Infarma, v.18, nº 3/4, 200628
AS ATRIBUIÇÕES DO FARMACÊUTICO NA
POLÍTICA NACIONAL DE MEDICAMENTOS
FABIANA BURDINI MARGONATO
Farmacêutica – aluna do Mestrado em Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR).
Londrina-Paraná-Brasil - e-mail para contato: fabianamargonato@yahoo.com.br
INTRODUÇÃO
O consumo de medicamentos, no Brasil, tem
dimensões estruturais, políticas, sociais e histórico-
culturais. Entender a relação da utilização dos medi-
camentos com estas dimensões é necessário para que
se possa garantir à população uma terapêutica racio-
nal, segura, com custos acessíveis (BONFIM, 1997).
Diversos são os setores da sociedade que têm
responsabilidade direta ou indireta sobre a utilização
de medicamentos: a esfera nacional, a esfera estadu-
al e a esfera municipal de governo, a indústria farma-
cêutica, os distribuidores de medicamentos, as far-
mácias, os prescritores (médicos e dentistas), os dis-
pensadores (farmacêuticos), os demais profissionais
de saúde e o paciente ou usuário de medicamentos.
29Infarma, v.18, nº 3/4, 2006
Na década de 70, a indústria farmacêutica ins-
talada, no Brasil, cresceu mais de 300% (ROZENFELD,
1989) e estes números continuam se expandindo, até
os tempos atuais. O mercado farmacêutico brasileiro
tornou-se um dos cinco maiores do mundo com ven-
das que atingem 9,6 bilhões de dólares/ano, segundo
dados da Organização Mundial da Saúde.
O setor é constituído por centenas de empre-
sas, entre produtores de medicamentos e indústrias
farmoquímicas. Em contrapartida, este cenário é in-
fluenciado pela desarticulação da assistência farma-
cêutica no âmbito dos serviços públicos de saúde
(BRASIL, 2001). A formação de recursos humanos é
um dos fatores que influenciam tal desbalanço.
Cresce, a cada dia, o número de cursos univer-
sitários e de profissionais diplomados que ainda são
formados sem a percepção da realidade que os espe-
ra. Segundo o Conselho Federal de Farmácia, estima-
se que, no ano 2010, o Brasil terá mais de 135.000
farmacêuticos (FERNANDES, 2003). Entretanto, a ca-
tegoria dissemina-se no setor privado, sem aprovei-
tamento devido no setor público, especialmente quan-
do se fala em assistência farmacêutica.
Medidas políticas que vão desde mudanças cur-
riculares até alterações operacionais nos serviços de
saúde são ferramentas imprescindíveis para melhori-
as. Na tentativa de obter tais melhorias, a Política
Nacional de Medicamentos foi aprovada pela porta-
ria nº3.916 de 30 de outubro de 1998, com o propó-
sito de garantir a necessária segurança, eficácia e
qualidade de medicamentos, a promoção do uso ra-
cional e o acesso da população àqueles considera-
dos essenciais.
Esta política integra os esforços voltados à con-
solidação do Sistema Único de Saúde (SUS) e contri-
bui para o desenvolvimento social do país (BRASIL,
2001). Assim, este trabalho teve como objetivo avali-
ar as prioridades da Política Nacional de Medicamen-
tos, enfatizando as atribuições do profissional farma-
cêutico na implantação e efetivação desta política.
METODOLOGIA
Realizou-se consulta à Política Nacional de Me-
dicamentos, no item denominado “prioridades” (BRA-
SIL, 2001). Após a obtenção das prioridades da polí-
tica, verificaram-se quais as atribuições da profissão
farmacêutica que poderiam facilitar sua implantação
e a efetivação.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
São prioridades da Política Nacional de Medi-
camentos a revisão permanente da relação nacional
de medicamentos essenciais (RENAME), a assistên-
cia farmacêutica, a promoção do uso racional de me-
dicamentos e a organização das atividades de vigi-
lância sanitária de medicamentos. A seguir, serão de-
talhadas separadamente as prioridades, enfatizando
as atribuições do profissional farmacêutico em cada
uma delas.
Elaboração e revisão permanente da Re-
name e da Relação Municipal de Medicamentos
Essenciais (Remume)
A elaboração e revisão permanente da Rename
devem ser realizadas por órgãos competentes do Mi-
nistério da Saúde, gestores estaduais e instituições
científicas que atuem na área de medicamentos (BRA-
SIL, 2001).
