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O Mistério
da Sombra
Uma viagem ao universo do
suspense e mistério de um
jeito nunca visto.
Prólogo
Jamais poderia imaginar que um dia eu iria acordar com aquela coisa
grudada em mim. Não está grudada como uma gosma, dessas em que a gente
coloca a mão sem querer e sai todo melado. Está grudada feito uma sombra. Uma
sombra que não larga do meu pé nem quando estou tomando banho. E não há nada
mais desagradável do que ter uma sombra me vendo tomar banho. Ele jura que
não, que olha para outro lado, que não gosta de ver homem pelado. Ainda bem.
Mas está lá, me atormentando 24 horas por dia, todos os dias da semana.
O mais irritante é que, desde que ela apareceu, estou agindo feito um louco.
Doido de pedra. Eu sou um homem com duas sombras. E uma delas tem o
péssimo hábito de conversar comigo. E eu converso com ela, claro. Só que
apenas eu enxergo aquela sombra. Para as outras pessoas, sou um lunático
falando sozinho pelas ruas, no café, no bar, no metrô. A situação estava
ficando esquisita. O bobão não percebeu isso de imediato. Eu conversava com
ele com a maior naturalidade. Por que não? Ele estava ali, na minha frente.
Tinha opiniões ponderadas sobre vários assuntos e, o mais importante, era
muito, muito melhor do que eu. Principalmente naquelas situações em que eu
acabei me metendo. E eu posso garantir, foram situações nem um pouco
agradáveis.
Capítulo 2
A manhã chuvosa não altera a rotina da Delegacia. O detetive Rodrigues
sempre acreditou em seu próprio ditado: faça chuva, faça sol, crimes sempre
acontecem. E, faça chuva ou faça sol, eles sempre são desagradáveis. Detetive
Rodrigues era o nome que aparecia em seu distintivo. E também estava na plaquinha
que identificava a sua mesa. Mas não era assim que seus colegas o chamavam. Para o
grupo, o detetive Rodrigues era o Pena. E Pena nem era um apelido. Era seu nome do
meio. Afonso Pena Rodrigues.
O nome solene ele ganhou do pai, mineiro de Belo Horizonte, que era apaixonado
pela sua cidade. Seu pai, na verdade, nasceu em Caeté. Mudou-se para Belo Horizonte
ainda menino e encantou-se com a cidade. Em especial, com a avenida com nome ilustre,
onde trabalhou por algum tempo como engraxate. Seu pai não fazia ideia de quem havia
sido Afonso Pena. Para ele, era apenas o nome da avenida da sua infância. Para o detetive
Rodrigues, porém, a melhor versão ainda era uma homenagem ao ex-presidente.
Pena mal havia sentado em sua mesa quando o delegado Arruda o chamou.
Parecia preocupado. Mas isso não representava alguma novidade. Delegado
Arruda estava sempre preocupado, sempre tenso. Nervoso até. Na sala
do delegado, Pena recebeu as primeiras informações do seu
próximo caso. Uma casa de penhores na Vila
Industrial havia sido assaltada. Até aí, nada
demais. Naquele bairro era comum esse tipo de
ocorrência. Até esse momento, Pena
mantinha-se inquieto. Sua fase de
investigação de furtos e roubos já havia passado. Ele era um investigador de homicídios, um
dos melhores do Distrito. O delegado prosseguiu com as informações do caso.
– Os policiais que atenderam a ocorrência encontraram dois corpos no local. A
princípio, eles acharam que teria sido um latrocínio, mas os corpos apresentam sinais
de tortura. A perícia já está no local.
– Ok, chefe. Vamos nessa.
– Pena, muita atenção nesse caso. O chefe está no nosso pé e esse tipo de crime
costuma repercutir mal na imprensa. Fica esperto.
– Eu nasci esperto, chefe. Deixa comigo. O senhor confia em mim, não confia?
Pena saiu da sala num pulo. Da porta convocou seu parceiro e seguiu para o local do
crime.
Essa autoconfiança e o espírito inquieto eram as características mais notáveis do
detetive. Mas o que tornava Pena um investigador excepcional era justamente o oposto. Ao
contrário do que aparentava, ele era um observador meticuloso, sempre atento aos
pequenos detalhes. Mal chegaram ao local do crime e Pena notou algumas peculiaridades. A
casa de penhores parecia familiar e isso era particularmente curioso. O detetive desceu do
carro e percorreu um trecho da rua, como se tentasse reconhecer a vizinhança. Observou a
entrada do metrô, alguns metros à frente. Atravessou a rua, analisou os
estabelecimentos vizinhos, e parou do outro lado, para dar uma boa olhada na
fachada. Só faltava o acesso para o beco, que ficava atrás. Sem dúvida, o
local era muito parecido com outra cena de um crime que ele
investigou, alguns anos atrás.
