Pré-projeto Entrevê

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Pré-projeto Entrevê

  1. 1. Introdução “O ataque da Colômbia às Farc, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, em território do Equador” foi o tema escolhido pelo grupo S.A. – Sociedade Alternativa, para a realização do Projeto Entrevê. O Projeto Entrevê é uma atividade que os alunos do 2º ano do curso de Comunicação Social – Jornalismo, da faculdade UMC – Universidade de Mogi das Cruzes, realizam com o objetivo de analisar o tratamento dado pela imprensa a fatos que repercutiram na sociedade de modo significativo. Através da coleta de materiais divulgados na imprensa sobre o fato escolhido, realizamos essa análise subsidiados pelos conteúdos discutidos em sala de aula pelos professores, e pelas pesquisas que realizamos sobre o tema. Ao fim dessa pesquisa, usamos os dados coletados para a construção da Revista e do Programa Radiofônico nomeados “Alternativa”. Essa análise tornou-se importante em nossa vida acadêmica, pois nos possibilitou a prática do que nos é ensinado em sala de aula escrevendo textos, pesquisando, aprendendo a trabalhar em grupo, conhecendo as diversas formas de como uma notícia pode ser dada, e, ainda, as configurações de como sem monta uma revista, um programa radiofônico, quais são os procedimentos, as necessidades técnicas que cada um desses meios de comunicação exige. O que também nos enriqueceu no mundo jornalístico, além de todos os benefícios citados acima, foi o fato desse trabalho também se tornar significativo por permitir a proximidade da teoria com a prática, o que nos ajudou a aumentar nossas habilidades na área. Enfim, com o Projeto Entrevê conhecemos melhor as diversas formas de construção de um texto, e as analisamos prática e teoricamente, colocando nossos conhecimentos e estudos em veículos midiáticos produzidos por nós.
  2. 2. Objeto de Estudo Nossa pesquisa teve como principal enfoque o ataque aéreo do exército da Colômbia ao acampamento das FARC em território do Equador no dia 01 de março de 2008. Em decorrência desse episódio formou - se um clima tenso entre os países da América Latina. Aventou-se até com a possibilidade de uma possível guerra no continente, pois o Equador sentiu-se ofendido com a invasão de suas terras pela Colômbia. Tropas do Equador chegaram a marchar para a fronteira com o território colombiano. Países vizinhos, como o Brasil, tentaram acalmar a situação, e outros como a Venezuela, foram a favor da guerra. Depois de alguns dias de polêmica, a Colômbia fez um pedido de desculpas formal ao Equador na reunião da OEA (Organização dos Estados Americanos). No ataque, foi morto Luis Edgar Devia, o Raul Reyes, também conhecido como número 2, posição que ocupava na hierarquia de poder do grupo. No note book de Reyes foram encontrados registros de que a facção tinha envolvimento com o presidente da Venezuela Hugo Chavéz. Isso explica o porquê do interesse de Chavéz em honrar a morte do integrante das FARC e posicionar-se a favor da guerra. Para que se possa entender melhor a situação, apresenta-se uma contextualização sobre o fato. Richard Clutterbuck em seu livro, Guerrilheiros e Terroristas, define o que são guerrilheiros da seguinte maneira: [...] No século XIX, as guerrilhas eram apenas táticas auxiliares dos exércitos. [...] As guerrilhas exercem atualmente o poder que antes só era exercido pelos governos. Podem ser feitas por meia dúzia de homens e mulheres, algumas vezes com apoio tácitos de governos, mas, na maioria delas, agindo independentemente, ou apoiadas por um pequeno grupo. Diferem dos criminosos comuns apenas quanto aos objetivos, pois, enquanto estes últimos buscam proveito materiais, aqueles agem por motivos políticos os mais variados, que muitas vezes não passam de um disfarce para suas verdadeiras ambições ou satisfações pessoais. 1 As FARC, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, também são conhecidas como Exército do Povo, ou FARC – EP. Trata-se de uma facção que existe desde 1964, com o objetivo de disseminar o Socialismo na Colômbia através da luta armada. Seus integrantes habitam as regiões de selva e partes montanhosas da Colômbia. 1 CLUTTERBUCK, Richard. Guerrilheiros e Terroristas. 1º ed., Rio de Janeiro: Editora do Exército, 1977,p.15 2
  3. 3. Têm como líder Pedro Antônio Marin, mais conhecido como Manuel Marulanda, e também por tirofijo (tiro certo). Uma das suas principais fontes de renda é o tráfico de drogas, principalmente o de cocaína, sendo a Colômbia a maior produtora desse tipo de droga. O grupo também obtém recursos financeiros por meio de extorsões e seqüestros, cujas vítimas são acorrentadas, obrigadas a caminhar pela selva, sem alimento nem condições básicas de higiene, e com graves problemas de saúde. O caso mais conhecido de seqüestro das FARC é o de Ingrid Betancourt, ex – candidata a presidência da Colômbia em 2002. Seqüestrada há seis anos, atualmente está muito doente, mas a guerrilha insiste em não soltá-la, mesmo com tantos apelos do governo colombiano e até de governos internacionais. Por essas práticas, os Estados Unidos e a União Européia definem o grupo como terroristas. O presidente dos EUA George W. Bush apóia o atual presidente da Colômbia, Álvaro Uribe na forte opressão que ele faz contra os guerrilheiros. Quando Uribe assumiu em 2002, a guerrilha tomava conta do país, andando livremente pelas ruas, oprimindo cidadãos e realizando vários atentados. Motivado pela morte de seu pai que foi assassinado por guerrilheiros, Uribe dispôs-se a negociar com a facção, mas enquanto não houvesse acordo, a guerra contra eles estaria declarada. As FARC responderam com atentados no dia da posse do presidente, em conseqüência dos quais 21 pessoas foram mortas. A opressão empreendida por Uribe funcionou; hoje as tropas da organização se refugiam apenas nas partes de selva e regiões montanhosas do país. O principal apoio à facção vem do presidente da Venezuela Hugo Chavéz, que pede a todas as outras nações que aceitem as Forças Armadas como um grupo político legítimo e nega que eles sejam terroristas. Outro apoio vem também do presidente do Equador Rafael Correa, que apóia Chavéz em suas idéias graças a acordos econômicos entre os dois países. O apoio se explica pela proximidade de idéias entre os pensamentos de Chavéz e os da FARC. O presidente venezuelano sonha com a unificação da América Latina em um só bloco, seguindo o pensamento de seu herói Simon Bolívar, herói venezuelano de século XIX. Hugo Chavéz financia a facção com dinheiro público e permite que se escondam em 3
