ERSONAGEM


HERALDO DO
MONTE
B,  > arney Kessel, um dos monstros
sagrados da guitarra, preferiu evitar
a comparação com ele. O encontro
fora marcado com meses de antece-
dência. Num dia de abril de 1980,
no Parque Anhembi, em São Pau-
lo, o instrumentista norte-americano
tocaria alguns números com seu
maior admirador entre os brasileiros,
o pernambucano Heraldo do Monte.
    Na hora de entrar no palco, Kes-
sel desistiu. Heraldo já estava em ce-
na, aquecendo o ambiente com seu
toque macio e emocionado. A pla-
teia, hipnotizada, aplaudia e pedia
mais. Por detrás das coxias, Barney
também vibrava, embriagado de co-
moção. Compor a dupla? Nada dis-
so. Ele simplesmente achou melhor
encostar seu instrumento e deixar
que o brasileiro ganhasse, sozinho,
aquela noite maravilhosa.
    O músico capaz de encantar com
seu talento o grande jazzista norte-        Heraldo: a arte do improviso jazzístico aplicada a temas brasileiros.
americano nasceu no Recife, em
maio de 1936. Heraldo do Monte              fé. E, aos vinte anos, resolveu ga-           co atracado no rio Capibaribe. A
cresceu no folclórico bairro da Mus-        nhar a vida com a música.                     convite do pianista, Heraldo embre-
tardinha, ponto de encontro de mú-             Heraldo, todavia, já guardava na           nhou-se na vida noturna. "Talvez fi-
sicos e boémios do Recife: "Lá não          cabeça um conceito fundamental:               casse por lá, brincando de macaco,
 havia lei do silêncio", recorda-se o       "A gente precisa, sempre, se aper-            de fazer jazz na madrugada pernam-
 músico. "Mesmo depois das dez ho-          feiçoar no ofício que abraça. Sem             bucana, não aparecesse na minha
ras, os microfones continuavam trans-       parar". Por isso, decidiu enfronhar-          vida um sanfoneiro incrível, meio
 mitindo os sons do forró, da gafiei-       se na teoria musical. Ao mesmo                louco, de cabelos louros, quase bran-
ra, a música do Jacó do Bandolim            tempo, não deixava de perpetrar fa-           cos." O nome? Hermeto Paschoal.
 e do Waldir Azevedo."                      çanhas inesperadas, como exibir-se            Ficaram amigos. Idealizaram até um
    O músico rapidamente aperfei-           com um banjo nos blocos de frevo              conjunto em que pudessem mostrar
 çoou-se em um batalhão de instru-          do carnaval recifense.                        aquilo que mais os empolgava — a
 mentos diferentes, do banjo ao vio-           Brilhante instrumentista, Heraldo          tal da mistura da raiz nordestina com
 lão, do bandolim à guitarra, das           não encontrou nenhuma dificulda-              a técnica ligada ao jazz. Como con-
 violas caipiras aos acústicos de doze      de para transpor os obstáculos que            ta Heraldo, a dupla durou pouco
 cordas. Frequentador constante das         costumam sufocar, prematuramen-               tempo: "Deu problema porque o
 festas públicas da região, adolescen-      te, muitas carreiras promissoras. O           Hermeto não queria, de jeito ne-
 te ainda passou a se apresentar en-        pianista Walter Wanderley, astro das          nhum, aprender a tocar piano. Só
 tre fre vistas e forrozeiros. Tocava até   noites pernambucanas, descobriu o             tinha a mão direita, só desfiava a
 clarineta nas bandas que trafega-          guitarrista quando este tocava numa           melodia. Eu propus cobrir a sua mão
 vam, boémias, pelas ruas do Reci-          boate, a Cassino Flutuante, um bar-           esquerda, fazendo as harmonias na
guitarra. O sem-vergonha aprendeu        rava a ideia de largar a chance que       Heraldo um convite para, finalmen-
o serviço em três dias, e me dis-        o jazz me dava e trocá-la pela velha      te, gravar um álbum capaz de retra-
