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Pelos mesmos motivos considerados pelo professor de Parnamirim, a interdisciplinaridade ainda é
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Texto para estudo ou atividade a ciência da integração

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Texto para estudo ou atividade a ciência da integração

  1. 1. A ciência da integração Professores da área de exatas conquistam alunos de ensino médio com propostas interdisciplinares Lélia Chacon Fórmulas, equações, nomes e números tidos como esquisitos e complicados. O “bicho pega” na escola quando os estudantes se deparam com esses conteúdos. Acontece no ensino em geral e no aprendizado das ciências em particular, na hora da física, química, matemática ou biologia. Mas pode ser diferente quando professores e alunos percebem que a graça de ensinar e de aprender está na interdisciplinaridade – conceito amplo que, no dia a dia da educação escolar, significa apresentar um assunto em um contexto de inter-relações, dar significado a ele com experiências práticas e, muito importante, combinar tudo isso com estímulos instigantes e criativos. É o que fazem educadores antenados com a realidade do jovem inserido no mundo atual, interdisciplinar, múltiplo e conectado como nunca. Educadores como a brasiliense Aida Fadel, o potiguar João Batista Costa e o cearense Luciano Guedes Siebra têm colhido bons frutos com jovens do ensino médio na rede pública. Envolvidos justamente com disciplinas consideradas mais “espinhosas”, eles desafiam a expectativa predominante entre muitos mestres e aprendizes na escola básica: por parte do aluno, a certeza de que ele não consegue aprender e, do lado do professor, a desesperança de ensinar a um aluno que não aprende. “No ensino das ciências, não dá para fazer um aluno decorar fórmulas. É preciso contextualizar o aprendizado. Ele tem de perceber a aplicação prática da física, da química, da matemática, biologia ou informática no seu cotidiano e também a combinação dessas ciências, ou seja, perceber que todos os processos e sistemas reais são multidisciplinares. E o jovem reconhece isso realizando experimentos, brincando com materiais, construindo conhecimentos. Depois, aprender a fórmula é fácil, porque ela faz sentido. Em vez de uma abstração, torna-se uma representação do real”, diz a professora Aida Fadel, graduada em engenharia mecânica e coordenadora do projeto Precoce, da Universidade de Brasília, dirigido à educação, em ciências exatas, de alunos do ensino médio de escolas públicas. Despertando engenheiros O Projeto de Educação em Ciências Continuadas da Engenharia (Precoce) começou em 2007, a partir de uma iniciativa do Sistema S (SESI, SENAI etc.) de discutir a formação de profissionais de engenharia e do fomento de uma cultura de inovação, por meio do programa Inova Engenharia. O Precoce surgiu neste contexto, com a missão de atrair alunos do ensino médio para as carreiras de engenharia. Duas escolas públicas de Brasília (Centro de Ensino Médio 1, de Sobradinho, e CEAN, da Asa Norte) foram escolhidas para sediar a experiência piloto por dois anos. A iniciativa busca a melhoria dos processos de ensino por meio de uma proposta interdisciplinar, que desperta o interesse do aluno e, por isso, facilita seu aprendizado, em especial nas ciências de base da engenharia (matemática, física, química e informática). Em 2008, foram realizadas cerca de 30 oficinas nas escolas. Nelas, os jovens reciclam óleo usado para fazer biodiesel e sabão, atividade com a qual aprendem conceitos de sustentabilidade, a química das reações, a física do aquecimento gerado pela mistura dos componentes, a matemática para acertar as proporções. Um cabo de vassoura, corda, elástico e garrafas pet criam uma espécie de balança para os alunos verificarem, por exemplo, se o bujão de gás de 13 quilos tem realmente esse peso. Enquanto isso, eles aprendem o que é torque, equilíbrio de forças e as leis de Newton. E apostam uma corrida para conhecer o que é a frequência Hertz a partir da frequência cardíaca, e a que mais essa medida se aplica. Em uma oficina de astronomia, constrói-se uma luneta igual à utilizada por Galileu para observar a superfície da Lua e aprender sobre ótica, razão e proporção, expansão do universo, história etc. Ao responderem a um questionário após as oficinas, há, segundo Aida, uma manifestação constante dos alunos: “Eu nunca pensei que pudesse aprender tanto”.
