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Não era uma transformação como nos filmes, rápida. Era uma mutação que,provavelmente, iria demorar um pouco mais. Talvez u...
- Como brincadeira?- Brincadeira, ué... Os bois não são treinados? Que nem no circo?- Não filho... Ali é caiu, quebrou...O...
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O papa e a tartaruga                              25 de março de 2000O final de mandato do papa João Paulo II (papa tem ma...
Já até pedi um orçamento num vidraceiro, e um dia mando fazer. Se não para oconforto das tartarugas, ao menos para diminui...
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Foi quando larguei tudo e resolvi dar uma repensada no futuro. O que é, afinal, que euqueria ser quando crescesse? Qual pr...
No tal livro, o personagem principal está prestes a embarcar numa excursão, juntocom seus colegas de escola. A mãe dele, a...
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amigas, e o filho do dono da sorveteria estava de paquera, - você entende, né pai?Entendo, filha. E entendo que há alguns ...
anos. Esses pais agora aplaudem e parabenizam a moça que lhes anuncia em festaexatamente aquilo que , caso acontecesse com...
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O que estou querendo dizer é que conseguiram medir o "amor". Vejam vocês... Elesmediram outras coisas também. A raiva. A t...
E nós dois ficamos olhando para ele e eu comentei que os pavões não precisam dealucinógenos. Eles tinham um no rabo. E nós...
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não era, ninguém tinha nada com isso. O que não podia aguentar era aquela gozação.Disse que não era. Então os amigos pagar...
sentou-se, mal disfarçando o mau humor. Lá pelo meio-dia começaram a pipocar osrojões. Primeiro tímidos, depois ensurdeced...
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O incrivel homem de 4 olhos
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O incrivel homem de 4 olhos

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livro completo com crônicas curtas e deliciosas de ler, rendeu ao autor convite para lançar seu segundo livro e uma entrevista no "programa do jô"

Publicada em: Educação
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O incrivel homem de 4 olhos

  1. 1. "Coloque-se porém o leitor, o ingrato leitor, no papel do cronista. Dias há em que,positivamente, a crônica "não baixa". O cronista levanta-se, senta-se, lava as mãos,levanta-se de novo, chega à janela, dá uma telefonada a um amigo, põe um disco navitrola, relê crônicas passadas em busca de inspiração - e nada. Aí então é que, se eleé cronista mesmo, ele se pega pela gola e diz - Vamos, escreve, ó mascarado!Escreve uma crônica sobre esta cadeira que está aí na sua frente! E que ela seja bemfeita e divirta os leitores! - E o negócio sai de qualquer maneira." Vinicius de Morais, em "Para Viver um Grande Amor" Crônicas publicadas no "Diário de Votuporanga" Regime 15 de janeiro de 2000Minha mulher chegou pisando duro. Entrou em casa escandalosamente e, sem olharpara trás, bateu a porta num estrondo. Foi direto para o quarto.Eu nem me levantei do sofá. Não é bom se intrometer com as mulheres quando elasestão assim. Passados uns dez minutos, a curiosidade venceu. Eu me levantei e fuiaté o quarto, para ver o que era. Lá estava minha mulher, vestindo uma roupinhacolante, que já foi de baile e hoje é usada só nos nossos finais de semana, no rancho.Ela estava de perfil, em frente ao espelho do armário.- Você acha que eu estou gorda, querido?Uma coisa que eu aprendi nesses quinze anos de casado é que, em hipótese alguma,você pode falar que sua esposa engordou. Fale qualquer outra coisa. Desconverse.Comente sobre o tempo. Fale sobre futebol. Mas nunca, absolutamente nunca,responda sim quando ela perguntar se engordou.- E se a gente fosse ao cinema?- Você não me respondeu. Eu perguntei se você acha que eu engordei.- Acho que ainda está passando "Xuxa Requebra".- Eu estou uma baleia, não estou?- No outro está passando um filme do Renato Aragão. Você prefere?Aí ela começou a choramingar. Eu me abracei nela. Comentei que ninguém liga paraisso. Depois de tanto tempo juntos, o que um quilinho a mais ou a menos significa?Foi como o rompimento da barreira de uma usina hidrelétrica. Chorou como criança.Mas - e essa foi uma das razões de eu ter me casado com ela - minha companheira éuma mulher decidida. Já no dia seguinte, chegava em casa com um regimesensacional, que ela tinha conseguido não sei onde. Resume-se mais ou menos noseguinte: você come e bebe o que quiser durante cinco dias da semana - só dandouma regulada nos refrigerantes - e, nos dois dias restantes, você só ingere leite emaçãs, também na quantidade que bem entender.Minha esposa chamou a empregada lá de casa (ou secretária, como parece ser modachamar) e avisou que não precisava mais fazer almoço às segundas e quintas-feiras,dias escolhidos para serem os "Dias das Maçãs e do Leite". A moça até que gostou da
  2. 2. idéia. Além de não precisar cozinhar, também estava precisando perder uns quilinhos,adquiridos nas festas de final de ano. Resolveu aderir ao regime.Sei que, desde o começo de janeiro, todos lá em casa, em dois dias da semana, sócomemos maçãs e bebemos leite. Sem açúcar. Parecia fácil.No primeiro dia, até que correu tudo bem. Levamos na brincadeira.- E aí? Está conseguindo?- Mas não pode nem café?- Não pode.- Não pode.Agora, já se vão lá três semanas, a coisa parece que está piorando. Outro dia desses,a empregada envesgou os olhos e bambeou as pernas. Achei que ia desmaiar. Demosuma abanada, oferecemos um copo de leite. Ela fez cara de nojo. Não bebeu, masdeu uma reanimada e pediu para ir embora mais cedo. Eu não sei, mas aposto que elaparou no primeiro boteco e comeu uma bola de carne ou uma coxinha. Ou os dois.Eu mesmo, não vou mentir, já estou ficando meio nervoso. Quinta-feira passada,estava caminhando para o emprego quando passei por um desses sorveteiros, decarrinho de empurrar. Fiquei olhando, olhando. Eu ainda não tinha comido nada nodia. Também ando com uma certa ojeriza por leite e por maçãs.O sorveteiro percebeu que eu não tirava o olho dele. Se aproximou e perguntou:- Vai um sorvete?- Hum... Eu... não sei... Ah, que se dane! Vê um de limão. Melhor ainda: de tamarindo.- Desculpa. De fruta acabou. Só tem de LEITE.Eu não vou dizer aqui o que eu mandei o sorveteiro fazer com o sorvete de leite dele.Mas eu te falo uma coisa: ele nunca mais vai deixar faltar sorvete de frutas nocarrinho. A idade do lobo 10 de fevereiro de 2000Acordou com o peito apertado. Sabe quando a gente acorda com o peito apertado?Uma agonia que a gente não sabe bem de onde vem? Então. Se levantou da cama efoi direto para o banheiro. Dava sempre um beijo na esposa antes de se levantar.Naquele dia não deu.- O que foi, querido? - ouviu a esposa gritar do quarto.- Nada - resmungou.- O QUÊ??- NADA!!!Que coisa... Será que tem de beijar todos os dias? Jogou água no rosto e se olhou noespelho. Pêlos no nariz. Nunca teve pêlos no nariz. Se lembrou do tio Nino, velhoitaliano, irmão da avó. Impressionava pela quantidade de pêlos no nariz. E nosouvidos.Dizem que conforme vamos ficando velhos, os pêlos no nariz e nos ouvidosaumentam na mesma proporção em que diminuem os cabelos. Pois o tio Nino eracareca. E os pêlos que lhe saíam das narinas e das orelhas eram como... como... deum lobo. Corria na família, inclusive, uma lenda de que eram mesmo. O tio setransformava em lobisomem nas tais noites de lua cheia. É claro que eram históriascontadas para assustar as crianças, e foi exatamente o que aconteceu. Ficou comaquilo na cabeça para o resto da vida.E agora quem estava se transformando em lobisomem era ele. Ali, a olhos vistos. Nafrente do espelho. Pêlos saindo pelo ouvido, pelas narinas e, reparando melhor, osdas sobrancelhas também estavam meio desarranjados.
  3. 3. Não era uma transformação como nos filmes, rápida. Era uma mutação que,provavelmente, iria demorar um pouco mais. Talvez uns anos. Mas que, nesse ritmo,acabaria se transformando num lobisomem, isso não restava dúvidas.- Querida! Sabe onde é que tem uma tesoura?- O QUÊ? - a esposa gritou do quarto.- UMA TESOURA!!!Silêncio. Ouviu a esposa se aproximando pelo corredor.- O que foi, meu bem?- Uma tesoura. Sabe onde é que tem uma tesoura?- Pra quê que você quer uma tesoura?Ele olhou para a esposa. Porque será que as esposas querem saber de tudo?- Os pêlos. Do nariz. Eu quero cortar.- Deixa os pêlos aí. Se ficar cortando, crescem mais fortes.- Olha. Eu não pedi uma opinião. Pedi uma tesoura.- Ííííííííííííííííííí... Está naqueles dias...A mulher saiu de perto, desanimada. O marido andava esquisito já fazia uns dias.Deprimido. Acho que era a idade. Os homens, quando começam a se aproximar dosquarenta, entram em pane. Já não conseguirão ser os gerentes da empresa. Quandonão perdem o emprego, já se dão por felizes. Os filhos saem de casa e deixam os paissozinhos, nas noites de sábado. Os maridos se sentem na obrigação de, como direi,mostrar serviço. E o serviço já não é mais o mesmo de vinte anos atrás,evidentemente.Os homens começam a se tornar uns resmungões. Começam a comprar shampooscontra queda de cabelo. Outros começam a andar com camisetas estampadas.Encontrou, enfim, uma tesoura. Na gaveta de costura. Conforme voltava para obanheiro, vinha se lembrando de quando conheceu o marido. Era tão romântico.Todos os dias trazia uma flor para casa. Ia se aproximando da porta e já dava paraouvir os resmungos. Coitado. Não devia ser fácil para ele ficar velho. Era tão bonitoaos vinte anos...Chegou. A porta do banheiro estava fechada. Foi abrindo devagarinho.- Querido? Querid... AHHHHHHHH!!!!Num salto, o lobo pulou por cima da mulher.Deu uma última olhada para trás. E fugiu pela janela. Vamos pastar? 12 de fevereiro de 2000O calendário dos rodeios que se realizam anualmente em Araçatuba, conhecida como"terra do boi gordo", está sendo ameaçado por uma ação judicial movida peloMinistério Público, que proíbe a realização de eventos envolvendo maus tratos emanimais.Eu nunca achei muita graça naquilo mesmo, não vou sentir a mínima falta. Mas temgente que gosta. Eu tinha um amigo, por exemplo, que adorava. Ele era açougueiro.Quando tinha Exposição na cidade, não perdia uma das provas. Os cavalos e os boispulando e derrubando os caras. Ele delirava. Levava o filho, bem pequeno na época.Uns seis anos. Se sentavam na arquibancada uma ou duas horas antes de começar orodeio, para pegar lugar melhor, e só saiam depois da famosa poeira assentar.Bem. Um dia, um dos peões caiu de mau jeito e desmaiou. Ficou lá, esparramado nochão, até chegar alguém com uma maca e tirar ele de lá. O filho do açougueiroperguntou:- Ô pai, o que é que aconteceu?- O peão, filho. Se machucou.- Mas como, machucou? Não é tudo brincadeira?