– E aí, você não vai entrar? – Disse Carlão,
parado na porta do prédio.
Pena atravessou a rua calmamente,
ainda observando cada detalhe da fachada.
Caminhou de uma ponta a outra,
observando atentamente a calçada, marquise e janelas da casa de penhor. Notou que
portas e janelas não apresentavam sinais de arrombamento. No canto da parede
encontrou duas caixas de papelão vazias, uma sobre a outra.
– Então, você perdeu uma mochila? Disse, virando-se para o seu parceiro.
– Eu não tenho mochila, respondeu Carlão.
– Tem sim. Eu já vi você chegando no distrito com uma mochila nas costas.
– É, eu tenho, mas não costumo andar com ela. Uso às vezes, só quando preciso
levar alguma coisa para o distrito. Mas ela fica sempre ou em casa ou no meu armário
do vestiário.
– Hoje em dia quase todo mundo anda com uma mochila. E eu acho que alguém
perdeu a sua. Disse, apontando para uma mochila apoiada na parede, atrás das caixas de
papelão.
– Olha só. E é uma mochila bem bonitinha. A minha já está em frangalhos.
Carlão caminhou em direção à parede com intenção de pegar a mochila. Com a mão
esquerda, Pena deteve o parceiro.
– Nã-não. Mexe aí não. Faz parte da cena do crime. Pode ser uma evidência. A mochila
e as caixas de papelão.
– Tem razão. Engraçado ninguém ter pego a mochila... Mas até as caixas de
papelão? Elas devem ter sido abandonadas aí há muito tempo. Acho que o
dono do penhor as jogou fora.
– Pode ser. Mas não somos nós que vamos determinar
isso. Deixe a perícia analisar primeiro.
Pena voltou-se para o policial que vigiava a
entrada do estabelecimento.
– E aí, parceiro? Faz tempo que você
chegou?
– Eu e o meu parceiro fomos os
primeiros a chegar. A gente estava fazendo a ronda e o dono do estabelecimento parou o
nosso carro quando passávamos por aqui, logo de manhazinha.
– A que horas foi isso?
– Umas sete e meia ou oito horas, por aí.
– Seu parceiro está lá dentro?
– Está. Ele está conversando com o pessoal da perícia.
– Ok. Vamos nessa, Carlão? Talvez eu precise conversar com você e seu
parceiro mais tarde. Como eu posso achar vocês? Disse mais uma vez para o policial de
vigia.
– O número da nossa viatura está no relatório.
– Valeu. A gente se vê, então.
O pessoal da Polícia Científica já estava no local. Pena alertou um dos peritos sobre a
mochila e as caixas de papelão que estavam na frente da loja e também pediu fotos da rua e
da fachada. Num canto da sala, um policial fardado conversava com o chefe da perícia.
Junto a eles, um homem de uns 70 anos, usando um colete de lã, prestava atenção à conversa
dos dois. Devia ser o dono do estabelecimento. Na sala ao lado, outro perito estava
debruçado sobre os corpos encontrados no local. Eram duas mulheres jovens, usando
roupas de balada. Não pareciam fazer parte desse ambiente. Elas estavam com
as mãos presas por algemas de plástico, tipo braçadeiras, que alguns
policiais costumam usar como algemas sobressalentes. Não era
muito difícil ter acesso a esse tipo de algema.
– Bom dia. O que temos aí? Perguntou,
agachando-se diante dos corpos.
– Não é assim um bom dia, não é
mesmo? – Pena apenas sorriu. – São jovens,
entre 20 e 25 anos, elas estão sem
identificação, mas o homem ali disse,
apontando para o velho da outra sala – identificou uma delas como sendo funcionária
daqui. Elas têm alguns hematomas pelo corpo, o que sugere que foram espancadas.
Essa daqui tem marcas antigas, o que indica que ela já sofria algum tipo de violência...
– Essa é a funcionária? Perguntou Pena.
– Sim, ela mesma. Veja, marcas de queimadura. Provavelmente ponta de
cigarro. O cara não foi muito gentil com elas. Boca machucada, inchaço no rosto e no
olho. Elas apanharam feio.
– Mas o que causou as mortes?
– Tiro a queima roupa na nuca.
