PRÓLOGO

7 a.m, e além do triturar do limpador de ruas lá fora, eu ainda podia ouvi-los no quarto dela.
Ela tentava abafar o barulho, porém não havia dúvida do que estavam fazendo. Como ela
podia fazer isso comigo?

Isso não é real. Não pode ser real.

Eu me deito pela metade em cima dos lençóis, uma mão acariciando meu estômago. Todo o
meu corpo ficou paralisado, congelado. Se eu pudesse sentir isso. Queria sentir.

Eu parei de me acariciar, puxei o lençol sobre mim e rolei para meu lado da cama. Fiquei
encarando para fora da minha janela a manhã nascendo – apenas começando a brilhar. Eu
senti o suor escorrer por trás do meu pescoço – já estava muito quente – e minha cabeça
latejava. Minha felicidade estava murcha e estremecida dentro de mim. Ela não me amava. Ela
nunca teria feito isso comigo se me amasse.

Então pararam.

“Muito obrigado por isso, porra.”

Olhando para o teto, eu franzi o cenho, meus lábios se partiram ao meio para que eu pudesse
soltar um silencioso e incrédulo suspiro.

Me senti como se fosse o fim do mundo. A pior coisa que já aconteceu comigo. Se eu pudesse
imaginar por um segundo que eu poderia acreditar no amor, eu percebi agora que eu estaria
me iludindo. Porque tudo termina do mesmo jeito, mesmo você o amando ou não.

Todo mundo te trai no final.

AGOSTO – SEMANA 1

Effy

Dia 1, sábado, agosto.

Veneza

Então ela escolheu Veneza. Eu posso ver o porquê. É como um castelo gigante da Disney, mas
muito surreal de certa forma. E é um bom longo caminho de Bristol para lá, do meu pai e de
toda porcaria de lá. Então bom trabalho mãe. Qualquer coisa que bote algum distância entre
mim e todo mundo. JJ, Cook e Freddie. A porra dos três mosqueteiros.
Eu começara algo e não conseguia continuar com isso.

E estar cercada por água – como um fosso gigante nos separando do inimigo. Eu e minha mãe
tínhamos de fugir.

Nós alugamos um apartamento pequeno longe do centro e dos turistas. Os donos tinham ido
embora da cidade pelo verão todo. É um prédio de quatro lados com um grande pátio no
meio. Fantástico. Tão pitoresco. Até as paredes rosas descascadas, elas me lembram de
milkshake de morango. Tem uma varanda também. Azul enferrujado. Perfeita para se sentar,
observar e fumar. Ver sem ser vista.

Meu quarto, de qualquer jeito, é um espetáculo de aberrações. Barbies por todo o lugar. Uma
cama de solteiro. Uma imagem de Jesus e Maria com os seus jeitos virginais. Naomi e Cook
mijariam nas calças se pudessem me ver agora, eu pensei, enquanto jogava a minha mala na
cama e olhei em minha volta. Não tinha computador. Eu achei uma Lan house depois de
algumas horas, assim poderia manter contato. Se eu quisesse.

Minha mãe estava deprimida assim que chegamos lá. Estava nublado, chovendo muito, úmido
e fedia mas, Deus, tudo em que ela pensa ultimamente é nela. Ela e a porra de seus
problemas. Que ela criou, por sinal. Talvez eu devesse ser mais simpática considerando toda a
merda que eu tenho me metido nos últimos meses, mas minha mãe nem ligou ou pareceu se
importar.

E eu?

“Qual é o seu problema?” Eu perguntei.

“Nenhum. Eu não sei.” Ela disse cansada. “Não era realmente o que eu esperava... talvez foi
um erro vir para cá?”

“Talvez” Eu fechei os olhos, irritada.

Faça um esforço, Effy, você sabe como é se sentir uma merda.

Eu abri as persianas. A chuva tinha parado. Os raios de sol me fizeram piscar. E sorrir. “Viu?” eu
me virei pra minha mãe. “Transformado.”

Um patético e fraco sorriso. “É, isso ajuda.” Ela tirou os cigarros de sua bolsa e acendeu um.
“Então, o que deveríamos fazer agora?”

“Eu vou tomar banho” eu disse. “Depois eu vou explorar o lugar. Achar uma Lan house”.
“Ah, espere” ela me entregou um envelope marrom. “Isso é do seu pai”.

Eu rasguei para abrir. Contei cinco notas de cem euros.

“Para gastar” disse mamãe. “Isso deve ser o bastante, se precisar de mais fale comigo”.

“Certo, obrigada” eu disse ingrata.

Vai precisar mais do que merda de dinheiro.

“Bem” ela suspirou. “Eu vou arrumar esse lugar e deixar mais como um lar”.

Lar? Se isso a deixa feliz, acho.

Assim que eu cheguei lá fora, acendi um cigarro, peguei meu telefone e o liguei, esperei que
ele captasse sinal e deletei a mensagem da operadora. Dez minutos depois recebi uma
mensagem da Pandora. Alguma coisa sobre o Thomas e a mãe dela. Pediu para que eu
mandasse fotos para ela. Sim, Panda.

A tarde estava na metade e silenciosa. Na esquina da rua, alguns velhinhos sentavam-se em
frente a uma lanchonete jogando dominó. Um cachorro sarnento cheirava o chão ao redor de
seus pés. Uma mulher parecendo exausta com um avental de corpo inteiro estava esfregando
o chão do prédio perto do nosso. Ela parou por um minuto para descansar e me notou, em pé
com o meu telefone. Ela me olhou de cabo a rabo com um tom desaprovador, talvez com
inveja. Essa era a vida dela todo dia esfregar, esfregar, deixar limpo. Ela botou seu esfregão de
volta ao seu balde e seguiu em frente.

Eu acendi outro cigarro e fui em direção a um muro baixo, oposto ao nosso prédio. Eu sentei,
fumando, fazendo meu lance de observar as pessoas. Encarando. Três garotos, da minha idade
talvez, cruzaram a esquina. Um deles, o alto, com um chapéu, parecia o Freddie. Lindo. Meio
cheio de si. Me chamou a atenção.

“Signorina... ciao... ciao” ele assobiou. Os dois perto dele começaram a fazer macacadas,
assobiando, gritando coisas que eu não entendia, chegando perto de mim.

“Você sabe o que ‘cai fora’ significa?” eu perguntei ao mais alto quando se acalmaram. “Cai.
Fora.”

“Ooooh. Inglese.” Ele começou a vir. “Legal. Está de férias?”

“Quoi?”, Soltei um anel de fumaça perfeito.
Os dois racharam. Eu suspirei em minha mente e descruzei as pernas. Meus pés estavam
queimando, estava muito quente. Minhas pernas estavam nuas. Eu olhei para elas e depois
para os três garotos. Eles haviam parado de rir. Silenciou-se. Minha respiração começou a
acelerar, mas eu não iria deixá-los cheirar o medo. Eu joguei meu cigarro no chão à minha
frente e começamos a nos encarar.

“Então, quando quiserem ir se foder, está tudo bem para”

“Como é que é?” disse o mais alto “Nós só estávamos sendo amigáveis. Talvez seja você que
deveria ‘se foder’ agora” Ele olhou para seus amigos. “Você esta vestida que nem uma puta”
ele complementou. “A porra de uma puta.”

Eu queria vomitar. Vomitar todinha neles. Eu queria meu pai, minha mãe, Freddie.

Eu começara algo que eu não podia terminar.

“Eh Che fate?!” uma voz gritou. Um sujeito mais velho vindo em minha direção, com aquele
visual caro dele. Terno, camisa, sapatos italianos Poncy. Ele olhou bruscamente para os três
idiotas e soltou a correnteza de italiano bravo.

O mais alto saltou no ar e uivou que nem um lobo. Eu sorri com desdém. Cook. Que nem o
Cook. Os outros dois fizeram o mesmo e foram embora correndo.

“Ciao, bella” um deles me gritou obscenamente enquanto corriam “Vadia inglesa”. Então eles
já estavam na esquina. Foram embora.

O que me deixou sozinha com a porra do George Clooney.

“Sta bene?” ele perguntou. “Você está bem?” ele chacoalhou a cabeça “Não ligue para esses
rapazes”.

“Eu não estava” eu disse sorrindo. “Mas tudo bem”.

Eu me levantei, já sem vontade de explorar e entrei em nosso prédio.

“Ah, você está morando aqui?” ele disse. “Eu também” ele estendeu sua mão “Meu nome é
Alfredo, mas meus amigos me chamam de Aldo”.

Eu dei minha mão. “Effy.”

Nós fizemos aquela coisa de sorrir estranhamente.
“Você não deveria fumar” ele disse, olhando para o maço de cigarros em minhas mãos. “Faz
mal para pele”.

“Obrigada pelo conselho” eu educadamente disse dando o meu sorriso mais charmoso. “Eu
vou carregar isso em mente”.

Ele abriu a porta de madeira gigante e a segurou para mim. Nós estávamos na entrada, a qual
cheirava a umidade, como uma caverna. Eu olhei para todas as antigas entradas de quem já
viveu por lá.

Eu queria uma, eu pensei. Eu gostaria de entrar em uma e ficar lá escondida para sempre.

“Então...” disse o Aldo. Ele começou a subir a escada de pedras e se virou para mim “Você está
com seus pais?”

“Minha mãe” eu disse “Ficaremos aqui por um mês”.

“Ah, vocês alugaram o apartamento dos Tropeas? Bem nós deveriamos beber um Grappa
juntos, talvez? Uma bebida de boas-vindas!”.

“Grappa?”

“Uma bebida italiana, Effy. Queima a alma.”

Com o despeito de não querer, eu sorri. “Seu inglês é muito bom.”

“Obrigado. Eu passei um ano estudando em Londres. Eu estava esperando há muito tempo
alguém dizer isso. Eu não pratico muito hoje em dia”.

Nós chegamos ao topo do segundo lance de escada e Aldo sentiu seu bolso de trás.

“Droga” ele disse. “Eu deixei minhas chaves na casa da minha mãe”. Ele esfregou a testa.
“Estou trancado para fora do meu apartamento”.

“Tudo bem.” Eu mordi meus lábios e pensei a respeito “Você está com sua carteira?”

“Sim, mas –“

“Eu preciso de um cartão de crédito. Só preciso disso”. Eu observei sua expressão, que estava
confusa. “Para abrir a porta?”

Ele me encarou, não entendendo por um segundo, depois sorriu um sorriso perfeito pra
caralho. Ele não parecia tão mal. Eu não tinha percebido antes.
“Garota esperta. Agora, como, e o mais importante, por que você aprendeu a fazer isso?”

“Por que talvez eu achasse que fosse útil?” eu disse olhando mordazmente para a fechadura
de sua porta.

“Então isso acabou de ser provado” Aldo disse, me entregando sua carteira.

Eu ignorei os vários cartões de crédito à disposição, incluindo o Amex platinum, e peguei o
cartão mais frágil e laminado. Cartão de filiação ou alguma coisa assim. Eu me ajoelhei no chão
e deslizei o cartão o mais longe que podia no espaço acima da fechadura, o inclinei até
encostar na maçaneta, então o dobrei de volta ao outro caminho e o inclinei sobre a porta.
Pronto. Eu me levantei e esfreguei meu joelhos.

“Muito obrigado pela ajuda” ele disse. “Você gostaria de entrar para tomar um drink?”

“Não” eu respondi. “Obrigada”.

Por que eu disse isso? Porque minha resposta padrão é sempre “Não”.

Eu o esperei insistir, mas ele não o fez. “Tudo bem, Effy” ele estendeu a mão para alcançar a
minha. Era quente e seca, não pegajosa. Grande, forte. “Eu estou endividado com você”.

Nós sorrimos um para o outro.

Deixe-o aí, pensei. Não vá. Botei uma mecha de meu cabelo entre meus dedos e acariciei
lentamente. Eu li uma vez em uma revista que homens odeiam quando as mulheres brincam
com seu cabelo. Que se foda.

“Bem, te vejo então” eu disse devagar. “Outra hora”.

Sem esperar que ele falasse, eu subi para nosso apartamento, contando o tempo com cuidado.
Quando eu cheguei no topo da escada eu olhei pra trás. Ele tinha ido embora.

Naomi

Domingo, 2 de Agosto.

Boate Ritzy

A música estava ensurdecedora. O braço do Cook surgiu e bateu no meu rosto.

“Ei! Idiota desastrado” eu bati em suas costelas.
Ele se moveu mais para perto de mim. Pressionou seu maldito rosto sobre o meu. “Ah,
princesa. O Monstro Cook está apenas sendo amigável...” ele acariciou minha bochecha.

Eu tirei sua mão de mim, mas lutei comigo mesma para não sorrir, só um pouco. O lance do
Cook é que ele é malditamente irresistível. Eu não gosto dele. Digo, estou em outro time
agora, por assim dizer. Ele está descontrolado pra porra. O oposto de mim. Mas às vezes, é, eu
não ligaria de ser capaz de fazer e dizer qualquer merda que eu quisesse. Eu morreria antes de
dizer isso a ele, mas eu secretamente invejo o Cook. De um jeito doentio, obviamente.

“Cook”. Olhei pra ele com o olhar de irmã mais velha desesperada. “Só se aquiete, pode ser?”

Ele riu que nem um maníaco “Eu não me aquieto, Naomi. Você sabe disso”. Ele deu um beijo
molhado no meu nariz. “Certeza de que eu não posso te tentar a voltar para o trem dos
pintos?”

Eu limpei sua baba. “Trem dos pintos?”

“É, talvez não”. Cook tinha seus olhos grudados em alguma coisa atrás de mim. Eu virei. Emily
estava parada lá. Tinha olhos grandes, parecendo duvidosa. “Sua parceira em colar velcro te
chama”.

Eu estendi a mão e segurei a mão da Ems puxando-a para perto de mim. “Nós vamos ignorar
essa observação” eu disse a ele asperamente. “Vou deixar passar. E só –“ eu belisquei sua
bochecha “- porque você é um marica por dentro”.

Cook riu em silêncio, suando por causa dos efeitos da ecstasy. “Justo o bastante, Naomikins”.
Ele tomou um gole de Lager e balançou a lata para nós. “Vejo vocês depois, sapas”.

Emily mexeu seu nariz. “O que ele queria?”, ela perguntou, tentando não soar incomodada
que o Cook flerta comigo. Bem, flerta em seu jeito maluco.

“Nada, querida”. Eu botei meus braços em volta dela e deslizei uma mão por debaixo de sua
blusa, acariciando sua coluna. “Vamos lá, vamos ir embora e fazer alguma coisa depravada em
algum lugar”.

“Aqui?”. Emily disse sorrindo um sorriso doce e vulgar ao mesmo tempo.

“Aqui”. Eu segurei as mãos dela e a puxei atrás de mim em direção ao banheiro. Ela me seguiu
entre um grupo gigante de silhuetas coladas em direção ao banheiro feminino. Quando
chegamos à porta, eu a beijei delicadamente, então firmemente achei sua língua. Emily gemeu
e puxou seus quadris para perto de mim.

“Eu estou tão feliz agora” ela disse, afastando-se temporariamente. “Se eu morresse hoje a
noite estaria tudo bem”.

“Para mim também”. Eu beijei Emily na testa.

Eu vi Cook levantando sua lata pra mim sobre a pista de dança. Um sorriso safado estava em
seu rosto. “Encantador” , ele disse fazendo mímica labial e piscou para mim.

Eu segurei a mão da Emily e a puxei rapidamente pela porta.

Segunda, dia 3 de agosto.

Quarto da Naomi

“Que horas são?”. Eu rolei e pausei o iPod que estava em seu dispositivo. Parecia estar no
meio da noite para mim. Emily e eu não havíamos voltado pra casa antes das 2 da manhã. Nós
ficamos acordadas sem querer que a noite acabasse. Nossa última noite. Nós dormimos na
frente da sessão de compras, um pouco chapadas, um pouco bêbadas. Felizes.

Mas essa manhã eu me senti irritadiça, para dizer o mínimo.

“Oito e meia, mais ou menos?”, Em disse. Ela estava pintando as unhas do pé. Na minha cama.

“Emily! Você não pode fazer isso no banheiro ou coisa assim? Você vai deixar manchas roxas
sobre a minha colcha.”

“Tá bom, tá bom, Jesus”. Ela se levantou mancando em direção à porta. Ela virou em minha
direção quando chegou lá. “O que há de errado com você essa manhã?”

“Nada”, eu disse automaticamente. Eu estava carrancuda, como é de costume. Eu não me
orgulho disso, mas velhos hábitos não morrem cedo. “Só é... cedo”. Me apoiei em um braço.
“Eu não sou legal nas manhãs”.

Ela não estva caindo nessa. “Certo... Mas... Eu estou indo pra França de tarde e do nada você
começa a agir como... Como tudo o que eu faço está lhe dando nos nervos”, ela disse. “Você
está querendo que eu vá, né?”.
Eu revirei os olhos. “Eu mal posso esperar para me livrar de você para eu começar a viver os
melhores tempos da minha vida nas próximas semanas. Eu estou contando a porra dos
segundos para você entrar naquele navio”.

Merda, os olhos dela começaram a ter aquele jeito de choro. Ela é uma flor sensível. Estranho
porque Emily Fitch era mais durona do que eu poderia ser. Eu lato, mas não mordo.
Obviamente eu sou o cara do relacionamento.

Sim Naomi, relacionamento.

“Não... Em”, eu estendi meu braço e acariciei suas costas. “Desculpa. Olha, você sabe que eu
vou sentir sua falta. Muito”. Emily sorriu e assim mau humor desapareceu. Ela é como um
anjo. Um anjo ruivo e adorável. Eu queria segurá-la e nunca deixá-la ir.

“Vem cá”, eu disse.

Eu a encontrei no meio do caminho e a agarrei pela sua blusa, levantando-a e atirandao-a em
algum canto. Eu encarei seus peitos perfeitos. Suave, linda Emily.

“Eu te amo, Emily”, eu disse acariciando seu estômago. Eu me ajoelhei e a beijei. Senti seu
cheiro. Emily acariciou meu cabelo e ficamos assim por alguns minutos. Eu não queria me
separar dela. Nunca.

“Naomi”, Em disse eventualmente.

“O quê?”, eu me levantei e botei meu braço em volta dela.

Ela descansou sua cabeça sobre meu ombro e disse “Você não vai fazer alguma coisa boba,
vai?”

“Como o quê?”

“Como... eu não sei. O que os olhos não vêem, o coração não sente”.

Eu a segurei mais apertado. “Como se eu fosse”.

“Nem com o Cook... Eu sei que você –“

“Escuta, Emily”, eu me distanciei para poder olhar ela propriamente. “O que aconteceu comigo
e Cook foi um momento totalmente insano na minha outra vida sana. Eu estava tentando
fingir que eu era... Que eu não gostava de você.”
Os olhos de Emily ainda estavam meio que brilhando.

“Que eu te amava. Amo. Tudo bem?”

Ela relaxou. Covinhas voltaram a ser a perfeição de uma pele como pêssego. “Bom. Porque eu
tenho certeza em relação a isso. Em relação a nós. Para mim não é um casinho da porra e
acabou.”

“Nem para mim”. Eu disse sem saber direito o que isso era realmente. Eu sei que a amo. Eu
não consigo não me imaginar segurando, beijando e fodendo ela. Mas cabe ao júri decidir se
eu sou lésbica ou hétero.

“Que seja, você poderia comentar”, eu disse tirando o cabelo do rosto dela, “sobre o grande
caso amoroso entre você e o JJ?”

“Naomi!” Emily me empurrou em direção à cama. “Eu já te expliquei o que aconteceu comigo
e o JJ. Você sabe muito bem que transei por pena. EU SOU LÉSBICA.”

“Sshh”, eu disse rindo. Eu a puxei comigo pra cama. “Você pode dizer isso um pouco mais alto?
Acho que não ouviram no interior da Austrália”.

O som de alguém andando na sala em direção ao banheiro nos fez parar. Kieran ou minha
mãe. Emily rolou de costas. E deitamos em silêncio. Dedinhos entrelaçados.

Emily

Segunda, 3 de Agosto.

Quarto da Naomi, mais tarde.

“Naomi”, eu sussurrei. Toquei seu pescoço com a ponta dos meus dedos. Acariciei lentamente
sua pele desde atrás de sua orelha até seu suave e pálido ombro.

“Naomi... acorda”.

Naomi fez um barulho parecendo um grunhido e mexeu seu nariz. Eu sorri. Eu tenho sorrido
muito ultimamente. Eu fiquei de costas e olhei para o teto e depois para seu quarto. O quarto
da Naomi é maneiro. Muito mais legal que o meu. Ou melhor dizendo: do que eu divido com a
Katie. Com a porra de jogadores de futebol e boybands nas paredes. Os My Little Ponies dela
continuam no peitoral da janela, e com todas suas jóias e correias com estampa de leopardo
perto deles. Eu só deixei a Katie tomar o quarto porque, bem... É o que ela faz. E eu também
nunca liguei. Mas finalmente eu criei colhões comecei a enfrentá-la. E não parece ter um jeito
de voltar atrás.

Eu continuei a observar o quarto e a sorri. Não conseguia acreditar na minha sorte. Não
conseguia acreditar que a menina que eu amava me amava também. Por um tempo eu pensei
que isso nunca ia acontecer. Eu gostava da Naomi desde o ensino fundamental. Ela é
apaixonante e inteligente. Contagiante. E seus olhos... Parece a rainha do gelo. Alguns pensam
que ela é fria. Só porque ela não fica de conversinhas superficiais e estúpidas. Ela não é que
nem a Katie que abre a boca e só sai merda. A Naomi é sincera. Se as pessoas acham que isso
significa “fria”, elas estão erradas.

Elas estão muito erradas.

Eu bocejei alto. Depois senti a mão da Naomi no meu braço.

“Merda. Que horas são?”, ela disse sonolenta. “Você tem de ir?”

Eu rolei para poder encará-la. Ela estava esfregando os olhos. Então ela parou e ficamos nos
encarando. Sorrisinhos surgiram em nossos rostos.

“Oi, linda”, eu disse. “Já é tarde e eu estou com fome. O que você quer de café da manhã?”

“Você”, disse Naomi me puxando em sua direção e me beijando primeiro gentilmente e depois
mais forte. Eu estava formigando de prazer. Eu peguei sua mão e a guiei até onde eu a queria.
Ela hesitou e depois seus dedos começaram a fazer seu trabalho.

Ah meu Deus, essa é a porra do paraíso, eu pensei. Eu estou no paraíso.

Duas horas depois nós estávamos na cafeteria, tomando café da manhã. Naomi, granola,
comida de coelho. Eu, um sanduíche gigante de salsicha e ketchup. Naomi estava olhando
minha comida com um sorriso em seu rosto.

“O quê?”

Ela engoliu um pouco da granola e do iogurte. “Você”, ela disse. “Gostando da sua salsicha,
né?”

Eu mastiguei e bufei, quase respingando comida mastigada nela.

“Ah, sim” , eu disse para me defender “Eu amo salsicha. Você deveria experimentar, Naomi...
Não tem idéia do que está perdendo.”
“Ah, eu acho que tenho” ela estendeu sua língua e a balançou para mim.

Um sujeito mais velho tomando um café da manhã tradicional olhou para nós com um olhar
severo. Ele pegou seu jornal e segurou severamente na frente de seu rosto.

“Vá se foder”, eu disse para o seu jornal, sem emitir nenhuma voz. Naomi revirou seus olhos e
empurrou sua comida de coelho. Ela ficou mal humorada do nada.

“O que foi, docinho?” eu disse limpando minha boca com um guardanapo.

Naomi fez um beicinho. “Você vai entrar naquele navio”, ela disse naturalmente. “É isso”.

“Você vai sentir minha falta, não vai, querida?”, eu disse parecendo um disco arranhado. “É
melhor você sentir mesmo”.

“Hm... Primeiramente” ela disse séria “Depois eu vou provavelmente perder o interesse”.

“Naomi!” , eu disse com um grito agudo. “Vadia”.

“Quantas vezes eu vou ter de te dizer?” ela sorriu. Ela parecia tão gostosa. Eu queria mordê-la.
Meu estômago estava dando voltas e voltas.

“Não deveria ser agora”, eu disse “E minha mãe vai ser um pé no saco.”

Naomi concordou com a cabeça. “Ah é”, ela disse “A sua mãe tão liberal”.

“É, bem. Nem todo mundo pode ter uma mãe que nem a sua”.

“Você deveria estar agradecida por isso”, disse Naomi com um suspiro. “Eu sei que sua mãe
precisa de tempo para compreender isso. Nós, eu digo. Eu também precisei de tempo pra
porra para compreender. Eu acho que não posso culpá-la. Não completamente”

“Ela é um pesadelo ultimamente”, eu disse. “Nós só vamos ter de transar na frente dela, é o
único jeito dela entender”.

“Isso sim que seria um pesadelo”, Naomi se deliciou. “Eu preferiria fazer um ménage com o
Cook e a Katie”.

“Ugh. Naomi! Ela é minha irmã, sua vadia safada”. Eu pensei sobre o que disse. “Porra! Você
não gosta dela também, ou gosta?”

Naomi ficou séria.
“Sim, claro, ela disse. “Quer dizer, vocês são idênticas, não são?”.




Naomi

Segunda, 3 de agosto.

Em casa, à noite.

Após dar tchau para Emily à tarde, eu fiquei um pouco à deriva em uma nuvem de felicidade e
amor, mas à noite eu voltei a Rabugentrópolis. Eu tinha três semanas para ficar de molho e
obcecada com o que a Emily estava fazendo e com quem. Eu pensei em sua mãe que estaria
totalmente num ataque anti-gay. E na Katie, aquela vadiazinha. Provavelmente ela estaria
treinando suas falas malvadas. Emily pareceu pensar que Katie não seria mais uma vadia
conosco, mas eu não estou tão certa. Eu estava tirando a sua gêmea. É assim que ela vê. Ela
não consegue me agüentar. E esse sentimento é mútuo.

Minha mãe e Kieran estavam comendo na cozinha quando eu desci as escadas depois de duas
horas depressivas na minha cama escutando thrash metal alto em meu iPod.

Se anime, Naomi, talvez isso nunca aconteça.

Minha mãe olhou pra cima quando entrei. Ela me deu um de seus olhares meios que
simpáticos e exasperados para mim. “Oi, amor” ela disse. “Está bem?”.

Eu dei um grunhido e puxei uma cadeira. Kieran me olhou cautelosamente. Ele nunca estava
certo quando eu iria derrubá-lo com o infortuno incidente na sala de aula quando ele tentou
me dar uns amassos. Naquela hora eu fiquei ofendida porque aquilo era ilegal pra começar,
caralho. Mas o Kieran é legal. Eu nunca pensei que ia dizer isso, mas ele a deixa feliz. E,
indiretamente, isso significa que todos aqueles perdedores infelizes que ocupavam minha casa
como se fosse uma maldita comunidade iriam finalmente sair daqui.

“Sente-se. Coma alguma coisa” disse minha mãe. “Ocorreu tudo bem com a Emily?”
Uma visão de mim e de Emily mais cedo surgiu na minha cabeça. Eu não pude evitar um
sorriso surgir no meu rosto.

“Sim, ocorreu tudo bem”. Eu inspecionei as caçarolas em minha frente, mas decidi contrariar.
“Agora eu preciso de um emprego de férias, eu não posso ficar sentada aqui o dia todo”.

Mamãe trocou olhares preocupados com Kieran. Eles também não me queriam circulando pela
casa. Sem julgar pelo tempo que eles passavam no quarto da minha mãe, de qualquer jeito.
Tipo uma estraga-prazeres, com Naomi-Sem-Amigos olhando para o nada tristemente.

Vê, é precisamente isso que eu odeio em relacionamentos. Conexão. Você não pertence a
você mesmo. Você está se dividindo com outra pessoa. Então quando não estão com você,
uma parte de você some junto.

Mas eu consegui o que eu queria, não consegui?

“Bem,” minha mãe disse vivamente “Um emprego talvez desvie sua mente de Emily. Melhor
do que fazer faxina?”.

“Talvez eu não queira desviar minha mente de Emily”,eu rosnei. “Você só me quer fora do seu
caminho”.

“Naomi, isso não é verdade”, disse Kieran em pânico com o desenrolar da conversa.

“Não é?”.

“Ah, cresce”, disse minha mãe empilhando tigelas e pratos. “Poxa, Naomi, você não é assim.
Normalmente é tão madura”.

“Eu estou cansada disso”, eu disse. “Morando numa casa de abrigados por todos esses anos.
Superando os seus atos de caridade. Sendo ‘madura’. O que você acha de eu agir como eu
quero para variar? Se você não gostar, imagino”

Silêncio. Kieran olhou desesperadamente para o teto. Pobre súdito.

“Eu acho que está na hora de todos irmos para a cama”, disse minha mãe. “Falaremos nisso de
manhã”.

Eram nove da manhã. “Certo, tudo bem. Você vai pra cama”. “Você parece estar apta depois
disso”.

Minha mãe me ignorou, enquanto Kieran foi trocando as pernas até o quarto.
Eu a vi entupindo a louça de lavar enquanto pensava se eu não tinha ido um pouco longe
demais. Não que eu fosse me desculpar.

Finalmente minha mãe desligou as luzes da cozinha fingindo que não sabia que eu estava a
acompanhado com os olhos. Enquanto ela atravessou minha cadeira, curvou-se na altura do
meu queixo.

“Não fique tão nervosa, Naomi”, ela sussurrou. “É só amor”.

Pandora

Terça, 4 de agosto.

Em casa.

Desde o meu dia favorito no mundo todo, o dia do baile, eu e Thomas estamos como dois
pintos no lixo. Eu fiquei tão feliz que ele ainda me amava. Eu achei que eu realmente tivesse
estragado tudo. E eu sei que eu contei a Emily e a Katie que eu nunca queria transar com mais
ninguém depois do Cookie porque isso só deixa tudo muito estranho, mas eu não quis dizer
isso. Eu queria ter o serviço completo com o Tom como você nunca imaginaria.

Claro que manter minha mãe desatualizada sobre eu virando uma mulher seria difícil. Minha
mãe parece saber de tudo o que acontece comigo. Eu sempre ando até o final da nossa rua
para ligar para o Thomas. Ela não gosta que eu fique perto de garotos. Que caralhos voadores
ela iria dizer se soubesse o que anda se passando pela minha cabeça atualmente?

Se Effy não tivesse viajado com sua mãe nessa férias, eu poderia conversar com ela sobre
meus sentimentos e tal. Ela sabe tudo sobre garotos. Ela deve saber, ela tem metade deles
babando por ela. Garotos nunca será um problema para a Effy. Ao menos antes dela foder com
o Freddie. Effy ficou um pouco estranha com isso, e eu fiquei um pouco estranha com a Eff. Ela
acertou Katie com uma pedra. Isso não é bom. Eu estava contrariada com ela depois disso. Eu
vou sempre amar a Effy, acho, mas eu tenho de me virar sozinha.

Eu liguei para meu adorável garoto no ponto de ônibus.

“Oi, Thommo, é a Panda. Quer vir ao Brandon Hill para ficarmos nos beijando?”

“Eu não posso, Panda. Eu tenho de ir trabalhar. Não são férias pra mim, sabe?”

“Que isso, Thomas... Vamos lá. Nós podemos visitar tia Lizzie e tomar chá. Vai ser bombástico.”
“Pandora, não. Eu tenho de pagar o aluguel.”

Eu suspirei. Coitado do Thomas, ele não vai para o colégio porque tem de pagar todas essas
coisas pra ele, sua mãe, sua irmã e seu irmão. Ele tem de trabalhar, tipo, toda hora. Não é
justo porque não tenho tempo para me jogar em cima dele. Thomas disse que não preciso
fazer isso ainda, ele disse quer que seja perfeito, romântico e tal. Eu só quero que nós
façamos. Propriamente. Thomas será meu namorado para sempre. Não como Cookie que não
queria me conhecer melhor quando não estava botando sua coisa em mim. Eu não quero mais
pensar no que eu e Cookie fizemos. Faz com que eu me sinta envergonhada.

“Ok, Thomas, você venceu. Te encontro no ponto de ônibus da rua Granger depois do trabalho
então?

“Oui, Panda. Vou esperar por isso ansiosamente” disse Thomas, eu podia ver seu sorriso pelo
telefone. “Je t’aime.”

“Je t’aime, aussi.”

Voltando pra casa eu fiz um plano. Primeiro de tudo eu e mamãe precisávamos cair na real. Eu
sei que eu não poderia ficar guardando segredo para sempre. Sobre pensamentos sensuais. Eu
ainda quero fazer bolinhos vestida em meus pijamas e eu não acho que roupas que nem as da
Katie caem bem em mim. Nunca serei uma tarada ambulante. Mas eu quero sexo. E eu quero
com o Thomas. Eu quero mais do que tudo. Eu tinha que contar à minha mãe sobre o
Thommo. Uma vez que ela o conhecer, eu acho que ela vai amá-lo também. Só que... Ela não
gostaria que eu tivesse um amigo homem. Sem mencionar um namorado. Mamãe estava
meditando quando eu entrei em nossa sala. Eu sentei no sofá e fiquei encarando ela.

“Mãe”, eu disse. “Mãe, eu preciso te contar uma coisa.”

“Hmm”, mamãe me deu um olhar severo. “Panda Poo, estou meditando.”

“Eu sei, mas... mãe, eu realmente preciso te contar uma coisa.”

Mamãe suspirou. “O que é, Pandora?”

Eu esperei um pouco. Eu tinha que dizer agora ou eu iria amarelar e não dizer nunca.

“Você sabe... Você sabe que eu nunca tive um namorado?”

O rosto celestial da minha mãe se tornou num rosto de cão chupando manga. Seus olhos
tomaram uma forma malvada e estreita.
“Claro que você não tem, Pandora. Garotos ficam para depois. Muito depois. Quando você
crescer.”

Eu lhe dei um olhar severo. “Vê? É isso, mãe, eu sou tipo crescida agora.”

Minha mãe riu e isso me incomodou.

“Isso não é engraçado, mãe. Você não me leva a sério. Eu não sou mais pequena. Olha-“ eu
levantei minha blusa e mostrei a ela meu sutiã 44. “Meus peitos são super enormes.”

A boca da minha mãe se abriu na forma de um circulo perfeito. “Pandora! Abaixe a blusa!
Nunca mais faça isso. Nunca.” Ela se levantou e começou a enrolar seu tapete de yoga
rapidamente. “Agora, eu sugiro que nós tomemos uma xícara de chá e esquecermos que isso
aconteceu.” Ela segurou minha mão e me levou a cozinha. Ela botou a chaleira pra ferver
enquanto eu sentei na mesa.

Tudo deu errado. Eu deveria ter pensado nisso melhor. Eu sou tão inútil em me virar sozinha.

“Agora, Pandora” disse minha mãe. “Chá? Ou o que você acha de leite com chocolate?”

Thomas

Terça, 4 de Agosto.

A caminho para encontrar a Panda.

Depois do trabalho eu fui à loja do Sr. Sharma para comprar uma rosquinha para a Panda. Ele
estava inclinado no balcão lendo jornal e cutucando seu nariz. O barulho da porta o fez pular.
Eu fingi estar procurando alguma coisa no meu bolso e quando olhei para cima ele estava
arrumando os cigarros.

“Tudo bem, Thomas?”, ele disse.

“Muito bem, obrigado Sr. Sharma. E com você?”

“Aproveitando o clima, de qualquer jeito. O de sempre?”

Eu afirmei com a cabeça. Sr. Sharma é um pessimista de verdade. Para ele as coisas boas eram
meramente uma consolação pequena para uma vida horrível.

“Aonde a Pandora está hoje?”, ele disse botando uma rosquinha de doce de manteiga e creme
numa sacola de papel.
“Eu estou a caminho para encontrá-la.”

“Eu aposto que está. Você é um sortudo da porra, não é?”

“Sim, eu sou”, eu não pude conter um sorriso.

“Bem, não faça nada que eu não faria.”

Eu ignorei isso. Mr. Sharma no quesito paixão não é uma imagem que eu queria em mente.
Até ele presumiu que eu e Pandora tínhamos uma relação sexual. Todos meus amigos
presumem que eu e Panda temos uma relação sexual. Acho que as únicas pessoas que não
presumem que estávamos comme les lapins como dizemos aqui, eram minha mãe e a mãe de
Pandora e não acho que elas estavam convictas.

Não é que eu não queira transar com a Pandora. Eu só quero que seja parfait. Eu não estou
interessado em fazer em qualquer canto como animais. Esse é o gosto do Cook, não o meu.

Eu caminhei para encontrar Pandora com uma convicção renovada. Essa menina que eu amo
merece algo melhor do que uma transa rápida embaixo de um banco. Mas quando me
aproximei do nosso local de encontro no ponto de ônibus eu podia ver Panda andando pra
cima e pra baixo que nem uma pessoa louca e apertei o passo.

“Olá, Panda”, eu abri um sorriso largo para minha garota, mas eu não conseguia fazer com que
ela sorrisse, ela estava realmente triste. “O que aconteceu?”

“Não é bom, Thomas”, disse Pandora secando lágrimas de suas bochechas. “Não é bom,
porra.”

“O que acontecera?”, eu sentei no banco protegido e acenei para Pandora sentar-se perto de
mim. “Você brigou com sua mãe?”

“Não, para falar a verdade”. Panda fungou. “Bem, mais ou menos. Eu quero dizer...”, ela
fechou seus olhos. “Ela não me escuta, eu tentei contar a ela sobre você. Sobre como sou
crescida agora. Crescida o bastante para ter um namorado e fazer coisas com ele, entende?”.

“Pandora! Você falou com sua mãe sobre sexo?”.

“Eu quis”, Pandora segurou minha mão. “Mas eu nem consegui chegar tão longe assim.”

“Obrigado, Deus por isso”, eu suspirei alto. “Não é muito respeitoso da sua parte falar com a
sua mãe sobre essas coisas. Ela não quer saber disso”.
“Bem, ela deveria!”, Pandora gritou. Ela soltou a minha mão. “Já está na hora, Thomas. Eu
estou pronta.”

Eu olhei pra baixo e a rosquinha em sua sacola. “A questão é. Pandora, que eu não sei se estou
pronto para isso ainda. Não com você. Você é especial. Eu não quero estragar isso”.

“Você não me ama, então?”. Pandora pareceu petrificada. “Você não pode me amar”.

“Não, é precisamente porque eu te amo que não quero pressionar para fazer isso”, eu
respondi. “Nós temos tempo, Panda. A hora será em breve”.

Effy

Quarta, 5 de Agosto.

Numa cafeteria em Veneza.

Porra, está quente aqui. Eu finalmente tirei minhas botas e botei meus chinelos ontem. Umas
Havaianas verdes que minha mãe me comprou por uma estúpida quantidade de dinheiro.
Primeiro eu me sentia nua com elas. Minhas botas e eu passamos por um monte de merda
juntas. Tipo, elas são minha armadura.

Eu me levantei muito cedo essa manhã. Eu não consigo encarar sentar numa mesa com sua
estranha superfície de plástico, comendo aquele pão duro italiano com geléia, junto com
minha mãe fingindo estar alegre tentando pensar em coisas para fazermos juntas. Ela deve ter
lido aquela porra de Guia de passar o tempo em Veneza de ponta a ponta e agora ela quer que
nós vamos para um tour cultural, ter certeza de que nenhuma parte de Veneza não foi
revirada.

Ela está tentando, eu sei que está, mas tudo o que ela faz está me dando nos nervos.

Desde nosso primeiro dia eu estava esperando dar de cara com Aldo de novo. Eu até passei em
seu andar super devagar e parei na escada, tentando escutar sua porta abrir. Eu não tenho
colhões para bater na porta.

Mas essa manhã nós nos encontramos nas caixas de correio. Ele estava mexendo em sua
correspondência. Meus chinelos estavam fazendo mais barulho do que minhas botas,
enquanto eu andava em sua direção. Não passo por envergonhada, então fui para perto dele.
Aldo olhou pra mim e sorriu.

“Bom dia”, ele disse. “Como você e sua mãe estão?”
“Bem, obrigada”. Eu olhei para a correspondência em suas mãos. “Você tem um monte de
cartas aí.”

Aldo suspirou. “Sim, sim. Sempre contas apra pagar, dinheiro para os advogados de minha
esposa. Dinheiro para meus filhos... E para esse apartamento. Nunca acaba”.

Minha esposa. Quem teria traído com outra pessoa?, eu pensei. Ele ou ela?

“Você tem filhos?”, eu perguntei inocentemente, para ganhar tempo. “Você não mora com
eles?”

“Eu estou me divorciando da mãe deles”, ele disse. “É necessário me afastar deles também,
embora eu não queira. É difícil.”, ele balançou um envelope marrom na minha frente. “E é
muito caro!”

“Desculpa”, eu disse. “Deve ser meio que uma merda”.

Aldo deu de ombros e botou as cartas no bolso de sua jaqueta e me deu um olhar longo.

“E aonde está seu pai?”, ele disse sendo direto.

“Eu não faço idéia”, minha vez de dar de ombros. “Eles estão separados.”

“Desculpe-me. Coitada de você”, ele disse. “É mais difícil para as crianças”.

Nós fizemos silêncio. Sujeito legal, eu pensei. Generoso, mas nem tanto intrometido.

“Então, Effy”, ele disse depois de um momento. “O que você vai fazer hoje?”.

“Sei lá. Talvez explorar mais um pouco”, eu disse. “E me perder, provavelmente”.

“É uma cidade labirinto, há definitivamente o risco de se perder se não conhecê-la”, ele fez
uma pausa. “Mas algumas vezes pode ser... libertador estar perdido”, ele me olhou nos olhos
enquanto falava. “Não acha?”.

Venha comigo.

“Talvez você possa vir... me mostrá-la?”.

Ele olhou seu relógio e então, bem naquela hora, eu vi seus olhos trêmulos sobre meu corpo.
Ele parou.
“Por que não?”, ele disse. “Vai me fazer bem também”, ele me gesticulou primeiro a porta.
“Vamos lá.”

“Aonde vamos?”, eu perguntei.

“Santa Maria Del Miracoli” ele disse enrolando as palavras em sua língua.

Eu imaginei sua língua em outros lugares. Meus peitos, para começar.

“E isso é?”

“Uma igreja.”

“Ótimo.”

“Você irá amá-la.”, ele disse.

“Eu sou atéia”, eu disse.

Ele balançou a cabeça, me dando um pequeno olhar decepcionado. “Vamos lá, você com
certeza é mais inteligente que isso.”

Jesus, até parece que eu me tornei Katie Fitch, a rainha da grosseria e superficialidade.

“Foi uma piada”,. eu disse debilmente. “Mais ou menos”.

Aldo me sorriu encorajadoramente.

“Ah, o senso de humor inglês! Eu preciso tempo para me adaptar, acho”.

Nós entramos num labirinto de ruas de pedras e becos onde, em cima, as roupas se secavam
nos parapeitos das varandas. Nós enxotamos os gatos famintos para pararmos num pequeno e
mal tratado quadrado. Um sino soava alto.

“Aqui”, disse Aldo, apontando para um estranho prédio com uma fachada plana. “O lugar mais
bonito em Veneza”.

Não parecia nada para mim. Não como a igreja que meu pai me arrastava com meu irmão
Tony todo domingo quando éramos crianças. Nos tempos em que meu pai se taxava de
‘espiritual’. Idiotice total, obviamente. Aquela igreja era grande, gótica, majestosa. Essa
parecia com nada, vista externamente.
Aldo sentiu que eu não estava impressionada. “Só espere”, ele sussurrou como se fosse
compartilhar um segredo fantástico.

Eu senti uma faísca quando ele pegou minha mão e me levou silenciosamente até as portas de
madeira e por lajes de mármore, e então eu o pude entender. As paredes estavam
literalmente cobertas com mármores marrons e marfim, nos levando a uma altura louca, um
teto de madeira entalhada. Era fantástica. Eu poderia estar mais imersa se eu não tivesse
consciente da mão de Aldo nas minhas costas, bem no meio de minhas omoplatas.

“Bem”, ele disse. “O que você acha?”.

“Eu acho que é fantástico pra porra”, eu sussurrei.

Aldo inclinou-se e sussurrou no meu ouvido: “Sua linguagem é um de certa forma
inapropriada, Effy, mas o seu coração está no lugar certo”.

“Obrigada”, eu disse, estranhamente emocionada.

Mas ele estava errado. O meu coração com certeza não estava no lugar certo.

Cook

Quinta, 6 de agosto.

Em um ponto de ônibus.

“Puta que o pariu”, eu tirei o baseado da minha boca e dei para o Freddie. “Mais fraco do que
mijo, isso. Quem te deu isso, cara? É horrível.”

Freddie me deu uma daquelas caras de cachorrinho perdido. Deu de ombros com aqueles seus
ombros de skatista idiota. “Não sei. Um amigo da Karen, acho.” Ele examinou meu rosto, que
estava incrédulo pra porra. “Não, não o Johnny White. Eu não sou tão burro.” Ele deixou o
baseado na sarjeta.

“Bom ouvir isso, meu amigo”, eu bati em seu braço, levantei a mão e a balancei no ar. “Você
andou levantando empilhadeiras, Fredster? Seus bíceps: mais fortes do que um tijolo”.

JJ deu aquele seu sorriso sereno. Não bebe, não fuma de verdade. Nosso Looney Tune da casa.
O que ele usa para agüentar as coisas? Ele olhou para o baseado encharcado. “Vocês são
perspicazes o bastante para brigar com esses dois policiais com olhares bravos vindo em nossa
direção? Ou vocês são maricas? Literalmente ou de outra forma.”,ele se curvou, pegou o
baseado e jogou sobre seu ombro.

“Seu retardado,” surgiu uma voz irritantemente velha . “Caiu bem em cima das compras que
fiz”.

Freds, JJ e eu demos de ombro. Fred e eu sorrimos. Não a conhecíamos, não ligávamos.

“Vocês têm nenhum respeito a nada nos dias de hoje”, a bruxa continuou. Ela deu uma
cotovelada nas costas de JJ. “Você, rapazinho, eu conheço sua mãe... ela busca meus livros da
biblioteca para mim. Ah, eu vi você no carro dela. Não pense que eu não falarei a ela o que
você anda fazendo.”

“Eu não. Eu não estava-“ balbuciou JJ vermelho que nem a porra de uma beterraba. Fred e eu
bufamos com uma risada. E eu não conseguia me conter, me virei.

“O que acham de uma rapidinha?”, eu disse correndo minha língua sobre meus lábios. “O
ônibus não vai chegar aqui tão cedo”, eu disse enquanto a velhinha armava e desarmava sua
armadilha, os três mosqueteiros andavam até a casa do Fred.

Eu tinha uma aposta para ele.

Freddie

No galpão

“Certo, Freds”, disse Cook esfregando suas mãos como um homem velho e safado. “Eu tenho
uma oferta que você não vai recusar”. Não gostei como isso soou, porque ele estaria certo
provavelmente. Cook tem um jeito de conseguir tudo o que quer.

“Você vai amar essa, um joguinho pra passar o tempo, só eu e você”.

“E o JJ?”, eu disse.

“Jay já está curtindo o mundo dele, não é Jaykins?”. Cook se inclinou pra frente na cadeira que
ele gostava de chamar de sua – ficava no meu galpão, mas que seja – e apontou seu cigarro
para mim.

“Você fez ontem à noite, né?”

“Sim. E daí?”
“Foi bom, não foi?”

“Foi divertido. Isso vai chegar a algum lugar?”

“Bom, então: quatro semanas, eu e você, quem conseguir mais xoxotas ganha. Tem de ter
penetração profunda, cara, e acertar duas vezes o mesmo passarinho não conta”.

“Legal”, eu disse sarcasticamente. Mas a idéia do Cook não era tão ruim. Não envolvia nada
ilegal para começar. E por várias razões eu estava querendo variedade sexual. Que se foda.

“É, tudo bem então.”

“Resposta certa, meu amigo. Gayjay vai marcar os pontos, mas vamos ter que roubar algumas
evidências para dar para ele. Calcinha grudenta, camisinha gozada... esse tipo de coisa”.

“Isso realmente não parece sórdido”, eu disse secamente.

Mas realmente não importava pra mim. Como eu disse, eu já cansei de fazer
significativamente. Eu amei uma garota, ela caiu fora e me deixou. Eu não vou cair nessa
armadilha de novo.

Eu ainda checava meu telefone de hora em hora, para falar a verdade.

O que ela estaria fazendo agora?

“Então,” Cook estendeu sua mão. “Que o melhor homem ganhe.”

Eu apertei meus olhos. Então esse é seu jogo, não é? Eu pensei. Que se foda então.

“Absolutamente”, eu disse ignorando sua mão. “O jogo começou.”

JJ

Loja de Kebab

“Cai fora, frutinha”, disse Cook. “Isso tem nada a ver com a Effy. Então, você vai marcar a
pontuação?”

Eram 2 da manhã e eu e Cook estávamos num canto do Abrakebabra. Nós tínhamos ido no
Caves, onde Fred e Cook transaram (não um com o outro, o Cook também dispôs essa regra
em algum canto. E não no clube literalmente, o que eu acho que é desaprovado: Cook fez em
um beco e Freddie saiu para a casa da menina). Pandora, Thomas e Naomi estavam lá também
então foi uma boa noite mesmo que eu só tenha dançado sozinho e tentando não pensar no
fato de que eu era o único sem a opção de sexo pós clube. Eu estava sentado durante uma
canção tomando minha água com gás quando Cook reapareceu.

“Eu pensei que você estava transando”, eu gritei.

“Sim, terminei. Escuta Jay, eu tenho um plano. Vamos” e ele me levou à loja de Kebabs e me
comprou uma espécie de batatinhas.

Ele me explicou as regras no qual meio que fazia sentido. Num jeito totalmente moralmente
duvidoso, obviamente.

Há uma razão do Cook fazer esse jogo. Eu não sou fã de psicologia não autêntica e atualmente
eu sou um lixo em coisas com um lado de compromisso empático/emocional, mas nesse caso
até eu conseguia perceber. Effy queria o Freddie todo o tempo que ela ficava com o Cook:
Cook perdeu o jogo. Então ele inventou um onde poderia ganhar, o que provavelmente vai,
como relações sexuais para o Cook é tipo o sol amarelo da Terra para o Super Homem: sem
ele, eles não tem poderes ou acham que não têm (onde a analogiacom super homem se
quebra a menos que você conte encarnações pré-1986, ele realmente não tem poderes sem
energia solar, enquanto estou quase certo de que o sangue vai continuar sendo bombeado
pelo coração para o corpo de Cook mesmo que se ele não tivesse uma exposição regular às
partes safadas de uma garota).

Eu demonstrei minha análise ao Cook. Ele não parecia impressionado, por isso o comentário
de babaca.

“Ok, eu vou marcar os pontos”, eu disse finalmente. “Mas, sem interesse nenhum, por que
você não quis que eu fizesse parte do jogo?”.

Cook sorriu de uma maneira infantil. “Porque você iria perder, Jaykins”.

“Eu pensei que o que importasse fosse competir”, eu disse ficando um pouco carrancudo.

“E é sim. Que é outra área onde você não se dá bem, meu amiguinho virgem”.

“Sai fora. Eu não sou virgem”.

“Poderia passar por um, amigo”.

Um ponto justo onde eu não podia argumentar.
Considerando tudo, eu estava grato pelo Cook ter criado esse jogo. Significava que ele e
Freddie eram amigos novamente, que eles ficariam felizes, e portanto eu ficaria feliz também.
Relativamente falando, obviamente.

Effy

Quinta, 6 de agosto.

Veneza, à noite.

“Então, Effy, o que você acha de Vivaldi?”

Aldo e eu estávamos voltando de uma caminhada. Eu estava fazendo o que o Tony chamava de
caminhada amadora e instável, esbarrando levemente nele. Ele estava com as duas mãos nos
bolsos.

Que seja, ele iria se aquecer eventualmente.

“Vivaldi”, eu repeti lentamente. “Four seasons, né?”

“Isso mesmo”, ele disse. “Ele era de Veneza. Há concertos dele todo o tempo aqui, mas tem
um hoje à noite que eu sei que vai ser excelente. Talvez você queira ir. E sua mãe, claro?”

“Eu acho que ela odeia todas essas coisas clássicas”, eu disse. O que era verdade, por sorte.
“Mas eu vou dar uma chance e ir.”

Merda. Igrejas velhas e Vivaldi, nem Pandora acreditaria nisso.

“Excelente”, disse Aldo. “É a sua música, Gloria. Um pequeno trabalho de um coral. Lindo”.

Nós caminhamos em silêncio por um instante. Eu sentindo sua presença como a porra de um
brilho de um Ready Brek. Na entrada do prédio, Aldo parou para pegar uma carta que havia
deixado para trás antes.

“Até essa noite, Effy. Eu te encontro no seu apartamentos às sete”.

Minha mãe pareceu confusa quando eu disse a ela que iria a um concerto com um homem de
meia idade.

“Diz quem ele é de novo?”, ela disse com um olhar de soslaio para mim por trás da fumaça de
seu cigarro.
“Ele mora nesse prédio. Eu o ajudei a abrir seu apê quando ele ficou trancado para fora”, eu
disse. “Olha, é só algo para fazer, nada do além.”

“Certo. Fico imaginando qual interesse ele possivelmente poderia ter em você”, ela disse mais
dura do que a porra de um osso.

“Eu não sei. Um culto ao demônio? Pergunte a ele quando vier me buscar”, eu sabia que ela
não iria, ainda bem.

Quando Aldo chegou eu tinha acabado de sair do banho, então eu gritei para minha mãe
deixá-lo entrar. Eu me deparei com eles conversando na mesa da cozinha, cada um com uma
taça de vinho. Ele tomou o seu drink e se levantou.

“Foi um prazer te conhecer, Anthea”, ele disse. “Você tem certeza de que eu não posso te
persuadir a se juntar a nós?”.

“Eu tenho certeza”, disse minha mãe. “Obrigado, de qualquer jeito.”

Eu segui Aldo pelo sala e a olhei sentada na mesa com seu livro de guia turístico aberto.

Pobre vaca.

Eu não estava muito esperançosa para o concerto, e quando terminou, eu já não estava
ouvindo. Foi difícil com Aldo perto de mim, cheirando a Dolce e Gabanna ou Versace ou o que
seja. Seu braço estava tocando no meu. Só isso. Mas ele nunca olhou para nenhum lugar a não
ser sua frente. Nem mesmo quando eu cruzei e descruzei minhas pernas provocativamente.

Mas no começo, quando a orquestra tocou, a música começou e o coral começou a cantar de
repente, eu podia escutar o som ecoando pelo teto, bem; foi estranho. Era tocante.

Lembre-se, Effy, eu pensei, tu não deves se emocionar.

“Maravilhoso”, ele disse enquanto saíamos na umidade. Eram dez e meia e 28 graus. Ele me
recompensou com um sorrisinho em seu rosto. “Eu espero que você não tenha odiado cada
minuto daquilo?”

“Não, eu...gostei”, eu disse. “Eu achei a experiência divertida”. Era verdade. Eu gostara de
sentar perto dele. Eu teria preferido se ele botasse a sua mão na minha coxa e deslizasse por
entre minhas pernas, mas pelo visto sujeitos mais velhos não são tão diretos em avançar.
“Fico contente por isso.” Aldo disse. “Agora, o que você quer fazer? Uma caminhada de volta
ao apartamento?”

“De boa”, eu não queria voltar, acho. Eu estava me divertindo.

“Nós devemos pensar em algo para fazer da próxima vez, que sua mãe achasse divertido”,
Aldo teve esse devaneio enquanto andava devagar pra cima e pra baixo por pequenas pontes.

Devemos?

“A coisa é que ela não está muito...sóciavel atualmente”, eu disse deslealmente. “Coisas
pessoais a estressando. Você sabe”.

“Ah”, ele me olhou. “Eu posso simpatizar com isso”.

Legal.

“Coisas pessoais muito complicadas”, eu acrescentei. “Você não vai querer saber.”

“Entendo. Você é protetora com ela, eu posso ver. Deve ser difícil para vocês duas.”

“O quê?”

“Bem”, ele pareceu estranho. “Seu pai não estar por perto.”

“Eu não acho que seja nem um pouco difícil pra ela”, eu disse.

Eu podia sentir seus olhos em mim. “E por quê?”.

“Porque é o que ela queria. Ela sempre consegue o que quer. E então vira uma bagunça
gigante e ela começa a reclamar disso”, eu olhei através dele calmamente. “Eu não tenho nem
um pouco de pena dela.”

Se Aldo estava surpreso com a minha falta de coração, ele não demonstrou. Ele puxou meus
braços porque um casal quase nos acertou e eu me achei temporariamente sendo puxada para
seu peito. Senti o calor vindo dele. “Por experiência as coisas raramente são facéis assim”, ele
disse quietamente. “Talvez seja digno tentar entender.”

Que se foda. Eu quase ri na cara dele. Invés disso eu botei a mão na minha testa e fechei os
olhos.

“Effy? Você está bem?”
“Só um pouco tonta”, eu menti. “É o calor”.

Ele sentiu minha bochecha com as costas da mão. “Você está um pouco quente”. E le balançou
a cabeça. “Vocês, mulheres inglesas. Criaturas tão fragéis”.

Nossos olhos se prenderam um no outro.

Eu prendi seu olhar. Olhei para sua boca aberta e macia, bochechas bronzeadas e seus cílios
negros.

Eu queria que você me beijasse.

Em vez disso ele pegou meu braço e me guiou por sobre a ponte e pelos becos pavimentados
com godo de volta ao nosso apartamento.

Eu voltei e andei até a cozinha para me deparar com minha mãe sentada na mesa tomando
Sambucca com uma velhinha. “Essa é Florence”, disse minha mãe. “Ela mora no apartamento
vizinho. Florence, essa é minha filha, Effy”.

Ela parecia uma anciã (a velhinha, não minha mãe, embora os últimos meses tenham tirado
um poucoseu brilho), sua pele coberta por rugas, mas com postura ereta, sua mão firme
enquanto segurava sua caneca. Ela era magra como um rodo, com cabelos brancos e
brilhantes retorcidos e presos em sua nuca. Ela estava usando uma camisa-vestido azul
petróleo com uma vertente tripla de continhas pretas até a rachadura, onde seus peitos
estariam se ela tivesse algum.

“Prazer em conhecê-la”, disse Florence. Inglesa.

“Igualmente”, eu disse. “Eu gostei de suas continhas.”

Ela as tocou. “Ah, obrigado” ela disse. “Elas são adoráveis, não são? Ébano genuíno, claro, o
que eu acho que estaria enrugado agora se eu não tivesse comprado aos setenta. Não tem
substituto para o genuíno, tem, Effy?”

“Acho que não”, eu disse. Brilhante pra porra, nós viajamos centenas de quilometros para
Itália e minha mãe fica amiga com uma velhinha senil inglesa e tagarela.

“Florence se mudou de Londres para cá dez anos atrás”, disse minha mãe.

“Meu marido era italiano, mas nós vivíamos em Winbledom” disse Florence. “Quando ele
morreu, eu senti uma urgência tremenda de voltar para a Itália. Realmente perversa”.
“Sim.”

“Eu decidi vir a Veneza porque foi o lugar que fizemos amor pela primeira vez. Dois de
setembro de 1939, o dia antes da guerra ser declarada. A ecstasy antes da agonia, por assim
dizer. Benito era um amante estupendo. Dedos bonitos”

Ok, talvez eu fosse passar a gostar dela.

“Você tem um amante?”, Florence me perguntou enquanto eu sentava na mesa. Mamãe
soltou um riso fraco. Eu estudei o rosto da senhora por um momento. Ela era real?

“Não na verdade, Florence”, eu disse. “Você tem?”

Florence começou a rir e terminou tossindo emitindo aquele som como se estivesse liberando
anos de fumaça de cigarro. Ela bateu em seu próprio peito e disse “Ha ha! Touché, Effy! Ai,
esses dias estão acabados para mim. Sinto em dizer que é um caso em que nem o espírito,
nem a carne querem. Hoje em dia eu uso Sudoku para dormir.”

“Boa dica, Florence”, eu disse sem conseguir tirar um sorriso genuíno do meu rosto. “Eu vou
tentar isso quando a hora chegar.”

Aquela noite de sono demorou a chegar. Eu deitei acordada por horas, um híbrido de Aldo,
Freddie e Cook invadindo minha mente e meu corpo. Eu trabalhei com os meus dedos dentro
de mim. Eu o queria em todo canto.

Eu queria acordar perto dele.

Emily

Sexta, 7 de Agosto.

Hotel Bonjour France Vacance! perto de Bordeaux, França.

“Aaah, oi” disse Katie alto, sacudindo o cabelo como um rabo de cavalo bagunçado. “O que
temos aqui?”

Era o quarto dia de nossas alegres férias em família, mas o primeiro dia aqui no Butlins de La
Mer. Nós havíamos passado alguns dias na casa de Cecile e Ed (amigos de nossos pais) em Lyon
por alguns dias e Katie e eu fizemos um bom trabalho em evitar uma a outra, ajudado pelo
fato de Fabien, o filho de dezenove anos de Cecile, ter transado com ela no quarto dele na
maior parte do tempo. James não é uma companhia muito melhor, mas pelo menos eu posso
bater nele toda vez que ele abrir a boca.

Então agora eu e Katie estávamos tolerando um momento raro de ocupar a mesma
proximidade, sentadas no monte de pedras decorativas do lado de fora do nosso chalé
observando uma família chegar subindo os degraus até os deles. Um rapaz em boa forma com
cabelo cacheado e escuro e membros longos e marrons estava trazendo um carregador de
Linux e uma mochila enorme. Katie inclinou-se em seus braços, colocando suas pernas numa
posição em que elas pareciam mais longas e magras do que elas realmente são.

O rapaz subiu as escadas, ele não parecia tê-la escutado, nem ao menos dado uma olhada
nela. Má sorte, Katie.

“Ei”, ela disse bruscamente. “Você é surdo cego ou alguma coisa?”

Ele parou e olhou para ela. “Quê?”

“Esqueça”, disse Katie levantando e tirando areia de sua bunda. “Perdedor”, ela escalou
arrogantemente as pedras até a praia.

“Encantadora”. Ele olhou pra mim, reagiu e levantou suas sobrancelhas. “Jesus, tem duas de
você?”

Eu ri pela primeira vez em quatro dias. “Ignore-a”, eu disse, estendendo minha mão. “Nós nem
somos tão idênticas. Meu nome é Emily.”

“Josh”. Ele era doce, eu tinha de admitir. Katie ia estragar tudo com seus ataques. Ele olhou de
volta pra ela, andando furiosamente pela areia.

“Sua irmã sabe que sua mini saia está enfiada em sua calcinha?”, ele disse.

Eu passei a gostar dele. “Ah, ela sabe com certeza”, eu disse, enquanto minha mãe saia do
chalé radiante como um radar hétero. Eu me levantei rapidamente. “Melhor ir, te vejo
depois.” Eu saltei por trás de minha mãe que provavelmente estava planejando sua roupa para
o casamento.

“Definitivamente”, disse Josh “Até mais tarde, Emily.”

“Então?”, disse minha mãe quando nos sentamos para jantar. “Você fez um novo amigo então,
querida?”. Boa jogada, ela estava se segurando por uma hora inteira enquanto deixava a
comida pronta.
“Que? Quem?”, eu disse inocentemente e comi uma garfada de carne de cordeiro.

“O garoto Josh, não é? Ele é muito bonito.”

“Ah, ele”. Eu alcancei o vinho tinto para me servir mais uma taça. “Sim, mãe, ele tem uma boa
aparência. Acho que a Katie está de olho nele. Né, Katie?”

“De jeito nenhum”, Katie rosnou, empurrando sua comida em seu prato. “Meninos bonitos
que nem ele não são meu tipo”.

Que nem uma porra louca eles não são.

“Nem o meu”, eu disse claramente pra minha mãe. “Obviamente.”

Minha mãe revirou os olhos e deu um sorrisinho totalmente enfurecido. “Isso que vamos ver.”

“Ah, mas vocês poderiam conquistar muito mais”, ela disse. “As duas”, ela começou a recolher
os pratos e levá-los ao balcão da cozinha. “Alguém está afim de torta de maçã?”

Aqui vamos nós.

“ALÔ? EU SOU LÉSBICA!”, eu sibilei alto.

“O que quer que você diga, querida!”, cantarolou minha mãe distribuindo porções de torta.

Jesus. Eu preferia quando ela negava furiosamente. Seriam duas semanas inteiras só dessa
merda.

“Sem sobremesa para mim”, eu disse pegando meu telefone. “Eu tenho uma ligação pra
fazer.”

Eu passei por minha mãe que ofegou, desesperada pra ser a última a falar.

“É”, disse Katie. “Nada pra mim também. Tenho de tomar cuidado com meu corpo fabuloso.”

“Mesmo que ninguém tome”, eu fiz uma observação. Eu fui direto para o quarto batendo a
porta na cara da Katie quando ela chegou lá.

“Porra de vadia coladora de velcro”, ela disse batendo na maçaneta agressivamente.

Eu a deixei entrar depois de minutos de socos e batidas na porta e decidi ligar pra Naomi em
um lugar mais privado. Na praia daria. Eu deixei Katie se amarrando nela mesma, como a
irmãzinha do Jordan. Cílios postiços, base como cimento, saia indo até sua xoxota. Mas o que
eu estou falando... Eu tinha certeza de que ela ia encontrar um idiota pra transar com ela. Eu
não imaginei que o pessoal se agitaria tanto por conta do Foam Nite – uma balada da vila
organizada pelos resorts. Eu preferiria me matar a ir àquela pequena aglomeração.

Estava uma noite clara enquanto eu caminhava até a praia. Céu ficando mais escuro de um
tom azul. As estrelas estavam começando a aparecer. Eu deitei na areia olhei pra cima e pensei
na Naomi. Eu sentia muito falta dela. Chequei as horas no meu celular: nem tão tarde para
ligar. Ela atendeu imediatamente.

“Oi, amor”. Era tão bom ouvir sua voz que eu poderia ter chorado.

“Oi, você. Como andam as coisas?”, eu disse.

“Ah, você sabe. Fantásticas. Ver minha mãe e seu namorado se amando não pode ser
subestimado como uma forma de incrível entretenimento. Eu nunca soube como é
estimulante ver dois desesperados apalpar um ao outro a cada segundo da porra do dia
inteiro.”

“Porra, docinho. Isso é malvadeza.”

“Sim. É uma merda. Mas hoje seria uma merda de qualquer jeito”, ela suspirou. “E você?”

“Mesma coisa. Estou ficando louca. Minha mãe está tentando fazer com que eu saia com um
garoto”.

“Oh, Deus. Com quem?”

“Um rapaz do chalé vizinho. Ele é OK.”

Silêncio.

“Eu obviamente não estou interessada”.

“Tanto faz. Acha que eu ligo?”

“Eu mais que espero que sim!”

Eu sabia que ela estava sorrindo, porque ela não respondeu.

“Eu queria que você estivesse aqui comigo, agora.”

Naomi soltou um gemido. “Eu também, não consigo parar de pensar em nós na minha cama.”
“Eu sei.” Eu hesitei. “Me lembre...o que nós estávamos fazendo na sua cama?”

“Bem...”, Naomi começou, mas ouvi passos atrás de mim.

“Porra, alguém está vindo”, eu sibilei no telefone. “Eu te ligo depois.”

Eu virei para ver quem estava me assustando. Era Josh.

“Quem é você? Algum tipo de pervertido?”, eu disse olhando para ele. Eu não podia ver muito
no escuro, mas eu poderia dizer que ele estava sorrindo.

“Hã, não”, ele disse. “Não, eu sou alguém com orelhas. Não tem mistério: o som viaja.”

“Tudo bem”, eu disse a ele, agarrando meu telefone.

“De boa. Bem, desculpa. Eu vou te deixar sozinha”, ele disse. Ele marchou para fora da praia.

Eu me senti um pouco má.

“Ei”, eu o chamei. “Se você estiver sem nada pra fazer amanhã... nós poderíamos, você sabe,
sair juntos ou algo assim”.

Josh sorriu. “Claro”, ele disse agora andando de costas. “Eu iria gostar disso. Só dê uma batida
na nossa porta.”

“Excelente”, eu disse dando um tchauzinho alegre.

Eu o olhei até entrar em seu chalé, então peguei meu telefone e apertei rediscar.

“Ei, você”, eu disse. “Eu estava com medo que você tivesse ido dormir.”

“Sem chance. Não enquanto eu estiver pensando em te despir.”

“É?”

“Você esta com sua calcinha branca de algodão e eu estou beijando o interior de suas
adoráveis coxas.”

“Eu deveria tirar minha calcinha?”

“Não... eu estou fazendo isso. Então eu vou me mover mais para cima... Primeiro devagar,
depois...”

“Rápido”, eu disse sem ar. “Faça mais rápido.”
“Você ama isso”, ela disse.

“Eu amo pra caralho. Você pode ver meus peitos?”

“Sim, e você está tocando neles. Seus mamilos estão durinhos. E eu estou me esfregando para
cima e para baixo na sua coxa”.

“Jesus...”, meu coração estava pulando, ficando mais rápido. Eu tinha minha mão na minha
calcinha, minhas mãos sondando enquanto eu imaginava que era a língua da Naomi. “Eu vou
gozar”, eu disse. “Eu quero te beijar-“.

Com um ímpeto eufórico, eu gozei, com uma mão trêmula agarrando o telefone para perto do
meu ouvido.

“Eu te amo”, eu disse ao mesmo tempo que Naomi. “Eu te amo muito.”

Katie

Sexta, 7 de Agosto.

Eu desci do pinto cada vez mais mole do garoto.

“Transa excelente pra porra, querida. Você é gostosa”, ele disse puxando a camisinha pra fora
e descendo para puxar seus shorts que estavam em seus tornozelos.

Eu tirei a areia das minhas roupas e me vesti. “Sim, brilhante. Te vejo por aí.” Eu me inclinei,
beijei-o e dei uma acariciada rápida em suas bolas, só para ele se lembrar de mim. E saí da
praia indo em direção ao mar. Eu não tenho intenção de vê-lo de novo, mas era legal sair
deixando uma nota alta.

O Foam Nite da vila era obviamente idiota pra caralho, mas pelo menos eu transei. Para ser
honesta, eu poderia até escolher com quem. Eu estava usando meu vestido novo verde limão
por cima do sutiã e calcinhas com estampa de leopardo. E me depilei quase toda com cera
antes de sairmos de Bristol. Quando cheguei ao clube eu fui direto para o bar. Antes de eu ter
a chance de fazer o pedido, alguém estava me oferecendo um drink, mas não fazia o meu tipo,
então educadamente neguei. O próximo a chegar em mim era melhor. Alto, boa aparência,
sorriso atrevido.

“Posso te pagar uma bebida?”, ele gritou por causa do barulho. Eu o olhei de cima a baixo,
captei uma amostra de sua cueca branca e brilhante acima de seus jeans, camisa azul
desgastado, cabelo preto despenteado e sorri meu sorriso mais fofo. “Claro. Vou querer um V
‘n’ T, obrigada”. Ele sorriu e se inclinou por cima de mim para fazer o pedido. Ele cheirava bem.

“Como você está aqui sozinha?”, ele disse, entregando meu drink. “Onde está seu namorado?”

“Eu não tenho um namorado”, eu disse. “E eu não vim aqui pra ficar só dançando”, eu olhei
para ele, piscando bastante.

“Garota safada”, ele disse passando a mão no meu traseiro.

Meia hora depois estávamos na praia. Ele não era um amante dos mais sensíveis, mas esse
raramente é o x da questão. Sexo é sexo. E sexo era a única coisa que estava deixando essas
férias idiotas de doer aceitáveis. Isso e o pensamento sobre tudo o que eu deixei para trás.
Não tinha nada em Bristol me esperando, a menos que você conte humilhações e memórias
dolorosas. O que eu não conto, por mais que pareça engraçado. Duas semanas que eu não
poderia de jeito nenhum dar de cara com o Freddie só poderia ser boa coisa, mesmo que fosse
em um hotel de merda que seria como a porra de Blackpool, se não tivesse tanto sol.

Tomando banho de sol o dia todo e transando a noite toda. Há jeitos piores de se passar o
tempo. Eu comecei como eu pretendia seguir, transando com um cara elegante de uma
despedida de solteiro numa cabine vazia de uma balsa. Ele era vil, na verdade, vestido em sua
camisa polo e berrando “Oh deus, sim” quando gozou.

Depois Fabien na casa de Cecile e Ed. Meio nerd, mas gostava de mim, o que era o objetivo e
ele me fodeu gostoso em seu quarto por quase oito horas. Eu estou certa que seus pais sabiam
por causa do barulho, mas ninguém disse nada. Deve ser normal na França. Eles se sentem
mais confortáveis com relação ao sexo. Na verdade, foi doloroso depois de um tempo, mas eu
já me acostumei com a dor. Não me afetava. Melhor do que não sentir nada.

Emily não aprova, claro, mas ela podia ir se foder. Ela não consegue lidar com o fato de que eu
sou mais pegável do que ela. É, ela esta andando por aí agora com aquele olhar convencido em
seu rosto, como se o sonho do amor jovem tivesse dado um soco em sua cara. Mas eu tenho
uma notícia para ela: não conta se você for uma sapa. Não é a mesma coisa, porra.

Quando eu cheguei a Emily já tinha adormecido. Eu sentei na minha cama e tirei minhas
roupas. Meu corpo se sentia como estivesse ferido, machucado. Eu quase sempre durmo
pelada, mas eu roubei uma das blusas gigantes de lésbica da Emily, deitei na cama e botei
meus joelhos perto de meu peito.
E tentei não chorar.

Emily

Sábado, 8 de Agosto.

No chalé.

Já passara da uma da manhã quando fui para a cama e só Deus sabe quando a Katie foi, então
nenhuma de nós estava interessada quando nosso pai tentou nos acordar às oito e meia. Eu o
mandei pra fora, mas consegui captar as palavras ‘família’ e ‘aulas de surfe’. O bastante para
garantir que eu ficasse em estado de coma até meio dia. Quando eu acordei Katie tinha ido
embora e eu tinha a casa só para mim. Euforia. Eu fui até a cozinha em meus pijamas e
preparei um copo de chá. Eu estava passando geléia no pão quando minha mãe, meu pai e
James voltaram da manhã de esportes aquáticos, grudados.

“Ahá, ela acordou!”, disse meu pai. Continuava jovial então. Perfeito.

“Estou feliz que você já está de pé”, disse minha mãe, pegando a chaleira para encher de novo.
“Eu pensei que você, Katie e eu poderíamos passar a noite no SPA. Um pouco de tempo só
para as garotas. Eu disse que iria encontrar Katie na cidade daqui a pouco.”

Eu realmente, realmente preferiria não ir.

“Obrigada, mãe. Parece legal, acho, mas eu não estou querendo ir. Eu iria dar um passeio.
Sozinha.”

“Vamos lá, Emily. Sai dessa.”

Pelo amor de Deus.

“Sair do que? Eu estou bem. Eu só estou querendo uma tarde pra mim mesma.”

Minha mãe suspirou. “Tudo bem. Talvez amanhã, então”.

“É. Talvez.”

Ela continuou tagarelando no meu quarto. Tudo bem se ela não tivesse feito a proposta, mas
fez tudo parecer falso pra porra.
Eu não me incomodei em dizer que eu tinha planos pra sair com o Josh hoje. Eu iria escutar até
não ter fim. Eu esperei todo mundo ir embora antes de pegar minhas coisas pra ir para praia e
parar em seu chalé.

Eu bati em sua porta e ela abriu quase que imediatamente.

“Obrigado, Deus, por isso”, disse Josh. Eu podia ouvir uma voz alta de mulher no fundo quando
ele puxou a porta por trás dele. Eu levantei minhas sobrancelhas.

“Minha mãe” ele disse. “Ela sabe como falar muito, Deus a abençoe. Eu convidaria você a
entrar, mas ela já está ficando molhadinha em suas calcinhas com o pensamento de uma
colega em potencial pra seu filho depravado.”

“Então”, eu pressionei. “Depravado?”.

“Longa história, Emily. Vamos dizer que mamãe não é a mulher mais progressiva do mundo.”

Uma pequena luz surgiu. “Ahá”, eu disse. “Você é gay.”

Josh tinha escovado os cabelos para trás exageradamente.

“Eu, querida? Por que você pensaria isso?”

“Só um chute.”

“Bom trabalho, Sherlock” ele olhou pra mim. “E você?”

“Também”, eu disse. “É agora que batemos um na mão do outro pra criar laços?”

Ele sorriu. “Sim, se nós fôssemos uns idiotas retardados”, ele me olhou de cima a baixo. “Eu
achei que tinha alguma coisa em você. Meu gaydar infalível, como sempre.” Ele olhou de volta
para meu chalé. “Seus pais aceitam isso normalmente?”

“Não. Eles estão fingindo que não é verdade. Você sabe, negando totalmente, esse tipo de
coisa.”

Nós chegamos ao topo das pedras. Josh tirou seus chinelos e os colocou em sua mochila.
Estava muito quente, nenhuma nuvem em nenhum canto. A praia já estava lotando.

“Quer achar algum lugar mais privado?”, disse Josh. “Eu ouvi falar que tem uma praia rochosa
perto da península.”

“Você está falando daquela península a cinco quilômetros?”, eu resmunguei.
Mas meia hora depois nos encontrávamos em um trecho de areia deserto longe daquelas
crianças berrando.

Nós colocamos nossas toalhas em cima de algumas rochas e eu passei em mim mesma filtro
solar fator 50. Eu me despi para ficar em meu biquíni e me sentei.

Ele se sentou ao meu lado e pela primeira vez eu pude olhar pra ele propriamente. Cabelo
longo e marrom, olhos castanhos, ombros largos, e usando bermuda de cós baixa, cáqui.

“Escuta”, ele disse enquanto olhávamos para aquele mar perfeito e um casal de barcos
desaparecendo no horizonte. “Eu só quero me desculpar por te envergonhar ontem à noite,
quando você estava ao telefone.”

“Esquece. Me desculpe por ter sido tão grossa. Eu só estou com raiva por ter que passar as
férias com os meus pais. Você sabe, sentindo falta da minha namorada.”

Josh cutucou alguns seixos com um galho.

“Eu sei exatamente o que você está dizendo. Eu terminei com o meu namorado alguns meses
atrás. É por isso que meus pais me trouxeram aqui... me persuadiram a vir pra cá porque
acharam que iria me animar. E claro que eles pensaram que eu ia abrir meus olhos que lá no
fundo eu sou hétero de carteirinha.”

“Foda-se o que eles dizem”, eu resmunguei. “Todo mundo na minha família odeia a Naomi.
Minha namorada. Eles acham que ela me transformou numa lésbica. Se eles soubessem que
foi eu que a persuadi...”, eu ajeitei meus óculos escuros. “A pior é a Katie, minha irmã. Ela não
consegue aceitar que eu não sou que nem ela. Ela é a porra de um imã para garotos. Ela é toda
convencida, entende?”

“Para falar a verdade, ela parece bem insegura para mim” Josh disse claramente.

“Isso é uma piada?”, eu disse. “Insegura?”

“Totalmente. Ela é desesperada. Como foi provado ontem quando eu cheguei com minha mãe
e meu pai. Profundamente carente.”

Por algum motivo isso me incomodou.

“Ela não é carente!”, eu disse. “Ela sempre está confiante para porra com tudo. Ela nunca ficou
sem um namorado.”
“Claro que ela nunca ficou sem. Ela provavelmente dá pra todo mundo”, Josh se virou pra me
encarar. “Está claro, Emily. Eu conheci um monte de meninas que nem ela.”

“Tá”, eu disse baixo. “Talvez você esteja certo”.

Já estava na hora de eu e minha irmã termos uma conversa séria.




Effy

Sábado, 8 de agosto.

Veneza

Minha mãe, eu e Florence esvaziamos três garrafas de vinho ontem à noite, e mesmo assim eu
me encontrei vasculhando armários em busca de mais bebidas à meia noite. Eu encontrei uma
coalhada de limão liquida. Eu me servi com metade da garrafa em uma caneca. Nojento pra
caralho. Eu vomitei por uma hora e dormi no chão do banheiro. Minha mãe me achou.

“Jesus”, ela se ajoelhou, segurou meu queixo e chacoalhou minha cabeça.

Eu abri meus olhos. “O quê?”.

“Você não sabe quando parar?”, ela disse secamente.

“Parar com o quê?”, enquanto eu falava, eu podia sentir meu lábio se rachando.

Ela me deu um olhar severo.

“Meio litro de Limoncello depois de todo aquele vinho? Meu deus... e você vomitou em toda
minha bolsa de maquiagem”.

Ela se levantou e enxaguou uma flanela na pia.

“O que você está fazendo?”.

“Eu vou limpar toda essa bagunça. Cristo, olha o seu estado”.

Antes que eu pudesse protestar ela começou a limpar meu rosto gentilmente. Foi legal.
Relaxante. Por alguns minutos só havia o som de suas pulseiras batendo e a minha respiração.

“Está muito tarde para um banho”, ela murmurou. “Sem água quente, de qualquer jeito”. Ela
parou de limpar e tirou o cabelo do meu rosto. “Vamos lá. Hora de dormir”.
“Me deixa”.

Ela me ignorou.

“Vamos tirar isso. E sua saia”.

Ela segurou meus braços e me puxou para que eu me sentasse na ponta da banheira.

“Eu posso me despir sozinha, mãe. Eu não sou um bebê”, eu disse enquanto uma onda de dor
agonizante surgiu em minha cabeça. “Só me dá a porra de um paracetamol. Eu vou ficar bem”.

“Não se mexa”, ela disse e saiu para a sala. Dois minutos depois ela voltou com algo largo e
branco que obviamente tinha afanado de uma velhinha.

“Uma camisola? Isso deve ser uma piada”.

Eu me levantei desajeitada. Eu estava nua e tremendo agressivamente. Minha mãe deslizou a
roupa de velhinha pela minha cabeça, colocou meus braços para dentro e abotoou até a minha
garganta. Eu me senti como se tivesse cinco anos.

“Boa garota”, ela disse tranquilamente. “Boa garota”.

Ela segurou minha mão e me guiou até meu quarto, puxou o lençol da minha cama. Eu
desmoronei no travesseiro.

“Mãe”, eu disse sonolenta, observando-a fechar as persianas. “Não feche completamente”.

Ela as deixou e veio em minha direção. Me cobriu com o lençol e apagou a luz.

“Você vai ficar bem, Effy”, ela disse. “Tudo ficará bem”.




Mas ao meio dia estávamos de volta à guerra fria. Certo, eu a deixei cuidar de mim, mas eu
estava sob influência. Não significava que ficaríamos grudadas uma na outra hoje de manhã.
Todas as coisas que estavam lá antes continuavam lá.

Eu vaguei pela cozinha me sentindo uma merda. Minha mãe estava na mesa de costas para
mim. Eu fechei meus olhos. Minha cabeça cambaleou. Eu bebi suco de laranja, tomei três
aspirinas e peguei o chaveiro extra.

“Eu vou sair”.
Minha mãe me olhou por cima do livro de frases que estava estudando, inutilmente já que ela
não falou uma palavra em italiano desde que chegamos aqui. “Para onde?”.

“Só passear, tomar um ar. E eu talvez vá ver... qual é o nome dela?”.

“Florence?”, disse minha mãe. “Talvez eu vá com você”.

“Nesse caso estou indo à Lan House”, eu disse calmamente.

“O que raios há de errado com você?”, minha mãe sentou furiosamente de volta na cadeira.

“Eu só quero ficar sozinha. Entendeu?”, eu estava sendo uma vadia e ela não merecia isso, mas
eu tenho uma reputação a manter.

“Então você não está interessada a se juntar a nós mais tarde?”, ela disse claramente,
fechando seu livro e se servindo com mais café.

“Nós?”.

“Aldo me convidou – nós – a uma excursão numa pequena ilha de Veneza”, ela disse. “Eu acho
que se chama Lido”.

“Tudo bem”, eu lutei contra o estímulo de chutar sua cadeira. “Bem, sim, eu vou. Por que
não?”.

Minha mãe sorriu e acendeu um cigarro. “Legal. Vai ser bom sentir o cheiro do mar. Nós
escolhemos a época mais quente do ano para vir a uma maldita cidade no mediterrâneo. Não
é a toa que todos os nativos vão para o campo. Bem...”, ela começou a colocar suas coisas em
sua bolsa: óculos escuros, carteira, telefone, maquiagem. “Ele é um bom homem, não é?
Gentil”.

E ele é meu, eu pensei. Não seu.

Houve uma batida alta na porta.

Minha mãe olhou em seu relógio. “Merda. Eu não percebi que era tão tarde. Deve ser o
Alfredo”.

“Eu vou atender”, eu disse, me atirando para fora da cozinha.

Quando abri a porta do nosso apartamento, Aldo estava lá com Florence. Seu braço cruzado
com o dele.
“Olá, querida”, ela sorriu pra mim. “Eu espero que você não se importe com uma velhinha de
brinde”.

Eu teria ficado puta se fosse outra pessoa. Mas Florence podia encantar os passarinhos da
porra das árvores, e podia fazer companhia para minha mãe.

Isso pode acabar dando certo.

“Claro que não” eu disse. “Quanto mais, melhor”.




Enquanto todos nós descíamos as escadas, minha mãe na frente, Aldo se virou pra mim. “Lido
é um lugar extraordinário, Effy”, ele disse. “Faz parte de Veneza, mas é muito diferente.
Principalmente a arquitetura. Várias construções com decorações de arte gastas que já foram
incríveis. Agora é, acho que vocês ingleses diriam, um glamour que está desaparecendo. E é
um pouco misterioso. É aonde gravaram Death in Venice?”.

Eu fiquei sem expressão.

“Um filme dirigido por Luchino Visconti. Muito perturbador”.

“E um livro”, minha mãe observou. “Sobre uma escritora que se apaixona por um rapaz mais
novo”.

Eu aposto que ela só leu isso essa manhã na porra de seu amado guia turístico.

Mas eu estava ansiosa para ir. Lido soa como aquele tipo de lugar aonde o real se torna irreal.
E isso era perfeito pra mim.

Nós tomamos um táxi aquático e o ar salgado lentamente levou minha dor de cabeça embora.
Enquanto nos distanciávamos de Veneza, eu olhei de volta para a cidade, ardendo com o calor.

Minha mãe pensou que estava na porra do Dolce Vita ou coisa assim, com um lenço amarrado
na cabeça e óculos escuros. O vento estava bagunçando seu cabelo. Eu sorri com a parte de
trás de sua cabeça.

Quando chegamos, Aldo nos levou diretamente para almoçar em um hotel chique perto da
água. Um prédio incrível pêssego e dourado aonde as pessoas pareciam ter sido presas no
tempo. E agiam desse jeito, também. Eu juro que o sujeito que nos levou à nossa mesa se
curvou para nós.
Assim que nos sentamos, eu levantei novamente.

“Aonde você vai?”, minha mãe perguntou.

“Banheiro”, eu disse sem olhar pra ela. Eu precisava me recompor.

No banheiro eu subi em uma das pias e me sentei por um tempo, massageando minha mão
com o creme grátis e encarando todos que entravam. Todos desviavam o olhar
desconfortavelmente. Não era minha culpa se eles se assustavam comigo. Eu não estava
fazendo qualquer coisa errada.

“Ah, aqui está você!”, disse Aldo sorrindo quando voltei. “Eu estava pensando pra onde você
tinha ido”.

“Só observando o lugar”, eu disse me servindo uma taça de vinho. “Lugar legal”.

“É mesmo. Eu só estive aqui uma vez, na noite do meu casamento”.

“Eu estou surpresa que tenha coragem de voltar aqui”, disse minha mãe.

“Ao contrário, é uma lembrança feliz para mim”.

Eu tomei todo o meu vinho e coloquei mais.

Abastacendo o barco, como meu pai diria.

“Effy, sem exagerar”, disse minha mãe.

Eu a ignorei e tomei um grande gole de vinho. Assim era melhor. Eu estava começando a me
sentir bem e bêbada. Eu fiz um gesto para o garçom trazer mais do mesmo.

“Effy...”, disse minha mãe como se estivesse avisando a uma criança para ficar longe da
tomada.

“Ah, relaxa, mãe”, eu disse. “Relaxe. Tome mais vinho”, eu desastrosamente servi vinho em
seu copo, então no de Aldo, no de Florence e no meu. Eu me senti como se estivesse pairando
sobre a mesa, olhando com olhos estreitos Aldo tentando puxar conversa com minha mãe
enquanto ela comia seu espaguete à bolonhesa. Como você está aventureira, mãe. Por que
você não simplesmente pede ovos e batata e acaba com isso?

Florence percebeu meu olhar e sorriu maliciosamente.
Uma salva de palmas me trouxe de volta à terra. Do outro lado da sala um sujeito num terno
branco se curvou e sentou em um grande piano, agitando a cauda de seu casaco enquanto o
fazia. Eu ri muito alto e algumas pessoas me deram um olhar severo. Que se fodam.

Ele começou a tocar a música do Billie Holiday, ‘Lover Man, Oh Where Can You Be?’, uma das
minhas favoritas, acredite se quiser. Eu me inclinei, minhas mãos no meu colo e olhei para
minha taça, respirando o cheiro picante e cantarolei junto.

“Adorável”, disse Florence. “Me leva de volta”.

Eu revirei meus olhos para olhar para ela. Ela captou meu olhar e sorriu de novo, então
subitamente ergueu sua taça.

“Para situações estranhas, não é, Effy?”, une ela meio que murmurou.

Eu balancei meu copo precariamente, o vinho respingando em cima da mesa. Minha mãe
olhou inquieta.

“Que situação estranha?”, ela perguntou, seus olhos se ampliando.

Eu dei a ela um sorriso irritante.

“Nada para se preocupar, Anthea”, disse Florence colocando sua mão em cima da mão de
minha mãe. “Nós somos todos amigos aqui”.

Está tudo bem, Florence. Finja ser senil.

“Como está seu bife, Effy?”, disse Aldo. Eu tinha esquecido que ele estava ali.

“Certo, é isso”, disse minha mãe de repente, pegando o meu copo. “Você vai ficar doente.
Coma sua comida”.

Eu estava quase pegando minha taça de volta quando o pianista começou a tocar uma coisa
nova. Eu não reconheci, mas Florence uniu suas mãos em um êxtase musical. Eu me levantei e
comecei a me balançar e dançar, meus olhos se fecharam.

“Sente-se, pelo amor de Deus”, minha mãe me sibilou.

