostra a escola como lugar de troca de saberes e afetividade, onde educadores e educandos se encontram para uma tarefa conjunta, alertando também, para a necessidade do diálogo e reflexão entre os sujeitos que ocupam esse espaço. Edgar Morin contribuiu, nesse estudo, para o en- tendimento do pensamento moderno, mais global e conseqüentemente mais complexo que na opinião da autora é fundamental para podermos entender a sala de aula de uma escola de EJA, na qual a diversi- dade das pessoas é uma de suas características bási- cas. Morin diz que a razão não explica tudo, o diálo- go deve superar as polaridades e a verdade não está só numa direção. Para entender os jovens, camada da população que freqüentemente é citada como categoria proble- ma, suas inquietudes e anseios, a autora baseou-se em Marília Sposito que além de, historicamente, de- senvolver um trabalho relevante na área da EJA, atra- vés de seus escritos sobre a juventude brasileira, tem uma voz que ecoa de maneira generosa e responsá- vel sobre essa realidade. A autora relata a influência dos estudos e leituras das obras de Bernard Charlot e das informações re- cebidas nas palestras proferidas por este pesquisa- dor. Ressalta que a realização de um estágio, na Uni- versidade de Paris sob a orientação desse professor, foi fundamental para o desenvolvimento de seu es- tudo e entendimento sobre seus alunos. Destaca a leitura positiva que o pesquisador faz acerca dos alu- nos que “fracassam na escola”, geralmente rotula- dos: de “inferiores”. Aqueles, como dizia Charlot, viveram “situações de fracasso” que fizeram com que repetissem na escola ou a abandonassem. De acordo com Charlot, diante de um aluno que fracassa em um aprendizado, em geral, fala- se em deficiências, carências, lacunas, ou seja, faz- se uma leitura negativa da situação enquanto uma leitura positiva busca compreender como as situa- ções de fracasso foram se constituindo na trajetó- ria escolar deste aluno e quer saber: o que está acontecendo com este aluno? O que fez? O que pensou? Enfim, a leitura positiva quer saber o que está ocorrendo, em que situação fracassa e em quais consegue ter sucesso. A partir dos produtos de seu trabalho, Carmen Brunel, considera que vários são os motivos pelos quais os jovens optam pela EJA cada vez mais cedo e que os fatores emocionais, socioeconômicos e familiares foram mais determinantes do que os cog- nitivos. Um passeio pelo tempo - Relatando de forma breve, Brunel faz uma retrospectiva de sua trajetória profissional, as relações com alunos da EJA e a im- portância de suas vivências para a constituição de seus estudos. Relata que iniciou como docente, em uma escola privada, na área de Ciências em 1987, permanecendo durante dez anos, período, segundo a autora, foi importante para perceber as característi- cas, de forma crítica, dessa modalidade de ensino e as mudanças ocorridas no perfil dos alunos, situa- ções essas que a levaram a indagações e a necessi- dade de investigações mais apuradas e nessa dire- ção ingressou no curso de Mestrado, em Educação na UFRGS, em 1999. Destaca ainda que nesse cur- so, um dos autores que mais a impressionou foi Pau- lo Freire e considera que “este trabalho é uma aposta na educação e no prazer que o ensinar e o aprender pode proporcionar a alunos e professores”. Capítulo 1 - Jovens na EJA: um fenômeno dos anos 90 De acordo com Brunel, o rejuvenescimento da população da EJA surge no panorama brasileiro a partir dos anos 90 em uma modalidade de ensino que, na sua gênese, destinava-se mais ao público adulto do que ao jovem. Para analisar a trajetória escolar de alguns alunos e os motivos pelos quais optaram pela EJA foi preciso ouvi-los mais densamen- te para entender esse fenômeno. Segundo a autora, fatores pedagógicos, políticos,
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    14 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM legais e estruturais fazem com que muitos jovens pro- curem cada vez mais a EJA e a cada ano mais preco- cemente: a falta constante de professores na escola pública, a carência evidenciada nas condições físi- cas e de material didático-pedagógico de muitas es- colas bem como os que facilitam o ingresso dos alu- nos tanto do ponto de vista legal - houve um rebai- xamento na idade mínima para matrícula, quanto do político – existem procedimentos praticados no sis- tema de ensino que “estimulam” os alunos em defa- sagem idade/série a deixarem o ensino regular e in- gressarem na EJA, fato evidente, no decorrer da pes- quisa nas falas de alguns professores e diretores.Outra situação problemática dentro do sistema de ensino sentida pelos diretores, professores e que afetam di- retamente a vida de muitos jovens e adolescentes é que a oferta de escolas públicas de ensino médio, principalmente no turno da noite, é menor que a demanda existente e dessa forma os alunos acabam indo para a EJA. Em relação aos professores da EJA, Brunel cita que diariamente depara-se com jovens com históri- co de repetência, de abandono da escola e desmoti- vados, a ponto de comprometer um possível sucesso escolar. Nesse sentido, alerta sobre a importância de ouvir estes jovens excluídos do ensino regular, (re)significarmos o lugar desses alunos, superarmos o rótulo de fracassados e retomar com eles sua po- sição de sujeitos no processo educativo. Ressalta ainda que, reconhecer as capacidades individuais e criativas destes alunos faz com que adquiram no- vamente um sentimento perdido de pertencer ao es- paço escolar advindo, em geral, de diversas repetên- cias, históricos de violência, exclusão da escola re- gular, envolvimento com drogas, abandono da famí- lia, entre outros fatores. O significado da escuta no ato pedagógico - A autora relata que em uma de suas aulas relembrou seu passado na escola - época chamada primária e de cenas na sala de aula. Todos os alunos uniformi- zados, sentados enfileirados, sem poder falar, quase imóveis e a professora em pé à frente dos alunos, em uma escola que tinha por objetivo formar futuros ci- dadãos praticamente iguais, obedientes e passivos. Era uma outra época, com poucas informações, en- tretanto, nos últimos trinta anos, o conjunto de mu- danças socioculturais delineia um panorama diferente para os jovens que, na sua maioria, têm acesso à te- levisão, muitos aos computadores e a liberdade, tan- to na família, quanto na escola é bem maior. Brunel frente a esses saberes acredita que a esco- la atual não está mais satisfazendo as expectativas de muitos jovens e precisa rever conceitos e posicio- namentos e nesse sentido, conclui que precisamos repensar o espaço escolar e trabalharmos na cons- trução de novas relações entre todos seus ocupan- tes. Fundamentando-se em Paulo Freire, aborda a importância na sala de aula do diálogo, da reflexão e da comunicação: dar voz aos nossos alunos,ouvi- los, incentivar e propiciar que participem do proces- so pedagógico e que junto, tenhamos nossa fala res- peitada; enfim, que o ambiente escolar ensine a vi- ver com o outro, respeitando-o e sendo respeitado. Salienta que escutar é mais do que o simples ou- vir: é tentar, pela fala do outro, entendê-lo na sua inteireza; é prestar atenção nos seus gestos, nas emo- ções que as palavras suscitam, é construir junto um diálogo prazeroso.E complementa: o professor que trabalha na EJA precisa estar aberto para um “ouvir” mais personalizado, levando em conta a idade do aluno, sua situação financeira, seus sonhos e medos, sua posição na família, para compreender sua fala, e assim, nesse estudo se propôs a ouvir com cuidado os jovens, em uma escuta sensível, a fim de entendê- los melhor e compreender os motivos pelos quais optaram pela EJA. Capítulo 2 - As idéias, os espaços e os sujeitos Segundo a autora, a EJA, oferecida pela rede pri- vada, recebe a cada ano um contingente cada vez maior de adolescentes e jovens. A categoria jovem ou juventude não tem uma definição rígida, pois de- pende mais de circunstâncias históricas do que da condição biológica. No Brasil, segundo dados esta- tísticos, jovens seriam os indivíduos entre os 17 e 25 anos, cuja denominação liga-se principalmente à dependência financeira da família e à inserção no mercado de trabalho. Brunel explica que como o estudo foi realizado com jovens de um curso de en- sino médio da EJA, não poderiam ter menos de 18 anos, idade mínima legalmente estabelecida para o ingresso nesta modalidade de ensino. Os espaços percorridos - O estudo desenvolveu- se basicamente com jovens de uma escola particular de EJA, situada no centro de Porto Alegre, turma da manhã, na etapa final de ensino médio, entretanto, de acordo com a autora, para que não ficasse com uma visão parcial da realidade, outros espaços na esfera pública, municipal e estadual, na cidade de Porto Alegre, e no Rio Grande do Sul, foram também pesquisados. Nesses espaços foram adquiridos do- cumentos, com dados estatísticos para a pesquisa, registrados depoimentos e informações sobre proje- tos desenvolvidos na área, por meio de entrevistas com membros da equipe pedagógica. Com os jovens que constituíam essa turma foram programados seis encontros: um encontro de diálo- go com os alunos para a explicação sobre o estudo e a participação deles nos cinco posteriores, onde se- riam discutidos temas ligados à vida escolar e assun- tos ligados à realidade da juventude, além da obser-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 15 SINPEEM vação pela autora de atividades realizadas pela tur- ma. Na opinião da pesquisadora, esses alunos va- lorizam o tempo atual dedicado à escola, pois sua trajetória escolar foi permeada por reprovações e períodos de ausência por vários motivos. Para serem ouvidos mais densamente, entre os jovens da turma, foram escolhidos seis: dois rapazes e quatro moças, de acordo com vários critérios como gênero, etnia, naturalidade, escola de origem, entre outros. O número maior de moças foi decorrente da maior disponibilidade para permanecer após o horá- rio normal para conversas, entrevistas, gravações e entrega de material escrito. Foram entrevistados, tam- bém, sete professores e a equipe pedagógica da es- cola, bem como representantes de outras instituições na área de educação de jovens e adultos. Dessa forma, a análise de documentos, os relatos orais, os depoimentos por escrito, as entrevistas, a elaboração de um diário de campo, a observação de tudo que acontecia, constituíram o material neces- sário para a pesquisa. Conhecendo os sujeitos - Foi fundamental co- nhecer a trajetória escolar dos seis jovens que fo- ram ouvidos, dos demais da turma e de seus profes- sores para desvelar alguns dos motivos pelos quais os alunos optaram pela EJA e conseqüentemente conhecer as possíveis causas do rejuvenescimento desta população. Reconhece a autora que muitos são os fatores que atraem os jovens para escola de EJA, principalmente a privada: a agilidade e rapidez na conclusão dos cursos; o convívio mais direto com a diferença de classe, etnia, idade, cultura; a flexibilidade de seus horários e currículos e a liberdade, um pouco maior, em relação à postura e à fala do aluno e professor. Alerta ainda para o fato de que muitos dos estabele- cimentos privados, preocupados com o lucro, com- prometem o saber. Frente a essa realidade ressalta que o papel do professor de EJA além de extremamente importan- te, haja vista que esses jovens possuem um históri- co escolar repleto de problemas nos campos cogni- tivo, social, econômico e emocional, é complexo, visto que muitos se sentem perdidos diante da rea- lidade em relação ao saber, emprego e sobre a im- portância do estudo para a sua vida e inserção no mercado de trabalho. Nas entrevistas observou-se que esses alunos pro- curam um professor mais acessível ao diálogo e atento às suas dificuldades, e em conversas em sala de aula percebe-se que respondem positivamente às expec- tativas quanto ao aprender na medida em que são provocados e recebem muito carinho de seus pro- fessores, contrariando o estigma sobre o aluno da EJA (aquele que não gosta de estudar, não gosta de seus professores e não tem interesse pelo saber). Na opi- nião dos próprios professores, o trabalho com esses alunos exige um professor mais flexível, atento às dificuldades de cada um e que mantenha um diálo- go constante com os alunos e lhes ajude a recuperar a auto-estima na sala de aula, e, muitas vezes, na vida particular. O mercado de trabalho instável, as relações fa- miliares freqüentemente fragilizadas, a falta de con- fiança no futuro são fatores que perturbam esses jo- vens, muitas vezes atirando-os às drogas, motivan- do-os a comportamentos de violência ou a uma ati- tude de apatia e desânimo. Capítulo 3 - A escola no contexto da modernidade: algumas reflexões Levando em conta que a escola não está aten- dendo às expectativas de uma boa parcela de jovens, a autora acredita que entender o pensamento mo- derno, a mentalidade atual e como a instituição es- cola surgiu e se constituiu ao longo do tempo, apon- te caminhos para o entendimento do fato. Para tan- to, aborda as modificações na maneira de pensar da humanidade ocidental nos séculos XVIII, XIX e du- rante o XX. Com o advento do século XVIII, a modernidade, estilo novo de vida e o pensamento do homem per- meado de dúvidas sobre sua vida, questionando suas crenças, limites e certezas, procurando suas respos- tas, não mais nos mitos e tradições, mas nas razões explicitadas pela razão e ciência. O pensamento deste século foi marcado pelo desenvolvimento do espíri- to de análise, baseado na influência de Descartes. A racionalidade científica, própria da cultura da modernidade implantou na educação uma sobrepo- sição do saber científico ao saber popular e, em con- seqüência, o homem esquece suas origens, o respei- to pela natureza, os ritos de seus ancestrais até se tornar frio, calculista e racional. Neste quadro, sur- gem então os processos educacionais institucionali- zados, a escola e os professores e ao sistema educa- cional é atribuído relevante papel, estruturando-se como um aparato do Estado. Em meados do século XIX, a quebra da dinâmica da emancipação social e regulação: processo histó- rico de transformação das energias emancipatórias em energias regulatórias – o homem moderno deve- rá aceitar as regras impostas pela sociedade. Por fim, a autora, ao refletir sobre o impacto que o pensamento moderno causou na humanidade, cuja proposta carregava uma nova maneira de ver e viver no mundo, leva a entender como as relações huma- nas e sociais se constituíram ao longo do século. Cita também que o pensamento iluminista, propalado pela Modernidade, na tentativa de livrar o homem das tre- vas libertando-o dos mitos, crenças, da magia, ins- taurando o seu poder sobre a ciência, tornou-o víti-
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    16 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM ma de um novo engodo: o progresso da dominação técnica. Assim, toda maneira de pensar, determinista e mecânica, deixou de fora o amor, a fé, as paixões, a desordem e a certeza. A escola e seu projeto civilizatório - A autora se reporta às características da escola em sua origem: responsável pela reprodução de um saber científico sistematizado e domínio da cultura escrita, manten- do a mentalidade racionalista, utilitária e tecnicista, divulgada como verdade pela Modernidade, tinha como idéia qualificar o indivíduo para o mercado de trabalho ao sobrepor o desejo de formar homens com- prometidos com o social, questionadores, capazes de produzir novas maneiras de pensar e agir. Essa escola chega aos nossos dias como uma instituição questionável nos seus conceitos básicos necessitando de uma nova roupagem, frente às de- mandas do mundo atual. O modelo capitalista atu- al não se baseia mais na mão-de-obra em massa, como na origem da Modernidade e da escola, exi- ge sim, pouca e muito especializada e, dessa forma agrava-se a situação de desemprego, fome e misé- ria na sociedade como um todo que afeta, em espe- cial, a juventude. Uma sociedade em que as rela- ções humanas estão conturbadas, onde as pessoas, freqüentemente sozinhas, podem ter no computa- dor e na TV a resolução da solidão, onde paira o medo da violência nas ruas, do desemprego e de um futuro sem perspectivas. Entretanto, acredita Brunel que a crescente pro- cura pela religião, pelo esotérico e a preocupação com a natureza, estabelecerá uma nova mentalida- de e palavras no discurso em muitos setores da so- ciedade como: diferença, solidariedade, fé, amor, carinho, afeto, o que pode representar indícios de grandes transformações na maneira de agir e viver da humanidade. Explicita também que a razão, definida pela Mo- dernidade, não explica tudo, de forma que o diálo- go deve superar as polaridades e o conhecimento deve negociar com a incerteza. Ao trazer todo o pensamento não-linear, não determinista para sua pesquisa explica que sentiu a necessidade de pen- sar a sala de aula de uma escola de EJA sob uma lógica não mais dual, como por exemplo: aluno- professor, o que sabe e o que não sabe, entre ou- tras, mas sob uma lógica mais global, com outros olhares, percepções, em um pensamento mais inte- racionista e abrangente. Nesse sentido, lembra o que Morin diz: deve- mos abandonar um tipo de explicação linear por um movimento circular, das partes ao todo e do todo às partes, para compreendermos uma situação ou fenômeno. Baseando-se nestes aspectos e conside- rando a educação, sobretudo a escolar, comparti- mentada e disciplinar, adverte que deve ser trans- disciplinar e o ensino fragmentado deve dar lugar a um conhecimento mais global, não perdendo de vista as diferentes áreas e abordagens, promovendo um diálogo entre elas. A educação do futuro, de acordo com Morin, requer saberes que toda a sociedade deveria saber e transmitir, não prontos e limitados, mas de acordo com as regras próprias de cada sociedade, respei- tando os seus conhecimentos e sua cultura. Com- plementa a autora que a educação do futuro não deve desprezar o saber científico e o técnico, con- tudo adicionar o humano para entendermos o alu- no é preciso vê-lo com um todo: ser biológico, cul- tural e social. Dialogando com as diferenças: por um contrato social - Fundamentando-se em Morin, a autora re- conhece cada ser humano como único e ao mesmo tempo, parte de uma humanidade que, quando en- tramos em uma sala de aula, se apresenta. Cabe aos professores fazer com que o aluno se apresente por inteiro, nos seus conhecimentos cognitivos e possa compartilhar seus saberes e vivências diárias em uma relação de respeito pelas diferenças. Nesse sentido, para entendermos os jovens da EJA, com suas diversidades e problemas é preciso vê-los mais do que simples alunos: é preciso saber como vêem a vida, a situação de seu país, suas trajetórias esco- lares e como percebem a escola, seus traumas, uto- pias, medos, paixões, desejos e as relações que es- tabelecem com o mundo; é necessário por parte do professor um pensamento complexo com circula- ção de idéias, com uma reflexão de caráter multidi- mensional, valorizando as dimensões biológica, social e individual desses jovens. Capítulo 4 - Um espaço da EJA: de retorno à escola Levando em conta suas experiências como pro- fessora e coordenadora em escolas de EJA, no antigo supletivo voltado para o ensino médio, com alunos maiores de idade, a autora explica que isso possibili- tou conhecer suas dificuldades. Depois as escolas passaram a oferecer as séries finais do ensino funda- mental o que por disposição legal, possibilitou o in- gresso de alunos a partir de quinze anos, fato que estimulou a procura de jovens e adolescentes por esta modalidade de ensino. Escolas de EJA: espaços em mutação - Há al- guns anos atrás, os cursos privados de EJA prepara- vam os alunos para os exames supletivos e eram realizados, em geral, em estabelecimentos com ca- racterísticas semelhantes a cursinhos pré-vestibula- res. A partir de 1999, por efeito legal, enquadrados na categoria de escolas de educação de jovens e
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 17 SINPEEM adultos, estes estabelecimentos passaram a reali- zar avaliações em suas sedes e emitir certificados oficiais e tiveram que se adaptar às exigências le- gais de ampliação de seu espaço físico, com dispo- nibilização para bibliotecas e laboratórios, além de aumento de carga horária das disciplinas. Entretanto, de acordo com as observações feitas, a implementação dessas modificações não alterou algumas das características próprias deste tipo de escola, as quais atraem os jovens e são determinan- tes na escolha e continuação deles nesse espaço: prédios comerciais, na maioria em centros urbanos; na duração de seus cursos; nos regimentos escola- res; na flexibilização de seus currículos, na metodo- logia usada, e, principalmente o ambiente escolar, a diversidade dos alunos e a relação de amizade entre professores/alunos e alunos/alunos. Nas entrevistas e depoimentos por escrito de professores e alunos, no decorrer do trabalho, a autora observou a atitude compreensiva dos professores relacionados ao con- teúdo e problemas emocionais que trazem para o cotidiano escolar. O aumento de jovens nas salas de aula de EJA, exige do professor, acostumado com alunos não tão jovens, em geral, longe da escola por muito tempo, um novo olhar para os recém-egressos da dita escola regular. O trabalho com estes alunos cada vez mais jovens é um desafio para o professor, mas ficou visí- vel, apesar de todos os problemas, um ambiente fa- vorável para o trabalho com as diferenças individu- ais, dada a compreensão dos professores e alunos. O professor enfrenta várias dificuldades: espaço físico, grande número de alunos e, em conseqüência, co- nhecer todos individualmente e saber de seus pro- blemas mais imediatos. Na fala dos professores, percebe-se, que o tem- po em sala de aula é usado para tratar de conheci- mento e também para o diálogo com os alunos. Opor- tunizar que falem da sua vida, dos seus sentimentos é importante nesse contexto, pois são encontrados os mais diversos tipos de alunos, com histórias, mun- dos e comportamentos diferentes: os que pararam de estudar por dificuldades financeiras, alguns por- que reprovaram mais de uma vez, outros porque na adolescência desistiram dos estudos por não ser, na- quele momento, prioridade. Na fala dos jovens, fi- cou claro que não existe apenas um motivo para explicar o rejuvenescimento desta população e sim vários fatores que foram identificados como: a ne- cessidade de recuperar o tempo perdido, os “pro- blemas” com a escola pública, as reprovações, em suma, cognitivos, pessoais e emocionais. Nos três turnos foram encontrados jovens com dificuldades graves de aprendizagem (provavelmente classifica- dos em outras escolas como especiais), alunos com deficiência visual e de locomoção, bem como com históricos de violência e com passagem por insti- tuições para menores infratores. Ressalta ainda que, além da constatação desse rejuvenescimento, ainda é possível encontrar muitos adultos, principalmente no noturno, que desejam recuperar a auto-estima perdida ou pela necessida- de de qualificação para o mercado de trabalho. Cita: policiais civis e militares, funcionários públicos, pro- fissionais liberais ou assalariados, garotas de progra- ma, mulheres que abandonaram o estudo porque casaram e moças que engravidaram e desistiram de estudar. Um outro aspecto é o envolvimento de al- guns jovens com drogas, ficando evidente, nos de- poimentos dos alunos em geral, a necessidade do diálogo familiar. Enfim, no universo trabalhado, verificou-se uma mudança no perfil do aluno que freqüenta a EJA, e nesse sentido, Brunel afirma que a postura do profes- sor deve ser afetiva em sala de aula, e ao mesmo tempo não pode esquecer do seu papel de orientar e dar uma diretividade neste espaço, lembrando que a autoridade não se baseia em atitudes duras e agressi- vas, surge da generosidade, segurança e competên- cia profissional aliadas a sua experiência de vida. Os encontros: relatos, debates e descobertas - A partir dos encontros com os alunos, com temas es- pecíficos já citados, segundo a autora, surgiram as interlocuções, que foram anotadas e os diálogos mais abertos, lembrando que foram ouvidos, mais densa- mente, os seis alunos selecionados. Pontos impor- tantes do trabalho foram consolidados por meio dos depoimentos por escrito, respostas a um questioná- rio sobre a trajetória escolar dos alunos e relatos. Que nas palavras da pesquisadora, que a seguir, de forma resumida, são apresentadas: “os conceitos desses jovens sobre a vida, juven- tude, violência, escola e o amor são impressionan- tes, de uma sensibilidade e compreensão que ia me surpreendendo, fazendo acreditar na possibilidade de sonhar com um mundo mais generoso para to- dos”; “a aluna é ótima, lê bastante, tira boas notas, tem consciência da sua realidade e sabe que não é inferior, nem seu professor é pior ou melhor que ou- tro, por isso sofre quando é discriminada”. “este tipo de discriminação soma-se aos traumas, às reprova- ções, às diversas dificuldades dos jovens durante sua trajetória escolar... ” Os jovens: resistência, sonho e esperança - Con- siderando as falas dos jovens, Brunel explica: “para eles o bom professor é aquele que prende a atenção do aluno, explica bem a matéria e ao mesmo tempo mantém a disciplina”. Outro aspecto apontado por duas das quatro alunas selecionadas na turma, está relacionado a traumas causados por certas atitudes de professores, decisivos na vida particular e no seu processo escolar, pois acarretaram atrasos nesta tra-
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    18 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM jetória. Mas, não podemos esquecer de atitudes/ posturas de professores que podem repercutir po- sitivamente na vida escolar dos alunos e causar, o que Charlot chama de declic - uma “luz” ou estalo que surge e permite ao aluno perceber coisas an- tes não percebidas; é como se não existisse saída e começasse a surgir uma outra imagem de si , uma outra relação consigo, com o outro e com o mun- do. Segundo o mesmo autor, o declic, pode surgir através da religião, de um amor, de um amigo ou pessoa especial. Assim, nossas atitudes são determinantes na vida daqueles que compartilham o mesmo espaço, mes- mo que seja por poucas horas na sala de aula; o ou- tro é que dá sentido aos nossos atos. Lembrando Paulo Freire, o diálogo é uma exigência existencial, e neste contexto, um estar junto, mais dialógico e prazeroso com esses jovens é importante para a continuidade de seus estudos e talvez para a diminuição de alguns “traumas” que a escola regular tenha deixado. “Uma escola onde todos tenham os mesmos di- reitos...” - São citados como fatores relevantes na opção dos alunos pela EJA, a falta de uma política pública eficiente na área da educação e o conse- qüente descaso com a escola pública. A autora cons- tata que, apesar das descontinuidades e rupturas na trajetória escolar de cada um, a escola ocupa um espaço importante na vida deles e continua sendo uma referência positiva, e defende: “cabe aos edu- cadores, também ter uma visão positiva sobre a si- tuação deles”. Os jovens, a escola e o saber - Retomando a necessidade da leitura positiva defendida por Char- lot, a pesquisadora se detém em três questões bási- cas, que o autor considera para reflexão: qual é o sentido da escola para o jovem?Como se mobiliza até ela? Como se vê dentro e fora dela? Ainda de acordo com Charlot, esses questionamentos também valem para o professor.Sem saber o porquê está na escola, o aluno faz de conta que estuda e o mesmo pode acontecer com os professores, fazem de con- ta que ensinam. Para Charlot é a crise da escola. Brunel entende que a grande procura pela EJA por alunos de todas as idades e, em especial, pelos jo- vens, está relacionada também com a crise da es- cola que é também social, política e econômica; e pensando de forma mais ampla é a crise da pró- pria modernidade, nos seus pressupostos básicos. Se a modernidade está em crise, a escola também está.; se a modernidade fracassa em muitos de seus pressupostos, a instituição escolar fracassa e mui- tos alunos também. Dessa forma, nem sempre o “fracasso” é uma carência ou falta, pois o aluno pode fracassar em uma escola e ter sucesso em outra; a análise da situação de fracasso dever vista em relação aos aspectos cognitivos, bem como aos individuais, sociais e econômicos. O sentido e o prazer de estar na escola - Para que o processo educativo seja eficiente três elemen- tos são primordiais: um sentido real de ir à escola, o prazer de estar nela para aprender e a atividade inte- lectual a ser desenvolvida. “Ser jovem é esperar que o melhor ainda acon- teça...” - A pesquisa mostrou muitos alunos tem um capital cultural que os possibilita a avançarem no processo escolar- muitos escrevem poesias, letras de músicas, fazem teatro, entre outras atividades. Alunos que sonham com uma vida mais digna para todos, e esperam que uma nova ordem se estabeleça e novas relações se construam. As “falas” dos jovens retratam que se aposta num futuro melhor, tanto para eles quanto para os seus, apesar dos estigmas, do difícil caminho já percorrido por muitos e que ainda terão de percorrer para alcançarem seus objetivos. Considerações finais A ausência de políticas públicas eficientes na área da educação, a repetência, os problemas de ordem pessoal, são alguns dos fatores responsáveis pelo abandono da escola regular por parte de muitos jo- vens e ingressassem na EJA, que se apresenta como opção atraente, uma vez que lhes proporciona a oportunidade de concluir seus estudos num curto espaço de tempo. Para muitos desses jovens, voltar a estudar é acreditar em um futuro melhor, em cursar uma faculdade ou sonhar com um bom emprego. A autora considera que pode descobrir nesse tra- balho indivíduos criativos, sensíveis, conscientes do seu entorno e que procuram um espaço no qual acre- ditam ter de direito, mas por outro lado, muitos des- ses jovens sofrem por serem tachados de irresponsá- veis, terem sua imagem ligada às drogas, à promis- cuidade, ao desemprego e ainda por freqüentarem a EJA, modalidade vista ainda como de segunda classe cujos alunos são inferiores. Em relação aos professo- res, também historicamente considerados como de segunda classe, estão junto com os alunos para su- perarem barreiras, quebrarem tabus e resgatarem a auto-estima perdida do aluno. Neste sentido, o rejuvenescimento dessa popu- lação foi entendido como um processo complexo e multifacetado que parte de fatores sócio-econômi- cos e se estende até as relações familiares, afetivas e culturais. Síntese elaborada por Helena Ignácio de Mora- es, graduada em Biologia (USP) com pós-graduação em Tecnologias Interativas aplicadas em Educação pela PUC/SP.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 19 SINPEEM CANDAU, V. M. (org) Petrópolis, Vozes, 2002 Questões como multiculturalismo, raça, gênero, identidade, poder, conhecimento, pertinência, ética exercem um papel importante na definição do signi- ficado e das finalidades da escolarização, no que sig- nifica ensinar e na forma como os (as) alunos (as) devem cumprir o processo, para viver em um mun- do que está cada vez mais globalizado, tecnológico e racialmente diverso, que em qualquer outra época da História. A instituição escolar está construída sobre uma afirmação de igualdade (de acesso, de formas de aprender e de ensinar), enfatizando uma base cultu- ral comum a que “todos” os cidadãos e cidadãs de- veriam ter acesso. Articular igualdade e diferença, essa base cultural comum e expressões de uma plu- ralidade social e cultural é, hoje, um grande desafio para os educadores. Globalização - A globalização é um tema muito tratado em nossos dias por pensadores, intelectuais e analistas de diversos campos. A favor ou contra, muitos pronunciamentos, sob os mais variados ân- gulos: econômico, político, antropológico, socioló- gico, lingüístico, educacional... Uma das tendências atuais na literatura é de per- ceber a globalização a partir de três perspectivas: 1) ela é plural – são várias globalizações; 2) ela é não linear, ou seja, não há “etapas” ou passos que indi- cam um estado final “globalizado” e 3) não recente, a imposição de modelos dos vencedores é antiga na história da Humanidade. Assim, cada país, depen- dendo de sua posição na lógica do capitalismo (cen- tral ou periférico) viverá um tipo de globalização, que será também vivida diferentemente entre os grupos sociais internos de cada Nação. O ser humano se depara com múltiplas identida- des – individuais, familiares, comunitárias, locais, regionais, supranacionais – que, ao mesmo tempo em que contribuem para a desconstrução de concei- tos genéricos (brasileiro, ser humano, morador da comunidade X, etc), também dão sentido à vida dos indivíduos e exatamente pela percepção de múlti- plos pertencimentos: etnia, gênero, religião, estilo de vida, etc. Ou seja, assume-se uma forma de ver, pen- sar e explicar o mundo do “outro” (o que Roberto Da Matta chama de difusão) que será interpretada e ado- tada de uma forma específica pelo grupo que a assu- me (aculturação). A cultura nacional e a religiosa, que teriam fun- SOCIEDADE, EDUCAÇÃO E CULTURA(S): QUESTÕES E PROPOSTAS cionado até hoje como elementos de ligação, inte- gração e unidade das sociedades, passam por uma mudança que, ao afirmarem suas diferenças, geram justamente a fragmentação social, ou seja, globali- zação, na esfera cultural, num contexto de comuni- cação de massa, não é necessariamente uma homo- geneização. Ao contrário, a) os meios de comunica- ção uniformizam ao emitir uma mensagem “única” por canal por vez, mas de uma forma relativa, pois os indivíduos não são folhas em branco; b) a identi- dade é constituída pela ação de diversos agentes que também podem ser conflitantes entre si (TV, família, escola, igreja); c) a comunicação de massa não é homogênea, emite diferentes mensagens, em diferen- tes horários, em diferentes programas, em diferentes canais; d) a cultura de massas reflete visões de mun- do das pessoas que a fazem, estando, portanto, inse- rida dentro de uma determinada visão cultural ela também e e) o processo de recepção e interpretação das mensagens culturais não é uniforme. Cinco grandes mudanças na segunda metade do século XIX explicam esse movimento de criação de identidades flexíveis, abertas e contraditórias: 1 - A concepção materialista do mundo social e a noção de sujeito histórico da obra de Karl Marx; 2 - A elaboração da idéia de inconsciente por Freud e os estudos posteriores que mostram que a identidade é uma construção dinâmica com base em processos psíquicos e simbólicos; 3 - A conceituação de Saussure na lingüística, que estabelece que uma língua é um sistema social, um artefato cultural; 4 - O poder redefinido por Foucault, algo dinâ- mico, de dupla face (coletivo e individual), relações onde a disciplina conforma os indivíduos e 5 - O surgimento do feminismo como crítica teó- rica a concepções rígidas e genéricas de gênero, que, junto com movimentos outros (de jovens, homosse- xuais, negros, pacifistas, etc), fragmentaram a arena política, iniciando um processo histórico de “reco- nhecimento”. O papel da Escola e da Educação - Duas ques- tões, entre os diversos recortes possíveis, se desta- cam para a análise: a qualidade de ensino e a diver- sidade cultural. A qualidade de ensino se liga à glo- balização por três grandes fios: o econômico (a glo- balização é um processo de lógica de mercado, que exige um novo perfil de mão-de-obra com forma- ção geral e profissional qualificada); o político (as utopias pelas quais se luta, um projeto de sociedade,
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    20 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM de ser humano, de relações, de participação, vida e interferência na vida coletiva, a escola como um es- paço de luta, de afirmação das identidades nacio- nais e de resistência a dominações), e o tecnológico (que tanto engloba a vertente de que a educação eli- tiza como a que democratiza o acesso a tecnologias informatizadas ou não, inclui e emancipa e abrange tanto o uso de tecnologias como instrumento como as relações com os meios de comunicação e infor- mação que caracterizam a sociedade contemporâ- nea) . A diversidade cultural implica em pensar uma educação escolarizada que possibilite práticas que tanto tragam a globalização e mundialização como a afirmação de identidades. Assim, se, por um lado, um dos trunfos da legitimação da escola tem sido o seu papel de formadora de identidades, sejam estas individuais, sociais e/ou culturais (o perfil de cida- dão, identidades a reforçar ou combater, a pluralida- de do mundo), por outro, a trama que reúne cultura, educação e globalização leva à discussão da capa- cidade da escola em absorver e trabalhar as dife- renças culturais cada vez mais visíveis nas últimas décadas. É na discussão do currículo que se coloca a perspectiva cultural, um campo minado de ten- sões, e, simultaneamente, um campo de discussão acerca das possibilidades e modalidades de diálo- go entre os diversos grupos sociais, étnicos e cultu- rais. Trata-se de perceber a escola como espaço construído no cotidiano, na possibilidade de se pen- sar o processo escolar educativo como heterogê- neo, fruto de uma ação recíproca sujeito-institui- ção, capaz de reconhecer e incorporar positivamen- te a diversidade no desenvolvimento dos alunos e alunas enquanto sujeitos culturais. Cultura e Identidade - A identidade é um con- ceito de muitos sentidos, representando tanto o que diferencia, ou torna exclusiva uma pessoa como a pertinência a um grupo específico. Seja no sentido jurídico, psicológico ou cultural, é fundamental na compreensão das relações humanas, sociais e edu- cativas, uma vez que também representa a consci- ência que alguém tem de si mesmo. A cultura pode ser entendida como um iceberg, na parte visível, elementos como a arte, literatura, produção cientí- fica, músicas popular e erudita etc; na parte sub- mersa os valores, papéis relativos a gênero, idade, classe social, conceitos de justiça, amor, relações parentais, entre muitos outros. A identidade cultu- ral, portanto, são os aspectos de nossas identidades que surgem de nossa “pertença” a culturas étnicas, raciais, lingüísticas, religiosas, regionais, nacionais, etc e é o que nos inclui e nos define com marcas próprias de uma turma, “tribo” ou instituição. Esse caráter é, ao mesmo tempo o que define e o que ex- clui/inclui num sistema social. Ou seja, a identidade é uma concepção relacional e situacional, que coe- xiste e convive num determinado tempo-espaço- contexto. Surge a questão, porém, que é a de defi- nir, dar um limite. Por exemplo, o que é o Brasil? Um país tropical, bonito por natureza (Jorge Bem), uma grande pátria sem importância [onde] será meu fim ver TV na taba de um índio programado para só dizer sim (Cazuza), mulatas, futebol, praias, condu- ção superlotada, favela sem luz e saneamento e Sho- pping Center tecnológico? Qual a música brasilei- ra: samba, mangue beat, bossa nova, ciranda, for- ró, fandango, sertanejo, MPB? É menos brasileiro o rap, o reggae ou o rock? É aí que surge o concei- to de cultura híbrida, um processo onde distintas misturas culturais coexistem e convivem, cruzadas, sincretizadas ou miscigenadas e interpretadas e ain- da assim, distintas e específicas. Nem todas as igualdades são idênticas, nem to- das as diferenças são desiguais (Milton Santos). Dife- renciar algo não é necessariamente discriminar e a diversidade não equivale a desigualdade. Um dos desafios lançados às sociedades hoje é justamente o de articular os valores de autonomia, liberdade, di- reito à diferença, solidariedade e igualdade. Como afirma o sociólogo português Boaventura de Sousa Santos: “as pessoas e os grupos sociais têm o direito a serem iguais quando a diferença os inferioriza e o direito a ser diferentes quando a igualdade os desca- racteriza”. Com a tecnologia de comunicação e in- formação, circulam dados e conhecimentos que atra- vessam o planeta, pelos rádios, TVs, jornais, compu- tadores, correios, telefones... e a questão continua: quem tem acesso? Potencialmente todos, porém não basta o “contato” com o suporte comunicacional (ver a TV ou ouvir o rádio), mas uma mediação, que pode ser o nível de alfabetização, a compreensão e a tra- dução do que é dito/ouvido/visto. A desigualdade de acesso à capacidade tecnológica, não só entre paí- ses, mas também entre os habitantes de um mesmo território, geram periferias que consumirão e critica- rão os produtos culturais e ideológicos veiculados de formas diferentes. Isso compromete o desenvolvi- mento democrático e o desenvolvimento das socie- dades. Os povos que foram colônias são os mesmos que hoje recebem a parcela “enlatada” do conheci- mento que circula rápido pelo mundo, são os que não têm condições de produzir e desenvolver seus próprios interesses, pois os meios de efetivar sua pro- dução cultural estão vinculados a grandes empresas transnacionais. Democracia e Pluralidade Cultural - Falar em democracia é falar também de cidadania. Conceitos que não são os mesmos da Grécia e Roma antigas, pois uma das necessidades do mundo atual é a de caracterizar esse direito de participação social e po- lítica. Assim, à cidadania passiva, outorgada pelo Estado, se diferencia a cidadania ativa, na qual o ci-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 21 SINPEEM dadão, portador de direitos e deveres é essencialmen- te criador de direitos para abrir novos espaços e par- ticipação política, alguém que reconhece diferentes sujeitos, com interesses diversos e válidos, valores pertinentes e demandas legítimas. A cidadania cul- tural, segundo Marilena Chauí, implica nos direitos de a) criar, ampliar, transformar símbolos sem ser apenas via belas-artes; b) fruir os bens culturais, ou a recusa de exclusão social; c) informação e comuni- cação sem monopólios e d) diferença e expressão de uma forma própria de seu grupo, sem hierarquia en- tre essas formas. A convivência entre os grupos, inte- resses e culturas se estabelece pelo jogo político, pela superação da rotulação como minoria (mulhe- res, crianças, idosos, minorias étnicas, sexuais, reli- giosas...) para usufruir um direito a ter voz e vez. A democracia não é apenas um regime político com partidos e eleições livres, mas uma forma de existên- cia social, aberta, que abrange liberdade e igualda- de de direitos sociais. A assunção de identidades, porém, provoca reações de grupos contrários ou que se sentem prejudicados, num processo complexo: quanto mais visíveis as identidades e a pluralidade, maior o nível de tensão a ser superado. A identida- de só se afirma diante do diferente. Assim, a globa- lização em diferentes níveis e estágios ao longo do planeta apresenta também diferentes efeitos sobre os diversos extratos de populações. Daí surgirem conceitos como multiculturalismo (justaposição e/ ou presença de várias culturas em uma mesma so- ciedade), interculturalismo (relações entre diferen- tes culturas), transculturalismo (componentes cul- turais que vão além das particularidades, passando a estar presentes em todas as culturas que lhes ser- viram de base), bem como uma revisão das noções de maioria (grupo estruturado, autodeterminado) e minoria (grupo cujo destino coletivo é dependente da boa vontade de um outro grupo, afastadas e/ou tratadas diferencial e desigualmente), além, portan- to da visão estatístico-numérica. Desenvolvimento - Durante décadas, assumiu- se que o sentido de desenvolvimento era necessaria- mente econômico. Isso teve, como conseqüência uma excessiva concentração de riqueza, uma pro- funda injustiça social (analfabetismo e fome de imen- so contingente de pessoas), um alarmante esgotamen- to e deterioração dos recursos naturais e sistemas de sustentação da vida no planeta, uma dominação cul- tural e redução da diversidade cultural e uma con- centração de poder (tanto em nível global como in- ternos aos países) que não permite às populações participarem do processo de tomada de decisão so- bre assuntos importantes que as afetam. O filósofo Mario Bunge, porém, apresenta aspectos do desen- volvimento que vão além e se inter-relacionam e complementam: o biológico (aumento do bem-estar e melhoria da saúde), o econômico (crescimento fi- nanceiro pela ampliação do comércio e industriali- zação), o político (expansão da liberdade, garantia de direitos e democratização da tomada de decisões) e o cultural (pelo enriquecimento de sentidos, difu- são da educação e avanço tecnológico e científico). A ligação entre cultura e desenvolvimento é o que define, em uma sociedade o que ela é e o que quer ser. Uma das condições para o sucesso do desenvol- vimento, portanto, é o exercício e a valorização do diálogo entre os diferentes grupos, via contato social ou mediado pelas tecnologias de informação e co- municação. O equilíbrio entre desenvolvimento eco- nômico, democracia política e equidade social é a única garantia de um desenvolvimento harmônico, eficiente e humano. Antecedentes - Tanto na Europa como na Améri- ca Latina e nos Estados Unidos, as propostas que vi- sam articular a educação e a diversidade cultural partem do reconhecimento da pluralidade de mani- festações e expressões culturais, sociais, étnicas, etc que moldam a sociedade contemporânea e suas re- lações. Nos Estados Unidos, principalmente a partir dos embates e na defesa da identidade racial dos negros, superando o melting pot (caldeirão misto) que apenas reconhece a diversidade étnica na origem. Da mesma forma no Brasil com a idéia de “cadinho de raças”. Ou seja, reconhece uma diversidade na origem, mas na “atualidade” essa diversidade teria se homogeneizado, não faria mais sentido. Assim, às experiências sociais e políticas de luta por direitos civis liderada pelos afro-americanos juntaram-se as reivindicações de mulheres, homossexuais, latinos e outros tantos grupos. A Europa, nos anos 1950-1960 já enfrentou o mesmo problema, trazido pela migra- ção de trabalhadores pouco qualificados, das ex-co- lônias (América Latina, Caribe, África, Ásia...). Um processo reverso do que houve durante o processo de expansão européia. Os europeus não encontra- ram na América Latina ou na África, “um” povo indí- gena, mas dezenas de “povos”, com costumes, orga- nização social e familiar, língua, cultos e conflitos internos de variedade incalculável. Europeus, africa- nos e ameríndios, povos já em si múltiplos e diver- sos, aqui viveram e conviveram com encontros, cho- ques, distanciamentos, diálogos, guerras, inter-rela- ções, dominações e acordos. Junte-se a isso a movi- mentação humana do século XX, de italianos, ale- mães, suíços para o Brasil, com vantagens de acesso à terra e emprego que jamais foram imaginadas pe- los negros que já estavam aqui. É nos números de fracasso e exclusão, nos números de tempo de esco- larização e de resultados dessa escolarização que se aproxima todo esse debate da educação formal. Nes- se sentido, foram os diferentes movimentos (negros, feministas, estudantes, etc) que trouxeram a discus-
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    22 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM são para o campo da educação. Com Paulo Freire no início dos anos 60, “ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo”. É a educação como prática da liberdade, a inserção dos homens na realidade de interações e simultaneidades, num universo de culturas, no plural. A educação assume um dever de ação dialógica, um encontro de diálo- go entre os homens e mulheres que, “mediatizados pelo mundo o pronunciam, o transformam, e, trans- formando-o, o humanizam, para a humanização de todos”. Enquanto o fracasso escolar foi entendido como um “problema exclusivo” do aluno enquanto indivíduo, a psicologia foi, obviamente a ciência pri- vilegiada nas pesquisas e na formação dos professo- res. Contudo, as migrações, as diferenças de classe, credo, etnia, gênero etc, têm levado os educadores a buscar aplicações em áreas lingüísticas, sociológi- cas, políticas, antropológicas além da psicologia. Fracasso escolar - Considerar os alunos e suas famílias culpados foi e tem sido uma postura bastan- te comum. Dois tipos de respostas são as mais co- muns: as teorias racistas e as teorias de privação cul- tural. As racistas (principalmente entre 1850 e 1930), afirmavam os fracassados como intelectualmente in- feriores. Sem comentários! As teorias de Privação Cultural são as utilizadas para programas de educa- ção compensatória, (supletivas ou não) que visam superar, compensar supostas desvantagens, de ordem intelectual, lingüística, afetiva, etc. As perguntas po- rém são outras: estão social e culturalmente margi- nalizadas de quê, exatamente? De qual cultura? Quem determina essa deficiência? Com que crité- rios? Isso remete à teoria crítico-reprodutivista, que afirma que a culpa do fracasso escolar é da escola, que é meramente uma agência reprodutora das dis- criminações que ocorrem fora dela, na sociedade. A resposta a isso é que a escola não apenas reproduz, mas produz (conhecimentos, técnicas, culturas, prá- ticas, etc) e interage com a sociedade mais ampla, com seu contexto, e, nessa relação, também trans- forma a si mesma. De certa forma, a diversidade foi encarada como uma patologia, o que serviu, ao lon- go da história da educação, de explicação e justifi- cativa para o fracasso. De um lado, ignorar a diversi- dade sob o ideal da igualdade de trato e, de outro, fazer do espaço escolar um espaço múltiplo e capaz de propiciar a todos um ambiente de construção de conhecimento e formação humana e cidadã. Educação Multicultural / Intercultural - Não é possível definir multiculturalismo de forma definiti- va, pois é uma realidade dinâmica, que apresenta, em cada contexto sociocultural e político configura- ções específicas. Como conceito de trabalho, apre- senta-se como a realidade social onde convivem di- ferentes grupos culturais. A descoberta da diversida- de, para muitos, é ameaçadora e marcada por este- reótipos, o que leva á conclusão de que a convivên- cia social não leva necessária, nem espontaneamen- te ao desenvolvimento social. Os profissionais de educação, assim, também refletem a diversidade de conceitos e posturas, havendo os acríticos (os confli- tos e tensões são de nível individual e relacional, não afetando a dinâmica escolar); os transculturais (que enfatizam o papel da escola na sociedade enquanto transmissora de conhecimentos universais historica- mente produzidos, uma escola de igualdade e uni- versalidade e não de diferenças e particularidades); os assimilacionistas (que percebem as diferenças e buscam integrá-las a uma cultura de base, a hege- mônica ou dominante, mais “importante”); os radi- cais (que têm as escolas diferenciadas, específicas para cada grupo sociocultural, como única opção para a preservação das diferenças e sua não-anula- ção) e os interculturais (que valorizam a interação, a comunicação recíproca, o reconhecimento do direi- to à diferença e a negação de todas as formas de dis- criminação, através do diálogo). Os critérios para considerar processos educativos como interculturais são: a) a visão de educação como prática social in- serida num contexto histórico e social determinado; b) o reconhecimento e valorização da diversidade cultural ao nível de políticas e práticas pedagógicas; c) a não-redução a situações e atividades de momen- tos específicos ou limitado a áreas curriculares ou grupos específicos; d) o questionamento de um et- nocentrismo que justifica uma hierarquização e uma escolha de temas de aula e e) a mudança não apenas no currículo explícito (objetivos, conteúdos, propos- tos, métodos e estilos de ensino, materiais didáticos etc) como também no currículo oculto e nas rela- ções entre os agentes do processo educativo, traba- lhando os ritos, símbolos, imagens e a auto-estima, de forma a superar o autoritarismo e o machismo for- temente arraigados nas culturas latino-americanas. Uma outra visão é a pela finalidade (Bartolomé Pina), o que dá sentidos diferentes: I) manter a cultura he- gemônica de uma determinada sociedade; II) reco- nhecer a existência de uma sociedade multicultural; III) fomentar solidariedade e reciprocidade entre cul- turas, denunciando injustiças da assimetria cultural; IV) avanço num projeto educativo global. Para Ja- mes Banks, o modelo holístico de abordagem onde a educação intercultural na escola, a partir de um enfoque institucional; incorpora elementos de denún- cia e luta contra a discriminação e o racismo e tem como finalidade desenvolver habilidades, atitudes e conhecimentos necessários para atuar no contexto de sua própria cultura étnica, no da cultura domi- nante, assim como para interagir com outras cultu- ras e situar-se em contextos diferentes do seu de ori- gem. Pode ser medida através dos critérios: grau de
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 23 SINPEEM integração dos conteúdos, processo de construção de conhecimentos, redução de preconceito, peda- gogia da equidade e empoderamento (“empower- ment”) dos diferentes grupos. Educação, (in) diferença e (des) igualdade. Cinco idéias principais: 1 - A escola, historicamente é um ambiente mo- nocultural, que privilegia o discurso científico dos conteúdos, em detrimento de vários outros (religio- so, étnico, etc); 2 - Não há oposição entre igualdade e diversida- de que possa realmente ser sustentada, não há dico- tomia, mas uma oportunidade de articulação na edu- cação; 3 - A articulação entre igualdade e diversidade nas práticas pedagógicas se constrói no dia a dia, na experimentação, no ensaio e erro; 4 - É preciso evitar o exagero tanto da igualdade quanto da diferença, pois ambas têm problemas: o discurso da igualdade leva a uma homogeneização, ao totalitarismo, à padronização, à exclusão, enquan- to o discurso do diferencialismo pode levar ao fe- chamento, à radicalização do relativismo, ao gueto; 5 - A intolerância, enquanto fenômeno de reco- nhecimento e negação da diferença, pode ser abor- dado e trabalhado na prática escolar. Respeito à diferença, enquanto direito à igualda- de remete a uma questão ética, pois se refere a como tratamos e nos relacionamos com o outro, o diferen- te. Somos, na medida em que nos relacionamos. Por outro lado, como colocar a diferença num campo de significação positiva, que leve não à discriminação, mas à idéia de que para a diferença não se opor à igualdade, deve-se exigir o combate à indiferença, que significa desinteresse, desprezo, insensibilidade, negligência, apatia. Afirmar positivamente a diferen- ça é, então, estar atento ao outro, à alteridade, ao que não sou, e, por isso mesmo, igual e diferente. Igualdade e diferença afirmam a inclusão e a abertu- ra ao outro. Desigualdade e indiferença negam o outro, excluem-no, desqualificam-no. Por fim, como compreender a tolerância, já que a intolerância cega é assassina, leva à agressão (o fogo do índio Galdi- no, 1997, os carecas do ABC matando um homos- sexual em 2000, ou o espancamento da doméstica confundida com prostituta no RJ, 2007) ou à lin- guagem preconceituosa sem consciência (p.ex. para com os nordestinos por paulistas - “esses baianos” – e por cariocas -“os paraíbas”). A não aceitação do diferente no Brasil tem sido marcada pelo precon- ceito dissimulado, que atravessa a nossa linguagem, as nossas piadas, a nossa expectativa de mundo, a nossa representação de brasilidade, as nossas práti- cas nas relações com grupos social e culturalmente discriminados. Exemplos de relação escola e cultura O pré-vestibular para Negros e Carentes (movi- mento que teve suas origens na Bahia e atua hoje no Rio de Janeiro), ligado a diferentes instituições como igrejas de várias denominações, universidades, dife- rentes vertentes do Movimento Negro, além de ou- tras organizações não governamentais (ONGs) e que busca promover uma educação multi/intercultural.. A Escola Plural, proposta política e pedagógica do governo municipal de Belo Horizonte, que pro- põe autonomia da escola, a partir da evidenciação da tensão entre as práticas tradicionais e as ações renovadoras, inovadoras, uma “escola emergente”. Duas grandes contribuições: primeira, que a edu- cação escolar pode reforçar a crítica a uma visão de mundo na qual o próprio grupo é tomado como centro, colaborando com o combate à intolerância, ao etnocentrismo, à xenofobia, ao racismo, à ho- mofobia, ao sexismo e a todo tipo de preconceito e, segunda, que a escola pode desenvolver práticas educativas que articulem a igualdade e a diversida- de, o global e o local, o universal e o particular, superando os sentimentos de estranheza, medo e hostilidade. A composição de Sambas por compositores de Escolas de Samba no Rio de Janeiro, ao discutir a cultura do samba e o papel da escolarização na pro- dução dos compositores de samba, evidenciaram inúmeros aspectos discriminatórios e culturais que afetam a escolarização de afro-brasileiros. A compo- sição de um samba-enredo não é tarefa fácil, pois, além da inspiração, tem-se que dar conta de diver- sos enredos nos versos para permitir a pontuação máxima em cada quesito. Para isso, é necessária a pesquisa em jornais e livros, freqüentar bibliotecas e procurar quem os ajude, se não sabem ler. No princípio, existiu o recurso à história oficial, esco- larizada, própria da cultura escolar, onde heróis ofi- ciais de um Brasil oficial, cuja elite e sua versão dos fatos compuseram os enredos. Uma marca caracte- rística da escola tradicional que reproduz enfoques não críticos. Com a ampliação da importância das Escolas de samba e dos desfiles, surge o carnava- lesco, que vai elaborar a sinopse do enredo aos sam- bistas para orientar a composição do samba-enre- do. Os que fugiram da glorificação das elites trou- xeram fatos, personagens e cultura ligados à sua própria história, na troca típica da cultura do sam- ba, que aproveita os batuques, o maxixe e até o tan- go. Os espaços de socialização do mundo do sam- ba constituem exercícios de diversidade cultural e são educadores da interculturalidade. Se os sam- bistas não aprenderam samba na escola, isso não significa que ela não contribuiu para o desenvolvi- mento das suas qualidades de compositor, ainda que não intencionalmente.
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    24 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM Elementos que compõem a discussão entre es- cola e cultura - O ambiente escolar, composto pelo conjunto de materiais de apoio (giz, lousa, quadros e mapas), o tamanho físico da escola e das salas, a população atendida, a figura e imagem da Direção, o conjunto de professores, bem como o processo de acolhimento e tratamento do alunado. Outro elemen- to é a relação dos pais/mães com a escola, sua proxi- midade ou distanciamento, a participação, a mani- festação de interesse. Já a ação efetiva educativa se mostra no grau de consciência da realidade multi- cultural que os membros da comunidade educativa possuem, expresso na negativa (“para mim todos são iguais”) ou na discriminação positiva (“precisam/ merecem mais atenção que os outros”). A aula, en- quanto ambiente físico, psicológico, afetivo, tempo- ral, bem como sua organização (distribuição dos alu- nos na aula, dos temas, forma e conteúdo, disciplina e uso de recursos) e avaliação também são elemen- tos que evidenciam como é tratada culturalmente a pluralidade existente. Da mesma forma, o modelo educativo, expresso na organização curricular, na participação permitida em sala, na adaptação dos temas e materiais às diferentes realidades culturais. O estilo de comunicação permite verificar não ape- nas a direção da comunicação como a atenção que é dada/recebida pelos diferentes compostos culturais presentes. Já os tipos de disciplina evidenciam os valores e o contexto de fundo que justificam a evi- denciação (prêmios e castigos), tais como o modo de o(a) professor(a) exercer o controle da sala, a exis- tência de normas e a freqüência de citação destas; a distribuição de prêmios e castigos, trabalhando ou não a motivação intrínseca. Assim, pode-se identificar três grandes objetivos no trabalho de multiculturalidade na escola: 1) Fo- mentar o desenvolvimento da identidade étnica, através da busca, conhecimento, valorização, afir- mação e expressão das características culturais e pessoais; 2) fomentar o conhecimento, valorização e aceitação das características culturais e pessoais dos outros e 3) explorar, identificar e avaliar critica- mente os próprios estereótipos e julgamentos e pré- julgamentos sobre outros grupos culturais. Coeren- temente, há quatro grandes blocos de avaliação do processo: 1) a avaliação diagnóstica (que propõe também uma leitura de contexto), 2) a avaliação do processo (temporização e adaptação), 3) a avalia- ção dos resultados imediatos (níveis de sucesso das propostas do programa, abrangência e mudanças efetivadas) e 4) a permanência da mudança (aos ní- veis institucional e pessoal). Outras delimitações conceituais Identidade racial - Muitos estudos superaram a questão do determinismo bio-genético ou a distin- ção com base em características físicas ou descrição biológica das raças. Os estudos apontam mais para uma raça “humana” que “negra”, ou “branca” ou “ameríndia”, classificação que foi utilizada para con- trolar os grupos étnicos visíveis, na medida em que explicava e justificava a marginalização, a escravi- dão e a opressão a esses grupos. O tema central do desenvolvimento da identidade racial é o de reco- nhecer e superar as manifestações psicológicas do racismo internalizado. Identidade étnica - Fenômeno psicossocial, que se baseia não apenas nas características físicas como também num sentido subjetivo de comprometimen- to com valores culturais, papéis e herança manifes- tada pelos membros de um grupo étnico. A identida- de étnica é um tipo de idéia sobre a pertinência a um grupo, sobre o próprio sujeito que pensa, sua com- preensão, valores, comportamentos e sentimentos, que têm implicações diretas nessa pertinência. In- clui os costumes, a linguagem e os pontos de vista sociais usualmente associados com um grupo étnico em particular. Não há “escolha” mas “nascimento” no grupo, um “contrato psicológico” de formas e modos de pensar, agir e sentir, que posiciona a pes- soa em relação a um grupo de referência. Aculturação - São os fenômenos resultantes do contato direto de grupos de indivíduos com culturas diferentes e as mudanças subseqüentes nos padrões de cultura originais de cada um dos grupos. Fenô- meno psicossocial multidimensional, que reflete as mudanças psicológicas que ocorrem nos indivíduos como resultado de seu encontro com uma nova cul- tura. Essas mudanças psicossociais não são indepen- dentes das características dos indivíduos ou da in- tensidade e importância do contato entre vários gru- pos. Essa aprendizagem e mudança de atitudes po- dem se dar em três níveis ou graus: I) superficial - aprendizado de feitos, (acontecimentos sociais ou históricos); II) médio - a aprendizagem que afeta aspectos centrais da pessoa, como a preferência e uso de um idioma, etnicidade dos amigos, da espo- sa, preferência por determinados ambientes; III) sig- nificativo - mudanças no nível de crenças, valores que afetam a cosmovisão das pessoas e seus pa- drões de interação. Por isso, afirma-se o componente da identidade étnico interna: a cognitiva (auto ima- gens, heranças, valores e conhecimento de seu gru- po); a afetiva (sentimentos de pertinência, dividido em simpatia e /ou satisfação) e a moral (sentimen- tos de obrigação para com o grupo, compromisso e solidariedade com ele). As instituições educativas não podem ser as últi- mas a interar-se ou atuar diante da realidade social. O tema central da educação, segundo Bell, é formar um diálogo crítico, onde temas controversos são tratados,
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 25 SINPEEM marcados pela democracia (entendida como igualda- de de oportunidades). A educação para a democracia implica em métodos de ensino democráticos. De concreto, dever-se-ia: a) Promover e estimular a diversidade étnica e cultural entre os professores em todos os tipos de ins- tituições educativas e b) Incorporar as inovações nos currículos, para que favoreçam o desenvolvimento da identidade, incluir temas supranacionais e globais, que superem as orientações etnocêntricas e eurocêntricas atuais. Resumo realizado por Antonio Carlos Berardi Junior, antropólogo e professor, mestre em Educação. CARVALHO, Rosita Edler. Editora Mediação, Porto Alegre, 2004 Introdução A organização do texto leva em consideração os encontros que a autora teve com os professores e suas questões diante dos discursos a respeito da in- clusão escolar e as diversas fontes de informações que atravessam esta discussão. Também faz pontua- ções a respeito da legislação e das discussões inter- nacionais que tem este tema como pauta. Propõe uma análise crítica sobre a educação in- clusiva e suas implicações sociais e políticas. Rosita toma como ponto de partida uma revisão histórica sobre o tema e uma síntese sobre os siste- mas educacionais inclusivos, enfatizando a remoção das barreiras que impedem a implementação desta reforma e conseqüentemente a aprendizagem de to- dos os alunos. Usa a expressão “pingos nos is”como jogo de palavra para discutir a questão da inclusão, integra- ção, inserção, individualização, identidade, identifi- cação, ideais democráticos... Coloca-se como partidária de uma posição não radical para atingir os ideais da educação inclusiva. Toma a escola como instituição social e como tal depositária dos ideais e valores que circulam fora dela e a incluem, dentre as quais os conceitos sobre igual- dade e diferenças individuais. Defende a idéia de uma inclusão cautelosa, que não negue as diferenças e construa uma discursivi- dade sobre a igualdade de direitos. Isto vai além das características pessoais. Vê a educação inclusiva como um espaço de re- estruturação das escolas, regulares ou especiais, ten- do em vista, inclusive, desfazer esta dicotomia. EDUCAÇÃO INCLUSIVA: COM OS PINGOS NOS “IS” 1 - Correntes teóricas e sua influência no processo educacional A autora desenvolve o texto neste ponto levando em consideração as diferentes correntes de pensa- mento sobre educação e práticas pedagógicas. Re- laciona teoria e prática, texto e contexto, reflexão e ações efetivas. Considera que a educação ocupa um lugar fun- damental na construção da civilização. A educação além de praticada precisa também ser pensada em toda a sua complexidade. Pensada tendo em vista o contexto histórico, a educação ab- sorve as condições e contradições de seu tempo, le- vando em conta o ideal de homem a ser alcançado. Atualmente, vivendo a aceleração das mudanças e o contínuo de informações, a educação busca conti- nuamente uma acomodação. Este capítulo traz uma retrospectiva sobre o pen- samento educacional traçado ao longo do tempo. A chamada pedagogia da exclusão tem origens remotas e sempre foi condizente com a concepção de homem e de mundo. Na antiguidade primitiva era voltada para o coti- diano e a satisfação do cotidiano. Da antiguidade clássica, na Grécia, destaca-se a Paidéia, educação integral, que incluía a formação do homem entendi- do como um ser de corpo (Esparta) e espírito/intelec- to (Atenas). A contribuição do pensamento romano influen- cia também o pensamento moderno, desenvolven- do uma educação integral e diferenciando homens livres e escravos (excluídos). Na Idade Média, a ideologia inspirada no cristia- nismo, a educação tinha uma circulação privilegia- da nos conventos, abadias e nos círculos de nobres. Os trabalhadores aprendiam na tradição oral aqui- lo que lhes serviria para a sobrevivência.
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    26 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM Surgem as universidades como centros de saber universal. Na seqüência, o Renascimento, o acesso à edu- cação ainda permanecia nos círculos da nobreza e burguesia emergente. Não havia um conceito de edu- cação para todos. A Idade Moderna caracterizou-se pela ascensão de uma classe social que se opunha aos modelos vigentes. A Revolução Francesa representa um mar- co para o período, denominado pelos historiadores de Iluminismo, onde as liberdades individuais e a racionalidade são considerados os marcos. Nascia a burguesia. A teoria educacional neste contexto apóia o humanismo igualitário e universal. Também o conceito de individualidade compõe as concep- ções educativas. Nasce o conceito de meritocracia, fazendo uma apologia da autonomia econômica conquistada pe- los méritos pessoais. A classe trabalhadora tem na educação um apren- dizado para o trabalho e a classe dirigente tem a edu- cação para governar. No séc. XIX, os ideais iluministas inspiram os pro- jetos positivistas e socialistas. O primeiro atribuía à educação e a ciência a capacidade de renovar os costumes e reorganizar a sociedade. A educação deveria conferir a ricos e pobres as mesmas oportu- nidades considerando as aptidões individuais. A de- ficiência era considerada como incompetência ou incapacidade. O positivismo traz como benefício uma crítica do pensamento pedagógico exercendo muita influ- encia no movimento da Escola Nova. O escolano- vismo valorizava a atividade espontânea da criança e colocando o aluno como centro do processo edu- cacional. Era um movimento de escola ativa, onde apren- der é aprender fazendo. O movimento socialista originado nas camadas populares contribui para um repensar do contexto social. Na década de 50, a visão critica do socialismo tendo em vista o ranço positivista que atravessa a Escola Nova, apresenta a educação como uma insti- tuição capaz de transformar a sociedade. Paulo Frei- re e Ira Shor vêem a escola como um lugar apara a construção da cidadania e da pratica libertadora. Atualmente convivem a tecnologia e sua enorme parafernália e uma rede imensa de informações. A sociologia da educação contribuiu para uma analise critica da escola. Deixa de ser vista com oti- mismo e passa a ser lida como lugar de exercício de poder e violência simbólica. Ocupa-se de reprodu- zir o status quo vigente e alimenta os movimentos geradores da desigualdade social. A autora considera que a educação atualmente tem como centro a valorização da pessoa do edu- cando como aprendiz e como ser histórico, político, social e cidadão. No ideal inclusivo está implícito o ideal democrá- tico que leva em consideração os direitos humanos. Apesar de estar sendo discutida neste contexto da democracia e do direito, ainda fica restrita nos fóruns de educação especial considerando apenas as crianças que freqüentam estas escolas. É preciso que sejam ampliados os conceitos em torno do tema. Muitas resistências de professores e pais formam- se por conta da insegurança no trabalho educacio- nal de profissionais não especializados. Outros tam- bém desconfiam que a qualidade do trabalho peda- gógico poderá ser prejudicada pela presença de alu- nos considerados deficientes em classes regulares. Os cursos de formação de professores não apre- sentam um currículo que dê conta de torná-los pro- fissionais capazes de ensinar alunos que deveriam freqüentar as classes e escolas especiais. A maioria dos interlocutores não consideram que alem dos alunos com deficiência, também os alunos com dificuldades de aprendizagem e altas habilida- des podem beneficiar-se de uma abordagem inclusi- va na educação. Alguns autores apontam que o desmonte da edu- cação especial, seja através do fechamento das es- colas especiais, classes especiais, salas de recurso e serviços itinerantes como uma forma de desonerar o orçamento da educação. Paralelamente, pais e educadores exprimem seu entusiasmo diante de uma educação que considera a diversidade como um avanço e um desafio. Os quatro pilares da educação para o século XXI propostos pela UNESCO sustentam a idéia de novos paradigmas: aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a ser e a viver junto. Ainda permanece uma dicotomia entre os termos inclusão e integração que a autora procura dissolver durante todo o texto. Tanto na sociologia como na psicologia social, a integração representa a interação, as relações que envolvem a reciprocidade. Alguns autores consideram a integração como um passo anterior à inclusão, onde os alunos devem adaptar-se às propostas da escola. Do ponto de vista da inclusão, cuja metáfora é o caleidoscópio, qualquer aluno pode e deve parti- cipar da vida escolar em escolas comuns e estas devem organizar-se administrativa e pedagogica- mente para isto. É preciso, no entanto, considerar a implementa- ção de projetos que ofereçam suporte aos educado- res e as famílias para que de fato uma inclusão não seja a qualquer preço. Para renomados pensadores das escolas inclu- sivas, os caminhos passam: pela valorização profis-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 27 SINPEEM sional do professor; pelo aperfeiçoamento das es- colas; pelo acompanhamento de professores espe- cialistas; pelo trabalho em equipe e pelas adapta- ções curriculares. As escolas inclusivas são escolas para todos que reconhecem as diferenças individuais de qualquer aluno. Não só os alunos portadores de deficiência serão considerados de inclusão, mas todos aqueles que por causas endógenas ou exógenas, temporárias ou permanentes, apresentem um quadro de dificul- dades de aprendizagem ou no desenvolvimento. O termo inclusão não deve ser considerado auto- explicativo das razoes que cunharam seus objetivos, tais como solidariedade e cooperação, que devem atravessar qualquer proposta educativa. A inclusão institui a integração de maneira mais radical e sistemática, alertando para a necessidade das implicações praticas da integração. A expressão alunos com necessidades educacio- nais especiais é genérica e abrangente. O sistema educacional esta alicerçado em uma dicotomia: es- colas especiais e normais/regulares. Isto tem reforça- do a idéia de um grupo de alunos ser considerado a clientela da educação especial. A autora grifa a importância de considerarmos a idéia de inclusão escolar como algo que vai alem do “como incluir” para a melhoria das respostas educa- tivas para todos. A proposta de educação inclusiva não foi conce- bida apenas para determinados alunos pois é consi- derável a produção de fracasso escolar, excludente. O processo educacional tem sofrido as influen- cias das concepções sobre educação, sobe gênero humano e sobre sociedade, que atravessaram a his- tória da humanidade. A prática pedagógica deve ser inclusiva, no sen- tido de envolver a todos e cada um. O papel do professor na pratica inclusiva deixa de ser o de profissional do ensino para ser o profis- sional da aprendizagem. 2 - A contribuição da historia, da filosofia, da ciência para a proposta inclusiva A década de 20 é o auge da corrente positivista, com o método indutivo e das experiências como es- tratégias de se fazer ciência. Ao termino do século passado, assistimos ao nas- cimento de uma nova ciência onde a vida e a cons- ciência entram em cena. Altera-se o olhar diante da alteridade e os senti- mentos em relação ao outro, ao próximo, principal- mente quando este apresenta características diferen- ciadas das de seus pares. A nova ética envolve novos valores como igual- dade de direitos e equidade, promovendo a supera- ção de qualquer forma de discriminação étnicas, so- cioeconômicas, de gênero, de classes sociais ou sin- gularidades. O papel da escola muda e a seletividade e segre- gação saem de cena e cedem lugar a uma educação “para todos nós”. O ensino vai alem do da valoriza- ção da transmissão de conhecimentos. A idéia de escola inclusiva é aquela que prepara para a vida. Esta mudança de papel envolve uma mudança no conceito de escola e de escola especial. O direito à igualdade de oportunidades não sig- nifica que devemos educar a todos de modo igual. Fala-se em equidade como um movimento de res- peito as diferenças individuais sem que quais mani- festações de dificuldades traduza um impedimento para aprender. Saímos do paradigma do defeito a ser compensa- do para um remodelagem nas crenças e princípios institucionais que se afastam de modelos discrimina- tórios e opressivos. As concepções a cerca da educação especial pre- cisam ser revistas e abolidas. A autora não refere-se às práticas. Para tornar as escolas brasileiras em escolas in- clusivas, a autora destaca: a valorização do magisté- rio; as melhoras nas condições de trabalho; a forma- ção continuada; as condições de aprendizagem em clima prazeroso e criativo. 3 - A autorização da diferença de pessoas com deficiência Este capitulo tem como objeto de análise a dife- rença. Discute os aspectos éticos na percepção das diferenças. Em geral os paradigmas são baseados em pressu- postos de normalidade. Neste pressuposto, sempre há um ideal, um modelo a ser seguido. Algumas dessemelhanças são entendidas como naturais, como os caracteres fenotipicos, por exem- plo. Já no caso de diferenças significativas, isto não se dá desta maneira. Pessoas com diferenças signifi- cativas geram impacto no olhar do outro, dito nor- mal. As reações podem ser de comiseração ou senti- mentos de filantropia. Estão em oposição binária o normal e o anormal, o saudável e o doente. A ênfase neste caso recai so- bre a deficiência. Os índices de normalidade excluem aqueles que não se encaixam. O deficiente reforça normalidade. Os desvios tornam-se patologias. O ser e o não ser aparecem como as duas únicas opções possíveis. A idéia da educação inclusiva é dispensar com- parações com modelos normativos. Deve-se então valorizar e respeitar o outro como ele é, livre de com- parações classificatórias ou categorizadoras. A autora promove uma discussão em torno de
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    28 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM uma metáfora. Usa um artigo para ilustrar aquilo que esta entre o sadio/normal e o doente/anormal. Colo- ca a diferença como um desafio, saindo dos critérios estatísticos, estruturais, funcionais ou na compara- ção com o ideal. Considera o desenvolvimento das potencialida- des como uma maneira de autorizar a diferença em nosso cotidiano. Propõe um deslizamento da dinâmica da dialéti- ca para a tetralética como possibilidade de expan- são dos paradigmas binários e reducionistas. Neste ponto fala de uma inversão discursiva que ao invés de defender o direito dos deficientes em se- rem incluídos defende os direitos dos ditos normais em enriquecerem suas experiências com o exercício da alteridade. O convívio deixar de estar definido apenas como um direito passa a representar uma oportunidade de construção de vínculos. 4 - A exclusão como processo social Neste capitulo a autora fala da chamada inclu- são marginal, onde a sociedade capitalista faz um movimento de exclusão para incluir a “seus moldes”, segundo suas regras. Pontua sobre a normalidade individual. Sob o olhar ocidental, a exclusão social deve ser considerada em termos das relações interpessoais que se manifestam como praticas hostis e de rejeição que formam guetos. Distingue os conceitos de solidariedade mecâ- nica e solidariedade orgânica baseando-se em Du- rkheim. Na primeira forma solidariedade exprime-se por proximidade ou contato entre os homens. No se- gundo caso, as agregações são cooperativas e se constroem através de valores e crenças comuns que fazem funcionar o coletivo. Para haver inserção é preciso que haja reciproci- dade que implica em uma serie de ressignificações das percepções do outro e um conjunto de mudan- ças que envolvem desde os espaços físicos e simbó- licos até a qualidade dos laços estabelecidos. Os níveis de acolhimento e a natureza dos laços sociais evidenciam três conceitos vizinhos: a inser- ção, onde prevalece a solidariedade mecânica; a in- tegração, que prevê a reciprocidade nas interações, onde prevalece a solidariedade orgânica e a assimi- lação, que indica a unidade do grupo como espaço ultimo de referencia. Os vínculos sociais e simbólicos ligam cada in- dividuo a sociedade e a seus semelhantes. O discurso tem poder instituinte da realidade e desta forma, podemos fazer representações a seu res- peito sem que elas de fato sejam a realidade. Muitas praticas de exclusão partem de pressupostos imaginá- rios de representação, por exemplo da deficiência. Calcados na concepção de normalidade, cons- truímos um imaginário acerca dos deficientes e os colocamos em pólos opostos a normalidade. Deixa- mos assim de pensar por contradição, ou seja, admi- tir que os fatos e fenômenos humanos não podem ser pensados como engessados em uma certeza, pois sempre variam segundo condições em que se mani- festam e as expectativas sociais. A intimidade entre o conceito de deficiência e o orgânico gerou uma certeza imaginaria sobre a defi- ciência como sinônimo de doença. O sujeito deficiente é etiquetado de diversas for- mas, sempre como um desviante. Se na antiguidade defendia-se o extermínio dos desviantes, na atuali- dade estes são considerados como merecedores de proteção e caridade. Os processos de inclusão escolar em sua maioria pretender colocar na escola regular os ditos defici- entes e interagir com eles através de uma solidarie- dade mecânica. Não há respostas que expliquem o fracasso esco- lar. A autora traz a reflexão de Alicia Fernandez que pondera sobre o fracasso estar sempre do lado do alu- no, daquele que não aprende. Desconsidera-se assim o espaço intersubjetivo da relação professor aluno. Esta constatação tira alunos e professores do ban- co das réus. Ainda trazendo as idéias de Fernandez, a autora fala sobre a importância de professores e alunos fala- rem o mesmo idioma. No trabalho com a diversida- de o professor precisa lançar mão de diversos idio- mas. O não reconhecimento dos diversos idiomas do aprendente aprisiona o mesmo e faz do saber algo monolítico e acabado. O aprisionamento diante daquilo que convenci- onou-se como não saber, transforma os alunos em deficientes. A escolarização especial deve estar a serviço da- queles que verdadeiramente precisam dela. Não é possível negar a deficiência mas é preci- so implementar ações que removam as barreiras para quem estes alunos aprendam, mesmo que de forma singular. A autora neste ponto do texto apresenta uma de- fesa frente a uma inclusão responsável e a conside- ração que alguns alunos se beneficiariam mais de uma escolarização em escolas ou classes especiais. Defende as seguintes idéias: universalização da educação; inclusão em salas regulares quando hou- ver praticas pedagógicas que garantam as remoção das barreiras de acesso;constituição de redes de apoio; formação continuada de professores, ressignificaçao do papel e das praticas da educação especial. Critica a inclusão irresponsável; o desmonte pre- cipitado da educação especial; extinção dos servi- ços de apoio; a falta de oportunidade de escolha dos
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 29 SINPEEM deficientes e suas famílias; desconsideração dos ape- los dos professores. Fala também da necessidade de transformação do cotidiano escolar oferecendo educação de qualidade para todos sem que esta seja idêntica para todos. Uma escola verdadeiramente democrática pres- supõe: boas condições de trabalho; maiores investi- mentos em formação; avaliações sistemáticas do pro- cesso ensino-aprendizagem; capacitação dos gesto- res; educação na diversidade; relações dialógicas entre professores e entre escolas. 5 - Educação inclusiva: alguns aspectos para a reflexão A idéia de educação inclusiva remete para a dis- cussão antiga de escola com qualidade. Neste ponto do texto a autora fala sobre a dife- rença entre os aspectos conotativos e denotativos de uma mensagem. Como aspectos denotativos considera aquilo que leva em conta a acepção da palavra. Quanto aos as- pectos conotativos, considera aquilo que é interpre- tado com subjetividade, com atribuições de sentido. O conceito de educação envolve sempre a espé- cie humana e a integralidade na qual o homem deve ser mergulhado sempre integrado com a cultura em que vive. Engloba aspectos físicos, intelectuais, afe- tivos e político sociais. O ato de educar em seu sentido etimológico significa conduzir e fazer explicitar as próprias ex- periências associadas às novas aprendizagens. Na LDBEN(1996) a educação especial é concei- tuada como uma modalidade de educação ofereci- da preferencialmente na escola regular para alunos com necessidades educacionais especiais. Esta definição pode conter uma idéia de bipola- ridade entre educação especial e educação regular. Podemos pensar sobre o atendimento educacio- nal especializado do ponto de vista de quem ofere- ce, que tem uma formação especializada quanto do ponto de vista de quem precisa de uma atenção es- pecializada. Retoma os conceitos de integração e inclusão, usando agora os conceitos de conotação e denota- ção e apresentando a discussão sobre a importância de desfazer-se o equivoco de que bastaria incluir qualquer aluno em uma escola regular sem que as devidas modificações sejam feitas para se falar da superação dos paradigmas da integração. Diferencia também igualdade e equidade, dizen- do que igualdade prevê direitos iguais previstos por lei e equidade é a garantia do acesso a aprendiza- gem considerando as diferenças. Considera que os termos necessidades educa- cionais especiais e necessidades especiais com muito genéricos. Os excluídos são todos aqueles que não ingres- sam na escola ou que o fazem sem as condições mínimas de apropriar-se dos conhecimentos. Dentre os fatores que contribuem para que au- mentem as estatísticas de fracasso escolar e exclusão estão listados aqueles oriundos do modelo social e econômico vigente e a falta de políticas publicas para remover estas dificuldades. Os processos que viabilizam os ideais de igual- dade e equidade dependem da mudança de atitudes dos sujeitos, autores da historia. O implemento de políticas publicas precisam prever a desfragmentação entre e intra-segmentos. Os textos internacionais já registram a mensagem da remoção das barreiras para a aprendizagem e participação. A exclusão não se refere apenas aos deficientes. É preciso que aquilo que se encontra na lei possa fazer parte das ações que promovam um acesso e apoio para aprender. É preciso facilitar o aprender. Mesmo as pesquisas acadêmicas muitas vezes não contemplam a complexidade das questões sociais. As resistências sejam dos professores sejam dos familiares destes alunos também precisam ser consi- deradas neste contexto de dificuldades para remo- ção de barreiras da educação inclusiva. É fundamental experimentar um escuta que pos- sa considerar a queixa de um professor como legiti- ma diante do enigma de um aluno que não aprende. 6 - Concepções, princípios e diretrizes de um sistema educacional inclusivo Na última década, muitas reflexões tem sido fei- tos a respeito da educação escolar e estas discussões tem gerado reformas nos sistema educativos da Amé- rica Latina e Caribe. O direito universal para a educação consta na Constituição Brasileira e em documentos internacio- nais como: a Declaração Universal dos Direitos Hu- manos; a Declaração Mundial sobre Educação para Todos e Declaração de Salamanca e Linha de Ação, elaboradas na Conferência Mundial sobre Necessi- dades Educacionais Especiais. Os efeitos da globalização e da imensa veloci- dade das mudanças ocorridas na atualidade tam- bém influem as decisões dos dirigentes dos diferen- tes países que compartilham de interesses comuns tem em vista a superação do fracasso escolar e a ampliação dos benefícios de uma proposta educa- tiva de qualidade. Perguntam-se sobre como garantir a criação de escolas inclusivas que respondam às necessidades individuais de aprendizagem de cada um de seus aprendizes. A autora deixa claro que as leis e os textos teóri- cos asseguram os direitos, mas o que garante a im-
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    30 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM plementação destas leis e discursos são ações, espe- cialmente o provimento de recursos. Mesmo aparentemente paradoxal, as transforma- ções almejadas não dependem apenas das políticas educacionais e sim de articulações entre elas e as outras políticas públicas como saúde, nutrição, bem estar familiar, trabalho e emprego, ciência e tecnolo- gia, transportes, desporto e lazer. É preciso enfrentar também a fragmentação de planos setoriais para educação infantil, ensino fun- damental, médio, educação de jovens e adultos, edu- cação profissionalizante e superior. Um sistema educacional inclusivo pressupõe o enfrentamento da fragmentação interna e a busca das diferentes formas de articulação, envolvendo todos os setores nacionais e a cooperação internacional. É preciso que a educação especial deixe de ocu- par um lugar de sub-sistema de atendimento para alunos com deficiências. Ela deve ocupar-se de for- necer um conjunto de serviços e recursos de apoio para a educação regular. Os princípios que fundamentam os sistemas edu- cacionais inclusivos são princípios educacionais. Devem estabelecer programas, projetos e ativi- dades que permitam o desenvolvimento pleno dos indivíduos, fortalecendo o respeito aos direitos hu- manos e as liberdades fundamentais descritas pela Declaração Universal dos Direitos Humanos. No texto do Marco de Ação de Dakar, adotado no Fórum Mundial sobre Educação (2000), um dos trechos dizia: Esses programas devem favorecer o entendimen- to , a tolerância e a amizade entre todas as nações e todos os grupos étnicos e religiosos; hão de ser sen- síveis às identidades culturais e lingüísticas e respei- tosos à diversidade e, por ultimo, devem reforçar uma cultura de paz. A educação tem que promover não só a aquisição de habilidades, como a prevenção, a solução, pacifica dos conflitos e, também, valores sociais e éticos. A educação inclusiva pode ser considerada como um processo que permite colocar estes valores em prática, sem que se caracterizem as ações como pie- guismos, caridade ou filantropia. Esta alicerçada em valores que defendem a igualdade de todos, sem dis- tinções. O ideário dos sistemas educacionais inclusivos podem ser resumidos a: direito à educação; direito a igualdade de oportunidades, mesmo que de manei- ras diferentes; escolas de boa qualidade; direito de aprendizagem e direito a participação. Os documentos nacionais e internacionais apre- sentam diretrizes, orientações para atingirem-se os objetivos traçados para a educação. Em Santo Domingo, no Chile, em 2002, foram traçadas orientações para implementações e implan- tações de ações inclusivas. Entre elas destacam-se: estabelecer relações entre os dados estatísticos e as tomadas de decisões; formular políticas educativas inclusivas e articulá-las com outras políticas sociais; incrementar as políticas de recursos; garantir a equi- dade na distribuição de recursos públicos e priva- dos; escutar as vozes de diferentes setores; promover formação continuada aos técnicos que atuam nos diferentes ministérios e órgãos de planejamento; va- lorização do magistério através de medidas financei- ras e melhoria das condições de trabalho; dispor e fazer cumprir as determinações legais; divulgar in- formações para diferentes grupos; estimular praticas dialógicas, combinando centralizações e descentra- lizações; criar redes de escolas envolvendo famílias e comunidade; desenvolver avaliações constantes sobre o impacto das propostas de educação inclusi- va ; aproveitar mais e melhor os recursos tecnológi- cos e meios de comunicação; sustentar e ampliar o acesso à educação básica e identificar grupos ainda excluídos; continuar os processos de reforma curri- cular; estimular as ações de educação para o traba- lho; promover programas de apoio aos estudantes e famílias mais pobres; promover a educação intercul- tural e bilíngüe em sociedades multiétnicas, plurilín- gües e multiculturais. Os equívocos quanto aos “beneficiários”de uma educação inclusiva, no caso, os portadores de defi- ciência tem gerado inúmeras resistências sejam do encontro com estes alunos nas salas de aulas regula- res, seja pela desconsideração das importantes con- tribuições que educação especial pode trazer a edu- cação inclusiva. 7 - Políticas publicas para a educação inclusiva O ideal da educação inclusiva, segunda a auto- ra, é o oferecimento de uma educação de qualidade para todos, independentes de suas capacidades ou deficiências. Retoma a questão referente a ampliação do con- ceito da educação inclusiva para os alunos com ne- cessidades educacionais especiais ou não. O Plano Nacional de Educação prevê isto em seus textos. Um dos equívocos de muitos educadores é que a inclusão escolar deve levar em conta somente a movimentação de alunos da educação especial para a rede regular. A proposta inclusiva: vai além da educação es- pecial; é dirigida para todos os alunos, portadores ou não de deficiências, condutas típicas ou quadros psicológicos graves; deve considerar os alunos com altas habilidades; não precisa exigir diagnóstico cli- nico para inclusão de deficientes; considera o para- digma da integração como reciprocidade nas rela- ções dentro da escola; considera qualquer necessi- dade como desafio para implementos de ensino- aprendizagem; não confunde inclusão com inserção;
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 31 SINPEEM deve considerar a importância fundamental dos as- pectos cognitivos; ampliar o conceito de inclusão para fora da sala de aula. Muitos mecanismos compensatórios têm sido adotados como salas de aceleração, progressão, pro- moção automática, dentre outras coisas. Estes meca- nismos indicam a grande massa de excluídos sejam portadores de deficiências reais e circunstanciais. São inúmeras as ultrapassagens requeridas para vencer as diversas barreiras da inclusão. Deve-se considerar a proposta de educação in- clusiva numa perspectiva pluridimensional. Os me- canismos de exclusão social são também reproduzi- dos nas escolas. Muitos professores consideram-se inaptos para trabalhar com a diversidade, pois foram formados em uma idéia de classes hegemônicas e com alu- nos “normais”. Por esta razão, a formação continuada de profes- sores é uma das ações que devem ser implementa- das, com o objetivo de promover o desenvolvimento pedagógico e organizacional dentro da escola. Em 1979, no México, os Ministros da Educação de paises da América Latina e Caribe, identificou-se a extrema pobreza da população; a baixa escolari- zação da maioria dos alunos; os altos índices de anal- fabetismo repetência e evasão além da inadequação dos currículos escolares. Diante deste quadro, foi solicitado à UNESCO que elaborasse um Projeto objetivando superar estes desafios. A proposta básica foi de cooperação horizontal dentro de cada pais e entre os paises formando-se parcerias internacionais e regionais. Todos os documentos dão prioridade aos grupos desfavorecidos e vulneráveis através da articulação de políticas publicas. Equidade, redução de desigualdades e amplia- ção dos acessos a serviços beneficiando a qualidade de vida devem ser consideradas fundamentais na saúde e na educação. A ampliação das ofertas de educação para o tra- balho tornou-se uma questão inadiável. A Lei Orgânica da Assistência Social preconiza a universalização das políticas publicas na área além da organização de ações sociais com sistemas parti- cipativos e descentralizados. Todos os programas neste sentido têm alto im- pacto social. Para atender à crescente demanda de implemen- tações de ações que visem a concretização dos ob- jetivos da inclusão social e escolar, foi criado o FUN- DEF (1998) para distribuir recursos destinados ao Ensino Fundamental. A maior inovação foi a mudan- ça da estrutura de financiamento do Ensino Funda- mental no país. O FUNDEF tem financiado a univer- salização da educação e não sua qualidade. Muitos avanços devem ser considerados, entre os quais a fixação de parâmetros curriculares nacio- nais para a educação fundamental, infantil e indíge- na; o programa de livros didáticos, a criação de um canal de TV exclusivo para a capacitação de profes- sores; a municipalização da merenda escolar; a re- forma do ensino médio e técnico; os novos currícu- los para os cursos superiores e a ampliação do siste- ma de informação e avaliação educacionais. 8 - Planejamento e administração escolar para a educação inclusiva Em 2000, em Dakar, foi reconhecido que todas as crianças, jovens e adultos tem direito de benefici- ar-se de uma educação que possa satisfazer suas ne- cessidades básicas de aprendizagem, aprendendo e assimilando conhecimentos, aprendendo a fazer, ser e conviver. Assim estes sujeitos serão capazes de melhorar sua vida e transformar a sociedade. Estes são os princípios da educação inclusiva. O Estado deve assumir a responsabilidade e con- cretizar ações para a educação inclusiva contando sempre com a parceria da sociedade no planejamento e na administração de sua implantação. Os planejamentos devem ser realizados em ní- veis macro e micro políticos (ministérios e dirigentes de escolas). Para que os gestores educacionais se apropriem dos ideais da educação inclusiva precisam adotar metodologias de trabalho compartilhado. O estreitamento entre as previsões tecnocratas e as ações devem considerar as questões políticas removendo as barreiras para a aprendizagem de todos. Os administradores precisam dotar-se de autori- dade profissional e conhecimento na área para a qual estão planejando. É preciso vontade política para fa- zer que as coisas aconteçam. Deve-se considerar a interlocução com alunos e professores, além de outros gestores. Os professores são os grandes executores do planejamento. Outra consideração diz respeito às orientações das Secretarias de Educação, mesmo considerando a autonomia das escolas. Na reunião de Dakar em 2000 concluiu-se que apesar dos avanços das discussões sobre a educação para todos, ainda existem mais de 113 milhões de crianças sem acesso à educação primária e 800 mi- lhões de adultos analfabetos. Em decorrência destes dados foram firmados seis compromissos dentre os quais a autora destaca três: extensão e melhoria da proteção e a educação in- tegral desde a primeira infância especialmente às crianças mais vulneráveis; cuidar para que antes de 2015 todos os alunos e alunas tenham acesso a um ensino primário gratuito, obrigatório de boa qualida- de; melhorar os aspectos qualitativos da educação
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    32 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM especialmente em leitura, escrita, aritmética e com- petências práticas essenciais. A Declaração de Cochabamba, 2001, aproxi- ma-se das traçadas em Dakar e traçam algumas di- retrizes para políticas publicas: eixos prioritários para a aprendizagem de qualidade e atenção à di- versidade; fortalecimento do papel do docente; colocar os processos de gestão a serviço das apren- dizagens e da participação da comunidade educa- tiva; financiamentos que garantam uma oferta edu- cacional universal. Todas as recomendações servem como diretrizes para o estabelecimento de objetivos que orientam o processo decisório. A própria LDB 9394/96 determi- na que todas as escolas elaborem sua proposta pe- dagógica. Os documentos devem contemplar tam- bém as questões filosóficas e pedagógicas escritas sob a ótica da educação inclusiva. Para que o projeto político-pedagógico exprima a escola que queremos é preciso que a gestão seja democrática. Assim também esperamos dos proces- sos de descentralização político-administrativo das ações do estado. O processo de construção desta proposta deve ser contínuo e conhecido por todos os funcionários da escola. Este planejamento pressupõe que a equipe co- nheça os documentos nacionais e internacionais que a amparam teoricamente e estejam atualizadas quan- to ao campo do desenvolvimento humano e das teo- rias da aprendizagem. O projeto político-pedagógico da escola é como sua “carteira de identidade” e deve considerar as dimensões da cultura, da política administrativa e a pratica pedagógica geral e particular considerando a sala de aula. É preciso construir indicadores que fa- cilitem a coleta de dados a serem organizados de forma qualitativa e quantitativa. As diretrizes traçadas permitem nortear a pratica pedagógica de classes comuns e o trabalho com a diversidade. Planejamento e organização da escola estarão a serviço da aprendizagem na diversidade. O direito a uma escola voltada ao acolhimento de alunos com necessidades educacionais especiais deixa assim de ser algo da ordem da caridade ou filantropia e mesmo como cumprimento a ordens superiores e passa a ser a introjetado por todos. Toda tarefa pedagógica é também um ato políti- co e o maior e mais importante recurso para o pro- fessor é o próprio aprendiz. As práticas tradicionais são em geral voltadas para um aluno “normal” e preocupam-se com o rendi- mento escolar e com o aproveitamento. Desta for- ma, distanciam-se daqueles que não correspondem às suas expectativas, pois são diferentes e generica- mente, “não aprendem”. Ocupam um lugar em nú- cleos de reclusão. É preciso ressignificar a prática pedagógica nas classes comuns fazendo uma revisão metodológi- ca e didática, considerando práticas cooperativas, uso de recursos tecnológicos e práticas de adapta- ções curriculares. 9 - A função da escola na perspectiva da educação inclusiva A autora busca a conceituação dicionarizada do vocábulo escola para pensar nas funções esperadas dela segundo a proposta da educação inclusiva. Encontra treze significações de escola e esco- lhe aquela que a conceitua como um estabeleci- mento público ou privado onde se ministra um ensino coletivo. Toma também o termo inclusão e encontra: “ato pelo qual um conjunto contém, inclui outro”; “inse- rir, introduzir, fazer parte, fazer constar, figurar”. Usando também os conceitos de conotação e denotação, diz que a função da escola inclusiva se- ria introduzir alunos que estavam excluídos de seu interior. Estas crianças seriam aquelas que historicamen- te estavam excluídas, escolarizadas em ambientes segregados e vistas conotativamente como sujeitos incapazes de aprender, resultantes daquilo que lhes falta em relação aos outros ditos normais. Nestes espaços segregados não ficam garanti- das as aprendizagens de habilidades e competên- cias requeridas para o exercício da cidadania ple- na, ficando limitados à socialização e ao desen- volvimento psicomotor, especialmente no caso de deficiência mental. Também não defende que estes alunos sejam in- seridos no sistema regular como “figurantes” pois a inclusão tem objetivos muito mais amplos que a sim- ples presença física. O equivoco está em tomar a escola como um lu- gar onde o professor é um transmissor de um ensino e os alunos de inclusão apenas devem ser inseridos sem uma proposta especificamente cunhada para eles em suas singularidades. Uma escola implica valo- res, princípios e todas as relações que se estabele- cem dentro dela e assim forma-se uma comunidade de aprendizagem. A autora pontua que a inserção de alunos com deficiência nas escolas do ensino regular tem sido uma providência mais freqüente, porém pouco te- mos avançado com relação aos alunos com dificul- dades de aprendizagem. A autora pretende alertar que a inclusão para to- dos deve preocupar-se com a remoção de barreiras para a aprendizagem e para a participação de toso os alunos. Tomando dados estatísticos de uma publicação a autora constata que 2/3 dos alunos não logram pros-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 33 SINPEEM seguir nos estudos de Ensino Médio e estes não são alunos com deficiências. Não atribui esta responsabilidade toda à escola, considerando-a como reflexo de uma sociedade, sem desconsiderar, porém, os aspectos psicopedagógicos e as necessidades especificas dos alunos, como te- mas pertinentes ao escolar propriamente dito. Muitos temas estão orbitando esta questão como o despreparo do professor para lidar com as diferen- ças, os baixos salários, o excesso de jornadas de tra- balho, a qualidade das praticas pedagógicas, as la- cunas na formação... É preciso considerar sempre, o processo de apren- dizagem como algo dinâmico e dialético entre o ensinar e o aprender entendendo o não aprender como um aprender diferente. As funções das escolas inclusivas são: desenvol- ver culturas, políticas e práticas inclusivas capazes de acolher e responder as demandas de aprendiza- gem dos alunos; promover condições para respon- der as necessidades educacionais especiais; criar es- paços dialógicos entre os professores; criar víncu- los mais estreitos com as famílias; estabelecer par- ceria com a comunidade; acolher todos os alunos; operacionalizar o aprender a aprender,aprender a fazer, aprender a conviver e a ser; respeitar as dife- renças individuais; valorizar o trabalho educacio- nal escolar na diversidade; buscar todos os recur- sos humanos, materiais e financeiros possíveis e desenvolver estudos e pesquisas que permitam a ressignificação da prática. 10 - Removendo barreiras para a aprendizagem e para a participação na educação inclusiva Pensar sobre a educação inclusiva é refletir so- bre a remoção de barreiras para a aprendizagem e para a participação de todos em uma escola de qualidade. Nas Diretrizes Nacionais para a Educação Es- pecial na Educação Básica, decorrente do Parecer CNE/CEB no. 17 de 2001 e que inspirou a Resolu- ção no. 2, de 11 de setembro de 2001, conside- ram-se educandos com necessidades educacionais especiais aqueles que apresentarem durante o pro- cesso educacional: I – dificuldades acentuadas de aprendizagem ou limitações no processo de desenvolvimento que difi- cultem o acompanhamento das atividades curricula- res, compreendidas em dois grupos: a) aquelas não vinculadas a uma causa orgânica especifica; b) aquelas relacionadas a condições, disfunções, limitações ou deficiências; II – dificuldades de comunicação e sinalização diferenciadas dos demais alunos, demandando a uti- lização de linguagem e códigos aplicáveis; III – altas/habilidades/superdotação, grande faci- lidade de aprendizagem que os leve a dominar rapi- damente conceitos, procedimentos e atitudes. O texto procura descaracterizar o acento nos pro- blemas de aprendizagem dos alunos, sejam eles sur- dos, cegos ou com paralisia cerebral. A dificuldade encontra-se na remoção de barreiras para a aprendi- zagem, que estão fora destes alunos. Também fica clara a distinção dos alunos que possuem ou não causas orgânicas limitantes da aprendizagem. Segundo a autora, o texto procura dar destaque, na alínea “a” que alguns fatores como os econômicos e sociais podem ser geradores de dificuldades. Algumas dificuldades podem ser transitórias e sem causas orgânicas. Caso não seja tomada uma deci- são para remover as barreiras que dificultam o aces- so destes alunos ao conhecimento, estas podem tor- nar-se permanentes. Muitos acabam abandonando a escola e tornando-se até mesmo agressivos quando expurgados dos processos de ensino-aprendizagem por portarem dificuldades e estarem em situações de desvantagem de conhecimentos e experiências. A formação de professores é apontada pela au- tora como um dos pontos principais da proposta de remoção de barreiras para a aprendizagem des- tes alunos. A alínea “b”refere-se às dificuldades acentua- das de aprendizagem cuja conceituação e classifi- cação é bastante complexa como: quadros especí- ficos de leitura e escrita(dislexias) e à área da mate- mática; lesões cerebrais; problemas de natureza psíquicas, neurológicas ou psicológicas além das condutas típicas. O destaque importante fica por conta da cons- tatação que nos casos de dificuldades de leitura e escrita, tão freqüentes entre os alunos, não se pode caracterizá-los como deficientes mentais e encami- nhá-los automaticamente para classes ou escolas es- peciais. Fica evidente a importância de entender as bar- reiras intrínsecas para a aprendizagem de alguns alu- nos pra então promover ações no sentido de remo- vê-las. A autora levanta alguns dados através de pes- quisas que fez ao longo de seus encontros com os professores. Os professores mostram-se muitas vezes reticen- tes quanto a suas condições de trabalho diante des- tes quadros, mas, poucos questionam as práticas pe- dagógicas tradicionais que ainda vigoram promo- vendo o fracasso também de outros alunos, os ditos normais. Poucos professores consideram como barreiras suas próprias posturas diante do ensino-aprendiza- gem, tomando as dificuldades particulares dos alu-
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    34 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM nos ou suas famílias como responsáveis pelo fracas- so. Muitos apontam o despreparo para enfrentar a diversidade. As atitudes imediatas seriam as mudanças das ações pedagógicas, um repensar do trabalho desen- volvido. É indispensável que as barreiras conceituais, ati- tudinais e pedagógicas sejam removidas. É necessário também que sejam removidas as barreiras da produção do fracasso escolar. No ima- ginário coletivo dos educadores o fracasso é produ- zido sempre do lado dos alunos, sejam por conta de sua pouca inteligência ou comportamentos inopor- tunos, famílias muito pobres ou desajustadas. A remoção desta barreira encontra-se no deslo- camento do foco atual para um reposicionamento tendo em vista reconhecimento de variáveis extrín- secas aos alunos. A responsabilidade na remoção destas barreiras cabe tanto ao professor quanto ao poder público. É preciso que sejam consideradas instâncias formati- vas e informativas para os professores e que estes possam estabelecer parcerias de trabalho que visem o aprimoramento da equipe. Além disso, a imple- mentação de projetos de trabalho é uma proposta que visa além de outras coisas, facilitar a interven- ção em classes muito numerosas. É preciso também estabelecer parcerias coma as famílias e os outros setores como a saúde e o apoio das escolas especiais. Os processos avaliativos costumam levar em con- ta os diagnósticos do caso e a importância do profes- sor ter acesso ao laudo. Isto é um equívoco uma vez que não é a classificação que permite traçar o me- lhor procedimento para este ou aquele aluno. Isto poderia acirrar as barreiras uma vez que aprofunda os estigmas. As avaliações escolares devem estar a serviço da transformação e não do rótulo. Não deve ser encara- da como uma medida do que o aluno aprendeu ou não. Ela deve estará serviço da identificação das ne- cessidades dos alunos numa perspectiva de escola inclusiva. 11 - Experiências de assessoramento a sistemas educativos governamentais, na transição para a proposta inclusiva No Brasil, muitas solicitações de assessoramento especializadas estão sendo feitas para que sejam de- senvolvidas práticas inclusivas nas escolas. Muitas destas demandas apelam por procedimen- tos de uso imediato em sala de aula, ou sugestões metodológicas de ensino sem dar atenção às prati- cas reflexivas sobre o tema. A autora levantou alguns dados onde ressalta que as professoras quanto mais jovens, mais receptivas estão para as mudanças e que nem sempre o nível de escolaridade está associado às atitudes de acolhi- mento e mudanças de práticas pedagógicas. Notou-se durante a pesquisa da autora que os professores ainda associam a educação inclusiva como aquela que deva tender alunos com deficiên- cias que devem ter as mesmas oportunidades em escolas adaptadas do ponto de vista arquitetôni- co, da redução de numero de alunos nas salas, su- pervisão de especialistas e formação continuada de professores. Em geral são simpáticos à idéia de inclusão mas tem uma visão parcial sobre ela, alem de traçarem algumas condições par que ela aconteça. Para atingir os objetivos durante os trabalhos de assessoria, a autora procurou evoluir a matriz do pensamento substituindo o pensar a contradi- ção pelo pensar por contradição. Saia assim das alternativas exclusivas, concentradas nas certezas e passava ao paradigma da incerteza, do sim e do não, negando o absoluto. Considerou também que palestras não são sufi- cientes para mudar as atitudes frente a diferença. Deve-se partir do pressuposto que o professor é um profissional da aprendizagem e tem enorme res- ponsabilidade social e política. A autora acentua a necessidade de uma revisão conceitual para o implemento de uma nova postura diante da educação inclusiva. Fala do imaginário coletivo sempre muito impreg- nado do imaginário individual. A própria palavra deficiência é cercada de uma pluralidade de sentidos que acentuam a diferença e o estigma. A trajetória histórica dessas pessoas está marcada por práticas segregatórias e excludentes. A luta empreendida pelas famílias e educadores espe- cializados agora está defendida por elas próprias e por uma disseminação do conceito de universaliza- ção da educação. É preciso desfazer os núcleos de representação que segregam e ampliam as propostas de funciona- mento nas quais as diferenças individuais são vistas apenas como diferenças e não mais como represen- tações de incompetências. É preciso deslocar o eixo da análise para o im- plemento de respostas educativas diante das dife- renças. Devem ser consideradas as necessidades básicas de aprendizagem (leitura, escrita e cálculo), e as ne- cessidades básicas para a aprendizagem (que levam em conta as relações entre os alunos, seus professo- res, as aprendizagens e as relações interpessoais). É preciso também expandir os debates sobre a educação inclusiva levando em consideração con- textos teóricos mais amplos. A setorização dos sistemas educacionais ainda geram uma fragmentação nos processos decisórios
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 35 SINPEEM sendo então uma das barreiras para as práticas de uma educação inclusiva e de qualidade. Um dos componentes que contribuem para a desigualdade é a falta de conscientização diante do significado da diversidade, uma vez que engessam os processos e não apostam em novas práticas que consideram as necessidades, interesses e motivações de cada um. As escolas especiais precisam redimensionar seu papel. As universidades precisam universalizar seus pro- jetos visando uma formação de professores mais ampla e qualificada, assim como de outros profissio- nais responsáveis pelo desenho universal que garan- ta o acesso a todos com conforto e segurança. O aprimoramento dos projetos políticos pedagó- gicos das escolas e avanço nas discussões de um currículo comum que envolva o respeito às diferen- ças através das adaptações curriculares. A revisão salarial dos profissionais de educa- ção e a expansão das ofertas na rede pública pre- cisam ser de fato colocadas como pautas prioritá- rias do governo. As redes de apoio, já descritas nas Diretrizes Nacionais precisam de fato fazer parte das parce- rias indispensáveis para a construção de uma es- cola para todos. 12 - Os pingos nos “is” da proposta de educação inclusiva Os movimentos internacionais de Jomtien (1990) e Salamanca (1994) geraram algumas incompreen- sões quanto ao alunado aos quais se referem. Muitos educadores consideram que o documento de 1990 dirigiu-se às necessidades de aprendizagem dos alu- nos ditos normais e os deficientes e os que apresen- tam distúrbios de aprendizagem (com exceção dos deficientes mentais, sensoriais ou com condutas típi- cas) como os sujeitos de Salamanca. O processo educacional escolar apresenta-se nos dois documentos com as mesmas finalidades: formar cidadãos plenos, contributivos à sua coletividade e que sejam felizes. A autora ressalta que os “is” da inclusão escolar exigem uma reflexão no que dizem respeito a: consi- deração da individualidade; ao reconhecimento da identidade e suas características distintas, não negan- do nem mascarando as deficiências; aos ideais de- mocráticos, buscando a equidade e equiparação de oportunidades; a remoção de barreiras pra a apren- dizagem e para a participação de todos. Destaca também neste capítulo final o uso da ter- minologia necessidades educacionais especiais e seu uso inadvertido adquirindo um sinônimo de mani- festações de deficiência. Para a autora o termo é amplo e impreciso. As necessidades educacionais não se referem apenas aos alunos, mas também às esco- las que precisa prover-se de recursos para atender à diversidade. Volta a considerar o projeto político-pedagógico da escola como uma identidade institucional e como tal deve respeitar o principio democrático do respei- to aos interesses e necessidades de cada um. Este projeto deve se discutido por toda a comunidade escolar e estar sempre em processo de aprimoramento levando em consideração a dimensão cultural, polí- tica e prática das propostas. A inclusão envolve a reestruturação das culturas, políticas e práticas de nossas escolas. Para incluir um aluno com singularidades em uma sala regular é pre- ciso criar mecanismos que permitam que ele se inte- gre, com sucesso, nos processos educacionais, soci- ais e emocionais envolvidos nas relações com seus pares, os professores e os conteúdos. A formação continuada é uma das estratégias que permitem renovar e elaborar novas construções so- bre o ensinar e o aprender. O fazer pedagógico tam- bém deve ter como premissa a troca e o envolvimen- to de todos os educadores. É preciso valorizar o desejo e a escuta nos pro- cessos de aprendizagem. Considerar as flexibilidades e adaptações curri- culares como adequações da prática pedagógica é certamente uma das formas de eliminação de barrei- ras para uma educação para todos. Os diagnósticos servem à escola como subsídios para a análise das práticas educativas e políticas ado- tadas junto aos alunos. Não podem estar a serviço de estigmatizar os alunos ou considerar que a ques- tão que envolve uma especificidade para aprender esteja só do lado deles. A autora acentua a necessidade de registros da prática baseados em elementos teóricos e metodoló- gicos que embasem as propostas que efetivamente dão resultado. Na escola inclusiva acredita-se numa proposta de aprendizagem onde o mundo e as experiências de alunos e professores possam fazer parte do cotidi- ano escolar contribuindo para a construção de co- nhecimentos de forma coletiva e agradável. A solidariedade e a cooperação são elementos essenciais na educação inclusiva. Resumido por Maria Eugenia Capraro de Toledo, especialista em tratamento e escolarização de crian- ças com distúrbios globais do desenvolvimento, Orientadora Educacional e Consultora em Educação Inclusiva.
