LEI DOS MEDICAMENTOS ÓRFÃOS (EUA)



        O que há de errado?
        Prof. Claudio Cordovil
        Departamento de Saúde Coletiva - UnB
EMENDA KEFAUVER –HARRIS (1962)
 Reação à tragédia da talidomida (década de 1950).
 Testes clínicos de eficácia e segurança.

 Em todos os medicamentos produzidos desde
  1938.
REAÇÃO DA INDÚSTRIA FARMACÊUTICA
   Abaixo de certo limiar de prevalência, torna-se
    desinteressante para a industria continuar a
    produzir determinados medicamentos.
MEDICAMENTOS ÓRFÃOS
LEI DOS MEDICAMENTOS ÓRFÃOS (1983)
 Créditos fiscais totalizando metade dos custos de
  desenvolvimento.
 Bolsas de P&D.

 Exclusividade de mercado por sete anos.

 Desenvolvimento e aprovação fast track.

 Etc.



 Status concedido pelo FDA, independente do
  sistema de patentes.
 Exclusividade de mercado conta a partir da data de
  aprovação para o mercado.
E HOJE (AVANÇOS ATÉ MAIO DE 2010)?
 6819 doenças raras nos EUA (NIH).
 2002 designações de medicamentos órfãos.

 353 medicamentos aprovados. (Europa: Jan.
  2010/Jul. 2011 = 65 ) .

   P.S.: 250 novas doenças anualmente.
LIMITES
Moléculas limitadas a poucas famílias terapêuticas
=> as que oferecem volume de negócios mais
 significativo.

Medicamentos de alto custo, acesso comprometido.

Real oportunidade de negócios para os fabricantes.
CINCO CLASSES TERAPÊUTICAS EUA
(N = 353)
 Oncologia/Câncer (95) + $$$$
 Distúrbios metabólicos (54)

 Hematologia (41)

 Doenças infecciosas (41)
                                                   75%
 Distúrbios neurológicos (30)


             92 moléculas em 11 classes

 25%         terapêuticas: psiquiatria,
             musculoesquelético, gastrintestinal,
             dermatológico, respiratório,
             oftalmológico, hepatobiliar, imunologia,
             cardiovascular, distúrbios geniturinários,
             tratamento de intoxicações.
   33 das 353 moléculas órfãs que receberam
    autorização no período em exame foram retiradas
    do mercado ou não comercializadas por razões de
    segurança. Doze delas não possuíam equivalente
    terapêutico em sua indicação principal. Para as 21
    restantes, alternativas existiam, mas não foram
    aprovadas para outras indicações.
CLASSES TERAPÊUTICAS (EUROPA) N= 65



 Oncologia/Cancer (29)         65%
 Distúrbios metabólicos (13)
MEDICAMENTOS DE ALTO CUSTO
 Doença de Gaucher (Cerezyme) – Genzyme : US$
  100 mil a US$ 400 mil/ano.
 Doença de Fabry (Beta agalsidase) – Genzyme :
  US$ 300 mil/ano.

   NÃO SÃO CASOS ISOLADOS.
MEDICAMENTOS BILIONÁRIOS
 Quarenta e três marcas, cada uma delas para ao
  menos uma designação órfã, geraram vendas
  anuais globais de mais de 1 bilhão de dólares em
  2008.
 Destas, 18 eram dedicadas ao tratamento de uma
  única doença rara, e 11 alcançaram vendas anuais
  globais iguais ou maiores que 1 bilhão de dólares
  nos sete anos de exclusividade de mercado.
5 MOTIVOS PARA A MUDANÇA DE FOCO
 Desenvolvimento e comercialização aceleradas
  destas novas moléculas.
 Apoio apreciável para as empresas de
  biotecnologia.
 Estratificação excessiva de indicações
  terapêuticas.
 Oportunidade de ‘reciclar’ moléculas.

 Preço baseado na disposição de pagar dos
  pacientes e de terceiros.
VANTAGENS
   A política induziu efeitos benéficos no que se refere
    à disponibilidade de novas moléculas
DESENVOLVIMENTO E COMERCIALIZAÇÃO
ACELERADAS DESTAS NOVAS MOLÉCULAS.

 ‘Abismo de patentes’, redução do pipeline da
  industria com drogas ordinárias.
 Rigor maior para aprovação (Vioxx, Merck, 2004) e
  Bextra, Pfizer, 2005).
 Critérios mais rigorosos para aprovação de
  comercialização, número mais elevado de testes
  clínicos
APOIO APRECIÁVEL PARA CIAS
BIOTECNOLÓGICAS

   Oportunidade para empresas de biotecnologia
    (esp.: proteínas, enzimas e anticorpos).

   N = 353

 178 da indústria biotecnológica.
 175 da indústria farmacêutica.



