Apostila do Curso de Formação de Jovens Brincantes

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Apostila do Curso de Formação de Jovens Brincantes

  1. 1. 1CURSO DE FORMAÇÃO DE JOVENS BRINCANTESEquipe de professores:Rosane Almeida, Otávio Bastos,Juliana Pardo, Alício Amaral,Matheus Prado e Léo Rodrigues.Queridos alunos!Esta apostila foi construída a partir de anotações de todas as aulas do curso,feitas entre março e junho pela nossa colega Monique Franco. Imaginei registrar aquialguns momentos para relembrar e outros para os auxiliar na elaboração de aulas,oficinas e números artísticos que vocês venham a construir após o Curso deFormação de Jovens Brincantes.Evitei as definições conceituais de cada manifestação estudada no curso,porque elas se encontram no site www.institutobrincante.org.br, no link “DançasBrasileiras”, além de termos as indicações bibliográficas, textos utilizados em nossasaulas, e o caderno de anotações da Monique digitalizado na íntegra. Vale a penaconferir!Além do conteúdo dessa apostila, o material completo traz um DVD “DançasBrasileiras” (aquele nosso programa, transmitido pelo Canal Futura), um CD“Dançando no Brincante”, com as músicas que mais usamos no curso, e o meu livro“A Mais Bela História de Adeodata”.A parte do pandeiro foi cuidadosamente elaborada pelo Léo, a partir das suasaulas e da apostila do Gabriel Almeida.E começa a jornada, a música, a Brincadeira!“Meu bem eu cheguei agora, mas eu te peço tu não vai chorar,por favor me dê a sua mão, entra no meu bordão, venha participar!”“Uma roda gigante, muita gente bonita, diferente... ‘Será que vamos nos lembrardesse dia?’ diz a Rosane, e diz muitas coisas: comprometimento, responsabilidade, escolhas...”OS ASSUNTOS VISITADOS
  2. 2. 2Não podemos nos esquecer que ao tratar de danças populares como referênciapara uma dança nacional, nenhuma delas é completa ou se basta por si mesma. Noentanto cada uma tem contribuições preciosas nessa trajetória da construção de umadança brasileira contemporânea.OS CÔCOSA contribuição da família dos côcos, que inclui o samba de parelha, é apossibilidade de se trabalhar com peso, apoio dos pés, pausas, improvisação,segmentação do corpo e ritmo.Nas aulas de côco, os aquecimentos devem levar em consideração oalongamento da coluna, o alinhamento das pernas (tornozelos, joelhos e bacia) e opeso do corpo. Os côcos oferecem muitos momentos de improvisação, de brincadeiraem duplas e de coreografia em grupo (rodas, cordões, duplas etc.). As contagensnão são necessárias pois como acontece em todas as danças populares, os puxantesconduzem o grupo. O desaquecimento pode ser centrado na tíbia e nos calcanhares,principalmente se for feito muito sapateado. Torções com a coluna deitada no chãotambém são interessantes.MARACATU RURALÉ uma ótima dança para se trabalhar a noção de qualidades de energia. O fatode ser uma dança onde o ataque e a defesa são constantemente disfarçados nospossibilita transitar por essas qualidades de energia. O aquecimento do MaracatuRural pode ter como foco o centro do corpo, o abdômem, a base de sustentação.Podemos trabalhar a qualidade de energia dos quatro elementos (água, fogo, terra ear). O desaquecimento deve priorizar o alongamento, principalmente das pernas.
