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O Jogo do Amor e do Acaso
de Pierre de Marivaux
Tradução e adaptação para fins acadêmicos:
Adélia Nicolete
Personagens:
Senhor Orgon, viúvo
Sílvia, filha do Sr. Orgon
Lisette, criada de Sílvia
Flamínia, viúva, a governanta
Dorante, o pretendente de Sílvia
Arlequin, criado de Dorante
Isabella, irmã de Dorante
Senhor Remy, viúvo, pai de Dorante
Belisa e Coralina, criadas da casa
Ragonda, cozinheira
A ação transcorre em Paris
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PRIMEIRO ATO
ABERTURA
Coralina, Belisa, Lisette e Ragonda
Criadas entram varrendo a cena, coreografando uma canção francesa de corte. Terminada a coerografia,
falam:
CORALINA É sempre a mesma coisa, vocês já repararam?
BELISA, LISETTE e RAGONDA Já.
RAGONDA O serviço mais pesado sempre fica com a gente.
BELISA, LISETTE e CORALINA É.
LISETTE O serviço sujo.
BELISA, CORALINA e RAGONDA É.
Param de trabalhar.
BELISA Por que será?
RAGONDA Sempre foi assim.
CORALINA Por que será?
LISETTE Corremos o dia inteiro pra resolver os problemas deles.
RAGONDA Fazer sua comida.
BELISA Ouvir as suas confidências.
LISETTE E, no final, somos sempre motivo de risos!
RAGONDA Somos as criadas. Sempre foi assim.
CORALINA Eles se metem em confusões.
BELISA E nós é que pagamos o pato.
LISETTE Lavar, passar, varrer.
RAGONDA Cozinhar, costurar, tecer.
AS QUATRO Somos as criadas. Sempre foi assim.
Entra Flamínia.
FLAMÍNIA Meninas! O que tanto conversam?! Vamos trabalhar?!
LISETTE Estamos filosofando.
FLAMÍNIA Humm! Sobre o que?
CORALINA Sobre a nossa função nas comédias.
FLAMÍNIA Pois a nossa função é a mais nobre!
TODAS O que?!
BELISA Somos todos pobres e famintos!
RAGONDA Não fazemos outra coisa se não servir.
LISETTE E fazer as pessoas rirem com as nossas trapalhadas.
CORALINA Você esqueceram que Flamínia é uma criada diferente de nós?
FLAMÍNIA Só porque sou uma governanta? Sou tão criada quanto vocês!
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RAGONDA Então, por que diz que nossa função é nobre?
FLAMÍNIA Somos inteligentes, Ragonda!
CORALINA Às vezes.
FLAMÍNIA Somos espertas, Coralina!
BELISA Alguns de nós.
FLAMÍNIA Belisa! Somos nós que, com as nossas artimanhas, conseguimos
vencer os poderosos. E unir os corações apaixonados.... (Suspira)
TODAS Isso é verdade...
FLAMÍNIA Desde Plauto, da Commedia Dell’Arte, de Molière, de Marivaux, de
Ariano Suassuna! Os criados, os desvalidos é que salvam a pátria!
LISETTE Então vamos contar logo a nossa história! (Ao público) Que os
senhores e as senhoras aqui presentes, nossas bobagens queiram
ouvir.
BELISA (Ao público) Que imaginem o que os nossos poucos recursos não
sejam capazes de reproduzir.
RAGONDA Que se divirtam com as nossas trapalhadas.
TODAS E com as histórias de amor aqui narradas!
Saem varrendo e limpando. Apenas Flamínia permanece e já emenda a outra cena.
CENA 1 – Sílvia, Flamínia e Lisette
Entra Sílvia.
FLAMÍNIA Senhorita, escute, por favor!
SILVIA Você quer me deixar louca, Flamínia!?
FLAMÍNIA É para o seu próprio bem!
LISETTE Deixe, Flamínia... dona Sílvia está recusando a oferta e vai se
arrepender mais tarde...
SILVIA Não vou me arrepender, Lisette! Quer para você? Pode ficar!
LISETTE Quem me dera! Olha que a senhorita ainda vai pagar pela sua
arrogância, viu?
FLAMÍNIA Meninas! Não é hora de discutir. É hora de decidir! Silvinha,
querida... Te conheço desde que era desse tamaninho... Sei mais do
que ninguém que isso é o melhor para você.
SILVIA Já disse que não quero! Que insistência. Se você me
conhecesse mesmo, saberia que jamais, ouviu? Jamais eu
concordaria com uma coisa dessas!
LISETTE (Ao público) Dona Sílvia sempre foi diferente das outras moças.
Todas, sem exceção, querem casar. Menos ela.
SILVIA O casamento é assim tão atraente para você, Lisette?
LISETTE Se é!
SILVIA Pois para o meu coração não é!
LISETTE E do que é feito o seu coração, que é tão diferente do nosso?
SILVIA Ele está em equilíbrio com o meu cérebro, entendeu?
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FLAMÍNIA Silvia, minha flor. Desde que sua mãezinha morreu, não
tenho me ocupado de outra coisa que não a sua felicidade.
SILVIA Sou muito feliz. Solteira!
LISETTE Ih! A dona Silvia não quer mesmo saber desse assunto, não! Já
gastei todo o meu latim, meu grego, meu... japonês com ela...
FLAMÍNIA Mas seu pai prometeu a sua mão para Dorante! Foi um acordo
entre ele e o sr. Remy.
SILVIA Pode ter prometido a mão, mas não o coração!
LISETTE Dizem que é um dos moços mais distintos de Paris. Que é
bonitão, gentil, rico... que é inteligente. Enfim, não poderia haver
melhor partido.
FLAMÍNIA O que a senhorita quer mais?
LISETTE Tudo o que é bom foi parar nesse homem: o útil e o agradável,
juntos!
SILVIA Tanto pior. Já reparou que todo homem bonito é arrogante?
LISETTE Bem, pode estar errado na arrogância, mas está certíssimo na
beleza. Ai, ai...
FLAMÍNIA (Ao público) Marido é porto seguro. Desde que perdi o meu, na
batalha, só eu sei a falta que faz um companheiro...
LISETTE (Ao público) E eu, que nunca tive?!... Como seria bom ter alguém
para me esquentar no frio...
SILVIA Compre um cobertor, Lisette!
LISETTE Pra me abanar no calor...
SILVIA Compre um leque! E chega, vocês duas! Não quero mais falar desse
assunto!
FLAMÍNIA Impossível. O senhor seu pai vem chegando. Parece que traz
novidades...
CENA 2 – Sr. Orgon, Flamínia, Sílvia e Lisette
SR. ORGON (Entrando) Bom dia! Bom dia, querida filha!
SILVIA Bom dia, papai.
SR. ORGON Será que a surpresa que eu trago vai agradar minha princesinha?
SILVIA Depende.
LISETTE Ai ai ai... A surpresa tem barba, cabelo, bigode, usa calças?...
SR. ORGON (Rindo) Oh! Acertou! O pretendente chegará hoje, recebi
uma carta do próprio pai, anunciando. Não responde nada, filha?
FLAMÍNIA Dona Silvia não quer se casar com o moço.
SILVIA Eu nem o conheço, papai!
SR. ORGON Oh, pobre Silvia, o casamento a assusta. Eu compreendo...
Mas confie em mim. Dorante é um ótimo rapaz.
SILVIA Os homens são falsos! Mostram uma personalidade fora de casa e
outra para a esposa e os filhos.
SR. ORGON Nem todos, querida. Eu, por exemplo. Nunca mais me casei
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desde que perdi sua mãe. Só faria isso de novo se me
apaixonasse de todo coração!
SILVIA O senhor é diferente...
SR. ORGON Conversei com o pai do moço a respeito da união. Apesar de
velhos, colocamos a condição de que o enlace deve ser de pleno
acordo dos noivos. Portanto, pode ficar tranqüila: se Dorante não
agradá-la, é só dizer, ele partirá.
FLAMÍNIA E se a senhorita não agradá-lo, a mesma coisa.
SILVIA Não sei...
SR. ORGON Posso garantir que é um ótimo rapaz.
SILVIA Agradeço seus cuidados, papai. Se é assim, eu obedecerei.
Mas, se me permite... acabo de ter uma idéia bastante original.
SR. ORGON Pois fale. Se for razoável, concordarei.
SILVIA Preciso da ajuda de Lisette.
LISETTE (Ao público) Ih! Lá vem bucha! (Para Sílvia) Oh! Quanta honra! Do
que se trata?
SILVIA Dorante chega hoje. Seu eu pudesse vê-lo, conhecê-lo um pouco,
mas sem que ele soubesse...
SR. ORGON E?
SILVIA Explico: Lisette é bem esperta, ela poderia tomar o meu lugar
por algum tempo, e eu seria a criada.
LISETTE A senhorita? Uma criada? (Ri. Ao público) Isso não vai dar certo.
SR. ORGON Bem... deixe-me pensar... (Ao público) Se eu permitir, ela
chegará a uma conclusão surpreendente! Não perde por esperar!
(Para Silvia) Está bem, Silvia, eu concordo. E você, Lisette, o que
diz?
LISETTE Eu? (Já imitando uma nobre, toda autoritária) O senhor me
conhece! Que alguém ouse me contrariar, que me faltem com o
respeito uma vez sequer! (Volta a ser criada) Eis uma amostra da
elegância de que sou capaz. O que me dizem? Hein? Reconhecem
Lisette?
SR. ORGON Brava! Não fui capaz de reconhecer!
SILVIA Eu, só preciso de um avental!
LISETTE E eu vou me arrumar. Venha, Lisette. Faça suas obrigações. Um
pouco mais de atenção, por favor!
SILVIA Pois não, senhorita. Vamos.
SR. ORGON Isso mesmo, corram. Dorante chega a qualquer momento! Não há
tempo a perder!
Saem Silvia e Lisette.
CENA 3 – Flamínia e Senhor Orgon
SR. ORGON Flamínia, o que achou da ideia de Sílvia?
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FLAMÍNIA Arriscada. Mas bastante criativa! Por que, senhor?
SR. ORGON Primeiro é preciso que me prometa discrição!
FLAMÍNIA Sempre!
SR. ORGON Dorante chegará hoje, mas não o veremos de verdade.
FLAMÍNIA O senhor organizou um baile de máscaras!
SR. ORGON Você não vai acreditar: ele teve a mesma idéia de Silvia!
FLAMÍNIA Verdade?
SR. ORGON O pai dele, o sr Remy, enviou uma carta avisando. Dorante quis
trocar de lugar com o seu criado para conhecer melhor minha filha!
FLAMÍNIA E o sr. Remy, sabe que Sílvia estará disfarçada?
SR. ORGON Sabe e está ansioso para ver como desatarão este nó!
FLAMÍNIA Veremos se a cabeça é mesmo mais esperta que o coração!
Riem.
CENA 4 – Sr. Orgon, Sílvia e Flamínia
SILVIA Prontinho. Como estou?
SR. ORGON Parece mesmo uma criada. Mas não me admiraria se conquistasse o
próprio Dorante...
SILVIA Já pensou? Seria um troféu! Ele, um nobre, apaixonado por uma
criada como eu!
FLAMÍNIA E quanto ao criado...
SILVIA Quanto ao criado, ele não ousará me abordar. Saberei impor
respeito ao insolente.
FLAMÍNIA Imbecil? Ele será tão criado quanto a senhorita...
SR. ORGON E pode, com certeza, se apaixonar também!
SILVIA Se isso acontecer, usarei a meu favor; para saber mais e mais a
respeito do patrão!
SR. ORGON Bem, eu só posso desejar boa sorte. Porque Dorante deve estar
chegando daqui a pouco...
FLAMÍNIA E onde está Lisette?
SILVIA Lá dentro, se ensaiando diante do espelho!
Riem.
SR. ORGON Vamos verificar se as coisas estão em ordem para as visitas? (Saem
enquanto ele fala) Precisamos de aposentos para o sr. Remy, para sua
filha Isabela, que eu não conheço, para Dorante e para o criado,
Arlequim...
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CENA 5 - Belisa, Coralina e Ragonda
Entram varrendo, espanando, arrumando.
CORALINA Já preparou o jantar, Ragonda?
BELISA Já fez todas as suas obrigações?
RAGONDA Tudo prontinho!
BELISA E o que se serve para uma noivinha que não quer casar?
CORALINA Uma boa lingüiça...
RAGONDA e BELISA Oh! (Todas riem)
BELISA E um chouriço bem assado!
CORALINA e RAGONDA Ih! (Todas riem)
RAGONDA Nada disso! Vocês estão de maldade.
CORALINA Maldade é o desperdício. A pessoa tem tudo na mão e despreza.
RAGONDA Por que isso agora?
BELISA Dona Sílvia é muito mimada... Trocar de lugar com Lisette?
CORALINA Inda se fosse comigo!
RAGONDA Perdeu a mãe muito cedo. Não teve quem a orientasse.
BELISA Eu também perdi minha mãe... Quem me criou foi a rua!
RAGONDA E olha só no que deu... (Todas riem)
CORALINA Eu sei o que dona Sílvia tem!
RAGONDA e BELISA E o que é?
CORALINA Ela tem é medo daquilo... (Riem)
BELISA Pode ser... Não quero casar daqui, gosto de ser solteira dali. Humm.
RAGONDA Não teve ninguém que lhe falasse sobre... aquelas coisas...
CORALINA Que chamasse a gente, não é, Belisa? (Riem)
BELISA Ela saberia de tudo... com detalhes! (Riem)
RAGONDA Quando encontrar um moço educado, carinhoso, ela vai perder o
medo rapidinho...
CORALINA Um moço como aquele que vem chegando ali?...
BELISA Hummm... Eu poderia ter medo de novo, só pra ele me acalmar...
(Riem)
RAGONDA Vamos, vamos. Deve ser o senhor Dorante que vem chegando.
Vamos chamar o sr. Orgon!
Saem apressadas e assanhadas.
CENA 6- Dorante, Isabela, Sr. Remy, Sílvia e Flamínia
DORANTE (Entra vestido como Arlequim e observa à volta) Estranho. Ninguém para
nos receber.
ISABELA Também acho, Dorante. Bem, ainda dá tempo de desistir, meu
irmão.
SR. REMY Nada disso! Viemos até aqui, não vamos voltar atrás.
DORANTE Onde está Arlequim?
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ISABELA Ficou lá fora. Disse que queria ser anunciado primeiro...
DORANTE Mas é um criado muito petulante mesmo!
SR. REMY Não se esqueçam: agora ele é o senhor. Arlequim é Dorante,
o meu filho.
ISABELA A que ponto chegamos. Eu, irmã de um atrapalhado como aquele.
DORANTE Não vai me abandonar agora, não é, Isabela?
ISABELA Jamais! Desde que mamãe morreu, somente a sua felicidade me
importa! Não ficarei tranqüila enquanto não te vir casado com uma
boa moça. Bem, vamos dar os últimos retoques.