   Amgen, Genentech e Genzyme começaram com
    este tipo de produtos.
ESTRATIFICAÇÃO EXCESSIVA
 A aprovação de uma droga, que obteve designação
  órfã, para diversas indicações terapêuticas
  aumentou significativamente sua produtividade.
  Principal estratégia para aumentar lucratividade.
 Ex.: Epogen (eritropoetina alfa) , Biotech Amgen,
  1989. Normalmente empregada para tratar anemia
  durante fase terminal da insuficiência renal
  (prevalência 78 mil pacientes) . Gerou vendas de 5
  bilhões de dólares em 2001.
 Explicação: indicada tb para recuperação de
  hemácias em pacientes com supressão da medula
  por terapia anti-HIV ou quimio.
RECICLAGEM DE MOLÉCULAS
 A reciclagem permite se beneficiar dos sete anos
  de exclusividade de mercado.
 Vioxx hoje tem uma segunda vida como
  medicamento órfão para indicações mais restritas.
 Entre 1983 e 2010, 26 princípios ativos
  previamente aprovados pelo FDA para outras
  indicações receberam designação de
  medicamentos órfãos. Catorze deles receberam
  aprovação comercial.
PREÇO BASEADO NA DISPOSIÇÃO DE PAGAR
DO USUÁRIO OU DE TERCEIROS
   A indústria sempre alega alto custo para aquisição e
    processamento do principio ativo, custos de mkt e fraca
    demanda.
   Custos de mkt e produção são insignificantes.
   Em geral, custos de P&D de medicamentos órfãos são
    25% daqueles de medicamentos-padrão.
   Testes clinicos tem custos baixos devido ao pequeno ‘n’.
   Custos associados com a venda são insignificantes.
    Rede de pacientes e especialistas que dispensa esforços
    de mkt.
   Mercado cativo,sem equivalentes terapêuticos.
   Estado tende a ceder, pressionado pelos apelos da mídia
    e das associações de pacientes.
CONCLUSÃO
 Apesar de reconhecermos o valor das políticas de
  medicamentos órfãos, devemos reconhecer que, ao
  longo de 30 anos, as motivações da indústria se
  converteram de supostamente humanitárias a
  fortemente comerciais.
 Medidas que buscam acelerar a comercialização
  dos medicamentos órfãos permitem aos fabricantes
  recompor o pipeline comprometido pelos rigores que
  restringem a aprovação de medicamentos
  convencionais.
 Ao escolher nichos de mercado mais atraentes, as
  políticas de medicamentos órfãos produzem o
  paradoxo de gerar mais pacientes órfãos.
OBRIGADO!



   Fonte: Coté, A & Keating, B. What is wrong with
    Orphan Drug Policies. Value in Health. V. 15,
    (2012). p. 1185-1191.

Lei dos Medicamentos Órfãos (EUA): O que há de errado?