  3. 3. 3O FREVOO frevo propicia um trabalho aeróbico e de fortalecimento da musculatura.Trabalha muito com uma geometria das pernas e o improviso do tronco. É umaótima dança para praticar impulsos, torções, movimentos no plano baixo e saltos, euma das poucas danças brasileiras onde o dançarino dança também a melodia e nãosomente o ritmo. O desaquecimento deve ser muito cuidadoso pois é uma dança quesolicita muito da musculatura. Um bom alongamento que passe por coluna,quadrícepes, tornozelo...CABOCLINHO (PERRÉ, BAIANO E GUERRA)O Caboclinho trabalha bem o espaço e a direção: os espaços no corpo, oespaço com relação ao outro e o espaço com relação ao deslocamento. É uma dançabastante coletiva, os desenhos coreográficos são muito ricos, e é uma ótima dançapara se trabalhar em grupo. Movimentos da tíbia dão beleza e limpeza para osmovimentos das pernas. O desaquecimento pode ser feito com a seqüência deexercícios de “abertura das pernas” (aqueles bem convencionais).JONGOS E BATUQUESDa família das danças de influência africana, o jongo e os batuques são dançasonde o tronco merece bastante atenção, a bacia conduz a maioria dos movimentos.Em geral, as danças afro-brasileiras oferecem um repertório rico de movimentospara o tronco, os braços e as mãos. Um aquecimento que acorde essas partes docorpo faz a aula render mais. Pode-se conduzir a aula de tal forma que não seránecessário proceder com o desaquecimento. A própria dança já leva a um“relaxamento no movimento”.
  4. 4. 4CAVALO MARINHOÉ a dança mais teatral das manifestações populares. O jogo do mergulhãopermite trabalhar bem o olhar, os trupés, o ritmo e os personagens na intenção dosseus movimentos. O aquecimento pode ser construído com jogos que desafiem aatenção e a coordenação motora; o próprio mergulhão oferece vários desafios quepodem ser usados como aquecimento para a dança. O desaquecimento pode ser feitocom massagens em duplas.* * *AQUECIMENTOS E EXERCÍCIOS“O sábio e o Rei”Havia em um reino um grande sábio e um bom Rei.O Rei um dia quis saber porque o sábio era um grande sábio e ele apenas um bom rei.A princípio, ambos eram generosos, justos e disponíveis com aqueles que lhe procuravam, ouseja: eram muito parecidos. Então o rei resolveu observar o sábio.O sábio se levantou, tomou seu café, conversou com as pessoas, almoçou, meditou edormiu. Pela manhã, o rei foi conversar com o sábio e disse que fazia exatamente as mesmascoisas, então o sábio lhe falou o segredo: “É que quando eu tomo café, eu tomo café; quando euconverso com alguém, eu converso com aquela pessoa; quando eu almoço, eu almoço; quandoeu medito, eu medito; e quando eu durmo, eu durmo!”Qualquer exercício pode ser eficiente, depende muito mais de como o fazemosdo que o quê fazemos.
  5. 5. 5Bolinha:Parte 1 - DescriçãoMassagear o pé com a bolinha.O pé tem 3 apoios: o primeiro metatarso (perto do dedão), o segundo que é oquinto metatarso (perto do dedo mindinho), e o terceiro no calcanhar. Colocar abolinha em cada apoio e soltar o peso.Pisar a bolinha de maneiras diferentes e refletir sobre as sensações.Com um pé de cada vez, deixar a bolinha embaixo do calcanhar e relaxar ocorpo, soltando a coluna e a cabeça em direção ao chão.Colocar as duas mãos no chão, sem precisar esticar os joelhos, a mão contráriado pé que está com a bolinha em direção ao teto, alongando toda a lateral do corpo.Relaxar e subir vértebra por vértebra até a cabeça. Repetir para o outro lado.Obs.: Sempre que fizer um lado, antes de fazer o outro, perceber as mudançasno corpo, o espaço nas articulações, a temperatura do lado trabalhado. Observarombro, orelha, os olhos, a boca, o cotovelo, enfim, todo o lado trabalhado.Parte 2 – Técnicasa) PequenininhoJogar a bolinha de uma mão para outra, começando com a direita, realizandoacima da cabeça um trajeto em forma de arco.b) GrandãoJogar a bolinha de uma mão para outra, acima da cabeça, num trajeto emforma de arco com um espaço maior.c) CachoeiraSegurar a bolinha com a mão direita acima da cabeça, deixá-la escorregar emdireção ao cotovelo e a segurar com a mão esquerda. Repetir para o outro lado.d) Dentro e foraJogar a bolinha por debaixo das pernas, primeiro por dentro (entre a virilha) edepois por fora (pela coxa).