  4. 4. território venezuelano. Com as mortes dois dos principais diretores das FARC, Raúl Reyes, conhecido como número dois, e Ivan Rios, o número 3, suspeitam–se que TiroFijo, o chefe, esteja protegido em território venezuelano. O Brasil mantém-se neutro nessa história. No ataque aéreo da Colômbia sobre o acampamento das FARC em território equatoriano, o Brasil atuou como pacificador, sempre defendendo uma saída diplomática para a situação. Luís Inácio Lula da Silva, presidente do Brasil, não aceita a idéia de Chavéz de que as FARC sejam um grupo político, mas também não declara que são terroristas. Talvez isso se dê pelas participações dos guerrilheiros no Fórum de São Paulo, encontro bianual de partidos políticos e organizações sociais de esquerda e nacionalistas da América Latina e do Caribe. Nessas reuniões, das quais participam grupos de diversos países da América Latina, são discutidas questões relacionadas com o pensamento de esquerda e socialista. Algumas atitudes do governo brasileiro, como ser contra o Plano Colômbia, (projeto americano que pretender destinar dinheiro a Colômbia para combater o narcotráfico), ser contra a intervenção militar para a libertação de prisioneiros das FARC, e não classificá-las como terroristas, obscurecem a verdadeira posição do país. Além disso, há denúncias de que o Partido dos Trabalhadores (PT) recebeu em 2002 5 milhões das FARC para ajuda de custo nas campanhas eleitorais, o que é negado pelos integrantes do partido. O traficante Fernandinho Beira – Mar, que atualmente está preso, também é acusado de esquemas de narcotráfico com as FARC. Com mais de 18 mil membros, a maioria dos guerrilheiros da organização têm menos de 18 anos. Depois que são recrutados, não são mais tratados por seus nomes de batismo, mas sim por nomes de guerra. Uma curiosidade sobre esses guerrilheiros é que mesmo sendo responsáveis por narcotráfico, seus membros não são autorizados a usarem a droga. Atualmente há mais de 700 reféns em poder da guerrilha, sendo que 44 são presos políticos. Alguns deles são negociados em troca de membros presos. Com o cerco se fechado na Colômbia, alguns guerrilheiros fugiram para a Venezuela, onde são bem – vindos pelo governo, mas apavoram a população local. Prática 4
  5. 5. comum do grupo é a cobrança do que eles chamam de “vacina”, taxa exigida dos comerciantes para não serem incomodados pelos criminosos. Com tantos atos de crueldade, não resta dúvidas de que esse grupo não luta por uma causa favorável a população. Porém, devido aos contatos que mantém com pessoas influentes, suas ações acabam sempre escapando ao controle das autoridades. Quem paga por isso é a população. Desde o surgimento das FARC 450 mil colombianos morreram em atentados do grupo. 5
  6. 6. Justificativa As razões para a escolha do fato jornalístico “O ataque da Colômbia as Farc, Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, em território do Equador” relacionaram-se ao modo como a realização do Projeto Entrevê contribuiu para o nosso desenvolvimento profissional e com a importância deste acontecimento no contexto do universo jornalístico. Quanto ao lado do desenvolvimento profissional, um fato político dessa natureza nos proporcionou oportunidade de trabalhar com diferentes perspectivas relacionadas a ele, através das diferentes mídias que adotamos como fonte, e conseqüentemente as diferentes linguagens, abordagens e pontos de vista existentes em cada uma delas. Para isso nos pareceu eficiente escolher veículos que fossem diferenciados entre si, de modo a abranger o nosso campo de análise. Tivemos ainda a oportunidade e o desafio de realizar uma análise mais profunda de cada uma das noticias escolhidas. Ultrapassamos o plano da interpretação superficial que normalmente os veículos esperam de seus leitores. Buscamos nas entrelinhas o real significado de cada texto e até mesmo o posicionamento adotado por cada veículo. E, para esse fim, não bastaria ter como base somente os textos jornalísticos relacionados ao fato, ainda nos cabe levantar o contexto histórico no qual se insere o fato e também os outros tantos episódios que rodeiam as Farc, considerando que não se trata de um fenômeno recente, e que em 2008 está sendo apenas o seu ápice. Desenvolvemos nossas técnicas de pesquisa e de contatos com fontes uma vez que além do trabalho científico, produzimos também uma Revista e um programa de Rádio todo voltado ao nosso tema. Dessa forma nossas habilidades textuais, analíticas, técnicas e táticas em entrevista foram igualmente desenvolvidas e aprimoradas. De um modo geral, com a realização deste Projeto, aplicamos na prática os conceitos de todas as disciplinas aprendidos em sala de aula. No universo jornalístico, é importante tratar desse assunto, pois ele tem repercussão internacional, e ao mesmo tempo trata-se de algo muito próximo de nossa realidade, afinal o desenrolar dos fatos ocorrem no mesmo continente em que vivemos. A polêmica que existe em torno das Farc também reforça nossa escolha. Há os que afirmam essa organização é uma entidade política que luta pelo poder de forma 6
