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ESPERANÇA
  que temos


evangevaldo farias de sousa
          2004
            1
A esperança que temos




A Esperança que temos

© 1996, Evangevaldo Farias de Souza
e-mail: vanjo_s@yahoo.com.br




Impressão de Primavera de 2004




O Texto deste trabalho pode ser citado ou reimpresso sem permissão por
escrito do autor.

Todos os textos bíblicos citados serão da Edição Revista e Atualizada da
Sociedade Bíblica do Brasil, salvo citação ao contrário.




www.fazendodiscipulos.com.br




                                      2
Conteúdo

Prefácio 5

Introdução 7

1. A dor que exige explicação 9

2. Os motivos de Deus 15

3. Unidos, em esperança, ao coração de Deus 31

4. Olhando, com esperança, pela lente de Deus 53

5. Invadindo o desespero 65

6. A esperança que temos 87

7. Experimentando a esperança 99




                    3
A esperança que temos




         4
Prefácio
      As tribulações, as perplexidades, os abatimentos, as
dores e as aflições geram no homem uma necessidade única
de respostas. O que está acontecendo comigo? O que Deus
está querendo me ensinar? Por onde devo trilhar? Estas per-
guntas, entre outras, são discutidas neste trabalho.
      O livro “A esperança que temos” é impactante ao mes-
mo tempo em que é cheio de consolo. De Jó – homem íntegro
e reto, a Jesus – o modelo perfeito, o leitor é confrontado com
a verdade e com a postura que deve tomar.
      Cabe a cada um permitir ser conduzido pelo escritor a
um aprofundamento na leitura da Palavra de Deus. Assim,
sempre buscando uma maior revelação do que o Senhor tem
para si, as perguntas serão respondidas. Descobre-se que tudo
que Deus faz e permite na vida do homem aponta para o eter-
no. É “ver” como Deus “vê”, pois todas as coisas cooperam


                             5
A esperança que temos



para o bem e para a eternidade daqueles que amam ao Senhor
(Rm 8.28).
      Este trabalho é o resultado da vivência, da experiência
e do profundo amor apaixonado que o autor nutre pelo Se-
nhor Jesus Cristo e toda a sua obra. Começou com a compila-
ção de alguns sermões ministrados desde 1993. Com muita
meditação e debate sobre o tema revíamos os manuscritos,
quando em março de 1996, ocorreu o grave acidente que
testificou a todos como Evangevaldo vive para Deus e como
em todo tempo busca olhar as circunstâncias da mesma for-
ma que o Pai as observa.
      Este livro não é um mero escrito. É um testemunho
vivo e ardente da vida de um homem. Mergulhe de coração
na leitura destas palavras. Leia e medite nos textos bíblicos,
pois, com toda certeza, Deus lhe falará. Que o Pai da eterni-
dade possa, em sua misericórdia, encher de graça, alegria e
paz a cada um para uma viva esperança.


      Salvador, outubro de 2004
      Sérgio de Avillez




                              6
Introdução
     “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cris-
     to que, segundo a sua muita misericórdia, nos re-
     generou para uma viva esperança mediante a res-
     surreição de Jesus Cristo dentre os mortos…”
     (1Pe 1.3-9).

     “E o Deus da esperança vos encha de todo gozo e
     paz no vosso crer, para que sejais ricos de espe-
     rança no poder do Espírito Santo.” (Rm 15.13)

     A esperança é uma dádiva do céu que faz com que a
nossa fé sempre aponte para o alvo, como a bússola aponta
para o norte, enchendo de consolo e alegria o nosso crer. Não
pretendo defini-la nesse estudo, mas demonstrar sua possibi-
lidade prática em meio à turbulência em que vivemos.
     As Escrituras falam muito de esperança. Suas páginas
estão cheias de graciosa esperança. E isto não é mera coinci-

                            7
A esperança que temos



dência, mas manifesta a intenção de Deus de nos comunicar,
encher e enriquecer com ela, porque Ele mesmo é o Deus da
esperança. “Pois tudo quanto outrora foi escrito, para o nosso
ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência, e pela consola-
ção das Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15.4).
      Crendo nisto, quero considerar um pouco do muito que
outrora foi escrito para o nosso ensino (2Tm 3.16, 17), a par-
tir de uma pequena análise da história de Jó. A minha expec-
tativa é que, inspirados nesta pequena amostra do todo de
Deus, busquemos ver todos os nossos caminhos do ponto de
vista d’Ele.




                               8
1



             A dor que exige
               explicação
     Jó era homem fiel e temente a Deus, de tal maneira que,
segundo o próprio Deus, não havia ninguém semelhante a ele
em toda a terra. Não apenas era íntegro e reto, como tam-
bém, muito rico e honrado. O homem mais rico do Oriente.
Vejamos alguns aspectos da sua vida:
     •   Sua integridade e temor a Deus: Jó 1.1-22; 2.1-10;
         29.12-17, 21-25; 30.25; 31.1-40.
     •   Sua honra: Jó 29.1-11.
     •   Sua prosperidade: Jó 1.3; 31.24-25.
     Jó era como um modelo que Deus podia apresentar ao
mundo como exemplo e ao inferno como um trunfo. Era o
Seu servo Jó: “Observaste meu servo Jó? Porque ninguém há
na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a
Deus, e que se desvia do mal”. Este testemunho de Deus a


                           9
A esperança que temos



respeito de um homem suscita a ira de Satanás que faz da
queda de Jó um desafio para si. Ainda hoje é assim: a vida que
é uma honra para Deus é um ultraje para o inferno. Por isso
“todos quantos querem viver piedosamente em Cristo serão
perseguidos” (2Tm 3.12).
      A confiança de Deus estava em que Jó O preferia por
aquilo que Ele era, e não pelas bênçãos com que lhe agracia-
ra. Deste modo, quando se refere ao seu servo, o Senhor o
chama de homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se
desvia do mal (Jó 1.8). Nenhuma referência faz à riqueza e
honra que Jó possuía.
      O esforço de Satanás é demonstrar o oposto, lançando
na face do Senhor que todos os homens e, mesmo o melhor
deles, preferem o pecado, vivendo para si mesmo e fazendo
sua própria vontade. É como dizer a Deus: os homens te se-
guem, apenas, porque Tu os abençoas e proteges. Deixa-os
sofrer e verás como te rejeitarão. Eles não te preferem. Amam
a si mesmos mais do que a Ti. É esta a acusação com que, de
dia e de noite, ele acusa os irmãos diante de Deus (Ap 112.10).
      Assim, quando Deus lança o desafio ao diabo apre-
sentando Jó como um modelo de fidelidade, segue-se um
grande duelo entre os valores sobre os quais o Senhor es-
tabelece seu relacionamento com o homem e os valores
mesquinhos do inferno.


                              10
A dor que exige explicação



      O conflito, portanto, não é entre Jó e Satanás, mas entre
Deus e Satanás. Por um lado, o Senhor dizendo: “Observaste
a meu servo Jó?…homem íntegro e reto, temente a Deus e
que se desvia do mal”, por outro Satanás que diz: “…Jó em
vão teme a Deus? Acaso não o cercaste com sebe, a ele, a sua
casa e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste, e
os seus bens se multiplicaram na terra. Estende, porém, a tua
mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema
contra ti na tua face.”
      Deus libera a ação de Satanás para dar seguimento ao
seu propósito. Deus tinha planos para a posteridade da fé,
tinha lições a ensinar que envolviam Jó (Satanás foi só um
instrumento de Deus para cumprir os intentos do próprio
Deus). Satã investe contra Jó com toda ferocidade, provocan-
do uma destruição cruel: em um só dia Jó perde toda a sua
riqueza e todos os seus filhos são mortos violentamente. As
notícias chegam uma após outra, sem tempo, sequer, para
pensar no que se sucedia: “Falava este ainda quando veio ou-
tro e disse:…” (Jó 1.12-19). Diante deste golpe terrível, Jó
reage com humilhação e confiança, adorando ao Senhor e di-
zendo: “Nu saí do ventre… E nu voltarei; o Senhor deu e o
Senhor tomou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1.20-22).
      Jó não sabia, mas a sua tribulação estava apenas come-
çando. Seu sofrimento seria intensificado e prolongado por


                            11
A esperança que temos



muitos meses. Diante da perseverança de Jó e do repetido
testemunho de Deus: “Observaste meu servo Jó?…ele con-
serva a sua integridade, embora me incitaste contra ele para
o consumir sem causa” (Jó 2.3), Satanás apela para o sofri-
mento físico, argumentando: “Pele por pele e tudo quanto o
homem tem dará pela sua vida” (Jó 2.4). Em outras palavras:
o que o homem mais ama é a sua própria vida; pode tolerar
outras provações, mas não suportará ver a sua própria vida
destruída – ele é egoísta!
       Mais uma vez o Senhor expõe o seu testemunho ao ris-
co: “…Eis que ele está em teu poder…” e o diabo vai e fere a
Jó com tumores malignos em todo o seu corpo. Jó sentava-se
em cinzas e raspava seu corpo chagado com um caco. De tal
modo era deprimente o seu estado e tamanha a sua dor, que
sua esposa o aconselha a blasfemar contra Deus e depois se
matar. A isto Jó responde: “falas como qualquer doida: temos
recebido o bem de Deus, e não receberíamos também o mal?
Em todas estas coisas Jó não pecou com a sua boca” (Jó 2.7-
10).
       Mas o mal de Jó não era um mal qualquer. Ele transfor-
mara-se em uma figura repugnante, apodrecendo vivo. Veja-
mos algumas conseqüências de sua enfermidade.
       a) Teve que se sentar no monturo, fora da cidade (2.8);
       b) As chagas criaram vermes (7.5);


                              12
A dor que exige explicação



     c) Tinha pesadelos horríveis (7.13-16);
     d) Sentia-se como uma coisa podre (13.28);
     e) O secar e supurar das chagas lhe encheram o corpo
            de rugas (16.8);
     f) Tornou-se esquelético (16.8; 19.20);
     g) Homens lhe desprezavam e lhe esbofeteavam o ros-
            to (16.10);
     h) Seus amigos lhe zombavam (16.20);
     i) Seu mau hálito afastava sua própria esposa (19.17);
     j) Seu mau cheiro causava nojo aos seus irmãos (19.17);
     k) Só as suas gengivas escaparam das chagas (19.20);
     l) As crianças lhe desprezavam (19.18);
     m) Sentia os ossos deslocados e queimando em fe-
            bre (30.17, 30);
     n) Antes, à sua chegada, os jovens se retiravam, os
            anciãos se levantavam e os príncipes se calavam
            (29.7-10). Agora os filhos dos loucos zombavam dele
            e lhe cuspiam no rosto (30.1-16).
     A notícia do nobre que caíra em desgraça espalhara-se
muito e três amigos de Jó vieram de longe para consolá-lo.
Avistando-o não o reconheceram, tal era o seu estado. Então,
choraram em voz alta e por sete dias e sete noites não conse-
guiram falar uma palavra, assentados com ele na terra (Jó
2.11-13).


                               13
A esperança que temos



      Jó, que tinha esperança de ser consolado por seus ami-
gos (Jó 6.14) , logo descobriu que, ao invés de consoladores,
eles se tornaram molestadores, quebrantando-o com palavras
de acusação e aumentando-lhe a aflição (Jó 16.1-7; 19.1-6).
Mesmo quando clama por compaixão: “compadecei-vos de mim,
amigos meus, compadecei-vos de mim…” (Jó 19.21), não é aten-
dido. Sem esperança de ser consolado por seus amigos, Jó
suplica que pelo menos eles lhe ouçam, e isto lhe seria por
consolo (Jó 21.1-3). Mas nem isso ele conseguiu, pelo contrá-
rio, recebeu mais acusações e até injúrias (Jó 22.5-11).
      Deste modo, desprovido do apoio de seus amigos, sen-
tindo-se desamparado por Deus e sofrendo as mais terríveis
aflições na carne, Jó passa a queixar-se amargurado e triste,
questionando a Deus por seus sofrimentos:

      “Por isso não reprimirei a minha boca, falarei na
      angústia do meu espírito, queixar-me-ei na amar-
      gura de minh’alma…’ ‘Se pequei, que mal te fiz a
      Ti, ò Espreitador dos homens? Por que fizeste de
      mim um alvo…?’ ‘A minha alma tem tédio à mi-
      nha vida…’ ‘Por que, pois, me tiraste da
      madre…?”(Jó 7.11,20; 10.1,18).

      Por quê? Esta é a pergunta que persiste.




                              14
2



        Os motivos de Deus
      Podemos até pensar que se houve alguém na terra com
motivos para queixar-se, este alguém foi Jó (Jó 6.1-10). Deus,
porém, pensa diferente. Depois de ouvir todas as queixas de
Jó, o Senhor passa a mostrar-lhe toda a sua insensatez e ig-
norância: “Quem é este que obscurece meus desígnios com
palavras sem entendimento?… Acaso quem usa de censuras
contenderá com o Todo-Poderoso? Quem assim argüi a Deus
que responda. Acaso anularás, de fato, o meu conselho? Ou
me condenarás para te justificares?”. Depois de assim falar,
Deus passa a argüir Jó, exigindo-lhe explicação sobre a cria-
ção de um modo geral, sem que este lhe pudesse dar resposta
(Jó 38 a 41).
      Mas por que Deus se preocupou tanto em mostrar a
ignorância de Jó? Por que humilhá-lo mais? Em uma avalia-
ção superficial, os argumentos de Deus parecem completa-


                            15
A esperança que temos



mente despropositados e sem nexo. Qual a relação entre o
sofrimento de um homem íntegro e o hipopótamo, o aves-
truz, o crocodilo? Ou a neve, o mar, as estrelas? Realmente
não é razoável, não faz sentido.
      Uma observação mais apurada pode revelar-nos alguns
dos motivos de Deus que podemos aplicar em nossa vida hoje.
      Deus quer mostrar-nos que a nossa ignorância nos im-
possibilita de exercer qualquer julgamento (Rm 11.33-36).
Jó nos serve de exemplo. Ora, se ele não entendia as coisas
simples da natureza, como a vida animal, o clima, enfim, os
fenômenos naturais de um modo geral, como entender o pro-
pósito de Deus nas coisas que lhe sucediam? “Os passos do
homem são dirigidos pelo Senhor; Como, pois, poderá o ho-
mem entender o seu caminho?” (Pv 20.24).
      A ignorância de Jó quanto ao propósito de Deus era tal,
que quando Deus o tinha por motivo de alegria, uma espécie de
tesouro pessoal Seu: “Meu servo Jó”, ele considerava Deus como
seu inimigo e perseguidor: “Deus, tu me lançaste na lama… Tu
foste cruel contra mim” (Jó 30.11, 19-21; 19.6-12, 21, 22). Jó
realmente ignorava os pensamentos de Deus a seu respeito e o
Senhor queria e precisava mostrar-lhe que: “assim como os céus
são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais
altos que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos
que os vossos pensamentos” (Is 55.8, 9).


                              16
Os motivos de Deus



      Deus tem conhecimento completo do antes, do agora e
do após. “…pois para o Senhor um dia é como mil anos e mil anos
como um dia” (2Pe 3.8). O Senhor se detém e vive intensa-
mente cada situação e momento nosso. O nosso dia não passa
rápido e desapercebido ao Senhor:
      •   Nas tribulações, ele nos conta os passos, nos recolhe as
          lágrimas em seu odre e as registra no Seu livro (Sl
          56.8). Deste modo, um dia, poderá enxugá-las todas
          (Ap 21.4). Ele sabe exatamente quantas são!
      •   Angustia-se na nossa angústia (Is 63.9).
      •   Nos carrega em seus braços (Is 46.3, 4).
      •   Ele detém-se, tendo tempo e cuidado suficientes para
          nos contar os fios todos de cabelos de nossa cabeça
          (Mt 10.30).
      Aleluia! Que belo é o cuidado de nosso bondoso Pai!
      O Senhor não se exaspera com o tempo como se fosse
perder alguma chance irrecuperável. Ele nunca é surpreen-
dido pelas situações. Ele nunca dirá: Passou-se tanto tempo e
eu não consegui! Nada disso! Para o Senhor, passou-se só um
dia, ainda que tenham sido mil anos.
      O Eterno Deus não está atrasado em seu propósito.
“Nenhum dos seus planos será frustrado” (Is 46.10; Jó
42.2). Aleluia!



                              17
A esperança que temos



      Ele é Alfa e Ômega, Princípio e Fim. Tudo está retido
n’Ele, encerrado n’Ele – Ele é os limites da eternidade, o Pai
da Eternidade (Is 9.6; 44.6; Ap 1.8; 21.6). Deste modo, Ele
sabe por que as coisas acontecem e para que acontecem; co-
nhece os motivos e sabe os resultados. Ele é o Senhor! Aleluia!
Davi diz: “Tal conhecimento é elevado demais para mim” (Sl
139.6).
      Verdadeiramente, Deus tinha uma importantíssima li-
ção a ensinar ao seu servo Jó e à posteridade da fé. Ali estava
a oportunidade: Jó não sabia da conversa de Deus com Sata-
nás, nem do grande conflito que se configurava nas regiões
celestiais. Não sabia do desafio de Satanás e do quanto Deus
“apostou” nele, o seu servo Jó.
      Ao “apostar” em Jó, Deus estava expondo a sua própria
reputação. Como a igreja hoje é o “bom perfume de Cristo,
exalando em todo lugar a fragrância do seu conhecimento”,
assim também, Jó era o que Ele tinha de melhor.
      Embriagado por sua dor, Jó não sabia a causa da sua
provação. Não apenas isso, mas Jó também não sabia que seu
exemplo perduraria por séculos: “Quem me dera agora, que
as minhas palavras se escrevessem! Quem me dera, que se
gravassem num livro! E que, com pena de ferro, e com chum-
bo, para sempre fossem esculpidas na rocha!” (Jó 19.23-24).
Era este o seu anseio. Não sabia ele que este seu desejo se


                              18
Os motivos de Deus



cumpriria. Não sabia que mil anos depois Deus daria teste-
munho dele (Ez 14.14) e que três mil e quinhentos anos de-
pois, nós estaríamos aqui, sendo inspirados e desafiados por
sua vida. Jó não sabia o resultado da sua aflição, o fruto da sua
dor.
       E aqui está a lição a ser aprendida: os homens são sem-
pre inclinados a relacionar a aprovação e benção de Deus com
o seu próprio bem-estar. Se estão bem, Deus está com eles. Se
estão com problemas, Deus está ausente. Não conseguem
enxergar além das circunstâncias.
       Importa confiar na soberania de Deus e na autoridade
que Ele tem sobre estas circunstâncias. “O governo está so-
bre os Seus ombros” (Is 9.6). Ele obriga e ordena que todas as
coisas, todas as circunstâncias e tribulações, toda dor ou ale-
gria, toda lágrima e riso cooperem para nossa santidade e
edificação, para o nosso bem: “Sabemos que todas as coisas
cooperam para o bem daqueles que amam a Deus… porquan-
to… os predestinou para serem conformes à imagem do seu
Filho, a fim de que Ele seja o primogênito dentre muitos ir-
mãos” (Rm. 8.28, 29).
       Importante notar que não é para o nosso “bem-estar”,
como pensam e esperam muitos, mas para o nosso “bem”. E o
nosso “bem” é sermos apresentados diante da Sua glória san-
tos e irrepreensíveis (Ef 1.3-5; Cl 1.21-23; 2Pe 3.14; Jd 24).


                             19
A esperança que temos



      Uma vez o nosso bem significou o abandono do Ama-
do, a morte do Filho Unigênito do Pai.
      E por que ele foi abandonado e morto?
      Deus olhava para este mundo e nada via que o agradas-
se. Toda a criação estava corrompida e gemia, inclusive o ho-
mem (Rm 8.19-22). Na visão do Apocalipse, o apóstolo João
“chorava muito porque ninguém havia, nem nos céus, nem na
terra, digno de abrir o livro selado, nem mesmo de olhar para
ele” (Ap 5.1-4).
      A dignidade requerida não era apenas pelo livro, mas
por Aquele que o escrevera e segurava em sua mão direita.
Quem ousaria se aproximar do Senhor Deus Todo-Poderoso
e tomar das Suas mãos qualquer coisa? “… Pois quem de si
mesmo ousaria aproximar-se de Mim? Diz o Senhor” (Jr
30.21b).
      Nem os céus, em todo o seu esplendor e glória, e pure-
za, e santidade, são dignos de Deus. Nada havia em toda a
criação que enchesse o coração do Pai. Em toda a extensão do
universo, em todas as dimensões físicas e espirituais, nada
havia que lhe desse prazer. “Até aos anjos Ele atribui imper-
feições’; ‘nem os céus são perfeitos aos seus olhos”. (Jó 4.17-
19; 15.15-16). O homem tornara-se “geração perversa e de-
formada” (Dt 32.5, 6; Fp 2.15; Rm 3.10-23; 2Pe 2.14).



                              20
Os motivos de Deus



        Então, Ele olha para o Seu Filho e sorri. Sim, Ele se
alegra mais em Seu Filho do que Abraão poderia alegrar-se
em seu Isaque. É o Seu único Filho; o Filho que gerou (Hb
1.5; Lc 1.31-32). Ele diz: “Este é o meu filho amado em quem
tenho o meu prazer” (Mt 3.17). Sim, porque “Ele é o resplen-
dor da glória, a expressão exata do Seu ser” (Hb 1.3) e “…
n’Ele habita corporalmente toda a plenitude da divindade.”(Cl
2.9).
        “Mas ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar…”
(Is 53.10) – Para o nosso bem!
        N’Ele estava a vida, disse João (Jo 1.4). “EU sou a Vida”,
Ele disse (Jo 14.6). Mas a Vida morreu, expirou – para o nos-
so bem!
        Aqui convém deter-se e pensar: Jesus, o Deus criador
do homem, tornado humano. O Verbo Eterno, feito carne (Fp
2.5-8; Jo 1.1-4, 14). O Senhor dos céus estava só, fraco e de-
samparado na maldição da cruz (Gl 3.13; Mt 27.46).
        Aquele que sustenta todas as coisas pela palavra do seu
poder (Hb 1.3), sendo sustentado por pregos sobre o madeiro
maldito. Tomando a maldição e fazendo-me bênção. Sofrendo
o veneno e tornando-se o antídoto.
        Aquele que teve a forma de Deus, Espírito Eterno, (Fp
2.6; Jo 4.24) tendo a sua carne (forma de homem e figura hu-
mana) sendo rasgada qual véu perecível e frágil, abrindo ca-


                              21
A esperança que temos



minho à santidade do Pai. Caminho para mim, “geração defor-
mada”. Seu sangue escorrendo – Sua vida derramada sobre
mim, a purificar-me das culpas e pecados que me separavam
daquele que é Santo (Hb 10.19-23).
        Aquele que disse: “Eu e o Pai somos um”, definhava no
abandono e agonia da cruz. Estava só! Nem homens – seus
amigos, tontos e assustados, não entendiam a grandeza da
hora. Nem anjos – separados, pela morte, daquele que os
criou. Nem o Pai – virando as costas para o Santo que Ele
mesmo tornou pecado por nós (Rm 8.3; 2Co 5.21; Hb 9.26;
1Pe 2.24).
        Ele estava só!
        Era mais, muito mais do que a solidão de uma separa-
ção momentânea e voluntária. Era mais, até, que a separação
provocada pela morte de uma pessoa querida. Era o afasta-
mento da rejeição por Deus. A separação da condenação. A
solidão do desamparo. O espectro do inferno: ausência de
Deus.
        Oh! Tão amado Jesus! Como te compreender? Oh! Je-
sus! Tão bendito Senhor Jesus! Quando um dia, Tu, com
exultação me apresentares imaculado diante da tua glória (Jd
24), quero olhar dentro da tua face e, enquanto enxugas mi-
nhas lágrimas, reclinar-me em teu peito e sorrir, e bendizer-
te, e louvar-te, e dar-te graças por me dares toda uma eterni-


                              22
Os motivos de Deus



dade para te amar e seguir te amando e crescendo neste amor.
E ainda assim saberei que não será suficiente o meu amor!
      Também o Pai estava só. Aquele em quem seu coração
se deleitava (Mt 17.5) era agora o alvo da ira de Sua justiça.
Seu agrado já não estava em contemplá-lo, mas em moê-lo,
fazendo-o enfermar (Is 53.10).
      Como nunca antes, nem como jamais um dia, o Pai estava só.
      Por um instante, seu eterno propósito de ter uma grande
família pareceu destruído – um sonho vago, dissipado na morte
do seu Unigênito.
      O momento singular, glorioso e terrível em que o grão
de trigo morrendo, racha-se liberando a vida, produzindo
muito fruto. “O grande mistério da piedade: Aquele que foi
manifestado na carne, foi justificado em espírito…” (1Tm
3.16). E isto tudo, para o nosso bem.
      Um dia, o bem da igreja e do eterno propósito de nosso
Pai pode significar a tua dor, tua lágrima, teu abandono e
solidão - tua morte.
      Um dia, em ti “operará a morte” para que em outros
filhos do Pai “opere a vida”.
      Um dia poderás ser “lixo do mundo, escória de todos” para
que teus irmãos se façam preciosos. Poderás ser louco para
que eles sejam sábios. Desprezado para que eles sejam torna-
dos nobres.