  6. 6. 6e) FacaComeçar com a mão que a bolinha estiver, jogá-la para cima e antes dela cairnovamente na mão, com a outra cortar o espaço, indo e voltando em um movimentocontínuo.f) FéImaginar na sua frente um U, segurando a bolinha e o fazendo no espaço;quando chegar nas extremidades superiores do U, abrir a mão sem deixar a bolinhacair. Acredite! Ela não vai cair. A mão está com a palma para baixo. Fazer apenascom a mão direita (indo e voltando).g) InfinitoJogar a bolinha com a mão esquerda por cima das costas da mão direita, essacontorna a bola e a pega por baixo.h) AcabouEquilibrar a bolinha em cima de uma mão.Parte 3 - A técnica que virou dançaTransformar essa sequência anterior em dança. Usar o corpo para realizaresses movimentos, acompanhar os ritmos sugeridos e não usar apenas as mãos e abolinha pra cá e pra lá. Deve-se fazer com que o corpo todo responda ao movimentoda bola.Dançar livremente com a bolinha e, caso ela caia, não interromper omovimento, aproveitar a situação e criar em cima disso. A vida não tem intervalospor isso devemos aproveitar cada momento para construir algo.O objetivo de trabalhar com a bolinha é desenvolver exercícios queconcentrem pensamento, palavra e movimento.Para dançar é preciso estar inteiro, o inteiro começa no pensamento, se traduzna palavra e se concretiza na ação.Cada corpo tem uma história, herdou vocações, limites, medos, desejos e adança é para expressar tudo isso de maneira criativa, elegante e original.
  7. 7. 7Parte 4 - Em grupoA turma se divide em 4 grupos para introdução do passo do côco (direita,esquerda, direita). Cada grupo fica com uma bolinha. Jogar a bolinha um para ooutro, e quando um joga, ele se congela; quando o outro recebe, faz um movimento,depois se inverte a dinâmica. Sempre no ritmo do côco.Sem a bolinha, passar a intenção do seu movimento para o outro e aproveitaras sugestões físicas que a dança do outro lhe oferece, sempre com músicas de côco.Para finalizar a aula, juntar todos as informações, improviso nos movimentos,pausas, informações corporais dos outros, entrar em um passo e sair delecriativamente, usando tudo isso com músicas que nos tragam boas sensações e quede preferência não sejam da dança que se trabalhou, no caso dessa aula, outrasmúsicas que não sejam os côcos.* * *DANÇA /TEATRO: EXERCÍCIOSAquecimentoCaminhar pelo espaço, encontrar um lugar e deitar. Mapear o corpo, perceberqual parte toca no chão, o peso do corpo no chão, como se a força da gravidadesustentasse nosso corpo no chão.Movimentar levemente a bacia pra frente e pra trás com os pés apoiados nochão, depois em movimentos circulares, levantar a bacia do chão e chacoalharsentindo o seu peso.Com apenas um pé apoiado, fazer movimentos circulares com a outra perna,soltando-a reta e pesada no chão. Inverter a perna e repetir o exercício.Levantar e espreguiçar sempre em um movimento contínuo, usando os trêsplanos, baixo, médio e alto.
