NEGÓCIOS
E-commerce
42 AméricaEconomia Abril, 2014
Com três anos de mercado, 50 milhões de visitas mensais e 1.500 funcionários só no
Brasil, site brasileiro se torna a maior operação de e-commerce da América Latina
Rafael Américo, de São Paulo
A Dafiti está na moda
E
m 2009, a categoria de moda e
acessórios aparecia na 26ª posi-
çãoentreositensmaisvendidos
via web no Brasil. No primei-
ro semestre do ano passado, pela primei-
ra vez, alcançou a liderança absoluta em
vendas online no país, superando as de
eletrodomésticos.Portrásdesseresultado
estãovultosasoperaçõesdeempresasco-
mo a Dafiti, considerada hoje o maior e-
-commerce de moda da América Latina.
Quando a companhia foi criada, em
2011, o setor ainda engatinhava na web.
“Haviapoucasempresasdemodaonline
easqueoperavamtinhampequenaesca-
la”,lembraobrasileiroPhilippPovel,só-
ciodosalemãesMalteHuffmanneMalte
HoreyseckedofrancêsThibaudLecuyer
na empresa. “Disseram que a moda não
dariacertonainternet,mas,logoqueco-
meçamos, foi um sucesso total”, diz.
Hoje, a Dafiti é uma potência: tem
1.500 funcionários só no Brasil, regis-
tra50milhõesdevisitasmensais,25mi-
lhõesdevisitantesúnicoseestápresente
naArgentina,noChile,naColômbiaeno
México. Embora não divulgue seu fatu-
ramento,calcula-sequeaempresaesteja
se aproximando de seu primeiro bilhão
por ano. Para dar conta do volume de
vendas, a marca inaugurou no ano pas-
sado um centro de distribuição em Jun-
diaí,nointeriordeSãoPaulo,com38mil
metrosquadradosecapacidadedearma-
zenamentopara10milhõesdepeças.Fi-
cou conhecido como o “maior guarda-
-roupa do Brasil”.
Seu segredo? A especialista em mar­
keting de moda e comportamento do
consumidor Cristina Marinho, da M.
Marinho, dá uma explicação: a empresa
soube acompanhar a disposição do con-
sumidor em comprar roupas, calçados
e acessórios na web, canal que benefi-
cia principalmente o público do interior:
“Com a compra via web, é possível re-
ceber em casa um produto de marca que
muitas vezes nunca chegaria a cidades
pequenaspormeiodeumalojafísica”.O
especialista e consultor em e-commerce
Thiago Sarraf, da Dr. E-commerce des-
taca outro aspecto: “A Dafiti potenciali-
zou a categoria, com investimento em
mídia tradicional e na própria internet”.
De acordo com a ComScore, a Dafiti
foi o principal anunciante online no Bra-
sil em 2012, com 2,3 bilhões de impres-
sões visualizadas. A empresa teve 1,8%
departicipaçãonototaldeimpressõesdo
ano. Contribuiu ainda para o sucesso do
negócio, na opinião do consultor, o ama-
durecimento do consumidor. “A moda
Philipp Povel, sócio-
fundador da Dafiti: o
segredo é a fidelização
do consumidor
Abril, 2014 AméricaEconomia 43
Ciclo virtuoso
De acordo com o e-bit, o e-commerce brasileiro avançou 24% no primeiro semestre
de 2013 sobre o mesmo período de 2012, movimentando R$ 12,74 bilhões. Desse
total, 13,7% vieram de vendas virtuais de moda e acessórios. Ao longo do ano, o setor
faturouR$ 28,8 bilhões,oquecorrespondeaumcrescimentode28%nacomparação
com 2012. O resultado superou as expectativas iniciais, de 25%. Desse total, 19%
foram vendas virtuais de moda e acessórios. Além da Dafiti, atuam no segmento
empresasdeporte,comoaNetshoes,especializadaemcalçadoseartigosesportivos,
cujo faturamento em 2012 foi de R$ 1,15 bilhão, 67% mais do que em 2011.
