Poemas mar selecao_semana_leitura_2013

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Poemas mar selecao_semana_leitura_2013

  1. 1. Mar de setembro Tudo era claro:céu, lábios, areias. Ilustração de Cathy DelanssayO mar estava perto, fremente de espumas. Corpos ou ondas: iam, vinham, iam, dóceis, leves - só ritmo e brancura. Felizes, cantam; serenos, dormem; despertos, amam, exaltam o silêncio. Tudo era claro, jovem, alado. O mar estava perto. Puríssimo. Doirado. Eugénio de Andrade, in Mar de Setembro
  2. 2. O sol o muro o mar Ilustração de Brenda MontesNo quadrado aberto da janela o mar cintila coberto deescamas e brilhos como na infância.O mar ergue o seu radioso sorrir de estátua arcaica.Toda a luz se azula.Reconhecemos nossa inata alegria: a evidência do lugarsagrado. Sophia de Mello Breyner Andresen, in Ilhas
  3. 3. Do lado do verão Ilustração de Liu YeVinha do sul ou de um verso de Homero.Como dormir, depois de ter ouvidoo mar o mar o mar na sua boca? Eugénio de Andrade, in O outro nome da terra
  4. 4. Soneto de EurydiceEurydice perdida que no cheiroE nas vozes do mar procura Orpheu:Ausência que povoa terra e céuE cobre de silêncio o mundo inteiro.Assim bebi manhãs de nevoeiroE deixei de estar viva e de ser eu Ilustração de Alice GuicciardiEm procura de um rosto que era o meuO meu rosto secreto e verdadeiro.Porém nem nas marés, nem na miragemEu te encontrei. Erguia-se somenteO rosto liso e puro da paisagem.E devagar tornei-me transparenteComo morte nascida à tua imagemE no mundo perdida esterilmente. Sophia de Melo Breyner Andresen, in No Tempo dividido
  5. 5. Inscrição Ilustração de Jeffrey LarsonQuando eu morrer voltarei para buscarOs instantes que não vivi junto do mar Sophia de Mello Breyner Andresen
  6. 6. Como o rumor Ilustração de Maki HinoComo o rumor do mar dentro de um búzioO divino sussurra no universoAlgo emerge: primordial projecto. Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Nome das coisas
  7. 7. Amar Ilustração de Sigrid MartinezBastava-nos amar. E não bastava o mar. Joaquim Pessoa
  8. 8. Na praia Ilustração de Angela MorganRaça de marinheiros que outra coisa vos chamarsenhoras que com tanta dignidadeà hora que o calor mais apertarcoroadas de graça e majestadeentrais pela água dentro e fazeis chichi no mar? Ruy Belo, "Verão", in Todos os Poemas, Assírio & Alvim
  9. 9. Lua Ilustração de Victor Nizovtsev Entre a terra e os astros, flor intensa. Nascida do silêncio, a lua cheia Dá vertigens ao mar e azula a areia, E a terra segue-a em êxtases suspensa. Sophia de Mello Breyner Andresen
  10. 10. Mala de viagemComeça por guardar um sonho douradopelo sol, por onde corra o vento mais quente; põesobre ele o silêncio que acompanha o desejodos amantes, limpando-o das sombrasdo inverno; protege-os com a negra foicedo destino, de lâmina embainhada na geadamatinal, cujo brilho anuncia já o céudo meio-dia. Esvazia o búzio da madrugadado seu recheio de amor, para que se possa ouviro mar sem o eco nocturno dos porões. Porcima, põe as conchas do oráculo de rostoapagado pelo degelo das estrelas. Lembra-teque a casa que vais deixar não pode ficarfechada; e que a chave do sono ficou entreos seios nus da memória. Só assimterás um rumo, e de cada vez que chegaresa mala estará pronta para a viagem.Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicávelIlustração de Шлыков Геннадий- Gennady
