PERSONAGEM


JOE
PASS
    Los nove anos de idade, Joseph
Anthony Jacobi Passalaqua era um
menino fascinado por filmes de fa-
roeste e por livros que contavam his-
tórias de caubóis. Nascido em 13 de
janeiro de 1929, na cidade de
Brunswick, em New Jersey — filho
mais velho de uma família de imi-
grantes italianos —, o garoto encon-
trou na paixão da infância o modo
pelo qual iria um dia se tornar mais
conhecido que seus heróis do Velho
Oeste: "Foi quando vi o guitarrista
Gene Autry, montado num cavalo
branco, com sua guitarra e um imen-
so chapéu", recorda Joe. "Pensei
comigo: não podia ter o cavalo,
mas, em compensação, podia mui-
to bem ter a guitarra. Meu pai, en-
tão, acabou comprando uma por de-        Com uma Ibanez, Pass exibe seu talento no Free Jazz Festival, em S. Paulo, em 1987.
zessete dólares."
   Joe Pass gosta de contar esse epi-    vis. Quase na mesma época, Joe                com o mundo das drogas. Não de-
sódio sempre que fala sobre o come-      Pass já começava a tocar profissio-           morou muito tempo para tornar-se
ço de sua carreira. Talvez sua sim-      nalmente. Após estudar um bom                 dependente delas e, durante três
plicidade e modéstia o impeçam de        tempo com alguns amigos de seu                anos e oito meses, teve que perma-
terminar essa história. Nada mais        pai, Mariano Passalaqua, um dos               necer internado no Hospital de Saú-
justo, então, do que apresentar seu      grandes incentivadores do início de           de Pública em Fort Worth, no Texas.
desfecho: a partir do momento em         sua carreira, o guitarrista, com cator-          Depois desse período, ele se mu-
que ele trocou pela música o sonho       ze anos, se apresentava em shows              dou para Los Angeles. Em Lãs Ve-
de ser um pistoleiro montado num         e bailes, com bandas locais de                gas, para se manter, chegou a tra-
cavalo branco, o mundo do jazz ga-       Brunswick. Seis anos mais tarde,              balhar por algum tempo em hotéis.
nhou um de seus maiores instru-          Joe tomou a decisão: fez as malas             Sua passagem por essa cidade foi
mentistas de todos os tempos. Se-        e partiu para Nova York, onde po-             curta. Logo depois, em 1960, foi
gundo o respeitado estudioso Joa-        deria ver de perto seus ídolos de jazz.       preso e enviado ao Synanon, um
chim Berendt, surgiram quatro esco-         O guitarrista acabou se entrosan-          centro localizado em Santa Mônica,
las de guitarristas, entre as décadas    do no circuito musical e virou um fre-        Califórnia, especializado no trata-
de 60 e 70: os da fusion, os roquei-     quentador da legendária Rua 52, fa-           mento de músicos viciados em dro-
ros, os bluesmen e os jazzistas, her-    mosa por abrigar na época os prin-            gas. Lá, Joe finalmente mostrou si-
deiros diretos do cool. É nesse estilo   cipais bares de jazz. Nesses locais,          nais de recuperação, chegando in-
musical, de expressão mais medita-       Joe dava canjas com feras como                clusive a voltar a se dedicar com
tiva e intimista, que se encaixa o to-   Dizzy Gillespie e Charlie Parker. O           mais empenho à música. Ainda du-
que mágico de Joseph Passalaqua.         único problema é que Pass, além de            rante sua permanência no hospital,
   O cool apareceu em meados de          conhecer os grandes músicos de                gravou em 1961 seu primeiro ál-
1945, com o trompetista Miles Da-        jazz, também entrou em contato                bum, juntamente com outros cole-
PERSONAGEM
gás músicos, internados. O nome do          repertório as canções "Você e eu" e     rador e incentivador do jazz. Reali-
LP era bastante adequado: "Sounds           "Samba do Orfeu", iniciando um          zou discos em parceria com Oscar
of Synanon".                                longo namoro com a música brasi-        Peterson e Toots Thielemans, entre
   Sem o efeito das drogas em seu           leira, mantido ao longo de sua car-     outros. Mesmo nos LPs em que fi-
corpo, Pass passou a trabalhar com          reira. Dentre outros compositores,      gura como acompanhante de canto-
mais disposição e teve a oportunida-        Pass gosta especialmente de Milton      ras do porte de Ella Fitzgerald e Sa-
de de voltar a Los Angeles, para re-        Nascimento, Ivan Lins, Oscar Cas-       rah Vaughn, Pass é capaz de atrair
começar sua carreira na mesma ci-           tro Neves, Marcos Valle e Eumir         para si a atenção do ouvinte, pelo
dade da qual havia sido expulso. Em         Deodato. O guitarrista norte-ameri-     seu toque extremamente talentoso.
