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Clarice aborda o imprevisto que rompe o
rotineiro.
Clarice Lispector, década de 1960
ESPECIAL CLARICE LISPECTOR (1920-1977)
“O seu nome judeu é Chaya, que
significa ‘Vida’. Clarice Lispector irá
certamente continuar a viver.”
Segundo Affonso Romano de
Sant’Anna, as obras de Clarice, em
geral, percorrem quatro etapas:
1. Personagem disposta em
determinada situação cotidiana
2. Prepara-se um evento que é
pressentido discretamente pela
personagem.
3. Ocorre o evento que “ilumina”
(epifania) a vida da personagem.
4. Ocorre o desfecho em que a vida
da personagem é revista.
O livro se divide em três
segmentos. O primeiro, “Com
Clarice”, é uma sensível introdução
à obra, com dois textos nos quais
os amigos relembram
carinhosamente facetas de seu
convívio com a escritora. “De Ma-
rina para Clarice” e “De Affonso
para Clarice”, segunda e terceira
partes, compõem-se de diversas
crônicas sobre a escritora
produzidas ao longo das últimas
décadas, além de três ensaios de
caráter analítico sobre textos
centrais de sua obra, como A maçã
no escuro e A paixão segundo G.H.
Marina Colasanti e
Affonso Romano de
Sant’Anna esboçam
aqui um retrato
sensível da amiga
Clarice Lispector.
Nasce, a 10 de dezembro, em Tchetchelnik, uma
aldeia da Ucrânia, então pertencente à Rússia,
Haia Lispector, terceira filha do comerciante
Pinkouss e de Mania Lispector. O casal já tinha
duas outras meninas: Leia, de 9 anos, e Tania,
de 5. O nascimento ocorre durante viagem de
emigração da família em direção à América – os
pais, judeus, resolveram vir para o Brasil para a
fim de escapar das consequências da Revolução
de 1917 e da Primeira Guerra Mundial.
Clarice Lispector 1920-1977
A família Lispector. Da
esquerda para direita:
Mania, Clarice e Pinkouss
(sentados); Elisa e Tania
(em pé). Recife, década de
1920.
Aqui eles adotaram novos nomes. À exceção de Tania, todos,
por iniciativa de Pinkouss, mudaram de “identidade”: o pai se
tornou Pedro; Mania, Marieta; Leia se transformou em Elisa; e
Haia ( Chaya)– que significa vida, ou clara –, em Clarice.
A mãe requer cuidados especiais porque sofre de
paralisia progressiva.
Com base em pesquisa, o autor, Benjamin Moser, formulou uma
tese: a de que Clarice sentia-se predestinada a salvar a mãe da
doença adquirida (sífilis) durante a violência na Ucrânia. O peso
dessa falha ecoaria ao longo de toda sua vida e obra. Para o autor,
compreender a dor de Clarice como filha e como mãe ajuda a
entender a escritora.
Sua mãe, Mania, teria contraído sífilis – na época
sem cura, depois de ter sido estuprada por soldados
russos. Segundo uma crença da região, uma
gravidez poderia curá-la. Com essa finalidade, Haia
– esse o nome de batismo de Clarice – foi
concebida. Mas não deu certo.
1922- A família chega a Maceió em março desse ano embora
Clarice tenha declarado em algumas ocasiões que os Lispectors
desembarcado na capital alagoana quando ela contava dois meses
idade. Aqui eles adotariam novos nomes. À exceção de Tania, todos,
por iniciativa de Pinkouss, mudariam de “identidade”
Pedro Lispector passa a trabalhar com Rabin: primeiro, como
mascate, vendendo mercadorias que o concunhado financiava, e,
tarde, na fábrica de sabão que o parente criaria contando com a
que o pai de Clarice aprendera durante sua viagem de exílio.
1925- A família muda-se de Alagoas para
Pernambuco – Pedro, descontente com os
negócios em Maceió, tenta construir sua
independência econômica em Recife. Os
Lispectors vão viver no bairro da Boa Vista,
habitado pela comunidade judaica, que incluía
tios e primos do lado materno.
O casarão onde Clarice
morou, na praça Maciel
Pinheiro, em Recife.
1928- Aos 7 anos, aluna da primeira série do
curso primário, aprendeu a ler. A família vive de
maneira modesta, as meninas almoçando às
vezes suco de laranja aguado e um pedaço de
pão. Mais tarde, contudo, a autora se recordaria
da infância como um período bom, em que
roubava flores e pitangas e tomava banhos de
mar em Olinda. Episódios que contará,
respectivamente, em “Cem anos de perdão”, e
“Banhos de mar”
Clarice, no jardim Derby,
veste luto pela morte da
mãe. Recife, 1930.
1930- Assiste a uma peça no teatro Santa Isabel e, inspirada,
escreve Pobre menina rica, obra em três atos, cujos originais
acaba perdendo.
Morre sua mãe, em 21 de
setembro, aos 41 anos. O corpo é
sepultado no Cemitério Israelita do
Barro, em Recife.
1931- Envia, sem sucesso, vários contos
para a seção “O ‘Diário’ das Crianças”
do Diário de Pernambuco, e a razão para os
escritos não serem publicados é uma só,
conforme afirmará mais tarde: suas
histórias não falavam de “fatos”, mas de
“sensações”.
1932- Frequenta a livraria Imperatriz, cujo dono era
Jacó Berenstein, divulgador de cultura e dono
também de uma biblioteca particular. Entre as
leituras de Clarice, então, encontram-se Reinações
de Narizinho, de Monteiro Lobato, que pedira
emprestado a Reveca, sua colega de escola e filha
de Jacó — não sem antes ter de insistir muito para
obter a obra, episódio que será narrado no conto
“Felicidade clandestina”.
1933- Mudam-se para casa própria.
1935- Viaja para o Rio com o pai e a
irmã Tania. Elisa, compromissada
com o trabalho, iria depois.
1936- Nesse período, passa a ler livros
selecionados segundo os títulos, numa
biblioteca de aluguel do seu bairro entre eles, O
lobo da estepe, de Hermann Hesse, que
escolheu pensando ser romance de aventuras e
que a impressiona muito. Inspirada pela obra,
escreve um conto cuja história não acaba nunca
e que mais tarde ela destruiria. Lê também
Julien Green e Dostoiévski, além de autores da
literatura portuguesa, como Júlio Dinis e Eça de
Queiroz, e dos brasileiros, como Machado de
Assis, José de Alencar, Graciliano Ramos, Jorge
Amado e Rachel de Queiroz.
Foto de formatura do curso
ginasial do colégio Sílvio
Leite, em 1936.
1937- Objetivando o ingresso na Faculdade Nacional de Direito da
Universidade do Brasil, começa o curso complementar. Paralelamente
aos estudos, dá aulas particulares de matemática e português,
aprende datilografia e frequenta a Cultura Inglesa.
Nesse mesmo ano, morre seu pai, no dia
26 de agosto, a escritora — talvez motivada por
esse acontecimento — escreve diversos contos: A
fuga, História interrompida e O delírio. Esses
contos serão publicados postumamente em A
bela e a fera, de 1979. Passa a morar com a irmã
Tania, já casada.
1939- Começa o curso superior na Faculdade Nacional de
Direito. Começa o curso superior na Faculdade Nacional de Direito.
1940-Em 25 de maio, sai no semanário Pan, dirigido pelo escritor
Tasso da Silveira, o conto “Triunfo”. A narrativa traz temas que serão
recorrentes na ficção de Clarice: as dificuldades do relacionamento
amoroso, relatadas a partir das sensações de uma mulher que,
abandonada pelo marido, em sua solidão descobre a força interior.
Ainda em 1940, consegue um emprego de
tradutora no temido Departamento de
Imprensa e Propaganda – DIP. Como não
havia vaga para esse trabalho, Clarice ganha
o lugar de redatora e repórter da Agência
Nacional. Inicia-se, ai, sua carreira de
jornalista. No novo emprego, convive com
Antonio Callado, Francisco de Assis Barbosa,
José Condé e, também, com Lúcio Cardoso,
por quem nutre durante tempos uma paixão
não correspondida: o escritor era
homossexual. Com seu primeiro salário,
entra numa livraria e compra "Bliss -
Felicidade", de Katherine Mansfield, com
tradução de Erico Verissimo, pois sentiu
afinidade com a escritora.
