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MATERIAL PARA ESTUDO                                                 1


                                  LINGÜÍSTICA PARA ALFABETIZADORES
                                      Professora Kátia Lomba Bräkling
                                          MATERIAL PARA ESTUDO



EXPLICITAR CONTEÚDOS ENVOLVIDOS NAS PRÁTICAS

                                                                              Delia Lerner1
         Escolarizar práticas sociais é um desafio, porque – como assinalamos no primeiro capítulo – as
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quando elas são exercidas, porque envolvem, às vezes, distribuições desiguais entre os grupos sociais...
         “Aprende-se a ler, lendo” e “aprende-se a escrever, escrevendo” são lemas educativos que
expressam o propósito de instalar as práticas de leitura e escrita como objeto de ensino. Apesar de esses
lemas estarem, hoje, muito difundidos, sua concretização na atividade cotidiana da sala de aula é ainda
pouco freqüente. A que se deve essa distância entre o que se tenta fazer e o que efetivamente se faz?
Entre as razões que a explicam, há uma que é fundamental considerar ao planejar um currículo: não é
suficiente – da perspectiva do papel docente – reconhecer que se aprende ler, lendo (ou a escrever,
escrevendo), é imprescindível, além disso, esclarecer o que é que se aprende quando se lê ou se escreve
em aula, quais são os conteúdos que se estão ensinando e aprendendo ao ler ou a escrever.
         Explicitar os conteúdos envolvidos nas práticas de leitura e escrita é, então, uma
responsabilidade iniludível dos que elaboram documentos curriculares. Ao explicitá-los, será possível
reduzir a incerteza que os professores experimentam diante da perspectiva de dedicar muito tempo
escolar para exercer essas práticas, porque é essa elucidação que lhes pode permitir apreender quais são
os conhecimentos que se mobilizam ao exercê-las, quais conteúdos seus alunos podem aprender
enquanto atuam como leitores e escritores.
         Agora, como aclarar os conteúdos? Como objetivar aqueles aspectos das práticas que são
impossíveis de transmitir verbalmente? Considerar que o objeto de ensino se constrói tomando como
referência as práticas de leitura e escrita supõe – já se notou – determinar um lugar importante para o
que os leitores e escritores fazem, supõe conceber como conteúdos fundamentais do ensino os
comportamentos do leitor, os comportamentos do escritor.
         Ao instituir como conteúdos escolares as atividades exercidas por leitores e escritores na vida
cotidiana, consideram-se duas dimensões: por um lado, a dimensão social – inter-pessoal, pública – a
que alude D.Olson quando se refere a “comunidade textual” e, por outro lado, uma dimensão psicológica
– pessoal, privada.
         Entre os comportamentos do leitor que implicam interações com outras pessoas acerca dos
textos, encontram-se, por exemplo, as seguintes: comentar ou recomendar o que se leu, compartilhar a
leitura, confrontar com outros leitores as interpretações geradas por um livro ou uma notícia, discutir
sobre as intenções implícitas nas manchetes de certo jornal... Entre os mais privados, por outro lado,
encontram-se comportamentos como: antecipar o que se segue no texto, reler um fragmento anterior
para verificar o que se compreendeu, quando se detecta uma incongruência, saltar o que não se entende
ou não interessa e avançar para compreender melhor, identificar-se com o autor ou distanciar-se dele
assumindo uma posição crítica, adequar a modalidade de leitura – exploratória ou exaustiva, pausada ou
rápida, cuidadosa ou descompromissada... – aos propósitos que se perseguem e ao texto que se está
lendo...
         Quanto os comportamentos do escritor, a distinção entre o que é compartilhado e o que é
privado é menos nítida, talvez porque a escrita seja mais solitária do que a leitura, mas, ao mesmo
tempo, obriga quem a exerce a ter constantemente presente o ponto de vista dos outros, dos futuros
leitores. Planejar, textualizar, revisar mais de uma vez... são os grandes comportamentos do escritor, que
não são observáveis exteriormente e que acontecem, geralmente, em particular. No entanto, decidir os
aspectos do tema que serão tratados no texto – uma atividade mais específica envolvida no processo de


