O CAMINHO DE JESUS E DOS CRISTÃOS 
Pe. José Bortoline – Roteiros Homiléticos Anos A, B, C Festas e Solenidades - Paulos, 2007 
* LIÇÃO DA SÉRIE: LECIONÁRIO DOMINICAL * 
ANO: A – TEMPO LITÚRGICO: 22° DOMINGO TEMPO COMUM – COR: VERDE 
I. INTRODUÇÃO GERAL 
1. "Nós podemos desconfiar de uma Igreja que não co-nhece 
o martírio". Por quê? Porque o caminho dos cristãos 
não é diferente do caminho de Jesus. É feito de incertezas, 
mas também de coragem e esperanças; de lutas, mas tam-bém 
de vitórias; de cruz, mas também de ressurreição e 
vida; de não-conformismo, mas também de compromisso 
com o projeto de Deus. Disso nos falam Jeremias, Jesus e 
Paulo. Pedro, no evangelho de hoje, representa o medo que 
temos das conseqüências do cristianismo que enfrenta as 
forças contrárias à vida; Jeremias é a voz dos que sentem 
fortemente os apelos da Palavra irresistível; Jesus nos mos-tra 
o caminho da vitória; Paulo nos fala do verdadeiro culto 
agradável a Deus. Os textos de hoje, em síntese, nos enco-rajam 
no testemunho cristão, evitando que a mediocridade 
nos conduza a um beco sem saída. 
II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS 
1ª leitura (Jr 20,7-9): A força do profeta 
2. Estes três versículos lidos, pertencem a uma seção 
maior (20,7-18), conhecida como a última (5ª) das confis-sões 
de Jeremias (cf. as demais em 11,18-12,6; 15,10-21; 
17,14-18; 18,18-23). Não é possível situar historicamente 
essas "confissões", porque a redação final espalhou frag-mentos 
ao longo dos capítulos 11 a 20. Contudo, essas 
"confissões" nos mostram uma situação de crise profunda 
na vida do profeta. Porém, maior que a crise é a ousadia de 
Jeremias em sua oração a Deus. 
3. Deus é acusado de ter seduzido o profeta. O Senhor o 
proibira de casar porque o queria totalmente para si. Jere-mias 
havia confiado, entregando-se totalmente. Porém, as 
perseguições e sofrimentos o levaram à crise, consideran-do- 
se traído e abandonado por Deus. A linguagem do v. 7 é 
muito forte. Jeremias acusa o Senhor de sedução. A acusa-ção 
recorda Ex 22,15: "Se alguém seduzir uma virgem que 
não estava prometida em casamento…" O profeta "foi na 
onda" de Javé, deixando-se seduzir. A expressão "tu me 
agarraste" acusa Deus de prepotência, como se passasse de 
amigo a inimigo do profeta. 
4. Por que Jeremias acusa Deus de forma tão dura? A 
causa de tudo foi o anúncio da Palavra. Vida e palavras do 
profeta denunciavam os desmandos de governantes e lide-ranças, 
antevendo o fim trágico da nação. Ele sintetiza sua 
missão em duas palavras: violência e opressão (v. 8a). 
Essas duas palavras, todavia, não revelam só o que ele 
devia anunciar; são também o troco recebido por causa da 
denúncia: caçoadas, desprezo, insultos, emboscadas, aten-tados. 
Por isso ele se queixa de forma tão ousada. 
5. A confissão de Jeremias não é só desabafo e acusação 
de Deus (vv. 7-8), mas sobretudo proclamação daquilo que 
a Palavra realiza nele (v. 9). Se não conseguiu escapar à 
sedução e força de Javé, tampouco terá energias para se 
subtrair ao poder da Palavra que, como um vulcão, explode 
do seu peito. A Palavra lhe invade a memória, não permi-tindo 
que o profeta se esqueça; invade-o como um fogo que 
penetra na estrutura do ser (ossos), consumindo-o sem que 
possa opor resistência. 