  7. 7. terrorista. Outros crêem tratar-se apenas de uma organização de narcotraficantes cuja forma de atuar se dá por meio de seqüestros e atentados. Uma possível guerra na América Latina que seria desencadeada por causa das Farc foi algo decisivo na escolha do fato. Afinal a explosão de uma guerra tão próxima de nosso país afetaria ainda mais a política e a sociedade brasileira. Isso porque na situação atual já estamos sendo afetados desde que começaram os conflitos. O período de cobertura jornalística escolhido é o do começo de março. Nessa época o fato esteve em profunda evidência devido a um ataque aéreo feito pela Colômbia a um acampamento das FARC no Equador, quando foi morto o número dois da facção, Raúl Reyes, o segundo na hierarquia de poder do grupo. O presidente do Equador Rafael Correa se sentiu ofendido com a invasão de território da Colômbia. Estabeleceu-se então um clima de guerra entre os países sul-americanos, que contou com o apoio do presidente da Venezuela Hugo Chavéz. Tropas do Equador marcharam para a fronteira com a Colômbia, enquanto países como o Brasil insistiam em um acordo de paz. Os veículos midiáticos têm como missão captar o que acontece, e informar a população de forma mais clara, objetiva e verídica possível. Por isso é preciso estudar as notícias sobre esse fato, assim como analisar a forma como são veiculadas na mídia, para saber se atualmente os assuntos relacionados com o tema estão sendo noticiados de forma esclarecedora, e que tipo de posição está sendo tomada pelos veículos que publicam essas informações: se positivas ou negativas e até que ponto se aprofundam no fato. Enfim, o fato se torna rico de assuntos a serem discutidos. Portanto sua grande repercussão na mídia e todos os outros motivos citados tornam o ataque as Farc fato privilegiado para trabalhar e desenvolver o Projeto Entrevê. 7
  8. 8. Objetivos Tivemos por objetivo estudar o modo como a imprensa cobriu o ataque do exército colombiano ao acampamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, durante a primeira semana de março de 2008, época na qual se deu a morte do número dois da organização, Raúl Reyes. Para tal, focamos na divulgação do fato a partir de quatro veículos midiáticos, sendo os jornais Folha de S. Paulo e Agora, as revistas Veja e Galileu e os portais de informação G1 (www.g1.globo.com) e Terra (www.terra.com.br). Realizamos nos textos publicados por esses veículos pesquisa à luz da metodologia da Análise de Discurso de linha francesa (AD), identificando o significado das matérias publicadas, podendo assim mergulhar na multidimensionalidade do fato escolhido. Mostramos, no desenrolar do Projeto Entrevê, de que forma o ataque da Colômbia ao acampamento das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia afeta o Brasil, tanto econômica como socialmente, além da comparação e distinção entre grupos revolucionários e terroristas. Com a leitura das notícias dos veículos adotados, levantamos dados essenciais para uma análise ideológica. Além disso, entrevistamos o repórter Jacques Gomes Filho, responsável pela matéria publicada em janeiro na Revista Fórum, edição 58, na qual pessoalmente entrevista o número dois da organização, Raúl Reyes. Através desta entrevista distinguimos melhor em que condições encontrava-se o número dois da facção, como se comportou e agiu durante o diálogo entre repórter e entrevistado. A epistemologia desenvolvida à frente do Projeto Entrevê revelou a que ponto as Forças Armadas Revolucionarias da Colômbia chegaram com seus diversos seqüestros, principalmente o de Ingrid Betancourt, ataques e guerras, mostrou pelo que os guerrilheiros realmente lutam, e acima de tudo, revelou como as Farc se mantém com a perda de um de seus líderes, proporcionando assim melhor definição sobre a facção. A partir dessas informações, tivemos condições de analisar o trabalho realizado pela mídia. 8
  9. 9. Metodologia 1.1 O fato No dia 1º de março, o número dois das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, Raúl Reyes, foi assassinado durante uma operação realizada pelo exército colombiano próxima do povoado de Teteyé, no departamento de Putumayo (sul), que faz fronteira com o Equador. O presidente do Equador Rafael Correa se sentiu ofendido com a invasão de território da Colômbia. Estabeleceu-se então um clima de guerra entre os países sul- americanos, que contou com o apoio do presidente da Venezuela Hugo Chavéz. Tropas do Equador marcharam para a fronteira com a Colômbia, enquanto países como o Brasil insistiam em um acordo de paz. 1.2 Os veículos midiáticos e seus porquês Para estudar o fato, o grupo Sociedade Alternativa escolheu os veículos impressos: Folha de S. Paulo, Jornal Agora, Revista Veja, Revista Galileu e os portais de notícias: Terra (www.terra.com.br) e G1 (www.g1.com.br). A escolha do jornal impresso Folha de S. Paulo, deve-se ao fato de ser a mídia impressa com maior circulação nacional, atingindo quatro mil leitores em todo Brasil, além de sua escrita ser mais informal. Já o uso do Jornal Agora, como fonte para nosso Projeto Entrevê, relaciona-se com a maneira de noticiar os fatos, por meio de uma linguagem popular. A revista semanal Veja foi a mais indicada, por tratar-se de um veículo bastante lido pelos brasileiros e também por toda a repercussão que a revista deu ao fato, já que em apenas uma edição publicou reportagem com várias retrancas. A revista mensal Galileu foi escolhida por ser uma mídia direcionada a um público mais seletivo, não mais culto do que outros, apenas mais informado politicamente. O portal do Terra é um site já tradicional no Brasil, bastante acessado e divulgado, por isso sua escolha. Já o portal de notícias G1 foi indicado por tratar-se de um novo veículo dentro da Internet, relacionado com a Rede Globo de Televisão. 9
  10. 10. 1.3 Analisando as Farc Com nosso processo de construção teórica, junto à leitura da bibliografia indicada como: Análise de Discurso, de Eni P. Orlandi, Rádio: 24 horas de Jornalismo, de Marcelo Parada, O Estilo Magazine: o texto em revista, de Sergio Vilas Boas, entre outros. Analisamos a facção e a morte do segundo na hierarquia do poder do grupo, à luz da Análise de Discurso Francesa, através do estudo das teorias de mapeamentos de vozes e identificação dos sentidos. Já que o jornalismo é um discurso dialógico, polifônico, opaco e, ao mesmo tempo, efeito e produtor de sentidos e elaborado segundo condições de produção e rotinas particulares2 . Fizemos então com que a metodologia aplicada seja condizente com a lógica da perspectiva teórica, interpondo assim à reflexão sobre Análise de Discurso, um ponto de vista teórico sobre jornalismo3 . A partir da Análise de Discurso Francesa, observamos se o jornalismo é hoje um dos eixos norteadores do