– Com pinta de execução. – Completou Pena.
– É o que tudo indica. Pela quantidade de sangue, elas foram executadas aqui mesmo.
– A que horas foi isso?
– Acho que entre duas ou três da manhã.
– Valeu. Pede pra sua chefe prestar atenção nesses ferimentos. Principalmente na
mocinha que trabalhava aqui.
– Ela não é minha chefe...
Mais uma vez, Pena apenas sorriu. O detetive desviou sua atenção para o dono do
estabelecimento. Encostou no batente e ficou observando o homem, que agora estava
passando seus dados para o Carlão. Olhava-o com muita atenção, como se
procurasse reconhecer alguém ali. Por mais que tentasse, ele não era
muito parecido com o dono da Casa de Penhores que ocupou seu
tempo, alguns anos atrás. E era isso que o deixava
intrigado. Ele tinha quase certeza de que era o
mesmo lugar. Muita coisa havia mudado no
bairro. A rua passou por grandes
modificações depois das obras do metrô,
mas muita coisa batia. Menos a cara do
proprietário. E essas casas de penhores não ficam mudando de dono com muita frequência,
pensou. Ele não resistiu. Tinha que tirar essa história a limpo.
– Senhor, posso lhe fazer uma pergunta?
O homem franziu a testa quando olhou para ele.
– Eu me lembro de você. – Disse o homem, assim que ele se aproximou.
– O senhor se lembra de mim... Ora, isso é uma boa notícia! Diga-me uma
coisa, esse estabelecimento já foi assaltado alguma vez?
O homem tornou a franzir a testa, como se não quisesse tocar nesse assunto.
– Sim. Houve uma tentativa de roubo alguns anos atrás.
– Uma tentativa que terminou com uma explosão?
O homem parecia de fato muito aborrecido com aquela história.
– Foi. Isso mesmo.
– Foi o que eu pensei. O lugar está um pouco diferente. A rua também.
– Houve uma explosão aqui. Tivemos que reformar o prédio.
– Sim, eu imagino. Eu investiguei aquele caso. Mas eu não me lembro muito bem do
senhor... Digo, o senhor está diferente.
– É porque na época quem ficava aqui era o meu irmão. Eu ficava na nossa outra loja,
mas eu me lembro de você, sempre fazendo perguntas. Agora o meu irmão morreu, eu
vendi aquela loja e fiquei só com essa. Esse sobrado era do meu pai. Ele
montou aqui a primeira loja. Sabe como é, tem valor sentimental.
– Eu entendo. Bem, fazer perguntas é a parte principal do
meu trabalho. O senhor se lembra do que roubaram
naquela época?
– Meu irmão já repetiu essa história um
milhão de vezes e eu vou dizer de novo. Não
roubaram nada. Não tinha nada para roubar.
Só destruíram tudo com aquela bomba.
– E dessa vez, o senhor tem ideia do que foi roubado?
– Eu ainda preciso verificar melhor mas, olhando assim por cima, eu não sinto
falta de nada. A loja nem foi remexida, está tudo no seu lugar.
– Foi o que eu pensei. Carlão, agenda um horário com o senhor...
– Ernesto. Meu nome é Ernesto.
– Isso, com o senhor Ernesto para ele ir até a delegacia prestar depoimento. Eu
quero muito falar com o senhor.
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Pena já estava chegando à porta de saída quando Carlão o chamou.
– Eu tenho que checar algumas coisas lá no Distrito.
– Como assim? Ainda tem um monte de coisas para fazer aqui. E você não pode me
deixar aqui sozinho...
– Relaxa, Carlão. Eu sei que você consegue dar conta de tudo sozinho e o pessoal da
Perícia não vai reclamar em te dar uma carona de volta.
Essa sensação de déjà vu estava incomodando. Pena precisava tirar a história a limpo.
Antes também precisava checar outro palpite. Algumas lembranças estavam surgindo com
uma intensidade maior do que o normal. Isso não podia ser ignorado. Ao chegar na
delegacia, foi direto consultar os registros dos outros distritos. Tinha quase
certeza que encontraria ali o que estava procurando. E lá estava, na
relação dos casos sem solução, quase uma dezena de roubos
espalhados por vários pontos da cidade. Os alvos agora
eram outros, afinal, muita coisa havia mudado.
Mas o padrão era praticamente o mesmo. Só um
detalhe não se encaixava. Os casos estavam
registrados como latrocínio. Em todos eles
havia homicídios relacionados. Mas não era
assim que ele agia...