Lúcio Cardoso
1941- Além de textos jornalísticos, continua a publicar textos literários.
Cursando o terceiro ano de direito, colabora com a revista dos
estudantes de sua faculdade, "A Época", com os artigos Observações
sobre o fundamento do direito de punir e Deve a mulher
trabalhar? Passa a frequentar o bar "Recreio", na Cinelândia, centro
do Rio de Janeiro, ponto de encontro de autores como Lúcio Cardoso,
Vinicius de Moraes, Rachel de Queiroz, Otávio de Faria, e outros.
1942- Começa a namorar com Maury Gurgel
Valente, seu colega de faculdade. Com 22 anos de
idade, recebe seu primeiro registro profissional,
como redatora do jornal "A Noite". Lê Drummond,
Cecília Meireles, Fernando Pessoa e Manuel
Bandeira. Realiza cursos de antropologia brasileira
e psicologia, na Casa do Estudante do Brasil. Nesse
ano, escreve seu primeiro romance, Perto do
coração selvagem.
Capa da primeira edição do romance Perto do coração selvagem
1943- Casa-se com o colega de faculdade
Maury Gurgel Valente e termina o curso de
Direito. Seu marido, por concurso, ingressa na
carreira diplomática.
1944- Muda-se para Belém do Pará (PA),
acompanhando seu marido. Fica por lá apenas
seis meses. Seu livro recebe críticas favoráveis de
Breno Accioly, Dinah Silveira de Queiroz, Lauro
Escorel, Lúcio Cardoso, Antônio Cândido e Ledo
Ivo, entre outros. Álvaro Lins publica resenha com
reparos ao livro mesmo antes de sua publicação,
baseado na leitura dos originais. Qualifica o livro
de "experiência incompleta".
Ainda em 1944, 13 de julho, o casal volta ao Rio e, muda-se
para Nápoles, em plena Segunda Guerra Mundial, onde o marido da
escritora vai trabalhar. Já na saída do Brasil, Clarice mostra-se
dividida entre a obrigação de acompanhar o marido e ter de deixar a
família e os amigos. Quando chega à Itália, depois de um mês de
viagem, escreve: "Na verdade não sei escrever cartas sobre viagens,
na verdade nem mesmo sei viajar." Termina seu segundo romance, O
lustre. Recebe o prêmio Graça Aranha com Perto do coração
selvagem, considerado o melhor romance de 1943. Conhece Rubem
Braga, então correspondente de guerra do jornal "Diário Carioca".
Clarice com oficiais da Força Expedicionária
Brasileira em Nápoles. Década de 1940.
1945- Dá assistência a brasileiros feridos na guerra,
trabalhando em hospital americano. O pintor italiano
Giorgio De Chirico pinta-lhe um retrato. Viaja pela
Europa e conhece o poeta Giuseppe Ungaretti.
Clarice e Maury em Veneza.
Viaja pela Itália vai a Florença,
Veneza e de novo a Roma e
também visita Córdoba, na
Espanha.
Também em dezembro,
no Brasil, a Livraria Agir
Editora fundada no ano
anterior, entre outros,
pelo crítico literário
Alceu Amoroso Lima,
que acompanhava
atentamente a produção
de Clarice Lispector
publica O lustre.
1946- Após o lançamento do livro, Clarice vem ao Brasil como correio
diplomático do Ministério das Relações Exteriores, aqui ficando por
quase três meses. Nessa época, apresentada por Rubem Braga,
conhece Fernando Sabino que a introduz a Otto Lara Resende, Paulo
Mendes Campos e, posteriormente, a Hélio Pellegrino. De volta à
Europa, vai morar em Berna, Suíça, para onde seu marido havia sido
designado como segundo-secretário.
Sua correspondência com amigos
brasileiros a mantinha a par das
novidades, em especial as trocadas
com Fernando Sabino. Publica no
suplemento “Letras e Artes” do
jornal carioca A Manhã, os contos
“O crime” (25 de agosto) e “O
jantar” (13 de outubro). A convite,
passam as festas de fim de ano
com Bluma e Samuel Wainer, em
Paris.
Fernando Sabino e
sua mulher, Helena
Valadares Sabino.
Da esquerda para
direita: Hélio Pellegrino,
Otto Lara Resende e
Paulo Mendes Campos
1947- Em carta às irmãs, em janeiro de 47, de Paris, Clarice expõe seu
estado de inadaptação: "Tenho visto pessoas demais, falado demais,
dito mentiras, tenho sido muito gentil. Quem está se divertindo é uma
mulher que eu detesto, uma mulher que não é a irmã de vocês. É
qualquer uma." Em carta a Lúcio Cardoso, que havia lhe enviado seu
livro "Anfiteatro", demonstra sua admiração pelas personagens
femininas da obra.
Clarice e o filho Pedro com 1 mês
e 11 dias. Berna, 10.9.1948.
1948- Para ela, a vida em Berna é de miséria
existencial. A Cidade Sitiada, após três anos
de trabalho, fica pronto. Terminado o último
capítulo, dá à luz. Nasce seu primeiro filho.
Ela escreve com a máquina no colo, para
cuidar do filho. Na crônica "Lembrança de
uma fonte, de uma cidade", Clarice afirma
que, em Berna, sua vida foi salva por causa
do nascimento do filho Pedro e por ter
escrito um dos livros "menos gostados" (a
editora Agir recusara a publicação).
1949- Clarice volta ao Rio. Seu marido é removido para a Secretaria de
Estado, no Rio de Janeiro. A cidade sitiada é publicado pela editora "A
Noite". O livro não obtém grande repercussão entre o público e a
crítica.
1950- Escrevendo contos e
convivendo com os amigos (Sabino,
Otto, Lúcio e Paulo M. Campos), vê
chegar a hora de partir: seguindo
os passos de seu marido, retorna à
Europa, onde mora por seis meses
na cidade de Torquay, Inglaterra.
Sofre um aborto espontâneo em
Londres.
1951- A escritora retorna ao Rio de Janeiro, em março. Publica uma
seleta com seis contos na coleção "Cadernos de cultura", editada pelo
Ministério da Educação e Saúde. Falece sua grande amiga Bluma, ex-
esposa de Samuel Wainer.
1952- Cola grau na faculdade de direito, depois de muitos
adiamentos. Volta a trabalhar em jornais, no período de maio a
outubro, assinando a página "Entre Mulheres", no jornal "Comício",
sob o pseudônimo de "Tereza Quadros". Atendeu a um pedido do
amigo Rubem Braga, um dos fundadores do jornal. Nesse setembro,
já grávida, embarca para a capital americana onde permanecerá por
oito anos. Clarice inicia o esboço do romance A veia no pulso, que
viria a ser A Maçã no Escuro, livro publicado em 1961.
Da esquerda para direita:
Tania, Clarice e Elisa. Rio de
Janeiro, set. 1952. Rubem Braga
1953- Em 10 de fevereiro, nasce Paulo, seu segundo filho. Ela continua
a escrever A Maçã no Escuro, em meio a conflitos domésticos e
interiores. Mãe, Clarice Lispector divide seu tempo entre os filhos, A
Maçã no Escuro, os contos de Laços de Família e a literatura infantil.
Nos Estados Unidos, Clarice conhece o renomado escritor Erico
Veríssimo e sua esposa Mafalda, dos quais torna-se grande amiga. O
escritor gaúcho e sua esposa são escolhidos para padrinhos de Paulo.
Não tem sucesso seu projeto de escrever uma crônica semanal para a
revista "Manchete". Tem a agradável notícia de que seu romance Perto
do coração selvagem seria traduzido para o francês.
Clarice e o filho Paulo com 5meses.
Clarice com os
filhos e o casal
Verissimo.
Washington, mar.
1955.
