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1
AS MENINAS
Peça teatral
de Adélia Nicolete
Transcriação do romance homônimo
de Lygia Fagundes Telles
2
Personagens:
Lorena
Lia
Ana Clara
Irmã Bula
Mão de Lorena
Madre Alix
Mãezinha
Max
Guga
Belo
Essa peça estreou em 1989 em São Paulo, com a Companhia Dramática Formicida Avec
Cachaça sob direção de Paulo Moraes. Teve temporada amadora e, em seguida,
profissional, no Teatro Brasileiro de Comédia e em circuito.
3
Black Out. Fade in durante a fala de Irmã Bula. As três meninas estão posando para uma
foto.
AS TRÊS
A pirâmide!
IRMÃ BULA
Vamos, meninas! Estava tão bom daquele jeito. Façam de novo. Ana Clara, não envesga!
Enfia a blusa na calça, Lia, depressa. Oh, Senhor! Não faça careta, Lorena, você está
fazendo careta!
LIA
Lorena! Lorena, abre a porta, quero falar com você.
LORENA
Minha amada, seja bem-vinda! Bom dia, sol! Bom dia, dia! Bom dia, Lia!
LIA
Lorena, será que você podia me dar um pouco de atenção?
LORENA
Com a palavra a testemunha Lia de Melo Schultz. Jura dizer a verdade, somente a
verdade, nada mais que a verdade?
LIA
Ô, estudante de Direito! Será que sua mãe empresta o carro hoje? Depois do jantar, lá
pelas nove...
LORENA
A alça do seu sutiã está aparecendo, querida.
LIA
Milagre é eu estar usando sutiã hoje, entende?
LORENA
Por isso que a mulherada tá ficando de peito caído tão cedo. Sem exercícios e sem
sustentação.
LIA
Lena, escuta, eu não estou brincando.
LORENA
E eu estou? Peito é troço sério! Peito e bunda são as partes que os homens mais
valorizam. Ai, os homens... Lião, Lião, como estou apaixonada. Se M.N. não telefonar,
me mato!
4
LIA
Loreninha, por favor, preciso do carro hoje à noite, entende? Pede pra sua mãe...
Devolvo logo, como da outra vez. Não tem problema.
LORENA
Você e seus amigos podiam sequestrar o M.N., Lião. Tá tão na moda sequestro. M.N.
poderia ficar escondido debaixo da minha cama.
LIA
Sequestro com bastante tiros. Troca de tiros com a polícia.
LORENA
Não. Sem tiros. Tiro não, Lião. (Cala-se. Lia suspira) Desculpa a brincadeira. Sei que a luta
de vocês é barra... (Pausa) O que você tem, Lião? Está deprimida?
LIA
Angústia existencial.
LORENA
Vou fazer um chá pra nós. Um chá desexistencializante. Meu irmão Remo mandou uma
caixa de chá inglês e um pacote dos biscoitos preferidos do Paul McCartney.
LIA
Vou aceitar, sim, que se dane a balança! Miguel preso, falta de dinheiro, de pai, de mãe,
meus amigos caindo todos e ainda vou me privar de açúcar? Mas eu me sinto um...
verme passivo, convivendo com você, sabia?
LORENA
Por quê?
LIA
Porque a burguesia tem que explodir! E eu, Lia de Melo Schultz, codinome Rosa,
militante na guerrilha urbana, me permito ser amiga pessoal sua e tomar, sempre que
posso, chá com bolachinhas inglesas.
LORENA
Tá bem, eu faço um chazinho de boldo pra você. Bem pobrinho e bem amarguinho,
pode ser? (Riem)
LIA
Não fale em chá de boldo, que eu já lembro do seu velhote. Quer dizer que nada ainda?
LORENA
Quem disse que M.N. é velho? Ele está na meia idade. Ficou de telefonar para sairmos.
5
Você vem com a gente?
LIA
Cinema?
LORENA
Imagine! Já pensou se a mulher ou algum filho resolve ver o mesmo filme? Acho que o
melhor lugar pra gente se ver é o hospital, porque se o mundo é grande, aquele hospital
é ainda maior. (Teatro. Para Lia) Por favor, senhora...
LIA
Senhorita!
LORENA
Senhorita, o doutor Marcus Nemesius está? É urgente.
LIA
Um momento que eu vou verificar. (Sai perguntando. Depois anuncia) Ele não está, meu
bem. Acabou de sair com a mulher e os cinco filhos. (Sorri)
ANA CLARA
Max, tá na hora. Tenho que ir.
MAX
Ah, num vai não, Coelha. Fica mais um pouquinho com o seu Max, fica.
ANA CLARA
Ele já deve estar lá, com o pãozinho todo esfarelado, me esperando, Max. Você não tem
mesmo peninha da sua Coelha, né? Se eu chego atrasada ele é capaz...
MAX
Fica. Vamos transar de novo, hein?
ANA CLARA
Tô a fim, não. Hoje num tô muito brilhante.
MAX
Queria que me dissesse o dia em que está muito brilhante, hein? Você tem estado tão
gelada, Coelha. Parece que trepo num pinguim.
ANA CLARA
Tô triste. Coelha tá triste.
MAX
Triste? Ninguém fica triste ao lado de Maximiliano, el... conquistador! Música! (Um tango
6
que eles dançam)
ANA CLARA
Tango mexe comigo, sabia? Max, eu te amo. Eu te amo.
MAX
Mas não gosta de transar, Coelha!... É importante transar, ahn?
ANA CLARA
Ando meio travada. Preciso falar com meu analista, fiz uma puta confusão com essa
análise. Não sei mais se sou Ana Clara ou Ana Turva.
MAX
Uma dose pra mim e outra pra minha Ana Coelha. Com isso engrena. (Ela cobre a cabeça
com o lençol)
ANA CLARA
Engrena, nada. Se ao menos engrenasse mesmo e eu subisse pelas paredes de tanto
engrenar e a cabeça deixasse de pensar só coisas chatas... Ela tem ódio de mim. Só pensa
o que eu não quero... Olha ele lá, com o pãozinho todo esfarelado me esperando. Eu não
quero, eu não quero... (Para um Escamoso imaginário) É que sou virgem, meu bem. Me
desculpe, mas sou virgem...
LORENA
Eu pago a sua vaginoplastia, Ana Clara! É simples. Eles dão uma costurada e a zona sul
fica como nova. Ele vai ter uma puta dificuldade...
ANA CLARA
Eu fico pensando na grana que isso deve custar... Eu podia pedir a grana pro Escamoso,
mesmo, ele é meu noivo e tá com o cu cheio de dinheiro...
LORENA
Oriehnid, lembra? Tem que falar ao contrário, pra dar sorte.
ANA CLARA
Pois é, tá cheio de oriehnid. Tem tanto noivo que empresta grana pra noiva... Eu
inventava que era para operar as amígdalas, sei lá... Mas ele ia perguntar: “Com que
médico? Em que hospital? Faço questão de acompanhar tudo!” Pensando bem, eu
preferia não emprestar do Escamoso, não.
LORENA
Escamoso... isso é jeito de se chamar um noivo?...Eu pago, sua boba. A grana que a
minha mãe deixa por mês dá pra fazer umas cinquenta vaginoplastias.
7
ANA CLARA
E você continua intacta. Até quando, hein, Lena? Isso aí com o tempo vai atrofiando...
LORENA
Ih...
LIA
Já falei pra ela, não é falta de avisar. Vai acabar surda: os orifícios menores se fecham
sem solidariedade ao maior.
LORENA
Como vocês são intrometidas! Eu já falei...(o pensamento é cortado por Max)
MAX
Ana! Quem tá te esperando?
ANA CLARA
Meu noivo, o Escamoso.
MAX
Você tem noivo? A minha namorada tem noivo?!
ANA CLARA
Tenho. Quem mandou você ficar duro?
MAX
Eu já falei pra você que em janeiro vai pintar uma puta armação aí eu vou ficar com o
bolso cheio. Custa esperar?
ANA CLARA
Em janeiro a minha vida já vai estar mudada. Boto um hímen novo e arranjo um novo
nome. Adeus Ana Clara Conceição, filha de Judite Conceição, estuprada pelo dentista
aos 12 anos de idade. Vida nova, esquecer a merda. Ana Clara Conceição, humpf!
LIA
(Para Lorena) Querida, gostaria de apresentar uma amiga: Ana Clara...
ANA CLARA
...Laboisière. Ana Clara Laboisière. Encantada.
LORENA
Descendente de franceses?
ANA CLARA
Sim. Papai foi durante muitos anos correspondente do... Le Figaro.
8
LORENA
Eu sou Lorena Vaz Leme, descendente de bandeirantes.
LIA
E eu me chamo Lia de Melo Schultz, descendo de alemães.
ANA CLARA
Francês! Ahn...passou de tudo por aquela débil mental, menos francês. Menos francês e
preto. Uma sorte não gostar de preto. Já pensou? Agora, além de bastarda, seria preta!
Trepava até em terreno baldio, isso ela sabia. Mas pegar um daqueles caras pelo cabelo,
levar pro cartório: vamos, você é pai, daí seu nome, ela não soube. Nunca pensou em
mim... nem quando deixou que eu nascesse. Melhor era ter botado fora... como Eu vou
fazer. Max, escuta.
MAX
Ai, meu saco, que foi, Coelha?
ANA CLARA
Eu tô grávida.
LORENA
Estávamos falando de angústia existencial, né?
LIA
Não, senhorita. Estávamos comentando o fato de uma certa Lorena Vaz Leme estar se
relacionando às escondidas com um homem casado, esqueceu?
LIA
Ex-casado. Miguel é ex-casado, é outra história. Quando nos conhecemos ele já estava
separado há séculos. (pausa) Olha, eu tô andando pra esse negócio de papel assinado,
entendeu? Mas precisa ver se o seu doutorzinho num acha casamento troço sagrado...
Vai saber...
LORENA
Impossível, Lião. A mulher dele deve ser um canhão.
LIA
Sei não...tiveram cinco filhos...
LORENA
Marcus Nemésius, meu caro. Se você está pensando que eu vou assinar o divórcio, está
muitíssimo enganado!
LIA
Eu bem sei do seu envolvimento com aquela estudantezinha de Direito! Mas saiba que
9
eu já tomei minhas providências. Você me conhece, sabe do que sou capaz: acabo dando
um tiro. Em você e nessa amante. Um tiro!
LORENA
Nada de tiros!
ANA CLARA
Toda vez que se fala em tiro ela arregaça.
MAX
Quem?
ANA CLARA
A Lorena Vaz Leme Bandeirante. Diz que lembra do irmão. Ela tem um irmão que
quando criança matou o irmão menor.
MAX
Caim e Abel?
ANA CLARA
Não. Rômulo e Remo, pode? Verdade! Moravam numa fazenda, estavam brincando de
bandido. O maior pegou a espingarda e pum no menor. Ela vive contando essa lorota.
Precisa ver o carnaval. Diz que é virgem. Se acha uma gracinha. Tá apaixonada por um
médico babaca, cheio de filhos. Mas quando ele desaparece, ela entorta. A mãe é meio
desequilibrada... Isso vem a comprovar minha teoria do pezinho na lama.
MAX
A minha coelhinha anda teorizando! Parou no segundo ano de Psicologia, mas teoriza...
Grande!
ANA CLARA
Semestre que vem destranco minha matrícula, ouviu? Sei lá até quando me seguro como
modelo... Quero um diploma pra me virar depois...
MAX
Mas fala aí do pé na lama.
ANA CLARA
Ah, é: caso da coroa é muito parecido com o da tua mãe. A Lorena vive dizendo ser
descendente de bandeirantes. Original! Grande merda, Max. O irmão menor assassinado,
o maior fora do país, fugindo da memória. O pai morreu louco num hospício e a mãe
vive internada numa clínica de repouso porque o analista morreu e o amante de vinte
aninhos escafedeu-se. Agora me diga: com toda essa elegância, tem ou não tem um
pezinho na lama?
Chá com bolachas! Queria que ela tivesse visto as coisas que eu vi, feito o que eu fiz, pra
10
ver se ficava nhem nhem assim. Comigo não teve fazenda, não. Teve um buraco debaixo
de uma construção que não acabava nunca. Num teve bolachinha, não. (Apanha com
destreza uma barata imaginária) As baratas cascudas eram pretas e se agachavam que nem
gente, pra passar pelo vão. Inteligentes essas baratas, mas eu era mais inteligente, e foi
fácil agarrar uma pelas asas e abrir a panela e jogar lá dentro. Ela foi inchando, inchando,
se agarrando a folha de couve... mas que nado olímpico: vupt, vupt. Toma sua sopa, eu
disse enquanto ele matava minha mãe de pancada. Toma sua sopa agora. Apanhar ela
sabia. Mas pegar um daqueles caras pelo cabelo, levar pro cartório: vamos, você é o pai,
daí seu nome, ela não soube. Nunca pensou em mim... nem quando deixou que eu
nascesse. Melhor era ter botado fora... como Eu vou fazer. Max, acorda.
MAX
Ai, meu saco, que foi, Coelha?
ANA CLARA
Eu tô grávida.
MADRE ALIX
Vocês têm tido notícia de Ana Clara? Sabem onde ela está?
LORENA
Não, Madre Alix.
MADRE ALIX
Estou preocupada com ela.
LORENA
Nós também.
MADRE ALIX
(Toda sua fala é simultânea, e em voz baixa, à conversa das duas amigas)
Sabem o quanto eu gosto de vocês. Desde o primeiro momento em que entraram nesta
casa, nós já começamos a formar uma espécie de família, um lar. O fato de eu sublocar
esses quartos não quer dizer nada. A minha missão maior, o meu grande desejo é poder
contribuir de alguma maneira com as pessoas. Eu achava que dando meu carinho a essas
moças e transformando esse pensionato num segundo lar, me atribuindo,
pretensiosamente, o papel de mãe... Mas vejo que não alcancei quase nada dos meus
objetivos... Basta ver o caso de Ana Clara.
LIA
(Durante fala de Madre Alix)
Algo me diz que você sabe onde Ana Clara está.
LORENA
Juro que não sei. Disse que ia pruma chácara aí.
11
LIA
Deve estar no apartamento daquele namorado traficante.
LORENA
Um tratamento rigoroso talvez ajudasse.
LIA
Mas jacaré quer ser tratado? Era sair da clínica e começar tudo outra vez. Cacete, não
adianta mudar o homem se não muda o social.
LORENA
A senhora fez tudo que podia, irmã.