  8. 8. 8Jogo Vilão, Vítima e SalvadorO vilão (pegador) tenta pegar a vítima. A vítima, para se salvar, chama osalvador pelo nome da pessoa. Esse, então, vai atrás do antigo vilão que passa entãoa ser a vítima, e o salvador da primeira vítima é agora o vilão. Não se pode retornaro jogo chamando quem acabou de ser vilão ou qualquer outra coisa.Obs.: O importante de se observar nesse jogo é a atitude do pegador e aatitude da vítima, a prontidão do salvador e a concentração e o controle daansiedade de todos na roda. Este é um bom exercício para decorar os nomes dosparticipantes.Exercício de enraizamentoTodos de pé, com as pernas abertas sentindo a base do corpo. Transferimos opeso do corpo de uma perna para outra. Então enraizamos o pé começando pelaponta do dedão, o metatarso, região do peito do pé até transferir todo o peso para aperna e fazer a mesma coisa com o outro pé.Obs.: Esse exercício permite que a gente ande, salte, dance pelo espaço semfazer o mínimo de barulho. Também por conta das danças populares serem sempreligadas ao chão, ao peso, sem barulho, então o melhor mesmo é enraizar os pés praver se nascem frutos!O pulso do Maracatu ruralOuvir a pulsação do Maracatu rural, trazer este ritmo para o corpopermitindo qualquer movimento, dançar pela sala na mesma pulsação com cada umdo seu jeito.Obs.: Cada um, com seu corpo, na sua pulsação. Quando o som abaixa e ficasó nosso som de pés fortes pela sala, o som que se ouve parece o mesmo. Toda dança
  9. 9. 9devia vir antes da técnica, nascer do corpo. Som entrando pelos tímpanos e nospercorrendo por inteiro, seja lá qual for o formato desse corpo, para o tornar vivo.Para finalizar o exercício, todos com as costas da mão, uma atrás da outra ebater uma palma ao mesmo tempo... plaft. Acabou.“Educar-se primeiro para depois poder educar aos outros”.Aquecimento para o intérpreteRelaxar o corpo no chão sem se mover. Mapear as partes que tocam o chão, osespaços de ar entre o corpo e o chão. Depois, começar a se movimentar pelos dedosdo pé, a explorar todas as possibilidades sem mover o restante; seguir para oscalcanhares, os joelhos (sem bacia), os dedos das mãos, os cotovelos, os ombros, abacia deixando envolver toda a coluna até o pescoço. Em um movimento contínuo,envolvendo todas as articulações, trabalhando os planos baixo, médio e alto,soltando o corpo e explorando movimentos não convencionais, ir parando devagar,sempre observando as relações entre os movimentos das pernas e os movimentosdos braços, articulações de joelhos e cotovelos, calcanhares e punho, a bacia e otronco.Exercício de capoeiraBase da capoeira, ginga com a bacia colocada, pernas e pés voltados para fora,calcanhares alinhados com os ísquios. A partir da ginga da capoeira, soltar o corpocom atenção aos braços, desenhos do tronco, possibilidades de sustentação em umaperna, giros, impulsos, ou seja, usar a ginga da capoeira como exercício deassimilação de outros vocabulários. Essa seqüência pode ser usada como introduçãoa qualquer outra dança que se queira trabalhar ou como exercício individual para seiniciar um trabalho de aquecimento.Jogo da FlechaPassar a flecha para outra pessoa, jogando-a através do foco com o olhar euma palma. Fazer a mesma coisa dizendo o seu nome quando a passar. Fazer o
  10. 10. 10mesmo utilizando a noção de tempo e contra-tempo. Fazer vários sons, célulasrítmicas, sempre experimentando o tempo e o contra-tempo. Bater palma “estrela”,“concha” e “estalo”. Dividir em 2 grupos e chegar no côco de pergunta e resposta.Exercício do GuiaRelaxar o corpo no chão, mapeá-lo. Depois, fechar o corpo ainda no chão aomáximo e depois abrí-lo por completo.Escolher uma dupla, onde um fica de joelhos no chão (com a coluna paracima) e o outro faz o seguinte exercício:a) A pessoa de pé massageia a coluna da pessoa no chão com os dedos emforma de pinça, acompanhando toda extensão do cóccix até o pescoço. Depois, comuma bolinha, bater em todas as partes do corpo, menos na coluna para nãomachucar.b) O companheiro levanta o outro pelo quadril até deixá-lo em pé e organiza apostura.c) Com as mãos no crânio do outro, guiar e experimentar movimentos pelasala, sempre um corpo acompanha o outro.d) Depois de explorar o pescoço, chegar ao crânio pelo osciptal. O guiador vaipara a bacia e dá a sensação de peso para pessoa guiada, e começa a explorar osmovimentos.e) Acabada essa parte, o guiador dá toda a noção da extensão da coluna dooutro, fazendo uma vassourinha com as mãos e limpando até passar dessa extensão.f) Sozinho no espaço, o guiado experimenta a sensação dos movimentos,dessa mão que o guiou, num movimento crescente em intensidade, e o guiador oobserva.g) Repete-se todo o exercício invertendo-se o papel dentro das duplas.h) Todos juntos, dançar no ritmo do côco utilizando da sensação da bacia e dopescoço solto trabalhadas anteriormente.