  4. 4. - Como brincadeira?- Brincadeira, ué... Os bois não são treinados? Que nem no circo?- Não filho... Ali é caiu, quebrou...O menino arregalou os olhos.Passou mais um pouco, um dos touros começou a sangrar, depois de ser esporeadoentusiasticamente por outro cowboy. O menino só aguentou mais uns quinze minutossentado. Pediu para ir embora.- Mas... por quê, filho?- A gente vai ficar aqui sem fazer nada, vendo os bois e os caras se machucarem? Euquero ir embora...O açougueiro nunca mais foi num rodeio. As palavras do filho devem ter marcadotanto que mudou até de profissão. Virou eletricista eu acho, mas isso não vem aocaso.O que vem ao caso é que esse negócio de rodeios e touradas, é uma coisa meiobesta. E além do mais, uma besteira importada. É coisa de espanhol e de americano.Não sei se tem muito a ver com a gente.Tanto não tem que, no Brasil, inventaram o Bumba-meu-boi, que é mais ou menos amesma coisa, só que de mentirinha, como preferia o filho do açougueiro. Um cara seveste de boi e finge que ataca. O outro finge que é toureiro. Ficam ali, brincando detourada, até a platéia enjoar. Aí, um finge que mata o boi. No fim, todo mundoagradece o público e vão lá, o boi e o toureiro, tomar uma cervejinha no bar daesquina.Mesmo quem gosta de ver aquele sangue todo jorrar dos bois quando são espetadosnas touradas tem de concordar comigo que o Bumba-meu-boi é uma coisa muito maiscivilizada. E nesses nossos tempos de realidade virtual, não vejo a mínima razão paracontinuar a machucar os animais, a não ser por motivos de um bom filé ao molhomadeira.Já existe muita violência por aí para promovermos mais algumas, só pelo prazer dedemonstrar nossa superioridade frente aos outros animais. Porque um rodeio nãopassa disso. Uma disputa idiota para provar que o ser humano é superior a umruminante.Aliás, acho que nem disputa é. Seria disputa se o boi também estivesse competindo,mas o boi, eu te garanto, não está nem aí para quem ganhou ou perdeu. Ele só quermesmo é sair vivo dali.Pode perguntar pro boi. Os pais dos patos 15 de fevereiro de 2000Desde a mais tenra idade, uma terrível dúvida aflige meus pensamentos: quem são ospais do Huguinho, do Zézinho e do Luisinho?Pode até parecer uma coisa sem importância para você, mas para mim talvez seja adiferença entre a salvação ou o castigo eterno.Fui criado em um apartamento. Era uma apartamento grande se compararmos com askitnets atuais, mas não deixava de ser um apartamento. E uma das únicas maneirasdos pais manterem seus rebentos razoavelmente calmos num apartamento erachuchando-lhes incontáveis gibis.A TV já existia sim, mas era uma coisa diferente. Não ficava ligada o dia inteiro, comofica hoje. Normalmente era acionada só depois da janta, para que os pais conferissemo jornal e as mães, suas novelas.Durante o dia, as crianças se viravam mesmo era com os gibis. Aqui em Votuporanga,me disseram, havia sessões de troca em frente ao cinema. Já em Campinas, ondenasci, as crianças apenas colecionavam. Acumulávamos imensas pilhas de gibis, e ai
  5. 5. de quem chegasse perto deles. Nosso prazer não se resumia em apenas ler, mas emter mais gibis que os outros. Como se pode observar, o capitalismo atingia as criançasde grandes centros de maneira um pouco mais traumática.Bem. Sei que, enquanto por aqui as crianças ficavam andando de bicicleta no jardim,em Campinas eu ficava trancado no meu quarto. Lendo gibis.Não posso dizer que foi ruim. Até hoje gosto de histórias em quadrinhos e aindaguardo uma imensa coleção, que minha mulher vive pedindo para eu jogar fora. "Umninho de baratas", ela diz.O que ela não entende é que foi desse ninho de baratas que tirei minhas primeirasimpressões sobre o mundo. Lições, até hoje, não muito bem compreendidas. Uma dasmaiores dúvidas é aquela, com a qual iniciei a crônica: onde diabos se meteram ospais dos sobrinhos do Pato Donald?São órfãos, os pobres patinhos? E o Tio Patinhas? Se é tio, é irmão da mãe dealguém, não é? Ou do pai. E cadê esses irmãos? E o pai do Pato Donald? Por ondeanda?Tem também a Vovó Donalda. É irmã do Tio Patinhas? Ou o quê, então? E se sãoirmãos, onde estão os pais? Ninguém tem pai nessa história?Porque, você pode dar uma olhada. O Cebolinha. A Mônica. O Cascão. Todos elestêm pai e mãe. Mas os personagens Disney não. Um bando de animais órfãos quevivem numa tremenda promiscuidade. São cachorros andando com ratos e patos.Porquinhos chafurdando num pesadelo incestuoso. Bois, cavalos e, vejam bem,VACAS!!! Sim, vacas, a maioria com suas tetas pendendo sensualmente à vista detodos - e isso tudo muito antes de liberarem o topless.Sei que, se aliarmos essa esculhambação toda do Walt Disney à rígida educaçãocatólica que recebi, não se poderia esperar mesmo nada de muito proveitoso. Sãocoisas muito antagônicas: a igreja pregando a importância de uma vida familiarsaudável e os quadrinhos nessa geléia geral. Não há cabeça de criança que consigaconciliar essas duas visões de mundo sem entrar em conflito.Bem fazem algumas igrejas que proíbem seus seguidores de lerem histórias emquadrinhos, ouvirem rock’n roll e até mesmo de tomarem Coca-Cola.São coisas do demônio, evidentemente. Só não vê quem não quer. Eternamente 19 de fevereiro de 2000Você pode até não acreditar, mas alguns cientistas americanos acabaram de descobrira causa do envelhecimento dos animais. E, pode esperar: agora que descobriram acausa, para inventarem a cura é um passo.O estudo foi publicado num artigo da revista científica "Nature", de quinta-feirapassada. No Instituto de Tecnologia de Massachusetts alguns pesquisadores, meiosem querer, toparam com a proteína SIR-2 que, segundo eles, rege a duração da vida.Já fizeram, inclusive, alguns experimentos com ratos, vermes e moscas, conseguindoaumentar um bocado o tempo de vida dos espécimes.Bem, o homem não é tão diferente assim desses animais. Observando por certosângulos, é até muito parecido. E, se deu certo com eles, não vai demorar muito paradar certo com a gente também.Isso quer dizer, meu caro, que provavelmente nossos bisnetos - ou, vá lá, os bisnetosdeles - vão ter uma vida tão longa quanto Ponce de Leon sonhou ter. Ou seja:alcançarão a eternidade.Ponce de Leon, para quem não sabe, foi aquele espanhol maluco que embrenhou-senas selvas americanas (das Américas, não dos EUA) em busca da fonte da juventude,e que acabou tendo uma vida ainda mais curta do que a da maioria dos seus
  6. 6. contemporâneos. Morreu de febre amarela ou alguma outra dessas doenças que atéhoje ainda infestam nossos trópicos. Mesmo assim, a fantasia de Ponce de Leon meconsolou muitas madrugadas na infância, quando, debaixo das cobertas, eu começavaa pensar sobre a morte.A morte é, talvez, nosso primeiro medo real. Os pais não dão muita importância aesses temores enquanto eles se restringem ao escuro, aos fantasmas e aos monstrosdebaixo da cama. Consolam as crianças mas, no fundo, riem. Agora, quando o filhochega e diz que está com medo de morrer, a coisa muda de figura. Os pais nãoconseguem consolá-los porque também têm medo. E provavelmente têm até mais queos próprios filhos pois, pressupõe-se, restam-lhes ainda menos tempo de vida. Opavor da morte rondará as nossas madrugadas mesmo quando nos tornamos avós. Éuma espécie de pesadelo coletivo da raça humana.Certo. Um sabadão desses. Um dia gostoso. Todo mundo com planos para pescariasou para a boate à noite. E o estraga prazer aqui com esse papo funesto sobre a morte.Mas dessa vez você está enganado. Eu não estou falando da morte. Não sei se vocêlembra, mas eu estava falando da descoberta da cura da morte, pelos cientistasamericanos. Estamos falando aqui da eternidade.E é aí que eu pergunto: e quem é que quer viver para sempre?Pare um pouco o que está fazendo e pense na possibilidade de você sobreviver atudo. Aos dias. Às semanas. Aos séculos. Ao trânsito da rua Amazonas. A tudo. Derepente, você não vai mais morrer. Mesmo que queira. É uma idéia assustadora.Eu, pelo menos, não sei se quero viver para sempre. Está certo que também nãoquero morrer amanhã, mas "para sempre" é um termo um tanto quanto radical demais.Andei perguntando por aí, para ver se era só eu, mas não é não. Ninguém quer aeternidade. Excluindo um colega de serviço, que é um daqueles chatos insistentes,todo mundo para quem eu perguntei disse que não pretendia viver mais que setentaanos. Alguns, nem setenta. Contentam-se com seus cinquenta, cinquenta e cinco. Atémenos.E estão certos. Imaginem só ter que aguentar a programação de sábado à tarde naTV, por toda a eternidade. Não sei de vocês. Eu prefiro a morte. Descoberto novo animal em Cardoso 26 de fevereiro de 2000A Polícia Florestal de Cardoso descobriu, na última quinta-feira, uma nova espécie dereptil que, aparentemente, só pode ser encontrado em nossa região. Algunsexemplares já foram enviados para a Universidade de Princetton (EUA) para eventualcatalogação.Após receber um telefonema do caseiro da Fazenda Mirante, propriedade da famíliaLemos, de Votuporanga, o capitão Silviano Martins dirigiu-se até a estância, situada àbeira de um dos lagos represados de Cardoso.Chegando lá, foi informado que as águas do "Marinheirinho" estavam subindo a níveisalarmantes, colocando em risco, inclusive, a sede da fazenda, uma mansão de doisandares construída no século passado.O capitão e sua equipe, imaginando tratar-se apenas de algum ajuste nas comportasda usina de Ilha Solteira, só decidiram averiguar o local após a insistência do caseiro,que dizia que as águas jamais haviam ultrapassado a distância de cem metros dasconstruções e agora já estavam quase invadindo a varanda da mansão principal.Seguindo ordens do Capitão Silviano, os cabos Silvio Andrade e Mateus Peregrinisubiram a pé pelas margens da represa, enquanto o próprio capitão mais o soldadoRégis seguiram de barco pela água.
  7. 7. Após meia hora de caminhada, o cabo Silvio, às margens do rio, comentou com seucompanheiro que já não conseguia ouvir o motor da embarcação do capitão. Subiunuma árvore e, munido de um binóculo, iniciou minuciosa busca. Passados algunsminutos, percebeu alguma coisa boiando na margem oposta.Eram os restos do barco da Polícia Florestal. Aparentemente, a pequena embarcaçãode alumínio havia se chocado contra uma formação rochosa e se partido. Junto aosdestroços, foram encontradas duas mochilas de primeiros socorros e uma lanternacom o emblema da corporação. Não havia, no entanto, nenhum vestígio do capitãoSilviano ou do soldado Régis.Os cabos Silvio e Mateus retornaram então à sede da fazenda e, a partir da viatura,entraram em contato via rádio com seus superiores, pedindo instruções.Imediatamente foi acionado um helicóptero que, partindo de Rio Preto, em apenasquarenta minutos já estava sobrevoando o local.Após cerca de duas horas de busca, e já quase ao fim do combustível, o capitão JoséStuppiello, piloto do helicóptero, informou aos policiais em terra que havia detectadouma coloração incomum na corrente da água, a cerca de três quilômetros do localonde foram encontrados os restos do barco.Imediatamente, todo o contingente terrestre, que naquele momento já era constituídode mais de trinta homens, partiu para a região apontada pelo helicóptero. Láchegando, houve confirmação das informações. As águas, que no local normalmentetêm a coloração esverdeada devido à ação de algas, em determinado trecho assumiaestranhos tons avermelhados. Alguns mergulhadores já se preparavam para umaincursão quando foi avistado o primeiro de muitos animais que começariam a sair dorio.Totalmente desconhecidos, tinham o tamanho e a aparência de um jacaré de médioporte, possuindo, no entanto, uma espécie de casco, semelhante ao das tartarugas-marinhas, e com tonalidades que variavam entre o vermelho e o amarelo-ouro.Assustados com o número de criaturas que surgiam das águas, alguns policiaissacaram de suas armas e haveria um verdadeiro massacre, não fosse o sangue-friodo capitão e piloto José Stuppiello.Substituindo a munição normal por anestésicos, o capitão e seus subordinadosconseguiram aprisionar dezenas de espécimes vivos. A maioria deles se encontraagora numa lagoa situada na cidade de Cardoso, gentilmente cedida pela prefeitura, eé motivo de curiosidade por parte de toda população. O restante foi enviado parauniversidades e entidades científicas.Ao cabo de toda operação, só houve necessidade do sacrifício de um dos animais.Ainda às margens do rio, o capitão José Stuppiello percebeu que um dos espécimescapturados estava tendo estranhas convulsões. Diante do olhar atônito da corporação,o mesmo homem responsável pela sobrevivência de toda espécie, munido apenas deuma faca, atracou-se com o animal, retalhando-o em questões de minutos. A seguir, ocapitão Stuppiello introduziu as mãos nas entranhas ensanguentadas do bicho e, parasurpresa geral, puxou lá de dentro dois grandes volumes.Eram o soldado Régis e o capitão Silviano. Inacreditavelmente vivos! Terapia Ocupacional 21 de março de 2000Minha mulher, volta e meia, aparece com uma novidade. Ela sempre foi assim, desdesolteira. Uma dessas novidades, inclusive, fui eu - e o meu sogro até hoje ainda nãose recompôs da surpresa.Bem. A última mania dela é uma tal de Cromoterapia. Está fazendo um curso,pensando talvez em se profissionalizar. Quando ela encasqueta com uma coisa, gostade ir fundo. Já fez uma porção desses cursos que misturam um pouco de misticismo
  8. 8. com ciência. Ela chega um dia em casa e, como quem não quer nada, pergunta -Amor, você já ouviu falar da energia dos cristais? - e aí, pode se preparar: nassemanas seguintes, a casa se encherá de cristais energizantes e pedras filosofais.Dessa vez, era a Cromoterapia.- Amor, você já ouviu falar em Cromoterapia?- Cromo-o-quê?- Cromoterapia. A terapia através das cores. Deixa eu explicar... Cada cor influencia oser humano de um jeito. E nós podemos mudar a maneira de ser, assim, só mudandoa cor de nossas roupas. Ou de nossas casas. Entende?- Entendo.Na semana seguinte, já comecei encontrar rastros da tal Cromoterapia pela casa.Abria o armarinho do banheiro, para pegar a escova de dentes, e onde é que estavaminha escova de dentes?- É essa aí, vermelhinha. Eu comprei uma nova.- Mas...aquela amarela estava novinha...- É que a cor vermelha ajuda a combater as infecções.Pouco a pouco, minha casa foi mudando. Um dia, uma cortina azul.- É pra gente se acalmar um pouco.- Mas quem é que está nervoso? Eu não estou nervoso.- Está sim.- Não estou não.- Está sim.- NÃO ESTOU NÃO!No outro dia, a mesa do almoço estava lilás.- Mas uma mesa lilás? Eu não consigo almoçar com essa coisa lilás embaixo do meuprato.- É porque você não está equilibrado. O lilás vai equilibrar você.- Eu não quero me equilibrar. Estou muito bem assim, desequilibrado. Porque é que euvou querer me equilibrar agora?Quando dei por mim, eu estava morando numa espécie de arco-íris. Cadeiras listradasde vermelho e jasmim. Lustres alaranjados. Os copos antigos sumiram da cristaleira,dando lugar a copos cor-de-rosa. Os pratos, cinzas.- Mas cinza não é cor.- É sim. O cinza ajuda na percepção dos sabores.- Mas a comida fica com cara de morta.- É porque a comida está morta. Ou você quer comer a coisa viva?O ambiente em casa foi piorando. Os diálogos, cada vez mais ríspidos.- Eu não vou sair com você vestida desse jeito.- Mas o que é que você tem contra um vestido vermelho e amarelo?- Isso nem parece um vestido... Parece a...a...bandeira da Espanha.- E quem é que disse que a bandeira da Espanha é amarela e vermelha?- Eu sei, ué..- Sabe nada.- Sei sim.- Não sabe.Mas, do mesmo jeito que as manias de minha mulher começam, terminam. Um diacheguei em casa e tudo tinha voltado ao normal. Até minha escova de dentes, aamarelinha, estava lá, de volta. As cortinas, as mesas. Tudo com suas respectivascores normais. Fui para o quarto, e lá estavam os lençóis. Brancos de novo. Só nãoconseguia encontrar a minha mulher.Fui encontrá-la lá no fundo da casa, no jardim. Cavoucando a terra. Olhou para mim esorriu:- Você já ouviu falar nos Florais de Bach?
