O nascimento da filosofia

Reflexões
Filosofia 10º ano
Isabel Bernardo
Catarina Vale
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Filosofia 10.º ano

Isabel Bernardo
Catarina Vale

Módulo Inicial – Iniciação à
atividade filosófica

O nascimento da filosofia
Quem foram os primeiros
filósofos?
Quais foram os seus
contributos para uma atitude
e questionamento
filosóficos?
A grande aventura de René Magritte (1930) (pormenor)
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Filosofia 10.º ano

Isabel Bernardo
Catarina Vale

O nascimento da Filosofia
Qual a origem histórica da filosofia?
Quem foram os primeiros filósofos?
De que modo pensamento filosófico se diferencia do
pensamento mítico anterior?
O que caracteriza a atividade filosófica dos primeiros
filósofos?
De que forma os primeiros filósofos encarnam a atitude
filosófica que caracteriza hoje a filosofia?
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Filosofia 10.º ano

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Martin Heidegger diz que “a filosofia fala grego”.
Porquê? Porque a filosofia nasceu na Grécia Clássica,
aproximadamente nos começos do século VI a. C..
O nascimento da filosofia consistiu na passagem
progressiva do mito à razão. A emergência do
pensamento racional inaugurou um estilo de pensar e
uma atitude perante a realidade que perduraram no
Ocidente, e são ainda hoje uma das matrizes que dão
forma ao nosso modo de pensar.
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O nascimento da filosofia
Do mito ao pensamento racional
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Filosofia 10.º ano

Isabel Bernardo
Catarina Vale

O mito é uma história tradicional, aceite como
verdadeira, que incorpora as crenças tradicionais
relativamente à criação do universo, aos deuses, aos
homens, à vida e à morte.
Aos deuses e às divindades míticas são atribuídos
sentimentos, emoções e ambições humanas, como a
imortalidade e a omnipotência.
O pensamento mítico assenta na explicação
sobrenatural do mundo como forma de dar resposta aos
problemas e às questões que o universo coloca. Por isso
constitui-se também como uma atitude intelectual.
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“Mas Zeus acrescenta ou diminui o valor dos
homens, conforme lhe apraz, pois ele é o
mais poderoso de todos”
Tal como todas as culturas antigas, também a
cultura grega assentava no mito, transmitido e
ensinado pelos poetas educadores do povo.

Homero

(Homero, Ilíada)

Homero (Ilíada) e Hesíodo (Teogonia), são os
últimos representantes do pensamento mítico.