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    36 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM CASTORINA, J.A ET ALI. São Paulo, Ed. Ática, 2001 O objetivo desse livro é discutir as contribuições de Piaget e Vygotsky à educação, no sentido de com- preender questões relativas à prática educativa. O livro é composto por quatro artigos de autores reno- mados da área: José Antonio Castorina, Emilia Fer- reiro, Delia Lerner e Marta Kohl de Oliveira. O debate Piaget-Vygotsky: a busca de um critério para sua avaliação José Antonio Castorina Uma compreensão rasa dos autores em foco im- pede uma real confrontação entre suas perspectivas e evita a realização de indagações conjuntas entre piagetianos e vygotskianos. Nesse sentido, esse arti- go propõe alguns critérios epistemológicos de com- paração entre os dois autores. Alguns traços são comuns às duas teorias: um estruturalismo fraco (em Vygotsky, um estudo não reducionista das funções psicológicas, e em Pia- get, a análise da constituição dos sistemas estrutu- rais da inteligência); um enfoque genético; a ênfa- se na atividade do sujeito na aquisição do conhe- cimento; o caráter qualitativo das mudanças no de- senvolvimento. Porém, as diferenças entre os autores são mais relevantes que suas semelhanças. Em Piaget vemos uma teoria universalista e individualista do desen- volvimento, capaz de oferecer um sujeito ativo, po- rém abstrato (epistêmico), a aprendizagem deriva do desenvolvimento. Por outro lado, Vygotsky apresen- ta uma teoria histórico-social do desenvolvimento e analisa as funções psíquicas superiores como “inter- nalização” mediada da cultura, o sujeito não é ape- nas ativo, mas interativo. Em relação às conseqüências de ambas as posi- ções para a prática educativa, existe uma forte con- traposição. Em Vygotsky, há uma importância cru- cial à transmissão dos conteúdos objetivos por parte da escola. Ao contrário, em Piaget, embora não se rejeite a importância da instrução, a escola se limita- ria à tarefa de facilitar a construção do conhecimen- to pela criança. Outra questão que deve ser colocada nesse de- bate é se Piaget e Vygotsky levantaram os mesmos problemas com relação ao desenvolvimento cogni- tivo, ou seja, investigar quais são seus projetos de pesquisa. PIAGET-VYGOTSKY - NOVAS CONTRIBUIÇÕES PARA O DEBATE O projeto de Vygotsky, orientado por uma con- cepção marxista, é obter uma explicação sócio-his- tórica da constituição das funções psíquicas supe- riores a partir das inferiores. O esforço do pesquisa- dor foi mostrar o lugar crucial dos sistemas de sig- nos na constituição da subjetividade humana. Os sistemas de signos não são meros “facilitadores” da atividade psicológica, mas seus formadores. Essa perspectiva investiga como os indivíduos de uma cultura internalizam e controlam o sistema de sig- nos correspondente. No marco da atividade institu- cionalizada, investiga-se como as formas do discur- so escolar fornecem as condições para as mudan- ças conceituais nos escolares. O projeto de Piaget vincula-se a problemática epistemológica, cuja pergunta central é: como se passa de um estado de menor conhecimento para outro de maior conhecimento. Esse enfoque busca superar o dualismo entre o sujeito e o objeto de co- nhecimento na interpretação do desenvolvimento dos conhecimentos. Daí decorre o mecanismo de equili- bração entre a assimilação e a acomodação que dão conta de como sujeito e objeto interagem. Colocadas as diferenças e semelhanças entre os autores é possível discutir as relações que estes esta- belecem, por exemplo, entre desenvolvimento e aprendizagem. Para Vygotsky, esses processos estão inter-relacionados, produzindo a hipótese da zona proximal – distância entre o que a criança faz sozi- nha e o que ela é capaz de fazer com a colaboração de um adulto. Em Piaget, os estudos sobre a aprendi- zagem tiveram um recorte epistemológico. Entende- se que para utilizar os resultados de uma experiên- cia, é preciso que os mesmos sejam assimilados a sistemas prévios de conhecimento. Nessa temática há uma oposição evidente entre os autores: para Vygotsky, há um processo de internalização da cul- tura, a aprendizagem produz desenvolvimento, e para Piaget, uma mecanismo interno para o desenvolvi- mento e o aprendizado, o desenvolvimento é condi- ção para a aprendizagem. Outro debate polêmico sobre os autores refere- se à formação de conceitos cotidianos e científicos. Segundo Vygotsky, os conceitos científicos são intro- duzidos na escola explicitamente pelos professores. Sua apresentação sistemática exige uma atitude me- tacognitiva dos alunos e um uso deliberado de suas operações mentais, o pensamento sobre as idéias científicas realiza uma “generalização de generali- zações”. Para Piaget, a gênese dos conceitos de cau- salidade, das conservações físicas, das noções es-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 37 SINPEEM paciais permite a busca de mecanismos comuns de construção. Enquanto Piaget investigou a gênese da lógica dos conceitos, Vygotsky enfocou-a no contex- to de sua aquisição escolar. Para o primeiro há uma continuidade entre os conceitos cotidianos e cientí- ficos, para o segundo, uma descontinuidade. Tais diferenças de concepção questionam a rela- ção de complemento entre as duas teorias. A ques- tão é outra: articular os níveis de explicação, e não de completá-los entre si. A comparação entre os au- tores leva-nos a defender uma relação de compatibi- lidade, no sentido que nenhuma das teorias em foco implica a aceitação ou rejeição da outra. A relação de compatibilidade abre, em princípio, um espaço de intercâmbio entre as teorias, favorecido pela exis- tência de um espírito dialético em ambas. De qual- quer maneira, as pesquisas devem supor uma auto- nomia, a fim de facilitar o intercâmbio e a revisão das hipóteses em caso de necessidade. Pensar a educação: contribuições de Vygotsky Marta Kohl de Oliveira O objetivo desse texto é buscar em Vygotsky ele- mentos que subsidiem a reflexão na área da educa- ção. Para tanto, duas questões sobre a relação teo- ria e prática são fundamentais: 1) a relação entre teoria e prática é complexa e parece inadequado ao pesquisador buscar extrair da teoria, de forma imediata, um “como fazer” eficiente; 2) a compre- ensão de certas peculiaridades da obra de Vygotsky é importante para o dimensionamento de sua con- tribuição à educação. A relação entre desenvolvimento e aprendiza- gem é tema central da obra de Vygotsky. Sua posi- ção é essencialmente genética, isto é, procura com- preender a origem e o desenvolvimento dos pro- cessos psicológicos. Essa abordagem desdobra-se em níveis: filogenético (desenvolvimento da espé- cie humana); sociogenético (história dos grupos so- ciais); ontogenético (desenvolvimento do indivíduo) e microgenético (aspectos específicos do desenvol- vimento do indivíduo). Ao lado da postura genética, está a dimensão sócio-histórica do funcionamento psicológico e a interação social na construção do ser humano, o que confere à aprendizagem um lugar central na teoria de Vygotsky. A aprendizagem está relacionada ao desenvolvimento desde o início da vida humana e é ela que possibilita o despertar de processos internos de desenvolvimento. As funções psicológicas supe- riores dependem dos processos de aprendizagem. Para Vygotsky, a aprendizagem é um processo que sempre inclui relações entre os indivíduos, a intera- ção do sujeito com o mundo se dá pela mediação feita por outros sujeitos. Dois aspectos são fundamentais da concepção de Vygotsky sobre a relação desenvolvimento e apren- dizagem: 1) a idéia de um processo que envolve quem ensina e quem aprende não se refere necessa- riamente a situações em que haja um educador fisi- camente presente; 2) quando a aprendizagem é o resultado de um processo deliberado, intencional, a intervenção pedagógica é um mecanismo privilegia- do e a escola é o lugar, por excelência, onde ocorre o processo intencional de ensino-aprendizagem. A partir dessas concepções decorrem três idéias básicas de Vygotsky importantes para o ensino esco- lar: 1) O desenvolvimento psicológico deve ser olha- do de maneira prospectiva, o que traz a idéia de trans- formação no processo de desenvolvimento, vincula- da ao conceito de zona de desenvolvimento proxi- mal. Sobre a atuação pedagógica, o professor tem o papel de provocar nos alunos avanços que não ocor- reriam espontaneamente: o único bom ensino é aque- le que se adianta ao desenvolvimento; 2) Os proces- sos de aprendizado movimentam os processos de desenvolvimento, ou seja, a trajetória do desenvol- vimento humano se dá “de fora para dentro”, por meio da internalização de processos interpsicológi- cos; 3) A atuação dos outros membros do grupo so- cial na mediação entre a cultura e o indivíduo é fun- damental na promoção dos processos de internali- zação. Nesse sentido, a intervenção do professor tem um papel central na trajetória dos indivíduos que passam pela escola. A discussão sobre os processos de aquisição da linguagem escrita é fundamental na obra de Vygotsky, que contou com o apoio e continuidade dos estudos de Luria. Em sua concepção sobre a alfabetização, a escrita é um artefato que funciona como suporte para certas ações psicológicas, como uma espécie de fer- ramenta externa, que estende a potencialidade do ser humano para fora do seu corpo. As colocações de Vygotsky e Luria assemelham- se as proposições de Emilia Ferreiro. Uma das seme- lhanças refere-se à idéia de que a escrita não é um código de transcrição da língua oral, é um sistema de representação da realidade, e a alfabetização é o domínio progressivo desse sistema, começando muito antes da criança entrar na escola. Uma diferença entre a concepção desses autores centra-se no foco de aten- ção de cada uma das teorias: Ferreiro analisa a natu- reza interna da escrita como sistema, refere-se ao processo pelo qual a criança adquire seu domínio; já Vygotsky e Luria centram-se nas funções do siste- ma de escrita aos usuários, investigam como a crian- ça apreende as funções da escrita e a necessidade de usá-la como instrumento psicológico. Mas, embora, as perspectivas em foco sejam complementares, não é possível fazer uma soma das teorias, dado os pon- tos de partira serem bastante diferentes. Há alguns pontos polêmicos na teoria vygotskia-
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    38 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM na que frequentemente emergem no debate educa- cional contemporâneo: 1) a intervenção do outro social postulado por Vygotsky não deve ser confun- dida com controle ou determinismo cultural; 2) o lugar da maturação biológica em seus postulados: para Vygotsky o cérebro é a base material do funcio- namento psicológico e fornece as condições neces- sárias a esse funcionamento, mas fundamentalmen- te o desenvolvimento ocorre “de fora para dentro”; 3) a questão da especificidade do conhecimento es- colar: o autor defende que há uma descontinuidade entre o conhecimento escolar e pré-escolar, mas sua abordagem da questão traduz a base marxista de seu pensamento, ou seja, apresenta uma análise pautada na ruptura, contradição e síntese dialética; 4) Esse ponto está diretamente ligado aos demais e refere-se ao questionamento contemporâneo acerca do papel da escola como instituição privilegiada na promo- ção do desenvolvimento psicológico frente a mar- cante presença dos meios de comunicação de mas- sa e do desenvolvimento da informática. Entende-se que esses meios de comunicação são potenciais mediadores das relações entre o sujeito e o objeto de conhecimento e um desafio que se impõem é com- preender os efeitos de novos artefatos simbólicos na constituição do psiquismo, o que exige constantes recontextualizações teóricas. O ensino e o aprendizado escolar: argumentos contra uma falsa oposição Delia Lerner O objetivo desse texto é mostrar que, no plano didático, é possível ser piagetiano e ao mesmo tem- po tomar como eixo a comunicação dos saberes cul- turais, colocar em primeiro plano a construção so- cial do conhecimento e atribuir um papel funda- mental à intervenção do professor nessa constru- ção. Nesse sentido, a pergunta-chave da didática construtivista é: como fazer com que os alunos pas- sem de um estado de menor conhecimento a um estado de maior conhecimento com relação aos conteúdos ensinados na escola? Os estudos de Piaget e seus colaboradores dei- xam claro que não é possível uma aplicação di- reta do saber da psicologia à pedagogia. Como exemplo, saber que a cooperação no jogo ou na vida social provoca efeitos na construção moral das crianças, não é suficiente para estabelecer que a cooperação possa ser generalizada como pro- cedimento educativo. Um dos riscos da tentativa “aplicacionista” é fo- car os mecanismos operacionais de aprendizagem independentemente do conteúdo específico. O me- nosprezo pelos conteúdos escolares dista muito de ser compartilhado pelas concepções didáticas vin- culadas à teoria psicogenética. Por outro lado, a aná- lise didática não pode se limitar a considerar separa- damente o aluno, o professor e o saber, devendo abranger o conjunto das interações entre eles. Duas categorias de trabalhos devem articular-se dialeticamente na pesquisa educacional: os que pre- tendem uma compreensão fundamental da prática do ensino e dos processos educacionais em seu con- junto e os que estão pensados em termos de enge- nharia didática, ou seja, com estudos sobre projetos de ensino. Quando se fala da relação entre teoria e prática, frequentemente se está pensando na “teoria psicoló- gica” e na “prática didática”. Mas é impossível pas- sar diretamente de uma para outra, pois a primeira alimenta a prática e nutre-se dela. E a prática didáti- ca só pode sustentar-se numa relação dialética com a teoria, mas os problemas colocados pelo ensino de cada conteúdo particular só podem ser resolvidos através de pesquisas didáticas. Um dos temas debatidos por Piaget é a constru- ção social do conhecimento. Em sua teoria há um lugar central à elaboração cooperativa do conheci- mento, ou seja, a cooperação entre as crianças é importante para o progresso do conhecimento, as- sim como a ação dos adultos e as situações de dis- cussão entre pares. Tais situações são insubstituí- veis como meio de incentivar a formação do pensa- mento crítico e de um pensamento objetivo, evitan- do os “defeitos” da escola tradicional, pois ao se verem obrigados a levar em consideração pontos de vista diferentes do seu, as crianças teriam menos possibilidades de formar hábitos intelectuais rígidos e estereotipados. Junto aos fatores biológicos e aos de equilibra- ção das ações, Piaget enuncia dois tipos de fatores sociais: os de coordenação interindividual – gerais para todas as sociedades – e os de transmissão edu- cativa e cultural, próprios de casa sociedade. A aqui- sição de saberes específicos está, nesse sentido, liga- da à influência dos diversos meios sociais. Já a cons- trução das estruturas intelectuais mais gerais corres- ponde à coordenação interindividual que caracteri- za todas as sociedades humanas. Segundo Piaget, a socialização do pensamento é progressiva, tornando possível a verdadeira coope- ração apenas a partir do operatório concreto. No entanto, a relação entre operação e cooperação não é unilateral, é uma relação de interdependência. As- sim, é inegável que Piaget atribuía considerável im- portância aos fatores sociais no desenvolvimento. Entretanto, seus estudos centraram-se na equilibra- ção das estruturas cognoscitivas e a ação dos fatores sociais começou a ser explorada mais tarde. Uma das importâncias da interação é que ao par- tilhar a elaboração com outros sujeitos ocorrem con- flitos sociocognitivos, que são produtivos para o pro-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 39 SINPEEM gresso do conhecimento mesmo quando nenhum dos participantes possua a resposta correta. Em determi- nados momentos, os esforços para resolver a situa- ção de conflito e chegar a um acordo leva os partici- pantes a construírem novas coordenações entre os diversos posicionamentos em jogo. Dessa forma, são produzidos avanços cognitivos ao facilitarem a to- mada de consciência pelos envolvidos sobre respos- tas diferentes, obrigando-os a descentrar suas respos- tas iniciais. O conflito pressupõe: desequilíbrio inte- rindividual e intra-individual. Por outro lado, existem interações mais produti- vas que outras. As mais produtivas são as realizadas entre sujeitos que estão em níveis diferentes, mas próximos de desenvolvimento. Quando a diferença é muito grande, o sujeito menos avançado pode ig- norar o conflito ou não compreendê-lo. Voltando à aprendizagem escolar, deve-se ressal- tar que os educadores piagetianos estão autorizados a elaborar hipóteses didáticas que colocam em pri- meiro plano não só a interação entre sujeito e obje- to, mas também a interação entre sujeitos que estão conhecendo esse objeto. Algumas indagações fazem-se necessárias: qual é o lugar do professor em um modelo que concebe o aluno como produtor do conhecimento? Piaget afir- ma que uma cooperação autentica somente é possí- vel porque o poder do adulto é coativo sobre o pen- samento infantil. Mas, como fazer para que a autori- dade do professor seja usada não para impor idéias, mas para propor situações problemáticas que tornem a elaboração de novos conhecimentos necessária às crianças? A primeira intervenção imprescindível é delegar aos alunos parte da responsabilidade, é fa- zer devolução explícita da situação problema a par- tir da qual será possível construir o conhecimento. Isso evidencia o total desacordo da autora com as posições que condenam o professor a esperar passi- vamente a construção do conhecimento pela crian- ça, a “pedagogia da espera”. A intervenção do pro- fessor é sempre imprescindível. Aceitar que as crian- ças são intelectualmente ativas não significa supor que o professor é passivo. Nessa perspectiva, o ensino construtivista pode ser enunciado da seguinte maneira: ensinar é colo- car problemas a partir dos quais seja possível reela- borar os conteúdos escolares e também fornecer a informação necessária para as crianças poderem avançar na reconstrução desses conteúdos. Ensinar é promover a discussão sobre os problemas coloca- dos, é oferecer a oportunidade de coordenar dife- rentes pontos de vista, é orientar para a resolução cooperativa das situações problemas. É incentivar a formulação de conceitualizações necessárias para o progresso no domínio do objeto de conhecimento, é propiciar redefinições sucessivas até atingir um co- nhecimento próximo ao saber socialmente estabele- cido. Finalmente, é fazer com que as crianças colo- quem novos problemas que não teriam levantado fora da escola. Tal concepção de ensino pressupõe uma pro- funda modificação do paradigma que está há sécu- los vigorando na escola: “Passo a passo e definiti- vamente” deve ser substituído por “complexa e pro- visoriamente”. Sobre a necessária coordenação entre semelhanças e diferenças Emilia Ferreiro O objetivo desse texto é esclarecer as diferenças e semelhanças entre a visão do desenvolvimento da escrita apresentada por Luria e Vygotsky e os traba- lhos da própria autora. Analisando os textos de Luria, a partir de nossos atuais “cânones” de “relatório científico”, aparecem sinais de “falta de capricho”, pois não aparece como ele realizou a investigação. O sensacional é o olhar psicológico de Luria. A comparação mais óbvia entre os achados de Luria e os de Emilia Ferreiro consiste na considera- ção da quantidade de níveis evolutivos distinguidos e no modo de distingui-los. Para Luria, a escrita é uma técnica sociocultural muito importante, que afeta as funções psíquicas superiores. Ele atribui à escrita duas funções fundamentais: mnemônica e comuni- cativa. Como a criança pequena não tem acesso à função comunicativa, cabe estudar a função mne- mônica. Cabe ressaltar que Luria não busca identifi- car as funções que a escrita poderia desempenhar para um sujeito em desenvolvimento. Ao contrário, trata de observar como a criança assume as funções da escrita atribuídas pelo adulto. Ferreiro, por outro lado, não coloca as mes- mas perguntas, não caracteriza a escrita como uma técnica, mas sim como um objeto, como um modo particular de existência no contexto socio- cultural. Investiga que tipo de objeto é a escrita para a criança em desenvolvimento e, portanto, não atribui apressadamente à escrita as funções que essa cumpre no adulto. A discrepância mais importante entre os autores é que Luria está fortemente influenciado pela versão dominante da sua época sobre a evolução histórica da escrita. Outro ponto de discordância está em que para Luria o ingresso da criança na escola cria, por si só, uma ruptura com seus conhecimentos prévios. Para Ferreiro, a escola interage com as concepções prévias das crianças. Mais uma diferença: Luria fala de suas etapas nas quais existe uma substituição de uma técnica por outra. Essa idéia contrapõe-se a Fer- reiro que postula a construção. Não é possível pressupor ou indicar que a opção
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    40 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM pedagógica atual sobre a evolução da escrita na criança corresponda a Luria ou Ferreiro, um excluin- do o outro. De qualquer maneira, o importante é re- alizar as experimentações necessárias para atualizar o debate, completando o que Luria deixou apenas esboçado. Interpretação, intérprete e interpretantes: Emi- lia Ferreiro, num segundo momento do capítulo, dis- cute o lugar do social da psicogênese da língua es- crita. Qualquer escrita é um conjunto de marcas in- tencionais sobre uma superfície, porém são as práti- cas sociais de interpretação que transformam essas marcas em objetos lingüísticos. A interpretação é o ato que transforma essas marcas em objetos lingüísti- cos. O sujeito que realiza o ato de interpretação é o intérprete. Quando esse ato é realizado por e para um “outro”, o intérprete converte-se em interpretante. O interpretante informa à criança, ao efetuar um ato de leitura, que essas marcas têm poderes espe- ciais, basta olhá-las para produzir linguagem. O ato de leitura é um ato mágico. O fascínio da criança pela leitura e releitura da mesma história tem a ver com a descoberta que a escrita fixa a língua, contro- la-a de tal maneira que as palavras não se dispersam. Para que esse ato de outro (a leitura) se transfor- me em conhecimento próprio é necessário haver uma atividade específica do destinatário. Aqui é onde os mecanismos de assimilação e acomoda- ção encontram sua razão de ser. O drama de mui- tas crianças é que o professor não age nem como intérprete, nem como interpretante, mas como de- codificadora, reduzindo o mistério da leitura a so- letrações e famílias silábicas. Síntese elaborada por Flávia da Silva Ferreira Asbahr, Psicóloga e doutoranda em Psicologia pelo IPUSP. COLL, César. Editora Artmed, 1994 Contexto geral do livro César Coll Salvador é diretor do Departamento de Psicologia Evolutiva e professor da Faculdade de Psicologia da Universidade de Barcelona, Espanha. Lá foi o coordenador da reforma do ensino de1990, a Renovação Pedagógica. O modelo desenvolvido por ele e sua equipe inspirou mudanças na educa- ção de diversos países, inclusive do Brasil. Como consultor do Ministério da Educação (MEC) entre 1995 e 1996, colaborou na elaboração dos nossos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), publica- dos em 1997. O autor se dedica nas suas obras em estabelecer relação entre Psicologia e a Pedagogia. Apóia-se nas contribuições de Piaget, Vigotsky , Ausubel, entre outros. Neste livro faz uma análise de alguns concei- tos da Psicologia Evolutiva, discutindo as implica- ções práticas na sala de aula. O livro está organiza- do em nove capítulos. Capítulo I – A significação psicopedagógica das atividades espontâneas de exploração No capítulo o autor apresenta uma visão peda- gógica as situações experimentais que muitas vezes são realizadas com o objetivo de desvendar as leis físicas que as crianças se apóiam. Defende que essas APRENDIZAGEM ESCOLAR E CONSTRUÇÃO DO CONHECIMENTO situações apesar de importantes, não são suficientes, por desconsiderar vários fatores. Prefere sim, substi- tuir o termo “condutas experimentais” por “ativida- des exploratórias espontâneas” no sentido que na busca de uma resolução de problemas, as crianças operam com uma série de leis das ciências experi- mentais. Faz uma análise que apesar dos currículos escolares incorporarem tal área de estudo, ainda é de difícil delimitação qual o conteúdo de ensino que leve em consideração como a criança elabora co- nhecimento nessa área. Sugere trabalhos que têm sido desenvolvidos em vários lugares do mundo cuja ên- fase colocada é numa atitude científica e experimental , ou seja, situações de investigação e elaboração de hipóteses explicativas pelos alunos sobre os diferen- tes fenômenos. Ao longo do capítulo, relata uma si- tuação de pesquisa com crianças de diferentes ida- des. Materiais diversos são espalhados e observa a exploração que fazem. Essa situação se repete du- rante algumas sessões e os resultados apontam para algumas implicações pedagógicas. A primeira delas diz respeito aos materiais que despertam mais inte- resse das crianças (isso tem relação com as temáti- cas que podem ser trabalhadas). Em segundo lugar, a atividade exploratória favorece o desenvolvimento de um método de trabalho; quanto maior o sujeito, mais tempo ele se dedica à uma única situação. Res- salta, finalmente, que os avanços observados não podem ser condicionados unicamente ao modelo de estágios cumulativos.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 41 SINPEEM Capítulo II – Conservação e Resolução de problemas: o valor instrumental de uma conduta pré-operatória No segundo capítulo as investigações vão se cen- trar na relação entre o desenvolvimento do conheci- mento e a capacidade de utilizá-lo. O autor se apóia na descrição dos estágios cognitivos de Piaget e co- laboradores – que centraram o trabalho nos aspectos mais gerais: espaço, tempo, casualidade, lógica,lógica de classes, das relações...e nas provas operatórias propostas. A pesquisa investiga a idéia de conserva- ção de peso e como é utilizada para a resolução de problemas. O trabalho constata que por volta dos 9 anos as crianças são capazes de conservar pesos, mas essa condição nem sempre é levada em conta na re- solução dos problemas propostos. Capítulo III – Natureza e planejamento das atividades no Jardim da Infância O autor faz uma discussão sobre a idéia de como na Educação Infantil a pedagogia da atividade está presente- dada às características de idade das crian- ças. Defende muito mais a atividade funcional, que leva em consideração o interesse do sujeito que a realiza, diferenciando-a da atividade de efetuação, ou seja, aquelas em que os alunos simplesmente realizam sem atribuir significação.Aponta também, as diferenças entre atividade funcional e atividade auto-estruturante, onde o aluno desenvolve autono- mia, pois ela permite organizar e estruturar suas ações.O capítulo visa pois, investigar quais os tipos de atividades (efetuação, funcional e auto-estrutu- rante) que aparecem nas salas de Educação Infantil. Constata que o tipo de atividade mais observada são as relacionadas à efetuação. Na análise das ati- vidades desenvolvidas tem importância considerá- vel a atividade do professor. O autor denomina esse aspecto de interatividade – atuação do professor du- rante a atividade. Apresenta dimensões dessa inte- ratividade. Uma delas é quanto a existência ou não de um saber que estrutura a atividade; outra é em relação à atuação do professor – que vai desde a ausência total de intervenção até aquelas de con- trole o tempo todo. No campo da atuação do alu- no, também faz uma análise dos tipos de atividades propostas que vão desde aquelas em estão integral- mente na mão do aluno – que tomas todas as deci- sões – à aquelas em que as responsabilidades são compartilhadas. Capítulo IV – Alguns problemas propostos pela metodologia observacional: níveis de descrição e instrumentos de validação Neste capítulo o autor aborda questões que inte- ressam diretamente pesquisadores. Após fazer uma discussão entre as metodologias experenciais e ob- servacionais no trabalho dos psicopedagogos, se con- centra na última como objeto de análise, propondo um modelo investigativo. Aponta dois grandes mo- mentos. O primeiro é o de descrição, onde o obser- vadros faz um recorte da realidade, a partir de crité- rios pré-estabelecidos (o que o autor denomina de descrição ética. Um segundo momento é o de cons- trução, ou seja, os dados recolhidos e descritos na observação devem servir para elaboração (constru- ção) de um modelo explicativo que deve ser passível de ser “testado”, ou seja, validado. Capítulo V – Estruturação grupal, interação entre alunos e aprendizagem escolar No capítulo VI o objeto da discussão é o papel da interação aluno-aluno. Identifica na pesquisa al- guns níveis de interação: cooperativa, competitiva e individualista. Na primeira, os objetivos dos par- ticipantes estão vinculados e a “recompensa”pelo produto final é diretamente ligada ao grupo como um todo. Já na interação competitiva a relação entre os objetivos age de forma excludente e a “re- compensa” é oferecida à apenas um aluno, e por fim, na individualista ,não existe qualquer relação entre os objetivos que os membros do grupo devem alcançar e os resultados são “recompensados”de forma individual. A investigação realizada pelo autor e colabora- dores avalia o desempenho escolar nas situações entre os diferentes tipos de interação com uma van- tagem substancial para as interações cooperativas. Também se dedica à uma análise as interações e os processos cognitivos. Um deles que merece desta- que, é sem dúvida, o conflito sociocognitivo no sentido de propiciar avanços na construção do co- nhecimento: quando o aluno entra em contato com outra forma de representação, há um conflito entre os esquemas construídos e os apresentado na situa- ção de interação, o que obriga o aluno à uma revi- são do seu próprio pensamento. Capítulo VI – Ação, interação e construção do conhecimento Se no capítulo anterior, o foco foi a interação alu- no-aluno, agora o autor se dedica inicialmente a dis- cutir a importância da relação aluno-professor. Ela não pode ser confundida com a ausência total de intervenção do professor: responsável pela organi- zação didáticas de situações de ensino. Discutir os aspectos da aprendizagem, não exclui pensar a in- tervenção docente como condição importante. Em alguns momentos, segundo o autor, há uma ambi- güidade na definição do papel do professor.
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    42 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM No meio do capítulo, o autor retoma a questão do desenvolvimento proposto por Vigotsky na teoria sobre a “zona de desenvolvimento proximal” como a distância entre a capacidade de resolver um pro- blema individualmente, fazendo uso de recursos pró- prios e a resolução com uma parceria (colega ou pro- fessor). Por fim, faz algumas sugestões ao currículo escolar. Considera que na elaboração de uma se- qüência de aprendizagem as organização das situa- ções de interação é etapa importante. Capítulo VII – Um marco psicológico para o currículo escolar No capítulo, o autor aponta algumas contribui- ções importantes da psicologia na elaboração dos currículos (que nortearam a Reforma Curricular da Espanha). Alguns dos princípios descritos pelo au- tor são: - Considerar o nível operatório dos alunos: o que é possível aprender - Levar em conta os conhecimentos prévios (ela- boração que os alunos têm dos conhecimentos) - Articulação entre o que é possível aprender (es- tágios de desenvolvimento) e o que já sabe (conhe- cimentos prévios) - Levar em conta a diferença entre o que é capaz de fazer por si só e o que é capaz de fazer em parce- ria com outro (professor e colegas) - Aprendizagem significativa (é significativa por- que os alunos podem atribuir um significado por dis- por de conhecimentos prévios) - Os conteúdos selecionados devem ser poten- cialmente significativos - Aprender a aprender, ou seja, aprendizagem de procedimentos e estratégias de aprendizagem. Capítulo VIII – A construção do conhecimento no âmbito das relações interpessoais e suas implicações para o currículo escolar A questão das relações interativas é retomada neste capítulo. Logo no início do capitulo, o autor retoma que numa concepção construtivista de apren- dizagem espera-se que o aluno: construa, modifique, diversifique e coordene seus esquemas estabelecen- do verdadeiras redes de significação.Ressalta a edu- cação escolar como ação intencional que visa inci- dir sobre a modificação dos esquemas de conheci- mento. Nesse sentido defende uma ênfase na inter- venção pedagógica com um aspecto a ser conside- rado no currículo. Essa intervenção deve-se se ca- racterizar por ajudas contingentes no processo de aprendizagem que necessitam ser planejadas. O au- tor está defendo a discussão das estratégias didáti- cas como objeto da discussão curricular: não basta definir por que ensinar e o que ensinar; o como tam- bém, deve ser objeto de estudo. Capítulo IX – Significado e sentido na aprendizagem escolar: reflexões em torno do conceito de aprendizagem escolar Finalmente, neste capítulo o autor retoma a cola- boração de Ausubel e colaboradores sobre a idéia de aprendizagem significativa. Faz uma retomada da idéia de significação ao longo da história da educa- ção. Em alguns momentos da pedagogia ela foi trata- da como algo extrínseco (baseada em recursos exter- nos ao sujeito). Para Ausubel e colaboradores uma aprendizagem significativa é aquela em que o aluno pode atribuir o significado, pois permite estabelecer relação entre aquilo que sabe e o novo material de aprendiza- gem. Para a aprendizagem ser significativa, há cer- tas condições: - Os conteúdos devem ser potencialmente signi- ficativo o que significa possuir uma estrutura lógica interna que possibilite relacioná-lo de forma não ar- bitrária com o que sabe. - Além dessa estrutura lógica, a forma de apre- sentação do conteúdo pode ou não possibilitar essas relações entre o já sabido e o novo conteúdo de aprendizagem. - O aluno deve ter uma atitude favorável ao co- nhecimento, condição essa construída ao longo da escolaridade. Resumo realizado por Suzana Mesquita Moreira, pedagoga e assistente social. PUC/SP
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 43 SINPEEM FREIRE, Paulo. Editora Paz e Terra S/A, 18ª edição, 2000, São Paulo Ao tratar da importância de uma reflexão sobre a formação docente e a prática educativa, tendo em vista a autonomia dos educandos, Paulo Freire trata dos saberes que considera indispensáveis a essa prá- tica para que ela seja caracterizada como crítica ou progressista, devendo esses saberes serem conteú- dos obrigatórios à organização de programas de for- mação docente. Discute os saberes, agrupando-os em três gran- des áreas: a relação intrínseca docência-discência, ensino como não transferência de conhecimento e ensino como uma especificidade humana. Passemos a sintetizar cada agrupamento desses saberes. 1º – NÃO HÁ DOCÊNCIA SEM DISCÊNCIA Na relação docente-discente, os sujeitos, apesar de suas diferenças, não se reduzem à condição de objeto, um do outro. “Quem ensina aprende ao ensi- nar e quem aprende ensina ao aprender”(p.25). Foi no decorrer dos tempos que os homens e mulheres, socialmente aprendendo, perceberam a possibilida- de e a necessidade de trabalhar maneiras, métodos de ensinar. Freire defende o ensino que prima pela necessária criatividade do educando e do educador. 1 - Ensinar exige rigorosidade metódica O educador democrático deve reforçar a capaci- dade crítica do educando, a sua curiosidade, esti- mulando sua capacidade de arriscar-se, deixando de ser um professor “bancário” aquele que transfere conteúdos, conhecimentos. Ele se esmera em trabalhar com os alunos a rigo- rosidade metódica com que eles devem se aproxi- mar dos objetos do conhecimento. Tanto aluno, quan- to professor vão se tornando sujeitos da construção e reconstrução do saber ensinado. O professor ensina os conteúdos e também ensina a pensar certo. Uma das condições para pensar certo é não es- tarmos exageradamente certos de nossas certezas; à medida que vamos intervindo no mundo, mais va- mos conhecendo esse mundo; o nosso conhecimen- to é histórico. O ciclo gnosiológico se caracteriza por dois mo- mentos: um em que se ensina e se aprende o conhe- cimento já existente e o outro em que se trabalha a PEDAGOGIA DA AUTONOMIA: SABERES NECESSÁRIOS À PRÁTICA EDUCATIVA produção do conhecimento não existente. A docên- cia-discência e a pesquisa são práticas indissociá- veis do ciclo gnosiológico. 2 - Ensinar exige pesquisa A busca e a pesquisa fazem parte da natureza da prática docente. O professor pesquisa para conhecer o que ainda não conhece e comunicar ou anunciar a novidade. O pensar certo implica por parte do pro- fessor em respeitar o senso comum, a curiosidade ingênua, estimulando a capacidade criadora do edu- cando, para que ele desenvolva a “curiosidade epis- temológica”, que leva ao conhecimento mais elabo- rado do mundo. 3 - Ensinar exige respeito aos saberes dos educandos É preciso estabelecer relações entre os saberes curriculares fundamentais e a experiência social dos alunos. 4 - Ensinar exige criticidade Uma das tarefas inerentes da prática educativa progressista é o desenvolvimento da curiosidade crí- tica, é a superação da ingenuidade para a criticida- de, com um maior rigor metodológico em relação ao objeto do conhecimento, a procura de maior exati- dão. É aí que a curiosidade se torna epistemológica. 5 - Ensinar exige ética e estética Na prática educativa, a decência e a boniteza devem estar juntas da necessária promoção da inge- nuidade à criticidade. Na condição de seres humanos, somos éticos. O ensino dos conteúdos não pode acontecer de forma a ignorar a formação moral dos educandos; por isso é criticável restringir-se a tarefa educativa em aspec- tos só ligados a treinamento técnico. A tecnologia só pode ser pensada a serviço dos seres humanos. Pensar certo exige que se aprofundem a compre- ensão e a interpretação dos fatos. 6 - Ensinar exige a corporeificação das palavras pelo exemplo Pensar certo é fazer certo. O clima favorável para se pensar certo se caracteriza pelo uso de uma argu-
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    44 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM mentação segura por parte daquele que discorda de quem se opõe às suas idéias; não há necessida- de de ter raiva do seu oponente, é preciso ter ge- nerosidade. 7 - Ensinar exige risco, aceitação do novo e rejeição a qualquer forma de discriminação Pensar certo implica em disponibilidade para o risco, em aceitar o novo não só porque é novo, mas também não recusar o velho só pelo critério crono- lógico. Implica também em rejeitar qualquer prática de discriminação, de raça, de classe, de gênero, pois isso nega radicalmente a democracia. 8 - Ensinar exige reflexão crítica sobre a prática Na formação permanente do professor é funda- mental a reflexão crítica sobre a prática. É preciso fazer uma operação de distanciamento da prática para melhor analisá-la, percebê-la como é e quais são suas razões de ser. Isso é que vai permitindo com que se supere a curiosidade ingênua pela curiosidade epis- temológica. 9 - Ensinar exige o reconhecimento e a assunção da identidade cultural Fazem parte da questão da identidade cultural, as dimensões individuais e de classe dos educandos, que necessariamente devem ser valorizadas na prá- tica educativa progressista. Pensando-se na formação do professor, não po- demos esquecer da assunção do sujeito: assunção de nós por nós mesmos, da solidariedade social e política que precisamos para construir uma socieda- de democrática. Para isso, temos que rechaçar o trei- namento pragmático, o elitismo autoritário de edu- cadores que se pensam donos da verdade e do saber pronto e acabado. Nesse sentido, é muito importante refletirmos sobre o caráter socializante da escola, com todas as experiências informais que nela ocorrem, no seu es- paço e tempo. Experiências essas ricas de significa- dos, emoções, afetividades, cuja abordagem podem enriquecer muito o entendimento sobre o ensino e a aprendizagem. 2º - ENSINAR NÃO É TRANSFERIR CONHECIMENTO Ensinar é criar as possibilidades para a própria construção do conhecimento. Ao saber que ensinar não é transferir conheci- mento, estou pensando certo, processo esse difícil, porque envolve cuidado constante para eu não res- valar para análises simplistas, considerações grossei- ras, preciso ter humildade ao perseguir a rigorosida- de metódica. 1 - Ensinar exige consciência do inacabamento A inconclusão do ser é própria da experiência de vida humana e é consciente, o que diferencia os seres humanos dos outros animais. Estes estão no suporte, que é o espaço necessário para o seu cresci- mento, não havendo entre eles a linguagem concei- tual que é própria do ser humano. O ser humano tem a liberdade de opção, que falta aos animais. Somos seres éticos, capazes de intervir no mun- do, comparar, decidir, romper, escolher, julgar, lutar, fazer política. A nossa passagem pelo mundo não é pré deter- minada, vivemos num mundo histórico, de possibili- dades e não de determinismo. Isso repercute na prá- tica educativa e formadora, que lida com a proble- matização do futuro. 2 - Ensinar exige o reconhecimento de ser condicionado A construção da presença do ser humano no mundo se faz nas relações sociais; ela compreende a tensão entre o que é herdado geneticamente e o que é herdado social, cultural e historicamente. “...minha presença no mundo não é a de quem se adapta mas a de quem nele se insere. É a posição de quem luta para não ser apenas objeto, mas sujei- to também da história”(p. 60). Nós, como seres inacabados e conscientes de nosso inacabamento, nos inserimos num permanen- te movimento de busca, com o mundo e com os outros. Nessa inconclusão é que se insere a educa- ção como processo permanente, em que nossa ca- pacidade de ensinar e aprender se faz presente. Daí se pensar no educador que não tolha a liberdade do educando e sua curiosidade, em nome da eficá- cia de uma memorização mecânica do ensino dos conteúdos. 3 - Ensinar exige respeito à autonomia do ser do educando O respeito à autonomia e à dignidade de cada um é um imperativo ético. Quem desviar do padrão ético, está transgredindo a natureza humana, está rompendo com a decência. Por exemplo, o profes- sor que faz algum tipo de discriminação, que desres- peita a curiosidade do educando, seu gosto estético, sua linguagem, que o trata com ironia ou aquele pro- fessor que se omite do dever de propor limites à li- berdade do aluno, fugindo ao seu dever de ensinar. Ambos estão transgredindo a ética.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 45 SINPEEM 4 - Ensinar exige bom senso Só é possível respeitar os educandos, sua digni- dade, sua identidade se forem consideradas as con- dições em que eles existem, suas experiências vivi- das e os conhecimentos com que chegam à escola. Quanto mais rigorosa, mais crítica é a minha prá- tica de conhecer, mais respeito devo ter pelo saber ingênuo a ser superado pelo saber produzido por meio do exercício da curiosidade epistemológica. Isso envolve uma constante reflexão crítica sobre a mi- nha prática, sobre o meu fazer com os meus alunos, avalio-a constantemente. O bom senso implica em coerência entre o dis- curso e a prática do nosso trabalho educativo, que é profundamente formador, ético; daí exigir que tenha- mos seriedade e retidão. 5 - Ensinar exige humildade, tolerância e luta em defesa dos direitos dos educadores A prática docente, enquanto prática ética, apre- senta em sua constituição a luta pela defesa de direi- tos e da dignidade dos professores. Só posso respeitar a curiosidade do educando se apresento humildade e compreensão quanto ao pa- pel da ignorância na busca do saber, se percebo que não sei sobre tudo. Preciso aprender a conviver com os diferentes, a desenvolver a amorosidade aos edu- candos e ao meu trabalho. 6 - Ensinar exige apreensão da realidade O professor precisa conhecer as diferentes dimen- sões da prática educativa, investindo-se na capaci- dade de aprender, intervindo, recriando a realidade. Essa capacidade implica na habilidade de apreender a substantividade do objeto aprendido, estabelecen- do relações, constatando, comparando, construindo, reconstruindo, sujeitando-se aos riscos do novo. Por ser especificamente humana, a educação é diretiva, política, artística e moral, usa meios, técni- cas, envolve as diferentes emoções. Exige do profes- sor um competência geral e domínio de saberes es- peciais, ligados à sua atividade docente. 7 - Ensinar exige alegria e esperança Existe uma relação entre a alegria necessária à atividade educativa e a esperança. Pelo fato do ser humano ser inacabado e consciente da sua incon- clusão, ele participa de um movimento constante de busca com esperança . A esperança faz parte da natureza humana, é uma forma de ímpeto natural possível e necessário. Ela é indispensável à experi- ência histórica, senão cairíamos num fatalismo imo- bilizante, sem problematizar o futuro. Sem alegria e esperança no ensinar, o educa- dor cairia na negação do sonho de lutar por um mundo justo. 8 - Ensinar exige a convicção de que a mudança é possível Temos que considerar a História como possibili- dade e não como determinação. “O mundo não é. O mundo está sendo” (p. 85). Na relação dialética en- tre o ser humano e o mundo, aquele intervém como sujeito das ações, decidindo, escolhendo, intervin- do na realidade, assumindo a sua não neutralidade. No processo radical de transformação do mun- do, a rebeldia enquanto denúncia precisa tornar-se mais crítica, revolucionária, anunciadora. É preciso considerar que mudar é difícil, mas é possível. É preciso programar a ação político-pedagógica para que os educadores auxiliem os grupos populares a perceber as injustiças a que são submetidos no seu cotidiano e não se tornem passivos, acreditando que nada muda. O educador, além do domínio específico de sua tarefa educativa, precisa aprimorar sua leitura do mundo para que nas suas relações político-pedagó- gicas com os grupos populares, os saberes desses sejam sempre considerados e respeitados. O empre- go do diálogo é fundamental; é importante que o gru- po vá sentindo a necessidade de superar os saberes que não conseguem explicar os fatos, na direção de ampliar sua compreensão do contexto e generalizar o seu conhecimento. 9 - Ensinar exige curiosidade Pode ser dada como exemplo de prática educati- va que nega o seu aspecto formador aquela que ini- be ou dificulta a curiosidade do educando e, em con- seqüência, do educador. “A curiosidade que silencia a outra se nega a si mesma também” (p. 95). Na existência de um bom clima pedagógico-de- mocrático, o aluno vai aprendendo pela sua prática que a sua curiosidade e a sua liberdade possuem li- mites, embora estejam em contínuo exercício. O exercício da curiosidade implica na capacida- de crítica do sujeito distanciar-se do objeto, obser- vando-o, delimitando-o, aproximando-se metodica- mente dele, comparando, perguntando. Tanto professor quanto o aluno devem ter uma postura dialógica, aberta, curiosa, indagadora, mes- mo em momentos em que o professor expõe sobre o objeto; o importante é não ter uma postura passiva frente ao conhecimento. Quanto mais a curiosidade espontânea se exercita, se intensifica, mais ela vai se tornando metódica, epistemológica, isto é, “mais me aproximo da maior exatidão dos achados de minha curiosidade” (p.98).
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    46 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM Na prática educativa, a ruptura entre o tenso equi- líbrio da autoridade e liberdade gera o autoritarismo e a licenciosidade, nomeados por Paulo Freire como formas indisciplinadas de comportamento que ne- gam uma educação libertadora que considera edu- cador e educando como sujeitos da ação formadora. 3º - ENSINAR É UMA ESPECIFICIDADE HUMANA O professor, numa prática educativa que se con- sidere progressista, ao lidar com as liberdades dos seus alunos, deve expressar segurança através da fir- meza de suas ações, do respeito a eles, da forma com que discute as próprias posições, aceitando rever-se. 1 - Ensinar exige segurança, competência profissional e generosidade A autoridade do professor se assenta na sua com- petência profissional: ele tem que estudar, levar a sério sua formação profissional. A generosidade é outra qualidade necessária à ação formadora, que possibilita que se instale um clima saudável e respeitoso nas relações de ensinar e aprender, gerando uma disciplina que não minimi- za a liberdade, pelo contrário, desafia-a sempre, ins- tigando a dúvida, despertando a esperança. A autoridade do professor não pode resvalar para a rigidez, para o “mandonismo”, nem para a omis- são. Há um esforço para a construção da autonomia do aluno, que vai assumindo gradativamente a res- ponsabilidade dos seus próprios atos. É impossível separar o ensino dos conteúdos da formação ética dos alunos, assim como é impossível separar a teoria da prática, a autoridade da liberda- de, a ignorância do saber, o respeito ao professor do respeito aos alunos, o ensinar do aprender. 2 - Ensinar exige comprometimento A presença do professor na escola é uma presen- ça em si política, aí não cabe a neutralidade. Ele ex- pressa aos alunos sua capacidade de analisar, com- parar, avaliar, fazer justiça, ser coerente ao discursar e agir, enfim ele se mostra como ser ético. 3 - Ensinar exige compreender que a educação é uma forma de intervenção no mundo A prática do educador nunca é neutra, é contra- ditória, dialética. Ela implica, além de ensinar con- teúdos, num esforço para reproduzir a ideologia do- minante, ou para desmascará-la. É um erro considerar a educação só como repro- dutora da ideologia dominante ou então uma força de desmascaramento da realidade, que possa atuar livremente, sem obstáculos. Isso expressa uma visão equivocada da História e da consciência: no 1º caso, uma compreensão mecanicista que reduz a consci- ência a mero reflexo da materialidade; no 2º caso, a defesa de um subjetivismo idealista, em que o papel da consciência é supervalorizado, como se os seres humanos pudessem atuar livres de condicionamen- tos econômicos, sociais, culturais. Paulo Freire critica veementemente o discurso e a política neoliberal, que se baseiam na ética do mercado, que são imobilizadores, pois consideram inevitável essa realidade miserável para a maioria dos povos do mundo. Ele luta por um mundo que priori- ze a sua humanização. 4 - Ensinar exige liberdade e autoridade O educador democrático se depara com a difi- culdade de como trabalhar para que “a necessidade do limite seja assumida eticamente pela liberdade” (p.118), ou seja, possibilitar que a liberdade seja exer- citada de modo a cada vez mais ela ir amadurecen- do frente à autoridade, seja dos pais, do professor, do Estado. Sem os limites, a liberdade se resvala para a li- cenciosidade e a autoridade para o autoritarismo. É necessário que os pais participem das discus- sões com os filhos sobre o seu futuro, tendo cons- ciência que não são donos desse futuro, tenham um papel de assessores dos filhos. A autonomia destes vai se constituindo através das várias experiências que envolvem decisões que eles vão tomando; ela é um processo. 5 - Ensinar exige tomada consciente de decisões Considerando-se a educação como intervenção, esta pode ter duas direções: aspira a mudanças radi- cais na sociedade ou pretende paralisar a História e manter a ordem social vigente. Frente a essas dire- ções temos que fazer opção consciente procurando ser coerentes no nosso discurso e na nossa prática. Não dá para escondermos nossa opção, em fun- ção de acreditarmos na neutralidade da educação; esta não existe. Um educador crítico, democrático, competen- te, coerente deve pensar que “se a educação não pode tudo, alguma coisa fundamental a educação pode” (p 126).Ele deve dar sua contribuição às mu- danças com sua prática autêntica em prol de um mundo justo. 6 - Ensinar exige saber escutar O educador que considera a educação como for- mação integral do ser e não como um treinamento, tem que ser coerente com a maneira de falar com
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 47 SINPEEM seus alunos: não de cima para baixo, impositivamen- te, como se fosse dono de uma verdade a ser trans- mitida para os outros, mas falar com, escutá-los pa- ciente e criticamente. O papel fundamental do educador democrático é aprender a falar escutando, de modo a que o edu- cando consiga entrar no movimento interno do seu pensamento, para expressar-se, comunicando suas dúvidas e criações. Estabelece-se o diálogo, em que o aluno é estimulado, com o uso dos materiais ofere- cidos pelo professor, a compreender o objeto do co- nhecimento e não recebê-lo passivamente; assim o aluno se torna sujeito da aprendizagem. Saber escutar não implica em restringir a liberda- de de discordar. Pode-se opor a idéias do outro, acei- tando e respeitando a diferença, considerando que ninguém é superior a ninguém, cultivando a humil- dade no trato com os outros. Nesse sentido, o profes- sor deve respeitar a leitura de mundo com que o edu- cando chega à escola e que se expressa pela lingua- gem, para conseguir ir além dela à medida que vai se aproximando metodicamente de conhecimentos mais profundos. 7 - Ensinar exige reconhecer que a educação é ideológica A ideologia - que tem a ver com o ocultamento da realidade – tem um grande poder de persuasão. O discurso ideológico tem o poder de “anestesiar a mente, de confundir a curiosidade, de distorcer a percepção dos fatos, das coisas, dos acontecimentos “ (p. 149 ). Uma forma de resistir a esse poder, segundo Frei- re, é criar uma atitude sempre aberta às pessoas e aos dados da realidade e também recusar posições dogmáticas como quem se sente dono da verdade. 8 - Ensinar exige disponibilidade para o diálogo O professor deve sempre testemunhar aos alunos a sua segurança ao discutir um tema, ao analisar um fato, ao expor sua posição frente a decisões políticas de governantes. Essa confiança se funda na consci- ência da sua própria inconclusão, como ser históri- co, que atesta, de um lado, a ignorância e de outro o caminho para conhecer, a busca constante e não a imobilidade frente ao mundo. Ele deve estar disponível para conhecer o con- torno ecológico, social e econômico em que se vive. Também tem que dominar outros saberes técnicos, como os da comunicação que têm influência forte na formação em geral das pessoas. Nesse sentido, a linguagem da televisão merece cuidados para o de- senvolvimento da consciência crítica, para o qual o professor deve investir no seu trabalho de formador. 9 - Ensinar exige querer bem aos educandos É natural do educador expressar afetividade aos seus educandos e à sua prática educativa. A cognos- cibilidade não exclui a afetividade, assim como a seriedade docente não exclui a alegria; esta faz parte do processo de conhecer o mundo: “ a alegria não chega apenas ao encontro do achado mas faz parte do processo de busca” (p. 160). A experiência pedagógica é capaz de estimular e desenvolver o gosto de querer bem e o gosto da ale- gria; sem isso, esta experiência perderia sentido. Isso não quer dizer que ela prescinda da seriedade da formação científica e da clareza política dos educa- dores sobre as mudanças sociais necessárias do país. Resumo revisto por Neusa Cristina Assi, pedago- ga e professora
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    48 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM FREITAS, Luiz Carlos de. São Paulo, Moderna, 2003 Este resumo terá como finalidade apresentar os aspectos relevantes de cada parte, a partir das pala- vras do próprio autor, considerando os conceitos desenvolvidos ou explicitados por ele, bem como as articulações estabelecidas para justificar sua funda- mentação teórico-metodológica. I - Apresentação - Lei de diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) apresenta a possibilidade da educação básica se organizar em ciclos. - Duas experiências importantes: 1 - Prefeitura Municipal de Belo Horizonte, que trabalha com ciclos, desde 1994; ou seja, estratégia de organizar a escola por ciclos de formação que se baseiam em experiências socialmente significativas para a idade do aluno. 2 - Secretaria de Educação do Estado de SP, que trabalha com a Progressão continuada, desde 1998; ou seja, com o agrupamento por séries com o propó- sito de garantir a progressão continuada do aluno. - Observação: chamaremos de ciclo apenas ex- periências como a primeira, realizada em BH, fazen- do, ao longo dos capítulos, distinção entre ciclo e progressão continuada. II - A lógica da escola Para os que olham para a eficácia da escola na perspectiva ingênua da eqüidade, o que resta a fazer é estudar e divulgar quais fatores intrínsecos à escola (recursos pedagógicos e escolares, tamanho da es- cola, estilo de gestão, treinamento do professor etc.) afetam o aumento da qualidade da aprendizagem (proficiência do aluno), apesar das influências do ní- vel socioeconômico sobre o qual, dizem, nada se pode fazer. É de se duvidar da função social da escola pro- clamada pelos liberais: “ensino de qualidade para todos”. Aqui é necessário diferenciar entre o desejo e a realidade. Aliás, esse é aparentemente o perma- nente confronto existente na implantação dos ci- clos e da progressão continuada. Caso se queira unificar desempenhos (nível elevado de domínio para todos), há que se diversificar o tempo de apren- CICLOS, SERIAÇÃO E AVALIAÇÃO: CONFRONTO DE LÓGICAS dizagem. Para tal, é preciso permitir que cada um avance a seu ritmo usando todo tempo que lhe seja necessário, desde que tenha ajuda igualmente dife- renciada para aprender. Em que pese o avanço desses autores (os libe- rais) no que tange à crítica da curva normal (Bloom e seus colaboradores) e ao reconhecimento explíci- to da perversidade dos tempos escolares unificados na formação de desempenhos diversificados (J. Car- roll), suas propostas não conseguiram superar a idéia de que os recursos pedagógicos devem compensar os efeitos das condições sociais perversas que insti- tuem os diferentes ritmos de aprendizagem nos alu- nos. Isso os coloca no campo dos autores que vêem a escola como forma de compensar as desigualda- des sociais. A progressão continuada é herdeira des- sa tradição. A questão que estamos perseguindo neste capí- tulo é o entendimento da forma como a escola fun- ciona atualmente. Há um processo histórico de dis- tanciamento da escola em relação à vida, em rela- ção à prática social. Esse afastamento foi ditado por uma necessidade ligada à formação social capita- lista, a qual, para apoiar o desenvolvimento das for- ças produtivas, necessitou de uma escola que pre- parasse rapidamente, e em série, recursos humanos para alimentar a produção de forma hierarquizada e fragmentada. Os processos de avaliação (provas, testes etc.) tomam o lugar dos motivadores naturais e passam a ser a principal ancoragem além da pressão familiar, para produzir a motivação para o estudo. O aluno é cada vez mais conformado a ver a aprendizagem como algo que só tem valor a partir da nota (ou apro- vação social), que lhe é externa. A introdução da progressão continuada trouxe uma nova visão sobre a exclusão do aluno da esco- la. Entendida como “fisicamente” para fora da esco- la, há também uma exclusão no interior da escola e no retornar à sociedade. Assim, os ciclos e mesmo a progressão continuada contrariam – cada um a seu modo – uma lógica escolar que não é desconstruída sem resistência. Vemos os ciclos positivamente como um longo e necessário processo de resistência de professores, alunos e pais à lógica excludente e sele- tiva da escola. A lógica da exclusão se completa com a lógica da submissão: uma dá suporte para a outra. Os pro- cessos avaliativos possuem lado destinado ao con- trole do comportamento, além da dimensão da ava- liação instrucional. A escola eficaz seria aquela que,
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 49 SINPEEM além de ensinar o conteúdo, prepara o estudante- cidadão para a autonomia e para a auto-organiza- ção, para a intervenção na sociedade com vistas a torná-la mais justa, no sentido da eliminação da ex- ploração do homem pelo homem. III - A lógica da avaliação Aprender para “mostrar conhecimento ao pro- fessor” tomou lugar do “aprender para intervir na realidade”. Essa é a raiz do processo avaliativo ar- tificializado da escola que tem pelo menos três componentes: - O primeiro é o aspecto “instrucional”, pelo qual se avalia o domínio de habilidades e conteúdos em provas, chamadas, trabalhos etc. - O segundo componente é a avaliação do “com- portamento” do aluno em sala, um poderoso instru- mento de controle, já que permite ao professor exigir do aluno obediência às regras, criando uma estrutu- ra de poder do professor sobre o aluno em relação à reprovação. Os ciclos e a progressão continuada, ao contrário, impedem o uso da avaliação como forma de reprovar ou reter o aluno. - O terceiro aspecto é a avaliação de “valores e atitudes” em sala de aula: consiste em expor o aluno a reprimendas verbais e físicas, comentários críticos e até humilhação. Instaura-se, preferencialmente, no segundo e terceiro aspectos, a lógica da submissão. A avaliação ocorre em dois planos: um “formal” e outro “informal” - No plano da avaliação formal, estão as técnicas e os procedimentos palpáveis de avaliação, com pro- vas e trabalhos que conduzem a uma “nota”. - Na avaliação informal, estão os “juízos de va- lor” (a parte mais dramática e relevante da avalia- ção), invisíveis e que acabam por influenciar os re- sultados das avaliações finais. Os procedimentos de avaliação estão articula- dos com a forma que a escola assume como institui- ção social, o que, em nossa sociedade, corresponde a determinadas funções: - hierarquizar, - controlar e - formar os valores impostos pela sociedade (sub- missão, competição, entre outros). Mesmo que se tire a avaliação formal, como no caso da progressão continuada ou dos ciclos, os as- pectos perversos da avaliação informal continuam a atuar e a zelar pela exclusão dos alunos. Os ciclos e a progressão continuada abrem pos- sibilidades importantes de luta e resistência, desde que revelemos essas lógicas e nos preparemos para enfrentá-las em articulação com os pais e alunos. A visibilidade do aluno que não aprende é percebida, erradamente, pelos pais e pela sociedade como um problema do ciclo ou da progressão continuada. No esquema seriado, tais alunos não incomoda- vam, porque eram eliminados do sistema. Nos ciclos e na progressão continuada, esses alunos permane- cem no interior da escola, exigindo reparação. IV - A lógica dos ciclos Os ciclos não eliminam a avaliação formal, mui- to menos a informal, mas redefinem seu papel e a associam com ações complementares – reforço ou recuperação paralela. Os ciclos desejam contrariar a lógica da seriação que é constituída a partir de deter- minado tipo de organização sóciopolítica que, his- toricamente, construiu a “forma escola” com uma função social excludente e de dominação. Gostaría- mos de expandir um modo de conceber a dinâmica da formação do aluno que contrarie tanto a lógica da exclusão como da submissão: a - Formação na atualidade Entende-se por tudo aquilo que na vida da socie- dade do nosso tempo tem requisitos para crescer e desenvolver-se e que em nosso caso tem a ver com as grandes contradições da sociedade capitalista. A contradição básica a ser superada é a que faz dos homens os próprios exploradores dos homens. Por- tanto, os ciclos devem planejar suas vivências so- ciais com forte vínculo com a realidade social, com a atualidade, e não apenas como vivências associa- das aos interesses de uma certa faixa de desenvol- vimento da criança. b - Auto-organização do estudante A relação pedagógica não deve ser baseada na exploração nem preparar a aceitação da explora- ção do homem pelo homem. Não basta que os ci- clos contraponham à seriação, alterando tempos e espaços. É fundamental alterar também o poder in- serido nesses tempos e espaços, formando para a autonomia, favorecendo a auto-organização dos es- tudantes. Isso significa criar coletivos escolares nos quais os estudantes tenham identidade, voz e voto. Significa permitir que os estudantes construam a vida escolar. Os ciclos, portanto, não podem constituir-se em uma mera “solução pedagógica”, visando superar a seriação – são instrumentos de desenvolvimento de novas relações sociais, de resistência. Devem ser vis- tos como instância política de resistência à escola
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    50 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM convencional. Posicionamo-nos favoravelmente aos ciclos, na forma aqui descrita. Em vez de querermos voltar à seriação, devemos lutar pelo aprofundamento da noção de ciclos e exigir condições adequadas para sua instalação e seu funcionamento. V - A lógica das políticas públicas Além do envolvimento daqueles que conduzem o dia-a-dia escolar, dois atores são de extrema im- portância no desenvolvimento dos ciclos, embora preteridos nas políticas: os professores e os pais. Se perdermos os professores, isso afeta diretamen- te o processo ensino-aprendizagem. Os pais são vitais para a aceitação dos ciclos, pois eles rea- gem com as expectativas que têm, com sua cons- ciência ingênua em relação ao papel da escola como fator de ascensão social. É preciso envolvê- los no processo de implantação dos ciclos, para que possam apreciar adequadamente o lado for- mativo da educação nos ciclos e deixar de ver a escola como local em que se deva aprender ape- nas Português e Matemática. Em nossa opinião, os ciclos não devem ser im- plantados como política pública que determine em massa sua adoção. O caminho mais frutífero será o convencimento por indução, a partir de experiên- cias bem sucedidas apoiadas pelos governos, envol- vendo pais e professores no processo. As escolas devem ter autonomia para optar pela introdução da organização ciclada em seu interior e serem apoia- das nessa decisão. É preciso esclarecer que os conceitos de pro- gressão continuada e de ciclos, bem como suas con- cepções de educação e de políticas públicas, não são iguais. - A progressão continuada é herdeira da concep- ção conservadora liberal, e a avaliação assume pa- pel de controle e atua para implementar verticalmente uma política pública. - Os ciclos são de formação mais ligados às pro- postas transformadoras e progressistas. Aqui, a ava- liação assume papel de crescimento e melhoria da escola a partir de dentro – ainda que sob estímulo da política pública. Segue quadro que destaca um conjunto de di- mensões que orienta nossa compreensão sobre as condições políticas em que a noção de ciclos e a de progressão continuada estão inseridas.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 51 SINPEEM Dimensões contraditórias de concepções de Educação, Ciclos e Avaliação Progressão Continuada Ciclos Projeto histórico conservador de otimização da escola atual, imediatista e que visa ao alinhamen- to da escola às necessidades da reestruturação pro- dutiva. Projeto histórico transformador das bases de organização da escola e da sociedade, de médio e longo prazo, que atua como resistência e fator de conscientização, articulado aos movimentos. Fragmentação curricular e metodológica que no máximo prevê a articulação artificial de disci- plinas e séries (temas transversais, por exemplo). Unidades curricular e metodológica de estu- dos em torno de aspectos da vida, respeitando as experiências significativas para a idade (ensino por complexo, por exemplo). Conteúdo preferencialmente cognitivo-verbal. Desenvolvimento multilateral, baseado nas experiências de vida e na prática social. Aponta para a alienação, para o individualis- mo do aluno e a subordinação do professor e do aluno, aprofundando relações de poder verticali- zadas na escola (incluindo a ênfase no papel do diretor e do especialista). Favorece a auto-organização do aluno, o tra- balho coletivo e a cooperação no processo, crian- do mecanismos de horizontalização do poder na escola. Treinamento do professor; preparação do pe- dagogo como especialista distinto do professor (e vice-versa), com o fortalecimento da separação en- tre o pensar e o fazer no processo coletivo. Formação do professor em educador. Uso de tecnologias para substituir o professor e/ou acelerar os tempos de estudo. Subordinação das tecnologias ao professor, com a finalidade de aumentar o tempo destinado pela escola à formação crítica do aluno. Sistema excludente e/ou hierarquizador (auto- exclusão pela inclusão física na escola). Educação como direito de todos e obrigação do Estado. Desresponsabilização da escola pelo ensino. Terceirização / privatização. Educação de tempos integral. Retirada da aprovação do âmbito profissional do professor, mantendo inalterada a avaliação in- formal com característica classificatória. Ênfase na avaliação informal com finalidade formativa e ênfase no coletivo como condutor do processo educativo. “Avaliação” formal externa do aluno e do pro- fessor (de difícil utilização local) como controle. Avaliação compreensiva, coletiva e com utili- zação local. Avaliação referenciada em conteúdos instruti- vos de disciplinas, padronizados em habilidades e competências. Avaliação referenciada na formação e no pró- prio aluno, ante os objetivos da educação e a vida (formação + instrução).
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    52 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM A avaliação, nas políticas públicas que usam os ciclos, não quer classificar alunos nem escolas. Na acepção que defendemos, o que o ciclo (e a progressão continuada) faz é manter o aluno que não sabe ler na escola, enquanto no regime seria- do ele é “expulso”. Permanecendo na escola, de- nuncia a qualidade do sistema. Não somos ingê- nuos a ponto de pensar que isso ocorra para de- nunciar, de fato, o próprio sistema ou ocorra de forma acidental. Para as políticas públicas neoli- berais, os ciclos e a progressão continuada têm outra finalidade. A repetência e a evasão geram custos que oneram o Estado indevidamente – não são apenas uma questão de qualidade da escola. O que está em jogo não é apenas o lado huma- no e formativo da eliminação da reprovação ou da evasão, mas o lado econômico, isto é, custo e be- nefício. Essa é a visão de qualidade que informa as políticas públicas neoliberais que se valem de sistemas nacionais de “avaliação” (ENC-Provão, SARESP etc.), para: - monitorar os resultados das escolas de forma quantitativa e genérica (comparativa), - criar competição (segundo elas, a mola-mestra da qualidade) e - reduzir gastos, modelo amplamente aplicado no campo empresarial. Uma das grandes contradições que está posta com a utilização dos ciclos como forma de organizar a escola é aquela entre “formar e instruir”, posta pela sociedade capitalista. Nossas escolas funcionam em tempo parcial (quatro horas), sendo obrigada a se contentar com a instrução. Uma luta fundamental para os educadores, além da implantação dos ciclos, é a aplicação do dispositivo da LDB que prevê que a educação no Brasil será, progressivamente, de tem- po integral. Somente assim poderemos falar em ins- trução associada à formação, contribuindo para re- solver essa contradição. Resumo elaborado por Eliane Aguiar, bacharel em Letras, doutoranda em educação - FEUSP. GARCIA, Olgair Gomes. Revista de educação da AEC, nº 104, 1997 Grande parte dos professores não consegue de- senvolver suas aulas sem o poder da freqüência e da avaliação. Esta situação transforma a aula em um momento de opressão para os alunos e de angústia e sofrimento para os professores. Como tornar a aula mais produtiva e interessante tanto para os educan- dos quanto para os educadores? Através de uma reflexão com professores de es- colas públicas, chegou-se à desmistificação do con- teúdo como o eixo principal da aula. A aula signifi- cativa para os alunos está sustentada por quatro pila- res e o grande desafio é o equilíbrio, a sintonia e a harmonia entre eles. 1º Pilar: Conhecimento – “O conhecimento está no mundo, presente,visível nas coisas e circunstân- cias mais simples e o homem constrói,/reconstrói constante e ininterruptamente” Compete à escola aju- dar e facilitar o acesso dos estudantes no processo de busca e construção do conhecimento, selecionan- do conceitos e situações, fazendo recortes na reali- dade, problematizando e tematizando estes recortes que se constituirão em conteúdos de ensino. Através A AULA COMO MOMENTO DE FORMAÇÃO DE EDUCANDOS E EDUCADORES do conteúdo o conhecimento chega à sala de aula, e as maneiras mais comuns de dar forma aos conteú- dos são os programas. O conhecimento é processo e o sujeito que está lidando com o conhecimento vive a experiência de vê-lo crescer em complexidade, significação e criti- cidade. Esse dinamismo do conhecimento depende em grande parte do educador enquanto atua com reflexão e crítica. Educando e educadores precisam ser pessoas curiosas. 2º Pilar: O relacionamento interpessoal – Até hoje a relação entre professor e aluno se caracteri- za como uma relação autoritária entre alguém que sabe e outros que pouco ou nada sabem. Esse tipo de relação acarreta conseqüências comportamen- tais e fingimento de ambas as partes: o educador não se dando a conhecer para os alunos para “man- ter sua autoridade” e os educandos sendo dissimu- lados, espertos, tapeadores, falsos para não desper- tar a cólera do educador. Perdem a chance de ter experiências desafiadoras, prazerosas e estimulado- ras em sala de aula. È necessário não se cair em outro extremo em que educador e educandos embarcam em uma rela- ção espontaneísta ou paternalista em que tudo pode
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 53 SINPEEM e em que a camaradagem substitui o rigor e a serie- dade necessários para que a aprendizagem se esta- beleça. Esse tipo de relação gera insegurança, medo e desrespeito. Fugindo de ambos os extremos, se aceitarmos que a relação professor -aluno é uma relação entre sujei- tos que se respeitam, haverá também um código de compreensão, tolerância, colaboração, compromis- so e seriedade, pois reconhece-se que a aprendiza- gem é de ambos e que ambos estão perseguindo os mesmos objetivos: que cada aluno construa sua au- tonomia e o próprio conhecimento com sua própria organização pessoal , como necessidade interior sua e não imposta de fora pelo professor. O professor precisa repensar sua prática e cons- truir seu papel em outras bases, pois tanto nos traba- lhos individuais, quanto nos coletivos há necessida- de da autoridade do professor, articulando a organi- zação e a disciplina coletiva, para o bom desenvol- vimento individual. Esse tipo de relação só pode ser alicerçada no respeito mútuo em que existe uma pré- via organização e discussão sobre o compromisso de ambos para o trabalho a ser feito. 3º Pilar: A comunicação – Constata-se um gran- de predomínio da comunicação oral na sala de aula que pode ser desencadeadora do pensar da curiosi- dade e da vontade de conhecer, mas pode ser tam- bém ser um jeito de tolher a comunicação dos alu- nos e submetê-los ao modo de pensar do professor, ou ainda, como observa Marilena Chauí, ser uma posição arriscada em que o professor esquece seu papel de provocador da aprendizagem dos alunos e usa o espaço da sala de aula para exibir seus própri- os conhecimentos. Tradicionalmente, o professor vem explicando o conteúdo “empacotado” nos livros di- dáticos, mas atualmente esse tipo de atitude justifica a opinião de alguns alunos de que não é necessário assistir as aulas, que podem estudar por conta pró- pria. Aí, reside a “ educação bancária”, segundo Paulo Freire, em que os alunos recebem os depósi- tos, guardam e arquivam as informações recebidas. Muitos alunos preferem que os professores “dêem aulas”, pois é mais cômodo receber tudo mastigado e não ter o trabalho de pensar, refletir e participar. A participação pode ser melhor entendida, se olharmos a sala de aula como um espaço para o diá- logo entre professor e alunos, que devem decidir jun- tos quais os melhores meios , recursos, técnicas e atividades para enriquecer as situações de aprendi- zagem de forma que essas escolhas não morram em si mesmas, mas que garantam a construção, a cria- ção e a recriação do conhecimento. Parte do professor a primeira identificação do conhecimento que vai ser o objeto do processo en- sino-aprendizagem, num conjunto significativo de ações dimensionadas, dentro de um contexto de tempo e espaço reais e possíveis. O espaço de sala de aula, para ter credibilidade precisa se converter num espaço de comunicação verdadeira, a serviço da transformação dos sujeitos envolvidos. 4º Pilar: O compromisso de educador – A práti- ca educativa é algo sério e exigente cuja seriedade e exigência não deve ter como conseqüência a reten- ção de alunos. Quem alega que a reprovação é feita em nome da seriedade, advoga que educar é trans- mitir um conteúdo considerado obrigatório e igual para todos. Se se conceber a educação como prática social e humanizadora, o foco de seriedade é o compromis- so na formação das crianças e adolescentes.Para isso é necessário que se pratique um ensino de qualida- de que garanta a aprendizagem esperada. Algumas práticas docentes em uso formam obstá- culos intransponíveis para um bom desenvolvimento do processo de ensino - aprendizagem.A avaliação como é vista em sala de aula é uma dessas práticas à medida que permeia a relação professor-aluno e to- das as ações e organização do trabalho aí praticadas. Nesse caso, o foco da avaliação é o desempenho dos alunos num dado período de tempo e não o pró- prio aluno. Quando o foco muda de direção surgem algu- mas questões: por que o aluno fracassa ou tem su- cesso? O que fazer com os resultados das avaliações, que não seja reter ou aprovar?. A educação vista de maneira humanizadora deve avaliar múltiplos focos: o professor e sua ação, a pro- posta curricular, o processo ensino-aprendizagem, a escola. A avaliação deve sempre estar atrelada ao plane- jamento. A ressignificação do planejamento e da ava- liação permitirá ao professor repensar: · Sua organização, evitando a improvisação; · Dar tarefas somente para manter os alunos ocu- pados, desenvolvendo automatismos; · Permitir que os alunos aprendam a se organizar com autonomia e responsabilidade ensinando-os a pensar, estabelecer relações, questionar, se expres- sarem com maior precisão, criatividade e liberdade; · Ensiná-los a fazer registros e sistematização do que estudam e, sobretudo ensiná-los a estudar. O professor deve se comprometer também em denunciar as condições que os impedem de desem- penhar com maior seriedade uma educação com- prometida e desafiadora. A aula e a formação permanente do educador e dos educandos A partir das reflexões desse artigo chega-se à con-
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    54 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM clusão que uma sala de aula em que o professor “não dá aula”, mas em que haja um clima de seriedade, rigor e de comprometimento dos alunos e do profes- sor regula as ações, mais que a pressão do final do processo. Os desajuste que possam existir num de- terminado ponto do processo devem ser resolvidos em prol da harmonia e da sintonia para desenvolve- rem a tarefa de ensinar e aprender Professor e aluno desafiam-se, exigindo um cons- tante pensar, refletir, criar, ajustar-se ao pensamento do outro. O professor precisa aprender a superar im- passes, aceitar desafios cada vez maiores com flexi- bilidade, versatilidade e bom humor. A disputa entre sujeitos pela construção do co- nhecimento é que torna a aula interessante. Resumo realizado por Neusa Cristina Assi, pro- fessora e pedagoga GONÇALVES, Luiz Alberto Oliveira. & SILVA, Petronilha B. G. Belo Horizonte, Autêntica, 2001 Na apresentação os autores dizem que falar de multiculturalismo é falar do jogo das diferenças, onde os protagonistas são as pessoas vítimas de discrimi- nação e preconceito na sociedade onde vivem. Para tanto é necessário sempre que se diga de qual con- texto sócio-histórico está se falando. O que é depre- ciativo para uma mulher dos Estados Unidos, pode não ser para mulheres de outras partes do mundo. Os negros dos Estados Unidos, ao se definirem como “afro-americanos” como forma de fugirem aos este- reótipos sugeridos pela palavra negro (black ) caem em contradição, afinal também são americanos os negros brasileiros de qualquer parte da América do Sul ou Central. O termo afro-americano, usado pelos negros estadunidenses, visto de fora dos Estados Unidos, pode parecer justamente o oposto do politi- camente correto pretendido, se colocado em nosso contexto histórico e social. O livro pretende mostrar que antes de ser tema obrigatório de currículos defendidos por professores pós-modernos bem comportados, o multiculturalis- mo foi resultado de intensas lutas sociais e que o sig- nificado do termo pode se modificar a todo o mo- mento em que novos grupos sociais surgirem na cena social, modificando as regras do jogo. Capítulo 1 - O multiculturalismo e seus significados Esse capítulo versa sobre a dificuldade em se es- crever sobre o assunto. O ponto de partida do multi- culturalismo, enquanto movimento de idéias, é a admissão da pluralidade de experiências e a rejei- ção de qualquer “centrismo” cultural, ou seja, qual- quer etnocentrismo. O JOGO DAS DIFERENÇAS: O MULTICULTURALISMO E SEUS CONTEXTOS A proposta multiculturalista, tem que conviver, entretanto, com outras possibilidades de propostas de políticas culturais existentes no mundo que tam- bém colocam a multiplicidade cultural como preo- cupação central de suas ações. Os opositores da proposta multiculturalista a acu- sam de ser uma proposta política ingênua e leviana que parte de uma falsa consciência a respeito dos problemas culturais. Para outros, ela é apenas um estímulo à fragmentação da vida social que tem por conseqüência a desintegração nacional. Mesmo entre os defensores o consenso é quase impossível. Alguns grupos defendem a idéia de que o multiculturalismo é uma estratégia política de inte- gração social. Embora salientem as vantagens do caráter pluricultural de suas sociedades, admitem a necessidade de se conservar um núcleo de valores comuns (nacionais) para os quais todos deveriam convergir. Outros combatem essa idéia dizendo que qualquer convergência para valores comuns, hierar- quiza as culturas, visto que uma suposta cultura na- cional seria superior às outras. Cair-se-ia novamente em um etnocentrismo o que impediria a execução de políticas multiculturais. Entre as diferentes definições de grupos acadê- micos e políticos acerca do conceito de multicultu- ralismo encontramos aqueles que o definem enquan- to estratégia política ou como uma espécie de corpo teórico que deveria orientar a produção do conheci- mento. Parte-se de uma visão crítica de qualquer ins- tituição produtora ou veiculadora de conhecimento: escolas, universidades, museus, livros, filmes, víde- os e outros. Expostos à mídia, pais, alunos e professores são influenciados pela etnia de apresentadores e perso- nagens, reforçando ou negando valores, com forte impacto na escola e nos propósitos de educação multicultural. O multiculturalismo é reivindicado como um
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 55 SINPEEM antídoto ao eurocentrismo, ao conhecimento euro- ocidental (branco, masculino, cristão, capitalista, ci- entificista, predatório, racionalista etc.) veiculado pela mídia e instituições em geral. Considerando o peso que os sistemas educacio- nais têm na formação dos indivíduos é compreensí- vel que os multiculturalistas tenham feito da escola, seu espaço privilegiado de atuação. Não foi no am- biente escolar, entretanto, que surgiu o multicultura- lismo. A própria prática de condicionar conteúdos e disciplinas escolares sob a forma de currículos é her- deira das culturas euro-ocidentais, contra as quais o movimento multicultural vem lutando. De qualquer maneira, pode-se começar a refletir sobre o multiculturalismo a partir das práticas edu- cativas, fazendo que as teorias sociológicas e as pes- quisas em educação convirjam para pensar melhor as práticas de um e outro setores. Os confrontos culturais, inicialmente se deram nos espaços públicos dos centros urbanos. Essas tensões, pouco a pouco, penetraram nas institui- ções das sociedades, como escolas e instituições jurídicas que passaram a ser pensadas numa pers- pectiva multicultural. Os autores convidam o leitor a pensar nas espe- cificidades sócio históricas de cada movimento mul- ticultural. Na América do norte e no oeste da Europa empresta-se ao multiculturalismo um sentido muito diverso da América Latina, onde os grupos que rei- vindicam o reconhecimento de seu patrimônio cul- tural são justamente aqueles que construíram as na- ções onde vivem. Ao se ler literatura sobre movimentos multicultu- ralistas, pesquisadores europeus podem escrever li- vros muito críticos em relação ao etnocentrismo de sua civilização, sem se afastarem, entretanto, um milímetro sequer de seus valores culturais. Muitas vezes, os argumentos defensivos de determinadas posições advém do próprio universo cultural de quem está escrevendo, ao invés de partir do universo de quem se pretendia defender. Esse paradoxo faz com que alguns opositores do multiculturalismo argumentem que não há necessi- dade de se afastar dos valores humanistas ociden- tais, para se reconhecer o direito à diferença, como querem certos grupos, para eles, mesmo que os po- vos não ocidentais se sintam excluídos desses valo- res, já são por esses contemplados. Pelos motivos expostos acima não se pretende definir multiculturalismo de maneira linear, por isso os autores pretenderam apresentar as condições so- cio-históricas nas quais o fenômeno desponta com um dos princípios norteadores de políticas cultu- rais com o intuito de interferir nas relações de po- der que excluem imensas parcelas da população dos centros de decisão. A origem do fenômeno multicultural contemporâneo O multiculturalismo teve origem em países que tiveram problemas com a diversidade cultural na construção de suas identidades nacionais. Surgiu como princípio ético orientador de grupos cultu- ralmente dominados para reivindicar seus direitos civis. Os movimentos étnicos antecederam outras for- mas de protesto cultural especialmente em países das três Américas, onde ocorreu um embate cultural (ét- nico, religioso, lingüístico) entre europeus, amerín- dios e africanos. Citando Roger Bastide,os autores lembrar que a chegada dos europeus à América le- vou-os a se deparar como uma pluralidade de hábi- tos e costumes desconhecidos pelos recém chega- dos ao Novo Mundo. O contato entre ameríndios e euro-ocidentais foi dramático para os primeiros. Para Bastide a resistên- cia exprimiria o lado trágico no choque das civiliza- ções, depois, num segundo nível, ocorreria um mo- vimento de contra-aculturação, quando o desejo de estabelecer um equilíbrio, após o choque de civili- zações, estimularia um retorno ao passado, onde gru- pos culturalmente dominados reconstituiriam parte de sua tradição cultural. O contato cultural prolongado produziria o que Bastide chamou de “interpenetração das civiliza- ções”. Processo desigual, pois os colonizadores dei- xam-se impregnar pela cultura dos colonizados, sem, contudo, perder a referência de sua própria civilização. Opostamente, o colonizado acaba se aculturando, aceitando a cultura do dominador como referência. O processo de aculturação dos africanos no Novo Mundo foi muito diferente dos ameríndios. Arranca- dos à força de seu continente, aos povos de diferen- tes etnias, restou apenas a religião e seus deuses. Como mostram os estudos feitos no Caribe e em ou- tros países da América Latina, com destaque para o Brasil, os afro-descendentes foram revitalizando suas tradições religiosas que serviram de suporte ideoló- gico para suas revoltas. Os autores citam a experiência multicultural que se processou nos quilombos, objetos de observação de vários estudiosos. Foram encontrados em quilom- bos – obra de africanos não aculturados – templos católicos ao lado de outros, devotados aos deuses africanos. Até mesmo brancos e mestiços foram abri- gados no interior dessas comunidades. No final do século XIX, os conflitos étnicos na América se agravaram com a chegada de novas on- das de europeus e asiáticos. Embora em alguns paí- ses tenha ocorrido um processo significativo de mis- cigenação, a herança escravista fez permanecer as barreiras sociais e os preconceitos raciais.
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    56 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM Conflitos étnicos existiram desde o início da co- lonização européia na América, mas apenas se trans- formaram em movimentos políticos – na acepção moderna do termo – na primeira metade do século XX. A própria formação dos estados nacionais na América, justifica o aparecimento de conflitos étni- cos nas sociedades americanas que foram as pri- meiras formas de manifestação do multiculturalis- mo. Com o passar do tempo, as questões étnicas perderam a centralidade nos movimentos multicul- turais e hoje convivem com outras formas de pro- testo cultural. As imagens unitárias da sociedade no jogo das diferenças Apesar do esforço de algumas sociedades, como a brasileira e a estadunidense, em criarem uma auto- imagem unitária se si mesmos, em torno de uma iden- tidade nacional, as mesmas sempre foram vistas de fora como sociedades pluriétnicas; outros países como a França, contrariamente, só reconheceram sua diversidade recentemente. Os cientistas sociais sempre procuram investigar questões postas por suas respectivas sociedades e épocas. Por isso que nos Estados Unidos e no Brasil o tema da diversidade cultural já era crucial no iní- cio do século XX, enquanto na França essa preocu- pação passou a inquietar os cientistas sociais france- ses apenas nos anos 70. Os estudos antropológicos, ditos culturalistas, vieram superar explicações dominantes no século XIX, chamadas de naturalistas que explicavam a pre- tensa superioridade de raças ou gêneros humanos em função de uma suposta ordem natural das coisas. Os culturalistas insistem no fato que aquilo que cha- mamos de natureza depende de uma interpretação que varia de uma cultura para outra. A Antropologia Culturalista gerou um conjunto de conhecimentos sobre a diversidade do gênero humano, que permitiu ver todas as formas de domi- nação – antes vistas como naturais – como atos de pura arbitrariedade. Os movimentos de protesto contra os modelos de dominação cultural vigentes embasaram-se nes- ses estudos culturalistas. A partir de então, negros, índios e minorias étnicas começaram a questionar os critérios que os classificavam como inferiores. Mulheres passaram a questionar a pretensa superio- ridade dos homens, homossexuais passaram a pro- duzir novas imagens de si mesmos e a combater, por vias judiciais, preconceitos em relação ao seu com- portamento sexual. Tantas adesões ao multiculturalismo acabaram criando um problema: a fragmentação que ameaça o movimento por dentro. O movimento de mulhe- res, por exemplo, não pode desconhecer que exis- tem diferenças entre mulheres brancas, negras e mes- tiças e devem modular seu discurso para abarcar to- das essas realidades. Os jovens têm trazido deman- das de geração que têm impulsionado o multicultu- ralismo, em todos os sentidos. Tendo como suporte a mídia e o sistema informacional disponível no mer- cado globalizado, vemos os jovens criando movimen- tos culturais que extrapolam as fronteiras nacionais. As artes ofereceram uma linguagem adequada para a difusão do movimento multiculturalista na esfera pública. Os estetas do multiculturalismo A emergência de uma nova estética musical – et- nicamente elaborada – pode explicar a popularida- de do multiculturalismo, especialmente entre os jo- vens. Os autores não estão falando de etno-música que, para eles são formas de manifestação de gru- pos étnicos muito específicos que não se deixam influenciar por influências estranhas à própria tradi- ção como é o caso das músicas cigana, hebraica ou árabe, entre outras. Para eles o fenômeno musical do multiculturalismo é híbrido, miscigenado. Tal qual ocorreu com o rap e o reggae, ambos surgidos na Jamaica, acabaram por congregar jovens negros de várias áreas urbanas pelo mundo, incorporando elementos culturais locais. Em alguns lugares do Bra- sil, por exemplo, temos o samba-reggae. O rap tor- nou-se importante veículo de protesto em várias partes do mundo entre os jovens das periferias e mesmo, entre os de classe média. Obviamente essa massificação não ocorreu de forma inocente, mas foi produto da expansão da indústria cultural pelo mundo globalizado. O cinema tem contribuído enormemente para a difusão da estética do multiculturalismo. Filmes que abordam problemas raciais, discriminação contra homossexuais ou que nos trazem problemas de so- ciedades distantes, como a islâmica, fazem do cine- ma uma arma poderosa para a divulgação dos valo- res multiculturais. Educação multiculturalista: os novos sujeitos das políticas sociais Toda vez que uma sociedade não se representa enquanto plural mas como monocultural, como é o caso do Brasil, tem-se muitas dificuldades para esta- belecer políticas públicas para promoção de grupos menos favorecidos. No caso do Brasil, os sujeitos das políticas públi- cas são sempre definidos vagamente sem distinção de gênero ou raça. Até mesmo os projetos educacio- nais preferem expressões baseadas na condição de classe como “camadas populares”, “classe operária”, “classe trabalhadora.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 57 SINPEEM O multiculturalismo não interessa à sociedade como um todo, mas apenas aos grupos excluídos dos centros de decisão, por questões econômicas e, prin- cipalmente culturais. Partindo dessa premissa os au- tores questionam se é mesmo possível pensar em políticas públicas que consideram os problemas ét- nicos das sociedades, atendendo às demandas espe- cíficas de negros, índios, mulheres, homossexuais, deficientes físicos, etc. Dessa maneira tanto no Brasil como nos Esta- dos Unidos, os afro-descendentes foram os primei- ros a reivindicar o multiculturalismo. No caso dos EUA, ocorreu o progressivo acesso dos jovens ne- gros às universidades, a partir de 1968 com o fim do sistema de segregação e a absorção de 434.000 estudantes negros em universidades freqüentadas até então apenas por alunos brancos. O acesso a edu- cação fez que os negros passassem a exigir sua par- ticipação no sistema educacional, exigindo a inclu- são de temas de seu interesse nos currículos e a participação dos mesmos no controle dos cursos e na escolha de professores. Os autores lembram, citando N. Glazer que a partir da década de 70 pôde-se observar uma mu- dança significativa no comportamento dos negros nos EUA. Eles deixaram de se preocupar com a integra- ção, ignorando a sua própria cultura, pois queriam ser como os brancos e passaram a se debruçar sobre a sua própria herança, buscando dialogar com o seu passado, em busca da própria identidade. No Brasil, foi a partir dos anos 50 com uma nova onda de protestos do movimento negro, no Rio de Janeiro, que os afro-brasileiros começaram a reivin- dicar dos educadores brancos e negros o reconheci- mento do valor da cultura afro-brasileira. Diferente dos EUA, esse movimento desenvolveu-se fora do sistema oficial de ensino e pretendia mudar a ima- gem tão negativa que a sociedade brasileira tinha criado da cultura e da história negras. O fato de os negros brasileiros serem uma minoria no sistema su- perior de ensino (apenas 4% segundo o censo de- mográfico de 1990) pode ser uma explicação para o fato das universidades brasileiras terem ficado à mar- gem desse movimento. Nos Estados Unidos o multiculturalismo teve como alvo principal o sistema de ensino e provo- cou reações contrárias de setores conservadores da sociedade, tanto intelectuais liberais como de es- querda. Como exemplo, os autores citam um certo Schlesinger que afirmou ao jornal Le Monde que os negros teriam promovido a divisão da sociedade americana e corrompido os currículos escolares com suas demandas. No Brasil, a resistência à educação multicultural tem sua origem naqueles que acreditam que o único conhecimento crítico possível só pode ser o “conhe- cimento socialmente acumulado, dominante e uni- versal” qual seja o euro-ocidental. As críticas de intelectuais brasileiros e estaduni- denses em relação ao multiculturalismo baseiam-se no argumento de que ele leva ao esfacelamento da suposta unidade nacional e que incentiva o fecha- mento de grupos em seus universos culturais, vistos erroneamente, como restritos. Ambas as críticas vêem o movimento em defesa dos direitos à diferença como blocos monolíticos, homogêneos e sem contradições. Os autores lembram que essas tendências de gueti- zação não são consensuais e citam os conflitos ocor- ridos dentro do movimento negro estadunidense dos anos 60. Alguns grupos recusavam-se a reconhecer os Estados Unidos como unidade nacional de refe- rência, opondo-se a outras correntes que envolve- ram amplos setores liberais na defesa dos direitos ci- vis. Os questionamentos das alianças entre liberais e parcelas do movimento negro fizeram emergir gru- pos de esquerda, bem como fez com que os republi- canos, mudando de tática, criassem setores negros dentro do próprio partido. O movimento negro brasileiro também tem suas divisões manifestadas especialmente na dualidade entre política e cultura. Clivagens internas surgem como mulheres negras ou ainda diferentes organiza- ções religiosas ou concepções políticas de esquer- da, direita ou de centro. Os autores argumentam que essa diversidade in- terna é mal interpretada, como se fossem fragmenta- dos desconectados uns dos outros, mas essa diversi- dade pode ser justamente vista como uma forma de reformular o conceito de resistência, bastando para isso que se leve em conta o contexto sócio-histórico onde se desenvolvem. Nos EUA, o multiculturalismo acabou enrijecen- do as relações sociais, causando, por vezes, inciden- tes sangrentos. Após as primeiras manifestações dos anos 60 na costa oeste, o movimento institucionali- zou-se de maneira surpreendentemente rápida. As universidades estadunidenses criaram departamen- tos, cursos de especialização e de pós graduação sobre estudos afro-americanos, sobre a condição fe- minina, sobre os hispano-americanos, os gays, os nativo-americanos (índios) etc. No Brasil, a integração dos negros e índios se deu pela mediação de um Estado altamente interventor e o racismo foi dissimulado pelo mito da democracia racial. Isso fez com que o multiculturalismo não se institucionalizasse e a diversidade étnica e cultural não fosse contemplada na formação de docentes ou nos programas de pós-graduação. Para os autores, o tema da pluralidade cultural preconizados pelos Pa- râmetros Curriculares Nacionais levarão muito tem- po para chegar às salas de aula, justamente pela au- sência desse paradigma na formação dos profissio- nais de educação nas universidades brasileiras.
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    58 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM Capítulo 2 - Multiculturalismo e Educação nos Estados Unidos Dada à longevidade do tratamento desse tema nos Estados Unidos da América do Norte, os autores acre- ditam ser importante estudar o processo de reformula- ção dos currículos escolares naquela país, para que se possa extrair da experiência deles, alguns parâmetros para as reformas, em curso no Brasil. Nos anos 60, estudantes e líderes religiosos no sul dos Estados Unidos iniciaram a luta por igual- dade de acesso aos direitos civis. A eles, juntaram- se outros cidadãos negros e outros grupos margina- lizados. Martin Luther King, Malcom X e grupos como os Black Panthers e os Black Powers forma- ram alianças construindo estratégias de luta para par- ticiparem do poder público. A luta pelos direitos civis, encabeçada pelos ne- gros americanos, inspirou diversos outros grupos ali- jados da vida social, como aqueles que lutaram con- tra a guerra do Vietnã e outros grupos de origem his- pânica ou asiática. Inclua-se também, as feministas que procuraram valorizar a experiência de ser mu- lher em uma sociedade dividida por diferenças étni- cas, de classe, de escolhas sexuais, profissionais, etc. Enfim, o multiculturalismo nos EUA surgiu num clima político extremamente favorável e constituiu- se, pouco a pouco em proposta pedagógica, disci- plina curricular e área de pesquisa. Black Studies Já no final do século XIX intelectuais estaduni- denses produziram obras questionando os parâme- tros culturais de seus colegas brancos. Seus traba- lhos eram divulgados em escolas dedicadas ao en- sino dos negros e também em igrejas e associações afro-estadunidenses. Esses novos estudos ofereciam um novo conhecimento da história do negro, a par- tir de seu próprio ponto de vista. Além de apoiarem o debate intelectual, estimulavam a auto-estima da população segregada e, com argumentos científi- cos, preparavam os grupos excluídos para reclama- rem por seus direitos. Note-se que além da divul- gação de trabalhos acadêmicos, houve ênfase na produção de material didático para a populariza- ção de seus trabalhos. Nos anos 20, jovens negros americanos já pe- diam uma educação que reconhecesse o patrimônio cultural de seus ancestrais, desafiando a hegemonia cultural européia na academia. Em 1968 foram criados os primeiros programas e departamentos de Black Studies na San Francisco State University, seguida de perto por outras univer- sidades. A iniciativa foi resultado da exigência do próprio movimento estudantil que agregava estudan- tes negros e outros oriundos de países do Terceiro Mundo. Estudantes brancos, contrários à guerra do Vietnã também apoiaram a iniciativa. Os Black Studies possibilitaram a produção e di- vulgação de um conhecimento novo, conectando os afro-descendentes à produção e mudança do co- nhecimento nos EUA, a serviço das comunidades negras e da sociedade como um todo. Os Estudos Negros nos EUA desenvolveram em dupla dimensão: acadêmica e social. Formaram um campo de pesquisa interdisciplinar nas Ciências So- ciais com foco nos pensamentos e práticas dos afri- canos e seus descendentes, repercutindo não ape- nas na comunidade e nos estudantes negros, mas em toda a sociedade, beneficiando essa última pelo co- nhecimento produzido nas universidades. Notas sobre o afrocentrismo e outros estudos étnicos Alguns questionam se os estudos africanos ou afro-americanos pretendem apenas substituir uma perspectiva hegemônica eurocêntrica por uma afro- cêntrica. Asante, criador da disciplina Africanolo- gia justificou-se dizendo que o pesquisador que adota uma perspectiva afrocentrista, coloca ideais e valores africanos no centro da investigação. O pes- quisador coloca-se conscientemente em um lugar, assumindo suas escolhas ideológicas e teórico-me- todológicas. Da mesma forma que se buscam as origens do pensamento europeu na Grécia e em Roma, a his- tória e as experiências dos negros devem ser procu- radas no Egito e nas várias culturas do continente africano. O afrocentrismo distingue “estudos negros” de “estudos sobre negros”. Estes têm sido feitos numa perspectiva européia e não de concepções e vivên- cias dos africanos. O afrocentrismo seria, para Mun- ford, uma ideologia que previne “a síndrome da víti- ma queixosa”. A inclusão dos Black Studies nos currículos esco- lares e universitários incentivou outros grupos discri- minados institucionalmente a produzirem seus pró- prios estudos, divulgados numa gama de livros, ma- teriais didáticos e propostas curriculares focalizando esses grupos, evidenciando perspectivas da história dos EUA até então silenciadas. Os estudos étnicos também garantiram políticas de acesso a todos os níveis de escolaridade de dife- rentes grupos étnicos e obrigou educadores a formu- larem políticas públicas contemplando clivagens in- ternas dentro de grupos, tidos outrora como homo- gêneos, como por exemplo, notaram que nem todos os negros eram oriundos dos EUA, mas também do Caribe, da América Latina ou da África e que tinham, portanto, necessidades diferentes. Problemas seme- lhantes foram colocados para os estudantes porto-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 59 SINPEEM riquenhos, índio-americanos, asiáticos etc. Muitas vezes os estudos étnicos atendem apenas parcialmen- te as demandas de seus destinatários porque não chegam a provocar mudanças necessárias nas práti- cas administrativas e na organização das escolas, para garantir igualdade de oportunidade de acesso aos conhecimentos difundidos pelas escolas. Educação multicultural Professores doutores dos EUA repensaram a edu- cação em uma perspectiva multiculturalista propon- do novas metodologias, principalmente para o en- sino de estudos étnicos e reformulações de currí- culos e ambientes escolares, articulando cultura e identidade. A educação multicultural propõe a reforma das escolas e outras instituições educacionais, com o intuito de criar iguais oportunidades de sucesso es- colar para todos os alunos, quaisquer que sejam seus grupos: social, étnico/racial, gênero e excepciona- lidade. Bennett argumenta que resolver problemas mul- ticulturalmente será habilidade tão requerida como ler, escrever e manejar computadores. Nesse senti- do, uma das metas mais importantes da educação multicultural é desenvolver nos estudantes habilida- des para agir efetivamente numa sociedade demo- crática plural, bem como interagir, negociar e comu- nicar-se com pessoas de diferentes grupos. Inicialmente vista como um esforço de combate ao racismo, a educação multicultural se transformou em um movimento de reforma do ensino e dos am- bientes escolares para abarcar a gama de necessida- des específicas de grupos diversos, inclusive daque- les que não falam a lingua inglesa. A pedagogia da eqüidade: sucesso escolar combate aos preconceitos Na construção do conhecimento numa perspec- tiva multicultural, os professores devem ajudar os alunos a compreender como o conhecimento é cria- do e como é influenciado pela posição que pessoas, grupos étnicos e grupos sociais ocupam na socieda- de. Dessa maneira questionam-se marcos históricos como a “ocupação do oeste” e a escravidão. Banks situa a reforma de currículos multicultu- rais em quatro níveis: no primeiro, os professores apresentam contribuições de grupos étnicos apresen- tando heróis e heroínas, datas comemorativas e co- midas, além de algum dado cultural fundamental; no segundo, adicionam ao currículo existente, sem ne- nhuma mudança em sua estrutura conteúdos e te- mas relativos a um determinado grupo; no terceiro nível modifica-se a estrutura curricular para que os alunos aprendam conceitos, analisem fatos e temas na perspectiva de diferentes grupos sociais; no quar- to nível, o currículo é construído de forma a permitir que os alunos reflitam e tomem decisões quanto a solução de problemas sociais. Segundo MacLaren, nos dias atuais os indiví- duos brancos dificilmente desqualificam os não brancos, mas atribuem aos mesmos déficits cultu- rais resultados de famílias desestruturadas e caren- tes de valores positivos. Defendem uma cultura comum que desvaloriza as raízes não-européias e que assimila todos os grupos étnicos aos ideais de branquidade. Para o mesmo autor, alguns liberais de esquerda desprezam os processos históricos e sociais, levando muitas vezes um representante de um determinado grupo como representante de todo um grupo esvaziando as experiências acumuladas de determinado setor social. O diálogo multicul- tural acaba assim, se restringindo a representantes políticos e acadêmicos e não entre grupos. Sem uma agenda política de transformação o multicul- turalismo pode transformar-se apenas em outra for- ma de acomodação a uma ordem social maior. MacLaren entende que a diversidade não é uma meta a se atingida, mas uma afirmação crítica e um compromisso com a justiça social. Formação de professores: aprendizado da diversidade Nos estados Unidos, desde os anos 70, políti- cas públicas com o intuito de garantir iguais opor- tunidades na educação são incentivadas com o apoio de professores e militantes pesquisadores. Entre eles até mesmo membros do grupo hegemô- nico branco participam, pois o multiculturalismo é um movimento popular com participação de pro- fessores, pais e alunos. Os sujeitos de políticas públicas são estudantes não brancos, com limitada proficiência em língua inglesa; estudantes do sexo feminino, deficientes, portadores de alguma doença e integrantes de famí- lias de baixa renda. Muitas vezes, porém, os aportes financeiros tem sido insuficientes para o sucesso des- sas políticas que incluem atenção aos conteúdos curriculares, à elaboração de livros e materiais didá- ticos e à formação de professores. A formação de professores tem merecido espe- cial atenção de entidades profissionais. Inicialmente foram criados workshops para sensibilizar os profes- sores, depois os currículos de formação desses pro- fissionais foram alterados para tentar satisfazer os desafios de uma educação multicultural. Vários ca- minhos para tentar superar uma educação monocul- tural têm sido tentados: desde trocas interpessoais com o intuito de eliminar preconceitos contra mino- rias até treinamentos específicos para lidar com de- terminadas comunidades ou áreas geográficas com
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    60 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM problemas. Cursos têm incentivado professores a desenvolverem estratégias de ensino adequadas a grupos específicos e incentivado estudantes a fazer uma análise crítica da sociedade e de suas circuns- tâncias de vida. Pesquisas demonstram que professores que se solidarizam com suas comunidades assumindo a educação completa de crianças e jovens, têm tido mais sucesso como educadores numa perspectiva multicultural. Críticas à educação multicultural As críticas feitas à educação multicultural si- tuam-se em dois pólos que a qualificam como extre- mista ou como conservadora. Os conservadores que julgam a educação multi- cultural extremista acusam-na de causar divisões no seio da sociedade, de diminuir a excelência acadê- mica e ainda abominam o afrocentrismo. Argumen- tam que afro-descendentes e hispano-americanos teriam melhor desempenho escolar se suas famílias fossem mais bem estruturadas, se seus professores fossem mais bem remunerados e se os estudantes participassem de programas de aceleração de estu- dos. Ignoram completamente estudos que se debru- çam sobre as práticas educativas multiculturais. Con- sideram-se apolíticos e seus argumentos baseiam na noção de unidade social, e não na supressão das desigualdades e injustiças. As críticas vindas da esquerda acusam a educa- ção multicultural de incentivar a mobilidade indivi- dual na sociedade, ao invés da mobilidade coletiva, de não promover uma crítica aos sistemas de opres- são impostos pelo sistema capitalista e vêm o discur- so da diversidade cultural como forma de ocultar o racismo, retificando e despolitizando as culturas. Es- ses críticos crêem que a educação multicultural é uma estratégia de acomodação e que não levaria a uma mudança social significativa. Para Sleeter, embora as críticas sejam pertinen- tes, elas foram feitas de fora do campo de ação da educação, sem conhecimento específico de suas prá- ticas e desconsideram que a educação multicultural pressupõe mudança de decisão quanto às formas de educação; esse poder passaria dos grupos dominan- tes para os oprimidos. Os autores citam os trabalhos de duas estudiosas e militantes da educação multicultural nos EUA: Joyce Elaine King e Sylvia Wynter. As duas estudiosas par- ticiparam, desde os anos 60, do movimento pelos Direitos Civis. Elas centraram suas críticas aos livros didáticos produzidos então que, apesar de se dize- rem multiculturais, cristalizavam preconceitos e ra- cismos. Para elas não era suficiente falar de uma edu- cação pluriétnica, mas privilegiar maneiras alternati- vas de produção de conhecimento. Seria preciso evi- tar a diluição das experiências próprias de grupos nas referências européias pretensamente dominan- tes. Afirmaram também que a educação multicultu- ralista deve incentivar transformações profundas nas sociedades para eliminar a pobreza global em todos os níveis. Vê-se pelas críticas apresentadas, dentro da ex- periência estadunidense, que educar numa perspec- tiva multiculturalista significa destrinchar as práticas e as teorias que norteiam a educação. Capítulo 3 - O Multiculturalismo na América Brasileira Sabe-se que a tão decantada imagem de paraíso racial criada no Brasil está bastante abalada. Reno- mados cientistas sociais brasileiros ajudaram a criar uma das mais eficientes ideologias de dominação em todo o mundo: ao mesmo tempo em que os brasilei- ros não abrem mão do orgulho de se auto-definirem como uma sociedade pluriétnica, índios negros e mestiços são, a um só tempo, objetos de exaltação e de exclusão num jogo perverso. Os autores lembram que esse jogo ajudou a pre- servar os privilégios das elites dominantes e que o aprendizado da linguagem também fez parte desse jogo paradoxal. A língua que dá suporte para que negros, índios e mestiços compreendam e expres- sem sua experiência social, contempla, ao mesmo tempo,um regime particular de representação que legitima certa realidade cultural. Os negros e mestiços que adentram no jogo com- petitivo de nossa sociedade urbana e moderna é que iniciaram os primeiros questionamentos para denun- ciar as falácias desse modelo. Os primeiros estudos clássicos sobre relações raciais,embrião de uma pers- pectiva multiculturalista no Brasil, em sua versão afro- brasileira, defendiam uma perspectiva integracionis- ta, incentivando os negros a se adaptarem à socieda- de dos brancos. Os estudos feitos por Roger Bastide e Florestan Fernandes alertavam para o fato de cidades, como São Paulo, terem fundado seus padrões culturais em representações de modernidade que excluíram por completo uma perspectiva afro-brasileiro, privilegi- ando os imigrantes europeus na cena cultural e sub- traindo todo traço de africanidade. Para Fernandes, a cidade moderna não rejeitava o negro, mas sim aquilo que havia de africano em sua alma. Os militantes negros da década de 20, devido a proximidade com a escravidão tinham muita dificul- dade em construir uma história centrada em valores africanos pois suas referências ancestrais mais próxi- mas eram a senzala, um passado escravocrata recente que procuravam eliminar. Foi apenas dos anos 40 que os negros brasileiros passaram a contar com algumas condições culturais
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 61 SINPEEM que lhes permitiram questionar as estruturas ideoló- gicas de construção de sentido então vigentes. Os autores classificam esse fatores em fatores exógenos e endógenos. Os fatores exógenos começaram com o contato de militantes afro-brasileiros com o movimento pan- africano nos EUA, na África e na América Central. O Brasil era a maior diáspora africana do mundo e não podia ficar de fora dos movimentos de liberação dos “povos negros”. As organizações negras dos anos 50 questiona- ram o fato de a representação diplomática brasileira ser feita apenas por brancos que nas Nações Unidas condenavam abertamente o apartheid na África do Sul e esqueciam completamente o sofrimento dos negros brasileiros. Tratava-se de reconhecer o valor dos afro-brasileiros para representar o Brasil fora, como dizia Abdias do Nascimento, para negociar os interesses nacionais. Esse movimento, em direção ao exterior, nutria-se de idéias pan-africanistas e pela primeira vez, ouviu-se falar da Teoria da Negritude. A Negritude foi um movimento surgido na Fran- ça e procurava valorizar as subjetividade negra nas artes, procurando inverter o estigma da herança africana como algo negativo. A produção de poe- sia, veiculada pela revista “Presença Africana” teve no brasileiro Solano Trindade sua principal expres- são. Abdias do Nascimento e Guerreiro Ramos fo- ram pioneiros na defesa da produção artística espe- cificamente negra. Lembrando a ação desses militantes negros, os autores afirmam ser temerário afirmar ser a Negritude uma teoria que descartasse o problema fundamental da exclusão social através da ótica da luta de classes. Outro fator exógeno importante ocorreu com os estudos financiados pela UNESCO. Após os efei- tos nefastos da segunda guerra mundial, as Nações Unidas incentivaram esforços para o aperfeiçoa- mento de políticas públicas que evitassem a todo custo o racismo. O estudos feitos no Brasil, financiados pelas Na- ções Unidas ajudaram a por por terra o suposto pa- raíso racial brasileiro. Ao mesmo tempo a constru- ção da unidade nacional, através da intervenção de um estado forte impedia o confronto direto entre os grupos sociais, mas não eliminava as heranças colo- niais que geravam as desigualdades na sociedade brasileira. Nesse período uma corrente culturalista enfatizava o caráter pluriétnico da sociedade brasi- leira sem descartar as contribuições de outras cultu- ras, fora a euro-ocidental. Como fatores endógenos os autores citam a es- tratégia das elites brasileiras em construir uma pacto social, incentivando a propagação da cultura popu- lar. Sem dúvida, a estratégia surtiu efeito no desen- volvimento econômico, mas criou sérios obstáculos para a mobilização de grupos de forma autônoma que pudessem superar as diferenças sociais no país. A intervenção estatal, especialmente entre 1930 e 1945 fechou partidos políticos e enquadrou patrões e empregados numa política sindical. O Estado cria- va a sociedade, construindo um sentimento de brasi- lidade, impondo de cima para baixo uma identidade nacional. O Estado assumiu o controle da esfera cul- tural, servindo-se dela como canal de difusão de sua doutrina. Dessa maneira, foram consolidada os três pilares ideológicos da construção da unidade nacio- nal: a unidade lingüística, a hegemonia do catolicis- mo e a submissão da diversidade e das desigualda- des raciais a um modelo cultural dominante. Entretanto, nem tudo foi tão harmonioso. Reações contrárias ao projeto de unidade nacional surgiram nos movimentos populares, em particular nas orga- nizações negras que questionavam a suposta unida- de nacional. Grupos como a CNNB (Convenção Na- cional do Negro Brasileiro) foram criadas para interfe- rir na reforma constitucional de 1946 e tiveram cará- ter eminentemente político com o objetivo de aumen- tar o acesso a cidadania. Estabeleciam alianças táticas com outros grupos sem abrir mão das especificidades de suas reivindicações. Outros grupos foram criados como a Associação dos Negros Brasileiros (ANB) e o Comitê Democrático Afro-brasileiro (CDA) com o in- tuito de interferir no processo constituinte. Todos es- ses grupos concentravam sobretudo militantes cario- cas e paulistas, pois, de fato, essas cidades estavam na vanguarda dos movimentos populares. Todas essas mobilizações formaram a base para o desenvolvimento das idéias multiculturalistas no Brasil. Segundo os autores, as transformações cultu- rais pretendidas pelos afro-brasileiros tinham por objetivo educar o branco como forma de extirpar o sentimento de inferioridade do negro enraizado em nossa cultura. O trabalho desenvolvido por intelectuais não era isolado. Organizações que conservavam as tradições africanas (religiosas e artísticas) tem um papel decisi- vo para mostrar aos afro-brasileiros que eles são des- cendentes de culturas ancestrais exuberantes e que não precisam ter vergonha de suas origens. O movimento multicultural no Brasil, dentro dessa perspectiva étnica conservou, inovou e valorizou o patrimônio cultural afro-brasileiro. As alianças entre intelectuais, adeptos das religiões afro-brasileiras e artistas, propiciaram um cenário propício, para que, através da conscientização de práticas comunitárias tradicionais, se organizasse melhor os movimentos multiculturais no Brasil. Teatro Experimental do Negro: laboratório de novas subjetividades Os autores destacam o papel do Teatro Experi- mental do Negro (TEN) como projeto de vanguarda
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    62 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM de experiência educativa e de formação de militan- tes da causa negra no Brasil. Lembram que na história do cenário artístico e cultural entre 1940 e 1960 citam-se muitas vezes o teatro do oprimido, o teatro de arena, o cinema novo e outros gêneros, esquecendo-se quase por comple- to o TEN e suas relações com Nélson Rodrigues (que escreveu em 1946 “Anjo Negro” para o grupo) e das ligações com Augusto Boal. As experiências desse grupo serviram como importante “técnica social” de formação de líderes e para a tomada de consciência de afro-brasileiros. Pela primeira vez o grupo – que teve Abdias do Nascimento e Guerreiro Ramos como líderes – reivindicou publicamente compensações e facilidades de acesso as escolas e Universidades para os negros brasileiros. A aliança com intelectuais, especialmente bran- cos, visto que na década de cinqüenta menos de 1% dos professores das universidades eram negros, foi debatida exaustivamente por intermédio do Jornal Quilombo. Essa estratégia era vista como fundamen- tal, apesar de ser extremamente conflitiva em muitas ocasiões já que os intelectuais brancos deveriam colocar em cheque as próprias bases da produção de conhecimento de suas afamadas instituições. Um diálogo em branco e preto Os autores descrevem o debate envolvendo dois emitentes sociólogos, engajados na revisão da cultu- ra. Guerreiro Ramos – negro, criticava os estudos an- tropológicos e sociológicos feitos no Brasil que trata- vam o negro como “objeto” de estudo, tendo por ob- jetivo a domesticação dos sentidos e estando comple- tamente alienados da realidade dos negros. Para ele, apenas uma teoria da negritude, feita por negros po- deria superar os acentos nos aspectos exóticos e pito- rescos, feitos por estudiosos brasileiros que se com- portavam como se acabassem de ter chegado ao país. Roger Bastide – branco, batia-se frontalmente às posições de Guerreiro Ramos. Argumentava que raça e cultura eram coisas diferentes e que era possível ser africano sem ser negro. Para ele, para ser africa- no, era preciso estar aberto para incorporar sua cul- tura e, em seguida, ser aceito em seu mundo. Os autores sublinham que os debates não se cir- cunscreveram aos dois autores expostos acima e que embora as bases do multiculturalismo no Brasil te- nham sido fincadas pelos movimentos dos anos 50, elas inda não eram suficientes para produzir modifi- cações no “jogo de representações” onde se prolife- ravam imagens negativas dos negros brasileiros. Multiculturalismo e diversidade O Teatro Experimental do Negro teve forte in- fluência nos eventos culturais nos anos 70 e 80. Jo- vens negros partiriam dessa experiência para organi- zar uma série de encontros para refletir sobre a con- dição social do negro no Brasil. Movimentos como o MNU (Movimento Negro Unificado) propunham que o protesto racial fosse formulado em todos os meios onde o negro vive: partidos políticos, sindicatos, organizações religio- sas, bairros, comunidades e escolas. Um exemplo dessa mudança de estratégia são os “blocos afro” de Salvador que aliam a “tradição dos orixás” a protes- tos políticos e têm realizado experiências educacio- nais bem interessantes e surtido efeito na formação multicultural da sociedade. Poetas e escritores negros também tiveram im- portante papel na produção de uma literatura negra, fundamental para o combate multiculturalista. Os Cadernos Negros foram, talvez, um dos mais expres- sivos empreendimentos nesse sentido. A partir dos anos 80, o multiculturalismo foi co- locado na agenda dos próprios militantes do movi- mento negro que se deram conta de sua diversidade interna. Não formavam um grupo monolítico, mas abrigavam mulheres, homossexuais, jovens e mem- bros de religiões não necessariamente afro-brasilei- ras e que tinham suas especificidades. Cada qual começou a se destacar e reivindicar políticas públi- cas que defendessem seus interesses. Pode-se afirmar que nos últimos vinte anos a le- gislação brasileira se tornou um importante indutor de políticas públicas multiculturais, obtendo-se avan- ços como o reconhecimento de crime racial como inafiançável, pela constituição de 1988; o debate em torno da união civil entre pessoas do mesmo sexo e a proteção e divulgação da cultura de raiz africana. A década de 90 foi decisiva no campo da luta contra o racismo no Brasil. A “Marcha de Zumbi con- tra o Racismo e a Discriminação Racial” realizada em Brasília teve um estrondoso sucesso em mobili- zar entidades do movimento negro, organismos in- ternacionais e organizações defensoras dos diretos humanos. Um seminário, organizado pelo Ministério da Jus- tiça em Brasília reuniu celebridades nacionais e in- ternacionais do mundo acadêmico para discutir de- safios e impasses produzidos por políticas públicas voltadas para grupos discriminados racialmente. Pela primeira vez, o próprio chefe de estado brasileiro reconheceu que o Brasil era um país racista e a ne- cessidade do Estado promover políticas públicas de promoção social. Como resposta aos reclamos da “Terceira Confe- rência Mundial Contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerâncias Correlatas”, em 2001, em Durban, na África do Sul, o governo brasi- leiros criou o “Programa de Ações Afirmativas para homens e mulheres negros. Foram criadas cotas por raça em concursos públicos.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 63 SINPEEM A gestão federal de 1999 a 2002 esquivou-se da criação de cotas raciais nas universidades públicas, limitando-se à tentativa de melhoria da qualidade do ensino médio. A atual gestão federal criou a partir de 2003 a Secretaria Especial de Promoção da Igualdade Ra- cial e a Secretaria Especial de Políticas da Mulher, ambas com status de ministério. Dessa maneira criaram-se condições favoráveis para implementar políticas multiculturais no Brasil, especialmente com a promulgação da lei 10.639 que obriga a introdução de estudos de cultura e História da África e dos afro-descendentes em todos os níveis de ensino. Esforços têm sido feitos por universidades para se formarem educadores que dêem conta dessa nova demanda. Embora ainda seja cedo para avaliar os resulta- dos de tais iniciativas, os autores consideram que os alicerces estão postos para a implementação de uma educação multicultural no Brasil. Estudos Culturais e Pesquisa em Educação no Brasil Para concluir o volume os autores discorrem so- bre os obstáculos atuais para construir uma educa- ção multicultural no Brasil. Para efetivá-la são ne- cessárias duas condições básicas. Primeira: a educação multicultural não pode ser separada do contexto de luta dos grupos culturalmen- te dominados. No Brasil, esses movimentos não tem efetiva relação com os sistemas de ensino. Duas ex- periências são destacadas como bons exemplos: a educação indígena, que respaldada em dispositivo constitucional privilegia a formação de professores em várias nações indígenas. Outras experiências re- ferem-se a educação de jovens e crianças negras. No estado de São Paulo, a secretaria de educação intro- duziu nos currículos escolares a obrigatoriedade de temas pertinentes à cultura negra. Em Salvador, des- tacam-se as iniciativas de influentes grupos culturais. Em várias escolas brasileiras, em particular no sul do Brasil, o ensino bilíngue também tem se mostra- do uma importante ferramenta rumo à diversidade cultural. Já o caso de estudos em torno da questão femini- na, sem apelo étnico tem tido pouco destaque nos sistemas escolares. A segunda condição básica para a efetivação de políticas culturais é a produção acadêmica em torno de tema que possam dar sustentação aos projetos educacionais desenvolvidos pelos sistemas de ensi- no. Segundo levantamentos apresentados pelos au- tores, levando em consideração teses e dissertações, nos períodos 1981-1997 e 1998-2004, os estudos envolvendo educação e multiculturalismo são muito escassos no Brasil. Além de poucas, 90% concentra- vam-se no sul e sudeste, 60% nos estados de São Paulo e Rio Grande do Sul. Apesar de repercutirem pouco a pouco as deman- das sociais apresentadas às universidades brasileiras, esses números indicam o largo caminho a percorrer na formação de profissionais voltados para a proble- mática da educação multiculturalista em nosso país. Resumo realizado por Lourival dos Santos, dou- tor em História Social pela USP.
