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MOZAR MARTINS DE SOUZA
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
OS ESSÊNIOS
E O
CRISTIANISMO
4
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
PREFÁCIO
Neste livro vamos estudar os fatos relativos à pesquisa
do cristianismo que, no meu entendimento, estão pouco
disponíveis em língua portuguesa. Sei, perfeitamente, que essa
forma poderá causar certa frustração nas pessoas interessadas,
que acessarem este livro, mas por outro lado, a chama deste
conhecimento estará mais rapidamente disseminada.
Procurarei sempre fazer as interrupções em pontos que
não prejudiquem o entendimento, evitando quebras bruscas na
continuidade, o assunto seguinte será sempre um tópico, tanto
quanto possível, se não independente, em continuação
cronológica, histórica ou sobre fatos paralelos ao assunto
anterior.
5
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
OS ESSÊNIOS
Abril de 1947, no vale de Khirbet Qumran, junto às
encostas do Mar Morto, Juma Muhamed, pastor beduíno da
região, recolhia seu rebanho quando ao seguir atrás de uma
ovelha desgarrada percebeu que havia uma extensa fenda entre
duas rochas. Curioso, atirou uma pedra e ouviu o ruído de um
vaso se quebrando. No vaso, encontrou pergaminhos.
Este momento caracterizou-se como um marco para o
mundo arqueológico:
A Descoberta dos Manuscritos do Mar Morto.
Desde então, a tradução e divulgação do seu conteúdo
têm atraído atenção mundial, e uma grande expectativa tem se
instaurado quanto a possíveis segredos ainda não revelados.
Foram encontradas em 11 cavernas, nas ruínas de
Qumran, centenas de pergaminhos que datam do terceiro século
a.C até 68 d.C., segundo testes realizados com carbono 14. Os
Manuscritos do Mar Morto foram escritos em três idiomas
diferentes: Hebreu, Aramaico e Grego, totalizando quase mil
obras.
Eles incluíam manuais de disciplinas, hinários,
comentários bíblicos, escritos apocalípticos, cópias do livro de
Isaías e quase todos os livros do Antigo Testamento.
6
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
De acordo com os estudiosos, os Manuscritos estão
divididos em três grupos principais: Sectários, Apócrifos e
Bíblicos. Os Bíblicos reúnem todos os livros da Bíblia, exceto
Ester, no total 22 livros. Os Apócrifos são os livros sagrados
excluídos da Bíblia, e, finalmente os Sectários que são
pergaminhos relacionados com a seita, incluindo visões
apocalípticas e trabalhos litúrgicos.
No livro "As doutrinas secretas de Jesus", o autor H.
Spencer Lewis, F.R.C., Ph.D., cita na pág. 28 a referência (chave
15):
"Essa sociedade secreta (sociedade secreta de Jesus)
pode ou não ter sido afiliada aos essênios, outra sociedade
secreta com que Jesus estava bem familiarizado".
A descoberta dos Pergaminhos do Mar Morto confirmou
a referência feita pelo autor aos essênios e seus ensinamentos
secretos, que precederam o cristianismo e que Jesus deve ter
conhecido bem. Um relatório parcial sobre essa descoberta, do
arqueólogo inglês G. Lankester Harding, Diretor do
Departamento de Antiguidades da Jordânia, diz o seguinte:
"A mais espantosa revelação dos documentos essênios
até agora publicada é a de que os essênios possuíam, muitos
anos antes de Cristo, práticas e terminologias que sempre foram
consideradas exclusivas dos cristãos. Os essênios tinham a
prática do batismo, e compartilhavam um repasto litúrgico de pão
e vinho presidido por um sacerdote. Acreditavam na redenção e
na imortalidade da alma. Seu líder principal era uma figura
7
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
misteriosa chamada o Instrutor da Retidão, um profeta-sacerdote
messiânico abençoado com a revelação divina, perseguido e
provavelmente martirizado."
"Muitas frases, símbolos e preceitos semelhantes aos da
literatura essênia são usados no Novo Testamento,
particularmente no Evangelho de João e nas Epístolas de Paulo.
O uso do batismo por João Batista levou alguns eruditos a
acreditar que ele era essênio ou fortemente influenciado por essa
seita. Os Pergaminhos deram também novo ímpeto à teoria de
que Jesus pode ter sido um estudante da filosofia essênia. É de
se notar que o Novo Testamento nunca menciona os essênios,
embora lance freqüentes calúnias sobre outras duas seitas
importantes, os saduceus e os fariseus."
Todos esses documentos foram preservados por quase
dois mil anos e são considerados os achados do século,
principalmente porque a Bíblia, até então conhecida, data de uma
tradução grega, feita pelo menos mil anos depois da de Qumran.
Hoje, os Manuscritos do Mar Morto encontram-se no Museu do
Livro em Jerusalém.
O nome Essênios deriva da palavra egípcia Kashai, que
significa "secreto". Na língua grega, o termo utilizado é
"therepeutes", originário da palavra Síria "asaya", que significa
médico. A organização nasceu no Egito nos anos que precedem
o Faraó Akhenathon, o grande fundador da primeira religião
monoteísta, sendo difundida em diferentes partes do mundo,
inclusive em Qumran. Nos escritos dos Rosacruzes, os Essênios
8
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
são considerados como uma ramificação da "Grande
Fraternidade Branca".
Segundo estudiosos, foi nesse meio onde passou Jesus,
no período que corresponde entre seus 13 e 30 anos. Alguns
estudiosos também acreditam que a Igreja Católica procura
manter silêncio acerca dos essênios, tentando ocultar que
receberam desta seita muitas influências.
Para medir o tempo, os Essênios utilizavam um
calendário diferenciado, baseado no sol. Ao contrário do utilizado
na época, que consistia de 354 dias, seu calendário continha 364
dias que eram divididos em 52 semanas permitindo que cada
estação do ano fosse dividida em 13 semanas e mais um dia,
unindo cada uma delas.
Consideravam seu calendário sintonizado com a "Lei da
Grande Luz do Céu". Seu ritmo contínuo significava ainda que o
primeiro dia do ano e de cada estação sempre caía no mesmo
dia da semana, quarta-feira, já que de acordo com o Gênesis, foi
no quarto dia que a Lua e o Sol foram criados.
Segundo os Manuais de Disciplina dos Essênios dos
Manuscritos do Mar Morto, os essênios eram realmente
originários do Egito, e durante a dominação do Império
Selêucida, em 170 a.C., formaram um pequeno grupo de judeus,
que abandonou as cidades e rumou para o deserto, passando a
viver às margens do Mar Morto, e cujas colônias estendiam-se
até o vale do Nilo.
No meio da corrupção que imperava, os essênios
conservavam a tradição dos profetas e o segredo da Pura
Doutrina. De costumes irrepreensíveis, moralidade exemplar,
9
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
pacíficos e de boa fé, dedicavam-se ao estudo espiritualista, à
contemplação e à caridade, longe do materialismo avassalador.
Os essênios suportavam com admirável estoicismo os maiores
sacrifícios para não violar o menor preceito religioso.
Procuravam servir a Deus, auxiliando o próximo, sem
imolações no altar e sem cultuar imagens. Eram livres,
trabalhavam em comunidade, vivendo do que produziam.
Os Essênios não tinham criados, pois acreditavam que
todo homem e mulher era um ser livre. Tornaram-se famosos
pelo conhecimento e uso das ervas, entregando-se abertamente
ao exercício da medicina ocultista.
Em seus ensinos, seguindo o método das Escolas
Iniciáticas, submetiam os discípulos a rituais de Iniciação,
conforme adquiriam conhecimentos e passavam para graus mais
avançados. Mostravam então, tanto na teoria quanto na prática,
as Leis Superiores do Universo e da Vida, tristemente
esquecidas na ocasião. Alguns dizem que eles preparavam a
vinda do Messias.
Era uma seita aberta aos necessitados e desamparados,
mantendo inúmeras atividades onde, a acolhida, o tratamento de
doentes e a instrução dos jovens eram a face externa de seus
objetivos. Não há nenhum documento que comprove a estada
essênia de Jesus, no entanto seus atos são típicos de quem foi
iniciado nesta seita. A missão dos seguidores do Mestre
Verdadeiro foi a de difundir a vinda de um Messias e nisto
contribuíram para a chegada de Jesus.
Na verdade, os essênios não aguardavam um só
Messias, e sim, dois. Um originário da Casa de Davi, viria para
10
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
legislar e devolver aos judeus a pátria e estabelecer a justiça.
Esse Messias-Rei restituiria ao povo de Israel a sua soberania e
dignidade, instaurando um novo período de paz social e
prosperidade. Jesus foi recebido por muitos como a encarnação
deste Messias de sangue real. No alto da cruz onde padeceu, lia-
se a inscrição: Jesus Nazareno Rei dos Judeus.
O outro Messias esperado nasceria de um descendente
da Casa de Levi. Este Salvador seguiria a tradição da linhagem
sacerdotal dos grandes mártires. Sua morte representaria a
redenção do povo e todo o sofrimento e humilhação por que teria
que passar em vida seria previamente traçado por Deus.
O Messias-Sacerdote se mostraria resignado com seu
destino, dando a vida em sacrifício. Faria purgar os pecados de
todos e a conduta de seus atos seria o exemplo da fé que leva os
homens a Deus. Para muitos, a figura do pregador João Batista
se encaixa no perfil do segundo Messias.
Até os nossos dias, uma seita do sul do Irã, os
mandeanos, sustentam ser João Batista o verdadeiro Messias.
Vivendo em comunidades distantes, os essênios sempre
procuravam encontrar na solidão do deserto o lugar ideal para
desenvolverem a espiritualidade e estabelecer a vida
comunitária, onde a partilha dos bens era a regra.
Rompendo com o conceito da propriedade individual,
acreditavam ser possível implantar no reino da Terra a
verdadeira igualdade e fraternidade entre os homens.
Consideravam a escravidão um ultraje à missão do homem dada
por Deus. Todos os membros da seita trabalhavam para si e nas
11
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
tarefas comuns, sempre desempenhando atividades profissionais
que não envolvessem a destruição ou violência.
Não era possível encontrar entre eles açougueiros ou
fabricantes de armas, mas sim grande quantidade de mestres,
escribas, instrutores, que através do ensino passavam de forma
sutil os pensamentos da seita aos leigos.
O silêncio era prezado por eles. Sabiam guardá-lo,
evitando discussões em público e assuntos sobre religião. A voz,
para um essênio, possuía grande poder e não devia ser
desperdiçada. Através dela, com diferentes entonações, eram
capazes de curar um doente. Cultivavam hábitos saudáveis,
zelando pela alimentação, físico e higiene pessoal. A capacidade
de predizer o futuro e a leitura do destino através da linguagem
dos astros tornou os essênios figuras magnéticas, conhecidas
por suas vestes brancas.
Eram excelentes médicos também. Em cada parte do
mundo onde se estabeleceram, eles receberam nomes
diferentes, às vezes por necessidades de se proteger contra as
perseguições ou para manter afastados os difamadores. Mestres
em saber adaptar seus pensamentos às religiões dos países
onde se situavam, agiram misturando muitos aspectos de sua
doutrina a outras crenças. O saber mais profundo dos essênios
era velado à maioria das pessoas.
É sabido também que liam textos e estudavam outras
doutrinas. Para ser um essênio, o pretendente era preparado
desde a infância na vida comunitária de suas aldeias isoladas. Já
adulto, o adepto, após cumprir várias etapas de aprendizado,
recebia uma missão definida que ele deveria cumprir até o fim da
12
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
vida. Vestidos com roupas brancas, ficaram conhecidos em sua
época como aqueles que "são do caminho".
Foram fundadores dos abrigos denominados "beth-
saida", que tinham como tarefa cuidar de doentes e desabrigados
em épocas de epidemia e fome. Os beth-saida anteciparam em
séculos os hospitais, instituição que tem seu nome derivado de
hospitaleiros, denominação de um ramo essênio voltado para a
prestação de socorro às pessoas doentes.
Fizeram obras maravilhosas, que refletem até os nossos
dias. A notícia que se tem é de que a seita se perdeu, no tempo e
memória das pessoas. Não sabemos da existência de essênios
nos dias de hoje (não que seja impossível), é no mínimo, pelo
lado social, uma pena termos perdido tanto dos seus preceitos
mais importantes. Se o que nos restou já significa tanto,
imaginem o que mais poderíamos vir a ter aprendido.
DESVENDADO OS PERGAMINHOS
Escrevendo em 1949 sobre a exploração da gruta, R. de
Vaux acreditava que "estes rolos, de idades diferentes,
cuidadosamente guardados em vasilhas da mesma época, não
são peças abandonadas por acaso, mas um arquivo ou biblioteca
escondida em um momento de perigo". E, ao datar a cerâmica e
com ela relacionar os manuscritos, acrescenta: "Nenhum
documento é posterior aos começos do século I a.C. e alguns
deles podem ser mais antigos".
Agora é necessário descobrir quem teria depositado os
manuscritos na gruta. O estabelecimento humano mais próximo é
13
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
representado pelas ruínas de Qumran. R. de Vaux e G. L.
Harding fazem assim a primeira expedição de escavações no
Khirbet Qumran de 24 de novembro a 12 de dezembro de 1951.
Identificam uma construção retangular de 37 metros de
comprimento por 30 metros de largura à qual se ligam outros
edifícios e um aqueduto que serve para recolher as águas do
Wadi Qumran no inverno. A cerâmica encontrada é idêntica à de
1Q: isto relaciona os manuscritos com o grupo que vivia em
Qumran. O cemitério, com mais de mil túmulos, rigorosamente
organizado, também é investigado e nove esqueletos são
enviados a Paris para exames técnicos.
Mas as moedas são o achado mais precioso, porque
permitem a datação do assentamento humano de Qumran. As
dez moedas identificadas inicialmente vão da época de Herodes
Magno (37-4 a.C.) à segunda guerra judaica contra Roma (132-
135 d.C.).
Entretanto, ainda em 1951, os ta'amireh levam mais
fragmentos manuscritos a Jerusalém e os oferecem aos
arqueólogos, que os compram. No dia 21 de janeiro de 1952, R.
de Vaux e outros arqueólogos seguem até a região do Wadi
Murabba'at, situado a 25 km a sudeste de Jerusalém e a cerca
de 18 km ao sul de Qumran. Em algumas grutas desta região são
encontrados importantes documentos em hebraico, aramaico,
grego e latim, relacionados em sua maioria, com a segunda
guerra judaica contra Roma (132-135 d.C.) Fica estabelecido
que Murabba'at servia de refúgio aos soldados de Simão bar
Kosibah, líder do levante, de quem são recuperadas até cartas
assinadas.
14
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
Enquanto a equipe de R. de Vaux se encontra em
Murabba'at, os ta'amireh levam novos manuscritos a Jerusalém,
descobertos em outra gruta de Qumran, que será chamada de
2Q. Nela são encontrados 185 fragmentos de pele. Logo em
seguida, De Vaux e seu pessoal, em março de 1952, faz um
levantamento da falésia, numa extensão de 8 km, explorando
230 grutas. Destas, 37 contêm cerâmica e outros objetos. E a
cerâmica é idêntica à das ruínas de Qumran e da primeira gruta.
Na terceira gruta de Qumran são encontrados cerca de
35 jarros e fragmentos de mais ou menos 30 rolos de pele
extremamente deteriorados. "Mas o seu conteúdo mais curioso
era de cobre: na parte anterior da gruta (...) jaziam dois rolos de
cobre com um texto gravado em caracteres hebraicos quadrados,
alguns deles em relevo".
Em setembro de 1952 são descobertas as grutas de
número 4, 5 e 6. A gruta 4Q é a mais rica de todas: possui
fragmentos de cerca de 400 manuscritos.
Na 6Q são encontrados fragmentos do "Documento de
Damasco", um manuscrito que fora recuperado em 1897 em uma
antiga sinagoga do Cairo e do qual não se sabia quase nada.
Na primavera de 1955 são descobertas as grutas 7Q,
8Q, 9Q e 10Q, e em fevereiro de 1956, a última, a 11Q, com
quatro rolos em bom estado de conservação.
As ruínas de Qumran são escavadas em 6 diferentes
expedições que se encerram em 1958. Arqueólogos judeus
pesquisam também os wadis da região ocidental do Mar Morto
entre Engaddi e Massada e encontram importantes documentos.
15
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
No total, cerca de mil documentos são recuperados em
20 grutas no deserto de Judá, entre os anos de 1946 e 1966.
Além de centenas de óstracas (cacos de cerâmica com escrita) e
inscrições.
Em Khirbet Qumran os arqueólogos identificam um
conjunto de construções bastante interessante: oficinas, olaria,
despensas, refeitório, cisternas, um "scriptorium" etc. Nenhum
fragmento de manuscrito é encontrado nas construções, mas
apenas alguns óstracas. E a sua grafia é a mesma dos
manuscritos encontrados nas grutas. Também são recolhidas
cerâmicas, muitas moedas e outros objetos.
O curioso é que o edifício não tem dormitórios. Ou se
dormia em tendas ou nas grutas das redondezas. O
estabelecimento agrícola de Ain Feshka, ao sul de Qumran,
também é explorado. Ali os essênios manufaturam a palmeira,
juncos, sal, betume e cereais. Estes últimos são cultivados numa
planície a oeste de Qumran, a Buqea, que mede cerca de 8x4
km.
No total, são recuperados, em 11 grutas de Qumran, 11
manuscritos mais ou menos completos e milhares de fragmentos
de mais de 800 manuscritos em pergaminho e papiro. Escritos
em hebraico, aramaico e grego, cerca de 225 manuscritos são
cópias de livros bíblicos, sendo o restante livros apócrifos,
trabalhos exegéticos e escritos da comunidade que vive em
Qumran.
Todos os manuscritos são anteriores ao ano 68 d.C.,
quando Qumran é destruído. Os mais antigos são anteriores à
instalação da comunidade que vive em Qumran e remontam ao
16
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
século III a.C. O mais antigo é o 4QEx, datado em torno de 250
a.C. O teste do Carbono 14 chega à data de 33 a.C. com 200
anos para mais ou para menos.
O método do Carbono 14, descoberto em 1947, é
aplicado em 1950-51 a um pedaço de linho que envolve os
manuscritos. Não é possível aplicá-lo diretamente aos
manuscritos porque exige a destruição de 1 a três gramas de
material.
Mais recentemente, em 1990, 14 manuscritos são
submetidos ao teste AMS (Accelerator Mass Spectrometry), ou
Espectrometria com Acelerador de Massa, técnica de datação
descoberta em 1987. O material orgânico necessário para o AMS
é de apenas 0,5 a 1,0 miligrama. Dos 14 manuscritos testados, 4
não são de Qumran e estão datados com segurança através de
outros métodos: isto é necessário para se checar a veracidade
dos resultados. E os resultados confirmam, com certa
segurança, a datação feita através de outros métodos como a
paleografia. Com certeza nenhum dos manuscritos de Qumran
foi copiado após 68 d.C.
Manuscritos Bíblicos:
São recuperados manuscritos e fragmentos de quase
todos os livros bíblicos judaicos, pois só falta Ester.
O Pentateuco está muito bem representado em Qumran,
pois há 15 manuscritos fragmentados do Gênesis, 15 do Êxodo,
9 do Levítico, 6 de Números e 25 do Deuteronômio. São 70
manuscritos. Estes manuscritos ligam-se a três tradições
textuais:
17
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
a) à do texto massorético (TM);
b) à do original hebraico a partir do qual é traduzida a
LXX ;
c) à do Pentateuco samaritano.
A parte da Bíblia que hoje conhecemos como Obra
Histórica Deuteronomista (OHDtr.), composta pelos livros de
Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis está pouco presente em
Qumran, num total de apenas 12 manuscritos.
Os arqueólogos recuperam apenas fragmentos de 2
manuscritos de Josué, 3 de Juízes, 3 de Samuel e 4 de Reis. O
grande interesse desses manuscritos para os estudiosos é que
eles estão bem mais próximos do texto hebraico usado para a
tradução da LXX do que do texto massorético.
Dos profetas são encontrados 18 manuscritos: 2 de
Isaías - um quase completo (1QIsa
) e outro com uma parte
apenas (1QIsb
) - 4 de Jeremias, 6 de Ezequiel e 8 dos doze
profetas menores.
Os textos de Isaías são próximos ao TM, assim como os
de Ezequiel e dos profetas menores, mas um manuscrito de
Jeremias, 1QJrb
, traz o mesmo texto da LXX. E isso é importante,
pois o Jeremias da LXX é bem mais curto do que o do TM. Este é
resultado de uma ampliação posterior, enquanto o que serve de
base para a LXX é mais sóbrio.
1QIsa
é um rolo quase completo de Isaías, datando da
primeira metade do séc. I a.C. 1QIsb
está mal conservado e
contém apenas Is 38-66 e trechos de outros capítulos. É da
última metade do séc. I a.C.
18
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
Quanto à última parte da Bíblia Hebraica, os Escritos,
são recuperados em Qumran restos de cerca de 66 manuscritos.
Os Salmos estão bem representados com 30 manuscritos, Daniel
está em 8 e assim por diante. Na gruta 4 são recuperados
fragmentos do original aramaico de Tobias, até então perdido, e
textos muito próximos à época de composição dos originais como
4QEcla e 4QDn, respectivamente, cerca de cem e cinqüenta
anos após a escrita dos livros do Eclesiastes e de Daniel.
Ester não é encontrado. Como esse livro é muito bem
aceito pelos Macabeus, isto deve ter provocado sua rejeição pela
comunidade de Qumran, inimiga daqueles governantes.
No conjunto, são cerca de 225 manuscritos ou
fragmentos de livros bíblicos. Sua importância para a história do
texto do AT é grande, já que testemunham as várias tradições
existentes antes da unificação feita pelos rabinos de Jâmnia nos
anos 90 da era cristã.
Livros Apócrifos:
Outra área bastante interessante dos manuscritos de
Qumran é a dos livros apócrifos.
Na gruta 1 são encontradas 22 colunas de um Gênesis
Apócrifo (1QapGn), em aramaico, que narra a história de Gn
5,28-15,4, isto é, de Lamec a Abraão, com embelezamentos
midrashicos. Pode ser datado entre o II e o I séculos a.C.
Vários fragmentos da gruta 1 testemunham a existência
de um Livro de Noé. Na gruta 4 há fragmentos de 5 manuscritos
de um Testamento de Amram (Amram é neto de Levi, segundo a
Bíblia), sete fragmentos de um Samuel Apócrifo (4Q160) etc.
19
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
COMENTÁRIOS BÍBLICOS:
Os comentários bíblicos de Qumran são do gênero
pesher, palavra hebraica que quer dizer "explicação",
“significado". O método pesher consiste em comentar o texto
bíblico versículo por versículo, procurando aplicá-lo às
circunstâncias vividas pela comunidade, como se os textos
bíblicos, especialmente os proféticos, estivessem falando
diretamente da realidade atual. Os livros resultantes são
conhecidos como pesharim, "comentários".
Após citar um versículo ou mesmo trechos menores, o
comentarista diz: "A explicação (pesher) disto diz respeito a...".
Estes livros são classificados como 1QpHab, 1QpMq,
4QpOs etc, respectivamente, Comentário (pesher) de Habacuc,
Comentário de Miquéias, Comentário de Oséias e assim por
diante. Estão identificados cerca de uma dúzia destes
comentários entre os manuscritos de Qumran.
Os pesharim, além de exemplificarem um método
exegético só usado pela comunidade de Qumran e pelos
cristãos, são importantes igualmente como testemunhos
históricos da organização e vicissitudes da comunidade.
O pesher mais importante de Qumran é o 1QpHab,
Comentário de Habacuc, escrito provavelmente no começo do
séc. I a.C., por suas constantes referências à história da
comunidade.
Outro tipo de trabalho exegético encontrado em Qumran
é o targum. Targum significa "tradução" e indica as traduções
aramaicas dos livros bíblicos (targumim) que se fazem nas
20
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
sinagogas da época. Só que o targum não é uma tradução literal,
mas uma paráfrase explicativa e atualizada do texto hebraico. É
ótimo para se saber como os judeus interpretam o texto bíblico.
Na gruta número 11 de Qumran os arqueólogos
encontram vários fragmentos de origem targúmica, entre eles um
Targum de Jó. É o mais antigo dos targumim conhecidos, sendo
do final do séc. II a.C.
Outro tipo de exegese é o que os editores dos
manuscritos chamam de Florilégio: consiste em agrupar vários
trechos bíblicos, que possuam alguma homogeneidade, para que
eles se completem e sejam explicados. O fragmento 4Q174, por
exemplo, reúne trechos de 2Sm 7 com Sl 1 e 2 que são
interpretados, em seguida, segundo o padrão do pesher.