                                23
A esperança que temos



      Um dia, precisarás ser humilhado (Jó 16.15), ter a tua
“coroa lançada por terra” (Jó 19.9), para que teus irmãos sejam
vestidos de honra.
      Neste dia será preciso que entendas e ames profunda-
mente o propósito eterno de Deus para que possas ser
cooperador com Ele. Precisarás andar nos passos de Jesus:
“… que andou em trevas sem nenhuma luz, e ainda assim
confiou em o nome do Senhor e se firmou sobre o seu Deus”
(Is 50.10).
      Nem sempre haverá alguma manifestação ou evidência
da presença ou socorro de Deus. Tudo será deserto, escuro e
silencioso. Parecerá que os céus são de bronze e Deus está
distante e inacessível. Quero, então, dizer-te algo muito im-
portante: às vezes Deus não responde, não porque não queira
ou porque não possa, mas porque precisa ficar em silencio.
Nestes momentos, Ele está confiando naquilo que já fez em
nós, e nos possibilitando conhecer o nosso próprio coração,
ao nos dar a chance de escolher entre a nossa e a Sua vontade.
      O apóstolo podia dizer: “… porque andamos por fé e
não pelo que vemos…” (2Co 5.7). Nosso ânimo não pode de-
pender das circunstâncias que nos cercam ou da dor que so-
fremos, mas daquilo que sabemos e cremos a respeito do nos-
so grande Senhor e da sua santa vontade: boa, agradável e
perfeita (Rm 12.1, 2).


                              24
Os motivos de Deus



       Foi assim com Jesus em Getsêmani, quando Ele sentia
“pavor até a morte” e de angustia cambaleava, suando sangue
em plena madrugada. Antes da agonia do Jardim das Olivei-
ras, quando entrou em Jerusalém na semana da Páscoa, já na
iminência de sua crucificação, Ele orou ao Pai buscando um
conforto: “Agora está angustiada a minha alma, e que direi Eu?
Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente com este propósito
vim para esta hora (Ele sabia a vontade do Pai). Pai, glorifica o
teu nome” (Jo 12.27, 28). Não buscou livramento, mas a glória do
Pai.
       Então, o bondoso Pai deu um testemunho público e so-
brenatural do seu Filho. Fez-se ouvir como um trovão, a voz
de Deus: “Eu já O glorifiquei e ainda O glorificarei” (Jo 12.28).
Era como se o Pai dissesse: “Filho, fica firme! Eu estou conti-
go! Vamos até ao fim, nosso propósito se cumprirá : muitos
filhos iguais a Ti!”.
       Contudo, lá em Getsêmani, quando as trevas eram mais
densas e seu Filho agonizava de pavor, “andando em trevas sem
nenhuma luz”, e o inferno, com todas as suas hostes, o ator-
mentava, o Pai silenciou. Precisava calar. Não devia influen-
ciar ou intervir. Era decisão do Filho, ser ou não, obediente
até a morte, e morte de cruz…
       A cruz seria o extremo da obediência. Nela tudo seria
consumado; o plano eterno retomado – a vitória de Deus!


                              25
A esperança que temos



Depois dela nada deteria o Autor da vida, nem mesmo a mor-
te (At 2.24; 3.15). Ele seria exaltado e o Pai glorificado (Fp
2.9-11; At 2.32-36).
      Mas entre o Getsêmani e a exaltação do Filho e glória do
Pai havia a cruz - e ela poderia ser evitada, se o Filho assim o
quisesse. A cruz não lhe foi imposta. Ele a escolheu e preferiu
por saber ser esta a vontade do Pai. Se, contudo, a tivesse recusa-
do não seria reprovado ou punido - tinha a escolha. Mas, então, a
glória do Pai seria subtraída e seus pensamentos eternos frus-
trados (Is 46.10; Jó 42.2).
      Com o gemido do filho – “
                              Aba, Pai, Tudo te é possível: passa
de mim este cálice…” – posso saber do soluço do Pai, imolando o
seu Isaque por não ter cordeiro que o substituísse.
      Então o Seu Cordeiro entrega-se: “…contudo, não seja
o que eu quero, e sim, o que Tu queres” (Mc 14.36).

       O nosso bem é o cumprimento da Sua vontade. Aleluia!

      Deus nos quer filhos que se multipliquem à sua ima-
gem. Esta é a sua vontade.
      A ordem de Jesus em Mt 28.18-20 não é um ingredien-
te novo, uma ordem que se acrescenta depois do pecado. É o
eco do Éden: o “multiplicai-vos e enchei a terra” é reafirmado
com o “ide por toda a terra e fazei discípulos”.



                                26
Os motivos de Deus



        A nossa vocação, então, é a mesma de Adão: multipli-
car a imagem e a vida de Deus. Encher a terra de filhos para
Deus.
        O Senhor Deus não é míope ou vesgo. Sua visão é clara
e inalterada. Seus olhos não se desviam do alvo. Ele sabe, em
verdade, o que é melhor. Ele não se deixa embaraçar ou cons-
tranger pelas circunstâncias. Deus não é manipulado pelo
nosso choro, nem se deixa impressionar pelos gemidos do
homem – Ele conhece isso desde o Éden.
        Se a dor e o sofrimento cooperam para que o homem se
assemelhe a Jesus, Deus os permitirá. Se for o riso, Ele pro-
duzirá este riso. E assim o é com a riqueza ou pobreza, abun-
dância ou escassez, bonança ou tormenta, sucesso ou fracas-
so, honra ou desprezo (Fp 4.9-13).
        “Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que
amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu pro-
pósito” (Rm 8.28). Este propósito envolve muitos irmãos, uma
família – toda a grande família de Deus. Por isso é preciso
lembrar que as coisas que nos acontecem não dizem respeito
apenas a nós mesmos (1Co 12.12-14, 25-27). Nunca podemos
esquecer que somos corpo, membros interdependentes, res-
ponsáveis uns pelos outros. A nossa atitude diante das cir-
cunstâncias traz reflexos diretos sobre muitos e por muito
tempo. Jó não atentava para este efeito, Deus sim.


                            27
A esperança que temos



      Nunca sofremos apenas por nós mesmos e para nós
mesmos: “Mas, se somos atribulados é para o vosso conforto
e salvação; se somos confortados, é também para o vosso con-
forto, o qual se torna eficaz, suportando com paciência os
mesmos sofrimentos que nós também padecemos” (2Co 1.6).
      Quando Paulo sofria ele estava aprendendo, como Je-
sus, a experimentar o consolo do Pai, para consolar a outros
que também sofressem (Hb 2.17, 18; 4.14-16), ensinando-os
a sofrer em fé e ações de graça (Rm 12.12; Fp 1.29; 1Pe 1.5).
Deste modo, ele podia dizer: “Bendito seja o Deus e Pai de
nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de
toda consolação! É Ele que nos conforta em toda a nossa tri-
bulação, para podermos consolar aos que estiverem em qual-
quer angustia, com a consolação com que nós mesmos somos
contemplados por Deus. Porque, assim como os sofrimentos
de Cristo se manifestam em grande medida em nosso favor,
assim também a nossa consolação transborda por meio de
Cristo” (2Co 1.3,5).
      Jesus entendia que precisava santificar-se não só por si,
mas também por seus discípulos, para que “eles fossem aper-
feiçoados na verdade” (Jo 17.19), pois Ele os tinha enviado do
modo como o Pai O enviara. Ele orava por eles e pelo fruto
que eles produziriam, para que todos fossem um com ele e o
Pai, a fim de que o mundo cresse (Jo 17.20-21). Que tremenda


                              28
Os motivos de Deus



responsabilidade! Assim foi a existência de Jesus na terra:
plena de um senso santo de conseqüência.
      Assim devemos ser (Jo 17.18-21 x Jo 13.15-17). A nos-
sa postura pode nos fazer “cidade sobre o monte”, “candeia
no velador”, “luzeiros no mundo”, trazendo grande glória ao
nome do Senhor (Fp 2.14, 15; Mt 5.14-16). Ou fontes amar-
gas, poços de murmuração, “contaminando a muitos” (Hb
12.15), sendo tropeço para muitos (1Co 10.32) e trazendo blas-
fêmia ao nome do Senhor (Rm 2.24). Não nos esqueçamos
que o nosso bem é o cumprimento da Sua vontade. “Nessa
vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do
corpo de Jesus Cristo…” (Hb 10.10). Por isso, “… não seja a
minha, mas a Tua vontade”, ainda que com sangue e até a
morte (Hb 12.4; Fp 1.20; 2.17; At 20.24).
      Orando ao Pai quanto aos seus discípulos, o Senhor Je-
sus disse: “Eu lhes fiz conhecer o teu nome e ainda o farei
conhecer, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e Eu
neles esteja” (Jo 17.26). Essa é a sua vontade: que o seu amor
esteja em nós. Quando isso acontecer plenamente, será notó-
ria e inconfundível a sua presença em nós, porque então, to-
dos os nossos atos serão feitos em amor (1Co 16.14).
      Deus é amor! Nunca conheceremos o seu coração e nun-
ca seremos parecidos com Ele se não pudermos amar como
Ele ama. Por isso Ele derrama do seu próprio e grande amor


                             29
A esperança que temos



em nosso coração pelo Espírito Santo (Rm 5.5). Ó Espírito
dá-me mais desse amor!
      Para amarmos a Deus é necessário que O conheçamos.
Por isso Jesus disse: “Eu lhes fiz conhecer o teu nome… para
que o amor com que me amaste esteja neles…” Deus usará
todas as circunstâncias para se dar a conhecer a nós, a fim de
que possamos imitá-lo (Ef 5.1 x Jo 5.19) e nos assemelhar a
Ele. Deste modo cumpriremos a sua vontade: “…que vos ameis
uns aos outros assim como eu vos amei…” (Jo 13.34-35).
      Toda ação de Deus em nossa vida deriva do Seu esforço
em cumprir o Seu propósito: fazer-nos filhos semelhantes ao
Seu Filho. Ele quer nos trazer para perto de Si, a fim de sen-
tirmos como Ele sente, e vermos como Ele vê e sermos Seus
cooperadores.




                             30
3



       Unidos em esperança
       ao coração de Deus
       Para a maioria dos homens, é mais fácil sentir do que
crer. As situações que nos cercam atingem diretamente os
nossos sentidos, ofuscando o brilho e a glória da realidade
espiritual contida no propósito eterno de Deus. Por isso, Ele
age nas circunstâncias adversas de modo que elas produzam
em nós aquele elemento que nos faz viver na terra, pensando
nas coisas lá do alto (Cl 3.1-4), esperando com confiança aquilo
que não se vê. Este elemento é a esperança, a filha da tribula-
ção:
       “… E gloriemo-nos na esperança da glória de Deus. E
não somente isto, mas também nos gloriemos nas próprias tri-
bulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perse-
verança, experiência; e a experiência, esperança” (Rm 5.1-4).



                              31
A esperança que temos



      A esperança é fruto da experiência. Ninguém adquire ex-
periência sem perseverar, e, ninguém precisa perseverar se não é
atribulado. Ou seja, sem tribulação, para quê esperança? Como a
tribulação é inevitável, a esperança se faz indispensável.
      Esta esperança não nos deixa confundidos ou envergo-
nhados porque, enquanto sofremos com esperança, o Espíri-
to Santo nos enche o coração com o amor de Deus. “Ora, a
esperança não confunde, porque o amor de Deus é derrama-
do em nossos corações pelo espírito Santo que nos foi outor-
gado” (Rm 5.5; 8.22-25).
      Este amor é aquele que “é paciente, benigno e não arde
em ciúmes. O amor que não se ufana nem se ensoberbece.
Que não se conduz inconvenientemente, nem procura seus
próprios interesses. Não se exaspera nem se ressente do mal.
Este amor não se alegra com a injustiça (mesmo quando pra-
ticada contra um inimigo que já lhe fez o mal), mas alegra-se
com a verdade. Este bendito amor, tudo sofre, tudo crê, tudo
espera, tudo suporta. O amor nunca acaba!” (1Co 13.4-8).
      Quando sofremos o Senhor nos dá oportunidade de nos
assemelhar a Ele; nos dá oportunidade de amar!
      Vale notar que a esperança, na bíblia, quase sempre vem
acompanhada de adversidades, tribulações, provações e pro-
messas. Aleluia! “Suas preciosas e mui ricas promessas…” (1Pe
1.3-9; 2Pe 1.3-4; Rm 5.1-5; 8.23-25). E é assim porque a espe-


                               32
Unidos em esperança ao coração de Deus



rança impede a amargura e o endurecimento. Anima e revi-
gora a vontade e nos firma em fidelidade ao antecipar, por fé,
a alegria da vitória, do desfecho glorioso que o Senhor nos
trará, seja em uma circunstância temporal, seja na eternida-
de. Portanto, “alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tri-
bulação, perseverai na oração” (Rm 12.12).
      Consideremos, por exemplo, a galeria dos heróis da fé, apre-
sentada em Hb 11.30-38: “…os quais, por meio da fé, subjuga-
ram reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas, fecha-
ram bocas de leões, extinguiram a violência do fogo, escaparam
ao fio da espada, da fraqueza tiraram força, fizeram-se podero-
sos em guerra, puseram em fuga exércitos de estrangeiros. …
outros, por sua vez, passaram pela prova de escárnios, açoites, al-
gemas e prisões. Foram apedrejados, provados, serrados pelo
meio, mortos ao fio da espada; andaram peregrinos, vestidos de
peles de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltratados
(homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos de-
sertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra.”
      Como podemos constatar, uns, já aqui, usufruíram o
gosto da vitória e da glória, enquanto que outros, apenas pro-
varam dor, e lágrimas, e morte, com os olhos postos em Deus.
Todos, porém, igualmente participaram do propósito de Deus
e cooperaram com Ele na execução da Sua vontade. Contudo,
não lhes foi dado escolher como participariam.


                              33
A esperança que temos



      É preciso entender que além de cooperadores, somos
matéria-prima de Deus, pronta para ser consumida em sua
grande obra.
      Isto me faz lembrar uma cena que eu pude admirar
muitas vezes na minha infância: o funcionamento de uma ola-
ria (cerâmica artesanal). O lenho seco (madeira imprestável
para edificação ou móveis) é lançado ao fogo para produzir a
“cura” ou fortalecimento dos tijolos que depois serão utiliza-
dos em várias construções, desde casas simples até mansões.
Todos olham para estas construções e sabem que ali há tijo-
los. É inegável e evidente sua participação. Todos lhe atribu-
em o mérito devido. Então surge a pergunta: Quem, ao olhar
as construções, se lembra do lenho queimado? Suas cinzas, já
há muito, foram sopradas, abrindo espaço para mais lenho
seco que se proponha ser consumido e esquecido. Sacrificado
para formar tijolos fortes e aparentes.
      “Que Ele cresça (e ao crescer seja visto, mesmo que em
outro) e que eu diminua” deve ser a nossa divisa. Fomos cria-
dos, e devemos existir, para louvor da Sua glória (Ef 1.4-6).
      Muito do nosso sofrimento é fruto do conflito: para
quem a glória – Para Deus ou para mim?
      Quando estivermos em total esvaziamento, não sofre-
remos tanto ao sermos humilhados. Deixaremos de ser
reivindicadores de bênçãos e direitos pessoais, para sermos


                             34
Unidos em esperança ao coração de Deus



intercessores, sacerdotes fiéis, adoradores santos (Hb 5.1,2;
1Pe 2.9; Jo 4.23,24).
      Quando o Espírito Santo nos exorta a ter “…o mesmo
sentimento que houve também em Cristo Jesus…”, busca lembrar-
nos a vocação de vivermos para a glória d’Aquele por cuja
causa todas as cousas existem (Hb 2.10).
      As Escrituras afirmam que Cristo nos deixou exemplo
para seguirmos os seus passos (1Pe 2.21) e que “aquele que diz
que está n’Ele deve andar como Ele andou” (1Jo 2.6) Como é
possível isso? Por onde começamos? O Espírito Santo nos dá
uma direção: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve
também em Cristo Jesus, pois Ele… a si mesmo se esvaziou…”
      Consideremos um pouco a trajetória de Jesus para po-
dermos, então, desenvolver o mesmo sentimento que havia
n’Ele. Se prestarmos atenção, veremos que o Verbo Eterno, a
partir de uma atitude básica, uma disposição interior de esva-
ziamento, vai avançando para baixo, crescendo em humilha-
ção. Vejamos Fp 2.5-11:

            “Cristo Jesus subsistindo em forma de Deus,
              não considerou o ser igual a Deus coisa
                     a que se devia aferrar…”

      Isto significa que Ele não exigiu o privilégio. Não ape-
nas não se esforçou para manter, como recusou a posição que

                              35
A esperança que temos



era sua por direito. Não lhe pesava nenhuma obrigação. Nin-
guém lhe deu ordem – nem poderia: não havia ninguém aci-
ma d’Ele. Seu relacionamento com Deus era como de dois
iguais. Como dois gêmeos, onde tanto o primeiro se parece
com o segundo e vice-versa, nenhum era referencial exclusi-
vo para o outro. Não havia uma matriz e uma cópia.
      Esta expressão subsistindo indica que Jesus, antes da
encarnação, era Deus. Tinha a forma de Deus. Forma é a ex-
pressão permanente de existência. Assim como existe a for-
ma dos animais (a aparência muda de um animal para outro,
mas a forma indica este tipo de criatura), existe a forma do
homem, de anjo e de Deus. O Verbo Eterno tinha a forma de
Deus. Isto não lhe foi dado. Ele sempre existiu, assim como o
Pai, na forma de Deus. Ele era Deus (Jo 1.1).
      Aquele a quem hoje chamamos de Deus Pai, não era
maior que o Verbo Eterno. Aquele a quem hoje chamamos de
Filho de Deus, não era menor que Deus Pai – era o próprio
Deus. O Verbo Eterno foi tornado filho ao ser gerado no ven-
tre de Maria. Se aceitarmos que de algum modo Ele tenha
sido gerado antes deste momento histórico, estaremos ne-
gando a Sua eternidade (Is 9.6). Se Ele é o Pai da eternidade,
como a Escritura pode dizer: “… hoje te gerei”? (Hb 1.5). E
mais, as expressões: “Eu lhe serei Pai, e Ele me será Filho”



                             36
Unidos em esperança ao coração de Deus



(Hb 1.5) indicam um tempo futuro. Isto significa que, até en-
tão, a relação entre Eles não era de Pai e Filho.
      Considerando Hb 1.8, 9: “…Mas, acerca do Filho: O
Teu trono, ó Deus, é para todo o sempre, …por isso Deus, o
teu Deus, Te ungiu…”, como pode Deus ter sido gerado ou
criado? Só se pode conceber o Deus Filho sendo gerado, em
sua humanidade e encarnação. Antes disso Eles eram iguais.
Mas Ele, o Filho, não se aferrou a isto,

        “… Antes (pelo contrário) a si mesmo se esvaziou,
                assumindo a forma de servo...”

      Ainda lá na glória, o Verbo Eterno aceitou e decidiu ser
servo. Servo de Deus. Era como se Ele dissesse a Deus: daqui
para frente Tu dás as ordens e Eu me submeto. Não temos mais
que entrar em conselho – Tu serás Pai e Eu, Teu Filho. Esta foi
sua atitude básica: assumiu a forma de servo,

         “… Tornando-se em semelhança de homens…”

      O fazer-se semelhança de homens significa que Ele
levou a efeito a sua decisão de ser servo. Mas, como ser um
submisso servo sendo Deus? Despiu-se, então, de toda a
sua glória e vestiu-se de carne e sangue. Carne frágil e tão
limitada!


                             37
A esperança que temos



      Trocou a adoração e o louvor dos habitantes celestes –
seres santos e poderosos – para enfrentar a dura cerviz e a
rejeição de homens pecadores e desprezíveis. Ele, contudo,
não apenas tornou-se semelhança de homens (aparência ex-
terior de homem), mas foi

          “… Reconhecido em figura (forma) humana,”

      Isto é, homem de fato e de verdade. Gente, de carne e
osso. Aquele que foi tentado à nossa semelhança (Hb 2.18;
4.15), não foi Deus – Este não pode ser tentado pelo mal (Tg
1.13) – mas o homem Jesus, o carpinteiro galileu.
      É muito difícil pensar neste texto sem sentir grande
tristeza, quase uma angústia. Ao chegar neste ponto em que
Ele é reconhecido em forma humana, fico imaginando Deus
submetendo-se a este aleijão indescritível e sou impelido a
dizer como Pedro: “Senhor, não te faças tal”. Chega, basta!
Deixa-me ir para o inferno, mas, poupa-Te! Mas, então, des-
cubro que não foi só para me livrar do inferno que o Senhor
Jesus foi até a cruz. Ele foi movido por um motivo tão mais
elevado: A glória do Pai.
      Costuma-se dizer que a glória de Deus é o melhor para
nós, e que a felicidade do homem é fruto da santidade que este
alcança. Isto é uma verdade, mas eu quero dizer que ainda que a
santidade produzisse amargura e dor, e a glória de Deus trou-

                              38
Unidos em esperança ao coração de Deus



xesse condenação, é para sua glória que devemos viver. Para isto
fomos criados e para isto existimos. Este elemento estava pre-
sente no sentimento que houve em Cristo Jesus.
      Nesta disposição Ele continua crescendo em humilha-
ção, crescendo para baixo, pois uma vez reconhecido em figu-
ra humana…

                   “A si mesmo se humilhou”

      Mesmo na condição de homem, continuou se esvazian-
do até tornar-se o menor e mais desprezível dentre os ho-
mens. O texto de Isaías 52.13 a 53.10 fala d’Aquele que era
igual a Deus e do que Ele fez a si mesmo. Fala da sua trajetó-
ria humana.
      O Profeta dos milagres e prodígios grandiosos, o Rabi
de palavras graciosas e olhos de sacerdote não foi despreza-
do, ao contrário, foi sempre aclamado ou odiado, mas nunca
ignorado – foi elevado e mui sublime. Mas, sublimidade não
cabe a um servo, por isso Ele se humilhou e tornou-se vil e
desprezível aos olhos de todo homem. “…Um de quem os ho-
mens escondem o rosto…”
      A senda do Calvário fez d’Ele “O mais rejeitado entre
os homens, reputado por aflito, ferido de Deus e oprimido” –
d’Ele não se fez caso.



                             39
A esperança que temos



      “O resplendor da glória”, Aquele para quem os céus se
inclinam, foi humilhado pela ralé da terra e atingido pelos
insultos dos infames habitantes do inferno.
      Para suportar tamanha humilhação, era preciso cum-
prir um pré-requisito, e Ele o fez:

                   “Tornando-se obediente…”

      Antes dos “dias da sua carne” (Hb 5.7), Ele não pre-
cisava obedecer (Jo 1.1-3; Rm 11.34-36). Não havia nin-
guém sobre Ele, ninguém a quem devesse explicação: “No
princípio era o Verbo… e o Verbo era Deus… e o Verbo se
fez carne…”. A obediência, então, era algo novo e alheio a
sua natureza divina, agressivo a sua realeza eterna. Por
isso, Ele precisou tornar-se obediente. Teve que aprender
a obediência (Hb 5.8). Não como nós que somos rebeldes
por natureza, mas porque nunca esteve sob a autoridade
de alguém – era Deus!
      Mas até que ponto deveria Ele obedecer?

                     “… Até a morte…”

      Permaneceu em obediência até o fim. Não é que Ele
estivesse progredindo em obedecer e, de repente, como Es-
tevão (At 7.59-60) ou Tiago (At 12,1-2), fosse alcançado


                              40
Unidos em esperança ao coração de Deus



pela morte. Não! Ao contrário, a morte foi o limite da obe-
diência. Como não havia mais qualquer prova para testar
sua obediência, então, já podia intervir a morte.
     E como foi sua morte? O Espírito Santo faz questão de
destacar: Não bastava morrer, tinha que ser…

                     “… Morte de cruz”

     Morte de malditos, morte dos párias da sociedade.
Mas não um pária ou excluído qualquer, tinha que ser es-
cravo. Só escravos morriam na cruz.
     Deste modo, como um reles escravo, o Senhor dos
céus, o adorado das incontáveis miríades celestiais, “des-
ceu às regiões inferiores da terra” (Ef 4.9).
     Imagino que, assim como eu, os demais filhos de Deus
ao ler em Fp 2.5-8, o fazem com rapidez e desconforto. Há
uma expectativa, um anseio por desaguar no cântico triun-
fal dos versos de 9 a 11: A exaltação do Servo sofredor! Os
céus, em festa, recebem o seu Amado, ajoelham-se e O ado-
ram. Abrem-se-lhe os portais eternos. O Pai Lhe oferece o
trono à sua destra. Os poderosos e príncipes da terra se
ar rojarão aos seus pés. As potestades do mal, os
dominadores deste mundo tenebroso, humilhados, se do-
brarão ante o Rei da Glória.



