Carina Rissi    perdidaum amor que ultrapassa as barreiras do tempo                 São Paulo 2011
Capítulo 1      Eu sabia que devia ter voltado pra cama assim que saí decasa e tentei pegar um táxi — era dia de rodízio. ...
Ah, sim. QUE SALÁRIO!      Eu mal conseguia pagar minhas contas em dia. Trabalha-va naquela empresa desde o estágio na fac...
fou. Como posso fazer todos os contratos sem o computador?      Ele sorriu ironicamente e apoiou uma mão na porta.      — ...
pânico, saiu de sua mesa — duas atrás da minha — e veio aomeu socorro. Ela era a funcionária mais antiga da empresa,certam...
dos olhos. Que bom que pelo menos ela estava se divertido!      Concentrei-me na máquina.      Experimentei digitar com ce...
beça estourando de tantos tecs e plins e recs —, mas não semantes ligar para o técnico e fazer com que me prometesse en-tr...
posto à prova pela ideia retrograda de que pobres e ricos nãose misturavam, o cavalheirismo, a delicadeza do primeiroamor....
te, isso já estava passando dos limites.       — Não, não. Quer dizer, não muito. Mas não é sobreo Rafa. — ouvi barulho de...
fui direto para o bar. O Toca ficava a três quadras do escritório.Foi meio demorado encontrar uma vaga, parecia que quaset...
Eu realmente precisava beber alguma coisa. Estava come-çando a ficar implicante e mal-humorada.      Depois de mais ou men...
ela disse, quicando na cadeira. Seus olhos brilhantes de ansie-dade e excitação.      — Ah! — levei meu copo à boca e tome...
que não! Não se tem certeza de nada quando se esta apaixo-nada, Sofia!      — Ah, se tem sim! Dá pra ter certeza que seu c...
tudo de qualquer jeito. — fiz uma careta. — Mas não foi issoque eu perguntei.      Eu sabia disso. Sabia que perguntava so...
para a mesma pessoa todo santo dia! Sexo com uma única pes-soa pelo resto da vida! Ter que cuidar da casa, do marido, dosf...
Droga!      — Exatamente! Se realmente estivesse apaixonada, a filademoraria um pouco mais para começar a andar. E você fi...
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Perdida cap1

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Primeiro Capítulo do Livro PERDIDA da autora CARINA RISSI.

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Perdida cap1

  1. 1. Carina Rissi perdidaum amor que ultrapassa as barreiras do tempo São Paulo 2011
  2. 2. Capítulo 1 Eu sabia que devia ter voltado pra cama assim que saí decasa e tentei pegar um táxi — era dia de rodízio. Eu devia tervoltado pra baixo dos meus lençóis assim que aquele motoristaidiota passou rente ao meio fio e literalmente ensopou meusjeans dos joelhos pra baixo. Eu devia ter voltado! Mas, em vez disso, respirei fundo e o insultei por unsdois minutos com todos os palavrões que eu conhecia. Ignorei,claro, os pedestres que me atiraram olhares reprovadores. Não ficou melhor quando cheguei — vinte minutosatrasada — no escritório e o imbecil, rechonchudo e desal-mado do meu chefe me fuzilou com os olhos e depois dissecom desdém: — Além de chegar atrasada, você ainda aparece aquiusando essa roupa imunda? Você devia se vestir um pouco me-lhor, Sofia. Com o salário que eu te pago... perdida 11