Ignorando-a, eu segurei as mãos de Aldo. “Dance comigo”, eu disse tentando levantá-lo. Seu
cheiro era adorável.

Aldo riu. “Eu acho que talvez você não esteja acostumada com vinho italiano”.
Ele gentilmente se desvencilhou das minhas mãos, e eu me senti balançar. Eu estava mais
bêbada do que pensava. Eu me sentei no chão e ri. Eu senti as mãos de minha mãe nos meus
ombros. Ela colocou a boca perto do meu ouvido e disse, “Você precisa levantar agora. Tudo
vai ficar bem, mas você precisa levantar. Você está se envergonhando”.

“Eu estou tentando me divertir”, eu disse. “Não estrague”.

Seus lábios, suas mãos, meu garoto de olhos castanhos.

Então Aldo veio e se ajoelhou ao meu lado. “Deixe-me te ajudar a levantar, Effy”, ele disse.
“Parece que você caiu”, ele colocou seus braços por baixo de meus cotovelos e tentou me
levantar, mas apenas conseguiu levantar meus braços sobre minha cabeça. Me fez rir.

Enquanto eu me levantava um garçom apareceu e disse, em inglês, “Posso trazer um copo de
água pra sua filha?”

Filha?! Eu ri alto e disse, “É, certo. Ele é meu papai. Ele, tipo, me espanca... quando eu sou
travessa, mas se sou uma boa garota ele me dá a porra de uma transa”.

“Effy!”, minha mãe disse. Ela cobriu seus olhos com a mão. Mortificada, ela disse, “Pelo amor
de Deus, você vai fazer com que eles nos expulsem”.

Eu olhei para Florence, que era a única que eu estava remotamente preocupada em ofender,
mas ela estava olhando pra mim com um meio sorriso em seu rosto. Qual era o jogo dela?

Então a profecia de minha mãe se tornou verdade e nós fomos expulsos. Alguns convidados
ingleses do hotel tinham se queixado, aparentemente. Como se eu ligasse.

Quando chegamos lá fora minha mãe se virou para Aldo e disse, “Me desculpe por Effy. Eu não
sei o que aconteceu com ela”.

Eu balancei minhas mãos na frente dela, com tanta raiva que eu queria agarrar o cabelo dela e
bater sua cabeça na parede repetidamente. “Oi? Eu estou aqui”, eu gritei.

Minha mãe desviou seu rosto de mim. “Você está com bafo”, ela disse.

“Por que você liga?”, eu murmurei. “Está tentando impressionar ele, não está? Cai fora.”

“Eu adoraria”, ela disse, com o rosto vermelho. “Mas para o melhor e para o pior eu sou sua
mãe, e não posso te deixar nesse estado”.
Que tocante. Era um beco sem saída. Eu sentada na calçada desejando que ter pegado a
metade da garrafa de vinho que estava na mesa.

Um movimento me fez olhar pra cima. Florence tinha tropeçado. “Oh, Deus”, ela disse. “Eu
não estou muito bem. Muito vinho. Anthea, querida, pode me levar pra casa?”.

“Claro”, disse minha mãe. “Nós todos vamos. Mas você está bem? Deveríamos encontrar um
médico?”.

“Ah não, não precisa. Eu só preciso dos meus remédios e da minha cama. E não precisam
acabar com seu dia assim tão cedo. Eu tenho certeza de que Aldo não vai se importar de cuidar
da Effy”.

Ela olhou pra Aldo, que disse rapidamente, “Claro... Effy e eu vamos ficar e tomar muito café e
comer muito bolo”.

“Então está decidido”, disse Florence de maneira entusiasmada, até demais. E ela acabou de
piscar para mim? Espertinha pra caralho.

Minha mãe segurou o braço de Florence e virou para Aldo. “Sinto muito por hoje”, ela disse.
“Estou me sentindo terrível”.

“Não se sinta”, Aldo respondeu. “Não precisa”.

Eu podia sentir minha mãe me olhando, mas me recusei a encará-la. Quando olhei pra cima,
ela e Florence estavam indo embora.

Aldo sentou do meu lado, suas mãos descansando em seus joelhos levantados. “Isso foi uma
performance e tanto”, ele disse. Eu olhei para seus tornozelos e pés, nus em seus mocassins de
couro.

“Effy”.

“O quê?”.

“Eu disse que isso foi uma performance e tanto”.

Eu dei de ombros e acendi um cigarro e me senti imediatamente nauseada. Mas isso iria
passar.

“Você está... você está em algum tipo de encrenca?”, Aldo disse, sem noção alguma.
“Encrenca?”, eu ri sem humor algum. “Talvez essa seja uma palavra para a situação”.

“Quer me contar?”.

Você realmente não quer saber

“Não importa”, eu disse solenemente. “Eu só queria alguém para me fazer esquecer”, eu tremi
apesar do calor.

Aldo se moveu para mais perto de mim. Ele tirou sua jaqueta e botou em volta de meus
ombros.

“Álcool diminui a temperatura do seu corpo”, ele disse. Ele tirou um cigarro do meu maço.

“Eu pensei que você desaprovava o fumo”.

“Eu desaprovo. A desgraça do ex-fumante”, ele disse deixando as mãos em forma de concha
enquanto o acendia. Ele soltou o ar. Sua mão tremeu um pouco enquanto me devolvia o
isqueiro. “Eu devo dizer que estou... incerto sobre você, Effy”, ele disse, não olhando para
mim, mas sim em frente.

“O que quer dizer?”, eu soei mais inocente do que me sentia. Quando ele virou pra me encarar
meus olhos caíram para o cinto em suas calças. Eu pensei na minha boca no seu pinto e subir
nele, senti-lo preencher minha boceta.

Pare Effy. Não faça algo estúpido.

Aldo balançou sua cabeça, apagou o cigarro e se levantou. Ele estendeu sua mão para me
levantar em sua direção e colocou seus braços em mim. “Pobre Effy”, ele disse.

Eu descansei minha cabeça em seu peito, senti seu cheiro e ouvi a batida do seu coração. Eu
arqueei minhas costas para que meus peitos se pressionassem nele e, quando ele não me
soltou, movi o braço coloquei minha mão em seu pinto. Ele não me empurrou imediatamente,
ele esperou um pouco. Nesse tempo eu consegui o que precisava. Senti-lo excitado com meu
toque.

“Você está um pouco bêbada, Effy”, ele disse baixo. “Isso não é o que você quer.”

“Você não sabe o que eu quero”, eu disse rouca. “Você não sabe mesmo.”
“Talvez não”. Aldo pegou outro cigarro e acendeu. “Mas você querendo ou não, eu vou
comprar para você um café forte e algo bem doce para comer”. Ele abotoou sua jaqueta sobre
meus ombros. “Vamos lá. Você vai se sentir muito melhor, eu prometo.”

Naomi

Segunda, 10 de agosto.

The Caves, Bristol.

“Eu ouvi falar na sua maratona infantil de sexo”, eu disse à Cook, enquanto ele zumbia a minha
volta como uma vespa excitada. “E independente do fato de não estar mais interessada em
pintos, de qualquer natureza, eu nunca, nunca, nem em um milhão de anos, nem se o inferno
congelasse, nem que nós fossemos os últimos humanos vivos e só transar com você pudesse
me salvar de ser comida viva por uma bactéria medonha, nunca, NUNCA deixaria você
encostar seu pinto em mim. Ficou claro?”

“Você ama isso”, disse Cook, tirando um baseado meio fumado de seu bolso de trás. “Se eu
parasse de tentar transar com você, Campbell, você ficaria devastada.” Ele fechou o zíper de
sua jaqueta, que estava rasgada na parte inferior de um braço.

“Ah, querido. Você precisa de alguém pra cuidar de você”, eu puxei o revestimento xadrez
rasgado, “não pra transar contigo.”

“Idiotice pra caralho”, ele disse agradavelmente. “Quer se juntar a mim para fumar?”

Eu vi JJ com olhar vazio do outro lado da pista de dança.

“Não, eu acho que eu vou conversar com o Jeremiah”, eu disse. “Ter uma conversa decente e
adulta.”

“Justo, senhora Naomi”, Cook foi em direção à porta. “Mas se encontrar Frederick, diga a ele
que ele tem de me alcançar, Cookie está na frente dele com muito vapor. Facinho, como
sempre.”

“Eu não vou me envolver. Isso é imbecil e triste”, eu disse. “Mas eu vou dizer para ele aonde
você está e você pode dizer isso a ele”, eu vi Cook desaparecer pela porta antes de ir encontrar
o JJ.
Eu saí hoje para me recuperar. A parte de mim que estava ocupada em sentir falta da minha
garota. Mas o que aconteceu foi que me encontrei procurando por ela nas multidões. Ridículo
pra porra. Eu estou perdida.

Senti alguém cutucar as minhas costas. JJ apareceu atrás de mim.

“Quer ver uma mágica?”, ele começou a dizer ansiosamente, começando a colocar as mãos
nos bolsos.

“Não, JJ. Eu realmente não quero”. Peguei sua mão. “Mas vamos sentar em algum lugar.”

“Sério?”, ele parecia confuso.

“Para conversar”, eu disse rindo. “Sem gracinhas.”

JJ me seguiu para uma banqueta gasta encostada na parede. Um casal vigorosamente
esfregando o corpo um do outro estava esparramado nela. Eu bati no ombro da garota e dei a
ela o meu olhar mortal infame e os dois foram para o lado e nos deixaram sentar.

JJ estava simultaneamente impressionado e com cara de quem sentia muito.

“Então, o que há com o Cook e essa competição maluca de sexo?”, eu disse. “Ele não pode
apenas chorar como um ser humano normal?”

“Sim”, disse JJ, “passa um pouco dos limites, admito.”

Para provar o que JJ estava falando, Cook reapareceu, dessa vez com uma garota atrás dele.
Ele a levou para o sofá que estava na nossa frente, e começou a enfiar a língua em sua
garganta. Boa, Cook. Sutil.

JJ os espiou. “Ele ficou com ela quando viemos aqui semana passada. Eu estou reconhecendo a
tatuagem de serpente no pé dela. Devemos sentar em outro lugar?”

“Eu não vou sair agora. Só vamos fingir que eles não estão aqui”. Eu ainda tinha um copo de
plástico quase cheio com vodka e água tônica. Tomei um grande gole. JJ tomou um gole de sua
água.

“Por que você não bebe, JJ?”, eu perguntei a ele.

Ele olhou pra mim e rapidamente desviou o olhar de novo. “Eu não gosto muito do sabor”, ele
disse.
“Esse é realmente o motivo?”

JJ sorriu nervosamente. “Um deles”, ele tomou um gole de sua água. “Então, Naomi...”

Eu o interrompi, tentando acabar com seu tormento. “JJ, você sabe que eu não ligo para o que
aconteceu entre você e Emily.”

Ele olhou para a garrafa em suas mãos e começou a tirar o rótulo. “Não liga? Digo... bom, fico
feliz. Foi só um ato de caridade. Da parte dela, obviamente.”

Eu o vi brincar nervosamente com a garrafa. “Ela gosta de você”, eu disse. “Eu não ouvi
nenhuma reclamação, também... você sabe, sobre o-”

O rosto de JJ de repente estava banhado em uma coloração rosa avermelhado.

“Que seja”, ele murmurou. “Sei quando vocês estão sendo condescendentes comigo, Naomi.”

“Porra. Não, JJ. Eu não estou sendo condescendente com você. Você é mais inteligente do que
todos nós”, eu disse, me sentindo mais desajeitada a cada segundo. “Você realmente acha que
transar com qualquer coisa que se mova te faz especial?”, meus olhos voaram para Cook
brevemente. “Ou te faz feliz?”

“Me faria muito feliz”, disse JJ, finalmente soltando a garrafa. “Me sentir normal.”

Eu concordei com a cabeça. Eu sei como era sentir que todo mundo estava rindo de uma piada
que eu não conseguia entender. Senti isso por quase toda a minha vida.

“Você vai ficar bem”, eu disse. “Eu prometo.”

JJ aceitou isso com um meio sorriso. “Enquanto isso”, ele suspirou, gesticulando para nosso
oposto. “Estou aqui meramente para observar...”

Cook estava se satisfazendo com afagos completamente exagerados. Sua mão estava dentro
do zíper da calça da garota enquanto ela se contorcia ruidosamente em seu colo.

JJ e eu trocamos olhares entretidos. Eu senti uma presença ao meu lado.

“Tudo bem?”, Freddie caiu pesadamente no nosso meio. “Aonde está o Cook?”

“Bem na sua frente”, respondeu JJ.

“Merda, já?”, Freddie suspirou e jogou a cabeça para trás enquanto olhava para o teto.
“Ah, Freddie”, eu disse. “Cook disse que você teria que mexer o seu traseiro se você quiser ter
alguma chance de ganhar esse joguinho”, eu disse a ele. “Apenas repassando.”

“Obrigado.” Freddie olhava para todo lado, menos para o que estava na nossa frente.

Mas que lindo grupo de macacos nós formávamos.

Depois de um tempo, Freddie sentou-se direito de repente, bateu em seus joelhos com as
mãos e disse, “Então... como está indo com a Emily?”

“Bem. Ela está de férias com o resto da porra da família Addams.”

Ele levantou as sobrancelhas.

“Eles me odeiam. Particularmente a gêmea do mal.”

JJ se inclinou na direção do Freddie. “É estranho. Mesmo elas sendo idênticas, às vezes
esqueço que Katie é irmã da Emily”, ele disse. Sua face se iluminou: “Ei, Freds, tivemos
relações sexuais com gêmeas! É como em um filme pornô...”. Seu sorriso se desmanchou.
“Digo, pelo o que ouvi dizer.”

Freddie esfregou a mão em seu rosto. “Não tem graça”, ele disse. “Ainda me sinto mal por
causa disso.”

“Eu não me incomodaria”, eu disse. “Katie é uma vadia total. Ela mereceu tudo o que
aconteceu.”

“Ela não é tão má assim”, Freddie respondeu. Então, vendo minha expressão: “Quer dizer,
talvez ela tenha alguns problemas e tal...”

“Certo. Enquanto a Effy é um ser humano bem ajustado”, eu disse sem pensar.

Freddie cruzou seus braços em seu peito e curvou os ombros. “Que porra isso quer dizer?”

“Nada. Tem-se que questionar a saúde mental de alguém que deixaria uma garota
inconsciente para poder transar com o namorado dela numa barraca...” eu aspirei. “Só isso.”

“Você não sabe de tudo”, disse Freddie furiosamente. “Só cuide da porra da sua vida.”

JJ encarou o rótulo de sua garrafa atentamente.

“Tudo bem”, eu levantei meu copo pra ele. “Tchau então.”
Quando fui embora meia hora depois, vi Freddie com uma garota chamada Ashley, que é
minha vizinha e corta o cabelo da minha mãe. Eles estavam inclinados contra a parede lateral
do clube. Ela estava com a saia na cintura, suas pernas ao redor dele, seus peitos a mostra. Ele
estava fodendo-a gostoso. Suas nádegas indo e voltando enquanto ela ofegava para o ar.

“Jesus”, eu resmunguei para mim mesma. “Me tira daqui.”

Emily

Terça, 11 de agosto.

Na cama, tarde da noite.

A porta se abriu e sua silhueta surgiu. Ela se moveu descalça até a cama.

“Katie?”, eu sussurrei.

Ela olhou para mim. “Você ainda está acordada?”

“Não consegui dormir. Pensando em coisas.”

Primeiro ela não respondeu, só tirou seu vestido e seu sutiã e foi para baixo do lençol. Eu
fiquei a observando.

“Por que você está tão estranha?”, ela disse.

“Eu só estava tentando conversar com você”, eu disse, cansada. “Não vou te incomodar de
novo.”

Katie se contorceu um pouco embaixo do lençol. “Está fervendo aqui”. Ela se contorceu para
ficar mais confortável e bateu agressivamente em seu travesseiro, eventualmente me
encarando.

“Então”, ela disse. “Vamos conversar.”

“Eu estava pensando em você hoje, só isso. Sabe, não estamos exatamente nos dando bem
atualmente.”

“E a culpa é de quem?”, ela disse na defensiva. “Você se voltou totalmente contra mim agora
que está com ela. E ela odeia meu jeito de ser.”

“É, certo, e você sempre foi a maior fã dela, não é?”
“Bem, ela era assustadora. Te encarando toda hora.”

“Katie”, eu sentei. “Quantas vezes eu vou ter que te dizer? Era eu. Era eu que queria a Naomi.
Ela não fez qualquer coisa.”

“Certo”, disse Katie irritantemente infantil. “O que quer que você diga.”

“Então, você teve uma boa noite?”, perguntei, mudando de assunto.

“Então você realmente se importa, não é?”

“Pelo amor de Deus.”

“Certo, então. Se você realmente quer saber. Eu passei a noite com um gigante de três metros
chamado Shane. Sem nenhum vestígio de cérebro, mas músculos de aço”, ela fez uma pausa.
“Minha mandíbula está agonizando. Ele ficou segurando minha cabeça enquanto eu o
chupava. E ele demorou horas para gozar.”

Jesus, Katie.

“Bem, eu espero que ele tenha retribuído o favor”, eu disse desajeitadamente.

“Na verdade, não. Sem retribuição”, ela bocejou. “Mas francamente, eu estava muito exausta
para ligar.”

“Katie, por que você faz isso?”

“Porque não tenho mais o que fazer e estou entediada. Porque me faz parar de pensar como
sou medíocre”, ela não olhou para mim. “Isso responde a sua pergunta, sua vadia
presunçosa?”

“Você não precisa-“

“Sim”, ela puxou suas cobertas, e mesmo apenas com o luar eu podia ver um machucado
gigante em sua coxa. “Sim, eu preciso. Eu preciso porque não tenho outra coisa, e eu quero ter
alguma coisa, entende? Ser boa em algo.”

Eu não sabia o que dizer. Era sombrio demais.

Saí da minha cama e fiquei em pé olhando para a dela.

“Vai mais para lá, então.”
Katie se moveu para me deixar ficar do lado dela. Cuidadosamente evitando seu machucado,
coloquei o braço em cima de seu estômago e apertei sua cintura.

“Não tente algo lésbico comigo”, ela disse. “Tenho de ter algum limite.” Mas senti seus dedos
entrelaçando nos meus e sorri na escuridão.

“Amanhã”, eu disse, “vamos fazer algo diferente.”

Uma pausa. “Como o quê?”

“Como ir a Paris. Eu já estou cansada desse lugar de merda.”

“Você está falando sério? Eu e você?”

“Por que não? Costumávamos gostar bastante uma da outra. Uma vez.”

“Verdade”, ela se sentou e me fitou. “Certo, vamos fazer isso.”

“Resolvido”, eu sorri, então sonolentamente me virei e fechei meus olhos.

“Boa noite, Em”, ela disse se virando para o outro lado. “Durma bem.”

Katie

Quarta, 12 de Agosto.

Bordeaux

“Você já está pronta?”, Emily perguntou, aparecendo na porta.

“Sim.”

“Eu vou esperar no carro”, ela disse. “Não esqueça da pia da cozinha.”

“Sim, engraçado.”

Ela pegou sua bolsa que estava na cama e me deixou para terminar de arrumar minhas coisas.
Eu coloquei mais alguns sutiãs e um vestido na bolsa e olhei ao meu redor para ver se havia
alguma coisa que esqueci. Então vi seu telefone, jogado perto de onde sua bolsa estava,
observei por um segundo e depois o agarrei rapidamente, coloquei no silencioso, e joguei na
minha bolsa. Ela não ia morrer se ficasse sem contato com a Naomi por quarenta e oito horas.

“Finalmente, porra... Nós vamos perder o trem”, Emily se moveu enquanto com esforço eu
colocava minha bolsa entre nós. Duas vezes o tamanho da dela. Se ela consegue sobreviver
com um par sujo e velho de Converse e uma de suas roupas de balada de velha, tudo bem.
Mas eu tinha padrões para manter.

Meu pai ligou o carro e eu e Emily sorrimos desajeitadamente uma para a outra.

“Prontas?”, ele disse.

“Prontas.”

Trem de Bordeaux à Paris, hora do almoço.

“Treze euros, por favor... mademoiselle”, disse o rapaz do bufê para os meus peitos.

“Merci beaucoup”, eu disse, mostrando minhas covinhas e ampliando meus olhos. Podia pelo
menos dar ao pobre rapaz material para bater uma.

Na mesa Emily atacou seu croque monsieur como se não comesse há um mês. Eu comi
algumas batatinhas e encostei no banco, tomando café e observando a parte rural da França
passando em nossa janela.

“Então, vamos esperar que sua boceta não entre em choque”, disse Emily, sorrindo. “Com a
falta de ação e tudo mais.”

Eu me inclinei na mesa e dei batidinhas em sua mão, “Não se preocupe, farei pouco barulho se
eu trouxer alguém para o hotel.”

Emily jogou um guardanapo amassado em mim. “Eu vou te matar. Eu reservei um quarto de
casal”, ela se levantou e alcançou sua bolsa no bagageiro. “Quer alguma coisa?”

Eu balancei a cabeça, mas de repente ela estava cavando maniacamente em sua bolsa.

“Sua carteira está ali”, eu disse apontando para a mesa.

“Eu sei”, disse Emily impaciente. “Eu não consigo achar a porra do telefone”, ela virou sua
bolsa de cabeça para baixo e chacoalhou em cima da mesa fazendo com que chovesse papel
de bala, algumas coisas felpudas e alguns absorventes. Um deles tinha perdido metade do
invólucro. Eca. Ela puxou o forro de sua bolsa até ele ficar pra fora.

Desista, eu pensei. Obviamente não está aí.

“Eu não consigo acreditar”, disse Emily praticamente chorando. “Como eu posso ter deixado
meu telefone? Estava na minha cama, eu sei que estava.”
Eu tentei parecer simpática. “Não se preocupe, Emily. É só por alguns dias, depois você vai tê-
lo de volta.”

“Eu sei...”, ela mordeu seu lábio e olhou pra bagunça na mesa. “Me empresta o seu? Só por
um minuto, para eu poder dizer a ela que não ligarei por dois dias.”

Porra. Eu entreguei meu telefone para ela. Eu não podia dizer não.

“Obrigada, Kate. Não vou demorar”, ela disse e andou até o corredor na direção do bufê, o
telefone já em sua orelha. Eu fiz uma careta, mas liguei meu iPod e fechei meus olhos,
deixando Amy Winehouse e o movimento do trem me embalarem para eu dormir. Ou teria
feito isso, se minha irmã não tivesse batido em mim quando voltou.

“Ai, isso doeu pra caralho”, eu disse, esfregando meu braço.

“Desculpa”, disse Emily, sua boca cheia de chocolate. “O trem sacudiu.”

“Como foi?”, eu disse, tirando meu fone de ouvido.

“Foi direto para a caixa postal”, disse Emily. “Vou tentar de novo depois.”

Coloquei meu fone de volta. De repente eu não estava com humor para conversar. De
qualquer jeito, um cochilo até Paris iria me deixar preparada para a noite que estava por vir.
Eu e Emily não íamos a um clube juntas há meses.

Naomi

Quarta, 12 de Agosto.

Bristol.

“Aonde você está, caralho?”, ouvi o telefone de Emily chamar, chamar e ir pra caixa postal pela
porra da quinta vez. Eu não deixei uma mensagem. Já tinha deixado duas.

Eu levantei e andei pelo meu quarto. Eu estava tão tensa que se alguém me tocasse eu iria
arder em chamas. Minha ideia de pesadelo. Eu, me preocupando tanto por causa de outro ser
humano.

Vá se foder, Emily, eu pensei. Queria não ter te conhecido, porra.

“Naomi?”, a voz da minha mãe veio do andar de baixo. “Quer chá?”
Eu hesitei, respirei profundamente algumas vezes. Se acalme, se acalme. Não importa. Ela
provavelmente está na praia ou algo assim. Ela não está sem te ligar intencionalmente.

“Sim. Vou descer em um segundo”, eu me olhei no espelho e passei os dedos no cabelo. Estou
deixando crescer. Está naquela fase em que fica uma merda.

Aparentemente, eu também estou.

Desci e encontrei Kieran na mesa da sala de jantar. Ele estava olhando vários trabalhos. O meu
poderia estar no meio deles.

“Me dá 10, Kieran”, eu disse. “Desconto de família.”

Ele pareceu confuso por alguns segundos, depois riu desajeitado.

“Certo. Sim... entendi. Muito engraçado, Naomi”, ele pegou sua caneca e tomou um gole de
chá. “Você tiraria 10, de qualquer forma. Você é minha aluna de ouro.”

“Sim, sim”, eu disse. Eu fui com a ponta dos pés para trás dele e dei uma olhada por cima de
seu ombro. “Vamos ver.”

Ele agarrou os trabalhos em seu peito. “Você deve estar brincando.”

Eu sentei de volta. “Valeu a tentativa”, eu suspirei. Por alguns momentos consegui esquecer
que era uma louca paranóica. Talvez passar um tempo com o Kieran fosse a solução. “Aonde
está minha mãe?”, eu perguntei a ele.

“Quê? Ah, ela está... ela está...”, ele disse distraído. Ele estava circulando um parágrafo com
caneta vermelha.

Eu esperei. Ele terminou de rabiscar na margem e olhou para cima. “Ah, sim. Desculpa. Ela está
no jardim, acho. Fazendo alguma coisa, ou...”, ele dispersou novamente.

Eu desisti e me servi uma xícara de chá. Nós nos sentamos no que pode ser chamado de
silêncio sociável por uns cinco minutos, até ele finalmente botar a tampa em sua caneta e
guardar os trabalhos em sua bolsa de couro velha e surrada.

“Então, Naomi”, ele disse claramente. “O que vai fazer com o resto da sua vida?”

Eu enchi minha bochecha e soltei todo ar. “Engraçado você falar isso.”
Ele me fitou sério. “Você me parece o tipo de garota com um ‘plano’”, ele disse, fazendo aspas
no ar.

Meus lábios se contraíram. Que idiota. Um idiota com boas intenções. Ele continuava me
olhando, determinado.

Eu respirei alto novamente. “Eu tinha. Mais ou menos.”

“Tinha?”

“Tenho. Tinha. Que seja”, eu disse, balançando minha cadeira.

“Você vai se inscrever em universidades ano que vem?”, ele continuou.

“Isso é uma orientação profissional oficial?”, eu disse, começando a ficar irritada. Kieran sorriu,
mas não respondeu. “Sim, provavelmente vou me inscrever em universidades”, eu disse,
finalmente.

“Provavelmente?”

“Eu não sei, certo? Eu não sei o que vou fazer”, eu coloquei minha cabeça entre as mãos.

Maldita Emily. Me deixando incerta.

Eu ergui minha cabeça. Kieran estava enrolando um baseado. “Aqui”, ele disse acendendo o
baseado e me entregando. “Tente ficar relax, ou seja lá o que for que vocês jovens dizem”.

Dessa vez eu ri alto. “Nós certamente não falamos isso!”

Kieran deu de ombros, bem-humorado. Ele brincou com suas mãos na mesa, como se
estivesse pensando se dizia ou não alguma coisa.

“Vamos lá”, eu disse. “Desembucha.”

Ele apontou para o baseado. “Olha, não é da minha conta, mas acho que se você não tentar
entrar em universidades vai trair a si mesma”, ele parou para fumar. “Você tem ambição,
Naomi, isso é óbvio pra caralho. E não é só uma merda sem sentido de ‘quero ser famosa’. É
concreto. Você tem o potencial e, apesar de não precisar necessariamente ir à universidade
para conseguir o que quer, eu acho que é daí que você quer começar. Se negar isso a si
mesma...”, ele parou e levantou da mesa. Ele começou a circular pela pilha de coisas perto da
torradeira e tirou um pedaço de papel do meio dos cardápios de restaurantes, contas e
folhetos que minha mãe ainda não tinha colado na janela.
Eu podia sentir algo se agitando dentro de mim. Fiquei lisonjeada. Logo por Kieran. Lisonjeada
e constrangida.

“Aqui”, ele disse. “Eu imprimi isso para você.”

Era a propaganda de um dia aberto, aqui em Bristol, para cursos políticos em Yale, uma grande
universidade americana.

“Nada a perder”, disse Kieran.

“Talvez”, eu disse indiferente, observando a propaganda, absorvendo cada detalhe.

“A decisão é sua, é claro”, ele tragou o resto do baseado e apagou a ponta no cinzeiro. “Mas
pensamentos claros são vitais nesse ponto da sua vida. Não importa o quão sedutoras... as
distrações possam parecer...”

Minha mente estava batalhando com meu coração. Esse plano não incluía Emily. Mas Emily me
fez mais feliz do que jamais estive.

“Obrigada, Kieran”, eu disse guardando a propaganda na bolsa. “Vou pensar seriamente
nisso.”

Voltei lá para cima e deitei em minha cama. Tirei a propaganda da bolsa e a observei.
Animação e possibilidades se misturando com culpa. Eu peguei meu telefone e apertei
rediscar.

“Oi, aqui é a Emily. Não estou. Volto logo. Você sabe o que fazer!”, eu suspirei pesadamente e
me virei de costas.

“Não faça isso comigo, por favor”, eu murmurei, ainda segurando o futuro em minhas mãos.




Katie

Quarta, 12 de agosto.

Hotel, noite.

“Por que você não pode fazer um esforço?”, eu perguntei à minha irmã, vendo seu
vestidoblusa cinza amassado e seu Converse. “Nós estamos em Paris, pelo amor de Deus.
Como em chique parisiense?”, eu gesticulei a mim mesma, que estava gostosa (modéstia a
parte) em um vestidinho preto e salto escarlate. Ela não se incomodava por eu estar muito
melhor que ela?

Emily pulou da cama onde estava lendo enquanto eu me arrumava. “Essa sou eu, Katie”, ela
disse, abrindo a porta. “Lide com isso.”

Por que ela simplesmente não colocava um macacão e mostrava o pêlo das axilas? Vai para um
buraco, sua porca.

Eu realmente não a entendia.

Mas, fora do hotel, nós duas nos animamos. É difícil ficar rabugenta em uma noite de verão em
Paris, e era legal ser apenas nós duas de novo.

“Que lugar é esse mesmo?”, eu perguntei. Emily estava seguindo um mapa que tinha
arrancado de um livro turístico.

“Café Baroc. Noite dos anos oitenta”, ela disse, virando a página para conseguir orientação.

“É longe?”

“Mais ou menos... quinze minutos de caminhada.”

“Que inferno, Emily, esses sapatos estão me torturando. Não podemos pegar um táxi?”

“Se você vir algum, sinta-se livre para sinalizar”, ela respondeu, me entregando uma garrafa de
vinho que pegamos mais cedo. Eu dei um gole e devolvi.

“Não se preocupe”, ela disse secamente. “Eu seguro.”

O clube era legal. Um pouco brega – e não estou entendendo o que tanto falam sobre os
homens franceses. Alguns deles me olharam de cima a baixo quando chegamos, mas não do
jeito que os garotos na Inglaterra fazem. Era como se eles se sentissem superiores. Eram os
mais velhos que pareciam mais interessados. Continuem sonhando. Eu não vou tocar nessas
bundas caídas, não importa a quantidade de perfume Eau Savage que tenham usado. Me senti
um pouco deprimida, para ser honesta. Não importava o quanto eu bebia, eu não estava
ficando bêbada. Emily parecia totalmente feliz apenas dançando sozinha, olhando para
ninguém ao nosso redor. Mas eu não sabia o que fazer comigo mesma. Eu fui de me sentir
irresistível a me sentir um desperdício de espaço.
Emily segurou minhas mãos. “O que aconteceu?”, ela disse. “Você estava tão animada para vir
aqui mais cedo.”

“Sim.” Eu tentei sorrir, mas minha boca não cooperava. “Eu estava. Eu estou”, eu dancei
desajeitada em sua frente. Era como se tivéssemos 10 anos, na festa de fim de ano da escola
ou algo assim.

“Katie?”, Emily se moveu mais pra perto. “Por que você não pode simplesmente relaxar?”, ela
estendeu sua garrafa de cerveja de frutas. “Bebe.”

Eu tomei um gole. Nada. Senti um misto de solidão, e completa falta de objetivo em mim. Eu
não conseguia me conter. De repente lágrimas estavam rolando em minha face.

“Katie?”, Emily parou de dançar. “Querida, o que está acontecendo?”, ela me abraçou. Sentir
seu cheiro almiscarado familiar e me agarrei a ela mais apertado.

“É... nada. Eu estou bem”, eu esfreguei meu rosto. “Só estou sendo uma idiota.”

“Vem aqui”, Emily me levou a um banco perto do bar. “Vai ficar tudo bem, Katie”, ela disse.
“Só estão sendo tempos estranhos”, ela terminou sua cerveja. “Também é estranho pra
caralho para mim, sabe...”

Eu pensei quanto tempo ela demoraria.

Eu dei de ombros, me sentindo a milhões de kilômetros de distância dela novamente. “É, bem.
Aproveite enquanto dura.”

Os olhos de Emily se estreitaram. “O que isso significa?”

“Nada dura, só isso”, eu disse, com os olhos sem lágrimas de novo. “Não se pode depender de
alguém.”

“Sim, pode...”, ela disse, parecendo incerta. “Nem todos são imbecis retardados”, ela mordeu
o lábio. “Que horas são?”

“Meia noite”, eu disse, checando meu telefone.

“Me empresta isso?”

Eu o segurei atrás das minhas costas. “Agora não, Em. Ela está dormindo. Espere até de
manhã.”
“Ah, vamos lá. Só vou deixar uma mensagem.”

Eu suspirei alto e entreguei meu telefone, e olhei enquanto Emily deixava a quinta mensagem
do dia. Eu senti uma pontada de culpa.

Era tão ruim assim Emily estar feliz?

De volta ao hotel, nós sentamos na cama bebendo vinho e comendo aqueles bolinhos que dão
de graça em supermercados da França.

“Meus dentes estão engraçados”, ela disse esfregando-os com a ponta do dedo.

“É culpa do bolo barato”, eu disse. “E o vinho de dois euros e a cerveja doce nojenta.”

Emily brindou minha taça, bêbada. “Ninguém poderia nos acusar de sermos chiques.”

“Fale por si mesma”, eu disse, soluçando.

“Justo”, seus olhos passaram pelo meu celular na cama. Eu o deixei fora de vista.

“Me pergunto porque Naomi não responde”, eu disse. “Não sei. Talvez ela não seja o tipo que
fica por aí reclamando e essas merdas? Ela é mais do que isso.”

Emily caiu na cama. “Me deixa em paz, Katie.”

“Mas”, eu prossegui. “Você não disse que ela não gosta de ser rotulada... como lésbica e tal?
Talvez ela esteja um pouco assustada.”

Silêncio completo. Eu segurei minha respiração.

“Eu vou pra cama”, disse Emily friamente. Ela tomou outro gole de vinho.

“Mas eu nunca vou te deixar”, eu esfreguei sua perna. “Você sempre vai ter a mim.”

“Que doce”, ela disse, entregando o vinho e indo para baixo das cobertas. “Só me deixa em
paz, pode ser?”

“Jesus Cristo”, eu disse para suas costas. “Você foi que quis vir para cá. Agora você está me
excluindo de novo.”

“Você é uma mentirosa, Katie”, disse Emily. “Fingindo que está interessada em mim e na
Naomi. Você só quer enfiar a faca em nós o tempo todo. Não consegue evitar. Você está com
inveja. Não é minha culpa se sua auto-estima está lá embaixo e você só consegue se sentir
melhor deixando qualquer coisa que se mova te comer.”

Eu surtei e peguei o cabelo dela, colocando meu rosto perto da dela.

“Pelo menos eu não sou uma sapatazinha idiota que só consegue outra sapata miserável pra
chupá-la. Pelo menos eu consigo pinto de verdade.”

“Não, você é uma idiota patética”, Emily rosnou. “Cai FORA!”

Ela me empurrou com tanta força que eu caí de costas da cama. Doía pra porra. Outro
machucado para adicionar a minha coleção. Eu disse nada. Só fiquei lá parada, chocada, até
que eventualmente a ouvi roncando. Eu me levantei e fui, tipo, em câmera lenta até o
banheiro.

Me despindo na frente do espelho de corpo todo, eu evitei olhar para os machucados na
minha perna. Quando tirei minha maquiagem, olhei para meu rosto limpo no vidro. Uma
vadiazinha infeliz e feia me olhou de volta. Eu apontei meu dedo para o reflexo.

“Você é uma vadia estúpida e solitária. Nunca encontrará alguém para te amar assim”, eu
disse ao meu rosto. “Ninguém iria dar a mínima se você não estivesse aqui.”

Eu olhei para as minhas roupas no chão.

Nada havia sobrado para mim.

Emily

Quinta, 13 de Agosto

Hotel em Paris, manhã

“Katie, se apresse”, eu disse para a porta do banheiro. “Eu realmente preciso fazer xixi.”

Sem resposta. Jesus. Ela continuava emburrada?

Eu bati na porta, que se abriu e revelou um banheiro vazio. Eu fiquei encarando, confusa.

Que porra?

Talvez ela só tenha ido dar um passeio, ou ido para a recepção? Eu pensei. Liguei para a
recepção e depois de cinco minutos de uma comunicação ruim e ridícula com o cara que
estava atendendo o balcão, descobri que Katie não passou por ali desde o começo de seu
turno.

Às 6 da manhã.

Eu desliguei o telefone e sentei na cama respirando profundamente. Parecia que ninguém
havia dormido em seu lado. Eu observei o quarto. E ela tinha levado todas as suas coisas.

“Não entre em pânico”, eu sussurrei para mim mesma. Mas aonde ela estaria? Eu pensei na
noite passada. Ela no clube. Nunca a tinha visto daquele jeito. Meio derrotada. Aquela
discussão horrível tarde da noite. Eu estava furiosa porque ela não me deixou usar seu
telefone. Bati com força na cama. Porra dez Katie, por que ela sempre tinha que ser a porra da
rainha do drama? Eu fui até a minha mala e peguei algumas roupas. Ela não podia ter ido
longe.

Eu pensei em telefonar para minha mãe, mas decidi esperar um pouco. Ela só ia me dar uma
bronca por ter sido horrível com a pobrezinha da Katie. Mas eu estava tremendo quando
entrei no elevador para descer. E se ela tivesse sido atacada? Ela era boa de dar uma de mal-
humorada, mas não era tão forte assim.

Eu apertei o botão do térreo com força. Se apresse, caralho!

Precisava sair para encontrar minha irmã.

Procurando pela Katie

“Ma soeur est perdu”, eu disse pela centésima vez. “Elle est comme moi”, eu apontei para meu
rosto. “Vous avez elle vu?”

Não sabia se isto estava certo, mas as pessoas pareciam captar a ideia. A garota por trás da
caixa registradora deu de ombros. Não, ela também não a tinha visto. Ninguém a tinha visto.
Eu nem sabia por que estava perguntando nessa loja, exceto por ser perto do nosso hotel.
Cabides de roupas vintage com pó tinham nada a ver com a Katie.

Eu desisti. Meu estômago roncou alto. “Excusez moi”, murmurei para um cliente entrando na
loja. Realmente precisava de algo para comer. Me sentia como se estivesse prestes a desmaiar.

Andei um quarteirão até passar por um calmo café na esquina. Eu entrei. Era pequeno, as
paredes cobertas com telas gigantes de arte contemporânea, plantas por todo o lugar e uma
coleção de mesas e cadeiras incompatíveis. Almofadas de veludo esmagadas estavam
espalhadas por um sofá velho de couro e havia uma jukebox antiga no canto. Maneiro. Eu
gostei.

Uma garota alta, com um olhar severo usando com um vestido de couro apertado estava
fazendo café atrás do balcão. Ela olhou para cima e sorriu para mim, enquanto eu olhava a
fileira de doces gigantes no bar.

“Bonjour... Ca va?”, disse a garçonete sorrindo. “Qu’est-ce que tu veux, cherie?”

“Ca va”, eu sorri de volta, sentando no banco perto da janela. “Un pain au raisin et... un café
au lait”, eu apontei para os doces para um melhor entendimento. “Merci.”

Duas garotas estavam sentadas do meu lado, em uma conversa profunda. Enquanto eu
esperava pela minha comida, uma delas levantou a cabeça para me olhar de cima a baixo.
Olhei para o outro lado me sentindo autoconsciente.

Quando meu doce chegou, eu o devorei. Mastiguei rapidamente, olhando para a minha frente.
Um jazz estava tocando baixo ao fundo. Enfadonho. Eu tomei goles do meu café e depois
repousei no encosto. Uma ponta de cansaço surgiu em mim, mas eu relutei. Eu precisava de
mais cafeína. Eu não poderia relaxar.

“Certo!”, sibilou a garota ao meu lado para sua amiga, em inglês. Ela começou a tirar dinheiro
de sua bolsa e jogou algumas moedas no balcão. “Não há mais o que dizer, eu não posso fazer
isso agora...”, ela pegou sua bolsa e pulou do banco.

“Sara, espera”, disse sua amiga. “Me ligue-”, mas a garota já estava lá fora.

Eu rapidamente estudei a máquina de café.

“S’il vous plait”, eu pedi para a garçonete. “Un autre...”, e apontei para o meu café.

“Ah”, ela disse, amigavelmente. “Você é inglesa?”

Eu concordei com a cabeça. “É tão óbvio?”

A garota perto de mim girou em seu banco. “Sabe, o seu francês é decente”, ela disse. “Pelo
menos você se esforça.”

Ela trocou olhares com a garçonete, que tinha começado a fazer café.

“Então”, disse a garota. “Meu nome é Anna.”
“Emily”, estendemos nossas mãos uma para a outra desajeitadas e balançamos.

“Você está de férias?”, ela era alguns anos mais velha que eu, com os cabelos de uma cor louro
escuro com uma faixa do tipo de estrela de cinema dos anos quarenta e um batom vermelho
imaculado.

“Só estou passando alguns dias em Paris...”, eu disse. “Estou na verdade procurando pela
minha irmã... ela desapareceu noite passada.”

Seus olhos se arregalaram. “Ah, não”, ela disse preocupada. “Você tem uma foto? Talvez eu a
tenha visto em algum lugar.”

Eu balancei a minha cabeça. “Eu não tenho uma foto, mas ela é minha gêmea. Ela se parece
comigo.”

Anna se inclinou em minha direção e examinou meu rosto. “Non”, ela disse gentilmente depois
de um minuto. “Não vi alguém parecida com você. Sinto muito.”

Ela falou em francês com a garçonete, que tinha colocado uma segunda xícara de café na
minha frente e estava limpando uma das mesas.

Anna se voltou para mim. “Bene disse que viu uma garota – com o cabelo como o seu, pele
pálida – mais ou menos às duas da manhã ontem à noite. Estava escuro, mas ela tinha uma
bolsa brilhante com ela. Um vestido muito curto?”

“É ela!”, eu disse animada. “Aonde ela estava?”

“Perto da Rua Cavare”, disse Bene, vindo e movendo seu pano sobre o balcão. “Ela estava um
pouco chateada. Meus amigos e eu iríamos perguntar se ela estava bem, mas ela fugiu de
nós.”

Pobre Katie. Eu fechei meus olhos. Eu disse para ela dar o fora. E ela deu.

Anna observou meu rosto. “Olha, eu posso perguntar por aí hoje”, ela disse. “Talvez mais
alguém tenha visto sua irmã”, ela bateu em meu joelho. “Alguém tão bonita quanto você...
alguém tem que ter notado.”

De todos os bares de todo o mundo.

“Obrigada, isso é muito gentil.”

Ela balançou sua mão. “De rien. É nada. Fico feliz por te ajudar.”
Eu a vi aplicando mais batom habilmente. “Aquela era sua namorada, antes?”

Anna guardou seu batom. “Minha ex-namorada”, ela disse dando de ombros. “A partir de
agora”, ela suspirou. “Ah, esses relacionamentos malditos. Eles me desgastam.”

Eu ri. “Sei o que quer dizer.”

“Você tem namorada?”, Anna perguntou casual e rapidamente.

“Eu... er. Tenho. Muito nova”, eu estava ficando vermelho para caralho. “Ela está na
Inglaterra.”

“Ela é uma garota de sorte”, Anna me observou brincando com a minha xícara. “Escuta”, ela
puxou algumas notas em direção a Bene. “Eu tenho algumas horas livres hoje. Eu posso te
levar a alguns lugares... que sua irmã talvez possa estar.”

Eu hesitei. “Tem certeza? Isso seria genial.”

“Claro. Quando você terminar sua bebida eu te ajudo”, ela sorriu. “Não tem problema algum.”

Dez minutos depois Anna e eu estávamos indo para seu bairro.

“Vamos começar com as cafeterias e os bares daqui”, ela disse vigorosamente.

E andamos por quilômetros, Anna disparando falando em francês com todos que
encontrávamos e seguindo em frente segundos depois. Ninguém tinha visto a Katie. Eu senti o
medo crescendo em mim. Isso era mais que uma birra.

Eu devia estar parecendo tão preocupada quanto eu me sentia, porque Anna colocou seus
braços em mim.

“Não desista”, ela disse. “Paris é maior do que você pensa. Vamos parar e fazer outro plano.”
Nós estávamos do lado de fora de um prédio com janelas pintadas de dourado e preto.

“Esse é o 3W, meu café favorito”, ela pausou. “Significa Mulher com Mulher. Vamos parar para
uma bebida.”

Eu me senti inquieta. “Obrigada, mas eu preciso continuar procurando minha irmã.”

Anna suspirou. Ela estendeu a mão e tocou minha bochecha. “Eu entendo. Mas eu ainda
gostaria de te ajudar. Você parece tão sozinha”, ela tirou algo de sua bolsa. “Aqui”, ela me
entregou um cartão de trabalho espesso com o seu nome e seu numero de celular em tinta
roxa e em relevo. “Se você mudar de ideia, vou estar aqui essa noite. A partir das nove.”

“Obrigada”. Duvidava que fosse vê-la novamente. Tirando o fato de que minha irmã estava em
algum lugar de Paris, fazendo só Deus sabe o que, tinha alguma coisa sobre a Anna que me
deixava desconfortável. “Eu vou ver o que faço.”

Deixei Anna e achei meu caminho de volta ao hotel. Eram três da tarde e Katie não estava em
lugar algum.

Está tudo bem, eu disse a mim mesma. Ela vai voltar.

Ela tem de voltar.

De volta ao hotel

Eu dei vinte euros para o serviço de quarto e deitei em uma das camas esperando pela minha
comida. Eu me desloquei desconfortavelmente, alguma coisa dura estava machucando minhas
costas. Eu procurei embaixo de mim e minha mão se fechou em volta de um objeto familiar.
Meu celular.

Que. Porra?

Eu o encarei, tentando lembrar quando perdi a consciência e sonhei as últimas vinte e quatro
horas. Meu telefone estava aqui? E quem o deixou no silencioso?

Katie. Eu já a tinha visto fazendo isso com seus namorados. Porra de cleptomania paranóica.
Ela tinha afanado meu celular, esperando que eu e Naomi não mantivéssemos contato.

Você não deveria ter se incomodado, eu pensei. Naomi obviamente não se importa, de
qualquer jeito.

Apesar de seu joguinho safado, a ideia de Katie vagando por Paris sozinha e miserável afastou
meus sentimentos sobre Naomi estar fora de área. Eu não conseguia tirá-la chorando no clube
da minha mente. Katie nunca faz isso. Ela é a confiante. E eu só ignorara o ocorrido e começara
a falar da Naomi de novo. O pensamento da minha irmã invencível caindo aos pedaços era
como alguém atacando o chão em que eu piso.

Eu passei pela minha lista de contatos até achar o telefone da Naomi, mas a luz vermelha
piscou uma vez e então a tela ficou preta. Minha bateria tinha acabado. Eu não podia nem
checar minhas mensagens.
Eu rosnei de frustração. Eu teria que usar o telefone do quarto para ligar para minha mãe. Iria
custar a porra de uma fortuna, mas era uma emergência.

O telefone tocou por séculos. Eu estava quase desligando quando minha mãe atendeu, sem
fôlego.

“Mãe. Sou eu. Emily”.

“Olá, querida...”, ela soou confusa. “O que está acontecendo.”

“Katie desapareceu.”

Uma pausa.

“Você telefonou para ela?”, minha mãe disse.

“O número dela está no meu telefone, e minha maldita bateria acabou”, eu disse, parando na
verdade. “Ela está-“

Minha mãe me cortou. “O que você fez agora?”

“Nada. Nós tivemos uma briga”, eu disse. “Acredite ou não, eu não saio do meu caminho para
alienar a Katie. Eu que fiz a sugestão de virmos para Paris, em primeiro lugar, caralho!”

“Não fale palavrão, querida”, disse minha mãe, soando mais calma. “Eu sei que você não está
fazendo isso intencionalmente. Mas você mexeu com ela e ela está vulnerável no momento.
Sua confiança foi duramente derrubada.”

Que ótima forma de fazer com que eu me sinta mal, mãe, eu pensei, fechando meus olhos.
Porra. E se Katie fizesse algo realmente idiota?

Eu ouvi minha mãe dizendo ao meu pai para ligar para Katie no celular, então ela me disse
“Certo, olha, você fica aí. Ela provavelmente vai voltar para o hotel.”

“Está bem, eu vou reservar outra noite. Meu pai conseguiu falar com ela?”

“Não. O telefone dela está desligado”, a voz da minha mãe vacilou. “Tenho certeza de que vai
ficar tudo bem. Vamos continuar tentando falar com ela.”

“Mãe?”, eu disse. “Desculpa.”

“Tenho de ir”, disse minha mãe rapidamente. “Eu te aviso assim que conseguirmos falar com
ela.”
Eu sentei encarando a cama da Katie. “Katie”, eu sussurrei. “Volte, sua vadia bobinha.”




Eu fui acordada pelo telefone do hotel tocando. Eu me sentei desorientada.

“Alô?”

“Emily, é a sua mãe. Katie finalmente nos ligou.”

“O quê? Onde ela está?”, eu estava completamente acordada agora.

“Ela ainda está em Paris”, disse minha mãe. “Ela soou muito estranha. Muito quieta.”

“É?”, eu puxei meus joelhos para perto de meu peito, o alívio batendo em mim. “O que ela
disse?”

“Ela não vai voltar por um tempo. Disse alguma coisa sobre pegar um desvio para Veneza.
Aparentemente sua amiga Effy está lá com a mãe”, minha mãe fez uma pausa. “Tenho de
dizer, parece bem estranho para mim... considerando o que aquela garota maldita fez com a
Katie.”

“Sim”, eu franzi a testa. “Muito estranho”, eu não conseguia evitar estar um pouco chateada
por Katie preferir passar um tempo com a Effy – de todas as pessoas – a tentar resolver as
coisas comigo.

“Ela deve ter seus motivos, eu suponho. O importante é que ela está bem.”

“Exatamente”, minha mãe disse. “Agora, amor, que horas é o seu trem?”

Eu pensei por um momento. “Eu vou voltar amanhã”, eu disse. “Eu já reservei outra noite aqui.
Poderia muito bem fazer uso dela.”

“Certo. Eu não vou ficar feliz até que as duas estejam aonde eu possa vê-las”, disse minha
mãe. Ela suspirou. “Mas acho que vocês não são mais crianças.”

“Eu vou voltar amanhã de manhã”, eu disse. “O mais cedo possível.”

Eu coloquei o telefone de volta e pensei por um minuto. O drama estava acabado. Vadiazinha,
eu pensei, e que típico.
Eu precisava de um banho quente e um pouco de vodka. Eu pensei em chamar mais serviço de
quarto, olhando para o telefone. Então meus olhos viram o cartão de Anna na mesa de
cabeceira. Eu o peguei, brincando com ele para lá e para cá entre meus dedos.

Katie continuava viva. Naomi não queria saber. Eu estava cansada de ficar para baixo.

Não iria doer se eu saísse para uma bebida.

Eu fiz mais uma ligação.

Paris à noite

Eram cinco para as nove, mas Anna já estava esperando com calças aveludadas, camiseta
estampada e um chapéu enorme. Ela deveria estar horrível pra caralho, mas não estava.

“Eu estou tão feliz que tenha vindo”, ela disse me beijando nas duas bochechas. “Boas notícias
sobre da sua irmã!”

“Sim”, eu disse ironicamente. “Um pouco de petulância, isso é tudo.”

Anna sorriu, colocando seu braço em volta do meu.

“Você não fica com calor?”, eu perguntei quando começamos a andar.

“Sim, muito”, ela respondeu. “Mas estou com uma boa aparência, non?”

“Sim. Eu gosto de seu chapéu.”

“E eu amo sua roupa. É adorável”, ela disse, admirando meu vestido de baile vintage dos anos
cinquenta. Uma adição de última hora na minha mala para Paris, graças a Deus. “Então, vamos
para Violette, o clube de lésbicas plus branché de Paris. Você provavelmente entraria sem
mim”, ela admitiu, me olhando de cima a baixo. “Mas teria de ficar na fila.”

Certo. Me sentindo levemente intimidada, mas nada demais.

Violette era banhado em luzes roxas e vômito. Em todo lugar que eu olhava havia garotas:
dançando, segurando as mãos, rindo, se beijando. Ninguém olhou pra mim como se eu fosse
falsa ou não merecesse estar ali. Eu me senti relaxada quase imediatamente. Sem olhares
tortos ou sussurros cobertos por mãos. Era tão normal.

“Você gostou?”, gritou Anna, me tirando do devaneio.

“Sim!”, eu gritei de volta. “É ótimo!”
Anna pareceu encantada, como se eu tivesse lhe dado um presente e segurou minha mão.
“Vamos lá, eu vou te apresentar minhas amigas.”

Ela me levou pelo bar e por uma cortina pesada e bordada para uma sala pequena e mais
intima.

“Anna!”, gritou uma voz de um grupo de garotas perto da janela. Ela acenou e me guiou para
um banco forrado com veludo perto da janela, aonde quatro meninas bem feitas e imaculadas
estavam espalhadas bebendo vinho. Duas delas estavam sem blusa. Eu tentei não encarar.

“Pessoal, essa é minha amiga inglesa, Emily. Emily, essas são mes filles.” Ela as apresentou por
nome, mas eu só memorizei Danielle, uma garota pequena e bonita com um afro e um
piercing no mamilo que deu batidinhas no espaço do lado dela. Eu me sentei e alguém me
entregou uma taça de vinho. Uma terceira garota, menor e de cabelo curto, vestindo um terno
de homem, abriu um pacote de pó branco em uma mesa ao lado e cortou em seis linhas.
Cheiraram uma de cada vez, mas eu me segurei. Eu nunca tinha usado cocaína. Eu as observei,
com a porra do papelão enrolado.

“Você não gosta?”, perguntou Anna, sorrindo e gesticulando para a última linha. “C’est tres
pure.”

Eu hesitei só por alguns segundos. “Hm, certo. Obrigada”, eu disse me ajoelhando e de algum
modo conseguindo que algo entrasse no meu nariz.

Eu sentei de volta no banco, observando alegremente em minha volta. The Caves, com seus
copos plásticos de vodka e uma vibe hétero agressiva parecia a um mundo de distância, eu
pensei, vendo uma garota pequena beijando uma mulher muito alta na outra ponta.

Anna terminou a conversa com uma de suas amigas e veio se ajoelhar na minha frente.

“Então, petite Emily”, ela disse. “Eu tenho algo para te mostrar”, ela colocou uma grande unha
com esmalte preto nos lábios e arregalando os olhos ela sussurrou, “Um segredo.”

Ela nos guiou para uma passagem para fora da sala, e então por uma porta de emergência de
incêndio e por algumas escadas. A música foi ficando mais silenciosa até que se tornou um eco
quando chegamos ao topo, onde Anna abriu outra porta e nós entramos.

Carpete de carmesim, sofás de borgonha e cortinas castanho avermelhadas mulçumanas
penduradas no teto. Vermelho por todos os lados. Naomi diria que estávamos entrando no
inferno. Porra. Naomi. Eu não podia esquecer dela, mas estava lutando para lembrar dela
porque eu parecia estar vendo e ouvindo tudo tão intensamente. Eu me sentia como Alice no
País das Maravilhas. Eu explodi em risos. Me coma!

Eu olhei para Anna, que sorriu e tocou meu cabelo, mas eu não podia ter dito alto. O quarto
estava se contorcendo com mulheres nuas ou mulheres seminuas de todas as idades. A
maioria estava só conversando, acariciando uma a outra ou se beijando. Meus sentidos
estavam exagerados. Parecia que tinha dormido por dezoito horas e poderia dançar para
sempre.

De repente Danielle apareceu perto de mim, junto com as outras.

“Ca va?”, ela disse segurando minha cintura. “Você gosta daqui?”

Eu só sorri estupidamente como resposta.

Ela olhou por cima da minha cabeça para Anna e então eu senti os braços das duas envolvendo
minha cintura.

“Venha aqui”, disse Danielle, me empurrando gentilmente para um grande sofá cama.

Eu fechei meus olhos. Pensei em Naomi. Empurrei o pensamento para trás de novo.

É só por uma noite.

De repente saiu música dos alto falantes. Tipo pop francês ambiente. Anna começou a
balançar lentamente tirando suas roupas. Ela tinha peitos grandes e firmes e uma cintura
minúscula. Eu não conseguia tirar os olhos dela. Ela se virou e se foi em direção a Danielle.

Danielle estava mexendo seus quadris, correndo sua língua por seus lábios perfeitos. Eu sorri,
meu coração acelerando, mas balancei a cabeça. Eu não podia fazer coisa alguma. Podia
assistir, apenas isso. Anna estava na minha frente de novo, e sem tirar os olhos de mim,
lambeu seu dedo e se segurou para que eu visse o que ela estava fazendo. Eu me mexi no sofá,
olhando enquanto seu dedo se movia cada vez mais rápido. Em menos de um minuto ela
estava gozando, seus olhos se virando, incontroláveis. Então ela terminou, e seus olhos se
fecharam por alguns segundos. Quando ela os abriu de novo, ela disse pra mim.

“Você quer uma, Emily?”, ela disse.

Eu fiz que não com a cabeça. De jeito nenhum eu iria trair a Naomi. Como se estivesse lendo a
minha mente ela disse. “Está tudo bem, você pode ficar nos olhando... se você gosta”, ela
estendeu a mão para pegar a da Danielle e empurrou-a para o chão, aonde gentilmente ela
começou a tirar suas roupas. Eu olhei em minha volta, mas ninguém parecia dar a mínima.

Anna estava beijando o pescoço de Danielle, seus olhos em mim, então ela foi mais para baixo
e começou a circular seus mamilos lentamente com a língua. Senti como se tivesse que olhar
para o outro lado, mas eu não queria. Quando Anna se moveu para ficar entre suas pernas,
Danielle jogou a cabeça para trás, sua respiração ficando como suspiros enquanto Anna fazia
com mais força, suas mãos se segurando as pernas de Danielle. E então Danielle gozou, com
uma fina camada de suor em cima dela. Eu percebi que minha respiração tinha aumentado,
meu coração batendo alto em meus ouvidos. Fechei meus olhos, e então a música e os sons do
quarto voltaram. Quando eu os abri de novo Anna estava me olhando. Ela sorriu: “Você gostou
disso, Emily?”

Eu fiz que sim com a cabeça.

“Bom”, ela acariciou a bochecha de Danielle, e então as duas se vestiram. Depois de Anna ter
aplicado mais batom, ela estendeu a mão pra mim. “Vamos lá”, ela disse. “Nós pedimos
comida.”

Eu me levantei tremendo e olhei em minha volta. As outras estavam só sentadas conversando,
dividindo tigelas de batatas fritas finas. Agindo como se fosse um maldito café da manhã de
donas de casa. Minha respiração diminuiu um pouco, mas meu coração continuava batendo
forte no meu peito. Me senti estranha. Anna e Danielle estavam sussurrando uma com a outra
e me olharam. Que porra elas estavam dizendo? De repente eu senti que essas pessoas não
eram minhas amigas. Anna não estava mais sorrindo. Ou eu só estava sendo sensível demais?

Eu fiquei por outra hora, até meia-noite, mas passei o tempo olhando vagamente em minha
volta, com adrenalina, sem ouvir direito a conversa das garotas. Uma ou duas vezes eu senti a
mão de Anna acariciando minhas costas, mas eu me contraia para me afastar. Eu tomei duas
vodkas triplas e comecei a tremer. Eu tinha de ir agora. Estava começando a me sentir triste.

De volta ao hotel eu tirei minhas roupas e subi na cama sem me incomodar com escovar os
dentes ou tirar minha maquiagem. Mas eu não conseguia dormir. Deitei olhando para o teto,
vendo o reflexo das sombras da rua. Eu pensei em Naomi. Minha Naomi. O seu cabelo louro,
seus lábios rosados e os barulhos estranhos de guincho que ela faz quando dorme.

Segurei o meu braço acima da minha cabeça em um ângulo reto e deixei-o achar o próprio
lugar. De repente eu me senti sozinha. Eu queria minha namorada na cama comigo. Ver Anna
e Danielle fazendo, me fez ficar com vontade de fazer aquilo com minha querida. Eu nunca
poderia contar para a Naomi – não faz o tipo dela. Ela iria ficar louca com as pessoas daquele
clube. Esse era o meu segredo. E eu não tinha feito algo errado. Eu só tinha assistido.

Virando-me, eu me enfiei embaixo das cobertas e fechei meus olhos. De qualquer jeito, eu
pensei, Naomi não tinha retornado a porra das minhas ligações.

Emily

Sexta, 14 de Agosto

De volta ao chalé

Eu dormi todo o caminho de volta de Paris. Acordei às oito da manhã para fazer o check out do
hotel. Nauseada e depressiva. Não usaria cocaína de novo tão cedo.

Enquanto eu ficava na mesa da recepção, os eventos da noite passada voltaram à minha
mente. A luz gelada do dia fez com que a noite passada parecesse grotesca - eu estremeci. Eu
não gosto dessas predadoras como a Anna por um motivo. Elas normalmente são um pouco
loucas. Eu ansiava por Naomi. Só de pensar em seu nariz e sua boca se contraindo quando ela
tenta não rir me deixou desesperada.

Mas eu nunca mais veria alguma dessas pessoas. Eu fui cuidadosa para não dar à Anna
qualquer detalhe para contato. E de qualquer forma, eu me lembrei pela centésima vez.
Naomi estava fora de área.

Minha mãe estava esperando na estação, em seu visual Desperate Housewife em uma roupa
de corrida roxa da Juicy e sandálias cheias de joias. Ela me olhou de cima a baixo.

“Você esteve andando por Paris com essa roupa de quem acabou de acordar?”, ela perguntou
admirando meu tênis e minha calça harem de algodão amassado. “Você deve ter dado a eles
um susto certeiro, querida!”

Eu não estava com vontade de ouvir conselhos de moda da minha mãe. Tinha coisa melhor
para fazer. Dirigimos em silêncio de volta ao chalé, e assim que chegamos corri para dentro
para colocar meu celular no carregador. Bebi quase um litro de água esperando por sinal.

Dez chamadas perdidas. Todas da Naomi. Eu senti uma mistura de alívio e pavor em mim
enquanto eu escutava as mensagens. Primeiro elas eram simpáticas e amáveis, Naomi falando
sobre a patética maratona de sexo do Cook e do Freddie. Sentindo minha falta. Mas após a
quarta mensagem ela ficou hostil. “Se você não estiver ocupada demais nadando nua com seu
namorado, me ligue qualquer hora.” Na décima mensagem o lado princesa do gelo dela estava
ativo. “Vai se foder, Emily. Se você mudou de ideia, pelo menos tenha coragem de me falar
isso.”

Merda. Não entendi. Contei a ela sobre meu telefone estar desaparecido. Ela tinha o número
da Katie. Que porra aconteceu?

Nervosamente, liguei de volta. Ela atendeu depois de trinta segundos, que são séculos se você
pensar bem.

“Sim?”

“Naomi?”, minha garganta estava apertando, minha voz resfolegando e nasalada ao mesmo
tempo. “Desculpa, querida. Não sei o que aconteceu. Eu não estava com meu celular, mas eu
te dei o número da Katie. Você não me ligou de volta.”

“Você nunca me ligou”, sua voz estava como gelo. “Nenhuma vez.”

“Eu liguei”, eu estava entrando em pânico. “Eu juro por Deus. Eu te liguei várias vezes.”

“Qual é o meu número?”

“O quê?”

“Qual é o meu numero, Emily? E não olhe no seu telefone.”

“O7793... 23468”, eu disse hesitante, eu sempre me confundia com os números do meio.

“Errado. Errado. Errado”, disse Naomi.

Houve silêncio.

“Merda, então eu estive ligando para um completo desconhecido”, eu fechei meus olhos.
Então foi tudo um mal entendido horrível. “Mas meu Deus, Naomi. Eu tive os dois dias mais
estranhos da minha vida, você não vai acredi-”

“Que seja”, ela me cortou, friamente. “Não importa que você não consiga nem lembrar do
meu telefone. Que você estava muito ocupada saindo com seu amigo para checar a porra do
meu número duas vezes.”
“Escuta, querida. Eu e Katie fomos para Paris. Ela afanou meu telefone e depois caiu fora no
meio da noite. Simplesmente fugiu. Eu passei o dia todo ontem louca, atrás dela.” Eu mordi o
lábio, eu não queria pensar na noite passada. Nunca aconteceu. “E ela só entrou em contato
essa manhã para dizer onde ela está”, eu parei, ignorando aquela mentirinha. “Então desculpa
se eu não tive recursos para te perseguir. Eu estive presa na porra de um drama pessoal”, eu
parei e respirei.

“Então aonde ela está?”, disse Naomi depois de alguns segundos. “Aonde a vadiazinha está
agora?”

“Em Veneza, com a Effy.”

“Está brincando?”

“Não. Talvez ela queira resolver as coisas ou alguma merda assim?”

“Hmmm”, Naomi suspirou. “Bem, suponho que isso explique sua negligência.”

Eu sorri para o telefone. “Eu não parei de pensar em você. Senti muito sua falta. Está sendo
frustrante para mim também, sabe.”

“Sim, sim”, ela disse. “Eu te perdoo, Emily Fitch. Posso ver como essa pantomima ridícula
aconteceu. Tudo planejado pela gêmea do mal, como sempre.”

Isso não era muito justo. Mas melhor deixar pra lá por enquanto.

“Enfim”, disse Naomi. “Tenho de ir. Kieran tem algumas coisas para me mostrar.”

“Certo. Que coisas?”

“Nada demais”, ela disse vagamente. “Olha... vamos nos falar essa noite, certo?”

“Certo”, eu disse, magoada. “Falo com você depois. Te amo.”

“Sim, tchau”, disse Naomi. “Até”, ela desligou.

Bem feito, Emily, eu disse a mim mesma. Bem feito mesmo.

Naomi

Sexta, 14 de Agosto

No bar do Keith
“Bem, isso é engraçado”, eu disse, observando Cook encarar tristemente sua bebida. “E eu
estava esperando que você fosse me animar.”

Ele me olhou. “Problema de lésbicas?”, ele perguntou. “Desculpa, cara”, ele fungou
excessivamente, esfregando seu nariz contra a manga de seu casaco imundo.

O tio de Cook, Keith, apareceu por trás do bar. Ele cuspiu muco, e colocou meio copo de
cerveja fora de vista. Seus olhos vagaram pelo bar parando em mim e Cook. Ele levantou o
copo para nós.

“Não posso começar o dia sem um Jack Daniels”, ele disse com os olhos turvos. “Ou uma
punheta vigorosa para aquela gostosa na TV, no programa sobre café da manhã.”

Ele piscou para nós. Velho repulsivo. Eu forcei um sorriso e me voltei para o Cook.

“O que está acontecendo com você então? Finalmente descobriu a futilidade da existência? O
vazio sem sentido que é o sexo casual?”

“Não sei. Só estou cansado de tudo, cara.” Cook terminou sua bebida.

“Você esta solitário?”, eu perguntei a ele.

Ele esfregou o nariz e cutucou minha barriga com os dedos. “Cai fora. Eu não fico solitário.
Tenha certeza disso, caralho.”

“Ah”, eu abri um pacote de batatas fritas. “Talvez esse seja o problema?”, eu olhei para ele: ele
parecia uma merda. “Só a esqueça”, eu disse. “Ela não vale a pena.”

“Quem?”

“Não seja idiota. Você sabe de quem estou falando”, eu coloquei algumas batatas na boca. “E
transar com qualquer coisa que se mexa. Problemas com raiva. Provavelmente tem algo a ver
com sua mãe, e consequentemente com todas as mulheres”, eu funguei. “Na minha opinião.”

“Me poupe dessas suas merdas feministas psicóticas”, Cook disse, se animando um pouco. “De
qualquer jeito, qual é o seu problema? Sua garota estará em casa em breve. Você tem tudo
resolvido.”

“É, bem. Não é tão simples assim”, eu disse ocultamente.

“Hã? Emily não está sendo uma garotinha safada, está?”, ele sentou, parecendo alegre.
“Vamos lá. Diga ao Cookzinho.”
“Não. Eu não acho. Não é ela. Sou eu.”

“Você esteve sendo uma garotinha safada?”

“Não”, eu disse frustrada. “É toda essa coisa de casal”, eu me movi desconfortavelmente. “Está
bagunçando o meu futuro.”

“Futuro? Por que você está pensando no futuro, porra?”, disse Cook. “É aqui e agora, princesa.
Isso é o que é importante.”

“Mas você não imagina o que vem a sua frente?”, eu perguntei a ele. “Você não tem um
plano?”

“Besteira”, ele bufou. “Qual é o objetivo disso?”

“O objetivo é... educação, passar nas provas, ter um emprego”, eu olhei pra ele. “É
importante.”

“Não para mim”, ele disse firmemente. “Eu não sou como você. Você é inteligente. Eu vou
terminar como meu pai.”

“Ah, não seja um maricas”, eu disse com raiva. “Isso é idiota pra porra.”

Cook bateu seus dedos na mesa. “Talvez eu não saiba por onde começar”, ele disse. “Eu não
faço ideia”, ele olhou para mim pálido, com os olhos vermelhos. “Mas você vai para algum
lugar, Campbell. Você sabe disso. Eu sei. Emily sabe.”

“Eu a amo”, eu disse sem expressão. “O que vou fazer?”

Cook deu de ombros. “Não sei, querida”, ele disse, apontando para o copo vazio. “Mas você
pode pegar outra bebida para nós, para começar. Estou duro.”

Eu fiquei no bar e relembrei a minha conversa ao telefone com Emily. Foi tudo um mal
entendido com as ligações. Ela não mentiria para mim. Tinha certeza disso. E eu mal podia
esperar para vê-la, abraça-la e beijá-la. Então por que eu fui tão fria com ela?

Era eu quem iria estragar tudo?

Effy

Sexta, 14 de agosto

Estação de trem de Santa Lúcia, Veneza
A cabeça ruiva veio primeiro, depois o vestido apertado e sugestivo de Lycra e finalmente as
perninhas pálidas se mexendo em saltos vermelhos e brilhantes. Como a porra de uma Betty
Boop que aparece na revista D-List. Eu vi alguns imbecis olharem boquiabertos para seu
decote e sorri para mim mesma. Algumas coisas nunca vão mudar.

Katie parou e puxou seus óculos levando-os a sua cabeça. Olhando a sua volta, sem noção de
qualquer coisa e muito pequena. Então de repente a multidão se separou e ela teve uma visão
clara de mim, inclinada em uma dessas máquinas que carimba os bilhetes para você.

“Effy”, ela acenou, colocou a bolsa no ombro e andou em minha direção. Eu levantei a minha
mão em meio que uma saudação.

“Porra, eu pensei que você iria me dar um bolo”, ela disse me olhando de cima a baixo. “Mas
você realmente está aqui.”

“É o que parece”, eu disse colocando as mãos nos bolsos da minha saia.

“Vamos lá. Vamos sair daqui, eu preciso de um cigarro.”

Eu serpenteei rapidamente pela estação que tinha uma saída para o Grand Canal, tentando
decidir aonde eu a levaria primeiro.

“Viagem de trem fantástica – muito rápida”, disse Katie, se apressando para acompanhar meu
passo com aqueles saltos ridículos dela. “E esse lugar. Porra. É igualzinho ao que aparece na
TV.”

“Eu sei. É surreal”, eu diminui o passo, peguei um cigarro e o acendi. “Mas você se acostuma
com isso.”

Nós cruzamos uma ponte e seguimos em direção ao apartamento. Eu queria, precisava, de
alguma bebida. E consegui um pouco de maconha com o cara assustador do bar do outro lado
da rua do apartamento. O bastante para alguns dias. Não conseguiria passar por isso sem
ajuda. Mas eu tenho de admitir: não era tão ruim assim ver Katie. Havia algo nela que estava
diferente.

Menos como um pavão. Mais como um pardal.

Depois de dez minutos chegamos a um pequeno restaurante com mesas e cadeiras debaixo de
um toldo do lado de fora. Eu já tinha ido lá uma vez com Aldo, e uma vez com Florence e
minha mãe. O dono do local veio para fora e acenou com a cabeça pra mim.
“Signorina”, ele disse educadamente. “Ciao.”

“Ciao”, eu me virei para Katie. “Nós podemos beber alguma coisa aqui antes de irmos para o
apartamento, sim?”

“Ótimo”, Katie disse, um pouco alegre demais.

Quando sentamos, o meu olhar captou seu rosto. Ela estava terrível. Olheiras gigantes
embaixo de seus olhos. Onde estava a maquiagem pesada? Os lábios cheios de gloss? As
cores? Ela não estava se bronzeando em Bordeaux?

“Você parece uma merda”, eu disse brutalmente. “Se não se importa que eu diga.”

Katie abanou o rosto com o menu. “Você não liga a mínima se eu me importo ou não”, ela
disse calmamente.

Eu sorri. “Justo”, eu peguei a lista de vinhos. “Uma garrafa do tinto da casa?”

Katie deu de ombros. “Por mim tudo bem.”

“Então”, eu disse depois do garçom trazer nosso vinho. “O que você está fazendo aqui, então?
Eu pensei que você me odiasse até as entranhas.”

Ela colocou a cabeça no ângulo do sol. “Para ser honesta, eu não faço ideia. Eu só precisava
sair da França.”

“Já usou toda a população masculina de Bordeaux?”, eu disse, com senso de humor.

“Isso é hilário”, ela nos serviu com mais vinho. “Na verdade, ficou chato.”

“A transa?”

“Mais ou menos. E eu tive uma grande briga com a Emily.”

“Certo”, olhei para ela através do meu copo. “Sobre o que?”

Uma sombra caiu em seu rosto. “Eu fui muito má com ela. Eu não conseguia parar de torrar a
paciência dela com coisas sobre a Naomi”, ela brincou com seus óculos. “Emily mudou. Ela não
é mais minha irmãzinha tímida. Não está mais aguentando calada.”

“Então, o quê? Ela mandou você cair fora e disse que não quer te ver nunca mais?”, eu estava
interessada, incomum para mim.
“Mais ou menos”, Katie olhou para seu copo, rodando o vinho dentro dele devagar. “Eu não
posso culpá-la. Ela está melhor sem mim. Tudo o que eu toco vira merda.”

Eu a servi com o resto da garrafa. “É, bem”, eu disse. “Talvez você não seja a única.”

Katie olhou para mim, esperando que eu elaborasse. Mas eu não ia me abrir com alguém.
Muito menos com ela.

“Vamos fumar”, eu disse dando batidinhas no bolso da minha saia de brim.

Katie começou pegar sua carteira para pagar a conta.

“Por minha conta”, eu disse, colocando quinze euros embaixo da garrafa vazia de vinho. “É o
mínimo que posso fazer.”

Eram nove da noite quando voltamos para o apartamento. Katie se animou um pouco depois
de alguns baseados em uma praça deserta, mesmo que ela tenha tossido suas entranhas toda
vez que inspirava. E não mencionamos o vínculo que nós tínhamos. Freddie. Em vez disso, em
um cenário de um universo paralelo, eu e minha nêmese acabamos nos divertindo,
especialmente quando tentamos negociar as inumeráveis ruas que passávamos no caminho
para casa. Finalmente eu abri a porta, agora familiar, que nos levava as escadas. Dessa vez
esperando que Aldo não estivesse pela vizinhança.

Silêncio. Bom.

“Aqui fede”, disse Katie, enrugando o nariz. “A umidade e essas merdas.”

“Se acostume, princesa,” eu disse. “E se você acha que vou carregar sua bolsa por dois lances
de escada, melhor pensar de novo.”

“Estava imaginando quando começaria a ser má”, ela disse, soprando e ofegando atrás de mim
enquanto subíamos.

Quando entramos no apartamento, ouvi vozes vindas da cozinha. Uma masculina e outra
feminina. Eu fiquei tensa imediatamente.

“Effy? É você?”, minha mãe gritou, sociável demais para o meu gosto. “Ocorreu tudo bem
quando você foi pegar sua amiga?”, ela apareceu na sala, quando Katie largou sua bolsa e
correu para o banheiro.

“Quem está aqui?”, eu disse petulante, sabendo a resposta.
“Olá, Effy”, Aldo falou da cozinha. “Nós estamos tendo uma festa improvisada. Nós já estamos
vergonhosamente bêbados.”

Eu não posso deixar a vadiazinha sozinha por dez minutos, eu pensei, lutando para manter
minha expressão patenteada de tédio indiferente. Eu não vi muito o Aldo desde Lido. Achei
que o tinha assustado pra caralho quando dei em cima dele. Eu, dando em cima de alguém.
Quem diria?

Não que eu estivesse preocupada. Ele precisa de tempo para se acostumar com a ideia, só isso.

“Aldo só apareceu para dar um oi”, minha mãe disse. “Mas eu já estava com uma garrafa
aberta.”

Cristo, ela estava muito bêbada. Eu queria dar um tapa nela.

“E agora estamos na terceira... ah, olá?”

Ela viu Katie que tinha saído do banheiro, tendo obviamente aplicado várias camadas de base
e gloss em trinta segundos. “Katie, não é?”

“Sim, oi”, Katie deu um sorriso fútil. Minha mãe olhou insegura para uma e para a outra. Eu
podia ouvir Aldo falando com alguém em seu telefone. Suavemente, carinhosamente.

“Alfredo está ligando para a filha”, ela disse com propriedade. “Venham, entrem.”

Eu estava me contorcendo. Desde quando ela tinha informações relevantes sobre os filhos do
Aldo?

Minha mãe praticamente dançou de volta para a cozinha. Uma Bossa Nova estúpida estava
tocando no rádio. Eu me virei para Katie.

“Ela realmente me dá nos nervos. Só a leve na brincadeira”, eu sussurrei.

“Ela é legal”, disse Katie. “Isso pode ser engraçado.”

Ela seguiu minha mãe e eu ouvi uma cadeira se arrastando quando Aldo levantou para
cumprimentá-la.

Eu fiquei afastada por um minuto inclinada sobre as estantes da sala, ouvindo Katie sorrindo
afetada para Aldo.

Genial. Uma puta, uma papa homem, e um homem mais velho em boa forma.
Que porra eu estava pensando?

Katie

Sábado, 15 de Agosto

Casa da Effy, Veneza

“Dá um tempo”, eu ouvi Anthea dizendo. “Então nós tomamos algumas bebidas ontem à
noite. Qual é problema? Preocupada que eu comece a me divertir?”

“Eu não disse isso.” Voz da Effy. “É que...”

“É que o quê?”

“Nada. Só tente assumir o controle, isso é tudo.”

Eu saí da cama e fui na ponta dos pés até a sala.

“A sua amiga Katie não pareceu se importar”, disse Anthea. “Passa a chaleira, pode ser?” Ela
abriu a torneira agora. “E Alfredo se divertiu. Todos nós nos divertimos.”

“É Aldo”, Effy disse sombriamente. “Por que você fica o chamando de Alfredo?”

“Porque essa é a porra do nome dele, Effy.”

Eu fui em direção ao banheiro. Quando eu alcancei a porta, Effy apareceu fora da cozinha.

“Oi”, eu disse nervosamente. “Tudo bem?”

“Sim”, não parecia isso. “Dormiu bem?”

“Ótima”, eu dei um puxão na minha blusa, me abracei autoconsciente. “Tudo bem se eu tomar
um banho?”

“Faça o que quiser. Só não use toda a água quente.”

Nós olhamos uma para outra, como espécies rivais.

“Eu não vou demorar”, eu disse a ela, abrindo a porta do banheiro. “Vai ser todo seu em um
minuto.”

“Quer alguma coisa para o café da manhã, Katie?”, Anthea me perguntou. “Café?”

“Sim. Obrigada, Anthea...”, eu fechei a porta e me inclinei contra ela.
Eu nunca devia ter vindo até aqui.

Eu andei por quilômetros naquela noite em que deixei Emily no hotel. Chorando. As pessoas
que estavam em clubes e bares estavam voltando para casa, mas mantive a cabeça baixa e
passei por eles. Nem mesmo um grupo de garotos em um salão de sinuca me chamando de
gatinha fez com que eu levantasse a cabeça. Não me interessava. Não naquela noite. Desculpa.
Então eu dissolvi, fiquei invisível, flutuando sobre todos.

Eu acabei na Gare Du Nord. Cinco da manhã. Minhas pernas estavam rígidas. Eu me tranquei
em um dos boxes estranhamente limpos da estação e dormi lá até às oito da manhã, quando o
faxineiro bateu na porta. Provavelmente pensou que eu era uma prostituta. Eu realmente
estava parecendo com uma. Eu lavei o rosto, passei maquiagem e me senti humana de novo.

Mas eu continuava sem saber o que estava fazendo. Para aonde pretendia ir. Eu sentei um
pouco na cafeteria da estação, só passando e repassando a noite passada. E pensei na última
vez em que fiquei genuinamente feliz. Surgiu uma memória de aproximadamente três anos
atrás. Eu e Emily no Water Ride em Alton Towers. Gritando uma na cara da outra, segurando as
mãos, só nós duas. Nós tínhamos quinze anos. Nosso pai tinha comprado um iPod para cada
uma de aniversário. Colocamos as mesmas músicas nos dois. Mas eu que as tinha escolhido. Eu
escolhia.

Bebi o resto do meu café e saí da estação. Montmartre era perto. Dizia em todas as placas na
rua. Eu fiquei entrando e saindo de igrejas velhas e bolorentas, sentei-me em um banco antigo,
em ruínas e depois em um banco, comendo McDonalds. Eu pensei no rosto de Emily se ela me
visse agora. “Um McDonalds? Você vem até Paris para comer um Big Mac?”

No início da noite, a exaustão da noite passada bateu. Eu pensei no banheiro da estação.
Dizendo para mim mesma que isso era um tipo aventura vagabunda, decidi passar outra noite
no meu cubículo especial. Não fedia muito a xixi e alvejante. Era um lugar tão bom quanto
qualquer outro. A primeira coisa que eu deveria fazer de manhã era pegar um trem de Paris-
Bercy. Se tudo ocorresse como o planejado.

Peguei o meu telefone e olhei meus contatos até chegar ao seu nome. Um minuto depois já
havia enviado a mensagem. Eu fiquei uma hora esperando sua resposta, imaginando se ela iria
dizer para eu me foder. Eu desejei que ela não fizesse isso. Precisava dela para terminar as
coisas. Para acabar com isso.

Por favor, Effy, você me deve uma.
E agora estou aqui. O céu não caiu. O mundo continua girando. Eu continuo viva.

Estou levemente desapontada.

JJ

Sábado, 15 de Agosto.

Quarto do JJ.

“Isso aí é um monte de gozo dos bons, Gayjay”, disse Cook segurando uma camisinha e
examinando com os olhos. Ele balançou na frente do meu rosto, rindo enquanto eu tentava
sair do caminho. “Outro ponto para o Cook, parabéns para mim.”

Eu entreguei a ele um pano e minha lixeira. “Tem alguns elementos da minha tarefa que eu
acho profundamente inquietante”, eu disse. “Monitorar o seu fluído seminal é um deles.”

Cook me mandou um olhar. “É o único jeito, Jeremiah”, ele disse. “A menos que você queira
ficar por baixo das minhas bolas” ele levantou uma sobrancelha.

“Obviamente não”, eu afundei a minha cabeça nas mãos. “Mas eu não estou certo... eu não
estou certo de que a designação do papel do árbitro do sexo vai me ajudar com o meu desejo,
sem sentido, de fazer contato, sexualmente falando, com o sexo oposto.”

Cook estava me observando cautelosamente.

“Isso é para dizer que estou me sentindo como um comediante. Um palhaço. Alguém de quem
as pessoas riem, um ser humano descartável. Simplesmente reforça meu status de único
adolescente da cidade que com confiança e sucesso não conseguiu pegar uma menina disposta
e sem pena de mim da minha idade”. Me levantei e marchei pelo quarto. “Não que eu esteja
depressivamente resignado a esse papel. É só que quando tenho você trazendo camisinhas
usadas para a minha casa diariamente é difícil não explodir em pura inveja frustrada”. Eu parei
para respirar. “Resumindo, isso faz com que eu me sinta uma merda.”

“Jaykins”, Cook me fez parar com o discurso. “É só um jogo estúpido pra caralho. Nós podemos
esquecer sobre ele.”

Ele colocou seus braços em volta de mim e eu fiquei estranhamente cercado.

“Se senta, cara.”
Cook fez um gesto à minha cama e se sentou perto de mim. Agora que a intensidade da minha
respiração tinha voltado a ser quase normal, ele apertou meu joelho e sorriu.

“Jesus, o seu braço de bater uma deve ter músculos como o do Popeye.”

“Não é engraçado.”

“Relaxa, Jay, todo nós fazemos isso” disse Cook. “Nada do que ficar envergonhado.”

“Eu sei disso”, disse irritado. “Eu só não queria discutir isso com você, só isso.”

“Tudo bem, cara. Se acalme.”

Ele se levantou da cama e andou pelo meu quarto pegando as coisas e as colocando no mesmo
lugar. Ele não conseguia ficar sentado, mesmo que eu aparentemente seja o hiperativo dos
dois.

“Então”, ele disse prestando atenção em um Parkzone F4U Corsair RTF com um Spectrum
Radio Gear. “É melhor nós arrumarmos alguma ação para você.”

“Eu não vou para aquele bordel de novo”, eu disse.

“Não, vamos achar uma garota que transe com você de graça”, disse Cook, pegando agora
outro e muito mais raro modelo de avião. Eu me contive de dizer a ele para ter cuidado. Era
como mostrar um pano vermelho para um boi.

“Ah, esplêndido”, eu disse, torcendo para que ele não o quebrasse. “Tenho certeza de que ela
vai ser radiantemente atrativa então.”

“Jay, seu filho da mãe louco, você me faz rir”, ele disse, mesmo que não estivesse rindo na
verdade. “Deixe isso para mim e Freddie. Depois resolvemos seu problema.”

“Por que estou sentindo que será uma desgraça iminente?”, eu disse suspirando.

“Relaxa. Vai ser lindo.”

Eu olhei para ele. “Tudo bem. Mas eu me recuso a marcar os pontos nesse seu jogo de sexo de
novo.”

“Se é isso que você quer.”
“Ok, então. Estou preparado para sermos cúmplices nesse plano”. Eu levemente me balancei
para lá e para cá na cama. “Agora, por favor, me deixe sozinho. E leve a sua camisinha gozada
com você.”

Cook me bateu carinhosamente nas costas. “Justo o bastante, Jay. E eu vou resolver isso para
você, não se preocupe.”

Então foi aí que eu me encontrei nervosamente me aproximando do clube Ritzy às dez da
noite. Cook e Freddie já estavam me esperando, fumando maconha atrás do clube. Se eu
dissesse que eles olharam encorajadoramente para mim quando eu andei em direção a eles,
eu estaria exagerando, mas eles fizeram o melhor que puderam.

“Pelo o amor de Deus, JJ, pare de tremer”, disse Freddie. “Vai ficar tudo bem”. Ele me
entregou seu baseado. “Fume isso, vai fazer com que você fique relaxado.”

Ou interferir com minha medicação e fazer com que eu fique apatetado. Eu fiz que não com a
cabeça.

“O nome dela é Holly”, disse Cook, agarrando o baseado que tinha me oferecido. “E ela está
preocupada. E na medida que ela ficar aflita, isso é um encontro às cegas com o nosso melhor
amigo, então verifique essa sua tendência a ser louco, pode ser?“

“Certo, sim, claro. Eu vou dar meu melhor.”

“Calmo JJ, tá? Caaaaalmo.”

“Calmo, certo, calmo, calmo, calmo.”

Meus dois amigos olharam para mim com o que vi que era pavor genuíno. Eu respirei algumas
vezes longa e pausadamente. “Certo. Eu estou melhor agora. Vamos fazer isso.”

“Tem certeza?”, disse Freddie. Eu fiz que sim com a cabeça e os segui até o clube.

Mas até a minha transpiração demonstrava que eu não estava bem. O barulho e a multidão,
que nunca me incomodou, fez com que eu perdesse o bom senso. Eu precisava sair assim que
fosse humanamente possível.

Foi uma ideia infeliz falar isso para o Freddie quando Holly apareceu. Fred me cortou.

“JJ essa é Holly. Holly, JJ.”
Eu devia tentar descrever como ela era, mas não consigo me lembrar. Eu acho que ela
provavelmente disse oi, mas eu só consigo lembrar a expressão de seu rosto quando eu
comecei a bater na minha cabeça com o punho.

“Desculpa, desculpa, desculpa, eu não posso fazer isso, pensei que poderia. Eu estou certo de
que você é adorável, mas você realmente não quer transar comigo. Eu não consigo fazer isso,
não consigo fazer isso, não consigo fazer isso, não consigo fazer isso, não consigo fazer isso.”

Freddie cobriu meu punho com o dele e segurou eles do lado da minha cabeça. “JJ, CORTA
ESSA. Vamos lá, cara. Se acalma...calmo.”

Minha respiração diminuiu na mesma hora que eu ouvi Holly gritar para o Cook obrigado por
arranjar um encontro para ela com ‘a porra de uma criança com necessidades especiais’. Eu
me afastei e corri. Freddie tentou me segurar, mas eu gritei para ele cair fora e a outra coisa
que eu me lembro é que eu fui pra casa, cavar a parede do meu quarto com um Biro.

Acordei algumas horas depois no chão, ainda vestido. Eu olhei para meu telefone. Cinco da
manhã. Coloquei meus pijamas e rastejei até minha cama, mas não conseguia dormir. Trinta e
sete minutos depois, coloquei minhas roupas de volta e sai de casa, segurando minha
respiração enquanto eu fechava a porta da frente. Deixei um bilhete para minha mãe, mas não
queria acordá-la. Eu precisava andar.