Regras da comunidade:
De extrema importância são os livros que trazem as
normas de constituição e atividades da comunidade de Qumran.
A Regra da Comunidade ou Manual de Disciplina, em
hebraico, Serek hayahad (1QS), é o principal livro da
comunidade de Qumran. É o manuscrito que contém as normas
que governam a comunidade. Provavelmente seu autor é o
próprio fundador da comunidade, conhecido nos textos como o
Mestre da Justiça. Sua composição pode ser situada entre 150 e
125 a.C., enquanto que o manuscrito completo é dos anos 100-
75 a.C.
Além da cópia completa encontrada em 1Q, fragmentos
de outras 11 cópias estão entre os textos de 4Q e 5Q.
21
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
A Regra pode ser dividida em três seções:
1. Normas para o ingresso na Comunidade (I-IV);
2. Estatutos referentes ao Conselho da Comunidade (V-
IX);
3. Diretrizes para o Mestre e o Hino do Mestre (IX-XI).
A Regra da Congregação, em hebraico,Serek ha'edat
(1QSa), e a Coleção de Bênçãos (1QSb) são dois anexos à
Regra da Comunidade. A primeira é da metade do séc. I a.C. e a
segunda pode ser datada por volta de 100 a.C. A Regra da
Congregação é um escrito de tipo escatológico que descreve a
vida e o banquete da comunidade no fim dos tempos. A Coleção
de Bênçãos é uma antologia de fórmulas para abençoar os
membros da comunidade.
Os Cânticos de Louvor, em hebraico, Hôdayôt (1QH),
são cânticos de ação de graças ou hinos de louvor, parecidos
com o "Magnificat" e o "Benedictus" de Lucas. Inspiram-se
principalmente nos Salmos e em Isaías. Devem ter sido
compostos entre 150 e 125 a.C., e, pelo menos em parte, pelo
Mestre da Justiça. O manuscrito de 1Q provém dos anos 1 a 50
d.C. Em 4Q são encontrados fragmentos de mais 6 cópias.
A Regra da Guerra, em hebraico, Serek hamilhamah,
também conhecida como "A guerra dos filhos da luz contra os
filhos das trevas", "compreende uma espécie de compêndio da
ciência bélica e das celebrações cultuais que deveriam ser
observadas por ocasião de uma guerra com vistas à luta final que
precederia a era da salvação". Os filhos da luz contam com a
ajuda dos anjos Miguel, Rafael e Sariel, enquanto que os filhos
22
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
das trevas contam com Belial. A vitória, é claro, é dos filhos da
luz. O original é composto entre os anos 50 a.C. e 25 d.C.,
enquanto que o manuscrito encontrado em 1Q é do séc. I d.C.
Em 4Q são encontrados fragmentos de mais cinco cópias deste
livro.
O Documento de Damasco (CD) é uma obra conhecida
desde 1896-97, quando dois manuscritos são encontrados num
depósito de rolos velhos (genizá) de uma antiga sinagoga do
Cairo. Um dos manuscritos é do século X d.C. e o outro do séc.
XII d.C. Publicados em 1910, continuam, então, um enigma: não
se sabe a que grupo judeu o texto se refere e que certamente
compôs a obra. Os estudiosos sugerem os saduceus, os
fariseus, os ebionitas, os caraítas... e apenas um diz que é dos
essênios!
Agora, acontece que fragmentos de nove cópias do
Documento de Damasco são encontrados nas grutas de Qumran
(7 fragmentos em 4Q, 1 em 5Q, 1 em 6Q): sem dúvida é uma
obra criada na comunidade essênia.
Muitos especialistas defendem que "Damasco" deve ser
entendido em sentido literal e que representaria uma primeira
fase da comunidade, anterior ao seu estabelecimento em
Qumran. Outros pensam que "Damasco" seja apenas um modo
velado de se falar de Qumran, a partir de Am 5,26-27. E o
Documento pode ser também a regra de outra ala da
organização, que viveria fora de Qumran.
A obra compõe-se de uma exortação e de uma lista de
estatutos. Na exortação o pregador (talvez uma autoridade da
comunidade) tem por objetivo "encorajar os sectários a
23
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
permanecerem fiéis e, com este fim em vista, ele se empenha em
demonstrar, por meio da história de Israel e da comunidade, que
a fidelidade é sempre recompensada e a apostasia castigada".
Os estatutos reinterpretam as leis bíblicas relativas a
votos e juramentos, tribunais, purificação, sábado, pureza ritual
etc. Trazem também os estatutos da comunidade. O Documento
de Damasco deve ter sido escrito por volta de 100 a.C.
Consulte o conceituado The Orion Center sobre a
pesquisa dos Manuscritos.
O Rolo do Templo, encontrado na gruta 11, (11QT), só
aparece em junho de 1967, durante a "Guerra dos Seis Dias",
quando o Estado de Israel o retira das mãos de um antiquário da
parte árabe de Jerusalém, a quem os ta'amireh o vendera.
É o maior dos manuscritos de Qumran, com mais de oito
metros e meio de comprimento e 66 colunas. Trata do Templo e
do culto, e embora se trate de uma reinterpretação da legislação
bíblica do Êxodo, Levítico e Deuteronômio, o autor apresenta sua
mensagem como fruto de revelação divina direta. O Rolo do
Templo é do séc. II a.C. São encontrados fragmentos deste livro
nas grutas 4Q e 11Q.
O rolo de cobre:
Desde o início da década de 90, cerca de cem
estudiosos de todo o mundo participaram das pesquisas, sob a
supervisão do Departamento de Antiguidades de Israel.
O resultado deste trabalho que envolveu cerca de 900
pergaminhos está sendo apresentado em 38 volumes, dois dos
quais em fase final de preparação. Entre os documentos
24
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
publicados está o conteúdo do Rolo de Cobre, com a suposta
localização de tesouros do Templo.
Os Manuscritos foram encontrados entre 1947 e 1956
nas grutas de Qumran, região localizada ao sul da cidade de
Jericó, na margem ocidental do Mar Morto. Segundo os estudos
realizados, alguns são datados de aproximadamente 250 antes
da era comum e outros do ano 70 da era comum. A maioria dos
textos foi escrita em hebraico e sobre pergaminhos, porém há
alguns em aramaico ou grego, em papiro. Entre as principais
dificuldades encontradas pelos pesquisadores, está o fato de
terem sido encontrados fragmentos, principalmente, e não rolos
completos.
Os primeiros sete rolos foram descobertos ao acaso por
um beduíno, em 1947.
Três desses foram comprados pelo arqueólogo E.L.
Sukenik e quatro contrabandeados para os Estados Unidos. Foi
somente em 1954 que o arqueólogo e filho de Sukenik, Yigal
Yadin, conseguiu que estes últimos fossem encaminhados a
Israel. Para marcar o fato, foi construído o Santuário do Livro, um
anexo do Museu de Israel, em Jerusalém, local que abriga a
maioria dos fragmentos e no qual há uma exposição permanente
dos Manuscritos do Mar Morto.
Entre os 900 pergaminhos reconstituídos pelos
pesquisadores, cerca de 200 contêm o mais primitivo original
bíblico conhecido, enquanto os demais incluem orações, rituais e
regras provavelmente dos essênios, uma comunidade judaica
isolada e austera que viveu em Qumran.
25
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
Um rolo, em especial, chamou a atenção dos pesquisadores:
Diferentemente dos demais, que narram estilo de vida,
hábitos e costumes dos essênios, este, além de conter textos
literários, traz a suposta localização de tesouros enterrados há
séculos.
Para alguns especuladores, seriam tesouros do Segundo
Templo, escondidos antes da sua destruição, no ano 70 da era
comum. Para outros, seria o patrimônio acumulado pelos
essênios, comunidade que fizera um voto de pobreza. De
qualquer maneira, independentemente das teorias, segundo o
conteúdo do Rolo de Cobre, foram escondidas mais de 200
toneladas de ouro e prata, que estariam à disposição de quem
conseguir encontrá-las. Pois, como disse um arqueólogo
israelense, ao se decifrar o Rolo de Cobre, o mesmo se tornou
acessível a qualquer criança que saiba ler.
O Rolo de Cobre foi restaurado no Laboratório Valectra,
unidade nuclear de Pesquisa e Desenvolvimento da estatal
Electricité de France. Foi descoberto em 20 de março de 1952,
em duas partes, na caverna de número três, próximo a Qumram,
por Henri de Contenson, da Escola Dominicana de Arqueologia
Bíblica de Jerusalém (EBAJ). A presença de rebites nas duas
partes encontradas comprovou a teoria de que compunham um
único documento, com 240 centímetros de largura e 30 de altura.
Decifrá-lo, no entanto, revelou-se difícil por causa da oxidação do
metal, que impossibilitou desenrolá-lo.
26
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
Em 1955, diante da falta de recursos, na Jordânia, para
dar continuidade às pesquisas, o Rolo de Cobre foi enviado à
Universidade de Manchester, Inglaterra, aos cuidados do
professor H. Wright-Baker. A metodologia adotada implicou no
corte do objeto em 23 peças, para limpeza, fotografias e
decifração. A divulgação do conteúdo do Rolo de Cobre foi feita
em etapas, a partir de 1956, pelo padre Joseph T. Milk, da EBAJ,
responsável pela versão completa do texto, de 1962, com uma
lista de 64 locais onde teriam sido escondidos os tesouros.
Nada no conteúdo decifrado, no entanto, responde a duas
perguntas cruciais: de onde vieram os tesouros e qual a sua
origem?
Não existe consenso nas respostas. Durante um
simpósio internacional realizado em setembro de 1996, no
Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade de Manchester,
uma pesquisa informal revelou que a maioria dos 50 participantes
acreditava no conteúdo do Rolo de Cobre, divergindo, no
entanto, sobre a quem teriam pertencido: ao Segundo Templo ou
aos essênios.
O Rolo de Cobre (3Q15) - que tem de ser cortado para
ser aberto, de tão oxidado que estava - fala de um tesouro
escondido em 64 lugares diferentes da Palestina, em ouro, prata,
perfumes etc. O montante alcançaria a fabulosa quantia de 65
toneladas de prata e 26 toneladas de ouro.
Seria um tesouro de fato ou só uma ficção? Até hoje
nada foi achado deste pretenso tesouro. Os estudiosos se
dividem na suas opiniões: seria um tesouro da comunidade de
27
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
Qumran? Ou pertenceria ao Templo de Jerusalém? Neste último
caso, quando e porquê o documento vai parar em Qumran?.
A leitura, tradução e publicação dos manuscritos mais ou
menos completos não é um grande problema para os
especialistas. Mesmo os fragmentos das grutas menores são
publicados até os anos 70.
O problema está nos milhares de fragmentos de mais de
500 manuscritos da gruta 4. A maioria está muito deteriorada:
corroídos, curvados, enrugados, retorcidos, cobertos por mofo e
elementos químicos.
Para trabalhar nestes fragmentos é constituída em 1952
uma equipe internacional no Museu Arqueológico da Palestina,
em Jerusalém Oriental, pertencente à Jordânia.
O chefe da equipe é o dominicano R. de Vaux. Com ele
trabalham Frank Moore Cross, americano, presbiteriano; J. T.
Milik, polonês, católico; John Allegro, inglês, agnóstico; Jean
Starcky, francês, católico; Patrick Skehan, americano, católico;
John Strugnell, inglês, presbiteriano; Claus-Hunno Hunziger,
alemão, luterano. Predominam especialistas de Harvard (USA),
École Biblique (Jerusalém) e Oxford (Inglaterra).
"Ficou aparentemente entendido que esses pesquisadores
possuíam o direito oficial de publicar os textos de seus
respectivos quinhões. Na lista, era óbvia, e foi nitidamente
percebida, a ausência do nome de qualquer pesquisador
judeu. O governo jordaniano insistiu em que nenhum judeu
fosse incluído na equipe".
Os trabalhos avançam em bom ritmo, já que são
financiados por J. D. Rockfeller Jr., magnata americano. Mas,
28
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
dois fatos intervêm: morre Rockfeller e Israel, na Guerra dos Seis
Dias, em 1967, anexa Jerusalém Oriental e toma o Museu
Arqueológico da Palestina onde estão os manuscritos da gruta 4.
O projeto de publicação perde o compasso.
Com a morte de R. de Vaux em setembro de 1971, a
função de editor-geral passa para seu colega dominicano Pierre
Benoit, que por sua vez, ao morrer em 1987, passa o cargo para
John Strugnell. Durante todos estes anos, a equipe continua
pequena. Quando um pesquisador morre ou se retira, é
substituído por outro e pronto. Strugnell, porém, lutará por duas
coisas: pela expansão do pequeno grupo original encarregado
dos manuscritos e pela inclusão neste equipe de pesquisadores
judeus.
Entretanto, cresce no meio acadêmico mundial a
insatisfação com a demora na publicação dos documentos.
Alguns nomes se destacam neste protesto: Robert Eisenman, da
Universidade do Estado da Califórnia e Philip Davies da Sheffield
University, Inglaterra. Eles tentam o acesso aos manuscritos,
mas são barrados por J. Strugnell. É então que entra em cena
Hershel Shanks, fundador da Biblical Archaeology Society.
Através da Biblical Archaeology Review, ele inicia, a partir de
1985, poderosa campanha em favor do livre acesso dos
pesquisadores aos manuscritos ainda não publicados.
Após polêmica entrevista aos jornais, em dezembro de
1990, John Strugnell é demitido do cargo pela Israel Antiquities
Authority (IAA), que indica Emanuel Tov como editor-chefe e
amplia a equipe para cerca de 50 pesquisadores.
29
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
Contudo, dois novos fatos mudam o rumo das coisas. Em
setembro de 1991 Ben Zion Wacholder e Martin Abegg do
Hebrew Union College, em Cincinati, publicam A Preliminary
Edition of the Unpublished Dead Sea Scrolls. Baseados no
glossário elaborado pelos pesquisadores oficiais, e utilizando um
computador, os dois estudiosos reconstroem textos inteiros da
gruta 4. No mesmo mês, a Biblioteca Huntigton, de San Marino,
Califórnia, que possui as fotos de todos os manuscritos, coloca a
coleção à disposição dos estudiosos.
Em novembro de 1991 a Biblical Archaeology Society
publica a Edição Fac-símile dos Manuscritos do Mar Morto, com
cerca de 1800 fotografias dos manuscritos.
Neste meio tempo a IAA autoriza aos fotógrafos o acesso
aos manuscritos. Estas fotografias estão disponíveis em 5
lugares: Jerusalém, Claremont e San Marino (as duas últimas na
Califórnia), Cincinati e Oxford. E, finalmente, em 1993, sob os
auspícios da IAA, sai a edição completa em microfilmes de todos
os manuscritos do Mar Morto: The Dead Sea Scrolls on
Microfiche. A Comprehensive Facsimile Edition of the Texts from
the Judaean Desert, edited by Emanuel Tov with the collaboration
of Stephen J. Pfann, E. J. Brill-IDC, Leiden 1993.
No Brasil temos a importante obra de Florentino García
Martínez, Textos de Qumran, Petrópolis, Vozes, 1995, 582 pp. É
uma acurada tradução dos 250 textos mais importantes de
Qumran. A tradução do espanhol para o português é do exegeta
Valmor da Silva.
É preciso assinalar que em nenhum dos manuscritos até
agora publicados aparece a palavra "essênio". Este termo vem,
30
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
provavelmente, do hebraico hassidim (os piedosos), em aramaico
hassayya, em grego essaioi ou essênoi, daí "essênios".
Embora a quase totalidade dos estudiosos identifique a
comunidade de Qumran com os essênios, são, às vezes,
sugeridas outras possibilidades. Há a hipótese caraíta, judeu-
cristã, zelota, saducéia e farisaica.
O grupo caraíta é fundado em Bagdá no séc. VIII d.C.
pelo rabino Anan ben Davi, que proclama uma volta à Escritura.
O termo vem de caraim, "leitores (da Escritura)", pois em
hebraico qara é "ler". "Etimologicamente, os caraítas são, pois,
os 'biblistas' ou 'especialistas da Escritura'; isso eles o seriam
também historicamente".
Graças à afinidade existente entre a teologia da
comunidade de Qumran e os caraítas é que se levanta a
hipótese caraíta. Mas é uma idéia sem fundamento histórico
algum.
Assim como os cristãos primitivos, a comunidade de
Qumran se autodenomina, às vezes, os "pobres" (ebionim). Daí
alguns acharem que ali vivem os ebionitas, seita judaico-cristã.
Só que os dados da arqueologia e da paleografia contradizem tal
hipótese.
Em Massada os arqueólogos descobrem uma cópia de
uma obra de Qumran, o que levanta a possibilidade, segundo
alguns, de serem zelotas os habitantes de Qumran. Entretanto, é
bem mais viável pensar que alguns essênios tenham se reunido
aos zelotas que resistem aos romanos em Massada até 73 d.C.
Daí a obra ter ido parar lá.
31
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
A hipótese saducéia quase não encontra apoio, pois em
relação à helenização saduceus e qumranitas estão em posições
opostas. Sem mencionar as profundas divergências teológicas.
Por último, a hipótese farisaica é colocada a partir das
muitas semelhanças da comunidade de Qumran com o grupo
dos fariseus. Mas isto se explica pela provável entrada maciça de
fariseus na comunidade por ocasião das perseguições de João
Hircano I.
O testemunho dos autores antigos:
O testemunho dos autores antigos sobre os essênios é
importante para a identificação da comunidade de Qumran.
Localização geográfica, valores, modo de vida etc dos essênios
são descritos pelos judeus Flávio Josefo e Fílon de Alexandria e
pelos romanos Plínio, o Velho, e Solino.
É Flávio Josefo quem nos diz que:
"Existem, com efeito, entre os judeus, três escolas
filosóficas: os adeptos da primeira são os fariseus; os da
segunda, os saduceus; os da terceira, que apreciam
justamente praticar uma vida venerável, são denominados
essênios: são judeus pela raça, mas, além disso, estão
unidos entre si por uma afeição mútua maior que a dos
outros".
Na mesma direção vai Fílon de Alexandria, que diz:
32
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
"A Síria Palestina, que ocupa uma parte importante da
populosa nação dos judeus, não é, também ela, estéril em
virtude. Alguns deles, que somam mais de quatro mil, são
denominados essênios".
Plínio, o Velho nos oferece precioso dado para a
localização dos essênios em Qumran:
"Na parte ocidental do mar Morto os essênios se afastam
das margens por toda a extensão em que estas são
perigosas. Trata-se de um povo único em seu gênero e
admirável no mundo inteiro, mais que qualquer outro: sem
nenhuma mulher e tendo renunciado inteiramente ao amor;
sem dinheiro e tendo por única companhia as palmeiras.
Dia após dia esse povo renasce em igual número, graças à
grande quantidade dos que chegam; com efeito, afluem
aqui em grande número aqueles que a vida leva, cansados
das oscilações da sorte, a adotar seus costumes (...)
Abaixo desses ficava a cidade de Engaddi, cuja
importância só era inferior à de Jericó por sua fertilidade e
seus palmeirais, mas que se tornou hoje um montão de
ruínas. Depois vem a fortaleza de Massada, situada num
rochedo, não muito distante do mar Morto".
A. G. Lamadrid observa que "a descrição de Plínio
corresponde perfeitamente às ruínas de Qumran, que se
encontram a uns dois quilômetros a ocidente do mar Morto e
também alguns quilômetros ao norte da antiga cidade de
Engaddi".
Solino, do séc. III d.C., que tira parte de seu material de
Plínio, diz o seguinte:
"O interior da Judéia que se estende para o ocidente é
ocupado pelos essênios. Estes, seguidores de rígida
disciplina, se separaram dos costumes de todos as outras
nações, tendo sido destinados a este modo de vida pela
divina providência. Nenhuma mulher se encontra entre eles
33
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
e eles renunciaram ao sexo completamente. Eles
desconhecem o dinheiro e vivem entre palmeiras. Ninguém
nasce entre eles, entretanto seu número não diminui. O
local é destinado à castidade. Ali reúnem-se pessoas de
várias nações; entretanto, ninguém que não tenha uma
reputação de castidade e inocência é ali admitido. Aquele
que cometer a menor falta, embora faça o maior esforço
para ser admitido, é mantido afastado por ordem divina.
Assim, ao longo de tantas eras (é difícil de se crer), uma
raça onde não há nascimentos vive para sempre. Logo
abaixo dos essênios existia a cidade de Engaddi, mas ela
foi arrasada".
Tanto Flávio Josefo quanto Fílon de Alexandria noticiam
a opção celibatária e a vida comunitária dos essênios, o que os
manuscritos de Qumran confirmam - pelo menos para uma parte
da organização - como veremos adiante:
"Os essênios repudiam os prazeres como um mal e
consideram como virtude a continência e a resistência às
paixões. Eles desprezam, para si mesmos, o casamento;
mas adotam os filhos dos outros numa idade ainda
bastante tenra para receberem seus ensinamentos: eles os
consideram como se fossem de sua família e os moldam
de acordo com os seus costumes".
Fílon diz que na comunidade dos essênios "existem
apenas homens de idade madura e inclinados já para a velhice,
que não são mais dominados pelo fluxo do corpo nem arrastados
pelas paixões, mas que gozam da liberdade verdadeira e
realmente única".
Fílon acredita que os essênios não se casam porque isto
ameaçaria a sua vida comunitária, dado, segundo sua opinião, o
caráter de semeadora de discórdias que predomina nas
mulheres: "Por outro lado, prevendo com perspicácia o obstáculo
34
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
que ameaçaria, seja por si só, seja de modo mais grave,
dissolver os laços da vida comunitária, eles baniram o
casamento, ao mesmo tempo em que prescreveram a prática de
uma perfeita continência".
Sobre a vida comunitária dos essênios diz Flávio Josefo
que os seus bens são igualmente divididos, evitando que haja
pobres e ricos, o que é confirmado pelos documentos da
comunidade: "Com efeito, trata-se de uma lei: aqueles que
entram para o grupo entregam seus bens à comunidade, de tal
forma que entre eles não se vê absolutamente nem a humilhação
da pobreza nem o orgulho da riqueza, já que as posses se
encontram reunidas, não existindo para todos senão um único
haver, como ocorre entre irmãos".
Há ainda muitos outros testemunhos interessantes sobre
os essênios, especialmente de Flávio Josefo, que veremos
oportunamente.
Se a comunidade que vive em Qumran é composta pelos
essênios, é possível reconstruir a sua história, que se situa entre
os séculos II a.C. e I d.C. Além dos testemunhos antigos
contamos com os manuscritos da comunidade e os resultados
das escavações de Khirbet Qumran.
Tudo indica que quando o macabeu Jônatas assume o
sumo sacerdócio em Jerusalém começa a crise. Como sabemos,
os assideus lutam lado a lado com os Macabeus contra a
aristocracia filo-helênica, a partir de 167 a.C.
Mas quando estes, que não são sadoquitas, se apossam
do sumo sacerdócio, um sacerdote sadoquita do Templo,
conhecido nos manuscritos apenas como Mestre da Justiça
35
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
(Môreh hasedeq) rompe com os Macabeus e lidera um grupo de
sacerdotes e assideus que se afasta de Jerusalém.
O Documento de Damasco comenta esta aliança e
conseqüente ruptura: "E no tempo da ira, aos trezentos e
noventa anos após tê-los entregue nas mãos de Nabucodonosor,
rei da Babilônia, visitou-os e fez brotar de Israel e de Aarão um
broto da plantação para possuir a sua terra e para engordar com
os bens de seu solo. E eles compreenderam sua iniqüidade e
souberam que eram homens culpáveis; porém eram como cegos
e como quem às apalpadelas busca o caminho durante vinte
anos. E Deus considerou suas obras porque o buscavam com
coração perfeito, e suscitou para eles um Mestre de Justiça para
guiá-los no caminho de seu coração" (CD I, 5-11).
Trezentos e noventa anos após a destruição de
Jerusalém por Nabucodonosor ocorrida em 586 a.C., nos
colocaria no ano 196 a.C. e não combina com a época dos
Macabeus, quando teria surgido o grupo essênio. Mas somando-
se aos 390 anos mais 20 anos, durante os quais a comunidade
anda às cegas, depois mais 40 anos, que representam o tempo
simbólico entre a morte do Mestre da Justiça e a chegada da era
messiânica, chega-se a 450 anos. Some-se a isto os simbólicos
40 anos de atividade do Mestre e temos 490 anos ou 70 x 7 anos
que, segundo o livro de Daniel, representam o tempo decorrido
entre a intervenção destruidora de Nabucodonosor e o advento
salvador do Messias. Ou seja: 390 anos (ou 490) é uma quantia
simbólica, uma afirmação teológica apenas e não serve para
datar coisa alguma.