  2. 2. Mais do que atrair para as carreiras de engenharia, o projeto Precoce quer mostrar ao jovem que aprender é prazeroso e, ao professor, que a abordagem interdisciplinar funciona. Segundo Aida, a tarefa é desafiadora porque a baixa qualidade do ensino em geral, e do ensino de ciências em especial, está ligada também à desmotivação do professor que, por sua vez, desmotiva o aluno. “Sentimos essa dificuldade na hora de mobilizar o professor. Grande parte deles coloca o foco do problema de baixa aprendizagem no aluno, o que tende a agravar a situação, pois gera em ambos descrédito no papel de aprender e de ensinar”, diz Aida. Mudança de paradigma No município de Parnamirim, no Rio Grande do Norte, o professor de química João Batista Costa e seus alunos da Escola Estadual Dom Nivaldo Monte dão outro exemplo da abordagem interdisciplinar na escola pública. Com o projeto “O Diálogo e a Interação para Aprendizagem de Química”, que recebeu uma menção honrosa no Prêmio Professores do Brasil 2008, ele conseguiu impregnar os estudantes de uma nova cultura, baseada no interesse em aprender e não simplesmente em adquirir notas para passar de ano. “Rompemos com o paradigma tradicional, cujo centro é nota e prova, privilegiando o estudo e a aprendizagem”, resume João Batista. O projeto, iniciado em 2006, foi motivado pela percepção de que os alunos chegavam ao ensino médio sem nenhuma base para acompanhar a disciplina de química. “Iniciamos um trabalho de recuperação dos conceitos básicos, mas tratando o conhecimento de forma interdisciplinar e em sua totalidade, e buscando torná-lo significativo para o aluno”, diz João Batista. Como exemplo, ele se lembra de uma aula sobre hidrocarboneto e gás natural que teve como base a Escola de Samba da Grande Rio (Do Verde de Coari vem meu gás Sapucaí), do carnaval do Rio de Janeiro de 2008. “Os alunos ficaram impressionados com as descobertas que fizeram sobre a cultura e o folclore da Amazônia. Chegaram à conclusão de que o desfile da escola de samba é uma grande ópera popular”, conta o professor. Em outra aula, a origem dos elementos químicos foi explorada com base num vídeo de Carl Sagan. “Apesar de ser em inglês, eles pesquisaram e superaram as suas limitações, fazendo um grande debate acerca do assunto, que envolveu a origem do universo e a teoria da criação cristã”, assinala. E um projeto sobre drogas mobilizou a turma para aprender sobre funções e nomenclaturas de substâncias, os problemas causados pelos diversos tipos de droga, os países produtores e consumidores. O impacto de experiências como essas nos estudantes – 120 por semestre no turno noturno, com idade entre 18 e 60 anos, a maioria trabalhadores da construção civil, do comércio e domésticas – e no conjunto da escola foi impressionante. Segundo João Batista, a instituição passou da 77ª colocação (2006) para a décima colocação estadual (2007) no Exame Nacional do Ensino Médio, o Enem. “O sucesso escolar dos alunos elevou sua autoestima, servindo de incentivo para aumentar sua participação em concursos diversos e estimular a construção do hábito de estudar”, diz o mestre. Jarbas Batista Silva Araújo, um desses alunos, devolveu ao professor a dedicação que recebeu. Foi agraciado, sob a orientação de João Batista, com o segundo lugar no Prêmio Jovem Cientista 2007. “Eu não te dou respostas e, sim, os meios para que você as encontre. Vá, você consegue”, dizia o professor ao aluno tímido diante das possibilidades que se abriam. “Se hoje eu provo dessa vitória, foi graças a ele”, diz Jarbas. João Batista só vê vantagens no trabalho interdisciplinar, como tornar as aulas significativas e contextualizadas e permitir maior abertura para a aquisição de conhecimentos. Mas as dificuldades para implementá-lo estão em geral na organização da escola e da estrutura curricular que favorece a compartimentalização do conhecimento. O relacionamento com os colegas professores é outro ponto crítico. “Projetos interdisciplinares dão trabalho, exigem estudo e dedicação por parte dos professores, e isso não é muito comum no meio dos profissionais de escola pública”, diz o educador.