    Lerner, Delia. Ler e escrever na escola. O real, o possível e o necessário. Porto Alegre (RS): Artmed; 2002
1

     (pp. 61-64).
MATERIAL PARA ESTUDO                                           2

planejamento – supõe determinar qual é a informação que é necessário dar ao leitores e qual se pode
omitir, porque é previsível que estes já a manejem ou possam inferi-la, quer dizer, supõe considerar os
prováveis conhecimentos dos destinatários. Evitar ambigüidades ou mal-entendidos – uma atividade
envolvida no processo de textualização/revisão – implica, ao mesmo tempo, uma luta solitária com o
texto e um constante desdobramento do escritor que tenta imaginar o que sabe ou pensa o leitor
potencial... As exigências desse desdobramento levam o escritor a pôr em ação outras atividades nas
quais se introduz mais claramente a dimensão interpessoal: discutir com outros qual é o efeito que se
aspira produzir nos destinatários através do texto e quais são os recursos para consegui-lo; submeter à
consideração de alguns leitores o que se escreveu ou se está escrevendo ...
         Por outro lado, comportamentos que pertencem à esfera mais íntima do escritor, quando a
produção é individual, passam a ser também interpessoais – sem deixar de ser pessoais – quando a
produção é grupal. Escrever com outros obriga a debater, para que sejam tomadas decisões consensuais
acerca dos múltiplos problemas de que a escrita apresenta. Desse modo, questões que poderiam parecer
implícitas quando se escreve solitariamente constituem-se em objetos de reflexão.
         Agora, o que foi dito até aqui pode permitir estabelecermos que:
1. Os comportamentos do leitor e do escritor são conteúdos – e não tarefas, como se poderia acreditar
    – porque são aspectos do que se espera que os alunos aprendam, porque se fazem presentes na sala
    de aula precisamente para que os alunos se apropriem deles e possam pô-los em ação no futuro,
    como praticantes da leitura e da escrita.
2. O conceito de “comportamentos do leitor e do escritor” não coincide com o de “conteúdos
    procedimentais”. Enquanto estes últimos se definem por contraposição com os conteúdos
    “conceituais” e “atitudinais” – no quadro de uma classificação muito difundida atualmente -, pensa
    em “comportamentos” como instâncias constituintes das práticas da leitura e escrita supõe
    contemplar essas três dimensões, mas sem compartimentá-las. Realmente, uma atividade como
    “atrever-se a ler textos difíceis” – para darmos um exemplo a que logo voltaremos a nos referir -
    supõe indubitavelmente uma atitude de confiança em si mesmo como leitor, supõe também a
    mobilização de estratégias tais como ler, em primeiro lugar, o texto completo, para construir uma
    idéia global de seu sentido, fazer uma segunda leitura mais detida, saltar o que não se entende e
    voltar a isso com os elementos recolhidos na nova leitura, fazer hipóteses em função do contexto
    sobre          o significado das palavras desconhecidas, em vez de procurá-las sistematicamente no
    dicionário ou de ficar fixado nelas, recorrer a outros textos que possam proporcionar elementos para
    a compreensão do que se está lendo... Pôr em ação essas estratégias implica necessariamente, de
    maneira indissociável, mobilizar os conhecimentos que já se tem – e que são pertinentes para
    aprofundar a compreensão – acerca do tema tratado no texto, do autor e suas prováveis intenções,
    do gênero... É assim que, em um mesmo comportamento, podem confluir o atitudinal, o
    procedimental e o conceitual.
         Finalmente, é preciso assinalar que, ao exercer o comportamento de leitor e de escritor, os
alunos têm também a oportunidade de entrar no mundo dos textos, de se apropriar dos traços distintivos
– mais ou menos canônicos – de certos gêneros, de ir detectando matizes que distinguem a “linguagem
que se escreve” e a diferenciam da oralidade coloquial, de pôr em ação – enquanto praticantes da leitura
e da escrita – recursos lingüísticos aos quais é necessário apelar para resolver os diversos problemas que
se apresentam ao produzir ou interpretar textos... É assim que, ao atuar como leitores e escritores, os
alunos têm a oportunidade de se apropriar de conteúdos lingüísticos que adquirem sentido nas práticas
de leitura e escrita, progressivamente, se transformam em fonte de reflexão metalingüística.

