Trabalho de literatura

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Trabalho de literatura

  1. 1. João Guimarães Rosa "Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente.Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios,pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens.“
  2. 2. João Guimarães Rosa nasceu em Cordisburgo (MG) a 27 de junho de1908 e era o primeiro dos seis filhos de D. Francisca (Chiquitinha) GuimarãesRosa e de Florduardo Pinto Rosa, maisconhecido por "seu Fulô" comerciante, juiz-de-paz, caçador de onças e contador de estórias.
  3. 3. Em 1967, João Guimarães Rosa seria indicado para o prêmio Nobel deLiteratura. A indicação, iniciativa dos seus editores alemães, franceses eitalianos, foi barrada pela morte do escritor. A obra do brasileiro haviaalcançado esferas talvez até hoje desconhecidas. Quando morreu tinha 59anos. Tinha-se dedicado à medicina, à diplomacia, e, fundamentalmenteàs suas crenças, descritas em sua obra literária. Fenômeno da literaturabrasileira,Rosa começou a publicar aos 38 anos. O autor, com seusexperimentoslingüísticos, sua técnica, seu mundo ficcional, renovou oromance brasileiro, concedendo-lhe caminhos até então inéditos. Suaobra se impôs não apenas no Brasil, mas alcançou o mundo.
  4. 4. BIBLIOGRAFIA: - Magma (1936), poemas. Não chegou a publicá-los. - Sagarana (1946), contos e novelas regionalistas. Livro de estréia. - Com o vaqueiro Mariano (1947)- Corpo de Baile (1956), novelas. (Atualmente publicado em três partes: - Manuelzão e Miguilim, - No Urubuquaquá, no Pinhém e - Noites do sertão.) - Grande Sertão: Veredas (1956), romance. - Primeiras estórias (1962), contos. - Tutaméia:Terceiras estórias (1967), contos. - Estas estórias (1969), contos. Obra póstuma. - Ave, palavra (1970) diversos. Obra póstuma.
  5. 5. Campos Gerais-Manuelzão e Miguilim A obra de ficção mais conhecida de Guimarães Rosa consta de contos, novelas e um romance monumental, publicado em 1956, que é Grandes Sertão: Veredas - livro que desconcertou a crítica. Entre os livros de contos, destaca-se Sagarana, seu livro de estréia, publicado em 1946, que foi recebido como "uma das mais importantes obras aparecidas no Brasil contemporâneo"; PrimeirasEstórias (1962); Tutaméia (Terceiras estórias), de 1967; e o livro póstumo Estas estórias (1969). Corpo de Baile contém várias novelas e, a partir de 1964, foi desdobrado em três volumes: "Manuelzão e Miguilim", "No Urubuquáquá, no Pinhém", e "Noites do Sertão". As duas primeiras, também conhecidas como "Uma estória de amor" e "Campo Geral". Como observa Beth Brait, em "Literatura Comentada", da Abril Editora, "Campo Geral é uma narrativa profundamente lírica que traduz ahabilidade de Guimarães Rosa para recriar o mundo captado pela perspectiva de uma criança." Pode- se dizer que Campo Geral é uma espécie de biografia, em que muitos críticos vêem traços autobiográficos do autor. O tema do livro é a infância - a infância de um menino da roça, com usas descobertas da vida. Como sempre, tudo vem trabalhado com o inconfundível estilo de Guimarães Rosa numa linguagem estonteante nos seus recursos expressivos. Quanto a "Uma estória de amor", que focaliza a outra ponta da vida, de forma igualmente lírica, relata-se, ao mesmo tempo que se vai reconstituindo a vida do vaqueiro sessentão Manuelzão, a festa de consagração de uma capela que ele faz construir na fazenda que administra. Toda a narrativa desenvolve-se na véspera de sair uma boiada, o tema boi serve de ligação entre as cenas, reaparecendo aqui e ali, dominante, ora como o próprio animal, ora como vaqueiro ou instrumento de trabalho (contracapa). As duas novelas complementam-se como histórias de um começo e de um fim de vida. Enquanto a do menino é uma constante e por vezes dolorosa descoberta do mundo, a do vaqueiro sessentão é um relembrar também por vezes doloroso do que foi a sua vida, em que as recordações se misturam com os fatos do presente, como se aquela festa fosse a própria súmula de seus dias (contracapa).
