PERSONAGEM
                                                                                      nimo de Bob Fleming. Apesar de
                                                                                      adolescente, Hélio rapidamente ar-


HÉLIO                                                                                 rebatou o carinho e o apoio dos
                                                                                      companheiros. Tião Marinho e Nel-
                                                                                      sinho, dois músicos da maior com-




DELMIRO
                                                                                      petência, especialistas em arranjos e
                                                                                      na direção das orquestras que faziam
                                                                                      pano de fundo para os grandes in-
                                                                                      térpretes daquele período, forçaram
                                                                                      Hélio a se aprofundar no mundo do
                                                                                      jazz, que já proliferava paralelamente
                                                                                      à bossa nova, nas noites cariocas.
/ » timidez e a discrição sem dúvi-          aparecia. Exatamente, uma corda.         Hélio entrou para o prestigiado Clu-
da impediram que Hélio Delmiro de-           Hélio Delmiro tinha doze anos quan-      be do Jazz, aprendeu os estilos do
monstrasse aos seus pares brasileiros        do o mano Jucá encontrou o instru-       improviso e conheceu gente como o
aquilo que os músicos estrangeiros           mento num canto de um trem da            saxofonista Victor Assis Brasil, um
já sabem há mais de uma década:              Central do Brasil. Um cavaco, quem       grande amigo e um critico implacá-
trata-se, simplesmente, de um dos            diria, de uma corda só. O menino         vel, grande incentivador.
mais completos e brilhantes guitar-          delirou com o brinquedo. Em pou-             Hélio considera importantíssima
ristas de todo o mundo. Hélio nas-           cos dias, naquele cavaquinho in-         essa passagem pelo Clube do Jazz.
ceu em 20 de maio de 1947, no                completo e quase sem função,             Moldou seu estilo de tocar escutan-
Méier, subúrbio do Rio de Janeiro e,         aprendeu a executar o choro "Bra-        do Baden Powell, Wes Montgomery
mesmo sem frequentar conservató-             sileirinho", de Waldir Azevedo.          e Charlie Christian. Amadurecido,
rios musicais, conseguiu desenvolver             Ficou mais fácil seguir em frente.   achou que poderia formar o seu pró-
uma sonoridade que é única em seu            O próprio Jucá, emocionado, incen-       prio conjunto. Surgiu então o Fór-
instrumento. Pureza absoluta, eis o          tivou a carreira do garoto. Em 61,       mula 7, sustentado por talentos co-
seu objetivo ao tocar. A pureza so-          aos catorze anos, entusiasmado com       mo o do pistonista Márcio Montar-
mada a um extremo bom gosto, a               a bossa nova que crescia, Helinho        royos e do baixista Luisão. Ao lado
uma competência de artesão e à se-           tornou-se um profissional precoce,       de Luisão, aliás, Hélio iria participar,
gurança do artista superior.                 tocando violão no conjunto de bai-       tempos depois, de uma experiência
    Desde o primeiro contato com             les do saxofonista Moacir Silva —        fascinante: acompanhar a eletrizan-
uma corda, seu talento natural já            mais conhecido pelo solene pseudô-       te Elis Regina.
                                                                                          Importante para Helinho era to-
                                                                                      car com os cobras da época, ama-
                                                                                      durecer como instrumentista e espe-
                                                                                      rar com paciência a oportunidade
                                                                                      certa para mostrar seu talento. Cons-
                                                                                      truiu novas convivências — com o
                                                                                      pianista Luiz Eça, do Tamba Trio, e
                                                                                      com jazzistas do exterior, astros co-
                                                                                      mo Paul Horn, Jeremy Steig, Dave
                                                                                      Grusin e Lalo Schifrin.
                                                                                         Várias vezes viajou ao estrangei-
                                                                                      ro para tocar. Em Los Angeles, em
                                                                                      1974, participou com Elis Regina de
                                                                                      um dos melhores LPs gravados na
                                                                                      década, "Elis & Tom", uma relíquia
                                                                                      da MPB. Mais tarde, em 75, produ-
                                                                                      ziu LPs para Clara Nunes e João No-
                                                                                      gueira. Excursionou à Europa com
                                                                                      uma antiga estrela do apogeu do rá-
                                                                                      dio, Marlene. E, em 1977, comoveu
                                                                                      a grande dama do jazz durante a
                                                                                      preparação do álbum duplo "O som
                                                                                      brasileiro de Sarah Vaughn". Frase
                                                                                      de Miss Vaughn: "Se morasse nos
Delmiro (violão) e Joe Pass (guitarra), em 1980, no Festival de Jazz de São Paulo.    Estados Unidos, esse menino já es-
PERSONAGEM
taria incluído entre os maiores gui-    brinca com o fato de ter gravado             colegas. Continua mobilizando os
tarristas do mundo".                    poucos discos solo em sua carreira:          círculos de jazz, nos Estados Unidos.
