Observatório de Economia e Gestão de Fraude
www.obegef.pt
Publicado no Jornal i Online
01/04/2020
OBSERVATÓRIO CONTRA A FRAUDE
Vai correr tudo bem? Não!
Estou convencido que não serão necessários mais de 3 meses para verificarmos um efeito arrasador nas contas do país
_____________________
Filipe Pontes
Quando atravessamos um período de
urgência e nos preparamos para
enfrentar uma gigantesca crise temos
de nos preparar com as resistências e
os fundos de emergência de que dis-
pomos tanto pessoais como do país.
Aceitamos todos que a imprevisibili-
dade desta crise não só surpreende
como assusta, pois, o seu efeito pare-
ce não só ser global como arrasador.
Existem, pois, motivos para a distin-
guir claramente da anterior crise
financeira existem! Não só pela sua
origem que não decorre de uma cir-
cunstância financeira, mas antes,
sanitária. Mas existem também dife-
renças nas soluções para a enfrentar:
a Troika anterior poderá ser substituí-
da por uma nova troika: Áustria, Fin-
lândia e Holanda (países mais céticos
na adoção da solução dos Eurobounds
e que são fundamentalmente contri-
buintes no projeto europeu) que
pressionados para a urgência da sus-
tentabilidade do projeto europeu
passaram a ser os principais fiscaliza-
dores de países eminentemente
beneficiários como é o caso de Portu-
gal.
De uma forma simples, mas não
inconsciente, retirei desta Troika a
Alemanha, não só pela evolução de
posição nos últimos tempos, mas
fundamentalmente por acreditar que
já percebeu os riscos de não avançar
com esta solução. Sendo que o con-
junto dos países europeus beneficia-
ria da credibilidade internacional
deste país para emissão de dívida que
apostaria ser de um valor muito pró-
ximo de zero e por um prazo muito
alargado. Esta solução foi defendida,
entre outros, pelo Governador do
Banco de Portugal e será uma inevi-
tabilidade no curto prazo como penso
que veremos.
Países como Portugal demoraram 3
anos a sentir o efeito da crise de
2008, mas estou convencido que não
serão necessários mais de 3 meses
para verificarmos um efeito arrasador
nas contas do país. As projeções do
Banco de Portugal e da Universidade
Católica apontam nesse sentido e na
possibilidade de voltarmos a atingir
este ano a um PIB semelhante ao de
12 anos atrás.
A verificar-se e a manter-se Mário
Centeno à frente dos destinos da
pasta das Finanças ele ficará na histó-
ria certamente por ter obtido o único
excedente da democracia (2019) e no
ano seguinte por atingir provavel-
mente o pior (ou um dos piores) défi-
cit da democracia.
Dizer-se que tudo vai correr bem é
um desejo naturalmente generoso e
desejável para o rápido combate ao
surto pandémico, no entanto, não
passa de miragem no que diz respeito
às contas públicas, das empresas e
das famílias.

Vai correr tudo bem?Não!

  • 1.
    Observatório de Economiae Gestão de Fraude www.obegef.pt Publicado no Jornal i Online 01/04/2020 OBSERVATÓRIO CONTRA A FRAUDE Vai correr tudo bem? Não! Estou convencido que não serão necessários mais de 3 meses para verificarmos um efeito arrasador nas contas do país _____________________ Filipe Pontes Quando atravessamos um período de urgência e nos preparamos para enfrentar uma gigantesca crise temos de nos preparar com as resistências e os fundos de emergência de que dis- pomos tanto pessoais como do país. Aceitamos todos que a imprevisibili- dade desta crise não só surpreende como assusta, pois, o seu efeito pare- ce não só ser global como arrasador. Existem, pois, motivos para a distin- guir claramente da anterior crise financeira existem! Não só pela sua origem que não decorre de uma cir- cunstância financeira, mas antes, sanitária. Mas existem também dife- renças nas soluções para a enfrentar: a Troika anterior poderá ser substituí- da por uma nova troika: Áustria, Fin- lândia e Holanda (países mais céticos na adoção da solução dos Eurobounds e que são fundamentalmente contri- buintes no projeto europeu) que pressionados para a urgência da sus- tentabilidade do projeto europeu passaram a ser os principais fiscaliza- dores de países eminentemente beneficiários como é o caso de Portu- gal. De uma forma simples, mas não inconsciente, retirei desta Troika a Alemanha, não só pela evolução de posição nos últimos tempos, mas fundamentalmente por acreditar que já percebeu os riscos de não avançar com esta solução. Sendo que o con- junto dos países europeus beneficia- ria da credibilidade internacional deste país para emissão de dívida que apostaria ser de um valor muito pró- ximo de zero e por um prazo muito alargado. Esta solução foi defendida, entre outros, pelo Governador do Banco de Portugal e será uma inevi- tabilidade no curto prazo como penso que veremos. Países como Portugal demoraram 3 anos a sentir o efeito da crise de 2008, mas estou convencido que não serão necessários mais de 3 meses para verificarmos um efeito arrasador nas contas do país. As projeções do Banco de Portugal e da Universidade Católica apontam nesse sentido e na possibilidade de voltarmos a atingir este ano a um PIB semelhante ao de 12 anos atrás. A verificar-se e a manter-se Mário Centeno à frente dos destinos da pasta das Finanças ele ficará na histó- ria certamente por ter obtido o único excedente da democracia (2019) e no ano seguinte por atingir provavel- mente o pior (ou um dos piores) défi- cit da democracia. Dizer-se que tudo vai correr bem é um desejo naturalmente generoso e desejável para o rápido combate ao surto pandémico, no entanto, não passa de miragem no que diz respeito às contas públicas, das empresas e das famílias.