“Ei, JJ”, era Thomas, esperando na estação do ônibus.

“O que você está fazendo acordado?”, eu disse, modificando meu trajeto para me juntar a ele.

“Eu tenho um horário cedo no trabalho. E você?”

“Não conseguia dormir”, eu disse, me balançando nos meus calcanhares.

“Entendo.”

Ficamos em silêncio por alguns momentos.

“De qualquer jeito”, ele disse. “Chegou meu ônibus, então...”.

“Eu vou com você”, disse rapidamente e saltei no ônibus.

Thomas deu de ombros e sorriu. “Tudo bem, isso seria legal”.

Nós sentamos nas cadeiras da frente do andar de cima: minha cadeira favorita. Eu limpei a
condensação na janela com minha manga.
“Então, como vão as coisas?”, perguntou Thomas.

“Ah, você sabe. Cook e Freddie estão competindo para ver quem tem mais sexo casual.” Soprei
na janela e escrevi meu nome nela com o dedo. “E eu não.”

Thomas balançou a cabeça. “Sexo”, ele disse misteriosamente. Ele olhou para a janela
nebulosa. “O que é essa obsessão com sexo?”

“Você saberia que não o tivesse”, eu disse. “E ter a perspectiva de nunca ter.”

Thomas se ajustou na minha frente. “Ok, eu vou te dizer algo que provavelmente vai te fazer
sentir melhor”, ele disse. “Eu também nunca mais tive”.

“Sério?”, eu disse. “Mas a Pandora-?”

Thomas me cortou. “Não. Pandora realmente quer que nos façamos. Eu não. Ainda não, de
qualquer jeito.”

“Sim, bem, eu queria que eu tivesse esse problema”, disse temperamental.

“Eu acho que você não iria querer, se você o tivesse”, disse Thomas em voz baixa.

Por alguns minutos nós sentamos em silêncio. O movimento do ônibus quase me fez dormir
quando de repente Thomas falou, me fazendo pular.

“Você sabe, Cook é uma pessoa vazia”, ele disse com raiva. “Ele não liga para ninguém, eu
acho. Ele só liga para sexo.”

Eu estremeci. Claro: eu tinha esquecido da história da Pandora com o Cook.

“Ele é um pouco superficial em respeito a isso”, eu admiti. Thomas levantou uma sobrancelha.
“Mas ele não é uma pessoa má. Mas tem motivos para sua abordagem não ortodoxa para a
vida.”

“Ah, vá.” Thomas soou incrédulo.

“Sim, para deixar claro o seu pai é um idiota egoísta e não liga a mínima para ele”, eu disse.
“Cook o venerava.”

“Venerava?”, perguntou Thomas.

“Eu acho que ele acabou sacando, nesse sentido”, eu disse.
“Entendo”, disse Thomas. “Eu perdi meu pai, mas pelo menos eu sei que ele foi um bom
homem”. Ele olhou para seu passe de ônibus e agitou a capa algumas vezes. Era quase
hipnótico.

“Então... o que você vai fazer em relação à Panda?”, eu perguntei.

“Eu não sei”, disse Thomas. “Eu estou lutando para fazer a coisa certa.”

“Que bom ter essa luxúria”, eu disse puxando meu capuz. “Mas você está certo em ter os pés
no chão. Eu deveria tentar, qualquer hora dessas.”

Thomas sorriu e apertou meu ombro. “Você é um bom homem, JJ”, ele disse. “Sua hora vai
chegar. Seja paciente. Vai chegar.”

Katie

Sábado, 15 de Agosto.

Apartamento da Effy, mais tarde.

“Então”, disse Anthea abrindo mais outro pacote de cigarros. “O que vocês duas vão fazer de
noite?”

Effy olhou de lado para mim e depois de volta para sua mãe. “Ainda não decidimos. Eu pensei
que Aldo nos levaria a algum lugar. Se ele estiver por aí.” Ela encarou Anthea. “Ele disse
alguma coisa noite passada...”

“Disse?”. Anthea soltou uma corrente de fumaça. Grossa. Ela devia estar no quadragésimo do
dia. “Não o irrite, Effy... ele pode se sentir obrigado.”

“Por que ele se sentiria obrigado?”. Effy abanou a fumaça de seu rosto. “Ele gosta de mim.”

“Claro que ele gosta de você. Não significa que você deveria tirar vantagem disso. Só isso.”

Anthea se levantou e começou a andar pelos armários. Ela tirou alguns copos e os colocou na
mesa. Effy deu um bocejo violento. As observei. Que porra de energia essas duas tinham?

Ela estava de boa quando voltamos do apartamento noite passada até ela ver a mãe dela
ficando bêbada com o Alfredo. Pelo resto da noite até Anthea ir para a cama ela estava com
uma cara emburrada. E as duas estavam zumbindo em volta de Alfredo como abelhas em volta
do mel. Estranho pra caralho.
Assim que Anthea desapareceu, Effy fez um baseado e Aldo se juntou a nós na pequena
varanda para fumar. Effy fez questão de se sentar do lado do Aldo, tocando seus cabelos e
rindo muito. Se divertindo, como sempre. Eu estava exausta, então só sentei, tentando ficar
confortável na cadeira de metal.

“Eu fazia isso várias vezes”, disse Aldo, fumando seu baseado. “Quando eu era um estudante”.
Ele sorriu vagamente. “Quando a vida se estendia para mim como-“, ele chacoalhou suas mãos
em busca de palavras, “-como esse prado enorme de... liberdade e irresponsabilidade”. Passou
o baseado para a Effy. “Eu amava. Mas chega um tempo que não se encaixa bem com... com a
busca de satisfazer a existência”. Ele olhou sobre a varanda, nos trilhos do esquecimento. “E o
amor.”

Effy tossiu, esticou as pernas e traçou sua coxa com um dedo. Uma mão ainda segurando o
baseado. Os seus olhos seguiam o seu dedo se movendo.

“Então quem você amava?”, ela perguntou.

Aldo esfregou a testa. “Eu estava muito apaixonado por uma garota da universidade. Rosalla.
Ela era... difícil. Muito séria e muito resistente sobre meus avanços. Ela era tão bonita”. Ele
olhou diretamente para nós pela primeira vez. “Ela sabia disso, e isso não a deixava feliz.
Deixava-a desconfiada, na verdade. Ela achava que nenhum homem de verdade a amava... a
sua aparência notável ficava no caminho”. Ele chacoalhou a cabeça. “Mas beleza não é o
bastante. Tinha de ter mais. Ela era quieta, pensativa e frágil”. Ele desviou seu olhar de novo.
“Eu queria cuidar dela.”

Effy estava o encarando. Ela derrubou o resto do baseado no chão de concreto e botou as
mãos nos joelhos. “O que aconteceu com ela?”

“Ela se matou”, ele disse friamente. “Ela se enforcou em seu quarto”.

“Merda”, eu murmurei. Effy ficou pálida.

“Foi aí que eu mudei”, disse Aldo. “Eu parei de pensar que minha vida fosse tão indulgente...
um joguinho indulgente. Pareceu importante não a desperdiçar. Em vez disso eu resolvi achar
e manter essas coisas que Rosalla pensou que nunca poderia ter.”

Effy estava se balançando levemente em sua cadeira. Ela levantou suas pernas e sentou,
abraçando-as. “Então você esqueceu da Rosalla?”, ela disse.
Ele balançou a cabeça. “Eu penso nela todo dia, mas você tem de deixar esse tipo de amor
para trás”. Ele parou. “Te destrói se você não fizer isso.”

Effy e eu nos olhamos em silêncio. Eu estava começando a achar isso estranho.

“Alguém quer mais outra bebida?”, disse Effy ficando em pé. “Eu comprei uísque”.

Neguei com a cabeça. “Ugh. Não, obrigada”.

“Eu vou querer um pouco, obrigado”, disse Aldo. Eu estava chapada e tal, mas eu tenho
certeza de que os dedos dele tocaram a bainha de sua saia quando ela roçou perto dele. Eu
estava começando a me sentir como uma parte pequena na porra do show de Aldo e Effy.

Enquanto Effy estava pegando a uísque, Aldo sorriu para mim. “Você é uma boa amiga da
Effy?”

Eu hesitei. “Conhecemos várias pessoas em comum”, eu disse, fugindo da pergunta.

“Eu acho que ela precisa dos amigos dela agora”. Aldo cruzou as pernas. “Ela não é o que
parece.”

“Certo. Sim”, eu disse estranhamente. “Talvez.”

Effy apareceu com dois copos e uma pequena garrafa de uísque.

“Eu acho que eu vou para a cama agora”. Me levantei, sem saber aonde isso ficava.

“Tudo bem”. Effy acendeu um cigarro e acenou para mim. “Pode ficar na minha cama”. Ela me
deu um meio sorriso, observando o olhar na minha face. “Não se preocupe, você vai ficar
completamente segura”. Ela serviu Aldo com uma quantidade larga de uísque e para ela e
olhou de lado para mim. “Não espere por mim.”

Effy

Segunda, 17 de Agosto.

Loja de presentes.

“O que você acha de uma dessas igrejazinhas?”, disse Katie segurando a basílica de São
Marcos.

Nós estávamos em uma loja de presentes horrível e trapaceira perto da praça central,
procurando um presente de aniversário para o Aldo.
“Ele mora aqui, sua idiota”, eu disse. “Ele não quer coisa de turista”. Olhei o preço. “E custa a
porra de vinte euros.”

“Certo.” Ela a guardou. “Se apresse e escolha algo logo, então.”

“Vamos tentar só mais algum lugar”, eu disse a ela. “Estamos quase lá.”

Quando saímos da loja olhei para o precioso livro guia do Time Out da minha mãe. “É aqui
embaixo, acho.”

Nós viramos em uma rua quieta.

“Eu não sei porquê você não compra só uma caixa de cigarros para ele”, disse Katie, franzindo
o nariz quando empurramos a porta de uma livraria de segunda mão. “Isso é o que eu
compraria para o meu pai.”

“Certo, bem, ele não é seu pai”, eu disse impacientemente. Por onde começar a procurar o
que eu queria? “Ele não é todo macho e essas merdas.”

Ela olhou de lado para mim. “Não, claro que ele não é” ,ela disse secamente. Ela olhou para as
prateleiras, transbordando livros velhos. “Eu não entendo esse tipo de lugar. Por que você iria
para uma livraria velha e fedorenta quando você pode pedir o que você quer na Amazon?”

“É pela história”, eu disse arrasada. “E cheira bem.”

“Isso é questão de opinião”. Ela segurou uma brochura com um cavaleiro dentro de uma
armadura brilhante na capa. “O que você quer, enfim?”

Antes que eu pudesse responder uma mulher apareceu dos fundos da loja. Ela era pequena e
bonita, com cabelos pretos e cortados e óculos pequenos. Ele nos percebeu e nos deu um
olhar severo em desaprovação para o traje com tema de leopardo de Katie. A inglesa vulgar.
Se eu não tivesse compartilhado o seu desgosto, eu iria dizer para ela ir se foder. De qualquer
jeito, eu não iria embora antes de conseguir o que eu queria.

“Posso te ajudar?”, ela disse com classe, em inglês.

“Tomara”, eu disse. “Vocês tem Morte em Veneza?”

“Sempre”, ela disse obviamente surpresa, sorrindo mais educadamente agora. “Que tipo você
quer?”

Eu fiquei sem expressão.
“Primeira edição, brochura, capa dura?”, ela respondeu de imediato.

“Quanto é a primeira edição?”, eu disse.

“Duzentos euros... também tem a edição em brochura da década de trinta por trinta e cinco
euros”. Ela foi para uma das estantes e pegou diretamente um. “Aqui”, ela disse. “Está um
pouco usado, mas está excelente pelo preço.”

Eu virei o livro várias vezes em minhas mãos. Era lindo. Coloquei meu nariz perto e inspirei.

Katie balançou a cabeça. Pareceu perplexa. “Vamos lá, Effy”, ela disse indo em direção à porta.
“Se decida.”

Trinta e cinco euros. Mas o pensamento de dar aquele livro a ele mais tarde estavam fazendo
com que ondas de prazer surgissem em mim. Eu estava feliz.

“Obrigada, eu vou levar”, eu disse para a mulher. “Pode embrulhar para mim?”

“Eu não acredito que estamos fazendo isso”, ela disse olhando um garoto em boa forma
correndo em nossa direção, sem camisa. “Indo à uma festa de um quarentão com crianças e
essas merdas.” Ela abaixou a saia timidamente quando um casal de padres passou olhando
com raiva para ela.

Eu ri. “Nunca pensei que esse dia iria chegar”, eu disse. “Maldita irmã Fitch.”

“Cala a boca”, ela disse bem humorada. “De qualquer jeito, o que há com esse livro, Effy?” Ela
olhou a sua frente. “Trinta e cinco euros?”

“E?”, eu disse. “Ele só está sendo simpático comigo, isso é tudo.”

“Hmm”, Katie pareceu não estar convencida. “É um pouco exagerado, se você me perguntar.”

“Eu não perguntei, ou perguntei?”. Me arrepiei. Eu estava bem contente em ver Katie quando
ela chegou, mas a novidade estava começando a ficar chata. Ela era burra, mas não burra o
bastante. E isso era o problema.

“Merda. São duas e quarenta e cinco”, eu disse notando um relógio em um bar. “Melhor
voltarmos. Aldo vai nos pegar em breve.” Katie e eu estávamos vegetando na mesa da cozinha
essa manhã quando Aldo chegou e nos contou sobre seu aniversário. Nós tínhamos ido para o
bar da rua de baixo ontem, espíritos bêbados na noite, e não comido nada. Não preciso dizer
que não queríamos fazer muita coisa, e minha mãe estava fingindo ser a porra de senhora
acolhedora se agitando por aí dando para Katie café e doces. Ela esteve com um humor muito
melhor esses dias. Eu deveria estar grata, mas o lance da minha mãe é que ela não pode
ganhar, de qualquer jeito, a pobre vadia. Ela só me irrita. Fim.

“Pegou tudo o que você precisava?”, ela disse alegre para Katie.

“Sim, obrigada Anthea” . Katie pegou um cannoli de chocolate. “Estou bem.”

“Tudo bem”, disse minha mãe. Ela tinha voltado a usar maquiagem. “Eu acho que eu vou ver
como Florence está.”

Me sentei em sua frente. “Eu vou”, eu disse. “Não vejo Florence há séculos.”

“Ela não esta muito bem ultimamente”. Minha mãe examinou seu rosto no compacto,
colocando pó em seu nariz. “Estou um pouco preocupada com ela.”

“Quem é Florence?”, disse Katie com sua boca quase cheia. Ela espirrou doce por toda a mesa.

“Ela é uma velhinha boa que mora no andar de baixo”, eu disse com afeto.

Katie me encarou até minha mãe ir para a sala. “Estou realmente preocupada com você, Effy”,
ela disse. “Você em breve vai estar sendo voluntária de asilos.”

“Florence não é uma velhinha chata”, eu disse. “Ela é divertida.”

“Ceeeerto”, disse Katie. Ela terminou seu doce. “O que quer que você diga.”

Eu a ignorei. “Diga oi para a Flo” , eu disse para minha mãe.

A porta se abriu e ouvi vozes. Era Aldo.

“Ele de novo não”, disse Katie roçando os lábios. “Ele não consegue se afastar”. Ela me olhou
com provocação. “Ele realmente tem uma coisa por alguém daqui.”

Fui cuidadosa em parecer que não liguei para essa observação. Ergui a cabeça para ouvir o que
Aldo e minha mãe estavam falando.

Depois dela ter ido para cama ficamos acordados até as duas da manhã. Ficando chapados e
andando. Ele tentou me interrogar sobre minha vida em Bristol, mas eu fui vaga.

“Você deve ter um namorado lá?”, ele perguntou.
“Na verdade, não”. Botei meus pés em sua perna e ele olhou para meus dedos, suas mãos
pairando estranhamente, depois descansando nos braços da cadeira. “Não mais.”

“Você quebrou o coração de alguém?”, ele disse. “Ou ele quebrou o seu?”

“Ninguém faz isso comigo”, eu disse rapidamente, mas depois me acalmei. “Não era sério, isso
é tudo”. Minha consciência estava dando uma boa resposta, mas a segurei. “E acabou.”

Aldo olhou para seu uísque. Um silêncio prevaleceu.

“Você sabe, você me lembra tanto ela”, ele disse depois.

“Quem?”

“Rosalla”. Ele se mexeu na cadeira. “Cheia das dúvidas. Tão assustada para confiar.”

Eu notei minha respiração, me sentindo exposta. “Eu não-“

“E bonita, claro”, Aldo continuou, me cortando. “Dolorosamente bonita.”

Estava levemente tremendo, mas esse não era o momento para abaixar a guarda. De qualquer
jeito tentador. Aldo me fitou silenciosamente e movi minhas pernas para mais perto de seu
colo. Eu queria tanto me enrolar naquele colo.

“Você tem muito tempo a sua frente”, ele disse. “Tantas pessoas para se apaixonar.”

Eu estou apaixonada agora? Eu pensei confusa. Eu o amo? Fechei os olhos enquanto os
pensamentos de Freddie se fundiam com os pensamentos de Aldo.

“E você?”, eu disse me recobrando. “Você vai se apaixonar de novo?”.

Ele notou sua respiração, esfregando o queixo devagar. “Talvez”, ele disse. Ele não olhou para
mim. “Se ela for a certa.”

Ele rodopiou seu copo e depois bebeu. Olhei através do quadrante escuro. O céu estava azul
petróleo daquele tipo que só fica quando são noites de verão.

“Vamos lá”, Aldo disse eventualmente, olhando para seu relógio. “É hora de eu ir, eu acho”.
Ele fez uma pausa. “Mas eu tive bons tempos hoje à noite. Inesperadamente bons. Obrigado.”

Eu o deixei ir e fiquei lá um pouco, me inclinando sobre a porta do apartamento. Saboreando
os últimos minutos da nossa conversa. Ele é seu, eu disse para mim, se você o quiser.
-

“Não”. Minha mãe agora estava falando com Aldo. “Eu só vou dar uma checada nela... pode ir
dizer um oi para as garotas.”

Aldo apareceu na porta da cozinha. “Buongiorno!”, ele disse de modo vivo, sorrindo para nós.

“Oi” disse Katie, sem graça.

“Eu vou pegar café para você” eu disse me levantando. Katie olhou para mim, com os olhos
bem abertos. “E temos doces, essa manhã.”

Aldo sentou, opostamente à Katie. Ele colocou o jornal na mesa. “Obrigado”, ele disse. “Só
café para mim”. Ele me observou enquanto eu fervia o leite. “Na verdade eu tenho um convite
para vocês... para vocês duas.”

“É?”, minha mão tremendo levemente enquanto eu segurava a panela de leite. A porta do
apartamento se abriu de novo e minha mãe apareceu, sem fôlego na cozinha.

“Florence está dormindo”, ela disse a nós. “Eu vou para lá depois, então.”

Aldo chacoalhou a cabeça. “Devemos ficar de olho nela” .E e sorriu para Anthea. “Eu estava
dizendo para Katie e Effy que hoje é meu aniversário... meus quarenta, de fato.”

“Ah, que novo!” disse minha mãe. “Feliz aniversário.”

“Eu vou me encontrar com minhas crianças depois”, ele disse. “Para celebrar”. Ele olhou para
todas nós. “Se vocês não tivessem planos, gostaria que vocês viessem também.”

“Isso é gentil”, disse minha mãe. “Realmente gentil. Mas suas crianças iriam estranhar uma
mulher estranha junto.”

Acertou essa, mãe.

“Vocês duas vão, acho”, ela disse. “Eu só vou ter meu sono de beleza”. Ela riu de um jeito
feminino. “Muito importante. Mas podemos celebrar seu aniversário essa noite. Chamaremos
outros inquilinos também. Uma festa no apartamento!”

Aldo inclinou sua cabeça educadamente. “Isso seria adorável, Anthea.”

Ou idiota pra caralho. Por outro lado, eu pensei, Aldo bêbado e feliz não poderia ser má coisa.
Aldo olhou para mim enquanto disse: “Se vocês, garotas, não tiverem nenhum plano vocês
poderiam se juntar a mim essa tarde.”

“Nós iríamos amar”, eu disse rapidamente. “Que horas?”

“Eu encontro vocês na entrada às três”, ele disse encarando meus mamilos gelados. “Tenham
certeza de que vocês estarão preparadas, então.”

Casa da ex-esposa do Aldo.

Mais tarde.

“Eu não vou demorar”, disse Aldo.

Nós estávamos no lugar onde as crianças moravam. Ele desceu do carro e andou até um prédio
pintado de branco, moderno e com janelas enormes. Uma mulher com a aparência normal
vestindo jeans e uma blusa, sem maquiagem abriu a porta. A ex-esposa. Ela foi empurrada do
caminho por duas crianças lindas de olhos castanhos – um menino e uma menina – que se
jogaram em Aldo.

Ele as segurou em seus braços, as cobrindo de beijos. Um espasmo de inveja me apunhalou e
eu encarei tão mal humorada quanto Katie e sentei no carro, esperando.

“Encantador”, disse Katie. E então ela examinou meu rosto. “Se você gosta desse tipo de
coisa.”

A mais velha, a menina, desencadeou um italiano torrente e carrancudo para Aldo quando me
viu na cadeira da frente.

“Desculpa, Effy”, disse Aldo, ao menos dando a graça de parecer envergonhado. “Eu sempre
deixo a Mara se sentar no banco da frente. Você se importa...?”

Sim, eu me importo pra caralho.

Mas eu fui para o banco de trás com a Katie e o mais novo, Bruno, entrou do meu lado.
Acolhedor. Aldo nos apresentou com uma mistura de inglês e italiano. Mara olhou
particularmente para mim maldosamente, em silêncio.

Depois de vinte minutos assistindo as crianças ficarem apatetadas e dar patadas em Aldo no
banco da frente, nós estacionamos no que suspeitosamente parecia um lugar para guerra
virtual com armas de laser.
“Ah, genial”, sussurrou Katie. “Isso não tem nada a ver com a minha idéia de bons tempos.”

“Tente fazer um esforço”, eu disse encantadoramente. “Pelas crianças.”

Katie era obviamente uma merda nisso. Eu acho que é difícil participar completamente quando
você tem de ficar parando para ver se sua calcinha está visível. Mas eu segui minha presa com
uma determinação admirável.

Assim que as crianças ficaram com tédio, éramos só eu e Aldo na pista de dança, por assim
dizer. Eu estava suando, tentando alcançar meu objetivo, enquanto ele me levava à passagens
escuras, eu me achatei contra uma parede e esperei ele vir atrás de mim, cutucando meu dedo
em suas costas.

“Te peguei”, eu disse deixando meu dedo lá, no topo de sua espinha.

Ele virou, rindo, levemente se arquejando. Eu passei a língua pelo meus lábios e apontei para
sua arma. “Vá.”

Aldo sorriu. Uma mão me alcançou e segurou minha cintura, esfregando ela e fazendo
cócegas. Eu comecei a me torcer e a dar risadinhas, como uma criança. “Não...”, eu disse. “Eu
sou muito sensível.”

“Você é, de fato”. As mãos de Aldo firmemente persistiram e eu me torci com seu punho, me
girando para empurrar minha bunda em sua virilha. Eu senti sua ereção, e esfreguei minhas
nádegas contra ela.

Ele parou de se mover. “Effy-“, ele disse firmemente me puxando em sua direção. “Não.”

Meu coração estava batendo, meu corpo todo demonstrando desapontamento, antes mesmo
de eu sentir.

Só tinha o som da nossa respiração, eu não queria olhar atrás de mim. Eu fechei meus olhos.
Merda. Merda. Merda.

“Papai”, a voz de Mara perfurou o silêncio. “Papai!”

Aldo se moveu da minha frente, saindo da passagem. Ele se virou.

“Está tudo bem, não se preocupe” ele sorriu. “Agora, vamos lá. É melhor eu levar minhas
crianças para casa.”

Bebidas de aniversário.
Mais tarde naquela noite.

“A-há, o aniversariante!”, cantou minha mãe, pulando para Aldo e entregando para ele uma
taça de Prosecco.

Ela tinha empurrado todos os batentes, colocado velas no parapeito das janelas e colocado na
mesa da cozinha taças, garrafas de vinhos, tigelas de petiscos, e até a porra de um bolo. Uma
coisa de chocolate com 40 escrito com pedaços de chocolate branco em cima, o que eu achei
que era clichê, mas o aniversariante pareceu satisfeito.

Eu o ouvi ficar de conversinha, dar aperto de mãos, beijar bochechas. Pensei: flerte com ele o
quanto você quiser. Ele é meu. Tinha algo no ar – a antecipação de um futuro em que ele iria
me lamber de cima a baixo. Me foder em todos os cantos.

Ele não estava me olhando. Eu esperava isso. Gostava, de fato. Nosso segredinho.

Eu encontrara um momento para dar s ele o presente, enquanto minha mãe e Katie estavam
ocupadas com outra coisa. Segurei o livro em seu embrulho, não podia esperar por sua
expressão quando ele o abrisse.

Ele levantou as sobrancelhas. “Effy, o que é isso?”

Eu não disse nada. Gesticulei para ele abrir.

Ele riu, seu rosto se iluminou. “Mas isso é um presente maravilhoso! Obrigado, querida Effy!”
Ele colocou os braços em minha volta. Me beijou de novo. Ele segurou meus braços e meu
olhar, mais rapidamente desviou o olhar. “Eu vou colocar isso em algum lugar seguro”, ele
disse, se virando para procurar um lugar para esconder.

“Effy!”, a voz da minha mãe em pânico veio da sala. “Alfredo!”

Ela nos apressou, tomou o braço de Aldo. “É Florence”, ela disse sem fôlego. “É melhor você
vir agora, Alfredo. Ela não está acordando.”

Cook

Segunda, 17 de Agosto.

Galpão do Freddie.

“Então, Freddie, como você se sente estando na presença de um mito?”, eu perguntei a ele,
tomando um gole de uma lata de Stella.
Ele balançou a cabeça, com um meio sorriso em seu rosto presunçoso de menino bonito.
“Você realmente é um idiota infeliz.”

“Não é nada pessoal”, eu apertei seu joelho. “É a lei da selva, cara”. Coloquei meu pé no
extintor. “Todos nós sabíamos desde o começo como isso iria funcionar. Eu sempre arrebato.
Elas não podem dizer não para o Monstro Cookie.”

Freddie estava curvado, se abraçando como uma garota. “Você devia se ouvir, cara. É patético.
Sério.”

“Você diz isso porque está perdendo”. Eu fiz uma pausa. “De novo.”

Freddie olhou para cima bruscamente. “Isso é tudo o que você tem, não é? Ele se levantou.
“Mas, sério-“, ele de repente respirou na frente do meu rosto. “-isso melhora tudo, Cook?
Melho-“.

JJ se levantou, torcendo uma mão na outra nervosamente. “Ok, Cook, Freddie, não vamos ter
essa discussão agora”. Ele tentou dar um sorriso alegre. “Quer dizer, se vamos virar
competitivos, posso me aventurar, de novo, a dizer que eu fui o único a ter sexo com uma
lésbica.”

Nós o encaramos. “Cala a boca, JJ.”

Silêncio.

“De qualquer jeito”, disse Freddie. “É chato.”

“Ah. Agora veja, eu tenho uma idéia genial para animar, meu amigo”. Esfreguei minhas mãos.

“Diga”, disse Freddie, mais seco do que o deserto de Gobi.

“Algo para decidir o vencedor. De uma vez por todas. Para ver quem realmente é o rei do
castelo.”

JJ e Freddie suspiraram simultaneamente.

“O que você tem em mente?”, disse Freddie. “A porra de um questionário?”

Eu neguei com a cabeça. “Uma ménage.”

“Quê?”, Freddie disse com aquele olhar preso em seu rosto.
“Uma ménage. Eu, você e uma garota. Nós temos turnos para transar com ela e ela dá
comentários.”

JJ pareceu sair de sua profundidade agora. Freddie pareceu um pouco pálido.

“Isso já passou dos limites, parceiro”, ele disse. “É quase doentio.”

“Não, é democracia.”

“Na verdade”, disse JJ, “o conceito no dicionário para democracia é-“

“Cala a boca, JJ”, disse eu e Freddie de novo.

“Bem”, ele disse. “Você vai avançar no prato, Freddie. Ou você vai recuar como um maricas?”

Freddie me deu um olhar de puro ódio. “Certo”, ele disse friamente. “Me deixe saber quando
achar uma garota queira fazer isso.”

“Já arrumei”, eu disse. ”Polly, aquela rica elegante com um piercing no clitóris da outra noite?
Disse que estava afim de uma ménage à trois. Esse é o dia de sorte dela, cara. Sete em ponto
na casa dela, de noite.”

Por um momento houve silêncio. JJ deu uma batidinha simpática no ombro de Freddie.

“Isso é bom”, disse Freddie. “Não posso dizer o quanto estou ansioso por isso. Ele acendeu um
cigarro e abriu a porta. “Agora cai fora do meu galpão.”

Freddie.

Do lado de fora da casa de Polly.

“Boa casa”, disse JJ, ele disse enquanto nós três ficávamos do lado de fora da casa de Polly, em
frente à sua porta. “Grande.”

Eu revirei os olhos para ele. Cook estava na frente, o peito sendo empurrado para frente, uma
mão segurando uma garrafa de Jack Daniels. Eu comecei a me sentir doentio.

Cook se virou e piscou para mim enquanto esperávamos abrirem a porta da frente. “Aposto
que ela tem um espelho em cima da cama, certo Freds? Podemos assistir enquanto tudo
acontece.”

Obrigado por esse visual, seu idiota.
Depois de uns bons trinta segundos, Polly nos deixou entrar. Ela era bonita, de um jeito
estiloso. Cabelo longo e loiro, pele bronzeada, jóias gigantes em volta de seu pescoço.

“Cookie, querido!”, ela disse beijando um espaço em cerca de uma polegada de seu rosto.

“Tudo bem, querida?”, Cookie respondeu. “Freddie, JJ”, ele disse apontando para nós,
respectivamente.

“Oi, garotos!”, disse Polly. “Entrem, eu fiz coquetéis.”

Quando ela foi embora, Cook se inclinou para nós e sussurrou “Não é a ferramenta mais afiada
da caixa, mas ela faz como a porra de um trem.”

Polly nos mostrou o que ela chamava de antro, onde tudo era branco. Sofás brancos gigantes
brancos, flores brancas e até uma TV branca.

“Deve ser uma coisa para manter esse lugar limpo”, disse JJ.

“Empregados, Gayjay”, disse Cook. “Essa gente nunca limpou nada na porra da vida inteira
deles.”

“Certo, e você já?”, eu disse.

“É diferente. A miséria é minha amiga”, ele respondeu.

Nós sentamos em silêncio por alguns minutos. Cook tentando fazer a TV funcionar, JJ olhando
para suas mãos e eu desejando que estivesse em qualquer lugar menos aqui, quase fazendo
isso.

“Aqui está”, disse Polly carregando uma bandeja com copos de coquetéis. “Quem quer Sex on
the Beach?”

JJ pareceu preocupado. “Não para mim, obrigado.”

“Você sabe que é uma bebida, Jay?”, disse Cook.

Polly riu. “Cook, você é tão engraçado!”

É. Ele é a porra de um palhaço.

Nós sentamos segurando nossas bebidas rosas estúpidas, de conversinha por quase quinze
minutos antes que o Cook terminasse seu copo e dissesse “Certo, Poll. Sem ofensa, mas vamos
direto ao assunto. Todos nós sabemos porque estamos aqui. Então se você pudesse nos
mostrar o caminho...?”

Polly soltou o copo, de repente séria. “Ahã, absolutamente.”

Nós a seguimos para fora do quarto, Cook deu o controle da TV para JJ no caminho. “Aqui,
ache o canal pornô, se divirta sozinho.”

O quarto da Polly era um pesadelo rosa, com posters de boy bands na parede e brinquedos de
pelúcia por toda a cama. Como se estivesse lendo minha mente ela disse: “Desculpa por isso.
Ele vai ser redecorado quando meus parentes voltarem da India. Eles estão trazendo um papel
de parede fantástico feito de grama nativa. Você tem que aguá-lo e tal.”

“Fascinante”, disse Cook. “De qualquer jeito, vamos ficar pelados, sim?”

Ele a empurrou na cama e começou a beijá-la e tirar as roupas dela. Enquanto eu ficava em pé
e assistia o sutiã dela voar pelo quarto, percebia que não fazia idéia de como uma ménage
funcionava. Tipo, o Cook faria e depois seria eu? Ou era um esforço duplo? Um em uma ponta
e outro na outra, esse tipo de coisa. Eu esperei que Polly tomasse conta um pouco, porque
Cook não iria me dar sugestões. Tudo o que ele ligava, além de transar, era Polly votar nele
como melhor então ele ganharia a porra do jogo dele.

Agora eles estavam pelados e Polly chupando ele. Isso não estava certo. Isso estava errado pra
caralho. Eu acho que estava hipnotizado, levando em consideração que não conseguia me
mexer.

Polly tirou a boca do pinto dele.

“Bem, não pare, porra”, disse Cook.

“Vez do Freddie” disse Polly me puxando para a cama e despindo meus jeans. “Vamos ver o
que nós temos aqui, então”, ela disse.

Não mais do que parecia.

Eu tentei manter minha dignidade não dizendo nada e beijando Polly em vez disso. Eu alcancei
sua calcinha para que eu pudesse esfregar, mas meu pinto não estava ajudando. Nem mesmo
se mexendo. Provavelmente porque não gosto dela, e talvez porque Cook estivesse esticando
a cabeça para ver o processo.

“Vai se foder”, eu sibilei acima da cabeça de Polly.
Ele sorriu, se deliciando.

Polly deu tapinhas em meu ombro. “Posso te fazer uma sugestão?”

Eu olhei para cima. Cook levantou uma sobrancelha.

Ela dobrou as pernas embaixo dela, ofegou, e olhou para cada um de nós por um momento.

“Se beijem. Os dois.”

Isso tirou o sorriso do rosto de Cook. Eu faria o mesmo, mas pra começar eu não estava nem
sorrindo.

“Não querida, de jeito nenhum. Eu não vou beijar o Freddie”, disse Cook.

“Justo o bastante. Então o Freddie ganhou”.

Eu me virei para o Cook. “Você contou do jogo para ela?”

Ele deu de ombros. “Achei que ia esquentar mais as coisas”, e então se virou para Polly. “Eu
disse, não disse? Nós transamos com você, você diz quem foi o melhor. Fim da história.”

“Não”, disse Polly. “Tudo o que você disse era que eu tinha que dizer quem, na minha opinião,
é o melhor”. Ela sorriu um sorriso doce. “E eu vou decidir, olhando vocês fazerem um com o
outro. Entenderam?”

Cook riu. “Muito engraçado, Poll. Estou amando seu trabalho. Agora só se abaixe como uma
boa garota, e deixe eu te lamber até você gritar. Acredite, não vai demorar.”

Polly balançou a cabeça. “Você é inacreditável. Essas são minhas condições: você e Freddie.
Todos grosseiros...”. Ela se inclinou em nossa direção. “O que significa”, ela disse para Cook.
“Seu pau na bunda dele”, ela sorriu para mim. “Ou vice e versa”, ela disse olhando para nós
dois. “Você quem sabe.”

“Desculpa, isso não vai acontecer” eu disse. “Isso é merda”, eu virei para o Cook. “Você
ganhou.”

“Não. Não. Isso não está no plano” disse Cook parecendo angustiado. “Vamos lá, Polls. Jogue o
jogo.”

Ela sorriu sordidamente. “Jogar o seu jogo? Cai fora.”

Ela não soou muito elegante agora.
“Você me dá nos nervos”, Polly continuou, puxando uma blusa para seus peitos. Ela cutucou o
peito de Cook com seu dedo. “Você transa comigo, rouba minha calcinha e eu tenho que ficar
com calças de couro o que, por falar nisso, me deu um monte de sapinho, então você me liga e
diz que quer fazer uma ménage então você pode ganhar uma aposta juvenil com o seu
parceiro?”Ela pegou seus jeans e os colocou. “E por falar nisso, você nem é tão bom assim”,
ela balançou a mão de um lado para o outro. “Você é mais ou menos”, ela o encarou. “Pensa
que eu não te ouvi? Levando em conta que não sou a ‘ferramenta mais afiada da caixa.’”

Cook começou a se vestir. Eu fiquei estranhamente na porta do quarto dela.

Polly pegou a jaqueta dele e jogou nele. “Fecha a porta quando sair”, ela disse friamente.
“Idiota.”

JJ estava assistindo White Swap e mudando para The Economist, mas olhou para cima quando
nos ouviu. “Isso foi rápido”, ele disse.

“Cala a boca, Jay, nós estamos indo”, disse Cook.

“Mas-“

“Só cala. A porra. Da sua. Boca”, gritou Cook.

JJ desligou a TV e nos seguiu até a porta da frente.

“Tá tudo bem, JJ”, eu sussurrei desarrumando o cabelo dele. “O jogo acabou agora.”

JJ

2 minutos depois.

“Certo”, disse Cook recuperando seu espírito enquanto descíamos a rua.”Para frente e avante,
garotos.”

Eu estava quase fazendo uma tentativa de inquérito sobre o que tinha ido errado, quando
alguém deu um baque no chão atrás de mim. Eu virei para ver a cabeça de Cook se
arrebentando para trás, sangue jorrando de seu nariz. Freddie estava sobre ele, se arquejando.

“Isso”, ele disse. “Acabou. Nós. Acabamos.” Ele se agachou e levantou Cook pela blusa. “Você
humilhou a porra de todos nós. De novo. Mas pela última vez, você me entendeu? A porra da
última vez.”
“Escuta, Fred”, Cook estava lutando para respirar. Ele tirou o sangue de seu rosto com a
manga. “É a porra de um pequeno contratempo para os três mosqueteiros, isso é tudo.”

“Que se foda os mosqueteiros”, zombou Freddie. “Eu não quero saber”. Ele se levantou e
chutou viciosamente uma pedra. “Você é doente. Você precisa de ajuda, parceiro”, ele se virou
para andar na outra direção.

Eu fiquei, sem ajuda, com o papel de impedir o apocalipse.

Como eu tinha previsto, Cook não estava feliz em deixar por isso. Ele levantou e atacou o
Freddie, empurrando-o com força com as duas mãos. “Não foi minha culpa, seu puto. Ela era
louca.”

Freddie se virou e empurrou o Cook de volta. “Não, ela era um ser humano normal que agiu
estranho pela sua extrema viadisse da porra”, ele o empurrou duas vezes para dar ênfase nas
duas ultimas palavras. “Você é uma ameaça para a sociedade”. Ele fez uma pausa. “Você
nunca irá tê-la, você sabe. Ela nunca vai te escolher.”

De qualquer jeito eu sabia que ele não estava se referindo à Polly. Eu senti o sangue indo para
minha cabeça. A qualquer segundo-.

Então eles estavam no chão, agarrando um ao outro, dando socos, braços sendo jogados. Não
tinham mais discernimentos como ser humano. Eles eram a luta. Um entalhe raivoso de poeira
cabelos e violência.

Eu conseguia sentir aquilo se construindo em mim, como quando Bruce Banner vira o Incrível
Hulk, mas só que eu não era verde e não tinha força ilimitada, eu estava indo em suas
direções. Eu choraminguei nervosamente ao redor da briga. “Não, não, não, não, não, não,
não, não” . Então as lágrimas vieram e minha voz ficava mais e mais alta até eu estar gritando,
gritando tão alto que depois minha garganta ficou raspando. “PAREM ESSA PORRA, PAREM
ESSA PORRA AGORA, PAREM, MERDA , PAREM, PAREM, PORRA, PAREM COM ESSA PORRA
AGORA, POR FAVOR, CARALHO, PAREM, PAREM, PAREM.”

Então eu percebi que alguém estava me segurando. Eu abri os olhos e vi algodão cinza. A blusa
do Cook. Sua mão estava atrás da minha cabeça, me segurando para seu peito. Ele estava
falando comigo. “JJ, está tudo bem. Vamos lá, parceiro, nós paramos. Tudo está bem, eu
prometo. Você está bem”. Eu senti ele beijar o topo da minha cabeça. Eles tinham parado de
brigar. Toda a tensão do meu corpo saiu e eu afundei na calçada.
“Vamos lá, Jay. Está tudo bem. Por favor, pare de chorar”, disse Freddie, segurando o topo do
meu braço.

Eu tirei o lenço da minha manga e esfreguei meu rosto.

Cook me apertou com força. “Eu te amo Jaykins. Você faz parte da minha família, tá?” Ele se
virou para Freddie. “Você também, cara. Ela não vai mudar isso.”

Freddie pareceu imóvel. Ele começou a pegar seus tênis. “Mas ela mudou”. Ele olhou para nós
dois, nos agarrando como dois amantes machucados. “Ela fez isso meses atrás.”

“Ah, que se foda ela. Ela se foi”. Cook finalmente me soltou, para o alívio dos meus membros
doloridos. Ele olhou melancolicamente para o Freddie. “Mas eu, você e JJ. Continuamos
juntos. Nós temos um ao outro. Sim?”

Freddie deu de ombros. “Não sei mais. Não é simples assim, cara”. Ele correu uma mão pelo
cabelo. “Não é simples assim.”

Effy

Terça, 18 de Agosto.

De tarde, em Veneza.

“Jesus, você o quer tanto ”, disse Katie. Ela estava me olhando meio que pensativa. Como se
ela estivesse vendo alguém diferente. Outra eu.

Eu acendi um cigarro. “Não seja ridícula.”

“Eu não sou cega”, ela pegou meu cigarro e tragou. Tossiu melodramaticamente e me
entregou de volta.

“Eu já vi isso antes, lembra?”

Dei a ela um olhar vazio.

“Mas daquela vez, você deixou mais óbvio ao transar com ele”, ela abraçou os joelhos.
“Freddie? Enquanto eu estava inconsciente?”

Eu esfreguei os dentes, coçando de tanto fumar e beber. “Eu pedi desculpas.”

“Só porque não queria que ele pensasse que você era uma vadia. O que ele fez, a propósito.”
“Ele pensou? Suponho que eu era.”

“Aquele olhar em seu rosto quando viu como os filhos do Aldo ficam quando estão com ele... o
mesmo olhar maldoso que você dava para mim.”

Eu funguei. “Aposto que você amou isso”, eu disse. “Que você tinha o Freddie e eu não.”

Ela concordou com a cabeça. “É, eu amei, enquanto durou. Você era superior pra caralho.
Você podia escolher. Todos queriam você”, ela sorriu. “Até que um não quis.”

Que inferno, meus olhos estavam se enchendo de lágrimas. Se recomponha, sua idiota, eu
pensei.

“Effy sempre consegue o que ela quer”, Katie chutou o degrau com seu salto alto.

“Olha, você vai construir uma ponte e passar por cima disso, ou o quê?”, eu disse pegando a
garrafa de vinho nos meus pés. Eu tomei um gole grande e senti o embalo do álcool.

“Eu já passei”, ela começou a brincar com a tira de sua sandália. “Eu sei quando sou
derrotada”, ela observou enquanto eu enchi minha boca de vinho. “Você tem de tentar. É um
alívio e tanto, pra falar a verdade.”

Eu não respondi. Não tinha uma resposta legal. Eu tinha nada. Não sei como é ser feita idiota.
Mas quando Freddie começou a transar com Katie... eu estava humilhada, para dizer o
mínimo. Isso era a porra de um show.

Katie Fitch. Desesperada e carente Katie. Sempre pensei que se esses dois adjetivos se
aplicassem a mim eu iria me matar. Mas era isso o que eu sentia sentada nesses degraus com
ela. Carente e desesperada. É como se toda essa merda não tivesse ficado para trás, no fim das
contas. Ela entrou no avião, me seguiu e me engoliu.

Pouco surpreendente que Katie tinha percebido isso. Estava esperando Aldo vir aqui de novo,
depois da festa em nosso apartamento ontem à noite. Um gato em um telhado de zinco
quente. Passando e repassando o que aconteceu naquele dia. Com medo de entregar aquele
livro a ele. Patético. Tão ansiosa para agradar. Eu me sentia uma bagunça, nervosa e
paranoica. Continuava inventando desculpas para descer as escadas, mas ele nunca estava lá.

Então, quando ele finalmente veio meia hora atrás, ele esteve com ela. Dando suporte e essas
merdas. Me tratou como a porra de uma criança. Bem, eu estava agindo como uma.

Eu me odiava.
“De qualquer jeito, Florence vai voltar do hospital em breve”, disse Katie mudando totalmente
de assunto. “Agora ela está melhor.”

Florence foi levada por uma ambulância depois da festa. Disseram que foi um derrame leve.
Minha mãe ficou com ela a noite toda.

“É, eu vou vê-la”, eu disse. Eu peguei outro cigarro, minha mão tremendo enquanto eu o
acendia.

“Effy?” Katie esticou a cabeça para olhar para mim. “Você está bem?”

“Sim”, eu disse, na hora em que meu telefone apitou. Minha mãe, provavelmente. Eu tirei da
minha bolsa e cliquei nas minhas mensagens. Alguma coisa surgiu em mim quando vi seu
nome. Quente? Fria? Não sei.

Eu engoli e abri a mensagem. A primeira em semanas.

NÃO SE INCOMODE EM VOLTAR.

Tremendo, eu derrubei meu telefone e as lágrimas começaram a cair.

“Effy? Que inferno.” Katie se levantou e dançou em minha volta, pegando o telefone. “O que
está acontecendo? Quem era?”

Ela olhou para a mensagem ainda aberta na tela. Olhou de volta para mim.

“Não se atreva a se regozijar”, eu disse a ela, esfregando o meu nariz com a manga.

Houve um silêncio enquanto eu mantinha minha cabeça baixa, no nível da sandália de cortiço
da Katie.

“Eu não estou me regozijando”, ela disse baixo. Ela se mexeu para sentar do meu lado no
degrau. Eu continuava segurando meu cigarro, queimado até o filtro. Ela gentilmente o tirou
de mim e esfregou a ponta no chão. “As coisas voltam e acabam com você”, eu ouvi o que ela
dizia, mas o sangue continuava percorrendo minha cabeça. “Eu acho que você deve aprender
com isso, ou alguma merda clichê assim.”

Eu olhei para cima esperando um sorriso condescendente em seu rosto de boneca. Mas havia
algo diferente. Pena.

E não podemos ter isso.
Eu esfreguei meus olhos, mais secos agora. E respirei devagar. Eram cinco em ponto. Um
pouco cedo para um aperitivo, mas foda-se.

“Eu não ligo”, eu disse. “Ele pode ir se foder. Todos eles podem”, eu chequei para ver quanto
dinheiro eu tinha. “Vamos”, eu disse a ela. “Vamos ficar loucas.”

“Ok”, disse Katie olhando para mim cautelosamente. “Se é isso que você quer.”

Às nove horas eu mal podia me levantar, e Katie estava inclinada no balcão desse pequeno bar
que estávamos. Estava lotado de gente. Um rapaz bem formado em seus vinte anos estava em
pé olhando para mim do outro lado. Ele disse alguma coisa para o cara que estava com ele, e
veio.

“Ciao”, ele disse, mostrando todos seus dentes e ignorando Katie. Uma jaqueta de couro
surrada e uma blusa fina, assim você poderia ver os músculos de seu peito. Ele fez um gesto
para meu copo, adicionando com um bom inglês “Posso te comprar uma bebida?”

“Claro”, eu disse friamente. “Quantas você quiser”. Katie riu. “E uma para minha amiga aqui,
também.”

“Mandona”, ele disse entretido, me olhando de cima a baixo. “Você é sempre tão exigente?”

“Você não pede, você não consegue”, eu disse alegremente, dando meu copo para ele. “Nos
dê licença, nós vamos lá fora para nos sustentar”, ele levantou uma sobrancelha enquanto eu
empurrava Katie em direção à porta.

Do lado de fora, eu desajeitadamente preparei um baseado embaixo da mesa. Um grupo de
gente bem vestida e mais velha passava por lá, de braços dados, olharam desdenhosamente
para mim e para o que eu estava fazendo.

“Algum problema?”, perguntei a eles, alto. O homem balançou a cabeça, sussurrando algo
para sua mulher.

“Vão se foder então”, eu disse para eles. “Idiotas.”

“Effy”, Katie disse chocada. “Cuidado. Vai nos fazer com que sejamos presas.”

Eu bati em seu braço. “Effy sabe o que está fazendo.”

Katie não pareceu tranquilizada quando acendi o baseado. “Eu não-“
Mas eu traguei enquanto ela falava e imediatamente tive dores de cabeça e náusea. Eu
conseguia sentir o suor atrás do meu pescoço. Eu segurei o baseado longe de mim. “Uau”, eu
disse. “Eu acho que estou chapada.”

“Não diga”, disse Katie balançando a mão quando eu passei o baseado para ela. “Vamos voltar
para dentro.”

Eu joguei o baseado no chão e a segui através da porta, onde o rosto esculpido estava nos
esperando. Ele segurava dois copos de um líquido claro. Eu peguei um deles e cheirei.

“Eu espero que você não tenha colocado Rohypnol nisso”, eu disse rudemente.

Katie olhou pedindo desculpas para ele. “Meu nome é Katie”, ela disse modestamente. “E essa
é minha amiga Effy.”

O cara concordou com a cabeça, pareceu distintamente desapontado conosco. Não importa.

“De qualquer jeito, um brinde então”, eu disse batendo meu copo contra sua garrafa de
cerveja. “Até mais tarde.”

Eu agarrei o braço de Katie e a guiei até o banheiro. Eu tinha uma urgência pra vomitar.

Quando eu emergi do cubículo dez minutos depois, Katie estava esperando por mim, inclinada
na máquina de camisinha.

“Se abastecendo?”, eu disse arrastadamente. “No caso de você ter sorte?”

“Não”, Katie me entregou uma toalha de papel. “Limpe seu rosto, você vomitou nele todo.”

Eu peguei o papel e olhei no espelho. A minha maquiagem nos olhos tinha escorrido em
riachos feios pelo meu rosto, que estava pálido e manchado pelo vômito. Um pouco de vômito
estava preso no meu cabelo. Eu dei uma patada nele.

“Eu vou te levar para casa”, disse Katie, vindo em minha direção. “Vamos.”

Eu a ignorei, limpando meu rosto com a toalha de papel.

“Effy”, Katie persistiu. Ela colocou a mão no meu ombro. “Provavelmente não vai ser sempre
tão ruim.”

Eu me virei e inclinei minha cabeça, olhando impassível para ela por um segundo. “Bem, não
para mim.”
Eu observei sua expressão ir de preocupada a confusa.

“Entenda, eu não preciso tentar, Katie. Não como você. Você sempre vai ter que tentar.
Porque... bem, vamos encarar, você não é isso tudo por baixo de sua maquiagem de viúva de
vinte anos. E você não é tão brilhante. Você só é...”, eu balancei a minha mão na frente de seu
rosto. “Sem. Objetivo. Algum”, eu prendi meu lábio superior para ela, dei de ombros e joguei a
toalha de papel no lixo.

Parecia que eu havia dado um tapa nela. “Você realmente está bem louca, Eff-”

“Ah, eu não estou tão louca”, eu sibilei. “Porque você é tão infeliz, barata, e desesperada
quando eu estou sóbria”, eu fiz uma pausa e sorri docemente. “Você realmente deveria de
matar agora, porque acredite em mim – e eu estou dizendo isso como sua amiga – nunca
alguém vai te querer.”

Katie se moveu em minha direção, sua face totalmente serena. “O que quer que a faça se
sentir melhor, Effy.” Ela se virou para ir embora, mas parou. “Eu sei que você não consegue
suportar eu te ver perseguindo a pessoa por quem você tem uma quedinha”, ela levantou o
dedo e apontou para mim. “Mas principalmente, você não consegue aguentar que você pode,
de qualquer forma ou jeito, ter alguma coisa em comum comigo”, ela derrubou a mão e abriu
a porta.

“Eu vou embora amanhã”, ela disse. “A primeira coisa.”

Katie

Veneza, à noite.

Eu deixei Effy naquele bar e continuei andando. Sem qualquer ideia de onde eu estava indo.
Deus sabe em quantas pontes de casa de boneca eu andei, mas parei em uma delas. Fiquei
inclinada, assistindo um casal em uma gôndola, os braços em volta um do outro. O cara
guiando o barco olhou para mim, enquanto vinha em direção à ponte.

“Bella”, ele sussurrou no ar quente da noite.

Eu sorri, engolindo o choro. Você não me viu sem minha máscara, eu pensei. Você não diria
isso se visse.

Que noite horrível pra caralho.
Desde o drama gigante do aniversário do Aldo, a velhinha sendo transportada por uma
ambulância e a mãe da Effy com um ataque de pânico, Effy ficou sozinha. Totalmente. Eu
nunca passei tanto tempo sozinha com ela. E deixa eu te dizer: realmente me abriu os olhos.

Quando todos foram embora, toda essa espuma se foi. Não me incomodei. Estava um pouco
entediada, tentando falar com alguns dos vizinhos, sem ideia do que eles estavam falando.

Eu comecei a beber um dos licores da estante da sala. Ele tinha um gosto fétido. Eu cuspi meu
gole na pia do banheiro e chequei minha roupa. Não era a primeira vez nesse lugar tonto que
eu me sentia safada e barata. Effy estava certa sobre isso.

Effy tinha fechado a porta para o último convidado, parecendo aérea. Parecendo feliz,
pensando nisso. Enquanto eu escovava os dentes eu fiz um liga pontos na minha mente.
Quando olhei para ela mais cedo, ela estava com Aldo. Ela estava desembrulhando um
presente e sua face estava iluminada. Ela estava olhando para o cara como se fosse o presente
de natal que ela desejava. Eu observei ele abraçá-la quando viu o que era, e ela se aninhou em
seu ombro.

Então Anthea entrou surtando e tudo ficou fora de controle. Effy só ficou lá, se abraçando,
totalmente inútil. Enquanto Aldo e sua mãe ficaram ocupados dizendo a todo mundo que eles
tinham que ir embora, Effy não conseguia tirar os olhos dele.

Atrapalhada.

Eu esfreguei meu rosto e desliguei a luz do banheiro. Quando eu entrei no quarto, Effy estava
deitada na forma de uma estrela, encarando o teto.

“Tudo bem?”, eu sentei na ponta e bocejei. “Pobre e velha garota”, eu disse. “Florence.”

“É”, disse Effy. Ela moveu as pernas para que eu pudesse me deitar. “Uma pena, pois eu estava
começando a me divertir.”

Eu fiz uma cara. “Sim, que inconveniente da parte dela”, eu disse. “Ter esse ataque engraçado
exatamente quando você estava começando a se divertir.”

Effy olhou bruscamente para mim. “Obviamente eu me importo com a Flo”, ela disse na
defensiva. “Eu espero que ela fique bem.”

Eu ofeguei. “Claro que ela vai ficar”, eu disse. “Provavelmente ela tomou muito vinho”, eu fiz
uma pausa. “Então, ele gostou do presente, suponho. Aldo?”
“Eu acho”, ela disse muito casualmente.

“Ele tem uma quedinha por você, eu acho”, eu me virei para encará-la, sustentando meu rosto
no cotovelo. “O que você acha?”

Effy não respondeu, primeiramente. Ela puxou o lençol debaixo de nós e se cobriu
parcialmente com ele. “Talvez”, ela disse eventualmente. “Quem sabe?”, ela desligou as luzes
do lado da cama. “Eu estou exausta”, ela disse sonolentamente. “Tente não roncar tão alto
hoje à noite.”

“Atrevida da porra”, eu deslizei pra baixo e me virei para o outro lado.

Alguma coisa estava acontecendo. Eu só não estava entendendo o que era ainda.

Essa manhã, Anthea continuava no hospital com Florence. Ele enviou uma mensagem para
Effy, para mantê-la atualizada. Disse que ia voltar assim que a velha garota estivesse estável.

“Você acha que Aldo está com ela?”, eu disse inocentemente, enquanto comíamos um saco de
doces de chocolate na cozinha.

“Como eu vou saber?”, vociferou Effy. Ela acendeu um cigarro e abriu o livro guia de sua mãe.

Ficamos no apartamento por horas. Eu fiz uma sugestão para sairmos, mas Effy falou que
queria ficar lá. No caso de Anthea voltar para casa mais cedo.

Sim, claro.

Effy continuou desaparecendo em intervalos de dez minutos. Na quinta vez que ela voltou sem
fôlego para o apartamento, eu a confrontei na entrada.

“Treinando para a maratona?”, eu perguntei.

Effy fez uma careta enquanto passou por mim. “Não, só estou me sentindo inquieta, só isso.”

“Vamos sair então”, eu disse. “Eu vou ficar louca aqui.”

Ela negou com a cabeça. “Pode ir, se quiser.”

Eu suspirei e voltei para a cozinha para ficar mais meia hora enlouquecendo com as rádios
italianas.

Aldo não apareceu. Achei que ele também estivesse ocupando cuidando da Florence.
Effy estava como um Rottweiller aprisionado. Rosnando para mim toda vez que eu abria a
boca. Hora de ir. Não estava funcionando e eu sentia falta da minha pequena família
disfuncional.

Então finalmente, essa tarde, Anthea veio. Aldo estava com ela.

Effy estava esfregando uma panela que não havia sido usada. Ela estava estranha pra caralho.

“Florence está fora de perigo”, suspirou Anthea, afundando em uma das cadeiras da cozinha.
“Pobre senhora. Sua família está a quilômetros de distância.”

Effy não respondeu, só colocou a torneira no máximo, ensurdecendo a todos nós.

Aldo foi até a pia e desligou. “Sua mãe está exausta”, ele disse a ela, sem ser de uma maneira
cruel. “Por favor. Ela precisa de um descanso.”

Effy jogou a panela na água cheia de sabão, borrifando nele.

“Então ela vai ter, caralho”, ela disse indo pra fora e batendo a porta da cozinha.

Nós três olhamos um para o outro. Aldo esfregou o ombro de Anthea. “Ela vai ficar bem”, ele
disse a ela. “Ela está triste por causa da Florence.”

Não, ela não está, seu idiota, eu pensei. Mas eu sorri para eles.

“Eu vou ver se ela está bem. Levá-la para algum lugar”, eu disse, percebendo o olhar de alívio
entre eles.

Então acabamos indo para outro desses cubículos e sentando nas escadas por algumas horas.
Engraçado, pois eu estava com pena da Effy. Eu estava do lado dela.

Mas quando eu encarei para aquela água escura, o casal da gôndola desaparecendo de vista,
eu me senti mais distante dela que nunca.

Apesar de, na verdade, pensar que somos iguais.

Eu tirei meu celular e mandei uma mensagem para minha mãe.

ESTOU VOLTANDO AMANHÃ. TE AMO.

Katie

Quarta, 19 de agosto
Bordeaux

Quando o trem entrou na estação e eu vi minha mãe em seus sapatos dourados folheando
uma cópia da Paris Match. Eu senti uma onda de afeto. Pela minha mãe, pelo meu pai, pelo
James e pela Emily. Especialmente pela Emily.

“Yoohoo!”, minha mãe balançou sua revista para mim. “Olá, querida.”

Coloquei a minha bolsa em meu ombro. “Oi”, eu disse sorrindo. “Como estou feliz por te ver.”

Minha mãe sorriu. “Sentimos sua falta, KitKat”, ela disse dando um de seus abraços ‘calorosos’
em mim - basicamente um apertãozinho no braço. “É uma pena que Emily tenha voltado. Ela
estava esperando te ver.”

“Emily voltou?”, eu disse desapontada.

“Sim, eu não estou satisfeita, mas ela esteve com um humor esquisito nos últimos dias. Com
saudades daquela garota.”

“Naomi?”, eu disse.

“Sim, Naomi”, minha mãe suspirou. “Pena. Esperava que ela e Josh se dessem bem. Parece
que ele é um bom garoto.”

Eu não pude evitar sorrir. “Eu estou certa que ele é gay, mãe. Emily me disse”, eu fiz uma
pausa. “Ela está bem?”

“Claro que está”, minha mãe cantarolou. “Mais durona que botas velhas, nós Fitches. Ela vai
passar por essa fase, então tudo vai voltar ao normal.”

“O que quer que isso seja”, eu murmurei. “Não estou certa de que isso seja uma fase. Emily
está amando, mãe. Não tem sentido fingir que isso não está acontecendo.”

Minha mãe olhou para mim bruscamente. “Você mudou sua sintonia.”

“Bem, talvez eu tenha mudado”, eu disse.

Minha mãe me deu um olhar curioso. “Você parece cansada, querida.”

“Sim”, eu larguei minha bolsa na mala do carro. “Eu estou destruída, mãe.”

“Então. Ela se desculpou?”, disse minha mãe enquanto dirigíamos de volta. “Effy?”
Eu mordi meus lábios. “Vamos dizer que nos entendemos.”

Minha mão olhou de lado para mim. “Isso é bom. É horrível quando você se desentende com
seus amigos, KitKat.”

Eu fiquei olhando pela janela do passageiro.

Deus, mãe. Você nunca vai saber metade disso.

“Emily provavelmente está no trem de volta para Bristol agora”, minha mãe continuou. “Ela
saiu essa manhã no raiar do dia.”

“Eu vou ligar pra ela”, eu disse. Meu estômago se embrulhando. Eu tinha algumas coisas que
precisava dizer à minha irmã.




Eu entrei no quarto e vi a cama da Emily, perfeitamente organizada. As suas coisas tinham
saído da mesinha de cabeceira. Cabides sem suas roupas no guarda-roupa. Larguei minha
bolsa no chão e sentei na poltrona perto da janela. Sentei em minhas pernas e liguei para seu
número.

Quando ela atendeu, eu podia ouvir o barulho do trem, o som de estática ao fundo.

“Katie?”, ela disse parecendo franca. “Como vai Veneza?”

“Eu estou de volta ao chalé”, eu disse rapidamente. “Effy e eu nos separamos.”

“Ah”, houve uma breve pausa. “Então, quer me dizer que porra foi essa?”, ela disse. “Você
sabe o quanto eu fiquei preocupada quando eu acordei e você havia desaparecido? E eu não
podia nem te ligar, sua idiota”, ela fez uma pausa de novo. “Eu não acredito que você afanou
meu telefone para me impedir de falar com a Naomi. Não dá pra acreditar, porra.”

Eu respirei. “Desculpa”, eu disse. “Eu estava... eu senti que eu e você... como se tivesse te
perdido, para sempre”, eu fechei os olhos tentando encontrar as palavras certas. “Você e
Naomi. Eu quero tanto o que vocês têm. E eu estava assustada que você amasse mais a ela do
que a mim”, eu esfreguei meus joelhos. “Esconder seu telefone. As coisas que eu disse. Eu
estava fora de mim. Eu estava com inveja. Eu estava tentando te machucar.”

Emily suspirou. “Você foi uma vadia, mas eu posso entender. Eu tive que viver na sua sombra
toda a minha vida, lembra? E eu sabia que eu estava presa nas minhas próprias merdas. Eu não
tinha tempo para as suas. Mas isso não significa que eu não te amo. Naomi é minha namorada,
mas quem sabe o que vai acontecer aí. Eu e você. Nós estamos presas uma na outra”, ela deu
uma pequena risada. “Mas correr para a Effy? Aquilo foi uma surpresa.”

“Eu sei. Pareceu uma boa ideia na hora”, eu disse. “E honestamente, fico feliz por ter ido.”

“Sério?”

“Sim. Quer dizer, Effy é louca”, eu fiz uma pausa. “Eu posso ser um pouco besta às vezes, mas
pelo menos não sou tão ferrada.”

“Não. Você só está solitária, e está saindo com os caras errados”, disse Em. “Você vai
encontrar alguém, Katie. Alguém que valha a pena.”

“Sim.” Senti os meus olhos formigando.

“Então, o que há com ela? Effy?”

“Jesus, tinha alguma coisa estranha acontecendo com um cara mais velho. Alfredo. Ficou bem
óbvio que ela estava atrás dele. Assim que eu percebi isso, ela se virou contra mim. Realmente
colocou tudo para fora.”

“Que surpresa”, disse Emily. “Quantos anos ele tem?”

“Quarenta. Nada mal, na verdade. Boa aparência. Divorciado. Charmoso. Eu acho.”

“Então quase te matar na floresta”, disse Emily. “Isso tudo pra nada. Ela obviamente já
superou Freddie McClair.”

“Ah, não tenho tanta certeza sobre isso”, eu disse. “Mas só Deus sabe o que se passa na
cabeça da Effy. Ela estava baixa. Tipo, totalmente no limite. Eu sinto pena dela, de um jeito.”

Houve silêncio.

“Em? Ainda está aí?”

“Estou.”

“Estou tão feliz que você é minha irmã”, eu disse feliz. “Você é a melhor gêmea.”

“Cala a boca”, disse Emily.
“É sério. Eu nunca vou entender por que você gosta de garotas. Mas não importa. Você
sempre vai ser minha irmã especial”, minha voz começou a falhar.

“Você sempre vai ser minha irmã especial, também”, disse Emily. “Necessidades especiais, isso
sim.”

“Vai se foder.”

Nós voltamos ao silêncio. Eu esfreguei o meu nariz com um lenço. “Então, somos amigas de
novo?”

“Sim”, disse Emily. “Precisa mais que uma birra para você se livrar de mim.”

Eu sorri. “Obrigada”, eu disse. “Obrigada, Emily.”

Não houve uma resposta, o sinal dela tinha sumido. Eu segurei meu telefone e sentei enrolada,
olhando para a parede.

Pela primeira vez em meses eu me senti sortuda por ser eu.

Emily

Quarta, 19 de Agosto

Em casa de novo

Eu abri a porta antes que ela pudesse bater e por um segundo só ficamos em pé e nos
encaramos.

“Ei”, ela disse seriamente. “Como vai?”

“Muito melhor agora”, eu disse, meus lábios desejando dar beijos em todo o seu rosto. “Agora
que você está na minha frente.”

“Sério?”, Naomi levantou uma sobrancelha. “Eu acho que é bom te ver também.”

“Vadia”, eu disse e ri, estendendo a mão e agarrando-a pela blusa. “Você vai ter que fazer
melhor que isso.”

Eu a puxei pra dentro e fechei a porta da frente. Então eu tirei meu vestido, e fiquei com meu
sutiã e minha calcinha. “Use sua imaginação”, eu disse traçando meu umbigo com o dedo.
“Você é boa nisso.”
“Vou ver o que posso fazer”, ela disse suavemente agora, me puxando em sua direção e se
inclinando para me beijar.

Eu fechei os olhos e senti suas mãos roçando em meus peitos, então descerem em minha
barriga e entrarem em minha calcinha. Ela se ajoelhou.

“Vamos tirar isso de você”, ela disse.

Eu gemi quando ela gentilmente abriu minhas pernas e começou a me lamber do jeito que eu
gosto – envolvendo minhas coxas com sua língua, me provocando até que chegasse ao meu
clitóris.

“Você está indo muito bem até agora”, eu disse a ela sem fôlego. “Continue.”

Nós fizemos por toda a casa, transando na mesa da cozinha, no sofá da sala de estar, na frente
do espelho do quarto dos meus pais, e no banheiro, fazendo uso total do chuveirinho, e dos
vários frascos de xampu à disposição. Quando chegamos ao meu quarto e de Katie, estávamos
muito cansadas para fazer qualquer coisa além de nos abraçar.

Ficamos em silêncio um pouco, só ficamos juntas.

“Eu te amo, garota” eu disse.

Ela beijou minha cabeça. “Eu senti sua falta loucamente”, ela sussurrou nos meus cabelos.

“Nunca mais quero me separar de você por tanto tempo”, eu disse. Eu coloquei a cabeça no
cotovelo e olhei para ela. “Por que não ficamos juntas no próximo verão?”

“Parece bom para mim, amor.”

Eu sorri. “E acho que poderíamos tirar um ano de hiato e ir viajar. Até mesmo dois anos.”

“As pessoas fazem hiatos de dois anos antes de irem para a universidade?”, Naomi perguntou,
sonolentamente.

Eu deitei, descansando a cabeça em seu peito. “Sim, claro. Nos inscrevemos quando
voltarmos.”

Eu pensei nos folhetos embaixo da minha cama para viagens pelo mundo: América do Sul,
Austrália, EUA, Sudeste da Ásia. Talvez até Rússia ou China. Naomi e eu faríamos tudo juntas.
Seria o tipo de experiência que liga as pessoas para sempre.
Naomi tinha dormido, o seu peito se levantando e se abaixando ritmicamente. Típico. Eu
estiquei minha cabeça para beijá-la gentilmente nos lábios, então me aninhei nela.

Eu tinha resolvido tudo com minhas garotas. Além disso, nada mais importava.

Pandora

Quinta, 20 de agosto

Quarto da Pandora

“Panda?”

Minha mãe puxou meu edredom, mas não conseguia me mover. Estava exausta.

Thommo e eu passamos horas em Brandon Hill, ontem à noite, conversando, beijando e
fumando baseados. Ficamos hiperativos no final, dançando por aí como loucos, até eu ser
perseguida por um cachorro e começar a gritar. Foi aí que algumas pessoas ficaram com raiva
e tivemos de ir. Nenhum de nós tinha dinheiro de sobra, porque gastamos tudo em maconha,
rosquinhas e sidra, então Thomas me levou na corcunda até o final da minha rua, o pobre
garoto. Ele insistiu.

“Eu sou forte, princesa Panda. Sou um leão.” Ele rugiu e me girou rapidamente, até que nós
dois nos sentimos tontos, e ele me colocou perto da caixa de correio.

“Boa noite”, ele beijou minha mão, depois meus lábios, e me abraçou com força. “Te vejo
amanhã.”

Deveria ser meia noite quando entrei.

E minha mãe iria ter o que falar hoje. Ela sabe que Effy está de férias.

Ela começou a fazer cócegas no meu pé e a dar risadinhas.

“Mamãe, para!”, eu disparei da cama. Meu cabelo estava bagunçado como se fosse um
espantalho, eu conseguia me ver no espelho da minha penteadeira.

Minha mãe pegou a minha escova de cabelo na penteadeira e sentou em minha cama.

“Olhe para você, Panda”, ela começou a pentear meus cabelos, o que eu amo. Eu cruzei
minhas pernas uma sobre a outra e fechei os olhos.
“Você estava muito atrasada ontem, Panda”, disse minha mãe depois de um minuto. “Aonde
você estava? Effy foi viajar com a mãe, não foi?”

Eu reconheci aquele tom de voz. Doce e gentil, mas um pouco fria. Pareceu uma boa hora para
ser honesta com minha mãe – agora que não precisava dividir a atenção dela com algo. Mas
era importante que eu escolhesse minhas palavras com cuidado.

“Eu sai com o meu novo amigo, Thomas.”

As palavras ficaram estranhamente penduradas no ar e eu observei sua face ficar coberta com
elas.

“Ele é adorável, e educado”, eu continuei. “E não conhece realmente alguém daqui.” Essa
parte saiu um pouco apressada. Eu não queria dar tempo para ela pensar na imagem de
Thomas. “Ele não é o que você pensa.”

“Espere um pouco, Pandora...”, ela disse devagar. “Por que você não me contou desse garoto
antes?”

“Porque você ainda não quer que eu saia com meninos. Você disse.”

“Eu não disse exatamente isso. Não fico feliz com você tendo namorados sérios, isso é tudo”,
ela disse. “Garotos que vão te encorajar a fazer coisas para as quais você ainda não está
preparada para fazer.”

Ela me deu um olhar significativo.

“Thomas nunca faria com que eu fizesse alguma coisa”, eu contei a verdade a ela. “Ele é do
Congo e mora em um apartamento horrível com a mãe dele e suas irmãs pequenas porque
eles não têm dinheiro, e ele trabalha dia e noite para pagar o aluguel e colocar comida na
mesa, porque ele não tem um pai. Ele é muito educado e muito engraçado, também”, eu parei
e respirei. “Você iria gostar dele.”

Eu notei que a nuvem tinha desaparecido do rosto da minha mãe. Ela estava sorrindo um
pouco. “Ele soa legal, Panda”, ela disse. “Talvez eu pudesse conhecê-lo?”

“Bombástico”, eu saltei da cama e coloquei minhas meias. “Eu vou convidá-lo para um chá,
posso? Hoje à noite.”

“Hoje à noite?”, minha mãe pareceu afobada. “Bem, eu... hoje à noite?”
“Sim. Eu vou ligar agora e contar a ele”, eu não podia acreditar o quão fácil isso foi. Talvez tudo
desse certo no fim das contas!

Eu deixei minha mãe sentada em minha cama e desci as escadas correndo, para ligar para o
Thomas.




Thomas apareceu às sete, usando uma gravata e segurando flores.

“Você está lindo, garoto”, eu guinchei. “Amei sua gravata.”

Ele me beijou na bochecha e sussurrou “Oxfam.” As partes de trás dos meus joelhos
formigaram.

Minha mãe saiu da cozinha, seu pescoço coberto de grandes manchas vermelhas que sempre
aparecem quando ela está estressada. Thomas estendeu a mão e disse “Sra. Moon, estou tão
feliz em te conhecer.”

Minha mãe sorriu como todos fazem quando o conhecem. “Estou feliz em te conhecer
também, Thomas”, ela disse.

“São para você”, ele entregou as flores.

“Que adorável”, minha mãe espirrou e as passou para mim. “Coloque-as no jarro verde, você
faria isso Panda? Thomas?”, ela se virou para ele. “Poderia me entregar seu casaco?”

Eu os observei da porta da cozinha e dei palminhas para eles. Thomas me viu e piscou para
mim enquanto minha mãe pegava seu casaco e colocava no armário da sala. Eu fui colocar as
flores na água.

“Agora”, disse minha mãe, vindo para a cozinha com Thomas atrás dela. “Vocês dois vão para a
sala assistir TV, eu vou trazer algumas bebidas. Limonada feita em casa, tudo bem para você,
Thomas?”

“Muito bom, Sra. Moon. Obrigado”, Thomas sorriu para ela.

“Não se preocupe”, eu disse enquanto fazia com que nós ficássemos confortáveis no sofá. “Eu
tenho vodka em um jarro de geleia.”

Ele sorriu. “Boa garota”, ele sussurrou de volta. “Mas sua mãe é uma boa mulher.”
Sua coxa se espalhando pelo sofá e a sensação de sua coxa contra a minha estava fazendo com
que por dentro eu virasse geléia de laranja. Minha favorita.

Depois do jantar com espaguete e sobremesa de maçã, todos nos sentamos na sala de estar,
nos sentindo cheios. Mas eu estava com borboletas no estômago também.

Minha mãe sempre vai para a cama às dez e meia, então eu sabia que estava perto do
momento pelo qual esperei a noite toda. Minha mãe levantou da mesa e começou a recolher
os pratos, e Thomas pulou para ajudar.

“Obrigada, mas não precisa”, disse minha mãe. “Você deveria estar indo para casa, eu não
percebi o quão tarde era.”

“Na verdade, mãe”, eu disse. “Eu acho que está tão tarde que Thomas deveria ficar aqui essa
noite”, eu fechei os meus olhos rapidamente e os abri de novo.

O sorriso de minha mãe havia desaparecido de seu rosto.

“Eu não acho. Thomas precisa ir pra casa”, ela disse muito calma. “Foi uma noite adorável.”

Ela se levantou e foi até o armário da sala pegar o casaco dele. Eu acho que coloquei muita
vodka na minha limonada, aquela sensação destemida tomando conta de mim.

“Thomas e eu estamos apaixonados um pelo outro. E eu tenho quase dezoito”, eu anunciei
como Speedy Gonzalez, sabendo que não iria fazer diferença alguma.

“Panda”, Thomas sibilou, me puxando pelo braço enquanto eu andava em sua direção.
“Panda, pare.”

Eu tirei sua mão. Não tinha volta.

Minha mãe estava andando de volta para a sala. Seu rosto estava como pedra.

“Agora, Pandora, você está deixando eu e Thomas com vergonha”, ela disse com sua voz de
gelo. “Essa é minha casa, e estou dizendo que não vou deixar um menino passar a noite aqui.
O mesmo aconteceria se você tivesse vinte e oito ou trinta e oito anos.”

“Foi um prazer te conhecer, Sra. Moon”, disse Thomas, se movendo do aposento. “Obrigado
por esse jantar delicioso.”

Eu tentei pegar sua mão quando ele passou por mim, mas ele não deixava.
“Thomas?”, eu olhei fixamente para ele.

“Tchau”, ele disse rigidamente.

Isso não estava indo como eu planejei na minha cabeça. Thomas estava tentando vestir seu
casaco e abrir a porta da frente ao mesmo tempo. Ele nem olhou para mim. E ele foi embora.

Nesse ponto eu queria cair no carpete e bater minhas pernas de frustração. Mas eu sabia que
isso não ia ajudar meu caso.

“Vou para a cama”, disse minha mãe. “Acho que devemos esquecer que isso aconteceu.”

“Eu não sou a porra de uma criança!”, eu gritei. “Você não pode mais me tratar como um
bebê.”

“Pandora, só olhe para você. Você é uma criança”, minha mãe suspirou. “Você não está
preparada para... relações sexuais ainda.”

“Ah sim, eu já estou. Eu já fiz”, eu fiquei olhando para ela, observando seus olhos ficarem
enormes.

“Você o quê?”

“Eu já fiz sexo, mãe. Não é grande coisa, porra.”

“Pare de falar palavrão!”, minha mãe veio em minha direção e seu rosto estava branco como
um lençol. “Eu não consigo acreditar no que estou ouvindo. Estou com vergonha de você.”

“Não sou mais uma garotinha”, eu não conseguia calar a boca. “Sou quase adulta.”

“Você acha que fazer sexo faz de você uma adulta?”, minha mãe veio em minha direção, ela
estava tremendo. “Não faz. Qualquer bobo pode fazer sexo”, ela colocou seu cardigan, se
abraçando. “São essas garotas com quem você está saindo. Elas são má influência.”

“Ah, mãe...”, eu comecei a chorar. “Eu conheço minha própria mente. Sou eu que quero”, eu
limpei meu rosto. “Você só não me conhece de verdade. Você está presa em um túnel do
tempo. Eu estou cansada de fingir que sou quem você quer que eu seja.”

Minha mãe abriu sua boca, mas nenhuma palavra saiu dessa vez. Então por um minuto só
havia o som da TV na sala de estar, porque eu e minha mãe estávamos oficialmente em um
desacordo.
“Bem”, ela disse eventualmente. “Como você disse, você tem quase dezoito anos. Se você é
tão adulta, talvez devesse arranjar outro lugar para morar?”, ela se virou para subir as escadas.
“Aí você pode fazer o que quiser.”

“Mãe”, eu solucei. “Por favor, tente entender”.

“Boa noite, Pandora”, ela subiu as escadas e não olhou de volta para mim. “Por favor, apague
as luzes quando sair.”

Eu fiquei na sala por quase dez minutos só encarando o carpete. Eu estava tremendo. Claro
que enfrentar as conseqüências dos seus atos fazia parte de crescer. Minha mãe não queria
que eu ficasse na casa dela como eu era, e eu não iria mudar. Mas não havia algo a se fazer a
respeito disso além de me mudar. Hoje à noite.

Eu subi as escadas na ponta dos pés, peguei a minha velha bolsa de ginástica e coloquei
algumas roupas, minha escova de dente, e o carregador do meu celular. Então voltei lá para
baixo e, da sala de estar, liguei pra tia Lizzie.

“Claro que você pode ficar aqui, Panda”, ela disse. “Hoje à noite, mas você tem que dizer para
a sua mãe onde você está.”

“Claro que vou.”

Eu escrevi um bilhete para minha mãe, com raiva, e desenhei uma imagem de uma carinha
triste.

Era hora de amor duro.

Naomi

Quinta, 20 de agosto

Quarto da Emily

Emily arremessou o braço no meu peito, seus lábios se movendo, dizendo algo
incompreensível enquanto dormia.

Eu coloquei minha mão em cima da dela – pequena, suave – e me movi na cama. Era macia
demais. Não dormi por um segundo a noite inteira. Não porque sempre nos acordávamos para
nos agarrar, mas porque minha mente estava a todo vapor. Eu estava inquieta. Queria tantas
coisas de uma vez, mas não parecia possível. Teria de abrir mão de algo.
Estiquei cuidadosamente uma perna pra fora da cama.

“Naomi”, disse Emily, grogue. Eu virei para vê-la, um olho fechado, outro em mim.

“Eu preciso de água”, disse baixo, me inclinando para beijar a testa dela. Ela sorriu
sonolentamente e se virou.

Eu andei até a janela e olhei para as casas que formavam um beco sem saída. Cortinas
perfeitamente desenhadas, carros reluzentes na entrada. Limpos e arrumados.

Recuei e fitei o parapeito da janela. Uma Barbie de dez anos pedia atenção no canto, um anel
de diamante barato pendendo em seu pulso de plástico. Então os My Little Ponies multi
coloridos – pelos emaranhados, com acessórios: correias de nylon ofensivamente cobrindo a
orelha de um deles. Um coração macio estava jogado do lado – outro resto do passado da
Katie. Alguém tinha costurado grosseiramente Feliz dia dos namorados no meio. Jesus.

A cama da Katie estava adornada com ursinhos de pelúcia, e uma camisola descartada – se
você pode chamar uma tira de cetim de camisola. Acima de sua cama, um pôster de David
Beckham vestindo suas cuecas Armani e uma figurinha de coração colada em sua virilha
sobressalente.

Seu quarto era como o santuário de um pedófilo. Isso não era um quarto de uma adolescente.
Isso era um ninho para que crianças de doze anos dormissem. Crianças de doze anos
realmente imaturas.

Como Emily conseguia aguentar? Aquela cama minúscula, acordando com Katie todo dia? Era
sufocante.

Eu pensei no meu próprio quarto, que parecia grande em comparação. Um futon grande e caro
que eu comprei, economizando com o dinheiro do meu trabalho de verão na TopShop aos
sábados. Minha colcha vintage. Meu abajur falsificado da Starck. E acima da minha cama,
minha gravura nova de Rothko.

Eu desci as escadas para pegar água e coloquei a chaleira para ferver enquanto estava lá. Faria
uma xícara de chá para nós duas, então eu me sentiria mais normal.

Enquanto eu ficava esperando a água ferver, pensamentos animados voltaram. Estava tão feliz
por ver Emily ontem, tão aliviada de ter ela de volta para mim. Tão desesperada para tocar e
explorar seu corpo, ainda novo e emocionante. Se pudéssemos nos congelar esse verão. Não
ter que seguir em frente. Seguir em frente me assustava. Eu mexi o chá e olhei distraidamente
uma vespa bater na janela. Não, seguir em frente me assustava ainda mais?

Eu levei o chá para o andar de cima e empurrei a porta do quarto com o meu pé. Emily se
agitou quando entrei, viu o chá e sentou encostada no travesseiro. Ela sorriu contente.
Parecendo estar com uma nova face, e linda.

“Essa cama é ridícula pra caralho, Em”, eu disse colocando as canecas na mesa perto da cama.
“Meu pé ficou caindo na ponta a noite inteira”, eu dei a Emily seu chá.

“Desculpa, querida”, ela deu um gole em sua bebida. “Eu acho que poderíamos ter ido para a
dos meus pais”, ela riu com a minha cara horrorizada. “Mas acho que você não iria querer, de
algum jeito.”

Eu sorri. “Pensou certo”, eu deitei perto dela, alisando seu braço com a ponta dos meus dedos.
“Não foi tão ruim assim, meus dedos ficaram gelados, só isso.”

Ela sorriu feliz. “Graças a Deus essas férias acabaram”, ela disse soando mais acordada. “Eu
não podia esperar para te ver.”

“Igualmente”, eu disse. “Foi uma tortura.”

“Mas agora terminou”, ela disse feliz. “De agora em diante, aonde quer que você vá, eu vou
junto”, ela tomou mais um gole de chá. “E vice e versa.”

Eu pensei em Kieran e no que nós conversamos. Eu estremeci. Não queria pensar nisso agora,
mas o pensamento não iria embora. Balancei a cabeça me sentindo confusa.

“Tem tantas coisas lá fora para nós”, Emily continuou. Ela colocou a caneca vazia de volta na
mesa. “Para que façamos juntas. Antes da universidade, trabalho e responsabilidade”, ela
fechou os olhos. “Mal posso esperar.”

Eu sorri inquieta. “Um dia de cada vez, Emily”, eu disse. “Vamos aproveitar o que vier”, eu fiz
uma pausa. “Eu tenho de voltar em breve – minha mãe pediu para eu ir ao centro de
jardinagem buscar mais algumas flores com ela.”

Enquanto eu falava, eu podia sentir que Emily estava machucada, mesmo que não pudesse
ver. Olhei para ela. Ela sorriu incerta, mas se aconchegou contra mim.

“Não vá ainda, querida”, ela disse baixo. “Fique mais um pouco.”
Coloquei meus braços ao seu redor e a segurei apertado, beijando seu nariz. “Certo”, eu disse.
“Vou ficar mais um pouco.”

Pandora

Sexta, 21 de agosto

Casa da tia Lizzie, Bristol

“Panda, querida”, disse Tia Lizzie nos servindo uma xícara de chá e me entregando os biscoitos.
“Você tem certeza de que Angela está feliz em ter você aqui?”

Eu coloquei um biscoito inteiro em minha boca. Quase sempre prefiro tirar a parte de cima do
biscoito e comer o recheio primeiro, mas não tenho sido eu mesma recentemente. Eu o engoli.

“Minha mãe e eu estamos passando por uma fase difícil”, eu disse. “Ela precisa aprender uma
lição, tia Lizzie.”

Ela levantou uma sobrancelha e tomou um gole de chá. “Ela precisa, querida? Que lição é
essa?”

“Bem”, eu olhei os biscoitos, pensando em pegar mais um. “Ela tem de enxergar que não sou
mais a menininha dela que ela pode empurrar pra todo canto”, eu cedi e peguei outro biscoito.

Tia Lizzie parecia incomodada, como se algo estivesse fazendo cócegas nela. “Mas você
sempre vai ser isso. A menininha dela”, ela se inclinou e pegou a xícara e o pires com as duas
mãos. “Não é fácil para ela.”

Eu dei um olhar severo. “E quanto a mim? Eu, prestes a me tornar uma adulta?”, eu disse,
repetindo algo que eu tinha lido no livro de orientação da escola. “É importante que ela me
respeite, com limites e essas coisas.”

“Limites, né?”, tia Lizzie sorriu afetuosamente para mim. Eu a amo demais. Queria que ela
fosse minha mãe. “Quais limites?”

“Meus, eu acho”, eu terminei o biscoito, sentindo que queria o pacote inteiro. Eu não sabia
bem o que eu estava dizendo, para ser honesta, mas soou certo. “Eu quero que ela veja que
sou uma mulher, que precisa de privacidade e respeito.”

“E o que você acha de sua mãe precisar de respeito?”, disse tia Lizzie estreitando os olhos.
“Você respeitá-la?”
Eu olhei para ela. “Quê?”

“Quero dizer, minha querida”, ela disse, paciente. “Que sua mãe precisa de respeito. Por te
criar, por cuidar de você, por se preocupar com você.”

“Ela só quer que eu nunca saia de casa”, eu disse. “Se fosse do jeito dela, eu a seguiria pelo
supermercado até eu ter 30 anos.”, eu chacoalhei a cabeça. “E isso não vai acontecer.”

“Acho que você está a machucando com o que você está fazendo.”

“Ela está me machucando”, eu disse teimosa. “Eu estou machucada.”

“Porque ela não quer que você entre em coisas safadinhas com o Thomas?”

”Bem...sim. Por causa disso.”

“Por que isso é tão importante para você?”

Estava começando a me sentir frustrada. “Eu pensei que você estava do meu lado?”

“Agora, Panda”, disse tia Lizzie, baixando sua xícara. “Essa resposta mostra que sua mãe tem
alguma razão. Se não há nada mais.”

Eu fechei os olhos. Se fosse o Incrível Hulk, estaria no estágio dois de transformação agora.
Meu corpo estaria espremido em minhas roupas.

Eu me levantei. Como disse, amo tia Lizzie e não queria fazer uma cena.

“Vou dar um passeio agora”, eu disse a ela. “O chá estava delicioso. Obrigada.”

Eu saí da sala de estar e fui para o jardim me sentar no meu banco favorito. Eu olhei para o
céu. Todo azul. Me sentia solitária. E empolgada. E confusa.

Liguei para o Thomas. Ela estava na pausa para chá de seu trabalho. Não tinha falado comigo
desde que eu tinha vindo para cá, e nem eu tinha ligado para ele. Mas agora o ponto de eu ter
fugido estava ficando um pouco confuso na minha cabeça.

“Thomas”, eu sussurrei.

“Pandora?”, Thomas soou cauteloso. “O que é?”

“Eu sinto sua falta, meu bolinho”, eu fechei os olhos. “Desculpa pela outra noite”, eu
acrescentei. “Mas eu fiz por nós. Você entende?”
Ele suspirou. “Não, Pandora. Eu acho que não entendo.”

“Mas precisamos de respeito como um casal”, eu disse.

“O que você quer dizer?”

“Precisamos fazer o que casais fazem.”

Thomas suspirou mais profundamente. “E o que é isso? Nos divertirmos juntos? Ser carinhoso
um com um outro? Nos beijarmos?”

Eu sorri. Um sentimento melado surgindo em mim. “Sim, muitos beijos. E toques, e-”

“Pandora”, disse Thommo firmemente. “Eu estou no trabalho.”

“Você quer fazer comigo, não quer?”, eu disse um pouco assustada. “Você ainda quer?”

“Em algum momento, sim”, ele disse soando um pouco frio. “Mas não para provar algo, e nem
se chatear sua mãe.”

“Você liga mais pra ela do que liga para mim”, eu disse começando a chorar. “Por que ela é tão
importante?”

O jardineiro de tia Lizzie, trabalhando mais longe cortando um arbusto olhou pra mim quando
levantei a voz.

“Tudo bem”, eu me acalmei. “Eu entendo. Mas você pode vir para cá? Por favor.”

Houve um silêncio. “Certo. Hoje à noite eu vou te ver. Mas para conversar, certo?”

“Sim!”, eu disse. “Venha depois do trabalho – às seis?”

Eu terminei a ligação e segurei o telefone contra mim. Thomas não seria capaz de resistir a
mim quando me visse. Ele veria que resistir seria inútil.

Outra fala repetida de algum livro. Mas disse tudo.