SR. REMY Cuidado! Parece que vem alguém aí.
SR. ORGON (Entrando) Sr. Remy! Que surpresa!
SR. REMY Sr. Orgon!
SR. ORGON Faz tempo que chegaram?
SR. REMY Acabamos de entrar! Esta é minha filha Isabela.
SR. ORGON (Já interessado) Encantado, senhorita.
ISABELA (Tímida, mas interessada) Obrigada. (Muda de assunto) E sua filha, não
está?
SR. ORGON Sílvia dá os últimos retoques para receber o pretendente. Está
ansiosíssima!
ISABELA Eu imagino...
SR. ORGON Este moço, quem é?
SR. REMY Este é Arlequim, criado de meu filho Dorante.
DORANTE Os meus respeitos, senhor.
SR. ORGON E onde está Dorante?
DORANTE Está chegando. Pediu-nos que viéssemos apresentar seus respeitos
primeiro.
SR. ORGON E você, Arlequim, desempenhou muito bem a tarefa. O que acha do
moço, Lisette?
Os olhares de Silvia e Dorante se cruzam, encantados.
SILVIA (Vestida como Lisette) Bem, que seja bem vindo. Parece bastante...
responsável.
SR. ORGON Bem, esta é a criada de minha filha Sílvia. Uma moça de
ouro!
DORANTE Pude perceber desde o primeiro momento em que a vi.
SR. ORGON Cupido está voando por aqui, não é mesmo? Vai abrir seu coração,
finalmente, Lisette?
SILVIA Por favor, senhor...
DORANTE Não precisa enrubescer, senhorita. Sei que não sou digno de tal
conquista...
ISABELA Vocês estão deixando a moça sem jeito e o meu irmão (percebe a gafe,
é olhada por Dorante, tenta consertar) está para chegar...
SR. ORGON Sim, claro, a senhorita tem toda razão. No momento em que
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quiserem descansar ou pedir alguma coisa, falem com
Flamínia, nossa governanta.
FLAMÍNIA Uma criada.
SR. REMY Meus respeitos, senhora. (Seus olhares de cruzam, interessados)
SR. ORGON Enquanto Dorante e Sílvia não chegam, poderíamos deixar que os
criados se entendessem, não é mesmo? Lisette, você faz companhia
ao criado do sr. Dorante, por favor? (Silvia concorda) E quanto a nós,
vamos para perto da janela tomar um pouco de refresco e apreciar o
entardecer. O que acha senhorita Isabela?
ISABELA Eu adoraria.
SR. ORGON Flamínia, você pode cuidar de tudo para nós?
FLAMÍNIA Pois não, senhor, com licença. (Sai)
CENA 6 – Todos, menos Arlequim e Lisette
“Balé” das criadas: Ragonda, Coralina, Belisa e Flamínia preparam a mesa do chá em um dos lados
da cena. Flamínia fica para servir o chá. Ragonda sai, Coralina e Belisa se aproximam de Sílvia e
Dorante.
CENA 7 - Dorante, Isabela, Sr. Remy, Sílvia, Lisette, Coralina e Belisa
Senhor Orgon, Senhor Remy e Isabela vão para a mesa. Ficam conversando e, a certa altura, se
incomodam com a intromissão de Coralina e Belisa.
CORALINA Não vai nos apresentar o criado do senhor Dorante, Lisette?
SILVIA Arlequim. Estas são Coralina e Belisa.
CORALINA e BELISA Prazer!
DORANTE Encantado. (As duas suspiram)
BELISA Arlequim... Conheci um moço que tinha o mesmo nome que você...
CORALINA Belisa já namorou quase todos os nomes do dicionário... (Riem)
DORANTE Eu imagino...
SILVIA O que achou da propriedade, senhor Arlequim?
DORANTE Muito aprazível. Costumo dizer que uma casa é sempre o reflexo de
seus moradores.
SILVIA Sendo assim...
DORANTE Terei o maior prazer em ficar hospedado aqui por esses dias.
SILVIA E seu patrão... também?
DORANTE Certamente, senhorita.
BELISA Hummm... Que rapaz educado...
DORANTE Bondade sua, senhorita.
CORALINA Mas para que tanta formalidade? Senhor pra cá, senhorita pra lá.
Entre pessoas da nossa posição não é preciso! Né, Lisette? (Dá um
tapa nas costas de Sílvia)
SILVIA Está bem... Arlequim...
DORANTE Lisette.
BELISA Muito bem, amiga! (Dá um tapa nas costas de Sílvia. Olha para Coralina,
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cúmplice. Elas riem)
DORANTE (Para Silvia) Posso até tratá-la com mais liberdade, mas estarei
sempre às suas ordens.
BELISA Onde aprendeu esses galanteios, Arlequim?
DORANTE Nos olhos de Lisette.
BELISA e CORALINA (Ao público) Meu Deus! Eu quero esse homem pra mim!
Flamínia se aproxima e cochicha alguma coisa para Coralina e Belisa. As duas resistem, ficam
zangadas, Flamínia arrasta as moças para fora, “discretamente”. Elas saem dando beijinhos e
adeuzinhos para Dorante.
SR. ORGON Pronto. Flamínia já resolveu tudo!
SR. REMY Essa sua governanta parece tão eficiente...
SR. ORGON Está conosco há tantos anos, que parece da família!
ISABELA Agora os pombinhos ficarão mais à vontade.
SR. ORGON (Para Isabela) E a senhorita? Já tem um pretendente?
ISABELA Ainda não...
SR. REMY Mentira! Isabela tem vários pretendentes, mas nenhum a agrada!
ISABELA Estou esperando o homem dos meus sonhos...
SR. ORGON E como ele seria?
ISABELA Ainda não sei, mas quando o encontrar, espero ter alguma
revelação, algum sinal...
Flamínia retorna à cena.
SR. REMY Minha filha acha os moços de hoje imaturos, irresponsáveis.
SR. ORGON Talvez o homem de seus sonhos não seja tão moço...
ISABELA Quem sabe?...
SR. REMY E Flamínia?
FLAMÍNIA Pois, não, senhor?
SR. REMY Já encontrou alguém para dividir os dias e as noites?
FLAMÍNIA Sim. Mas a guerra o levou, de modo que meus dias e noites
divido apenas com as lembranças...
SR. REMY e SR. ORGON (Suspiram) Eu sei o que é isso...
Continuam conversando, discretamente.
CENA 8 – Arlequim, Dorante, Sílvia
Arlequim entra em cena, esbaforido e nervoso. Passa primeiro pela mesa e, em seguida, vai até
Dorante, falando alto.
ARLEQUIM (Entrando como Dorante) Arlequim! Arlequim! Por onde você anda,
seu imprestável?
DORANTE Sr Dorante?!
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ARLEQUIM E quem mais poderia ser? Estou lá fora esperando que me
anunciem e até agora nada! Esqueceram de mim?
DORANTE Absolutamente, senhor.
ARLEQUIM Segure meu casaco. Quem é que vai avisar meu sogro e minha
mulherzinha que estou aqui?
SILVIA Quer dizer o senhor Orgon e sua filha, não é?
ARLEQUIM Sim, meu sogro e minha mulherzinha, noivinha, tanto faz.
DORANTE (Repreendendo, discretamente) Tenha calma, senhor Dorante...
ARLEQUIM Venho aqui para me casar, todos sabem. Pra que então tanta
cerimônia por uma bobagem?
SILVIA Uma bobagem?!
ARLEQUIM O que disse, belezinha?
SILVIA Nada. Vou chamar o sr. Orgon, ele está bem ali.
ARLEQUIM Por que não diz “vou chamar o seu sogro”?
SILVIA Porque ele ainda não é seu sogro!
DORANTE Ela tem razão. O casamento ainda não aconteceu.
ARLEQUIM Logo, logo, meu caro. Bastará que ela me olhe, me cheire, me
apalpe, conheça o material! É ou não é?
DORANTE (Repreensivo) Sr. Dorante...
ARLEQUIM (Para Silvia) Me diga uma coisa, belezinha: você é a criada?
(Silvia confirma) Muito bem! Imagino como será a minha fofinha!
SILVIA (Ao público) Que estranho! Nenhum desses dois homens está no
lugar certo. (Vai em direção à mesa)
ARLEQUIM Começamos bem, senhor, que criadinha gostosa!
DORANTE Como você é grosseiro!
ARLEQUIM Eu?! Magina!
DORANTE Recomendei que fosse sério. Começo a me arrepender de ter
confiado em você, Arlequim!
ARLEQUIM Prometo melhorar, senhor. E se não bastar, me avise, alem de sério
serei melancólico, macambúzio, sorumbático. (Faz caretas enquanto
fala)
DORANTE Onde eu estava com a cabeça? Acho que nos metemos em uma
confusão.
ARLEQUIM Ih! A noiva é um canhão?
DORANTE Cuidado! O sr. Orgon se aproxima.
Os que estavam à mesa, se aproximam. Sr. Orgon à frente.
SR. ORGON Meu caro amigo! Muito prazer! Estava ansioso pela sua chegada!
(Oferece a mão para o cumprimento)
ARLEQUIM E eu, então? (Limpa a mão na calça pra cumprimentar)
SR. ORGON Fez boa viagem?
ARLEQUIM Mais ou menos. Estrada longa, esburacada, a coluna é quem paga o
pato. E o lombo, então?
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SR. ORGON (Ao sr. Remy) Seu filho é bastante... espontâneo, não é, sr.
Remy?
SR. REMY Muito...
ARLEQUIM E minha noivinha, onde está?
SILVIA Dona Sívlia está se preparando para conhecê-lo...
ARLEQUIM Oh! Diz para ela não se preocupar. Eu nem consegui me lavar antes
de aparecer... (Ri feito bobo)
SR. ORGON Enquanto esperamos, que tal um refresco? Flamínia, por favor.
Bebam conosco, Lisette e Arlequim!
ISABELA (Brinda) À felicidade dos noivos!
TODOS (Brindam) À felicidade dos noivos!
SR. ORGON Vamos, Dorante. Vamos todos ver o anoitecer nos jardins.
Saem, contentes.
SEGUNDO ATO
CENA 1 – Coralina e Belisa
Dias depois. Ao som de uma música de intermezzo, entram Coralina e Belisa, pelo outro lado,
varrendo, espanando, espiando, numa coreografia.
Observam se ninguém as escuta, para poderem fofocar, cansadas do trabalho.
BELISA Ufa! Minhas costas não agüentam mais!
CORALINA Uh! Desde que esse povo chegou, não paramos um minuto sequer!
BELIZA Uma semana de torturas!
CORALINA Prepare o banho de dona Isabela!
BELISA Arrume o quarto do sr. Dorante!
CORALINA Corra! Temos pressa!
BELISA Todo mundo se dando bem e nós, ó, só na bucha!
CORALINA Você viu o sr. Remy? Arrastando as asas pro lado da Flamínia!?
BELISA E a sonsa da dona Isabela! Arrancando suspiros do Sr. Orgon!
CORALINA (Ao público) Em uma semana, todo mundo se arranjando.
AS DUAS (Ao público) E nós, ó, só na bucha!
BELISA Mas quem está se dando bem mesmo é a Lisette!
CORALINA Nem me fale!
BELISA Ai, se inveja matasse, eu estaria esticadinha ali, no chão, dura e
seca! (Ri)
CORALINA Por falar nisso, não é ela que vem correndo ali?
BELISA É. Vamos sair por aqui, senão vai sobrar pra nós!
Saem.
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CENA 2 – Lisette, Flamínia, Ragonda e Arlequim
Lisette entra, esbaforida, por uma porta e dá um encontrão em Flamínia e em Ragonda, que traz
algum ingrediente na mão para o preparo do jantar (maço de cenouras, ou um frango, ou um cesto de
vegetais, etc).
RAGONDA Ei, Lisette, está fugindo de quem?
LISETTE Shhh! O sr. Dorante não pode me ver aqui!
RAGONDA Por que?
LISETTE Ai, meninas. Eu não agüento mais! Preciso desabafar com alguém!
RAGONDA Nossa!
LISETTE É! Para que não fiquem pensando coisas de mim!
FLAMÍNIA O que foi?!
LISETTE Concordamos com aquela idéia de dona Silvia, mas vejo que me
enganei.
RAGONDA Como assim?
LISETTE Estamos correndo um risco muito grande! Olha, modéstia à parte,
ou o sr. Orgon toma providência, ou o seu futuro genro vai entregar
o coração para outra moça...
RAGONDA Não diga!
LISETTE Dona Silvia tem de tirar o disfarce imediatamente, um dia a mais, eu
lavo minhas mãos.
FLAMÍNIA E por que recusaria Silvia? Como resistiria a seus encantos?
LISETTE Encantos! Você esquece que eu também tenho os meus? (Flamínia e
Ragonda riem) Acham que estou brincando, não é?
FLAMÍNIA Não se preocupe, Lisette. Siga em frente.
LISETTE Não posso! O rapaz grudou em mim feito carrapato! Diz que me
adora, que não vive sem mim, Flamínia! Sei que não mereço, mas eu
juro: ele tá me dando a maior bola!
FLAMÍNIA O que fazer? Se ele a ama desse jeito, que se casem!
LISETTE O que? Deixe o sr. Orgon saber disso!
FLAMÍNIA Ele já sabe. E concorda.
LISETTE Olha! Até agora eu me controlei, não dei corda...
FLAMÍNIA (Corta) Pode dar!
LISETTE Ai, ai ai. Tá falando sério? (Flamínia confirma) Se é assim, já tá no
papo!
RAGONDA E o que dona Silvia diz disso?
LISETTE Nem falei com ela! Morro de medo!
RAGONDA Ela está meio estranha...
LISETTE Também acho. Parece que não está contente. Está quieta, pensativa.
RAGONDA Ouvi dizer que o tal criado está cortejando dona Silvia!
LISETTE Parece que sim! Tem um ar educado e elegante quando está com ela,
dá aquelas olhadas, suspira...
FLAMÍNIA E qual a reação dela?
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LISETTE Fica vermelhinha!
FLAMÍNIA Não pode ser. Ele não passa de um empregado...
LISETTE Pois é, Flamínia: ela fica confusa, sim!
FLAMÍNIA Só há um jeito de saber. Se alguma de nós falar mal do moço na
frente dela e ela reagir, pronto, é porque está apaixonada. (Riem)
LISETTE Deixe comigo!
RAGONDA Ai, Lisette, não olhe agora. Mas parece que vem um apaixonado por
aí, à sua procura.
ARLEQUIM (Entra) Ah! Finalmente a encontrei, maravilhosa dama. Fugiu de
mim? Veio se esconder com as criadas?!
FLAMÍNIA Acho que estamos sobrando, Ragonda. Com licença, senhor
Dorante. (Sai com Ragonda)
ARLEQUIM Brilhante idéia, meninas! (Para Lisette) Pronto. Estamos a sós de
novo.