1963, recebeu o prémio de "revela-          cano gravou até mesmo a canção             Sujeito simples, bonachão e bem-
ção do ano", título concedido pela          "Feelings", de Morris Albert, artista   humorado, o guitarrista encara com
revista Doam Beat, uma das mais             brasileiro muito popular na década      muita simplicidade sua carreira. Cos-
respeitadas publicações sobre músi-         de 70. O que impressionou os críti-     tuma dizer: "Apenas faço o que gos-
ca em todo o mundo. Ainda nesse             cos foi a capacidade do guitarrista     to e, como todo italiano, minhas pre-
ano, apresentou-se com muito su-            norte-americano em recriar canções      ferências são o vinho e a música".
cesso no célebre Festival de Jazz de        banais das paradas de sucesso como      Joe costuma passar um semestre do
Monterey.                                   essa, transformando-as em primoro-      ano trabalhando, gravando ou fa-
   Em seguida, Pass começou a gra-          sas peças harmónicas, sempre com        zendo excursões pelo mundo. Na
var uma série de discos solos, uma          uma interpretação extremamente          outra parte do tempo, gosta de ficar
grande oportunidade para se proje-          pessoal e cheias de improvisos ins-     em sua casa, em Los Angeles. Leva
tar definitivamente como um gran-           pirados. "Não me considero, de for-     a filha para a escola, lava o carro, lê
de artista. Em homenagem a quem             ma alguma, um 'expert' em música",      romances e vê televisão, "como
considera uma de suas grandes in-           diz Joe, "apenas toco canções de        qualquer pessoa comum".
fluências — o grande guitarrista bel-       que gosto, porque são belas."              A obra de Joe Pass atravessou as
ga Django Reinhardt —, Joe fez o               Desde 1970, ele faz parte do elen-   últimas décadas e, mesmo assim,
disco "For Django". Registrou depois        co de contratados da gravadora Pa-      manteve sua essência. As novas ten-
os discos "Catch me" e "Simplicity".        blo, selo de propriedade do empre-      dências musicais que surgiram, as-
Neste trabalho, Pass inclui em seu          sário Norman Granz, grande admi-        sim como os avanços tecnológicos,
                                                                                    não foram capazes de cativar Pass:
                                                                                    "Não tenho nada contra a fusion ou
                                                                                    qualquer outro estilo, mas gosto de
                                                                                    tocar o meu", explica. Para um gui-
                                                                                    tarrista do seu porte, tal apego a de-
                                                                                    terminado género musical tem um
                                                                                    sentido especial. Joe não tem dúvi-
                                                                                    das ao considerar o jazz uma forma
                                                                                    de expressão maior, que se destaca
                                                                                    frente às outras pela sua história:
                                                                                       "Às vezes me espanto com o que
                                                                                    está sendo feito no panorama da
                                                                                    música internacional e me pergunto
                                                                                    se isso tudo é realmente uma forma
                                                                                    de arte ou não. Mas não tenho dú-
                                                                                    vidas de que o jazz é uma forma de
                                                                                    arte e, ainda, apesar dos progressos
                                                                                    da fusion, uma forma de arte tipica-
                                                                                    mente norte-americana. O beat, o
                                                                                    ritmo, o swing, o feeling, o anda-
                                                                                    mento, tudo isso é oriundo da mais
                                                                                    pura cultura musical norte-america-
                                                                                    na. O jazz é um tipo de música que
                                                                                    vem fundamentalmente do blues. Se
                                                                                    a música não tiver estas característi-
                                                                                    cas básicas, então é outro tipo de
                                                                                    música, mas não jazz. Para que pos-
                                                                                    sa ser chamada de jazz, tem de ser
O toque intimista, despojado, é uma das marcas do estilo de Pass.                   isso".

