Dona sinhá

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Capítulo do Livro Rios de Memórias, da escritora Ana Angélica Matos Rocha, páginas 89 a 105, com o Título Dona Sinhá ( mãe da escritora).

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Dona sinhá

  1. 1. Dona SinháEu quero a memória acesa depois da angústia apagada.Cecília MeirelesDona Sinhá, assim era conhecida por todos na cidade apesar de seu nomeverdadeiro, doce, e suave, que traduzia a leveza da sua alma: Isabel. A mais velha dasquatro filhas de meu avô. Uma mulher forte, de fibra. Casou-se com meu pai aos vinte edois anos, um casamento arranjado entre primos. Viveram sessenta e um anos, de umavida conjugal que não foi, talvez, a mais romântica, mas, creio que se amavam apesardas diferenças individuais.Meu pai, um homem rústico, pouco afeito a dengos, minha mãe, uma mulher que sóvivia para o lar, saía apenas para ir à igreja ou quando estava lavando roupa no RioGongogi, ou no Rio Preto. Criou nove filhos. Amava-os incondicionalmente, eramcomo joias preciosas em suas mãos, ou pintainhos debaixo das suas asas.Nunca entendeu e não se conformava com as peças que a vida muito cedo lhepregou: perdeu, ainda crianças, dois de seus filhos, uma menina e um menino. Assistiriaoutros dois, já adultos, partirem prematuramente.Dona Isabel não tinha escolaridade, desenhava, com dificuldade o seu nome, quandoera preciso assinar algum documento público ou cumprir, através do voto, seu papel decidadã. Aprendera a ler na fase adulta estudando a Bíblia, sua fonte de doutrina e fé, deonde tirava ensinamentos para sua vida.Falava de Jesus e compartilhava, com todos que chegavam lá em casa, do que Elesignificava na sua vida. Dava exemplos de como viver conforme os preceitos doEvangelho, citava versículos, lia passagens bíblicas. Sabia “de carreirinha” onde estava,na Bíblia, quase tudo do que, naquele momento especificamente, ela iria precisar. Tinhauma palavra de fé para cada um.Uma vez por mês, o pastor ministrava um culto lá emcasa, almejava que todos os seus filhos estivessem ali e comungassem com ela a mesmafé. Sonhara, por toda a vida, ver seu marido, aos domingos, acompanhando-a à igreja.Nunca conseguiu. Porém, testemunhou a sua conversão ao Deus Supremo, já no fim dasua jornada aqui na terra. Ficou feliz, glorificou o nome do Senhor.E, a cada dia, procurava viver conforme os ensinamentos de Jesus, como umaverdadeira cristã: “Amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”.Fundadora da 1ª Igreja Batista da cidade, aí congregou por mais de sessenta anos.
  2. 2. Esposa sempre dedicada ao marido, mesmo nos momentos em que esse nãocorrespondia às suas expectativas, quando chegava em casa zangado ou até muitoagressivo explodindo com quem achasse pela frente.Em casa, tinha a companhia silenciosa, mas muito amorosa do seu bichinho deestimação – o Lourinho, como era chamado o papagaio que recebera da irmã que foimorar em Recife, em um mil novecentos e sessenta e quatro. Amava-o, como a ummembro da família. Conversava com ele, que respondia com arrufos de alegriachamando-a Sinhá, Sinhá... Nunca mais o deixaria. Apesar da ausência saudosa da suaprotetora, ele sobrevive tristonho até hoje.Ainda menina, eu presenciava, sem condições de nada fazer, minha mãe sofrerdilaceradamente. Os seus três filhos mais velhos partiram em busca de trabalho no Suldo país. Um a um era pranteado diariamente, numa época em que não havia asfacilidades tecnológicas de hoje, nem ao menos um telefone.Logo mais, minha irmã mais velha se casa, ficam com meus pais eu e dois irmãosmais moços. Um desses, parte mais tarde em busca de estudo e trabalho. De resto, eu emeu irmão caçula, como seus ajudadores. E eu, como sua cuidadora.A princípio, minha irmã continuou morando na nossa cidade, o que nos consolava,poderíamos vê-la sempre. Minha mãe tinha um cuidado especial com ela. Quando omarido viajava, ou eu ou um dos meus irmãos mais novos teria que ir dormir em suacasa. Ninguém questionava, era uma ordem, apesar de não gostar muito de deixar aminha cama.Quando minha irmã engravidava, cuidados redobrados. Nos dias que antecediam adata provável do parto, não tinha quem fizesse ela arredar pé da casa da filha, e melevava junto, caso precisasse de alguma coisa. Lembro uma noite em que seu maridoviajara, e tive que “dormir” sentada na porta do quarto onde as duas estavam. Euchorava e pedia compaixão, que me deixassem entrar, e nada. O importante, naquelemomento, era o bem-estar da minha irmã. Na verdade, falecera alguém na cidade, e euestava com medo de dormir sozinha. As duas alegaram que não me cabia onde elasdormiam, voltasse então para meu quarto. É claro, não dormi. No outro dia, meucoração estava sofrido, repleto de raiva, a vontade era desaparecer, se isso fossesuficiente para tirar, de dentro de mim, aquele sentimento de rejeição. Não fiz nadadisso. Estava com muito sono e precisava, com urgência, de uma cama. Hoje, resta alembrança de um momento bastante desagradável, sem qualquer ponta de mágoa.