LISETTE Vamos com calma, Dorante!
ARLEQUIM Por que? Não estamos prometidos em casamento, chuchu?
LISETTE Nos conhecemos tão pouco...
ARLEQUIM Tenho sede, tenho fogo!
LISETTE Nos conhecemos há uma semana. O seu amor é recém-nascido!
ARLEQUIM Engano seu, belezinha! Seu olhar fez o parto do meu amor. Seu
sorriso lhe deu forças, seu cheirinho o tornou homem feito! E dê cá
a sua mãozinha, pra que ele se divirta um pouco...
LISETTE Tome. Pra ver se dá sossego!
ARLEQUIM (Beija a mão) Meu benzinho... pena só poder pegar na sua
mãozinha...
LISETTE Tudo a seu tempo.
ARLEQUIM É que eu estou perdidamente apaixonado! Não vejo a hora em que
o seu coraçãozinho faça companhia ao meu. O seu bracinho faça
companhia ao meu. A sua barriguinha...
LISETTE Ei! Para por aí!
ARLEQUIM (Bate na própria mão) Toma, sua sem mão vergonha! Toma isso e mais
isso, abusada! Descarada!
LISETTE Pare, por favor! Você vai se machucar!
ARLEQUIM Preocupada comigo? Oh! Que linda!
LISETTE Não sei, eu estou confusa...
ARLEQUIM Não esteja! Quer ver? “Eu te amo”, não é fácil? Repita, princesa.
LISETTE Está bem. Eu te amo.
ARLEQUIM Ela me ama! Ela me ama! Acho que vou sair voando! Ai! Ai!
LISETTE Não exagere, por favor. O seu amor pode acabar rapidinho...
ARLEQUIM Nunca! Por que?
LISETTE Quando me conhecer um pouquinho mais...
ARLEQUIM Ah, não. Eu estou em desvantagem, pode crer!
LISETTE Você me enxerga melhor do que eu sou de verdade...
ARLEQUIM E você não tem idéia do meu real valor... Ih! Mas que conversa mais
15
Misteriosa!
LISETTE Acho que eu te escolheria, fosse qual fosse a sua situação!
ARLEQUIM E eu também! Fosse Joaninha, Mariazinha, andasse para lá e para cá
com um cesto de roupas na cabeça, ainda assim seria minha
princesa!
LISETTE Como poderia ter certeza disso?
ARLEQUIM Vamos fazer um juramento, Silvinha: nos amaremos para sempre,
aconteça o que acontecer.
LISETTE Tem certeza? Tenho mais interesse nesse juramento do que você.
ARLEQUIM Vamos! (Dão-se as mãos)
OS DOIS Eu juro!
Fazem agradinhos um no outro. Dão risinhos.
CENA 3 – Lisette, Arlequim e Sílvia
Silvia entra, nervosa.
SILVIA Dona Sílvia!
LISETTE (Vendo Sílvia, disfarça) O que deseja, Lisette?
SILVIA Falar com a senhora.
ARLEQUIM Não acredito! Olha, volte daqui uns dez minutos, sim? Ande!
SILVIA Senhor, eu preciso muito falar com dona Silvia.
ARLEQUIM Que insistência! Meu amor, dispense a moça! Essas criadas não
conhecem o seu lugar!
LISETTE Lisette, volte daqui a pouco.
SILVIA Mas, senhora...
LISETTE Dorante, meu bem, deve ser importante mesmo.
ARLEQUIM Está bem! Eu saio. Aqui é o único lugar no mundo em que as
criadinhas dão ordens aos patrões! (sai)
SILVIA Lisette! Como pode dar ouvidos a um animal como Dorante? E
deixá-lo me tratar daquela maneira?
LISETTE Senhorita, não posso fazer dois papéis ao mesmo tempo. É preciso
que eu me pareça com a patroa, agora!
SILVIA Que seja! Mas nesse momento eu sou a patroa, está bem?
Você já deve ter percebido que esse Dorante não me agrada nem
um pouco.
LISETTE A senhorita precisa conhecê-lo melhor...
SILVIA Jamais! Bastou uma palavra pra que eu o detestasse de imediato.
LISETTE Fale com seu pai...
SILVIA Já falei, ele não quer se manifestar. Então, cabe a você me tirar dessa
enrascada.
LISETTE Como?
SILVIA Diga a esse homem que não gosta dele e que não pensa em
casamento. Pronto.
16
LISETTE Não posso. Seu pai me proibiu.
SILVIA Ah essa, agora! Pois eu não vou me casar com esse grosseirão.
LISETTE Dê a ele mais uma chance.
SILVIA Já o detesto o bastante. Não quero perder meu tempo detestando-o
ainda mais.
LISETTE Será que o engomadinho não tem nada a ver com isso?
SILVIA O que?
LISETTE O criadinho do sr. Dorante... Anda com ares apaixonados...
SILVIA Lisette!
LISETTE Todo mundo percebeu... E parece que ele gosta de uma intriga...
Deve ter falado mal do patrão para a senhorita, não foi?
SILVIA (Ofendida) Jamais! Ele não faria isso! Pois saiba que Arlequim fala
pouco, e desse pouco muito se aproveita!
LISETTE Não precisa se ofender tanto, senhora!
SILVIA Ofendida? Por que culpar o pobre moço pelo fato de eu não gostar
de seu patrão? Por que me indispor contra ele? Coitado, é um rapaz
gentil, cheio de boas intenções!
LISETTE Oh, senhora... Já que o defende com tanto empenho... Não falo
mais nada...
SILVIA O que você quer dizer com isso? O que está passando aí dentro
dessa cabecinha, hein, Lisette?
LISETTE Não sei, nunca vi a senhorita desse jeito... Se ele não disse nada,
melhor. Não é preciso justificar tanto... Acredito na senhorita.
SILVIA Como você é maliciosa! Como torce as coisas! Estou indignada! E
ainda me deixa nervosa por causa dele!
LISETTE Senhorita...
SILVIA (Confusa, desesperada) O que você quer dizer com tudo isso? O que
devo entender? O que responder? Oh, meu Deus!
LISETTE Não sei... só estou surpresa com tudo isso...
SILVIA Saia daqui, Lisette! Você e sua surpresa! Encontrarei outra saída, já
que não posso contar com mais ninguém!
Lisette sai.
CENA 4 – Sílvia, Dorante, Sr. Orgon e Flamínia
Silvia anda para lá e para cá, preocupada. Dá de cara com Dorante, que entra. Leva um susto.
SILVIA Dorante? Você está me seguindo?
DORANTE Não, Lisette. Vim me despedir.
SILVIA Oh, por favor, não arranje desculpas esfarrapadas pra falar comigo...
DORANTE Não preciso de desculpas. Vim dar adeus, mesmo.
SILVIA Se vai, boa sorte.
DORANTE Isso quer dizer: pode ir, eu não ligo. Li seu pensamento.
SILVIA Nem eu mesma consigo definir meus pensamentos, Arlequim...
17
DORANTE Quanto a mim, tenho apenas Lisette habitando aqui dentro.
SILVIA Dê-lhe ordem de despejo. Eu não te quero bem, nem te quero mal;
não te odeio nem te amo, nem te amarei – a menos que saia do meu
juízo perfeito.
DORANTE Ah, o que será de mim sem o teu amor...
SILVIA Nunca prometi nada! Você fala e eu respondo, nada mais. E você
não imagina o sacrifício que eu faço! Então, chega!
DORANTE Ah! Quanto sofrimento! Sua patroa parece que me acusou de falar
mal do senhor Dorante.
SILVIA Calúnia! Se ela importuná-lo mais uma vez, se vier com mais
acusações, me avise. Agora vá embora, por favor.
DORANTE Adeus... Cometi apenas um erro: não ter partido logo que a vi.
SILVIA Adeus. Você merece uma boa moça.
DORANTE Se você soubesse o estado em que me encontro, Lisette...
SILVIA (Ao público) E se ele soubesse o meu estado!
DORANTE Sei que não mereço a sua consideração. Sou apenas um criado.
Jamais conseguiria vencer essa diferença.
SILVIA (Ao público) Eu não teria tanta certeza...
DORANTE Diga, por favor, com, todas as letras, que jamais sentiria amor por
mim.
SILVIA Eu digo. Jamais te amaria. Pode acreditar.
DORANTE Eu acredito, mas meu coração teima em esperar! (Ajoelha-se) Por
que? Eu peço de joelhos, dê ao menos uma ilusão de carinho!
Sr. Orgon e Flamínia entraram sem ser vistos e observam, quietos, a cena de Dorante ajoelhado.
Sílvia ainda não viu ninguém chegar.
SILVIA Era só isso que faltava! Levante-se, Arlequim. Pode aparecer
alguém. O quer de mim? Quer que eu diga? Eu não te odeio e não
te desgosto de modo algum. Levante-se. Eu te amaria se as coisas
fossem diferentes. Isso basta?
DORANTE O que? Lisette, se eu não fosse quem eu sou, se fosse rico,
honestamente rico, e se eu te amasse do jeito que eu amo,
teu coração não me desprezaria?
SILVIA É claro que não! Mas levante-se!
DORANTE Você parece sincera. Acho que vou enlouquecer!
SILVIA Levante-se, por favor!
SR. ORGON (Aproximando-se, pigarreia) Infelizmente tenho de interromper. Mas
que bela cena, hein?
SILVIA Eu não tenho culpa. Ele ajoelhou porque quis, sr. Orgon.
FLAMÍNIA Nós vimos tudo, Lisette, fique tranqüila.
SR. ORGON Vocês fazem um belo par!
SILVIA Sr. Orgon!
SR. ORGON Arlequim, se me permite, gostaríamos de conversar com Lisette.
18
DORANTE Pois não. Com licença, senhor. Com licença, Lisette... (sai)
SR. ORGON Sílvia, não desvie os olhos. Por que está tão embaraçada?
SILVIA Eu não estou embaraçada.
FLAMÍNIA Ela está nervosa porque Arlequim anda falando mal do patrão,
senhor.
SR. ORGON Por isso você não quer se casar com Dorante, minha filha?
SILVIA O que? Arlequim não tem nada a ver com isso. Não gosto de
Dorante desde que pus os olhos nele!
FLAMÍNIA A senhorita Sílvia está muito nervosa...
SILVIA É que estou cansada desse papel ridículo.
SR. ORGON Então vamos desmanchar essa farsa e você poderá deixar de
lado essa aversão por Dorante, conhecê-lo melhor...
SILVIA Papai! Já disse que não quero me casar com ele!
SR. ORGON Todos estão percebendo como você está estranha, minha filha. Até
Lisette, que falou qualquer coisa sobre Arlequim e você já ficou
irritada.
SILVIA Fiquei revoltada! Ela cometeu uma injustiça! Só porque eu procuro
ser justa, porque não gosto de ver alguém prejudicado, porque
quero salvar um empregado da calúnia, já dizem que estou estranha.
E você não me defende, Flamínia?
FLAMÍNIA Senhorita...
SILVIA Compreensão, eu peço!
SR. ORGON Calma!
SILVIA Não, meu pai, não posso ter calma. Não estou me reconhecendo...
SR. ORGON E a cena que acabamos de ver? Ele estava ajoelhado...
SILVIA E daí?
SR. ORGON Quando perguntou se você o amaria, você respondeu docemente:
com certeza. O que me diz?
SILVIA Digo que não tenho nada a dizer. Que não estou entendendo mais
nada. (Sem saber que direção tomar) E se me dão licença, vou para o
meu quarto, ou para o jardim, ou para o celeiro, não sei. Com
licença. Arre! (Sai)
FLAMÍNIA Senhorita, senhorita! (Sai atrás)
CENA 5 - Sr. Orgon, Isabela, Sr. Remy, Flamínia, Sílvia, Dorante e Arlequim
Sr. Orgon está só, e pensativo. Isabela entra e fica preocupada com o anfitrião.
ISABELA Sr. Orgon. O senhor está bem?
SR. ORGON Oh, senhorita Isabela?
ISABELA Pode me chamar de... Isabela. Afinal seremos da mesma família
dentro em breve...
SR. ORGON Isabela... Só se você também me chamar pelo nome... Felipe.
ISABELA Não será difícil. É um lindo nome. Felipe...
SR. ORGON Na sua boca ele parece mesmo bonito...
19
ISABELA (Sem jeito) Você acha que Dorante e Sílvia...
SR. ORGON Não sei. Me pergunto se essa história já não foi longe demais.
ISABELA Pensa em revelar tudo aos dois?
SR. ORGON Às vezes sim. Minha filha está sofrendo muito. Armou
essa brincadeira, mas não imaginava as conseqüências...
ISABELA Nem meu irmão! (Riem)
SR. ORGON São muito jovens, inseguros.
ISABELA Somos todos inseguros, Felipe. Ou não? (Olham-se, sem coragem de
confessar o amor)
SR. REMY (Entrando) Sobre o que conversam os dois? Posso saber?
SR. ORGON Sobre insegurança, medo, sr. Remy.
SR. REMY E chegaram a alguma conclusão?
SR. ORGON (Olhando para Isabela) Ninguém consegue ficar muito tempo sem
tomar uma decisão...
SR. REMY Essa é uma verdade! E sobre nossos filhos, Sílvia e Dorante?
ISABELA Quanto a eles, não sei. Mas peguei os criadinhos aos beijos no
corredor. (Ri) Arlequim está que é uma paixão só!
SR. ORGON Mal sabe ele que a moça não é a verdadeira Silvia.
ISABELA Quando souber! (Riem)
SR. REMY Não sei, não sei. O beijo era tão apaixonado, que me fez acreditar
na sinceridade dos dois... E me deu uma saudade... (Entra Flamínia)
Uma vontade de viver tudo aquilo de novo...
ISABELA Papai!
FLAMÍNIA Sr. Orgon. Acho que teremos novidades. Dona Sílvia vem aí, com o
sr. Dorante. Eles parecem estar discutindo.
SR. REMY Vamos nos esconder e ouvir a conversa!
ISABELA Papai!
SR. REMY É só isso que você sabe dizer, Isabela? Papai! Ora, vamos!
Se escondem, mas podem ser vistos pelo público. Entra Sílvia, seguida por Dorante. Conforme eles
falam, vemos as reações no rosto dos espiões.
DORANTE Espere, Lisette. Preciso falar-lhe pela última vez.
SILVIA (Exausta) Fale de uma vez, Arlequim...
DORANTE Você não me conhece realmente.
SILVIA Não, eu não te conheço. Quem é você, afinal?
DORANTE Jura guardar segredo absoluto?
SILVIA Juro.
DORANTE Bem, Lisette. Quem está com sua patroa não é quem vocês pensam
que é.
SILVIA Como não?
DORANTE Ele é um criado!
SILVIA O que?
DORANTE Ele é o criado do sr. Dorante.
20
SILVIA Logo...
DORANTE Ah! Como é dura a verdade. Eu sou Dorante.