  3. 3. Ah, sim. QUE SALÁRIO! Eu mal conseguia pagar minhas contas em dia. Trabalha-va naquela empresa desde o estágio na faculdade. Depois queme formei, acabei sendo efetivada e, como não apareceu coisamelhor, me acomodei um pouco. Além disso, eu tinha umplano: Carlos já estava esperando sua aposentadoria e eu tinhagrandes chances de substituí-lo. Claro que, antes, teria quepassar pela provação de suportá-lo até que isso acontecesse. — Eu sei, Seu Carlos — comecei. — Mas acontece queum motorista idiota passou... — Ah! Chega de desculpas. Já estou farto delas. Acha mes-mo que eu acredito em suas histórias? Não entendo por que aindanão te demiti! — ele arqueou uma sobrancelha desafiadoramente. Porque eu sou a mais competente de todo este prédio, seuporco arrogante! — Me desculpe. Vou pra minha mesa agora mesmo pracompensar o atraso, está bem? — e sem esperar por mais umde seus ataques, marchei em direção à minha mesa, espiandosua reação pelo canto dos olhos. Carlos ficou parado me encarando por um momento,bufou e depois saiu resmungando. Tentei dissolver a pilha de papéis acumulada em minha mesao mais rápido que pude. Era uma pilha considerável, mas eu erarealmente eficiente e terminaria tudo rapidamente. No entanto, perto da hora do almoço, meu computadortravou e depois apagou completamente. Tentei religá-lo, masnada aconteceu. Estava morto! Bati algumas vezes na máquina — tentando fazê-la voltara vida através de tortura, mas nem uma luz acendeu. — Preciso desses papéis na minha mesa até as cinco! — Car-los urrou da porta. Devia ter visto meu embate com a máquina. — Eu sei! Mas não é culpa minha se o computador pi-12 Carina Rissi
  4. 4. fou. Como posso fazer todos os contratos sem o computador? Ele sorriu ironicamente e apoiou uma mão na porta. — Como fazíamos antes de inventarem essas máquinascomplicadas que sempre deixam a gente na mão. Olhei pra ele sem compreender. Do que diabos aquelehomem estava falando? Carlos notou minha expressão — cética, imaginei — eacrescentou: — É claro que você sabe que os computadores nem sem-pre estiveram aqui, não é? — ele disse lentamente, como se eufosse uma débil mental. Grrrr! — Claro que eu sei! Eu preciso deste emprego! Não adianta nada pular no pes-coço dele e estrangulá-lo!, repeti para mim mesma várias vezes.Contudo, não me convenci inteiramente. — Então, mãos à obra, Sofia. Você tem até as cinco. Amáquina de datilografia está no armário do almoxarifado.Ela não trava, não dá pau, o cartucho não acaba... Você vaigostar! É muito eficiente. Dá até saudades do tempo em queo escritório era preenchido pelo barulho dos botões. — umsorriso cínico apareceu em seus lábios. Um sorriso que diziavocê não vai conseguir! Vamos ver, careca! — e fui buscar a tal máquina. Era pesada edesajeitada para carregar. Coloquei-a sobre minha mesa e observei. Hummm... Eu já tinha ouvido falar sobre ela. Mas cadê o botão pra ligar? Experimentei uma tecla qualquer. Tec. Tec, tec, tec, tec, tec, plim! Plim? Será que eu quebrei esse troço? Ai, meu Deus! Só mefaltava essa! Joana, que ria alto, provavelmente da minha cara de perdida 13
  5. 5. pânico, saiu de sua mesa — duas atrás da minha — e veio aomeu socorro. Ela era a funcionária mais antiga da empresa,certamente chegou a trabalhar com a coisa pré-histórica. — Sofia, pare de olhar para a máquina com essa cara! —ela disse, empurrando os óculos marrons com o dedo indica-dor. — Isso não é um objeto alienígena. — Não. — concordei. — Se fosse, eu provavelmente sa-beria como usar. O problema é que... — eu estava mesmo commedo daquela máquina barulhenta cheia de tecs e plins, masprecisava terminar meu trabalho. — Bem... Eu já vi uma des-sas uma vez no museu da tecnologia, mas... — Você não sabe usá-la. — ela concluiu, ainda rindo.Suas bochechas vermelhas. As minhas também deviam estar vermelhas, mas devergonha. Não existia programa algum de computador queeu não soubesse utilizar, sempre aprendia rapidamente as-sim que um novo aparecia. Mas aquela máquina robusta... — Eu nem sei ligar essa coisa! — sussurrei. Algumas pes-soas nos observavam com olhos curiosos. Joana explodiu outra gargalha e quase todos no escritó-rio voltaram sua atenção para onde eu estava. Devo ter ficadoroxo berinjela! — É bem simples, Sofia. Você coloca o papel aqui —pegou um papel em branco, enfiou numa fenda e depois girouum botão enorme na lateral da coisa. Rec, rec, rec, rec. — De-pois prende com isso — ela ergueu um pequena e fina hastemetálica, encaixou a folha e depois soltou a haste, prendendoo papel. — E pronto! — Ah! Parece fácil! Joana não pareceu acreditar muito na minha convic-ção. Voltou para sua mesa sacudindo levemente a cabeça,erguendo os óculos grandes para poder enxugar as lágrimas14 Carina Rissi