Joe Pass

  • 1.
    PERSONAGEM JOE PASS Los nove anos de idade, Joseph Anthony Jacobi Passalaqua era um menino fascinado por filmes de fa- roeste e por livros que contavam his- tórias de caubóis. Nascido em 13 de janeiro de 1929, na cidade de Brunswick, em New Jersey — filho mais velho de uma família de imi- grantes italianos —, o garoto encon- trou na paixão da infância o modo pelo qual iria um dia se tornar mais conhecido que seus heróis do Velho Oeste: "Foi quando vi o guitarrista Gene Autry, montado num cavalo branco, com sua guitarra e um imen- so chapéu", recorda Joe. "Pensei comigo: não podia ter o cavalo, mas, em compensação, podia mui- to bem ter a guitarra. Meu pai, en- tão, acabou comprando uma por de- Com uma Ibanez, Pass exibe seu talento no Free Jazz Festival, em S. Paulo, em 1987. zessete dólares." Joe Pass gosta de contar esse epi- vis. Quase na mesma época, Joe com o mundo das drogas. Não de- sódio sempre que fala sobre o come- Pass já começava a tocar profissio- morou muito tempo para tornar-se ço de sua carreira. Talvez sua sim- nalmente. Após estudar um bom dependente delas e, durante três plicidade e modéstia o impeçam de tempo com alguns amigos de seu anos e oito meses, teve que perma- terminar essa história. Nada mais pai, Mariano Passalaqua, um dos necer internado no Hospital de Saú- justo, então, do que apresentar seu grandes incentivadores do início de de Pública em Fort Worth, no Texas. desfecho: a partir do momento em sua carreira, o guitarrista, com cator- Depois desse período, ele se mu- que ele trocou pela música o sonho ze anos, se apresentava em shows dou para Los Angeles. Em Lãs Ve- de ser um pistoleiro montado num e bailes, com bandas locais de gas, para se manter, chegou a tra- cavalo branco, o mundo do jazz ga- Brunswick. Seis anos mais tarde, balhar por algum tempo em hotéis. nhou um de seus maiores instru- Joe tomou a decisão: fez as malas Sua passagem por essa cidade foi mentistas de todos os tempos. Se- e partiu para Nova York, onde po- curta. Logo depois, em 1960, foi gundo o respeitado estudioso Joa- deria ver de perto seus ídolos de jazz. preso e enviado ao Synanon, um chim Berendt, surgiram quatro esco- O guitarrista acabou se entrosan- centro localizado em Santa Mônica, las de guitarristas, entre as décadas do no circuito musical e virou um fre- Califórnia, especializado no trata- de 60 e 70: os da fusion, os roquei- quentador da legendária Rua 52, fa- mento de músicos viciados em dro- ros, os bluesmen e os jazzistas, her- mosa por abrigar na época os prin- gas. Lá, Joe finalmente mostrou si- deiros diretos do cool. É nesse estilo cipais bares de jazz. Nesses locais, nais de recuperação, chegando in- musical, de expressão mais medita- Joe dava canjas com feras como clusive a voltar a se dedicar com tiva e intimista, que se encaixa o to- Dizzy Gillespie e Charlie Parker. O mais empenho à música. Ainda du- que mágico de Joseph Passalaqua. único problema é que Pass, além de rante sua permanência no hospital, O cool apareceu em meados de conhecer os grandes músicos de gravou em 1961 seu primeiro ál- 1945, com o trompetista Miles Da- jazz, também entrou em contato bum, juntamente com outros cole-
  • 2.