MADRE ALIX
Conversamos muito. Eu sempre fico achando que ela vai se regenerar.
LIA
E desde quando conversa adianta? Tentei conversar e sabe o que ela respondeu? “O
controle é meu, paro quando quiser”. Tá bem?
LORENA
Há muito tempo já perdeu o controle. Eu não foi por falta de avisar... Tudo pro bem
dela.
(Madre Alix e Lorena conversam, Lia se retira simultaneamente, em discurso paralelo em voz mais
alta).
MADRE ALIX
Sempre tive um carinho especial por Ana Clara. Ela veio logo depois de você, lembra?
Veio recomendada por outro pensionato do interior.
LORENA
Magrinha.
MADRE ALIX
E já tão cheia de problemas. A gente tenta prestar auxílio, sabe, Lorena. De todas as
maneiras: ajuda financeira, abrigo, um tratamento médico por nossa conta. As pessoas
acham que passamos o tempo todo rezando, fora da realidade. Já conseguimos realizar
tantas obras, mas com Ana Clara tem sido tão difícil.
LORENA
Ela é uma ovelha mais escura. Talvez seja por isso que a prefira.
MADRE ALIX
Imagine. Precisa de mais atenção que vocês duas, só isso. O que mais eu deveria tentar,
12
Lorena?
LIA
(Durante o diálogo das duas)
Parecem duas deusas tentando decidir o destino da humanidade. E eu, que vim a esse
quarto só pra pedir uma chave emprestada. A vida tá pra mudar de uma hora pra outra e
essas duas tagarelas dando bola pruma desmiolada sem um pingo de caráter.
Ai, Miguel, como você está? Eu já vou ao seu encontro, logo. Assim que te trocarem por
algum refém eu me junto a você. Vamos sumir daqui! O que é que vai ser da minha vida?
Tenho certeza de que vou sentir uma puta falta disso tudo aqui, dessas duas... Sua baiana
derretida!
AS DUAS
Como?
MAX
O que foi que você disse?
ANA CLARA
G-R-A-V-I-D-A. Grávida, puta que o pariu.
MAX
Vamos ter esse filho, Coelha. Vamos deixar ele nascer. Vamos ficar bem alegres e ele
nasce alegre.
ANA CLARA
Podiam ser gêmeos. Alegríssimos.
MAX
Isso mesmo, gêmeos. A gente cria eles naquele carrinho duplo. Se for uma menina, vai se
chamar Mecânica Celeste, não é lindo? Meu professor de Mecânica Celeste era... Onde
foi que eu aprendi isso? Aprendi uma porção de coisas, mas agora já esqueci...
ANA CLARA
Você tinha que ficar assim duro, Max? Agora preciso casar com outro. Abortar, me lacrar
e casar com outro.
MAX
Um filho, Coelha. Ah, eu quero esse filho, me dá esse filho? Ele disse que quer nascer.
Ouvi agora a fadinha dele, está tão contente: “quero nascer” ele disse. Vamos ficar
riquíssimos. Compro uma ilha.
ANA CLARA
Cai na real, Max.
13
MAX
Espera, só mais um pouco, Coelha. Qual é o problema? Em janeiro...
ANA CLARA
Nem janeiro, nem dezembro. Eu tô cansada de esperar. É a única coisa que eu tenho
feito até hoje. Chega.
MAX
Tinha um relógio grande assim na torre e eu queria me agarrar nos ponteiros, segurar as
horas. Por que é que o tempo não parava um pouco? Queria ficar lá dependurado,
segurando o tempo.
ANA CLARA
Que horas são?
MAX
Sei lá que horas são.
ANA CLARA
Eu vou perguntar com jeitinho: cadê o Rolex que eu te dei?
MAX
Não sei.
ANA CLARA
Pra quem você vendeu, Max? Tive que desfilar três meses pra poder te dar esse presente.
Pra quem você vendeu?
MAX
Pro vovozinho. Porra, deve estar enfiado por aí, sei lá. A gente acha. Max procura.
ANA CLARA
Quero outra dose. Mas num vem me dando aspirina, não. Acho que tá me dando
aspirina, num tô sentindo nada. Tô interona, cacete.
MAX
Um dia eu te dou um relógio jóia. Você aperta o botão azul, dá uma viagem de duas
horas, o amarelo solta musiquinha. Mozart, que tal?
ANA CLARA
Dane-se Mozart. Eu, gosto de Chopin. Chopin e Renoir, artistas doces. A boca no lugar
da boca, tudo certinho, que de malditos já estou cheia. Max, você gosta de Renoir, o
pintor, você gosta?
14
MAX
Hieronymus Bosch.
ANA CLARA
Credo! Só monstro, só atormentação. Uma pintura de louco, isso sim. Tenho ódio de
louco. De louco e de pobre. E de preto. Seu eu pudesse, acabava com tudo quanto é
pobre e tudo quanto é preto.
LIA
Baixou o Hitler aí, hein?
ANA CLARA
Ah, cala tua boca, Lião. Vai me dizer que você tinha coragem de se casar com um preto.
Já pensou? Ter um bando de negrinhos correndo pela casa o dia inteiro?
LIA
Eu me casaria.
ANA CLARA
A mina tá louca! Essa faculdade é uma fábrica de loucos. Ciências Sociais... militante... Se
ela convidasse pra eu me filiar nesses partidos há uns oito, dez anos, aceitava, sabia?
Tinha altas revoltas, era capaz de encabeçar uma porrada de movimentos. Pensava
demais em justiça. Mas depois mudei. Agora eu quero um grupo diferente.
LORENA
Um dia eu fui com ela numa dessas reuniões numa célula. Nunca vi tanto bicho grilo
num lugar só. Discussão, calor, gente que não toma banho... Quase desmaiei.
ANA CLARA
Devia se vestir um pouquinho melhor, lavar aquele cabelo nojento. E mudar o papo. De
vez em quando ela torra com esses assuntos de proletariado.
LORENA
Se bem que ultimamente ela não tem discursado muito, não... Tá meio tristinha... Mas
antes! Imagine que um dia saímos Lia, M.N. e eu, para comer fora. No meio do jantar ela
começou a lembrar das criancinhas que morrem de fome no Nordeste, na periferia.
ANA CLARA
Essa baianada toda que vem encher a cidade de favela...
LORENA
Ai, Aninha, também acho... Horrível pensar isso, mas agora já pensei. E estou pensando
que se Deus não está lá é porque deve ter suas razões.
15
ANA CLARA
Nesse troço de Deus eu não meto a colher.
LORENA
Ah, meu Pai. Sou um monstro. Monstro. Queria tanto ser diferente, mas queria tanto...
LIA
Também num posso culpar você, né? É a sua formação pequeno-burguesa. Eu tô na
luta, entende. Tem muita coisa com que eu não concordo: esse sequestro do embaixador,
agora, fiquei uma vara. Mas tenho que participar, tentar mudar alguma coisa, poxa! E
conviver com o medo...
LORENA
Tão seguindo você, Lião?
LIA
E não? Tenho certeza. Pegaram amigos meus, gente bem próxima... Estouraram uma
célula e pegaram todo mundo. E o Miguel preso, essa angútia...
LORENA
Quais são os planos?
LIA
Trocam ele por um réfem e ele embarca em seguida pra fora do país. Daí eu vou atrás...
Por falar nisso, Lena...
LORENA
Já sei. E eu empresto. Quanto você quiser. Fica sendo o meu presente de casamento.
LIA
Meu pai prometeu ajudar também... Pode ser de uma hora pra outra...
LORENA
Conte comigo. Vai dar tudo certo, se Deus quiser.
ANA CLARA
Deus. Que é isso? Esqueci. Acho que Deus saiu mesmo de mim, com raiz e tudo. O meu
peito tá vazio, oco, sem coração nem nada. (Chora)
LORENA
Ana Clara deve estar se regalando lá na tal chácara. E nós aqui nesse calor de
quatrocentos graus.
LIA
Calor demais no terceiro mundo, ele fica mais terceiro ainda.
16
LORENA
Calor em brasileiro dá samba, não dá revolução.
LIA
Tenho um tio que diz que não quer mais nada da vida, a não ser beber água de coco e
depois mijar no mar. Diz que não tem nada parecido.
LORENA
Bom mesmo é ficar aqui, imaginando como vai ser quando M.N. me tiver tirado o
último véu.
ANA CLARA (Quando mente fecha as mãos)
Imagine que eu tive um namorado que endoidava quando eu tirava os cílios postiços.
Quando tirava a calcinha ele nem tchum, mas os cílios! O homem virava uma tocha. Foi
meu primeiro homem. Alto, loiro, um tesão. A primeira vez é sempre a mais marcante.
LORENA
Os olhos nus. Em verdade vos digo que um dia a nudez dos olhos será mais excitante
que a nudez do sexo. Pura convenção achar o sexo obsceno.
LIA
Você fala dos olhos... e a boca?
LORENA
Inquietante a boca. Mordendo, mastigando, mordendo. Mordendo um pêssego!
LIA
Ah! Estou escrevendo um romance, meninas!
ANA CLARA
Até que enfim decidiu! Sempre achei que devia botar seu discurso no papel.
LIA
Não, é romance romance. A ação transcorre numa cidade que cheira a pêssego.
ANA CLARA
A cidade inteira?
LIA
É.
LORENA
A cidade inteirinha cheirando a pêssego? Não é exagero, não?
17
LIA
O Miguel também achou meio exagerado...
ANA CLARA
E daí, Lião? Vai ligar pra esses viados, agora? Que tanto esses dois caretas entendem de
literatura? Deixa lá a cidade inteirinha cheirando a pêssego. Se fosse a cidade da Lorena
ia cheirar incenso.
LORENA
Complô, é? E eu ia te dar uma puta cena pra você colocar nesse tal romance...
LIA
Não vai dar mais?
LORENA
Não sei...
AS DUAS
Ah, dá, vai, Lorena! (As três riem)
LORENA
Tá bom. Anota aí: tarde, outono. Eu tava numa esquina tomando um copo de leite. A
uns dez metros, um homem. Com um pêssego na mão. Um pêssego maduro que ele
roda e apalpa entre os dedos, de olhos fechados, pra decorar melhor o contorno da
fruta. Aproxima lentamente o pêssego do nariz e começa a cheirá-lo devagar, movendo a
cabeça. Enquanto cheira, alisa a penugem da casca com os lábios, percorrendo a pele,
como fizera com os dedos. As narinas dilatadas, os olhos estrábicos. Com raiva quase,
esfrega a fruta no queixo enquanto a ponta da língua procura cegamente o bico rosado.
Encontra e começa a acaricia-lo com a ponta da língua num movimento circular, intenso,
começa a lambê-lo numa expressão que já é quase sofrimento. A saliva está escorrendo
quando finalmente arma o bote, e crava os dentes naquela carne rosada. (está tão
compenetrada que não prossegue.)
ANA CLARA
E daí?
LORENA
Aí eu... fui embora... tava atrasada pra aula.
ANA CLARA
Pra uma virgem você até que tá ligada, né?
LORENA
Não fala essas coisas... justo eu que tenho vocação pra santa!
18
LIA
Isso é normal, Lorena! Desencana, mulher!
LORENA
Adoro quando você me chama assim de mulher, Lião. Acho que fico tão grandona. Você
se acha mulher?
LIA
É claro! E tenho um puta orgulho disso. Tem hora que eu daria tudo pra ficar prenhe,
pra ter a sensação de estar completa, preenchida totalmente. Mas o Miguel tão longe...
Temos o segredo do universo dentro de nós, e quando se descobre isso...
ANA CLARA
Vai te catar, baiana. Você e suas teorias de superioridade da mulher. Mas onde? Uma
cólica e já avacalha tudo. Se não é cólica, é filho dependurado no peito. Mulher tem que
ser assim: se embonecar, vestir coisas lindas. A única vantagem que vejo é a de não ter
que se babear. Ser mulher é uma merda. (Grande pausa)
Ah, se ao menos eu tivesse uma abóbora no lugar da cabeça. Pra não pensar bobagens...
para não pensar nela... os vagabundos pedindo e ela dando... daí, daí, e ela dando. Em
terreno baldio, em cadeira de dentista, toma sua sopa com a baratona dentro. Queria
botar a broca no dente dele zzzzz, e varar o dente assim bem no fundo zzzz, e varar a
carne e varar o osso zzzzz. Tira essa mão de cima de mim! (Ana Clara tem uma alucinação e
lembra-se de quando foi estuprada pelo dentista)
MAX/Dr. ALGODÃOZINHO
Calma, Aninha, não está acontecendo nada.
ANA CLARA
Doutor, não! A sua mão de aranha enterrada no meu peito. O botão. Arrebentou.
(Chora). A minha calcinha, mãe. (Gritando) Mãe! Mãe!
MAX/Dr. ALGODÃOZINHO
Não adianta gritar.
ANA CLARA
O que o senhor está fazendo? Essa mão gelada! É o dente que dói! Não! (Chora ainda
mais, mas já está relaxada)
MAX
Por favor, Coelha. O que aconteceu? Conta pra mim o que você viu.
ANA CLARA
Quero beber.
19
MAX
Onde está seu copo? Mas o que é isso, não precisa chorar, por que está chorando? Não
chora, amor, senão eu choro também.
ANA CLARA
Depressão. Preciso de uma lavagem cerebral. Que nada! Preciso de um oriehnid. Com
uma conta na Suiça me curo fácil.
MADRE ALIX
Que tal recomeçar a análise? Você expõe seus problemas...
ANA CLARA
Que é que eu vou dizer, irmã? A senhora acha que as pessoas dizem pra alguém o que
estão pensando? Dizem nada. Nem pro analista nem pra ninguém. É tentar conviver
com os fantasmas... Mas às vezes eu escuto tão perto as bofetadas que eles davam nela...
Não, madre, eu não quero mentir agora. Não tive pena nem nada quando ela veio me
dizer que tinha que tirar mais um fio porque o Séjo não queria. Nesse tempo era o Séjo:
“Eu num quero nem saber”, ele disse, dando-lhe um pontapé. Uivou de desgosto o dia
inteiro, “ele mato seu irmãozinho, ai, meu Jususinho”. Naquela noite mesmo tomou
formicida. Formicida com cachaça. Kaput, como diz a Lião.
LIA
Kaput, Lena! Lena, o Miguel, está na lista dos que vão ser trocados. Talvez ainda hoje!
LORENA
Seu namorante vai embarcar...Já sabe pra onde?