  9. 9. O papa e a tartaruga 25 de março de 2000O final de mandato do papa João Paulo II (papa tem mandato?) ficará marcado nahistória por seus pedidos de desculpas pelos erros da igreja católica no passado.Em 1992 o Papa já havia admitido que Galileu estava certo ao afirmar que era a Terraque girava em torno do sol, e não o sol em torno da Terra, como a igreja acreditava. OPapa pediu desculpas ao Galileu, ao Kepler e a uns outros que quase foramqueimados na fogueira (alguns foram mesmo) por defenderem idéias tão absurdas.Desde esse primeiro "mea culpa", o Papa não parou mais. Outro dia, pediu desculpaspela inquisição. Agora, aproveitando uma visita a Israel, parece que anda tentando sedesculpar com os judeus pelo silêncio do Vaticano à época do Holocausto.Devíamos todos seguir tão ilustre exemplo e começar a pedir nossas desculpas.Não, amigo leitor. Não adianta fazer essa cara de quem não tem culpa de nada. Éclaro que tem, a sua memória é que anda fraca. Mas também não precisa ficar assim,tão chateado. Todos nós somos culpados de alguma coisa, só que a maioria denossas culpas são coisinhas bobas, que só interessam à gente mesmo.Eu, por exemplo, também tenho cá os meus tormentos. E um dos maiores é alembrança de uma tartaruguinha que tive quando criança.Eu morava em um apartamento, em Campinas. Meus irmãos e eu sempre quisemoster um animalzinho de estimação, e cachorros e gatos eram proibidos no condomínio.Um belo dia, meu pai chegou em casa com uma surpresa. Era a tal da tartaruga.Era dessas pequenininhas, que não passam do tamanho de um mouse decomputador. São chamadas de tartarugas-de-aquário.Só que a nossa veio sem aquário. Precisávamos arrumar urgentemente um habitatpara o pequeno reptil (tartaruga é reptil? ou é anfíbio?).Tentamos alojá-la em diversos compartimentos. Uma máquina de lavar quebrada.Uma bacia, onde eram lavados nossos uniformes de escola. Mas todos eles, por umarazão ou outra, acabavam não dando certo. A lavadora não dava porque ficava muitodifícil pegar a tartaruga, quando ele se escondia lá no fundo. A bacia também não,porque minha mãe tinha que colocar nossos uniformes de molho, assim quechegávamos da escola.E foi desse jeito que a nova residência do animal passou a ser a casa-de-bonecas daminha irmã. Não era uma mansão, está certo, mas até que era um belo sobrado. Eesse foi o grande problema.A tartaruguinha passava as tardes a escalar as paredes da casa-de-boneca e, aochegar ao topo, sem ter para onde ir, caía. Era muito engraçado vê-la escalar asparedes, feito o homem-aranha. E depois cair. Virou a atração do prédio. Vinham osvizinhos de todos andares conhecerem a nossa pequena maravilha. E todo mundo riamuito a cada tombo dela.A tartaruga parecia que estava na dela. Mesmo com platéia, continuava a escalar asparedes, sempre da mesma maneira. Ia até o topo, escorregava e caía. Subia denovo. E de novo caía. O dia inteiro. O mês inteiro.Até que, um dia, quando fui alimentar o bichinho, encontrei a tartaruga de costas.Talvez minha memória de criança exagere um pouco, mas eu me lembro de encontrá-la com o pescoço virado para trás, e um pequeno filete de sangue escorrendo(tartaruga tem sangue?). Na sua última escalada, deve ter caído de cabeça. Sangrouaté a morte.Muito anos depois, ganhei de presente duas tartarugas iguaizinhas, que tenho atéhoje. Desta vez, precavido, coloquei-as dentro de um pequeno aquário, onde elas nãotem por onde escalar. Mas elas cresceram bastante e já ando pensando em fazer umaquário maior, mais confortável. Fiz até o projeto, com vários compartimentos, vidrofumê e plataformas. Plataformas acolchoadas, evidentemente.
  10. 10. Já até pedi um orçamento num vidraceiro, e um dia mando fazer. Se não para oconforto das tartarugas, ao menos para diminuir um pouco o meu peso na consciência.Está certo que não é nenhum Holocausto mas, tal como o Papa, eu não pretendo vivercom a morte daquela tartaruguinha nas costas até o fim do "meu mandato", que, aliás,já não deve durar tanto assim. A máquina-da-verdade 04 de abril de 2000Durante a vida, que eu me lembre, apenas duas coisas conseguiram me dar, nem quepor breves momentos, alguma esperança no futuro da espécie humana.A primeira foi o seguro-de-vida.Quando eu era criança, não entendia bem o que era um seguro-de-vida. Eu imaginavaque era literalmente o que o nome quer dizer, ou seja, que pagando-se lá uma certataxa, ficaríamos com nossa vida assegurada, e não morreríamos mais. É claro quedevia ser uma taxa bem grande, haja visto o número de pessoas que eu via morrer atoda hora. Mas ela existia. E, se existia, talvez, se trabalhássemos muito, ao cabo davida teríamos conseguido juntar o bastante e nos veríamos livres do pesadelo damorte.Foi terrível quando descobri que eu só havia acertado mesmo no preço do tal seguro,e que ele, se garantia alguma vida, era a dos outros, não a minha.A outra coisa era a máquina-da-verdade. Me lembro de ter assistido um filme nocinema, com meu pai. Era um filme de guerra, eu acho. Branco e preto. E os nazistasusavam uma máquina-da-verdade no herói. Um monte de fios presos na cabeça dopobre coitado o ligavam diretamente na máquina, que desenhava estranhos rabiscosnuma folha de papel. Um dos nazistas ficava perguntando as coisas, o outro ficavaanalisando os tais rabiscos, e dizendo se o herói mentia ou não. O tenente norte-americano não teve chances e acabou delatando sua tropa, que foi destroçada pelaSS. É claro que depois ele se vingou, mas essa já é outra história. O que me marcoumesmo, e para o resto da vida, foi a tal máquina.Tal como a morte, a verdade é um grande mistério. Por exemplo, vamos dizer queuma pessoa diz que te ama.- Então prove.- Como, prove?- Prove, oras.- Mas...como é que eu faço para provar?- Sei lá. Corte um braço fora, por exemplo.- Co...co...cor...tar um braço?- É. Se você cortar um braço, eu acredito que você me ama.Aí a pessoa que diz que te ama pega e corta o braço fora. Com uma serra elétrica.Coloca o braço na linha do trem, sei lá. Mas ela corta o braço:- E agora? Acredita que eu te amo?- Hum... Por que foi mesmo que você cortou o braço esquerdo?Tem coisas, que a gente só acredita por acreditar. O amor é só um exemplo. Todanossa convivência social é baseada no pressuposto de que os outros estão dizendo averdade. Trabalhamos trinta dias na esperança de que o patrão não estivessementindo quando afirmou que nos pagaria no fim do mês. A gente nunca vai sabercom certeza se ele estava sendo sincero, até ele pagar.Agora, há quantos anos já sabemos da existência da máquina-da-verdade? Se jáexistia no tempo dos nazistas, deve ter sido inventada ainda na década de trinta. Ecomo é que uma das maiores invenções da humanidade ainda não chegou às nossascasas? Pois, se já chegaram rádios, televisores, microondas, computadores, mais um
  11. 11. monte de tranqueira – porque é que uma máquina que poderia mudar completamentenossas vidas ainda não chegou?Eu não entendo. Será que nenhuma multinacional nunca pensou nesse filão domercado? Devem existir por aí milhões de pessoas ávidas pela verdade. Eu, porexemplo, gostaria muitíssimo de saber se a minha esposa me ama tanto quanto fala. Eela, se ontem à noite eu estava realmente no bar, com uns amigos.Se todos tivessem uma máquina-da-verdade, o sistema judiciário não teria mais razãode ser. Se não houver mais jeito de mentir, quem vai precisar de advogados? Jáimaginaram? Um mundo livre dos advogados?Isso para não falar da religião. Se ficar provado, por exemplo, que os livrospsicografados são verdadeiros, teríamos que rever não apenas nossa maneira deencarar a eternidade, mas também nossas leituras prediletas. Já imaginaram as obraspóstumas de Franz Kafka? E o quanto Jean Paul Sartre teria que se explicar?E para quem acha que máquinas-da-verdade não existem, domingo passado o GuguLiberato levou uma de última geração no seu programa. Nada parecida com aquelados nazistas. Coisa sofisticada, num computador. E nada de fios presos na cabeça doentrevistado. Aliás, a pessoa investigada nem precisa estar presente. É só colocar láuma fita com a voz do sujeito, que ela responde se o que ele está dizendo é verdadeou mentira.Mas é claro que uma invenção com tal poder revolucionário ainda não tem lugar nomundo, e vai ser sempre motivo de boicotes. O Gugu, ainda acho que de propósito,testou a máquina logo com uma fita do Celso Pitta. Não deu outra: a engenhoca pirou.Devem estar tentando recalibrar até agora. Reclame 03 de junho de 2000Nos primórdios da televisão, muita gente não entendia direito qual era a razão daspropagandas. Por que diabos, bem na hora que o programa estava ficando bom, elescolocavam os "reclames"? É. Era assim que a gente chamava as propagandasantigamente: reclames.Não sei direito de onde o termo vem, mas imagino que seja exatamente de onde vocêimaginou. Do verbo reclamar. É que, na hora que começava a propaganda, todomundo reclamava.Eu me lembro do meu avô, reclamando:- Eu não vou assistir esse programa. Tem muito reclame.E não assistia mesmo. Ia lá para o seu quarto, vestia um pijama e lia um livro, doishábitos já meio fora de moda desde aquele tempo.Mas hoje em dia a coisa mudou. As propagandas se sofisticaram. Tanto é, queninguém mais chama as danadas de reclame. Tem gente que tem até suas favoritas:- Há quanto tempo não passa aquela do cachorrinho da Cofap, né?- E o rapaz da Bombril? Anda sumido... Será que aconteceu alguma coisa?Pouco a pouco, a propaganda acabou sendo reconhecida como a verdadeira molamestra do capitalismo. Já não dava para viver sem ela. Se uma televisão não tempropaganda, não sobrevive, ora essa... Nem um jornal. Nem uma rádio.O meu sobrinho mesmo, outro dia desses, veio pedir meu carro emprestado para queele e uns amigos pudessem ir... para a praia! Ante o meu espanto, ele, com a maiorcara de pau do mundo, perguntou:- O que é, tio? Nunca ouviu falar de Patrocínio?Mas com esse sobrinho, eu tenho um pouco de culpa. Acostumei ele muito mal. Desdeaquela vez quando ele veio me pedir um dinheirinho para ir ao cinema.- Apoio Cultural, manja?