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    64 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM AVALIAÇÃO DESMISTIFICADA HADJI, Charles. Porto Alegre, Artmed, 2001 Este resumo terá como finalidade apresentar os aspectos relevantes de cada parte, a partir das pala- vras do próprio autor, considerando os conceitos de- senvolvidos ou explicitados por ele, bem como as articulações estabelecidas para justificar sua funda- mentação teórico-metodológica. Da utopia à realidade: seria finalmente possível passar à ação? A idéia de “aprendizagem assistida por avalia- ção”, uma avaliação capaz de compreender tanto a situação do aluno quanto de “medir” seu desempe- nho; fornecer-lhe indicações esclarecedoras, mais do que oprimi-lo com recriminações; preparar a opera- cionalização das ferramentas do êxito, mais do que resignar a ser apenas um termômetro (instrumento) do fracasso; uma avaliação que se consagre à regu- lação das aprendizagens, capaz de orientar o aluno para que o próprio possa situar suas dificuldades, analisá-las e descobrir ou operacionalizar os proce- dimentos que lhe permitam progredir. Assim, o erro seria uma fonte de informação tanto para o professor como para o aluno. O que está em jogo é a existên- cia de uma atividade autônoma de avaliação. 1ª parte: COMPREENDER que a avaliação formativa não passa de uma “utopia promissora” A questão da avaliação é multidimensional. A avaliação a serviço das aprendizagens pressupõe o princípio de que avaliar deve tornar-se auxiliar do aprender. O que é ensinar senão ajudar os alunos a construir saberes e competências que a “freqüência” às disciplinas escolares apela e cuja construção per- mite? A avaliação tem o objetivo de contribuir para o êxito do ensino, para a construção desses saberes e competências pelos alunos. O que parece legítimo esperar do ato de avaliação depende da significação essencial do ato de ensinar. - Avaliação de referência normativa, avaliação de referência criteriada: toda avaliação socialmente or- ganizada, anunciada e executada como tal dentro de uma instituição é normativa. A norma, em si, não é nem subjugante nem liberadora. No sentido social, uma norma é um modelo de comportamento valori- zado por um grupo. No sentido estatístico, o compor- tamento mais corrente. É dita normativa uma avalia- ção cuja ambição é situar os indivíduos uns em rela- ção aos outros. A avaliação normativa opõe-se à ava- liação criteriada: designa-se por essa expressão uma avaliação que aprecia um comportamento, situando- o em relação a um alvo. Ou, tecnicamente, um modo de proceder em que se considera a distância em rela- ção aos outros antes de considerar a distância em re- lação ao alvo visado. Poder-se-ia pensar que, a priori, é mais formativa uma avaliação centrada em objeti- vos claramente definidos. Parece-nos certo que a per- cepção correta, pelo aluno, do alvo visado é uma das condições de seu êxito. A “formatividade” não reside na forma externa da atividade de avaliação. - Avaliações prognóstica, formativa e cumulati- va: 1) A avaliação precede a ação de formação. Ava- liação prognóstica (ou diagnóstica) tem a função de permitir um ajuste recíproco aprendiz/programa de estudos (seja pela modificação do programa, que será adaptado aos aprendizes, seja pela orientação dos aprendizes para subsistemas de formação mais adap- tados a seus conhecimentos e competências. 2) A avaliação ocorre depois da ação. Avaliação cumula- tiva tem a função de verificar se as aquisições visa- das pela formação foram feitas, para expedir ou não o “certificado” de formação no final. 3) A avaliação situa-se no centro da ação de formação. Formativa, porque sua função principal é contribuir para uma boa regulação da atividade de ensino. Toda avalia- ção tem uma dimensão cumulativa. Deveria ter, tam- bém, uma dimensão prognostica no sentido de con- duzir a um melhor ajuste ensino/aprendizagem. - Avaliação formativa como utopia promissora: É uma avaliação informativa. a) Torna-se formativa na medida em que se inscreve em um projeto educa- tivo específico, o de favorecer o desenvolvimento da- quele que aprende. A partir do momento em que in- forma, ela é formativa. b) Uma avaliação formativa informa os dois principais atores do processo. O pro- fessor seria informado dos efeitos reais de seu traba- lho pedagógico. O aluno poderá tomar consciência das dificuldades que encontra, tornando-se capaz de reconhecer e corrigir os próprios erros. c) Função “corretiva”. A avaliação formativa implica, por parte do professor, flexibilidade e vontade de adaptação, provocando o aumento da variabilidade didática. O ato de formação se traduz por uma melhor articula- ção entre a coleta de informações e a ação remedi- adora. Sintetizando, a idéia de avaliação formativa corresponde ao modelo ideal de uma avaliação. - Os obstáculos à emergência de uma avaliação formativa: a) A primeira maneira de deixar de lado as representações inadequadas é voltar-se para o sa- ber sem esperar milagres da difusão desse saber. b) Necessário voltar-se para o saber para superar um
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 65 SINPEEM segundo obstáculo constituído pela pobreza atual dos saberes necessários, pois a EVF implica trabalho de interpretação das informações coletadas. Exige, “a princípio”, poder “referir-se a um quadro teórico que dê conta dos múltiplos aspectos (cognitivo, afetivo, social) das aprendizagens”. c) O terceiro obstáculo é a preguiça, ou o medo, dos professores, que não ousam imaginar remediações. Resumindo, a avaliação formativa não é nem um modelo científico, nem um modelo de ação direta- mente operatório. Não é mais do que uma utopia promissora, capaz de orientar o trabalho dos profes- sores no sentido de uma prática avaliativa colocada a serviço das aprendizagens. 2 - COMPREENDER que avaliar não é medir, mas confrontar em um processo de negociação: A avaliação não é uma medida. A prova pela notação. - A impossível reforma do instrumento-avaliador: é inútil insistir em tornar a avaliação tão objetiva quanto uma medida, razão pela qual todos os proce- dimentos de redução de divergências das notas re- velam-se pouco eficazes. a) a maior parte não passa de procedimentos de moderação estatística, atenu- ando os efeitos mais visíveis da incerteza da corre- ção. b) os procedimentos a priori (acordo entre cor- retores, tabela comum) também não são muito efica- zes quando se trata da operacionalização de uma tabela, da qual se podia esperar muito. Assim, a progressão para a objetividade depende de uma especificação do objeto da avaliação, de maneira a relacionar coerentemente o objeto avalia- do e o exercício de avaliação. Para isso, será preciso construir, no ato da avaliação, o objeto de avaliação. - Avaliação é um ato que se inscreve em um pro- cesso geral de comunicação / negociação, é “uma interação, uma troca, uma negociação entre um ava- liador e um avaliado, sobre um objeto particular e em um ambiente social dado”(Weiss). As práticas ava- liativas apresentam-se como trocas de questões e de respostas, no decorrer das quais se instaura um certo número de mal-entendidos sobre, no que diz respei- to ao aluno, o sentido das questões e sobre o que o professor espera. Para o aluno pode ser difícil distin- guir os momentos de aprendizagem e os momentos de avaliação. Dessa forma, o erro é permitido no pri- meiro caso. Sancionado no segundo. Os processos psicossociais complexos postos em jogo pela avalia- ção dependem também das condições sociais da pró- pria prova de avaliação. Os alunos têm comporta- mentos diferentes em situação de anonimato ou de visibilidade; e seus desempenhos também mudam se estiverem em situação de comparação social (de- clara-se que todos têm o mesmo nível ou diferentes). Conclui-se: “os desempenhos cognitivos não são independentes das condições sociais”. O aluno deve interpretar a situação de avaliação para imaginar a intenção provável daquele que o interroga. Seu de- sempenho depende dessa interpretação. - A percepção que o examinador tem do desem- penho é igualmente dependente do contexto social – A avaliação é sempre influenciada pela conside- ração de informações a pirori: a) o conhecimento das notas anteriormente obtidas pelo produtor do trabalho influencia a avaliação deste; b) o conheci- mento do estatuto escolar do aluno (nível forte, fra- co) influencia a correção; c) a posse de informações referentes à origem socioeconômica do produtor do trabalho também influencia a correção. - avaliação escolar traduz arranjos em uma di- nâmica de negociações: é um ato de comunicação em um contexto social de negociação; inscreve-se em um processo de negociação didática. Negocia- ção e comunicação andam juntas. O que a avalia- ção escolar precisa para progredir (mais justiça e ob- jetividade) é de um “contrato social”. - A AVALIAÇÃO é um ato de entre uma situação real e expectativas referentes a essa situação: é uma leitura influenciada por expectativas específicas re- ferentes à produção de um produtor particular, em função do que se sabe, ou do que se descobre, pro- gressivamente, sobre ele. Avaliar um trabalho con- siste em dizer o que ele vale, dar uma nota. Mas, deve-se observar que essa atribuição de valor pode assumir a forma de um discurso(é bom; ele é muito bom), de um sorriso… ou de uma careta. Resumindo: todo julgamento de avaliação é ins- titucional. Existe uma equivocidade dos vereditos. Ela não é uma operação científica; expressa a adequa- ção ou não com saber. - a avaliação é uma leitura orientada por uma grade que expressa um sistema de expectativas jul- gadas legítimas, que constitui o referente da avalia- ção: é uma relação de não-indiferença com o objeto avaliado. Exige: a) a construção daquilo que foi de- signado como seu referente, ou seja, um conjunto de critérios especificando um sistema de expectati- vas. Cada critério define o que se julga poder esperar legitimamente do objeto avaliado. b) o que percebe- mos como caráter vago do objeto de avaliação tem sua origem, além da “espessura” e da opacidade do “objeto” avaliado, na imprecisão e no caráter vago das expectativas. A leitura se faz graças aos critérios, através deles. c) o ato de avaliar implica bem mais
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    66 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM do que objetividade ou verdade, um imperativo de legitimidade. d) o referente de cada operação de ava- liação deve ser construído a partir de um sistema plu- ral de expectativas, selecionando, escolhendo as ex- pectativas a considerar prioritariamente para deter- minada avaliação. - a avaliação é uma leitura que implica constru- ção de um “modelo reduzido” do objeto avaliado, que será o referente da avaliação: a) o indicador jamais é um dado imediato, que bastaria apanhar, abaixando-se. É sempre o resulta- do de um trabalho de elaboração, de construção, feito à luz dos critérios. Um indicador não indica nada que não esteja relacionado a um critério; b) é a coe- rência critérios/indicadores que importa. Nisso resi- de a objetividade que se pode esperar de um julga- mento de avaliação. Ele deve dizer o valor, basean- do-se nos sinais (indicadores) mais característicos da realidade (é preciso que os indicadores desvelem o próprio objeto), mas com referência às expectativas; c) Sendo o referido – aquilo a partir do que se pode- rá fazer o julgamento de valor – assim construído por meio de levantamento de indícios ou de indica- dores (pelo termo referido= conjunto de informação que foi possível produzir para a avaliação), o ato es- pecífico de avaliação, que leva à produção de um julgamento de valor, consiste em relacionar um refe- rido e um referente para dizer em que medida a rea- lidade apreendida por meio do referido esta de acor- do com o ideal que transparece no referente. 3 - COMPREENDER que é possível responder a três questões pertinentes: Deve –se abandonar toda pretensão à objetividade Quantitativa? 1ª Hipótese: a avaliação é um ato sincrético es- sencialmente baseado na intuição do avaliador. Os julgamentos dos professores, baseados em impres- sões cotidianas e que traduzem uma intuição glo- bal, prevêem melhor o êxito escolar do que os re- sultados cifrados fornecidos pelas provas aparente- mente mais rigorosas e objetivas. Como dar conta desse paradoxal valor prognóstico das apreciações “subjetivas” dos professores? a) os professores são aqueles que mais conhecem os seus alunos. Desse ponto de vista, há uma verdade da intuição, como se o professor dispusesse de um “sexto sentido” que lhe permitisse integrar informa- ções difusas (dimensão sincrética da avaliação) e dar- lhes sentido no contexto escolar e social próprio ao aluno; b) os professores são aqueles que mais conhe- cem o funcionamento do sistema escolar, assim como “as exigências escolares formais, as expectativas soci- ais dominantes, freqüentemente implícitas”; c) a ava- liação é um ato de correlação. Os professores correla- cionam as características, não somente escolares, mas também comportamentais e sociais dos alunos, com as expectativas do sistema escolar; d) se as avaliações qualitativas dos professores revelam-se mais confiá- veis do que as avaliações quantitativas dos especialis- tas, é porque a avaliação é um procedimento interati- vo e social; e) os professores têm a possibilidade de ajustar os resultados escolares às suas representações dos alunos, o que explica que os resultados obtidos nas diversas avaliações formais, virão coincidir com a imagem intuitiva que tinham feito. 2ª Hipótese: avaliação é um ato que tem mais a função de explicar do que descrever. O avaliador en- contra-se diante de dois riscos simétricos: 1º - reduzir a realidade e seu sentido, contentando-se com um único indicador; 2º - diluir esse saber em um número excessi- vo de indicadores, o que obscurece o essencial e não mais possibilita extrair o sentido das constatações fei- tas. Nos dois casos existe um terceiro risco que é o de tomar um indicador por um critério (ou de se satisfazer com critérios que não são senão indicadores). Conten- tar-se com indicadores equivale a estancar a reflexão prévia e agir como se ela tivesse sido feita. 3ª Hipótese: avaliar é fazer agir a descontinui- dade dos valores, não a continuidade das cifras. Avaliar significa dizer o valor, pronunciar-se sobre um aumento de valor, em nome de uma expectativa que só se legitima na medida em que ocorre sobre um aspecto do real que pode ser “lido” através de um valor. Medir consiste produzir um “descritivo or- ganizado” da realidade que se apreende e encerra em uma “cadeia quantitativa”. Avaliar consiste “que- brar a continuidade dessa cadeia”. A afirmação de que a avaliação é qualitativa equivale assim a uma chamada à ordem. O essencial é organizar-se para dizer se o fato aproxima-se do valor. Desse ponto de vista, para o avaliador, é um erro recusar-se a enun- ciar os valores em nome dos quais ele decide. Isso não acarreta uma recusa à quantificação. As cifras podem ser úteis… quando se sabe a que objetivo e a que valor elas remetem. Assim como a ausência de indicadores cifrados torna a avaliação incerta, o es- quecimento dos critérios torna-a impossível… - DEVE-SE recusar-se a julgar? Recusar o julga- mento parece excessivo: a) o ato avaliativo situa-se em um contexto de valorização. A escola já toma partido ao impor dados! À arbitrariedade do ato de imposição acrescenta-se, com efeito, a arbitrarie- dade do conteúdo imposto; b) se há avaliação há julgamento, na medida que todo objetivo implica valorização da ação; todo sentimento de êxito ou de fracasso relacionam-se a critérios caracterizados por sua pluralidade e por sua exterioridade em rela- ção aos dados simplesmente observáveis; a especi- ficidade do ato de avaliação é pronunciar-se sobre
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 67 SINPEEM uma situação real observada. Conclui-se que não é possível avaliar sem julgar, e o problema do avalia- dor é não se deixar levar por uma embriaguez judi- cial, e fornecer as informações que permitam ao aluno julgar com conhecimento de causa: conheci- mento das expectativas legítimas, do objetivo valo- rizado, de sua situação, de suas próprias modalida- des de funcionamento intelectual. - DEVE-SE… continuar a avaliar? Avaliação é ape- nas um auxiliar da ação pedagógica. O importante para os professores-avaliadores é ensinar, ajudar os alunos a progredirem em suas aprendizagens. Com a avaliação formadora, tudo se reordena em torno da atividade do aprendiz. A regulação externa cede lugar à auto-regulação. E a auto-avaliação torna-se chave do sistema. É a preocupação de facilitar as aprendizagens que lhe dá sentido e coerência: Con- cluiremos: a) o interesse da avaliação formadora é inegável. Sempre se ganhará privilegiando a auto- regulação, facilitando a apropriação pelo aluno dos critérios de realização e dos critérios de êxito; b) há nisso uma prática pedagógica bem mais do que uma de avaliação. Ela não é exclusiva e não poderia por um termo na busca de práticas pedagógicas sensatas e eficazes; c) no que diz respeito à atividade de ava- liação, a análise das tarefas é um fato importante, mas não é a totalidade dessa atividade. É preciso sa- ber como o processo de avaliação escolar pode se organizar de modo pertinente (em relação às suas intenções, e em coerência com o que a pesquisa ensinou). Ainda que avaliar não seja medir, e que não haja, em última hipótese, a avaliação senão qualitativa,é possível, com a condição de não come- ter o erro que consiste em acreditar que basta obser- var o real para avaliar, buscar uma maior objetivida- de, no que tange ao referido, na consideração de dados quantificáveis. Embora a avaliação, sobretu- do com intenção formativa, deva imperativamente tornar-se informativa, ela só existe com a condição de se pronunciar sobre a adequação da realidade às expectativas. Embora o essencial, para uma avalia- ção com intenção formativa, seja integrar-se em pro- cesso pedagógico, o ato de avaliação não deixa de permanecer autônomo e necessário, necessário em sua autonomia. 2ª parte: AGIR – Guia metodológico para tornar a avaliação mais formativa Dos pontos de vista: 1) dos objetivos da prática avaliativa, compreendemos que se deva privilegiar a auto-regulação; desvincular, na medida do possível, o escolar do social; pela designação e pela explicita- ção do que se espera construir e desenvolver do en- sino; de maneira que o aluno perceba o “alvo” visa- do; aproprie-se tanto dos critérios de realização quan- to dos critérios de êxito… e esteja em condições de julgar sua situação com conhecimento de causa; tor- nando-se o professore capaz de fundamentar as re- mediações feitas sobre os diagnósticos elaborados; diversificar sua prática pedagógica, por meio de um aumento de sua “variabilidade didática”. 2) das mo- dalidades da prática avaliativa, compreendemos que o professor não devia autolimitar sua criatividade e sua imaginação; que devia ter a preocupação de fa- lar “correta” e pertinentemente; privilegiando a ava- liação em segunda ou até em primeira pessoa. 3) das condições técnicas da avaliação, compreendemos que se trata de relacionar de maneira coerente o exer- cício de avaliação ao objeto avaliado; de explicitar os exercícios; de especificar o sistema de expectati- vas e os critérios; de não se afogar em um mar de observáveis, ampliando, entretanto, o campo das observações a fim de tornar a avaliação mais infor- mativa. 4) da deontologia do trabalho do avaliador, compreendemos que tem o dever de jamais se pro- nunciar levianamente; de construir um “contrato so- cial”, fixando as regras do jogo; de despender tempo para refletir e identificar o que julgava poder esperar dos alunos; de desconfiar do que parece ser eviden- te; de enunciar os valores em nome dos quais se to- mava decisões (transparência); de não se deixar le- var por uma embriaguez judiciária. Condições do professor para avaliar: 1ª - Ter sempre o objetivo de esclarecer os atores do processo de aprendizagem; 2ª - Recusar limitar-se a uma única maneira de agir, a práticas estereotipadas; 3ª - Tornar os dispositivos transparentes; 4ª - Desconfiar dos entusiasmos e dos abusos de poder. 4 - AGIR DESENCADEANDO DE MANEIRA ADEQUADA - A questão do dispositivo: a) para o profissional em atividade, avaliar significa escolher exercícios, provas, aos quais submeter os alunos. Interroga-se como apreciar os conhecimentos: avaliação oral ou escrita? Construir um dispositivo de avaliação con- siste em determinar condições. Trata-se de dizer so- bre o que será a avaliação, quando ocorrerá, o tem- po que lhe será concedido, as tarefas que o aluno deverá realizar, o tipo de atuação que será levado em conta, o suporte privilegiado (escrita ou fala) etc. b) Levantar a questão do dispositivo não nos afas- ta do problema da construção do referente. O disposi- tivo é constituído pelo exercício de avaliação: o pro- blema a resolver; o tema da dissertação etc. Como escolher pertinentemente esses exercícios? Uma ma- neira de fazê-lo é buscar um banco de instrumentos. A escolha dos exercícios é o último momento
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    68 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM de um processo que poderíamos resumir em qua- tro regras: 1ª - Determinar as questões que devem ser res- pondidas por meio da avaliação; 2ª - Determinar, eventualmente, decisões que podem ser tomadas após a avaliação; 3ª - Estabelecer os espaços de observação; 4ª - Escolher, enfim, os instrumentos de coleta de dados. - A necessária articulação objeto-exercícios. De quatro exemplos de procedimentos que terminam pela construção de exercícios/desencadeadores, podemos reter que: a) o essencial é situar-se em um procedi- mento que vai das intenções (objetivos) aos instrumen- tos. Somente no âmbito de tal conduta os exercícios poderão encontrar sua validade ou sua pertinência; b) nessa linha de conduta, uma tarefa fundamental (critério de realização da construção do desencadea- dor) é determinar os comportamentos que se deverá observar em função dos objetivos perseguido no pla- no pedagógico. São esses comportamentos que deter- minam os “espaços de observação”, quer sejam de- signados como grandes tipos de atividades ou capaci- dades, atividades observáveis, competência a revelar ou competências requeridas; c) a preocupação cons- tante é a de articular os exercícios de avaliação ao objeto avaliado; d) Essa conduta pode ser realizada de modo solitário; mas pode ser mais fecunda se exe- cutada na base de um grupo de trabalho como lugar de trocas, distanciamento e de confronto; e) a escolha do que será observado dependerá das expectativas referentes aos alunos. Os procedimentos ou métodos supracitados trazem respostas operatórias à questão da construção do referente, em uma perspectiva didá- tica (dos conteúdos do ensino aos objetos a avaliar). - A tarefa, como desencadeador privilegiado: uma tarefa é um trabalho determinado, com vistas a um produto final que constitui um objeto que tem sua própria consistência. Analisar a tarefa é eviden- ciar o que se poderia chamar de sua arquitetura, em torno de quatro dimensões fundamentais: a) O alvo ou objetivo da tarefa corresponde ao produto alme- jado. Essa produção será o resultado material da ati- vidade desenvolvida pelo sujeito; b) os critérios de realização ou procedimentos das tarefas, que repre- sentam as ações ou operações constitutivas de cada tarefa escolar específica. Por isso, são designados como “regras” a respeitar, procedimentos fixos e ca- racterísticos, conjunto de atos concretos almejados, invariantes constitutivas; c) os critérios de êxito fi- xam limiares de aceitabilidade para os resultados das operações que correspondem aos critérios de realiza- ção; d) as condições de realização constituem a últi- ma série dos elementos em jogo na base de orienta- ção. Podem distinguir condições externas (tempo con- cedido; trabalho individual ou grupo etc.) e internas (conhecimentos mobilizados etc.). A ficha da tarefa deverá esclarecer as condições externas. Cabe ao alu- no conduzir a análise das condições internas (e ao professor, tê-lo treinado para fazer tal análise!). Existe um risco do ponto de vista da aprendiza- gem e da avaliação: uma fixação sobre as tarefas poderia levar a aceitar, como evidente, as tarefas es- colares tradicionais; e perder seu sentido na rotina da atividade escolar e não passar de uma tarefa for- mal. Há a necessidade de buscar tarefas cada vez mais pertinentes e rumo a tarefas cada vez mais com- plexas, definidas por meio de quatro características: pluralidade das habilidades requeridas; autonomia de resposta deixada ao indivíduo; multidimensiona- lidade; variabilidade. A avaliação de uma tarefa complexa deverá atentar para a definição de seus objetivos; determinação de critérios de realização claramente identificáveis e ex- plicitados;determinaçãodeespaçosdeobservaçãocuja pluralidade corresponda àquela das dimensões da ta- refa; operacionalização de uma estratégia de avaliação que permita observar o aprendiz em várias situações que podem corresponder à “competência geral”. 5 - AGIR observando/interpretando de maneira pertinente O exame das dificuldades e dos limites inerentes à tarefa de observar vai permitir que compreenda- mos melhor como se pode superar a dificuldade cons- tituída pelo intricamento das duas. - A tensão observável/inobservável: o desempe- nho jamais é um indicador claro da competência, que é sempre inferida. Todo o problema é encontrar os observáveis capazes de “manifestar” a competência da maneira menos ambígua. Como não tem solução imediata, distinguem-se níveis de avaliação baseada na existência de níveis de competência: 1º é aquele dos comportamentos esperados; 2º dos procedimen- tos utilizados pelos alunos na execução da tarefa; um 3º nível é o das representações e dos processos. - O problema da análise dos erros: deve-se defi- nir quais informações será pertinente reter, com a necessidade de um bom acordo quantidade/quali- dade. Seria mais satisfatório substituir o sistema bi- nário (acerto/erro) por um sistema de codificação compreendendo as categorias seguintes: resposta exata; resposta parcialmente exata; resposta pouco exata; reposta inexata; ausência de resposta? Por um lado, em caso de resposta não prevista nas instruções, o professor “saberá interpretar”. Por outro, o essencial é poder determinar tipos de erro. O desafio é passar da questão “quantos erros?” à questão “que tipo de erros?”. O essencial é ter vontade de compreender os
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 69 SINPEEM erros para criar as condições de sua superação. - Facilitar um procedimento de auto-avaliação: o primado da auto-avaliação não é, na verdade, se- não a expressão de uma dupla vontade: 1ª) a vonta- de de privilegiar a regulação da ação de aprendiza- gem, em relação à constatação dos efeitos produzi- dos por essa ação ( perspectivas dinâmica e pedagó- gica); 2ª) A vontade de desenvolver atividades de metacognição. Por meio desse processo, o sujeito toma distancia em relação aos conteúdos envolvi- dos pelas atividades cognitivas em andamento. A metacognição é sinônimo de atividade de autocon- trole refletido das ações e condutas do sujeito que aprende. Implica uma tomada de consciência, pelo sujeito, de seu próprio funcionamento. Por meio da auto-avaliação, é visado exatamente o desenvolvimen- to das atividades de tipo cognitivo, como forma de uma melhoria da regulação das aprendizagens, pelo aumento do autocontrole e da diminuição da regula- ção externa do professor. Em resumo, poder-se-ia dis- tinguir, do próprio ponto de vista da auto-avaliação, quatro atividades que correspondem (a grosso modo) a quatro momentos na “construção” da auto-avalia- ção como “habilidade”, conforme esquema: autocontrole espontâneo ou regulação cognitiva implícita autonotação autobalanço autocontrole crítico regulação autoconstatação instrumentalizado metacognitiva auto-regulação Os instrumentos de auto-avaliação não terão o mesmo sentido e não produzirão os mesmos efeitos, conforme seu lugar nos diferentes momentos desse processo de construção de auto-avaliação como ha- bilidade. 6 – AGIR, comunicando de modo útil - Algumas pistas para uma comunicação mais for- mativa: é saber captar as reações dos alunos, suas questões sobre o sentido e o alcance do que foi dito pelo avaliador, seus pedidos de explicação sobre as apreciações e notas. Organizar o feedback, institucio- nalizando momentos de trocas e de questionamentos sobre as “avaliações” do professor. Uma grade de ques- tionamento bastante operatória para o professor: - A quem se dirige precisamente minha mensa- gem? Ela é suficientemente explicita? - O código escolhido (nota cifrada, apreciação) é plenamente acessível ao aluno receptor? - Estabeleci as possibilidades necessárias de “fe- edback” para estar certo de que a mensagem foi com- preendida? - Comunicação, Deontologia, Ética à Como cons- truir a ética do “agir avaliacional”? Observando que o ato de avaliação é um ato de posicionamento, no sen- tido de: tomada de posição sobre. Desse ponto de vis- ta, avaliar é, talvez o mais primitivo ato da mente hu- mana. Para avaliar, é preciso ter a sensação de que as coisas valem.O ato de avaliação implica uma relação não indiferente com o mundo, pois capaz de corres- ponder, ou não, a expectativas valorizadas. As situa- ções são “lidas” através de um projeto (em pedagogia: o projeto de instruir) que as atravessa e lhes dá senti- do. O avaliador não pode ser neutro ou ausente. Ele toma partido (sobre a satisfação de suas expectativas). Uma ética da fala avaliativa leva ao princípio de ação que pode ser assim resumido: assumir o risco de falar verdadeiramente, dando um verdadeiro con- teúdo à comunicação. A ética é a busca de imperati- vos categóricos que expressem regras necessárias, que valham universalmente, quaisquer que sejam as circunstâncias. Propomos um método simples para conduzi-la: fazer incessantemente a pergunta: “E por que?” Princípios surgirão então: 1º) princípios de or- dem ética - deve-se fazer o que se revela eficaz em um campo de exercício profissional determinado. E por quê? Porque uma ação deve atingir seus objeti- vos; 2º) princípios de ordem deontológica - etimolo- gicamente, a ciência dos deveres. Deve-se fazer o que é considerado legítimo em uma comunidade de ação determinada. E por quê? Porque é razoável e prudente respeitar as regras morais que formam con- senso em um determinado campo de atividade, em dado momento. A deontologia definirá os compor- tamentos que se impõem e aqueles que devem ser proscritos; 3º) princípios de ordem ética - A máxima será enfim: deve-se fazer o que se impõe como um dever absoluto, por referência a um fim absoluto. Deixando a cada um o cuidado de realizar esse trabalho, daremos um único exemplo: - Risco fundamental: abusar de sua posição su- perior (humilhar o avaliado); - “Remédio” de ordem técnica: tornar seus dispo- sitivos transparentes (aumenta eficácia da avaliação; - “Remédio” de ordem deontológica: recusar-se a avaliar em um contexto de relação de forças; - “Remédio” de ordem ética: somente aceitar exer- cer seu poder de avaliador se ele contribuir para que o avaliado assuma o poder sobre si mesmo (o desen- volvimento de um sujeito autônomo e senhor de si é o fim “absoluto” de um trabalho de tipo educativo). 7 - AGIR remediando de modo eficaz - Remediação, como ato pedagógico: a remedia- ção não é uma atividade de ordem avaliativa, mas pedagógica. Em sua análise do processo de formação, Marcel Lesne distingue quatro grupos de elementos, que dizem respeito ao projeto, ao planejamento, ao
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    70 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM “processo pedagógico” e à regulação. Deste último, ele identifica a atividade de controle, de condução e de avaliação. O controle tende a manter a coerência entre objetivos e meios de ação, e de evolução das pessoas. A condução visa à manutenção da coerência entre o processo de formação e o contexto (a situa- ção). A Avaliação tem o objetivo de julgar a adequa- ção dos resultados ou efeitos aos objetivos. Quando se trata de regulação de atividades de aprendizagem, o encaminhamento (ajuste ou reo- rientação da ação) pode pertencer ao aluno (auto- controle, auto-regulação), ou ao professor (regula- ção externa). Porém, nos dois casos, a adaptação é um trabalho de ordem pedagógica e /ou dialéti- ca. A Avaliação situa-se na vertente feedback, quando este se traduz por um julgamento. É uma atividade explicitada pela avaliação, mas que es- capa à avaliação enquanto tal. Avaliar é informar- se para julgar. Remediar é ajustar a ação, apoian- do-se no feedback. Pode então haver: a) remediação sem avaliação prévia. O esquema é: feedback à remediação; b) remediação após avaliação, quando o julga- mento foi formulado e a ação se apóia sobre suas “conclusões”. O esquema é: (feedback à julgamen- to) à remediação. c) avaliação não seguida de remediação: é o caso da avaliação cumulativa. O esquema é: (feedback à julgamento) à nada. - Algumas referências para uma “remediação” eficaz: a) não se limitar a uma visão estreita da remediação; b) ter clara consciência dos eixos possíveis de ação; É preciso pensar seu trabalho de ensino como atividade de estruturação e de apoio a partir da ação de aprendizagem do aluno. Ainda que o problema da “remediação” nos faça sair da problemática da avaliação no sentido estrito, vê-se que a vontade de tornar a avaliação formativa passa por um melhor conhecimento e por um melhor acompanhamento do processo de aprendizagem. CONCLUINDO PROVISORIAMENTE - O que é, finalmente, avaliar? Não é medir um objeto, nem observar uma situação, nem pronunciar incisivamente julgamento de valor. É pronunciar-se, isto é, tomar partido, sobre a maneira como expecta- tivas são realizadas; ou seja, sobre a medida na qual uma situação real corresponde a uma situação dese- jada. Isso implica que se saiba o que se deve desejar (para pronunciar um julgamento sobre o valor, des- se ponto de vista, daquilo que existe); e que se ob- serve o real (será preciso coletar observáveis) no eixo do desejado. A Avaliação é uma operação de leitu- ra orientada da realidade. - Pode a avaliação ser objetiva? A avaliação es- colar efetua-se em um contexto social e inscreve-se em um processo geral de comunicação/negociação. O julgamento do ator-avaliador é então alterado por fatores sociais; sua história, suas representações, sua percepção do contexto. O objeto avaliado é ele pró- prio um ator social cujo comportamento reflete a in- fluência de fatores sociais de mesmo tipo. Isso quer dizer que a objetividade é impossível? Estritamente falando, sim. Todavia: a) nada impede que se tente delimitar melhor o objeto da avaliação fazendo o esforço de designá-lo, o que equivale a construí-lo, no eixo de uma “linha de coerência” objetivo (pedagógico)à objeto (a avaliar) à observáveis (a de- terminar); b)se tente neutralizar os vieses sociais, pro- gredindo para uma maior transparência pela deter- minação de um “contrato social”. - A avaliação é importante? Sim, - em seus efeitos: construção do destino escolar do aluno (êxito… ou fracasso); - em seu uso social dominante em situação de clas- se, como elemento chaves de negociação didática; - objetivamente, como momento forte em um pro- cesso de regulação. - Qual é, em avaliação, a utilidade da pesquisa? Para avaliar bem, é preciso primeiro avaliar, isto é, executar corretamente um ato conforme sua essên- cia, ao invés de aproveitar de sua ambigüidade (que o saber produzido pela pesquisa contribuiu para eli- minar) para fazer qualquer outra coisa (assumir seu apetite de poder, por exemplo). - A avaliação não deveria ser utilizada com pre- caução? Certamente. A avaliação pode revelar-se extremamente perigosa. Os remédios são técnicos (situar-se o mais próximo possível do ato de avalia- ção em sua essência), deontológicos e/ou éticos. A urgência é trabalhar para a emergência de uma ética do agir avaliacional. - A avaliação poderá (enfim) tornar-se formati- va? Será necessário que os professores dêem provas, antes de tido, de coragem. A coragem necessária para ousar falar, e “julgar”. Colocar o julgamento de ava- liação, que o aluno começa por sofrer, a serviço de uma dinâmica que lhe permitirá tornar-se ele pró- prio soberano, e não mais submeter, este é o desafio àqueles que desejam tornar a avaliação formativa. Resumo elaborado por Eliane Aguiar – Bacharel em Letras – FFLCH/USP e doutoranda em Educação- FEUSP.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 71 SINPEEM HARGREAVES, Andy. Porto Alegre, Artmed, 2004 Nesta obra, Hargreaves analisa o significado da expressão “sociedade do conhecimento” e suas im- plicações na vida dos professores da atualidade. Embora baseado em experiências norte-americanas e canadenses, as reflexões do autor têm repercus- sões mundiais, isto porque, a sociedade do conheci- mento depende das escolas como um todo para tor- nar-se uma sociedade aprendende criativa e solidá- ria. Ao longo de todo o livro o autor deixa claro que o futuro da transformação educacional deve basear- se em um pequeno número de políticas estratégicas, mas que com um poder de “alta alavancagem” e bem articuladas com redes de apoio serão responsáveis pela melhora na qualificação da prática docente. Introdução Vivemos em uma economia do conhecimento, em uma sociedade do conhecimento. As economias do conhecimento são estimuladas e movidas pela criatividade e pela inventividade, e as escolas da so- ciedade do conhecimento precisam gerar essas qua- lidades, caso contrário, seus povos e suas nações fi- carão para trás. As escolas de hoje servem e moldam um mundo no qual pode haver grandes oportunidades de me- lhorias econômicas se as pessoas puderem aprender a trabalhar de forma mais flexível, investir em sua segurança financeira futura, reciclar suas habilida- des, ir reencontrando seu lugar enquanto a econo- mia se transforma ao seu redor e valoriza o trabalho criativo e cooperativo. O mundo a que as escolas servem também se caracteriza por uma crescente instabilidade social. Mesmo assim, em lugar de esti- mular a criatividade e a inventividade, os sistemas educacionais se tornam cada vez mais obcecados com a imposição e a microgestão da uniformidade curricular. As escolas e os professores têm sido es- premidos na visão estreita dos resultados de provas, das metas de desempenho e das linhas de classifica- ção das escolas segundo os resultados de seus alu- nos. Em termos gerais, nossas escolas não estão pre- parando os jovens para bem trabalhar na economia do conhecimento nem para viver em uma sociedade civil fortalecida. Em vez de promover a criatividade econômica e a integração social, muitas escolas es- O ENSINO NA SOCIEDADE DO CONHECIMENTO: EDUCAÇÃO NA ERA DA INSEGURANÇA tão se enredando na regulamentação de rotinas da padronização insensível. Como alternativa, podemos promover um siste- ma educacional de alto investimento e alta capaci- dade, no qual professores extremamente qualifica- dos sejam capazes de gerar criatividade e inventivi- dade entre seus alunos, experimentando, eles pró- prios, essa criatividade e a flexibilidade na forma como são tratados e qualificados como profissionais da sociedade do conhecimento. Nesse segundo ce- nário, o ensino e os professores irão muito além das tarefas técnicas de produzir resultados aceitáveis nas provas, chegando a buscar o ensino como, mais uma vez, uma missão social que molda a vida e transfor- ma o mundo. Neste novo sistema, os professores devem assumir novamente seu lugar entre os inte- lectuais mais respeitados da sociedade, indo além do âmbito da sala de aula, para tornarem-se, e pre- parar seus alunos para serem, cidadãos do mundo. Eles devem fazer o melhor que podem para garantir que os estudantes promovam os bens privados da economia do conhecimento e que prosperem a par- tir deles. Também deverão ajudá-los a se compro- meter com os bens públicos vitais, dos quais os in- teresses empresariais da economia do conhecimento não são capazes de tomar conta: uma sociedade civil fortalecida e vigorosa, desenvolvendo o cará- ter que promove o envolvimento da comunidade e o cultivo das disposições de simpatia e cuidado para com as pessoas de outras nações e culturas, as quais são o coração da identidade cosmopolita. Esses são os desafios enfrentados por professores na sociedade do conhecimento atual e que repre- sentam o foco deste livro, que trata do mundo em transformação, bem como do trabalho do ensino, também este em transformação. Desta forma, a expressão mais adequada para o título deste livro seria “sociedade de aprendizagem”, entretanto, o título original se mantém em função de sua utili- zação ampla e aceitabilidade. Na sociedade do conhecimento, a riqueza e a prosperidade dependem da capacidade das pessoas de superar seus concorrentes em criação e astúcia, sintonizar-se com os desejos e demandas do merca- do consumidor e mudar de emprego ou desenvolver novas habilidades à medida que as flutuações e os momentos de declínio econômico assim o exigirem. Desta forma, ensinar na sociedade do conhecimento
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    72 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM envolve o cultivo dessas capacidades nos jovens, o desenvolvimento da aprendizagem cognitiva profun- da, da criatividade e da inventividade entre os estu- dantes, a utilização da pesquisa, o trabalho em re- des e equipes, a busca de aprendizagem profissio- nal contínua como professores e a promoção da solução de problemas, da disposição de correr ris- cos, da confiança nos processos cooperativos, da capacidade de lidar com a mudança e do compro- misso com a melhoria contínua das organizações. I – O ensino para a sociedade do conhecimento: educar para a inventividade A Profissão paradoxal Ensinar é uma profissão paradoxal. Entre todos os trabalhos que são, ou aspiram a ser profissões, apenas do ensino se espera que gere as habilidades e as capacidades humanas que possibilitarão a in- divíduos e organizações sobreviver e ter êxito na sociedade do conhecimento dos dias de hoje. Dos professores, mais do que de qualquer outra pessoa, espera-se que construam comunidades de aprendi- zagem, criem a sociedade do conhecimento e de- senvolvam capacidades para a inovação, a flexibi- lidade e o compromisso com a transformação, es- senciais à prosperidade econômica. Ao mesmo tempo, os professores também devem mitigar e combater muitos dos imensos problemas criados pelas sociedades do conhecimento, tais como o consumismo excessivo, a perda da comunidade e o distanciamento crescente entre ricos e pobres; de alguma forma devem tentar atingir simultaneamen- te esses objetivos aparentemente contraditórios. Aí reside o paradoxo profissional. Enquanto isso, os gastos, bem como a educação e o bem-estar públicos, foram as primeiras baixas do Estado enxuto que as economias do conhecimento têm exigido. Os salários e as condições de trabalho dos professores têm estado entre os itens mais caros no topo da lista de baixas do serviço público. A pro- fissão, classificada como importante para a socieda- de do conhecimento, tem sido desvalorizada por tan- tos grupos, com mais e mais pessoas querendo dei- xá-la, cada vez menos querendo se juntar a ela, e muito poucas desejando assumir sua liderança. Isso, mais do que um paradoxo, representa uma crise de proporções perturbadoras. Sendo assim, os professores de hoje se encon- tram presos em um triângulo de interesses e impera- tivos conflitantes: ser catalisadores da sociedade do conhecimento e de toda a oportunidade e prosperi- dade que ela promete trazer; ser contrapontos a ela e à suas ameaças à inclusão, à segurança e à vida pú- blica; ser baixas dessa sociedade do conhecimento em um mundo onde as crescentes expectativas com relação à educação estão sendo respondidas com soluções padronizadas, fornecidas a custos mínimos. Essas três forças, suas interações e seus efeitos estão moldando a natureza do ensino, aquilo que significa ser um professor, e a própria viabilidade da ativida- de, como profissão, na sociedade do conhecimento. Antes da Sociedade do conhecimento Desde o surgimento da educação escolar com- pulsória e de sua difusão pelo mundo, espera-se que a educação pública salve a sociedade. As expectati- vas em relação à educação pública sempre foram altas, mas nunca se expressaram da mesma forma. Nos 30 anos posteriores à Segunda Guerra Mundial, a educação nas principais economias do mundo foi vista amplamente como um investimento em capital humano, no desenvolvimento científico e tecnológi- co, em um compromisso com o progresso. Mas em termos práticos, pouco foi feito para transformar a natureza fundamental da educação oferecida ou a forma como os professores lecionavam. Foram pou- cas as inovações que duraram por muito tempo, e a retórica da mudança em sala de aula geralmente so- brepujava a realidade. Para além de toda autonomia, tentativas de inovação e expansão educacional, per- maneceram uma “gramática” básica de ensino e aprendizagem em que a maioria dos professores le- cionava de forma como se havia feito por gerações, na frente da sala, por meio de aulas expositivas, tra- balhos para serem realizados por alunos sentados e métodos de perguntas e resposta, com aulas separa- das para crianças da mesma idade, avaliadas por métodos escritos padronizados. A crise do petróleo de 1973 e o colapso da eco- nomia keynesiana puseram fim aos pressupostos edu- cacionais otimistas em muitas economias desenvol- vidas do Ocidente. A educação passou subitamente a ser o problema, e não a solução. Nas economias altamente endividadas, os estados de bem-estar so- cial começaram a entrar em colapso e, com eles, os recursos para a educação. As nações ocidentais se voltaram para dentro, e muitas delas perderam a con- fiança, visto que foram eclipsadas pelas economias dos “tigres” asiáticos. Nesse meio tempo, os perfis demográficos se inverteram, as populações dos alu- nos encolheram e os professores perderam sua atra- tividade no mercado e seu poder de barganha e gran- de parte da força de trabalho remanescente no ensi- no começou a envelhecer. No final da década de 80 os governos começa- ram a vincular mais intimamente a educação aos negócios, ao trabalho, à ciência e à tecnologia. As estruturas foram reorganizadas, os recursos restringi- dos novamente e as políticas de opção de mercado e competição entre escolas começaram a proliferar. O controle curricular foi muitas vezes enrijecido em
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 73 SINPEEM alguns lugares, ligado à tarefa explícita de restabele- cer o orgulho da nação. Os professores passaram a ser responsabilizados pela maior parte dos proble- mas, por governos e pela mídia e as recém-estabele- cidas classificações de escola, segundo o desempe- nho escolar humilhavam os docentes por fracassa- rem com seus alunos. (geralmente os das comuni- dades mais pobres). Segundo alguns críticos, tais eventos foram medidas deliberadas, voltadas a tor- nar malvistos o ensino e as escolas públicas, estimu- lar muitos pais a financiar de forma privada a educa- ção de seus filhos e forçar à aposentadoria precoce de professores mais velhos e mais caros, que esta- vam impedindo a nova agenda da reforma. Um dos pretextos mais fortes para a reforma es- colar nas nações ocidentais foi a introdução das com- parações internacionais de exames. O milagre eco- nômico dos “tigres” e do Japão levou os formulado- res de políticas no Ocidente a supersimplificar e sin- gularizar as contribuições dos sistemas educacionais dessas sociedades para seu sucesso econômico. Os resultados internacionais de exames de matemática e ciências provocaram ansiedade pública e deram munição para que muitos governos ocidentais refor- mulassem os sistemas educacionais, o que levou a maior padronização e microgestão do ensino e da aprendizagem por meio de sistemas mais rígidos de inspeção, pagamento de acordo com desempenho e reformas curriculares prescritas minuciosamente, que reduziram em muito a latitude das decisões pedagó- gicas dos professores. Lucrando a partir da sociedade do conhecimento Nessa sociedade em constante transformação e autocriação, o conhecimento é um recurso flexível, fluido, em processo de expansão e mudança inces- sante. Na economia do conhecimento, as pessoas não apenas evocam e utilizam o conhecimento “es- pecializado” externo, das universidades e de outras fontes, mas conhecimento, criatividade e inventivi- dade são intrínsecos a tudo o que elas fazem. O co- nhecimento não é apenas um apoio para o trabalho e a produção, mas sim a forma fundamental do pró- prio trabalho e da própria produção, visto que mais e mais pessoas instruídas trabalham nos campos das idéias, da comunicação, das vendas, do marketing, da acessória, da consultoria, do turismo, da organi- zação de eventos e assim por diante. Assim sendo, a sociedade do conhecimento tem três dimensões. Em primeiro lugar, engloba uma es- fera científica, técnica e educacional ampliada; em segundo, envolve formas complexas de processamen- to e circulação de conhecimento e informações em uma economia baseada nos serviços; em terceiro lu- gar, implica transformações básicas da forma como as organizações empresariais funcionam de modo a poder promover a inovação contínua em produtos e serviços, criando sistemas, equipes e culturas que maximizem a oportunidade para a aprendizagem mútua e espontânea. O segundo e o terceiro aspec- tos dependem de se ter uma infra-estrutura sofistica- da de tecnologia de informação e comunicação que torne toda essa aprendizagem mais rápida e mais fa- cial. A chave para uma economia do conhecimento forte, entretanto, não é apenas as pessoas poderem acessar a informação, mas também o quão bem elas conseguem processar essa mesma informação. Desenvolvendo a sociedade do conhecimento A sociedade do conhecimento é uma sociedade de aprendizagem. O sucesso econômico e uma cul- tura de inovação contínua dependem da capacida- de dos trabalhadores de se manter aprendendo acer- ca de si próprios e uns com os outros. Uma econo- mia do conhecimento não funciona a partir da força das máquinas, mas a partir da força do cérebro, do poder de pensar, aprender e inovar. As escolas e os professores não podem e nem de- vem renunciar a suas responsabilidades de promover as oportunidades, o envolvimento e a inclusão dos jovens no mundo altamente especializado do conhe- cimento, da comunicação, da informação e da inova- ção. Todas as crianças devem ser preparadas para a sociedade do conhecimento e para a sua economia. Entretanto, a mudança não está em mais educação na forma atual. Salas de aula mais eficientes, que se con- centrem no ensino e na aprendizagem, em vez de dis- ciplina, mais tempo gasto em alfabetização e outros aspectos básicos, mais cursos de férias e aulas aos sá- bados para alunos que estão com dificuldades de aprendizagem, um dia de aula com mais horas, um ano escolar com mais dias: todas essas coisas ajudam a melhorar o desempenho dos alunos, mas apenas aquele desempenho já existente. Elas não transformam esse desempenho ao sujeitá-los a mais quantidade das estratégias que já existem. O ensino para a sociedade do conhecimento Como catalisadores das sociedades do conhe- cimento bem-sucedidas, os professores devem ser capazes de construir um tipo especial de profissio- nalismo, do qual os principais componentes são: promover a aprendizagem cognitiva profunda; aprender a ensinar por meio de maneiras pelas quais não foram ensinados; comprometer-se com apren- dizagem profissional contínua; trabalhar e apren- der em equipes de colegas; tratar os pais como par- ceiros na aprendizagem; desenvolver e elaborar a partir da inteligência coletiva; construir uma capa- cidade para a mudança e o risco e estimular a con- fiança nos processos.
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    74 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM O ensino para a sociedade do conhecimento atual é tecnicamente mais complexo e mais abrangente do que jamais foi e tem como referência uma base de pesquisa e experiências sobre o ensino eficaz, que está mudando e se ampliando. Novas abordagens à aprendizagem demandam novas abordagens ao en- sino. Entre elas estão um ensino que enfatize habili- dades de raciocínio de ordem mais elevada, a meta- cognição (a reflexão sobre o pensamento), aborda- gens construtivistas da aprendizagem e da compre- ensão, a aprendizagem baseada no cérebro, estraté- gias cooperativas de aprendizagem, inteligências múltiplas e diferentes “hábitos da mente”, empregan- do uma ampla gama de técnicas de avaliação e utili- zando a informática e outras tecnologias de informa- ção que capacitem os alunos para acessá-la de for- ma independente. Os professores de hoje, portanto, precisam estar comprometidos e permanentemente engajados na busca, no aprimoramento, no auto- acompanhamento, na análise de sua própria apren- dizagem profissional e análise de seu relacionamen- to com os pais. Além de tais aspectos, cabe ao professor dessa nova sociedade um alto grau do que Daniel Gole- man chamou de inteligência emocional. A inteli- gência emocional acrescenta valor à inteligência cognitiva, diferenciando líderes brilhantes daque- les que são simplesmente adequados. As cinco com- petências básicas que compõem a inteligência emo- cional são: conhecer e ser capaz de expressar as pró- prias emoções; ser capaz de criar empatia para com as emoções de outros; conseguir monitorar e regular as próprias emoções de forma que elas não saiam de controle; ter capacidade de motivar a si e aos outros; ter as habilidades sociais para colocar em ação as quatro primeiras competências. Em síntese, ensinar para a sociedade do conheci- mento estimula e floresce a partir de: criatividade, flexibilidade, solução de problemas, inventividade, inteligência coletiva, confiança profissional, disposi- ção para o risco e aperfeiçoamento permanente. II – O ensino para além da sociedade do conhecimento: do valor do dinheiro aos valores do bem A bolha dos mares do sul O autor cita alguns exemplos de empreendimen- tos financeiros com excesso especulativo (South Sea Company - 1711; febre ferroviária do século XIX e a explosão imobiliária do final da década de 1980) e os compara à revolução do conhecimento ou da in- formação do século XXI, afirmando que todos são “bolhas especulativas”. A bolha do conhecimento e da informação Todas as bolhas de investimentos acabam por explodir, com conseqüências dramáticas e, por ve- zes, cataclísmicas. Quando falamos sobre o futuro da sociedade do conhecimento, se não tivermos em mente e aprendermos a partir do que aconteceu a bolhas anteriores, seremos condenados a repetir a mesma tragédia histórica. No final da década de 1990, as possibilidades da nova sociedade do conhecimento se apresentaram ilimitadas. A sociedade da informação e a economia do conhecimento pareciam representar uma nova era de otimismo e oportunidade. Todos os indicativos apontavam para uma expansão massiva na tecnolo- gia da informação e do entretenimento. Contudo, com o passar dos anos, começaram a se instalar dúvidas de que o consumo galopante de novas tecnologias estivesse realmente melhorando as vidas ou os rela- cionamentos das pessoas. A sociedade do conheci- mento ameaça cada vez mais nos levar para um mundo que não oferece solidão nem comunidade. A utilização excessiva de computadores e outras tec- nologias também está sendo vinculada a taxas cres- centes de obesidade infantil e outros transtornos. Nos meses do novo século, a bolha da economia do co- nhecimento começou a explodir. O ano de 2000 foi o primeiro na história em que a venda de computa- dores caíram no mundo todo. Da informação à insegurança O dia 11 de setembro de 2001 foi uma data em que os norte-americanos compreenderam que nem todas as fronteiras de suas costas tampouco as ferra- mentas de vigilância tecnológica, ou seu poderio mi- litar poderiam tornar seu país inexpugnável em face da globalização do terror. A “América” deixara se ser apenas o gerador de mercados globalizadores de co- nhecimento e informações; era agora o alvo de um outro tipo de globalização que levou o mundo, em alguns minutos, da era otimista da informação para uma era de insegurança, tomada pela ansiedade. Diferentemente da incerteza e da complexida- de, a insegurança geral não é uma condição inevi- tável, mas uma opção política na sociedade do co- nhecimento. Fundamentos ou fundamentalismo O que está por detrás da violência de 11 de se- tembro é a “economia do lucro, sem sangue nas veias” na qual apenas os interesses das pessoas como consumidores privados são tratados abertamente, ao passo que suas preocupações como cidadãos, como partes do bem público, são postas de lado. É o que Benjamin Barber chamou de McMundo.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 75 SINPEEM O paradoxo da globalização é o fato de que ela e a homogeneização levam muitos daqueles que não podem compartilhar seus benefícios a se voltar para dentro, para a cultura, a religião e a etnicidade como fontes alternativas de sentido e identidade. A expres- são extrema dessa resposta é a jihad, termo islâmico que se refere à luta religiosa em nome da fé, contra os infiéis. Em sua manifestação política, significa a guerra sagrada em nome da identidade partidária metafisicamente definida e defendida de forma faná- tica. Ela surge no Islã, mas não é essencial a ele. Ainda assim, proporciona foco e direção àqueles que lutam contra o que consideram influências cultural- mente corruptoras dos valores de mercado ociden- tais, da modernização e da degradação moral. Comunidade e caráter A sociedade de alto risco de hoje em dia se ca- racteriza pelo perigo crescente da destruição terro- rista e da devastação ambiental em grande escala. Esses riscos também se estendem a nossas vidas pes- soais, nossas famílias e comunidades. Pais com so- brecarga de trabalho estão ocupados tentando se li- vrar da pobreza ou acompanhar o padrão dos vizi- nhos e concorrentes que têm pouco ou nenhum tem- po para seus filhos. Cada vez mais esses pais têm terceirizado seus filhos para outros cuidadores, re- duzindo seu próprio comprometimento de tempo e suas responsabilidades emocionais no processo. Nos sistemas escolares de nível médio que se baseiam nos resultados do desempenho à custa de relaciona- mentos, muitos adolescentes se encontram cada vez mais desligados da aprendizagem e alienados da so- ciedade conhecimento. A economia do conhecimen- to e o investimento que ela requer estão destruindo formas existentes de vida e de trabalho. Diante disso, um sistema forte de educação pú- blica não só é parte integrante de uma economia do conhecimento próspera, como também é vital para a proteção e o fortalecimento da democracia que constrói comunidade e desenvolve caráter. Hoje em dia, mais do que nunca, os professores devem ser não apenas catalizadores da economia do conheci- mento, como também seus contrapontos essenciais, construindo e preservando a democracia pública e comunitária que acompanha essa sociedade e tam- bém é ameaçada por ela. Cultivando o capital social Os professores que ensinam para além da socie- dade do conhecimento desenvolvem o capital inte- lectual de seus alunos, mas também seu capital so- cial, ou seja, a capacidade de estabelecer redes, for- jar relacionamentos e contribuir fazendo uso dos re- cursos humanos da comunidade e da sociedade como um todo. Francis Fukuyama define o capital social como um conjunto de valores e normas infor- mais compartilhados por membros de um grupo, que lhes permite cooperar entre si e que estabelece uma base de confiança. O capital social dá suporte à aprendizagem, alimenta-a, encontra uma forma de lhe dar vazão e propósito. Se os professores, as esco- las e as comunidades não o cultivarem, os alunos gerarão o seu próprio, de formas invertidas e perver- tidas, nas subculturas dos banheiros e outros cantos escuros de suas turmas, onde a amizade consolida o fracasso e a oportunidade econômica é negada por meio de exclusão social e educacional compartilha- da. O capital social está na base da prosperidade e da democracia, e seu desenvolvimento é essencial do ponto de vista educacional Educando para a democracia Na arena internacional, organizações como a Unesco mantêm vivo o discurso democrático na educação. O relatório Delors dessa instituição, cha- mado Educação, um tesouro a descobrir, identifi- cou quatro pilares essenciais da aprendizagem. Dois deles são as bases da economia do conhecimento: aprender a conhecer e aprender a fazer. O apren- der a ser e o aprender a viver juntos não são menos importantes. Ensinando para além as sociedade do conhecimento Os valores, a justiça social e a solidariedade de- vem ser centrais ao desenvolvimento profissional para professores, ao desenvolvimento comunitário para os pais e à agenda da formulação de políticas em gran- de escala, se quisermos tornar as escolas melhores. Ensinar para além da sociedade do conhecimento significa servir-lhe de contraponto corajoso, com vis- tas a estimular os valores de comunidade, democra- cia, humanitarismo e identidade cosmopolita. III – O ensino apesar da sociedade do conhecimento I: o fim da inventividade O custo da sociedade do conhecimento Ensinar para a sociedade do conhecimento e en- sinar para além dela não precisam ser incompatíveis. Reconciliar os objetivos econômicos e sociais da educação e preparar as pessoas para ganhar a vida e viver têm se revelado tarefas historicamente difíceis, levando a oscilações intermináveis do pêndulo das políticas. Os professores e outros devem se dedicar a unir essas duas missões em uma só.
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    76 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM O fundamentalismo de mercado No final do século XX, as políticas econômicas e públicas de muitas nações foram dominadas pela ideologia do fundamentalismo de mercado, no qual o interesse público seria melhor servido pelos efeitos acumulados da liberação das pessoas para que bus- cassem seus próprios interesses privados. Gerou-se a concorrência do setor privado com o setor público. Os resultados na educação pública se fizeram sentir nos cortes de custos e no enxugamento da abertura de escolas; no aumento dos incentivos fiscais ou das campanhas para desacreditar o sistema público, que estimularam os pais a redirecionar seus investimen- tos para a educação privada. A educação descarrilada Os professores estão presos em um triângulo de pressões e expectativas contraditórias. Eles lutam para atingir um máximo de realização profissional, mas são continuamente arrastados pelas reações dos funda- mentalistas de mercado aos custos da economia do conhecimento. No lugar de promover a aprendiza- gem profunda e o envolvimento emocional dos alu- nos com sua aprendizagem e uns com os outros, os professores se encontram cada vez mais preocupados em treinar crianças para exames padronizados. Políticas padronizadas O enxugamento e a padronização desgastam a colaboração, esgotam professores que exercem car- gos de coordenação e reduzem seu investimento na própria aprendizagem profissional. A padronização aumenta a exclusão das escolas e dos alunos dos ní- veis inferiores, que consideram os padrões para além do seu alcance. Diante da padronização os profes- sores, exaustos e desmoralizados, recorrem à demis- são e à aposentadoria precoce, criando imensos pro- blemas de recrutamento e retenção nessa profissão baseada no conhecimento. IV- O ensino apesar da sociedade do conhecimento: a perda da integridade Este capítulo apresenta os resultados de pesqui- sas realizadas pelo autor em escolas americanas e canadenses de nível médio. A análise observa a subs- tância da reforma nas áreas de mudança de currícu- lo e avaliação, examina o processo de implementa- ção, o caráter da mudança e as alterações nas condi- ções de trabalho que acompanharam essas transfor- mações. Entre os principais aspectos apresentados pelos professores entrevistados estão: o pouco tem- po destinado ao estudo, a ineficiência e inadequa- ção do desenvolvimento profissional, o isolamento profissional, a perda da eficácia do trabalho docen- te, a pouca criatividade e inventividade, a ausência de integridade, a perda de propósito profissional, a desmoralização, a política de humilhação e a exaus- tão. Tais aspectos foram ocasionados pelo ritmo in- sustentável da reforma e atingiram a saúde dos pro- fessores. Lecionar tornou-se mais difícil e estressan- te, e muito menos agradável. Uma conclusão perturbadora é a de que não são apenas os professores mais velhos que estão se desi- ludindo com a profissão, mas também os mais jo- vens. Nessas condições, a profissão do ensino terá cada vez mais dificuldades de atrair candidatos de boa qualidade, com capacidade intelectual e, espe- cialmente, quando outras ocupações com menos re- gulamentação e mais incentivo estão concorrendo por seu talento. V - A escola da sociedade do conhecimento: uma entidade em extinção Este capítulo apresenta a bem sucedida expe- riência de uma escola de nível médio canadense - Blue Mountain, considerada a síntese de uma escola da sociedade do conhecimento. As escolas em sociedades complexas deveriam se tornar organizações de aprendizagem eficazes, desenvolvendo estruturas e processos que lhes ca- pacitem para aprender no interior de seus ambientes imprevisíveis e mutantes e responder a eles com ra- pidez. As escolas eficazes devem operar como sóli- das comunidades de aprendizagem profissional a partir de três componentes: o trabalho cooperativo; o foco no ensino e na aprendizagem e avaliações permanentes para investigar avanços e problemas. Na escola analisada evitava-se a departamenta- lização a partir da idéia da aprendizagem organiza- cional e do pensamento sistêmico, segundo os quais todas as decisões da escola devem ser tomadas de acordo com os interesses da comunidade organiza- cional. O entusiasmo e a empolgação de trabalhar se refletiam na postura inovadora e inventiva do currículo e no ensino de sala de aula. As avalia- ções eram diferenciadas (portifólios e apresenta- ções), a informática não se limitava a laboratórios fechados, os alunos tinham liberdade para utilizar qualquer tecnologia disponível. Entretanto, as pres- sões econômicas também afetaram a rotina da es- cola que passou a conviver com os problemas apre- sentados anteriormente. Mesmo assim, nela ainda acontece muita interação profissional entre seus grupos, muito mais do que em quase todas as ou- tras escolas, mas, como comunidade de aprendi- zagem, um exemplo de escola da sociedade do conhecimento, a Blue Mountain é, sem dúvida al- guma, uma espécie em extinção.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 77 SINPEEM VI – Para além da padronização: comunidades de aprendizagem profissional ou seitas de treinamento para o desempenho? Rumo a uma profissão de aprendizagem Ensinar é um trabalho cada vez mais complexo, exigindo os padrões mais elevados de prática profis- sional para um desempenho adequado. É a profissão central, o agente fundamental da mudança na socie- dade do conhecimento de nossos dias. Mesmo as- sim, o ensino está em crise. A rotatividade demográ- fica entre os professores, durante anos de desgaste e desilusão com as reformas amplas, está esgotando a profissão. A atração do ensino como carreira entre novos candidatos, reais e potenciais, está desapare- cendo rapidamente. Felizmente, nos últimos anos, muitos começam a se dar conta de que o desenvolvimento profissio- nal de alta qualidade para professores é indispensá- vel à geração de mudanças profundas e duradouras na aquisição dos alunos. Em quase toda parte (Aus- trália, Estados Unidos, Inglaterra) os governos estão começando a elogiar os professores e o ensino, con- ferindo a honra e o respeito onde haviam prevaleci- do a acusação e o descaso no passado recente. Já é tempo de repensarmos como deveria ser o ensino e a aprendizagem para os alunos, e o ensino e o apoio profissional para os professores. A reforma educaci- onal não pode mais ser construída nas costas dos professores. Futuros para o ensino na sociedade do conhecimento A OCDE projetou seis prováveis cenários para o futuro da educação pública na sociedade do conhe- cimento. Dois deles partem de um desdobramento de arranjos já existentes, que irá levar a uma buro- cracia mais arraigada nos sistemas escolares, ou ao aumento da ênfase no mercado e nas soluções base- adas nas opções, em função da difusão da insatisfa- ção das pessoas com a educação pública. O segun- do par de opções supõe um encolhimento da educa- ção pública, seja por atrofia, à medida que a falta de professores e uma proliferação desesperada de ino- vações gerarem pânico e desagregação nas políticas educacionais, seja pelo incentivo em alternativas fora da escola, na aprendizagem eletrônica e não-formal. Apenas dois dos cenários, os quais a organiza- ção chama de re-schooling, ou “reescolarização”, isto é, a transformação das características fundamentais da escola típica, presumem que a formação escolar pública possa ser salva e melhorada. Um deles vê a escola sendo reinventada na forma de uma organi- zação de aprendizagem dirigida, que enfatize a aprendizagem para a sociedade do conhecimento. O outro visualiza as escolas como pontos focais para redes de relacionamentos comunitários mais amplos, desenvolvendo o capital social dos estudantes e lhes possibilitando viver bem e trabalhar produtivamente na sociedade do conhecimento. Culturas, contratos e mudança A partir de vários subtítulos relacionados a cultu- ras, contratos e mudança, o autor apresenta caracte- rísticas indispensáveis à sociedade do conhecimen- to. Entre elas destacam-se: a importância da combi- nação entre a confiança pessoal dos relacionamen- tos com a confiança e a responsabilização profissio- nal dos contratos de desempenhos (garantia de qua- lidade por meio da obrigação mútua), a substituição do individualismo profissional permissivo pelo tra- balho cooperativo, o rompimento com o regime de contratos que mercantilizaram a educação e a elimi- nação da cultura do individualismo competitivo en- tre as escolas. O autor também apresenta algumas maneiras pelas quais as políticas podem promover as comunidades de aprendizagem no interior e além das escolas: desenvolvimento de liderança; inspeção e credenciamento escolar; recertificação e gestão de desempenho; dinheiro para início de projetos de auto- aprendizagem, auto-regulamentação profissional; redes profissionais; regionalização dos serviços de desenvolvimento e apoio profissional e normas adul- tas de comunidade profissional. VII – O futuro do ensino na sociedade do conhecimento: repensar o aprimoramento, eliminar o empobrecimento. O futuro do ensino está em combinar os esforços das comunidades de aprendizagem e das seitas de treinamento (grupos que buscam a melhora do de- sempenho – alfabetização e matemática – em testes padronizados), eliminando assim, o apartaheid de desenvolvimento e aprimoramento escolar. Os pri- meiros, pautados em princípios amplos, na promo- ção da cooperação e no trabalho em rede, tendem a ser adotados por escolas de comunidades mais aflu- entes e os segundos, por sua vez, caracterizados por programas rigidamente definidos, estritamente mo- nitorados e com treinamentos intensivos, tendem a ser adotados por escolas de localidades mais pobres, isto porque, diferentes escolas se beneficiam de abor- dagens diferenciadas do aperfeiçoamento. Conclusão Este livro demonstrou que a reforma padroniza- da na educação prejudica a capacidade dos profes- sores de lecionar para a sociedade do conhecimento e para além dela. A padronização expande a exclu-
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    78 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM são educacional. Estratégias diferenciadas de apri- moramento oferecem uma maneira de ir além das falhas da abordagem “tamanho único” da padroni- zação insensível, mas a forma como a diferença está sendo definida tranca a pobreza e o fracasso jun- tos, dentro de uma linguagem neutra de “subdesen- volvimento” que é politicamente evasiva e engana- dora, seja na política escolar, seja na política mun- dial. Nossa prosperidade depende dos atributos cen- trais da economia do conhecimento: a criatividade e inventividade, a cooperação, a flexibilidade, a ca- pacidade de aproveitar e desenvolver a inteligência coletiva, de solucionar problemas de desenvolver redes, de lidar com a mudança e o compromisso com a aprendizagem por toda a vida. Logo, nosso futuro significa os professores reconquistarem seu status e sua dignidade entre os principais intelec- tuais da sociedade. Síntese elaborada por Edna Prado – doutora em Educação Escolar pela Universidade Estadual Pau- lista/UNESP. HOFFMANN, Jussara. Porto Alegre, Editora Mediação, 2005 O livro é dividido em duas partes: 1 - “Entre claros e escuros da avaliação” Estão os “princípios do jogo do contrário”, cuja discussão permeia algumas questões polêmicas re- lacionadas à avaliação da aprendizagem, à concep- ção mediadora. 2 - “Fazendo o jogo do contrário em avaliação” Convida os professores a repensarem as práticas avaliativas, com estratégias que valorizem as dife- renças, respeitando a individualidade dos alunos. Tanto faz começar por uma parte ou pela outra. É um exercício de estranheza que poderá propiciar um novo significado em relação à avaliação, à apren- dizagem. A partir de estudos de casos de alunos em um programa de assessoria, que coordeno, apresento três tempos em termos de avaliação mediadora: o tem- po da admiração dos alunos; o tempo da reflexão sobre suas tarefas e manifestações de aprendizagem e o tempo da reconstrução das práticas avaliativas. Parte 1 - “O jogo do contrário em avaliação” Observar um por um - Ao invés de um olhar pe- riférico, genérico e circunstancial, cada aluno deve ser olhado em sua singularidade, pois a aprendiza- gem envolve as dimensões afetivas, éticas, estéticas, epistêmicas de um sujeito. Os “difíceis estudos de caso -Desde 1998 coor- deno o PAAE (Programa de Assessoria em Avaliação Educacional) para professores das redes pública e pri- vada no Rio Grande do Sul. Desenvolve-se, nesse pro- grama, de 2001 a 2003, estudos de casos em institui- O JOGO DO CONTRÁRIO EM AVALIAÇÃO ções de ensino médio, técnico profissionalizante e superior, com acompanhamento intensivo de um ou dois alunos participantes do programa via instituições nas quais estavam inseridos. São diferentes séries e níveis de ensino cujo processo de aprendizagem esti- vesse sendo considerado “difícil” pelos professores. Com objetivo de desenvolver projetos e práticas inovadoras de avaliação reuniram-se, quinzenal- mente, por aproximadamente três meses, grupos de 30 educadores, da educação infantil à universida- de, com funções diversas (estudantes, professores, orientadores, supervisores, diretores, secretários etc.). Foram 80 estudos de casos de alunos (de 6 a 36 anos), da educação infantil à universidade. Devido a participação maior de professores do ensino fun- damental, houve maior concentração nesses casos. Entre as redes pública e privada, o número de parti- cipação foi aproximado. O relato não é de cunho acadêmico, pois não é pesquisa, sim assessoria. Avaliação mediadora em três tempos - Cada eta- pa levou um mês, juntamente com as aulas teóricas, as leituras e os debates em grupo, apresentação dos estudos de casos. 1 - Tempo de admiração dos alunos - Inicia-se a partir do histórico do aluno registrado nos arquivos das instituições. Esse tempo é prospectivo e não li- near, implicando um olhar “curioso” sobre o outro e sobre os próprios pensamentos. O princípio de compreender Vai além do explicar. Exige, segundo Morin, en- volvimento, relação humana e visa entender o ser humano como objeto, mas também como sujeito. O exercício do aprendizado do olhar Admirar o aluno pressupõe: - A atenção e a presença do educador. Inclui a escuta de silêncios e ruídos na comunicação;
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 79 SINPEEM - Entrega ao outro. Ouvir suas hipóteses, seu pen- sar, sua história; - Olhar pesquisador. Selecionar dados, ordenar, classificar, comparar, interpretar os significados. Algumas questões iniciais - Quem é o aluno? O que se conhece de sua história de vida? - Como é percebido no contexto familiar e escolar? - Como ele próprio se refere a esses contextos e como se percebe neles? - Como se deu a sua escolarização até esse mo- mento? - Quais são os seus interesses pessoais e/ou pro- fissionais, projetos de vida, conquistas, necessida- des, dificuldades? - Como ele estuda na escola e fora dela? Tempo e recursos que dispõem para isso? - Que apoios e orientações recebe em termos de suas atitudes e aprendizagens? - O que revelam suas tarefas anteriores, testes, cadernos, registros escolares? O compartilhamento do olhar avaliativo Pressupõe o diálogo contínuo com o aluno, fa- miliares, amigos e com todos os profissionais que compartilham os espaços escolares. Há um pedido de “socorro” generalizado. O “verdadeiro” diálogo pressupõe retorno, interlocução, reconstrução con- junta das práticas avaliativas. A multidimensionalidade do olhar Necessita da “consciência” como elemento es- sencial da avaliação mediadora. Devido sua com- plexidade, caracteriza-se por interpretações de dife- rentes intensidades e matizes (qualidade), sobre as múltiplas dimensões do aprender de cada aluno (aprendizagem), que se realizam a partir de concep- ções de educação, de sujeito, de sociedade também diferentes (avaliação). E o que se admira afinal dos e nos alunos? Para compreender a trajetória de um aluno, é ne- cessária uma observação em ação, isto é, uma recons- trução permanente de hipóteses. Algumas dimensões investigadas em seus estudos: o aluno em relação ao contexto sociocultural e a sua própria história de vida; o cenário educativo; o currículo em desenvolvimen- to; as questões da aprendizagem: histórico de apren- dizagem, afetividade, contextos de aprendizagem ex- tra-curriculares, projetos pessoais de estudo. A perigosa prioridade às questões atitudinais - Abandonar as velhas posturas de encontrar justificati- vas diante dos casos “difíceis” não é tarefa das mais fáceis. É preciso considerar o sujeito em sua singulari- dade. Agressividade, apatia, desinteresse, agitação, ausência não explicam nem justificam problemas de aprendizagem na escola. O inverso é muito mais fre- qüente. Em muitos casos acompanhados, as condutas dos alunos melhoraram sensivelmente à medida que avançaram na alfabetização, na escrita, na leitura, nas disciplinas nas quais estavam sendo orientados. Valoração objetiva e subjetiva: um olhar em ação - Refere-se ao olhar subjetivo da avaliação: Só posso ver no “outro” o que entra em sintonia comigo, com meus próprios conhecimentos, experiências, senti- mentos; assemelha contemplação em arte, isto é: de decifração (ativamente, dar sentido ao que vê); de mediação (multiplicar as direções do seu olhar... atri- buindo significados) e de realização (interagir com o aluno, para ter consciência de suas aprendizagens); de realização (interagir com o aluno, para ter cons- ciência de suas aprendizagens). São necessários os princípios de provisoriedade e complementarieda- de, isto é, olhar que vai além da primeira impressão, privilegiando as diferenças em detrimento de possi- bilidades homogeneizadoras. Auto-avaliação: um olhar que “realiza” o pró- prio aluno - O aluno precisa saber dos cuidados que lhe são destinados, responsabilizando-se pela própria aprendizagem. Quando professores dialo- gam continuamente com os alunos a respeito do fazer pedagógico, desfaz-se o mistério e o temor do processo avaliativo, cria-se a empatia, reconhe- ce-se a pluralidade de idéias, valorizam-se as indi- vidualidades. Conselhos de Classe: compreender para enca- minhar? Compreender é reunir os vários elementos de uma dada explicação. O sentido dos Conselhos é o de definir ações diversificadas pelo coletivo dos pro- fessores em termos do trabalho de formação dos alu- nos e do acompanhamento de suas aprendizagens nas diferentes áreas. Alguns princípios sobre Conselho de Classe: 1 - É espaço pedagógico de compartilhamento de juízos avaliativos sobre aprendizagens e de troca de experiências docentes nesse sentido. 2 - Delibera ações futuras e compartilhadas so- bre casos individuais e/ou de grupo.Seu propósito é uma leitura integral e interdisciplinar de aluno por aluno pelo coletivo dos professores em determina- dos momentos do processo(…) 3 - É necessária a presença de um mediador que assegure o diálogo entre os professores.
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    80 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM 4 - Dedicar um tempo maior a alguns alunos e/ ou algumas turmas. 5 - Lembrar que (…) questões atitudinais, fatores emocionais, de saúde e familiares não explicam to- das as questões de aprendizagem. 6 - É preciso constituir arquivos, fazer e refazer trajetórias percorridas pelo grupo, buscando estraté- gias que foram positivas e reconstruindo novas for- mas de atuar. Arquivos e registros: constituindo histórias - Pro- fessores constituam um dossiê do aluno, com tarefas de acompanhamento de etapas evolutivas; faça co- mentários nessas tarefas, articulando-as, em outro momento, com observações mais recentes. Leitura positiva com apoio multidisciplinar - A ava- liação (como ato valorativo) faz emergir muitos senti- mentos da própria história do professor, e isso deve ser considerado no processo avaliativo. Os pais não de- vem ser responsabilizados pela aprendizagem de seus filhos. Compartilhar o projeto pedagógico é dialogar com familiares e responsáveis, condição fundamental para uma boa condução do processo avaliativo. 1 - Tempo de reflexão: Corrigir tarefas ou inter- pretar situações de aprendizagem? Esse tempo exige um silêncio que permita a ex- ploração, o alargamento da visão, a introspecção antes do agir, um olhar reflexivo do avaliador, man- tendo uma postura investigativa, uma atitude de to- lerância e de diálogo frente às novidades, além de uma conduta de responsabilidade compartilhada: dialogar com colegas e alunos, transformando refle- xões e estudos em práticas individuais. Interpreta-se para compreender - Requer a in- tenção pedagógica do professor no sentido de que se faça o “silêncio” que permita refletir, interpretar as situações de aprendizagem e transformar as práti- cas avaliativas em mediadoras. Assim, é necessário: - ultrapassar o “pensar como fazer atarefado” da sala de aula em direção à ação reflexiva intencional, planejada e longitudinal, em relação a cada aluno e em relação ao saber pedagógico; - levar mais a sério as observações do dia-a-dia da sala de aula, anotando-as, identificando os sujei- tos dessas observações; - perceber as faltas, as dissonâncias, os obstácu- los espistemológicos possíveis decorrentes das pro- postas pedagógicas, para vir a ajustar e detalhar os rumos do planejamento; - interpretar o sentido das aprendizagens cons- truídas nas tarefas avaliativas e situações de apren- dizagem dos estudantes (para além de apenas corri- gi-las), arquivando informações que considerar rele- vantes para o seu acompanhamento; - conversar com os alunos sobre as situações ob- servadas e as tarefas analisadas, mediando aprendi- zagens em construção; - reunir, de tempos em tempos, tarefas parciais e gradativas dos alunos que permitam a elaboração de sínteses para a compreensão do conjunto e a to- mada de decisões pedagógicas em relação às apren- dizagens individuais do grupo. Algumas questões, a partir de tais premissas: - Que instrumentos são utilizados para observar as aprendizagens dos alunos? - Que acompanhamento se faz do material do aluno e de que forma (em grupo, individuais, textos, exercícios, cadernos, outros)? - Como o professor corrige/interpreta os instru- mentos (formas de correção, de anotação no instru- mento do aluno, registro no material do professor, etc.)? - Como procede em termos de devolução dessas correções ( tempo que leva para isso, retomada indi- vidual ou coletiva, devolução ou não do instrumen- to, etc.)? - De que forma trabalha a partir das dificuldades e necessidades percebidas nos alunos nesses instru- mentos? - Como procede em relação a erros e acertos (que anotações faz nos instrumentos ou nos seus regis- tros, comentários ao grupo ou individuais, planeja- mento de outras atividades referentes, etc.)? - Que códigos/anotações registra sobre o desem- penho do aluno (notas, conceitos, registros descri- tivos)? - Como o professor chega ao resultado final do bimestre, trimestre, semestre (como realiza essa sín- tese)? Segue o regimento da escola ou faz adapta- ções próprias? - Como leva em conta as atitudes do aluno? - Como se dão os Conselhos de Classe e qual a forma de participação de alunos, professores, pais e outros? - Como se tomam as decisões de aprovação e reprovação? - Quais os procedimentos pedagógicos decorren- tes dos Conselhos de Classe? - Como são feitos os estudos de recuperação? - Qual a participação dos pais na entrega de re- sultados e outras questões da avaliação? - Que formas de registro, relatórios, dossiês ou documentos sobre o aluno são arquivados na escola (por quem, de que forma, para quê)? Tempo de reflexão: entrelaçando olhares - A prá- tica da sala de aula exige estratégias que vão além da base teórica. Uma reflexão necessária em rela-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 81 SINPEEM ção ao cenário avaliativo, às relações afetivas, à di- nâmica das aprendizagens. Sobre o cenário avaliativo Tom afetivo ou agressivo na condução dos traba- lhos pode ser diretivo e limitador das respostas dos alunos ou provocativo e convidativo à aprendizagem. Sobre as relações afetivas Propiciar o diálogo entre os envolvidos no pro- cesso avaliativo, evitando o clima de disputa. É pre- ciso pensar algumas questões: - Qual é o significado das tarefas avaliativas? - Como proceder em termos de devolução das tarefas e testes para que se mantenha o tom afetivo em relação ao educando? - Como conversar com os alunos sobre o que se observa deles? - Como e quando os professores poderão trocar suas observações sobre diferentes testes, tarefas e situações de aprendizagem? - Como assegurar a participação dos alunos nes- se processo? - De que forma e em que tempos isso poderá ocorrer? Sobre a dinâmica das aprendizagens As propostas pedagógicas mobilizam os alunos de forma diferente. São etapas cíclicas e evolutivas de mobilização do seu desejo ou necessidade de aprender (Charlot) Desenvolvendo o tema: DINÂMICA DA AVALIAÇÃO Mediar a mobilização Manter-se atentos às possibilidades dos alunos. Ajustar tempos, espaços e recursos às necessidades de cada um. Mediar a experiência educativa Promover a inserção afetiva entre todos os ele- mentos da ação educativa. Desenvolver situações diversificadas em diferentes tempos do processo. Mediar a expressão do conhecimento Interpretar a “expressão” das aprendizagens in- dividuais. Adequar tarefas avaliativas ao contexto educativo. Acompanhar a evolução e o conjunto das apren- dizagens dos alunos por meio de tarefas gradativas e complementares. Indaga-se: O aluno se envolve com a tarefa de aprender? A participação dos alunos processo avaliativo é essencial à formação de sua autonomia. Diligenti diz que os educadores devem voltar “seus olhares para compreensões educativas menos absolutas, mais ter- nas e acolhedoras”. Como o aluno interage com os outros? Proporcionar ao aluno integração em um grupo de trabalho, com momentos de argumentação e tro- ca de idéias, fundamentais à superação intelectual, contando com a mediação do professor. Mediar a expressão de sentido? É buscar entender o que o aluno aprende na sua prática escolar através da manifestação de suas múl- tiplas linguagens (fala, escrita, desenho, gestos etc.), que são interpretadas pelo olhar avaliativo de um professor consciente de que o observável é a expres- são da aprendizagem do aluno. No entanto, uma ta- refa ou situação observada só poderá ser considera- da significativa para um processo avaliativo media- dor se as intenções do educador estiverem claras a priori, e não a posteriori. Análise epistemológica dos avanços e necessi- dades percebidas - O objetivo da interpretação das tarefas e das situações de aprendizagem é o de tra- duzir as reflexões em estratégias pedagógicas. O pro- fessor, como mediador, deve propor situações-pro- blema e desafios adequados para que os alunos os vivencie e possam ultrapassá-los. Percursos possíveis de um olhar reflexivo Toda manifestação do aluno tem de se conside- rada relevante para o avaliador. Em idéias interessantes e diferentes? O que depende do cenário educativo, que é de responsabilidade da escola e dos professores. Em progressos significativos nas várias áreas do conhecimento? O educador deve ser capaz de perceber os saltos qualitativos, intelectuais e afetivos do aluno na escola. Em conteúdos aprendidos ou em suas formas de expressão? O educador precisa mediar saberes diferentes com estratégias pedagógicas pertinentes. No conteúdo das perguntas ou nas perguntas feitas? Uma mesma pergunta pode ser entendida dife- rentemente por cada aluno.
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    82 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM No aprender a aprender? Dúvidas não são erros e processos não são resul- tados. Acompanhar um processo de aprendizagem requer observação, diálogo, anotações etc. No saber ler e no gostar de ler? Gostar não é sinônimo de aprender. Desenvol- ver o desejo de aprender e o compromisso do aluno com sua tarefa de aprender... - No aprender a ser e a conviver? Valorizar histórias, retomar diálogo entre os en- volvidos na ação educativa e o bom senso, preci- sam ser resgatados. A qualidade dos instrumentos de avaliação - Como instrumentos são considerados algo concre- to, uma observação só se tornará instrumento se for transformada em registro. Os instrumentos só terão sentido para quem os interpretar. Algumas reflexões: 1 - Toda produção escolar com intencionalidade do professor são tarefas avaliativas. 2 - Tarefa elaborada pressupõe um tempo “a priori” de observação e reflexão. 3 - Nitidez progresso intelectual e moral, articu- lando-se cada etapa às etapas posteriores. 4 - Refletir sobre as tarefas feitas versus o mo- mento/intenção em que elas ocorrem. Aspectos que devem ser levados em conta ao se elaborar tarefas avaliativas? - Não têm a finalidade de comparar alunos e se- lecioná-los. - Devem conter diferentes questões sobre uma mesma noção para que o professor possa fazer uma interpretação consistente dos avanços e das necessi- dades dos alunos na área investigada. - Evitar questões objetivas e privilegiar questões dissertativas, produção textual. - Tarefas que permitam melhor identificar e des- crever as aprendizagens individuais. - Reunir professores de uma mesma área para analisar um conjunto de tarefas respondidas e já cor- rigidas. É compartilhar. O tempo de reflexão e a dimensão do sensível - A aprendizagem é traduzida por meio de palavras e dos sentimentos; a mediação é como produção de sentidos: encontro, aproximação, interlocução, convivência. Esse é o objetivo de uma escola e da educação. 3 - Tempo de reconstrução: Avaliar para apro- var e reprovar ou formar para a vida? Defende-se a possibilidade de escolhas das ava- liações que o educador pode praticar nas escolas. Apresenta-se a experiência de alguns países que avançaram nesse processo, ressaltando o olhar con- servador e talvez “esperançoso” do Brasil para ado- tar práticas já prontas. No Seminário Internacional “Educação, Ciência e Tecnologia como Estratégia de desenvolvimento” (UNESCO/MEC), realizado em Se- tembro de 2003, em Brasília, especialistas da Coréia do Sul, Espanha, Finlândia, Irlanda, Malásia e Reino Unido relataram suas experiências de sucesso nas mudanças educacionais, resultando bons indicado- res de qualidade de educação básica no instrumen- to de avaliação internacional, PISA. Na última pesquisa do PISA, para a Cooperação e desenvolvimento Econômico (OCDE), o Brasil, en- tre 41 países, ficou nos últimos lugares do ranking. O objetivo era analisar como os especialistas desses países percebiam as repercussões das mudanças edu- cacionais em relação a questões sociais. Outras pes- quisas, como a do Sistema de Avaliação do Ensino Básico (SAEB), também apontam que as políticas educacionais brasileiras não estão sendo adequadas, por manterem a mesma lógica do sistema, a sele- ção, a competição o instrucionismo. Experiências e estudos no país - Caminhos que as secretárias de educação, escolas e professores vêm trilhando em busca do sucesso, em relação: Ao processo de reconstrução, qual a direção que as instituições costumam seguir? - buscam melhoria das relações grupais, salariais; integração do corpo docente e diálogo com os en- volvidos no processo de aprendizagem; participa- ção docente na elaboração de projeto político-pe- dagógico; formação continuada etc. Às práticas avaliativas, que ações vêm sendo implementadas por essas instituições e professores? - visão integral do aluno (aspectos afetivos e dia- lógicos), integrando ao processo avaliativo as tare- fas e situações de aprendizagem, com cuidado de registrar para contribuir com a construção de um dossiê de cada aluno. Planejar e mediar os espaços que facilitam a interação de todos. Pensar os Con- selhos de Classe de forma construtiva, estreitando a reflexão entre os professores sobre a aprendiza- gem como processo. Dispor do apoio de grupos multidisciplinares. Aos entraves percebidos? - Um entrave em termos administrativos, consta- tado na escola privada, é a família não aceitar a abo- lição do sistema de notas. Outro, é a adoção do sis- tema de apostilas, destituindo o professor como au- tor em sala de aula. - A rotatividade dos professores que também ca- recem de uma formação adequada e formação con- tinuada.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 83 SINPEEM As últimas páginas dessa parte do livro apresen- ta alguns Relatos de casos “difíceis”, com a intenção de desvelar possibilidades de fazer diferença nas es- colas. É ilusão esperar que as condições sociocultu- rais melhorem para se cuidar das crianças e jovens desse país como eles tanto precisam. Prefiro fazer o jogo do contrário: cuidar deles primeiro, para que eles transformem esse país. O essencial no jogo do contrário em avaliação é DUVIDAR SEMPRE DO PRIMEIRO OLHAR! Parte 2 - Entre claros e escuros da avaliação Avaliação formativa ou avaliação mediadora? Contrapõe-se a idéia de testes, provas ou exercí- cios (instrumentos de avaliação), boletins, relatórios, fichas, dossiê do aluno (registros de avaliação) como avaliação. Avaliar é um processo contínuo, múltiplo e complexo. Antes de mudar metodologias, é preci- so pensar como os educadores significam / pensam a avaliação. Esse processo só se constitui quando ocorrem esses três tempos. Processo subjetivo e multidimensional - Em toda relação educador / educando faz-se necessário o pro- cesso avaliativo mediador, favorecendo procedimen- tos dialógicos. Reforça-se a idéia de que o olhar ava- liativo deve se preocupar com as singularidades dos educandos, justamente para que as estratégias pe- dagógicas não sejam homogeneizantes. Assim, além de prezar pela evolução individual, a avaliação deve promover espaços interativos frente a um contexto da diversidade. Uma ação em três tempos - A observação, a re- flexão e a ação não se dão em tempos lineares, exi- gindo do professor uma flexibilidade para o diferen- te, implicando no diversificar sem rotular, sem dis- criminar, mantendo o respeito na relação dialógica. Sempre estão presentes, na dinâmica escolar, os três tempos da avaliação mediadora: da admiração, da reflexão, da reconstrução das práticas avaliativas. Tempo de admiração Aprende-se a “ad-mirar” o aluno. É através de um olhar ingênuo que ocorre a percepção do objeto “ad-mirável” como um dar-se conta, uma pura opi- nião. Mas quando se adentra o que se admira, se alcança, de fato, o conhecimento sobre o objeto “ad- mirado”. (Freire) Tempo da reflexão Propõe questionar as hipóteses constantemente. Tempo da ação reflexiva / da mediação Pressupõe a tomada de consciência, do com- prometimento dos professores. Uma concepção formativa e mediadora - Ao considerar um processo de avaliação formativa a partir do pressuposto da continuidade do processo de aprendizagem e intervenção pedagógica perme- ada por desafios, é preciso ressaltar que a avaliação, mediante testes, é classificadora. Afinal, a essência de uma concepção formativa implica o estreitamen- to da relação do professor com o aluno, promoven- do, ao tomar consciência de sua responsabilidade na aprendizagem, o desenvolvimento de seus alu- nos mediante intervenções pedagógicas. Ou seja, assumindo uma postura mediadora que realmente faça a diferença. As contribuições de Piaget e Vygotsky - Tanto Piaget quanto Vygotsky valorizam as interferências mediadoras significativas. Piaget Privilegia desafios cognitivos nas situações edu- cativas, responsabilidade do educador, em detrimen- to do “instrucionismo”. Sua concepção de aprendi- zagem está permeada pelo pressuposto do desequilí- brio, do conflito, da reflexão e resolução de proble- mas, contando com a mediação de um educador. Vygostsky A mediação é fundamental para o desenvolvi- mento humano como um processo sócio-histórico, uma vez que, como sujeito do conhecimento, seu acesso aos objetos de conhecimento não é direto. Ao fala em ZDP (zona de desenvolvimento proxi- mal), ressalta a importância do papel mediador do professor no processo da aprendizagem. Ao intervir na ZDP o professor passa a ser um facilitador da aqui- sição de novos conhecimentos por parte do aluno. Deve atentar, no entanto, ao que o aluno já conhece (desenvolvimento real já conquistado) para o que possa vir a ser ou conhecer. Para Piaget e Vygotsky, o papel do educador na construção do conhecimento é insubstituível. Pre- zam, nos processos de aprendizagem, a interação adulto / criança e criança / criança. Assim, avalia- ção mediadora busca promover o desenvolvimento dos envolvidos nesse processo, contando com rela- ções afetivas equilibradas e desafios intelectuais per- manentes, prezando o diálogo e a interação. Dessa maneira, transpõe-se três princípios essenciais para a prática avaliativa: O princípio dialógico/interpretativo da avaliação A intenção é a de convergência de significados, de diálogo, de mútua confiança para a construção conjunta de conhecimento.
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    84 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM O princípio da reflexão prospectiva Quem o aluno é, como se sente e vive as situa- ções, o que pensa, como aprende, com quem apren- de? Uma leitura que intenciona, sobretudo, planejar os próximos passos, os desafios seguintes ajustados a cada aluno e aos grupos. O princípio da reflexão-na-ação Avaliar com um processo mediador se constrói na prática. Para acompanhar o “ritmo alucinado de uma es- cola”, faz-se necessário, também, admitir que não se sabe, para então tentar descobrir como fazer. 1 - Aprender ou não aprender? O não aprender de um aluno está diretamente li- gado a algum parâmetro ou expectativas de desem- penho definido pela escola, permeando o olhar ava- liativo do professor. Assim o aluno não aprendeu de- terminadas informações, no tempo programado, no ritmo de outros, a responder de acordo com o previs- to, habilidades previstas, em tarefas propostas. Com que critérios avaliamos? Há sempre critérios implícitos nos processos ava- liativos, uma vez permeados pela subjetividade que interfere no juízo avaliativo. Demo diz que toda ava- liação é injusta, incompleta, autoritária, excludente etc. Os critérios de avaliação devem ser pontos de partida do olhar avaliativo, e não pontos de chega- da, abrindo-se à perspectiva multidimensional da aprendizagem do aluno. Leituras positivas e negativas - A avaliação clas- sificatória é uma prática negativa, que destaca o não- feito, com forte inclinação para reprovar. No jogo do contrário, propõe-se uma leitura positiva sobre o aprender, isto é, avaliar para promover, cujo olhar tem de ser prospectivo, multidimensional, com aten- ção às potencialidades. O aprender ser complementos - É necessário fa- zer a pergunta “o aluno aprendeu?”, ao se pensar o acompanhamento da aprendizagem, por considerá- la mais ampla e abrangente. O Relatório da UNES- CO para a Educação do Séc. XXI (publicado em 1996, com o título: “Educação, um tesouro a descobrir”) tem o compromisso de abranger as dimensões do aprender, do aprender a aprender, do aprender a fazer, do aprender a viver junto, do aprender a ser. Pensando a avaliação, o verbo aprender, no sen- tido multidimensional, propõe acompanhar a apren- dizagem no seu processo, captando sua dinâmica, atentando para o provisório e o complementar. O Avaliador constrói significados na relação com o aluno, uma vez que seu olhar é interpretati- vo, que vão muito mais além do que instrumentos objetivos podem captar. Daí a importância de se ter valores éticos de dignidade e justiça na condu- ção desse processo. Evolução e conjunto das aprendizagens - É uma visão dialética do conhecimento que permeia a avaliação aprender/processo, seguindo os princí- pios da provisoriedade e o da complementarie- dade, já discutidos anteriormente. A avaliação mediadora é de caráter longitudinal, isto é, acom- panha a evolução das aprendizagens nos vários tempos e no espaço dos múltiplos fazeres, e al- cança significado por meio de uma visão de con- junto (diversas situações e manifestações do alu- no em articulação e complementação). O aprender e o desejo de aprender - É um equí- voco das escolas a prática classificatória que trans- forma a aprendizagem em obrigação, em competi- ção, destituindo do aluno o prazer e o gosto pela aprendizagem, além da experiência de alegria, dito por Fernández. Para entender de avaliação formati- va/mediadora, é fundamental conceber o aprender no conceito multidimensional. Portanto: - A avaliação não tem por objetivo definir se os alunos aprendem ou não aprendem. (…) todos apren- dem (…) É preciso perguntar sobre que oportunida- des podemos criar. - Não há parâmetros de julgamento que dêem conta da diversidade do contexto educacional e do ato criativo nas aprendizagens. Critérios de avalia- ção são pontos de partida do olhar avaliativo, subje- tivos, questionáveis e passiveis de dúvidas. - A leitura sobre o aprender precisa ser positiva, prospectiva e multidimensional: um olhar confiante das várias potencialidades dos alunos, não impor- tando as diferenças. - É possível e desejável conjugar o verbo apren- der sem complementos, isto é, de desenvolvimento do aluno, de formação moral e intelectual. A avalia- ção mediadora se efetiva se entendida como obser- vação, análise e mediação acerca do conjunto das aprendizagens, privilegiando o aprender/processo e não o aprender/ produto. - É imperativo ensinar e mediar o prazer de apren- der nas escolas, valorizando-o e percebendo-o na dimensão estética do conhecimento. 2 - Respeitar ou valorizar as diferenças Além do respeito às diferenças, é preciso valori- zá-las. Isso pressupõe a não uniformidade dos mo- delos classificatórios de avaliação. A justiça em ava- liação só é possível mediante a palavra diversidade (origem em divergir, que significa afastar-se progres- sivamente dos limites fixos e precisos, discordar, dis- crepar, questionar padrões, buscar a diferença.) Além
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 85 SINPEEM de ser justo, é preciso ter outras virtudes: generosi- dade, humildade e tolerância. Cuidados especiais - Há alunos que necessitam de cuidados especiais, como uma criança “surda”, por exemplo. Neste sentido, faz-se necessária for- mação profissional adequada para que se possa com- preender e atuar nesse contexto. Uma pedagogia do contágio - É fundamental que o professor compartilhe sua prática, buscando avan- ço teórico e novos desafios, contando com a contri- buição de mediadores para seu desenvolvimento profissional. Há regulares mudanças políticas, o que causa entraves, principalmente na pressa por resul- tados imediatos. É preciso investir na formação e al- cançar o envolvimento de todos. Uma “pedagogia do contágio”, garantindo ao professor o papel de pro- tagonista de sua ação. 3 - Quantidade ou qualidade em avaliação? Os números (notas a testes e tarefas) posicionam o aluno em uma escala de valor. Essa posição pare- ce “camuflar” outras questões mais graves da edu- cação. Por ser superficial, poupa o educador de fa- zer uma avaliação qualitativa das aprendizagens al- cançadas. Qualidade e aprendizagem: conceitos multidi- mensionais - Ao buscar estratégias mediadoras que possam promover novas oportunidades de aprendi- zagem, a avaliação mediadora exige qualidade do professor no sentido de registrar suas percepções so- bre o processo vivenciado pelo aluno, consideran- do as diversidades. Da observação à ação-reflexiva - Há necessida- de de uma avaliação mediadora qualitativa, medi- ante registro e observações do professor sobre o pro- cesso de aprendizagem do aluno. Qualidade e diversidade: uma questão de cri- tério? Toda avaliação carrega critérios subjetivos, ba- seados na experiência de vida do mediador. Re- quer, devido sua complexidade, avaliadores que tenham responsabilidade, atenção às diferenças e individualidades, além de bom senso e atenção aos fatores que interferem nos juízos avaliativos: a) o efeito de halo (avaliação holística): fatores iso- lados dos alunos podem levar a interpretações generalizantes; b) os estereótipos e preconceitos: apelidos pejorativos, alunos nota dez etc.; c) o foco em aspectos relevantes para o professor: revelan- do o caráter sempre interpretativo do processo avaliativo pelo professor; d) a extensão no tempo: um fato ocorrido com o aluno afeta, por decorrên- cia, muitas outras situações de sua trajetória escolar. Sensibilidade, razão e conhecimento - Sucesso é cooperar, é aprender junto com o outro, é ser feliz com o outro, é viver e valorizar as diferenças que preservam a humanidade. Por isso, a escola não pode ser considerada um lugar onde se educam “vence- dores” à custa de perdedores. 4 - Sistema de avaliação é causa ou conseqüên- cia do fracasso escolar? As discussões sobre os ciclos - Os resultados do SAEB 2003 comprovam que em todo o Brasil a apren- dizagem é deficitária. O desencadeador está na al- fabetização. Discute-se o sistema de avaliação para disfarçar o problema. Não se constrói para as crian- ças espaços efetivos de aprendizagem, que privile- giem a concepção multidimensional. Sobre o princípio de não reprovar - Abro os pa- rênteses para dizer que aprovo plenamente o princí- pio de não-reprovação, essência de um processo de avaliação mediadora. Avaliação e universidade - Sobre o ensino supe- rior, a avaliação segue os mesmos parâmetros do ensino fundamental, com discurso semelhante dos professores. Reclamam dos sistemas menos rigoro- sos em avaliação, quando comparados com “anti- gamente”. Na universidade, o pacto é de “mediocri- dade e laissez-faire”. Falar, então, de rigor nesse pro- cesso implica retomar a avaliação mediadora que pressupõe compromisso tantos dos professores como dos alunos. O primeiro, desafiador e orientador; o segundo, assumindo o desafio buscando autonomia em sua aprendizagem. Movidos pela aprendizagem? Predominam as discussões sobre as formas de registro do desempenho escolar, dando-se pouca atenção ao processo da aprendizagem. São muitos professores universitários sem formação pedagógi- ca, reproduzindo modelo classificatório de avalia- ção. Se não houver mudança de concepção, não ocorrerão avanços. Afinal, discute-se avaliação para tentar melhorar a aprendizagem dos alunos, quando se deveria fazer exatamente o inverso: discutir a aprendizagem dos alunos para aperfeiçoar o processo avaliativo e a educação. Resumo elaborado por Eliane Aguiar, bacharel em Letras (Lingüística e Português) – FFLCH/USP; li- cenciada em Português - FEUSP; especialista em Psi- copedagogia Clínica - PUC/SP; mestre em Lingua- gem e Educação - FEUSP; doutoranda em Educação - FEUSP.