consenso, além dos parâmetros sociais de normalidade e anormalidade; construindo assim sentidos sobre a realidade. Adentrando o estudo dos sentidos do discurso jornalístico presente nas mídias escolhidas, visualizamos a estrutura do texto, compreendendo a importância dada ao fato. Utilizando a teoria dos sentidos do texto, buscamos compreender a existência de uma exterioridade que não repercute apenas no texto, mas de fato o constitui não podendo dele ser apartada. Para tanto, demos o primeiro passo, que consiste em enxergar a existência, apenas operacional e pragmática de duas camadas: a primeira visível, a camada discursiva; e a segunda, evidente apenas quando aplicamos o método, a chamada camada ideológica. Com o uso do estudo das vozes, o segundo tipo de pesquisa pertinente a Análise de Discurso, mapeamos as vozes, que podem ser fontes, jornalista – indivíduos que assinam o texto, ou jornalistas – instituição, quando o texto não é assinado. 2 LAGO E BENETTI, Cláudia e Márcia. Metodologia de Pesquisa em Jornalismo. 1.ed., Rio de Janeiro: Vozes, 2007. p. 107. 3 Idem, ibidem. p. 109. 10
  11. 11. Assim, a análise das matérias sobre as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia compreende um fato considerável, com amostragens consideráveis de textos coletados no período definido, no qual a Análise de Discurso e a teoria dos estudos dos sentidos e das vozes tornaram-se aplicáveis ao campo teórico do Projeto Entrevê. 11
  12. 12. Fundamentação Teórica O presente trabalho fundamenta-se no livro Análise de Discurso, de Eni P. Orlandi, no qual são apresentados e explicados os princípios e procedimentos que foram adotados na análise dos textos jornalísticos escolhidos para estudo. Dessa forma, procuramos utilizar os conceitos referentes à análise de discurso e compreender de que modo a imprensa abordou o fato, ideologicamente e em termos de linguagem. O discurso, segundo Orlandi, “[...] é assim palavra em movimento, prática de linguagem: com o estudo do discurso observa-se o homem falando” 4 . Nesse trecho a autora do livro explica que o discurso não trata somente da língua ou da gramática, trata do uso que nós, seres humanos, fazemos dela para nos expressarmos. As atividades das Farc estão inseridas dentro do discurso político. Além disso, encontram-se associados ao universo do narcotráfico, das guerrilhas e do terrorismo. Mesmo contendo especificações, “O ataque da Colômbia às Farc, em território do Equador” de um modo geral é um fato extremamente denso para que possamos reuni-lo, por isso a análise de discurso que fizemos foi centrada nos textos jornalísticos referentes a ele e na contextualização que levantaremos em torno do fato. Orlandi diferencia a análise de discurso da análise do conteúdo, dizendo que esta última procura extrair sentidos do texto, enquanto a outra considera que a linguagem não é transparente e vê o texto tendo uma materialidade simbólica própria e significativa e uma espessura semântica, ou seja, não leva em consideração somente o texto analisado para compreender e identificar os significados presentes nele. São consideradas então as condições de produção de um determinado discurso que compreendem os sujeitos, a situação e a memória. Os sujeitos nada mais são do que os produtores desse discurso influenciados sempre pela exterioridade na sua relação com os sentidos. Situação trata-se do contexto, imediato ou amplo, levando sempre em consideração o momento histórico que se estava vivendo na época da produção. E a memória é o que sustenta os dizeres desse discurso, tudo que já se disse sobre o assunto tratado. “O fato de que há um já-dito que sustenta a possibilidade mesma do dizer, é 4 ORLANDI, Eni P. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. 7ª.ed., Campinas: Pontes, 2007, p. 15. 12
  13. 13. fundamental para se compreender o funcionamento do discurso e sua relação com os sujeitos e com a ideologia” 5 , afirma Orlandi. No livro de Eni P. Orlandi são explicados alguns recursos da análise de discurso utilizados para identificar as características ideológicas dos sujeitos. A primeira delas é o “esquecimento” que é explicado de duas formas: primeiro na ordem da enunciação ela diz que “[...] ao falarmos, o fazemos de uma maneira e não de outra, e, ao longo do nosso dizer, formam-se famílias parafrásticas que indicam que o dizer sempre podia ser outro” 6 , isso quer dizer que acabamos expressando a nossa impressão da realidade através da escolha que fazemos por determinadas palavras ou expressões. Já o esquecimento ideológico consiste na retomada de algo que já foi dito como se tivesse se originado no sujeito que o faz. Ele faz isso inconscientemente, pois mesmo antes de ele nascer esse discurso já estava em processo. Outro recurso explicado pela autora são a “paráfrase” e “polissemia”. Segundo ela, “essas são duas forças que trabalham continuamente o dizer, de tal modo que todo discurso se faz nessa tensão: entre o mesmo e o diferente” 7 . Paráfrase é aquilo que se mantém nos dizeres e Polissemia é a ruptura disso. Logo, temos que tanto as constantes quanto as contradições existentes nos dizeres de um mesmo discurso ajudam-nos a identificar muito da situação e da ideologia desses sujeitos, uma vez que sem essas transformações não haveria o movimento dos sentidos, nem a particularidade dos sujeitos. Orlandi completa o pensamento dizendo que nem os sujeitos, nem os sentidos, nem os discursos já estão prontos e acabados, estão sempre se fazendo, estão sempre em movimento na tensão entre paráfrase e polissemia. E essa incompletude é que condiciona a linguagem e cria os diferentes sentidos de um discurso. “Um dizer tem relação com outros dizeres realizados, imaginados ou possíveis” 8 , inicia Orlandi quando explica que, ao dizer, o sujeito se sustenta em outros dizeres e também visa seus efeitos sobre o interlocutor, sendo que esses efeitos variam quanto à relação de poder que o interlocutor tem com o sujeito. Isso porque o imaginário que um tem do outro interfere em como a mensagem será entendida, e em como o sujeito pensa 5 Idem, ibidem. p. 32. 6 ORLANDI, Eni P. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. 7ª.ed., Campinas: Pontes, 2007, p. 35 7 Idem, ibidem. p. 36. 8 Idem, ibidem. p. 39. 13