  12. 12. Dessa maneira, a propaganda acabou por se tornar uma instituição nacional. Ninguémmais faz nada se não tiver uma patrocínio, um apoio cultural, ou coisa que o valha.Livros onde se mesclam poesias com comerciais de lojas de sapatos. Revistas ondenão se sabe mais se o que estamos lendo é propaganda ou matéria. Times de futebolque a gente nem chama mais pelo seus nomes mesmo, mas pelo nome dopatrocinador. E os pilotos de Formula 1, então? Uma verdadeira propagandaambulante.Não é de se espantar que o governo federal tenha gasto 18,8 milhões de reais paramontar um estande na Expo 2000 em Hannover, na Alemanha, inaugurada no mêspassado. Um dinheiro muito bem investido, segundo todo o alto escalão brasileiro.E eles têm razão. Uma boa propaganda pode tirar uma empresa quebrada do buraco.Quem sabe não dá certo com um país também? Há, inclusive, inúmeros casos depolíticos absolutamente medíocres que, através de uma boa propaganda,conseguiram se eleger para cargos de suma importância para a vida nacional. É sódar uma boa maquiada, esconder uma coisinha aqui, inventar outra lá, e pronto. Apropaganda elegeu o cara.O problema, me parece, é que o nosso presidente não entendeu direito o espírito dacoisa. Ao comparecer na festa de inauguração da Expo 2000, e tentando explicar asrazões do Brasil ter gasto tanto dinheiro para montar seu pavilhão, me saiu com essa:"- O Brasil não pode deixar de mostrar (ao mundo) o que é"Olha lá, hem presidente... Não vai me levar essa sua frase ao pé da letra, senão aí éque estaremos ferrados de vez. Chamem os bombeiros 08 de abril de 2000Minha mulher passou uma semana fora. Deve chegar hoje à noite. Foi fazer um retiroespiritual em Itaici, uma espécie de Disneylândia para os retirantes espirituais. Noembalo, demos folga para a empregada.Ficamos em casa só minha filha e eu.No primeiro dia, até que mantivemos a compostura. Ao acordar, ambos demos umaarrumada nas devidas camas. Lavamos nossos pratos depois do almoço. Na janta,porém, já se podia atinar com um futuro sombrio. Comemos uns sanduíches na sala,assistindo o Show do Milhão. Como já era tarde, acabamos deixando os pratos e oscopos por ali mesmo, no tapete. E acabei esquecendo o vidro de maionese fora dageladeira.No segundo dia, ao acordar, tropecei num dos copos e o resto do refrigerante seespalhou. Saí à caça de um pano. Onde é que as mulheres guardam os panos dechão? Acabei secando com um daqueles panos-de-prato novinhos, que ficam anos nagaveta, à espera de visitas. Enquanto isso, minha filha passeava pela sala, comendoum pãozinho requentado e tomando um copo de leite. Tudo sem pires ou pratos,evidentemente. As migalhas do pão se espalhando pelo tapete e pelo sofá.Olhei para o relógio. A aula dela já tinha começado há pelo menos meia hora.Apressado, acabei deixando o pano ali mesmo, em cima da poça de coca-cola. Maistarde, os restos do almoço e da janta foram se amontoando. Minha filhaaté que tentou dar uma arrumada, e deu uma empilhada nos pratos. Foi quando elaachou o vidro de maionese. Estava começando "MIB - Os Homens de Preto" e ela,delicadamente, colocou a pilha de pratos em cima da TV e o vidro de maionese emcima de tudo. Dormimos com a TV ligada.Lá pelo quarto dia, o sofá já estava, segundo a minha filha, insentável. Havia manchasde catchup, de maionese e de uma substância que eu não conseguia definir direito,
  13. 13. mas, pelas outras manchas, imaginei ser mostarda. As casquinhas de pão tornavam odeitar-se uma experiência inviável.Trouxemos do quarto um colchão limpo e jogamos na frente da televisão. Tinha umpano ali, atrapalhando, que eu empurrei com o pé. Mais algumas almofadas e játínhamos novamente onde nos aninhar.Acordamos no outro dia junto a restos de sanduíches de salame e sentindo um cheiroesquisito. Alertei minha filha que era melhor jogar aquela maionese fora, e ela disseque depois jogava. Precisávamos correr. Parece que se o aluno chegar três diasseguidos atrasado, o diretor da escola chama o pai para conversar. E eu não estavadisposto a me encontrar com diretor nenhum.Hoje, quando cheguei, tive que abrir as janelas da casa e ligar os ventiladores de teto.Tinha alguma coisa fedendo por ali. Descobri que era aquela frigideira, ondederretemos queijo no outro dia. Tentei alcançá-la, mas temi que a imensa pilha depanelas e pratos que se equilibrava sobre a pia perdesse a estabilidade, edespencasse sobre mim. Joguei um tanto de detergente em cima daquilo tudo paraver se o cheiro passava. Até que deu uma melhorada. Satisfeito, voltei para a sala.Empurrei alguns pratos com os pés, puxei o saco de biscoitos para o lado e me deitei.Foi quando dei pela falta da minha filha.Joguei o edredon para cima, e restos de pipoca voaram na minha cara. Olhei em baixodas almofadas. Levantei o tapete. Só encontrei um pano de prato amassado e meioúmido.- Filha? Filha!! FILHA!!!De repente, parece que ouvi sua voz. Desliguei a TV e fiquei atento. Procurei entre aspilhas de roupa suja. As embalagens de bombons. As cascas de tangerina. Da últimavez que eu me lembrava, ela estava tentando encontrar o controle remoto. Devia estarem casa ainda. Dei uma espiada atrás do sofá. Nada.Estou ficando maluco. Já procurei em cima do fogão. Na geladeira. No armário doquarto. Tudo em vão. Não sei mais o que fazer. Minha mulher chega hoje à noite daviagem, e eu perdi a filha dela.Sou um homem morto. Hipocondria 17 de junho de 2000Amanheci com o rosto cheio de brotoejas. Brotoejas, não sei se você sabe, são umasbolinhas vermelhas. Que coçam.- Então é sarampo.- Que sarampo, que nada...- Tô te falando...- Onde já se viu? Um homem de quarenta anos... Sarampo... Além do mais, eu já tivesarampo quando era criança.- E o que é que tem?- Oras... Sarampo não pega duas vezes. Pega?- Pega. O que não pega duas vezes é catapora.- Catapora?- É. Catapora. Quem sabe não é catapora. Você já teve catapora também?- Sei lá. Agora você me confundiu. Qual é a diferença entre catapora e sarampo?- A diferença é que uma só pega uma vez e a outra pega um monte de vezes.- E caxumba? Será que não pode ser caxumba?- Caxumba... Caxumba é aquela que incha o pescoço, não é? Você está com opescoço inchado?- Não.- Então não é caxumba. Tem que ser sarampo.
  14. 14. - Ou catapora.- É. Ou catapora. Em todo o caso, é melhor ir num médico.- Médico? Mas será que precisa?- Precisa. Porque, eu não sei qual dessas doenças, quando pega em adulto tem operigo de descer.- Como assim, descer?- Descer, oras... Nunca ouviu falar?- Não. Descer pra onde?- Descer para o... para o... Ora, você sabe...- Já disse que não sei! Descer para onde? Vai dizer que...- É. Lá mesmo. Não sei qual dessas doenças, desce. E se descer, ó...E ele apontou o dedo para cima e foi abaixando, abaixando, até apontar para baixo.Isso acompanhado de um barulhinho, que nem de uma bexiga murchando:- Pfffuúúúúúússssssss....Eu arregalei os olhos. Descer é que não! Corri para a Santa Casa. O médico deplantão me atendeu. Me levou até o consultório. Raspou uma das brotoejas com umaespécie de estilete e colocou a pele dentro de um plastiquinho. Disse para eu voltaramanhã. Eu disse que não. Eu ia ficar ali, esperando. Vai que no caminha essa coisa,sei lá, resolve descer. Fiquei lá umas cinco horas. Esperando. Enfim, o médico voltoucom o resultado dos exames.- Alergia. Você deve ter comido alguma coisa que te fez mal. Pode voltar para casatranquilo.Eu olhei para ele. Conferi os resultados dos exames, embora não entendesse nadadaqueles números. Olhei para o médico de novo:- Doutor. Alergia não desce, desce?- Não. Não desce.Respirei aliviado. A gente leva cada susto nessa vida... A função do cronista 13 de julho de 2000Por muito pouco não me tornei um arquiteto. Para ser mais preciso, por exatos seismeses. Esse era o tempo que faltava para que eu me formasse na faculdade BrásCubas de Arquitetura, em Moji das Cruzes, na década de 80.É engraçado como, quase sem perceber, passamos a dividir o tempo em décadas. Aminha filha, por exemplo, ainda divide seu tempo em semanas: "a semana passada eufui"; "essa semana eu vou"; "semana que vem eu irei". E o pai dela aqui, regurgitandorecordações de duas décadas atrás...Bem, como eu dizia, por muito pouco não fui um arquiteto. Na época eu estavadecidido que essa seria a melhor maneira de ajudar a humanidade.É sério. Convencido por um colega, meio comunista, de que através da arquitetura deuma cidade, de um bairro ou até mesmo de uma casa, poderíamos dar início àrevolução, fui eu dar lá o meu quinhão em prol do socialismo mundial. E estávamosbem acompanhados. O Niemeyer está na luta até hoje, inclusive.Com o desenrolar do curso, no entanto, fui percebendo que a coisa não era bemassim. As pessoas comuns estavam pouco se lixando para suas residências, contantoque houvesse um teto que às protegesse da chuva, e paredes, que às protegessemdo vento e de eventuais ladrões.Quem realmente se importava com a estética e a funcionalidade das moradias eramos milionários - e desenhar mansões de socialites para o resto da vida não estava demodo algum nos meus planos revolucionários.
  15. 15. Foi quando larguei tudo e resolvi dar uma repensada no futuro. O que é, afinal, que euqueria ser quando crescesse? Qual profissão poderia cumprir a função básica de mesustentar e, ao mesmo tempo, satisfazer essa vontade insana de contribuir de algumamaneira para o bem estar da civilização?Passei anos fazendo experiências. Algumas muito boas, outras nem tanto. A que maistempo durou foi a de padeiro. Não, eu não fui exatamente um padeiro, aquele que fazo pão, mas sim um capitalistazinho, proprietário de padaria. Durante quatorze anos.Foi uma experiência válida, afinal eu trabalhei e contribuí de alguma maneira com umanecessidade básica da população: a alimentação.Pois bem. Foi atrás do balcão de uma padaria, sufocado entre broas de milho ecroissants, que consegui, afinal, vislumbrar um ideal para o meu futuro. Mas não tevenada a ver com a alimentação em si, mas sim com os consumidores.O contato direto com os clientes me ensinou muito sobre o ser humano. A solidão. Osmedos. A felicidade. Nesses quatorze anos de convivência, eles me trouxeramcharutos para comemorar nascimentos. Me trouxeram Raios X dos próprios pulmões.Comeram. Beberam. Deram risadas. Alguns esperavam de mim apenas um bomouvinte, mas a maioria queria mesmo era ouvir alguém. O ser humano, mais até quede uma residência, precisa muito de palavras. De conforto, de incentivo, de revolta.Mas palavras.Foi quando resolvi definitivamente o que eu queria, ou devia, fazer dessa vida. Largueitudo que tinha - que não era muito, a bem da verdade - e vim escrever para o jornal.Foi a decisão mais acertada que tomei desde que nasci. Hoje, desconhecidos meparam na rua. Me cumprimentam. Comentam que se sentem quase íntimos. Seguemminhas crônicas há três anos afinal de contas, e chegam até a dar palpites sobre amaneira de eu educar minha filha. Concordam com muita coisa que falo. Discordam deoutras. Mais ou menos como convivemos com nossas esposas, esposos, pais e mães.Ok. Posso não estar atuando diretamente na vida das pessoas, como os arquitetos, osmédicos e os políticos. Mas estou servindo, ao menos, de companhia.Pode não ser grande coisa, mas já é um começo. Eu acho. Se fosse bom, ninguém dava 20 de julho de 2000Quando a gente tem dezoito anos, não consegue se imaginar dando conselhos. Então,quando me pego dando um, a primeira coisa que me vem à cabeça é a constataçãoóbvia de que eu não tenho mais dezoito anos - fato com o qual ainda não meacostumei totalmente.Ter dezoito anos é cultivar olheiras, só para fazer charme. Ter dezoito anos é andarcom uma calça vermelha e ninguém achar estranho. Ter dezoito anos é... é... é terdezoito anos, puxa vida...Bem. Hoje cedo minha filha foi viajar. Foi com os meus pais para Campinas, tirar umasférias. Férias de mim, pressuponho, já que do colégio já estava de férias há algunsdias. Na rodoviária, na porta do ônibus, após os usuais beijos e abraços, me vi naobrigação de dar algum conselho. Afinal, minha filha estava embarcando para umadas cidades mais violentas do país. Li outro dia desses, na "Folha de São Paulo", queCampinas era, comparativamente, mais violenta até que São Paulo e Rio de Janeiro.E que conselho dar ali, naqueles poucos segundos antes do embarque, e com issonão parecer nem muito careta nem muito displicente?O que me veio à cabeça foi um trecho de um livro que li há muitos anos, obrigado pelaprofessora de português. Não lembro o nome do livro. Era de uma série, dessas deaventuras de adolescentes, que os professores dão para ver se seus alunos pegam ogosto pela leitura.