Hesíodo

Homero e Hesíodo, os representantes máximos
da poesia grega, registaram por escrito os mitos
da antiga Grécia.
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O começo do Mundo
Primeiro que tudo houve o Caos, e depois a Terra de peito
ingente, suporte inabalável de tudo quanto existe, e Eros, o mais
belo entre os deuses imortais, que amolece os membros e, no
peito de todos os homens e deuses, domina o espírito e a
vontade esclarecida.
Do caos nasceram o Erébo e a negra Noite e da noite, por sua
vez, o Éter e o Dia.
(…) Gerou ainda as altas montanhas, morada aprazível
das deusas Ninfas, que habitam os montes cercados de vales.
Hesíodo, Teogonia, 116-130
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O mito das cinco idades
De ouro foi a primeira raça de homens dotados de voz, que os imortais
criaram, eles, que são habitantes do Olimpo. Eram como deuses, com
espírito despreocupado, vivendo à margem de penas e de misérias (…)
A segunda raça a vir, a de prata, bem pior que a anterior, fizeram-na os
deuses que habitam o Olimpo. Não era igual à de ouro, nem de corpo
nem de espírito.
(…) Depois que a terra encobriu esta raça, Zeus Crónida modelou ainda
uma quarta sobre a terra fecunda, mais justa e melhor, raça divina de
heróis, chamados de semi-deuses, a geração anterior à nossa na terra
sem limites.
(…) Quem dera que eu não vivesse no meio dos homens da quinta
raça, que morresse antes, ou vivesse depois! Agora é a raça de ferro.
Hesíodo, Trabalho e os Dias, 109-201
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O primeiro nascimento da filosofia
O período cosmológico e
os filósofos pré-socráticos
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A emergência da filosofia no espaço da cultura grega é um
acontecimento difícil de datar com precisão absoluta.
Nos alvores do século VI a. C., em consonância com
profundas alterações de carácter social e cultural, as
inteligências mais despertas, espalhadas pelas inúmeras
colónias gregas, sentiram a necessidade de substituir as
explicações míticas por outro tipo de explicações, de carácter
racional.
O nascimento da filosofia costuma interpretar-se como um
processo de progressiva libertação da consciência racional
relativamente às explicações mitológicas.
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A escola de Mileto
A escola de Mileto (ou jónica) é representada por Tales,
Anaximandro e Anaxímenes (séculos VI e V a. C). São
considerados os primeiros filósofos.
Procuram o primeiro princípio de todas as coisas, a
origem do universo, aquilo de que o mundo é feito, a arquê:
a matéria primordial e o elemento permanente, estrutural
que tudo explica para lá da mudança e do movimento.
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“A água é o princípio de todas as
coisas”
Para Tales a água é o princípio
(arché) de todas as coisas.
Porquê?
Porque a água é vida e princípio de
vida, é a substância de que provêm
todas as coisas e a ela retornam.
Tales de Mileto
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“O ilimitado é a origem dos seres”
Para Anaximandro o primeiro princípio
deve estar para além de toda a
realidade, recusando-se a reconhecê-lo
num elemento observável. Denomina-o
por ápeiron – enorme massa, infinita,
indeterminada e inacabada.
Anaximenes defende que o princípio
de tudo é o ar, elemento invisível,
imponderável e infinito.
Anaximandro
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“Tudo é número”

O pitagorismo foi uma escola de
sábios e filósofos que acreditava que
os princípios matemáticos explicavam
o universo.
O número é o modelo originário das
coisas e tudo é constituído por
proporções matemáticas.

Pitágoras de Samos

Esta concepção matemática do
universo influenciou o pensamento
moderno.
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“A ordem do mundo foi sempre, é e
será fogo eternamente vivo”
O problema
transformação
preocupações
gregos.

do movimento e da
constitui
uma
das
dos primeiros filósofos

Heráclito considera que tudo está em
movimento, tudo flui e tudo advém, nada
permanece.
O fogo é o símbolo da natureza porque é
a expressão de que tudo nasce da luta e
tudo está em constante devir.

Heráclito de Éfeso
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“Porque pensar é o mesmo que
existir”
Parménides tem opinião contrária a
Heráclito. Para ele, o movimento é
impossível e toda a realidade consiste
numa substância única e imóvel – o
ser. Para Parménides mudar significa
transformar-se no que não é.

Parménides de Élea

O movimento é, assim, uma ilusão dos
sentidos e o conhecimento apenas se
pode alcançar por via racional.
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Os fundadores deste movimento são Leucipo e
Demócrito. O seu sistema pode sintetizar-se da
seguinte maneira: a realidade é composta por
átomos indivisíveis que se movem no vazio.

Leucipo de Mileto

Os atomistas são precursores da ciência
moderna. O atomismo representa uma tentativa
prematura, ainda que coerente, para explicar os
fenómenos físicos por
causas puramente
mecânicas.

Demócrito de Abdera

“Na realidade o que existe são átomos e
vácuo”
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Catarina Vale