Thomas

No caminho da casa de tia Lizzie, mais tarde

Eu fui ver Pandora com o coração pesado. Usando uma excelente expressão em inglês, ela
estava começando a soar como um disco arranhado.
Para mim ela é bonita, e pura. Não tem outro lado da Panda. De onde eu vim, isso tem um
valor imenso. Eu estava com raiva de Cook – por colocar essa ideia distorcida na cabeça dela
de que ela é só um corpo para homens. Minha conversa com JJ naquela manhã abriu meus
olhos. Não que eu esteja feliz com o que aconteceu. Mas acho que realmente há um
significado na frase ‘o que quer que te faça atravessar a noite.’

Para ser totalmente honesto, parte de minha resistência para eu e Panda consumarmos nossa
relação é que eu sinto certo desgosto pelo Cook ter estado lá primeiro. Isso e a obsessão de
Pandora não estão me deixando no clima. Queria ter uma conversa inteira sem mencionar
sexo. Eu queria que Panda visse o que ela está fazendo. Estou ficando cada vez mais duvidoso
de que isso vai acontecer.

Cheguei um pouco depois das seis. Tia Lizzie estava realmente feliz em me ver e me deu um
abraço caloroso. Ela olhou cautelosamente para Pandora que estava saltando de pé em pé por
trás dela.

“Vou dar um pouco de espaço para vocês”, ela disse a Pandora. “Mas não vou estar muito
longe”. Ela piscou pra mim.

Mal tive tempo para tirar meu casaco antes de Pandora avançar em mim e me abraçar. Ela
pressionou suas mãos contra meu corpo e as esfregou para cima e para baixo nas minhas
costas. Queria muito retribuir, era tão bom senti-la perto de mim outra vez, mas resisti. Eu a
empurrei gentilmente.

“Vamos nos sentar”, eu disse apontando o sofá. “Vamos.”

Ela se aninhou em mim, e eu coloquei um braço em volta dela.

“Estou tão feliz por te ver”, ela sussurrou para meu peito. “Pensei muito em você.”

“Eu também”, eu disse esfregando sua mão. “Isso é difícil pra mim.”

Ela se sentou. “Aquela vadiazinha, nos impedindo de fazer o que temos vontade”, Pandora deu
uma punhalada em uma almofada. “Infantil demais.”

Minha boca ficou aberta. “Sua mãe é infantil?”

“Bem, sim. Eu diria que é muito imaturo querer que sua filha seja uma criança, tipo, para
sempre.”

Eu ri, mesmo que eu não estivesse entretido. “Meu Deus, Pandora. Você não faz ideia.”
Ela olhou para mim, intrigada.

“É você quem está agindo como uma criança”, eu disse baixo. “Tão desesperada para fazermos
sexo.” Eu esfreguei minhas coxas com as palmas, parei quando percebi seus olhos esfomeados
seguindo o movimento. “Nós somos mais que isso. Ou eu pensava que sim. Não estou tão
certo agora.”

“O que você tem de errado?”, ela disse e começou a andar pela sala de estar. “Garotos sempre
querem sexo. É normal.”

“Certos garotos, talvez”, eu disse friamente. “Não eu. Não agora.”

Ela olhou pra mim. “O que você quer dizer, não agora?”

“Não com uma garota que preza isso mais do que tudo”, eu me levantei e fui pegar minha
jaqueta. “Eu pensei que essa garota era melhor.”

“Thomas, não”, disse Panda. “Por favor, não vá.”

Ela começou a chorar, mas eu já estava com a porta da frente aberta. “Tchau”, eu disse para
tia Lizzie que estava pairando no corredor. “Foi adorável te conhecer.”

“Tchau, Panda”, eu disse antes de fechar a porta atrás de mim. “Por favor, se cuide.”




Pandora

Na cama, ainda mais tarde

Não consegui comer nem um pouco da torta de peixe naquela noite. Normalmente é minha
favorita. Eu fui pra cama às nove em ponto com o Edgar, meu panda de pelúcia, e deitei
olhando para a lua por uma abertura na cortina.

Às dez horas eu acendi a luz e escutei Girls Aloud no meu iPod.

Às dez e meia, peguei meu telefone e olhei as fotos que eu tinha tirado do Thomas. Eu pensei
em toda a diversão que tivemos em Brandon Hills. Todos os abraços e beijos. O jeito que ele
escuta tudo o que falo sem fazer com que eu me sinta uma idiota, diferente da maioria das
pessoas.
Às onze, eu mandei uma mensagem para a Effy. Ela me mandou uma mensagem de volta. NÃO
SEJA UMA MARICA.

Eu pensei sobre como o Thomas tinha mudado minha vida. Nunca mais quero voltar ao que
era antes.

Pensei em minha mãe, e em seu rosto cheio de preocupação e dor.

Tia Lizzie estava certa. Eu sou uma garota boba.

Às onze e meia eu segurei minha respiração e apertei seu número.

Depois de um longo tempo, ele atendeu. Eu conseguia ouvir o barulho da TV no fundo.

“Alô?”

“Eu fui estúpida, Thommo”, eu sussurrei no telefone. “Realmente infantil.”

Thomas não respondeu. Eu continuei. Tinha nada a perder.

“Tia Lizzie disse algo sobre respeito hoje. Ela disse que eu estava desrespeitando minha mãe”,
eu engoli. “Mas também estou desrespeitando você. Não estou? O que você quer?”, eu fechei
os olhos.

“Isso é verdade”, disse Thomas finalmente. “Mas, Panda, com certeza você entende que
principalmente você não está se respeitando”, ele fez uma pausa. “Eu acho que você não
confia que vou te amar sem oferecer sexo para mim. Você não acredita que tem algo a mais.”

Eu pensei em Cook. “Talvez”, eu disse.

“Mas você tem. Por mim. Tem mil motivos para eu te amar.”

“Thomas”, eu comecei a chorar. “Eu vou para a casa da minha mãe. Vou me desculpar.”

“Espere aí”, disse Thomas. Ele desligou.

À meia noite, eu olhei para a minha cama, cheia de papel higiênico espalhado, quando houve
uma batida na porta. “Boa noite, tia Lizzie”, eu disse disposta a fazer com que ela não entrasse.

Mas a porta se abriu, e lá estava Thomas. Ele veio em direção à cama e jogou todos os papeis
no chão.
“Posso te abraçar, Pandora?”, ele disse tirando seus tênis. Então sua blusa, e finalmente suas
calças.

Eu concordei e me movi na cama. Ele entrou e me segurou apertado, então beijou meu
pescoço. Eu acariciei suas costas. E então senti suas mãos gentilmente puxando minha blusa e
beijando minha barriga. Eu segurei minha respiração e continuei acariciando enquanto sua
língua se movia mais para cima e se aconchegou nos meus peitos.

“Por favor, você pode tirar seu pijama, Panda?”, ele disse suavemente. “Por mim.”

Effy

Sábado, 22 de agosto

Apartamento da Florence

“É você, Anthea?”

“Não, Florence”, eu disse cautelosamente. “Sou eu, Effy.”

Ouvi roupas de cama sendo jogadas.

“Effy, que adorável! Entre, entre. A porta está aberta.”

Eu abri a porta. Florence estava deitada em uma cama gigante me encarando. As persianas
estavam meio fechadas e o quarto estava mal iluminado por seu abajur.

Florence tentou se sentar.

“Não se mexa”, eu disse olhando alarmada para seu rosto, um lado tinha caído levemente e o
canto da sua boca tinha se inclinado para baixo. Ela colocou sua mão na frente, como se
estivesse escondendo.

Eu senti um solavanco de medo. Foi como quando eu visitei a mãe de meu pai em sua casa de
repouso quando eu tinha oito anos. Florence parecia tão pequena e frágil.

“Não fique assustada, garota”, ela disse, puxando um pouco suas cobertas. “Essa droga de
derrame fez com que eu parecesse uma anciã do nada”, ela riu, com um pouco de esforço.

Eu fui em sua direção e me inclinei na cama. Florence olhou para mim. O olhar dela direto
como sempre. “Bem”, ela disse. “Como você está? Anthea disse que uma amiga veio te visitar.
Sinto por não poder ter conhecido ela. Você se divertiu?”
Primeiramente eu não pude responder. Deus. Fiquei atolada em solidão. E culpa. Culpa por ser
uma maldita vadia com a Katie. E por estar sentada aqui, saudável, com uma velhinha doente
que parecia não ter um único osso miserável e malévolo em seu corpo. Me senti ficando mais
humilde. Humilde. Esse sim é um termo estranho para o meu vocabulário.

“Sim”, eu disse afinal. “Foi legal.”

Florence olhou intrigada para mim. “E como está todo o resto?”, ela perguntou. “Você tem
visto Aldo ultimamente?”

Eu estava feliz pela luz do abajur. Conseguia sentir meu rosto queimando. “Um pouco”, eu
disse com cuidado. “Na festa dele e tal.”

“Ele é um bom homem”, ela disse melancolicamente. “Ele e sua mãe tem sido maravilhosos
nesses últimos dias.”

“Tem?”, meus músculos do estômago estavam se cerrando e voltando. “Ele tem passado
muito tempo com você, então?”

“Os dois têm”, ela disse. “Tipo uma ação em dupla, esses dois”, ela se inclinou em minha
direção. “A sua mãe é muito mandona, não é? O fez limpar o banheiro a tarde toda de ontem”,
ela sentou de volta e recuperou o fôlego. “Acho que ele não está acostumado com isso. A ex-
esposa dele dava tarefas simples.”

“O que você quer dizer?”, eu perguntei, sem ter certeza se queria saber.

“Ah, bem... aparentemente ela era uma mulher passiva. Até mesmo dócil. O que fez com que
fosse um choque quando aconteceu.”

“Quando o que aconteceu?”

“Quando ela assumiu que estava apaixonada por outra pessoa”, Florence balançou a cabeça.
“Ele ficou devastado.”

“Pobre Aldo”, eu disse. Não sentindo isso completamente.

“Sim, pobre Aldo”, ela disse. “Mas então... nunca se sabe o que está te espreitando na
esquina, sabe?”, seus olhos brilharam para mim.

“Não”, eu sorri, entendendo. “Nunca se sabe.”

A esperança estava resplandecendo dentro de mim.
“Você pode encontrar amor nos lugares mais inesperados”, ela continuou. “Nas situações mais
inapropriadas também.” Ela suspirou. “Claro que isso ficou para trás de mim. Restou mais a
pena. Eu tenho que ser feliz vivendo vicariamente.”

“Eu não sei sobre isso, Flo”, eu olhei em volta da cama e cutuquei sua perna. “Eu acho que iria
caber mais alguns aqui.”

“Safada!”, Flo bateu de brincadeira em mim. “Eu devo admitir, eu não iria me importar com
uma última volta na pista de dança, Effy. Só uma rápida valsa”, ela fez uma pausa. “Se você
entende o que eu digo.”

“Acho que faço ideia, sim”, eu disse rindo, imaginando como ela conseguiu varrer minha
solidão tão rápido. Porque por dentro eu estava fazendo minha própria dança. De total alegria.

Toda essa frustração. Como um animal engaiolado por dias. E agora isso.

As pálpebras de Florence estavam começando a se inclinar um pouco. “Ah, estou cansada”, ela
murmurou. “Todo esse amor no ar. Está me deixando assim.”

Me movi para fora da cama. “Eu vou deixar você dormir, Flo”, eu disse. “Vou voltar amanhã.”

“Effy”, ela disse apertando minha mão de repente. “Isso tudo é parte da vida, sabe?”

“O que é?”

“Amar e perder”, ela disse, suas pálpebras se inclinando. “Aceitar o que acontece”, ela sorriu
sonolenta e flutuou a mão no ar. “Etcetera.”

Eu concordei com a cabeça. “Acho que sei o que quer dizer.”

Deixei Florence cair no sono e praticamente saltei até nosso apartamento. Minha mãe estava
cozinhando algo, cantando para si mesma na cozinha.

Sorria e suporte, eu disse a mim mesma. Você pode ser generosa.

“Olá”, ela disse. “Como foi com a Florence?”

“Bom”, eu disse me sentando. “Eu realmente gosto dela.”

“Ela é querida e astuta”, disse minha mãe, que estava atraente. Ou talvez fosse o calor do
fogão? De qualquer jeito, era bom que ela estivesse feliz. Eu estava feliz. Nós estávamos felizes
pra caralho.
“É, ela é sábia, eu acho”. Peguei uma mão cheia de parmesão ralado e coloquei na boca. Foi aí
que percebi que a mesa estava arrumada para três.

“Quem vai vir jantar?”, eu perguntei, já sabendo.

Minha mãe provou o macarrão com um garfo. “Alfredo”, ela disse claramente. “Pobre coitado,
tem feito todo o trabalho de Florence ultimamente. Ele vai definhar se eu não alimentá-lo.”

Se você pudesse alimentar, cair fora e nos deixar a sós, eu pensei.

“Eu poderia ter cozinhado algo”, eu estava à beira de ficar mal humorada.

“Isso é encantador”, ela disse distraidamente. “Mas provavelmente é mais rápido... e mais
arrumado... se eu fizer.”

“Bem, eu vou pegar vinho”, eu disse.

“Não precisa”, ela escoou o macarrão. “Tudo está organizado. Você só senta aí e relaxa.”

Como uma criança sem poder algum.

“Você é muito mandona, não é?”, eu disse um pouco afiada demais, mas ela não percebeu.
Muito ocupada colocando a porra do molho na porra do macarrão dela.

Eu me servi com vinho e tinha bebido metade do meu copo quando ele bateu na porta.

“Olá”, ele disse quando eu abri a porta, beijando minhas duas bochechas. “Estou muito feliz
que você esteja aqui, comendo conosco.”

“Eu também”. Me inclinei sobre a moldura da porta, bloqueando sua passagem parcialmente.

“Comprei um vinho excelente”, ele segurou a garrafa e se inclinou mais para perto. “Eu acho
que merecemos ficar bêbados com um bom vinho”, ele disse. “Não acha?”

“Sim”, a minha empolgação aumentando. Eu queria beijá-lo loucamente. “Definitivamente.”

“Por nós”, disse minha mãe depois, brindando comigo e com Aldo. “Por um novo começo”, ela
olhou de mim para Aldo. “Para todos nós.”

“Absolutamente”, disse Aldo. “Para todos nós.”

Tomei um gole do meu vinho, me sentindo eufórica. Eu mal conseguia acreditar, mas estava
permitindo que eu me apaixonasse e eu estava sendo recompensada.
“Eu vou fazer um baseado”, eu disse. “Se estiver tudo bem.”

Nós tínhamos terminado de comer. Minha mãe resolveu fazer café, enquanto Aldo se oferecia
desajeitadamente para lavar a louça.

“Você passou a manhã inteira consertando o encanamento de Florence”, ela disse pra ele.
“Você pode ficar sentado?”

“Sim, signora”, disse Aldo sério. Ele piscou pra mim.

Não era a energia que eu estava querendo – um jantar de família acolhedor – mas era um
começo. Eu olhei para ele sobre meus cílios. Eu tinha enrolado um baseado e acendido em
uma das velas bobas da minha mãe. Eu traguei, inspirei e passei para o Aldo.

“Effy...”, ele disse mexendo a cabeça. “Você está me levando para o mau caminho.”

“Sim”, disse minha mãe servindo café em pequenos copos. “Effy é boa nisso.”

“Enquanto você é a porra da Branca de Neve”, eu disse, pegando o baseado de volta. “Uma
mamãe que cuida e ama.”

Minha mãe me olhou, estreitando os olhos. “Você está destruindo suas células cerebrais”, ela
disse gesticulando para o baseado na minha mão. “Você vai acordar em estado vegetal um dia
desses.”

“O que, quer dizer como uma batata?”, eu disse infantil. “Ou uma couve de Bruxelas?”

Minha mãe revirou os olhos. “Para algumas pessoas não demora muito”, ela disse. “Você pode
ser uma delas.”

“Ah, a Effy claramente é muito inteligente”, disse Aldo. “Assim como bonita.”

Eu senti minha cabeça balançando de um lado para outro. “Isso é bom”, eu disse. “Porque
beleza não é o bastante”. Sorri para ele. Parecia que ele estava se afastando de mim. Eu olhei
para o baseado e balancei em sua direção. “Não é?”

Uma tremulação de desconforto surgiu em sua expressão. Ele tirou o baseado de mim e
apagou. “Você está bem?”, ele perguntou, sua voz recuando agora. Ouvi minha mãe falando
algo, mas não conseguia entender as palavras. Arrastei a cadeira para levantar.

“Preciso ir ao banheiro”, eu disse, me levantando. Queria desmaiar. Merda, o vinho ou o
baseado eram forte demais. Eu tentei uma saída sóbria, mas bati na cadeira de Aldo.
“Firme”, ele disse, suas mãos em minha cintura. Eu fiquei lá, aproveitando a sensação de seus
dedos na minha cintura.

“Me ajuda a ir até ao banheiro?”, eu disse colocando minha mão em cima da dele. “Acho que
estou um pouco pior do que pensava.”

“Leve-a”, disse minha mãe parecendo irritada. “Ou ela vai acabar quebrando a cabeça na
bacia.”

“Você pode entrar comigo se quiser”, eu disse instável quando chegamos à porta do banheiro.
“Você pode me ajudar a tirar a calcinha.”

Aldo riu, uma risada rápida e nervosa. Eu me inclinei na porta e puxei seus braços em minha
direção.

“Vamos lá”, eu disse. “Não diga que você não pensou nisso.”

Ele abaixou seus braços para segurar minha mão. “Você é uma garota adorável, mas muito
confusa”, ele disse baixo.

“Não sou confusa”, eu disse. “Eu sei exatamente o que está acontecendo.”

“Effy”, ele apertou minha mão mais forte. “Por favor, não faça isso.”

“Certo”, eu concordei solenemente. “Eu vou ser uma boa garota. Eu prometo. Por você.”

Ele me soltou e penteou o cabelo com a mão. “Vou dizer boa noite”, ele disse. “Estou muito
cansado. Te vejo amanhã, certo?”

“Sim”, eu sussurrei enquanto o via caminhar da sala até a cozinha. “Te vejo amanhã.”

Quando saí do banheiro só ouvi o som da minha mãe batendo panelas na cozinha.

“Boa noite, mãe”, eu disse. “Eu vou para a cama.”

Houve uma pausa e depois sua voz, grossa.

“Boa noite, Effy”, ela disse. “Durma bem.”

Effy

Domingo 23 de agosto

Via San Angelo, manhã
“Oh Dio, il mio amore, mio amore.”

Minha mão parou na maçaneta da porta do quarto dela, a confusão se transformando em puro
horror quando ouvi a voz dele e finalmente compreendi a verdade.

A voz dele. A respiração deles.

Eu acordei cedo, vi a luz por baixo de sua porta quando estava indo ao banheiro e parei para
ver se estava tudo bem.

Voltei rapidamente para o meu quarto, de repente a coisa mais importante do mundo era que
eles não soubessem que eu estava lá. Sentei na beirada da cama, o choque me deixou com os
olhos arregalados e sem ar. Eu deveria ter previsto isso. Que porra eu esperava dela? Vadia
dissimulada. Pegando tudo o que quer. Não importa quem acabe se fodendo no processo.
Humilhação e pesar me dominaram como uma capa negra. Cobri minha boca com as duas
mãos e me lamentei silenciosamente, o esforço para não fazer barulho machucando minha
garganta.

Eventualmente voltei para a cama. Ainda era cedo. Deitei por um tempo, ouvindo em um tipo
de fascinação horrorizada aos dois fodendo. Devo ser muito perturbada porque parte de mim
ficou excitada. Não por ela, mas pelo som dele comendo ela. Mas a maior parte ficou com
nojo.

Não é real. Não pode ser real.

Acordei mais tarde e encontrei a porta do meu quarto toda aberta. Alguém estava varrendo os
azulejos de mármore no corredor. Ela. Ela parou do lado de fora do meu quarto. Puxei o lençol
mais para cima e fechei os olhos para não ter que olhar para ela. Vadia enganadora.

“Effy? Está acordada?”

Cerrei meus punhos por baixo do lençol e desejei que ela fosse embora, mas ela entrou e
sentou na minha cama.

“Effy, querida, você precisa acordar. Tenho más notícias.”

Não diga, caralho.

“É sobre a Florence.”
Abri meus olhos com isso, mas ainda não consegui olhar para ela. Minha mãe acariciou meu
ombro.

“Ela está morta. Alfredo foi vê-la hoje de manhã e a encontrou”, sua voz falhou. “Ela morreu
dormindo.”

Eu disse nada. Encarei a parede.

“Effy, você me ouviu?”

“Sim”, eu disse, sem expressão.

Minha mãe continuou com a mão no meu ombro por alguns segundos, mas acabou tirando-a.
Com minha visão periférica pude vê-la abaixando a cabeça. Ela sabia, então. Ela sabia que eu
sabia.

“Querida, eu...”

“Vá embora.”

“Mas...”

Me virei para a parede, meu corpo tenso. “Por favor, só deixe-me em paz, caralho”, eu disse,
monótona. “Tenho nada para te dizer. Agora ou qualquer outro dia.”

Senti minha mãe levantando. Ouvi ela sair do quarto, fechando a porta atrás dela. E deixei as
lágrimas virem. Por Aldo. Por Florence. Mas principalmente por mim.

Adormeci de novo e quando acordei, o apartamento estava vazio. Bom. Me vesti. O short jeans
mais curto, colete. E minha bota. Molhei meu cabelo e ajeitei com as mãos para que parecesse
selvagem. Garota selvagem. Deveria sair para conhecer algum italiano bonito. Alguém da
minha idade.

Não pense nisso.

Estava procurando minhas chaves quando ouvi a porta do apartamento abrir. Merda, não
queria estar aqui quando ela voltasse.

“Effy? Você está bem?”

Era ele. Estava com um terno de linho, camisa azul escuro. Uma sacola de papel marrom nos
braços. Ele parecia exausto. Foi até a cozinha e começou a tirar as coisas da sacola. Pão de
forma, um pote de azeitonas, um pouco de queijo e presunto em papel manteiga. Uma garrafa
de vinho. Ele amassou o papel e deixou na tigela de frutas. Ele olhou para o meu shorts.

Achei minhas chaves atrás da pia. “Vou sair”, disse a ele tranquilamente. “Você e minha mãe
podem almoçar em paz.”

“Anthea está no apartamento da Florence...”, ele disse, parecendo perdido. E decepcionado.
“Esperava que pudéssemos almoçar juntos”, ele pausou, limpou a garganta. “Poderíamos
conversar. Tenho um bom vinho”, ele sorriu tristemente. “Por favor?”

Eu hesitei porque apesar de tudo, eu queria. Ainda o queria. Queria aquele meio segundo
patético de eletricidade quando seus dedos encostassem nos meus ao me passar uma bebida.
Mas a sensação de anticlímax, de decepção, era enorme.

“Sinto muito. Você deveria ter dito algo antes”, eu disse. “Tenho planos.”

“Planos?”, ele disse, sorrindo.

Sinto muito, não posso sentir pena de você. Não agora.

“É”, balançava as chaves inquieta. “Planos.”

“É claro”, ele disse. “A comida estará aqui quando voltar.”

“Ótimo”, virei e andei até a porta da frente, fechando-a atrás de mim silenciosamente.

Do lado de fora parei no topo da escadaria, ouvindo os sons vindos do apartamento da
Florence. A voz da minha mãe. Móveis sendo movidos. Me sentia exausta, e entorpecida.

Atordoada, passei pela entrada e continuei indo, eventualmente me encontrando em Santa
Maria. A igreja do Aldo. Tanto faz, precisava de calma, e silêncio. Entrei em uma cabine de
madeira, querendo bloquear tudo.

Uma voz falou no meu ouvido, me assustando pra caralho. Estava em um confessionário. A
cabeça baixa de um padre estava visível através de uma grade a minha direita. Como nos
filmes. “Sinto muito”, sussurrei. “Não falo italiano.”

Vi o padre balançar a cabeça. “Está tudo bem”, ele disse. “Fique. Deus escutará.”

Sua bondade agiu como uma torneira para o meu luto, e comecei a chorar. “Não quero
conversar”, consegui dizer. “Posso ficar mesmo assim?”
O padre balançou a cabeça novamente.

Então ficamos sentados, eu e o padre. Ele, em silêncio no seu lado, eu, chorando não muito
silenciosamente no meu lado, mal podendo respirar com a escala dessa... catástrofe. Aldo ama
minha mãe. Ele não me ama. Ele ama minha mãe. Minha mãe. E a amável e compreensiva
Florence está morta e nunca mais poderei falar com ela. Entendi o que ela realmente quis
dizer quando falei com ela, porra, apenas algumas horas antes. Oh Deus e Freddie. Não havia
me permitido pensar nele, e agora ele não me queria também. Recuperei o fôlego em pânico.

Estava completamente sozinha. Era um animal atropelado.

O padre falou novamente, perguntou se poderia ajudar. Eu disse não e saí da cabine. Encontrei
uma capela lateral vazia e sentei, subitamente exausta. Sentindo-me pesada, como se
estivesse me mexendo embaixo d’água, me curvei para pegar uma almofada de ajoelhar,
deitei no banco da igreja, com a cabeça na almofada; apenas deitei.

Depois de vinte minutos o desconforto me fez levantar e sair dali. Comecei a andar para casa,
sem saber o que mais fazer, o luto se transformando em raiva a cada passo. Comecei a andar
mais rápido e então a correr. Continuei correndo para os prédios, então dois degraus por vez
até nosso apartamento, ofegando, grunhindo como a porra de um animal selvagem.

Quando irrompi pela porta para encontrar minha mãe e Aldo sentados na mesa da cozinha,
bebendo vinho, como se não houvesse qualquer coisa errada, eu não parei; limpei a mesa com
uma passada de braço violenta. Vendo copos e garrafa caindo no chão, vinho tinto
esparramando nos armários e na camiseta da minha mãe.

Apontei para ela. “Sujona”, eu ri histericamente. “Vadia suja.”

“Effy.” Ela parecia assustada, lançando olhares para o Aldo. Ela levantou, deu a volta na mesa,
seu chinelo esmagando o vidro quebrado. “Effy, querida, por favor...”

“Não ouse chegar mais perto”, avisei, tremendo. Chutei o vidro, espalhando-o mais pela
cozinha. Olhei para ela: olhos tímidos, bochechas coradas, a boca beijada a noite inteira por
ele. Um som como o de um alarme de incêndio pareceu disparar em minha cabeça, um
barulho cruel, me empurrando cada vez mais para a beirada disso.

“Você me enoja!”, eu gritei.

E então continuei gritando, nem palavras, apenas fazendo barulho. Acho que caí de joelhos,
porque tinha consciência da minha mãe tentando me levantar.
“Me deixa, só quero morrer”, me lamentei, olhando para meus joelhos, ensanguentados por
causa do vidro.

Ela se afastou e Aldo assumiu. Virei-me contra ele, golpeando o mais forte que podia, gritando,
até que ele finalmente soltou e eu fiquei parada, esgotada.

Nada me restava.

Cook

Segunda, 24 de agosto

Bar Grapes & Favour

“Que porra estamos fazendo aqui?”, disse Freddie, olhando em volta do lugar.

“O que há de errado com o lugar?” Eu sentei em um banco alto. “É limpo, cheira bem...” Me
virei para ver o quadro atrás de mim. “E fazem um ótimo salmão frito com limão e purê de
batatas com coentro, Fred. Como não gostar?”

Ele fungou. “É para garotas.”

Eu sorri. “Exatamente”, eu disse. E há uma balada que começa em duas horas. Algumas
cervejas, alguns olhares persistentes do Cookzinho, e Camilla e Henrietta Ricas ali estarão nas
palmas de nossas mãos.

“De alguma forma, não acho que as ‘damas’ aqui irão gostar do seu estilo homem das
cavernas”, disse Freddie, sorrindo com desdém. Ele olhou para duas garotas com saias
longuete e camisas. “São um pouco maduras demais.”

“Eu gosto de mulheres mais velhas, cara”, eu disse, esfregando minhas mãos. “Imaginei
frequentemente a mãe da Effy... sabe... na cama.”

“Você é um imbecil doente”, ele disse, procurando dinheiro em seu bolso. “Mas já que
estamos aqui, vamos beber”. Ele pegou duas notas de dez. “O de sempre?”

“Boa”, eu disse, dando tapinhas em seu ombro. “E seja um amor e pegue azeitonas”, eu juntei
meus lábios e mandei um beijo para ele.

Freddie rolou os olhos e foi até o bar. Eu me virei e vi JJ balançando em seu banco como um
louco.
“O que está fazendo, JJ?”

“Tentando puxar minha cadeira para mais perto da mesa, o que parece?”, ele disse. “Não é
fácil quando seus pés não alcançam o chão.”

“Os pés de ninguém alcançam o chão, cara”, eu disse. “Você tem que colocar os pés no apoio.”

“Certo. Sim. Entendo”, JJ arrumou seus pés e olhou em volta.

“Por que todos estão usando ternos?”, ele disse, quando Freddie voltou com nossas cervejas.
Mas sem azeitonas. Cuzão.

“Seremos nós em cinco anos”, Freddie disse, colocando as bebidas na mesa. Ele colocou um
copo de refrigerante com limão na frente de JJ e deu uns tapinhas em seu ombro. “Vendendo
nossas almas por uma hipoteca ou algo assim.”

“Fale por você”, eu disse. “Nunca vou usar um terno.”

“A não ser quando estiver em um tribunal, é claro”, Freddie sorriu convencido para sua
garrafa. “O que, vamos aceitar, é apenas questão de tempo.”

Eu o ignorei e olhei em volta do lugar. Cabelo brilhante e camisas por todo lado, todas
bebendo o maldito vinho branco. O que há com garotas e vinho branco? Eu me inclinei para
falar com a mesa ao lado. Três delas. Perfeito.

“Olá, garotas, como vão?”

Uma delas, de cabelo escuro e mamilo visíveis através de sua blusa, me olhou de cima a baixo.
“Bem, obrigada”, ela disse, entediada e virou de volta para as amigas. Vadia frígida.

“Então, está excitada ou só com frio?”, eu perguntei, acenando para seus peitos.

Ela não ficou impressionada com isso. Me olhou como se eu fosse um merda. Eu dei de
ombros.

“O quê?”, eu disse, virando para ver o rosto do Fred.

Ele balançou a cabeça. “Inacreditável.”

“Eu sei. Nenhum senso de humor.”

“Não foi o que eu quis dizer.”
Não brinca.

“Vamos, garotos”, eu disse, estufando o peito. “Façam um esforço.”

Freddie bebeu sua San Miguel e deu de ombros, enquanto JJ começou a fazer origamis com o
cardápio de coquetéis.

“Acho que você vai ter que superar”, JJ disse. “Aquelas três parecem distintamente imunes aos
seus charmes.” Ele abaixou a cabeça de novo, dobrando como se sua vida dependesse disso.

“Depois de algumas bebidas elas vão ficar implorando”, eu disse, começando a me irritar.
Peguei seu cisne de papel e o joguei no chão. Ele me deu um de seus olhares magoados e
começou a fazer outro.

“Uau, isso é incrível!”

Duas garotas mais ou menos da nossa idade pararam para assistir o trabalho do JJ. Ele sorriu
para elas, mas falou nada, o imbecil sem noção.

“É, ele é bom com os dedos, o JJ”, eu disse, piscando para a mais baixa e mais bonita.

Ela me ignorou. “O que mais consegue fazer?”, ela perguntou ao JJ.

“Apenas alguns, infelizmente”, disse JJ. “Estou começando a aprender... mas consigo fazer um
sapo pulando.”

A mais alta com lábios desenhados para envolver meu pau bateu palmas. “Eu amo sapos!”

“Faço um para você”, disse JJ. “Isto é, se você quiser.”

Ela sorriu para ele. “Obrigada, eu adoraria.”

Freddie e eu nos olhamos. Que porra?

“Vamos a um clube novo mais tarde”, eu disse para a baixinha. “Quer ir?” Eu levantei as
sobrancelhas para ela.

“Não, obrigada”, ela disse, mal olhando para mim. Fascinada pra caralho com o que JJ estava
fazendo.

Ele terminou e ergueu sua criação. “Em qualquer vértice o número de dobras de vales e
montanhas sempre difere por dois em qualquer direção”, ele disse, sorrindo para as duas.
“Matemática da dobradura.” Ele deu o sapo para a mais alta. “Ou é claro que você pode
apenas pensar nisso como um bom jeito de passar o tempo.”

Eu peguei minha garrafa, tomei um gole e arrotei com vontade. A mais alta torceu o nariz
enojada. “Porco”, ela murmurou para a amiga.

“Você precisa de uma tática nova, Cook”, disse Freddie. “Acho que o Neandertal que arrota
não está agradando a clientela.”




Freddie

Depois de meia hora assistindo o Cook sendo um imbecil e JJ existindo em um universo
paralelo aonde origami é sexy, minha mente começou a divagar. Não valia a pena brigar com
meu melhor amigo por uma garota. Eu ainda tinha vontade de socá-lo no rosto toda vez que
pensava nele com ela, mas foda-se, ela não era flor que se cheire. Ela também o ferrou.

Circulei a abertura da garrafa com o dedo, tentando não pensar na escola. Não havia contado
a Cook sobre a mensagem que mandei para Effy. Dizendo para ela não voltar. Me arrependi do
que fiz no instante em que enviei. A ideia de não vê-la de novo era... merda. Sentia sua falta.
Mas se ela voltasse a merda toda começaria de novo. Vai saber o que ela pensou... e o que fez
nas últimas semanas. Balancei a cabeça e acabei com a garrafa de cerveja superfaturada.

“O que há com você?”, Cook perguntou, voltando do bar e vendo meu rosto.

“Nada.”

Ele bateu nas minhas costas. “Bem, dê um sorriso então.”

“Por que está tão feliz?”, eu perguntei, apontando a cabeça para JJ, que ainda conversava
alegremente com seu fã clube. “Até ele está se saindo melhor do que você?”

“Pura sorte, meu amigo… e de qualquer forma, você já deveria saber que o Cookie Monster
não deixa a rejeição afetá-lo.”

Dei um olhar de lado para ele. “Besteira.”

Cook tentou dar um sorriso, mas seus olhos estavam mortos. “Sério”, ele disse. “Não me
incomodo mais. Ela teve sua chance e a desperdiçou.” Ele levantou sua garrafa e brindou na
minha. “Com nós dois.”
“E semana que vem”, eu disse. “Ela estará lá. Provavelmente.”

“Você acha”, disse Cook. “Acho que ela se foi de vez.”

Passei minha mão no rosto. Jesus. Que bagunça do caralho. “Sim, você deve estar certo”, eu
disse.

Cook virou uma dose. “E de qualquer forma, ela não se importa com qualquer um de nós,
sabemos disso. Toda aquela besteira de ‘Não me contate em Veneza.’”

Eu olhei para ele, tudo fachada, olhos examinando o ambiente, pronto para atacar a próxima
garota bonita que entrasse no bar. De repente tive vontade de pegá-lo e abraça-lo. Não fiz
isso, obviamente, porque isso seria gay pra caralho.

“Sim”, eu disse. “Esqueça-a.”

“Esse é o espírito, cara”, ele disse me dando tapinhas nas costas. “Agora, vamos lá fora
fumar?”




JJ

“Meu nome é Sophie”, disse a garota loura mais baixa. “E essa é Imogen.”

Eu corei, completamente pasmo com essa apresentação. Eu me forcei a não vibrar. “JJ”, eu
disse, estendendo a mão, desajeitado, em sua direção. “Bem, Jeremiah, na verdade, mas meus
amigos me chamam de JJ. Como uma forma abreviada do meu nome de batismo e do meu
nome do meio-”

Eu parei, vendo seus olhos abertos com a reação de susto padrão a que eu me acostumei.

“Mas isso é... chato”, eu disse. “Não querem saber disso.” Eu dei uma risada envergonhada
como a de uma garota e brinquei nervosamente com o sapo de papel.

Incrivelmente, Sophie sorriu para mim de forma amigável. “Aqueles são seus amigos, então?”,
ela disse, apontando para Cook e Freddie que estavam indo fumar do lado de fora.

“Sim”, eu disse. “São meus melhores amigos.”

“Sério?”, disse Imogen. “Não acha que são um atraso de vida?”
A resposta precisa para essa pergunta teria sido sem dúvidas “Sim”, mas essa não era a hora
de precisão. “Eles são legais”, eu disse. “São apenas diretos.”

“Esse é um jeito de definir, suponho”, disse Sophie, enrugando seu lindo nariz. “Mas a resposta
justa? Ele é um completo cocô.”

“Cook na verdade”, eu disse. “O nome dele é Cook.”

“Certo”, disse Sophie, olhando para Imogen.

“Piada boba”, eu murmurei. “Muito boba.”

“Mas você é fofo.” Ela olhou para mim tão diretamente que o sapo de papel pulou das minhas
mãos trêmulas e foi parar no chão. Imogen o pegou e me deu.

“Obrigado”, eu disse. “Muito gentil de sua parte dizer isso.”

As duas riram e Sophie se inclinou para frente e me abraçou. Eu lutei desesperadamente
contra meus instintos de endurecer quando sou tocado sem aviso. “Você deveria pensar em
arrumar amigos novos”, ela sussurrou em meu ouvido escarlate. “Sério.”

Cook e Freddie estavam vindo em nossa direção, empurrando um ao outro jovialmente. Eu
relaxei no meu lugar.

“Nossa deixa para ir embora”, disse Sophie, olhando novamente com desgosto para o Cook.
Ela piscou para mim. “Mas lembre-se do que eu disse.”

“Certo”, eu disse, sentindo como se uma equipe de gravação fosse aparecer a qualquer
momento revelando uma brincadeira sádica as minhas custas. Eu provavelmente estaria no
programa Jonathan Ross em algum momento, como parte de sua rotina de aquecimento.
Melhor acabar com isso agora.

“Sim, eu vou”, eu disse, dando um curto aceno para ela. “Adorável conhecê-la, Sophie. Tchau.”

Cook e Freddie observaram as garotas partirem.

“Linda bunda, a da baixinha”, disse Cook grosseiro. “Pena que seja frígida. Puta desperdício.”

Freddie indicou com a boca “Ciúmes”, por cima da cabeça de Cook. Eu sorri nervoso.
Enquanto eu estava sentado praticando mais origamis e os outros dois brincavam, se
provocavam e mandavam um ao outro se foder de vez em quando, eu pensei em como foi
meu verão até agora.

Admito, o encontro às cegas não foi um ponto alto, nem minha seleção como juiz da maratona
de sexo, mas sentando nessa mesa, me concentrando no avião de papel perfeito, senti um
brilho de algo muito próximo de felicidade. Duas garotas, que mais importante eram no
mínimo um número oito na escala de beleza, preferiram a mim ao invés dos meus melhores
amigos paus-do-ano.

Fiquei quase tentando a tomar uma sidra para celebrar. Mas eu resisti.

“Olha o Hugh Hefner aqui”, disse Cook, batendo de leve na minha cabeça. “Quem diria, não é,
Fred?”

Freddie sorriu para mim e levantou sua garrafa. “Boa, JJ”, ele disse, piscando. “Boa.”

Effy

Terça, 25 de agosto

Via San Angelo

“Não... eu liguei para sua sobrinha”, minha mãe disse ao telefone. “Ela quer que ela seja
enterrada na Inglaterra...”, houve uma pausa. “Entendo isso, mas... sim. Eu sei que há
papelada para cuidar... certo.” Ela suspirou com tanta força que pude ouvir através da parede.
“Sim. Sim. Farei o que puder.”

Houve silêncio, então um resmungo alto e frustrado de “Malditos burocratas italianos” na
cozinha. Ela deve ter terminados a ligação.

Estava em meu quarto, sentada contra a porta, com minhas pernas encostadas no peito,
fumando. Eu tossi, ofegando um pouco. Virei uma chaminé desde que aconteceu. Senti minha
cabeça pesada, doendo. Joguei o cigarro em uma garrafa de cerveja vazia, vendo-o apagar e
morrer no restinho de cerveja.

Me abracei, sentindo minhas costelas. Não havia comido ontem, ou hoje. Não conseguia. Me
sentia mal constantemente. Pelo menos as lágrimas estavam secando agora, sendo
substituídas gradualmente pelo entorpecimento de novo. Não sabia o que era pior, mas pelo
menos daria um tempo para minha pele. As poucas vezes em que me olhei no espelho, um
reflexo úmido e inchado me encarou de volta. Sem maquiagem. Olhos pequenos.

Abri minha boca e disse “Ah”, um teste para ver se ainda podia falar.

Eu e ela não havíamos nos falado desde o incidente na cozinha. Ela não forçou; apenas me
deixou, sabendo que eu apenas tentaria matá-la se falasse comigo antes que eu estivesse
pronta.

Pronta para o quê? Perdoá-la?

E ele? Ele não estava em lugar algum. Me alimentei com um pouco mais de dor, lembrando de
antes. Quando eu pensei, eu realmente pensei que ele sentia o mesmo que eu. Fascinada,
enfeitiçada. Viva.

Eu tinha inventado isso? Ou imaginado?

Levantei, fui até o armário pegar uma toalha, roupas limpas e roupa de baixo. Então abri a
porta e fui até a sala e ao banheiro. Enquanto fechava a porta observei cautelosamente para
ver se saía da cozinha. Nada, apenas um pouco de fumaça serpenteado pela porta até o
corredor.

Abri a banheira o mais quente possível, então entrei, apreciando a água escaldante em minhas
pernas, observando-as ficarem alarmantemente rosas. Ontem à noite fiquei na banheira por
horas, estremecendo com a água fervente em meus joelhos machucados, apenas deixando a
dor fluir através de mim. Fiquei lá até minha pele franzir e rachar como uma noz. A água me
protegeu. Deitei agora, e pressionei minhas mãos contra meu rosto, observando o vapor
cobrindo o espelho.

Depois vesti meu jeans preto rasgado e minha camiseta de Sid e Nancy. Então apliquei rímel e
delineador cuidadosamente, observando meus olhos ficando maiores e esfumaçados. Passei
hidratante na pele, olhando as sardas em meu nariz – o único resquício da Effy criança. Não
mais uma criança, com certeza.

Escovei meu cabelo molhado, e sentei no lado da banheira passando meus dedos nele. Peguei
a toalha molhada e coloquei junto com as outras. Então abri a porta.

Ela estava parada bem na minha frente. Seu cabelo preso em um rabo de cavalo desarrumado
e seu rosto parecendo cansado e sombrio.
“Oi”, ela disse cuidadosamente. “Bom banho?”

Eu concordei com a cabeça, mantendo meus lábios fechados. “Tem chá?”, eu disse, me
assustando com o som da minha voz. “Quero muito uma xícara de chá.”

Seus olhos se levantaram esperançosos. “Claro”, ela disse. “Também quero um pouco.”

Sentei na cozinha com as mãos no colo. Era como eu sentava quando era criança, depois de
ficar chateada, ou quando Tony havia tentado me bater ou algo assim. Minha mãe andava pela
cozinha, fazendo coisas para mim: chocolate quente, ovo cozido... me confortando em silêncio.

Ela colocou uma xícara de chá na minha frente. E depois um sanduíche. Aparentemente ela
conseguiu encontrar o único pão de fôrma macio da Itália. Com presunto, queijo e cebola em
conserva. Meu favorito. Eu engoli, não queria aceitar esse gesto, mas sentindo-o com meus
olhos.

Minha mãe sentou com sua caneca e colocou seus óculos para ler um documento de aparência
oficial. Eu mastiguei, observando-a tentando entendê-lo.

“Isso é sobre Florence?”, eu disse finalmente.

Ela olhou para cima e suspirou. “Acho que sim... Não que eu possa entender uma palavra
maldita disso.” Ela deu uma risada curta. “Nunca deveria ter concordado quando Florence me
disse que gostaria que eu cuidasse disso.” Ela tirou os óculos. “Acho que não pensei que ela
fosse realmente morrer.”

“Sinto falta dela”, eu disse. “Mesmo não a conhecendo há muito tempo.” Peguei a outra
metade do meu sanduíche. “Ela era aquele tipo de pessoa, sabe?”

Minha mãe sorriu. “Sim”, ela disse. “Ela era.”

Ela me observou comer.

“Effy”, ela começou. “Precisamos conversar-”

“Não quero”, eu disse rapidamente, meus dedos apertando o sanduíche. “Não posso.”

“Certo”, ela tomou um gole de chá. “Mas pode ajudar.”

“Ajudar quem?”, eu coloquei a comida no prato.

“Nós duas.”
“Por que eu deveria me importar se te ajuda?”, eu disse calmamente. “Fala com ele. Tenho
certeza de que ele tem sido uma torre de força.”

“Nós dois nos sentimos terríveis.”

“Oh, devia ter dito antes”, eu sorri maldosa. “Porque isso faz toda diferença do mundo.”

“Alfredo acha que você é maravilhosa”, minha continuou agitada. “Ele sente que... pode ter te
confundido... passando tanto tempo com você.” Ela engoliu. “Ele realmente queria. Mas não...
quero dizer, ele tem idade para ser seu pai. Ele não imaginou que você interpretaria seu
interesse de forma errada.”

“Ele esfregou o pau na minha bunda, mãe”, eu disse a ela, observando seu rosto por uma
reação. “Ele ficou duro só de me olhar.” Eu empurrei o prato para longe. “Diria que isso é difícil
pra caralho de ‘interpretar de forma errada’, não acha?”

Ela me encarou, cuidando para não demonstrar estar magoada. Conheço esse olhar, porque é
o que eu uso regularmente. A maçã não cai longe da árvore, então.

“Ele é um homem, a resposta para uma garota linda rebolando na frente dele é ficar duro.”

Ela estava ficando irritada. Bom. Estava cansada da porra da Santa Anthea.

“Ele fica assim com sua bunda velha e caída?”, eu perguntei rapidamente. “Ou ele precisa de,
tipo, Viagra para levantá-lo?”

Ela bateu com a mão na mesa. “Às vezes”, ela disse, vibrando de raiva, “você me deixa
envergonhada pra caralho de você.”

“Talvez”, eu acenei. “Mas você nunca, nem em um milhão de anos, nem se eu corresse com a
bunda de fora na frente do caixão da Flo, poderia ter mais vergonha de mim do que eu tenho
de você... Sua vaca negligente e egoísta.” Eu pausei, olhando para ela. “E se você acha que essa
é só a minha opinião, vai perguntar para o meu pai o que ele acha.”

Ela abaixou a cabeça, me dando uma boa visão de sua raiz escura, misturada com grisalho,
obviamente.

“Eu não queria magoar seu pai. Apenas aconteceu”, ela fungou.
“Quer saber?”, eu disse. “Já achei que podia confiar em você. Achei que você cuidaria de mim,
notaria coisas que estavam acontecendo comigo.” Encostei levemente na cadeira. “Mas você
nunca pôde fazer isso. Sempre esteve envolvida demais nas suas próprias merdas.”

“Isso não é justo.”

“Não. Não.” Eu levantei a mão como um juiz. “É completamente justo.” Eu levantei, encostei
na geladeira. “Mas ele falava comigo. Fez com que eu sentisse que o que pensava e dizia
importava.”

“Seu pai?”, ela disse confusa.

Olhei para ela com desdém. “Aldo.”

“Certo.” Ela suspirou pegando um lenço de seu bolso. “Bem. Eu te disse, ele gostou de você.”

“Mas gostou mais de você, não é?” Eu disse. “Por alguma razão ele preferiu sua companhia
resmungona à minha no fim das contas.” Eu balancei minha cabeça. “Ele se assegurou de que
eu confiava nele. Então me decepcionou.”

“Ainda pode confiar nele”, ela disse. “E em mim.”

Eu bufei. “Você está brincando comigo, não é, mãe?” A encarei, boquiaberta. “Eu, confiar em
algum de vocês dois bastardos novamente? Acho que não.”

Houve silêncio. Minha mãe pegou um cigarro de seu maço e acendeu. Ela soprou fumaça e me
olhou.

“Sente-se, Effy.”

“Por favor. Apenas por um minuto.”

Relutantemente arrastei uma cadeira para longe da mesa e sentei, agitada.

“Sinto muito”, ela disse quieta. “Você está certa. Te negligenciei. Estava muito ocupada com
minha coisas...”, ela bateu o cigarro no cinzeiro. “Estava muito deprimida. Não podia ver algo
além de mim.”

“Eu notei”, eu disse mal humorada.
Ela ignorou meu tom. “Sabia que tinha fodido as coisas com seu pai. Sentia que o mundo havia
desmoronado em mim. Não podia te ver.” Ela pausou. “Ou o que estava acontecendo com
aqueles garotos.”

Disse nada, esperando ela continuar.

“Quando chegamos aqui, me sentia velha e esgotada pra caralho. Você não falava comigo, não
queria estar comigo. Eu estava solitária.”

“Hmmm” , eu brinquei com um furo do meu jeans. “Bem, você tev-”

“Sim, eu sei. Eu tive um caso. Eu causei todo o sofrimento.” Ela terminou seu cigarro e o
apagou. “Mas seu pai não é completamente inocente, sabe.”

“Não.” Eu encarei meu colo, pensando no que fiz com Freddie, e com Cook. Coloquei um
contra o outro. Também fiz minha própria merda. Eu era melhor que minha mãe? Eu recuei.
Talvez isso fosse carma ou alguma coisa assim. Recebendo o que merecia.

“Eu fui uma idiota”, eu disse finalmente. “Queria que alguém me notasse. Não pelo meu rosto
ou meu corpo, mas por mim... E ele notou. Era tudo o que eu precisava...”

“Mas Aldo te acha ótima. Sério”, ela disse. “Estava com ciúmes disso no início.”

“Mesmo?”

“Mesmo. Mas então eu e ele... começamos a conversar sobre... casamento e divórcio, e
fracasso... e todas essas merdas. Ele entendia.” Ela pegou outro cigarro. “Aos poucos comecei
a me sentir menos como a Medusa... e mais como se pudesse ser feliz novamente.”

Encarei um ponto no chão.

“Effy, você é jovem, é linda pra caralho. É inteligente. Tem todo o tempo do mundo para
conhecer e se apaixonar...” Ela acendeu o cigarro. “Eu não tenho tanto tempo. Não é fácil
assistir sua linda filha recebendo toda a atenção.”

Eu olhei para ela, as linhas em seus olhos, as sombras escuras. Ela tinha razão.

“Há quanto tempo estava acontecendo?”, eu perguntei, me preparando para a facada.

“Não muito. Nada aconteceu até sábado à noite.” Ela tragou de novo. “Nos aproximamos
quando Florence ficou doente pela primeira vez. E... só aconteceu. Percebemos que sentíamos
o mesmo.”
“Que adorável para você”, eu disse, mas não havia desafio na minha voz. Apenas resignação.

“Em alguns meses, vai se perguntar o que diabos viu nele”, ela disse. “Quando voltar para
Bristol. Para a realidade.”

“É da realidade que eu tenho medo”, murmurei.

“O quê?”

“Nada”, me arrumei na cadeira. “Talvez esteja certa.” Eu pausei. “Então o que vamos fazer
agora? Vou ter que ficar assistindo vocês dois se pegando?”

“Bem”, ela falou comigo cuidadosamente. “Pensei que depois de resolver as coisas da Flo,
talvez possamos mudar de cenário.” Ela olhou a cozinha. “Acho que já deu desse lugar.”

“Voltar?”, eu disse, não me sentindo pronta para isso. Nem remotamente pronta.

“Estava pensando em Roma”, ela disse. “Sempre quis ir para lá.”

Que seja.

“Mas ele não”, eu testei. “Ele não vem?”

“Não. Só eu e você.” Ela arriscou um sorriso tímido. “Vamos fazer direito dessa vez.”

Emily

Quarta, 26 de agosto

The Priory

“Vai querer isso, ou posso comer?”, apontei com minha faca para uma torrada fria no canto do
prato de Naomi.

“Toda sua”, ela disse, sorrindo para mim enquanto eu enchia a torrada de marmelada.

Enfiei metade na minha boca. Estava faminta. Não comi muito nos últimos dias na França.
Muito animada e nervosa por vir para casa.

Naomi fechou as mãos embaixo do queixo. “Você come como criança”, ela disse entretida.

“Faminta pra caralho”, eu disse de boca cheia. Engoli. “Não está com fome?”

“Não muita”, ela disse. Pegou seu café e tomou um gole.
“Amor”, eu disse, sorrindo para ela. “É isso o que é.”

“Sim.” Ela colocou a caneca na mesa e estendeu a mão para pegar a minha. “É o que é.”

Sorrimos bobas uma para a outra por um minuto, então ela soltou minha mão.

“Então, Em, o que vamos fazer hoje?”, ela disse casualmente.

Empurrei meu prato. “Voltar para sua casa, passar o resto da tarde na sua cama, então
levantar e comer um jantar farto, feito pela sua mãe.”

“Acho que Kieran vai cozinhar hoje”, ela disse. “Uma refeição comemorativa.”

“Kieran cozinha?”, eu perguntei surpresa. “Não parece ser do tipo que cozinha.”

“Sim, Kieran é um homem cheio de mistérios”, Naomi disse em um tom entediado. “Tenho
uma sensação horrível de que a porra de uma noite de ‘casais’.”

“Aw... encontro duplo”, eu disse com um sorriso afetado. “Que aconchegante.”

“Que tormento, você quer dizer”, Naomi disse. “Já passou muito tempo com Kieran, Em?”

“Não posso dizer que sim”, eu disse. “Normalmente não saio com professores loucos de
política.”

“Bem, não está perdendo alguma coisa.” Ela pegou um pouco de espuma com a colher e
lambeu provocativamente. “É como conversar com um socialista de meia idade meio tonto
com surtos ocasionais de DDAH.”

“Parece legal para mim”, eu disse rindo. “Quer dizer, consigo pensar em coisas piores... Como
jantar na minha casa, por exemplo.”

“Isso é verdade”, ela disse, largando a colher em sua caneca vazia. “Poderia viver sem essa
experiência.” Ela estreitou os olhos, inclinando para frente. “Por favor, me diga que isso nunca
vai acontecer?”

Eu virei a cabeça de lado. “Sério. Consegue imaginar minha cozinhando um jantar romântico
para quatro?”

“Não”, disse Naomi. “E é assim que eu quero que fique.”

Encostei em minha cadeira e estiquei os braços por cima da cabeça. Estava satisfeita e
contente. Naomi e eu voltamos a ficar juntas sem problemas. França... Paris... parecia ter sido
há uma vida. Senti um desconforto ao pensar em Paris, mas forcei o pensamento a ir embora.
Nada aconteceu. Não contava. Coloquei os braços atrás da cadeira e observei Naomi mexendo
em seu celular.

“Mensagem?”, eu disse, me inclinando para frente.

“Uma coisa do Kieran”, ela disse, colocando o celular na mesa com a tela virada para baixo.

Franzi a testa. “Sobre o quê?”

“Oh... apenas sobre o jantar”, ela disse vagamente, encostando seu dedo no meu. “Nada
importante.”

Fechei meus olhos, deixando a felicidade me inundar. “Ainda me ama?”

Naomi deu de ombros. “Suponho”, ela disse, suspirando.

Fiz um bico, ainda não estava completamente acostumada com seu humor seco. “E ninguém
tentou ficar com você, certo? Enquanto eu estava viajando.”

“Apenas o Cook”, disse Naomi, fungando. “E você sabe que ele não conta.”

“Ele é inacreditável”, eu disse encostando de volta na cadeira. “Ele literalmente transa com
qualquer coisa que se mova.”

“Nossa, obrigada, Emily”, ela disse seca. “Tentarei não ficar magoada com essa observação.”

“Sabe o que quero dizer.” Arrastei seu braço em minha direção. “Ele não é seguro.”

“Eu sei”, disse Naomi, soando melancólica. “Mas esse é meio que o charme dele.”

“Que seja”, eu disse duvidando. “Ainda não confio completamente nele. Veja o que ele fez
com Freddie. Roubando Effy de debaixo do seu nariz.”

“Ah, por favor”, Naomi disse, um pouco severa. “A Senhorita Inocente. Não me faça rir.”

“Bem, é verdade”, eu disse. “Ele explorou completamente aquela situação.”

“Certo. Quer dizer que ele a forçou a transar com ele? Torceu seu braço frágil até ela não ter
escolha?”
“Não.” Eu não ia ganhar esse debate, mas continuei mesmo assim. “Quero dizer que ele se
assegurou de estar no lugar certo na hora certa.” Observei Naomi balançando a cabeça. “Ele
ferrou seu melhor amigo e tirou vantagem da Effy.”

“Ah, que pena”, disse Naomi, tirando sua carteira da bolsa. “Perdoe-me por não derramar
lágrimas de pena por Effy Stonem.” Ela colocou uma nota de cinco libras na mesa. “Não me
entenda mal. Ela é legal para sair e nunca me fez mal. Mas a vi brincando com os dois. Ela é
manipuladora pra caralho.” Ela fechou a carteira e a jogou em sua bolsa. “Ela sabe exatamente
o que está fazendo.”

Dei de ombros. “Talvez.” Peguei um pouco de dinheiro e coloquei junto com o que Naomi
deixou. “Vamos mudar de assunto.”

“Claro”, disse Naomi, levantando. “E decidir o que vamos fazer.”

“Que tal fazer compras?”, eu disse. Olhei a hora. “Preciso de uma roupa para hoje à noite.”

“Você fica linda do jeito que está”, disse Naomi, olhando minha roupa de algodão de cima a
baixo. “Muito comível, na verdade.”

“Mas não quero que Kieran pense que estou comível, quero?”, eu disse tímida.

“Bem pensado”, disse Naomi com um calafrio. “Só a ideia me deixa louca de ciúmes.” Ela
sorriu para mim. “Apesar de ter um palpite de que ele gosta de mulheres mais velhas no
momento. Sua época de amor estudantil já passou.” Ela franziu a testa. “Espero que tenha
passado.”

Pagamos e saímos de mãos dadas em direção às lojas. Naomi esperou até chegarmos na
esquina para apertar minha bunda.

“Outra ideia”, ela disse. “Precisamos mesmo ir às lojas agora?”, ela acariciou minhas costas.
“Parece um desperdício de tempo.”

“Só uma volta na Topshop?”, eu supliquei. “E depois sou toda sua.”

Naomi deu um tapa na minha bunda um pouco mais forte que o necessário.

“Ooh, eu gosto da Naomi Dominatrix”, eu disse me esquivando. “Vai ser uma volta bem rápida,
certo?”

Naomi
Quarta, 26 de agosto

Jantar dos Campbell

“Parece ótimo”, disse Emily, apontando para a massa com seu garfo. “O que é mesmo?”

“Rigatoni com radicchio, gorgonzola e um pouco de creme de leite”, anunciou Kieran,
sentando e colocando se guardanapo no pescoço da camiseta. “Pode colocar carne se quiser”,
ele disse pegando seu garfo. Ele sorriu para todos. “Ataquem.”

Emily e eu trocamos olhares de divertimento suprimido enquanto minha mãe sorria orgulhosa
para Kieran.

“Bem”, ela disse. “Isso é legal.” Ela sorriu para Emily. “Estamos felizes que tenha voltado,
Emily. Naomi tem sido um pesadelo nas últimas semanas.”

“Mãe”, eu disse carrancuda. “Cala a boca.”

Kieran balançou seu garfo para cima e para baixo no ar. “Sério”, ele disse. “Ela não tem sido
ela mesma.”

Eu o encarei, não que ele tenha notado.

Emily estava encantada é claro. “Sério?”, ela disse remexendo em sua comida no prato.

“Sim”, disse Kieran continuando a tolice. “Ela tem estado louca”, ele sorriu inocente para mim.
“Não é?”

Mexi meu pé embaixo da mesa e pisei o mais forte que podia em seu pé. Ele se encolheu,
levantando uma sobrancelha para mim.

“Vocês não tem ideia de como tenho me sentido”, eu disse, olhando para ele para minha mãe.
“Vocês tem estado ocupados dem-”.

“Não acho que Emily queira escutar isso.” Kieran estava corando. Ele tirou meu pé do dele.
“Vai acabar com seu apetite.”

Não havia como discordar disso, então sentamos em silêncio, com exceção do som dos
talheres batendo nos pratos.

“Então”, disse Emily depois de um tempo. “O que ela tem feito?”

Eu olhei para ela. “Eu te disse.”
“Sim. Mas quero uma segunda opinião”, ela disse gentilmente. “Só isso.”

“Bem, ela tem me ajudado no jardim”, minha mãe começou.

Oh, que entediante.

“E tem fumado muito um do bom comigo”, adicionou Kieran embaraçado.

“E isso é tudo”, eu disse rapidamente, com um olhar firme para ele. “Não é?”

“Oh”, disse minha mãe limpando a boca com o guardanapo. “Falamos um pouco sobre o ano
que vem.” Ela parou para beber um pouco de cerveja. “Sabe, universidade e essas coisas.”

“Sério?”, disse Emily. Ela virou e me alfinetou com aqueles malditos olhos de corça.

“Não muito”, eu dei de ombros, meus olhos se estreitando. “Nada concreto.”

“Bem, houve o-”, Kieran começou.

“Nada”, eu disse. Eu levantei com minha janta comida pela metade. “Nossa, estou cheia.”
Olhei para Emily que tinha comido tudo em seu prato. “Vamos para o meu quarto agora, tudo
bem, mãe?”

Minha mãe olhou para mim com suspeita. “Não”, ela disse. “Não está tudo bem.” Ela olhou
para Kieran. “Kieran teve muito trabalho com a sobremesa.”

“Certo.”

Deixei meu prato no balcão e sentei. Provavelmente estava de cara feia. Me sentia
distintamente irritada pra caralho com eles.

Kieran saiu e voltou com uma fôrma com tiramisú.

“Achei que estivesse cansada da culinária francesa.”, ele disse à Emily. “Então optei por um
tema italiano para hoje.”

“Ótimo”, disse Emily quando ele lhe serviu uma grande fatia. “Eu amo tiramisú.”

“Eu não quero”, eu disse ingrata, torcendo o nariz. “Não gosto muito.”

“Naomi”, minha mãe disse severa. “Você está sendo muito rude.”

“Desculpa!”, joguei minhas mãos para o ar. “Mas ninguém me perguntou se eu gostava. E eu
não gosto.”
Emily parecia muito desconfortável. “Bem, eu como sua parte”, ela disse.

Estranha.

Kieran sorriu para ela, contente.

“Bom saber que eu tenho sociedade de apreciação uma pequena e seleta”, ele disse
agradavelmente. “De duas pessoas.”

Emily riu.

“Então”, ela perguntou a Kieran alguns minutos depois. “Tem ajudado Naomi a decidir sua
carreira, então?”

“Bem”, ele disse. “Apenas indiquei algumas coisas, só isso.” Ele terminou seu pudim. “Naomi
não quis aceitar muitos conselhos de um velho como eu.”

“Isso mesmo”, eu resmunguei, desejando que Kieran e minha mãe desaparecessem.

“Certo, Naomi”, disse minha mãe com calma. “Acho que já se expressou.” Ela deu um tapinha
na mão de Kieran. “Vamos limpar a mesa?”

Eles levantaram e foram para a cozinha carregados de tigelas.

“Naomi”, sibilou Emily. “Qual é a porra do seu problema?”

“Nada”, eu disse emburrada. “Apenas o papo furado chato, sabe.”

“Não achei chato”, ela disse franzindo a testa. “Estava interessada.”

Levantei-a da cadeira. “Vamos para a cama”, eu disse beijando o lado de sua cabeça. “Hoje só
estou interessada em te deixar nua.”

Emily sorriu. “Bem, quando você fala desse jeito”, ela disse. “Vou deixar o café e o licor para lá.
Só por você.”

“Vamos lá para cima agora”, avisei à minha mãe. “Coloquem uma música e tal.”

“E o resto”, sussurrou Emily enquanto eu a empurrava para fora da sala. “Boa noite, Gina. Boa
noite, Kieran.”

Uma hora mais tarde eu estava acordada enquanto Emily dormia ao meu lado.
Eu tinha que me ajeitar e tomar algumas decisões. Apenas tinha que encontrar uma forma de
contar a Emily sobre elas.

Olhei para seu rosto, doce, boca meio aberta, em paz.

E eu não estava ansiosa para isso.




Everyone

Quinta, 27 de agosto

Quiz no Pub do Tio Keith

Katie

“Oi, Freddie.”

Ele virou quando eu falei, acertando três copos cheios de cerveja com o cotovelo. Ele lutou
para impedi-los de cair do bar.

“Katie. Oi... Tudo bem?”

“Sim.” Eu sorri para ele. “Estou bem.” Observei seus olhos se revirando nervosamente. “Sério.”

Ele sorriu. “Bom”, ele disse, puxando o jeans para cima e corando. “Não quero que nós-”

Eu o parei. “Esqueça isso, Freddie”, eu disse equilibrada. “Eu superei.” Abri minha bolsa para
pegar minha carteira. “Está tudo bem.”

Ele colocou a mão no bolso rapidamente. “Deixe eu te pagar uma bebida”, ele apalpou os
bolsos. “O que você quer?”

“Está tudo bem, eu compro minha bebida”, eu disse sem olhar para ele. “Mas obrigada.”

Eu pedi um Bacardi com coca, e então respirei fundo antes de ir até onde todos estavam
sentados. Emily, Naomi, Thomas e Pandora, Cook, JJ... era bom vê-los. Parecia que havia
passado anos, não apenas semanas.
“Deliciosa!”, disse Cook alto, sorrindo para mim, obviamente muito bêbado. “Venha e junte-se
ao amor.”

Sentei no único lugar livre. Ao lado da Naomi. Olhei para Emily, que me deu um sorriso
encorajador. Bem, tentar não mata.

Me ajeitei no meu lugar e coloquei minha bebida na mesa. “Oi”, eu disse para Naomi,
tentando ser amigável. “Se importa se eu sentar aqui?”

Por um segundo a famosa entortada de lábio ameaçou sua boca, mas ela parou bem a tempo.
“É um país livre”, ela disse, me dando um meio sorriso.

Eu também dei um e me virei para ver os outros.

Cook estava sorrindo alegre para a mesa. “Não conseguiu ficar muito tempo longe, né?”, ele
disse. “É o encanto do Monstro Cookie, entendem. Nenhum de vocês imbecis conseguem ficar
sem mim.”

“Exceto Effy. Ela não está aqui”, disse Pandora. Sua cadeira estava o mais próximo possível de
Thomas sem que sentasse em seu colo.

“Bem observado”, disse Cook, se curvando para ela. “Mas quem se importa.” Ele acenou com
sua cerveja. “Até bebo em comemoração.”

Houve alguns olhares desconfortáveis. Freddie estudou a porta.

“Enfim, Cook”, disse Naomi, mudando de assunto. “Não tem algo para nós?”

“Sim. Certo, princesa.” Ele se reclinou em sua cadeira e gritou, “Oi Keith, aonde estão as
drogas?”

Keith, com a barriga saindo de sua camisa manchada, olhou de onde estava mexendo com um
microfone perto do bar. “Fale baixo, Jimbo, caralho”, ele sibilou. Ele olhou furtivamente em
volta do bar. “Aqui.”

Um saquinho de plástico voou pela sala e foi pego habilmente pelo Cook.

“Discreto ele, não é?” Naomi rolou os olhos. “Seu tio.”

Cook não respondeu, muito ocupado virando o saquinho de cabeça para baixo. Ele colocou
tudo na mesa. “Sirvam-se, crianças”, ele disse. “Há uma para todos que não tomam pílulas de
louco... Isso quer dizer você, JJ.”
“Obrigado pelo lembrete”, disse JJ, tomando um gole de coca, mas sorriu sem se incomodar
conosco.

Peguei uma das pílulas redondas e engoli com um gole de Bacardi.

“O que elas são?”, eu disse.

“’E’ é claro”, disse Emily. “O que achou?”

“Paracetamol”, eu sugeri, com a cara séria.

Enquanto Emily me mostrava o dedo, eu vi Naomi sorrindo para nós. Me mexi em meu lugar,
sentindo o calor do álcool fazendo seu trabalho. Estava começando a me sentir relaxada
quando um barulho ensurdecedor de retorno do microfone fez todos se encolherem.

“Certo, seus putos bobos”, berrou Keith, usando um microfone apesar de o lugar estar meio
vazio. Ele limpou a garganta. “Bem vindos à noite do quiz do Keith.” Ele embaralhou alguns
papeis. “Agora, para os imbecis entre nós, é assim que funciona.” Ele pausou para um efeito
dramático. “Vocês se dividem em times. Eu leio as perguntas, vocês escrevem as respostas. O
time vencedor ganha até três copos grátis da bebida de minha escolha.” Ele limpou a garganta
de novo. Sentamos esperando passivamente.

“Certo”, ele disse finalmente. “Pergunta Número Um... Fucus é um tipo de quê?”

“Que merda é fuckus?”, disse Freddie, gargalhando.

“É latim, para o ato de foderisar”, disse Cook, rindo e batendo na mesa. Ele se virou para
Pandora. “Certo, princesa?”

Thomas enrijeceu, e Panda enroscou um braço protetor no dele.

“Não mesmo”, ela disse, com um olhar raivoso para Cook. Ela se aconchegou em Thomas, que
estava tentando ignorar o comentário.

“Na verdade”, disse JJ quieto. “Se pronuncia fiu-cus.” Ele pausou. “E é um tipo de alga
marinha.”

“Boa, gênio”, disse Freddie, pegando um pedaço de papel e escrevendo. “Mas não espalhe,
sim. Não queremos todos escutem, não é?”

Ele beijou JJ no lado de sua cabeça. JJ sorriu, orgulhoso de si mesmo. Estávamos todos olhando
para ele, gratos por sua existência. E não apenas por causa de seu cérebro.
Me inclinei na direção da Naomi, cutucando-a levemente com meu ombro. “A propósito, estou
dando minha benção oficialmente.” Eu disse levemente. “Mas só para você saber, se magoar
Emily, está morta.” Eu sorri e bati em seu copo com o meu.

“Registrado”, disse Naomi, levantando uma sobrancelha.

Emily olhou para nós. Ela sorriu alegremente para mim. “Valeu”, ela disse sem som.

Abanei a mão como se fosse nada demais e me ajeitei para ver o que viria a seguir.

Uma segunda onda de retorno do microfone, mais curta dessa vez.

“Pergunta Número Dois”, disse Keith, tentando segurar a folha de perguntas, o microfone e
um copo de cerveja ou seja lá o que for que homens velhos nojentos bebem. “O que é
monofobia?”

“Isso é, tipo, medo de bater punheta?”, disse Cook, completamente sério. Todos gemeram.

“Eu sei essa”, disse Thomas. Ele olhou sentimentalmente para Pandora. “É o medo de ficar
sozinho.”

Panda deu um beijo em seu nariz enquanto outro gemido corria a mesa. Vi Emily descansar a
cabeça no ombro de Naomi. Freddie girou sua cerveja no copo, evitando qualquer contato
visual.

Cook estava se concentrando em destruir um porta-copo. “Que se foda isso”, ele disse,
distraído. Ele olhou para cima, me olhou nos olhos. “Nada a temer exceto o próprio medo, né
Katiekins?”, ele sorriu.

Levantei meu copo. Um brinde a isso.

Naomi

Olhei para Emily, olhos brilhando de felicidade. Tinha de contar a ela. Mas como?

“Eu te amo, Emily”, eu disse.

Ela sorriu para mim, “Eu também te amo. Sempre.”

Mordi meu lábio, fingindo me concentrar. “Tem uma coisa que fico esquecendo de te falar-”

Mas Em não estava ouvindo. Ela havia se virado para Freddie.
“Animem-se, gente”, ele disse. “Aí vem a próxima.”

Freds estava adorando escrever as respostas. Típico de garotos.

“Prontos, seus putos?”, gritou Keith. “A Pergunta Número Três é para as garotas.”

Ele limpou a garganta e cuspiu em seu copo vazio. Houve um “Eww” coletivo de todas as
garotas presentes. Keith não pareceu ter se incomodado.

“Que artista americano de rap convidou vocês para lamber seu pirulito?” Ele olhou de soslaio
pela sala. “Pontos extras para uma demonstração prática em mim.”

“Porra, preferiria tomar banho de ácido”, eu resmunguei.

“Sim!, Ugh, que horror”, adicionou Pandora.

Thomas balançou sua cabeça, chocado. “Minha mente ficou espantada agora.”

Olhei para Cook, que estava morrendo de rir e balançando a mão no ar em um estilo ridículo
de hip hop.

“O que é tão engraçado, caralho? O homem é repulsivo.” Torci meu nariz para ele. “Sem
ofensa.”

“Não ofendeu, princesa”, ele disse, lágrimas de alegria em seus olhos. “Mas está errada. Ele é
brilhante pra caralho. Eu o amo, cara.”

Ninguém mais pareceu compartilhar de sua opinião. O resto de nós estava tentando se
concentrar na pergunta.

“Qual é a resposta então?, perguntou JJ, parecendo impaciente.

Freddie arregalou os olhos comicamente. “Que porra, Jay”, ele disse. “Você sabe o nome de
uma alga marinha obscura, mas nunca ouviu falar do 50 Cent?”

“É claro que já ouvi falar dele”, disse JJ de forma arrogante. “Apenas não reconheci a letra.”

“Sabe, é aquele em que ele diz que seu pinto é como uma loja de doces ou algo assim”, disse
Pandora, e ela começou a encolher os ombros e cantar rap. Ela estava tonta pra caralho. Essa
garota não sabe lidar com drogas. Todos riram, até Thomas. Ela parecia louca, com os olhos
fechados e um sorriso alegre no rosto.
“Então...” Cook interrompeu, antes de pausar para arrotar extravagantemente, batendo em
seu peito com o punho. “Qual das garotas vai envolver os lábios adoráveis no membro
pulsante do Keith?”

“Oh Deus, vou passar mal”, Katie gemeu, fazendo barulhos de vômito.

Cook apontou um dedo meio mole para ela. “Bem, na verdade, Katiekins, tem que ser você,
porque Panda está com Thommo, e Emily e Naomi não gostam de pinto.”

“Fico muito aliviada por isso”, ela falou, se acomodando em meu peito.

Me ajeitei desconfortavelmente. “Cala a porra da boca, Cook”, eu disse. “Bom garoto.”

“Cala a boca você, sapatão”, disse Cook moderadamente.

Dei um olhar duro para ele, mas ele estava com JJ em uma chave de braço, passando a mão
em sua cabeça daquele jeito homoerótico dele. Enquanto Em estava na França, senti que tinha
feito me aproximado um pouco de Cook – o máximo que uma lésbica por se aproximar de um
selvagem maníaco sexual. Mas agora que Emily havia voltado, a provocação tinha revertido às
velhas besteiras homofóbicas.

E eu tinha amolecido de novo. Ela tem esse efeito em mim. Olhei para sua cabeça, apoiada em
mim, e tirei o cabelo de seu rosto.

Emily sentou direito. “Enfim,” ela disse, olhando para mim. “O que você ia me contar? Mais
cedo?”

“Ah. Sim, aquilo. É só-”

“Pergunta Número Quatro”, berrou Keith. Ele pausou e olhou para a folha de perguntas,
perturbado. “Quantos pares de cromossomos, o que quer que eles sejam, um ser humano
tem?”

Freddie largou a caneta. “Quem sabe.”

“Quarenta e seis”, disse Thomas rapidamente.

“São vinte e três, na verdade”, disse JJ, parecendo satisfeito consigo mesmo. “Ele disse pares
de cromossomos.”

Thomas deu de ombros. “Uma questão de semântica. Humanos têm quarenta e seis
cromossomos.”
“Não se preocupe, querido”, disse Pandora, afagando seu cabelo. “Acho que você é muito
inteligente.”

“Bem, nós dois estávamos certos, de certo modo”, disse JJ, magnanimamente.

Cook parecia entediado, enquanto Freddie escrevia “23” na folha de respostas.

“Sim, não teríamos chance de ganhar se não fosse por vocês dois”, Freddie disse satisfeito.

Cook encostou em sua cadeira, com as mãos atrás da cabeça, e deu um de seus sorrisos vazios.
“Não me importo em ganhar essa porra de quiz estúpido. Nem com um monte de
cromossomos. Não preciso saber dessas merdas.”

“Isso mesmo, Cookie”, eu disse aérea. “Que bom que há um diploma em “Jogar Sua Vida Pela
Janela.” Eu dei um tapa na minha testa. “Ah não. Desculpa. Não há.”

Emily riu. Os outros pareciam tensos.

“Hilário pra caralho”, disse Cook, seus olhos se estreitando. “E vocês duas vão para a aula de
Como Lamber uma Boceta, sim? Introdução à masturbação? Ou talvez um bacharelado em
Vadia Metida?”

Certo, cansei disso.

“Sim, Cookie”, eu surtei. “Vou a um dia aberto de Yale no sábado... porque eu quero mais da
vida do que fritar hambúrgueres ou qualquer que seja o trabalho destruidor de almas que você
acabará tendo.”

Houve um silêncio, com o qual eu percebi com o coração apertando o que eu havia acabado de
dizer em voz alta.

Cook levantou as sobrancelhas. “É mesmo, Naomi?” Ele acenou em direção à Emily, que estava
me encarando com os olhos arregalados, confusão e mágoa aparentes em seu rosto. “Talvez
você devesse ter contado isso primeiro para sua namorada.”

Merda.

Emily

“Legal, Naomi”, eu sibilei enquanto todos continuaram conversando. “Muito obrigada.” Eu me
abracei. “Poderia ter me dito antes de falar para todos no bar. Um pouco menos humilhante,
sabe?”
“Querida.” Ela pegou minha mão e a segurou entre as delas. “Não é grande coisa. Ainda quero
ficar com você, Em.”

Seu tom era leve, mas deu para perceber que ela se sentia culpada. Estava em seus olhos, que
não olhavam diretamente para os meus.

“Você teve várias oportunidades para mencionar”, eu disse, com meu queixo tremendo.
“Enquanto eu estava fazendo planos para o ano livre, por exemplo.”

Eu encostei na cadeira, chateada. Não chore, caralho, eu disse para mim mesma. Não na frente
de todo mundo. Olhei triste em volta da mesa. Thomas e JJ estavam em uma competição de
conhecimentos gerais, discutindo sobre Freud. Cook e Freddie estavam se provocando. Katie
estava mexendo no telefone. Apenas Pandora estava nos observando. Ela me olhou no olho e
deu um sorriso compreensivo. Ela entedia? Ela e Thomas pareciam bem e completamente
apaixonados para mim. Acho que nunca se pode saber o que acontece por dentro.

Naomi apertou minha mão. “Vamos, querida, não fique assim. Estou apenas pensando no meu
futuro, só isso.”

“E eu, não sou parte do seu futuro?”

Podia ouvir o choramingo em minha voz, e odiava isso. Mas não conseguia evitar. Estava
magoada. E com medo.

“Claro que é!”, disse Naomi. “É apenas um dia aberto.”

Comecei a cavar na mesa de madeira com a unha e a tirar farpas.

“Mas você teria de ir para a América”, eu disse triste. “Achei que íriamos nos inscrever para a
mesma universidade.”

Naomi suspirou, exasperada. “Vamos, Em, isso não é realista. Você deveria ir para a
universidade que quiser. Somos fortes o bastante, não somos?”

“Eu só quero que fiquemos juntas”, eu disse. “Isso é o mais importante para mim... Talvez não
seja para você.”

Naomi disse nada, apenas me olhou com aqueles olhos azuis gelados, e meu coração afundou.

“Seu silêncio fala alto pra caralho, Naomi”, eu disse com a voz falhando.
“Certo, Emily”, ela disse, passando a mão em seu cabelo. “Se realmente não quer que eu vá ao
maldito dia aberto, eu não vou.”

Era nessa parte que eu deveria dizer não, que ela deveria ir. Mas não consegui. O alívio era
demais. Puxei a mão dela para meus lábios e a beijei, então descansei a cabeça no ombro dela.

“E de qualquer forma você não gostaria de ir para a América”, eu disse. “Pena de morte e
essas coisas. Não é bom para uma garota com consciência.”

Naomi pegou sua bebida. “Sim. Você deve estar certa.”

“Não vai se arrepender, amor”, eu disse beijando-a rapidamente na bochecha. “Prometo.”

Cook

“PERGUNTA NÚMERO CINCO.”

Aqui vamos nós de novo. Estava cansado desse quiz estúpido. Não estava ajudando com minha
autoestima. Sei nada, sobre qualquer coisa.

Keith tropeçou no bar, bêbado como a porra de um gambá.

“Quem disse ‘Eu não recomendaria sexo, drogas ou insanidade para alguém, mas sempre
funcionou para mim’?” Ele olhou em volta da sala e deu um arroto vulcânico.

“Essa é fácil”, disse Naomi brincando com seu cabelo.

“Dê uma chance para nós”, eu disse, equilibrando sete doses de absinto em minhas mãos.
Hora do Cookie começar essa festa.

“O que é isso?”, Freddie perguntou, olhando com suspeita para as bebidas.

“Acalme-se, Lorde gay”, eu disse colocando as bebidas na mesa. “Não precisa se afobar. É
absinto.” Eu bebi o meu imediatamente. “A tequila não estava subindo.”

Panda pegou uma dose e segurou-a contra a luz, “Uau, olha isso”, ela disse, chapada pra
caralho. “É super lindo. Todo verde como um... como um lindo mar de esmeraldas.”

“Sabe o que é absinto, Panda?”, disse Thomas, olhando para a dose, boquiaberto. “É espírito
de anis.”

“Esperto”, disse Panda beijando-o na bochecha.
“Certo”, eu disse, “Chega dessa merda sentimental.” Eu baguncei o cabelo do Thomas. “É
melhor tomar cuidado, cara. Ela está te transformando em um maricas.”

Thomas não reagiu. Ainda havia alguma merda acontecendo, obviamente.

Olhei para Freddie. Ele estava cheirando seu copo como uma garota.

“Se divertindo?”, perguntei.

“Sim”, ele disse. “É claro.”

“É melhor falar isso para o seu rosto, cara.” Eu ri. “Até parece que alguém morreu com essa
cara.”

“Cala a boca, Cook”, Freddie disse quieto. “Não estou com humor para isso, tudo bem?” Ele
acenou para Naomi. “Então”, ele perguntou, caneta preparada para anotar. “Qual é a
resposta?”

“É-”

“Tenho certeza de que sei essa”, JJ interrompeu, preocupado em não perder a maldita coroa
de sabe-tudo.

“Bem, eu sei que sei”, disse Naomi de nariz empinado.

Ela estava me irritando completamente hoje à noite. É como se, desde que a porra da
namorada dela voltou, ela tivesse perdido o senso de humor. Eu e ela, nós estávamos nos
dando bem antes. Nunca contaria a alguém, mas pela primeira vez gostei bastante de sair com
uma garota e não transar com ela.

Ela dilatou as narinas para mim. “Hunter S. Thompson”, ela disse.

“Ah, é claro”, disse JJ.

“Certo, porque você adora livros de drogados psicodélicos, não é, Jay?”, eu disse. “Você se
arrisca tanto, não é?”

Todos ficaram em silêncio.

JJ deu de ombros. “Uma coisa não exclui a outra”, ele disse. “Ler sobre drogas, e não usar
drogas. Bem-”, ele pausou. “Não usar drogas de recreação.”
“Não entendi uma palavra do que acabou de dizer, cara”, eu funguei. “Preciso de um
dicionário para conversar com meus amigos atualmente.”

JJ olhou para suas mãos.

“Pare de ser imbecil, Cook”, disse Freddie. “Não desconte no JJ.”

“De que porra está falando?”

“É só um quiz de bar”, Fred continuou. “Também não sei as respostas.” Ele acenou para mim.
“Sério. Acalme-se. Vai ficar tudo bem, cara.”

Os outros nos olharam, imaginando que porra estava acontecendo.

“Vai, Fred?”, eu perguntei a ele tomando mais algumas doses. “Pode me prometer isso?”

Keith estava se preparando para a próxima pergunta. O retorno do microfone perfurou a
atmosfera.

“Ah, foda-se”, eu disse, sorrindo para todos. “Tem gosto para tudo.” Eu pisquei para Naomi.
“Não é, princesa?”

“Certo, Cook”, ela disse. “Agora levante e vá buscar bebidas de verdade.”

Freddie

Enquanto Cook se agitava até ficar nervoso por ser estúpido, fazendo o seu melhor para ser
aniquilado, olhei para Katie. Ela estava se abarrotando com batatas fritas e conversando com
Naomi. Algo tem de ter acontecido no último mês, porque nenhuma dessas coisas são normais
no Planeta Katie.

Quando Emily levantou para ir ao banheiro fui para o seu lugar.

“Apenas por um minuto”, eu disse quando Katie abriu a boca. “Certo?”

Ela terminou as batatas. “Não vai me dizer que você quer conversar comigo?”

“Por que não?”, eu disse. “Já fomos amigos, não?”

Ela sorriu. “Sim, fomos.”

“Então”, eu comecei casualmente. “O que tem feito recentemente?”
“Isso e aquilo”, disse Katie, lambendo o sal de seus dedos. “Fui à França, tive uma briga
enorme com Emily em Paris, então...”, ela pausou. “Então fui à Veneza.”

Meu coração parou. “Viu Effy?”

“Sim”, disse Katie, me observando cuidadosamente. “Foi um pouco estranho.”

“Mas vocês-”

“Sim, eu sei. Queria ajeitar as coisas, suponho.”

“Certo”, eu disse. “E ajeitaram?”

“Na verdade não”, ela disse. “Ficou tudo na mesma.” Ela pausou. “Mas de certa forma, fiquei
me sentindo melhor sobre as coisas, ficando com ela, observando-a.” Ela mordeu o lábio. “Ela
ainda está perturbado com o que aconteceu.”

Olhei para baixo. “Certo.” Porra, agora ia começar tudo de novo.

“Ela está vendo alguém?”, eu falei de uma vez.

Uma visão de Effy na Vespa de algum imbecil apareceu em minha cabeça. Por que eu
perguntei? Eu não queria saber, caralho.

Katie hesitou. “Não”, ela disse. “Não, não está. Estava.”

Eu balancei a cabeça, tentando não mostrar alívio. Não que importasse.

“PERGUNTA NÚMERO SEIS.” Keith agora estava sentado, com os olhos vermelhos e suando. “E
é sobre linguagem.” Ele limpou a garganta. “Aproximadamente, cinco anos para mais ou
menos, quando a palavra BOCETA foi ouvida pela primeira vez na TV britânica?”, ele disse. “É
B.O.C.E.T.A. BOCETA, como em vagina, xoxota, xana, perseguida, porta pinto. E, citando meu
comediante favorito, que Deus o tenha, se você é o que você come, então eu sou uma
boceta.”

Ele olhou em volta encantado, esperando por aplausos, não os recebeu.

“Ugh. Ele tem manchas brancas horríveis em sua calça”, disse Pandora, encarando o fundo de
seu copo, esperando, se ela tentasse com muita vontade, ele se encheria magicamente.

Cook estava muito ocupado brincando de puxar o cabelo de Naomi para notar.

“Sai fora, crianção”, ela disse rindo.
Me virei para Katie. “Ela vai voltar?”, eu disse. “Effy?”

Katie deu de ombros. “Não sei. Suponho que temos que esperar e ver.”

Trocamos um sorriso mutuamente apreensivo.

“Certo, então”, eu disse, focando na pergunta e agitando meu lápis. Qual é a resposta?”

Thomas puxou seu lábio de baixo. “Tem de ter sido bem recentemente, eu acho.”

“1970”, disse Cook do nada. Ele arrotou casualmente.

“Tem certeza disso?”, disse Naomi.

“Por aí... Tem que ter sido na época em que as pessoas falavam merda na TV ao vivo e
ninguém podia impedir”, disse Cook. “Não precisa ser um gênio, princesa.”

Naomi deu uma batidinha em sua orelha. “Estou impressionada”, ela disse. “Há esperança
para você no fim das contas, Cookie.”

Cook fez seu melhor para parecer o mais indiferente possível, mas não era óbvio que estava
orgulhoso de si mesmo. O resto de nós sorriu.

“Próxima, quando estiver pronto, Maestro”, Cook gritou para Keith, que estava prestes a ficar
inconsciente julgando pelo jeito que estava caído por cima do microfone. “Fácil pra caralho,
isso.”

JJ

“Cuidado, JJ”, disse Thomas. “Tenho um bom pressentimento sobre a próxima.” Ele esfregou
suas mãos. “Je suis le feu, como vocês dizem por aqui.”

Eu ri. “Acho que não, meu ami congolês.”

“Por falar nisso, onde está o Keith?”, perguntou Katie, olhando em volta.

“Que porra, o velho bastardo apagou”, disse Freddie apontando para um par surrado de
sapatos saindo do bar. “Cook, resolva isso, pode ser?”

Cook correu e desapareceu por trás do bar. Ele pulou apareceu um segundo depois com a
folha de perguntas e deixando Keith para potencialmente engasgar no próprio vômito.

“Tenho as respostas”, ele cantou, acenando-as no ar. “Quanto vale isso?”
“Não seja um imbecil, Cook”, disse Freddie. “Apenas leia a pergunta.”

“Como quiser”, disse Cook. Ele pegou o microfone.

“PERGUNTA NÚMERO DEZ”, ele gritou, imitando seu tio com uma precisão impressionante. Ele
levantou o papel e leu, “Qual é o planeta mais próximo do sol?” Ignorando todos os outros no
bar, ele olhou exclusivamente para nossa mesa.

Naomi deu de ombros. “Sei nada sobre astrologia.”

Thomas parecia aflito. “É Mercúrio ou Vênus.” Ele deu batidinhas na testa com os dedos.
“Droga. Não consigo lembrar”, ele disse finalmente, parecendo irritado.

Eu, entretanto, estava completamente confiante. A fase intensa de astrologia pela qual eu
passei quando tinha sete anos ia se provar útil para mim agora.

“Ahem.”

Os olhos de todos se viraram para mim. “Mercúrio, é claro”, eu disse, simplesmente.

“Viva, JJ!”, disse Pandora, batendo palmas. “Digo, sinto muito por você Thommo.” Ela deu
palmadinhas em seu joelho.

Os olhos de Thomas brilharam competitivamente. “Tome cuidado, JJ”, ele disse. “Prepotência
é um traço superficial entre homens.”

“Não estou sendo prepotente”, eu disse. “Eu simplesmente sabia a resposta.”

“Sim”, disse Katie. “Não é uma competição, sabe.”

Todos nós olhamos secamente para ela. Até Pandora.

“É totalmente uma competição”, ela disse. “Bobinha.”

Katie jogou o cabelo. “Quero dizer entre os dois”, ela apontou para Thomas e para mim. “Os
Irmãos Sabe-Tudo.”