  16. 16. No tal livro, o personagem principal está prestes a embarcar numa excursão, juntocom seus colegas de escola. A mãe dele, antes de deixá-lo partir, segura-o pelosombro e pede para que, durante os passeios, ele nunca seja o primeiro. Nem o último.- Fique sempre no meio, meu filho.É um ótimo conselho, este. Os primeiros arriscam-se muito. Os últimos, correm o riscode serem esquecidos. Na dúvida, fique no meio. É muito mais seguro, embora,convenhamos, bem menos divertido.O conselho daquela mãe ficou na minha cabeça por muito tempo, mas só veio mesmoter utilidade agora, quase trinta anos depois. Bem ali, na porta do ônibus, olhei paraminha filha e decretei:- Fique sempre no meio, minha filha.Ela já estava subindo no ônibus. Não dava muito tempo de responder. Ela apenassorriu e galgou os degraus, abanando a mão. Me abracei à minha mulher e ficamos osdois, olhando o ônibus partir, dando tchauzinhos, com os olhos marejados.Na volta para casa, já razoavelmente recuperada da despedida, minha esposaperguntou:- O que é que você quis dizer com aquilo?- Aquilo o quê?- "Fique no meio, minha filha". Fique no meio do quê?- Não é pra ela ficar no meio de nada. Muito pelo contrário. Era para ela não ser aúltima, entende?E eu expliquei aquele negócio de que os últimos se perdem e os primeiros arriscam-semuito. Minha esposa insistiu.- Não sei não. Se eu não entendi, ela também não entendeu. "Ficar no meio"... Ondejá se viu? Que conselho mais esdrúxulo.Ora bolas. Foi um dos primeiros conselhos que dei na minha vida. Me pareceu muitobom ali, na hora. Agora já foi. Pronto. Mas, por via das dúvidas, vou dar uma ligadinhahoje à noite, para ver como é que eles chegaram de viagem.Se minha filha não entendeu direito o tal conselho, vai saber no meio do quê essamenina é capaz de se meter naquela cidade...Campinas anda muito violenta.Comparativamente, até mais que o Rio de Janeiro. Ou São Paulo.Mas acho que já falei sobre isso. Aviões de papel 31/12/1997Correio Popular, CampinasNosso aviãozinho de papel descia, desenhando círculos no céu de Campinas, atépousar macio, na calçada em frente ao prédio. Meu irmão e eu fixamos os olhos narua e olhamos para meu pai, que corrigia as provas submetidas aos alunos dosegundo ano do Colégio Notre Dame. Perguntamos se podíamos descer um pouco, -Para pegar o avião... Fazia calor e alguns colegas estavam batendo bola, com oportão do Orozimbo Maia fazendo as vezes do gol. - É claro, disse meu pai, semdesviar muito a atenção das correções. - Só não se atrasem para o jantar... Nós dois,garotos nem próximos da adolescência (essas coisas aconteciam mais tarde naquelaépoca), descíamos as escadas apostando para ver quem chegava primeiro. O porteirodo prédio ria quando chegávamos ao térreo e simulava uma dura: - Sem algazarra,molecada... O fim da tarde era uma gritaria de moleques apelidando os gordos degordo-pipa, os de óculos de quatro-olhos e os menores de café-com-leite. Os gols noportão de madeira do Grupo Escolar ecoavam na esquina como pancadas de martelo.A bola de capotão era dura e o dono dela nunca saia do time. Os medos serestringiam aos carros, que passavam devagar, às vezes silenciosamente, se
  17. 17. desviando do jogo, como que para não atrapalhar, outras vezes buzinando, talvez comreceio de que suas DKV’s tivessem a lataria avariada. O jogo terminava quando,literalmente, não conseguíamos mais ver a bola. A noite já vinha alta e nossosestômagos já nos alertavam do novo atraso para o jantar. Muito tempo depoissaberíamos que nossa mãe só preparava realmente nossos pratos depois doanoitecer, já prevendo o atraso.O que estou querendo dizer com tudo isso é que nessa esquina agora, quase trintaanos depois, ainda existe o Orozinbo Maia, com novas cores e novo portão, mas eleainda está lá. O prédio da minha mãe também, embora o térreo tenha sido alugadopara diversas lojas e os bares em volta quase não nos deixarem achar a entrada. Oporteiro já não nos cumprimenta. Nos olha, desconfiado, todos os anos quando vamosvisitar nossos pais no natal, por que todos os anos é um novo porteiro que está lá,sentado e com a mesma cara de sono. Mas não existem mais crianças. Nostalgia?Não, não estou com nostalgia. Estou fazendo uma constatação. Por volta das oitohoras da noite as pessoas se trancam. Com seus computadores, com suas televisões,com suas mulheres, com seus livros, mas trancadas. Os meninos ainda devem soltarseus aviõezinhos. O voar ainda é mágico. Só que eles devem olhar pelas janelas epara o local de pouso de seu jato supersônico de papel e imaginar o quão distanteaquela calçada fica dele. Os meninos olham para os seus pais e sequer tentam pedirpara descer um pouco, encontrar os colegas. Primeiro: não existem mais colegas.Segundo: não existe mais a certeza de que voltarão atrasados para o jantar por queficaram se apelidando uns aos outros. Talvez o atraso signifique que não voltarãomais.Há alguns anos, quando minha filha completou o primeiro aniversário, tive que fazeruma escolha: ou ficar em Campinas, seguindo assim uma recém iniciada carreira napublicidade e esperar minha formatura na faculdade de jornalismo da PUCC ou memudar para o interior, onde meu cunhado me convidava para uma sociedade numapizzaria. Escolhendo a segunda opção, depois de alguns anos, me via angustiado.Nenhum de meus sonhos profissionais estava sequer próximo de se realizar. A vidapor aqui, interiorzão, é pacata. O jornalista melhor remunerado é o responsável pelascolunas sociais. A publicidade engatinha e os carros com alto-falante ainda são umadas melhores opções na área. Só a tranquilidade de ver minha filha de doze anos indosozinha para a escola me dá a certeza de ter feito a escolha certa.O que é que vocês deixaram acontecer com minha cidade, esses anos todos que adeixei em suas mãos? Me lembro que, certa vez, me disseram que Campinas era umacidade modelo. Confundi o "modelo" - no caso sendo usado como "padrão; similar aosníveis sociais e econômicos do restante do país" - ao "modelo" significando "exemploa se seguir". Tenho até hoje comigo que o segundo "modelo" era também aplicável.Mas hoje em dia já não se pode abrir o jornal sem receber notícias tétricas de minhaterrinha. Assaltos nem são noticiados mais. São casos de assassinatos, sequestros,balas perdidas e sei lá mais o quê. Outro dia o "Correio Popular" publicou, em primeirapágina, a notícia do lançamento de um livro que pregava o revide armado aosassaltos. Campinas cresceu? Campinas já era grande na minha época. Com bairrosque eram e são maiores que a cidade onde hoje moro. Mas não é mais um exemplo aseguir.Gilberto Dimenstein escreve sempre de Nova York, relatando as experiências doprefeito daquela cidade americana no combate ao crime. Enquanto isso os prefeitosde Campinas sonham com o cargo de deputado federal ou de, quiçá, governador. Osuniversitários, onde estão os universitários? Escondidos também? Que tal se asfaculdades de arquitetura (ou direito ou jornalismo) dessem, como provas finais,tentativas de soluções para Campinas, e não projetos aleatórios? Projetos específicospara a terra que está formando esses alunos, numa espécie de retribuição.O que eu sei é que daqui de Votuporanga (pertinho de Rio Preto) eu fico assistindoCampinas se desmanchar e olho para minha filha saindo, dizendo que volta para ojantar. Eu sei que ela vai se atrasar, mas não ficarei preocupado. Ela estará com as
  18. 18. amigas, e o filho do dono da sorveteria estava de paquera, - você entende, né pai?Entendo, filha. E entendo que há alguns anos atrás fiz uma das melhores escolhasque um pai poderia ter feito. Escolhi que minha filha teria liberdade, e isso Campinas jánão pode oferecer. É uma pena. Provavelmente fiz parte de uma das últimas geraçõesque conheceram Campinas a pé, e não trancado num carro, com os vidros levantados,sufocado porque esse maldito carro não tem ar-condicionado. Nós e a Xuxa 16 de dezembro de 1997 Diário de VotuporangaVamos por partes. Digamos que sua filha (supondo que tenha uma) chegue hoje ànoite em casa, com uma expressão de pura felicidade. Ela chega e, por conhecê-la,você sabe que tem notícias. Boas notícias. Você pergunta o que foi e ela faz charme.Você ri por dentro da brincadeira. Faz o jogo. Finge-se de curioso (não que nãoesteja). Após falsos "nem ligo", convence a menina a lhe contar.- Eu estou grávida. De um mês!!!Ok. Você é um pai liberal e o mundo não vai desabar por causa disso. Sua meninasabe o que está fazendo.Não? Você não é um pai liberal? E o mundo vai desabar. Não se preocupe. Com otempo as coisas se consertam. Experiência própria.Bem, em qualquer uma das hipóteses você gostaria de saber de quem. Ou não?- Bem, pai... É do "fulano". Sabe? Aquele que veio aqui, naquele dia.Que dia, meu deus? Que dia foi esse que o "fulano" veio aqui e eu nem presteiatenção... E vocês vão se casar?- Que é isso pai? A gente nem se conhece direito... O que importa é que eu terei meufilho. E você vai ser avô e ele vai ter um monte de tios e tias.O pai liberal, o que acha? Acha que tudo bem, sua filha já está pensando por si. Vaitentar ajudá-la. Não vai? E o outro pai, o durão? Descabelar-se não adiantará muito.Vai acabar aceitando as coisas. Ou não?O problema não está nem nos pais nem nas filhas nem em ninguém. O problema é aindiferença com a qual a sociedade trata situações absurdas. A sociedade brasileira é,teoricamente, católica apostólica romana. A religião oficial do país é essa. Essareligião proíbe a convivência conjugal de dois seres se não estiverem ligados pelos"sagrados laços do matrimônio". É um dos sete sacramentos. Um dogma indiscutível.Indiscutível? Pois pergunte à "sua" empregada doméstica se ela é casada. É? Poisoitenta por cento delas não são. E todas se dizem católicas. Ou quase todas. Perguntepor aí, para as pessoas de renda um pouco mais baixa que a sua. A sociedaderesolveu a seu modo que esse não era um sacramento tão necessário assim. Você seespanta. Mas você fica com os olhos lacrimejados no seu domingo a tarde, quando aXuxa Meneguel avisa que, enfim, conseguiu engravidar. E nós todos somos tios e tias.Há um certo burburinho na sala. O rapaz escolhido para pai é elegante e seu par deóculos dá um certo ar responsável. É um belo rapaz. Agora, esperem... Nossa filhascresceram tendo a Xuxa como exemplo. Toda uma geração que tem, agora, por voltade dezesseis anos. Uma bela idade. Não é?Eu não me atrevo a dizer que, com todo meu liberalismo, talvez não sinta umafisgadinha doída se um dia acontecer um diálogo parecido ao descrito nos primeirosparágrafos desse texto. Mas, em todo caso, nada que me abalasse a ponto de deixarde tomar meu café da manhã no dia seguinte. E nunca gostei muito da Xuxa e seusprogramas matutinos. O grande problema reside no outro tipo de pai. Naquele queainda cultiva uma rigidez completamente fora de tempo. Esses mesmos pais adoram otipo "boa moça" que a Xuxa e toda sua equipe tentam enfiar-nos goela abaixo a tantos