6. Jeremias sofre assim porque, como autêntico profeta, 
sentiu os anseios do povo por liberdade e vida. Esses an-seios 
haviam sido reduzidos ao silêncio pelas lideranças 
político-religiosas do seu tempo. Despertando-os, reacen-deu 
também a ira dos mantenedores da situação, que o 
perseguem. O profeta sente medo e vontade de renunciar. 
Mas uma força maior o invade e impele. Por isso clama, 
acusa e confia. Olhando para ele — e para todos os profetas 
de hoje — nos perguntamos: o que é maior no profeta: a 
ousadia ou a confiança? A resposta só pode ser dada pelos 
que, como ele, sentem-se irresistivelmente possuídos pela 
força de Deus e da sua Palavra. 
Evangelho (Mt 16,21-27): O caminho de Jesus e dos 
cristãos 
7. O trecho pertence à parte narrativa (13,53-17,27) do 
quarto livrinho (13,53-18,35). O tema dessa parte narrativa 
é o do seguimento de Jesus, o Mestre da justiça. Mateus 
quer mostrar à comunidade o que significa ser cristão. Em 
outras palavras, ser seguidor do Mestre da Justiça. 
8. Para o evangelista, temos aqui novo começo. Se em 
4,17 Jesus começava seu ensinamento na Galiléia, aqui 
começa a mostrar aos discípulos o caminho da cruz (v. 21). 
Esse caminho é marcado pela necessidade de ir a Jerusa-lém, 
sofrer, ser morto e ressuscitar. A necessidade não é 
resultado do determinismo; pelo contrário, Jesus assume 
conscientemente os riscos da rejeição, sofrimento e morte 
por causa da justiça que faz o Reino acontecer na história. 
Ele se guia pela conseqüência lógica de sua atividade, as-sumindo 
o confronto com as forças da morte (os que man-têm 
a sociedade fundada na injustiça). 
9. O v. 21 apresenta quatro etapas do caminho da cruz. A 
primeira é ir a Jerusalém. Jesus se desloca da Galiléia para 
a Judéia, onde a resistência e oposição irão mostrar toda a 
sua força. A segunda etapa é a do sofrimento causado pelos 
anciãos, sumos sacerdotes e doutores da Lei, todos eles 
membros do Sinédrio, o tribunal supremo (a sede da injus-tiça). 
Os anciãos formavam a aristocracia de Jerusalém. 
Eram grandes latifundiários. Representavam o poder do 
dinheiro. Formavam a base do partido dos saduceus. Os 
sumos sacerdotes eram a aristocracia sacerdotal. Eles tam-bém 
pertenciam ao Sinédrio e ao partido dos saduceus. 
Representavam o poder religioso. Os doutores da Lei for-mavam 
a classe intelectual. Eram o terceiro grupo do Siné-drio 
e, em sua maioria, pertenciam ao partido dos fariseus. 
Eram os detentores do poder do saber ideológico. São os 
donos da verdade e "formadores da opinião pública". É nas 
mãos desse tribunal supremo que Jesus será morto (terceira 
etapa) para depois ressuscitar (quarta etapa do caminho da 
cruz). 
10. Jesus tem consciência do enfrentamento do Sinédrio. E 
começa a mostrar isso aos discípulos. Pedro, por sua vez, 
quer propor outras alternativas messiânicas. E por isso 
começa a repreendê-lo (v. 22) por estar em completo desa-cordo 
com as intenções de Jesus. Pedro se sente encorajado
porque, pouco antes, havia confessado Jesus como o Mes-sias, 
o Filho do Deus vivo, e agora crê poder dar sugestões 
sobre a missão de Jesus. 