  3. 3. Quando minha irmã entrou em trabalho de parto da segunda filha, sobrou para mim,aos dez anos de idade, às quatro horas da manhã, ter que buscar a parteira. Fazia um friode quebrar os ossos - o mês de maio sempre foi muito frio. E, sem um agasalho maisapropriado, saí a galope pela madrugada, atravessando a cidade enrolada em um lençol,da cabeça aos pés. Parecia mais uma alma penada nas ruas nebulosas e sombrias dacidade. Meu corpo se arrepiava e sentia calafrios. Medo ou frio? Provavelmente os dois.Nascida a menina e, já no outro dia, eu teria o trabalho de lavar-lhe as fraldas. Issotodos os dias. Quando recusava realizar a tarefa, apanhava ou, no mínimo, ficava decastigo sem poder ir ao encontro de minhas primas. Para mim, um castigo e tanto! Nãotinha em casa irmã que brincasse comigo. Alguma prima cobria a falta. Moravampróximas umas das outras. Apanhei várias vezes por não cumprir uma obrigação a fimde ir brincar com elas.Mais tarde, essa irmã, acompanhando o marido, muda para Minas Gerais –Nanuque. E, depois, para o extremo sul da Bahia, precisamente, Alcobaça. Fica comigoa responsabilidade de, como a única filha mulher presente, tomar conta de minha mãe.Tudo era comigo. Mensalmente, em um dia exato escolhido por ela, tinha de escrevertrês cartas, uma para cada um dos filhos que moravam no Sul e Sudeste do país.Sentávamos à mesa, e ela ia ditando o que iria dizer: pedia cuidado com os perigos dacidade grande, falava da saudade que sentia, mandava lembranças de todos osfamiliares, incluía fotos e, ao final, implorava que respondessem a carta assim que arecebessem.Ao ditar a carta, chorava, lamentava a falta dos filhos, como se já os tivesse perdidopara sempre. Muitas das vezes, eu chorava com ela. O seu sofrimento me deixava commuito ódio dos meus irmãos que, de longe, não viam o que se passava. Angustiava-mevê-la à espera de uma carta deles, que demorava meses ou até mesmo anos. Quandochegava, eu tinha que ler pelo menos três vezes e por vários dias. Ao arrumar os seuspertences, após ter nos deixado aos noventa e quatro anos de idade, encontro estaenviada por meu irmão, de 1958. Estava eu com doze anos de idade.
  4. 4. Após receber essa correspondência, nós o vimos por umas duas vezes. Decorridosoito anos, ele morre, aos trinta e três anos de idade, em circunstâncias trágicas. Caíra dooitavo andar de um prédio no centro de São Paulo - o apartamento onde morava, haviapegado fogo.A causa real, nunca se soube. Sobre o episódio, só tivemos notícias alguns diasdepois. Um primo distante, que não víamos há anos, leu, nas páginas policiais de umjornal de São Paulo, uma nota sobre um corpo que caíra de um prédio no centro dacidade. O nome que aparecia no jornal era de Xenaldo Matos Rocha, meu irmão. Omesmo primo, após a identificação do corpo, assumiu o sepultamento e nos comunicouo que ocorrera através de carta.Na época, eu ensinava Educação Física no Ginásio de Iguaí. Em um exato dia, antesde receber a triste notícia da morte de meu irmão, acordara às cinco horas da manhã,para me encontrar com os alunos, onde íamos ter uma atividade. Não me lembro doassunto, mas era algo ligado à alvorada, ensaio de desfile ou coisa parecida. Logo aoacordar, de passagem pela a cozinha, para ir ao banheiro, que ficava fora do corpo dacasa, me deparo com minha mãe chorando sem consolo. Assustada, pergunto o quehavia acontecido e, aos prantos, ouço o que jamais esqueci:- Minha filha, acordei sem um pedaço de mim. Arrancaram um pedaço do meucoração. Está doendo