  11. 11. 11Exercício de Peso e forçaDividir em duplas de pessoas de tamanho e peso semelhante. Uma pessoa ficacom o corpo firme (na base), com uma estrutura para que o outro pesquise.O outro explora a diferença entre o pesado (quando você solta o seu peso napessoa) e a força (quando você puxa ou empurra). Terminada a exploração, o queestá explorando constrói uma estátua do que está na base. A estátua se movimentaem 4 tempos, primeiro leve, e volta na posição de estátua. E depois, mais 4 tempos,com movimentos pesados. Inverte-se a dupla e faz-se o mesmo exercício.Dançar pelo espaço percebendo o leve e o pesado.Em roda, marcar no pé 8 tempos para a direita, 8 para a esquerda,sucessivamente, depois diminui-se para marcações de 4, 2 e 1. Fazer leve, pesado,com som, etc., variando as qualidades de energia.Experimentar essa sensação com várias danças.Tente lembrar e descrever os seguintes exercíciosa) Exercício do bastão.b) Exercício do chapéu.c) Exercício de segmentação.
  12. 12. 12Finalizando o semestreJornada, escolha, brincadeira, descobrimento, observação, enraizamento, busca pelaraiz, pulso, pensamento, presença, tempo, ritmo, ensaio para a humanidade, periferia, fricção,poesia popular, memória, sambada, cordões, partitura, coordenação, relações, movimento.“Liberdade é assim: Movimentação”Guimarães RosaReflexõesAlgumas perguntas, questões e comentáriosIowana: “Rosane, eu li esses dias, numa revista, uma reportagem sobredisciplina... E era uma idéia muito precisa falando da liberdade que a disciplina trazpra gente. E acho que é um pouco do que você falou.”Rosane: “É exatamente isso, a disciplina é preciosa; não se vai muito longesem ela. Existe uma disciplina imposta pelo domínio, fruto de uma hierarquiaatrelada ao poder, mas existe uma disciplina voluntária, que nasce da consciênciaque eu desenvolvo sobre o que eu quero fazer. O funcionário de uma fábrica entrano trabalho às oito da manhã. O Nóbrega entra no estúdio às oito da manhã; um temum cartão de ponto, o outro tem a consciência do que quer fazer.A dificuldade de desenvolvermos conscientemente uma disciplina está emnossos hábitos. É muito mais difícil transformar um hábito do que fazer novasconquistas. O povo nos ensina que para mudar um hábito é preciso “fazer votos”-alguém sabe o que é um voto? (É uma promessa) Mais ou menos, é você se dispor afazer algo por um tempo determinado e ir aumentando até que nasce um novohábito saudável e escolhido conscientemente. Por exemplo: vou tocar quinzeminutos de pandeiro por sete dias, depois dez. Fraquejou no oitavo, começa denovo, até o momento que você conquista o hábito de tocar pandeiro quinze minutospor dia, faça sol ou faça chuva. Outra coisa que nos auxilia muito, por incrível quepareça, a mudar os nossos hábitos, é fazer serviço que não tem nada com você, como
  13. 13. 13lavar louça, arrumar a cama, fazer um prato de comida para outra pessoa, fazerserviço que não é para você, que você não tem nenhuma recompensa. Ah! Mas eudou aula todo dia!... Isso não vale, você gosta de dar aula, você recebe para dar aula,isso não conta, isso não nos ajuda a mudar os nossos hábitos. É como se a gentecriasse um espaço dentro da gente pra fazer alguma coisa para o outro; esse espaçoque você cria pro outro é um espaço para o outro dentro de você, não é aquele outrohabituado a agredir quando é agredido, mentir quando pressionado, é o outro quepode responder de outras maneiras, mas só através do exercício da doação é que agente chega. Doação ao próximo através do serviço voluntário e doação a nósmesmos através do voto. E de novo a gente pode perceber que tudo está ligado àquestão da devoção, que gera disciplina, que gera transformações, que geramconquistas.