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Contribuições da Epigrafia para o estudo
do cotidiano dos gladiadores romanos no início do
Principado
Renata Senna GARRAFFONI1

RESUMO:

O presente artigo visa a destacar a importância do
estudo das inscrições (lápides funerárias e grafites) para discutir
aspectos da vida cotidiana dos gladiadores. Estes registros
fornecem uma nova perspectiva de análise deste tipo de
espetáculo romano e também pode nos ajudar a repensar nas
relações entre os gladiadores e a sociedade romana do início do
Principado, a partir de interpretações mais plurais do passado
romano.

PALAVRAS-CHAVE:

História Antiga; Epigrafia; gladiadores.

OS GLADIADORES NA HISTORIOGRAFIA

As lutas de gladiadores sempre se apresentaram como um
fenômeno ímpar diante dos estudiosos do mundo clássico. Desde
o século XIX classicistas tentam compreender este fenômeno que
ocorreu em várias partes do território romano, durante longos
períodos. Dentro deste contexto, muitas teorias e conceitos
foram propostos para explicar este tipo tão particular de
espetáculo.
Talvez a interpretação mais conhecida, que transpôs os
limites da academia e se cristalizou no imaginário coletivo, seja a
idéia da “plebe ociosa” que vivia de pão e circo. Junto a ela, a
teoria da Romanização, pela qual os anfiteatros eram entendidos
como símbolos de poder romano, também dominou por décadas
os cenários interpretativos dos combates. Nascidas em contextos
colonialistas do século XIX, estas duas interpretações ainda

HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005

247
RENATA SENNA GARRAFFONI

seguem com vida, seja na mídia (cinema e revistas de grande
2
circulação), seja em publicações acadêmicas recentes.
Após a II Guerra Mundial, muitos pesquisadores
assimilaram a noção da “plebe ociosa” a questão da violência
3
implícita nos espetáculos, pouco comentada até então. Esta nova
possibilidade de análise difundiu um outro conceito muito
arraigado na historiografia sobre os combates: a idéia de que as
arquibancadas romanas eram freqüentadas por uma população
pobre, desocupada, fascinada por espetáculos cruéis e sangrentos.
Esses discursos foram muito criticados após os anos de
1960. Veyne, por exemplo, nos anos de 1970 escreveu O Pão e o
Circo, uma obra de grande fôlego, e discutiu os espetáculos a
partir de uma nova perspectiva: em vez de considerar a plebe
romana uma massa apolítica e violenta, Veyne argumenta que o
anfiteatro era um lugar onde povo e imperador se defrontavam e
4
lutavam por seus interesses.
Seu modelo interpretativo, baseado em uma perspectiva
sociológica, permitiu ao estudioso explicar a função da arena: o
contato com a ideologia dominante e os jogos de poder
implícitos. Neste sentido, embora Veyne tenha descrito o
ambiente do anfiteatro como monolítico, o fato de o estudioso
destacar os interesses da elite e da plebe fez com que muitos
classicistas, estrangeiros e brasileiros, adotassem esta perspectiva
5
de análise.
Durante os anos de 1980 e 1990, muitos estudiosos
optaram por desenvolver o modelo proposto por Veyne, e
embora a grande maioria aceitasse seus pressupostos, houve
aqueles que expandiram o campo de compreensão deste
fenômeno, destacando não somente suas implicações políticas,
como também enfatizaram seus significados culturais. Neste
contexto, ocorreu um deslocamento do foco de atenção e a
ênfase no contexto histórico em que os combates ocorriam, isto
é, uma sociedade escrava, altamente militarizada, passou a ter um
6
importante peso nos argumentos desenvolvidos.
Apesar da particularidade de cada estudo, grande parte
destes autores ressaltou o valor pedagógico dos combates de
gladiadores. As arenas romanas tornaram-se, então, um local
248

HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
CONTRIBUIÇÕES DA EPIGRAFIA PARA O ESTUDO...

simbólico em que valores como bravura, força, disciplina e
punição aos crimes eram expostos e reafirmados.
Embora tenha resumido aqui um debate historiográfico
muito mais complexo, optei por apresentar este recorte para
ressaltar uma característica comum entre os estudos que se
referem aos combates de gladiadores: em sua grande maioria as
interpretações estão fundadas em fontes literárias e nas visões das
elites romanas sobre os espetáculos, dispensando, portanto,
pouca atenção às concepções e anseios dos espectadores das
camadas populares e dos próprios gladiadores, além de criar uma
imagem nem sempre favorável dos combates.
Muitos podem argumentar que é difícil recuperar as
opiniões destas camadas da população romana, pois as fontes
foram escritas por membros da elite. Se por um lado a literatura
restringe a busca pelas opiniões dos populares ou comentários
dos próprios gladiadores, por outro a Epigrafia constitui um rico
campo a ser explorado. Lápides funerárias erguidas por amigos
ou parentes dos gladiadores que pereceram e os milhares de
grafites parietais rabiscados nas diferentes cidades romanas são
dois exemplos de expressão popular que podem ajudar a compor
quadros interpretativos distintos dos produzidos por uma
historiografia mais tradicional.
Neste sentido, acredito que seja importante tecer alguns
comentários sobre estas duas categorias distintas de fontes
epigráficas e explorar, mesmo que brevemente, suas
potencialidades para uma análise mais plural – tanto das visões
sobre os combates de gladiadores como para o estudo da vida
cotidiana de lutadores profissionais que treinavam e se
esforçavam ao máximo para a realização do espetáculo.
OS GRAFITES PARIETAIS

Os grafites são pequenas inscrições sulcadas nas paredes
com um estilete (em latim graphium) e produziam uma relação
específica com o público: eram pessoais e o leitor tinha que se
aproximar da parede para poder enxergá-los.

249

HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
RENATA SENNA GARRAFFONI

Impulsivo, imediato e espontâneo, o grafite é um registro
singular que marca um momento específico ou uma necessidade
pessoal de deixar registrada uma insatisfação, uma piada ou uma
declaração de amor, tornando-se, portanto, uma fonte de
inestimável valor para o estudo dos anseios e paixões cotidianas
7
de homens e mulheres que viveram em tempos romanos.
Embora a grande maioria tenha sido retirada das paredes de
Pompéia, cidade situada ao sul da península Itálica e soterrada
pelo Vesúvio em meados do século I d. C., estes pequenos
rabiscos foram encontrados em diferentes regiões do Império.
TABELA 1 – Grafites de elmos de gladiadores

963*

978

964

973

974

979

* Os números dos grafites correspondem aos originais do catálogo.
FONTE: LANGNER, M. Antike Graffitizeichnungen – Motive, Gestaltung und Bedeutung,
Wiesbaden, 2001.