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    86 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM LERNER, Délia. Porto Alegre, Artmed, 2002 A autora apresenta uma reflexão sobre a prática docente em alfabetização, trazendo a atualização de conceitos fundamentais de pensamento como o de “contrato didático” e o de “transposição didática”, em relação ao ensino da língua escrita. Para isso in- corpora o pensamento da corrente francesa conhe- cida como Didática da Matemática, sendo os princi- pais representantes: Brousseau e Chevallard. Este re- sumo mantém a organização e os títulos das partes dos capítulos. . Parte 1 - Ler e escrever na escola: o real, o possível e o necessário Ensinar a ler e a escrever é um desafio que trans- cende amplamente a alfabetização em sentido estri- to. Participar na cultura escrita supõe apropriar-se de uma tradição de leitura e escrita e para concretizar o propósito de formar alunos praticantes dessa cultu- ra, é necessário reconceitualizar o objeto de ensino e construí-lo tomando como referência as práticas sociais de língua escrita. O necessário é fazer da escola uma comunidade de leitores que recorram aos textos buscando respos- tas para os problemas a resolver, encontrar informa- ções, compreender melhor o mundo. Fazer da esco- la um local onde os alunos possam produzir seus próprios textos e mostrar suas idéias. Necessário é preservar o sentido do objeto de ensino para o sujeito da aprendizagem, a fim de que sejam cidadãos da cultura escrita. . O real é o que levar à prática e isso implica em conhecer as dificuldades e analisá-las: a) Dificuldades envolvidas na escolarização das práticas: não é simples determinar com exatidão o que, como e quando os sujeitos aprendem a língua escrita. Ex.: Em que momento as crianças se apro- priam da “linguagem dos contos”? Como ter acesso às interferências ou antecipações que as crianças fa- zem ao tentar ler um texto? b) Tensões entre os propósitos escolares e extra- escolares da leitura e da escrita: se a escola ensina a ler e escrever com o único propósito de que os alunos aprendam a fazê-lo, eles não aprenderão a ler e escrever para cumprir outras finalidades (da vida social); se a escola abandona os propósitos didáti- cos estará abandonando sua função de ensinante. LER E ESCREVER NA ESCOLA: O REAL, O POSSÍVEL E O NECESSÁRIO c) Relação saber-duração versus preservação do sentido: desde o século XVII a opção tradicional, no caso do ensino da língua escrita, primeiro era preci- so dominar o código (sílabas, formação de palavras) e depois iniciava-se a compreensão e produção de textos simples e breves.Esta organização entra em contradição com as práticas de leitura e escrita por- que estas são indissociáveis. d) Tensão entre duas necessidades institucionais: ensinar e controlar a aprendizagem: O possível é fazer o esforço para conciliar as necessidades da ins- tituição escolar com o propósito educativo de for- mar leitores e escritores, gerar condições didáticas que permitam colocar em cena a versão escolar da língua escrita mais próxima da versão social (não escolar) dessas práticas. Parte 2 - Para transformar o ensino da leitura e da escrita O desafio é combater a discriminação que a es- cola opera não apenas criando o fracasso por não alfabetizar, como também impede aos outros de che- garem a ser leitores e produtores de textos compe- tentes e autônomos. Como possibilitar mudanças na prática dos professores para que todos tenham aces- so à língua escrita? a) A capacitação: condição necessária, mas não suficiente para a mudança na proposta didática. A atualização é sempre necessária em todas as profissões e mais ainda para os professores latino- americanos por conta das mudanças radicais que ocorrem nos últimos anos em relação à alfabetiza- ção. Porém, mesmo reconhecendo, que a capaci- tação não é suficiente para a mudança na propos- ta didática, é necessário introduzir modificações no currículo e na organização institucional, desen- volver a pesquisa de campo da didática da leitura e da escrita. O tempo é uma variável importante para a capa- citação: as “jornadas” de duração muito curta po- dem ser úteis para dar a conhecer um assunto, mas são insuficientes; quarenta horas, por exemplo, dis- tribuídas numa semana não é a mesma coisa que distribuir em vários meses, já que esta última distri- buição permite que o professor leia a bibliografia, ponha em prática, novas atividades e discutam com seus colegas. Oficinas, análise de registros de classe, do plane-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 87 SINPEEM jamento de atividades e da avaliação; durante o pro- cesso de acompanhamento, condução de situações didáticas, são condições para que o professor apren- da “por participação na tarefa concreta”. Estas são situações que provocam transformações na prática do professor. Quanto à dimensão obrigatoriedade-voluntaria- do cada uma tem vantagens e desvantagens. A obri- gatoriedade corre o risco de alguns participantes não se comprometerem seriamente. b) acerca da transposição didática: a leitura e a escrita como objeto de ensino (A autora incorpora o pensamento francês de uma corrente conhecida como Didática da Matemática, cujos representantes principais: Brousseau e Che- vallard, utilizam conceitos de ”transposição didáti- ca” e “contrato didático”. Lerner interessa-se por este conceitos nas aprendizagens básicas de Língua e Matemática – que determinam o êxito ou fracasso inicial. Ela atualiza estes conceitos para encontrar sua especificidade no caso da língua escrita.) · Abismo entre a prática escolar e a prática social da língua escrita – a língua escrita, criada para repre- sentar e comunicar significados, aparece na escola fragmentada. · Leitura: na escola lê-se somente para a prender a ler; a leitura em voz alta ocupa mais espaço que a leitura silenciosa. Na vida social ler é uma atividade orientada por propósitos – de buscar informação ne- cessária para resolver problemas práticos. · Escrita: na escola escreve-se apenas para apren- der a escrever; na sala de aula espera-se que o aluno produza textos num tempo muito breve e escreva diretamente de modo fluente e rápido a versão final. Fora da escola produzir texto é um longo processo que requer reiteradas revisões; é considerada uma tarefa difícil para adultos mesmo para aqueles que o fazem habitualmente. Por que ensinar algo tão diferente do que as crianças terão que usar depois fora da escola? Atribuiu-se durante muito tempo a concepção condutista que impera na escola, mas Chevallard com seus estudos sobre matemática demonstrou que a distância entre o objeto de conhecimento que existe fora da escola e o objeto que é ensinado na escola não ocorre apenas com a leitura e a escrita, mas afe- ta todos os saberes que ingressam na escola para ser ensinados e aprendidos. O saber (Chevallard) adquire sentidos diferen- tes em diferentes instituições. Todo saber está mo- delado pelo aqui e agora da situação institucional em que se produzem. A escola e o saber – a escola tem a finalidade de comunicar às novas gerações o conhecimento ela- borado pela sociedade. Para tanto o saber científico ou as práticas sociais se transforma em “objetos de ensino”. Ao se modificarem ocorre a transformação: é necessário selecionar algumas questões, privilegi- ar certos aspectos, distribuir as ações no tempo, or- ganizar os conteúdos. A necessidade de comunicar o conhecimento leva a modificá-lo. Tempo – o conhecimento vai se distribuindo atra- vés do tempo e com isso adquire características par- ticulares, diferentes do objeto original. Graduação – A graduação do ensino da língua escrita: no começo, leitura mecânica e, só mais tarde, leitura compreensiva; as letras ou sílabas se apresen- tam de forma seqüenciadas antes da palavra, da ora- ção, do texto; os alunos devem compreender “literal- mente” o texto antes de fazer uma interpretação pró- pria dele e muito antes de fazer uma leitura crítica. Duas ilusões na tradição escolar: 1 - Contornar a complexidade dos objetos de conhecimento reduzindo-os a seus elementos mais simples – a simplificação faz desaparecer o objeto que se quer ensinar. 2 - Exercer um controle sobre a aprendizagem – o professor não consegue controlar a compreensão que as crianças têm da língua escrita nem sobre suas pos- sibilidades como intérpretes e produtores de texto. · Transposição didática – deve ser rigorosamente controlada porque: o propósito da escola é comuni- car o saber; a intenção de ensino faz com que o ob- jeto não possa aparecer exatamente, nem ser utiliza- do da mesma maneira que é utilizado quando esta situação não existe; deve-se levar em conta os co- nhecimentos prévios das crianças que estão se apro- priando do objeto em questão. · O controle da transposição didática – não pode ser uma responsabilidade exclusiva do professor. a) Ao professor cabe prever atividades e interven- ções que favoreçam a presença na sala de aula do objeto de conhecimento que foi construído social- mente, assim como refletir sobre sua prática e refor- mulá-la se necessário. b) É de responsabilidade dos governos tornar pos- sível a participação da comunidade científica que por sua vez tem a responsabilidade de se pronunciar so- bre a seleção de conteúdos, formular objetivos, ati- vidades e formas de avaliação; que tais práticas não
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    88 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM desvirtuem a natureza dos objetos do conhecimento e estabelecer formas de trabalho nos diferentes graus ou ciclos. Contrato didático – O conceito de “contrato di- dático” é a relação entre o professor e o aluno. Auto- ridade do professor de quem “sabe mais” e autorida- de “institucional”. Que assumem frente aos alunos. Em relação à criança há também duplo processo: interpretar o texto e interpretar o que o professor en- tende e solicita. Broussseau estabelece que o “contrato” compro- mete o professor, o aluno e o saber. Direitos e responsabilidades entre o professor e os alunos - adquire características específicas em re- lação a cada conteúdo. Rockwell – a “clausula” sobre interpretação de textos parece estabelecer que o direito de decidir sobre a validade da interpretação é privativo do pro- fessor, que a autoridade institucional da qual está investido o exime de apresentar argumentos, o que não impede, que os professores que assim o desejam possa fazê-lo – e que os alunos – tenham sido con- vencidos em favor do professor. Que efeitos produzirão essa distribuição de di- reitos e obrigações na formação das crianças como leitores? Se o aluno não tem o direito de atuar como leitor reflexivo e crítico na escola, qual será a insti- tuição social que lhe permitirá formar-se como tal? É preciso: · Revisar a distribuição dos direitos e das respon- sabilidades que o professor e alunos têm em relação à língua escrita e os propósitos que a instituição se coloca em relação à formação de leitores e produto- res de textos. · Criar na escola âmbitos de discussão para ela- borar vias de transformação. · Elaborar “contrato” que responda melhor à ne- cessidade de formar leitores e escritores competentes. · Proporcionar elementos para conhecer as regras implícitas nas interações entre professores e alunos a cerca da língua escrita. · Doa formadores de professores criar situações que permitam aos professores e estudantes compre- enderem a contradição no ensino da língua escrita, assumir e superá-la para formar praticantes autôno- mos da língua escrita. Ferramentas para transformar o ensino 1 - Estabelecer objetivos por ciclos, em vez de estabelecer por grau. Não apenas porque isso dimi- nui o risco de fracasso na aprendizagem da língua escrita, mas também permite elevar a qualidade da alfabetização. Atenua a tirania do tempo didático – prof e aluno dedicando tempo para ler verdadeiros livros; trabalhar com diferentes tetos; discutir diver- sas interpretações; cometer erros, refletir sobre eles e retificá-los. Há tempo para avançar no domínio da língua escrita. 2 - Atribuir aos objetivos gerais prioridade aos específicos. 3 - Evitar a correspondência termo a termo ente os objetivos e atividades, correspondência que leva ao parcelamento e a fragmentação indevida da lín- gua escrita. 4 - Superar a tradicional separação ente “alfabe- tização em sentido estrito” e “alfabetização em sen- tido amplo” ou entre “apropriação da leitura e da escrita”. Esta separação é responsável pelo fato do ensino fundamental centrar-se na sonorização des- vinculada do significado. 5 - o objetivo é formar leitores; leitura é desde o começo, um ato centrado na construção do signifi- cado, o qual não é subproduto da oralização. Para construir significado ao ler, é fundamental ter opor- tunidades de se enfronhar na cultura do escrito, de ir construindo expectativas acerca do que se pode “di- zer” neste ou naquele texto. Parte 3 - Apontamentos a partir da Perspectiva Curricular Currículo – deve levar em consideração as con- tribuições das ciências da linguagem, da psicologia, estudos psicogenéticos, psicolingüísticos, estudos sociológicos e etnográficos. Idéias subjacentes à perspectiva curricular ado- tada: 1 - Somente a didática da língua pode contribuir para resolver problemas que se enfrenta na produ- ção curricular. 2 - Quando se propõe uma transformação didáti- ca é necessário levar em conta a natureza e as pres- sões próprias que se lhe são inerentes. 3 - O projeto curricular deve preservar o senti- do do objeto de ensino - no caso da leitura e da escrita – favorecendo a prática social que se pre- tende comunicar. Problemas curriculares: elaborar documentos curriculares significa tomar decisões que afetarão muitas escolas. Portanto, faz sentir, fortemente, a necessidade da pesquisa didática. Construir o objeto de ensino: Chevallard expli- cita que a decisão de quais são os conteúdos a en- sinar e quais serão considerados prioritários supõe uma verdadeira reconstrução do objeto. Trata-se de um primeiro nível de transposição didática: a pas- sagem dos saberes cientificamente produzidos ou práticas a ensinar. Tradicionalmente, o que se concebe como objeto
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 89 SINPEEM de ensino é a língua, em particular seus aspectos des- critivos e narrativos. Infelizmente, são ausentes na sala de aula, práticas de leitura e escrita: razão que leva as pessoas a ler e escrever, as maneiras de ler, tudo o que fazem os leitores e escritores, as relações que leitores e escritores têm com o texto. Os efeitos dessa ausên- cia são evidentes: a reprodução das desigualdades sociais relacionadas com a leitura e a escrita. Conteúdos envolvidos nas práticas: 1 - Os comportamentos do leitor e do escritor são conteúdos e não tarefas, porque são aspectos que se espera que os alunos aprendam. 2 - O conceito de “comportamentos do leitor e do escrito” não coincide como de “conteúdos pro- cedimentais”, porque em um mesmo comportamen- to pode confluir o atitudinal, o comportamental e o conceitual. Ao atuar como leitores e escritores, os alunos têm oportunidades de se apropriar de con- teúdos lingüísticos que adquirem sentido nas práti- cas; é assim que as práticas se transformam em fonte de reflexão metalingüística. Preservar o sentido dos conteúdos: supõe propi- ciar que sejam adquiridos por participação nas práti- cas, que se ponham efetivamente em ação em vez de ser substituídos por meras verbalizações Os comportamentos do leitor na escola: tensões e paradoxos Fora da escola, a leitura se mantém alheia ao obrigatório, dentro da escola não escapa da obriga- toriedade. A escola, por outro lado, tem responsabi- lidade em relação ao ensino que a obriga a exercer um forte controle sobre a aprendizagem e com isso privilegia algumas questões e deixa de lado outra. Normalmente a escola apresenta para crianças apenas textos dirigidos às crianças Mas está muito claro que não se aprende a ler textos difíceis lendo textos fáceis. Se pretendemos que os alunos construam comportamentos de ler tex- tos literários é preciso incorporar esses textos em seu trabalho e preservar o sentido que a leitura e a escri- ta tem para os seres humanos. Parte 4 - É possível ler na escola? Esta pergunta pode parecer estranha à institui- ção cuja missão fundamental é precisamente ensinar a ler e a escrever. No en- tanto muitas práticas descaracterizam a leitura na escola, distantes dos propósitos que lhe dão sentido social. Isso ocorre por dois fatores: a) a teoria condutista (comportamentalista ou behaviorista) da aprendizagem - que não se ocupa do sentido que a leitura possa ter para as crianças e concebe a aquisição do conhecimento como um pro- cesso acumulativo e graduado, um parcelamento do conteúdo em elementos supostamente simples. b) um conjunto de regras, pressões e exigências arraigadas na escola - distribuição do tempo escolar que atribui um período determinado à aprendizagem de cada um desses elementos, um controle estrito da aprendizagem de cada parcela e um conjunto de re- gras que concedem ao professor certos direitos e deveres que somente ele pode exercer – enquanto o aluno exerce outros complementares. Isso torna a leitura impossível na escola. A escola como microssociedade de leitores e escritores. (ou – sim é possível ler na escola) Para que a leitura se transforme num objeto de aprendizagem é necessário que tenha sentido do ponto de vista do aluno, isto, que os propósitos didá- ticos cumpram a função para a realização de propó- sitos que o aluno conhece e valoriza. Exemplo: Produção de uma fita de poemas com propósito comunicativo de compartilhar com pesso- as textos comovedores e interessantes; tendo como destinatários grupos de alunos de educação infantil e biblioteca falante para cegos. Seqüência de ativi- dades: proposta do projeto; seleção dos poemas; or- ganização da tarefa; audição das fitas; gravação (en- saio); audição; regravação; escuta da fita editada e redação de uma carta coletiva apresentando a fita e solicitando uma resposta “crítica” construtiva. Gestão do tempo, apresentação dos conteúdos e organização das atividades. Parece necessário romper com a correspondên- cia linear entre parcelas do conhecimento e parcelas do tempo e para isso é preciso criar condições com diferentes modalidades organizativas: 1 - Projetos – permitem organização flexível do tempo de acordo com o objetivo que se queira al- cançar; compartilhar o planejamento com os alunos: discutir etapas, responsabilidades, trabalhar a leitura sobre vários pontos de vista. 2 - Atividades habituais – oferecem oportunida- de de interagir intensamente com um gênero de cada vez. Ex. Hora dos contadores de história. Seqüências de atividades 3 - Seqüências de atividades – podem ser coleti- vas, grupais e individuais. Estão direcionadas para se ler com as crianças diferentes exemplares de um mesmo gênero ou subgênero (poemas, contos de aventuras, contos fantásticos...) 4 - Situações independentes a) Situações ocasionais: quando a professora en- contra um texto que considera valioso, embora per-
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    90 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM tença a um gênero, ou a um tema que não tem cor- respondência com as atividades do momento. b) Situações de sistematização: Ex. após ter reali- zado uma seqüência centrada na leitura de fábulas, propor uma situação cujo objetivo é refletir sobre os traços que caracterizam as fábulas e as diferenciam dos contos; depois de ter confrontado certos proble- mas relativos à pontuação, é possível propor situa- ção cujo objetivo é “passar a limpo” os conhecimen- tos construídos ao resolver os problemas. A gestão do tempo deve respeitar a distribuição do tempo didático que corresponde à necessidade de produzir uma mudança qualitativa na apresenta- ção da leitura. O tempo escolar é insuficiente tam- bém para a perspectiva aqui proposta. É necessário selecionar administrando o tempo de tal modo que o importante ocupe sempre o primeiro lugar. Acerca do controle: avaliar a leitura e ensinar a ler Avaliação é uma necessidade legítima da insti- tuição escolar, mas para evitar que a pressão da ava- liação se torne obstáculo para a formação de leito- res, é preciso por em primeiro plano os propósitos referentes à aprendizagem, de tal modo que estes não se subordinem à necessidade de controle e, por ou- tro lado, criar momentos em que o controle seja res- ponsabilidade também do aluno. O professor como ator no papel de leitor – é de particular importância, na primeira etapa da escola- ridade a leitura do professor. Depois o professor con- tinuará atuando como leitor – não com tanta freqüên- cia como no começo – durante toda escolaridade, porque é lendo materiais que ele considera interes- santes, belos ou úteis que poderá comunicar às cri- anças o valor da leitura. O problema da leitura é de responsabilidade de toda instituição escolar.A escola deve se preocupar em elaborar projetos direcionados em enfrentar a questão da leitura instalando o “clima leitor” na es- cola e não apenas na sala de aula. E assim a autora responde a questão é possível ler na escola. Parte 5 - Papel do conhecimento didático na formação do professor O conhecimento didático tem de ser o eixo do processo de capacitação do professor. Para os ca- pacitadores dois fatores foram essenciais para avan- çar na análise da situação e produzir progressos no trabalho de capacitação de professores: a conceitu- alizacao da especificidade do conhecimento didá- tico e a reflexão sobre nossa própria prática como formadores. Após avaliar as situações, conservar as que con- sideramos produtivas para a construção de conheci- mento didático por parte dos professores. Há um duplo objetivo: conseguir que os professores cons- truam conhecimentos sobre um objeto de ensino e, por outro lado, que elaborem conhecimentos refe- rentes às condições didáticas necessárias para que seus alunos possam apropriar-se desse objeto. Neste sentido, duas condições são importantes: que o capacitador se esforce por entender os proble- mas que os professores apresentam, por compreen- der por que pensam o que pensam, ou por que deci- dem adotar uma proposta e rejeitar outra; por outro lado, que os professores se sintam autorizados a atu- ar de forma autônoma, que tenham razões próprias para tomar e assumir suas decisões. Síntese elaborada por Martha Sirlene da Silva, Mestre em educação pela UMESP, membro do GEAL – Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Alfabetização e Letramento.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 91 SINPEEM LIBÂNEO, José Carlos. OLIVEIRA, João Ferreira. TOSCHI, Mirza Seabra. Editora Cortez, 2005 1ª parte - cap. 2 e 4ª parte - cap. 1, 2, 3 e 4 1ª Parte Torna-se cada vez mais evidente o fato de que a revolução tecnológica está favorecendo o surgimen- to de uma nova sociedade, marcada pela técnica, pela informação e pelo conhecimento.Esta se carac- teriza ainda por um novo paradigma de produção e de desenvolvimento, que tem como elemento bási- co a centralidade do conhecimento e da educação. Essa centralidade ocorre porque educação e co- nhecimento passam a ser, do ponto de vista do capi- talismo globalizado, força motriz e eixos de transfor- mação produtiva e do desenvolvimento econômico. No novo processo de produção, em que estão presentes as novas tecnologias e as novas ou mais flexíveis e eficientes formas de organização da pro- dução não há praticamente lugar para o trabalhador desqualificado; a desqualificação passou a significar exclusão do novo processo produtivo. No novo sistema produtivo, há lugar para o tra- balhador cada vez mais polivalente, flexível, versá- til, qualificado intelectual e tecnologicamente e ca- paz de se submeter a um contínuo processo de aprendizagem. Na ótica economicista e mercadológica, presente na atual reestruturação produtiva do capitalismo, o desafio essencial de educação consiste na capacita- ção da mão de obra e na requalificação dos trabalha- dores, para satisfazer as exigências do sistema produ- tivo e formar o consumidor exigente e sofisticado para um mercado diversificado, sofisticado e competitivo. No âmbito dos sistemas de ensino e das escolas, procura-se reproduzir a lógica da competição e as regras de mercado, com a formação de um mercado educacional.Busca-se a eficiência pedagógica por meio da instalação de uma pedagogia da concorrên- cia, da eficiência e da produtividade. No entanto, isso não implica em que os impactos da revolução tecnológica no campo da educação, ani- quilem as singularidades dos sujeitos.Em uma socieda- de do conhecimento e de aprendizagem, é preciso do- tar os sujeitos sociais de competências e de habilidades pra a participação da vida social, econômica e cultural afim de não ensejar novas formas de divisão social. A EDUCAÇÃO ESCOLAR PÚBLICA E DEMOCRÁTICA NO CONTEXTO ATUAL: UM DESAFIO FUNDAMENTAL A educação escolar precisa oferecer respostas concretas à sociedade, formando quadros profissio- nais para o desenvolvimento e para a geração de ri- queza que sejam capazes também de participar cri- ticamente desse processo. No contexto da sociedade contemporânea, a edu- cação pública tem tríplice responsabilidade: ser agente de mudanças; trabalhar a tradição e os valores nacio- nais; preparar cidadãos capazes de entender o mundo. Essas responsabilidades implicam em três objeti- vos fundamentais que devem servir de base para a construção de uma educação pública de qualidade no contexto atual: · preparação para o processo produtivo e para a vida em uma sociedade técnico-informacional; · a formação para a cidadania crítica e partici- pativa; · formação ética 4ª PARTE ORGANIZAÇÃO E GESTÃO DA ESCOLA: OS PROFESSORES E A CONSTRUÇÃO COLETIVA DO AMBIENTE DE TRABALHO As funções específicas de planejar, organizar, di- rigir e avaliar uma determinada instituição social, mediante várias ações e procedimentos, é o que se designa gestão. No caso da escola essas ações e procedimentos asseguram a racionalização do uso de recursos - humanos, materiais, financeiros e intelectuais –as- sim como a coordenação e o acompanhamento do trabalho das pessoas. Conceitualmente a gestão faz parte da organiza- ção. Na escola a gestão e a organização aparecem juntos, pois seus objetivos e resultados, seus proces- sos e meios estão relacionados com a formação hu- mana Partindo do princípio de que os meios existem para se alcançarem determinados fins e lhes são su- bordinados, entendemos que as formas de organiza- ção e de gestão da escola são meios para a realiza- ção de seus objetivos específicos. Esses meios visam: a) prover os recursos necessários ao ótimo funci- onamento da escola e do trabalho em sala de aula; b) promover o envolvimento/participação das pessoas no trabalho e avaliar essa participação; c) garantir a realização da aprendizagem para todos os alunos.
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    92 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM As reformas educacionais exigidas pelas recen- tes transformações do mundo contemporâneo colo- cam a escola como unidade básica e como espaço de realização das metas do sistema escolar. A gestão educacional centrada na escola pode ser entendida pela perspectiva neoliberal que con- cede à comunidade e a escola a iniciativa de plane- jar, organizar e avaliar os serviços educacionais, e, libera boa parte das responsabilidades do Estado; ou pela perspectiva sociocrítica que, pelo interesse pú- blico do serviço educacional prestado, valoriza as ações concretas dos profissionais na escola que se- jam decorrentes de sua iniciativa, mas não desobri- ga o Estado de suas responsabilidades. Nessa segunda perspectiva a escola e seu modo de se organizar constituem um ambiente educati- vo, pois se entende que todas as pessoas que nela trabalham, mesmo não tendo as mesmas respon- sabilidades nem a mesma atuação, realizam ações educativas. As escolas são, ambientes formativos e ambien- tes de aprendizagem, pois suas práticas de organi- zação e de gestão ao mesmo tempo em que educam - podem criar ou modificar os modos de agir e de pensar das pessoas - ,também aprendem –na medida em que sua gestão pode ser construída pelas mes- mas pessoas que a compõem. Em síntese, as pessoas mudam com as práticas organizativas, as organiza- ções mudam com as pessoas. A organização do sistema de ensino de um país pode ser considerada em três grandes instâncias: o sistema de ensino como tal, as escolas e as salas de aula. A escola sendo a instância integrante do todo social, é o espaço de realização tanto dos objetivos do sistema de ensino quanto dos objetivos de apren- dizagem, e é afetada pela estrutura econômica e so- cial, pelas decisões políticas e pelas relações de po- der em vigor na sociedade. Isso significa que as políticas e as diretrizes do sistema de ensino podem exercer forte influência e controle na formação das subjetividades de profes- sores e alunos. Revela-se que as formas de organiza- ção e gestão desempenham um papel educativo na medida em que propicia ao professor a necessária compreensão entre as relações do espaço escolar, o sistema de ensino e o sistema social mais amplo, uma vez que é ele, o responsável pela formação intelec- tual, afetiva e ética dos alunos. Dessa forma é imperativo que os professores, ten- do consciência das determinações sociais e políti- cas, das relações de poder implícitas nas decisões administrativas e pedagógicas do sistema e como elas afetam as decisões e as ações levadas a efeito na es- cola e nas salas de aula, se convençam e legitimem as normas e diretrizes curriculares em vigor. Neste sentido, é necessário conciliar as decisões do sistema e as decisões tomadas no âmbito das es- colas, e para tal é preciso que a organização e a ges- tão escolares ocorram mediante formas participati- vas, concebendo a escola como uma comunidade democrática de aprendizagem. É necessário existir uma interdependência entre os objetivos e as funções da escola e a organização e a gestão do trabalho escolar, a fim de garantir o obje- tivo primordial da escola que é o ensino e aprendi- zagem dos alunos. É preciso ter clareza de que o eixo da instituição escolar é a qualidade dos processos de ensino e aprendizagem que, mediante procedimentos peda- gógico-didáticos, propiciam melhores resultados de aprendizagem. As famílias, a comunidade e os alunos desejam uma escola em que os próprios alunos estejam moti- vados para estarem nas aulas e se envolvam com afin- co nas atividades da classe.Isto significa que quanto mais uma escola consegue promover a aprendiza- gem de seus alunos mais ela se diferencia. A melhor qualidade de aprendizagem dos alu- nos está associada a alguns fatores como: a capaci- dade de liderança dos dirigentes, práticas de gestão participativa, a cultura organizacional instituinte, o relacionamento entre os membros da escola, a refle- xão conjunta e troca de experiência entre os profes- sores, a autonomia escolar que implica em uma ges- tão descentralizada. Embora não seja possível padronizar regras e pro- cedimentos organizacionais de validade geral para o modo e funcionamento de uma escola, há algumas características que podem ser úteis como: professo- res preparados, projeto pedagógico curricular com plano de trabalho definido, bom clima de trabalho, estrutura organizacional que motive a aprendizagem, direção e coordenação pedagógica que articulam o trabalho dos professores, condições físicas e materi- ais adequados, estrutura e organização curricular com conteúdo bem selecionado, e finalmente a disponi- bilidade da equipe para aceitar inovações. A eficácia das escolas segundo Nóvoa (1995) está relacionada também com a articulação curricular, com a estabilidade profissional do corpo docente, com a liderança organizacional, com o programa de formação continuada e com a participação dos pais entre outros. Todos os aspectos citados somente têm sentido se estiverem diretamente associados à me- lhoria das metodologias do ensino e aprendizagem. O conjunto currículo-ensino constitui os meios mais diretos para atingir o que é nuclear na escola _ a aprendizagem dos alunos _ com base nos objeti- vos educacionais que expressam os projetos sociais e culturais da sociedade e da comunidade, de acor- do com os interesses em jogo. A escola é o local do trabalho docente, e a orga- nização escolar é o espaço de aprendizagem da pro-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 93 SINPEEM fissão que funciona com base em dois movimentos inter-relacionados: de um lado a estrutura e a dinâ- mica organizacional atuando na produção das idéi- as dos modos de agir, das práticas profissionais dos professores; de outro, estes são participantes ativos na organização, contribuindo com a definição de objetivos, com a formulação do projeto pedagógico- curricular, com a atuação nos processos de gestão e de tomadas de decisão, havendo portanto uma con- comitância entre o desenvolvimento profissional e o desenvolvimento organizacional. O professor, na maior parte das vezes, ainda tem sua participação restrita à sala de aula, mas essa si- tuação pode ser modificada pela adoção de práticas participativas em que ele mesmo aprenda nas situa- ções de trabalho, compartilhe, discuta e tome deci- são sobre o projeto pedagógico- curricular,sobre as relações sociais internas,sobre as práticas de avalia- ção. Esse modo de funcionamento da organização e da gestão considera a escola uma comunidade de aprendizagem. Segundo Pérez Gomes (2000), toda aprendiza- gem relevante é um processo de diálogo com a reali- dade natural e social; assim sendo a sala de aula é um lugar de construção, de reconstrução e de com- partilhamentos de culturas, como a organização es- colar é um espaço de compartilhamento de signifi- cados, de conhecimento e de ação entre as pessoas. A adoção da gestão participativa para a comuni- dade de aprendizagem introduz um modelo alterna- tivo de vida em sociedade, mas que não pode ser confundida com um falso igualitarismo entre funções e papéis dos membros da equipe escolar. O exercício profissional do professor compreen- de ao menos, três atribuições: a docência, a atuação na organização e na gestão da escola e a produção de conhecimento pedagógico. Como docente, necessita de preparo profissional para ensinar os conteúdos, acompanhar individual- mente aos alunos e avaliar a aprendizagem, bem como, desenvolver conhecimentos e pontos de vista sobre questões pedagógicas.Como membro da equi- pe escolar, deve dominar conhecimentos relaciona- dos à organização e à gestão, desenvolver capacida- des e habilidades práticas para participar dos pro- cessos de tomada de decisões. Como profissional que produz conhecimento sobre seu trabalho precisa desenvolver competências de elaboração e de de- senvolvimento de projetos de investigação. Certos princípios e métodos da organização es- colar originam-se de experiência administrativa, po- rém com formas muito peculiares de conceber as práticas de organização e de gestão escolar, uma vez que seus objetivos dirigem-se para a educação e for- mação de pessoas, e portanto, tais práticas se reves- tem de caráter genuinamente pedagógico. A organização escolar refere-se aos princípios e procedimentos relacionados à ação de planejar o tra- balho da escola, racionalizar o uso de recursos e coordenar e avaliar o trabalho das pessoas tendo em vista a consecução de objetivos. Chiavenato (1989) distingue dois significados de organização: unidade social e função administrati- va. Como unidade social, a organização identifica um empreendimento humano destinado a atingir determinados objetivos e como função administrati- va, refere-se ao ato de organizar, estruturar e integrar recursos e órgãos. Desse modo, a organização escolar define-se como uma unidade social que reúne pessoas que interagem entre si, intencionalmente, operando por meio de estruturas e processos organizativos própri- os a fim de alcançar objetivos educacionais. “Esse conjunto de características é denominado por Vitor Paro (1996) de administração escolar, que afirma que tanto na teoria como na prática, a admi- nistração pode ser entendida como dois campos que se interpenetram: a “racionalização do trabalho” e a “coordenação do esforço humano coletivo”. Alguns autores afirmam que o centro da organi- zação e do processo administrativo é a tomada de decisão. Esse processo de chegar a uma decisão e de fazer a decisão funcionar caracteriza a ação desig- nada como gestão, que é a atividade pela qual são mobilizados meios e procedimentos para atingir os objetivos da organização. Há várias modalidades e concepções de gestão: centralizada, colegiada, participativa, co-gestão. A cultura é um conjunto de conhecimentos e valores, crenças e costumes modos de agir e de se comportar, e constitui o contexto simbólico que nos rodeia e vai formando nosso modo de pensar e de agir, isto é, nossa subjetividade. A bagagem cultural dos indivíduos contribui para definir a cultura organizacional da instituição de que fazem parte, e considerá-la como um conceito central da organização das escolas significa buscar a relação das práticas culturais dos indivíduos e sua subjeti- vidade com sua influência nas formas de organi- zação e de gestão escolar. Podemos entender o assentimento ou a resistên- cia ante as inovações, se identificamos na escola a cultura organizacional designada. Cultura organizacional pode ser definida como o conjunto de fatores sociais, culturais e psicoló- gicos que influenciam os modos de agir da organi- zação como um todo e o comportamento das pes- soas em particular.Esses fatores são os que dife- renciam uma escola da outra, e são denominados de currículo oculto, pois embora não seja explíci- to e nem claramente perceptível atua de forma poderosa nos modos de funcionar das escolas e na prática dos professores. A cultura organizacional aparece de duas formas:
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    94 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM como cultura instituída –normas legais definidas pelos órgãos oficiais, como cultura instituinte - nor- mas criadas e recriadas pelos membros da escola. A organização e os processos de gestão assumem diferentes modalidades, conforme a concepção que se tenha das finalidades sociais e políticas da educa- ção em relação à sociedade e à formação de alunos. Em uma perspectiva linear teríamos em um ex- tremo a concepção técnico-científica em que preva- lece uma visão burocrática e tecnicista da escola cuja decisão vêm de cima para baixo e basta cumprir um plano previamente elaborado, e no outro extremo a concepção sociocrítica em que prevalece uma visão democrática da escola e a tomada de decisões, dá- se coletivamente, possibilitando ao grupo discutir e deliberar em uma relação de colaboração. Os diferentes estilos de gestão fundamentam-se em quatro concepções: a técnico-científica, a auto- gestionária, a interpretativa e a democrático-parti- cipativa. Entende-se que as concepções de gestão escolar refletem diferentes posições políticas, e a participa- ção é o principal meio de assegurar a gestão demo- crática, pois possibilita o envolvimento de todos os integrantes da escola no processo de tomada de deci- sões, proporciona melhor conhecimento dos objeti- vos e metas de sua estrutura organizacional e de sua dinâmica e propicia um clima de trabalho favorável. O conceito de participação fundamenta-se no princípio da autonomia, que significa a capacidade das pessoas e dos grupos para a livre determinação de si próprios, isto é, para a condução da própria vida. A participação significa, portanto, a interven- ção dos profissionais da educação e dos usuários (alu- nos e pais) na gestão da escola, havendo dois senti- dos de participação articulados entre si: um mais res- trito que se identifica com a idéia de escola como comunidade democrática de aprendizagem e outro, mais amplo que identifica a escola com o status de comunidade educativa, pois ela deixa de ser uma redoma, um espaço fechado, separado da realidade. O caráter pedagógico da ação educativa consis- te precisamente na formulação de objetivos sócio- políticos e educativos e na criação de formas de via- bilização organizativa e metodológica da educação, tendo em vista dar uma direção consciente e plane- jada ao processo educacional. Entende-se o papel do diretor como um líder co- operativo, que têm a visão de conjunto e de alguém que consegue aglutinar as aspirações os desejos e as expectativas da comunidade escolar e articular a adesão e participação de todos os segmentos da es- cola na gestão em um projeto comum; uma vez to- madas as decisões coletivamente é preciso que a es- cola esteja bem coordenada e administrada a fim de colocá-las em prática. Instituição autônoma é a que tem poder de deci- são sobre seus objetivos e sobre suas formas de orga- nização, que se mantém relativamente independen- te do poder central e administra livremente recursos financeiros. Dessa forma, as escolas podem traçar seu pró- prio caminho, porém as escolas públicas têm uma autonomia relativa, pois integram um sistema esco- lar e dependem das políticas e da gestão públicas. È por isso que a autonomia precisa ser gerida, impli- cando co-responsabilidade consciente, partilhada e solidária de todos os membros da equipe escolar.. Podemos afirmar que a organização escolar de- mocrática implica não só a participação na gestão, mas a gestão da participação. Além disso, a partici- pação das comunidades escolares em processos de- cisórios dá respaldo a governos estaduais e munici- pais para encaminhar ao Poder Legislativo projetos de lei que atendam às necessidades educacionais da população (Ciseski e Romão,1997). A concepção democrático-participativa de ges- tão valoriza o desenvolvimento pessoal, a qualifica- ção profissional e a competência técnica. Toda instituição escolar possui uma estrutura or- ganizacional interna, geralmente prevista no regimen- to escolar ou em legislação, específica, estadual ou municipal, que assegura o funcionamento da mes- ma, e comumente é representada graficamente em um organograma. O conselho de escola tem atribuições consulti- vas, deliberativas e fiscais em questões definidas na legislação estadual ou municipal e no regimento escolar.Sua composição tem certa proporcionalida- de de participação, observando, em princípio, a pa- ridade entre integrantes da escola (50%) e comuni- dade (50%), e tem, como função básica democrati- zar as relações de poder. O setor pedagógico compreende as atividades de coordenação pedagógica e de orientação edu- cacional. O coordenador pedagógico acompanha, assessora, apóia e avalia as atividades pedagógico- curriculares; sua atribuição prioritária é prestar as- sistência pedagógico-didática aos professores, no que diz respeito ao trabalho interativo com os alu- nos, mas também tem a função de relacionar-se com os pais e a comunidade. O orientador educacional cuida do atendimento e do acompanhamento indi- vidual dos alunos em suas dificuldades pessoais e escolares, do relacionamento escola-pais e de ou- tras atividades compatíveis com sua formação. Re- comenda-se que ambos sejam formados em cursos específicos de Pedagogia. Paralelamente à estrutura organizacional, muitas escolas mantêm instituições auxiliares como a Asso- ciação de Pais e Mestres (APM), o Grêmio Estudan- til, e a Caixa Escolar com a finalidade de organiza- ção da assistência social, econômica, alimentar, mé- dica e odontológica aos alunos carente.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 95 SINPEEM O corpo docente é o conjunto dos professores em exercício na escola e compõem com a direção e os especialistas a equipe escolar. As escolas buscam resultados, o que implica uma atividade racional, estruturada e coordenada sendo que em seu processo de organização dispõe, de fun- ções com base nas quais se definem ações, opera- ções necessárias ao funcionamento institucional que são: planejamento, organização,direção/coordena- ção e avaliação. O planejamento consiste em ações e procedimen- tos para tomada de decisões a respeito de objetivos e de atividades a ser realizadas em razão desses ob- jetivos, e possibilita uma previsão de tudo que será feito, superando a improvisação e a falta de rumo. A atividade de planejamento resulta em um pro- jeto pedagógico-curricular, que é um documento que propõe uma direção política e pedagógica, prevê as ações, formula metas, institui procedimentos e ins- trumentos de ação. É pedagógico porque formula objetivos sociais, políticos e meios formativos para dar uma direção ao processo educativo e expressa uma atitude pedagógica, que consiste em dar um sentido às práticas educativas. É curricular porque propõe, também, o currículo, que além de ser o refe- rencial concreto da proposta pedagógica é o desdo- bramento do projeto pedagógico. A estrutura organizacional e o cumprimento das atribuições de cada membro da equipe constituem elementos indispensáveis para o funcionamento da escola.Um mínimo de divisão de funções faz parte da lógica da organização educativa, sem compro- meter a gestão participativa. Dirigir e coordenar significa assumir no grupo a responsabilidade de fazer a escola funcionar medi- ante o trabalho conjunto e, essas tarefas agrupadas referem-se à gestão. É competência da direção, assegurar: a execução coordenada e integral das atividades dos setores e dos indivíduos, o processo participativo de tomada de decisões, a articulação das relações interpessoais. Todos os profissionais da escola precisam estar aptos a dirigir e a participar das formas de gestão, pois é necessário que haja um mínimo de normas, sempre decididas conjuntamente, garantindo a uni- dade da ação educativa escolar. Obedecendo à lógica da administração, isto é da necessária divisão de funções, o diretor e o coorde- nador pedagógico, assumem o papel de coordena- dores de ações voltadas para objetivos coletivamen- te estabelecidos. Na perspectiva de gestão devem reconhecer que essa ocupação tem uma característi- ca genuinamente interativa, ou seja, está a serviço das pessoas e da organização. A avaliação supõe acompanhamento e controle das ações decididas coletivamente permitindo pôr em evidência as dificuldades surgidas na prática diá- ria, mediante a confrontação entre o planejamento e o funcionamento real do trabalho. A avaliação das atividades implica a análise co- letiva dos resultados alcançados e a tomada de deci- sões sobre as medidas necessárias para solucionar as deficiências encontradas. Áreas de atuação são as atividades básicas que identificam uma instituição escolar e asseguram seu funcionamento, tendo em vista a melhor aprendiza- gem dos alunos. São seis, as áreas de atuação da or- ganização e da gestão da escola: 1) O planejamento e o projeto pedagógico cur- ricular 2) A organização e o desenvolvimento do currículo 3) A organização e o desenvolvimento do ensino 4) As práticas de gestão; 5) O desenvolvimento profissional (formação continuada) 6) Avaliação institucional da escola e da apren- dizagem. Existem diferentes estilos de gestão do trabalho na escola, sendo eles: o burocrático, com normas e regras previamente definidas e com forte ênfase no controle do comportamento das pessoas,o autoges- tionário valoriza a participação na gestão, mas ex- clui qualquer forma de diretividade, o democrático- participativo acentua tanto a necessidade de estabe- lecer objetivos e metas quanto a de prever formas organizativas e procedimentos mais explícitos de gestão e de articulação das relações humanas. Com base nesse último estilo de gestão citado, são sugeridas ações concretas e algumas competên- cias profissionais que assegurem o desenvolvimento de práticas de gestão participativa. 1 - Ações a ser desenvolvidas: 1) formação de uma boa equipe de trabalho 2) construção de uma comunidade democrática de aprendizagem que requer: * consenso mínimo sobre valores e objetivos; * estabilidade do corpo docente e tempo integral numa escola; * metas pertinentes, claras e viáveis; * capacitação de docentes para o trabalho em equipe e em habilidades de participação; * promoção de ações sistemáticas de formação continuada para o desenvolvimento profissional. 3) promoção de ações de desenvolvimento pro- fissional 4) envolvimento dos alunos em processos de so- lução de problemas e de tomada de decisões 5) Envolvimento dos pais na vida da escola 6) Fortalecimento de formas de comunicação e de difusão de informações 7) Avaliação do sistema escolar, das escolas e da aprendizagem dos alunos.
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    96 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM Na avaliação dos sistemas de ensino, o objetivo é realizar um diagnóstico mais amplo do sistema es- colar em âmbito nacional ou regional a fim de reori- entar a política educacional, a gestão do sistema e das escolas e a pesquisa. A avaliação do sistema escolar por meio da ava- liação externa e/ou interna das instituições, desdo- bra-se em duas modalidades: a) avaliação institucional que visa à obtenção de dados quantitativos e qualitativos sobre os alunos e professores, sobre a estrutura organizacional, sobre recursos físicos, sobre as práticas de gestão, etc., com o objetivo de emitir juízos de valor e tomar decisões acerca do desenvolvimento da instituição. b) avaliação acadêmica que visa à produção de informações sobre os resultados da aprendizagem escolar em função do acompanhamento e da revi- são das políticas educacionais, do sistema escolar das escolas, com a intenção de formular indicadores de qualidade dos resultados do ensino. Entre uma e outra modalidade está, a avaliação da escola que abrange o projeto pedagógico-curri- cular, a organização escolar, os planos de ensino e o trabalho dos professores e têm como objetivo a aferi- ção da qualidade de ensino e da aprendizagem dos alunos. Os aspectos a ser avaliados no âmbito da organi- zação escolar: a) dados estatísticos sobre a população escolar,reprovação, abandono da escola, etc.; b) elaboração e desenvolvimento do projeto pe- dagógico curricular; c) aspectos da organização geral da escola; d) clima organizacional da escola; e) acompanhamento do rendimento escolar dos alunos; f) avaliação da execução do projeto pedagógico- curricular; g) avaliação do desempenho dos professores; h) estratégias de relacionamento com os pais e com a comunidade e as formas de comunicação e de atendimento. Os critérios de relevância da avaliação dos alu- nos devem centrar-se em dimensões qualitativas e quantitativas da aprendizagem para todos os alunos, em condições iguais.Desse modo, a justa medida da eficácia das escolas está no grau em que todos os alunos incorporam capacidades e competências cog- nitivas, afetivas e morais para sua inserção produti- va, criativa e crítica na sociedade contemporânea. Não se trata, obviamente, de estabelecer diag- nóstico meramente com base em resultados de de- sempenho do aluno, mas de pesquisar formas avali- atórias que contemplem conjuntamente aspectos do processo e dos resultados. 2 - Competências profissionais do pessoal da escola 1) Aprender a participar ativamente de um grupo de trabalho ou de discussão a desenvolver compe- tência interativa entre si e com os alunos. São características da competência interativa as habilidades de comunicação, de expressão e de es- cuta. Entendendo que o professor em primeiro lugar é uma pessoa, isso significa que sua atividade se de- fine tanto por aquilo que ele sabe quanto por aquilo que ele é “reconhecer que a relação professor-aluno impregna a totalidade da ação profissional do pro- fessor implica reconhecer, também, que os professo- res necessariamente aprendem no contato com os alunos, e serão melhores professores quanto maior for a sua capacidade para realizar essa aprendiza- gem” (Canário,1997, p.12) 2 - Desenvolver capacidades e habilidades de liderança Liderança é a capacidade de influenciar, moti- var, integrar e organizar pessoas e grupos a fim de trabalharem para a consecução de objetivos. Kurt Lewin, psicólogo alemão, sugere três estilos de liderança que contribuem para entender a dinâ- mica interna das instituições: · o estilo autoritário - o dirigente decide,distribui e controla tarefas e não há participação da equipe, e o grau de satisfação com o trabalho é baixo; · o estilo democrático – há boas relações inter- pessoais e as ações propostas pelo dirigente são dis- cutidas com a participação das pessoas; · o estilo laisser-faire – o papel do dirigente é quase ausente, com fraca definição de objetivos e pouco empenho na organização e na gestão de atividades. Conforme o estilo de liderança, podem surgir, diferentes comportamentos entre os membros da equipe, sendo de hostilidade frente a uma atitude autoritária, e de ações positivas frente a uma atitude democrática. A tendência atual é a de uma liderança coopera- tiva que envolve determinados requisitos como: ca- pacidade de comunicação e de relacionamento com as pessoas; saber escutar; saber expor com clareza suas idéias; capacidade organizativa; características sociais, culturais e psicológicas do grupo. 3 - Compreender os processos envolvidos nas inovações organizativas, pedagógicas e curriculares A mudança de uma cultura organizacional insti- tuída ou de representações que as pessoas têm sobre o funcionamento da escola é um processo comple- xo, no qual influem a história de vida, os modos de
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 97 SINPEEM pensar e de agir já consolidados, as atitudes de aco- modamento, a resistência à mudança, etc.. O modo de agir das pessoas está ligado a conceitos subjeti- vos, a valores, a opiniões, a convicções e interesses ancorados em uma prática de muitos anos, sendo, portanto, de difícil mudança. O melhor modo de pro- mover a gestão participativa é instaurar a prática da participação em um clima de confiança, de transpa- rência e de respeito às pessoas, entendendo que é a própria prática que possibilita o alargamento da cons- ciência e o sentido da participação na construção de uma nova cultura organizacional. 4 - Aprender a tomar decisões sobre problemas e dilemas da organização escolar, das formas de gestão, da sala de aula Na prática, a gestão participativa é uma forma de integrar os membros da organização escolar nos pro- cessos e procedimentos de tomada de decisões a res- peito de objetivos, de critérios de realização desses objetivos, de encaminhamento de soluções para pro- blemas. Para boa parte das decisões a ser tomadas no cotidiano da escola existem já normas, procedi- mentos e orientações aprovadas pelo grupo; no en- tanto ocorrem acontecimentos e situações imprevi- síveis, havendo, então, a necessidade de discussões e de tomadas de decisões coletivas. 5 - Conhecer, informar-se, dominar o conteúdo da discussão para ser um participante atuante e crítico Há três campos de conhecimento sobre os quais os professores precisam estar muito bem informados: a legislação,os planos e as diretrizes oficiais; as nor- mas e rotinas organizacionais;as questões pedagógi- cas e curriculares. As escolas devem tornar disponí- vel aos professores e ao pessoal técnico administrati- vo os documentos básicos da legislação federal, es- tadual e municipal. 6 - Saber elaborar plano e projetos de ação Participar da organização da escola e saber or- ganizar seu trabalho na sala de aula são atividades que requerem capacidade e habilidades de plane- jamento. 7 - Aprender métodos e procedimentos de pesquisa O professor-pesquisador é profissional que sabe formular questões relevantes sobre sua própria prá- tica e tomar decisões que apresentem soluções a es- sas questões; para isso, precisa dominar alguns pro- cedimentos básicos da pesquisa. Os passos de uma prática de pesquisa asseme- lham-se aos procedimentos para a formulação de projetos ou para a solução de problemas: · identificar um problema,com base em uma prá- tica de ação – reflexão -ação; · definir meios e instrumentos de busca de informações,a fim de avaliar se as ações produziram o efeito esperado; · analisar os dados para identificar problemas, necessidades, alimentando o processo ação – refle- xão – novas ações; · propor ações e intervenções 8 - Familiarizar-se com modalidades e instrumentos de avaliação do sistema, da organização escolar e da aprendizagem escolar A avaliação caracteriza-se sempre por ser uma vi- são retrospectiva do trabalho. É etapa necessária de qualquer plano ou projeto, no âmbito da escola ou da sala de aula, e, é necessário que todos os que partici- pem da escola e dos processos de gestão dominem conhecimentos, instrumentos e práticas de avaliação. Resumo realizado por Maria Cristina Natel, gradua- da em pedagogia e especialista em psicopedagogia.
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    98 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM MACEDO, Lino. Porto Alegre, Artmed, 2005 O autor apresenta reflexões e propostas a respei- to de uma nova forma de encarar os desafios que a educação inclusiva gera no cotidiano escolar, tais como: disciplina, funções da avaliação, docência reflexiva, etc. O resumo obedece à ordem de orga- nização de títulos dos capítulos e de seus itens. 1 - Para uma cultura das diferenças Semelhanças/ Diferenças: Uma escola para todos parte do princípio do respeito pelas diferenças, entre- tanto, ainda hoje, a organização da escola está baseada na cultura das semelhanças. Essa cultura permite orga- nizar, classificar e atuar sobre algo que nos é conhe- cido, ou seja, orienta-se pela lógica da semelhança. A diferença é tudo aquilo que não reconhece- mos e que não sabemos como lidar. Por isso não conseguimos encará-la como algo inteiro e imagi- namos que só é possível compreendê-la por partes, fragmentos ou pistas. Quando precisamos lidar com aquilo que consideramos diferentes, percebemos que as categorias que dominamos são insuficientes, as- sim construímos novas relações por meio de infe- rências (deduções). Assim, a lógica da semelhança é a lógica das classes e a lógica das diferenças é a ló- gica das relações que nós construímos. Como nos relacionamos com as diferenças? Para dominar o que não conhecemos ou excluí- mos, ou transformamos em outra coisa. Um dos ca- minhos possíveis diante do que é diferente é respei- tar, aprendendo a conviver e desenvolvendo ações comprometidas com a inclusão. A cultura da dife- rença supõe “a cultura da fraternidade,” na qual di- ferenças e semelhanças podem conviver juntas. Para uma cultura das diferenças: Para praticar uma cultura das diferenças é preciso aprender a se relacio- nar com os excluídos, que têm um direito a um lugar e o direito de conviver com aqueles que não o são. Considerações finais Uma escola para todos precisa combinar a lógi- ca da semelhança com aquela da diferença, porque elas são interdependentes e complementares. 2 - Fundamentos para uma educação inclusiva É preciso conhecer e pensar nos fundamentos da ENSAIOS PEDAGÓGICOS: COMO CONSTRUIR UMA ESCOLA PARA TODOS? educação inclusiva porque isso define nossa posi- ção quanto ao assunto e determina as características de nosso trabalho. Na educação inclusiva a propos- ta é de que se trabalhe articulando classe e gênero. Lógica de exclusão é a lógica da classificação, que reúne tudo o que é igual. Essa lógica exclui aquilo que não se encaixa nos critérios e cria pre- conceitos. O problema não é classificar e sim o uso políticos e a visões educacionais que vêm desse raciocínio de classes. Na lógica da exclusão quem está fora do critério (ou referente) é designado pelo termo sem: sem-terra, sem-teto, etc. Lógica da inclusão é a lógica de relação, na qual um é definido em relação do outro. Se analisarmos uma criança que tem dificuldades de aprendizagem na lógica da relação, o professor também tem dificul- dades porque está implicado pela insuficiência de seus recursos pedagógicos na relação com este aluno. A relação e suas implicações: Pela lógica da rela- ção nós nos definimos pela própria relação. Ao incluir, nós nos abrimos para o que somos em relação ao ou- tro e para isso é preciso mudar estratégias, organiza- ção, espaço e tempo em sala de aula. Na exclusão o referente é externo, a classificação é única, sucessiva, em espaço e tempo diferentes. Na inclusão o referente é interno, múltiplo, simultâneo, nos relacionamos de inúmeras formas, no mesmo espaço e tempo. Interdependência: Na lógica da classe a estrutura ou é de dependência ou é de independência. Na ló- gica da relação a estrutura é de interdependência e suas características são: indissociabilidade (compar- tilhamos um mesmo todo), complementaridade (cada um é a parte que falta para a outra virar um todo), irredutibilidade (nada se reduz a um único critério). A co-dependência: A co-dependência é o lado negativo no qual ficamos em relação ao outro. Na co-dependência não se permite que o outro altere sua posição relacional conosco, precisamos que o outro continue dependente de nós. Autonomia e educação inclusiva: Ser autônomo é ser todo e parte ao mesmo tempo. Cada um é todo, com suas características, com o que tem ou não tem, isso é sua identidade. A educação inclusiva nos ofe- rece o desafio de aprender o que não sabíamos; a oportunidade de rever nossas expectativas e nosso trabalho como professores. Cientes de nosso própri-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 99 SINPEEM os medos e preconceitos podemos assumir uma for- mação que permita a educação inclusiva. 3 - Desafios à prática docente reflexiva Prática e reflexão são dois aspectos do conheci- mento que não podem ser dissociados porque são complementares e fundamentais, visto que hoje a escola acumula funções socioculturais e que para cumpri-las é preciso profissionalismo. Desafio 1 - Atualizar compreensões e procedi- mento sobre a escola e a prática docente. Como ensinar (e aprender) pela lógica da inclusão? No passado, o ensino era guiado pela lógica da exclusão. Os alunos eram selecionados por caracte- rísticas e quem não as atendia era excluído quer por reprovação, quer por abandono às próprias “insufi- ciências”. Na lógica da exclusão, a escola estabele- ce critérios e elimina tudo o que os contraria. As competências de ensinar estão desvinculadas daque- las de aprender e isso gera a seguinte situação: o professor ensina o aluno não aprende. Na lógica da inclusão a relação é precária (por- que é difícil controlar tudo); é complexa porque já não se pode decompor as partes do todo escolar pela redutora lógica da exclusão, e é ambivalente porque as referências são múltiplas (cada um é algo, depen- dendo das referências adotadas). Desafio 2 - Desenvolver novas habilidade e competências de ensino. Como ensinar em uma escola para todos? Há competências e habilidades que sempre fo- ram e são esperadas nos professores. No passado, para exercer as habilidades e competências, e exigi- las dos alunos, o professor dispunha de recursos efi- cientes como, por exemplo, a reprovação ou exclu- são dos alunos que não correspondiam às exigênci- as. Desde que a educação escolar passou a ser obri- gatória, todos têm o direito a entrar no sistema esco- lar e cumpri-lo, sem ameaça de repetência ou ex- clusão. Para tanto, se espera que professore ensine através de lógica da inclusão, na qual ensinar e apren- der são indissociáveis. Desafio 3 - Ensinar em um contexto mais inves- tigativo do que transmissivo. Como articular no pre- sente, o passado e o futuro? Deve-se desenvolver a natureza investigativa do ensino através de projetos e enfrentamento dos no- vos problemas. Portanto, o professor já não pode ser um transmissor daquilo que no passado se julgava fundamental, precisa ser orientador, gestor e criador de situações e tarefas de aprendizagem novas. Desafio 4 - Desejar aprender e não apenas ensinar. Como praticar uma formação contínua e matizada? Para aprendizagem do professor, além da forma- ção continuada, palestras, livros, etc., é preciso que a sua sala de aula se torne um ambiente investigati- vo e de aprendizagem para o próprio professor. Desafio 5 - Tratar prática e reflexão como for- mas interdependentes de conhecimento. Como as- sumir uma prática reflexiva? Prática e reflexão são interdependentes porque re- presentam dimensões de um mesmo conhecimento. Muitas vezes, a prática reflexiva é impedida por todo o tipo de urgência no cotidiano, isso porque a escola está sobrecarregada de tarefas e expectativas sociais e aca- ba atuando de forma pouco hábil e profissional. Desafio 6 - Assumir prática e reflexão nos ter- mos da lei de tomada de consciência de Piaget (1974/1978A). Como interiorizar e exteriorizar co- nhecimento e saberes. Prática reflexiva implica ponderar, qualquer tema, na perspectiva de situação-problema. Para isso é preciso pensar ações/conseqüência e não objetos e conceitos. Voltar-se para dentro: A prática reflexiva exige um voltar-se para dentro de si e do sistema em que se age, valorizando hipóteses e a expectativa do su- jeito quanto à produção de conhecimento. Refletir, para agir e refletir sobre a ação realiza- da: Refletir sobre a ação é compreender o passado e fazer disso um conhecimento para corrigir erros, antecipando ações futuras. Duplo processo: exteriorização e interiorização: Todo o conhecimento tem duas marchas: uma em direção ao sujeito e outra em direção ao objeto. É preciso realizá-las de modo interdependente porque ambas têm o sentido de superar e ignorância e tro- car o sofrimento pela alegria do conhecer. Prática reflexiva mediada e recursiva: Ninguém reflete por nós, mas também não é possível refletir sozinho. Quais são os processos e estratégias da pra- tica reflexiva? Reflexão: auto-observação, transformação e emancipação Com a prática reflexiva é possível rever hábitos e padrões de conduta e pensamento. Passar do plano da ação para o da reflexão pressupõe 3 obstáculos: aprender a reconstituir no plano da representação o que está no plano da ação; descentrar-se da ação, transformando-a em linguagem representativa e dar estatuto social e interindividual àquilo que era res- trito ao contexto de aula.
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    100 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM O antes, o depois e o durante em uma ação ou reflexão Muitas vezes, o máximo que conseguimos fazer é muita ação com pouca reflexão porque estamos imersos num cotidiano sem tempo ou espaço para ela, ou o oposto: muita reflexão e ação mínima. Duas posições extremas e prejudiciais. Desafio 7 - A docência como profissão. Como superar a idéia de que ensinar é uma “simples” ocupação? Ser professor é uma profissão que supõe uma for- mação séria, complexa e valiosa. A prática reflexiva é um dos recursos para realizar bem nossa profissão. Uma sociedade tecnológica e um mundo globalizado exi- gem domínios de diferentes formas de leituras e escrita e diferentes formas de solução de problemas. Portan- to, a escola não pode mais se manter restrita à trans- missão de conteúdos disciplinares, deve sim colocar em prática uma pedagogia diferenciada (que leva em conta a diversidade) e uma avaliação formativa (que indica mudanças de posição da criança). 4 - Para a aprendizagem dos que ensinam Em uma escola para todos é preciso que as rela- ções do professor com sua aprendizagem sejam apro- fundadas. Os próprios professores apontam para a necessidade do aumento de oferta de cursos de ca- pacitação, para melhoria dos equipamentos e dos materiais pedagógicos. Progressão continuada: A progressão continuada cria um círculo vicioso que substitui o fracasso esco- lar por um pseudo-sucesso. Entretanto, mesmo que a progressão continuada não esteja em boas condições no momento, ser contra ela é ser contra o direito da criança a um percurso. Ser contra ela é praticar ex- clusão pela repetência e/ou pelo abandono. Professores que aprendem: Os professores não querem só ensinar, querem aprender mais. Os pro- fessores podem e querem beneficiar-se daquilo que oferecem aos seus alunos. Interdependência entre ensinar e aprender: A ló- gica da inclusão é a de ligar as parte de modo que sejam interdependentes, formando um todo. Isso vale para a relação aprender-ensinar. Não basta que o pro- fessor aprenda e reflita com seus colegas e formado- res. Ele precisa aprender também em sua sala de aula. A escola e a sociedade hoje: Uma sociedade glo- balizada deveria ser uma sociedade para todos, e em- bora a tecnologia tenha descoberto soluções para pro- blemas, nem todos têm acesso a esses benefícios. Por- tanto há solução, mas os excluídos não podem se be- neficiar dela. Essa nova cultura cria novas formas de relação e a escola não pode apenas repassar o que a cultura acumulou, tem que preparar os alunos para este mundo e para o futuro, no qual todos têm que se rela- cionar com as diferenças e com as novas demandas. Contexto de aprendizagem do professor: Além de palestras, cursos, livros, trocas com colegas e co- munidade, é contexto de aprendizagem, do profes- sor, a própria sala de aula, desde que ela se torne via de enriquecimento pessoal através do planejamento e execução de novas propostas. Considerações finais Valorizar a experiência, a hipótese e a aprendiza- gem do professor é essencial para o aperfeiçoamento de sua prática. Só assim ele tomará consciência e se responsabilizará pelas suas ações e escolhas. 5 - Competências: uma visão construtivista Podemos dizer que toda a criança tem capacida- de, esquemas de ação e sentimentos, mas quando essa criança se torna um aluno, espera-se desenvol- ver nela, competências escolares. Numa escola para todos é fundamental estudar estratégias para desen- volver essas competências. Competência: jogo de poder? Competência não é poder sobre o outro, é con- junto de saberes e possibilidades de atuação ou com- preensão que expressam nossas formas de realiza- ção profissional. Competência é o modo de fazer convergir necessidades, articulando nossas habilida- des em favor de um objetivo. Competências: sistemas de saberes Pode-se definir competência numa visão “perspec- tiva sistêmica”, nela se considera de um modo interde- pendente e indissociável: as partes entre si, o todo e cada parte em relação ao todo. Nesse caso é atribuída à competência a função de coordenar os múltiplos ele- mentos que fazem parte do sistema educacional. Modelo dinâmico da competência Nesse modelo, há no sistema um ponto de parti- da (definido por uma tarefa necessária para realiza- ção de um projeto), um processo (as ações escolhi- das) e, por fim, um ponto de saída que constitui, por sua vez, novo ponto de partida. Competência e conhecimento Na escola hoje, além domínio dos conceitos, é necessário o domínio de um conteúdo chamado procedimental, saber como fazer. A informação está à nossa disposição, a questão é encontrar e interpre-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 101 SINPEEM tar as informações para solucionar problemas. Três formas de se considerar a competência Competência do sujeito em relação a si mesmo: É atributo que pertence ao sujeito individual (ou co- letivo), independente do objeto ou da relação. Essa forma de competência favorece o desenvolvimento de uma cultura de semelhança e, portanto, de ex- clusão de quem não possui esses atributos. Competência do sujeito em relação a um objeto pressupõe também a potência dos objetos como, por exemplo, os recursos pedagógicos que o professor tem a seu dispor, mas que não resume a isso. Competência do sujeito em termos relacionais: Ao contrário das noções anteriores, esta sustenta que não basta conhecer uma matéria ou possuir objetos ade- quados, mas sim levar em conta como esses fatores interagem. É importante então a análise prática e o de- senvolvimento de projetos que “tenham valor de for- mação, possibilitando a análise do aspecto relacional”. Competência e habilidade: A diferença entre competência e habilidade depende do recorte. É possível, por exemplo, saber ler, mas essa habilida- de não ser suficiente para saber ler em público, situ- ação na qual há necessidade de competência relaci- onal (em relação ao público). A competência é uma “habilidade de ordem geral”, enquanto a habilidade “é uma competência de ordem particular e específi- ca”. Habilidades são necessárias, porém insuficien- tes na perspectiva relacional. Pode ocorrer de o pro- fessor ter competência nos domínio dos conteúdos e da exposição, e mesmo assim os alunos não apren- derem. Portanto, competência não é apenas um con- junto de habilidades, tem a ver com a relação. Competência, competição e concorrência: Con- correr significa correr junto para um mesmo ponto. Em sala de aula várias coisas concorrem e pedem atenção. O que priorizar? Não se trata de optar por um ou outro aspecto e sim responder adequadamente atendendo a tudo que precisa ser atendido. As demandas não competem, mas sim concorrem porque todos precisam ser aten- didos e para articular isso é preciso competência. Assim, a habilidade será o conjunto de possibilida- des para o que é esperado e a competência será o modo como se faz convergir essas necessidades e a articulação das habilidades para um objetivo. Competência e aprendizagem escolar: A escola para todos cumpre obrigação social de respeitar a educação como direito de todas as crianças e prati- car uma pedagogia diferenciada. Isso não que dizer ensino individualizado, que dizer trabalhar com o coletivo através de métodos condizentes com as de- mandas. Para praticar uma pedagogia diferenciada em favor da inclusão das crianças com suas singula- ridade, é preciso competências tais como: autono- mia e envolvimento. Tomar decisão, mobilizar recursos e ativar es- quemas são domínios da competência. A competên- cia não é só atribuição profissional, mas é também atribuição pessoal e para que o professor ponha em prática as atribuições pessoais, é preciso que ele se autorize a ensinar. Precisa também saber mobilizar recursos e, por fim, precisa saber recorrer a esque- mas. Esquema é o conjunto de nossos saberes; um esquema é o saber fazer. Um tabuleiro chamado escola Há professor que são “maus administradores” e embora tenham conhecimento dos conteúdos, não sabem administrar o tempo e o espaço das ativida- des. Hoje se espera que o professor seja um gestor da sala de aula, isso é uma competência relacional. A qualidade de pensar de forma relacional, supõe autonomia e cooperação. 6 - Por que e quando planejar Planejar significa perguntar-se o que se pretende para o ano letivo, o que corrigir do anterior e pré- corrigir para o atual. Num planejamento deve-se le- var em conta a educação inclusiva e isso significa não só receber essas crianças no conjunto de alunos regulares, mas sim termos essas crianças na sala de aula convivendo com outras crianças. No planeja- mento é preciso refletir sobre a psicologia do desen- volvimento, sobre as características cognitivas, físi- cas e sociais das crianças, como também pensar quais são suas necessidades. Antecipação “Antecipar é comprometer-se com aquilo que queremos que algo se torne” (Macedo, 2003c). Antecipar é regular, no presente, aquilo que ori- enta um trabalho na direção que desejamos. Refle- xão no passado, mas também reflexão preventiva. Regulação: O conhecimento em construção pode ser valorizado pelo método “retrodutivo”. A retro- dução é a arte de ir e voltar, tratar as coisas fazendo recortes, interpretando indícios, pré-corrigindo erros e confirmando práticas. Observação: Para conservar, proteger ou preve- nir é preciso observar, embora nem tudo seja obser- vável. Construir e acumular situações-problemas re- lativas à escola para discuti-las, é uma forma de re-
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    102 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM gular o que não é observável. A situação problema pode ser um recurso de lidar com propostas e inici- ativas. É recurso didático para definir tarefas e com- prometer-se com elas. 7 - Dificuldade de aprendizagem Ao dizer que a criança é o pai do adulto, Piaget (2000/1967) referia-se à criança como um sujeito epistêmico, que constrói conhecimento a partir da coordenação geral de suas ações e pelo ensinamen- to e oportunidades proporcionadas pela sociedade. O sujeito epistêmico não tem dificuldades, mas sim problemas a resolver e procedimentos a construir. Psicopedagogia Psicopedagogia é um termo que reflete a neces- sidade interdisciplinar, analisando relações entre quem aprende e o objeto de sua aprendizagem. Uma visão de dependência/independência reduz uma di- ficuldade à pessoa que a possui, separando-a da pessoa que cuida dela. Já a interdependência consi- dera a dificuldade de aprendizagem na multiplici- dade de sua expressão, envolve criança e adulto, ou profissional que está com ela. Aprender como percorrer um labirinto O labirinto “opera segunda uma dialética das inversões”. No sentido negativo, os erros e dificul- dades são coisas que devemos evitar. No sentido construtivo, dificuldade e erros são parte do proces- so que exige aperfeiçoamento e nos levam à supera- ção, (vencer o labirinto). Numa visão de interdepen- dência a dificuldade é da criança e do professores, portanto é interdependente. 8 - funções da avaliação escolar de hoje Qual é a função da avaliação na escola de hoje? A escola que se quer para todos precisa superar as formas tradicional de avaliação. Avaliar não é apenas é analisar a situação passada, mas interferir naquela que está acontecendo ou sendo planejada. Um dos recursos de avaliar é construir indicadores porque muitas coisas só podem ser avaliadas de forma indi- reta e só de forma qualitativa. A nota, em geral, é um conceito equivalente a tudo aquilo que o aluno fez ou não fez. A proposta é que seja um indicador que pode sugerir outras coisas. Avaliar por meio de infe- rência é sair da perspectiva classificatória e, por inter- médio de indicadores, instaurar desafios e hipóteses. A nova função da avaliação é analisar o que está bom, o que pode ser antecipado ou pré-corrigido. Selecionar era função antiga da avaliação. A se- leção valoriza a pessoa que se ajusta a certos critéri- os. Na escola para todos a seleção não vale como fim, mas como meio de selecionar melhor recursos, espaço e tempo, considerando a multiplicidade de características dos alunos. Como pensar seleção em um contexto de edu- cação inclusiva? Na escola inclusiva a excelência não é uma con- dição de entrada ou permanência. Ela é um norte, a expressão da realização de um projeto. Diagnosticar: O problema da avaliação diagnós- tica é que ela pode culpar algo, ou alguém, por um efeito do qual ele não é o único responsável, redu- zindo a complexidade do problema. O desafio é di- agnosticar recursos e práticas que favoreçam uma aprendizagem significativa para todas as crianças Antecipar: A avaliação antecipatória pode ori- entar para certa direção buscada. Orientar: A avaliação pode ser coordenadora de uma intervenção ativa em favor do que pretende- mos. Na avaliação como orientação, avaliar e inter- vir ocorrem simultaneamente. Certificar é uma das funções da avaliação. Uma criança que está certificada para estar num ciclo, por- que cumpriu o anterior. Entretanto, a equivalência entre promoção automática e continua, trata a avalia- ção de uma forma que rompe com a idéia de certifi- cação. É preciso introduzir uma forma de certificação mais condizente com as funções da escola hoje. Regular: A avaliação como regulação permite rever questões, metas, intervir naquilo que se deseja alcançar. A avaliação como regulação valoriza a for- mação e não só a seleção. Considerações finais Sabe-se que todas as formas de avaliação descri- tas podem acontecer a um mesmo tempo, podem ser complementares e indissociáveis. É preciso que a avaliação se torne construção, valorizando aquilo que pretendemos que algo se torne. 9 - Cotidiano na sala de aula Observar o cotidiano é prestar atenção nele, re- gistrar, discutir e selecionar situações-problema para serem compartilhadas com colegas. O cotidiano da sala é tão importante quanto os conteúdos que se- rão tratados nele. O espaço: guardar, encontrar, devolver: Para considerar o espaço, a proposta é considerar o signi- ficado dos verbos ligados às questões espaciais. Guardar: refere-se ao lugar onde colocamos algo,
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 103 SINPEEM quer ser seja objeto, pensamento, informação, etc. A atividade de guardar coisas em seu lugar requer tomada de decisão que implica: procedimento, ati- tudes, competências, normas e valores. Encontrar: é um “jogo de percurso”, significa saber caminhar no labirinto de nossa vida, quer seja para encontrar algo em uma mochila, aposento ou cabeça. Devolver: Para organizar objetos no espaço, exis- te um código e uma forma de organização que a criança nem sempre domina. Dispor/selecionar: Corresponde a definir um lu- gar no espaço, onde se coloca algo. Esquecer: Relaciona-se a espaço porque esque- cer tem a ver com esvaziar e um espaço que não se esvazia, não pode ser preenchido. Os alunos frequen- temente têm uma cabeça “cheia”. A escola nem sem- pre pode concorrer com o que ocupa o espaço da cabeça da criança. Portanto, a condição vazia do es- paço depende da condição de reversibilidade. Por isso guardar, devolver, encontrar, selecionar, esquecer são verbos que se compensam e complementam. O tempo: agenda, estimar, antecipar, priorizar, lembrar-se. Se espaço é lugar dos objetos, o tempo é o lugar das ações. Toda a ação precisa de tempo para ser realizada. Na escola precisamos regular nossas ações, em função do tempo. Se em relação ao espaço a questão é: onde está? Em relação ao tempo a ques- tão é: quando? Agenda: Ter tempo para aquilo que queremos e devemos fazer é parte do compromisso pedagógico. Para agendar tarefas, precisamos estimar sua duração. Antecipar, no tempo, corresponde a devolver no espaço. O tempo não se devolve, o espaço sim. Se não é possível devolver o tempo, é possível anteci- pá-lo. Antecipar quer dizer que nossas ações serão realizadas nome de um projeto. Priorizar, no tempo, corresponde a selecionar no espaço. Funcionamos numa sociedade governada pela pressão, tudo tem que ser alcançado. É impor- tante que o professor anuncie suas metas do dia para os alunos. Isso tem efeito de autorizar o professor a fazer o que pretende e a ter a colaboração de seus alunos para isso. Lembrar-se, no tempo, corresponde a esquecer no espaço. Para que as ações sejam lembradas é melhor que estejam encaixadas num projeto ou objetivo, as- sim algumas coisas podem ser antecipadas no tempo e estimadas quanto à sua duração e importância. Os objetos É fundamental a questão dos objetos na sala de aula, objetos são instrumentos de ensino: livro, giz, vídeo, computador etc., são, enfim, os meios de ser trabalhar. A cultura tecnológica valoriza a idéia de objeto como fim e não como meio, mas na escola os objetos são meios e por isso são fundamentais. Os relacionamentos Na escola é preciso relacionar-se com diferentes pontos de vista ou referências. O professor tem as suas referências, as crianças têm as delas. Conviver com as diferenças gera, na prática, desentendimento e disputas. O professor precisa conviver e negociar, de forma relacional, com isso. Relação professor aluno Hoje são valorizados três tipos de saber: saber dizer, saber fazer e saber conviver. Saber conviver é incluir e incluir-se na relação com os outros. É importante promover discussões e compartilhar formas de pensamento. Espera-se que o professor seja um líder, promova desenvolvimento de esquemas e organize debates em termos de espa- ços, tempo e conteúdo. Interação entre as crianças A intervenção do professor, nos grupos de alunos, é também uma forma de ensinar, por isso é importante o modo como reúne as crianças para uma atividade, como promove desempates entre elas, como ensina a conversar, a discutir e até a competir. A discussão é meio de interação. Mesmo que nem sempre seja possí- vel mudar algo com o qual discordamos, isso não im- pede a discussão do assunto. Existe o plano da discus- são, o da decisão e o da gestão das modificações. A relação com tarefas Além do relacionamento com pessoas, existe um relacionamento com a tarefa. Na escola acontecem crises nos relacionamentos em relação às tarefas. Se o aluno não vê sentido na tarefa proposta, acontece a indisciplina e o desinteresse. O desafio é propor tarefas que façam sentido para alunos e professores. O relacionamento com uma tarefa pode ser analisa- do em termos de quatro verbos: envolver-se, respon- sabilizar-se, cooperar e cuidar. Envolver-se é o mesmo que comprometer-se, o que significa ser ativo como parte de um todo. Para que haja envolvimento é preciso interesse e o obje- tivo deve valer a pena. Responsabilizar-se significa ter autonomia para dizer “quero, faço minha parte”, entretanto, sempre com a colaboração de outras pessoas. Portanto, au- tonomia e responsabilização cabem num sistema do qual fazemos parte. Cooperar quer dizer operar com, junto, ser parte e todo ao mesmo tempo. Cuidar sintetiza os verbos anteriores. Em relação
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    104 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM às tarefas cuidar é oferecermos, ao outro, algo muito importante e que não voltará diretamente para nós. Cuidar de uma tarefa é fazê-la bem para a fase se- guinte, da qual talvez não participemos, mas da qual o aluno desfrutará. Conviver: na escola que se quer para todos o im- portante é fazer das “diferenças motivo de trabalho e realização.” Trata-se da tarefa de administrar diferen- ças como um dos compromissos de ser professor. Envolvimento, autonomia e cooperação O grande desafio do relacionamento é conse- guir envolvimento nas tarefas escolares, mobilizar o desejo de aprender do professor também. Res- gatar a estima do professor e qualificá-lo, melho- rando suas condições de trabalho, pode recuperar esse desejo. Autonomia não significa fazer o que se quer, quando e do jeito que se quer. Autonomia é constru- tiva, significa ser responsável por sua ação, é ser parte e todo ao mesmo tempo, permitindo que o outro seja independente, sem abandoná-lo a si mesmo. Cooperação, assim como autonomia, pressupõe responsabilidade e compromisso. Cooperação é uma qualidade de relacionamento em que as pessoas es- tão envolvidas em uma tarefa comum. Cada um com sua colaboração, mas todos envolvidos. Exercício ou Problema Pode-se dizer que exercício é o repetir como meio, por exemplo, caminhar para exercitar o cora- ção. Problema é o que surpreende esse exercício (atravessar uma rua movimentada, evitar ataque de um cachorro, etc.). Problema então é o novo, o que supõe invenção e astúcia. Cabe perguntar então se as questões escolares são formas de exercício ou de problema. O importante é que a questão provoque um desejo, que o trabalho gere uma necessidade de encontrar uma solução. O desafio então precisa ser proporcional ao sujeito que o experimenta. Um pro- blema precisa envolver interpretação, planejamen- to, atenção, malícia e reflexão. Considerações finais A complexidade do cotidiano é sintetizar todas as demandas nos atos que o constituem, sem disso- ciar as questões intelectuais das questões sociais e afetivas. A escola que se quer para todos faz do coti- diano algo que integra, porque uma das condições é refletir sobre ele. 10 - Disciplina: um desafio ao processo educacional Ao refletir sobre disciplina, nós a reduzimos à indisciplina e desobediência. A disciplina é reconhe- cidamente importante, mas, às vezes, é como se ti- véssemos que nos desculpar por regular certas coi- sas, impor limites. Significado de disciplina Disciplina é algo que é cultivando desde crian- ça, na sua relação com o adulto. Algo que ganha forma, se modela pelas atitudes, valores, relações, informações e saberes. Disciplina é mais que obe- decer às regras e superiores, disciplina é a “arte” da regulação, ou seja, de saber antecipar, planejar, de- finir limites de espaço de tempo, tarefas, etc. Embo- ra repreensões e punições possam funcionar em curto prazo para obter disciplina, estragam a sua base. A disciplina tem valor de sobrevivência. Ter disci- plina é importante porque na vida temos limitações em termos de pessoas e recursos e, portanto, ter disci- plina é administrar, é aperfeiçoar algo. A disciplina é meio de observar as limitações que temos, em favor de algo que precisamos fazer. O desafio é delimitar regras, objetivos, prazos e tarefas. A disciplina não é “fim em si mesma,” é mediadora para realizar algo. Disciplina: uma visão construtivista “ Ser e tornar-se é o grande desafio de nossa vida” Como disciplinar-se para obter isso? Há uma dialética entre ser e tornar-se “algo só é quando se tornou e ao se tornar passa a ser”. Cons- trução, portanto é tornar-se. Segundo Piaget, para algo “tornar-se” há necessidade de três elementos criativos que são das seguintes ordens: sincrônica, diacrônica e significativa. O fator sincrônico é de estrutura; o fator diacrô- nico é de natureza funcional e o fator significativo é o de natureza afetiva e de valores. Portanto, o que se constrói precisa de sentido e razão para ser feito. A disciplina é uma relação e o trabalho em equipe ensina a disciplina da cooperação, entretanto é a autodisciplina, que nos permite autonomia. Disciplina na educação infantil/ A disciplina na escola fundamental Disciplina, em uma perspectiva construtivista, não quer dizer que qualquer um pode fazer o que quer quando e como quiser. Isso significa permissi- vidade, caos e indisciplina. É preciso tornar uma cri- ança disciplinada naquilo que lhe importante, mas para ser disciplinada ela, muitas vezes, tem que ab- dicar de algo que quer fazer, essa é a dificuldade. Se é dos 7 aos 11 anos, que Piaget localiza as prin- cipais conquistas com relação aos afetos normativos, vontade e sentimento morais e autônomos, essa aqui- sições, sob o ponto de vista cognitivo, se relacionam ao desenvolvimento de operações concretas. Dessa forma, os esquemas de conduta relacionados às pes- soas, assim como os relacionados aos objetos, são si- multaneamente afetivos e cognitivos. A vida afetiva, tanto quanto a intelectual, é uma adaptação contí-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 105 SINPEEM nua. Para a criança superar uma relação calcada so- mente na antipatia ou simpatia, é preciso o desenvol- vimento da operação da vontade. Isso é uma capaci- dade afetiva difícil e a criança que ingressa na escola fundamental, ainda não a desenvolveu. Talvez a ad- miração e a tentativa de imitação possam permitir que ela supere e suporte as frustrações para disciplinar-se. Considerações finais É preciso pensar a disciplina com algo complexo e refletir sobre o que pensamos dela. A disciplina é condição para a criança realizar percurso escolar, aproveitando melhor suas possibilidade e é fundamen- tal adquirir disciplina para a vida escolar. Na escola para todos não nos livramos mais dos alunos indisci- plinados e nem devemos nos sentir reféns deles. 11 - Notas para um projeto curricular Os cincos aspectos para a realização de um pro- jeto curricular são: trabalhar em equipe, relativizar, adotar um espírito de pesquisa, sustentar uma dire- ção e articular os meios e os fins. Trabalhar em equipe: para desenvolver um proje- to curricular é preciso adotar, para uma escola, um conjunto de formulações gerais que deve ser fruto de um trabalho em equipe. A construção coletiva possi- bilita instauração de valores que justifiquem a impor- tância da instituição e das pessoas que nela trabalham. Saber relativizar: o currículo, na perspectiva de projeto, considera diferentes perspectivas. O desafio está em saber relativizar, levando em conta múltiplas possibilidades de algo ser ou se tornar. Relativizar implica em coordenar o meio e o fim pretendidos. Adotar um espírito de pesquisa: Um projeto é aquilo que queremos que algo se torne. Para isso é preciso interpretar indícios, fazer antecipações, ob- servar indicadores para pensarmos na direção certa. Quais são os objetivos, procedimentos, recursos, re- sultados que uma escola tem ou quer? Sustentar uma direção: Um projeto curricular pressupõe compromisso e direção. Por isso a dire- ção tem que ser clara, considerando limites de espa- ço, conteúdos e tempo que competem. Coordenar meios e fins: Para dispor de meios e recursos, os fins não devem ser questionáveis. É pre- ciso avaliar sempre se ganhamos ou perdemos em relação às práticas anteriores. Assim, a ponderação é importante para realização do projeto que consi- dere o tempo, o espaço e os recursos com os quais se conta. O futuro deve ser pensado como uma pos- sibilidade, direção e compromisso. Considerações finais O projeto é algo que ainda não é, mas pretende se tornar. A dialética entre “ser e tornar-se” expressa uma visão construtivista. Portanto são importantes os desafios da relativação, o trabalho em equipe e um espírito de pesquisa que favoreçam a direção buscada. E por fim, visto que atualmente precisamos considerar a posição da tecnologia (e da educação necessária para seu uso), é preciso que novamente pensemos no problema de valores seja na dimensão afetiva, seja naquela econômica. Resumo realizado por Anna Rita Sartore, peda- goga, bióloga. Mestre e doutora em educação pela Universidade de São Paulo. MELLO, Guiomar Namo de. Porto Alegre, Artmed, 2004 Este livro não foi indicado integralmente para o concurso. No trecho selecionado (capítulos 4 ao 8), a autora enumera algumas das principais dis- cussões feitas nas 3 últimas décadas do século XX e que implicam em uma mudança de paradigma no meio educacional. Capítulo 4 – Proposta pedagógica e autonomia da escola Nas décadas de 80 e 90, as bases da autonomia da escola foram dadas: gestão democrática e gestão da aprendizagem. Nesse momento, houve uma mu- EDUCAÇÃO ESCOLAR BRASILEIRA - O QUE TROUXEMOS DO SÉCULO XX? dança de paradigma: a ênfase desloca-se do ensino para a aprendizagem quando a LDB deslocou o eixo da liberdade de ensino para o direito de aprender. Os conteúdos ensinados na escola passaram a ser vistos como meios para desenvolver competên- cias, sendo que a contextualização e a interdiscipli- naridade tornam-se as palavras chave para a mudan- ça de paradigma: “ensina-se para constituir sentidos, produzir significados, construir competências” (36). A proposta pedagógica, entendida não como um documento formal, mas como um processo perma- nente de articulação entre diferentes âmbitos, passa a pressupor: a análise e compreensão dos princípios e dos conceitos do novo paradigma curricular; a re- flexão sobre a própria prática pedagógica; o plane- jamento das ações.
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    106 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM Articulando intenções (formação para a cidada- nia e para o trabalho); recursos materiais, humanos e financeiros; bem como o processo de reflexão e formação continuada do professor, a proposta peda- gógica só será eficaz se for fruto de uma reflexão coletiva. Ela deve refletir a coerência entre a inten- ção e a ação da equipe escolar na perseguição de suas metas. Por tudo isso, a autonomia exige res- ponsabilidade e controle, pois não implica somente em satisfação de direitos, mas também em cumpri- mento de objetivos. Como anexo a este capítulo, a autora insere su- gestões de roteiros para elaboração da proposta pe- dagógica da escola. Esses roteiros são estruturados considerando-se a necessidade de se passar por três momentos diferentes, que não são linearmente se- qüenciais: a reflexão sobre o novo paradigma curri- cular, o diagnóstico e o planejamento em ação. Capítulo 5 – Projetos como alternativa de ensino e aprendizagem Atualmente, a partir do que se sabe sobre a apren- dizagem e sobre as demandas da sociedade sobre o aluno, na elaboração de um planejamento as ativida- des devem ter significado e sentido. De acordo com a autora, o trabalho com projetos pode ser uma das al- ternativas de organização do trabalho que potenci- aliza essa aprendizagem significativa. Isso porque “o modelo de projetos relaciona-se com as concepções modernas de ensino e aprendizagem, com os princí- pios da reforma de contextualização e interdiscipli- naridade e com as competências relativas ao apren- der a aprender e a trabalhar solidariamente” (51). Mello aponta as características que o desenvolvimento de projetos precisa ter: · Partir de uma situação ou de um tema-proble- ma negociado com os alunos; · Iniciar um processo de pesquisa ou percurso de busca; · Entender que o percurso é o trabalho de uma comunidade de investigação na qual se valoriza a cooperação, e o professor é um orientador, não um especialista; · Discutir e selecionar estratégias de busca e di- ferentes fontes e tipos de informação; · Desenvolver atividade de busca planejadas, di- vidindo-se as tarefas entre o grupo; · Examinar e discutir as informações coletadas; · Representar o processo de elaboração do co- nhecimento; · Levantar outras questões que possam se consti- tuir em novos projetos. Durante esse processo é preciso garantir: · O protagonismo do aluno durante todo o pro- cesso; · A escolha de assuntos contextualizados; · O tratamento interdisciplinar com o auxílio de diversos saberes, áreas ou disciplinas; · O processo de trabalho em equipe no qual to- dos têm lugar e papel e no qual se aprende a convi- ver solidariamente; · O papel do professor como mediador da cultu- ra e facilitador da aprendizagem; · A ênfase na avaliação como instrumento de re- construção e tomada de consciência do aprendizado. Capítulo 6 – Competência: o conceito e a aplicação do conceito na educação escolar Para Mello, um modelo curricular baseado em competências é um avanço no Brasil por implicar numa efetiva mudança de paradigma educacional. Na concepção assumida pela autora, a compe- tência caracteriza-se como a capacidade de mobili- zar conhecimentos, valores, decisões para agir de modo pertinente numa determinada situação. Competência e habilidade pertencem à mesma família conceitual e sua diferença é determinada pelo contexto. “Uma competência é sempre mais geral em relação às habilidades que ela inclui, mas uma habilidade, em um determinado contexto, pode ser uma competência por envolver outras sub-habilida- des mais específicas. A competência de resolução de problemas, por exemplo, envolve diferentes ha- bilidades – acessar e processar informação, selecio- nar e interpretar dados, estabelecer relações de igual- dade ou equivalência, fazer comparações” (55). Nesse contexto, a habilidade de processar informa- ções envolve outras habilidades específicas, como leitura de palavras ou gráficos, cálculos, compreen- são de ordenamentos ou seqüências. Processar in- formações é, portanto, uma competência em rela- ção à habilidade de leitura de gráficos. A autora ressalta que as competências são aprendi- das quando se constrói conhecimento. Mas não só. É preciso saber mobilizar esse conhecimento. E, nesse sentido, o agir competentemente envolve, além de uma enorme quantidade de conhecimentos, a capacidade de decidir num ambiente de incerteza, de maneira improvisada, mas orientada pela experiência. Assim, a competência só se constitui em situação. No tocante ao ensino, isso significa trabalhar efeti- vamente com conteúdos que sejam relevantes para a vida, tomando-se a aprendizagem como eixo e não o ensino. Para isso, é preciso superar a concepção de uma escola organizada em disciplinas e que se enten- de como detentora da informação e do conhecimento. O trabalho com competências também contri-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 107 SINPEEM bui para resolver o impasse instaurado entre a ne- cessidade de se organizar um currículo nacional que considere as diferenças regionais. Ao desfocar o con- teúdo e focar as competências a serem construídas, pode-se negociar um conjunto de competências bá- sicas que todos os alunos terão de aprender em toda e qualquer escola e região. Esse elemento também fortalece a democratização da escola na medida em que, ao estar livre para se adaptar às características da clientela e da região, privilegia-se a diversidade na estruturação do currículo. Capítulo 7 – Por uma didática dos sentidos O objetivo do capítulo é esclarecer os concei- tos de transposição didática, interdisciplinaridade e contextualização a fim de que os mesmos se tor- nem instrumentais na construção e execução de uma proposta pedagógica. A transposição didática ocorre a partir da necessi- dade de transformar o conhecimento para poder ensi- ná-lo. “Na escola, os objetos de conhecimento – o sa- ber científico ou as práticas sociais – convertem-se em ‘objeto de ensino’, isto é, em conteúdo curricular” (59). Algumas competências requeridas para fazer a trans- posição didática são apontadas pela autora: · Saber fazer recortes em sua área de especiali- dade a partir de certos critérios; · Saber selecionar quais aspectos daquele conhe- cimento são relevantes; · Dominar o conhecimento e questão articulada- mente, incluindo o modo característico e específico pelo qual esse conhecimento é construído; · Saber relacionar o conhecimento em questão com os de outras áreas; · Saber contextualizar esse conhecimento; · Ter um pressuposto ou uma “aposta” sobre como o aluno constrói esse conhecimento e como deveria conhecer; · Dominar estratégias de ensino eficazes para organizar situação de aprendizagem eficazes. A interdisciplinaridade opõe-se à fragmentação dos conteúdos provocada pelo currículo disciplinar. Ela se expressa em vários níveis de cooperação das disciplinas. O primeiro diz respeito à descrever e/ou explicar um mesmo fenômeno na perspectiva de di- ferentes disciplinas. O segundo relaciona-se ao fato de que o estudante integra os conhecimentos prove- nientes dos olhares disciplinares. O resultado é um saber integrado e mais complexo sobre fenômenos e objetos. Nesse sentido, a constituição de compe- tências torna-se potencializada. No que se refere ao conceito de contextualiza- ção, a autora recupera sua raiz etmológica: enraizar uma referência em um texto. Ou seja, os conteúdos a serem ensinados podem sempre ser contextualizados no mundo físico, social ou psíquico. É desta contex- tualização que vem a significatividade do ensino, ele- mento fundamental na promoção da aprendizagem. A autora indica três grandes categorias de contextos: · A vida pessoal e cotidiana dos alunos · A sociedade ou mundo em que o aluno vive · O ato de descoberta ou produção do conheci- mento que pode ser reproduzido ou simulado. Além de responder à vertente da significatividade dos conteúdos para o aluno, a contextualização tam- bém deve estar a serviço da preparação do aluno para a vida e para o trabalho, atendendo portanto aquilo que é relevante aos objetivos educacionais da escola. Ao final do capítulo, a autora apresenta um exem- plo de transposição didática desenvolvida por um pro- fessor de língua portuguesa no 1º ano do Ensino Médio. Capítulo 8 – Livro didático: mudar para manter a identidade O Brasil é um dos poucos países em desenvolvi- mento que possui uma política pública de provisão do livro didático. Esse livro, fornecido às escolas pú- blicas através do Plano Nacional do Livro Didático, e às escolas particulares através de aquisição da pró- pria família, tem estado atrelado à organização curri- cular por série do sistema educacional brasileiro. A autora aponta os problemas enfrentados no decorrer do processo de implantação da política de provisão do livro didático ao longo do período de 1960 a 1990. Os problemas iam desde a falta de verbas por irregularidades, até a baixa qualidade do conteúdo dos livros. No decorrer da década de 90, Mello aponta a melhora da estrutura do programa, ressaltando o programa de avaliação do livro didáti- co e a regularização do fornecimento. A política de provisão para a escola pública con- solidou-se no que se refere ao ensino fundamental e a autora destaca a ampliação do número de alunos no ensino médio. Segundo ela, há um grande desa- fio a ser vencido por autores de livros didáticos e editoras nesse segmento, já que a nova estrutura cur- ricular prevê a organização por áreas de conheci- mento, integrando as disciplinas e indo contra a pers- pectiva disciplinar e fragmentária. Fecha o capítulo apontando a necessidade das editoras compreenderem que o livro didático preci- sa mudar. Para o professor, ele precisa se tornar um espaço de apoio, com conteúdos complementares e, ao mesmo tempo, contribuir com a formação pe- dagógica docente. O livro do aluno precisa ser algo mais parecido com guias de aprendizagem ou hi- pertextos, funcionando como um organizador, incen- tivando um processo de construção do conhecimento para além do próprio livro. Síntese elaborada por Maria Lima, doutora em Educação pela FEUSP, bacharel em história e com- ponente do GEAL/FEUSP.
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    108 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM MOLL, Jaqueline (org.), Porto Alegre, Mediação, 2005 O livro apresenta um conjunto de práticas e pro- jetos pedagógicos desenvolvidos em programas e serviços de educação de jovens e adultos. Os textos organizados pelos autores representam uma afirma- ção de que é possível construir um espaço escolar diferente para esses alunos, onde há aprendizagem, considerando-os plenos de possibilidades em termos da sistematização de saberes e sem desconsiderar a sua expectativa de uma escola verdadeira. Desen- volvem propostas interdisciplinares, passando pela alfabetização, pela literatura, pela arte, pelo teatro e por ambientes informatizados, entre outros. Na apresentação, Jaqueline Moll expõe pontos relevantes nas políticas públicas que delinearam os rumos da EJA. Nos debates e discussões de educa- dores e movimentos, baseadas nas idéias e práticas desbravadas por Paulo Freire e tendo como marco principal a Constituição de 1988, que assume o di- reito de todos ao Ensino Fundamental, independente da idade, prevalece a luta pela igualdade de direi- tos para todos. A temática da educação popular, nas últimas décadas, como objeto de discussão e estu- do, possibilitou a ressignificação dos saberes aca- dêmicos face aos saberes cotidianos e, nesse amplo contexto é que se situam os doze capítulos, escritos por diferentes autores. 1 - Alfabetização de adultos: desafios à razão e ao encantamento - Jaqueline Moll A autora parte da idéia que, para além da impor- tância de saber e ler e escrever, é necessário movi- mentar-se reflexivamente pelo universo de códigos produzidos a partir do mundo escrito, levando-se em conta os saberes da tradição oral e as experiências dos alfabetizandos. Adultos em alfabetização, não alunos analfabe- tos... Analfabetos, no sentido discursivo, para a au- tora não existem. Essa concepção está baseada na idéia histórica de negação de um saber determina- do, situação diferente da encontrada em relação àqueles participantes de uma sociedade letrada, que pela possibilidade e necessidades de leitura varia- das, em geral, mesmo sem escolaridade advindos de razões variadas, são adultos mergulhados em situa- ções de letramento, que desenvolvem estratégias tan- to sociais quanto cognitivas de decodificação e des- sa forma, está em processos de alfabetização. O reencontro com a situação escolar. A expec- EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS tativa de muitos alunos é a de encontrar o modelo de escola, a qual abandonaram ou constituído pe- las experiências vividas durante a educação de seus filhos, “silenciosa e silenciadora” onde os professo- res “dão aulas”, apresentando lições para serem re- petidas e copiadas pelo aluno obediente. O desafio do educador, que se propõe a manter a aprendiza- gem dos alunos em processo de alfabetização, é re- desenhar essa configuração imaginária da escola, construindo uma sala de aula como espaço da pa- lavra e da escuta, onde através das suas histórias do passado e de sua palavra dita e ouvida possam sis- tematizar saberes, reconceituá-los através do regis- tro, da reorganização e da construção de novas dis- posições, apropriando-se assim, do universo da lei- tura e da escrita. A sala de aula: aproximações pedagógicas - Moll propõe três idéias que considera significativas para o lugar “sala de aula”: a consciência de que não são “tabulas rasas”, ou seja, trazem saberes advindos de suas experiências sociais, culturais e afetivas; a con- vicção de que a condição de analfabeto, expressão de uma forma de exclusão social e não de fracasso individual, não significa nenhum tipo de patologia, déficit ou deficiência e da compreensão de que a leitura da palavra escrita é impossível descolada da leitura de mundo, lembrando Paulo Freire. Aproximações pedagógicas no campo da alfabe- tização de adultos podem começar pela escuta do mundo do qual participam - do ponto de vista freire- ano, um levantamento do repertório vocabular dos alunos, em que o professor, como o escrevente da turma, registra suas falas, aproximando-os da forma escrita, e explorando as relações entre a pauta oral e a escrita. Outros recursos podem ser utilizados, sele- cionados e explorados pelo professor, de diversas maneiras: os portadores de texto do cotidiano desses alunos como reportagens, crônicas e outros estilos literários, secções específicas de jornais e revistas, embalagens de produtos, jogos, dicionários, enciclo- pédias, Atlas, entre outros. Nesse sentido, pode-se trabalhar com os textos em sua totalidade, escolhen- do palavras para a análise segmental da escrita ou relacionando-as a outras conhecidas, ou ainda, par- tindo do conjunto de ilustrações presentes nos mate- riais, das palavras ou letras que os alunos reconhe- cem e relacionam com outras. Pode ser incluído, como recurso, o trabalho pedagógico com os própri- os nomes dos alunos, tanto pelo resgate de sua ori- gem, significado e, análise lingüística, significativa para o processo de alfabetização. Possível, também, na sala de aula, a literatura infantil, clássica ou contemporânea, através da leitu-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 109 SINPEEM ra e da prática de contar histórias, bem como, possi- bilitar aos alunos suas escolhas literárias ao freqüen- tar o espaço das bibliotecas; aliados a outros espa- ços culturais como teatros, cinemas e museus po- dem possibilitar a significação dos saberes do mun- do escrito, os quais são sistematizados na sala de aula. Para concluir: a respeito de fazer-se professor de adultos: implica na disposição para aproximações, de forma equilibrada, entre os saberes sistematiza- dos nos campos das ciências, culturas e das artes e os vivenciais que poder ser legitimados no espaço escolar. Fazer-se professor de adultos, que carregam o estigma de analfabetos, implica numa postura para a escuta cotidiana e sensível, além de ampliação do olhar, na medida em que serem ouvidos e vistos, pode (re) colocá-los na vida pública. Nessa direção, tor- nar-se alfabetizado, implica participar de processos escolares contínuos de aprendizagem de leitura e escrita e inserir-se no universo de saberes e práticas sociais na escola e fora dela. 2 - O Programa de Ensino Fundamental de Jovens e Adultos Trabalhadores – PEFJAT/UFRGS e as múltiplas linguagens Sita Mara Lopes Sant’anna O texto apresenta algumas das práticas pedagó- gicas alicerçadas em referenciais teóricos diversos e nos resultados de discussões dos professores de ar- tes, de educação física, de línguas, portuguesa e es- trangeira moderna, e de literatura, desenvolvidas durante o Programa de Ensino Fundamental para Jo- vens e Adultos Trabalhadores - PEFJAT, entre os anos de 2000 e 2002. Conhecendo o PEFJAT-UFRGS: Esse programa, campo de estágios, práticas e diversas pesquisas, envolvem graduandos das diferentes licenciaturas, professores e técnicos - administrativos da UFRGS, em atividades de docência, e recebe como alunos, os técnicos que não concluíram o ensino fundamen- tal, entre outros. A estrutura curricular é organizada nos blocos/áreas do conhecimento: sociedade e ci- dadania, ciências e tecnologias e linguagens, para a execução de projetos, por turma, e grupos de estu- dos e oficinas, podendo ser organizados e desenvol- vidos por professores e alunos. O currículo é estru- turado no cotidiano, por meio de reuniões de for- mação em que participam alunos, professores e téc- nicos da secretaria. A avaliação tende a ser proces- sual, com discussão, na sala de aula, sobre a apren- dizagem e dificuldades, envolvendo os alunos e pro- fessores, tendo como produtos: auto-avaliações, dos- siês, pastas e pareceres descritivos. Linguagens e a constituição de autoria: Esse blo- co tem atuado no sentido de buscar, em suas ações, a constituição de diferentes espaços interdisciplina- res e de autoria, entendida como processo de apro- priar-se, colocar-se à crítica, responsabilizar-se, do autorizar-se à prática, da oralidade, produção e cor- poreidade. As práticas em EJA têm mostrado essa possibilidade, a partir de estratégias que atendam o interesse, a motivação, o desejo da descoberta dos alunos trabalhadores baseados na organização de projetos, consolidando-se na aproximação das artes, da língua portuguesa, literatura e educação física. A leitura como espaço de significação: como construção de significados e não como mera ativida- de, mecânica, repetitiva que reproduz as idéias do autor. Leitores diferentes atribuem significados dife- rentes ao mesmo texto, baseados em múltiplos ele- mentos como: histórias de vida, idade, gênero, suas relações com outros textos, entre outros, e, dessa for- ma, leitura e produção de textos não podem ser tra- tados separadamente. Da prática: os efeitos de sentido da corporeida- de. Os relatos dos adultos do programa revelam que têm uma imagem difusa de seu corpo sendo neces- sário um processo de reflexão e de experimentação de propostas como forma de introduzir uma ampla discussão sobre corporeidade, corpo, cultural corpo- ral, saúde, para que os alunos adultos se autorizem a práticas como: dinâmicas com o grupo, jogos coo- perativos e dramáticos, que buscam o desenvolvi- mento do sujeito em sua complexidade. Refletindo sobre a oralidade: Trabalhar com a oralidade, ou fala planejada, tem sido um desafio para os educadores; implica em ouvir as vozes do cotidiano, e a partir delas, incluir nos projetos mo- mentos para que todos falem, não como uma sim- ples fala de um texto, mas para, além disso, é pen- sar no como fazer a apresentação desta, desde a organização, individual ou grupal, chegando até aos recursos utilizados. A prática da produção textual. Textos escritos a partir do diálogo entre alunos e professores, os quais não são simples respostas às tarefas, como acontecia com as antigas redação e composição escolar plane- jadas pelo professor e, que no caso da primeira de- notava mais o interesse para as aprendizagens sobre a gramática normativa. Para a produção textual são necessários vários momentos de escuta para que se- jam articuladas com as práticas de oralidade, corpo- reidade, leitura e ensino de gramática. Ensino de gramática: algumas considerações. A escola em linguagens tem dado maior ênfase ao en-
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    110 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM sino da gramática normativa e o aluno vai mostrar, escrever, falar, produzir para agradar o professor e dessa forma, morrem as corporeidades, as oralida- des e as diferenças culturais. O espaço da sala de aula deve ser local de escrita sem preconceito, onde os diferentes falares e diferentes gramáticas se mani- festem, dialoguem entre si e cabe ao professor des- crevê-las, problematizando-as. Nossos desafios atuais: Que a avaliação seja pro- cessual com momentos de reflexão, no grupo, sobre as aprendizagens dos alunos e professores explicita- das nas auto-avaliações individuais e coletivas; que haja o diálogo entre as reflexões das auto-avaliações orais, gestuais e escritas e os pareceres descritivos, bem como, que a sistematização dos seus efeitos possam mostrar, em qualquer tempo, as possibilida- des de avanços dos alunos para outros níveis. 3 - Interdisciplinaridade na prática Aline Sapiezinskas Kras Borges Simone de Azevedo Corrêa O resgate da dissociação entre a ciência e a filoso- fia que levou à estruturação de um currículo multidis- ciplinar, onde as disciplinas são ensinadas, na escola, sem qualquer articulação, acarretando a fragmenta- ção do saber e sérios prejuízos na aprendizagem do aluno como um todo, trazem a interdisciplinaridade como possibilidade de estabelecimento de um novo saber, único e resultado dos saberes disciplinares. Baseando-se em Japiassu, a interdisciplinaridade é contra: “um saber fragmentado; a separação crescen- te entre a universidade, cada vez mais compartimen- tada, e a sociedade, onde a vida é percebida como um todo complexo e indissolúvel, e ao conformismo das situações adquiridas e idéias impostas”. Construindo a interdisciplinaridade na prática. Os alunos do PEFJAT, em geral, são de uma camada menos favorecida da sociedade, não freqüentou a escola regular pela necessidade de trabalhar ou difi- culdade de acesso à escola. Representam um grupo bastante heterogêneo, quanto à idade, tempo de es- colarização, profissão, vivências, além de históricos de repetência e expulsão, principalmente pelos ado- lescentes. Durante o programa percebeu-se a grande dificuldade encontrada pelos alunos em relação à apropriação e no uso da língua portuguesa na forma escrita e oral. Na tentativa de integrar os eixos: orali- dade, corporeidade, produção textual, leitura e ensi- no de gramática entre as disciplinas do bloco das linguagens: artes, português e línguas estrangeiras, optou-se pelo trabalho com teatro, desdobrado em várias atividades. Em português: trabalho com textos teatrais, características gerais, regras para a escrita, leitura, entonação e representação e, em artes, a ex- pressão criativa na confecção dos bonecos, criação detalhada dos personagens por escrito e na execu- ção de peças criadas pelos alunos. As autoras acreditam estar caminhando para um trabalho interdisciplinar e salientam que nem todas as dificuldades no uso da língua desapareceram, contu- do compreendem que a educação é um processo e foi iniciada uma reflexão sobre esse tema buscando a valorização e ampliação dos saberes dos alunos. 4 - Da leitura de imagens à leitura do mundo Ana Cláudia Ferreira Godinho e Luísa Kakuta Kato As professoras relatam o desenvolvimento e ava- liação da oficina “Imagem e leitura” que envolveu adultos do programa já citado, guiadas pela releitura de Paulo Freire (a leitura da imagem prescinde da leitura da palavra), na qual abordaram textos orais, escritos e imagéticos, priorizando o trabalho com os textos produzidos pelos alunos. A oficina, um traba- lho realizado durante vários encontros, estruturado de forma interdisciplinar e coordenado, entre a dis- ciplina de língua portuguesa e educação artística, foi organizada baseada a partir de três temas: ” O que eu tenho dentro da minha cabeça”, “Memória e his- tória de vida” e “ Criando personagens”. No primeiro encontro, fizeram uma composição de imagens recortadas de revistas, de variadas áreas de interesse, previamente selecionadas pelo profes- sor. Os cartazes, individualmente, elaborados, des- critos, oralmente e através de um texto escrito, retra- tavam uma imagem única do pensamento desses adultos sobre o primeiro tema.Os cartazes foram ex- postos e à medida que o aluno lia o seu texto, os demais procuravam-no, guiando-se pela descrição, e assim, a atividade para além da apresentação pos- sibilitou a integração do grupo e uma auto-reflexão. Em um segundo momento, o trabalho se organi- zou a partir de fotos ou objetos trazidos pelos alu- nos, cujas lembranças possibilitaram um resgate de suas memórias, e cada qual se transformou em um contador de histórias - um sujeito da narrativa e da narração, e novamente a imagem foi o ponto de par- tida para a criação verbal. A terceira atividade con- figurou-se com em um jogo teatral: selecionando entre os materiais de figurino, ofertados pelo do- cente, cada adulto compôs um personagem e o de- senhou. Na seqüência, caracterizados, eram entre- vistados e apresentavam seu desenho e, com base na produção coletiva, cada qual narrou, oral ou de forma escrita, a história vivida pelo seu personagem com o protagonista, instituído no decorrer da ativi- dade, no caso, o traficante de drogas. Essa ativida- de, segundo as autoras, possibilitou, em especial, o debate sobre as diferenças entre a narrativas, oral e
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 111 SINPEEM escrita, e o estímulo à criatividade. Finalizando, ressaltam a viabilidade da proposta e que a fusão dos trabalhos das duas disciplinas pro- porcionou a abordagem das linguagens cotidianas e o diálogo concreto entre os conhecimentos do bloco de linguagens, a partir dos eixos já citados. 5 - Lá nem tem livro...a prática da leitura nas vozes de adultas Rafael Peruzzo Jardim O texto é um relato da sua experiência de educa- dor na oficina de leitura, oferecida aos alunos do PEFJAT, que tinha como objetivo sistematizar uma história de leitura, através de memorais, relacionan- do-a com a história de vida do aluno. Após a oficina, entrevistas foram realizadas e en- tre elas as de duas alunas, as quais foram estimula- das a falar sobre suas leituras: o que liam, a impor- tância da leitura e suas práticas leitoras. Nas pala- vras do autor: “pude verificar que uma não tem, no meio em que vive, a condição mínima facilitadora do nível de letramento condizentes com o uso da linguagem culta e, a outra, apresenta um grau de le- tramento maior, expresso na leitura de romances e revistas...”. E, além disso, para a leitura, dois senti- dos gerais foram evidenciados: o da dificuldade e o da necessidade secundária limitada”. Ressalta que o acesso a livros e revistas parece ser restrito ao con- texto escolar interrompendo as condições para o le- tramento e adverte, que isso deve ser considerado pelos educadores em seu planejamento. É preciso apresentar ao aluno um leque variado de leituras, ao qual não terá acesso em outros lugares, é preciso cri- ar condições sociais para a prática da leitura. Um trabalho consistente de leitura pode formar leitores mais competentes e felizes, desde que sejam observadas as seguintes condições: a formação do leitor passa pelo estabelecimento das condições efe- tivas para a prática social da leitura; não há um ler para, o ato de ler não necessita de fichas e interpre- tações, a literatura não deve estar a serviço de uma didática; o que precisa ficar claro, na ação escolar, é que a leitura já é uma produção, a ficha não justifica a leitura e sim é esta que justifica a escola; o profes- sor continua a ter um papel importante na avaliação da leitura, estipula uma margem de leituras aceitas, ao invés de privilegiar uma que, às vezes, é do autor do livro didático; a leitura não precisa coincidir com a leitura do professor; cabe ao professor estimular a diversidade de pontos de vista. Por fim, salienta que é preciso desenvolver no aluno a autonomia de leitura para que continue len- do depois de concluir os estudos; o ensino sem leitu- ra é mera certificação e não produz efeitos na vida do aluno, pessoal e profissional. 6 - Ambientes de aprendizagem informatizados no PEFJAT Evandro Alves O pesquisador e professor busca discutir alguns aspectos relacionados ao cotidiano do planejamen- to e práticas pedagógicas que ocorreram no labora- tório de informática, no ambiente de aprendizagem informatizado, e suas inter-relações com a sala de aula. Nessa experimentação, participaram em mé- dia, doze alunos de nível I, dito de alfabetização, do programa já referido, cujo objetivo era fomentar o encontro destes com as tecnologias digitais, em que, além das atividades de construção textual na interse- ção com processadores de texto, foram propostos: o recebimento e envio de mensagens eletrônicas, tra- balho com os softwares gráficos, a visita e constru- ção de páginas da Internet. Um pequeno estudo sobre as expectativas do grupo: A partir de entrevistas individuais, pode-se inferir que os alunos esperavam a supressão das difi- culdades de aprendizagem e aprendizado mais rápi- do, principalmente, em relação à leitura, escrita e à matemática, expondo inclusive, o desejo de escre- ver livros e de organizar o orçamento doméstico com o auxílio das tecnologias. Identificar mudanças cog- nitivas no tocante ao processo conceitual de aquisi- ção da língua escrita era a expectativa inicial do pes- quisador, contudo, com o início e desenrolar das ati- vidades, por parte de todos os pesquisadores, outros enfoques se delinearam, quanto aos objetivos e con- ceituações da própria pesquisa. Planejamento, tecnologias, práticas pedagógicas: por um ambiente de recíprocas aprendizagens. No- tadamente, o planejamento conjunto e a participa- ção ativa dos professores nas atividades no laborató- rio foram importantes, não somente para a qualida- de das intervenções, mas também para a formação de todos: alunos e jovens e adultos professores. Mudanças de enfoque, resultados e implicações da investigação para a educação. Dentre os fatores que reconfiguraram o enfoque do estudo, dois foram privilegiados: a questão da produção de sentidos e a das tecnologias da escrita dispostas no ambiente de aprendizagem, tanto no seu componente em sala de aula, quanto em relação ao laboratório. A coleta de dados e análise foram feitas e os resultados aponta- ram para as seguintes situações: os alunos da EJA, mesmo em processo de aquisição da escrita, busca- ram expressar, em sua produção textual, a sua pro- dução de sentidos tentando elaborar estratégias para assegurar o entendimento do texto pelo leitor. É pos- sível pensar-se em uma flexibilização de alguns pré-
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    112 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM requisitos como: é necessário saber ler e escrever com lápis e papel para depois tentar com as tecnologias de escrita digital; os alunos primeiro se alfabetizam e depois se preocupam com a escrita de textos. Acompanhando o percurso de construção textu- al foi possível identificar que a tecnologia mais anti- ga (a oralidade) serve de modelo, chegando a reor- ganizar as posteriores (escrita e informática). À guisa de conclusão: da “alfabetização ao le- tramento”. Há uma aposta na convivência com a leitura, a escrita e a informática para além das técni- cas e o autor, faz um alerta aos colegas: que não se trata tão somente de uma automatização das técni- cas e sim de uma convivência com as tecnologias. Sem reflexões sobre as práticas pedagógicas a partir da inserção dos computadores na escola, corre-se o risco de nos submeter às avaliações concernentes ao funcionamento desses aparelhos. 7 - Os sons da vila: leitura crítica da realidade Alexandre Pereira Simões Esse texto relata a forma como se desenvolveu o planejamento didático-pedagógico com uma turma de EJA, em uma escola municipal de Porto Alegre, destacando o seu surgimento e as dificuldades em colocá-lo em prática, as conquistas, percepções e as inquietudes que surgiram junto à turma durante o processo. Perfil da turma: pertencia à totalidade dois (equi- vale a uma 3ª série do fundamental), com 16 alunos, de idade entre 13 e 50 anos, de profissões variadas: doméstica, gari, separadores no galpão para recicla- gem e operários da construção civil. O que estão tramando para mim? O planejamen- to decorreu da intenção de promover com que os estudantes fizessem a leitura da palavra através da leitura de mundo que já possuíam antes da alfabeti- zação e assim o referido planejamento deveria pro- curar enfatizar a “informação” do sujeito em sua co- munidade. Planejamento didático-pedagógico: os sons da vila. O tema escolhido: cidadania, contudo por ser muito abrangente, e pela idéia de fazer com que aprendessem a realizar uma leitura crítica da reali- dade próxima, surgiu a proposta “que sons possui a vila?” Ou a escuta de tudo o que acontece na vida da comunidade. Objetivo Geral: procurar levá-los a se situarem como agentes dentro da comunidade, reconhecen- do-os como sujeitos da sua transformação pessoal. “Des/norteando” o leitor : “sulear”, ao invés de “nortear”. Se pretendemos falar em cidadania, for- mando pessoas que saibam criticar, opinar e intera- gir com o outro, devemos, em nossas salas de aula, possibilitar o entendimento de diferentes pontos de vista e visões de mundo, abertos à desconstrução de verdades únicas, à problematização dos discursos... por isso a opção “sulear”, tomando como referência a América do Sul, onde habitamos. Princípios “suleadores”: Fundamentando-se em Paulo Freire, as idéias de participação, autonomia e conscientização, devem mostrar que a leitura da pa- lavra não serve como instrumento de conformação dos estudantes com a realidade que lhes é dura. Alguns subtemas propostos para o trabalho com os alunos: A vila à noite, de dia e nos finais de sema- na; a atuação da polícia; músicas preferidas; a cultu- ra da vila; o linguajar; os aspectos da comunidade no passado; última campanha eleitoral para a pre- feitura e governo do estado; comparação da vida e o lixo; as impressões sobre a escola e adultos da EJA; a concepção de “popular”.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 113 SINPEEM O quê, com o quê, como e para quê trabalhar em cada área de conhecimento. Área Trabalhar o quê? Com o quê? Como proceder? Para quê? Língua Materna A ressignificação social da escrita, e da leitura, varieda- de de usos e funci- onalidades. Textos do tidiano (cartas, contrache- ques, receitas, placas,etc) literários (contos, poemas, letras de música) e científicos. Analisar as iferen- ças lingüísticas de cada tipo; verificar as estratégias bási- cas para escrever um texto. Habilitar o aluno à produção de tex- tos, à percepção de processos de autoria, utilização da leitura para re- tirar informações e poder escrever melhor, ler critica- mente e envolver- se em eventos de leitura. Matemática O valor do número, representação posi- cional, decomposi- ção, etc As 4 operações e porcentagem (o bá- sico). Gráficos, tabelas, contracheques, le- gendas, mapas, contas, problemas matemáticos, jogos e dinheiro. Partindo do conhe- cimento prévio dos alunos. Proporcionar o aprendizado dos conceitos lógico- matemáticos para a vida em socieda- de. Estudos Sociais Inter-relações dos acontecimentos históricos, políti- cos, culturais e so- ciais. Hipótese da histó- ria como narração sob diferentes ver- sões. Temas variados li- gados ao cotidiano. Maquetes, mapas da comunidade, percepção e lista- gem dos sons certi- dão de nascimento, fotos antigas, entre- vistas, placas, sim- patias, estatuto da criança, vídeos, etc. Promoção do res- gate da auto-esti- ma, localização como sujeito his- tórico, transforma- dor e participante, e dentro de um contexto histórico discriminatório. Ciências Arroio; tipos de solo do bairro; im- portância da arbo- rização; lixo do gal- pão de reciclagem; gás de cozinha e do lixo; chuvas; doen- ças causadas por animais domésticos ,insetos e roedores; energia elétrica; sa- neamento básico e drogadição. Panfletos, reporta- gens, material de propaganda das empresas de água e luz, receitas de plantas medicinais, rótulos, caixa de medicamentos, li- vros, etc. Aprendizagem do uso correta de me- dicamentos, desti- no correto do lixo, o sensato uso da energia elétrica e da água, a preser- vação das árvores do bairro; como acondicionar ali- mentos.