  6. 6. PERSONAGENS Além de Miguilim, protagonista da estória., o qual se revela um meninosensível, delicado e inteligente ao longo da narrativa, o universo da novela "Campo Geral" é composto de várias outras personagens: 1) A família de Miguilim é constituída do pai (Nhô Berno), meio seco autoritário; a mãe (Nhanina), que "era linda e tinha cabelos pretos e compridos"; os irmãos Tomezinho e Dito; as irmãs Chica e Drelina; a avó Izidra; e o tio Terêz. 2) Fazendo parte da família, como empregadas da casa, destacam-se a preta Mãitina, Rosa Maria e Pretinha. Ligados à família, mas com alguma independência, destacam-se aqui também, os vaqueiros Salúz e Jé.3) Ainda no universo da família, podemos inserir aqui os cachorros (sempre individualizados com um nome próprio), o gato Sossõe e o papagaio Papaco-o-Paco. 4) Entre os conhecidos e amigos, destacam-se o alegre e simpático seu Luisaltino, que veio morar com a família e ajudava o Pai no roçado. Parafinalizar, é importante observar que, ao contrário da cidade grande onde as pessoas praticamente são anônimas, no mundo roseano tudo e todos têm um nome que os caracteriza e individualiza.
  7. 7. ESTILO DE ÉPOCA A originalidade da linguagem de Guimarães Rosa, a sua inventividade e criatividade configuram bem o estilo de época (pós)-modernista. Essa preocupação em fazerdiferente, saindo do convencional, é, sem dúvida, uma das grandes característica do estilo de época contemporâneo. É o próprio Guimarães quem fala: "Disso resultam meus livros, escritos em um idioma próprio, meu, e pode-se deduzir daí que não mesubmeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros". Outra coisa que marca bem o estilo de época na obra é a capacidade revelada pelo escritor (pós)- modernista para refletir sobre problemas universais, partindo de uma realidade regional. É o que diz a contracapa de "Literatura Comentada": "Nele , quanto mais -aparentemente - particularizado o tema, mais universal ele é. Quanto mais simplórios seus personagens, mais ricas sua personalidades. Assim, rudes sertanejos refletemde forma peculiar e extremamente sutil os grandes dramas metafísicos e existenciaisda humanidade". É isto que se vê em Guimarães Rosa e outro grandes escritores nanossa Literatura: há sempre uma dimensão universal no aparentemente regional. "O sertão que vem de Guimarães Rosa não se restringe aos limites geográficos brasileiros, ainda que dele extrais a sua matéria-prima. O sertão aparece como uma forma de aprendizado sobre a vida, sobre a existência, não apenas do sertanejo, mas do homem". Como dizia o próprio Guimarães: "o sertão é o mundo".
  8. 8. Análise da obra Narrativa profundamente lírica, pertencente à obra Manuelzão e Miguilim, Campo Geral traduz a habilidade de Guimarães Rosa pararecriar o mundo captado pela perspectiva de uma criança. Se a infânciaaparece com freqüência nos textos roseanos, sempre ligada à magia de um mundo em que a sensibilidade, a emoção e o poder das palavras compõem um universo próximo ao dos poetas e dos loucos, emMiguilim, nome com que passou a ser conhecida a novela, essa temática encontra um de seus momentos mais brilhantes e comoventes.É uma espécie de biografia de infância - que alguns críticos afirmam ter muito de autobiográfico -, centrada em Miguilim, um menino que morava com sua família no Mutum, um remoto lugarejo no sertão.
  9. 9. Foco narrativo Narrado em terceira pessoa, narrador onisciente. Apesar de ser escrita em terceirapessoa, a história é filtrada unicamente pelo ponto de vista de Miguilim e, por essarazão, o mundo infantil é organizado a partir das vivências de um menino sensível,delicado, inteligente, empenhado em compreender as pessoas e as coisas. As outraspersonagens - a mãe, o pai, os irmãos, o tio, a avó e todos que vivem e passam pelo Mutum - aparecem misturadas às emoções e às reflexões do personagem central. Temática Os temas fundamentais são a infância, o amor e a amizade, a violência e a fé. A criança é revelada como a criatura em que a hipocrisia e a maldade ainda não deitaram raízes profundas, embora algumas delas já possam apresentar no seudesenvolvimento essas características negativas. Exemplo disso pode ser visto em Patori e Liovaldo. O par Miguilim / Dito pode ser visto como duas faces de umamesma moeda, opostos e complementares, pois Miguilim é o que precisa aprenderpara saber, enquanto Dito sabe de modo imediato sem saber como. Dito é sábio e Miguilim é o aprendiz. Nesse sentido, a morte de Dito pode ser vista como uma necessidade existencial para levar Miguilim a crescer, a tornar-se maduro, independente.