250

HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
CONTRIBUIÇÕES DA EPIGRAFIA PARA O ESTUDO...

Há uma grande variedade de grafites sobre os combates de
gladiadores. Alguns são desenhos de armamentos, outros de
gladiadores em posição de ataque ou lutando (tabelas 1, 2, 3 e 4).
Eles podem conter ou não inscrições, mas o interessante é que
retratam momentos específicos das lutas e, às vezes, em toda a
sua dramaticidade, pois muitos apresentam o sangue do
derrotado.8
TABELA 2 – Armas de gladiadores

951*

952

* Os números dos grafites correspondem aos originais do catálogo.
FONTE: Ver Tabela 1.

Seguindo a proposta de Langner9 e outros especialistas que
admitem que os grafites constituam um sistema iconográfico
próprio, é possível afirmar que no caso das cenas de combates de
gladiadores encontramos a representação de momentos distintos
do munus: o combate propriamente dito e o final da luta, com
vencedores e perdedores, sendo que estes são, em geral,
poupados. Os vencedores estão, quase sempre, envolvidos por
coroas e palmas (símbolos da vitória) ou em posição ereta com
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HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
RENATA SENNA GARRAFFONI

suas armas. Já os perdedores aparecem envoltos por sangue,
deitados, de joelhos ou em fuga, com suas armas depostas
(Tabela 4).
Além disso, um aspecto perceptível nestes grafites são os
detalhes na sua elaboração: nomes, número de vitórias, as
habilidades são sempre destacadas. Estas inscrições, ao lado dos
desenhos, formam conjuntos epigráficos mais complexos com
diferentes tipos de informações.
Observemos, como exemplo, os grafites 1.039 e 1.040 da
tabela 4. Estes grafites, além de possuírem os elementos
imagéticos, trazem nas suas frases uma série de elementos que
também podem ser interpretados. O primeiro grafite, 1.039, nos
apresenta Myrinio e Inacrio, dois gladiadores da escola Iuliana,
uma das mais antigas da região da Campânia. Embora derrotado,
Inacrio foi perdoado (missus). Já no grafite número 1.040 temos
Prisco, da escola Neroniana que funcionou durante o reinado de
Nero, e Herennio, um gladiador liberto que perdeu o combate e
foi condenado à morte (periit). Estas considerações são
interessantes na medida em que apresentam diferentes situações
de lutas: escravos combatendo com libertos, gladiadores
treinados em diferentes escolas, além de ressaltar que nem todos
morriam ao final do espetáculo.
Outro aspecto que gostaria de destacar nestas
representações é a ênfase na individualidade do gladiador,
reforçada pelas inscrições de seus nomes que acompanham
muitos destes desenhos: Galerii, M. Sita, Sabidia/Abonius,
Matuutinus ou Matias Attius (difícil leitura, não está claro),
10
Rar(us) entre outros. Em alguns casos, estes nomes se repetem
com uma certa freqüência em meio a representações de palmas e
coroas, o que nos leva a pensar na popularidade dos indivíduos
vencedores ali representados.
Estas particularidades na constituição do desenho destacam
a figura do gladiador e enfatizam sua vitória ou derrota. Na
simplicidade de seus traços, os grafites produzidos por membros
das camadas populares realçam as habilidades dos gladiadores, a
alegria da vitória ou a dor da derrota, marcam seus nomes e
imortalizam seus corpos. Em outras palavras, a partir da leitura
252

HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
CONTRIBUIÇÕES DA EPIGRAFIA PARA O ESTUDO...

destas fontes epigráficas percebe-se uma ênfase no cotidiano do
gladiador, seus treinos e lutas, vitórias ou derrotas, uma imagem
viva e cheia de sentimentos que raramente surge em modelos que
se fundamentam somente nas fontes escritas.
TABELA 3 – Gladiadores individuais

808

780

820

770

801

829

771

802

850

772

803

830

FONTE: Ver Tabela 1.

253

HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
RENATA SENNA GARRAFFONI

TABELA 4 – Gladiadores em pares com armas depostas

1038

1027

1039

1040

Myrinius Iuli(anus) (pugnarum) XXXI
(Uicit) Inacrius Iu(lianus) (pugnarum)
XII M

1041

Faustus It(h)aci Neronianus; ad
amp(h)itheatr(um) riscus, N(eronianus)
VI (pugnarum) u(icit); Herennius
l(ibertus) XIIX (pugnarum) p(eriit)

1044

FONTE: Ver Tabela 1.

254

HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
CONTRIBUIÇÕES DA EPIGRAFIA PARA O ESTUDO...

AS LÁPIDES FUNERÁRIAS

As lápides funerárias dos gladiadores nos proporcionam
outros caminhos a explorar. O estudo desta categoria de
documentos apresenta algumas dificuldades, mas também pode
fornecer luzes sobre diversos aspectos do cotidiano desses
guerreiros. Entre as dificuldades destacamos os problemas com a
datação, que muitas vezes não é precisa. Em muitos casos
estipula-se o século em que foi produzida, mas nem sempre o
ano exato. Além disso, o local em que foram encontradas
também é difícil de precisar. Muitas lápides estão quebradas e
outras foram removidas do lugar de origem para os museus sem
a devida anotação, ou reaproveitadas na Idade Média em outros
contextos.
TABELA 5 – Lápides funerárias de gladiadores

n.57

n.87

n.95

FONTE: SABBATINI TUMOLESI, P.L. Epigrafia anfiteatrali dell’Occidente Romano I –
Roma. Rome: Edizioni Quasar, 1988.

255

HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
RENATA SENNA GARRAFFONI

Mesmo assim, seu estudo em conjunto traz resultados
satisfatórios e, em alguns casos, surpreendentes. Como já
destacava Sabbatini Tumolesi no início dos anos de 1980, as
lápides são importantes fontes epigráficas porque elas se referem
ao gladiador como pessoa, diferentemente dos anúncios de
espetáculos, por exemplo, que sempre falavam em quantidades
11
de combatentes ou dos grupos aos quais faziam parte.
TABELA 6 – Lápides funerárias de gladiadores

n.2

n.8

n.13

FONTE: GARCÍA Y BELLIDO, A. ‘Lapidas funerarias de gladiadores de Hispania’.
Archivio Español de Arqueologia, 33, 1960.