A importância dos filósofos pré-socráticos
Os filósofos pré-socráticos formularam problemas e forneceram
respostas que ninguém antes havia encontrado – interpelação
da natureza e formulação de propostas diversificadas de
explicação; caráter inovador e plural do questionamento
filosófico; afastamento de visões dogmática.
Substituíram as explicações míticas por explicações racionais e
assumiram uma posição crítica e polémica sobre as diferentes
opiniões – procura racional do conhecimento; surgimento
duma nova atitude intelectual.
Procuraram as explicações na própria realidade e não nos deuses
– nova visão da realidade: crítica ao mito.
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A importância dos filósofos pré-socráticos
Forjaram conceitos e elaboraram uma linguagem específica
que traduzia com rigor o que pensavam da realidade –
nascimento de uma atividade conceptual.
Adotaram novas atitudes de reflexão: rigor, objetividade,
procura da verdade com espírito crítico e autónomo.
Abriram caminho ao pensamento abstrato e distinguiram
claramente a opinião, ilusória e falsa muitas vezes, do
pensamento racional, que nos permite aproximar da verdade
– surgimento da distinção entre o conhecimento racional
(razão) e o conhecimento sensível (sentidos).
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O segundo nascimento da filosofia
O período antropológico
Os sofistas, Sócrates, Platão e Aristóteles
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O período antropológico da filosofia grega compreende
os sofistas, Sócrates, Platão e Aristóteles.
Corresponde a uma deslocação clara dos problemas
cosmológicos para os problemas políticos e, através
destes, para os problemas antropológicos, éticos e
educativos. O homem torna-se o centro de toda a
problemática filosófica – «mudança antropológica».
Esta transformação da filosofia decorre das próprias
mudanças sociais e políticas das cidades gregas, em
particular da cidade estado de Atenas.
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A democracia ateniense é instaurada
com Péricles no século V a. C., e
assenta na igualdade dos cidadãos
perante a lei.
Péricles foi a personalidade política
mais marcante do século V a. C. e a
ele
se
deve
um
grande
desenvolvimento da economia, das
letras e das artes – enquadramento
cultural favorável ao desenvolvimento
da filosofia.
Péricles
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Catarina Vale

O esplendor de cidades como Atenas, o sistema político
democrático (o primeiro da História, ainda que muito diferente do
atual), proporcionaram o terreno propício para o desenvolvimento de
novas correntes de pensamento.
A cidade, a organização política, as leis e os cidadãos, são os
principais motivos de reflexão.

Pártenon, Atenas
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Ânfora, cerâmica

Discóbolo, escultura

Comédia, teatro

A arte grega é uma elaboração intelectual em que predomina o equilíbrio e a harmonia, a busca
da perfeição e o amor à beleza. O homem está no centro da criação artística dos gregos.
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Filosofia 10.º ano

Isabel Bernardo
Catarina Vale

“A palavra é um poderoso tirano, capaz de
realizar as obras mais divinas, apesar de ser
o mais pequeno e invisível dos corpos”

A democracia favorece o espírito crítico e
as qualidades oratórias.
Os sofistas tornam-se mestres do saber,
profissionais da educação pagos, que
ensinavam a arte da retórica, a arte de bem
falar e bem persuadir, condição essencial
da carreira política.
Desenvolveram
estudos
sobre
a
linguagem, as técnicas de discurso e a
educação.

Górgias de Leontinos
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“O homem é a medida de todas as
coisas”
Se “o homem é a medida de todas as
coisas”, então, as leis, as regras, a
cultura, tudo deve ser definido pelo
conjunto de pessoas, e aquilo que vale
em determinado lugar não deve valer,
necessariamente, noutro. Os sofistas
foram, assim, os primeiros a
defender que o conhecimento é
relativo e que não há verdades
universais e absolutas.
Protágoras de Abdera (à direita).
Salvator Rosa, 1663-1664
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“Só sei que nada sei”
Apelidado de “o moscardo”, Sócrates
usou o diálogo como forma de busca
dos
conceitos universais que
fundamentavam
o
conhecimento
verdadeiro.

Sócrates

Centrado nos problemas da cidade e
do homem, Sócrates procurar definir
conceitos universais, como o Bem ou a
Justiça.
Só
neste
plano
de
universalidade se poderia encontrar o
verdadeiro saber, ultrapassando o
relativismo sofista.
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Isabel Bernardo
Catarina Vale

“Aos filósofos compete dedicarem-se
à filosofia e governarem a cidade”
Discípulo de Sócrates, Platão viveu no
período de decadência moral e política da
democracia ateniense.
Defendeu a existência de verdades
absolutas e universais, alcançáveis través
da razão.
Defendeu que apenas os filósofos
poderiam governar a cidade e torná-la
justa.
Platão

Foi autor de uma vasta obra filosófica, a
maioria sob a forma de diálogo.
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Platão fundou a Academia, a primeira escola de Filosofia.
A Filosofia passou, então, da ágora para um espaço específico.
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Filosofia 10.º ano