    Em 1978, durante o Festival de      "Muita qualidade e pouca quantida-           Continua impressionando críticos e
Jazz de São Paulo, foi a vez de Larry   de", argumenta.                              produtores. Mas não pode exercitar,
Coryell sucumbir diante da magia de        Hoje, Hélio continua reforçando           como deveria, e precisaria, o seu ta-
Hélio Delmiro: "Esse cara toca me-      o seu bravo currículo com os elogios         lento e competência nas terras do
lhor do que eu". O tecladista Chick     que recebe dos especialistas e dos           Brasil.
Corea, no mesmo evento, quis cha-
mar o guitarrista brasileiro para seu
grupo. Leonard Feather, um dos
mais prestigiados críticos de jazz do
planeta, comparou Helinho a dois
luminares do violão e da guitarra —
Django Reinhardt e Wes Montgo-
mery. No Brasil, porém, raríssimas
vezes o músico foi convocado a gra-
var um disco instrumental.
    Uma dessas ocasiões surgiu gra-
ças a César Camargo Mariano, que
com Hélio gravou um LP memorá-
vel, "Samambaia", pelo selo Odeon.
Ironia: logo após os elogios de Leo-
nard Feather, o calado Hélio Delmi-
ro viajou com Elizeth Cardoso ao Ja-
pão e lá fez tanto sucesso que uma
empresa local lhe ofereceu genero-
so contrato para fazer um disco.
    Em seu país, porém, Hélio não
conseguiria manter-se como solista.
Teve mesmo de aceitar um lugar co-
mo acompanhante nos shows de
Milton Nascimento. Gravou com es-
te a música "Caçador de Mim", que
chegou às paradas de sucesso. A
certa altura da canção, a voz de Mil-
ton desaparece e um belíssimo solo
de guitarra emerge acima do arran-
jo. Até hoje, o músico considera es-
te momento um dos mais marcan-
tes de sua carreira.
    Curiosamente, ao contrário da
quase totalidade dos demais guitar-
ristas, Hélio não costuma usar palhe-
ta: executa as escalas rapidíssimas
associadas ao jazz a partir de uma
técnica essencialmente clássica. Seu
raro talento e versatilidade levaram
Norman Granz, provavelmente o
maior empresário e produtor de jazz
da época contemporânea, a convi-
dá-lo para participar de um segun-
do álbum de Sarah Vaughn, dedi-
cado à música brasileira. Mas a ideia
não deu certo.
    O guitarrista parece ter se acos-
tumado a essas oportunidades que
escapam diante de seus olhos. Até       Mesmo na guitarra, Hélio prefere usar o dedilhado clássico, em vez da palheta.

Hélio Delmiro

  • 1.
    PERSONAGEM nimo de Bob Fleming. Apesar de adolescente, Hélio rapidamente ar- HÉLIO rebatou o carinho e o apoio dos companheiros. Tião Marinho e Nel- sinho, dois músicos da maior com- DELMIRO petência, especialistas em arranjos e na direção das orquestras que faziam pano de fundo para os grandes in- térpretes daquele período, forçaram Hélio a se aprofundar no mundo do jazz, que já proliferava paralelamente à bossa nova, nas noites cariocas. / » timidez e a discrição sem dúvi- aparecia. Exatamente, uma corda. Hélio entrou para o prestigiado Clu- da impediram que Hélio Delmiro de- Hélio Delmiro tinha doze anos quan- be do Jazz, aprendeu os estilos do monstrasse aos seus pares brasileiros do o mano Jucá encontrou o instru- improviso e conheceu gente como o aquilo que os músicos estrangeiros mento num canto de um trem da saxofonista Victor Assis Brasil, um já sabem há mais de uma década: Central do Brasil. Um cavaco, quem grande amigo e um critico implacá- trata-se, simplesmente, de um dos diria, de uma corda só. O menino vel, grande incentivador. mais completos e brilhantes guitar- delirou com o brinquedo. Em pou- Hélio considera importantíssima ristas de todo o mundo. Hélio nas- cos dias, naquele cavaquinho in- essa passagem pelo Clube do Jazz. ceu em 20 de maio de 1947, no completo e quase sem função, Moldou seu estilo de tocar escutan- Méier, subúrbio do Rio de Janeiro e, aprendeu a executar o choro "Bra- do Baden Powell, Wes Montgomery mesmo sem frequentar conservató- sileirinho", de Waldir Azevedo. e Charlie Christian. Amadurecido, rios musicais, conseguiu desenvolver Ficou mais fácil seguir em frente. achou que poderia formar o seu pró- uma sonoridade que é única em seu O próprio Jucá, emocionado, incen- prio