O livro O Mistério das Sombras está
disponível na versão impressa no
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E na versão e.book na
Amazon.com.br
Para quem ficou curioso e quer saber
o final da história é só clicar em um
dos links acima. Boa leitura!
Veja também a continuação da
história em:
Um Dia Longo Demais

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O Mistério da Sombra - Trecho

  • 1. O Mistério da Sombra Uma viagem ao universo do suspense e mistério de um jeito nunca visto.
  • 2. Prólogo Jamais poderia imaginar que um dia eu iria acordar com aquela coisa grudada em mim. Não está grudada como uma gosma, dessas em que a gente coloca a mão sem querer e sai todo melado. Está grudada feito uma sombra. Uma sombra que não larga do meu pé nem quando estou tomando banho. E não há nada mais desagradável do que ter uma sombra me vendo tomar banho. Ele jura que não, que olha para outro lado, que não gosta de ver homem pelado. Ainda bem. Mas está lá, me atormentando 24 horas por dia, todos os dias da semana. O mais irritante é que, desde que ela apareceu, estou agindo feito um louco. Doido de pedra. Eu sou um homem com duas sombras. E uma delas tem o péssimo hábito de conversar comigo. E eu converso com ela, claro. Só que apenas eu enxergo aquela sombra. Para as outras pessoas, sou um lunático falando sozinho pelas ruas, no café, no bar, no metrô. A situação estava ficando esquisita. O bobão não percebeu isso de imediato. Eu conversava com ele com a maior naturalidade. Por que não? Ele estava ali, na minha frente. Tinha opiniões ponderadas sobre vários assuntos e, o mais importante, era muito, muito melhor do que eu. Principalmente naquelas situações em que eu acabei me metendo. E eu posso garantir, foram situações nem um pouco agradáveis.
  • 3. Capítulo 2 A manhã chuvosa não altera a rotina da Delegacia. O detetive Rodrigues sempre acreditou em seu próprio ditado: faça chuva, faça sol, crimes sempre acontecem. E, faça chuva ou faça sol, eles sempre são desagradáveis. Detetive Rodrigues era o nome que aparecia em seu distintivo. E também estava na plaquinha que identificava a sua mesa. Mas não era assim que seus colegas o chamavam. Para o grupo, o detetive Rodrigues era o Pena. E Pena nem era um apelido. Era seu nome do meio. Afonso Pena Rodrigues. O nome solene ele ganhou do pai, mineiro de Belo Horizonte, que era apaixonado pela sua cidade. Seu pai, na verdade, nasceu em Caeté. Mudou-se para Belo Horizonte ainda menino e encantou-se com a cidade. Em especial, com a avenida com nome ilustre, onde trabalhou por algum tempo como engraxate. Seu pai não fazia ideia de quem havia sido Afonso Pena. Para ele, era apenas o nome da avenida da sua infância. Para o detetive Rodrigues, porém, a melhor versão ainda era uma homenagem ao ex-presidente. Pena mal havia sentado em sua mesa quando o delegado Arruda o chamou. Parecia preocupado. Mas isso não representava alguma novidade. Delegado Arruda estava sempre preocupado, sempre tenso. Nervoso até. Na sala do delegado, Pena recebeu as primeiras informações do seu próximo caso. Uma casa de penhores na Vila Industrial havia sido assaltada. Até aí, nada demais. Naquele bairro era comum esse tipo de ocorrência. Até esse momento, Pena mantinha-se inquieto. Sua fase de
  • 4. investigação de furtos e roubos já havia passado. Ele era um investigador de homicídios, um dos melhores do Distrito. O delegado prosseguiu com as informações do caso. – Os policiais que atenderam a ocorrência encontraram dois corpos no local. A princípio, eles acharam que teria sido um latrocínio, mas os corpos apresentam sinais de tortura. A perícia já está no local. – Ok, chefe. Vamos nessa. – Pena, muita atenção nesse caso. O chefe está no nosso pé e esse tipo de crime costuma repercutir mal na imprensa. Fica esperto. – Eu nasci esperto, chefe. Deixa comigo. O senhor confia em mim, não confia? Pena saiu da sala num pulo. Da porta convocou seu parceiro e seguiu para o local do crime. Essa autoconfiança e o espírito inquieto eram as características mais notáveis do detetive. Mas o que tornava Pena um investigador excepcional era justamente o oposto. Ao contrário do que aparentava, ele era um observador meticuloso, sempre