36
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
Mas há outros dados neste texto que nos oferecem
algum ponto de apoio histórico. O "tempo da ira" só pode ser a
crise da época de Antíoco IV Epífanes.
A "raiz que brota de Israel e Aarão" é uma referência aos
leigos e sacerdotes que compõem a comunidade essênia, e os
"vinte anos" nos quais se comportam como cegos pode ser uma
avaliação do período de aliança dos assideus com os Macabeus,
anteriores ao surgimento do Mestre da Justiça.
De uma passagem da Regra da Comunidade se deduz
que os líderes deste grupo são sacerdotes sadoquitas: "Esta é a
regra para os homens da comunidade que se oferecem
voluntariamente para converter-se de todo mal e para manter-se
firmes em tudo o que ordena segundo a sua vontade. Que se
separem a congregação dos homens da iniqüidade para formar
uma comunidade na lei e nos bens, e submetendo-se à
autoridade dos filhos de Sadoc, os sacerdotes que guardam a
aliança, e à autoridade da multidão dos homens da comunidade,
os que se mantêm firmes na aliança" (1QS V, 1-3).
Também os fragmentos de uma antologia de bênçãos
(1QSb), originalmente anexadas à Regra da Comunidade, falam
da liderança dos sacerdotes sadoquitas entre os essênios:
"Palavras de Bênção. Do Instrutor. Para abençoar] os filhos de
Sadoc, os sacerdotes que Deus escolheu para si para reforçar
sua aliança para [sempre, para distribuir todos os seus juízos em
meio ao seu povo, para instruí-los conforme o seu mandato. Eles
estabeleceram na verdade [sua aliança] e inspecionaram na
justiça todos os seus preceitos, e andaram de acordo com o que
ele escolhe" (11QSbIII, 22-25).
37
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
Além do Documento de Damasco, alguns comentários
bíblicos de Qumran falam do Mestre da Justiça. O
enquadramento histórico do Mestre da Justiça é importante para
se reconstruir a história da comunidade, pois ele é apresentado
como a figura mais importante entre os essênios e quase
certamente é o seu fundador.
Explicando o Sl 37,23-24 diz um escrito de Qumran:
"Pois por YHWH são assegurados [os passos do homem;] ele se
deleita em seu caminho: embora tropece [não] cairá, pois YHWH
[sustenta sua mão]. Sua interpretação se refere ao Sacerdote, o
Mestre de [Justiça, a quem] Deus escolheu para estar [diante
dele, pois] o estabeleceu para construir por ele a congregação
[de seus eleitos] [e endireitou o seu caminho, em verdade"
(4QpSlaIII, 14-17).
No Comentário de Habacuc se lê interessante aplicação
de Hab 1,13b: "Por que contemplais, traidores, e guardais
silêncio quando devora um ímpio alguém mais justo que ele?
Sua interpretação se refere à Casa de Absalão e aos membros
de seu conselho, que se calaram quando da repreensão do
Mestre de Justiça e não o ajudaram contra o Homem de Mentira,
que rejeitou a Lei em meio a toda a sua comunidade]" (1QpHab
V,8-12).
Ainda no mesmo Comentário de Habacuc aparecem
outros dados interessantes na explicação de Hab 2,8b: "Pelo
sangue humano [derramado] e a violência feita ao país, à cidade
e a todos os seus habitantes. Sua interpretação se refere ao
Sacerdote Ímpio, posto que pela iniqüidade contra o Mestre de
Justiça e os membros de seu conselho o entregou Deus nas
38
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
mãos de seus inimigos para humilhá-lo com um castigo, para
aniquilá-lo com a amargura da alma por ter agido impiamente
contra os seus eleitos" (1QpHab IX, 8-12).
A comunidade Q:
Segundo Burton L. Mack, os escritos da comunidade "Q"
são os primeiros registros que temos dos movimentos primitivos
de Jesus, e é um texto verdadeiramente precioso. Eles
documentam a história de um grupo específico do movimento
primitivo de Jesus, por um período de cerca de 50 anos, desde a
época em que Jesus tinha 20 anos até após a guerra Romano-
Judaica nos anos 70. O notável sobre este grupo é que ele se
desenvolveu dentro de uma comunidade, firmemente, interligada
e produziu uma vasta e grandiosa mitologia, simplesmente
atribuindo, mais e mais ensinamentos a Jesus.
Eles não precisaram imaginar Jesus no papel de um
Deus ou contar estórias sobre sua ressurreição dos mortos para
honrá-lo como um mestre. Em outras palavras eles não eram
cristãos, eram na verdade, um grupo de Jesus. As camadas
primitivas dos ensinamentos de Jesus em Q são as menos
interpoladas de todas as suas citações em documentos
existentes. Isto pode nos significar, que Q nos coloca mais
próximos do Jesus Histórico do que jamais poderemos estar.
Portanto, é enorme a importância de Q. Os desafios
sobre a concepção popular das origens Cristãs é claro. Se a
visão convencional dos primórdios do Cristianismo está certa,
como podemos explicar esses pioneiros de Jesus. Será que não
entenderam a mensagem? Eram ignorantes do evangelho da
39
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
salvação ou os repudiavam? Se, entretanto, os primeiros
seguidores de Jesus entendiam o propósito do movimento, da
maneira descrita em Q, como explicaremos a aparição dos cultos
de Cristo, as fantásticas mitologias dos evangelhos narrativos e o
eventual estabelecimento do culto e da religião Cristã? Q nos
força a repensar as origens do Cristianismo como nenhum outro
documento dos primeiros tempos.
Após a descoberta de Q, os evangelhos narrativos não
podem mais serem vistos como relatos dignos de confiança
sobre os eventos históricos que culminaram com o
estabelecimento da fé Cristã. Temos agora que considerar os
evangelhos como resultados da elaboração do primitivo mito
Cristão. Como já dissemos, Q força essa questão, porque não
concorda com os relatos dos evangelhos narrativos.
Q é oriundo da palavra alemã Quelle, que significa
"fonte". O texto obteve este nome quando historiadores
descobriram que tanto Mateus como Lucas usaram uma coleção
de citações de Jesus como uma de suas "fontes" para seus
evangelhos, sendo a outra fonte o evangelho de Marcos. Os
estudiosos sabiam a mais de 150 anos que alguma coisa como Q
tinha que ter existido, mas apenas recentemente tiveram a
certeza. Apesar de tudo, todos sabíamos qual o o conteúdo do
documento porque os seus ensinamentos estavam lá, nos
evangelhos de Mateus e Lucas.
Uma vez que não tínhamos um manuscrito Q
independente que teria sido perdido na balbúrdia do início do
segundo século, um conhecimento profundo de Mateus e Lucas
seria necessário caso quiséssemos reconstruir o texto original
40
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
que eles tinham em comum. Foi uma surpresa, quando alguns
especialistas curiosos, começaram a reconstruir um texto
unificado e olharam Q como uma peça de literatura
independente, uma peça de literatura que tinha conduzido um
movimento de Jesus por meio século, antes de Mateus e Lucas
sequer pensarem em mesclá-lo com a estória de Marcos sobre
Jesus.
Um mundo Cristão, inteiramente, diferente veio à tona.
Uma vez que o texto de Q não é encontrado
separadamente, em nenhuma cópia do Novo Testamento,
teremos que nos referir aos seu conteúdo citando o capítulo e
versículo no evangelho de Lucas. A preferência de Lucas sobre
Mateus é devida ao fato de que Lucas não alterou a seqüência e
terminologia das citações tanto quanto Mateus alterou (assim Q
11:1-4 = Lucas 11:1-4). No artigo FAQ do Problema Sinótico
você poderá encontrar alguns subsídios para entender as
hipóteses da construção dos evangelhos sinóticos.
Q coloca os primeiros povos de Jesus no foco, e o
quadro é tão diferente daquele que todos sempre imaginaram
que se torna surpreendente. Ao invés de pessoas se reunindo
para adorar um Cristo, como nas congregações Paulinas, ou
preocupando-se com o que significa ser um seguidor de um
mártir, como nas Comunidades de Marcos, o povo de Q estava,
completamente dedicado às questões presentes sobre o Reino
de Deus e com o comportamento necessário para alguém
abraçá-lo seriamente.
Estudos recentes identificaram três camadas de material
de instrução em Q. Cada uma dessas camadas corresponde a
41
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
um estágio na história da comunidade Q. Isto permite rastrear a
história dos primeiros movimentos de Jesus acompanhando as
mudanças nas referências a respeito da idéias do Reino de
Deus. Nenhum outro texto ou conjunto de textos do primeiro
século nos preenche com as histórias inteiras de uma
comunidade "Cristã" primitiva. Os estudiosos agora se referem a
essas camadas como Q 1 ,Q 2 e Q 3.
A camada mais antiga,Q 1, consiste, extensivamente,
das citações sobre a sabedoria de ser um verdadeiro seguidor de
Jesus. Q 2 , por outro lado, introduz pronunciamentos de
julgamentos proféticos e apocalípticos sobre aqueles que se
recusarem a ouvir os ensinamentos de Jesus. E, finalmente, Q 3
registra uma retratação ao desgaste de encontros públicos para
tratar de idéias de paciência e piedade para os iluminados
enquanto esperam seu momento de glória num certo futuro no
fim da história humana.
Um fato notável sobre o material de Q 1 é que ele advoga por um
estilo de vida evolucionário, transformando aforismos em
prescrições de comportamento. Uma injuriosa recriminação tal
qual "Deixa os mortos sepultarem os seus mortos, tu vai e
anuncia o reino de Deus", pode ser isolada no núcleo de um
pequeno aglomerado de citações, tornando-se um princípio de
comportamento adequado ao novo reino. Neste caso, o
comportamento recomendado é simplesmente o compromisso
com o reino (Q 9:57-62).
Podemos identificar sete temas no bloco Q 1:
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OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
A maior unidade (Q 6:20-49) consiste de ensinamentos
de Jesus a respeito de a quem pertence o reino de Deus ("os
pobres, famintos, os que choram"), e como tratar os outros ( o
que quereis que os homens vos façam, fazei-lhes o mesmo a
eles"), e sobre julgamentos aos outros (" não julgueis e não
sereis julgados");
O segundo bloco de Q 1 é sobre tornar-se um seguidor e
trabalhar para o reino de Deus (Q 9:57-10:11);
O terceiro é sobre ter confiança em pedir a Deus (o Pai)
(Q 11:1-13);
O quarto diz que não se deve ter temor de falar (Q 12:2-
7);
O quinto explica que não deve existir preocupação com
alimentação, vestuário e que o desejo por coisas pessoais é
tolice (Q 12:13-34);
O sexto ensina que como a semente e o fermento, o
reino de Deus crescerá (Q 13:18-21);
O sétimo fala sobre os encargos de ser um seguidor e
sobre as conseqüências de não levar o movimento a sério (Q
14:11, 16-24, 26-27, 34-35).
Se datarmos esse material em cerca de 50 C.E., na
altura dos primeiros vinte anos do movimento, podemos verificar
o que o povo de Jesus vinha fazendo. Eles estavam
profundamente envolvidos em definir, exatamente, o que
significava pertencer à escola de Jesus. Eles despenderam um
grande esforço intelectual para encontrar argumentos para um
determinado tipo de atitudes e ações consideradas fundamentais
para alcançar-se o reino de Deus.
Podemos definir o perfil do estilo de vida que eles
estavam recomendando?
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OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
Se fizermos uma lista dos imperativos que estão próximos aos
núcleos das menores unidades de Q 1 podemos começar a
enxergar que um tipo de programa estava na mente dos
primeiros povos de Jesus. A lista inclui os seguintes imperativos
ou regras de comportamento:
Ame os seus inimigos (Q 6:27);
Se apanhar numa face ofereça a outra (Q 6:29);
Dê a todos que pedem (Q 6:30);
Não julgue e não sereis julgados (Q 6:37);
Remova primeiro a trava do seu próprio olho (Q 6:42);
Deixe os mortos enterrarem os seus mortos (Q 9:60);
Eis que vos mando como cordeiros ao meio dos lobos (Q
10:3);
Não leveis bolsa, nem alforje, nem sandálias (Q 10:4);
Dizei-lhes: É chegado o reino de Deus (Q 10:9);
Pedi e dar-se-vos-á (Q 11:9);
Não estejais apreensivo pela vossa vida (Q 12:22);
Buscais antes, o reino de Deus (Q 12:31).
Um programa com muito risco parecia estar em
andamento. Ricos, mau uso da autoridade e poder, hipocrisias e
pretensões, iniqüidades sociais e econômicas, injustiças e até
mesmo lealdades familiares normais estavam, inteiramente, sob
suspeita. O reino ideal estava sendo estabelecido em
antagonismo aos costumes tradicionais, através da orientação de
que os seguidores de Jesus deveriam praticar a pobreza
voluntária, o afastamento dos laços familiares, a renúncia de
bens, a coragem de falar e aplicar a não-retaliação.
Um tremendo programa. Fazia esse programa algum
sentido?
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OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
A resposta é afirmativa. O estilo de vida do povo de
Jesus guardava estrita semelhança com a tradição grega da
filosofia popular característica dos Cínicos. Os Cínicos também
promoveram um afrontoso estilo de vida como maneira de criticar
os costumes convencionais e os temas dos dois grupos, Cínicos
e povo de Jesus, eram bastante coincidentes. Os Cínicos
ajudaram ao homem comum ganhar alguma percepção sobre a
maneira como seu mundo funcionava, desta forma as pessoas
não encontraram problemas para entender o que o povo de
Jesus estava dizendo.
A diferença entre o povo de Jesus e os Cínicos era a
seriedade com a qual o movimento de Jesus encarava a nova
visão social do reino de Deus. Isto era reflexo da preocupação
judaica por uma sociedade trabalhadora real, como sendo o
contexto necessário para qualquer bem-estar individual. Foi esse
interesse em explorar uma visão social alternativa que afastou o
movimento de Jesus de um mero apelo Cínico. Pode-se ainda
detectar algum humor do tipo Cínico no estilo aforístico das
citações:
"Porque onde estiver o vosso tesouro ali estará também
o vosso coração" (Q 12;34);
"Pode porventura o cego guiar o cego" (Q 6:39); "Porque
qualquer que pede recebe" (Q 11:10).
Assim a fase inicial dos movimentos de Jesus devem ter
sido caracterizada por um espírito mais brincalhão do que aquela
caracterizada pelo material Q 1 que chegou até nós.
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OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
Mas o processo de formação dos grupos, e a fase de agir
seriamente como grupos, estabeleceu uma atitude não-Cínica.
Todos os blocos do material de Q 1 revelam uma tentativa
estudada de expressar um claro conjunto de códigos para o
movimento de Jesus como uma formação social, códigos estes
que giravam em torno de definir quem, realmente, pertencia ao
reino. As instruções Q 10: 1-11, por exemplo, são direcionadas
para orientar um comportamento adequado quando se tivesse
que representar o movimento de Jesus em outra cidade. Estas
instruções, mostram que existia uma rede de pequenas
assembléias de grupos, que poderia ser considerada como
suporte ao movimento.
Assim, o período inicial de tentar um novo reino por
intermédio do estilo tipo Cínico, evoluiu para uma bem mais
complexa empreitada. O foco não estava somente no
estabelecimento de uma lista de códigos para definir um
verdadeiro discípulo, mas em estabelecer padrões para
reconhecimento e para os relacionamentos autênticos dentro da
comunidade dos companheiros seguidores de Jesus. A formação
social do povo de Jesus e a visão social do reino de Deus
começaram a se espelhar uma na outra.
A motivação em Q 2 é, drasticamente, diferente. O
processo de formação social tinha pago o seu preço. Famílias
tinham sido separadas, um código de comportamento estrito
tinha sido estabelecido pelos demais Judeus para censurar ou
levar ao ostracismo o povo de Jesus, algumas cidades os
incitavam a se afastarem e alguns membros antigos decidiram
que o estresse era muito grande. A lealdade era nessa hora o
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OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
apelo principal, e alguns seguidores de Jesus tiveram que decidir
entra a família e o movimento. Aqueles que permaneceram fiéis,
a despeito das tensões sociais, encontraram novas razões para
dizer sim ao movimento de Jesus, mas a maioria dessas razões
era o lado secundário de argumentos extravagantes de
comparação com aqueles que eram considerados do lado errado.
"Mas ai de vós fariseus. Vocês são como sepulturas
bonitas por fora, mas cheia de poluição por dentro" (Q 11:42; cf
Mateus 23:27).
"E digo-vos que mais tolerância haverá naquele dia para
Sodoma do que para aquela cidade" (Q 10:12).
Assim, ao invés do estilo de crítica social através dos
aforismos alegres, característico dos primeiros tempos de
experimentação social, ou mesmo do tom mais sério de instrução
que definiu o posterior desenvolvimento do povo de Jesus, a
comunidade Q adotou uma postura firmemente judicatória em
relação ao mundo. Pronunciamentos apocalípticos ameaçadores
do juízo final eram dirigidos contra aqueles que recusavam o
programa do reino. E assim o tempo para a completa realização
do reino foi adiado para o fim dos tempos (eschaton).
Os conflitos sociais refletidos em Q 2 provavelmente
tiveram lugar durante os anos 50 e 60, embora algumas das
citações são melhor entendidas como uma linguagem cunhada
nas sombras da guerra Romano-Judaica. Com este tipo de
linguagem soando em seus ouvidos, os escribas do movimento
de Jesus tiveram que rever seus manuais de instrução sobre
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OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
Jesus. Eles mantiveram os livros antigos de instruções e
sabedoria ética que hoje identificamos como Q 1, porque esses
haviam se tornado em ensinamento padrão para a comunidade.
Mas adicionaram material judicatório e profético para promover o
enquadramento na nova motivação.
O novo manual foi arranjado de maneira cuidadosa,
tecendo o material apocalíptico e judicatório no conjunto primitivo
de instruções, dando a impressão que o material original tinha
sido preparado com o juízo final em mente.
Entretanto, dois problemas conceituais tinham que ser
resolvidos para que essa revisão fosse realizada. O primeiro era
o fato de que o povo de Jesus tinha se acostumado a encarar
Jesus como um mestre de sabedoria e agora tinham que
imaginá-lo como sendo também um profeta apocalíptico. Isto
requeria uma grande mudança na caracterização. O outro
problema era que, tendo experimentado um fracasso adiando a
realização de sua visão até a data da justificação, a comunidade
tinha agora a obrigação de estar bem segura de estar no
caminho certo. Isto requeria um horizonte de história bem mais
vasto do que a comunidade jamais tinha considerado ser
necessário.
Ambos os problemas foram resolvidos com revisões
imaginativas da figura de Jesus e do seu papel na história épica
de Israel. Estas revisões foram engenhosas. O primeiro
movimento foi introduzir a figura de João Batista como profeta do
julgamento e pregador do arrependimento (Q 3:7-9).
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OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
O segundo movimento foi João prever "aquele que virá"
quem ajuntará o trigo no seu celeiro, mas queimará a palha com
fogo que nunca se apaga" (Q 3:16-17).
Então, esses escribas deixaram João e Jesus falarem um
sobre o outro para ver o que cada um sabia do outro (Q 7:18-19,
22-28, 31-35). Como os escribas imaginaram, Jesus reconhece
João como o último dos profetas de Israel e assim "aquele que
virá", e João previu um ainda "maior" para vir, o qual,
obviamente, era Jesus. Jesus era "maior", de acordo com os
escribas, porque ele era tanto um sábio como um profeta. Ele era
um sábio pelo virtuosismo de seus ensinamentos em Q 1 . Ele
era um profeta em virtude dos seus julgamentos apocalípticos
que breve seriam ouvidos de seus lábios.
A possibilidade espantosa oferecida por essa simples
história imaginária era que, como filho da sabedoria, Jesus
poderia saber o que Deus teria desejado desde o início da
criação. E como um profeta apocalíptico ele poderia saber o que
aconteceria no final dos tempos. Resultado: Jesus tornou-se o
vidente da história passada e o profeta do fim da história. Seus
seguidores poderiam agora se sentirem seguros que eles
estavam, exatamente, onde deveriam estar, unidos com o grande
plano de Deus para Israel e prontos para assumir seus lugares
quando o julgamento final ocorresse.
Esta solução engenhosa para seus problemas tem que
ser julgada como um golpe de gênio na criação do mito, não
importando o que se pense propriamente sobre o mito. Sobre o
João Batista histórico e sua relação com esse movimento, os
estudiosos ainda estão quebrando a cabeça entre várias opções.
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OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
O fato importante para nossos propósitos é que João entrou na
cena da imaginação da comunidade Q sobre Jesus como um
segundo estágio na criação do mito, de maneira a redesenhar o
próprio papel de Jesus.
As adições de Q 3 foram feitas algum tempo depois da
guerra Romano-Judaica. Elas incluem o lamento sobre
Jerusalém (Q 13:34-35), a estória da tentação de Jesus (Q 4:1-
13), afirmações sobre a importância da lei Mosaica (Q 16:16-18)
e a promessa final aos fiéis: "E vós sois os que tende
permanecido comigo sentareis no trono, julgando as doze tribos
de Israel" (Q 22:28-30). Q 3 não é uma grande revisão do
manual, mas introduz algumas novas idéias sobre o
relacionamento do povo de Q com a história de Israel, e elevou a
mitologia de Jesus ao nível de um ser divino que poderia ser
imaginado conversando com Deus como seu Pai e debatendo
com Satanás como seu tentador.
O Tópico em ambos os casos era a própria "autoridade
de Jesus sobre todo o mundo." (Q 4:6-7). Tudo parece crer que a
poeira do período Q 2 havia baixado e que o povo de Q teria
afinado o tom de suas respostas àqueles que lhes eram críticos.
Talvez a guerra tenha se encarregado dos antagonismos
primevos ou transformado a paisagem cultural tão drasticamente,
que a postura pré-guerra do movimento se apresentasse então
tola, mesmo para o povo de Jesus.
Foi o livro de Q, no nível Q 3, que atraiu a atenção de
outros grupos de Jesus, foi então copiado e lido por outra
geração dentro dos movimentos de Jesus e, eventualmente,
incorporado nos evangelhos de Mateus e Lucas e se perdeu até
50
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
recentemente para a história, quando então os estudiosos o
reconstruíram. Historiadores da segunda corrente diferente de
Mack, considerando que se está apostando muitas fichas na
primeira camada de um documento não mais existente,
construído a partir de outros, Mateus e Lucas, escritos após meio
século e algumas revisões.
Estes historiadores consideram que o Jesus, mestre com
estilo dos Cínicos é inteiramente ausente nas epístolas do
primeiro século, e portanto, deveria ser examinada a
possibilidade de que esta camada de Q não pertencer a Jesus, e
sim ser o produto de algum reduto Cínico que teria encontrado
seu caminho dentro de algum movimento de pregação judaica na
Galiléia e somente mais tarde ter sido anexada à idéia de uma
figura histórica. Questionam, igualmente, a incongruente
mudança de motivação da camada Q 1 para a camada Q 2 , não
considerando adequadas as explicações de Mack, que as
atribuiu às tensões resultantes das rejeições. A visão
convencional do Cristianismo assumia uma visão apocalíptica no
início e, gradualmente, mudava para a linguagem da sabedoria
quando o mundo não acabava conforme se apregoava. Agora, a
seqüência estava disposta de maneira inversa. A mudança não
era mais da mensagem apocalíptica para o advento da instrução
e da sabedoria, mas da sabedoria para o apocalíptico.
Reafirmamos que esta mudança implica numa total
reconsideração das origens Cristãs e da maneira como a função
da linguagem apocalíptica foi entendida.
Na minha opinião um forte componente corrobora essa
segunda corrente, trata-se do desinteresse da comunidade Q
51
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
pelos destinos de seu fundador. Isto é certamente incrível. Se o
seu mestre e fundador tivesse sofrido o destino relatado em
Jerusalém, seria crível que a comunidade ignorasse isto ou
permanecesse ignorante do fato?
Um fato marcante a respeito da comunidade Q é que
eles não eram cristãos. Eles não encaravam Jesus como o
Messias ou o Cristo. Eles não consideravam sua morte como um
evento divino, trágico ou redentor. E eles não imaginavam que
ele iria ascender dos mortos para governar um mundo
transformado. ao contrário, eles pensavam nele como um mestre
cujos ensinamentos tornaria possível viver com verve naqueles
dias turbulentos. Assim eles não se reuniam para cultuar em seu
nome, honrá-lo como um deus, ou cultivar sua memória através
de hinos, orações e rituais. O povo de Q, era um povo de Jesus,
não cristãos.