Uma lista de medicamentos essenciais é uma
das prioridades para a obtenção de cobertura da po-
pulação. Ela deve conter medicamentos de eficácia
comprovada e riscos aceitáveis, para atender às ne-
cessidades de prevenção e tratamento das doenças
mais freqüentes. Devem ser selecionados produtos
farmacêuticos que tenham dados científicos obtidos
por ensaios clínicos controlados, que satisfaçam as
normas de qualidade, incluindo a biodisponibilidade,
com informação objetiva, exata e completa sobre os
medicamentos de acordo com fontes imparciais (DU-
PIM e RIGHI, 1997).
Atualmente, os cursos de Farmácia nas insti-
tuições de ensino superior (IES) brasileiras fornecem
noções de farmacologia (farmacodinâmica e farma-
cocinética), farmacotécnica, boas práticas de fabri-
cação de medicamentos e insumos farmacêuticos, que
tornam os farmacêuticos aptos fornecedores de in-
formações sobre medicamentos, o que pode ter gran-
de utilidade na elaboração e revisão das relações de
medicamentos essenciais. Assim, a participação des-
tes profissionais na seleção, pode reduzir os gastos
no setor, já que suas aptidões facilitam racionalizar a
aquisição dos produtos, avaliando-se com critérios
mais precisos a relação custo-benefício.
O incentivo ao desenvolvimento de Centros de
Informação de Medicamentos (CIM) é uma das ferra-
mentas para a elaboração de uma lista de medica-
mentos essenciais mais efetiva. Os CIMs são centros
constituídos por equipes de farmacêuticos que res-
pondem a perguntas, revisam a utilização de medica-
mentos, produzem boletins, fornecem cursos com
temas específicos da farmacoterapia, realizam ativi-
dades de pesquisa, fornecem informações toxicoló-
gicas e coordenam programas de farmacovigilância
(VIDOTTI, 1997).
No entanto, na maioria dos municípios a parti-
Infarma, v.18, nº 3/4, 200630
cipação destes centros (quando existem) na elabora-
ção da Remume custa a sair do papel. Isto se deve a
dois fatores principais: falta de incentivo ao desen-
volvimento de CIMs e algumas vezes, falta de interes-
se do próprio farmacêutico pelo serviço público no
campo das informações de medicamentos e na cons-
trução das listas de medicamentos essenciais.
Assistência Farmacêutica
A Política Nacional de Medicamentos (PNM), na
assistência farmacêutica, prioriza garantir a aquisição
e a distribuição de forma descentralizada pelos muni-
cípios e sob a coordenação dos estados, de medica-
mentos necessários à atenção básica à saúde de suas
populações (BRASIL, 2001).
Compreende-se por assistência farmacêutica o
conjunto de ações e serviços com vistas a assegurar
a assistência terapêutica integral, a promoção e a re-
cuperação da saúde, nos estabelecimentos públicos
e privados que desempenham atividades de pesqui-
sa, manipulação, produção, conservação, distribuição,
garantia e controle de qualidade, vigilância sanitária
e epidemiológica de medicamentos e produtos far-
macêuticos (BRASIL, 2001).
O farmacêutico ou atendente de farmácia é o
último contato do paciente e/ou usuário de medica-
mentos com o serviço até o próximo retorno. A dis-
pensação é o ato de fornecimento ao consumidor de
drogas, medicamentos, insumos farmacêuticos e cor-
relatos. O desempenho desta função é uma atribui-
ção do farmacêutico, já que este profissional é for-
mado teoricamente com aptidões de fornecer infor-
mação aos doentes sobre a utilização correta de me-
dicamentos para o uso racional e aconselhamento aos
doentes sobre o uso de medicamentos não prescri-
tos de venda livre (auto-medicação responsável) (AR-
RAIS, 1997).
Neste contexto, é essencial que a classe far-
macêutica reflita sobre suas atribuições, suas apti-
dões, estabeleça consensos e tome decisões que
possam trazer melhorias como a inclusão do farma-
cêutico nos serviços públicos. Medidas neste senti-
do, poderão trazer progressos na utilização de medi-
camentos, efetivando ações que tenham resultados
concretos na qualidade de vida da população, garan-
tindo integralidade da assistência farmacêutica.