pensou".                                 viola. Eu pensava que um guitarris-       tar a magia de seu dedilhar. Ele, a
   De qualquer modo, o músico per-       ta devia seguir a trilha do Barney        princípio, se mostrou reticente: "Eu
nambucano não se aborreceu. Mu-          Kessel, do Wes Montgomery. O res-         vinha de uma dezena de experiên-
dou-se para São Paulo, empregou-         to era lixo".                             cias diferentes. Não podia dizer que
se na boate Oásis, passou a partici-        A convivência no Quarteto Novo,        possuía um estilo. Mas resolvi peitar
par de gravações de cantores famo-       em todo caso, libertou Heraldo de         o trabalho assim mesmo, fazendo
sos — afinal, era uma figura rara na     seus temores. Em 1967, o grupo            um disco em que cada faixa refletis-
época: sabia ler partituras. "O pes-     acompanhou Edu Lobo e Marília             se um clima diferente, através de rit-
soal ficava admirado comigo", diz o      Medalha em "Ponteio", de Edu Lo-          mos muito peculiares".
guitarrista. "Eu tinha o lastro, a ba-   bo e José Carlos Capinam, a músi-            Nas raras outras oportunidades
gagem, o aprendizado essencial.          ca ganhadora do Festival da TV            que teve para gravar discos solo, ele
Mas não era um músico duro, qua-         Record daquele ano. O estilo do           demonstrou a mesma competência.
dradão, como os que saíam das es-        grupo, enfim, sem dúvida se consa-        Os excelentes LPs do guitarrista con-
colas e não possuíam jogo de cin-        graria se, pouco tempo depois, Air-       têm a essência de seu talento, um ta-
tura."                                   to e Hermeto não decidissem ten-          lento capaz de fazer frevos e forrós
   Pena que todo esse prestígio ficas-   tar um rumo diferente nos Estados         conviverem em harmonia com um
se, sempre, circunscrito ao próprio      Unidos.                                   clima de improvisação jazzístico,
universo da noite, das orquestras,          O conjunto desfez-se nas véspe-        dentro de uma técnica que nada fi-
dos estúdios de gravação. Fama           ras de 1969. Mas o único disco que        ca devendo ao mais competente in-
além desses circuitos Heraldo do         gravou, do selo Odeon, datado de          térprete de música erudita. "E quem
Monte apenas principiou a ter por        1967, é um documento admirável            diz que a molecada de hoje, treina-
volta de 1966, quando despontou          da tentativa de seus integrantes.         da na barulheira do rock, não gosta
na praça um conjunto precioso: o            Só em outubro de 1979 fariam a         do meu trabalho?", desafia Heraldo.
Quarteto Novo, composto por ele e
mais Théo de Barros (viola, violão,
baixo), Airto Moreira (na percussão)
e Hermeto Paschoal (em vários ins-
trumentos) .
   A proposta do grupo era vigoro-
sa, radical. Em primeiro lugar, o
Quarteto Novo se utilizava somente
de instrumentos acústicos, apesar
das pressões do tropicalismo, géne-
ro que implicava uma pressão em di-
reção à adoção do som eletrifiçado.
Heraldo lembra: "Nós nos patrulhá-
vamos. Queríamos colocar na nos-
sa música o que tínhamos assimilado
individualmente. Mas temíamos que
a coisa pudesse ficar com cara de
norte-americana. Inúmeras vezes jo-
gamos fora composições prontas e
acabadas, que consideramos estran-
geiras demais. Eu vivia tomando
porrada. Tinha trabalhado muito
tempo no conjunto do Dick Farney
— e isso me transformava no alvo
predileto dos outros três companhei-
ros. Confesso que cheguei a sentir
vergonha de ter perdido o pé das mi-
nhas raízes. Na época, porém, um
músico como eu não recebia ofertas
todos os dias. O Luiz Gonzaga fora
amaldiçoado pela crítica. O baião era
música de terceira classe. Me apavo-     Numa sessão de gravação (1982), acompanhado pelo baixo de Cláudio Bertrami.