LIA
Pra Argélia. Já providenciei o passaporte. Lorena, vamos ficar juntos! Demais! Estou
atordoada. Só espero um aviso...
LORENA
Então precisa mesmo do carro da mãezinha. E de malas. Vamos fazer assim: ligo pra ela,
ela já saiu da clínica. Empresta o carro e uma mala. Está decidido. E aqui está o cheque.
LIA
Quanto!
LORENA
Mamãe depositou, vou ajudar a Ana Clara com a operação, ajudo você também com a
passagem...
LIA
Vamos comigo ver sua mãe. Ela deve estar com saudade.
20
LORENA
Não... não quero vê-la ainda... Na certa vai propor que eu volte a morar com ela... Vai
você, Lião... De repente, M.N. telefona...
LIA
Ai, Lorena, o que vai ser de nós? As amigas inseparáveis...
LORENA
As meninas.
ANA CLARA
Por falar em meninas, Irmã Bula quer tirar uma foto de suas pensionistas preferidas.
LIA
E únicas!
LORENA
No jardim dessa casa do senhor?
ANA CLARA
Yes!
AS TRÊS
A pirâmide!
IRMÃ BULA
Vamos, meninas! Estava tão bom daquele jeito. Façam de novo. Ana Clara, não envesga!
Enfia a blusa na calça, Lia, depressa. Oh, Senhor! Não faça careta, Lorena, você está
fazendo careta!
ANA
(Automaticamente) Max, que horas são? Tenho que ir.
MAX
Você não está em condições.
ANA
Que nada. Grávida, drogada e fodida. Não poderia estar melhor! (Está completamente fora
de si. Se maquia, se arruma e sai) Tenho que ir, tenho que ir.
IRMÃ BULA
Lorena, sou eu, Irmã Bula...estou chegando...você está aí?
LORENA
Sim, irmã Bula, pode entrar.
21
IRMÃ BULA
Trouxe umas frutinhas para você.
LORENA
A senhora é uma santa.
IRMÃ BULA
Quem me dera... O que está fazendo?
LORENA
Ginástica, para aumentar a bunda. Incrível como homem gosta de mulher de bunda
grande. (Irmã Bula canta uma musiquinha). Olha, irmã, posição de vela e a chama vai
vergando para trás.
IRMÃ BULA
O sangue vai todo para a cabeça, pode dar um derrame.
LORENA
É ótimo para a circulação.
IRMÃ BULA
Deve ser bom para as hemorroidas.
LORENA
Ai, meu Pai, não é o telefone?
IRMÃ BULA
É no vizinho. Tem um telefone que toca, toca, aí na vizinhança e ninguém atende.
LORENA
Foi assassinado.
IRMÃ BULA
Quem?
LORENA
Esse vizinho que não atende o telefone.
IRMÃ BULA
Que nada. Já teríamos sentido o mau cheiro do cadáver...
LORENA
Enterraram no porão.
22
IRMÃ BULA
Pode ser...Veja o caso daquela fazendeira que teve a cabeça decepada não se sabe por
quem. Durante meses procuraram a cabeça.
LORENA
Acharam?
IRMÃ BULA
Que esperança! Nem o assassino, nem a cabeça. Falou-se muito que foi o marido. Parece
que ela gostava do preceptor das filhas, um moço bonito, que tocava piano e usava flor
na lapela.
LORENA
Sei da história de um padre. Aconteceu lá na França. Mamãe gostava de contar.
IRMÃ BULA
Um padre?
LORENA
É. Já faz tempo. Ele assassinou no bosque a amante grávida, tirou o feto, batizou-o
direitinho e enterrou mãe e filho debaixo de um carvalho. Só me pergunto o nome que
botou no filho...
IRMÃ BULA
Não foi o padre quem cometeu o crime, foi o demônio.
LORENA
Não totalmente, irmã. Ele batizou o feto e fez uma cruz na sepultura. Essas histórias me
deixam triste. Seu irmão era bonito?
IRMÃ BULA
Bonito, não. Mas era uma flor de menino. Foi fazer um pique nique com os colegas do
colégio, já contei. Se afogou no mar. Quando tiraram o corpo eu estava perto, Jesus, que
coisa pavorosa todos aqueles camarões amontoados, se mexendo no buraco dos olhos.
LORENA
Eu achei que uma rolha podia resolver.
IRMÃ BULA (Sem ouvir)
Anos e anos eu não queria nem enxergar a cara daquele bicho. Depois fui esquecendo, a
gente esquece. Ainda outra noite comi com tanto gosto a torta de camarão da Irmã
Clotilde. Palavra que nem lembrei.
LORENA
Nós temos algo em comum, Bulinha. Perdi um irmão, também. Você sabe. Um tiro no
23
peito. Aquele sangue todo se esvaindo. Eu pensei que uma rolha pudesse resolver. O
pior foi o olhar dele, parecia pedir perdão por dar tanto trabalho. (Chora)
IRMÃ BULA
Ora, ora. Quer uma cenourazinha?
LORENA
Quero uma banana.
IRMÃ BULA
Só estarão no ponto daqui dois dias. Toda fruta tem seu dia certo, não deve ser comida
nem antes nem depois.
LORENA
M.N. me acha verde demais.
IRMÃ BULA
Então case-se com o Guga. Um menino tão bom. Ele não é um bom menino, Lorena?
LORENA
Bommmmm!
GUGA
Loreninhazinha!
LORENA
Presente. Entra, gatinho. Passeando?
GUGA
Vim ver você. Te convidar, que o meu irmão está tocando num barzinho aí.
LORENA
O saxofonista?
GUGA
É. Ele toca demais!
LORENA
Tô a fim, não. Vamos ouvir o novo disco do Chico. (Silêncio) Foi você que bordou?
GUGA
Foi, ficou bom?
LORENA
Tá meio tremido. Sei bordar um patinho jóia, traz uma camiseta e eu bordo.
24
GUGA
Esta é a única.
LORENA
Tadinho do meu Guguinha.
GUGA
Quer me adotar? Tô procurando alguém que me adote e me ame. (Dá um beijo em Lorena)
LORENA
Ai, meu Pai. Não faz mais isso, não, Guga. Vamos conversar, tá legal? Falaí, tem ouvido
muita música?
GUGA
Estou por fora de tudo, Loreninha. Ou melhor, por dentro. Por dentro. Parei de rodar
por aí feito um alucinado, fazendo milhares de coisas ao mesmo tempo pra poder
acompanhar algo que eu nem sei bem o que era.
LORENA
Vem no meu colinho, vem. Repouso do guerreiro.
GUGA
Te adoro, sabia? Por favor, me dá uma chance. (Começa a acaricia-la. Tenta beijá-la de novo)
LORENA
Por favor, Guga. Te amo, mas estou apaixonada. Ando me carbonizando nesse amor.
(Guga não reage) Super complicado: casado, velho, cheio de filhos, hiper literário.
GUGA
E daí, o que a gente tem a ver com isso? Um beijinho, vai, Lena.
LORENA
Como? Eu não posso! Quer ouvir a última carta que ele me mandou?
GUGA
Não. (Lorena insiste) Não. Toda vez que eu venho aqui, você me torra a paciência com
isso!
LORENA
“Esse carinho é tão fundo e puro. Secreto e altivo; que guardo com um bem raro.”
GUGA
Secreto e altivo, o que é isso, meu?
25
LORENA
Shhh. “Que você não poderia mais atingir ainda que tudo acabasse amanhã. Esse
carinho que me envolve e recria sua imagem, já agora tão minha para sempre.”
GUGA
E por todos os séculos dos séculos. Amém.
LORENA
“Tão minha para sempre, tão junta e amiga. M.N.”
GUGA
Que é M.N.? Mande notícia?
LORENA
M.N. são as iniciais do nome dele. Chama-se Marcus Nemésius.
GUGA
Lembra Áscaris Lumbricóides. Prefiro M.N. Não, prefiro Guga.
LORENA
Guga, o homem das cavernas. Guga, Guga. (Vai pegar o vinho) Como você é chato, não?
GUGA
Cai na real, Lô. O cara te trata por código, te fala enrolando, tá cheio de dedos pra dizer
que não quer nada com você...
LORENA
Sei lá, gosto tanto dele...
GUGA
Eu eu gosto tanto de você. Tô aqui, carne e osso, braços. Inteiro, Lorena, só pra você.
Me dá uma chance. (Começa a acaricia-la de novo, consegue beijá-la, passar a mão pelo seu corpo)
LORENA
Para, Guga, por favor. Não força a barra, por favor.
GUGA
Puta, perdão, florzinha. Esqueci que você é especial. (Sai)
LORENA
Guga, peraí. Que especial, que nada, Guga. Imbecilzona, mesmo. Pode dizer. Ai, meu
Pai, qual é? A chance aí na minha mão e eu boto o cara pra correr! Cacete!
IRMÃ BULA
Como?
26
LORENA
A senhora me acha louca, irmã?
IRMÃ BULA
Por que isso agora?
LORENA
Acho que estou doente. (Bula questiona) Penso tanto em sexo!...
IRMÃ BULA
Pensa mesmo?
LORENA
O dia inteiro.
(Ana Clara sentada numa mesa de bar. Toma uísque. Despeja o maço de cigarros na mesa. Fuma.)
BELO
Boa noite. (Ela simplesmente levanta os olhos, volta à posição original) Me permite? (Ela dá de
ombros). Sozinha? (Ela não responde) Espera alguém? (Idem) Há muito tempo?
ANA CLARA
Desde as oito. Cheguei atrasada, algo de terrível aconteceu e eu não pude vir antes.
BELO
O que aconteceu de tão grave?
ANA CLARA
Meu pai sofreu um infarto, no escritório.
BELO
Quando foi isso?
ANA CLARA
À tarde. Eu estava no cabelereiro...
BELO
E por que não está com ele agora?
ANA CLARA
Ninguém pode entrar. É aqui mesmo na São Luís, entende? Nem mamãe, que veio de
nossa casa em Angra pôde vê-lo.
27
BELO
Estranho... Quem é seu pai?
ANA CLARA
Um grande advogado. Francisco de Paula Vaz Leme.
BELO
Não conheço. Pra onde foi levado?
ANA CLARA
Meu tio tem uma clínica perto do escritório, é cardiologista. Loreno. Loreno Vaz Leme.
Me chamo Lorena por causa dele. É meu padrinho. O senhor tem um lenço?
BELO
Vaz Leme... Não conheço. Frequento essa região há tanto tempo...
ANA CLARA
Ele veio recentemente dos Estados Unidos, entende? Ai, meu pai. Ai, meu pai...
BELO
Você andou bebendo, menina? Está me ouvindo, Lorena? Você andou bebendo o que,
sua danadinha? Vou te buscar um copo d´água.
ANA CLARA
Ai, Madre, tá tudo doendo. O meu coração tá que é só espinho. Agora eu tenho um
coração aqui no peito, irmã. Foi Deus, ele pôs o coração de Jesus aqui dentro. Justo em
mim ele pôs. Ele teve pena de mim. Ele viu tanto sofrimento, tanta humilhação. Lembra
o que eu sofri com todos aqueles sacanas? Eu nem podia me defender, madre. Eu não
tinha pai. Eu nunca tive pai, irmã. Eu queria tanto um pai, cadê meu pai?
BELO (Voltando)
Minha filha, tome esse copo d´água. (Nesse momento, Ana Clara ergue os olhos e o encara como
se visse o próprio pai). Beba, minha filha, vamos, beba.
ANA CLARA
Que bom que você voltou.
BELO
Estive sempre por perto.
ANA CLARA
Mesmo?
28
BELO
Você não me viu? Esteve tão deprimida. Uma moça tão linda. Belíssima.
ANA CLARA
Você é tão bonito. Quantos anos tem agora? Me conta tudo o que fez, não tem
importância não ter vindo antes.
BELO
Calma, Bela. Vamos ao meu apartamento, eu lhe conto.
ANA CLARA
Podemos ficar juntos agora?
BELO
Faço questão. Agora que nos encontramos. Isso não pode ser um acaso do destino.
Vamos? Meu uísque é de primeira. A gente pode beber e ouvir música. Tango. Tenho a
coleção completa do Gardel.
ANA CLARA
Adoro tango. Como você...
BELO
Tem corpo de dançarina, minha Bela. Deixa ver, abre um pouco o casaco, Lorena. Isso.
Que físico! Essas pernas... Não vou querer que tire nem as meias nem os sapatos. Tenho
paixão por meias pretas. Estas vão até lá em cima?
ANA CLARA
Vamos pra casa?
BELO
Vamos, meu apartamento é logo aqui perto.
ANA CLARA
Vamos... pai...
LIA
Tô indo ver sua mãe, não vai mesmo?
LORENA
E se M.N. ligar?
LIA
Não ligou até agora, não liga mais, entende? Ai, Lorena, tchau.
29
LORENA
Ei, espera um pouco. Posso te perguntar uma coisa fora de hora? Ando aflitíssima! Lião,
como foi a sua primeira vez?
LIA
Por que isso agora? Sei lá, eu quis saber como era ter um homem, daí escolhi um
carinha, falei com ele e a gente transou.
LORENA
Assim, a frio? Logo da primeira vez tão gelado?
LIA
Gelado, por quê? Fiquei com vontade de conhecer um homem e tomei as providências
cabíveis, doutora. Um tipo legal, estudante de medicina, meu amigo.
LORENA
Estranho, não?...
LIA
Simples como beber um gole d´água. De que jeito queria que fosse?
LORENA
Seria como naquele seu romance. Imagino se alguma personagem de tal cidade que
cheira a pêssego vai ter relações por puro ato de libertação. E logo da primeira vez.
LIA
Esquece esse romance. Rasguei tudo. Folha por folha. Quem é que tá querendo saber de
cheiro de pêssego, com esse puta cheiro de peixe podre no ar? Tô indo embora, Lorena.
Desisti do romance...
MÃEZINHA
Desisti de muita coisa, Lia.
LIA
Que é isso, mãezinha... A senhora é tão nova...
MÃEZINHA
Gostaria mesmo de entrar para um convento e envelhecer em paz, sem testemunhas.
Completamente sozinha. Tal como estou agora. Oh, desculpe, você tão gentil vindo me
visitar e eu me lamentando da solidão.
LIA
Vim de despedir da senhora (Mãe não entende) Me deu tanta força, entende? Quando
cheguei da Banhia e conheci a Loreninha, a senhora foi como uma terceira mãe pra mim.
A segunda foi Madre Alix.