                           41
A esperança que temos



      “Pelo que também Deus O exaltou sobremaneira e lhe
      deu o nome que está acima de todo o nome, para que
      ao nome de Jesus se dobre todo o joelho, nos céus, na
       terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que
          Jesus Cristo é Senhor para glória de Deus Pai.”

      Ele recebeu o nome supremo: Senhor. A palavra grega
utilizada para designar Jesus neste texto – Kyrius – é a mes-
ma utilizada na Septuaginta (versão grega do Velho Testa-
mento) para traduzir Yahweh do hebraico. Esta é a posição de
extrema honra e autoridade que foi conferida Àquele que so-
freu extrema humilhação.
      E, então, uma vez mais minha débil percepção me confun-
de e embaraça, pois vejo que mesmo na sua exaltação, quando se
comemora a sua vitória, quando tocam as trombetas celestiais e
se levantam os portais eternos para a sua passagem, quando toda
população celestial comemora sua autoridade e majestade, não é
para Si, mas para Seu Deus e Pai, a glória que recebe.
      Como entender Jesus, o Cristo? Na sua exaltação Ele
estava vazio de Si mesmo!
      Oh! Jesus! Como ter este teu sentimento se nem mes-
mo posso compreendê-lo? Por mais que me esforce não con-
sigo atinar em nada que pudesse fazer ou sofrer para sequer
me aproximar de tal esvaziamento.



                               42
Unidos em esperança ao coração de Deus



     Senhor meu, que Te posso dar como demonstração de
gratidão e reconhecimento? Como Te presentear? Como Te
surpreender com uma oferta que Tu não esperas? Nada te-
nho ou sou que já não me tenhas exigido. Tudo é teu por
direito. Nenhuma dádiva nova tenho para Te oferecer!
     Como é feliz a pecadora que, na casa de Simão, Te un-
giu os pés com precioso ungüento e, chorando sobre teus pés
empoeirados, os beijava e enxugava com os próprios cabelos!
(Lc 7.36-50). Como eu a invejo!
     Sou pobre e miserável! Deixa-me, pois, consumir em
teu serviço ou me consumirá a desventura dos ingratos!
     “Tende em vós o mesmo sentimento que houve tam-
bém em Cristo Jesus”. É esta a exortação do Espírito Santo.
Esta expressão pode também ser traduzida como “o mesmo
espírito que houve em Cristo Jesus”.
     Deus nos quer treinar para desenvolvermos este espí-
rito, este sentimento, como aconteceu com o Seu Primogênito.
E do modo como Ele, a partir de um posicionamento assumi-
do, foi crescendo nas suas ações em esvaziamento e humilha-
ção, assim também, deve ser conosco.
     Nesta perspectiva, podemos entender por que Jesus
ao anunciar o Evangelho do Reino de Deus (governo e au-
toridade de Deus), fazia quatro exigências básicas (Mc 8.34-
36; Lc 14.25-33):


                           43
A esperança que temos



      a. Negar-se a si mesmo – Ele o fez ao abdicar de sua
forma e igualdade com Deus, fazendo-se servo e homem.
      b. Tomar a Cruz – Ele o fez ao renunciar a própria
vontade, abraçando a do Pai, mesmo sob a inigualável tenta-
ção do Getsêmani. Além disso, tomou-a, literalmente, sobre
os ombros humanos.
      c. Perder a vida – Ele o fez, literalmente, obedecendo
até a morte.
      d. Renunciar a tudo – Ele o fez ao tornar-se homem
para sempre, dando ao seu Deus e Pai toda a glória e autori-
dade (Mt 24.36; Jo 14.28; 1.7; 1Co 8.6; 15.27-28; Fp 1.11; 2.11;
Ap 1.1).
      Meu coração se constrange ao pensar que o Verbo Eter-
no nunca mais terá a forma de Deus. Para sempre e por toda
a eternidade haverá um homem, o homem Jesus, assentado à
direita do Pai (1Tm 2.5).
      Que mente humana, por mais brilhante e imaginativa
que seja, pode conceber o que significou para o Senhor Jesus
perder a forma de Deus?!
      Deixou de ser como o Pai para que pudéssemos ser como
Ele: “… Aguardamos o Senhor Jesus Cristo, O qual transfor-
mará o nosso corpo de humilhação para ser igual ao corpo de
Sua glória” (Fp 3.21). “…Sabemos que, quando Ele se mani-



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Unidos em esperança ao coração de Deus



festar, seremos semelhantes a Ele, porque havemos de vê-Lo
como Ele é” (1Jo 3.2).
      Se Ele pôde abrir mão da sua forma de Deus, para sem-
pre, há alguma renúncia que seja grande demais para nós,
por amor a Ele?!
      Tudo que nos exige Ele próprio experimentou em muito
maior escala. Ele é o nosso modelo. Foi feito o nosso irmão
mais velho. O Pai quer que sejamos semelhantes a Ele (Rm
8.15-17, 29; Hb 2.11-15): filhos amados que Lhe tragam con-
tentamento (Mt 3.17; 17.5). Para tanto, o Pai nos irá exerci-
tar, ao longo da vida, através de todas as circunstâncias, até
sermos perfeitos (Ef 4.13).
      Consideremos como exemplo a história de Davi. Na sua
velhice, ele escreve um dos seus últimos poemas. Em sua mente
se desdobram as lembranças, desde o urso e leão que matou,
defendendo o rebanho de seu pai até a rebelião de Absalão,
seu filho. Passando por Golias, pelos dez anos, aproximada-
mente, de perseguição de Saul, o exílio entre os filisteus, a
morte de Saul e Jônatas, a coroação, a tomada de Jebus (forta-
leza dos jebuseus bem no centro do território de Israel, que
nem Josué, nem os juízes, nem Saul conquistou e que Davi
transformou em Sião ou Jerusalém, a cidade do Grande Rei),
a vitória sobre os filisteus, o retorno da Arca de Deus à Jeru-
salém, a aliança com Deus – a promessa do Messias, as mui-


                              45
A esperança que temos



tas guerras, o horror contra Urias, a repreensão de Natã, o
incesto de Amnom, o homicídio entre os filhos, revolta e morte
de Absalão.
      Ao final de sua vida podia dizer: “O Senhor adestrou as
minhas mãos para o combate, de tal maneira que os meus
braços vergaram um arco de bronze” (2Sm 22.35). É certo
que Davi está utilizando uma metáfora para demonstrar como
Deus o capacitou em seu espírito, para enfrentar as maiores
adversidades da vida. Mas até conseguir vergar este arco de
bronze, ele precisou ser exercitado com outros mais simples
e fáceis de manejar. Vencer Golias, por exemplo, não passou
de um arco de bambu: zelo por Deus. Mero e simples exercí-
cio de fé – princípios elementares, rudimentos da vida em
Deus. Ações como estas só nos trazem reconhecimento, hon-
ra e até aclamação, como aconteceu com Davi.
      Mas de Davi procederia o Messias. Deus faria uma ali-
ança com Davi e teria muito a realizar por meio dele. Deus,
porém, não se agrada nem se utiliza de homens inteiros e
orgulhosos, que só conhecem o louvor e abatem os que se
lhes opõem. Tais homens nunca estiveram no conselho de
Seu Filho – o Servo sofredor. São incapazes de se conforma-
rem com Seus sofrimentos. São inúteis para Deus. Só servem
aos seus próprios ventres, à sua própria carne e cobiça. São
eternos filhos de Adão.


                             46
Unidos em esperança ao coração de Deus



      Deus precisava “quebrar” Davi. Como diz Gene
Edwards em seu excelente livro Perfil de Três Reis: “Deus
arrancou o Saul de dentro do coração de Davi”. Era preciso
destruir o Saul que habitava em Davi.
      Para tanto as mãos de Davi foram treinadas na obscu-
ridade das cavernas solitárias, “errante pelos desertos, pelos mon-
tes, pelas covas, pelos antros da terra”, bebendo o cálice da in-
gratidão, injustiça e ciúme daquele a quem serviu de coração
inteiro.
      Quando Absalão, seu próprio filho, voltou-lhe o punho
cerrado da revolta, ele já sabia e podia envergar o arco de
bronze: entregar-se completa, irrestrita e absolutamente
“Àquele que julga retamente” (1Pe 2.23).
      Foi assim com Jesus, o Filho do homem. Por trinta anos
conteve o seu ímpeto messiânico, vivendo na obscuridade e
insignificância da carpintaria de José (mesmo que estivesse
assentado sobre os reinos deste mundo, ainda seria obscuro e
insignificante para Ele). Depois da carpintaria vieram os pro-
dígios, os milagres, as multidões e as aclamações. Depois a
resistência, a perseguição e os insultos: “tens demônio”. De-
pois Getsêmani (agonia), o julgamento (desprezo), e a cruz
(abandono de Deus) – arco de bronze.
      Para Davi, Absalão foi Getsêmani: “… não a minha, mas
a tua vontade” (2Sm 15.25, 26). Este foi seu arco de bronze.


                              47
A esperança que temos



      Somente homens quebrados, fracos em si mesmos, humi-
lhados e vencidos por Deus, podem vergar este arco poderoso.
      E quando se evidencia que alguém está humilhado, que-
brado? Como saber que alguém está vencido por Deus? Quan-
do cessa a resistência. Então, o homem está completamente
disponível para Deus, para todo e qualquer serviço, em todo
e qualquer lugar, sob quaisquer que forem as circunstâncias.
Assim, fica evidente a glória de Deus – rompendo-se, portan-
to, o vaso de barro.
      Não é humilde o que sofre humilhações e se ressente
amargurado. Este só não revida porque não pode, mas reage
erradamente: fica triste pelos cantos, rancoroso ou assume
uma postura de herói injustiçado. Não sabe que quanto mais
se protege e se defende, mais se torna vulnerável e é atingido.
As pessoas defensivas, não raro, se tornam amargas, agressi-
vas, tristes e/ou desconfiadas.
      Deus quer nos ensinar a bênção de perder e sorrir (mes-
mo no futebol). De ser traído e amar. A confiança de entre-
gar-se “Àquele que julga retamente”. Há quem, ao ser magoado
e ofendido, “entrega a Deus” os que lhe ofendem, com um ar
“todo espiritual” que esconde o desejo carnal de vingança.
Esquece-se, convenientemente, que é ele próprio quem tem
de entregar-se ao Senhor, enquanto padece nas mãos de ou-
tros, sabendo que bem pode ser a mão de Deus (At 2.23).


                              48
Unidos em esperança ao coração de Deus



                          Isto é a cruz!

      Se te perseguem, provocam ou insultam, não desce da
cruz para mostrar a tua força e do que és capaz.
      Se te louvam, honram ou aclamam, não desce da cruz
para receber os aplausos.

                       A cruz é bom lugar!

      Nela, os meus direitos estão nas mãos do meu Pai. Ele os
fará valer se assim o quiser. Não tenho que lutar ou me esforçar
para que estes sejam reconhecidos. Meu direito é o cumprimen-
to de Sua vontade. É Seu direito dispor de minha vida. Jesus
entregou-se ao Pai, não lutou. Ele é o nosso modelo (Jo 5.41;
7.18; 8.50). A cruz não era o Seu lugar, mas Ele, por nossa causa
e para fazer a vontade do Pai, permaneceu nela! Portanto,

                      A cruz é nosso lugar!

      Longe de nós, qualquer glória que não seja aquela da
cruz humilhante, das vaias e insultos, da coroa ferina e dos
pregos, pois foi lá que nós morremos para o mundo e o mun-
do morreu para nós (Gl 6.14).

          Esta é a glória da cruz: nos liberta do mundo.


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A esperança que temos



         A cruz marca o limite entre o mundo e o Reino de Deus.
Só por ela nós iremos conhecer o poder da ressurreição de
Jesus, porque, então, já conheceremos a comunhão dos seus
sofrimentos, tendo-nos conformado com Ele na sua morte
(Fp 3.10; Rm 8.17).
         Foi na cruz que Jesus triunfou sobre Satanás e despre-
zou seus príncipes (Cl 2.15), e não com milagres e sinais po-
derosos.
         É certo que foi pelo poder do Espírito Santo que Ele
o fez (Hb 9.14). Mas, nem sempre o poder do Espírito San-
to se manifesta exteriormente por meio de prodígios e mi-
lagres, capaz de curar corpos enfermos e ressuscitar mor-
tos. Muitas vezes, este poder que é mais forte que a carne,
se manifesta no sentido de nos capacitar a sofrer em ações
de graças, e, em esperança e fé permitir que “o pó volte a
terra como o era, e o espírito volte a Deus que o deu” (Ec
12.7).
         Foi assim com Jesus na solidão da cruz.
         A cruz é a maior manifestação do amor de Deus. Na
cruz aconteceu a vitória de Deus. Lá, Ele nos reconciliou con-
sigo mesmo pelo corpo de Cristo (Rm 7.4; 2Co 5.19). Na cruz
se manifesta a glória de Deus na face de Cristo. Quando Moisés
pediu para ver a glória de Deus, Este mostrou-lhe a Sua bon-
dade (Ex 33.18-19). A cruz de Cristo é a manifestação maior


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Unidos em esperança ao coração de Deus



da bondade de Deus. Por isso, também, a expressão máxima
de Sua glória. Deste modo, a glória de Deus é vista na face
ferida de Cristo (Is 52.14; 53.5, 10a x 2Co 4.6).
      “Aquele que é cheio de graça e de verdade há de impri-
mir Seu caráter em mim. Preciso a graça que anseia em pres-
tar favor; a verdade que se expressa também em sinceridade
e honra, para a glória do Seu nome.” David Livingstone.

                  É na Cruz que nos Unimos ao
                    Bondoso Coração de Deus.




                             51
A esperança que temos




         52
4



 Olhando com esperança
    pela lente de Deus
     A esperança nos faz ver e nos transporta ao “final feliz”,
de tal modo que Paulo podia dizer: “Porque, para mim, tenho
por certo que os sofrimentos do tempo presente não são para
comparar com a glória por vir a ser revelada em nós” (Rm
8.18). O apóstolo tinha os olhos na eternidade (Fp 3.20, 21)
“Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida
somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15.19). Se
enxergarmos a vida do mesmo modo que Paulo poderemos,
de sã consciência, como ele proclamar: “Porque a nossa leve e
momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória,
acima de toda comparação” (2Co 4.17).
     Paulo tinha uma lente especial para ver as circunstân-
cias que o envolviam, mesmo as mais adversas. Tomemos os
seus óculos e o nosso horizonte mudará. “Não atentando nós


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A esperança que temos



nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as
que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas.”
(2Co 4.18).
       Nesta perspectiva, Paulo podia dizer: “leve e momentâ-
nea tribulação”. Algum desavisado pode estar pensando que o
apóstolo estava falando de teses teóricas. Quero preveni-lo e
mostrar-lhe que não é assim, ao contrário, o que Paulo cha-
mou de “leve e momentânea”, foi uma tribulação tal, que o le-
vou a “desesperar da própria vida”                 perder a esperança de
sobreviver – porquanto foi acima de suas forças. Ele e seus
companheiros chegaram a ter sua sentença de morte decre-
tada, para aprenderem a confiar em Deus que ressuscita os
mortos e não em si mesmos (2Co 1.8-9).
       Na sua primeira carta aos coríntios, Paulo se refere a esta
situação, quando diz que lutou com feras em Éfeso1 (1Co 15.30-
32). Na segunda carta, ele fala da intensidade da tribulação que
lhe sobreveio na Ásia (Éfeso). O Paulo que estava pronto a sofrer
e morrer (At 21.13; Fp 1.20; 2.17), certamente não se perturba-
ria com qualquer coisa. Uma tribulação que foi acima de suas
forças, provavelmente aniquilaria a maioria dos cristãos. Paulo,
todavia, era tomado por um senso de destino: glorificar e en-
grandecer a Cristo no seu corpo quer pela vida, quer pela morte.

1
   Provavelmente esta expressão “lutei com feras” não é literal, pois os cidadãos
romanos não eram obrigados a este tipo de flagelo. A expressão “feras” deve ser
alegórica, referindo-se a crueldade e bestialidade dos homens (Tt 1.20,24).


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Olhando com esperança pela lente de Deus



      O resultado de tal confiança de coração é uma perseve-
rança inabalável. “Por isso não desanimamos: pelo contrário,
mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo o
nosso homem interior se renova de dia em dia” (2Co 4.16).
Quando vivemos assim, fica notório que “a excelência do po-
der” é de Deus e não de nós, meros vasos de barro. E então…

      “…em tudo somos atribulados, porém, não angus-
      tiados, perplexos, porém não desanimados; per-
      seguidos, porém não desamparados; abatidos, po-
      rém não destruídos; levando sempre no corpo o
      morrer de Jesus para que também a Sua vida se
      manifeste em nosso corpo. Porque nós, que vive-
      mos, somos sempre entregues à morte por causa
      de Jesus, para que também a vida de Jesus se ma-
      nifeste em nossa carne mortal” (2Co 4.7-11).

      Davi dizia confiante: “…Tu estás comigo…” (Sl 23.4), mes-
mo ladeado pela morte. Quando conhecemos o Senhor Jesus como
o Pastor nosso de cada dia, descobrimos que já não importa tan-
to se estamos sofrendo fome, nudez, enfermidades, calúnias, per-
seguições e, se mesmo, estamos às portas da morte. Só uma coisa
importa: a bendita presença de Jesus. Não perguntamos: Por que?
Só uma pergunta aquece nosso coração: Tu estás comigo?




                             55
A esperança que temos



      Quantas vezes na igreja, conversando com irmãos an-
gustiados, aflitos e exaustos lembro-me das palavras de Je-
sus: “…Como ovelhas que não têm pastor”. São pessoas que co-
nhecem a doutrina, mas não conhecem o Mestre. Estão na
família, mas não conhecem o Pai. Receberam a autoridade do
reino, mas nunca se debruçaram sobre o peito do Rei. São
nossas ovelhas, estão sob o nosso pastoreio, mas não conhe-
cem o pastoreio de Cristo. Como me humilha e envergonha
ter sob os meus cuidados, ovelhas que não conhecem o conso-
lo da presença de Jesus!
      Somos a noiva de Jesus, e é certo que ele não virá bus-
car uma noiva amarrotada e cheia de manchas, “porém santa e
sem defeito”. Ele nos está aperfeiçoando. Ele próprio foi aper-
feiçoado por meio de sofrimentos (Hb 2.10; 5.8, 9) e não pen-
semos que será diferente conosco (Hb 12.11-13; 1Pe 1.6-9).
Precisamos crer no cuidado que Ele tem para conosco e con-
fiar nas Suas intenções. Ele nos há de apresentar imaculados
diante de Sua glória (Jd 24).
      Às vezes somos como os bebês: estes costumam acor-
dar no meio da noite com grande estardalhaço e pranto. Nor-
malmente o quarto está escuro, os pais não estão à vista e eles
estão molhados, sujos, com frio e com fome. O produto destes
fatores é um grande desespero para os pequeninos, que só
sabem o que experimentam, e o que experimentam é muito


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Olhando com esperança pela lente de Deus



desconfortável. Cada minuto é uma eternidade. Onde estão
os pais que não aparecem? Será que não percebem a sua afli-
ção? Os bebês, “pobres desamparados”, são também, grandes
desinformados. Não sabem, por exemplo, que esta sua “gran-
de aflição”, não lhes trará grandes prejuízos. Na verdade é
algo simples, comum e passageiro (Não é assim também
conosco? Não atribuímos a pequenos dissabores, desconfor-
tos e dores o “status” de grande aflição?). Ignoram, ainda,
que todos os recursos estão ao alcance dos pais: a luz, materi-
al de higiene, fraldas e lençóis limpos, seios fartos e braços
aconchegantes (Não é assim também conosco? Quando nos
angustiamos diante das dificuldades achando que Deus está
ausente?).
      Não temos que estar ansiosos – Ele o sabe (Mt 6.25-
34). Sabe o porquê e para que:
      “Não temais, ó pequenino rebanho; porque o vosso Pai se
agradou em dar-vos o Seu Reino” (Lc 12.32). “E quanto a vós
outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados” (Mt 10.30).
“Temos, portanto, sempre bom ânimo… visto que andamos por
fé, não por vista” (2Co 5.6,7). Não sejamos bebês!
      O homem é tendencioso a viver de momentos e não consi-
derar o histórico nem o propósito dos acontecimentos. Tem
memória curta e esquece de orar como Moisés: “Ensina-nos a
contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio” (Sl


                              57
A esperança que temos



90.12). Ao contrário, passa a vida orando para se livrar dos pro-
blemas. Esquece que Deus não tem dificuldades com as circuns-
tâncias. O Deus que “chama a existência às coisas que não existem”
(Rm 4.17) pode transformar tudo. Quando Ele quis, abriu o mar
e a terra (Ex 14.21-22; Nm 16.31-33), fez o sol parar (Js 10.12,13)
e até voltar (Is 38.8). O problema de Deus não está com as situ-
ações, mas com o nosso coração empedernido: transformar um
coração de pedra em coração de carne. O homem é o único ser
que ousa desafiar a Deus, não se submetendo a Ele.
      Vejamos o exemplo de Israel no deserto: Todos os prodí-
gios e sinais maravilhosos eram esquecidos ao surgir uma nova
dificuldade. Não conseguiam entender o que Deus lhes explica:
      “Recordar-te-ás de todo o caminho, pelo qual o Senhor teu
Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar,
para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guar-
darias ou não os seus mandamentos. Ele te humilhou, e te dei-
xou ter fome, e te sustentou com o maná que tu não conhecestes,
nem teus pais o conheceram, para te dar a entender que não só
de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do
Senhor, disso viverá o homem. Nunca envelheceu a tua veste
sobre ti, nem se inchou o teu pé nestes quarenta anos. Sabe, pois,
no teu coração que, como o homem disciplina a seu filho, assim
te disciplina o Senhor teu Deus… para te humilhar, e para te pro-
var, e afinal te fazer bem (Dt 8.2-5, 16). Deus tinha um propósito


                                58
Olhando com esperança pela lente de Deus



definido e queria o bem do povo. Um bem permanente: “Eu é
que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o Senhor;
pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais”
(Jr 29.11). O povo, no entanto, só queria o seu próprio e imediato
bem estar.
      Esta mesma dificuldade de crer e agir em Deus, a des-
peito das circunstâncias (uma espécie de síndrome de imobi-
lidade por incredulidade) acometeu os discípulos após a mor-
te de Jesus. Não conseguiram lançar suas esperanças para além
da cruz, mesmo tendo a promessa do Senhor de que Ele res-
suscitaria (Lc 18.31-33; 24.7). Detiveram-se na morte, não
ousando crer no sepulcro vazio, mesmo quando ouviram que
o Senhor havia ressuscitado (ver os discípulos de Emaús, Tomé
e os outros – Lc 24.9-11, 21-25, 36-41; Jo 20.24-25).
      Além de imediatista, o homem é inclinado à auto-sufi-
ciência. Quando um dia Pedro “arrotava” fidelidade ao Se-
nhor, este lhe disse: “Simão, Simão, eis que Satanás vos recla-
mou (todos) para vos peneirar (todos) como trigo. Eu, porém,
roguei por ti, para que tua fé não desfaleça…” (Lc 22.31-32).
Satanás reclamou todos, mas Jesus intercedeu por Pedro, o
mais ousado em falar da sua própria firmeza. Este, justamen-
te, cairia se o Senhor Jesus não intercedesse por ele.
      No caso de Pedro, o Senhor lhe explicou a causa do
seu livramento. Mas, quantos de nós, sem se dar conta,


                              59
A esperança que temos



têm sido livres pela intercessão d’Aquele que “vive para
interceder por nós?” (Rm 8.34; Hb 7.25). Como somos in-
sensatos quando nos queixamos! Como afrontamos o amor,
a sabedoria e a soberania de Deus quando reclamamos!
Como somos contradizentes quando afirmamos que somos
cooperadores de Deus e depois murmuramos!
       Quem, alguma vez, ouviu Jesus murmurar?
       Ele era o Filho Amado em quem o Pai tinha todo o seu
prazer! A alegria do Pai pode, agora, ser multiplicada em muitos
filhos amados (Rm 8.28-29)! Aleluia! “Sede, pois, imitadores de
Deus, como filhos amados… como também Cristo…” (Ef 5.1,2).
       A esperança é como o alongar da fé. Ter esperança é
estender a fé para adiante. Se a “fé é a certeza das coisas
que não se vêem e a convicção das coisas que se esperam”,
a esperança é a firme e inabalável determinação de seguir
em fé. A decisão de continuar crendo e esperando, mesmo
quando os nossos sentidos atestam a nulidade dos nossos
esforços. É esperar (confiar nas promessas) mesmo contra
a esperança (possibilidades humanas). Assim fez Abraão, o
pai da fé: “O qual, em Esperança, creu contra a esperan-
ça…” (Rm 4.17-21), 2 ou: “Abraão contra toda esperança,
em esperança, creu” 3.