SILVIA (Ao público) Obrigada, obrigada! Ele é Dorante! Como eu queria que
ele fosse Dorante! (Alto, furiosa) Você é Dorante?
DORANTE (Justificando-se) Eu queria conhecer um pouco melhor sua patroa,
antes de me casar com ela. Meu pai preferiu o disfarce e agora tudo
parece um pesadelo: não gosto da mulher com quem deveria me
casar, amo a criada, que não deveria me ver senão como seu novo
patrão. E o pior: minha pretendente se apaixonou pelo meu criado,
querem se casar!
SILVIA (Ao público) Acho que é ainda um pouco cedo para me revelar...
(Alto) Sua situação é delicada, senhor. E peço desculpas se fui
grosseira em algum momento...
DORANTE Não diga isso, Lisette! Não se comporte como uma criada, por
favor!
SILVIA O senhor está mesmo interessado em mim, apesar de tudo?
DORANTE A ponto de renunciar ao compromisso perante o senhor Orgon.
SILVIA Eu bem que poderia amá-lo também, se isso não trouxesse prejuízo
ou vergonha...
DORANTE Vergonha? Você não faz idéias da nobreza que tem, Sílvia! Você
faria melhor papel que muitas moças da corte!
SILVIA Bem que eu gostaria... Mas temo não ser possível, senhor Dorante.
O senhor se esqueceu de minha patroa, dona Sílvia? Ela está
prometida para o senhor e se enamorou do seu criado. Não quero
fazer parte dessa confusão. Me perdoe. Com licença! (Sai)
DORANTE Ah, não pode ser! Ela me disse adeus! Tudo por culpa de Arlequim!
(Anda, desconsolado, pela cena)
Os espiões fazem gestos entre si, combinando que devem sair de fininho. Arlequim entra, desconsolado,
fazendo como a sombra do patrão. Quando Dorante percebe, toma um susto e dá uma bronca.
DORANTE Arlequim, seu aproveitador! Estou sabendo de tudo!
ARLEQUIM Ai de mim! Senhor, eu peço perdão. Compaixão! Minha sorte
grande está tão pertinho... deixe que eu agarre ela e não solte
mais!
DORANTE Espertinho! Merece um cacete, isso sim!
ARLEQUIM Me bata, senhor, pode bater, se acha que não mereço fazer fortuna
com um bom casamento.
DORANTE Como? E você quer que eu continue enganando um homem como
nosso anfitrião? Quer se casar com sua filha usando meu nome? Se
continuar com essa idéia eu acabo com você, entendeu?
ARLEQUIM Calma! Dona Silvia me adora, idolatra. Se eu confessar que sou um
criado e mesmo assim ela continuar caidinha, o senhor concorda
com o casório?
21
DORANTE Se ela souber quem você é realmente, eu não proíbo.
ARLEQUIM Ótimo! Vou agora mesmo fazer a revelação. (Ao público) Espero que
um reles título de nobreza não nos impeça de ficar juntos. E
que o amor possa me transportar da cozinha para a sala de jantar.
DORANTE Vamos! Vamos encontrar a senhorita Sílvia o mais rápido possível.
(Saem)
CENA 6 – Lisette, Sílvia e Sr. Orgon
Entram pela porta oposta. Lisette observa se ninguém a escuta.
SR. ORGON Pare com isso, Lisette! Fale de uma vez o que tem a nos dizer!
LISETTE É preciso que ninguém nos ouça! Pelo menos, não por enquanto.
SILVIA Não há ninguém por perto, pode falar.
LISETTE Senhor, eu o preveni. Sempre procurei fazer exatamente o que
estava combinado. Pesquisar, observar, fazer relatórios. Mas as
coisas tomaram outro rumo, sem que eu fizesse isso aqui que fosse!
SILVIA Seja mais objetiva, Lisette!
LISETTE Senhorita, me ajude. Sei que detesta o senhor Dorante, mas haveria
algum impedimento se...
SILVIA (Corta) Eu o dou a você, Lisette. Pode ficar com Dorante,
embrulhado, com laço de fita.
LISETTE Verdade? O senhor Orgon concorda?
SR. ORGON Sim... Se ele a ama tanto assim...
LISETTE Obrigada, obrigada mesmo, de coração.
SR. ORGON Oh, mas tem uma coisa: ele conhece a sua verdadeira identidade?
(Ela nega) Então revele, para evitar maiores embaraços.
LISETTE Mas qual seria a reação dele?
SILVIA Se ele te ama de verdade...
LISETTE Essa é boa... logo agora que ia tudo tão bem...
SILVIA Confie da força do amor.
SR. ORGON E na justiça.
SILVIA Olhe, o felizardo vem aí. Aproveite, vocês têm muito que conversar.
Saem Silvia e Sr. Orgon.
CENA 7 – Arlequim e Lisette
ARLEQUIM (Entrando) Enfim, pedaço de mau caminho, está fugindo de mim?
Não a largarei mais, não adianta...
LISETTE Espere, senhor. Tem umas coisinhas...
ARLEQUIM (Malicioso) E eu não sei? Que coisinhas? Mostre, mostre... Quer que
eu morra de curiosidade?
LISETTE Não morra, por favor! Sua vida é o meu maior tesouro!
ARLEQUIM Essas palavras me fortalecem. Eu bem poderia beijar essas palavras,
22
unindo meus lábios aos teus...
LISETTE Falei com meu... pai... Você pode pedir minha mão quando quiser.
ARLEQUIM Antes de pedir a ele, eu peço a você: suplico a caridade de pousar
sua mão sobre a minha, tão indigna desse gesto magnânimo e...
LISETTE Posso emprestá-la...
ARLEQUIM Contanto que seja para sempre... Nunca poderei compensá-la o
bastante, minha riqueza, nunca...
LISETTE Você me dará bem mais do que eu mereço...
ARLEQUIM Que idéia! Na contabilidade do amor, eu estarei sempre em débito,
eu garanto.
LISETTE Você caiu do céu, eu garanto!
ARLEQUIM E sobrou tão pouquinho depois da queda, acredite.
LISETTE E eu sou tão menor que esse pouquinho... Tem certeza de seus
sentimentos por mim, senhor?
ARLEQUIM (Ao público) A coisa está esquentando...
LISETTE Eu me conheço muito bem, sabe...
ARLEQUIM E eu também... não que isso seja grande coisa...
LISETTE (Ao público) Tanta humildade parece estranha... (A Arlequim)
Acho que está querendo me dizer alguma coisa.
ARLEQUIM Agora é que a porca torce o rabo...
LISETTE Estou ficando nervosa!... Será que...
ARLEQUIM Tá esquentando...
LISETTE Diga.
ARLEQUIM (Ao público) Vamos preparar o terreno antes. (A ele) Lisette, o seu
amor é realmente forte? Assim, daqueles que resistem a
tempestades, furacões? (Ela a tudo responde sim)
LISETTE Ah! Acabe logo com isso! Vou facilitar as coisas: quem é você?
ARLEQUIM Você já viu alguma vez moeda falsa? Sabe reconhecer o
ouro? Bem, eu sou mais ou menos isso...
LISETTE Serei mais objetiva: qual é o seu nome?
ARLEQUIM Meu nome? (Ao público) Direi que me chamo Arlequim? Não: ela
vai achar ruim.
LISETTE E então?
ARLEQUIM Ah, minha doce amada... como poderei dizer... Você, só a título de
curiosidade, desprezaria, por exemplo, um assessor...
LISETTE Um assessor? Como assim?
ARLEQUIM Um assessor de... copa e cozinha... um assessor de quarto...
LISETTE Espere um pouco. Não é com Dorante que eu estou tratando?
ARLEQUIM Bem, Dorante é o meu... assessorado. Eu sou Arlequim.
LISETTE Humm... Mas que xinfrim!
ARLEQUIM (Ao público) Não pude evitar a rima...
LISETTE Ora, faça-me o favor! Há meia hora tento me revelar
a um quadrúpede como esse!
ARLEQUIM Ai de mim! Se você prefere glória e títulos em vez de amor...
23
LISETTE Rindo) Não deixa de ser engraçado... Vá lá, eu te perdoo.
Tenho um coração de manteiga.
ARLEQUIM Ah, mal posso acreditar!
LISETTE Além do que, o assessor de quarto de Dorante combina direitinho
com a assistente de toalete de Sílvia...
ARLEQUIM Assistente de toalete?! Que desfeita!
LISETTE Pagando com a mesma moeda!
ARLEQUIM Que confusão! Até minutos atrás éramos nobres. Que derrocada!
LISETTE Vamos aos fatos: você me ama?
ARLEQUIM Acho que sim. Quer dizer, é claro! Apesar de ter trocado o nome, a
pessoa continua a mesma. E você deve estar lembrada de que
juramos fidelidade.
LISETTE O mal não é tão grande assim... Vamos, uma cara mais alegre! O
seu senhor e a minha senhora devem estar passando por situação
semelhante... Não vamos avisá-los de nada, vejamos como se
arranjam... Será que com tanta classe como nós, senhor?
ARLEQUIM Absolutamente, madame. (Ele sai).
CENA 8 – Arlequim e Dorante
DORANTE E então? Vejo que a filha de Orgon acaba de sair. Contou-lhe a
verdade?
ARLEQUIM E não? Pobre criança! Um coração de manteiga. Quando
corajosamente disse a ela que me chamava Arlequim e que era um
simples empregadinho: “Bem, meu caro, cada um com seu nome na
vida. Cada um com sua função, que fazer?”
DORANTE Não entendi.
ARLEQUIM Pedi sua mão em casamento.
DORANTE Como? Ela aceitou?
ARLEQUIM Não pôde resistir...
DORANTE Você está mentindo. Ela não sabe quem você é.
ARLEQUIM Se o senhor não fosse o meu superior eu chegaria a ficar bastante
ofendido. Só porque uso uniforme e devo satisfação a alguém,
não sou capaz de conquistar um coração?
DORANTE Não acredito em uma só palavra. Vou prevenir o senhor Orgon...
ARLEQUIM Meu sogrinho? Ele está do nosso lado! É um velhinho de primeira!
DORANTE Não acredito! (Desiste) Viu Lisette por aí?
ARLEQUIM Lisette! Não, pode até ter passado na minha frente, mas um homem
na minha posição não tem olhos para criadinhas.
DORANTE Isso não pode continuar.
ARLEQUIM Quando eu me casar, nos olharemos de igual para igual! Sua
empregadinha está chegando. Bom dia, Lisette! Sabe que vocês dois
formam um belo casal? (Sai)
24
CENA 9 – Sílvia e Dorante
SILVIA Onde esteve, senhor? Procurei-o por toda parte: tive uma conversa
com o senhor Orgon.
DORANTE Verdade? (Está frio)
SILVIA (Ao público) Oh, como ele está gelado. (Alto) Fui até seu criado e
tentei convencê-lo a desistir do casamento, mas ele não deu
ouvidos. Fiz ameaças, mas não adiantou.
DORANTE Acho que o melhor a fazer é ir embora, sabe? Volto para casa, levo
Arlequim comigo. Deixo um bilhete para o senhor Orgon...
SILVIA (Ao público) Ir embora? Isso não estava nos meus planos...
DORANTE Não acha melhor?
SILVIA Não muito...
DORANTE Permanecer para que? Talvez fale pessoalmente com meu anfitrião...
Tenho mil razoes para partir...
SILVIA Não sei de suas razões...
DORANTE E nem desconfia?
SILVIA Pode estar interessado na filha do senhor Orgon...
DORANTE O que? Lisette, não tenho sido claro o bastante?...
SILVIA Penso coisas que acho não ter o direito de pensar... mas penso... e
penso...
DORANTE Não posso forçá-la a nada, Lisette. Adeus...
SILVIA Espere! Eu penso... e sinto. Mas não tenho coragem de dizer!
DORANTE Talvez seja melhor não dizer mesmo... Guarde com você.
SILVIA Como? Vai partir?
DORANTE Sim. Mas quero deixar claro que não tenho nada pessoal contra
você, entende?
SILVIA Não tem nada que se preocupar comigo. Sou apenas uma
empregada... Isso fica cada dia mais claro.
DORANTE O que quer dizer com isso? Parece que ninguém é capaz de tocar
seu coração!
SILVIA O que sabe sobre meu coração?
DORANTE Nada! É isso: nada! Então diga, fale sobre ele. Deixe-me vê-lo!
SILVIA Mostrá-lo a alguém que está de partida?
DORANTE Não partirei mais! Ainda duvida do quanto eu te adoro?
SILVIA Você diz tantas vezes que me deixa tonta! Eu tenho medo! O
senhor me ama, mas a distância que há entre nós dois, as
dificuldades, tudo está contra esse amor. Ah! Se eu o amasse, nada
no mundo seria maior, nada importaria mais, seria como morrer!
Então esconda o seu amor, como eu escondo o meu... (Chora)
DORANTE Ah! Minha querida Lisette. O que acabei de ouvir? Tuas palavras
têm um fogo! Meu coração e minha alma te pertencem! Que casar
comigo?
25
SILVIA O que? Nos casaremos apesar de sua posição, apesar de seu
pai e de sua fortuna?
DORANTE Meu pai me perdoará tão logo a vir. Minha fortuna será
suficiente para nós dois e pronto.
SILVIA Você não vai mudar de idéia?
DORANTE Não, minha querida.
SILVIA Oh! Eu te amo!
Os demais personagens, menos Coralina e Belisa, entram, aplaudindo a cena.
CENA 10 – Todos menos Coralina e Belisa
SILVIA Ah! Meu pai! Quis que eu fosse de Dorante? Pois venha ver sua
filha obedecê-lo com a maior alegria do mundo!
DORANTE O que está acontecendo? O senhor é pai de...
SILVIA Sim, Dorante. A idéia de nos conhecermos sob disfarce nos veio ao
mesmo tempo. O que dizer depois disso? Você me ama, eu
não duvido mais. Porém, de sua parte, avalie meus sentimentos por
você, meus métodos, enfim. Espero não ter sido muito cruel...
SR. REMY Contei para o sr. Orgon sobre seus planos. Mas Sílvia não sabia de
nada!
SR. ORGON Dorante, perdoe-nos as dores de cabeça...
DORANTE A essa altura não perdôo. Agradeço. Mas...
SR. ORGON Mas?
DORANTE Tenho o direito de me vingar.
SR. REMY O que pretende dizer com isso?
DORANTE Que durante esse tempo todo percebi que Cupido não flechou
somente os jovens...
Os dois outros casais ficam envergonhados.
SILVIA Sabemos que há mais gente apaixonada nesta sala. (Pausa) Ninguém
vai tomar nenhuma atitude? (Ninguém toma iniciativa)
ISABELA Bem, Flamínia, acho que cabe a nós tomar, não é?
FLAMÍNIA Talvez, senhorita.
Isabela e Flamínia agarram Sr. Orgon e Sr. Remy, deitam-nos como num tango, e dão-lhes um beijo.