  14. 14. que ela será entendida. Por muitas vezes os sujeitos antecipam isso, imaginando qual será a imagem que causará nos interlocutores, buscando, através dessa antecipação, que sua imagem seja aquela que ele quer ter para os interlocutores. A autora demonstra mais adiante que uma “formação discursiva” é que determina o posicionamento ideológico de um discurso. “As palavras mudam de sentido segundo as posições daqueles que as empregam.” 9 , ou seja, a partir do momento em que relacionamos os diferentes sentidos que se pode ter de uma determinada palavra com o sujeito que a usa em seu dizer, isso nos permite compreender o processo de produção dos sentidos e sua relação com a ideologia, levando-nos cada vez mais próximos ao sujeito e a sua intenção ao dizer. A essa transferência de significação de uma palavra para outra, na análise de discurso, se dá o nome de “metáfora”. Ao afirmar que a presença da ideologia se dá através da interpretação dos sentidos a autora do livro demonstra que tanto os sentidos quanto os sujeitos de um discurso também dependem da ideologia que adotam, e ao mesmo tempo são constantemente influenciados pela linguagem, pela história em que se inserem. Orlandi ainda afirma que o gesto de interpretação se faz entre a memória institucional, que é aquilo que está incorporado ao sujeito desde sempre, e os efeitos da memória constitutiva, que é o dizível, o interpretável, o saber discursivo. Considerando as afirmações da autora pode-se perceber que o sentido que percebemos nos dizeres também estão sujeitos a deslocamentos, apesar de muitas vezes parecerem inalterados, pois somente com ideologia o indivíduo se torna sujeito com identidade. Ainda no mesmo capítulo, Orlandi expõem que a forma histórica de um sujeito assim como a ideologia da sociedade em que vive, pode alterar sua percepção sobre determinados discursos. Como por exemplo, no capitalismo, onde existem processos de individualização do sujeito pelo Estado, que o submete a um reflexo da realidade aparentemente livre e responsável, provocando o assujeitamento dos indivíduos. A autora também ressalta que “[...] é pela sua abertura que o processo de significação também está sujeito à determinação, à institucionalização, à estabilização e a cristalização” 10 , e 9 ORLANDI, Eni P. Análise de Discurso: princípios e procedimentos. 7ª.ed., Campinas: Pontes, 2007, p. 42 e 43 10 Idem, ibidem. p. 52. 14
  15. 15. que por isso temos que trabalhar continuamente a articulação entre estrutura e acontecimento. O capítulo seguinte trata de como o analista deve proceder, tendo em vista todos os conceitos levantados anteriormente. Como ele deve trabalhá-los, a ponto de, através deles, conseguir extrair de um determinado dizer os sentidos e ideologias do sujeito. Segundo a autora do livro “a Análise de Discurso não procura o sentido ‘verdadeiro’, mas o real do sentido em sua materialidade lingüística e histórica” 11 . A partir daí, Orlandi descreve como devem ser desenvolvidos os dispositivos para aprimorar a análise e reforça as bases que devem ser consideradas, que são as condições de produção em relação à memória, onde intervém a ideologia, o inconsciente, a falha, o equívoco. A seguir, o livro traz alguns métodos para ordenar o processo de análise de discurso e organizar as aplicações feitas no objeto de análise. O primeiro deles mostra que o primeiro passo para a análise é o levantamento dos elementos do contexto de produção como o papel social do produtor e interlocutor, lugar social, momento da produção. Feito isso, o próximo passo indicado pela autora é o trabalho com as paráfrases, polissemias, metáforas e a relação dizer/não dizer. Neste último, deve-se construir uma nova versão do objeto de análise, dizendo de outra forma o que é dito, isto para demonstrar que, ao contrario do que parece, o dizer pode sim ser dito de outro modo, sem alterar sua definição semântica, mas podendo alterar a forma como significa dentro do discurso. Após isso, é preciso identificar relações do discurso com formações discursivas que estejam agindo sobre ele, e assim relacioná-lo à ideologia do sujeito para, enfim, poder tirar conclusões a partir dos sentidos de discurso já realizados, imaginados ou possíveis. Tanto a fundamentação dos conceitos, quanto a orientação de como aplicá-los em um objeto de análise, feitos por Eni P. Orlandi em seu livro demonstram de forma clara os pontos que devem ser considerados na análise de discurso. Entendidos e desenvolvidos esses pontos, não só aprimoramos nosso estudo em relação aos textos jornalísticos abordados, como também estivemos cada vez mais familiarizadas com o modo como se dão as publicações de grandes acontecimentos nos veículos midiáticos de nosso país, e o modo como cada um dos veículos que estudamos se posiciona em relação a eles. 11 Idem, ibidem. p. 59. 15
  16. 16. Características do veículo revista Neste item apresentamos informações teóricas a respeito do produto revista, em geral, bem como do conteúdo e das especificações técnicas do produto a ser desenvolvido por nossa equipe. Apresentamos também as reflexões que foram passíveis de serem elaboradas durante o desenvolvimento nessa etapa de construção do projeto. As características de um texto jornalístico de revista são as mais simples possíveis. No veículo revista emprega-se as técnicas dos textos de jornais, como a técnica da pirâmide invertida, com rapidez e praticidade de informação, somadas às características de maior espaço e mais tempo de elaboração e transmissão de informações, frutos de longa dedicação e pesquisa em relação ao assunto que estiver sendo tratado na matéria. Os livros O estilo magazine, de Sergio Vilas Boas, e Jornalismo de revista, de Marília Scalzo, ajudam de forma extremamente importante, didática e simples a entender esse universo dos textos jornalísticos para revistas. A diferença entre o texto publicado em uma revista e o texto publicado em um jornal pode ser expressa, primeiramente, a partir de algo citado por Scalzo12 : a revista é uma mistura de jornalismo com entretenimento. A