Jose Lins do Rego MENINO DE ENGENHO

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Jose Lins do Rego MENINO DE ENGENHO

  1. 1. MENINO DE ENGENHO José Lins do Rego Verbo Digitalização e Arranjo Agostinho Costa
  2. 2. JOSÉ LINS DO REGO Cavalcanti nasceu em Pilar, na Paraíba, em 1901, emorreu no Rio de Janeiro, em 1957. Dos dois tipos dominantes no modernoronance brasileiro - o romance regional e provinciano, e o romanceurbano, de ambiente burguês ou operário -, é no primeiro que Lins do Regose integra juntamente com Jorge Amado, Graciliano Ramos, Raquel deQueirós e o Erico Veríssimo de O Tempo e o Vento, entre os principais),como um notável representante do romance do Nordeste. Com a sua primeiraobra, Menino de Engenho (1932), inicia o Ciclo da Cana-de-Açúcar, depoiscompletado por Doidinho (1933), Banguê (1934), Moleque Ricardo (1935) eUsina (1936).Nesta extensa série é retratada a evolução de um Nordeste sujeito aprofundas transformações económicas e sociais, um Nordeste semifeudal,cuja sociedade se vai desmoronando com o advento da máquina e de uma novaconcepção do trabalho.Através do clima de determinismos que preside aos acontecimentos, oespírito revolucionário e político do escritor emana espontaneamente dodrama que relata, sem se valer de qualquer proselitismo político, sem sedeixar arrastar por qualquer demagogia intransigente: Lins do Rego traçacom igual firmeza e imparcialidade o menino de engenho, os moleques dopastoreio ou o próspero usineiro. Concluído o ciclo, seguem-se váriosromances rurais, mas sem a mesma intenção:Pureza (1931), onde passa dos campos de monocultura, dos sertões batidospelas secas, para o interior das florestas; Pedra Bonita (1938), que édas suas obras tecnicamente mais perfeitas;Riacho Doce (1939); Água-Mãe (1941) e Fogo Morto (1943), considerado oseu melhor romance.Eurídice (1947) tem por cenário o Rio de janeiro; com Cangaceiros (1953),o romancista volta ao interior e à literatura regional. Para além da suaobra romanesca, José Lins do Rego trabalhou no Rio como cronista emdiversos jornais, tendo igualmente publicado vários livros de crónica eensaio: Gordos e Magros (1942), Poesia e Vida (1945), Homens, Seres ecoisas (1952), A Casa e o Horaem (1954), Presença do Nordeste naLiteratura Brasileira (1957) e O Vulcão e a Fonte (obra póstuma, 1958).Membro da Academia Brasileira de Letras, Lins do Rego tem muitas das suasobras traduzidas e é um dos grandes nomes da literatura de línguaportuguesa.
  3. 3. Menino de Engenho(C) Livros do Brasil e Editorial Verbo. Composto e impresso por Gris, Impressores 1971 Lisboa Jorge de Lima Gilberto Freyre Olívio Montenegro
  4. 4. Eu tinha uns quatro anos no dia em que minha mãe morreu.Dormia no meu quarto, quando pela manhã acordei com um enormebarulho na casa toda. Eram gritos e gente correndo para todosos cantos. O quarto de dornir de meu pai estava cheio depessoas que eu não conhecia. Corri para lá e vi minha mãeestendida no chão e meu pai caído em cima dela como um louco.A gente toda que estava ali olhava para o quadro como seestivesse a assistir a um espectáculo. Vi então que minha mãeestava toda banhada em sangue, e corri para beijá-la, quandome pegaram pelo braço com força. Chorei, fiz o possível paralivrar-me. Mas não me deixaram fazer nada. Um homem que chegoucom uns soldados mandou então que todos saíssem, que só podiaficar ali a Polícia e mais ninguém. Levaram-me para o fundoda casa, onde os comentários sobre o facto eram os maisvariados. O criado, pálido, contava que ainda dormia quandoouvira uns tiros no primeiro andar. E, correndo para cima,vira o meu pai ainda com o revólver na mão e a minha mãeensanguentada. "O doutor matou a Dona Clarisse! Porquê?"Ninguém sabia compreender. O que eu sentia era uma vontadedesesperada de ir para junto de meus pais, de abraçar e beijarminha mãe. Mas a porta do quarto estava fechada, e o homemsisudo que entrara não permitia que ninguém se aproximassedali. O criado e a ama, diziam, estavam lá dentro eminterrogatório. O que se passou depois não me ficou bem namemória. À tarde o criado leu para a gente da cozinha os jornais comos retratos grandes de minha mãe e de meu pai. Ouvi como seaquilo fosse uma história de Trancoso. Pareciam-me tão longe,já, os factos da manhã, que aquela narrativa me interessavacomo se não fossem os meus pais os protagonistas. Mas logo que vi na página de um dos jornais a minha mãe,estendida, com os cabelos soltos e a boca aberta, caí numchoro convulso. Levaram-me então para a praça que ficava pertode minha casa. Lá estavam outros meninos do meu tamanho e eubrinquei com eles a tarde toda. As criadas é que conversavammuito sobre o meu pai e a minha mãe, contando umas às outrascoisas a que eu não prestava atenção, pois no que eu cuidavaera nos meus brinquedos com os amigos. Na hora de dormir foi que senti de verdade a ausência damãe. A casa vazia e o quarto dela fechado. Um soldado tomandoconta de tudo. As criadas da vizinhança queriam vir conversarpor ali. O soldado não consentia. Deitaram-me a dormir,sozinho. E o sono demorou a chegar. Fechava os olhos, masfaltava-me qualquer coisa. Pela minha cabeça passavam, àspressas e truncados, os sucessos do dia. Então começava achorar baixinho para o travesseiro, um choro abafado, de quemtivesse medo de chorar. Ainda me lembro de meu pai. Era um homem alto e bonito, comuns olhos grandes e um bigode preto. Sempre que estava comigo,era a beijar-me, a contar-me histórias, a fazer-me asvontades. Tudo dele era para mim. Eu mexia nos seus livros,sujava as suas roupas, e meu pai não se importava. Às vezes,porém, ele entrava em casa calado. Sentava-se numa cadeira oupasseava pelo corredor com as mãos atrás das costas, ediscutia muito com minha mãe. Gritava, dizia tanta coisa,ficava com uma cara de raiva que me fazia medo. E minha mãe iapara o quarto aos soluços. Eu não sabia compreender o porquê
  5. 5. de toda aquela discussão. Sei que, daí a pouco, lá estava elecom a minha mãe aos beijos. E o resto da noite, até me irdeitar, era só com ela que ele estava, com os olhos vermelhosde ter chorado também. Eu amava-o, porque o que eu queriafazer ele o consentia, e brincava comigo no chão como ummenino da minha idade. Depois é que vim a saber muita coisa aseu respeito: que era um temperamento de excitado, um nervoso,para quem a vida só tivera o seu lado amargo. A sua história,que mais tarde conheci, era a de um arrebatado pelas paixões,a de um coração sensível de mais às suas mágoas. Coitado demeu pai! Parece que o vejo quando saiu de casa com ossoldados, no dia do seu crime. Que ar de desespero ele levavano rosto de moço! E o abraço doloroso que me deu nessaocasião! Vim a compreender, por aquele tempo, por que razão se deixaralevar ao desespero. O amor que tinhapela esposa era o amor de um louco. O seu lugar não era nopresídio para onde o levaram. O meu pobre pai, dez anosdepois, morria na casa de saúde, liquidado por paralisiageral. Todos os retratos que tenho de minha mãe não me dão nunca averdadeira fisionomia que eu guardo dela - a doce fisionomiadaquele rosto, daquela melancólica beleza do seu olhar. Elapassava o dia inteiro comigo. Era pequena e tinha os cabelospretos. Junto dela eu não sentia necessidade dos meusbrinquedos. Dona Clarisse, como lhe chamavam os criados,parecia mesmo uma figura de estampa. Falava para todos com umtom de voz de quem pedisse um favor, mansa e terna como umamenina de internato. Criara-se num colégio de freiras, semmãe, pois o pai ficara viúvo quando ela ainda não falava.Filha de senhor de engenho, parecia mais, pelo que me contavamdos seus modos, uma dama nascida para a reclusão. À noite ela fazia-me dormir. Adormecer nos seus braços,ouvindo a surdina daquela voz, era o meu requinte de sibaritapequeno. Ela enchia-me de carícias. E quando o meu paichegava, nas suas crises, exasperado como um pé-de-vento, euvia-a chorar e pronta a esquecer todas as intemperançasverbais do seu marido. Os criados amavam-na. Ela também os tratava com uma bondadeque não conhecia mau humor. Horas inteiras eu fico a pintaro retrato dessa mãe angélica, com as cores que tiro daimaginação, e vejo-a assim, ainda tomando conta de mim,dando-me banhos e vestindo-me. A minha memória ainda guardadetalhes bem vivos que o tempo não conseguiu destruir. O seu destino fora cruel: morrer como morreu, vítima deexcesso de cólera do homem que tanto amara; e depois, cheia depudor e de recato, a encher as folhas de sensação, com o seuretrato, com histórias mentirosas da sua vida íntima. A morte de minha mãe encheu-me a vida inteira de umamelancolia desesperada. Porque teria sido com ela tão injustoo destino, injusto com uma criatura em que tudo era tão puro?Esta força arbitrária do destino ia fazer de mim um meninomeio céptico, meio atormentado de visões ruins. Três dias depois da tragédia levaram-me para o engenho demeu avô materno. Eu ia ficar ali a morar com ele. Um mundonovo se abria para mim. Lembro-me da viagem de comboio e deuns homens que iam connosco no mesmo carro. O tio Juca, quefora buscar-me, contava a história, afirmando que o meu pai