  19. 19. anos. Esses pais agora aplaudem e parabenizam a moça que lhes anuncia em festaexatamente aquilo que , caso acontecesse com suas filhas, tanto abominariam. Essespais deixam suas crianças na frente da TV assistindo mulheres agarrando-se numabanheira.Aos pais liberais, nada de anormal. A sociedade tendia a isso mesmo. Minha filhacresceu assistindo, além da Xuxa, o "Rá-Tim-Bum" da Cultura, por exemplo. Elaconhece os dois lados.Aos pais "durões", que achavam uma gracinha quando sua filha aparecia vestida demini-saia e com "xuquinhas" no cabelo, e a mostrava aos vizinhos, ah esses pais...Talvez elas já não queiram brincar com bonecas. E você ainda não aprendeu aconversar com ela. História de uma quarta-feira de cinzas 03 de março de 1998Aquela fila enorme e meu tio, lá na frente, em vez de colocar na boca das pessoasuma hóstia, enfiava seu polegar direito dentro de um cálice e o retirava de lá sujo dealguma coisa indefinida. Com essa coisa, marcava a testa das pessoas com uma cruz.Meu tio era padre em Agudos, perto de Bauru, e eu tinha uns dez anos. Era lá emAgudos que passávamos a maioria dos feriados. As famílias de minha mãe e de meupai eram de lá. Eu estava começando a ligar o nome da quarta-feira pós carnaval comseu nome: "de cinzas"."- Pai, o que é aquilo que o tio padre está fazendo nas pessoas?"- perguntei, enquantonossa vez não chegava."- Está perdoando as pessoas pelos pecados do carnaval.""- Carnaval é pecado, pai?""- Olha para frente e vê se para de falar..."Na minha vez meu tio sorriu, fez a tal cruz e balbuciou alguma coisa em latim. Euespionei dentro do cálice e, para mim, aquilo parecia mais um cinzeiro. Minha primeirareação, ao voltar ao banco da igreja, foi a de passar a mão na testa, para tentar tiraraquela marca. Meu pai segurou minha mão e disse que de maneira nenhumapodíamos tirar aquela marca. Era pecado."- Que nem morder hóstia, pai?""- Que nem..."- meu pai respondeu, num resmungo.À noite, na cama, a tal cruz começou a coçar. Com o passar do tempo, aquilo tornou-se um suplício. Meus olhos lacrimejavam mas resisti bravamente. Eu não dormi aquelanoite. E não encostei na minha testa. Porém, ao me levantar de manhã e ir até oespelho do banheiro, a cruz não estava mais lá."- É assim mesmo, filho. A cruz some sozinha para mostrar que a gente não tem maispecados." - meu pai me disse, sorrindo.Vinte e seis anos depois, ateu convicto, fico pensando naquela cruz. E te falo umacoisa: eu não limpei minha testa naquela noite. Juro por deus. De saias 12 de março de 1998Enquanto conversávamos, eu percebia que o suor escorria de sua testa. A gotícula iacrescendo, conforme descia pelas têmporas. Ao chegar à altura do pescoço, já haviase unido a uma espécie de riacho que descia do rosto e desembocava na gola dacamiseta ensopada. Aquilo foi me agoniando, e aquele calor infernal parecia tomar oar de meus pulmões. Eu já não conseguia compreender as palavras que saiam de sua
  20. 20. boca e ele continuava a falar e a falar e aquele calor. Opinei, em vão, para quesaíssemos, ao menos, de baixo do sol. Eu olhava para cima (à essa altura a voz dorapaz era apenas um blá-blá-blá interminável) e o sol ardia. Aí, interrompendo sei láqual assunto, falei:- Eu te digo uma coisa. Eu não me lembro de ter passado tanto calor assim na vida...Ele concordou. Estou em Votuporanga já há anos e realmente essa vez está deamargar. Os dias estão modorrentos e nós nem sabemos se, ao sair do trabalho,queremos ir para uma lanchonete tomar a "fresca" ou ir direto para casa, tomar umbanho, deitar debaixo do ventilador e ficar torcendo por uma daquelas chuvinhas deverão que estão caindo nos fins de tarde.Foi aí que ela passou. Uma moça, seus vinte e poucos anos, numa saia esvoaçante,daquele tecido que parece seda, como é o nome daquele tecido? Bom, a moçapassou e deixou no ar aquele perfume de shampoo que as garotas costumam deixarquando acabaram de sair de um banho. Ao ser brindada por uma pequena brisa, agarota segurou levemente sua saia de (como é que chama aquele tecido?) seda esorriu.- Ela não parece estar ligando para o calor... - meu companheiro disse.É. Não parecia. Não havia sinais de suor, muito pelo contrário. Ela parecia estargostando daquele sol infernal.- É a saia - falei.- O quê?- É a saia. Usando saias, nós também não estaríamos assim, com tanto calor -respondi, olhando nossas grossas calças jeans - Agora me responda: Por que é quesó as mulheres podem usar saias? Eu te falo uma coisa, eu já li uma vez que em 1956um cara até famoso, o Flávio de Carvalho, saiu andando pelas ruas de São Paulo desaias. E ele era um homem de quase dois metros de altura e famoso na época. Eraarquiteto e participou até da Semana de Arte Moderna. Ele ficou com calor, usousaias.- E aí?- E aí que eu vou comprar umas saias. Cansei do calor, eu não consigo pensar direitocom esse calor todo. Está resolvido, vou comprar saias é agora mesmo. Mini-saias!!!E saí, deixando meu companheiro boquiaberto. Lógicamente não comprei saianenhuma, mas pelo menos não tive mais que ficar ouvindo a conversa daquele fulano.Quando cheguei em casa, tirei a camiseta e me joguei no sofá. Minha esposa sechegou e perguntou como é que eu estava. Eu respondi com uma pergunta:- Como é que se chama aquele tecido que se parece com seda? Aquele,enrugadinho... Caminhadas 15 de março de 1998- Pois eu, logo que acordo, vou fazer uma caminhada...Meu deus, pensei. Outro desses. Agora ele vai querer me convencer a fazer o mesmo.É só esperar..."- E você? Não faz uma caminhada de manhã?"- Não. Não faço.Aí ele começou com aquele papo. Que era uma coisa que tinha mudado a vida dele.Que ele se sentia muito mais disposto no decorrer do dia, com vontade de trabalhar.Essas coisas. Que, além de tudo, sua saúde melhorara sensivelmente. Estava sesentindo saudável, diminuiu o cigarro. Até a bebida diminuiu. Parabenizei-o. Sãocoisas realmente difíceis de se conseguir. E veja só, apenas com uma caminhadadiária..."- E não é só isso... - animou-se, puxando-me para mais perto, quase
  21. 21. fofocando - Até as mulheres começaram a me olhar de outra maneira. Mais sensuais,entende?"É. Tinha lógica. Provavelmente ele deve ter perdido uns quilinhos. E, se diminuiu abebida e os cigarros, sua conversa deve ter melhorado um pouco. E seu hálito.- Você não quer começar a fazer essa caminhada comigo? É só uma hora por dia...Não dói.Eu sabia. Demorou até mais que imaginei. Argumentei que não estava precisando.Estava até me sentindo meio magro. Me sinto tão disposto a trabalhar quanto qualquerum. E já não bebo há alguns anos. Recomendações médicas... Mas meusargumentos, pelo visto, foram insuficientes.- Mas não é só isso. O gostoso da coisa toda é ir olhando a cidade, as ruas vazias, océu. É um horário gostoso, não temos o que fazer naquela hora e meia. Ficamos como tempo livre para observarmos melhor as coisas, sem pressa...É. Ele agora estava com uma boa argumentação. Falou da vez em que viu umasnuvens e ficou, a caminhada inteira, seguindo-as com o olhar e percebendo como setransformavam. E da vez que viu um pássaro grande, parecia uma siriema, ali nocentro, perto da concha acústica. Falou também do bêbado que ele encontrava todosos dias, voltando para casa, e que eles se cumprimentavam ao se cruzarem, quasesempre na mesma esquina. Era um bêbado pontual, ele riu. E disse para mim queaquilo era uma espécie de terapia. Eu tinha que experimentar.Para te falar a verdade eu ando meio "estressado". Quem não anda? Aquelas últimasidéias me soaram até que bem. Uma hora e meia, só para a gente mesmo. Não é todomundo que tem uma hora e meia no dia para organizar melhor os pensamentos.- Até onde? - perguntei.- Até onde o que?- Até onde você caminha?- Às vezes até o Pozzobon, às vezes até mais...Ele morava perto da CESP. Caminhava até o Pozzobon. Era longe. Às vezes maislonge ainda. Respondi que ia pensar. Mas, para ser sincero, estava precisando dessetempo diário para relaxar.Acordei disposto. Coloquei uma roupa leve. O despertador havia feito sua parte e meacordou uma hora e meia antes. Ainda amanhecia. Beijei minha esposa, aindadormindo. Saí sem muito barulho. Parti por uma dessas vicinais de terra. Parei à beirade um pasto.Desci do carro e fiquei olhando as nuvens e os pássaros. Suspirei:- Uma hora e meia, só para mim... Um sonho de valsa 31 de março de 1998Outro dia desses eu li, não me lembro onde: mediram as ondas elétricas que nossocérebro emite quando a pessoa amada está em nossa presença. A pessoa amada,veja bem. Não a pessoa pela qual temos alguma atração sexual. Aquela pessoa pelaqual suspiramos de vez em quando, até hoje, mesmo depois de tanto tempo juntos.Aquela pessoa, sabe? Você sabe quem é. Todos sabemos. Eu tenho guardada areportagem em algum lugar, junto àqueles livros empoeirados no quartinho lá no fundode casa. Se alguém quiser saber mais, me procure. Eu não vou procurar agora. Mas lána reportagem tinha os nomes das tais ondas, captadas por eletrodos colados nacabeça de uns fulanos e impressas naqueles gráficos que ficam rabiscadinhos, comaltos e baixos, sabe? aparece muito naqueles filmes de hospital, quando o pacienteestá tendo um ataque cardíaco ou algo assim.
  22. 22. O que estou querendo dizer é que conseguiram medir o "amor". Vejam vocês... Elesmediram outras coisas também. A raiva. A tristeza. Coisas assim. E cada sentimentocom seu gráfico particular, cada um bem diferente um do outro.Volto a insistir que tudo isso é científico. Provado e tudo. Saiu numa dessa revistaseuropéias especializadas em publicar estudos avançados.Bem, vamos à parte boa da coisa toda. Um dos pacientes comeu um chocolate. Ochocolate, a marca, não foi especificado. Pode ser um diamante negro ou umprestígio. Sei lá. Pois mediram as ondas que o cérebro do homem emitia ao degustarum chocolate. E imprimiram um gráfico. Resultado: igualzinho ao gráfico do amor. Oser humano, ao ingerir um chocolate, emite ondas cerebrais idênticas às que emitequando na presença de sua paixão.Há algum tempo atrás já haviam descoberto que o chocolate possui em sua fórmulaalguns dos componentes ativos da cannabis. Cannabis, meu caro, se você não sabe,é a tal da maconha. Agora descobrem que o chocolate e o amor são mais ou menos amesma coisa para o cérebro.Se houve Adão, se houve Eva, se houve serpente, talvez não uma maçã. Talvez ocacau.Há algo de perverso nisso tudo. Eu me lembro de minha primeira namorada. Quemnão lembra? E lembro que, na minha cabeça de adolescente, aquela torrente desentimentos era algo indecifrável. Um mistério que beirava o caos. Não haviamaneiras de me concentrar em mais nada. As noites mal dormidas eram um martírio.Me lembro de sentir tremores. Ok, estou exagerando um pouco. Mas as lembrançasque me vêm são exageradas. O chamado do telefone era ao mesmo tempo um alívioe uma preocupação. As esperas, ah, as esperas... Imaginando se ela viria aoencontro. Que talvez não devesse ter falado daquele jeito com ela a noite passada.Que agora ela não viria mais.De repente, tudo isso esquecido quando a vemos descer do carro e olhar para gente,sorrindo. Uma sensação de paz e tranquilidade.Só comparável a ... comer um chocolate? Juntos 02 de abril de 1998 (para Telma)Estávamos sentados num gramado. Não me lembro das formigas, mas me lembro daborboleta. Você lembra daquela borboleta? (ela disse que lembrava). Eu lembro queestava meio calor. Não estava? (ela disse que não, estava até meio frio). Porque é queestávamos lá mesmo? (ela também não se lembrava, ou se lembrava vagamente). Eusei que tinha um cheiro. Não sei se era do seu shampoo. O sabonete ou sei lá, dasflores. Tinha flores, não tinha? (tinha, ela disse). Então era das flores. Aquele cheiro.Era domingo ou algo assim (não era não, era um dia de semana). Nós estávamosfaltando do emprego? Mas eu nunca faltava de meu emprego (faltou aquela vez).E depois a gente foi passear lá no bosque. Antes tomamos uma cerveja num barzinho,não foi? (foi, era um barzinho escuro e o dono colocou uma mesa na calçada e ficouolhando para a gente, parecia que ele estava com inveja da gente, lembra? você aindacomentou). Eu não lembrava nada daquilo. Nem da mesa do bar. Mas lembravadaquele dia. Perfeitamente.E depois fomos para o bosque (foi). E passeamos naquelas trilhas que o bosque tem,tudo era meio úmido. Eu lembro agora. Estava meio frio mesmo. Havia até uma certaneblina. Neblina tinha, não tinha? (não lembro, acho que tinha sim). Tinha sim. Neblinaeu tenho certeza que tinha. E eu lembro que o pavão abriu o leque colorido para você.