256

HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
CONTRIBUIÇÕES DA EPIGRAFIA PARA O ESTUDO...

Mas que tipos de dados tais lápides de gladiadores podem
nos fornecer sobre suas vidas? Muitas das lápides apresentam
letras que não estão dispostas regularmente, o que indica que
foram realizadas por pessoas de origem popular. Embora haja
variações, na maioria dos casos registrados encontramos a
dedicação aos deuses, o nome do gladiador, o tipo de arma que
usava, sua idade, local de nascimento, número de lutas e vitórias,
escola em que treinou e quem dedicou a homenagem póstuma
(veja as tabelas 5 e 6). São raras as lápides com desenhos ou
esculturas, e sua simplicidade de estilo levou Gregori a comparálas com epitáfios de soldados romanos mortos em campos de
batalhas, pois eram feitas por amigos em terras distantes
12
lembrando os feitos daquele que faleceu.
Para ressaltar a importância destes dados, tomemos como
exemplo a lápide número 2 da tabela 6. De acordo com o
catálogo de García y Bellido,13 temos os seguintes dizeres:
Mur(millo). Cerinthus. Ner(onianus). II. Nat(ione) graecus.
An(norum) XXV. Rome Coniunx bene merenti de suo posit. T(e)
R(ogo) P(raeteriens) D(icas) S(it) T(ibi) T(erra) L(euis)
[Mirmilhão Cerinto, neroniano, lutou 2 vezes, grego.
Morreu com 25 anos. Rome, sua esposa, pagou esta lápide.
Passante, te peço, digas que a terra seja leve.]

Esta lápide foi encontrada na região de Córdoba, Hispania,
datada como do século I d.C. e apresenta várias informações a
serem exploradas. Cerinto era um gladiador tipo mirmilhão, da
escola neroniana e origem grega. Como no caso de outras lápides
selecionadas nas tabelas 5 e 6, Cerinto é apresentado como um
gladiador que circulou em diversas regiões. Sua condição de
escravo pode ter influenciado esta mobilidade, sendo vendido em
várias ocasiões. Morreu aos vinte cinco anos e deixou uma
esposa, Rome, também escrava, que pagou sua lápide.
García y Bellido chama a atenção para o emprego do termo
coniunx para designar sua companheira, pois não era comum
entre os escravos. Além desta particularidade, uma outra deve ser
ressaltada: o fato de Rome registrar que a lápide foi paga com seu
257

HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
RENATA SENNA GARRAFFONI

próprio pecúlio (Rome coniunx bene merenti de suo posit). Esta
ressalva faz-se importante, uma vez que indica que o casal deveria
ter dinheiro próprio e não recorreu aos collegia, atitude comum
entre aqueles que não possuía recursos. Além disso, a partir do
desenho que consta no catálogo de García y Bellido, e a descrição
que ele apresenta do tamanho e regularidade das letras, é possível
afirmar que Rome tenha recorrido a um serviço profissional,
diferentemente da grande maioria das lápides que possuem as
letras irregulares, indicando que foram feitas de improviso por
um parente ou amigo.
Embora tenha destacado aqui somente um exemplo, dados
como estes, por mais fragmentados que sejam, ao serem
analisados em conjunto com os outros a que temos acesso podem
fornecer indícios para pensarmos na mobilidade dos gladiadores
pelo Império e nos diferentes meios em que circulavam, sua
condição social e jurídica, suas relações afetivas, familiares e
amizades, suas habilidades, além da imagem que desejavam criar
junto ao passante que eventualmente se deparasse com o epitáfio.
Tais dados possibilitam, inclusive, um repensar nas
interpretações acerca da figura do gladiador, freqüentemente
tratado pela historiografia como ser apáticos, pária social atirado
à própria sorte nas arenas.
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Muitas vezes, quando pensamos nos gladiadores, a
primeira imagem que nos vem à mente é a da luta na arena, e
raramente paramos para refletir que este é apenas um momento
de suas vidas. Esquecemos que estes profissionais viveram e, por
viverem, tinham desejos, paixões e sonhos.
Os grafites parietais, assim como as lápides, constituem
categorias documentais ímpares para capturarmos fragmentos
destes fenômenos efêmeros e, além disso, nos fazem refletir sobre
a importância do papel da Epigrafia no estudo dos combates de
gladiadores. A análise de tais documentos fornece dados
interessantes para repensarmos em modelos interpretativos mais
tradicionais, fundamentados somente nas fontes escritas, em que
258

HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
CONTRIBUIÇÕES DA EPIGRAFIA PARA O ESTUDO...

os gladiadores e os espectadores são mostrados como uma massa
amorfa e sem vontade própria.
Os exemplos aqui comentados, mesmo que en passant,
representam a complexidade e heterogeneidade de visões sobre
os espetáculos, bem como abrem caminhos para explorarmos o
cotidiano dos gladiadores a partir de seus próprios registros ou
de pessoas bem próximas a eles. Neste sentido, a Epigrafia nos
desafia e encoraja a ouvir as vozes das camadas populares e a
repensarem abordagens que, muitas vezes, apresentam suas vidas
de maneira homogênea e monolítica.
Agradecimentos: agradeço aos seguintes colegas pelo apoio e discussões de
idéias em diferentes momentos: André Leonardo Chevitarese, Gabriele
Cornelli, Lourdes Feitosa, Nanci Vieira de Oliveira, Paulo Vasconcelos, Andrés
Zarankin e Priscila Nucci. Em especial agradeço a Pedro Paulo Funari pela
orientação da tese de doutorado que originou esta comunicação. Este trabalho
foi possível, também, graças ao financiamento da Fapesp de março de 2000 a
fevereiro de 2004, e ao apoio institucional do NEE e CPA, ambos da Unicamp,
além do CEIPAC, da Universidad de Barcelona, dirigido por Jose Remesal, e
ao Seminar für Alte Geschichte, da Universität Heidelberg, dirigido por Geza
Alföldy. A responsabilidade das idéias aqui expressas recai apenas na autora.
GARRAFFONI, Renata Senna. Contribution of Epigraphy to the
study of Roman gladiators during the Early Empire. História,
v.24, n.1, p.247-261, 2005.
ABSTRACT: In this paper I will explore the relevance of
Epigraphy (gladiators’ tombstones and graffiti from Pompeii) to
discuss some images of the daily lives of gladiators.
Archaeological Epigraphic evidence can provide us different
approaches to this particular kind of Roman entertainment; it
can also help us to rethink the relationship between gladiators
and Roman society during the Early Empire and to propose
more pluralist approaches to the Roman past.
KEYWORDS:

259

Ancient History, Epigraphy, gladiators.

HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
RENATA SENNA GARRAFFONI

NOTAS

1

Doutora em História pela Unicamp e professora de História Antiga, no
Departamento de História da Universidade Federal do Paraná – UFPR.
Pesquisadora associada do NEE/UNICAMP e CPA/UNICAMP. CEP 80060-000
e-mail: resenna93@hotmail.com; resenna@lycos.com.
O presente texto, com pequenas alterações foi apresentado no XII Congresso
da FIEC (Federação Internacional de Estudos Clássicos) em 27/8/04, no
Centro de Convenções da UFOP – Ouro Preto-MG.
2
Lembramos, por exemplo, as interpretações de MOMMSEN, T. El mundo de
los Cesares. Madrid: Fondo de Cultura Econômica, 1983; e FRIEDLÄNDER, L.
‘Los espectáculos’, In: La sociedad romana – Historia de las costumbres en
Roma, desde Augusto hasta los Antoninos. Madrid: Fondo de Cultura
Econômica, 1947, p.497-519, 546-606; ambas primeiras edições do século
XIX. Já no século XX temos os seguintes trabalhos: CARCOPINO, J. Roma no
apogeu do Império. São Paulo: Cia das Letras, 1990; GRIMAL, P. A vida em Roma
na Antigüidade. Portugal: Publicações Europa-América, 1981; MANCIOLI, D.
Giochi e Spettacoli. Rome: Edizioni Quasar, 1987; ROBERT, J-N. Os prazeres de
Roma. São Paulo: Martins Fontes, 1995; POTTER, D.S.; MATTINGLY, D.J.
(eds.), Life, death and Entertainment in the Roman. Michigan: The University of
Michigan Press, 1999. Para novas abordagens sobre a teoria da Romanização e
combates de gladiadores, cf., por exemplo: GUNDERSON, E. The ideology of
the arena. Classical Antiquity, v.15, n.1, p.113-151, 1996; FUTREL, A. Blood in
the arena: the spectacle of Roman Power. Austin: University of Texas Press,
1997; POTTER, D.S.; MATTINGLY, D.J. (eds.) Op. cit.; GOLVIN, J-C.
L’Amphiteatre Romain – Essai sur la théorisation de sa forme et de ses fonctions.
Paris: Publications du Centre Pierre, 1988.
3
GRANT, M. El Mundo Romano. Madrid: Guadarrama, 1960; ______.
Gladiators. London: The Trinity Press, 1967; AUGUET, R. Crueldad y
civilización: los juegos romanos. Barcelona: Orbis, 1985.
4
VEYNE, P. Bread and circus: Historical Sociology and political pluralism.
London: The Penguin Press, 1990.
5
WEEBER, K.-W. Panem et circenses: Massenunterhaltung als Politik im antiken
Rom, Mainz am Rhein: Philipp von Zabern, 1994; WIEDEMANN, T. Emperors
and Gladiators. London: Routledge, 1995; GUNDERSON, E. (1996) ‘The
ideology of the arena’. Classical Antiquity, v.15, n.1, p.113-151, 1996;
ALMEIDA, L.S. Poder e política nos espetáculos oficiais de Roma Imperial.
Clássica, n.9/10, p.132-141, 2000; CORASSIN, M.L. Edifícios de espetáculos
em Roma. Clássica, n.9/10, p.119-131, 2000.
6
BARTON, C. A. The sorrows of the Ancient Roman; the gladiator and the
monster. New Jersey: Princeton University Press, 1993; FUTREL, A. Op. cit.;

260

HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
CONTRIBUIÇÕES DA EPIGRAFIA PARA O ESTUDO...

HOPKINS, K. Death and Renewal – sociological studies in Roman History.
Cambridge: Cambridge University Press, 1983; PLASS, P. The game of death in
Ancient Rome – Arena sport and political suicide. Wisconsin: The University of
Wisconsin Press, 1995; WIEDEMANN, T. Op. cit.; WISTRAND, M. Violence
and entertainment in Seneca the Younger. Eranos, n.88, p.31-46, 1990;
______. Entertainment and violence in ancient Rome – the attitudes of Roman
writers of the first century AD, Sweden, 1992.
7
Sobre os grafites e sua importância para o estudo das camadas populares, cf.
FUNARI, P. P. A. Cultura(s) dominante(s) e cultura(s) subalterna(s) em
Pompéia: da vertical da cidade ao horizonte do possível. Revista Brasileira de
História, n.7, p.33-48, 1986; ______. La cultura popular en la Antigüedad Clásica.
Espanha: Gráficas Sol, 1989; ______. El carácter popular de la caricatura
pompeyana. Gerión, n.11, p.153-173, 1993; FUNARI, P.P.A. Graphic
caricature and the ethos of ordinary people at Pompeii. Journal of European
Archaeology, v.1, n.2, p.133-150, 1993; ______. Apotropaic Symbolism at
Pompeii: a Reading of the Graffiti Evidence. Revista de História, n.132, p.9-17,
1995. ______. Riso e poder nas paredes pompeianas: palavras, desenhos e
críticas. In: BENOIT, H; FUNARI, P. P. A. (eds.). Ética e política no Mundo
Antigo, p.117-132, Campinas: IFCH, 2001.
8
Destaca-se aqui, também, a ocorrência de grafites que são constituídos
somente de inscrições e sem desenhos. No caso deste artigo em específico,
optamos por explorar os que apresentam as imagens. Para outras referências
acerca dos grafites de gladiadores e a sua importância para diferentes visões
dos espetáculos, cf. GARRAFFONI, R.S., Gladiadores na Roma Antiga: dos
Combates às paixões cotidianas. Ed. Annablume, no prelo.
9
LANGNER, M. (2001) Antike Graffitizeichnungen – Motive, Gestaltung und
Bedeutung, Wiesbaden, 2001.
10
Como as imagens foram retiradas do catálogo de Langner, não há os nomes
representados, estes aparecem somente em notas de seu livro.
11
SABBATINI TUMOLESI, P.L. Epigrafia anfiteatrali dell’Occidente Romano I –
Roma. Rome: Edizioni Quasar, 1980, p.150.
12
GREGORI, G.L. Aspetti sociali della gladiatura romana. In: LA REGINA, A.
(ed.). Sangue e Arena, Rome: Electa, 2001, p.15-27.
13
GARCÍA Y BELLIDO, A. Lapidas funerarias de gladiadores de Hispania.
Archivio Español de Arqueologia, 33, 1960, p.127-128.