  6. 6. estava doido. Todos olhavam para mim com um grande pesar. - Eu avalio como deve estar o coronel Cazuza - dizia umdeles. - Naquela idade, a sofrer destas coisas! Compreendi que falavam do meu avô, - Um homem de bem comoele e tão infeliz com a família! O meu tio Juca ficava calado. E a conversa mudava para oInverno que corria bem, para os partidos de cana. E, depois,para a política. O comboio era para mim uma novidade. Eu ficava à janelinhado vagão a olhar os matos correndo, os postes do telégrafo, eos fios baixando e subindo. Quando chegava a uma estação,ainda mais se aguçava a minha curiosidade. Passavam meninoscom roletes de cana e bolos de goma, e gente apressada a dar ea receber recados. E uma porção de pobres a receber esmolas.Uma mulher chegou-se para mim, e toda cheia de brandura: - Que menino bonitinho! Onde está a sua mãe, meu filho? Tive medo da velha. E a saudade de minha mãe fez-me chorar.A pobre afastou-se, espantada, dizendo para os outros que játinha estranhado. O meu tio levou-me a beber qualquer coisa. E a viagemcontinuou a divertir-me como dantes. - Agora vamos apear-nos - disse-me ele. E na primeira paragem deixámos o comboio, com grande penapara mim. Na estação estava um pretinho com um cavalo,trazendo umas esporas, um chicote e um pano branco.Meu tio estendeu o pano branco na anca do animal, montou, e opretinho atirou-me para a garupa. Era o meu primeiro treino deequitação. - O engenho fica ali perto. Eu ia reparando em tudo, achando tudo novo e bonito. A estação ficava perto de um açude coberto de uma camada deverdura. Os matos estavam todos verdes e o caminho cheio delama, e havie poças de água. Pela estrada estreita, por ondenós íamos, de vez em quando atravessava um boi. Meu tiodizia-me que tudo aquilo era do meu avô. E um pouco adiante,avistava-se uma casa branca e um bueiro grande. - É ali o engenho, mas nós temos que andar um bocado. A minha mãe falava-me sempre do engenho como de um bem docéu. E uma negra que ela trouxera para criada sabia tantashistórias de lá, das moagens, dos banhos de rio, das frutas edos brinquedos, que me acostumei a imaginar o engenho comoqualquer coisa de um conto de fadas, de um reino fabuloso. Quando cheguei, com o meu tio Juca, ao pátio da casa, oalpendre estava cheio de gente. Apeámo-nos e uma mulher muitoparecida com a minha mãe logo me abraçou e beijou. Sentadonuma cadeira, perto de um banco, estava um velho a quem melevaram para receber a bênção. Era o meu avô. Uma porção demoleques olhavam-me admirados. E andei de mão em mão, olhado eexaminado da cabeça aos pés. Levaram-me para a cozinha. Asnegras queriam ver o filho de Clarisse. Foi uma festa na casa. - Vai mostrar o menino à tia Galdina! E conduziram-me para um quarto na dependência dacasa-grande. Era um quartinho escuro, com cheiro a coisaabafada. Lá dentro estava uma negra velha deitada. - Tia Galdina, olhe aqui o menino de Dona Clarisse. Chegoucom o doutor Juca, de Recife. A velha chamou-me para junto da cama, olhou-me de pertinho
  7. 7. como um míope que quisesse ler com atenção, e caiu num choroangustiado. - É a cara da mãe, meu Deus! Saí chorando do quarto da velha. A moça que se parecia com aminha mãe, e que era a sua irmã mais nova, levou-me para mudarde roupa. - Agora vou ser a tua mãe. Você vai gostar de mim. Vamos,não chore. Seja homem. E abraçou-me e beijou-me, com uma ternura que me fez lembraros beijos e os abraços de minha mãe. Da minha maleta tirou umpijama e vestiu-mo, penteou-me os cabelos desgrenhados. - Vá brincar com os moleques no copiá. Os moleques estavam à minha espera, mas não se aproximavamde mim. Desconfiados, eles olhavam para o meu pijama, para osmeus alamares, encantados, talvez, com a minha pompa. Porém,aos poucos, foram-se chegando, e pela tarde já estavam naintimidade. E fomos à horta para apanhar goiabas e jambos. Oque chamavam de horta era um grande pomar. Muito da minhainfância eu iria viver por ali, por debaixo daquelaslaranjeiras e jaqueiras gordonas. O meu sono dessa noite foi curto. De manhã levaram-me paratomar leite ao pé da vaca. Era um leite de espuma, ainda mornoda quentura materna. O meu avô andava vestido com um grande egrosso sobretudo de lã, falando com uns, dando ordens aoutros. Uma névoa como fumaça cobria os matos que ficavam nosaltos. Os moleques das minhas brincadeiras da tarde estavamtodos ocupados, uns levando latas de leite, outros metidos com ospastores no curral. Tudo aquilo para mimera uma delícia - o gado, o leite de espuma morna, o frio dascinco horas da manhã, a figura alta e solene de meu avô. Tio Juca levou-me a tomar banho no rio. Com uma toalha nobraço e um copo grande na mão, chamou-me para o banho. - Você precisa de se tornar matuto. Descèmos uma ladeira para o Paraíba, que corria num fino fiode água pelo areal branco e extenso. - Vamos para o Poço das Pedras. Pouco mais adiante, debaixo de um marizeiro, de copaarrastando no chão, lá estava uma destas piscinas que o cursoe a correnteza do rio cavava nas suas margens. E foi aí, comtio Juca, que bebeu, antes do seu banho, um copo cheio deremédio para o sangue, que tinha ficado ao relento, que entreiem relação íntima com o engenho de meu avô. A água fria dorio, àquela hora, deixou-me o corpo a tremer. Meu tio entãocomeçou a atirar-me para o fundo, ensinando-me a nadar.Daquele banho ainda hoje guardo uma lembrança à flor da pele.De facto, para mim, que me criara nos banhos de chuveiro,aquela piscina cercada de mata verde, sombreada por umavedação ramalhuda, só poderia ser uma coisa do outro mundo. Noregresso, o tio Juca dizia, rindo-se: - Agora você já está baptizado. Quando chegámos a casa o café estava pronto. Na grande salade jantar estendia-se uma mesa comprida com muita gentepreparada para a refeição. O meu avô ficava do lado direito ea minha tia Maria na cabeceira. Tudo o que era para se comerestava à vista: cuscuz, milho cozido, angu, macacheira,requeijão. Não era, porém, somente a gente da família que alise via. os homens, de aspecto humilde, ficavam na outra
  8. 8. extremidade, comendo, calados. Depois seriam eles os meus bonsamigos. Eram os oficiais carpinas e pedreiros, que também seserviam como o senhor de engenho, nessa boa e humanacamaradagem do repasto. Eu tinha sido criado num primeiro andar. Todo o meuconhecimento do campo fizera-o nuns passeios de eléctrico aDois-Irmãos. E era com olhos de deslumbrado que olhava entãoaqueles sítios, aquelas mangueiras e os meninos que viabrincando por ali. As divergências de meu pai com meu avônunca permitiram à minha mãe fazer uma temporada no engenho.Minha imaginação vivia assim a criar esse mundo maravilhosoque eu não conhecia. Sempre que perguntava a minha mãe porquenão me levava para o engenho, ela desculpava-se com o empregode meu pai. Daí a impressão extraordinária que me iam causandoos mais insignificantes aspectos de tudo o que via. Depois do café mandaram-me para o engenho, que ficava nosfins da moagem. Eram uns restos de cana que aproveitavam. - Quase que você não encontra o engenho trabalhando -disse-me o tio Juca. Ficava a fábrica bem perto da casa-grande. Um enormeedifício de telhado baixo, com quatro biqueiras e um bueirobranco, a boca cortada em diagonal. Não sei porque os meninosgostam tanto das máquinas. Minha atenção inteira foi para omecanismo do engenho. Não reparei em mais nada. Voltei-meinteiro para a máquina, para as duas bolas giratórias doregulador. Depois comecei a ver os piradeiros atulhados defeices de cana, o pessoal da casa das caldeiras. Tio Jucacomeçou a mostrar-me como se fazia o açúcar. Mestre Cândidocom uma cuia de água de cal que ia deitando nas tachas e as achas aferver, o cocho com o caldo frio e uma fumaçacheirosa a entrar pela boca da gente. - É aqui onde se cozinha o açúcar. Vamos agora para a casade purgar. Dois homens levavam caçambas com mel batido para as formasestendidas em andaimes com furos. Ali mandava o purgador, umpreto, com as mãos metidas na lama suja que cobria a boca dasformas. Meu tio explicava como aquele barro preto fazia oaçúcar branco. E os tanques de mel de furo, com saposressequidos por cima de uma borra amarela, deixaram-me umaimpressão de nojo. Andámos depois pela boca da fornalha, pela bagaceira cobertade um bagaço ainda húmido. Mas o que mais me interessava aliera o maquinismo, o movimemto ronceiro da roda grande e aagitação febril das duas bolas do regulador. Quando vieram chamar-me para o almoço, ainda me encontraramencantado diante da roda preguiçosa, que mal se arrastava, edas duas bolas alvoroçadas, que não queriam parar. Com uns dias mais, eu já estava senhor da minha vida nova.Tinham chegado para passar um tempo no engenho uns meusprimos, mais velhos do que eu: dois meninos e uma menina.Agora não era só com os moleques que me acharia. Meus doisprimos, bem afoitos, sabiam nadar, montar a cavalo em osso,comiam tudo e nada Lhes fazia mal. Com eles eu fui aos banhosproibidos, os do meio-dia, com a água do poço a escaldar. Eentão nós ficávamos com a cabeça ao sol, enxugando os cabelos,para que ninguém percebesse as nossas violações. - Você está um negro - disse-me a tia Maria. - Chegou tão
  9. 9. alvo, e nem parece gente branca. Isto faz mal. Os meninos daEmília já estão acostumados, você não. De manhã à noite de pésdescalços, à solta como um bicho. Seu avô ontem falou-menisto. Você é um menino bonzinho, não vá atrás destes molequespara toda a parte. As febres andam por aí. O filho do seuFausto, no Pilar, há mais de um mês que está na cama. Para asemana vou começar a ensinar-lhe as letras. Mas os primos não paravam. De manhã íamos com os molequeslavar os cavalos, e aí passávamos horas inteiras dentro deágua. Galinha gorda, gorda é ela; vamos comê-la, vamos a ela. E atiravam pedras para dentro do poço, mergulhando para iremapanhá-las no fundo. Espadanavam a água com os cangapésruidosos, e saía sempre gente chorando, com queixas para casa.O dia todo passávamo-lo assim, nessa agitação medonha. A minha tia Sinhazinha era uma velha de uns sessenta anos.Irmã de minha avó, ela morava há longo tempo com o seucunhado. Casada com um dos homens mais ricos daquelesarredores, o Dr. Quincas, do Salgadinho, vivia separada domarido desde os começos do matrimónio. Era um temperamentoesquisito e turbulento. Contava-se que um dia amanhecera numengenho de seu pai, amarrada a um carro de bois, com uma cartado marido fazendo voltar ao sogro a sua filha. Era ela quem tomava conta da casa do meu avô, mas com umdespotismo sem entranhas. Com ela estavam as chaves dadespensa, e era ela quem mandava as negras no serviçodoméstico. Em tudo isso, como um tirano, meu avô, que não secasara em segundas núpcias, tinha, no entanto, esta madrastadentro de casa. Logo que a vi pela primeira vez, com aquele rosto enrugado eaquela voz áspera, senti que qualquer coisa de ruim seaproximava de mim. Esta velha seria o tormento da minhameninice. Minha tia Maria, um anjo junto daquele demónio, nãotinha poderes para resistir às suas forças e aos seuscaprichos. As pobres negras e os moleques sofriam dessacriatura uma servidão dura e cruel. Ela criava sempre umanegrinha, que dormia aos pés da sua cama, para judiar, parasatisfazer os seus prazeres brutais. Vivia a resmungar, aencontrar defeitos, poeira nos móveis, furtos em coisas dadespensa, para pretexto das suas pancadas nas criadas da casa. As negras odiavam-na. Os meus primos fugiam dela como de umcastigo. E quando ia para a casa de uma filha, na cidade, eracomo se um povo tivese perdido o seu verdugo. Minha tia Mariaassumia a dírecção da casa - e todos passavam a conhecer amansidão e a paz de uma regência de fada. Depois que vim asaber a história de rainhas cruéis, as intrigas perversas dasAna Bolenas, acreditava em tudo, porque me lembrava da tiaSinhazinha. Magrinha e branca, a prima Lili parecia mais de cera, de tãopálida. Tinha a minha idade e uns olhos azuis e uns cabeloslouros até ao pescoço. Sempre recolhida e calada, nunca estavaconnosco nas brincadeiras.