2
  Edição Revista e Corrigida Imprensa Bíblica Brasileira.
3
  Texto bíblico citado do Novo Testamento, Nova Versão Internacional, NVI,
© 1993.

                                   60
Olhando com esperança pela lente de Deus



      Possamos imitar aqueles que “…morreram na fé, sem
ter obtido as promessas, vendo-as, porém, de longe, e sau-
dando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos
na terra. Mas agora aspiram a uma pátria superior, isto é,
celestial. por isso Deus não se envergonha deles, de ser cha-
mado o seu Deus; porquanto lhes preparou uma cidade” (Hb
11.13-16; Fp 3.20; Jo 15.18, 19; 17.14-18).
      Quando Paulo foi preso em Jerusalém (At 21.17-40), já
era um ancião. Certamente tinha mais de 60 anos, contudo, a
expectativa de aposentadoria do velho apóstolo era enfrentar
“… cadeias e tribulações” (At 20.23). Tendo levado uma vida
de lutas e perseguições, já chegando ao final da existência
terrena podia dizer “… em nada considero a vida preciosa
para mim mesmo…” (At 20.24). O que poderia levar um ho-
mem a ter tal desapego pelo mundo e por sua própria vida?
Não seria a inabalável convicção de que, assim como o seu
Senhor, ele também não era deste mundo? (Jo 17.16).
      Há na igreja alguns, cujos pés ainda estão enraizados
na terra e cujos olhos ainda brilham para os prazeres fúteis e
a glória vã deste mundo, sobre os quais Satanás pergunta,
com sarcasmo, ao Senhor:
      — Tu és o Deus destes?
      É tão triste olhar nos olhos de tantos filhos de Deus e
não ver a nostalgia dos céus!


                            61
A esperança que temos



      Mas há outros “… que, perseverando em fazer o bem,
procuram glória, honra e incorruptibilidade” (Rm 2.7), “…
aspirando por ser revestidos da habitação celestial” (2Co 5.2),
sobre os quais Deus dá testemunho a Satanás:
      — Eu sou o Deus destes!
      Um destes foi Moisés, que mesmo contra a ira do rei, “per-
maneceu firme como quem vê Aquele que é invisível” (Hb 11.27).
Deste modo, pôde ser “fiel em toda a casa de Deus” (Hb 3.2).
      Mas não é só de homens famosos como Moisés que Deus
dá testemunho. Identifiquemo-nos com os milhares de fiéis e
santos que morreram na obscuridade (Ap 6.9-11), mas dos
quais Jesus pode dizer: “…Minha testemunha, meu fiel…”, como
fez com um tal de Antipas (Ap 2.13). Para a história, um tal
Antipas, mas para Jesus e por toda a eternidade, “minha teste-
munha, meu fiel”.
      Pensemos por um pouco na situação de João Batista.
Imagino que, quando a sua cabeça circulou pelo salão real
onde Herodes dava sua festa profana, os convivas devem ter
pensado: “Pobre coitado! Mas, também, quem mandou desa-
fiar o rei?” Depois devem ter continuado sua festa detestável.
      O maior homem nascido de mulher, aquele que veio
“preparar o caminho do Senhor”, morto como um criminoso,
decapitado, em um cárcere imundo, por um carrasco qual-
quer, como mais um desgraçado qualquer. Executado para


                              62
Olhando com esperança pela lente de Deus



atender as extravagâncias dos que pensam que governam.
Quanta surpresa haverá no dia do juízo! Como será diferente
no dia em que o Rei Jesus voltar e se dirigir a João dizendo:
“Venha, bendito de meu Pai…”. Onde estará e como ficará
Herodes e sua corte nesta hora?
     A lente de Deus enxerga além do tempo e do espaço –
salta para eternidade. Deus não ignora nem despreza a nossa
temporalidade (Os 11.3-4), mas é em uma perspectiva de eter-
nidade que Ele nos vê.
      Jesus tinha saudade desta existência onde não existe o
tempo (Jo 17.22-24). Paulo também, a ponto de considerar que
era “… incomparavelmente melhor partir…” (Fp 1.23; 3.20-21).
     Quem não enxerga a eternidade não consegue ver como
Deus. Não entende a ação de Deus. Não consegue amar a sa-
bedoria de Deus e resiste à Sua ação: sofre as dores do mundo
sem provar as grandezas dos céus (1Co 15.19).
     Se uma eternidade com Cristo nos espera então tudo é
suportável. Pode-se sofrer tudo e perder tudo, neste mundo
de aparências tão passageiras (1Pe 1.23-25; 1Jo 2.17).
     Mas este estilo de vida é para aqueles cujos olhos estão
nos céus. Lá, onde está o seu tesouro (Lc 12.34).
     São estes os que resplandecem como luzeiros no mun-
do (Fp 2.15) e dos quais o mundo não é digno! (Hb 11.38).



                           63
A esperança que temos



      São estes, os santos que o mundo odeia (Jo 15.18,19) e
que são amados pelo Pai! (Jo 14.21-23).
      São estes os piedosos que o mundo persegue (2Tm 3.12)
e que Deus distingue para Si! (Sl 4.3).
      Que diferença estes fazem no mundo! São sal e luz! (Mt
5.13-16). Que diferença farão estes na eternidade! Serão a
esposa do Cordeiro! (Ap 21.9). Aleluia!
      E sobre a Sua noiva, disse Jesus: “Aquilo que o Pai me
deu é maior do que tudo…” (Jo 10.29).

      “Portanto, se fostes ressuscitados juntamente
      com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde
      Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai
      nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da
      terra; porque morrestes, e a vossa vida está
      oculta juntamente com Cristo, em Deus. Quan-
      do Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, en-
      tão vós também sereis manifestados com Ele,
      em glória!” (Cl 3.1-4).




                                64
5



        Invadindo o desespero
          Fala-se, no mundo, que “a esperança é a última que
morre”. Na verdade, as Escrituras dizem que a esperança não
morre, ao contrário, permanece: “Agora, pois, permanecem a
fé, a esperança e o amor…” (1Co 13.13). Deus insiste em falar
de esperança em Sua Palavra com o propósito de nos encher
desta disposição interior: esperar sempre, confiar sempre,
mesmo quando ladeado pela morte. “Ainda que eu ande pelo
vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque Tu
estás comigo…” (Sl 23.4). Era esta a confiança do salmista.
Foi esta a confiança do Senhor Jesus, considerando que esse é
um salmo profético, juntamente com o Salmo 22 e 24, refe-
rindo-se ao sofrimento, morte, ressurreição e exaltação do
Senhor. Jó podia dizer: “Ainda que Ele me mate, n’Ele espera-
rei…” (Jó 13.15 1).
1
    Edição Revista e Corrigida – Imprensa Bíblica Brasileira.



                                      65
A esperança que temos



      Hoje, nestes tempos de desespero, é preciso lembrar do
Deus da esperança. Foi isto que fez Jeremias, o profeta das
lágrimas, nos dias terríveis da destruição de Jerusalém pelos
babilônicos: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperan-
ça… a minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto
esperarei n’Ele” (Lm 3.18-24). Literalmente, esta palavra sig-
nifica: “Farei voltar ao coração O que me pode dar esperança…”
(Lm 3.21)
      Naquele tempo, os judeus estavam completamente hu-
milhados. Nabucodonosor, rei de Babilônia, invadira Jerusa-
lém e levara cativo o rei Zedequias, (o ungido de Deus e sím-
bolo da glória do povo), todos os seus filhos (que depois fo-
ram mortos), além dos sábios da corte e dos sacerdotes. O
templo sagrado que guardava a arca da aliança (símbolo da
presença e glória de Deus) foi saqueado e queimado junta-
mente com toda a cidade. Os objetos sagrados foram profa-
nados e levados para Babilônia. Com os muros derribados, a
cidade estava completamente desamparada. A fome e sede des-
truíam a população. (Lm 1.8-12). Tal era o horror da fome,
que as mulheres comiam os próprios filhos (Lm 2.20).
      No meio daquele inferno Jeremias decidiu fazer “voltar
ao coração Aquele que lhe podia dar esperança”. Ter espe-
rança não é uma atitude passiva e conformista. Ao contrário,
é um exercício de vontade. É decidir continuar crendo. Esco-


                              66
Invadindo o desespero



lher não se encolher, não se amargurar. É preferir evitar a
queixa.
      O desespero, a queixa, o lamento é para “…aqueles que
não têm esperança” (1Ts 4.13). Aquele, porém, que crer que
“…Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a sal-
vação mediante o nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por
nós para que, quer durmamos quer vigiemos, vivamos em
união com Ele” (1Ts 5.9,10), este sabe transformar cada situ-
ação de dor e sofrimento em “sacrifício de louvor” (Hb 13.5),
porque já tomou “como capacete, a esperança da salvação”
(1Ts 5.8).
      Ter esperança, portanto, é trazer ao coração, o Deus
Eterno. Deste modo, “alegrai-vos na esperança…” (Rm 12.12).
      Ter esperança é ter a disposição que havia em Sadraque,
Mesaque e Abede-Nego: “Se o nosso Deus, a quem servimos,
quer livrar-nos, Ele nos livrará da fornalha de fogo ardente, e
das tuas mãos, ó rei. Se não, fica sabendo, ó rei, que não servi-
remos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que
levantaste” (Dn 3.16-18), ou seja, morreremos. Sabiam e con-
fiavam que Deus poderia livrá-los, mas não exigiam e nem
condicionavam sua fidelidade a isso. Como isto é diferente da
atitude reivindicadora e arrogante de tantos “cristãos” dos
dias atuais!



                             67
A esperança que temos



      Que bendita esperança enche o coração dos legítimos filhos
de Deus: Sem pavor de sofrer – “… ao contrário, alegrai-vos na
medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cris-
to, para que também na revelação de Sua Glória vos alegreis,
exultando” (1Pe 4.13).
      Sem pavor de morrer – “...para que, por Sua morte, des-
truísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e
livrasse a todos que pelo pavor da morte, estavam sujeitos à
escravidão por toda a vida” (Hb 2.14,15). Em outras palavras:
“Porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para
si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos,
para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos,
somos do Senhor” (Rm 14.7,8).
      Que contraste com o mundo! Que diferença em relação
aos filhos da desobediência! Como é diferente “o caminho do
justo” do caminho dos que andam “segundo o curso deste
mundo”!
      Pedro diz que devemos estar “... sempre preparados para
responder a todo aquele que nos pedir razão da esperança
que há em nós” (1Pe 3.15).
      Esta esperança é notória e visível. Tão saliente que des-
perta o questionamento dos incrédulos que não têm esperan-
ça (Ef 2.12). É cidade sobre o monte, candeia no velador,
luzeiro resplandecente, sal da terra e luz do mundo. Ela con-


                              68
Invadindo o desespero



trasta com o desespero do mundo, destaca-se e incomoda como
um jorro de luz no interior de uma caverna. A esperança que
temos profetiza ao mundo em silêncio:
      a) Na alegria e ações de graças, diante das situações
         adversas do presente (Rm 5.1-5; 15.4, 13; Fp 1.29;
         Tg 1.2-3);
      b) Na expectativa de uma vida perfeita e irrepreensível
         a ser alcançada em Cristo, ainda aqui neste mundo
         (Ef 4.11-13; Fp 3.12-14; Cl 1.27-28);
      c) E, sobretudo, na confiança de uma eternidade por
         vir (Rm 8.18-25; Fp 3.20-21; 1Pe 1.3-9; 1Jo 3.2).
      Esta esperança na eternidade, contudo, deve ser, não
apenas no sentido de se desejar os céus, mas também de pre-
tender que os reinos deste mundo se tornem do Senhor Deus
e do Seu Cristo (Ap 11.15-18). Este é o esforço de Deus!
      Devemos anelar a eternidade, não no sentido de esque-
cer o mundo enquanto acariciamos a esperança dos céus, mas
de levar ao mundo esta esperança (Jr 20.9; Mt 9.35-38; Jo
4.31-34). Que a esperança que temos na eternidade nos faça
ser tomados de um senso de destino. O mesmo que tomava
completamente o coração do apóstolo Paulo: estabelecer o
reino de Deus e glorificar seu nome em todas as circunstân-
cias da vida (At 20.22-24; Fp 1.20,21).



                            69
A esperança que temos



         Esta é a comissão de cada discípulo (1Pe 2.9-10). Esta é
a vocação da Igreja (Mt 28.28-20; At 1.8). Nesta perspectiva,
a ignorância em que vive o mundo, a sua infelicidade, sua de-
sesperança e condenação, tem que ferir a nossa felicidade (Mc
3.5; At 17.16-17; 26.17-18) e nos impulsionar a alcançá-lo,
ainda que o preço seja a nossa própria vida (At 21.13).
         Quando o jovem John Paton decidiu ir, com sua es-
posa e filho, às Novas Hébridas (ilhas do Pacífico)
evangelizar os antropófagos, um irmão muito estimado
exclamou: “Entre os canibais! Serás devorado por eles!” A
isto Paton respondeu: “Tu, irmão, és muito mais velho que
eu; breve serás sepultado e comido por vermes. Declaro-te
que, se eu conseguir viver e morrer servindo ao Senhor
Jesus e honrando o seu nome, não me importarei de ser
comido por vermes ou antropófagos; no grande dia da res-
surreição o meu corpo se levantará tão belo quanto o teu,
na semelhança do Redentor ressuscitado”2.
         “Se Jesus Cristo é Deus e morreu por mim, nenhum
sacrifício é grande demais que eu não possa fazer por Ele”
(Charles Stud).
         Oh! Como ser feliz, se por Ele não puder sofrer? Como
desejar um dia vê-lo, se por Ele não quiser morrer?

2
    Citação tirada do Livro Heróis da Fé



                                           70
Invadindo o desespero



      Nem todos provaremos a glória do martírio, mas todos
devemos cobiçá-la! Ninguém, que um dia tenha contemplado
o Cordeiro que foi morto, consegue viver sem desejar dar sua
vida por Ele.
      Os apóstolos se regozijaram quando foram açoitados
e sofreram afrontas pelo nome de Jesus (At 5.40,41). Paulo
se alegrava porque tinha a oportunidade de preencher, em
sua própria carne, com seu próprio sofrimento, o que res-
tava das aflições de Cristo em favor da igreja, que é o cor-
po de Cristo (Cl 1.24). Nesta disposição, estava pronto
mesmo a morrer (At 21.13). Que amor incompreensível e
tão desconhecido da igreja atual!
      Este amor é próprio daqueles que, um dia, enxergaram
seus próprios pecados e, da amargura de sua condenação, con-
templaram o “Cordeiro como havia sido morto”, providenci-
ando-lhes “tão grande salvação”.
       Todo o que se aproxima o suficiente para ouvir o
coração “d’Aquele que nem mesmo ao Seu próprio Filho
poupou, antes, por todos nós o entregou…” (Rm 8.32), con-
siderará um crime terrível, qualquer reserva na dedicação
e serviço a Ele.
      O Deus que permite, e às vezes, exige o sacrifício de seus
filhos em função do Seu (nosso) grande propósito, sacrificou-Se



                            71
A esperança que temos



primeiro a Si mesmo em Cristo Jesus. “… A saber, que Deus
estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputan-
do aos homens as suas transgressões…” (2Co 5.19).
      Este amor do Pai nos constrange. Torna-se obrigatório
que nos entreguemos a Ele sem reservas para que se quebre
o cetro de Satanás e os homens cativos sejam trazidos para
“… liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.21), “para o
reino do Filho do Seu amor” (Cl 1.13).
      Lemos em Ap 11.15 que: “Os reinos desde mundo se
tornaram do Senhor Deus e do seu Cristo”. Ora, se estes rei-
nos “se tornaram” é porque não eram do Senhor, ao contrá-
rio, estavam sob o domínio daquele a quem Jesus chamou de
“príncipe deste mundo” (Jo 12.31). Mas como o diabo veio a
tornar-se o “príncipe deste mundo”?
      No princípio, quando foi criado, ele era - o “querubim
da guarda, ungido”, “sinete da perfeição” (Ez 28.12-14), “es-
trela da manhã, filho da alva” (Is 14.12). Deus lhe havia con-
ferido grande beleza, sabedoria e autoridade nos céus. Era
um ser glorioso. Todos os anjos lhe prestavam reverência.
Era o primeiro dos anjos. Tão grande era sua glória e seu
poder, que ele imaginou igualar-se ao seu criador. Quando,
porém, se rebelou contra o Todo-poderoso, foi banido dos
céus e lançado nos abismos de trevas (Is 14.9-15; Ez 28.12-
19; 2Pe 2.4). Embora conservando seu poder e inteligência


                             72
Invadindo o desespero



(2Co 4.4; 11.3,14-15; Jd 8-9) perdeu sua glória e o ambiente
onde desenvolvia a sua autoridade. Tornou-se um ser toma-
do de inveja e ódio, impotente diante da situação em que o
Senhor o colocara.
         Quando Deus criou Adão, conferiu-lhe autoridade e
governo sobre toda a terra (Gn 1.26). Adão seria o primogênito
de Deus. O primeiro de todos os filhos de Deus. O governante
do universo com o seu Deus e Pai. O Éden era só o laborató-
rio para treiná-lo na administração e governo do mundo.
         Neste tempo, Satanás era apenas o “príncipe das trevas”,
insignificante e desprezado. Não havia ambiente onde desen-
volver seu grande poder e inteligência. A terra, tão bela, era
domínio de Adão. Sua autoridade no “reino das trevas” se li-
mitava, provavelmente, em manifestações de ódio e amargu-
ra contra seus anjos caídos e rebeldes. E, como Deus não lhe
conferira capacidade criadora, ele não podia criar seu próprio
reino.
         Em Adão, o querubim caído viu a chance de governar,
exercer autoridade, domínio e poder. Só teria que vencê-lo
(2Pe 2.19). Mas, como vencer o homem a quem Deus incum-
biu de guardar o jardim, capacitando-o para isso ao delegar-
lhe autoridade sobre toda a terra? (Gn 1.26-31). Satã sabia
que não poderia medir forças com Adão. Só poderia vencê-lo
pela persuasão. Agredir Adão seria desafiar e ferir a autori-


                               73
A esperança que temos



dade de Deus (Tg 4.7; 1Co 11.3, 7). Para obter a sujeição do
homem com todo o seu domínio, Satanás precisaria induzir
Adão a, voluntariamente, rejeitar a Deus. O Senhor Deus não
poderia interferir neste confronto: seria a escolha do homem.
          Nós conhecemos a triste história. Incitado por Satanás, o
homem rebela-se contra Deus. Ao buscar o conhecimento que
lhe possibilitaria auto governar-se, Adão rejeita a autoridade de
Deus negando-lhe o direito de governá-lo. Adão queria dirigir a
própria vida e não depender de Deus. Tomar as próprias deci-
sões sem ter que consultar a Deus. Mas, isto só seria possível
com o conhecimento do bem e do mal. O seu ato de desobediên-
cia, então, foi fruto de sua intenção, vontade e decisão de ser
independente de Deus. Comer do fruto proibido foi a busca cons-
ciente do único meio de libertar-se da tutela de Deus: conheci-
mento do bem e do mal. Foi a consumação do seu desejo. “O
pecado foi consumado pela desobediência, mas foi gerado por
uma atitude interior de rebelião.” 3. O homem não se tornou
rebelde porque comeu do fruto proibido, ao contrário, comeu do
fruto porque se tornara rebelde.
          Adão, fazendo uso do seu livre-arbítrio, rebelou-se con-
tra Deus. Em conseqüência, mesmo contra a sua vontade, tor-
nou-se escravo do pecado e de Satanás, porque “… aquele que
é vencido fica escravo do que é vencedor” (2Pe 2.19). E, “todo

3
    Princípios Elementares – Parte 3, Lição 11, página 48, Salvador, 2004.


                                       74
Invadindo o desespero




o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8.34). Agora,
Satã até se permitiu o luxo de oferecer a Jesus – o criador do
universo – a glória e autoridade dos reinos deste mundo, a
fim de conseguir a sua submissão (Lc 4.5-7). Ele não estava
blefando ou mentindo. Não era um “faz-de-conta”: o reino
deste mundo, de fato, é seu.
      O reino (governo, autoridade, domínio) do mundo ha-
via sido confiado a Adão por Deus. Mas Adão foi vencido e
com ele toda a raça humana. Ele fez-se escravo, e com ele,
todos os que sua carne e vontade geraram: toda a sua descen-
dência, toda a humanidade. Adão, que seria o cabeça de uma
raça santa e perfeita terminou sendo o primeiro de uma raça
decaída, degenerada e escravizada. Aquele a quem foi dado
dominar estava, agora, dominado:

      “Portanto, assim como por um só homem entrou
      o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim
      também a morte passou a todos os homens por-
      que todos pecaram… Entretanto reinou a morte
      desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que
      não pecaram à semelhança de Adão… por que…
      pela ofensa de um só morreram muitos… porque
      o julgamento derivou de uma só ofensa, para con-
      denação… Pela ofensa de um, e por meio de um só,
      reinou a morte… Pois… por uma só ofensa veio

                               75
A esperança que temos



     juízo sobre todos os homens para condenação…
     Por que… pela desobediência de um só homem
     muitos se tornaram pecadores…” (Rm 5.12-19).

     “Pois todos pecaram e destituídos estão da glória
     de Deus” (Rm 3.23). “Todos se extraviaram, a uma
     se fizeram inúteis” (Rm 3.12).

     Hoje, “sabemos que… o mundo inteiro jaz no maligno”
(1Jo 5.19). O mundo está inerte, passivo e à disposição do
maligno que o conduz para onde quer.
     Do mesmo modo também, “sabemos que somos de
Deus” (1Jo 5.19). No meio desta raça de mortos espirituais,
caminha uma raça eleita. Um reino de sacerdotes. Uma nação
santa. Um povo de propriedade exclusiva de Deus, cujo pro-
pósito é anunciar as virtudes d’Aquele que o tirou das trevas
e o trouxe para uma luz maravilhosa. D’Aquele que o com-
prou com o seu próprio sangue, livrando-o de toda iniqüida-
de, e purificando-o para Si mesmo (1Pe 2.9; Tt 2.13-14).
     Este povo especial é a geração de Jesus. É a Sua posteri-
dade, o fruto do penoso trabalho de Sua alma. É a nova cria-
ção de Deus. São os filhos que pela morte do Seu Unigênito o
Pai multiplicou para Si mesmo. Aquele, de cuja linhagem nin-
guém cogitou, conseguiu, na sua morte, posteridade para Seu
Deus e Pai: uma multidão inumerável de filhos santos e per-


                             76
Invadindo o desespero



feitos, assim como Ele (Is 53.8, 10, 11; Hb 2.10-13; Ap 5.7-10;
7.9-10; 21.3-7). Hoje, Ele é o primogênito de uma nova raça,
o primeiro dos filhos de Deus (Rm 8:28-29).
      Por isso Ele é exaltado e adorado nos céus e na terra. Ele
é digno. O único digno. Jesus é o único homem que não se pros-
tra diante de Deus. O único ser nos céus, na terra e debaixo da
terra que não precisa curvar-se diante do trono do Eterno. Em
Jesus, Deus encontrou um homem igual a Ele: perfeito.
      Fico imaginando o Pai acompanhando Seus passos, se-
guindo Seus olhos, pronunciando, com Ele, cada palavra e
escutando tudo que Ele julgasse próprio ouvir. Perscrutando
Seus pensamentos, sondando Seu coração, pesando na balan-
ça da própria santidade e justiça divinas cada uma de Suas
motivações e, dizendo consigo mesmo: Eu faria exatamente
assim! Ele é como também Eu Sou!
      Não foi, portanto, a bondade ou a misericórdia, mas a
justiça do Pai, que exaltou a Jesus. Se o Pai não O exaltasse,
estaria sendo injusto.
      Como o Pai admira Seu Filho! Por tudo isso “De quan-
to mais severo castigo, julgais vós, será digno aquele que cal-
cou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança
com o qual foi santificado…” Hb 10.29.
      Oh! Que grande segurança nos proporciona a
imutabilidade de nosso Deus! (2Sm 22.24-27; 2Tm 2.13). Do


                            77
A esperança que temos



modo pelo qual Ele expulsou e condenou o primeiro homem,
por causa da sua rebelião, agora exalta o segundo homem,
por causa da sua retidão e justiça.
      Mas não é só isso. Agora, esta justiça foi imputada a
nós que éramos “geração perversa e deformada” (Rm 4.4, 5;
Dt 32.5). A condenação e morte que vieram por Adão passa-
ram a todos os homens. Toda a raça foi ferida e escravizada
com seu cabeça. Agora, porém, a justiça perfeita de Jesus, o
Deus tornado homem, é atribuída a todos os que nEle crêem
e obedecem:

      “Se, pela ofensa de um e por meio de um só,
      reinou a morte, muito mais os que recebem a
      abundância da graça e o dom da justiça reina-
      rão em vida por meio de um só, a saber, Jesus
      Cristo. Pois assim como, por uma só ofensa, veio
      o juízo sobre todos os homens para condena-
      ção, assim também, por um só ato de justiça,
      veio a graça sobre todos os homens para a jus-
      tificação que dá vida. Porque, como, pela deso-
      bediência de um só homem, muitos se torna-
      ram pecadores, assim também, por meio da obe-
      diência de um só, muitos se tornarão justos”
      (Rm 5:17-19).