Artigo recebido em 04/2005. Aprovado em 06/2005.

261

HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005

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5 gladiadores e representações

  • 1. Contribuições da Epigrafia para o estudo do cotidiano dos gladiadores romanos no início do Principado Renata Senna GARRAFFONI1 RESUMO: O presente artigo visa a destacar a importância do estudo das inscrições (lápides funerárias e grafites) para discutir aspectos da vida cotidiana dos gladiadores. Estes registros fornecem uma nova perspectiva de análise deste tipo de espetáculo romano e também pode nos ajudar a repensar nas relações entre os gladiadores e a sociedade romana do início do Principado, a partir de interpretações mais plurais do passado romano. PALAVRAS-CHAVE: História Antiga; Epigrafia; gladiadores. OS GLADIADORES NA HISTORIOGRAFIA As lutas de gladiadores sempre se apresentaram como um fenômeno ímpar diante dos estudiosos do mundo clássico. Desde o século XIX classicistas tentam compreender este fenômeno que ocorreu em várias partes do território romano, durante longos períodos. Dentro deste contexto, muitas teorias e conceitos foram propostos para explicar este tipo tão particular de espetáculo. Talvez a interpretação mais conhecida, que transpôs os limites da academia e se cristalizou no imaginário coletivo, seja a idéia da “plebe ociosa” que vivia de pão e circo. Junto a ela, a teoria da Romanização, pela qual os anfiteatros eram entendidos como símbolos de poder romano, também dominou por décadas os cenários interpretativos dos combates. Nascidas em contextos colonialistas do século XIX, estas duas interpretações ainda HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005 247
  • 2. RENATA SENNA GARRAFFONI seguem com vida, seja na mídia (cinema e revistas de grande 2 circulação), seja em publicações acadêmicas recentes. Após a II Guerra Mundial, muitos pesquisadores assimilaram a noção da “plebe ociosa” a questão da violência 3 implícita nos espetáculos, pouco comentada até então. Esta nova possibilidade de análise difundiu um outro conceito muito arraigado na historiografia sobre os combates: a idéia de que as arquibancadas romanas eram freqüentadas por uma população pobre, desocupada, fascinada por espetáculos cruéis e sangrentos. Esses discursos foram muito criticados após os anos de 1960. Veyne, por exemplo, nos anos de 1970 escreveu O Pão e o Circo, uma obra de grande fôlego, e discutiu os espetáculos a partir de uma nova perspectiva: em vez de considerar a plebe romana uma massa apolítica e violenta, Veyne argumenta que o anfiteatro era um lugar onde povo e imperador se defrontavam e 4 lutavam por seus interesses. Seu modelo interpretativo, baseado em uma perspectiva sociológica, permitiu ao estudioso explicar a função da arena: o contato com a ideologia dominante e os jogos de poder implícitos. Neste sentido, embora Veyne tenha descrito o ambiente do anfiteatro como monolítico, o fato de o estudioso destacar os interesses da elite e da plebe fez com que muitos classicistas, estrangeiros e brasileiros, adotassem esta perspectiva 5 de análise. Durante os anos de 1980 e 1990, muitos estudiosos optaram por desenvolver o modelo proposto por Veyne, e embora a grande maioria aceitasse seus pressupostos, houve aqueles que expandiram o campo de compreensão deste fenômeno, destacando não somente suas implicações políticas, como também enfatizaram seus significados culturais. Neste contexto, ocorreu um deslocamento do foco de atenção e a ênfase no contexto histórico em que os combates ocorriam, isto é, uma sociedade escrava, altamente militarizada, passou a ter um 6 importante peso nos argumentos desenvolvidos. Apesar da particularidade de cada estudo, grande parte destes autores ressaltou o valor pedagógico dos combates de gladiadores. As arenas romanas tornaram-se, então, um local 248 HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
  • 3. CONTRIBUIÇÕES DA EPIGRAFIA PARA O ESTUDO... simbólico em que valores como bravura, força, disciplina e punição aos crimes eram expostos e reafirmados. Embora tenha resumido aqui um debate historiográfico muito mais complexo, optei por apresentar este recorte para ressaltar uma característica comum entre os estudos que se referem aos combates de gladiadores: em sua grande maioria as interpretações estão fundadas em fontes literárias e nas visões das elites romanas sobre os espetáculos, dispensando, portanto, pouca atenção às concepções e anseios dos espectadores das camadas populares e dos próprios gladiadores, além de criar uma imagem nem sempre favorável dos combates. Muitos podem argumentar que é difícil recuperar as opiniões destas camadas da população romana, pois as fontes foram escritas por membros da elite. Se por um lado a literatura restringe a busca pelas opiniões dos populares ou comentários dos próprios gladiadores, por outro a Epigrafia constitui um rico campo a ser explorado. Lápides funerárias erguidas por amigos ou parentes dos gladiadores que pereceram e os milhares de grafites parietais rabiscados nas diferentes cidades romanas são dois exemplos de expressão popular que podem ajudar a compor quadros interpretativos distintos dos produzidos por uma historiografia mais tradicional. Neste sentido, acredito que seja importante tecer alguns comentários sobre estas duas categorias distintas de fontes epigráficas e explorar, mesmo que brevemente, suas potencialidades para uma análise mais plural – tanto das visões sobre os combates de gladiadores como para o estudo da vida cotidiana de lutadores profissionais que treinavam e se esforçavam ao máximo para a realização do espetáculo. OS GRAFITES PARIETAIS Os grafites são pequenas inscrições sulcadas nas paredes com um estilete (em latim graphium) e produziam uma relação específica com o público: eram pessoais e o leitor tinha que se aproximar da parede para poder enxergá-los. 249 HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