  • 1.
    LEI DOS MEDICAMENTOSÓRFÃOS (EUA) O que há de errado? Prof. Claudio Cordovil Departamento de Saúde Coletiva - UnB
  • 2.
    EMENDA KEFAUVER –HARRIS(1962)  Reação à tragédia da talidomida (década de 1950).  Testes clínicos de eficácia e segurança.  Em todos os medicamentos produzidos desde 1938.
  • 3.
    REAÇÃO DA INDÚSTRIAFARMACÊUTICA  Abaixo de certo limiar de prevalência, torna-se desinteressante para a industria continuar a produzir determinados medicamentos.
  • 4.
  • 5.
    LEI DOS MEDICAMENTOSÓRFÃOS (1983)  Créditos fiscais totalizando metade dos custos de desenvolvimento.  Bolsas de P&D.  Exclusividade de mercado por sete anos.  Desenvolvimento e aprovação fast track.  Etc.  Status concedido pelo FDA, independente do sistema de patentes.  Exclusividade de mercado conta a partir da data de aprovação para o mercado.
  • 6.
    E HOJE (AVANÇOSATÉ MAIO DE 2010)?  6819 doenças raras nos EUA (NIH).  2002 designações de medicamentos órfãos.  353 medicamentos aprovados. (Europa: Jan. 2010/Jul. 2011 = 65 ) .  P.S.: 250 novas doenças anualmente.
  • 7.
    LIMITES Moléculas limitadas apoucas famílias terapêuticas => as que oferecem volume de negócios mais significativo. Medicamentos de alto custo, acesso comprometido. Real oportunidade de negócios para os fabricantes.
  • 9.
    CINCO CLASSES TERAPÊUTICASEUA (N = 353)  Oncologia/Câncer (95) + $$$$  Distúrbios metabólicos (54)  Hematologia (41)  Doenças infecciosas (41) 75%  Distúrbios neurológicos (30) 92 moléculas em 11 classes 25% terapêuticas: psiquiatria, musculoesquelético, gastrintestinal, dermatológico, respiratório, oftalmológico, hepatobiliar, imunologia, cardiovascular, distúrbios geniturinários, tratamento de intoxicações.
  • 10.
    33 das 353 moléculas órfãs que receberam autorização no período em exame foram retiradas do mercado ou não comercializadas por razões de segurança. Doze delas não possuíam equivalente terapêutico em sua indicação principal. Para as 21 restantes, alternativas existiam, mas não foram aprovadas para outras indicações.
  • 11.
    CLASSES TERAPÊUTICAS (EUROPA)N= 65  Oncologia/Cancer (29) 65%  Distúrbios metabólicos (13)
  • 12.
    MEDICAMENTOS DE ALTOCUSTO  Doença de Gaucher (Cerezyme) – Genzyme : US$ 100 mil a US$ 400 mil/ano.  Doença de Fabry (Beta agalsidase) – Genzyme : US$ 300 mil/ano.  NÃO SÃO CASOS ISOLADOS.
  • 13.
    MEDICAMENTOS BILIONÁRIOS  Quarentae três marcas, cada uma delas para ao menos uma designação órfã, geraram vendas anuais globais de mais de 1 bilhão de dólares em 2008.  Destas, 18 eram dedicadas ao tratamento de uma única doença rara, e 11 alcançaram vendas anuais globais iguais ou maiores que 1 bilhão de dólares nos sete anos de exclusividade de mercado.
  • 14.
    5 MOTIVOS PARAA MUDANÇA DE FOCO  Desenvolvimento e comercialização aceleradas destas novas moléculas.  Apoio apreciável para as empresas de biotecnologia.  Estratificação excessiva de indicações terapêuticas.  Oportunidade de ‘reciclar’ moléculas.  Preço baseado na disposição de pagar dos pacientes e de terceiros.
  • 15.
    VANTAGENS  A política induziu efeitos benéficos no que se refere à disponibilidade de novas moléculas
  • 16.
    DESENVOLVIMENTO E COMERCIALIZAÇÃO ACELERADASDESTAS NOVAS MOLÉCULAS.  ‘Abismo de patentes’, redução do pipeline da industria com drogas ordinárias.  Rigor maior para aprovação (Vioxx, Merck, 2004) e Bextra, Pfizer, 2005).  Critérios mais rigorosos para aprovação de comercialização, número mais elevado de testes clínicos
  • 17.
    APOIO APRECIÁVEL PARACIAS BIOTECNOLÓGICAS  Oportunidade para empresas de biotecnologia (esp.: proteínas, enzimas e anticorpos).  N = 353  178 da indústria biotecnológica.  175 da indústria farmacêutica.  Amgen, Genentech e Genzyme começaram com este tipo de produtos.
  • 18.
    ESTRATIFICAÇÃO EXCESSIVA  Aaprovação de uma droga, que obteve designação órfã, para diversas indicações terapêuticas aumentou significativamente sua produtividade. Principal estratégia para aumentar lucratividade.  Ex.: Epogen (eritropoetina alfa) , Biotech Amgen, 1989. Normalmente empregada para tratar anemia durante fase terminal da insuficiência renal (prevalência 78 mil pacientes) . Gerou vendas de 5 bilhões de dólares em 2001.  Explicação: indicada tb para recuperação de hemácias em pacientes com supressão da medula por terapia anti-HIV ou quimio.
  • 19.
    RECICLAGEM DE MOLÉCULAS A reciclagem permite se beneficiar dos sete anos de exclusividade de mercado.  Vioxx hoje tem uma segunda vida como medicamento órfão para indicações mais restritas.  Entre 1983 e 2010, 26 princípios ativos previamente aprovados pelo FDA para outras indicações receberam designação de medicamentos órfãos. Catorze deles receberam aprovação comercial.
  • 20.
    PREÇO BASEADO NADISPOSIÇÃO DE PAGAR DO USUÁRIO OU DE TERCEIROS  A indústria sempre alega alto custo para aquisição e processamento do principio ativo, custos de mkt e fraca demanda.  Custos de mkt e produção são insignificantes.  Em geral, custos de P&D de medicamentos órfãos são 25% daqueles de medicamentos-padrão.  Testes clinicos tem custos baixos devido ao pequeno ‘n’.  Custos associados com a venda são insignificantes. Rede de pacientes e especialistas que dispensa esforços de mkt.  Mercado cativo,sem equivalentes terapêuticos.  Estado tende a ceder, pressionado pelos apelos da mídia e das associações de pacientes.
  • 21.
    CONCLUSÃO  Apesar dereconhecermos o valor das políticas de medicamentos órfãos, devemos reconhecer que, ao longo de 30 anos, as motivações da indústria se converteram de supostamente humanitárias a fortemente comerciais.  Medidas que buscam acelerar a comercialização dos medicamentos órfãos permitem aos fabricantes recompor o pipeline comprometido pelos rigores que restringem a aprovação de medicamentos convencionais.  Ao escolher nichos de mercado mais atraentes, as políticas de medicamentos órfãos produzem o paradoxo de gerar mais pacientes órfãos.
  • 22.
    OBRIGADO!  Fonte: Coté, A & Keating, B. What is wrong with Orphan Drug Policies. Value in Health. V. 15, (2012). p. 1185-1191.