  6. 6. dos olhos. Que bom que pelo menos ela estava se divertido! Concentrei-me na máquina. Experimentei digitar com certa cautela, e percebi quenada saia no papel. — Precisa apertar com mais força. — Joana gritou, aindame observando. — Tem que fazer tec. Tentei outra vez. Ah! Deu certo. As letras apareceram no papel. Digitei — datilografei — algumas linhas, meio desajeita-da, e parei. Observei o teclado atentamente. Não. Não estava lá. — Joana, onde fica o delete? Ela ergueu as sobrancelhas e abriu ligeiramente a boca. — Como? — perguntou como se eu estivesse falandoem japonês. — Não tem delete! Eu errei um número e não tô encon-trando a tecla delete em lugar algum! O escritório todo explodiu em uma gargalhada estron-dosa, me deixando com vontade de me enterrar debaixo dapapelada que estava à minha frente. Urgh!!! Passei a tarde inteira tentando organizar a pilha de con-tratos, depois de receber uma rápida aula sobre como usar amáquina antiquada. Entretanto, o serviço não rendeu muitojá que a máquina era muito lenta. Ou talvez fosse minha faltade habilidade com ela. Como as pessoas conseguiram viver sem o computador portanto tempo? — pensei. Levaria dias para que eu conseguissecolocar em ordem os meus e-mails, minha conta no Facebooke, provavelmente, não conseguiria ler todas as postagens noTwitter. Teria que fazer isso assim que chegasse em casa. Ficarsem internet era como se eu deixasse de existir, não fizesse maisparte do mundo. Completamente isolada virtualmente! Saí do escritório um pouco depois das seis — com a ca- perdida 15
  7. 7. beça estourando de tantos tecs e plins e recs —, mas não semantes ligar para o técnico e fazer com que me prometesse en-tregar meu computador no dia seguinte. Na primeira hora! Peguei um táxi e, assim que entrei na avenida abarrotadade carros, ônibus e pedestres que insistiam em atravessar forada faixa, me arrependi. Entretanto, não havia o menor perigopara os pedestres, pelo menos não naquela hora, com tudoabsolutamente parado como estava. Provavelmente eu poderiachegar em casa mais depressa se tivesse ido a pé também. Mal entrei em meu apartamento e me lembrei de queprecisava encontrar uma boa faxineira. Com urgência! Nadaestava onde deveria estar. Roupas jogadas por toda a mobí-lia, canecas e copos espalhados pela superfície de quase tudo,pilhas e pilhas de papéis amontoadas desordenadamente emcima da mesa de jantar. O apartamento estava ficando peque-no pra tanta bagunça. Joguei as chaves e a bolsa sobre a mesa entulhada e fuitomar banho. Deixei a água quente escorrer por meu pescoçoe minhas costas esperando relaxar. E relaxei um pouco, naverdade. Vesti meu pijama e me joguei no sofá, procurandoalgo para me distrair enquanto meu jantar girava dentro domicro-ondas. Não encontrei nada na TV, então liguei meump3 e abri meu livro favorito. Meu livro “livro”, com capa efolhas de papel e tudo mais. Não em meu e-reader. Eu tinhavários livros eletrônicos, inclusive armazenados no celular,mas este livro em especial eu simplesmente não conseguia lerde outra forma que não fosse a tradicional. Ele tinha minhaspáginas preferidas marcadas por orelhas e estava todo esfran-galhado por já tê-lo lido tantas vezes. Eu não sabia explicarpor que gostava tanto daquele livro, mas era incrível poderme perder em séculos passados, costumes tão diferentes, rou-pas tão lindas, paisagens bucólicas e tranquilas, o amor sendo16 Carina Rissi