  10. 10. - Esta menina não se cria - diziam as negras. Na verdade, a prima Lili parecia mais um anjo do que gente.Qualquer coisa era motivo para um choro que não acabava mais.Comigo ela sempre se abria. Eu era-Lhe menos agressivo que osirmãos. E juntos nós estávamos com a tia Maria, e nos cuidadose nos carinhos da nossa amiga nos encontrávamos de quando emvez. Lili não ia ao sol, vivia o dia todo calçada. Tudo lhefazia mal: o chuveiro, o mormaço, o relento. E só vivia deremédios. Não sei porquê, fui criando a esta criaturinha uma amizadeconstante. Gostava de ficar com ela, na companhia das suasbonecas. E um preá-da-índia que me deram, eu ofereci-lho depresente. Também, era tão terna comigo! Um dia amanheceu com vómitos negros e com febre. Entrei noquarto onde ela estava, mais branca ainda, e encontrei-a muitotriste, ainda mais magrinha. As suas bonecas andavam por cimada cama como se fossem as suas amigas em despedida. Os olhinhos azuis demoraram-se em mim, parecendo pedir-mealguma coisa. Era talvez para que eu ficasse com ela maistempo. Mas levaram-me do quarto. No outro dia, quando acordei, a minha priminha tinhamorrido. Lembro-me do seu caixão branquinho, cheio de rosas,tia Maria chorando o dia inteiro. Ainda hoje, quando encontro enterros de crianças, é pelaprima Lili que me chegam lágrimas aos olhos. Com a morte da Lili, a tia Maria ficou toda em cuidadoscomigo. Proibiu-me a liberdade que eu andava gozando como umlibertino. Passava o dia a ensinar-me as letras. Os meusprimos, esses, ninguém podia com eles. Eu ficava horas a fio sentado na sala de costura, com acartilha do abc na mão, enquanto por fora de casa ouvia orumor da vida que não me deixavam levar. Era para mim, estaprisão, um martírio bem difícil de vencer. Os meus ouvidos eos meus olhos só sabiam ouvir e ver o que andava peloterreiro. E as letras não me entravam na cabeça. - Nunca vi um menino tão rude - dizia asperamente a velhaSinhazinha. A tia Maria, porém, não desanimava, continuando com afinco amartelar a minha desatenção. As conversas das costureiras começavam então a prender-me.Elas trabalhavam mantendo uma palestra que não parava. Falavamsempre de outros engenhos, onde estiveram no mesmo serviço,contando das intimidades das famílias. - No Santarém ninguém come - dizia uma -, Bacalhau ao almoçoe ao jantar. A outra contava que o senhor do engenho de Poço-fundo tinhamais de vinte mulheres. Esta conversa prendia-me inteiramentee as letras, que a solicitude de minha tia procurava enfiarpela minha cabeça, não tinham jeito de vencer tal aversão. Oque eu queria era a liberdade de meus primos, agora que as arribaçãs, coma seca do sertão, estavam a descer em revoadapara os bebedouros. Chamavam de arribaçãs a rolas sertanejas que desciam,batidas pela seca, para o litoral. Vinham em bando como umanuvem. muito no alto, a espreitar um poço de água para a sededos seus dias de travessia. E quando o avistavam, faziam aaterrissagem em magote, escurecendo a areia branca do rio. Nós
  11. 11. ficávamos à espreita, de cacete na mão, para o massacre. E asede das pobres rolas era tal que elas nem davam pelos nossosintuitos. DeZatávamos às cacetadas, como se elas não tivessemasas para voar. A seca tirara-lhes o instinto natural dedefesa. Depois, no colégio, quando no Génio do Cristianismo eulia uns versos falando dos pássaros da Bretanha, que fugiam doInverno da sua pátria, vinha-me a saudade das pobres rolassertanejas que trucidávamos. Uma tarde, chegou um portador, num cavalo cansado de tantocorrer, com um bilhete para o meu avô. Era um recado docoronel Anísio, de Cana-Brava, prevenindo que António Silvinonaquela noite estaria entre nós. A casa toda ficou debaixo depavor. O nome do cangaceiro era o bastante para mudar o tom de umaconversa. Falava-se dele baixinho, em cochicho, como se ovento pudesse levar as palavras. Para os meninos, a presença de António Silvino era como sefosse a de um rei das nossas histórias, que nos marcasse umavisita. Um dos nossos brinquedos mais preferidos era até o defingirmos de bando de cangaceiros, com espadas de pau ecacetes ao ombro, e o mais forte dos nossos fazendo de AntónioSilvino. Naquela noite íamos tê-lo em carne e osso. Meu avô é que erao mesmo. Aquele seu ar de tranquilidade poucas vezes eu o viaalterar-se. A velha Sinhazinha para dentro e para fora, nassuas ordens para o jantar, gritando para osnegros e osmoleques com a mesma arrogância incontentável. A tia Mariaficava no seu quarto a rezar. Tinha muito medo dessa gente quevivia no crime. Quando me viu a seu lado, abraçou-me,chorando. Não havia, porém, perigo de espécie alguma. António Silvinovinha ao engenho em visita de cortesia. Um ano antes eleestivera na vila de Pilar com outras intenções. Fora ali parareceber o pagamento de uma nota falsa que o coronel Napoleãolhe passara. E não encontrando o velho, vingara-se nos seus bens com umafúria de vendaval. Atirou para a rua tudo o que era da loja, equando não teve mais nada para desperdiçar, jogou do sobradoabaixo uma barrica de dinheiro para o povo. Mas com meu avô obandido não tinha rixa alguma. Naquela noite viria fazer a suaprimeira visita. À noitinha chegava o bando à porta da casa-grande. VinhaAntónio Silvino à frente, os seus doze homens a distância.Subiu a calçada como um chefe, apertou a mão do meu avô com umriso na boca. Levado para a sala de visitas, os cabras ficaramenfileirados na banda de fora, numa ordem de colegiais. Só eletomava intimidade com os de casa. Ficávamos nós, os meninos,numa admiração, de olhos estarrecidos para o nosso herói, parao seu punhal enorme, os seus dedos cheios de anéis de ouro e amedalha com pedras de brilhantes que trazia ao peito. O seurifle pequeno, não o deixava, trazendo-o entre os joelhos. À hora do jantar foram todos para a mesa. Ele à cabeceira, eos cabras por ordem, todos calados, como se estivessem commedo. Só ele falava, contava histórias - o último cerco que osmacacos Lhe fizeram em Cachoeira-de-Cebola -, numa fala detátaro, querendo fazer-se muito engraçado. Alta noite foi-se com o seu bando. Para mim tinha perdido um
  12. 12. bocado do prestígio. Eu fazia-o outro, arrogante e impetuoso,e aquela fala bamba viera desmanchar em mim a figura do herói. No outro dia o meu primo Silvino contou-nos que se tinhalembrado de dizer ao cangaceiro que a tia Sinhazinha nãogostava dele. É que nos falavam sempre de uma velha queAntónio Silvino fizera dançar nua, dando umbigadas num pé decaldeiros, por motivo semelhante. Se isto tivesse acontecidocom a velha Sinhazinha, os moleques, as negras e os meninos doSanta-Rosa teriam dormido uma noite de grande. - Vamos hoje ao sítio do seu Lucino - disse-me a tia Maria. E de tarde saímos para esse passeio. Íamos a pé. Os meninosna frente a correr, e a tia Maria, uma negra e as duascostureiras atrás, conversando. Pela estrada encontrávamos dequando em vez gente a cavalo que vinha da feira de São Miguel.Traziam as cargas vazias, os caçuás emborcados e o quilo decarne dependurado na cangalha. Também: mulheres a pé, dechinelas batendo no calcanhar e flor na cabeça. Os molequesinformavam que eram as raparigas do Pilar que iam fazer afeira a São Miguel. Mas eu reparava que elas não traziamquilos de carne: vinham com as mãos vazias, a abanar. Essagente tola conversava: os de cavalo com os que iam a pé. Maisadiante encontrámos o negro Zé Passarinho bêbado, no seucostume de sempre. E um peso de carne, sujo de terra, aoombro, num cacete. Os moleques caíam em cima do pobre compancadas, a que ele respondia descompondo-os. Pela estrada, toda sombreada de cajazeiras, rescendia umcheiro ácido de cajá maduro. Nós íamos colhendo cabrinhasamarelas e arrebenta-bois vermelhos que não comíamos porquematavam as pessoas. Depois a cerca de arame abria-se num terreiro que dava parauma casa de telha, com parede de barro escuro. Um menino nu,que estava à porta, correu assombrado para dentro de casa.Umas mulheres apareceram. - São os meninos do engenho. Saíram para nos ver, quando avistaram a tia Maria naestrada. Foi uma festa de exclamações: - Entre, Maria Menina, entre. Como vão todos de lá? Comoestá gorda, benza-a Deus! E puseram tamboretes à porta, numa alegria saudável de quemestivesse em casa com uma princesa. Tia Maria conversava comelas sem altivez, perguntando pelos seus porcos, que elascriavam de meias, comendo umas goiabas que lhe foram buscar. - Maria Menina, cadê o menino de Dona Clarisse? Minha tia chamou-me, e elas fizeram-me todos os mimos, comaquelas mesmas exclamações: - É a cara da mãe! Foram-me dando goiabas e limas-de-umbigo. Os primos já estavam no local a atirar pedras às fruteiras.Atrás da casa ficava uma meia dúzia de laranjeiras egoiabeiras e um pé enorme de genipapo. Num girau, umas panelasvelhas com craveiros a brotar e bogaris pelas biqueirasflorindo. E uns leirões de coentro cercados de faxina, porqueas galinhas e os porcos criavam-se soltos, entrando por dentrode casa, como gente. Na cozinha, uma trempe de ferro com fogoaceso e um pote com água barrenta do rio, que bebiam. Dois meninos com medo correram para outra casa perto. Depoisforam-se chegando para nós, desconfiados como cabritos, sujos
  13. 13. e de barriga grande. Mas, quando o meu primo quis um genipapomaduro, um deles trepou pela árvore numa ligeireza de macaco. A tia Maria ainda conversava no terreiro com as meninas deseu Lucino, como o povo chamava àquelas três velhas solteiras.Agora era de doenças que elas se queixavam, perguntando quandoviria ao engenho o doutor, para receitar-lhes. A tia Mariaprometia remédios, e contava a visita de António Silvino àsvelhas, que cortavam a conversa com um Pai-do-Céu e umaNossa-Senhora de vez em quando. À tardinha voltámos para casa. A estrada escurecia com as sombras da noite. Ainda restavampelas folhas das canas os últimos raios de sol do dia. E osmoleques começavam a falar em mal-assombrados. Bem juntos detia Maria, quietos e calados, com medo de almas do outromundo, íamos fazendo o retorno da nossa viagem. A velha Sinhazinha não gostava de ninguém. Tinha umaspreferências temporárias por certas pessoas a quem passava afazer gentilezas com presentes e generosidades. Isto somentepara fazer raiva aos outros. Depois mudava. E vivia assim, deuns para outros, sem que ninguém gostasse dela e sem gostar asério de ninguém. De mim nunca se aproximou. E eu mesmo fugia,sempre que podia, da sua proximidade. Mas a propósito de nada,lá vinha com beliscões e cocorotes. Trancava na despensa asfrutas, andava com a chave do guarda-comidas no cós da saia,para contrariar as nossas gulodices e fazer raiva à genteadulta da casa. A tia Maria roubava para nós os sapotis e asmangas que a veLha deixava em montão apodrecer. O meu ódio por ela crescia dia a dia. Numa ocasião, quandoeu jogava o pião na calçada, o brinquedo foi cair em cima doseu pé. A velha levantou-se como uma fúria direita a mim, ecom o seu chinelo de couro encheu-me o corpo de açoitesterríveis. Bateu-me como se desse num cachorro, rangendo osdentes de raiva. E se não fosse a tia Maria, que me acudiu,ela ter-me-ia despedaçado. Eu nunca tinha apanhado. Minha mãe,quando queria repreender-me por qualquer maldade, punha-me decastigo em pé ou sentado num lugar. Esta surra fora a primeirada minha vida. Chorei como um desenganado a tarde inteira,mais de vergonha que pelas pancadas. Não houve mimo que mefizesse calar. E quando a negra Luísa, passando, me dissebaixinho: "Ela só faz isto porque você não tem mãe", parece que a minhador chegou ao extremo, porque foi quandochorei de verdade. À hora da ceia não quis ir para a mesa. Ouvi então minha tiaMaria dizer indignada: - Num menino daqueles não se bate! É tão sentido! E a velha Sinhazinha, replicando que era por isso que aosmeninos da Emília ninguém podia aturar, porque não lhes davameducação: - Meninos só se endireitam com chinelo! Fui dormir imaginando tudo o que era vingança contra o diaboda velha. Queria vê-la despedaçada entre dois cavalos como amadrasta da história de trancoso. E cortada aos pedaços naserra do engenho. Aquela injustiça brutal despertava em meucoração puro de menino os impulsos mais cruéis de desforra. Há oito dias que relampejava no horizonte. Meu avô ficava,de noite, por muito tempo, a espreitar o abrir rápido dorelâmpago para os lados de cima. E quando se cansava de tanto