30
MÃEZINHA
Vai voltar pra Bahia, é isso?
LIA
Imagine! Vou pra Argélia.
MÃEZINHA
Assim, de repente? Andou fazendo alguma bobagem?
LIA
Não, só estou esperando um sinal para partir. Estou fugindo, mãezinha! Sem ter feito
nada de errado...
MÃEZINHA
Mas, meu Deus! A minha florzinha vai embora pra Argélia... Posso fazer alguma coisa
por você? Posso te dar algumas roupas, sei lá, casacos pra viagem. Aceita?
LIA
Seria maravilhoso, entende?
MÃEZINHA
Pode levar a mala também. Era do meu amante. Aquele gigolô não prestava, mas tinha
um bom gosto!... Leve, leve tudo, e vá com Deus.
LIA
Só mais uma coisa, mãezinha. A Lorena falou que vem morar novamente com a senhora.
É verdade? (Mãe confirma) Sei lá, será que vai ser legal? Acho que filho tem que voar
longe do ninho, veja o meu caso, por exemplo.
MÃEZINHA
Cometi muitos erros na vida, Lia. E um deles foi ter permitido, no afã de um romance
com um garoto, que minha filha fosse morar sozinha, abandonada, num local sem a
menor condição, o menor conforto... Preciso manter Loreninha perto de mim. Não
podemos mais ficar separadas desse jeito...
MADRE ALIX
Quer dizer que vai se separar de nós mesmo?
LIA
Vou, e sentirei muito a sua falta, irmã. Sei que sou meio durona, meio complicada,
entende? Mas a senhora foi muito importante, sei lá. Às vezes acho que teve vontade de
me botar na rua, e me abria as portas...
MADRE ALIX
É aí que você se engana. Sempre quis resguardá-las, protegê-las. Jamais botar-lhes pra
31
fora, jamais. Vocês me parecem tão sem mistérios, tão descobertas, chego a pensar que
sei tudo a respeito de cada uma, e me assusto quando descubro que me enganei. Que
não sei quase nada. O que sei afinal? Que está indo pra Argélia encontrar o namorado,
que tem sangue baiano e alemão nas veias, que rasgou um romance? Que sei sobre
Lorena? Que estuda Direito, que pensa em sexo o dia inteiro, mas que é virgem; que
espera o telefonema de um namorado que não telefona nunca. Ana Clara está aí. (Entram
Ana Clara e Belo para o tango). Como me procura e faz confissões fico achando que vai se
regenerar. Eu ainda tenho fé no mistério.
(Cena do tango entre Belo e Ana. Tango e violência)
Só mais uma coisa: tome cuidado, sim. Não gostaria que sofresse.
LIA
Sou forte, Madre Alix. O que a senhora está pensando?
MADRE ALIX
Não, Lia. Vocês são frágeis. Você, Lorena, quase tão frágeis quanto Ana Clara. Não deixe
de mandar notícias. Conte comigo.
LIA
Mandarei cartas. Melhor: mandarei um diário. Um diário de viagens, que tal?
MADRE ALIX
Ótimo. Posso lhe dar uma epígrafe? É do Gênesis, aceita? “Sai da terra e da tua parentela
e da casa de teu pai e vem para a terra que eu lhe mostrarei.” É o que você está fazendo.
Foi o que eu fiz. (Ana Clara despenca em cena, nos braços de Lorena, que estava lendo)
LORENA
Meu Pai, o que foi isso?
MAX (Flash)
Espera só mais um pouquinho, Coelha, o que custa? De repente aparece uma armação
daquelas...
ANA CLARA
Tem um florete no meu peito.
LORENA
Que situação, Aninha! Quanta sujeira! Um banho de imersão, urgente!
MADRE ALIX (Flash)
Vamos recomeçar a análise, o que você me diz disso?
MAX (Flash)
32
Espera só mais um pouquinho, Coelha, o que custa? De repente aparece uma armação
daquelas...
LORENA
Sua desmiolada. Onde já se viu me pregar um susto desses?
ANA CLARA
Quero voltar pra lá. Quero voltar pra banheira.
LORENA
Grande! Depois. Vou preparar o chá. Onde se sujou tanto, Aninha? Incrível, parecia um
tatu.
ANA CLARA
Você lavou minha bunda?
LORENA
É claro que não. Você mesma lavou.
ANA CLARA
Se você soubesse... Tenho que ir, que horas são?
LORENA
Que ir, o quê! Não vai a lugar nenhum. Pode sossegar.
ANA CLARA
Me dá uísque. Quem está ali espiando?
LORENA
É uma sombra. Onde esteve? Em alguma festa de embalo, aposto.
ANA CLARA
Madre Alix, Madre Alix!
LORENA
Deite-se, vamos. Ela já vem.
ANA CLARA
Ele foi preso. Max foi preso. O Max sumiu. Liguei pra lá e num tava mais.
LORENA
Viajou. Ele não viaja?
ANA CLARA
Viaja.
33
LORENA
Então viajou, pronto.
ANA CLARA
Se você soubesse onde estive...
LORENA
Não sei, mas adivinho. Vão acabar essas curtições, ouviu bem? Você vai criar juízo,
Aninha!
ANA CLARA
Não quero juízo. Andei com Deus, ele esteve aqui. Não interessa as coisas que depois eu
disse, não. E ele veio e tinha uma luz e tudo assim e ele me deixou voar tão alto com a
mão dele segurando a minha. Max, Max, é você?
LORENA
Sou Lorena. Lorena Vaz Leme.
ANA CLARA
Não. Eu sou Lorena Vaz Leme.
LORENA
Você é Ana Bacante. Bacante e Bacana.
ANA CLARA
Ana Banana Coelha Lorena. Frio. Me dá sua mão, por favor. (Lorena obedece)
LIA
Pode-se entrar?
LORENA
É claro. Lia de Melo Schultz, onde pensa eu vai com essa mala?
LIA
É a mala da mãezinha, não tá reconhecendo? Vou embora.
LORENA
Já?
LIA
Que é que ela tá fazendo aqui? Errou de quarto?
LORENA
Ih, nem te conto. Imagine que eu estava muito poética, lendo Rimbaud e adivinha quem
34
despenca por cima de mim? Podre de drogas. Loucura completa. E tão imunda. Na
roupa tinha lama, carvão, umas manchas estranhíssimas. Vômito, um horror. Dei-lhe um
banho de imersão.
LIA
E agora dorme feito um anjo.
LORENA
Pois é. Só agora pegou no sono.
LIA
Ela numa tava na chácara de uma burguesada?
LORENA
Chácara... Perguntei mas ela acabou me confundindo com o namorado! Escuta, dona
Lia, me conta direito essa história de ir embora.
LIA
Logo de madrugada. Deram o aviso.
LORENA
Mas sem festa de despedida?
LIA
Nem festa nem choradeira no embarque. Mãezinha emprestou o carro, de manhã alguém
devolve. Agora é me despedir e ir direto pro aeroporto...
LORENA
Fiquei a noite toda esperando o telefonema do M.N.
LIA
Jacaré telefonou?
LORENA
Nem M.N. O problema tá em mim. Sou que nem a Hora do Brasil, todo mundo sabe
que existe, mas ninguém liga...
LIA
Mentira! O Guga é doidão por você! Acabou, agora você vai amar o Guga, pronto.
LORENA
Andei pensando nele... Aquele beijo que me deu, lembra? Fiquei perturbadíssima... Não
deixei que continuasse, tirei a mão dele de cima de mim e o botei pra correr. Disse que
me adorava... Me excitei a ponto dele perceber. Uma vontade assim de rolar com o Guga
pelo chão...
35
LIA
E por que não rolou? Já sei: pensou no M.N. e brochou. É isso aí. Pois eu falei com o
Guga, Lorena. Já resolvi tua vida. Agora posso viajar tranquila.
LORENA
O que você andou falando pra ele?
LIA
Falei de todos os seus dramas. E o cara te acha super especial, tá louquinho pra te salvar.
Divino-maravilhoso. (Lorena não entende). Falou que se a mãezinha comprimir muito, se
casa até de fraque, faz qualquer negócio.
LORENA
Ideia interessante...
LIA
Acabei de deixar Madre Alix, despedidas, etc. Uma puta malandra, sabia? Faz as vezes de
ingênua mas tá mais por dentro que nós. E, como sempre, o prato principal foi Ana
Clara.
LORENA
Ai, meu Pai, esqueci da Ana.
LIA
Antes, deixa eu me despedir, amiga. Gosto muito de você, sabia? Apesar das divergências
políticas e sexuais...
LORENA
Nada de confetes. Eu é que fui boba em não aproveitar de verdade os seus conselhos.
LIA
Agora eu vou mesmo. Tenho que ligar lá pra terrinha, me despedir do velho Schultz e da
coroa.
LORENA
Não vai dizer um tchau pra Ana?
LIA
Tchauzinho, meu bem. Ela não faria muita questão de me ver.
LORENA
Que é isso! Pode não parecer, mas ela gosta pra caramba de você. Ana, acorda, gata. A
Lião tá indo embora. Ana! Ana! Me ajuda, Lião.
36
LIA
Que foi? (Se aproxima, tenta acordar Ana Clara. Num instante, os olhares das amigas se
encontram.) Ela tá morta, Lena.
LORENA
Não é possível. (Começa a massagear)
LIA
Uma síncope, foi isso? Vamos chamar um médico. O Pronto-Socorro, chama o P.S.,
Madre Alix tem o número. Você não sabe fazer isso.
LORENA
Sei. Ela está morta. Estou apenas tentando, não vê?
LIA
Morta? Mas ela não está morta. É mais uma de suas mentiras, não é, Ana Turva?
LORENA
Dormia na mesma posição que a deixei.
LIA
Será que morreu antes de eu chegar?
LORENA
Como posso saber? Chegou aqui gritando que tinha um florete enfiado no peito, era o
coração que devia estar doendo, não sei. Não sei, não sei, também não sei, Lião. Pelo
amor de Deus, querida, não fale comigo agora. (Começa a rezar)
LIA
O que será que ela tomou? Sim, porque no mínimo foi overdose. Sua desmiolada. Falta
de caráter. Dependência igual falta de caráter. O que tá fazendo, Lena? (Silêncio). Merda,
eu devia ter feito alguma coisa por ela e o que eu fiz? Discurso! Essa puta vocação pra
discurso. Lena, vamos chamar um médico, vamos chamar Madre Alix. Merda, merda!
LORENA
Cale a boca e pare com esse berreiro, Lia.
LIA( Menos autoritária)
Ela está morta. Nossa amiga está morta, no seu quarto. Por que está aí cochichando? Por
que esse mistério?
LORENA
Tive uma ideia. Pedi a Deus uma ideia e ele me mandou. Digo depois. Mas por
enquanto, não grite. Pelo amor de Deus, calma.
37
LIA
Calma? Mas não vamos acordar Madre Alix? Acordar imediatamente todo mundo? Não
é isso que vamos fazer? (Lorena pega o missal preto) Quer dizer que vamos ficar aqui
esperando a congregação inteira? É isso que você quer? A polícia? Temos que acordar
Madre Alix, menina. Avisar que não teve milagre nenhum. Ela esperava um milagre.
Lorena, tenha juízo e para com esse teatro, entende? Você vai chamar Madre Alix e eu
vou desaparecer, não posso ficar nem nas imediações quando essa morte explodir e a
polícia se instalar aqui. Eles me descobrem, acabam comigo, com a minha viagem!
LORENA
Vá embora, querida. Deixe o resto por minha conta.
LIA
Que resto?
LORENA
(Acende um incenso) Uma ideia, deixa por minha conta.
LIA
Mas eu quero ajudar, porra. Te ajudo a levá-la pro quarto. Você volta, finge que não sabe
de nada, e eu já viajei ontem, fui pra Bahia, pro Alto Xingu, Kaput. Vamos?
LORENA
Pode ir, já disse. Boa viagem. (Lia não sai. Lorena pega o vestido e a maquiagem) Ela veio
dizendo que viu Deus.
LIA
Não tem viciado que já não viu. Acho que Deus está se popularizando. Bom sinal. Você
até conversa com ele...
LORENA
Chamou Madre Alix, o namorado. Estava com frio, quis segurar minha mão...
LIA
Escuta, o que vai fazer, Lena? Loucura.
LORENA
Tive a intuição, Lia. Disso que aconteceu.
LIA
Você é meio louca, eu sei... Cigarros. você tem cigarros?
LORENA
Na bolsa da Ana deve ter. Ah, aproveita pra ver se não tem nada comprometedor aí
dentro. Precisamos dar um sumiço naquele caderninho preto de endereços.
38
LIA
Tem um relógio e esse copo, guarda.
LORENA
Dou o copo a Madre Alix, coitadinha. O relógio fica com você, vai servir na viagem.
LIA
Um Rolex. Vão pensar que é roubado. Relógio fino, ia acabar com a polícia, já pensou?
Mas afinal de contas, que carnaval é esse? Maquiando o corpo, agora?
LORENA
Milhares de vezes maquiei Aninha quando suas mãos tremiam. E ultimamente tremiam
tanto.
LIA
Você está exagerando, não sabe? Estamos aqui feito duas dementes completas: vão botar
ela numa padiola e daqui vão direto pra autópsia, sabe o que é autópsia? O médico vem e
retalha tudo. Kaput. Lena, para com isso. Ela não está indo pra uma festa, porra!
LORENA
É aí que você se engana. Não estamos loucas, não. É a minha ideia divina. A chave do
carro está aí no seu bolso? Excelente. Só vou calçar as sandálias.
LIA
A neblina está super densa. Dá pra levar pro quarto dela sem ninguém notar.
LORENA
Mas ela não vai ficar no quarto.
LIA
Não?
LORENA
Lógico que não. Ela não morreu no quarto. Morreu noutro lugar.
LIA
Ah, é? Onde?
LORENA
Numa pracinha. Já pensei em todos os detalhes. É a pracinha mais linda que já vi. Tem
um banco debaixo de uma árvore enorme. Foi a uma festa e depois sentou-se lá. Foi
deixada, não interessa. Deixe a bolsa e os documentos com ela, pra identificarem. Deus
fez com que mãezinha mandasse o carro. Deus mandou a neblina.
39
LIA
Você está brincando, não está?
LORENA
Ana Clara não pode ser encontrada drogada, num quarto de pensionato. Não pode. E
nem ela ia querer uma coisa dessas. Amava Madre Alix. Se você não quiser ir, e com
razão, dê-me as chaves, eu as coloco em sua janela quando voltar. Deixa comigo.