  • 4. RENATA SENNA GARRAFFONI Impulsivo, imediato e espontâneo, o grafite é um registro singular que marca um momento específico ou uma necessidade pessoal de deixar registrada uma insatisfação, uma piada ou uma declaração de amor, tornando-se, portanto, uma fonte de inestimável valor para o estudo dos anseios e paixões cotidianas 7 de homens e mulheres que viveram em tempos romanos. Embora a grande maioria tenha sido retirada das paredes de Pompéia, cidade situada ao sul da península Itálica e soterrada pelo Vesúvio em meados do século I d. C., estes pequenos rabiscos foram encontrados em diferentes regiões do Império. TABELA 1 – Grafites de elmos de gladiadores 963* 978 964 973 974 979 * Os números dos grafites correspondem aos originais do catálogo. FONTE: LANGNER, M. Antike Graffitizeichnungen – Motive, Gestaltung und Bedeutung, Wiesbaden, 2001. 250 HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
  • 5. CONTRIBUIÇÕES DA EPIGRAFIA PARA O ESTUDO... Há uma grande variedade de grafites sobre os combates de gladiadores. Alguns são desenhos de armamentos, outros de gladiadores em posição de ataque ou lutando (tabelas 1, 2, 3 e 4). Eles podem conter ou não inscrições, mas o interessante é que retratam momentos específicos das lutas e, às vezes, em toda a sua dramaticidade, pois muitos apresentam o sangue do derrotado.8 TABELA 2 – Armas de gladiadores 951* 952 * Os números dos grafites correspondem aos originais do catálogo. FONTE: Ver Tabela 1. Seguindo a proposta de Langner9 e outros especialistas que admitem que os grafites constituam um sistema iconográfico próprio, é possível afirmar que no caso das cenas de combates de gladiadores encontramos a representação de momentos distintos do munus: o combate propriamente dito e o final da luta, com vencedores e perdedores, sendo que estes são, em geral, poupados. Os vencedores estão, quase sempre, envolvidos por coroas e palmas (símbolos da vitória) ou em posição ereta com 251 HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
  • 6. RENATA SENNA GARRAFFONI suas armas. Já os perdedores aparecem envoltos por sangue, deitados, de joelhos ou em fuga, com suas armas depostas (Tabela 4). Além disso, um aspecto perceptível nestes grafites são os detalhes na sua elaboração: nomes, número de vitórias, as habilidades são sempre destacadas. Estas inscrições, ao lado dos desenhos, formam conjuntos epigráficos mais complexos com diferentes tipos de informações. Observemos, como exemplo, os grafites 1.039 e 1.040 da tabela 4. Estes grafites, além de possuírem os elementos imagéticos, trazem nas suas frases uma série de elementos que também podem ser interpretados. O primeiro grafite, 1.039, nos apresenta Myrinio e Inacrio, dois gladiadores da escola Iuliana, uma das mais antigas da região da Campânia. Embora derrotado, Inacrio foi perdoado (missus). Já no grafite número 1.040 temos Prisco, da escola Neroniana que funcionou durante o reinado de Nero, e Herennio, um gladiador liberto que perdeu o combate e foi condenado à morte (periit). Estas considerações são interessantes na medida em que apresentam diferentes situações de lutas: escravos combatendo com libertos, gladiadores treinados em diferentes escolas, além de ressaltar que nem todos morriam ao final do espetáculo. Outro aspecto que gostaria de destacar nestas representações é a ênfase na individualidade do gladiador, reforçada pelas inscrições de seus nomes que acompanham muitos destes desenhos: Galerii, M. Sita, Sabidia/Abonius, Matuutinus ou Matias Attius (difícil leitura, não está claro), 10 Rar(us) entre outros. Em alguns casos, estes nomes se repetem com uma certa freqüência em meio a representações de palmas e coroas, o que nos leva a pensar na popularidade dos indivíduos vencedores ali representados. Estas particularidades na constituição do desenho destacam a figura do gladiador e enfatizam sua vitória ou derrota. Na simplicidade de seus traços, os grafites produzidos por membros das camadas populares realçam as habilidades dos gladiadores, a alegria da vitória ou a dor da derrota, marcam seus nomes e imortalizam seus corpos. Em outras palavras, a partir da leitura 252 HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
  • 7. CONTRIBUIÇÕES DA EPIGRAFIA PARA O ESTUDO... destas fontes epigráficas percebe-se uma ênfase no cotidiano do gladiador, seus treinos e lutas, vitórias ou derrotas, uma imagem viva e cheia de sentimentos que raramente surge em modelos que se fundamentam somente nas fontes escritas. TABELA 3 – Gladiadores individuais 808 780 820 770 801 829 771 802 850 772 803 830 FONTE: Ver Tabela 1. 253 HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
  • 8. RENATA SENNA GARRAFFONI TABELA 4 – Gladiadores em pares com armas depostas 1038 1027 1039 1040 Myrinius Iuli(anus) (pugnarum) XXXI (Uicit) Inacrius Iu(lianus) (pugnarum) XII M 1041 Faustus It(h)aci Neronianus; ad amp(h)itheatr(um) riscus, N(eronianus) VI (pugnarum) u(icit); Herennius l(ibertus) XIIX (pugnarum) p(eriit) 1044 FONTE: Ver Tabela 1. 254 HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
  • 9. CONTRIBUIÇÕES DA EPIGRAFIA PARA O ESTUDO... AS LÁPIDES FUNERÁRIAS As lápides funerárias dos gladiadores nos proporcionam outros caminhos a explorar. O estudo desta categoria de documentos apresenta algumas dificuldades, mas também pode fornecer luzes sobre diversos aspectos do cotidiano desses guerreiros. Entre as dificuldades destacamos os problemas com a datação, que muitas vezes não é precisa. Em muitos casos estipula-se o século em que foi produzida, mas nem sempre o ano exato. Além disso, o local em que foram encontradas também é difícil de precisar. Muitas lápides estão quebradas e outras foram removidas do lugar de origem para os museus sem a devida anotação, ou reaproveitadas na Idade Média em outros contextos. TABELA 5 – Lápides funerárias de gladiadores n.57 n.87 n.95 FONTE: SABBATINI TUMOLESI, P.L. Epigrafia anfiteatrali dell’Occidente Romano I – Roma. Rome: Edizioni Quasar, 1988. 255 HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