Isabel Bernardo
Catarina Vale

“O homem é um animal político”
Discípulo de Platão, Aristóteles é
considerado
um
dos
maiores
pensadores de todos os tempos.
Escreveu sobre ética, política, física,
metafísica, lógica, psicologia, poesia,
retórica, zoologia, biologia,
história
natural e outras áreas do conhecimento
humano.
Aos quarenta e nove anos fundou a sua
própria escola, o Liceu.
Aristóteles
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Aristóteles e Platão são os
principais fundadores do
pensamento ocidental.

Rafael, A Escola de Atenas, séc. XVI (pormenor)
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O contributo dos filósofos gregos
A filosofia grega equacionou e respondeu de forma decisiva para
o destino da filosofia ocidental aos problemas que se punham e
ainda se põem em três domínios fundamentais:
1.no domínio da natureza;
2.no domínio do conhecimento;
3.no domínio do homem enquanto cidadão e ser prático que age
com outros homens – abordagem globalizante: Ciência,
Técnica, Ética e Moral.
Os filósofos gregos enunciaram os problemas filosóficos
fundamentais que ocuparam a filosofia e a ciência até aos nossos
dias – caráter intemporal de muitas questões filosóficas.
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Filosofia 10.º ano

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Catarina Vale

O contributo dos filósofos gregos
Os filósofos gregos legaram um vocabulário, a terminologia
e as categorias fundamentais com que trabalha o
pensamento filosófico e o pensamento ocidental –
construção
de
ferramentas
que
permitem
a
fundamentação racional de posições e teorias.
A filosofia grega legou ainda um vasto leque de teorias e
conceções que viriam a ser sucessivamente retomadas e
reelaboradas pelos pensadores subsequentes – legado
duma razão como uma razão crítica, filosófica; a ousadia
ancestral de se ser capaz de ‘pensar por si’.
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Bibliografia
- Abbagnano, N. (1985).História da Filosofia, Vol. I.. Lisboa: Editorial Presença.
- Brun, J. (1968). Os pré-socráticos. Lisboa: Edições 70.
- Copleston, F. (1994). Historia de la filosofia 1: Grecia e Roma. Barcelona: Editorial Ariel.
- Pereira, M. H. da R. (1982). Helade. Coimbra: Instituto de Estudos Clássicos, pp. 82-258.