  14. 14. esperar, punha os moleques no seu lugar. Um dia, para as cordas das nascentes do Paraíba, via-se,quase rente ao horizonte, um abrir longínquo e espaçado derelâmpagos: era Inverno pür certo no alto sertão. Asexperiências confirmavam que com duas semanas de Inverno oParaíba apontaria na várzea com sua primeira cabeça de água. Orio no Verão ficava seco, capaz de se atravessar a pé enxuto.Apenas, aqui e ali, pelo seu leito, formigavam grandes poços,que venciam a estiagem. Nestes pequenos açudes pescava-se,lavavam-se os cavalos, tomava-se banho. Nas vazantesplantavam-se batatas doces e cavavam-se pequenas cacimbas parao abastecimento de gente que vinha das caatingas, andandoléguas, de pote à cabeça. O seu leito de areia brancacobria-se de salsa e junco verde-escuro, enquanto pelasmargens os marizeiros davam uma sombra amiga nos meios-dias.Nas grandes secas o povo pobre vivia da água salobra e dasvazantes do Paraíba. O gado vinha entreter a sua fome no capimralo que crescia por ali. Com a notícia dos relâmpagos nascabeceiras, entraram a arrancar as batatas e os jirimuns dasvazantes. O povo gostava de ver o rio cheio, a água correndo debarreira a barreira. Porque era uma alegria por toda a partequando se falava da cheia que descia. E anunciavam a chegada, como se setratasse de visita de gente viva: - a cheia já passou na Guarita, vem em Itabaiana. A notícia corria de boca em boca. No engenho era no que sefalava. A canoa já estava calafetada e pintada de novo. Nóstodos dormíamos pensando na cabeça da cheia que não tardaria.Eu aguardava com uma ansiedade medonha essa cheia de que tantose falava. No Recife, vira o Capibaribe nos seus dias deenchente, coberto de balsas, mas o Capibaribe vivia todos osdias a encher e a vazar com as marés. Por isto pensava tantona cheia do Paraíba, como em coisa inédita para mim. Vieram dizer, ao engenho: - O chefe da estação de Pilar recebeu um aviso de que acheia já vinha em Itabaiana. Não custava, portanto, a apontar entre nós. Diziam que o riovinha de barreira a barreira. E uma tarde um moleque chegou àscarreiras, gritando: - A cheia vem no engenho de sen Lula! Todos correram para a beira do rio - os moleques, osmeninos, os trabalhadores do engenho, o meu avô. E começava-sea ouvir a gritaria da gente que ficava pelas margens: - Olha a cheia! Olha a cheia! - Ainda vem longe - diziam uns. - Qual nada! Olha os urubus a voarem por ali! De facto, dentro em pouco, um fio de água apontava, numaligeireza coleante e espantosa de cobra. Era a cabeça da cheiacorrendo. E quando passava por perto da gente, arrastandobasculhos e garranchos, já a vista alcançava o leito do riotodo tomado de água. - É muita água. O rio vai às margens. Vem com força de açudearrombado. O povo a gritar por todos os lados. E o barulho das águasque cresciam em ondas enchendo-nos os ouvidos. Num instantenão se via nem um banco de areia descoberto. Tudo estavainundado. E as águas subiam pelas barreiras. Começavam então
  15. 15. a descer grandes tábuas de espumas, árvores inteirasarrancadas pela raiz. - Lá vem um boi morto! Olha uma cangalha! - E uma linha de madeira lavrada. - Aquilo é cumieira de casa que a cheia deitou abaixo. Longe ouvia-se um gemido como um urro de boi. Estavamtocando o búzio para os que ficavam mais distantes. O rumorque as águas faziam nem deixava ouvir-se o que gritavam dooutro lado do rio. As ribanceiras que a correnteza ruía porbaixo arriavam com estrondo abafado de terra caída. Com a noite, um coro melancólico de não sei quantos saposroncava sinistramente, como vozes que viessem do fundo daterra cavada pelos seus confins, pela verruma dos redemoinhos. Eu fiquei a pensar de onde viria tanta água barrenta, tantaespuma, tantos pedaços de pau. E custava a crer que umachuvada no sertão desse para tanta coisa. Saímos da beira do rio quase à hora da ceia. Meu avô, àmesa, contava episódios da enchente de 75: - O rio subiu até à calçada da casa-grande. O velho Calisto,ao querer salvar um animal, foi arrastado pela corrente. Eletinha perdido um escravo numa virada de canoa. A várzea ficoutoda debaixo de ágúa, com mais de um metro de lama. Mas há muitos anos que o Paraíba não repetia a façanha. Fui dormir com a cabeça cheia de tanta novidade. E altanoite acordámos com o barulho que ia pela casa. Eram as águasque estavam a crescer cada vez mais. E se continuassem assim,de manhã estariam dentro da casa-grande. Fomos ver o rio. E pouco andámos, porque já estava a entrarpelas estrebarias. O marizeiro ficava em baixo; a correntecorria por cima dele. Era um mar de água roncando. O meu avô,com aquele seu capote de lã, comandava o pessoal como umcapitão de navio em tempestade. Operigo estava na casa depurgar, pois a safra de açúcar do ano encontrava-se nos grandes caixõesde madeira e no tanques cheios de mel de furo. Não havia nada a fazer. Como evitar a invasão dos tanques Emudar para onde aquela enormidade de açúcar? - É preciso mandar uma canoa para o povo da Ponte. Lá é maisbaixo, deve haver precisão de socorros. E José Ludovino seguiu com a canoa pela várzea. Já estavatudo tomado pelas águas. Púnhamos marcos de pau para ver se orio baixava ou subia. Às três horas da manhã parara de encher.E ouvia-se por toda aquela extensão de águas como que umgemido soturno. E de quando em vez um rumor de pancada dasribanceiras que caíam. Não sei porquê, eu tinha vontade de que o rio continuasse aencher, a entrar por toda a parte com as suas águas sujas.Queria ver os baús nadando dentro de casa. A minha tia Mariaficava com as negras no quarto do oratório a rezar. Quando acordei, de manhã, a várzea era um lago de águabarrenta. Apenas, aqui e ali, uns pedaços verdes de canavial,como ilhas de verdura. O rio entrara pelos sangradouros daslagoas e deixava-nos cercados de um lado e de outro. Ia até ospés da caatinga. Meu avô, de pé, olhava de uma ponta da calçada as suasplantas de cana submersas, com a safra quase toda perdida. Masnão se lastimava, porque sabia que riqueza em limo Lhetrouxera o rio para as suas terras. Ele mesmo dizia:
  16. 16. - Gosto mais de perder com água do que com sol. Mais tarde os canoeiros chegaram contando os trabalhos damadrugada. Encontraram gente dentro de casa com água pelopeito. Mulheres chorando, sem esperança de mais nada. Passarampara o alto para mais de cem pessoas, móveis, e criações.Tinha, porém, desaparecido o negro Salvador, quando procuravapassar a nado pelo riacho da Ponte. Era preciso mandar comidapara todo aquele povo desarvorado. Meu avô dava ordens paralevarem uma barrica de bacalhau. - E o povo de Maravalha? - perguntava ele aos canoeiros. - Estão em São Miguel. Mas o capitão Joca ficou. O riochegou ao batente da cozinha. Não se vê nem um pé de cana. Éum mar de água daqui até lá. A canoa passou por cima docerrado do engenho. Mas o rio, que vazara para mais de um metro, à noitinhacomeçou a encher outra vez. Nós íamos sair de casa num carrode bois para a caatinga. Era preciso fazer uma volta de léguapara chegar à estrada nova e alcançar uma bueira queatravessava a lagoa. Para os meninos tudo isto parecia umafesta. Saltávamos de contentes com as arrumações. E quandosaímos no carro parecia que íamos fazer uma daquelas nossasvisitas a outros engenhos. Pela estrada encontrávamos gentecom notícia da cheia para as bandas do Pilar. "Na Rua da Palhanão ficara uma casa de pé. A canoa virara-se, morrendo seispessoas. A ponte de Itabaiana acabou-se". E isto ia aumentando mais o pavor da minha tia Maria.Connosco vinham as costureiras e umas quatro negras. Noutrocarro, deitada, a avó Galdina paralítica. A velha Sinhazinhanão quisera vir: não ia abandonar o Cazuza sozinho. Os seusinimigos não podiam deixar de respeitar esta sua coragem. Enaquela hora perdoávamos-Lhe muito da sua ruindade. O carro chegou a casa do velho Amâncio às cinco horas damanhã. Todos estavam acordados. Pelo terreiro da casa viam-seos haveres dos refugiados, chegados ali primeiro do que nós.Eram, talvez, duas famílias, com os seus meninos, os seusporcos, suas panelas, as suas galinhas. Nós, os dacasa-grande, estávamos ali reunidos no mesmo medo, com aquelapobre gente do eito. E com eles bebemos o mesmo café comaçúcar em bruto e comemos a mesma batata doce do velhoAmâncio. E almoçámos com eles a boa carne-do-ceará com farofa. À noite dormimos em cama de vara. A chuva pingava dentro decasa por não sei quantas goteiras. E o cheiro horrível doschiqueiros de porcos pertinho da gente. Os outros refugiados ficaram nacasa da farinha, pelo chão. Era tudo isto o que demelhor o pobre do velho Amâncio tinha para nos oferecer: estasua desgraçada e fedorenta miséria de pária. Depois chegou do engenho o mantimento que tínhamos esquecidocom a pressa. E a minha tia Maria distribuiu por aquela gentetoda a carne-de-sol e o arroz que nos trouxeram. Eles pareciamfelizes de qualquer forma, muito submissos e muito contentescom o seu destino. A cheia tinha-lhes comido os roçados demandioca, levando o quase nada que tinham. Mas não levantavamos braços para imprecar, não se revoltavam. Eram unscordeiros. - O que vale é a saúde e a protecção de Deus - diziamsempre. Mas, coitados, com que saúde e com que Deus estavam eles
  17. 17. contando! No outro dia de manhã veio um portador chamar-nos. O rio jáestava no leito. Atrelaram os bois ao carro e descemos para avárzea. Do alto podia-se avistar o grande lençol de águasbarrentas que corria lá em baixo. E quando chegámos mais paraperto, a várzea estendia-se aos nossos olhos, ainda coberta deágua: é que os sangradouros naturais tinham-se obstruído comos depósitos de areias trazidas pela corrente. Era precisocavar com uma enxada para que as águas descessem outra vezpara o rio. Nós, os meninos, queríamos encontrar os estragosda cheia. Parece que havia um certo prazer, uma vaidade nossa,em que também no engenho ela tivesse deixado sinais dedestruição. Pelo caminho o homem que nos viera chamar contara como oscanoeiros tinham encontrado o corpo do negro Salvador: - Zé Guedes viu uma coisa amarela a boiar. Pensou que fosseuma jaca. Meteu o remo: era a cabeça do negro coberta de lama,engalhada num pé de cabreira. Estava com três dias de afogado.E os urubus por cima, rondavam. Vimos então o estado em que as águas deixaram os canaviais.Parecia que uma chuva pesada, de oca, caíra por ali; tudoparecia cor de barro vermelho. - O coronel este ano não faz duzentos pães de açúcar - diziao carreiro. - Só ficou com cana para semente. E por onde as águas tinham passado, espelhava ao sol umalama cor de moedas de ouro: o limo que ia fazer a fartura dosnovos partidos. O meu avô esperava no terreiro. Quando chegámos, começou ainterrogar-nos sobre tudo por que tínhamos passado. - A cheia destruiu mais que em 75. O Joca perdeu a sementede cana. A linha férrea foi arrastada em mais de um quilómetrono Engenho Novo. No Espírito Santo caíram ruas de casas. Hámuita Miséria. Muita fome no povo. O governo está a mandarmantimentos. Havia uma sombria tristeza na gente da casa-grande. Há trêsdias que ali não se dormia, comia-sa à pressa, com o pavor dainundação. O engenho e a casa da farinha repletos de flagelados. Era apopulação das margens do rio, arrasada, morta de fome, se nãofossem o bacalhau e a farinha seca da «fazenda»... Conversavamsobre os incidentes da enchente, achando graça até nasperipécias de salvamento. João de Umbelino mentia à vontade,contando fanfarronadas a que ninguém assistira. Genteesfarrapada, com meninos amarelos e chorões, com mulheres depeitos murchos e homens que ¨ninguém dava nada por eles- masuma gente com quem se podia contar na certa para o trabalhomais duro e a dedicação mais canina. Saí¨mos então para ver de perto o que o rio tinha feito. Naparede da estrebaria e nos paus do cercado ficara a marca daságuas. A boca da fornalha parecia um açude; com mais um palmoa casa de purgar ter-se-ia ido embora, O cercado era umatoleiro por onde os bois iam deixando as marcas dos cascos.Por toda a parte um cheiro aborrecido de lama. Os galhos dos marizeiros, todos pendidos para um lado, como setivessem sido torcidos por uma ventania. E garranchos eramarias secas por cima deles. O engenho todo estava triste.Só os canoeiros alegres, passando a bom preço, de um lado para