O desafio de Q ao conceito popular das origens do
cristianismo é claro. Se a visão convencional das origens do
cristianismo é correta, como explicar estes primeiros seguidores
de Jesus?
Teriam eles falhado quanto a compreender a
mensagem?
Estavam ausentes quando o inesperado aconteceu?
Teriam seguido em ignorância ou repúdio ao evangelho
cristão de salvação?
Se, entretanto, os primeiros seguidores de Jesus
entenderam o propósito de seu movimento tal qual Q o descreve,
como podemos explicar o surgimento do culto de Cristo, da
52
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
fantástica mitologia dos evangelhos narrativos, e o eventual
estabelecimento da igreja e religião cristã ?
Q força a questão de se repensar as origens do
cristianismo como nenhum outro documento da antiguidade
força. Os evangelhos narrativos não podem mais serem vistos
como relatos fidedignos dos raros e estupendos eventos
históricos na fundação da fé cristã. Os evangelhos, agora têm
que ser vistos como resultados da antiga fabricação de mitos
cristãos. Q força a questão, pois documenta uma história antiga
que não concorda com o relato dos evangelhos narrativos.
Os pronunciamentos:
Segundo Burton L. Mack, os evangelhos sinóticos
incluem muitas estórias sobre Jesus que os especialistas
costumam chamar pronunciamentos. Jesus é descrito em uma
certa situação; alguém questiona o que ele está dizendo ou
fazendo; e Jesus dá uma resposta satírica, irônica e às vezes
mordaz. Em muitos casos estas estórias foram embelezadas
para descrever a situação, explicar porque a questão foi
levantada e discriminar os opositores. Mas mesmo se a
passagem se transforma em um diálogo, Jesus tem sempre a
última palavra, e freqüentemente uma longa narrativa pode ser
reduzida a uma simples troca de desafios e respostas. Vejamos
alguns exemplos, numerados para referência futura com J de
Jesus como prefixo:
53
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
(J-1) Quando perguntado por que comia com os coletores de
impostos e os pecadores, Jesus respondeu, Aqueles que tem
saúde não precisam de médico." (Mar 2:17)
(J-2) Quando perguntado porque seus discípulos não jejuavam,
Jesus respondeu, "Por acaso podem jejuar os amigos do noivo
enquanto o noivo estiver com eles?" (Mar 2:19)
(J-3) Quando perguntado porque seus discípulos colhiam grãos
no sábado, Jesus respondeu, "O sábado foi feito para o homem e
não o homem para o sábado." (Mar 2:27)
(J-4) Quando perguntado porque comiam com as mãos sem
lavar, Jesus respondeu, "Nada há fora do homem, que, entrando
nele o possa contaminar; mas o que sai dele isso é que
contamina o homem." (Mar 7:15)
(J-5) Quando perguntado quem era o maior, Jesus respondeu,
"Se alguém quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo
de todos." (Mar 9;35)
(J-6) Quando alguém o chamou de "Bom Mestre," Jesus
retrucou, "Porque me chamas de bom?" (Mar 10:18)
(J-7) Quando perguntado se o rico poderia entrar no reino de
Deus, Jesus respondeu, "É mais fácil passar um camelo por um
buraco de agulha, do que um rico entrar no reino de Deus." (Mar
10:25)
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OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
(J-8) Quando alguém mostrou-lhe uma moeda com a inscrição de
César e perguntou, "É lícito pagar impostos a César ou não?
"Jesus respondeu, Dai a César o que é de César e a Deus o que
é de Deus." (Marc 12:17)
(J-9) Quando uma mulher na multidão elevou sua voz e disse-lhe
"Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos que
mamaste." Jesus respondeu, "Antes bem-aventurado os que
ouvem a palavra de Deus e a guardam." (Lu 11:27-28)
(J-10) Quando alguém da multidão lhe disse, "Mestre, dize a meu
irmão que reparta comigo a herança," Jesus respondeu, "Homem
quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre vós?" (Lu 12:13-
14)
Estas estórias são bastante similares a um grande
número de anedotas contadas pelos Gregos sobre os fundadores
das várias escolas de filosofia. É evidente a propensão grega
pelas formulações rebuscadas, bem como pelo encantamento
com as réplicas inteligentes e com o humor satírico. Chamadas
de chreiai (úteis), anedotas como estas eram usadas para testar
professores, avaliando sua capacidade de manterem a
credibilidade diante de seus alunos, e de saírem incólumes de
situações desafiadoras.
Assim as chreiai eram "'úteis" para compor o que os
gregos chamavam uma "vida" (bios de onde retiramos
"biografia"). Isto é porque além do humor, havia outra importante
função para essas estórias. As chreiai eram capazes de revelar
55
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
uma impressão do caráter de um professor (ethos). As chreiai
criavam o que os especialistas chamam de uma situação
retórica, repleta de circunstâncias, oradores, discurso e
audiência. Isto significa que boas chreiai podem ser usadas para
representar uma escola de tradição. Pode-se verificar como as
chreiai foram postas a serviço das construções filosóficas, na
obra, Vida de Filósofos Eminentes, do escritor Diógenes Laércio,
no início do terceiro século.
Anedotas do tipo das contadas sobre Jesus eram
freqüentes entre as tradições Socráticos e Cínicas. É portanto,
valioso comparar as estórias citadas com algumas anedotas
típicas dos Cínicos. Um jogo de escaramuças parece ter sido
jogado com os Cínicos por aqueles que tinham coragem para
enfrentá-los. Uma vez que os Cínicos viviam numa espécie de
alienação em relação à sociedade, demonstrando indiferença às
suas convenções mas na realidade totalmente dependentes dela
para seu viver, qualquer situação poderia servir para pegá-los em
uma armadilha.
O objetivo era flagrar o Cínico em uma atitude
inconsistente apontando a sua falta de completa independência
da sociedade. De maneira a vencer o desafio, o Cínico colocava
uma abordagem inteiramente diferente sobre a matéria deixando
a impressão de que o desafiador não tinha entendido a situação.
Vejamos alguns exemplos de Diógenes Laércio, numerados para
referência usando-se um C de Cínico:
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OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
(C-1) Quando censurado pelo costume de andar em má
companhia, Aristenes respondeu, "Bem, os médicos atendem
seus pacientes sem pegar a febre." (DL 6:6)
(C-2) Quando alguém disse a Aristenes, "Muitos elogiam você",
ele respondeu, "O que fiz de errado?" (DL 6:8)
(C-3) Quando alguém desejava estudar com Diógenes, ele dava-
lhe um peixe e dizia para seguir atrás dele. Quando por
embaraço o estudante logo atirava o peixe fora deixando-o,
Diógenes ria e dizia, "Nossa amizade foi quebrada por um peixe"
(DL 6:36)
(C-4) Quando alguém reprovava-o por freqüentar lugares
impuros, Diógenes respondia que o sol também entra nas
intimidades sem sair desonrado. (DL 6:63)
(C-5) Quando perguntado porque suplicava a uma estátua,
Diógenes respondeu, "Para praticar em ser recusado" (DL 6:49)
Os Gregos mediam a resposta pelo seu humor e
inteligência e uma certa lógica era envolvida em sair-se ileso do
anzol. Assim funcionava a lógica; um interlocutor colocava o
Cínico na berlinda (C-4): como você pode freqüentar lugares
socialmente inadequados (um eufemismo para casas de
prostituição)? O primeiro movimento era identificar a questão
enfatizada pelo desafio. Neste caso era a noção de ser
"contaminado" ao visitar um local "impuro", isto é, um local
57
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
socialmente inadequado. O segundo movimento era mudar o
foco e encontrar um exemplo de "entrada em local impuro" no
qual não havia contaminação. O sol, por exemplo, "entra" nas
intimidades sem ficar sujo.
A ausência inteligente de correlação entre os dois
exemplos criava o humor. Não havia o objetivo de um
ensinamento explícito. O interlocutor poderá, certamente, não se
vir a meditar sobre teorias de pureza ou impureza, mas ele
poderá muito bem se afastar rindo e deixar o Cínico seguir seu
caminho ou mesmo dar-se conta sobre a natureza arbitrária da
categorização de puro ou impuro quando usada para uma
circunstância social específica. Quanto ao Cínico, este tendo
aceito o desafio e tendo administrado a confusão momentânea
na lógica da situação foi capaz de escapar da armadilha.
As anedotas atribuídas a Jesus operavam através da
mesma lógica. Em todos os casos os desvios Cínicos são uma
característica das réplicas de Jesus. As mudanças na ordem do
discurso são facilmente identificáveis.
Em J-1, a questão da contaminação é removida pela
mudança do foco das condutas de alimentação para a prática
médica. É muito parecida com a anedota sobre Aristenes em C-
1.
Em J-2 a discrepância tem relação com a ocasião na
qual o jejum é apropriado.
J-3 sustenta a distinção entre duas regras sobre o
trabalho nos sábados, uma a proscrição a outra a permissão.
Em J-4 a incongruência é criada pela justaposição de
condutas de alimentação com observações escatológicas. É
58
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
similar à resposta de Diógenes em C-4 confundindo
contaminação social com natural. As colocações em J-4 e J-5
sustentam a crítica a valores sociais comuns relacionados com a
classe social.
E a anedota de Jesus em J-10 é semelhante a um
grande número de anedotas Cínicas nas quais os estudantes são
duramente corrigidos por alguma má interpretação e conduzidos
de volta aos seus próprios recursos para enxergar melhor as
coisas e começar a estudar o método Cínico. Uma forma branda
desta posição do professor contra o futuro aluno é ilustrado em
C-3.
Existem muitas chreiai de Jesus no evangelho de
Marcos. Em razão da forma que estas estórias terminam,
deixando com Jesus a última palavra, os especialistas
denominam essas passagens de estórias de pronunciamentos.
Marcos usava essas estórias com grande vantagem na
construção do seu evangelho, parcialmente porque elas se
constituíam nos blocos de construção para a "vida" (bios) que ele
queria escrever, parcialmente porque elas criavam um conflito, o
conflito básico da conspiração contra Jesus que Marcos queria
desenvolver e parcialmente porque este era o tipo de estória que
a própria comunidade de Marcos aprendera a contar sobre
Jesus.
Existem 28 estórias deste tipo no evangelho de Marcos.
Destas, doze estórias tratam de questões que dividiam o povo de
Jesus dos Fariseus. A maioria delas foi identificada pelos
estudiosos como estórias pré-Marcos, que foram contadas na
comunidade de Marcos antes de Marcos decidir usá-las na sua
59
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
vida de Jesus. Estas são as estórias que tem interesse para nós,
pois elas fazem um conjunto e podem ser usadas como janela
dentro de um ramo do movimento de Jesus que se opôs à
tradição da escola dos escribas e Fariseus. De acordo com a
velha tradição Grega, o povo de Jesus, da comunidade de
Marcos, imaginava Jesus como defensor de sua própria escola
de tradição e o pintavam contra os Fariseus dizendo chreiai . Isto
significava que eles se consideravam discípulos da Escola de
Jesus.
A estória de pronunciamento que apresenta Jesus em
debate com os Fariseus todas endereçam questões que tem a
ver com a pureza. O conceito de pureza era básico para o
sistema social e de propriedade judeu. A partir de um grande
sistema legal, ético e da lei do sacrifício que foi desenvolvida
durante o período do segundo templo, os Fariseus tiveram
sucesso em separar uma pequena lista de práticas ritualistas que
eles poderiam realizar em casa. Isto, eles afirmavam, em estrita
observância das leis e tradições judaicas.
A lista incluía o dízimo, dar esmola, observância do
sábado (incluindo oração diária e um dia de jejum na semana),
limpeza (lavagem após atividades que traziam impurezas), regras
para as seleção e reparação da comida, regras a respeito das
pessoas com as quais se podia sentar à mesa.
Estas regras não deviam ser entendidas como leis,
porque os Fariseus não tinham autoridade oficial sobre nenhuma
instituição judaica. Elas eram sinais de piedade, de uma seita
progressiva engajada em redefinir o que significava ser Judeu à
sombra da destruição do templo. Elas eram, no entanto,
60
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
extremamente importantes para o reconhecimento de qualquer
judeu que desejava ser "puro", isto é, ser reconhecido na
comunidade judaica com leal às tradições dos judeus.
Cabe aqui, para os que não estão familiarizados, uma
descrição de quem eram os Fariseus, erradamente há já algum
tempo, apresentados no linguajar de gíria brasileira, como uma
qualificação pejorativa. Tomando a descrição de Josefos (Guerra
dos Judeus 5:2) os Fariseus eram "um corpo dentro da
comunidade judaica que professava ser mais religioso que os
outros e pretendia explicar a lei mais precisamente".
Embora sejamos levados a pensar nos fariseus como
rigidamente ortodoxos eles eram, em certos aspectos, o
elemento progressivo no Judaísmo. De maneira a encontrar
novas condições após a queda do templo, os Fariseus se
colocaram a interpretar a lei. O desenvolvimento e manutenção
das sinagogas como um centro de adoração e instrução é uma
conquista dos Fariseus. Eles eram bastante admirados pelos
judeus que não eram filiados a nenhuma seita judaica. Os
Fariseus clamavam pela autoridade da fé e da instrução
enquanto os Saduceus, a classe alta da nobreza e de onde
saíam os sumos-sacerdotes, clamava por aquela do sangue e da
posição.
Se fizermos uma lista das questões sob debate nas
estórias de pronunciamento da comunidade pré-Marcos o
resultado é uma notável correlação com as questões dos
Fariseus. Além das questões apontadas de J-1 a J-10 existe um
grande número de questões que se colocavam entre o povo de
Jesus e os Fariseus, tais como a legitimidade do divórcio, o
61
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
pagamento de taxas, a lei Mosaica, a base da autoridade, os
sinais de honra e as causas das doenças e "espíritos impuros".
Portanto quer parecer que este ramo do movimento de
Jesus trabalhou sua autodefinição através de um violento debate
com os padrões Fariseus.
Porque isso?
Mack explica isso afirmando que o cenário mais
adequado indica que alguns integrantes do povo de Jesus
continuaram a se considerar como judeus mesmo estando
inteiramente ligados no movimento de Jesus. Pode-se imaginar a
disseminação do movimento de Jesus nas regiões de Tiro e
Sidom onde uma das estórias de pronunciamento de Marcos
(Mar 7:24-30) foi elaborada. Alguns judeus atraídos pelo
movimento continuavam a participar da vida da sinagoga ou
pertenciam a famílias que continuavam. Naturalmente surgiram
conflitos com as próprias famílias e com os líderes das sinagogas
à respeito da lealdade às tradições judaicas.
Em certo momento as diferenças relativas principalmente
aos códigos de pureza Fariseu e as "impurezas" do povo de
Jesus tornaram-se uma questão crítica e algumas pessoas
tiveram que optar entre acompanhar o povo de Jesus ou desistir
da participação. Alguns relacionamentos familiares devem ter
ficado sob tensão. O grande problema era que ser "impuro" pelos
padrões Fariseus era justamente o ponto principal do
movimento.
Embora as considerações de Mack sejam razoáveis ele
parece passar ao largo de um aspecto importante. O motivo da
62
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
resistência judaica aos Romanos era a religião judaica.
Igualmente o quadro apresentado no Novo Testamento é aquele
de uma instituição agregada ao "status quo". Não há indicação
no Novo Testamento de nenhum conflito entre a religião judaica e
o poder romano.
O objetivo claro dos evangelhos é apresentar a questão
revolucionária como sendo entre Jesus é o "Establishment"
judeu. O fato de existir uma Instituição Romana contra a qual
existiam forças revolucionárias é ocultado de maneira que a
instituição contra a qual Jesus se rebelava possa ser
representada como inteiramente judia. Existia é verdade, um
pequeno partido, os Saduceus, o quais eram colaboracionistas,
sustentavam a situação e aceitavam cargos oficiais sob os
romanos. O Sumo-sacerdote, propriamente, era Saduceu e é
importante que se note, era nomeado pelos romanos. Como
membro de uma minoria colaboracionista, ele era encarado com
suspeito pela grande massa da nação. A autoridade religiosa, no
entanto, não permanecia com os sacerdotes mas com um corpo
completamente diferente de pessoas, denominados Rabinos, os
líderes dos Fariseus.
Assim os evangelhos falham em não mostrar que com
relação ao povo a verdadeira instituição era o partido dos
Fariseus que sem posição de destaque político, cujos líderes
jamais receberam reconhecimento pelos romanos, constituía-se
na primeira e última resistência contra os romanos. A imagem
apresentada nos evangelhos sobre os Fariseus, colocando-os
como interessados apenas em salvaguardar suas posições é
inteiramente equivocada.
63
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
Assim Jesus tornou-se o mestre-fundador de um
movimento que trabalhou sua autodefinição no debate contra os
ensinamentos dos Fariseus. Isto nos dá um quadro
completamente diferente daquele mostrado pela comunidade Q,
ou como veremos, o povo de Tomé, a Congregação de Israel e
as colunas de Jerusalém. Um grupo particular do movimento de
Jesus investiu inocente e fortemente na idéia de pensar-se como
apto aos dois padrões, judaico e de Jesus.
Este grupo, e isto é uma questão da máxima relevância,
voltou-se para as práticas das escolas de tradição helenistas,
quanto a atribuir todas as razões para pensar da maneira que
pensavam, ao seu fundador. Eles não desenvolveram nenhuma
teoria ou mito da autoridade de Jesus como homem dvino,
salvador ou mártir da nova causa. Também, não desenvolveram
nenhuma visão apocalíptica de julgamento final ao final dos
tempos. O que fizeram, foi colocar Jesus no papel de legislador,
tal qual os escribas dos Fariseus, mas então desenvolveram sua
habilidade retórica de maneira a superar os escribas em seu
próprio jogo.
Um instrumento excepcional surgiu quando este grupo
decidiu usar as anedotas de Jesus para registrar seu debate com
os escribas dos Fariseus. Quando se prepara uma chreiai os
argumentos são os de quem prepara não os dos protagonistas
da chreiai . Assim que o povo de Jesus desenvolveu as chreiai
com argumentos mais elaborados eles preferiram não tomar os
créditos pelos argumentos que encontraram. Ao invés, como na
tradição grega de atribuição de novos ensinamentos ao fundador
da escola, eles deixaram Jesus receber os créditos não só pelas
64
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
chreiai como pelos argumentos em seu favor. Isto resultou em
dar a Jesus dois pronunciamentos em cada chreiai elaborada,
com a última afirmação, invariavelmente, marcando um
pronunciamento da correção de seus pontos de vista.
Assim, ao final da chreiai sobre trabalho no sábado,
Jesus diz, "O sábado foi feito para o homem, não o homem para
o sábado". Assim, intencionalmente ou não, a Escola de Jesus
produziu uma auto-referência de autoridade para seu mestre-
fundador.
No princípio esta caracterização de Jesus parece frágil,
se não tola, e a lógica da argumentação fraca. Mas, ao combinar-
se este estilo de auto-referência de Jesus com outros papéis
míticos para Jesus, resulta um símbolo de autoridade
extremamente impenetrável .
O evangelho de Marcos mostrará isto mais tarde. No
meio tempo, como pode a Escola de Jesus tomar seu espaço no
mundo, tendo se excluído de uma proeminente definição de
judaísmo, definição esta, que aparentemente, foi considerada
suficientemente importante, a ponto de se assumir muito
seriamente o desafio com os Fariseus?
Não sabemos dizer com certeza, pois temos apenas o
evangelho de Marcos como a próxima janela para dentro de seu
pensamento. Olhando através desta janela parece-nos que a
Escola de Jesus passou por um momento de desorientação e
ansiedade no processo de se tornar uma seita independente.
1 – Quando surgiram os Essênios:
65
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
Estamos na Palestina.
Na terra dos Profetas, entre o primeiro século antes do
Cristo e o primeiro século após o Cristo, operam-se grandes
movimentos religiosos.
Agrupamentos diversos nascem da massa popular.
Encontra-se ai os zelotes, sicários, galileus, nazarenos,
batistas, levitas e outros grupos que nasciam por força de suas
aspirações religiosas.
Entre esses, um outro grupo do qual já se tinha
referência muito antiga, desde o lendário Egito, floresce ás
margens do Mar Morto, próximo de Jericó.
São os Essênios.
Entre os anos 150 a.C. e 70 d.C, aproximadamente, os
Essênios foram bem identificados, uma vez que viviam isolados
das demais comunidades, afastados da opulência de Jerusalém.
Preferiam o deserto da Judéia.
Ficaram poucos conhecidos, até o encontro dos
documentos do QUNRAM, no Mar Morto, a partir de 1974.
As ruínas de cinco mosteiros no deserto da Judéia são o
marco de sua existência em passado distante, além de outros
mosteiros dispersos por diversas regiões na Samaria e Galiléia.
2 – Noticias históricas:
Alguns historiadores famosos falam sobre os Essênios.
Entre eles, destacam-se Filon de Alexandria:
Os Essênios são como santos que habitam e muitas
aldeias e vilas da Palestina. Não se unem por clã familiar ou por
66
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
raça, mas sim por meio de associações voluntários, formadas
com intuito de melhor praticar a virtude e o amor entre as
criaturas humanas.
Nas suas casas jamais se houve grito ou tumulto. Cada
um, quando fala, cede a palavra ao outro. Este silêncio causa
grande impressão ao visitante.
Sabem eles moderar a cólera e conservar o equilíbrio.
Cumprem a palavra e sustentam a paz. O que dizem vale do que
um juramento um sacrilégio, porque só precisa jurar quem é
mentiroso.
Os que entram para a comunidade se comprometem a
não prejudicar ninguém; ser fiel com todos, especialmente com
os que tem poder, uma vez que ninguém ocupa cargos sem que
seja pela vontade de Deus.
Vivem muitos anos alcançando facilmente os cem,
possivelmente pela regularidade de vida. Suportam a dor,
fazendo-se fortes contra ela. Sabem que o corpo é perecível,
mas que a alma é imortal, vivendo ela no éter, de onde é atraída
para se ligar aos corpos como se estes fossem prisões.
Separadas da carne, libertam-se e elevam-se.
Muitos conseguem prever o futuro e é raro que se
enganem nas previsões.
Muitos não se casam, porque acreditam que matrimônio
é impedimento à vida simples. Outros, porém, afirmam que os
que não se casam recusam a melhor parte da vida, que é a
propagação da espécie.
A opinião do povo a respeito deles são pessoas
irrepreensíveis e excelentes.
67
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
3 – Aliança com Deus:
Os Essênios não concordavam com os doutores das leis,
que lideravam no templo de Salomão, quando ao sacrifício nas
oferendas no altar da raça.
Preferiam os rituais do batismo e o respeito aos
alimentos, que purificavam e comiam sempre em lugar especial.
Serviam o pão e o vinho, embora ocasionalmente
comessem carne.
A cadeira principal deixavam sempre vazia.
Reservaram-se, à espera do Messias.
Eles eram pacíficos.
Seus bens eram postos em comum e exigiam unidade
doutrinária.
Só falavam de uma espécie de guerra: a dos filhos da
Luz contra os filhos das Trevas, ambos muitos fortes,
empenhando-se em luta constante que se trava no interior de
cada criatura.
Embora descendentes dos hebreus, desligaram-se das
festas tradicionais do judaísmo, como a da Páscoa, dos
tabernáculos e outras mais. Transformaram a sua vida em
vivência litúrgica e não de detinham em inutilidades.
Viviam numa simplicidade muito rara entre as pessoas,
em todas as épocas.
A idéia da Aliança com Deus é profunda e rica entre os
Essênios, sendo, como realmente é, o centro de toda Bíblia,
68
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
porém no seu aspecto mais rico, ou seja, a Aliança como
expressão de amor.
4 – Ordens e afirmações:
Podemos encontrar os Essênios em duas diferentes
ordens: uma de vida monástica, junto ao Mar Morto, e outra
dispersa por toda a Palestina, Ásia e Alexandria, formando
grupos de dez filiados, cada um com um dirigente.
Os grupos próximos têm alguma interdependência,
chegando a somar cinqüenta ou cem.
No campo religioso, eles representaram o não
conformismo típico que combina uma inquietude interior com
disciplina quase fanática. São comparados aos primeiros
cristãos.
O Rei da Prússia, escrevendo a Voltaire, afirma: “Jesus
foi um Essênio”.
Gratz, em sua obra, afirma: “João Batista, era Essênio”.