  8. 8. posto à prova pela ideia retrograda de que pobres e ricos nãose misturavam, o cavalheirismo, a delicadeza do primeiroamor... Glicose da boa! Realmente não sabia explicar o motivo — já que eu nãoera uma romântica incorrigível —, mas eu adorava aquele li-vro. E ficava meio difícil me perder no século dezenove se esti-vesse lendo em um e-reader! Senti as juntas de meus dedos doerem quando termineimeu jantar. Seria um alívio nunca mais precisar daquele tram-bolho centenário outra vez, pensei, enquanto jogava os pratose talheres dentro da lava-louças. Meu celular tocou. — Você vai sair amanhã? — inquiriu a voz antes mesmoque eu conseguisse dizer alô. — Oi pra você também, Nina. Como foi o... — Você vai, não é? — ela me interrompeu apressada.— Não vai me enrolar outra vez, Sofia. Você sempre acabaarranjando uma desculpa pra não sair de casa. Amanhã vocêvai sair! — a voz se tornou mais ameaçadora. — Nem queeu mesma tenha que te buscar à força! Ou posso pedir para oRafa e os amigos dele passarem aí pra... — Calma, Nina. Tá certo. Não precisa ameaçar. — nãoqueria nem imaginar Rafa e seus amigos trogloditas no meuapartamento minúsculo. Tremi só de pensar. — Tô mesmo pre-cisando sair e beber alguma coisa. Essa semana foi um inferno! Ela respirou fundo do outro lado da linha. Quase conse-guia ver o bico que ela devia estar fazendo. — Nem me fale! — outro suspiro. — Por isso mesmopreciso que você saia com a gente amanhã. Quero te contaruma coisa. Ai, Senhor! De novo? — Brigou com o Rafa outra vez, Nina? — honestamen- perdida 17
  9. 9. te, isso já estava passando dos limites. — Não, não. Quer dizer, não muito. Mas não é sobreo Rafa. — ouvi barulho de buzina ao fundo seguido de umgrito abafado de Nina: Passa por cima, imbecil! — Não é sósobre o Rafa que eu quero conversar. Olha, preciso desligaragora. A gente se vê amanhã lá no Toca, está bem? — maisbarulho de buzinas. — Beleza. — fiquei curiosa com o assunto misteriosoda Nina. Normalmente, ela desatava a falar, mesmo quando euexplicava que não podia conversar por que tinha prazos acumprir ou por que simplesmente estava no meio de umbanho. O que aquela maluca estaria aprontando dessa vez? Acordei na hora certa, pra variar. Graças a Deus era sexta--feira! Cheguei às oito em ponto ao escritório — sem manchasde lama, com a roupa perfeitamente limpa e passada — e qua-se gritei de alegria quando vi minha CPU no lugar de costu-me. Corri até minha mesa e me abracei ao monitor. — Não me abandone nunca mais! — murmurei aliviadapor não precisar mais da máquina torturadora de dedos. — Tendo um caso com o computador, Sofia? Olha, vocêprecisa usar alguma proteção, garota! Sabe como é! Pode aca-bar pegando um vírus! — era Gustavo, o engraçadinho, é claro,gargalhando até perder o fôlego. — Rá-rá. — foi tudo o que eu disse a ele. O dia no escritório transcorreu como sempre — semum único minuto pra pensar em como eu arrumaria uma fa-xineira e como ganharia mais dinheiro para poder pagar porela. Meu salário era digno de pena e o trabalho parecia nuncater fim. Eu tinha que arrumar tempo pra fazer um bico... Sónão tinha tempo pra arrumar mais tempo! Saí do escritório, peguei meu carro no estacionamento e18 Carina Rissi