* * *Bia: Quero fazer uma observação. Na verdade, eu estava conversando outrodia com um rapaz sobre o que move a gente a fazer teatro. Ele disse assim que oteatro é a arte em si, é mais uma coisa que tá aí, que ninguém vai sentir falta dela,tanto que ela não é imposta na sociedade, ela é marginal e ninguém fala aí “vamosao teatro”, é algo que a gente tem que ir atrás, tem que fazer, porque ela não faz faltana sociedade, todo mundo consegue viver sem, fica acomodado, eu não sei explicar,mas o que eu vi nesse documentário é que no meio do povo é bem diferente, elesprecisam do que fazem e faz parte da vida deles, se prepararam o ano inteiro paraaquele momento, é vida, é paixão. É isso que a gente estava discutindo, que a genteprecisa ter essa paixão.Rosane: Na nossa sociedade, arte, sexo, comida, política e educação sãotratados como produtos de mercado, para consumo, gerador de rendas, quanto maisrender, mais espaço tem. No entanto, a vida nos mostra que nenhum ser humano,nenhuma sociedade vive sem a arte, porque ela é alimento, é sexo, é política, éeducação.Ou seja, precisamos da arte para viver, para nos alimentar, nos organizarfisicamente. Aí, o que acontece? Foram nos dando água com açúcar, tirou-se amúsica, a dança, tirou-se o sensível da nossa formação, tirou a magia, transfiguração,tirou o rito, tirou o transe, que eram elementos fundamentais da organização
  14. 14. 14psíquica e emocional do ser humano. O resultado é que a arte que produzimos éreflexo da sociedade que criamos. O fazer artístico do povo é muito diferente donosso. Para o povo a recompensa se dá no próprio fazer, como criança quandobrinca. Ela não brinca para ter público, não brinca para ganhar dinheiro, brinca paraser feliz; quanto mais feliz, mais saudável; quanto mais saudável, mais lúcido;quanto mais lúcido, mais divertido; quanto mais divertido, mais leve, por maispesado que seja tudo.* * *Carlos: Eu queria falar que me chamou atenção o fato do Maracatu Rural. Elefoi criado pelos caras do campo com as ferramentas deles, os caras trabalhavam o diainteiro cortando cana com aquilo pesadíssimo, chegavam lá sei lá que horas, eusavam o mesmo instrumento para recriar uma outra coisa.Rosane: Isso é transcendência no sentido mais profundo da palavra, essaoutra coisa que eles criam os tira dessa posição medíocre de semi-escravos e oscoloca numa posição de criadores, e criar não é pouca coisa, principalmente nascondições em que eles se encontram.* * *Djalma: Tem uma coisa, como o mestre do caboclinho, o Zé Alfaiate, falou dapropriedade do amor, o que o move é o amor que ele tem ao caboclinho, tendodinheiro ou não, vai ter caboclinho. Então eu acho que tem muito amor.Rosane: Eu quero agradecer a você, Djalma. Tem uns doze anos que eu douessas aulas, e todo ano, na primeira, eu falo da paixão, e na última aula eu falo pravocês não se apaixonarem pelas coisas, porque tudo, absolutamente tudo passa, enão tem necessidade da gente se apaixonar que isso só faz a gente sofrer e nos limitana visão, isso eu vou dizer na última aula pra vocês. (risos e mais risos). Mas vocêestá me sugerindo um termo mais apropriado, é o amor mesmo, a gente é movido aamor, a essência da gente é o amor, se você olhar um passarinho dando de comer aofilhote você vai ver que é um estado de amor, a sensação dos pais ao nascimento deum filho é um estado de amor, uma cachoeira desaguando grandiosamente dentrodo rio é um estado de amor, a nossa vocação maior é para o amor. Mas esse amor, écomo se a gente tivesse que reaprendê-lo, a gente tem que se encontrar com ele denovo, e eu acho que essa passagem da gente aqui pela terra, dure o quanto durar, é