  10. 10. Enredo de Campo GeralMiguilim, garoto sensível da região de Minas Gerais, começamos a vê-lo aos oito anos,com uma menção aos seus sete anos, quando esteve mergulhado numa preocupaçãoem respeito ao local de sua residência, o Mutum (essa palavra constitui umpalíndromo, ou seja, pode tanto ser lida da direita para a esquerda com da esquerdapara a direita, sem alterar-se. E o mais interessante é que sua grafia, MUTUM, acabaconcretizando o próprio local, já que este ficava junto a um covão (U), entre morro emorro (M e M). Durante uma viagem para ser crismado, ouvira alguém falar que aqueleera um lugar muito bonito. Tão feliz fica com a novidade que se torna ansioso emcontá-la para a mãe, Nhãnina, crendo que assim faria com que ela deixasse de ser tristepor morar ali.Seu jeito estabanado, no entanto, faz com que corra desesperado em direção da mãe,passando direto pelo pai, Nhô Bero, irritando-o. É a primeira informação que o leitorrecebe de que existe na narrativa uma transfiguração do complexo de Édipo, já queMiguilim tem uma forte identificação afetiva com a mãe e problemas graves derelacionamento com o pai, a ponto de, mais para frente, os dois se estranharem comose fossem inimigos.
  11. 11. Há também outras pessoas com quem o protagonista mantém relação. Podem sercitados os irmãos Chica, Drelina e Tomezinho, os dois últimos de gênio difícil, atémaligno. A Rosa, que trabalha em sua casa e com quem tem uma tranqüila relação,muitas vezes acompanhando-o em seus sentimentos e fantasias. Vó Izidra, narealidade tia-avó por parte de mãe dele. Era uma mulher dotada de uma moralextremamente rígida, baseada num catolicismo um tanto tradicional, apegado asantos e rezas. É a religiosidade oficial, bem diferente de Mãitina, velhíssimaremanescente da escravidão, já sem juízo e com fama de feiticeira. Seu misticismo émuito mais primitivo, pois que baseado em magia (compare essas duas idosas. Ambasestão vinculadas ao misticismo, à religiosidade. A ligação com o aspecto oculto denossa existência está até simbolizada no cômodo em que cada uma fica: ambos sãoescuros e isolados. Além disso, gostam de Miguilim. A diferença é que Vó Izidra é maisenrustida. Há também diferenças na qualidade da religiosidade de cada uma. Mãitinaé mais primitiva enquanto a outra segue um padrão mais oficial).Mas duas personagens são as mais importantes no círculo de relacionamento deMiguilim. A primeira é o seu irmão Dito, que, apesar de mais novo, é mais sábio, namedida em que está mais preparado para o lado prático da vida. Torna-se a âncora doprotagonista, já que este é extremamente aluado. Por isso é constantementeconsultado pelo personagem principal.
  12. 12. A outra figura importante é o Tio Terêz (dentro da elaboração poética de sua prosa,Guimarães estabelece uma ortografia própria, muitas vezes afastando-se do padrãogramatical. É o caso do “Terêz”, já que oxítonas terminadas em “z” não devem seracentuadas). Irmão de Béro, é o amigo grande de Miguilim (há quem extrapole nainterpretação e enxergue na relação entre Miguilim e Terêz, tendo também em vista ocaso entre este e Nina, além dos conflitos entre o protagonista e seu pai, apossibilidade de que o menino seria filho não de Béro, mas de Terêz. Mas é umaspecto que de forma alguma deve ser colocado em uma prova, pois que baseado emsuspeitas muito leves). E sabemos, pelo olhar lacunoso de uma criança, que mantémuma relação no mínimo perigosa com Nina. Intuímos isso pela briga que há entre paie mãe em que esta quase apanha; só não sofreu porque Miguilim se interpôs no meiodo casal, acabando por sofrer a fúria de Béro no lugar da mãe. Comenta-se a todoinstante que o tio não ia poder mais aparecer no Mutum. Além disso, surge umatempestade terrível, que é atribuída por Vó Izidra como castigo infligido às açõespecaminosas que andavam grassando.O temporal se vai, Tio Terêz some e o Mutum mergulha numa tranqüilidademomentânea. É quando Miguilim põe na mente a idéia obsessiva de que iria morrerem dez dias. Passa a desenvolver um apego pela vida durante o decorrer desse períodoe principalmente após ele, ao descobrir que sobrevivera a ele.