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    114 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM Materiais utilizados para o desenvolvimento do planejamento didático-pedagógico: Vídeos: de cur- ta-metragem ( Ilha das Flores); Seriado Cidade dos homens; documentário sobre catadores de papelão, livros da escrita (Ruth Rocha); Menina Bonita do laço de fita ( Ana Maria Machado), Palavra do trabalha- dor ( EJA/SMED), entre outros. O desenrolar do planejamento: foi trabalhando a leitura e a interpretação de diferentes textos; do coti- diano, procurava trazer notícias e desafios matemáti- cos e conversas sobre assuntos ligados à realidade deles, como o galpão de reciclagem e o papel em re- lação ao meio ambiente e quantos empregos ofere- cia; o papel da escola na comunidade, entre outros. Conhecendo Porto Alegre e contando sua própria história. A atividade baseou-se na utilização de um jogo com cartões, confeccionado pelo professor, onde estavam fotos antigas, desenhos, mapas e mini-textos que retratavam a história e geografia do município. Uma grande conquista e inquietação. Poder as- sistir a percepção, por eles, dos sons que produzem foi a conquista e, como não havia planejado em seu trabalho despertá-los para tal, o autor reconhe- ce que o auto-conhecimento deveria ser ponto de destaque em sua proposta de trabalho em se tratan- do de EJA, e ao dar continuidade ao trabalho, o fato traz sua inquietação. 8 - Tempo de fazer e de aprender no SEJA de Porto Alegre: possibilidades e contradições Anezia Viero e Cléa Penteado O texto é fruto de um exercício de elaboração conjunta do grupo que assumiu a coordenação da política de educação da EJA no Serviço de Educação de Jovens e Adultos da Administração Popular, SEJA, de 2001 a 2003, que tem como : dar continuidade ao exercício da constituição de redes educativas que buscam efetivar a escolarização nas diferentes comu- nidades, que se organizam nas escolas, locais de tra- balhos e em outros espaços de convivência. A fim de alcançar esse objetivo foi instituída a proposta curri- cular “Totalidade de Conhecimento” a qual, tem como características: a possibilidade da criação de novas alternativas na organização das turmas e dos projetos pedagógicos; a interdisciplinaridade e a avaliação emancipatória de caráter dialógico e formativo. Nesse quadro, a escolarização dialogando com a formação em serviço, delineia um ensino contex- tualizado e um fazer pedagógico complexo, neces- sitando de uma reflexão teórica aliada à práxis, ou seja, um educador-pesquisador que se encontra per- manentemente em formação, dialogando com seus pares e alunos, ressignificando seus conhecimen- tos e saberes, possibilitando a recriação das práti- cas pedagógicas para atender às necessidades e desejos de aprendizagem, tanto dos educandos como dos educadores. Procurando a concretização de uma formação nessa direção, a equipe de coordenação e assessoria do SEJA organizou uma proposta de trabalho para a efetivação de um projeto políticopedagógico, tendo como referência o diálogo. Inicialmente, os profes- sores tinham vínculo com a Secretaria de Educação, o qual foi deslocado para as comunidades, levando em conta a importância de um planejamento que efe- tivasse a constituição da EJA como parte do projeto da comunidade. O projeto de formação enfatizou a constituição do papel do coordenador pedagógico nas escolas, fazendo parte da equipe diretiva, buscando concre- tizar espaços de diálogo dos educadores do SEJA com a comunidade escolar. Esse papel está em constru- ção e, é necessário que o coordenador seja o provo- cador das questões pedagógicas: aquele que ao pla- nejar as formações, organiza ações que levam os pro- fessores a compartilharem e se responsabilizarem pelo projeto da escola, valoriza o lugar da pergunta e da escuta e, estrutura um currículo que embasa e sustenta a prática educativa de sala de aula. Para dar conta das dúvidas e necessidades dos coordenadores iniciantes, a equipe central do SEJA, planejou e realizou diferentes estratégias de forma- ção continuada possibilitando: a troca entre o gru- po, através de seus relatos e registros, o distancia- mento necessário para reflexão sobre a prática e o retorno à escola com novas idéias.Assim, as forma- ções relacionadas ao processo de alfabetização, en- volvendo os olhares das diferentes áreas, são discuti- das, pensadas e realizadas envolvendo professores, coordenadores das escolas, equipe de coordenação e assessoria, inclusive externa. Foram organizadas também formações para a vi- vência dos professores com o objetivo de consolidar uma educação que desenvolva o acesso sistemático aos bens culturais, públicos e privados, oferecidos pela cidade e nesse sentido, foi criado o “Cine Fó- rum”, onde educadores e educandos encontram-se em sessões de projeção de filmes para uma discus- são sobre o cinema em seus aspectos ideológicos. 9 - O Centro Municipal de Educação dos Trabalhadores Paulo Freire Marlize Andrejew, Lauren Betina Veronese, Graziela Spielmann, Lúcia Barth Ckless, Eri Domingos da Silva e Marilena Assis. Esse centro, CMET, funciona nos três turnos aten- dendo a jovens, a partir de 15 anos, e adultos, tra-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 115 SINPEEM balhadores ou seus filhos, moradores de ruas, abri- gados, e os com necessidades especiais, oriundos de vários bairros de Porto Alegre e de municípios vizinhos. Além dos princípios da educação popu- lar, semelhantes aos do SEJA, mais um é acrescen- tado: a necessidade do trabalho com as diferenças que tem como base, a identidade na diferença e igualdade de direitos. O trabalho com as diferenças tem como condição: o conhecimento das mesmas, a diversidade dentro das diferenças e o enfoque participativo, efetivado pelo diálogo entre diferen- tes conhecimentos, diálogo entre educandos e edu- cadores e o vínculo da identidade na diferença com os conceitos construídos historicamente e os do educando com o cotidiano. O currículo: trabalha a partir da visão de um ho- mem concreto numa perspectiva freireana, situado no tempo e espaço e, na totalidade das relações so- ciais; com enfoque relacional, contempla a educa- ção em permanência. A organização curricular está fundada sobre concepções de: interdisciplinaridade, formação do senso crítico e aluno como ser-presente. Apresentando a característica de um espiral cres- cente, articulando os conhecimentos, no se refere à educação formal, está organizado em: Alfabetização, totalidades 1, 2 e 3 (construção, registro e sistemati- zação dos códigos escritos) e Pós-alfabetização, to- talidades 4, 5 e 6 (aprofundamento das sistematiza- ções dos códigos trabalhando com conceitos que envolvam as relações bio-psico-sociais). O trabalho com as diferenças: deficiência audi- tiva. O que diferencia o CMET de outros estabeleci- mentos que atuam com os surdos no ensino funda- mental é o tipo de trabalho realizado nas totalidades finais (4,5 e 6)- professores ouvintes, sem o domínio da LIBRAS, das diferentes áreas, que contam com in- térpretes em todas as aulas, eventos, reuniões e ativi- dades diversas. Os professores têm espaço garantido para a formação e o aprimoramento da LIBRAS no sentido de se tornar autônomo tendo em vista um currículo que atenda às necessidades desses alunos. O trabalho com as diferenças: deficiência visual.Com a assessoria da SMED, em questões refe- rentes à baixa visão e à deficiência múltipla, os pro- fessores da rede contam com formação específica de modo a proporcionar aos alunos ( cegos ou de baixa visão) a participação em todas as atividades propos- tas, superando barreiras, desafiando limites, crescen- do como sujeitos construtores de sua história. Um constante desafio: O centro trabalha relaci- onando o processo de ensino aprendizagem em in- teração com a vida, não tem espaço para uma edu- cação compensatória, e assim, a idéia de aceleração de aprendizagem para os excluídos da escolariza- ção quando crianças, não tem lugar. 10 - Uma experiência com teatro no CMET Isaías Rocha de Quadros O trabalho se deu com turmas de totalidades finais. Teatro x teatro-educação: o teatro na educação, como espaço de aprendizagem, visa a formação do educando, o desenvolvimento de seu potencial cria- tivo e comunicativo, objetivo diferente do teatro pro- fissional que tem como objetivo o sucesso e lucro. Apesar de obrigatória a arte, e por conseqüência o teatro-educação, tem enfrentado dificuldades na sua implantação, geradas por equívocos, na leitura de sua função: redução da disciplina à mera ilustração de outras, espaço terapêutico, objeto de auxílio de outras, montagem de “pecinhas cívico-didáticas” e lugar de alegres, exóticos, entre outros rótulos. Um projeto específico para o CMET. O desen- volvimento do teatro-educação se em etapas que são não estanques: ressignificação, na qual os alunos têm a oportunidade de conhecer a existência da rotina artística; identidade do grupo, através de jogos gru- pais; linguagem cênica; produção cultural, a elabo- ração de um roteiro para uma peça curta; apresenta- ção/avaliação e circulação/reconstrução, vivenciado somente pelos alunos da oficina de artes, a apresen- tação do trabalho em outros locais e eventos. Geral- mente os componentes da oficina, espaço extra-cur- ricular, são alunos com muitas dificuldades de apren- dizagem, dificilmente observáveis que traz avanços consideráveis como: autonomia, maior iniciativa, improviso, ampliação de repertório, melhor comu- nicação e desenvoltura corporal, entre outros. O teatro mostra que a vida começa no corpo... e que tudo passa por ele, inclusive o pensar e a função primeira da aula de teatro está em a possibilidade ao alunos resgatar a infância perdida. 11 - Novas escutas e novos olhares em arte Carla Maria Fernandes Corral Cristina Rodrigues de Amorim Considera-se que o trabalho com arte, área do conhecimento humano, deva ser articulado sob duas dimensões: propiciar a produção, leitura e aprecia- ção de qualquer manifestação artístico-expressiva e a da sensibilidade. A proposta é dar ênfase aos processos cogniti- vos, à construção do conhecimento compartilhado, para dinamizar os fazeres artísticos.
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    116 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM A arte, tal qual a leitura e a escrita é um processo de construção diário e permanente, e pode ser possí- vel na EJA; ao fazer arte, os alunos, mostram seus rostos, mostram-se gente e sua essência humana; atra- vés dela aprendem no, com e para o mundo. 12 - Política e pedagogia na formação do educador do MOVA/POA Kelly Cristina Camargo Pulice O trabalho do Movimento de Alfabetização de Porto Alegre, MOVA, inspira-se no pensar, crítico e libertador, do educador Paulo Freire sendo a forma- ção político-pedagógica dos seus educadores um ele- mento fundamental para a sua concretização. A preocupação com uma prática pedagógica fun- damentada na perspectiva da educação popular e na teoria psicogenética do construtivismo socioin- teracionista, representam a base da formação dos educadores: inicial, quando da participação nos Seminários e na continuada representada pelas reu- niões semanais com o assessor pedagógico ou pes- soas convidadas, bem como, pela participação nos congressos, fóruns e outras atividades correlatas. O Seminário de Formação Inicial. Estruturado a partir da visão de mundo dos futuros educadores e de suas falas, busca problematizar concepções da realidade, diagnosticar nível de ansiedade das pes- soas, questionar estereótipos e comportamentos cris- talizados. Acredita-se que respeitando seus saberes, suas representações, sobre a realidade, está se cons- truindo na prática, uma reflexão sobre a prática, ação coerente com a concepção de alfabetização propos- ta. Nesse espaço de discussão, são abordados o his- tórico da EJA, a história do MOVA, os princípios da educação popular, a teoria psicogenética de cons- trução da escrita, alem de momentos para planeja- mento por temáticas, envolvendo diferentes áreas do conhecimento, numa visão interdisciplinar. A formação continuada. Após seminário, a for- mação continua de maneira permanente, na sala de aula e fora dela, no movimento popular, nas associa- ções de bairro, nos clube de mães e nos espaços das reuniões com a assessoria pedagógica. Resumo elaborado por Maria Lima, bacharel em história e doutora em educação pela FEUSP. MORAN, José Manuel. MASETTO, Marcos T. BEHRENS, Marilda Aparecida. Campinas, Papirus, 2000 I – Ensino e Aprendizagem inovadores José Moran Perdemos tempo demais, aprendemos muito pou- co, desmotivamo-nos continuamente, professores e alunos, temos a clara sensação de que muitas aulas estão ultrapassadas... Como ensinar e aprender em uma sociedade mais interconectada? Assim como em outras épocas, existe uma expectativa de que as no- vas tecnologias nos trarão soluções rápidas, mas se ensinar dependesse só de tecnologias, já teríamos achado as melhores soluções há muito tempo. Existe uma preocupação maior com o ensino de qualidade mais do que com uma educação de qualidade. En- sino é a atividade didática. Educação é integrar ensi- no e vida, conhecimento e ética, reflexão e ação, encontrar caminhos intelectuais, emocionais, profis- sionais que realizem o indivíduo e contribuam para modificar a sociedade que temos. Ensinar é proces- NOVAS TECNOLOGIAS E MEDIAÇÃO PEDAGÓGICA so vinculado a uma cultura, e ao mesmo tempo pes- soal: a sociedade ensina, as instituições ensinam, os meios ensinam. Educar mostra as atitudes perante a vida. Os resultados do ensino mostram se aprende- mos alguns conteúdos e habilidades, os da educa- ção mostram se evoluímos, que tipo de pessoas nos transformamos. E tudo depende do aprender, da von- tade de aprender, da maturidade, da motivação e da competência anterior adquirida. Ensino de qualidade é caro e, na verdade, não temos ensino de qualidade. Temos alguns cursos, faculdades e universidades com áreas de relativa excelência, que são tomadas como modelos gerais, mas são parciais. Demorará décadas para evoluir o conjunto para um padrão aceitável, pois temos um ensino muito mais problemático que é divulgado: as desigualdades são imensas e vende-se o todo pela parte. Temos um ensino em que, no geral, predomi- nam a fala massiva, muitos alunos por sala, profes- sores mal preparados e mal pagos, pouco motiva- dos, alunos que ainda valorizam mais o diploma do que o aprender, que fazem o mínimo para ser apro- vados, que esperam ser conduzidos passivamente, numa infra-estrutura inadequada, de salas barulhen-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 117 SINPEEM tas, pouco material avançado, tecnologias pouco acessíveis à maioria. O ensino está voltado ao lu- cro, aproveitando a grande demanda existente, com um discurso teórico (nos documentos) que não se confirma na prática: mais marketing do que proces- so real de mudança. Mudar é difícil, pois não há instituições de refe- rência, predomina a média: ênfase no intelectual e separação entre teoria e prática, uma distância imen- sa entre a ética apresentada nas instituições e a que os meios de comunicação de massa trazem. O au- toritarismo da maior parte das relações humanas es- pelha o estágio atrasado em que estamos e como ainda não sabemos educar para a autonomia, para a liberdade que se exerça em processos participativos, interativos, libertadores, que respeitem as diferenças, que incentivem, que apóiem e sejam orientados por pessoas e organizações livres. A maior parte dos pro- fessores é previsível: repete fórmulas, sínteses, resu- mos. É importante termos educadores/pais maduros emocional, intelectual, comunicacional e eticamen- te, pessoas sensíveis, humanas, que valorizem mais a busca que o resultado, mais o estímulo que a re- preensão, mais o apoio que a crítica. As mudanças em educação dependem também de termos admi- nistradores, diretores e coordenadores mais abertos, que entendam todas as dimensões envolvidas, além das empresariais ligadas ao lucro, que apóiem os professores inovadores, que equilibrem o gerencia- mento empresarial, tecnológico e o humano, num ambiente de maior inovação, intercâmbio e comu- nicação. E as mudanças dependem também de alu- nos, que sejam curiosos e motivados, interlocutores lúcidos, que tenham famílias que os estimulam. O conhecimento não é algo fragmentado, mas interdependente, interligado e intersensorial. Conhe- cer é compreender diferentes dimensões da realida- de, conectando-as, juntando-as, relacionando-as, acessando-as por diferentes pontos de vista. Pensar é aprender a raciocinar, a organizar o discurso, com critérios, com razões e argumentos, inferências fun- damentadas, organização de explicações, descrições e argumentos coerentes. Além do raciocínio, a emoção facilita ou com- plica o processo de conhecer, pois processamos a informação que nos chega segundo nosso objetivo e nosso universo cultural. A abordagem mais comum é a lógico-sequencial, uma construção aos poucos, que se expressa na fala e na escrita pessoal ou colo- quial com mais liberdade e que é linear. Em outros momentos, processamos de forma hipertextual, con- tando histórias, relatando situações que se conec- tam ou ampliam, ligando um evento ou situação a outros e assim por diante. A construção é lógica, coerente, mas sem seguir uma única trilha previsível ou seqüencial, ramificando-se em “n” direções. Pro- cessamos também de forma multimídica, juntando textos de várias linguagens simultâneas, na mesma tela, conectando com outras telas. Convivemos com essas diferentes formas, de acordo com a bagagem cultural, a idade e os objetivos pretendidos. A TV, multimídica, valoriza uma informação atraente, rá- pida, sintética, que é a usada no dia a dia, generalis- ticamente e sem profundidade. Com ela, cada vez mais respostas instantâneas são valorizadas: crian- ças e jovens querem tudo na hora e resultados ime- diatos, por isso preferem as pesquisas síncronas e o receber tudo mastigado, em sínteses curtas, com res- postas fáceis e simples. Isso se repete e se incentiva na internet, na relação com a informação on-line, de forma hipertextual. Em síntese, cada vez mais formas multimídica e hipertextual e cada vez menos a lógico-sequencial. Uma das tarefas da educação é ajudar a desen- volver tanto o conhecimento de resposta imediata como o de longo prazo: muitos dados não signifi- cam necessariamente mais e melhor conhecimento. O desafio é ajudar a filtrar e escolher o que é impor- tante e significativo, é ajudar a construir os referen- ciais que os alunos precisarão. Aprendemos melhor quando vivenciamos, estabelecemos vínculos; quan- do descobrimos novas dimensões, elaboramos pon- tes entre reflexão e ação; quando equilibramos e in- tegramos o sensorial o racional, o emocional, o éti- co, o pessoal e o social; pelo pensamento divergen- te, pela concentração, quando perguntamos e ques- tionamos, quando interagimos, quando percebemos objetivos e utilidades, quando repetimos; pela cre- dibilidade que outorgamos, pelo estímulo, pelo pra- zer, pelo interesse e quando conseguimos transfor- mar nossa vida num processo permanente, pacien- te, confiante e afetuoso de aprendizagem. Por isso o conhecer é saber, é desvendar é ir além da superfí- cie. Ao equilibrar interação e interiorização, conse- guimos compreender melhor o mundo e os outros. Só vale a pena ser educador num contexto comuni- cacional participativo, interativo, vivencial. As orga- nizações que quiserem evoluir terão que aprender a reeducar-se em ambientes de confiança, de coope- ração, de autenticidade. As tecnologias apenas aju- dam a fazer o que já fazemos: se formos abertos, ampliam nossa comunicação, se fechados, nos aju- dam apenas a controlar mais. A mudança passa por equilibrar o planejamento institucional e o pessoal, pela flexibilidade sinérgica com organização, sem improvisação. Para isso, tra- çam-se linhas de ação pedagógica maiores, sem su- focar as ações individuais, menos conteúdos fixos e mais espaços abertos de pesquisa e de comunica- ção. Temos informações demais e dificuldade em escolher quais são significativas e quais integrar em nossas mentes e vidas (papel do professor). O pro- fessor é um pesquisador em serviço, que aprende com a prática e ensina a partir do que aprende. É um
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    118 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM orientador/mediador intelectual (que informa e fil- tra), emocional (estimulador e incentivador), geren- cial e comunicacional (ponte entre instituição, alu- nos e comunidade, pelos grupos, ritmos, interações) e ético (ensinando a assumir e vivenciar valores). Para isso, integra metodologias, tecnologias e ativi- dades, varia a forma de dar aula, planeja e improvi- sa e valoriza a presença na oportunidade de comu- nicação que ela favorece. Com um grande leque de opções metodológicas (passamos do livro para a TV e vídeo/DVD e destes para o computador e internet sem aprender a explorar todas as possibilidades de cada meio), dificilmente o professor não ache seu próprio caminho. A criança ao chegar à escola já passou por vári- os processos de educação importantes: pelo famili- ar, pela mídia, pelo meio cultural e social que viveu. A TV desenvolveu a comunicação da criança, com- binou dimensão espacial com cinestésica, com rou- pagem sensorial, intuitiva e afetiva. A força da lin- guagem audiovisual está no fato de ela conseguir dizer muito mais do que captamos, criando intenci- onalmente, por analogia e associação, sentidos apa- rentemente “naturais”. Uma situação isolada con- verte-se em padrão e não mostrar equivale a não existir, a não acontecer. O vídeo (e DVD), que para os alunos significa descanso e não “aula”,,exploram situações, pessoas, cenários e relações em planos e muitos ritmos visuais, textos e linguagens, desenvol- vem múltiplas atitudes perceptivas e oportunidades. Do simples para o complexo, é possível usá-los como sensibilização, ilustração, simulação, conteúdo, pro- dução (documentação da aula) e espelhamento. Isso permite várias dinâmicas e conseqüentes formas de pensar: análise em conjunto (todos pensam o vídeo), análise globalizante (positivo-negativo, significa- ções), leitura concentrada (cenas marcantes e signi- ficados), análise “funcional” (tarefas pré-encomen- dadas), análise de linguagem (recontagem da histó- ria, análise do discurso), completação (exibição par- cial, estímulo a diferentes finais e comparação com o final do diretor), modificação (procura de vários e montagem), videoprodução (narrativa documental de assuntos, com pesquisas em outros meios), vídeo- espelho (autofilmagem), videodramatização (perso- nagens e situações dos vídeos reproduzidos teatral- mente em sala), comparar versões (p. ex. o livro com o vídeo, diferentes vídeos, gravações de músicas etc). Com o computador, são muitos os caminhos tam- bém, tanto presenciais como à distância. Da cria- ção de páginas pessoais (do professor e dos alunos), pode-se passar por ambientes virtuais onde o pro- fessor disponibiliza e orienta atividades dos alunos, pelo uso de e-mails (como lista da turma ou como conexão virtual entre professor, alunos e outros em todo o planeta), fóruns (embora é preciso lembrar que se no presencial não há ou há pouca interação, isso também ocorrerá provavelmente no virtual). Aulas-pesquisa, onde o professor inicia, mas quem completa são os alunos, a partir de grandes temas, onde as descobertas, ainda que parciais, são com- partilhadas entre os alunos. Estimula-se a constru- ção cooperativa, o trabalho conjunto, reportável em páginas-jornais (blogs), combinando e estimulando a conhecer-nos, motivar-nos, reencontrar-nos. Muda, para o professor, a relação espaço-tempo-comuni- cação com os alunos: aumenta seu espaço de tro- cas, um papel de animação e coordenação muito mais flexível e constante, que exige muita atenção, sensibilidade, intuição e domínio tecnológico. Para isso, porém, é necessário infra-estrutura (fí- sica – salas, econômica - acesso, humana - treina- mentos, aquisições de habilidades), o que depende de projetos políticos coerentes. Treinamentos para familiarização com os aplicativos e mecanismos de uso, incluindo-se as formas pedagógicas e programas multimídia. Tanto faz se for um período ou sala deter- minados ou se há acesso em cada sala. A melhor fer- ramenta a desenvolver ainda é a intuição para, diante de tantas possibilidades que se abrem com a internet, (é mais atraente navegar e descobrir coisas novas do que analisar, comparar e separar o essencial do aci- dental), conseguir filtrar, priorizar e avaliar. Alguns alunos e professores podem não aceitar a mudança, esperando que se continue a “dar aula” (= professor falar/escrever em lousa e alunos escu- tarem/anotarem); pode haver muita dispersão, pe- las imensas possibilidades de navegação e ligação entre os temas e páginas, pode haver impaciência gerada pela ansiedade de “ter” que mudar de pági- na “logo”... A credibilidade do professor e sua ca- pacidade de estabelecer laços de empatia, de afe- to, de colaboração, de incentivo e equilíbrio é que vão gerar a flexibilidade e organização necessária à aprendizagem. Caminhamos para formas de gestão mais flexí- veis, com mais participação, em prédios reorgani- zados e com alunos e professores mais conectados. Os cursos serão híbridos no estilo, na presença físi- ca, na tecnologia, nos requisitos, com muito mais flexibilidade. O importante é aprender e não im- por um padrão único de ensinar. Encontrar-se fisi- camente será para contextualizar ou para comple- mentar, questionar e relacionar os temas estudados. Não será no virtual que se resolverá o que não está resolvido no presencial. Não será “espalhando-nos” e “conectando-nos à distância” que tudo será re- solvido automaticamente. A possibilidade de estar presente em mais de um tempo e espaço diferente criarão novos tipos de aula. No Ensino Fundamen- tal, a presença é mais valorizada, enquanto que no Ensino Médio e Superior provavelmente o virtual superará o virtual. As empresas já fazem isso, com formulários, rotinas, e-mail, treinamentos em intra-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 119 SINPEEM nets, da comunicação off-line evolui para uma co- municação mista off e online. Educação à distância não é um fast-food onde o aluno vai e se serve de algo pronto: é ajudar os participantes a equilibrar as necessidades e habilidades pessoais com a par- ticipação em grupos (presenciais e virtuais), e tro- car experiências, dúvidas e resultados. Necessitamos de muitas pessoas livres nas em- presas e nas escolas, que modifiquem as estruturas arcaicas e autoritárias do ensino escolar e gerencial. Só pessoas livres, autônomas podem educar para a liberdade e para autonomia; só elas podem trans- formar a sociedade. Pessoas livres merecem o di- ploma de educador. Ensinar com novas mídias é uma revolução SE mudamos os paradigmas que mantém distantes professores e alunos. Caso con- trário será apenas um verniz de modernidade, sem mexer no essencial. II – Projetos de Aprendizagem Colaborativa Marilda Behrens A humanidade está sendo desafiada a enfrentar a sociedade do conhecimento e a globalização com a educação, na criação de ideais de justiça, paz, so- lidariedade e liberdade. A visão cartesiana, que acompanhou o conhecimento nos últimos 200 anos não dá mais conta das exigências científicas atuais, que implicam em leituras sistêmicas e totais, mais que fragmentadas e divididas. A “Era das Relações” exige conexão, inter-relacionamento, interconexão, visão de rede, de sistemas integrados, um reassumir o todo. Busca-se, hoje, formar homens responsáveis, sensíveis e que procurem sentido na vida, na huma- nidade e em uma sociedade justa e igualitária. Esse clima de revolução científica, epistemológica, cul- tural e tecnológica, porém, enfatiza a contradição entre o imenso avanço da tecnologia e o trágico des- tino da maior parte da humanidade. As exigências de uma economia globalizada afetam diretamente a formação dos profissionais em todas as áreas do co- nhecimento. Ao terminar um curso de nível superi- or, o indivíduo não está mais preparado para o exer- cício de uma profissão, hoje o conceito é o de edu- cação permanente, de educação continuada, a fun- ção do professor é passar do ensinar para o aprender a aprender do aluno. Isso implica em processos de investigação e pesquisa, mais que a transmissão de informação. Com isso, o professor deverá ultrapassar o papel de “dono da verdade”, para ser um investigador, um pesquisador crítico e reflexivo, um parceiro dos seus alunos no aprender. O aluno, por sua vez, precisa ultrapassar o papel de passivo, de escutar, ler, deco- rar e ser fiel repetidor do professor e tornar-se críti- co, pesquisador e atuante. O desafio é aprender a aprender como acessar a informação, onde buscá-la e o que fazer com ela. Não se trata de formar ape- nas em função de um mercado de trabalho, mas de formar preparando para a busca de uma melhor qua- lidade de vida. Tornar-se um adulto profissional com- petente, cidadão crítico, autônomo e criativo, que saiba solucionar problemas e que, com iniciativa própria, saiba questionar e transformar a sociedade. É superar o paradigma de “transmissão”, com salas de alunos sentados, enfileirados e em silêncio, de linguagem oral e escrita de repetição, na qual a quantidade de elementos passados explica se houve ou não a possibilidade de formação de conhecimento e com os alunos reclamando que mesmo que “sai- bam” (= lembrem), não conseguem aplicar. Por que gastar tanta energia ensinando, se os alunos não es- tão aprendendo? O conhecimento, segundo Pierre Lévy pode ser apresentado na forma oral, escrita e digital. O ele- mento digital enseja uma prática docente assentada na construção individual e coletiva do conhecimen- to. Nessa situação, pode-se romper a sala de aula, com encontros presenciais e virtuais, consciente de que a lógica do consumo não pode ultrapassar a ló- gica da produção do conhecimento: o computador e a rede (internet) é que devem estar a serviço da escola e da aprendizagem. A tecnologia digital rom- pe a narrativa contínua e seqüencial das imagens e textos escritos e se apresenta como um fenômeno descontínuo, cuja temporalidade e espacialidade, expressas em imagens e textos nas telas, estão rela- cionadas ao MOMENTO de sua apresentação. Des- contínuos, móveis e imediatos, as imagens e textos digitais têm seu próprio tempo, sua própria forma de exposição. O desafio do professor é levar em consi- deração e contemplar as inteligências múltiplas (Gardner) e a inteligência emocional. Trata-se de desenvolver habilidades e talentos que criem fluên- cia tecnológica, capacidade para resolver problemas e os 3 “c”: comunicação, colaboração e criativida- de. É superar as barreiras que separam o espaço e a criatividade do professor e dos alunos restritos à sala de aula, ao quadro e o livro-texto. Num mundo glo- balizado e sem fronteiras tempo-espaço, a tecnolo- gia facilita uma aprendizagem colaborativa. Jacques Delors, coordenador do Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI, apontou quatro pilares para a aprendizagem permanente: a) aprender a conhecer (o prazer de descobrir, de investigar, de ser curioso, o aprender a aprender, que usa principalmente a pesquisa), b) aprender a fazer (não apenas repetir, mas com criticidade e autonomia, desenvolver ha- bilidades e unir a teoria com a prática), c) aprender a viver juntos (a consciência das semelhanças e da interdependência entre todos os seres humanos, a convivência harmoniosa com todos os seres vivos,
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    120 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM mar, terra e ar, a noção holística que torna todos par- ceiros e cúmplices do futuro) e d) aprender a ser (o desenvolvimento total da pessoa, espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, respon- sabilidade pessoal e espiritualidade, pensamento autônomo e crítico, imaginação, criatividade e ini- ciativa; a formação que possibilite juízos próprios e poder responsável de decisão sobre diferentes cir- cunstâncias na vida). Nas últimas décadas os homens foram embrute- cidos pela racionalidade e pela objetividade, des- truíram a sensibilidade em nome da cientificidade. A falta de afetividade, de companheirismo e de amor deixou as pessoas como que insensíveis aos proble- mas de conflito e injustiça social. O ter superou o ser. O papel da escola é superar isso, é levar os alu- nos pela curiosidade, pelo interesse, pela busca de soluções, pela humanização. Para uma prática emancipadora, será necessário buscar maior quali- dade nos relacionamentos e organizar a ação do- cente numa teia de relações e interdependência, na qual os trabalhos coletivos e parcerias exigirão cola- boração e participação de todos. Essa visão de totalidade, o enfoque da aprendi- zagem como superação da reprodução para a pro- dução do conhecimento, uma aliança entre as abor- dagens construtivista, interacionista, sociocultural e transcedente têm sido chamada por vários auto- res de “paradigma emergente”. O conhecimento é provisório e relativo, por isso é preciso estimular a análise, a capacidade de compor e recompor da- dos, informações e argumentos, a reconhecer a re- alidade e a refletir sobre ela. Uma prática pedagó- gica que contemple: Ensino com pesquisa. Uma aprendizagem que busca superar a reprodução, a cópia e a imitação. O pressuposto básico é a produção do conhecimento, a partir da dúvida e da crítica (Paoli, 1988), um tra- balho com o aluno e não para o aluno, um trabalho de investigação e busca. Para isso, enfoca a locali- zação histórica do conhecimento, a análise, a curio- sidade, a incerteza, a percepção da interdisciplinari- dade dos temas e eventos, numa prática que proble- matize, observe, compare, acesse, critique, sistema- tize, produza conhecimento e se posicione diante da realidade. Abordagem Progressista. A busca da transforma- ção social. A prática pedagógica precisa ser proble- matizadora, considerando contextos culturais, raci- ais, históricos, de classe e de gênero; uma responsa- bilização dos indivíduos por seus atos contra os ho- mens, contra a natureza e contra si mesmos. O com- promisso é tornar possível uma aprendizagem signi- ficativa, reflexiva, crítica e transformadora na cons- trução da cidadania. Visão Holística. Baseada em princípios éticos, na dignidade humana, na paz, na justiça, no respeito, na solidariedade e na defesa do meio-ambiente, um conhecimento integrado, interdisciplinar, que vê a realidade como um tecido de eventos, no qual co- nexões de diferentes tipos se alternam, se sobrepõem ou se combinam, e por meio disso, determinam a textura do todo. É também chamada de visão ecoló- gica e visão sistêmica. Valoriza a reflexão, a curiosi- dade, a incerteza, a provisoriedade e o questiona- mento, utiliza e estimula os dois hemisférios cere- brais (esquerdo racional e objetivo e direito criativo e intuitivo) num profundo respeito às diferenças. Tecnologia como ferramenta. A tecnologia da informação, ou recursos de hardware, software e re- des, podem tornar mais acessíveis e conhecidos para os professores as políticas, projetos e propostas de diferentes instituições de ensino, bem como os mais diversos aplicativos. Assim, a pesquisa é facilitada, pois se pode tanto extrair como publicar nas redes.Entre os diferentes tipos de programas, temos os de exercitação (treinar habilidades), os tutoriais (blocos pedagogicamente organizados como livros animados ou professores eletrônicos), os aplicativos (que cumprem funções específicas, como planilhas, processadores de texto, gerenciadores de bancos de dados, editores de imagens, criação de apresenta- ções, etc), os programas de autoria (quase lingua- gens de programação que permitem a criação de instruções, programas e apresentações), os jogos (li- gados ao lazer, mas que, integrados, podem com- plementar atividades propostas pelo professor) e as simulações (que possibilitam a interação com situ- ações complexas e/ou de risco, p. ex. vôo e dire- ção). A internet, enquanto rede, permite a forma- ção de grupos de discussão por chats e fóruns, afo- ra o uso de e-mails e páginas. O recurso por si só não garante a inovação, mas depende de um proje- to bem arquitetado, alimentado por professores e alunos usuários. Segundo Chilkering e Ehrmann, são sete as con- tribuições da tecnologia da informação: 1) encora- jar contato e comunicação entre estudantes e entre universidades; 2) encorajar a cooperação entre estu- dantes; 3) encorajar a aprendizagem colaborativa; 4) dar retorno e respostas imediatas, incluindo avali- ações; 5) enfatizar tempo para as tarefas, um uso do tempo em que não é a presença física que condicio- na o aprendizado; 6) comunicar altas expectativas, na publicação e disponibilização das produções dos estudantes e nos processos que as geraram; 7) res- peitar talentos e modos de aprender diferentes, que supera o “escute, leia, decore e repita” unificados para a sala de aula como um todo, na direção de um aluno que decide o avanço, pausa, retrocesso e re- visão do conhecimento, no seu próprio ritmo.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 121 SINPEEM O uso do ciberespaço, portanto, é não um fim em si mesmo, mas um meio para o aprender a apren- der com interesse, criatividade e autonomia. Uma das metodologias que melhor se adéqua a essa abordagem progressista, com ensino baseado em pesquisa e visão holística é a de projetos. Para isso, o professor precisa referenciar o dentro e o fora da sala de aula, o uso de tecnologias inovadoras e, principalmente, a criação de uma postura coopera- tiva, o que implica em colaboração dos sujeitos, na tomada coletiva de decisões, em trocas e conflitos sociocognitivos, em consciência social, em reflexão individual e coletiva, na tolerância e convivência com as diferenças, na responsabilidade do aprendiz por seu aprendizado e pelo do grupo, em negocia- ções constantes e ações conjuntas e coordenadas. Pressupõe consenso e responsabilização pelo suces- so ou pelo fracasso de forma coletiva. Como metodologia, apresentam-se as fases ou passos, em função de experiência com professores de programa de Mestrado da PUC-PR. São elas: 1ª – Apresentação e discussão do projeto, nego- ciação temática com os alunos, indicação de biblio- grafia básica e endereços eletrônicos, estabelecimen- to dos prazos, critérios, requisitos e instrumentos de avaliação; 2ª – Problematização do tema, que provoque reflexão, que seja instigadora na valorização do tema e na busca de soluções; que tome como ponto de partida problemas práticos atuais ou futuros, apti- dões e/ou objetivos a atingir e que gere inquietação, incômodo, desafio; 3ª – Contextualização, localizando historicamen- te o tema, suas conexões e inter-relações com outros tópicos, assuntos, situações, eventos, as/ condições e aspectos sociais, históricos, econômicos ou outros referentes à temática proposta e também a dinâmica de operação do grupo pesquisador, as posturas e comportamentos esperados; 4ª – Aulas teóricas exploratórias, quando se apre- sentam os conhecimentos básicos envolvidos, seus tópicos e subtópicos, um diálogo que permita iden- tificar os assuntos pertinentes e ligados ao projeto, o fechamento em foco necessário perante o universo de pesquisa. Não é um direcionamento do conheci- mento, mas um estabelecer parâmetros do que pre- cisa ser investigado. São bússolas. 5ª – Pesquisa individual, quando o aluno busca, acessa, investiga informações que possam gerar solu- ções à problemática proposta. Aqui entram as orien- tações do professor sobre as fontes possíveis e a críti- ca a estas, (livros, CDs, jornais, vídeo, internet etc. ) bem como os filtros necessários para não se perder nos nós e ligações hipertextuais das páginas. Com o uso de chats, fóruns, correios eletrônicos, páginas de busca, os alunos poderão explorar novos endereços e compartilhar soluções, ainda que parciais. 6ª – Produção individual, em textos próprios, com material próprio e do grupo, realizada em sala de aula ou fora dela. O desafio é a redação, edição e impressão/publicação de um texto próprio, seguin- do as normas da ABNT (citações, referências, nume- ração, composição etc.). É aqui que se exercitam as habilidades de análise e síntese, de avaliação da pertinência e relevância das informações, de cola- boração e visão compartilhada. 7ª – Discussão coletiva, crítica e reflexiva, na devolução dos textos produzidos e discussão sobre o problema levantado e pesquisado. É o momento de apresentação das dúvidas, de exercício de tole- rância e convivência com as diferenças, o exercício de defesa e argumentação de idéias e respeito a opi- niões, idéias, valores e posturas de outros, diferentes das suas próprias. 8ª – Produção coletiva, não de qualquer texto, mas de estruturar, discutir e depurar as produções individuais como uma teia, costuradas e amalga- madas pelos alunos. Esse é um processo que de- manda coleguismo, respeito e seriedade. Sugere-se que sejam grupos de três a quatro elementos, pois ao final, o material pode ser disponibilizado em home-pages próprias ou de temática igual à pro- posta para a turma. 9ª – Produção Final (prática social), que pode ser a publicação na rede ou em material impresso (jor- nais, boletins, revistas); a disponibilização em revis- tas acadêmicas, eletrônicas ou físicas; a gravação e distribuição de cd-rom, apresentações públicas em qualquer formato (palestras, encenações) 10ª – Avaliação Coletiva do projeto, a reflexão sobre a participação dos alunos e do professor no processo, nas fases e no todo, uma busca de autono- mia e desenvolvimento das competências. Os professores que já utilizaram perceberam que seus alunos estão se tornando pessoas capazes, éti- cas, talentosas, felizes e humanas. III – Mediação Pedagógica e Tecnologia Marcos Masetto Alguns pressupostos vão servir de pano de fundo para a discussão do assunto. O primeiro, é que a educação escolar não valo- riza a tecnologia como elemento para uma maior eficiência e eficácia. Para quê? Não basta o domínio do conteúdo como todos apregoam? Na própria for- mação dos professores valoriza-se mais a disciplina específica em detrimento das disciplinas pedagógi- cas, já que estas são “apenas” para poder exercer o magistério. No ensino superior, também, o uso de tecnologia não é tão comum, o que faz com que os novos professores do ensino fundamental e médio, ao ministrarem suas aulas, praticamente copiem o
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    122 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM modo de fazê-lo e o próprio comportamento de alguns de seus professores de faculdade, dando aula expositiva e, às vezes, sugerindo algum tra- balho em grupo com pouca ou nenhuma orienta- ção. Outro fator para a não valorização da tecno- logia em educação foi a experiência com a impo- sição de técnicas nas escolas nas décadas de 1950- 1960, com base em teorias comportamentalistas. Junto com a defesa da auto-aprendizagem e do rit- mo de cada aluno, impuseram excessivo rigor e tecnicismo para a construção de planos de ensi- no, para a definição de objetivos de forma taxo- nômica, na implantação de instrução programa- da, e a padronização de métodos e comportamen- to. Até hoje provoca calafrios ao se falar em eficá- cia e eficiência do processo de aprendizagem, porque não só remete a isso como também ao pro- cesso de Qualidade Total (trazido do mundo das empresas privadas) que foi implantado sem críti- ca, como se escolas e empresas se equivalessem em objetivos, formas de organização, funciona- mento e resultados. No entanto, os termos trazem questões interessantes, como a busca dos melho- res recursos, a noção de acompanhamento contí- nuo do aprendiz, a possibilidade de interação à distância, a avaliação durante o processo e dos resultados de aprendizagem, a reconsideração da relação professor-aluno e aluno-aluno. Segundo, dois fatos: a) o surgimento da infor- mática e da telemática proporcionando a seus usu- ários (entre eles professores, alunos) oportunidades como a de entrar em contato com informações, pesquisas e produções do mundo todo, em todas as áreas; o desenvolvimento da auto-aprendizagem e interaprendizagem à distância, de qualquer lu- gar; a integração de movimento, luz, som, imagem, filme, vídeo em novas apresentações; a construção em conjunto de conhecimentos e b) a abertura para a formação das competências pedagógicas de pro- fessores universitários, em todas as áreas, o que é um processo recente. Tecnologia e processo de aprendizagem. Há quatro elementos no processo: a) o conceito do que seja aprender, centrado mais no aprendiz, enquanto o de ensinar está centrado no professor b) o papel do aluno, ativo e participante (não mais passivo e repetidor), que vê seus colegas como colaboradores e co-responsáveis pelo aprendizado; c) o papel do professor, de mediador e orientador, que trabalha junto com o aluno, consultor de conhecimento e d) o uso da tecnologia, que sai das aulas expositivo- dialogadas – contem ou não com o uso de recursos audiovisuais como vídeo ou transparências, o que muda apenas a FORMA – e vai coerentemente para a de mediação, e facilitação, a de trabalho interativo e colaborativo. As técnicas não se justificarão por si mesmas, mas pelos objetivos que se pretenda que elas alcancem. Tecnologia e mediação pedagógica. A mediação pedagógica é a atitude, o comportamento do profes- sor que se coloca como um facilitador, incentivador ou motivador da aprendizagem, uma ponte “rolan- te”, que apresenta e trata conteúdos e temas de for- ma a permitir relações, organizações, manipulações, discussões e debates entre todos, para a produção de conhecimento significativo. Para isso, usa do di- álogo, da troca de experiências, do debate das dúvi- das, questões ou problemas, da orientação nas ca- rências e dificuldades técnicas ou de conhecimen- to, na garantia da dinâmica do processo, na proposi- ção de situações-problema e desafios, no incentivo à reflexão e no intercâmbio entre o aprendido e a sociedade real. Denominamos “novas” tecnologias as que estão vinculadas ao uso do computador, à informática, à telemática e à educação à distância. No entanto, a mediação pedagógica não precisa necessariamente destas, pois temos várias técnicas à disposição para os momentos iniciais do trabalho em grupo (apresentação simples, apresentação em du- plas, complementação de frases, desenhos em gru- po, deslocamentos dos alunos, tempestade cerebral), para o desenvolvimento (baseados principalmente em simulações como dramatizações, desempenho de papéis, jogos dramáticos, jogos e estudos de caso ou em situações reais, como o estágio, excursões, aulas práticas em clínicas, visitas a obras, indústrias, empresas, consultórios, escritórios, etc). As técnicas baseadas em dinâmicas de grupo (e que assumem também esse nome) são excelentes para gerar maior envolvimento entre todos. Mesmo os recursos audi- ovisuais e leituras podem ser mais bem aproveita- dos, do que simplesmente “expostos” aos alunos. Por fim, entre as tradicionais, o método de projetos, que utiliza maior tempo, é mais complexo, mas favorece de forma ímpar a aprendizagem. No que se refere a novas tecnologias, como a informática, o uso do computador, da Internet, do CD-ROM, da hipermídia, da multimídia, de ferra- mentas para educação à distância, - como chats, gru- pos e listas de discussão, correio eletrônico, também se pode falar que cooperam tanto na forma presen- cial com à distância. Ao explorar imagem, som e movimento simultaneamente, colocam professores e alunos trabalhando e aprendendo juntos, dialogan- do, discutindo, pesquisando, perguntando, respon- dendo comunicando informações. Algumas são ex- celentes para o ensino (=transmissão), enquanto ou- tras são melhores para a exploração pelo aluno. De qualquer forma, continuam sendo instrumentos. As novas tecnologias permitem ampliar o mundo de experiências e contatos, dada a rapidez e o imedia- tismo que proporcionam. Já as formas de uso podem
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 123 SINPEEM estar a servido presencial ou à distância. Não se pode pensar no uso de uma tecnologia sozinha ou isolada, o planejamento precisa ser feito no todo, uma técnica se ligando à outra e integrada. Seja via teleconferência (que dá a possibilidade de dar acesso a telespectadores de diversas locali- dades a um especialista, ainda mais se permitir o debate ou a colocação de dúvidas ou perguntas), seja num chat ou bate-papo (que pode ser usado para funcionar como um disparador de idéias, uma brain- storm eletrônica, altamente envolvente e produtiva), seja numa lista de discussão (que permite a discus- são e a troca de informações ou experiências, a apre- sentação de dúvidas, com divisão ou não em tópi- cos, o que leva um tempo maior para se tornar pro- dutivo, já que não exige a sincronicidade) ou pelo correio eletrônico (no aumento de número de con- tatos entre professores e alunos e entre alunos e alu- nos, na possibilidade de compartilhamento de dúvi- das, de materiais, de produções, de instruções, de dados, de textos) a disponibilização de tempo do professor é fundamental pela exigência de resposta aos tópicos, convites de chat ou resposta aos e-mails ou no próprio tempo para atender a um número “x” de e-mails, tantos quantos são os alunos, o que pode aumentar até sua carga diária ou tirá-lo de outras atividades igualmente importantes. Não se conhe- cem soluções efetivas para esse problema, a não ser algumas experiências de determinar tempos fixos (horas ou dias na semana). A internet permite um maior incentivo à leitura e à pesquisa, pois além do acesso aos materiais digitalizados, acrescenta a co- modidade de tempo-espaço, pois se pode acessar, ler, comparar, reproduzir, construir, produzir, criti- car, registrar, buscar, pesquisar, organizar, tudo ao mesmo tempo. Como todo instrumento, precisa ser ensinado seu uso crítico e reflexivo. Com CDs e pro- gramas como PowerPoint somam-se os recursos que integram imagem, luz, som, texto, movimento, pes- quisa, busca, links já organizados ou tornados pre- sentes. Ainda assim, deve-se prever atividades, tem- pos e momentos para o aluno perguntar, refletir, de- bater, pesquisar, trabalhar, redigir etc. Tecnologia, avaliação e mediação pedagógica. Muitas vezes ocorre a perda de um trabalho inova- dor em função de uma avaliação tradicional e con- vencional. Alguns pontos básicos são: a) considerar a avaliação como elemento motivador e incentiva- dor e não como conjunto de provas e trabalhos para aprovar ou reprovar um aluno; b) modificar a idéia de avaliação como indicador de uma nota dada a acertos e erros, que não colabora com a aprendiza- gem, pois falta feedback, continuidade e variedade de técnicas; c) ver a avaliação como um processo de retroalimentação que traga reflexão e orientação tanto para o aprendiz como para o professor; d) a avaliação é um retorno e uma apreciação em rela- ção aos objetivos, que pode vir tanto do professor como dos colegas como do próprio aprendiz, em relação a critérios que foram discutidos e validados; e) se, presencialmente, há indicadores comunicaci- onais (olhares, expressões, gestos), no virtual não há, o que chama atenção para o cuidado com a redação de respostas e avaliações oferecidas aos alunos; f) o feedback bom é o claro, direto e contínuo; g) junto com ele, deve haver um registro individual que per- mita o diálogo e acompanhamento, não apenas das atividades mas dos progressos; h) abrir o processo com os alunos a respeito do programa do curso, das atividades da pertinência dos temas, tanto pre- sencialmente com à distância para que haja trocas e avaliações mútuas de desempenho e i) que as ativi- dades permitam ao aluno e ao professor desenvol- ver uma auto-avaliação e registrá-la. O professor como mediador pedagógico pos- sui as seguintes características: a) mais voltado para a aprendizagem do aluno, centro do processo; b) professor e aluno são a célula básica, por ações e expectativas mútuas e conjuntas; c) co-responsabi- lidade; d) considerar a maturidade do aluno, res- peitando-a com estratégias, atmosfera, planejamen- to, métodos, recursos e comunicações adequadas; e) domínio profundo e atualizado de sua área, in- clusive quanto a técnicas pedagógicas; f) criativi- dade como atitude de diferenciar cada aluno por si só; g) disponibilidade para o diálogo, h) a subjeti- vidade e a individualidade, tanto do professor quan- to do aluno devem ser respeitadas; i) comunicação e expressão em função da aprendizagem, com cui- dado de quem estão limitado ao material escrito (na comunicação virtual), para transmitir informa- ções, dialogar e trocar experiências, debater dúvi- das, relacionar com a realidade, fazer questões éti- cas, atribuir significado aos eventos e situações, ajudar a comandar a máquina. Resumo realizado por Antonio Carlos Berardi Junior, professor, antropólogo, mestre em educação.
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    124 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM MUNANGA, Kabengele. GOMES, Nilma Lino. São Paulo, Global Editora e Ação Educativa, 2004 O livro de 87 páginas (exemplar do profes- sor) propõe-se a fazer uma reflexão sobre a situa- ção do negro no Brasil contemporâneo. A metade do volume é dedicada a explicações sobre o funcio- namento da coleção Viver, Aprender e seus pressu- postos teóricos e metodológicos, a segunda metade explica a concepção do livro dedicado aos estudan- tes, dividido em sete capítulos: 1) O Brasil, o que é afinal?; 2) África: berço de diversas civilizações; 3) A resistência negra no regime escravista; 4) A resis- tência negra: das revoltas ao movimento negro con- temporâneo; 5) A produção cultura e artística dos negros no Brasil; 6) Racismo, discriminação racial e ações afirmativas: sociedade atual; 7) Homens e mulheres negros: notas de vida e de sucesso. A coleção Na primeira parte encontra-se a organização do volume que, como nos outros livros da coleção, é dividido em três partes: livro do estudante com tex- tos do autor e outros autores e fontes onde se discu- te a temática proposta; um roteiro de atividades que vem no livro dos estudantes endereçadas aos mes- mos; e o livro de professores que contém aborda- gens metodológicas, propostas de aprendizagens e sugestões de atividades coletivas para serem feitas com os estudantes. A proposta desse e dos outros volumes da cole- ção é discutir temas que permitam uma abordagem interdisciplinar, sendo possível o uso dos mesmos tanto para adolescentes do ensino fundamental II como para adultos. Dirigida especialmente para esse segundo segmento, os autores da coleção afirmam a necessidade de se valorizar os saberes prévios dos estudantes que já trazem uma trajetória de vida que não recomenda o ensino seriado, onde os temas são ensinados em torno de uma suposta gradação de complexidade. Trata-se, portanto, de resignificar o conteúdo proposto a partir da experiência de vida dos estudantes. Dessa forma o volume encaixa-se nas propostas atuais de formação por ciclos, opondo-se à concep- ção de ensino seriado. As propostas promovem a participação dos estudantes no planejamento e na execução das atividades solicitando a resolução de conflitos e situações-problemas que afetam a todos. PARA ENTENDER O NEGRO NO BRASIL DE HOJE: HISTÓRIA, REALIDADES, PROBLEMAS E CAMINHOS Os conteúdos sugeridos ajudam os jovens e adultos a compreenderem as mudanças na estrutura econô- mica e na dinâmica do atual mercado de trabalho. O material didático oferecido pelo livro quer ser apenas um aporte, uma referência política e peda- gógica. Sendo um convite ao estudo e à reflexão, o volume não tem rupturas ou exercícios intercalados. Tenta-se evitar assim, o uso do material como “re- ceita” a ser usada em sala de aula e a absorção de conteúdos de forma mecânica pelos estudantes. Exploração didática Propõe-se que os jovens e adultos dominem três grandes domínios da cultura escrita: comuni- cação, acesso a informações em diversas fontes e investigação e compreensão da realidade. No item comunicação pretende-se que o aluno exercite di- ferentes formas de exposição para públicos e situa- ções distintos, podendo expressar com clareza suas opiniões. O item “acesso a informação em diversas fontes” propõe que o aluno aprenda a usar a escrita para ler e compreender de acordo com as necessi- dades de sua aprendizagem. Finalmente, no tópico “investigação e compreensão da realidade, preten- de-se, antes de tudo, que o aluno possa: traçar um plano de ação para sua pesquisa, formulando ques- tões a partir de situações reais; sistematizar informa- ções; formular hipóteses; avaliar a necessidade de se buscar mais informações e saber analisar dados quantitativos e qualitativos”. Nota-se pelo exposto até agora que a proposta dos idealizadores da coleção está centrada na cria- ção de autonomia para que o próprio estudante cons- trua seu conhecimento. O livro convida os professores a trabalharem por meio de formulação de projetos coletivos com a par- ticipação dos estudantes, transformando esses últi- mos em sujeitos do aprendizado ao invés de objetos da ação do professor. Para formular esse projeto, os autores indicam a necessidade do grupo de profes- sores e estudantes estabelecerem uma situação-pro- blema, elegendo temas e subtemas a serem investi- gados e buscando fontes adequadas para a solução dos desafios propostos no projeto. Salienta-se ainda que, ainda de forma coletiva, definam-se os objeti- vos e produtos a serem alcançados no final do pro- jeto. Evidentemente, durante a execução do projeto, será necessária a revisão dos procedimentos e obje- tivos, visto que a investigação poderá exigir corre-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 125 SINPEEM ção dos procedimentos e mesmo a reformulação dos objetivos do projeto à luz da pesquisa realizada. A avaliação do processo fica por conta do pro- fessor e dos estudantes. O primeiro deve analisar o processo coletivo e individual, bem como recolher e interpretar as hipóteses e produções dos estudan- tes. Esses, por sua vez, devem fazer uma auto-ava- liação e comparar os resultados da pesquisa com os objetivos propostos. Falar, ler e escrever na escola Outro trecho do livro traz uma reflexão sobre o significado de falar, ler e escrever na escola. A escri- ta e sua utilização é considerada indispensável para a participação social. Para que seja leitor e escritor competente, o estudante deverá sempre ter questões prévias que emprestem à leitura algum objetivo con- creto e ainda deve identificar quais são interlocuto- res de seus textos. Sugere ainda procedimentos para que os alunos aprendam a ler para estudar um as- sunto: marcando textos; fazendo comentários de margens; recortando e selecionando fragmentos; ela- borando esquemas e roteiros de leitura; preparando sinopses, paráfrases, resumos; fazendo e interpretan- do tabelas e quadros e organizar arquivos de livros, textos ou fichas. A mesma ênfase dada à formação de leitores com- petentes é dada para a escrita. O estudante é estimu- lado a produzir textos, identificando diferentes tipos de produção escrita: pessoais, relativos à vida práti- ca, relativos à atividade profissional e para produzir estudos. Da mesma forma que na leitura, estabelecem-se os requisitos para se escrever um bom texto: planejar a ação, fazendo um roteiro ou rascunho; estabelecer um objetivo (para escrever o texto); identificar para quem o texto será escrito;estabelecer o que será de- fendido no texto (tese ou posição);reunir e selecionar argumentos; construir quadros, tabelas ou listas; fazer sinopses, paráfrases ou resumos; adaptar o texto aos padrões de escrita convencional; usar material de consulta; fazer revisão do texto; fazer avaliação de um roteiro ou de um texto escrito por outra pessoa. Para entender o negro no Brasil de hoje: histó- rias, realidades, problemas e caminhos Depois de explicitar a concepção que norteou a produção da coleção e os objetivos das atividades propostas, o livro passa a tratar o tema central do volume: o negro no Brasil. Começa argumentando que o Brasil nasceu do encontro de diferentes grupos étnico-raciais e conhe- cer a história desses segmentos equivale a conhecer o Brasil. De todos os segmentos que formaram o Bra- sil, o negro é o único que não veio pela própria von- tade, pois foi trazido à força, o que constitui uma grande diferença entre os demais brasileiros. Outro argumento a favor da importância do tema é o fato de, apesar de constituírem a maioria do povo brasi- leiro, esse segmento permanece sujeito a toda sorte de preconceito, discriminação racial e racismo. Sua história é menos conhecida que a de outros segmen- tos étnicos o que justifica a lei federal 10.639, pro- mulgada em 2003 que tornou obrigatório o ensino da história da África e da cultura afro-brasileira nos estabelecimentos de ensino brasileiros. Abordagem dos temas Toda a discussão gira em torno da diversidade do povo brasileiro e da necessidade de entendermos que a discriminação contra o negro liga-se com a questão do fortalecimento da democracia brasileira, passando pelo entendimento das especificidades dos grupos excluídos, postulando que não existe uma fórmula geral para resolver os problemas sociais de grupos distintos como negros, índios, mulheres, ho- mossexuais, portadores de necessidades especiais, entre outros. Temas e subtemas Os subtemas que tomam parte no estudo são: a história do povo negro, de seu continente de origem e o tráfico; a vida dos negros na nova terra; a organi- zação e a resistência dos negros frente ao regime escravista, a negação de direitos e as desigualdades sociais; os problemas do negro no Brasil contempo- râneo, como o preconceito e discriminação racial e os caminhos para a mudança, para o combate das desigualdades raciais e a construção da igualdade de direitos e oportunidades para a população negra em nossa sociedade. O livro está organizado em sete capítulos. Cada capítulo traz orientações para o roteiro de ativida- des e para as atividades coletivas. Ao final de cada capítulo ainda são oferecidos indicação de fontes de pesquisa, bibliografia e textos complementares. Os conteúdos e as atividades sugeridas são descri- tos a seguir: O Capítulo 1, Brasil, o que é afinal, traz à discus- são quais foram as matrizes populacionais formado- ras do Brasil e explica as razões que levaram o por- tuguês a optar pela mão de obra africana. Descreve as características culturais dos povos escravizados no Brasil e suas contribuições para o país. A polêmi- ca sobre a pré-existência de escravos na África, an- tes da colonização da América, é abordada para re- chaçar o argumento daqueles que dizem ser dos pró- prios africanos a culpa pela escravidão, como forma de combater a reivindicação de indenizações e po- líticas afirmativas. Os dados históricos apresentados numa ótica não colonial procuram colocar o negro como sujeito his- tórico e social, atribuindo à sua identidade uma nova e positiva perspectiva.
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    126 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM Nas orientações para o roteiro de atividades, os autores propõem o questionamento do subtítulo: Brasil: país do encontro de culturas e civilizações através da formulação de questões em que o aluno é convidado a definir o que é mundo globalizado e como ele se auto define no contexto nacional, além disso, convida o aluno a se posicionar ante a afirma- ção de que “nossa” cultura brasileira é de origem ocidental, definida a partir da matriz portuguesa. A proposta de atividade coletiva é para que alu- no forme sua árvore genealógica e a compartilhe com os demais colegas. A idéia é observar a diversidade da formação étnica do grupo, com ênfase na origem africana. Os alunos seriam estimulados a consultar parentes e amigos da família, bem como documen- tos e fotos que ainda podem ser usados para ilustrar as árvores genealógicas. Os autores sugerem que os professores elaborem questões sobre a origem de cada família, enfatizan- do o que há de comum e de singular nas histórias de vida apresentadas. Destaca-se nesse capítulo um trecho da biogra- fia do famoso jogador de futebol negro, Garrincha. O Capítulo 2, África: berço de diversas civiliza- ções procura mostrar a história de algumas civiliza- ções africanas. O objetivo é desmontar o mito cria- do por certa tradição histórica, como a do filósofo Hegel(1770-1831) que afirmou que os povos africa- nos nada tinham a contribuir para a humanidade. O desconhecimento da história dos povos que habita- ram o continente africano nega-lhes a dignidade e contribui para a baixa auto estima dos afro descen- dentes no Brasil. Essa baixa auto-estima ainda é re- forçada pelas imagens veiculadas por filmes e pela mídia, sempre muito negativas quando se referem ao negro aqui e na África. Ao demonstrar a perspectiva eurocentrista de Hegel, baseada numa geografia determinista, o tex- to procura indagar o aluno sobre os motivos de se considerar a África como um continente infantil, re- pleto de tribos em incessantes guerras (como nos fil- mes Tarzan ou King Kong), que jamais foi palco pri- vilegiado das principais conquistas da humanidade. A orientação para o roteiro de atividades sugere que sejam feitas questões investigativas para saber quais os conhecimentos prévios dos alunos a respei- to das civilizações africanas. Após a leitura do capí- tulo, os alunos são convidados a escreverem uma carta para alguém explicando o que aprenderam e a importância desse aprendizado. Os autores salien- tam que a carta deve, de fato, ser enviada. Sugerem ainda indagar os alunos negros se eles sabem a qual povo pertenciam seus ancestrais e o motivo para eventual desconhecimento. Como atividade coletiva sugere-se que, antes da leitura do capitulo 2, os alunos construam um pai- nel coletivo, usando fotos retiradas de revistas sobre o conhecimento prévio que eles têm da África. Pode- se sugerir que eles ganharam uma visita ao conti- nente e solicitar que eles descrevam o que crêem que vão encontrar lá. Após a leitura do capítulo, os alunos deverão construir um novo painel e comparar os dois, para avaliarem o que aprenderam e a importância desse aprendizado. Sugere-se ainda que os alunos divididos em gru- pos apresentem seminários sobre cada um dos po- vos estudados nos capítulos. Além da produção co- letiva, os autores sugerem que o professor solicite relatórios individuais sobre o que cada um apren- deu ao final das atividades. O Capítulo 3, A resistência negra no regime es- cravista, fala dos movimentos de resistência dos ne- gros escravizados no Brasil. Está muito difundido no imaginário do brasileiro que o escravo aceitou pas- sivamente sua condição, estando “acostumado” a trabalhos forçados. O estudo dos principais movi- mentos de resistência e rebeliões demonstra que o regime escravista apesar de humilhante e opressor, não roubou a humanidade dessas pessoas. Os autores lembram os professores de alertarem os alunos de não cometerem o erro de confundir as estratégias de luta dos escravos com a dos negros de hoje. Na orientação para o roteiro de atividades su- gere-se novamente o mapeamento, através de ques- tionário, do conhecimento prévio dos estudantes a respeito das estratégias de resistência negra duran- te o período escravocrata. Propõe-se que a partir da leitura das histórias de personalidades negras do passado, supere-se a concepção de apatia e sub- missão dos homens, mulheres, velhos e crianças diante da escravidão. Como atividade coletiva sugere-se a organização de uma mostra de vídeos sobre movimentos de re- sistência negra. O próprio livro traz a sugestão de cinco filmes, entre ficções e documentários. Sugere- se que cada grupo de alunos fique encarregado de assistir previamente o filme para organizar o debate após a exibição do mesmo. Caso a escola não tenha os recursos para a exibição sugere-se que os própri- os alunos ofereçam solução para o problema, dan- do sugestões de como obter os recursos, ou reivindi- cando espaços públicos para a exibição que deve ser estendida a toda a comunidade escolar ou cen- tro educacional. Ao final da mostra os alunos devem ser convida- dos a avaliar o resultado dos debates. No Capítulo 4, A resistência negra: das revoltas ao movimento negro contemporâneo, mostra os movimentos negros após a abolição da escravidão em 1888. A idéia central é desmistificar a idéia de que, a partir da lei Áurea, oportunidades foram ofe- recidas aos negros em pé de igualdade com outros
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 127 SINPEEM grupos raciais. Esses processos de luta pela constru- ção da igualdade social e pelo acesso aos diversos setores sociais são destacados nas histórias da Re- volta da Chibata, da Frente Negra Brasileira, do Tea- tro Experimental do Negro e do Movimento das Mulheres Negras. Cada movimento deverá ser inse- rido dentro do contexto mais amplo da história e da sociedade brasileiras. As questões sugeridas na orientação para o ro- teiro de atividades incentivam o conhecimento do negro como sujeito histórico na sociedade brasilei- ra. Sugere-se ainda que os alunos convidem militan- tes do movimento negro para serem entrevistados. Como atividade coletiva sugere-se o estudo do capítulo e a elaboração de relatórios de leitura de cada um dos movimentos listados acima com a pos- sível ampliação de fontes a partir de páginas na in- ternet e livros sobre os diferentes assuntos. O Capítulo 5, A produção cultural e artística dos negros no Brasil trata de aspectos das manifestações culturais, musicais e artísticas. Dessa forma mostra- se como a cultura brasileira é africanizada em vários aspectos da vida cotidiana mesmo que os brasileiros não a reconheçam. Entendidas como maneiras de luta e resistência cultural destacam-se a religiosidade, a corporeida- de, a música, a dança e os gestos dos negros. A cor- poreidade é estudada por intermédio da capoeira e os movimentos musicais e de expressão cultural por meio do rap e do funk. Nas orientações para o roteiro de atividades su- gere-se que os alunos pesquisem manifestações musicais dentro de seu próprio cotidiano debatendo inclusive as relações de gênero (entre homem e mu- lher) e as tensões que elas promovem. Como atividade coletiva sugere-se que os estu- dantes leiam as letras e procurem entender quais mensagens elas pretendem passar. Deve-se traçar, a partir dessa análise o cotidiano urbano dos jovens negros. A compreensão dos conteúdos das letras e o posicionamento diante deles devem ser encorajados. Pode-se ampliar com exposição de painéis e mesmo com a organização de uma mostra de cultu- ra da juventude negra, onde os estudantes convidem grupos musicais e artísticos para se apresentarem em uma feira cultural na escola ou centro educacional. Sugere-se ainda a apresentação de seminários, em pequenos grupos, onde cada um falará sobre outros ritmos musicais negros (como as diversas varieda- des de samba) seus principais representantes, instru- mentos e características. O Capítulo 6, Racismo, discriminação racial e ações afirmativas, aborda conceitos como raça, et- nia, racismo, etnocentrismo, discriminação racial, preconceito, ação afirmativa e cotas raciais, com o objetivo de refletir sobre a compreensão e o uso que se faz deles nos debates contemporâneos. Informar os estudantes sobre as desigualdades entre negros e brancos no Brasil é fundamental nes- se capítulo. O debate sobre as ações afirmativas e cotas também é imprescindível. Nas orientações para o roteiro de atividades in- dica-se que as questões formuladas aos estudantes devem levá-los a conhecer dados estatísticos sobre as desigualdades raciais no Brasil,levantados por ONGs, órgãos públicos e movimentos sociais. Pro- cura-se incentivar o entendimento das estratégias de superação das desigualdades, enfatizando o aperfei- çoamento jurídico e distinguindo ações afirmativas de política de cotas. Como atividade coletiva sugere-se a elaboração de uma pesquisa para se conhecer a situação sócio econômica dos negros da comunidade ou centro escolar, ou, se possível, da comunidade como um todo. Solicita-se a pesquisa em página do IBGE (Ins- tituto Brasileiro de Geografia e Estatística) onde é possível obter informações sobre estratos populaci- onais de todos os municípios brasileiros. O questio- nário deve ser elaborado pelos estudantes e testado previamente, para se ter certeza que se atingirão os objetivos pretendidos com a pesquisa. Ao final sugere-se a tabulação coletiva e a exibi- ção dos resultados por meios de painéis. O conheci- mento das condições concretas dos negros próximos aos estudantes podem levá-los a entender as dificul- dades que esses grupos têm com a educação, a mai- or parte das vezes, atribuída ao desinteresse dos mesmos pelos estudos, desconsiderando as condi- ções objetivas desfavoráveis para o desenvolvimen- to intelectual dos mesmos. O Capítulo 7, Homens e mulheres negros: notas de vida e de sucesso fala da história de celebridades negras vivas e mortas que representam parte da luta e da força do povo negro. A idéia é que as biografias oferecidas nesse capí- tulo estimulem a pesquisa de outras personalidades e líderes negros de dentro e de fora da comunidade que revelem trajetórias de lutas e resistências. Sugere-se, como orientação de atividade coleti- va a pesquisa de biografias de personalidades ne- gras que sejam reunidas em um livro ou painel cole- tivos. É preferível que cada estudante pesquise a his- tória de vida de pessoas desconhecidas, próximas da comunidade e as homenageiem por intermédio dessas biografias, estimulando especialmente o uso de relatos orais que devem ser gravados e transcri- tos. Se for possível a confecção de um livro ou revis- ta, recomenda-se o levantamento de recursos para que cada um tenha o seu exemplar. Resumo realizado por Lourival dos Santos, dou- tor em história social pela USP.
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    128 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM AVALIAÇÃO: DA EXCELÊNCIA À REGULAÇÃO DAS APRENDIZAGENS - ENTRE DUAS LÓGICAS PERRENOUD, Phillipe. Porto Alegre, Artes Médicas Sul, 1999 CAPÍTULO 4 OS PROCEDIMENTOS HABITUAIS DE AVALIAÇÃO, OBSTÁCULOS À MUDANÇA DAS PRÁTICAS PEDAGÓGICAS A característica constante de todas as práticas de avaliação é submeter regularmente o conjunto dos alunos a provas que evidenciam uma distribuição dos desempenhos, portanto de bons e maus desem- penhos, senão de bons e maus alunos. Às vezes, diz-se que essa avaliação é normativa, no sentido de criar uma distribuição normal, ou curva de Gauss. É também comparativa: os desempenhos de alguns se definem em relação aos desempenhos dos outros mais do que os domínios almejados ou a objetivos. É igualmente uma avaliação muito pouco individu- alizada (a mesma para todos no mesmo momento, segundo o princípio do exame), mas onde cada um é avaliado separadamente por um desempenho que supostamente reflete suas competências pessoais. Em que e por que os procedimentos de avalia- ção ainda em vigor na maioria das escolas do mun- do levantam um obstáculo à inovação pedagógica? Distinguirei sete mecanismos complementares: 1) O tempo que resta A avaliação não é uma questão menor. Para fa- zer com que a máquina avaliativa funcione, traba- lha-se, tomam-se múltiplas decisões, negocia-se. Tudo isso deixa finalmente poucos recursos para pensar em renovar o ensino, para se lançar em ex- periências didáticas, para transformar os métodos ou o estilo de administração de aula. Esse obstáculo à inovação é tão simples quanto importante: a avalia- ção freqüentemente absorve a melhor parte da ener- gia dos alunos e dos professores, não restando gran- de coisa para inovar. Definitivamente, a avaliação esconde o tempo escolar de um modo pouco compatível com os rit- mos da inovação. Relativamente mal-vivenciada aparentemente irredutível, ela leva muitos professo- res e alunos a um funcionamento irregular; a uma alternância entre estresse e relaxamento, nenhum dos dois sendo favoráveis à transformação das práticas pedagógicas. Uma avaliação mais formativa não toma menos tempo, mas dá informações, identifica e explica er- ros, sugere interpretações quanto às estratégias e ati- tudes dos alunos e, portanto, alimenta diretamente a ação pedagógica, ao passo que o tempo e a energia gastos na avaliação tradicional desviam da inven- ção didática e da inovação. 2) Uma relação pervertida com o saber É preciso ter boas notas (ou seu equivalente qua- litativo) para progredir na trajetória escolar e ter aces- so às habilitações mais almejadas. Na prática, é o resultado que conta. Com dois efeitos perversos bem conhecidos: estudar apenas para a prova ou "colar". Estudar apenas para a prova é uma maneira ho- nesta, mas simplória, de se tornar capaz de um "de- sempenho de um dia". Isso não constrói uma verda- deira competência, mas permite iludir, durante uma prova escrita ou oral. A outra estratégia, menos ho- nesta, é a "cola". Nela os alunos aprendem que o importante é dar uma resposta correta, pouco im- portando os meios de se chegar a ela. Após vários anos em tal regime, torna-se muito difícil despertar o interesse dos alunos pelo saber por si só, pelo sentido que ele dá à realidade, pelo enriquecimento pessoal que propicia, pela movi- mentação ou pela satisfação da mente que favore- ce. Todos os professores do mundo sabem que, quando propõem um trabalho, a primeira pergunta de seus alunos não é O que isso vai nos trazer? É importante, é interessante? Vamos aprender algu- ma coisa? Vale nota?. Sabendo que, se a resposta for negativa, eles não julgarão útil despender esfor- ços sobre-humanos... Todas as tentativas de nova pedagogia, de esco- la ativa, de avaliação formativa, de diferenciação do ensino se chocam com esse minimalismo, com essa relação estratégica e utilitarista com a apren- dizagem. Não se poderia culpar os alunos: eles são simplesmente realistas. Como todo agente social, o aluno investe, longamente, naquilo que lhe garan- te lucros tangíveis. 3) Trabalhar sob ameaça é aprender? Mesmo que os alunos trabalhem pela nota, isso significa que trabalham! Tanto os pais quanto os pro- fessores utilizam as notas, por vezes de modo cíni- co, para obter um mínimo, às vezes um máximo, de investimento no trabalho escolar. Isso nada tem de surpreendente: em todos os grupos onde a adesão às normas não é livremente consentida, um jogo de
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 129 SINPEEM sanções e de recompensas incita os agentes a se con- duzirem corretamente e a trabalhar normalmente. Portanto, o sistema tradicional de avaliação par- ticipa de uma espécie de chantagem, de uma rela- ção de força mais ou menos explícita, que coloca professores e alunos e, mais geralmente, jovens e adultos, em campos diferentes, aqueles tentando pre- servar sua liberdade e tranqüilidade, estes se esfor- çando para fazê-los trabalhar "para seu bem". É muito difícil, nestas condições, criar uma rela- ção verdadeiramente cooperativa entre professores e alunos, porque uma hora ou uma semana depois, os primeiros vão julgar os segundos, às vezes com rigor. Aliás, é por isso que é difícil conjugar, na mes- ma relação pedagógica e no mesmo espaço-tempo, avaliação formativa e avaliação certificativa: a pri- meira supõe transparência e colaboração, ao passo que a segunda se situa no registro da competição e do conflito e, conseqüentemente, do fingimento e da estratégia. 4) Uma transposição didática conservadora Chevallard (1991) mostrou que a transposição didática mais clássica, tanto em matemática como nas outras disciplinas, assumia a imagem de uma progressão regular, o texto do saber, ou seja, o currí- culo cortado em fatias, capítulos, lições, em páginas viradas umas após as outras. Do ponto de vista do professor, esse modo de transposição tem muitas vantagens, principalmente sob o ângulo do planeja- mento e da correspondência entre o programa anu- al e o tempo de ensino disponível a cada semana. Com efeito, nada mais cômodo e tranqüilizador do que poder dividir os programas em pequenas unida- des, de preferência independentes umas das outras, de modo que, para cada uma delas, possa-se prever um tempo delimitado de sensibilização, de explica- ção, de exercício e de controle. Essas simplicidades na transposição e no plane- jamento didáticas têm um alto preço do ponto de vista pedagógico. Eles tornam difícil qualquer dife- renciação do ensino: os alunos devem progredir no mesmo ritmo e passa-se ao capítulo seguinte quan- do uma proporção "decente" da turma parece ter adquirido o essencial das noções e habilidades. Nes- sa lógica, exceto algumas revisões, uma vez "virada a página" (no programa), não se volta mais a ela, de modo que são bastante freqüentes os mesmos alu- nos que, quando se passa ao capítulo seguinte, nada compreenderam ou nada consolidaram; eles se en- contram, então, no final do ano, em situação de fra- casso irremediável. De modo mais global, esse tipo de transposição didática privilegia, o tempo do ensino e do professor por oposição ao tempo da aprendizagem e do apren- diz. Toda abordagem construtivista e genética do desenvolvimento e dos conhecimentos indica que o saber jamais se constrói de maneira linear, que há antecipações, retrocessos, reconstruções intensivas e fases de latência. Um ensino que quisesse seguir os ritmos do aluno não poderia se encerrar em uma estrita progressão. Uma pedagogia centrada sobre os aprendizes só pode levar à fragmentação do princípio de uma pro- gressão paralela de todos os alunos no domínio dos mesmos conteúdos. A avaliação tradicional, assim como a transposição didática da qual faz parte, im- pedem o desenvolvimento de pedagogias ativas e diferenciadas. 5) O trabalho escolar, preparação à avaliação A avaliação não é, em um objetivo em si, mas um meio de verificar se os alunos adquiriram os co- nhecimentos visados. Recomenda-se, todavia, quan- do se ensina, ter uma idéia bastante precisa da ma- neira como se procederá para avaliar os conheci- mentos, o que evita introduzir uma grande ruptura entre os conteúdos e as modalidades do ensino e as exigências no momento da avaliação. Levada ao extremo, essa correspondência torna-se uma perver- são: o ensino apenas se define como a preparação à próxima prova. A avaliação funciona, sob este aspecto, como um fortíssimo impedimento. Os professores que tentam se distanciar dos exercícios escolares mais próximos das provas escritas sabem bem disto: quando se faz os alunos trabalharem em grupos, quando se dá im- portância às situações de comunicação, aos proble- mas abertos, às pesquisas, as enquetes, as atividade- meio, ao trabalho por situação-problema, aos pro- cedimentos de projeto, deve-se afrontar uma certa angústia, que pode se tornar insustentável. Ela se deve, inicialmente, à incerteza sobre a relação com o programa, sobre a natureza dos funcionamentos intelectuais que se favorece através de tais ativida- des amplas, sobre o que os alunos aprendem real- mente. Outras angústias dizem respeito à adminis- tração do tempo ou à respeitabilidade de certas ati- vidades aos olhos dos colegas, dos pais e até mesmo dos alunos. A isso se acrescenta o medo de não po- der avaliar nas formas tradicionais.Em uma pedago- gia ativa, nem todo mundo aprende a mesma coisa no mesmo momento, nem se prepara para a mesma prova. Uma parte do que se aprende não encontra nenhum equivalente em questões de múltipla esco- lha ou exercícios escritos... Ainda aqui, a avaliação tradicional impede a inovação pedagógica, empo- brecendo consideravelmente o leque das atividades praticáveis em aula.
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    130 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM 6) A obsessão da eqüidade formal desvia das aprendizagens de alto nível Mesmo quando a avaliação tradicional é contí- nua, dividida ao longo de todo o ano escolar; ela guarda do exame uma concepção da eqüidade que consiste em fazer as mesmas questões a todo mun- do, no mesmo momento e nas mesmas condições. Como se houvesse razões para pensar que as apren- dizagens podem ser sincronizadas a ponto de, du- rante exatamente o mesmo número de horas ou de semanas e estritamente em paralelo, os alunos apren- derem a mesma coisa. Essa ficção, por menos defen- sável que seja, subentende todo o sistema tradicio- nal de avaliação formal. Na medida em que está em vigor e governa o destino escolar dos alunos, é bas- tante normal que fiquem, como seus pais, fortemen- te ligados à eqüidade formal diante da nota, na falta de igualdade real diante do ensino. Isso leva os professores, na maior parte do tem- po, a avaliar desempenhos estritamente individuais a partir de questões padronizadas e fechadas. Com efeito, quando se avalia o trabalho de um grupo, surge a suspeita de arbitrariedade. Do mesmo modo, avaliar produções qualitativa- mente diferentes ou respostas a questões muito aber- tas, aumenta o risco de arbitrariedade, de notação "pela cara do cliente". A produção de texto ou a dis- sertação beneficiam-se, sob esse aspecto, de um sta- tus especial e de uma reputação bem-estabelecida segundo a qual a nota reflete freqüentemente tanto os gostos e os caprichos do professor quanto às com- petências do aluno. O sistema clássico de avaliação é um grande obstáculo à evolução, porque força os professores a preferir as competências isoláveis e cifráveis às com- petências de alto nível - raciocínio, comunicação -, difíceis de circunscrever em uma prova escrita e em tarefas individuais. 7) Uma arbitrariedade pouco favorável ao trabalho em equipe pedagógica Os procedimentos de avaliação formal, equivale a dizer que o professor, se respeitar as formas, tem uma liberdade imensa, que autoriza, no mesmo qua- dro, avaliações indulgentes ou severas, ingênuas ou repressoras, flexíveis ou obsessivas, inventivas ou estereotipadas. Ora, as escolhas de um professor dependem, em grande parte, de suas crenças pesso- ais, de sua concepção da avaliação, de sua filosofia da seleção e do fracasso escolares, daquilo que ele considera uma avaliação justa ou eficaz. Quando se quer formar uma equipe pedagógica, mesmo sem tocar no sistema formal de avaliação, não se pode deixar cada um continuar a avaliar como sempre fez, conforme suas preferências ou suas exi- gências estritamente pessoais. A coerência da equi- pe pedagógica também é julgada por sua forma de avaliar, sobretudo se os professores forem responsá- veis pelos mesmos alunos e devem equiparar suas avaliações. Este é um obstáculo maior: é preciso, explicar, justificar práticas cuja arbitrariedade explo- de repentinamente, ao passo que anteriormente era ignorada ou minimizada. Mesmo quando uma equipe pedagógica entra em acordo sobre seus objetivos principais, corre o risco de tropeçar em detalhes, porque muitos professores estão mais presos a seu modo de corrigir ou de notar do que confessam e se chocam, às vezes, mais com modalidades, aparentemente menores, do que com grandes opções pedagógicas. Mudar a avaliação para mudar a pedagogia? Nenhuma inovação pedagógica maior pode ig- norar o sistema de avaliação ou esperar contorná- lo. Conseqüentemente, é necessário em qualquer projeto de reforma, em qualquer estratégia de ino- vação, levar em conta o sistema e as práticas de ava- liação, integrá-los à reflexão e modificá-los para per- mitir a mudança. A avaliação tradicional é importante, impede ou atrasa todo tipo de outras mudanças. Soltá-la é, por- tanto, abrir a porta a outras inovações. Talvez seja exatamente isto, que dá medo e que garante a perenidade de um sistema de avaliação que não muda muito, ao passo que, há décadas, vem- se denunciando suas falhas no plano docimológico e seus efeitos devastadores sobre a auto-imagem, o estresse, a tranqüilidade das famílias e as relações entre professores e alunos. CAPÍTULO 6 RUMO A DIDÁTICAS QUE FAVOREÇAM UMA REGULAÇÃO INDIVIDUALIZADA DAS APRENDIZAGENS Nenhuma pedagogia, por mais frontal e tradicio- nal que seja, é totalmente indiferente às questões, às respostas, às tentativas e aos erros dos alunos. Portan- to, sempre há um mínimo de regulação da aula, às vezes das atividades mentais dos alunos e, no melhor dos casos, de seus processos de aprendizagem. A idéia de avaliação formativa A idéia de avaliação formativa sistematiza esse funcionamento, levando o professor a observar mais metodicamente os alunos, a compreender melhor seus funcionamentos, de modo a ajustar de maneira mais sistemática e individualizada suas intervenções pedagógicas e as situações didáticas que propõe, tudo isso na expectativa de otimizar as aprendiza-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 131 SINPEEM gens. A avaliação formativa está, portanto centrada essencial, direta e imediatamente sobre a gestão das aprendizagens dos alunos (pelo professor e pelos interessados). Essa concepção se situa abertamente na perspectiva de uma regulação intencional, que seria determinar ao mesmo tempo o caminho já per- corrido por cada um e aquele que resta a percorrer com vistas a intervir para otimizar os processos de aprendizagem em curso. A partir do momento em que a avaliação forma- tiva se define claramente como fonte de regulação, surge uma questão: ela é única? Ou é uma fonte de regulação dentre outras? Não se deveria reconhecer que a regulação dos processos de aprendizagem pode surgir das interações entre alunos, tal como permitida e delimitada pelo dispositivo e pela seqüên- cia didáticos, ou então surgir da atividade metacog- nitiva do aluno, quando este toma consciência de seus erros ou de sua maneira de confrontar-se com os obstáculos? A concepção de avaliação formativa como intervenção deliberada do professor, induzin- do uma regulação antecipada, interativa ou retroati- va de uma aprendizagem em curso, leva a um para- doxo: o conceito de avaliação formativa, assim com- preendida em termos de regulação, tende a se fundir em uma abordagem mais global dos processos de regulação das aprendizagens em curso em um dis- positivo, seqüência ou situação didáticos. A idéia de regulação Denominarei aqui regulação dos processos de aprendizagem, em um sentido bastante amplo, o conjunto das operações metacognitivas do sujeito e de suas interações com o meio que modificam seus processos de aprendizagem no sentido de um obje- tivo definido de domínio. Com efeito, não há regu- lação sem referência a um estado almejado ou a uma trajetória ótima. Falar de regulação a propósito de um processo de aprendizagem guarda um sentido metafórico, na medida em que é difícil identificar com certeza as operações e as interações favoráveis, compreender exatamente por que otimizam aprendizagem ou ain- da guiá-las com precisão. No entanto, pensar em termos de regulação do processo de aprendizagem é dispensável para colocar a avaliação formativa no seu lugar exato, para situá-la em um conjunto de regulações parcialmente prevista, ou pelo menos autorizadas, pelo dispositivo didático. Por procedimentos didáticos que sirvam a todos os terrenos É difícil chegar a uma definição unânime de didá- tica. Em seu sentido tradicional, ela é a arte de ensi- nar, arte que se pode tentar codificar, racionalizar, tor- nar metódica. Conforme a maneira como se redefine hoje em dia a didática, assume-se uma distância mais ou menos radical dessa postura tradicional. Em um sentido mais moderno, a didática se apresenta ou como uma disciplina de ação (de crí- tica e de proposta, baseada nas ciências de refe- rência (matemática, biologia, lingüística, etc.) e nas ciências da educação, ou como a ciência dos fatos didáticos, da formalização, da transposição da ne- gociação, da apropriação ou da avaliação dos sa- beres no sistema didático (no famoso triângulo pro- fessor-aluno - conteúdo), ou ainda a ciência do con- trato e das interações didáticas. Esta última aborda- gem pretende ser não-prescritiva, ma antes de tudo descritiva e explicativa). O realismo de uma didática tem vários aspectos. Diz respeito aos saberes, ao poder ao inconsciente na relação, às condições e ao âmbito institucional da integração didática, às estratégias de negociação dos agentes. Limitar-me-ei aqui ao reconhecimento e ao tratamento das diferenças. Na realidade, a re- gra é a diversidade. 1 - Reconhecer a diversidade dos aprendizes Nenhuma didática deveria ignorar a heteroge- neidade dos aprendizes. Por mais selecionado que seja, nenhum grupo é totalmente homogêneo do ponto de vista dos níveis de domínios alcançados no início de um ciclo de estudos ou de uma seqüên- cia didática. Por mais "neutro" que seja, nenhum pro- grama está à mesma distância das diversas culturas familiares das quais os alunos são os herdeiros. No que diz respeito à língua materna, a hetero- geneidade é ainda maior, porque a língua participa plenamente da diversidade das culturas, dos modos de vida e de comunicação, dos registros de língua e das normas. A consideração da diversidade pode e deve levar a procedimentos de individualização e de diferencia- ção das tarefas, das avaliações, dos atendimentos. 2 - Partir dos conhecimentos reais Há áreas do currículo em que os alunos não tra- zem senão certas predisposições ou certos códigos gerais, ou eventualmente, como em física ou quími- ca, conhecimentos ingênuos ou alguns conhecimen- tos científicos ultrapassados, que podem mais retar- dar a aprendizagem do que estimulá-la. No domínio da língua materna, é exatamente o contrário. O es- sencial da língua oral se aprende fora da escola e bem antes da idade escolar obrigatória. Isso é me- nos evidente quanto à escrita e aos e aos saberes de ordem metalingüística, mas ainda aí, a escola não tem o monopólio das situações de aprendizagem: a vida tomada em sua totalidade, com seus compo-
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    132 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM nentes tanto escolares quanto extra-escolares cons- titui o verdadeiro currículo. A consideração sistemática dos conhecimentos extra-escolares e das aprendizagens paralelas pode- ria modificar fundamentalmente a organização do trabalho em aula. A maioria dos métodos de ensino age como se todos os alunos reunidos em uma tur- ma tivessem que realizar as mesmas aprendizagens. Na realidade, sobretudo no domínio da língua, isso é pura ficção. Uma parte dos alunos do primeiro ano primário já sabe ler e gasta inutilmente tempo, espa- ço, energia que seriam mais bem utilizados em fa- vor dos alunos que precisam realmente aprender a ler. Uma parte das atividades orais no decorrer da escolaridade obrigatória é totalmente supérflua para alunos que se expressam corretamente e progridem sem que se organize sua trajetória. A regulação de base seria renunciar a fazer como se todo mundo estivesse à mesma distância do obje- tivo e, ao contrário, partir dos conhecimentos efeti- vos de cada um e dos recursos que consegue mobi- lizar para investir em função do caminho que lhe resta percorrer, dos obstáculos que vai encontrar, de sua adesão ao projeto de formação, etc. Há espaço, então, para uma avaliação formativa proativa, ou seja, para uma atribuição diferenciada a situações didáticas adequadas. Apostar na auto-regulação Para aprender, o indivíduo não deixa de operar regulações intelectuais. Na mente humana, toda re- gulação, em última instância, só pode ser uma auto- regulação, pelo menos se aderirmos às teses básicas do construtivismo: nenhuma intervenção externa age se não for percebida, interpretada, assimilada por um sujeito. Nessa perspectiva, toda ação educativa só pode estimular o autodesenvolvimento, a auto-apren- dizagem, a auto-regulação de um sujeito, modifican- do seu meio, entrando em interação com ele. 1 - Reforçar a auto-regulação Para que haja auto-regulação da aprendizagem, supõe-se ser necessário ao aprendiz um motivo forte, verdadeiros desafios que o sensibilizem profundamen- te, um desejo de saber e uma decisão de aprender. Encontramo-nos aqui, mais uma vez, diante das promessas e dos impasses das novas pedagogias. Hoje em dia, não se pode mais agir como se todas as crianças e adolescentes tivessem constantemente vontade de aprender de modo espontâneo. Eles des- mascaram, ao contrário, as novas pedagogias, como as outras. Ninguém pode crer que basta propor pro- jetos ou apelar para a criatividade dos aprendizes para que todos se mobilizem, longa e seriamente, e assumam sua própria aprendizagem. O sentido dos saberes e do trabalho escolar não se encontra so- mente no plano didático. Resta, na maioria das pe- dagogias, uma imensa margem para avançar útil e pragmaticamente no sentido das pedagogias ativas. Para a maior parte dos alunos no mundo, ler e escre- ver permanecem tarefas impostas, deveres, coisas que se deve fazer para ser "respeitável", mais do que por razões pessoais. Poderia ser diferente se essas apren- dizagens tivessem um sentido menos escolar... 2 - De uma pedagogia do projeto a uma auto regulação- dominada Uma pedagogia e uma didática que desejem es- timular a auto-regulação do funcionamento e das aprendizagens não se contentam com apostar na di- nâmica espontânea dos aprendizes. São necessári- os, ao contrário, contratos e dispositivos didáticos muito engenhosos, estratégias de animação e de construção dos sentidos muito mais sutis para man- ter o interesse espontâneo dos alunos, quando exis- te, para suscitar um interesse suficiente quando a experiência de vida, a personalidade ou o meio fa- miliar não predispõe a isso. Não há neste campo, nenhuma receita simples, que dê sempre certo em todas as turmas, ou com todos os alunos, sob todas as latitudes. Entretanto, se de um lado, se partilhas- sem mais sistematicamente relatos de experiências e de atividade e, de outro, habilidades em termos de elaboração e de negociação de projetos, de divisão do trabalho, de animação de continuidade do pro- cesso iniciado, dar-se-ia a mais professores vontade e meios de se laçar em pedagogias mais ativas. A comunicação como motor da regulação Se há auto-regulação é, em parte, porque o in- divíduo se encontra em situações de comunicação que o colocam em confronto com seus próprios li- mites e que o levam, no melhor dos casos, a ultra- passá-los. As situações de comunicação são, para a língua, mais do que para qualquer outra aprendi- zagem, pedras de toque, ocasiões de testar e de manifestar seu domínio. Porém, não é apenas nesse sentido que a co- municação pode participar da regulação das apren- dizagens. Pode-se sustentar que ela é, ao contrário, o motor principal dos progressos. Não por exercer uma regulação direta sobre as aprendizagens, mas por estruturar muito fortemente o funcionamento da linguagem e, portanto também, indiretamente, as aprendizagens. O modelo subjacente é evidentemente aquele da restrição funcional, mais do que normativa: para conseguir se fazer ouvir, se fazer compreender ter ganhado de causa ou simplesmente ter a palavra, uma criança ou um adolescente devem resolver um
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 133 SINPEEM certo número de problemas de ordem lingüística e comunicativa. Portanto, trata-se de colocar os alunos, tão fre- qüentemente quanto possível, em situações de con- fronto, de troca, de interação, de decisão, que os forcem a se explicar, se justificar, argumentar, expor idéias, dar ou receber informações para tomar deci- sões, planejar ou dividir o trabalho, obter recursos (Pedagogia Interativa). Uma didática que deposita esperanças na inte- ração deveria propor inúmeras pistas em matéria de organização e de estruturação das trocas, sendo que o motor não é uma injunção externa - como ainda ocorre freqüentemente no trabalho de equipe -, mas uma necessidade própria à tarefa, concebida de tal modo que não se possa realizá-la sem se comunicar. Portanto, a didática é a arte de criar tais situações e administrá-las, com os problemas decorrentes de tempo, de espaço e de autodisciplina. A intervenção do professor como modo de regulação Uma didática orientada para a regulação dos processos de aprendizagem não deposita muitas es- peranças nas remediações maciças. Investe mais na regulação interativa no sentido definido por Allal: uma observação e uma intervenção em situação, quando a tarefa não está terminada, sendo o pro- fessor capaz e assumindo o risco de interferir nos processos de pensamento e de comunicação em curso. Assim, o professor desempenha um impor- tante papel nas regulações que passam pela pró- pria comunicação. Ele também pode, por ser seu papel e sua com- petência, intervir diretamente no nível da regulação da aprendizagem. Nesse sentido, o professor é um parceiro específico, cuja lógica é otimizar aprendi- zagem do outro, em vez de suas próprias vantagens na situação de comunicação. Porém, quando se fala de regulação interativa, no sentido dos trabalhos so- bre a avaliação formativa, não se trata mais somente de parceria inteligente. É uma intervenção sobre a própria construção dos conhecimentos. A Avaliação formativa apresenta-se sob a forma de uma regulação interativa, isto é, de uma observa- ção e de uma intervenção em tempo real, pratica- mente indissociável das interações didáticas propri- amente ditas; sobretudo se for retroativa, deveria permanecer uma regulação p que intervém quando os outros modos de regulação não funcionaram ou não foram suficientes. Em outras palavras, deve-se conceber a regula- ção como produto de múltiplos processos comple- mentares, tendo a didática à tarefa de orquestrá-los e estimulá-los mais do que privilegiar um dentre eles. Nesse sentido, a avaliação formativa está inteiramen- te do lado da regulação, mas não a esgota. Deveria, ao contrário, intervir apenas como último recurso. Em uma pedagógica de sonho, estimulando for- temente a auto-regulação e a regulação pela comu- nicação, a avaliação formativa deveria ser marginal e assumir, sobretudo a forma de uma regulação inte- rativa em situação. Sendo as coisas o que são tanto do ponto de vista das condições de trabalho, quanto dos programas e da formação dos professores, deve- se provavelmente aceitar que, em muitas classes ain- da, e por muito tempo, a principal regulação em andamento seja retroativa. Se esta é a realidade, melhor reconhecê-la e favorecer essa forma de re- gulação do que nenhuma. Mas isso é apenas um paliativo e o desenvolvimento dos trabalhos em di- dática deveria tornar essa situação excepcional! Um realismo surrealista? Para levar em conta as diferenças e pensar as re- gulações individualizadas, no quadro de um dispo- sitivo e de seqüências didáticas, é necessário afron- tar uma complexidade que descarta definitivamente receitas, modelos metodológicos prontos para uso. Portanto, aceitar romper com as necessidades de grande parte dos professores, assumir o risco de lhes propor procedimentos que não correspondem nem à sua imagem da profissão, nem a seu nível de for- mação. E aceitar sem dúvida também entrar em con- flito com uma classe política e com autoridades es- colares que não pedem tanto e das quais, ao menos uma parcela, se conforma muito bem com a relativa ineficácia das pedagogias em vigor. É que há realismo e realismo. Um deles conser- vador, de visão curta, que se esconde por detrás das tradições e interesses adquiridos para se resignar às desigualdades com um fatalismo sombrio ou alegre. Esse realismo não pode persistir senão recusando-se a ver uma parte da realidade ou inventando fatalida- des biológicas ou socioculturais que o protejam de qualquer questionamento. Existe um outro realismo, mais inovador, que se preocupa com o futuro, tanto dos indivíduos quanto das sociedades, que não se conforma com o fato de que tantas crianças e adolescentes passem tantos anos na escola para sair dela sem dominar verdadei- ramente sua língua materna, sem ler correntemente e gostar disso, desamparados diante de um texto simples,desprovido de meios de argumentação ou de expressão dos sentimentos. O realismo didático, tal qual defendo aqui, consiste em considerar os aprendizes como são, em sua diversidade, suas am- bivalências, sua complexidade, para melhor levá-los a novos domínios. Talvez seja um realismo utópico. Será que temos realmente escolha?