muito.Abraçamo-nos, chorei com ela até acalmá-la enquanto buscava ajuda. Após algunsdias, recebemos a notícia da data e hora exata da morte de meu irmão. Eram as mesmasdaquele momento em que encontrei minha mãe chorando na cozinha.Foi muito forte e muito difícil de acreditar no que estava assistindo. Minha mãe, noseu amor extremo, sentira prematuramente as dores da perda de seu filho. Eu sofria duasvezes: pela perda do meu irmão e por minha mãe. Por muito tempo, permanecianestesiada, assustada, sem ação, querendo ajudá-la e sem saber como. Cobria-a comtodo zelo, mas os problemas estavam apenas começando.Janeiro de um mil novecentos e sessenta e seis, mês em que meu irmão morrera.Minha mãe parecia um trapo humano. Eu, fortemente fragilizada, fazia tudo para não adeixar sucumbir. Teríamos de ir para Nanuque. Minha irmã estava esperando, para omês de fevereiro, o nascimento do seu quinto filho. Sabia que a viagem representava umdos maiores desafios que iríamos enfrentar. Minha mãe enjoava bastante em viagensterrestres, e essa duraria, mais ou menos, uns quatro dias. Não havia ônibus direto para a
  5. 5. cidade. Em algum trecho, teríamos que pegar um trem. Mas, o amor de mãe falou maisalto, e ela não pensou duas vezes.Preparamos tudo e pegamos a estrada. No caminho, o sofrimento foi duas vezesmaior. Minha mãe, com a alma despedaçada e, ainda, aguentando firme o enjoo. Foramquatro dias sem comer, sem beber. Tomava água aos golinhos provocada por mim.Através da janela, olhando a paisagem, eu divisava, no horizonte, um amanhã nebulosoe a incerteza se chegaríamos ao nosso destino. O ritmo cadenciado do trem fazialembrar que a realidade era aquela, nua e crua. Tínhamos de ser fortes. Porém, confessoque tive muito medo de minha mãe sucumbir à viagem.Chegamos! Não sei como, mas chegamos. Minha mãe logo me recomendou que nãocontasse nada sobre o que acontecera ao nosso irmão. A notícia poderia comprometer oparto. Padecendo a dor da perda do filho, não tinha o direito de deixar transparecer umsemblante triste, choroso. O bem-estar de sua filha, naquele momento, estava acima doseu próprio sofrimento. Que amor incondicional! Que coração é esse para aguentar, aomesmo tempo. a alegria de estar com a filha e o sofrimento de perder um filho. Comoexplicar tal dialética?Na primeira quinzena de fevereiro, em uma tarde de domingo, chega à casa deminha irmã uma nossa conhecida que viera fazer uma visita de pêsames à família. Logona entrada, descarrega, desastradamente, estendendo a mão à minha mãe:- Meus pêsames!Minha irmã fica paralisada, minha mãe treme como vara verde e eu, naquele fogocruzado, tive de contar a história tentando não me emocionar para não piorar as coisas.Poucos dias depois, como num filme, lá estava eu novamente, numa cidade distante,agora não mais embrulhada num lençol, mas enrolada, às voltas, sem saber ao certocomo achar o caminho do hospital para chamar o médico que iria fazer o parto em casa.Logo ao chegar, ele pediu-me que entrasse no quarto para ajudar-lhe. Nos meus vinteanos, com a coragem de uma leoa e a fragilidade de quem não sabia nada de nada sobreo parto, recebi, nos meus braços, uma menina linda, enquanto o médico cortava ocordão umbilical. Concluiu o seu trabalho e foi embora. Fiquei com a criançalimpando-a e arrumando-a. Só depois, a entreguei à mãe para amamentar.A menina linda que peguei em meus braços, hoje, compartilha o seu amor e toda asua dedicação à sua mãe, como um dia eu fiz com a minha. Que seja, para sempre,abençoada.