LIA
Comigo? Que mané comigo? Nós nunca nos deixamos sozinhas, não seria agora que
eu... Vamos, agora é pegar essa moça, se não fiz nada por ela em vida...
LORENA
Deixo a luz acesa. Faz de conta que fiquei estudando a noite inteira...
LIA
Você pensa em tudo... Pega aí, vamos tentar. Ai, meu Pai, transportando um cadáver, em
plena madrugada... Isso daria um romance e tanto.
LORENA
Uma história de amizade. Uma estudante de Direito, um cadáver, uma fugitiva do
regime... (As duas param no meio do palco. Seguram Ana que está no meio. Pose parecida com a da
foto.)
LIA
Acho que faz um mês que não durmo. Ô, Lena, vai dar tudo certo, não vai?
LORENA
Vai ser maravilhoso, filhinha. Tenho a intuição: vai ser maravilhoso.
LIA
Irmã Bula precisava tirar uma foto da gente, agora.
LORENA
A pirâmide.
LIA
As meninas.
LORENA
Kaput. Me dá tua mão, Lião. Por favor...
Uma foto d’As Meninas e...
FIM

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As meninas

  • 1. 1 AS MENINAS Peça teatral de Adélia Nicolete Transcriação do romance homônimo de Lygia Fagundes Telles
  • 2. 2 Personagens: Lorena Lia Ana Clara Irmã Bula Mão de Lorena Madre Alix Mãezinha Max Guga Belo Essa peça estreou em 1989 em São Paulo, com a Companhia Dramática Formicida Avec Cachaça sob direção de Paulo Moraes. Teve temporada amadora e, em seguida, profissional, no Teatro Brasileiro de Comédia e em circuito.
  • 3. 3 Black Out. Fade in durante a fala de Irmã Bula. As três meninas estão posando para uma foto. AS TRÊS A pirâmide! IRMÃ BULA Vamos, meninas! Estava tão bom daquele jeito. Façam de novo. Ana Clara, não envesga! Enfia a blusa na calça, Lia, depressa. Oh, Senhor! Não faça careta, Lorena, você está fazendo careta! LIA Lorena! Lorena, abre a porta, quero falar com você. LORENA Minha amada, seja bem-vinda! Bom dia, sol! Bom dia, dia! Bom dia, Lia! LIA Lorena, será que você podia me dar um pouco de atenção? LORENA Com a palavra a testemunha Lia de Melo Schultz. Jura dizer a verdade, somente a verdade, nada mais que a verdade? LIA Ô, estudante de Direito! Será que sua mãe empresta o carro hoje? Depois do jantar, lá pelas nove... LORENA A alça do seu sutiã está aparecendo, querida. LIA Milagre é eu estar usando sutiã hoje, entende? LORENA Por isso que a mulherada tá ficando de peito caído tão cedo. Sem exercícios e sem sustentação. LIA Lena, escuta, eu não estou brincando. LORENA E eu estou? Peito é troço sério! Peito e bunda são as partes que os homens mais valorizam. Ai, os homens... Lião, Lião, como estou apaixonada. Se M.N. não telefonar, me mato!
  • 4. 4 LIA Loreninha, por favor, preciso do carro hoje à noite, entende? Pede pra sua mãe... Devolvo logo, como da outra vez. Não tem problema. LORENA Você e seus amigos podiam sequestrar o M.N., Lião. Tá tão na moda sequestro. M.N. poderia ficar escondido debaixo da minha cama. LIA Sequestro com bastante tiros. Troca de tiros com a polícia. LORENA Não. Sem tiros. Tiro não, Lião. (Cala-se. Lia suspira) Desculpa a brincadeira. Sei que a luta de vocês é barra... (Pausa) O que você tem, Lião? Está deprimida? LIA Angústia existencial. LORENA Vou fazer um chá pra nós. Um chá desexistencializante. Meu irmão Remo mandou uma caixa de chá inglês e um pacote dos biscoitos preferidos do Paul McCartney. LIA Vou aceitar, sim, que se dane a balança! Miguel preso, falta de dinheiro, de pai, de mãe, meus amigos caindo todos e ainda vou me privar de açúcar? Mas eu me sinto um... verme passivo, convivendo com você, sabia? LORENA Por quê? LIA Porque a burguesia tem que explodir! E eu, Lia de Melo Schultz, codinome Rosa, militante na guerrilha urbana, me permito ser amiga pessoal sua e tomar, sempre que posso, chá com bolachinhas inglesas. LORENA Tá bem, eu faço um chazinho de boldo pra você. Bem pobrinho e bem amarguinho, pode ser? (Riem) LIA Não fale em chá de boldo, que eu já lembro do seu velhote. Quer dizer que nada ainda? LORENA Quem disse que M.N. é velho? Ele está na meia idade. Ficou de telefonar para sairmos.
  • 5. 5 Você vem com a gente? LIA Cinema? LORENA Imagine! Já pensou se a mulher ou algum filho resolve ver o mesmo filme? Acho que o melhor lugar pra gente se ver é o hospital, porque se o mundo é grande, aquele hospital é ainda maior. (Teatro. Para Lia) Por favor, senhora... LIA Senhorita! LORENA Senhorita, o doutor Marcus Nemesius está? É urgente. LIA Um momento que eu vou verificar. (Sai perguntando. Depois anuncia) Ele não está, meu bem. Acabou de sair com a mulher e os cinco filhos. (Sorri) ANA CLARA Max, tá na hora. Tenho que ir. MAX Ah, num vai não, Coelha. Fica mais um pouquinho com o seu Max, fica. ANA CLARA Ele já deve estar lá, com o pãozinho todo esfarelado, me esperando, Max. Você não tem mesmo peninha da sua Coelha, né? Se eu chego atrasada ele é capaz... MAX Fica. Vamos transar de novo, hein? ANA CLARA Tô a fim, não. Hoje num tô muito brilhante. MAX Queria que me dissesse o dia em que está muito brilhante, hein? Você tem estado tão gelada, Coelha. Parece que trepo num pinguim. ANA CLARA Tô triste. Coelha tá triste. MAX Triste? Ninguém fica triste ao lado de Maximiliano, el... conquistador! Música! (Um tango
  • 6. 6 que eles dançam) ANA CLARA Tango mexe comigo, sabia? Max, eu te amo. Eu te amo. MAX Mas não gosta de transar, Coelha!... É importante transar, ahn? ANA CLARA Ando meio travada. Preciso falar com meu analista, fiz uma puta confusão com essa análise. Não sei mais se sou Ana Clara ou Ana Turva. MAX Uma dose pra mim e outra pra minha Ana Coelha. Com isso engrena. (Ela cobre a cabeça com o lençol) ANA CLARA Engrena, nada. Se ao menos engrenasse mesmo e eu subisse pelas paredes de tanto engrenar e a cabeça deixasse de pensar só coisas chatas... Ela tem ódio de mim. Só pensa o que eu não quero... Olha ele lá, com o pãozinho todo esfarelado me esperando. Eu não quero, eu não quero... (Para um Escamoso imaginário) É que sou virgem, meu bem. Me desculpe, mas sou virgem... LORENA Eu pago a sua vaginoplastia, Ana Clara! É simples. Eles dão uma costurada e a zona sul fica como nova. Ele vai ter uma puta dificuldade... ANA CLARA Eu fico pensando na grana que isso deve custar... Eu podia pedir a grana pro Escamoso, mesmo, ele é meu noivo e tá com o cu cheio de dinheiro... LORENA Oriehnid, lembra? Tem que falar ao contrário, pra dar sorte. ANA CLARA Pois é, tá cheio de oriehnid. Tem tanto noivo que empresta grana pra noiva... Eu inventava que era para operar as amígdalas, sei lá... Mas ele ia perguntar: “Com que médico? Em que hospital? Faço questão de acompanhar tudo!” Pensando bem, eu preferia não emprestar do Escamoso, não. LORENA Escamoso... isso é jeito de se chamar um noivo?...Eu pago, sua boba. A grana que a minha mãe deixa por mês dá pra fazer umas cinquenta vaginoplastias.
  • 7. 7 ANA CLARA E você continua intacta. Até quando, hein, Lena? Isso aí com o tempo vai atrofiando... LORENA Ih... LIA Já falei pra ela, não é falta de avisar. Vai acabar surda: os orifícios menores se fecham sem solidariedade ao maior. LORENA Como vocês são intrometidas! Eu já falei...(o pensamento é cortado por Max) MAX Ana! Quem tá te esperando? ANA CLARA Meu noivo, o Escamoso. MAX Você tem noivo? A minha namorada tem noivo?! ANA CLARA Tenho. Quem mandou você ficar duro? MAX Eu já falei pra você que em janeiro vai pintar uma puta armação aí eu vou ficar com o bolso cheio. Custa esperar? ANA CLARA Em janeiro a minha vida já vai estar mudada. Boto um hímen novo e arranjo um novo nome. Adeus Ana Clara Conceição, filha de Judite Conceição, estuprada pelo dentista aos 12 anos de idade. Vida nova, esquecer a merda. Ana Clara Conceição, humpf! LIA (Para Lorena) Querida, gostaria de apresentar uma amiga: Ana Clara... ANA CLARA ...Laboisière. Ana Clara Laboisière. Encantada. LORENA Descendente de franceses? ANA CLARA Sim. Papai foi durante muitos anos correspondente do... Le Figaro.
  • 8. 8 LORENA Eu sou Lorena Vaz Leme, descendente de bandeirantes. LIA E eu me chamo Lia de Melo Schultz, descendo de alemães. ANA CLARA Francês! Ahn...passou de tudo por aquela débil mental, menos francês. Menos francês e preto. Uma sorte não gostar de preto. Já pensou? Agora, além de bastarda, seria preta! Trepava até em terreno baldio, isso ela sabia. Mas pegar um daqueles caras pelo cabelo, levar pro cartório: vamos, você é pai, daí seu nome, ela não soube. Nunca pensou em mim... nem quando deixou que eu nascesse. Melhor era ter botado fora... como Eu vou fazer. Max, escuta. MAX Ai, meu saco, que foi, Coelha? ANA CLARA Eu tô grávida. LORENA Estávamos falando de angústia existencial, né? LIA Não, senhorita. Estávamos comentando o fato de uma certa Lorena Vaz Leme estar se relacionando às escondidas com um homem casado, esqueceu? LIA Ex-casado. Miguel é ex-casado, é outra história. Quando nos conhecemos ele já estava separado há séculos. (pausa) Olha, eu tô andando pra esse negócio de papel assinado, entendeu? Mas precisa ver se o seu doutorzinho num acha casamento troço sagrado... Vai saber... LORENA Impossível, Lião. A mulher dele deve ser um canhão. LIA Sei não...tiveram cinco filhos... LORENA Marcus Nemésius, meu caro. Se você está pensando que eu vou assinar o divórcio, está muitíssimo enganado! LIA Eu bem sei do seu envolvimento com aquela estudantezinha de Direito! Mas saiba que
  • 9. 9 eu já tomei minhas providências. Você me conhece, sabe do que sou capaz: acabo dando um tiro. Em você e nessa amante. Um tiro! LORENA Nada de tiros! ANA CLARA Toda vez que se fala em tiro ela arregaça. MAX Quem? ANA CLARA A Lorena Vaz Leme Bandeirante. Diz que lembra do irmão. Ela tem um irmão que quando criança matou o irmão menor. MAX Caim e Abel? ANA CLARA Não. Rômulo e Remo, pode? Verdade! Moravam numa fazenda, estavam brincando de bandido. O maior pegou a espingarda e pum no menor. Ela vive contando essa lorota. Precisa ver o carnaval. Diz que é virgem. Se acha uma gracinha. Tá apaixonada por um médico babaca, cheio de filhos. Mas quando ele desaparece, ela entorta. A mãe é meio desequilibrada... Isso vem a comprovar minha teoria do pezinho na lama. MAX A minha coelhinha anda teorizando! Parou no segundo ano de Psicologia, mas teoriza... Grande! ANA CLARA Semestre que vem destranco minha matrícula, ouviu? Sei lá até quando me seguro como modelo... Quero um diploma pra me virar depois... MAX Mas fala aí do pé na lama. ANA CLARA Ah, é: caso da coroa é muito parecido com o da tua mãe. A Lorena vive dizendo ser descendente de bandeirantes. Original! Grande merda, Max. O irmão menor assassinado, o maior fora do país, fugindo da memória. O pai morreu louco num hospício e a mãe vive internada numa clínica de repouso porque o analista morreu e o amante de vinte aninhos escafedeu-se. Agora me diga: com toda essa elegância, tem ou não tem um pezinho na lama? Chá com bolachas! Queria que ela tivesse visto as coisas que eu vi, feito o que eu fiz, pra
  • 10. 10 ver se ficava nhem nhem assim. Comigo não teve fazenda, não. Teve um buraco debaixo de uma construção que não acabava nunca. Num teve bolachinha, não. (Apanha com destreza uma barata imaginária) As baratas cascudas eram pretas e se agachavam que nem gente, pra passar pelo vão. Inteligentes essas baratas, mas eu era mais inteligente, e foi fácil agarrar uma pelas asas e abrir a panela e jogar lá dentro. Ela foi inchando, inchando, se agarrando a folha de couve... mas que nado olímpico: vupt, vupt. Toma sua sopa, eu disse enquanto ele matava minha mãe de pancada. Toma sua sopa agora. Apanhar ela sabia. Mas pegar um daqueles caras pelo cabelo, levar pro cartório: vamos, você é o pai, daí seu nome, ela não soube. Nunca pensou em mim... nem quando deixou que eu nascesse. Melhor era ter botado fora... como Eu vou fazer. Max, acorda. MAX Ai, meu saco, que foi, Coelha? ANA CLARA Eu tô grávida. MADRE ALIX Vocês têm tido notícia de Ana Clara? Sabem onde ela está? LORENA Não, Madre Alix. MADRE ALIX Estou preocupada com ela. LORENA Nós também. MADRE ALIX (Toda sua fala é simultânea, e em voz baixa, à conversa das duas amigas) Sabem o quanto eu gosto de vocês. Desde o primeiro momento em que entraram nesta casa, nós já começamos a formar uma espécie de família, um lar. O fato de eu sublocar esses quartos não quer dizer nada. A minha missão maior, o meu grande desejo é poder contribuir de alguma maneira com as pessoas. Eu achava que dando meu carinho a essas moças e transformando esse pensionato num segundo lar, me atribuindo, pretensiosamente, o papel de mãe... Mas vejo que não alcancei quase nada dos meus objetivos... Basta ver o caso de Ana Clara. LIA (Durante fala de Madre Alix) Algo me diz que você sabe onde Ana Clara está. LORENA Juro que não sei. Disse que ia pruma chácara aí.