Todos aplaudem.
ARLEQUIM (Para Lisette) E quando a nós, “madame”: você perdeu a posição e
os privilégios, mas não perdeu o mais importante: aqui estou eu, o
seu Arlequim!
LISETTE Ora! Quem saiu ganhando foi você!
ARLEQUIM Eu não saí perdendo, vamos dizer assim. Antes de te conhecer, seu
26
dote valia muito mais do que você.
LISETTE Agora, você vale muito mais do que seu dote! (Riem)
ARLEQUIM (Ao público) Alegremo-nos, senhoras e senhores, com os jogos que o
amor e o acaso nos armaram!
SILVIA Agradecemos a vossa paciência e boa vontade.
DORANTE E que Cupido encante vossa vida, como encantou a nossa!
Casais se beijam. Todos começam a dançar.
Entram Coralina e Belisa, varrendo, rabugentas. Aos poucos se empolgam com a música e oferecem a
vassoura para alguém, para dançar também, contagiadas.
FIM

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  • 1. O Jogo do Amor e do Acaso de Pierre de Marivaux Tradução e adaptação para fins acadêmicos: Adélia Nicolete Personagens: Senhor Orgon, viúvo Sílvia, filha do Sr. Orgon Lisette, criada de Sílvia Flamínia, viúva, a governanta Dorante, o pretendente de Sílvia Arlequin, criado de Dorante Isabella, irmã de Dorante Senhor Remy, viúvo, pai de Dorante Belisa e Coralina, criadas da casa Ragonda, cozinheira A ação transcorre em Paris
  • 2. 2 PRIMEIRO ATO ABERTURA Coralina, Belisa, Lisette e Ragonda Criadas entram varrendo a cena, coreografando uma canção francesa de corte. Terminada a coerografia, falam: CORALINA É sempre a mesma coisa, vocês já repararam? BELISA, LISETTE e RAGONDA Já. RAGONDA O serviço mais pesado sempre fica com a gente. BELISA, LISETTE e CORALINA É. LISETTE O serviço sujo. BELISA, CORALINA e RAGONDA É. Param de trabalhar. BELISA Por que será? RAGONDA Sempre foi assim. CORALINA Por que será? LISETTE Corremos o dia inteiro pra resolver os problemas deles. RAGONDA Fazer sua comida. BELISA Ouvir as suas confidências. LISETTE E, no final, somos sempre motivo de risos! RAGONDA Somos as criadas. Sempre foi assim. CORALINA Eles se metem em confusões. BELISA E nós é que pagamos o pato. LISETTE Lavar, passar, varrer. RAGONDA Cozinhar, costurar, tecer. AS QUATRO Somos as criadas. Sempre foi assim. Entra Flamínia. FLAMÍNIA Meninas! O que tanto conversam?! Vamos trabalhar?! LISETTE Estamos filosofando. FLAMÍNIA Humm! Sobre o que? CORALINA Sobre a nossa função nas comédias. FLAMÍNIA Pois a nossa função é a mais nobre! TODAS O que?! BELISA Somos todos pobres e famintos! RAGONDA Não fazemos outra coisa se não servir. LISETTE E fazer as pessoas rirem com as nossas trapalhadas. CORALINA Você esqueceram que Flamínia é uma criada diferente de nós? FLAMÍNIA Só porque sou uma governanta? Sou tão criada quanto vocês!
  • 3. 3 RAGONDA Então, por que diz que nossa função é nobre? FLAMÍNIA Somos inteligentes, Ragonda! CORALINA Às vezes. FLAMÍNIA Somos espertas, Coralina! BELISA Alguns de nós. FLAMÍNIA Belisa! Somos nós que, com as nossas artimanhas, conseguimos vencer os poderosos. E unir os corações apaixonados.... (Suspira) TODAS Isso é verdade... FLAMÍNIA Desde Plauto, da Commedia Dell’Arte, de Molière, de Marivaux, de Ariano Suassuna! Os criados, os desvalidos é que salvam a pátria! LISETTE Então vamos contar logo a nossa história! (Ao público) Que os senhores e as senhoras aqui presentes, nossas bobagens queiram ouvir. BELISA (Ao público) Que imaginem o que os nossos poucos recursos não sejam capazes de reproduzir. RAGONDA Que se divirtam com as nossas trapalhadas. TODAS E com as histórias de amor aqui narradas! Saem varrendo e limpando. Apenas Flamínia permanece e já emenda a outra cena. CENA 1 – Sílvia, Flamínia e Lisette Entra Sílvia. FLAMÍNIA Senhorita, escute, por favor! SILVIA Você quer me deixar louca, Flamínia!? FLAMÍNIA É para o seu próprio bem! LISETTE Deixe, Flamínia... dona Sílvia está recusando a oferta e vai se arrepender mais tarde... SILVIA Não vou me arrepender, Lisette! Quer para você? Pode ficar! LISETTE Quem me dera! Olha que a senhorita ainda vai pagar pela sua arrogância, viu? FLAMÍNIA Meninas! Não é hora de discutir. É hora de decidir! Silvinha, querida... Te conheço desde que era desse tamaninho... Sei mais do que ninguém que isso é o melhor para você. SILVIA Já disse que não quero! Que insistência. Se você me conhecesse mesmo, saberia que jamais, ouviu? Jamais eu concordaria com uma coisa dessas! LISETTE (Ao público) Dona Sílvia sempre foi diferente das outras moças. Todas, sem exceção, querem casar. Menos ela. SILVIA O casamento é assim tão atraente para você, Lisette? LISETTE Se é! SILVIA Pois para o meu coração não é! LISETTE E do que é feito o seu coração, que é tão diferente do nosso? SILVIA Ele está em equilíbrio com o meu cérebro, entendeu?
  • 4. 4 FLAMÍNIA Silvia, minha flor. Desde que sua mãezinha morreu, não tenho me ocupado de outra coisa que não a sua felicidade. SILVIA Sou muito feliz. Solteira! LISETTE Ih! A dona Silvia não quer mesmo saber desse assunto, não! Já gastei todo o meu latim, meu grego, meu... japonês com ela... FLAMÍNIA Mas seu pai prometeu a sua mão para Dorante! Foi um acordo entre ele e o sr. Remy. SILVIA Pode ter prometido a mão, mas não o coração! LISETTE Dizem que é um dos moços mais distintos de Paris. Que é bonitão, gentil, rico... que é inteligente. Enfim, não poderia haver melhor partido. FLAMÍNIA O que a senhorita quer mais? LISETTE Tudo o que é bom foi parar nesse homem: o útil e o agradável, juntos! SILVIA Tanto pior. Já reparou que todo homem bonito é arrogante? LISETTE Bem, pode estar errado na arrogância, mas está certíssimo na beleza. Ai, ai... FLAMÍNIA (Ao público) Marido é porto seguro. Desde que perdi o meu, na batalha, só eu sei a falta que faz um companheiro... LISETTE (Ao público) E eu, que nunca tive?!... Como seria bom ter alguém para me esquentar no frio... SILVIA Compre um cobertor, Lisette! LISETTE Pra me abanar no calor... SILVIA Compre um leque! E chega, vocês duas! Não quero mais falar desse assunto! FLAMÍNIA Impossível. O senhor seu pai vem chegando. Parece que traz novidades... CENA 2 – Sr. Orgon, Flamínia, Sílvia e Lisette SR. ORGON (Entrando) Bom dia! Bom dia, querida filha! SILVIA Bom dia, papai. SR. ORGON Será que a surpresa que eu trago vai agradar minha princesinha? SILVIA Depende. LISETTE Ai ai ai... A surpresa tem barba, cabelo, bigode, usa calças?... SR. ORGON (Rindo) Oh! Acertou! O pretendente chegará hoje, recebi uma carta do próprio pai, anunciando. Não responde nada, filha? FLAMÍNIA Dona Silvia não quer se casar com o moço. SILVIA Eu nem o conheço, papai! SR. ORGON Oh, pobre Silvia, o casamento a assusta. Eu compreendo... Mas confie em mim. Dorante é um ótimo rapaz. SILVIA Os homens são falsos! Mostram uma personalidade fora de casa e outra para a esposa e os filhos. SR. ORGON Nem todos, querida. Eu, por exemplo. Nunca mais me casei
  • 5. 5 desde que perdi sua mãe. Só faria isso de novo se me apaixonasse de todo coração! SILVIA O senhor é diferente... SR. ORGON Conversei com o pai do moço a respeito da união. Apesar de velhos, colocamos a condição de que o enlace deve ser de pleno acordo dos noivos. Portanto, pode ficar tranqüila: se Dorante não agradá-la, é só dizer, ele partirá. FLAMÍNIA E se a senhorita não agradá-lo, a mesma coisa. SILVIA Não sei... SR. ORGON Posso garantir que é um ótimo rapaz. SILVIA Agradeço seus cuidados, papai. Se é assim, eu obedecerei. Mas, se me permite... acabo de ter uma idéia bastante original. SR. ORGON Pois fale. Se for razoável, concordarei. SILVIA Preciso da ajuda de Lisette. LISETTE (Ao público) Ih! Lá vem bucha! (Para Sílvia) Oh! Quanta honra! Do que se trata? SILVIA Dorante chega hoje. Seu eu pudesse vê-lo, conhecê-lo um pouco, mas sem que ele soubesse... SR. ORGON E? SILVIA Explico: Lisette é bem esperta, ela poderia tomar o meu lugar por algum tempo, e eu seria a criada. LISETTE A senhorita? Uma criada? (Ri. Ao público) Isso não vai dar certo. SR. ORGON Bem... deixe-me pensar... (Ao público) Se eu permitir, ela chegará a uma conclusão surpreendente! Não perde por esperar! (Para Silvia) Está bem, Silvia, eu concordo. E você, Lisette, o que diz? LISETTE Eu? (Já imitando uma nobre, toda autoritária) O senhor me conhece! Que alguém ouse me contrariar, que me faltem com o respeito uma vez sequer! (Volta a ser criada) Eis uma amostra da elegância de que sou capaz. O que me dizem? Hein? Reconhecem Lisette? SR. ORGON Brava! Não fui capaz de reconhecer! SILVIA Eu, só preciso de um avental! LISETTE E eu vou me arrumar. Venha, Lisette. Faça suas obrigações. Um pouco mais de atenção, por favor! SILVIA Pois não, senhorita. Vamos. SR. ORGON Isso mesmo, corram. Dorante chega a qualquer momento! Não há tempo a perder! Saem Silvia e Lisette. CENA 3 – Flamínia e Senhor Orgon SR. ORGON Flamínia, o que achou da ideia de Sílvia?
  • 6. 6 FLAMÍNIA Arriscada. Mas bastante criativa! Por que, senhor? SR. ORGON Primeiro é preciso que me prometa discrição! FLAMÍNIA Sempre! SR. ORGON Dorante chegará hoje, mas não o veremos de verdade. FLAMÍNIA O senhor organizou um baile de máscaras! SR. ORGON Você não vai acreditar: ele teve a mesma idéia de Silvia! FLAMÍNIA Verdade? SR. ORGON O pai dele, o sr Remy, enviou uma carta avisando. Dorante quis trocar de lugar com o seu criado para conhecer melhor minha filha! FLAMÍNIA E o sr. Remy, sabe que Sílvia estará disfarçada? SR. ORGON Sabe e está ansioso para ver como desatarão este nó! FLAMÍNIA Veremos se a cabeça é mesmo mais esperta que o coração! Riem. CENA 4 – Sr. Orgon, Sílvia e Flamínia SILVIA Prontinho. Como estou? SR. ORGON Parece mesmo uma criada. Mas não me admiraria se conquistasse o próprio Dorante... SILVIA Já pensou? Seria um troféu! Ele, um nobre, apaixonado por uma criada como eu! FLAMÍNIA E quanto ao criado... SILVIA Quanto ao criado, ele não ousará me abordar. Saberei impor respeito ao insolente. FLAMÍNIA Imbecil? Ele será tão criado quanto a senhorita... SR. ORGON E pode, com certeza, se apaixonar também! SILVIA Se isso acontecer, usarei a meu favor; para saber mais e mais a respeito do patrão! SR. ORGON Bem, eu só posso desejar boa sorte. Porque Dorante deve estar chegando daqui a pouco... FLAMÍNIA E onde está Lisette? SILVIA Lá dentro, se ensaiando diante do espelho! Riem. SR. ORGON Vamos verificar se as coisas estão em ordem para as visitas? (Saem enquanto ele fala) Precisamos de aposentos para o sr. Remy, para sua filha Isabela, que eu não conheço, para Dorante e para o criado, Arlequim...
  • 7. 7 CENA 5 - Belisa, Coralina e Ragonda Entram varrendo, espanando, arrumando. CORALINA Já preparou o jantar, Ragonda? BELISA Já fez todas as suas obrigações? RAGONDA Tudo prontinho! BELISA E o que se serve para uma noivinha que não quer casar? CORALINA Uma boa lingüiça... RAGONDA e BELISA Oh! (Todas riem) BELISA E um chouriço bem assado! CORALINA e RAGONDA Ih! (Todas riem) RAGONDA Nada disso! Vocês estão de maldade. CORALINA Maldade é o desperdício. A pessoa tem tudo na mão e despreza. RAGONDA Por que isso agora? BELISA Dona Sílvia é muito mimada... Trocar de lugar com Lisette? CORALINA Inda se fosse comigo! RAGONDA Perdeu a mãe muito cedo. Não teve quem a orientasse. BELISA Eu também perdi minha mãe... Quem me criou foi a rua! RAGONDA E olha só no que deu... (Todas riem) CORALINA Eu sei o que dona Sílvia tem! RAGONDA e BELISA E o que é? CORALINA Ela tem é medo daquilo... (Riem) BELISA Pode ser... Não quero casar daqui, gosto de ser solteira dali. Humm. RAGONDA Não teve ninguém que lhe falasse sobre... aquelas coisas... CORALINA Que chamasse a gente, não é, Belisa? (Riem) BELISA Ela saberia de tudo... com detalhes! (Riem) RAGONDA Quando encontrar um moço educado, carinhoso, ela vai perder o medo rapidinho... CORALINA Um moço como aquele que vem chegando ali?... BELISA Hummm... Eu poderia ter medo de novo, só pra ele me acalmar... (Riem) RAGONDA Vamos, vamos. Deve ser o senhor Dorante que vem chegando. Vamos chamar o sr. Orgon! Saem apressadas e assanhadas. CENA 6- Dorante, Isabela, Sr. Remy, Sílvia e Flamínia DORANTE (Entra vestido como Arlequim e observa à volta) Estranho. Ninguém para nos receber. ISABELA Também acho, Dorante. Bem, ainda dá tempo de desistir, meu irmão. SR. REMY Nada disso! Viemos até aqui, não vamos voltar atrás. DORANTE Onde está Arlequim?