11. A reação de Jesus é forte. Ele rejeita Pedro como rejei-tou 
Satanás no episódio das tentações: "Vá para longe, 
Satanás!" (cf. 4,10). As palavras de Pedro reproduzem a 
terceira tentação de Jesus no deserto. Pedro é Satanás e 
pedra de tropeço "porque não pensa como Deus e sim como 
os homens" (v. 23). O pensamento de Deus ficou expresso, 
em Mateus, no batismo de Jesus (3,13-17), onde ele "cum-pre 
toda a justiça", passando pela rejeição, sofrimento e 
morte. Pedro descobriu que Jesus é o Messias, porém não 
aceita as conseqüências desse messianismo. Quer que Jesus 
seja feito à imagem e semelhança de seus caprichos. O que 
vem a seguir mostra que Jesus não é como a gente quer. Ao 
contrário, quer que nós sejamos como ele é. 
12. Os vv. 24-27 contêm o apelo de Jesus à comunidade 
dos seus seguidores. O v. 24 mostra as condições para o 
seguimento. Seguir a Jesus é adesão pessoal (se alguém 
quiser…) que implica renúncia, aceitação e compromisso. 
O destino do discípulo não pode ser diferente do de Jesus. 
Para estar com ele são exigidas duas condições: renunciar a 
si mesmo e tomar a própria cruz. Renunciar a si mesmo é 
deixar de lado toda ambição pessoal. Em outros termos, 
temos aqui a repetição da primeira bem-aventurança: ser 
pobre (cf. 5,3). Carregar a própria cruz é enfrentar, com as 
mesmas disposições de Jesus, o sofrimento, perseguição e 
morte por causa da justiça que provoca o surgimento do 
Reino (não devemos esquecer que a cruz era a pena capital 
para os subversivos políticos daquele tempo). É a última 
bem-aventurança, a dos perseguidos por causa da justiça 
(cf. 5,11). Ser discípulo de Jesus, portanto, é reviver a sín-tese 
das bem-aventuranças. 
13. Os vv. 25-27 procuram ampliar o tema do seguimento, 
convocando à sensatez. As propostas de Jesus não são lou-cura, 
e sim as únicas propostas sensatas para o cristão. 
14. O v. 25 põe a ênfase no paralelismo entre as expressões 
salvar-perder, perder-encontrar. A orientação fundamental 
do cristão é encontrar vida na doação da vida, à semelhan-ça 
de Jesus. Mas encontrar vida supõe arriscá-la. 
15. O v. 26 salienta a conveniência do risco. A pergunta 
formulada nesse versículo enfatiza o contraste entre ganhar 
o mundo-perder a vida. A vida tem preço incalculável: 
nada pode pagá-la. Mas em termos de vida cristã, a verda-deira 
economia é doação; a grande vantagem é a perda; o 
lucro é entrega total, como Jesus. 
16. Os discípulos tinham uma concepção errada do messi-anismo 
de Jesus e do modo de ser discípulo dele. Jesus vai 
ao encontro da cruz para depois voltar em sua glória. Isso 
não quer dizer que os cristãos passarão à vida sem percor-rer 
o caminho da cruz, pois Jesus retribuirá a cada um se-gundo 
a coerência de sua conduta (v. 27). 
2ª leitura (Rm 12,1-2): O sacrifício que agrada a Deus 
17. O capítulo 12 de Romanos inicia nova seção dentro da 
carta: é a seção exortativa (parênese), na qual Paulo convi-da 
a comunidade cristã a responder no dia-a-dia aos apelos 
da misericórdia divina. O amor de Deus tomou conta de 
todos, judeus e gentios. A resposta do cristão não pode ser 
outra a não ser a do amor. 
18. A exortação é feita "pela misericórdia de Deus". Por-tanto, 
o apelo que Paulo lança aos cristãos de Roma é feito 
em base a essa misericórdia divina que tomou a iniciativa 
de anistiar a todos por amor. Como agradecer a esse amor? 
No Antigo Testamento, de modo geral, a gratidão se mani-festava 
através dos sacrifícios (animais) oferecidos a Deus. 
A grande novidade que Paulo introduz é esta: não mais 
sacrifícios externos, mas o nosso corpo é o sacrifício vivo, 
santo e agradável a Deus. Este é o culto espiritual dos cris-tãos 
(v. 1). 