  15. 15. 15pra nos lembrar disso! Então às vezes a gente fica na dúvida, será que eu façoBrincante ou eu faço Célia Helena, não importa muito, porque em qualquer opçãoque eu faça, o que eu tenho que aprender de fato é reconhecer esse amor. O que éimportante nessa passagem pela terra é acordar esse estado de amor, que é o estadoprimordial do ser humano e do universo.Djalma: É o amor. Eu acho que é um toque pra gente acordar e aproveitar asoportunidades que a gente tem, se a gente não aproveitar a vida vai passar, é muitoforte, problema todo mundo tem, mas quando a gente ama e se dedica a gente vai efaz, a devoção alimenta e faz a gente ir além.Rosane: Esse grupo é muito bom! Percebe-se que é gente que está buscando,isso é muito importante, uma busca diferenciada... não nos poupa das difilculdadesmas nos auxilia a passar por elas, com mais serenidade.E como diz Francisco de Assis, “que eu possa ter serenidade para aceitar oque eu não posso mudar, serenidade para mudar o que eu posso e serenidade paradiscernir uma coisa da outra”.* * *ALGUMAS QUESTÕESQual a origem das festas populares?Pensando em uma síntese, pode-se dizer que eram festas pagãs que a igrejacatólica incorporou no seu calendário. As festas pagãs eram reminiscências de rituaisprimitivos que nossos antepassados desenvolveram para compreender a vida eeducar-se para enfrentar os desafios da natureza.Qual a origem do Cavalo Marinho?Provavelmente na sua origem o Cavalo Marinho, que também é conhecidocomo Bumba-meu-Boi, foi um Reisado. Segundo Sílvio Romero, pequenos grupos deBrincantes que executavam suas festas no ciclo dos 12 dias (do Natal ao dia de Reis).O Cavalo Marinho da zona da mata de Pernambuco seria uma aglutinação de váriosReisados, que por sua vez é uma reminiscência de festas ligadas ao solstício deverão, solstício de inverno, equinócios, etc.
  16. 16. 16O primeiro registro conhecido do folguedo data de 11 de janeiro de 1840 e foifeito pelo padre Miguel de Sacramento Lópes no seu Carapuceiro, onde não precisa adata do surgimento, dizendo apenas que é um folguedo de muitos anos.Qual a diferença entre o conceito de folclore e o conceito de culturapopular?O conceito de cultura folclórica para dar nome ao imemorial patrimôniocultural do povo brasileiro é inadequado, discriminatório, e até apequenador. Issoporque ao longo dos anos, a palavra folclore veio carregando-se de significados quecontradizem o que vemos e compreendemos em relação a cultura do povo brasileiro.Nomear uma manifestação cultural de folclórica é rebaixá-la, é vê-la sob o viésdo imobilismo, destituída de função atuante no dinamismo sócio-cultural.O conceito de cultura popular é muito mais livre de tais significados. Hoje emdia, a sociedade como um todo já começa a compreender e assimilar muitos dosvalores presentes na cultura popular brasileira.O que essencialmente está contido nas manifestações populares que podeser incorporado nos dias de hoje?O ritual, recuperar nossa capacidade de selecionar e ritualizar algumasatitudes.O transe, expor nosso corpo a experiências físicas que nos tirem de um estadocotidiano, e com isso, possamos visitar outros estados da consciência.O simbólico, ler a vida através dos símbolos, porque eles nos falam além doracional, nos informam por experiências físicas também.A transfiguração, a possibilidade de, através do lúdico, vivenciarmos outrasfaces de nossa personalidade.Ao meu ver, esses são procedimentos que, se fossem incorporados na nossaeducação, nos ajudariam a nos sentirmos mais inteiros e integrados ao meio em quevivemos.É possível aprender essa cultura popular sem cair na tentação de repetirformas?