                              78
A esperança que temos
A esperança que temos
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A esperança que temos

  • 1. a ESPERANÇA que temos evangevaldo farias de sousa 2004 1
  • 2. A esperança que temos A Esperança que temos © 1996, Evangevaldo Farias de Souza e-mail: vanjo_s@yahoo.com.br Impressão de Primavera de 2004 O Texto deste trabalho pode ser citado ou reimpresso sem permissão por escrito do autor. Todos os textos bíblicos citados serão da Edição Revista e Atualizada da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo citação ao contrário. www.fazendodiscipulos.com.br 2
  • 3. Conteúdo Prefácio 5 Introdução 7 1. A dor que exige explicação 9 2. Os motivos de Deus 15 3. Unidos, em esperança, ao coração de Deus 31 4. Olhando, com esperança, pela lente de Deus 53 5. Invadindo o desespero 65 6. A esperança que temos 87 7. Experimentando a esperança 99 3
  • 5. Prefácio As tribulações, as perplexidades, os abatimentos, as dores e as aflições geram no homem uma necessidade única de respostas. O que está acontecendo comigo? O que Deus está querendo me ensinar? Por onde devo trilhar? Estas per- guntas, entre outras, são discutidas neste trabalho. O livro “A esperança que temos” é impactante ao mes- mo tempo em que é cheio de consolo. De Jó – homem íntegro e reto, a Jesus – o modelo perfeito, o leitor é confrontado com a verdade e com a postura que deve tomar. Cabe a cada um permitir ser conduzido pelo escritor a um aprofundamento na leitura da Palavra de Deus. Assim, sempre buscando uma maior revelação do que o Senhor tem para si, as perguntas serão respondidas. Descobre-se que tudo que Deus faz e permite na vida do homem aponta para o eter- no. É “ver” como Deus “vê”, pois todas as coisas cooperam 5
  • 6. A esperança que temos para o bem e para a eternidade daqueles que amam ao Senhor (Rm 8.28). Este trabalho é o resultado da vivência, da experiência e do profundo amor apaixonado que o autor nutre pelo Se- nhor Jesus Cristo e toda a sua obra. Começou com a compila- ção de alguns sermões ministrados desde 1993. Com muita meditação e debate sobre o tema revíamos os manuscritos, quando em março de 1996, ocorreu o grave acidente que testificou a todos como Evangevaldo vive para Deus e como em todo tempo busca olhar as circunstâncias da mesma for- ma que o Pai as observa. Este livro não é um mero escrito. É um testemunho vivo e ardente da vida de um homem. Mergulhe de coração na leitura destas palavras. Leia e medite nos textos bíblicos, pois, com toda certeza, Deus lhe falará. Que o Pai da eterni- dade possa, em sua misericórdia, encher de graça, alegria e paz a cada um para uma viva esperança. Salvador, outubro de 2004 Sérgio de Avillez 6
  • 7. Introdução “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cris- to que, segundo a sua muita misericórdia, nos re- generou para uma viva esperança mediante a res- surreição de Jesus Cristo dentre os mortos…” (1Pe 1.3-9). “E o Deus da esperança vos encha de todo gozo e paz no vosso crer, para que sejais ricos de espe- rança no poder do Espírito Santo.” (Rm 15.13) A esperança é uma dádiva do céu que faz com que a nossa fé sempre aponte para o alvo, como a bússola aponta para o norte, enchendo de consolo e alegria o nosso crer. Não pretendo defini-la nesse estudo, mas demonstrar sua possibi- lidade prática em meio à turbulência em que vivemos. As Escrituras falam muito de esperança. Suas páginas estão cheias de graciosa esperança. E isto não é mera coinci- 7
  • 8. A esperança que temos dência, mas manifesta a intenção de Deus de nos comunicar, encher e enriquecer com ela, porque Ele mesmo é o Deus da esperança. “Pois tudo quanto outrora foi escrito, para o nosso ensino foi escrito, a fim de que, pela paciência, e pela consola- ção das Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15.4). Crendo nisto, quero considerar um pouco do muito que outrora foi escrito para o nosso ensino (2Tm 3.16, 17), a par- tir de uma pequena análise da história de Jó. A minha expec- tativa é que, inspirados nesta pequena amostra do todo de Deus, busquemos ver todos os nossos caminhos do ponto de vista d’Ele. 8
  • 9. 1 A dor que exige explicação Jó era homem fiel e temente a Deus, de tal maneira que, segundo o próprio Deus, não havia ninguém semelhante a ele em toda a terra. Não apenas era íntegro e reto, como tam- bém, muito rico e honrado. O homem mais rico do Oriente. Vejamos alguns aspectos da sua vida: • Sua integridade e temor a Deus: Jó 1.1-22; 2.1-10; 29.12-17, 21-25; 30.25; 31.1-40. • Sua honra: Jó 29.1-11. • Sua prosperidade: Jó 1.3; 31.24-25. Jó era como um modelo que Deus podia apresentar ao mundo como exemplo e ao inferno como um trunfo. Era o Seu servo Jó: “Observaste meu servo Jó? Porque ninguém há na terra semelhante a ele, homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal”. Este testemunho de Deus a 9
  • 10. A esperança que temos respeito de um homem suscita a ira de Satanás que faz da queda de Jó um desafio para si. Ainda hoje é assim: a vida que é uma honra para Deus é um ultraje para o inferno. Por isso “todos quantos querem viver piedosamente em Cristo serão perseguidos” (2Tm 3.12). A confiança de Deus estava em que Jó O preferia por aquilo que Ele era, e não pelas bênçãos com que lhe agracia- ra. Deste modo, quando se refere ao seu servo, o Senhor o chama de homem íntegro e reto, temente a Deus, e que se desvia do mal (Jó 1.8). Nenhuma referência faz à riqueza e honra que Jó possuía. O esforço de Satanás é demonstrar o oposto, lançando na face do Senhor que todos os homens e, mesmo o melhor deles, preferem o pecado, vivendo para si mesmo e fazendo sua própria vontade. É como dizer a Deus: os homens te se- guem, apenas, porque Tu os abençoas e proteges. Deixa-os sofrer e verás como te rejeitarão. Eles não te preferem. Amam a si mesmos mais do que a Ti. É esta a acusação com que, de dia e de noite, ele acusa os irmãos diante de Deus (Ap 112.10). Assim, quando Deus lança o desafio ao diabo apre- sentando Jó como um modelo de fidelidade, segue-se um grande duelo entre os valores sobre os quais o Senhor es- tabelece seu relacionamento com o homem e os valores mesquinhos do inferno. 10
  • 11. A dor que exige explicação O conflito, portanto, não é entre Jó e Satanás, mas entre Deus e Satanás. Por um lado, o Senhor dizendo: “Observaste a meu servo Jó?…homem íntegro e reto, temente a Deus e que se desvia do mal”, por outro Satanás que diz: “…Jó em vão teme a Deus? Acaso não o cercaste com sebe, a ele, a sua casa e a tudo quanto tem? A obra de suas mãos abençoaste, e os seus bens se multiplicaram na terra. Estende, porém, a tua mão, e toca-lhe em tudo quanto tem, e verás se não blasfema contra ti na tua face.” Deus libera a ação de Satanás para dar seguimento ao seu propósito. Deus tinha planos para a posteridade da fé, tinha lições a ensinar que envolviam Jó (Satanás foi só um instrumento de Deus para cumprir os intentos do próprio Deus). Satã investe contra Jó com toda ferocidade, provocan- do uma destruição cruel: em um só dia Jó perde toda a sua riqueza e todos os seus filhos são mortos violentamente. As notícias chegam uma após outra, sem tempo, sequer, para pensar no que se sucedia: “Falava este ainda quando veio ou- tro e disse:…” (Jó 1.12-19). Diante deste golpe terrível, Jó reage com humilhação e confiança, adorando ao Senhor e di- zendo: “Nu saí do ventre… E nu voltarei; o Senhor deu e o Senhor tomou; bendito seja o nome do Senhor” (Jó 1.20-22). Jó não sabia, mas a sua tribulação estava apenas come- çando. Seu sofrimento seria intensificado e prolongado por 11
  • 12. A esperança que temos muitos meses. Diante da perseverança de Jó e do repetido testemunho de Deus: “Observaste meu servo Jó?…ele con- serva a sua integridade, embora me incitaste contra ele para o consumir sem causa” (Jó 2.3), Satanás apela para o sofri- mento físico, argumentando: “Pele por pele e tudo quanto o homem tem dará pela sua vida” (Jó 2.4). Em outras palavras: o que o homem mais ama é a sua própria vida; pode tolerar outras provações, mas não suportará ver a sua própria vida destruída – ele é egoísta! Mais uma vez o Senhor expõe o seu testemunho ao ris- co: “…Eis que ele está em teu poder…” e o diabo vai e fere a Jó com tumores malignos em todo o seu corpo. Jó sentava-se em cinzas e raspava seu corpo chagado com um caco. De tal modo era deprimente o seu estado e tamanha a sua dor, que sua esposa o aconselha a blasfemar contra Deus e depois se matar. A isto Jó responde: “falas como qualquer doida: temos recebido o bem de Deus, e não receberíamos também o mal? Em todas estas coisas Jó não pecou com a sua boca” (Jó 2.7- 10). Mas o mal de Jó não era um mal qualquer. Ele transfor- mara-se em uma figura repugnante, apodrecendo vivo. Veja- mos algumas conseqüências de sua enfermidade. a) Teve que se sentar no monturo, fora da cidade (2.8); b) As chagas criaram vermes (7.5); 12
  • 13. A dor que exige explicação c) Tinha pesadelos horríveis (7.13-16); d) Sentia-se como uma coisa podre (13.28); e) O secar e supurar das chagas lhe encheram o corpo de rugas (16.8); f) Tornou-se esquelético (16.8; 19.20); g) Homens lhe desprezavam e lhe esbofeteavam o ros- to (16.10); h) Seus amigos lhe zombavam (16.20); i) Seu mau hálito afastava sua própria esposa (19.17); j) Seu mau cheiro causava nojo aos seus irmãos (19.17); k) Só as suas gengivas escaparam das chagas (19.20); l) As crianças lhe desprezavam (19.18); m) Sentia os ossos deslocados e queimando em fe- bre (30.17, 30); n) Antes, à sua chegada, os jovens se retiravam, os anciãos se levantavam e os príncipes se calavam (29.7-10). Agora os filhos dos loucos zombavam dele e lhe cuspiam no rosto (30.1-16). A notícia do nobre que caíra em desgraça espalhara-se muito e três amigos de Jó vieram de longe para consolá-lo. Avistando-o não o reconheceram, tal era o seu estado. Então, choraram em voz alta e por sete dias e sete noites não conse- guiram falar uma palavra, assentados com ele na terra (Jó 2.11-13). 13
  • 14. A esperança que temos Jó, que tinha esperança de ser consolado por seus ami- gos (Jó 6.14) , logo descobriu que, ao invés de consoladores, eles se tornaram molestadores, quebrantando-o com palavras de acusação e aumentando-lhe a aflição (Jó 16.1-7; 19.1-6). Mesmo quando clama por compaixão: “compadecei-vos de mim, amigos meus, compadecei-vos de mim…” (Jó 19.21), não é aten- dido. Sem esperança de ser consolado por seus amigos, Jó suplica que pelo menos eles lhe ouçam, e isto lhe seria por consolo (Jó 21.1-3). Mas nem isso ele conseguiu, pelo contrá- rio, recebeu mais acusações e até injúrias (Jó 22.5-11). Deste modo, desprovido do apoio de seus amigos, sen- tindo-se desamparado por Deus e sofrendo as mais terríveis aflições na carne, Jó passa a queixar-se amargurado e triste, questionando a Deus por seus sofrimentos: “Por isso não reprimirei a minha boca, falarei na angústia do meu espírito, queixar-me-ei na amar- gura de minh’alma…’ ‘Se pequei, que mal te fiz a Ti, ò Espreitador dos homens? Por que fizeste de mim um alvo…?’ ‘A minha alma tem tédio à mi- nha vida…’ ‘Por que, pois, me tiraste da madre…?”(Jó 7.11,20; 10.1,18). Por quê? Esta é a pergunta que persiste. 14
  • 15. 2 Os motivos de Deus Podemos até pensar que se houve alguém na terra com motivos para queixar-se, este alguém foi Jó (Jó 6.1-10). Deus, porém, pensa diferente. Depois de ouvir todas as queixas de Jó, o Senhor passa a mostrar-lhe toda a sua insensatez e ig- norância: “Quem é este que obscurece meus desígnios com palavras sem entendimento?… Acaso quem usa de censuras contenderá com o Todo-Poderoso? Quem assim argüi a Deus que responda. Acaso anularás, de fato, o meu conselho? Ou me condenarás para te justificares?”. Depois de assim falar, Deus passa a argüir Jó, exigindo-lhe explicação sobre a cria- ção de um modo geral, sem que este lhe pudesse dar resposta (Jó 38 a 41). Mas por que Deus se preocupou tanto em mostrar a ignorância de Jó? Por que humilhá-lo mais? Em uma avalia- ção superficial, os argumentos de Deus parecem completa- 15
  • 16. A esperança que temos mente despropositados e sem nexo. Qual a relação entre o sofrimento de um homem íntegro e o hipopótamo, o aves- truz, o crocodilo? Ou a neve, o mar, as estrelas? Realmente não é razoável, não faz sentido. Uma observação mais apurada pode revelar-nos alguns dos motivos de Deus que podemos aplicar em nossa vida hoje. Deus quer mostrar-nos que a nossa ignorância nos im- possibilita de exercer qualquer julgamento (Rm 11.33-36). Jó nos serve de exemplo. Ora, se ele não entendia as coisas simples da natureza, como a vida animal, o clima, enfim, os fenômenos naturais de um modo geral, como entender o pro- pósito de Deus nas coisas que lhe sucediam? “Os passos do homem são dirigidos pelo Senhor; Como, pois, poderá o ho- mem entender o seu caminho?” (Pv 20.24). A ignorância de Jó quanto ao propósito de Deus era tal, que quando Deus o tinha por motivo de alegria, uma espécie de tesouro pessoal Seu: “Meu servo Jó”, ele considerava Deus como seu inimigo e perseguidor: “Deus, tu me lançaste na lama… Tu foste cruel contra mim” (Jó 30.11, 19-21; 19.6-12, 21, 22). Jó realmente ignorava os pensamentos de Deus a seu respeito e o Senhor queria e precisava mostrar-lhe que: “assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos que os vossos pensamentos” (Is 55.8, 9). 16
  • 17. Os motivos de Deus Deus tem conhecimento completo do antes, do agora e do após. “…pois para o Senhor um dia é como mil anos e mil anos como um dia” (2Pe 3.8). O Senhor se detém e vive intensa- mente cada situação e momento nosso. O nosso dia não passa rápido e desapercebido ao Senhor: • Nas tribulações, ele nos conta os passos, nos recolhe as lágrimas em seu odre e as registra no Seu livro (Sl 56.8). Deste modo, um dia, poderá enxugá-las todas (Ap 21.4). Ele sabe exatamente quantas são! • Angustia-se na nossa angústia (Is 63.9). • Nos carrega em seus braços (Is 46.3, 4). • Ele detém-se, tendo tempo e cuidado suficientes para nos contar os fios todos de cabelos de nossa cabeça (Mt 10.30). Aleluia! Que belo é o cuidado de nosso bondoso Pai! O Senhor não se exaspera com o tempo como se fosse perder alguma chance irrecuperável. Ele nunca é surpreen- dido pelas situações. Ele nunca dirá: Passou-se tanto tempo e eu não consegui! Nada disso! Para o Senhor, passou-se só um dia, ainda que tenham sido mil anos. O Eterno Deus não está atrasado em seu propósito. “Nenhum dos seus planos será frustrado” (Is 46.10; Jó 42.2). Aleluia! 17
  • 18. A esperança que temos Ele é Alfa e Ômega, Princípio e Fim. Tudo está retido n’Ele, encerrado n’Ele – Ele é os limites da eternidade, o Pai da Eternidade (Is 9.6; 44.6; Ap 1.8; 21.6). Deste modo, Ele sabe por que as coisas acontecem e para que acontecem; co- nhece os motivos e sabe os resultados. Ele é o Senhor! Aleluia! Davi diz: “Tal conhecimento é elevado demais para mim” (Sl 139.6). Verdadeiramente, Deus tinha uma importantíssima li- ção a ensinar ao seu servo Jó e à posteridade da fé. Ali estava a oportunidade: Jó não sabia da conversa de Deus com Sata- nás, nem do grande conflito que se configurava nas regiões celestiais. Não sabia do desafio de Satanás e do quanto Deus “apostou” nele, o seu servo Jó. Ao “apostar” em Jó, Deus estava expondo a sua própria reputação. Como a igreja hoje é o “bom perfume de Cristo, exalando em todo lugar a fragrância do seu conhecimento”, assim também, Jó era o que Ele tinha de melhor. Embriagado por sua dor, Jó não sabia a causa da sua provação. Não apenas isso, mas Jó também não sabia que seu exemplo perduraria por séculos: “Quem me dera agora, que as minhas palavras se escrevessem! Quem me dera, que se gravassem num livro! E que, com pena de ferro, e com chum- bo, para sempre fossem esculpidas na rocha!” (Jó 19.23-24). Era este o seu anseio. Não sabia ele que este seu desejo se 18
  • 19. Os motivos de Deus cumpriria. Não sabia que mil anos depois Deus daria teste- munho dele (Ez 14.14) e que três mil e quinhentos anos de- pois, nós estaríamos aqui, sendo inspirados e desafiados por sua vida. Jó não sabia o resultado da sua aflição, o fruto da sua dor. E aqui está a lição a ser aprendida: os homens são sem- pre inclinados a relacionar a aprovação e benção de Deus com o seu próprio bem-estar. Se estão bem, Deus está com eles. Se estão com problemas, Deus está ausente. Não conseguem enxergar além das circunstâncias. Importa confiar na soberania de Deus e na autoridade que Ele tem sobre estas circunstâncias. “O governo está so- bre os Seus ombros” (Is 9.6). Ele obriga e ordena que todas as coisas, todas as circunstâncias e tribulações, toda dor ou ale- gria, toda lágrima e riso cooperem para nossa santidade e edificação, para o nosso bem: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus… porquan- to… os predestinou para serem conformes à imagem do seu Filho, a fim de que Ele seja o primogênito dentre muitos ir- mãos” (Rm. 8.28, 29). Importante notar que não é para o nosso “bem-estar”, como pensam e esperam muitos, mas para o nosso “bem”. E o nosso “bem” é sermos apresentados diante da Sua glória san- tos e irrepreensíveis (Ef 1.3-5; Cl 1.21-23; 2Pe 3.14; Jd 24). 19
  • 20. A esperança que temos Uma vez o nosso bem significou o abandono do Ama- do, a morte do Filho Unigênito do Pai. E por que ele foi abandonado e morto? Deus olhava para este mundo e nada via que o agradas- se. Toda a criação estava corrompida e gemia, inclusive o ho- mem (Rm 8.19-22). Na visão do Apocalipse, o apóstolo João “chorava muito porque ninguém havia, nem nos céus, nem na terra, digno de abrir o livro selado, nem mesmo de olhar para ele” (Ap 5.1-4). A dignidade requerida não era apenas pelo livro, mas por Aquele que o escrevera e segurava em sua mão direita. Quem ousaria se aproximar do Senhor Deus Todo-Poderoso e tomar das Suas mãos qualquer coisa? “… Pois quem de si mesmo ousaria aproximar-se de Mim? Diz o Senhor” (Jr 30.21b). Nem os céus, em todo o seu esplendor e glória, e pure- za, e santidade, são dignos de Deus. Nada havia em toda a criação que enchesse o coração do Pai. Em toda a extensão do universo, em todas as dimensões físicas e espirituais, nada havia que lhe desse prazer. “Até aos anjos Ele atribui imper- feições’; ‘nem os céus são perfeitos aos seus olhos”. (Jó 4.17- 19; 15.15-16). O homem tornara-se “geração perversa e de- formada” (Dt 32.5, 6; Fp 2.15; Rm 3.10-23; 2Pe 2.14). 20
  • 21. Os motivos de Deus Então, Ele olha para o Seu Filho e sorri. Sim, Ele se alegra mais em Seu Filho do que Abraão poderia alegrar-se em seu Isaque. É o Seu único Filho; o Filho que gerou (Hb 1.5; Lc 1.31-32). Ele diz: “Este é o meu filho amado em quem tenho o meu prazer” (Mt 3.17). Sim, porque “Ele é o resplen- dor da glória, a expressão exata do Seu ser” (Hb 1.3) e “… n’Ele habita corporalmente toda a plenitude da divindade.”(Cl 2.9). “Mas ao Senhor agradou moê-lo, fazendo-o enfermar…” (Is 53.10) – Para o nosso bem! N’Ele estava a vida, disse João (Jo 1.4). “EU sou a Vida”, Ele disse (Jo 14.6). Mas a Vida morreu, expirou – para o nos- so bem! Aqui convém deter-se e pensar: Jesus, o Deus criador do homem, tornado humano. O Verbo Eterno, feito carne (Fp 2.5-8; Jo 1.1-4, 14). O Senhor dos céus estava só, fraco e de- samparado na maldição da cruz (Gl 3.13; Mt 27.46). Aquele que sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder (Hb 1.3), sendo sustentado por pregos sobre o madeiro maldito. Tomando a maldição e fazendo-me bênção. Sofrendo o veneno e tornando-se o antídoto. Aquele que teve a forma de Deus, Espírito Eterno, (Fp 2.6; Jo 4.24) tendo a sua carne (forma de homem e figura hu- mana) sendo rasgada qual véu perecível e frágil, abrindo ca- 21
  • 22. A esperança que temos minho à santidade do Pai. Caminho para mim, “geração defor- mada”. Seu sangue escorrendo – Sua vida derramada sobre mim, a purificar-me das culpas e pecados que me separavam daquele que é Santo (Hb 10.19-23). Aquele que disse: “Eu e o Pai somos um”, definhava no abandono e agonia da cruz. Estava só! Nem homens – seus amigos, tontos e assustados, não entendiam a grandeza da hora. Nem anjos – separados, pela morte, daquele que os criou. Nem o Pai – virando as costas para o Santo que Ele mesmo tornou pecado por nós (Rm 8.3; 2Co 5.21; Hb 9.26; 1Pe 2.24). Ele estava só! Era mais, muito mais do que a solidão de uma separa- ção momentânea e voluntária. Era mais, até, que a separação provocada pela morte de uma pessoa querida. Era o afasta- mento da rejeição por Deus. A separação da condenação. A solidão do desamparo. O espectro do inferno: ausência de Deus. Oh! Tão amado Jesus! Como te compreender? Oh! Je- sus! Tão bendito Senhor Jesus! Quando um dia, Tu, com exultação me apresentares imaculado diante da tua glória (Jd 24), quero olhar dentro da tua face e, enquanto enxugas mi- nhas lágrimas, reclinar-me em teu peito e sorrir, e bendizer- te, e louvar-te, e dar-te graças por me dares toda uma eterni- 22
  • 23. Os motivos de Deus dade para te amar e seguir te amando e crescendo neste amor. E ainda assim saberei que não será suficiente o meu amor! Também o Pai estava só. Aquele em quem seu coração se deleitava (Mt 17.5) era agora o alvo da ira de Sua justiça. Seu agrado já não estava em contemplá-lo, mas em moê-lo, fazendo-o enfermar (Is 53.10). Como nunca antes, nem como jamais um dia, o Pai estava só. Por um instante, seu eterno propósito de ter uma grande família pareceu destruído – um sonho vago, dissipado na morte do seu Unigênito. O momento singular, glorioso e terrível em que o grão de trigo morrendo, racha-se liberando a vida, produzindo muito fruto. “O grande mistério da piedade: Aquele que foi manifestado na carne, foi justificado em espírito…” (1Tm 3.16). E isto tudo, para o nosso bem. Um dia, o bem da igreja e do eterno propósito de nosso Pai pode significar a tua dor, tua lágrima, teu abandono e solidão - tua morte. Um dia, em ti “operará a morte” para que em outros filhos do Pai “opere a vida”. Um dia poderás ser “lixo do mundo, escória de todos” para que teus irmãos se façam preciosos. Poderás ser louco para que eles sejam sábios. Desprezado para que eles sejam torna- dos nobres. 23