Heraldo do Monte

  • 1.
    ERSONAGEM HERALDO DO MONTE B, > arney Kessel, um dos monstros sagrados da guitarra, preferiu evitar a comparação com ele. O encontro fora marcado com meses de antece- dência. Num dia de abril de 1980, no Parque Anhembi, em São Pau- lo, o instrumentista norte-americano tocaria alguns números com seu maior admirador entre os brasileiros, o pernambucano Heraldo do Monte. Na hora de entrar no palco, Kes- sel desistiu. Heraldo já estava em ce- na, aquecendo o ambiente com seu toque macio e emocionado. A pla- teia, hipnotizada, aplaudia e pedia mais. Por detrás das coxias, Barney também vibrava, embriagado de co- moção. Compor a dupla? Nada dis- so. Ele simplesmente achou melhor encostar seu instrumento e deixar que o brasileiro ganhasse, sozinho, aquela noite maravilhosa. O músico capaz de encantar com seu talento o grande jazzista norte- Heraldo: a arte do improviso jazzístico aplicada a temas brasileiros. americano nasceu no Recife, em maio de 1936. Heraldo do Monte fé. E, aos vinte anos, resolveu ga- co atracado no rio Capibaribe. A cresceu no folclórico bairro da Mus- nhar a vida com a música. convite do pianista, Heraldo embre- tardinha, ponto de encontro de mú- Heraldo, todavia, já guardava na nhou-se na vida noturna. "Talvez fi- sicos e boémios do Recife: "Lá não cabeça um conceito fundamental: casse por lá, brincando de macaco, havia lei do silêncio", recorda-se o "A gente precisa, sempre, se aper- de fazer jazz na madrugada pernam- músico. "Mesmo depois das dez ho- feiçoar no ofício que abraça. Sem bucana, não aparecesse na minha ras, os microfones continuavam trans- parar". Por isso, decidiu enfronhar- vida um sanfoneiro incrível, meio mitindo os sons do forró, da gafiei- se na teoria musical. Ao mesmo louco, de cabelos louros, quase bran- ra, a música do Jacó do Bandolim tempo, não deixava de perpetrar fa- cos." O nome? Hermeto Paschoal. e do Waldir Azevedo." çanhas inesperadas, como exibir-se Ficaram amigos. Idealizaram até um O músico rapidamente aperfei- com um banjo nos blocos de frevo conjunto em que pudessem mostrar çoou-se em um batalhão de instru- do carnaval recifense. aquilo que mais os empolgava — a mentos diferentes, do banjo ao vio- Brilhante instrumentista, Heraldo tal da mistura da raiz nordestina com lão, do bandolim à guitarra, das não encontrou nenhuma dificulda- a técnica ligada ao jazz. Como con- violas caipiras aos acústicos de doze de para transpor os obstáculos que ta Heraldo, a dupla durou pouco cordas. Frequentador constante das costumam sufocar, prematuramen- tempo: "Deu problema porque o festas públicas da região, adolescen- te, muitas carreiras promissoras. O Hermeto não queria, de jeito ne- te ainda passou a se apresentar en- pianista Walter Wanderley, astro das nhum, aprender a tocar piano. Só tre fre vistas e forrozeiros. Tocava até noites pernambucanas, descobriu o tinha a mão direita, só desfiava a clarineta nas bandas que trafega- guitarrista quando este tocava numa melodia. Eu propus cobrir a sua mão vam, boémias, pelas ruas do Reci- boate, a Cassino Flutuante, um bar- esquerda, fazendo as harmonias na
  • 2.