“Elogios”, eu disse a ela, “abrem portas em todo lugar, Katie.” Eu suspirei. “Posso encarar uma
vida de abstenção dos estimulantes diários que todos vocês aproveitam”, eu disse. “Mas irei
para meu túmulo um homem orgulhoso se continuar indo bem no quiz quinzenal do bar do tio
Keith.” Eu pausei. “De verdade, irei.”

“Dê um abraço, Jay”, disse Cook, se arrastando em minha direção. “Sinto o amor chegando.”
Freddie sorriu enquanto Cook subia na mesa para me abraçar.

“Por favor, vá se foder, Cook”, eu disse, abraçando-o. “Agradeço seu sentimento, obviamente,
mas seu hálito fede, e eu preciso ir ao banheiro.”

Cook encostou minha cabeça na dele. “Nunca me deixe, cara”, ele sussurrou rouco em meu
ouvido. “Prometa ao Cookie que nunca irá embora.”

“Prometo”, eu disse descuidado. “Agora me solta.”

Effy

Sexta, 28 de agosto

Itália – algum lugar no céu

“Gostaria de uma taça de vinho”, minha mãe disse, observando a lista de vinhos. Ela apontou
para o que queria. “Esse, por favor.” Ela acenou para mim. “Effy?”

“Vodka dupla, por favor.” Eu encarei a comissária de bordo. “Gelada.”

Ela sorriu firme. “Vou ver o que posso fazer”, ela disse, pegando a lista da minha mãe.

Minha mãe se ajeitou em seu assento. “Graças a Deus conseguimos vir para Primeira Classe”,
ela disse, olhando para as nuvens na janela. “Depois dos últimos dias não conseguiria encarar a
Classe do Rebanho.”

De algum lugar na Classe Econômica veio o som de um bebê chorando. Sorrimos uma para a
outra.

Minha mãe pegou minha mãe. “Você vai amar Roma”, ela disse. “Tem mais vida que Veneza. É
mais agitada. Tem mais gente.” Ela fechou os olhos.

A comissária chegou com nossas bebidas. Tomei um gole da minha, fazendo contato visual
com um garoto bonito e descabelado a algumas poltronas de distância. Eu desviei o olhar
primeiro.

“Aquele lugar era meio estranho”, eu disse finalmente.

“O que, Veneza?”

“Sim. Intenso.”
“Sei o que quer dizer”, disse minha mãe, tomando um gole de vinho. “Mas, mesmo assim, foi
interessante...”

Tomei outro gole de vodka. Me sentia frágil. Fisicamente e emocionalmente.

“Eu aceitaria relaxar no fim das contas”, eu disse, encostando a cabeça na poltrona. “Acho que
só piorou as coisas para mim.”

Minha mãe me olhou. “Sinto muito”, ela disse. “Sinto muito mesmo.”

Eu dei de ombros. “Foi minha culpa. Mereci ser castigada.”

“Não seja boba”, ela disse quieta. “Não é assim que funciona.”

“Então como funciona?”, eu disse. “Não tenho a mínima ideia.”

“Ninguém tem, querida”, ela disse. “Tem que ir se adaptando conforme os acontecimentos,
esperando aprender algo no caminho.”

“Obrigada, Pastora Stonem”, eu disse. “Manterei isso em mente.”

Os olhos da minha mãe fecharam novamente, mas sua boca se contraiu.

“Você ficará bem, Effy”, ela disse sonolenta. “Prometo.”

Eu olhei para o branco ondulado através da janela. Naquele momento, não conseguia imaginar
ser possível ficar “bem” novamente. Não podia fugir para sempre, tinha que ir para casa, voltar
para eles. A ideia dos olhos do Freddie, desviando de mim em rejeição; era quase paralisante.

Quando você fica entre amigos assim, nunca imagina que eles escolham um ao outro e não
você. Eu tinha subestimado completamente a união entre Freddie e Cook. Talvez no fundo eles
nunca pudessem amar mais uma garota como eu mais do que amam um ao outro.

E talvez seja assim que deve ser.

Ficaríamos em Roma por uma ou duas semanas, então minha mãe e eu voltaríamos para casa.
Ela foi honesta e disse de cara que ela e Aldo manteriam contato. Ela provavelmente voltaria à
Itália para vê-lo. Ela disse que queria que eu soubesse. Ela não queria mais segredos.

“Segredos”, ela disse. “Eles destroem as vidas das pessoas.”

Créditos
Todos os direitos autorais pertecem à Ali Cronin e à E4 Company. Nenhuma arrecadação foi
feita ou será feita com a tradução desse livro, aliás, essa tradução só foi concebida porque
vocês, detentores dos direitos, não ligam para nós brasileiros. Mas deveriam ligar, sabiam? We
have...bufunfa!

Incentiva-se a compra do livro original (e também da coleção de DVDs da série) por meio do
site amazon.co.uk.




Tradução:

Páginas 1-206: @StrokesDaDepre

Páginas 207-264: #AboutSkins

Revisão, Divulgação e Piadinhas: #AboutSkins




Beijos calientes no coração e até a próxima jornada!