  • 8. 8 ISABELA Ficou lá fora. Disse que queria ser anunciado primeiro... DORANTE Mas é um criado muito petulante mesmo! SR. REMY Não se esqueçam: agora ele é o senhor. Arlequim é Dorante, o meu filho. ISABELA A que ponto chegamos. Eu, irmã de um atrapalhado como aquele. DORANTE Não vai me abandonar agora, não é, Isabela? ISABELA Jamais! Desde que mamãe morreu, somente a sua felicidade me importa! Não ficarei tranqüila enquanto não te vir casado com uma boa moça. Bem, vamos dar os últimos retoques. SR. REMY Cuidado! Parece que vem alguém aí. SR. ORGON (Entrando) Sr. Remy! Que surpresa! SR. REMY Sr. Orgon! SR. ORGON Faz tempo que chegaram? SR. REMY Acabamos de entrar! Esta é minha filha Isabela. SR. ORGON (Já interessado) Encantado, senhorita. ISABELA (Tímida, mas interessada) Obrigada. (Muda de assunto) E sua filha, não está? SR. ORGON Sílvia dá os últimos retoques para receber o pretendente. Está ansiosíssima! ISABELA Eu imagino... SR. ORGON Este moço, quem é? SR. REMY Este é Arlequim, criado de meu filho Dorante. DORANTE Os meus respeitos, senhor. SR. ORGON E onde está Dorante? DORANTE Está chegando. Pediu-nos que viéssemos apresentar seus respeitos primeiro. SR. ORGON E você, Arlequim, desempenhou muito bem a tarefa. O que acha do moço, Lisette? Os olhares de Silvia e Dorante se cruzam, encantados. SILVIA (Vestida como Lisette) Bem, que seja bem vindo. Parece bastante... responsável. SR. ORGON Bem, esta é a criada de minha filha Sílvia. Uma moça de ouro! DORANTE Pude perceber desde o primeiro momento em que a vi. SR. ORGON Cupido está voando por aqui, não é mesmo? Vai abrir seu coração, finalmente, Lisette? SILVIA Por favor, senhor... DORANTE Não precisa enrubescer, senhorita. Sei que não sou digno de tal conquista... ISABELA Vocês estão deixando a moça sem jeito e o meu irmão (percebe a gafe, é olhada por Dorante, tenta consertar) está para chegar... SR. ORGON Sim, claro, a senhorita tem toda razão. No momento em que
  • 9. 9 quiserem descansar ou pedir alguma coisa, falem com Flamínia, nossa governanta. FLAMÍNIA Uma criada. SR. REMY Meus respeitos, senhora. (Seus olhares de cruzam, interessados) SR. ORGON Enquanto Dorante e Sílvia não chegam, poderíamos deixar que os criados se entendessem, não é mesmo? Lisette, você faz companhia ao criado do sr. Dorante, por favor? (Silvia concorda) E quanto a nós, vamos para perto da janela tomar um pouco de refresco e apreciar o entardecer. O que acha senhorita Isabela? ISABELA Eu adoraria. SR. ORGON Flamínia, você pode cuidar de tudo para nós? FLAMÍNIA Pois não, senhor, com licença. (Sai) CENA 6 – Todos, menos Arlequim e Lisette “Balé” das criadas: Ragonda, Coralina, Belisa e Flamínia preparam a mesa do chá em um dos lados da cena. Flamínia fica para servir o chá. Ragonda sai, Coralina e Belisa se aproximam de Sílvia e Dorante. CENA 7 - Dorante, Isabela, Sr. Remy, Sílvia, Lisette, Coralina e Belisa Senhor Orgon, Senhor Remy e Isabela vão para a mesa. Ficam conversando e, a certa altura, se incomodam com a intromissão de Coralina e Belisa. CORALINA Não vai nos apresentar o criado do senhor Dorante, Lisette? SILVIA Arlequim. Estas são Coralina e Belisa. CORALINA e BELISA Prazer! DORANTE Encantado. (As duas suspiram) BELISA Arlequim... Conheci um moço que tinha o mesmo nome que você... CORALINA Belisa já namorou quase todos os nomes do dicionário... (Riem) DORANTE Eu imagino... SILVIA O que achou da propriedade, senhor Arlequim? DORANTE Muito aprazível. Costumo dizer que uma casa é sempre o reflexo de seus moradores. SILVIA Sendo assim... DORANTE Terei o maior prazer em ficar hospedado aqui por esses dias. SILVIA E seu patrão... também? DORANTE Certamente, senhorita. BELISA Hummm... Que rapaz educado... DORANTE Bondade sua, senhorita. CORALINA Mas para que tanta formalidade? Senhor pra cá, senhorita pra lá. Entre pessoas da nossa posição não é preciso! Né, Lisette? (Dá um tapa nas costas de Sílvia) SILVIA Está bem... Arlequim... DORANTE Lisette. BELISA Muito bem, amiga! (Dá um tapa nas costas de Sílvia. Olha para Coralina,
  • 10. 10 cúmplice. Elas riem) DORANTE (Para Silvia) Posso até tratá-la com mais liberdade, mas estarei sempre às suas ordens. BELISA Onde aprendeu esses galanteios, Arlequim? DORANTE Nos olhos de Lisette. BELISA e CORALINA (Ao público) Meu Deus! Eu quero esse homem pra mim! Flamínia se aproxima e cochicha alguma coisa para Coralina e Belisa. As duas resistem, ficam zangadas, Flamínia arrasta as moças para fora, “discretamente”. Elas saem dando beijinhos e adeuzinhos para Dorante. SR. ORGON Pronto. Flamínia já resolveu tudo! SR. REMY Essa sua governanta parece tão eficiente... SR. ORGON Está conosco há tantos anos, que parece da família! ISABELA Agora os pombinhos ficarão mais à vontade. SR. ORGON (Para Isabela) E a senhorita? Já tem um pretendente? ISABELA Ainda não... SR. REMY Mentira! Isabela tem vários pretendentes, mas nenhum a agrada! ISABELA Estou esperando o homem dos meus sonhos... SR. ORGON E como ele seria? ISABELA Ainda não sei, mas quando o encontrar, espero ter alguma revelação, algum sinal... Flamínia retorna à cena. SR. REMY Minha filha acha os moços de hoje imaturos, irresponsáveis. SR. ORGON Talvez o homem de seus sonhos não seja tão moço... ISABELA Quem sabe?... SR. REMY E Flamínia? FLAMÍNIA Pois, não, senhor? SR. REMY Já encontrou alguém para dividir os dias e as noites? FLAMÍNIA Sim. Mas a guerra o levou, de modo que meus dias e noites divido apenas com as lembranças... SR. REMY e SR. ORGON (Suspiram) Eu sei o que é isso... Continuam conversando, discretamente. CENA 8 – Arlequim, Dorante, Sílvia Arlequim entra em cena, esbaforido e nervoso. Passa primeiro pela mesa e, em seguida, vai até Dorante, falando alto. ARLEQUIM (Entrando como Dorante) Arlequim! Arlequim! Por onde você anda, seu imprestável? DORANTE Sr Dorante?!
  • 11. 11 ARLEQUIM E quem mais poderia ser? Estou lá fora esperando que me anunciem e até agora nada! Esqueceram de mim? DORANTE Absolutamente, senhor. ARLEQUIM Segure meu casaco. Quem é que vai avisar meu sogro e minha mulherzinha que estou aqui? SILVIA Quer dizer o senhor Orgon e sua filha, não é? ARLEQUIM Sim, meu sogro e minha mulherzinha, noivinha, tanto faz. DORANTE (Repreendendo, discretamente) Tenha calma, senhor Dorante... ARLEQUIM Venho aqui para me casar, todos sabem. Pra que então tanta cerimônia por uma bobagem? SILVIA Uma bobagem?! ARLEQUIM O que disse, belezinha? SILVIA Nada. Vou chamar o sr. Orgon, ele está bem ali. ARLEQUIM Por que não diz “vou chamar o seu sogro”? SILVIA Porque ele ainda não é seu sogro! DORANTE Ela tem razão. O casamento ainda não aconteceu. ARLEQUIM Logo, logo, meu caro. Bastará que ela me olhe, me cheire, me apalpe, conheça o material! É ou não é? DORANTE (Repreensivo) Sr. Dorante... ARLEQUIM (Para Silvia) Me diga uma coisa, belezinha: você é a criada? (Silvia confirma) Muito bem! Imagino como será a minha fofinha! SILVIA (Ao público) Que estranho! Nenhum desses dois homens está no lugar certo. (Vai em direção à mesa) ARLEQUIM Começamos bem, senhor, que criadinha gostosa! DORANTE Como você é grosseiro! ARLEQUIM Eu?! Magina! DORANTE Recomendei que fosse sério. Começo a me arrepender de ter confiado em você, Arlequim! ARLEQUIM Prometo melhorar, senhor. E se não bastar, me avise, alem de sério serei melancólico, macambúzio, sorumbático. (Faz caretas enquanto fala) DORANTE Onde eu estava com a cabeça? Acho que nos metemos em uma confusão. ARLEQUIM Ih! A noiva é um canhão? DORANTE Cuidado! O sr. Orgon se aproxima. Os que estavam à mesa, se aproximam. Sr. Orgon à frente. SR. ORGON Meu caro amigo! Muito prazer! Estava ansioso pela sua chegada! (Oferece a mão para o cumprimento) ARLEQUIM E eu, então? (Limpa a mão na calça pra cumprimentar) SR. ORGON Fez boa viagem? ARLEQUIM Mais ou menos. Estrada longa, esburacada, a coluna é quem paga o pato. E o lombo, então?
  • 12. 12 SR. ORGON (Ao sr. Remy) Seu filho é bastante... espontâneo, não é, sr. Remy? SR. REMY Muito... ARLEQUIM E minha noivinha, onde está? SILVIA Dona Sívlia está se preparando para conhecê-lo... ARLEQUIM Oh! Diz para ela não se preocupar. Eu nem consegui me lavar antes de aparecer... (Ri feito bobo) SR. ORGON Enquanto esperamos, que tal um refresco? Flamínia, por favor. Bebam conosco, Lisette e Arlequim! ISABELA (Brinda) À felicidade dos noivos! TODOS (Brindam) À felicidade dos noivos! SR. ORGON Vamos, Dorante. Vamos todos ver o anoitecer nos jardins. Saem, contentes. SEGUNDO ATO CENA 1 – Coralina e Belisa Dias depois. Ao som de uma música de intermezzo, entram Coralina e Belisa, pelo outro lado, varrendo, espanando, espiando, numa coreografia. Observam se ninguém as escuta, para poderem fofocar, cansadas do trabalho. BELISA Ufa! Minhas costas não agüentam mais! CORALINA Uh! Desde que esse povo chegou, não paramos um minuto sequer! BELIZA Uma semana de torturas! CORALINA Prepare o banho de dona Isabela! BELISA Arrume o quarto do sr. Dorante! CORALINA Corra! Temos pressa! BELISA Todo mundo se dando bem e nós, ó, só na bucha! CORALINA Você viu o sr. Remy? Arrastando as asas pro lado da Flamínia!? BELISA E a sonsa da dona Isabela! Arrancando suspiros do Sr. Orgon! CORALINA (Ao público) Em uma semana, todo mundo se arranjando. AS DUAS (Ao público) E nós, ó, só na bucha! BELISA Mas quem está se dando bem mesmo é a Lisette! CORALINA Nem me fale! BELISA Ai, se inveja matasse, eu estaria esticadinha ali, no chão, dura e seca! (Ri) CORALINA Por falar nisso, não é ela que vem correndo ali? BELISA É. Vamos sair por aqui, senão vai sobrar pra nós! Saem.
  • 13. 13 CENA 2 – Lisette, Flamínia, Ragonda e Arlequim Lisette entra, esbaforida, por uma porta e dá um encontrão em Flamínia e em Ragonda, que traz algum ingrediente na mão para o preparo do jantar (maço de cenouras, ou um frango, ou um cesto de vegetais, etc). RAGONDA Ei, Lisette, está fugindo de quem? LISETTE Shhh! O sr. Dorante não pode me ver aqui! RAGONDA Por que? LISETTE Ai, meninas. Eu não agüento mais! Preciso desabafar com alguém! RAGONDA Nossa! LISETTE É! Para que não fiquem pensando coisas de mim! FLAMÍNIA O que foi?! LISETTE Concordamos com aquela idéia de dona Silvia, mas vejo que me enganei. RAGONDA Como assim? LISETTE Estamos correndo um risco muito grande! Olha, modéstia à parte, ou o sr. Orgon toma providência, ou o seu futuro genro vai entregar o coração para outra moça... RAGONDA Não diga! LISETTE Dona Silvia tem de tirar o disfarce imediatamente, um dia a mais, eu lavo minhas mãos. FLAMÍNIA E por que recusaria Silvia? Como resistiria a seus encantos? LISETTE Encantos! Você esquece que eu também tenho os meus? (Flamínia e Ragonda riem) Acham que estou brincando, não é? FLAMÍNIA Não se preocupe, Lisette. Siga em frente. LISETTE Não posso! O rapaz grudou em mim feito carrapato! Diz que me adora, que não vive sem mim, Flamínia! Sei que não mereço, mas eu juro: ele tá me dando a maior bola! FLAMÍNIA O que fazer? Se ele a ama desse jeito, que se casem! LISETTE O que? Deixe o sr. Orgon saber disso! FLAMÍNIA Ele já sabe. E concorda. LISETTE Olha! Até agora eu me controlei, não dei corda... FLAMÍNIA (Corta) Pode dar! LISETTE Ai, ai ai. Tá falando sério? (Flamínia confirma) Se é assim, já tá no papo! RAGONDA E o que dona Silvia diz disso? LISETTE Nem falei com ela! Morro de medo! RAGONDA Ela está meio estranha... LISETTE Também acho. Parece que não está contente. Está quieta, pensativa. RAGONDA Ouvi dizer que o tal criado está cortejando dona Silvia! LISETTE Parece que sim! Tem um ar educado e elegante quando está com ela, dá aquelas olhadas, suspira... FLAMÍNIA E qual a reação dela?