  13. 13. Nhô Bero, pouco depois, faz com que Miguilim lhe leve o almoço. É uma maneira queentende de arranjar utilidade para o garoto, que realiza sua tarefa com orgulho. Noentanto, em uma das viagens, é surpreendido por Tio Terêz, que lhe entrega uma cartapara ser entregue à Nina e diz que estaria esperando resposta no dia seguinte. Começaentão um dilema na mente do menino. Adora o tio e, portanto, deve fazer o que estelhe pediu. No entanto, mesmo não tendo consciência do que acontecia, intui que oque era pedido era errado. Depois de muito tempo de conflito interior, decide nãoentregar a missiva, confessando, entre choros, ao tio, que facilmente entende. É umgrande passo no crescimento da personagem.Introduzido por outra tempestade, chega mais um período de crise. É, como diz onarrador, o momento em que virou o tempo do ruim. Começa com o assassinato dePatori, garoto imbuído de malignidade e que maltratava muito Miguilim. Seguem-seoutros fatos. O cachorro Julim foi mortalmente ferido por um tamanduá. Tomezinhosofre com a picada de um marimbondo. O touro Rio Negro machuca Miguilim, queacaba descontando a raiva em Dito. Luisaltino surge e começa a se engraçar com Nina(a mãe de Miguilim parece revelar um caráter no mínimo leviano, volúvel. Pode-sedesconfiar de um certo determinismo, na medida em que sua personalidade seria umreflexo das atividades exercidas pela mãe dela, que fora prostituta). O ponto críticoocorre quando Dito vai espiar o ninho de uma coruja. A ave acaba dizendo o nomedele, o que é visto por Miguilim como mau agouro (note que, para angústia deMiguilim, o papagaio não conseguia falar o nome de Dito, ao contrário da coruja.Drama temporário. No final, muito tempo depois, consegue-o).
  14. 14. Tudo é preparação de clima para o grande desastre. Durante a perseguição que ascrianças fazem a um mico que havia escapado, Dito acaba tendo o pé cortado porum caco que estava no terreiro. O machucado piora, colocando o menino de cama.Coincidência ou não, é época dos festejos de Natal, Vó Izidra até se dedicando amontar seu famoso presépio.Dito não resiste ao mal que lhe acometeu, vindo por falecer. É uma experiênciaextremamente dolorosa para Miguilim, mas que pode ser vista como um passoimportante no seu amadurecimento. Se antes o protagonista era guiado peloirmão, nos momentos de convalescença deste o jogo começa a se inverter. ÉMiguilim que conta ao acamado o que está ocorrendo no mundo ao redor deles.Passa a ser, pois, os olhos fraternos. Com a morte, a personagem principal passaum longo período curtindo a dor, o sofrimento, até que assume um movimentocom que de introjeção do falecido, já que antes de tomar umadecisão sempre se pergunta o que seu irmão faria. Ao assumir a mesma atitude quepresume ser de Dito, praticamente absorve-o em seu ser.
  15. 15. Tanto essa evolução é verdade que Miguilim agüenta firme o sufoco a que seu pai osubmete, fazendo-o trabalhar no roçado, debaixo de um sol desumano. Mas o maisimportante é lembrar da sua participação no conflito que houve entre Liovaldo eGrivo.Grivo era um rapaz muito pobre, a ponto de os animais de criação, como galinhas,morarem na mesma casa dele. Certa vez aparecera no Mutum com dois patos paraserem vendidos, parca fonte de sustento para si e para mãe. No entanto, Liovaldo,irmão de Miguilim que morava na cidade e que estava de visita, dominado por umespírito maléfico, começa a maltratar e até a machucar o pobre. Miguilim achainjusto e toma partido, batendo no agressor. Seu pai fica indignado pelo fato de omenino não respeitar o sangue familiar e, incoerentemente, dá uma surra nele quechega a espancamento. O protagonista, no entanto, não se sente mal, pelo contrário,tem raiva, pois sabe que está certo e que o pai está imensamente errado. Por issopensa em vingança, imaginando até a morte do pai. É quando ri, em meio a surra, oque faz todos, até o agressor, pensarem que o menino endoidara, talvez até com osgolpes.