Skins the novel

  • 1.
    PRÓLOGO 7 a.m, ealém do triturar do limpador de ruas lá fora, eu ainda podia ouvi-los no quarto dela. Ela tentava abafar o barulho, porém não havia dúvida do que estavam fazendo. Como ela podia fazer isso comigo? Isso não é real. Não pode ser real. Eu me deito pela metade em cima dos lençóis, uma mão acariciando meu estômago. Todo o meu corpo ficou paralisado, congelado. Se eu pudesse sentir isso. Queria sentir. Eu parei de me acariciar, puxei o lençol sobre mim e rolei para meu lado da cama. Fiquei encarando para fora da minha janela a manhã nascendo – apenas começando a brilhar. Eu senti o suor escorrer por trás do meu pescoço – já estava muito quente – e minha cabeça latejava. Minha felicidade estava murcha e estremecida dentro de mim. Ela não me amava. Ela nunca teria feito isso comigo se me amasse. Então pararam. “Muito obrigado por isso, porra.” Olhando para o teto, eu franzi o cenho, meus lábios se partiram ao meio para que eu pudesse soltar um silencioso e incrédulo suspiro. Me senti como se fosse o fim do mundo. A pior coisa que já aconteceu comigo. Se eu pudesse imaginar por um segundo que eu poderia acreditar no amor, eu percebi agora que eu estaria me iludindo. Porque tudo termina do mesmo jeito, mesmo você o amando ou não. Todo mundo te trai no final. AGOSTO – SEMANA 1 Effy Dia 1, sábado, agosto. Veneza Então ela escolheu Veneza. Eu posso ver o porquê. É como um castelo gigante da Disney, mas muito surreal de certa forma. E é um bom longo caminho de Bristol para lá, do meu pai e de toda porcaria de lá. Então bom trabalho mãe. Qualquer coisa que bote algum distância entre mim e todo mundo. JJ, Cook e Freddie. A porra dos três mosqueteiros.
  • 2.
    Eu começara algoe não conseguia continuar com isso. E estar cercada por água – como um fosso gigante nos separando do inimigo. Eu e minha mãe tínhamos de fugir. Nós alugamos um apartamento pequeno longe do centro e dos turistas. Os donos tinham ido embora da cidade pelo verão todo. É um prédio de quatro lados com um grande pátio no meio. Fantástico. Tão pitoresco. Até as paredes rosas descascadas, elas me lembram de milkshake de morango. Tem uma varanda também. Azul enferrujado. Perfeita para se sentar, observar e fumar. Ver sem ser vista. Meu quarto, de qualquer jeito, é um espetáculo de aberrações. Barbies por todo o lugar. Uma cama de solteiro. Uma imagem de Jesus e Maria com os seus jeitos virginais. Naomi e Cook mijariam nas calças se pudessem me ver agora, eu pensei, enquanto jogava a minha mala na cama e olhei em minha volta. Não tinha computador. Eu achei uma Lan house depois de algumas horas, assim poderia manter contato. Se eu quisesse. Minha mãe estava deprimida assim que chegamos lá. Estava nublado, chovendo muito, úmido e fedia mas, Deus, tudo em que ela pensa ultimamente é nela. Ela e a porra de seus problemas. Que ela criou, por sinal. Talvez eu devesse ser mais simpática considerando toda a merda que eu tenho me metido nos últimos meses, mas minha mãe nem ligou ou pareceu se importar. E eu? “Qual é o seu problema?” Eu perguntei. “Nenhum. Eu não sei.” Ela disse cansada. “Não era realmente o que eu esperava... talvez foi um erro vir para cá?” “Talvez” Eu fechei os olhos, irritada. Faça um esforço, Effy, você sabe como é se sentir uma merda. Eu abri as persianas. A chuva tinha parado. Os raios de sol me fizeram piscar. E sorrir. “Viu?” eu me virei pra minha mãe. “Transformado.” Um patético e fraco sorriso. “É, isso ajuda.” Ela tirou os cigarros de sua bolsa e acendeu um. “Então, o que deveríamos fazer agora?” “Eu vou tomar banho” eu disse. “Depois eu vou explorar o lugar. Achar uma Lan house”.
  • 3.
    “Ah, espere” elame entregou um envelope marrom. “Isso é do seu pai”. Eu rasguei para abrir. Contei cinco notas de cem euros. “Para gastar” disse mamãe. “Isso deve ser o bastante, se precisar de mais fale comigo”. “Certo, obrigada” eu disse ingrata. Vai precisar mais do que merda de dinheiro. “Bem” ela suspirou. “Eu vou arrumar esse lugar e deixar mais como um lar”. Lar? Se isso a deixa feliz, acho. Assim que eu cheguei lá fora, acendi um cigarro, peguei meu telefone e o liguei, esperei que ele captasse sinal e deletei a mensagem da operadora. Dez minutos depois recebi uma mensagem da Pandora. Alguma coisa sobre o Thomas e a mãe dela. Pediu para que eu mandasse fotos para ela. Sim, Panda. A tarde estava na metade e silenciosa. Na esquina da rua, alguns velhinhos sentavam-se em frente a uma lanchonete jogando dominó. Um cachorro sarnento cheirava o chão ao redor de seus pés. Uma mulher parecendo exausta com um avental de corpo inteiro estava esfregando o chão do prédio perto do nosso. Ela parou por um minuto para descansar e me notou, em pé com o meu telefone. Ela me olhou de cabo a rabo com um tom desaprovador, talvez com inveja. Essa era a vida dela todo dia esfregar, esfregar, deixar limpo. Ela botou seu esfregão de volta ao seu balde e seguiu em frente. Eu acendi outro cigarro e fui em direção a um muro baixo, oposto ao nosso prédio. Eu sentei, fumando, fazendo meu lance de observar as pessoas. Encarando. Três garotos, da minha idade talvez, cruzaram a esquina. Um deles, o alto, com um chapéu, parecia o Freddie. Lindo. Meio cheio de si. Me chamou a atenção. “Signorina... ciao... ciao” ele assobiou. Os dois perto dele começaram a fazer macacadas, assobiando, gritando coisas que eu não entendia, chegando perto de mim. “Você sabe o que ‘cai fora’ significa?” eu perguntei ao mais alto quando se acalmaram. “Cai. Fora.” “Ooooh. Inglese.” Ele começou a vir. “Legal. Está de férias?” “Quoi?”, Soltei um anel de fumaça perfeito.
  • 4.
    Os dois racharam.Eu suspirei em minha mente e descruzei as pernas. Meus pés estavam queimando, estava muito quente. Minhas pernas estavam nuas. Eu olhei para elas e depois para os três garotos. Eles haviam parado de rir. Silenciou-se. Minha respiração começou a acelerar, mas eu não iria deixá-los cheirar o medo. Eu joguei meu cigarro no chão à minha frente e começamos a nos encarar. “Então, quando quiserem ir se foder, está tudo bem para” “Como é que é?” disse o mais alto “Nós só estávamos sendo amigáveis. Talvez seja você que deveria ‘se foder’ agora” Ele olhou para seus amigos. “Você esta vestida que nem uma puta” ele complementou. “A porra de uma puta.” Eu queria vomitar. Vomitar todinha neles. Eu queria meu pai, minha mãe, Freddie. Eu começara algo que eu não podia terminar. “Eh Che fate?!” uma voz gritou. Um sujeito mais velho vindo em minha direção, com aquele visual caro dele. Terno, camisa, sapatos italianos Poncy. Ele olhou bruscamente para os três idiotas e soltou a correnteza de italiano bravo. O mais alto saltou no ar e uivou que nem um lobo. Eu sorri com desdém. Cook. Que nem o Cook. Os outros dois fizeram o mesmo e foram embora correndo. “Ciao, bella” um deles me gritou obscenamente enquanto corriam “Vadia inglesa”. Então eles já estavam na esquina. Foram embora. O que me deixou sozinha com a porra do George Clooney. “Sta bene?” ele perguntou. “Você está bem?” ele chacoalhou a cabeça “Não ligue para esses rapazes”. “Eu não estava” eu disse sorrindo. “Mas tudo bem”. Eu me levantei, já sem vontade de explorar e entrei em nosso prédio. “Ah, você está morando aqui?” ele disse. “Eu também” ele estendeu sua mão “Meu nome é Alfredo, mas meus amigos me chamam de Aldo”. Eu dei minha mão. “Effy.” Nós fizemos aquela coisa de sorrir estranhamente.
  • 5.
    “Você não deveriafumar” ele disse, olhando para o maço de cigarros em minhas mãos. “Faz mal para pele”. “Obrigada pelo conselho” eu educadamente disse dando o meu sorriso mais charmoso. “Eu vou carregar isso em mente”. Ele abriu a porta de madeira gigante e a segurou para mim. Nós estávamos na entrada, a qual cheirava a umidade, como uma caverna. Eu olhei para todas as antigas entradas de quem já viveu por lá. Eu queria uma, eu pensei. Eu gostaria de entrar em uma e ficar lá escondida para sempre. “Então...” disse o Aldo. Ele começou a subir a escada de pedras e se virou para mim “Você está com seus pais?” “Minha mãe” eu disse “Ficaremos aqui por um mês”. “Ah, vocês alugaram o apartamento dos Tropeas? Bem nós deveriamos beber um Grappa juntos, talvez? Uma bebida de boas-vindas!”. “Grappa?” “Uma bebida italiana, Effy. Queima a alma.” Com o despeito de não querer, eu sorri. “Seu inglês é muito bom.” “Obrigado. Eu passei um ano estudando em Londres. Eu estava esperando há muito tempo alguém dizer isso. Eu não pratico muito hoje em dia”. Nós chegamos ao topo do segundo lance de escada e Aldo sentiu seu bolso de trás. “Droga” ele disse. “Eu deixei minhas chaves na casa da minha mãe”. Ele esfregou a testa. “Estou trancado para fora do meu apartamento”. “Tudo bem.” Eu mordi meus lábios e pensei a respeito “Você está com sua carteira?” “Sim, mas –“ “Eu preciso de um cartão de crédito. Só preciso disso”. Eu observei sua expressão, que estava confusa. “Para abrir a porta?” Ele me encarou, não entendendo por um segundo, depois sorriu um sorriso perfeito pra caralho. Ele não parecia tão mal. Eu não tinha percebido antes.
  • 6.
    “Garota esperta. Agora,como, e o mais importante, por que você aprendeu a fazer isso?” “Por que talvez eu achasse que fosse útil?” eu disse olhando mordazmente para a fechadura de sua porta. “Então isso acabou de ser provado” Aldo disse, me entregando sua carteira. Eu ignorei os vários cartões de crédito à disposição, incluindo o Amex platinum, e peguei o cartão mais frágil e laminado. Cartão de filiação ou alguma coisa assim. Eu me ajoelhei no chão e deslizei o cartão o mais longe que podia no espaço acima da fechadura, o inclinei até encostar na maçaneta, então o dobrei de volta ao outro caminho e o inclinei sobre a porta. Pronto. Eu me levantei e esfreguei meu joelhos. “Muito obrigado pela ajuda” ele disse. “Você gostaria de entrar para tomar um drink?” “Não” eu respondi. “Obrigada”. Por que eu disse isso? Porque minha resposta padrão é sempre “Não”. Eu o esperei insistir, mas ele não o fez. “Tudo bem, Effy” ele estendeu a mão para alcançar a minha. Era quente e seca, não pegajosa. Grande, forte. “Eu estou endividado com você”. Nós sorrimos um para o outro. Deixe-o aí, pensei. Não vá. Botei uma mecha de meu cabelo entre meus dedos e acariciei lentamente. Eu li uma vez em uma revista que homens odeiam quando as mulheres brincam com seu cabelo. Que se foda. “Bem, te vejo então” eu disse devagar. “Outra hora”. Sem esperar que ele falasse, eu subi para nosso apartamento, contando o tempo com cuidado. Quando eu cheguei no topo da escada eu olhei pra trás. Ele tinha ido embora. Naomi Domingo, 2 de Agosto. Boate Ritzy A música estava ensurdecedora. O braço do Cook surgiu e bateu no meu rosto. “Ei! Idiota desastrado” eu bati em suas costelas.
  • 7.
    Ele se moveumais para perto de mim. Pressionou seu maldito rosto sobre o meu. “Ah, princesa. O Monstro Cook está apenas sendo amigável...” ele acariciou minha bochecha. Eu tirei sua mão de mim, mas lutei comigo mesma para não sorrir, só um pouco. O lance do Cook é que ele é malditamente irresistível. Eu não gosto dele. Digo, estou em outro time agora, por assim dizer. Ele está descontrolado pra porra. O oposto de mim. Mas às vezes, é, eu não ligaria de ser capaz de fazer e dizer qualquer merda que eu quisesse. Eu morreria antes de dizer isso a ele, mas eu secretamente invejo o Cook. De um jeito doentio, obviamente. “Cook”. Olhei pra ele com o olhar de irmã mais velha desesperada. “Só se aquiete, pode ser?” Ele riu que nem um maníaco “Eu não me aquieto, Naomi. Você sabe disso”. Ele deu um beijo molhado no meu nariz. “Certeza de que eu não posso te tentar a voltar para o trem dos pintos?” Eu limpei sua baba. “Trem dos pintos?” “É, talvez não”. Cook tinha seus olhos grudados em alguma coisa atrás de mim. Eu virei. Emily estava parada lá. Tinha olhos grandes, parecendo duvidosa. “Sua parceira em colar velcro te chama”. Eu estendi a mão e segurei a mão da Ems puxando-a para perto de mim. “Nós vamos ignorar essa observação” eu disse a ele asperamente. “Vou deixar passar. E só –“ eu belisquei sua bochecha “- porque você é um marica por dentro”. Cook riu em silêncio, suando por causa dos efeitos da ecstasy. “Justo o bastante, Naomikins”. Ele tomou um gole de Lager e balançou a lata para nós. “Vejo vocês depois, sapas”. Emily mexeu seu nariz. “O que ele queria?”, ela perguntou, tentando não soar incomodada que o Cook flerta comigo. Bem, flerta em seu jeito maluco. “Nada, querida”. Eu botei meus braços em volta dela e deslizei uma mão por debaixo de sua blusa, acariciando sua coluna. “Vamos lá, vamos ir embora e fazer alguma coisa depravada em algum lugar”. “Aqui?”. Emily disse sorrindo um sorriso doce e vulgar ao mesmo tempo. “Aqui”. Eu segurei as mãos dela e a puxei atrás de mim em direção ao banheiro. Ela me seguiu entre um grupo gigante de silhuetas coladas em direção ao banheiro feminino. Quando
  • 8.
    chegamos à porta,eu a beijei delicadamente, então firmemente achei sua língua. Emily gemeu e puxou seus quadris para perto de mim. “Eu estou tão feliz agora” ela disse, afastando-se temporariamente. “Se eu morresse hoje a noite estaria tudo bem”. “Para mim também”. Eu beijei Emily na testa. Eu vi Cook levantando sua lata pra mim sobre a pista de dança. Um sorriso safado estava em seu rosto. “Encantador” , ele disse fazendo mímica labial e piscou para mim. Eu segurei a mão da Emily e a puxei rapidamente pela porta. Segunda, dia 3 de agosto. Quarto da Naomi “Que horas são?”. Eu rolei e pausei o iPod que estava em seu dispositivo. Parecia estar no meio da noite para mim. Emily e eu não havíamos voltado pra casa antes das 2 da manhã. Nós ficamos acordadas sem querer que a noite acabasse. Nossa última noite. Nós dormimos na frente da sessão de compras, um pouco chapadas, um pouco bêbadas. Felizes. Mas essa manhã eu me senti irritadiça, para dizer o mínimo. “Oito e meia, mais ou menos?”, Em disse. Ela estava pintando as unhas do pé. Na minha cama. “Emily! Você não pode fazer isso no banheiro ou coisa assim? Você vai deixar manchas roxas sobre a minha colcha.” “Tá bom, tá bom, Jesus”. Ela se levantou mancando em direção à porta. Ela virou em minha direção quando chegou lá. “O que há de errado com você essa manhã?” “Nada”, eu disse automaticamente. Eu estava carrancuda, como é de costume. Eu não me orgulho disso, mas velhos hábitos não morrem cedo. “Só é... cedo”. Me apoiei em um braço. “Eu não sou legal nas manhãs”. Ela não estva caindo nessa. “Certo... Mas... Eu estou indo pra França de tarde e do nada você começa a agir como... Como tudo o que eu faço está lhe dando nos nervos”, ela disse. “Você está querendo que eu vá, né?”.
  • 9.
    Eu revirei osolhos. “Eu mal posso esperar para me livrar de você para eu começar a viver os melhores tempos da minha vida nas próximas semanas. Eu estou contando a porra dos segundos para você entrar naquele navio”. Merda, os olhos dela começaram a ter aquele jeito de choro. Ela é uma flor sensível. Estranho porque Emily Fitch era mais durona do que eu poderia ser. Eu lato, mas não mordo. Obviamente eu sou o cara do relacionamento. Sim Naomi, relacionamento. “Não... Em”, eu estendi meu braço e acariciei suas costas. “Desculpa. Olha, você sabe que eu vou sentir sua falta. Muito”. Emily sorriu e assim mau humor desapareceu. Ela é como um anjo. Um anjo ruivo e adorável. Eu queria segurá-la e nunca deixá-la ir. “Vem cá”, eu disse. Eu a encontrei no meio do caminho e a agarrei pela sua blusa, levantando-a e atirandao-a em algum canto. Eu encarei seus peitos perfeitos. Suave, linda Emily. “Eu te amo, Emily”, eu disse acariciando seu estômago. Eu me ajoelhei e a beijei. Senti seu cheiro. Emily acariciou meu cabelo e ficamos assim por alguns minutos. Eu não queria me separar dela. Nunca. “Naomi”, Em disse eventualmente. “O quê?”, eu me levantei e botei meu braço em volta dela. Ela descansou sua cabeça sobre meu ombro e disse “Você não vai fazer alguma coisa boba, vai?” “Como o quê?” “Como... eu não sei. O que os olhos não vêem, o coração não sente”. Eu a segurei mais apertado. “Como se eu fosse”. “Nem com o Cook... Eu sei que você –“ “Escuta, Emily”, eu me distanciei para poder olhar ela propriamente. “O que aconteceu comigo e Cook foi um momento totalmente insano na minha outra vida sana. Eu estava tentando fingir que eu era... Que eu não gostava de você.”
  • 10.
    Os olhos deEmily ainda estavam meio que brilhando. “Que eu te amava. Amo. Tudo bem?” Ela relaxou. Covinhas voltaram a ser a perfeição de uma pele como pêssego. “Bom. Porque eu tenho certeza em relação a isso. Em relação a nós. Para mim não é um casinho da porra e acabou.” “Nem para mim”. Eu disse sem saber direito o que isso era realmente. Eu sei que a amo. Eu não consigo não me imaginar segurando, beijando e fodendo ela. Mas cabe ao júri decidir se eu sou lésbica ou hétero. “Que seja, você poderia comentar”, eu disse tirando o cabelo do rosto dela, “sobre o grande caso amoroso entre você e o JJ?” “Naomi!” Emily me empurrou em direção à cama. “Eu já te expliquei o que aconteceu comigo e o JJ. Você sabe muito bem que transei por pena. EU SOU LÉSBICA.” “Sshh”, eu disse rindo. Eu a puxei comigo pra cama. “Você pode dizer isso um pouco mais alto? Acho que não ouviram no interior da Austrália”. O som de alguém andando na sala em direção ao banheiro nos fez parar. Kieran ou minha mãe. Emily rolou de costas. E deitamos em silêncio. Dedinhos entrelaçados. Emily Segunda, 3 de Agosto. Quarto da Naomi, mais tarde. “Naomi”, eu sussurrei. Toquei seu pescoço com a ponta dos meus dedos. Acariciei lentamente sua pele desde atrás de sua orelha até seu suave e pálido ombro. “Naomi... acorda”. Naomi fez um barulho parecendo um grunhido e mexeu seu nariz. Eu sorri. Eu tenho sorrido muito ultimamente. Eu fiquei de costas e olhei para o teto e depois para seu quarto. O quarto da Naomi é maneiro. Muito mais legal que o meu. Ou melhor dizendo: do que eu divido com a Katie. Com a porra de jogadores de futebol e boybands nas paredes. Os My Little Ponies dela continuam no peitoral da janela, e com todas suas jóias e correias com estampa de leopardo perto deles. Eu só deixei a Katie tomar o quarto porque, bem... É o que ela faz. E eu também
  • 11.
    nunca liguei. Masfinalmente eu criei colhões comecei a enfrentá-la. E não parece ter um jeito de voltar atrás. Eu continuei a observar o quarto e a sorri. Não conseguia acreditar na minha sorte. Não conseguia acreditar que a menina que eu amava me amava também. Por um tempo eu pensei que isso nunca ia acontecer. Eu gostava da Naomi desde o ensino fundamental. Ela é apaixonante e inteligente. Contagiante. E seus olhos... Parece a rainha do gelo. Alguns pensam que ela é fria. Só porque ela não fica de conversinhas superficiais e estúpidas. Ela não é que nem a Katie que abre a boca e só sai merda. A Naomi é sincera. Se as pessoas acham que isso significa “fria”, elas estão erradas. Elas estão muito erradas. Eu bocejei alto. Depois senti a mão da Naomi no meu braço. “Merda. Que horas são?”, ela disse sonolenta. “Você tem de ir?” Eu rolei para poder encará-la. Ela estava esfregando os olhos. Então ela parou e ficamos nos encarando. Sorrisinhos surgiram em nossos rostos. “Oi, linda”, eu disse. “Já é tarde e eu estou com fome. O que você quer de café da manhã?” “Você”, disse Naomi me puxando em sua direção e me beijando primeiro gentilmente e depois mais forte. Eu estava formigando de prazer. Eu peguei sua mão e a guiei até onde eu a queria. Ela hesitou e depois seus dedos começaram a fazer seu trabalho. Ah meu Deus, essa é a porra do paraíso, eu pensei. Eu estou no paraíso. Duas horas depois nós estávamos na cafeteria, tomando café da manhã. Naomi, granola, comida de coelho. Eu, um sanduíche gigante de salsicha e ketchup. Naomi estava olhando minha comida com um sorriso em seu rosto. “O quê?” Ela engoliu um pouco da granola e do iogurte. “Você”, ela disse. “Gostando da sua salsicha, né?” Eu mastiguei e bufei, quase respingando comida mastigada nela. “Ah, sim” , eu disse para me defender “Eu amo salsicha. Você deveria experimentar, Naomi... Não tem idéia do que está perdendo.”
  • 12.
    “Ah, eu achoque tenho” ela estendeu sua língua e a balançou para mim. Um sujeito mais velho tomando um café da manhã tradicional olhou para nós com um olhar severo. Ele pegou seu jornal e segurou severamente na frente de seu rosto. “Vá se foder”, eu disse para o seu jornal, sem emitir nenhuma voz. Naomi revirou seus olhos e empurrou sua comida de coelho. Ela ficou mal humorada do nada. “O que foi, docinho?” eu disse limpando minha boca com um guardanapo. Naomi fez um beicinho. “Você vai entrar naquele navio”, ela disse naturalmente. “É isso”. “Você vai sentir minha falta, não vai, querida?”, eu disse parecendo um disco arranhado. “É melhor você sentir mesmo”. “Hm... Primeiramente” ela disse séria “Depois eu vou provavelmente perder o interesse”. “Naomi!” , eu disse com um grito agudo. “Vadia”. “Quantas vezes eu vou ter de te dizer?” ela sorriu. Ela parecia tão gostosa. Eu queria mordê-la. Meu estômago estava dando voltas e voltas. “Não deveria ser agora”, eu disse “E minha mãe vai ser um pé no saco.” Naomi concordou com a cabeça. “Ah é”, ela disse “A sua mãe tão liberal”. “É, bem. Nem todo mundo pode ter uma mãe que nem a sua”. “Você deveria estar agradecida por isso”, disse Naomi com um suspiro. “Eu sei que sua mãe precisa de tempo para compreender isso. Nós, eu digo. Eu também precisei de tempo pra porra para compreender. Eu acho que não posso culpá-la. Não completamente” “Ela é um pesadelo ultimamente”, eu disse. “Nós só vamos ter de transar na frente dela, é o único jeito dela entender”. “Isso sim que seria um pesadelo”, Naomi se deliciou. “Eu preferiria fazer um ménage com o Cook e a Katie”. “Ugh. Naomi! Ela é minha irmã, sua vadia safada”. Eu pensei sobre o que disse. “Porra! Você não gosta dela também, ou gosta?” Naomi ficou séria.
  • 13.
    “Sim, claro, eladisse. “Quer dizer, vocês são idênticas, não são?”. Naomi Segunda, 3 de agosto. Em casa, à noite. Após dar tchau para Emily à tarde, eu fiquei um pouco à deriva em uma nuvem de felicidade e amor, mas à noite eu voltei a Rabugentrópolis. Eu tinha três semanas para ficar de molho e obcecada com o que a Emily estava fazendo e com quem. Eu pensei em sua mãe que estaria totalmente num ataque anti-gay. E na Katie, aquela vadiazinha. Provavelmente ela estaria treinando suas falas malvadas. Emily pareceu pensar que Katie não seria mais uma vadia conosco, mas eu não estou tão certa. Eu estava tirando a sua gêmea. É assim que ela vê. Ela não consegue me agüentar. E esse sentimento é mútuo. Minha mãe e Kieran estavam comendo na cozinha quando eu desci as escadas depois de duas horas depressivas na minha cama escutando thrash metal alto em meu iPod. Se anime, Naomi, talvez isso nunca aconteça. Minha mãe olhou pra cima quando entrei. Ela me deu um de seus olhares meios que simpáticos e exasperados para mim. “Oi, amor” ela disse. “Está bem?”. Eu dei um grunhido e puxei uma cadeira. Kieran me olhou cautelosamente. Ele nunca estava certo quando eu iria derrubá-lo com o infortuno incidente na sala de aula quando ele tentou me dar uns amassos. Naquela hora eu fiquei ofendida porque aquilo era ilegal pra começar, caralho. Mas o Kieran é legal. Eu nunca pensei que ia dizer isso, mas ele a deixa feliz. E, indiretamente, isso significa que todos aqueles perdedores infelizes que ocupavam minha casa como se fosse uma maldita comunidade iriam finalmente sair daqui. “Sente-se. Coma alguma coisa” disse minha mãe. “Ocorreu tudo bem com a Emily?”
  • 14.
    Uma visão demim e de Emily mais cedo surgiu na minha cabeça. Eu não pude evitar um sorriso surgir no meu rosto. “Sim, ocorreu tudo bem”. Eu inspecionei as caçarolas em minha frente, mas decidi contrariar. “Agora eu preciso de um emprego de férias, eu não posso ficar sentada aqui o dia todo”. Mamãe trocou olhares preocupados com Kieran. Eles também não me queriam circulando pela casa. Sem julgar pelo tempo que eles passavam no quarto da minha mãe, de qualquer jeito. Tipo uma estraga-prazeres, com Naomi-Sem-Amigos olhando para o nada tristemente. Vê, é precisamente isso que eu odeio em relacionamentos. Conexão. Você não pertence a você mesmo. Você está se dividindo com outra pessoa. Então quando não estão com você, uma parte de você some junto. Mas eu consegui o que eu queria, não consegui? “Bem,” minha mãe disse vivamente “Um emprego talvez desvie sua mente de Emily. Melhor do que fazer faxina?”. “Talvez eu não queira desviar minha mente de Emily”,eu rosnei. “Você só me quer fora do seu caminho”. “Naomi, isso não é verdade”, disse Kieran em pânico com o desenrolar da conversa. “Não é?”. “Ah, cresce”, disse minha mãe empilhando tigelas e pratos. “Poxa, Naomi, você não é assim. Normalmente é tão madura”. “Eu estou cansada disso”, eu disse. “Morando numa casa de abrigados por todos esses anos. Superando os seus atos de caridade. Sendo ‘madura’. O que você acha de eu agir como eu quero para variar? Se você não gostar, imagino” Silêncio. Kieran olhou desesperadamente para o teto. Pobre súdito. “Eu acho que está na hora de todos irmos para a cama”, disse minha mãe. “Falaremos nisso de manhã”. Eram nove da manhã. “Certo, tudo bem. Você vai pra cama”. “Você parece estar apta depois disso”. Minha mãe me ignorou, enquanto Kieran foi trocando as pernas até o quarto.
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    Eu a vientupindo a louça de lavar enquanto pensava se eu não tinha ido um pouco longe demais. Não que eu fosse me desculpar. Finalmente minha mãe desligou as luzes da cozinha fingindo que não sabia que eu estava a acompanhado com os olhos. Enquanto ela atravessou minha cadeira, curvou-se na altura do meu queixo. “Não fique tão nervosa, Naomi”, ela sussurrou. “É só amor”. Pandora Terça, 4 de agosto. Em casa. Desde o meu dia favorito no mundo todo, o dia do baile, eu e Thomas estamos como dois pintos no lixo. Eu fiquei tão feliz que ele ainda me amava. Eu achei que eu realmente tivesse estragado tudo. E eu sei que eu contei a Emily e a Katie que eu nunca queria transar com mais ninguém depois do Cookie porque isso só deixa tudo muito estranho, mas eu não quis dizer isso. Eu queria ter o serviço completo com o Tom como você nunca imaginaria. Claro que manter minha mãe desatualizada sobre eu virando uma mulher seria difícil. Minha mãe parece saber de tudo o que acontece comigo. Eu sempre ando até o final da nossa rua para ligar para o Thomas. Ela não gosta que eu fique perto de garotos. Que caralhos voadores ela iria dizer se soubesse o que anda se passando pela minha cabeça atualmente? Se Effy não tivesse viajado com sua mãe nessa férias, eu poderia conversar com ela sobre meus sentimentos e tal. Ela sabe tudo sobre garotos. Ela deve saber, ela tem metade deles babando por ela. Garotos nunca será um problema para a Effy. Ao menos antes dela foder com o Freddie. Effy ficou um pouco estranha com isso, e eu fiquei um pouco estranha com a Eff. Ela acertou Katie com uma pedra. Isso não é bom. Eu estava contrariada com ela depois disso. Eu vou sempre amar a Effy, acho, mas eu tenho de me virar sozinha. Eu liguei para meu adorável garoto no ponto de ônibus. “Oi, Thommo, é a Panda. Quer vir ao Brandon Hill para ficarmos nos beijando?” “Eu não posso, Panda. Eu tenho de ir trabalhar. Não são férias pra mim, sabe?” “Que isso, Thomas... Vamos lá. Nós podemos visitar tia Lizzie e tomar chá. Vai ser bombástico.”
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    “Pandora, não. Eutenho de pagar o aluguel.” Eu suspirei. Coitado do Thomas, ele não vai para o colégio porque tem de pagar todas essas coisas pra ele, sua mãe, sua irmã e seu irmão. Ele tem de trabalhar, tipo, toda hora. Não é justo porque não tenho tempo para me jogar em cima dele. Thomas disse que não preciso fazer isso ainda, ele disse quer que seja perfeito, romântico e tal. Eu só quero que nós façamos. Propriamente. Thomas será meu namorado para sempre. Não como Cookie que não queria me conhecer melhor quando não estava botando sua coisa em mim. Eu não quero mais pensar no que eu e Cookie fizemos. Faz com que eu me sinta envergonhada. “Ok, Thomas, você venceu. Te encontro no ponto de ônibus da rua Granger depois do trabalho então? “Oui, Panda. Vou esperar por isso ansiosamente” disse Thomas, eu podia ver seu sorriso pelo telefone. “Je t’aime.” “Je t’aime, aussi.” Voltando pra casa eu fiz um plano. Primeiro de tudo eu e mamãe precisávamos cair na real. Eu sei que eu não poderia ficar guardando segredo para sempre. Sobre pensamentos sensuais. Eu ainda quero fazer bolinhos vestida em meus pijamas e eu não acho que roupas que nem as da Katie caem bem em mim. Nunca serei uma tarada ambulante. Mas eu quero sexo. E eu quero com o Thomas. Eu quero mais do que tudo. Eu tinha que contar à minha mãe sobre o Thommo. Uma vez que ela o conhecer, eu acho que ela vai amá-lo também. Só que... Ela não gostaria que eu tivesse um amigo homem. Sem mencionar um namorado. Mamãe estava meditando quando eu entrei em nossa sala. Eu sentei no sofá e fiquei encarando ela. “Mãe”, eu disse. “Mãe, eu preciso te contar uma coisa.” “Hmm”, mamãe me deu um olhar severo. “Panda Poo, estou meditando.” “Eu sei, mas... mãe, eu realmente preciso te contar uma coisa.” Mamãe suspirou. “O que é, Pandora?” Eu esperei um pouco. Eu tinha que dizer agora ou eu iria amarelar e não dizer nunca. “Você sabe... Você sabe que eu nunca tive um namorado?” O rosto celestial da minha mãe se tornou num rosto de cão chupando manga. Seus olhos tomaram uma forma malvada e estreita.
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    “Claro que vocênão tem, Pandora. Garotos ficam para depois. Muito depois. Quando você crescer.” Eu lhe dei um olhar severo. “Vê? É isso, mãe, eu sou tipo crescida agora.” Minha mãe riu e isso me incomodou. “Isso não é engraçado, mãe. Você não me leva a sério. Eu não sou mais pequena. Olha-“ eu levantei minha blusa e mostrei a ela meu sutiã 44. “Meus peitos são super enormes.” A boca da minha mãe se abriu na forma de um circulo perfeito. “Pandora! Abaixe a blusa! Nunca mais faça isso. Nunca.” Ela se levantou e começou a enrolar seu tapete de yoga rapidamente. “Agora, eu sugiro que nós tomemos uma xícara de chá e esquecermos que isso aconteceu.” Ela segurou minha mão e me levou a cozinha. Ela botou a chaleira pra ferver enquanto eu sentei na mesa. Tudo deu errado. Eu deveria ter pensado nisso melhor. Eu sou tão inútil em me virar sozinha. “Agora, Pandora” disse minha mãe. “Chá? Ou o que você acha de leite com chocolate?” Thomas Terça, 4 de Agosto. A caminho para encontrar a Panda. Depois do trabalho eu fui à loja do Sr. Sharma para comprar uma rosquinha para a Panda. Ele estava inclinado no balcão lendo jornal e cutucando seu nariz. O barulho da porta o fez pular. Eu fingi estar procurando alguma coisa no meu bolso e quando olhei para cima ele estava arrumando os cigarros. “Tudo bem, Thomas?”, ele disse. “Muito bem, obrigado Sr. Sharma. E com você?” “Aproveitando o clima, de qualquer jeito. O de sempre?” Eu afirmei com a cabeça. Sr. Sharma é um pessimista de verdade. Para ele as coisas boas eram meramente uma consolação pequena para uma vida horrível. “Aonde a Pandora está hoje?”, ele disse botando uma rosquinha de doce de manteiga e creme numa sacola de papel.
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    “Eu estou acaminho para encontrá-la.” “Eu aposto que está. Você é um sortudo da porra, não é?” “Sim, eu sou”, eu não pude conter um sorriso. “Bem, não faça nada que eu não faria.” Eu ignorei isso. Mr. Sharma no quesito paixão não é uma imagem que eu queria em mente. Até ele presumiu que eu e Pandora tínhamos uma relação sexual. Todos meus amigos presumem que eu e Panda temos uma relação sexual. Acho que as únicas pessoas que não presumem que estávamos comme les lapins como dizemos aqui, eram minha mãe e a mãe de Pandora e não acho que elas estavam convictas. Não é que eu não queira transar com a Pandora. Eu só quero que seja parfait. Eu não estou interessado em fazer em qualquer canto como animais. Esse é o gosto do Cook, não o meu. Eu caminhei para encontrar Pandora com uma convicção renovada. Essa menina que eu amo merece algo melhor do que uma transa rápida embaixo de um banco. Mas quando me aproximei do nosso local de encontro no ponto de ônibus eu podia ver Panda andando pra cima e pra baixo que nem uma pessoa louca e apertei o passo. “Olá, Panda”, eu abri um sorriso largo para minha garota, mas eu não conseguia fazer com que ela sorrisse, ela estava realmente triste. “O que aconteceu?” “Não é bom, Thomas”, disse Pandora secando lágrimas de suas bochechas. “Não é bom, porra.” “O que acontecera?”, eu sentei no banco protegido e acenei para Pandora sentar-se perto de mim. “Você brigou com sua mãe?” “Não, para falar a verdade”. Panda fungou. “Bem, mais ou menos. Eu quero dizer...”, ela fechou seus olhos. “Ela não me escuta, eu tentei contar a ela sobre você. Sobre como sou crescida agora. Crescida o bastante para ter um namorado e fazer coisas com ele, entende?”. “Pandora! Você falou com sua mãe sobre sexo?”. “Eu quis”, Pandora segurou minha mão. “Mas eu nem consegui chegar tão longe assim.” “Obrigado, Deus por isso”, eu suspirei alto. “Não é muito respeitoso da sua parte falar com a sua mãe sobre essas coisas. Ela não quer saber disso”.
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    “Bem, ela deveria!”,Pandora gritou. Ela soltou a minha mão. “Já está na hora, Thomas. Eu estou pronta.” Eu olhei pra baixo e a rosquinha em sua sacola. “A questão é. Pandora, que eu não sei se estou pronto para isso ainda. Não com você. Você é especial. Eu não quero estragar isso”. “Você não me ama, então?”. Pandora pareceu petrificada. “Você não pode me amar”. “Não, é precisamente porque eu te amo que não quero pressionar para fazer isso”, eu respondi. “Nós temos tempo, Panda. A hora será em breve”. Effy Quarta, 5 de Agosto. Numa cafeteria em Veneza. Porra, está quente aqui. Eu finalmente tirei minhas botas e botei meus chinelos ontem. Umas Havaianas verdes que minha mãe me comprou por uma estúpida quantidade de dinheiro. Primeiro eu me sentia nua com elas. Minhas botas e eu passamos por um monte de merda juntas. Tipo, elas são minha armadura. Eu me levantei muito cedo essa manhã. Eu não consigo encarar sentar numa mesa com sua estranha superfície de plástico, comendo aquele pão duro italiano com geléia, junto com minha mãe fingindo estar alegre tentando pensar em coisas para fazermos juntas. Ela deve ter lido aquela porra de Guia de passar o tempo em Veneza de ponta a ponta e agora ela quer que nós vamos para um tour cultural, ter certeza de que nenhuma parte de Veneza não foi revirada. Ela está tentando, eu sei que está, mas tudo o que ela faz está me dando nos nervos. Desde nosso primeiro dia eu estava esperando dar de cara com Aldo de novo. Eu até passei em seu andar super devagar e parei na escada, tentando escutar sua porta abrir. Eu não tenho colhões para bater na porta. Mas essa manhã nós nos encontramos nas caixas de correio. Ele estava mexendo em sua correspondência. Meus chinelos estavam fazendo mais barulho do que minhas botas, enquanto eu andava em sua direção. Não passo por envergonhada, então fui para perto dele. Aldo olhou pra mim e sorriu. “Bom dia”, ele disse. “Como você e sua mãe estão?”
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    “Bem, obrigada”. Euolhei para a correspondência em suas mãos. “Você tem um monte de cartas aí.” Aldo suspirou. “Sim, sim. Sempre contas apra pagar, dinheiro para os advogados de minha esposa. Dinheiro para meus filhos... E para esse apartamento. Nunca acaba”. Minha esposa. Quem teria traído com outra pessoa?, eu pensei. Ele ou ela? “Você tem filhos?”, eu perguntei inocentemente, para ganhar tempo. “Você não mora com eles?” “Eu estou me divorciando da mãe deles”, ele disse. “É necessário me afastar deles também, embora eu não queira. É difícil.”, ele balançou um envelope marrom na minha frente. “E é muito caro!” “Desculpa”, eu disse. “Deve ser meio que uma merda”. Aldo deu de ombros e botou as cartas no bolso de sua jaqueta e me deu um olhar longo. “E aonde está seu pai?”, ele disse sendo direto. “Eu não faço idéia”, minha vez de dar de ombros. “Eles estão separados.” “Desculpe-me. Coitada de você”, ele disse. “É mais difícil para as crianças”. Nós fizemos silêncio. Sujeito legal, eu pensei. Generoso, mas nem tanto intrometido. “Então, Effy”, ele disse depois de um momento. “O que você vai fazer hoje?”. “Sei lá. Talvez explorar mais um pouco”, eu disse. “E me perder, provavelmente”. “É uma cidade labirinto, há definitivamente o risco de se perder se não conhecê-la”, ele fez uma pausa. “Mas algumas vezes pode ser... libertador estar perdido”, ele me olhou nos olhos enquanto falava. “Não acha?”. Venha comigo. “Talvez você possa vir... me mostrá-la?”. Ele olhou seu relógio e então, bem naquela hora, eu vi seus olhos trêmulos sobre meu corpo. Ele parou.
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    “Por que não?”,ele disse. “Vai me fazer bem também”, ele me gesticulou primeiro a porta. “Vamos lá.” “Aonde vamos?”, eu perguntei. “Santa Maria Del Miracoli” ele disse enrolando as palavras em sua língua. Eu imaginei sua língua em outros lugares. Meus peitos, para começar. “E isso é?” “Uma igreja.” “Ótimo.” “Você irá amá-la.”, ele disse. “Eu sou atéia”, eu disse. Ele balançou a cabeça, me dando um pequeno olhar decepcionado. “Vamos lá, você com certeza é mais inteligente que isso.” Jesus, até parece que eu me tornei Katie Fitch, a rainha da grosseria e superficialidade. “Foi uma piada”,. eu disse debilmente. “Mais ou menos”. Aldo me sorriu encorajadoramente. “Ah, o senso de humor inglês! Eu preciso tempo para me adaptar, acho”. Nós entramos num labirinto de ruas de pedras e becos onde, em cima, as roupas se secavam nos parapeitos das varandas. Nós enxotamos os gatos famintos para pararmos num pequeno e mal tratado quadrado. Um sino soava alto. “Aqui”, disse Aldo, apontando para um estranho prédio com uma fachada plana. “O lugar mais bonito em Veneza”. Não parecia nada para mim. Não como a igreja que meu pai me arrastava com meu irmão Tony todo domingo quando éramos crianças. Nos tempos em que meu pai se taxava de ‘espiritual’. Idiotice total, obviamente. Aquela igreja era grande, gótica, majestosa. Essa parecia com nada, vista externamente.
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    Aldo sentiu queeu não estava impressionada. “Só espere”, ele sussurrou como se fosse compartilhar um segredo fantástico. Eu senti uma faísca quando ele pegou minha mão e me levou silenciosamente até as portas de madeira e por lajes de mármore, e então eu o pude entender. As paredes estavam literalmente cobertas com mármores marrons e marfim, nos levando a uma altura louca, um teto de madeira entalhada. Era fantástica. Eu poderia estar mais imersa se eu não tivesse consciente da mão de Aldo nas minhas costas, bem no meio de minhas omoplatas. “Bem”, ele disse. “O que você acha?”. “Eu acho que é fantástico pra porra”, eu sussurrei. Aldo inclinou-se e sussurrou no meu ouvido: “Sua linguagem é um de certa forma inapropriada, Effy, mas o seu coração está no lugar certo”. “Obrigada”, eu disse, estranhamente emocionada. Mas ele estava errado. O meu coração com certeza não estava no lugar certo. Cook Quinta, 6 de agosto. Em um ponto de ônibus. “Puta que o pariu”, eu tirei o baseado da minha boca e dei para o Freddie. “Mais fraco do que mijo, isso. Quem te deu isso, cara? É horrível.” Freddie me deu uma daquelas caras de cachorrinho perdido. Deu de ombros com aqueles seus ombros de skatista idiota. “Não sei. Um amigo da Karen, acho.” Ele examinou meu rosto, que estava incrédulo pra porra. “Não, não o Johnny White. Eu não sou tão burro.” Ele deixou o baseado na sarjeta. “Bom ouvir isso, meu amigo”, eu bati em seu braço, levantei a mão e a balancei no ar. “Você andou levantando empilhadeiras, Fredster? Seus bíceps: mais fortes do que um tijolo”. JJ deu aquele seu sorriso sereno. Não bebe, não fuma de verdade. Nosso Looney Tune da casa. O que ele usa para agüentar as coisas? Ele olhou para o baseado encharcado. “Vocês são perspicazes o bastante para brigar com esses dois policiais com olhares bravos vindo em nossa
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    direção? Ou vocêssão maricas? Literalmente ou de outra forma.”,ele se curvou, pegou o baseado e jogou sobre seu ombro. “Seu retardado,” surgiu uma voz irritantemente velha . “Caiu bem em cima das compras que fiz”. Freds, JJ e eu demos de ombro. Fred e eu sorrimos. Não a conhecíamos, não ligávamos. “Vocês têm nenhum respeito a nada nos dias de hoje”, a bruxa continuou. Ela deu uma cotovelada nas costas de JJ. “Você, rapazinho, eu conheço sua mãe... ela busca meus livros da biblioteca para mim. Ah, eu vi você no carro dela. Não pense que eu não falarei a ela o que você anda fazendo.” “Eu não. Eu não estava-“ balbuciou JJ vermelho que nem a porra de uma beterraba. Fred e eu bufamos com uma risada. E eu não conseguia me conter, me virei. “O que acham de uma rapidinha?”, eu disse correndo minha língua sobre meus lábios. “O ônibus não vai chegar aqui tão cedo”, eu disse enquanto a velhinha armava e desarmava sua armadilha, os três mosqueteiros andavam até a casa do Fred. Eu tinha uma aposta para ele. Freddie No galpão “Certo, Freds”, disse Cook esfregando suas mãos como um homem velho e safado. “Eu tenho uma oferta que você não vai recusar”. Não gostei como isso soou, porque ele estaria certo provavelmente. Cook tem um jeito de conseguir tudo o que quer. “Você vai amar essa, um joguinho pra passar o tempo, só eu e você”. “E o JJ?”, eu disse. “Jay já está curtindo o mundo dele, não é Jaykins?”. Cook se inclinou pra frente na cadeira que ele gostava de chamar de sua – ficava no meu galpão, mas que seja – e apontou seu cigarro para mim. “Você fez ontem à noite, né?” “Sim. E daí?”
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    “Foi bom, nãofoi?” “Foi divertido. Isso vai chegar a algum lugar?” “Bom, então: quatro semanas, eu e você, quem conseguir mais xoxotas ganha. Tem de ter penetração profunda, cara, e acertar duas vezes o mesmo passarinho não conta”. “Legal”, eu disse sarcasticamente. Mas a idéia do Cook não era tão ruim. Não envolvia nada ilegal para começar. E por várias razões eu estava querendo variedade sexual. Que se foda. “É, tudo bem então.” “Resposta certa, meu amigo. Gayjay vai marcar os pontos, mas vamos ter que roubar algumas evidências para dar para ele. Calcinha grudenta, camisinha gozada... esse tipo de coisa”. “Isso realmente não parece sórdido”, eu disse secamente. Mas realmente não importava pra mim. Como eu disse, eu já cansei de fazer significativamente. Eu amei uma garota, ela caiu fora e me deixou. Eu não vou cair nessa armadilha de novo. Eu ainda checava meu telefone de hora em hora, para falar a verdade. O que ela estaria fazendo agora? “Então,” Cook estendeu sua mão. “Que o melhor homem ganhe.” Eu apertei meus olhos. Então esse é seu jogo, não é? Eu pensei. Que se foda então. “Absolutamente”, eu disse ignorando sua mão. “O jogo começou.” JJ Loja de Kebab “Cai fora, frutinha”, disse Cook. “Isso tem nada a ver com a Effy. Então, você vai marcar a pontuação?” Eram 2 da manhã e eu e Cook estávamos num canto do Abrakebabra. Nós tínhamos ido no Caves, onde Fred e Cook transaram (não um com o outro, o Cook também dispôs essa regra em algum canto. E não no clube literalmente, o que eu acho que é desaprovado: Cook fez em um beco e Freddie saiu para a casa da menina). Pandora, Thomas e Naomi estavam lá também então foi uma boa noite mesmo que eu só tenha dançado sozinho e tentando não pensar no
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    fato de queeu era o único sem a opção de sexo pós clube. Eu estava sentado durante uma canção tomando minha água com gás quando Cook reapareceu. “Eu pensei que você estava transando”, eu gritei. “Sim, terminei. Escuta Jay, eu tenho um plano. Vamos” e ele me levou à loja de Kebabs e me comprou uma espécie de batatinhas. Ele me explicou as regras no qual meio que fazia sentido. Num jeito totalmente moralmente duvidoso, obviamente. Há uma razão do Cook fazer esse jogo. Eu não sou fã de psicologia não autêntica e atualmente eu sou um lixo em coisas com um lado de compromisso empático/emocional, mas nesse caso até eu conseguia perceber. Effy queria o Freddie todo o tempo que ela ficava com o Cook: Cook perdeu o jogo. Então ele inventou um onde poderia ganhar, o que provavelmente vai, como relações sexuais para o Cook é tipo o sol amarelo da Terra para o Super Homem: sem ele, eles não tem poderes ou acham que não têm (onde a analogiacom super homem se quebra a menos que você conte encarnações pré-1986, ele realmente não tem poderes sem energia solar, enquanto estou quase certo de que o sangue vai continuar sendo bombeado pelo coração para o corpo de Cook mesmo que se ele não tivesse uma exposição regular às partes safadas de uma garota). Eu demonstrei minha análise ao Cook. Ele não parecia impressionado, por isso o comentário de babaca. “Ok, eu vou marcar os pontos”, eu disse finalmente. “Mas, sem interesse nenhum, por que você não quis que eu fizesse parte do jogo?”. Cook sorriu de uma maneira infantil. “Porque você iria perder, Jaykins”. “Eu pensei que o que importasse fosse competir”, eu disse ficando um pouco carrancudo. “E é sim. Que é outra área onde você não se dá bem, meu amiguinho virgem”. “Sai fora. Eu não sou virgem”. “Poderia passar por um, amigo”. Um ponto justo onde eu não podia argumentar.
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    Considerando tudo, euestava grato pelo Cook ter criado esse jogo. Significava que ele e Freddie eram amigos novamente, que eles ficariam felizes, e portanto eu ficaria feliz também. Relativamente falando, obviamente. Effy Quinta, 6 de agosto. Veneza, à noite. “Então, Effy, o que você acha de Vivaldi?” Aldo e eu estávamos voltando de uma caminhada. Eu estava fazendo o que o Tony chamava de caminhada amadora e instável, esbarrando levemente nele. Ele estava com as duas mãos nos bolsos. Que seja, ele iria se aquecer eventualmente. “Vivaldi”, eu repeti lentamente. “Four seasons, né?” “Isso mesmo”, ele disse. “Ele era de Veneza. Há concertos dele todo o tempo aqui, mas tem um hoje à noite que eu sei que vai ser excelente. Talvez você queira ir. E sua mãe, claro?” “Eu acho que ela odeia todas essas coisas clássicas”, eu disse. O que era verdade, por sorte. “Mas eu vou dar uma chance e ir.” Merda. Igrejas velhas e Vivaldi, nem Pandora acreditaria nisso. “Excelente”, disse Aldo. “É a sua música, Gloria. Um pequeno trabalho de um coral. Lindo”. Nós caminhamos em silêncio por um instante. Eu sentindo sua presença como a porra de um brilho de um Ready Brek. Na entrada do prédio, Aldo parou para pegar uma carta que havia deixado para trás antes. “Até essa noite, Effy. Eu te encontro no seu apartamentos às sete”. Minha mãe pareceu confusa quando eu disse a ela que iria a um concerto com um homem de meia idade. “Diz quem ele é de novo?”, ela disse com um olhar de soslaio para mim por trás da fumaça de seu cigarro.
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    “Ele mora nesseprédio. Eu o ajudei a abrir seu apê quando ele ficou trancado para fora”, eu disse. “Olha, é só algo para fazer, nada do além.” “Certo. Fico imaginando qual interesse ele possivelmente poderia ter em você”, ela disse mais dura do que a porra de um osso. “Eu não sei. Um culto ao demônio? Pergunte a ele quando vier me buscar”, eu sabia que ela não iria, ainda bem. Quando Aldo chegou eu tinha acabado de sair do banho, então eu gritei para minha mãe deixá-lo entrar. Eu me deparei com eles conversando na mesa da cozinha, cada um com uma taça de vinho. Ele tomou o seu drink e se levantou. “Foi um prazer te conhecer, Anthea”, ele disse. “Você tem certeza de que eu não posso te persuadir a se juntar a nós?”. “Eu tenho certeza”, disse minha mãe. “Obrigado, de qualquer jeito.” Eu segui Aldo pelo sala e a olhei sentada na mesa com seu livro de guia turístico aberto. Pobre vaca. Eu não estava muito esperançosa para o concerto, e quando terminou, eu já não estava ouvindo. Foi difícil com Aldo perto de mim, cheirando a Dolce e Gabanna ou Versace ou o que seja. Seu braço estava tocando no meu. Só isso. Mas ele nunca olhou para nenhum lugar a não ser sua frente. Nem mesmo quando eu cruzei e descruzei minhas pernas provocativamente. Mas no começo, quando a orquestra tocou, a música começou e o coral começou a cantar de repente, eu podia escutar o som ecoando pelo teto, bem; foi estranho. Era tocante. Lembre-se, Effy, eu pensei, tu não deves se emocionar. “Maravilhoso”, ele disse enquanto saíamos na umidade. Eram dez e meia e 28 graus. Ele me recompensou com um sorrisinho em seu rosto. “Eu espero que você não tenha odiado cada minuto daquilo?” “Não, eu...gostei”, eu disse. “Eu achei a experiência divertida”. Era verdade. Eu gostara de sentar perto dele. Eu teria preferido se ele botasse a sua mão na minha coxa e deslizasse por entre minhas pernas, mas pelo visto sujeitos mais velhos não são tão diretos em avançar.
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    “Fico contente porisso.” Aldo disse. “Agora, o que você quer fazer? Uma caminhada de volta ao apartamento?” “De boa”, eu não queria voltar, acho. Eu estava me divertindo. “Nós devemos pensar em algo para fazer da próxima vez, que sua mãe achasse divertido”, Aldo teve esse devaneio enquanto andava devagar pra cima e pra baixo por pequenas pontes. Devemos? “A coisa é que ela não está muito...sóciavel atualmente”, eu disse deslealmente. “Coisas pessoais a estressando. Você sabe”. “Ah”, ele me olhou. “Eu posso simpatizar com isso”. Legal. “Coisas pessoais muito complicadas”, eu acrescentei. “Você não vai querer saber.” “Entendo. Você é protetora com ela, eu posso ver. Deve ser difícil para vocês duas.” “O quê?” “Bem”, ele pareceu estranho. “Seu pai não estar por perto.” “Eu não acho que seja nem um pouco difícil pra ela”, eu disse. Eu podia sentir seus olhos em mim. “E por quê?”. “Porque é o que ela queria. Ela sempre consegue o que quer. E então vira uma bagunça gigante e ela começa a reclamar disso”, eu olhei através dele calmamente. “Eu não tenho nem um pouco de pena dela.” Se Aldo estava surpreso com a minha falta de coração, ele não demonstrou. Ele puxou meus braços porque um casal quase nos acertou e eu me achei temporariamente sendo puxada para seu peito. Senti o calor vindo dele. “Por experiência as coisas raramente são facéis assim”, ele disse quietamente. “Talvez seja digno tentar entender.” Que se foda. Eu quase ri na cara dele. Invés disso eu botei a mão na minha testa e fechei os olhos. “Effy? Você está bem?”
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    “Só um poucotonta”, eu menti. “É o calor”. Ele sentiu minha bochecha com as costas da mão. “Você está um pouco quente”. E le balançou a cabeça. “Vocês, mulheres inglesas. Criaturas tão fragéis”. Nossos olhos se prenderam um no outro. Eu prendi seu olhar. Olhei para sua boca aberta e macia, bochechas bronzeadas e seus cílios negros. Eu queria que você me beijasse. Em vez disso ele pegou meu braço e me guiou por sobre a ponte e pelos becos pavimentados com godo de volta ao nosso apartamento. Eu voltei e andei até a cozinha para me deparar com minha mãe sentada na mesa tomando Sambucca com uma velhinha. “Essa é Florence”, disse minha mãe. “Ela mora no apartamento vizinho. Florence, essa é minha filha, Effy”. Ela parecia uma anciã (a velhinha, não minha mãe, embora os últimos meses tenham tirado um poucoseu brilho), sua pele coberta por rugas, mas com postura ereta, sua mão firme enquanto segurava sua caneca. Ela era magra como um rodo, com cabelos brancos e brilhantes retorcidos e presos em sua nuca. Ela estava usando uma camisa-vestido azul petróleo com uma vertente tripla de continhas pretas até a rachadura, onde seus peitos estariam se ela tivesse algum. “Prazer em conhecê-la”, disse Florence. Inglesa. “Igualmente”, eu disse. “Eu gostei de suas continhas.” Ela as tocou. “Ah, obrigado” ela disse. “Elas são adoráveis, não são? Ébano genuíno, claro, o que eu acho que estaria enrugado agora se eu não tivesse comprado aos setenta. Não tem substituto para o genuíno, tem, Effy?” “Acho que não”, eu disse. Brilhante pra porra, nós viajamos centenas de quilometros para Itália e minha mãe fica amiga com uma velhinha senil inglesa e tagarela. “Florence se mudou de Londres para cá dez anos atrás”, disse minha mãe. “Meu marido era italiano, mas nós vivíamos em Winbledom” disse Florence. “Quando ele morreu, eu senti uma urgência tremenda de voltar para a Itália. Realmente perversa”.
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    “Sim.” “Eu decidi vira Veneza porque foi o lugar que fizemos amor pela primeira vez. Dois de setembro de 1939, o dia antes da guerra ser declarada. A ecstasy antes da agonia, por assim dizer. Benito era um amante estupendo. Dedos bonitos” Ok, talvez eu fosse passar a gostar dela. “Você tem um amante?”, Florence me perguntou enquanto eu sentava na mesa. Mamãe soltou um riso fraco. Eu estudei o rosto da senhora por um momento. Ela era real? “Não na verdade, Florence”, eu disse. “Você tem?” Florence começou a rir e terminou tossindo emitindo aquele som como se estivesse liberando anos de fumaça de cigarro. Ela bateu em seu próprio peito e disse “Ha ha! Touché, Effy! Ai, esses dias estão acabados para mim. Sinto em dizer que é um caso em que nem o espírito, nem a carne querem. Hoje em dia eu uso Sudoku para dormir.” “Boa dica, Florence”, eu disse sem conseguir tirar um sorriso genuíno do meu rosto. “Eu vou tentar isso quando a hora chegar.” Aquela noite de sono demorou a chegar. Eu deitei acordada por horas, um híbrido de Aldo, Freddie e Cook invadindo minha mente e meu corpo. Eu trabalhei com os meus dedos dentro de mim. Eu o queria em todo canto. Eu queria acordar perto dele. Emily Sexta, 7 de Agosto. Hotel Bonjour France Vacance! perto de Bordeaux, França. “Aaah, oi” disse Katie alto, sacudindo o cabelo como um rabo de cavalo bagunçado. “O que temos aqui?” Era o quarto dia de nossas alegres férias em família, mas o primeiro dia aqui no Butlins de La Mer. Nós havíamos passado alguns dias na casa de Cecile e Ed (amigos de nossos pais) em Lyon por alguns dias e Katie e eu fizemos um bom trabalho em evitar uma a outra, ajudado pelo fato de Fabien, o filho de dezenove anos de Cecile, ter transado com ela no quarto dele na
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    maior parte dotempo. James não é uma companhia muito melhor, mas pelo menos eu posso bater nele toda vez que ele abrir a boca. Então agora eu e Katie estávamos tolerando um momento raro de ocupar a mesma proximidade, sentadas no monte de pedras decorativas do lado de fora do nosso chalé observando uma família chegar subindo os degraus até os deles. Um rapaz em boa forma com cabelo cacheado e escuro e membros longos e marrons estava trazendo um carregador de Linux e uma mochila enorme. Katie inclinou-se em seus braços, colocando suas pernas numa posição em que elas pareciam mais longas e magras do que elas realmente são. O rapaz subiu as escadas, ele não parecia tê-la escutado, nem ao menos dado uma olhada nela. Má sorte, Katie. “Ei”, ela disse bruscamente. “Você é surdo cego ou alguma coisa?” Ele parou e olhou para ela. “Quê?” “Esqueça”, disse Katie levantando e tirando areia de sua bunda. “Perdedor”, ela escalou arrogantemente as pedras até a praia. “Encantadora”. Ele olhou pra mim, reagiu e levantou suas sobrancelhas. “Jesus, tem duas de você?” Eu ri pela primeira vez em quatro dias. “Ignore-a”, eu disse, estendendo minha mão. “Nós nem somos tão idênticas. Meu nome é Emily.” “Josh”. Ele era doce, eu tinha de admitir. Katie ia estragar tudo com seus ataques. Ele olhou de volta pra ela, andando furiosamente pela areia. “Sua irmã sabe que sua mini saia está enfiada em sua calcinha?”, ele disse. Eu passei a gostar dele. “Ah, ela sabe com certeza”, eu disse, enquanto minha mãe saia do chalé radiante como um radar hétero. Eu me levantei rapidamente. “Melhor ir, te vejo depois.” Eu saltei por trás de minha mãe que provavelmente estava planejando sua roupa para o casamento. “Definitivamente”, disse Josh “Até mais tarde, Emily.” “Então?”, disse minha mãe quando nos sentamos para jantar. “Você fez um novo amigo então, querida?”. Boa jogada, ela estava se segurando por uma hora inteira enquanto deixava a comida pronta.
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    “Que? Quem?”, eudisse inocentemente e comi uma garfada de carne de cordeiro. “O garoto Josh, não é? Ele é muito bonito.” “Ah, ele”. Eu alcancei o vinho tinto para me servir mais uma taça. “Sim, mãe, ele tem uma boa aparência. Acho que a Katie está de olho nele. Né, Katie?” “De jeito nenhum”, Katie rosnou, empurrando sua comida em seu prato. “Meninos bonitos que nem ele não são meu tipo”. Que nem uma porra louca eles não são. “Nem o meu”, eu disse claramente pra minha mãe. “Obviamente.” Minha mãe revirou os olhos e deu um sorrisinho totalmente enfurecido. “Isso que vamos ver.” “Ah, mas vocês poderiam conquistar muito mais”, ela disse. “As duas”, ela começou a recolher os pratos e levá-los ao balcão da cozinha. “Alguém está afim de torta de maçã?” Aqui vamos nós. “ALÔ? EU SOU LÉSBICA!”, eu sibilei alto. “O que quer que você diga, querida!”, cantarolou minha mãe distribuindo porções de torta. Jesus. Eu preferia quando ela negava furiosamente. Seriam duas semanas inteiras só dessa merda. “Sem sobremesa para mim”, eu disse pegando meu telefone. “Eu tenho uma ligação pra fazer.” Eu passei por minha mãe que ofegou, desesperada pra ser a última a falar. “É”, disse Katie. “Nada pra mim também. Tenho de tomar cuidado com meu corpo fabuloso.” “Mesmo que ninguém tome”, eu fiz uma observação. Eu fui direto para o quarto batendo a porta na cara da Katie quando ela chegou lá. “Porra de vadia coladora de velcro”, ela disse batendo na maçaneta agressivamente. Eu a deixei entrar depois de minutos de socos e batidas na porta e decidi ligar pra Naomi em um lugar mais privado. Na praia daria. Eu deixei Katie se amarrando nela mesma, como a irmãzinha do Jordan. Cílios postiços, base como cimento, saia indo até sua xoxota. Mas o que
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    eu estou falando...Eu tinha certeza de que ela ia encontrar um idiota pra transar com ela. Eu não imaginei que o pessoal se agitaria tanto por conta do Foam Nite – uma balada da vila organizada pelos resorts. Eu preferiria me matar a ir àquela pequena aglomeração. Estava uma noite clara enquanto eu caminhava até a praia. Céu ficando mais escuro de um tom azul. As estrelas estavam começando a aparecer. Eu deitei na areia olhei pra cima e pensei na Naomi. Eu sentia muito falta dela. Chequei as horas no meu celular: nem tão tarde para ligar. Ela atendeu imediatamente. “Oi, amor”. Era tão bom ouvir sua voz que eu poderia ter chorado. “Oi, você. Como andam as coisas?”, eu disse. “Ah, você sabe. Fantásticas. Ver minha mãe e seu namorado se amando não pode ser subestimado como uma forma de incrível entretenimento. Eu nunca soube como é estimulante ver dois desesperados apalpar um ao outro a cada segundo da porra do dia inteiro.” “Porra, docinho. Isso é malvadeza.” “Sim. É uma merda. Mas hoje seria uma merda de qualquer jeito”, ela suspirou. “E você?” “Mesma coisa. Estou ficando louca. Minha mãe está tentando fazer com que eu saia com um garoto”. “Oh, Deus. Com quem?” “Um rapaz do chalé vizinho. Ele é OK.” Silêncio. “Eu obviamente não estou interessada”. “Tanto faz. Acha que eu ligo?” “Eu mais que espero que sim!” Eu sabia que ela estava sorrindo, porque ela não respondeu. “Eu queria que você estivesse aqui comigo, agora.” Naomi soltou um gemido. “Eu também, não consigo parar de pensar em nós na minha cama.”
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    “Eu sei.” Euhesitei. “Me lembre...o que nós estávamos fazendo na sua cama?” “Bem...”, Naomi começou, mas ouvi passos atrás de mim. “Porra, alguém está vindo”, eu sibilei no telefone. “Eu te ligo depois.” Eu virei para ver quem estava me assustando. Era Josh. “Quem é você? Algum tipo de pervertido?”, eu disse olhando para ele. Eu não podia ver muito no escuro, mas eu poderia dizer que ele estava sorrindo. “Hã, não”, ele disse. “Não, eu sou alguém com orelhas. Não tem mistério: o som viaja.” “Tudo bem”, eu disse a ele, agarrando meu telefone. “De boa. Bem, desculpa. Eu vou te deixar sozinha”, ele disse. Ele marchou para fora da praia. Eu me senti um pouco má. “Ei”, eu o chamei. “Se você estiver sem nada pra fazer amanhã... nós poderíamos, você sabe, sair juntos ou algo assim”. Josh sorriu. “Claro”, ele disse agora andando de costas. “Eu iria gostar disso. Só dê uma batida na nossa porta.” “Excelente”, eu disse dando um tchauzinho alegre. Eu o olhei até entrar em seu chalé, então peguei meu telefone e apertei rediscar. “Ei, você”, eu disse. “Eu estava com medo que você tivesse ido dormir.” “Sem chance. Não enquanto eu estiver pensando em te despir.” “É?” “Você esta com sua calcinha branca de algodão e eu estou beijando o interior de suas adoráveis coxas.” “Eu deveria tirar minha calcinha?” “Não... eu estou fazendo isso. Então eu vou me mover mais para cima... Primeiro devagar, depois...” “Rápido”, eu disse sem ar. “Faça mais rápido.”
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    “Você ama isso”,ela disse. “Eu amo pra caralho. Você pode ver meus peitos?” “Sim, e você está tocando neles. Seus mamilos estão durinhos. E eu estou me esfregando para cima e para baixo na sua coxa”. “Jesus...”, meu coração estava pulando, ficando mais rápido. Eu tinha minha mão na minha calcinha, minhas mãos sondando enquanto eu imaginava que era a língua da Naomi. “Eu vou gozar”, eu disse. “Eu quero te beijar-“. Com um ímpeto eufórico, eu gozei, com uma mão trêmula agarrando o telefone para perto do meu ouvido. “Eu te amo”, eu disse ao mesmo tempo que Naomi. “Eu te amo muito.” Katie Sexta, 7 de Agosto. Eu desci do pinto cada vez mais mole do garoto. “Transa excelente pra porra, querida. Você é gostosa”, ele disse puxando a camisinha pra fora e descendo para puxar seus shorts que estavam em seus tornozelos. Eu tirei a areia das minhas roupas e me vesti. “Sim, brilhante. Te vejo por aí.” Eu me inclinei, beijei-o e dei uma acariciada rápida em suas bolas, só para ele se lembrar de mim. E saí da praia indo em direção ao mar. Eu não tenho intenção de vê-lo de novo, mas era legal sair deixando uma nota alta. O Foam Nite da vila era obviamente idiota pra caralho, mas pelo menos eu transei. Para ser honesta, eu poderia até escolher com quem. Eu estava usando meu vestido novo verde limão por cima do sutiã e calcinhas com estampa de leopardo. E me depilei quase toda com cera antes de sairmos de Bristol. Quando cheguei ao clube eu fui direto para o bar. Antes de eu ter a chance de fazer o pedido, alguém estava me oferecendo um drink, mas não fazia o meu tipo, então educadamente neguei. O próximo a chegar em mim era melhor. Alto, boa aparência, sorriso atrevido. “Posso te pagar uma bebida?”, ele gritou por causa do barulho. Eu o olhei de cima a baixo, captei uma amostra de sua cueca branca e brilhante acima de seus jeans, camisa azul
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    desgastado, cabelo pretodespenteado e sorri meu sorriso mais fofo. “Claro. Vou querer um V ‘n’ T, obrigada”. Ele sorriu e se inclinou por cima de mim para fazer o pedido. Ele cheirava bem. “Como você está aqui sozinha?”, ele disse, entregando meu drink. “Onde está seu namorado?” “Eu não tenho um namorado”, eu disse. “E eu não vim aqui pra ficar só dançando”, eu olhei para ele, piscando bastante. “Garota safada”, ele disse passando a mão no meu traseiro. Meia hora depois estávamos na praia. Ele não era um amante dos mais sensíveis, mas esse raramente é o x da questão. Sexo é sexo. E sexo era a única coisa que estava deixando essas férias idiotas de doer aceitáveis. Isso e o pensamento sobre tudo o que eu deixei para trás. Não tinha nada em Bristol me esperando, a menos que você conte humilhações e memórias dolorosas. O que eu não conto, por mais que pareça engraçado. Duas semanas que eu não poderia de jeito nenhum dar de cara com o Freddie só poderia ser boa coisa, mesmo que fosse em um hotel de merda que seria como a porra de Blackpool, se não tivesse tanto sol. Tomando banho de sol o dia todo e transando a noite toda. Há jeitos piores de se passar o tempo. Eu comecei como eu pretendia seguir, transando com um cara elegante de uma despedida de solteiro numa cabine vazia de uma balsa. Ele era vil, na verdade, vestido em sua camisa polo e berrando “Oh deus, sim” quando gozou. Depois Fabien na casa de Cecile e Ed. Meio nerd, mas gostava de mim, o que era o objetivo e ele me fodeu gostoso em seu quarto por quase oito horas. Eu estou certa que seus pais sabiam por causa do barulho, mas ninguém disse nada. Deve ser normal na França. Eles se sentem mais confortáveis com relação ao sexo. Na verdade, foi doloroso depois de um tempo, mas eu já me acostumei com a dor. Não me afetava. Melhor do que não sentir nada. Emily não aprova, claro, mas ela podia ir se foder. Ela não consegue lidar com o fato de que eu sou mais pegável do que ela. É, ela esta andando por aí agora com aquele olhar convencido em seu rosto, como se o sonho do amor jovem tivesse dado um soco em sua cara. Mas eu tenho uma notícia para ela: não conta se você for uma sapa. Não é a mesma coisa, porra. Quando eu cheguei a Emily já tinha adormecido. Eu sentei na minha cama e tirei minhas roupas. Meu corpo se sentia como estivesse ferido, machucado. Eu quase sempre durmo pelada, mas eu roubei uma das blusas gigantes de lésbica da Emily, deitei na cama e botei meus joelhos perto de meu peito.
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    E tentei nãochorar. Emily Sábado, 8 de Agosto. No chalé. Já passara da uma da manhã quando fui para a cama e só Deus sabe quando a Katie foi, então nenhuma de nós estava interessada quando nosso pai tentou nos acordar às oito e meia. Eu o mandei pra fora, mas consegui captar as palavras ‘família’ e ‘aulas de surfe’. O bastante para garantir que eu ficasse em estado de coma até meio dia. Quando eu acordei Katie tinha ido embora e eu tinha a casa só para mim. Euforia. Eu fui até a cozinha em meus pijamas e preparei um copo de chá. Eu estava passando geléia no pão quando minha mãe, meu pai e James voltaram da manhã de esportes aquáticos, grudados. “Ahá, ela acordou!”, disse meu pai. Continuava jovial então. Perfeito. “Estou feliz que você já está de pé”, disse minha mãe, pegando a chaleira para encher de novo. “Eu pensei que você, Katie e eu poderíamos passar a noite no SPA. Um pouco de tempo só para as garotas. Eu disse que iria encontrar Katie na cidade daqui a pouco.” Eu realmente, realmente preferiria não ir. “Obrigada, mãe. Parece legal, acho, mas eu não estou querendo ir. Eu iria dar um passeio. Sozinha.” “Vamos lá, Emily. Sai dessa.” Pelo amor de Deus. “Sair do que? Eu estou bem. Eu só estou querendo uma tarde pra mim mesma.” Minha mãe suspirou. “Tudo bem. Talvez amanhã, então”. “É. Talvez.” Ela continuou tagarelando no meu quarto. Tudo bem se ela não tivesse feito a proposta, mas fez tudo parecer falso pra porra.
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    Eu não meincomodei em dizer que eu tinha planos pra sair com o Josh hoje. Eu iria escutar até não ter fim. Eu esperei todo mundo ir embora antes de pegar minhas coisas pra ir para praia e parar em seu chalé. Eu bati em sua porta e ela abriu quase que imediatamente. “Obrigado, Deus, por isso”, disse Josh. Eu podia ouvir uma voz alta de mulher no fundo quando ele puxou a porta por trás dele. Eu levantei minhas sobrancelhas. “Minha mãe” ele disse. “Ela sabe como falar muito, Deus a abençoe. Eu convidaria você a entrar, mas ela já está ficando molhadinha em suas calcinhas com o pensamento de uma colega em potencial pra seu filho depravado.” “Então”, eu pressionei. “Depravado?”. “Longa história, Emily. Vamos dizer que mamãe não é a mulher mais progressiva do mundo.” Uma pequena luz surgiu. “Ahá”, eu disse. “Você é gay.” Josh tinha escovado os cabelos para trás exageradamente. “Eu, querida? Por que você pensaria isso?” “Só um chute.” “Bom trabalho, Sherlock” ele olhou pra mim. “E você?” “Também”, eu disse. “É agora que batemos um na mão do outro pra criar laços?” Ele sorriu. “Sim, se nós fôssemos uns idiotas retardados”, ele me olhou de cima a baixo. “Eu achei que tinha alguma coisa em você. Meu gaydar infalível, como sempre.” Ele olhou de volta para meu chalé. “Seus pais aceitam isso normalmente?” “Não. Eles estão fingindo que não é verdade. Você sabe, negando totalmente, esse tipo de coisa.” Nós chegamos ao topo das pedras. Josh tirou seus chinelos e os colocou em sua mochila. Estava muito quente, nenhuma nuvem em nenhum canto. A praia já estava lotando. “Quer achar algum lugar mais privado?”, disse Josh. “Eu ouvi falar que tem uma praia rochosa perto da península.” “Você está falando daquela península a cinco quilômetros?”, eu resmunguei.
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    Mas meia horadepois nos encontrávamos em um trecho de areia deserto longe daquelas crianças berrando. Nós colocamos nossas toalhas em cima de algumas rochas e eu passei em mim mesma filtro solar fator 50. Eu me despi para ficar em meu biquíni e me sentei. Ele se sentou ao meu lado e pela primeira vez eu pude olhar pra ele propriamente. Cabelo longo e marrom, olhos castanhos, ombros largos, e usando bermuda de cós baixa, cáqui. “Escuta”, ele disse enquanto olhávamos para aquele mar perfeito e um casal de barcos desaparecendo no horizonte. “Eu só quero me desculpar por te envergonhar ontem à noite, quando você estava ao telefone.” “Esquece. Me desculpe por ter sido tão grossa. Eu só estou com raiva por ter que passar as férias com os meus pais. Você sabe, sentindo falta da minha namorada.” Josh cutucou alguns seixos com um galho. “Eu sei exatamente o que você está dizendo. Eu terminei com o meu namorado alguns meses atrás. É por isso que meus pais me trouxeram aqui... me persuadiram a vir pra cá porque acharam que iria me animar. E claro que eles pensaram que eu ia abrir meus olhos que lá no fundo eu sou hétero de carteirinha.” “Foda-se o que eles dizem”, eu resmunguei. “Todo mundo na minha família odeia a Naomi. Minha namorada. Eles acham que ela me transformou numa lésbica. Se eles soubessem que foi eu que a persuadi...”, eu ajeitei meus óculos escuros. “A pior é a Katie, minha irmã. Ela não consegue aceitar que eu não sou que nem ela. Ela é a porra de um imã para garotos. Ela é toda convencida, entende?” “Para falar a verdade, ela parece bem insegura para mim” Josh disse claramente. “Isso é uma piada?”, eu disse. “Insegura?” “Totalmente. Ela é desesperada. Como foi provado ontem quando eu cheguei com minha mãe e meu pai. Profundamente carente.” Por algum motivo isso me incomodou. “Ela não é carente!”, eu disse. “Ela sempre está confiante para porra com tudo. Ela nunca ficou sem um namorado.”
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    “Claro que elanunca ficou sem. Ela provavelmente dá pra todo mundo”, Josh se virou pra me encarar. “Está claro, Emily. Eu conheci um monte de meninas que nem ela.” “Tá”, eu disse baixo. “Talvez você esteja certo”. Já estava na hora de eu e minha irmã termos uma conversa séria. Effy Sábado, 8 de agosto. Veneza Minha mãe, eu e Florence esvaziamos três garrafas de vinho ontem à noite, e mesmo assim eu me encontrei vasculhando armários em busca de mais bebidas à meia noite. Eu encontrei uma coalhada de limão liquida. Eu me servi com metade da garrafa em uma caneca. Nojento pra caralho. Eu vomitei por uma hora e dormi no chão do banheiro. Minha mãe me achou. “Jesus”, ela se ajoelhou, segurou meu queixo e chacoalhou minha cabeça. Eu abri meus olhos. “O quê?”. “Você não sabe quando parar?”, ela disse secamente. “Parar com o quê?”, enquanto eu falava, eu podia sentir meu lábio se rachando. Ela me deu um olhar severo. “Meio litro de Limoncello depois de todo aquele vinho? Meu deus... e você vomitou em toda minha bolsa de maquiagem”. Ela se levantou e enxaguou uma flanela na pia. “O que você está fazendo?”. “Eu vou limpar toda essa bagunça. Cristo, olha o seu estado”. Antes que eu pudesse protestar ela começou a limpar meu rosto gentilmente. Foi legal. Relaxante. Por alguns minutos só havia o som de suas pulseiras batendo e a minha respiração. “Está muito tarde para um banho”, ela murmurou. “Sem água quente, de qualquer jeito”. Ela parou de limpar e tirou o cabelo do meu rosto. “Vamos lá. Hora de dormir”.
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    “Me deixa”. Ela meignorou. “Vamos tirar isso. E sua saia”. Ela segurou meus braços e me puxou para que eu me sentasse na ponta da banheira. “Eu posso me despir sozinha, mãe. Eu não sou um bebê”, eu disse enquanto uma onda de dor agonizante surgiu em minha cabeça. “Só me dá a porra de um paracetamol. Eu vou ficar bem”. “Não se mexa”, ela disse e saiu para a sala. Dois minutos depois ela voltou com algo largo e branco que obviamente tinha afanado de uma velhinha. “Uma camisola? Isso deve ser uma piada”. Eu me levantei desajeitada. Eu estava nua e tremendo agressivamente. Minha mãe deslizou a roupa de velhinha pela minha cabeça, colocou meus braços para dentro e abotoou até a minha garganta. Eu me senti como se tivesse cinco anos. “Boa garota”, ela disse tranquilamente. “Boa garota”. Ela segurou minha mão e me guiou até meu quarto, puxou o lençol da minha cama. Eu desmoronei no travesseiro. “Mãe”, eu disse sonolenta, observando-a fechar as persianas. “Não feche completamente”. Ela as deixou e veio em minha direção. Me cobriu com o lençol e apagou a luz. “Você vai ficar bem, Effy”, ela disse. “Tudo ficará bem”. Mas ao meio dia estávamos de volta à guerra fria. Certo, eu a deixei cuidar de mim, mas eu estava sob influência. Não significava que ficaríamos grudadas uma na outra hoje de manhã. Todas as coisas que estavam lá antes continuavam lá. Eu vaguei pela cozinha me sentindo uma merda. Minha mãe estava na mesa de costas para mim. Eu fechei meus olhos. Minha cabeça cambaleou. Eu bebi suco de laranja, tomei três aspirinas e peguei o chaveiro extra. “Eu vou sair”.
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    Minha mãe meolhou por cima do livro de frases que estava estudando, inutilmente já que ela não falou uma palavra em italiano desde que chegamos aqui. “Para onde?”. “Só passear, tomar um ar. E eu talvez vá ver... qual é o nome dela?”. “Florence?”, disse minha mãe. “Talvez eu vá com você”. “Nesse caso estou indo à Lan House”, eu disse calmamente. “O que raios há de errado com você?”, minha mãe sentou furiosamente de volta na cadeira. “Eu só quero ficar sozinha. Entendeu?”, eu estava sendo uma vadia e ela não merecia isso, mas eu tenho uma reputação a manter. “Então você não está interessada a se juntar a nós mais tarde?”, ela disse claramente, fechando seu livro e se servindo com mais café. “Nós?”. “Aldo me convidou – nós – a uma excursão numa pequena ilha de Veneza”, ela disse. “Eu acho que se chama Lido”. “Tudo bem”, eu lutei contra o estímulo de chutar sua cadeira. “Bem, sim, eu vou. Por que não?”. Minha mãe sorriu e acendeu um cigarro. “Legal. Vai ser bom sentir o cheiro do mar. Nós escolhemos a época mais quente do ano para vir a uma maldita cidade no mediterrâneo. Não é a toa que todos os nativos vão para o campo. Bem...”, ela começou a colocar suas coisas em sua bolsa: óculos escuros, carteira, telefone, maquiagem. “Ele é um bom homem, não é? Gentil”. E ele é meu, eu pensei. Não seu. Houve uma batida alta na porta. Minha mãe olhou em seu relógio. “Merda. Eu não percebi que era tão tarde. Deve ser o Alfredo”. “Eu vou atender”, eu disse, me atirando para fora da cozinha. Quando abri a porta do nosso apartamento, Aldo estava lá com Florence. Seu braço cruzado com o dele.
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    “Olá, querida”, elasorriu pra mim. “Eu espero que você não se importe com uma velhinha de brinde”. Eu teria ficado puta se fosse outra pessoa. Mas Florence podia encantar os passarinhos da porra das árvores, e podia fazer companhia para minha mãe. Isso pode acabar dando certo. “Claro que não” eu disse. “Quanto mais, melhor”. Enquanto todos nós descíamos as escadas, minha mãe na frente, Aldo se virou pra mim. “Lido é um lugar extraordinário, Effy”, ele disse. “Faz parte de Veneza, mas é muito diferente. Principalmente a arquitetura. Várias construções com decorações de arte gastas que já foram incríveis. Agora é, acho que vocês ingleses diriam, um glamour que está desaparecendo. E é um pouco misterioso. É aonde gravaram Death in Venice?”. Eu fiquei sem expressão. “Um filme dirigido por Luchino Visconti. Muito perturbador”. “E um livro”, minha mãe observou. “Sobre uma escritora que se apaixona por um rapaz mais novo”. Eu aposto que ela só leu isso essa manhã na porra de seu amado guia turístico. Mas eu estava ansiosa para ir. Lido soa como aquele tipo de lugar aonde o real se torna irreal. E isso era perfeito pra mim. Nós tomamos um táxi aquático e o ar salgado lentamente levou minha dor de cabeça embora. Enquanto nos distanciávamos de Veneza, eu olhei de volta para a cidade, ardendo com o calor. Minha mãe pensou que estava na porra do Dolce Vita ou coisa assim, com um lenço amarrado na cabeça e óculos escuros. O vento estava bagunçando seu cabelo. Eu sorri com a parte de trás de sua cabeça. Quando chegamos, Aldo nos levou diretamente para almoçar em um hotel chique perto da água. Um prédio incrível pêssego e dourado aonde as pessoas pareciam ter sido presas no tempo. E agiam desse jeito, também. Eu juro que o sujeito que nos levou à nossa mesa se curvou para nós.
  • 44.
    Assim que nossentamos, eu levantei novamente. “Aonde você vai?”, minha mãe perguntou. “Banheiro”, eu disse sem olhar pra ela. Eu precisava me recompor. No banheiro eu subi em uma das pias e me sentei por um tempo, massageando minha mão com o creme grátis e encarando todos que entravam. Todos desviavam o olhar desconfortavelmente. Não era minha culpa se eles se assustavam comigo. Eu não estava fazendo qualquer coisa errada. “Ah, aqui está você!”, disse Aldo sorrindo quando voltei. “Eu estava pensando pra onde você tinha ido”. “Só observando o lugar”, eu disse me servindo uma taça de vinho. “Lugar legal”. “É mesmo. Eu só estive aqui uma vez, na noite do meu casamento”. “Eu estou surpresa que tenha coragem de voltar aqui”, disse minha mãe. “Ao contrário, é uma lembrança feliz para mim”. Eu tomei todo o meu vinho e coloquei mais. Abastacendo o barco, como meu pai diria. “Effy, sem exagerar”, disse minha mãe. Eu a ignorei e tomei um grande gole de vinho. Assim era melhor. Eu estava começando a me sentir bem e bêbada. Eu fiz um gesto para o garçom trazer mais do mesmo. “Effy...”, disse minha mãe como se estivesse avisando a uma criança para ficar longe da tomada. “Ah, relaxa, mãe”, eu disse. “Relaxe. Tome mais vinho”, eu desastrosamente servi vinho em seu copo, então no de Aldo, no de Florence e no meu. Eu me senti como se estivesse pairando sobre a mesa, olhando com olhos estreitos Aldo tentando puxar conversa com minha mãe enquanto ela comia seu espaguete à bolonhesa. Como você está aventureira, mãe. Por que você não simplesmente pede ovos e batata e acaba com isso? Florence percebeu meu olhar e sorriu maliciosamente.
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    Uma salva depalmas me trouxe de volta à terra. Do outro lado da sala um sujeito num terno branco se curvou e sentou em um grande piano, agitando a cauda de seu casaco enquanto o fazia. Eu ri muito alto e algumas pessoas me deram um olhar severo. Que se fodam. Ele começou a tocar a música do Billie Holiday, ‘Lover Man, Oh Where Can You Be?’, uma das minhas favoritas, acredite se quiser. Eu me inclinei, minhas mãos no meu colo e olhei para minha taça, respirando o cheiro picante e cantarolei junto. “Adorável”, disse Florence. “Me leva de volta”. Eu revirei meus olhos para olhar para ela. Ela captou meu olhar e sorriu de novo, então subitamente ergueu sua taça. “Para situações estranhas, não é, Effy?”, une ela meio que murmurou. Eu balancei meu copo precariamente, o vinho respingando em cima da mesa. Minha mãe olhou inquieta. “Que situação estranha?”, ela perguntou, seus olhos se ampliando. Eu dei a ela um sorriso irritante. “Nada para se preocupar, Anthea”, disse Florence colocando sua mão em cima da mão de minha mãe. “Nós somos todos amigos aqui”. Está tudo bem, Florence. Finja ser senil. “Como está seu bife, Effy?”, disse Aldo. Eu tinha esquecido que ele estava ali. “Certo, é isso”, disse minha mãe de repente, pegando o meu copo. “Você vai ficar doente. Coma sua comida”. Eu estava quase pegando minha taça de volta quando o pianista começou a tocar uma coisa nova. Eu não reconheci, mas Florence uniu suas mãos em um êxtase musical. Eu me levantei e comecei a me balançar e dançar, meus olhos se fecharam. “Sente-se, pelo amor de Deus”, minha mãe me sibilou. Ignorando-a, eu segurei as mãos de Aldo. “Dance comigo”, eu disse tentando levantá-lo. Seu cheiro era adorável. Aldo riu. “Eu acho que talvez você não esteja acostumada com vinho italiano”.
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    Ele gentilmente sedesvencilhou das minhas mãos, e eu me senti balançar. Eu estava mais bêbada do que pensava. Eu me sentei no chão e ri. Eu senti as mãos de minha mãe nos meus ombros. Ela colocou a boca perto do meu ouvido e disse, “Você precisa levantar agora. Tudo vai ficar bem, mas você precisa levantar. Você está se envergonhando”. “Eu estou tentando me divertir”, eu disse. “Não estrague”. Seus lábios, suas mãos, meu garoto de olhos castanhos. Então Aldo veio e se ajoelhou ao meu lado. “Deixe-me te ajudar a levantar, Effy”, ele disse. “Parece que você caiu”, ele colocou seus braços por baixo de meus cotovelos e tentou me levantar, mas apenas conseguiu levantar meus braços sobre minha cabeça. Me fez rir. Enquanto eu me levantava um garçom apareceu e disse, em inglês, “Posso trazer um copo de água pra sua filha?” Filha?! Eu ri alto e disse, “É, certo. Ele é meu papai. Ele, tipo, me espanca... quando eu sou travessa, mas se sou uma boa garota ele me dá a porra de uma transa”. “Effy!”, minha mãe disse. Ela cobriu seus olhos com a mão. Mortificada, ela disse, “Pelo amor de Deus, você vai fazer com que eles nos expulsem”. Eu olhei para Florence, que era a única que eu estava remotamente preocupada em ofender, mas ela estava olhando pra mim com um meio sorriso em seu rosto. Qual era o jogo dela? Então a profecia de minha mãe se tornou verdade e nós fomos expulsos. Alguns convidados ingleses do hotel tinham se queixado, aparentemente. Como se eu ligasse. Quando chegamos lá fora minha mãe se virou para Aldo e disse, “Me desculpe por Effy. Eu não sei o que aconteceu com ela”. Eu balancei minhas mãos na frente dela, com tanta raiva que eu queria agarrar o cabelo dela e bater sua cabeça na parede repetidamente. “Oi? Eu estou aqui”, eu gritei. Minha mãe desviou seu rosto de mim. “Você está com bafo”, ela disse. “Por que você liga?”, eu murmurei. “Está tentando impressionar ele, não está? Cai fora.” “Eu adoraria”, ela disse, com o rosto vermelho. “Mas para o melhor e para o pior eu sou sua mãe, e não posso te deixar nesse estado”.
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    Que tocante. Eraum beco sem saída. Eu sentada na calçada desejando que ter pegado a metade da garrafa de vinho que estava na mesa. Um movimento me fez olhar pra cima. Florence tinha tropeçado. “Oh, Deus”, ela disse. “Eu não estou muito bem. Muito vinho. Anthea, querida, pode me levar pra casa?”. “Claro”, disse minha mãe. “Nós todos vamos. Mas você está bem? Deveríamos encontrar um médico?”. “Ah não, não precisa. Eu só preciso dos meus remédios e da minha cama. E não precisam acabar com seu dia assim tão cedo. Eu tenho certeza de que Aldo não vai se importar de cuidar da Effy”. Ela olhou pra Aldo, que disse rapidamente, “Claro... Effy e eu vamos ficar e tomar muito café e comer muito bolo”. “Então está decidido”, disse Florence de maneira entusiasmada, até demais. E ela acabou de piscar para mim? Espertinha pra caralho. Minha mãe segurou o braço de Florence e virou para Aldo. “Sinto muito por hoje”, ela disse. “Estou me sentindo terrível”. “Não se sinta”, Aldo respondeu. “Não precisa”. Eu podia sentir minha mãe me olhando, mas me recusei a encará-la. Quando olhei pra cima, ela e Florence estavam indo embora. Aldo sentou do meu lado, suas mãos descansando em seus joelhos levantados. “Isso foi uma performance e tanto”, ele disse. Eu olhei para seus tornozelos e pés, nus em seus mocassins de couro. “Effy”. “O quê?”. “Eu disse que isso foi uma performance e tanto”. Eu dei de ombros e acendi um cigarro e me senti imediatamente nauseada. Mas isso iria passar. “Você está... você está em algum tipo de encrenca?”, Aldo disse, sem noção alguma.
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    “Encrenca?”, eu risem humor algum. “Talvez essa seja uma palavra para a situação”. “Quer me contar?”. Você realmente não quer saber “Não importa”, eu disse solenemente. “Eu só queria alguém para me fazer esquecer”, eu tremi apesar do calor. Aldo se moveu para mais perto de mim. Ele tirou sua jaqueta e botou em volta de meus ombros. “Álcool diminui a temperatura do seu corpo”, ele disse. Ele tirou um cigarro do meu maço. “Eu pensei que você desaprovava o fumo”. “Eu desaprovo. A desgraça do ex-fumante”, ele disse deixando as mãos em forma de concha enquanto o acendia. Ele soltou o ar. Sua mão tremeu um pouco enquanto me devolvia o isqueiro. “Eu devo dizer que estou... incerto sobre você, Effy”, ele disse, não olhando para mim, mas sim em frente. “O que quer dizer?”, eu soei mais inocente do que me sentia. Quando ele virou pra me encarar meus olhos caíram para o cinto em suas calças. Eu pensei na minha boca no seu pinto e subir nele, senti-lo preencher minha boceta. Pare Effy. Não faça algo estúpido. Aldo balançou sua cabeça, apagou o cigarro e se levantou. Ele estendeu sua mão para me levantar em sua direção e colocou seus braços em mim. “Pobre Effy”, ele disse. Eu descansei minha cabeça em seu peito, senti seu cheiro e ouvi a batida do seu coração. Eu arqueei minhas costas para que meus peitos se pressionassem nele e, quando ele não me soltou, movi o braço coloquei minha mão em seu pinto. Ele não me empurrou imediatamente, ele esperou um pouco. Nesse tempo eu consegui o que precisava. Senti-lo excitado com meu toque. “Você está um pouco bêbada, Effy”, ele disse baixo. “Isso não é o que você quer.” “Você não sabe o que eu quero”, eu disse rouca. “Você não sabe mesmo.”
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    “Talvez não”. Aldopegou outro cigarro e acendeu. “Mas você querendo ou não, eu vou comprar para você um café forte e algo bem doce para comer”. Ele abotoou sua jaqueta sobre meus ombros. “Vamos lá. Você vai se sentir muito melhor, eu prometo.” Naomi Segunda, 10 de agosto. The Caves, Bristol. “Eu ouvi falar na sua maratona infantil de sexo”, eu disse à Cook, enquanto ele zumbia a minha volta como uma vespa excitada. “E independente do fato de não estar mais interessada em pintos, de qualquer natureza, eu nunca, nunca, nem em um milhão de anos, nem se o inferno congelasse, nem que nós fossemos os últimos humanos vivos e só transar com você pudesse me salvar de ser comida viva por uma bactéria medonha, nunca, NUNCA deixaria você encostar seu pinto em mim. Ficou claro?” “Você ama isso”, disse Cook, tirando um baseado meio fumado de seu bolso de trás. “Se eu parasse de tentar transar com você, Campbell, você ficaria devastada.” Ele fechou o zíper de sua jaqueta, que estava rasgada na parte inferior de um braço. “Ah, querido. Você precisa de alguém pra cuidar de você”, eu puxei o revestimento xadrez rasgado, “não pra transar contigo.” “Idiotice pra caralho”, ele disse agradavelmente. “Quer se juntar a mim para fumar?” Eu vi JJ com olhar vazio do outro lado da pista de dança. “Não, eu acho que eu vou conversar com o Jeremiah”, eu disse. “Ter uma conversa decente e adulta.” “Justo, senhora Naomi”, Cook foi em direção à porta. “Mas se encontrar Frederick, diga a ele que ele tem de me alcançar, Cookie está na frente dele com muito vapor. Facinho, como sempre.” “Eu não vou me envolver. Isso é imbecil e triste”, eu disse. “Mas eu vou dizer para ele aonde você está e você pode dizer isso a ele”, eu vi Cook desaparecer pela porta antes de ir encontrar o JJ.
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    Eu saí hojepara me recuperar. A parte de mim que estava ocupada em sentir falta da minha garota. Mas o que aconteceu foi que me encontrei procurando por ela nas multidões. Ridículo pra porra. Eu estou perdida. Senti alguém cutucar as minhas costas. JJ apareceu atrás de mim. “Quer ver uma mágica?”, ele começou a dizer ansiosamente, começando a colocar as mãos nos bolsos. “Não, JJ. Eu realmente não quero”. Peguei sua mão. “Mas vamos sentar em algum lugar.” “Sério?”, ele parecia confuso. “Para conversar”, eu disse rindo. “Sem gracinhas.” JJ me seguiu para uma banqueta gasta encostada na parede. Um casal vigorosamente esfregando o corpo um do outro estava esparramado nela. Eu bati no ombro da garota e dei a ela o meu olhar mortal infame e os dois foram para o lado e nos deixaram sentar. JJ estava simultaneamente impressionado e com cara de quem sentia muito. “Então, o que há com o Cook e essa competição maluca de sexo?”, eu disse. “Ele não pode apenas chorar como um ser humano normal?” “Sim”, disse JJ, “passa um pouco dos limites, admito.” Para provar o que JJ estava falando, Cook reapareceu, dessa vez com uma garota atrás dele. Ele a levou para o sofá que estava na nossa frente, e começou a enfiar a língua em sua garganta. Boa, Cook. Sutil. JJ os espiou. “Ele ficou com ela quando viemos aqui semana passada. Eu estou reconhecendo a tatuagem de serpente no pé dela. Devemos sentar em outro lugar?” “Eu não vou sair agora. Só vamos fingir que eles não estão aqui”. Eu ainda tinha um copo de plástico quase cheio com vodka e água tônica. Tomei um grande gole. JJ tomou um gole de sua água. “Por que você não bebe, JJ?”, eu perguntei a ele. Ele olhou pra mim e rapidamente desviou o olhar de novo. “Eu não gosto muito do sabor”, ele disse.
  • 51.
    “Esse é realmenteo motivo?” JJ sorriu nervosamente. “Um deles”, ele tomou um gole de sua água. “Então, Naomi...” Eu o interrompi, tentando acabar com seu tormento. “JJ, você sabe que eu não ligo para o que aconteceu entre você e Emily.” Ele olhou para a garrafa em suas mãos e começou a tirar o rótulo. “Não liga? Digo... bom, fico feliz. Foi só um ato de caridade. Da parte dela, obviamente.” Eu o vi brincar nervosamente com a garrafa. “Ela gosta de você”, eu disse. “Eu não ouvi nenhuma reclamação, também... você sabe, sobre o-” O rosto de JJ de repente estava banhado em uma coloração rosa avermelhado. “Que seja”, ele murmurou. “Sei quando vocês estão sendo condescendentes comigo, Naomi.” “Porra. Não, JJ. Eu não estou sendo condescendente com você. Você é mais inteligente do que todos nós”, eu disse, me sentindo mais desajeitada a cada segundo. “Você realmente acha que transar com qualquer coisa que se mova te faz especial?”, meus olhos voaram para Cook brevemente. “Ou te faz feliz?” “Me faria muito feliz”, disse JJ, finalmente soltando a garrafa. “Me sentir normal.” Eu concordei com a cabeça. Eu sei como era sentir que todo mundo estava rindo de uma piada que eu não conseguia entender. Senti isso por quase toda a minha vida. “Você vai ficar bem”, eu disse. “Eu prometo.” JJ aceitou isso com um meio sorriso. “Enquanto isso”, ele suspirou, gesticulando para nosso oposto. “Estou aqui meramente para observar...” Cook estava se satisfazendo com afagos completamente exagerados. Sua mão estava dentro do zíper da calça da garota enquanto ela se contorcia ruidosamente em seu colo. JJ e eu trocamos olhares entretidos. Eu senti uma presença ao meu lado. “Tudo bem?”, Freddie caiu pesadamente no nosso meio. “Aonde está o Cook?” “Bem na sua frente”, respondeu JJ. “Merda, já?”, Freddie suspirou e jogou a cabeça para trás enquanto olhava para o teto.
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    “Ah, Freddie”, eudisse. “Cook disse que você teria que mexer o seu traseiro se você quiser ter alguma chance de ganhar esse joguinho”, eu disse a ele. “Apenas repassando.” “Obrigado.” Freddie olhava para todo lado, menos para o que estava na nossa frente. Mas que lindo grupo de macacos nós formávamos. Depois de um tempo, Freddie sentou-se direito de repente, bateu em seus joelhos com as mãos e disse, “Então... como está indo com a Emily?” “Bem. Ela está de férias com o resto da porra da família Addams.” Ele levantou as sobrancelhas. “Eles me odeiam. Particularmente a gêmea do mal.” JJ se inclinou na direção do Freddie. “É estranho. Mesmo elas sendo idênticas, às vezes esqueço que Katie é irmã da Emily”, ele disse. Sua face se iluminou: “Ei, Freds, tivemos relações sexuais com gêmeas! É como em um filme pornô...”. Seu sorriso se desmanchou. “Digo, pelo o que ouvi dizer.” Freddie esfregou a mão em seu rosto. “Não tem graça”, ele disse. “Ainda me sinto mal por causa disso.” “Eu não me incomodaria”, eu disse. “Katie é uma vadia total. Ela mereceu tudo o que aconteceu.” “Ela não é tão má assim”, Freddie respondeu. Então, vendo minha expressão: “Quer dizer, talvez ela tenha alguns problemas e tal...” “Certo. Enquanto a Effy é um ser humano bem ajustado”, eu disse sem pensar. Freddie cruzou seus braços em seu peito e curvou os ombros. “Que porra isso quer dizer?” “Nada. Tem-se que questionar a saúde mental de alguém que deixaria uma garota inconsciente para poder transar com o namorado dela numa barraca...” eu aspirei. “Só isso.” “Você não sabe de tudo”, disse Freddie furiosamente. “Só cuide da porra da sua vida.” JJ encarou o rótulo de sua garrafa atentamente. “Tudo bem”, eu levantei meu copo pra ele. “Tchau então.”
  • 53.
    Quando fui emborameia hora depois, vi Freddie com uma garota chamada Ashley, que é minha vizinha e corta o cabelo da minha mãe. Eles estavam inclinados contra a parede lateral do clube. Ela estava com a saia na cintura, suas pernas ao redor dele, seus peitos a mostra. Ele estava fodendo-a gostoso. Suas nádegas indo e voltando enquanto ela ofegava para o ar. “Jesus”, eu resmunguei para mim mesma. “Me tira daqui.” Emily Terça, 11 de agosto. Na cama, tarde da noite. A porta se abriu e sua silhueta surgiu. Ela se moveu descalça até a cama. “Katie?”, eu sussurrei. Ela olhou para mim. “Você ainda está acordada?” “Não consegui dormir. Pensando em coisas.” Primeiro ela não respondeu, só tirou seu vestido e seu sutiã e foi para baixo do lençol. Eu fiquei a observando. “Por que você está tão estranha?”, ela disse. “Eu só estava tentando conversar com você”, eu disse, cansada. “Não vou te incomodar de novo.” Katie se contorceu um pouco embaixo do lençol. “Está fervendo aqui”. Ela se contorceu para ficar mais confortável e bateu agressivamente em seu travesseiro, eventualmente me encarando. “Então”, ela disse. “Vamos conversar.” “Eu estava pensando em você hoje, só isso. Sabe, não estamos exatamente nos dando bem atualmente.” “E a culpa é de quem?”, ela disse na defensiva. “Você se voltou totalmente contra mim agora que está com ela. E ela odeia meu jeito de ser.” “É, certo, e você sempre foi a maior fã dela, não é?”
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    “Bem, ela eraassustadora. Te encarando toda hora.” “Katie”, eu sentei. “Quantas vezes eu vou ter que te dizer? Era eu. Era eu que queria a Naomi. Ela não fez qualquer coisa.” “Certo”, disse Katie irritantemente infantil. “O que quer que você diga.” “Então, você teve uma boa noite?”, perguntei, mudando de assunto. “Então você realmente se importa, não é?” “Pelo amor de Deus.” “Certo, então. Se você realmente quer saber. Eu passei a noite com um gigante de três metros chamado Shane. Sem nenhum vestígio de cérebro, mas músculos de aço”, ela fez uma pausa. “Minha mandíbula está agonizando. Ele ficou segurando minha cabeça enquanto eu o chupava. E ele demorou horas para gozar.” Jesus, Katie. “Bem, eu espero que ele tenha retribuído o favor”, eu disse desajeitadamente. “Na verdade, não. Sem retribuição”, ela bocejou. “Mas francamente, eu estava muito exausta para ligar.” “Katie, por que você faz isso?” “Porque não tenho mais o que fazer e estou entediada. Porque me faz parar de pensar como sou medíocre”, ela não olhou para mim. “Isso responde a sua pergunta, sua vadia presunçosa?” “Você não precisa-“ “Sim”, ela puxou suas cobertas, e mesmo apenas com o luar eu podia ver um machucado gigante em sua coxa. “Sim, eu preciso. Eu preciso porque não tenho outra coisa, e eu quero ter alguma coisa, entende? Ser boa em algo.” Eu não sabia o que dizer. Era sombrio demais. Saí da minha cama e fiquei em pé olhando para a dela. “Vai mais para lá, então.”
  • 55.
    Katie se moveupara me deixar ficar do lado dela. Cuidadosamente evitando seu machucado, coloquei o braço em cima de seu estômago e apertei sua cintura. “Não tente algo lésbico comigo”, ela disse. “Tenho de ter algum limite.” Mas senti seus dedos entrelaçando nos meus e sorri na escuridão. “Amanhã”, eu disse, “vamos fazer algo diferente.” Uma pausa. “Como o quê?” “Como ir a Paris. Eu já estou cansada desse lugar de merda.” “Você está falando sério? Eu e você?” “Por que não? Costumávamos gostar bastante uma da outra. Uma vez.” “Verdade”, ela se sentou e me fitou. “Certo, vamos fazer isso.” “Resolvido”, eu sorri, então sonolentamente me virei e fechei meus olhos. “Boa noite, Em”, ela disse se virando para o outro lado. “Durma bem.” Katie Quarta, 12 de Agosto. Bordeaux “Você já está pronta?”, Emily perguntou, aparecendo na porta. “Sim.” “Eu vou esperar no carro”, ela disse. “Não esqueça da pia da cozinha.” “Sim, engraçado.” Ela pegou sua bolsa que estava na cama e me deixou para terminar de arrumar minhas coisas. Eu coloquei mais alguns sutiãs e um vestido na bolsa e olhei ao meu redor para ver se havia alguma coisa que esqueci. Então vi seu telefone, jogado perto de onde sua bolsa estava, observei por um segundo e depois o agarrei rapidamente, coloquei no silencioso, e joguei na minha bolsa. Ela não ia morrer se ficasse sem contato com a Naomi por quarenta e oito horas. “Finalmente, porra... Nós vamos perder o trem”, Emily se moveu enquanto com esforço eu colocava minha bolsa entre nós. Duas vezes o tamanho da dela. Se ela consegue sobreviver
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    com um parsujo e velho de Converse e uma de suas roupas de balada de velha, tudo bem. Mas eu tinha padrões para manter. Meu pai ligou o carro e eu e Emily sorrimos desajeitadamente uma para a outra. “Prontas?”, ele disse. “Prontas.” Trem de Bordeaux à Paris, hora do almoço. “Treze euros, por favor... mademoiselle”, disse o rapaz do bufê para os meus peitos. “Merci beaucoup”, eu disse, mostrando minhas covinhas e ampliando meus olhos. Podia pelo menos dar ao pobre rapaz material para bater uma. Na mesa Emily atacou seu croque monsieur como se não comesse há um mês. Eu comi algumas batatinhas e encostei no banco, tomando café e observando a parte rural da França passando em nossa janela. “Então, vamos esperar que sua boceta não entre em choque”, disse Emily, sorrindo. “Com a falta de ação e tudo mais.” Eu me inclinei na mesa e dei batidinhas em sua mão, “Não se preocupe, farei pouco barulho se eu trouxer alguém para o hotel.” Emily jogou um guardanapo amassado em mim. “Eu vou te matar. Eu reservei um quarto de casal”, ela se levantou e alcançou sua bolsa no bagageiro. “Quer alguma coisa?” Eu balancei a cabeça, mas de repente ela estava cavando maniacamente em sua bolsa. “Sua carteira está ali”, eu disse apontando para a mesa. “Eu sei”, disse Emily impaciente. “Eu não consigo achar a porra do telefone”, ela virou sua bolsa de cabeça para baixo e chacoalhou em cima da mesa fazendo com que chovesse papel de bala, algumas coisas felpudas e alguns absorventes. Um deles tinha perdido metade do invólucro. Eca. Ela puxou o forro de sua bolsa até ele ficar pra fora. Desista, eu pensei. Obviamente não está aí. “Eu não consigo acreditar”, disse Emily praticamente chorando. “Como eu posso ter deixado meu telefone? Estava na minha cama, eu sei que estava.”
  • 57.
    Eu tentei parecersimpática. “Não se preocupe, Emily. É só por alguns dias, depois você vai tê- lo de volta.” “Eu sei...”, ela mordeu seu lábio e olhou pra bagunça na mesa. “Me empresta o seu? Só por um minuto, para eu poder dizer a ela que não ligarei por dois dias.” Porra. Eu entreguei meu telefone para ela. Eu não podia dizer não. “Obrigada, Kate. Não vou demorar”, ela disse e andou até o corredor na direção do bufê, o telefone já em sua orelha. Eu fiz uma careta, mas liguei meu iPod e fechei meus olhos, deixando Amy Winehouse e o movimento do trem me embalarem para eu dormir. Ou teria feito isso, se minha irmã não tivesse batido em mim quando voltou. “Ai, isso doeu pra caralho”, eu disse, esfregando meu braço. “Desculpa”, disse Emily, sua boca cheia de chocolate. “O trem sacudiu.” “Como foi?”, eu disse, tirando meu fone de ouvido. “Foi direto para a caixa postal”, disse Emily. “Vou tentar de novo depois.” Coloquei meu fone de volta. De repente eu não estava com humor para conversar. De qualquer jeito, um cochilo até Paris iria me deixar preparada para a noite que estava por vir. Eu e Emily não íamos a um clube juntas há meses. Naomi Quarta, 12 de Agosto. Bristol. “Aonde você está, caralho?”, ouvi o telefone de Emily chamar, chamar e ir pra caixa postal pela porra da quinta vez. Eu não deixei uma mensagem. Já tinha deixado duas. Eu levantei e andei pelo meu quarto. Eu estava tão tensa que se alguém me tocasse eu iria arder em chamas. Minha ideia de pesadelo. Eu, me preocupando tanto por causa de outro ser humano. Vá se foder, Emily, eu pensei. Queria não ter te conhecido, porra. “Naomi?”, a voz da minha mãe veio do andar de baixo. “Quer chá?”
  • 58.
    Eu hesitei, respireiprofundamente algumas vezes. Se acalme, se acalme. Não importa. Ela provavelmente está na praia ou algo assim. Ela não está sem te ligar intencionalmente. “Sim. Vou descer em um segundo”, eu me olhei no espelho e passei os dedos no cabelo. Estou deixando crescer. Está naquela fase em que fica uma merda. Aparentemente, eu também estou. Desci e encontrei Kieran na mesa da sala de jantar. Ele estava olhando vários trabalhos. O meu poderia estar no meio deles. “Me dá 10, Kieran”, eu disse. “Desconto de família.” Ele pareceu confuso por alguns segundos, depois riu desajeitado. “Certo. Sim... entendi. Muito engraçado, Naomi”, ele pegou sua caneca e tomou um gole de chá. “Você tiraria 10, de qualquer forma. Você é minha aluna de ouro.” “Sim, sim”, eu disse. Eu fui com a ponta dos pés para trás dele e dei uma olhada por cima de seu ombro. “Vamos ver.” Ele agarrou os trabalhos em seu peito. “Você deve estar brincando.” Eu sentei de volta. “Valeu a tentativa”, eu suspirei. Por alguns momentos consegui esquecer que era uma louca paranóica. Talvez passar um tempo com o Kieran fosse a solução. “Aonde está minha mãe?”, eu perguntei a ele. “Quê? Ah, ela está... ela está...”, ele disse distraído. Ele estava circulando um parágrafo com caneta vermelha. Eu esperei. Ele terminou de rabiscar na margem e olhou para cima. “Ah, sim. Desculpa. Ela está no jardim, acho. Fazendo alguma coisa, ou...”, ele dispersou novamente. Eu desisti e me servi uma xícara de chá. Nós nos sentamos no que pode ser chamado de silêncio sociável por uns cinco minutos, até ele finalmente botar a tampa em sua caneta e guardar os trabalhos em sua bolsa de couro velha e surrada. “Então, Naomi”, ele disse claramente. “O que vai fazer com o resto da sua vida?” Eu enchi minha bochecha e soltei todo ar. “Engraçado você falar isso.”
  • 59.
    Ele me fitousério. “Você me parece o tipo de garota com um ‘plano’”, ele disse, fazendo aspas no ar. Meus lábios se contraíram. Que idiota. Um idiota com boas intenções. Ele continuava me olhando, determinado. Eu respirei alto novamente. “Eu tinha. Mais ou menos.” “Tinha?” “Tenho. Tinha. Que seja”, eu disse, balançando minha cadeira. “Você vai se inscrever em universidades ano que vem?”, ele continuou. “Isso é uma orientação profissional oficial?”, eu disse, começando a ficar irritada. Kieran sorriu, mas não respondeu. “Sim, provavelmente vou me inscrever em universidades”, eu disse, finalmente. “Provavelmente?” “Eu não sei, certo? Eu não sei o que vou fazer”, eu coloquei minha cabeça entre as mãos. Maldita Emily. Me deixando incerta. Eu ergui minha cabeça. Kieran estava enrolando um baseado. “Aqui”, ele disse acendendo o baseado e me entregando. “Tente ficar relax, ou seja lá o que for que vocês jovens dizem”. Dessa vez eu ri alto. “Nós certamente não falamos isso!” Kieran deu de ombros, bem-humorado. Ele brincou com suas mãos na mesa, como se estivesse pensando se dizia ou não alguma coisa. “Vamos lá”, eu disse. “Desembucha.” Ele apontou para o baseado. “Olha, não é da minha conta, mas acho que se você não tentar entrar em universidades vai trair a si mesma”, ele parou para fumar. “Você tem ambição, Naomi, isso é óbvio pra caralho. E não é só uma merda sem sentido de ‘quero ser famosa’. É concreto. Você tem o potencial e, apesar de não precisar necessariamente ir à universidade para conseguir o que quer, eu acho que é daí que você quer começar. Se negar isso a si mesma...”, ele parou e levantou da mesa. Ele começou a circular pela pilha de coisas perto da torradeira e tirou um pedaço de papel do meio dos cardápios de restaurantes, contas e folhetos que minha mãe ainda não tinha colado na janela.
  • 60.
    Eu podia sentiralgo se agitando dentro de mim. Fiquei lisonjeada. Logo por Kieran. Lisonjeada e constrangida. “Aqui”, ele disse. “Eu imprimi isso para você.” Era a propaganda de um dia aberto, aqui em Bristol, para cursos políticos em Yale, uma grande universidade americana. “Nada a perder”, disse Kieran. “Talvez”, eu disse indiferente, observando a propaganda, absorvendo cada detalhe. “A decisão é sua, é claro”, ele tragou o resto do baseado e apagou a ponta no cinzeiro. “Mas pensamentos claros são vitais nesse ponto da sua vida. Não importa o quão sedutoras... as distrações possam parecer...” Minha mente estava batalhando com meu coração. Esse plano não incluía Emily. Mas Emily me fez mais feliz do que jamais estive. “Obrigada, Kieran”, eu disse guardando a propaganda na bolsa. “Vou pensar seriamente nisso.” Voltei lá para cima e deitei em minha cama. Tirei a propaganda da bolsa e a observei. Animação e possibilidades se misturando com culpa. Eu peguei meu telefone e apertei rediscar. “Oi, aqui é a Emily. Não estou. Volto logo. Você sabe o que fazer!”, eu suspirei pesadamente e me virei de costas. “Não faça isso comigo, por favor”, eu murmurei, ainda segurando o futuro em minhas mãos. Katie Quarta, 12 de agosto. Hotel, noite. “Por que você não pode fazer um esforço?”, eu perguntei à minha irmã, vendo seu vestidoblusa cinza amassado e seu Converse. “Nós estamos em Paris, pelo amor de Deus.
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    Como em chiqueparisiense?”, eu gesticulei a mim mesma, que estava gostosa (modéstia a parte) em um vestidinho preto e salto escarlate. Ela não se incomodava por eu estar muito melhor que ela? Emily pulou da cama onde estava lendo enquanto eu me arrumava. “Essa sou eu, Katie”, ela disse, abrindo a porta. “Lide com isso.” Por que ela simplesmente não colocava um macacão e mostrava o pêlo das axilas? Vai para um buraco, sua porca. Eu realmente não a entendia. Mas, fora do hotel, nós duas nos animamos. É difícil ficar rabugenta em uma noite de verão em Paris, e era legal ser apenas nós duas de novo. “Que lugar é esse mesmo?”, eu perguntei. Emily estava seguindo um mapa que tinha arrancado de um livro turístico. “Café Baroc. Noite dos anos oitenta”, ela disse, virando a página para conseguir orientação. “É longe?” “Mais ou menos... quinze minutos de caminhada.” “Que inferno, Emily, esses sapatos estão me torturando. Não podemos pegar um táxi?” “Se você vir algum, sinta-se livre para sinalizar”, ela respondeu, me entregando uma garrafa de vinho que pegamos mais cedo. Eu dei um gole e devolvi. “Não se preocupe”, ela disse secamente. “Eu seguro.” O clube era legal. Um pouco brega – e não estou entendendo o que tanto falam sobre os homens franceses. Alguns deles me olharam de cima a baixo quando chegamos, mas não do jeito que os garotos na Inglaterra fazem. Era como se eles se sentissem superiores. Eram os mais velhos que pareciam mais interessados. Continuem sonhando. Eu não vou tocar nessas bundas caídas, não importa a quantidade de perfume Eau Savage que tenham usado. Me senti um pouco deprimida, para ser honesta. Não importava o quanto eu bebia, eu não estava ficando bêbada. Emily parecia totalmente feliz apenas dançando sozinha, olhando para ninguém ao nosso redor. Mas eu não sabia o que fazer comigo mesma. Eu fui de me sentir irresistível a me sentir um desperdício de espaço.