  18. 18. outro, os aguardenteiros que vinham do contrabando de cachaçade Pernambuco. E para nós era a única coisa a ver: a canadacheia de ancoretas, e os cavalos puxados à corda, nadando, e agritaria obscena do pessoal. O resto, tudo muito triste, elama por toda a parte. Mandaram-me, para aprender as primeiras letras, para casa deum Dr. Figueiredo, que viera da capital passar um tempo navila do Pilar. Pela primeira vez eu ia ficar com genteestranha um dia inteiro. Fui ali recebido com os agrados e as condescendências quereservavam para o neto do prefeito da terra. Tinha o meumestre uma mulher morena e bonita, que me beijava todas asvezes que eu chegava, que me fazia as vontades: chamava-seJudite. Gostava dela de forma diferente da que sentia pelaminha tia Maria. Ela sempre que me ensinava as letrasdebruçava-se por cima de mim. E os seus abraços e os seusbeijos eram os mais quentes que já tinha recebido. E o Dr. Figueiredo não parava no lugar. Só ficava quieto aler os jornais e os livros, que tinha muitos pela mesa. Amulher era quem me ensinava, quem tomava conta de mim, Uma vezví-a a chorar, com os olhos vermelhos e o Dr. Figueiredo sairde casa batendo com a porta. E de outra, enquanto eu ficavasozinho na sala com o meu livro na mão, ouvi no interior dacasa um ruído de pancadas e uns gritos de quem estivesse aapanhar. Compreendi então que a minha bela Judite apanhava domarido. Tive mesmo o ímpeto de correr para a rua e chamar opovo para lhe acudir. Mas fiquei quieto na ladeira,escutando-lhe os soluços abafados. Mais tarde ela chegou parame ensinar, e abraçou-me e beijou-me como nunca. Fiquei apensar no que sofria a minha amiga, na convivência daquelehomem magro e alto. E o meu coração sentiu-se cheio de uma afeição estranha pelasua mulher. Era tão terna para mim, punha-me no colo para meacarinhar, para me dizer que me tinha um amor de mãe. Eusentia o seu sofrimento como se fosse o meu. Foi ali com ela, sentindo o cheiro dos seus cabelos pretos ea boa carícia das suas mãos morenas, que aprendi as letras doalfabeto. Sonhava com ela de noite, e não gostava dos domingosporque ia ficar longe dos seus beijos e abraços. Depois mandaram-me para a aula de outro professor, comoutros meninos, todos de gente pobre. Havia para mim um regimede excepção. Não ralhavam comigo. Existia um copo separadopara eu beber água, e um tamborete de palhinha para «o neto docoronel Zé Paulino». Os outros meninos sentavam-se em caixotesde gás. Lia-se a lição em voz alta. A tabuada era cantada emcoro, com os pés balançando, num ritmo que ainda hoje tenhonos ouvidos. Nas sabatinas nunca levei uma palmatoada, masquando acertava mandavam-me que desse nos meus coMpetidores.Eu sentia-me bem com todo esse regime de miséria. Os meninosnão me tinham raiva. Muitos deles eram de moradores doengenho. Parece que ainda os vejo, com seus bauzinhos defolha, voltando a pé para casa, a olharem para mim, de bolsa atiracolo, na garupa do cavalo branco que me levava e trazia daescola. Outro mestre que eu tive foi o Zé Guedes, meu professor demuita coisa ruim. Levava-me e trazia-me da escola todos osdias. E na meia hora que estava com ele, de ida e volta,
  19. 19. aprendi coisas mais fáceis de aprender que a tabuada e asletras. Contava-me tudo que era história de amor, sua e dosoutros. - Ali mora a Zefa Cajá. E lá vinha com os detalhes, com as coisas erradas da vidadesta mulher. Às vezes parava à porta, e era uma conversacomprida, cheia de ditos e de descaramentos. - Olha o menino, Zé Guedes! Ó homeM desbocado! Mas ele pouco se importava comigo, Eu mesmo gostava de ouviro palavreado imundo. Pelo caminho o moleque continuava nassuas lições, falando de mulheres e de doenças do mundo. E,nome por nome, ele dava-os de todas as doenças: cavalo, mula,crista-de-galo. As velhas, da estrada, pediam para comprar coisas na vila:carretéis de linha, papel de agulhas. Zé Guedes entregava asencomendas, puxando conversas compridas com as mulatinhas. - Aquela ali já foi passada. Quem manda nela é o doutorJuca. E eu ia sabendo que o meu tio Juca tinha mulatas em quemmandava. De uma feita desceu numa casa de palha, onde sómorava uma negra. Ficou lá dentro uma porção de tempo. Quandosaía, ouvi a mulher dizemdo: - Não vá esquecer-se do corte de chita, seu xeixeiro! Eram assim as minhas lições de porcaria com aquele mestreque não se contentava com o lado teórico do seu magistério etambém dava as suas lições de coisas. Nós tínhamos, porém, no curral pegado à casa-grande, umaaula pública de amor. O que Zé GuedeS nos contava de si com asZefas, os touros e as vacas faziam-no entrar peloentendimento. Era ali um bom campo de demonstração. No cercadodos engenhos o menino inicia-se nestes mistérios do sexo,antecipando-se por muitos anos no amor. A reprodução daespécie ficava para nós um acto sem grandeza nenhuma. Víamosas vacas e as porcas nas dores do parto. E éramos quase osseus assistentes. Lembro-me de uma vaca malhada que morreu poruma malvadez do meu primo Silvino. Ele meteu-se a médico, ecom uma imperícia infeliz matou a pobre novilha turina do meuavô. Ninguém soube no engenho deste crime cometido com a minhacumplicidade. Concorríamos também no amor com os touros e os pais dochiqueiro. Tínhamos as nossas cabras e as nossas vacas paraencontros de lubricidade. A promiscuidade selvagem do curralarrastava a nossa infância às experiências de prazeres que nãotínhamos idade de gozar. Era apenas uma buliçosa curiosidadede menino, a mesma curiosidade que nos levava a ver o quehavia por dentro dos brinquedos. Uma tarde o primo Silvino disse-me: - Hoje vamos fazer porcaria no curral. De facto, à boca da noite, quando o gado chegado da pastagemdescansava, uns deitados e outros parados a olhar para o chão,eu vi o primo Silvino trepado na cerca, procurando pôr-se emcima de uma vaca mansinha. Nós todos ficávamos de longe, mudose sôfregos, como se fôssemos cúmplices de um crime. - Sai daí, menino sem vergonha. Vou dizer ao coronel. Meu avô levava-me sempre nas suas visitas de corregedoràs terras do seu engenho. Ia ver de perto os seus moradores,fazer uma visita de senhor aos seus campos. O velho José
  20. 20. Paulino gostava de percorrer a sua propriedade, de percorrê-lacanto por canto, entrar pelas suas matas, olhar as suasnascentes, saber das precisões do seu povo, dar os seus gritosde chefe, ouvir queixa; e implantar a ordem. Andávamos muitonessas suas visitas de patriarca. Ele parava de porta emporta, batendo com a tabica de cipó-pau nas janelas fechadas.Acudia sempre uma mulher com cara de necessitada: a pobremulher que paria os seus muitos filhos em cama de vara e oscriava até grandes com o leite de seus úberes de mochila.Elas respondiam pelos maridos: - Anda no roçado. - Está doente. - Foi para a rua comprar gás. Outras lastimavam-se de doenças em casa, os meninos comsezões e o pai entrevado na cama. E quando o meu avô queriasaber porque o Zé Ursulino não vinha para os seus dias noeito, elas arranjavam desculpas: - Levantou-se hoje, do reumatismo. O meu avô então gritava: - Ponho-os fora. Gente safada, com quatro dias de serviçoadiantado e metidos no eito do Engenho Novo. Pensam queeu não sei? Deito fogo à casa. - É mentira, seu coronel, Zé Ursulino nem pode andar. Tomouaté purga de batata. O povo foi-lhe contar mentiras. SantaLuzia me cegue se estou a inventar. E os meninos nus, de barriga esticada como arco. E o maispequeno, na lama, a brincar com o barro sujo como se fosse comareia da praia. - Estamos a morrer de fome. Deus quisera que Zé Ursulinoestivesse com saúde. - Diga-Lhe que para a semana começa o corte da cana. E quase sempre mais adiante nós encontrávamos Zé Ursulino decacete na mão e com a sua saúde bem rija. - Já disse à sua mulher que o mando embora. Não vaitrabalhar na «fazenda» mas anda vadiando por aí. Não querocabras safados no meu engenho. E era a mesma conversa. Que para a semana ia pela certa. Queandava doente de novo, com dores pelo corpo todo. De outras vezes batíamos a uma porta onde não acudianinguém. Mais adiante a família toda estava agarrada à enxada:o homem, a mulher, os meninos. E vinham logo de chapéu na mãopedir às suas ordens. Era um rendeiro que não tinha aobrigação dos três dias no eito. Pagava o foro e ficava livreda servidão da bagaceira. O seu roçado de algodão e de favagarantia essa meia liberdade que gozava. Então meu avôperguntava pelo que se passava nos arredores, se alguém andavaa vender algodão por fora ou a levar lenha da mata paravender. - Que eu saiba não, seu coronel. - Pois você vigie por aqui. E depois: - Cabra bom - dizia-me. - Nunca me deu trabalho. E numa casa de palha uma mulher branca, como madapolão, semuma gota de sangue na cara, com um menino pequeno engatinhandono chão quente do terreiro e o outro de peito nos braços: eraa mulher de Chico Baixinho. Tinha parido há oito dias, e omarido estava ausente.
  21. 21. - Ninguém sabe onde ele anda, seu coronel. Aquilo é umdesgraçado. Deixou-me de cama com a barriga a estalar, edanou-se. Só não morri à míngua porque o povo daqui mesocorreu. O meu avô dizia para ela ir buscar bacalhau ao engenho. Noutra casa o povo todo estava atacado de sezões. Tinhamvoltado da várzea de Goiana amarelos e inchados de paludismo. - Mande o menino buscar quinino ao engenho. Vocês saem daquicom saúde e voltam assim. em petição de miséria. Vão outra vezpara a Goiana. Eram assim as viagens do meu avô, quando ele saía a corrertodas as suas grotas, revendo as árvores do seu engenho.Ninguém Lhe tocava num capão de mato, que era o mesmo quearrancar um pedaço do seu corpo. Podiam roubar as mandiocasque plantava pelas chãs, mas não lhe bulissem nas matas. Elemesmo, quando queria fazer qualquer obra, mandava comprarmadeira aos outros engenhos. Os seus paus-darco, as suasperobas, os seus corações-de-negro cresciam indiferentes aomachado e às serras. Uma vez, numa das nossas viagens, vi-ofurioso como nunca. Entrávamos por uma picada na mata grande,e ouvimos um ruido de machado: - Quem lhe deu ordem para deitar abaixo este pau-darco? - Foi o doutor Juca - respondeu mais morto do que vivo o seuFirmino carpina. - Mas o senhor sabe que eu não quero que se meta machado poraqui, com seiscentos mil diabos! E voltou para casa sem dar mais uma palavra, sem parar emparte alguma. Nos dias de festa tiravam um pano que cobria o oratóriopreto de jacarandá e acendiam as velas dos castiçais. O quartodos santos ficava aberto para toda a gente. Não havia capelano Santa-Rosa nem nos outros engenhos, talvez porque ficassempertinho dali as duas matrizes do Pilar e de São Miguel. Emesmo o meu avô não era um devoto. A religião dele nãoconhecia a penitência e esquecia alguns dos mandamentos da leide Deus. Não ia às missas, não se confessava, mas em tudo queprocurava fazer lá vinha um se-Deus-quiser outenha-fé-em-Nossa Senhora. A minha tia Maria cuidava deensinar-me e aos moleques as rezas que ainda hoje sei. Ao meuavô, nunca o vi rezar. Com ele, contavam os padres das duasfreguesias nas suas festas e nas suas necessidades. Apesar deque morria pelas suas matas, mandara uma vez que os carp inasdeitassem abaixo a madeira que o padre Severino quisesse paraas obras da igreja. Quando acendiam as velas do quarto dos santos, nós íamos veras estampas e as imagens. Havia um menino Jesus que era onosso encanto, um menino bonito com os olhos azuis da primaLili e um nrriso bonzinho na boca. Trazia numa das mãos umlongo bastão de ouro e na outra a bola do mundo. - Se aquela bola caísse, o mundo acabava-se. Mas o nosso menino, vestido de manto azul estrelado, traziapor debaixo das súas vestes uma rolinha bicuda de criança.e nós levantávamos o manto, de quando em vez, espantados deque a gente do Céu também precisasse daquelas coisas. - Os meninos estão a mexer no santuário. Vinham ralhar com a gente. As estampas das paredes contavam histórias de mártires. Um