Promoção do uso racional de medicamentos
Esta prioridade da Política Nacional de Medi-
camentos envolve as seguintes medidas: elaboração
de campanhas educativas, estímulo ao registro e uso
dos medicamentos genéricos, elaboração de um for-
mulário terapêutico nacional que oriente a utilização
dos medicamentos, estudos de farmacologia e ações
de farmacovigilância e adequação dos recursos hu-
manos (BRASIL, 2001).
A adequação dos medicamentos genéricos é
um passo fundamental na racionalização do uso de
medicamentos (SANTOS, 1998). Para a adoção e fun-
cionamento efetivo de uma política de medicamen-
tos genéricos, é relevante a participação ativa e cons-
ciente dos profissionais responsáveis pela sua pres-
crição e dispensação.
Neste contexto, o farmacêutico deveria ser o
principal conhecedor no que tange a dispensação de
medicamentos, precisando estar atualizado e instruí-
do para proceder a intercambialidade ou substitui-
ção de medicamentos de referência por genéricos com
eficácia e credibilidade. Entretanto a atual realidade
destes profissionais deixa a desejar.
Em um estudo realizado por SANTANA e cols.,
39% dos farmacêuticos entrevistados não souberam
informar com precisão o que é um medicamento ge-
nérico, enquanto apenas 23% respondeu corretamen-
te o que é um processo de intercambialidade (SAN-
TANA et al., 2003). Estes resultados demonstram a
necessidade de encontrar novos caminhos para que
os profissionais formados sejam mais bem prepara-
dos para exercer a profissão, de modo que o farma-
cêutico comprove sua importância para a sociedade.
Quanto aos estudos farmacoepidemiológicos
e as ações de farmacovigilância, estes são campos
que necessitam ser trabalhados para a detecção dos
problemas relacionados a medicamentos, e são tam-
bém extremamente carentes de profissionais farma-
cêuticos no Brasil. O termo farmacoepidemiologia
contém dois componentes: fármaco e epidemiologia,
ou seja, denomina o estudo da utilização de drogas
em uma população (STROM, 2000).
Já a farmacovigilância, é o conjunto de proce-
dimentos de detecção, registro e avaliação das rea-
ções adversas para a determinação de sua incidên-
cia, gravidade, e relação de causalidade com a forma
de dosificação de um medicamento, com o objetivo
último da prevenção, com base no estudo sistemáti-
co e pluridisciplinar das ações dos medicamentos (NU-
NES, 2001).
O que os gestores devem saber, é que, se fo-
rem incentivados os serviços farmacêuticos no setor
público proporcionando o desempenho de farmaco-
epidemiologia e farmacovigilância, a economia com a
diminuição de custos com efeitos adversos de medi-
camentos será bem maior do que os gastos com pes-
soal, com uma melhora exponencial da qualidade de
vida dos pacientes positivando e muito, os valores
desta matemática.
31Infarma, v.18, nº 3/4, 2006
Vigilância sanitária de medicamentos
A vigilância sanitária de medicamentos é ainda
um campo com escassez de profissionais farmacêuti-
cos. Como atividade pertinente neste contexto, apli-
ca-se a revisão dos procedimentos de registro de me-
dicamentos de marca e similares. O farmacêutico,
sendo o profissional do medicamento, deve estar apto
e atualizado para realizar atribuições tais como infor-
mar sobre produtos registrados, sua composição, in-
dicações principais e formas de comercialização, co-
nhecer os produtos retirados do mercado , trabalhar
no controle da venda de psicotrópicos e entorpecen-
tes, no controle da propaganda de medicamentos de
venda livre e participar da regulamentação e controle
de propaganda realizada pelos fabricantes de medi-
camentos junto aos prescritores (BRASIL, 2001).
O comércio e a distribuição de medicamentos
no Brasil é um dos problemas mais sérios que afetam
as farmácias e contra os quais a classe farmacêutica
vem protestando ao longo dos tempos (ZUBIOLI,
1992). A propaganda de produtos é um fator que po-
tancializa as deficiências no setor da assistência far-
macêutica em serviços públicos e privados.
O marketing de medicamentos muitas vezes en-
cobre calamidades tais como o excesso de represen-
tantes com escassez de conhecimentos, suborno, e
falsos ensaios clínicos (LEXCHIN, 1997). Torna-se in-
contestável que o farmacêutico, como profissional do
medicamento, tem o dever de se manifestar, partici-
pando das ações de vigilância sanitária de medica-
mentos para favorecer o uso seguro e racional de
medicamentos com custos acessíveis para toda a
população.