  16. 16. O conflito instaura a conquista, por Miguilim, de espaço e até respeito no ambientefamiliar. Após três dias que passa na casa de um vaqueiro, para protegê-lo da fúria dopai, retorna, mas não se mostra submisso. Como provocação, Béro quebra osbrinquedos e gaiolas do filho. Este solta os passarinhos que tinha presos e quebra osbrinquedos que sobraram. É um sinal de que havia crescido e que, portanto, nãoprecisava mais daquelas diversões.Delimitadas as fronteiras, Miguilim pouco depois cai doente e de forma tão grave quealterna momentos de inconsciência a de consciência (a doença e os mergulhos dedesligamento que provoca podem ser entendidos como um momento de incubação,como se Miguilim, dentro de um casulo, estivesse em uma fase no final da qual setransformaria em outra pessoa). Nos instantes em que vem à tona percebe picotes derealidade, mas que nos faz entender vários acontecimentos. O primeiro é o desesperodo pai, que se sente injustiçado pela providência divina, que parecia querer tomar maisum filho dele (Béro é, portanto, uma personagem complexa, pois, ao mesmo tempo emque maltrata seu filho, demonstra amor por ele. Sua agressividade pode ser fruto deuma vida de dificuldades financeiras, pois não é dono de suas próprias terras, cuidandodo que era alheio. Nas entrelinhas fica o traçado de um caráter rico psicologicamente).Tenta ao máximo fazer suas vontades. Em vários outros despertares Miguilim tomaconhecimento que Béro havia matado Luisaltino, provavelmente por causa deNhãnina. Por ter caminhado pelas trilhas da criminalidade, acaba por se suicidar.
  17. 17. Quando começa a melhorar, o protagonista toma conhecimento de que Tio Terêztinha voltado e ia passar a morar no Mutum. Era a união, finalmente, dele com Nina.Por causa disso, Vó Izidra parte de lá, indignada.No final, a chegada de um certo Dr. José Lourenço traz uma revelação surpreendente.É essa figura nova que descobre que Miguilim era míope. Ao emprestar ao meninoseus óculos, permite à criança uma descoberta. Seu velho mundinho acaba ganhandouma visão completamente nova, mais nítida. É a simbologia do crescimento, o queconstitui um ritual de passagem. Enxergar mais nitidamente o mundo significa entrarpara a fase adulta, sair da infância.Na companhia de tão importante mudança, Miguilim parte para a cidade. Suaviagem, somada à simbologia dos óculos, pode significar a entrada em um novouniverso. Miguilim pode tanto ter abandonado a visão primitiva, pré-lógica, que ocaracterizara, como continuar, em meio ao universo adulto, preservando seu ladoinfantil. É, pois, um final aberto, a permitir mais de interpretação.
  18. 18. A NOVELA COMO ESPÉCIE LITERÁRIA Como espécie literária, a novela não se distingue do romance, evidentemente, pelocritério quantitativo, mas pelo essencial e estrutural. Tradicionalmente, a novela é uma modalidade literária que se caracteriza pela linearidade dos caracteres e acontecimentos, pela sucessividade episódica e pelo gosto das peripécias. Contrariamente ao romance, a novela não tem a complexidade dessa espécie literária, pois não se detém na análise minuciosa e detalhada dos fatos e personagens. A novela condensa os elementos do romance: os diálogos são rápidos e a narrativa é direta, semmuitas divagações. Nesse sentido, muita coisa que chamamos de romance não passa de novela. Naturalmente a novela moderna, como tudo que é moderno, evoluiu e não se sujeita a regras preestabelecidas. Tal como o conto, parodiando Mário de Andrade,"sempre será novela aquilo que seu autor batizou com o nome de novela". Como autor (pós)-modernista, Guimarães Rosa procurou ser original, imprimindo, em suas criações literárias, a sua marca pessoal, o seu estilo inconfundível. Suas novelas, contudo, apesar das inovações, sempre apresentam aquela essência básica dessa modalidade literária, que é o apego a uma fabulação contínua como um rio, de caso- puxa-caso.

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