  23. 23. E nós dois ficamos olhando para ele e eu comentei que os pavões não precisam dealucinógenos. Eles tinham um no rabo. E nós rimos. (é, disse ela, rindo). E eu ritambém. Quantos anos depois? Quantos anos já fazem? (uns quatorze, quinze,menos eu acho, acho que fazem treze anos). É mais ou menos a idade da filha.Quantos anos está a Gabi mesmo? Treze? (doze, ela falou).Doze anos. Veja você... Mas ela está para fazer aniversário. São quase treze anos (é).Eu lembro que eu ia para a praça pedir diretas-já (é mesmo! tinha aquelas passeatas etudo). É, tinha. E aquelas rosas amarelas que a gente andava na lapela. Lembraquando fomos votar de branco. Era o símbolo da campanha do Suplicy. Era parasenador? (deputado? não, era senador mesmo, fomos nós três, você, a Gabi e eu). AGabriela já tinha nascido? (tinha, estava aprendendo a andar, ela foi de brancotambém). E hoje o Lula quer fazer acordo com o Quércia... Veja só, como o tempopassa (é). Ainda teve a vez do "fora-Collor", lembra? (lembro, mas isso já é bem maisrecente). É. E eu pendurei uma bandeira preta na frente da padaria. Para protestar,lembra? (lembro). E quando o Collor caiu, de gozação, eu mandei imprimir na gráficauns panfletinhos escritos "fora-Itamar" (é, e meu pai ficou bem bravo com você). Foimesmo. E nós rimos de novo.Quatorze anos. Às vezes eu achava que não ia durar (eu também, lembra aquelamenina que morava comigo? dizia que não ia durar e eu ficava encanada). Eu lembrodela. Como ela se chamava mesmo? (nem lembro).Ficamos em silêncio uns minutos. Aí a Elba Ramalho cantou a última frase da música."Pavão Misterioso", sabe?...não temas, minha donzela, nossa sorte nessa guerra...Pouco depois fomos dormir. É bom não estar sozinho. Conversa franca 14 de abril de 1998- Pai, a gente precisa voltar...- Porquê?- Esqueci uma coisa. Já tinha esquecido ontem. Hoje tenho que levar.Fiquei olhando para a escola. Todas as crianças entrando e os pais indo embora. Eminha filha tinha esquecido uma coisa.- Que coisa?- Um negócio lá, para a aula de arte.Aula de arte. O que será que essas professoras dão numa aula de arte? Essaspinturas modernas, nem precisa muita técnica. E para um trabalho escolar sempre temaqueles arquivos no computador, com uns desenhinhos. Não precisa nem saberdesenhar mais. Olhei no relógio. Dava tempo de voltar para casa, pegar a tal coisa evoltar. Com folga.- Mas é importante mesmo?- É, pai. Vamos, se não não vai dar tempo.Engatei primeira e saí. Bravo. Não sei também por que fiquei bravo. Não tinha nadapara fazer até lá pelas oito da manhã. Em vez de ficar em casa vendo aquelesdesenhos animados idiotas, ficaria um pouco mais com minha filha. Bater um papo...- E as coisas, filha? Como vão?- Ahn ?- As coisas, filha...Como vão indo para você?- Ahn...Bem., eu acho. Que coisas?
  24. 24. Que coisas? Boa pergunta. O que é que eu posso perguntar para uma garota de dozeanos? Posso perguntar como é que ela vai na escola. Ou se ela já arrumou algumpaquera. É isso.- E então? Como é que vão as coisas na escola? Já arrumou algum paquera?- É...Tem um carinha, mas não é nada não...- Ah...Aí, idiota. Ela tem um paquera. E agora? O que é que você fala? Sua filha de dozeanos tem um paquera. Veja só...Ela não é muito nova? Doze anos... Perguntar paraalguém. Se é normal ou não. O que é que eu fazia mesmo com doze anos? Eu nãolembro de uma paquera. Para falar a verdade, eu não me lembro dos meus doze anos.- Pai, cuidado com o cara aí, da bicicleta...- Eu estou vendo filha...Chegamos em casa e ela desceu. Olhei para ela. Uma mocinha. Colocando a chavena porta, entrando, logo depois saindo, com um embrulho na mão. A coisa. E se fosseum presente para o tal namorado? Ela esqueceu do aniversário dele ontem, tinha quelevar hoje. É isso.- Isso aí é o presente do seu namorado, não é? - eu disse, saindo com o carro.- Que namorado? Pai, é um moleque lá que eu dou umas olhadas. Que nem oLeonardo de Caprio, acho ele bonitinho, só isso. Não é namorado.- Então o que é essa coisa?Estávamos já quase de volta na escola. O trânsito começava a piorar, os pais parandoem fila dupla, crianças atravessando. Minha filha olhou para mim e riu, mas começou adesembrulhar o presente do namorado. Chegamos à entrada da escola e ela memostrou: uma caixa de giz de cera.- É para a aula de artes, pai...Tchau.Eu fui embora mais devagar que o de costume. Pensando no dia que ela nasceu,naquele dia que ela foi atropelada e eu desmaiei de susto e nem consegui ajudar, naprimeira vez que ela viu o mar. E agora, veja só...Minha filha está namorando...- E namorando um artista...- pensei, resignado - Um artista... Viagra: Desenterrando Maristela 14 de maio de 1998Já era pai de família. Três filhos: duas meninas mais velhas e um garoto de quinzeanos. Não precisava provar mais nada para ninguém. Nem para a esposa, que estavamuito satisfeita, obrigado. O problema era com ele mesmo. Tentava não pensar noassunto mas, todas as vezes que via a notícia no jornal ou na televisão, a maldita idéiavoltava a perturbar. Ficou esperando o tal do remédio ser liberado para o Brasil. Aspessoas estavam mandando importar, não ia demorar muito. Leu no jornal que aSecretaria Nacional de Vigilância Sanitária estava tentando, junto à empresafabricante, a antecipação da comercialização do produto. Na mesma reportagem haviauma descrição aproximada do comprimido: um lozangozinho azul. Chegava em casa ànoite, cansado, e ia dormir. Não queria pensar no assunto mas, em seus sonhos, omaldito comprimido surgia. Aparecia como um balão, às vezes. Flutuando e azul. Emoutras aparecia como uma estrela no céu.Numa dessas noites tentou manter uma relação sexual com a esposa e nãoconseguiu. Nunca mais havia acontecido. Nem com a esposa nem com qualqueroutra. Desde aquele dia, há trinta anos atrás. Ele tinha quinze. Dois amigos maisvelhos resolveram ir na zona. Perguntaram se ele queria ir. Não podia dizer que não, oque iriam dizer? Foi. Os amigos tomaram umas cervejas e ele tomou também. Aí osamigos começaram a brincar com ele, dizendo que era virgem. Ora, se ele era, se ele
  25. 25. não era, ninguém tinha nada com isso. O que não podia aguentar era aquela gozação.Disse que não era. Então os amigos pagaram um mulher adiantado. A filha da dona.Ele estava meio bêbado, não lembra direito o que aconteceu depois. Lembra queforam para o quarto e ele não conseguiu nada. Perguntou quanto eles tinham pagopara ela. Maristela disse. Ela se chamava Maristela. Ele pagou o dobro para ela nãofalar. Que ele não tinha conseguido, entende?E nunca mais conseguiu esquecer aquele dia. Ficou incrustado assim, na sua cabeça.O dia, o nome da prostituta e a casa em que estavam. E agora lançam essecomprimido que causa a ereção uma hora depois de ingerido. Uma maravilha. Só queinventada trinta anos atrasada.O Viagra, enfim, chega ao Brasil. Não é barato. Vai até à farmácia e compra umacartela. Não precisa de mais que uma. Doze comprimidos. Viagra. É um nome danadopara um remédio para...para isso. Parece ser de uma coisa, sei lá, ilegal.Pega o ônibus no dia seguinte e, em vez de ir para o emprego, vai até aquele bairro.Se lembrava mais ou menos. Ela ainda deve trabalhar por lá. Essas mulheres nãomudam de vida. E ela era filha da dona. Maristela. No trajeto tomou um comprimido.Uma hora, dizia a bula. Uma hora e faria efeito. Continuou lendo. Informações aopaciente: Cuidado, pode causar priapismo. O que diabo seria priapismo? Parou de ler.Não ia querer ficar preocupado. Não hoje. O ônibus chegou. Fim da linha, estavamquase fora da cidade. Era ali mesmo. Sabia o caminho de cor. Sonhou quantas vezesesses anos todos. Achou a casa. Entrou. Algumas mulheres na sala. Não estavamacostumadas com fregueses assim, de manhã. Perguntou se alguém conhecia aMaristela. - A filha da dona. As mulheres se olharam e disseram que sim, conheciam aMaristela. Uma delas se levantou e disse que iria chamá-la. Talvez demorasse umpouco. Ele se sentou e pediu um copo de água. Tomou mais dois Viagra. O que serápriapismo? Quinze minutos, meia hora. Sentiu que estava ficando excitado. Muitoexcitado. Quarenta minutos, entra no recinto uma senhora, seus sessenta, sessenta epoucos anos:- Pois não. O senhor queria me ver?Trinta anos. Como você foi estúpido. - Desculpe, não. Quer dizer, foi um engano.Obrigado. Bom...ãhm...trabalho. Bom dia para todas. E foi embora. Com uma senhoraereção e a sensação que estava velho. Mais velho que a Maristela.- Eu estou é ficando gagá... - e riu sozinho, no ônibus, voltando para casa. Para suamulher e seus três filhos. Duas meninas e um garoto. De quinze anos.obs: priamismo é uma ereção descontrolada e constante. O Viagra ainda não tinhasido liberado no Brasil. Quanto foi? 11 de junho de 1998Era um velório. O que é que se podia fazer? Há um defunto, há um velório. Mesmo osmais chegados, os que realmente sentiam alguma coisa mais forte pelo defunto,sabiam. Dia errado. Já se esperava algum constrangimento. Os médicos disserampara enterrá-lo logo depois do meio-dia. Eles se entreolharam e, constrangidos,aceitaram. Mas não dava. Jogo da seleção. Abertura da Copa. Quando informavam ohorário do enterro para os amigos, diziam: - Depois das duas, lá pelas três da tarde.Era uma boa hora. Haveria tempo para as pessoas colocarem seus humores nosdevidos lugares. Lá pelas onze só restavam os filhos. Nem os primos que vieram lá doRio de Janeiro ficaram. Mas era compreensível. Não havia clima. O filho mais novoquase foi com um dos primos cariocas. Disse que era preciso alguém para fazer salapara as visitas. A irmã e o irmão mais velho fuzilaram olhares. Ele desistiu da idéia e
  26. 26. sentou-se, mal disfarçando o mau humor. Lá pelo meio-dia começaram a pipocar osrojões. Primeiro tímidos, depois ensurdecedores. Os três irmãos se entreolharam. Játinham conversado sobre isso. Era esperado. Ficariam calmos, não havia o que fazer.Quietos, deixaram os minutos passarem. Meio-dia e meia. O silêncio do velório só eracortado pelo barulho do isqueiro, acendendo mais um cigarro do filho mais novo, epelos suspiros da irmã. A cada suspiro da irmã os dois irmãos se revolviam nascadeiras de madeira. Olhavam para ela e se sentiam culpados. O pai ali, morto, e seuspensamentos voltados para coisas tão...tão...mundanas... Ouviram rojões novamente.Os dois irmãos se olharam. O mais velho se levantou e sentou-se próximo ao maisnovo:- O que é que você acha?- O que eu acho do quê?- Ora, você sabe, os rojões...O mais novo disfarçou um sorriso. - Não sei. Com a Argentina eu ouvi uns rojões. Têmuns caras que quando o Brasil joga mal, torcem para o outro, de sacanagem. O maisvelho se levantou. Pediu um cigarro para o mais novo e foi até a entrada do velório.Ninguém. Absolutamente ninguém. - Podia ter um barzinho aqui por perto, nem isso. Airmã suspirou, trazendo-o de volta. Olhou para o pai, ali no caixão. Acendeu o cigarro.Estava parando de fumar, mas não hoje. Voltou a se sentar com o irmão. Repararamna irmã. O olhar perdido. De vez em quando um suspiro. Invejavam a sua integridadenaquele momento desconfortável. Os amigos com desculpas esfarrapadasabandonaram o velório. E ela suportando tudo, firme. Certo, o pai já vinha doente. Jáestavam conformados há tempos. Mas nada que desculpasse estarem alheios aomomento fúnebre. A irmã não. Ela demonstrava sua dor. De vez em quando, lágrimasrolavam de seus olhos. E suspiros. Passaram-se mais alguns incontáveis minutos eum senhor, velho amigo de seu pai, entra pela porta do velório. Os três, quase quesurpresos, encaram o homem. Ele se dirige à moça. A abraça e lhe dá os pêsames.Depois vem em direção a eles.- Pergunta para ele, o mais novo fala, ao ouvido do irmão.- Pergunta o quê?- Quanto está o jogo, ué...O que é que você acha?- Pergunta você... Onde é que já se viu?Nenhum dos dois perguntou. O velho ficou mais alguns momentos, rezou um pouco.Ou, pelo menos, fez o sinal da cruz. E saiu. Os dois se enervaram um com o outro. Omais velho sentou-se do outro lado da sala. - Perguntar quanto está o jogo... Com opai ali, morto...Uma hora ou duas depois, os amigos começaram a voltar. O jogo tinha terminado.Eles aguentaram até agora. Não perguntariam para ninguém, até enterrarem o pai.Agora era questão de honra.Pai enterrado, se despediram de todos. Subiram no carro. O irmão mais velho demotorista, a irmã ao lado, o mais novo atrás.- O que é isso na sua orelha? - o mais novo perguntou para a irmã, apontado umpequeno volume que lhe saltava do ouvido.- O quê? Isso? É...É...para surdez. Eu não ando escutando muito bem...O irmão puxou da orelha dela: um radinho AM/FM. Do Paraguai. A luta continua 02 de julho de 1998Ela começou a falar e falar. Falar que as coisas não podiam ficar do jeito que estão. -Você entende?, ela perguntava. Eu com a cabeça dizia que sim. Ela continuava. Dizia