CONCLUSÕES
A Política Nacional de Medicamentos é abran-
gente, que, se colocada em prática, poderá trazer ao
setor de saúde, no Brasil, melhorias exponenciais na
qualidade de vida da população. As prioridades esti-
puladas por esta política são a revisão permanente
da relação nacional de medicamentos essenciais (Re-
name), a assistência farmacêutica, a promoção do uso
racional de medicamentos e a organização das ativi-
dade de vigilância sanitária de medicamentos.
O farmacêutico é um profissional apto com atri-
buições favorecedoras à consolidação de tais priori-
dades. Entretanto é necessária ainda muita reflexão
por esta classe profissional sobre os seus direitos e
deveres perante a sociedade na luta coletiva pelo uso
seguro e racional de medicamentos por todos.
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fissão: farmacêutico. E agora? p. 63-76. Curitiba:
Lovise. 1992. 165 p.

Política nacional de medicamentos

  • 1.
    Infarma, v.18, nº3/4, 200628 AS ATRIBUIÇÕES DO FARMACÊUTICO NA POLÍTICA NACIONAL DE MEDICAMENTOS FABIANA BURDINI MARGONATO Farmacêutica – aluna do Mestrado em Saúde Coletiva da Universidade Estadual de Londrina (UEL-PR). Londrina-Paraná-Brasil - e-mail para contato: fabianamargonato@yahoo.com.br INTRODUÇÃO O consumo de medicamentos, no Brasil, tem dimensões estruturais, políticas, sociais e histórico- culturais. Entender a relação da utilização dos medi- camentos com estas dimensões é necessário para que se possa garantir à população uma terapêutica racio- nal, segura, com custos acessíveis (BONFIM, 1997). Diversos são os setores da sociedade que têm responsabilidade direta ou indireta sobre a utilização de medicamentos: a esfera nacional, a esfera estadu- al e a esfera municipal de governo, a indústria farma- cêutica, os distribuidores de medicamentos, as far- mácias, os prescritores (médicos e dentistas), os dis- pensadores (farmacêuticos), os demais profissionais de saúde e o paciente ou usuário de medicamentos.
  • 2.
    29Infarma, v.18, nº3/4, 2006 Na década de 70, a indústria farmacêutica ins- talada, no Brasil, cresceu mais de 300% (ROZENFELD, 1989) e estes números continuam se expandindo, até os tempos atuais. O mercado farmacêutico brasileiro tornou-se um dos cinco maiores do mundo com ven- das que atingem 9,6 bilhões de dólares/ano, segundo dados da Organização Mundial da Saúde. O setor é constituído por centenas de empre- sas, entre produtores de medicamentos e indústrias farmoquímicas. Em contrapartida, este cenário é in- fluenciado pela desarticulação da assistência farma- cêutica no âmbito dos serviços públicos de saúde (BRASIL, 2001). A formação de recursos humanos é um dos fatores que influenciam tal desbalanço. Cresce, a cada dia, o número de cursos univer- sitários e de profissionais diplomados que ainda são formados sem a percepção da realidade que os espe- ra. Segundo o Conselho Federal de Farmácia, estima- se que, no ano 2010, o Brasil terá mais de 135.000 farmacêuticos (FERNANDES, 2003). Entretanto, a ca- tegoria dissemina-se no setor privado, sem aprovei- tamento devido no setor público, especialmente quan- do se fala em assistência farmacêutica. Medidas políticas que vão desde mudanças cur- riculares até alterações operacionais nos serviços de saúde são ferramentas imprescindíveis para melhori- as. Na tentativa de obter tais melhorias, a Política Nacional de Medicamentos foi aprovada pela porta- ria nº3.916 de 30 de outubro de 1998, com o propó- sito de garantir a necessária segurança, eficácia e qualidade de medicamentos, a promoção do uso ra- cional e o acesso da população àqueles considera- dos essenciais. Esta política integra os esforços voltados à con- solidação do Sistema Único de Saúde (SUS) e contri- bui para o desenvolvimento social do país (BRASIL, 2001). Assim, este trabalho teve como objetivo avali- ar as prioridades da Política Nacional de Medicamen- tos, enfatizando as atribuições do profissional farma- cêutico