Edmundo Wilson, jornalista do New York Times, em série
de reportagens sobre os documentos encontrados em 1947, no
Mar Morto, escreve: “O Convento, esse prédio de pedras, junto
ás águas amargas do Mar Morto, com seu forno, tinteiros e
piscinas sacras, túmulos, é, talvez, mais do que Belém e Nazaré,
o berço do cristianismo”
5 – Princípios:
69
OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO
Os Essênios ensinam a piedade, santidade, vida familiar
e vida civil.
Ensinam a não jurar e não mentir.
Crêem que o homem é a causa de todo bem e de
nenhum mal.
O amor da virtude compreende desprendimento da
riqueza e estabilidade de tudo o que assegure bons costumes.
O amor aos homens exige benevolência, igualdade e
concórdia.
Ninguém possuí uma casa que não possa ser comum.
As vestes podem ser usadas por todos; o alimento para
todos é igual.
Os doentes sem recursos não ficam sem cuidados. Eles
têm, em comum, o que é necessário para tratá-los.
Respeitam os velhos e deles cuidam com suas próprias
mãos, como filhos gratos, ainda mesmo quando não sejam seus
próprios pais.
Habitam em aldeias, evitando as cidades pelas injustiças
a que seus habitantes estão acostumados.
Alguns trabalham na terra e outros nas artes, tornando-
se úteis a si e aos seus vizinhos. Não se preocupam em ajuntar
prata em ouro, nem grandes parcelas de terra para aumentar os
seus ganhos, contendendo-se com o que lhes forneça o
necessário para a vida.
Consideram grande abundância o Ter-se poucos desejos
e fáceis de serem satisfeitos.
Não há entre eles fabricantes de armas de guerra.
70
Os essênios e o cristianismo
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  • 2. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO 4
  • 3. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO PREFÁCIO Neste livro vamos estudar os fatos relativos à pesquisa do cristianismo que, no meu entendimento, estão pouco disponíveis em língua portuguesa. Sei, perfeitamente, que essa forma poderá causar certa frustração nas pessoas interessadas, que acessarem este livro, mas por outro lado, a chama deste conhecimento estará mais rapidamente disseminada. Procurarei sempre fazer as interrupções em pontos que não prejudiquem o entendimento, evitando quebras bruscas na continuidade, o assunto seguinte será sempre um tópico, tanto quanto possível, se não independente, em continuação cronológica, histórica ou sobre fatos paralelos ao assunto anterior. 5
  • 4. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO OS ESSÊNIOS Abril de 1947, no vale de Khirbet Qumran, junto às encostas do Mar Morto, Juma Muhamed, pastor beduíno da região, recolhia seu rebanho quando ao seguir atrás de uma ovelha desgarrada percebeu que havia uma extensa fenda entre duas rochas. Curioso, atirou uma pedra e ouviu o ruído de um vaso se quebrando. No vaso, encontrou pergaminhos. Este momento caracterizou-se como um marco para o mundo arqueológico: A Descoberta dos Manuscritos do Mar Morto. Desde então, a tradução e divulgação do seu conteúdo têm atraído atenção mundial, e uma grande expectativa tem se instaurado quanto a possíveis segredos ainda não revelados. Foram encontradas em 11 cavernas, nas ruínas de Qumran, centenas de pergaminhos que datam do terceiro século a.C até 68 d.C., segundo testes realizados com carbono 14. Os Manuscritos do Mar Morto foram escritos em três idiomas diferentes: Hebreu, Aramaico e Grego, totalizando quase mil obras. Eles incluíam manuais de disciplinas, hinários, comentários bíblicos, escritos apocalípticos, cópias do livro de Isaías e quase todos os livros do Antigo Testamento. 6
  • 5. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO De acordo com os estudiosos, os Manuscritos estão divididos em três grupos principais: Sectários, Apócrifos e Bíblicos. Os Bíblicos reúnem todos os livros da Bíblia, exceto Ester, no total 22 livros. Os Apócrifos são os livros sagrados excluídos da Bíblia, e, finalmente os Sectários que são pergaminhos relacionados com a seita, incluindo visões apocalípticas e trabalhos litúrgicos. No livro "As doutrinas secretas de Jesus", o autor H. Spencer Lewis, F.R.C., Ph.D., cita na pág. 28 a referência (chave 15): "Essa sociedade secreta (sociedade secreta de Jesus) pode ou não ter sido afiliada aos essênios, outra sociedade secreta com que Jesus estava bem familiarizado". A descoberta dos Pergaminhos do Mar Morto confirmou a referência feita pelo autor aos essênios e seus ensinamentos secretos, que precederam o cristianismo e que Jesus deve ter conhecido bem. Um relatório parcial sobre essa descoberta, do arqueólogo inglês G. Lankester Harding, Diretor do Departamento de Antiguidades da Jordânia, diz o seguinte: "A mais espantosa revelação dos documentos essênios até agora publicada é a de que os essênios possuíam, muitos anos antes de Cristo, práticas e terminologias que sempre foram consideradas exclusivas dos cristãos. Os essênios tinham a prática do batismo, e compartilhavam um repasto litúrgico de pão e vinho presidido por um sacerdote. Acreditavam na redenção e na imortalidade da alma. Seu líder principal era uma figura 7
  • 6. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO misteriosa chamada o Instrutor da Retidão, um profeta-sacerdote messiânico abençoado com a revelação divina, perseguido e provavelmente martirizado." "Muitas frases, símbolos e preceitos semelhantes aos da literatura essênia são usados no Novo Testamento, particularmente no Evangelho de João e nas Epístolas de Paulo. O uso do batismo por João Batista levou alguns eruditos a acreditar que ele era essênio ou fortemente influenciado por essa seita. Os Pergaminhos deram também novo ímpeto à teoria de que Jesus pode ter sido um estudante da filosofia essênia. É de se notar que o Novo Testamento nunca menciona os essênios, embora lance freqüentes calúnias sobre outras duas seitas importantes, os saduceus e os fariseus." Todos esses documentos foram preservados por quase dois mil anos e são considerados os achados do século, principalmente porque a Bíblia, até então conhecida, data de uma tradução grega, feita pelo menos mil anos depois da de Qumran. Hoje, os Manuscritos do Mar Morto encontram-se no Museu do Livro em Jerusalém. O nome Essênios deriva da palavra egípcia Kashai, que significa "secreto". Na língua grega, o termo utilizado é "therepeutes", originário da palavra Síria "asaya", que significa médico. A organização nasceu no Egito nos anos que precedem o Faraó Akhenathon, o grande fundador da primeira religião monoteísta, sendo difundida em diferentes partes do mundo, inclusive em Qumran. Nos escritos dos Rosacruzes, os Essênios 8
  • 7. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO são considerados como uma ramificação da "Grande Fraternidade Branca". Segundo estudiosos, foi nesse meio onde passou Jesus, no período que corresponde entre seus 13 e 30 anos. Alguns estudiosos também acreditam que a Igreja Católica procura manter silêncio acerca dos essênios, tentando ocultar que receberam desta seita muitas influências. Para medir o tempo, os Essênios utilizavam um calendário diferenciado, baseado no sol. Ao contrário do utilizado na época, que consistia de 354 dias, seu calendário continha 364 dias que eram divididos em 52 semanas permitindo que cada estação do ano fosse dividida em 13 semanas e mais um dia, unindo cada uma delas. Consideravam seu calendário sintonizado com a "Lei da Grande Luz do Céu". Seu ritmo contínuo significava ainda que o primeiro dia do ano e de cada estação sempre caía no mesmo dia da semana, quarta-feira, já que de acordo com o Gênesis, foi no quarto dia que a Lua e o Sol foram criados. Segundo os Manuais de Disciplina dos Essênios dos Manuscritos do Mar Morto, os essênios eram realmente originários do Egito, e durante a dominação do Império Selêucida, em 170 a.C., formaram um pequeno grupo de judeus, que abandonou as cidades e rumou para o deserto, passando a viver às margens do Mar Morto, e cujas colônias estendiam-se até o vale do Nilo. No meio da corrupção que imperava, os essênios conservavam a tradição dos profetas e o segredo da Pura Doutrina. De costumes irrepreensíveis, moralidade exemplar, 9
  • 8. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO pacíficos e de boa fé, dedicavam-se ao estudo espiritualista, à contemplação e à caridade, longe do materialismo avassalador. Os essênios suportavam com admirável estoicismo os maiores sacrifícios para não violar o menor preceito religioso. Procuravam servir a Deus, auxiliando o próximo, sem imolações no altar e sem cultuar imagens. Eram livres, trabalhavam em comunidade, vivendo do que produziam. Os Essênios não tinham criados, pois acreditavam que todo homem e mulher era um ser livre. Tornaram-se famosos pelo conhecimento e uso das ervas, entregando-se abertamente ao exercício da medicina ocultista. Em seus ensinos, seguindo o método das Escolas Iniciáticas, submetiam os discípulos a rituais de Iniciação, conforme adquiriam conhecimentos e passavam para graus mais avançados. Mostravam então, tanto na teoria quanto na prática, as Leis Superiores do Universo e da Vida, tristemente esquecidas na ocasião. Alguns dizem que eles preparavam a vinda do Messias. Era uma seita aberta aos necessitados e desamparados, mantendo inúmeras atividades onde, a acolhida, o tratamento de doentes e a instrução dos jovens eram a face externa de seus objetivos. Não há nenhum documento que comprove a estada essênia de Jesus, no entanto seus atos são típicos de quem foi iniciado nesta seita. A missão dos seguidores do Mestre Verdadeiro foi a de difundir a vinda de um Messias e nisto contribuíram para a chegada de Jesus. Na verdade, os essênios não aguardavam um só Messias, e sim, dois. Um originário da Casa de Davi, viria para 10
  • 9. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO legislar e devolver aos judeus a pátria e estabelecer a justiça. Esse Messias-Rei restituiria ao povo de Israel a sua soberania e dignidade, instaurando um novo período de paz social e prosperidade. Jesus foi recebido por muitos como a encarnação deste Messias de sangue real. No alto da cruz onde padeceu, lia- se a inscrição: Jesus Nazareno Rei dos Judeus. O outro Messias esperado nasceria de um descendente da Casa de Levi. Este Salvador seguiria a tradição da linhagem sacerdotal dos grandes mártires. Sua morte representaria a redenção do povo e todo o sofrimento e humilhação por que teria que passar em vida seria previamente traçado por Deus. O Messias-Sacerdote se mostraria resignado com seu destino, dando a vida em sacrifício. Faria purgar os pecados de todos e a conduta de seus atos seria o exemplo da fé que leva os homens a Deus. Para muitos, a figura do pregador João Batista se encaixa no perfil do segundo Messias. Até os nossos dias, uma seita do sul do Irã, os mandeanos, sustentam ser João Batista o verdadeiro Messias. Vivendo em comunidades distantes, os essênios sempre procuravam encontrar na solidão do deserto o lugar ideal para desenvolverem a espiritualidade e estabelecer a vida comunitária, onde a partilha dos bens era a regra. Rompendo com o conceito da propriedade individual, acreditavam ser possível implantar no reino da Terra a verdadeira igualdade e fraternidade entre os homens. Consideravam a escravidão um ultraje à missão do homem dada por Deus. Todos os membros da seita trabalhavam para si e nas 11
  • 10. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO tarefas comuns, sempre desempenhando atividades profissionais que não envolvessem a destruição ou violência. Não era possível encontrar entre eles açougueiros ou fabricantes de armas, mas sim grande quantidade de mestres, escribas, instrutores, que através do ensino passavam de forma sutil os pensamentos da seita aos leigos. O silêncio era prezado por eles. Sabiam guardá-lo, evitando discussões em público e assuntos sobre religião. A voz, para um essênio, possuía grande poder e não devia ser desperdiçada. Através dela, com diferentes entonações, eram capazes de curar um doente. Cultivavam hábitos saudáveis, zelando pela alimentação, físico e higiene pessoal. A capacidade de predizer o futuro e a leitura do destino através da linguagem dos astros tornou os essênios figuras magnéticas, conhecidas por suas vestes brancas. Eram excelentes médicos também. Em cada parte do mundo onde se estabeleceram, eles receberam nomes diferentes, às vezes por necessidades de se proteger contra as perseguições ou para manter afastados os difamadores. Mestres em saber adaptar seus pensamentos às religiões dos países onde se situavam, agiram misturando muitos aspectos de sua doutrina a outras crenças. O saber mais profundo dos essênios era velado à maioria das pessoas. É sabido também que liam textos e estudavam outras doutrinas. Para ser um essênio, o pretendente era preparado desde a infância na vida comunitária de suas aldeias isoladas. Já adulto, o adepto, após cumprir várias etapas de aprendizado, recebia uma missão definida que ele deveria cumprir até o fim da 12
  • 11. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO vida. Vestidos com roupas brancas, ficaram conhecidos em sua época como aqueles que "são do caminho". Foram fundadores dos abrigos denominados "beth- saida", que tinham como tarefa cuidar de doentes e desabrigados em épocas de epidemia e fome. Os beth-saida anteciparam em séculos os hospitais, instituição que tem seu nome derivado de hospitaleiros, denominação de um ramo essênio voltado para a prestação de socorro às pessoas doentes. Fizeram obras maravilhosas, que refletem até os nossos dias. A notícia que se tem é de que a seita se perdeu, no tempo e memória das pessoas. Não sabemos da existência de essênios nos dias de hoje (não que seja impossível), é no mínimo, pelo lado social, uma pena termos perdido tanto dos seus preceitos mais importantes. Se o que nos restou já significa tanto, imaginem o que mais poderíamos vir a ter aprendido. DESVENDADO OS PERGAMINHOS Escrevendo em 1949 sobre a exploração da gruta, R. de Vaux acreditava que "estes rolos, de idades diferentes, cuidadosamente guardados em vasilhas da mesma época, não são peças abandonadas por acaso, mas um arquivo ou biblioteca escondida em um momento de perigo". E, ao datar a cerâmica e com ela relacionar os manuscritos, acrescenta: "Nenhum documento é posterior aos começos do século I a.C. e alguns deles podem ser mais antigos". Agora é necessário descobrir quem teria depositado os manuscritos na gruta. O estabelecimento humano mais próximo é 13
  • 12. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO representado pelas ruínas de Qumran. R. de Vaux e G. L. Harding fazem assim a primeira expedição de escavações no Khirbet Qumran de 24 de novembro a 12 de dezembro de 1951. Identificam uma construção retangular de 37 metros de comprimento por 30 metros de largura à qual se ligam outros edifícios e um aqueduto que serve para recolher as águas do Wadi Qumran no inverno. A cerâmica encontrada é idêntica à de 1Q: isto relaciona os manuscritos com o grupo que vivia em Qumran. O cemitério, com mais de mil túmulos, rigorosamente organizado, também é investigado e nove esqueletos são enviados a Paris para exames técnicos. Mas as moedas são o achado mais precioso, porque permitem a datação do assentamento humano de Qumran. As dez moedas identificadas inicialmente vão da época de Herodes Magno (37-4 a.C.) à segunda guerra judaica contra Roma (132- 135 d.C.). Entretanto, ainda em 1951, os ta'amireh levam mais fragmentos manuscritos a Jerusalém e os oferecem aos arqueólogos, que os compram. No dia 21 de janeiro de 1952, R. de Vaux e outros arqueólogos seguem até a região do Wadi Murabba'at, situado a 25 km a sudeste de Jerusalém e a cerca de 18 km ao sul de Qumran. Em algumas grutas desta região são encontrados importantes documentos em hebraico, aramaico, grego e latim, relacionados em sua maioria, com a segunda guerra judaica contra Roma (132-135 d.C.) Fica estabelecido que Murabba'at servia de refúgio aos soldados de Simão bar Kosibah, líder do levante, de quem são recuperadas até cartas assinadas. 14
  • 13. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO Enquanto a equipe de R. de Vaux se encontra em Murabba'at, os ta'amireh levam novos manuscritos a Jerusalém, descobertos em outra gruta de Qumran, que será chamada de 2Q. Nela são encontrados 185 fragmentos de pele. Logo em seguida, De Vaux e seu pessoal, em março de 1952, faz um levantamento da falésia, numa extensão de 8 km, explorando 230 grutas. Destas, 37 contêm cerâmica e outros objetos. E a cerâmica é idêntica à das ruínas de Qumran e da primeira gruta. Na terceira gruta de Qumran são encontrados cerca de 35 jarros e fragmentos de mais ou menos 30 rolos de pele extremamente deteriorados. "Mas o seu conteúdo mais curioso era de cobre: na parte anterior da gruta (...) jaziam dois rolos de cobre com um texto gravado em caracteres hebraicos quadrados, alguns deles em relevo". Em setembro de 1952 são descobertas as grutas de número 4, 5 e 6. A gruta 4Q é a mais rica de todas: possui fragmentos de cerca de 400 manuscritos. Na 6Q são encontrados fragmentos do "Documento de Damasco", um manuscrito que fora recuperado em 1897 em uma antiga sinagoga do Cairo e do qual não se sabia quase nada. Na primavera de 1955 são descobertas as grutas 7Q, 8Q, 9Q e 10Q, e em fevereiro de 1956, a última, a 11Q, com quatro rolos em bom estado de conservação. As ruínas de Qumran são escavadas em 6 diferentes expedições que se encerram em 1958. Arqueólogos judeus pesquisam também os wadis da região ocidental do Mar Morto entre Engaddi e Massada e encontram importantes documentos. 15
  • 14. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO No total, cerca de mil documentos são recuperados em 20 grutas no deserto de Judá, entre os anos de 1946 e 1966. Além de centenas de óstracas (cacos de cerâmica com escrita) e inscrições. Em Khirbet Qumran os arqueólogos identificam um conjunto de construções bastante interessante: oficinas, olaria, despensas, refeitório, cisternas, um "scriptorium" etc. Nenhum fragmento de manuscrito é encontrado nas construções, mas apenas alguns óstracas. E a sua grafia é a mesma dos manuscritos encontrados nas grutas. Também são recolhidas cerâmicas, muitas moedas e outros objetos. O curioso é que o edifício não tem dormitórios. Ou se dormia em tendas ou nas grutas das redondezas. O estabelecimento agrícola de Ain Feshka, ao sul de Qumran, também é explorado. Ali os essênios manufaturam a palmeira, juncos, sal, betume e cereais. Estes últimos são cultivados numa planície a oeste de Qumran, a Buqea, que mede cerca de 8x4 km. No total, são recuperados, em 11 grutas de Qumran, 11 manuscritos mais ou menos completos e milhares de fragmentos de mais de 800 manuscritos em pergaminho e papiro. Escritos em hebraico, aramaico e grego, cerca de 225 manuscritos são cópias de livros bíblicos, sendo o restante livros apócrifos, trabalhos exegéticos e escritos da comunidade que vive em Qumran. Todos os manuscritos são anteriores ao ano 68 d.C., quando Qumran é destruído. Os mais antigos são anteriores à instalação da comunidade que vive em Qumran e remontam ao 16
  • 15. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO século III a.C. O mais antigo é o 4QEx, datado em torno de 250 a.C. O teste do Carbono 14 chega à data de 33 a.C. com 200 anos para mais ou para menos. O método do Carbono 14, descoberto em 1947, é aplicado em 1950-51 a um pedaço de linho que envolve os manuscritos. Não é possível aplicá-lo diretamente aos manuscritos porque exige a destruição de 1 a três gramas de material. Mais recentemente, em 1990, 14 manuscritos são submetidos ao teste AMS (Accelerator Mass Spectrometry), ou Espectrometria com Acelerador de Massa, técnica de datação descoberta em 1987. O material orgânico necessário para o AMS é de apenas 0,5 a 1,0 miligrama. Dos 14 manuscritos testados, 4 não são de Qumran e estão datados com segurança através de outros métodos: isto é necessário para se checar a veracidade dos resultados. E os resultados confirmam, com certa segurança, a datação feita através de outros métodos como a paleografia. Com certeza nenhum dos manuscritos de Qumran foi copiado após 68 d.C. Manuscritos Bíblicos: São recuperados manuscritos e fragmentos de quase todos os livros bíblicos judaicos, pois só falta Ester. O Pentateuco está muito bem representado em Qumran, pois há 15 manuscritos fragmentados do Gênesis, 15 do Êxodo, 9 do Levítico, 6 de Números e 25 do Deuteronômio. São 70 manuscritos. Estes manuscritos ligam-se a três tradições textuais: 17
  • 16. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO a) à do texto massorético (TM); b) à do original hebraico a partir do qual é traduzida a LXX ; c) à do Pentateuco samaritano. A parte da Bíblia que hoje conhecemos como Obra Histórica Deuteronomista (OHDtr.), composta pelos livros de Josué, Juízes, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis está pouco presente em Qumran, num total de apenas 12 manuscritos. Os arqueólogos recuperam apenas fragmentos de 2 manuscritos de Josué, 3 de Juízes, 3 de Samuel e 4 de Reis. O grande interesse desses manuscritos para os estudiosos é que eles estão bem mais próximos do texto hebraico usado para a tradução da LXX do que do texto massorético. Dos profetas são encontrados 18 manuscritos: 2 de Isaías - um quase completo (1QIsa ) e outro com uma parte apenas (1QIsb ) - 4 de Jeremias, 6 de Ezequiel e 8 dos doze profetas menores. Os textos de Isaías são próximos ao TM, assim como os de Ezequiel e dos profetas menores, mas um manuscrito de Jeremias, 1QJrb , traz o mesmo texto da LXX. E isso é importante, pois o Jeremias da LXX é bem mais curto do que o do TM. Este é resultado de uma ampliação posterior, enquanto o que serve de base para a LXX é mais sóbrio. 1QIsa é um rolo quase completo de Isaías, datando da primeira metade do séc. I a.C. 1QIsb está mal conservado e contém apenas Is 38-66 e trechos de outros capítulos. É da última metade do séc. I a.C. 18
  • 17. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO Quanto à última parte da Bíblia Hebraica, os Escritos, são recuperados em Qumran restos de cerca de 66 manuscritos. Os Salmos estão bem representados com 30 manuscritos, Daniel está em 8 e assim por diante. Na gruta 4 são recuperados fragmentos do original aramaico de Tobias, até então perdido, e textos muito próximos à época de composição dos originais como 4QEcla e 4QDn, respectivamente, cerca de cem e cinqüenta anos após a escrita dos livros do Eclesiastes e de Daniel. Ester não é encontrado. Como esse livro é muito bem aceito pelos Macabeus, isto deve ter provocado sua rejeição pela comunidade de Qumran, inimiga daqueles governantes. No conjunto, são cerca de 225 manuscritos ou fragmentos de livros bíblicos. Sua importância para a história do texto do AT é grande, já que testemunham as várias tradições existentes antes da unificação feita pelos rabinos de Jâmnia nos anos 90 da era cristã. Livros Apócrifos: Outra área bastante interessante dos manuscritos de Qumran é a dos livros apócrifos. Na gruta 1 são encontradas 22 colunas de um Gênesis Apócrifo (1QapGn), em aramaico, que narra a história de Gn 5,28-15,4, isto é, de Lamec a Abraão, com embelezamentos midrashicos. Pode ser datado entre o II e o I séculos a.C. Vários fragmentos da gruta 1 testemunham a existência de um Livro de Noé. Na gruta 4 há fragmentos de 5 manuscritos de um Testamento de Amram (Amram é neto de Levi, segundo a Bíblia), sete fragmentos de um Samuel Apócrifo (4Q160) etc. 19
  • 18. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO COMENTÁRIOS BÍBLICOS: Os comentários bíblicos de Qumran são do gênero pesher, palavra hebraica que quer dizer "explicação", “significado". O método pesher consiste em comentar o texto bíblico versículo por versículo, procurando aplicá-lo às circunstâncias vividas pela comunidade, como se os textos bíblicos, especialmente os proféticos, estivessem falando diretamente da realidade atual. Os livros resultantes são conhecidos como pesharim, "comentários". Após citar um versículo ou mesmo trechos menores, o comentarista diz: "A explicação (pesher) disto diz respeito a...". Estes livros são classificados como 1QpHab, 1QpMq, 4QpOs etc, respectivamente, Comentário (pesher) de Habacuc, Comentário de Miquéias, Comentário de Oséias e assim por diante. Estão identificados cerca de uma dúzia destes comentários entre os manuscritos de Qumran. Os pesharim, além de exemplificarem um método exegético só usado pela comunidade de Qumran e pelos cristãos, são importantes igualmente como testemunhos históricos da organização e vicissitudes da comunidade. O pesher mais importante de Qumran é o 1QpHab, Comentário de Habacuc, escrito provavelmente no começo do séc. I a.C., por suas constantes referências à história da comunidade. Outro tipo de trabalho exegético encontrado em Qumran é o targum. Targum significa "tradução" e indica as traduções aramaicas dos livros bíblicos (targumim) que se fazem nas 20