    PERSONAGEM gás músicos, internados.O nome do repertório as canções "Você e eu" e rador e incentivador do jazz. Reali- LP era bastante adequado: "Sounds "Samba do Orfeu", iniciando um zou discos em parceria com Oscar of Synanon". longo namoro com a música brasi- Peterson e Toots Thielemans, entre Sem o efeito das drogas em seu leira, mantido ao longo de sua car- outros. Mesmo nos LPs em que fi- corpo, Pass passou a trabalhar com reira. Dentre outros compositores, gura como acompanhante de canto- mais disposição e teve a oportunida- Pass gosta especialmente de Milton ras do porte de Ella Fitzgerald e Sa- de de voltar a Los Angeles, para re- Nascimento, Ivan Lins, Oscar Cas- rah Vaughn, Pass é capaz de atrair começar sua carreira na mesma ci- tro Neves, Marcos Valle e Eumir para si a atenção do ouvinte, pelo dade da qual havia sido expulso. Em Deodato. O guitarrista norte-ameri- seu toque extremamente talentoso. 1963, recebeu o prémio de "revela- cano gravou até mesmo a canção Sujeito simples, bonachão e bem- ção do ano", título concedido pela "Feelings", de Morris Albert, artista humorado, o guitarrista encara com revista Doam Beat, uma das mais brasileiro muito popular na década muita simplicidade sua carreira. Cos- respeitadas publicações sobre músi- de 70. O que impressionou os críti- tuma dizer: "Apenas faço o que gos- ca em todo o mundo. Ainda nesse cos foi a capacidade do guitarrista to e, como todo italiano, minhas pre- ano, apresentou-se com muito su- norte-americano em recriar canções ferências são o vinho e a música". cesso no célebre Festival de Jazz de banais das paradas de sucesso como Joe costuma passar um semestre do Monterey. essa, transformando-as em primoro- ano trabalhando, gravando ou fa- Em seguida, Pass começou a gra- sas peças harmónicas, sempre com zendo excursões pelo mundo. Na var uma série de discos solos, uma uma interpretação extremamente outra parte do tempo, gosta de ficar grande oportunidade para se proje- pessoal e cheias de improvisos ins- em sua casa, em Los Angeles. Leva tar definitivamente como um gran- pirados. "Não me considero, de for- a filha para a escola, lava o carro, lê de artista. Em homenagem a quem ma alguma, um 'expert' em música", romances e vê televisão, "como considera uma de suas grandes in- diz Joe, "apenas toco canções de qualquer pessoa comum". fluências — o grande guitarrista bel- que gosto, porque são belas." A obra de Joe Pass atravessou as ga Django Reinhardt —, Joe fez o Desde 1970, ele faz parte do elen- últimas décadas e, mesmo assim, disco "For Django". Registrou depois co de contratados da gravadora Pa- manteve sua essência. As novas ten- os discos "Catch me" e "Simplicity". blo, selo de propriedade do empre- dências musicais que surgiram, as- Neste trabalho, Pass inclui em seu sário Norman Granz, grande admi- sim como os avanços tecnológicos, não foram capazes de cativar Pass: "Não tenho nada contra a fusion ou qualquer outro estilo, mas gosto de tocar o meu", explica. Para um gui- tarrista do seu porte, tal apego a de- terminado género musical tem um sentido especial. Joe não tem dúvi- das ao considerar o jazz uma forma de expressão maior, que se destaca frente às outras pela sua história: "Às vezes me espanto com o que está sendo feito no panorama da música internacional e me pergunto se isso tudo é realmente uma forma de arte ou não. Mas não tenho dú- vidas de que o jazz é uma forma de arte e, ainda, apesar dos progressos da fusion, uma forma de arte tipica- mente norte-americana. O beat, o ritmo, o swing, o feeling, o anda- mento, tudo isso é oriundo da mais pura cultura musical norte-america- na. O jazz é um tipo de música que vem fundamentalmente do blues. Se a música não tiver estas característi- cas básicas, então é outro tipo de música, mas não jazz. Para que pos- sa ser chamada de jazz, tem de ser O toque intimista, despojado, é uma das marcas do estilo de Pass. isso".