19. O corpo humano é o centro das relações com Deus, 
com as pessoas e com as coisas. Em outras ocasiões, Paulo 
já havia insistido no aspecto do corpo enquanto presença de 
Deus e do Espírito. Com essa nova realidade, desaparece o 
antigo culto, baseado no templo, sacrifícios e sacerdócio. 
Cada cristão é, ao mesmo tempo, sacerdote, oferta e tem-plo, 
oferecendo a si próprio como único sacrifício que Deus 
aceita. 
20. Essa é a grande meta do ser cristão. Mas o ideal não é 
algo que possa ser alcançado fugindo da realidade que nos 
cerca. Paulo sabe disso e sabe também que ser cristão é não 
se conformar com os modelos deste mundo. Por que os 
cristãos são convocados ao não-conformismo? Porque não 
raro as estruturas da sociedade são marcadas pelo descom-promisso 
com a justiça e o projeto de Deus. Resultado 
desse descompromisso são a exploração, os abusos e as 
manipulações, exatamente como acontecia na Roma antiga 
e como acontece hoje no meio de nós. 
21. O não-conformismo não é somente crítica da injustiça, 
mas sobretudo compromisso de transformação comunitária: 
"não sigam… mas transformem-se para conhecer" (v. 2). 
Isso demonstra que o projeto de Deus requer discernimento 
constante para distinguir entre o que leva à vida e o que 
conduz à morte. A vontade de Deus se torna clara à medida 
que lutamos por aquilo que suscita, promove e sustenta a 
vida. Esse é o sacrifício que agrada a Deus. 
III. PISTAS PARA REFLEXÃO 
22. O caminho de Jesus e dos cristãos é incômodo porque marcado pela denúncia profética e a conse-qüente 
perseguição (1ª leitura Jr 20,7-9), pelo enfrentamento e choque com os poderes que manipu-lam 
a vida e geram a morte (evangelho Mt 16,21-27), pelo não-conformismo diante das injustiças, em 
busca de transformações que visem incrementar o projeto de Deus (2ª leitura Rm 12,1-2). A consci-ência 
desse caminho ajuda a vencer os desafios e a arriscar. A memória dos cristãos autênticos — den-tro 
ou fora da comunidade — que arriscaram e "perderam" a vida poderá redimensionar a caminhada 
do povo de Deus, no esforço contínuo de implantar no mundo a justiça do Reino. E ajudará também a 
perceber as pedras de tropeço, os "Satanás" e os descompromissados que impedem a caminhada da 
comunidade.

Comentário: 22º Domingo Tempo Comum - Ano A

  • 1.
    O CAMINHO DEJESUS E DOS CRISTÃOS Pe. José Bortoline – Roteiros Homiléticos Anos A, B, C Festas e Solenidades - Paulos, 2007 * LIÇÃO DA SÉRIE: LECIONÁRIO DOMINICAL * ANO: A – TEMPO LITÚRGICO: 22° DOMINGO TEMPO COMUM – COR: VERDE I. INTRODUÇÃO GERAL 1. "Nós podemos desconfiar de uma Igreja que não co-nhece o martírio". Por quê? Porque o caminho dos cristãos não é diferente do caminho de Jesus. É feito de incertezas, mas também de coragem e esperanças; de lutas, mas tam-bém de vitórias; de cruz, mas também de ressurreição e vida; de não-conformismo, mas também de compromisso com o projeto de Deus. Disso nos falam Jeremias, Jesus e Paulo. Pedro, no evangelho de hoje, representa o medo que temos das conseqüências do cristianismo que enfrenta as forças contrárias à vida; Jeremias é a voz dos que sentem fortemente os apelos da Palavra irresistível; Jesus nos mos-tra o caminho da vitória; Paulo nos fala do verdadeiro culto agradável a Deus. Os textos de hoje, em síntese, nos enco-rajam no testemunho cristão, evitando que a mediocridade nos conduza a um beco sem saída. II. COMENTÁRIO DOS TEXTOS BÍBLICOS 1ª leitura (Jr 20,7-9): A força do profeta 2. Estes três versículos lidos, pertencem a uma seção maior (20,7-18), conhecida como a última (5ª) das confis-sões de Jeremias (cf. as demais em 