na implantação e efetivação desta política. METODOLOGIA Realizou-se consulta à Política Nacional de Me- dicamentos, no item denominado “prioridades” (BRA- SIL, 2001). Após a obtenção das prioridades da polí- tica, verificaram-se quais as atribuições da profissão farmacêutica que poderiam facilitar sua implantação e a efetivação. RESULTADOS E DISCUSSÃO São prioridades da Política Nacional de Medi- camentos a revisão permanente da relação nacional de medicamentos essenciais (RENAME), a assistên- cia farmacêutica, a promoção do uso racional de me- dicamentos e a organização das atividades de vigi- lância sanitária de medicamentos. A seguir, serão de- talhadas separadamente as prioridades, enfatizando as atribuições do profissional farmacêutico em cada uma delas. Elaboração e revisão permanente da Re- name e da Relação Municipal de Medicamentos Essenciais (Remume) A elaboração e revisão permanente da Rename devem ser realizadas por órgãos competentes do Mi- nistério da Saúde, gestores estaduais e instituições científicas que atuem na área de medicamentos (BRA- SIL, 2001). Uma lista de medicamentos essenciais é uma das prioridades para a obtenção de cobertura da po- pulação. Ela deve conter medicamentos de eficácia comprovada e riscos aceitáveis, para atender às ne- cessidades de prevenção e tratamento das doenças mais freqüentes. Devem ser selecionados produtos farmacêuticos que tenham dados científicos obtidos por ensaios clínicos controlados, que satisfaçam as normas de qualidade, incluindo a biodisponibilidade, com informação objetiva, exata e completa sobre os medicamentos de acordo com fontes imparciais (DU- PIM e RIGHI, 1997). Atualmente, os cursos de Farmácia nas insti- tuições de ensino superior (IES) brasileiras fornecem noções de farmacologia (farmacodinâmica e farma- cocinética), farmacotécnica, boas práticas de fabri- cação de medicamentos e insumos farmacêuticos, que tornam os farmacêuticos aptos fornecedores de in- formações sobre medicamentos, o que pode ter gran- de utilidade na elaboração e revisão das relações de medicamentos essenciais. Assim, a participação des- tes profissionais na seleção, pode reduzir os gastos no setor, já que suas aptidões facilitam racionalizar a aquisição dos produtos, avaliando-se com critérios mais precisos a relação custo-benefício. O incentivo ao desenvolvimento de Centros de Informação de Medicamentos (CIM) é uma das ferra- mentas para a elaboração de uma lista de medica- mentos essenciais mais efetiva. Os CIMs são centros constituídos por equipes de farmacêuticos que res- pondem a perguntas, revisam a utilização de medica- mentos, produzem boletins, fornecem cursos com temas específicos da farmacoterapia, realizam ativi- dades de pesquisa, fornecem informações toxicoló- gicas e coordenam programas de farmacovigilância (VIDOTTI, 1997). No entanto, na maioria dos municípios a parti-
  • 3.
    Infarma, v.18, nº3/4, 200630 cipação destes centros (quando existem) na elabora- ção da Remume custa a sair do papel. Isto se deve a dois fatores principais: falta de incentivo ao desen- volvimento de CIMs e algumas vezes, falta de interes- se do próprio farmacêutico pelo serviço público no campo das informações de medicamentos e na cons- trução das listas de medicamentos essenciais. Assistência Farmacêutica A Política Nacional de Medicamentos (PNM), na assistência farmacêutica, prioriza garantir a aquisição e a distribuição de forma descentralizada pelos muni- cípios e sob a coordenação dos estados, de medica- mentos necessários à atenção básica à saúde de suas populações (BRASIL, 2001). Compreende-se por assistência farmacêutica o conjunto de ações e serviços com vistas a assegurar a assistência terapêutica integral, a promoção e a re- cuperação da saúde, nos estabelecimentos públicos e privados que desempenham atividades de pesqui- sa, manipulação, produção, conservação, distribuição, garantia e controle de qualidade, vigilância