  11. 11. Ilustração de Mariana KalachevaAtravessara o verão para te verdormir, e trazia doutros lugaresum sol de trigo na pupila;às vezes a luz demora-seem mãos fatigadas; não sei em qualde nós explodiu uma súbitajuventude, ou cantava:era mais fresco o ar.Quem canta no verão espera ver o mar. Eugénio de Andrade, in O Peso da Sombra
  12. 12. Apenas um rumor Ilustração de Vincent GibeauxE no teu rosto aberto sobre o marcada palavra era apenas o rumorde um bando de gaivotas a passar. Eugénio de Andrade, in Os Amantes do dinheiro
  13. 13. Ilustração de Mariana KalachevaRapariga descalça Chove. Uma rapariga desce a rua. Os seus pés descalços são formosos. São formosos e leves: o corpo alto parte dali, e nunca se desprende. A chuva em abril tem o sabor do sol: cada gota recente canta na folhagem. O dia é um jogo inocente de luzes, de crianças ou beijos, de fragatas. Uma gaivota passa nos meus olhos. E a rapariga – os seus formosos pés – canta, corre, voa, é brisa, ao ver o mar tão próximo e tão branco. Eugénio de Andrade
  14. 14. A Figueira Ilustração de Eugenia GapchinskaNão tenho mãos para o azul.Sonho com o marque não está longe mas não vejoarder.Só a sombra parece estar em casadebaixo dos meus ramos:canta baixinho enquanto se descalça. Eugénio de Andrade, in Com o sol em cada sílaba
  15. 15. Ilustração de Quentin GrébanMar sonoro Mar sonoro, mar sem fundo, mar sem fim, A tua beleza aumenta quando estamos sós E tão fundo intimamente a tua voz Segue o mais secreto bailar do meu sonho, Que momentos há em que eu suponho Seres um milagre criado só para mim. Sophia de Mello Breyner Andresen, in Dia do Mar
  16. 16. As ondas quebravam uma a umaEu estava só com a areia e com a espumaDo mar que cantava só para mim. Sophia de Mello Breyner Andresen, in Dia do Mar Ilustração de Jeffrey Larson
  17. 17. Praia Ilustração de Anton GorcevichOs pinheiros gemem quando passa o ventoO sol bate no chão e as pedras ardem.Longe caminham os deuses fantásticos do marBrancos de sal e brilhantes como peixes.Pássaros selvagens de repente,Atirados contra a luz como pedradas,Sobem e morrem no céu verticalmenteE o seu corpo é tomado nos espaços.As ondas marram quebrando contra a luzA sua fronte ornada de colunas.E uma antiquíssima nostalgia de ser mastroBaloiça nos pinheiros.
  18. 18. Dormem na praia os barcos pescadoresImóveis mas abrindoOs seus olhos de estátuaE a curva do seu bicoRói a solidão. Sophia de Mello Breyner Andresen, in Coral (1950)
  19. 19. Ilustrações de Roel ObemioPescador da barca belaPescador da barca bela,Onde vais pescar com ela,Que é tão bela,Oh pescador?Não vês que a última estrelaNo céu nublado se vela?Colhe a vela,Oh pescador!