revista, diferente do jornal, não apresenta uma reportagem de forma básica e tão direta. Ela vem para desvendar tudo sobre o assunto, que ainda não foi explorado no espaço curto de uma notícia de jornal. No jornal ocorre a falta de tempo para uma explicação aprofundada e com mais entretenimento. No jornal, procuramos saber o que aconteceu da maneira mais rápida possível. A revista, por sua vez, tem tempo e espaço suficiente para explicar tudo o que tínhamos curiosidade de saber sobre o assunto durante toda a semana. Em um jornal, mas não conseguimos parar e prestar atenção. Geralmente o leitor de uma revista está com este veículo de comunicação nas mãos com um pouco mais de tempo e de paciência para ler sobre determinado assunto. Por esse motivo, espera-se encontrá-lo de forma mais calma e descontraída, e também entendê-lo melhor e com mais detalhes. Além disso, a revista tem um grau de intimidade com o leitor muito maior do que o jornal. Isto porque as revistas são dedicadas a um público específico, são criadas de modo a entender uma segmentação extremamente específica. 12 SCALZO, Marília. Jornalismo de revista. 3ª. ed., São Paulo: Contexto, 2006, p. 11. 16
  17. 17. Sendo assim, em um texto de revista, mesmo o texto mais sério sobre o assunto mais importante e grave, estará voltado para um leitor de um perfil previamente estudado e conhecido. O jornalista já sabe o tom que pode ser usado e que terá efeito nesse leitor, usando isto a seu favor. Scalzo13 diz que em uma revista podemos chamar o leitor de “você”, com a seguinte comparação: na televisão fala-se para um imenso estádio de futebol, onde não se distinguem rostos na multidão; no jornal, fala-se para um grande teatro, mas ainda não se consegue distinguir quem é quem na platéia; já em uma revista semanal de informação, o teatro é menor, a platéia é selecionada, tem-se uma idéia melhor do grupo, ainda que não se consiga identificar um por um. E é exatamente por esta certeza que temos de quem estará lendo e qual é a intenção do leitor ao ler uma revista específica que podemos usar este conhecimento com inteligência. Mas isto tudo não significa que o leitor de uma revista está ali disposto a ser enrolado, de certa forma, com explicações desnecessárias. Podemos ver textos de revistas enormes, cheios de palavras difíceis, redigidos de forma extremamente complicada e que não ajuda em nada o leitor. Nem sempre tanto texto e tanta explicação significam qualidade. Vilas Boas14 cita critérios que podem ser usados para se produzir um texto jornalístico de revista muito relevantes. Os principais pontos apontados pelo jornalista são: primeiramente, um caminho a ser seguido, um rumo para o texto. O texto deve ter um personagem, como uma narrativa que conta a história de alguém, e também deve ter ordem. Por fim, o jornalista deve saber a hora certa de dizer “tchau” ao leitor e terminar o seu texto, de forma que o leitor saiba entender bem o final e que fique entendido todo o conteúdo. Este critério citado por Vilas Boas serve para qualquer espécie de texto usado em uma revista: editorial, narrativo, informativo, opinativo, etc. O leitor deve se sentir à vontade ao mergulhar no texto e, ao mesmo tempo, compreender de forma intelectual o que esta sendo lido, já que todo texto tem a função de informar alguma coisa ao leitor e de acrescentar algo ao leitor. E não simplesmente saturá-lo com informações inválidas. 13 SCALZO, Marília. Jornalismo de revista. 3ª. ed., São Paulo: Contexto, 2006, p. 14 - 15. 14 VILAS BOAS, Sergio. O Estilo Magazine. 3ª. ed., São Paulo: Summus Editorial, 1996, p. 18 - 23. 17
  18. 18. Seguindo todas as pesquisas feitas e a leitura desses dois livros citados, pudemos planejar a criação da nossa revista. Ela terá inicialmente um editorial no qual explicaremos todo o conteúdo da publicação. Publicamos matérias e reportagens informativas sobre o nosso tema (FARC) e textos opinativos sobre o conteúdo do tema. Também incluímos neste projeto um comentário elaborado por um historiador disposto a participar da criação da revista e nos ajudar com seu conhecimento. Também incluímos em nosso veículo de comunicação uma crônica sobre o tema do nosso projeto. Em nosso projeto editorial gráfico adotamos uma diagramação que está em harmonia com o tema e os objetivos do veiculo desenvolvido. Quanto a tipologia, os textos apresentam-se em letra serifada que imprimem credibilidade e seriedade, já os títulos e subtítulos estão em letra bastão que adquirem uma melhor visualização em tamanhos maiores. Nos infográficos, como box explicativos, utilizamos negrito para destacar as legendas e Itálico para das ênfase a essa parte. Os princípios do Design alinhamento, repetição, proximidade e contraste também foram adotados nas páginas de nossa publicação para formar um padrão e ao mesmo tempo não causar monotonia a leitura. As cores que utilizamos em títulos e quadros foram o azul, vermelho e amarelo por serem as cores da bandeira da Colômbia e das Farc, e também utilizamos o verde por ter relação com o camuflado do uniforme dos guerrilheiros e com a mata onde se localizam os acampamentos da guerrilha. De um modo geral nosso discurso gráfico é harmonioso, buscando conferir mais leveza já que o assunto abordado trata-se de um tema denso e complexo. Acreditamos que chegamos o mais próximo possível de uma revista explicativa sobre o tema, que é tão importante e que desperta tanta curiosidade em todos. Fizemos isso não só de forma informativa, mas também utilizando meios que prendam a atenção do leitor e o faça ter mais curiosidade e prazer em sua leitura a cada página. Na reportagem central fizemos uma análise de como os principais veículos pesquisados abordaram o assunto. 18