  • 14. 14 LISETTE Fica vermelhinha! FLAMÍNIA Não pode ser. Ele não passa de um empregado... LISETTE Pois é, Flamínia: ela fica confusa, sim! FLAMÍNIA Só há um jeito de saber. Se alguma de nós falar mal do moço na frente dela e ela reagir, pronto, é porque está apaixonada. (Riem) LISETTE Deixe comigo! RAGONDA Ai, Lisette, não olhe agora. Mas parece que vem um apaixonado por aí, à sua procura. ARLEQUIM (Entra) Ah! Finalmente a encontrei, maravilhosa dama. Fugiu de mim? Veio se esconder com as criadas?! FLAMÍNIA Acho que estamos sobrando, Ragonda. Com licença, senhor Dorante. (Sai com Ragonda) ARLEQUIM Brilhante idéia, meninas! (Para Lisette) Pronto. Estamos a sós de novo. LISETTE Vamos com calma, Dorante! ARLEQUIM Por que? Não estamos prometidos em casamento, chuchu? LISETTE Nos conhecemos tão pouco... ARLEQUIM Tenho sede, tenho fogo! LISETTE Nos conhecemos há uma semana. O seu amor é recém-nascido! ARLEQUIM Engano seu, belezinha! Seu olhar fez o parto do meu amor. Seu sorriso lhe deu forças, seu cheirinho o tornou homem feito! E dê cá a sua mãozinha, pra que ele se divirta um pouco... LISETTE Tome. Pra ver se dá sossego! ARLEQUIM (Beija a mão) Meu benzinho... pena só poder pegar na sua mãozinha... LISETTE Tudo a seu tempo. ARLEQUIM É que eu estou perdidamente apaixonado! Não vejo a hora em que o seu coraçãozinho faça companhia ao meu. O seu bracinho faça companhia ao meu. A sua barriguinha... LISETTE Ei! Para por aí! ARLEQUIM (Bate na própria mão) Toma, sua sem mão vergonha! Toma isso e mais isso, abusada! Descarada! LISETTE Pare, por favor! Você vai se machucar! ARLEQUIM Preocupada comigo? Oh! Que linda! LISETTE Não sei, eu estou confusa... ARLEQUIM Não esteja! Quer ver? “Eu te amo”, não é fácil? Repita, princesa. LISETTE Está bem. Eu te amo. ARLEQUIM Ela me ama! Ela me ama! Acho que vou sair voando! Ai! Ai! LISETTE Não exagere, por favor. O seu amor pode acabar rapidinho... ARLEQUIM Nunca! Por que? LISETTE Quando me conhecer um pouquinho mais... ARLEQUIM Ah, não. Eu estou em desvantagem, pode crer! LISETTE Você me enxerga melhor do que eu sou de verdade... ARLEQUIM E você não tem idéia do meu real valor... Ih! Mas que conversa mais
  • 15. 15 Misteriosa! LISETTE Acho que eu te escolheria, fosse qual fosse a sua situação! ARLEQUIM E eu também! Fosse Joaninha, Mariazinha, andasse para lá e para cá com um cesto de roupas na cabeça, ainda assim seria minha princesa! LISETTE Como poderia ter certeza disso? ARLEQUIM Vamos fazer um juramento, Silvinha: nos amaremos para sempre, aconteça o que acontecer. LISETTE Tem certeza? Tenho mais interesse nesse juramento do que você. ARLEQUIM Vamos! (Dão-se as mãos) OS DOIS Eu juro! Fazem agradinhos um no outro. Dão risinhos. CENA 3 – Lisette, Arlequim e Sílvia Silvia entra, nervosa. SILVIA Dona Sílvia! LISETTE (Vendo Sílvia, disfarça) O que deseja, Lisette? SILVIA Falar com a senhora. ARLEQUIM Não acredito! Olha, volte daqui uns dez minutos, sim? Ande! SILVIA Senhor, eu preciso muito falar com dona Silvia. ARLEQUIM Que insistência! Meu amor, dispense a moça! Essas criadas não conhecem o seu lugar! LISETTE Lisette, volte daqui a pouco. SILVIA Mas, senhora... LISETTE Dorante, meu bem, deve ser importante mesmo. ARLEQUIM Está bem! Eu saio. Aqui é o único lugar no mundo em que as criadinhas dão ordens aos patrões! (sai) SILVIA Lisette! Como pode dar ouvidos a um animal como Dorante? E deixá-lo me tratar daquela maneira? LISETTE Senhorita, não posso fazer dois papéis ao mesmo tempo. É preciso que eu me pareça com a patroa, agora! SILVIA Que seja! Mas nesse momento eu sou a patroa, está bem? Você já deve ter percebido que esse Dorante não me agrada nem um pouco. LISETTE A senhorita precisa conhecê-lo melhor... SILVIA Jamais! Bastou uma palavra pra que eu o detestasse de imediato. LISETTE Fale com seu pai... SILVIA Já falei, ele não quer se manifestar. Então, cabe a você me tirar dessa enrascada. LISETTE Como? SILVIA Diga a esse homem que não gosta dele e que não pensa em casamento. Pronto.
  • 16. 16 LISETTE Não posso. Seu pai me proibiu. SILVIA Ah essa, agora! Pois eu não vou me casar com esse grosseirão. LISETTE Dê a ele mais uma chance. SILVIA Já o detesto o bastante. Não quero perder meu tempo detestando-o ainda mais. LISETTE Será que o engomadinho não tem nada a ver com isso? SILVIA O que? LISETTE O criadinho do sr. Dorante... Anda com ares apaixonados... SILVIA Lisette! LISETTE Todo mundo percebeu... E parece que ele gosta de uma intriga... Deve ter falado mal do patrão para a senhorita, não foi? SILVIA (Ofendida) Jamais! Ele não faria isso! Pois saiba que Arlequim fala pouco, e desse pouco muito se aproveita! LISETTE Não precisa se ofender tanto, senhora! SILVIA Ofendida? Por que culpar o pobre moço pelo fato de eu não gostar de seu patrão? Por que me indispor contra ele? Coitado, é um rapaz gentil, cheio de boas intenções! LISETTE Oh, senhora... Já que o defende com tanto empenho... Não falo mais nada... SILVIA O que você quer dizer com isso? O que está passando aí dentro dessa cabecinha, hein, Lisette? LISETTE Não sei, nunca vi a senhorita desse jeito... Se ele não disse nada, melhor. Não é preciso justificar tanto... Acredito na senhorita. SILVIA Como você é maliciosa! Como torce as coisas! Estou indignada! E ainda me deixa nervosa por causa dele! LISETTE Senhorita... SILVIA (Confusa, desesperada) O que você quer dizer com tudo isso? O que devo entender? O que responder? Oh, meu Deus! LISETTE Não sei... só estou surpresa com tudo isso... SILVIA Saia daqui, Lisette! Você e sua surpresa! Encontrarei outra saída, já que não posso contar com mais ninguém! Lisette sai. CENA 4 – Sílvia, Dorante, Sr. Orgon e Flamínia Silvia anda para lá e para cá, preocupada. Dá de cara com Dorante, que entra. Leva um susto. SILVIA Dorante? Você está me seguindo? DORANTE Não, Lisette. Vim me despedir. SILVIA Oh, por favor, não arranje desculpas esfarrapadas pra falar comigo... DORANTE Não preciso de desculpas. Vim dar adeus, mesmo. SILVIA Se vai, boa sorte. DORANTE Isso quer dizer: pode ir, eu não ligo. Li seu pensamento. SILVIA Nem eu mesma consigo definir meus pensamentos, Arlequim...
  • 17. 17 DORANTE Quanto a mim, tenho apenas Lisette habitando aqui dentro. SILVIA Dê-lhe ordem de despejo. Eu não te quero bem, nem te quero mal; não te odeio nem te amo, nem te amarei – a menos que saia do meu juízo perfeito. DORANTE Ah, o que será de mim sem o teu amor... SILVIA Nunca prometi nada! Você fala e eu respondo, nada mais. E você não imagina o sacrifício que eu faço! Então, chega! DORANTE Ah! Quanto sofrimento! Sua patroa parece que me acusou de falar mal do senhor Dorante. SILVIA Calúnia! Se ela importuná-lo mais uma vez, se vier com mais acusações, me avise. Agora vá embora, por favor. DORANTE Adeus... Cometi apenas um erro: não ter partido logo que a vi. SILVIA Adeus. Você merece uma boa moça. DORANTE Se você soubesse o estado em que me encontro, Lisette... SILVIA (Ao público) E se ele soubesse o meu estado! DORANTE Sei que não mereço a sua consideração. Sou apenas um criado. Jamais conseguiria vencer essa diferença. SILVIA (Ao público) Eu não teria tanta certeza... DORANTE Diga, por favor, com, todas as letras, que jamais sentiria amor por mim. SILVIA Eu digo. Jamais te amaria. Pode acreditar. DORANTE Eu acredito, mas meu coração teima em esperar! (Ajoelha-se) Por que? Eu peço de joelhos, dê ao menos uma ilusão de carinho! Sr. Orgon e Flamínia entraram sem ser vistos e observam, quietos, a cena de Dorante ajoelhado. Sílvia ainda não viu ninguém chegar. SILVIA Era só isso que faltava! Levante-se, Arlequim. Pode aparecer alguém. O quer de mim? Quer que eu diga? Eu não te odeio e não te desgosto de modo algum. Levante-se. Eu te amaria se as coisas fossem diferentes. Isso basta? DORANTE O que? Lisette, se eu não fosse quem eu sou, se fosse rico, honestamente rico, e se eu te amasse do jeito que eu amo, teu coração não me desprezaria? SILVIA É claro que não! Mas levante-se! DORANTE Você parece sincera. Acho que vou enlouquecer! SILVIA Levante-se, por favor! SR. ORGON (Aproximando-se, pigarreia) Infelizmente tenho de interromper. Mas que bela cena, hein? SILVIA Eu não tenho culpa. Ele ajoelhou porque quis, sr. Orgon. FLAMÍNIA Nós vimos tudo, Lisette, fique tranqüila. SR. ORGON Vocês fazem um belo par! SILVIA Sr. Orgon! SR. ORGON Arlequim, se me permite, gostaríamos de conversar com Lisette.
  • 18. 18 DORANTE Pois não. Com licença, senhor. Com licença, Lisette... (sai) SR. ORGON Sílvia, não desvie os olhos. Por que está tão embaraçada? SILVIA Eu não estou embaraçada. FLAMÍNIA Ela está nervosa porque Arlequim anda falando mal do patrão, senhor. SR. ORGON Por isso você não quer se casar com Dorante, minha filha? SILVIA O que? Arlequim não tem nada a ver com isso. Não gosto de Dorante desde que pus os olhos nele! FLAMÍNIA A senhorita Sílvia está muito nervosa... SILVIA É que estou cansada desse papel ridículo. SR. ORGON Então vamos desmanchar essa farsa e você poderá deixar de lado essa aversão por Dorante, conhecê-lo melhor... SILVIA Papai! Já disse que não quero me casar com ele! SR. ORGON Todos estão percebendo como você está estranha, minha filha. Até Lisette, que falou qualquer coisa sobre Arlequim e você já ficou irritada. SILVIA Fiquei revoltada! Ela cometeu uma injustiça! Só porque eu procuro ser justa, porque não gosto de ver alguém prejudicado, porque quero salvar um empregado da calúnia, já dizem que estou estranha. E você não me defende, Flamínia? FLAMÍNIA Senhorita... SILVIA Compreensão, eu peço! SR. ORGON Calma! SILVIA Não, meu pai, não posso ter calma. Não estou me reconhecendo... SR. ORGON E a cena que acabamos de ver? Ele estava ajoelhado... SILVIA E daí? SR. ORGON Quando perguntou se você o amaria, você respondeu docemente: com certeza. O que me diz? SILVIA Digo que não tenho nada a dizer. Que não estou entendendo mais nada. (Sem saber que direção tomar) E se me dão licença, vou para o meu quarto, ou para o jardim, ou para o celeiro, não sei. Com licença. Arre! (Sai) FLAMÍNIA Senhorita, senhorita! (Sai atrás) CENA 5 - Sr. Orgon, Isabela, Sr. Remy, Flamínia, Sílvia, Dorante e Arlequim Sr. Orgon está só, e pensativo. Isabela entra e fica preocupada com o anfitrião. ISABELA Sr. Orgon. O senhor está bem? SR. ORGON Oh, senhorita Isabela? ISABELA Pode me chamar de... Isabela. Afinal seremos da mesma família dentro em breve... SR. ORGON Isabela... Só se você também me chamar pelo nome... Felipe. ISABELA Não será difícil. É um lindo nome. Felipe... SR. ORGON Na sua boca ele parece mesmo bonito...
  • 19. 19 ISABELA (Sem jeito) Você acha que Dorante e Sílvia... SR. ORGON Não sei. Me pergunto se essa história já não foi longe demais. ISABELA Pensa em revelar tudo aos dois? SR. ORGON Às vezes sim. Minha filha está sofrendo muito. Armou essa brincadeira, mas não imaginava as conseqüências... ISABELA Nem meu irmão! (Riem) SR. ORGON São muito jovens, inseguros. ISABELA Somos todos inseguros, Felipe. Ou não? (Olham-se, sem coragem de confessar o amor) SR. REMY (Entrando) Sobre o que conversam os dois? Posso saber? SR. ORGON Sobre insegurança, medo, sr. Remy. SR. REMY E chegaram a alguma conclusão? SR. ORGON (Olhando para Isabela) Ninguém consegue ficar muito tempo sem tomar uma decisão... SR. REMY Essa é uma verdade! E sobre nossos filhos, Sílvia e Dorante? ISABELA Quanto a eles, não sei. Mas peguei os criadinhos aos beijos no corredor. (Ri) Arlequim está que é uma paixão só! SR. ORGON Mal sabe ele que a moça não é a verdadeira Silvia. ISABELA Quando souber! (Riem) SR. REMY Não sei, não sei. O beijo era tão apaixonado, que me fez acreditar na sinceridade dos dois... E me deu uma saudade... (Entra Flamínia) Uma vontade de viver tudo aquilo de novo... ISABELA Papai! FLAMÍNIA Sr. Orgon. Acho que teremos novidades. Dona Sílvia vem aí, com o sr. Dorante. Eles parecem estar discutindo. SR. REMY Vamos nos esconder e ouvir a conversa! ISABELA Papai! SR. REMY É só isso que você sabe dizer, Isabela? Papai! Ora, vamos! Se escondem, mas podem ser vistos pelo público. Entra Sílvia, seguida por Dorante. Conforme eles falam, vemos as reações no rosto dos espiões. DORANTE Espere, Lisette. Preciso falar-lhe pela última vez. SILVIA (Exausta) Fale de uma vez, Arlequim... DORANTE Você não me conhece realmente. SILVIA Não, eu não te conheço. Quem é você, afinal? DORANTE Jura guardar segredo absoluto? SILVIA Juro. DORANTE Bem, Lisette. Quem está com sua patroa não é quem vocês pensam que é. SILVIA Como não? DORANTE Ele é um criado! SILVIA O que? DORANTE Ele é o criado do sr. Dorante.