1954- É lançada a primeira edição francesa de Perto do
coração selvagem, pela Editora Plon, com capa de
Henri Matisse, após inúmeras reclamações da escritora
sobre erros na tradução. Em julho, com os filhos, viaja
para o Brasil, aqui ficando até setembro. De volta aos
Estados Unidos, interrompe a elaboração de A maçã no
escuro e se dedica, por cinco meses, a escrever seis
contos encomendados por Simeão Leal.
1955- Retorna a escrever o novo romance e contos. Sabino, que leu os
seis contos feitos sob encomenda, os considera "obras de arte".
1956- Termina de escrever A Maçã no Escuro (até então com o título
de A veia no pulso). Erico Veríssimo e esposa aceitam ser os padrinhos
dos filhos de Clarice e retornam ao Brasil. Entre os escritores, inicia-se
uma vasta correspondência. A escritora e filhos vêm passar as férias no
Brasil. A escritora dá sinais de sua indisposição para com o tipo de vida
que leva ao lado do marido.
1957- Rompe unilateralmente o contrato com Simeão Leal e autoriza
Sabino e Braga a encaminharem seus contos — nessa altura em
número de quinze — para serem publicados no "Suplemento Cultural"
do jornal "O Estado de São Paulo". Seu casamento vive momentos de
tensão.
1958- Conhece e se torna amiga da pintora
Maria Bonomi. É convidada a colaborar
com a revista "Senhor", prevista para ser
lançada no início do ano seguinte. Erico
Verissimo escreve informando estar
autorizado a editar seu romance e,
também, seus contos pela Editora Globo,
de Porto Alegre. 1.000 exemplares — dos
mais de 1.700 remanescentes — de "Près
du coeur sauvage" são incinerados, por
falta de espaço de armazenamento. O
casamento de Clarice dá sinais de seu final.
1959- Separa-se do marido e, em junho, regressa ao Brasil com seus
filhos. Seu livro continua inédito. A escritora resolve comprar o
apartamento onde está residindo, no bairro do Leme, e, para isso,
busca aumentar seus ganhos. Sob o pseudônimo de "Helen Palmer",
inicia, em agosto, uma coluna no jornal "Correio da Manhã", intitulada
"Correio feminino — Feira de utilidades".
1960- Publica, finalmente, Laços de Família, seu primeiro livro de
contos, pela editora Francisco Alves. Começa a assinar a coluna "Só para
Mulheres", como "ghost-writer" da atriz Ilka Soares, no "Diário da
Noite", a convite do jornalista Alberto Dines. Assina, com a Francisco
Alves, novo contrato para a publicação de A maçã no escuro. Torna-se
amiga da escritora Nélida Piñon.
1961- Em 10 de fevereiro, encerra-se a coluna “Feira de utilidades”
do Correio da Manhã. O mesmo ocorre com a página de Ilka Soares,
que se extingue, com o Diário da Noite, em março.
Em julho, A maçã no escuro é lançado com sessão de
autógrafos na abertura do II Festival do Escritor Brasileiro, em um
centro comercial de Copacabana, atraindo um grande público, curioso
pelo retorno de Clarice Lispector ao romance.
Tom Jobim, compositor já
conhecido, “apadrinhava” o
estande da autora,
apregoando o romance e
impulsionando as vendas
que foram bem, apesar do
preço do volume,
considerado alto para a
época: 9,90 cruzeiros.
Recebe o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do
Livro, por Laços de família.
Capa da primeira
edição do romance
A maçã no escuro
1962- Passa a assinar a coluna "Children's
Corner", da seção "Sr. & Cia.", onde publica
contos e crônicas. Visita, com os filhos, seu
ex-marido que se encontra na Polônia.
Recebe o prêmio Carmen Dolores Barbosa
(oferecido pela senhora paulistana de mesmo
nome), por A maçã no escuro, considerado o
melhor livro do ano.
1963- A convite, profere no XI Congresso Bienal do Instituto
Internacional de Literatura Ibero-Americana, realizado em Austin -
Texas, conferência sobre o tema "Literatura de vanguarda no Brasil.
Conhece Gregory Rabassa, mais tarde tradutor para o inglês de A maçã
no escuro. A paixão segundo G. H. é escrito em poucos meses, sendo
entregue à Editora do Autor, de Sabino e Braga, para publicação.
Compra um apartamento em construção no bairro do Leme.
1964- Publica o livro de contos A legião estrangeira e o
romance A Paixão Segundo G. H., ambos pela Editora
do Autor. Em dezembro, o juiz profere a sentença que
poria fim ao processo de separação de Clarice e Maury.
Capa da
primeira
edição do
romance A
paixão
segundo G.H.
Capa da
primeira edição
do livro de
contos A legião
estrangeira
Clarice e o filho Paulo no apartamento do
Leme. Década de 1960.
1965- Muda-se, em maio, para o apartamento que comprara em 1963.
A partir do aparecimento de A paixão segundo G.H., sua obra passa a
ser examinada com maior atenção pela crítica sensível às questões da
filosofia. Nesse âmbito, são publicados, por exemplo, ensaios de
Benedito Nunes – “A náusea em Clarice Lispector” e José Américo
Motta Pessanha – “Itinerário da paixão” sobre os romances publicados
até 1964. É encenado, no teatro Maison de France, no Rio de Janeiro, o
primeiro espetáculo teatral baseado em textos de Clarice Lispector.
Dedica-se à educação dos filhos e com
a saúde de Pedro, que apresenta um
quadro de esquizofrenia, exigindo
cuidados especiais. Apesar de
traduzida para diversos idiomas e da
republicação de diversos livros, a
situação financeira de Clarice é muito
difícil.
1966- Na madrugada de 14 de setembro a escritora dorme com um
cigarro aceso , provocando um incêndio. Seu quarto ficou totalmente
destruído. Com inúmeras queimaduras pelo corpo, passou três dias
sob o risco de morte — e dois meses hospitalizada. Quase tem sua
mão direita — a mais afetada — amputada pelos médicos. O acidente
mudaria em definitivo a vida de Clarice.
1967- As inúmeras e profundas cicatrizes fazem
com que a escritora caia em depressão, apesar de
todo o apoio recebido de seus amigos. Não foi só
um ano de acontecimentos ruins. Começa a
publicar em agosto — a convite de Dines —
crônicas no "Jornal do Brasil", trabalho que
mantém por seis anos. Lança o livro infantil O
mistério do coelho pensante, pela José Álvaro
Editor. Em dezembro, passa a integrar o Conselho
Consultivo do Instituto Nacional do Livro.
1968- Em maio, o livro O mistério do
coelho pensante é agraciado com a
"Ordem do Calunga", concedido pela
Campanha Nacional da Criança.
Entrevista personalidades para a revista
"Manchete" na seção "Diálogos possíveis
com Clarice Lispector". Participa da
manifestação contra a ditadura militar,
em junho, chamada "Passeata dos 100
mil". Morrem seus amigos e escritores
Lúcio Cardoso e Sérgio Porto (Stanislaw
Ponte Preta). É nomeada assistente de
administração do Estado. Profere
palestras na Universidade Federal de
Minas Gerais e na Livraria do Estudante,
em Belo Horizonte. Publica A mulher que
matou os peixes, outro livro infantil,
ilustrado por Carlos Scliar.
Clarice em passeata contra a
ditadura militar. À sua direira,
Carlos Scliar; à sua esquerda,
Oscar Niemeyer, Glauce Rocha,
Ziraldo e Milton Nascimento. Rio
de Janeiro, 22.6.1968.
1969- Publica seu "hino ao amor": Uma aprendizagem ou O livro dos
prazeres, pela Editora Sabiá. O romance ganha o prêmio "Golfinho de
Ouro", do Museu da Imagem e do Som. Viaja à Bahia onde entrevista
para a "Manchete" o escritor Jorge Amado e os artistas Mário Cravo e
Genaro. Em 14/08 é aposentada pelo INPS - Instituto Nacional de
Previdência Social. Seu filho Paulo, mora nos Estados Unidos desde
janeiro, num programa de intercâmbio cultural. O filho Pedro, em
tratamento psiquiátrico, esteve internado por um mês, em junho.