  • 24. A esperança que temos Um dia, precisarás ser humilhado (Jó 16.15), ter a tua “coroa lançada por terra” (Jó 19.9), para que teus irmãos sejam vestidos de honra. Neste dia será preciso que entendas e ames profunda- mente o propósito eterno de Deus para que possas ser cooperador com Ele. Precisarás andar nos passos de Jesus: “… que andou em trevas sem nenhuma luz, e ainda assim confiou em o nome do Senhor e se firmou sobre o seu Deus” (Is 50.10). Nem sempre haverá alguma manifestação ou evidência da presença ou socorro de Deus. Tudo será deserto, escuro e silencioso. Parecerá que os céus são de bronze e Deus está distante e inacessível. Quero, então, dizer-te algo muito im- portante: às vezes Deus não responde, não porque não queira ou porque não possa, mas porque precisa ficar em silencio. Nestes momentos, Ele está confiando naquilo que já fez em nós, e nos possibilitando conhecer o nosso próprio coração, ao nos dar a chance de escolher entre a nossa e a Sua vontade. O apóstolo podia dizer: “… porque andamos por fé e não pelo que vemos…” (2Co 5.7). Nosso ânimo não pode de- pender das circunstâncias que nos cercam ou da dor que so- fremos, mas daquilo que sabemos e cremos a respeito do nos- so grande Senhor e da sua santa vontade: boa, agradável e perfeita (Rm 12.1, 2). 24
  • 25. Os motivos de Deus Foi assim com Jesus em Getsêmani, quando Ele sentia “pavor até a morte” e de angustia cambaleava, suando sangue em plena madrugada. Antes da agonia do Jardim das Olivei- ras, quando entrou em Jerusalém na semana da Páscoa, já na iminência de sua crucificação, Ele orou ao Pai buscando um conforto: “Agora está angustiada a minha alma, e que direi Eu? Pai, salva-me desta hora? Mas precisamente com este propósito vim para esta hora (Ele sabia a vontade do Pai). Pai, glorifica o teu nome” (Jo 12.27, 28). Não buscou livramento, mas a glória do Pai. Então, o bondoso Pai deu um testemunho público e so- brenatural do seu Filho. Fez-se ouvir como um trovão, a voz de Deus: “Eu já O glorifiquei e ainda O glorificarei” (Jo 12.28). Era como se o Pai dissesse: “Filho, fica firme! Eu estou conti- go! Vamos até ao fim, nosso propósito se cumprirá : muitos filhos iguais a Ti!”. Contudo, lá em Getsêmani, quando as trevas eram mais densas e seu Filho agonizava de pavor, “andando em trevas sem nenhuma luz”, e o inferno, com todas as suas hostes, o ator- mentava, o Pai silenciou. Precisava calar. Não devia influen- ciar ou intervir. Era decisão do Filho, ser ou não, obediente até a morte, e morte de cruz… A cruz seria o extremo da obediência. Nela tudo seria consumado; o plano eterno retomado – a vitória de Deus! 25
  • 26. A esperança que temos Depois dela nada deteria o Autor da vida, nem mesmo a mor- te (At 2.24; 3.15). Ele seria exaltado e o Pai glorificado (Fp 2.9-11; At 2.32-36). Mas entre o Getsêmani e a exaltação do Filho e glória do Pai havia a cruz - e ela poderia ser evitada, se o Filho assim o quisesse. A cruz não lhe foi imposta. Ele a escolheu e preferiu por saber ser esta a vontade do Pai. Se, contudo, a tivesse recusa- do não seria reprovado ou punido - tinha a escolha. Mas, então, a glória do Pai seria subtraída e seus pensamentos eternos frus- trados (Is 46.10; Jó 42.2). Com o gemido do filho – “ Aba, Pai, Tudo te é possível: passa de mim este cálice…” – posso saber do soluço do Pai, imolando o seu Isaque por não ter cordeiro que o substituísse. Então o Seu Cordeiro entrega-se: “…contudo, não seja o que eu quero, e sim, o que Tu queres” (Mc 14.36). O nosso bem é o cumprimento da Sua vontade. Aleluia! Deus nos quer filhos que se multipliquem à sua ima- gem. Esta é a sua vontade. A ordem de Jesus em Mt 28.18-20 não é um ingredien- te novo, uma ordem que se acrescenta depois do pecado. É o eco do Éden: o “multiplicai-vos e enchei a terra” é reafirmado com o “ide por toda a terra e fazei discípulos”. 26
  • 27. Os motivos de Deus A nossa vocação, então, é a mesma de Adão: multipli- car a imagem e a vida de Deus. Encher a terra de filhos para Deus. O Senhor Deus não é míope ou vesgo. Sua visão é clara e inalterada. Seus olhos não se desviam do alvo. Ele sabe, em verdade, o que é melhor. Ele não se deixa embaraçar ou cons- tranger pelas circunstâncias. Deus não é manipulado pelo nosso choro, nem se deixa impressionar pelos gemidos do homem – Ele conhece isso desde o Éden. Se a dor e o sofrimento cooperam para que o homem se assemelhe a Jesus, Deus os permitirá. Se for o riso, Ele pro- duzirá este riso. E assim o é com a riqueza ou pobreza, abun- dância ou escassez, bonança ou tormenta, sucesso ou fracas- so, honra ou desprezo (Fp 4.9-13). “Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu pro- pósito” (Rm 8.28). Este propósito envolve muitos irmãos, uma família – toda a grande família de Deus. Por isso é preciso lembrar que as coisas que nos acontecem não dizem respeito apenas a nós mesmos (1Co 12.12-14, 25-27). Nunca podemos esquecer que somos corpo, membros interdependentes, res- ponsáveis uns pelos outros. A nossa atitude diante das cir- cunstâncias traz reflexos diretos sobre muitos e por muito tempo. Jó não atentava para este efeito, Deus sim. 27
  • 28. A esperança que temos Nunca sofremos apenas por nós mesmos e para nós mesmos: “Mas, se somos atribulados é para o vosso conforto e salvação; se somos confortados, é também para o vosso con- forto, o qual se torna eficaz, suportando com paciência os mesmos sofrimentos que nós também padecemos” (2Co 1.6). Quando Paulo sofria ele estava aprendendo, como Je- sus, a experimentar o consolo do Pai, para consolar a outros que também sofressem (Hb 2.17, 18; 4.14-16), ensinando-os a sofrer em fé e ações de graça (Rm 12.12; Fp 1.29; 1Pe 1.5). Deste modo, ele podia dizer: “Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, o Pai de misericórdias e Deus de toda consolação! É Ele que nos conforta em toda a nossa tri- bulação, para podermos consolar aos que estiverem em qual- quer angustia, com a consolação com que nós mesmos somos contemplados por Deus. Porque, assim como os sofrimentos de Cristo se manifestam em grande medida em nosso favor, assim também a nossa consolação transborda por meio de Cristo” (2Co 1.3,5). Jesus entendia que precisava santificar-se não só por si, mas também por seus discípulos, para que “eles fossem aper- feiçoados na verdade” (Jo 17.19), pois Ele os tinha enviado do modo como o Pai O enviara. Ele orava por eles e pelo fruto que eles produziriam, para que todos fossem um com ele e o Pai, a fim de que o mundo cresse (Jo 17.20-21). Que tremenda 28
  • 29. Os motivos de Deus responsabilidade! Assim foi a existência de Jesus na terra: plena de um senso santo de conseqüência. Assim devemos ser (Jo 17.18-21 x Jo 13.15-17). A nos- sa postura pode nos fazer “cidade sobre o monte”, “candeia no velador”, “luzeiros no mundo”, trazendo grande glória ao nome do Senhor (Fp 2.14, 15; Mt 5.14-16). Ou fontes amar- gas, poços de murmuração, “contaminando a muitos” (Hb 12.15), sendo tropeço para muitos (1Co 10.32) e trazendo blas- fêmia ao nome do Senhor (Rm 2.24). Não nos esqueçamos que o nosso bem é o cumprimento da Sua vontade. “Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo…” (Hb 10.10). Por isso, “… não seja a minha, mas a Tua vontade”, ainda que com sangue e até a morte (Hb 12.4; Fp 1.20; 2.17; At 20.24). Orando ao Pai quanto aos seus discípulos, o Senhor Je- sus disse: “Eu lhes fiz conhecer o teu nome e ainda o farei conhecer, a fim de que o amor com que me amaste esteja neles e Eu neles esteja” (Jo 17.26). Essa é a sua vontade: que o seu amor esteja em nós. Quando isso acontecer plenamente, será notó- ria e inconfundível a sua presença em nós, porque então, to- dos os nossos atos serão feitos em amor (1Co 16.14). Deus é amor! Nunca conheceremos o seu coração e nun- ca seremos parecidos com Ele se não pudermos amar como Ele ama. Por isso Ele derrama do seu próprio e grande amor 29
  • 30. A esperança que temos em nosso coração pelo Espírito Santo (Rm 5.5). Ó Espírito dá-me mais desse amor! Para amarmos a Deus é necessário que O conheçamos. Por isso Jesus disse: “Eu lhes fiz conhecer o teu nome… para que o amor com que me amaste esteja neles…” Deus usará todas as circunstâncias para se dar a conhecer a nós, a fim de que possamos imitá-lo (Ef 5.1 x Jo 5.19) e nos assemelhar a Ele. Deste modo cumpriremos a sua vontade: “…que vos ameis uns aos outros assim como eu vos amei…” (Jo 13.34-35). Toda ação de Deus em nossa vida deriva do Seu esforço em cumprir o Seu propósito: fazer-nos filhos semelhantes ao Seu Filho. Ele quer nos trazer para perto de Si, a fim de sen- tirmos como Ele sente, e vermos como Ele vê e sermos Seus cooperadores. 30
  • 31. 3 Unidos em esperança ao coração de Deus Para a maioria dos homens, é mais fácil sentir do que crer. As situações que nos cercam atingem diretamente os nossos sentidos, ofuscando o brilho e a glória da realidade espiritual contida no propósito eterno de Deus. Por isso, Ele age nas circunstâncias adversas de modo que elas produzam em nós aquele elemento que nos faz viver na terra, pensando nas coisas lá do alto (Cl 3.1-4), esperando com confiança aquilo que não se vê. Este elemento é a esperança, a filha da tribula- ção: “… E gloriemo-nos na esperança da glória de Deus. E não somente isto, mas também nos gloriemos nas próprias tri- bulações, sabendo que a tribulação produz perseverança; e a perse- verança, experiência; e a experiência, esperança” (Rm 5.1-4). 31
  • 32. A esperança que temos A esperança é fruto da experiência. Ninguém adquire ex- periência sem perseverar, e, ninguém precisa perseverar se não é atribulado. Ou seja, sem tribulação, para quê esperança? Como a tribulação é inevitável, a esperança se faz indispensável. Esta esperança não nos deixa confundidos ou envergo- nhados porque, enquanto sofremos com esperança, o Espíri- to Santo nos enche o coração com o amor de Deus. “Ora, a esperança não confunde, porque o amor de Deus é derrama- do em nossos corações pelo espírito Santo que nos foi outor- gado” (Rm 5.5; 8.22-25). Este amor é aquele que “é paciente, benigno e não arde em ciúmes. O amor que não se ufana nem se ensoberbece. Que não se conduz inconvenientemente, nem procura seus próprios interesses. Não se exaspera nem se ressente do mal. Este amor não se alegra com a injustiça (mesmo quando pra- ticada contra um inimigo que já lhe fez o mal), mas alegra-se com a verdade. Este bendito amor, tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. O amor nunca acaba!” (1Co 13.4-8). Quando sofremos o Senhor nos dá oportunidade de nos assemelhar a Ele; nos dá oportunidade de amar! Vale notar que a esperança, na bíblia, quase sempre vem acompanhada de adversidades, tribulações, provações e pro- messas. Aleluia! “Suas preciosas e mui ricas promessas…” (1Pe 1.3-9; 2Pe 1.3-4; Rm 5.1-5; 8.23-25). E é assim porque a espe- 32
  • 33. Unidos em esperança ao coração de Deus rança impede a amargura e o endurecimento. Anima e revi- gora a vontade e nos firma em fidelidade ao antecipar, por fé, a alegria da vitória, do desfecho glorioso que o Senhor nos trará, seja em uma circunstância temporal, seja na eternida- de. Portanto, “alegrai-vos na esperança, sede pacientes na tri- bulação, perseverai na oração” (Rm 12.12). Consideremos, por exemplo, a galeria dos heróis da fé, apre- sentada em Hb 11.30-38: “…os quais, por meio da fé, subjuga- ram reinos, praticaram a justiça, obtiveram promessas, fecha- ram bocas de leões, extinguiram a violência do fogo, escaparam ao fio da espada, da fraqueza tiraram força, fizeram-se podero- sos em guerra, puseram em fuga exércitos de estrangeiros. … outros, por sua vez, passaram pela prova de escárnios, açoites, al- gemas e prisões. Foram apedrejados, provados, serrados pelo meio, mortos ao fio da espada; andaram peregrinos, vestidos de peles de ovelhas e de cabras, necessitados, afligidos, maltratados (homens dos quais o mundo não era digno), errantes pelos de- sertos, pelos montes, pelas covas, pelos antros da terra.” Como podemos constatar, uns, já aqui, usufruíram o gosto da vitória e da glória, enquanto que outros, apenas pro- varam dor, e lágrimas, e morte, com os olhos postos em Deus. Todos, porém, igualmente participaram do propósito de Deus e cooperaram com Ele na execução da Sua vontade. Contudo, não lhes foi dado escolher como participariam. 33
  • 34. A esperança que temos É preciso entender que além de cooperadores, somos matéria-prima de Deus, pronta para ser consumida em sua grande obra. Isto me faz lembrar uma cena que eu pude admirar muitas vezes na minha infância: o funcionamento de uma ola- ria (cerâmica artesanal). O lenho seco (madeira imprestável para edificação ou móveis) é lançado ao fogo para produzir a “cura” ou fortalecimento dos tijolos que depois serão utiliza- dos em várias construções, desde casas simples até mansões. Todos olham para estas construções e sabem que ali há tijo- los. É inegável e evidente sua participação. Todos lhe atribu- em o mérito devido. Então surge a pergunta: Quem, ao olhar as construções, se lembra do lenho queimado? Suas cinzas, já há muito, foram sopradas, abrindo espaço para mais lenho seco que se proponha ser consumido e esquecido. Sacrificado para formar tijolos fortes e aparentes. “Que Ele cresça (e ao crescer seja visto, mesmo que em outro) e que eu diminua” deve ser a nossa divisa. Fomos cria- dos, e devemos existir, para louvor da Sua glória (Ef 1.4-6). Muito do nosso sofrimento é fruto do conflito: para quem a glória – Para Deus ou para mim? Quando estivermos em total esvaziamento, não sofre- remos tanto ao sermos humilhados. Deixaremos de ser reivindicadores de bênçãos e direitos pessoais, para sermos 34
  • 35. Unidos em esperança ao coração de Deus intercessores, sacerdotes fiéis, adoradores santos (Hb 5.1,2; 1Pe 2.9; Jo 4.23,24). Quando o Espírito Santo nos exorta a ter “…o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus…”, busca lembrar- nos a vocação de vivermos para a glória d’Aquele por cuja causa todas as cousas existem (Hb 2.10). As Escrituras afirmam que Cristo nos deixou exemplo para seguirmos os seus passos (1Pe 2.21) e que “aquele que diz que está n’Ele deve andar como Ele andou” (1Jo 2.6) Como é possível isso? Por onde começamos? O Espírito Santo nos dá uma direção: “Tende em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, pois Ele… a si mesmo se esvaziou…” Consideremos um pouco a trajetória de Jesus para po- dermos, então, desenvolver o mesmo sentimento que havia n’Ele. Se prestarmos atenção, veremos que o Verbo Eterno, a partir de uma atitude básica, uma disposição interior de esva- ziamento, vai avançando para baixo, crescendo em humilha- ção. Vejamos Fp 2.5-11: “Cristo Jesus subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar…” Isto significa que Ele não exigiu o privilégio. Não ape- nas não se esforçou para manter, como recusou a posição que 35
  • 36. A esperança que temos era sua por direito. Não lhe pesava nenhuma obrigação. Nin- guém lhe deu ordem – nem poderia: não havia ninguém aci- ma d’Ele. Seu relacionamento com Deus era como de dois iguais. Como dois gêmeos, onde tanto o primeiro se parece com o segundo e vice-versa, nenhum era referencial exclusi- vo para o outro. Não havia uma matriz e uma cópia. Esta expressão subsistindo indica que Jesus, antes da encarnação, era Deus. Tinha a forma de Deus. Forma é a ex- pressão permanente de existência. Assim como existe a for- ma dos animais (a aparência muda de um animal para outro, mas a forma indica este tipo de criatura), existe a forma do homem, de anjo e de Deus. O Verbo Eterno tinha a forma de Deus. Isto não lhe foi dado. Ele sempre existiu, assim como o Pai, na forma de Deus. Ele era Deus (Jo 1.1). Aquele a quem hoje chamamos de Deus Pai, não era maior que o Verbo Eterno. Aquele a quem hoje chamamos de Filho de Deus, não era menor que Deus Pai – era o próprio Deus. O Verbo Eterno foi tornado filho ao ser gerado no ven- tre de Maria. Se aceitarmos que de algum modo Ele tenha sido gerado antes deste momento histórico, estaremos ne- gando a Sua eternidade (Is 9.6). Se Ele é o Pai da eternidade, como a Escritura pode dizer: “… hoje te gerei”? (Hb 1.5). E mais, as expressões: “Eu lhe serei Pai, e Ele me será Filho” 36
  • 37. Unidos em esperança ao coração de Deus (Hb 1.5) indicam um tempo futuro. Isto significa que, até en- tão, a relação entre Eles não era de Pai e Filho. Considerando Hb 1.8, 9: “…Mas, acerca do Filho: O Teu trono, ó Deus, é para todo o sempre, …por isso Deus, o teu Deus, Te ungiu…”, como pode Deus ter sido gerado ou criado? Só se pode conceber o Deus Filho sendo gerado, em sua humanidade e encarnação. Antes disso Eles eram iguais. Mas Ele, o Filho, não se aferrou a isto, “… Antes (pelo contrário) a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo...” Ainda lá na glória, o Verbo Eterno aceitou e decidiu ser servo. Servo de Deus. Era como se Ele dissesse a Deus: daqui para frente Tu dás as ordens e Eu me submeto. Não temos mais que entrar em conselho – Tu serás Pai e Eu, Teu Filho. Esta foi sua atitude básica: assumiu a forma de servo, “… Tornando-se em semelhança de homens…” O fazer-se semelhança de homens significa que Ele levou a efeito a sua decisão de ser servo. Mas, como ser um submisso servo sendo Deus? Despiu-se, então, de toda a sua glória e vestiu-se de carne e sangue. Carne frágil e tão limitada! 37
  • 38. A esperança que temos Trocou a adoração e o louvor dos habitantes celestes – seres santos e poderosos – para enfrentar a dura cerviz e a rejeição de homens pecadores e desprezíveis. Ele, contudo, não apenas tornou-se semelhança de homens (aparência ex- terior de homem), mas foi “… Reconhecido em figura (forma) humana,” Isto é, homem de fato e de verdade. Gente, de carne e osso. Aquele que foi tentado à nossa semelhança (Hb 2.18; 4.15), não foi Deus – Este não pode ser tentado pelo mal (Tg 1.13) – mas o homem Jesus, o carpinteiro galileu. É muito difícil pensar neste texto sem sentir grande tristeza, quase uma angústia. Ao chegar neste ponto em que Ele é reconhecido em forma humana, fico imaginando Deus submetendo-se a este aleijão indescritível e sou impelido a dizer como Pedro: “Senhor, não te faças tal”. Chega, basta! Deixa-me ir para o inferno, mas, poupa-Te! Mas, então, des- cubro que não foi só para me livrar do inferno que o Senhor Jesus foi até a cruz. Ele foi movido por um motivo tão mais elevado: A glória do Pai. Costuma-se dizer que a glória de Deus é o melhor para nós, e que a felicidade do homem é fruto da santidade que este alcança. Isto é uma verdade, mas eu quero dizer que ainda que a santidade produzisse amargura e dor, e a glória de Deus trou- 38
  • 39. Unidos em esperança ao coração de Deus xesse condenação, é para sua glória que devemos viver. Para isto fomos criados e para isto existimos. Este elemento estava pre- sente no sentimento que houve em Cristo Jesus. Nesta disposição Ele continua crescendo em humilha- ção, crescendo para baixo, pois uma vez reconhecido em figu- ra humana… “A si mesmo se humilhou” Mesmo na condição de homem, continuou se esvazian- do até tornar-se o menor e mais desprezível dentre os ho- mens. O texto de Isaías 52.13 a 53.10 fala d’Aquele que era igual a Deus e do que Ele fez a si mesmo. Fala da sua trajetó- ria humana. O Profeta dos milagres e prodígios grandiosos, o Rabi de palavras graciosas e olhos de sacerdote não foi despreza- do, ao contrário, foi sempre aclamado ou odiado, mas nunca ignorado – foi elevado e mui sublime. Mas, sublimidade não cabe a um servo, por isso Ele se humilhou e tornou-se vil e desprezível aos olhos de todo homem. “…Um de quem os ho- mens escondem o rosto…” A senda do Calvário fez d’Ele “O mais rejeitado entre os homens, reputado por aflito, ferido de Deus e oprimido” – d’Ele não se fez caso. 39
  • 40. A esperança que temos “O resplendor da glória”, Aquele para quem os céus se inclinam, foi humilhado pela ralé da terra e atingido pelos insultos dos infames habitantes do inferno. Para suportar tamanha humilhação, era preciso cum- prir um pré-requisito, e Ele o fez: “Tornando-se obediente…” Antes dos “dias da sua carne” (Hb 5.7), Ele não pre- cisava obedecer (Jo 1.1-3; Rm 11.34-36). Não havia nin- guém sobre Ele, ninguém a quem devesse explicação: “No princípio era o Verbo… e o Verbo era Deus… e o Verbo se fez carne…”. A obediência, então, era algo novo e alheio a sua natureza divina, agressivo a sua realeza eterna. Por isso, Ele precisou tornar-se obediente. Teve que aprender a obediência (Hb 5.8). Não como nós que somos rebeldes por natureza, mas porque nunca esteve sob a autoridade de alguém – era Deus! Mas até que ponto deveria Ele obedecer? “… Até a morte…” Permaneceu em obediência até o fim. Não é que Ele estivesse progredindo em obedecer e, de repente, como Es- tevão (At 7.59-60) ou Tiago (At 12,1-2), fosse alcançado 40
  • 41. Unidos em esperança ao coração de Deus pela morte. Não! Ao contrário, a morte foi o limite da obe- diência. Como não havia mais qualquer prova para testar sua obediência, então, já podia intervir a morte. E como foi sua morte? O Espírito Santo faz questão de destacar: Não bastava morrer, tinha que ser… “… Morte de cruz” Morte de malditos, morte dos párias da sociedade. Mas não um pária ou excluído qualquer, tinha que ser es- cravo. Só escravos morriam na cruz. Deste modo, como um reles escravo, o Senhor dos céus, o adorado das incontáveis miríades celestiais, “des- ceu às regiões inferiores da terra” (Ef 4.9). Imagino que, assim como eu, os demais filhos de Deus ao ler em Fp 2.5-8, o fazem com rapidez e desconforto. Há uma expectativa, um anseio por desaguar no cântico triun- fal dos versos de 9 a 11: A exaltação do Servo sofredor! Os céus, em festa, recebem o seu Amado, ajoelham-se e O ado- ram. Abrem-se-lhe os portais eternos. O Pai Lhe oferece o trono à sua destra. Os poderosos e príncipes da terra se ar rojarão aos seus pés. As potestades do mal, os dominadores deste mundo tenebroso, humilhados, se do- brarão ante o Rei da Glória. 41