conjunto. Surgiu então o Fór- instrumento. Pureza absoluta, eis o tivou a carreira do garoto. Em 61, mula 7, sustentado por talentos co- seu objetivo ao tocar. A pureza so- aos catorze anos, entusiasmado com mo o do pistonista Márcio Montar- mada a um extremo bom gosto, a a bossa nova que crescia, Helinho royos e do baixista Luisão. Ao lado uma competência de artesão e à se- tornou-se um profissional precoce, de Luisão, aliás, Hélio iria participar, gurança do artista superior. tocando violão no conjunto de bai- tempos depois, de uma experiência Desde o primeiro contato com les do saxofonista Moacir Silva — fascinante: acompanhar a eletrizan- uma corda, seu talento natural já mais conhecido pelo solene pseudô- te Elis Regina. Importante para Helinho era to- car com os cobras da época, ama- durecer como instrumentista e espe- rar com paciência a oportunidade certa para mostrar seu talento. Cons- truiu novas convivências — com o pianista Luiz Eça, do Tamba Trio, e com jazzistas do exterior, astros co- mo Paul Horn, Jeremy Steig, Dave Grusin e Lalo Schifrin. Várias vezes viajou ao estrangei- ro para tocar. Em Los Angeles, em 1974, participou com Elis Regina de um dos melhores LPs gravados na década, "Elis & Tom", uma relíquia da MPB. Mais tarde, em 75, produ- ziu LPs para Clara Nunes e João No- gueira. Excursionou à Europa com uma antiga estrela do apogeu do rá- dio, Marlene. E, em 1977, comoveu a grande dama do jazz durante a preparação do álbum duplo "O som brasileiro de Sarah Vaughn". Frase de Miss Vaughn: "Se morasse nos Delmiro (violão) e Joe Pass (guitarra), em 1980, no Festival de Jazz de São Paulo. Estados Unidos, esse menino já es-
  • 2.
    PERSONAGEM taria incluído entreos maiores gui- brinca com o fato de ter gravado colegas. Continua mobilizando os tarristas do mundo". poucos discos solo em sua carreira: círculos de jazz, nos Estados Unidos. Em 1978, durante o Festival de "Muita qualidade e pouca quantida- Continua impressionando críticos e Jazz de São Paulo, foi a vez de Larry de", argumenta. produtores. Mas não pode exercitar, Coryell sucumbir diante da magia de Hoje, Hélio continua reforçando como deveria, e precisaria, o seu ta- Hélio Delmiro: "Esse cara toca me- o seu bravo currículo com os elogios lento e competência nas terras do lhor do que eu". O tecladista Chick que recebe dos especialistas e dos Brasil. Corea, no mesmo evento, quis cha- mar o guitarrista brasileiro para seu grupo. Leonard Feather, um dos mais prestigiados críticos de jazz do planeta, comparou Helinho a dois luminares do violão e da guitarra — Django Reinhardt e Wes Montgo- mery. No Brasil, porém, raríssimas vezes o músico foi convocado a gra- var um disco instrumental. Uma dessas ocasiões surgiu gra- ças a César Camargo Mariano, que com Hélio gravou um LP memorá- vel, "Samambaia", pelo selo Odeon. Ironia: logo após os elogios de Leo- nard Feather, o calado Hélio Delmi- ro viajou com Elizeth Cardoso ao Ja- pão e lá fez tanto sucesso que uma empresa local lhe ofereceu genero- so contrato para fazer um disco. Em seu país, porém, Hélio não conseguiria manter-se como solista. Teve mesmo de aceitar um lugar co- mo acompanhante nos shows de Milton Nascimento. Gravou com es- te a música "Caçador de Mim", que chegou às paradas de sucesso. A certa altura da canção, a voz de Mil- ton desaparece e um belíssimo solo de guitarra emerge acima do arran- jo. Até hoje, o músico considera es- te momento um dos mais marcan- tes de sua carreira. Curiosamente, ao contrário da quase totalidade dos demais guitar- ristas, Hélio não costuma usar palhe- ta: executa as escalas rapidíssimas associadas ao jazz a partir de uma técnica essencialmente clássica. Seu raro talento e versatilidade levaram Norman Granz, provavelmente o maior empresário e produtor de jazz da época contemporânea, a convi- dá-lo para participar de um segun- do álbum de Sarah Vaughn, dedi- cado à música brasileira. Mas a ideia não deu certo. O guitarrista parece ter se acos- tumado a essas oportunidades que escapam diante de seus olhos. Até Mesmo na guitarra, Hélio prefere usar o dedilhado clássico, em vez da palheta.