1970- Começa a escrever um novo romance, com o título provisório
de Atrás do pensamento: monólogo com a vida. Mais adiante, é
chamado Objeto gritante. Foi lançado com o título definitivo de Água
viva.
Conhece Olga Borelli. Clarice lhe
escreveu uma carta singular, datada de
11 de dezembro: “Eu achei, sim, uma
nova amiga. Mas você sai perdendo.
[…] Você me quer como amiga mesmo
assim? Se quer, não me diga que não
lhe avisei. […] Quando eu morrer
(modo de dizer), espero que você
esteja perto. Você me pareceu uma
pessoa de enorme sensibilidade, mas
forte”. Olga aceitou prontamente,
criando-se, então, uma sólida amizade,
que permearia os sete últimos anos de
vida da ficcionista.
Clarice, descontraída autografa
livros seus, entre José Mário
Rodrigues e Olga Borelli
1971- Publica a coletânea de contos Felicidade
clandestina, volume que inclui O ovo e a
galinha. Há, também, um conjunto de escritos
em que rememora a infância em Recife. Dez
de seus contos já publicados constam de
"Elenco de cronistas modernos", lançado pela
Editora Sabiá.
1972- Retoma a revisão de Atrás do
pensamento, com o qual não estava satisfeita.
Faz inúmeras alterações no texto e passa a
chamá-lo Objeto gritante. Repensando o
romance, procura distrair-se. Durante um mês
posa para o pintor Carlos Scliar, em Cabo Frio
(RJ).
1973- Publica o romance Água
viva, após três anos de elaboração,
pela Editora Artenova, que lançaria
também, nesse ano, A imitação da
rosa, quinze contos já publicados
anteriormente em outras
coletâneas. Alberto Dines, em carta
à escritora, diz sobre Água viva:
"[...] É menos um livro-carta e,
muito mais, um livro música. Acho
que você escreveu uma
sinfonia". Em setembro viaja à
Europa com a amiga Olga
Borelli. Clarice deixa de colaborar
com o "Jornal do Brasil", face à
demissão de Alberto Dines, no mês
de dezembro.
Capa da primeira edição do
romance Água viva (Rio de
Janeiro: Artenova, 1973).
1974- Para manter seu nível de renda, aumenta sua
atividade como tradutora. Verte, entre outros, "O
retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde, adaptado
para o público juvenil, pela Ediouro. Publica, pela José
Olympio Editora, outro livro infantil, A vida íntima de
Laura e dois livros de contos, pela Artenova: A via
crucis do corpo e Onde estivestes de noite.
Ainda nesse mesmo ano, seu cão, Ulisses,
lhe morde o rosto, fazendo com que se submeta a
cirurgia plástica reparadora reparadora realizada
por seu amigo Dr. Ivo Pitanguy. Lê, em Brasília
(DF), a convite da Fundação Cultural do Distrito
Federal, a conferência "Literatura de vanguarda no
Brasil", que já apresentara no Texas. Seu filho,
Paulo, vai morar sozinho, em um apartamento
próximo ao da escritora. Pedro vai morar com o
pai, em Montevidéu — Uruguai.
1975- Tendo como companheira de viagem a amiga Olga Borelli,
participa do I Congresso Mundial de Bruxaria, em Bogotá, Colômbia. No
dia de sua apresentação sente-se indisposta e pede a alguém que leia o
conto O ovo e a galinha, não apresentando a fala sobre a magia que
havia preparado para a introdução da leitura. Muito embora
minimizada, essa participação tem muito a ver com as palavras ditas por
Otto Lara Resende a José Castello: "Você deve tomar cuidado com
Clarice. Não se trata de literatura, mas de bruxaria." Otto se baseava
em estudos feitos por Claire Varin, professora de literatura canadense
que escreveu dois livros sobre a biografada. Segundo ela, só é possível
ler Clarice tomando seu lugar — sendo Clarice. "Não há outro
caminho", ela garante.
Também em 1975 traduz romances, como
"Luzes acesas", de Bella Chagall, "A
rendeira", de Pascal Lainé, e livros policiais
de Agatha Christie. Ao longo da década,
faz adaptações de obras de Julio Verne,
Edgar Allan Poe e outros. Lança Visão do
esplendor, com trabalhos já publicados.
Publica De corpo inteiro, com algumas
entrevistas que fizera anteriormente para
revistas cariocas. É muito elogiada quando
visita Belo Horizonte, fato que a deixa
contrariada. Passa a dedicar-se à pintura.
Morre, dia 28 de novembro, seu grande
amigo e compadre Erico Verissimo. Reúne
trabalhos de Andréa Azulay num volume
artesanal ilustrado por Sérgio Mata,
intitulado "Meus primeiros contos".
Andréa tinha, então, dez anos de idade.
Óleo sobre tela de Clarice, sem
título.
1976 - Seu filho Paulo casa-se com Ilana Kauffmann. Participa, em
Buenos Aires, Argentina, da Segunda Exposición -onde recebe muitas
homenagens. É agraciada, em abril, com o prêmio concedido
pela Fundação Cultural do Distrito Federal, pelo conjunto de sua obra.
Grava depoimento no Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro,
em outubro, conduzido por Affonso Romano de Sant'Anna, Marina
Colasanti. Em maio, corre o boato de que a escritora não mais
receberia jornalistas. José Castello, biógrafo e escritor, mesmo assim
telefona e consegue, com muito esforço, uma entrevista.
Enquanto escreve A hora da estrela com a ajuda da amiga Olga, toma
notas para o novo romance, Um sopro de vida. Revê Recife e visita
parentes.
Anotações de Clarice para um
diálogo entre Macabéa e
Glória, personagens da novela
A hora da estrela.
1977- A revista "Fatos e Fotos Gente"
publica, em janeiro, entrevista feita
pela escritora com Mário Soares,
primeiro-ministro de Portugal. O
jornal "Última Hora" passa a publicar,
a partir de fevereiro, semanalmente,
as suas crônicas. Ainda nesse mês, é
entrevistada pelo jornalista Júlio
Lerner para o programa "Panorama
Especial", TV Cultura de São Paulo,
com o compromisso de só ser
transmitida após a sua morte.
Escreve um livro para crianças,
que seria publicado em 1978,
sob o título Quase de
verdade. Escreve, ainda, doze
histórias infantis para o
calendário de 1978 da fábrica
de brinquedos "Estrela",
intitulado Como nasceram as
estrelas.
Nesse mesmo ano, parte, ao lado de Olga Borelli, em viagem de
passeio para a Europa. Prevendo ficar um mês na França, regressam
depois de uma semana, no dia 24 de junho, com Clarice angustiada e
aflita. Publica A hora da estrela, em volume editado pela José
Olympio.
Após 27 entrevistas, publica, em 17 de outubro, sua última colaboração
para a Fatos e Fotos Gente.
Sofre com uma súbita obstrução intestinal, de origem
desconhecida, sendo internada na Casa de Saúde São Sebastião, no
Catete. Em 28 de outubro, é submetida a cirurgia, na qual se detecta
a causa do problema: um adenocarcinoma de ovário, irreversível. O
câncer deixava a Clarice Lispector poucos meses de vida. No dia 17 de
novembro, foi transferida para o Hospital da Lagoa onde, apesar de ser
público, ficou em um quarto individual. Todo o tratamento aplicado
era de cunho paliativo: nem químio nem radioterapia serviriam a
Clarice com a doença tão avançada e que não foi revelada à paciente.
MORTE DE CLARICE LISPECTOR
Morre no dia 9 de dezembro véspera de seu
aniversário às 10h30min. Era sexta-feira e, em
observância às leis judaicas quanto ao shabat,
não pode ser sepultada. O enterro, no
Cemitério Comunal Israelita, no bairro carioca
do Caju, aconteceu, então, no dia 11, domingo.
Em 28 de dezembro, às 20h30, a TV Cultura leva ao ar a
entrevista de Clarice Lispector, atendendo solicitação da escritora,
que, no final daquele encontro, pedira ao entrevistador que o
programa só fosse transmitido postumamente.