11,18-12,6; 15,10-21; 17,14-18; 18,18-23). Não é possível situar historicamente essas "confissões", porque a redação final espalhou frag-mentos ao longo dos capítulos 11 a 20. Contudo, essas "confissões" nos mostram uma situação de crise profunda na vida do profeta. Porém, maior que a crise é a ousadia de Jeremias em sua oração a Deus. 3. Deus é acusado de ter seduzido o profeta. O Senhor o proibira de casar porque o queria totalmente para si. Jere-mias havia confiado, entregando-se totalmente. Porém, as perseguições e sofrimentos o levaram à crise, consideran-do- se traído e abandonado por Deus. A linguagem do v. 7 é muito forte. Jeremias acusa o Senhor de sedução. A acusa-ção recorda Ex 22,15: "Se alguém seduzir uma virgem que não estava prometida em casamento…" O profeta "foi na onda" de Javé, deixando-se seduzir. A expressão "tu me agarraste" acusa Deus de prepotência, como se passasse de amigo a inimigo do profeta. 4. Por que Jeremias acusa Deus de forma tão dura? A causa de tudo foi o anúncio da Palavra. Vida e palavras do profeta denunciavam os desmandos de governantes e lide-ranças, antevendo o fim trágico da nação. Ele sintetiza sua missão em duas palavras: violência e opressão (v. 8a). Essas duas palavras, todavia, não revelam só o que ele devia anunciar; são também o troco recebido por causa da denúncia: caçoadas, desprezo, insultos, emboscadas, aten-tados. Por isso ele se queixa de forma tão ousada. 5. A confissão de Jeremias não é só desabafo e acusação de Deus (vv. 7-8), mas sobretudo proclamação daquilo que a Palavra realiza nele (v. 9). Se não conseguiu escapar à sedução e força de Javé, tampouco terá energias para se subtrair ao poder da Palavra que, como um vulcão, explode do seu peito. A Palavra lhe invade a memória, não permi-tindo que o profeta se esqueça; invade-o como um fogo que penetra na estrutura do ser (ossos), consumindo-o sem que possa opor resistência. 6. Jeremias sofre assim porque, como autêntico profeta, sentiu os anseios do povo por liberdade e vida. Esses an-seios haviam sido reduzidos ao silêncio pelas lideranças político-religiosas do seu tempo. Despertando-os, reacen-deu também a ira dos mantenedores da situação, que o perseguem. O profeta sente medo e vontade de renunciar. Mas uma força maior o invade e impele. Por isso clama, acusa e confia. Olhando para ele — e para todos os profetas de hoje — nos perguntamos: o que é maior no profeta: a ousadia ou a confiança? A resposta só pode ser dada pelos que, como ele, sentem-se irresistivelmente possuídos pela força de Deus e da sua Palavra. Evangelho (Mt 16,21-27): O caminho de Jesus e dos cristãos 7. O trecho pertence à parte narrativa (13,53-17,27) do quarto livrinho (13,53-18,35). O tema dessa parte narrativa é o do seguimento de Jesus, o Mestre da justiça. Mateus quer mostrar à comunidade o que significa ser cristão. Em outras palavras, ser seguidor do Mestre da Justiça. 8. Para o evangelista, temos aqui novo começo. Se em 4,17 Jesus começava seu ensinamento na Galiléia, aqui começa a mostrar aos discípulos o caminho da cruz (v. 21). Esse caminho é marcado pela necessidade de ir a Jerusa-lém, sofrer, ser morto e ressuscitar. A necessidade não é resultado do determinismo; pelo contrário, Jesus assume conscientemente os riscos da rejeição, sofrimento e morte por causa da justiça que faz o Reino acontecer na história. Ele se guia pela conseqüência lógica de sua atividade, as-sumindo o confronto com as forças da morte (os que man-têm a sociedade fundada na injustiça). 