  10. 10. fui direto para o bar. O Toca ficava a três quadras do escritório.Foi meio demorado encontrar uma vaga, parecia que quasetodo mundo tinha resolvido sair do escritório e dar uma esti-cadinha em algum bar ali perto. O telhado em um grande arco escuro, com pequenasjanelas na fachada e uma grande porta em forma de U, dei-xava o bar parecido com uma toca indígena. Leo´s Bar era onome oficial, mas todo mundo o conhecia como Toca. Erabem rústico, até mesmo em seu interior — as mesas e cadeirasde madeira rústica e sem verniz —, com exceção dos clientes,sempre descolados. Contudo, eu não estava muito descolada. Ainda estavavestida com as roupas de escritório: jeans escuros e camisabranca de mangas curtas, os cabelos presos num rabo de cava-lo. Nem muito profissional, nem muito descolada, mas eu nãopodia furar com Nina outra vez e não daria tempo de ir até emcasa para me arrumar de forma mais casual. E eu queria sair e me divertir um pouco. Estava ficandoesgotada e minhas férias estavam muito, muito longe para queeu pudesse sequer começar a planejá-las. — Nossa! Vai cair um pé d’água! Olha só quem resolveu sejuntar aos vivos! — Rafa (sempre tão agradável!) praticamentegritou quando me viu, fazendo com que muitas outras pessoasno bar parassem o que estavam fazendo só pra me observar. — Eu estou viva, Rafa! — falei asperamente. — Só nãotenho tempo pra sair quando eu bem entender. Eu trabalho,sabia? Você já deve ter ouvido falar a respeito. Algumas pessoasnão nascem com a vida toda garantida e precisam ganhar seupróprio dinheiro. — Hei! Foi só uma brincadeira. Dá um tempo! Não preci-sa me passar um sermão — reclamou, levantando as duas mãosgrandes com as palmas pra frente, como que se rendendo. perdida 19
  11. 11. Eu realmente precisava beber alguma coisa. Estava come-çando a ficar implicante e mal-humorada. Depois de mais ou menos uma hora — e quatro chopes,talvez? —, Nina aproveitou que Rafa tinha ido até a mesa desinuca (para uma partida rápida, ele disse) pra começar a falar. — Quero sua ajuda. Sua opinião, na verdade. — seusolhos verdes inquietos. — Tudo bem. Desembucha aí! — eu estava mais relaxa-da, o chope começando a agir no meu organismo. Ela olhou rapidamente para Rafa e depois de volta pra mim. — Eu acho que... Acho que eu... Seus olhos estavam ansiosos, meio inseguros. Ela pareciaassustada. Oh-Oh! — Meu Deus, Nina! Você está grávida, não está? — fiqueigelada. Nina cuidando de um bebê! Um bebê que chora e vazameleca por vários orifícios diferentes. O tempo todo! Se bem que,se ela era capaz de suportar o Rafa com seus quase dois metrosresmungando e pedindo coisas o tempo todo, seria capaz decuidar de um bebê de cinquenta centímetros e que, certamente,reclamaria muito menos. — Não! — sua voz horrorizada. — Sofia você ficou doi-da? Eu não estou grávida. — seus olhos correram em direçãoao Rafa para se certificar de que ele não tinha ouvido, e apa-rentemente ele não ouviu. — É que você... Eu pensei... Que... Que... Esquece o queeu pensei! Me desculpe, Nina. Conta logo o que tá te deixandotão apreensiva. Nina baixou a cabeça por um instante, observandoseu copo quase vazio e depois, com aquele sorriso que diziaaprontei-outra-vez nos lábios, se voltou para mim. — Acho que vou convidar o Rafa pra morar comigo! —20 Carina Rissi
  12. 12. ela disse, quicando na cadeira. Seus olhos brilhantes de ansie-dade e excitação. — Ah! — levei meu copo à boca e tomei um grandegole. — Hã... Seu rosto delicado murchou um pouquinho. — Eu sabia que você não ia gostar — murmurou, bai-xando os olhos e sacudindo levemente a cabeça, fazendo seuscachos negros tremularem um pouco. Olhei pra ela, pra minha amiga, minha melhor amiga,que muitas vezes foi minha irmã mais velha. Eu sabia que mi-nha aprovação era importante pra ela. Tentei parecer menostensa do que na verdade estava. — Não é isso. É claro que é... legal. Muito legal. — to-mei outro gole de chope. — É só que... Você tem certeza,Nina? Tem certeza que ele é o cara certo pra você? — Tenho! — sua voz estava firme e seu rosto sério, masos cantos de seus lábios cheios teimavam em subir um pouco. — Mas vocês dois vivem brigando! — constatei o óbvio.