“Clarice veio de um mistério, partiu para
outro, ficamos sem saber a essência do mistério ou
o mistério não era essencial. Essencial era Clarice
vagando nele.”
Drummond
1978- Três livros póstumos são publicados: o
romance Um sopro de vida — Pulsações, pela Nova
Fronteira, a partir de fragmentos em parte reunidos
por Olga Borelli; o de crônicas Para não esquecer, e
o infantil, Quase de verdade, em volume
autônomo, pela Ática. A hora da estrela é agraciada
com o prêmio Jabuti de "Melhor Romance". A
paixão sendo G. H. é publicada na França, com
tradução de Claude Farny.
1979- É publicado A bela e a fera, pela Nova
Fronteira, contendo contos publicados
esparsamente em jornais e revistas. Estreia,
no teatro Ruth Escobar, em São Paulo, Um
sopro de vida, baseado em livro de mesmo
nome.
1981- "Clarice Lispector —
Esboço para um retrato", de
Olga Borelli, é lançado pela
Nova Fronteira.
1984- Reunindo a quase totalidade
de crônicas publicadas no Jornal
do Brasil, no período de 1967 a
1973, é lançado "A descoberta do
mundo", organização de Paulo
Gurgel Valente, filho da autora.
1985- A hora da estrela recebe dois prêmios na 36ª edição do Festival
de Berlim: da Confederação Internacional de Cineclubes — Cicae, e da
Organização Católica Internacional do Cinema e do Audiovisual — Ocic.
O longa-metragem de mesmo nome, dirigido por Suzana Amaral, com
roteiro de Alfredo Oros também é premiado: Marcélia Cartaxo recebe o
Urso de Prata de "Melhor Atriz".
1987- Os 10 anos da morte da escritora são lembrados com diversas
homenagens em sua memória. É aberto ao público o conjunto de
documentos que viria a constituir o Arquivo Clarice Lispector do
Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa -
FCRB, no Rio de Janeiro, constituído de documentos doados por
Paulo Gurgel Valente.
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que se conta, Nádia
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Especial Clarice Lispector

  • 1. Clarice aborda o imprevisto que rompe o rotineiro. Clarice Lispector, década de 1960 ESPECIAL CLARICE LISPECTOR (1920-1977) “O seu nome judeu é Chaya, que significa ‘Vida’. Clarice Lispector irá certamente continuar a viver.”
  • 2. Segundo Affonso Romano de Sant’Anna, as obras de Clarice, em geral, percorrem quatro etapas: 1. Personagem disposta em determinada situação cotidiana 2. Prepara-se um evento que é pressentido discretamente pela personagem. 3. Ocorre o evento que “ilumina” (epifania) a vida da personagem. 4. Ocorre o desfecho em que a vida da personagem é revista.
  • 3. O livro se divide em três segmentos. O primeiro, “Com Clarice”, é uma sensível introdução à obra, com dois textos nos quais os amigos relembram carinhosamente facetas de seu convívio com a escritora. “De Ma- rina para Clarice” e “De Affonso para Clarice”, segunda e terceira partes, compõem-se de diversas crônicas sobre a escritora produzidas ao longo das últimas décadas, além de três ensaios de caráter analítico sobre textos centrais de sua obra, como A maçã no escuro e A paixão segundo G.H. Marina Colasanti e Affonso Romano de Sant’Anna esboçam aqui um retrato sensível da amiga Clarice Lispector.
  • 4. Nasce, a 10 de dezembro, em Tchetchelnik, uma aldeia da Ucrânia, então pertencente à Rússia, Haia Lispector, terceira filha do comerciante Pinkouss e de Mania Lispector. O casal já tinha duas outras meninas: Leia, de 9 anos, e Tania, de 5. O nascimento ocorre durante viagem de emigração da família em direção à América – os pais, judeus, resolveram vir para o Brasil para a fim de escapar das consequências da Revolução de 1917 e da Primeira Guerra Mundial. Clarice Lispector 1920-1977
  • 5. A família Lispector. Da esquerda para direita: Mania, Clarice e Pinkouss (sentados); Elisa e Tania (em pé). Recife, década de 1920. Aqui eles adotaram novos nomes. À exceção de Tania, todos, por iniciativa de Pinkouss, mudaram de “identidade”: o pai se tornou Pedro; Mania, Marieta; Leia se transformou em Elisa; e Haia ( Chaya)– que significa vida, ou clara –, em Clarice.
  • 6. A mãe requer cuidados especiais porque sofre de paralisia progressiva. Com base em pesquisa, o autor, Benjamin Moser, formulou uma tese: a de que Clarice sentia-se predestinada a salvar a mãe da doença adquirida (sífilis) durante a violência na Ucrânia. O peso dessa falha ecoaria ao longo de toda sua vida e obra. Para o autor, compreender a dor de Clarice como filha e como mãe ajuda a entender a escritora. Sua mãe, Mania, teria contraído sífilis – na época sem cura, depois de ter sido estuprada por soldados russos. Segundo uma crença da região, uma gravidez poderia curá-la. Com essa finalidade, Haia – esse o nome de batismo de Clarice – foi concebida. Mas não deu certo.
  • 7. 1922- A família chega a Maceió em março desse ano embora Clarice tenha declarado em algumas ocasiões que os Lispectors desembarcado na capital alagoana quando ela contava dois meses idade. Aqui eles adotariam novos nomes. À exceção de Tania, todos, por iniciativa de Pinkouss, mudariam de “identidade” Pedro Lispector passa a trabalhar com Rabin: primeiro, como mascate, vendendo mercadorias que o concunhado financiava, e, tarde, na fábrica de sabão que o parente criaria contando com a que o pai de Clarice aprendera durante sua viagem de exílio.
  • 8. 1925- A família muda-se de Alagoas para Pernambuco – Pedro, descontente com os negócios em Maceió, tenta construir sua independência econômica em Recife. Os Lispectors vão viver no bairro da Boa Vista, habitado pela comunidade judaica, que incluía tios e primos do lado materno. O casarão onde Clarice morou, na praça Maciel Pinheiro, em Recife. 1928- Aos 7 anos, aluna da primeira série do curso primário, aprendeu a ler. A família vive de maneira modesta, as meninas almoçando às vezes suco de laranja aguado e um pedaço de pão. Mais tarde, contudo, a autora se recordaria da infância como um período bom, em que roubava flores e pitangas e tomava banhos de mar em Olinda. Episódios que contará, respectivamente, em “Cem anos de perdão”, e “Banhos de mar”
  • 9. Clarice, no jardim Derby, veste luto pela morte da mãe. Recife, 1930. 1930- Assiste a uma peça no teatro Santa Isabel e, inspirada, escreve Pobre menina rica, obra em três atos, cujos originais acaba perdendo. Morre sua mãe, em 21 de setembro, aos 41 anos. O corpo é sepultado no Cemitério Israelita do Barro, em Recife. 1931- Envia, sem sucesso, vários contos para a seção “O ‘Diário’ das Crianças” do Diário de Pernambuco, e a razão para os escritos não serem publicados é uma só, conforme afirmará mais tarde: suas histórias não falavam de “fatos”, mas de “sensações”.
  • 10. 1932- Frequenta a livraria Imperatriz, cujo dono era Jacó Berenstein, divulgador de cultura e dono também de uma biblioteca particular. Entre as leituras de Clarice, então, encontram-se Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato, que pedira emprestado a Reveca, sua colega de escola e filha de Jacó — não sem antes ter de insistir muito para obter a obra, episódio que será narrado no conto “Felicidade clandestina”. 1933- Mudam-se para casa própria. 1935- Viaja para o Rio com o pai e a irmã Tania. Elisa, compromissada com o trabalho, iria depois.