Nascimento da filosofia

  • 1.
    O nascimento dafilosofia Reflexões Filosofia 10º ano Isabel Bernardo Catarina Vale
  • 2.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale Módulo Inicial – Iniciação à atividade filosófica O nascimento da filosofia Quem foram os primeiros filósofos? Quais foram os seus contributos para uma atitude e questionamento filosóficos? A grande aventura de René Magritte (1930) (pormenor)
  • 3.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale O nascimento da Filosofia Qual a origem histórica da filosofia? Quem foram os primeiros filósofos? De que modo pensamento filosófico se diferencia do pensamento mítico anterior? O que caracteriza a atividade filosófica dos primeiros filósofos? De que forma os primeiros filósofos encarnam a atitude filosófica que caracteriza hoje a filosofia?
  • 4.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale Martin Heidegger diz que “a filosofia fala grego”. Porquê? Porque a filosofia nasceu na Grécia Clássica, aproximadamente nos começos do século VI a. C.. O nascimento da filosofia consistiu na passagem progressiva do mito à razão. A emergência do pensamento racional inaugurou um estilo de pensar e uma atitude perante a realidade que perduraram no Ocidente, e são ainda hoje uma das matrizes que dão forma ao nosso modo de pensar.
  • 5.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale O nascimento da filosofia Do mito ao pensamento racional
  • 6.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale O mito é uma história tradicional, aceite como verdadeira, que incorpora as crenças tradicionais relativamente à criação do universo, aos deuses, aos homens, à vida e à morte. Aos deuses e às divindades míticas são atribuídos sentimentos, emoções e ambições humanas, como a imortalidade e a omnipotência. O pensamento mítico assenta na explicação sobrenatural do mundo como forma de dar resposta aos problemas e às questões que o universo coloca. Por isso constitui-se também como uma atitude intelectual.
  • 7.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale “Mas Zeus acrescenta ou diminui o valor dos homens, conforme lhe apraz, pois ele é o mais poderoso de todos” Tal como todas as culturas antigas, também a cultura grega assentava no mito, transmitido e ensinado pelos poetas educadores do povo. Homero (Homero, Ilíada) Homero (Ilíada) e Hesíodo (Teogonia), são os últimos representantes do pensamento mítico. Hesíodo Homero e Hesíodo, os representantes máximos da poesia grega, registaram por escrito os mitos da antiga Grécia.
  • 8.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale O começo do Mundo Primeiro que tudo houve o Caos, e depois a Terra de peito ingente, suporte inabalável de tudo quanto existe, e Eros, o mais belo entre os deuses imortais, que amolece os membros e, no peito de todos os homens e deuses, domina o espírito e a vontade esclarecida. Do caos nasceram o Erébo e a negra Noite e da noite, por sua vez, o Éter e o Dia. (…) Gerou ainda as altas montanhas, morada aprazível das deusas Ninfas, que habitam os montes cercados de vales. Hesíodo, Teogonia, 116-130
  • 9.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale O mito das cinco idades De ouro foi a primeira raça de homens dotados de voz, que os imortais criaram, eles, que são habitantes do Olimpo. Eram como deuses, com espírito despreocupado, vivendo à margem de penas e de misérias (…) A segunda raça a vir, a de prata, bem pior que a anterior, fizeram-na os deuses que habitam o Olimpo. Não era igual à de ouro, nem de corpo nem de espírito. (…) Depois que a terra encobriu esta raça, Zeus Crónida modelou ainda uma quarta sobre a terra fecunda, mais justa e melhor, raça divina de heróis, chamados de semi-deuses, a geração anterior à nossa na terra sem limites. (…) Quem dera que eu não vivesse no meio dos homens da quinta raça, que morresse antes, ou vivesse depois! Agora é a raça de ferro. Hesíodo, Trabalho e os Dias, 109-201
  • 10.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale O primeiro nascimento da filosofia O período cosmológico e os filósofos pré-socráticos
  • 11.
  • 12.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale A emergência da filosofia no espaço da cultura grega é um acontecimento difícil de datar com precisão absoluta. Nos alvores do século VI a. C., em consonância com profundas alterações de carácter social e cultural, as inteligências mais despertas, espalhadas pelas inúmeras colónias gregas, sentiram a necessidade de substituir as explicações míticas por outro tipo de explicações, de carácter racional. O nascimento da filosofia costuma interpretar-se como um processo de progressiva libertação da consciência racional relativamente às explicações mitológicas.
  • 13.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale A escola de Mileto A escola de Mileto (ou jónica) é representada por Tales, Anaximandro e Anaxímenes (séculos VI e V a. C). São considerados os primeiros filósofos. Procuram o primeiro princípio de todas as coisas, a origem do universo, aquilo de que o mundo é feito, a arquê: a matéria primordial e o elemento permanente, estrutural que tudo explica para lá da mudança e do movimento.