  • 11. 11 LIA Deve estar no apartamento daquele namorado traficante. LORENA Um tratamento rigoroso talvez ajudasse. LIA Mas jacaré quer ser tratado? Era sair da clínica e começar tudo outra vez. Cacete, não adianta mudar o homem se não muda o social. LORENA A senhora fez tudo que podia, irmã. MADRE ALIX Conversamos muito. Eu sempre fico achando que ela vai se regenerar. LIA E desde quando conversa adianta? Tentei conversar e sabe o que ela respondeu? “O controle é meu, paro quando quiser”. Tá bem? LORENA Há muito tempo já perdeu o controle. Eu não foi por falta de avisar... Tudo pro bem dela. (Madre Alix e Lorena conversam, Lia se retira simultaneamente, em discurso paralelo em voz mais alta). MADRE ALIX Sempre tive um carinho especial por Ana Clara. Ela veio logo depois de você, lembra? Veio recomendada por outro pensionato do interior. LORENA Magrinha. MADRE ALIX E já tão cheia de problemas. A gente tenta prestar auxílio, sabe, Lorena. De todas as maneiras: ajuda financeira, abrigo, um tratamento médico por nossa conta. As pessoas acham que passamos o tempo todo rezando, fora da realidade. Já conseguimos realizar tantas obras, mas com Ana Clara tem sido tão difícil. LORENA Ela é uma ovelha mais escura. Talvez seja por isso que a prefira. MADRE ALIX Imagine. Precisa de mais atenção que vocês duas, só isso. O que mais eu deveria tentar,
  • 12. 12 Lorena? LIA (Durante o diálogo das duas) Parecem duas deusas tentando decidir o destino da humanidade. E eu, que vim a esse quarto só pra pedir uma chave emprestada. A vida tá pra mudar de uma hora pra outra e essas duas tagarelas dando bola pruma desmiolada sem um pingo de caráter. Ai, Miguel, como você está? Eu já vou ao seu encontro, logo. Assim que te trocarem por algum refém eu me junto a você. Vamos sumir daqui! O que é que vai ser da minha vida? Tenho certeza de que vou sentir uma puta falta disso tudo aqui, dessas duas... Sua baiana derretida! AS DUAS Como? MAX O que foi que você disse? ANA CLARA G-R-A-V-I-D-A. Grávida, puta que o pariu. MAX Vamos ter esse filho, Coelha. Vamos deixar ele nascer. Vamos ficar bem alegres e ele nasce alegre. ANA CLARA Podiam ser gêmeos. Alegríssimos. MAX Isso mesmo, gêmeos. A gente cria eles naquele carrinho duplo. Se for uma menina, vai se chamar Mecânica Celeste, não é lindo? Meu professor de Mecânica Celeste era... Onde foi que eu aprendi isso? Aprendi uma porção de coisas, mas agora já esqueci... ANA CLARA Você tinha que ficar assim duro, Max? Agora preciso casar com outro. Abortar, me lacrar e casar com outro. MAX Um filho, Coelha. Ah, eu quero esse filho, me dá esse filho? Ele disse que quer nascer. Ouvi agora a fadinha dele, está tão contente: “quero nascer” ele disse. Vamos ficar riquíssimos. Compro uma ilha. ANA CLARA Cai na real, Max.
  • 13. 13 MAX Espera, só mais um pouco, Coelha. Qual é o problema? Em janeiro... ANA CLARA Nem janeiro, nem dezembro. Eu tô cansada de esperar. É a única coisa que eu tenho feito até hoje. Chega. MAX Tinha um relógio grande assim na torre e eu queria me agarrar nos ponteiros, segurar as horas. Por que é que o tempo não parava um pouco? Queria ficar lá dependurado, segurando o tempo. ANA CLARA Que horas são? MAX Sei lá que horas são. ANA CLARA Eu vou perguntar com jeitinho: cadê o Rolex que eu te dei? MAX Não sei. ANA CLARA Pra quem você vendeu, Max? Tive que desfilar três meses pra poder te dar esse presente. Pra quem você vendeu? MAX Pro vovozinho. Porra, deve estar enfiado por aí, sei lá. A gente acha. Max procura. ANA CLARA Quero outra dose. Mas num vem me dando aspirina, não. Acho que tá me dando aspirina, num tô sentindo nada. Tô interona, cacete. MAX Um dia eu te dou um relógio jóia. Você aperta o botão azul, dá uma viagem de duas horas, o amarelo solta musiquinha. Mozart, que tal? ANA CLARA Dane-se Mozart. Eu, gosto de Chopin. Chopin e Renoir, artistas doces. A boca no lugar da boca, tudo certinho, que de malditos já estou cheia. Max, você gosta de Renoir, o pintor, você gosta?
  • 14. 14 MAX Hieronymus Bosch. ANA CLARA Credo! Só monstro, só atormentação. Uma pintura de louco, isso sim. Tenho ódio de louco. De louco e de pobre. E de preto. Seu eu pudesse, acabava com tudo quanto é pobre e tudo quanto é preto. LIA Baixou o Hitler aí, hein? ANA CLARA Ah, cala tua boca, Lião. Vai me dizer que você tinha coragem de se casar com um preto. Já pensou? Ter um bando de negrinhos correndo pela casa o dia inteiro? LIA Eu me casaria. ANA CLARA A mina tá louca! Essa faculdade é uma fábrica de loucos. Ciências Sociais... militante... Se ela convidasse pra eu me filiar nesses partidos há uns oito, dez anos, aceitava, sabia? Tinha altas revoltas, era capaz de encabeçar uma porrada de movimentos. Pensava demais em justiça. Mas depois mudei. Agora eu quero um grupo diferente. LORENA Um dia eu fui com ela numa dessas reuniões numa célula. Nunca vi tanto bicho grilo num lugar só. Discussão, calor, gente que não toma banho... Quase desmaiei. ANA CLARA Devia se vestir um pouquinho melhor, lavar aquele cabelo nojento. E mudar o papo. De vez em quando ela torra com esses assuntos de proletariado. LORENA Se bem que ultimamente ela não tem discursado muito, não... Tá meio tristinha... Mas antes! Imagine que um dia saímos Lia, M.N. e eu, para comer fora. No meio do jantar ela começou a lembrar das criancinhas que morrem de fome no Nordeste, na periferia. ANA CLARA Essa baianada toda que vem encher a cidade de favela... LORENA Ai, Aninha, também acho... Horrível pensar isso, mas agora já pensei. E estou pensando que se Deus não está lá é porque deve ter suas razões.
  • 15. 15 ANA CLARA Nesse troço de Deus eu não meto a colher. LORENA Ah, meu Pai. Sou um monstro. Monstro. Queria tanto ser diferente, mas queria tanto... LIA Também num posso culpar você, né? É a sua formação pequeno-burguesa. Eu tô na luta, entende. Tem muita coisa com que eu não concordo: esse sequestro do embaixador, agora, fiquei uma vara. Mas tenho que participar, tentar mudar alguma coisa, poxa! E conviver com o medo... LORENA Tão seguindo você, Lião? LIA E não? Tenho certeza. Pegaram amigos meus, gente bem próxima... Estouraram uma célula e pegaram todo mundo. E o Miguel preso, essa angútia... LORENA Quais são os planos? LIA Trocam ele por um réfem e ele embarca em seguida pra fora do país. Daí eu vou atrás... Por falar nisso, Lena... LORENA Já sei. E eu empresto. Quanto você quiser. Fica sendo o meu presente de casamento. LIA Meu pai prometeu ajudar também... Pode ser de uma hora pra outra... LORENA Conte comigo. Vai dar tudo certo, se Deus quiser. ANA CLARA Deus. Que é isso? Esqueci. Acho que Deus saiu mesmo de mim, com raiz e tudo. O meu peito tá vazio, oco, sem coração nem nada. (Chora) LORENA Ana Clara deve estar se regalando lá na tal chácara. E nós aqui nesse calor de quatrocentos graus. LIA Calor demais no terceiro mundo, ele fica mais terceiro ainda.
  • 16. 16 LORENA Calor em brasileiro dá samba, não dá revolução. LIA Tenho um tio que diz que não quer mais nada da vida, a não ser beber água de coco e depois mijar no mar. Diz que não tem nada parecido. LORENA Bom mesmo é ficar aqui, imaginando como vai ser quando M.N. me tiver tirado o último véu. ANA CLARA (Quando mente fecha as mãos) Imagine que eu tive um namorado que endoidava quando eu tirava os cílios postiços. Quando tirava a calcinha ele nem tchum, mas os cílios! O homem virava uma tocha. Foi meu primeiro homem. Alto, loiro, um tesão. A primeira vez é sempre a mais marcante. LORENA Os olhos nus. Em verdade vos digo que um dia a nudez dos olhos será mais excitante que a nudez do sexo. Pura convenção achar o sexo obsceno. LIA Você fala dos olhos... e a boca? LORENA Inquietante a boca. Mordendo, mastigando, mordendo. Mordendo um pêssego! LIA Ah! Estou escrevendo um romance, meninas! ANA CLARA Até que enfim decidiu! Sempre achei que devia botar seu discurso no papel. LIA Não, é romance romance. A ação transcorre numa cidade que cheira a pêssego. ANA CLARA A cidade inteira? LIA É. LORENA A cidade inteirinha cheirando a pêssego? Não é exagero, não?
  • 17. 17 LIA O Miguel também achou meio exagerado... ANA CLARA E daí, Lião? Vai ligar pra esses viados, agora? Que tanto esses dois caretas entendem de literatura? Deixa lá a cidade inteirinha cheirando a pêssego. Se fosse a cidade da Lorena ia cheirar incenso. LORENA Complô, é? E eu ia te dar uma puta cena pra você colocar nesse tal romance... LIA Não vai dar mais? LORENA Não sei... AS DUAS Ah, dá, vai, Lorena! (As três riem) LORENA Tá bom. Anota aí: tarde, outono. Eu tava numa esquina tomando um copo de leite. A uns dez metros, um homem. Com um pêssego na mão. Um pêssego maduro que ele roda e apalpa entre os dedos, de olhos fechados, pra decorar melhor o contorno da fruta. Aproxima lentamente o pêssego do nariz e começa a cheirá-lo devagar, movendo a cabeça. Enquanto cheira, alisa a penugem da casca com os lábios, percorrendo a pele, como fizera com os dedos. As narinas dilatadas, os olhos estrábicos. Com raiva quase, esfrega a fruta no queixo enquanto a ponta da língua procura cegamente o bico rosado. Encontra e começa a acaricia-lo com a ponta da língua num movimento circular, intenso, começa a lambê-lo numa expressão que já é quase sofrimento. A saliva está escorrendo quando finalmente arma o bote, e crava os dentes naquela carne rosada. (está tão compenetrada que não prossegue.) ANA CLARA E daí? LORENA Aí eu... fui embora... tava atrasada pra aula. ANA CLARA Pra uma virgem você até que tá ligada, né? LORENA Não fala essas coisas... justo eu que tenho vocação pra santa!
  • 18. 18 LIA Isso é normal, Lorena! Desencana, mulher! LORENA Adoro quando você me chama assim de mulher, Lião. Acho que fico tão grandona. Você se acha mulher? LIA É claro! E tenho um puta orgulho disso. Tem hora que eu daria tudo pra ficar prenhe, pra ter a sensação de estar completa, preenchida totalmente. Mas o Miguel tão longe... Temos o segredo do universo dentro de nós, e quando se descobre isso... ANA CLARA Vai te catar, baiana. Você e suas teorias de superioridade da mulher. Mas onde? Uma cólica e já avacalha tudo. Se não é cólica, é filho dependurado no peito. Mulher tem que ser assim: se embonecar, vestir coisas lindas. A única vantagem que vejo é a de não ter que se babear. Ser mulher é uma merda. (Grande pausa) Ah, se ao menos eu tivesse uma abóbora no lugar da cabeça. Pra não pensar bobagens... para não pensar nela... os vagabundos pedindo e ela dando... daí, daí, e ela dando. Em terreno baldio, em cadeira de dentista, toma sua sopa com a baratona dentro. Queria botar a broca no dente dele zzzzz, e varar o dente assim bem no fundo zzzz, e varar a carne e varar o osso zzzzz. Tira essa mão de cima de mim! (Ana Clara tem uma alucinação e lembra-se de quando foi estuprada pelo dentista) MAX/Dr. ALGODÃOZINHO Calma, Aninha, não está acontecendo nada. ANA CLARA Doutor, não! A sua mão de aranha enterrada no meu peito. O botão. Arrebentou. (Chora). A minha calcinha, mãe. (Gritando) Mãe! Mãe! MAX/Dr. ALGODÃOZINHO Não adianta gritar. ANA CLARA O que o senhor está fazendo? Essa mão gelada! É o dente que dói! Não! (Chora ainda mais, mas já está relaxada) MAX Por favor, Coelha. O que aconteceu? Conta pra mim o que você viu. ANA CLARA Quero beber.
  • 19. 19 MAX Onde está seu copo? Mas o que é isso, não precisa chorar, por que está chorando? Não chora, amor, senão eu choro também. ANA CLARA Depressão. Preciso de uma lavagem cerebral. Que nada! Preciso de um oriehnid. Com uma conta na Suiça me curo fácil. MADRE ALIX Que tal recomeçar a análise? Você expõe seus problemas... ANA CLARA Que é que eu vou dizer, irmã? A senhora acha que as pessoas dizem pra alguém o que estão pensando? Dizem nada. Nem pro analista nem pra ninguém. É tentar conviver com os fantasmas... Mas às vezes eu escuto tão perto as bofetadas que eles davam nela... Não, madre, eu não quero mentir agora. Não tive pena nem nada quando ela veio me dizer que tinha que tirar mais um fio porque o Séjo não queria. Nesse tempo era o Séjo: “Eu num quero nem saber”, ele disse, dando-lhe um pontapé. Uivou de desgosto o dia inteiro, “ele mato seu irmãozinho, ai, meu Jususinho”. Naquela noite mesmo tomou formicida. Formicida com cachaça. Kaput, como diz a Lião. LIA Kaput, Lena! Lena, o Miguel, está na lista dos que vão ser trocados. Talvez ainda hoje! LORENA Seu namorante vai embarcar...Já sabe pra onde? LIA Pra Argélia. Já providenciei o passaporte. Lorena, vamos ficar juntos! Demais! Estou atordoada. Só espero um aviso... LORENA Então precisa mesmo do carro da mãezinha. E de malas. Vamos fazer assim: ligo pra ela, ela já saiu da clínica. Empresta o carro e uma mala. Está decidido. E aqui está o cheque. LIA Quanto! LORENA Mamãe depositou, vou ajudar a Ana Clara com a operação, ajudo você também com a passagem... LIA Vamos comigo ver sua mãe. Ela deve estar com saudade.