  • 11. 1936- Nesse período, passa a ler livros selecionados segundo os títulos, numa biblioteca de aluguel do seu bairro entre eles, O lobo da estepe, de Hermann Hesse, que escolheu pensando ser romance de aventuras e que a impressiona muito. Inspirada pela obra, escreve um conto cuja história não acaba nunca e que mais tarde ela destruiria. Lê também Julien Green e Dostoiévski, além de autores da literatura portuguesa, como Júlio Dinis e Eça de Queiroz, e dos brasileiros, como Machado de Assis, José de Alencar, Graciliano Ramos, Jorge Amado e Rachel de Queiroz. Foto de formatura do curso ginasial do colégio Sílvio Leite, em 1936. 1937- Objetivando o ingresso na Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, começa o curso complementar. Paralelamente aos estudos, dá aulas particulares de matemática e português, aprende datilografia e frequenta a Cultura Inglesa.
  • 12. Nesse mesmo ano, morre seu pai, no dia 26 de agosto, a escritora — talvez motivada por esse acontecimento — escreve diversos contos: A fuga, História interrompida e O delírio. Esses contos serão publicados postumamente em A bela e a fera, de 1979. Passa a morar com a irmã Tania, já casada. 1939- Começa o curso superior na Faculdade Nacional de Direito. Começa o curso superior na Faculdade Nacional de Direito. 1940-Em 25 de maio, sai no semanário Pan, dirigido pelo escritor Tasso da Silveira, o conto “Triunfo”. A narrativa traz temas que serão recorrentes na ficção de Clarice: as dificuldades do relacionamento amoroso, relatadas a partir das sensações de uma mulher que, abandonada pelo marido, em sua solidão descobre a força interior.
  • 13. Ainda em 1940, consegue um emprego de tradutora no temido Departamento de Imprensa e Propaganda – DIP. Como não havia vaga para esse trabalho, Clarice ganha o lugar de redatora e repórter da Agência Nacional. Inicia-se, ai, sua carreira de jornalista. No novo emprego, convive com Antonio Callado, Francisco de Assis Barbosa, José Condé e, também, com Lúcio Cardoso, por quem nutre durante tempos uma paixão não correspondida: o escritor era homossexual. Com seu primeiro salário, entra numa livraria e compra "Bliss - Felicidade", de Katherine Mansfield, com tradução de Erico Verissimo, pois sentiu afinidade com a escritora. Lúcio Cardoso
  • 14. 1941- Além de textos jornalísticos, continua a publicar textos literários. Cursando o terceiro ano de direito, colabora com a revista dos estudantes de sua faculdade, "A Época", com os artigos Observações sobre o fundamento do direito de punir e Deve a mulher trabalhar? Passa a frequentar o bar "Recreio", na Cinelândia, centro do Rio de Janeiro, ponto de encontro de autores como Lúcio Cardoso, Vinicius de Moraes, Rachel de Queiroz, Otávio de Faria, e outros. 1942- Começa a namorar com Maury Gurgel Valente, seu colega de faculdade. Com 22 anos de idade, recebe seu primeiro registro profissional, como redatora do jornal "A Noite". Lê Drummond, Cecília Meireles, Fernando Pessoa e Manuel Bandeira. Realiza cursos de antropologia brasileira e psicologia, na Casa do Estudante do Brasil. Nesse ano, escreve seu primeiro romance, Perto do coração selvagem. Capa da primeira edição do romance Perto do coração selvagem
  • 15. 1943- Casa-se com o colega de faculdade Maury Gurgel Valente e termina o curso de Direito. Seu marido, por concurso, ingressa na carreira diplomática. 1944- Muda-se para Belém do Pará (PA), acompanhando seu marido. Fica por lá apenas seis meses. Seu livro recebe críticas favoráveis de Breno Accioly, Dinah Silveira de Queiroz, Lauro Escorel, Lúcio Cardoso, Antônio Cândido e Ledo Ivo, entre outros. Álvaro Lins publica resenha com reparos ao livro mesmo antes de sua publicação, baseado na leitura dos originais. Qualifica o livro de "experiência incompleta".
  • 16. Ainda em 1944, 13 de julho, o casal volta ao Rio e, muda-se para Nápoles, em plena Segunda Guerra Mundial, onde o marido da escritora vai trabalhar. Já na saída do Brasil, Clarice mostra-se dividida entre a obrigação de acompanhar o marido e ter de deixar a família e os amigos. Quando chega à Itália, depois de um mês de viagem, escreve: "Na verdade não sei escrever cartas sobre viagens, na verdade nem mesmo sei viajar." Termina seu segundo romance, O lustre. Recebe o prêmio Graça Aranha com Perto do coração selvagem, considerado o melhor romance de 1943. Conhece Rubem Braga, então correspondente de guerra do jornal "Diário Carioca". Clarice com oficiais da Força Expedicionária Brasileira em Nápoles. Década de 1940.
  • 17. 1945- Dá assistência a brasileiros feridos na guerra, trabalhando em hospital americano. O pintor italiano Giorgio De Chirico pinta-lhe um retrato. Viaja pela Europa e conhece o poeta Giuseppe Ungaretti. Clarice e Maury em Veneza. Viaja pela Itália vai a Florença, Veneza e de novo a Roma e também visita Córdoba, na Espanha. Também em dezembro, no Brasil, a Livraria Agir Editora fundada no ano anterior, entre outros, pelo crítico literário Alceu Amoroso Lima, que acompanhava atentamente a produção de Clarice Lispector publica O lustre.
  • 18. 1946- Após o lançamento do livro, Clarice vem ao Brasil como correio diplomático do Ministério das Relações Exteriores, aqui ficando por quase três meses. Nessa época, apresentada por Rubem Braga, conhece Fernando Sabino que a introduz a Otto Lara Resende, Paulo Mendes Campos e, posteriormente, a Hélio Pellegrino. De volta à Europa, vai morar em Berna, Suíça, para onde seu marido havia sido designado como segundo-secretário. Sua correspondência com amigos brasileiros a mantinha a par das novidades, em especial as trocadas com Fernando Sabino. Publica no suplemento “Letras e Artes” do jornal carioca A Manhã, os contos “O crime” (25 de agosto) e “O jantar” (13 de outubro). A convite, passam as festas de fim de ano com Bluma e Samuel Wainer, em Paris. Fernando Sabino e sua mulher, Helena Valadares Sabino. Da esquerda para direita: Hélio Pellegrino, Otto Lara Resende e Paulo Mendes Campos
  • 19. 1947- Em carta às irmãs, em janeiro de 47, de Paris, Clarice expõe seu estado de inadaptação: "Tenho visto pessoas demais, falado demais, dito mentiras, tenho sido muito gentil. Quem está se divertindo é uma mulher que eu detesto, uma mulher que não é a irmã de vocês. É qualquer uma." Em carta a Lúcio Cardoso, que havia lhe enviado seu livro "Anfiteatro", demonstra sua admiração pelas personagens femininas da obra. Clarice e o filho Pedro com 1 mês e 11 dias. Berna, 10.9.1948. 1948- Para ela, a vida em Berna é de miséria existencial. A Cidade Sitiada, após três anos de trabalho, fica pronto. Terminado o último capítulo, dá à luz. Nasce seu primeiro filho. Ela escreve com a máquina no colo, para cuidar do filho. Na crônica "Lembrança de uma fonte, de uma cidade", Clarice afirma que, em Berna, sua vida foi salva por causa do nascimento do filho Pedro e por ter escrito um dos livros "menos gostados" (a editora Agir recusara a publicação).
  • 20. 1949- Clarice volta ao Rio. Seu marido é removido para a Secretaria de Estado, no Rio de Janeiro. A cidade sitiada é publicado pela editora "A Noite". O livro não obtém grande repercussão entre o público e a crítica. 1950- Escrevendo contos e convivendo com os amigos (Sabino, Otto, Lúcio e Paulo M. Campos), vê chegar a hora de partir: seguindo os passos de seu marido, retorna à Europa, onde mora por seis meses na cidade de Torquay, Inglaterra. Sofre um aborto espontâneo em Londres. 1951- A escritora retorna ao Rio de Janeiro, em março. Publica uma seleta com seis contos na coleção "Cadernos de cultura", editada pelo Ministério da Educação e Saúde. Falece sua grande amiga Bluma, ex- esposa de Samuel Wainer.