  • 42. A esperança que temos “Pelo que também Deus O exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo o nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo o joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor para glória de Deus Pai.” Ele recebeu o nome supremo: Senhor. A palavra grega utilizada para designar Jesus neste texto – Kyrius – é a mes- ma utilizada na Septuaginta (versão grega do Velho Testa- mento) para traduzir Yahweh do hebraico. Esta é a posição de extrema honra e autoridade que foi conferida Àquele que so- freu extrema humilhação. E, então, uma vez mais minha débil percepção me confun- de e embaraça, pois vejo que mesmo na sua exaltação, quando se comemora a sua vitória, quando tocam as trombetas celestiais e se levantam os portais eternos para a sua passagem, quando toda população celestial comemora sua autoridade e majestade, não é para Si, mas para Seu Deus e Pai, a glória que recebe. Como entender Jesus, o Cristo? Na sua exaltação Ele estava vazio de Si mesmo! Oh! Jesus! Como ter este teu sentimento se nem mes- mo posso compreendê-lo? Por mais que me esforce não con- sigo atinar em nada que pudesse fazer ou sofrer para sequer me aproximar de tal esvaziamento. 42
  • 43. Unidos em esperança ao coração de Deus Senhor meu, que Te posso dar como demonstração de gratidão e reconhecimento? Como Te presentear? Como Te surpreender com uma oferta que Tu não esperas? Nada te- nho ou sou que já não me tenhas exigido. Tudo é teu por direito. Nenhuma dádiva nova tenho para Te oferecer! Como é feliz a pecadora que, na casa de Simão, Te un- giu os pés com precioso ungüento e, chorando sobre teus pés empoeirados, os beijava e enxugava com os próprios cabelos! (Lc 7.36-50). Como eu a invejo! Sou pobre e miserável! Deixa-me, pois, consumir em teu serviço ou me consumirá a desventura dos ingratos! “Tende em vós o mesmo sentimento que houve tam- bém em Cristo Jesus”. É esta a exortação do Espírito Santo. Esta expressão pode também ser traduzida como “o mesmo espírito que houve em Cristo Jesus”. Deus nos quer treinar para desenvolvermos este espí- rito, este sentimento, como aconteceu com o Seu Primogênito. E do modo como Ele, a partir de um posicionamento assumi- do, foi crescendo nas suas ações em esvaziamento e humilha- ção, assim também, deve ser conosco. Nesta perspectiva, podemos entender por que Jesus ao anunciar o Evangelho do Reino de Deus (governo e au- toridade de Deus), fazia quatro exigências básicas (Mc 8.34- 36; Lc 14.25-33): 43
  • 44. A esperança que temos a. Negar-se a si mesmo – Ele o fez ao abdicar de sua forma e igualdade com Deus, fazendo-se servo e homem. b. Tomar a Cruz – Ele o fez ao renunciar a própria vontade, abraçando a do Pai, mesmo sob a inigualável tenta- ção do Getsêmani. Além disso, tomou-a, literalmente, sobre os ombros humanos. c. Perder a vida – Ele o fez, literalmente, obedecendo até a morte. d. Renunciar a tudo – Ele o fez ao tornar-se homem para sempre, dando ao seu Deus e Pai toda a glória e autori- dade (Mt 24.36; Jo 14.28; 1.7; 1Co 8.6; 15.27-28; Fp 1.11; 2.11; Ap 1.1). Meu coração se constrange ao pensar que o Verbo Eter- no nunca mais terá a forma de Deus. Para sempre e por toda a eternidade haverá um homem, o homem Jesus, assentado à direita do Pai (1Tm 2.5). Que mente humana, por mais brilhante e imaginativa que seja, pode conceber o que significou para o Senhor Jesus perder a forma de Deus?! Deixou de ser como o Pai para que pudéssemos ser como Ele: “… Aguardamos o Senhor Jesus Cristo, O qual transfor- mará o nosso corpo de humilhação para ser igual ao corpo de Sua glória” (Fp 3.21). “…Sabemos que, quando Ele se mani- 44
  • 45. Unidos em esperança ao coração de Deus festar, seremos semelhantes a Ele, porque havemos de vê-Lo como Ele é” (1Jo 3.2). Se Ele pôde abrir mão da sua forma de Deus, para sem- pre, há alguma renúncia que seja grande demais para nós, por amor a Ele?! Tudo que nos exige Ele próprio experimentou em muito maior escala. Ele é o nosso modelo. Foi feito o nosso irmão mais velho. O Pai quer que sejamos semelhantes a Ele (Rm 8.15-17, 29; Hb 2.11-15): filhos amados que Lhe tragam con- tentamento (Mt 3.17; 17.5). Para tanto, o Pai nos irá exerci- tar, ao longo da vida, através de todas as circunstâncias, até sermos perfeitos (Ef 4.13). Consideremos como exemplo a história de Davi. Na sua velhice, ele escreve um dos seus últimos poemas. Em sua mente se desdobram as lembranças, desde o urso e leão que matou, defendendo o rebanho de seu pai até a rebelião de Absalão, seu filho. Passando por Golias, pelos dez anos, aproximada- mente, de perseguição de Saul, o exílio entre os filisteus, a morte de Saul e Jônatas, a coroação, a tomada de Jebus (forta- leza dos jebuseus bem no centro do território de Israel, que nem Josué, nem os juízes, nem Saul conquistou e que Davi transformou em Sião ou Jerusalém, a cidade do Grande Rei), a vitória sobre os filisteus, o retorno da Arca de Deus à Jeru- salém, a aliança com Deus – a promessa do Messias, as mui- 45
  • 46. A esperança que temos tas guerras, o horror contra Urias, a repreensão de Natã, o incesto de Amnom, o homicídio entre os filhos, revolta e morte de Absalão. Ao final de sua vida podia dizer: “O Senhor adestrou as minhas mãos para o combate, de tal maneira que os meus braços vergaram um arco de bronze” (2Sm 22.35). É certo que Davi está utilizando uma metáfora para demonstrar como Deus o capacitou em seu espírito, para enfrentar as maiores adversidades da vida. Mas até conseguir vergar este arco de bronze, ele precisou ser exercitado com outros mais simples e fáceis de manejar. Vencer Golias, por exemplo, não passou de um arco de bambu: zelo por Deus. Mero e simples exercí- cio de fé – princípios elementares, rudimentos da vida em Deus. Ações como estas só nos trazem reconhecimento, hon- ra e até aclamação, como aconteceu com Davi. Mas de Davi procederia o Messias. Deus faria uma ali- ança com Davi e teria muito a realizar por meio dele. Deus, porém, não se agrada nem se utiliza de homens inteiros e orgulhosos, que só conhecem o louvor e abatem os que se lhes opõem. Tais homens nunca estiveram no conselho de Seu Filho – o Servo sofredor. São incapazes de se conforma- rem com Seus sofrimentos. São inúteis para Deus. Só servem aos seus próprios ventres, à sua própria carne e cobiça. São eternos filhos de Adão. 46
  • 47. Unidos em esperança ao coração de Deus Deus precisava “quebrar” Davi. Como diz Gene Edwards em seu excelente livro Perfil de Três Reis: “Deus arrancou o Saul de dentro do coração de Davi”. Era preciso destruir o Saul que habitava em Davi. Para tanto as mãos de Davi foram treinadas na obscu- ridade das cavernas solitárias, “errante pelos desertos, pelos mon- tes, pelas covas, pelos antros da terra”, bebendo o cálice da in- gratidão, injustiça e ciúme daquele a quem serviu de coração inteiro. Quando Absalão, seu próprio filho, voltou-lhe o punho cerrado da revolta, ele já sabia e podia envergar o arco de bronze: entregar-se completa, irrestrita e absolutamente “Àquele que julga retamente” (1Pe 2.23). Foi assim com Jesus, o Filho do homem. Por trinta anos conteve o seu ímpeto messiânico, vivendo na obscuridade e insignificância da carpintaria de José (mesmo que estivesse assentado sobre os reinos deste mundo, ainda seria obscuro e insignificante para Ele). Depois da carpintaria vieram os pro- dígios, os milagres, as multidões e as aclamações. Depois a resistência, a perseguição e os insultos: “tens demônio”. De- pois Getsêmani (agonia), o julgamento (desprezo), e a cruz (abandono de Deus) – arco de bronze. Para Davi, Absalão foi Getsêmani: “… não a minha, mas a tua vontade” (2Sm 15.25, 26). Este foi seu arco de bronze. 47
  • 48. A esperança que temos Somente homens quebrados, fracos em si mesmos, humi- lhados e vencidos por Deus, podem vergar este arco poderoso. E quando se evidencia que alguém está humilhado, que- brado? Como saber que alguém está vencido por Deus? Quan- do cessa a resistência. Então, o homem está completamente disponível para Deus, para todo e qualquer serviço, em todo e qualquer lugar, sob quaisquer que forem as circunstâncias. Assim, fica evidente a glória de Deus – rompendo-se, portan- to, o vaso de barro. Não é humilde o que sofre humilhações e se ressente amargurado. Este só não revida porque não pode, mas reage erradamente: fica triste pelos cantos, rancoroso ou assume uma postura de herói injustiçado. Não sabe que quanto mais se protege e se defende, mais se torna vulnerável e é atingido. As pessoas defensivas, não raro, se tornam amargas, agressi- vas, tristes e/ou desconfiadas. Deus quer nos ensinar a bênção de perder e sorrir (mes- mo no futebol). De ser traído e amar. A confiança de entre- gar-se “Àquele que julga retamente”. Há quem, ao ser magoado e ofendido, “entrega a Deus” os que lhe ofendem, com um ar “todo espiritual” que esconde o desejo carnal de vingança. Esquece-se, convenientemente, que é ele próprio quem tem de entregar-se ao Senhor, enquanto padece nas mãos de ou- tros, sabendo que bem pode ser a mão de Deus (At 2.23). 48
  • 49. Unidos em esperança ao coração de Deus Isto é a cruz! Se te perseguem, provocam ou insultam, não desce da cruz para mostrar a tua força e do que és capaz. Se te louvam, honram ou aclamam, não desce da cruz para receber os aplausos. A cruz é bom lugar! Nela, os meus direitos estão nas mãos do meu Pai. Ele os fará valer se assim o quiser. Não tenho que lutar ou me esforçar para que estes sejam reconhecidos. Meu direito é o cumprimen- to de Sua vontade. É Seu direito dispor de minha vida. Jesus entregou-se ao Pai, não lutou. Ele é o nosso modelo (Jo 5.41; 7.18; 8.50). A cruz não era o Seu lugar, mas Ele, por nossa causa e para fazer a vontade do Pai, permaneceu nela! Portanto, A cruz é nosso lugar! Longe de nós, qualquer glória que não seja aquela da cruz humilhante, das vaias e insultos, da coroa ferina e dos pregos, pois foi lá que nós morremos para o mundo e o mun- do morreu para nós (Gl 6.14). Esta é a glória da cruz: nos liberta do mundo. 49
  • 50. A esperança que temos A cruz marca o limite entre o mundo e o Reino de Deus. Só por ela nós iremos conhecer o poder da ressurreição de Jesus, porque, então, já conheceremos a comunhão dos seus sofrimentos, tendo-nos conformado com Ele na sua morte (Fp 3.10; Rm 8.17). Foi na cruz que Jesus triunfou sobre Satanás e despre- zou seus príncipes (Cl 2.15), e não com milagres e sinais po- derosos. É certo que foi pelo poder do Espírito Santo que Ele o fez (Hb 9.14). Mas, nem sempre o poder do Espírito San- to se manifesta exteriormente por meio de prodígios e mi- lagres, capaz de curar corpos enfermos e ressuscitar mor- tos. Muitas vezes, este poder que é mais forte que a carne, se manifesta no sentido de nos capacitar a sofrer em ações de graças, e, em esperança e fé permitir que “o pó volte a terra como o era, e o espírito volte a Deus que o deu” (Ec 12.7). Foi assim com Jesus na solidão da cruz. A cruz é a maior manifestação do amor de Deus. Na cruz aconteceu a vitória de Deus. Lá, Ele nos reconciliou con- sigo mesmo pelo corpo de Cristo (Rm 7.4; 2Co 5.19). Na cruz se manifesta a glória de Deus na face de Cristo. Quando Moisés pediu para ver a glória de Deus, Este mostrou-lhe a Sua bon- dade (Ex 33.18-19). A cruz de Cristo é a manifestação maior 50
  • 51. Unidos em esperança ao coração de Deus da bondade de Deus. Por isso, também, a expressão máxima de Sua glória. Deste modo, a glória de Deus é vista na face ferida de Cristo (Is 52.14; 53.5, 10a x 2Co 4.6). “Aquele que é cheio de graça e de verdade há de impri- mir Seu caráter em mim. Preciso a graça que anseia em pres- tar favor; a verdade que se expressa também em sinceridade e honra, para a glória do Seu nome.” David Livingstone. É na Cruz que nos Unimos ao Bondoso Coração de Deus. 51
  • 52. A esperança que temos 52
  • 53. 4 Olhando com esperança pela lente de Deus A esperança nos faz ver e nos transporta ao “final feliz”, de tal modo que Paulo podia dizer: “Porque, para mim, tenho por certo que os sofrimentos do tempo presente não são para comparar com a glória por vir a ser revelada em nós” (Rm 8.18). O apóstolo tinha os olhos na eternidade (Fp 3.20, 21) “Se a nossa esperança em Cristo se limita apenas a esta vida somos os mais infelizes de todos os homens” (1Co 15.19). Se enxergarmos a vida do mesmo modo que Paulo poderemos, de sã consciência, como ele proclamar: “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação” (2Co 4.17). Paulo tinha uma lente especial para ver as circunstân- cias que o envolviam, mesmo as mais adversas. Tomemos os seus óculos e o nosso horizonte mudará. “Não atentando nós 53
  • 54. A esperança que temos nas coisas que se vêem, mas nas que se não vêem; porque as que se vêem são temporais, e as que se não vêem são eternas.” (2Co 4.18). Nesta perspectiva, Paulo podia dizer: “leve e momentâ- nea tribulação”. Algum desavisado pode estar pensando que o apóstolo estava falando de teses teóricas. Quero preveni-lo e mostrar-lhe que não é assim, ao contrário, o que Paulo cha- mou de “leve e momentânea”, foi uma tribulação tal, que o le- vou a “desesperar da própria vida” perder a esperança de sobreviver – porquanto foi acima de suas forças. Ele e seus companheiros chegaram a ter sua sentença de morte decre- tada, para aprenderem a confiar em Deus que ressuscita os mortos e não em si mesmos (2Co 1.8-9). Na sua primeira carta aos coríntios, Paulo se refere a esta situação, quando diz que lutou com feras em Éfeso1 (1Co 15.30- 32). Na segunda carta, ele fala da intensidade da tribulação que lhe sobreveio na Ásia (Éfeso). O Paulo que estava pronto a sofrer e morrer (At 21.13; Fp 1.20; 2.17), certamente não se perturba- ria com qualquer coisa. Uma tribulação que foi acima de suas forças, provavelmente aniquilaria a maioria dos cristãos. Paulo, todavia, era tomado por um senso de destino: glorificar e en- grandecer a Cristo no seu corpo quer pela vida, quer pela morte. 1 Provavelmente esta expressão “lutei com feras” não é literal, pois os cidadãos romanos não eram obrigados a este tipo de flagelo. A expressão “feras” deve ser alegórica, referindo-se a crueldade e bestialidade dos homens (Tt 1.20,24). 54
  • 55. Olhando com esperança pela lente de Deus O resultado de tal confiança de coração é uma perseve- rança inabalável. “Por isso não desanimamos: pelo contrário, mesmo que o nosso homem exterior se corrompa, contudo o nosso homem interior se renova de dia em dia” (2Co 4.16). Quando vivemos assim, fica notório que “a excelência do po- der” é de Deus e não de nós, meros vasos de barro. E então… “…em tudo somos atribulados, porém, não angus- tiados, perplexos, porém não desanimados; per- seguidos, porém não desamparados; abatidos, po- rém não destruídos; levando sempre no corpo o morrer de Jesus para que também a Sua vida se manifeste em nosso corpo. Porque nós, que vive- mos, somos sempre entregues à morte por causa de Jesus, para que também a vida de Jesus se ma- nifeste em nossa carne mortal” (2Co 4.7-11). Davi dizia confiante: “…Tu estás comigo…” (Sl 23.4), mes- mo ladeado pela morte. Quando conhecemos o Senhor Jesus como o Pastor nosso de cada dia, descobrimos que já não importa tan- to se estamos sofrendo fome, nudez, enfermidades, calúnias, per- seguições e, se mesmo, estamos às portas da morte. Só uma coisa importa: a bendita presença de Jesus. Não perguntamos: Por que? Só uma pergunta aquece nosso coração: Tu estás comigo? 55
  • 56. A esperança que temos Quantas vezes na igreja, conversando com irmãos an- gustiados, aflitos e exaustos lembro-me das palavras de Je- sus: “…Como ovelhas que não têm pastor”. São pessoas que co- nhecem a doutrina, mas não conhecem o Mestre. Estão na família, mas não conhecem o Pai. Receberam a autoridade do reino, mas nunca se debruçaram sobre o peito do Rei. São nossas ovelhas, estão sob o nosso pastoreio, mas não conhe- cem o pastoreio de Cristo. Como me humilha e envergonha ter sob os meus cuidados, ovelhas que não conhecem o conso- lo da presença de Jesus! Somos a noiva de Jesus, e é certo que ele não virá bus- car uma noiva amarrotada e cheia de manchas, “porém santa e sem defeito”. Ele nos está aperfeiçoando. Ele próprio foi aper- feiçoado por meio de sofrimentos (Hb 2.10; 5.8, 9) e não pen- semos que será diferente conosco (Hb 12.11-13; 1Pe 1.6-9). Precisamos crer no cuidado que Ele tem para conosco e con- fiar nas Suas intenções. Ele nos há de apresentar imaculados diante de Sua glória (Jd 24). Às vezes somos como os bebês: estes costumam acor- dar no meio da noite com grande estardalhaço e pranto. Nor- malmente o quarto está escuro, os pais não estão à vista e eles estão molhados, sujos, com frio e com fome. O produto destes fatores é um grande desespero para os pequeninos, que só sabem o que experimentam, e o que experimentam é muito 56
  • 57. Olhando com esperança pela lente de Deus desconfortável. Cada minuto é uma eternidade. Onde estão os pais que não aparecem? Será que não percebem a sua afli- ção? Os bebês, “pobres desamparados”, são também, grandes desinformados. Não sabem, por exemplo, que esta sua “gran- de aflição”, não lhes trará grandes prejuízos. Na verdade é algo simples, comum e passageiro (Não é assim também conosco? Não atribuímos a pequenos dissabores, desconfor- tos e dores o “status” de grande aflição?). Ignoram, ainda, que todos os recursos estão ao alcance dos pais: a luz, materi- al de higiene, fraldas e lençóis limpos, seios fartos e braços aconchegantes (Não é assim também conosco? Quando nos angustiamos diante das dificuldades achando que Deus está ausente?). Não temos que estar ansiosos – Ele o sabe (Mt 6.25- 34). Sabe o porquê e para que: “Não temais, ó pequenino rebanho; porque o vosso Pai se agradou em dar-vos o Seu Reino” (Lc 12.32). “E quanto a vós outros, até os cabelos todos da cabeça estão contados” (Mt 10.30). “Temos, portanto, sempre bom ânimo… visto que andamos por fé, não por vista” (2Co 5.6,7). Não sejamos bebês! O homem é tendencioso a viver de momentos e não consi- derar o histórico nem o propósito dos acontecimentos. Tem memória curta e esquece de orar como Moisés: “Ensina-nos a contar os nossos dias, para que alcancemos coração sábio” (Sl 57
  • 58. A esperança que temos 90.12). Ao contrário, passa a vida orando para se livrar dos pro- blemas. Esquece que Deus não tem dificuldades com as circuns- tâncias. O Deus que “chama a existência às coisas que não existem” (Rm 4.17) pode transformar tudo. Quando Ele quis, abriu o mar e a terra (Ex 14.21-22; Nm 16.31-33), fez o sol parar (Js 10.12,13) e até voltar (Is 38.8). O problema de Deus não está com as situ- ações, mas com o nosso coração empedernido: transformar um coração de pedra em coração de carne. O homem é o único ser que ousa desafiar a Deus, não se submetendo a Ele. Vejamos o exemplo de Israel no deserto: Todos os prodí- gios e sinais maravilhosos eram esquecidos ao surgir uma nova dificuldade. Não conseguiam entender o que Deus lhes explica: “Recordar-te-ás de todo o caminho, pelo qual o Senhor teu Deus te guiou no deserto estes quarenta anos, para te humilhar, para te provar, para saber o que estava no teu coração, se guar- darias ou não os seus mandamentos. Ele te humilhou, e te dei- xou ter fome, e te sustentou com o maná que tu não conhecestes, nem teus pais o conheceram, para te dar a entender que não só de pão viverá o homem, mas de tudo o que procede da boca do Senhor, disso viverá o homem. Nunca envelheceu a tua veste sobre ti, nem se inchou o teu pé nestes quarenta anos. Sabe, pois, no teu coração que, como o homem disciplina a seu filho, assim te disciplina o Senhor teu Deus… para te humilhar, e para te pro- var, e afinal te fazer bem (Dt 8.2-5, 16). Deus tinha um propósito 58
  • 59. Olhando com esperança pela lente de Deus definido e queria o bem do povo. Um bem permanente: “Eu é que sei que pensamentos tenho a vosso respeito, diz o Senhor; pensamentos de paz e não de mal, para vos dar o fim que desejais” (Jr 29.11). O povo, no entanto, só queria o seu próprio e imediato bem estar. Esta mesma dificuldade de crer e agir em Deus, a des- peito das circunstâncias (uma espécie de síndrome de imobi- lidade por incredulidade) acometeu os discípulos após a mor- te de Jesus. Não conseguiram lançar suas esperanças para além da cruz, mesmo tendo a promessa do Senhor de que Ele res- suscitaria (Lc 18.31-33; 24.7). Detiveram-se na morte, não ousando crer no sepulcro vazio, mesmo quando ouviram que o Senhor havia ressuscitado (ver os discípulos de Emaús, Tomé e os outros – Lc 24.9-11, 21-25, 36-41; Jo 20.24-25). Além de imediatista, o homem é inclinado à auto-sufi- ciência. Quando um dia Pedro “arrotava” fidelidade ao Se- nhor, este lhe disse: “Simão, Simão, eis que Satanás vos recla- mou (todos) para vos peneirar (todos) como trigo. Eu, porém, roguei por ti, para que tua fé não desfaleça…” (Lc 22.31-32). Satanás reclamou todos, mas Jesus intercedeu por Pedro, o mais ousado em falar da sua própria firmeza. Este, justamen- te, cairia se o Senhor Jesus não intercedesse por ele. No caso de Pedro, o Senhor lhe explicou a causa do seu livramento. Mas, quantos de nós, sem se dar conta, 59
  • 60. A esperança que temos têm sido livres pela intercessão d’Aquele que “vive para interceder por nós?” (Rm 8.34; Hb 7.25). Como somos in- sensatos quando nos queixamos! Como afrontamos o amor, a sabedoria e a soberania de Deus quando reclamamos! Como somos contradizentes quando afirmamos que somos cooperadores de Deus e depois murmuramos! Quem, alguma vez, ouviu Jesus murmurar? Ele era o Filho Amado em quem o Pai tinha todo o seu prazer! A alegria do Pai pode, agora, ser multiplicada em muitos filhos amados (Rm 8.28-29)! Aleluia! “Sede, pois, imitadores de Deus, como filhos amados… como também Cristo…” (Ef 5.1,2). A esperança é como o alongar da fé. Ter esperança é estender a fé para adiante. Se a “fé é a certeza das coisas que não se vêem e a convicção das coisas que se esperam”, a esperança é a firme e inabalável determinação de seguir em fé. A decisão de continuar crendo e esperando, mesmo quando os nossos sentidos atestam a nulidade dos nossos esforços. É esperar (confiar nas promessas) mesmo contra a esperança (possibilidades humanas). Assim fez Abraão, o pai da fé: “O qual, em Esperança, creu contra a esperan- ça…” (Rm 4.17-21), 2 ou: “Abraão contra toda esperança, em esperança, creu” 3. 2 Edição Revista e Corrigida Imprensa Bíblica Brasileira. 3 Texto bíblico citado do Novo Testamento, Nova Versão Internacional, NVI, © 1993. 60