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Texto délia conteúdos de leitura

  • 1. MATERIAL PARA ESTUDO 1 LINGÜÍSTICA PARA ALFABETIZADORES Professora Kátia Lomba Bräkling MATERIAL PARA ESTUDO EXPLICITAR CONTEÚDOS ENVOLVIDOS NAS PRÁTICAS Delia Lerner1 Escolarizar práticas sociais é um desafio, porque – como assinalamos no primeiro capítulo – as práticas são totalidades indissociáveis e, portanto, dificilmente seqüenciáveis, porque têm muitos componentes implícitos que não podem ser transmitidos oralmente e que só podem ser comunicados quando elas são exercidas, porque envolvem, às vezes, distribuições desiguais entre os grupos sociais... “Aprende-se a ler, lendo” e “aprende-se a escrever, escrevendo” são lemas educativos que expressam o propósito de instalar as práticas de leitura e escrita como objeto de ensino. Apesar de esses lemas estarem, hoje, muito difundidos, sua concretização na atividade cotidiana da sala de aula é ainda pouco freqüente. A que se deve essa distância entre o que se tenta fazer e o que efetivamente se faz? Entre as razões que a explicam, há uma que é fundamental considerar ao planejar um currículo: não é suficiente – da perspectiva do papel docente – reconhecer que se aprende ler, lendo (ou a escrever, escrevendo), é imprescindível, além disso, esclarecer o que é que se aprende quando se lê ou se escreve em aula, quais são os conteúdos que se estão ensinando e aprendendo ao ler ou a escrever. Explicitar os conteúdos envolvidos nas práticas de leitura e escrita é, então, uma responsabilidade iniludível dos que elaboram documentos curriculares. Ao explicitá-los, será possível reduzir a incerteza que os professores experimentam diante da perspectiva de dedicar muito tempo escolar para exercer essas práticas, porque é essa elucidação que lhes pode permitir apreender quais são os conhecimentos que se mobilizam ao exercê-las, quais conteúdos seus alunos podem aprender enquanto atuam como leitores e escritores. Agora, como aclarar os conteúdos? Como objetivar aqueles aspectos das práticas que são impossíveis de transmitir verbalmente? Considerar que o objeto de ensino se constrói tomando como referência as práticas de leitura e escrita supõe – já se notou – determinar um lugar importante para o que os leitores e escritores fazem, supõe conceber como conteúdos fundamentais do ensino os comportamentos do leitor, os comportamentos do escritor. Ao instituir como conteúdos escolares as atividades exercidas por leitores e escritores na vida cotidiana, consideram-se duas dimensões: por um lado, a dimensão social – inter-pessoal, pública – a que alude D.Olson quando se refere a “comunidade textual” e, por outro lado, uma dimensão psicológica – pessoal, privada. Entre os comportamentos do leitor que implicam interações com outras pessoas acerca dos textos, encontram-se, por exemplo, as seguintes: comentar ou recomendar o que se leu, compartilhar a leitura, confrontar com outros leitores as interpretações geradas por um livro ou uma notícia, discutir sobre as intenções implícitas nas manchetes de certo jornal... Entre os mais privados, por outro lado, encontram-se comportamentos como: antecipar o que se segue no texto, reler um fragmento anterior para verificar o que se compreendeu, quando se detecta uma incongruência, saltar o que não se entende ou não interessa e avançar para compreender melhor, identificar-se com o autor ou distanciar-se dele assumindo uma posição crítica, adequar a modalidade de leitura – exploratória ou exaustiva, pausada ou rápida, cuidadosa ou descompromissada... – aos propósitos que se perseguem e ao texto que se está lendo... Quanto os comportamentos do escritor, a distinção entre o que é compartilhado e o que é privado é menos nítida, talvez porque a escrita seja mais solitária do que a leitura, mas, ao mesmo tempo, obriga quem a exerce a ter constantemente presente o ponto de vista dos outros, dos futuros leitores. Planejar, textualizar, revisar mais de uma vez... são os grandes comportamentos do escritor, que não são observáveis exteriormente e que acontecem, geralmente, em particular. No entanto, decidir os aspectos do tema que serão tratados no texto – uma atividade mais específica envolvida no processo de Lerner, Delia. Ler e escrever na escola. O real, o possível e o necessário. Porto Alegre (RS): Artmed; 2002 1 (pp. 61-64).