  6. 6. Depois dessa bendita maratona, decidimos que não havia mais condições de minhamãe viajar para tão longe por via terrestre. As próximas viagens para Alcobaça, ondeminha irmã passou a morar, aconteceriam de outra forma. Iríamos de carro até Ilhéusonde ela pegaria o avião para Caravelas onde estaria meu cunhado, esposo de minhairmã, à sua espera.Recordo-me, com carinho, do meu cunhado. Gostava de mim, como de uma filha.Presenteou-me com uma penteadeira recomendando que era um brinquedo de boneca.Quando recebi o móvel, fiquei estatelada. Enfeitou o meu quarto enquanto morei emIguaí e até hoje faz parte das minhas relíquias, na casa da minha cidade. Sempre nasidas a Alcobaça, procurava nos agradar com comidas exóticas que mandava preparar nabeira da praia, ou outros quitutes que, para nós, eram novidade. Meu cunhado não estámais entre nós, para ele, a minha gratidão e saudade eternas.Nos momentos de férias em Alcobaça gozava do convívio de minha irmã, de minhassobrinhas e sobrinhos. A sobrinha mais velha, a que me deu o trabalho de ir buscar aparteira às quatro horas da manhã, já me acompanhava nas paqueras aos garotos quevinham de toda parte do Brasil veranearem na cidade, principalmente da Bahia e deMinas Gerais.Uma outra sobrinha mais nova, à época, com aproximadamente cinco anos de idade,era meu chamego. No deslumbramento de uma infância em contato permanente com anatureza, (minha irmã morava em um sítio à beira de um caudaloso rio, o Itaitinga),brincávamos de bambolê, tomávamos banho no rio e, ao colocá-la para adormecer,pedia-me para cantar ‘Um dia gatinha manhosa eu prendo você no meu coração...”,música de Erasmo Carlos, de muito sucesso na época. Nas cartinhas que me escrevia noinício do seu processo de letramento enternecia-me com mensagens como esta:
  7. 7. Minha mãe era de uma ingenuidade a toda prova. Para ela, ninguém era mau,ninguém fazia nada errado, acreditava nas pessoas em seu estado puro de grandeza. Sealguém lhe falasse sobre um erro de um dos seus filhos, além de não acreditar, tentavaconvencê-lo das qualidades que os mesmos possuíam.Lembro-me que, de volta de uma das suas viagens a Alcobaça, estávamos, eu aalgumas primas, esperando-a no aeroporto de Ilhéus. Ao descer do avião, assustou-se aover que muitas garotas gritavam e corriam em direção a um rapaz que, ao seu lado,estava chegando ao saguão da sala de desembarque. Fomos ao seu encontro, e ela logoquis saber o motivo da confusão Não seria aquela uma abordagem violenta injustamentedirigida ao seu companheiro de vôo?-Um moço tão simpático, sentou ao meu lado e conversamos muito, perguntei-lhe seconhecia meus sobrinhos que moram em Salvador, pois ele está indo para lá.Não acreditei! Minhas primas davam risadas. Daríamos tudo para estar no seu lugar.O moço bonito e simpático que sentara ao seu lado era nada mais nada menos que nossoídolo da Jovem Guarda, Jerry Adriani.No dia da minha viagem para Salvador, na véspera do vestibular, foi uma chantagemsó:
  8. 8. -É isso mesmo, a gente cria os filhos e no final fica sozinha. Minha única filhamulher que mora comigo, vai me deixar.Chorou bastante, tentei convencê-la de que não iria abandoná-la nunca. Meuprimeiro dia das mães longe dela, mandei-lhe este cartão. O primeiro de muitos daí pordiante:Mesmo não estando morando com ela, continuei sendo sua cuidadora, suaprocuradora, sua amiga. Víamos-nos quatro vezes no ano, e muitas vezes ela passava
  9. 9. férias aqui em casa. Corri para junto dela quando faleceu o seu filho caçula, em 1977.Sofremos juntas mais uma vez. Trouxe-a para ficar alguns tempos comigo. Tanto meupai quanto minha mãe não gostavam de sair. Achavam que só eles poderiam cuidar dacasa, do pomar, das galinhas do jardim.O destino ainda lhe reservava algumas peças: foi operada, em Feira de Santana, datireoide. Devido à complicação da cirurgia, teve que ser reoperada com menos de vintee quatro horas. Recuperou-se aqui em casa.Em um mil novecentos e noventa, vivencia atragédia acontecida com um filho que, após tomar uma pancada na cabeça, é operado efica em coma por quinze dias e quase quatro meses de reabilitação em minha casa.Recuperou-se quase que totalmente, restando-lhe poucas sequelas.Concedeu-nos o Senhor a dádiva de comemorarmos os seus noventa e um anos. Umalmoço para toda a família, amigos mais chegados e os seus companheiros ecompanheiras da Igreja Batista onde congregava. Repito aqui o que, naquele momento,eu disse para ela.-“Mãe, você é a minha alegria, minha amiga mais próxima, meu exemplo dehumildade, de fé e de força. A sua presença me embala como canção de ninar. Os seuscabelos brancos são, para mim, como lãs que afofam a minha alma. Os seusensinamentos fizeram-me melhor porque você mostrou com as suas atitudes que oimportante é SER e não apenas TER. Ensinou-me a enxergar o mundo para além doque os meus olhos veem. Então, mãe, você é e será sempre a mais bendita dasmulheres. Você é e sempre será: eterna”.

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