  • 61. Olhando com esperança pela lente de Deus Possamos imitar aqueles que “…morreram na fé, sem ter obtido as promessas, vendo-as, porém, de longe, e sau- dando-as, e confessando que eram estrangeiros e peregrinos na terra. Mas agora aspiram a uma pátria superior, isto é, celestial. por isso Deus não se envergonha deles, de ser cha- mado o seu Deus; porquanto lhes preparou uma cidade” (Hb 11.13-16; Fp 3.20; Jo 15.18, 19; 17.14-18). Quando Paulo foi preso em Jerusalém (At 21.17-40), já era um ancião. Certamente tinha mais de 60 anos, contudo, a expectativa de aposentadoria do velho apóstolo era enfrentar “… cadeias e tribulações” (At 20.23). Tendo levado uma vida de lutas e perseguições, já chegando ao final da existência terrena podia dizer “… em nada considero a vida preciosa para mim mesmo…” (At 20.24). O que poderia levar um ho- mem a ter tal desapego pelo mundo e por sua própria vida? Não seria a inabalável convicção de que, assim como o seu Senhor, ele também não era deste mundo? (Jo 17.16). Há na igreja alguns, cujos pés ainda estão enraizados na terra e cujos olhos ainda brilham para os prazeres fúteis e a glória vã deste mundo, sobre os quais Satanás pergunta, com sarcasmo, ao Senhor: — Tu és o Deus destes? É tão triste olhar nos olhos de tantos filhos de Deus e não ver a nostalgia dos céus! 61
  • 62. A esperança que temos Mas há outros “… que, perseverando em fazer o bem, procuram glória, honra e incorruptibilidade” (Rm 2.7), “… aspirando por ser revestidos da habitação celestial” (2Co 5.2), sobre os quais Deus dá testemunho a Satanás: — Eu sou o Deus destes! Um destes foi Moisés, que mesmo contra a ira do rei, “per- maneceu firme como quem vê Aquele que é invisível” (Hb 11.27). Deste modo, pôde ser “fiel em toda a casa de Deus” (Hb 3.2). Mas não é só de homens famosos como Moisés que Deus dá testemunho. Identifiquemo-nos com os milhares de fiéis e santos que morreram na obscuridade (Ap 6.9-11), mas dos quais Jesus pode dizer: “…Minha testemunha, meu fiel…”, como fez com um tal de Antipas (Ap 2.13). Para a história, um tal Antipas, mas para Jesus e por toda a eternidade, “minha teste- munha, meu fiel”. Pensemos por um pouco na situação de João Batista. Imagino que, quando a sua cabeça circulou pelo salão real onde Herodes dava sua festa profana, os convivas devem ter pensado: “Pobre coitado! Mas, também, quem mandou desa- fiar o rei?” Depois devem ter continuado sua festa detestável. O maior homem nascido de mulher, aquele que veio “preparar o caminho do Senhor”, morto como um criminoso, decapitado, em um cárcere imundo, por um carrasco qual- quer, como mais um desgraçado qualquer. Executado para 62
  • 63. Olhando com esperança pela lente de Deus atender as extravagâncias dos que pensam que governam. Quanta surpresa haverá no dia do juízo! Como será diferente no dia em que o Rei Jesus voltar e se dirigir a João dizendo: “Venha, bendito de meu Pai…”. Onde estará e como ficará Herodes e sua corte nesta hora? A lente de Deus enxerga além do tempo e do espaço – salta para eternidade. Deus não ignora nem despreza a nossa temporalidade (Os 11.3-4), mas é em uma perspectiva de eter- nidade que Ele nos vê. Jesus tinha saudade desta existência onde não existe o tempo (Jo 17.22-24). Paulo também, a ponto de considerar que era “… incomparavelmente melhor partir…” (Fp 1.23; 3.20-21). Quem não enxerga a eternidade não consegue ver como Deus. Não entende a ação de Deus. Não consegue amar a sa- bedoria de Deus e resiste à Sua ação: sofre as dores do mundo sem provar as grandezas dos céus (1Co 15.19). Se uma eternidade com Cristo nos espera então tudo é suportável. Pode-se sofrer tudo e perder tudo, neste mundo de aparências tão passageiras (1Pe 1.23-25; 1Jo 2.17). Mas este estilo de vida é para aqueles cujos olhos estão nos céus. Lá, onde está o seu tesouro (Lc 12.34). São estes os que resplandecem como luzeiros no mun- do (Fp 2.15) e dos quais o mundo não é digno! (Hb 11.38). 63
  • 64. A esperança que temos São estes, os santos que o mundo odeia (Jo 15.18,19) e que são amados pelo Pai! (Jo 14.21-23). São estes os piedosos que o mundo persegue (2Tm 3.12) e que Deus distingue para Si! (Sl 4.3). Que diferença estes fazem no mundo! São sal e luz! (Mt 5.13-16). Que diferença farão estes na eternidade! Serão a esposa do Cordeiro! (Ap 21.9). Aleluia! E sobre a Sua noiva, disse Jesus: “Aquilo que o Pai me deu é maior do que tudo…” (Jo 10.29). “Portanto, se fostes ressuscitados juntamente com Cristo, buscai as coisas lá do alto, onde Cristo vive, assentado à direita de Deus. Pensai nas coisas lá do alto, não nas que são aqui da terra; porque morrestes, e a vossa vida está oculta juntamente com Cristo, em Deus. Quan- do Cristo, que é a nossa vida, se manifestar, en- tão vós também sereis manifestados com Ele, em glória!” (Cl 3.1-4). 64
  • 65. 5 Invadindo o desespero Fala-se, no mundo, que “a esperança é a última que morre”. Na verdade, as Escrituras dizem que a esperança não morre, ao contrário, permanece: “Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor…” (1Co 13.13). Deus insiste em falar de esperança em Sua Palavra com o propósito de nos encher desta disposição interior: esperar sempre, confiar sempre, mesmo quando ladeado pela morte. “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque Tu estás comigo…” (Sl 23.4). Era esta a confiança do salmista. Foi esta a confiança do Senhor Jesus, considerando que esse é um salmo profético, juntamente com o Salmo 22 e 24, refe- rindo-se ao sofrimento, morte, ressurreição e exaltação do Senhor. Jó podia dizer: “Ainda que Ele me mate, n’Ele espera- rei…” (Jó 13.15 1). 1 Edição Revista e Corrigida – Imprensa Bíblica Brasileira. 65
  • 66. A esperança que temos Hoje, nestes tempos de desespero, é preciso lembrar do Deus da esperança. Foi isto que fez Jeremias, o profeta das lágrimas, nos dias terríveis da destruição de Jerusalém pelos babilônicos: “Quero trazer à memória o que me pode dar esperan- ça… a minha porção é o Senhor, diz a minha alma; portanto esperarei n’Ele” (Lm 3.18-24). Literalmente, esta palavra sig- nifica: “Farei voltar ao coração O que me pode dar esperança…” (Lm 3.21) Naquele tempo, os judeus estavam completamente hu- milhados. Nabucodonosor, rei de Babilônia, invadira Jerusa- lém e levara cativo o rei Zedequias, (o ungido de Deus e sím- bolo da glória do povo), todos os seus filhos (que depois fo- ram mortos), além dos sábios da corte e dos sacerdotes. O templo sagrado que guardava a arca da aliança (símbolo da presença e glória de Deus) foi saqueado e queimado junta- mente com toda a cidade. Os objetos sagrados foram profa- nados e levados para Babilônia. Com os muros derribados, a cidade estava completamente desamparada. A fome e sede des- truíam a população. (Lm 1.8-12). Tal era o horror da fome, que as mulheres comiam os próprios filhos (Lm 2.20). No meio daquele inferno Jeremias decidiu fazer “voltar ao coração Aquele que lhe podia dar esperança”. Ter espe- rança não é uma atitude passiva e conformista. Ao contrário, é um exercício de vontade. É decidir continuar crendo. Esco- 66
  • 67. Invadindo o desespero lher não se encolher, não se amargurar. É preferir evitar a queixa. O desespero, a queixa, o lamento é para “…aqueles que não têm esperança” (1Ts 4.13). Aquele, porém, que crer que “…Deus não nos destinou para a ira, mas para alcançar a sal- vação mediante o nosso Senhor Jesus Cristo, que morreu por nós para que, quer durmamos quer vigiemos, vivamos em união com Ele” (1Ts 5.9,10), este sabe transformar cada situ- ação de dor e sofrimento em “sacrifício de louvor” (Hb 13.5), porque já tomou “como capacete, a esperança da salvação” (1Ts 5.8). Ter esperança, portanto, é trazer ao coração, o Deus Eterno. Deste modo, “alegrai-vos na esperança…” (Rm 12.12). Ter esperança é ter a disposição que havia em Sadraque, Mesaque e Abede-Nego: “Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, Ele nos livrará da fornalha de fogo ardente, e das tuas mãos, ó rei. Se não, fica sabendo, ó rei, que não servi- remos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste” (Dn 3.16-18), ou seja, morreremos. Sabiam e con- fiavam que Deus poderia livrá-los, mas não exigiam e nem condicionavam sua fidelidade a isso. Como isto é diferente da atitude reivindicadora e arrogante de tantos “cristãos” dos dias atuais! 67
  • 68. A esperança que temos Que bendita esperança enche o coração dos legítimos filhos de Deus: Sem pavor de sofrer – “… ao contrário, alegrai-vos na medida em que sois co-participantes dos sofrimentos de Cris- to, para que também na revelação de Sua Glória vos alegreis, exultando” (1Pe 4.13). Sem pavor de morrer – “...para que, por Sua morte, des- truísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e livrasse a todos que pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida” (Hb 2.14,15). Em outras palavras: “Porque nenhum de nós vive para si mesmo, nem morre para si. Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Rm 14.7,8). Que contraste com o mundo! Que diferença em relação aos filhos da desobediência! Como é diferente “o caminho do justo” do caminho dos que andam “segundo o curso deste mundo”! Pedro diz que devemos estar “... sempre preparados para responder a todo aquele que nos pedir razão da esperança que há em nós” (1Pe 3.15). Esta esperança é notória e visível. Tão saliente que des- perta o questionamento dos incrédulos que não têm esperan- ça (Ef 2.12). É cidade sobre o monte, candeia no velador, luzeiro resplandecente, sal da terra e luz do mundo. Ela con- 68
  • 69. Invadindo o desespero trasta com o desespero do mundo, destaca-se e incomoda como um jorro de luz no interior de uma caverna. A esperança que temos profetiza ao mundo em silêncio: a) Na alegria e ações de graças, diante das situações adversas do presente (Rm 5.1-5; 15.4, 13; Fp 1.29; Tg 1.2-3); b) Na expectativa de uma vida perfeita e irrepreensível a ser alcançada em Cristo, ainda aqui neste mundo (Ef 4.11-13; Fp 3.12-14; Cl 1.27-28); c) E, sobretudo, na confiança de uma eternidade por vir (Rm 8.18-25; Fp 3.20-21; 1Pe 1.3-9; 1Jo 3.2). Esta esperança na eternidade, contudo, deve ser, não apenas no sentido de se desejar os céus, mas também de pre- tender que os reinos deste mundo se tornem do Senhor Deus e do Seu Cristo (Ap 11.15-18). Este é o esforço de Deus! Devemos anelar a eternidade, não no sentido de esque- cer o mundo enquanto acariciamos a esperança dos céus, mas de levar ao mundo esta esperança (Jr 20.9; Mt 9.35-38; Jo 4.31-34). Que a esperança que temos na eternidade nos faça ser tomados de um senso de destino. O mesmo que tomava completamente o coração do apóstolo Paulo: estabelecer o reino de Deus e glorificar seu nome em todas as circunstân- cias da vida (At 20.22-24; Fp 1.20,21). 69
  • 70. A esperança que temos Esta é a comissão de cada discípulo (1Pe 2.9-10). Esta é a vocação da Igreja (Mt 28.28-20; At 1.8). Nesta perspectiva, a ignorância em que vive o mundo, a sua infelicidade, sua de- sesperança e condenação, tem que ferir a nossa felicidade (Mc 3.5; At 17.16-17; 26.17-18) e nos impulsionar a alcançá-lo, ainda que o preço seja a nossa própria vida (At 21.13). Quando o jovem John Paton decidiu ir, com sua es- posa e filho, às Novas Hébridas (ilhas do Pacífico) evangelizar os antropófagos, um irmão muito estimado exclamou: “Entre os canibais! Serás devorado por eles!” A isto Paton respondeu: “Tu, irmão, és muito mais velho que eu; breve serás sepultado e comido por vermes. Declaro-te que, se eu conseguir viver e morrer servindo ao Senhor Jesus e honrando o seu nome, não me importarei de ser comido por vermes ou antropófagos; no grande dia da res- surreição o meu corpo se levantará tão belo quanto o teu, na semelhança do Redentor ressuscitado”2. “Se Jesus Cristo é Deus e morreu por mim, nenhum sacrifício é grande demais que eu não possa fazer por Ele” (Charles Stud). Oh! Como ser feliz, se por Ele não puder sofrer? Como desejar um dia vê-lo, se por Ele não quiser morrer? 2 Citação tirada do Livro Heróis da Fé 70
  • 71. Invadindo o desespero Nem todos provaremos a glória do martírio, mas todos devemos cobiçá-la! Ninguém, que um dia tenha contemplado o Cordeiro que foi morto, consegue viver sem desejar dar sua vida por Ele. Os apóstolos se regozijaram quando foram açoitados e sofreram afrontas pelo nome de Jesus (At 5.40,41). Paulo se alegrava porque tinha a oportunidade de preencher, em sua própria carne, com seu próprio sofrimento, o que res- tava das aflições de Cristo em favor da igreja, que é o cor- po de Cristo (Cl 1.24). Nesta disposição, estava pronto mesmo a morrer (At 21.13). Que amor incompreensível e tão desconhecido da igreja atual! Este amor é próprio daqueles que, um dia, enxergaram seus próprios pecados e, da amargura de sua condenação, con- templaram o “Cordeiro como havia sido morto”, providenci- ando-lhes “tão grande salvação”. Todo o que se aproxima o suficiente para ouvir o coração “d’Aquele que nem mesmo ao Seu próprio Filho poupou, antes, por todos nós o entregou…” (Rm 8.32), con- siderará um crime terrível, qualquer reserva na dedicação e serviço a Ele. O Deus que permite, e às vezes, exige o sacrifício de seus filhos em função do Seu (nosso) grande propósito, sacrificou-Se 71
  • 72. A esperança que temos primeiro a Si mesmo em Cristo Jesus. “… A saber, que Deus estava em Cristo, reconciliando consigo o mundo, não imputan- do aos homens as suas transgressões…” (2Co 5.19). Este amor do Pai nos constrange. Torna-se obrigatório que nos entreguemos a Ele sem reservas para que se quebre o cetro de Satanás e os homens cativos sejam trazidos para “… liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.21), “para o reino do Filho do Seu amor” (Cl 1.13). Lemos em Ap 11.15 que: “Os reinos desde mundo se tornaram do Senhor Deus e do seu Cristo”. Ora, se estes rei- nos “se tornaram” é porque não eram do Senhor, ao contrá- rio, estavam sob o domínio daquele a quem Jesus chamou de “príncipe deste mundo” (Jo 12.31). Mas como o diabo veio a tornar-se o “príncipe deste mundo”? No princípio, quando foi criado, ele era - o “querubim da guarda, ungido”, “sinete da perfeição” (Ez 28.12-14), “es- trela da manhã, filho da alva” (Is 14.12). Deus lhe havia con- ferido grande beleza, sabedoria e autoridade nos céus. Era um ser glorioso. Todos os anjos lhe prestavam reverência. Era o primeiro dos anjos. Tão grande era sua glória e seu poder, que ele imaginou igualar-se ao seu criador. Quando, porém, se rebelou contra o Todo-poderoso, foi banido dos céus e lançado nos abismos de trevas (Is 14.9-15; Ez 28.12- 19; 2Pe 2.4). Embora conservando seu poder e inteligência 72
  • 73. Invadindo o desespero (2Co 4.4; 11.3,14-15; Jd 8-9) perdeu sua glória e o ambiente onde desenvolvia a sua autoridade. Tornou-se um ser toma- do de inveja e ódio, impotente diante da situação em que o Senhor o colocara. Quando Deus criou Adão, conferiu-lhe autoridade e governo sobre toda a terra (Gn 1.26). Adão seria o primogênito de Deus. O primeiro de todos os filhos de Deus. O governante do universo com o seu Deus e Pai. O Éden era só o laborató- rio para treiná-lo na administração e governo do mundo. Neste tempo, Satanás era apenas o “príncipe das trevas”, insignificante e desprezado. Não havia ambiente onde desen- volver seu grande poder e inteligência. A terra, tão bela, era domínio de Adão. Sua autoridade no “reino das trevas” se li- mitava, provavelmente, em manifestações de ódio e amargu- ra contra seus anjos caídos e rebeldes. E, como Deus não lhe conferira capacidade criadora, ele não podia criar seu próprio reino. Em Adão, o querubim caído viu a chance de governar, exercer autoridade, domínio e poder. Só teria que vencê-lo (2Pe 2.19). Mas, como vencer o homem a quem Deus incum- biu de guardar o jardim, capacitando-o para isso ao delegar- lhe autoridade sobre toda a terra? (Gn 1.26-31). Satã sabia que não poderia medir forças com Adão. Só poderia vencê-lo pela persuasão. Agredir Adão seria desafiar e ferir a autori- 73
  • 74. A esperança que temos dade de Deus (Tg 4.7; 1Co 11.3, 7). Para obter a sujeição do homem com todo o seu domínio, Satanás precisaria induzir Adão a, voluntariamente, rejeitar a Deus. O Senhor Deus não poderia interferir neste confronto: seria a escolha do homem. Nós conhecemos a triste história. Incitado por Satanás, o homem rebela-se contra Deus. Ao buscar o conhecimento que lhe possibilitaria auto governar-se, Adão rejeita a autoridade de Deus negando-lhe o direito de governá-lo. Adão queria dirigir a própria vida e não depender de Deus. Tomar as próprias deci- sões sem ter que consultar a Deus. Mas, isto só seria possível com o conhecimento do bem e do mal. O seu ato de desobediên- cia, então, foi fruto de sua intenção, vontade e decisão de ser independente de Deus. Comer do fruto proibido foi a busca cons- ciente do único meio de libertar-se da tutela de Deus: conheci- mento do bem e do mal. Foi a consumação do seu desejo. “O pecado foi consumado pela desobediência, mas foi gerado por uma atitude interior de rebelião.” 3. O homem não se tornou rebelde porque comeu do fruto proibido, ao contrário, comeu do fruto porque se tornara rebelde. Adão, fazendo uso do seu livre-arbítrio, rebelou-se con- tra Deus. Em conseqüência, mesmo contra a sua vontade, tor- nou-se escravo do pecado e de Satanás, porque “… aquele que é vencido fica escravo do que é vencedor” (2Pe 2.19). E, “todo 3 Princípios Elementares – Parte 3, Lição 11, página 48, Salvador, 2004. 74
  • 75. Invadindo o desespero o que comete pecado é escravo do pecado” (Jo 8.34). Agora, Satã até se permitiu o luxo de oferecer a Jesus – o criador do universo – a glória e autoridade dos reinos deste mundo, a fim de conseguir a sua submissão (Lc 4.5-7). Ele não estava blefando ou mentindo. Não era um “faz-de-conta”: o reino deste mundo, de fato, é seu. O reino (governo, autoridade, domínio) do mundo ha- via sido confiado a Adão por Deus. Mas Adão foi vencido e com ele toda a raça humana. Ele fez-se escravo, e com ele, todos os que sua carne e vontade geraram: toda a sua descen- dência, toda a humanidade. Adão, que seria o cabeça de uma raça santa e perfeita terminou sendo o primeiro de uma raça decaída, degenerada e escravizada. Aquele a quem foi dado dominar estava, agora, dominado: “Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens por- que todos pecaram… Entretanto reinou a morte desde Adão até Moisés, mesmo sobre aqueles que não pecaram à semelhança de Adão… por que… pela ofensa de um só morreram muitos… porque o julgamento derivou de uma só ofensa, para con- denação… Pela ofensa de um, e por meio de um só, reinou a morte… Pois… por uma só ofensa veio 75
  • 76. A esperança que temos juízo sobre todos os homens para condenação… Por que… pela desobediência de um só homem muitos se tornaram pecadores…” (Rm 5.12-19). “Pois todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus” (Rm 3.23). “Todos se extraviaram, a uma se fizeram inúteis” (Rm 3.12). Hoje, “sabemos que… o mundo inteiro jaz no maligno” (1Jo 5.19). O mundo está inerte, passivo e à disposição do maligno que o conduz para onde quer. Do mesmo modo também, “sabemos que somos de Deus” (1Jo 5.19). No meio desta raça de mortos espirituais, caminha uma raça eleita. Um reino de sacerdotes. Uma nação santa. Um povo de propriedade exclusiva de Deus, cujo pro- pósito é anunciar as virtudes d’Aquele que o tirou das trevas e o trouxe para uma luz maravilhosa. D’Aquele que o com- prou com o seu próprio sangue, livrando-o de toda iniqüida- de, e purificando-o para Si mesmo (1Pe 2.9; Tt 2.13-14). Este povo especial é a geração de Jesus. É a Sua posteri- dade, o fruto do penoso trabalho de Sua alma. É a nova cria- ção de Deus. São os filhos que pela morte do Seu Unigênito o Pai multiplicou para Si mesmo. Aquele, de cuja linhagem nin- guém cogitou, conseguiu, na sua morte, posteridade para Seu Deus e Pai: uma multidão inumerável de filhos santos e per- 76
  • 77. Invadindo o desespero feitos, assim como Ele (Is 53.8, 10, 11; Hb 2.10-13; Ap 5.7-10; 7.9-10; 21.3-7). Hoje, Ele é o primogênito de uma nova raça, o primeiro dos filhos de Deus (Rm 8:28-29). Por isso Ele é exaltado e adorado nos céus e na terra. Ele é digno. O único digno. Jesus é o único homem que não se pros- tra diante de Deus. O único ser nos céus, na terra e debaixo da terra que não precisa curvar-se diante do trono do Eterno. Em Jesus, Deus encontrou um homem igual a Ele: perfeito. Fico imaginando o Pai acompanhando Seus passos, se- guindo Seus olhos, pronunciando, com Ele, cada palavra e escutando tudo que Ele julgasse próprio ouvir. Perscrutando Seus pensamentos, sondando Seu coração, pesando na balan- ça da própria santidade e justiça divinas cada uma de Suas motivações e, dizendo consigo mesmo: Eu faria exatamente assim! Ele é como também Eu Sou! Não foi, portanto, a bondade ou a misericórdia, mas a justiça do Pai, que exaltou a Jesus. Se o Pai não O exaltasse, estaria sendo injusto. Como o Pai admira Seu Filho! Por tudo isso “De quan- to mais severo castigo, julgais vós, será digno aquele que cal- cou aos pés o Filho de Deus, e profanou o sangue da aliança com o qual foi santificado…” Hb 10.29. Oh! Que grande segurança nos proporciona a imutabilidade de nosso Deus! (2Sm 22.24-27; 2Tm 2.13). Do 77
  • 78. A esperança que temos modo pelo qual Ele expulsou e condenou o primeiro homem, por causa da sua rebelião, agora exalta o segundo homem, por causa da sua retidão e justiça. Mas não é só isso. Agora, esta justiça foi imputada a nós que éramos “geração perversa e deformada” (Rm 4.4, 5; Dt 32.5). A condenação e morte que vieram por Adão passa- ram a todos os homens. Toda a raça foi ferida e escravizada com seu cabeça. Agora, porém, a justiça perfeita de Jesus, o Deus tornado homem, é atribuída a todos os que nEle crêem e obedecem: “Se, pela ofensa de um e por meio de um só, reinou a morte, muito mais os que recebem a abundância da graça e o dom da justiça reina- rão em vida por meio de um só, a saber, Jesus Cristo. Pois assim como, por uma só ofensa, veio o juízo sobre todos os homens para condena- ção, assim também, por um só ato de justiça, veio a graça sobre todos os homens para a jus- tificação que dá vida. Porque, como, pela deso- bediência de um só homem, muitos se torna- ram pecadores, assim também, por meio da obe- diência de um só, muitos se tornarão justos” (Rm 5:17-19). 78