9. O v. 21 apresenta quatro etapas do caminho da cruz. A primeira é ir a Jerusalém. Jesus se desloca da Galiléia para a Judéia, onde a resistência e oposição irão mostrar toda a sua força. A segunda etapa é a do sofrimento causado pelos anciãos, sumos sacerdotes e doutores da Lei, todos eles membros do Sinédrio, o tribunal supremo (a sede da injus-tiça). Os anciãos formavam a aristocracia de Jerusalém. Eram grandes latifundiários. Representavam o poder do dinheiro. Formavam a base do partido dos saduceus. Os sumos sacerdotes eram a aristocracia sacerdotal. Eles tam-bém pertenciam ao Sinédrio e ao partido dos saduceus. Representavam o poder religioso. Os doutores da Lei for-mavam a classe intelectual. Eram o terceiro grupo do Siné-drio e, em sua maioria, pertenciam ao partido dos fariseus. Eram os detentores do poder do saber ideológico. São os donos da verdade e "formadores da opinião pública". É nas mãos desse tribunal supremo que Jesus será morto (terceira etapa) para depois ressuscitar (quarta etapa do caminho da cruz). 10. Jesus tem consciência do enfrentamento do Sinédrio. E começa a mostrar isso aos discípulos. Pedro, por sua vez, quer propor outras alternativas messiânicas. E por isso começa a repreendê-lo (v. 22) por estar em completo desa-cordo com as intenções de Jesus. Pedro se sente encorajado
  • 2.
    porque, pouco antes,havia confessado Jesus como o Mes-sias, o Filho do Deus vivo, e agora crê poder dar sugestões sobre a missão de Jesus. 11. A reação de Jesus é forte. Ele rejeita Pedro como rejei-tou Satanás no episódio das tentações: "Vá para longe, Satanás!" (cf. 4,10). As palavras de Pedro reproduzem a terceira tentação de Jesus no deserto. Pedro é Satanás e pedra de tropeço "porque não pensa como Deus e sim como os homens" (v. 23). O pensamento de Deus ficou expresso, em Mateus, no batismo de Jesus (3,13-17), onde ele "cum-pre toda a justiça", passando pela rejeição, sofrimento e morte. Pedro descobriu que Jesus é o Messias, porém não aceita as conseqüências desse messianismo. Quer que Jesus seja feito à imagem e semelhança de seus caprichos. O que vem a seguir mostra que Jesus não é como a gente quer. Ao contrário, quer que nós sejamos como ele é. 12. Os vv. 24-27 contêm o apelo de Jesus à comunidade dos seus seguidores. O v. 24 mostra as condições para o seguimento. Seguir a Jesus é adesão pessoal (se alguém quiser…) que implica renúncia, aceitação e compromisso. O destino do discípulo não pode ser diferente do de Jesus. Para estar com ele são exigidas duas condições: renunciar a si mesmo e tomar a própria cruz. Renunciar a si mesmo é deixar de lado toda ambição pessoal. Em outros termos, temos aqui a repetição da primeira bem-aventurança: ser pobre (cf. 5,3). Carregar a própria cruz é enfrentar, com as mesmas disposições de Jesus, o sofrimento, perseguição e morte por causa da justiça que provoca o surgimento do Reino (não devemos esquecer que a cruz era a pena capital para os subversivos políticos daquele tempo). É a última bem-aventurança, a dos perseguidos por causa da justiça (cf. 5,11). Ser discípulo de Jesus, portanto, é reviver a sín-tese das bem-aventuranças. 13. Os vv. 25-27 procuram ampliar o tema do seguimento, convocando à sensatez. As propostas de Jesus não são lou-cura, e sim as únicas propostas sensatas para o cristão. 14. O v. 25 põe a ênfase no paralelismo entre as expressões salvar-perder, perder-encontrar. A orientação fundamental do cristão é encontrar vida na doação da vida, à semelhan-ça de Jesus. Mas encontrar vida supõe arriscá-la. 15. O v. 26 salienta a conveniência do risco. A pergunta formulada nesse versículo enfatiza o contraste entre ganhar o mundo-perder a vida. A vida tem preço incalculável: nada pode pagá-la. Mas em termos de vida cristã, a verda-deira economia é doação; a grande vantagem é a perda; o lucro é entrega total, como Jesus. 