  • 19. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO sinagogas da época. Só que o targum não é uma tradução literal, mas uma paráfrase explicativa e atualizada do texto hebraico. É ótimo para se saber como os judeus interpretam o texto bíblico. Na gruta número 11 de Qumran os arqueólogos encontram vários fragmentos de origem targúmica, entre eles um Targum de Jó. É o mais antigo dos targumim conhecidos, sendo do final do séc. II a.C. Outro tipo de exegese é o que os editores dos manuscritos chamam de Florilégio: consiste em agrupar vários trechos bíblicos, que possuam alguma homogeneidade, para que eles se completem e sejam explicados. O fragmento 4Q174, por exemplo, reúne trechos de 2Sm 7 com Sl 1 e 2 que são interpretados, em seguida, segundo o padrão do pesher. Regras da comunidade: De extrema importância são os livros que trazem as normas de constituição e atividades da comunidade de Qumran. A Regra da Comunidade ou Manual de Disciplina, em hebraico, Serek hayahad (1QS), é o principal livro da comunidade de Qumran. É o manuscrito que contém as normas que governam a comunidade. Provavelmente seu autor é o próprio fundador da comunidade, conhecido nos textos como o Mestre da Justiça. Sua composição pode ser situada entre 150 e 125 a.C., enquanto que o manuscrito completo é dos anos 100- 75 a.C. Além da cópia completa encontrada em 1Q, fragmentos de outras 11 cópias estão entre os textos de 4Q e 5Q. 21
  • 20. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO A Regra pode ser dividida em três seções: 1. Normas para o ingresso na Comunidade (I-IV); 2. Estatutos referentes ao Conselho da Comunidade (V- IX); 3. Diretrizes para o Mestre e o Hino do Mestre (IX-XI). A Regra da Congregação, em hebraico,Serek ha'edat (1QSa), e a Coleção de Bênçãos (1QSb) são dois anexos à Regra da Comunidade. A primeira é da metade do séc. I a.C. e a segunda pode ser datada por volta de 100 a.C. A Regra da Congregação é um escrito de tipo escatológico que descreve a vida e o banquete da comunidade no fim dos tempos. A Coleção de Bênçãos é uma antologia de fórmulas para abençoar os membros da comunidade. Os Cânticos de Louvor, em hebraico, Hôdayôt (1QH), são cânticos de ação de graças ou hinos de louvor, parecidos com o "Magnificat" e o "Benedictus" de Lucas. Inspiram-se principalmente nos Salmos e em Isaías. Devem ter sido compostos entre 150 e 125 a.C., e, pelo menos em parte, pelo Mestre da Justiça. O manuscrito de 1Q provém dos anos 1 a 50 d.C. Em 4Q são encontrados fragmentos de mais 6 cópias. A Regra da Guerra, em hebraico, Serek hamilhamah, também conhecida como "A guerra dos filhos da luz contra os filhos das trevas", "compreende uma espécie de compêndio da ciência bélica e das celebrações cultuais que deveriam ser observadas por ocasião de uma guerra com vistas à luta final que precederia a era da salvação". Os filhos da luz contam com a ajuda dos anjos Miguel, Rafael e Sariel, enquanto que os filhos 22
  • 21. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO das trevas contam com Belial. A vitória, é claro, é dos filhos da luz. O original é composto entre os anos 50 a.C. e 25 d.C., enquanto que o manuscrito encontrado em 1Q é do séc. I d.C. Em 4Q são encontrados fragmentos de mais cinco cópias deste livro. O Documento de Damasco (CD) é uma obra conhecida desde 1896-97, quando dois manuscritos são encontrados num depósito de rolos velhos (genizá) de uma antiga sinagoga do Cairo. Um dos manuscritos é do século X d.C. e o outro do séc. XII d.C. Publicados em 1910, continuam, então, um enigma: não se sabe a que grupo judeu o texto se refere e que certamente compôs a obra. Os estudiosos sugerem os saduceus, os fariseus, os ebionitas, os caraítas... e apenas um diz que é dos essênios! Agora, acontece que fragmentos de nove cópias do Documento de Damasco são encontrados nas grutas de Qumran (7 fragmentos em 4Q, 1 em 5Q, 1 em 6Q): sem dúvida é uma obra criada na comunidade essênia. Muitos especialistas defendem que "Damasco" deve ser entendido em sentido literal e que representaria uma primeira fase da comunidade, anterior ao seu estabelecimento em Qumran. Outros pensam que "Damasco" seja apenas um modo velado de se falar de Qumran, a partir de Am 5,26-27. E o Documento pode ser também a regra de outra ala da organização, que viveria fora de Qumran. A obra compõe-se de uma exortação e de uma lista de estatutos. Na exortação o pregador (talvez uma autoridade da comunidade) tem por objetivo "encorajar os sectários a 23
  • 22. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO permanecerem fiéis e, com este fim em vista, ele se empenha em demonstrar, por meio da história de Israel e da comunidade, que a fidelidade é sempre recompensada e a apostasia castigada". Os estatutos reinterpretam as leis bíblicas relativas a votos e juramentos, tribunais, purificação, sábado, pureza ritual etc. Trazem também os estatutos da comunidade. O Documento de Damasco deve ter sido escrito por volta de 100 a.C. Consulte o conceituado The Orion Center sobre a pesquisa dos Manuscritos. O Rolo do Templo, encontrado na gruta 11, (11QT), só aparece em junho de 1967, durante a "Guerra dos Seis Dias", quando o Estado de Israel o retira das mãos de um antiquário da parte árabe de Jerusalém, a quem os ta'amireh o vendera. É o maior dos manuscritos de Qumran, com mais de oito metros e meio de comprimento e 66 colunas. Trata do Templo e do culto, e embora se trate de uma reinterpretação da legislação bíblica do Êxodo, Levítico e Deuteronômio, o autor apresenta sua mensagem como fruto de revelação divina direta. O Rolo do Templo é do séc. II a.C. São encontrados fragmentos deste livro nas grutas 4Q e 11Q. O rolo de cobre: Desde o início da década de 90, cerca de cem estudiosos de todo o mundo participaram das pesquisas, sob a supervisão do Departamento de Antiguidades de Israel. O resultado deste trabalho que envolveu cerca de 900 pergaminhos está sendo apresentado em 38 volumes, dois dos quais em fase final de preparação. Entre os documentos 24
  • 23. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO publicados está o conteúdo do Rolo de Cobre, com a suposta localização de tesouros do Templo. Os Manuscritos foram encontrados entre 1947 e 1956 nas grutas de Qumran, região localizada ao sul da cidade de Jericó, na margem ocidental do Mar Morto. Segundo os estudos realizados, alguns são datados de aproximadamente 250 antes da era comum e outros do ano 70 da era comum. A maioria dos textos foi escrita em hebraico e sobre pergaminhos, porém há alguns em aramaico ou grego, em papiro. Entre as principais dificuldades encontradas pelos pesquisadores, está o fato de terem sido encontrados fragmentos, principalmente, e não rolos completos. Os primeiros sete rolos foram descobertos ao acaso por um beduíno, em 1947. Três desses foram comprados pelo arqueólogo E.L. Sukenik e quatro contrabandeados para os Estados Unidos. Foi somente em 1954 que o arqueólogo e filho de Sukenik, Yigal Yadin, conseguiu que estes últimos fossem encaminhados a Israel. Para marcar o fato, foi construído o Santuário do Livro, um anexo do Museu de Israel, em Jerusalém, local que abriga a maioria dos fragmentos e no qual há uma exposição permanente dos Manuscritos do Mar Morto. Entre os 900 pergaminhos reconstituídos pelos pesquisadores, cerca de 200 contêm o mais primitivo original bíblico conhecido, enquanto os demais incluem orações, rituais e regras provavelmente dos essênios, uma comunidade judaica isolada e austera que viveu em Qumran. 25
  • 24. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO Um rolo, em especial, chamou a atenção dos pesquisadores: Diferentemente dos demais, que narram estilo de vida, hábitos e costumes dos essênios, este, além de conter textos literários, traz a suposta localização de tesouros enterrados há séculos. Para alguns especuladores, seriam tesouros do Segundo Templo, escondidos antes da sua destruição, no ano 70 da era comum. Para outros, seria o patrimônio acumulado pelos essênios, comunidade que fizera um voto de pobreza. De qualquer maneira, independentemente das teorias, segundo o conteúdo do Rolo de Cobre, foram escondidas mais de 200 toneladas de ouro e prata, que estariam à disposição de quem conseguir encontrá-las. Pois, como disse um arqueólogo israelense, ao se decifrar o Rolo de Cobre, o mesmo se tornou acessível a qualquer criança que saiba ler. O Rolo de Cobre foi restaurado no Laboratório Valectra, unidade nuclear de Pesquisa e Desenvolvimento da estatal Electricité de France. Foi descoberto em 20 de março de 1952, em duas partes, na caverna de número três, próximo a Qumram, por Henri de Contenson, da Escola Dominicana de Arqueologia Bíblica de Jerusalém (EBAJ). A presença de rebites nas duas partes encontradas comprovou a teoria de que compunham um único documento, com 240 centímetros de largura e 30 de altura. Decifrá-lo, no entanto, revelou-se difícil por causa da oxidação do metal, que impossibilitou desenrolá-lo. 26
  • 25. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO Em 1955, diante da falta de recursos, na Jordânia, para dar continuidade às pesquisas, o Rolo de Cobre foi enviado à Universidade de Manchester, Inglaterra, aos cuidados do professor H. Wright-Baker. A metodologia adotada implicou no corte do objeto em 23 peças, para limpeza, fotografias e decifração. A divulgação do conteúdo do Rolo de Cobre foi feita em etapas, a partir de 1956, pelo padre Joseph T. Milk, da EBAJ, responsável pela versão completa do texto, de 1962, com uma lista de 64 locais onde teriam sido escondidos os tesouros. Nada no conteúdo decifrado, no entanto, responde a duas perguntas cruciais: de onde vieram os tesouros e qual a sua origem? Não existe consenso nas respostas. Durante um simpósio internacional realizado em setembro de 1996, no Instituto de Ciência e Tecnologia da Universidade de Manchester, uma pesquisa informal revelou que a maioria dos 50 participantes acreditava no conteúdo do Rolo de Cobre, divergindo, no entanto, sobre a quem teriam pertencido: ao Segundo Templo ou aos essênios. O Rolo de Cobre (3Q15) - que tem de ser cortado para ser aberto, de tão oxidado que estava - fala de um tesouro escondido em 64 lugares diferentes da Palestina, em ouro, prata, perfumes etc. O montante alcançaria a fabulosa quantia de 65 toneladas de prata e 26 toneladas de ouro. Seria um tesouro de fato ou só uma ficção? Até hoje nada foi achado deste pretenso tesouro. Os estudiosos se dividem na suas opiniões: seria um tesouro da comunidade de 27
  • 26. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO Qumran? Ou pertenceria ao Templo de Jerusalém? Neste último caso, quando e porquê o documento vai parar em Qumran?. A leitura, tradução e publicação dos manuscritos mais ou menos completos não é um grande problema para os especialistas. Mesmo os fragmentos das grutas menores são publicados até os anos 70. O problema está nos milhares de fragmentos de mais de 500 manuscritos da gruta 4. A maioria está muito deteriorada: corroídos, curvados, enrugados, retorcidos, cobertos por mofo e elementos químicos. Para trabalhar nestes fragmentos é constituída em 1952 uma equipe internacional no Museu Arqueológico da Palestina, em Jerusalém Oriental, pertencente à Jordânia. O chefe da equipe é o dominicano R. de Vaux. Com ele trabalham Frank Moore Cross, americano, presbiteriano; J. T. Milik, polonês, católico; John Allegro, inglês, agnóstico; Jean Starcky, francês, católico; Patrick Skehan, americano, católico; John Strugnell, inglês, presbiteriano; Claus-Hunno Hunziger, alemão, luterano. Predominam especialistas de Harvard (USA), École Biblique (Jerusalém) e Oxford (Inglaterra). "Ficou aparentemente entendido que esses pesquisadores possuíam o direito oficial de publicar os textos de seus respectivos quinhões. Na lista, era óbvia, e foi nitidamente percebida, a ausência do nome de qualquer pesquisador judeu. O governo jordaniano insistiu em que nenhum judeu fosse incluído na equipe". Os trabalhos avançam em bom ritmo, já que são financiados por J. D. Rockfeller Jr., magnata americano. Mas, 28
  • 27. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO dois fatos intervêm: morre Rockfeller e Israel, na Guerra dos Seis Dias, em 1967, anexa Jerusalém Oriental e toma o Museu Arqueológico da Palestina onde estão os manuscritos da gruta 4. O projeto de publicação perde o compasso. Com a morte de R. de Vaux em setembro de 1971, a função de editor-geral passa para seu colega dominicano Pierre Benoit, que por sua vez, ao morrer em 1987, passa o cargo para John Strugnell. Durante todos estes anos, a equipe continua pequena. Quando um pesquisador morre ou se retira, é substituído por outro e pronto. Strugnell, porém, lutará por duas coisas: pela expansão do pequeno grupo original encarregado dos manuscritos e pela inclusão neste equipe de pesquisadores judeus. Entretanto, cresce no meio acadêmico mundial a insatisfação com a demora na publicação dos documentos. Alguns nomes se destacam neste protesto: Robert Eisenman, da Universidade do Estado da Califórnia e Philip Davies da Sheffield University, Inglaterra. Eles tentam o acesso aos manuscritos, mas são barrados por J. Strugnell. É então que entra em cena Hershel Shanks, fundador da Biblical Archaeology Society. Através da Biblical Archaeology Review, ele inicia, a partir de 1985, poderosa campanha em favor do livre acesso dos pesquisadores aos manuscritos ainda não publicados. Após polêmica entrevista aos jornais, em dezembro de 1990, John Strugnell é demitido do cargo pela Israel Antiquities Authority (IAA), que indica Emanuel Tov como editor-chefe e amplia a equipe para cerca de 50 pesquisadores. 29
  • 28. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO Contudo, dois novos fatos mudam o rumo das coisas. Em setembro de 1991 Ben Zion Wacholder e Martin Abegg do Hebrew Union College, em Cincinati, publicam A Preliminary Edition of the Unpublished Dead Sea Scrolls. Baseados no glossário elaborado pelos pesquisadores oficiais, e utilizando um computador, os dois estudiosos reconstroem textos inteiros da gruta 4. No mesmo mês, a Biblioteca Huntigton, de San Marino, Califórnia, que possui as fotos de todos os manuscritos, coloca a coleção à disposição dos estudiosos. Em novembro de 1991 a Biblical Archaeology Society publica a Edição Fac-símile dos Manuscritos do Mar Morto, com cerca de 1800 fotografias dos manuscritos. Neste meio tempo a IAA autoriza aos fotógrafos o acesso aos manuscritos. Estas fotografias estão disponíveis em 5 lugares: Jerusalém, Claremont e San Marino (as duas últimas na Califórnia), Cincinati e Oxford. E, finalmente, em 1993, sob os auspícios da IAA, sai a edição completa em microfilmes de todos os manuscritos do Mar Morto: The Dead Sea Scrolls on Microfiche. A Comprehensive Facsimile Edition of the Texts from the Judaean Desert, edited by Emanuel Tov with the collaboration of Stephen J. Pfann, E. J. Brill-IDC, Leiden 1993. No Brasil temos a importante obra de Florentino García Martínez, Textos de Qumran, Petrópolis, Vozes, 1995, 582 pp. É uma acurada tradução dos 250 textos mais importantes de Qumran. A tradução do espanhol para o português é do exegeta Valmor da Silva. É preciso assinalar que em nenhum dos manuscritos até agora publicados aparece a palavra "essênio". Este termo vem, 30
  • 29. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO provavelmente, do hebraico hassidim (os piedosos), em aramaico hassayya, em grego essaioi ou essênoi, daí "essênios". Embora a quase totalidade dos estudiosos identifique a comunidade de Qumran com os essênios, são, às vezes, sugeridas outras possibilidades. Há a hipótese caraíta, judeu- cristã, zelota, saducéia e farisaica. O grupo caraíta é fundado em Bagdá no séc. VIII d.C. pelo rabino Anan ben Davi, que proclama uma volta à Escritura. O termo vem de caraim, "leitores (da Escritura)", pois em hebraico qara é "ler". "Etimologicamente, os caraítas são, pois, os 'biblistas' ou 'especialistas da Escritura'; isso eles o seriam também historicamente". Graças à afinidade existente entre a teologia da comunidade de Qumran e os caraítas é que se levanta a hipótese caraíta. Mas é uma idéia sem fundamento histórico algum. Assim como os cristãos primitivos, a comunidade de Qumran se autodenomina, às vezes, os "pobres" (ebionim). Daí alguns acharem que ali vivem os ebionitas, seita judaico-cristã. Só que os dados da arqueologia e da paleografia contradizem tal hipótese. Em Massada os arqueólogos descobrem uma cópia de uma obra de Qumran, o que levanta a possibilidade, segundo alguns, de serem zelotas os habitantes de Qumran. Entretanto, é bem mais viável pensar que alguns essênios tenham se reunido aos zelotas que resistem aos romanos em Massada até 73 d.C. Daí a obra ter ido parar lá. 31
  • 30. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO A hipótese saducéia quase não encontra apoio, pois em relação à helenização saduceus e qumranitas estão em posições opostas. Sem mencionar as profundas divergências teológicas. Por último, a hipótese farisaica é colocada a partir das muitas semelhanças da comunidade de Qumran com o grupo dos fariseus. Mas isto se explica pela provável entrada maciça de fariseus na comunidade por ocasião das perseguições de João Hircano I. O testemunho dos autores antigos: O testemunho dos autores antigos sobre os essênios é importante para a identificação da comunidade de Qumran. Localização geográfica, valores, modo de vida etc dos essênios são descritos pelos judeus Flávio Josefo e Fílon de Alexandria e pelos romanos Plínio, o Velho, e Solino. É Flávio Josefo quem nos diz que: "Existem, com efeito, entre os judeus, três escolas filosóficas: os adeptos da primeira são os fariseus; os da segunda, os saduceus; os da terceira, que apreciam justamente praticar uma vida venerável, são denominados essênios: são judeus pela raça, mas, além disso, estão unidos entre si por uma afeição mútua maior que a dos outros". Na mesma direção vai Fílon de Alexandria, que diz: 32
  • 31. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO "A Síria Palestina, que ocupa uma parte importante da populosa nação dos judeus, não é, também ela, estéril em virtude. Alguns deles, que somam mais de quatro mil, são denominados essênios". Plínio, o Velho nos oferece precioso dado para a localização dos essênios em Qumran: "Na parte ocidental do mar Morto os essênios se afastam das margens por toda a extensão em que estas são perigosas. Trata-se de um povo único em seu gênero e admirável no mundo inteiro, mais que qualquer outro: sem nenhuma mulher e tendo renunciado inteiramente ao amor; sem dinheiro e tendo por única companhia as palmeiras. Dia após dia esse povo renasce em igual número, graças à grande quantidade dos que chegam; com efeito, afluem aqui em grande número aqueles que a vida leva, cansados das oscilações da sorte, a adotar seus costumes (...) Abaixo desses ficava a cidade de Engaddi, cuja importância só era inferior à de Jericó por sua fertilidade e seus palmeirais, mas que se tornou hoje um montão de ruínas. Depois vem a fortaleza de Massada, situada num rochedo, não muito distante do mar Morto". A. G. Lamadrid observa que "a descrição de Plínio corresponde perfeitamente às ruínas de Qumran, que se encontram a uns dois quilômetros a ocidente do mar Morto e também alguns quilômetros ao norte da antiga cidade de Engaddi". Solino, do séc. III d.C., que tira parte de seu material de Plínio, diz o seguinte: "O interior da Judéia que se estende para o ocidente é ocupado pelos essênios. Estes, seguidores de rígida disciplina, se separaram dos costumes de todos as outras nações, tendo sido destinados a este modo de vida pela divina providência. Nenhuma mulher se encontra entre eles 33
  • 32. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO e eles renunciaram ao sexo completamente. Eles desconhecem o dinheiro e vivem entre palmeiras. Ninguém nasce entre eles, entretanto seu número não diminui. O local é destinado à castidade. Ali reúnem-se pessoas de várias nações; entretanto, ninguém que não tenha uma reputação de castidade e inocência é ali admitido. Aquele que cometer a menor falta, embora faça o maior esforço para ser admitido, é mantido afastado por ordem divina. Assim, ao longo de tantas eras (é difícil de se crer), uma raça onde não há nascimentos vive para sempre. Logo abaixo dos essênios existia a cidade de Engaddi, mas ela foi arrasada". Tanto Flávio Josefo quanto Fílon de Alexandria noticiam a opção celibatária e a vida comunitária dos essênios, o que os manuscritos de Qumran confirmam - pelo menos para uma parte da organização - como veremos adiante: "Os essênios repudiam os prazeres como um mal e consideram como virtude a continência e a resistência às paixões. Eles desprezam, para si mesmos, o casamento; mas adotam os filhos dos outros numa idade ainda bastante tenra para receberem seus ensinamentos: eles os consideram como se fossem de sua família e os moldam de acordo com os seus costumes". Fílon diz que na comunidade dos essênios "existem apenas homens de idade madura e inclinados já para a velhice, que não são mais dominados pelo fluxo do corpo nem arrastados pelas paixões, mas que gozam da liberdade verdadeira e realmente única". Fílon acredita que os essênios não se casam porque isto ameaçaria a sua vida comunitária, dado, segundo sua opinião, o caráter de semeadora de discórdias que predomina nas mulheres: "Por outro lado, prevendo com perspicácia o obstáculo 34
  • 33. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO que ameaçaria, seja por si só, seja de modo mais grave, dissolver os laços da vida comunitária, eles baniram o casamento, ao mesmo tempo em que prescreveram a prática de uma perfeita continência". Sobre a vida comunitária dos essênios diz Flávio Josefo que os seus bens são igualmente divididos, evitando que haja pobres e ricos, o que é confirmado pelos documentos da comunidade: "Com efeito, trata-se de uma lei: aqueles que entram para o grupo entregam seus bens à comunidade, de tal forma que entre eles não se vê absolutamente nem a humilhação da pobreza nem o orgulho da riqueza, já que as posses se encontram reunidas, não existindo para todos senão um único haver, como ocorre entre irmãos". Há ainda muitos outros testemunhos interessantes sobre os essênios, especialmente de Flávio Josefo, que veremos oportunamente. Se a comunidade que vive em Qumran é composta pelos essênios, é possível reconstruir a sua história, que se situa entre os séculos II a.C. e I d.C. Além dos testemunhos antigos contamos com os manuscritos da comunidade e os resultados das escavações de Khirbet Qumran. Tudo indica que quando o macabeu Jônatas assume o sumo sacerdócio em Jerusalém começa a crise. Como sabemos, os assideus lutam lado a lado com os Macabeus contra a aristocracia filo-helênica, a partir de 167 a.C. Mas quando estes, que não são sadoquitas, se apossam do sumo sacerdócio, um sacerdote sadoquita do Templo, conhecido nos manuscritos apenas como Mestre da Justiça 35
  • 34. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO (Môreh hasedeq) rompe com os Macabeus e lidera um grupo de sacerdotes e assideus que se afasta de Jerusalém. O Documento de Damasco comenta esta aliança e conseqüente ruptura: "E no tempo da ira, aos trezentos e noventa anos após tê-los entregue nas mãos de Nabucodonosor, rei da Babilônia, visitou-os e fez brotar de Israel e de Aarão um broto da plantação para possuir a sua terra e para engordar com os bens de seu solo. E eles compreenderam sua iniqüidade e souberam que eram homens culpáveis; porém eram como cegos e como quem às apalpadelas busca o caminho durante vinte anos. E Deus considerou suas obras porque o buscavam com coração perfeito, e suscitou para eles um Mestre de Justiça para guiá-los no caminho de seu coração" (CD I, 5-11). Trezentos e noventa anos após a destruição de Jerusalém por Nabucodonosor ocorrida em 586 a.C., nos colocaria no ano 196 a.C. e não combina com a época dos Macabeus, quando teria surgido o grupo essênio. Mas somando- se aos 390 anos mais 20 anos, durante os quais a comunidade anda às cegas, depois mais 40 anos, que representam o tempo simbólico entre a morte do Mestre da Justiça e a chegada da era messiânica, chega-se a 450 anos. Some-se a isto os simbólicos 40 anos de atividade do Mestre e temos 490 anos ou 70 x 7 anos que, segundo o livro de Daniel, representam o tempo decorrido entre a intervenção destruidora de Nabucodonosor e o advento salvador do Messias. Ou seja: 390 anos (ou 490) é uma quantia simbólica, uma afirmação teológica apenas e não serve para datar coisa alguma. 36