  • 10. RENATA SENNA GARRAFFONI Mesmo assim, seu estudo em conjunto traz resultados satisfatórios e, em alguns casos, surpreendentes. Como já destacava Sabbatini Tumolesi no início dos anos de 1980, as lápides são importantes fontes epigráficas porque elas se referem ao gladiador como pessoa, diferentemente dos anúncios de espetáculos, por exemplo, que sempre falavam em quantidades 11 de combatentes ou dos grupos aos quais faziam parte. TABELA 6 – Lápides funerárias de gladiadores n.2 n.8 n.13 FONTE: GARCÍA Y BELLIDO, A. ‘Lapidas funerarias de gladiadores de Hispania’. Archivio Español de Arqueologia, 33, 1960. 256 HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
  • 11. CONTRIBUIÇÕES DA EPIGRAFIA PARA O ESTUDO... Mas que tipos de dados tais lápides de gladiadores podem nos fornecer sobre suas vidas? Muitas das lápides apresentam letras que não estão dispostas regularmente, o que indica que foram realizadas por pessoas de origem popular. Embora haja variações, na maioria dos casos registrados encontramos a dedicação aos deuses, o nome do gladiador, o tipo de arma que usava, sua idade, local de nascimento, número de lutas e vitórias, escola em que treinou e quem dedicou a homenagem póstuma (veja as tabelas 5 e 6). São raras as lápides com desenhos ou esculturas, e sua simplicidade de estilo levou Gregori a comparálas com epitáfios de soldados romanos mortos em campos de batalhas, pois eram feitas por amigos em terras distantes 12 lembrando os feitos daquele que faleceu. Para ressaltar a importância destes dados, tomemos como exemplo a lápide número 2 da tabela 6. De acordo com o catálogo de García y Bellido,13 temos os seguintes dizeres: Mur(millo). Cerinthus. Ner(onianus). II. Nat(ione) graecus. An(norum) XXV. Rome Coniunx bene merenti de suo posit. T(e) R(ogo) P(raeteriens) D(icas) S(it) T(ibi) T(erra) L(euis) [Mirmilhão Cerinto, neroniano, lutou 2 vezes, grego. Morreu com 25 anos. Rome, sua esposa, pagou esta lápide. Passante, te peço, digas que a terra seja leve.] Esta lápide foi encontrada na região de Córdoba, Hispania, datada como do século I d.C. e apresenta várias informações a serem exploradas. Cerinto era um gladiador tipo mirmilhão, da escola neroniana e origem grega. Como no caso de outras lápides selecionadas nas tabelas 5 e 6, Cerinto é apresentado como um gladiador que circulou em diversas regiões. Sua condição de escravo pode ter influenciado esta mobilidade, sendo vendido em várias ocasiões. Morreu aos vinte cinco anos e deixou uma esposa, Rome, também escrava, que pagou sua lápide. García y Bellido chama a atenção para o emprego do termo coniunx para designar sua companheira, pois não era comum entre os escravos. Além desta particularidade, uma outra deve ser ressaltada: o fato de Rome registrar que a lápide foi paga com seu 257 HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
  • 12. RENATA SENNA GARRAFFONI próprio pecúlio (Rome coniunx bene merenti de suo posit). Esta ressalva faz-se importante, uma vez que indica que o casal deveria ter dinheiro próprio e não recorreu aos collegia, atitude comum entre aqueles que não possuía recursos. Além disso, a partir do desenho que consta no catálogo de García y Bellido, e a descrição que ele apresenta do tamanho e regularidade das letras, é possível afirmar que Rome tenha recorrido a um serviço profissional, diferentemente da grande maioria das lápides que possuem as letras irregulares, indicando que foram feitas de improviso por um parente ou amigo. Embora tenha destacado aqui somente um exemplo, dados como estes, por mais fragmentados que sejam, ao serem analisados em conjunto com os outros a que temos acesso podem fornecer indícios para pensarmos na mobilidade dos gladiadores pelo Império e nos diferentes meios em que circulavam, sua condição social e jurídica, suas relações afetivas, familiares e amizades, suas habilidades, além da imagem que desejavam criar junto ao passante que eventualmente se deparasse com o epitáfio. Tais dados possibilitam, inclusive, um repensar nas interpretações acerca da figura do gladiador, freqüentemente tratado pela historiografia como ser apáticos, pária social atirado à própria sorte nas arenas. CONSIDERAÇÕES FINAIS Muitas vezes, quando pensamos nos gladiadores, a primeira imagem que nos vem à mente é a da luta na arena, e raramente paramos para refletir que este é apenas um momento de suas vidas. Esquecemos que estes profissionais viveram e, por viverem, tinham desejos, paixões e sonhos. Os grafites parietais, assim como as lápides, constituem categorias documentais ímpares para capturarmos fragmentos destes fenômenos efêmeros e, além disso, nos fazem refletir sobre a importância do papel da Epigrafia no estudo dos combates de gladiadores. A análise de tais documentos fornece dados interessantes para repensarmos em modelos interpretativos mais tradicionais, fundamentados somente nas fontes escritas, em que 258 HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
  • 13. CONTRIBUIÇÕES DA EPIGRAFIA PARA O ESTUDO... os gladiadores e os espectadores são mostrados como uma massa amorfa e sem vontade própria. Os exemplos aqui comentados, mesmo que en passant, representam a complexidade e heterogeneidade de visões sobre os espetáculos, bem como abrem caminhos para explorarmos o cotidiano dos gladiadores a partir de seus próprios registros ou de pessoas bem próximas a eles. Neste sentido, a Epigrafia nos desafia e encoraja a ouvir as vozes das camadas populares e a repensarem abordagens que, muitas vezes, apresentam suas vidas de maneira homogênea e monolítica. Agradecimentos: agradeço aos seguintes colegas pelo apoio e discussões de idéias em diferentes momentos: André Leonardo Chevitarese, Gabriele Cornelli, Lourdes Feitosa, Nanci Vieira de Oliveira, Paulo Vasconcelos, Andrés Zarankin e Priscila Nucci. Em especial agradeço a Pedro Paulo Funari pela orientação da tese de doutorado que originou esta comunicação. Este trabalho foi possível, também, graças ao financiamento da Fapesp de março de 2000 a fevereiro de 2004, e ao apoio institucional do NEE e CPA, ambos da Unicamp, além do CEIPAC, da Universidad de Barcelona, dirigido por Jose Remesal, e ao Seminar für Alte Geschichte, da Universität Heidelberg, dirigido por Geza Alföldy. A responsabilidade das idéias aqui expressas recai apenas na autora. GARRAFFONI, Renata Senna. Contribution of Epigraphy to the study of Roman gladiators during the Early Empire. História, v.24, n.1, p.247-261, 2005. ABSTRACT: In this paper I will explore the relevance of Epigraphy (gladiators’ tombstones and graffiti from Pompeii) to discuss some images of the daily lives of gladiators. Archaeological Epigraphic evidence can provide us different approaches to this particular kind of Roman entertainment; it can also help us to rethink the relationship between gladiators and Roman society during the Early Empire and to propose more pluralist approaches to the Roman past. KEYWORDS: 259 Ancient History, Epigraphy, gladiators. HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