  • 14.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale “A água é o princípio de todas as coisas” Para Tales a água é o princípio (arché) de todas as coisas. Porquê? Porque a água é vida e princípio de vida, é a substância de que provêm todas as coisas e a ela retornam. Tales de Mileto
  • 15.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale “O ilimitado é a origem dos seres” Para Anaximandro o primeiro princípio deve estar para além de toda a realidade, recusando-se a reconhecê-lo num elemento observável. Denomina-o por ápeiron – enorme massa, infinita, indeterminada e inacabada. Anaximenes defende que o princípio de tudo é o ar, elemento invisível, imponderável e infinito. Anaximandro
  • 16.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale “Tudo é número” O pitagorismo foi uma escola de sábios e filósofos que acreditava que os princípios matemáticos explicavam o universo. O número é o modelo originário das coisas e tudo é constituído por proporções matemáticas. Pitágoras de Samos Esta concepção matemática do universo influenciou o pensamento moderno.
  • 17.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale “A ordem do mundo foi sempre, é e será fogo eternamente vivo” O problema transformação preocupações gregos. do movimento e da constitui uma das dos primeiros filósofos Heráclito considera que tudo está em movimento, tudo flui e tudo advém, nada permanece. O fogo é o símbolo da natureza porque é a expressão de que tudo nasce da luta e tudo está em constante devir. Heráclito de Éfeso
  • 18.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale “Porque pensar é o mesmo que existir” Parménides tem opinião contrária a Heráclito. Para ele, o movimento é impossível e toda a realidade consiste numa substância única e imóvel – o ser. Para Parménides mudar significa transformar-se no que não é. Parménides de Élea O movimento é, assim, uma ilusão dos sentidos e o conhecimento apenas se pode alcançar por via racional.
  • 19.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale Os fundadores deste movimento são Leucipo e Demócrito. O seu sistema pode sintetizar-se da seguinte maneira: a realidade é composta por átomos indivisíveis que se movem no vazio. Leucipo de Mileto Os atomistas são precursores da ciência moderna. O atomismo representa uma tentativa prematura, ainda que coerente, para explicar os fenómenos físicos por causas puramente mecânicas. Demócrito de Abdera “Na realidade o que existe são átomos e vácuo”
  • 20.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale A importância dos filósofos pré-socráticos Os filósofos pré-socráticos formularam problemas e forneceram respostas que ninguém antes havia encontrado – interpelação da natureza e formulação de propostas diversificadas de explicação; caráter inovador e plural do questionamento filosófico; afastamento de visões dogmática. Substituíram as explicações míticas por explicações racionais e assumiram uma posição crítica e polémica sobre as diferentes opiniões – procura racional do conhecimento; surgimento duma nova atitude intelectual. Procuraram as explicações na própria realidade e não nos deuses – nova visão da realidade: crítica ao mito.
  • 21.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale A importância dos filósofos pré-socráticos Forjaram conceitos e elaboraram uma linguagem específica que traduzia com rigor o que pensavam da realidade – nascimento de uma atividade conceptual. Adotaram novas atitudes de reflexão: rigor, objetividade, procura da verdade com espírito crítico e autónomo. Abriram caminho ao pensamento abstrato e distinguiram claramente a opinião, ilusória e falsa muitas vezes, do pensamento racional, que nos permite aproximar da verdade – surgimento da distinção entre o conhecimento racional (razão) e o conhecimento sensível (sentidos).
  • 22.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale O segundo nascimento da filosofia O período antropológico Os sofistas, Sócrates, Platão e Aristóteles
  • 23.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale O período antropológico da filosofia grega compreende os sofistas, Sócrates, Platão e Aristóteles. Corresponde a uma deslocação clara dos problemas cosmológicos para os problemas políticos e, através destes, para os problemas antropológicos, éticos e educativos. O homem torna-se o centro de toda a problemática filosófica – «mudança antropológica». Esta transformação da filosofia decorre das próprias mudanças sociais e políticas das cidades gregas, em particular da cidade estado de Atenas.
  • 24.
  • 25.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale A democracia ateniense é instaurada com Péricles no século V a. C., e assenta na igualdade dos cidadãos perante a lei. Péricles foi a personalidade política mais marcante do século V a. C. e a ele se deve um grande desenvolvimento da economia, das letras e das artes – enquadramento cultural favorável ao desenvolvimento da filosofia. Péricles