  19. 19. Características do veículo rádio Tendo como objetivo a elaboração de um programa de rádio, apresentamos as informações teóricas, obtidas a partir da leitura do livro Rádio: 24 horas de Jornalismo de Marcelo Parada. No começo o autor cita algumas definições de notícia, como a de Charles Dana: “Se um cachorro morde o homem, não é notícia; se o homem morde o cachorro, é notícia”15 , e também a de Freda Morris: “Notícia é o imediato, o importante, uma coisa que tem impacto nas nossas vidas”16 . Parada explica que as notícias no rádio são principalmente os fatos que acontecem próximos aos ouvintes, que interessa à população em geral e que causa comoção ou interesse, como histórias trágicas, e também que tragam alguma forma de entretenimento. Para o autor, o rádio é veículo que joga sempre no “ataque”, e deve ser sempre o primeiro a levantar a bandeira de uma questão, fazer denúncias. O grande êxito desse veículo está em sua agilidade e dinamismo. Se acontecer um acidente, o repórter de rádio pode ainda no caminho ligar para autoridades, para saber qual é a situação, ou ainda os seus próprios ouvintes podem trazer essas informações, por ser o rádio o veículo que mais permite a interatividade. Parada afirma que o profissional de rádio tem que estar atento a tudo o que acontece o seu dia- a –dia, desprendendo - se algumas vezes do seu olhar profissional, e passando a ter um olhar de pessoa comum para conseguir encontrar bons temas de reportagens, aquelas que serão diferentes com relação ao conteúdo da concorrente. O autor diz o seguinte em seu livro: [...] O fundamental é ter o compromisso de levar ao conhecimento da Redação aquilo se vê na rua, no trajeto para a empresa, na conversa com alguém da família, na observação da televisão, de tudo o que faz a vida na escola, na comunidade, no cinema, no teatro, no shopping center, na igreja, onde quer que seja. Trata-se aqui de uma notícia imediata, um grave acidente de carro ou assalto, por exemplo, ou um fato percebido na cidade, como ruas esburacadas, falta de água, 15 PARADA, Marcelo; Rádio: 24 horas de Jornalismo. 3º ed., São Paulo, SP: Panda, 2000, p.23 16 Idem, ibidem. p.32. 19
  20. 20. novas gírias de adolescentes, tendências de comportamento – tudo enfim, capaz de ser objeto de uma reportagem.17 A linguagem de rádio deve ser a mais clara, objetiva e dinâmica possível. Considerando que a pessoa que está ouvindo, possivelmente, estará realizando outra atividade, se houver no texto um conteúdo difícil de ser compreendido, que obrigue o ouvinte parar e pensar, ele perderá as outras notícias. Parada lembra que, se na TV, tem-se como recurso a imagem e, na mídia impressa as fotos, o que o rádio tem para prender a atenção do ouvinte são os sons. Por exemplo, não basta dizer que a torcida gritou entusiasmada com o gol da vitória. Se houver o som da torcida gritando, o ouvinte poderá, além de imaginar, sentir como foi a emoção do momento, o que também torna a narrativa mais dinâmica. Em relação a esse tema, autor explica o seguinte em sua obra: [...] Não se trata aqui do som da voz do apresentador ou do repórter. Mas da música, do ambiente, dos gritos, das sirenes, do bate-boca, do choro, enfim, de tudo o que cerca uma situação que não deve simplesmente ser relatada por meio de um texto ou de uma entrevista.18 Outros recursos de som são as sonoras, pequenas citações de uma pessoa utilizadas para ilustrar e exemplificar o conteúdo das matérias. Um dos recursos de textos mais utilizados são os manchetados, que constitui-se de frases de, no máximo, três linhas por meio dos quais se vai direto ao tema, revelando as informações mais importantes. Um outro ponto que o autor destaca para dar credibilidade ao rádio é a Padronização. Quando um nome diferente é lido de diversas formas no ar, passa impressão ao ouvinte que a rádio desconhece a forma correta de pronúncia, ou que não procurou se informar da forma certa. Manter certa padronização da linguagem utilizada e até mesmo do tempo de duração de boletins informativos mostram organização da equipe e causam identificação do ouvinte com a rádio. Parada também ressalta que se deve prestar atenção para que as pautas dos programas de rádio não se limitem apenas a retratar os acontecimentos do dia-a-dia. Elas devem trazer sempre assuntos novos, e mudar a forma da linguagem de textos e locuções 17 Idem, ibidem. p.30. 18 Parada, Marcelo; Rádio: 24 horas de Jornalismo.3º ed., São Paulo: Panda,2000,p.31,32 20
  21. 21. para não cair na rotina. Os radialistas devem saber o que o ouvinte quer saber e como ele deve saber. Pelo fato de o rádio ter conseguido uma mobilidade que os outros veículos não possuem, os ouvintes podem ouvi-lo no carro, no rádio de pilha, ou enquanto trabalham. Parada cita em seu livro o seguinte: “Por motivos óbvios, o rádio é o único veículo que consegue ‘conversar’ com o motorista. Pode tirá-lo de um congestionamento, sugerir vias alternativas, informar sobre acidentes”19 . Alguns itens que são de extrema importância no dia-a-dia são indispensáveis na programação, como falar a hora certa de tempos em tempos, informar a previsão do tempo,e sobre a situação do trânsito. Divulgar boletins das principais vias, sugerir saídas alternativas, e divulgar quais são os principais pontos de congestionamento, em que altura de determinadas avenidas ou ruas eles se encontram e falar quantos quilômetros de congestionamento existe até o momento são algumas das principais funções das rádios. Como já foi dito, por ser o único veículo que pode “conversar” com o seu público, a rádio ainda pode obter informações valiosas de pessoas que estão no local e vivem a situação. Assim pode-se descobrir causas de acidentes, quais são as providências das autoridades que estão no local antes mesmo de qualquer pronunciamento delas. Outro ponto forte dessa troca de informações com os ouvintes é saber o que os incomoda na sua cidade: buracos nas ruas, falta de sinalização nas estradas, escolas abandonadas, o que podem render boas pautas e até virar campanhas que mobilizam a sociedade, como, por exemplo, um ouvinte que liga reclamando de entulhos em uma determinada rua. Faz-se uma reportagem sobre a denúncia, e detecta-se que aquele não é o único lugar que sofre com esse problema. Portanto, a rádio cria uma campanha para conscientizar as pessoas a não jogarem lixo nas ruas, e, ao mesmo tempo, cobra das autoridades que se faça algo a respeito dos entulhos. Para explica as campanhas de rádio da seguinte forma em seu texto: [...] De fato, as grandes cidades afastam os moradores, a vida atribulada impede que sentimentos de solidariedade possam ser manifestados. As campanhas das rádios acabam preenchendo este espaço, devolvendo ao cidadão a chance de participar de algo construtivo, seja por meio de idéias, doações, cartas para parlamentares etc..20 19 Parada,Marcelo; Rádio: 24 horas de Jornalismo.3º ed., São Paulo: Panda, 2000, p.103,104 20 Idem, ibidem. p.119 21