  • 14. RENATA SENNA GARRAFFONI NOTAS 1 Doutora em História pela Unicamp e professora de História Antiga, no Departamento de História da Universidade Federal do Paraná – UFPR. Pesquisadora associada do NEE/UNICAMP e CPA/UNICAMP. CEP 80060-000 e-mail: resenna93@hotmail.com; resenna@lycos.com. O presente texto, com pequenas alterações foi apresentado no XII Congresso da FIEC (Federação Internacional de Estudos Clássicos) em 27/8/04, no Centro de Convenções da UFOP – Ouro Preto-MG. 2 Lembramos, por exemplo, as interpretações de MOMMSEN, T. El mundo de los Cesares. Madrid: Fondo de Cultura Econômica, 1983; e FRIEDLÄNDER, L. ‘Los espectáculos’, In: La sociedad romana – Historia de las costumbres en Roma, desde Augusto hasta los Antoninos. Madrid: Fondo de Cultura Econômica, 1947, p.497-519, 546-606; ambas primeiras edições do século XIX. Já no século XX temos os seguintes trabalhos: CARCOPINO, J. Roma no apogeu do Império. São Paulo: Cia das Letras, 1990; GRIMAL, P. A vida em Roma na Antigüidade. Portugal: Publicações Europa-América, 1981; MANCIOLI, D. Giochi e Spettacoli. Rome: Edizioni Quasar, 1987; ROBERT, J-N. Os prazeres de Roma. São Paulo: Martins Fontes, 1995; POTTER, D.S.; MATTINGLY, D.J. (eds.), Life, death and Entertainment in the Roman. Michigan: The University of Michigan Press, 1999. Para novas abordagens sobre a teoria da Romanização e combates de gladiadores, cf., por exemplo: GUNDERSON, E. The ideology of the arena. Classical Antiquity, v.15, n.1, p.113-151, 1996; FUTREL, A. Blood in the arena: the spectacle of Roman Power. Austin: University of Texas Press, 1997; POTTER, D.S.; MATTINGLY, D.J. (eds.) Op. cit.; GOLVIN, J-C. L’Amphiteatre Romain – Essai sur la théorisation de sa forme et de ses fonctions. Paris: Publications du Centre Pierre, 1988. 3 GRANT, M. El Mundo Romano. Madrid: Guadarrama, 1960; ______. Gladiators. London: The Trinity Press, 1967; AUGUET, R. Crueldad y civilización: los juegos romanos. Barcelona: Orbis, 1985. 4 VEYNE, P. Bread and circus: Historical Sociology and political pluralism. London: The Penguin Press, 1990. 5 WEEBER, K.-W. Panem et circenses: Massenunterhaltung als Politik im antiken Rom, Mainz am Rhein: Philipp von Zabern, 1994; WIEDEMANN, T. Emperors and Gladiators. London: Routledge, 1995; GUNDERSON, E. (1996) ‘The ideology of the arena’. Classical Antiquity, v.15, n.1, p.113-151, 1996; ALMEIDA, L.S. Poder e política nos espetáculos oficiais de Roma Imperial. Clássica, n.9/10, p.132-141, 2000; CORASSIN, M.L. Edifícios de espetáculos em Roma. Clássica, n.9/10, p.119-131, 2000. 6 BARTON, C. A. The sorrows of the Ancient Roman; the gladiator and the monster. New Jersey: Princeton University Press, 1993; FUTREL, A. Op. cit.; 260 HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005
  • 15. CONTRIBUIÇÕES DA EPIGRAFIA PARA O ESTUDO... HOPKINS, K. Death and Renewal – sociological studies in Roman History. Cambridge: Cambridge University Press, 1983; PLASS, P. The game of death in Ancient Rome – Arena sport and political suicide. Wisconsin: The University of Wisconsin Press, 1995; WIEDEMANN, T. Op. cit.; WISTRAND, M. Violence and entertainment in Seneca the Younger. Eranos, n.88, p.31-46, 1990; ______. Entertainment and violence in ancient Rome – the attitudes of Roman writers of the first century AD, Sweden, 1992. 7 Sobre os grafites e sua importância para o estudo das camadas populares, cf. FUNARI, P. P. A. Cultura(s) dominante(s) e cultura(s) subalterna(s) em Pompéia: da vertical da cidade ao horizonte do possível. Revista Brasileira de História, n.7, p.33-48, 1986; ______. La cultura popular en la Antigüedad Clásica. Espanha: Gráficas Sol, 1989; ______. El carácter popular de la caricatura pompeyana. Gerión, n.11, p.153-173, 1993; FUNARI, P.P.A. Graphic caricature and the ethos of ordinary people at Pompeii. Journal of European Archaeology, v.1, n.2, p.133-150, 1993; ______. Apotropaic Symbolism at Pompeii: a Reading of the Graffiti Evidence. Revista de História, n.132, p.9-17, 1995. ______. Riso e poder nas paredes pompeianas: palavras, desenhos e críticas. In: BENOIT, H; FUNARI, P. P. A. (eds.). Ética e política no Mundo Antigo, p.117-132, Campinas: IFCH, 2001. 8 Destaca-se aqui, também, a ocorrência de grafites que são constituídos somente de inscrições e sem desenhos. No caso deste artigo em específico, optamos por explorar os que apresentam as imagens. Para outras referências acerca dos grafites de gladiadores e a sua importância para diferentes visões dos espetáculos, cf. GARRAFFONI, R.S., Gladiadores na Roma Antiga: dos Combates às paixões cotidianas. Ed. Annablume, no prelo. 9 LANGNER, M. (2001) Antike Graffitizeichnungen – Motive, Gestaltung und Bedeutung, Wiesbaden, 2001. 10 Como as imagens foram retiradas do catálogo de Langner, não há os nomes representados, estes aparecem somente em notas de seu livro. 11 SABBATINI TUMOLESI, P.L. Epigrafia anfiteatrali dell’Occidente Romano I – Roma. Rome: Edizioni Quasar, 1980, p.150. 12 GREGORI, G.L. Aspetti sociali della gladiatura romana. In: LA REGINA, A. (ed.). Sangue e Arena, Rome: Electa, 2001, p.15-27. 13 GARCÍA Y BELLIDO, A. Lapidas funerarias de gladiadores de Hispania. Archivio Español de Arqueologia, 33, 1960, p.127-128. Artigo recebido em 04/2005. Aprovado em 06/2005. 261 HISTÓRIA, SÃO PAULO, v.24, N.1, P.247-261, 2005