São taxas assim expressivas que sustentam as perspectivas de ascensão do
comércio eletrônico brasileiro. Espera-se que o setor cresça 20% em relação a 2013,
faturando R$ 34,6 bilhões. Segundo Cristina Marinho, especialista em marketing de
moda, esses bons resultados são reflexo do atendimento do e-commerce brasileiro
de maneira geral, que aprendeu a tratar o consumidor, enviando, por exemplo, e-mails
de detalhamento de transações e sugestões de compras com base em pedidos
anteriores.“Éestranho,masoatendimentopós-compranainternetpareceestarmais
humano do que o atendimento da loja física”, afirma. Mas sempre é possível melhorar.
Na avaliação de outros especialistas, falta uma tabela de medidas acertada para
diminuir o número de compras equivocadas em relação a tamanho. Uma atenção
detalhada às imagens dos itens também é de extrema importância, já que, além
do texto, as fotos devem passar informações claras sobre tecido, brilho e cor, por
exemplo. Os especialistas recomendam ainda cuidado com a escolha e a formação
de um time afinado, foco na qualidade dos produtos e nos detalhes (da embalagem
ao respeito à data de entrega).
ganhouforçapelaquebradeparadigmas:
háalgumtempooe-consumidoreramui-
to mais receoso”, afirma Sarraf. Outra
decisãoacertadadamarcaéomixofere-
cido: há no site 100 mil produtos de mais
de 900 marcas importadas e nacionais.
São calçados, acessórios, moda femini-
na, masculina, infantil e até perfumes.
Para Povel, no entanto, a principal ra-
zão do sucesso do site é a fidelização do
cliente. Segundo o executivo, a empre-
sa conseguiu conquistar a confiança do
consumidor, apesar de não ter o apoio
de lojas físicas. De acordo com especia-
listas em e-commerce, consumir moda
sempre foi uma experiência física e até
pouco tempo atrás era impossível pen-
sar em adquirir uma roupa sem experi-
mentá-la. A ausência de padronização
de números e tamanhos no Brasil é ou-
tro ponto que conta negativamente para
a expansão da moda na web.
Pelos dados da consultoria e-bit, a
Dafiti vem lidando bem com essas difi-
culdades: o grau de satisfação dos con-
sumidores da marca é de 84% – o índi-
ce médio do mercado de e-commerce é
74%. “Nosso negócio só funciona se os
clientesvoltaremacomprarconosco.Es-
tabelecemo-nos como um site que sabe
atenderocliente.Odesejodelerefletetu-
dooquefazemos”,dizosócio.Omodelo
de negócios não atraiu apenas consumi-
dores.Nosúltimosanos,aDafitirecebeu
R$ 660 milhões em financiamentos de
fundos como Investment AB Kinnevik,
JPMorganeQuadrantCapitalAdvisors.
O maior aporte veio no ano passado do
canadense Ontario Teachers’ Pension
Plan(OTPP).ForamR$160milhões.Eo
mais recente chegou em janeiro, de € 15
milhões, da International Finance Cor-
poration (IFC), maior instituição de de-
senvolvimentoglobalemembrodoGru-
po Banco Mundial.
Apesar do caixa reforçado, a Dafiti
pretende primeiro aumentar a presen-
ça nos mercados em que atua para de-
pois investir em outros países. O Brasil
é responsável pela maior fatia de fatu-
ramento do site, mas Argentina, Chile,
Colômbia e México vêm apresentan-
do maior porcentagem de crescimento,
informa Povel. Segundo ele, há dife-
renças importantes entre os mercados
onde a empresa atua. “No Brasil e no
Chile utiliza-se muito a opção de par-
celamento de crédito, já que são países
com penetração alta de cartão de cré-
dito. No México, a grande maioria das
pessoas escolhe o débito como forma
de pagamento”, diz. Preferência por ti-
po de produto e marca são também di-
ferentes em cada país, afirma.