  • 26.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale O esplendor de cidades como Atenas, o sistema político democrático (o primeiro da História, ainda que muito diferente do atual), proporcionaram o terreno propício para o desenvolvimento de novas correntes de pensamento. A cidade, a organização política, as leis e os cidadãos, são os principais motivos de reflexão. Pártenon, Atenas
  • 27.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale Ânfora, cerâmica Discóbolo, escultura Comédia, teatro A arte grega é uma elaboração intelectual em que predomina o equilíbrio e a harmonia, a busca da perfeição e o amor à beleza. O homem está no centro da criação artística dos gregos.
  • 28.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale “A palavra é um poderoso tirano, capaz de realizar as obras mais divinas, apesar de ser o mais pequeno e invisível dos corpos” A democracia favorece o espírito crítico e as qualidades oratórias. Os sofistas tornam-se mestres do saber, profissionais da educação pagos, que ensinavam a arte da retórica, a arte de bem falar e bem persuadir, condição essencial da carreira política. Desenvolveram estudos sobre a linguagem, as técnicas de discurso e a educação. Górgias de Leontinos
  • 29.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale “O homem é a medida de todas as coisas” Se “o homem é a medida de todas as coisas”, então, as leis, as regras, a cultura, tudo deve ser definido pelo conjunto de pessoas, e aquilo que vale em determinado lugar não deve valer, necessariamente, noutro. Os sofistas foram, assim, os primeiros a defender que o conhecimento é relativo e que não há verdades universais e absolutas. Protágoras de Abdera (à direita). Salvator Rosa, 1663-1664
  • 30.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale “Só sei que nada sei” Apelidado de “o moscardo”, Sócrates usou o diálogo como forma de busca dos conceitos universais que fundamentavam o conhecimento verdadeiro. Sócrates Centrado nos problemas da cidade e do homem, Sócrates procurar definir conceitos universais, como o Bem ou a Justiça. Só neste plano de universalidade se poderia encontrar o verdadeiro saber, ultrapassando o relativismo sofista.
  • 31.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale “Aos filósofos compete dedicarem-se à filosofia e governarem a cidade” Discípulo de Sócrates, Platão viveu no período de decadência moral e política da democracia ateniense. Defendeu a existência de verdades absolutas e universais, alcançáveis través da razão. Defendeu que apenas os filósofos poderiam governar a cidade e torná-la justa. Platão Foi autor de uma vasta obra filosófica, a maioria sob a forma de diálogo.
  • 32.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale Platão fundou a Academia, a primeira escola de Filosofia. A Filosofia passou, então, da ágora para um espaço específico.
  • 33.
    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale “O homem é um animal político” Discípulo de Platão, Aristóteles é considerado um dos maiores pensadores de todos os tempos. Escreveu sobre ética, política, física, metafísica, lógica, psicologia, poesia, retórica, zoologia, biologia, história natural e outras áreas do conhecimento humano. Aos quarenta e nove anos fundou a sua própria escola, o Liceu. Aristóteles
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    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale Aristóteles e Platão são os principais fundadores do pensamento ocidental. Rafael, A Escola de Atenas, séc. XVI (pormenor)
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    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale O contributo dos filósofos gregos A filosofia grega equacionou e respondeu de forma decisiva para o destino da filosofia ocidental aos problemas que se punham e ainda se põem em três domínios fundamentais: 1.no domínio da natureza; 2.no domínio do conhecimento; 3.no domínio do homem enquanto cidadão e ser prático que age com outros homens – abordagem globalizante: Ciência, Técnica, Ética e Moral. Os filósofos gregos enunciaram os problemas filosóficos fundamentais que ocuparam a filosofia e a ciência até aos nossos dias – caráter intemporal de muitas questões filosóficas.
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    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale O contributo dos filósofos gregos Os filósofos gregos legaram um vocabulário, a terminologia e as categorias fundamentais com que trabalha o pensamento filosófico e o pensamento ocidental – construção de ferramentas que permitem a fundamentação racional de posições e teorias. A filosofia grega legou ainda um vasto leque de teorias e conceções que viriam a ser sucessivamente retomadas e reelaboradas pelos pensadores subsequentes – legado duma razão como uma razão crítica, filosófica; a ousadia ancestral de se ser capaz de ‘pensar por si’.
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    Reflexões Filosofia 10.º ano IsabelBernardo Catarina Vale Bibliografia - Abbagnano, N. (1985).História da Filosofia, Vol. I.. Lisboa: Editorial Presença. - Brun, J. (1968). Os pré-socráticos. Lisboa: Edições 70. - Copleston, F. (1994). Historia de la filosofia 1: Grecia e Roma. Barcelona: Editorial Ariel. - Pereira, M. H. da R. (1982). Helade. Coimbra: Instituto de Estudos Clássicos, pp. 82-258.