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    134 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM CAPÍTULO 9 NÃO MEXA NA MINHA AVALIAÇÃO UMA ABORDAGEM SISTÊMICA DA MUDANÇA Mudar a avaliação é fácil dizer! Nem todas as mudanças são válidas. Pode-se bastante facilmente modificar as escalas de notação, a construção das tabelas, o regime das médias, o espaçamento das provas. Tudo isso não afeta de modo radical o funci- onamento didático ou o sistema de ensino. As mu- danças das quais se trata aqui vão mais longe. Para mudar as práticas no sentido de uma avaliação mais formativa, menos seletiva, talvez se deva mudar a escola, pois a avaliação está no centro do sistema didático e do sistema de ensino. Transformá-la radi- calmente é questionar um conjunto de equilíbrios frágeis. Os agentes o pressentem, adivinham que, propondo-lhes modificar seu modo de avaliar, po- dem-se desestabilizar suas práticas e o funcionamen- to da escola. Entendendo que basta puxar o fio da avaliação para que toda a confusão pedagógica se desenrole, gritam: "Não mexa na minha avaliação!" Coloco-me aqui na perspectiva de uma evolu- ção das práticas no sentido de uma avaliação forma- tiva, de uma avaliação que ajude o aluno a aprender e o professor a ensinar. Não retomo a necessária ar- ticulação entre avaliação formativa e diferenciação do ensino: a avaliação formativa não passa, no final das contas, de um dos componentes de um disposi- tivo de individualização dos percursos de formação e de diferenciação das intervenções e dos enqua- dramentos pedagógicos. Se a diferenciação é impos- sível, a avaliação formativa será apenas uma regula- ção global e, em resumo, clássica, da progressão de um ensino frontal. AAVALIAÇÃONOCENTRODEUMOCTÓGONO RELAÇÕES ENTRE AS FAMÍLIAS E A ESCOLA Quando se fala do sistema de avaliação, a esco- la parece ainda muito próxima daquilo que os pais conheceram "em sua época", mesmo quando deixa- ram a escola há quatorze anos. A avaliação os tranqüiliza sobre as chances de êxito de seu filho ou os habitua, pelo contrário, à idéia de um fracasso possível, até mesmo provável. Mudar o sistema de avaliação leva necessaria- mente a privar uma boa parte dos pais de seus pon- tos de referência habituais, criando ao mesmo tem- po incertezas e angústias. É um obstáculo importan- te à inovação pedagógica: se as crianças brincam é porque não trabalham e se preparam mal para a pró- xima prova; se trabalham em grupo, não se poderá avaliar individualmente seus méritos; se engajam-se em pesquisas, na preparação de um espetáculo, na escrita de um romance ou na montagem de uma exposição, os pais quase não vêem como essas ati- vidades coletivas e pouco codificadas poderiam de- rivar em uma nota individual no boletim. Se existem relações de confiança, explicações podem ser dadas, os pais compreendem que uma avaliação sem notas, mais formativa, é em definitivo do interesse de seus filhos. Se o diálogo entre a es- cola e as famílias são rompidas (Montandon e Perre- noud, 1994), há razões para temer que uma mudan- ça do sistema de avaliação focalize os temores e as oposições dos pais. A mudança pode ser bloqueada por essa única razão. ORGANIZAÇÃO DAS TURMAS E POSSIBILIDADES DE INDIVIDUALIZAÇÃO Uma avaliação somente é formativa se desem- boca em uma forma ou outra de regulação da ação pedagógica ou das aprendizagens. Uma avaliação formativa, no sentido mais am- plo do termo, não funciona sem regulação individu- alizada das aprendizagens. A mudança das práticas de avaliação é então acompanhada por uma trans- formação do ensino, da gestão da aula, do cuidado com os alunos em dificuldade. Entre momentos de apoio - interno ou externo - e verdadeiras pedagogi- as diferenciadas, há todo o tipo de organizações in- termediárias, mais ou menos ambiciosas. Não é ne- cessário, para ir ao sentido da avaliação formativa, perturbar de alto a baixo a organização do trabalho. Em contrapartida, lá onde parece impossível romper, ao menos parcialmente, com uma pedagogia frontal, por que considerar uma transformação das práticas de avaliação em um sentido mais formativo. Uma avaliação formativa coloca à disposição do professor informações mais precisas, mais qualitati- vas, sobre os processos de aprendizagem, as atitu- des e as aquisições dos alunos. No ensino secundário, acumulam-se outras defi- ciências maiores: fragmentação extrema do tempo escolar, tanto para os professores quanto para os alu- nos; remissão do apoio a estruturas especializadas (quando existem), por não poder praticar o apoio integrado no contexto de um horário estourado; di- visão do trabalho entre especialistas das diversas dis- ciplinas, cujo funcionamento e nível do aluno nin- guém percebe globalmente; dificuldade de trabalho da equipe pedagógica devido à atribuição das horas e ao número de professores por turma; horário mui- to pesado dos alunos, todas as atividades de apoio ou de desenvolvimento somando-se a uma semana muito cheia; repartição de todas as horas entre as disciplinas, o que deixa pouco tempo para realizar projetos interdisciplinares, aproveitar as oportunida- des ou responder a necessidades não-planejadas; organização fixa do tempo ao longo de todo o ano; locais utilizados por várias turmas, nos quais é im-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 135 SINPEEM possível deixar material e muito difícil de reorgani- zar o espaço, apenas por um ou dois períodos de quarenta e cinco minutos. A escola primária dispõe, a esse respeito, de nu- merosos trunfos, que tornam ao menos possível uma diferenciação integrada do ensino. Para ir em dire- ção a uma individualização dos percursos de forma- ção (Perrenoud, 1993a, 1996b), deve-se contudo mudar a organização das turmas, mesmo no primá- rio, e romper a estruturação do curso em graus (Per- renoud, 1997a e 1997e). DIDÁTICA E MÉTODOS DE ENSINO A idéia de avaliação formativa desenvolveu-se no quadro da pedagogia de domínio ou de outras formas de pedagogia diferenciada, relativamente pouco preocupada com os conteúdos específicos dos ensinos e das aprendizagens. A ênfase era dada às adaptações, ou seja, a uma organização mais indivi- dualizada dos itinerários de aprendizagem, baseada em objetivos mais explícitos, coletas de informação mais qualitativas e regulares e intervenções mais di- versificadas. Hoje, ainda, esse modelo cibernético mantém toda a sua validade, em um nível relativa- mente elevado de abstração, em qualquer ordem de ensino para qualquer disciplina escolar e qualquer aprendizagem. No decorrer dos últimos anos, no plano teórico, assiste-se, especialmente no campo do francês (Allal, Bain e Perrenoud, 1993), mas isso se estenderá a outras disciplinas, a uma reintegração da avaliação formativa à didática. Em campo, contudo, essa rein- tegração levará tempo. Ainda mais que, como é fre- qüentemente o caso no ensino secundário, os pro- fessores se percebem como suas próprias metodolo- gias ou trabalham como formadores centrados em uma disciplina e que se preocupam muito pouco com a avaliação. CONTRATO DIDÁTICO. RELAÇÃO PEDAGÓGICA E OFICIO DE ALUNO Ir em direção a uma avaliação mais formativa é transformar consideravelmente as regras do jogo dentro da sala de aula. Em uma avaliação tradicio- nal, o interesse do aluno é o de iludir, mascarar suas falhas e acentuar seus pontos fortes. O oficio de alu- no consiste principalmente em desmontar as arma- dilhas colocadas pelo professor, decodificar suas expectativas, fazer escolhas econômicas durante a preparação e a realização das provas, saber nego- ciar ajuda, correções mais favoráveis ou a anulação de uma prova mal-sucedida. Em um sistema escolar comum, o aluno tem, sinceramente, excelentes ra- zões para querer, antes de tudo, receber notas sufi- cientes. Para isso, deve enganar, fingir ter compre- endido e dominar por todos os meios, inclusive a preparação de última hora e a trapaça, a sedução e a mentira por pena. Toda avaliação formativa baseia-se na aposta bastante otimista de que o aluno quer aprender e deseja ajuda para isso, isto é, que está pronto para revelar suas dúvidas, suas lacunas, suas dificuldades de compreensão da tarefa. Se o professor que tenta fazer a avaliação forma- tiva tem o poder de decidir, praticamente ao mesmo tempo, o destino escolar do aluno, este último, so- bretudo em um sistema muito seletivo, terá todas as razões para conservar suas estratégias habituais, mobilizar sua energia para iludir. E o professor achar- se-á reforçado no uso da avaliação como instrumento de controle do trabalho e das atitudes (Chevallard, 1986a) e de seleção. A avaliação formativa seria renunciar à seleção, o mecanismo permanente da relação pedagógica, não fazer os alunos viverem sob a ameaça da reprovação ou da relegação para orientações menos exigentes. ACORDO, CONTROLE, POLÍTICA INSTITUCIONAL Não se faz avaliação formativa sozinho, porque apenas se pode avançar nesse sentido modificando bastante profundamente a cultura da organização escolar, não só em escala de sala de aula, mas tam- bém de estabelecimento. É dispensável, vencer um obstáculo de peso: o individualismo dos professores a vontade ciosa de fazer como se quer, uma vez fechada a porta de sua sala de aula (Gather Thurler, 1994b, 1996). Também é provável que uma avaliação formativa favoreça, sem que isso seja uma necessidade absoluta, uma divisão do trabalho diferente entre os professores, porque a explicação dos objetivos, a elaboração dos testes com critérios ou a construção de seqüências didáticas ou de estratégias de adaptação ultrapas- sam as forças de cada um considerado isoladamen- te. Deve-se, portanto, rumar para uma divisão das tarefas, um desencerramento dos graus, uma cola- boração entre professores que ensinam em classes paralelas ou na mesma disciplina. Paradoxalmente, uma avaliação formativa pode- ria dar à administração escolar mais controle sobre a qualidade e a conformidade do ensino de uns e de outros. Com certeza, limitaria a parcela das infor- mações cifradas, mas conduziria a representações mais precisas daquilo que os alunos sabem fazer re- almente. Em vez de comparar taxas de fracassos ou médias de turmas, poder-se-iam comparar as aquisi- ções reais e, portanto, distinguir mais claramente os professores mais e menos eficientes.
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    136 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM PROGRAMAS, OBJETIVOS, EXIGÊNCIA A introdução de uma pedagogia diferenciada e de uma avaliação formativa leva, a mexer nos pro- gramas. Inicialmente, para abreviá-los, para extrair sua essência: não podemos cobrir um programa ex- cessivamente sobrecarregado senão nos resignarmos com o êxito de uma importante fração dos alunos. Buscar na avaliação formativa o não mais fabri- car tantas desigualdades, é criar meios para as difi- culdades dos alunos mais lentos, mais fracos. É in- dispensável, para lutar contra o fracasso escolar, de- ter-se no essencial, no cerne dos programas, renun- ciando a todos os tipos de noções e de saberes que não são indispensáveis, ao menos não para todos os alunos. Os movimentos de modernização dos pro- gramas nesse sentido (Perret e Perrenoud, 1990). Não subestimemos a amplitude da tarefa. Uma avaliação formativa, posta a serviço da re- gulação individualizada das aprendizagens, coloca- rá o dedo, mais rápido do que um ensino frontal, sobre as incoerências e as ambições desmedidas de certos planos de estudos. Quando muitos alunos de determinada idade cometem os mesmos erros e não se pode facilmente remediar isso, porque ultrapas- sam seu estágio de desenvolvimento intelectual, quando certos tipos de saberes marginalizam, siste- maticamente, uma maioria de alunos, porque se en- contram demasiadamente afastados de sua experi- ência e de suas aquisições anteriores, deve-se certa- mente revisar o plano de estudos ou deixá-lo mais próximo da vida, ou mais realista em relação às aqui- sições anteriores e às atitudes dos alunos. Toda pe- dagogia diferenciada funciona como um analisador crítico dos planos de estudos. SISTEMA DE SELEÇÃO E DE ORIENTAÇÃO A vocação da avaliação formativa é a de contri- buir para as aprendizagens. Acha-se, portanto, em uma lógica de ação: não é o momento de se resignar com as desigualdades e dificuldades. A articulação da avaliação formativa e da sele- ção não é evidente: em um determinado momento, apenas no final de um ano escolar ou de um ciclo de estudos plurianual, a avaliação muda de lógica. Quando se quer ajudar o aluno a aprender, estabe- lece-se bruscamente um balanço que, sem ser defi- nitivo, comanda decisões em curto prazo, por vezes dificilmente reversíveis. Portanto, a questão é saber se os professores podem desempenhar esse duplo papel, os alunos adivinhando que as dificuldades reveladas em uma perspectiva formativa podem, em determinado momento voltar-se contra eles em uma perspectiva certificativa ou seletiva. Nós nos encontramos aí diante de um paradoxo: a avaliação formativa deveria estar inteiramente do lado do aluno e, portanto, lhe dar recursos para en- frentar a seleção, melhor seria que esta fosse desem- penhada por outros agentes, que não tivessem por tarefa ensinar, mas dizer quem atingiu um domínio suficiente para obter um diploma ou chegar a um ciclo de formação. Se o sistema de seleção e de orientação deixa as famílias e os alunos assumirem suas responsabi- lidades, correrem os riscos de uma orientação de- masiadamente ambiciosa e, portanto, de um fracas- so algum tempo mais tarde, a escola estaria, no mo- mento da decisão, em uma relação mais de ajuda do que de autoridade. Seu papel não seria mais o de impedir de entrar em determinada habilitação difícil ou de progredir no curso, mas dar conselhos, informações, indicações a partir das quais os alu- nos e suas famílias se determinariam com conheci- mento de causa. Nesse caso, em vez de se opor à avaliação formativa, a avaliação seletiva, na mes- ma lógica cooperativa: quando não é mais tempo de aprender, quando se deve fazer um balanço e tomar decisões, restam conselhos a dar, regulações a operar. A escola poderia assistir aos pais e crian- ças em sua negociação da orientação (Bain, 1979; Berthelot, 1993; Duru-Bellat, 1979; Richiardi, 1988) mais do que decidi-la em seu lugar. SATISFAÇÕES PESSOAIS E PROFISSIONAIS A avaliação tradicional é uma fonte de angústia para os alunos com dificuldade e até para os demais, que não têm grande coisa a temer, mas não o sa- bem... Também é uma fonte de estresse e de descon- forto para uma parte dos professores, que não gos- tam de dar notas. Mesmo para eles, e para os outros, o sistema de avaliação é um tipo de "faixa de segu- rança", bem-vinda face às múltiplas incertezas que concernem aos objetivos e aos programas, ao pro- cedimento pedagógico, à disciplina, ao lugar dos pais na escola, etc. O sistema tradicional de avaliação oferece uma direção, um parapeito, um fio condu- tor; estrutura o tempo escolar, mede o ano, dá pon- tos de referência, permite saber se há um avanço na tarefa, portanto, se há cumprimento de seu papel. Não se pode responsabilizar o medo da mudan- ça por todas as resistências. Muitos professores sa- bem ou percebem que, sem evolução, estão conde- nados à rotina e ao tédio (Huberman, 1989). Defini- tivamente, a mudança não passa de um momento difícil, por vezes estimulante, caso resulte em uma renovação e crie equilíbrios mais fecundos. A situa- ção é mais grave quando os professores pressentem que não encontrarão, em um novo sistema de avali- ação, as satisfações, confessáveis ou não, que lhes proporciona a avaliação tradicional. Uma avaliação formativa somente pode ser coo- perativa, negociada, matizada, centrada mais na ta-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 137 SINPEEM refa e nos processos de aprendizagem do que na pessoa. Priva definitivamente do poder de classifi- car, de distinguir, de condenar globalmente alguém em função de seus desempenhos intelectuais. Toda mudança, em qualquer instituição, pode colocar em perigo a economia psíquica dos agentes, o equilí- brio às vezes frágil que construíram entre os praze- res e as frustrações, as liberdades e os deveres que sua tarefa permite ou impõe. Negá-lo leva a uma análise que ignora uma dimensão essencial dos sis- temas vivos e de sua complexidade. ABORDAGEM SISTÊMICA PODE SER DESMOBILLZADORA? A abordagem sistêmica aqui adotada nada tem de original, ela se impõe em todas as ciências so- ciais que têm por tarefa dar conta das organizações e das práticas humanas (ver, por exemplo, Amblard, 1996; Bernoux, 1985; Crozier e Friedberg, 1977; Fri- edberg, 1993). Se em educação se deve incessante- mente fazer retomadas, isso acontece em razão da constante tentação de esquecer a complexidade para acreditar em uma mudança rápida e limitada da es- cola. Essa tentação é compreensível: se aceitamos a abordagem sistêmica, avaliamos a impossibilidade de mudar radicalmente as práticas de avaliação sem fazer evoluir o conjunto da profissão de professor e da organização escolar; o que distingue ainda mais a realização das idéias e de modelos sedutores. Se, mais do que nunca, é necessário mudar a avaliação em um sentido mais formativo, importa integrar o caráter sistêmico das práticas em nossas estratégias de mudança. Para se opor simultaneamen- te à avaliação, à didática, à relação entre professo- res e alunos, aos programas, à organização das tur- mas e do curso, à seleção, não existe método pron- to. Pode-se, no entanto, indicar três pistas comple- mentares que implicam fortemente os primeiros agen- tes envolvidos: 1 - Fazer evoluir o funcionamento dos estabele- cimentos em direção a uma autoridade negociada, verdadeiros projetos, uma autonomia substancial, resultante de uma real responsabilidade. 2 - Favorecer a cooperação entre professores em equipes pedagógicas ou em redes. 3 - Agir sobre todos os parâmetros (estatuto dos professores, formação, gestão) que aumentam o grau de profissionalização do professor e das profissões conexas. Isso deveria conduzir os defensores da avaliação formativa e da diferenciação, como os didáticos das disciplinas, os partidários da escola ativa, os defen- sores das tecnologias novas ou de qualquer outra modernização dos conteúdos ou dos métodos a tra- balharem em mais estreita colaboração com aque- les que refletem sobre a organização escolar como sistema complexo. A perspectiva sistêmica ainda não faz parte da cultura comum de todos os pesquisadores em edu- cação e de todos os inovadores. Se ela lhes falta, são fadados a se perguntar, durante décadas ainda, por que a escola não adota as belas idéias resultan- tes de seus trabalhos ou da reflexão dos movimen- tos pedagógicos. Resumo reescrito por Elizabeth Mariza Marinho
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    138 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM PERRENOUD, Philippe. Porto Alegre, Artes Médicas, 2000 A especialização, o pensamento e as competên- cias dos professores são objetos de inúmeros traba- lhos, inspirados na ergonomia e na antropologia cog- nitiva, na psicologia e na sociologia do trabalho, bem como na análise das práticas. A obra de Perrenoud pretende ser um convite para uma viagem, e para debate, a partir de uma grande constatação: os programas de formação e as estraté- gias de inovação fundamentam-se, com demasiada freqüência, em representações pouco explícitas e, insuficientemente, negociadas do ofício e das com- petências subjacentes, ou, então, em referenciais téc- nicos e áridos, cujos fundamentos os leitores nor- malmente não assimilam. O ofício de professor não é imutável e por isso suas transformações passam, principalmente, pela emergência de novas competências reconhecidas, por exemplo, para enfrentar a crescente heteroge- neidade dos efetivos escolares e a evolução dos programas. Para Perrenoud, todo referencial tende a se de- satualizar pela mudança das práticas e, também, porque a maneira de concebê-las se transforma. Ele escolhe como referencial aquele que acentua as com- petências julgadas prioritárias por serem coerentes com o novo papel dos professores, com a evolução da formação contínua, com as reformas da forma- ção inicial, com as ambições das políticas educati- vas. Enfim, um referencial compatível com os eixos de renovação da escola; individualizar e diversifi- car os percursos de formação, introduzir ciclos de aprendizagem, diferenciar a pedagogia direcionar- se para uma avaliação mais formativa do que nor- mativa, conduzir projetos de estabelecimento, de- senvolver o trabalho em equipe docente e respon- sabilizar-se coletivamente pelos alunos, colocar as crianças no centro da ação pedagógica, recorrer aos métodos ativos, aos procedimentos de projeto, ao trabalho por problemas abertos e por situações-pro- blema, desenvolver as competências e a transferên- cia de conhecimentos, educar para a cidadania. Em um inventário não definitivo, nem exaustivo, são tratadas dez grandes famílias de competências. O autor nos alerta para o fato de nenhum referencial poder garantir uma representação consensual, com- pleta e estável de um ofício das competências que ele operacionaliza. O referencial escolhido associa a cada compe- tência principal algumas competências mais especí- ficas, que são, de certa forma, seus componentes prin- DEZ NOVAS COMPETÊNCIAS PARA ENSINAR cipais. Seguem-se abaixo as dez famílias propostas pelo autor com um referencial que servirá para seu melhor entendimento e para a formação de repre- sentações cada vez mais precisas de competências em questão. A noção de competência é designada pelo autor como uma capacidade de mobilizar diversos recur- sos cognitivos para enfrentar um tipo de situação, baseando-se em quatro aspectos: 1 - As competências não são saberes ou atitudes, mas mobilizam, integram e orquestram tais recursos; 2 - Essa mobilização só é pertinente em situa- ção, sendo cada situação singular, ainda que se pos- sa tratá-la em analogia com outras, já encontradas; 3 - O exercício da competência passa por opera- ções mentais complexas subentendidas por esque- mas de pensamento que permitem determinar (mais ou menos conscientemente e rapidamente) e reali- zar (de modo mais ou menos eficaz) uma ação rela- tivamente adaptada à situação; 4 - As competências profissionais constroem-se, em formação, mas também ao sabor da navegação diária de um professor, de uma situação de trabalho à outra. Administrar a progressão das aprendizagens mobiliza cinco competências mais específicas: 1 - Conceber e administrar situações-problema ajustadas ao nível e às possibilidades dos alunos; 2 - Adquirir visão longitudinal dos objetivos de ensino; 3 - Estabelecer laços com as teorias subjacentes às atividades de aprendizagem; 4 - Observar e avaliar os alunos em situações de aprendizagem, de acordo com uma abordagem for- mativa; 5 - Fazer balanços periódicos de competências e tomar decisões de progressão. Na maioria das vezes, descrever uma compe- tência equivale a evocar três elementos complemen- tares: 1 - Os tipos de situações nas quais há um certo domínio; 2 - Os recursos que mobiliza, os conhecimentos teóricos ou metodológicos, as atitudes, o “saber fa- zer” (savoir-faire) e as competências mais específi- cas, os esquemas motores, os esquemas de percep- ção, de avaliação, de antecipação e de decisão; 3 - A natureza dos esquemas de pensamento que permitem a solicitação, a mobilização e a orquestra-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 139 SINPEEM ção dos recursos pertinentes em situação complexa e em tempo real. DEZ NOVAS COMPETÊNCIAS PARA ENSINAR 1 - Organizar e dirigir situações de Aprendizagem: · Conhecer, para determinada disciplina, os con- teúdos a serem ensinados e sua tradução em objeti- vos de aprendizagem; Construir e planejar dispositivos e seqüências didáticas 2 - Administrar a progressão das aprendizagens: · Adquirir uma visão longitudinal dos objetivos do ensino; · Observar e avaliar os alunos em situações de aprendizagem, de acordo com uma abordagem for- mativa. 3 - Conceber e fazer evoluir os dispositivos de diferenciação: · Fornecer apoio integrado, trabalhar com alu- nos portadores de grandes dificuldades; · Desenvolver a cooperação entre os alunos e certas formas simples de ensino mútuo. 4 - Envolver os alunos em sua aprendizagem e em seu trabalho: · Suscitar o desejo de aprender, explicitar a rela- ção com o saber, o sentido do trabalho escolar e de- senvolver na criança a capacidade de auto-avaliação; · Favorecer a definição de um projeto pessoal do aluno. 5 - Trabalhar em equipe: · Enfrentar e analisar em conjunto situações com- plexas, práticas e problemas profissionais; · Administrar crises ou conflitos interpessoais. 6 - Participar da administração da escola: · Organizar e fazer evoluir, no âmbito da escola, a participação dos alunos; · Coordenar, dirigir uma escola com todos os seus parceiros (serviços paraescolares, bairro, associações de pais, professores de língua e cultura de origem). 7 - Informar e envolver os pais: · Dirigir reuniões de informação e de debate; · Envolver os pais na construção dos saberes. 8 - Utilizar novas tecnologias: · Utilizar as ferramentas multimídia no ensino; · Explorar as potencialidades didáticas dos pro- gramas em relação aos objetivos do ensino. 9 - Enfrentar os deveres e os dilemas éticos da profissão: · Lutar contra os preconceitos e as discrimina- ções sexuais, étnicas e sociais; · Desenvolver o senso de responsabilidade, a solidariedade e o sentimento de justiça. 10 - Administrar sua própria formação contínua: · Saber explicitar as próprias práticas; · Acolher a formação dos colegas e participar dela · Negociar um projeto de formação comum com os colegas. Resumo revisto por Elizabeth Mariza Marinho, professora, alfabetizadora e membro permanente do Fórum do Ensino Fundamental.
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    140 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM RIBEIRO, Vera Masagão (org.) Campinas, SP: Marcado de Letras: Associação de Leitura do Brasil – ALB; São Paulo: Ação Educativa, 2001. (Coleção Leituras no Brasil) PARTE I – Alfabetismo e escolarização de jovens e adultos 1 - JOVENS E ADULTOS COMO SUJEITOS DE CONHECIMENTO E APRENDIZAGEM Marta Kohl de Oliveira O tema EJA não diz respeito apenas à faixa etária em que se encontram, mas sim a uma questão cultu- ral. Por isso, apesar de ser uma educação voltada para “não crianças”, ela é, acima de tudo, voltada para um grupo de pessoas que não tiveram a oportu- nidade, na infância, de cursar a escola. Esse adulto é, geralmente, um migrante de regiões pobres, mui- tos deles analfabetos, que passaram a idade escolar trabalhando nas áreas rurais. E o jovem é aquele que foi excluído das escolas, por ter de trabalhar ou por falta de incentivo. Ele é rapidamente incorporado aos supletivos e tem muitas chances de completar o En- sino Fundamental ou mesmo o Ensino Médio. São, normalmente, ligado ao mundo urbano, letrado e escolarizado. Um primeiro ponto a ser discutido é a adequa- ção da escola para um grupo que não é o “alvo ori- ginal” da instituição. Currículos, programas e méto- dos de ensino foram originalmente concebidos para crianças e adolescentes que freqüentam a escola re- gular. Sendo assim, vemos que certos jovens e adul- tos acabam por desistir da educação tardia por pen- sarem nesses estereótipos de alunos regulares e não se enxergarem assim. Pensam que estão “fora dos padrões de alunos” e acabam desistindo. Outros fa- tores que impedem a dedicação plena desses alunos são: o sócio-econômico, o medo do novo, a dificul- dade de aceitar a “linguagem da escola”, etc. Tendo tudo isso em vista, faz-se uma questão importante: há ou não diferenças no funcionamen- to psicológico em geral, no funcionamento cogniti- vo em particular, de sujeitos pertencentes a dife- rentes grupos culturais? Temos, na literatura, três diferentes modos de pensar: a que afirma a existên- cia da diferença entre membros de diferentes gru- pos culturais, a que busca negar a importância da diferença, e uma terceira, que recupera a idéia da diferença em outro plano. De acordo com a primeira idéia, os jovens e adul- EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS: NOVOS LEITORES, NOVAS LEITURAS tos teriam peculiaridades em seu modo de funciona- mento intelectual, em grande medida atribuídas a sua falta de escolaridade anterior, mas também às características de seu grupo de origem. A segunda abordagem busca a compreensão dos mecanismos psicológicos que fundamentam o desempenho de diferentes tarefas em diferentes pessoas. Se não nega explicitamente a existência de diferenças entre os indivíduos e grupos culturais, essa abordagem nega a relevância das diferenças para a compreensão do funcionamento psicológico. Essa maneira de enfren- tar a questão acaba por considerar todas as culturas como sendo aparentemente diferentes, mas, na ver- dade, iguais ou equivalentes. Todos somos inteligen- tes, todos pensamos de forma adequada. A terceira abordagem está claramente associada à teoria histó- rico-cultural em psicologia e poderia ser considera- da a mais fecunda para essa compreensão. Postula o psiquismo como sendo construído ao longo da his- tória do indivíduo, numa complexa interação entre quatro planos genéticos: a filogênese, a sociogêne- se, a ontogênese e a microgênese, não havendo ne- nhuma espécie de realidade psicológica preexisten- te a esse complexo processo histórico, mas sim uma necessária geração de singularidades. 2 - A PROMOÇÃO DO ALFABETISMO EM PROGRAMAS DE EDUCAÇÃO DE JOVENS E ADULTOS Vera Masagão Ribeiro Com a crescente expansão dos sistemas de ensi- no fundamental que ocorreu no Brasil, especialmente a partir dos anos 70, os índices de analfabetismo absoluto da população jovem e adulta vieram dimi- nuindo consideravelmente. Entretanto, a crescente complexidade da estrutura social fizeram com que se elevassem os níveis de habilidades de leitura e escrita aliadas às práticas culturais. O que a prática pedagógica deve almejar é a cri- ação de oportunidades de se experimentar a leitura e a escrita de textos significativos que cumpram fun- ções sociais e psicológicas reais. De fato, trata-se de mudar a concepção que o jovem ou o adulto já têm da dimensão cultural das práticas de alfabetismo e de si mesmo como sujeito da aprendizagem, da cons- trução e da transmissão do conhecimento. Bastante sugestivos nessa linha de investigação são os estudos que focalizam aspectos metacogni- tivos relacionados ao alfabetismo. O conceito de metacognição aplicado a esse campo refere-se ao
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 141 SINPEEM conhecimento reflexivo que o sujeito mobiliza em atividades de leitura e escrita: inclui uma avaliação das próprias habilidades e a consciência das estra- tégias mais apropriadas para enfrentar tarefas mais específicas. Devemos considerar ainda que concepções so- bre o que é ler e escrever e a motivação para enfren- tar tarefas de leitura e escrita constituem áreas im- portantes relacionadas à metacognição. Segundo al- guns autores, há muitos adultos que acreditam que o bom leitor é aquele que lê rapidamente em voz alta ou que tal habilidade é adquirida por meio do exercício repetitivo e da memorização; ao participa- rem de programas de alfabetização que não venham ao encontro dessas crenças, tais adultos podem vir a ter dificuldades. Ao enfrentar tarefas significativas de leitura e es- crita, os sujeitos podem experimentar estratégias di- versas e refletir sobre sua eficácia em cada situação. A intervenção do educador, no sentido de auxiliar a tomada de consciência sobre os processos cogniti- vos e motivacionais envolvidos na aprendizagem, também se destaca como aspecto essencial. O in- centivo ao diálogo sobre tarefas de leitura e escrita é a proposta pedagógica mais efetiva nesse sentido, na medida em que incentiva os alunos a refletirem sobre suas próprias concepções e estratégias e a com- pará-las com as dos demais. PARTE II – A leitura da escrita e outras linguagens 3 - TELEDUCAÇÃO, TELEVISÃO E DESENVOLVIMENTO DA LEITURA Jane Paiva Que relação deve se estabelecer entre televi- são, teleducação e desenvolvimento da leitura em programas para jovens e adultos? Uma primeira questão diz respeito à rejeição que muitos de nós temos em relação aos recursos audiovisuais, espe- cialmente a televisão. Defendo seu uso como re- curso educativo, não como recurso didático. Uma segunda questão é o modo como a televisão pene- trou em nossa cultura nesses últimos 50 anos. É impossível descartar sua presença em projetos edu- cativos, levando em conta as gerações que se for- maram espectadoras e, além disso, a maneira como a televisão, no movimento realizado do ponto de vista tecnológico, reeducou o olhar, o perceber, o gostar dessas gerações, não apenas quanto ao con- teúdo veiculado, mas também quanto à forma de apresentação dos programas, ao ritmo das seqüên- cias, ao tempo de exposição do espectador às ima- gens e às informações. Ao introduzir a idéia da linguagem, e de como ela é enunciada, inicio a questão apontada anterior- mente sobre o que considero educativo e didático no fazer televisão. Por didáticos, relaciono aqueles programas que têm uma disposição inconteste para “ensinar” alguma coisa (o que não quer dizer que o consigam). Mas se armam de seqüências chamadas lógicas, estruturas de início, meio e fim, que partem do chamado mais fácil para o mais difícil, de esque- mas organizativos e recursos de fixação. Como edu- cativos, entendo os programas que se valem de to- dos os recursos possíveis da técnica e da tecnologia, dos acervos de imagens, de situações imprevistas e de criatividade, para tratar um tema, ou uma ques- tão de modo a provocar questões (outras) no espec- tador. Os programas não pretendem ensinar nada, mas de apresentar situações de impacto, de confron- to, de questionamento, que coloquem os conheci- mentos e as experiências anteriores em xeque, obri- gando o espectador a se indagar e a vasculhar seu repertório pessoal para tentar se posicionar, decidir, pensar, discordar, concordar com alguma situação que lhe é apresentada, ou que o desafie. Há que se pensar a televisão como um com- plemento de um processo de ler/aprender a ler, cujas especificidades não excluem a relação de sujeitos mediados pelo texto escrito, e seguramente não se basta na relação de sujeito-texto, mediado pela televisão. Este é, sem dúvida, o maior limite da televisão pensada como alternativas para programas de mas- sa, sejam eles de alfabetização, sejam de escolariza- ção. Exatamente por esses limites é que o ensino a distância, por exemplo, pensa suas modalidades se- mipresenciais, por não prescindir, para aprender, da relação humana, direta, entre sujeitos que interagem. Colocar a televisão no seu justo lugar, com sua lin- guagem, e não com a da escola, é o desafio da co- municação, pensada em relação com a educação. Como beneficiário da teleducação o professor deve ser olhado, especialmente, pelo foco dos pro- gramas de formação continuada. 4 - A Transdisciplinaridade pervertida: uma crônica sobre as relações entre a educação e os meios de comunicação Luiz Alberto Sanz A educação formal e a educação informal por intermédio dos meios audiovisuais se enfrentam, no mínimo, há mais de um século, desde que se criou a indústria do cinema. Parte significativa dos conheci- mentos humanos, antes transmitidos oral, pictórica e corporalmente, passou a ser registrada e transmiti- da quase que exclusivamente pelo processo escrita- leitura-escrita, eventualmente apoiado por ilustra- ções. Com isso, ganhou-se em multiplicidade da
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    142 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM comunicação, perdeu-se no exercício da memória. A educação formal passou a desempenhar um papel essencial nesse processo. Com ela, estabeleceram- se parâmetros para os conhecimentos necessários ao desenvolvimento e à gestão das sociedades. Entre- tanto, a difusão das técnicas e equipamentos de im- pressão possibilitaram a desvinculação do processo escrita-leitura daquele da educação formal. Nascia a bandeira da educação para todos, que se expandi- ria a ponto de, em pouco mais de dois séculos, ser assimilada por governos e políticos liberais, cujos empreendimentos não podem sobreviver sem mão- de-obra parcialmente educada e especializada. In- felizmente, o pensamento liberal cristalizou o con- ceito de “igualdade de oportunidades” ao de “edu- cação para todos”. Reservaram-se assim, mais uma vez, as migalhas do banquete do conhecimento para os trabalhadores e seus filhos. Estes precisam de melhores educadores, de materiais didáticos mais adequados. Mas, sobretudo, precisam de considera- ção e respeito para com a sua cultura. Precisam de uma política educacional verdadeiramente democrá- tica, que não parta da ficção de que, agora, somos todos iguais. A questão é realmente humanizar a televisão, não para o benefício do lucro, mas para melhorar as con- dições de vida do homem, melhorar a convivência, combater a violência, exercer a solidariedade. Se a televisão não faz isso, ou se faz de maneira incipien- te e inadequada, na maioria das vezes, cabe ao pro- fessor, em sala de aula, e aos ativistas da educação informal dar a esse bom combate, o de utilizar como fonte e referência os próprios produtos do sistema, para desmitificá-los e fazer com que estudantes e tra- balhadores conquistem sua cidadania por meio do único instrumento que realmente permite isso: a consciência, a capacidade de reflexão, a indepen- dência do pensamento. 5 - Uma experiência de formação de leitores, com camadas populares, através de rodas de leitura Pedro Garcia Como formar leitores de camadas populares, semi- alfabetizados, a partir da literatura, que supõe o do- mínio do texto escrito? É possível? De que forma? Nós, educadores, que usamos a palavra como instrumento de trabalho, somos submetidos ao de- safio de dividi-la, de forma criativa, com o outro. Para que o outro, afiando esse instrumento, possa potencializá-lo na reconstrução de si mesmo. A prática da fala, o exercício da fala. A perda da vergonha do falar, de se expor, de ser. A afirmação de si mesmo. Um longo caminho, um longo pro- cesso. No início: “professor, eu não falo porque não sei nada, não tenho nada a dizer. O pouco que sei não vale a pena ser dito. Não quero passar vergo- nha expondo a minha ignorância”. É mais ou me- nos isto que se depreende da fala do adulto analfa- beto. Ao homem de baixa auto-estima, que a si mesmo se nega, é necessário conceder espaço e dar instrumentos para que possa reverter a postura do “eu não sei”, “eu não posso”, nomeando as coi- sas e dela se apropriando. Em todo esse processo, não se pode perder de vista o lugar onde essas relações se manifestam: a escola. Local do instituído, do mesmo que se repro- duz por meio de um saber instrumental: quem sabe e quem não sabe. Como quebrar esse circuito? Minha estratégia parte da gratuidade que se con- trapõe ao pragmatismo, parte basicamente da poe- sia. Nela, as palavras encarnam-se em várias possi- bilidades de significado. É um jogo (de palavras) onde o campo de interpretação é muito amplo, já que não se tem um ponto de chegada para um saber que pode sempre ser refeito. Essa é a particularidade de se tra- balhar com o campo do simbólico, da metáfora: o conhecimento não se fecha, pelo contrário, abre-se em múltiplas possibilidades e a verdade não se ins- taura em nenhuma delas. Sendo assim, todos opinam sem o fantasma do erro. E, além disso – o que não é raro ocorrer – al- guém descobre uma linha de interpretação que o professor não previa. É que na leitura compartilhada de um texto literário a possibilidade da invenção, da criação, está sempre aberta. Esse talvez seja o as- pecto mais fascinante de toda essa experiência, abrir espaço para a criação. E a criação é o caminho para a autonomia, para a auto-afirmação. 6 - A leitura do texto escrito e o conhecimento matemático Dione Lucchesi de Carvalho Este texto tem por objetivo ressaltar a relação entre o conhecimento matemático e a interpretação crítica do texto escrito em jornal. Selecionei três “lei- turas”, de forma a destacar a importância do saber matemático para a interpretação crítica do texto jor- nalístico. A análise da primeira leitura mostra a insu- ficiência de transformar os símbolos matemáticos escritos em orais, para a atribuição de significado ao texto escrito. Na segunda leitura destaquei a “não- neutralidade” da linguagem matemática. E o tercei- ro ponto que abordei refere-se à leitura de gráficos. Pretendo ampliar as idéias relativas ao “uso do cálculo”, para além da utilização das quatro opera- ções aritméticas estudadas nas séries iniciais do en- sino fundamental (adição, subtração, multiplicação e divisão), tentarei ampliar o estabelecimento de re- lações um pouco mais complexas, abordadas em
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 143 SINPEEM outros níveis escolares. Essas considerações revelam minha posição de que a escolarização restrita às quatro séries é insuficiente para a inserção, como cidadão, do adulto em todas as dimensões da socie- dade contemporânea. Considero que a aquisição do conhecimento matemático que possibilite os tipos de análise que abordei exige uma escolarização de ensino médio. Tal afirmação pode se configurar como um sonho irreal e idealizado num país que ainda não resolveu seus problemas de escolaridade, nem em relação ao ensino fundamental. Desejo uma escolarização presencial, na qual seja possível a construção coletiva de conceitos matemáticos cada vez mais amplos e gerais. Infe- lizmente os cursos destinados a jovens e adultos não têm privilegiado a formação do aluno, não têm lhes possibilitado compreender a complexidade cultural da sociedade moderna que abarca o cien- tífico, o artístico, o filosófico, o psicológico. Esta- mos aceitando que o cidadão brasileiro seja de se- gunda linha? Citando novamente as idéias de Pau- lo Freire, a escola não tem dado conta de ser sim- ples sem ser simplista. 7 - Álbum Cultural do Recife: a utilização de imagens como objeto de leitura Áurea Bezerra Leila Loureiro Salete Maldonado O Álbum Cultural do Recife é um material que vem sendo produzido pela Secretaria Municipal de Educação do Recife. Partindo de uma concepção mais ampla de alfa- betização, que não se restringe apenas à decodifica- ção de símbolos, o álbum propõe uma leitura mais significativa do mundo que circunda os jovens e adultos, especialmente de sua cidade, o Recife. Os alunos, além de não conseguirem aprender aquilo que a escola diz oferecer, não lhes é possí- vel conviver com boa parte da herança cultural de sua sociedade, abrigada na mesma cidade onde moram, o Recife, ícone cultural do Brasil e por que não do mundo. Uma vez que a condição de vida dos alunos di- ficulta-lhes o acesso a essa herança, acreditamos que a escola poderia criar condições para que eles se apropriassem dela. O objetivo de tais atividades não se encerra nas visitas ou na mera observação, o que se quer é propiciar a descoberta da história e da cul- tura da cidade, bem como o reconhecimento de cada um como autor de sua própria história e cultura. Através do Álbum Cultural do Recife, além de terem contato com reproduções das obras em sala de aula, bem como fotos dos locais e monumentos, os alunos tiveram a oportunidade de conhecer mu- seus, teatros e ateliês e participar das aulas-passeio, das quais a equipe pedagógica também participa. Depois do retorno à escola, ficam abertas as possibi- lidades de atividades com o material sistematizado. Os alunos não só reconhecem os textos e as ima- gens que foram trabalhadas nas aulas-passeio, como fazem milhões de inferências sobre os mesmos. É o seu olhar sobre a cidade, é a sua palavra sobre o mundo que o circunda, é a possibilidade de cons- truir o seu próprio texto. PARTE III – A produção de livros para jovens e adultos estudantes 8 - Almanaque do Aluá: leitura, formação e cultura Alexandre Aguiar e Cleide Leitão Participando da equipe do Sapé, ONG sediada no Rio de Janeiro, integramos durante dois anos um projeto de pesquisa sobre o tema “Confronto de Sis- temas de Conhecimentos na Educação Popular”, fo- calizando a alfabetização de adultos. A partir de seus resultados, identificamos a necessidade de investir na formação de alfabetizadores e produzir material de apoio para seu desempenho. A escolha do título de publicação desembocou num almanaque, não só porque ele seria capaz de responder à pluralidade de objetivos que se apre- sentava, mas também pela possibilidade que ofere- cia de expressar esse conjunto de preocupações le- vando em conta os diversos contextos histórico/cul- turais do país, que lhe dariam identidade e moldura. A escolha do nome Aluá foi motivada pelo seu signi- ficado. Aluá é uma bebida fermentada nos potes de barro, feita de cascas de abacaxi ou mandioca, da farinha de milho ou de arroz, como também o é a nossa cultura: feita de várias gentes e cores, fermen- tando no solo desse país. O Almanaque pretende exprimir essa fermentação em seu interior: idéias, sonhos, experiências, culturas, vidas. Assim, o Almanaque do Aluá foi concebido como um instrumento de apoio à prática pedagógica dos alfabetizadores, material de leitura para jovens e adultos recém-alfabetizados e canal de difusão dos resultados da pesquisa em linguagem adaptada aos educadores populares. Baseados nas avaliações e estudos preliminares que realizamos, podemos afirmar que o caráter pe- dagógico do Almanaque do Aluá situa-se na luta pelo aumento do contingente de neoleitores no país, so- bretudo na faixa específica de jovens e adultos, no apoio à prática pedagógica do professor, contribuin- do também na formação dos educadores populares e dos alfabetizadores, e na valorização da diversida-
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    144 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM de cultural brasileira, abrindo espaço para sua ex- pressão e socialização, considerando nossas identi- dades e a interação entre as diferenças. 9 - Viver, aprender: uma experiência de produção de materiais didáticos para jovens e adultos Cláudia Lemos Vóvio O presente artigo tem como objetivo apresentar a estrutura e as opções metodológicas utilizadas para a elaboração da coleção de materiais didáticos “Vi- ver, aprender”, enfatizando aquelas que dizem res- peito à aprendizagem da leitura e à disponibiliza- ção de textos escritos. A produção dessa coleção partiu do diagnóstico das condições em que se desenvolvem os progra- mas educativos destinados a jovens e adultos. A ne- cessidade de materiais didáticos é imperiosa nesses programas, pois, além de atender a grupos de baixo poder aquisitivo, que não têm condições de arcar com a compra de livros e outros materiais didáticos, contam muitas vezes com professores leigos ou que trabalham em vários turnos e têm pouco tempo para preparar aulas. Outro aspecto relevante é que a mai- oria dos professores que trabalha nesses programas não lidou, em sua formação inicial, com disciplinas voltadas ao atendimento das especificidades do pro- cesso de aprendizagem de jovens ou adultos. A formação de um leitor autônomo e crítico, ob- jetivo que delineia as atividades propostas nessa coleção, abrange aprendizagens para além da mera decodificação de sinais, implicando a compreensão do texto a partir do diálogo entre texto e leitor, a recriação de sentidos, o estabelecimento de relações e a mobilização de seus conhecimentos para dar coerência àquilo que foi lido. Para a elaboração de propostas de leitura e seleção de textos, tomou-se o aluno como sujeito dos processos constituintes do ato de ler, capaz de refazer o percurso do autor e trabalhar o texto no sentido de compreendê-lo e res- significá-lo. Dessa forma, a aprendizagem da leitura na coleção “Viver, aprender” é tomada como exer- cício da cidadania, à medida que promove a critici- dade e a plena inserção de jovens e adultos na soci- edade da qual fazem parte. 10 - Material didático do Nupep para a educação de jovens e adultos João Francisco de Souza A produção de material didático para a educa- ção escolar é um dos maiores desafios da prática pedagógica, sobretudo para a EJA, como educação básica ofertada àqueles que não a concluíram “em idade própria”. A EJA continua sendo o maior desa- fio da estrutura escolar brasileira. Cerca de 80% não a concluíram. E as experiências existentes, com hon- rosas exceções, deixam muito a desejar. As reflexões aqui apresentadas sobre o material produzido pelo Nupep, do Centro de Educação da Universidade Federal de Pernambuco, são resultado de uma experimentação de cinco anos num Centro de Educação de Jovens e Adultos, em Olinda (PE), para atender às necessidades básicas de aprendiza- gem de jovens e adultos trabalhadores e contribuir na sua profissionalização, bem como na realização de processos de pesquisas educacionais e formação do seu professorado. A proposta curricular para o ensino fundamental na EJA do Nupep contempla cinco áreas do conhe- cimento (Ciências Sociais, Ciências Naturais, Arte- Cultura, Matemática, Língua Portuguesa). Cada uma dessas cinco áreas do conhecimento, com suas aprendizagens, estão estruturadas em dez módulos pedagógicos. Afirmamos que a educação de pessoas jovens e adultas, em nível de educação básica, são processos e experiências de ressocialização (recognição e rein- venção) de jovens, adolescentes e adultos, orienta- dos para aumentar e consolidar capacidades indivi- duais e coletivas desses sujeitos populares mediante a recuperação e recriação de valores, a produção, apropriação e aplicação de saberes que permitam o desenvolvimento de propostas mobilizadoras e con- tribuam para a transformação da realidade desses sujeitos. PARTE IV – Perspectivas em torno da mobilização social pela alfabetização 11 - Para que ensinar a ler o jornal se não há jornal na comunidade? O letramento simultâneo de jovens e adultos escolarizados e não-escolarizados. Sylvia Bueno Terzi Esta pesquisa é parte de um projeto mais amplo que tem por objetivo recuperar a história do letra- mento de uma pequena comunidade e analisar a continuidade do processo após a implementação de cursos de educação de jovens e adultos. Neste tra- balho, apresentamos o projeto de letramento simul- tâneo de membros escolarizados e não-escolariza- dos da comunidade, analisamos os fatores determi- nantes das características do projeto e delineamos a fase inicial de implementação do mesmo. O PAS foi criado com o objetivo de promover a inclusão social da população não-escolarizada de municípios com as mais altas taxas de analfabetis- mo entre os 12 e 19 anos, levando a essas pessoas
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 145 SINPEEM a escrita como um instrumento de cidadania, de forma que, pelo seu uso, possam entender melhor a realidade em que vivem e, sobre ela, agir na bus- ca de transformações. Para que tal objetivo seja atin- gido, coloca-se como essencial a necessidade de o programa, durante sua permanência no município (no mínimo 2 anos), colaborar na estruturação e fun- cionamento eficaz do sistema local de educação, de forma que o governo municipal assuma sua res- ponsabilidade em garantir um bom ensino a toda a população. Dadas as diversas possibilidades de influências, o processo de letramento desenvolve-se paulatina- mente pelas redes de disseminação que, juntamente com o domínio do código da escrita pelos alfabeti- zados, deverão possibilitar uma maior homogenei- zação do letramento da comunidade. É nesse senti- do que apontam os dados de Inhapi. E como o letra- mento não é um processo neutro, surgem, no mo- mento, na comunidade, os primeiros questionamen- tos sobre as condições de vida local e suas causas, confirmando o pressuposto subjacente aos objetivos do PAS, de que o letramento é um importante instru- mento de transformação social. 12 - Mova – Movimento de alfabetização de jovens e adultos: um pouco de sua história no Rio de Janeiro Sandra Regina Sales Foi na Prefeitura Municipal de São Paulo, na ges- tão da prefeita Luiza Erundina (1989-1992), que o Mova foi criado, superando a idéia de campanha e incorporando a idéia de movimento. O Mova ex- pressava a convicção de que a tarefa de superar o analfabetismo no Brasil exigia a participação da so- ciedade civil: “A superação do analfabetismo no Brasil só é possível em dez anos, ou até em menos tempo ain- da, se houver a confluência do envolvimento de gru- pos populares e da decisão política dos governan- tes.” (Mova 1989). A proposta pedagógica do Mova passa pela va- lorização das histórias de vida e das narrativas dos alfabetizandos. É a partir das experiências de vida narradas pelos educandos e educadores que serão levantados os temas a serem aprofundados em sala de aula, que se constituirão no ponto de partida para a alfabetização, possibilitando não apenas a codifi- cação ou decodificação de palavras, mas a leitura da palavra-mundo. Esse processo pressupõe um per- manente diálogo entre educadores e educandos, que por sua vez implica na disposição de falar e ouvir, de dar vez e voz, numa reflexão individual e coleti- va, possibilitando a construção de uma cultura de solidariedade na sala de aula. O objetivo maior do trabalho é estimular uma compreensão maior da re- alidade e uma mobilização para a construção de uma sociedade mais justa. O Mova-RJ enfrenta, desde seu nascimento, uma série de desafios. Além de estimular a criação de novas turmas, precisa apoiar e articular as iniciati- vas já existentes no âmbito do estado. Um outro grande desafio é a continuidade da escolarização das pessoas que se alfabetizarem no Mova-RJ. Se é fato que o Mova, ao se instalar onde está localizada a demanda, facilita o acesso àqueles que foram historicamente excluídos do ingresso à escola, a continuidade na escolarização deve ser tarefa assumida pelos poderes públicos. Esse desafio leva a um outro que é a integração dos educadores do Mova-RJ aos professores das redes, tanto estadu- al como municipais no sentido de se construir um projeto político-pedagógico conjunto. PARTE V – As políticas para a Educação dos jovens e adultos no Brasil 13 - A educação continuada e as políticas públicas no Brasil Sérgio Haddad Educação continuada não é um conceito novo, mas neste fim de milênio ganhou especial relevân- cia, tendo-se em vista as recentes transformações no mundo do trabalho e no conjunto da sociedade. Edu- cação continuada é aquela que se realiza ao longo da vida, continuamente, é inerente ao desenvolvi- mento da pessoa humana e relaciona-se com a idéia de construção do ser. Abarca, por um lado, a aquisi- ção de conhecimentos e aptidões e, de outro, atitu- des e valores, implicando no aumento da capacida- de de discernir e agir. Essa noção de educação en- volve todos os universos da experiência humana, além dos sistemas escolares ou programas de edu- cação não-formal. Educação continuada implica re- petição e imitação, mas também apropriação, res- significação e criação. Enfim, a idéia de uma educa- ção continuada associa-se à própria característica distintiva dos seres humanos, a capacidade de co- nhecer e querer saber mais, ultrapassando o plano puramente instintivo de sua relação com o mundo e com a natureza. O conceito de educação continuada, que inclui a educação escolar fundamental, exige que se con- siderem as influências dos problemas sociais, eco- nômicos, políticos, ambientais e culturais no traba- lho escolar, exige que se reconheça que o modelo econômico dominante não é compatível com prin- cípios de equidade educativa. Precisamos compartilhar a responsabilidade so- bre os destinos da sociedade global com todos os
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    146 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM países e com todos os segmentos envolvidos, é pre- ciso superar um modelo de desenvolvimento que promove a exclusão e que, portanto, é incompatível com o preceito de educação para todos. Sem perder de vista essa problemática mais ampla, é preciso pensar alternativas de políticas que integrem ações em diferentes planos, tendo em vista a real necessi- dade de ampliar as oportunidades de desenvolvimen- to para todas as pessoas ao longo de sua vida. 14 - As políticas de EJA e as necessidades de aprendizagem dos jovens e adultos Leôncio José Gomes Soares Vivemos um momento de transição entre duas épocas: um século que termina e outro que se anun- cia. Momento esse de rápidas e intensas mudanças que nos trazem, em diversos domínios, possibilida- des e incertezas. A educação se insere nesse contex- to: em meio a sua desvalorização e indiferença, con- vivemos com numerosas iniciativas e consolidação de propostas em seu âmbito. A educação de jovens e adultos compreende um leque amplo e heterogê- neo de experiências educativas de formatos e mo- dalidades diversos, que não correspondem necessa- riamente a ações de escolarização. As Necessidades Básicas de Aprendizagem (Neba) foram definidas como aqueles conhecimen- tos teóricos e práticos, destrezas, valores e atitudes que, em cada caso e em cada circunstância e mo- mento concreto, resultam indispensáveis para que as pessoas possam encarar suas necessidades nas seguintes frentes: a sobrevivência; o desenvolvimento pleno de suas capacidades; o desfrutar de uma vida e de um trabalho dignos; a participação plena no desenvolvimento; a tomada de decisões informadas e a possibilidade de continuar aprendendo. Partin- do do principio de que não há educação sem uto- pia, qualquer esforço educativo se relaciona com a vontade de construir uma sociedade melhor. Um novo valor necessário diz respeito à diversi- dade de oferta de EJA refletida no modelo flexível de educação básica de adultos. É de fundamental im- portância a construção do conhecimento em torno da EJA, de modo a possibilitar a pesquisa básica e aplicada. Finalmente, temos no horizonte o desafio de compreender o que significa formar o indivíduo, em termos de capacidade básica, que lhe permita colocar-se diante da realidade em que vive, pensar essa realidade e atuar de forma diferente nela. Resumo realizado por Maria de Lurdes Valino, psicóloga, pedagoga, mestre em educação. SACRISTÁN, J. Gimeno; GÓMEZ, A. Pérez Porto Alegre, Artmed, 2000 Compreender e transformar o ensino é uma ten- tativa, por parte se seus autores, de levar aos profis- sionais da educação, especialmente aos professores/ as, pontos básicos do pensamento e da pesquisa edu- cativa sobre os problemas fundamentais que a práti- ca do ensino tem colocado. Sem compreender o que se faz, a prática pedagógica é mera reprodução de hábitos, ou respostas que os docentes devem forne- cer a demandas e ordens externas. Se algumas idéi- as, valores e projetos se tornam realidade na educa- ção é porque os docentes os fazem seus de alguma maneira: em primeiro lugar, interpretando-os, para depois adaptá-los. COMPREENDER E TRANSFORMAR O ENSINO Capítulo 2 – Os processos de ensino-aprendizagem: análise didática das principais teorias da aprendizagem Introdução A análise e intervenção nos mecanismos de so- cialização das novas gerações é a meta fundamental da prática educativa na escola, tendo a pretensão de provocar a comparação crítica das aquisições espon- tâneas. Toda intervenção educativa necessita apoiar-se no conhecimento teórico e prático, oferecido em parte pelas disciplinas que investigam a natureza dos fenômenos envolvidos nos complexos processos educativos. Consolidou-se uma forma mecânica, simplista e hierárquica de transferência desde o conhecimento
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 147 SINPEEM disciplinar, na verdade desde o conhecimento psi- cológico, para a organização e o desenvolvimento da prática pedagógica. Este capítulo analisa as principais teorias da aprendizagem a partir da potencialidade de suas implicações didáticas, oferecendo idéias e reflexões para alimentar o debate sobre a utilização racional das teorias da aprendizagem na elaboração da teo- ria e prática didática. Para tanto, aprofunda o debate sobre as características e natureza da aprendizagem na aula e na escola: a aprendizagem relevante, que supõe a reconstrução do conhecimento que o indi- víduo adquire em sua vida cotidiana anterior e para- lela á escola. Análise didática das principais teorias da aprendizagem A maioria das teorias psicológicas da aprendi- zagem são modelos explicativos que foram obti- dos em situações experimentais e referem-se a aprendizagens de laboratório que só relativamen- te podem explicar o funcionamento real dos pro- cessos naturais de aprendizagem incidental e da aprendizagem na aula. A aprendizagem é um processo de conheci- mento, de compreensão de relações em que as condições externas atuam mediadas pelas condi- ções internas. A explicação de como se constro- em, condicionados pelo meio, os esquemas inter- nos que intervêm nas respostas condutuais é seu problema capital e um propósito prioritário. O foco do capítulo é ocupar-se dos diferentes enfoques, tentando esclarecer a virtualidade pedagógica de seus pressupostos. Derivações pedagógicas das teorias do condicionamento As derivações pedagógicas e didáticas dos prin- cípios em que se apóiam a s teorias do condicio- namento são evidentes. O próprio Skinner dedi- cou parte de seus trabalhos à aplicação prática de seus esquemas psicológicos sobre a aprendizagem. Suas teorias da aprendizagem supõem uma con- cepção do homem é o produto das contingências reforçantes do meio. Esta concepção do homem norteia as aplica- ções pedagógicas e didáticas, transforma a educa- ção em uma simples tecnologia para programas reforços no momento oportuno. Ao prescindir das variáveis internas, da estrutura peculiar de cada indivíduo, ao desprezar a importância da dinâmi- ca da própria aprendizagem, o ensino se reduz a preparar e organizar as contingências de reforço que facilitam a aquisição dos esquemas e tipos de conduta desejados. As diferentes teorias do condicionamento e aprendizagem contribuíram para a compreensão dos fenômenos de aquisição, retenção, extinção e transferência de determinados tipos simples de aprendizagem ou de componentes de todo pro- cesso de aprendizagem. A crítica mais rigorosa do condutismo ou con- dicionamento é que suas posições teóricas care- cem de consistência epistemológica, limitando-se apenas a análise do observável. A seqüência me- cânica de estímulos, de respostas e de reforços não funciona na escola, em um esquema demasiado simplista e não reflete a riqueza de troca da aula. A singularidade da espécie humana reside princi- palmente em seu caráter criador, inacabado e em grande parte indeterminado. Teorias mediacionais Durante o século XX e como reações à interpre- tação behaviorista da aprendizagem, surgem, desen- volvem-se e transformam-se diversas teorias psico- lógicas englobadas na corrente cognitiva. Apesar de importantes e significativas diferenças, essas teorias coincidem em alguns pontos fundamentais: a impor- tância das variáveis internas; a consideração da con- duta como totalidade e a supremacia da aprendiza- gem significativa que supõe reorganização cogniti- va e atividade interna. Derivações da corrente da Gestalt ou teoria do campo Wertheirmer, Kofka, Köhler, Wheeler e Lewin são os principais representantes da interpretação gestal- tista da aprendizagem. Supõem uma reação contra a orientação mecânica e atomista do associacionis- mo condutista. Consideram que a conduta é uma totalidade organizada e a aprendizagem um pro- cesso de doação de sentido às situações que o in- divíduo se encontra. Sob as manifestações obser- váveis se desenvolvem processos de discernimento e de busca intencional de objetivos e metas. O in- divíduo reage à realidade tal como a percebe sub- jetivamente. Sua conduta responde à sua compre- ensão das situações, ao significado que confere aos estímulos que configuram seu campo vital em cada momento concreto. É necessário ressaltar a extraordinária riqueza didática que se aloja na teoria do campo. A interpre- tação holística e sistêmica da conduta e a considera- ção das variáveis internas como portadores de signi- ficação são valorosas para a regulação didática da aprendizagem humana na escola. Entretanto, apesar da riqueza didática destas posições é preciso assina- lar os pontos fracos que exigem um desenvolvimen- to mais satisfatório: um certo descuido da verifica-
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    148 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM ção empírica das hipóteses; o não estabelecimento de um rigoroso isomorfismo entre percepção e apren- dizagem; uma tendência a interpretar a aprendiza- gem em termos de percepção, recepção significati- va, esquecendo a importância da atividade, das ações e operações subjetivas para a fixação de aquisições e formulação dos esquemas cognitivos e o desprezo por todas as descobertas realizadas pela investiga- ção analítica. As contribuições da psicologia genético-cognitiva Desde o inestimável trabalho e a incompará- vel clarividência de Piaget e da Escola de Gene- bra que se formou ao seu redor, a extraordinária potência teórica dos princípios e proposições da corrente denominada psicologia psico-cognitiva não deixou de se impor e se desenvolver. Piaget, Inhelder, Bruner, Flavell, Ausubel são os represen- tantes desta vasta e fecunda corrente. Os resulta- dos teóricos se suas investigações são hoje em dia imprescindíveis para compreender a complexida- de da aprendizagem humana. Desde os postulados defendidos pela Gestalt, parece óbvia a necessidade de esclarecer o funcio- namento da estrutura interna do organismo como mediadora dos processos de aprendizagem. A psi- cologia genético-cognitiva enfrenta o problema e apresenta certos princípios de explicação por meio de seus postulados mais importantes: - A aprendiza- gem como aquisição não hereditária no intercâmbio com o meio é um fenômeno incompreensível sem sua vinculação à dinâmica do desenvolvimento in- terno. As estruturas iniciais condicionam a aprendi- zagem que provoca a modificação e a transforma- ção das estruturas permitindo a realização de novas aprendizagens mais ricas e complexas; - As estruturas cognitivas são mecanismos re- guladores aos quais se subordina a influência do meio. São o resultado de processos genéticos, por isso estas posições são denominadas construtivis- mo genético; - São dois os movimentos que explicam todo o processo de construção genética; a assimilação e acomodação. Ambos os movimentos constituem a adaptação ativa do indivíduo que atua e reage para compensar as perturbações geradas em seu equilí- brio interno pela estimulação do ambiente; - A vinculação entre aprendizagem e desenvol- vimento leva ao conceito de “nível de competên- cia”. Em franca oposição à interpretação conteudis- ta, Piaget considera que para que o organismo seja capaz de dar uma resposta é necessário supor um grau de sensibilidade específica às incitações diver- sas do meio; - O conhecimento é uma elaboração subjetiva e ao distinguir os aspectos figurativos (conteúdos) dos aspectos operativos (formais) e ao subordiná-los, Pi- aget estabelece as bases para uma concepção didá- tica baseada nas ações sensório-motoras e nas ope- rações mentais (concretas e formais); - Piaget não enfatiza apenas a primazia da ação, mas principalmente os processos cognitivos adqui- rem novas dimensões. A percepção, a representa- ção simbólica e a imaginação têm implícito um com- ponente de atividade física, fisiológica ou mental, com a participação ativa do sujeito nos diferentes processos de exploração, seleção, combinação e de organização das informações. - dentro desse processo dialético, que explica a gênese do pensamento e da conduta, são quatro os fatores principais que, segundo Piaget, intervém no desenvolvimento das estruturas cognitivas: matura- ção, experiência física, interação social e equilíbrio. Levando em conta estas colocações, destacam- se sete conclusões para facilitar e orientar a regula- ção didática dos processos de ensino-aprendizagem: o caráter construtivo e dialético de todo processo de desenvolvimento individual; a enorme significação que tem para o desenvolvimento das capacidades cognitivas superiores a atividade do aluno/a, desde as atividades sensório-motoras de discriminação e manipulação de objetos, até as complexas operações formais; a linguagem como instrumento insubstituí- vel das operações intelectuais mais complexas; a importância do conflito cognitivo para provocar o desenvolvimento do aluno/a; a significação da coo- peração para o desenvolvimento das estruturas cog- nitivas; - a distinção e a vinculação entre desenvol- vimento e aprendizagem e a estreita vinculação das dimensões estrutural e afetiva da conduta. A aprendizagem significativa de Ausubel As contribuições de Ausubel são muito impor- tantes para a prática didática. Ausubel centra sua análise na explicação da aprendizagem de corpos de conhecimentos que incluem conceitos, princípi- os e teorias. Para ele, a aprendizagem significativa, seja por percepção, seja por descoberta, opõem-se à aprendizagem mecânica, repetitiva, memorialística. A chave da aprendizagem significativa está na vin- culação substancial das novas idéias e conceitos com a bagagem cognitiva do indivíduo. As dimensões que Ausubel distingue na significação potencial do ma- terial de aprendizagem são a significação lógica e a significação psicológica. O importante nas contribui- ções de Ausubel é que sua explicação da aprendiza- gem significativa implica a relação indissociável de aprendizagem e desenvolvimento.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 149 SINPEEM A escola soviética Vygotsky, Luria, Leontiev, Rubinstien, Tayzina, Galperin são, entre outros, os representantes mais significativos da escola soviética. Nela, a primeira proposição a se considerar, já que condiciona as res- tantes, é a concepção dialética da relação entre aprendizagem e desenvolvimento. Para a psicologia soviética a aprendizagem está em função da comu- nicação e do desenvolvimento. Para Vygotsky, na perspectiva didática, o nível de desenvolvimento alcançado não é um ponto es- tável, mas um amplo e flexível intervalo. Em outras palavras, corresponde à área de desenvolvimento ou zona de desenvolvimento proximal, pois é precisa- mente o eixo da relação dialética entre aprendiza- gem e desenvolvimento. Para a psicologia soviética, não são somente a atividade e a coordenação das ações que o indivíduo realiza as responsáveis pela formação das estruturas formais da mente, mas também a apropriação da ba- gagem cultural, que é produto da evolução histórica da humanidade transmitida na ação educativa. A escola de Wallon (Wallon, Zazzo, Merani) A psicologia genético-dialética francesa de Wallon reafirma os principais postulados da escola soviética. Mas, para Wallon, o importante é explicar a passagem do orgânico para o psicológico por meio de quatro elementos essenciais: a emoção, a imita- ção, a motricidade e o socius (repercussões pedagó- gicas). A emoção é uma expressão corporal de um estado interno que adquire um caráter de comuni- cação, de intercâmbio entre indivíduos e as estrutu- ras psicológicas são a variável mais importante da aprendizagem, tendo sempre presente que tais es- truturas são redes complexas e interativas de pensa- mento, emoção e atividade. A aprendizagem como procedimento de informação Os modelos de processamento de informação como tentativa de explicar a conduta cognitiva do ser humano são relativamente recentes. O modelo de processamento de informação considera o homem como um processador de informação, cuja ativida- de fundamental é receber informação, elaborá-la e agir de acordo com ela. O processamento da informação começa com os processos de seleção de estímulos que acontecem no registro sensitivo em virtude dos mecanismos de atenção. Uma vez selecionada a informação, codifi- ca-se e armazena-se por breves períodos de tempo na memória de curto prazo. A retenção e a recupe- ração são dois programas de controle que determi- nam o processamento da informação na memória de longo prazo. A recuperação é um programa que implica ativos processos de reconstrução e organi- zação idiossincrática e situacional do material recu- perado. O processamento de informações recupera a noção de mente, reintegra a informação subjetiva como um dado útil para a investigação e coloca em lugar privilegiado o estudo da memória ativa como explicação básica da elaboração de informação e assim, da execução da atividade humana. As teorias da aprendizagem na compreensão e nas práticas educativas O conceito de aprendizagem é um conceito prévio, um requisito indispensável para qualquer elaboração teórica sobre o ensino. As teorias da aprendizagem dão a informação básica, mas não suficiente, para organizar a teoria e a prática do en- sino. Cabe à didática, disciplina científica teórico- prática, a organização das condições externas da aprendizagem e o controle do modo de interação destas; com as condições internas do sujeito, uma vez identificadas durante todos os processos que balizam a aprendizagem; com o objetivo de produ- zir certos resultados determinados que suponham o desenvolvimento e aperfeiçoamento das próprias condições internas. Capítulo 6 – O currículo: os conteúdos do ensino ou uma análise prática? Movimentos progressistas, nas últimas décadas, culpando a escola tradicional de academicismo e intelectualismo pouco relevante e nessa instituição a agência reprodutora da cultura dominante, quise- ram romper a imagem de um ensino transmissor e reprodutor, seguindo modelos de relação pedagógi- ca nos quais se diminuía a importância dos conteú- dos. As preocupações psicológicas referentes ao bem- estar dos alunos/as, seu desenvolvimento e as rela- ções com seus professores/as dominaram sobre sen- tido cultural da escolarização e do ensino. O currículo como estudo do conteúdo do ensino O pensamento pedagógico em torno do currícu- lo é muito heterogêneo e disperso, podendo encon- trar inclusive posições que desprezam a análise e decisões sobre os conteúdos, pretendendo unicamen- te proporcionar esquemas de como organizá-los e manejá-los por parte dos professores/as. O estudo do currículo aborda os temas relacionados com a justificativa, a articulação, a realização e a compro- vação do projeto educativo ao qual a atividade e os conteúdos do ensino servem. É preciso recuperar a
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    150 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM discussão fundamental sobre a configuração, o pla- no e o desenvolvimento prático do projeto educati- vo cultural da escola. É uma forma de integrar o dis- curso pedagógico desde a racionalização das idéias e valores que orientam as decisões em torno de seus conteúdos até a racionalização dos meios para obtê- los e comprovar seu sucesso. Um só conceito ou diversas concepções de currículo? O termo currículo provém da palavra latina cur- rere, que se refere à carreira, a um pequeno per- curso que deve ser realizado. A escolaridade é um pequeno percurso pra os alunos/as e o currículo é seu recheio, seu conteúdo, o guia de seu progres- so escolar. As diferentes concepções de currículo e as pers- pectivas são frutos das opções que se tomam no momento de dizer ao que nos referimos com esse conceito. Contreras (1990) considera que é preciso examinar quatro grupos de interrogação para atestar seu significado: a amplitude variável do significado – o currículo apresenta significados diversos para pessoas e correntes de pensamento diferentes; o cur- rículo dentro de práticas diversas – o contexto soci- al, econômico, político e cultural que o currículo representa, ou deixa de fazê-lo, deve ser o primeiro referencial para análises e avaliações; o oculto e o manifesto: uma visão dos que aprendem – conside- rar que o ensino se reduz ao que os programas ofici- ais ou os próprios professores/as dizem que querem transmitir é uma ingenuidade. Ao lado do currículo oficial existe outro que funciona subterraneamente, que se denomina oculto; ao que chamamos currí- culo? A um processo ou a alguma representação do mesmo? – o currículo é um meio para transferir idéi- as para a prática. O currículo é um processo social que se cria e passa a ser experiência através de múl- tiplos contextos que interagem entre si. Obstáculos para um marco de compreensão processual A concepção burocrática da instituição escolar, a perspectiva de professores/as dependentes quanto às propostas externas, a concepção técnica – e, às vezes, mecanicista – levou a que se ocupasse mais das intenções do ensino, dos planos e currículos pla- nejados fora da escola que do que realmente se en- sinava dentro e como se traduziam aquelas inten- ções externas. Existe uma definição do que é o currículo? A compreensão de currículo depende de marcos muito variáveis, mas em qualquer conceitualização é preciso considerar: 1º) o estudo do currículo deve oferecer uma visão da cultura que se dá nas escolas em suas dimensões oculta e manifesta; 2º) o currí- culo é um processo historicamente condicionado, selecionado de acordo com as forças dominantes de uma sociedade, com capacidade de reproduzir ou transformá-la; 3º) o currículo é um campo no qual interagem idéias e práticas reciprocamente; 4º) como projeto cultural elaborado, o currículo condiciona a profissionalização do docente e é preciso vê-lo como uma pauta com diferente grau de flexibilidade para que os professores/a intervenham nele. Capítulo 7 – O que são os conteúdos do ensino? O problema de definir o que é conteúdo do ensi- no e como chagar a decidi-lo é um dos aspectos mais conflituosos da história do pensamento educativo e da prática de ensino, condição que se reflete nos mais diversos enfoques, perspectivas e opções. Conteúdos “nebulosos” nos currículos ampliados A justificativa de um determinado currículo não pode ficar em critérios de representatividade do se- lecionado quanto à cultura acadêmica, mas apoiar- se noutros de caráter social e moral, já que o que se busca com sua implantação é um modelo de ho- mem e de cidadão/ã. A incidência real das preten- sões de alcançar uma educação menos academicis- ta tem sido mais decisiva na evolução dos métodos pedagógicos do que nos conteúdos do ensino. Quando um conteúdo é “valioso” e “apropriado”? Construção social dos currículos Um conteúdo passa a ser valioso e legítimo quan- do goza do aval dos que têm poder para determinar sua validade, por isso, a fonte do currículo é a cultu- ra que emana da sociedade. A seleção considerada como apropriada depende das forças dominantes em cada momento e dos valores que historicamente fo- ram delineando o que se acredita que é valioso para ser ensinado ou transmitido. As determinações mais próximas dos conteúdos do currículo Lecionar um currículo comum para todos, supe- rar as discriminações produzidas pela separação dentro do sistema escolar de especialidades curricu- lares diversificadas socialmente, compensar as defi- ciências de origem dos alunos/as para enfrentar os conteúdos curriculares, diversificar as exigências escolares para que as capacidades de todos tenham acolhida na escolaridade, suprimir a concorrência entre os alunos/as, desenvolver os valores da solida-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 151 SINPEEM riedade por meio do conhecimento e das práticas pedagógicas, tratar os conflitos sociais estimulando a tolerância frente às distintas visões são, entre ou- tras, idéias procedentes das preocupações sociais que se somarão ao discurso pedagógico e curricular, afe- tando a seleção de conteúdos e as formas de desen- volvê-los no ensino. Conhecimento: base de profissões Nas sociedades com os sistemas de produção complexos e diferenciados, as atividades laboriais também se diversificaram e se ligam a conhecimen- tos cada vez mais especializados. O discurso edu- cativo moderno preocupa-se bem menos com a fun- ção cultural e democratizadora das escolas do que em ligá-las aos interesses profissionais e produtivos. A crítica à escola, às suas práticas e ao conhecimen- to que lecionam é feita do ponto de vista dos inte- resses da produção. Efeitos menos evidentes do utilitarismo do conhecimento O conhecimento de prestígio é o que se relacio- na com atividades profissionais também prestigiosas e rentáveis para proporcionar boa situação econô- mica aos que as desempenham. Conhecimento que, ao se ligar tão diretamente com o desenvolvimento econômico, recebe mais recursos para pesquisa. Às profissões em alta corresponde o auge de um tipo de conhecimento: a tendência inversa não é menos correta. A elaboração intelectual sobre a educação, o pensamento educativo e a pesquisa ficarão marca- dos por essa ideologia utilitarista. A cultura do ensino obrigatório O conceito de ensino obrigatório serve para in- troduzir no debate e análise do currículo uma pecu- liaridade que marca decisivamente a função cultu- ral dos níveis escolares compreendidos nessa etapa educativa. A obrigatoriedade do ensino não é só um referencial básico das políticas educativas, como também nela se expressa toda uma filosofia pedagó- gica que se traduz nos conteúdos do currículo. Significado social do ensino obrigatório A filosofia básica do ensino obrigatório é a dimi- nuição das desigualdades de origem entre os cida- dãos (econômicas, culturais, geográficas), pois se estes fossem abandonados a seus próprios meios não poderiam ter acesso por igual à escolarização, o que em nossa sociedade seria discriminatório devido ao valor que tem a cultura em abstrato e as validações de certificados que as instituições escolares propor- cionam. A educação com seu efeito socializador, homogeneiza crenças, aspirações, valores e compor- tamentos básicos para manter a ordem numa socie- dade complexa. As potencialidade e condições básicas do currículo comum A cultura comum, como qualquer outra idéia a ser levada à prática, não é implantada pelo fato de ser prescrita. A própria idéia de que exista um proje- to cultural de conteúdos escolares comum para to- dos não deixa de apresentar dificuldades, que vão desde a objeção a sua própria existência até os in- convenientes que apresenta seu plano e desenvolvi- mento nas condições do sistema escolar. A busca de eficácia em uma série de competências básicas e necessárias deve aparecer claramente estabelecida no currículo comum obrigatório. O currículo comum pode facilitar a contínua avaliação diagnóstica e democrática do funcionamento e dos resultados do sistema escolar para sua permanente melhora. A integração entre conhecimentos O fato de que o sistema escolar tenha se criado e expandido enquanto esteve vigente a idéia de que o currículo deveria estar composto pelo saber par- cializado em disciplinas, teve sua influência não só no que se selecionou como saber essencial, mas tam- bém nas práticas, nas estruturas organizativas e na mentalidade dos professores/as. A possibilidade e conveniência de inter-relacionar o saber é geralmente aceita para orientar a configuração e prática curri- cular no ensino fundamental, mas é conflitante no ensino médio, quando os professores/as foram for- mados em um conceito de cultura especializada em compartimentos estanques. A integração do conteú- do é uma aspiração e exigência cujo fim é a forma- ção geral, que deve facilitar a ordenação do currícu- lo, a política do professorado e a coordenação do trabalho nas escolas. A diversidade e o currículo comum: respostas políticas, organizativas e didáticas O problema fundamental é que, em uma socie- dade com desigualdades, logicamente os pontos de partida são muito diversos, daí que proporcionar o mesmo a todos na escolaridade obrigatória não sig- nifica promover a equidade. Os pontos de partida desiguais de alunos/as frente ao currículo comum, ou frente a qualquer de seus componentes, exigem no ensino obrigatório levar em conta uma preocu- pação compensatória para aqueles que mais neces- sitam do ensino, pois seu capital cultural de origem não lhes foi favorável.
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    152 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM O problema das diferenças sociais e psicológi- cas dos indivíduos estabelece um desafio para a or- ganização de todo sistema de educação, exigindo uma reconversão de estruturas, currículos, funcio- namento e mentalidade que veste o sistema vigente, porque a idéia da obrigatoriedade e do currículo comum insere-se em um sistema que não foi pensa- do para isso, mas para responder à diferenciação social existente. Algumas condições do currículo e de seu desenvolvimento no ensino obrigatório Opção e diferenciação Os sistemas educativos e as políticas que os re- gem para enfrentar a heterogeneidade de interesses e capacidades dos alunos/as optaram pela mudança da diversificação curricular no último estágio da obrigatoriedade, para evitar o conflito e atraso acu- mulado de boa parte dos alunos/as quando a esco- laridade se prolonga além do era o ensino funda- mental. As dificuldades para que todos os estudan- tes acompanhem o currículo comum implica que essa etapa seja especificamente problemática para aqueles com menor capital cultural e menos capaci- dades intelectuais, opta-se por diferenciar conteú- dos, disciplinas ou currículos completos para distin- tos grupos de alunos/as como meio de evitar o aban- dono escolar e o fracasso. Os métodos pedagógicos e a gestão de ritmos de aprendizagem Os recursos metodológicos servem para respon- der às diferenças psicológicas e culturais, pois vari- abilidade de traços pessoais, de gênero ou proce- dências culturais origina que cada atividade ou ta- refa se acomode melhor a um tipo de aluno/a que outro. Desta forma, a escolaridade obrigatória para alunos/as social e pessoalmente heterogêneos exi- ge variedade de atividades para dar oportunidade a diferentes interesses, ritmos de aprendizagem e formas de aprender. A avaliação A avaliação a serviço dos ideais da escolarida- de obrigatória não tem como missão classificar, hierarquizar, selecionar ou reprimir; não deveria reprovar ou aprovar. Deve ser entendida como um diagnóstico a serviço das necessidades de conhe- cimento do aluno/a. É preciso suprimir controles que impeçam o progresso na etapa da obrigatorie- dade, porque todo aluno/a tem direito a chegar até o topo da idade final ainda que não “progrida adequadamente”. É preciso tirá-los não apenas das regulações formais estabelecidas, mas também da mentalidade seletiva. Capítulo 8 – Plano do currículo, plano do ensino: o papel dos professores/as Aproximação ao conceito: o ensino como plano e o plano do currículo A atividade de planejar o currículo refere-se ao processo de dar-lhe forma e de adequá-lo às peculi- aridades dos níveis escolares. Desde as explicitações de finalidade até a prática é preciso planejar as atri- buições e as atividades com certa ordem, para que haja continuidade entre intenções e ações. Planejar é, pois, algo fundamental, porque, por meio do pla- no, é como se elabora o próprio currículo. Plano indica a confecção de um apontamento, rascunho, croqui, esboço ou esquema que repre- senta uma idéia, um objeto, uma ação ou sucessão de ações, uma aspiração ou projeto que serve como guia para ordenar a atividade e produzi-lo efetiva- mente. O ensino tem uma intencionalidade e deve ter uma lógica, ainda que não existam planos abso- lutamente seguros em se possa pensar em um úni- co caminho possível. O ensino pode ser concebi- do como uma atividade e uma profissão de plane- jar, situada entre o conhecer e o atuar. E, como acontece com tudo o que se relaciona com o cur- rículo, o planejamento corresponde a um instru- mento para incidir na prática, o que não pode ser visto à margem das opções possíveis, papéis que cada agente está chamado a desempenhar. Não existe uma fórmula universal válida para planejar os currículos. A história da didática e as experiên- cias realizadas por professores/as e especialistas oferecem “exemplos” muito diversos para consi- derar. Mais do que buscar a fórmula mágica, será útil discutir sobre os problemas implicados e as dimensões sobre as quais optar. Planejar o currículo depende de sua amplitude A concepção do plano, as possibilidades de pre- cisá-lo ou prever a ação, as operações que se reali- zarão estão relacionadas com as funções educativas as quais queiram abranger. Como o ensino obrigató- rio compreende todo um projeto educativo de soci- alização que atenda a educação geral e integral do cidadão/ã, é evidente que esta concepção totaliza- dora exige a observação de aspectos também muito diversos em seu planejamento, ao serem tão diver- sas suas finalidades. É importante afirmar que quanto mais comple- xo for o currículo ou qualquer parte do mesmo, mais problemático, difícil e indefinido será seu possível plano.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 153 SINPEEM Diante de que tipo de prática nos encontramos? É prioritário levar em consideração a natureza de qualquer realidade ou prática para entender como e em que sentido e medida se pode prever, planejar ou programar. Propor a análise da prática de ensino tem sentido agora para se entender que tipo de pla- no permite aos que operam nela. A prática de ensino é uma atividade que existe em certas condições, próprias do tipo de escolariza- ção dominantes. Em alguma media o professor/a pode decidir como será sua atuação dentro das pa- redes da aula e um pouco menos dentro da escola, mas os parâmetros gerais de sua profissão estão defi- nidos antes que ele se questione como atuar, se é que o faz. Precisamente na atividade de planejar é que se concentram estudos que evidenciam a des- profissionalização dos docentes, no sentido de ver aí um exemplo de como a prática do professor/a se limita a aplicar planos realizados fora, pelos livros- texto, pelos materiais curriculares e pelas regulações sobre o currículo. A prática de ensino e o desenvolvimento do currículo são processos indeterminados A educação, o ensino, o currículo são processos de natureza social que permitem ser dirigidos por idéias e intenções, mas que não podem ser previstos totalmente antes de serem realizados. Desde esta posição epistemológica de origem, qualquer plano é desencadeado por necessidade, porque não deter- mina nunca totalmente a prática. Quanto mais com- plexo for um objetivo pedagógico ou um conteúdo, menos determinante pode ser o plano para regular a prática que queira alcançá-lo. Diferentes atribuições no plano do currículo: âmbito em que se tomam decisões A competência de construir um currículo não será atribuição exclusiva dos professores/as, porque as decisões implicadas ultrapassam a responsabili- dade destes e, circunstancialmente, porque podem não dispor dos instrumentos e da competência para fazê-lo. Os âmbitos de planejamento não formam um sistema de níveis totalmente hierarquizados nos quais o que se faz em um deles determina de todo o que se realiza em outro em estreita dependência. Parece mais próprio colocá-los como âmbitos de decisão que têm relações de interdependência en- tre si, mas com espaços próprios de autonomia na decisão em cada caso, e até com contradições en- tre alguns deles. Não é possível dispor de um esquema válido de plano para todos os agentes que inervem na sua rea- lização. A amplitude, a peculiaridade e a contextua- lização das decisões em cada âmbito, assim como a responsabilidade política, social, ética ou profissio- nal que implicam os dilemas frente aos quais deverá optar e as razões que deve alegar em cada caso, su- gerem marcos de decisão distintos, mas completa- mente independentes. Agentes decisórios e planejadores A divisão de competências entre diversos agen- tes quando se planeja o currículo em um sistema educativo é o resultado histórico de um equilíbrio particular que se pode alterar, mas o hábito que se criou, e continua sendo visto como normal, é que os currículos comecem a ser configurados, desen- volvidos e implantados partindo das decisões polí- tico-administrativas, que os livros-texto se acomo- dem a elas e que os professores/as atuem no final de um processo de determinações “fazendo com lhes é dito” ou sugerido. Os esquemas gerenciais do currículo em geral e do plano em particular, as- sentaram essa idéia de hierarquização e dependên- cia que na prática fica bastante falseada. Entretan- to, poderia se pensar em uma opção contrária, ab- solutamente revolucionária entre nós, mas real em outros contextos: professore/as, agências dedica- das ao desenvolvimento do currículo e editoras de- veriam estar dentro de processos de inovação cons- tante, discutida e avaliada. Alguns modelos para atuar: formas de pensar e fazer na prática Devido à variedade de conteúdos, de situações nas quais se realiza, considerando as peculiarida- des da prática educativa e a necessidade de impli- car as escolas e os professores/as no desenvolvimento curricular, a utilidade fundamental de qualquer mo- delo de plano reside em que seja potencializador da reflexão sobre a prática, o contexto em que se realiza e os destinatários que fomenta. Foram múl- tiplas as fórmulas para realizar esse complexo pro- cesso: de decisões hierárquicas (Tyler e Herrick, década de 50), passando por uma racionalidade psicológica com ênfase nos conteúdos (Bruner, dé- cada de 70), pelo condutismo entendido como um processo circular sistêmico (Wheeler, década de 70) até se chegar ao esquema globalizador do espa- nhol César Coll (1987), entendido como um mode- lo prescritivo que formaliza os passos a serem da- dos na configuração do currículo. Síntese elaborada por Edna Prado, doutora em educação escolar pela Universidade Estadual Pau- lista/UNESP.
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    154 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM STAINBACK, Susan. e STAINBACK, William. Porto Alegre, Artmed Editora, 1999 Capítulo 20 Apoio e Estratégias de Ensino Positivas Wade Hitzing O texto começa apresentando a idéia de que to- dos os educadores precisam aprender que para aten- der às necessidades educacionais de todos os alu- nos e especialmente daqueles com comportamento desafiador requer que ele se posicione de maneira a escutar e respeitar seu papel como cliente e crítico dos programas que oferecemos. Embora sejam registrados avanços na inclusão de grupos minoritários e alunos com deficiências im- portantes há uma longa história de exclusão de alu- nos cujo comportamento é destrutivo ou perigoso. O capítulo concentra-se nas causas desses compor- tamentos e na aplicação desse entendimento para a indicação de programas escolares que dêem apoio à inclusão de todos os alunos. Antes de tomar decisões sobre como proceder diante de um aluno com comportamento desafiador é importante observar como pensamos e falamos sobre tal comportamento, pois isso pode determinar como estruturamos ou definimos o problema; como selecionamos os objetivos; como escolhemos os pro- cedimentos de intervenção adequados e definimos o sucesso da intervenção. Quando usamos uma abordagem tradicional de leitura e definição do comportamento desafiador, costumamos rotular ou categorizar o indivíduo, to- mando o comportamento como algo que deve ser eliminado antes que se possa alcançar “objetivos” positivos com ele. Nesta abordagem o problema está no aluno. A seleção de objetivos também se refere às ten- tativas do professor de reduzir o comportamento to- mado como inadequado. A escolha de procedimentos sempre se ocupa de ignorar, reforçar comportamentos adequados e punir. O sucesso é definido como a satisfação dos ob- jetivos para a redução ou eliminação do comporta- mento inadequado. Um jeito diferente de olhar o aluno com com- portamento desafiador é tomar seu desafio como uma comunicação de suas necessidades e desejos e mes- mo sobre a qualidade ou adequação das estratégias de ensino. Um ciclo de aprendizagem pode gerar um cir- culo vicioso de atitudes inadequadas, uma vez que INCLUSÃO – UM GUIA PARA EDUCADORES os alunos podem: · Receber tarefas que não valorizam, não enten- dem ou não sabem realizar; · Sentirem-se confusos, zangados ou em sofri- mento; · Comportarem-se, então, de modo destrutivo e perigoso diante de atividades tediosas e confusas; Os alunos aprendem a partir de experiências e tendem a repetir atitudes que funcionam. Em geral atitudes desafiadoras, destrutivas e perigosas funcio- nam imediatamente, pois o aluno escapa das tarefas e ganha a atenção do professor. Apesar desse comportamento resultar em retor- no imediato, num prazo mais longo eles trazem pro- blemas, entre os quais a exclusão e desconforto na vida escolar. Muitos comportamentos desafiadores, destru- tivos e perigosos têm uma função de comunica- ção com o professor. Algumas orientações defen- dem a idéia do professor ignorar a mensagem até que ela seja expressa de forma adequada. Isto não impedirá que o processo desafiador seja refreado e, ao contrário, reforça a idéia de que o aluno pode adiar atividades insatisfatórias para ele como uma tarefa, por exemplo. Para entender as causas dos comportamentos de um aluno, é necessário realizar uma análise funcio- nal desse comportamento, observando o currículo do aluno, o ambiente escolar e a maneira que esse comportamento funciona para ele. Reconhecer que o comportamento destrutivo tem uma função comunicativa não significa que deva- mos aceitá-lo e nada fazer para ajudá-lo. O texto apresenta o exemplo de uma aluna, Ca- thy, com um diagnóstico de retardo mental que teve muitas dificuldades em adequar-se ao plano escolar. Seu comportamento ficou mais difícil quando co- meçou a vomitar sistematicamente na escola. Todas as vezes que a menina vomitava, sua mãe era cha- mada e ela voltava para casa. A equipe escolar e a professora foram orientadas por um especialista a ignorar o fato. Assim passados alguns dias, a menina deixou de vomitar na escola. Atingiu-se o objetivo: o comportamento foi eliminado. O plano de comportamento, no entanto, não le- vava em conta as questões que envolviam a aluna para proceder daquela forma. Não levou em consi- deração as preocupações da menina em relação ao medo da turma, ou dela achar ou não a escola inte- ressante. O plano não ajudou a resolver as questões básicas que motivavam aquele comportamento. Outro relato encontrado no texto diz respeito a
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 155 SINPEEM um menino com deficiência mental e física que cos- tumava agredir a si e aos outros. Mesmo com a ajuda de uma auxiliar, a professora não conseguia que Rob- bie se interessasse pelas tarefas escolares. Sempre que era impelido a fazê-las, tornava-se agressivo. Tentando entender o que acontecia com o meni- no, nem a professora nem a auxiliar levavam em conta que as expectativas e as propostas de progra- mação individualizada que tinham traçado para o aluno podiam não estar correspondendo aos inte- resses dele. Teria sido mais adequado ajudá-lo a entender que a escola é um lugar onde se pode confiar nos professores e que a sala de aula é um lugar seguro. Além disso, apresentar o trabalho cooperativo como uma maneira interessante, divertida e envolvente. O comportamento de Robbie sugeria que ele não via muita razão para cooperar. É preciso traçar diretrizes para oferecer uma sen- sação de segurança, confiança e cooperação em alu- nos em situação de inclusão. O professor pode hie- rarquizar os objetivos que pretende com seu aluno em três níveis: 1 - Apresentar o ambiente escolar e sua presença como seguros; 2 - Apresentar a parceria com o professor e a es- cola como envolvente, divertida e compensadora; 3 - Apresentar a aquisição de habilidades e com- petências e a redução de comportamentos proble- máticos como algo benéfico. É importante que o professor concentre-se na segurança, na confiança, na cooperação e na edi- ficação de um relacionamento de trabalho positi- vo e forte. Embora seja possível e adequado lidar simulta- neamente com os objetivos dos dois primeiros ní- veis, é importante distingui-los. Em alguns casos o aluno até já conquistou uma sensação de seguran- ça, mas, diante das tarefas escolares não consegue dar conta de cooperar. O professor precisa estabelecer um projeto de trabalho que interesse e envolva os alunos estejam ou não adequados aos padrões dos currículos tradi- cionais. A adoção desta abordagem não implica na de- sistência em ajudar o aluno a mudar o comporta- mento desafiador. Muitos alunos, mesmo não apresentando um comportamento desafiador, estão insatisfeitos com a proposta escolar. Esses não utilizam, no entanto as atitudes destrutivas como uma linguagem que atin- ge a escola. Estratégias de apoio devem ser utilizadas tendo em vista o estabelecimento positivo de um vínculo entre professor e aluno. É preciso remover os aspectos negativos do ensi- no levando em conta os pontos de vista do aluno. Vários estudos demonstram que a redução das dificuldades das tarefas escolares e a mudança da freqüência e da forma das diretrizes do ensino po- dem ter influência na redução dos comportamentos destrutivos. Para preparar um plano educacional, os pro- fessores precisam perguntar-se se os alunos esco- lheriam ou não realizar aquela tarefa. Sem dúvida, nem todas as tarefas escolares serão escolhidas pe- los alunos, mas, isto não pode ser uma desculpa para que o professor não implemente atividades de estu- do que interessem aos alunos. O professor precisa remover parte das fontes de frustrações dos programas de ensino. Eventualmente, mesmo usando esforços para analisar as reações dos alunos, essas não resultam em mudanças. Nessas circunstancias o professor pode ter que usar procedimentos de manejo do com- portamento para reduzir diretamente o comporta- mento desafiador do aluno. Os procedimentos dis- ciplinares devem ser brandos, como as restrições às atividades compensadoras. Capitulo 21 Uma abordagem funcional para lidar com o comportamento desafiador grave David P. Wacker, Wendy Berg, Jay Harding e Jennifer Asmus Ao considerar o comportamento desafiador é ten- tador concentrar-se na forma desse comportamento. É comum classificá-lo como auto-flagelatório, agres- sivo ou destrutivo. As razões para a ocorrência de um comporta- mento difícil são difíceis de serem identificadas. As mudanças de comportamento que ocorrem em diferentes contextos indicam as influências do ambiente. Sempre um comportamento serve a um propósi- to e tem uma função para a criança, independente do diagnóstico ou da sua vida doméstica. É preciso identificar o propósito e a função do comportamento de um aluno e quais os aconteci- mentos ambientais que o provocam. Diante da mes- ma situação ambiental um determinado comporta- mento agressivo pode produzir resultados diferentes dependendo da maneira de um professor abordá-lo. Os efeitos de um comportamento podem ser ca- tegorizados em três funções: conseguir eventos de- sejados; fugir ou evitar eventos indesejáveis ou con- seguir efeitos internos ou automáticos. Até que se tenha identificado a função do com- portamento problemático não se pode determinar uma intervenção eficiente. O propósito especifico da avaliação comporta-
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    156 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM mental é identificar por que o comportamento ocor- re dentro de um determinado contexto, para que uma intervenção adequada seja desenvolvida. A avaliação pode ser: · Descritiva – que identifica os momentos do dia associados ao comportamento; · Estrutural – que identifica eventos antecedentes que determinam a ocasião para o comportamento e · Funcional – que identificaa manutenção dos eventos para o comportamento. Quando a função do comportamento difícil é identificada pode-se iniciar uma intervenção corres- pondente. Toda intervenção tem como sentido ensinar uma nova habilidade que pode encontrar uma barreira no próprio comportamento. Ela vai precisar de mais tempo para ser implementada com sucesso. É preciso de um tempo para apresentar um novo conjunto de regras. O principal fator para o sucesso é confiar na intervenção. Proporcionar reforço apenas aos comportamen- tos desejados e remover todo reforço ao comporta- mento desafiador. Os passos seguintes são essenciais para inter- venções bem sucedidas: 1 - Identificar a função do comportamento desa- fiador; 2 - Determinar de forma clara o comportamento que será reforçado; 3 - Remover todo o esforço ao comportamento desafiador; 4 - Proporcionar o máximo de reforço ao com- portamento desejado. Todas as intervenções comportamentais envol- vem procedimentos de reforço diferenciais ou varia- ções desses procedimentos. Os autores propõem três opções que aumentam os procedimentos de reforço: · Treinamento da comunicação funcional · Procedimentos de intercalação de tarefas · Realização de escolhas O TCF é o primeiro passo na intervenção efici- ente para substituir o comportamento desafiador por um mand (resposta de comunicação) alternativo. Quanto mais tempo for suprimido o comporta- mento difícil, maior a probabilidade de se fazer exi- gências maiores ao aluno. Com relação ao comportamento de manutenção de atenção, usar uma abordagem de adiamento. Comunicar ao aluno que vai atendê-lo e adiar por um tempo pequeno no início. O procedimento de intercalação de tarefas é útil quando o comportamento desafiador é usado para adiar as tarefas. É importante que as crianças persistam diante das diferentes tarefas propostas ofertadas por professo- res e pais. Deve-se usar o procedimento de ofertar tarefas curtas e familiares às crianças. Assim, a criança con- segue experimentar o sucesso. Algumas tarefas consideradas desagradáveis pe- las crianças podem ser intercaladas por tarefas mais divertidas. Trata-se de ofertar uma variação da tarefa. Começar com uma tarefa de alta probabilidade e intercalar uma tarefa original de baixa probabili- dade. Um programa de realização de escolhas é uma boa opção para os alunos que mantêm o comporta- mento difícil. Em primeiro lugar é preciso identificar o que é preferido e reforçador para o aluno. Neste caso a proposta é possibilitar que o aluno faça uma escolha das atividades preferidas. Isto ces- sa as reações agressivas. É importante que a criança possa exibir o com- portamento adquirido em várias outras tarefas. A maioria das pessoas, com ou sem deficiência no desenvolvimento precisa de uma certa quantida- de de instrução direta quando está diante de novas versões de uma tarefa. Ensinar a generalização às crianças cujo com- portamento é desafiador deve variar de alguma for- ma, como, por exemplo, solicitar atenção em situa- ções individuais, em grupos e com brincadeiras não estruturadas. É importante que o aluno possa discriminar situ- ações de uso de determinadas aprendizagens. A ge- neralização da resposta aumenta a freqüência de outros comportamentos socialmente aceitáveis, como, por exemplo, uso de sinais para conseguir atenção. A síntese do capítulo compreende: 1 - Identificação da função do comportamento desafiador ou seu reforço; 2 - Reforço para o comportamento desejado; 3 - Treino de situações novas para produzir ge- neralizações do estímulo; 4 - Tirar vantagem das oportunidades de ensino para reforçar comportamentos novos que substitu- em comportamentos desafiadores. Capítulo 22 Estruturando a sala de aula para evitar comportamentos inadaptados W. Stainback e S. Stainback O capitulo prevê a estruturação da sala de aula para evitar a ocorrência de problemas disciplinares.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 157 SINPEEM O professor precisa ter consciência do que real- mente acontece em sala de aula. Uma das formas é manter o controle visual dos alunos. É preciso cuidar também dos espaços em sala para a circulação e o trabalho. Uma questão importante é o controle do tempo em que o aluno persiste na atividade. O tempo na tarefa inclui o tempo de envolvimen- to tanto em tarefas acadêmicas quanto nas áreas de interação social. É preciso fazer com que os alunos responsabili- zem-se pelas atividades de aprendizagem. O professor precisa escolher cuidadosamente os métodos usados para ensinar seus alunos. Quando uma demanda é ambígua os alunos po- dem entrar em contato com algum tipo de frustração e conseqüentemente envolver-se em comportamen- tos inaceitáveis. Os alunos precisam saber o que os professores querem dele. Precisam experimentar o sucesso. Esse tipo de envolvimento do aluno pode ser um fator preponderante na prevenção de problemas disciplinares. O papel do professor é muito importante para envolver os alunos de forma ativa. Ele deve propor- cionar retorno e reconhecimento às realizações de forma imediata. As práticas de agrupamento em uma turma po- dem influir no comportamento. É preciso organizar as atividades em grupo de modo cooperativo. As expectativas e os planos de sucesso mais do que os de fracasso, podem ajudar e estimular atitu- des positivas nos alunos em relação a seu próprio comportamento e ao comportamento dos colegas. Os alunos gostam de estar com professores posi- tivos e satisfeitos. O professor precisa reconhecer os comportamen- tos adequados e as realizações. O autoconceito dos alunos pode ser melhora- do se os professores indicarem a importância de seus alunos. É importante comunicar a expectativa de hábi- tos de trabalho produtivos, usando, por exemplo, modelos. É preciso também trabalhar a autonomia dos alu- nos e apresentar a rotina de modo explícito. O pro- fessor deve atrair pouca atenção para os comporta- mentos inadequados e muita atenção para os com- portamentos adequados. Resumido por Maria Eugenia Capraro de Toledo, especialista em tratamento e escolarização de crian- ças com distúrbios globais do desenvolvimento, Orientadora Educacional e Consultora em Educação Inclusiva. TAILLE, Yves de La. Artigo publicado em AQUINO, J.G. Erro e fracasso na escola: alternativas teóricas e práticas - São Paulo, Summus, 1997 Analisar o erro é uma boa oportunidade para re- ver a teoria de Piaget, que redimensionou essa ques- tão sob diferentes ângulos. Nesse sentido, o objetivo desse texto é fazer uma análise pedagógica do erro, que não caia nem em sua condenação, nem no opos- to, sua sacralização. O conhecimento como interpretação Um dos conceitos mais importantes da teoria piagetiana é a assimilação, que na biologia significa “converter em substância própria”. Esse conceito deve ser empregado, segundo Piaget, para toda e qualquer forma de interação entre um organismo e seu meio. Nesse sentido o exercício da inteligência traduz-se pela incorporação de elementos do meio. O ERRO NA PERSPECTIVA PIAGETIANA Tal incorporação é determinada pela organização da inteligência. Assim, o ato de conhecer é um ato de interpretação, já que significa assimilar o objeto à organização de que a inteligência é dotada, ou seja, conhecer é conferir sentido, é fruto de um tra- balho ativo de assimilação. Como exemplo pode- mos observar a inteligência infantil. As representa- ções que as crianças têm do mundo não são meras cópias do real, mas uma interpretação própria, uma forma singular de tratar as informações recolhidas do meio. Dessa forma, a qualidade das interpreta- ções depende dos diversos níveis de estruturação da inteligência. Há duas implicações pedagógicas decorrentes dessa compreensão sobre a inteligência e o erro. Pri- meiramente é necessário definir o que é erro. Os er- ros infantis podem ser visto de duas formas: uma negativa e uma positiva. A forma negativa mostra-se pela diferença existente entre o conhecimento cor- reto e incorreto. A forma positiva diz respeito ao tes- temunho que são da atividade da inteligência infan-
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    158 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM til, ou seja, significam que a criança está pensando. Algumas ponderações pedagógicas fazem-se ne- cessárias. Primeiro, a condenação sumária do erro não permite avaliar sua qualidade intrínseca, ou seja, sua relação com os processos de assimilação. Como decorrência, há um desrespeito à inteligência infan- til, um menosprezo pela fala das crianças, que pode levá-las a abandonar seus esforços espontâneos de reflexão. Segundo, nem sempre é fácil avaliar a qua- lidade do erro. Dessa forma, é preciso saber como se organiza a inteligência, seus níveis de estrutura- ção e como as crianças superam seus erros. O conhecimento como construção Para Piaget, a evolução da inteligência é fruto da interação do sujeito como o meio. Nesse senti- do, todo construtivismo é necessariamente intera- cionista. Além da assimilação, outro conceito piagetiano fundamental é a acomodação, que é a modificação dos esquemas de assimilação em função das parti- cularidades do objeto assimilado. O binômio assi- milação-acomodação é fundamental para compre- ender outro conceito fundamental da obra piagetia- na, a equilibração. Para Piaget, uma das fontes de progressos no desenvolvimento é o desequilíbrio. A busca de equi- líbrio e a superação de conflitos cognitivos explica, em parte, a evolução da inteligência. Mas, para que haja conflito, é necessário que o sujeito perceba que suas formas de assimilação não são suficientes para o que pretende resolver ou fazer. Nesse sentido, a educação deve promover conflitos cognitivos. Outro conceito de Piaget é a regulação, que ex- plica o processo de evolução da equilibração. Na regulação há uma retomada de uma ação que modi- fica seus resultados. Se a retomada desta ação tiver o resultado esperado, a ação continua a mesma. Se não tiver, o sujeito busca corrigir a ação. Nesse últi- mo caso, há uma situação de conflito, chamada de perturbação, ou seja, aquilo que faz obstáculo à as- similação. Para Piaget, a evolução da inteligência tem como fonte essencial as regulações advindas de situações perturbadoras. Nesse sentido, o erro tem papel fundamental. Algumas ponderações pedagógicas são importan- tes: 1) o erro deve ser observável para o aluno, que deve ter acesso à qualidade de seu erro; 2) a obser- vação do erro não depende apenas da organização da tarefa, mas também do nível de desenvolvimento do sujeito; 3) o erro tem grande valor no processo de aprendizagem e desenvolvimento, mas o objetivo da educação é o acerto. Conhecimento e socialização O ser humano é essencialmente social. Mas esse ser social não é social da mesma maneira em todas as fases do seu desenvolvimento, há qualidades di- ferentes da interação entre os sujeitos, que são de- terminadas pelas progressivas construções de estru- turas mentais. Há duas formas de interações sociais: coação e cooperação. A relação de coação é unilateral, al- guém impõe seu pensamente ou ordens aos outros. Já na relação de cooperação há reciprocidade. Para Piaget, as relações criança-criança facilitam a coo- peração. Relações de cooperação favorecem a inte- ligência, pois nestas o erro não só é explicitado, como são apontadas suas causas. Conhecimento e motivação Somente há atividade se há motivação, ou seja, se há desequilíbrio do sujeito em relação a si mes- mo ou em relação ao seu meio. Nesse sentido, para complementar a análise do lugar do erro no desen- volvimento, deve-se fazer um exame da dimensão afetiva do homem. Sobre essa temática, duas afirmações são im- portantes: 1) Nossos desejos não são sempre sábios. No caso das crianças, uma das tarefas educativas é fazer com que cultivem sua afetividade e ampli- em seu campo de conhecimentos; 2) Não se deve limitar o aspecto afetivo à di- mensão do puro prazer. Aprender pode e deve ser mais amplo que um prazer lúdico. Síntese elaborada por Flavia da Silva Ferreira As- bahr, doutoranda do programa de Psicologia da USP .
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 159 SINPEEM TEBEROSKY, Ana et al. Porto Alegre, Artmed, 2003 Os autores discutem assuntos da atualidade, ofe- recendo normas e exemplos a respeito da compre- ensão da leitura. O resumo obedece à ordem dos capítulos. 1 - Ler, leitura, compreensão: temos falado sempre do mesmo? Isabel Sole Gallart Olhando o passado: quem, o que e como se lia A leitura não é mera habilidade, e sim modo de elaborar significado, varia de uma cultura para ou- tra, entretanto, deveria ser possível desenvolver uma maneira de estudar suas mudanças dentro de uma mesma cultura. No passado, a leitura era, um exer- cício espiritual, exercício transcendente e não ins- trumental e/ou de fruição e isso gerava conseqüên- cias na leitura. As crianças aprendiam a ler orações em latim, portanto não era de compreensão que se tratava. A leitura passou de intensiva, na idade Mé- dia, (ler poucos livros, em grupo e de caráter sagra- do) à extensiva a partir de 1800, (textos variados, leitura rápida, silenciosa e individual). A leitura ex- tensiva foi fruto de novas idéias sobre a natureza do ser humano e cultura, assim como a abundân- cia de materiais. Isto teve implicações importan- tes na leitura e no leitor. A finalidade de conhecer, informar-se leva a interpretar mais do que reve- renciar. Ler de forma crítica, valorizando, ou não, a informação e a investigação sistemática, da leitura é invenção recente. A investigação da leitura e sua aprendizagem: alguns dados Controvérsias sobre como se dá a leitura, se de forma global ou por letras datam de 1886. Os traba- lhos sobre a organização da memória e a importân- cia do conhecimento, Bartlett (1932) influenciaram as concepções atuais sobre o processamento de in- formação, embora a idéia de decodificação não te- nha de todo desaparecido. De forma geral, há con- senso aproximando a leitura de três modelos genéri- cos: bottom-up (leitura das unidades para o todo); top-douwn (do todo para as partes) e interactiva (in- tegra e transcende os modelos anteriores). As pro- COMPREENSÃO DA LEITURA: A LÍNGUA COMO PROCEDIMENTO postas resultantes são importantes porque a forma como se aprende está ligada à forma como se dá a leitura. Nossa concepção atual aproxima-se da inte- ractiva. Existe ainda a polêmica se compreensão é uma habilidade básica ou uma série de sub-habili- dades. Há propostas que se inspiram no modelo pro- cedimento/produto (como receitas), nessa forma, ele- mentos da singularidade do leitor não são levados em conta. De modo geral, dá-se mais importância ao ensino da leitura do que a auto interrogar-se so- bre o que melhora sua compreensão. Diante de um texto, o leitor compreende os propósitos da leitura? Qual conhecimento prévio o texto demanda? Para ler, muitas estratégias são postas em prá- tica, o importante é que o aluno alcance cada vez mais autonomia, dirija e regule sua própria apren- dizagem. O que sabemos e o que fazemos Ler é uma atividade cognitiva complexa e que posiciona o leitor diante do texto. Mudaram as for- mas de ensinar leitura? O que sabemos sobre a lei- tura modifica seu ensino? É preciso que o ensino da leitura seja repensado em uma tripla dimensão: como objetivo de conhecimento em si, como ins- trumento de conhecimento e como forma de pra- zer e fruição. De forma geral, complica-se muito a vida dos estudantes. Há maneiras mais fáceis de ensinar a ler: ensinado a ler com objetivos diferen- tes, com consciência do que fazem e com propos- tas que façam sentido. 2 - ESTRATÉGIA DE LEITURA E COMPREENSÃO DE TEXTO NO ENSINO OBRIGATÓRIO Joan Serra Capallera, Charles Oller Barnada As estratégias utilizadas para ler regulam a pró- pria leitura e demandam objetivos, avaliação de resultado e modificação pertinentes. Essas estraté- gias podem ser objeto de investigação e aplicação no processo ensino-aprendizagem desde que re- sultem em maior compreensão. Para tanto, é pre- ciso estar alerta para: os conteúdos conceptuais implícitos que são trabalhados; o seu grau de per- tinência em sala, a clareza de objetivos, a finali- dade das tarefas e as características do texto para que a leitura resulte autônoma.