sanitária e epidemiológica de medicamentos e produtos far- macêuticos (BRASIL, 2001). O farmacêutico ou atendente de farmácia é o último contato do paciente e/ou usuário de medica- mentos com o serviço até o próximo retorno. A dis- pensação é o ato de fornecimento ao consumidor de drogas, medicamentos, insumos farmacêuticos e cor- relatos. O desempenho desta função é uma atribui- ção do farmacêutico, já que este profissional é for- mado teoricamente com aptidões de fornecer infor- mação aos doentes sobre a utilização correta de me- dicamentos para o uso racional e aconselhamento aos doentes sobre o uso de medicamentos não prescri- tos de venda livre (auto-medicação responsável) (AR- RAIS, 1997). Neste contexto, é essencial que a classe far- macêutica reflita sobre suas atribuições, suas apti- dões, estabeleça consensos e tome decisões que possam trazer melhorias como a inclusão do farma- cêutico nos serviços públicos. Medidas neste senti- do, poderão trazer progressos na utilização de medi- camentos, efetivando ações que tenham resultados concretos na qualidade de vida da população, garan- tindo integralidade da assistência farmacêutica. Promoção do uso racional de medicamentos Esta prioridade da Política Nacional de Medi- camentos envolve as seguintes medidas: elaboração de campanhas educativas, estímulo ao registro e uso dos medicamentos genéricos, elaboração de um for- mulário terapêutico nacional que oriente a utilização dos medicamentos, estudos de farmacologia e ações de farmacovigilância e adequação dos recursos hu- manos (BRASIL, 2001). A adequação dos medicamentos genéricos é um passo fundamental na racionalização do uso de medicamentos (SANTOS, 1998). Para a adoção e fun- cionamento efetivo de uma política de medicamen- tos genéricos, é relevante a participação ativa e cons- ciente dos profissionais responsáveis pela sua pres- crição e dispensação. Neste contexto, o farmacêutico deveria ser o principal conhecedor no que tange a dispensação de medicamentos, precisando estar atualizado e instruí- do para proceder a intercambialidade ou substitui- ção de medicamentos de referência por genéricos com eficácia e credibilidade. Entretanto a atual realidade destes profissionais deixa a desejar. Em um estudo realizado por SANTANA e cols., 39% dos farmacêuticos entrevistados não souberam informar com precisão o que é um medicamento ge- nérico, enquanto apenas 23% respondeu corretamen- te o que é um processo de intercambialidade (SAN- TANA et al., 2003). Estes resultados demonstram a necessidade de encontrar novos caminhos para que os profissionais formados sejam mais bem prepara- dos para exercer a profissão, de modo que o farma- cêutico comprove sua importância para a sociedade. Quanto aos estudos farmacoepidemiológicos e as ações de farmacovigilância, estes são campos que necessitam ser trabalhados para a detecção dos problemas relacionados a medicamentos, e são tam- bém extremamente carentes de profissionais farma- cêuticos no Brasil. O termo farmacoepidemiologia contém dois componentes: fármaco e epidemiologia, ou seja, denomina o estudo da utilização de drogas em uma população (STROM, 2000). Já a farmacovigilância, é o conjunto de proce- dimentos de detecção, registro e avaliação das rea- ções adversas para a determinação de sua incidên- cia, gravidade, e relação de causalidade com a forma de dosificação de um medicamento, com o objetivo último da prevenção, com base no estudo sistemáti- co e pluridisciplinar das ações dos medicamentos (NU- NES, 2001). O que os gestores devem saber, é que, se fo- rem incentivados os serviços farmacêuticos no setor público proporcionando o desempenho de farmaco- epidemiologia e farmacovigilância, a economia com a diminuição de custos com efeitos adversos de medi- camentos será bem maior do que os gastos com pes- soal, com uma melhora exponencial da qualidade de vida dos pacientes positivando e muito, os valores desta matemática.
  • 4.