— Feito cão e gato! Já perdi as contas de quantas vezes vocêapareceu lá em casa chorando por causa dele. — Eu sei, Sofia. Mas eu estou apaixonada por ele! Nãoquero ficar longe dele um minuto sequer! Não pode ver isso? Claro que eu podia. Desde que o conheceu, Nina ficou ma-luca por ele. No começo, achei que ela tinha tirado a sorte grandeagarrando um cara como Rafa — grande, forte, loiro, com olhosrápidos e brilhantes e um sorriso debochado —, mas assim queengataram um relacionamento mais sério e ele começou agir deforma infantil e às vezes até rude, mudei de ideia rapidamente. — Eu sei o quanto você gosta dele. Todo mundo sabe! Mastem certeza que isso vai dar certo? — tentei falar de forma gentil.Não queria magoá-la dando minha verdadeira opinião sobre ele. — Não. — Nina sorriu. — Não tenho certeza. É claro perdida 21
  13. 13. que não! Não se tem certeza de nada quando se esta apaixo-nada, Sofia! — Ah, se tem sim! Dá pra ter certeza que seu coraçãoserá estilhaçado em um milhão de pedaços no final. Tomei outro gole. Meu copo ficou vazio. — Sofia! Não acontece sempre assim com todo mundo.— ela viu meu olhar cético e continuou. — Não acontece!Existem pessoas que passam a vida toda juntas. — A-hã! — Existe sim. Além do mais, nós ficamos juntos otempo todo, exceto quando estou trabalhando. Metade dasminhas coisas estão na casa dele. Facilitaria muito se morás-semos debaixo do mesmo teto, e meu apartamento é maior... — E a outra metade das suas coisas está na minha casa,eu acho... Humm. Me esqueci de devolver a blusa verde, que ela meemprestou para ir naquele fórum, e a saia. E os sapatos também. Era uma sorte Nina ter quase o meu tamanho, apenascentímetros mais baixa, porém, era mais curvilínea que eu,fazia o tipo boazuda. Isso pra não falar de sua pele cor dechocolate ao leite, linda e lisa, contrastando com seus olhosde esmeraldas que a deixava parecida com uma deusa africa-na, enquanto eu tinha olhos castanhos e comuns, pele muitobranca e sem graça, sem nenhum atrativo exuberante e cabelosondulados e indomáveis. — Eu sabia que aquela blusa não tinha fugido da minha ga-veta! — Nina era um amor. Sempre me socorria nas mais diversasemergências. As de moda inclusas. — Mas o que você acha? — O que? Sobre roupas fugindo de casa? Acho que faztodo o sentido. Tenho várias delas desaparecidas. Ela bufou estreitando os olhos. — Você as encontraria se as dobrasse ao invés de jogar22 Carina Rissi
  14. 14. tudo de qualquer jeito. — fiz uma careta. — Mas não foi issoque eu perguntei. Eu sabia disso. Sabia que perguntava sobre eles doismorarem juntos. Não queria magoá-la e dizer que realmenteachava uma péssima ideia, que toda essa baboseira de amoracaba assim que a rotina aparece. Que só servia pra venderrevistas e livros e que na vida real, você sempre acabava sozinhacom um buraco no lugar onde costumava ficar seu coração. — Eu acho... — comecei cautelosa. — Eu acho que sevocê vai ficar feliz... Se vai te fazer feliz, eu também fico. Ela pulou da cadeira e me abraçou forte. — Obrigada, Sofia! Você sabe o quanto é importantepara mim que você goste da ideia. Você é a única que nãodetesta o Rafael. Nina tinha brigado com seus pais logo depois que se en-volveu com Rafa. Obviamente, eles também não tiveram umaboa impressão dele e Nina se recusou a terminar o namoro.Rompeu relações com os pais na mesma época em