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    Emily segurou minhasmãos. “O que aconteceu?”, ela disse. “Você estava tão animada para vir aqui mais cedo.” “Sim.” Eu tentei sorrir, mas minha boca não cooperava. “Eu estava. Eu estou”, eu dancei desajeitada em sua frente. Era como se tivéssemos 10 anos, na festa de fim de ano da escola ou algo assim. “Katie?”, Emily se moveu mais pra perto. “Por que você não pode simplesmente relaxar?”, ela estendeu sua garrafa de cerveja de frutas. “Bebe.” Eu tomei um gole. Nada. Senti um misto de solidão, e completa falta de objetivo em mim. Eu não conseguia me conter. De repente lágrimas estavam rolando em minha face. “Katie?”, Emily parou de dançar. “Querida, o que está acontecendo?”, ela me abraçou. Sentir seu cheiro almiscarado familiar e me agarrei a ela mais apertado. “É... nada. Eu estou bem”, eu esfreguei meu rosto. “Só estou sendo uma idiota.” “Vem aqui”, Emily me levou a um banco perto do bar. “Vai ficar tudo bem, Katie”, ela disse. “Só estão sendo tempos estranhos”, ela terminou sua cerveja. “Também é estranho pra caralho para mim, sabe...” Eu pensei quanto tempo ela demoraria. Eu dei de ombros, me sentindo a milhões de kilômetros de distância dela novamente. “É, bem. Aproveite enquanto dura.” Os olhos de Emily se estreitaram. “O que isso significa?” “Nada dura, só isso”, eu disse, com os olhos sem lágrimas de novo. “Não se pode depender de alguém.” “Sim, pode...”, ela disse, parecendo incerta. “Nem todos são imbecis retardados”, ela mordeu o lábio. “Que horas são?” “Meia noite”, eu disse, checando meu telefone. “Me empresta isso?” Eu o segurei atrás das minhas costas. “Agora não, Em. Ela está dormindo. Espere até de manhã.”
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    “Ah, vamos lá.Só vou deixar uma mensagem.” Eu suspirei alto e entreguei meu telefone, e olhei enquanto Emily deixava a quinta mensagem do dia. Eu senti uma pontada de culpa. Era tão ruim assim Emily estar feliz? De volta ao hotel, nós sentamos na cama bebendo vinho e comendo aqueles bolinhos que dão de graça em supermercados da França. “Meus dentes estão engraçados”, ela disse esfregando-os com a ponta do dedo. “É culpa do bolo barato”, eu disse. “E o vinho de dois euros e a cerveja doce nojenta.” Emily brindou minha taça, bêbada. “Ninguém poderia nos acusar de sermos chiques.” “Fale por si mesma”, eu disse, soluçando. “Justo”, seus olhos passaram pelo meu celular na cama. Eu o deixei fora de vista. “Me pergunto porque Naomi não responde”, eu disse. “Não sei. Talvez ela não seja o tipo que fica por aí reclamando e essas merdas? Ela é mais do que isso.” Emily caiu na cama. “Me deixa em paz, Katie.” “Mas”, eu prossegui. “Você não disse que ela não gosta de ser rotulada... como lésbica e tal? Talvez ela esteja um pouco assustada.” Silêncio completo. Eu segurei minha respiração. “Eu vou pra cama”, disse Emily friamente. Ela tomou outro gole de vinho. “Mas eu nunca vou te deixar”, eu esfreguei sua perna. “Você sempre vai ter a mim.” “Que doce”, ela disse, entregando o vinho e indo para baixo das cobertas. “Só me deixa em paz, pode ser?” “Jesus Cristo”, eu disse para suas costas. “Você foi que quis vir para cá. Agora você está me excluindo de novo.” “Você é uma mentirosa, Katie”, disse Emily. “Fingindo que está interessada em mim e na Naomi. Você só quer enfiar a faca em nós o tempo todo. Não consegue evitar. Você está com
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    inveja. Não éminha culpa se sua auto-estima está lá embaixo e você só consegue se sentir melhor deixando qualquer coisa que se mova te comer.” Eu surtei e peguei o cabelo dela, colocando meu rosto perto da dela. “Pelo menos eu não sou uma sapatazinha idiota que só consegue outra sapata miserável pra chupá-la. Pelo menos eu consigo pinto de verdade.” “Não, você é uma idiota patética”, Emily rosnou. “Cai FORA!” Ela me empurrou com tanta força que eu caí de costas da cama. Doía pra porra. Outro machucado para adicionar a minha coleção. Eu disse nada. Só fiquei lá parada, chocada, até que eventualmente a ouvi roncando. Eu me levantei e fui, tipo, em câmera lenta até o banheiro. Me despindo na frente do espelho de corpo todo, eu evitei olhar para os machucados na minha perna. Quando tirei minha maquiagem, olhei para meu rosto limpo no vidro. Uma vadiazinha infeliz e feia me olhou de volta. Eu apontei meu dedo para o reflexo. “Você é uma vadia estúpida e solitária. Nunca encontrará alguém para te amar assim”, eu disse ao meu rosto. “Ninguém iria dar a mínima se você não estivesse aqui.” Eu olhei para as minhas roupas no chão. Nada havia sobrado para mim. Emily Quinta, 13 de Agosto Hotel em Paris, manhã “Katie, se apresse”, eu disse para a porta do banheiro. “Eu realmente preciso fazer xixi.” Sem resposta. Jesus. Ela continuava emburrada? Eu bati na porta, que se abriu e revelou um banheiro vazio. Eu fiquei encarando, confusa. Que porra? Talvez ela só tenha ido dar um passeio, ou ido para a recepção? Eu pensei. Liguei para a recepção e depois de cinco minutos de uma comunicação ruim e ridícula com o cara que
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    estava atendendo obalcão, descobri que Katie não passou por ali desde o começo de seu turno. Às 6 da manhã. Eu desliguei o telefone e sentei na cama respirando profundamente. Parecia que ninguém havia dormido em seu lado. Eu observei o quarto. E ela tinha levado todas as suas coisas. “Não entre em pânico”, eu sussurrei para mim mesma. Mas aonde ela estaria? Eu pensei na noite passada. Ela no clube. Nunca a tinha visto daquele jeito. Meio derrotada. Aquela discussão horrível tarde da noite. Eu estava furiosa porque ela não me deixou usar seu telefone. Bati com força na cama. Porra dez Katie, por que ela sempre tinha que ser a porra da rainha do drama? Eu fui até a minha mala e peguei algumas roupas. Ela não podia ter ido longe. Eu pensei em telefonar para minha mãe, mas decidi esperar um pouco. Ela só ia me dar uma bronca por ter sido horrível com a pobrezinha da Katie. Mas eu estava tremendo quando entrei no elevador para descer. E se ela tivesse sido atacada? Ela era boa de dar uma de mal- humorada, mas não era tão forte assim. Eu apertei o botão do térreo com força. Se apresse, caralho! Precisava sair para encontrar minha irmã. Procurando pela Katie “Ma soeur est perdu”, eu disse pela centésima vez. “Elle est comme moi”, eu apontei para meu rosto. “Vous avez elle vu?” Não sabia se isto estava certo, mas as pessoas pareciam captar a ideia. A garota por trás da caixa registradora deu de ombros. Não, ela também não a tinha visto. Ninguém a tinha visto. Eu nem sabia por que estava perguntando nessa loja, exceto por ser perto do nosso hotel. Cabides de roupas vintage com pó tinham nada a ver com a Katie. Eu desisti. Meu estômago roncou alto. “Excusez moi”, murmurei para um cliente entrando na loja. Realmente precisava de algo para comer. Me sentia como se estivesse prestes a desmaiar. Andei um quarteirão até passar por um calmo café na esquina. Eu entrei. Era pequeno, as paredes cobertas com telas gigantes de arte contemporânea, plantas por todo o lugar e uma coleção de mesas e cadeiras incompatíveis. Almofadas de veludo esmagadas estavam
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    espalhadas por umsofá velho de couro e havia uma jukebox antiga no canto. Maneiro. Eu gostei. Uma garota alta, com um olhar severo usando com um vestido de couro apertado estava fazendo café atrás do balcão. Ela olhou para cima e sorriu para mim, enquanto eu olhava a fileira de doces gigantes no bar. “Bonjour... Ca va?”, disse a garçonete sorrindo. “Qu’est-ce que tu veux, cherie?” “Ca va”, eu sorri de volta, sentando no banco perto da janela. “Un pain au raisin et... un café au lait”, eu apontei para os doces para um melhor entendimento. “Merci.” Duas garotas estavam sentadas do meu lado, em uma conversa profunda. Enquanto eu esperava pela minha comida, uma delas levantou a cabeça para me olhar de cima a baixo. Olhei para o outro lado me sentindo autoconsciente. Quando meu doce chegou, eu o devorei. Mastiguei rapidamente, olhando para a minha frente. Um jazz estava tocando baixo ao fundo. Enfadonho. Eu tomei goles do meu café e depois repousei no encosto. Uma ponta de cansaço surgiu em mim, mas eu relutei. Eu precisava de mais cafeína. Eu não poderia relaxar. “Certo!”, sibilou a garota ao meu lado para sua amiga, em inglês. Ela começou a tirar dinheiro de sua bolsa e jogou algumas moedas no balcão. “Não há mais o que dizer, eu não posso fazer isso agora...”, ela pegou sua bolsa e pulou do banco. “Sara, espera”, disse sua amiga. “Me ligue-”, mas a garota já estava lá fora. Eu rapidamente estudei a máquina de café. “S’il vous plait”, eu pedi para a garçonete. “Un autre...”, e apontei para o meu café. “Ah”, ela disse, amigavelmente. “Você é inglesa?” Eu concordei com a cabeça. “É tão óbvio?” A garota perto de mim girou em seu banco. “Sabe, o seu francês é decente”, ela disse. “Pelo menos você se esforça.” Ela trocou olhares com a garçonete, que tinha começado a fazer café. “Então”, disse a garota. “Meu nome é Anna.”
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    “Emily”, estendemos nossasmãos uma para a outra desajeitadas e balançamos. “Você está de férias?”, ela era alguns anos mais velha que eu, com os cabelos de uma cor louro escuro com uma faixa do tipo de estrela de cinema dos anos quarenta e um batom vermelho imaculado. “Só estou passando alguns dias em Paris...”, eu disse. “Estou na verdade procurando pela minha irmã... ela desapareceu noite passada.” Seus olhos se arregalaram. “Ah, não”, ela disse preocupada. “Você tem uma foto? Talvez eu a tenha visto em algum lugar.” Eu balancei a minha cabeça. “Eu não tenho uma foto, mas ela é minha gêmea. Ela se parece comigo.” Anna se inclinou em minha direção e examinou meu rosto. “Non”, ela disse gentilmente depois de um minuto. “Não vi alguém parecida com você. Sinto muito.” Ela falou em francês com a garçonete, que tinha colocado uma segunda xícara de café na minha frente e estava limpando uma das mesas. Anna se voltou para mim. “Bene disse que viu uma garota – com o cabelo como o seu, pele pálida – mais ou menos às duas da manhã ontem à noite. Estava escuro, mas ela tinha uma bolsa brilhante com ela. Um vestido muito curto?” “É ela!”, eu disse animada. “Aonde ela estava?” “Perto da Rua Cavare”, disse Bene, vindo e movendo seu pano sobre o balcão. “Ela estava um pouco chateada. Meus amigos e eu iríamos perguntar se ela estava bem, mas ela fugiu de nós.” Pobre Katie. Eu fechei meus olhos. Eu disse para ela dar o fora. E ela deu. Anna observou meu rosto. “Olha, eu posso perguntar por aí hoje”, ela disse. “Talvez mais alguém tenha visto sua irmã”, ela bateu em meu joelho. “Alguém tão bonita quanto você... alguém tem que ter notado.” De todos os bares de todo o mundo. “Obrigada, isso é muito gentil.” Ela balançou sua mão. “De rien. É nada. Fico feliz por te ajudar.”
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    Eu a viaplicando mais batom habilmente. “Aquela era sua namorada, antes?” Anna guardou seu batom. “Minha ex-namorada”, ela disse dando de ombros. “A partir de agora”, ela suspirou. “Ah, esses relacionamentos malditos. Eles me desgastam.” Eu ri. “Sei o que quer dizer.” “Você tem namorada?”, Anna perguntou casual e rapidamente. “Eu... er. Tenho. Muito nova”, eu estava ficando vermelho para caralho. “Ela está na Inglaterra.” “Ela é uma garota de sorte”, Anna me observou brincando com a minha xícara. “Escuta”, ela puxou algumas notas em direção a Bene. “Eu tenho algumas horas livres hoje. Eu posso te levar a alguns lugares... que sua irmã talvez possa estar.” Eu hesitei. “Tem certeza? Isso seria genial.” “Claro. Quando você terminar sua bebida eu te ajudo”, ela sorriu. “Não tem problema algum.” Dez minutos depois Anna e eu estávamos indo para seu bairro. “Vamos começar com as cafeterias e os bares daqui”, ela disse vigorosamente. E andamos por quilômetros, Anna disparando falando em francês com todos que encontrávamos e seguindo em frente segundos depois. Ninguém tinha visto a Katie. Eu senti o medo crescendo em mim. Isso era mais que uma birra. Eu devia estar parecendo tão preocupada quanto eu me sentia, porque Anna colocou seus braços em mim. “Não desista”, ela disse. “Paris é maior do que você pensa. Vamos parar e fazer outro plano.” Nós estávamos do lado de fora de um prédio com janelas pintadas de dourado e preto. “Esse é o 3W, meu café favorito”, ela pausou. “Significa Mulher com Mulher. Vamos parar para uma bebida.” Eu me senti inquieta. “Obrigada, mas eu preciso continuar procurando minha irmã.” Anna suspirou. Ela estendeu a mão e tocou minha bochecha. “Eu entendo. Mas eu ainda gostaria de te ajudar. Você parece tão sozinha”, ela tirou algo de sua bolsa. “Aqui”, ela me
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    entregou um cartãode trabalho espesso com o seu nome e seu numero de celular em tinta roxa e em relevo. “Se você mudar de ideia, vou estar aqui essa noite. A partir das nove.” “Obrigada”. Duvidava que fosse vê-la novamente. Tirando o fato de que minha irmã estava em algum lugar de Paris, fazendo só Deus sabe o que, tinha alguma coisa sobre a Anna que me deixava desconfortável. “Eu vou ver o que faço.” Deixei Anna e achei meu caminho de volta ao hotel. Eram três da tarde e Katie não estava em lugar algum. Está tudo bem, eu disse a mim mesma. Ela vai voltar. Ela tem de voltar. De volta ao hotel Eu dei vinte euros para o serviço de quarto e deitei em uma das camas esperando pela minha comida. Eu me desloquei desconfortavelmente, alguma coisa dura estava machucando minhas costas. Eu procurei embaixo de mim e minha mão se fechou em volta de um objeto familiar. Meu celular. Que. Porra? Eu o encarei, tentando lembrar quando perdi a consciência e sonhei as últimas vinte e quatro horas. Meu telefone estava aqui? E quem o deixou no silencioso? Katie. Eu já a tinha visto fazendo isso com seus namorados. Porra de cleptomania paranóica. Ela tinha afanado meu celular, esperando que eu e Naomi não mantivéssemos contato. Você não deveria ter se incomodado, eu pensei. Naomi obviamente não se importa, de qualquer jeito. Apesar de seu joguinho safado, a ideia de Katie vagando por Paris sozinha e miserável afastou meus sentimentos sobre Naomi estar fora de área. Eu não conseguia tirá-la chorando no clube da minha mente. Katie nunca faz isso. Ela é a confiante. E eu só ignorara o ocorrido e começara a falar da Naomi de novo. O pensamento da minha irmã invencível caindo aos pedaços era como alguém atacando o chão em que eu piso. Eu passei pela minha lista de contatos até achar o telefone da Naomi, mas a luz vermelha piscou uma vez e então a tela ficou preta. Minha bateria tinha acabado. Eu não podia nem checar minhas mensagens.
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    Eu rosnei defrustração. Eu teria que usar o telefone do quarto para ligar para minha mãe. Iria custar a porra de uma fortuna, mas era uma emergência. O telefone tocou por séculos. Eu estava quase desligando quando minha mãe atendeu, sem fôlego. “Mãe. Sou eu. Emily”. “Olá, querida...”, ela soou confusa. “O que está acontecendo.” “Katie desapareceu.” Uma pausa. “Você telefonou para ela?”, minha mãe disse. “O número dela está no meu telefone, e minha maldita bateria acabou”, eu disse, parando na verdade. “Ela está-“ Minha mãe me cortou. “O que você fez agora?” “Nada. Nós tivemos uma briga”, eu disse. “Acredite ou não, eu não saio do meu caminho para alienar a Katie. Eu que fiz a sugestão de virmos para Paris, em primeiro lugar, caralho!” “Não fale palavrão, querida”, disse minha mãe, soando mais calma. “Eu sei que você não está fazendo isso intencionalmente. Mas você mexeu com ela e ela está vulnerável no momento. Sua confiança foi duramente derrubada.” Que ótima forma de fazer com que eu me sinta mal, mãe, eu pensei, fechando meus olhos. Porra. E se Katie fizesse algo realmente idiota? Eu ouvi minha mãe dizendo ao meu pai para ligar para Katie no celular, então ela me disse “Certo, olha, você fica aí. Ela provavelmente vai voltar para o hotel.” “Está bem, eu vou reservar outra noite. Meu pai conseguiu falar com ela?” “Não. O telefone dela está desligado”, a voz da minha mãe vacilou. “Tenho certeza de que vai ficar tudo bem. Vamos continuar tentando falar com ela.” “Mãe?”, eu disse. “Desculpa.” “Tenho de ir”, disse minha mãe rapidamente. “Eu te aviso assim que conseguirmos falar com ela.”
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    Eu sentei encarandoa cama da Katie. “Katie”, eu sussurrei. “Volte, sua vadia bobinha.” Eu fui acordada pelo telefone do hotel tocando. Eu me sentei desorientada. “Alô?” “Emily, é a sua mãe. Katie finalmente nos ligou.” “O quê? Onde ela está?”, eu estava completamente acordada agora. “Ela ainda está em Paris”, disse minha mãe. “Ela soou muito estranha. Muito quieta.” “É?”, eu puxei meus joelhos para perto de meu peito, o alívio batendo em mim. “O que ela disse?” “Ela não vai voltar por um tempo. Disse alguma coisa sobre pegar um desvio para Veneza. Aparentemente sua amiga Effy está lá com a mãe”, minha mãe fez uma pausa. “Tenho de dizer, parece bem estranho para mim... considerando o que aquela garota maldita fez com a Katie.” “Sim”, eu franzi a testa. “Muito estranho”, eu não conseguia evitar estar um pouco chateada por Katie preferir passar um tempo com a Effy – de todas as pessoas – a tentar resolver as coisas comigo. “Ela deve ter seus motivos, eu suponho. O importante é que ela está bem.” “Exatamente”, minha mãe disse. “Agora, amor, que horas é o seu trem?” Eu pensei por um momento. “Eu vou voltar amanhã”, eu disse. “Eu já reservei outra noite aqui. Poderia muito bem fazer uso dela.” “Certo. Eu não vou ficar feliz até que as duas estejam aonde eu possa vê-las”, disse minha mãe. Ela suspirou. “Mas acho que vocês não são mais crianças.” “Eu vou voltar amanhã de manhã”, eu disse. “O mais cedo possível.” Eu coloquei o telefone de volta e pensei por um minuto. O drama estava acabado. Vadiazinha, eu pensei, e que típico.
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    Eu precisava deum banho quente e um pouco de vodka. Eu pensei em chamar mais serviço de quarto, olhando para o telefone. Então meus olhos viram o cartão de Anna na mesa de cabeceira. Eu o peguei, brincando com ele para lá e para cá entre meus dedos. Katie continuava viva. Naomi não queria saber. Eu estava cansada de ficar para baixo. Não iria doer se eu saísse para uma bebida. Eu fiz mais uma ligação. Paris à noite Eram cinco para as nove, mas Anna já estava esperando com calças aveludadas, camiseta estampada e um chapéu enorme. Ela deveria estar horrível pra caralho, mas não estava. “Eu estou tão feliz que tenha vindo”, ela disse me beijando nas duas bochechas. “Boas notícias sobre da sua irmã!” “Sim”, eu disse ironicamente. “Um pouco de petulância, isso é tudo.” Anna sorriu, colocando seu braço em volta do meu. “Você não fica com calor?”, eu perguntei quando começamos a andar. “Sim, muito”, ela respondeu. “Mas estou com uma boa aparência, non?” “Sim. Eu gosto de seu chapéu.” “E eu amo sua roupa. É adorável”, ela disse, admirando meu vestido de baile vintage dos anos cinquenta. Uma adição de última hora na minha mala para Paris, graças a Deus. “Então, vamos para Violette, o clube de lésbicas plus branché de Paris. Você provavelmente entraria sem mim”, ela admitiu, me olhando de cima a baixo. “Mas teria de ficar na fila.” Certo. Me sentindo levemente intimidada, mas nada demais. Violette era banhado em luzes roxas e vômito. Em todo lugar que eu olhava havia garotas: dançando, segurando as mãos, rindo, se beijando. Ninguém olhou pra mim como se eu fosse falsa ou não merecesse estar ali. Eu me senti relaxada quase imediatamente. Sem olhares tortos ou sussurros cobertos por mãos. Era tão normal. “Você gostou?”, gritou Anna, me tirando do devaneio. “Sim!”, eu gritei de volta. “É ótimo!”
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    Anna pareceu encantada,como se eu tivesse lhe dado um presente e segurou minha mão. “Vamos lá, eu vou te apresentar minhas amigas.” Ela me levou pelo bar e por uma cortina pesada e bordada para uma sala pequena e mais intima. “Anna!”, gritou uma voz de um grupo de garotas perto da janela. Ela acenou e me guiou para um banco forrado com veludo perto da janela, aonde quatro meninas bem feitas e imaculadas estavam espalhadas bebendo vinho. Duas delas estavam sem blusa. Eu tentei não encarar. “Pessoal, essa é minha amiga inglesa, Emily. Emily, essas são mes filles.” Ela as apresentou por nome, mas eu só memorizei Danielle, uma garota pequena e bonita com um afro e um piercing no mamilo que deu batidinhas no espaço do lado dela. Eu me sentei e alguém me entregou uma taça de vinho. Uma terceira garota, menor e de cabelo curto, vestindo um terno de homem, abriu um pacote de pó branco em uma mesa ao lado e cortou em seis linhas. Cheiraram uma de cada vez, mas eu me segurei. Eu nunca tinha usado cocaína. Eu as observei, com a porra do papelão enrolado. “Você não gosta?”, perguntou Anna, sorrindo e gesticulando para a última linha. “C’est tres pure.” Eu hesitei só por alguns segundos. “Hm, certo. Obrigada”, eu disse me ajoelhando e de algum modo conseguindo que algo entrasse no meu nariz. Eu sentei de volta no banco, observando alegremente em minha volta. The Caves, com seus copos plásticos de vodka e uma vibe hétero agressiva parecia a um mundo de distância, eu pensei, vendo uma garota pequena beijando uma mulher muito alta na outra ponta. Anna terminou a conversa com uma de suas amigas e veio se ajoelhar na minha frente. “Então, petite Emily”, ela disse. “Eu tenho algo para te mostrar”, ela colocou uma grande unha com esmalte preto nos lábios e arregalando os olhos ela sussurrou, “Um segredo.” Ela nos guiou para uma passagem para fora da sala, e então por uma porta de emergência de incêndio e por algumas escadas. A música foi ficando mais silenciosa até que se tornou um eco quando chegamos ao topo, onde Anna abriu outra porta e nós entramos. Carpete de carmesim, sofás de borgonha e cortinas castanho avermelhadas mulçumanas penduradas no teto. Vermelho por todos os lados. Naomi diria que estávamos entrando no inferno. Porra. Naomi. Eu não podia esquecer dela, mas estava lutando para lembrar dela
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    porque eu pareciaestar vendo e ouvindo tudo tão intensamente. Eu me sentia como Alice no País das Maravilhas. Eu explodi em risos. Me coma! Eu olhei para Anna, que sorriu e tocou meu cabelo, mas eu não podia ter dito alto. O quarto estava se contorcendo com mulheres nuas ou mulheres seminuas de todas as idades. A maioria estava só conversando, acariciando uma a outra ou se beijando. Meus sentidos estavam exagerados. Parecia que tinha dormido por dezoito horas e poderia dançar para sempre. De repente Danielle apareceu perto de mim, junto com as outras. “Ca va?”, ela disse segurando minha cintura. “Você gosta daqui?” Eu só sorri estupidamente como resposta. Ela olhou por cima da minha cabeça para Anna e então eu senti os braços das duas envolvendo minha cintura. “Venha aqui”, disse Danielle, me empurrando gentilmente para um grande sofá cama. Eu fechei meus olhos. Pensei em Naomi. Empurrei o pensamento para trás de novo. É só por uma noite. De repente saiu música dos alto falantes. Tipo pop francês ambiente. Anna começou a balançar lentamente tirando suas roupas. Ela tinha peitos grandes e firmes e uma cintura minúscula. Eu não conseguia tirar os olhos dela. Ela se virou e se foi em direção a Danielle. Danielle estava mexendo seus quadris, correndo sua língua por seus lábios perfeitos. Eu sorri, meu coração acelerando, mas balancei a cabeça. Eu não podia fazer coisa alguma. Podia assistir, apenas isso. Anna estava na minha frente de novo, e sem tirar os olhos de mim, lambeu seu dedo e se segurou para que eu visse o que ela estava fazendo. Eu me mexi no sofá, olhando enquanto seu dedo se movia cada vez mais rápido. Em menos de um minuto ela estava gozando, seus olhos se virando, incontroláveis. Então ela terminou, e seus olhos se fecharam por alguns segundos. Quando ela os abriu de novo, ela disse pra mim. “Você quer uma, Emily?”, ela disse. Eu fiz que não com a cabeça. De jeito nenhum eu iria trair a Naomi. Como se estivesse lendo a minha mente ela disse. “Está tudo bem, você pode ficar nos olhando... se você gosta”, ela
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    estendeu a mãopara pegar a da Danielle e empurrou-a para o chão, aonde gentilmente ela começou a tirar suas roupas. Eu olhei em minha volta, mas ninguém parecia dar a mínima. Anna estava beijando o pescoço de Danielle, seus olhos em mim, então ela foi mais para baixo e começou a circular seus mamilos lentamente com a língua. Senti como se tivesse que olhar para o outro lado, mas eu não queria. Quando Anna se moveu para ficar entre suas pernas, Danielle jogou a cabeça para trás, sua respiração ficando como suspiros enquanto Anna fazia com mais força, suas mãos se segurando as pernas de Danielle. E então Danielle gozou, com uma fina camada de suor em cima dela. Eu percebi que minha respiração tinha aumentado, meu coração batendo alto em meus ouvidos. Fechei meus olhos, e então a música e os sons do quarto voltaram. Quando eu os abri de novo Anna estava me olhando. Ela sorriu: “Você gostou disso, Emily?” Eu fiz que sim com a cabeça. “Bom”, ela acariciou a bochecha de Danielle, e então as duas se vestiram. Depois de Anna ter aplicado mais batom, ela estendeu a mão pra mim. “Vamos lá”, ela disse. “Nós pedimos comida.” Eu me levantei tremendo e olhei em minha volta. As outras estavam só sentadas conversando, dividindo tigelas de batatas fritas finas. Agindo como se fosse um maldito café da manhã de donas de casa. Minha respiração diminuiu um pouco, mas meu coração continuava batendo forte no meu peito. Me senti estranha. Anna e Danielle estavam sussurrando uma com a outra e me olharam. Que porra elas estavam dizendo? De repente eu senti que essas pessoas não eram minhas amigas. Anna não estava mais sorrindo. Ou eu só estava sendo sensível demais? Eu fiquei por outra hora, até meia-noite, mas passei o tempo olhando vagamente em minha volta, com adrenalina, sem ouvir direito a conversa das garotas. Uma ou duas vezes eu senti a mão de Anna acariciando minhas costas, mas eu me contraia para me afastar. Eu tomei duas vodkas triplas e comecei a tremer. Eu tinha de ir agora. Estava começando a me sentir triste. De volta ao hotel eu tirei minhas roupas e subi na cama sem me incomodar com escovar os dentes ou tirar minha maquiagem. Mas eu não conseguia dormir. Deitei olhando para o teto, vendo o reflexo das sombras da rua. Eu pensei em Naomi. Minha Naomi. O seu cabelo louro, seus lábios rosados e os barulhos estranhos de guincho que ela faz quando dorme. Segurei o meu braço acima da minha cabeça em um ângulo reto e deixei-o achar o próprio lugar. De repente eu me senti sozinha. Eu queria minha namorada na cama comigo. Ver Anna
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    e Danielle fazendo,me fez ficar com vontade de fazer aquilo com minha querida. Eu nunca poderia contar para a Naomi – não faz o tipo dela. Ela iria ficar louca com as pessoas daquele clube. Esse era o meu segredo. E eu não tinha feito algo errado. Eu só tinha assistido. Virando-me, eu me enfiei embaixo das cobertas e fechei meus olhos. De qualquer jeito, eu pensei, Naomi não tinha retornado a porra das minhas ligações. Emily Sexta, 14 de Agosto De volta ao chalé Eu dormi todo o caminho de volta de Paris. Acordei às oito da manhã para fazer o check out do hotel. Nauseada e depressiva. Não usaria cocaína de novo tão cedo. Enquanto eu ficava na mesa da recepção, os eventos da noite passada voltaram à minha mente. A luz gelada do dia fez com que a noite passada parecesse grotesca - eu estremeci. Eu não gosto dessas predadoras como a Anna por um motivo. Elas normalmente são um pouco loucas. Eu ansiava por Naomi. Só de pensar em seu nariz e sua boca se contraindo quando ela tenta não rir me deixou desesperada. Mas eu nunca mais veria alguma dessas pessoas. Eu fui cuidadosa para não dar à Anna qualquer detalhe para contato. E de qualquer forma, eu me lembrei pela centésima vez. Naomi estava fora de área. Minha mãe estava esperando na estação, em seu visual Desperate Housewife em uma roupa de corrida roxa da Juicy e sandálias cheias de joias. Ela me olhou de cima a baixo. “Você esteve andando por Paris com essa roupa de quem acabou de acordar?”, ela perguntou admirando meu tênis e minha calça harem de algodão amassado. “Você deve ter dado a eles um susto certeiro, querida!” Eu não estava com vontade de ouvir conselhos de moda da minha mãe. Tinha coisa melhor para fazer. Dirigimos em silêncio de volta ao chalé, e assim que chegamos corri para dentro para colocar meu celular no carregador. Bebi quase um litro de água esperando por sinal. Dez chamadas perdidas. Todas da Naomi. Eu senti uma mistura de alívio e pavor em mim enquanto eu escutava as mensagens. Primeiro elas eram simpáticas e amáveis, Naomi falando sobre a patética maratona de sexo do Cook e do Freddie. Sentindo minha falta. Mas após a
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    quarta mensagem elaficou hostil. “Se você não estiver ocupada demais nadando nua com seu namorado, me ligue qualquer hora.” Na décima mensagem o lado princesa do gelo dela estava ativo. “Vai se foder, Emily. Se você mudou de ideia, pelo menos tenha coragem de me falar isso.” Merda. Não entendi. Contei a ela sobre meu telefone estar desaparecido. Ela tinha o número da Katie. Que porra aconteceu? Nervosamente, liguei de volta. Ela atendeu depois de trinta segundos, que são séculos se você pensar bem. “Sim?” “Naomi?”, minha garganta estava apertando, minha voz resfolegando e nasalada ao mesmo tempo. “Desculpa, querida. Não sei o que aconteceu. Eu não estava com meu celular, mas eu te dei o número da Katie. Você não me ligou de volta.” “Você nunca me ligou”, sua voz estava como gelo. “Nenhuma vez.” “Eu liguei”, eu estava entrando em pânico. “Eu juro por Deus. Eu te liguei várias vezes.” “Qual é o meu número?” “O quê?” “Qual é o meu numero, Emily? E não olhe no seu telefone.” “O7793... 23468”, eu disse hesitante, eu sempre me confundia com os números do meio. “Errado. Errado. Errado”, disse Naomi. Houve silêncio. “Merda, então eu estive ligando para um completo desconhecido”, eu fechei meus olhos. Então foi tudo um mal entendido horrível. “Mas meu Deus, Naomi. Eu tive os dois dias mais estranhos da minha vida, você não vai acredi-” “Que seja”, ela me cortou, friamente. “Não importa que você não consiga nem lembrar do meu telefone. Que você estava muito ocupada saindo com seu amigo para checar a porra do meu número duas vezes.”
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    “Escuta, querida. Eue Katie fomos para Paris. Ela afanou meu telefone e depois caiu fora no meio da noite. Simplesmente fugiu. Eu passei o dia todo ontem louca, atrás dela.” Eu mordi o lábio, eu não queria pensar na noite passada. Nunca aconteceu. “E ela só entrou em contato essa manhã para dizer onde ela está”, eu parei, ignorando aquela mentirinha. “Então desculpa se eu não tive recursos para te perseguir. Eu estive presa na porra de um drama pessoal”, eu parei e respirei. “Então aonde ela está?”, disse Naomi depois de alguns segundos. “Aonde a vadiazinha está agora?” “Em Veneza, com a Effy.” “Está brincando?” “Não. Talvez ela queira resolver as coisas ou alguma merda assim?” “Hmmm”, Naomi suspirou. “Bem, suponho que isso explique sua negligência.” Eu sorri para o telefone. “Eu não parei de pensar em você. Senti muito sua falta. Está sendo frustrante para mim também, sabe.” “Sim, sim”, ela disse. “Eu te perdoo, Emily Fitch. Posso ver como essa pantomima ridícula aconteceu. Tudo planejado pela gêmea do mal, como sempre.” Isso não era muito justo. Mas melhor deixar pra lá por enquanto. “Enfim”, disse Naomi. “Tenho de ir. Kieran tem algumas coisas para me mostrar.” “Certo. Que coisas?” “Nada demais”, ela disse vagamente. “Olha... vamos nos falar essa noite, certo?” “Certo”, eu disse, magoada. “Falo com você depois. Te amo.” “Sim, tchau”, disse Naomi. “Até”, ela desligou. Bem feito, Emily, eu disse a mim mesma. Bem feito mesmo. Naomi Sexta, 14 de Agosto No bar do Keith
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    “Bem, isso éengraçado”, eu disse, observando Cook encarar tristemente sua bebida. “E eu estava esperando que você fosse me animar.” Ele me olhou. “Problema de lésbicas?”, ele perguntou. “Desculpa, cara”, ele fungou excessivamente, esfregando seu nariz contra a manga de seu casaco imundo. O tio de Cook, Keith, apareceu por trás do bar. Ele cuspiu muco, e colocou meio copo de cerveja fora de vista. Seus olhos vagaram pelo bar parando em mim e Cook. Ele levantou o copo para nós. “Não posso começar o dia sem um Jack Daniels”, ele disse com os olhos turvos. “Ou uma punheta vigorosa para aquela gostosa na TV, no programa sobre café da manhã.” Ele piscou para nós. Velho repulsivo. Eu forcei um sorriso e me voltei para o Cook. “O que está acontecendo com você então? Finalmente descobriu a futilidade da existência? O vazio sem sentido que é o sexo casual?” “Não sei. Só estou cansado de tudo, cara.” Cook terminou sua bebida. “Você esta solitário?”, eu perguntei a ele. Ele esfregou o nariz e cutucou minha barriga com os dedos. “Cai fora. Eu não fico solitário. Tenha certeza disso, caralho.” “Ah”, eu abri um pacote de batatas fritas. “Talvez esse seja o problema?”, eu olhei para ele: ele parecia uma merda. “Só a esqueça”, eu disse. “Ela não vale a pena.” “Quem?” “Não seja idiota. Você sabe de quem estou falando”, eu coloquei algumas batatas na boca. “E transar com qualquer coisa que se mexa. Problemas com raiva. Provavelmente tem algo a ver com sua mãe, e consequentemente com todas as mulheres”, eu funguei. “Na minha opinião.” “Me poupe dessas suas merdas feministas psicóticas”, Cook disse, se animando um pouco. “De qualquer jeito, qual é o seu problema? Sua garota estará em casa em breve. Você tem tudo resolvido.” “É, bem. Não é tão simples assim”, eu disse ocultamente. “Hã? Emily não está sendo uma garotinha safada, está?”, ele sentou, parecendo alegre. “Vamos lá. Diga ao Cookzinho.”
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    “Não. Eu nãoacho. Não é ela. Sou eu.” “Você esteve sendo uma garotinha safada?” “Não”, eu disse frustrada. “É toda essa coisa de casal”, eu me movi desconfortavelmente. “Está bagunçando o meu futuro.” “Futuro? Por que você está pensando no futuro, porra?”, disse Cook. “É aqui e agora, princesa. Isso é o que é importante.” “Mas você não imagina o que vem a sua frente?”, eu perguntei a ele. “Você não tem um plano?” “Besteira”, ele bufou. “Qual é o objetivo disso?” “O objetivo é... educação, passar nas provas, ter um emprego”, eu olhei pra ele. “É importante.” “Não para mim”, ele disse firmemente. “Eu não sou como você. Você é inteligente. Eu vou terminar como meu pai.” “Ah, não seja um maricas”, eu disse com raiva. “Isso é idiota pra porra.” Cook bateu seus dedos na mesa. “Talvez eu não saiba por onde começar”, ele disse. “Eu não faço ideia”, ele olhou para mim pálido, com os olhos vermelhos. “Mas você vai para algum lugar, Campbell. Você sabe disso. Eu sei. Emily sabe.” “Eu a amo”, eu disse sem expressão. “O que vou fazer?” Cook deu de ombros. “Não sei, querida”, ele disse, apontando para o copo vazio. “Mas você pode pegar outra bebida para nós, para começar. Estou duro.” Eu fiquei no bar e relembrei a minha conversa ao telefone com Emily. Foi tudo um mal entendido com as ligações. Ela não mentiria para mim. Tinha certeza disso. E eu mal podia esperar para vê-la, abraça-la e beijá-la. Então por que eu fui tão fria com ela? Era eu quem iria estragar tudo? Effy Sexta, 14 de agosto Estação de trem de Santa Lúcia, Veneza
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    A cabeça ruivaveio primeiro, depois o vestido apertado e sugestivo de Lycra e finalmente as perninhas pálidas se mexendo em saltos vermelhos e brilhantes. Como a porra de uma Betty Boop que aparece na revista D-List. Eu vi alguns imbecis olharem boquiabertos para seu decote e sorri para mim mesma. Algumas coisas nunca vão mudar. Katie parou e puxou seus óculos levando-os a sua cabeça. Olhando a sua volta, sem noção de qualquer coisa e muito pequena. Então de repente a multidão se separou e ela teve uma visão clara de mim, inclinada em uma dessas máquinas que carimba os bilhetes para você. “Effy”, ela acenou, colocou a bolsa no ombro e andou em minha direção. Eu levantei a minha mão em meio que uma saudação. “Porra, eu pensei que você iria me dar um bolo”, ela disse me olhando de cima a baixo. “Mas você realmente está aqui.” “É o que parece”, eu disse colocando as mãos nos bolsos da minha saia. “Vamos lá. Vamos sair daqui, eu preciso de um cigarro.” Eu serpenteei rapidamente pela estação que tinha uma saída para o Grand Canal, tentando decidir aonde eu a levaria primeiro. “Viagem de trem fantástica – muito rápida”, disse Katie, se apressando para acompanhar meu passo com aqueles saltos ridículos dela. “E esse lugar. Porra. É igualzinho ao que aparece na TV.” “Eu sei. É surreal”, eu diminui o passo, peguei um cigarro e o acendi. “Mas você se acostuma com isso.” Nós cruzamos uma ponte e seguimos em direção ao apartamento. Eu queria, precisava, de alguma bebida. E consegui um pouco de maconha com o cara assustador do bar do outro lado da rua do apartamento. O bastante para alguns dias. Não conseguiria passar por isso sem ajuda. Mas eu tenho de admitir: não era tão ruim assim ver Katie. Havia algo nela que estava diferente. Menos como um pavão. Mais como um pardal. Depois de dez minutos chegamos a um pequeno restaurante com mesas e cadeiras debaixo de um toldo do lado de fora. Eu já tinha ido lá uma vez com Aldo, e uma vez com Florence e minha mãe. O dono do local veio para fora e acenou com a cabeça pra mim.
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    “Signorina”, ele disseeducadamente. “Ciao.” “Ciao”, eu me virei para Katie. “Nós podemos beber alguma coisa aqui antes de irmos para o apartamento, sim?” “Ótimo”, Katie disse, um pouco alegre demais. Quando sentamos, o meu olhar captou seu rosto. Ela estava terrível. Olheiras gigantes embaixo de seus olhos. Onde estava a maquiagem pesada? Os lábios cheios de gloss? As cores? Ela não estava se bronzeando em Bordeaux? “Você parece uma merda”, eu disse brutalmente. “Se não se importa que eu diga.” Katie abanou o rosto com o menu. “Você não liga a mínima se eu me importo ou não”, ela disse calmamente. Eu sorri. “Justo”, eu peguei a lista de vinhos. “Uma garrafa do tinto da casa?” Katie deu de ombros. “Por mim tudo bem.” “Então”, eu disse depois do garçom trazer nosso vinho. “O que você está fazendo aqui, então? Eu pensei que você me odiasse até as entranhas.” Ela colocou a cabeça no ângulo do sol. “Para ser honesta, eu não faço ideia. Eu só precisava sair da França.” “Já usou toda a população masculina de Bordeaux?”, eu disse, com senso de humor. “Isso é hilário”, ela nos serviu com mais vinho. “Na verdade, ficou chato.” “A transa?” “Mais ou menos. E eu tive uma grande briga com a Emily.” “Certo”, olhei para ela através do meu copo. “Sobre o que?” Uma sombra caiu em seu rosto. “Eu fui muito má com ela. Eu não conseguia parar de torrar a paciência dela com coisas sobre a Naomi”, ela brincou com seus óculos. “Emily mudou. Ela não é mais minha irmãzinha tímida. Não está mais aguentando calada.” “Então, o quê? Ela mandou você cair fora e disse que não quer te ver nunca mais?”, eu estava interessada, incomum para mim.
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    “Mais ou menos”,Katie olhou para seu copo, rodando o vinho dentro dele devagar. “Eu não posso culpá-la. Ela está melhor sem mim. Tudo o que eu toco vira merda.” Eu a servi com o resto da garrafa. “É, bem”, eu disse. “Talvez você não seja a única.” Katie olhou para mim, esperando que eu elaborasse. Mas eu não ia me abrir com alguém. Muito menos com ela. “Vamos fumar”, eu disse dando batidinhas no bolso da minha saia de brim. Katie começou pegar sua carteira para pagar a conta. “Por minha conta”, eu disse, colocando quinze euros embaixo da garrafa vazia de vinho. “É o mínimo que posso fazer.” Eram nove da noite quando voltamos para o apartamento. Katie se animou um pouco depois de alguns baseados em uma praça deserta, mesmo que ela tenha tossido suas entranhas toda vez que inspirava. E não mencionamos o vínculo que nós tínhamos. Freddie. Em vez disso, em um cenário de um universo paralelo, eu e minha nêmese acabamos nos divertindo, especialmente quando tentamos negociar as inumeráveis ruas que passávamos no caminho para casa. Finalmente eu abri a porta, agora familiar, que nos levava as escadas. Dessa vez esperando que Aldo não estivesse pela vizinhança. Silêncio. Bom. “Aqui fede”, disse Katie, enrugando o nariz. “A umidade e essas merdas.” “Se acostume, princesa,” eu disse. “E se você acha que vou carregar sua bolsa por dois lances de escada, melhor pensar de novo.” “Estava imaginando quando começaria a ser má”, ela disse, soprando e ofegando atrás de mim enquanto subíamos. Quando entramos no apartamento, ouvi vozes vindas da cozinha. Uma masculina e outra feminina. Eu fiquei tensa imediatamente. “Effy? É você?”, minha mãe gritou, sociável demais para o meu gosto. “Ocorreu tudo bem quando você foi pegar sua amiga?”, ela apareceu na sala, quando Katie largou sua bolsa e correu para o banheiro. “Quem está aqui?”, eu disse petulante, sabendo a resposta.
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    “Olá, Effy”, Aldofalou da cozinha. “Nós estamos tendo uma festa improvisada. Nós já estamos vergonhosamente bêbados.” Eu não posso deixar a vadiazinha sozinha por dez minutos, eu pensei, lutando para manter minha expressão patenteada de tédio indiferente. Eu não vi muito o Aldo desde Lido. Achei que o tinha assustado pra caralho quando dei em cima dele. Eu, dando em cima de alguém. Quem diria? Não que eu estivesse preocupada. Ele precisa de tempo para se acostumar com a ideia, só isso. “Aldo só apareceu para dar um oi”, minha mãe disse. “Mas eu já estava com uma garrafa aberta.” Cristo, ela estava muito bêbada. Eu queria dar um tapa nela. “E agora estamos na terceira... ah, olá?” Ela viu Katie que tinha saído do banheiro, tendo obviamente aplicado várias camadas de base e gloss em trinta segundos. “Katie, não é?” “Sim, oi”, Katie deu um sorriso fútil. Minha mãe olhou insegura para uma e para a outra. Eu podia ouvir Aldo falando com alguém em seu telefone. Suavemente, carinhosamente. “Alfredo está ligando para a filha”, ela disse com propriedade. “Venham, entrem.” Eu estava me contorcendo. Desde quando ela tinha informações relevantes sobre os filhos do Aldo? Minha mãe praticamente dançou de volta para a cozinha. Uma Bossa Nova estúpida estava tocando no rádio. Eu me virei para Katie. “Ela realmente me dá nos nervos. Só a leve na brincadeira”, eu sussurrei. “Ela é legal”, disse Katie. “Isso pode ser engraçado.” Ela seguiu minha mãe e eu ouvi uma cadeira se arrastando quando Aldo levantou para cumprimentá-la. Eu fiquei afastada por um minuto inclinada sobre as estantes da sala, ouvindo Katie sorrindo afetada para Aldo. Genial. Uma puta, uma papa homem, e um homem mais velho em boa forma.
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    Que porra euestava pensando? Katie Sábado, 15 de Agosto Casa da Effy, Veneza “Dá um tempo”, eu ouvi Anthea dizendo. “Então nós tomamos algumas bebidas ontem à noite. Qual é problema? Preocupada que eu comece a me divertir?” “Eu não disse isso.” Voz da Effy. “É que...” “É que o quê?” “Nada. Só tente assumir o controle, isso é tudo.” Eu saí da cama e fui na ponta dos pés até a sala. “A sua amiga Katie não pareceu se importar”, disse Anthea. “Passa a chaleira, pode ser?” Ela abriu a torneira agora. “E Alfredo se divertiu. Todos nós nos divertimos.” “É Aldo”, Effy disse sombriamente. “Por que você fica o chamando de Alfredo?” “Porque essa é a porra do nome dele, Effy.” Eu fui em direção ao banheiro. Quando eu alcancei a porta, Effy apareceu fora da cozinha. “Oi”, eu disse nervosamente. “Tudo bem?” “Sim”, não parecia isso. “Dormiu bem?” “Ótima”, eu dei um puxão na minha blusa, me abracei autoconsciente. “Tudo bem se eu tomar um banho?” “Faça o que quiser. Só não use toda a água quente.” Nós olhamos uma para outra, como espécies rivais. “Eu não vou demorar”, eu disse a ela, abrindo a porta do banheiro. “Vai ser todo seu em um minuto.” “Quer alguma coisa para o café da manhã, Katie?”, Anthea me perguntou. “Café?” “Sim. Obrigada, Anthea...”, eu fechei a porta e me inclinei contra ela.
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    Eu nunca deviater vindo até aqui. Eu andei por quilômetros naquela noite em que deixei Emily no hotel. Chorando. As pessoas que estavam em clubes e bares estavam voltando para casa, mas mantive a cabeça baixa e passei por eles. Nem mesmo um grupo de garotos em um salão de sinuca me chamando de gatinha fez com que eu levantasse a cabeça. Não me interessava. Não naquela noite. Desculpa. Então eu dissolvi, fiquei invisível, flutuando sobre todos. Eu acabei na Gare Du Nord. Cinco da manhã. Minhas pernas estavam rígidas. Eu me tranquei em um dos boxes estranhamente limpos da estação e dormi lá até às oito da manhã, quando o faxineiro bateu na porta. Provavelmente pensou que eu era uma prostituta. Eu realmente estava parecendo com uma. Eu lavei o rosto, passei maquiagem e me senti humana de novo. Mas eu continuava sem saber o que estava fazendo. Para aonde pretendia ir. Eu sentei um pouco na cafeteria da estação, só passando e repassando a noite passada. E pensei na última vez em que fiquei genuinamente feliz. Surgiu uma memória de aproximadamente três anos atrás. Eu e Emily no Water Ride em Alton Towers. Gritando uma na cara da outra, segurando as mãos, só nós duas. Nós tínhamos quinze anos. Nosso pai tinha comprado um iPod para cada uma de aniversário. Colocamos as mesmas músicas nos dois. Mas eu que as tinha escolhido. Eu escolhia. Bebi o resto do meu café e saí da estação. Montmartre era perto. Dizia em todas as placas na rua. Eu fiquei entrando e saindo de igrejas velhas e bolorentas, sentei-me em um banco antigo, em ruínas e depois em um banco, comendo McDonalds. Eu pensei no rosto de Emily se ela me visse agora. “Um McDonalds? Você vem até Paris para comer um Big Mac?” No início da noite, a exaustão da noite passada bateu. Eu pensei no banheiro da estação. Dizendo para mim mesma que isso era um tipo aventura vagabunda, decidi passar outra noite no meu cubículo especial. Não fedia muito a xixi e alvejante. Era um lugar tão bom quanto qualquer outro. A primeira coisa que eu deveria fazer de manhã era pegar um trem de Paris- Bercy. Se tudo ocorresse como o planejado. Peguei o meu telefone e olhei meus contatos até chegar ao seu nome. Um minuto depois já havia enviado a mensagem. Eu fiquei uma hora esperando sua resposta, imaginando se ela iria dizer para eu me foder. Eu desejei que ela não fizesse isso. Precisava dela para terminar as coisas. Para acabar com isso. Por favor, Effy, você me deve uma.
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    E agora estouaqui. O céu não caiu. O mundo continua girando. Eu continuo viva. Estou levemente desapontada. JJ Sábado, 15 de Agosto. Quarto do JJ. “Isso aí é um monte de gozo dos bons, Gayjay”, disse Cook segurando uma camisinha e examinando com os olhos. Ele balançou na frente do meu rosto, rindo enquanto eu tentava sair do caminho. “Outro ponto para o Cook, parabéns para mim.” Eu entreguei a ele um pano e minha lixeira. “Tem alguns elementos da minha tarefa que eu acho profundamente inquietante”, eu disse. “Monitorar o seu fluído seminal é um deles.” Cook me mandou um olhar. “É o único jeito, Jeremiah”, ele disse. “A menos que você queira ficar por baixo das minhas bolas” ele levantou uma sobrancelha. “Obviamente não”, eu afundei a minha cabeça nas mãos. “Mas eu não estou certo... eu não estou certo de que a designação do papel do árbitro do sexo vai me ajudar com o meu desejo, sem sentido, de fazer contato, sexualmente falando, com o sexo oposto.” Cook estava me observando cautelosamente. “Isso é para dizer que estou me sentindo como um comediante. Um palhaço. Alguém de quem as pessoas riem, um ser humano descartável. Simplesmente reforça meu status de único adolescente da cidade que com confiança e sucesso não conseguiu pegar uma menina disposta e sem pena de mim da minha idade”. Me levantei e marchei pelo quarto. “Não que eu esteja depressivamente resignado a esse papel. É só que quando tenho você trazendo camisinhas usadas para a minha casa diariamente é difícil não explodir em pura inveja frustrada”. Eu parei para respirar. “Resumindo, isso faz com que eu me sinta uma merda.” “Jaykins”, Cook me fez parar com o discurso. “É só um jogo estúpido pra caralho. Nós podemos esquecer sobre ele.” Ele colocou seus braços em volta de mim e eu fiquei estranhamente cercado. “Se senta, cara.”
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    Cook fez umgesto à minha cama e se sentou perto de mim. Agora que a intensidade da minha respiração tinha voltado a ser quase normal, ele apertou meu joelho e sorriu. “Jesus, o seu braço de bater uma deve ter músculos como o do Popeye.” “Não é engraçado.” “Relaxa, Jay, todo nós fazemos isso” disse Cook. “Nada do que ficar envergonhado.” “Eu sei disso”, disse irritado. “Eu só não queria discutir isso com você, só isso.” “Tudo bem, cara. Se acalme.” Ele se levantou da cama e andou pelo meu quarto pegando as coisas e as colocando no mesmo lugar. Ele não conseguia ficar sentado, mesmo que eu aparentemente seja o hiperativo dos dois. “Então”, ele disse prestando atenção em um Parkzone F4U Corsair RTF com um Spectrum Radio Gear. “É melhor nós arrumarmos alguma ação para você.” “Eu não vou para aquele bordel de novo”, eu disse. “Não, vamos achar uma garota que transe com você de graça”, disse Cook, pegando agora outro e muito mais raro modelo de avião. Eu me contive de dizer a ele para ter cuidado. Era como mostrar um pano vermelho para um boi. “Ah, esplêndido”, eu disse, torcendo para que ele não o quebrasse. “Tenho certeza de que ela vai ser radiantemente atrativa então.” “Jay, seu filho da mãe louco, você me faz rir”, ele disse, mesmo que não estivesse rindo na verdade. “Deixe isso para mim e Freddie. Depois resolvemos seu problema.” “Por que estou sentindo que será uma desgraça iminente?”, eu disse suspirando. “Relaxa. Vai ser lindo.” Eu olhei para ele. “Tudo bem. Mas eu me recuso a marcar os pontos nesse seu jogo de sexo de novo.” “Se é isso que você quer.”
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    “Ok, então. Estoupreparado para sermos cúmplices nesse plano”. Eu levemente me balancei para lá e para cá na cama. “Agora, por favor, me deixe sozinho. E leve a sua camisinha gozada com você.” Cook me bateu carinhosamente nas costas. “Justo o bastante, Jay. E eu vou resolver isso para você, não se preocupe.” Então foi aí que eu me encontrei nervosamente me aproximando do clube Ritzy às dez da noite. Cook e Freddie já estavam me esperando, fumando maconha atrás do clube. Se eu dissesse que eles olharam encorajadoramente para mim quando eu andei em direção a eles, eu estaria exagerando, mas eles fizeram o melhor que puderam. “Pelo o amor de Deus, JJ, pare de tremer”, disse Freddie. “Vai ficar tudo bem”. Ele me entregou seu baseado. “Fume isso, vai fazer com que você fique relaxado.” Ou interferir com minha medicação e fazer com que eu fique apatetado. Eu fiz que não com a cabeça. “O nome dela é Holly”, disse Cook, agarrando o baseado que tinha me oferecido. “E ela está preocupada. E na medida que ela ficar aflita, isso é um encontro às cegas com o nosso melhor amigo, então verifique essa sua tendência a ser louco, pode ser?“ “Certo, sim, claro. Eu vou dar meu melhor.” “Calmo JJ, tá? Caaaaalmo.” “Calmo, certo, calmo, calmo, calmo.” Meus dois amigos olharam para mim com o que vi que era pavor genuíno. Eu respirei algumas vezes longa e pausadamente. “Certo. Eu estou melhor agora. Vamos fazer isso.” “Tem certeza?”, disse Freddie. Eu fiz que sim com a cabeça e os segui até o clube. Mas até a minha transpiração demonstrava que eu não estava bem. O barulho e a multidão, que nunca me incomodou, fez com que eu perdesse o bom senso. Eu precisava sair assim que fosse humanamente possível. Foi uma ideia infeliz falar isso para o Freddie quando Holly apareceu. Fred me cortou. “JJ essa é Holly. Holly, JJ.”
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    Eu devia tentardescrever como ela era, mas não consigo me lembrar. Eu acho que ela provavelmente disse oi, mas eu só consigo lembrar a expressão de seu rosto quando eu comecei a bater na minha cabeça com o punho. “Desculpa, desculpa, desculpa, eu não posso fazer isso, pensei que poderia. Eu estou certo de que você é adorável, mas você realmente não quer transar comigo. Eu não consigo fazer isso, não consigo fazer isso, não consigo fazer isso, não consigo fazer isso, não consigo fazer isso.” Freddie cobriu meu punho com o dele e segurou eles do lado da minha cabeça. “JJ, CORTA ESSA. Vamos lá, cara. Se acalma...calmo.” Minha respiração diminuiu na mesma hora que eu ouvi Holly gritar para o Cook obrigado por arranjar um encontro para ela com ‘a porra de uma criança com necessidades especiais’. Eu me afastei e corri. Freddie tentou me segurar, mas eu gritei para ele cair fora e a outra coisa que eu me lembro é que eu fui pra casa, cavar a parede do meu quarto com um Biro. Acordei algumas horas depois no chão, ainda vestido. Eu olhei para meu telefone. Cinco da manhã. Coloquei meus pijamas e rastejei até minha cama, mas não conseguia dormir. Trinta e sete minutos depois, coloquei minhas roupas de volta e sai de casa, segurando minha respiração enquanto eu fechava a porta da frente. Deixei um bilhete para minha mãe, mas não queria acordá-la. Eu precisava andar. “Ei, JJ”, era Thomas, esperando na estação do ônibus. “O que você está fazendo acordado?”, eu disse, modificando meu trajeto para me juntar a ele. “Eu tenho um horário cedo no trabalho. E você?” “Não conseguia dormir”, eu disse, me balançando nos meus calcanhares. “Entendo.” Ficamos em silêncio por alguns momentos. “De qualquer jeito”, ele disse. “Chegou meu ônibus, então...”. “Eu vou com você”, disse rapidamente e saltei no ônibus. Thomas deu de ombros e sorriu. “Tudo bem, isso seria legal”. Nós sentamos nas cadeiras da frente do andar de cima: minha cadeira favorita. Eu limpei a condensação na janela com minha manga.
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    “Então, como vãoas coisas?”, perguntou Thomas. “Ah, você sabe. Cook e Freddie estão competindo para ver quem tem mais sexo casual.” Soprei na janela e escrevi meu nome nela com o dedo. “E eu não.” Thomas balançou a cabeça. “Sexo”, ele disse misteriosamente. Ele olhou para a janela nebulosa. “O que é essa obsessão com sexo?” “Você saberia que não o tivesse”, eu disse. “E ter a perspectiva de nunca ter.” Thomas se ajustou na minha frente. “Ok, eu vou te dizer algo que provavelmente vai te fazer sentir melhor”, ele disse. “Eu também nunca mais tive”. “Sério?”, eu disse. “Mas a Pandora-?” Thomas me cortou. “Não. Pandora realmente quer que nos façamos. Eu não. Ainda não, de qualquer jeito.” “Sim, bem, eu queria que eu tivesse esse problema”, disse temperamental. “Eu acho que você não iria querer, se você o tivesse”, disse Thomas em voz baixa. Por alguns minutos nós sentamos em silêncio. O movimento do ônibus quase me fez dormir quando de repente Thomas falou, me fazendo pular. “Você sabe, Cook é uma pessoa vazia”, ele disse com raiva. “Ele não liga para ninguém, eu acho. Ele só liga para sexo.” Eu estremeci. Claro: eu tinha esquecido da história da Pandora com o Cook. “Ele é um pouco superficial em respeito a isso”, eu admiti. Thomas levantou uma sobrancelha. “Mas ele não é uma pessoa má. Mas tem motivos para sua abordagem não ortodoxa para a vida.” “Ah, vá.” Thomas soou incrédulo. “Sim, para deixar claro o seu pai é um idiota egoísta e não liga a mínima para ele”, eu disse. “Cook o venerava.” “Venerava?”, perguntou Thomas. “Eu acho que ele acabou sacando, nesse sentido”, eu disse.
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    “Entendo”, disse Thomas.“Eu perdi meu pai, mas pelo menos eu sei que ele foi um bom homem”. Ele olhou para seu passe de ônibus e agitou a capa algumas vezes. Era quase hipnótico. “Então... o que você vai fazer em relação à Panda?”, eu perguntei. “Eu não sei”, disse Thomas. “Eu estou lutando para fazer a coisa certa.” “Que bom ter essa luxúria”, eu disse puxando meu capuz. “Mas você está certo em ter os pés no chão. Eu deveria tentar, qualquer hora dessas.” Thomas sorriu e apertou meu ombro. “Você é um bom homem, JJ”, ele disse. “Sua hora vai chegar. Seja paciente. Vai chegar.” Katie Sábado, 15 de Agosto. Apartamento da Effy, mais tarde. “Então”, disse Anthea abrindo mais outro pacote de cigarros. “O que vocês duas vão fazer de noite?” Effy olhou de lado para mim e depois de volta para sua mãe. “Ainda não decidimos. Eu pensei que Aldo nos levaria a algum lugar. Se ele estiver por aí.” Ela encarou Anthea. “Ele disse alguma coisa noite passada...” “Disse?”. Anthea soltou uma corrente de fumaça. Grossa. Ela devia estar no quadragésimo do dia. “Não o irrite, Effy... ele pode se sentir obrigado.” “Por que ele se sentiria obrigado?”. Effy abanou a fumaça de seu rosto. “Ele gosta de mim.” “Claro que ele gosta de você. Não significa que você deveria tirar vantagem disso. Só isso.” Anthea se levantou e começou a andar pelos armários. Ela tirou alguns copos e os colocou na mesa. Effy deu um bocejo violento. As observei. Que porra de energia essas duas tinham? Ela estava de boa quando voltamos do apartamento noite passada até ela ver a mãe dela ficando bêbada com o Alfredo. Pelo resto da noite até Anthea ir para a cama ela estava com uma cara emburrada. E as duas estavam zumbindo em volta de Alfredo como abelhas em volta do mel. Estranho pra caralho.
  • 93.
    Assim que Antheadesapareceu, Effy fez um baseado e Aldo se juntou a nós na pequena varanda para fumar. Effy fez questão de se sentar do lado do Aldo, tocando seus cabelos e rindo muito. Se divertindo, como sempre. Eu estava exausta, então só sentei, tentando ficar confortável na cadeira de metal. “Eu fazia isso várias vezes”, disse Aldo, fumando seu baseado. “Quando eu era um estudante”. Ele sorriu vagamente. “Quando a vida se estendia para mim como-“, ele chacoalhou suas mãos em busca de palavras, “-como esse prado enorme de... liberdade e irresponsabilidade”. Passou o baseado para a Effy. “Eu amava. Mas chega um tempo que não se encaixa bem com... com a busca de satisfazer a existência”. Ele olhou sobre a varanda, nos trilhos do esquecimento. “E o amor.” Effy tossiu, esticou as pernas e traçou sua coxa com um dedo. Uma mão ainda segurando o baseado. Os seus olhos seguiam o seu dedo se movendo. “Então quem você amava?”, ela perguntou. Aldo esfregou a testa. “Eu estava muito apaixonado por uma garota da universidade. Rosalla. Ela era... difícil. Muito séria e muito resistente sobre meus avanços. Ela era tão bonita”. Ele olhou diretamente para nós pela primeira vez. “Ela sabia disso, e isso não a deixava feliz. Deixava-a desconfiada, na verdade. Ela achava que nenhum homem de verdade a amava... a sua aparência notável ficava no caminho”. Ele chacoalhou a cabeça. “Mas beleza não é o bastante. Tinha de ter mais. Ela era quieta, pensativa e frágil”. Ele desviou seu olhar de novo. “Eu queria cuidar dela.” Effy estava o encarando. Ela derrubou o resto do baseado no chão de concreto e botou as mãos nos joelhos. “O que aconteceu com ela?” “Ela se matou”, ele disse friamente. “Ela se enforcou em seu quarto”. “Merda”, eu murmurei. Effy ficou pálida. “Foi aí que eu mudei”, disse Aldo. “Eu parei de pensar que minha vida fosse tão indulgente... um joguinho indulgente. Pareceu importante não a desperdiçar. Em vez disso eu resolvi achar e manter essas coisas que Rosalla pensou que nunca poderia ter.” Effy estava se balançando levemente em sua cadeira. Ela levantou suas pernas e sentou, abraçando-as. “Então você esqueceu da Rosalla?”, ela disse.
  • 94.
    Ele balançou acabeça. “Eu penso nela todo dia, mas você tem de deixar esse tipo de amor para trás”. Ele parou. “Te destrói se você não fizer isso.” Effy e eu nos olhamos em silêncio. Eu estava começando a achar isso estranho. “Alguém quer mais outra bebida?”, disse Effy ficando em pé. “Eu comprei uísque”. Neguei com a cabeça. “Ugh. Não, obrigada”. “Eu vou querer um pouco, obrigado”, disse Aldo. Eu estava chapada e tal, mas eu tenho certeza de que os dedos dele tocaram a bainha de sua saia quando ela roçou perto dele. Eu estava começando a me sentir como uma parte pequena na porra do show de Aldo e Effy. Enquanto Effy estava pegando a uísque, Aldo sorriu para mim. “Você é uma boa amiga da Effy?” Eu hesitei. “Conhecemos várias pessoas em comum”, eu disse, fugindo da pergunta. “Eu acho que ela precisa dos amigos dela agora”. Aldo cruzou as pernas. “Ela não é o que parece.” “Certo. Sim”, eu disse estranhamente. “Talvez.” Effy apareceu com dois copos e uma pequena garrafa de uísque. “Eu acho que eu vou para a cama agora”. Me levantei, sem saber aonde isso ficava. “Tudo bem”. Effy acendeu um cigarro e acenou para mim. “Pode ficar na minha cama”. Ela me deu um meio sorriso, observando o olhar na minha face. “Não se preocupe, você vai ficar completamente segura”. Ela serviu Aldo com uma quantidade larga de uísque e para ela e olhou de lado para mim. “Não espere por mim.” Effy Segunda, 17 de Agosto. Loja de presentes. “O que você acha de uma dessas igrejazinhas?”, disse Katie segurando a basílica de São Marcos. Nós estávamos em uma loja de presentes horrível e trapaceira perto da praça central, procurando um presente de aniversário para o Aldo.
  • 95.
    “Ele mora aqui,sua idiota”, eu disse. “Ele não quer coisa de turista”. Olhei o preço. “E custa a porra de vinte euros.” “Certo.” Ela a guardou. “Se apresse e escolha algo logo, então.” “Vamos tentar só mais algum lugar”, eu disse a ela. “Estamos quase lá.” Quando saímos da loja olhei para o precioso livro guia do Time Out da minha mãe. “É aqui embaixo, acho.” Nós viramos em uma rua quieta. “Eu não sei porquê você não compra só uma caixa de cigarros para ele”, disse Katie, franzindo o nariz quando empurramos a porta de uma livraria de segunda mão. “Isso é o que eu compraria para o meu pai.” “Certo, bem, ele não é seu pai”, eu disse impacientemente. Por onde começar a procurar o que eu queria? “Ele não é todo macho e essas merdas.” Ela olhou de lado para mim. “Não, claro que ele não é” ,ela disse secamente. Ela olhou para as prateleiras, transbordando livros velhos. “Eu não entendo esse tipo de lugar. Por que você iria para uma livraria velha e fedorenta quando você pode pedir o que você quer na Amazon?” “É pela história”, eu disse arrasada. “E cheira bem.” “Isso é questão de opinião”. Ela segurou uma brochura com um cavaleiro dentro de uma armadura brilhante na capa. “O que você quer, enfim?” Antes que eu pudesse responder uma mulher apareceu dos fundos da loja. Ela era pequena e bonita, com cabelos pretos e cortados e óculos pequenos. Ele nos percebeu e nos deu um olhar severo em desaprovação para o traje com tema de leopardo de Katie. A inglesa vulgar. Se eu não tivesse compartilhado o seu desgosto, eu iria dizer para ela ir se foder. De qualquer jeito, eu não iria embora antes de conseguir o que eu queria. “Posso te ajudar?”, ela disse com classe, em inglês. “Tomara”, eu disse. “Vocês tem Morte em Veneza?” “Sempre”, ela disse obviamente surpresa, sorrindo mais educadamente agora. “Que tipo você quer?” Eu fiquei sem expressão.
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    “Primeira edição, brochura,capa dura?”, ela respondeu de imediato. “Quanto é a primeira edição?”, eu disse. “Duzentos euros... também tem a edição em brochura da década de trinta por trinta e cinco euros”. Ela foi para uma das estantes e pegou diretamente um. “Aqui”, ela disse. “Está um pouco usado, mas está excelente pelo preço.” Eu virei o livro várias vezes em minhas mãos. Era lindo. Coloquei meu nariz perto e inspirei. Katie balançou a cabeça. Pareceu perplexa. “Vamos lá, Effy”, ela disse indo em direção à porta. “Se decida.” Trinta e cinco euros. Mas o pensamento de dar aquele livro a ele mais tarde estavam fazendo com que ondas de prazer surgissem em mim. Eu estava feliz. “Obrigada, eu vou levar”, eu disse para a mulher. “Pode embrulhar para mim?” “Eu não acredito que estamos fazendo isso”, ela disse olhando um garoto em boa forma correndo em nossa direção, sem camisa. “Indo à uma festa de um quarentão com crianças e essas merdas.” Ela abaixou a saia timidamente quando um casal de padres passou olhando com raiva para ela. Eu ri. “Nunca pensei que esse dia iria chegar”, eu disse. “Maldita irmã Fitch.” “Cala a boca”, ela disse bem humorada. “De qualquer jeito, o que há com esse livro, Effy?” Ela olhou a sua frente. “Trinta e cinco euros?” “E?”, eu disse. “Ele só está sendo simpático comigo, isso é tudo.” “Hmm”, Katie pareceu não estar convencida. “É um pouco exagerado, se você me perguntar.” “Eu não perguntei, ou perguntei?”. Me arrepiei. Eu estava bem contente em ver Katie quando ela chegou, mas a novidade estava começando a ficar chata. Ela era burra, mas não burra o bastante. E isso era o problema. “Merda. São duas e quarenta e cinco”, eu disse notando um relógio em um bar. “Melhor voltarmos. Aldo vai nos pegar em breve.” Katie e eu estávamos vegetando na mesa da cozinha essa manhã quando Aldo chegou e nos contou sobre seu aniversário. Nós tínhamos ido para o bar da rua de baixo ontem, espíritos bêbados na noite, e não comido nada. Não preciso dizer que não queríamos fazer muita coisa, e minha mãe estava fingindo ser a porra de senhora
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    acolhedora se agitandopor aí dando para Katie café e doces. Ela esteve com um humor muito melhor esses dias. Eu deveria estar grata, mas o lance da minha mãe é que ela não pode ganhar, de qualquer jeito, a pobre vadia. Ela só me irrita. Fim. “Pegou tudo o que você precisava?”, ela disse alegre para Katie. “Sim, obrigada Anthea” . Katie pegou um cannoli de chocolate. “Estou bem.” “Tudo bem”, disse minha mãe. Ela tinha voltado a usar maquiagem. “Eu acho que eu vou ver como Florence está.” Me sentei em sua frente. “Eu vou”, eu disse. “Não vejo Florence há séculos.” “Ela não esta muito bem ultimamente”. Minha mãe examinou seu rosto no compacto, colocando pó em seu nariz. “Estou um pouco preocupada com ela.” “Quem é Florence?”, disse Katie com sua boca quase cheia. Ela espirrou doce por toda a mesa. “Ela é uma velhinha boa que mora no andar de baixo”, eu disse com afeto. Katie me encarou até minha mãe ir para a sala. “Estou realmente preocupada com você, Effy”, ela disse. “Você em breve vai estar sendo voluntária de asilos.” “Florence não é uma velhinha chata”, eu disse. “Ela é divertida.” “Ceeeerto”, disse Katie. Ela terminou seu doce. “O que quer que você diga.” Eu a ignorei. “Diga oi para a Flo” , eu disse para minha mãe. A porta se abriu e ouvi vozes. Era Aldo. “Ele de novo não”, disse Katie roçando os lábios. “Ele não consegue se afastar”. Ela me olhou com provocação. “Ele realmente tem uma coisa por alguém daqui.” Fui cuidadosa em parecer que não liguei para essa observação. Ergui a cabeça para ouvir o que Aldo e minha mãe estavam falando. Depois dela ter ido para cama ficamos acordados até as duas da manhã. Ficando chapados e andando. Ele tentou me interrogar sobre minha vida em Bristol, mas eu fui vaga. “Você deve ter um namorado lá?”, ele perguntou.
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    “Na verdade, não”.Botei meus pés em sua perna e ele olhou para meus dedos, suas mãos pairando estranhamente, depois descansando nos braços da cadeira. “Não mais.” “Você quebrou o coração de alguém?”, ele disse. “Ou ele quebrou o seu?” “Ninguém faz isso comigo”, eu disse rapidamente, mas depois me acalmei. “Não era sério, isso é tudo”. Minha consciência estava dando uma boa resposta, mas a segurei. “E acabou.” Aldo olhou para seu uísque. Um silêncio prevaleceu. “Você sabe, você me lembra tanto ela”, ele disse depois. “Quem?” “Rosalla”. Ele se mexeu na cadeira. “Cheia das dúvidas. Tão assustada para confiar.” Eu notei minha respiração, me sentindo exposta. “Eu não-“ “E bonita, claro”, Aldo continuou, me cortando. “Dolorosamente bonita.” Estava levemente tremendo, mas esse não era o momento para abaixar a guarda. De qualquer jeito tentador. Aldo me fitou silenciosamente e movi minhas pernas para mais perto de seu colo. Eu queria tanto me enrolar naquele colo. “Você tem muito tempo a sua frente”, ele disse. “Tantas pessoas para se apaixonar.” Eu estou apaixonada agora? Eu pensei confusa. Eu o amo? Fechei os olhos enquanto os pensamentos de Freddie se fundiam com os pensamentos de Aldo. “E você?”, eu disse me recobrando. “Você vai se apaixonar de novo?”. Ele notou sua respiração, esfregando o queixo devagar. “Talvez”, ele disse. Ele não olhou para mim. “Se ela for a certa.” Ele rodopiou seu copo e depois bebeu. Olhei através do quadrante escuro. O céu estava azul petróleo daquele tipo que só fica quando são noites de verão. “Vamos lá”, Aldo disse eventualmente, olhando para seu relógio. “É hora de eu ir, eu acho”. Ele fez uma pausa. “Mas eu tive bons tempos hoje à noite. Inesperadamente bons. Obrigado.” Eu o deixei ir e fiquei lá um pouco, me inclinando sobre a porta do apartamento. Saboreando os últimos minutos da nossa conversa. Ele é seu, eu disse para mim, se você o quiser.
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    - “Não”. Minha mãeagora estava falando com Aldo. “Eu só vou dar uma checada nela... pode ir dizer um oi para as garotas.” Aldo apareceu na porta da cozinha. “Buongiorno!”, ele disse de modo vivo, sorrindo para nós. “Oi” disse Katie, sem graça. “Eu vou pegar café para você” eu disse me levantando. Katie olhou para mim, com os olhos bem abertos. “E temos doces, essa manhã.” Aldo sentou, opostamente à Katie. Ele colocou o jornal na mesa. “Obrigado”, ele disse. “Só café para mim”. Ele me observou enquanto eu fervia o leite. “Na verdade eu tenho um convite para vocês... para vocês duas.” “É?”, minha mão tremendo levemente enquanto eu segurava a panela de leite. A porta do apartamento se abriu de novo e minha mãe apareceu, sem fôlego na cozinha. “Florence está dormindo”, ela disse a nós. “Eu vou para lá depois, então.” Aldo chacoalhou a cabeça. “Devemos ficar de olho nela” .E e sorriu para Anthea. “Eu estava dizendo para Katie e Effy que hoje é meu aniversário... meus quarenta, de fato.” “Ah, que novo!” disse minha mãe. “Feliz aniversário.” “Eu vou me encontrar com minhas crianças depois”, ele disse. “Para celebrar”. Ele olhou para todas nós. “Se vocês não tivessem planos, gostaria que vocês viessem também.” “Isso é gentil”, disse minha mãe. “Realmente gentil. Mas suas crianças iriam estranhar uma mulher estranha junto.” Acertou essa, mãe. “Vocês duas vão, acho”, ela disse. “Eu só vou ter meu sono de beleza”. Ela riu de um jeito feminino. “Muito importante. Mas podemos celebrar seu aniversário essa noite. Chamaremos outros inquilinos também. Uma festa no apartamento!” Aldo inclinou sua cabeça educadamente. “Isso seria adorável, Anthea.” Ou idiota pra caralho. Por outro lado, eu pensei, Aldo bêbado e feliz não poderia ser má coisa.
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    Aldo olhou paramim enquanto disse: “Se vocês, garotas, não tiverem nenhum plano vocês poderiam se juntar a mim essa tarde.” “Nós iríamos amar”, eu disse rapidamente. “Que horas?” “Eu encontro vocês na entrada às três”, ele disse encarando meus mamilos gelados. “Tenham certeza de que vocês estarão preparadas, então.” Casa da ex-esposa do Aldo. Mais tarde. “Eu não vou demorar”, disse Aldo. Nós estávamos no lugar onde as crianças moravam. Ele desceu do carro e andou até um prédio pintado de branco, moderno e com janelas enormes. Uma mulher com a aparência normal vestindo jeans e uma blusa, sem maquiagem abriu a porta. A ex-esposa. Ela foi empurrada do caminho por duas crianças lindas de olhos castanhos – um menino e uma menina – que se jogaram em Aldo. Ele as segurou em seus braços, as cobrindo de beijos. Um espasmo de inveja me apunhalou e eu encarei tão mal humorada quanto Katie e sentei no carro, esperando. “Encantador”, disse Katie. E então ela examinou meu rosto. “Se você gosta desse tipo de coisa.” A mais velha, a menina, desencadeou um italiano torrente e carrancudo para Aldo quando me viu na cadeira da frente. “Desculpa, Effy”, disse Aldo, ao menos dando a graça de parecer envergonhado. “Eu sempre deixo a Mara se sentar no banco da frente. Você se importa...?” Sim, eu me importo pra caralho. Mas eu fui para o banco de trás com a Katie e o mais novo, Bruno, entrou do meu lado. Acolhedor. Aldo nos apresentou com uma mistura de inglês e italiano. Mara olhou particularmente para mim maldosamente, em silêncio. Depois de vinte minutos assistindo as crianças ficarem apatetadas e dar patadas em Aldo no banco da frente, nós estacionamos no que suspeitosamente parecia um lugar para guerra virtual com armas de laser.
  • 101.
    “Ah, genial”, sussurrouKatie. “Isso não tem nada a ver com a minha idéia de bons tempos.” “Tente fazer um esforço”, eu disse encantadoramente. “Pelas crianças.” Katie era obviamente uma merda nisso. Eu acho que é difícil participar completamente quando você tem de ficar parando para ver se sua calcinha está visível. Mas eu segui minha presa com uma determinação admirável. Assim que as crianças ficaram com tédio, éramos só eu e Aldo na pista de dança, por assim dizer. Eu estava suando, tentando alcançar meu objetivo, enquanto ele me levava à passagens escuras, eu me achatei contra uma parede e esperei ele vir atrás de mim, cutucando meu dedo em suas costas. “Te peguei”, eu disse deixando meu dedo lá, no topo de sua espinha. Ele virou, rindo, levemente se arquejando. Eu passei a língua pelo meus lábios e apontei para sua arma. “Vá.” Aldo sorriu. Uma mão me alcançou e segurou minha cintura, esfregando ela e fazendo cócegas. Eu comecei a me torcer e a dar risadinhas, como uma criança. “Não...”, eu disse. “Eu sou muito sensível.” “Você é, de fato”. As mãos de Aldo firmemente persistiram e eu me torci com seu punho, me girando para empurrar minha bunda em sua virilha. Eu senti sua ereção, e esfreguei minhas nádegas contra ela. Ele parou de se mover. “Effy-“, ele disse firmemente me puxando em sua direção. “Não.” Meu coração estava batendo, meu corpo todo demonstrando desapontamento, antes mesmo de eu sentir. Só tinha o som da nossa respiração, eu não queria olhar atrás de mim. Eu fechei meus olhos. Merda. Merda. Merda. “Papai”, a voz de Mara perfurou o silêncio. “Papai!” Aldo se moveu da minha frente, saindo da passagem. Ele se virou. “Está tudo bem, não se preocupe” ele sorriu. “Agora, vamos lá. É melhor eu levar minhas crianças para casa.” Bebidas de aniversário.
  • 102.
    Mais tarde naquelanoite. “A-há, o aniversariante!”, cantou minha mãe, pulando para Aldo e entregando para ele uma taça de Prosecco. Ela tinha empurrado todos os batentes, colocado velas no parapeito das janelas e colocado na mesa da cozinha taças, garrafas de vinhos, tigelas de petiscos, e até a porra de um bolo. Uma coisa de chocolate com 40 escrito com pedaços de chocolate branco em cima, o que eu achei que era clichê, mas o aniversariante pareceu satisfeito. Eu o ouvi ficar de conversinha, dar aperto de mãos, beijar bochechas. Pensei: flerte com ele o quanto você quiser. Ele é meu. Tinha algo no ar – a antecipação de um futuro em que ele iria me lamber de cima a baixo. Me foder em todos os cantos. Ele não estava me olhando. Eu esperava isso. Gostava, de fato. Nosso segredinho. Eu encontrara um momento para dar s ele o presente, enquanto minha mãe e Katie estavam ocupadas com outra coisa. Segurei o livro em seu embrulho, não podia esperar por sua expressão quando ele o abrisse. Ele levantou as sobrancelhas. “Effy, o que é isso?” Eu não disse nada. Gesticulei para ele abrir. Ele riu, seu rosto se iluminou. “Mas isso é um presente maravilhoso! Obrigado, querida Effy!” Ele colocou os braços em minha volta. Me beijou de novo. Ele segurou meus braços e meu olhar, mais rapidamente desviou o olhar. “Eu vou colocar isso em algum lugar seguro”, ele disse, se virando para procurar um lugar para esconder. “Effy!”, a voz da minha mãe em pânico veio da sala. “Alfredo!” Ela nos apressou, tomou o braço de Aldo. “É Florence”, ela disse sem fôlego. “É melhor você vir agora, Alfredo. Ela não está acordando.” Cook Segunda, 17 de Agosto. Galpão do Freddie. “Então, Freddie, como você se sente estando na presença de um mito?”, eu perguntei a ele, tomando um gole de uma lata de Stella.
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    Ele balançou acabeça, com um meio sorriso em seu rosto presunçoso de menino bonito. “Você realmente é um idiota infeliz.” “Não é nada pessoal”, eu apertei seu joelho. “É a lei da selva, cara”. Coloquei meu pé no extintor. “Todos nós sabíamos desde o começo como isso iria funcionar. Eu sempre arrebato. Elas não podem dizer não para o Monstro Cookie.” Freddie estava curvado, se abraçando como uma garota. “Você devia se ouvir, cara. É patético. Sério.” “Você diz isso porque está perdendo”. Eu fiz uma pausa. “De novo.” Freddie olhou para cima bruscamente. “Isso é tudo o que você tem, não é? Ele se levantou. “Mas, sério-“, ele de repente respirou na frente do meu rosto. “-isso melhora tudo, Cook? Melho-“. JJ se levantou, torcendo uma mão na outra nervosamente. “Ok, Cook, Freddie, não vamos ter essa discussão agora”. Ele tentou dar um sorriso alegre. “Quer dizer, se vamos virar competitivos, posso me aventurar, de novo, a dizer que eu fui o único a ter sexo com uma lésbica.” Nós o encaramos. “Cala a boca, JJ.” Silêncio. “De qualquer jeito”, disse Freddie. “É chato.” “Ah. Agora veja, eu tenho uma idéia genial para animar, meu amigo”. Esfreguei minhas mãos. “Diga”, disse Freddie, mais seco do que o deserto de Gobi. “Algo para decidir o vencedor. De uma vez por todas. Para ver quem realmente é o rei do castelo.” JJ e Freddie suspiraram simultaneamente. “O que você tem em mente?”, disse Freddie. “A porra de um questionário?” Eu neguei com a cabeça. “Uma ménage.” “Quê?”, Freddie disse com aquele olhar preso em seu rosto.
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    “Uma ménage. Eu,você e uma garota. Nós temos turnos para transar com ela e ela dá comentários.” JJ pareceu sair de sua profundidade agora. Freddie pareceu um pouco pálido. “Isso já passou dos limites, parceiro”, ele disse. “É quase doentio.” “Não, é democracia.” “Na verdade”, disse JJ, “o conceito no dicionário para democracia é-“ “Cala a boca, JJ”, disse eu e Freddie de novo. “Bem”, ele disse. “Você vai avançar no prato, Freddie. Ou você vai recuar como um maricas?” Freddie me deu um olhar de puro ódio. “Certo”, ele disse friamente. “Me deixe saber quando achar uma garota queira fazer isso.” “Já arrumei”, eu disse. ”Polly, aquela rica elegante com um piercing no clitóris da outra noite? Disse que estava afim de uma ménage à trois. Esse é o dia de sorte dela, cara. Sete em ponto na casa dela, de noite.” Por um momento houve silêncio. JJ deu uma batidinha simpática no ombro de Freddie. “Isso é bom”, disse Freddie. “Não posso dizer o quanto estou ansioso por isso. Ele acendeu um cigarro e abriu a porta. “Agora cai fora do meu galpão.” Freddie. Do lado de fora da casa de Polly. “Boa casa”, disse JJ, ele disse enquanto nós três ficávamos do lado de fora da casa de Polly, em frente à sua porta. “Grande.” Eu revirei os olhos para ele. Cook estava na frente, o peito sendo empurrado para frente, uma mão segurando uma garrafa de Jack Daniels. Eu comecei a me sentir doentio. Cook se virou e piscou para mim enquanto esperávamos abrirem a porta da frente. “Aposto que ela tem um espelho em cima da cama, certo Freds? Podemos assistir enquanto tudo acontece.” Obrigado por esse visual, seu idiota.
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    Depois de unsbons trinta segundos, Polly nos deixou entrar. Ela era bonita, de um jeito estiloso. Cabelo longo e loiro, pele bronzeada, jóias gigantes em volta de seu pescoço. “Cookie, querido!”, ela disse beijando um espaço em cerca de uma polegada de seu rosto. “Tudo bem, querida?”, Cookie respondeu. “Freddie, JJ”, ele disse apontando para nós, respectivamente. “Oi, garotos!”, disse Polly. “Entrem, eu fiz coquetéis.” Quando ela foi embora, Cook se inclinou para nós e sussurrou “Não é a ferramenta mais afiada da caixa, mas ela faz como a porra de um trem.” Polly nos mostrou o que ela chamava de antro, onde tudo era branco. Sofás brancos gigantes brancos, flores brancas e até uma TV branca. “Deve ser uma coisa para manter esse lugar limpo”, disse JJ. “Empregados, Gayjay”, disse Cook. “Essa gente nunca limpou nada na porra da vida inteira deles.” “Certo, e você já?”, eu disse. “É diferente. A miséria é minha amiga”, ele respondeu. Nós sentamos em silêncio por alguns minutos. Cook tentando fazer a TV funcionar, JJ olhando para suas mãos e eu desejando que estivesse em qualquer lugar menos aqui, quase fazendo isso. “Aqui está”, disse Polly carregando uma bandeja com copos de coquetéis. “Quem quer Sex on the Beach?” JJ pareceu preocupado. “Não para mim, obrigado.” “Você sabe que é uma bebida, Jay?”, disse Cook. Polly riu. “Cook, você é tão engraçado!” É. Ele é a porra de um palhaço. Nós sentamos segurando nossas bebidas rosas estúpidas, de conversinha por quase quinze minutos antes que o Cook terminasse seu copo e dissesse “Certo, Poll. Sem ofensa, mas vamos
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    direto ao assunto.Todos nós sabemos porque estamos aqui. Então se você pudesse nos mostrar o caminho...?” Polly soltou o copo, de repente séria. “Ahã, absolutamente.” Nós a seguimos para fora do quarto, Cook deu o controle da TV para JJ no caminho. “Aqui, ache o canal pornô, se divirta sozinho.” O quarto da Polly era um pesadelo rosa, com posters de boy bands na parede e brinquedos de pelúcia por toda a cama. Como se estivesse lendo minha mente ela disse: “Desculpa por isso. Ele vai ser redecorado quando meus parentes voltarem da India. Eles estão trazendo um papel de parede fantástico feito de grama nativa. Você tem que aguá-lo e tal.” “Fascinante”, disse Cook. “De qualquer jeito, vamos ficar pelados, sim?” Ele a empurrou na cama e começou a beijá-la e tirar as roupas dela. Enquanto eu ficava em pé e assistia o sutiã dela voar pelo quarto, percebia que não fazia idéia de como uma ménage funcionava. Tipo, o Cook faria e depois seria eu? Ou era um esforço duplo? Um em uma ponta e outro na outra, esse tipo de coisa. Eu esperei que Polly tomasse conta um pouco, porque Cook não iria me dar sugestões. Tudo o que ele ligava, além de transar, era Polly votar nele como melhor então ele ganharia a porra do jogo dele. Agora eles estavam pelados e Polly chupando ele. Isso não estava certo. Isso estava errado pra caralho. Eu acho que estava hipnotizado, levando em consideração que não conseguia me mexer. Polly tirou a boca do pinto dele. “Bem, não pare, porra”, disse Cook. “Vez do Freddie” disse Polly me puxando para a cama e despindo meus jeans. “Vamos ver o que nós temos aqui, então”, ela disse. Não mais do que parecia. Eu tentei manter minha dignidade não dizendo nada e beijando Polly em vez disso. Eu alcancei sua calcinha para que eu pudesse esfregar, mas meu pinto não estava ajudando. Nem mesmo se mexendo. Provavelmente porque não gosto dela, e talvez porque Cook estivesse esticando a cabeça para ver o processo. “Vai se foder”, eu sibilei acima da cabeça de Polly.
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    Ele sorriu, sedeliciando. Polly deu tapinhas em meu ombro. “Posso te fazer uma sugestão?” Eu olhei para cima. Cook levantou uma sobrancelha. Ela dobrou as pernas embaixo dela, ofegou, e olhou para cada um de nós por um momento. “Se beijem. Os dois.” Isso tirou o sorriso do rosto de Cook. Eu faria o mesmo, mas pra começar eu não estava nem sorrindo. “Não querida, de jeito nenhum. Eu não vou beijar o Freddie”, disse Cook. “Justo o bastante. Então o Freddie ganhou”. Eu me virei para o Cook. “Você contou do jogo para ela?” Ele deu de ombros. “Achei que ia esquentar mais as coisas”, e então se virou para Polly. “Eu disse, não disse? Nós transamos com você, você diz quem foi o melhor. Fim da história.” “Não”, disse Polly. “Tudo o que você disse era que eu tinha que dizer quem, na minha opinião, é o melhor”. Ela sorriu um sorriso doce. “E eu vou decidir, olhando vocês fazerem um com o outro. Entenderam?” Cook riu. “Muito engraçado, Poll. Estou amando seu trabalho. Agora só se abaixe como uma boa garota, e deixe eu te lamber até você gritar. Acredite, não vai demorar.” Polly balançou a cabeça. “Você é inacreditável. Essas são minhas condições: você e Freddie. Todos grosseiros...”. Ela se inclinou em nossa direção. “O que significa”, ela disse para Cook. “Seu pau na bunda dele”, ela sorriu para mim. “Ou vice e versa”, ela disse olhando para nós dois. “Você quem sabe.” “Desculpa, isso não vai acontecer” eu disse. “Isso é merda”, eu virei para o Cook. “Você ganhou.” “Não. Não. Isso não está no plano” disse Cook parecendo angustiado. “Vamos lá, Polls. Jogue o jogo.” Ela sorriu sordidamente. “Jogar o seu jogo? Cai fora.” Ela não soou muito elegante agora.
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    “Você me dános nervos”, Polly continuou, puxando uma blusa para seus peitos. Ela cutucou o peito de Cook com seu dedo. “Você transa comigo, rouba minha calcinha e eu tenho que ficar com calças de couro o que, por falar nisso, me deu um monte de sapinho, então você me liga e diz que quer fazer uma ménage então você pode ganhar uma aposta juvenil com o seu parceiro?”Ela pegou seus jeans e os colocou. “E por falar nisso, você nem é tão bom assim”, ela balançou a mão de um lado para o outro. “Você é mais ou menos”, ela o encarou. “Pensa que eu não te ouvi? Levando em conta que não sou a ‘ferramenta mais afiada da caixa.’” Cook começou a se vestir. Eu fiquei estranhamente na porta do quarto dela. Polly pegou a jaqueta dele e jogou nele. “Fecha a porta quando sair”, ela disse friamente. “Idiota.” JJ estava assistindo White Swap e mudando para The Economist, mas olhou para cima quando nos ouviu. “Isso foi rápido”, ele disse. “Cala a boca, Jay, nós estamos indo”, disse Cook. “Mas-“ “Só cala. A porra. Da sua. Boca”, gritou Cook. JJ desligou a TV e nos seguiu até a porta da frente. “Tá tudo bem, JJ”, eu sussurrei desarrumando o cabelo dele. “O jogo acabou agora.” JJ 2 minutos depois. “Certo”, disse Cook recuperando seu espírito enquanto descíamos a rua.”Para frente e avante, garotos.” Eu estava quase fazendo uma tentativa de inquérito sobre o que tinha ido errado, quando alguém deu um baque no chão atrás de mim. Eu virei para ver a cabeça de Cook se arrebentando para trás, sangue jorrando de seu nariz. Freddie estava sobre ele, se arquejando. “Isso”, ele disse. “Acabou. Nós. Acabamos.” Ele se agachou e levantou Cook pela blusa. “Você humilhou a porra de todos nós. De novo. Mas pela última vez, você me entendeu? A porra da última vez.”
  • 109.
    “Escuta, Fred”, Cookestava lutando para respirar. Ele tirou o sangue de seu rosto com a manga. “É a porra de um pequeno contratempo para os três mosqueteiros, isso é tudo.” “Que se foda os mosqueteiros”, zombou Freddie. “Eu não quero saber”. Ele se levantou e chutou viciosamente uma pedra. “Você é doente. Você precisa de ajuda, parceiro”, ele se virou para andar na outra direção. Eu fiquei, sem ajuda, com o papel de impedir o apocalipse. Como eu tinha previsto, Cook não estava feliz em deixar por isso. Ele levantou e atacou o Freddie, empurrando-o com força com as duas mãos. “Não foi minha culpa, seu puto. Ela era louca.” Freddie se virou e empurrou o Cook de volta. “Não, ela era um ser humano normal que agiu estranho pela sua extrema viadisse da porra”, ele o empurrou duas vezes para dar ênfase nas duas ultimas palavras. “Você é uma ameaça para a sociedade”. Ele fez uma pausa. “Você nunca irá tê-la, você sabe. Ela nunca vai te escolher.” De qualquer jeito eu sabia que ele não estava se referindo à Polly. Eu senti o sangue indo para minha cabeça. A qualquer segundo-. Então eles estavam no chão, agarrando um ao outro, dando socos, braços sendo jogados. Não tinham mais discernimentos como ser humano. Eles eram a luta. Um entalhe raivoso de poeira cabelos e violência. Eu conseguia sentir aquilo se construindo em mim, como quando Bruce Banner vira o Incrível Hulk, mas só que eu não era verde e não tinha força ilimitada, eu estava indo em suas direções. Eu choraminguei nervosamente ao redor da briga. “Não, não, não, não, não, não, não, não” . Então as lágrimas vieram e minha voz ficava mais e mais alta até eu estar gritando, gritando tão alto que depois minha garganta ficou raspando. “PAREM ESSA PORRA, PAREM ESSA PORRA AGORA, PAREM, MERDA , PAREM, PAREM, PORRA, PAREM COM ESSA PORRA AGORA, POR FAVOR, CARALHO, PAREM, PAREM, PAREM.” Então eu percebi que alguém estava me segurando. Eu abri os olhos e vi algodão cinza. A blusa do Cook. Sua mão estava atrás da minha cabeça, me segurando para seu peito. Ele estava falando comigo. “JJ, está tudo bem. Vamos lá, parceiro, nós paramos. Tudo está bem, eu prometo. Você está bem”. Eu senti ele beijar o topo da minha cabeça. Eles tinham parado de brigar. Toda a tensão do meu corpo saiu e eu afundei na calçada.
  • 110.
    “Vamos lá, Jay.Está tudo bem. Por favor, pare de chorar”, disse Freddie, segurando o topo do meu braço. Eu tirei o lenço da minha manga e esfreguei meu rosto. Cook me apertou com força. “Eu te amo Jaykins. Você faz parte da minha família, tá?” Ele se virou para Freddie. “Você também, cara. Ela não vai mudar isso.” Freddie pareceu imóvel. Ele começou a pegar seus tênis. “Mas ela mudou”. Ele olhou para nós dois, nos agarrando como dois amantes machucados. “Ela fez isso meses atrás.” “Ah, que se foda ela. Ela se foi”. Cook finalmente me soltou, para o alívio dos meus membros doloridos. Ele olhou melancolicamente para o Freddie. “Mas eu, você e JJ. Continuamos juntos. Nós temos um ao outro. Sim?” Freddie deu de ombros. “Não sei mais. Não é simples assim, cara”. Ele correu uma mão pelo cabelo. “Não é simples assim.” Effy Terça, 18 de Agosto. De tarde, em Veneza. “Jesus, você o quer tanto ”, disse Katie. Ela estava me olhando meio que pensativa. Como se ela estivesse vendo alguém diferente. Outra eu. Eu acendi um cigarro. “Não seja ridícula.” “Eu não sou cega”, ela pegou meu cigarro e tragou. Tossiu melodramaticamente e me entregou de volta. “Eu já vi isso antes, lembra?” Dei a ela um olhar vazio. “Mas daquela vez, você deixou mais óbvio ao transar com ele”, ela abraçou os joelhos. “Freddie? Enquanto eu estava inconsciente?” Eu esfreguei os dentes, coçando de tanto fumar e beber. “Eu pedi desculpas.” “Só porque não queria que ele pensasse que você era uma vadia. O que ele fez, a propósito.”
  • 111.
    “Ele pensou? Suponhoque eu era.” “Aquele olhar em seu rosto quando viu como os filhos do Aldo ficam quando estão com ele... o mesmo olhar maldoso que você dava para mim.” Eu funguei. “Aposto que você amou isso”, eu disse. “Que você tinha o Freddie e eu não.” Ela concordou com a cabeça. “É, eu amei, enquanto durou. Você era superior pra caralho. Você podia escolher. Todos queriam você”, ela sorriu. “Até que um não quis.” Que inferno, meus olhos estavam se enchendo de lágrimas. Se recomponha, sua idiota, eu pensei. “Effy sempre consegue o que ela quer”, Katie chutou o degrau com seu salto alto. “Olha, você vai construir uma ponte e passar por cima disso, ou o quê?”, eu disse pegando a garrafa de vinho nos meus pés. Eu tomei um gole grande e senti o embalo do álcool. “Eu já passei”, ela começou a brincar com a tira de sua sandália. “Eu sei quando sou derrotada”, ela observou enquanto eu enchi minha boca de vinho. “Você tem de tentar. É um alívio e tanto, pra falar a verdade.” Eu não respondi. Não tinha uma resposta legal. Eu tinha nada. Não sei como é ser feita idiota. Mas quando Freddie começou a transar com Katie... eu estava humilhada, para dizer o mínimo. Isso era a porra de um show. Katie Fitch. Desesperada e carente Katie. Sempre pensei que se esses dois adjetivos se aplicassem a mim eu iria me matar. Mas era isso o que eu sentia sentada nesses degraus com ela. Carente e desesperada. É como se toda essa merda não tivesse ficado para trás, no fim das contas. Ela entrou no avião, me seguiu e me engoliu. Pouco surpreendente que Katie tinha percebido isso. Estava esperando Aldo vir aqui de novo, depois da festa em nosso apartamento ontem à noite. Um gato em um telhado de zinco quente. Passando e repassando o que aconteceu naquele dia. Com medo de entregar aquele livro a ele. Patético. Tão ansiosa para agradar. Eu me sentia uma bagunça, nervosa e paranoica. Continuava inventando desculpas para descer as escadas, mas ele nunca estava lá. Então, quando ele finalmente veio meia hora atrás, ele esteve com ela. Dando suporte e essas merdas. Me tratou como a porra de uma criança. Bem, eu estava agindo como uma. Eu me odiava.
  • 112.
    “De qualquer jeito,Florence vai voltar do hospital em breve”, disse Katie mudando totalmente de assunto. “Agora ela está melhor.” Florence foi levada por uma ambulância depois da festa. Disseram que foi um derrame leve. Minha mãe ficou com ela a noite toda. “É, eu vou vê-la”, eu disse. Eu peguei outro cigarro, minha mão tremendo enquanto eu o acendia. “Effy?” Katie esticou a cabeça para olhar para mim. “Você está bem?” “Sim”, eu disse, na hora em que meu telefone apitou. Minha mãe, provavelmente. Eu tirei da minha bolsa e cliquei nas minhas mensagens. Alguma coisa surgiu em mim quando vi seu nome. Quente? Fria? Não sei. Eu engoli e abri a mensagem. A primeira em semanas. NÃO SE INCOMODE EM VOLTAR. Tremendo, eu derrubei meu telefone e as lágrimas começaram a cair. “Effy? Que inferno.” Katie se levantou e dançou em minha volta, pegando o telefone. “O que está acontecendo? Quem era?” Ela olhou para a mensagem ainda aberta na tela. Olhou de volta para mim. “Não se atreva a se regozijar”, eu disse a ela, esfregando o meu nariz com a manga. Houve um silêncio enquanto eu mantinha minha cabeça baixa, no nível da sandália de cortiço da Katie. “Eu não estou me regozijando”, ela disse baixo. Ela se mexeu para sentar do meu lado no degrau. Eu continuava segurando meu cigarro, queimado até o filtro. Ela gentilmente o tirou de mim e esfregou a ponta no chão. “As coisas voltam e acabam com você”, eu ouvi o que ela dizia, mas o sangue continuava percorrendo minha cabeça. “Eu acho que você deve aprender com isso, ou alguma merda clichê assim.” Eu olhei para cima esperando um sorriso condescendente em seu rosto de boneca. Mas havia algo diferente. Pena. E não podemos ter isso.
  • 113.
    Eu esfreguei meusolhos, mais secos agora. E respirei devagar. Eram cinco em ponto. Um pouco cedo para um aperitivo, mas foda-se. “Eu não ligo”, eu disse. “Ele pode ir se foder. Todos eles podem”, eu chequei para ver quanto dinheiro eu tinha. “Vamos”, eu disse a ela. “Vamos ficar loucas.” “Ok”, disse Katie olhando para mim cautelosamente. “Se é isso que você quer.” Às nove horas eu mal podia me levantar, e Katie estava inclinada no balcão desse pequeno bar que estávamos. Estava lotado de gente. Um rapaz bem formado em seus vinte anos estava em pé olhando para mim do outro lado. Ele disse alguma coisa para o cara que estava com ele, e veio. “Ciao”, ele disse, mostrando todos seus dentes e ignorando Katie. Uma jaqueta de couro surrada e uma blusa fina, assim você poderia ver os músculos de seu peito. Ele fez um gesto para meu copo, adicionando com um bom inglês “Posso te comprar uma bebida?” “Claro”, eu disse friamente. “Quantas você quiser”. Katie riu. “E uma para minha amiga aqui, também.” “Mandona”, ele disse entretido, me olhando de cima a baixo. “Você é sempre tão exigente?” “Você não pede, você não consegue”, eu disse alegremente, dando meu copo para ele. “Nos dê licença, nós vamos lá fora para nos sustentar”, ele levantou uma sobrancelha enquanto eu empurrava Katie em direção à porta. Do lado de fora, eu desajeitadamente preparei um baseado embaixo da mesa. Um grupo de gente bem vestida e mais velha passava por lá, de braços dados, olharam desdenhosamente para mim e para o que eu estava fazendo. “Algum problema?”, perguntei a eles, alto. O homem balançou a cabeça, sussurrando algo para sua mulher. “Vão se foder então”, eu disse para eles. “Idiotas.” “Effy”, Katie disse chocada. “Cuidado. Vai nos fazer com que sejamos presas.” Eu bati em seu braço. “Effy sabe o que está fazendo.” Katie não pareceu tranquilizada quando acendi o baseado. “Eu não-“
  • 114.
    Mas eu tragueienquanto ela falava e imediatamente tive dores de cabeça e náusea. Eu conseguia sentir o suor atrás do meu pescoço. Eu segurei o baseado longe de mim. “Uau”, eu disse. “Eu acho que estou chapada.” “Não diga”, disse Katie balançando a mão quando eu passei o baseado para ela. “Vamos voltar para dentro.” Eu joguei o baseado no chão e a segui através da porta, onde o rosto esculpido estava nos esperando. Ele segurava dois copos de um líquido claro. Eu peguei um deles e cheirei. “Eu espero que você não tenha colocado Rohypnol nisso”, eu disse rudemente. Katie olhou pedindo desculpas para ele. “Meu nome é Katie”, ela disse modestamente. “E essa é minha amiga Effy.” O cara concordou com a cabeça, pareceu distintamente desapontado conosco. Não importa. “De qualquer jeito, um brinde então”, eu disse batendo meu copo contra sua garrafa de cerveja. “Até mais tarde.” Eu agarrei o braço de Katie e a guiei até o banheiro. Eu tinha uma urgência pra vomitar. Quando eu emergi do cubículo dez minutos depois, Katie estava esperando por mim, inclinada na máquina de camisinha. “Se abastecendo?”, eu disse arrastadamente. “No caso de você ter sorte?” “Não”, Katie me entregou uma toalha de papel. “Limpe seu rosto, você vomitou nele todo.” Eu peguei o papel e olhei no espelho. A minha maquiagem nos olhos tinha escorrido em riachos feios pelo meu rosto, que estava pálido e manchado pelo vômito. Um pouco de vômito estava preso no meu cabelo. Eu dei uma patada nele. “Eu vou te levar para casa”, disse Katie, vindo em minha direção. “Vamos.” Eu a ignorei, limpando meu rosto com a toalha de papel. “Effy”, Katie persistiu. Ela colocou a mão no meu ombro. “Provavelmente não vai ser sempre tão ruim.” Eu me virei e inclinei minha cabeça, olhando impassível para ela por um segundo. “Bem, não para mim.”
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    Eu observei suaexpressão ir de preocupada a confusa. “Entenda, eu não preciso tentar, Katie. Não como você. Você sempre vai ter que tentar. Porque... bem, vamos encarar, você não é isso tudo por baixo de sua maquiagem de viúva de vinte anos. E você não é tão brilhante. Você só é...”, eu balancei a minha mão na frente de seu rosto. “Sem. Objetivo. Algum”, eu prendi meu lábio superior para ela, dei de ombros e joguei a toalha de papel no lixo. Parecia que eu havia dado um tapa nela. “Você realmente está bem louca, Eff-” “Ah, eu não estou tão louca”, eu sibilei. “Porque você é tão infeliz, barata, e desesperada quando eu estou sóbria”, eu fiz uma pausa e sorri docemente. “Você realmente deveria de matar agora, porque acredite em mim – e eu estou dizendo isso como sua amiga – nunca alguém vai te querer.” Katie se moveu em minha direção, sua face totalmente serena. “O que quer que a faça se sentir melhor, Effy.” Ela se virou para ir embora, mas parou. “Eu sei que você não consegue suportar eu te ver perseguindo a pessoa por quem você tem uma quedinha”, ela levantou o dedo e apontou para mim. “Mas principalmente, você não consegue aguentar que você pode, de qualquer forma ou jeito, ter alguma coisa em comum comigo”, ela derrubou a mão e abriu a porta. “Eu vou embora amanhã”, ela disse. “A primeira coisa.” Katie Veneza, à noite. Eu deixei Effy naquele bar e continuei andando. Sem qualquer ideia de onde eu estava indo. Deus sabe em quantas pontes de casa de boneca eu andei, mas parei em uma delas. Fiquei inclinada, assistindo um casal em uma gôndola, os braços em volta um do outro. O cara guiando o barco olhou para mim, enquanto vinha em direção à ponte. “Bella”, ele sussurrou no ar quente da noite. Eu sorri, engolindo o choro. Você não me viu sem minha máscara, eu pensei. Você não diria isso se visse. Que noite horrível pra caralho.
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    Desde o dramagigante do aniversário do Aldo, a velhinha sendo transportada por uma ambulância e a mãe da Effy com um ataque de pânico, Effy ficou sozinha. Totalmente. Eu nunca passei tanto tempo sozinha com ela. E deixa eu te dizer: realmente me abriu os olhos. Quando todos foram embora, toda essa espuma se foi. Não me incomodei. Estava um pouco entediada, tentando falar com alguns dos vizinhos, sem ideia do que eles estavam falando. Eu comecei a beber um dos licores da estante da sala. Ele tinha um gosto fétido. Eu cuspi meu gole na pia do banheiro e chequei minha roupa. Não era a primeira vez nesse lugar tonto que eu me sentia safada e barata. Effy estava certa sobre isso. Effy tinha fechado a porta para o último convidado, parecendo aérea. Parecendo feliz, pensando nisso. Enquanto eu escovava os dentes eu fiz um liga pontos na minha mente. Quando olhei para ela mais cedo, ela estava com Aldo. Ela estava desembrulhando um presente e sua face estava iluminada. Ela estava olhando para o cara como se fosse o presente de natal que ela desejava. Eu observei ele abraçá-la quando viu o que era, e ela se aninhou em seu ombro. Então Anthea entrou surtando e tudo ficou fora de controle. Effy só ficou lá, se abraçando, totalmente inútil. Enquanto Aldo e sua mãe ficaram ocupados dizendo a todo mundo que eles tinham que ir embora, Effy não conseguia tirar os olhos dele. Atrapalhada. Eu esfreguei meu rosto e desliguei a luz do banheiro. Quando eu entrei no quarto, Effy estava deitada na forma de uma estrela, encarando o teto. “Tudo bem?”, eu sentei na ponta e bocejei. “Pobre e velha garota”, eu disse. “Florence.” “É”, disse Effy. Ela moveu as pernas para que eu pudesse me deitar. “Uma pena, pois eu estava começando a me divertir.” Eu fiz uma cara. “Sim, que inconveniente da parte dela”, eu disse. “Ter esse ataque engraçado exatamente quando você estava começando a se divertir.” Effy olhou bruscamente para mim. “Obviamente eu me importo com a Flo”, ela disse na defensiva. “Eu espero que ela fique bem.” Eu ofeguei. “Claro que ela vai ficar”, eu disse. “Provavelmente ela tomou muito vinho”, eu fiz uma pausa. “Então, ele gostou do presente, suponho. Aldo?”
  • 117.
    “Eu acho”, eladisse muito casualmente. “Ele tem uma quedinha por você, eu acho”, eu me virei para encará-la, sustentando meu rosto no cotovelo. “O que você acha?” Effy não respondeu, primeiramente. Ela puxou o lençol debaixo de nós e se cobriu parcialmente com ele. “Talvez”, ela disse eventualmente. “Quem sabe?”, ela desligou as luzes do lado da cama. “Eu estou exausta”, ela disse sonolentamente. “Tente não roncar tão alto hoje à noite.” “Atrevida da porra”, eu deslizei pra baixo e me virei para o outro lado. Alguma coisa estava acontecendo. Eu só não estava entendendo o que era ainda. Essa manhã, Anthea continuava no hospital com Florence. Ele enviou uma mensagem para Effy, para mantê-la atualizada. Disse que ia voltar assim que a velha garota estivesse estável. “Você acha que Aldo está com ela?”, eu disse inocentemente, enquanto comíamos um saco de doces de chocolate na cozinha. “Como eu vou saber?”, vociferou Effy. Ela acendeu um cigarro e abriu o livro guia de sua mãe. Ficamos no apartamento por horas. Eu fiz uma sugestão para sairmos, mas Effy falou que queria ficar lá. No caso de Anthea voltar para casa mais cedo. Sim, claro. Effy continuou desaparecendo em intervalos de dez minutos. Na quinta vez que ela voltou sem fôlego para o apartamento, eu a confrontei na entrada. “Treinando para a maratona?”, eu perguntei. Effy fez uma careta enquanto passou por mim. “Não, só estou me sentindo inquieta, só isso.” “Vamos sair então”, eu disse. “Eu vou ficar louca aqui.” Ela negou com a cabeça. “Pode ir, se quiser.” Eu suspirei e voltei para a cozinha para ficar mais meia hora enlouquecendo com as rádios italianas. Aldo não apareceu. Achei que ele também estivesse ocupando cuidando da Florence.
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    Effy estava comoum Rottweiller aprisionado. Rosnando para mim toda vez que eu abria a boca. Hora de ir. Não estava funcionando e eu sentia falta da minha pequena família disfuncional. Então finalmente, essa tarde, Anthea veio. Aldo estava com ela. Effy estava esfregando uma panela que não havia sido usada. Ela estava estranha pra caralho. “Florence está fora de perigo”, suspirou Anthea, afundando em uma das cadeiras da cozinha. “Pobre senhora. Sua família está a quilômetros de distância.” Effy não respondeu, só colocou a torneira no máximo, ensurdecendo a todos nós. Aldo foi até a pia e desligou. “Sua mãe está exausta”, ele disse a ela, sem ser de uma maneira cruel. “Por favor. Ela precisa de um descanso.” Effy jogou a panela na água cheia de sabão, borrifando nele. “Então ela vai ter, caralho”, ela disse indo pra fora e batendo a porta da cozinha. Nós três olhamos um para o outro. Aldo esfregou o ombro de Anthea. “Ela vai ficar bem”, ele disse a ela. “Ela está triste por causa da Florence.” Não, ela não está, seu idiota, eu pensei. Mas eu sorri para eles. “Eu vou ver se ela está bem. Levá-la para algum lugar”, eu disse, percebendo o olhar de alívio entre eles. Então acabamos indo para outro desses cubículos e sentando nas escadas por algumas horas. Engraçado, pois eu estava com pena da Effy. Eu estava do lado dela. Mas quando eu encarei para aquela água escura, o casal da gôndola desaparecendo de vista, eu me senti mais distante dela que nunca. Apesar de, na verdade, pensar que somos iguais. Eu tirei meu celular e mandei uma mensagem para minha mãe. ESTOU VOLTANDO AMANHÃ. TE AMO. Katie Quarta, 19 de agosto
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    Bordeaux Quando o trementrou na estação e eu vi minha mãe em seus sapatos dourados folheando uma cópia da Paris Match. Eu senti uma onda de afeto. Pela minha mãe, pelo meu pai, pelo James e pela Emily. Especialmente pela Emily. “Yoohoo!”, minha mãe balançou sua revista para mim. “Olá, querida.” Coloquei a minha bolsa em meu ombro. “Oi”, eu disse sorrindo. “Como estou feliz por te ver.” Minha mãe sorriu. “Sentimos sua falta, KitKat”, ela disse dando um de seus abraços ‘calorosos’ em mim - basicamente um apertãozinho no braço. “É uma pena que Emily tenha voltado. Ela estava esperando te ver.” “Emily voltou?”, eu disse desapontada. “Sim, eu não estou satisfeita, mas ela esteve com um humor esquisito nos últimos dias. Com saudades daquela garota.” “Naomi?”, eu disse. “Sim, Naomi”, minha mãe suspirou. “Pena. Esperava que ela e Josh se dessem bem. Parece que ele é um bom garoto.” Eu não pude evitar sorrir. “Eu estou certa que ele é gay, mãe. Emily me disse”, eu fiz uma pausa. “Ela está bem?” “Claro que está”, minha mãe cantarolou. “Mais durona que botas velhas, nós Fitches. Ela vai passar por essa fase, então tudo vai voltar ao normal.” “O que quer que isso seja”, eu murmurei. “Não estou certa de que isso seja uma fase. Emily está amando, mãe. Não tem sentido fingir que isso não está acontecendo.” Minha mãe olhou para mim bruscamente. “Você mudou sua sintonia.” “Bem, talvez eu tenha mudado”, eu disse. Minha mãe me deu um olhar curioso. “Você parece cansada, querida.” “Sim”, eu larguei minha bolsa na mala do carro. “Eu estou destruída, mãe.” “Então. Ela se desculpou?”, disse minha mãe enquanto dirigíamos de volta. “Effy?”
  • 120.
    Eu mordi meuslábios. “Vamos dizer que nos entendemos.” Minha mão olhou de lado para mim. “Isso é bom. É horrível quando você se desentende com seus amigos, KitKat.” Eu fiquei olhando pela janela do passageiro. Deus, mãe. Você nunca vai saber metade disso. “Emily provavelmente está no trem de volta para Bristol agora”, minha mãe continuou. “Ela saiu essa manhã no raiar do dia.” “Eu vou ligar pra ela”, eu disse. Meu estômago se embrulhando. Eu tinha algumas coisas que precisava dizer à minha irmã. Eu entrei no quarto e vi a cama da Emily, perfeitamente organizada. As suas coisas tinham saído da mesinha de cabeceira. Cabides sem suas roupas no guarda-roupa. Larguei minha bolsa no chão e sentei na poltrona perto da janela. Sentei em minhas pernas e liguei para seu número. Quando ela atendeu, eu podia ouvir o barulho do trem, o som de estática ao fundo. “Katie?”, ela disse parecendo franca. “Como vai Veneza?” “Eu estou de volta ao chalé”, eu disse rapidamente. “Effy e eu nos separamos.” “Ah”, houve uma breve pausa. “Então, quer me dizer que porra foi essa?”, ela disse. “Você sabe o quanto eu fiquei preocupada quando eu acordei e você havia desaparecido? E eu não podia nem te ligar, sua idiota”, ela fez uma pausa de novo. “Eu não acredito que você afanou meu telefone para me impedir de falar com a Naomi. Não dá pra acreditar, porra.” Eu respirei. “Desculpa”, eu disse. “Eu estava... eu senti que eu e você... como se tivesse te perdido, para sempre”, eu fechei os olhos tentando encontrar as palavras certas. “Você e Naomi. Eu quero tanto o que vocês têm. E eu estava assustada que você amasse mais a ela do que a mim”, eu esfreguei meus joelhos. “Esconder seu telefone. As coisas que eu disse. Eu estava fora de mim. Eu estava com inveja. Eu estava tentando te machucar.” Emily suspirou. “Você foi uma vadia, mas eu posso entender. Eu tive que viver na sua sombra toda a minha vida, lembra? E eu sabia que eu estava presa nas minhas próprias merdas. Eu não