  • 2. MATERIAL PARA ESTUDO 2 planejamento – supõe determinar qual é a informação que é necessário dar ao leitores e qual se pode omitir, porque é previsível que estes já a manejem ou possam inferi-la, quer dizer, supõe considerar os prováveis conhecimentos dos destinatários. Evitar ambigüidades ou mal-entendidos – uma atividade envolvida no processo de textualização/revisão – implica, ao mesmo tempo, uma luta solitária com o texto e um constante desdobramento do escritor que tenta imaginar o que sabe ou pensa o leitor potencial... As exigências desse desdobramento levam o escritor a pôr em ação outras atividades nas quais se introduz mais claramente a dimensão interpessoal: discutir com outros qual é o efeito que se aspira produzir nos destinatários através do texto e quais são os recursos para consegui-lo; submeter à consideração de alguns leitores o que se escreveu ou se está escrevendo ... Por outro lado, comportamentos que pertencem à esfera mais íntima do escritor, quando a produção é individual, passam a ser também interpessoais – sem deixar de ser pessoais – quando a produção é grupal. Escrever com outros obriga a debater, para que sejam tomadas decisões consensuais acerca dos múltiplos problemas de que a escrita apresenta. Desse modo, questões que poderiam parecer implícitas quando se escreve solitariamente constituem-se em objetos de reflexão. Agora, o que foi dito até aqui pode permitir estabelecermos que: 1. Os comportamentos do leitor e do escritor são conteúdos – e não tarefas, como se poderia acreditar – porque são aspectos do que se espera que os alunos aprendam, porque se fazem presentes na sala de aula precisamente para que os alunos se apropriem deles e possam pô-los em ação no futuro, como praticantes da leitura e da escrita. 2. O conceito de “comportamentos do leitor e do escritor” não coincide com o de “conteúdos procedimentais”. Enquanto estes últimos se definem por contraposição com os conteúdos “conceituais” e “atitudinais” – no quadro de uma classificação muito difundida atualmente -, pensa em “comportamentos” como instâncias constituintes das práticas da leitura e escrita supõe contemplar essas três dimensões, mas sem compartimentá-las. Realmente, uma atividade como “atrever-se a ler textos difíceis” – para darmos um exemplo a que logo voltaremos a nos referir - supõe indubitavelmente uma atitude de confiança em si mesmo como leitor, supõe também a mobilização de estratégias tais como ler, em primeiro lugar, o texto completo, para construir uma idéia global de seu sentido, fazer uma segunda leitura mais detida, saltar o que não se entende e voltar a isso com os elementos recolhidos na nova leitura, fazer hipóteses em função do contexto sobre o significado das palavras desconhecidas, em vez de procurá-las sistematicamente no dicionário ou de ficar fixado nelas, recorrer a outros textos que possam proporcionar elementos para a compreensão do que se está lendo... Pôr em ação essas estratégias implica necessariamente, de maneira indissociável, mobilizar os conhecimentos que já se tem – e que são pertinentes para aprofundar a compreensão – acerca do tema tratado no texto, do autor e suas prováveis intenções, do gênero... É assim que, em um mesmo comportamento, podem confluir o atitudinal, o procedimental e o conceitual. Finalmente, é preciso assinalar que, ao exercer o comportamento de leitor e de escritor, os alunos têm também a oportunidade de entrar no mundo dos textos, de se apropriar dos traços distintivos – mais ou menos canônicos – de certos gêneros, de ir detectando matizes que distinguem a “linguagem que se escreve” e a diferenciam da oralidade coloquial, de pôr em ação – enquanto praticantes da leitura e da escrita – recursos lingüísticos aos quais é necessário apelar para resolver os diversos problemas que se apresentam ao produzir ou interpretar textos... É assim que, ao atuar como leitores e escritores, os alunos têm a oportunidade de se apropriar de conteúdos lingüísticos que adquirem sentido nas práticas de leitura e escrita, progressivamente, se transformam em fonte de reflexão metalingüística.