  • 20. 20 LORENA Não... não quero vê-la ainda... Na certa vai propor que eu volte a morar com ela... Vai você, Lião... De repente, M.N. telefona... LIA Ai, Lorena, o que vai ser de nós? As amigas inseparáveis... LORENA As meninas. ANA CLARA Por falar em meninas, Irmã Bula quer tirar uma foto de suas pensionistas preferidas. LIA E únicas! LORENA No jardim dessa casa do senhor? ANA CLARA Yes! AS TRÊS A pirâmide! IRMÃ BULA Vamos, meninas! Estava tão bom daquele jeito. Façam de novo. Ana Clara, não envesga! Enfia a blusa na calça, Lia, depressa. Oh, Senhor! Não faça careta, Lorena, você está fazendo careta! ANA (Automaticamente) Max, que horas são? Tenho que ir. MAX Você não está em condições. ANA Que nada. Grávida, drogada e fodida. Não poderia estar melhor! (Está completamente fora de si. Se maquia, se arruma e sai) Tenho que ir, tenho que ir. IRMÃ BULA Lorena, sou eu, Irmã Bula...estou chegando...você está aí? LORENA Sim, irmã Bula, pode entrar.
  • 21. 21 IRMÃ BULA Trouxe umas frutinhas para você. LORENA A senhora é uma santa. IRMÃ BULA Quem me dera... O que está fazendo? LORENA Ginástica, para aumentar a bunda. Incrível como homem gosta de mulher de bunda grande. (Irmã Bula canta uma musiquinha). Olha, irmã, posição de vela e a chama vai vergando para trás. IRMÃ BULA O sangue vai todo para a cabeça, pode dar um derrame. LORENA É ótimo para a circulação. IRMÃ BULA Deve ser bom para as hemorroidas. LORENA Ai, meu Pai, não é o telefone? IRMÃ BULA É no vizinho. Tem um telefone que toca, toca, aí na vizinhança e ninguém atende. LORENA Foi assassinado. IRMÃ BULA Quem? LORENA Esse vizinho que não atende o telefone. IRMÃ BULA Que nada. Já teríamos sentido o mau cheiro do cadáver... LORENA Enterraram no porão.
  • 22. 22 IRMÃ BULA Pode ser...Veja o caso daquela fazendeira que teve a cabeça decepada não se sabe por quem. Durante meses procuraram a cabeça. LORENA Acharam? IRMÃ BULA Que esperança! Nem o assassino, nem a cabeça. Falou-se muito que foi o marido. Parece que ela gostava do preceptor das filhas, um moço bonito, que tocava piano e usava flor na lapela. LORENA Sei da história de um padre. Aconteceu lá na França. Mamãe gostava de contar. IRMÃ BULA Um padre? LORENA É. Já faz tempo. Ele assassinou no bosque a amante grávida, tirou o feto, batizou-o direitinho e enterrou mãe e filho debaixo de um carvalho. Só me pergunto o nome que botou no filho... IRMÃ BULA Não foi o padre quem cometeu o crime, foi o demônio. LORENA Não totalmente, irmã. Ele batizou o feto e fez uma cruz na sepultura. Essas histórias me deixam triste. Seu irmão era bonito? IRMÃ BULA Bonito, não. Mas era uma flor de menino. Foi fazer um pique nique com os colegas do colégio, já contei. Se afogou no mar. Quando tiraram o corpo eu estava perto, Jesus, que coisa pavorosa todos aqueles camarões amontoados, se mexendo no buraco dos olhos. LORENA Eu achei que uma rolha podia resolver. IRMÃ BULA (Sem ouvir) Anos e anos eu não queria nem enxergar a cara daquele bicho. Depois fui esquecendo, a gente esquece. Ainda outra noite comi com tanto gosto a torta de camarão da Irmã Clotilde. Palavra que nem lembrei. LORENA Nós temos algo em comum, Bulinha. Perdi um irmão, também. Você sabe. Um tiro no
  • 23. 23 peito. Aquele sangue todo se esvaindo. Eu pensei que uma rolha pudesse resolver. O pior foi o olhar dele, parecia pedir perdão por dar tanto trabalho. (Chora) IRMÃ BULA Ora, ora. Quer uma cenourazinha? LORENA Quero uma banana. IRMÃ BULA Só estarão no ponto daqui dois dias. Toda fruta tem seu dia certo, não deve ser comida nem antes nem depois. LORENA M.N. me acha verde demais. IRMÃ BULA Então case-se com o Guga. Um menino tão bom. Ele não é um bom menino, Lorena? LORENA Bommmmm! GUGA Loreninhazinha! LORENA Presente. Entra, gatinho. Passeando? GUGA Vim ver você. Te convidar, que o meu irmão está tocando num barzinho aí. LORENA O saxofonista? GUGA É. Ele toca demais! LORENA Tô a fim, não. Vamos ouvir o novo disco do Chico. (Silêncio) Foi você que bordou? GUGA Foi, ficou bom? LORENA Tá meio tremido. Sei bordar um patinho jóia, traz uma camiseta e eu bordo.
  • 24. 24 GUGA Esta é a única. LORENA Tadinho do meu Guguinha. GUGA Quer me adotar? Tô procurando alguém que me adote e me ame. (Dá um beijo em Lorena) LORENA Ai, meu Pai. Não faz mais isso, não, Guga. Vamos conversar, tá legal? Falaí, tem ouvido muita música? GUGA Estou por fora de tudo, Loreninha. Ou melhor, por dentro. Por dentro. Parei de rodar por aí feito um alucinado, fazendo milhares de coisas ao mesmo tempo pra poder acompanhar algo que eu nem sei bem o que era. LORENA Vem no meu colinho, vem. Repouso do guerreiro. GUGA Te adoro, sabia? Por favor, me dá uma chance. (Começa a acaricia-la. Tenta beijá-la de novo) LORENA Por favor, Guga. Te amo, mas estou apaixonada. Ando me carbonizando nesse amor. (Guga não reage) Super complicado: casado, velho, cheio de filhos, hiper literário. GUGA E daí, o que a gente tem a ver com isso? Um beijinho, vai, Lena. LORENA Como? Eu não posso! Quer ouvir a última carta que ele me mandou? GUGA Não. (Lorena insiste) Não. Toda vez que eu venho aqui, você me torra a paciência com isso! LORENA “Esse carinho é tão fundo e puro. Secreto e altivo; que guardo com um bem raro.” GUGA Secreto e altivo, o que é isso, meu?
  • 25. 25 LORENA Shhh. “Que você não poderia mais atingir ainda que tudo acabasse amanhã. Esse carinho que me envolve e recria sua imagem, já agora tão minha para sempre.” GUGA E por todos os séculos dos séculos. Amém. LORENA “Tão minha para sempre, tão junta e amiga. M.N.” GUGA Que é M.N.? Mande notícia? LORENA M.N. são as iniciais do nome dele. Chama-se Marcus Nemésius. GUGA Lembra Áscaris Lumbricóides. Prefiro M.N. Não, prefiro Guga. LORENA Guga, o homem das cavernas. Guga, Guga. (Vai pegar o vinho) Como você é chato, não? GUGA Cai na real, Lô. O cara te trata por código, te fala enrolando, tá cheio de dedos pra dizer que não quer nada com você... LORENA Sei lá, gosto tanto dele... GUGA Eu eu gosto tanto de você. Tô aqui, carne e osso, braços. Inteiro, Lorena, só pra você. Me dá uma chance. (Começa a acaricia-la de novo, consegue beijá-la, passar a mão pelo seu corpo) LORENA Para, Guga, por favor. Não força a barra, por favor. GUGA Puta, perdão, florzinha. Esqueci que você é especial. (Sai) LORENA Guga, peraí. Que especial, que nada, Guga. Imbecilzona, mesmo. Pode dizer. Ai, meu Pai, qual é? A chance aí na minha mão e eu boto o cara pra correr! Cacete! IRMÃ BULA Como?
  • 26. 26 LORENA A senhora me acha louca, irmã? IRMÃ BULA Por que isso agora? LORENA Acho que estou doente. (Bula questiona) Penso tanto em sexo!... IRMÃ BULA Pensa mesmo? LORENA O dia inteiro. (Ana Clara sentada numa mesa de bar. Toma uísque. Despeja o maço de cigarros na mesa. Fuma.) BELO Boa noite. (Ela simplesmente levanta os olhos, volta à posição original) Me permite? (Ela dá de ombros). Sozinha? (Ela não responde) Espera alguém? (Idem) Há muito tempo? ANA CLARA Desde as oito. Cheguei atrasada, algo de terrível aconteceu e eu não pude vir antes. BELO O que aconteceu de tão grave? ANA CLARA Meu pai sofreu um infarto, no escritório. BELO Quando foi isso? ANA CLARA À tarde. Eu estava no cabelereiro... BELO E por que não está com ele agora? ANA CLARA Ninguém pode entrar. É aqui mesmo na São Luís, entende? Nem mamãe, que veio de nossa casa em Angra pôde vê-lo.
  • 27. 27 BELO Estranho... Quem é seu pai? ANA CLARA Um grande advogado. Francisco de Paula Vaz Leme. BELO Não conheço. Pra onde foi levado? ANA CLARA Meu tio tem uma clínica perto do escritório, é cardiologista. Loreno. Loreno Vaz Leme. Me chamo Lorena por causa dele. É meu padrinho. O senhor tem um lenço? BELO Vaz Leme... Não conheço. Frequento essa região há tanto tempo... ANA CLARA Ele veio recentemente dos Estados Unidos, entende? Ai, meu pai. Ai, meu pai... BELO Você andou bebendo, menina? Está me ouvindo, Lorena? Você andou bebendo o que, sua danadinha? Vou te buscar um copo d´água. ANA CLARA Ai, Madre, tá tudo doendo. O meu coração tá que é só espinho. Agora eu tenho um coração aqui no peito, irmã. Foi Deus, ele pôs o coração de Jesus aqui dentro. Justo em mim ele pôs. Ele teve pena de mim. Ele viu tanto sofrimento, tanta humilhação. Lembra o que eu sofri com todos aqueles sacanas? Eu nem podia me defender, madre. Eu não tinha pai. Eu nunca tive pai, irmã. Eu queria tanto um pai, cadê meu pai? BELO (Voltando) Minha filha, tome esse copo d´água. (Nesse momento, Ana Clara ergue os olhos e o encara como se visse o próprio pai). Beba, minha filha, vamos, beba. ANA CLARA Que bom que você voltou. BELO Estive sempre por perto. ANA CLARA Mesmo?
  • 28. 28 BELO Você não me viu? Esteve tão deprimida. Uma moça tão linda. Belíssima. ANA CLARA Você é tão bonito. Quantos anos tem agora? Me conta tudo o que fez, não tem importância não ter vindo antes. BELO Calma, Bela. Vamos ao meu apartamento, eu lhe conto. ANA CLARA Podemos ficar juntos agora? BELO Faço questão. Agora que nos encontramos. Isso não pode ser um acaso do destino. Vamos? Meu uísque é de primeira. A gente pode beber e ouvir música. Tango. Tenho a coleção completa do Gardel. ANA CLARA Adoro tango. Como você... BELO Tem corpo de dançarina, minha Bela. Deixa ver, abre um pouco o casaco, Lorena. Isso. Que físico! Essas pernas... Não vou querer que tire nem as meias nem os sapatos. Tenho paixão por meias pretas. Estas vão até lá em cima? ANA CLARA Vamos pra casa? BELO Vamos, meu apartamento é logo aqui perto. ANA CLARA Vamos... pai... LIA Tô indo ver sua mãe, não vai mesmo? LORENA E se M.N. ligar? LIA Não ligou até agora, não liga mais, entende? Ai, Lorena, tchau.
  • 29. 29 LORENA Ei, espera um pouco. Posso te perguntar uma coisa fora de hora? Ando aflitíssima! Lião, como foi a sua primeira vez? LIA Por que isso agora? Sei lá, eu quis saber como era ter um homem, daí escolhi um carinha, falei com ele e a gente transou. LORENA Assim, a frio? Logo da primeira vez tão gelado? LIA Gelado, por quê? Fiquei com vontade de conhecer um homem e tomei as providências cabíveis, doutora. Um tipo legal, estudante de medicina, meu amigo. LORENA Estranho, não?... LIA Simples como beber um gole d´água. De que jeito queria que fosse? LORENA Seria como naquele seu romance. Imagino se alguma personagem de tal cidade que cheira a pêssego vai ter relações por puro ato de libertação. E logo da primeira vez. LIA Esquece esse romance. Rasguei tudo. Folha por folha. Quem é que tá querendo saber de cheiro de pêssego, com esse puta cheiro de peixe podre no ar? Tô indo embora, Lorena. Desisti do romance... MÃEZINHA Desisti de muita coisa, Lia. LIA Que é isso, mãezinha... A senhora é tão nova... MÃEZINHA Gostaria mesmo de entrar para um convento e envelhecer em paz, sem testemunhas. Completamente sozinha. Tal como estou agora. Oh, desculpe, você tão gentil vindo me visitar e eu me lamentando da solidão. LIA Vim de despedir da senhora (Mãe não entende) Me deu tanta força, entende? Quando cheguei da Banhia e conheci a Loreninha, a senhora foi como uma terceira mãe pra mim. A segunda foi Madre Alix.