  22. 22. O rádio hoje permite a população ter notícias com uma linguagem que é própria do rádio, dinâmica, clara e objetiva e com assuntos que são de importância para quem escuta, pois fala de seu país, da sua cidade, do seu bairro, da sua família e do seu ambiente de trabalho, levantando questões, apontando soluções, e ate mesmo divertindo as pessoas. Com base nas pesquisas realizadas sobre o fato (FARC – Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), e com a teoria que se obteve com a leitura do livro, realizamos nosso programa de rádio, no formato documentário, para contextualizar o ataque do exército colombiano ao acampamento das FARC no Equador, e mostrar suas possíveis conseqüências, até mesmo no cotidiano da população. Documentário radiofônico é o gênero que aborda um determinado tema em profundidade, que reconstitui ou analisa um fato importante baseados em pesquisas de dados ou arquivos sonoros. É pouco freqüente no Brasil, e pode também ter recursos de sonoplastia e a elaboração de um roteiro prévio. 22
  23. 23. Considerações Finais O objetivo deste trabalho foi analisar com o auxílio dos conceitos da Análise de Discurso como o fato do ataque das tropas colombianas ao acampamento das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) em território equatoriano repercutiu na mídia. O acontecimento resultou na morte do número 2 da organização, Raúl Reyes, e criou entre os países da América Latina um clima tenso de ameaça de guerra. O fato fez com que a população olhasse mais atentamente para essa facção que sempre causou polêmica, porém nunca foi retratada na mídia com tanta repercussão. Os casos de seqüestros, torturas e extorsões fizeram com que o grupo fosse reconhecido como terrorista por alguns países, como os Estados Unidos. Por outro lado, outros países, incluindo o Brasil, reconhecem a guerrilha como um grupo político legítimo, pela sua luta para união dos países sul-americanos em uma só nação. Esse atentando trouxe à tona as reais conseqüências dos atos desse grupo. Graças à política adotada pela Colômbia, de reconhecer o grupo como terroristas e combater suas ações, o presidente Álvaro Uribe obteve apoio de outros países que também eram contra o grupo, como os Estados Unidos e países da União Européia. Por outro lado, a facção obtém apoio de países que aceitam suas causas, como Venezuela e Equador. Documentos encontrados no computador portátil do número 2 da facção provam que o presidente venezuelano, Hugo Chavéz, recebia e também entregava dinheiro à facção, além de dar resguardo a eles em suas terras. Analisando essa situação política, se realmente estourasse uma guerra entre Colômbia e Equador, não seria de pequenas proporções. De cada lado haveria ideais políticos diferentes, impulsionado por nações que possuem grande arsenal de guerra, e que já possuem certa rivalidade antiga. Essas alianças políticas, feitas em função do posicionamento de cada país em relação às Farc, nos permitiu imaginar outra forma de reconhecer as nações; se são estas contra o terrorismo, ou se são nações de abordagem de esquerda, que não acreditam na democracia, e preferem usar a luta armada para que seus ideais sejam considerados. 23
  24. 24. Outro fato que chama atenção é que as Farc dominam o tráfico de entorpecentes, principalmente o de cocaína, na Colômbia, exportando a droga para vários países, e fazendo ligações com outras facções criminosas. Especula-se que as armas usadas pelo PCC, no ataque que parou São Paulo em 2006, foram fornecidas pelas Farc, e também do envolvimento do traficante Fernandinho Beira-Mar com a facção, assim como também as suspeitas de que alguns guerrilheiros se escondem na Reserva Raposa Serra do Sol, no estado de Roraima, onde o exército brasileiro não tem total controle da fronteira. Ou seja, além de interferir nas políticas internacionais do nosso país, as Farc interferem no nosso dia-a-dia. Na violência da nossa cidade, das drogas que chegam até as escolas e em mais uma infinidade de conseqüências. Mas será que ninguém se pergunta por que tudo isso acontece e nenhuma providência é tomada? Talvez nenhuma providência enérgica tenha sido tomada, pelas ligações do atual governo brasileiro com as Farc. É que ambos pertencem ao Foro de São Paulo, organização que defende os ideais de esquerda dos países da América do Sul e do Caribe. E também porque há suspeitas de que a facção forneceu dinheiro para o financiamento da campanha política dos integrantes do PT (Partido Trabalhista), em 2002. Vale lembrar que, mais recentemente, o governo brasileiro reconheceu as Farc como grupo político legítimo. São por esses motivos que as Farc interferem em nossas vidas diretamente, ou indiretamente. Em uma análise preliminar, acreditamos que o tratamento dado pela imprensa ao fato que se constitui como objeto de estudo do nosso trabalho não é totalmente adequado, pois, quando houve o ataque ao acampamento das Farc no Equador, criou-se muita polêmica, muita expectativa em torno daquilo que poderia ser uma guerra, porém as reais conseqüências, o problema maior, não foram expostas. A maioria da população desconhece a existência do grupo, ou apenas ouviu falar, e nunca parou para pensar em como as Farc podem ser nocivas para todos. Estudando a cobertura da imprensa por um determinado período pudemos analisar quais são as abordagens que a imprensa utilizou para falar sobre o assunto, e se as informações dadas foram suficientes para esclarecer as questões sobre o tema. 24
  25. 25. Estudar sobre as Farc foi mais do que realizar uma simples pesquisa acadêmica, foi obter informações e conhecimentos sobre o que realmente acontece em nosso país, saber como a mídia trata de fatos tão relevantes em nossas vidas. 25
  26. 26. Sumário 26

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