  27. 27. que seria muito mais fácil se as pessoas dividissem as coisas, se houvesse umaespécie de teto para os salários.- Por que a gente precisa tanto do lixeiro quanto do médico, não precisa?Eu respondia que sim. É claro. Tanto do médico quanto do lixeiro.- Ou dos advogados, eu disse.- É isso. Você está pegando a idéia.E dizia que ninguém podia viver assim, fingindo que não via. Que era hora de se unir.As pessoas precisam de mais espírito de luta. Os estudantes têm esse espírito de luta.- E os intelectuais têm o respeito da sociedade... Têm que se unir, criar ummovimento, sei lá...Eu me levantei e fui tomar um café. Falei para ela esperar um pouco, eu ia até ali fora,fumar um cigarro. Eu não gostava de fumar em ambientes fechados. Ainda mais comuma criança de dezesseis anos por perto. Ela me disse que podia fumar. Ela mesmajá havia dado uns tragos. Não achou graça, mas cada um podia fazer o que bementendesse na vida. Era mais uma coisa que ficava martelando a cabeça dela. Porque é que as pessoas interferiam tanto na vida umas das outras. Será que não podiamtomar conta das próprias vidas? Por ela, liberavam tudo.- Drogas, tudo...Ela vinha me seguindo, lá para fora. Chegamos na varanda e eu acendi meu cigarro.Dei um trago comprido, tentando parecer pensativo. Olhei para ela e perguntei:- E de que maneira você pretende implantar essas suas idéias?Ela me disse que já tinha uma porção de amigos, que se reuniam toda semana. Queeles faziam até planos. Precisavam fazer panfletos, espalhar a idéia. Por que não erauma idéia regional. Era uma coisa que poderia se transformar numa bola de neve. -Quem é que não quer igualdade? Todo mundo quer igualdade. Até as religiõesquerem a igualdade. Embora as religiões também sirvam para amansar a população,mas essa é outra história. O que estou querendo dizer é que para difundir as idéias épreciso dinheiro. Para tudo precisa dinheiro. E dinheiro só os que não queremmudanças têm. Então (nesse ponto ela olhou em volta e abaixou o tom de voz) nósachamos que devemos tirar dinheiro na marra. Sequestros, sei lá. Mas só debanqueiros, esses caras. Tipos Robin Hood, entende?- Entendo, eu disse, dando outro trago no cigarro e soltando a fumaça pelo nariz.Ela continuou dizendo que tinha uns amigos que entendiam demais de computador.Eram hackers. Explicou que hackers são caras que entram em outros computadorespela internet e fazem o que querem. Perguntou se eu nunca tinha ouvido falar neles, játinham entrado até nos computadores da CIA. Eu já tinha ouvido falar.- E o que é que tem os hachers?, perguntei.Ela respondeu que os amigos dela poderiam entrar nos computadores do governo,desativar cobranças de impostos, trocar números de contas bancárias. Instalar o caos.E aí eles se aproveitariam e...tomariam o poder!!!- Tomariam o quê?- O poder! Tomaríamos o poder! Fundaríamos uma sociedade mais justa, onde ariqueza do país fosse dividida igualitáriamente. Logo outros países veriam que esse éo único modo possível de viver. Se aliariam a nós, num imenso bloco. Seríamos aoutra face do neo-liberalismo. Você não entende? Eu estou falando do futuro. Umfuturo que, queiramos ou não, vai acontecer. O homem evolui para isso. Seria asociedade perfeita!Eu acabei meu cigarro. Joguei no chão e pisei, esmagando os últimos sinais de brasacom a ponta do sapato. Sorri.Ela tinha acabado de inventar o comunismo.
  28. 28. Uma gata 14 de julho de 1998Era noite e ela ainda não havia voltado. Fez de conta que não estava ligando,continuou assistindo TV como se não estivesse acontecendo nada. Olhava pela janelade vez em quando. Voltava para a frente da TV, controle remoto na mão. Ficavaolhando a telinha azul despencando imagens sem sentido. O controle remoto criouuma nova programação. São programas onde imagens aleatórias de desenhosanimados e de comentaristas políticos se intercalam, numa corrida sem sentido. Sãoprogramas diferentes todos os dias, mas iguais em sua falta de objetividade. Desligoua TV, ligou o aparelho de som. Sintonizou uma rádio, para não precisar ficar trocandode CD. A música sertaneja invadiu as FM’s. Ele era do tempo em que as FM’s sótocavam música americana. Ou MPB. Não faz muito tempo não, até você deve selembrar. E agora...só sertaneja. Ou pagode, essas coisas. Levantou e olhou pelajanela de novo. O relógio. Ela devia ter chegado há mais de três horas. Deveria haveruma explicação lógica. Começou a tocar outra do Leandro e Leonardo. Resolveucolocar um CD. Aquela casa estava uma confusão. Procurou. Entre suas coisas tinhaum CD com a trilha sonora do "Blade Runner", não achava. Desistiu de procurar.Devia estar perdido debaixo de alguma dessas almofadas. Ela gosta de almofadas.Tinha tantas por causa dela. Primeiro gostava daquelas menores, depois ele começoua trazer para casa aqueles almofadões. Deitavam e ficavam assistindo TV. Eles nemsentavam mais no sofá. Com o tempo, dispensou os dois módulos, um com trêslugares, outro com dois. A sala ficou maior, arrumou mais almofadas. A sala estavalotada. Tropeçava nelas quando entrava em casa, no escuro. De vez em quando elaestava ali, enroscada com as almofadas, dormindo. Tropeçava nela também. Às vezesse agarrava em suas pernas e o fazia cair. Ele ria, se abraçava a ela e fazia cócegasna sua barriga. Ela não aguentava cócegas na barriga. Se davam bem.Resolveu comer um pouco. Foi até a cozinha e esquentou um pouco de leite. Umpouco de leite quente o acalmava. Fez uma gemada. Bateu as gemas com açúcar ecolocou no leite. Ficou mexendo com a colher de pau, até dissolver bem. Ela adoravagemada. Deixou um pouco na caneca, no caso dela voltar. Abriu a geladeira e tinhauma bolachas de maizena no pacote aberto. Pegou algumas. Gemada e bolachasmaizena.É o que há.Agora sim, havia ficado bem tarde. Novamente se aproximou da janela, a xícara com agemada na mão, deu uma última expiada. Talvez não volte hoje. Já havia feito issomuitas vezes. Acabava voltando. Voltava com o rabo entre as pernas, como que apedir perdão. Ele sorria e sempre a desculpava. Não era de guardar rancores.Mais uma hora ou duas se passaram, percebeu que iria dormir sozinho aquela noite.Ligou a TV novamente. Deixou na Globo mesmo, a transmissão não se interrompia.Sempre acordava quando deixava em outros canais, a programação acabava,acordava com o chiado da TV fora do ar. A Globo ficava a noite inteira. Arrumou umasalmofadas, se deitou. Estava passando um filme de adolescentes de férias, seios,garotas loiras de biquini. Os olhos começaram a piscar. Fechou os olhos. Ainda ouviao filme, depois nem isso. Dormiu.Acordou com o hálito quente e forte dela. Era um cheiro conhecido. Depois de umtempo a gente se acostuma com os cheiros. Ela tinha um hálito diferente, adocicado.Sentia até saudades daquele cheiro. Ela se acomodou ao seu lado, buscando o calorde seu corpo. Ele a abraçou e sorriu.Ela sempre voltava.
  29. 29. Atenção dona de casa 01 de agosto de 1998"Caminhão carregado com galinhas "Cross" de 2,3 kg está com problemas mecânicosem frente ao Posto do Villar. Sendo a carga composta de animais vivos, precisamosvendê-la urgentemente. Os preços estão pela metade do custo...São 5 galinhas"Cross" por R$5,00 ou 12 por R$10,00 e você ainda leva ovos de brinde. Favor levarsacos ou sacolas. Somente hoje..."O rádio estava insistente. Perguntei para a cozinheira, lá do serviço, se era um bompreço.- Ótimo preço, sim senhor. Para estar vendendo assim, o dono deve estar em apuros.Cocei a cabeça. Galinhas vivas. Mas, segundo ela, estava mesmo valendo a pena.(pena?). O problema seria matá-las. Por que uma coisa é você tirar um frango dedentro de um saco plástico, destrinchar e colocar dentro de uma panela de pressão eoutra, bem diferente, é você olhar para a cara de uma galinha, e ela ali, olhando paravocê. Ela deve olhar para gente, não deve? E aí a gente pah! corta a cabeça dela.Sangue.Sangra, não sangra?- Sangra, confirmou a cozinheira. E bastante.Então. Não sei se eu dou conta. Um amigo um dia viu uma galinha botar um ovo.Nunca mais comeu nem omelete.- Faz o seguinte. O senhor vai lá, compra e trás aqui. Eu mato para o senhor. E limpo.- Por que limpa? Ela vem suja?- As penas. Tem que tirar as penas...Ah é. As penas. Tinha me esquecido das penas. Combinei lá, com ela. Depois doalmoço eu traria as galinhas.- E você limpa as cinco?- Doze. Se o senhor não se incomodar, pode trazer doze que eu vou levar umas paracasa, para criar no quintal...São doze por dez, não é?Era. Doze galinhas por dez reais. E não eram galinhas quaisquer. Galinhas Cross.- Como é que são as Galinhas Cross?- São galinhas, como as outras, só que de marca.De raça, ela devia estar querendo dizer. Quase hora do almoço. Comecei a procurarpor lá uns sacos, ou sacolas. O rapaz pedia no rádio: levar sacos. Entrei na cozinha doemprego e dei uma procurada. Dentro de um armarinho encontrei um pacote deSanito, desses pretos, grandes. Achei que dava. Em vez de ir para casa, almoçar, fuipara o Posto do Villar. Comprar galinhas.Uma fila enorme. Não deu nem para almoçar. Paguei primeiro e disse que vinha com ocarro até ali. A gente já joga as galinhas para dentro. Melhor, não é?- É, não se preocupe. E elas estão com as pernas amarradas. Não vão sair por aí,correndo.Encostei o carro ao lado do caminhão. O rapaz veio com as galinhas. Peguei os sacose comecei a abrir. Cabiam umas três galinhas em cada um. Fomos ajeitando aqui e ali.- Amarra bem a boca do saco.O rapaz ria e falava que não era bom, elas poderiam morrer sufocadas. É mesmo.Galinha respira. Deixamos as bocas dos sacos meio abertas. Paguei os dez reais. Deiuma última olhada para o caminhão e para as galinhas. O rapaz não ia ter muitoprejuízo. Pelo jeito, ia vender tudo até a tarde.Cheiro forte. De ração, de galinha, sei lá. Abri as janelas do carro, para ventilar. Asgalinhas começaram a cacarejar. Penas começaram a fazer redemoinhos. O carpete,os bancos, meu cabelo, tudo coberto de penas. Uma delas, acho que com o bico,rasgou o saco. Começou a bater as asas, achei que ia sair voando. Galinhas voam?Fechei as janelas.

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