  • 35. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO Mas há outros dados neste texto que nos oferecem algum ponto de apoio histórico. O "tempo da ira" só pode ser a crise da época de Antíoco IV Epífanes. A "raiz que brota de Israel e Aarão" é uma referência aos leigos e sacerdotes que compõem a comunidade essênia, e os "vinte anos" nos quais se comportam como cegos pode ser uma avaliação do período de aliança dos assideus com os Macabeus, anteriores ao surgimento do Mestre da Justiça. De uma passagem da Regra da Comunidade se deduz que os líderes deste grupo são sacerdotes sadoquitas: "Esta é a regra para os homens da comunidade que se oferecem voluntariamente para converter-se de todo mal e para manter-se firmes em tudo o que ordena segundo a sua vontade. Que se separem a congregação dos homens da iniqüidade para formar uma comunidade na lei e nos bens, e submetendo-se à autoridade dos filhos de Sadoc, os sacerdotes que guardam a aliança, e à autoridade da multidão dos homens da comunidade, os que se mantêm firmes na aliança" (1QS V, 1-3). Também os fragmentos de uma antologia de bênçãos (1QSb), originalmente anexadas à Regra da Comunidade, falam da liderança dos sacerdotes sadoquitas entre os essênios: "Palavras de Bênção. Do Instrutor. Para abençoar] os filhos de Sadoc, os sacerdotes que Deus escolheu para si para reforçar sua aliança para [sempre, para distribuir todos os seus juízos em meio ao seu povo, para instruí-los conforme o seu mandato. Eles estabeleceram na verdade [sua aliança] e inspecionaram na justiça todos os seus preceitos, e andaram de acordo com o que ele escolhe" (11QSbIII, 22-25). 37
  • 36. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO Além do Documento de Damasco, alguns comentários bíblicos de Qumran falam do Mestre da Justiça. O enquadramento histórico do Mestre da Justiça é importante para se reconstruir a história da comunidade, pois ele é apresentado como a figura mais importante entre os essênios e quase certamente é o seu fundador. Explicando o Sl 37,23-24 diz um escrito de Qumran: "Pois por YHWH são assegurados [os passos do homem;] ele se deleita em seu caminho: embora tropece [não] cairá, pois YHWH [sustenta sua mão]. Sua interpretação se refere ao Sacerdote, o Mestre de [Justiça, a quem] Deus escolheu para estar [diante dele, pois] o estabeleceu para construir por ele a congregação [de seus eleitos] [e endireitou o seu caminho, em verdade" (4QpSlaIII, 14-17). No Comentário de Habacuc se lê interessante aplicação de Hab 1,13b: "Por que contemplais, traidores, e guardais silêncio quando devora um ímpio alguém mais justo que ele? Sua interpretação se refere à Casa de Absalão e aos membros de seu conselho, que se calaram quando da repreensão do Mestre de Justiça e não o ajudaram contra o Homem de Mentira, que rejeitou a Lei em meio a toda a sua comunidade]" (1QpHab V,8-12). Ainda no mesmo Comentário de Habacuc aparecem outros dados interessantes na explicação de Hab 2,8b: "Pelo sangue humano [derramado] e a violência feita ao país, à cidade e a todos os seus habitantes. Sua interpretação se refere ao Sacerdote Ímpio, posto que pela iniqüidade contra o Mestre de Justiça e os membros de seu conselho o entregou Deus nas 38
  • 37. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO mãos de seus inimigos para humilhá-lo com um castigo, para aniquilá-lo com a amargura da alma por ter agido impiamente contra os seus eleitos" (1QpHab IX, 8-12). A comunidade Q: Segundo Burton L. Mack, os escritos da comunidade "Q" são os primeiros registros que temos dos movimentos primitivos de Jesus, e é um texto verdadeiramente precioso. Eles documentam a história de um grupo específico do movimento primitivo de Jesus, por um período de cerca de 50 anos, desde a época em que Jesus tinha 20 anos até após a guerra Romano- Judaica nos anos 70. O notável sobre este grupo é que ele se desenvolveu dentro de uma comunidade, firmemente, interligada e produziu uma vasta e grandiosa mitologia, simplesmente atribuindo, mais e mais ensinamentos a Jesus. Eles não precisaram imaginar Jesus no papel de um Deus ou contar estórias sobre sua ressurreição dos mortos para honrá-lo como um mestre. Em outras palavras eles não eram cristãos, eram na verdade, um grupo de Jesus. As camadas primitivas dos ensinamentos de Jesus em Q são as menos interpoladas de todas as suas citações em documentos existentes. Isto pode nos significar, que Q nos coloca mais próximos do Jesus Histórico do que jamais poderemos estar. Portanto, é enorme a importância de Q. Os desafios sobre a concepção popular das origens Cristãs é claro. Se a visão convencional dos primórdios do Cristianismo está certa, como podemos explicar esses pioneiros de Jesus. Será que não entenderam a mensagem? Eram ignorantes do evangelho da 39
  • 38. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO salvação ou os repudiavam? Se, entretanto, os primeiros seguidores de Jesus entendiam o propósito do movimento, da maneira descrita em Q, como explicaremos a aparição dos cultos de Cristo, as fantásticas mitologias dos evangelhos narrativos e o eventual estabelecimento do culto e da religião Cristã? Q nos força a repensar as origens do Cristianismo como nenhum outro documento dos primeiros tempos. Após a descoberta de Q, os evangelhos narrativos não podem mais serem vistos como relatos dignos de confiança sobre os eventos históricos que culminaram com o estabelecimento da fé Cristã. Temos agora que considerar os evangelhos como resultados da elaboração do primitivo mito Cristão. Como já dissemos, Q força essa questão, porque não concorda com os relatos dos evangelhos narrativos. Q é oriundo da palavra alemã Quelle, que significa "fonte". O texto obteve este nome quando historiadores descobriram que tanto Mateus como Lucas usaram uma coleção de citações de Jesus como uma de suas "fontes" para seus evangelhos, sendo a outra fonte o evangelho de Marcos. Os estudiosos sabiam a mais de 150 anos que alguma coisa como Q tinha que ter existido, mas apenas recentemente tiveram a certeza. Apesar de tudo, todos sabíamos qual o o conteúdo do documento porque os seus ensinamentos estavam lá, nos evangelhos de Mateus e Lucas. Uma vez que não tínhamos um manuscrito Q independente que teria sido perdido na balbúrdia do início do segundo século, um conhecimento profundo de Mateus e Lucas seria necessário caso quiséssemos reconstruir o texto original 40
  • 39. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO que eles tinham em comum. Foi uma surpresa, quando alguns especialistas curiosos, começaram a reconstruir um texto unificado e olharam Q como uma peça de literatura independente, uma peça de literatura que tinha conduzido um movimento de Jesus por meio século, antes de Mateus e Lucas sequer pensarem em mesclá-lo com a estória de Marcos sobre Jesus. Um mundo Cristão, inteiramente, diferente veio à tona. Uma vez que o texto de Q não é encontrado separadamente, em nenhuma cópia do Novo Testamento, teremos que nos referir aos seu conteúdo citando o capítulo e versículo no evangelho de Lucas. A preferência de Lucas sobre Mateus é devida ao fato de que Lucas não alterou a seqüência e terminologia das citações tanto quanto Mateus alterou (assim Q 11:1-4 = Lucas 11:1-4). No artigo FAQ do Problema Sinótico você poderá encontrar alguns subsídios para entender as hipóteses da construção dos evangelhos sinóticos. Q coloca os primeiros povos de Jesus no foco, e o quadro é tão diferente daquele que todos sempre imaginaram que se torna surpreendente. Ao invés de pessoas se reunindo para adorar um Cristo, como nas congregações Paulinas, ou preocupando-se com o que significa ser um seguidor de um mártir, como nas Comunidades de Marcos, o povo de Q estava, completamente dedicado às questões presentes sobre o Reino de Deus e com o comportamento necessário para alguém abraçá-lo seriamente. Estudos recentes identificaram três camadas de material de instrução em Q. Cada uma dessas camadas corresponde a 41
  • 40. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO um estágio na história da comunidade Q. Isto permite rastrear a história dos primeiros movimentos de Jesus acompanhando as mudanças nas referências a respeito da idéias do Reino de Deus. Nenhum outro texto ou conjunto de textos do primeiro século nos preenche com as histórias inteiras de uma comunidade "Cristã" primitiva. Os estudiosos agora se referem a essas camadas como Q 1 ,Q 2 e Q 3. A camada mais antiga,Q 1, consiste, extensivamente, das citações sobre a sabedoria de ser um verdadeiro seguidor de Jesus. Q 2 , por outro lado, introduz pronunciamentos de julgamentos proféticos e apocalípticos sobre aqueles que se recusarem a ouvir os ensinamentos de Jesus. E, finalmente, Q 3 registra uma retratação ao desgaste de encontros públicos para tratar de idéias de paciência e piedade para os iluminados enquanto esperam seu momento de glória num certo futuro no fim da história humana. Um fato notável sobre o material de Q 1 é que ele advoga por um estilo de vida evolucionário, transformando aforismos em prescrições de comportamento. Uma injuriosa recriminação tal qual "Deixa os mortos sepultarem os seus mortos, tu vai e anuncia o reino de Deus", pode ser isolada no núcleo de um pequeno aglomerado de citações, tornando-se um princípio de comportamento adequado ao novo reino. Neste caso, o comportamento recomendado é simplesmente o compromisso com o reino (Q 9:57-62). Podemos identificar sete temas no bloco Q 1: 42
  • 41. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO A maior unidade (Q 6:20-49) consiste de ensinamentos de Jesus a respeito de a quem pertence o reino de Deus ("os pobres, famintos, os que choram"), e como tratar os outros ( o que quereis que os homens vos façam, fazei-lhes o mesmo a eles"), e sobre julgamentos aos outros (" não julgueis e não sereis julgados"); O segundo bloco de Q 1 é sobre tornar-se um seguidor e trabalhar para o reino de Deus (Q 9:57-10:11); O terceiro é sobre ter confiança em pedir a Deus (o Pai) (Q 11:1-13); O quarto diz que não se deve ter temor de falar (Q 12:2- 7); O quinto explica que não deve existir preocupação com alimentação, vestuário e que o desejo por coisas pessoais é tolice (Q 12:13-34); O sexto ensina que como a semente e o fermento, o reino de Deus crescerá (Q 13:18-21); O sétimo fala sobre os encargos de ser um seguidor e sobre as conseqüências de não levar o movimento a sério (Q 14:11, 16-24, 26-27, 34-35). Se datarmos esse material em cerca de 50 C.E., na altura dos primeiros vinte anos do movimento, podemos verificar o que o povo de Jesus vinha fazendo. Eles estavam profundamente envolvidos em definir, exatamente, o que significava pertencer à escola de Jesus. Eles despenderam um grande esforço intelectual para encontrar argumentos para um determinado tipo de atitudes e ações consideradas fundamentais para alcançar-se o reino de Deus. Podemos definir o perfil do estilo de vida que eles estavam recomendando? 43
  • 42. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO Se fizermos uma lista dos imperativos que estão próximos aos núcleos das menores unidades de Q 1 podemos começar a enxergar que um tipo de programa estava na mente dos primeiros povos de Jesus. A lista inclui os seguintes imperativos ou regras de comportamento: Ame os seus inimigos (Q 6:27); Se apanhar numa face ofereça a outra (Q 6:29); Dê a todos que pedem (Q 6:30); Não julgue e não sereis julgados (Q 6:37); Remova primeiro a trava do seu próprio olho (Q 6:42); Deixe os mortos enterrarem os seus mortos (Q 9:60); Eis que vos mando como cordeiros ao meio dos lobos (Q 10:3); Não leveis bolsa, nem alforje, nem sandálias (Q 10:4); Dizei-lhes: É chegado o reino de Deus (Q 10:9); Pedi e dar-se-vos-á (Q 11:9); Não estejais apreensivo pela vossa vida (Q 12:22); Buscais antes, o reino de Deus (Q 12:31). Um programa com muito risco parecia estar em andamento. Ricos, mau uso da autoridade e poder, hipocrisias e pretensões, iniqüidades sociais e econômicas, injustiças e até mesmo lealdades familiares normais estavam, inteiramente, sob suspeita. O reino ideal estava sendo estabelecido em antagonismo aos costumes tradicionais, através da orientação de que os seguidores de Jesus deveriam praticar a pobreza voluntária, o afastamento dos laços familiares, a renúncia de bens, a coragem de falar e aplicar a não-retaliação. Um tremendo programa. Fazia esse programa algum sentido? 44
  • 43. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO A resposta é afirmativa. O estilo de vida do povo de Jesus guardava estrita semelhança com a tradição grega da filosofia popular característica dos Cínicos. Os Cínicos também promoveram um afrontoso estilo de vida como maneira de criticar os costumes convencionais e os temas dos dois grupos, Cínicos e povo de Jesus, eram bastante coincidentes. Os Cínicos ajudaram ao homem comum ganhar alguma percepção sobre a maneira como seu mundo funcionava, desta forma as pessoas não encontraram problemas para entender o que o povo de Jesus estava dizendo. A diferença entre o povo de Jesus e os Cínicos era a seriedade com a qual o movimento de Jesus encarava a nova visão social do reino de Deus. Isto era reflexo da preocupação judaica por uma sociedade trabalhadora real, como sendo o contexto necessário para qualquer bem-estar individual. Foi esse interesse em explorar uma visão social alternativa que afastou o movimento de Jesus de um mero apelo Cínico. Pode-se ainda detectar algum humor do tipo Cínico no estilo aforístico das citações: "Porque onde estiver o vosso tesouro ali estará também o vosso coração" (Q 12;34); "Pode porventura o cego guiar o cego" (Q 6:39); "Porque qualquer que pede recebe" (Q 11:10). Assim a fase inicial dos movimentos de Jesus devem ter sido caracterizada por um espírito mais brincalhão do que aquela caracterizada pelo material Q 1 que chegou até nós. 45
  • 44. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO Mas o processo de formação dos grupos, e a fase de agir seriamente como grupos, estabeleceu uma atitude não-Cínica. Todos os blocos do material de Q 1 revelam uma tentativa estudada de expressar um claro conjunto de códigos para o movimento de Jesus como uma formação social, códigos estes que giravam em torno de definir quem, realmente, pertencia ao reino. As instruções Q 10: 1-11, por exemplo, são direcionadas para orientar um comportamento adequado quando se tivesse que representar o movimento de Jesus em outra cidade. Estas instruções, mostram que existia uma rede de pequenas assembléias de grupos, que poderia ser considerada como suporte ao movimento. Assim, o período inicial de tentar um novo reino por intermédio do estilo tipo Cínico, evoluiu para uma bem mais complexa empreitada. O foco não estava somente no estabelecimento de uma lista de códigos para definir um verdadeiro discípulo, mas em estabelecer padrões para reconhecimento e para os relacionamentos autênticos dentro da comunidade dos companheiros seguidores de Jesus. A formação social do povo de Jesus e a visão social do reino de Deus começaram a se espelhar uma na outra. A motivação em Q 2 é, drasticamente, diferente. O processo de formação social tinha pago o seu preço. Famílias tinham sido separadas, um código de comportamento estrito tinha sido estabelecido pelos demais Judeus para censurar ou levar ao ostracismo o povo de Jesus, algumas cidades os incitavam a se afastarem e alguns membros antigos decidiram que o estresse era muito grande. A lealdade era nessa hora o 46
  • 45. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO apelo principal, e alguns seguidores de Jesus tiveram que decidir entra a família e o movimento. Aqueles que permaneceram fiéis, a despeito das tensões sociais, encontraram novas razões para dizer sim ao movimento de Jesus, mas a maioria dessas razões era o lado secundário de argumentos extravagantes de comparação com aqueles que eram considerados do lado errado. "Mas ai de vós fariseus. Vocês são como sepulturas bonitas por fora, mas cheia de poluição por dentro" (Q 11:42; cf Mateus 23:27). "E digo-vos que mais tolerância haverá naquele dia para Sodoma do que para aquela cidade" (Q 10:12). Assim, ao invés do estilo de crítica social através dos aforismos alegres, característico dos primeiros tempos de experimentação social, ou mesmo do tom mais sério de instrução que definiu o posterior desenvolvimento do povo de Jesus, a comunidade Q adotou uma postura firmemente judicatória em relação ao mundo. Pronunciamentos apocalípticos ameaçadores do juízo final eram dirigidos contra aqueles que recusavam o programa do reino. E assim o tempo para a completa realização do reino foi adiado para o fim dos tempos (eschaton). Os conflitos sociais refletidos em Q 2 provavelmente tiveram lugar durante os anos 50 e 60, embora algumas das citações são melhor entendidas como uma linguagem cunhada nas sombras da guerra Romano-Judaica. Com este tipo de linguagem soando em seus ouvidos, os escribas do movimento de Jesus tiveram que rever seus manuais de instrução sobre 47
  • 46. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO Jesus. Eles mantiveram os livros antigos de instruções e sabedoria ética que hoje identificamos como Q 1, porque esses haviam se tornado em ensinamento padrão para a comunidade. Mas adicionaram material judicatório e profético para promover o enquadramento na nova motivação. O novo manual foi arranjado de maneira cuidadosa, tecendo o material apocalíptico e judicatório no conjunto primitivo de instruções, dando a impressão que o material original tinha sido preparado com o juízo final em mente. Entretanto, dois problemas conceituais tinham que ser resolvidos para que essa revisão fosse realizada. O primeiro era o fato de que o povo de Jesus tinha se acostumado a encarar Jesus como um mestre de sabedoria e agora tinham que imaginá-lo como sendo também um profeta apocalíptico. Isto requeria uma grande mudança na caracterização. O outro problema era que, tendo experimentado um fracasso adiando a realização de sua visão até a data da justificação, a comunidade tinha agora a obrigação de estar bem segura de estar no caminho certo. Isto requeria um horizonte de história bem mais vasto do que a comunidade jamais tinha considerado ser necessário. Ambos os problemas foram resolvidos com revisões imaginativas da figura de Jesus e do seu papel na história épica de Israel. Estas revisões foram engenhosas. O primeiro movimento foi introduzir a figura de João Batista como profeta do julgamento e pregador do arrependimento (Q 3:7-9). 48
  • 47. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO O segundo movimento foi João prever "aquele que virá" quem ajuntará o trigo no seu celeiro, mas queimará a palha com fogo que nunca se apaga" (Q 3:16-17). Então, esses escribas deixaram João e Jesus falarem um sobre o outro para ver o que cada um sabia do outro (Q 7:18-19, 22-28, 31-35). Como os escribas imaginaram, Jesus reconhece João como o último dos profetas de Israel e assim "aquele que virá", e João previu um ainda "maior" para vir, o qual, obviamente, era Jesus. Jesus era "maior", de acordo com os escribas, porque ele era tanto um sábio como um profeta. Ele era um sábio pelo virtuosismo de seus ensinamentos em Q 1 . Ele era um profeta em virtude dos seus julgamentos apocalípticos que breve seriam ouvidos de seus lábios. A possibilidade espantosa oferecida por essa simples história imaginária era que, como filho da sabedoria, Jesus poderia saber o que Deus teria desejado desde o início da criação. E como um profeta apocalíptico ele poderia saber o que aconteceria no final dos tempos. Resultado: Jesus tornou-se o vidente da história passada e o profeta do fim da história. Seus seguidores poderiam agora se sentirem seguros que eles estavam, exatamente, onde deveriam estar, unidos com o grande plano de Deus para Israel e prontos para assumir seus lugares quando o julgamento final ocorresse. Esta solução engenhosa para seus problemas tem que ser julgada como um golpe de gênio na criação do mito, não importando o que se pense propriamente sobre o mito. Sobre o João Batista histórico e sua relação com esse movimento, os estudiosos ainda estão quebrando a cabeça entre várias opções. 49
  • 48. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO O fato importante para nossos propósitos é que João entrou na cena da imaginação da comunidade Q sobre Jesus como um segundo estágio na criação do mito, de maneira a redesenhar o próprio papel de Jesus. As adições de Q 3 foram feitas algum tempo depois da guerra Romano-Judaica. Elas incluem o lamento sobre Jerusalém (Q 13:34-35), a estória da tentação de Jesus (Q 4:1- 13), afirmações sobre a importância da lei Mosaica (Q 16:16-18) e a promessa final aos fiéis: "E vós sois os que tende permanecido comigo sentareis no trono, julgando as doze tribos de Israel" (Q 22:28-30). Q 3 não é uma grande revisão do manual, mas introduz algumas novas idéias sobre o relacionamento do povo de Q com a história de Israel, e elevou a mitologia de Jesus ao nível de um ser divino que poderia ser imaginado conversando com Deus como seu Pai e debatendo com Satanás como seu tentador. O Tópico em ambos os casos era a própria "autoridade de Jesus sobre todo o mundo." (Q 4:6-7). Tudo parece crer que a poeira do período Q 2 havia baixado e que o povo de Q teria afinado o tom de suas respostas àqueles que lhes eram críticos. Talvez a guerra tenha se encarregado dos antagonismos primevos ou transformado a paisagem cultural tão drasticamente, que a postura pré-guerra do movimento se apresentasse então tola, mesmo para o povo de Jesus. Foi o livro de Q, no nível Q 3, que atraiu a atenção de outros grupos de Jesus, foi então copiado e lido por outra geração dentro dos movimentos de Jesus e, eventualmente, incorporado nos evangelhos de Mateus e Lucas e se perdeu até 50
  • 49. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO recentemente para a história, quando então os estudiosos o reconstruíram. Historiadores da segunda corrente diferente de Mack, considerando que se está apostando muitas fichas na primeira camada de um documento não mais existente, construído a partir de outros, Mateus e Lucas, escritos após meio século e algumas revisões. Estes historiadores consideram que o Jesus, mestre com estilo dos Cínicos é inteiramente ausente nas epístolas do primeiro século, e portanto, deveria ser examinada a possibilidade de que esta camada de Q não pertencer a Jesus, e sim ser o produto de algum reduto Cínico que teria encontrado seu caminho dentro de algum movimento de pregação judaica na Galiléia e somente mais tarde ter sido anexada à idéia de uma figura histórica. Questionam, igualmente, a incongruente mudança de motivação da camada Q 1 para a camada Q 2 , não considerando adequadas as explicações de Mack, que as atribuiu às tensões resultantes das rejeições. A visão convencional do Cristianismo assumia uma visão apocalíptica no início e, gradualmente, mudava para a linguagem da sabedoria quando o mundo não acabava conforme se apregoava. Agora, a seqüência estava disposta de maneira inversa. A mudança não era mais da mensagem apocalíptica para o advento da instrução e da sabedoria, mas da sabedoria para o apocalíptico. Reafirmamos que esta mudança implica numa total reconsideração das origens Cristãs e da maneira como a função da linguagem apocalíptica foi entendida. Na minha opinião um forte componente corrobora essa segunda corrente, trata-se do desinteresse da comunidade Q 51
  • 50. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO pelos destinos de seu fundador. Isto é certamente incrível. Se o seu mestre e fundador tivesse sofrido o destino relatado em Jerusalém, seria crível que a comunidade ignorasse isto ou permanecesse ignorante do fato? Um fato marcante a respeito da comunidade Q é que eles não eram cristãos. Eles não encaravam Jesus como o Messias ou o Cristo. Eles não consideravam sua morte como um evento divino, trágico ou redentor. E eles não imaginavam que ele iria ascender dos mortos para governar um mundo transformado. ao contrário, eles pensavam nele como um mestre cujos ensinamentos tornaria possível viver com verve naqueles dias turbulentos. Assim eles não se reuniam para cultuar em seu nome, honrá-lo como um deus, ou cultivar sua memória através de hinos, orações e rituais. O povo de Q, era um povo de Jesus, não cristãos. O desafio de Q ao conceito popular das origens do cristianismo é claro. Se a visão convencional das origens do cristianismo é correta, como explicar estes primeiros seguidores de Jesus? Teriam eles falhado quanto a compreender a mensagem? Estavam ausentes quando o inesperado aconteceu? Teriam seguido em ignorância ou repúdio ao evangelho cristão de salvação? Se, entretanto, os primeiros seguidores de Jesus entenderam o propósito de seu movimento tal qual Q o descreve, como podemos explicar o surgimento do culto de Cristo, da 52