Fotos:Divulgação
CD para 10 milhões de peças: o maior guarda-roupa do Brasil

A Dafiti está na moda - Revista AméricaEconomia - Thiago Sarraf

  • 1.
    NEGÓCIOS E-commerce 42 AméricaEconomia Abril,2014 Com três anos de mercado, 50 milhões de visitas mensais e 1.500 funcionários só no Brasil, site brasileiro se torna a maior operação de e-commerce da América Latina Rafael Américo, de São Paulo A Dafiti está na moda E m 2009, a categoria de moda e acessórios aparecia na 26ª posi- çãoentreositensmaisvendidos via web no Brasil. No primei- ro semestre do ano passado, pela primei- ra vez, alcançou a liderança absoluta em vendas online no país, superando as de eletrodomésticos.Portrásdesseresultado estãovultosasoperaçõesdeempresasco- mo a Dafiti, considerada hoje o maior e- -commerce de moda da América Latina. Quando a companhia foi criada, em 2011, o setor ainda engatinhava na web. “Haviapoucasempresasdemodaonline easqueoperavamtinhampequenaesca- la”,lembraobrasileiroPhilippPovel,só- ciodosalemãesMalteHuffmanneMalte HoreyseckedofrancêsThibaudLecuyer na empresa. “Disseram que a moda não dariacertonainternet,mas,logoqueco- meçamos, foi um sucesso total”, diz. Hoje, a Dafiti é uma potência: tem 1.500 funcionários só no Brasil, regis- tra50milhõesdevisitasmensais,25mi- lhõesdevisitantesúnicoseestápresente naArgentina,noChile,naColômbiaeno México. Embora não divulgue seu fatu- ramento,calcula-sequeaempresaesteja se aproximando de seu primeiro bilhão por ano. Para dar conta do volume de vendas, a marca inaugurou no ano pas- sado um centro de distribuição em Jun- diaí,nointeriordeSãoPaulo,com38mil metrosquadradosecapacidadedearma- zenamentopara10milhõesdepeças.Fi- cou conhecido como o “maior guarda- -roupa do Brasil”. Seu segredo? A especialista em mar­ keting de moda e comportamento do consumidor Cristina Marinho, da M. Marinho, dá uma explicação: a empresa soube acompanhar a disposição do con- sumidor em comprar roupas, calçados e acessórios na web, canal que benefi- cia principalmente o público do interior: “Com a compra via web, é possível re- ceber em casa um produto de marca que muitas vezes nunca chegaria a cidades pequenaspormeiodeumalojafísica”.O especialista e consultor em e-commerce Thiago Sarraf, da Dr. E-commerce des- taca outro aspecto: “A Dafiti potenciali- zou a categoria, com investimento em mídia tradicional e na própria internet”. De acordo com a ComScore, a Dafiti foi o principal anunciante online no Bra- sil em 2012, com 2,3 bilhões de impres- sões visualizadas. A empresa teve 1,8% departicipaçãonototaldeimpressõesdo ano. Contribuiu ainda para o sucesso do negócio, na opinião do consultor, o ama- durecimento do consumidor. “A moda Philipp Povel, sócio- fundador da Dafiti: o segredo é a fidelização do consumidor
  • 2.