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    tinha tempo paraas suas. Mas isso não significa que eu não te amo. Naomi é minha namorada, mas quem sabe o que vai acontecer aí. Eu e você. Nós estamos presas uma na outra”, ela deu uma pequena risada. “Mas correr para a Effy? Aquilo foi uma surpresa.” “Eu sei. Pareceu uma boa ideia na hora”, eu disse. “E honestamente, fico feliz por ter ido.” “Sério?” “Sim. Quer dizer, Effy é louca”, eu fiz uma pausa. “Eu posso ser um pouco besta às vezes, mas pelo menos não sou tão ferrada.” “Não. Você só está solitária, e está saindo com os caras errados”, disse Em. “Você vai encontrar alguém, Katie. Alguém que valha a pena.” “Sim.” Senti os meus olhos formigando. “Então, o que há com ela? Effy?” “Jesus, tinha alguma coisa estranha acontecendo com um cara mais velho. Alfredo. Ficou bem óbvio que ela estava atrás dele. Assim que eu percebi isso, ela se virou contra mim. Realmente colocou tudo para fora.” “Que surpresa”, disse Emily. “Quantos anos ele tem?” “Quarenta. Nada mal, na verdade. Boa aparência. Divorciado. Charmoso. Eu acho.” “Então quase te matar na floresta”, disse Emily. “Isso tudo pra nada. Ela obviamente já superou Freddie McClair.” “Ah, não tenho tanta certeza sobre isso”, eu disse. “Mas só Deus sabe o que se passa na cabeça da Effy. Ela estava baixa. Tipo, totalmente no limite. Eu sinto pena dela, de um jeito.” Houve silêncio. “Em? Ainda está aí?” “Estou.” “Estou tão feliz que você é minha irmã”, eu disse feliz. “Você é a melhor gêmea.” “Cala a boca”, disse Emily.
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    “É sério. Eununca vou entender por que você gosta de garotas. Mas não importa. Você sempre vai ser minha irmã especial”, minha voz começou a falhar. “Você sempre vai ser minha irmã especial, também”, disse Emily. “Necessidades especiais, isso sim.” “Vai se foder.” Nós voltamos ao silêncio. Eu esfreguei o meu nariz com um lenço. “Então, somos amigas de novo?” “Sim”, disse Emily. “Precisa mais que uma birra para você se livrar de mim.” Eu sorri. “Obrigada”, eu disse. “Obrigada, Emily.” Não houve uma resposta, o sinal dela tinha sumido. Eu segurei meu telefone e sentei enrolada, olhando para a parede. Pela primeira vez em meses eu me senti sortuda por ser eu. Emily Quarta, 19 de Agosto Em casa de novo Eu abri a porta antes que ela pudesse bater e por um segundo só ficamos em pé e nos encaramos. “Ei”, ela disse seriamente. “Como vai?” “Muito melhor agora”, eu disse, meus lábios desejando dar beijos em todo o seu rosto. “Agora que você está na minha frente.” “Sério?”, Naomi levantou uma sobrancelha. “Eu acho que é bom te ver também.” “Vadia”, eu disse e ri, estendendo a mão e agarrando-a pela blusa. “Você vai ter que fazer melhor que isso.” Eu a puxei pra dentro e fechei a porta da frente. Então eu tirei meu vestido, e fiquei com meu sutiã e minha calcinha. “Use sua imaginação”, eu disse traçando meu umbigo com o dedo. “Você é boa nisso.”
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    “Vou ver oque posso fazer”, ela disse suavemente agora, me puxando em sua direção e se inclinando para me beijar. Eu fechei os olhos e senti suas mãos roçando em meus peitos, então descerem em minha barriga e entrarem em minha calcinha. Ela se ajoelhou. “Vamos tirar isso de você”, ela disse. Eu gemi quando ela gentilmente abriu minhas pernas e começou a me lamber do jeito que eu gosto – envolvendo minhas coxas com sua língua, me provocando até que chegasse ao meu clitóris. “Você está indo muito bem até agora”, eu disse a ela sem fôlego. “Continue.” Nós fizemos por toda a casa, transando na mesa da cozinha, no sofá da sala de estar, na frente do espelho do quarto dos meus pais, e no banheiro, fazendo uso total do chuveirinho, e dos vários frascos de xampu à disposição. Quando chegamos ao meu quarto e de Katie, estávamos muito cansadas para fazer qualquer coisa além de nos abraçar. Ficamos em silêncio um pouco, só ficamos juntas. “Eu te amo, garota” eu disse. Ela beijou minha cabeça. “Eu senti sua falta loucamente”, ela sussurrou nos meus cabelos. “Nunca mais quero me separar de você por tanto tempo”, eu disse. Eu coloquei a cabeça no cotovelo e olhei para ela. “Por que não ficamos juntas no próximo verão?” “Parece bom para mim, amor.” Eu sorri. “E acho que poderíamos tirar um ano de hiato e ir viajar. Até mesmo dois anos.” “As pessoas fazem hiatos de dois anos antes de irem para a universidade?”, Naomi perguntou, sonolentamente. Eu deitei, descansando a cabeça em seu peito. “Sim, claro. Nos inscrevemos quando voltarmos.” Eu pensei nos folhetos embaixo da minha cama para viagens pelo mundo: América do Sul, Austrália, EUA, Sudeste da Ásia. Talvez até Rússia ou China. Naomi e eu faríamos tudo juntas. Seria o tipo de experiência que liga as pessoas para sempre.
  • 124.
    Naomi tinha dormido,o seu peito se levantando e se abaixando ritmicamente. Típico. Eu estiquei minha cabeça para beijá-la gentilmente nos lábios, então me aninhei nela. Eu tinha resolvido tudo com minhas garotas. Além disso, nada mais importava. Pandora Quinta, 20 de agosto Quarto da Pandora “Panda?” Minha mãe puxou meu edredom, mas não conseguia me mover. Estava exausta. Thommo e eu passamos horas em Brandon Hill, ontem à noite, conversando, beijando e fumando baseados. Ficamos hiperativos no final, dançando por aí como loucos, até eu ser perseguida por um cachorro e começar a gritar. Foi aí que algumas pessoas ficaram com raiva e tivemos de ir. Nenhum de nós tinha dinheiro de sobra, porque gastamos tudo em maconha, rosquinhas e sidra, então Thomas me levou na corcunda até o final da minha rua, o pobre garoto. Ele insistiu. “Eu sou forte, princesa Panda. Sou um leão.” Ele rugiu e me girou rapidamente, até que nós dois nos sentimos tontos, e ele me colocou perto da caixa de correio. “Boa noite”, ele beijou minha mão, depois meus lábios, e me abraçou com força. “Te vejo amanhã.” Deveria ser meia noite quando entrei. E minha mãe iria ter o que falar hoje. Ela sabe que Effy está de férias. Ela começou a fazer cócegas no meu pé e a dar risadinhas. “Mamãe, para!”, eu disparei da cama. Meu cabelo estava bagunçado como se fosse um espantalho, eu conseguia me ver no espelho da minha penteadeira. Minha mãe pegou a minha escova de cabelo na penteadeira e sentou em minha cama. “Olhe para você, Panda”, ela começou a pentear meus cabelos, o que eu amo. Eu cruzei minhas pernas uma sobre a outra e fechei os olhos.
  • 125.
    “Você estava muitoatrasada ontem, Panda”, disse minha mãe depois de um minuto. “Aonde você estava? Effy foi viajar com a mãe, não foi?” Eu reconheci aquele tom de voz. Doce e gentil, mas um pouco fria. Pareceu uma boa hora para ser honesta com minha mãe – agora que não precisava dividir a atenção dela com algo. Mas era importante que eu escolhesse minhas palavras com cuidado. “Eu sai com o meu novo amigo, Thomas.” As palavras ficaram estranhamente penduradas no ar e eu observei sua face ficar coberta com elas. “Ele é adorável, e educado”, eu continuei. “E não conhece realmente alguém daqui.” Essa parte saiu um pouco apressada. Eu não queria dar tempo para ela pensar na imagem de Thomas. “Ele não é o que você pensa.” “Espere um pouco, Pandora...”, ela disse devagar. “Por que você não me contou desse garoto antes?” “Porque você ainda não quer que eu saia com meninos. Você disse.” “Eu não disse exatamente isso. Não fico feliz com você tendo namorados sérios, isso é tudo”, ela disse. “Garotos que vão te encorajar a fazer coisas para as quais você ainda não está preparada para fazer.” Ela me deu um olhar significativo. “Thomas nunca faria com que eu fizesse alguma coisa”, eu contei a verdade a ela. “Ele é do Congo e mora em um apartamento horrível com a mãe dele e suas irmãs pequenas porque eles não têm dinheiro, e ele trabalha dia e noite para pagar o aluguel e colocar comida na mesa, porque ele não tem um pai. Ele é muito educado e muito engraçado, também”, eu parei e respirei. “Você iria gostar dele.” Eu notei que a nuvem tinha desaparecido do rosto da minha mãe. Ela estava sorrindo um pouco. “Ele soa legal, Panda”, ela disse. “Talvez eu pudesse conhecê-lo?” “Bombástico”, eu saltei da cama e coloquei minhas meias. “Eu vou convidá-lo para um chá, posso? Hoje à noite.” “Hoje à noite?”, minha mãe pareceu afobada. “Bem, eu... hoje à noite?”
  • 126.
    “Sim. Eu vouligar agora e contar a ele”, eu não podia acreditar o quão fácil isso foi. Talvez tudo desse certo no fim das contas! Eu deixei minha mãe sentada em minha cama e desci as escadas correndo, para ligar para o Thomas. Thomas apareceu às sete, usando uma gravata e segurando flores. “Você está lindo, garoto”, eu guinchei. “Amei sua gravata.” Ele me beijou na bochecha e sussurrou “Oxfam.” As partes de trás dos meus joelhos formigaram. Minha mãe saiu da cozinha, seu pescoço coberto de grandes manchas vermelhas que sempre aparecem quando ela está estressada. Thomas estendeu a mão e disse “Sra. Moon, estou tão feliz em te conhecer.” Minha mãe sorriu como todos fazem quando o conhecem. “Estou feliz em te conhecer também, Thomas”, ela disse. “São para você”, ele entregou as flores. “Que adorável”, minha mãe espirrou e as passou para mim. “Coloque-as no jarro verde, você faria isso Panda? Thomas?”, ela se virou para ele. “Poderia me entregar seu casaco?” Eu os observei da porta da cozinha e dei palminhas para eles. Thomas me viu e piscou para mim enquanto minha mãe pegava seu casaco e colocava no armário da sala. Eu fui colocar as flores na água. “Agora”, disse minha mãe, vindo para a cozinha com Thomas atrás dela. “Vocês dois vão para a sala assistir TV, eu vou trazer algumas bebidas. Limonada feita em casa, tudo bem para você, Thomas?” “Muito bom, Sra. Moon. Obrigado”, Thomas sorriu para ela. “Não se preocupe”, eu disse enquanto fazia com que nós ficássemos confortáveis no sofá. “Eu tenho vodka em um jarro de geleia.” Ele sorriu. “Boa garota”, ele sussurrou de volta. “Mas sua mãe é uma boa mulher.”
  • 127.
    Sua coxa seespalhando pelo sofá e a sensação de sua coxa contra a minha estava fazendo com que por dentro eu virasse geléia de laranja. Minha favorita. Depois do jantar com espaguete e sobremesa de maçã, todos nos sentamos na sala de estar, nos sentindo cheios. Mas eu estava com borboletas no estômago também. Minha mãe sempre vai para a cama às dez e meia, então eu sabia que estava perto do momento pelo qual esperei a noite toda. Minha mãe levantou da mesa e começou a recolher os pratos, e Thomas pulou para ajudar. “Obrigada, mas não precisa”, disse minha mãe. “Você deveria estar indo para casa, eu não percebi o quão tarde era.” “Na verdade, mãe”, eu disse. “Eu acho que está tão tarde que Thomas deveria ficar aqui essa noite”, eu fechei os meus olhos rapidamente e os abri de novo. O sorriso de minha mãe havia desaparecido de seu rosto. “Eu não acho. Thomas precisa ir pra casa”, ela disse muito calma. “Foi uma noite adorável.” Ela se levantou e foi até o armário da sala pegar o casaco dele. Eu acho que coloquei muita vodka na minha limonada, aquela sensação destemida tomando conta de mim. “Thomas e eu estamos apaixonados um pelo outro. E eu tenho quase dezoito”, eu anunciei como Speedy Gonzalez, sabendo que não iria fazer diferença alguma. “Panda”, Thomas sibilou, me puxando pelo braço enquanto eu andava em sua direção. “Panda, pare.” Eu tirei sua mão. Não tinha volta. Minha mãe estava andando de volta para a sala. Seu rosto estava como pedra. “Agora, Pandora, você está deixando eu e Thomas com vergonha”, ela disse com sua voz de gelo. “Essa é minha casa, e estou dizendo que não vou deixar um menino passar a noite aqui. O mesmo aconteceria se você tivesse vinte e oito ou trinta e oito anos.” “Foi um prazer te conhecer, Sra. Moon”, disse Thomas, se movendo do aposento. “Obrigado por esse jantar delicioso.” Eu tentei pegar sua mão quando ele passou por mim, mas ele não deixava.
  • 128.
    “Thomas?”, eu olheifixamente para ele. “Tchau”, ele disse rigidamente. Isso não estava indo como eu planejei na minha cabeça. Thomas estava tentando vestir seu casaco e abrir a porta da frente ao mesmo tempo. Ele nem olhou para mim. E ele foi embora. Nesse ponto eu queria cair no carpete e bater minhas pernas de frustração. Mas eu sabia que isso não ia ajudar meu caso. “Vou para a cama”, disse minha mãe. “Acho que devemos esquecer que isso aconteceu.” “Eu não sou a porra de uma criança!”, eu gritei. “Você não pode mais me tratar como um bebê.” “Pandora, só olhe para você. Você é uma criança”, minha mãe suspirou. “Você não está preparada para... relações sexuais ainda.” “Ah sim, eu já estou. Eu já fiz”, eu fiquei olhando para ela, observando seus olhos ficarem enormes. “Você o quê?” “Eu já fiz sexo, mãe. Não é grande coisa, porra.” “Pare de falar palavrão!”, minha mãe veio em minha direção e seu rosto estava branco como um lençol. “Eu não consigo acreditar no que estou ouvindo. Estou com vergonha de você.” “Não sou mais uma garotinha”, eu não conseguia calar a boca. “Sou quase adulta.” “Você acha que fazer sexo faz de você uma adulta?”, minha mãe veio em minha direção, ela estava tremendo. “Não faz. Qualquer bobo pode fazer sexo”, ela colocou seu cardigan, se abraçando. “São essas garotas com quem você está saindo. Elas são má influência.” “Ah, mãe...”, eu comecei a chorar. “Eu conheço minha própria mente. Sou eu que quero”, eu limpei meu rosto. “Você só não me conhece de verdade. Você está presa em um túnel do tempo. Eu estou cansada de fingir que sou quem você quer que eu seja.” Minha mãe abriu sua boca, mas nenhuma palavra saiu dessa vez. Então por um minuto só havia o som da TV na sala de estar, porque eu e minha mãe estávamos oficialmente em um desacordo.
  • 129.
    “Bem”, ela disseeventualmente. “Como você disse, você tem quase dezoito anos. Se você é tão adulta, talvez devesse arranjar outro lugar para morar?”, ela se virou para subir as escadas. “Aí você pode fazer o que quiser.” “Mãe”, eu solucei. “Por favor, tente entender”. “Boa noite, Pandora”, ela subiu as escadas e não olhou de volta para mim. “Por favor, apague as luzes quando sair.” Eu fiquei na sala por quase dez minutos só encarando o carpete. Eu estava tremendo. Claro que enfrentar as conseqüências dos seus atos fazia parte de crescer. Minha mãe não queria que eu ficasse na casa dela como eu era, e eu não iria mudar. Mas não havia algo a se fazer a respeito disso além de me mudar. Hoje à noite. Eu subi as escadas na ponta dos pés, peguei a minha velha bolsa de ginástica e coloquei algumas roupas, minha escova de dente, e o carregador do meu celular. Então voltei lá para baixo e, da sala de estar, liguei pra tia Lizzie. “Claro que você pode ficar aqui, Panda”, ela disse. “Hoje à noite, mas você tem que dizer para a sua mãe onde você está.” “Claro que vou.” Eu escrevi um bilhete para minha mãe, com raiva, e desenhei uma imagem de uma carinha triste. Era hora de amor duro. Naomi Quinta, 20 de agosto Quarto da Emily Emily arremessou o braço no meu peito, seus lábios se movendo, dizendo algo incompreensível enquanto dormia. Eu coloquei minha mão em cima da dela – pequena, suave – e me movi na cama. Era macia demais. Não dormi por um segundo a noite inteira. Não porque sempre nos acordávamos para nos agarrar, mas porque minha mente estava a todo vapor. Eu estava inquieta. Queria tantas coisas de uma vez, mas não parecia possível. Teria de abrir mão de algo.
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    Estiquei cuidadosamente umaperna pra fora da cama. “Naomi”, disse Emily, grogue. Eu virei para vê-la, um olho fechado, outro em mim. “Eu preciso de água”, disse baixo, me inclinando para beijar a testa dela. Ela sorriu sonolentamente e se virou. Eu andei até a janela e olhei para as casas que formavam um beco sem saída. Cortinas perfeitamente desenhadas, carros reluzentes na entrada. Limpos e arrumados. Recuei e fitei o parapeito da janela. Uma Barbie de dez anos pedia atenção no canto, um anel de diamante barato pendendo em seu pulso de plástico. Então os My Little Ponies multi coloridos – pelos emaranhados, com acessórios: correias de nylon ofensivamente cobrindo a orelha de um deles. Um coração macio estava jogado do lado – outro resto do passado da Katie. Alguém tinha costurado grosseiramente Feliz dia dos namorados no meio. Jesus. A cama da Katie estava adornada com ursinhos de pelúcia, e uma camisola descartada – se você pode chamar uma tira de cetim de camisola. Acima de sua cama, um pôster de David Beckham vestindo suas cuecas Armani e uma figurinha de coração colada em sua virilha sobressalente. Seu quarto era como o santuário de um pedófilo. Isso não era um quarto de uma adolescente. Isso era um ninho para que crianças de doze anos dormissem. Crianças de doze anos realmente imaturas. Como Emily conseguia aguentar? Aquela cama minúscula, acordando com Katie todo dia? Era sufocante. Eu pensei no meu próprio quarto, que parecia grande em comparação. Um futon grande e caro que eu comprei, economizando com o dinheiro do meu trabalho de verão na TopShop aos sábados. Minha colcha vintage. Meu abajur falsificado da Starck. E acima da minha cama, minha gravura nova de Rothko. Eu desci as escadas para pegar água e coloquei a chaleira para ferver enquanto estava lá. Faria uma xícara de chá para nós duas, então eu me sentiria mais normal. Enquanto eu ficava esperando a água ferver, pensamentos animados voltaram. Estava tão feliz por ver Emily ontem, tão aliviada de ter ela de volta para mim. Tão desesperada para tocar e explorar seu corpo, ainda novo e emocionante. Se pudéssemos nos congelar esse verão. Não
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    ter que seguirem frente. Seguir em frente me assustava. Eu mexi o chá e olhei distraidamente uma vespa bater na janela. Não, seguir em frente me assustava ainda mais? Eu levei o chá para o andar de cima e empurrei a porta do quarto com o meu pé. Emily se agitou quando entrei, viu o chá e sentou encostada no travesseiro. Ela sorriu contente. Parecendo estar com uma nova face, e linda. “Essa cama é ridícula pra caralho, Em”, eu disse colocando as canecas na mesa perto da cama. “Meu pé ficou caindo na ponta a noite inteira”, eu dei a Emily seu chá. “Desculpa, querida”, ela deu um gole em sua bebida. “Eu acho que poderíamos ter ido para a dos meus pais”, ela riu com a minha cara horrorizada. “Mas acho que você não iria querer, de algum jeito.” Eu sorri. “Pensou certo”, eu deitei perto dela, alisando seu braço com a ponta dos meus dedos. “Não foi tão ruim assim, meus dedos ficaram gelados, só isso.” Ela sorriu feliz. “Graças a Deus essas férias acabaram”, ela disse soando mais acordada. “Eu não podia esperar para te ver.” “Igualmente”, eu disse. “Foi uma tortura.” “Mas agora terminou”, ela disse feliz. “De agora em diante, aonde quer que você vá, eu vou junto”, ela tomou mais um gole de chá. “E vice e versa.” Eu pensei em Kieran e no que nós conversamos. Eu estremeci. Não queria pensar nisso agora, mas o pensamento não iria embora. Balancei a cabeça me sentindo confusa. “Tem tantas coisas lá fora para nós”, Emily continuou. Ela colocou a caneca vazia de volta na mesa. “Para que façamos juntas. Antes da universidade, trabalho e responsabilidade”, ela fechou os olhos. “Mal posso esperar.” Eu sorri inquieta. “Um dia de cada vez, Emily”, eu disse. “Vamos aproveitar o que vier”, eu fiz uma pausa. “Eu tenho de voltar em breve – minha mãe pediu para eu ir ao centro de jardinagem buscar mais algumas flores com ela.” Enquanto eu falava, eu podia sentir que Emily estava machucada, mesmo que não pudesse ver. Olhei para ela. Ela sorriu incerta, mas se aconchegou contra mim. “Não vá ainda, querida”, ela disse baixo. “Fique mais um pouco.”
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    Coloquei meus braçosao seu redor e a segurei apertado, beijando seu nariz. “Certo”, eu disse. “Vou ficar mais um pouco.” Pandora Sexta, 21 de agosto Casa da tia Lizzie, Bristol “Panda, querida”, disse Tia Lizzie nos servindo uma xícara de chá e me entregando os biscoitos. “Você tem certeza de que Angela está feliz em ter você aqui?” Eu coloquei um biscoito inteiro em minha boca. Quase sempre prefiro tirar a parte de cima do biscoito e comer o recheio primeiro, mas não tenho sido eu mesma recentemente. Eu o engoli. “Minha mãe e eu estamos passando por uma fase difícil”, eu disse. “Ela precisa aprender uma lição, tia Lizzie.” Ela levantou uma sobrancelha e tomou um gole de chá. “Ela precisa, querida? Que lição é essa?” “Bem”, eu olhei os biscoitos, pensando em pegar mais um. “Ela tem de enxergar que não sou mais a menininha dela que ela pode empurrar pra todo canto”, eu cedi e peguei outro biscoito. Tia Lizzie parecia incomodada, como se algo estivesse fazendo cócegas nela. “Mas você sempre vai ser isso. A menininha dela”, ela se inclinou e pegou a xícara e o pires com as duas mãos. “Não é fácil para ela.” Eu dei um olhar severo. “E quanto a mim? Eu, prestes a me tornar uma adulta?”, eu disse, repetindo algo que eu tinha lido no livro de orientação da escola. “É importante que ela me respeite, com limites e essas coisas.” “Limites, né?”, tia Lizzie sorriu afetuosamente para mim. Eu a amo demais. Queria que ela fosse minha mãe. “Quais limites?” “Meus, eu acho”, eu terminei o biscoito, sentindo que queria o pacote inteiro. Eu não sabia bem o que eu estava dizendo, para ser honesta, mas soou certo. “Eu quero que ela veja que sou uma mulher, que precisa de privacidade e respeito.” “E o que você acha de sua mãe precisar de respeito?”, disse tia Lizzie estreitando os olhos. “Você respeitá-la?”
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    Eu olhei paraela. “Quê?” “Quero dizer, minha querida”, ela disse, paciente. “Que sua mãe precisa de respeito. Por te criar, por cuidar de você, por se preocupar com você.” “Ela só quer que eu nunca saia de casa”, eu disse. “Se fosse do jeito dela, eu a seguiria pelo supermercado até eu ter 30 anos.”, eu chacoalhei a cabeça. “E isso não vai acontecer.” “Acho que você está a machucando com o que você está fazendo.” “Ela está me machucando”, eu disse teimosa. “Eu estou machucada.” “Porque ela não quer que você entre em coisas safadinhas com o Thomas?” ”Bem...sim. Por causa disso.” “Por que isso é tão importante para você?” Estava começando a me sentir frustrada. “Eu pensei que você estava do meu lado?” “Agora, Panda”, disse tia Lizzie, baixando sua xícara. “Essa resposta mostra que sua mãe tem alguma razão. Se não há nada mais.” Eu fechei os olhos. Se fosse o Incrível Hulk, estaria no estágio dois de transformação agora. Meu corpo estaria espremido em minhas roupas. Eu me levantei. Como disse, amo tia Lizzie e não queria fazer uma cena. “Vou dar um passeio agora”, eu disse a ela. “O chá estava delicioso. Obrigada.” Eu saí da sala de estar e fui para o jardim me sentar no meu banco favorito. Eu olhei para o céu. Todo azul. Me sentia solitária. E empolgada. E confusa. Liguei para o Thomas. Ela estava na pausa para chá de seu trabalho. Não tinha falado comigo desde que eu tinha vindo para cá, e nem eu tinha ligado para ele. Mas agora o ponto de eu ter fugido estava ficando um pouco confuso na minha cabeça. “Thomas”, eu sussurrei. “Pandora?”, Thomas soou cauteloso. “O que é?” “Eu sinto sua falta, meu bolinho”, eu fechei os olhos. “Desculpa pela outra noite”, eu acrescentei. “Mas eu fiz por nós. Você entende?”
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    Ele suspirou. “Não,Pandora. Eu acho que não entendo.” “Mas precisamos de respeito como um casal”, eu disse. “O que você quer dizer?” “Precisamos fazer o que casais fazem.” Thomas suspirou mais profundamente. “E o que é isso? Nos divertirmos juntos? Ser carinhoso um com um outro? Nos beijarmos?” Eu sorri. Um sentimento melado surgindo em mim. “Sim, muitos beijos. E toques, e-” “Pandora”, disse Thommo firmemente. “Eu estou no trabalho.” “Você quer fazer comigo, não quer?”, eu disse um pouco assustada. “Você ainda quer?” “Em algum momento, sim”, ele disse soando um pouco frio. “Mas não para provar algo, e nem se chatear sua mãe.” “Você liga mais pra ela do que liga para mim”, eu disse começando a chorar. “Por que ela é tão importante?” O jardineiro de tia Lizzie, trabalhando mais longe cortando um arbusto olhou pra mim quando levantei a voz. “Tudo bem”, eu me acalmei. “Eu entendo. Mas você pode vir para cá? Por favor.” Houve um silêncio. “Certo. Hoje à noite eu vou te ver. Mas para conversar, certo?” “Sim!”, eu disse. “Venha depois do trabalho – às seis?” Eu terminei a ligação e segurei o telefone contra mim. Thomas não seria capaz de resistir a mim quando me visse. Ele veria que resistir seria inútil. Outra fala repetida de algum livro. Mas disse tudo. Thomas No caminho da casa de tia Lizzie, mais tarde Eu fui ver Pandora com o coração pesado. Usando uma excelente expressão em inglês, ela estava começando a soar como um disco arranhado.
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    Para mim elaé bonita, e pura. Não tem outro lado da Panda. De onde eu vim, isso tem um valor imenso. Eu estava com raiva de Cook – por colocar essa ideia distorcida na cabeça dela de que ela é só um corpo para homens. Minha conversa com JJ naquela manhã abriu meus olhos. Não que eu esteja feliz com o que aconteceu. Mas acho que realmente há um significado na frase ‘o que quer que te faça atravessar a noite.’ Para ser totalmente honesto, parte de minha resistência para eu e Panda consumarmos nossa relação é que eu sinto certo desgosto pelo Cook ter estado lá primeiro. Isso e a obsessão de Pandora não estão me deixando no clima. Queria ter uma conversa inteira sem mencionar sexo. Eu queria que Panda visse o que ela está fazendo. Estou ficando cada vez mais duvidoso de que isso vai acontecer. Cheguei um pouco depois das seis. Tia Lizzie estava realmente feliz em me ver e me deu um abraço caloroso. Ela olhou cautelosamente para Pandora que estava saltando de pé em pé por trás dela. “Vou dar um pouco de espaço para vocês”, ela disse a Pandora. “Mas não vou estar muito longe”. Ela piscou pra mim. Mal tive tempo para tirar meu casaco antes de Pandora avançar em mim e me abraçar. Ela pressionou suas mãos contra meu corpo e as esfregou para cima e para baixo nas minhas costas. Queria muito retribuir, era tão bom senti-la perto de mim outra vez, mas resisti. Eu a empurrei gentilmente. “Vamos nos sentar”, eu disse apontando o sofá. “Vamos.” Ela se aninhou em mim, e eu coloquei um braço em volta dela. “Estou tão feliz por te ver”, ela sussurrou para meu peito. “Pensei muito em você.” “Eu também”, eu disse esfregando sua mão. “Isso é difícil pra mim.” Ela se sentou. “Aquela vadiazinha, nos impedindo de fazer o que temos vontade”, Pandora deu uma punhalada em uma almofada. “Infantil demais.” Minha boca ficou aberta. “Sua mãe é infantil?” “Bem, sim. Eu diria que é muito imaturo querer que sua filha seja uma criança, tipo, para sempre.” Eu ri, mesmo que eu não estivesse entretido. “Meu Deus, Pandora. Você não faz ideia.”
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    Ela olhou paramim, intrigada. “É você quem está agindo como uma criança”, eu disse baixo. “Tão desesperada para fazermos sexo.” Eu esfreguei minhas coxas com as palmas, parei quando percebi seus olhos esfomeados seguindo o movimento. “Nós somos mais que isso. Ou eu pensava que sim. Não estou tão certo agora.” “O que você tem de errado?”, ela disse e começou a andar pela sala de estar. “Garotos sempre querem sexo. É normal.” “Certos garotos, talvez”, eu disse friamente. “Não eu. Não agora.” Ela olhou pra mim. “O que você quer dizer, não agora?” “Não com uma garota que preza isso mais do que tudo”, eu me levantei e fui pegar minha jaqueta. “Eu pensei que essa garota era melhor.” “Thomas, não”, disse Panda. “Por favor, não vá.” Ela começou a chorar, mas eu já estava com a porta da frente aberta. “Tchau”, eu disse para tia Lizzie que estava pairando no corredor. “Foi adorável te conhecer.” “Tchau, Panda”, eu disse antes de fechar a porta atrás de mim. “Por favor, se cuide.” Pandora Na cama, ainda mais tarde Não consegui comer nem um pouco da torta de peixe naquela noite. Normalmente é minha favorita. Eu fui pra cama às nove em ponto com o Edgar, meu panda de pelúcia, e deitei olhando para a lua por uma abertura na cortina. Às dez horas eu acendi a luz e escutei Girls Aloud no meu iPod. Às dez e meia, peguei meu telefone e olhei as fotos que eu tinha tirado do Thomas. Eu pensei em toda a diversão que tivemos em Brandon Hills. Todos os abraços e beijos. O jeito que ele escuta tudo o que falo sem fazer com que eu me sinta uma idiota, diferente da maioria das pessoas.
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    Às onze, eumandei uma mensagem para a Effy. Ela me mandou uma mensagem de volta. NÃO SEJA UMA MARICA. Eu pensei sobre como o Thomas tinha mudado minha vida. Nunca mais quero voltar ao que era antes. Pensei em minha mãe, e em seu rosto cheio de preocupação e dor. Tia Lizzie estava certa. Eu sou uma garota boba. Às onze e meia eu segurei minha respiração e apertei seu número. Depois de um longo tempo, ele atendeu. Eu conseguia ouvir o barulho da TV no fundo. “Alô?” “Eu fui estúpida, Thommo”, eu sussurrei no telefone. “Realmente infantil.” Thomas não respondeu. Eu continuei. Tinha nada a perder. “Tia Lizzie disse algo sobre respeito hoje. Ela disse que eu estava desrespeitando minha mãe”, eu engoli. “Mas também estou desrespeitando você. Não estou? O que você quer?”, eu fechei os olhos. “Isso é verdade”, disse Thomas finalmente. “Mas, Panda, com certeza você entende que principalmente você não está se respeitando”, ele fez uma pausa. “Eu acho que você não confia que vou te amar sem oferecer sexo para mim. Você não acredita que tem algo a mais.” Eu pensei em Cook. “Talvez”, eu disse. “Mas você tem. Por mim. Tem mil motivos para eu te amar.” “Thomas”, eu comecei a chorar. “Eu vou para a casa da minha mãe. Vou me desculpar.” “Espere aí”, disse Thomas. Ele desligou. À meia noite, eu olhei para a minha cama, cheia de papel higiênico espalhado, quando houve uma batida na porta. “Boa noite, tia Lizzie”, eu disse disposta a fazer com que ela não entrasse. Mas a porta se abriu, e lá estava Thomas. Ele veio em direção à cama e jogou todos os papeis no chão.
  • 138.
    “Posso te abraçar,Pandora?”, ele disse tirando seus tênis. Então sua blusa, e finalmente suas calças. Eu concordei e me movi na cama. Ele entrou e me segurou apertado, então beijou meu pescoço. Eu acariciei suas costas. E então senti suas mãos gentilmente puxando minha blusa e beijando minha barriga. Eu segurei minha respiração e continuei acariciando enquanto sua língua se movia mais para cima e se aconchegou nos meus peitos. “Por favor, você pode tirar seu pijama, Panda?”, ele disse suavemente. “Por mim.” Effy Sábado, 22 de agosto Apartamento da Florence “É você, Anthea?” “Não, Florence”, eu disse cautelosamente. “Sou eu, Effy.” Ouvi roupas de cama sendo jogadas. “Effy, que adorável! Entre, entre. A porta está aberta.” Eu abri a porta. Florence estava deitada em uma cama gigante me encarando. As persianas estavam meio fechadas e o quarto estava mal iluminado por seu abajur. Florence tentou se sentar. “Não se mexa”, eu disse olhando alarmada para seu rosto, um lado tinha caído levemente e o canto da sua boca tinha se inclinado para baixo. Ela colocou sua mão na frente, como se estivesse escondendo. Eu senti um solavanco de medo. Foi como quando eu visitei a mãe de meu pai em sua casa de repouso quando eu tinha oito anos. Florence parecia tão pequena e frágil. “Não fique assustada, garota”, ela disse, puxando um pouco suas cobertas. “Essa droga de derrame fez com que eu parecesse uma anciã do nada”, ela riu, com um pouco de esforço. Eu fui em sua direção e me inclinei na cama. Florence olhou para mim. O olhar dela direto como sempre. “Bem”, ela disse. “Como você está? Anthea disse que uma amiga veio te visitar. Sinto por não poder ter conhecido ela. Você se divertiu?”
  • 139.
    Primeiramente eu nãopude responder. Deus. Fiquei atolada em solidão. E culpa. Culpa por ser uma maldita vadia com a Katie. E por estar sentada aqui, saudável, com uma velhinha doente que parecia não ter um único osso miserável e malévolo em seu corpo. Me senti ficando mais humilde. Humilde. Esse sim é um termo estranho para o meu vocabulário. “Sim”, eu disse afinal. “Foi legal.” Florence olhou intrigada para mim. “E como está todo o resto?”, ela perguntou. “Você tem visto Aldo ultimamente?” Eu estava feliz pela luz do abajur. Conseguia sentir meu rosto queimando. “Um pouco”, eu disse com cuidado. “Na festa dele e tal.” “Ele é um bom homem”, ela disse melancolicamente. “Ele e sua mãe tem sido maravilhosos nesses últimos dias.” “Tem?”, meus músculos do estômago estavam se cerrando e voltando. “Ele tem passado muito tempo com você, então?” “Os dois têm”, ela disse. “Tipo uma ação em dupla, esses dois”, ela se inclinou em minha direção. “A sua mãe é muito mandona, não é? O fez limpar o banheiro a tarde toda de ontem”, ela sentou de volta e recuperou o fôlego. “Acho que ele não está acostumado com isso. A ex- esposa dele dava tarefas simples.” “O que você quer dizer?”, eu perguntei, sem ter certeza se queria saber. “Ah, bem... aparentemente ela era uma mulher passiva. Até mesmo dócil. O que fez com que fosse um choque quando aconteceu.” “Quando o que aconteceu?” “Quando ela assumiu que estava apaixonada por outra pessoa”, Florence balançou a cabeça. “Ele ficou devastado.” “Pobre Aldo”, eu disse. Não sentindo isso completamente. “Sim, pobre Aldo”, ela disse. “Mas então... nunca se sabe o que está te espreitando na esquina, sabe?”, seus olhos brilharam para mim. “Não”, eu sorri, entendendo. “Nunca se sabe.” A esperança estava resplandecendo dentro de mim.
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    “Você pode encontraramor nos lugares mais inesperados”, ela continuou. “Nas situações mais inapropriadas também.” Ela suspirou. “Claro que isso ficou para trás de mim. Restou mais a pena. Eu tenho que ser feliz vivendo vicariamente.” “Eu não sei sobre isso, Flo”, eu olhei em volta da cama e cutuquei sua perna. “Eu acho que iria caber mais alguns aqui.” “Safada!”, Flo bateu de brincadeira em mim. “Eu devo admitir, eu não iria me importar com uma última volta na pista de dança, Effy. Só uma rápida valsa”, ela fez uma pausa. “Se você entende o que eu digo.” “Acho que faço ideia, sim”, eu disse rindo, imaginando como ela conseguiu varrer minha solidão tão rápido. Porque por dentro eu estava fazendo minha própria dança. De total alegria. Toda essa frustração. Como um animal engaiolado por dias. E agora isso. As pálpebras de Florence estavam começando a se inclinar um pouco. “Ah, estou cansada”, ela murmurou. “Todo esse amor no ar. Está me deixando assim.” Me movi para fora da cama. “Eu vou deixar você dormir, Flo”, eu disse. “Vou voltar amanhã.” “Effy”, ela disse apertando minha mão de repente. “Isso tudo é parte da vida, sabe?” “O que é?” “Amar e perder”, ela disse, suas pálpebras se inclinando. “Aceitar o que acontece”, ela sorriu sonolenta e flutuou a mão no ar. “Etcetera.” Eu concordei com a cabeça. “Acho que sei o que quer dizer.” Deixei Florence cair no sono e praticamente saltei até nosso apartamento. Minha mãe estava cozinhando algo, cantando para si mesma na cozinha. Sorria e suporte, eu disse a mim mesma. Você pode ser generosa. “Olá”, ela disse. “Como foi com a Florence?” “Bom”, eu disse me sentando. “Eu realmente gosto dela.” “Ela é querida e astuta”, disse minha mãe, que estava atraente. Ou talvez fosse o calor do fogão? De qualquer jeito, era bom que ela estivesse feliz. Eu estava feliz. Nós estávamos felizes pra caralho.
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    “É, ela ésábia, eu acho”. Peguei uma mão cheia de parmesão ralado e coloquei na boca. Foi aí que percebi que a mesa estava arrumada para três. “Quem vai vir jantar?”, eu perguntei, já sabendo. Minha mãe provou o macarrão com um garfo. “Alfredo”, ela disse claramente. “Pobre coitado, tem feito todo o trabalho de Florence ultimamente. Ele vai definhar se eu não alimentá-lo.” Se você pudesse alimentar, cair fora e nos deixar a sós, eu pensei. “Eu poderia ter cozinhado algo”, eu estava à beira de ficar mal humorada. “Isso é encantador”, ela disse distraidamente. “Mas provavelmente é mais rápido... e mais arrumado... se eu fizer.” “Bem, eu vou pegar vinho”, eu disse. “Não precisa”, ela escoou o macarrão. “Tudo está organizado. Você só senta aí e relaxa.” Como uma criança sem poder algum. “Você é muito mandona, não é?”, eu disse um pouco afiada demais, mas ela não percebeu. Muito ocupada colocando a porra do molho na porra do macarrão dela. Eu me servi com vinho e tinha bebido metade do meu copo quando ele bateu na porta. “Olá”, ele disse quando eu abri a porta, beijando minhas duas bochechas. “Estou muito feliz que você esteja aqui, comendo conosco.” “Eu também”. Me inclinei sobre a moldura da porta, bloqueando sua passagem parcialmente. “Comprei um vinho excelente”, ele segurou a garrafa e se inclinou mais para perto. “Eu acho que merecemos ficar bêbados com um bom vinho”, ele disse. “Não acha?” “Sim”, a minha empolgação aumentando. Eu queria beijá-lo loucamente. “Definitivamente.” “Por nós”, disse minha mãe depois, brindando comigo e com Aldo. “Por um novo começo”, ela olhou de mim para Aldo. “Para todos nós.” “Absolutamente”, disse Aldo. “Para todos nós.” Tomei um gole do meu vinho, me sentindo eufórica. Eu mal conseguia acreditar, mas estava permitindo que eu me apaixonasse e eu estava sendo recompensada.
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    “Eu vou fazerum baseado”, eu disse. “Se estiver tudo bem.” Nós tínhamos terminado de comer. Minha mãe resolveu fazer café, enquanto Aldo se oferecia desajeitadamente para lavar a louça. “Você passou a manhã inteira consertando o encanamento de Florence”, ela disse pra ele. “Você pode ficar sentado?” “Sim, signora”, disse Aldo sério. Ele piscou pra mim. Não era a energia que eu estava querendo – um jantar de família acolhedor – mas era um começo. Eu olhei para ele sobre meus cílios. Eu tinha enrolado um baseado e acendido em uma das velas bobas da minha mãe. Eu traguei, inspirei e passei para o Aldo. “Effy...”, ele disse mexendo a cabeça. “Você está me levando para o mau caminho.” “Sim”, disse minha mãe servindo café em pequenos copos. “Effy é boa nisso.” “Enquanto você é a porra da Branca de Neve”, eu disse, pegando o baseado de volta. “Uma mamãe que cuida e ama.” Minha mãe me olhou, estreitando os olhos. “Você está destruindo suas células cerebrais”, ela disse gesticulando para o baseado na minha mão. “Você vai acordar em estado vegetal um dia desses.” “O que, quer dizer como uma batata?”, eu disse infantil. “Ou uma couve de Bruxelas?” Minha mãe revirou os olhos. “Para algumas pessoas não demora muito”, ela disse. “Você pode ser uma delas.” “Ah, a Effy claramente é muito inteligente”, disse Aldo. “Assim como bonita.” Eu senti minha cabeça balançando de um lado para outro. “Isso é bom”, eu disse. “Porque beleza não é o bastante”. Sorri para ele. Parecia que ele estava se afastando de mim. Eu olhei para o baseado e balancei em sua direção. “Não é?” Uma tremulação de desconforto surgiu em sua expressão. Ele tirou o baseado de mim e apagou. “Você está bem?”, ele perguntou, sua voz recuando agora. Ouvi minha mãe falando algo, mas não conseguia entender as palavras. Arrastei a cadeira para levantar. “Preciso ir ao banheiro”, eu disse, me levantando. Queria desmaiar. Merda, o vinho ou o baseado eram forte demais. Eu tentei uma saída sóbria, mas bati na cadeira de Aldo.
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    “Firme”, ele disse,suas mãos em minha cintura. Eu fiquei lá, aproveitando a sensação de seus dedos na minha cintura. “Me ajuda a ir até ao banheiro?”, eu disse colocando minha mão em cima da dele. “Acho que estou um pouco pior do que pensava.” “Leve-a”, disse minha mãe parecendo irritada. “Ou ela vai acabar quebrando a cabeça na bacia.” “Você pode entrar comigo se quiser”, eu disse instável quando chegamos à porta do banheiro. “Você pode me ajudar a tirar a calcinha.” Aldo riu, uma risada rápida e nervosa. Eu me inclinei na porta e puxei seus braços em minha direção. “Vamos lá”, eu disse. “Não diga que você não pensou nisso.” Ele abaixou seus braços para segurar minha mão. “Você é uma garota adorável, mas muito confusa”, ele disse baixo. “Não sou confusa”, eu disse. “Eu sei exatamente o que está acontecendo.” “Effy”, ele apertou minha mão mais forte. “Por favor, não faça isso.” “Certo”, eu concordei solenemente. “Eu vou ser uma boa garota. Eu prometo. Por você.” Ele me soltou e penteou o cabelo com a mão. “Vou dizer boa noite”, ele disse. “Estou muito cansado. Te vejo amanhã, certo?” “Sim”, eu sussurrei enquanto o via caminhar da sala até a cozinha. “Te vejo amanhã.” Quando saí do banheiro só ouvi o som da minha mãe batendo panelas na cozinha. “Boa noite, mãe”, eu disse. “Eu vou para a cama.” Houve uma pausa e depois sua voz, grossa. “Boa noite, Effy”, ela disse. “Durma bem.” Effy Domingo 23 de agosto Via San Angelo, manhã
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    “Oh Dio, ilmio amore, mio amore.” Minha mão parou na maçaneta da porta do quarto dela, a confusão se transformando em puro horror quando ouvi a voz dele e finalmente compreendi a verdade. A voz dele. A respiração deles. Eu acordei cedo, vi a luz por baixo de sua porta quando estava indo ao banheiro e parei para ver se estava tudo bem. Voltei rapidamente para o meu quarto, de repente a coisa mais importante do mundo era que eles não soubessem que eu estava lá. Sentei na beirada da cama, o choque me deixou com os olhos arregalados e sem ar. Eu deveria ter previsto isso. Que porra eu esperava dela? Vadia dissimulada. Pegando tudo o que quer. Não importa quem acabe se fodendo no processo. Humilhação e pesar me dominaram como uma capa negra. Cobri minha boca com as duas mãos e me lamentei silenciosamente, o esforço para não fazer barulho machucando minha garganta. Eventualmente voltei para a cama. Ainda era cedo. Deitei por um tempo, ouvindo em um tipo de fascinação horrorizada aos dois fodendo. Devo ser muito perturbada porque parte de mim ficou excitada. Não por ela, mas pelo som dele comendo ela. Mas a maior parte ficou com nojo. Não é real. Não pode ser real. Acordei mais tarde e encontrei a porta do meu quarto toda aberta. Alguém estava varrendo os azulejos de mármore no corredor. Ela. Ela parou do lado de fora do meu quarto. Puxei o lençol mais para cima e fechei os olhos para não ter que olhar para ela. Vadia enganadora. “Effy? Está acordada?” Cerrei meus punhos por baixo do lençol e desejei que ela fosse embora, mas ela entrou e sentou na minha cama. “Effy, querida, você precisa acordar. Tenho más notícias.” Não diga, caralho. “É sobre a Florence.”
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    Abri meus olhoscom isso, mas ainda não consegui olhar para ela. Minha mãe acariciou meu ombro. “Ela está morta. Alfredo foi vê-la hoje de manhã e a encontrou”, sua voz falhou. “Ela morreu dormindo.” Eu disse nada. Encarei a parede. “Effy, você me ouviu?” “Sim”, eu disse, sem expressão. Minha mãe continuou com a mão no meu ombro por alguns segundos, mas acabou tirando-a. Com minha visão periférica pude vê-la abaixando a cabeça. Ela sabia, então. Ela sabia que eu sabia. “Querida, eu...” “Vá embora.” “Mas...” Me virei para a parede, meu corpo tenso. “Por favor, só deixe-me em paz, caralho”, eu disse, monótona. “Tenho nada para te dizer. Agora ou qualquer outro dia.” Senti minha mãe levantando. Ouvi ela sair do quarto, fechando a porta atrás dela. E deixei as lágrimas virem. Por Aldo. Por Florence. Mas principalmente por mim. Adormeci de novo e quando acordei, o apartamento estava vazio. Bom. Me vesti. O short jeans mais curto, colete. E minha bota. Molhei meu cabelo e ajeitei com as mãos para que parecesse selvagem. Garota selvagem. Deveria sair para conhecer algum italiano bonito. Alguém da minha idade. Não pense nisso. Estava procurando minhas chaves quando ouvi a porta do apartamento abrir. Merda, não queria estar aqui quando ela voltasse. “Effy? Você está bem?” Era ele. Estava com um terno de linho, camisa azul escuro. Uma sacola de papel marrom nos braços. Ele parecia exausto. Foi até a cozinha e começou a tirar as coisas da sacola. Pão de
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    forma, um potede azeitonas, um pouco de queijo e presunto em papel manteiga. Uma garrafa de vinho. Ele amassou o papel e deixou na tigela de frutas. Ele olhou para o meu shorts. Achei minhas chaves atrás da pia. “Vou sair”, disse a ele tranquilamente. “Você e minha mãe podem almoçar em paz.” “Anthea está no apartamento da Florence...”, ele disse, parecendo perdido. E decepcionado. “Esperava que pudéssemos almoçar juntos”, ele pausou, limpou a garganta. “Poderíamos conversar. Tenho um bom vinho”, ele sorriu tristemente. “Por favor?” Eu hesitei porque apesar de tudo, eu queria. Ainda o queria. Queria aquele meio segundo patético de eletricidade quando seus dedos encostassem nos meus ao me passar uma bebida. Mas a sensação de anticlímax, de decepção, era enorme. “Sinto muito. Você deveria ter dito algo antes”, eu disse. “Tenho planos.” “Planos?”, ele disse, sorrindo. Sinto muito, não posso sentir pena de você. Não agora. “É”, balançava as chaves inquieta. “Planos.” “É claro”, ele disse. “A comida estará aqui quando voltar.” “Ótimo”, virei e andei até a porta da frente, fechando-a atrás de mim silenciosamente. Do lado de fora parei no topo da escadaria, ouvindo os sons vindos do apartamento da Florence. A voz da minha mãe. Móveis sendo movidos. Me sentia exausta, e entorpecida. Atordoada, passei pela entrada e continuei indo, eventualmente me encontrando em Santa Maria. A igreja do Aldo. Tanto faz, precisava de calma, e silêncio. Entrei em uma cabine de madeira, querendo bloquear tudo. Uma voz falou no meu ouvido, me assustando pra caralho. Estava em um confessionário. A cabeça baixa de um padre estava visível através de uma grade a minha direita. Como nos filmes. “Sinto muito”, sussurrei. “Não falo italiano.” Vi o padre balançar a cabeça. “Está tudo bem”, ele disse. “Fique. Deus escutará.” Sua bondade agiu como uma torneira para o meu luto, e comecei a chorar. “Não quero conversar”, consegui dizer. “Posso ficar mesmo assim?”
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    O padre balançoua cabeça novamente. Então ficamos sentados, eu e o padre. Ele, em silêncio no seu lado, eu, chorando não muito silenciosamente no meu lado, mal podendo respirar com a escala dessa... catástrofe. Aldo ama minha mãe. Ele não me ama. Ele ama minha mãe. Minha mãe. E a amável e compreensiva Florence está morta e nunca mais poderei falar com ela. Entendi o que ela realmente quis dizer quando falei com ela, porra, apenas algumas horas antes. Oh Deus e Freddie. Não havia me permitido pensar nele, e agora ele não me queria também. Recuperei o fôlego em pânico. Estava completamente sozinha. Era um animal atropelado. O padre falou novamente, perguntou se poderia ajudar. Eu disse não e saí da cabine. Encontrei uma capela lateral vazia e sentei, subitamente exausta. Sentindo-me pesada, como se estivesse me mexendo embaixo d’água, me curvei para pegar uma almofada de ajoelhar, deitei no banco da igreja, com a cabeça na almofada; apenas deitei. Depois de vinte minutos o desconforto me fez levantar e sair dali. Comecei a andar para casa, sem saber o que mais fazer, o luto se transformando em raiva a cada passo. Comecei a andar mais rápido e então a correr. Continuei correndo para os prédios, então dois degraus por vez até nosso apartamento, ofegando, grunhindo como a porra de um animal selvagem. Quando irrompi pela porta para encontrar minha mãe e Aldo sentados na mesa da cozinha, bebendo vinho, como se não houvesse qualquer coisa errada, eu não parei; limpei a mesa com uma passada de braço violenta. Vendo copos e garrafa caindo no chão, vinho tinto esparramando nos armários e na camiseta da minha mãe. Apontei para ela. “Sujona”, eu ri histericamente. “Vadia suja.” “Effy.” Ela parecia assustada, lançando olhares para o Aldo. Ela levantou, deu a volta na mesa, seu chinelo esmagando o vidro quebrado. “Effy, querida, por favor...” “Não ouse chegar mais perto”, avisei, tremendo. Chutei o vidro, espalhando-o mais pela cozinha. Olhei para ela: olhos tímidos, bochechas coradas, a boca beijada a noite inteira por ele. Um som como o de um alarme de incêndio pareceu disparar em minha cabeça, um barulho cruel, me empurrando cada vez mais para a beirada disso. “Você me enoja!”, eu gritei. E então continuei gritando, nem palavras, apenas fazendo barulho. Acho que caí de joelhos, porque tinha consciência da minha mãe tentando me levantar.
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    “Me deixa, sóquero morrer”, me lamentei, olhando para meus joelhos, ensanguentados por causa do vidro. Ela se afastou e Aldo assumiu. Virei-me contra ele, golpeando o mais forte que podia, gritando, até que ele finalmente soltou e eu fiquei parada, esgotada. Nada me restava. Cook Segunda, 24 de agosto Bar Grapes & Favour “Que porra estamos fazendo aqui?”, disse Freddie, olhando em volta do lugar. “O que há de errado com o lugar?” Eu sentei em um banco alto. “É limpo, cheira bem...” Me virei para ver o quadro atrás de mim. “E fazem um ótimo salmão frito com limão e purê de batatas com coentro, Fred. Como não gostar?” Ele fungou. “É para garotas.” Eu sorri. “Exatamente”, eu disse. E há uma balada que começa em duas horas. Algumas cervejas, alguns olhares persistentes do Cookzinho, e Camilla e Henrietta Ricas ali estarão nas palmas de nossas mãos. “De alguma forma, não acho que as ‘damas’ aqui irão gostar do seu estilo homem das cavernas”, disse Freddie, sorrindo com desdém. Ele olhou para duas garotas com saias longuete e camisas. “São um pouco maduras demais.” “Eu gosto de mulheres mais velhas, cara”, eu disse, esfregando minhas mãos. “Imaginei frequentemente a mãe da Effy... sabe... na cama.” “Você é um imbecil doente”, ele disse, procurando dinheiro em seu bolso. “Mas já que estamos aqui, vamos beber”. Ele pegou duas notas de dez. “O de sempre?” “Boa”, eu disse, dando tapinhas em seu ombro. “E seja um amor e pegue azeitonas”, eu juntei meus lábios e mandei um beijo para ele. Freddie rolou os olhos e foi até o bar. Eu me virei e vi JJ balançando em seu banco como um louco.
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    “O que estáfazendo, JJ?” “Tentando puxar minha cadeira para mais perto da mesa, o que parece?”, ele disse. “Não é fácil quando seus pés não alcançam o chão.” “Os pés de ninguém alcançam o chão, cara”, eu disse. “Você tem que colocar os pés no apoio.” “Certo. Sim. Entendo”, JJ arrumou seus pés e olhou em volta. “Por que todos estão usando ternos?”, ele disse, quando Freddie voltou com nossas cervejas. Mas sem azeitonas. Cuzão. “Seremos nós em cinco anos”, Freddie disse, colocando as bebidas na mesa. Ele colocou um copo de refrigerante com limão na frente de JJ e deu uns tapinhas em seu ombro. “Vendendo nossas almas por uma hipoteca ou algo assim.” “Fale por você”, eu disse. “Nunca vou usar um terno.” “A não ser quando estiver em um tribunal, é claro”, Freddie sorriu convencido para sua garrafa. “O que, vamos aceitar, é apenas questão de tempo.” Eu o ignorei e olhei em volta do lugar. Cabelo brilhante e camisas por todo lado, todas bebendo o maldito vinho branco. O que há com garotas e vinho branco? Eu me inclinei para falar com a mesa ao lado. Três delas. Perfeito. “Olá, garotas, como vão?” Uma delas, de cabelo escuro e mamilo visíveis através de sua blusa, me olhou de cima a baixo. “Bem, obrigada”, ela disse, entediada e virou de volta para as amigas. Vadia frígida. “Então, está excitada ou só com frio?”, eu perguntei, acenando para seus peitos. Ela não ficou impressionada com isso. Me olhou como se eu fosse um merda. Eu dei de ombros. “O quê?”, eu disse, virando para ver o rosto do Fred. Ele balançou a cabeça. “Inacreditável.” “Eu sei. Nenhum senso de humor.” “Não foi o que eu quis dizer.”
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    Não brinca. “Vamos, garotos”,eu disse, estufando o peito. “Façam um esforço.” Freddie bebeu sua San Miguel e deu de ombros, enquanto JJ começou a fazer origamis com o cardápio de coquetéis. “Acho que você vai ter que superar”, JJ disse. “Aquelas três parecem distintamente imunes aos seus charmes.” Ele abaixou a cabeça de novo, dobrando como se sua vida dependesse disso. “Depois de algumas bebidas elas vão ficar implorando”, eu disse, começando a me irritar. Peguei seu cisne de papel e o joguei no chão. Ele me deu um de seus olhares magoados e começou a fazer outro. “Uau, isso é incrível!” Duas garotas mais ou menos da nossa idade pararam para assistir o trabalho do JJ. Ele sorriu para elas, mas falou nada, o imbecil sem noção. “É, ele é bom com os dedos, o JJ”, eu disse, piscando para a mais baixa e mais bonita. Ela me ignorou. “O que mais consegue fazer?”, ela perguntou ao JJ. “Apenas alguns, infelizmente”, disse JJ. “Estou começando a aprender... mas consigo fazer um sapo pulando.” A mais alta com lábios desenhados para envolver meu pau bateu palmas. “Eu amo sapos!” “Faço um para você”, disse JJ. “Isto é, se você quiser.” Ela sorriu para ele. “Obrigada, eu adoraria.” Freddie e eu nos olhamos. Que porra? “Vamos a um clube novo mais tarde”, eu disse para a baixinha. “Quer ir?” Eu levantei as sobrancelhas para ela. “Não, obrigada”, ela disse, mal olhando para mim. Fascinada pra caralho com o que JJ estava fazendo. Ele terminou e ergueu sua criação. “Em qualquer vértice o número de dobras de vales e montanhas sempre difere por dois em qualquer direção”, ele disse, sorrindo para as duas.
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    “Matemática da dobradura.”Ele deu o sapo para a mais alta. “Ou é claro que você pode apenas pensar nisso como um bom jeito de passar o tempo.” Eu peguei minha garrafa, tomei um gole e arrotei com vontade. A mais alta torceu o nariz enojada. “Porco”, ela murmurou para a amiga. “Você precisa de uma tática nova, Cook”, disse Freddie. “Acho que o Neandertal que arrota não está agradando a clientela.” Freddie Depois de meia hora assistindo o Cook sendo um imbecil e JJ existindo em um universo paralelo aonde origami é sexy, minha mente começou a divagar. Não valia a pena brigar com meu melhor amigo por uma garota. Eu ainda tinha vontade de socá-lo no rosto toda vez que pensava nele com ela, mas foda-se, ela não era flor que se cheire. Ela também o ferrou. Circulei a abertura da garrafa com o dedo, tentando não pensar na escola. Não havia contado a Cook sobre a mensagem que mandei para Effy. Dizendo para ela não voltar. Me arrependi do que fiz no instante em que enviei. A ideia de não vê-la de novo era... merda. Sentia sua falta. Mas se ela voltasse a merda toda começaria de novo. Vai saber o que ela pensou... e o que fez nas últimas semanas. Balancei a cabeça e acabei com a garrafa de cerveja superfaturada. “O que há com você?”, Cook perguntou, voltando do bar e vendo meu rosto. “Nada.” Ele bateu nas minhas costas. “Bem, dê um sorriso então.” “Por que está tão feliz?”, eu perguntei, apontando a cabeça para JJ, que ainda conversava alegremente com seu fã clube. “Até ele está se saindo melhor do que você?” “Pura sorte, meu amigo… e de qualquer forma, você já deveria saber que o Cookie Monster não deixa a rejeição afetá-lo.” Dei um olhar de lado para ele. “Besteira.” Cook tentou dar um sorriso, mas seus olhos estavam mortos. “Sério”, ele disse. “Não me incomodo mais. Ela teve sua chance e a desperdiçou.” Ele levantou sua garrafa e brindou na minha. “Com nós dois.”
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    “E semana quevem”, eu disse. “Ela estará lá. Provavelmente.” “Você acha”, disse Cook. “Acho que ela se foi de vez.” Passei minha mão no rosto. Jesus. Que bagunça do caralho. “Sim, você deve estar certo”, eu disse. Cook virou uma dose. “E de qualquer forma, ela não se importa com qualquer um de nós, sabemos disso. Toda aquela besteira de ‘Não me contate em Veneza.’” Eu olhei para ele, tudo fachada, olhos examinando o ambiente, pronto para atacar a próxima garota bonita que entrasse no bar. De repente tive vontade de pegá-lo e abraça-lo. Não fiz isso, obviamente, porque isso seria gay pra caralho. “Sim”, eu disse. “Esqueça-a.” “Esse é o espírito, cara”, ele disse me dando tapinhas nas costas. “Agora, vamos lá fora fumar?” JJ “Meu nome é Sophie”, disse a garota loura mais baixa. “E essa é Imogen.” Eu corei, completamente pasmo com essa apresentação. Eu me forcei a não vibrar. “JJ”, eu disse, estendendo a mão, desajeitado, em sua direção. “Bem, Jeremiah, na verdade, mas meus amigos me chamam de JJ. Como uma forma abreviada do meu nome de batismo e do meu nome do meio-” Eu parei, vendo seus olhos abertos com a reação de susto padrão a que eu me acostumei. “Mas isso é... chato”, eu disse. “Não querem saber disso.” Eu dei uma risada envergonhada como a de uma garota e brinquei nervosamente com o sapo de papel. Incrivelmente, Sophie sorriu para mim de forma amigável. “Aqueles são seus amigos, então?”, ela disse, apontando para Cook e Freddie que estavam indo fumar do lado de fora. “Sim”, eu disse. “São meus melhores amigos.” “Sério?”, disse Imogen. “Não acha que são um atraso de vida?”
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    A resposta precisapara essa pergunta teria sido sem dúvidas “Sim”, mas essa não era a hora de precisão. “Eles são legais”, eu disse. “São apenas diretos.” “Esse é um jeito de definir, suponho”, disse Sophie, enrugando seu lindo nariz. “Mas a resposta justa? Ele é um completo cocô.” “Cook na verdade”, eu disse. “O nome dele é Cook.” “Certo”, disse Sophie, olhando para Imogen. “Piada boba”, eu murmurei. “Muito boba.” “Mas você é fofo.” Ela olhou para mim tão diretamente que o sapo de papel pulou das minhas mãos trêmulas e foi parar no chão. Imogen o pegou e me deu. “Obrigado”, eu disse. “Muito gentil de sua parte dizer isso.” As duas riram e Sophie se inclinou para frente e me abraçou. Eu lutei desesperadamente contra meus instintos de endurecer quando sou tocado sem aviso. “Você deveria pensar em arrumar amigos novos”, ela sussurrou em meu ouvido escarlate. “Sério.” Cook e Freddie estavam vindo em nossa direção, empurrando um ao outro jovialmente. Eu relaxei no meu lugar. “Nossa deixa para ir embora”, disse Sophie, olhando novamente com desgosto para o Cook. Ela piscou para mim. “Mas lembre-se do que eu disse.” “Certo”, eu disse, sentindo como se uma equipe de gravação fosse aparecer a qualquer momento revelando uma brincadeira sádica as minhas custas. Eu provavelmente estaria no programa Jonathan Ross em algum momento, como parte de sua rotina de aquecimento. Melhor acabar com isso agora. “Sim, eu vou”, eu disse, dando um curto aceno para ela. “Adorável conhecê-la, Sophie. Tchau.” Cook e Freddie observaram as garotas partirem. “Linda bunda, a da baixinha”, disse Cook grosseiro. “Pena que seja frígida. Puta desperdício.” Freddie indicou com a boca “Ciúmes”, por cima da cabeça de Cook. Eu sorri nervoso.
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    Enquanto eu estavasentado praticando mais origamis e os outros dois brincavam, se provocavam e mandavam um ao outro se foder de vez em quando, eu pensei em como foi meu verão até agora. Admito, o encontro às cegas não foi um ponto alto, nem minha seleção como juiz da maratona de sexo, mas sentando nessa mesa, me concentrando no avião de papel perfeito, senti um brilho de algo muito próximo de felicidade. Duas garotas, que mais importante eram no mínimo um número oito na escala de beleza, preferiram a mim ao invés dos meus melhores amigos paus-do-ano. Fiquei quase tentando a tomar uma sidra para celebrar. Mas eu resisti. “Olha o Hugh Hefner aqui”, disse Cook, batendo de leve na minha cabeça. “Quem diria, não é, Fred?” Freddie sorriu para mim e levantou sua garrafa. “Boa, JJ”, ele disse, piscando. “Boa.” Effy Terça, 25 de agosto Via San Angelo “Não... eu liguei para sua sobrinha”, minha mãe disse ao telefone. “Ela quer que ela seja enterrada na Inglaterra...”, houve uma pausa. “Entendo isso, mas... sim. Eu sei que há papelada para cuidar... certo.” Ela suspirou com tanta força que pude ouvir através da parede. “Sim. Sim. Farei o que puder.” Houve silêncio, então um resmungo alto e frustrado de “Malditos burocratas italianos” na cozinha. Ela deve ter terminados a ligação. Estava em meu quarto, sentada contra a porta, com minhas pernas encostadas no peito, fumando. Eu tossi, ofegando um pouco. Virei uma chaminé desde que aconteceu. Senti minha cabeça pesada, doendo. Joguei o cigarro em uma garrafa de cerveja vazia, vendo-o apagar e morrer no restinho de cerveja. Me abracei, sentindo minhas costelas. Não havia comido ontem, ou hoje. Não conseguia. Me sentia mal constantemente. Pelo menos as lágrimas estavam secando agora, sendo substituídas gradualmente pelo entorpecimento de novo. Não sabia o que era pior, mas pelo
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    menos daria umtempo para minha pele. As poucas vezes em que me olhei no espelho, um reflexo úmido e inchado me encarou de volta. Sem maquiagem. Olhos pequenos. Abri minha boca e disse “Ah”, um teste para ver se ainda podia falar. Eu e ela não havíamos nos falado desde o incidente na cozinha. Ela não forçou; apenas me deixou, sabendo que eu apenas tentaria matá-la se falasse comigo antes que eu estivesse pronta. Pronta para o quê? Perdoá-la? E ele? Ele não estava em lugar algum. Me alimentei com um pouco mais de dor, lembrando de antes. Quando eu pensei, eu realmente pensei que ele sentia o mesmo que eu. Fascinada, enfeitiçada. Viva. Eu tinha inventado isso? Ou imaginado? Levantei, fui até o armário pegar uma toalha, roupas limpas e roupa de baixo. Então abri a porta e fui até a sala e ao banheiro. Enquanto fechava a porta observei cautelosamente para ver se saía da cozinha. Nada, apenas um pouco de fumaça serpenteado pela porta até o corredor. Abri a banheira o mais quente possível, então entrei, apreciando a água escaldante em minhas pernas, observando-as ficarem alarmantemente rosas. Ontem à noite fiquei na banheira por horas, estremecendo com a água fervente em meus joelhos machucados, apenas deixando a dor fluir através de mim. Fiquei lá até minha pele franzir e rachar como uma noz. A água me protegeu. Deitei agora, e pressionei minhas mãos contra meu rosto, observando o vapor cobrindo o espelho. Depois vesti meu jeans preto rasgado e minha camiseta de Sid e Nancy. Então apliquei rímel e delineador cuidadosamente, observando meus olhos ficando maiores e esfumaçados. Passei hidratante na pele, olhando as sardas em meu nariz – o único resquício da Effy criança. Não mais uma criança, com certeza. Escovei meu cabelo molhado, e sentei no lado da banheira passando meus dedos nele. Peguei a toalha molhada e coloquei junto com as outras. Então abri a porta. Ela estava parada bem na minha frente. Seu cabelo preso em um rabo de cavalo desarrumado e seu rosto parecendo cansado e sombrio.
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    “Oi”, ela dissecuidadosamente. “Bom banho?” Eu concordei com a cabeça, mantendo meus lábios fechados. “Tem chá?”, eu disse, me assustando com o som da minha voz. “Quero muito uma xícara de chá.” Seus olhos se levantaram esperançosos. “Claro”, ela disse. “Também quero um pouco.” Sentei na cozinha com as mãos no colo. Era como eu sentava quando era criança, depois de ficar chateada, ou quando Tony havia tentado me bater ou algo assim. Minha mãe andava pela cozinha, fazendo coisas para mim: chocolate quente, ovo cozido... me confortando em silêncio. Ela colocou uma xícara de chá na minha frente. E depois um sanduíche. Aparentemente ela conseguiu encontrar o único pão de fôrma macio da Itália. Com presunto, queijo e cebola em conserva. Meu favorito. Eu engoli, não queria aceitar esse gesto, mas sentindo-o com meus olhos. Minha mãe sentou com sua caneca e colocou seus óculos para ler um documento de aparência oficial. Eu mastiguei, observando-a tentando entendê-lo. “Isso é sobre Florence?”, eu disse finalmente. Ela olhou para cima e suspirou. “Acho que sim... Não que eu possa entender uma palavra maldita disso.” Ela deu uma risada curta. “Nunca deveria ter concordado quando Florence me disse que gostaria que eu cuidasse disso.” Ela tirou os óculos. “Acho que não pensei que ela fosse realmente morrer.” “Sinto falta dela”, eu disse. “Mesmo não a conhecendo há muito tempo.” Peguei a outra metade do meu sanduíche. “Ela era aquele tipo de pessoa, sabe?” Minha mãe sorriu. “Sim”, ela disse. “Ela era.” Ela me observou comer. “Effy”, ela começou. “Precisamos conversar-” “Não quero”, eu disse rapidamente, meus dedos apertando o sanduíche. “Não posso.” “Certo”, ela tomou um gole de chá. “Mas pode ajudar.” “Ajudar quem?”, eu coloquei a comida no prato. “Nós duas.”
  • 157.
    “Por que eudeveria me importar se te ajuda?”, eu disse calmamente. “Fala com ele. Tenho certeza de que ele tem sido uma torre de força.” “Nós dois nos sentimos terríveis.” “Oh, devia ter dito antes”, eu sorri maldosa. “Porque isso faz toda diferença do mundo.” “Alfredo acha que você é maravilhosa”, minha continuou agitada. “Ele sente que... pode ter te confundido... passando tanto tempo com você.” Ela engoliu. “Ele realmente queria. Mas não... quero dizer, ele tem idade para ser seu pai. Ele não imaginou que você interpretaria seu interesse de forma errada.” “Ele esfregou o pau na minha bunda, mãe”, eu disse a ela, observando seu rosto por uma reação. “Ele ficou duro só de me olhar.” Eu empurrei o prato para longe. “Diria que isso é difícil pra caralho de ‘interpretar de forma errada’, não acha?” Ela me encarou, cuidando para não demonstrar estar magoada. Conheço esse olhar, porque é o que eu uso regularmente. A maçã não cai longe da árvore, então. “Ele é um homem, a resposta para uma garota linda rebolando na frente dele é ficar duro.” Ela estava ficando irritada. Bom. Estava cansada da porra da Santa Anthea. “Ele fica assim com sua bunda velha e caída?”, eu perguntei rapidamente. “Ou ele precisa de, tipo, Viagra para levantá-lo?” Ela bateu com a mão na mesa. “Às vezes”, ela disse, vibrando de raiva, “você me deixa envergonhada pra caralho de você.” “Talvez”, eu acenei. “Mas você nunca, nem em um milhão de anos, nem se eu corresse com a bunda de fora na frente do caixão da Flo, poderia ter mais vergonha de mim do que eu tenho de você... Sua vaca negligente e egoísta.” Eu pausei, olhando para ela. “E se você acha que essa é só a minha opinião, vai perguntar para o meu pai o que ele acha.” Ela abaixou a cabeça, me dando uma boa visão de sua raiz escura, misturada com grisalho, obviamente. “Eu não queria magoar seu pai. Apenas aconteceu”, ela fungou.
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    “Quer saber?”, eudisse. “Já achei que podia confiar em você. Achei que você cuidaria de mim, notaria coisas que estavam acontecendo comigo.” Encostei levemente na cadeira. “Mas você nunca pôde fazer isso. Sempre esteve envolvida demais nas suas próprias merdas.” “Isso não é justo.” “Não. Não.” Eu levantei a mão como um juiz. “É completamente justo.” Eu levantei, encostei na geladeira. “Mas ele falava comigo. Fez com que eu sentisse que o que pensava e dizia importava.” “Seu pai?”, ela disse confusa. Olhei para ela com desdém. “Aldo.” “Certo.” Ela suspirou pegando um lenço de seu bolso. “Bem. Eu te disse, ele gostou de você.” “Mas gostou mais de você, não é?” Eu disse. “Por alguma razão ele preferiu sua companhia resmungona à minha no fim das contas.” Eu balancei minha cabeça. “Ele se assegurou de que eu confiava nele. Então me decepcionou.” “Ainda pode confiar nele”, ela disse. “E em mim.” Eu bufei. “Você está brincando comigo, não é, mãe?” A encarei, boquiaberta. “Eu, confiar em algum de vocês dois bastardos novamente? Acho que não.” Houve silêncio. Minha mãe pegou um cigarro de seu maço e acendeu. Ela soprou fumaça e me olhou. “Sente-se, Effy.” “Por favor. Apenas por um minuto.” Relutantemente arrastei uma cadeira para longe da mesa e sentei, agitada. “Sinto muito”, ela disse quieta. “Você está certa. Te negligenciei. Estava muito ocupada com minha coisas...”, ela bateu o cigarro no cinzeiro. “Estava muito deprimida. Não podia ver algo além de mim.” “Eu notei”, eu disse mal humorada.
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    Ela ignorou meutom. “Sabia que tinha fodido as coisas com seu pai. Sentia que o mundo havia desmoronado em mim. Não podia te ver.” Ela pausou. “Ou o que estava acontecendo com aqueles garotos.” Disse nada, esperando ela continuar. “Quando chegamos aqui, me sentia velha e esgotada pra caralho. Você não falava comigo, não queria estar comigo. Eu estava solitária.” “Hmmm” , eu brinquei com um furo do meu jeans. “Bem, você tev-” “Sim, eu sei. Eu tive um caso. Eu causei todo o sofrimento.” Ela terminou seu cigarro e o apagou. “Mas seu pai não é completamente inocente, sabe.” “Não.” Eu encarei meu colo, pensando no que fiz com Freddie, e com Cook. Coloquei um contra o outro. Também fiz minha própria merda. Eu era melhor que minha mãe? Eu recuei. Talvez isso fosse carma ou alguma coisa assim. Recebendo o que merecia. “Eu fui uma idiota”, eu disse finalmente. “Queria que alguém me notasse. Não pelo meu rosto ou meu corpo, mas por mim... E ele notou. Era tudo o que eu precisava...” “Mas Aldo te acha ótima. Sério”, ela disse. “Estava com ciúmes disso no início.” “Mesmo?” “Mesmo. Mas então eu e ele... começamos a conversar sobre... casamento e divórcio, e fracasso... e todas essas merdas. Ele entendia.” Ela pegou outro cigarro. “Aos poucos comecei a me sentir menos como a Medusa... e mais como se pudesse ser feliz novamente.” Encarei um ponto no chão. “Effy, você é jovem, é linda pra caralho. É inteligente. Tem todo o tempo do mundo para conhecer e se apaixonar...” Ela acendeu o cigarro. “Eu não tenho tanto tempo. Não é fácil assistir sua linda filha recebendo toda a atenção.” Eu olhei para ela, as linhas em seus olhos, as sombras escuras. Ela tinha razão. “Há quanto tempo estava acontecendo?”, eu perguntei, me preparando para a facada. “Não muito. Nada aconteceu até sábado à noite.” Ela tragou de novo. “Nos aproximamos quando Florence ficou doente pela primeira vez. E... só aconteceu. Percebemos que sentíamos o mesmo.”
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    “Que adorável paravocê”, eu disse, mas não havia desafio na minha voz. Apenas resignação. “Em alguns meses, vai se perguntar o que diabos viu nele”, ela disse. “Quando voltar para Bristol. Para a realidade.” “É da realidade que eu tenho medo”, murmurei. “O quê?” “Nada”, me arrumei na cadeira. “Talvez esteja certa.” Eu pausei. “Então o que vamos fazer agora? Vou ter que ficar assistindo vocês dois se pegando?” “Bem”, ela falou comigo cuidadosamente. “Pensei que depois de resolver as coisas da Flo, talvez possamos mudar de cenário.” Ela olhou a cozinha. “Acho que já deu desse lugar.” “Voltar?”, eu disse, não me sentindo pronta para isso. Nem remotamente pronta. “Estava pensando em Roma”, ela disse. “Sempre quis ir para lá.” Que seja. “Mas ele não”, eu testei. “Ele não vem?” “Não. Só eu e você.” Ela arriscou um sorriso tímido. “Vamos fazer direito dessa vez.” Emily Quarta, 26 de agosto The Priory “Vai querer isso, ou posso comer?”, apontei com minha faca para uma torrada fria no canto do prato de Naomi. “Toda sua”, ela disse, sorrindo para mim enquanto eu enchia a torrada de marmelada. Enfiei metade na minha boca. Estava faminta. Não comi muito nos últimos dias na França. Muito animada e nervosa por vir para casa. Naomi fechou as mãos embaixo do queixo. “Você come como criança”, ela disse entretida. “Faminta pra caralho”, eu disse de boca cheia. Engoli. “Não está com fome?” “Não muita”, ela disse. Pegou seu café e tomou um gole.
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    “Amor”, eu disse,sorrindo para ela. “É isso o que é.” “Sim.” Ela colocou a caneca na mesa e estendeu a mão para pegar a minha. “É o que é.” Sorrimos bobas uma para a outra por um minuto, então ela soltou minha mão. “Então, Em, o que vamos fazer hoje?”, ela disse casualmente. Empurrei meu prato. “Voltar para sua casa, passar o resto da tarde na sua cama, então levantar e comer um jantar farto, feito pela sua mãe.” “Acho que Kieran vai cozinhar hoje”, ela disse. “Uma refeição comemorativa.” “Kieran cozinha?”, eu perguntei surpresa. “Não parece ser do tipo que cozinha.” “Sim, Kieran é um homem cheio de mistérios”, Naomi disse em um tom entediado. “Tenho uma sensação horrível de que a porra de uma noite de ‘casais’.” “Aw... encontro duplo”, eu disse com um sorriso afetado. “Que aconchegante.” “Que tormento, você quer dizer”, Naomi disse. “Já passou muito tempo com Kieran, Em?” “Não posso dizer que sim”, eu disse. “Normalmente não saio com professores loucos de política.” “Bem, não está perdendo alguma coisa.” Ela pegou um pouco de espuma com a colher e lambeu provocativamente. “É como conversar com um socialista de meia idade meio tonto com surtos ocasionais de DDAH.” “Parece legal para mim”, eu disse rindo. “Quer dizer, consigo pensar em coisas piores... Como jantar na minha casa, por exemplo.” “Isso é verdade”, ela disse, largando a colher em sua caneca vazia. “Poderia viver sem essa experiência.” Ela estreitou os olhos, inclinando para frente. “Por favor, me diga que isso nunca vai acontecer?” Eu virei a cabeça de lado. “Sério. Consegue imaginar minha cozinhando um jantar romântico para quatro?” “Não”, disse Naomi. “E é assim que eu quero que fique.” Encostei em minha cadeira e estiquei os braços por cima da cabeça. Estava satisfeita e contente. Naomi e eu voltamos a ficar juntas sem problemas. França... Paris... parecia ter sido
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    há uma vida.Senti um desconforto ao pensar em Paris, mas forcei o pensamento a ir embora. Nada aconteceu. Não contava. Coloquei os braços atrás da cadeira e observei Naomi mexendo em seu celular. “Mensagem?”, eu disse, me inclinando para frente. “Uma coisa do Kieran”, ela disse, colocando o celular na mesa com a tela virada para baixo. Franzi a testa. “Sobre o quê?” “Oh... apenas sobre o jantar”, ela disse vagamente, encostando seu dedo no meu. “Nada importante.” Fechei meus olhos, deixando a felicidade me inundar. “Ainda me ama?” Naomi deu de ombros. “Suponho”, ela disse, suspirando. Fiz um bico, ainda não estava completamente acostumada com seu humor seco. “E ninguém tentou ficar com você, certo? Enquanto eu estava viajando.” “Apenas o Cook”, disse Naomi, fungando. “E você sabe que ele não conta.” “Ele é inacreditável”, eu disse encostando de volta na cadeira. “Ele literalmente transa com qualquer coisa que se mova.” “Nossa, obrigada, Emily”, ela disse seca. “Tentarei não ficar magoada com essa observação.” “Sabe o que quero dizer.” Arrastei seu braço em minha direção. “Ele não é seguro.” “Eu sei”, disse Naomi, soando melancólica. “Mas esse é meio que o charme dele.” “Que seja”, eu disse duvidando. “Ainda não confio completamente nele. Veja o que ele fez com Freddie. Roubando Effy de debaixo do seu nariz.” “Ah, por favor”, Naomi disse, um pouco severa. “A Senhorita Inocente. Não me faça rir.” “Bem, é verdade”, eu disse. “Ele explorou completamente aquela situação.” “Certo. Quer dizer que ele a forçou a transar com ele? Torceu seu braço frágil até ela não ter escolha?”
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    “Não.” Eu nãoia ganhar esse debate, mas continuei mesmo assim. “Quero dizer que ele se assegurou de estar no lugar certo na hora certa.” Observei Naomi balançando a cabeça. “Ele ferrou seu melhor amigo e tirou vantagem da Effy.” “Ah, que pena”, disse Naomi, tirando sua carteira da bolsa. “Perdoe-me por não derramar lágrimas de pena por Effy Stonem.” Ela colocou uma nota de cinco libras na mesa. “Não me entenda mal. Ela é legal para sair e nunca me fez mal. Mas a vi brincando com os dois. Ela é manipuladora pra caralho.” Ela fechou a carteira e a jogou em sua bolsa. “Ela sabe exatamente o que está fazendo.” Dei de ombros. “Talvez.” Peguei um pouco de dinheiro e coloquei junto com o que Naomi deixou. “Vamos mudar de assunto.” “Claro”, disse Naomi, levantando. “E decidir o que vamos fazer.” “Que tal fazer compras?”, eu disse. Olhei a hora. “Preciso de uma roupa para hoje à noite.” “Você fica linda do jeito que está”, disse Naomi, olhando minha roupa de algodão de cima a baixo. “Muito comível, na verdade.” “Mas não quero que Kieran pense que estou comível, quero?”, eu disse tímida. “Bem pensado”, disse Naomi com um calafrio. “Só a ideia me deixa louca de ciúmes.” Ela sorriu para mim. “Apesar de ter um palpite de que ele gosta de mulheres mais velhas no momento. Sua época de amor estudantil já passou.” Ela franziu a testa. “Espero que tenha passado.” Pagamos e saímos de mãos dadas em direção às lojas. Naomi esperou até chegarmos na esquina para apertar minha bunda. “Outra ideia”, ela disse. “Precisamos mesmo ir às lojas agora?”, ela acariciou minhas costas. “Parece um desperdício de tempo.” “Só uma volta na Topshop?”, eu supliquei. “E depois sou toda sua.” Naomi deu um tapa na minha bunda um pouco mais forte que o necessário. “Ooh, eu gosto da Naomi Dominatrix”, eu disse me esquivando. “Vai ser uma volta bem rápida, certo?” Naomi
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    Quarta, 26 deagosto Jantar dos Campbell “Parece ótimo”, disse Emily, apontando para a massa com seu garfo. “O que é mesmo?” “Rigatoni com radicchio, gorgonzola e um pouco de creme de leite”, anunciou Kieran, sentando e colocando se guardanapo no pescoço da camiseta. “Pode colocar carne se quiser”, ele disse pegando seu garfo. Ele sorriu para todos. “Ataquem.” Emily e eu trocamos olhares de divertimento suprimido enquanto minha mãe sorria orgulhosa para Kieran. “Bem”, ela disse. “Isso é legal.” Ela sorriu para Emily. “Estamos felizes que tenha voltado, Emily. Naomi tem sido um pesadelo nas últimas semanas.” “Mãe”, eu disse carrancuda. “Cala a boca.” Kieran balançou seu garfo para cima e para baixo no ar. “Sério”, ele disse. “Ela não tem sido ela mesma.” Eu o encarei, não que ele tenha notado. Emily estava encantada é claro. “Sério?”, ela disse remexendo em sua comida no prato. “Sim”, disse Kieran continuando a tolice. “Ela tem estado louca”, ele sorriu inocente para mim. “Não é?” Mexi meu pé embaixo da mesa e pisei o mais forte que podia em seu pé. Ele se encolheu, levantando uma sobrancelha para mim. “Vocês não tem ideia de como tenho me sentido”, eu disse, olhando para ele para minha mãe. “Vocês tem estado ocupados dem-”. “Não acho que Emily queira escutar isso.” Kieran estava corando. Ele tirou meu pé do dele. “Vai acabar com seu apetite.” Não havia como discordar disso, então sentamos em silêncio, com exceção do som dos talheres batendo nos pratos. “Então”, disse Emily depois de um tempo. “O que ela tem feito?” Eu olhei para ela. “Eu te disse.”
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    “Sim. Mas querouma segunda opinião”, ela disse gentilmente. “Só isso.” “Bem, ela tem me ajudado no jardim”, minha mãe começou. Oh, que entediante. “E tem fumado muito um do bom comigo”, adicionou Kieran embaraçado. “E isso é tudo”, eu disse rapidamente, com um olhar firme para ele. “Não é?” “Oh”, disse minha mãe limpando a boca com o guardanapo. “Falamos um pouco sobre o ano que vem.” Ela parou para beber um pouco de cerveja. “Sabe, universidade e essas coisas.” “Sério?”, disse Emily. Ela virou e me alfinetou com aqueles malditos olhos de corça. “Não muito”, eu dei de ombros, meus olhos se estreitando. “Nada concreto.” “Bem, houve o-”, Kieran começou. “Nada”, eu disse. Eu levantei com minha janta comida pela metade. “Nossa, estou cheia.” Olhei para Emily que tinha comido tudo em seu prato. “Vamos para o meu quarto agora, tudo bem, mãe?” Minha mãe olhou para mim com suspeita. “Não”, ela disse. “Não está tudo bem.” Ela olhou para Kieran. “Kieran teve muito trabalho com a sobremesa.” “Certo.” Deixei meu prato no balcão e sentei. Provavelmente estava de cara feia. Me sentia distintamente irritada pra caralho com eles. Kieran saiu e voltou com uma fôrma com tiramisú. “Achei que estivesse cansada da culinária francesa.”, ele disse à Emily. “Então optei por um tema italiano para hoje.” “Ótimo”, disse Emily quando ele lhe serviu uma grande fatia. “Eu amo tiramisú.” “Eu não quero”, eu disse ingrata, torcendo o nariz. “Não gosto muito.” “Naomi”, minha mãe disse severa. “Você está sendo muito rude.” “Desculpa!”, joguei minhas mãos para o ar. “Mas ninguém me perguntou se eu gostava. E eu não gosto.”
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    Emily parecia muitodesconfortável. “Bem, eu como sua parte”, ela disse. Estranha. Kieran sorriu para ela, contente. “Bom saber que eu tenho sociedade de apreciação uma pequena e seleta”, ele disse agradavelmente. “De duas pessoas.” Emily riu. “Então”, ela perguntou a Kieran alguns minutos depois. “Tem ajudado Naomi a decidir sua carreira, então?” “Bem”, ele disse. “Apenas indiquei algumas coisas, só isso.” Ele terminou seu pudim. “Naomi não quis aceitar muitos conselhos de um velho como eu.” “Isso mesmo”, eu resmunguei, desejando que Kieran e minha mãe desaparecessem. “Certo, Naomi”, disse minha mãe com calma. “Acho que já se expressou.” Ela deu um tapinha na mão de Kieran. “Vamos limpar a mesa?” Eles levantaram e foram para a cozinha carregados de tigelas. “Naomi”, sibilou Emily. “Qual é a porra do seu problema?” “Nada”, eu disse emburrada. “Apenas o papo furado chato, sabe.” “Não achei chato”, ela disse franzindo a testa. “Estava interessada.” Levantei-a da cadeira. “Vamos para a cama”, eu disse beijando o lado de sua cabeça. “Hoje só estou interessada em te deixar nua.” Emily sorriu. “Bem, quando você fala desse jeito”, ela disse. “Vou deixar o café e o licor para lá. Só por você.” “Vamos lá para cima agora”, avisei à minha mãe. “Coloquem uma música e tal.” “E o resto”, sussurrou Emily enquanto eu a empurrava para fora da sala. “Boa noite, Gina. Boa noite, Kieran.” Uma hora mais tarde eu estava acordada enquanto Emily dormia ao meu lado.
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    Eu tinha queme ajeitar e tomar algumas decisões. Apenas tinha que encontrar uma forma de contar a Emily sobre elas. Olhei para seu rosto, doce, boca meio aberta, em paz. E eu não estava ansiosa para isso. Everyone Quinta, 27 de agosto Quiz no Pub do Tio Keith Katie “Oi, Freddie.” Ele virou quando eu falei, acertando três copos cheios de cerveja com o cotovelo. Ele lutou para impedi-los de cair do bar. “Katie. Oi... Tudo bem?” “Sim.” Eu sorri para ele. “Estou bem.” Observei seus olhos se revirando nervosamente. “Sério.” Ele sorriu. “Bom”, ele disse, puxando o jeans para cima e corando. “Não quero que nós-” Eu o parei. “Esqueça isso, Freddie”, eu disse equilibrada. “Eu superei.” Abri minha bolsa para pegar minha carteira. “Está tudo bem.” Ele colocou a mão no bolso rapidamente. “Deixe eu te pagar uma bebida”, ele apalpou os bolsos. “O que você quer?” “Está tudo bem, eu compro minha bebida”, eu disse sem olhar para ele. “Mas obrigada.” Eu pedi um Bacardi com coca, e então respirei fundo antes de ir até onde todos estavam sentados. Emily, Naomi, Thomas e Pandora, Cook, JJ... era bom vê-los. Parecia que havia passado anos, não apenas semanas.
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    “Deliciosa!”, disse Cookalto, sorrindo para mim, obviamente muito bêbado. “Venha e junte-se ao amor.” Sentei no único lugar livre. Ao lado da Naomi. Olhei para Emily, que me deu um sorriso encorajador. Bem, tentar não mata. Me ajeitei no meu lugar e coloquei minha bebida na mesa. “Oi”, eu disse para Naomi, tentando ser amigável. “Se importa se eu sentar aqui?” Por um segundo a famosa entortada de lábio ameaçou sua boca, mas ela parou bem a tempo. “É um país livre”, ela disse, me dando um meio sorriso. Eu também dei um e me virei para ver os outros. Cook estava sorrindo alegre para a mesa. “Não conseguiu ficar muito tempo longe, né?”, ele disse. “É o encanto do Monstro Cookie, entendem. Nenhum de vocês imbecis conseguem ficar sem mim.” “Exceto Effy. Ela não está aqui”, disse Pandora. Sua cadeira estava o mais próximo possível de Thomas sem que sentasse em seu colo. “Bem observado”, disse Cook, se curvando para ela. “Mas quem se importa.” Ele acenou com sua cerveja. “Até bebo em comemoração.” Houve alguns olhares desconfortáveis. Freddie estudou a porta. “Enfim, Cook”, disse Naomi, mudando de assunto. “Não tem algo para nós?” “Sim. Certo, princesa.” Ele se reclinou em sua cadeira e gritou, “Oi Keith, aonde estão as drogas?” Keith, com a barriga saindo de sua camisa manchada, olhou de onde estava mexendo com um microfone perto do bar. “Fale baixo, Jimbo, caralho”, ele sibilou. Ele olhou furtivamente em volta do bar. “Aqui.” Um saquinho de plástico voou pela sala e foi pego habilmente pelo Cook. “Discreto ele, não é?” Naomi rolou os olhos. “Seu tio.” Cook não respondeu, muito ocupado virando o saquinho de cabeça para baixo. Ele colocou tudo na mesa. “Sirvam-se, crianças”, ele disse. “Há uma para todos que não tomam pílulas de louco... Isso quer dizer você, JJ.”
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    “Obrigado pelo lembrete”,disse JJ, tomando um gole de coca, mas sorriu sem se incomodar conosco. Peguei uma das pílulas redondas e engoli com um gole de Bacardi. “O que elas são?”, eu disse. “’E’ é claro”, disse Emily. “O que achou?” “Paracetamol”, eu sugeri, com a cara séria. Enquanto Emily me mostrava o dedo, eu vi Naomi sorrindo para nós. Me mexi em meu lugar, sentindo o calor do álcool fazendo seu trabalho. Estava começando a me sentir relaxada quando um barulho ensurdecedor de retorno do microfone fez todos se encolherem. “Certo, seus putos bobos”, berrou Keith, usando um microfone apesar de o lugar estar meio vazio. Ele limpou a garganta. “Bem vindos à noite do quiz do Keith.” Ele embaralhou alguns papeis. “Agora, para os imbecis entre nós, é assim que funciona.” Ele pausou para um efeito dramático. “Vocês se dividem em times. Eu leio as perguntas, vocês escrevem as respostas. O time vencedor ganha até três copos grátis da bebida de minha escolha.” Ele limpou a garganta de novo. Sentamos esperando passivamente. “Certo”, ele disse finalmente. “Pergunta Número Um... Fucus é um tipo de quê?” “Que merda é fuckus?”, disse Freddie, gargalhando. “É latim, para o ato de foderisar”, disse Cook, rindo e batendo na mesa. Ele se virou para Pandora. “Certo, princesa?” Thomas enrijeceu, e Panda enroscou um braço protetor no dele. “Não mesmo”, ela disse, com um olhar raivoso para Cook. Ela se aconchegou em Thomas, que estava tentando ignorar o comentário. “Na verdade”, disse JJ quieto. “Se pronuncia fiu-cus.” Ele pausou. “E é um tipo de alga marinha.” “Boa, gênio”, disse Freddie, pegando um pedaço de papel e escrevendo. “Mas não espalhe, sim. Não queremos todos escutem, não é?” Ele beijou JJ no lado de sua cabeça. JJ sorriu, orgulhoso de si mesmo. Estávamos todos olhando para ele, gratos por sua existência. E não apenas por causa de seu cérebro.
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    Me inclinei nadireção da Naomi, cutucando-a levemente com meu ombro. “A propósito, estou dando minha benção oficialmente.” Eu disse levemente. “Mas só para você saber, se magoar Emily, está morta.” Eu sorri e bati em seu copo com o meu. “Registrado”, disse Naomi, levantando uma sobrancelha. Emily olhou para nós. Ela sorriu alegremente para mim. “Valeu”, ela disse sem som. Abanei a mão como se fosse nada demais e me ajeitei para ver o que viria a seguir. Uma segunda onda de retorno do microfone, mais curta dessa vez. “Pergunta Número Dois”, disse Keith, tentando segurar a folha de perguntas, o microfone e um copo de cerveja ou seja lá o que for que homens velhos nojentos bebem. “O que é monofobia?” “Isso é, tipo, medo de bater punheta?”, disse Cook, completamente sério. Todos gemeram. “Eu sei essa”, disse Thomas. Ele olhou sentimentalmente para Pandora. “É o medo de ficar sozinho.” Panda deu um beijo em seu nariz enquanto outro gemido corria a mesa. Vi Emily descansar a cabeça no ombro de Naomi. Freddie girou sua cerveja no copo, evitando qualquer contato visual. Cook estava se concentrando em destruir um porta-copo. “Que se foda isso”, ele disse, distraído. Ele olhou para cima, me olhou nos olhos. “Nada a temer exceto o próprio medo, né Katiekins?”, ele sorriu. Levantei meu copo. Um brinde a isso. Naomi Olhei para Emily, olhos brilhando de felicidade. Tinha de contar a ela. Mas como? “Eu te amo, Emily”, eu disse. Ela sorriu para mim, “Eu também te amo. Sempre.” Mordi meu lábio, fingindo me concentrar. “Tem uma coisa que fico esquecendo de te falar-” Mas Em não estava ouvindo. Ela havia se virado para Freddie.
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    “Animem-se, gente”, eledisse. “Aí vem a próxima.” Freds estava adorando escrever as respostas. Típico de garotos. “Prontos, seus putos?”, gritou Keith. “A Pergunta Número Três é para as garotas.” Ele limpou a garganta e cuspiu em seu copo vazio. Houve um “Eww” coletivo de todas as garotas presentes. Keith não pareceu ter se incomodado. “Que artista americano de rap convidou vocês para lamber seu pirulito?” Ele olhou de soslaio pela sala. “Pontos extras para uma demonstração prática em mim.” “Porra, preferiria tomar banho de ácido”, eu resmunguei. “Sim!, Ugh, que horror”, adicionou Pandora. Thomas balançou sua cabeça, chocado. “Minha mente ficou espantada agora.” Olhei para Cook, que estava morrendo de rir e balançando a mão no ar em um estilo ridículo de hip hop. “O que é tão engraçado, caralho? O homem é repulsivo.” Torci meu nariz para ele. “Sem ofensa.” “Não ofendeu, princesa”, ele disse, lágrimas de alegria em seus olhos. “Mas está errada. Ele é brilhante pra caralho. Eu o amo, cara.” Ninguém mais pareceu compartilhar de sua opinião. O resto de nós estava tentando se concentrar na pergunta. “Qual é a resposta então?, perguntou JJ, parecendo impaciente. Freddie arregalou os olhos comicamente. “Que porra, Jay”, ele disse. “Você sabe o nome de uma alga marinha obscura, mas nunca ouviu falar do 50 Cent?” “É claro que já ouvi falar dele”, disse JJ de forma arrogante. “Apenas não reconheci a letra.” “Sabe, é aquele em que ele diz que seu pinto é como uma loja de doces ou algo assim”, disse Pandora, e ela começou a encolher os ombros e cantar rap. Ela estava tonta pra caralho. Essa garota não sabe lidar com drogas. Todos riram, até Thomas. Ela parecia louca, com os olhos fechados e um sorriso alegre no rosto.
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    “Então...” Cook interrompeu,antes de pausar para arrotar extravagantemente, batendo em seu peito com o punho. “Qual das garotas vai envolver os lábios adoráveis no membro pulsante do Keith?” “Oh Deus, vou passar mal”, Katie gemeu, fazendo barulhos de vômito. Cook apontou um dedo meio mole para ela. “Bem, na verdade, Katiekins, tem que ser você, porque Panda está com Thommo, e Emily e Naomi não gostam de pinto.” “Fico muito aliviada por isso”, ela falou, se acomodando em meu peito. Me ajeitei desconfortavelmente. “Cala a porra da boca, Cook”, eu disse. “Bom garoto.” “Cala a boca você, sapatão”, disse Cook moderadamente. Dei um olhar duro para ele, mas ele estava com JJ em uma chave de braço, passando a mão em sua cabeça daquele jeito homoerótico dele. Enquanto Em estava na França, senti que tinha feito me aproximado um pouco de Cook – o máximo que uma lésbica por se aproximar de um selvagem maníaco sexual. Mas agora que Emily havia voltado, a provocação tinha revertido às velhas besteiras homofóbicas. E eu tinha amolecido de novo. Ela tem esse efeito em mim. Olhei para sua cabeça, apoiada em mim, e tirei o cabelo de seu rosto. Emily sentou direito. “Enfim,” ela disse, olhando para mim. “O que você ia me contar? Mais cedo?” “Ah. Sim, aquilo. É só-” “Pergunta Número Quatro”, berrou Keith. Ele pausou e olhou para a folha de perguntas, perturbado. “Quantos pares de cromossomos, o que quer que eles sejam, um ser humano tem?” Freddie largou a caneta. “Quem sabe.” “Quarenta e seis”, disse Thomas rapidamente. “São vinte e três, na verdade”, disse JJ, parecendo satisfeito consigo mesmo. “Ele disse pares de cromossomos.” Thomas deu de ombros. “Uma questão de semântica. Humanos têm quarenta e seis cromossomos.”
  • 173.
    “Não se preocupe,querido”, disse Pandora, afagando seu cabelo. “Acho que você é muito inteligente.” “Bem, nós dois estávamos certos, de certo modo”, disse JJ, magnanimamente. Cook parecia entediado, enquanto Freddie escrevia “23” na folha de respostas. “Sim, não teríamos chance de ganhar se não fosse por vocês dois”, Freddie disse satisfeito. Cook encostou em sua cadeira, com as mãos atrás da cabeça, e deu um de seus sorrisos vazios. “Não me importo em ganhar essa porra de quiz estúpido. Nem com um monte de cromossomos. Não preciso saber dessas merdas.” “Isso mesmo, Cookie”, eu disse aérea. “Que bom que há um diploma em “Jogar Sua Vida Pela Janela.” Eu dei um tapa na minha testa. “Ah não. Desculpa. Não há.” Emily riu. Os outros pareciam tensos. “Hilário pra caralho”, disse Cook, seus olhos se estreitando. “E vocês duas vão para a aula de Como Lamber uma Boceta, sim? Introdução à masturbação? Ou talvez um bacharelado em Vadia Metida?” Certo, cansei disso. “Sim, Cookie”, eu surtei. “Vou a um dia aberto de Yale no sábado... porque eu quero mais da vida do que fritar hambúrgueres ou qualquer que seja o trabalho destruidor de almas que você acabará tendo.” Houve um silêncio, com o qual eu percebi com o coração apertando o que eu havia acabado de dizer em voz alta. Cook levantou as sobrancelhas. “É mesmo, Naomi?” Ele acenou em direção à Emily, que estava me encarando com os olhos arregalados, confusão e mágoa aparentes em seu rosto. “Talvez você devesse ter contado isso primeiro para sua namorada.” Merda. Emily “Legal, Naomi”, eu sibilei enquanto todos continuaram conversando. “Muito obrigada.” Eu me abracei. “Poderia ter me dito antes de falar para todos no bar. Um pouco menos humilhante, sabe?”
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    “Querida.” Ela pegouminha mão e a segurou entre as delas. “Não é grande coisa. Ainda quero ficar com você, Em.” Seu tom era leve, mas deu para perceber que ela se sentia culpada. Estava em seus olhos, que não olhavam diretamente para os meus. “Você teve várias oportunidades para mencionar”, eu disse, com meu queixo tremendo. “Enquanto eu estava fazendo planos para o ano livre, por exemplo.” Eu encostei na cadeira, chateada. Não chore, caralho, eu disse para mim mesma. Não na frente de todo mundo. Olhei triste em volta da mesa. Thomas e JJ estavam em uma competição de conhecimentos gerais, discutindo sobre Freud. Cook e Freddie estavam se provocando. Katie estava mexendo no telefone. Apenas Pandora estava nos observando. Ela me olhou no olho e deu um sorriso compreensivo. Ela entedia? Ela e Thomas pareciam bem e completamente apaixonados para mim. Acho que nunca se pode saber o que acontece por dentro. Naomi apertou minha mão. “Vamos, querida, não fique assim. Estou apenas pensando no meu futuro, só isso.” “E eu, não sou parte do seu futuro?” Podia ouvir o choramingo em minha voz, e odiava isso. Mas não conseguia evitar. Estava magoada. E com medo. “Claro que é!”, disse Naomi. “É apenas um dia aberto.” Comecei a cavar na mesa de madeira com a unha e a tirar farpas. “Mas você teria de ir para a América”, eu disse triste. “Achei que íriamos nos inscrever para a mesma universidade.” Naomi suspirou, exasperada. “Vamos, Em, isso não é realista. Você deveria ir para a universidade que quiser. Somos fortes o bastante, não somos?” “Eu só quero que fiquemos juntas”, eu disse. “Isso é o mais importante para mim... Talvez não seja para você.” Naomi disse nada, apenas me olhou com aqueles olhos azuis gelados, e meu coração afundou. “Seu silêncio fala alto pra caralho, Naomi”, eu disse com a voz falhando.
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    “Certo, Emily”, eladisse, passando a mão em seu cabelo. “Se realmente não quer que eu vá ao maldito dia aberto, eu não vou.” Era nessa parte que eu deveria dizer não, que ela deveria ir. Mas não consegui. O alívio era demais. Puxei a mão dela para meus lábios e a beijei, então descansei a cabeça no ombro dela. “E de qualquer forma você não gostaria de ir para a América”, eu disse. “Pena de morte e essas coisas. Não é bom para uma garota com consciência.” Naomi pegou sua bebida. “Sim. Você deve estar certa.” “Não vai se arrepender, amor”, eu disse beijando-a rapidamente na bochecha. “Prometo.” Cook “PERGUNTA NÚMERO CINCO.” Aqui vamos nós de novo. Estava cansado desse quiz estúpido. Não estava ajudando com minha autoestima. Sei nada, sobre qualquer coisa. Keith tropeçou no bar, bêbado como a porra de um gambá. “Quem disse ‘Eu não recomendaria sexo, drogas ou insanidade para alguém, mas sempre funcionou para mim’?” Ele olhou em volta da sala e deu um arroto vulcânico. “Essa é fácil”, disse Naomi brincando com seu cabelo. “Dê uma chance para nós”, eu disse, equilibrando sete doses de absinto em minhas mãos. Hora do Cookie começar essa festa. “O que é isso?”, Freddie perguntou, olhando com suspeita para as bebidas. “Acalme-se, Lorde gay”, eu disse colocando as bebidas na mesa. “Não precisa se afobar. É absinto.” Eu bebi o meu imediatamente. “A tequila não estava subindo.” Panda pegou uma dose e segurou-a contra a luz, “Uau, olha isso”, ela disse, chapada pra caralho. “É super lindo. Todo verde como um... como um lindo mar de esmeraldas.” “Sabe o que é absinto, Panda?”, disse Thomas, olhando para a dose, boquiaberto. “É espírito de anis.” “Esperto”, disse Panda beijando-o na bochecha.
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    “Certo”, eu disse,“Chega dessa merda sentimental.” Eu baguncei o cabelo do Thomas. “É melhor tomar cuidado, cara. Ela está te transformando em um maricas.” Thomas não reagiu. Ainda havia alguma merda acontecendo, obviamente. Olhei para Freddie. Ele estava cheirando seu copo como uma garota. “Se divertindo?”, perguntei. “Sim”, ele disse. “É claro.” “É melhor falar isso para o seu rosto, cara.” Eu ri. “Até parece que alguém morreu com essa cara.” “Cala a boca, Cook”, Freddie disse quieto. “Não estou com humor para isso, tudo bem?” Ele acenou para Naomi. “Então”, ele perguntou, caneta preparada para anotar. “Qual é a resposta?” “É-” “Tenho certeza de que sei essa”, JJ interrompeu, preocupado em não perder a maldita coroa de sabe-tudo. “Bem, eu sei que sei”, disse Naomi de nariz empinado. Ela estava me irritando completamente hoje à noite. É como se, desde que a porra da namorada dela voltou, ela tivesse perdido o senso de humor. Eu e ela, nós estávamos nos dando bem antes. Nunca contaria a alguém, mas pela primeira vez gostei bastante de sair com uma garota e não transar com ela. Ela dilatou as narinas para mim. “Hunter S. Thompson”, ela disse. “Ah, é claro”, disse JJ. “Certo, porque você adora livros de drogados psicodélicos, não é, Jay?”, eu disse. “Você se arrisca tanto, não é?” Todos ficaram em silêncio. JJ deu de ombros. “Uma coisa não exclui a outra”, ele disse. “Ler sobre drogas, e não usar drogas. Bem-”, ele pausou. “Não usar drogas de recreação.”
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    “Não entendi umapalavra do que acabou de dizer, cara”, eu funguei. “Preciso de um dicionário para conversar com meus amigos atualmente.” JJ olhou para suas mãos. “Pare de ser imbecil, Cook”, disse Freddie. “Não desconte no JJ.” “De que porra está falando?” “É só um quiz de bar”, Fred continuou. “Também não sei as respostas.” Ele acenou para mim. “Sério. Acalme-se. Vai ficar tudo bem, cara.” Os outros nos olharam, imaginando que porra estava acontecendo. “Vai, Fred?”, eu perguntei a ele tomando mais algumas doses. “Pode me prometer isso?” Keith estava se preparando para a próxima pergunta. O retorno do microfone perfurou a atmosfera. “Ah, foda-se”, eu disse, sorrindo para todos. “Tem gosto para tudo.” Eu pisquei para Naomi. “Não é, princesa?” “Certo, Cook”, ela disse. “Agora levante e vá buscar bebidas de verdade.” Freddie Enquanto Cook se agitava até ficar nervoso por ser estúpido, fazendo o seu melhor para ser aniquilado, olhei para Katie. Ela estava se abarrotando com batatas fritas e conversando com Naomi. Algo tem de ter acontecido no último mês, porque nenhuma dessas coisas são normais no Planeta Katie. Quando Emily levantou para ir ao banheiro fui para o seu lugar. “Apenas por um minuto”, eu disse quando Katie abriu a boca. “Certo?” Ela terminou as batatas. “Não vai me dizer que você quer conversar comigo?” “Por que não?”, eu disse. “Já fomos amigos, não?” Ela sorriu. “Sim, fomos.” “Então”, eu comecei casualmente. “O que tem feito recentemente?”
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    “Isso e aquilo”,disse Katie, lambendo o sal de seus dedos. “Fui à França, tive uma briga enorme com Emily em Paris, então...”, ela pausou. “Então fui à Veneza.” Meu coração parou. “Viu Effy?” “Sim”, disse Katie, me observando cuidadosamente. “Foi um pouco estranho.” “Mas vocês-” “Sim, eu sei. Queria ajeitar as coisas, suponho.” “Certo”, eu disse. “E ajeitaram?” “Na verdade não”, ela disse. “Ficou tudo na mesma.” Ela pausou. “Mas de certa forma, fiquei me sentindo melhor sobre as coisas, ficando com ela, observando-a.” Ela mordeu o lábio. “Ela ainda está perturbado com o que aconteceu.” Olhei para baixo. “Certo.” Porra, agora ia começar tudo de novo. “Ela está vendo alguém?”, eu falei de uma vez. Uma visão de Effy na Vespa de algum imbecil apareceu em minha cabeça. Por que eu perguntei? Eu não queria saber, caralho. Katie hesitou. “Não”, ela disse. “Não, não está. Estava.” Eu balancei a cabeça, tentando não mostrar alívio. Não que importasse. “PERGUNTA NÚMERO SEIS.” Keith agora estava sentado, com os olhos vermelhos e suando. “E é sobre linguagem.” Ele limpou a garganta. “Aproximadamente, cinco anos para mais ou menos, quando a palavra BOCETA foi ouvida pela primeira vez na TV britânica?”, ele disse. “É B.O.C.E.T.A. BOCETA, como em vagina, xoxota, xana, perseguida, porta pinto. E, citando meu comediante favorito, que Deus o tenha, se você é o que você come, então eu sou uma boceta.” Ele olhou em volta encantado, esperando por aplausos, não os recebeu. “Ugh. Ele tem manchas brancas horríveis em sua calça”, disse Pandora, encarando o fundo de seu copo, esperando, se ela tentasse com muita vontade, ele se encheria magicamente. Cook estava muito ocupado brincando de puxar o cabelo de Naomi para notar. “Sai fora, crianção”, ela disse rindo.
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    Me virei paraKatie. “Ela vai voltar?”, eu disse. “Effy?” Katie deu de ombros. “Não sei. Suponho que temos que esperar e ver.” Trocamos um sorriso mutuamente apreensivo. “Certo, então”, eu disse, focando na pergunta e agitando meu lápis. Qual é a resposta?” Thomas puxou seu lábio de baixo. “Tem de ter sido bem recentemente, eu acho.” “1970”, disse Cook do nada. Ele arrotou casualmente. “Tem certeza disso?”, disse Naomi. “Por aí... Tem que ter sido na época em que as pessoas falavam merda na TV ao vivo e ninguém podia impedir”, disse Cook. “Não precisa ser um gênio, princesa.” Naomi deu uma batidinha em sua orelha. “Estou impressionada”, ela disse. “Há esperança para você no fim das contas, Cookie.” Cook fez seu melhor para parecer o mais indiferente possível, mas não era óbvio que estava orgulhoso de si mesmo. O resto de nós sorriu. “Próxima, quando estiver pronto, Maestro”, Cook gritou para Keith, que estava prestes a ficar inconsciente julgando pelo jeito que estava caído por cima do microfone. “Fácil pra caralho, isso.” JJ “Cuidado, JJ”, disse Thomas. “Tenho um bom pressentimento sobre a próxima.” Ele esfregou suas mãos. “Je suis le feu, como vocês dizem por aqui.” Eu ri. “Acho que não, meu ami congolês.” “Por falar nisso, onde está o Keith?”, perguntou Katie, olhando em volta. “Que porra, o velho bastardo apagou”, disse Freddie apontando para um par surrado de sapatos saindo do bar. “Cook, resolva isso, pode ser?” Cook correu e desapareceu por trás do bar. Ele pulou apareceu um segundo depois com a folha de perguntas e deixando Keith para potencialmente engasgar no próprio vômito. “Tenho as respostas”, ele cantou, acenando-as no ar. “Quanto vale isso?”
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    “Não seja umimbecil, Cook”, disse Freddie. “Apenas leia a pergunta.” “Como quiser”, disse Cook. Ele pegou o microfone. “PERGUNTA NÚMERO DEZ”, ele gritou, imitando seu tio com uma precisão impressionante. Ele levantou o papel e leu, “Qual é o planeta mais próximo do sol?” Ignorando todos os outros no bar, ele olhou exclusivamente para nossa mesa. Naomi deu de ombros. “Sei nada sobre astrologia.” Thomas parecia aflito. “É Mercúrio ou Vênus.” Ele deu batidinhas na testa com os dedos. “Droga. Não consigo lembrar”, ele disse finalmente, parecendo irritado. Eu, entretanto, estava completamente confiante. A fase intensa de astrologia pela qual eu passei quando tinha sete anos ia se provar útil para mim agora. “Ahem.” Os olhos de todos se viraram para mim. “Mercúrio, é claro”, eu disse, simplesmente. “Viva, JJ!”, disse Pandora, batendo palmas. “Digo, sinto muito por você Thommo.” Ela deu palmadinhas em seu joelho. Os olhos de Thomas brilharam competitivamente. “Tome cuidado, JJ”, ele disse. “Prepotência é um traço superficial entre homens.” “Não estou sendo prepotente”, eu disse. “Eu simplesmente sabia a resposta.” “Sim”, disse Katie. “Não é uma competição, sabe.” Todos nós olhamos secamente para ela. Até Pandora. “É totalmente uma competição”, ela disse. “Bobinha.” Katie jogou o cabelo. “Quero dizer entre os dois”, ela apontou para Thomas e para mim. “Os Irmãos Sabe-Tudo.” “Elogios”, eu disse a ela, “abrem portas em todo lugar, Katie.” Eu suspirei. “Posso encarar uma vida de abstenção dos estimulantes diários que todos vocês aproveitam”, eu disse. “Mas irei para meu túmulo um homem orgulhoso se continuar indo bem no quiz quinzenal do bar do tio Keith.” Eu pausei. “De verdade, irei.” “Dê um abraço, Jay”, disse Cook, se arrastando em minha direção. “Sinto o amor chegando.”
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    Freddie sorriu enquantoCook subia na mesa para me abraçar. “Por favor, vá se foder, Cook”, eu disse, abraçando-o. “Agradeço seu sentimento, obviamente, mas seu hálito fede, e eu preciso ir ao banheiro.” Cook encostou minha cabeça na dele. “Nunca me deixe, cara”, ele sussurrou rouco em meu ouvido. “Prometa ao Cookie que nunca irá embora.” “Prometo”, eu disse descuidado. “Agora me solta.” Effy Sexta, 28 de agosto Itália – algum lugar no céu “Gostaria de uma taça de vinho”, minha mãe disse, observando a lista de vinhos. Ela apontou para o que queria. “Esse, por favor.” Ela acenou para mim. “Effy?” “Vodka dupla, por favor.” Eu encarei a comissária de bordo. “Gelada.” Ela sorriu firme. “Vou ver o que posso fazer”, ela disse, pegando a lista da minha mãe. Minha mãe se ajeitou em seu assento. “Graças a Deus conseguimos vir para Primeira Classe”, ela disse, olhando para as nuvens na janela. “Depois dos últimos dias não conseguiria encarar a Classe do Rebanho.” De algum lugar na Classe Econômica veio o som de um bebê chorando. Sorrimos uma para a outra. Minha mãe pegou minha mãe. “Você vai amar Roma”, ela disse. “Tem mais vida que Veneza. É mais agitada. Tem mais gente.” Ela fechou os olhos. A comissária chegou com nossas bebidas. Tomei um gole da minha, fazendo contato visual com um garoto bonito e descabelado a algumas poltronas de distância. Eu desviei o olhar primeiro. “Aquele lugar era meio estranho”, eu disse finalmente. “O que, Veneza?” “Sim. Intenso.”
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    “Sei o quequer dizer”, disse minha mãe, tomando um gole de vinho. “Mas, mesmo assim, foi interessante...” Tomei outro gole de vodka. Me sentia frágil. Fisicamente e emocionalmente. “Eu aceitaria relaxar no fim das contas”, eu disse, encostando a cabeça na poltrona. “Acho que só piorou as coisas para mim.” Minha mãe me olhou. “Sinto muito”, ela disse. “Sinto muito mesmo.” Eu dei de ombros. “Foi minha culpa. Mereci ser castigada.” “Não seja boba”, ela disse quieta. “Não é assim que funciona.” “Então como funciona?”, eu disse. “Não tenho a mínima ideia.” “Ninguém tem, querida”, ela disse. “Tem que ir se adaptando conforme os acontecimentos, esperando aprender algo no caminho.” “Obrigada, Pastora Stonem”, eu disse. “Manterei isso em mente.” Os olhos da minha mãe fecharam novamente, mas sua boca se contraiu. “Você ficará bem, Effy”, ela disse sonolenta. “Prometo.” Eu olhei para o branco ondulado através da janela. Naquele momento, não conseguia imaginar ser possível ficar “bem” novamente. Não podia fugir para sempre, tinha que ir para casa, voltar para eles. A ideia dos olhos do Freddie, desviando de mim em rejeição; era quase paralisante. Quando você fica entre amigos assim, nunca imagina que eles escolham um ao outro e não você. Eu tinha subestimado completamente a união entre Freddie e Cook. Talvez no fundo eles nunca pudessem amar mais uma garota como eu mais do que amam um ao outro. E talvez seja assim que deve ser. Ficaríamos em Roma por uma ou duas semanas, então minha mãe e eu voltaríamos para casa. Ela foi honesta e disse de cara que ela e Aldo manteriam contato. Ela provavelmente voltaria à Itália para vê-lo. Ela disse que queria que eu soubesse. Ela não queria mais segredos. “Segredos”, ela disse. “Eles destroem as vidas das pessoas.” Créditos
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    Todos os direitosautorais pertecem à Ali Cronin e à E4 Company. Nenhuma arrecadação foi feita ou será feita com a tradução desse livro, aliás, essa tradução só foi concebida porque vocês, detentores dos direitos, não ligam para nós brasileiros. Mas deveriam ligar, sabiam? We have...bufunfa! Incentiva-se a compra do livro original (e também da coleção de DVDs da série) por meio do site amazon.co.uk. Tradução: Páginas 1-206: @StrokesDaDepre Páginas 207-264: #AboutSkins Revisão, Divulgação e Piadinhas: #AboutSkins Beijos calientes no coração e até a próxima jornada!