  • 21. 1952- Cola grau na faculdade de direito, depois de muitos adiamentos. Volta a trabalhar em jornais, no período de maio a outubro, assinando a página "Entre Mulheres", no jornal "Comício", sob o pseudônimo de "Tereza Quadros". Atendeu a um pedido do amigo Rubem Braga, um dos fundadores do jornal. Nesse setembro, já grávida, embarca para a capital americana onde permanecerá por oito anos. Clarice inicia o esboço do romance A veia no pulso, que viria a ser A Maçã no Escuro, livro publicado em 1961. Da esquerda para direita: Tania, Clarice e Elisa. Rio de Janeiro, set. 1952. Rubem Braga
  • 22. 1953- Em 10 de fevereiro, nasce Paulo, seu segundo filho. Ela continua a escrever A Maçã no Escuro, em meio a conflitos domésticos e interiores. Mãe, Clarice Lispector divide seu tempo entre os filhos, A Maçã no Escuro, os contos de Laços de Família e a literatura infantil. Nos Estados Unidos, Clarice conhece o renomado escritor Erico Veríssimo e sua esposa Mafalda, dos quais torna-se grande amiga. O escritor gaúcho e sua esposa são escolhidos para padrinhos de Paulo. Não tem sucesso seu projeto de escrever uma crônica semanal para a revista "Manchete". Tem a agradável notícia de que seu romance Perto do coração selvagem seria traduzido para o francês. Clarice e o filho Paulo com 5meses. Clarice com os filhos e o casal Verissimo. Washington, mar. 1955.
  • 23. 1954- É lançada a primeira edição francesa de Perto do coração selvagem, pela Editora Plon, com capa de Henri Matisse, após inúmeras reclamações da escritora sobre erros na tradução. Em julho, com os filhos, viaja para o Brasil, aqui ficando até setembro. De volta aos Estados Unidos, interrompe a elaboração de A maçã no escuro e se dedica, por cinco meses, a escrever seis contos encomendados por Simeão Leal. 1955- Retorna a escrever o novo romance e contos. Sabino, que leu os seis contos feitos sob encomenda, os considera "obras de arte". 1956- Termina de escrever A Maçã no Escuro (até então com o título de A veia no pulso). Erico Veríssimo e esposa aceitam ser os padrinhos dos filhos de Clarice e retornam ao Brasil. Entre os escritores, inicia-se uma vasta correspondência. A escritora e filhos vêm passar as férias no Brasil. A escritora dá sinais de sua indisposição para com o tipo de vida que leva ao lado do marido.
  • 24. 1957- Rompe unilateralmente o contrato com Simeão Leal e autoriza Sabino e Braga a encaminharem seus contos — nessa altura em número de quinze — para serem publicados no "Suplemento Cultural" do jornal "O Estado de São Paulo". Seu casamento vive momentos de tensão. 1958- Conhece e se torna amiga da pintora Maria Bonomi. É convidada a colaborar com a revista "Senhor", prevista para ser lançada no início do ano seguinte. Erico Verissimo escreve informando estar autorizado a editar seu romance e, também, seus contos pela Editora Globo, de Porto Alegre. 1.000 exemplares — dos mais de 1.700 remanescentes — de "Près du coeur sauvage" são incinerados, por falta de espaço de armazenamento. O casamento de Clarice dá sinais de seu final.
  • 25. 1959- Separa-se do marido e, em junho, regressa ao Brasil com seus filhos. Seu livro continua inédito. A escritora resolve comprar o apartamento onde está residindo, no bairro do Leme, e, para isso, busca aumentar seus ganhos. Sob o pseudônimo de "Helen Palmer", inicia, em agosto, uma coluna no jornal "Correio da Manhã", intitulada "Correio feminino — Feira de utilidades". 1960- Publica, finalmente, Laços de Família, seu primeiro livro de contos, pela editora Francisco Alves. Começa a assinar a coluna "Só para Mulheres", como "ghost-writer" da atriz Ilka Soares, no "Diário da Noite", a convite do jornalista Alberto Dines. Assina, com a Francisco Alves, novo contrato para a publicação de A maçã no escuro. Torna-se amiga da escritora Nélida Piñon.
  • 26. 1961- Em 10 de fevereiro, encerra-se a coluna “Feira de utilidades” do Correio da Manhã. O mesmo ocorre com a página de Ilka Soares, que se extingue, com o Diário da Noite, em março. Em julho, A maçã no escuro é lançado com sessão de autógrafos na abertura do II Festival do Escritor Brasileiro, em um centro comercial de Copacabana, atraindo um grande público, curioso pelo retorno de Clarice Lispector ao romance. Tom Jobim, compositor já conhecido, “apadrinhava” o estande da autora, apregoando o romance e impulsionando as vendas que foram bem, apesar do preço do volume, considerado alto para a época: 9,90 cruzeiros. Recebe o prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, por Laços de família. Capa da primeira edição do romance A maçã no escuro
  • 27. 1962- Passa a assinar a coluna "Children's Corner", da seção "Sr. & Cia.", onde publica contos e crônicas. Visita, com os filhos, seu ex-marido que se encontra na Polônia. Recebe o prêmio Carmen Dolores Barbosa (oferecido pela senhora paulistana de mesmo nome), por A maçã no escuro, considerado o melhor livro do ano. 1963- A convite, profere no XI Congresso Bienal do Instituto Internacional de Literatura Ibero-Americana, realizado em Austin - Texas, conferência sobre o tema "Literatura de vanguarda no Brasil. Conhece Gregory Rabassa, mais tarde tradutor para o inglês de A maçã no escuro. A paixão segundo G. H. é escrito em poucos meses, sendo entregue à Editora do Autor, de Sabino e Braga, para publicação. Compra um apartamento em construção no bairro do Leme.
  • 28. 1964- Publica o livro de contos A legião estrangeira e o romance A Paixão Segundo G. H., ambos pela Editora do Autor. Em dezembro, o juiz profere a sentença que poria fim ao processo de separação de Clarice e Maury. Capa da primeira edição do romance A paixão segundo G.H. Capa da primeira edição do livro de contos A legião estrangeira Clarice e o filho Paulo no apartamento do Leme. Década de 1960.
  • 29. 1965- Muda-se, em maio, para o apartamento que comprara em 1963. A partir do aparecimento de A paixão segundo G.H., sua obra passa a ser examinada com maior atenção pela crítica sensível às questões da filosofia. Nesse âmbito, são publicados, por exemplo, ensaios de Benedito Nunes – “A náusea em Clarice Lispector” e José Américo Motta Pessanha – “Itinerário da paixão” sobre os romances publicados até 1964. É encenado, no teatro Maison de France, no Rio de Janeiro, o primeiro espetáculo teatral baseado em textos de Clarice Lispector. Dedica-se à educação dos filhos e com a saúde de Pedro, que apresenta um quadro de esquizofrenia, exigindo cuidados especiais. Apesar de traduzida para diversos idiomas e da republicação de diversos livros, a situação financeira de Clarice é muito difícil.
  • 30. 1966- Na madrugada de 14 de setembro a escritora dorme com um cigarro aceso , provocando um incêndio. Seu quarto ficou totalmente destruído. Com inúmeras queimaduras pelo corpo, passou três dias sob o risco de morte — e dois meses hospitalizada. Quase tem sua mão direita — a mais afetada — amputada pelos médicos. O acidente mudaria em definitivo a vida de Clarice. 1967- As inúmeras e profundas cicatrizes fazem com que a escritora caia em depressão, apesar de todo o apoio recebido de seus amigos. Não foi só um ano de acontecimentos ruins. Começa a publicar em agosto — a convite de Dines — crônicas no "Jornal do Brasil", trabalho que mantém por seis anos. Lança o livro infantil O mistério do coelho pensante, pela José Álvaro Editor. Em dezembro, passa a integrar o Conselho Consultivo do Instituto Nacional do Livro.