    Abril, 2014 AméricaEconomia43 Ciclo virtuoso De acordo com o e-bit, o e-commerce brasileiro avançou 24% no primeiro semestre de 2013 sobre o mesmo período de 2012, movimentando R$ 12,74 bilhões. Desse total, 13,7% vieram de vendas virtuais de moda e acessórios. Ao longo do ano, o setor faturouR$ 28,8 bilhões,oquecorrespondeaumcrescimentode28%nacomparação com 2012. O resultado superou as expectativas iniciais, de 25%. Desse total, 19% foram vendas virtuais de moda e acessórios. Além da Dafiti, atuam no segmento empresasdeporte,comoaNetshoes,especializadaemcalçadoseartigosesportivos, cujo faturamento em 2012 foi de R$ 1,15 bilhão, 67% mais do que em 2011. São taxas assim expressivas que sustentam as perspectivas de ascensão do comércio eletrônico brasileiro. Espera-se que o setor cresça 20% em relação a 2013, faturando R$ 34,6 bilhões. Segundo Cristina Marinho, especialista em marketing de moda, esses bons resultados são reflexo do atendimento do e-commerce brasileiro de maneira geral, que aprendeu a tratar o consumidor, enviando, por exemplo, e-mails de detalhamento de transações e sugestões de compras com base em pedidos anteriores.“Éestranho,masoatendimentopós-compranainternetpareceestarmais humano do que o atendimento da loja física”, afirma. Mas sempre é possível melhorar. Na avaliação de outros especialistas, falta uma tabela de medidas acertada para diminuir o número de compras equivocadas em relação a tamanho. Uma atenção detalhada às imagens dos itens também é de extrema importância, já que, além do texto, as fotos devem passar informações claras sobre tecido, brilho e cor, por exemplo. Os especialistas recomendam ainda cuidado com a escolha e a formação de um time afinado, foco na qualidade dos produtos e nos detalhes (da embalagem ao respeito à data de entrega). ganhouforçapelaquebradeparadigmas: háalgumtempooe-consumidoreramui- to mais receoso”, afirma Sarraf. Outra decisãoacertadadamarcaéomixofere- cido: há no site 100 mil produtos de mais de 900 marcas importadas e nacionais. São calçados, acessórios, moda femini- na, masculina, infantil e até perfumes. Para Povel, no entanto, a principal ra- zão do sucesso do site é a fidelização do cliente. Segundo o executivo, a empre- sa conseguiu conquistar a confiança do consumidor, apesar de não ter o apoio de lojas físicas. De acordo com especia- listas em e-commerce, consumir moda sempre foi uma experiência física e até pouco tempo atrás era impossível pen- sar em adquirir uma roupa sem experi- mentá-la. A ausência de padronização de números e tamanhos no Brasil é ou- tro ponto que conta negativamente para a expansão da moda na web. Pelos dados da consultoria e-bit, a Dafiti vem lidando bem com essas difi- culdades: o grau de satisfação dos con- sumidores da marca é de 84% – o índi- ce médio do mercado de e-commerce é 74%. “Nosso negócio só funciona se os clientesvoltaremacomprarconosco.Es- tabelecemo-nos como um site que sabe atenderocliente.Odesejodelerefletetu- dooquefazemos”,dizosócio.Omodelo de negócios não atraiu apenas consumi- dores.Nosúltimosanos,aDafitirecebeu R$ 660 milhões em financiamentos de fundos como Investment AB Kinnevik, JPMorganeQuadrantCapitalAdvisors. O maior aporte veio no ano passado do canadense Ontario Teachers’ Pension Plan(OTPP).ForamR$160milhões.Eo mais recente chegou em janeiro, de € 15 milhões, da International Finance Cor- poration (IFC), maior instituição de de- senvolvimentoglobalemembrodoGru- po Banco Mundial. Apesar do caixa reforçado, a Dafiti pretende primeiro aumentar a presen- ça nos mercados em que atua para de- pois investir em outros países. O Brasil é responsável pela maior fatia de fatu- ramento do site, mas Argentina, Chile, Colômbia e México vêm apresentan- do maior porcentagem de crescimento, informa Povel. Segundo ele, há dife- renças importantes entre os mercados onde a empresa atua. “No Brasil e no Chile utiliza-se muito a opção de par- celamento de crédito, já que são países com penetração alta de cartão de cré- dito. No México, a grande maioria das pessoas escolhe o débito como forma de pagamento”, diz. Preferência por ti- po de produto e marca são também di- ferentes em cada país, afirma. Fotos:Divulgação CD para 10 milhões de peças: o maior guarda-roupa do Brasil