    31Infarma, v.18, nº3/4, 2006 Vigilância sanitária de medicamentos A vigilância sanitária de medicamentos é ainda um campo com escassez de profissionais farmacêuti- cos. Como atividade pertinente neste contexto, apli- ca-se a revisão dos procedimentos de registro de me- dicamentos de marca e similares. O farmacêutico, sendo o profissional do medicamento, deve estar apto e atualizado para realizar atribuições tais como infor- mar sobre produtos registrados, sua composição, in- dicações principais e formas de comercialização, co- nhecer os produtos retirados do mercado , trabalhar no controle da venda de psicotrópicos e entorpecen- tes, no controle da propaganda de medicamentos de venda livre e participar da regulamentação e controle de propaganda realizada pelos fabricantes de medi- camentos junto aos prescritores (BRASIL, 2001). O comércio e a distribuição de medicamentos no Brasil é um dos problemas mais sérios que afetam as farmácias e contra os quais a classe farmacêutica vem protestando ao longo dos tempos (ZUBIOLI, 1992). A propaganda de produtos é um fator que po- tancializa as deficiências no setor da assistência far- macêutica em serviços públicos e privados. O marketing de medicamentos muitas vezes en- cobre calamidades tais como o excesso de represen- tantes com escassez de conhecimentos, suborno, e falsos ensaios clínicos (LEXCHIN, 1997). Torna-se in- contestável que o farmacêutico, como profissional do medicamento, tem o dever de se manifestar, partici- pando das ações de vigilância sanitária de medica- mentos para favorecer o uso seguro e racional de medicamentos com custos acessíveis para toda a população. CONCLUSÕES A Política Nacional de Medicamentos é abran- gente, que, se colocada em prática, poderá trazer ao setor de saúde, no Brasil, melhorias exponenciais na qualidade de vida da população. As prioridades esti- puladas por esta política são a revisão permanente da relação nacional de medicamentos essenciais (Re- name), a assistência farmacêutica, a promoção do uso racional de medicamentos e a organização das ativi- dade de vigilância sanitária de medicamentos. O farmacêutico é um profissional apto com atri- buições favorecedoras à consolidação de tais priori- dades. Entretanto é necessária ainda muita reflexão por esta classe profissional sobre os seus direitos e deveres perante a sociedade na luta coletiva pelo uso seguro e racional de medicamentos por todos. REFERÊNCIAS ARRAIS, P.S.D.; COELHO, H.L.L.; BATISTA, M.C.D.S.; CARVA- LHO, M.L.; RIGHI, E.; ARNAU, J.M. Perfil da automedicação no Brasil. Rev. de Saúde Pública, São Paulo, v.31, n.1, p. 71-77. 1997. BONFIM, R.A.B. Os dédalos da política de medicamentos. In: BONFIM, R.A.B.; MERCUCCI, V.L. (Org). A construção da política de medicamentos. p. 21-37, São Paulo: Huci- tec. 381 p. BRASIL. Política Nacional de Medicamentos 2001/ Ministério da Saúde, Secretaria de Políticas de Saúde, Departamento de atenção básica – Brasília. Ministério da Saúde, 2001. DUPIM, J.A.A.; RIGHI, R.E. Medicamentos essenciais nos siste- mas locais de saúde. In: BONFIM, R.A.B.; MERCUCCI, V.L. (Org). A construção da política de medicamentos. p. 138-154, São Paulo: Hucitec. 1997. 381p. FERNANDES, Z.C. Hora da reação. Pharmacia Brasileira. nº 39, p.4-9. Set/out 2003. LEXCHIN, J. Uma fraude planejada: a publicidade farmacêutica no terceiro mundo. In: BONFIM, R.A.B.; MERCUCCI, V.L. (Org). A construção da política de medicamentos. p. 269-292. São Paulo: Hucitec. 1997. 381 p. ROZENFELD, S. O uso de medicamentos no Brasil. In: LAPOR- TE, J.R.; TOGNONI, G.; ROZENFELD, S. Epidemiologia do medicamento. Princípios gerais. P. 21-41, São Paulo: Hu- citec. 1989. 264 p. SANTANA, A.D.; LYRA Jr., D.P.; NEVES, S.J.F. Qualidade da infor- mação farmacêutica na dispensação dos medicamentos ge- néricos. Infarma. V. 15, nº 9-10, Brasília: Esdeva, set/out 2003. SANTOS, J.S. Genéricos: uma questão de humanidade. Phar- macia Brasileira. nº 8, p.5-8. jan/fev/mar 1998. STROM, B.L. What is pharmacoepidemiology? In: STROM, B.L. (Org). Pharmacoepidemiology. P. 3-15. 3. Ed. England: British Library. 2000. 871 p. VIDOTTI, C.C.F. Centro Brasileiro de Informações sobre Medi- camentos (CEBRIM). In: BONFIM, R.A.B.; MERCUCCI, V.L. (Org). A construção da política de medicamentos. p. 158-163. São Paulo: Hucitec. 1997. 381 p. ZUBIOLI, A. O controle no exercício da farmácia. In: Pro- fissão: farmacêutico. E agora? p. 63-76. Curitiba: Lovise. 1992. 165 p.