PERSONAGEM


BADEN                                                                                de de Baden, um dos principais
                                                                                     compositores e instrumentistas bra-
                                                                                     sileiros de todos os tempos.
                                                                                        Filho de um violonista admirador




POWELI
                                                                                     do general inglês Robert Baden-
                                                                                     Powell (1857-1941), o fundador do
                                                                                     escotismo, o garoto começou a
                                                                                     aprender violão desde cedo. Com
                                                                                     treze anos, já se apresentava em bai-
                                                                                     les e festinhas. Depois, mal comple-
                                                                                     tando a maioridade, ingressou na
X^xorria 1966. Lyndon Baines                par do espetáculo que Mr. Lyndon         noite carioca participando do con-
Johnson, presidente dos Estados             Johnson vai oferecer a Mr. Nguyen        junto de Ed Lincoln, tecladista ali-
Unidos da América, resolveu ofere-          Van Thieu, no próximo dia 5, em          mentado pelas influências do jazz.
cer, em Honolulu, Havaí, uma fes-           Honolulu, Havaí". Resposta de Ba-           Pouco tempo depois, Baden pas-
ta inesquecível ao general Nguyen           den, dada às vésperas da grande fes-     sou a fazer parte do grupo de artis-
Van Thieu, ditador do Vietnã do             ta: "Não posso ir. No dia 5 eu estreio   tas que formava o movimento mu-
Sul. Encarregado de recrutar alguns         com a Elis Regina no Zum-Zum".           sical mais importante da época: a
dos melhores músicos do mundo pa-              Esse episódio ilustra exemplar-       bossa nova. O toque precioso de seu
ra abrilhantar a homenagem, o sa-           mente como funciona a cabeça do          violão e sua fluência como compo-
xofonista Stan Getz remeteu um te-          fluminense Baden Powell de Aqui-         sitor encontraram nos versos de Vi-
legrama ao violonista Baden Powell,         no, nascido em Varre-e-Sai no dia        nícius de Moraes a parceria ideal.
aproximadamente nos seguintes ter-          6 de agosto de 1937. Desligado, in-      São desse período músicas como
mos: "Em nome do presidente dos             dividualista, temperamental. Todos       "Formosa", "Samba em prelúdio",
Estados Unidos da América, valho-           esses adjetivos encaixam-se perfei-      "Só por amor" e "Canção de ninar
me desta para convidá-lo a partici-         tamente para definir a personalida-      meu bem", composições da dupla
                                                                                     que permanecem até hoje como
                                                                                     clássicos da música popular bra-
                                                                                     sileira.
                                                                                        Em 1962, Baden embarcou para
                                                                                     a Europa. A turnê foi um sucesso.
                                                                                     Além de tocar sua música para pla-
                                                                                     teias recém-cativadas pelo molho do
                                                                                     ritmo brasileiro, também recriava nos
                                                                                     shows, com impressionante técnica
                                                                                     e criatividade, clássicos de Bach, Ra-
                                                                                     vel e Villa-Lobos.
                                                                                        Na volta para o Brasil, a Bahia
                                                                                     tornou-se o novo lar do virtuose. De-
                                                                                     cidido a realizar pesquisas musicais
                                                                                     para enriquecer suas composições,
                                                                                     frequentou terreiros, iniciou-se no
                                                                                     candomblé e na capoeira, e retomou
                                                                                     a antiga parceria com Vinícius. Jun-
                                                                                     tos novamente, foram enfileirando
                                                                                     jóias raras, como "Canto de Ossa-
                                                                                     nha", "Berimbau" e outras. Nessa
                                                                                     fase de sua carreira, Baden somou
                                                                                     novos elementos à sua já consagra-
                                                                                     da técnica violonística. Depois da
                                                                                     temporada baiana, seu instrumento
                                                                                     passou a despejar pelos bordões rit-
                                                                                     mos incríveis, como se fosse um
                                                                                     contrabaixo. Ao mesmo tempo, não
                                                                                     parava de conceber novas soluções
Baden e seu violão: levando a música brasileira para os quatro cantos do mundo.      para aliar harmonia e melodia no
PERSONAGEM
                                                                                    formado num superstar bilionário,
                                                                                    consequência natural de seu domí-
                                                                                    nio incomparável do violão. Baden,
                                                                                    no entanto, é um homem simples.
                                                                                    Um homem simples e ao mesmo
                                                                                    tempo complexo: embora não culti-
                                                                                    ve hábitos exuberantes, as exigên-
                                                                                    cias de precisão e perfeição que im-
                                                                                    põe a si mesmo são quase neuróti-
                                                                                    cas, insanas. Nos teatros em que
                                                                                    costuma se apresentar sempre ocor-
                                                                                    re o mesmo ritual. No teste do som,
                                                                                    antes do espetáculo, o músico recla-
                                                                                    ma da aparelhagem e da acústica do
                                                                                    teatro, com uma intransigência que
                                                                                    deixa todos preocupados, certos de
                                                                                    que não irá tocar. Porém, quando
                                                                                    chega a hora do concerto, assume
                                                                                    tranquilamente seu lugar no palco e
                                                                                    toca como se estivesse no local ideal.