  22. 22. São Sebastião atravessado de setas, com os seus milagres emredor do quadro. O Anjo Gabriel com a espada no peito de umdiabo de asas de morcego. São João com um carneirinho manso.São Severino fardado, estendido num caixão de defunto. Umsanto comprido com uma caveira na mão. Os moleques entãomostravam-nos uma santa mulata com uma criança no braço, umaque tinha no rosto a marca de ferro em brasa. - Ela era uma escrava - contavam os moleques. - E a senhoraqueimou-lhe o rosto com um garfo quente. Eu pensava sempre na tia Sinhazinha quando os molequesfalavam nesta senhora malvada. Mas o quarto dos santos estava sempre fechado. Não havia noengenho o gosto diário da oração. Talvez que o exemplo de meuavô, justo e bom como ele era, mas indiferente às práticasreligiosas, arrastasse os seus a esses afrouxamentos dedevoção. Pagava-se muita promessa, dava-se muito dinheiro paraas festas de Nossa Senhora. Mas nunca vi ninguém do engenhonuma mesa de comunhão, nem mesmo a tia Maria. O povo pobre, doeito, só se confessava na hora da morte, quando, à reveliadeles, mandavam chamar o padre à pressa. E, no entanto, nãotiravam Nosso Senhor da boca e faziam novenas a propósito detudo. A não ser a tia Maria, que me ensinava o padre-nosso,ninguém ali me falava de catecismo. A religião que eu tinhavinha ainda das conversas com a minha mãe. Sabia que Deusfizera o mundo, que havia Céu e Inferno, e que a gente sofriana terra por causa de uma maçã. Os moleques também não sabiammais do que eu. Nas missas de festa a que assistíamos na vila,pouco víamos o padre no altar. Andávamos pelos botequins, nocapilé, ou tirando sorte de papeizinhos enrolados. Pela Semana Santa contavam-nos as maldades dos judeus paracom Nosso Senhor - da coroa de espinhos, da lançada no coraçãoe do sangue que correu da ferida e abriu os olhos de um cegoque ficara por baixo da cruz. Na Sexta-feira Santa só se comiauma vez, no engenho. Vinha peixe fresco da cidade e parentesde outros engenhos: comia-se muito mais do que nos outrosdias. As negras na cozinha falavam do martírio de Jesus comuma compaixão de dentro da alma, e diziam que se o padre namissa do sábado não achasse a Aleluia, o mundo se acabaria deuma vez. Os moradores vinham então pedir o jejum, em bandos.Davam-Lhes bacalhau e farinha. Eles saíam com a mulher e osfilhos rotos, de saco às costas, como se estivessem fazendo umnúmero de via-sacra. O dia todo era triste. O comboio nãocorria na linha. Às vezes vinha ao engenho por este tempo uma velha, Totonha,que sabia uma Vida, Paixão e morte de Jesus-Cristo em verso enos deixava com os olhos molhados de lágrimas com a suanarrativa dolorosa. A velha Snhazínha dizia que Semana Santa boa era a doItambé. O padre Júlio beijava os pés dos pobres, faziaProcissão do Encontro e um sermão de lágrimas, que toda agente chorava na igreja. As negras ficavam pela cozinha,sentadas, conversando em cochichos sobre o dia. Não se tomavabanho de rio, para não se ficar nu na frente uns dos outros.Não se judiava com os animais. Não se chamava nomes a ninguém.Um canário que eu tinha apanhado, fizeram-me soltá-lo. E asnossas conversas avançavam até em corrigenda à vontade de
  23. 23. Deus. Nós achávamos que Jesus Cristo devia ter liquidado todosos judeus e tomado conta de Jerusalém. Não atinávamos com agrandeza do sacrifício. Queríamos a vitória material sobre osseus algozes. Abriam, por esse tempo, o quarto dos santos. O santuáriocoberto de preto e as estampas viradas todas para a parede. Ossantos estavam com vergonha de olhar para o mundo. Era assim a religião do engenho onde me criei. O meu avô mandou prender o cabra no tronco. E nós fomosvê-lo, estendido no chão, com o pé metido no furo do suplício.Raramente eu tinha visto gente no tronco. Somente um negroladrão de cavalos ficara ali até que chegassem os soldados davila, que o levaram. Agora, porém, Chico Pereira estava lá,com os pés no buraco redondo. - É mentira daquela bicha sem vergonha. Ela deitou para cimade mim os estragos que os outros fizeram. Ela pode casar com odiabo, comigo não. O coronel mata-me, mas eu não me amarro comaquela peste. Vou para a cadeia, crio bicho na peia, mas nãovivo com aquela prostituta descarada. Eu não tapo os buracosdos outros. O cabra, deitado de costas, com os pés presos no tronco,impressionou-me com aquela sua revolta. Chico Pereira erarufião, moleque chibante da bagaceira, cheio de dinheiro enomes obscenos. Toda a gente acreditava que tivesse sido elemesmo o autor do mal feito à mulata Maria Pia. A mãe daofendida viera fazer queixas ao meu avô, atirando a coisa paracima do Chico Pereira. E ele ficaria no tronco até se resolvera casar com a sua vítima. No outro dia voltei para junto do prisioneiro. As pernaspresas já estavam inchadas, apertadas de mais no buraco dotronco. Ele quando me viu chamou-me: - Vá pedir à Maria Menina para me valer. A tia Maria disse-me: - Se ele deve, tem de pagar. Na hora do almoço eu mesmo fui levar ao preso o prato decomida. Estava com o corpo todo dormente. Aquela imobilidadede mais de vinte e quatro horas entorpecia-lhe a circulação. - Morro aqui e não caso. Aquela desgraçada paga-me. Ocoronel pode picar-me com um facão. Fiquei ao lado de Chico Pereira, deixei os meus primos e osmoleques. Não fui ao poço lavar os cavalos, para ficar comele, conversando, ouvindo as suas histórias, sentindo as suasangústias. Era uma injustiça o que estavam a fazer. Porque nãoseria mentira da mulata? Não havia ninguém no engenho queestivesse a favor do cabra. A moça tinha sido ofendida, e omoleque que pagasse o que devia. Chico Pereira só contavacomigo. À tarde, estava o meu avô sentado na sua cadeira, perto dabanca, no alpendre, quando chegaram Maria Pia e a mãe. Vinhamas duas a chorar. A velha correu logo para a tia Maria,ajoelhando-se aos seus pés: - Proteja a minha filha, Maria Menina... O meu avô ordenou que acabasse com aquele barulho. E mandoubuscar um livro que havia debaixo do santuário. - Você vai jurar em cima deste livro santo em como contará averdade toda. O cabra está no tronco. Ele nega, prefere morrera casar. Vamos, ponha a mão aqui em cima e diga o nome de quem
  24. 24. lhe fez mal. Deu o livro vermelho com a cruz dourada na capa para a negrapôr a mão em cima. A velha e a filha ficaram fora de si.Aquele livro santo não era para menos. E então a mãe de MariaPia, como se estivesse com a faca nos peitos: - Menina, não lances a tua alma no Inferno... O povo todo tinha-se chegado para perto da mulata. - Vamos - disse o meu avô, com aquela sua voz de mando. E a mulata, com os olhos esbugalhados: - Juro que foi o doutor Juca quem me fez mal... O meu avô não deu uma palavra. Só disse: - Soltem o cabra. Corri para ver o Chico Pereira, na ânsia de encontrar o meuconstituinte inocente. Ele não podia andar. Os pés inchados não tocavam no chão. - Estou com um formigueiro no corpo todo. Eu não dizia que anegra não prestava? O doutor Juca vai ficar agora com maisesta às costas... Na casa-grande só se falava baixinho no caso. Minha tiaMaria não me deu palavra. À hora da ceia, meu avô pouco falou.Tio Juca não viera para a mesa. Apenas no fim o velho JoséPaulino se queixou: - Não sei para que servem os estudos. A gente gasta umdinheirão e eles voltam para fazer asneiras desta ordem... O caminho de ferro passava do outro lado do rio. Do engenhonós ouvíamos o comboio apitar, e fazía-se da sua passagem umaespécie de relógio de todas as actividades: antes do comboiodas dez, depois do comboio das duas. Costumávamos ir para a beira da linha ver de perto oscomboios de passageiros. E ficávamos em cima dos cortesolhando como se fossem uma coisa nunca vista os horários quevinham de Recife e voltavam da Paraíba. Mas proibiam-nos esseespectáculo, com medo das nossas traquinices pelo leito daestrada. E tinha razão de ser tanta cautela: um dos lancesmais angustiados da minha infância passei-o numa dessasesperas do caminho de ferro. O meu primo Silvino combinarafazer virar a máquina na rampa do Cabocho. Já de outra vez,com um pano vermelho que um moleque pregara num pau, ummaquinista alterara o horário das dez. Agora o que o meu primoqueria era um desastre. E colocou uma pedra mesmo na curva darampa. Nós ficámos à espreita, esperando a hora. Quando vi ocomboio aproximar-se como um bicho comprido que viesse parauma armadilha, senti uma agonia dentro de mim que eu não soubeexplicar. Parecia que eu ia ver ali perto de mim pedaços degente morta, cabeças rolando pelo chão, sangue correndo nomeio de ferros desmantelados. E num ímpeto, já o comboio vinharoncando pertinho, corri para a pedra e com toda a minha forçaempurrei-a para fora. Um instante depois ouvi o ruído damáquina que passava. Fiquei sozinho, ali no ermo do caminho de ferro. Os meusprimos e os moleques tinham corrido. O meu coração batiaapressado. Parecia que eu era o único culpado daquela desgraçaque não acontecera. Comecei a chorar, com medo do silêncio.Muito de longe o comboio apitava. E banhado em lágrimas fuiPara casa. Nunca mais em minha vida o heroísmo me tentaria poressa forma. Na mata do Rolo apareciam lobisomens. Na cozinha era no que
  25. 25. se falava, num vulto daninho que agarrava gente para lhe bebero sangue. Manuel Severino, quando voltava de uma novena, foraperseguido pelo bicho. Ele mesmo contava: - Eu vi o vulto partir para cima de mim, e dei às pernasnuma corrida de cavalo desembestado. Olhei para trás e só vi omato bulindo com um pé-de-vento de arrancar raízes. As notícias do bicho misterioso chegavam com todos osdetalhes. Uns afirmavam que José Cutia estava encantado outravez. José Cutia era um comprador de ovos da Paraíba, un pobrehomem que não tinha uma gota de sangue na cara. Andava semprede noite, talvez para melhor fazer as suas caminhadas, semsol. E por isto tinha-se na certa que era ele o lobisomem. - Ele quer corar com o sangue dos outros... E havia gente que até vira José Cutia por debaixo dasingazeiras transformando-se em bicho. As unhas cresciam comolâminas enormes, os pés ficavam como os das cabras, e oscabelos eram crinas de cavalo. Diziam que o homem grunhia comoum porco na faca, nos momentos de se encantar. Ele não queria,mas o seu corpo não podia viver sem sangue. E tornava-selobisomem contra vontade. O povo não lhe tinha raiva; tinha até pena, Porque era certoque José Cutia era mandado de noite por uma força que não eradele. Mas nós, quando o víamos passar com as suas cestas deovos, fugíamos da estrada com medo. Diziam também que ele comia o fígado dos meninos e que tomavabanho com o sangue de crianças de peito! - Lá vem o papa-figo! - era assim que diziam para nos correrde qualquer parte. E as histórias corriam como os factos mais reais destemundo. Agora era o encontro do padre Ramalho com o lobisomemna mata. O padre ia para a extrema-unção a um doente nosCaldeiros, quando viu uma coisa puxando pelo rabo do cavalo.Chicoteou-o, meteu as esporas, e nada. O cavalo parecia com ospés enterrados no chão. Olhou para trás, viu o bicho querersaltar para cima dele. Tirou do bolso a caixinha já com ahóstia consagrada, e apontou. Ouviu o baque de um corpo todo,e um gemido prolongado de moribundo. O cavalo tomou as rédeas,largando numa correria. No outro dia encontraram José Cutiadesfalecido na estrada. E o lobisomem bebia sangue também dos animais, chupava oscavalos no pescoço. O poldro coringa do meu avô amanheceu umdia com um golpe jorrando sangue. O lobisomem andara de noitepelas estrebarias. Eu acreditava em tudo isto, e muitas vezes fui dormir commedo destes bichos infernais. Na minha sensibilidade iacrescendo este terror pelo desconhecido, pelas matas escuras,pelos homens amarelos que comiam o fígado dos meninos. E atégrande, rapaz de colégio, quando passava pelos sombriosrecantos dos lobisomens era assobiando ou cantando alto paraafugentar o medo que sentia. Os zumbis também existiam noengenho. Os bois que morriam não se enterravam. Arrastavam-separa o cemitério dos animais, à beira do rio, debaixo dosmarizeiros, onde eles ficavam para o repasto dos urubus. Delonge sentia-se o hálito podre da carniça, e a gente via oscomensais disputando os pedaços de carne e as tripas docadáver. O zumbi, que era a alma dos animais, ficava por ali a