  • 30. 30 MÃEZINHA Vai voltar pra Bahia, é isso? LIA Imagine! Vou pra Argélia. MÃEZINHA Assim, de repente? Andou fazendo alguma bobagem? LIA Não, só estou esperando um sinal para partir. Estou fugindo, mãezinha! Sem ter feito nada de errado... MÃEZINHA Mas, meu Deus! A minha florzinha vai embora pra Argélia... Posso fazer alguma coisa por você? Posso te dar algumas roupas, sei lá, casacos pra viagem. Aceita? LIA Seria maravilhoso, entende? MÃEZINHA Pode levar a mala também. Era do meu amante. Aquele gigolô não prestava, mas tinha um bom gosto!... Leve, leve tudo, e vá com Deus. LIA Só mais uma coisa, mãezinha. A Lorena falou que vem morar novamente com a senhora. É verdade? (Mãe confirma) Sei lá, será que vai ser legal? Acho que filho tem que voar longe do ninho, veja o meu caso, por exemplo. MÃEZINHA Cometi muitos erros na vida, Lia. E um deles foi ter permitido, no afã de um romance com um garoto, que minha filha fosse morar sozinha, abandonada, num local sem a menor condição, o menor conforto... Preciso manter Loreninha perto de mim. Não podemos mais ficar separadas desse jeito... MADRE ALIX Quer dizer que vai se separar de nós mesmo? LIA Vou, e sentirei muito a sua falta, irmã. Sei que sou meio durona, meio complicada, entende? Mas a senhora foi muito importante, sei lá. Às vezes acho que teve vontade de me botar na rua, e me abria as portas... MADRE ALIX É aí que você se engana. Sempre quis resguardá-las, protegê-las. Jamais botar-lhes pra
  • 31. 31 fora, jamais. Vocês me parecem tão sem mistérios, tão descobertas, chego a pensar que sei tudo a respeito de cada uma, e me assusto quando descubro que me enganei. Que não sei quase nada. O que sei afinal? Que está indo pra Argélia encontrar o namorado, que tem sangue baiano e alemão nas veias, que rasgou um romance? Que sei sobre Lorena? Que estuda Direito, que pensa em sexo o dia inteiro, mas que é virgem; que espera o telefonema de um namorado que não telefona nunca. Ana Clara está aí. (Entram Ana Clara e Belo para o tango). Como me procura e faz confissões fico achando que vai se regenerar. Eu ainda tenho fé no mistério. (Cena do tango entre Belo e Ana. Tango e violência) Só mais uma coisa: tome cuidado, sim. Não gostaria que sofresse. LIA Sou forte, Madre Alix. O que a senhora está pensando? MADRE ALIX Não, Lia. Vocês são frágeis. Você, Lorena, quase tão frágeis quanto Ana Clara. Não deixe de mandar notícias. Conte comigo. LIA Mandarei cartas. Melhor: mandarei um diário. Um diário de viagens, que tal? MADRE ALIX Ótimo. Posso lhe dar uma epígrafe? É do Gênesis, aceita? “Sai da terra e da tua parentela e da casa de teu pai e vem para a terra que eu lhe mostrarei.” É o que você está fazendo. Foi o que eu fiz. (Ana Clara despenca em cena, nos braços de Lorena, que estava lendo) LORENA Meu Pai, o que foi isso? MAX (Flash) Espera só mais um pouquinho, Coelha, o que custa? De repente aparece uma armação daquelas... ANA CLARA Tem um florete no meu peito. LORENA Que situação, Aninha! Quanta sujeira! Um banho de imersão, urgente! MADRE ALIX (Flash) Vamos recomeçar a análise, o que você me diz disso? MAX (Flash)
  • 32. 32 Espera só mais um pouquinho, Coelha, o que custa? De repente aparece uma armação daquelas... LORENA Sua desmiolada. Onde já se viu me pregar um susto desses? ANA CLARA Quero voltar pra lá. Quero voltar pra banheira. LORENA Grande! Depois. Vou preparar o chá. Onde se sujou tanto, Aninha? Incrível, parecia um tatu. ANA CLARA Você lavou minha bunda? LORENA É claro que não. Você mesma lavou. ANA CLARA Se você soubesse... Tenho que ir, que horas são? LORENA Que ir, o quê! Não vai a lugar nenhum. Pode sossegar. ANA CLARA Me dá uísque. Quem está ali espiando? LORENA É uma sombra. Onde esteve? Em alguma festa de embalo, aposto. ANA CLARA Madre Alix, Madre Alix! LORENA Deite-se, vamos. Ela já vem. ANA CLARA Ele foi preso. Max foi preso. O Max sumiu. Liguei pra lá e num tava mais. LORENA Viajou. Ele não viaja? ANA CLARA Viaja.
  • 33. 33 LORENA Então viajou, pronto. ANA CLARA Se você soubesse onde estive... LORENA Não sei, mas adivinho. Vão acabar essas curtições, ouviu bem? Você vai criar juízo, Aninha! ANA CLARA Não quero juízo. Andei com Deus, ele esteve aqui. Não interessa as coisas que depois eu disse, não. E ele veio e tinha uma luz e tudo assim e ele me deixou voar tão alto com a mão dele segurando a minha. Max, Max, é você? LORENA Sou Lorena. Lorena Vaz Leme. ANA CLARA Não. Eu sou Lorena Vaz Leme. LORENA Você é Ana Bacante. Bacante e Bacana. ANA CLARA Ana Banana Coelha Lorena. Frio. Me dá sua mão, por favor. (Lorena obedece) LIA Pode-se entrar? LORENA É claro. Lia de Melo Schultz, onde pensa eu vai com essa mala? LIA É a mala da mãezinha, não tá reconhecendo? Vou embora. LORENA Já? LIA Que é que ela tá fazendo aqui? Errou de quarto? LORENA Ih, nem te conto. Imagine que eu estava muito poética, lendo Rimbaud e adivinha quem
  • 34. 34 despenca por cima de mim? Podre de drogas. Loucura completa. E tão imunda. Na roupa tinha lama, carvão, umas manchas estranhíssimas. Vômito, um horror. Dei-lhe um banho de imersão. LIA E agora dorme feito um anjo. LORENA Pois é. Só agora pegou no sono. LIA Ela numa tava na chácara de uma burguesada? LORENA Chácara... Perguntei mas ela acabou me confundindo com o namorado! Escuta, dona Lia, me conta direito essa história de ir embora. LIA Logo de madrugada. Deram o aviso. LORENA Mas sem festa de despedida? LIA Nem festa nem choradeira no embarque. Mãezinha emprestou o carro, de manhã alguém devolve. Agora é me despedir e ir direto pro aeroporto... LORENA Fiquei a noite toda esperando o telefonema do M.N. LIA Jacaré telefonou? LORENA Nem M.N. O problema tá em mim. Sou que nem a Hora do Brasil, todo mundo sabe que existe, mas ninguém liga... LIA Mentira! O Guga é doidão por você! Acabou, agora você vai amar o Guga, pronto. LORENA Andei pensando nele... Aquele beijo que me deu, lembra? Fiquei perturbadíssima... Não deixei que continuasse, tirei a mão dele de cima de mim e o botei pra correr. Disse que me adorava... Me excitei a ponto dele perceber. Uma vontade assim de rolar com o Guga pelo chão...
  • 35. 35 LIA E por que não rolou? Já sei: pensou no M.N. e brochou. É isso aí. Pois eu falei com o Guga, Lorena. Já resolvi tua vida. Agora posso viajar tranquila. LORENA O que você andou falando pra ele? LIA Falei de todos os seus dramas. E o cara te acha super especial, tá louquinho pra te salvar. Divino-maravilhoso. (Lorena não entende). Falou que se a mãezinha comprimir muito, se casa até de fraque, faz qualquer negócio. LORENA Ideia interessante... LIA Acabei de deixar Madre Alix, despedidas, etc. Uma puta malandra, sabia? Faz as vezes de ingênua mas tá mais por dentro que nós. E, como sempre, o prato principal foi Ana Clara. LORENA Ai, meu Pai, esqueci da Ana. LIA Antes, deixa eu me despedir, amiga. Gosto muito de você, sabia? Apesar das divergências políticas e sexuais... LORENA Nada de confetes. Eu é que fui boba em não aproveitar de verdade os seus conselhos. LIA Agora eu vou mesmo. Tenho que ligar lá pra terrinha, me despedir do velho Schultz e da coroa. LORENA Não vai dizer um tchau pra Ana? LIA Tchauzinho, meu bem. Ela não faria muita questão de me ver. LORENA Que é isso! Pode não parecer, mas ela gosta pra caramba de você. Ana, acorda, gata. A Lião tá indo embora. Ana! Ana! Me ajuda, Lião.
  • 36. 36 LIA Que foi? (Se aproxima, tenta acordar Ana Clara. Num instante, os olhares das amigas se encontram.) Ela tá morta, Lena. LORENA Não é possível. (Começa a massagear) LIA Uma síncope, foi isso? Vamos chamar um médico. O Pronto-Socorro, chama o P.S., Madre Alix tem o número. Você não sabe fazer isso. LORENA Sei. Ela está morta. Estou apenas tentando, não vê? LIA Morta? Mas ela não está morta. É mais uma de suas mentiras, não é, Ana Turva? LORENA Dormia na mesma posição que a deixei. LIA Será que morreu antes de eu chegar? LORENA Como posso saber? Chegou aqui gritando que tinha um florete enfiado no peito, era o coração que devia estar doendo, não sei. Não sei, não sei, também não sei, Lião. Pelo amor de Deus, querida, não fale comigo agora. (Começa a rezar) LIA O que será que ela tomou? Sim, porque no mínimo foi overdose. Sua desmiolada. Falta de caráter. Dependência igual falta de caráter. O que tá fazendo, Lena? (Silêncio). Merda, eu devia ter feito alguma coisa por ela e o que eu fiz? Discurso! Essa puta vocação pra discurso. Lena, vamos chamar um médico, vamos chamar Madre Alix. Merda, merda! LORENA Cale a boca e pare com esse berreiro, Lia. LIA( Menos autoritária) Ela está morta. Nossa amiga está morta, no seu quarto. Por que está aí cochichando? Por que esse mistério? LORENA Tive uma ideia. Pedi a Deus uma ideia e ele me mandou. Digo depois. Mas por enquanto, não grite. Pelo amor de Deus, calma.
  • 37. 37 LIA Calma? Mas não vamos acordar Madre Alix? Acordar imediatamente todo mundo? Não é isso que vamos fazer? (Lorena pega o missal preto) Quer dizer que vamos ficar aqui esperando a congregação inteira? É isso que você quer? A polícia? Temos que acordar Madre Alix, menina. Avisar que não teve milagre nenhum. Ela esperava um milagre. Lorena, tenha juízo e para com esse teatro, entende? Você vai chamar Madre Alix e eu vou desaparecer, não posso ficar nem nas imediações quando essa morte explodir e a polícia se instalar aqui. Eles me descobrem, acabam comigo, com a minha viagem! LORENA Vá embora, querida. Deixe o resto por minha conta. LIA Que resto? LORENA (Acende um incenso) Uma ideia, deixa por minha conta. LIA Mas eu quero ajudar, porra. Te ajudo a levá-la pro quarto. Você volta, finge que não sabe de nada, e eu já viajei ontem, fui pra Bahia, pro Alto Xingu, Kaput. Vamos? LORENA Pode ir, já disse. Boa viagem. (Lia não sai. Lorena pega o vestido e a maquiagem) Ela veio dizendo que viu Deus. LIA Não tem viciado que já não viu. Acho que Deus está se popularizando. Bom sinal. Você até conversa com ele... LORENA Chamou Madre Alix, o namorado. Estava com frio, quis segurar minha mão... LIA Escuta, o que vai fazer, Lena? Loucura. LORENA Tive a intuição, Lia. Disso que aconteceu. LIA Você é meio louca, eu sei... Cigarros. você tem cigarros? LORENA Na bolsa da Ana deve ter. Ah, aproveita pra ver se não tem nada comprometedor aí dentro. Precisamos dar um sumiço naquele caderninho preto de endereços.
  • 38. 38 LIA Tem um relógio e esse copo, guarda. LORENA Dou o copo a Madre Alix, coitadinha. O relógio fica com você, vai servir na viagem. LIA Um Rolex. Vão pensar que é roubado. Relógio fino, ia acabar com a polícia, já pensou? Mas afinal de contas, que carnaval é esse? Maquiando o corpo, agora? LORENA Milhares de vezes maquiei Aninha quando suas mãos tremiam. E ultimamente tremiam tanto. LIA Você está exagerando, não sabe? Estamos aqui feito duas dementes completas: vão botar ela numa padiola e daqui vão direto pra autópsia, sabe o que é autópsia? O médico vem e retalha tudo. Kaput. Lena, para com isso. Ela não está indo pra uma festa, porra! LORENA É aí que você se engana. Não estamos loucas, não. É a minha ideia divina. A chave do carro está aí no seu bolso? Excelente. Só vou calçar as sandálias. LIA A neblina está super densa. Dá pra levar pro quarto dela sem ninguém notar. LORENA Mas ela não vai ficar no quarto. LIA Não? LORENA Lógico que não. Ela não morreu no quarto. Morreu noutro lugar. LIA Ah, é? Onde? LORENA Numa pracinha. Já pensei em todos os detalhes. É a pracinha mais linda que já vi. Tem um banco debaixo de uma árvore enorme. Foi a uma festa e depois sentou-se lá. Foi deixada, não interessa. Deixe a bolsa e os documentos com ela, pra identificarem. Deus fez com que mãezinha mandasse o carro. Deus mandou a neblina.
  • 39. 39 LIA Você está brincando, não está? LORENA Ana Clara não pode ser encontrada drogada, num quarto de pensionato. Não pode. E nem ela ia querer uma coisa dessas. Amava Madre Alix. Se você não quiser ir, e com razão, dê-me as chaves, eu as coloco em sua janela quando voltar. Deixa comigo. LIA Comigo? Que mané comigo? Nós nunca nos deixamos sozinhas, não seria agora que eu... Vamos, agora é pegar essa moça, se não fiz nada por ela em vida... LORENA Deixo a luz acesa. Faz de conta que fiquei estudando a noite inteira... LIA Você pensa em tudo... Pega aí, vamos tentar. Ai, meu Pai, transportando um cadáver, em plena madrugada... Isso daria um romance e tanto. LORENA Uma história de amizade. Uma estudante de Direito, um cadáver, uma fugitiva do regime... (As duas param no meio do palco. Seguram Ana que está no meio. Pose parecida com a da foto.) LIA Acho que faz um mês que não durmo. Ô, Lena, vai dar tudo certo, não vai? LORENA Vai ser maravilhoso, filhinha. Tenho a intuição: vai ser maravilhoso. LIA Irmã Bula precisava tirar uma foto da gente, agora. LORENA A pirâmide. LIA As meninas. LORENA Kaput. Me dá tua mão, Lião. Por favor... Uma foto d’As Meninas e... FIM