atento aos pequenos detalhes. Mal chegaram ao local do crime e Pena notou algumas peculiaridades. A casa de penhores parecia familiar e isso era particularmente curioso. O detetive desceu do carro e percorreu um trecho da rua, como se tentasse reconhecer a vizinhança. Observou a entrada do metrô, alguns metros à frente. Atravessou a rua, analisou os estabelecimentos vizinhos, e parou do outro lado, para dar uma boa olhada na fachada. Só faltava o acesso para o beco, que ficava atrás. Sem dúvida, o local era muito parecido com outra cena de um crime que ele investigou, alguns anos atrás. – E aí, você não vai entrar? – Disse Carlão, parado na porta do prédio. Pena atravessou a rua calmamente, ainda observando cada detalhe da fachada. Caminhou de uma ponta a outra,
  • 5. observando atentamente a calçada, marquise e janelas da casa de penhor. Notou que portas e janelas não apresentavam sinais de arrombamento. No canto da parede encontrou duas caixas de papelão vazias, uma sobre a outra. – Então, você perdeu uma mochila? Disse, virando-se para o seu parceiro. – Eu não tenho mochila, respondeu Carlão. – Tem sim. Eu já vi você chegando no distrito com uma mochila nas costas. – É, eu tenho, mas não costumo andar com ela. Uso às vezes, só quando preciso levar alguma coisa para o distrito. Mas ela fica sempre ou em casa ou no meu armário do vestiário. – Hoje em dia quase todo mundo anda com uma mochila. E eu acho que alguém perdeu a sua. Disse, apontando para uma mochila apoiada na parede, atrás das caixas de papelão. – Olha só. E é uma mochila bem bonitinha. A minha já está em frangalhos. Carlão caminhou em direção à parede com intenção de pegar a mochila. Com a mão esquerda, Pena deteve o parceiro. – Nã-não. Mexe aí não. Faz parte da cena do crime. Pode ser uma evidência. A mochila e as caixas de papelão. – Tem razão. Engraçado ninguém ter pego a mochila... Mas até as caixas de papelão? Elas devem ter sido abandonadas aí há muito tempo. Acho que o dono do penhor as jogou fora. – Pode ser. Mas não somos nós que vamos determinar isso. Deixe a perícia analisar primeiro. Pena voltou-se para o policial que vigiava a entrada do estabelecimento. – E aí, parceiro? Faz tempo que você chegou? – Eu e o meu parceiro fomos os
  • 6. primeiros a chegar. A gente estava fazendo a ronda e o dono do estabelecimento parou o nosso carro quando passávamos por aqui, logo de manhazinha. – A que horas foi isso? – Umas sete e meia ou oito horas, por aí. – Seu parceiro está lá dentro? – Está. Ele está conversando com o pessoal da perícia. – Ok. Vamos nessa, Carlão? Talvez eu precise conversar com você e seu parceiro mais tarde. Como eu posso achar vocês? Disse mais uma vez para o policial de vigia. – O número da nossa viatura está no relatório. – Valeu. A gente se vê, então. O pessoal da Polícia Científica já estava no local. Pena alertou um dos peritos sobre a mochila e as caixas de papelão que estavam na frente da loja e também pediu fotos da rua e da fachada. Num canto da sala, um policial fardado conversava com o chefe da perícia. Junto a eles, um homem de uns 70 anos, usando um colete de lã, prestava atenção à conversa dos dois. Devia ser o dono do estabelecimento. Na sala ao lado, outro perito estava debruçado sobre os corpos encontrados no local. Eram duas mulheres jovens, usando roupas de balada. Não pareciam fazer parte desse ambiente. Elas estavam com as mãos presas por algemas de plástico, tipo braçadeiras, que alguns policiais costumam usar como algemas sobressalentes. Não era muito difícil ter acesso a esse tipo de algema. – Bom dia. O que temos aí? Perguntou, agachando-se diante dos corpos. – Não é assim um bom dia, não é mesmo? – Pena apenas sorriu. – São jovens, entre 20 e 25 anos, elas estão sem identificação, mas o homem ali disse,