  3. 3. Iniciação científica Pelos mesmos motivos considerados pelo professor de Parnamirim, a interdisciplinaridade ainda é um desafio nas escolas de Araripe, no Ceará. Mas há exceções quanto ao empenho e dedicação para superá- lo. O professor de biologia Luciano Guedes Siebra conseguiu a proeza com alunos do ensino médio da EEFM Dona Carlota Távora. Ele implantou na escola o projeto de iniciação científica “Pesquisar é Produzir Novos Conhecimentos e Comunicar os Resultados”, também premiado no concurso Professores do Brasil do ano passado. Propôs aos jovens uma pesquisa sobre os problemas do município, com foco na questão ambiental. A idéia entusiasmou logo a turma que, dividida em oito grupos, montou oito projetos. A proposta compreendeu dois meses de estudos teóricos, com leitura de textos científicos e pesquisas. Outros quatro meses de trabalho de campo para cada grupo delimitar a área a ser investigada e seu objeto de pesquisa, realizando entrevistas nas comunidades e a apuração dos dados junto ao poder público. Depois, houve o tempo de escrever o trabalho e apresentá-lo. O desafio dos estudantes era oferecer soluções para os problemas diagnosticados. E ofereceram. Um grupo pesquisou a apicultura como alternativa de trabalho e renda para os agricultores locais e comprovou, depois de investigar a produção de apicultores, que a atividade era mais vantajosa comparada a outros cultivos agrícolas, por conta do investimento, do lucro e por provocar menos desmatamentos. A atividade era sustentável. Outro grupo investigou o sistema de abastecimento de água de certa localidade, sugerindo ao prefeito a construção de um poço profundo e a criação de um mecanismo de controle do consumo. Uma estação de tratamento foi a proposta de outra equipe para um córrego da região, onde antes a população dispunha de água limpa para beber e se banhar e que hoje virou um criadouro natural de doenças. As olarias foram mais um objeto de pesquisa dos estudantes, que investigaram o aspecto cultural de uma atividade artesanal, passada de pai para filho, e viram seu impacto ambiental no solo, no uso da água, da lenha e na emissão de gás carbônico, que contribui para o efeito estufa. E um documentário produzido pelos jovens ainda comprovou o potencial turístico de outra localidade. Com essa pedagogia de projeto interdisciplinar, os estudantes conheceram e exploraram com prazer conteúdos biológicos, geográficos, matemáticos, históricos e da língua portuguesa, entre outros. “É um bom caminho para quem pretende trabalhar de forma diferente na escola”, garante o professor Luciano. Para ele, o projeto propiciou ao aluno o sentimento de pertencimento e foi motivador porque produzido pelo estudante. “Ele se sentiu responsável, cuidou do projeto com carinho porque se importava com o resultado que queria mostrar e divulgar.” Tudo isso fortaleceu a comunicação entre alunos e professores e estreitou os laços entre famílias e escola. “O município todo ficou sabendo”, conta Luciano, informando que um dos estudos foi escolhido para representar Araripe na Feira de Ciências e Cultura do Ceará com o tema Álcool: a causa ou a solução dos nossos problemas? Por fim, os números que selaram o êxito do professor e seus 80 jovens aprendizes no ano letivo de 2007: o índice de aprovação das turmas foi de 95% e o de evasão, simplesmente 0%.

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