16. Os discípulos tinham uma concepção errada do messi-anismo de Jesus e do modo de ser discípulo dele. Jesus vai ao encontro da cruz para depois voltar em sua glória. Isso não quer dizer que os cristãos passarão à vida sem percor-rer o caminho da cruz, pois Jesus retribuirá a cada um se-gundo a coerência de sua conduta (v. 27). 2ª leitura (Rm 12,1-2): O sacrifício que agrada a Deus 17. O capítulo 12 de Romanos inicia nova seção dentro da carta: é a seção exortativa (parênese), na qual Paulo convi-da a comunidade cristã a responder no dia-a-dia aos apelos da misericórdia divina. O amor de Deus tomou conta de todos, judeus e gentios. A resposta do cristão não pode ser outra a não ser a do amor. 18. A exortação é feita "pela misericórdia de Deus". Por-tanto, o apelo que Paulo lança aos cristãos de Roma é feito em base a essa misericórdia divina que tomou a iniciativa de anistiar a todos por amor. Como agradecer a esse amor? No Antigo Testamento, de modo geral, a gratidão se mani-festava através dos sacrifícios (animais) oferecidos a Deus. A grande novidade que Paulo introduz é esta: não mais sacrifícios externos, mas o nosso corpo é o sacrifício vivo, santo e agradável a Deus. Este é o culto espiritual dos cris-tãos (v. 1). 19. O corpo humano é o centro das relações com Deus, com as pessoas e com as coisas. Em outras ocasiões, Paulo já havia insistido no aspecto do corpo enquanto presença de Deus e do Espírito. Com essa nova realidade, desaparece o antigo culto, baseado no templo, sacrifícios e sacerdócio. Cada cristão é, ao mesmo tempo, sacerdote, oferta e tem-plo, oferecendo a si próprio como único sacrifício que Deus aceita. 20. Essa é a grande meta do ser cristão. Mas o ideal não é algo que possa ser alcançado fugindo da realidade que nos cerca. Paulo sabe disso e sabe também que ser cristão é não se conformar com os modelos deste mundo. Por que os cristãos são convocados ao não-conformismo? Porque não raro as estruturas da sociedade são marcadas pelo descom-promisso com a justiça e o projeto de Deus. Resultado desse descompromisso são a exploração, os abusos e as manipulações, exatamente como acontecia na Roma antiga e como acontece hoje no meio de nós. 21. O não-conformismo não é somente crítica da injustiça, mas sobretudo compromisso de transformação comunitária: "não sigam… mas transformem-se para conhecer" (v. 2). Isso demonstra que o projeto de Deus requer discernimento constante para distinguir entre o que leva à vida e o que conduz à morte. A vontade de Deus se torna clara à medida que lutamos por aquilo que suscita, promove e sustenta a vida. Esse é o sacrifício que agrada a Deus. III. PISTAS PARA REFLEXÃO 22. O caminho de Jesus e dos cristãos é incômodo porque marcado pela denúncia profética e a conse-qüente perseguição (1ª leitura Jr 20,7-9), pelo enfrentamento e choque com os poderes que manipu-lam a vida e geram a morte (evangelho Mt 16,21-27), pelo não-conformismo diante das injustiças, em busca de transformações que visem incrementar o projeto de Deus (2ª leitura Rm 12,1-2). A consci-ência desse caminho ajuda a vencer os desafios e a arriscar. A memória dos cristãos autênticos — den-tro ou fora da comunidade — que arriscaram e "perderam" a vida poderá redimensionar a caminhada do povo de Deus, no esforço contínuo de implantar no mundo a justiça do Reino. E ajudará também a perceber as pedras de tropeço, os "Satanás" e os descompromissados que impedem a caminhada da comunidade.