  26. 26. rondar. Não tinha o poder maligno dos lobisomens. Não bebia sanguenem dava surras como as caiporas. Encarnava-se em porcos ebois, que corriam pela frente da gente. E quando se procuravaagarrá-los, desapareciam por encanto. Ao velho Fausto, maquinista, uma vez, indo para o sítio daPaciência, deparou-se-lhe um porco-espinho a roncar. Para ondeia, ia o porco, como um cachorro de fila. E ele, perdendo acalma, deu com o seu cacete de jucá, com toda a força, nolombo do barrão: foi num toco preto de pau que bateu. Eles contavam-me estas histórias tão detalhadamente, queninguém podia suspeitar de mentira. E a verdade é que para mimtudo isto criava uma vida real. O lobisomem existia, era decarne e osso, bebia sangue de gente. Eu acreditava nele commais convicção do que acreditava em Deus. Ele ficava tão pertoda gente, ali na mata do Rolo, com as suas unhas de espetos eos seus pés de cabra! Deus fizzera o mundo somente. Eradistante dos nossos medos, e nós não o víamos como o JoséCútia com o seu cesto de ovos. Pintavam o lobisomem com umarealidade tão da terra que era como se eu o tivesse visto. DeDeus, tinha-se uma ideia vaga de sua pessoa. Um homem bom, comúm Céu para os justos e um Inferno para a gente ruim como avelha Sinhàzinha, com caldeiras e espetos quentes. Mas tudoisto depois que o sujeito morresse. O lobisomem lutava corpo acorpo com a gente viva. Era só sair antes da meia-noite para amata do Rolo, e encontrá-lo. Punham-nos a dormir embalando-nos com o bicho-carrapato. Acabra-cabriola, a caipora, encontravam na mata os caçadoressolitários. A burra-de-padre andava tinindo as correntes dassuas patas pelos portais distantes. Um mundo inteiro deduendes em carne e osso vivia para mim. E o que de Deus noscontavam era tudo muito no ar, muito do Céu, muito do começodo Mundo. É verdade que os sofrimentos de Jesus Cristo naSemana Santa nos tocavam profundamente. Mas Jesus Cristo erapra nós diferente de Deus, Deus era um homem de barbasgrandes, e Jesus era um rapaz. Deus nunca nascera, e Jesus tivera umamãe, aprendera a ler, ouvira ralhar, foramenino como os outros. E nós não sabíamos compreender osmistérios da Santíssima Trindade. Só depois o catecismo viriadestruir a minha crença absoluta nos bichos perigosos doengenho. Muita coisa deles, porém, ficou por dentro da minhaformação de homem. A velha Totonha, de quando em vez, batia no engenho. E eraum acontecimento para a meninada. Ela vivia de contarhistórias de trancoso. Pequenina e toda engelhada, tão leveque uma ventania poderia levá-la, andava léguas e léguas a pé,de engenho a engenho, como uma edição das Mil e Uma Noites.Que talento ela possuía para contar as suas histórias, com umjeito admirável de falar em nome de todos os personagens! Semum único dente na boca, e com uma voz que dava todos os tonsàs primeiras. As suas histórias para mim valiam tudo. Ela também sabiaescolher o seu auditório. Não gostava de contar para o primoSilvino, porque ele se punha a tagarelar no meio dasnarrativas. Eu ficava calado, quieto, diante dela. Para esteseu ouvinte a velha Totonha não conhecia cansaço. Repetia,contava mais uma, entrava por uma perna de pinto e saía por
  27. 27. uma perna de pato, sempre com aquele seu sorriso de avó degravura dos livros de histórias. E as lendas eram suas,ninguém as sabia contar como ela. Havia uma nota pessoal nasmodulações da sua voz e uma expressão de humanidade nos reis enas rainhas dos seus contos. O seu Pequeno-Polegar eradiferente. A avó que engordava os meninos para comer era maiscruel que a das histórias que outros contavam. A velha Totonha era uma grande artista para dramatizar. Elasubía e descia ao sublime sem forçar as situações, como acoisa mais natural deste mundo. Tinha uma memória prodigiosa. Recitava contos inteiros em verso, intercalando de vez emquando pedaços de Prosa, como notas explicativas. Havia ahistória de um homem condenado à morte. Os sinos já dobravampara o desgraçado que caminhava para a forca. Era acusado porcrime de morte. Todos os indícios eram contra ele. E quando ocortejo passava pela porta da casa de sua mulher em lágrimas,um filho seu que mamava tirou a boca do peito e começou afalar em verso e descobriu tudo, salvando o pai que ia morrerinocente. Os versos que esse menino recitava, a velha Totonhadeclamava-os com uma expressão de dor de arrepiar. As lágrimasvinham-me aos olhos com aquele lamento fanhoso de menino depeito a cantar. Havia sempre reis e rainhas nus seus contos, e forca eadivinhações. E muito da vida, com as suas maldades e as suasgrandezas, encontrava naqueles heróis e naqueles intrigantes,que eram semPre castigados com mortes horríveis. O que fazia avelha Totonha mais curiosa era a cor local que ela punha nosdescritivos. Quando ela queria pintar um reino era como seestivesse a falar de um engenho fabuloso. Os rios e asflorestas por onde andavam os seus personagens pareciam-semuito com o Paraíba e a mata do Rolo. O seu barba-Azul era umsenhor de engenho de Pernambuco. A história da madrasta que enterrara uma menina era a suaobra-prima. O pai saíra para uma viagem comprida, deixando afilha, que ele amava mais do que tudo, com a sua segundamulher. Quando partiu, encheu a mulher de recomendações, paraque tivesse todos os cuidados com a filha. Era menina decabelos louros, linda como uma princesa. A madrasta, porém, não lhe queria bem com os ciúmes do amorde seu marido pela menina. Começou, então, a maltratar amenina. Ela era quem ia de pote à cabeça buscar água ao rio,quem tratava dos porcos, quem varria a casa. Nem tinha tempopara brincar com as suas bonecas. Parecia uma criada, com oscabelos maltratados e a roupa suja. Um dia a madrasta mandou-a ficar debaixo de um pé defigueira, com uma vara na mão a espantar os sabiás das frutas.E a menina passava o dia inteiro enxotando os passarinhosfamintos. As rolas lavandeiras, aquelas que lavavam a roupa deNosso Senhor, vinham conversar com ela, contavam-lhe históriasdo Céu. Mas um dia ela pôs-se a olhar para o mundo bonito,para o céu azul e a alegria toda do canto dos pássaros. Nasombra da figueira, com aquele mormaço do meio-dia, adormeceusonhando com o pai que andava longe e com os brinquedos quetraria. E os sabiás depenicaram os figos da figueira. Era oque a madrasta queria. Agarrou na menina, deu-lhe uma sova dematar, e enterrou-a, ainda viva, na beira do rio. De volta opai chorou como um desgraçado, com a notícia da morte da
  28. 28. filha. A madrasta disse-lhe que a menina adoecera desde queele saíra de casa: - Não houve remédio Para a pobrezinha. Uma manhã, porém, o capineiro do engenho saiu para cortarcapim para os cavalos. Uma touceira bem verde crescia do meiodo capinzal. Ele meteu a serra. Ouviu então de dentro da terrauma voz muito de longe. Pensou que fosse engano dos seusouvidos e meteu outra vez a serra. Aí uma voz dorida, como ade uma alma sofrendo, levantou-se numa cantiga: Capineiro de meu pai, não me corte os meus cabelos. Minha mãe me penteou, minha madrasta me enterrou, pelos figos da figueira que o passarinho picou. O capineiro assombrado correu para chamar o senhor deengenho. E voltaram com a enxada, e cavaram a terra. A meninaestava verde como uma folha de mato. Os cabelos crescidos emtouceiras de capim de planta. Os olhos cheios de terra. E asunhas das mãos pretas e enormes.O senhor de engenho chorou como um doido, abraçando e beijandoa filhinha. No engenho foi uma festa que durou muitos dias. Osnegros dançaram o coco duas semanas e Muitos escravos tiveramcartas de alforria. E amarraram a madrasta às pernas de doispoldros bravos. Os pedaços dela ficaram pela estrada a cheirarmal. Havia também umas viagens de Jesus Cristo com os Apóstolos.Chegava Jesus para dormir num rancho com os seus companheiros.Os donos da casa eram pobres de fazer pena. Nem um pedaço depão tinham para os hóspedes. Jesus mandou Pedro buscar o sacoque ficara com os mantimentos. - Mestre, o saco está vazio. - Homem de pouca fé, vai ver o saco. MaS Pedro sabia que deixara o saco sem coisa nenhuma, masfoi. E encontrou duas cargas de farinha e de carne na porta. MaS, Pedro nestas histórias era um homem que só acreditavano que via e estava sempre a levar descomposturas de NossoSenhor. A velha Totonha sabia um poema a propósito do naufrágio dopaquete Baía nas costas de Pernambuco. Um náufrago contava oque vira do desastre: Oh, que dia de juízo! Oh, que dia de horror! Só as pedras não choravam, que não sentiam dor. Ó mestres e contramestres, pilotos e capitão, vamos ver nosso Baía se quer afundar ou não.
  29. 29. Incidente por incidente eram narrados nestes versos: meninosagarrados às mães, em pranto; um choro angustiado de gente quevai morrer; a água entrando dentro do navio; uma velhasalvando-se num garajau de galinhas; um homem rico chamado Pataca-Lisacorrendo para dentro docamarote para buscar um pacote de dinheiro e não voltandomais: foi ao fundo com a sua riqueza. Todo o poema era umaabundância de detalhes. E na voz plástica da velha a tragédiaparecia a dois passos de nós. Ficava arrepiado com esse cantosoturno. Vinha-me então um medo antecipado de embarcar emnavios, pelo horror das penas do naufrágio desse pobre Baía. Depois sinhá Totonha saía para outros engenhos, e eu ficavaà espera do dia em que ela voltasse, com suas histórias semprenovas para mim. Porque ela possuía um pedaço do génio que nãoenvelhece. Restava ainda a senzala dos tempos do cativeiro. Uns vintequartos com o mesmo alpendre na frente. As negras do meu avô,mesmmo depois da abolição, ficaram todas no engenho, nãodeixaram a «rua», como elas chamavam à senzala. E ali forammorrendo de velhas. Conheci umas quatro: Maria Gorda,Generosa, Galdina e Romana. O meu avô continuava a dar-lhes decomer e vestir. E elas a trabalharem de graça, com a mesmaalegria da escravidão. As suas filhas e netas iam-lhessucedendo na servidão, com o mesmo amor à casa-grande e amesma passividade de bons animais domésticos. Na rua ameninada do engenho encontrava os seus amigos: os moleques,que eram os companheiros, e as negras que lhes deram os peitospara mamar; as boas servas nos braços de quem se criaram, Alivivíamos misturados com eles, levando desandas das negras maisvelhas, iguais aos seus filhos moleques, napartilha de seus carinhos e de suas zangas. Nós não éramosseus irmãos de leite? Eu não tivera estes irmãos porquenascera na cidade, longe da salubridade daqueles úberes deboas turinas. Mas a mãe de leite de dona Clarisse, a tiaGenerosa, como a chamávamos, fazia as vezes de minha avó. Todacheia de cuidados comigo, ralhava com os outros por minhacausa. Quando reclamavam por tanta parcialidade a meu favor,ela só tinha uma resposta: - Coitadinho, não tem mãe. Nós mexíamos pela senzala, nos baús velhos das negras, naslocas que elas faziam pelas paredes de taipa, para os seus cofres, e ondeelas guardavam os seus rosários,os seus ouros falsificados, os seus bentos milagrosos. Nas paredes de barro havia sempre santos dependurados, e numcanto a cama de tábuas duras, onde há mais de um século faziamo seu coito e pariam os seus filhos. Não conheci marido de nenhuma, e no entanto viviam debarriga enorme, perpetuando a espécie sem previdência e semmedo. Os moleques dormiam nas redes fedorentas; o quarto todocheirava horrivelmente a mictório. Via-se o chão húmido dasurinas da noite. Mas era ali onde estávamos satisfeitos, comose ocupássemos aposentos de luxo. O interessante era que nós, os da casa-grande, andávamosatrás dos moleques. Eles dirigiam-nos, mandavam mesmo em todasas nossas brincadeiras, porque sabiam nadar como peixes,andavam a cavalo de todo o jeito, matavam pássaros ao arco,tomavam banho a todas as horas e não pediam ordem para sair