que perdi osmeus — num acidente de carro fatal. Foi um período muito...Ruim. Nós nos apoiamos uma na outra e seguimos em frente.Sendo justa, Rafa também me ajudou naquela época. Nem seio que teria acontecido se eu não tivesse os dois ao meu lado... — Deixa disso! — eu disse, tentando aliviar o clima,que subitamente ficou mais pesado. — Vamos comemorar!Não é todo dia que uma amiga vai passar para o lado dasseriamente comprometidas. Ela me soltou e revirou os olhos. — Ai, Sofia! Às vezes, você fala como se casamento fosseuma sentença de morte. E não era? Viver em função de uma só pessoa, como se sua vida ape-nas tivesse sentido se ela estivesse por perto? Acordar e olhar perdida 23
  15. 15. para a mesma pessoa todo santo dia! Sexo com uma única pes-soa pelo resto da vida! Ter que cuidar da casa, do marido, dosfilhos, do cachorro, trabalhar... Não era um tipo de sentençade escravidão, pelo menos? Eu não entendia o que levava uma pessoa lúcida a se ca-sar. Se bem que a maioria delas não parecia gozar de sua plenasanidade quando estavam apaixonadas. — Não é! — ela afirmou, provavelmente vendo a descren-ça estampada em meu rosto. — Tenho esperanças de que vocêencontre o cara certo um dia desses, sabia? Já está na hora deviver uma história de amor de verdade e esquecer as dos livros.Acho que vai ser divertido ver como você vai se sair quando seapaixonar pela primeira vez. — Eu já me apaixonei uma vez! E não tem nada de er-rado em gostar de ler histórias de amor, pelo menos nos livroselas tem finais felizes! Não machucam ninguém. Não gostei do rumo que a conversa tomava. — Ah! Não! Você não se apaixonou, não! — Claro que me apaixonei! Você sabe disso. Estávamos na faculdade. Já éramos amigas na época. Elaesteve do meu lado quando me envolvi com Bruno. Um dessesidiotas que sabe-se-lá-por-quê acabei me apaixonando. — Você não se apaixonou por Bruno. Você gostava dele,sentia atração por ele. Mas não amor. — ela pegou um amen-doim e mastigou. — Se você o amasse de verdade, não teriaficado tão tranquila como ficou quando o flagramos aos beijoscom a Denise. — ela se recostou na cadeira, o rosto triunfante. — Só porque não fiquei chorando pelos cantos por déca-das não significa que não estivesse apaixonada! Eu fiquei arra-sada sim! O que você queria que eu fizesse? Que me atirasse daponte? Se ele quis outra garota, paciência. A fila anda! — leveio copo a boca, mas estava vazio.24 Carina Rissi
  16. 16. Droga! — Exatamente! Se realmente estivesse apaixonada, a filademoraria um pouco mais para começar a andar. E você fi-cou arrasada por que foi trocada por outra, não por perdê-lo.Desista, Sofia. Não vai conseguir me convencer. Quando seapaixonar de verdade, me dará razão. Não fazia sentindo começar uma discussão com Nina,ela não cederia. E nem eu. Suspirei derrotada. — Preciso ir a o banheiro. — o chope precisava sair! E euqueria que o assunto morresse. — Pede mais uma rodada pragente comemorar. Eu não estava bêbada — não muito. Dei algumas trope-çadas no caminho, mas isso até era meio normal pra mim. Euapenas estava um pouquinho mais devagar que o normal, tipoem câmera lenta. Entrei no banheiro lotado e esperei minha vez. Pratica-mente me joguei dentro do banheiro quando a porta se abriu.Desabotoei rapidamente a calça, me equilibrei meio em pé,meio agachada — não havia condições técnicas pra me sentarali! — e... Ah! O alívio! Foi então que ouvi um “ploct”. Olhei para baixo bem a tempo de ver meu celular — comtodos os meus contatos, minha agenda, minhas músicas — cairdo bolso da calça, boiar por dois segundos e depois mergulhardentro do vaso sanitário. perdida 25

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