  • 51. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO fantástica mitologia dos evangelhos narrativos, e o eventual estabelecimento da igreja e religião cristã ? Q força a questão de se repensar as origens do cristianismo como nenhum outro documento da antiguidade força. Os evangelhos narrativos não podem mais serem vistos como relatos fidedignos dos raros e estupendos eventos históricos na fundação da fé cristã. Os evangelhos, agora têm que ser vistos como resultados da antiga fabricação de mitos cristãos. Q força a questão, pois documenta uma história antiga que não concorda com o relato dos evangelhos narrativos. Os pronunciamentos: Segundo Burton L. Mack, os evangelhos sinóticos incluem muitas estórias sobre Jesus que os especialistas costumam chamar pronunciamentos. Jesus é descrito em uma certa situação; alguém questiona o que ele está dizendo ou fazendo; e Jesus dá uma resposta satírica, irônica e às vezes mordaz. Em muitos casos estas estórias foram embelezadas para descrever a situação, explicar porque a questão foi levantada e discriminar os opositores. Mas mesmo se a passagem se transforma em um diálogo, Jesus tem sempre a última palavra, e freqüentemente uma longa narrativa pode ser reduzida a uma simples troca de desafios e respostas. Vejamos alguns exemplos, numerados para referência futura com J de Jesus como prefixo: 53
  • 52. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO (J-1) Quando perguntado por que comia com os coletores de impostos e os pecadores, Jesus respondeu, Aqueles que tem saúde não precisam de médico." (Mar 2:17) (J-2) Quando perguntado porque seus discípulos não jejuavam, Jesus respondeu, "Por acaso podem jejuar os amigos do noivo enquanto o noivo estiver com eles?" (Mar 2:19) (J-3) Quando perguntado porque seus discípulos colhiam grãos no sábado, Jesus respondeu, "O sábado foi feito para o homem e não o homem para o sábado." (Mar 2:27) (J-4) Quando perguntado porque comiam com as mãos sem lavar, Jesus respondeu, "Nada há fora do homem, que, entrando nele o possa contaminar; mas o que sai dele isso é que contamina o homem." (Mar 7:15) (J-5) Quando perguntado quem era o maior, Jesus respondeu, "Se alguém quiser ser o primeiro será o último de todos e o servo de todos." (Mar 9;35) (J-6) Quando alguém o chamou de "Bom Mestre," Jesus retrucou, "Porque me chamas de bom?" (Mar 10:18) (J-7) Quando perguntado se o rico poderia entrar no reino de Deus, Jesus respondeu, "É mais fácil passar um camelo por um buraco de agulha, do que um rico entrar no reino de Deus." (Mar 10:25) 54
  • 53. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO (J-8) Quando alguém mostrou-lhe uma moeda com a inscrição de César e perguntou, "É lícito pagar impostos a César ou não? "Jesus respondeu, Dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus." (Marc 12:17) (J-9) Quando uma mulher na multidão elevou sua voz e disse-lhe "Bem-aventurado o ventre que te trouxe e os peitos que mamaste." Jesus respondeu, "Antes bem-aventurado os que ouvem a palavra de Deus e a guardam." (Lu 11:27-28) (J-10) Quando alguém da multidão lhe disse, "Mestre, dize a meu irmão que reparta comigo a herança," Jesus respondeu, "Homem quem me pôs a mim por juiz ou repartidor entre vós?" (Lu 12:13- 14) Estas estórias são bastante similares a um grande número de anedotas contadas pelos Gregos sobre os fundadores das várias escolas de filosofia. É evidente a propensão grega pelas formulações rebuscadas, bem como pelo encantamento com as réplicas inteligentes e com o humor satírico. Chamadas de chreiai (úteis), anedotas como estas eram usadas para testar professores, avaliando sua capacidade de manterem a credibilidade diante de seus alunos, e de saírem incólumes de situações desafiadoras. Assim as chreiai eram "'úteis" para compor o que os gregos chamavam uma "vida" (bios de onde retiramos "biografia"). Isto é porque além do humor, havia outra importante função para essas estórias. As chreiai eram capazes de revelar 55
  • 54. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO uma impressão do caráter de um professor (ethos). As chreiai criavam o que os especialistas chamam de uma situação retórica, repleta de circunstâncias, oradores, discurso e audiência. Isto significa que boas chreiai podem ser usadas para representar uma escola de tradição. Pode-se verificar como as chreiai foram postas a serviço das construções filosóficas, na obra, Vida de Filósofos Eminentes, do escritor Diógenes Laércio, no início do terceiro século. Anedotas do tipo das contadas sobre Jesus eram freqüentes entre as tradições Socráticos e Cínicas. É portanto, valioso comparar as estórias citadas com algumas anedotas típicas dos Cínicos. Um jogo de escaramuças parece ter sido jogado com os Cínicos por aqueles que tinham coragem para enfrentá-los. Uma vez que os Cínicos viviam numa espécie de alienação em relação à sociedade, demonstrando indiferença às suas convenções mas na realidade totalmente dependentes dela para seu viver, qualquer situação poderia servir para pegá-los em uma armadilha. O objetivo era flagrar o Cínico em uma atitude inconsistente apontando a sua falta de completa independência da sociedade. De maneira a vencer o desafio, o Cínico colocava uma abordagem inteiramente diferente sobre a matéria deixando a impressão de que o desafiador não tinha entendido a situação. Vejamos alguns exemplos de Diógenes Laércio, numerados para referência usando-se um C de Cínico: 56
  • 55. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO (C-1) Quando censurado pelo costume de andar em má companhia, Aristenes respondeu, "Bem, os médicos atendem seus pacientes sem pegar a febre." (DL 6:6) (C-2) Quando alguém disse a Aristenes, "Muitos elogiam você", ele respondeu, "O que fiz de errado?" (DL 6:8) (C-3) Quando alguém desejava estudar com Diógenes, ele dava- lhe um peixe e dizia para seguir atrás dele. Quando por embaraço o estudante logo atirava o peixe fora deixando-o, Diógenes ria e dizia, "Nossa amizade foi quebrada por um peixe" (DL 6:36) (C-4) Quando alguém reprovava-o por freqüentar lugares impuros, Diógenes respondia que o sol também entra nas intimidades sem sair desonrado. (DL 6:63) (C-5) Quando perguntado porque suplicava a uma estátua, Diógenes respondeu, "Para praticar em ser recusado" (DL 6:49) Os Gregos mediam a resposta pelo seu humor e inteligência e uma certa lógica era envolvida em sair-se ileso do anzol. Assim funcionava a lógica; um interlocutor colocava o Cínico na berlinda (C-4): como você pode freqüentar lugares socialmente inadequados (um eufemismo para casas de prostituição)? O primeiro movimento era identificar a questão enfatizada pelo desafio. Neste caso era a noção de ser "contaminado" ao visitar um local "impuro", isto é, um local 57
  • 56. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO socialmente inadequado. O segundo movimento era mudar o foco e encontrar um exemplo de "entrada em local impuro" no qual não havia contaminação. O sol, por exemplo, "entra" nas intimidades sem ficar sujo. A ausência inteligente de correlação entre os dois exemplos criava o humor. Não havia o objetivo de um ensinamento explícito. O interlocutor poderá, certamente, não se vir a meditar sobre teorias de pureza ou impureza, mas ele poderá muito bem se afastar rindo e deixar o Cínico seguir seu caminho ou mesmo dar-se conta sobre a natureza arbitrária da categorização de puro ou impuro quando usada para uma circunstância social específica. Quanto ao Cínico, este tendo aceito o desafio e tendo administrado a confusão momentânea na lógica da situação foi capaz de escapar da armadilha. As anedotas atribuídas a Jesus operavam através da mesma lógica. Em todos os casos os desvios Cínicos são uma característica das réplicas de Jesus. As mudanças na ordem do discurso são facilmente identificáveis. Em J-1, a questão da contaminação é removida pela mudança do foco das condutas de alimentação para a prática médica. É muito parecida com a anedota sobre Aristenes em C- 1. Em J-2 a discrepância tem relação com a ocasião na qual o jejum é apropriado. J-3 sustenta a distinção entre duas regras sobre o trabalho nos sábados, uma a proscrição a outra a permissão. Em J-4 a incongruência é criada pela justaposição de condutas de alimentação com observações escatológicas. É 58
  • 57. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO similar à resposta de Diógenes em C-4 confundindo contaminação social com natural. As colocações em J-4 e J-5 sustentam a crítica a valores sociais comuns relacionados com a classe social. E a anedota de Jesus em J-10 é semelhante a um grande número de anedotas Cínicas nas quais os estudantes são duramente corrigidos por alguma má interpretação e conduzidos de volta aos seus próprios recursos para enxergar melhor as coisas e começar a estudar o método Cínico. Uma forma branda desta posição do professor contra o futuro aluno é ilustrado em C-3. Existem muitas chreiai de Jesus no evangelho de Marcos. Em razão da forma que estas estórias terminam, deixando com Jesus a última palavra, os especialistas denominam essas passagens de estórias de pronunciamentos. Marcos usava essas estórias com grande vantagem na construção do seu evangelho, parcialmente porque elas se constituíam nos blocos de construção para a "vida" (bios) que ele queria escrever, parcialmente porque elas criavam um conflito, o conflito básico da conspiração contra Jesus que Marcos queria desenvolver e parcialmente porque este era o tipo de estória que a própria comunidade de Marcos aprendera a contar sobre Jesus. Existem 28 estórias deste tipo no evangelho de Marcos. Destas, doze estórias tratam de questões que dividiam o povo de Jesus dos Fariseus. A maioria delas foi identificada pelos estudiosos como estórias pré-Marcos, que foram contadas na comunidade de Marcos antes de Marcos decidir usá-las na sua 59
  • 58. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO vida de Jesus. Estas são as estórias que tem interesse para nós, pois elas fazem um conjunto e podem ser usadas como janela dentro de um ramo do movimento de Jesus que se opôs à tradição da escola dos escribas e Fariseus. De acordo com a velha tradição Grega, o povo de Jesus, da comunidade de Marcos, imaginava Jesus como defensor de sua própria escola de tradição e o pintavam contra os Fariseus dizendo chreiai . Isto significava que eles se consideravam discípulos da Escola de Jesus. A estória de pronunciamento que apresenta Jesus em debate com os Fariseus todas endereçam questões que tem a ver com a pureza. O conceito de pureza era básico para o sistema social e de propriedade judeu. A partir de um grande sistema legal, ético e da lei do sacrifício que foi desenvolvida durante o período do segundo templo, os Fariseus tiveram sucesso em separar uma pequena lista de práticas ritualistas que eles poderiam realizar em casa. Isto, eles afirmavam, em estrita observância das leis e tradições judaicas. A lista incluía o dízimo, dar esmola, observância do sábado (incluindo oração diária e um dia de jejum na semana), limpeza (lavagem após atividades que traziam impurezas), regras para as seleção e reparação da comida, regras a respeito das pessoas com as quais se podia sentar à mesa. Estas regras não deviam ser entendidas como leis, porque os Fariseus não tinham autoridade oficial sobre nenhuma instituição judaica. Elas eram sinais de piedade, de uma seita progressiva engajada em redefinir o que significava ser Judeu à sombra da destruição do templo. Elas eram, no entanto, 60
  • 59. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO extremamente importantes para o reconhecimento de qualquer judeu que desejava ser "puro", isto é, ser reconhecido na comunidade judaica com leal às tradições dos judeus. Cabe aqui, para os que não estão familiarizados, uma descrição de quem eram os Fariseus, erradamente há já algum tempo, apresentados no linguajar de gíria brasileira, como uma qualificação pejorativa. Tomando a descrição de Josefos (Guerra dos Judeus 5:2) os Fariseus eram "um corpo dentro da comunidade judaica que professava ser mais religioso que os outros e pretendia explicar a lei mais precisamente". Embora sejamos levados a pensar nos fariseus como rigidamente ortodoxos eles eram, em certos aspectos, o elemento progressivo no Judaísmo. De maneira a encontrar novas condições após a queda do templo, os Fariseus se colocaram a interpretar a lei. O desenvolvimento e manutenção das sinagogas como um centro de adoração e instrução é uma conquista dos Fariseus. Eles eram bastante admirados pelos judeus que não eram filiados a nenhuma seita judaica. Os Fariseus clamavam pela autoridade da fé e da instrução enquanto os Saduceus, a classe alta da nobreza e de onde saíam os sumos-sacerdotes, clamava por aquela do sangue e da posição. Se fizermos uma lista das questões sob debate nas estórias de pronunciamento da comunidade pré-Marcos o resultado é uma notável correlação com as questões dos Fariseus. Além das questões apontadas de J-1 a J-10 existe um grande número de questões que se colocavam entre o povo de Jesus e os Fariseus, tais como a legitimidade do divórcio, o 61
  • 60. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO pagamento de taxas, a lei Mosaica, a base da autoridade, os sinais de honra e as causas das doenças e "espíritos impuros". Portanto quer parecer que este ramo do movimento de Jesus trabalhou sua autodefinição através de um violento debate com os padrões Fariseus. Porque isso? Mack explica isso afirmando que o cenário mais adequado indica que alguns integrantes do povo de Jesus continuaram a se considerar como judeus mesmo estando inteiramente ligados no movimento de Jesus. Pode-se imaginar a disseminação do movimento de Jesus nas regiões de Tiro e Sidom onde uma das estórias de pronunciamento de Marcos (Mar 7:24-30) foi elaborada. Alguns judeus atraídos pelo movimento continuavam a participar da vida da sinagoga ou pertenciam a famílias que continuavam. Naturalmente surgiram conflitos com as próprias famílias e com os líderes das sinagogas à respeito da lealdade às tradições judaicas. Em certo momento as diferenças relativas principalmente aos códigos de pureza Fariseu e as "impurezas" do povo de Jesus tornaram-se uma questão crítica e algumas pessoas tiveram que optar entre acompanhar o povo de Jesus ou desistir da participação. Alguns relacionamentos familiares devem ter ficado sob tensão. O grande problema era que ser "impuro" pelos padrões Fariseus era justamente o ponto principal do movimento. Embora as considerações de Mack sejam razoáveis ele parece passar ao largo de um aspecto importante. O motivo da 62
  • 61. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO resistência judaica aos Romanos era a religião judaica. Igualmente o quadro apresentado no Novo Testamento é aquele de uma instituição agregada ao "status quo". Não há indicação no Novo Testamento de nenhum conflito entre a religião judaica e o poder romano. O objetivo claro dos evangelhos é apresentar a questão revolucionária como sendo entre Jesus é o "Establishment" judeu. O fato de existir uma Instituição Romana contra a qual existiam forças revolucionárias é ocultado de maneira que a instituição contra a qual Jesus se rebelava possa ser representada como inteiramente judia. Existia é verdade, um pequeno partido, os Saduceus, o quais eram colaboracionistas, sustentavam a situação e aceitavam cargos oficiais sob os romanos. O Sumo-sacerdote, propriamente, era Saduceu e é importante que se note, era nomeado pelos romanos. Como membro de uma minoria colaboracionista, ele era encarado com suspeito pela grande massa da nação. A autoridade religiosa, no entanto, não permanecia com os sacerdotes mas com um corpo completamente diferente de pessoas, denominados Rabinos, os líderes dos Fariseus. Assim os evangelhos falham em não mostrar que com relação ao povo a verdadeira instituição era o partido dos Fariseus que sem posição de destaque político, cujos líderes jamais receberam reconhecimento pelos romanos, constituía-se na primeira e última resistência contra os romanos. A imagem apresentada nos evangelhos sobre os Fariseus, colocando-os como interessados apenas em salvaguardar suas posições é inteiramente equivocada. 63
  • 62. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO Assim Jesus tornou-se o mestre-fundador de um movimento que trabalhou sua autodefinição no debate contra os ensinamentos dos Fariseus. Isto nos dá um quadro completamente diferente daquele mostrado pela comunidade Q, ou como veremos, o povo de Tomé, a Congregação de Israel e as colunas de Jerusalém. Um grupo particular do movimento de Jesus investiu inocente e fortemente na idéia de pensar-se como apto aos dois padrões, judaico e de Jesus. Este grupo, e isto é uma questão da máxima relevância, voltou-se para as práticas das escolas de tradição helenistas, quanto a atribuir todas as razões para pensar da maneira que pensavam, ao seu fundador. Eles não desenvolveram nenhuma teoria ou mito da autoridade de Jesus como homem dvino, salvador ou mártir da nova causa. Também, não desenvolveram nenhuma visão apocalíptica de julgamento final ao final dos tempos. O que fizeram, foi colocar Jesus no papel de legislador, tal qual os escribas dos Fariseus, mas então desenvolveram sua habilidade retórica de maneira a superar os escribas em seu próprio jogo. Um instrumento excepcional surgiu quando este grupo decidiu usar as anedotas de Jesus para registrar seu debate com os escribas dos Fariseus. Quando se prepara uma chreiai os argumentos são os de quem prepara não os dos protagonistas da chreiai . Assim que o povo de Jesus desenvolveu as chreiai com argumentos mais elaborados eles preferiram não tomar os créditos pelos argumentos que encontraram. Ao invés, como na tradição grega de atribuição de novos ensinamentos ao fundador da escola, eles deixaram Jesus receber os créditos não só pelas 64
  • 63. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO chreiai como pelos argumentos em seu favor. Isto resultou em dar a Jesus dois pronunciamentos em cada chreiai elaborada, com a última afirmação, invariavelmente, marcando um pronunciamento da correção de seus pontos de vista. Assim, ao final da chreiai sobre trabalho no sábado, Jesus diz, "O sábado foi feito para o homem, não o homem para o sábado". Assim, intencionalmente ou não, a Escola de Jesus produziu uma auto-referência de autoridade para seu mestre- fundador. No princípio esta caracterização de Jesus parece frágil, se não tola, e a lógica da argumentação fraca. Mas, ao combinar- se este estilo de auto-referência de Jesus com outros papéis míticos para Jesus, resulta um símbolo de autoridade extremamente impenetrável . O evangelho de Marcos mostrará isto mais tarde. No meio tempo, como pode a Escola de Jesus tomar seu espaço no mundo, tendo se excluído de uma proeminente definição de judaísmo, definição esta, que aparentemente, foi considerada suficientemente importante, a ponto de se assumir muito seriamente o desafio com os Fariseus? Não sabemos dizer com certeza, pois temos apenas o evangelho de Marcos como a próxima janela para dentro de seu pensamento. Olhando através desta janela parece-nos que a Escola de Jesus passou por um momento de desorientação e ansiedade no processo de se tornar uma seita independente. 1 – Quando surgiram os Essênios: 65
  • 64. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO Estamos na Palestina. Na terra dos Profetas, entre o primeiro século antes do Cristo e o primeiro século após o Cristo, operam-se grandes movimentos religiosos. Agrupamentos diversos nascem da massa popular. Encontra-se ai os zelotes, sicários, galileus, nazarenos, batistas, levitas e outros grupos que nasciam por força de suas aspirações religiosas. Entre esses, um outro grupo do qual já se tinha referência muito antiga, desde o lendário Egito, floresce ás margens do Mar Morto, próximo de Jericó. São os Essênios. Entre os anos 150 a.C. e 70 d.C, aproximadamente, os Essênios foram bem identificados, uma vez que viviam isolados das demais comunidades, afastados da opulência de Jerusalém. Preferiam o deserto da Judéia. Ficaram poucos conhecidos, até o encontro dos documentos do QUNRAM, no Mar Morto, a partir de 1974. As ruínas de cinco mosteiros no deserto da Judéia são o marco de sua existência em passado distante, além de outros mosteiros dispersos por diversas regiões na Samaria e Galiléia. 2 – Noticias históricas: Alguns historiadores famosos falam sobre os Essênios. Entre eles, destacam-se Filon de Alexandria: Os Essênios são como santos que habitam e muitas aldeias e vilas da Palestina. Não se unem por clã familiar ou por 66
  • 65. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO raça, mas sim por meio de associações voluntários, formadas com intuito de melhor praticar a virtude e o amor entre as criaturas humanas. Nas suas casas jamais se houve grito ou tumulto. Cada um, quando fala, cede a palavra ao outro. Este silêncio causa grande impressão ao visitante. Sabem eles moderar a cólera e conservar o equilíbrio. Cumprem a palavra e sustentam a paz. O que dizem vale do que um juramento um sacrilégio, porque só precisa jurar quem é mentiroso. Os que entram para a comunidade se comprometem a não prejudicar ninguém; ser fiel com todos, especialmente com os que tem poder, uma vez que ninguém ocupa cargos sem que seja pela vontade de Deus. Vivem muitos anos alcançando facilmente os cem, possivelmente pela regularidade de vida. Suportam a dor, fazendo-se fortes contra ela. Sabem que o corpo é perecível, mas que a alma é imortal, vivendo ela no éter, de onde é atraída para se ligar aos corpos como se estes fossem prisões. Separadas da carne, libertam-se e elevam-se. Muitos conseguem prever o futuro e é raro que se enganem nas previsões. Muitos não se casam, porque acreditam que matrimônio é impedimento à vida simples. Outros, porém, afirmam que os que não se casam recusam a melhor parte da vida, que é a propagação da espécie. A opinião do povo a respeito deles são pessoas irrepreensíveis e excelentes. 67
  • 66. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO 3 – Aliança com Deus: Os Essênios não concordavam com os doutores das leis, que lideravam no templo de Salomão, quando ao sacrifício nas oferendas no altar da raça. Preferiam os rituais do batismo e o respeito aos alimentos, que purificavam e comiam sempre em lugar especial. Serviam o pão e o vinho, embora ocasionalmente comessem carne. A cadeira principal deixavam sempre vazia. Reservaram-se, à espera do Messias. Eles eram pacíficos. Seus bens eram postos em comum e exigiam unidade doutrinária. Só falavam de uma espécie de guerra: a dos filhos da Luz contra os filhos das Trevas, ambos muitos fortes, empenhando-se em luta constante que se trava no interior de cada criatura. Embora descendentes dos hebreus, desligaram-se das festas tradicionais do judaísmo, como a da Páscoa, dos tabernáculos e outras mais. Transformaram a sua vida em vivência litúrgica e não de detinham em inutilidades. Viviam numa simplicidade muito rara entre as pessoas, em todas as épocas. A idéia da Aliança com Deus é profunda e rica entre os Essênios, sendo, como realmente é, o centro de toda Bíblia, 68
  • 67. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO porém no seu aspecto mais rico, ou seja, a Aliança como expressão de amor. 4 – Ordens e afirmações: Podemos encontrar os Essênios em duas diferentes ordens: uma de vida monástica, junto ao Mar Morto, e outra dispersa por toda a Palestina, Ásia e Alexandria, formando grupos de dez filiados, cada um com um dirigente. Os grupos próximos têm alguma interdependência, chegando a somar cinqüenta ou cem. No campo religioso, eles representaram o não conformismo típico que combina uma inquietude interior com disciplina quase fanática. São comparados aos primeiros cristãos. O Rei da Prússia, escrevendo a Voltaire, afirma: “Jesus foi um Essênio”. Gratz, em sua obra, afirma: “João Batista, era Essênio”. Edmundo Wilson, jornalista do New York Times, em série de reportagens sobre os documentos encontrados em 1947, no Mar Morto, escreve: “O Convento, esse prédio de pedras, junto ás águas amargas do Mar Morto, com seu forno, tinteiros e piscinas sacras, túmulos, é, talvez, mais do que Belém e Nazaré, o berço do cristianismo” 5 – Princípios: 69
  • 68. OS ESSÊNIOS E O CRISTIANISMO Os Essênios ensinam a piedade, santidade, vida familiar e vida civil. Ensinam a não jurar e não mentir. Crêem que o homem é a causa de todo bem e de nenhum mal. O amor da virtude compreende desprendimento da riqueza e estabilidade de tudo o que assegure bons costumes. O amor aos homens exige benevolência, igualdade e concórdia. Ninguém possuí uma casa que não possa ser comum. As vestes podem ser usadas por todos; o alimento para todos é igual. Os doentes sem recursos não ficam sem cuidados. Eles têm, em comum, o que é necessário para tratá-los. Respeitam os velhos e deles cuidam com suas próprias mãos, como filhos gratos, ainda mesmo quando não sejam seus próprios pais. Habitam em aldeias, evitando as cidades pelas injustiças a que seus habitantes estão acostumados. Alguns trabalham na terra e outros nas artes, tornando- se úteis a si e aos seus vizinhos. Não se preocupam em ajuntar prata em ouro, nem grandes parcelas de terra para aumentar os seus ganhos, contendendo-se com o que lhes forneça o necessário para a vida. Consideram grande abundância o Ter-se poucos desejos e fáceis de serem satisfeitos. Não há entre eles fabricantes de armas de guerra. 70