  30. 30. para onde quisessem. Tudo eles sabiam fazer melhor do que agente: soltar papagaios, brincar ao pião, jogar a castanha. Só não sabiam ler. Mas isto, para nós, também não pareciagrande coisa. Queríamos viver soltos, com os pés nus e acabeça ao tempo, senhores da liberdade que os moleques gozavama todas as horas. E eles às vezes abusavam deste poderio, dafascinação que exerciam. Pediam-nos para furtar coisas dacasa-grande para eles: laranjas, sapotis, pedaços de queijo. Trocavam connosco os seus arcos e os seus piões pelosgéneros que roubávamos da despensa. E iniciavam-nos nasconversas picantes sobre as coisas do sexo. Por eles comecei aentender o que os homens faziam com as mulheres, por ondenasciam os meninos. Eram uns óptimos repetidores de HistóriaNatural. Andávamos juntos nas nossas libertinagens pelo cercado.Havia um quarto dos carros onde iam ficando os veículos velhosdo engenho. Dali fazíamos uma espécie de lúpanar para jardimde infância. A nossa doce inocência perdia-se assim nessasconversas parvas, no contacto libidinoso com os moleques dabagaceira. As megras, porém, respeitavam-nos. Não abriam aboca para imoralidades na nossa frente. Estavam elas nas suaspalestras de intimidade de cada uma, e mal nos viam mudavam deassunto. E no entanto recebiam os seus homens no quarto com osfilhos. O meu primo Silvino contou-nos um dia o que vira noquarto da negra Francisca: - Zé Guedes numa cama de vara ringindo. E todos os anos pariam o seu filho. Avelina tinha filho doZé Ludovina, do João Miguel destilador, do Manuel Pedropurgador. Herdavam das mães escravas esta fecundidade de boasparideiras. Eu vivia assim, no meio dessa gente, sabendo detudo o que faziam, sabendo de seus homens, de suas brigas, desuas doenças. No quarto da negra Maria Gorda não se podia entrar. Nuncaconseguíamos aproximar-nos desta velha africana. Ela não sabiafalar, articulava uma meia língua, e à hora do almoço e dojantar saía da loca pendida em cima de uma vara para ir buscara ração. Gritava com os moleques e as negras, com aquelesbeiços caídos e os peitos moles dependurados. Era deMoçambique, e com mais de oitenta anos no Brasil, falava umamistura da língua dela com não sei quê. Esta velha fazia-memedo. As fadas perigosas dos contos da sinhá Totonha tinhammuito dela. O seu quarto fedia como carniça. Na noite de SãoJoão era à sua porta somente que não acendiam fogueira. Odiabo dançava com ela a noite inteira. Eu mesmo pensava que anegra tivesse qualquer coisa de infernal, porque, nela, nadasenti, nunca, de humano, de parecido com gente. Todos na ruatemiam a Maria Gorda. À tardinha sentava-se num caixote àporta de casa, para fumar o seu cachimbo de canudo comprido;mas ficava sozinha, resmungando ninguém sabe o quê. A velha Galdina era outra coisa. Africana também, de Angola,andava de muletas, pois quebrara uma perna ao fazer decabra-cega para brincar com os meninos. Fora ama de colo de meu avô, etodos nós a chamávamos de vovó. As negrasqueriam-lhe um bem muito grande. A tia Galdina era para elasuma espécie de dona da rua. Não se falava com ela aos gritos,e davam-lhe o tratamento de vossa mercê. Eu vivia em conversacom ela, atrás das suas histórias da costa de África. Viera de
  31. 31. lá com dez anos. Furtaram-na ao pai. Um seu irmão vendera-aaos compradores de negros, e marcaram-na no rosto a ferro embrasa. Contava a sua viagem de muitos dias: os negrosamarrados e os meninos soltos; de dia punham todos a tomar solonde viam o céu e o mar. Já estava contente com aquela vida denavio. O veleiro corria como o vapor na linha. E um diachegaram a terra. Ela levou muito tempo ainda a ser comprada. Os homens que vinham, queriam mais gente grande e molecastaludas. A vovó contava que via almas, pássaros brancos batendo asaspelas paredes. Na viagem, estas almas, de noite, ficavam avoar por cima dos negros amarrados. E ensinava-nos uns restosde palavras que ela ainda sabia da sua língua. Na noite deNatal atrelavam os bois ao carro para a velha Galdina ir ouvirmissa ao Pilar. E davam colchões velhos para a cama dela. Porqualquer coisa chorava como uma criança. Quando queriamagarrar a gente para nos surrarem, era para junto dela quecorríamos. Ela pedia pelos seus netos com os olhos cheios delágrimas. A velha Generosa cozinhava para a casa-grande. Ninguém mexianum cacareco da cozinha a não ser ela. E viessem meter-se nosseus serviços, que ouviam gritos, fosse mesmo gente da sala.Tinha não sei quantos filhos e netos. Negra alta e com braçosde homem, tirava uma tacha de doce do fogão sem pedir ajuda aninguém. Só falava a gritar, mas nós tínhamos tudo o quequeríamos dela. A negra Generosa era boa como os seus doces eas suas cangicas. Era só pedir as coisas ao seu ouvido, e eladava-no-las sem ligar importância às impertinências da velhaSinhazinha. - Quem quisesse mandar na cozinha que viesse para a boca dofogo. E quando iam reclamar por qualquer coisa, saía-se com quatropedras na mão: - Que se quisessem, era assim. Os tempos de cativeiro játinham passado. Distribuía aos moleques da pastagem as rações de carne-do-ceará e farinha seca. E fazia-o aos gritos, chamando"severgonha" a todos eles. Não se importavam, porém, com estaraiva da velha Generosa. Os moleques sabiam que o coração delaera um torrão de açúcar. Pois dava remédios para as suastosses e as suas feridas, e remendava-lhes os farrapos dasroupas. A senzala do Santa-Rosa não desaparecera com a abolição. Elacontinuava pegada à casa-grande, com as suas negras parindo,as boas amas de leite e os bons cabras do eito. Depois do jantar o meu avô sentava-se numa cadeira perto dogrande banco de madeira do alpendre. O gado não havia chegadoda pastagem. Lia os telegramas do Diário de Pernambuco, oudava as suas audiências públicas aos moradores. Era gente quevinha pedir ou queixar-se. Chegavam sempre de chapéu na mão,com um "Deus guarde a Vossa Senhoria". Queriam terras paraplantação, lugar para fazer casas, remédios para os meninos,cartas para meter pessoas no hospital. Alguns vinham fazerqueixa dos vizinhos: - Não podiam ter um pau de roça, com os animais do outrodestruindo. Os porcos andavam a fossar nos leirões de batatase os filhos a chupar as caninhas verdes. Já não tinham
  32. 32. paciência, vinham queixar-se porque não queriam fazer umadesgraça. - Vou mandar chamar aqui o Chico Carpina. Quero saber bemcomo isto é. E ficavam pela banca conversando com as negras, contando osseus aperreios à tia Maria, chamando-a para madrinha de maisum filho. Outro vinha a chamado do meu avô. Porém, tudo o que diziamdele era mentira. Nunca vendera um quilo de algodão na balançado Pilar. Nem estava a criar animais de outros engenhos nospastos da fazenda. Se fosse verdade podia deitar fogo às suascoisas e meter o gado dentro do seu roçado. O meu avô chamava-os de ladrões, de velhacos, e nemmostravam cara de aborrecidos. Parecia que aquelas palavrasfeias na boca do velhoJosé Paulino não quisessem dizer coisanenhuma. Muitos vinham arranjar carros do engenho para fazermudanças, e alguns dar conta de suas meações com o senhor oupagar o foro do ano. A todos o meu avô ia dando uma respostaou passando uma descompostura, mas cedendo sempre ao que elespediam. Uma vez chegoú lá um homem de cara diferente. Estava alipara pedir a protecção do coronel. Tinha matado um sujeito noOiteiro, e correra para se valer do meu avô. O velho quissaber do crime, Havia sido por questão de mulher. - Vá entregar-se ao delegado. Eu não acoito criminosos. Sematou com razão vai para a rua. Aqui não quero que fique. Nojúri protejo. Entregue-se à Justiça. Conte a sua história aojuiz. No meu engenho nunca protegi criminosos. Quando a genteestá de cima, muito bem. Caiu, lá vem a Polícia cercar apropriedade. Não estou para isso. Outro dia o tenente Maurícioentrou nas terras do Quincas do Jatobá para prender umcriminoso, e surrou uns moradores que nada tinham com o facto. Pela estrada iam passando os matutos que voltavam dasfeiras. Às terças, em Itabaiana, aos sábados, no Pilar. O meuavô chamava-os para saber quanto dera a cuia de farinha ou aarroba de algodão. Davam notícia de tudo - do preço dosgéneros e dos boatos que corriam. - Feijão verde, de graça, de fazer lama. O coronel Nô Borgesvai cair na política. A política está a prender o povo dodoutor Odilon. Os matutos já não podem andar de camisa porfora das calças, nas ruas, nem estalar o chicote a tocar osanimais. Tem descido muito gado magro do sertão. Acarne-de-sol a dois e oito. O doutor Ribeirinho comprouduzentas reses para a solta. Feira ruim, a do Pilar. O povoanda com medo de António Silvino.Mamaram somente dois bois, e sobrou carne no açougue. E daí a pouco aparecia o gado voltando do pasto. O meu avôlevantava-se para ver de perto as vacas e os bois de carro debarriga cheia. Indagava dos moleques em que pasto estiveram.Mandava curar as bicheiras dos animais. Havia sempre um boiladrão que chegava fora de horas. - Amanhã vamos passar o dia no Oiteiro. Fui dormir assim, com a viagem na cabeça. Estes passeios aoutros engenhos de perto eu fazia-os com alegria, de todo ocoração. De manhã bem cedo já estávamos prontos, com o carro de boisà porta. Cobriam o carro com uma esteira de piripiri e
  33. 33. forravam as tábuas da sua mesa com um colchão. Era a nossacarruagem ronceira, mas segura. O carreiro Miguel Targino,grande e agigantado como um São Cristóvão, capaz de tirarsozinho o seu carro de um valado, já estava de vara e macaca,esperando a gente para a viagem. Quando a família saía apasseio, chamavam-no para carrear. Todos os seus irmãos erammestres carreiros: Chico, João e Pedro Targino. Ele, porém"fazia os serviços da casa-grande. O gado na sua mão nãoapanhava, e ele não ficava sentado à mesa, deixando o carro aodeus-dará. Nunca dera úma virada. Punha-se de vara na mãochamando os bois de cambão para os atalhos, desviando asrodeiras das pedras da estrada: - Ei, Labareda! Ei, Medàlha! E nós saíamos para a grande viagem, com a gente adultasentada e os meninos dependurados pela mesa do carro, pedindode quando em vez a Miguel Targino a macaca para tocar os boisdo coice. Chamavam-se Medalha e Javanês os do coice, grandes elargos para bem aguentarem o peso e sustentarem as manobras; Estrela eLabareda os do cambão, pequenos e de pescoçoscompridos, ágeis, os verdadeiros motores do carro. Para estesa vara de ferrão, e a macaca para os do coice. E todos elesatendiam à voz do carreiro. Quando o Miguel Targino fazia um ôdescansado, os do coice enterravam os pés na areia, e ninguémarrastava o carro dali. E com um ei, Labareda, de ordem, os docambão espichavam o pescoço na canga, e lá ia o carro andando. Ainda tudo estava escuro com a madrugada. A névoa dos altoschegava até os cajueiros. Tudo parecia branco daquele lado,como grandes paióis de algodão. Pelo curral começavam a tiraro leite; ouvia-se o falazar dos moleques na manjedoura. Mas ocarro já deixara o cercado do engenho, ganhava a estrada deSão Miguel. Vinham cargueiros com sacos brancos de farinha ecaçuás cheios de louças de barro para a feira do Pilar. Ochicote deles estalava naquele silêncio bom da madrugada.Passava-se por casas de moradores ainda com as portasfechadas; os homens, nus da cintura para cima, já estavam aver o tempo, enquanto os meninos e a mulher se encolhiam nopobre quente das camas de vara. Os bogaris das biqueirascheiravam no ar frio. Galinhas empoleiradas em árvores, compreguiça de deixar o seu sobrado de galros. Mais adiante o solespelhava os campos, esquentando as folhas da cana, aindapingando do orvalho. As casas dos moradores abertas, bem comoas portas e as janelas, com a família inteira no terreirotomando o seu banho de sol, de graça. Às vezes o carro paravapara minha tia falar com as comadres, que vinhamalegríssimasdar duas palavras com a senhora. E os meninos decamisa comprida tomavam a bênção à madrinha. - Deus te abençoe... E eram mesmo abençoados por Deus, porque não morriam de fomee tinham o Sol, a Lua, o rio, a chuva e as estrelas comobrinquedos que não se quebravam. Depois o carro saía - e a casa toda ficava a olhar-nos atédobrar a curva da estrada. Punham sabão nos cocões quecomeçavam a chiar.Carros que levavam gente não cantavam: rodavam mudos peloscaminhos. Agora passava-se à porta do engenho Maravalha. Aestrada passava rente à casa-grande. - É o carro do Santa-Rosa.

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