  • 7. apontando para o velho da outra sala – identificou uma delas como sendo funcionária daqui. Elas têm alguns hematomas pelo corpo, o que sugere que foram espancadas. Essa daqui tem marcas antigas, o que indica que ela já sofria algum tipo de violência... – Essa é a funcionária? Perguntou Pena. – Sim, ela mesma. Veja, marcas de queimadura. Provavelmente ponta de cigarro. O cara não foi muito gentil com elas. Boca machucada, inchaço no rosto e no olho. Elas apanharam feio. – Mas o que causou as mortes? – Tiro a queima roupa na nuca. – Com pinta de execução. – Completou Pena. – É o que tudo indica. Pela quantidade de sangue, elas foram executadas aqui mesmo. – A que horas foi isso? – Acho que entre duas ou três da manhã. – Valeu. Pede pra sua chefe prestar atenção nesses ferimentos. Principalmente na mocinha que trabalhava aqui. – Ela não é minha chefe... Mais uma vez, Pena apenas sorriu. O detetive desviou sua atenção para o dono do estabelecimento. Encostou no batente e ficou observando o homem, que agora estava passando seus dados para o Carlão. Olhava-o com muita atenção, como se procurasse reconhecer alguém ali. Por mais que tentasse, ele não era muito parecido com o dono da Casa de Penhores que ocupou seu tempo, alguns anos atrás. E era isso que o deixava intrigado. Ele tinha quase certeza de que era o mesmo lugar. Muita coisa havia mudado no bairro. A rua passou por grandes modificações depois das obras do metrô, mas muita coisa batia. Menos a cara do
  • 8. proprietário. E essas casas de penhores não ficam mudando de dono com muita frequência, pensou. Ele não resistiu. Tinha que tirar essa história a limpo. – Senhor, posso lhe fazer uma pergunta? O homem franziu a testa quando olhou para ele. – Eu me lembro de você. – Disse o homem, assim que ele se aproximou. – O senhor se lembra de mim... Ora, isso é uma boa notícia! Diga-me uma coisa, esse estabelecimento já foi assaltado alguma vez? O homem tornou a franzir a testa, como se não quisesse tocar nesse assunto. – Sim. Houve uma tentativa de roubo alguns anos atrás. – Uma tentativa que terminou com uma explosão? O homem parecia de fato muito aborrecido com aquela história. – Foi. Isso mesmo. – Foi o que eu pensei. O lugar está um pouco diferente. A rua também. – Houve uma explosão aqui. Tivemos que reformar o prédio. – Sim, eu imagino. Eu investiguei aquele caso. Mas eu não me lembro muito bem do senhor... Digo, o senhor está diferente. – É porque na época quem ficava aqui era o meu irmão. Eu ficava na nossa outra loja, mas eu me lembro de você, sempre fazendo perguntas. Agora o meu irmão morreu, eu vendi aquela loja e fiquei só com essa. Esse sobrado era do meu pai. Ele montou aqui a primeira loja. Sabe como é, tem valor sentimental. – Eu entendo. Bem, fazer perguntas é a parte principal do meu trabalho. O senhor se lembra do que roubaram naquela época? – Meu irmão já repetiu essa história um milhão de vezes e eu vou dizer de novo. Não roubaram nada. Não tinha nada para roubar.
  • 9. Só destruíram tudo com aquela bomba. – E dessa vez, o senhor tem ideia do que foi roubado? – Eu ainda preciso verificar melhor mas, olhando assim por cima, eu não sinto falta de nada. A loja nem foi remexida, está tudo no seu lugar. – Foi o que eu pensei. Carlão, agenda um horário com o senhor... – Ernesto. Meu nome é Ernesto. – Isso, com o senhor Ernesto para ele ir até a delegacia prestar depoimento. Eu quero muito falar com o senhor. – Pode deixar... Espera aí, onde você vai? Pena já estava chegando à porta de saída quando Carlão o chamou. – Eu tenho que checar algumas coisas lá no Distrito. – Como assim? Ainda tem um monte de coisas para fazer aqui. E você não pode me deixar aqui sozinho... – Relaxa, Carlão. Eu sei que você consegue dar conta de tudo sozinho e o pessoal da Perícia não vai reclamar em te dar uma carona de volta. Essa sensação de déjà vu estava incomodando. Pena precisava tirar a história a limpo. Antes também precisava checar outro palpite. Algumas lembranças estavam surgindo com uma intensidade maior do que o normal. Isso não podia ser ignorado. Ao chegar na delegacia, foi direto consultar os registros dos outros distritos. Tinha quase certeza que encontraria ali o que estava procurando. E lá estava, na relação dos casos sem solução, quase uma dezena de roubos espalhados por vários pontos da cidade. Os alvos agora eram outros, afinal, muita coisa havia mudado. Mas o padrão era praticamente o mesmo. Só um detalhe não se encaixava. Os casos estavam registrados como latrocínio. Em todos eles havia homicídios relacionados. Mas não era assim que ele agia...
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