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    160 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM Aproximação a alguma das principais estratégias do ensino da leitura A aprendizagem de habilidades para leitura deve objetivar a autonomia. Se favorecermos, ao aluno, a compreensão dos micro processos envolvidos na leitura, permitimos que ele reconheça sua dificulda- des e formas de se auto-regular, para tal são neces- sárias estratégias: Objetivos: decodificar com fluidez; reler, utili- zar elementos de ajuda externa para a compreen- são léxica; avaliar a consistência interna do con- teúdo que o texto expressa e sua correspondência com os conhecimentos prévios; distinguir o que fun- damental daquilo que é pouco relevante; construir significado global; elaborar e fazer inferências; ter uma estratégia estrutural e atenção concentrada; conhecer os objetivos da leitura; ativar os conheci- mentos prévios pertinentes; avaliar e controlar se está havendo compreensão e auto-regular a leitura partindo da revisão da própria atividade ou da re- capitulação do que foi lido; relacionar conhecimen- tos prévios com a informação do texto; avaliar e integrar a nova informação Estratégia de leitura e processo de ensino-aprendizagem As estratégias para ler ocorrem enquanto exerce- mos a leitura. As características gráficas, lingüísticas e de conteúdo de um texto determinam a ativação das estratégias que forem pertinentes a ele. Assim, tanto as características estruturais como aquelas de conteú- do e objetivo, condicionam a sua compreensão e de- termina como e quando ensinar estratégias de leitura. O tratamento complementar da leitura em aula: A importância da leitura é incontestável e nos últi- mos anos têm surgido inúmeros tratados e metodo- logias sobre seu ensino. Entretanto é preciso reco- nhecer que trabalha-se com a leitura, em outras áre- as que não a do ensino do idioma, assumindo que o aluno tem destreza de leitura. É preciso que convo- car os professores para o tratamento que a leitura deve ter em todas as áreas. Como conseguir isso? Objetivo: Não se trata de denúncia ou acusação e sim de propor ações con- cretas. A leitura é base fundamental de toda e qual- quer aprendizagem e os professores têm buscados caminhos. Se no ensino do idioma o objetivo priori- tário é desenvolver a leitura, em matemática, por exemplo, isso não é encarado como tão importante. Tratamento didático A leitura pode aparecer, no processo didático, de acordo com seguinte quadro: Leitura investigativa: é preciso que o aluno te- nha claro o que busca, que se estabeleça quais são os conhecimentos prévios necessários, que se deli- mite um caminho através de referências, e por fim, que se propicie oportunidade para o aluno apresen- tar suas conclusões. Leitura aprendizagem: favorecer a compreensão Tipo de leitura Antes Durante Depois Investigação Classificar objetivo; relacionar conhecimentos. Assinala a linha de busca e investigação Apresentação esmerada Representação; esquema Aplicação em atividades Aprendizagem Preparação: termos e idéias; apresentação: motivação; conhecimentos prévios. Leitura compartilhada Comentário do grupo Espontânea Estímulo; conhecimentos prévios. Incorporação de conteúdos Deleite pessoal Resolutiva Centrar atenção; despertar interesses. Determinar problema Identificar índices de leitura Organizar relações Planificar a resolução dos termos difíceis, extrair e classificar as idéias do texto, estruturado-as organizadamente. Motivar, sen- sibilizando o aluno para o tema, criar momentos de leitura compartilhada, discutir quais os novos conhe- cimentos obtidos pela leitura. Criar meios de repre- sentação do que foi lido (esquemas, gráficos, símbolos),avaliar os resultados obtidos da leitura.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 161 SINPEEM sagrados e reescrever tem como objetivo a memori- zação da história e apropriação das particularidades da linguagem do livro. Leitura na educação infantil? Sim, obrigada Isabel Sole Gallart Aprender a ler é distinto de aprender outros pro- cedimentos escolares. Requer que o aluno atribua sentido, conte com recursos cognitivos suficientes e tenha a ajuda, insubstituível, de pessoas em que con- fie. É um processo no qual intervêm experiências, motivação e conhecimento, que começa em momen- tos distintos para cada um e não tem fim. Cuidado com a leitura! Há muitas idéias que circulam a respeito do ato de leitura tais como a necessidade de pré-requisitos, maturidade e que a aprendizagem depende da cor- respondência som/letra ou som/palavra global. Es- sas idéias acabam por retardar a relação das crian- ças com a leitura e a criar a prática de atividade de pré-leitura, cuja vinculação com o ato de ler, de fato, são impossíveis de provar. A resistência de ensinar a leitura nas primeiras etapas da escolaridade também está calcadas na idéia dela ser somente um processo de tradução de códigos. Leitura sem medo Há razões suficientes para situar a leitura na edu- cação infantil, sem medo. Oferecer leitura às crian- ças na educação infantil não é certamente cercá-los de regras de decodificação, mas sim proporcionar- lhes experiências divertidas e gratificantes com algo que eles, de uma forma ou de outra, já conhecem. Sabe-se que quando algo tem significado para a criança, ela se mobilizará para apropriar-se daquilo que há no universo cultural que a cerca. A interven- ção do professor pode favorecer essa apropriação, usando de estratégias que permitam seu crescente domínio já que não há um caminho único para cons- truir noções de leitura. Ler na educação infantil: a leitura tem lugar na educação infantil, desde que se adotem decisões com relação a isso. A leitura na classe: mesmo reconhecendo que a o sistema da língua escrita é complexo, não há por- que menosprezar a capacidade das crianças para deduzi-lo. Aprende-se a ler vendo outras pessoas lendo, tentado ler, acertando, errando. A criança faz tentativas de desenhar e escrever e isso pode ser ex- tensível também à leitura. A educação infantil é um contexto excelente para o uso funcional da leitura e, para isso, é necessário aproveitar o interesse das cri- Leitura espontânea: algumas crianças tomam contato com textos por curiosidade ou casualmente. Cabe ao professor abrir o espírito do aluno a novas descobertas dotando a leitura de maior grau de afe- tividade. Leitura resolutiva é aquela que carrega alguma situação problema. Para tal é preciso favorecer a concentração do aluno, orientar a compreensão e planejamento de soluções. Para que qualquer leitu- ra tenha êxito é preciso o sujeito se disponha a ela, mantenha uma atitude interativa com o texto e sa- boreie os resultados de sua atividade. 4 - EDUCAÇÃO INFANTIL: A iniciação no mundo da escrita Ana Teberosky Algumas das maiores inovações, no que diz res- peito à aprendizagem da escrita, foram influencia- das pelas investigações psicolingüísticas. Embora investigação e prática sejam diferentes, esse artigo tem intenção de propor a organização de atividades didáticas, úteis e realizáveis, e que sejam justifica- das psicologicamente. Ultimamente têm-se destaca- do a importância da escrita como função social, in- corporando ao estudo de textos literários, textos "re- ais", que circulam socialmente. Selecionamos duas funções: a escrita funcional e a escrita ficcional e também dois tipos de escrita: a escrita do mundo urbano e a escrita documental. Para que a criança crie autonomia em relação à escrita, os objetivos seguem a seguinte progressão: fazer a criança entrar no mundo da escrita: fazer a escrita entrar na classe, usar diversos suportes da escrita, iniciá-la na produ- ção de textos funcionais, fazer a criança conviver com um leitor e iniciá-la na produção de textos. Fazer a criança entrar no mundo da escrita: Exemplo de proposta. Estudar, com um grupo de cri- anças (5-6 anos), os materiais escritos de um bairro. Objetivos: Guiar as crianças para planejarem a ação de encontrar um ponto determinado no bairro, ajudá-las a observar e registrar, copiando, os escri- tos encontrados. Na segunda etapa, analisar as có- pias realizadas, comparando-as com os textos mo- delos. O professor atua como guia e modelo de pla- nejamento da atividade. Fazer a criança conviver com leitores: exemplo de proposta: leitura diária de textos da leitura uni- versal (Tristão e Isolda, Robin Hood, As mil e um noites, etc.). A criação, pelas crianças, do Livro das versões, no qual podiam desenhar ou reescrever as histórias ouvidas. Objetivos: criar ambiente de imersão na leitura, criar ações, expressões e atitudes de leitura, através do modelo da professora como leitora. Trabalhar o gênero (novela narrada), aproximar-se de textos con-
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    162 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM anças, ler contos, valorizar tentativas de leitura, fo- mentar conhecimentos a respeito dela, aproveitar o reconhecimento global de algumas palavras e letras privilegiadas (o próprio nome, o nome de produtos conhecidos, etc.). Também é importante aproveitar as perguntas das crianças a respeito do sistema e usar estratégias de atividades nas quais ler tenha sentido. A leitura e os pais: as relações entre crianças, fa- mília e escola são, na educação infantil, mais estrei- tas que em outras etapas. Em alguns países, a esco- la envolve os pais em atividades de leituras com seus filhos. Os pais oferecem um modelo de leitor à criança e às vezes basta sugerir que leiam para eles. Os professores precisariam encontrar formas de implicar os pais para que colaborem nesse sentido. Ler como algo central: Propõe-se seriamente o ensino da leitura na educação infantil e as propostas e decisões em torno disso devem fazer parte do pro- jeto pedagógico. Na educação infantil, a leitura tem um lugar muito definido e amplo. Não se trata de acelerar nada, nem substituir etapas com relação ao conteúdo, "trata-se apenas de tornar natural o ensi- no e a aprendizagem de algo que coexiste com as crianças, que lhes interessa e que se encontra pre- sente em sua vida e na nossa e que não há sentido algum em ignorar". 6 - FORMAR CRIANÇAS LEITORAS/ PRODUTORAS DE TEXTOS: proposta de uma problemática didática integrada Josette Jolibert A problemática geral é uma proposta didática integrada, globalizante, que abarca aprender a ler e produzir textos, desde a educação infantil até o tér- mino do ensino básico. Aprender a ler é aprender a interrogar textos completos desde o início: ou seja, texto entendido como superestrutura completa que funciona em si- tuações reais de uso. Não oferecer textos completos às crianças prejudica seu desenvolvimento. Ler é interrogar um texto, ou seja, construir ati- vamente um significado, em função de suas ne- cessidade e projeto a partir de diferenças chaves e estratégias pertinentes articuladas. Isso não signi- fica trabalhar com questões de interpretação de texto, mas sim que a criança interroga o texto para formar significado. Toda a aprendizagem é processo de autocons- trução da estruturação de uma unidade completa desde o início, portanto deve-se proporcionar às crianças, desde os dois anos, a possibilidade de in- terrogar o texto. Não se pode separa aprender a ler, de aprender a produzir. Aprende-se a ler produzindo texto e se aprende a produzir textos lendo, porque são proble- máticas simétricas e dialéticas. Há competências lingüísticas comuns utilizadas tanto para aprender a ler como para produzir textos que permitem traduzir intenções em marcas lingüís- ticas características. Há setes níveis de competências lingüísticas que podem servir para o professor conceber suas ativi- dades, são elas: 1 - noção de contexto situacional (como o texto chega ao leitor); contexto (de onde vem o texto). 2 - principais parâmetros da situação comunicativa (quem e para quem foi escrito e com qual objetivo). 3 - Tipo de texto (como circula soci- almente). 4 - superestrutura que se manifesta em for- ma de organização espacial e lógica dos blocos tex- tuais, o esquema narrativo e a dinâmica interna. 5 - Lingüística textual opções de enunciado e suas mar- cas, os substitutos e conectivos, as redes de signifi- cado. 6 - Lingüística da frase, sintaxe (marcas), vo- cabulário, ortografia e pontuação da frase. 7 - As pa- lavras e as microestruturas que as constituem, grafe- mas, microestruturas sintáticas, microestruturas se- mânticas. Essa marcar lingüísticas servem ao leitor, como pegadas e instalam nos textos os setes níveis de ope- ração e a utilização dela, como informações, para construir significado. Como criar as condições permitindo uma auto-aprendizagem ativa? Organizando, na classe, uma vida cooperativa e pedagógica de projetos e articulando um sistema estratégico com três tipos de atividades: A - situa- ções de vida múltipla, desfrutando o ler e produzir; B - módulos de aprendizagem para que as crianças aprender a enfrentar cada tipo de texto, C - Ativida- de de entretenimento e reforço, enfocados e eleitos singularmente pelos alunos. A elaboração, com os alunos, de instrumentos e conceitualização e de cri- térios de auto-avaliação objetivam construção de competências do leitor, ou seja, suas estratégias. Um novo rol docente com concepções distintas, tais como criar condições para a regulação de uma vida cooperativa, um ambiente estimulante e uma atitude positiva de estímulo. Conclusões: superar a querela dos modelos: pressupõe-se uma concepção holística na qual cada criança aprende em sua relação com o texto. Levar a sério a decodificação, mas não com prática impo- sitiva e de memorização e sim pelo desenvolvimen- to dos sete níveis lingüísticos. Os modelos que há hoje, no campo da aprendizagem de leitura, não são didáticos, mas sim modelos importados que se ela- boram dentro de outro campo, aquela da psicologia da aprendizagem e da psicolingüística, confundin- do investigação dessas ciências com a didática. É urgente constituir e desenvolver a didática com
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 163 SINPEEM uma de investigação científica com postulados pró- prios: 1 - A didática se refere à aprendizagem em sala de aula e à intervenção dos professores. 2 - Re- quer uma investigação por equipe que englobe os diversos profissionais de educação. 3 - O objetivo da investigação didática integra a problemática a partir do ponto de vista da aula, com as fontes teóri- cas. 4 - Os destinatários das investigações são os pro- fessores que intervêm na sala de aula. 5 - Os postu- lados acima podem ajudar a desenhar a formação de professores mais eficazes e criar eixos para novas investigações. EDUCAÇÃO FUNDAMENTAL Seis leitores em busca de um texto Liliana Tolchinsky, Mabel Pipkin Existem diferentes tipos de texto e há diferentes modos de ler. Esses modos resultam de propósitos e cumprem funções diversas. Como foi a atividade pensada: desenvolveu-se em escola em zona urbana marginal de uma peque- na cidade (da Argentina) com as crianças que ti- nham pouco acesso a textos, fora de escola. O professor propôs uma situação de leitura na qual todas as crianças tinham o texto e algumas tinham um papel a cumprir: o detetive (interrompendo a lei- tura quando do surgimento de palavra que não en- tendesse), o questionador (perguntando sobre dados que faltavam para entender o texto), o redator (que resumiria todo o texto no final), o sábio (relacionan- do o texto com outras informações) e o adivinho (que deveria descobrir qual era o final da história). Os antecedentes dessa atividade: A valorização da leitura compartilhada entre alunos e professores que alternam a posição (ensino recíproco de Bro- wn). A leitura seguiu quatro estratégias fundamen- tais: o resumo, as questões, questionamento pessoal e previsão. O sentido da atividade reside na possibilidade de retornar ao texto, efetuando operações distintas. Isto rompe a linearidade da leitura, acessando diver- sos planos do texto literário. Há ato de apropriação do sentido e confronto de opiniões. Além disso, pro- move formas de organizar a comunicação ultrapas- sando a da posição estabelecida professor/aluno. Os textos eleitos foram livros que foram escritos para serem lidos, interpretados, criticados e não aque- les escritos para, supostamente, aprender a ler. Importância do suporte material: o livro verda- deiro, permite a exploração física do suporte, a qua- lidade da impressão, dos desenhos, etc. A atividade tal como foi realizada: Foram for- mados cinco grupos, com crianças de seis anos em níveis diferentes de competência de leitura. A cada sessão, as funções dos alunos eram sorteadas. Nas primeiras sessões a participação do coordenador era muito mais ativa que a do grupo, entretanto com o passar do tempo os alunos passaram a atuar e en- volver-se mais. Para que serviu essa situação? A compreensão de textos é processo interativo e de inferência que requer a construção de modelo mental do significado do texto. O leitor constrói marcos interpretativos para completar o que lê, por- que nunca tudo está explícito no texto. Essa situa- ção permitiu que se construíssem, de forma colabo- rativa, as distintas marcas de ler textos literários. A vivência da tarefa por parte dos professores e dos alunos: Na medida em que as crianças adquiri- ram confiança com a indagação ativa dos textos, expressaram alegria na tarefa. As professoras afirma- ram que a experiência as havia inspirado para novas formas de trabalho. Dúvidas e aprendizagens: Em muitos momentos, a impressão era de que os alunos haviam passado por uma "terapia intensiva", os resultados forma evi- dentes nos alunos e professores. Variações sobre a mesma atividade: a função de leitor pode ser preparada especialmente para crian- ças com dificuldade de leitura; os alunos podem participar da seleção dos textos visitando bibliote- cas ou livrarias; um dos alunos pode registrar por escrito o resumo de cada sessão para ser lido na se- guinte; podem ser definidas mais funções para os alunos; cada grupo pode registrar suas próprias im- pressões, para outras atividades de produção de tex- to e pode ser realizada só com professores, para que vivenciem sua própria posição de leitores 8 - Recantos para aprender a ler Rosa Gil e Maria Soliva Como local para aprender a ler não se entende apenas como a prática de organizar espaços para a atividade em sala de aula, e sim como uma ex- periência didática sobre espaços para leitura. Esses espaços formam parte de um modelo organizador, baseado na autonomia do aluno, no trabalho coo- perativo e na intervenção pedagógica ajustada à con- cepção construtivista da aprendizagem. Aprender a ler: há inúmeros modelos e métodos para ensinar a ler, oriundos de distintas correntes pedagógicas e psicológicas, e em geral realizam prá- ticas aplicadas com excessiva rigidez, controle do processo didático, a partir da perspectiva do méto- do. Parte-se do princípio que aprende a ler é apren- der a compreender o que está escrito e que isso vai além do domínio das habilidades de decodificação. Implica o conhecimento e uso de estratégias para
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    164 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM leitura. O professor, enquanto modelo de leitor para os alunos pode ensinar a diversidade de estratégias que podem ser utilizadas para construir o significa- do de um texto. Por que recantos de leitura? Para aprender a ler, como as outras aprendiza- gens, cada aluno segue seu próprio caminho e ritmo e os recantos de leitura permitem um ensino que se ajuste aos distintos ritmos. Um tempo e um espaço para observar o conhecimento de cada criança Organizar um recanto de leitura na sala, pres- supõe um espaço físico e temporal observando o que cada aluno sabe e que, muitas vezes, o profes- sor nem suspeita. Atender a diversidade, fomentar a cooperação: Nos recantos se reúnem vinte e duas crianças do primeiro ciclo, de anos diferentes, reunindo assim leitores mais avançados servindo de modelos e aju- dando aqueles que estavam no início do processo. Trabalhando juntos a mesma tarefa (buscar respos- tas, ordenar textos, etc.) gera-se o trabalho coopera- tivo e o professor pode atender melhor a quem ne- cessita de sua ajuda. Um tempo e espaço para desenvolvimento da autonomia: Nos recantos os alunos decidem aonde e com quais materiais querem trabalhar. Sendo pro- tagonistas dos próprios trabalhos as crianças se con- centram para as tarefas e voltam satisfeitos para a própria sala. A possibilidade de um acompanhamento indivi- dualizado e de uma intervenção pedagógica mais ajustada ao processo individual de aprendizagem. Nos recantos de leitura é possível observar o com- portamento da criança individualmente, se ela se aventura, se cria hipóteses. Observa-se, também, que cada criança tem um estilo de abordar as tarefas e isso permite que se compreenda melhor de que for- ma interferir. Recantos de leitura: biblioteca e oficina A organização dos cinco espaços mobiliza um total de cem alunos, com quatro tutoras, a professo- ra de reforço e a professora de educação especial. Cada um é responsável por um dos cinco espaços. Os critérios de organização são: a diversidade de nível de conhecimento, a mescla de meninos e me- ninas, diversidade de sala e ano de origem. Tempo e espaço: A atividade tem a duração de uma hora e meia diariamente, os recantos estão distribuídos em 5 salas de aula, cada sala tem três espaços. Áreas curriculares e conteúdos: As áreas traba- lhadas são Matemática e a Língua, através de: lei- tura e reflexão sobre o idioma, escrita, números e cálculos estatísticos, problemas geometria e medi- da, língua oral. Há um plano semanal para orientar os alunos. Um recanto para tornar-se íntimo da leitura: biblioteca. Nela se dão situações de leitura autôno- ma, de acordo com as estratégias de cada aluno, além da potencialização do gosto pela leitura já que os alunos encontram livros, revistas e textos de sua preferência. Um espaço para jogar compondo e decompon- do textos: a oficina: o objetivo é que, através da manipulação de materiais diversos, os alunos cons- tatem que significado do texto varia de acordo com seus elementos. Compara-se com os alunos, essa oficina a uma oficina mecânica, em ambas se des- monta o todo. Os textos são então decompostos, modificados e remontados novamente. A atividade permite avançar no processo de codificação alfa- bética, além de desenvolver habilidades específi- cas de leitura. Concluindo: A infra-estrutura dos recantos per- mite acompanhar o caminho que segue cada aluno na sua aprendizagem de leitura. A natureza das tare- fas permite ao professor interagir com cada aluno planejando estratégias de avanço. Os materiais são um reflexo de um ensino baseado na funcionalida- de e significação de leitura. 9 - Avaliação da compreensão da leitura: uma proposta de observação M. Teresa Bofarull O modelo construtivista de ensino-aprendizagem propõe uma concepção interativa de leitura, que envolve as informações que facilitam o texto e o contexto e os conhecimentos prévios que o leitor possui sobre o texto e o mundo. Para compreender um texto, são necessária estratégias de reflexão so- bre a própria aprendizagem e essas estratégias de- vem ser ensinadas. Para aprendê-las é preferível ini- ciar por uma leitura compartilhada, com o adulto interferindo quando necessário, em voz alta. Antes de serem leitores ativos, as crianças precisam ser ouvintes ativas. Como avaliamos: Aproveitando textos habituais não só da área do idioma, porque isso privilegia a interdisciplinaridade. Serão avaliados três momen- tos: avaliação inicial, para conhecer a bagagem do estudante sobre o tema; avaliação formativa, para verificar estratégias de leitura; avaliação somatória para analisar a aprendizagem realizada. Todas se referem aos progressos, no que diz respeito ao pro- cesso de cada um. Dessa forma as estratégias estão
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 165 SINPEEM centradas na produção, e não no resultado final. Pro- põe-se classificar as estratégias em três grupos: Antes da leitura: Qual é atitude emocional do leitor, tem expectativas altas, tem prazer? O objetivo é ler em voz alta? É buscar informação? Ativa seus conhecimentos prévios? Faz hipóteses? Durante a leitura: usa de sinais do texto para construir significado? Verifica as próprias hipóteses? Reconhece as próprias dificuldades e utiliza recur- sos para superá-las? Depois da leitura: identificou o tema e a idéia principal? Teve compreensão literal, interpretativa? Conseguiu responder questões sobre o que leu? Re- sumiu coerentemente? Destacou idéias principais? A velocidade da leitura foi adequada para que não se esquecesse das palavras que leu? Comentário da proposta: Depois da observação podemos saber se o aluno é um leitor ativo ou passi- vo, se compreende ou não o texto, se tem estratégias de leitura. Isso nos permitirá avaliar se houve apren- dizagem das estratégias necessárias para leitura evi- tando que abandone a atividade de ler. 10 - Educação Fundamental II Eduardo Vidal-Abarca e Gabriel Martinez Rico Quando o aluno tem dificuldade para compre- ender o texto, normalmente se atribui esse problema a ele dizendo que há falta de conhecimento do tema, que não tem estratégias de compreensão, que não conhece o vocabulário, etc. Poucas vezes se atribui o problema ao texto, à sua estrutura e à forma como o autor expôs suas idéias. Nossa proposta não é lo- calizar o problema isoladamente no texto ou no lei- tor, mas sim no processo onde ambos os elementos de conjugam, ou seja, nas inferências que resultam de processos mentais específicos. Processos de compreensão de textos: Para com- preender um texto temos que captar as idéias explí- citas e relacioná-las com idéias anteriores que nos vêem à mente. A leitura então evoca informações armazenadas pelo leitor e depende do seu conheci- mento do assunto. A leitura se dá por ciclos de pro- cessamento, uma frase se conecta à anterior, po- rém nem sempre há algo explicito para que essa conexão se dê, portanto, para ocorrer, necessita de inferências do leitor. Essa construção é chama- da de macroestrutura do texto, é uma estrutura hi- erárquica que parte de relações semântica entre as idéias do texto. O leitor precisa selecionar ou construir uma síntese das informações mais impor- tantes do que está lendo e ao mesmo tempo man- ter ativa essa síntese nos ciclos sucessivos de pro- cessamento que podem requerer inferências adi- cionais. Esse processo requer do leitor dois recur- sos básicos: conhecimento e estratégias. Quanto mais tem de um recurso, menos precisa do outro. Dois tipos de inferências: as relações necessári- as para o entendimento podem estar facilitadas no texto mediante recursos lingüísticos tais como: re- petição de termos, explicitação da relação entre as idéias, etc. Porém quando estão ausentes, o leitor deve estabelecer essa conexão através de inferên- cias de dois tipos: inferências de conexão textual (idéias do texto que estão sucessivas ou próximas) e de conexão intertextual, que implica um processa- mento mais profundo para conectar idéias distantes e são mais dependentes da ativação do conhecimen- to prévio e de uma representação mental mais glo- bal do que aquela descrita no texto. O papel do texto e do leitor nas inferências está relacionado à própria facilitação dela pelo texto. Como favorecer as inferências: mediante formu- lação perguntas do professor, que devem ser de dois tipos: aquelas que favorecem inferências de cone- xão textual e outras, que estimulem inferências extra textuais. As primeiras devem motivar resposta que conectem as idéias sucessivas do texto, para progres- são temática estabelecendo vínculos entre os dife- rentes ciclos de informação. As perguntas efetuadas para promover as inferências extra textuais reque- rem um processamento mais profundo da informa- ção que implica na ativação de idéias prévias. Ativação de conhecimento prévios: através de intervenção pedagógica que não deve oferecer no- vas informações e sim ativar os conhecimentos que o leitor já possui. As auto-explicações: propõe-se ao leitor que vá se auto-explicando aquilo que lê. Esse procedimen- to tem-se mostrado muito efetivo. Classificou leito- res como alto e baixos auto explicadores, de acordo com a contabilização de explicações e paráfrases que se propuseram. O grupo de altos explicadores per- mitiu pontuar melhor o papel da auto explicação na formulação de inferências e consequentemente na compreensão do texto. A realização de inferência faz com a leitura seja realmente uma construção do leitor e se esse conhecimento prévio vai sendo ela- borado explicitamente, é mais provável que o leitor se dê conta que um conhecimento pode entrar em contradição com suas próprias idéias anteriores. Dessa forma se promove um diálogo entre o texto e o leitor. Podem surgir limitações para esse procedi- mento caso os leitores tenham pouco conhecimento prévio e o texto requeira muitas inferências. Um se- gundo problema pode ocorrer se os leitores, embora tenham conhecimentos prévios, produzam paráfra- ses muito superficiais. Nesses casos, o professor deve intervir pedindo aos estudantes que se aprofundem no texto, que expliquem determinadas afirmações do texto ou mesmo que o professor seja modelo com- partilhando suas auto explicações.
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    166 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM 11 - Persuasão oculta: textos publicitários Manuel Cerezo Arriaza Os professores do Ensino Fundamental II, cada vez mais descobrem a rentabilidade didática e o in- teresse que o estudo de textos publicitários no estu- do do idioma. Quando devidamente abordado, cons- titui centro de interesse natural dos alunos. A inda- gação sobre esse repertório de textos permite conec- tar tarefas escolares com a cultura do cotidiano. É necessário discutir conteúdos e finalidades das pu- blicidades, suas conseqüências sociais e a ideologia que comportam. Desenvolver filtro críticos pode ser- vir para construir uma barreira racional face às soli- citações de consumismo que resultam em destrui- ção do equilíbrio ecológico do planeta. O questionamento do discurso publicitário per- mite explorar códigos verbais e não verbais, proce- dimento estéticos e literários, retóricos e narrativos contidos neles. Fundamentação epistemológica: muitas discipli- nas se ocupam de fenômenos de comunicação como objeto de conhecimento, visto que há um formato comunicativo instituído e é vinculado à atividade econômica. Do ponto de vista do idioma e da litera- tura, interessam os aspectos comunicativos e prag- máticos da publicidade, sua intenção diretiva e sua função de promessa de felicidade ao publico alvo. Os analistas das mensagens publicitárias advertem para os recursos inventados pela retórica no plano verbal e iconográfico. Sua ética é flexível, nos limi- tes da enganação entre o mundo real e o da fantasia. Descrição da proposta:objetivos Descoberta dos procedimentos discursivos e a função social da publicidade; construção de conhe- cimento sobre código comunicativos e sua função manipuladora; desenvolvimento de capacidade de expressão e compreensão e das potencialidades cri- ativas; desenvolvimento de atitude crítica, valoriza- ção dos elementos lingüísticos e não lingüísticos do discurso publicitário. Conteúdos e concepções: Componentes e fun- ções do processo de comunicação; interação dos códigos verbais e não verbais; concepção de cam- panha, logotipo, produto, comercial, etc. Procedimentos: indagações sobre a retórica das palavras e imagens; reconhecimento e emprego dos elementos da imagem e da linguagem; análise das estruturas de coerência, coesão e adequação textu- al; detecção dos quadros textuais e da intertextuali- dade dos comerciais. Metodologia e atividades: Exploração das con- cepções e experiências dos alunos em relação ao mundo publicitário. Organizar a classe em grupo heterogêneos, quanto ao nível, para exame do ma- terial. O professor guiará a atividade com uma ficha de análise. As conclusões e observações serão ex- postas ao resto da sala. Analise e criação de textos publicitários: a ficha de análise deverá conter: dados da mensagem, tipo de campanha, idéia, marca, produto ou serviço. Grau de integração entre a marca e produto. Aspectos semióticos:enunciador modelos, hipó- tese do autor. Consumidos modelo; tipo de publici- dade; código predominante (imagem ou texto) ele- mentos sonoros, elementos icônicos e verbais. Elementos textuais: Componentes do processo de comunicação, funções da linguagem, estratégias e coerências textual, procedimento de coesão, es- trutura enunciativa, denotação/conotação, redundân- cias, registros lingüísticos, marcos e transgressões textuais, relações com o mundo, intertextualidade Dimensões pragmática: intenção enunciativa, efeitos de identificação e projeção, atos de fala, con- texto e situação enunciativa, distancia social (formas de tratamento), suposição de conhecimento e em- patias do leitor Elementos de impacto (eróticos, de prazer e eva- são, frustrações ocultas, narcisismo), argumentação lógica e retórica, adequação, eficácia. Leitura crítica: manipulação textual, aspectos legais, valorização ética; repercussões ecológicas, capacidade de impor atitudes e valores, elementos estéticos, valorização global da imagem. Produção de comercial. Proposta da criação de: um anti-anúncio; de uma campanha de conscienti- zação ecológica e de hábitos de saúde. Produção de spot publicitário irônico, de imagens publicitárias, de fundo musical, texto sem palavras, etc. Conclusão: O projeto tem a intenção de mos- trar aos alunos que a publicidade fala mediante imagens devido à força das mensagens que com- portam e que fazem uso de nossa fantasia, alimen- tando o imaginário individual e social. Partir do discurso consumista até alcançar o real, rompendo a ilusão fantasmática. Dessa forma, desenvolver visão crítica de publicidade, substituindo as ilusões e fantasias de desejo por aqueles desejos que são autênticos, tais como aceitar e sermos aceitos, amar e sermos amados. Síntese realizada por Anna Rita Sartore, doutora em educação pela Universidade de São Paulo.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 167 SINPEEM THURLER, Monica Gather. Porto Alegre, Artmed, 2001 Introdução: O Estabelecimento Escolar como nó estratégico da mudança planificada. Em que condi- ções? A obra tenta fazer o balanço sobre os conheci- mentos da pesquisa, sobre as organizações e os pro- cessos de inovação, assim como de uma observa- ção participante conduzida no âmbito de diversos processos de inovação educativa, que compreende todas as ordens de ensino, mas especialmente o en- sino fundamental. Propomo-nos a mostrar que: O sentido da mudança é uma construção indivi- dual, coletiva e interativa, pois ela tem sua lógica própria e varia em função das culturas, das relações sociais e das transações que se estabelecem entre os interessados a propósito de uma mudança projetada. Sejam quais forem sua cultura e seu funciona- mento, a escola desempenha, um papel não despre- zível na construção do sentido da mudança, porque constitue o ambiente do trabalho cotidiano tanto quanto uma comunidade de integração. Organização do Trabalho, Lógicas de Ação e Autonomia Os estabelecimentos escolares, constituem for- mas organizacionais que sobrevivem a muitas mu- danças em sua missão, seu meio, seus recursos e, na renovação permanente dos alunos, dos professores e dirigentes. Quando a busca de estabilidade passa a ser a lógica de uma organização, suas característi- cas positivas têm um custo elevado em rigidez, pro- tecionismo territorial e medo da desordem. Os trabalhos sobre inovação mostram, que a or- ganização burocrática e hierárquica do trabalho, não é o único freio a mudança. Nenhuma organi- zação é tributária de uma só lógica, e a escola se situa na confluência da lógica burocrática e da ló- gica profissional. Existem organizações do trabalho mais abertas que outras à mudança? Como conseguem encontrar um meio termo entre a necessidade de abertura e a tendência natural dos atores em querer preservar equilíbrios estáveis? Há lógicas organizacionais que favorecem a mudança, não como resposta a uma si- tuação excepcional, nem porque seriam mais per- meáveis do que outras às injunções das autoridades, mas por integrarem-na sem crise e sem pressa? INOVAR NO INTERIOR DA ESCOLA Os novos paradigmas organizacionais convidam a ultrapassar o pensamento científico clássico. À visão de um universo como um mecanismo de re- lojoaria opõe-se àquela de um sistema vivo, instá- vel e imprevisível, mais aberto e criador. Vistos sob esse ângulo, os processos de mudança correspon- dem, inversamente, a uma dinâmica instável, ex- pressão de uma multiplicidade de forças em intera- ção que ora convergem, ora se defrontam. Essa ima- gem está mais próxima da realidade do que os mo- delos clássicos. Este primeiro capítulo tenta descre- ver tal evolução, confrontará lógica burocrática e lógica profissional, apresentará os novos princípios organizadores. A lógica burocrática constrói a organização do trabalho sobre uma regulamentação bastante estrita dos papéis e das funções a serem preenchidas. O organograma estabelece relações de autoridade e cadeias hierárquicas explícitas, os membros da or- ganização sabem quem concebe e quem executa. A idéia do estabelecimento escolar como estrutura lo- cal-padrão, é uma resposta burocrática à questão da educação escolar; em um sistema unificado apenas variam o tamanho e, o modo de direção dos estabe- lecimentos. A lógica burocrática é interiorizada pe- los atores, eles percebem seu papel e seu estatuto, sua zona de autonomia, a divisão do trabalho, as relações de poder, a gestão dos processos da mu- dança, os mecanismos de controle, os atores não imaginam poder funcionar de outro modo. Os con- teúdos das lições são definidos, não de acordo com as necessidades dos alunos, mas em função de um número global de horas disponíveis. Tais parâme- tros gestionários representam uma matriz organiza- cional que condiciona a vida escolar, reduz forte- mente o desenvolvimento das competências corres- pondentes, que se incumbem da elaboração e da introdução dos novos programas. Esse modelo per- mitiu ajustar as modalidades de gestão e controle das escolas, assegurando uma certa coerência e uma igualdade formal de tratamento. Ele somente provo- cará mudanças das práticas se a prescrição for tra- duzida de forma clara, for imposta de cima, for com- patível com as práticas já em vigor, etc. Enquanto a lógica burocrática define e impõe procedimentos de trabalho em vista dos objetivos fixados, a lógica profissional limita o trabalho pres- crito em função da complexidade de situações sin- gulares. A lógica profissional na escola, permane- ceu por muito tempo limitada ao relacionamento professores/alunos. Os professores inventam, menos do que pensam, seus gestos profissionais, muito mais se apropriam da trama fornecida pela cultura profis- sional e pela organização escolar. O impacto de tais
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    168 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM fatores é diferente segundo o grau escolar: na escola de ensino fundamental, os docentes desempenham um papel importante, ao passo que a partir do ensi- no médio a ideologia própria de cada disciplina dita as regras de funcionamento. A lógica profissional representa a via menos explícita e formalizada da mudança, é um lento processo de adaptação duran- te o qual as novas práticas se instauram conforme as necessidades. As novas políticas educacionais levam a uma ampliação da lógica profissional, quando os professores são convidados a participar mais em todo o processo de inovação. Entretanto, há o risco de, através da maior autonomia, se reforçar o isolamen- to e o individualismo dos diversos atores envolvidos no processo de inovação. Uma lógica profissional não harmonizada com um bom nível técnico, leva os atores a confiarem mais em suas experiências pessoais do que nas informações que derivam da pesquisa em educação. Alguns sistemas percebem os laços dos novos princípios da gestão pública e os integram em seu discurso oficial, nem por isso pas- sando ao ato no plano das práticas. Em alguns siste- mas, essa orientação torna-se progressivamente da ordem do possível. A organização profissional valo- riza o funcionamento colegial e participativo, os processos de decisão são pesados, lentos e inefici- entes só o que se busca é um amplo consenso. Daí o número limitado de decisões inovadoras. Em nome da colegiatura os atores estabelecem a lógica da con- fiança. Priva-se então de um motor essencial da mudança: a análise lúcida dos funcionamentos, dos êxitos e fracassos de uns e de outros. A lógica pro- fissional aplica-se para apagar as hierarquias. É mais agradável confessar que todos são pares, graças a esse igualitarismo, o clima de trabalho é mais agra- dável, mas é possível haver inovação na negação da heterogeneidade das competências e na recusa de reconhecer uma liderança? Uma organização domi- nada pela lógica profissional é, tão conservadora quanto o conjunto de seus membros. As duas lógicas estruturam o sistema escolar e as escolas. Elas influenciam tanto com a ordem quanto com a complexidade e garantem a estabilidade. Ao reunir as duas lógicas organizacionais a escola do- tou-se de um funcionamento irreversível que a en- cerra em um círculo vicioso difícil de romper. Este círculo vicioso, leva tanto as autoridades escolares quanto os diversos atores a uma estranha dança que só pode resultar no fechamento e no con- tra-senso. É preciso, voltar-se para uma lógica mais flexível e adaptativa, capaz de ultrapassar o saber prático, tácito e artesanal de cada um, que é da ordem da consciência prática. Atualmente, concebemos o excesso das lógicas organizacionais existentes como uma evolução in- certa e local. Os atores devem inventar novas for- mas de organização sem poder referirem-se a um modelo claramente estabelecido. É preciso consi- derar estruturas flexíveis onde tudo se atenue e se adapte à evolução, cada um toma iniciativas que permitem garantir a qualidade. Tanto a coordena- ção e a codificação estrita das atividades quanto o isolamento e o “consenso frouxo” deixam o campo livre a uma lógica de arranjo, que permite a reali- zação de acordos locais não previstos. Existe, pois, uma relação entre a organização do trabalho e a mudança. Quanto mais a escola esteja submetida a injunções de inovação, menos ela poderá regula- mentar sua atividade. Os atores do sistema escolar tentam satisfazer duas necessidades: estabilidade e mudança. A mu- dança os levará a valorizar a flexibilidade e a nego- ciação, não poderão, entretanto, renunciar a um mínimo de estabilidade. Todo sistema escolar à pro- cura de estabilidade proporcionar-se á uma organi- zação de trabalho que lhe permita limitar os riscos. Nossa experiência, mostra que a mudança desen- volve-se nos espaços ainda não programados, a par- tir de novas combinações entre os diferentes recur- sos existentes, em um contexto que reconhece a di- vergência da maneira de pensar e fazer. Essas com- binações organizam-se a partir da intuição, do en- gajamento e da “ousadia”, dos atores do sistema escolar. A maneira pela qual eles construirão o - sen- tido da mudança – depende da flexibilidade organi- zacional que lhes permitirá ou impedirá de integrar os novos conceitos. Transposto ao sistema escolar e, à escola, isso leva a um modelo de organização do trabalho que, fica menos burocrático e mais centra- dos nos funcionamentos informais. As regras de or- ganização são definidas em função da natureza das questões a resolver, a destinação de tarefas é variá- vel e modulável conforme a quantidade e a nature- za dos problemas, a capacidade e a vontade dos ato- res de mobilizarem-se para um projeto. Isso também significa que as escolas variarão no plano de seu ní- vel de desempenho, enquanto se adaptarem a seu meio e explorarem novas vias para melhorar seu pro- cesso pedagógico. Tais configurações são novas, alguma equipes de professores tentam, há anos, romper com a forma escolar tradicional, tais tentativas isoladas estiveram, na maioria das vezes, destinadas ao fracasso, pois permaneceram confinadas em um espaço muito li- mitado de flexibilidade para “irem ao fim de sua ló- gica” . Por conseguinte, é lícito esperar que os esta- belecimentos escolares que se voltam para esse tipo de nova configuração desenvolvam uma série de características que modifica favoravelmente a cons- trução do sentido de mudança. Quando as escolas funcionam de acordo com uma lógica flexível, os professores são levados a de- senvolver uma série de competências que lhes per-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 169 SINPEEM mitem transformar a pedagogia. Em termos de orga- nização do trabalho, significa que os professores se libertem das coações internas, que eles se conce- dem o direito de se organizarem de outro modo. Uma organização flexível introduz uma visão diferente da divisão do trabalho, as tarefas são analisadas e de- signadas de modo flexível, e não de acordo com re- gras e prerrogativas estabelecidas pela tradição. A gestão por redes oferece um meio não apenas de assegurar a informação e o confronto entre os di- versos grupos de atores, mas, de permitir-lhes uma compreensão sistêmica das dinâmicas implicadas; o sentido é construído por intermédio desta compre- ensão, ao sabor das controvérsias empreendidas e das experiências feitas por uns e outros. Isso pode permitir que se veja mais longe e que se conscienti- ze que, outros colegas, trabalhando em outras esco- las, encontram problemas semelhantes, mas os per- cebem e resolvem de maneiras distintas, o que pode gerar novas idéias. Nenhuma pessoa ou instituição é completamen- te autônoma, é importante, particularizar com muita clareza o terreno de autonomia buscado pelas esco- las. Diante da grande diversidade das realidades e das necessidades do campo, a atitude predominan- te consiste em não mais investir energia para pro- duzir uma aparência de homogeneidade, ao con- trário, aceitar que possam existir modalidades or- ganizacionais diferentes dentro de um quadro co- mum aceito pelos parceiros. As escolas assumem a responsabilidade de desenvolver os dispositivos de ensino-aprendizagem apropriados em função das necessidades locais. Trata-se, da vontade explícita de uma flexibilização em favor de uma maior liber- dade de ação e decisão concedida aos indivíduos e/ou escolas. Alguns esperam que a descentraliza- ção leve os atores a resolverem os problemas com mais criatividade e responsabilidade, assim como a desenvolverem soluções menos caras. Imaginam que a diversidade de soluções introduzirá uma cer- ta competição e, aumentará a busca de qualidade nas escolas. Outros temem que a competição acar- rete conseqüências nefastas, em função de egoís- mos e disputas de poder. A escola é um lugar de exercício do poder, estru- turado pelas estratégias de atores e seus jogos de poder. Dessas relações de poder depende, a autono- mia da qual cada um dispõe. As relações de poder nunca se estabilizam, qualquer novo acontecimen- to pode ameaçar os equilíbrios estabelecidos. A ino- vação é sempre suspeita de provocar uma ruptura nesta relação de poder pré existente. Portanto a ques- tão de saber quem se beneficia com a mudança é sempre pertinente. As relações sociais são arranjos que permitem viver em paz relativa com os outros, a mudança pode ameaçar esse arranjo, dividindo grupos, mar- ginalizando professores, etc. A inovação modifica os dados do problema e os arranjos que permitiam o modus vivendi, que deve as vezes ser reconstruí- do integralmente. É nesse sentido que os proble- mas produzidos devem levar os atores a se empe- nharem na busca constante de coerência, é uma questão de justiça e de justeza. A construção do sentido de mudança é fortemente influenciada por esse mecanismo. Diante dos problemas de poder, de princípios de justiça e de território, a inovação leva os atores a empenharem-se na negociação e no regateio, a fim de construir novos acordos e convenções. Autonomia parcial significa: projeto coletivo ori- ginal, explícito e negociado entre os parceiros no âmbito de um conjunto de direitos e obrigações, re- lativamente ao Estado e suas leis. A autonomia das escolas deve ser concedida com um equilíbrio entre regulamentos centralizadores e iniciativas locais, o sistema limita-se a prescrever os eixos de orientação e os regulamentos, e pede às escolas para explica- rem como trabalham nos campos que acabam de ser evocados, se estabelece um sistema de acompa- nhamento e de avaliação externo que permite con- trolar a qualidade e a coerência da aplicação nos diversos estabelecimentos. A autonomia parcial levará, professores e direto- res de escolas, a afinarem os meios de auto regula- ção para alcançar os objetivos fixados, não só para eles mesmos como também para prestarem contas a seus parceiros externo. Após a primeira fase de concepção e de elabora- ção do projeto, o exame da realidade obriga, a redi- mensionar as exigências de uns e outros, o que exi- girá negociações para clarificarem as representações, e as novas responsabilidades que estas acarretam. Uma gestão que conceda mais autonomia às es- colas faz emergir um novo problema: como se vai, como se pode administrar a diversidade? Tais ques- tões, tornam-se centrais quando a ação de projeto confronta os diversos parceiros com o indispensável controle de qualidade. No contexto de uma organização do trabalho, a avaliação baseia-se na maneira como os atores obe- decem às regras. Um dos grandes equívocos que espreitam as escolas consiste em crer que a autono- mia concedida lhes permitirá fugir de toda obriga- ção de prestar contas, no entanto, mais autonomia implica também em mais responsabilidade e trans- parência. Para que o sistema escolar permaneça ad- ministrável ele é levado a estabelecer anteparos ca- pazes de garantir a coerência da ação pedagógica, visando a: definir a qualidade dos serviços realiza- dos; observar e avaliar os processos e condições básicas que determinam esses serviços realizados; colocar o resultado desse processo de avaliação a serviço dos desenvolvimentos ulteriores.
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    170 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM A avaliação interna começa com um diagnósti- co empreendido, pelos professores e a direção da escola, a forma mais simples consiste em conduzir uma análise do funcionamento do estabelecimento escolar, consegue-se assim recolher um conjunto de dados que permitirão compreender melhor como a escola reage em face da mudança, antecipar proble- mas, compilar as estratégias de resolução, definir prioridades e os critérios de êxito para avaliar a efi- cácia dos procedimentos, prestando contas de seu funcionamento, uma equipe de professores, conci- entiza-se de suas forças e fraquezas. Esse passo não é fácil, exige, uma capacidade de descentração e vontade de mudança que não prosperam por si. Eis porque a avaliação interna só é realizável quando é acompanhada pelo desenvolvimento de um clima de confiança dentro da escola, sua construção deve preceder o estabelecimento de uma avaliação inter- na. A avaliação interna constitui uma condição bá- sica da transparência e da avaliação externa. Não se trata de distribuir boas ou más notas, nem de ceder à última moda, mas sim a construção de um sistema escolar que permita a reflexão perma- nente sobre a eficácia das práticas, este é o objetivo principal de uma avaliação externa. O sistema edu- cativo só confiará na auto avaliação dos professo- res, se a sua lucidez estiver acima de qualquer sus- peita, tendo sido feita com total profissionalismo. A mudança bem sucedida não é conseqüência da simples substituição de um modelo de gestão antigo por um novo. Trata-se sim do resultado de um processo de construção coletiva que tem sentido quando os atores se mobilizam, conseguem ultra- passar os jogos estratégicos e as relações de poder habituais para criarem e desenvolverem novos re- cursos e capacidades que permitirão ao sistema gui- ar-se ou tornar a se orientar como um conjunto hu- mano e não como uma máquina. A Cooperação Profissional A cooperação profissional não corresponde ao funcionamento da maior parte dos professores e dos estabelecimentos escolares, o individualismo perma- nece no âmago da identidade profissional. Entretanto, na maioria das escolas, já se verifi- cam mudanças. Na busca de dispositivos de ensino – aprendizagem, os professores trabalham mais em equipe, por outro lado a maioria dos sistemas edu- cacionais aplica-se em reformas que incitam uma maior cooperação entre os professores. O modo de cooperação profissional inscritos na cultura de um estabelecimento escolar influenciam a maneira como os professores reagem em face de uma mudança. Os modos de cooperação profissio- nal seguem algumas tendências mais ou menos co- muns, a saber: Individualismo – oferece aos professores uma esfera quase “privada” contra os julgamentos e as intervenções externas. o professor operando sozinho introduz mudanças eficazes em suas classes. Balcanização – em algumas escolas, os profes- sores tem a tendência de associarem-se, mais, a de- terminados colegas criando grupos, cada grupo de- fende suas posições em detrimento das idéias de outros, o consenso é praticamente impossível. Grande Família – um modo dentro do qual os membros do corpo docente chegam a uma forma de coexistência pacífica, que garante o respeito e o re- conhecimento do outro, conquanto que cada qual se submeta a um determinado conjunto de regras explícitas ou implícitas. Colegiatura Forçada – este modo de relaciona- mento ocorre onde a direção impõe procedimentos, cuja finalidade é levar os professores a concederem mais tempo e atenção à planificação e a execução de uma inovação, tende a provocar desconfiança e estratégias defensivas. Cooperação Profissional – pode ser conceituada como um certo número de atitudes que devem ser construídas a fim de criar: o hábito da ajuda e do apoio mútuo; um capital de confiança e franqueza mútuas; a participação de cada um nas decisões co- letivas. Essas atitudes representam uma clara evolu- ção em relação aos funcionamentos mais individua- listas. Convém lembrar que a cooperação profissio- nal só se torna possível pela vontade obstinada de voltar o essencial do processo para a perseguição de um objetivo comum que vise à ampliação das com- petências individuais e coletivas que garantam o bom resultado dos alunos. A Relação com a Mudança na Cultura do Estabelecimento Escolar Cada escola tem sua própria atmosfera, como reflexo de cultura, exerce uma forte influência sobre aqueles que ali trabalham. A cultura de uma escola é construída pelos atores, mesmo que essa constru- ção permaneça, em grande parte, inconsciente. Ela é a soma das soluções que funcionaram bem para acabarem prosperando e serem transmitidas aos re- cém chegados. A mudança é uma categoria básica do pensamento, até os professores mais conserva- dores formam projetos de mudança. A maneira como cada um pensa a mudança, funda-se em uma histó- ria pessoal e na integração a diversos grupamentos sociais, a cultura inerente a cada escola contribui também para influenciar cada um, ela é um código comum, que permite ficar no mesmo comprimento de onda quando sobrevem uma reforma. De acordo com a situação do estabelecimento escolar e de suas culturas, pode-se prever que algu- mas reformas estariam destinadas ao fracasso antes
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 171 SINPEEM mesmo de terem começado, a cultura local deter- minará as necessidades sentidas, a maneira como os professores irão julgar o valor da mudança, intera- gir, tentar e confrontar suas experiências. A cultura não tem chefe, mas os dirigentes e os professores que exercem liderança podem modificá-la progres- sivamente. Frente a uma inovação prescrita pelo sis- tema, a cultura da escola sugere prioridades que in- fluenciam a interpretação do programa. Quanto à eficácia, é objeto de diferentes percep- ções, uma vez que, nem todos têm a mesma idéia do que torna a escola eficaz. A evolução da cultura depende da maneira como o corpo docente consegue manter uma reflexão e comunicação em torno dos problemas profissionais. Cria-se uma dinâmica pela qual os atores conciliam seus objetivos, negociando em relação aos objeti- vos visados, construindo o sentido da mudança. Um Estabelecimento Escolar em Projeto As escolas que produzem efeitos notáveis sobre as aprendizagens dos alunos apoiam-se nas mudan- ças que o sistema educativo introduz, aproveitam- se das reformas do sistema educativo, a não ser que as orientações de fora estejam em forte contradição com sua cultura. Tal atitude supõe, que as escolas desenvolvam as competências e posturas necessá- rias para definirem seus objetivos e construírem um projeto comum. A existência de um projeto local poderia, constituir um fator favorável às reformas de conjunto, substituídas pelo projeto de estabele- cimento escolar, aumentando a oportunidade de uma aplicação das reformas. Essa visão da mudan- ça dos sistemas escolares oferece uma perspectiva dinâmica. Nessa perspectiva, o desenvolvimento escolar é percebido como um processo que permi- te às escolas assimilarem as mudanças exteriores a seus próprios objetivos. Nos interrogaremos, aqui, mais sobre o estabe- lecimento escolar em projeto, do que sobre o “pro- jeto de estabelecimento escolar” desenvolvido por administrações centrais que de tanto normatizarem a ação de projeto correm o risco de esvaziá-la de seu sentido. A realidade da escola é feita de urgências, e mui- tas decisões são tomadas na incerteza. Diante de tal realidade, uma parte dos atores investe em um pro- cesso de projeto para lutar contra a desmotivação e a avareza mental, fixando-se metas coletivas. Mui- tos sistemas escolares incentivam os estabelecimen- tos a colocarem seu projeto por escrito, os estabele- cimentos vêem-se, assim, levados a explicitar o que, habitualmente, permanece implícito. Mas, afinal, o que é exatamente um processo de projeto? O proje- to é a imagem de uma situação, de um estado pen- sado que se tem a intenção de alcançar. Nas socie- dades modernas, a idéia de projeto tornou-se inse- parável de nossa visão da ação e do sentido da ação seja ela individual ou coletiva. As novas modalidades de gestão transformam necessidade em virtude; já que não se pode impedir os indivíduos e os grupos de terem uma identidade, um projeto e estratégias, é melhor reconhecê-lo e integrar, transformando-o em vantagem gestionária, propiciando maior controle. Essa abordagem consti- tui os membros de um mesmo estabelecimento es- colar como ator coletivo, o que os obriga a se colo- carem em busca de um projeto comum. Quem pen- sa são indivíduos que, converterão o processo de projeto em ilusão ou ferramenta para a ação. Sobre essa base, parece-nos possível apostar no processo de projeto na escala dos estabelecimentos escola- res, visto que ele contribui para a construção coope- rativa da mudança. O projeto educativo corresponde ao projeto como visada simbólica, como orientação global. Se ele existe e os professores a ele aderem, embasa o projeto de estabelecimento . O projeto de estabelecimento escolar está mais próximo de um programa de ação que envolve o ator coletivo, constituído pelos professores que tra- balham naquele estabelecimento escolar e que, se tornou pessoa moral. É importante que a maioria dos professores associe-se a um projeto de estabeleci- mento escolar para que ele seja digno desse nome. A preocupação de clarificar o projeto educativo comum leva uma comunidade pedagógica a inda- gar-se sobre sua identidade. Isso leva a enunciar va- lores que vão inspirar a ação. Um projeto educativo ao qual os professores ade- rem convocará, uma mudança organizada que cha- maremos aqui, de projeto de estabelecimento esco- lar como programa de ação, cujas componentes de- finiremos do seguinte modo: uma fixação na história da organização e seu meio; um objetivo ambicioso a médio e longo prazo; um código de valores; cená- rios para realizar o objetivo principal; um plano a médio prazo e um plano de ação; dimensões econô- micas, sociais, culturais e pedagógicas; uma inten- ção de comunicar-se e de avaliar; uma vontade ex- plícita de capitalizar e teorizar a experiência. Um projeto de estabelecimento pode, fixar-se em um projeto educativo explícito ou implícito. A ação inovadora corre o risco de esvaziar-se de seu sentido se o projeto não se transformar em um processo. O processo de projeto não é um fim em si, mas, um dos componentes do estabelecimento es- colar que contribui para tornar os professores atores da construção do sentido da mudança. O projeto de estabelecimento escolar é levado a funcionar com três dimensões: capacidade individual e coletiva de se pro-jetar (lançar) em um futuro in- certo; identidade dos signatários do projeto; repre-
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    172 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM sentação coletiva, já que se trata de um processo de exploração cooperativa. Quando o projeto de esta- belecimento escolar leva em conta essas três dimen- sões, ele passa a ser uma ferramenta de mudança, de aprendizagem organizacional. Evocamos várias vezes a importância decisiva da coerência interna entre valores e ações, quando é o caso, é visível, para os alunos, que seus professores perseguem os mesmos objetivos e os acompanham em um percurso de aprendizagem cuja meta é par- tilhada por todos. Não se deve confundir projeto com plano de ação, um projeto deve evitar a definição de um plano de estudos demasiado estreito e rígido, deve permitir ajustes tanto nas estruturas quanto nas práticas. O importante é que subsista um quadro es- tável, que protegerá da dispersão e de um ativismo extenuante, mais ainda, não seja utilizado por al- guns para fins de tomada de poder. O essencial con- siste em estabelecer alguns princípios organizado- res do pensamento e da ação. Um projeto de estabe- lecimento escolar terá maiores chances de êxito quando os objetivos visados forem realistas. Para que um projeto possa fazer a diferença, é necessário que ele se inscreva na “zona de desenvolvimento proxi- mal” dos atores e seja capaz de penetrar em seus campos de consciência, é indispensável determinar tal “zona” a fim de saber a quais desafios é possível se exporem, para chegarem a transformações da iden- tidade coletiva que permitam a utilização dos novos saberes de forma duradoura. Os projetos garantem um desenvolvimento das competências profissionais que baste para produzir efeitos duráveis? Os projetos estão fundados em uma avaliação suficientemente sutil da pertinência das prá- ticas em curso e garantem um acréscimo de valor? Se essas possibilidades forem mal avaliadas é provável que o aluno não obtenha o beneficio es- perado da situação com que se acha confrontado. Para que a situação seja portadora de sentido, a mudança prevista deve estar próxima de suas pre- ocupações, oferecendo, uma impressão de ruptu- ra com as rotinas. Entre investimentos a longo prazo, e resulta- dos imediatos, a ação educativa muitas vezes he- sita. A lógica “asseguradora” pode assim, parecer a única em condições de criar a calma para enca- rar ações inovadoras. A multiplicação dos projetos de estabelecimen- to escolar fez evoluir a maneira de trabalhar em conjunto. Ao projeto como forma social, associam- se diversas práticas , reconhecidas como caracte- rísticas. Não é pequeno o risco de ver a adoção dessas práticas fazer as vezes de projeto de estabe- lecimento escolar. É importante associar os proces- sos de projeto a uma avaliação interna que verifi- que a coerência entre os objetivos visados e as ações empreendidas. Estando a cultura de cooperação e a do projeto desabrochando, grande parte dos projetos nasce na mente de algumas pessoas conquistadas pela idéia, é verdadeiro para os projetos “espontâneos” e tam- bém para os projetos “solicitados” pelas autoridades escolares. Em ambos os casos, a questão é saber como passar da iniciativa de alguns a um consenso tão amplo quanto possível sobre o principio, o con- teúdo, e as orientações de um projeto de estabeleci- mento escolar. Durante o período em que a maioria vai aderindo a um “projeto de projeto”, manifestam- se oposições, agravos, tomadas de poder, alianças e clivagens sem grande relação com o conteúdo. Pro- curar obter a adesão entusiasta de 99% dos profes- sores da escola condenaria, qualquer projeto a ser rapidamente abandonado, em geral dá-se a partida com uma minoria ativa. Quais os fatores que deter- minam a adesão? A adesão só ocorrerá se os interlocutores pude- rem entrever a manutenção de suas experiências ou a abertura de demais caminhos de acesso a vanta- gens simbólicas ou materiais é durante esta delicada passagem, da concepção por uma minoria à adesão coletiva, que se executa uma das etapas decisivas do projeto. Administrar essa etapa com atenção ga- rante uma saída melhor para o projeto, baseada em confiança relativa, garantindo sua razão de ser, tan- to no presente quanto na continuidade. A mobiliza- ção geral da maioria, o consenso na análise prévia das necessidades e a identificação coletiva dão lu- gar às divergências e à dispersão das forças nos mo- mentos difíceis e precipitam os atores em uma fase de turbulências que pode representar um simples vazio do processo de implementação. Numerosas equipes desistem diante da ausência de efeitos a curto ou médio prazo, ou mesmo diante da resistência dos principais interessados: os alunos. Mesmo um pro- jeto de estabelecimento escolar que obtenha a con- cordância e o apoio de grande maioria dos parcei- ros não tem garantia de sua longevidade. Um proje- to de longa duração nunca será totalmente aplicado por aqueles que o elaboraram. É necessário conce- be-lo de maneira que seja possível fazê-lo durar, e utilizá-lo como instrumento de integração de recém chegados. o projeto como explicação de uma iden- tidade coletiva não significa fechamento sobre si mesmo mas sim, abertura para o futuro e para fora. Liderança e Modos de Exercício do Poder Os processos de mudança não se desenvolvem por si mesmos. Necessitam de uma orquestração ati- va, a mudança choca-se com ações igualmente de- liberadas para bloqueá-las. As influências não pro- vêm unicamente daqueles que detêm uma autorida- de formal. As noções de líder e de liderança referem-se mais
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 173 SINPEEM a uma influência real sobre o curso das coisas do que ao estatuto dos que a exercem. Qualquer mem- bro de uma comunidade exerce, de vez em quando alguma influência, alguns com mais freqüência do que outros, o que caracterizará uma liderança se esta se mostrar regularmente sobre as decisões de um grupo. A noção de liderança como influência regu- lar define o líder, como “aquele que exerce uma li- derança em um determinado contexto”. Os estabelecimentos escolares que se engajam em um processo de mudança deverão construir uma nova visão da gestão das relações de força e, se pos- sível, substituir a liderança autoritária por uma lide- rança cooperativa. A idéia de liderança cooperativa designa uma liderança assumida de modo coopera- tivo por um conjunto de atores, nenhum dos quais é líder formal ou informal o tempo todo, mas esta aber- tamente voltado para a ação comum. A liderança cooperativa rompe com a organização clássica do trabalho dentro de um estabelecimento escolar, os membros do grupo acham-se investidos de tarefas ou de funções que eles assumem sem monopolizá- las duradouramente. A liderança cooperativa não reconhece hierarquias estáveis nem líder permanen- te. A liderança é entendida como uma força de trans- formação cultural e de desenvolvimento. Ela não suprime a função de diretor de escola, mas redefine, o papel consistiria em tornar-se aquele que faz as competências emergirem, facilita a concepção e a aplicação de novas modalidades organizacionais, ele orquestra a ação coletiva para que esta possa tender para a transformação das práticas. A liderança cooperativa produz para cada pes- soa uma sobrecarga de trabalho, daí a necessidade de estabelecer uma instância de coordenação res- ponsável por: acompanhar os esforços de coloca- ção em prática; informar todas as partes envolvidas sobre o processo em curso; aproximar e ligar os di- ferentes grupos de trabalho; organizar e animar as sessões; instituir instâncias de conversa; criar luga- res de decisão e de regulação. O papel dos líderes leva-os a verificar constantemente se os diferentes membros do grupo conseguem aderir aos objetivos visados, se estão convencidos de que as apostas va- lem a pena e pensam que eles têm mais a ganhar do que a perder. O Estabelecimento Escolar como Organização Aprendente Um estabelecimento escolar pode ou não favo- recer a mudança, é sua capacidade de adquirir ex- periência que o torna uma organização aprendente, adotam uma abordagem mais positiva e profissiona- lizante, centrada na obrigação de competências, vi- sando à evolução tanto das representações da pro- fissão quanto das práticas pedagógicas e à transfor- mação da dinâmica do estabelecimento escolar, em uma coesão essencialmente pedagógica, constituin- do este último em organização aprendente. O estabelecimento escolar é definido como um grupo de professores que assumem a responsabili- dade de desenvolver os dispositivos de ensino-apren- dizagem mais eficazes. No desenvolvimento organizacional, os proje- tos de formação comum limitam-se a alguns semi- nários durante os quais os professores têm a ilusão de construir uma cultura comum em relação a um tema que lhes parece central, eles imaginam que realmente conseguirão modificar sua práticas, en- quanto observadores externos notam apenas mu- danças insignificantes. Já, o desenvolvimento profissional ressalta as necessidades e apostas das pessoas que coexistem e cooperam dentro de um estabelecimento escolar, esboçando e realizando um projeto coletivo. Tal in- terpretação da formação contínua coloca os atores do estabelecimento escolar no centro do processo de desenvolvimento e o liga à mudança. De acordo com esse modelo, os professores são percebidos como membros de uma organização so- cial, co-responsáveis por seu desenvolvimento ulte- rior. Visto que são responsáveis de seu desenvolvi- mento profissional, os atores transformam suas ne- cessidades, formulando projetos coletivos e inves- tindo-se em sua aplicação. Para aumentar a eficácia da ação organizada dentro de uma instituição, é necessário compreen- der sua cultura, é indispensável que os atores me- çam a dinâmica e a complexidade do funcionamen- to coletivo para depois decidirem e colocarem em prática novos funcionamentos. A ação organizada não é redutível às aprendi- zagens individuais , trata-se de um sistema de aprendizagens coordenadas, sendo suficiente para fazer funcionar o conjunto, porque é de sua capa- cidade de transformar-se em organização apren- dente que depende o resultado de uma maior efi- cácia da ação coletiva. Conclusão O estabelecimento escolar é um nível determi- nante do destino reservado aos projetos de mudan- ça, porque é ali que os professores trabalham e cons- troem o sentido de suas práticas profissionais, bem como as transformações que lhes são propostas, ve- nham elas de dentro ou de fora. Seu resultado será coerente relativamente à cul- tura e às relações sociais instituídas, nas quais as conversações se estabelecerão em torno desse novo objeto, a partir das tentativas e das reposi- ções em discussão que uns e outros devam ou queiram permitir.
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    174 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM Na verdade a mudança leva tempo e só se rea- liza por etapas, conforme as quais os profissionais criam vínculos entre seus saberes de experiência e as novas idéias. O processo de mudança é, pois, um assunto de evolução conjunta dos valores, crenças, conceitos e práticas. Ao começar este trabalho, já estávamos conven- cidos de que o sentido da mudança não é imposto, não é dado de antemão nem é imutável. A mudança é construída na regulação interativa entre atores. Se a hipótese construtivista é válida não apenas para os indivíduos, mas para as coletividades, como conseguir comprometê-las em um processo de cons- trução coletiva de longa duração? Numerosos fóruns, publicações e debates são dedicados a essa problemática. Apesar dos debates, parece-nos que, nos encontramos atualmente, bem no início de um longo processo de “profissionaliza- ção” das práticas de inovação, seja na escala do sis- tema, do estabelecimento escolar ou da classe. Tal processo levará todos os atores a conduzirem a es- cola na aventura de uma “organização aprendente”. Nessa aventura, o estabelecimento escolar pode e deve representar um nó estratégico. Resumo realizado por Elizabeth Mariza Marinho, professora, alfabetizadora e membro permanente do Fórum do Ensino Fundamental. TORRES, Rosa Maria. São Paulo, Editora Papirus, 1994 O livro apresenta uma visão do estado atual do Ensino nos países da América Latina, visando a me- lhoria da situação educativa e propicia a dimensão do saber no processo educativo. Este livro convida o leitor a refletir sobre o que se entende por Currículo e Conteúdos Curriculares e a prática docente no cotidiano escolar. Objetivo e alcances deste trabalho - A autora ten- ta satisfazer um pedido concreto da Unesco-Orealc conferindo grande atenção a este trabalho, como um documento base que leve à discussão o tema pro- posto, que vincula a dimensão do saber nos proces- sos educativos. Apresenta o enfoque educativo orientado pela NEBA - Necessidades Básicas de Aprendizagem e que foi articulador da Conferência Mundial sobre “Educação para Todos”(Jomtien, Tailândia, março 1990), posteriormente, retomado em Promedlac IV - 4ª Reunião Regional Intergovernamental do Projeto Principal de Educação na América Latina e no Cari- be (Quito, Equador, abril 1991). A respeito do enfoque e dos alcances deste tra- balho é preciso ressaltar: a) a centralização do as- sunto nos “conteúdos curriculares”, tendo como ponto de vista a aprendizagem; b) a concentração dos trabalhos que estão sempre centrados no sis- tema educativo formal; porém, o papel das outras instâncias que intervêm na satisfação das Neba são: a família, o trabalho, a comunidade e os meios de comunicação; é um ponto importante e chave a ser sustentado. O QUÊ (E COMO) É NECESSÁRIO APRENDER? Currículo e Conteúdos Curriculares - Há muitas interpretações de currículos e conteúdos que a au- tora ressalta; observando-os destacamos alguns: às vezes a noção de currículo é reduzida a de conteú- dos e estes, aos planos e programas de estudo.Uma definição ampla abrange conteúdos, objetivos, mé- todos e critérios de avaliação.Muitos consideram como currículo, não somente a instrução, mas as experiências sociais de aprendizagem vividas den- tro do esquema escolar; outros caracterizam o meio escolar como um âmbito de comunicação e a edu- cação como um processo de comunicação, em que concebem os conhecimentos transmitidos no âmbi- to escolar não como “dado”, mas como produto de uma construção dinâmica (a partir dos saberes de cada um). Estas visões amplas de currículo e conteú- dos podem assumir mudanças não só dos conteú- dos, como mudanças nos planos e programas de es- tudo, num sentido mais amplo. A crise da teoria do currículo e o desenvolvi- mento curricular - A crise da teoria clássica do cur- rículo é um tema abrangente em que os especialis- tas e estudiosos propõem profundas mudanças. Re- quer novos princípios, novos métodos que se adap- tem aos novos problemas. Concepções curriculares - Concepção curricu- lar determina uma proposta pedagógica, (sobre como se deve ensinar, aprender ou avaliar, o papel dos diferentes sujeitos e seus modos de se relacionar), que se reflete não só no campo educativo, mas no social, no político e no cultural. A elaboração do currículo e a definição dos con- teúdos - surgem como dados inquestionáveis. Ele
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 175 SINPEEM responde e representa recursos ideológicos e cultu- rais definidos através de interesses, visões de mundo e grupos sociais. O processo histórico determina sig- nificado (matérias, áreas, conteúdos, métodos, pro- cedimentos de avaliação.) As “fontes” do currículo - O problema central de todo currículo se coloca em relação a: seleção, organização, apresentação e seqüência do conheci- mento, ou seja, definir o que ensinar, como e quan- do ensinar e avaliar. Para tanto há considerações de diversos tipos e diferentes concepções curriculares, que organizam essas “fontes”: a) Considerações socioculturais (necessidades do aluno e da sociedade); b) Considerações epistemológicas (traços parti- culares das disciplinas a serem ensinadas ou da arti- culação das disciplinas que contribuem para uma área de conhecimento); c) considerações psicopedagógicas (características psico-evolutivas dos alunos e suas competências). O ponto de partida: Onde estamos? Uma educação em “crise” e um modelo peda- gógico obsoleto - A crise educativa é reconhecida internacionalmente, identificada como um proble- ma de qualidade. Associa-se, a uma massificação acelerada que não conseguiu conciliar quantidade e qualidade. As proposições da Promedlac IV reco- nhecem o “esgotamento de um velho modelo edu- cativo que cumpriu sua função, mas que não mais atende a todas as necessidades”. Transmissão e acu- mulação de conhecimentos são características de uma “educação tradicional”. É, portanto, necessária uma mudança profunda e integral, uma vez que, tanto o modelo pedagógico como o modelo educativo, reproduzem-se num cír- culo vicioso. É preciso repensar as questões pedagógicas e curriculares e, especificamente, os conteúdos. O que foi feito no âmbito curricular na América Latina durante os últimos anos - No que diz respeito a mudanças apoiadas nos relatórios e estudos de al- cance regional, a autora apresenta, sinteticamente, o estado da questão no que diz respeito a: a) as inovações curriculares introduzidas; b) a discussão e c) pesquisa a respeito do tema em questão. De acordo com a Unesco/Orealc a respeito das inovações curriculares temos: - Foram introduzidos elementos inovadores nos projetos curriculares e na tecnologia educativa em mais da metade dos países da região, alguns como reformas curriculares, e outros como processo de renovação; - Aumentos na quantidade de pesquisas e expe- riências acerca de novas metodologias de ensino: aritmética, leitura e escrita, tanto para as crianças quanto para os adultos; - Observam-se avanços na iniciação das crian- ças em relação a atitudes, processos e métodos do pensamento científico, embora muitos países te- nham dificuldades para definir e pôr em prática um currículo de ciências, adequado ao nível de criati- vidade e de desenvolvimento cognitivo da educa- ção básica primária; - Em quase todos os países com altas porcenta- gens de população indígena, estimularam-se pro- gramas de educação bilíngüe - intercultural, e in- clusive, em alguns casos, esta educação foi institu- cionalizada, mediante a criação de departamentos especiais; - Os currículos foram atualizados com novas áre- as e novos conteúdos como: educação quanto aos valores e à participação do cidadão, educação am- biental, educação populacional, prevenção ao uso de drogas e à AIDS, educação em saúde e nutrição, direitos humanos, educação para a paz e a compre- ensão internacional. Mencionam como problema, o tratamento mul- tidisciplinar que esses conteúdos requerem e a pre- cária preparação recebida pelos professores para desenvolvê-los. A discussão sobre as questões curricular e pe- dagógica - A questão curricular e a questão pedagó- gica formam um dos campos menos estudados na pesquisa, nas discussões e nas práticas educativas contemporâneas. Por um lado, os setores políticos, intelectuais e corporativos (voz política, econômica e educativa constituem um grande silêncio a respei- to do problema do saber). Por outro lado, o tema dos conteúdos aparece vinculado ao currículo explícito (planos e programas de estudos, textos escolares) e não há preocupações quanto ao conhecimento cons- truído e recriado na relação professor - alunos na prática pedagógica. As buscas e propostas sobre o que fazer - En- tre elas destacam-se: diversificação do currículo, (termos regionais), flexibilidade, descentralização (autonomia, participação), currículo integrado (in- tegrando as disciplinas), currículo formativo (pre- domínio de valores e atitudes sobre conteúdos), vinculação teoria - prática (estudo - trabalho, es- cola - comunidade). A pesquisa sobre as questões curriculares e pe- dagógicas - As conclusões dos estudos são em muitos
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    176 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM casos contraditórias, e no geral são muito escassos os estudos sobre o currículo no que diz respeito a: - como ele é considerado (por professores, pais, alunos) e como funciona na sala de aula; - planos de estudo dos docentes; - como as modificações do trabalho instrucional desenvolvido pelo professor incide na eficácia do processo de ensino- aprendizagem; - avaliação (reprovação e evasão); - o saber dos professores que reportam à falta de preparação para o ensino de matérias específicas, falta de métodos adequados à realidade e às carac- terísticas dos alunos e o desconhecimento de recur- sos metodológicos e de metodologias alternativas para lidar com dificuldades de aprendizado. A realidade da sala de aula: o simulacro da apren- dizagem - Pesquisas mostram o fracasso ou o suces- so escolar existentes de uma margem ampla de ação: A situação sócio - econômica, cultural, nutricional dos alunos e de suas famílias que têm servido de (justificativa) para a inoperância do sistema. Dilemas surgidos em torno da definição dos con- teúdos curriculares - Com a possibilidade de articu- lar diversas alternativas tanto no âmbito curricular como no desenvolvimento curricular, um conjunto de questões tem se colocado: exaustividade/seletivi- dade; homogeneidade/diferenciação; centralização/ descentralização; compartimentação/integração do conhecimento; currículo instrutivo/formativo, o uni- versal/o particular, saber comum/elaborado. Segun- do a autora essas questões, vigentes na região, fre- qüentemente, são falsos problemas. O Enfoque das necessidades básicas de aprendi- zagem (NEBA) - A noção de necessidades básicas de aprendizagem é o apelo a um empenho mundial voltado para satisfazê-las por intermédio de uma educação básica para todos. É o eixo articulador na central da Conferência Mundial sobre “Educação para Todos”. Para tanto, torna-se necessário: a) discutir a proposta quanto às implicações po- líticas, sociais e pedagógicas; b) revisar algumas categorias de análise e inter- pretação; c) identificar e trabalhar dentro de um contexto mundial, as especificidades da América Latina. As necessidades Básicas de Aprendizagem (NEBA) - artigo primeiro da “Declaração Mundial sobre Educação para Todos”. Definição resumida no Glossário da Declaração: “Necessidades básicas de aprendizagem: conhe- cimento, capacidade, atitudes e valores necessários para que as pessoas sobrevivam, melhorem sua qua- lidade de vida e continuem aprendendo”. Os conteúdos curriculares e as NEBA - A lingua- gem (as artes lingüísticas, o discurso) - Ao se compa- rar planos e programas de estudo da área da lingua- gem no primeiro grau, em diferentes países, verifica- se uma coincidência significativa quanto à formula- ção de objetivos, conteúdos, conceitos, procedimen- tos, valores e atitudes. Ao completar o primeiro grau (EF), as crianças deverão ser capazes de expressar- se, oralmente, e por escrito corretamente, de forma coerente compreendendo, totalmente, o que lêem e escrevem, fazendo um uso criativo e crítico de todas as habilidades e formas da linguagem. A realidade está longe do registrado em planos e programas. O mesmo acontece com os programas de alfabetiza- ção de adultos. Com o surgimento de novos méto- dos, maior número de informação e formas de aqui- sição do saber exigem modificar o modelo de acu- mulação de conhecimento, favorecendo um ensino que privilegie a aquisição de mecanismos e méto- dos, permitindo assim descobrir, selecionar e utili- zar novos conhecimentos de compreensão e inter- pretação. Como um componente central em todo currículo, desenvolver em todas as idades os conhe- cimentos, os valores e as atitudes que possibilitem as pessoas a aprender. A operacionalização de um enfoque curricular orientado pelas NEBA - As diversas leituras das pro- postas da Tailândia - Leitura radical da proposta da Tailândia (e da própria realidade da América Lati- na), que visa à necessidade não de uma reforma es- colar, mas de um reforma educativa. Uma leitura crítica da proposta a partir da Amé- rica Latina - As diversas interpretações, enfoques e modelos , em alguns casos, podem conduzir a uma eficiência e qualidade da educação, enquanto em outras instâncias, podem agravar a ineficiência e a baixa qualidade. Trata-se de um esforço maior de contextualização e aprofundamento, assim como uma contextualização no que diz respeito à realida- de atual do mundo. Como entender o “básico” da educação bási- ca e as Neba? - A questão da educação básica e das NEBA trata de uma educação que possa for- mar indivíduos com capacidade para resolver pro- blemas cotidianos, com habilidades concretas, com necessidades vinculadas à sua realidade? Ou uma educação no sentido, eminentemente, práti- co que dê respostas imediatas de sobrevivência, trabalho, relações com os outros e com ele mes- mo? Ou ainda, uma educação que forneça as ba- ses para um desenvolvimento que inclua: o pra-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 177 SINPEEM zer de aprender por aprender, o prazer estético, o desfrute pleno da sexualidade? Definir o que é básico, está presente na própria Declaração da Tailândia que incorpora a noção de “alicerce para aprendizagens posteriores”. A pró- pria aprendizagem é uma necessidade básica: aprender a aprender (da própria experiência e da experiência dos outros). É constituir uma matriz básica de conhecimentos, valores e atitudes para que o indivíduo possa seguir um desenvolvimento mais autônomo. Diversidade, heterogeneidade e pluralismo - A diversidade levou ao reconhecimento do hete- rogêneo. Admite-se a diversidade das Neba, em virtude dos diferentes interesses/necessidades dos indivíduos, mas não se admite a existência de inte- resses/necessidades diversos no âmbito do indivíduo, do grupo e da nação. Assim sendo, o sistema educa- tivo pluralista seria um sistema dentro do qual con- vivem múltiplas formas de organização dos proces- sos educativos que podem adotar modelos pedagó- gicos e currículos diversos. A viabilidade da proposta - inércia e mudança em educação - (historicamente, resistente à mudan- ça); a vontade política para mudar ; a crítica do mo- delo curricular e pedagógico vigente; o desenho de um novo currículo; a questão da informação e da comunicação; a questão dos fornecedores/satisfató- rios de educação básica; a questão docente; a ques- tão do ritmo; a questão da revisão curricular perma- nente; a questão da cooperação. Alguns riscos: uma nova “moda”; passar de um pólo para outro; partir do nada ou reproduzir o ve- lho com aparência de “novo”; entender o “básico” num sentido restrito e limitado; mistificar a deman- da educativa; uma “participação, inadequadamente delimitada e indefinida; mudanças parciais, não in- tegrais; deixar intocado o âmbito da produção de textos escolares; fácil e rápida “modelização”* de experiências - * (com o termo “modelização” (mo- delización), a autora sugere a possibilidade de trans- formar experiências práticas em modelos, ao con- trário de se seguir um modelo já existente); uma apro- ximação aos procedimentos; e finalizando, as con- siderações pedagógicas. 1 - NEBA - Necessidades Básicas de Aprendi- zagem 2 - Unesco-Orealc - “Recomendación relativa a la ejecución de los Planes Nacionales de Acción y del Segundo Plan Regional de Acción del proyecto principal de educación en América Latina y el Cari- be 1990-1995” (Promedlac IV) , en Boletin nº 24, Proyecto Principal de Educación en América Latina y el Caribe, Santiago, 1991. 3 - Um evento regional similar, organizado, ime- diatamente, após o seminário da Unesco-Orelac, também no Chile («Encontro Latino-americano de ONGs sobre Educação para todos», Cide-Ceaal, Pun- ta de Tralca, 23-25 de abril de 1992), para discutir a estratégia de «Educação para todos» a partir da pers- pectiva, das ONGS, mostrou o baixo nível de refle- xão a respeito dessa proposta, do movimento latino- americano das ONGS envolvidas na educação. De fato, foi necessário incluir, ao longo do caminho, uma exposição resumida do documento da Tailândia. Resumo revisto por Neusa Cristina Assi, pedago- ga e professora.
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    178 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM VASCONCELOS, Celso. São Paulo, Libertad, 2003 Este resumo terá como finalidade apresentar os aspectos relevantes de cada parte, a partir das pala- vras do próprio autor, considerando os conceitos desenvolvidos ou explicitados por ele, bem como as articulações estabelecidas para justificar sua funda- mentação teórico-metodológica. A avaliação, para assumir o caráter transforma- dor, antes de tudo, deve estar comprometida com a aprendizagem da totalidade dos alunos. Mas, a ques- tão principal não é a mudança de técnicas; passa por técnicas, mas, a priori, é mudança de paradig- ma, posicionamento, visão de mundo, valores. I - Representações e práticas relativas à intencionalidade Reflexão sobre a mudança essencial no sentido da avaliação: a intencionalidade atribuída pelo pro- fessor à avaliação no cotidiano escolar. 1 - Sobre o conceito de intencionalidade – fim que se propõe atingir; acontece no sujeito, não é algo exterior (embora mantenha uma dialética com o mundo objetivo e com os outros sujeitos, já que não se constitui de forma isolada). Corresponde à essên- cia do homem como ser criador, a um impulso ou desejo profundo de transformar. No contexto da ava- liação, trata-se da essencial tarefa de sua re-signifi- cação e da conseqüente mudança de postura frente aos seus resultados. 2 - Centralidade da intencionalidade da avalia- ção – onde estaria o núcleo do problema da avalia- ção? - no seu conteúdo; abrangência; - na sua forma: exigência quantitativa; - na sua intencionalidade: finalidade, objetivos; - nas suas relações: metodologia de trabalho na sala de aula. É importante ressaltar que pode haver mudança no conteúdo e na forma de avaliar, na metodologia de trabalho em sala de aula e até mesmo na estrutu- ra da escola. No entanto, para se tocar no que é es- sência – intervir na realidade a fim de transformar – não se dando enfoque para a própria intencionali- AVALIAÇÃO DA APRENDIZAGEM: PRÁTICAS DA MUDANÇA - POR UMA PRÁXIS TRANSFORMADORA dade da avaliação, pouco adiantará para o contexto escolar e seus atores. A concretização de uma nova intencionalidade é um dos aspectos mais difíceis de serem trabalhado e explicitados na avaliação da aprendizagem. 3 - Representações e práticas dos professores Diante do posicionamento dos professores em relação ao principal problema da avaliação, além das questões de forma e conteúdo da avaliação e das condições de trabalho, há a preocupação com a intencionalidade (que aparece explicitamente na ‘fa- cilitação’ da aprovação e está por detrás da ‘falta de interesse do aluno’). Todavia, essa preocupação passa longe da perspectiva de uma nova intencionalida- de, já que há rejeição explícita em se tocar na atual lógica classificatória. - O professor percebe o aluno com dificuldade e...continua a aula!, pois considera que - não precisa parar: o aluno entenderá mais tar- de ou será encaminhado (recuperação, direção, ori- entação, coordenação, supervisão, psicólogo etc); - não adianta parar: o aluno não é capar de apren- der ou não merece; - não pode parar: não pode atrasar o programa, dispensar outros alunos ou re-agrupar para não per- der o dia letivo (burocracia, formalismo); - não quer parar: não pára porque entende que isso não é problema dele; - não sabe parar: não sabe ensinar de outra for- ma (formação precária do professor). - Visões sobre as causas da não-aprendizagem – explicações preponderantes entre os docentes sobre o insucesso dos alunos. - Dificuldade na aprendizagem: o aluno está com dificuldade porque “falta base” (problema na apren- dizagem do aluno ou no ensino da escola?); - Dificuldade de aprendizagem: por causa da in- competência (o aluno é “fraco, lento, sem cultura”; por causa da displicência ( o aluno é “relapso, não estuda, é bagunceiro, não faz lição de casa”; por causa da apatia (o aluno não participar da aula, não presta atenção, não se interessa). II - Compromisso com a aprendizagem de todos – esforço de tradução da nova intencionalidade no
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 179 SINPEEM concreto, desenvolvendo atividades, rituais, normas. 1 - Busca de clareza da intenção – com que in- tenção trabalhamos? Que projeto defendemos? Na mudança da intencionalidade, há um duplo desafio: definir a intenção, a finalidade e traduzi-la em práti- cas coerentes. a) Intenção para a Educação – para avaliarmos bem, devemos saber o que pretendemos. E, para isso, precisamos de critérios, os quais advém justamente dos objetivos, da intencionalidade. b) Intenção para a avaliação – historicamente, a função do docente foi associada ao controle, à fis- calização, ao disciplinamento, à medida, à verifica- ção, a ponto de muitos professores considerarem que sua tarefa principal é transmitir conteúdo e logo cons- tatar o quanto os alunos assimilaram, indicando (atra- vés de notas, conceitos ou menções) quais são ‘ap- tos’ ou ‘inaptos’. A avaliação, quando vivida em sua radicalidade, nos permite questionar essa prática: estamos indo bem em direção ao que escolhemos? A própria es- colha continua valendo a pena? - Intencionalidade em conflito - A internalização de uma nova intencionalida- de exige auto-crítica, tomada de consciência, des- construção de crença. No modelo autoritário de edu- cação e avaliação, o pressuposto (implícito) é de que a escola pode não ensinar, ou seja, o professor dar aula e o aluno não aprender, seria norma...Tal cons- truto ideológico é sustentado por uma série de mitos e preconceitos, estratégias, culpabilização da vítima (os alunos não aprendem por problemas de família, sociais, neurológicos etc). Nesse contexto, a avalia- ção, ao invés de ser um processo de qualificar e in- cluir, seleciona e exclui. - A lógica classificatória gira em torno do apro- var-reprovar. No entanto, a tarefa do educador não é ficar discutindo aprovação-reprovação e sim aprendizagem efetiva, desenvolvimento humano. Mas é tão forte a pressão social que, se o profes- sor não tiver as coisas muito claras, sem querer adere ao pólo (reprovação-empurração; ou então fica eternamente oscilando entre os pólos e não faz o que deveria ser feito. - Genealogia da intencionalidade excludente enraizada A intencionalidade seletiva está enraizada nos sujeitos (através das representações, hábitos, valo- res), mas também nas estruturas (através das normas, leis, rituais, ambiente de trabalho), uma verdadeira cultura de exclusão. Podemos inferir dessa trama de relações a necessidade de uma nova ética que é, entre outras coisas, a busca da percepção do outro (seja o ser humano, grupo ou natureza), nas suas peculiari- dades e necessidades para além do micro (antropo- cêntrico, individualista e linear). - Pressuposto do trabalho pedagógico – perspec- tiva democrática e inclusiva: Todo ser humano é capaz de aprender. Se não está sendo, tem de ser ajudado e não rotulado ou excluído. É uma questão de tempo e de forma, de condi- ções diferenciadas de aprendizagem: clima peda- gógico, resgate de representações mentais prévias, forma de apresentação da matéria, estratégias de mediação acionadas, disponibilidade de tempo para o ensino e para o estudo, utilização de mate- rial didático adequado etc. Nesse contexto, as ava- liações que os alunos fazem são a expressão da síntese do conhecimento que estão atingindo, a partir das condições oferecidas. E, se não chega- ram a um nível satisfatório de síntese, não devem ser punidos, mas orientados, retrabalhados e soli- citados a que elaborem uma nova, retomando a anterior como ponto de partida, ao mesmo tempo em que o educador revê suas estratégias e ofertas de situações de aprendizagem. - Mudando o paradigma Para que a avaliação seja um instrumento de aju- da, deve ser re-enfocada desde sua raiz. Muitas ve- zes, tenta-se inovar, mas não se supera o núcleo do problema. No enfrentamento da classificação há uma pseudo-superação que é aquela de ir “aprovando” o aluno para que ele não seja retido “como querem os dirigentes”. Mas o caminho é ensinar; fazer media- ções para que se aprenda. 2 - “Parar”: enfrentando a não-aprendizagem O questionamento é: o aluno não está aprenden- do, e então? O que fazer? Na educação tradicional a solução era simples: reprovava-se. E agora, no novo paradigma, o que fazer se o aluno não está aprendendo? Primeiramen- te, o educador precisa se fazer duas novas pergun- tas: 1) Por que o aluno não está aprendendo? 2) O que podemos fazer para que aprenda mais e me- lhor? a) “Parar”, e logo no começo! Estratégia de regulação do ensino a fim de en- tender, analisar e, a partir daí, retomar, rever, redire- cionar, re-enfocar, re-elaborar, reforçar, repensar, re- planejar, retrabalhar, reconstruir, transformar, mudar, alterar ritmo/abordagem. Essa investigação inicial que o professor faz a respeito da dificuldade do aluno é
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    180 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM influenciada por sua concepção de aprendizagem e desenvolvimento. Ele pode optar por parar ou não. No entanto, não parar para atender o aluno em sua dificuldade é um autêntico suicídio pedagógico. Se o aluno não está acompanhando, e nada é feito, está sendo condenado ao fracasso, visto que a reprova- ção está longe de ser um resultado final; na verdade, ela é construída, paulatinamente, no dia-a-dia da sala de aula (Freitas, 1989). Importância dos momentos iniciais Os momentos iniciais do processo de ensino- aprendizagem têm se revelado como fundamentais. É necessário criar inicialmente um movimento cole- tivo, vencendo a inércia (as resistências e/ou dificul- dades iniciais), sendo que depois cada um pode se- guir seu ritmo, mas a partir de um patamar mínimo garantido a todos. Diante dos percalços do professor e das precárias condições de trabalho, devemos pon- derar que o atendimento que se dá ao aluno logo no início pode repercutir no resto de ano. Papel do erro O erro tem grande importância no trabalho edu- cativo (assim como no científico), porque pode ser visto como um indicador de carências e de inade- quação de estratégias cognitivas, mas também como abertura de novas possibilidades. Essa nova visão sobre o erro tem importante repercussão no posicio- namento do professor em relação à sua prática. b) A questão da “falta de base” Queixa recorrente do professor: “o aluno che- gou na minha turma sem condições da série anteri- or”. Essa reclamação costuma vir de professores que passaram a ser “professores de determinado conteú- do” e não de uma escola, não de alunos concretos: “tem que dar aquele conteúdo e o aluno tem que saber tudo o que supostamente já deve ter sido dado”. No entanto, é preciso que o professor adeque suas expectativas, tendo o aluno como referência (e não um programa formal). Tal posicionamento é impor- tante para superar a “síndrome de falta de base”. c) Construção dialética do auto-conceito Um dos fatores fundamentais para garantir a aprendizagem e a motivação do aluno é acreditar em suas potencialidades, acreditar que é capaz, que tem condições a fim de desenvolver um auto-con- ceito positivo. Essa postura do professor provoca uma importante mudança na postura do aluno: saber que está na escola para aprender e não para “ter aula”; aprender é uma possibilidade e um direito. No en- tanto, fica muito difícil a pessoa manter um auto- conceito se o tempo todo for desrespeitada, domi- nada, ignorada, desprezada. Daí o zelo que o edu- cador tem no que tange as relações interpessoais na sala de aula e na escola. Auto-conceito do professor Embora em outro patamar, é necessário fazer o mesmo com os professores: ajudar a perceberem que são capazes, que podem fazer algo. Se o professor não acreditar em si , muito provavelmente não acre- ditará em seus alunos. Além disso, a atitude de im- perícia ou impotência docente acaba sendo introje- tada no educando. É fundamental que o docente , num exercício de auto-análise, perceba isto como necessidade de formação e busque ajuda para sair da perversa e descabida prática de usar justificativas disponibilizadas na cultura escolar tradicional para culpar o aluno; é preciso que canalize sua agressivi- dade, medo, angústia, insegurança, em atividades construtivas (estudo, denúncia dos fatores opressi- vos, organização política, criação de caminhos, en- frentamento de resistências etc.). d) A questão do tempo: pressa em “cumprir o pro- grama” versus atender às necessidades dos alunos É comum o professor ficar preso ao dogma do ‘cumprir o programa custe o que custar’, mesmo que o custo seja do aluno não aprender. No entanto, se o professor continuar a ser tutelado por essa exigência formal, toda solicitação de uma avaliação mais cui- dadosa carecerá de sentido, visto que quase nada poderá ser alterado diante das constatações feitas. Uma outra queixa do professor é justamente não ter tempo para atender os alunos. Mas não tem cora- gem de romper com a estrutura (circuito alienado); continua usando parte significativa de seu tempo (em sala de aula e em casa) com a classificação do alu- no. É preciso deixar de ser um mero administrador de um esquema anacrônico e equivocado para as- sumir o papel de sujeito, percebendo que existem coisas que, com ousadia e trabalho coletivo, podem ser feitas. É importante a clareza de maximizar o tem- po dedicado à aprendizagem a fim de que a escola cumpra adequadamente sua função social. Atender alunos é preciso, “despejar” conteúdo não é preciso É preciso coragem para subverter a ordem for- mal e burocrática que, com freqüência, toma conta das escolas a fim de cuidar dos alunos com dificul- dades: parar a aula, embora algo simples, revela uma nova concepção de trabalho pedagógico e que pode entrar num saudável conflito existente.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 181 SINPEEM e) Postura frente ao contexto problemático dos alunos Se de imediato, não podemos mudar a condição de vida do aluno, podemos: - mudar a forma de relacionarmo-nos com ele; - ajudá-lo a mudar a compreensão que tem da sua realidade; - combater a pobreza política, profundamente perniciosa (faz com que o pobre não se reconheça como concreto; é excluído, padece, mas não com- preende as raízes da exclusão). 3 - Criação de alternativas para favorecer a aprendizagem Esgotar as possibilidades A escola que assume um compromisso democrá- tico esgota suas possibilidades na busca de ajuda ao educando antes de solicitar um outro segmento, o que significa dizer que não fica no modelo tradicio- nal de transmissão-cobrança-repetição mecânica- cobrança-classificação. Ousar nas práticas É preciso ousar, investigar, procurar caminhos para assegurar a aprendizagem. Existem soluções relativamente simples que estão no espaço de auto- nomia do professor e da escola. São elas: a) Práticas da Instituição Projeto político-pedagógico Construção coletiva do projeto educativo esco- lar, espaço de expressão da intencionalidade do tra- balho. Conselhos de classe Momentos privilegiados para uma reflexão cole- tiva sobre a prática escolar, fortalecendo o compro- metimento com a mudança e melhoria do processo de ensino-aprendizagem. Organização das turmas Sem agrupamento em classes “problema”; supe- ração do critério de homogeneidade; aproveitamen- to das diferenças para estimular a interação entre os alunos. Professor orientador Identificação de um professor da escola que tenha facilidade de aproximação com o aluno que apresenta dificuldades a fim de ajuda-lo na postu- ra, hábitos de estudo, relacionamentos, aprendi- zagem etc. Avaliação do avaliador Aulas assistidas e refletidas junto com colegas, avaliação externa à instituição, reunião pedagógica para avaliar o trabalho etc. Atendimento individualizado A escola se organiza para atender ao aluno fora da sala de aula a fim de trabalhar questões especí- ficas. Laboratório de aprendizagem Investigação das possíveis causas da dificuldade de aprendizagem, desenvolvendo estratégias indivi- duais ou grupais para superação. Abertura a estagiários Fazer parceria com estudantes de curso de for- mação de professores, favorecendo o contato deles com a realidade educacional. Ciclos de formação A própria estrutura da instituição volta-se para as necessidades educativas dos alunos (e não o oposto como faz a escola seriada), respeitando a questão básica dos tempos diversos para a aprendizagem e desenvolvimento. Práticas de transição Ou medidas emergenciais: estudo de férias; es- tudo de dependência; classes de aceleração b) Práticas pedagógicas em sala de aula mediante: Diálogo Professor dialoga com o aluno; desenvolve es- cuta sensível; ajuda o aluno a pensar; investiga a causa da não aprendizagem. Acompanhamento em sala Observação e interação no decorrer do traba- lho em aula; preocupação com a qualidade da in- tervenção. Assembléias de classe periódicas Para refletir sobre a dinâmica do trabalho e das relações em sala. Autonomia do aluno O docente favorece o desenvolvimento da au- tonomia do aluno a fim de que tome iniciativa de como estudar, assuma suas dificuldades na apren- dizagem etc. Atividades diversificadas Grupos de alunos em salas com atividades de acordo com suas demandas.
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    182 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM Expressão dos alunos O professor provoca a manifestação do aluno, incentivando e insistindo para que fale sobre o que está trabalhando. Revisão da proposta O professor revê a proposta de trabalho; entende o planejamento como método de transformação; o projeto de ensino-aprendizagem é um instrumento de reflexão. Avaliação como aprendizagem O objetivo maior da avaliação é qualificar a aprendizagem a fim de saber se o aluno está prepa- rado, se está motivado etc. Responsabilidade coletiva pela aprendizagem O aluno deve perceber que a aprendizagem dele depende também dos colegas. Monitoria Não se trata de fazer pelo colega, mas ajudá- lo a entender o que o professor está dizendo ou pedindo. Avaliação de alunos portadores de direitos es- peciais Não se pode cair na avaliação padrão; não dei- xar de avaliar a fim de não subestimar a capacida- de do aluno aprender, acomodando-se a seu pon- to inicial. Dispensa de parte dos alunos O professor fica apenas com os que estão preci- sando de atenção específica, enquanto os demais têm outra atividade na escola. Auto-avaliação do professor Exercício da autocrítica, da auto-observação; análise de seu prática. c) Sobre as novas oportunidades de aprendiza- gem (tipos de recuperação) Recuperação no ato de ensino Metodologia interativa, aulas participativas. O professor observa o aluno em suas dificuldades e desencadeia abordagens diversificadas do mesmo conteúdo. Recuperação no processo Retomada de assuntos, exercícios, atividades, tarefas; atendimento durante as aulas; roteiro de orientação de estudo a extra-sala; trabalhos em grupo em sala. Atividades específicas de recuperação Aulas no contra-turno; trabalho de monitoria; plantões de dúvidas. Recuperação de aprendizagem prévias não ocor- ridas Espaço de recuperação logo no início do perío- do letivo a fim de trabalhar conceitos básicos. Meto- dologia participativa a fim de saber o que e como o aluno está pensando para poder interagir. 4 - Síntese da postura do educador a) Comprometer-se verdadeiramente com a apren- dizagem de todos os alunos. Romper com ideologia e práticas de exclusão. b) Abrir mão da ideologia classificatória como alternativa pedagógica. Acreditar é preciso - O professor não pode desistir do aluno. Espe- rar pouco do outro é uma forma de profundo des- respeito. - O professor deve trabalhar prestando atenção no aluno para não perder o contato: vai ao encon- tro, entende seu processo de conhecimento e de- senvolvimento; aprende a ouvi-lo. - A inteligência humana é complexa: poderosa e sensível. É o amor que impulsiona o homem a bus- car o conhecimento, a verdade, o bem, o belo e nos remete ao encontro dos outros, essencialmente atra- vés do diálogo. Ensinar é um ato de amor. - O professor, como parceiro qualificado, está inteiro, desejando realmente que o aluno aprenda; confiando; acreditando; tendo uma expectativa po- sitiva. É isso o que ajuda a acionar as potencialida- des dos alunos. Dialética da travessia A intencionalidade de um sujeito não muda de uma vez. Numa fase de transição, pode ser mais in- teressante apontar para a consciência possível, ao invés de radicalizar e partir logo para o fim da avali- ação classificatória. Enquanto existe o sistema clas- sificatório, o professor relaciona-se com os alunos como se não houvesse a possibilidade da reprova- ção ou de “empurração” com a barriga. Superar essa concepção de avaliação está ao alcance do profes- sor, dentro da sala de aula. Contribuindo para a mudança de intencionalidade Algumas iniciativas ajudam na sensibilização para a mudança de intencionalidade do educador em relação à avaliação:
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 183 SINPEEM - contato com educadores que estão mudando; - contato com prática concretas de avaliação na nova direção; - contato com os alunos, pais a fim de ter noção de como suas ações avaliativas estão repercutindo; - conhecer a realidade concreta dos alunos; - sensibilização através da Arte (filmes, poesia, teatro) relacionada com a educação; - dramatização como exercício de empatia; - recordar-se do tempo em que era estudante; - ter presente as conseqüências de eventuais prá- ticas equivocadas; - exercício de auto-crítica etc 5 - Conclusão O grande desafio colocado para a escola brasi- leira, hoje, é que favoreça a aprendizagem da totali- dade dos alunos, especialmente daqueles vindos das camadas populares. Superar a classificação é ape- nas um momento da superação maior que tem de ser feita: superar a não-aprendizagem. É preciso fa- lar menos da visão estreita da avaliação e mais da construção do conhecimento, formação de cidada- nia, projeto político-pedagógico, conquista das con- dições de trabalho, formação do educador, inova- ção cultural, distribuição de renda, transformação da realidade. A avaliação, nesse contexto, é um subsí- dio para tal. Através desse novo posicionamento, o professor pode fazer uso da avaliação como meio para recu- perar sua dignidade, seu papel social de produtor de sentido e promotor de aprendizagem e desenvolvi- mento para todos, contribuindo no processo de hu- manização, de efetiva democratização da socieda- de, onde todos – inteiros- caibam. Resumo elaborado por Eliane Aguiar, bacharel em letras FFLCH/USP e doutoranda em Educação- FEUSP. A CONSTRUÇÃO DO PENSAMENTO E DA LINGUAGEM VYGOTSKY, L. S. São Paulo, Martins Fontes, 2001 O livro “A construção do pensamento e da lin- guagem” é a versão integral traduzida diretamen- te do russo do livro que no Brasil ficou conheci- mento por “Pensamento e Linguagem” (publicada pela Martins Fontes em 1991), tradução que havia sido feita de um resumo da obra original publica- do em inglês. No decorrer da obra, o autor parte da colocação do problema e analisa os métodos de investigação empregados na área de Psicologia em investigações sobre a linguagem. Analisa criticamente as teorias do desenvolvimento da linguagem e do pensamento mais elaboradas e mais fortes, como as teorias de Piaget e Stern a fim de contrapor o método de inves- tigação e o enfoque. Em seguida, apresenta as duas investigações experimentais do desenvolvimento dos conceitos e das formas básicas de pensamento dis- cursivo que foram desenvolvidas por ele. Os conceitos fundamentais desse livro são: · Linguagem egocêntrica (abordada no capítulo 2) · Linguagem interior (aparece em quase todo o livro, mas é enfocada nos capítulos 5 a 7) · Zona de Desenvolvimento Proximal e seu pa- pel no processo de desenvolvimento dos conceitos científicos (capítulo 6) Capítulo 1 – O problema e o método de investigação Para Vygotsky, o tema do pensamento e da lin- guagem tem como uma das questões centrais a rela- ção entre o pensamento e a palavra. A seu ver, exis- tiu um erro fundamental na análise do pensamento e da linguagem realizada pelas pesquisas até aquele momento (década de 20 do século passado): a sepa- ração de ambos em unidades independentes. A forma de dividir os dois é resultado do méto- do de pesquisa utilizado. A esse respeito, o autor aponta que há duas espécies de análise aplicadas em psicologia. O primeiro método: decomposição das totalida- des psicológicas complexas em elementos. Na prá- tica, é como, para tentar entender as propriedades da água, o pesquisador partisse da separação de seus componentes em Hidrogênio e Oxigênio. Ao tentar explicar como a água apaga o fogo considerando os elementos separados, o cientista não conseguirá por- que o Hidrogênio é autocombustível e o Oxigênio conserva a combustão, não obtendo elementos para explicar as propriedades do todo partindo das pro- priedades desses elementos. O segundo método: análise que decompõe em unidades a totalidade complexa. Diferente do méto-
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    184 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM do que separa os elementos, as unidades possuem todas as propriedades que são inerentes ao todo e, concomitantemente, os elementos são partes vivas e indecomponíveis dessa unidade. A chave para ex- plicar certas propriedades da água não é a sua fór- mula química mas o estudo das moléculas e do mo- vimento molecular” (08). A psicologia deve encon- trar, segundo o autor, essa unidade de análise que, a seu ver é o significado da palavra. É no significado que está o nó daquilo que é chamado de pensamen- to verbalizado. A palavra nunca se refere a um objeto isolado mas a todo um grupo ou classe de objetos. Toda palavra é antes de tudo uma generalização. A ge- neralização é um ato verbal do pensamento ex- cepcional porque reflete a realidade de modo di- ferente de como esta é refletida nas sensações e percepções imediatas. O significado da palavra tem na sua generaliza- ção um ato de pensamento. Ao mesmo tempo, é um ato de linguagem porque uma palavra sem significa- do é apenas um som vazio. O significado é simulta- neamente fenômeno da palavra e do pensamento porque é uma unidade do pensamento verbalizado. Dessa forma, o método de análise deve ser o de aná- lise semântica (análise do sentido da palavra). Outro elemento fundamental no desvendamento da relação pensamento e palavra é a função comuni- cativa da linguagem, pois a generalização só se torna possível se há desenvolvimento da comunicação. A comunicação só ocorre na medida em que se é ca- paz de transmitir ao outro uma sensação através de palavras. Se sinto frio e quero comunicar isso a ou- trem, só o conseguirei se generalizar e nomear o que estou vivendo, classificando minhas sensações numa determinada classe de estados conhecidos pelo meu interlocutor. A palavra é compreendida então não só como unidade do pensamento e da linguagem mas também como unidade da generalização e da comu- nicação, da comunicação e do pensamento. Só é possível entender o processo de desenvol- vimento do pensamento e o desenvolvimento social da criança quando aprendemos a ver a unidade en- tre comunicação e generalização. Por isso, a ques- tão central da pesquisa de Vygotsky diz respeito às relações entre pensamento/palavra e generalização/ comunicação. O autor fecha o capítulo ressaltando que a ado- ção do método de decomposição em unidades mos- tra que existe um sistema semântico dinâmico que representa a unidade dos processos afetivos e inte- lectuais. A adoção de tal método “permite revelar o movimento direto que vai da necessidade e das mo- tivações do homem a um determinado sentido do seu pensamento, e o movimento inverso da dinâmi- ca do pensamento à dinâmica do comportamento e à atividade concreta do indivíduo” (16/7). Capítulo 2 – A linguagem e o pensamento da criança na teoria de Piaget – estudo crítico Para Vygotsky, Piaget estudou de maneira siste- mática, ousada, com profundidade e amplitude de abrangência as peculiaridades da lógica infantil. Ele compara a importância do surgimento da obra desse autor àquelas de Freud, Levy-Bruhl ou Blondel, pen- sadores nos quais Piaget se apoiou. Piaget caracterizou positivamente o pensamento da criança, dizendo que ele apresenta questões de qualidade e não de quantidade. Para ele, o desen- volvimento do pensamento infantil deve-se, antes de mais nada, a mudanças de caráter e não a um au- mento de experiências e eliminação de erros. Antes de Piaget, o interesse se concentrava no que a crian- ça não tem, o que lhe faltava em comparação com o adulto. Determinavam-se as peculiaridades do pen- samento infantil pela incapacidade da criança para produzir pensamento abstrato, formar conceitos, es- tabelecer vínculos entre os juízos, tirar conclusões, etc. Nas novas investigações colocou-se no centro da atenção aquilo que a criança tem, o que há no seu pensamento como peculiaridades e proprieda- des distintivas. No entanto, Vygotsky aponta que ao avançar na acumulação de material factual, as descobertas mais modernas e mais importantes acabam resvalando por concepções pré-científicas advindas de teorias e sis- temas metafísicos por elas criados. Esses problemas são derivados do método adotado por Piaget (méto- do clínico-genético), ao qual Vygotsky opõe o seu método de decomposição em unidades. Para tecer sua crítica ao pensamento de Piaget, Vygotsky enfoca o conceito de linguagem egocêntri- ca. Piaget considera o pensamento egocêntrico como a ligação entre o autismo puro e o pensamento racio- nal. Segundo Vygotsky, Piaget tomou emprestada da Psicologia a idéia de que o pensamento autista é a forma mais primitiva de pensamento do ser humano. O pensamento realista é uma formação tardia, produ- to imposto pelo exterior à criança. Geneticamente, o pensamento autista precede ao realista, o qual se manifesta por volta dos 7/8 anos. A natureza egocên- trica do pensamento da criança é explicada por Pia- get em relação com a natureza egocêntrica de sua atividade que, para ele, são egocêntricas e egoístas. O pensamento egocêntrico é tão regular, inevitável e estável que se manifesta independentemente da ex- periência infantil. Para Piaget, a substância psicológi- ca da criança assimila as influências do meio social e as deforma segundo suas próprias leis. Em oposição a isso, Vygotsky afirma que o pen- samento autístico não é e nunca foi um ponto de partida de todo o processo de desenvolvimento hu- mano. A forma primária da atividade intelectual é o pensamento efetivo, prático, voltado para a realida-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 185 SINPEEM de e constituinte de uma das formas fundamentais de adaptação a novas condições, às situações mu- tantes do meio exterior. Por isso, o pensamento au- tístico não pode ser apresentado como um estágio intermediário e transitório entre a forma primária básica e as formas superiores de pensamento. Em linhas gerais, Vygotsky resume a teoria pia- getiana da linguagem egocêntrica no seguinte: “a lin- guagem da criança de tenra idade é egocêntrica em sua maior parte. Não serve para fins de comunica- ção, não cumpre funções comunicativas, apenas copia, imprime ritmo, acompanha a atividade e as vivências da criança como um acompanhamento segue uma melodia central que ele segue. Entre um e outro existe antes alguma articulação que relação interna” (50). Para Piaget, a linguagem egocêntrica não desempenha nenhuma função objetivamente útil no comportamento da criança. Uma segunda tese de Vygotsky está ligada às re- flexões de Piaget sobre o destino da linguagem ego- cêntrica infantil. Tomada como um sintoma de fra- queza e com caráter descartável para o comporta- mento, a tendência dessa fala é desaparecer no de- correr do desenvolvimento da criança. Na realida- de, para Piaget, por volta dos 7 ou 8 anos, o que lhe parece é que a criança não se despede de seu cará- ter egocêntrico, o qual se desloca, e começa a do- minar no campo do pensamento verbal abstrato, re- velando-se em nova forma. Vygotsky passa a falar do estudo que desen- volveu sobre a questão do destino e da função da linguagem egocêntrica na fase infantil, apontando os resultados que contrapõem a teoria piagetiana. Vygotsky verifica que a linguagem egocêntrica da criança começa muito cedo a desempenhar em sua atividade um papel sumamente original. Conclui que essa linguagem não desaparece na idade es- colar, mas é interiorizada. Esse elemento ficou evi- dente em seus experimentos, nos quais as crian- ças pequenas se utilizaram da linguagem para tra- çar saídas, planejar a ação. As crianças maiores agiram da mesma forma, só que ao invés de reali- zar as operações em linguagem aberta, como as menores, realizaram-nas em forma de linguagem interior, silenciosa. A linguagem egocêntrica não paira no ar disso- ciada da realidade, da atividade prática, da adapta- ção real dessa criança. Ao contrário, ela é um mo- mento composicional da atividade racional da cri- ança. A criança se intelectualiza e ocupa a mente nessas ações primárias e racionais. Nesse contexto, a linguagem egocêntrica começa a servir de meio de formação da intenção e do plano numa atividade mais complexa da criança. Organizando esquematicamente o pensamento de Piaget, da teoria tradicional e a de Vygotsky so- bre o processo de formação do que Vygotsky cha- mou de linguagem interior, temos o seguinte: ➞ Piaget pensamento autístico extraverbal linguagem egocêntrica e pensamento egocêntrico linguagem socializada e pensamento lógico ➞ ➞➞ Teoria tradicional linguagem exterior cochicho linguagem interior ➞➞ Vygotsky linguagem social linguagem egocêntrica linguagem interior Vygotsky aponta que, no pensamento de Piaget, o social e biológico são divorciados. Para aquele autor, o biológico é primário e forma a substancia psicológica do indivíduo. Piaget vê a relação com o social como coação de uma força exterior que re- prime os pensamentos próprios da criança, substi- tuindo-os por esquemas estranhos. Biológico e o social são concebidos como duas forças externas que agem mecanicamente uma sobre a outra. Como conseqüência, Piaget entende que a criança vive em uma dupla realidade: 1) um mundo próprio 2) pen- samento lógico imposto a ela. Assim, para uma du- pla realidade – dois modos de pensamento (o realis- ta e o egocêntrico). Vygotsky ressalta que Piaget cai em contradição diversas vezes em seu estudo por não assumir os pres- supostos filosóficos que os fundamenta (qual seja, o idealismo subjetivo). Aponta elementos dessa con- tradição e diz que Piaget fica no limiar entre o idea- lismo e o materialismo, declarando-se agnóstico.