    guitarra. O sem-vergonhaaprendeu rava a ideia de largar a chance que Heraldo um convite para, finalmen- o serviço em três dias, e me dis- o jazz me dava e trocá-la pela velha te, gravar um álbum capaz de retra- pensou". viola. Eu pensava que um guitarris- tar a magia de seu dedilhar. Ele, a De qualquer modo, o músico per- ta devia seguir a trilha do Barney princípio, se mostrou reticente: "Eu nambucano não se aborreceu. Mu- Kessel, do Wes Montgomery. O res- vinha de uma dezena de experiên- dou-se para São Paulo, empregou- to era lixo". cias diferentes. Não podia dizer que se na boate Oásis, passou a partici- A convivência no Quarteto Novo, possuía um estilo. Mas resolvi peitar par de gravações de cantores famo- em todo caso, libertou Heraldo de o trabalho assim mesmo, fazendo sos — afinal, era uma figura rara na seus temores. Em 1967, o grupo um disco em que cada faixa refletis- época: sabia ler partituras. "O pes- acompanhou Edu Lobo e Marília se um clima diferente, através de rit- soal ficava admirado comigo", diz o Medalha em "Ponteio", de Edu Lo- mos muito peculiares". guitarrista. "Eu tinha o lastro, a ba- bo e José Carlos Capinam, a músi- Nas raras outras oportunidades gagem, o aprendizado essencial. ca ganhadora do Festival da TV que teve para gravar discos solo, ele Mas não era um músico duro, qua- Record daquele ano. O estilo do demonstrou a mesma competência. dradão, como os que saíam das es- grupo, enfim, sem dúvida se consa- Os excelentes LPs do guitarrista con- colas e não possuíam jogo de cin- graria se, pouco tempo depois, Air- têm a essência de seu talento, um ta- tura." to e Hermeto não decidissem ten- lento capaz de fazer frevos e forrós Pena que todo esse prestígio ficas- tar um rumo diferente nos Estados conviverem em harmonia com um se, sempre, circunscrito ao próprio Unidos. clima de improvisação jazzístico, universo da noite, das orquestras, O conjunto desfez-se nas véspe- dentro de uma técnica que nada fi- dos estúdios de gravação. Fama ras de 1969. Mas o único disco que ca devendo ao mais competente in- além desses circuitos Heraldo do gravou, do selo Odeon, datado de térprete de música erudita. "E quem Monte apenas principiou a ter por 1967, é um documento admirável diz que a molecada de hoje, treina- volta de 1966, quando despontou da tentativa de seus integrantes. da na barulheira do rock, não gosta na praça um conjunto precioso: o Só em outubro de 1979 fariam a do meu trabalho?", desafia Heraldo. Quarteto Novo, composto por ele e mais Théo de Barros (viola, violão, baixo), Airto Moreira (na percussão) e Hermeto Paschoal (em vários ins- trumentos) . A proposta do grupo era vigoro- sa, radical. Em primeiro lugar, o Quarteto Novo se utilizava somente de instrumentos acústicos, apesar das pressões do tropicalismo, géne- ro que implicava uma pressão em di- reção à adoção do som eletrifiçado. Heraldo lembra: "Nós nos patrulhá- vamos. Queríamos colocar na nos- sa música o que tínhamos assimilado individualmente. Mas temíamos que a coisa pudesse ficar com cara de norte-americana. Inúmeras vezes jo- gamos fora composições prontas e acabadas, que consideramos estran- geiras demais. Eu vivia tomando porrada. Tinha trabalhado muito tempo no conjunto do Dick Farney — e isso me transformava no alvo predileto dos outros três companhei- ros. Confesso que cheguei a sentir vergonha de ter perdido o pé das mi- nhas raízes. Na época, porém, um músico como eu não recebia ofertas todos os dias. O Luiz Gonzaga fora amaldiçoado pela crítica. O baião era música de terceira classe. Me apavo- Numa sessão de gravação (1982), acompanhado pelo baixo de Cláudio Bertrami.