  20. 20. Deita o lanço com cautela,Que a sereia canta bela...Mas cautela,Oh pescador!Não se enrede a rede nela,Que perdido é remo e velaSó de vê-la,Oh pescador!Pescador da barca bela,Ainda é tempo, foge dela,Foge dela,Oh pescador! Almeida Garrett
  21. 21. Ilustração de Mariana KalackevaO mar. O mar novamente à minha porta.Vi-o pela primeira vez nos olhosde minha mãe, onda após onda,perfeito e calmo, depois,contra falésias, já sem bridas.Com ele nos braços, quanta,quanta noite dormira,ou ficara acordado ouvindoseu coração de vidro bater no escuro,até a estrela do pastoratravessar a noite talhada a piquesobre o meu peito.Este mar, que de tão longe me chama,que levou na ressaca, além dos meus navios? Eugénio de Andrade, in Branco no branco
  22. 22. Fundo do marNo fundo do mar há brancos pavoresOnde as plantas são animaisE os animais são flores.Mundo silencioso que não atingeA agitação das ondas.Abrem-se rindo conchasredondas,Baloiça o cavalo-marinho.Um polvo avançaNo desalinhoDos seus mil braços,Uma flor dança,Sem ruídos vibram os espaços.Sobre a areia o tempo poisaLeve como um lenço. Ilustração de Ani CastilloMas por mais bela que seja cadacoisaTem um monstro em si suspenso. Sophia de Mello Breyner Andresen, in Mar
  23. 23. Foi no mar que aprendiFoi no mar que aprendi o gosto da forma belaAo olhar sem fim o sucessivoInchar e desabar da vagaA bela curva luzidia do seu dorsoO longo espraiar das mãos de espumaPor isso nos museus da Grécia antigaOlhando estátuas frisos e colunasSempre me aclaro mais leve e mais vivaE respiro melhor como na praia Sophia de Mello Breyner Andresen, in O Búzio de Cós e outros poemas
  24. 24. Praia Ilustração de Adrienne TraffordNa luz oscilam os múltiplos naviosCaminho ao longo dos oceanos friosAs ondas desenrolam os seus braçosE brancas tombam de bruçosA praia é longa e lisa sob o ventoSaturada de espaços e maresiaE para trás fica o murmúrioDas ondas enroladas como búzios. Sophia de Mello Breyner Andresen, in No Tempo Dividido (1954)
  25. 25. As meninasas minhas filhas nadam. a mais novaleva nos braços bóias pequeninas,a outra dá um salto e põe à provao corpo esguio, as longas pernas finas:entre risadas como serpentinas,vai como a formosinha numa trova,salta a pés juntos, dedos nas narinas,e emerge ao sol que o seu cabelo escova.a água tem a pele azul-turquesae brilhos e salpicos, e mergulhamfeitas pura alegria incandescente.e ficam, de ternura e de surpresa,nas toalhas de cor em que se embrulham,ninfinhas sobre a relva, de repente. Vasco Graça Moura Ilustração de Arthur de Pins
  26. 26. Cena bíblicaNo meio da praia deserta, uma baleia morta. O céuestava cinzento. As ondas rebentavam em brancasexplosões. Dois ou três pescadores, e outras tantascrianças, andavam à volta da baleia, tapando o nariz.Nada a fazer por ela. Mas o vento levava o cheiropara longe, e ao aproximar-me perguntava-me senão seria de a abrir e ver se, por acaso, não haveriaum jonas no seu ventre. O pescador mais velhoafastou-me: «E se ali estivesse alguém, o queteria para nos dizer?» Não soube o que responder:que mensagens de um deus antiquíssimo? Querecordações de um tempo de guerras e desastres?Que memórias da mulher amada, de quem nãorestam ossos nem imagens? No dia seguinte,com um tractor, a baleia foi enterrada bem fundo,numa cova ao seu tamanho. Dizem que nenhumaplanta cresceu ali, desde então. E ainda hoje mearrependo de não ter ouvido o apelo de jonas,e de não o ter tirado do ventre da baleia. Nuno Júdice, in Fórmulas de uma luz inexplicável Ilustração de Carmen Arvizu
  27. 27. estou deitado sobre a minha ausência,como poderia estar deitado se existisse.amanhã as ondas imitar-me-ão na praia. José Luís Peixoto, in A Criança em Ruínas Ilustração de Svjetlan Junakovic
  28. 28. Ilustração de Kristyna LittenTal como nós temos coração, intestinos, rins, fígado……o mar tem peixes. Afonso Cruz, “2 de Julho”, in O livro do ano, Alfaguara

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