  • 20. 20 SILVIA Logo... DORANTE Ah! Como é dura a verdade. Eu sou Dorante. SILVIA (Ao público) Obrigada, obrigada! Ele é Dorante! Como eu queria que ele fosse Dorante! (Alto, furiosa) Você é Dorante? DORANTE (Justificando-se) Eu queria conhecer um pouco melhor sua patroa, antes de me casar com ela. Meu pai preferiu o disfarce e agora tudo parece um pesadelo: não gosto da mulher com quem deveria me casar, amo a criada, que não deveria me ver senão como seu novo patrão. E o pior: minha pretendente se apaixonou pelo meu criado, querem se casar! SILVIA (Ao público) Acho que é ainda um pouco cedo para me revelar... (Alto) Sua situação é delicada, senhor. E peço desculpas se fui grosseira em algum momento... DORANTE Não diga isso, Lisette! Não se comporte como uma criada, por favor! SILVIA O senhor está mesmo interessado em mim, apesar de tudo? DORANTE A ponto de renunciar ao compromisso perante o senhor Orgon. SILVIA Eu bem que poderia amá-lo também, se isso não trouxesse prejuízo ou vergonha... DORANTE Vergonha? Você não faz idéias da nobreza que tem, Sílvia! Você faria melhor papel que muitas moças da corte! SILVIA Bem que eu gostaria... Mas temo não ser possível, senhor Dorante. O senhor se esqueceu de minha patroa, dona Sílvia? Ela está prometida para o senhor e se enamorou do seu criado. Não quero fazer parte dessa confusão. Me perdoe. Com licença! (Sai) DORANTE Ah, não pode ser! Ela me disse adeus! Tudo por culpa de Arlequim! (Anda, desconsolado, pela cena) Os espiões fazem gestos entre si, combinando que devem sair de fininho. Arlequim entra, desconsolado, fazendo como a sombra do patrão. Quando Dorante percebe, toma um susto e dá uma bronca. DORANTE Arlequim, seu aproveitador! Estou sabendo de tudo! ARLEQUIM Ai de mim! Senhor, eu peço perdão. Compaixão! Minha sorte grande está tão pertinho... deixe que eu agarre ela e não solte mais! DORANTE Espertinho! Merece um cacete, isso sim! ARLEQUIM Me bata, senhor, pode bater, se acha que não mereço fazer fortuna com um bom casamento. DORANTE Como? E você quer que eu continue enganando um homem como nosso anfitrião? Quer se casar com sua filha usando meu nome? Se continuar com essa idéia eu acabo com você, entendeu? ARLEQUIM Calma! Dona Silvia me adora, idolatra. Se eu confessar que sou um criado e mesmo assim ela continuar caidinha, o senhor concorda com o casório?
  • 21. 21 DORANTE Se ela souber quem você é realmente, eu não proíbo. ARLEQUIM Ótimo! Vou agora mesmo fazer a revelação. (Ao público) Espero que um reles título de nobreza não nos impeça de ficar juntos. E que o amor possa me transportar da cozinha para a sala de jantar. DORANTE Vamos! Vamos encontrar a senhorita Sílvia o mais rápido possível. (Saem) CENA 6 – Lisette, Sílvia e Sr. Orgon Entram pela porta oposta. Lisette observa se ninguém a escuta. SR. ORGON Pare com isso, Lisette! Fale de uma vez o que tem a nos dizer! LISETTE É preciso que ninguém nos ouça! Pelo menos, não por enquanto. SILVIA Não há ninguém por perto, pode falar. LISETTE Senhor, eu o preveni. Sempre procurei fazer exatamente o que estava combinado. Pesquisar, observar, fazer relatórios. Mas as coisas tomaram outro rumo, sem que eu fizesse isso aqui que fosse! SILVIA Seja mais objetiva, Lisette! LISETTE Senhorita, me ajude. Sei que detesta o senhor Dorante, mas haveria algum impedimento se... SILVIA (Corta) Eu o dou a você, Lisette. Pode ficar com Dorante, embrulhado, com laço de fita. LISETTE Verdade? O senhor Orgon concorda? SR. ORGON Sim... Se ele a ama tanto assim... LISETTE Obrigada, obrigada mesmo, de coração. SR. ORGON Oh, mas tem uma coisa: ele conhece a sua verdadeira identidade? (Ela nega) Então revele, para evitar maiores embaraços. LISETTE Mas qual seria a reação dele? SILVIA Se ele te ama de verdade... LISETTE Essa é boa... logo agora que ia tudo tão bem... SILVIA Confie da força do amor. SR. ORGON E na justiça. SILVIA Olhe, o felizardo vem aí. Aproveite, vocês têm muito que conversar. Saem Silvia e Sr. Orgon. CENA 7 – Arlequim e Lisette ARLEQUIM (Entrando) Enfim, pedaço de mau caminho, está fugindo de mim? Não a largarei mais, não adianta... LISETTE Espere, senhor. Tem umas coisinhas... ARLEQUIM (Malicioso) E eu não sei? Que coisinhas? Mostre, mostre... Quer que eu morra de curiosidade? LISETTE Não morra, por favor! Sua vida é o meu maior tesouro! ARLEQUIM Essas palavras me fortalecem. Eu bem poderia beijar essas palavras,
  • 22. 22 unindo meus lábios aos teus... LISETTE Falei com meu... pai... Você pode pedir minha mão quando quiser. ARLEQUIM Antes de pedir a ele, eu peço a você: suplico a caridade de pousar sua mão sobre a minha, tão indigna desse gesto magnânimo e... LISETTE Posso emprestá-la... ARLEQUIM Contanto que seja para sempre... Nunca poderei compensá-la o bastante, minha riqueza, nunca... LISETTE Você me dará bem mais do que eu mereço... ARLEQUIM Que idéia! Na contabilidade do amor, eu estarei sempre em débito, eu garanto. LISETTE Você caiu do céu, eu garanto! ARLEQUIM E sobrou tão pouquinho depois da queda, acredite. LISETTE E eu sou tão menor que esse pouquinho... Tem certeza de seus sentimentos por mim, senhor? ARLEQUIM (Ao público) A coisa está esquentando... LISETTE Eu me conheço muito bem, sabe... ARLEQUIM E eu também... não que isso seja grande coisa... LISETTE (Ao público) Tanta humildade parece estranha... (A Arlequim) Acho que está querendo me dizer alguma coisa. ARLEQUIM Agora é que a porca torce o rabo... LISETTE Estou ficando nervosa!... Será que... ARLEQUIM Tá esquentando... LISETTE Diga. ARLEQUIM (Ao público) Vamos preparar o terreno antes. (A ele) Lisette, o seu amor é realmente forte? Assim, daqueles que resistem a tempestades, furacões? (Ela a tudo responde sim) LISETTE Ah! Acabe logo com isso! Vou facilitar as coisas: quem é você? ARLEQUIM Você já viu alguma vez moeda falsa? Sabe reconhecer o ouro? Bem, eu sou mais ou menos isso... LISETTE Serei mais objetiva: qual é o seu nome? ARLEQUIM Meu nome? (Ao público) Direi que me chamo Arlequim? Não: ela vai achar ruim. LISETTE E então? ARLEQUIM Ah, minha doce amada... como poderei dizer... Você, só a título de curiosidade, desprezaria, por exemplo, um assessor... LISETTE Um assessor? Como assim? ARLEQUIM Um assessor de... copa e cozinha... um assessor de quarto... LISETTE Espere um pouco. Não é com Dorante que eu estou tratando? ARLEQUIM Bem, Dorante é o meu... assessorado. Eu sou Arlequim. LISETTE Humm... Mas que xinfrim! ARLEQUIM (Ao público) Não pude evitar a rima... LISETTE Ora, faça-me o favor! Há meia hora tento me revelar a um quadrúpede como esse! ARLEQUIM Ai de mim! Se você prefere glória e títulos em vez de amor...
  • 23. 23 LISETTE Rindo) Não deixa de ser engraçado... Vá lá, eu te perdoo. Tenho um coração de manteiga. ARLEQUIM Ah, mal posso acreditar! LISETTE Além do que, o assessor de quarto de Dorante combina direitinho com a assistente de toalete de Sílvia... ARLEQUIM Assistente de toalete?! Que desfeita! LISETTE Pagando com a mesma moeda! ARLEQUIM Que confusão! Até minutos atrás éramos nobres. Que derrocada! LISETTE Vamos aos fatos: você me ama? ARLEQUIM Acho que sim. Quer dizer, é claro! Apesar de ter trocado o nome, a pessoa continua a mesma. E você deve estar lembrada de que juramos fidelidade. LISETTE O mal não é tão grande assim... Vamos, uma cara mais alegre! O seu senhor e a minha senhora devem estar passando por situação semelhante... Não vamos avisá-los de nada, vejamos como se arranjam... Será que com tanta classe como nós, senhor? ARLEQUIM Absolutamente, madame. (Ele sai). CENA 8 – Arlequim e Dorante DORANTE E então? Vejo que a filha de Orgon acaba de sair. Contou-lhe a verdade? ARLEQUIM E não? Pobre criança! Um coração de manteiga. Quando corajosamente disse a ela que me chamava Arlequim e que era um simples empregadinho: “Bem, meu caro, cada um com seu nome na vida. Cada um com sua função, que fazer?” DORANTE Não entendi. ARLEQUIM Pedi sua mão em casamento. DORANTE Como? Ela aceitou? ARLEQUIM Não pôde resistir... DORANTE Você está mentindo. Ela não sabe quem você é. ARLEQUIM Se o senhor não fosse o meu superior eu chegaria a ficar bastante ofendido. Só porque uso uniforme e devo satisfação a alguém, não sou capaz de conquistar um coração? DORANTE Não acredito em uma só palavra. Vou prevenir o senhor Orgon... ARLEQUIM Meu sogrinho? Ele está do nosso lado! É um velhinho de primeira! DORANTE Não acredito! (Desiste) Viu Lisette por aí? ARLEQUIM Lisette! Não, pode até ter passado na minha frente, mas um homem na minha posição não tem olhos para criadinhas. DORANTE Isso não pode continuar. ARLEQUIM Quando eu me casar, nos olharemos de igual para igual! Sua empregadinha está chegando. Bom dia, Lisette! Sabe que vocês dois formam um belo casal? (Sai)
  • 24. 24 CENA 9 – Sílvia e Dorante SILVIA Onde esteve, senhor? Procurei-o por toda parte: tive uma conversa com o senhor Orgon. DORANTE Verdade? (Está frio) SILVIA (Ao público) Oh, como ele está gelado. (Alto) Fui até seu criado e tentei convencê-lo a desistir do casamento, mas ele não deu ouvidos. Fiz ameaças, mas não adiantou. DORANTE Acho que o melhor a fazer é ir embora, sabe? Volto para casa, levo Arlequim comigo. Deixo um bilhete para o senhor Orgon... SILVIA (Ao público) Ir embora? Isso não estava nos meus planos... DORANTE Não acha melhor? SILVIA Não muito... DORANTE Permanecer para que? Talvez fale pessoalmente com meu anfitrião... Tenho mil razoes para partir... SILVIA Não sei de suas razões... DORANTE E nem desconfia? SILVIA Pode estar interessado na filha do senhor Orgon... DORANTE O que? Lisette, não tenho sido claro o bastante?... SILVIA Penso coisas que acho não ter o direito de pensar... mas penso... e penso... DORANTE Não posso forçá-la a nada, Lisette. Adeus... SILVIA Espere! Eu penso... e sinto. Mas não tenho coragem de dizer! DORANTE Talvez seja melhor não dizer mesmo... Guarde com você. SILVIA Como? Vai partir? DORANTE Sim. Mas quero deixar claro que não tenho nada pessoal contra você, entende? SILVIA Não tem nada que se preocupar comigo. Sou apenas uma empregada... Isso fica cada dia mais claro. DORANTE O que quer dizer com isso? Parece que ninguém é capaz de tocar seu coração! SILVIA O que sabe sobre meu coração? DORANTE Nada! É isso: nada! Então diga, fale sobre ele. Deixe-me vê-lo! SILVIA Mostrá-lo a alguém que está de partida? DORANTE Não partirei mais! Ainda duvida do quanto eu te adoro? SILVIA Você diz tantas vezes que me deixa tonta! Eu tenho medo! O senhor me ama, mas a distância que há entre nós dois, as dificuldades, tudo está contra esse amor. Ah! Se eu o amasse, nada no mundo seria maior, nada importaria mais, seria como morrer! Então esconda o seu amor, como eu escondo o meu... (Chora) DORANTE Ah! Minha querida Lisette. O que acabei de ouvir? Tuas palavras têm um fogo! Meu coração e minha alma te pertencem! Que casar comigo?
  • 25. 25 SILVIA O que? Nos casaremos apesar de sua posição, apesar de seu pai e de sua fortuna? DORANTE Meu pai me perdoará tão logo a vir. Minha fortuna será suficiente para nós dois e pronto. SILVIA Você não vai mudar de idéia? DORANTE Não, minha querida. SILVIA Oh! Eu te amo! Os demais personagens, menos Coralina e Belisa, entram, aplaudindo a cena. CENA 10 – Todos menos Coralina e Belisa SILVIA Ah! Meu pai! Quis que eu fosse de Dorante? Pois venha ver sua filha obedecê-lo com a maior alegria do mundo! DORANTE O que está acontecendo? O senhor é pai de... SILVIA Sim, Dorante. A idéia de nos conhecermos sob disfarce nos veio ao mesmo tempo. O que dizer depois disso? Você me ama, eu não duvido mais. Porém, de sua parte, avalie meus sentimentos por você, meus métodos, enfim. Espero não ter sido muito cruel... SR. REMY Contei para o sr. Orgon sobre seus planos. Mas Sílvia não sabia de nada! SR. ORGON Dorante, perdoe-nos as dores de cabeça... DORANTE A essa altura não perdôo. Agradeço. Mas... SR. ORGON Mas? DORANTE Tenho o direito de me vingar. SR. REMY O que pretende dizer com isso? DORANTE Que durante esse tempo todo percebi que Cupido não flechou somente os jovens... Os dois outros casais ficam envergonhados. SILVIA Sabemos que há mais gente apaixonada nesta sala. (Pausa) Ninguém vai tomar nenhuma atitude? (Ninguém toma iniciativa) ISABELA Bem, Flamínia, acho que cabe a nós tomar, não é? FLAMÍNIA Talvez, senhorita. Isabela e Flamínia agarram Sr. Orgon e Sr. Remy, deitam-nos como num tango, e dão-lhes um beijo. Todos aplaudem. ARLEQUIM (Para Lisette) E quando a nós, “madame”: você perdeu a posição e os privilégios, mas não perdeu o mais importante: aqui estou eu, o seu Arlequim! LISETTE Ora! Quem saiu ganhando foi você! ARLEQUIM Eu não saí perdendo, vamos dizer assim. Antes de te conhecer, seu
  • 26. 26 dote valia muito mais do que você. LISETTE Agora, você vale muito mais do que seu dote! (Riem) ARLEQUIM (Ao público) Alegremo-nos, senhoras e senhores, com os jogos que o amor e o acaso nos armaram! SILVIA Agradecemos a vossa paciência e boa vontade. DORANTE E que Cupido encante vossa vida, como encantou a nossa! Casais se beijam. Todos começam a dançar. Entram Coralina e Belisa, varrendo, rabugentas. Aos poucos se empolgam com a música e oferecem a vassoura para alguém, para dançar também, contagiadas. FIM