  17. 17. 17É possível mas não é fácil, para qualquer coisa que se busque aprender épreciso estabelecer uma relação intensa, pois só uma relação intensa pode me levarpara dentro de mim, e só dentro de cada um é que está escrito o que fazer semprecisar repetir o que já foi feito. Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, nosdá um exemplo inspirador do que pode ser feito com a cultura popular. Bach,Shakespeare, Lorca, Kodali, também servem de exemplos, mas Guimarães está maisperto, inclusive no tempo.O que a Festa do Divino tem de mais especial com relação às outras festaspopulares?É a única festa que nos remete ao futuro, celebra a profecia de que um dia ospovos abaixo do Equador seriam governados por uma criança, seriam todosalimentados e livres. Isso é poético, enquanto desenvolvimento coletivo, masperfeitamente possível enquanto meta de crescimento individual. Fomos concebidospara nos alimentarmos do que vemos, ouvimos e falamos, nascemos com todos aspossibilidades de sermos livres de preconceitos, valores e imagens que nosapequenam, carregamos, distraidamente, uma criança interna que espera só serconvidada para conduzir principescamente esse nosso cortejo pela terra.* * *
  18. 18. 18Crescemos nos Rodas e nas OficinasTeste seus conhecimentos e associe as frases aos seus autores.1. Juliana Azoubel2. Deise Alves.3. Estevão Marques4. Cristiano Meireles5. Ana Figueiredo6. Milton Santos7. Ariano Suassuna8. Roberto Pompéia9. Antonio Nóbrega10. Adriano Bechara11. Silvio Sawaia12. Manoel Lemes13. Renata Rosa14. Mestre Inácio“Nós somos uns pedaços de pessoa; quando formos inteiros, o mico-leão-dourado serásalvo”.“Eu comparo nossa vidaÀquela dobra do “S”É uma ponta que sobeÉ outra ponta que desceE a volta que tem no meioNem todo mundo conhece”.“Mão, estalo, estalo, mão, estalo, estalo”.
  19. 19. 19“A clarividência não vem da intuição, vem do estudo”.“Arrasta o pé pra trás xotinho...”.“Entramos no período popular da história, ninguém agüenta mais essa tecnologiaexagerada”.“Sou inxirido”.“Dançar a Vida”.“A memória... quando eu me lembro, eu me conecto”.“Mais importante que ter a informação é saber fazer as relações”.“Iapo, ia ia ieItuque ituque iapoItuque e tuque ie”.“Na jornada da vida tem sempre um muro a ser saltado”.“O mundo é um ensaio para ser humanidade, nunca houve de fato a humanidade”.“Saúdo a todos aqueles que sabem que não cultuamos as cinzas dos nossosantepassados, mas a chama imortal que os animava.”*Resposta correta: Todas as frases caberiam no discurso de qualquer umadessas pessoas que vocês conheceram esse ano.
  20. 20. 20Silêncio. Luzes apagadas. Olhos fechados. Coração aberto e alma que chora. A músicaquebra o silêncio e quebra algo em mim.O que estou fazendo da minha alma, da minha vida?Que doenças são essas que circulam nessa cidade caótica que me faz esquecer dascoisas que eu acredito, que me faz querer possuir alguém...Aonde está morando a liberdade que sempre almejei... A liberdade que morava em mime que se expulsou a cada ação, a cada pedra jogada no lago, com raiva e angústia.São meus olhos que choram agora? São angústias e coisas que não quero mais dentrode mim que caem em forma de lágrimas? Saem pra dar espaço, cansei de tantas formas deestupro emocional, hoje e para todo sempre desejo a liberdade pura.Amém!* * *Obrigada Monique e obrigada a todos vocês que nos acompanharam nessajornada, na nossa heróica e quixotesca jornada da vida. Foi buscando maishumanidade que nos reportamos aos nossos antepassados mais primitivos, foicompreendendo as relações que fomos nos fortalecendo para o mundocontemporâneo, foi dançando que conhecemos a disciplina, foi cantando queaprendemos a nos calar, mas como cada dia que renasce, tudo sempre recomeça.Só não temos mais o direito de esquecermos, é preciso lembrar, lembrarsempre que a escolha é nossa!Um abraço Bia, Evânio, Carol, Iowana, Michele, Talita, Priscila, Arthur,Lucilene, Ana Cristina, Flora, Alex, Fernando, Vanessa, Renata, Dígima, Maria,Lucas, Monique, Ana Luiza, Juninho.

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