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    186 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM O autor fecha o capítulo apontando que as con- clusões de Piaget são restritas ao ambiente dentro do qual estavam as crianças que ele estudou e não podem ser entendidas como universais. Nesse sen- tido, seu pensamento é sócio-historicamente de- terminado. Para avançar nos estudos sobre o desenvolvimen- to infantil, além de ultrapassar aspectos da teoria pi- agetiana apontados pelo autor, Vygotsky indica a necessidade de superação de modelos de análise que vigoram na psicologia russa. No capítulo seguinte aborda uma dessas em particular. Capítulo 3 – O desenvolvimento da linguagem na teoria de Stern Stern elaborou a teoria intelectualista a respeito da linguagem infantil e seu desenvolvimento. Segundo Stern, há três raízes da linguagem: 1 - Tendência expressiva (própria dos homens e dos animais) 2 - Tendência social para a generalização (tam- bém homens e animais) 3 - Tendência intencional (específico da lingua- gem humana) Partindo da idéia de que a intenção é uma orien- tação centrada em um determinado sentido, Stern considera que os atos intencionais são atos de pen- samento. A certa altura, essa intenção surge. Para explicar como isso acontece, Stern remete às duas tendências anteriores. Ou seja, há uma tendência para a inteligibilidade que vai se manifestando nas duas primeiras tendências (expressiva e social). Se- gundo Vygotsky esta explicação não é suficiente porque parte do que precisa ser explicado. Stern acredita que uma criança de 2 anos “des- perta” a consciência dos símbolos e a necessidade desses símbolos. Segundo ele, uma criança entre um ano e meio e dois compreende a relação entre signo e significado, tem consciência da função simbólica da linguagem, ‘consciência do significado da lingua- gem e vontade de dominá-lo’(100). Vygotsky discorda. Segundo ele, experimentos demonstram que “o perfil intelectual de uma crian- ça entre um ano e meio e dois anos tem pouquíssi- mo a ver com a admissão de que nela se desenvolve uma operação sumamente complexa: ‘a consciên- cia do significado da linguagem” (100). O domínio da relação signo/significado e o em- prego funcional do signo na realidade acontecem bem mais tarde. A criança não descobre o significa- do de uma vez como supõe Stern. O processo é com- plexo e tem sua “histórica cultural de signos” dotada de uma série de mudanças quantitativas, qualitati- vas e funcionais, de crescimento e metamorfoses, de dinâmicas e leis. As tendências expressiva e comunicativa têm uma história dentro dos estudos sobre a linguagem, en- quanto que a tendência intencional não tem. A cri- ança descobre o significado da linguagem por meio de uma operação puramente lógica. A causa primei- ra da linguagem consciente é a intenção. Vygotsky aponta como esse autor passa à mar- gem de problemas como a linguagem interior, não explicando seu surgimento e sua relação com o pen- samento. O autor fica “à margem das complexas mudanças funcionais e estruturais do pensamento em função do desenvolvimento da linguagem” (105). A referência ao objeto aparece antes da inten- ção, da descoberta. As palavras são usadas dentro de um contexto. Assim, não importa traduzir “mama” para “mamãe, me põe na cadeira”, mas todo o comportamento da criança nesse momento (ela se inclina para a cadeira, tenta agarrar-se a ela, etc.). A orientação afetivo-conativa1 é inseparável da orientação intencional (ou seja, da linguagem voltada para um determinado sentido). A orienta- ção afetivo-conativa e a orientação intencional es- tão fundidas. Por isso, a única forma de traduzir a palavra “mama” é o gesto indicativo que é equiva- lente e substituto convencional. Vygotsky aponta que a abordagem intelectualis- ta condiciona toda a análise que Stern faz de outros aspectos do desenvolvimento infantil como, por exemplo, a questão do desenvolvimento do concei- to, dos estágios básicos no desenvolvimento da lin- guagem e do pensamento, etc. Essa característica do pensamento de Stern deriva das premissas filosófi- cas do personalismo e está condicionada por elas. Stern considera o meio social como o principal fator de desenvolvimento da linguagem da criança, mas, na realidade, “ele restringe o papel desse fator a uma influência puramente quantitativa sobre o re- tardamento ou a aceleração dos processos de de- senvolvimento, que, em seu fluxo, estão sujeitos à sua lei interna, imanente” (109). Há uma superestimação dos fatores internos. Essa é a idéia básica do personalismo: o indivíduo como unidade psicofísica neutra. Essa concepção essencialmente metafísica e es- sencialista leva o autor à teoria personalista da lin- guagem, “isto é, a uma teoria que deduz a lingua- gem, suas fontes e funções da ‘integridade de um indivíduo que se desenvolve em função de um fim”(109). O resultado é que “em vez da história do desen- volvimento do próprio indivíduo, na qual cabe um papel de destaque à linguagem, cria-se uma metafí- sica do indivíduo, que de si mesma, de sua teleolo- gia2 , gera a linguagem” (110).
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 187 SINPEEM Capítulo 4 – As raízes genéticas do pensamento e da linguagem A relação entre pensamento e linguagem não é uma grandeza constante, imutável ao longo de todo o desenvolvimento, sendo, na realidade, variável. O desenvolvimento ocorre de forma não paralela e é desigual tanto para a filogênese, quanto para a ontegênese3 . Pensamento e linguagem têm raízes genéticas inteiramente diversas. No que diz respeito à filogênese, comprovam isso os estudos sobre o intelecto e a linguagem nos an- tropóides, os quais demontram que o pensamento surge nos animais independentemente do desenvol- vimento da linguagem. Vygotsky afirma que o intelecto do chimpanzé e do homem não são do mesmo tipo porque o empre- go racional da linguagem é uma função intelectual que em nenhuma condição é determinada direta- mente pela estrutura ótica. Além disso, uma vez sem o recurso visual, os chimpanzés passaram do com- portamento intelectual para o método de provas e erros. Esses dois elementos permitem afirmar que não é possível ensinar o chimpanzé a falar. Os antropóides apresentam um intelecto pareci- do ao do homem em alguns sentidos. Há rudimen- tos de emprego de instrumentos e uma linguagem parecida à do homem – em aspectos totalmente di- ferentes (a fonética da fala, a função emocional e os rudimentos de função social da linguagem). Assim, é possível afirmar que na filogênese do pensamento e da linguagem identifica-se uma fase pré-fala no desenvolvimento do intelecto e uma fase pré-intelectual no desenvolvimento da fala. No tocante à ontogênese, a relação entre as duas linhas de desenvolvimento – do pensamento e da linguagem – é bem mais obscura e confusa. Apesar disso é possível estabelecer diferentes raízes genéti- cas e diferentes linhas de desenvolvimento do pen- samento e da linguagem. O grito, o balbucio, os gestos são estágios pré- intelectuais do desenvolvimento da fala, isto é, não têm nada em comum com o desenvolvimento do pensamento. É um estágio afetivo-volitivo (signos “de desejo ou vontade”). Nesse sentido, as ações da criança de até 12 meses de idade assemelham-se àquelas praticadas pelo chimpanzé. Daí chamar essa fase de chimpanzóide. Apesar dessa semelhança entre as ações, no ser humano a função social da fala já é aparente na fase chimpanzóide. O conta- to social relativamente complexo e rico da crian- ça leva a um desenvolvimento sumamente precoce dos meios através dos quais se comunica. A criança reage à voz humana e as risadas, o balbucio, os ges- tos, os movimentos são meios de contato social a partir dos primeiros meses de vida. Assim, as duas funções da fala já aparecem no primeiro ano de vida. Aos dois anos, as linhas do pensamento e da lin- guagem que até então estavam separadas cruzam- se. É o momento em que a criança descobre que cada coisa tem o seu nome. Assim, a fala se torna intelectual e o pensamento verbalizado. Até 1 ano, a criança assimila e utiliza algumas palavras de maneira condicionada. A partir dos 12 meses a criança começa a perguntar como as coisas se chamam. Seu vocabulário amplia-se vertiginosa- mente. É como se a criança descobrisse a função simbólica da linguagem. Depois de abordar as raízes genéticas do pensa- mento e da linguagem nos níveis filogenético e on- togenético, Vygotsky procura responder por que se pode considerar que os processos da linguagem in- terior e da linguagem exterior, tão diferentes em ter- mos funcionais (adaptações sociais e individuais) e estruturais (economia extrema, elíptica da linguagem interior, que altera o padrão da fala ao ponto de tor- ná-la quase irreconhecível), possam ser geneticamen- te paralelos e simultâneos? Para responder a esta pergunta, é preciso encon- trar o elo intermediário capaz de reunir os dois pro- cessos da linguagem interior e exterior. Para Vygotsky, esse elo intermediário é a linguagem egocêntrica de Piaget. E isso porque “a defeito dela simplesmente acompanhar o desempenho infantil, muito facilmente ela se torna pensamento na verdadeira acepção do termo, melhor dizendo, assume a função de opera- ção de planejamento, de solução de tarefas que sur- gem no comportamento” (136) A partir dessa constatação Vygotsky concluiu que a linguagem se torna psicologicamente interior an- tes de tornar-se fisiologicamente interior.(136) A linguagem egocêntrica é interior por sua fun- ção, “é uma linguagem para si, que se encontra no caminho de sua interiorização, uma linguagem já metade ininteligível aos circundantes, uma lingua- gem que já se enraizou fundo no comportamento da criança e ao mesmo tempo ainda é fisiologicamente externa, e não revela a mínima tendência a transfor- mar-se em sussurro ou em qualquer outra linguagem semi-surda”. Ele faz outra questão considerada fundamental: por que a linguagem se interioriza? E responde: Por- que muda a função. Para Vygotsky esse processo se dá em três etapas: linguagem exterior, linguagem egocêntrica e linguagem interior (conforme esque- ma apresentado no resumo do capítulo 2). A questão seguinte que Vygotsky coloca é: o pen- samento e a linguagem estão necessariamente inter- ligados no comportamento do adulto, é possível iden- tificar esses dois processos? Sua resposta é negativa. E isso porque há uma vasta área do pensamento que não mantém relação direta com o pensamento ver- bal. Também não há como considerar que todas as
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    188 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM formas de atividade verbal sejam derivadas do pen- samento. Na última parte do capítulo, Vygotsky recupera em linhas gerais suas principais conclusões. · As raízes genéticas do pensamento e da lingua- gem são diferentes, mas suas linhas de desenvolvi- mento cruzam-se. · A linguagem interior se desenvolve mediante um lento acúmulo de mudanças estruturais e fun- cionais · A linguagem interior se separa da linguagem exterior das crianças ao mesmo tempo em que ocor- re a diferenciação das funções social e egocêntrica da linguagem · As estruturas da linguagem dominada pela crian- ça tornam-se estruturas básicas de seu pensamento. · Conclusão indiscutível: o desenvolvimento do pensamento e da linguagem depende dos instru- mentos de pensamento e da experiência sociocul- tural da criança. · O desenvolvimento da linguagem interior de- pende de fatores externos: o desenvolvimento da lógica na criança é uma função direta de sua lingua- gem socializada · O desenvolvimento do pensamento da criança depende de seu domínio dos meios sociais do pen- samento, isto é, da linguagem. · O pensamento verbal não é uma forma inata de comportamento, mas uma forma histórico-social. Capítulo 5 - Estudo experimental do desenvolvimento dos conceitos Vygotsky fala em dois métodos tradicionais de estudo dos conceitos: o método de definição e os utilizados no estudo da abstração. O primeiro peca por desprezar o processo de produção do conceito em detrimento do conceito pronto. O segundo por simplificar a estrutura com- plexa do processo, ignorando o papel da palavra, ou seja, do símbolo, no processo de formação de conceitos. Aponta então um terceiro método, o sintético- genético, considerado pelo autor como mais plau- sível por estudar “o processo de construção do con- ceito, de síntese de uma série de traços que for- mam o conceito, e o processo de desenvolvimento do conceito (153)”. Por não tomar o conceito como algo isolado (como faz o método de definição), o método sintéti- co-genético coloca no centro da investigação as con- dições funcionais do surgimento do conceito, consi- derando que o conceito não é uma formação fossili- zada e imutável, mas aparece sempre exercendo al- guma função de comunicar, assimilar, entender e resolver algum problema. (154) Assim, “a formação de conceitos não segue o modelo de uma cadeia associativa, em que um elo suscita e acarreta outro, mas um processo orientado para um fim, uma série de operações que servem como meio para a solução do problema central. A memorização de palavras e sua associação com os objetos não leva, por si só, à formação de conceitos: para que o processo se inicie, deve surgir um pro- blema que só possa ser resolvido pela formação de novos conceitos” (157) É justamente no processo de comunicação que está a chave do processo. Ao ter que comunicar sua idéia a um interlocutor, a criança tem que se utilizar da palavra. Essa se torna o veículo dessa compreen- são e, simultaneamente, o espaço onde o conceito se conforma. Na sua comunicação com os adultos, as crianças utilizam-se da palavra em contextos fun- cionais, ou seja, para se comunicar. Assim, na solu- ção de problemas, a criança se utiliza de palavras que imitam a função de conceitos. É por isso que podemos dizer que as palavras utilizadas pelas cri- anças são equivalentes funcionais do pensamento por conceitos. No processo de formação de conceitos a palavra é o signo fundamental. A princípio, a palavra tem o papel de meio na formação de um conceito, e, pos- teriormente, torna-se seu símbolo. Os experimentos aplicados por Vygotsky e sua equipe possibilitaram elaborar a seguinte conclusão: “o desenvolvimento dos processos que finalmente culminam na formação de conceitos começa na fase mais precoce da infância, mas as funções intelectu- ais que, numa combinação específica, constituem a base psicológica do processo de formação de con- ceitos amadurecem, configuram-se e se desenvol- vem somente na puberdade. Antes dessa idade, en- contramos formações intelectuais originais que, apa- rentemente, são semelhantes ao verdadeiro concei- to e, em decorrência dessa aparência externa, no estudo superficial podem ser tomadas como sinto- mas indicadores da existência de conceitos autênti- cos já em tenra idade. Em termos funcionais, essas formações intelectuais são de fato equivalentes aos conceitos autênticos que só amadurecem bem mais tarde” (167). A partir daí, a pergunta que Vygotsky passa a se fazer é: o que, na adolescência, permite o surgimen- to dos conceitos autênticos? O autor aponta que não são fatores como o acú- mulo de associações; nem o desenvolvimento do volume e da estabilidade da atenção; nem o acúmu- lo de grupos de representações que leva à formação de conceitos. O central (ou seja, o que leva ao ama- durecimento dos conceitos) é o emprego específico da palavra, o emprego funcional do signo como meio de formação de conceitos. Por que o adolescente consegue formar concei- tos verdadeiros? Porque o processo de formação de
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 189 SINPEEM conceitos pressupõe, como parte fundamental, o domínio do fluxo dos próprios processos psicológi- cos através do uso funcional da palavra ou do signo. E é somente na adolescência que se desenvolve esse domínio dos próprios processos de comportamento com o emprego de meios auxiliares. As funções ele- mentares apontadas acima (associação, atenção, acúmulo de grupos de representações), que já exis- tiam, mas, na adolescência passam a integrar uma nova estrutura. Isso quer dizer que as capacidades do estudante que já existiam antes da adolescência, desenvolvem-se com maior intensidade. Que capa- cidades são estas? A de selecionar, analisar, genera- lizar, abstrair e refletir. Para Vygotsky, o desenvolvimento dos conceitos tem quatro estágios básicos: 1 - Formação de amontoados de objetos ou ima- gens sincréticas (0 aos 5/6 anos) 2 - Formação dos complexos (5 aos 11/12 anos) 3 - Formação de conceitos potenciais (11/12 em diante) 4 - Formação dos conceitos verdadeiros (14 anos em diante) Por sua vez, estes estágios possuem várias fases: 1º estágio - Formação de amontoados de obje- tos ou imagens sincréticas (0 aos 5/6 anos) Neste estágio, o significado da palavra é um en- cadeamento sincrético desordenado de objetos par- ticulares que, nas representações e na percepção da criança, estão mais ou menos concatenados em uma imagem mista. 1ª fase: Tentativa e erro – a criança escolhe os objetos ao acaso, utilizando provas que se substi- tuem mutuamente quando se verifica que estão er- radas. 2ª fase: Organização do campo visual da crian- ça – os objetos se aproximam em uma série e são revestidos de um significado comum, não por força dos seus próprios traços destacados pela criança mas da semelhança que entre eles se estabelece nas impressões da criança. Aqui os objetos são agrupa- dos com base na percepção visual que a criança tem do objeto. 3ª fase: Elementos tirados de grupos ou amon- toados diferentes, que já foram formados pela cri- ança pela maneira adotada na 2ª fase. Diferente- mente da fase anterior, nesta a criança executa dois movimentos: primeiro agrupa sincreticamente4 os objetos, depois tira algum representante deste gru- po e o reagrupa em outro grupo também sincreti- camente organizado. 2º estágio - Formação dos complexos (5 aos 11/ 12 anos) Este estágio, como todos os outros, conduz “à formação de vínculos, ao estabelecimento de rela- ções entre diferentes impressões concretas, à unifi- cação e à generalização de objetos particulares, ao ordenamento e à sistematização de toda a ex- periência da criança” (178). O estágio se chama pensamento por complexos porque “as generaliza- ções criadas por intermédio de desse modo de pen- samento representam, pela estrutura, complexos de objetos particulares concretos, não mais unificados à base de vínculos subjetivos que acabaram de sur- gir e foram estabelecidos nas impressões da crian- ça (como no estágio de amontoados), mas de vín- culos objetivos que efetivamente existem entre tais objetos” (179). Assim como os amontoados, os com- plexos têm o mesmo sentido funcional dos concei- tos verdadeiros. A criança começa a unificar objetos homogê- neos em um grupo comum, a complexificá-los já segundo as leis dos vínculos objetivos que ela des- cobre em tais objetos. Quando passa a este está- gio, já superou seu egocentrismo. O pensamento por complexos já constitui um pensamento coe- rente e objetivo. No entanto, essa coerência e ob- jetividade não são as mesmas do pensamento por conceitos. Nesse estágio a criança pensa em ter- mos de nome de famílias. Um complexo não tem em sua base um vínculo abstrato e lógico, mas um vínculo concreto e factual (que se revelam na experiência imediata) entre ele- mentos concretos que integram sua composição. Como um conceito, o complexo é a generali- zação ou a unificação de objetos heterogêneos concretos.
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    190 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM Complexo Conceito Baseia-se em vínculos do mesmo tipo, logica- mente idênticos entre si (181) Baseia-se nos vínculos factuais mais diversos Refletem um vínculo essencial e uniforme e uma relação entre os objetos Reflete um vínculo concreto, factual e fortuito (181) Caracterizado pela uniformidade dos vínculos que lhe servem de base. Caracterizado pela diversidade de vínculos que lhe servem de base Os vínculos são basicamente uma relação do geral com o particular e do particular com o parti- cular através do geral. Vínculos podem ser tão diversificados quanto o contato diversamente factual e a semelhança dos mais diversos objetos, que estão em relação lógica e concreta entre si. O estágio de complexos possui 5 fases: · 1ª fase: Associativo · 2ª fase: Por coleções · 3ª fase: Complexo em cadeia · 4ª fase: Complexo difuso · 5ª fase: Pseudoconceito (7/8 anos até 11/12 anos) É o convívio com o adulto que define o caminho de desenvolvimento dos complexos. É a comunica- ção com esses adultos, o acesso a palavras que pos- suem significados constantes e definidos, que cria as vias de desenvolvimento das generalizações. A criança recebe os conceitos prontos dos adul- tos. Ela já recebe em forma pronta a série de objetos concretos generalizadas por aquela palavra. “Ela não relaciona espontaneamente uma dada palavra a um determinado grupo concreto e transfere o seu signi- ficado de um objeto a outro, ampliando o círculo de objetos abrangidos pelo complexo. Ela apenas se- gue o discurso dos adultos, assimilando os significa- dos concretos das palavras já estabelecidos e dados a ela em forma pronta. Em termos mais simples, a criança não cria a sua linguagem mas assimila a lin- guagem pronta dos adultos que a rodeiam” (196). 3º estágio - Formação de conceitos potenciais (11/12 em diante) Este estágio possui 3 fases: 1ª fase: agrupamento de objetos a partir de traços que refletem em seu conjunto um grau máximo de semelhanças com o modelo que lhe é apresentado. 2ª fase: Agrupamento de objetos tendo-se por base um único atributo (conceitos potenciais). Estes conceitos potenciais podem ser formados na esfera prática, voltados para a ação, com base em impres- sões semelhantes. Estas impressões são fonte impor- tante de conceitos potenciais, muito utilizados na idade escolar. 3ª fase: adolescência – fase de formação de con- ceitos verdadeiros 4º estágio – Formação de conceitos verdadeiros (14 anos em diante) É só na adolescência que a criança chega ao pensamento por conceitos. Nesta fase, diminuem as formas primitivas de pensamento (sincréticos e por complexos) e o emprego de conceitos potenci- ais começa a rarear, sendo mais freqüente o uso de conceitos verdadeiros. Vygotsky fala que há uma lei psicológica que dá fundamento a essa nova forma de pensamento. Elementos que compõem essa lei: · há uma profunda discrepância entre a forma- ção do conceito e a sua definição verbal · o adolescente aplica o conceito em situação concreta. A primeira delas é que há uma profunda discre- pância entre a formação do conceito e a sua defini- ção verbal, característica não só do pensamento ado- lescente, mas também do adulto. “A existência de um conceito e a consciência desse conceito não coincidem quanto ao momento do seu surgimento nem quanto o seu funcionamento (...) A análise da realidade fundada em conceitos surge bem antes que a análise dos próprios conceitos” (230). “O adolescente forma o conceito, emprega-o corretamente em uma situação concreta, mas tão logo entra em pauta a definição verbal desse con- ceito o seu pensamento esbarra em dificuldades ex- cepcionais, e essa definição acaba sendo bem mais restrita que a sua aplicação viva.”(230) O outro momento característico da aplicação de conceitos na adolescência: o adolescente só aplica o conceito em situação concreta (230) Ele aplica a palavra como conceito e a define como complexo. Isso acontece porque o processo
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 191 SINPEEM de formação dos conceitos acontece em forma de pirâmide. Ou seja, ao analisar objetos ou fenôme- nos, no processo de conceitualização, o pensa- mento se movimenta para o alto e para baixo (da família à espécie, da espécie à família). Assim, o conceito não é resultado de uma junção linear de características comuns de diversos objetos, mas de um intricado processo de movimento do pensa- mento na pirâmide dos conceitos, processo esse que sempre operava uma transição do geral ao par- ticular e vice-versa. Esse processo de trânsito para cima e para bai- xo ocorre também com a criança que, na maior parte dos casos, utiliza a palavra como generaliza- ção (exemplo: flor e rosa – p. 234). A criança usa palavras abstratas, mas não tem pensamento abs- trato. Ela concebe o respectivo referente de modo bastante concreto. “... o conceito surge no processo de operação intelectual; não é o jogo de associações que leva à obstrução intelectual; não é o jogo de associações que leva à obstrução dos conceitos: em sua forma- ção participam todas as funções intelectuais elemen- tares em uma original combinação, sendo que o momento central de toda essa operação é o uso fun- cional da palavra como meio de orientação arbitrá- ria da atenção, da abstração, da discriminação de atributos particulares e de sua síntese e simboliza- ção com o auxílio do signo” (236). O que faz com que esses processos sejam as ra- ízes do conceito é a sua criação através da aplica- ção da palavra. Capítulo 6 – Estudo do desenvolvimento dos conceitos científicos na infância – experiência de construção de uma hipótese de trabalho. O capítulo visa responder a algumas questões sobre o processo de desenvolvimento dos conceitos científicos na mente da criança, área considerada pelo autor como incipiente. Suas perguntas básicas são: “como se desenvolvem os conceitos científicos na mente de uma criança em processo de aprendi- zagem escolar? Em que relação se encontram aí os processos de ensino e aprendizagem de conhecimen- tos propriamente dito e os processos de desenvolvi- mento interior do conceito científico na consciência da criança? Coincidem entre si, sendo essencialmen- te, apenas duas faces de um mesmo processo? Existem duas escolas que dão resposta a estas questões: a primeira acredita que não há um proces- so de desenvolvimento, a criança absorve o concei- to pronto. A segunda acredita na existência de um proces- so de desenvolvimento, só que este não difere do desenvolvimento de conceitos na vida cotidiana da criança, valendo por extensão para os conceitos ci- entíficos. Alguns como Piaget, questionam esta vali- dade, estabelecendo uma fronteira entre as idéias adquiridas espontaneamente, por seu próprio desen- volvimento mental (espontâneas) e aquelas influen- ciadas pelos adultos (não-espontâneas). No entanto, Vygotsky acredita que Piaget se equivoca ao afirmar que ocorre um processo de substituição das idéias da criança pelas idéias que vêm do exterior. Vygotsky acredita que as idéias espontâneas e não-espontâneas conjugam-se num processo de for- mação de conceitos que “é afetado por diferentes condições externas e internas, mas que é essencial- mente um processo unitário, e não um conflito entre formas de intelecção antagônicas e mutuamente ex- clusivas.”(74) Vygotsky passa então a apresentar suas próprias razões para diferenciar o aprendizado dos conceitos não-espontâneos (cotidianos) dos espontâneos (ou científicos). Ele argumenta que há uma diferença no aprendi- zado dos conceitos espontâneos e não espontâneos. A mente da criança se depara com problemas dife- rentes na relação com eles. Num aprendizado siste- mático possibilitamos o contato com situações que ela não vivencia diretamente. Os experimentos de Vygotsky demonstraram que é justamente na idade escolar que as funções inte- lectuais superiores, cujas características principais são a consciência reflexiva e o controle deliberado, adquirem um papel de destaque no processo de de- senvolvimento. A atenção passa a ser voluntária, a memória mecânica torna-se memória lógica. Afirma que há um processo em que primeiro fa- zemos uso de uma determinada função para depois tomarmos consciência dela. Para submeter uma fun- ção ao controle da volição e do intelecto, temos pri- meiro que nos apropriar dela. Vygotsky esclarece que usa o termo consciência para referir-se à percepção da atividade da mente - a consciência de estar consciente. Ou seja, quando consigo perceber todo o percurso de uma ação (como dei um nó), por exemplo. Com base em experimentos (os quais descreve neste capítulo), Vygotsky comprovou as hipóteses de que os processos de aprendizagem e desenvol- vimento não são independentes (como aponta Pia- get), nem são os mesmos processos. Para ele, existe uma relação complexa entre desenvolvimento e aprendizagem sendo que a aprendizagem está sempre adiante do desenvolvimento, pois a crian- ça adquire certos hábitos e habilidades numa área específica antes de aprender a aplicá-los de modo consciente e arbitrário. Vygotsky examinou também questões da relação entre o aprendizado das matérias do ensino e as fun- ções delas participantes. Suas pesquisas mostraram que as diferentes matérias do ensino escolar intera-
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    192 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM gem no processo de desenvolvimento da criança. A tomada de consciência e a apreensão ocupam o primeiro plano no desenvolvimento de igual ma- neira na aprendizagem da gramática e da escrita. O pensamento abstrato da criança se desenvolve em todas as aulas, e esse desenvolvimento de for- ma alguma se decompõem em cursos isolados de acordo com as disciplinas em que se decompõe o ensino escolar. Por fim, Vygotsky apresenta o conceito de zona de desenvolvimento proximal5 . A maior parte das investigações psicológicas media o nível de apren- dizagem da criança fazendo-a resolver problemas que a sua idade permitia. Vygotsky deu a duas crian- ças de idade mental de 8 anos, problemas mais difí- ceis do que era suposto elas conseguirem resolver. Uma delas, em cooperação, pôde resolver proble- mas para crianças de 12 anos, enquanto que a outra não conseguia ir além daqueles para as de 9. Por isso, a ZDP é entendida como “... a discrepância entre a idade mental real ou nível de desenvolvimento real, que é definida com o auxílio dos problemas resolvi- dos com autonomia, e o nível que ela atingir ao re- solver problemas sem autonomia, em colaboração com outra pessoa” (327). “O desenvolvimento dos conceitos científicos começa no campo da consciência e da arbitrarieda- de e continua adiante, crescendo de cima para bai- xo no campo da experiência pessoal e da concretu- de. O desenvolvimento dos conceitos espontâneos começa no campo da concretude e do empirismo e se movimento no sentido das propriedades superio- res dos conceitos: da consciência e da arbitrarieda- de. O vínculo entre o desenvolvimento dessas duas linhas diametralmente opostas revela indiscutivel- mente a sua verdadeira natureza: é o vínculo da zona de desenvolvimento proximal e do nível atual de desenvolvimento” (350). A arbitrariedade e a tomada de consciência dos conceitos ocorrem na zona de desenvolvimento proximal. Por isso, a aprendizagem de conceitos científicos só se dá na colaboração com o pensa- mento do adulto e, o que a criança é capaz de fazer em colaboração hoje, amanhã terá condi- ções de fazer sozinha. Vygotsky pergunta no que a aprendizagem de conceitos científicos pode contribuir para o desen- volvimento da criança. A partir daí, passa a conside- rar as características de um conceito. Afirma que todo conceito é uma generalização e cada conceito interrelaciona-se com outros concei- tos. Assim, a própria natureza de cada conceito par- ticular já pressupõe a existência de um determinado sistema de conceitos, fora do qual ele não pode exis- tir. Os estudos demonstram que a generalidade é a relação mais substancial e natural entre os significa- dos (conceitos). Assim, a relação entre conceitos é uma relação de generalidade. Sabendo-se que uma criança, no desenvolvi- mento de seus conceitos, percorre a via lógica dos mais gerais para os mais particulares (ela assimila “flor” antes de assimilar “rosa”), Vygotsky indaga- se sobre as leis desse movimento do mais geral para o mais particular. Ele conclui que “existe um sistema de relações e de generalidade para cada fase de generalização; segundo a estrutura desse sistema, dispõem-se em ordem genética os conceitos gerais e particulares, de forma que o movimento do geral ao particular e do particular ao geral no desenvolvimento dos con- ceitos vem a ser diferente em cada fase do desenvol- vimento dos significados, em função da estrutura de generalização dominante nessa fase. Na passagem de uma fase a outra modificam-se o sistema de ge- neralidade e toda a ordem genética do desenvolvi- mento dos conceitos superiores e inferiores” (364). Capítulo 7 – Pensamento e palavra Vygotsky retoma todo o percurso de seu trabalho apresentado nesse livro nos capítulos anteriores, re- afirmando que o significado da palavra é a unidade de análise que lhe permitiu verificar as relações en- tre pensamento e linguagem considerando toda a sua complexidade. A palavra é um fenômeno do discurso e o signifi- cado de toda palavra é generalização ou conceito. Assim, generalização e palavra são sinônimos. Para, além disso, o significado da palavra é, ao mesmo tempo, um fenômeno de discurso e intelectual. O significado da palavra é um fenômeno do pensamen- to discursivo ou da palavra consciente, é a unidade da palavra com o pensamento. No entanto, o autor considera que o novo em sua pesquisa é a descoberta de que os significados das palavras se desenvolvem. Para Vygotsky a rela- ção entre o pensamento e a palavra é, antes de tudo, não uma coisa mas um processo, é um movimento do pensamento à palavra e da palavra ao pensamen- to. O pensamento não se exprime na palavra mas nela se realiza. Por isto, seria possível falar de for- mação do pensamento na palavra. Ao analisar os movimentos que levam o pensa- mento à palavra e a palavra ao pensamento, Vygotsky aponta alguns elementos. O primeiro deles diz res- peito à existência de dois planos na própria lingua- gem. O aspecto semântico interior da linguagem e o aspecto físico e sonoro exterior, ainda que constitu- am uma unidade autêntica, têm cada um as suas leis de desenvolvimento. Inicialmente, a criança não diferencia o signifi- cado verbal e o objeto, o significado e a forma so- nora da palavra. No processo de desenvolvimento, essa diferenciação ocorre na medida em que se de-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 193 SINPEEM senvolve a generalização, e no final do desenvolvi- mento, quando já encontramos conceitos verdadei- ros, surgem aquelas relações complexas já apresen- tadas anteriormente quando se abordou os estágios de desenvolvimento do pensamento e da lingua- gem no capítulo 5. Vygotsky ressalta que nesse processo ainda te- mos o desenvolvimento do pensamento. “O ato de falar requer a transição do plano interior para o pla- no exterior, enquanto a compreensão pressupõe o movimento inverso do plano externo da linguagem para o plano interno” (421). Mas a reflexão não estaria completa sem a refe- rência à linguagem interior. “A linguagem interior é uma formação particular por sua natureza psicológica, uma modalidade es- pecífica de linguagem dotada de particularidades absolutamente específicas e situada em uma rela- ção complexa com as outras modalidades de pensa- mento” (425) Vygotsky aponta que para entender o que é a lin- guagem interior é preciso diferenciá-la tanto do pen- samento, quando da palavra. Assim, a linguagem interior, em primeiro lugar, é uma linguagem para si. A linguagem exterior é uma linguagem para os ou- tros (425). Ela é oposta à linguagem exterior. A linguagem exterior é o processo de transfor- mação do pensamento em palavra, é sua materiali- zação e sua objetivação. A linguagem interior: · Possui uma sintaxe específica – abreviada, condensada, fragmentada em comparação com a exterior. · É predicativa – “apresenta não uma simples transmissão para o estilo telegráfico, mas uma ten- dência totalmente original para a abreviação da fra- se e da oração no sentido da manutenção do predi- cado e dos termos integrantes da oração a ele vincu- lados à custa da omissão do sujeito e das palavras a ele vinculadas”6 (447) · Opera preferencialmente com a semântica e não com a fonética. Há uma independência do sig- nificado. · O sentido predomina sobre o significado. Para poder explicitar mais algumas característi- cas da linguagem interior, Vygotsky compara a lin- guagem exterior à linguagem escrita e, depois, a lin- guagem interior à linguagem escrita. Discurso escrito: · Discurso desenvolvido ao máximo porque é feito na ausência do interlocutor · Forma de discurso sintaticamente complexa · A linguagem escrita e interior são monológicas. A linguagem externa é dialógica. · O diálogo sempre pressupõe a percepção vi- sual e acústica do interlocutor. · É constituído de sujeito e predicado Quais são as peculiaridades da semântica da lin- guagem interior? · Predomínio do sentido7 da palavra sobre o seu significado8 na linguagem interior. Tomada isolada- mente do léxico, a palavra tem apenas um significa- do. O sentido enriquece o significado a partir do contexto. O sentido é inesgotável. “Da mesma for- ma que o sentido de uma palavra está relacionado com toda a palavra e não com sons isolados, o sen- tido de uma frase está relacionado com toda a frase e não com palavras isoladas. · Processo de unificação das palavras e sua com- binação e fusão. A aglutinação ocorre com freqüên- cia cada vez maior. · O sentido das palavras revela leis de fusão e unificação diferentes daquelas dos seus significados. O sentido amplia quase ao infinito o âmbito do sig- nificado. Daí que, no que se refere à linguagem ego- cêntrica, é impossível compreendê-la se ignorarmos a que se refere o seu predicado, o que só pode ser deduzido do contexto da enunciação, dos objetos que o falante tem diante de si. Tese básica de Vygotsky: a linguagem interior é uma função absolutamente específica, independen- te, autônoma e original da linguagem. A linguagem interior é um plano específico do pensamento ver- bal, que medeia a relação dinâmica entre pensamen- to e palavra (473). A linguagem exterior é o processo de transfor- mação do pensamento em palavras, a materializa- ção e a objetivação do pensamento.A linguagem in- terior é o processo inverso – ela ocorre de fora para dentro, há um processo de evaporação da lingua- gem no pensamento. Ela é pensamento vinculado à palavra. É um momento dinâmico, instável, fluído e está entre o pensamento e a palavra. O discurso não desaparece em sua forma interior. Ele se torna um pensamento por significados puros. Plano do pensamento discursivo IDÉIA Pensamento puro PALAVRA Linguagem Externa LINGUAGEM INTERIOR Abreviação Condensação Ampliação do significado pelo sentido ➞ ➞
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    194 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM O pensamento tem a sua estrutura específica e o seu fluxo, e a passagem deste para a estrutura e para o fluxo da linguagem representa grandes dificulda- des. Ele não coincide diretamente com a sua expres- são verbalizada, nem consiste em unidades isoladas como a linguagem. O pensamento é sempre algo integral, consideravelmente maior por sua extensão e o seu volume que uma palavra isolada. Um pensa- mento pode ser comparado a uma nuvem parada, que descarrega uma chuva de palavras. O pensamento não é o último plano em todo o processo. O próprio pensamento não nasce de ou- tro pensamento, mas do campo da nossa consciên- cia que o motiva, que abrange os nossos pendores e necessidades, os nossos interesses e motivações, os nossos afetos e emoções. Por trás do pensamen- to existe uma tendência afetiva e volitiva9 . Só ela pode dar a resposta ao último porquê na análise do pensamento. Para entender o discurso do outro, nunca é ne- cessário entender apenas umas palavras; precisamos entender o seu pensamento. A compreensão do pen- samento do interlocutor é incompleta se não conhe- cermos o motivo que o levou a emiti-lo. Na relação entre palavra e pensamento, Vygotsky ressalta a importância da relação palavra e consci- ência. Se a consciência, que sente e pensa, dispõe de diferentes modos de representação da realidade, estes representam igualmente diferentes tipos de consciência (os diferentes modos de representação da realidade). Por isso, o pensamento e a linguagem são a cha- ve para a compreensão da natureza da consciência humana. Se ‘a linguagem é tão antiga quanto a cons- ciência’, ‘se a linguagem é uma consciência prática que existe para outras pessoas e, consequentemen- te, para mim’, se a ‘maldição da matéria, a maldição das camadas móveis do espírito paira sobre a cons- ciência pura’, então é evidente que não é um sim- ples pensamento mas toda a consciência em seu conjunto que está vinculada em seu desenvolvimento ao desenvolvimento da palavra”. “A palavra é a expressão mais direta da natureza histórica da consciência humana” (486). “A consciência se reflete na palavra como o sol em uma gota de água. A palavra está para a consci- ência como o pequeno mundo está para o grande mundo, como a célula viva está para o organismo, como o átomo para o cosmo. Ela é o pequeno mun- do da consciência. A palavra consciente é o micro- cosmo da consciência humana” (486). 1 Que denota uma tentativa de realizar uma ação. 2 qualquer doutrina que identifica a presença de metas, fins ou objetivos últimos guiando a natureza e a humanidade, considerando a finalidade como o princípio explicativo fundamental na organização e nas transformações de todos os seres da realidade; teleologismo, finalismo. 1.1 - doutrina inerente ao aristotelismo e a seus desdobramentos, fundamentada na idéia de que tanto os múltiplos seres existentes, quanto o universo como um todo direcionam-se em última instância a uma finalidade que, por transcender a realidade material, é inalcançável de maneira plena ou permanente. 1.2 - teoria característica do hegelianismo e seus epígonos, segundo a qual o processo histórico da humanidade - assim como o movimento de cada realidade particular - é explicável como um trajeto em direção a uma finalidade que, em última instân- cia, é a realização plena e exeqüível do espírito hu- mano. (Houaiss). 3 Para poder explicar como se dá o desenvol- vimento do ser humano a partir de uma perspecti- va da complexidade, identificando simultaneamen- te aquilo que faz os seres humanos iguais e o que os faz diferentes, Vygotsky fez suas pesquisas con- siderando quatro planos genéticos: a filogênese (o desenvolvimento da espécie), a ontogênese (o de- senvolvimento do ser dentro dessa espécie), a so- ciogênese (o desenvolvimento histórico-cultural dos seres humanos), e a microgênese (o desenvol- vimento do sujeito). 4 Sincretismo: apreensão global, mais ou menos confusa, de um todo (Dicionário Houaiss) Caminho do pensamento verbal: Motivo Pensamento puro Pensamento enformado Pensamento significado em palavras (Está no espaço da consciência) (é a Idéia) (é a Linguagem interior) (é a Linguagem exterior) ➞ ➞ ➞
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 195 SINPEEM 5 Nessa tradução, o autor chamou a ZDP de Zona de Desenvolvimento Imediato. Resolvi manter o ter- mo “Zona de Desenvolvimento Proximal” que no Brasil ficou mais conhecido por ter sido elaborado pelo tradutor da edição de 1991 do livro “Pensa- mento e Linguagem”. 6 A predicatividade pura ocorre em duas situa- ções: de resposta ou em que o sujeito do juízo a ser enunciado é de conhecimento antecipado dos inter- locutores. “Perguntado se quer uma xícara de chá, ninguém vai responder com a frase desenvolvida: ‘não, eu não quero uma xícara de chá’. A resposta será puramente predicativa: “Não”. Ela trará apenas o predicado. É evidente que essa oração puramente predicativa só é possível porque o seu sujeito – aquilo de que se fala na oração – é subentendido pelos in- terlocutores.” (447) 7 Sentido da palavra é a soma de todos os fatos psicológicos que ela desperta em nossa consciên- cia. Assim, o sentido é sempre uma formação di- nâmica, fluida, complexa, que tem várias zonas de estabilidade variada. Em uma operação a pala- vra aparece com um sentido, em outra, adquire outro (465). 8 O significado é um ponto imóvel e imutável que permanece estável em todas as mudanças de sentido da palavra em diferentes contextos. 9 Que provém da volição, da vontade ou que a exprime. Etimologia: que é relativo à vontade (Houaiss). Resumo elaborado por Maria Lima, bacharel em história e doutora em educação pela FEUSP. WEISZ, Telma. São Paulo, Ática, 2000 Este livro trata da questão do processo de ensino e da compreensão da aprendizagem sob a ótica cons- trutivista. Aborda aspectos essenciais das mudanças em curso na educação. Embora o livro enfoque ques- tões da língua escrita, a autora nos leva a refletir so- bre a importância da reflexão sobre situações didáti- cas para qualquer área do conhecimento. Um novo olhar sobre a aprendizagem As pesquisas realizadas por Emília Ferreiro e Ana Teberosky (1970), sobre como pensam as crianças a respeito do sistema alfabético da escrita - psicogê- nese da língua escrita , tem evidenciado que a meto- dologia embutida nas cartilhas de alfabetização tem contribuído para o fracasso na escola. As cartilhas trabalham com a concepção de língua escrita como transcrição da fala. Apresenta textos que na verdade são apenas agregados de frases desconectadas. Uma concepção que considera o processo de aprendizagem como resultado da ação do aprendiz consegue enxergar o que o aluno já sabe a partir do que ele produz e pensar no que fazer para que apren- da mais. Conhecimento prévio não deve ser confun- dido com conteúdo já ensinado pelo professor. Isso só é possível se o professor se colocar numa posição de observador cuidadoso daquilo que o aluno diz ou faz em relação ao que está sendo ensinado. Na concepção da aprendizagem construtivista na qual o conhecimento é visto como produto da ação O DIÁLOGO ENTRE O ENSINO E A APRENDIZAGEM e reflexão do aprendiz - esse aprendiz é alguém que sabe algumas coisas e que diante de novas informa- ções que para ele fazem sentido, realiza um esforço para assimilá-las. Neste sentido, é preciso conside- rar o conhecimento prévio do aprendiz e as contra- dições que ele enfrenta no processo. Para que ocorra a aprendizagem, a criança pas- sa por um processo que não tem a lógica do co- nhecimento final, como é visto pelos adultos. A postura intelectual do professor é que vai lembrá- lo que o seu olhar já é construído e, portanto dife- rente do olhar da criança. Desde os anos 20, discute-se a questão de que a criança não é um adulto em miniatura. Pensa- dores da Escola Nova como Dewey, Claparède, Decroly, Montessori e Freinet assumiram princípi- os como a valorização do indivíduo como ser li- vre, ativo e social. Porém a Escola Nova deixou de lado o produto da aprendizagem e falhou em não oferecer condições de aprendizagem a todas as crianças, principalmente, aquelas pertencentes às camadas populares. Foi com a criação, por Piaget, de um modelo do processo geral de aprendizagem que instigou Emília Ferreiro a investigar a construção da leitura e da es- crita pelas crianças. À luz destas pesquisas, o mo- delo de ensino relacionado ao construtivismo, cha- ma-se aprendizagem pela resolução de problemas e pressupõe uma intervenção pedagógica, pois apren- der a aprender é algo possível apenas a quem já aprendeu alguma coisa.
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    196 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM Idéias, concepções e teorias que sustentam a prática de qualquer professor, mesmo quando ele não tem consciência delas. Para compreender a ação do professor é preci- so analisá-la com o objetivo de desvelar a concep- ção que o professor tem e que se expressa em seus atos, do conteúdo que ele espera que o aluno apren- da, do processo de aprendizagem e de como deve ser o ensino. Teoria empirista se expressa num modelo de aprendizagem conhecido como “estímulo-respos- ta”; na crença de que o aluno precisa memorizar e fixar informações; o conhecimento está fora do sujeito e é interiorizado através dos sentidos; o su- jeito da aprendizagem é “vazio” na sua origem, sendo preenchido pelas experiências que tem com o mundo; “educação bancária” (metáfora usada por Paulo Freire). A metodologia de ensino expressa nas cartilhas concebe os caminhos pelos quais a aprendizagem acontece. Centrada na teoria empirista está a cartilha: a língua (conteúdo) é vista como transcrição da fala; a aprendizagem se dá pelo acúmulo de informações e o ensino investe na memorização. Para mudar é preciso reconstruir toda a prática através de um novo paradigma teórico: · Um grande equívoco é pensar que alguns con- teúdos se constroem e outros não. · Outro entendimento distorcido influenciado por práticas espontaneístas é pensar que como o conhe- cimento se constrói não há necessidade de interven- ção do professor. · Para inovar sua prática o professor tem que com- preender suficientemente as questões que lhe dão sustentação. · Se o professor parte do princípio que a língua escrita é complexa, ela deve ser oferecida aos alu- nos por inteiro e de forma funcional como é usada realmente. Para fazer o conhecimento do aluno avançar as atividades propostas devem reunir algumas condi- ções e respeitar alguns princípios. Boas situações de aprendizagem são aquelas em que: · Os alunos precisam pôr em jogo tudo o que sa- bem e pensam sobre o conteúdo que se quer ensinar. · Os alunos têm problemas a resolver e decisões a tomar em função do que se propõem produzir. · A organização da tarefa pelo professor garante a máxima circulação de informação possível. · O conteúdo trabalhado mantém suas caracte- rísticas de objeto sóciocultural real, sem se transfor- mar em objeto escolar vazio de significado social. Quando corrigir quando não corrigir · Na concepção construtivista, a função da inter- venção do professor é atuar para que seus alunos transformem seus esquemas interpretativos em ou- tros que dêem conta de questões mais complexas que as anteriores. · Os erros devem ser corrigidos no momento cer- to, que nem sempre é o momento em que foram cometidos. · Do outro lado do extremo do professor que não permite erros está o professor que permite todos. É importante entender que certos erros, depois de um tempo de escolaridade são inaceitáveis. · As correções feitas pelo professor não podem ser todas da mesma natureza, porque os conteúdos também não o são. Os bons usos da avaliação · Avaliação inicial - necessidade de se ter claro o que o aluno já sabe sobre o conteúdo novo, já que o conhecimento a ser construído por ele é na verdade, uma reconstrução que se apóia no conhecimento prévio de que dispõe. · Avaliação de percurso ou formativa – serve para verificar se o trabalho do professor está sendo pro- dutivo e se os alunos estão, de fato, aprendendo com as situações didáticas propostas. · Se a maioria da classe vai bem e alguns não, estes devem receber ajuda do professor. Suas dúvi- das devem ser detectadas, para que eles sejam apoi- ados e continuem progredindo. Como os alunos se vêem e se sentem como estudantes Um desempenho insatisfatório pode ser resulta- do de baixa-estima. Não há prejuízo maior do que professores descrentes da capacidade dos alunos. Reforça, para todos do grupo uma idéia negativa desses alunos, e não é difícil prever as conseqüên- cias desastrosas para o convívio social da classe. E os alunos que chegam no final do período sem aprender o que a escola pretendia? Deve-se pensar o que é melhor para o próprio aluno considerando os diferentes aspectos envol- vidos na questão. Diante de tudo que se sabe do aluno, o desafio é identificar o que poderia bene- ficiar sua escolaridade e a ele próprio: seguir com sua classe ou começar uma nova história escolar com outra classe?
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 197 SINPEEM Formação do professor deve ser permanente Mesmo que a formação inicial se transforme, o trabalho de estudo e reflexão deve ser permanente. A bagagem de conhecimento que o professor sai do curso inicial será sempre insuficiente para desem- penhar sua tarefa em sala de aula. Tematização da prática – é a análise que parte da prática documentada para explicar as hipóteses didáticas subjacentes, ou melhor trata-se de olhar para a prática de sala de aula como um objeto sobre o qual se pode pensar. Visa desvelar as teorias em inúmeras situações de observação e análise para for- mar o tipo de profissional de que precisamos e que tem sido chamado de prático - reflexivo. Para isso é importante o registro: · Registro de seu trabalho por escrito levará a construir uma prática de reflexão. · Registro coletivo para difundir as característi- cas do projeto pedagógico. Finalizando, autora ressalta que se a sociedade quer um ensino de qualidade terá de assumir que isso implica um professor mais bem qualificado e remunerado. Síntese elaborada por Martha Sirlene da Silva, pedagoga, mestre em educação e membro do GEAL/ FEUSP. ENFOQUE GLOBALIZADOR E PENSAMENTO COMPLEXO: UMA PROPOSTA PARA O CURRÍCULO ESCOLAR ZABALA, Antoni. Porto Alegre, Artmed, 2002 O livro está dividido em cinco capítulos. No pri- meiro, ele apresenta o percurso histórico que levou à constituição do enfoque globalizador, ressaltando sua necessidade premente na sociedade complexa em que vivemos atualmente. No segundo, discute como uma determinada opção sobre a função so- cial que o ensino deve cumprir concretiza-se em algumas finalidades educativas. No terceiro capí- tulo, a partir da análise das contribuições do refe- rencial teórico que investiga os processos de ensi- no/aprendizagem, discorre sobre os princípios so- bre como organizar os conteúdos que podem ser elaborados a partir da concepção construtivista. No quarto capítulo, demonstra como as contribuições dos referenciais teóricos apresentados podem ser sintetizadas em algumas fases de intervenção e em alguns princípios conjuntos que dão espaço ao que o autor chama de enfoque globalizador. No último capítulo, Zabala apresenta uma revisão de méto- dos globalizados, comparando-os ao enfoque glo- balizador, e falando do tempo exigido para traba- lhar com esses modelos. Apresenta também alguns exemplos de como podem ser utilizados em dife- rentes etapas educativas. Capítulo 1 – Organização dos conteúdos de aprendizagem Dando início à sua reflexão, o autor aponta que a organização dos conteúdos é a mais importante das diferentes variáveis que determinam a forma como se ensina. Apesar dessa importância, esta variável tem sido pouco debatida, aderindo-se a um ensino muito calcado na lógica formal das dis- ciplinas. No entanto, “uma coisa é a organização dos sa- beres a partir de uma perspectiva científica e outra, bastante distinta, é como devem ser apresentados e ensinados os conteúdos desses saberes para que se- jam aprendidos em um maior grau de profundida- de” (16). Zabala indaga se temos certeza de que a estrutu- ra lógica das disciplinas é a mais apropriada para promover aprendizagem. A natureza da finalidade da ciência é simples- mente diferente da natureza das finalidades edu- cativas. Nesse sentido, é preciso estabelecer crité- rios de seleção de conteúdos a partir da explicita- ção de algumas finalidades do ponto de vista es- tritamente escolar. A diferenciação em áreas de conhecimento obe-
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    198 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM deceu, desde suas origens, a critérios fundamental- mente educativos. Da Grécia antiga ao século XIX, o princípio diretor era a unidade do conhecimento, nunca sua fragmentação. Na modernidade, assisti- mos a fragmentação dos saberes, cada vez mais es- pecializados. “...aquilo que em seu início era o re- sultado de algumas finalidades basicamente forma- tivas, fragmentou-se em dois mundos artificialmente separados e determinados por um falso, mas ao mes- mo tempo real, corte entre o âmbito “humanístico” e que agora denominaríamos âmbito “científico e tecnológico” (18) Atualmente, a organização dos conteúdos que compõem o currículo escolar te um caráter priorita- riamente propedêutico1 , demonstrando que a fun- ção social da escola está limitada à preparar seus alunos para o nível seguinte. Em que pese essa preponderância, muitas críti- cas têm sido tecidas contra essa concepção. Uma série de escolas tem desenvolvido o conceito de “educar para a vida”, introduzindo novos conteú- dos de aprendizagem. As pesquisas recentes têm enfatizado os proces- sos de aprendizagem, destacando que o protagonis- ta da escola é o estudante e não o que se ensina, deslocando as preocupações do o que ensinar para o como ensinar. Assim, a seleção dos conteúdos tem a ver com a compreensão do como as pessoas per- cebem a realidade, assim como à aspectos da moti- vação e do interesse pelo que têm de aprender. A partir de estudos do início do século passado, já se sabe hoje que a percepção da realidade jamais é analítica e sim global. A síntese é algo que advém de um primeiro estudo global e para isso intervém a escola. Com base nessa idéia, uma série de movi- mentos de renovação que se desenrolaram ao longo do século XX procurou estruturar currículos que fu- gissem à lógica disciplinar e propedêutica. A estruturação de uma lógica interdisciplinar de organização dos conteúdos é uma necessidade que tem se colocado não só no âmbito escolar, mas tam- bém no científico. Cada vez mais se acredita que a integração dos diversos saberes deva ocorrer preser- vando-se a especificidade de cada área. À escola cabe considerar essa necessidade de integração a partir da necessidade de educar o indivíduo. Em oposição à lógica disciplinar, tem se afirma- do na escola a dois conceitos: os métodos globali- zados e o enfoque globalizador. Os métodos globalizados (método de projetos, centros de interesse, complexos, tópicos, etc) ten- tam romper a estrutura parcializada do ensino em disciplinas, propondo uma organização dos conteú- dos de caráter “global” (27). Por outro lado, na escola, a partir de uma posi- ção ideológica que entende o ensino como o desen- volvimento de todas as capacidades do ser humano para intervir na sociedade e de um conhecimento atual dos processos de aprendizagem, surge a ne- cessidade de uma atuação pedagógica que tenha um enfoque globalizador, em que os conteúdos de apren- dizagem são sempre os meios para conhecer e res- ponder a questões que uma realidades experiencial dos alunos proporciona: realidade que sempre é glo- bal e complexa (28). Sob o nome de métodos globalizados encontram- se aqueles métodos que organizam os conteúdos de aprendizagem a partir de situações, temas ou ações, independentemente da existência de disciplinas. As disciplinas deixam de ser objeto de estudo para se tornar o meio para obter o conhecimento. Zabala se atém a 4 métodos ditos globalizados e que obedecem aos princípios expostos anteriormen- te: os centros de interesse de Decroly; o método de projetos de Klipatrick; a investigação do meio do MCE (Movimento de Cooperazione Educativa de Itália); os projetos de trabalho global.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 199 SINPEEM Tabela 1: Características diferenciais dos métodos globalizados (p. 30) INTENÇÃO FASES Centros de Interesse Tema que se deve conhecer 1. Observação 2. Associação: - espaço - tempo - tecnologia - causalidade 3. Expressão Método de projetos Projeto que se pretende realizar 1. Intenção 2. Preparação 3. Execução 4. Avaliação Investigação do meio Perguntas ou questões 1. Motivação 2. Perguntas 3. Hipóteses 4. Informação 5. Coleta de dados 6. Seleção 7. Conclusões 8. Expressão e comunicação Projetos de trabalho global Elaboração do dossiê 1. Escolha do tema 2. Planejamento 3. Informação 4. Informação 5. Coleta de dados 6. Seleção 7. Conclusões 8. Expressão e comunicação Projetos de trabalho global Elaboração do dossiê 1. Escolha do tema 2. Planejamento 3. Informação 4. Tratamento de informações 5. Desenvolvimento do índice 6. Avaliação 7. Novas perspectivas Os conteúdos da aprendizagem provêm das produções da Academia, mas a lógica de organização do trabalho não é o das disciplinas. O enfoque globalizador exige a mudança da forma de relacionar as disci- plinas. O autor apresenta os diferentes conceitos elaborados ao longo do século passado em torno das possíveis relações que podem ser estabelecidas entre as disciplinas. Tabela 2: Diferentes tipos de relações entre as disciplinas (p. 32) Multidisciplinaridade Pluridisciplinaridade Interdisciplinaridade Transdisciplinaridade Somativa Contigüidade Interação Unificação Justaposição de di- ferentes disciplinas, às vezes sem relação apa- rente entre si. Por exem- plo: música + matemá- tica + história. Justaposição de disci- plinas mais ou menos próximas em um mesmo setor de conhecimentos. Por exemplo: matemáti- ca + física ou, no campo das letras, francês + latim + grego. Interação entre duas ou mais disciplinas que pode ir desde a simples comunicação até a inte- gração recíproca dos conceitos fundamentais e da teoria do conheci- mento, da metodologia dos dados da investiga- ção e do ensino. Execução axiomáti- ca comum a um conjun- to de disciplinas (por exemplo: a antropologia considerada, segundo a definição de Linton como “a ciência do ser humano e suas obras”).
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    200 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM O enfoque globalizador é justificado pela idéia de que a finalidade do sistema educativo é o desen- volvimento de todas as capacidades da pessoa para dar resposta aos problemas que a vida em socieda- de coloca. Com o termo enfoque globalizador (ou perspectiva globalizadora ou, ainda, visão globali- zadora) define-se a maneira de organizar os conteú- dos a partir de uma concepção de ensino na qual o objeto fundamental de estudo para os alunos seja o conhecimento e a intervenção na realidade (35). A sociedade atual exige um sujeito cada vez mais habilitado a lidar com a complexidade e o enfoque globalizador permite esse aprendizado. A aproxima- ção dos conteúdos se dá através da resolução de si- tuações problema que coloquem o aluno diante da complexidade da vida real. “Em síntese, podemos dizer que, ao organizar os conteúdos de aprendizagem e ensino, podemos partir de modelos nos quais não eiste nenhum tipo de relação enre os conteúdos das diferentes disci- plinas (multidisciplinaridade), de modelos nos quais se estabelece algum tipo de relação entre duas ou mais disciplinas (interdisciplaridade), e, inclusive, de modelos nos quais a aproximação ao objeto de estudo realiza-se prescindindo da estrutura por dis- ciplinas (metadisciplinaridade) e cujo desenvolvi- mento didático é abordado sob um enfoque globa- lizador. Este pode concretizar-se às vezes em méto- dos globalizados nos quais os diferentes conteúdos de aprendizagem (procedentes de diversas discipli- nas) são trabalhados de forma inter-relacionada (uma pretensa transdisciplaridade e uma real inter- disciplinaridade)” (39). Para definir os princípios e as fases do enfoque globalizador é preciso considerar os referenciais te- óricos que embasam as opções no que se refere ao ensino, a partir de uma opção sobre sua função so- cial, assim como aqueles que explicam os processos de ensino/aprendizagem. Esses são os temas dos ca- pítulos 2 e 3, respectivamente. Capítulo 2 – Função social do ensino e enfoque globalizador Toda atividade educativa reproduz ideais, va- lores e pautas de comportamento que são reflexos de uma determinada concepção de pessoa e de sociedade. Valores, idéias e pautas de comportamento são transmitidos em todas as ações que envolvem o ensinar. A escolha do o quê ensinar em cada uma das disciplinas até o como ensinar e como avaliar são elementos formativos decorrentes da concep- ção de educação, pessoa e sociedade que os gru- pos possuem. Alijados dos processos decisórios que ficam nas mãos dos grupos hegemônicos que detém o poder político em uma sociedade, os professores raramen- te têm clareza sobre a relação existente entre a sele- ção do conteúdo, as formas de ensinar, os modelos e os ideais de pessoa e sociedade. Isso impede que eles vejam com clareza outras variáveis do ensino. Os sistemas educativos, sem dúvida alguma, são reprodutores da ordem social vigente. “O modelo capitalista imperante promoveu, sob uma distribui- ção de tarefas fordista, uma contínua especialização no trabalho, desmembrando em diferentes fases os processos de produção em uma atomização de su- perespecializações, transferindo a lógica parcializa- dora do âmbito produtivo para o próprio sistema educativo” (47). Por trás das tensões no falso debate entre huma- nismo e tecnologia esconde-se um conflito ideoló- gico que, do ponto de vista do autor, é a questão crucial: a função social que o ensino deve cumprir. Os professores ficam perdidos na definição de crité- rios sobre o que ensinar porque, ao longo desse de- bate, não se enfoca a verdadeira questão de fundo: o papel da educação em um sistema democrático. Só é possível desligar-se da visão parcelada do saber que acredita que toda a organização de con- teúdos deve obedecer a lógica disciplinar se o papel do ensino for assumido com profundidade. Ao situar-se em uma sociedade democrática, a escola precisa revisar permanentemente as necessi- dades formativas em função da permanente trans- formação às quais as relações estão submetidas. Mas isso implica não se deixar levar pelos relativismos e niilismos. A escola precisa promover a discussão sobre a necessidade de se obter liberdade com igual- dade na distribuição das riquezas. A primeira aproximação da discussão sobre as finalidades da educação passa pela abordagem do tipo de sujeito que se quer formar. Faz-se necessário o investimento nas diferentes dimensões de desen- volvimento da pessoa: Dimensão social - “participar ativamente da trans- formação da sociedade, o que significa compreen- dê-la, avaliá-la e intervir nela, de maneira crítica e responsável,com o objetivo de que seja cada vez mais justa, solidária e democrática” (53). Dimensão interpessoal - “saber relacionar-se e viver positivamente com as demais pessoas, co- operando e participando de todas as atividades hu- manas com compreensão, tolerância e solidarie- dade” (54). Dimensão pessoal - “conhecer-se e compreen- der a si mesmo, às demais pessoas, à sociedade e ao mundo em que se vive, capacitando o indivíduo para exercer responsável e criticamente a autonomia, a cooperação, a criatividade e a liberdade” (55)
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 201 SINPEEM Dimensão profissional - “dispor dos conhecimen- tos e das habilidades que permitam às pessoas exer- cer uma tarefa profissional adequada às suas neces- sidades e capacidades” (56). Uma educação para o trabalho onde o ensino facilite o desenvolvimento das capacidades profissionais das pessoas, mas sem perder a visão global da pessoa como ser crítico di- ante das desigualdades e comprometido com a trans- formação social e econômica. Educar para a complexidade é uma das necessi- dades atuais. Nesse sentido, homens e mulheres pre- cisam desenvolver uma série de competências numa relação com o saber que extrapole os problemas in- ternos e específicos das disciplinas. Deve-se optar por uma aprendizagem por problemas, complexa, na qual o saber científico esteja a serviço do desen- volvimento humano em suas vertentes pessoais e sociais, capacitando-os a lidar com problemas reais. Num ensino que se entende a necessidade de trazer problemas da vida real para a sala de aula, qual o papel das disciplinas? Para responder a esta questão é necessário acabar com a dicotomia entre conhecimento cotidiano e conhecimento científico. Se o ensino for voltado para a intervenção na reali- dade, temos que falar de um conhecimento cotidia- no com diferentes graus de cientificidade. Assim, as disciplinas contribuem com saberes especializados no enriquecimento do conhecimento cotidiano. “...o conhecimento escoar será constituído pela seleção dos conteúdos de aprendizagem que de- vem intervir no processo de melhora do conheci- mento cotidiano. Conteúdos que, logicamente, se- rão providos do saber culturalmente constituído, isto é, das diferentes disciplinas ou matérias do conhe- cimento científico” (62/3) No entanto, a estrutura fragmentada que hoje está presente na escola não responde a essas necessidades, por isso a impor- tância do enfoque globalizador. Num modelo de aprendizagem entende-se a aprendizagem como um processo de interação dos conhecimentos do sujeito com novos. Nesse senti- do, o conhecimento formado por um conjunto mais ou menos estruturado de conteúdos conceituais, pro- cedimentais e atitudinais pode ser denominado de conhecimento cotidiano. Ao mesmo tempo, existem os conhecimentos científicos, constituídos pela soma dos saberes que diferente disciplinas tradicionais proporcionam e que formam um conjunto organiza- do por matérias de fatos, conceitos, sistemas con- ceituais, métodos, técnicas. O conhecimento cotidiano é pessoal, elaborado de maneira circunstancial e arbitrária, não existindo separação entre os diferentes âmbitos de conheci- mento e sem ausência de uma reflexão sobre o pró- prio conhecimento. O conhecimento científico, por outro lado, é universal, seguiu um processo histórico com certa linearidade, estado rigidamente parcializa- do, sendo a reflexão seu elemento constituinte. A escola tradicional separou esses dois tipos de conhecimento. No enfoque globalizador a idéia é melhorar o conhecimento cotidiano a partir das con- tribuições do conhecimento científico, visando o enriquecimento do conhecimento das pessoas atra- vés da melhora e da reconstrução do conhecimen- to já existente. Considerando-se que o objetivo da escola seja a melhora e reconstrução dos conhecimentos pré- existentes, dois problemas se colocam: 1) como de- terminar o conhecimento escolar (conteúdos con- ceituais, procedimentais e atitudinais que promo- verão a reconstrução e ampliação dos conhecimen- tos preexistentes)? 2) Como promover situações que potencializem a significação e a funcionalidade da aprendizagem? A partir de uma clara definição das finalidades de educação, é possível definir os conhecimentos escolares. Esse conjunto de saberes devem ser o meio para a consecução de objetivos educativos preten- didos e não algo relevante por valores intrínsecos. Poderão ser conteúdos: aprender a aprender, a cooperação e a solidariedade, o conhecimento das próprias limitações e possibilidades, a adaptabili- dade às mudanças, a compreensão e o posiciona- mento diante dos conflitos sociais e ambientais, a resolução de problemas de todo tipo, etc., todos eles relacionados a uma realidade vital e, por isso, complexa (67). Na perspectiva do enfoque globalizador, a reali- dade deve ser abordada pela escola em sua forma global. Isso implica libertar-se da servidão de esque- mas predeterminados por diferentes pontos de vistas das matérias. Contribui para isso a perspectiva me- tadisciplinar (a disposição de se acercar da realida- de com o conhecimento de que ela só é apreensível em sua globalidade). Para constituir um currículo escolar que realmen- te integre as disciplinas é preciso encontrar concei- tos que sejam transferíveis para todas as disciplinas. Por exemplo, no caso de modelos biológicos, eco- nômicos, ecológicos, sociológicos, podemos relaci- onar conceitos comuns como energia, fluxo, ciclos, redes de intercambio, equilíbrio, evolução, etc (76). Nesse trabalho, o grande objetivo deve ser o de prover o estudante da capacidade de diferenciação dos instrumentos conceituais ou procedimentais ne- cessários para atender às necessidades de resposta diante dos problemas da realidade. Além disso, é pre- ciso que ele aprenda a relacionar os conteúdos pro- porcionados pelas diferentes disciplinas para que, de maneira conjunta ou integrada, sejam potencializa- das as capacidades explicativas de cada um deles. O autor conclui o capítulo enumerando os três princípios e algumas fases de intervenção daquilo que ele denomina de enfoque globalizador.
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    202 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM Princípios: · O objeto de estudo do ensino é a realidade: a compreensão da realidade para intervir nela e trans- formá-la · A realidade, sua compreensão e atuação nela são complexas · Apesar de suas deficiências , as disciplinas são os principais instrumentos para o conhecimento da realidade Fases: 1) Apresentação dos objetos de estudo em sua complexidade 2) Processo de análise: identificação e explicita- ção das diferentes questões que o conhecimento coloca e a intervenção na realidade 3) Delimitação do objeto de estudo 4) Identificação dos instrumentos conceituais e metodológicos que podem ajudar-nos a dar resposta aos problemas colocados 5) Utilização do saber disciplinar ou dos saberes disciplinares para chegar a um conhecimento que é parcial 6) Integração das diferentes contribuições e re- construção 7) Visão global e ampliada Capítulo 3 – Concepção da aprendizagem e enfoque globalizador A partir de uma determinada opção acerca da função social do ensino, o autor apresenta nesse capítulo os critérios necessários para a constituição de um enfoque globalizador considerando a organi- zação dos conteúdos em função das características das estruturas cognoscitivas2 (a, b e c), o próprio pro- cesso de aprendizagem (d até g) e o fomento da motivação para a aprendizagem (h até l). Além dis- so, apresenta também as fases de trabalho. Princípios: a) O objetivo básico da aprendizagem consis- te na revisão e na modificação da estrutura cog- noscitiva, com a finalidade de que seja cada vez mais potente. b) Os conteúdos de aprendizagem, para que pos- sam ser aprendidos, devem ter uma organização conceitual lógica e uma coerência interna. c) A capacidade de atualização dos conhecimen- tos prévios está vinculada à sua riqueza e à sua ver- satilidade para se relacionar com toda classe de no- vos conteúdos. d) Para alcançar o imprescindível desequilíbrio dos esquemas, é necessário promover o conflito cog- nitivo que o possibilita. e) O reequilíbrio não é automático, porque de- pende da natureza das atividades de aprendizagem, do grau e do tipo de ajuda pedagógica que implica. f) A melhora nas aprendizagens ocorre quando há uma análise e uma reflexão sobre o processo se- guido g) As capacidades para o conhecimento e para a ação estão ligadas ao domínio de estratégias de pla- nejamento da atividade e de aprender a aprender h) A maneira como os alunos e as alunas se auto- representam em uma tarefa que devem realizar, ou seja, seu autoconceito e sua auto estima, incide na atitude para aprender significativamente. i) A motivação depende do sentido atribuído à tarefa, que a torna atrativa, interessante, pertinente a uma necessidade. j) O melhor incentivo do interesse é a gratifica- ção da experiência de que se aprende e de que se pode aprender k) O papel das avaliações do próprio trabalho, o momento e a forma como se produzem incidem quase de maneira definitiva na motivação para a aprendizagem l) Os conteúdos de aprendizagem devem ser in- teressantes por si mesmos. Fases: 1 - Atividade motivadora que promova o fomen- to da atitude favorável para aprender 2 - Criação do conflito cognitivo, reconhecimento e ativação dos conhecimentos prévios 3 - Negociação compartilhada e definição dos objetivos 4 - Planejamento das tarefas que devem ser rea- lizadas 5 - Realização das tarefas que desenvolvem a atividade mental necessária para a construção dos significados 6 - Conclusões, descontextualização e generali- zação 7 - Avaliação do processo e dos resultados: auto- reflexão 8 - Estratégias para ajudar a lembrar Capítulo 4 – Princípios e fases do enfoque globalizador O autor reconhece que, no estágio atual de or- ganização dos sistemas escolares, o enfoque globa- lizador pode ser pensado a partir de uma lógica dis- ciplinar. Por isso, nesse capítulo, ele enumera os prin- cípios e pautas sobre seqüências didáticas3 , consi- derando a organização curricular por disciplina to- mando como referencial as contribuições da teoria construtivista sobre a aprendizagem. Ele condensa os princípios e fases apresentados nos capítulos 2 e 3. Analisando as possibilidades de organização disciplinar que se colocam para as escolas, suge-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 203 SINPEEM re algumas estratégias de atuação. Nas escolas que ainda tenham um modelo de disciplinas independentes, é possível criar seqüên- cias didáticas a partir dos princípios do enfoque glo- balizador: situação de realidade, apresentação de questões, utilização de instrumentos e recursos dis- ciplinares, formalização segundo os critérios da dis- ciplina e aplicação em outras situações para facilitar a generalização e o domínio de conceitos e das ha- bilidades aprendidos. O autor adverte, no entanto, que, na organização disciplinar, corre-se o risco de não introduzir o máximo possível de relações, não só no âmbito de cada disciplina e na situação real de partida, mas também deixando-se à margem as relações e os vínculos entre os conteúdos das dife- rentes disciplinas. Além disso, perde-se de vista qual a disciplina responsável pelo desenvolvimento de conteúdos atitudinais (respeito, solidariedade, coo- peração, valores não-sexistas, etc). Nas escolas em que já existe colaboração entre os professores ou onde um professor seja responsá- vel por diferentes disciplinas é possível chegar a um modelo assimilável às propostas dos métodos glo- balizados. O autor passa a enumerar uma série de exem- plos projetos desenvolvidos na perspectiva do enfo- que globalizador, a saber: · Projeto Educação global - Pike e Selvy (1988) – , definido a partir de um sistema de objetivos educa- tivos (envolvendo objetivos de conhecimento e ob- jetivos de atitude). · Critérios de globalização a partir dos temas trans- versais – Fernando Lucini (1995) e Rafael Yus (1996) · Currículo Integrado - Jurjo Torres (1994a), dan- do ênfase especial a conteúdos cotidianos, tais como as culturas infantis e juvenis, o mundo feminino, a sexualidade lésbica e homossexual, a classe traba- lhadora e o mundo das pessoas pobres, o mundo rural e marítimo, entre outros. · Educação ambiental - M.P. Jiménez e R. Lopes (1995) –, na área de ciências naturais, integrando a física, a química, a biologia e a geologia. · Em ciências humanas ele cita o Projeto Aula Sete (1995), Projeto Cronos (1997), Projeto Insula Barataria (1995), Humanities Curriculum Project (1984), Projeto MACOS (1969). · Integrando meio ambiente e matemática - Kurt Kreit (1995) · Matemática e vida cotidiana - Fernando Corba- lán (1995) Por fim, da página 165 a 194, o autor dá uma série de exemplos de unidades didáticas por áreas (e para os diferentes níveis – de Educação Infantil ao Ensino Médio) em um enfoque globalizador a partir das fases apresentadas no capítulo 3. Capítulo 5 – Os métodos globalizados Segundo o autor, quando há as condições que o tornam possível, o enfoque globalizador pode concretizar-se em um método globalizado. No ca- pítulo, ele apresenta quatro diferentes métodos glo- balizados (os centros de interesse, o método de pro- jetos de Kilpratick, a investigação do meio do MCE – Movimento de Cooperazione Educativa de Itália), os projetos de trabalho globais), examinado suas dimensões formais, seu objeto de estudo e a seqüên- cia didática, comparando-os com as do enfoque glo- balizador4 . Por fim, fornece exemplos de unidades didáticas nas etapas da educação infantil, ensino fundamen- tal e médio. Os centros de interesse de Decroly partem de um núcleo temático motivador para os alunos e, seguin- do os processos de observação, associação e expres- são, integram conteúdos de diferentes áreas de co- nhecimento. O método de projetos de Kilpatrick consiste, ba- sicamente, na elaboração de algum objeto ou na confecção de uma montagem (uma máquina, um audiovisual, uma estufa, uma horta escolar, um jor- nal, etc). A investigação do meio do MCE (Movimento de Cooperazione Educativa de Itália) tenta fazer com que as crianças construam o conhecimento através da seqüência do método científico (problemas, hi- póteses, confirmação). Os projetos de trabalho globais, com o objetivo de conhecer um tema que os alunos escolheram, propõem que é preciso elaborar um dossiê ou uma monografia como resultado de uma pesquisa pesso- al ou de grupo. Zabala apresenta uma tabela comparativa das principais características dos métodos globalizados e do enfoque globalizador.
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    204 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM Tabela 3: Comparação entre os métodos globalizados e o enfoque globalizador (p. 200) Duas críticas feitas aos métodos globalizados são rebatidas pelo autor. A primeira diz respeito à difi- culdade de integrar todos os conteúdos ou muitas das atividades previstas. A segunda refere-se à possi- bilidade de entediar os estudantes pelo fator de tra- balharem sobre o mesmo tema durante um certo pe- ríodo de tempo. Ele aponta que a solução está em dividir o tempo escolar em dois períodos, um dedi- cado ao desenvolvimento de método globalizado e outro a sessões de trabalhos específicos por área. 1 Que visa dar ao aluno a formação geral e bási- ca para que possa ingressar num curso superior (dic. Houaiss) 2 Que tem o poder ou a capacidade de conhecer (dicionário Houaiss). 3 Segundo Zabala, a seqüência didática é um conjunto de atividades organizado pelas aprendiza- gens. É caracterizada por uma progressão de desafi- os (problemas) a serem enfrentados (resolvidos) pe- los alunos. A resolução desses problemas, por hipó- tese provoca mudanças qualitativas nos esquemas de conhecimento do aluno sobre o conteúdo que a seqüência focaliza. Por isso, pressupõe conhecimen- to sobre o conteúdo a ser aprendido e uma visão didática sobre os processos de aprendizagem na área de conhecimento a que ele pertence. 4 As seqüências apresentadas no livro foram tira- das do capítulo 6 do livro também escrito por Zaba- la, intitulado “A prática educativa – como ensinar”. Síntese elaborada por Maria Lima, doutora pela FEUSP. Primeiro Momento Segundo Momento Terceiro momento A. Situação da realidade B. Aprendizagem específica C. Integração Tipos de Relações disciplinares Enfoque globalizador 1. Perspectiva metadisciplinar 2. Processo disciplinar 3. Processo interdisciplinar (perspectiva metadisciplinar) 1. Motivação 2. Apresentação 3. Análise 4. Delimitação 5. Identificação de instrumentos 6. Utilização de instrumentos 7. Integração 8. Visão global e ampliada 9. Memorização Intenção Centros de Interesse Tema que se quer estudar (Sincrise) 1. Observação (Análise) 2. Associação: - no espaço - no tempo - tecnologia - de causalidade (Síntese) 3. Expressão Métodos de projeto Projeto que se quer realizar 1.Intenção 2. Preparação 3. Execução 4. Avaliação Investigação do meio Perguntas ou questões 1. Motivação 2. Perguntas 3. Hipóteses 4. Informação 5. Coleta de dados 6. Seleção 7. Conclusões 8. Expressão e comunicação Projetos de trabalho global Elaboração do dossiê 1. Escolha do tema 2. Planejamento 3. Informação 4. Tratamento da informação 5. Desenvolvimento do índice 6. Avaliação 7. Novas Perspectivas
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 205 SINPEEM ZABALA, Antoni. Porto Alegre, Artmed, 1998 O autor apresenta nesse livro alguns critérios para o que chamou de uma prática reflexiva e coerente, fornecendo elementos que possibilitem a análise das condições dessa prática, a qual precisa ser interro- gada a partir de determinados referenciais teóricos. Inicia o livro abordando os referenciais necessá- rios para a análise da prática educativa, discorren- do, em seguida, sobre as variáveis que tradicional- mente foram utilizadas para interpretar prática do- cente, em particular as relações interativas, a orga- nização social da aula, o tempo e o espaço, a orga- nização dos conteúdos, os materiais curriculares, os recursos didáticos e a avaliação. Capítulo 1 - A prática educativa: unidades de análise O autor afirma que a prática docente deve se pautar no pensamento prático sem deixar de lado a capacidade reflexiva, conseguida a partir de recur- sos teóricos que potencializem a atuação. Uma série de variáveis configura a prática edu- cativa, tais como os parâmetros institucionais, orga- nizativos, tradições metodológicas, possibilidades reais dos professores, dos meios e condições físicas existentes. Mas a prática educativa é complexa e seu estudo envolve a consideração de aspectos muito concretos relacionados à aula e à intervenção peda- gógica, como as atividades ou tarefas, unidade bási- ca do processo ensino/aprendizagem. O autor chama a organização das atividades de seqüências didáticas e as considera a unidade prefe- rencial para análise da prática. As seqüências didá- ticas (sinônimo de unidade didática, unidade de pro- gramação ou unidades de interação pedagógica) são definidas por Zabala como um conjunto de ativida- des ordenadas, estruturadas e articuladas para a rea- lização de certos objetivos educacionais, que têm um princípio e um fim, conhecidos tanto pelos pro- fessores como pelos alunos. Para analisar a comple- xidade da prática educativa no contexto das seqüên- cias didáticas, o autor ressalta ser preciso identificar as variáveis metodológicas que a envolvem. A seu ver, as principais variáveis, à reflexão das quais ele destina todo o livro, são: a seqüência de atividades de ensino/aprendizagem (seqüência didática); o pa- pel dos professores e dos alunos (relações interati- vas e situações comunicativas); organização social da aula (formas de agrupamentos); utilização dos espaços e dos tempos; maneira de organizar os con- teúdos; uso de materiais curriculares e outros recur- A PRÁTICA EDUCATIVA - COMO ENSINAR sos didáticos; o sentido e o papel da avaliação – uma variável determinante, uma peça-chave para deter- minar as características de qualquer metodologia. Capítulo 2 - A função social do ensino e a concepção sobre os processos de aprendizagem: instrumentos de análise A função social do ensino e ao conhecimento sobre como se dá a aprendizagem estão dentre os referenciais mais importantes para a reflexão sobre a prática educativa, segundo Zabala. O domínio des- ses dois âmbitos de conhecimento é fundamental para lidar com as variáveis que configuram a prática educativa. Por conseguinte, os objetivos educacio- nais cumprem um papel central. Por trás de qual- quer intervenção pedagógica consciente se escon- dem uma análise sociológica e uma tomada de posi- ção que é sempre ideológica. É necessária uma re- flexão profunda e permanente quanto à condição de cidadão e cidadã e quanto às características da soci- edade que os alunos irão viver. É preciso insistir que tudo o que fazemos em aula, por menor que seja, incide em maior ou menor grau na formação de nos- sos alunos. É nesse contexto que os conteúdos de aprendi- zagem assumem o papel de instrumento de explici- tação das intenções educativas. Numa perspectiva mais ampla, o conceito de conteúdo amplia-se, dei- xando de se restringir aos conteúdos conceituais, que abrangem apenas as capacidades cognitivas, passan- do a englobar as capacidades motora, afetivas, de relação interpessoal e de inserção social. Dá-se visi- bilidade a um currículo oculto que, apesar de serem aprendizagens realizadas na escola, não apareciam de forma explícita nos planos de ensino. Assim, ve- mos surgir conteúdos de diferentes naturezas: os conceituais, os procedimentais e os atitudinais. Num ensino que propõe a formação integral a presença dos diferentes tipos de conteúdos estará equilibrada, conhecendo-se aquilo que se trabalha e o que se pretende trabalhar. Além disso, para ensi- nar é preciso partir de uma idéia de como as apren- dizagens se produzem. Hoje, tem-se claro que as aprendizagens dependem das características singu- lares de cada um dos aprendizes, correspondendo, em grande parte, às experiências que cada indiví- duo viveu desde o nascimento. De acordo com as capacidades, as motivações e interesses de cada um dos meninos e meninas, a forma como se aprende e o ritmo da aprendizagem variam. As aprendizagens são, portanto, o resultado de processos que sempre são singulares e pessoais, o que pressupõe um enfo-
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    206 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM que pedagógico que tenha como eixo estruturador a observação à atenção a diversidade dos alunos. Os princípios psicopedagógicos em torno da con- cepção construtivista da aprendizagem estabelecem referências e critérios relevantes para a análise da prática e da intervenção pedagógica. No tocante à aprendizagem, considera-se que a estrutura cogniti- va do estudante configurada por uma rede de esque- mas de conhecimento deve ser atualizada através de comparações com o que é novo e da identifica- ção de semelhanças e diferenças.. No que se refere ao ensino, concebe-se a inter- venção pedagógica como uma ajuda adaptada ao processo de construção do conhecimento pelo alu- no; uma intervenção que vai criando zonas de de- senvolvimento proximal e que ajuda os alunos a percorrê-la. O autor considera que a classificação dos con- teúdos segundo a tipologia (conceituais, atitudinais e procedimentais) potencializa a ação do ensino no sentido de promover uma aprendizagem significati- va, pois em torno deles as diferentes disciplinas po- dem se integrar. Assim, ele propõe que se conheça algumas das características da aprendizagem de cada um desses conteúdos para que se potencialize a ação do ensino. O primeiro tipo de conteúdo está relacionado ao conhecimento de fatos, acontecimentos, situações, dados e fenômenos concretos e singulares. Para po- der compreender a maioria das informações e pro- blemas que surgem na vida cotidiana e profissional é preciso que estes dados, fatos e acontecimentos disponham dos conceitos associados que permitam interpretá-los. Consideramos que um aluno ou alu- na aprendeu um conteúdo factual quando é capaz de reproduzi-lo. Este tipo de conhecimento se apren- de basicamente mediante atividades de cópia, a fim de ser integrado na memória. O segundo tipo de conteúdo, os conceitos, se referem ao conjunto de fatos, objetos ou símbolos que têm características comuns. Os princípios se re- ferem às mudanças que se produzem num fato, ob- jeto ou situação em relação a outros fatos, objetos ou situações. Normalmente, os princípios descrevem relações de causa e efeito ou de correlação. Ambos (conceitos e princípios) têm como denominador co- mum a necessidade de compreensão. Para que o estudante possa utilizar um conceito ou princípio para a interpretação, o conhecimento de situações, ou mesmo para a construção de outras idéias é ne- cessário que a aprendizagem envolva um verdadei- ro processo de elaboração e construção pessoal. Para tanto, ela deve se dar num contexto complexo de resolução de problemas. O conteúdo procedimental (regras, técnicas, métodos, as destrezas ou habilidades, as estratégias, os procedimentos entre outras coisas) é um conjun- to de ações ordenadas dirigidas para a realização de um objetivo. Aprendem-se os conteúdos procedi- mentais a partir de modelos especializados. Para esse tipo de conteúdo, a partir da realização de ações, é necessário considerar a exercitação múltipla, a re- flexão sobre a própria atividade e a aplicação em contextos diferenciados. Zabala fecha o capítulo abordando a aprendiza- gem dos conteúdos atitudinais. O termo engloba uma série de conteúdos que podem ser agrupados em valores, atitudes e normas. Estes conteúdos estão estreitamente relacionados e cada um deles está con- figurado por componentes cognitivos, afetivos e con- dutais. A aprendizagem supõe um conhecimento e uma reflexão sobre os possíveis modelos, uma aná- lise e uma avaliação das normas, uma apropriação e elaboração do conteúdo, que implica a análise dos fatores positivos e negativos, uma tomada de posição, um envolvimento afetivo e uma revisão e avaliação da própria atuação. Capítulo 3 – As seqüências didáticas e as seqüências de conteúdo Muitas propostas didáticas têm sua especificida- de determinada pelo tipo de atividades e a maneira de organizá-las. Assim, a identificação das fases de uma seqüência didática, as atividades que a confor- mam e as relações que se estabelecem devem nos servir para compreender o valor educacional que tem, as razões que as justificam e a necessidade de introduzir mudanças ou atividades novas. O autor sugere um roteiro de investigação para o desvenda- mento desses elementos, a partir de questões que permitam analisar se na seqüência didática existem atividades: a) que possibilitem determinar os conhe- cimentos prévios que cada aluno tem em relação aos novos conteúdos de aprendizagem? b) cujos con- teúdos são propostos de forma que sejam significati- vos e funcionais para os meninos e meninas? c) que representam um desafio alcançável para o aluno, quer dizer, que levam em conta suas competências atuais e as façam avançar com a ajuda necessária; portanto, que permitam criar zonas de desenvolvi- mento proximal e intervir? d) que estimulem a auto- estima e o auto-conceito em relação às aprendiza- gens que se propõem, quer dizer, que o aluno possa sentir que em certo grau aprendeu, que seu esforço valeu a pena? O autor propõe também que se analise a seqüên- cia didática a partir da todos os conteúdos que apa- recem ao longo da unidade. Torna-se necessário es- tabelecer algumas características dessa unidade básica sobretudo nas áreas de caráter mais proce- dimental e para os conteúdos de caráter atitudi- nal. Importante também considerar os conteúdos dos denominados eixos transversais e aqueles ob-
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 207 SINPEEM jetivos relacionados com a moral e a ética. Uma vez identificadas as seqüências de conteú- dos, o passo seguinte consiste em relacioná-las com o conhecimento que temos sobre os processos sub- jacentes à aprendizagem dos diferentes conteúdos. As atividades básicas para as seqüências de con- teúdos factuais terão de ser aquelas que têm exercí- cios de repetição e, conforme a quantidade e a com- plexidade da informação, utilizem estratégias que reforcem as repetições mediante organizações signi- ficativas ou associações. O próprio aluno precisa realizar os exercícios por sua conta até que seja ca- paz de assimilar o conteúdo. No tocante aos conceitos e princípios, por serem temas abstratos, requerem uma compreensão do sig- nificado e, portanto, um processo de elaboração pessoal. São totalmente necessárias as condições estabelecidas sobre a significância na aprendizagem. No ensino de conteúdos procedimentais, de téc- nicas ou estratégias, existe a necessidade de realizar exercícios suficientes e progressivos das diferentes ações que os formam. Nesse sentido, as seqüências dos conteúdos dos procedimentos deverão conter algumas condições: a) devem partir de situações sig- nificativas e funcionais; b) a seqüência deve con- templar atividades que apresentem os modelos de desenvolvimento do conteúdo de aprendizagem; c) é necessário que as atividades de ensino/aprendiza- gem se ajustem ao máximo a uma seqüência clara com uma ordem de atividades que siga um processo gradual; d) são necessárias atividades com ajudas de diferente grau e prática guiada; e) atividades de trabalho independente. Na aprendizagem do conteúdo atitudinal têm que abarcar, junto com os campos cognitivos, os afeti- vos e condutuais, dado que os pensamentos, os sen- timentos e o comportamento de uma pessoa não dependem só do socialmente estabelecido, como sobretudo, das relações pessoais que cada um esta- belece com o objeto da atitude ou do valor. É preci- so sensibilizar o aluno sobre as normas existentes na escola e na aula através da participação ativa do alu- no. A assembléia de alunos como recurso didático pode responder às necessidades de formação dos valores que queremos para a escola. Nas seqüênci- as de aprendizagem será preciso levar em conta tam- bém algumas medidas: 1) adaptar o caráter dos con- teúdos atitudinais às necessidades e situações reais dos alunos; 2) partir da realidade e aproveitar os conflitos que nela se apresentam; 3) introduzir pro- cessos de reflexão crítica para que as normas sociais de convivência integrem as próprias normas; 4) fa- vorecer modelos de atitudes que se queiram desen- volver, não apenas por parte dos professores; e) fo- mentar a autonomia de cada aluno. Capítulo 4 - As relações interativas em sala de aula: o papel dos professores e dos alunos Na perspectiva construtivista, o ensino se articu- la em torno do princípio da atividade mental dos alu- nos e é visto como um processo de construção com- partilhada de significados, orientados para a auto- nomia dos estudantes. Disso decorre algumas fun- ções dos professores: 1) planejar a atuação docente de uma maneira suficientemente flexível para per- mitir a adaptação às necessidades dos alunos em todo o processo de ensino/aprendizagem; 2) contar com as contribuições e os conhecimentos dos alunos, tan- to no inicio das atividades como durante sua reali- zação; 3) ajudá-los a encontrar sentido no que estão fazendo para que conheçam o que têm de fazer, sin- tam que podem fazê-lo e que é interessante fazê-lo; 4) estabelecer metas ao alcance dos alunos para que possam ser superadas com o esforço e a ajuda ne- cessários; 5) oferecer ajudas adequadas, no proces- so de construção do aluno, para os progressos que experimenta e para enfrentar os obstáculos com os quais se depara; 6) promover atividade mental auto- estruturante que permita estabelecer o máximo de relações com o novo conteúdo, atribuindo-lhe sig- nificado no maior grau possível e fomentando os processos de metacognição que lhe permitam asse- gurar o controle pessoal sobre os próprios conheci- mentos e processos durante a aprendizagem; 7) es- tabelecer um ambiente e determinadas relações pre- sididos pelo respeito mútuo e pelo sentimento de confiança, que promovam a auto-estima e o auto- conceito; 8) promover canais de comunicação que regulem os processos de negociação, participação e construção; 9) potencializar progressivamente a au- tonomia dos alunos na definição de objetivos, no planejamento das ações que os conduzirão a eles e em sua realização e controle, possibilitando que aprendam a aprender; 10) avaliar os alunos confor- me suas capacidades e seus esforços, levando em conta o ponto pessoal de partida e o processo atra- vés do qual adquirem conhecimento e incentivando à auto-avaliação das competências. A estruturação das relações interativas e o tipo de atuação do professor também são determinados pelo tipo de conteúdo. Assim, a condição ativa dos conteúdos procedimentais obriga a incluir ativida- des que permitam realizar as ações que comportam estes conteúdos tantas vezes quantas for necessário. Ademais, é preciso incluir formas organizativas que facilitem as ajudas adequadas às necessidades espe- cíficas de cada um dos alunos. A ação dos alunos deve ser precedida da observação de modelos e sua realização deve contar com apoio constante. A aprendizagem dos conteúdos atitudinais, re- quer uma reflexão mais profunda a respeito das rela- ções interativas que devem ser promovidas. O fato
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    208 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM de que para a aprendizagem dos conteúdos atitudi- nais seja preciso articular ações formativas, nas quais estes conteúdos sejam “vividos” pelos alunos, obri- gada a integrar em aula não apenas as tarefas con- cretas, como principalmente formas específicas de desenvolvê-las em clima e em relações adequadas entre professores e alunos e entre os próprios alu- nos. O ambiente geral, as avaliações que se faz e as relações que se estabelecem têm que traduzir os va- lores que se quer ensinar (105). Capítulo 5 - A organização social das classes O autor ressalta que os processos individuais têm sido, historicamente, a forma mais habitual de preparar as pessoas mais jovens, de qualquer gru- po social para se inserir na coletividade. A necessi- dade de resolver o problema de como ensinar ao mesmo tempo a um número máximo de alunos ocorreu quando se considerou necessário generali- zar o ensino da leitura e da escrita, denominada “cultura geral”. Decorreu daí uma forma de organi- zação que privilegiava a reunião de grandes gru- pos coordenados por um preceptor. No início do século XX, evoluiu-se para outras formas de orga- nização da escola e dos alunos em função das dife- rentes concepções educativas e conhecimentos psi- copedagógicos que nasceram. As diferenças mais características das diversas formas de agrupamentos estão determinadas por seu âmbito de intervenção: grupo/escola e grupo/classe. Em cada uma delas conforme o trabalho a ser reali- zado temos todo o grupo trabalhando junto ou equi- pes fixas ou móveis. As características da organização grupal neste âmbito estão determinadas, em primeiro lugar, pela organização e pela estrutura de gestão da escola e, em segundo lugar pelas atividades que toda escola realiza de forma coletiva. Além disso, a estrutura e a organização da escola como grupo se define pelo grau de envolvimento e atribuição de responsabili- dade dos professores e dos próprios alunos e pela definição de papéis dos diferentes segmentos que compõem a comunidade escola. Este funcionamen- to também define determinadas relações interpesso- ais que podem ser de ajuda, de colaboração, de con- fiança ou exatamente o contrário. O grau e a manei- ra em que os diferentes segmentos da comunidade escolar participam nas decisões da escola são igual- mente básicos na formação dos alunos. No caso dos grupos/classe fixos, estes devem ser heterogêneos para que ocorra a aprendizagem entre iguais, o contraste entre modelos diferentes de pen- sar e atuar e o surgimento de conflitos cognitivos, a possibilidade de receber ajuda dos colegas que sa- bem mais etc. No grupo/classe móvel, os componentes são di- ferentes conforme as atividades, áreas ou matérias e que pode chegar a ter professores diferentes para cada aluno. A razão fundamental que deu origem a esta forma organizativa foi a preocupação em aten- der aos diferentes interesses e capacidades dos meninos e meninas. No espaço da aula, Zabala aponta a diversidade de agrupamentos possíveis: em grande grupo (todos fazem o mesmo ao mesmo tempo); em equipes fixas (grupos de alunos de 5 a 8 componentes por um lon- go período de tempo); em equipes móveis ou flexí- veis (alunos que se agrupam pelo tempo de realiza- ção de uma atividade); trabalho individual. Zabala destaca a importância das variáveis tem- po e espaço na determinação das diferentes formas de intervenção pedagógica. Quando o foco é a apren- dizagem e não mais o ensino, tanto o espaço, quan- to o tempo, ajustam-se em função dos objetivos edu- cativos que nascem de uma certa concepção de edu- cação. E nesse sentido, a estrutura rígida das salas de aula e períodos de tempo de trabalho inflexíveis podem inviabilizar uma efetiva transformação das maneiras de ensinar. Capítulo 6 - A organização dos conteúdos Para o autor, o modelo disciplinar, utilizado pela maioria das escolas, e o método globalizado são as duas formas básicas de organizar os conteúdos na escola atualmente. Os métodos globalizados nasce- ram quando o aluno se transformou no protagonista do ensino. Neles, os conteúdos que são trabalhados procedem de diferentes disciplinas, apesar de não seguir uma lógica disciplinar. Existem vários métodos que podem ser conside- rados globalizadores na perspectiva de Zabala. O autor detém-se em quatro deles: 1) os centros de in- teresse de Decroly: parte de núcleo temático moti- vador para o aluno e segue pelos processos de ob- servação, associação e expressão, integrando dife- rentes áreas do conhecimento; 2) o método de pro- jetos de Kilpratick: consiste na elaboração e produ- ção de algum objeto ou montagem; designa a ativi- dade espontânea e coordenada de um grupo de alu- nos que se dedicam metodicamente à execução de um trabalho globalizado e escolhido livremente por eles mesmos; 3) o método do estudo do meio: con- sidera a pesquisa como um método de aprendiza- gem, possibilitando que o aluno conheça o mundo cientificamente; 4) os projetos de trabalho: com o fim de se conhecer um tema, as crianças elaboraram um dossiê, individualmente ou em equipe, mobili- zando para isso uma série de habilidades, estratégi- as e conhecimentos procedentes de diferentes disci- plinas, áreas ou matérias. Os quatro diferentes métodos globalizados pro- põem diferentes formas de seqüenciar os conteúdos,
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 209 SINPEEM de organizar os grupos, de usar materiais e de avali- ar. Eles tomam como objetivo fundamental a inter- venção na realidade, pois se entende que esse é o principal elemento para fomentar uma atitude favo- rável à aprendizagem. Capítulo 7 - Os materiais curriculares e outros recursos didáticos Zabala aponta que os materiais curriculares (ou materiais de desenvolvimento curricular) considera- dos essenciais em muitas propostas pedagógicas, são todos aqueles instrumentos que proporcionam ao educador referências e critérios para tomar decisões (planejamento, intervenção direta e avaliação). Desse ponto de vita, a noção de materiais curri- culares se amplia e pode incluir propostas para a elaboração de projetos educativos e curriculares da escola; propostas relativas ao ensino em determina- das matérias ou áreas, ou em determinados níveis, ciclos ou etapas; propostas para o ensino destinado a alunos com necessidades educativas especiais; descrição de experiências de inovação educativa; materiais para o desenvolvimento de unidades didá- ticas; avaliação de experiências e dos próprios ma- teriais curriculares, etc (168). No referente aos materiais de aula e materiais para o aluno, o autor ressalta que cada meio oferece algumas potencialidades específicas e é importante determinar em que podem ser mais úteis. Entre os mais utilizados na escola ele cita os suportes: em papel, a projeção estática; imagem e movimento; o suporte da informática e o suporte multimídia. Para a análise e a seleção dos materiais curricu- lares dirigidos aos alunos, Zabala aponta a necessi- dade de se determinar critérios e referências a fim de se detectar os objetivos educativos subjacentes num determinado material, por exemplo, num pro- jeto editorial; verificar que conteúdos são trabalha- dos, comprovando se existe uma correspondência entre os objetivos e os conteúdos; verificar que se- qüências de atividades são propostas para cada um dos conteúdos. O autor ressalta a importância da existência de materiais curriculares diversificados. Quanto mais variados sejam os materiais, mais fácil será a elabo- ração de propostas singulares, ajustados às necessi- dades específicas de um grupo/classe e à especifici- dade tipológica de cada conteúdo. Capítulo 8 - A Avaliação É possível distinguir claramente dois processos avaliáveis, segundo o autor: como o aluno aprende e como o professor ou professora ensina. Muitos dos pressupostos da avaliação (qualificar e sancionar) mudam quando a formação integral é a finalidade principal do ensino e, portanto, seu maior objetivo é o desenvolvimento de todas as capacida- des da pessoa e não apenas as cognitivas. O objeti- vo do ensino não centra sua atenção em certos parâ- metros finalistas para todos, mas nas possibilidades pessoais de cada um dos alunos. O resultado é a transformação das formas de avaliar em função das novas necessidades que se instauram. Na análise da avaliação que tem a concepção construtivista do ensino e a aprendizagem como re- ferencial psicopedagógico, o objeto da avaliação deixa de se centrar exclusivamente nos resultados obtidos e se situa prioritariamente no processo de ensino/aprendizagem, tanto do grupo/classe como de cada um dos alunos. Por outro lado, o sujeito da avaliação não apenas se centra no aluno, como tam- bém na equipe que intervém no processo. Nesse contexto, a avaliação torna-se formativa, de manei- ra que o processo avaliador, independentemente de seu objeto de estudo, tem que observar as diferentes fases de uma intervenção que deverá ser estratégica. A avaliação deve, então, possibilitar: 1) que se conheça a situação de partida, em função de deter- minados objetivos gerais bem definidos (avaliação inicial); 2) um planejamento da intervenção funda- mentado e, ao mesmo tempo, flexível, entendido como uma hipótese de intervenção; 3) uma atua- ção na aula, em que as atividades e tarefas e os próprios conteúdos de trabalho se adequarão cons- tantemente (avaliação reguladora) às necessidades que vão se apresentando para chegar a determina- dos resultados (avaliação final); 4) Uma compreen- são e valoração sobre o processo seguido, que per- mita estabelecer novas propostas de intervenção (avaliação integradora). A avaliação na perspectiva formativa considera as diferentes características dos tipos de conteúdos em função das características de sua aprendizagem. Uma aprendizagem significativa de fatos envol- ve sempre a associação dos fatos aos conceitos que permitem transformar este conhecimento em instru- mento para a concepção e interpretação das situa- ções ou fenômenos que explicam. Se o que interes- sa saber, neste momento, é se são capazes de lem- brar os nomes, os dados, os títulos, as datas, etc, a atividade mais apropriada para avaliar o que o alu- no sabe será a simples pergunta. As provas denomi- nadas objetivas podem ser bastante úteis para a ava- liação do domínio do conhecimento dos fatos. As atividades para conhecer qual é a compreen- são de um determinado conceito não podem se ba- sear na repetição de algumas definições. Mesmo que se pedisse que o aluno fosse capaz de definir auto- nomamente, sem repetir uma definição padroniza- da, deveríamos saber que este é um dos graus mais difíceis de conceitualização. As atividades que po- dem garantir um melhor conhecimento do que cada
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    210 PEDAGÓGICA –CONCURSO 2007 – SINPEEM SINPEEM aluno compreende implicam a observação do uso de cada um dos conceitos em diversas situações e nos casos em que o menino ou a menina os utilizam em suas explicações espontâneas. Os conteúdos procedimentais implicam saber fazer, e o conhecimento sobre o domínio deste sa- ber fazer só pode ser verificado em situações de apli- cação destes conteúdos. O que se pede é sua capa- cidade de uso, a competência na ação, o saber fa- zer. Por isso, são potenciais as atividades e situações que nos permitam realizar a observação sistemática de cada um dos alunos, sendo que as habituais pro- vas de papel e lápis servem só para alguns casos . A avaliação dos conteúdos atitudinais é a mais complexa e o problema não está na dificuldade de expressão do conhecimento que os meninos e me- ninas têm, mas na dificuldade da aquisição deste conhecimento. A fonte de informação para conhe- cer os avanços nas aprendizagens de conteúdos ati- tudinais será a observação sistemática de opiniões e das atuações nas atividades grupais, nos debates das assembléias, nas manifestações dentro e fora da aula, nas visitas, passeios e excursões, na distribuição de tarefas e responsabilidades, durante o recreio, nas atividades esportivas, etc. A observação da atuação dos alunos em situa- ções o menos artificiais possíveis, com um clima de cooperação e cumplicidade, é a melhor maneira, para não dizer a única, de que dispomos para reali- zar uma avaliação que pretenda ser formativa. Por fim, levando-se em consideração que é pre- ciso avaliar os processos que cada aluno segue, a fim de obter o máximo rendimento de suas possibili- dades, é preciso compartilhar todos os dados consi- derados significativos com o grupo/classe, alunos, família, grupo de professores ou a administração da escola. Essa socialização deve ocorrer: 1) ao lon- go das diferentes etapas do ensino obrigatório, di- ferenciando-se o processo que cada aluno segue e os resultados ou competências que vai adquirindo; 2) diferenciar o que representam os resultados ob- tidos de acordo com os objetivos previstos para cada menino e menina, conforme sua possibilidades, e o que estes resultados representam em relação aos objetivos gerais para todo o grupo; 3) na análise e avaliação das aprendizagens é indispensável dife- renciar os conteúdos que são de natureza diferente e não situá-los num mesmo indicador (factuais, con- ceituais, procedimentais e atitudinais); 4) diferen- ciar as demandas da administração e as necessida- des de avaliação que se tem na escola. O autor encerra o livro ressaltando que, muito embora a análise da prática seja inseparável de ino- vação e de formação, é também indissociável de re- ferenciais, de marcos que permitam fazer estas aná- lises. Além de se vincularem à ação conjunta, tais marcos precisam permitir a superação dos níveis puramente descritivos, que não se contentem com a constatação do que se faz, mas que permitam ava- liar sua pertinência e adequação. Resumo realizado por Sandra Giovina Ponzio Ferreira, psicóloga pela PUC/SP; mestranda na FEUSP e membro do GEAL.
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    PEDAGÓGICA – CONCURSO2007 – SINPEEM 211 SINPEEM Anotações