                                                                                    Acima de qualquer tipo de proble-
                                                                                    ma, Baden coloca sua paixão pelas
                                                                                    apresentações ao vivo.
                                                                                       Apesar de ter morado vários anos
                                                                                    no exterior, Baden afirma não saber
                                                                                    falar fluentemente nenhum outro
                                                                                    idioma. Sabe apenas o mínimo in-
                                                                                    dispensável e, quando perguntado
                                                                                    como faz para se virar nos países es-
                                                                                    trangeiros, diz: "Da mesma forma
                                                                                    como em qualquer outro lugar, só
                                                                                    que lá fico quietinho". Os compro-
                                                                                    missos assumidos no exterior obri-
                                                                                    gam o violonista viajar constante-
                                                                                    mente. Embora tenha vontade de
                                                                                    fixar-se definitivamente no Brasil, a
                                                                                    tarefa de divulgar a música brasilei-
                                                                                    ra pelos quatro cantos do mundo pa-
                                                                                    rece ser mais importante.
A busca da auto-superação: um traço característico da arte de Baden.                   Hoje, não é mais possível consi-
                                                                                    derar Baden Powell apenas um re-
mesmo dedilhado do violão. Na his-          mios importantes da crítica de Paris.   presentante de um estilo de compor,
tória dos virtuoses brasileiros, ne-        Saltou à frente, com o "Mundo nú-       ou de interpretar, que se inaugurou
nhum outro músico conseguiu como            mero 2", acompanhado pela Sinfó-        nas raízes brasileiras. Choro, samba,
Baden transformar o violão numa             nica da capital francesa. Brilhou no    valsa, jazz, os clássicos, os românti-
verdadeira usina de efeitos sonoros.        Festival de Jazz de Berlim. Reco-       cos, os vanguardistas contemporâ-
Um virtuosismo apoiado não só em            lheu-se por alguns meses a uma clí-     neos, os flamencos e os africanos —
suas qualidades de instrumentista           nica do Rio, no quarto vizinho ao do    o maravilhoso equipamento desse
mas também no talento como intér-           eterno amigo Vinícius de Moraes,        músico não se assusta com as fron-
prete e como compositor.                    para uma temporada de desintoxi-        teiras que a música internacional
   As premiações tornaram-se mera           cação do velljo uísque. Retornou à      costuma delimitar. Junto a essa
consequência disso. Com um novo             Europa. E, em 1971, gravou um dos       imensa versatilidade, Baden carrega
parceiro, o letrista Paulo César Pi-        mais belos LPs de violão jamais fei-    sempre a obsessão pela auto-supe-
nheiro, venceu a I Bienal do Samba          tos no mundo, "Solitude on guitar",     ração. Uma postura exemplar, sufi-
da TV Record de São Paulo. Em               no Studio Waldorf da CBS alemã.         ciente para diferenciar com nitidez
 1967, o disco "O mundo musical de             Muita gente se espanta com o fa-     cristalina sua arte da dos demais
Baden Powell" ganhou todos os pré-          to de Baden Powell não se ter trans-    músicos.

Baden Powell

  • 1.
    PERSONAGEM BADEN de de Baden, um dos principais compositores e instrumentistas bra- sileiros de todos os tempos. Filho de um violonista admirador POWELI do general inglês Robert Baden- Powell (1857-1941), o fundador do escotismo, o garoto começou a aprender violão desde cedo. Com treze anos, já se apresentava em bai- les e festinhas. Depois, mal comple- tando a maioridade, ingressou na X^xorria 1966. Lyndon Baines par do espetáculo que Mr. Lyndon noite carioca participando do con- Johnson, presidente dos Estados Johnson vai oferecer a Mr. Nguyen junto de Ed Lincoln, tecladista ali- Unidos da América, resolveu ofere- Van Thieu, no próximo dia 5, em mentado pelas influências do jazz. cer, em Honolulu, Havaí, uma fes- Honolulu, Havaí". Resposta de Ba- Pouco tempo depois, Baden pas- ta inesquecível ao general Nguyen den, dada às vésperas da grande fes- sou a fazer parte do grupo de artis- Van Thieu, ditador do Vietnã do ta: "Não posso ir. No dia 5 eu estreio tas que formava o movimento mu- Sul. Encarregado de recrutar alguns com a Elis Regina no Zum-Zum". sical mais importante da época: a dos melhores músicos do mundo pa- Esse episódio ilustra exemplar- bossa nova. O toque precioso de seu ra abrilhantar a homenagem, o sa- mente como funciona a cabeça do violão e sua fluência como compo- xofonista Stan Getz remeteu um te- fluminense Baden Powell de Aqui- sitor encontraram nos versos de Vi- legrama ao violonista Baden Powell, no, nascido em Varre-e-Sai no dia nícius de Moraes a parceria ideal. aproximadamente nos seguintes ter- 6 de agosto de 1937. Desligado, in- São desse período músicas como mos: "Em nome do presidente dos dividualista, temperamental. Todos "Formosa", "Samba em prelúdio", Estados Unidos da América, valho- esses adjetivos encaixam-se perfei- "Só por amor" e "Canção de ninar me desta para convidá-lo a partici- tamente para definir a personalida- meu bem", composições da dupla que permanecem até hoje como clássicos da música popular bra- sileira. Em 1962, Baden embarcou para a Europa. A turnê foi um sucesso. Além de tocar sua música para pla- teias recém-cativadas pelo molho do ritmo brasileiro, também recriava nos shows, com impressionante técnica e criatividade, clássicos de Bach, Ra- vel e Villa-Lobos. Na volta para o Brasil, a Bahia tornou-se o novo lar do virtuose. De- cidido a realizar pesquisas musicais para enriquecer suas composições, frequentou terreiros, iniciou-se no candomblé e na capoeira, e retomou a antiga parceria com Vinícius. Jun- tos novamente, foram enfileirando jóias raras, como "Canto de Ossa- nha", "Berimbau" e outras. Nessa fase de sua carreira, Baden somou novos elementos à sua já consagra- da técnica violonística. Depois da temporada baiana, seu instrumento passou a despejar pelos bordões rit- mos incríveis, como se fosse um contrabaixo. Ao mesmo tempo, não parava de conceber novas soluções Baden e seu violão: levando a música brasileira para os quatro cantos do mundo. para aliar harmonia e melodia no
  • 2.
    PERSONAGEM formado num superstar bilionário, consequência natural de seu domí- nio incomparável do violão. Baden, no entanto, é um homem simples. Um homem simples e ao mesmo tempo complexo: embora não culti- ve hábitos exuberantes, as exigên- cias de precisão e perfeição que im- põe a si mesmo são quase neuróti- cas, insanas. Nos teatros em que costuma se apresentar sempre ocor- re o mesmo ritual. No teste do som, antes do espetáculo, o músico recla- ma da aparelhagem e da acústica do teatro, com uma intransigência que deixa todos preocupados, certos de que não irá tocar. Porém, quando chega a hora do concerto, assume tranquilamente seu lugar no palco e toca como se estivesse no local ideal. Acima de qualquer tipo de proble- ma, Baden coloca sua paixão pelas apresentações ao vivo. Apesar de ter morado vários anos no exterior, Baden afirma não saber falar fluentemente nenhum outro idioma. Sabe apenas o mínimo in- dispensável e, quando perguntado como faz para se virar nos países es- trangeiros, diz: "Da mesma forma como em qualquer outro lugar, só que lá fico quietinho". Os compro- missos assumidos no exterior obri- gam o violonista viajar constante- mente. Embora tenha vontade de fixar-se definitivamente no Brasil, a tarefa de divulgar a música brasilei- ra pelos quatro cantos do mundo pa- rece ser mais importante. A busca da auto-superação: um traço característico da arte de Baden. Hoje, não é mais possível consi- derar Baden Powell apenas um re- mesmo dedilhado do violão. Na his- mios importantes da crítica de Paris. presentante de um estilo de compor, tória dos virtuoses brasileiros, ne- Saltou à frente, com o "Mundo nú- ou de interpretar, que se inaugurou nhum outro músico conseguiu como mero 2", acompanhado pela Sinfó- nas raízes brasileiras. Choro, samba, Baden transformar o violão numa nica da capital francesa. Brilhou no valsa, jazz, os clássicos, os românti- verdadeira usina de efeitos sonoros. Festival de Jazz de Berlim. Reco- cos, os vanguardistas contemporâ- Um virtuosismo apoiado não só em lheu-se por alguns meses a uma clí- neos, os flamencos e os africanos — suas qualidades de instrumentista nica do Rio, no quarto vizinho ao do o maravilhoso equipamento desse mas também no talento como intér- eterno amigo Vinícius de Moraes, músico não se assusta com as fron- prete e como compositor. para uma temporada de desintoxi- teiras que a música internacional As premiações tornaram-se mera cação do velljo uísque. Retornou à costuma delimitar. Junto a essa consequência disso. Com um novo Europa. E, em 1971, gravou um dos imensa versatilidade, Baden carrega parceiro, o letrista Paulo César Pi- mais belos LPs de violão jamais fei- sempre a obsessão pela auto-supe- nheiro, venceu a I Bienal do Samba tos no mundo, "Solitude on guitar", ração. Uma postura exemplar, sufi- da TV Record de São Paulo. Em no Studio Waldorf da CBS alemã. ciente para diferenciar com nitidez 1967, o disco "O mundo musical de Muita gente se espanta com o fa- cristalina sua arte da dos demais Baden Powell" ganhou todos os pré- to de Baden Powell não se ter trans- músicos.