  • 31. 1968- Em maio, o livro O mistério do coelho pensante é agraciado com a "Ordem do Calunga", concedido pela Campanha Nacional da Criança. Entrevista personalidades para a revista "Manchete" na seção "Diálogos possíveis com Clarice Lispector". Participa da manifestação contra a ditadura militar, em junho, chamada "Passeata dos 100 mil". Morrem seus amigos e escritores Lúcio Cardoso e Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta). É nomeada assistente de administração do Estado. Profere palestras na Universidade Federal de Minas Gerais e na Livraria do Estudante, em Belo Horizonte. Publica A mulher que matou os peixes, outro livro infantil, ilustrado por Carlos Scliar. Clarice em passeata contra a ditadura militar. À sua direira, Carlos Scliar; à sua esquerda, Oscar Niemeyer, Glauce Rocha, Ziraldo e Milton Nascimento. Rio de Janeiro, 22.6.1968.
  • 32. 1969- Publica seu "hino ao amor": Uma aprendizagem ou O livro dos prazeres, pela Editora Sabiá. O romance ganha o prêmio "Golfinho de Ouro", do Museu da Imagem e do Som. Viaja à Bahia onde entrevista para a "Manchete" o escritor Jorge Amado e os artistas Mário Cravo e Genaro. Em 14/08 é aposentada pelo INPS - Instituto Nacional de Previdência Social. Seu filho Paulo, mora nos Estados Unidos desde janeiro, num programa de intercâmbio cultural. O filho Pedro, em tratamento psiquiátrico, esteve internado por um mês, em junho.
  • 33. 1970- Começa a escrever um novo romance, com o título provisório de Atrás do pensamento: monólogo com a vida. Mais adiante, é chamado Objeto gritante. Foi lançado com o título definitivo de Água viva. Conhece Olga Borelli. Clarice lhe escreveu uma carta singular, datada de 11 de dezembro: “Eu achei, sim, uma nova amiga. Mas você sai perdendo. […] Você me quer como amiga mesmo assim? Se quer, não me diga que não lhe avisei. […] Quando eu morrer (modo de dizer), espero que você esteja perto. Você me pareceu uma pessoa de enorme sensibilidade, mas forte”. Olga aceitou prontamente, criando-se, então, uma sólida amizade, que permearia os sete últimos anos de vida da ficcionista. Clarice, descontraída autografa livros seus, entre José Mário Rodrigues e Olga Borelli
  • 34. 1971- Publica a coletânea de contos Felicidade clandestina, volume que inclui O ovo e a galinha. Há, também, um conjunto de escritos em que rememora a infância em Recife. Dez de seus contos já publicados constam de "Elenco de cronistas modernos", lançado pela Editora Sabiá. 1972- Retoma a revisão de Atrás do pensamento, com o qual não estava satisfeita. Faz inúmeras alterações no texto e passa a chamá-lo Objeto gritante. Repensando o romance, procura distrair-se. Durante um mês posa para o pintor Carlos Scliar, em Cabo Frio (RJ).
  • 35. 1973- Publica o romance Água viva, após três anos de elaboração, pela Editora Artenova, que lançaria também, nesse ano, A imitação da rosa, quinze contos já publicados anteriormente em outras coletâneas. Alberto Dines, em carta à escritora, diz sobre Água viva: "[...] É menos um livro-carta e, muito mais, um livro música. Acho que você escreveu uma sinfonia". Em setembro viaja à Europa com a amiga Olga Borelli. Clarice deixa de colaborar com o "Jornal do Brasil", face à demissão de Alberto Dines, no mês de dezembro. Capa da primeira edição do romance Água viva (Rio de Janeiro: Artenova, 1973).
  • 36. 1974- Para manter seu nível de renda, aumenta sua atividade como tradutora. Verte, entre outros, "O retrato de Dorian Gray", de Oscar Wilde, adaptado para o público juvenil, pela Ediouro. Publica, pela José Olympio Editora, outro livro infantil, A vida íntima de Laura e dois livros de contos, pela Artenova: A via crucis do corpo e Onde estivestes de noite. Ainda nesse mesmo ano, seu cão, Ulisses, lhe morde o rosto, fazendo com que se submeta a cirurgia plástica reparadora reparadora realizada por seu amigo Dr. Ivo Pitanguy. Lê, em Brasília (DF), a convite da Fundação Cultural do Distrito Federal, a conferência "Literatura de vanguarda no Brasil", que já apresentara no Texas. Seu filho, Paulo, vai morar sozinho, em um apartamento próximo ao da escritora. Pedro vai morar com o pai, em Montevidéu — Uruguai.
  • 37. 1975- Tendo como companheira de viagem a amiga Olga Borelli, participa do I Congresso Mundial de Bruxaria, em Bogotá, Colômbia. No dia de sua apresentação sente-se indisposta e pede a alguém que leia o conto O ovo e a galinha, não apresentando a fala sobre a magia que havia preparado para a introdução da leitura. Muito embora minimizada, essa participação tem muito a ver com as palavras ditas por Otto Lara Resende a José Castello: "Você deve tomar cuidado com Clarice. Não se trata de literatura, mas de bruxaria." Otto se baseava em estudos feitos por Claire Varin, professora de literatura canadense que escreveu dois livros sobre a biografada. Segundo ela, só é possível ler Clarice tomando seu lugar — sendo Clarice. "Não há outro caminho", ela garante.
  • 38. Também em 1975 traduz romances, como "Luzes acesas", de Bella Chagall, "A rendeira", de Pascal Lainé, e livros policiais de Agatha Christie. Ao longo da década, faz adaptações de obras de Julio Verne, Edgar Allan Poe e outros. Lança Visão do esplendor, com trabalhos já publicados. Publica De corpo inteiro, com algumas entrevistas que fizera anteriormente para revistas cariocas. É muito elogiada quando visita Belo Horizonte, fato que a deixa contrariada. Passa a dedicar-se à pintura. Morre, dia 28 de novembro, seu grande amigo e compadre Erico Verissimo. Reúne trabalhos de Andréa Azulay num volume artesanal ilustrado por Sérgio Mata, intitulado "Meus primeiros contos". Andréa tinha, então, dez anos de idade. Óleo sobre tela de Clarice, sem título.
  • 39. 1976 - Seu filho Paulo casa-se com Ilana Kauffmann. Participa, em Buenos Aires, Argentina, da Segunda Exposición -onde recebe muitas homenagens. É agraciada, em abril, com o prêmio concedido pela Fundação Cultural do Distrito Federal, pelo conjunto de sua obra. Grava depoimento no Museu da Imagem e do Som, no Rio de Janeiro, em outubro, conduzido por Affonso Romano de Sant'Anna, Marina Colasanti. Em maio, corre o boato de que a escritora não mais receberia jornalistas. José Castello, biógrafo e escritor, mesmo assim telefona e consegue, com muito esforço, uma entrevista. Enquanto escreve A hora da estrela com a ajuda da amiga Olga, toma notas para o novo romance, Um sopro de vida. Revê Recife e visita parentes. Anotações de Clarice para um diálogo entre Macabéa e Glória, personagens da novela A hora da estrela.
  • 40. 1977- A revista "Fatos e Fotos Gente" publica, em janeiro, entrevista feita pela escritora com Mário Soares, primeiro-ministro de Portugal. O jornal "Última Hora" passa a publicar, a partir de fevereiro, semanalmente, as suas crônicas. Ainda nesse mês, é entrevistada pelo jornalista Júlio Lerner para o programa "Panorama Especial", TV Cultura de São Paulo, com o compromisso de só ser transmitida após a sua morte. Escreve um livro para crianças, que seria publicado em 1978, sob o título Quase de verdade. Escreve, ainda, doze histórias infantis para o calendário de 1978 da fábrica de brinquedos "Estrela", intitulado Como nasceram as estrelas.
  • 41. Nesse mesmo ano, parte, ao lado de Olga Borelli, em viagem de passeio para a Europa. Prevendo ficar um mês na França, regressam depois de uma semana, no dia 24 de junho, com Clarice angustiada e aflita. Publica A hora da estrela, em volume editado pela José Olympio. Após 27 entrevistas, publica, em 17 de outubro, sua última colaboração para a Fatos e Fotos Gente.
  • 42. Sofre com uma súbita obstrução intestinal, de origem desconhecida, sendo internada na Casa de Saúde São Sebastião, no Catete. Em 28 de outubro, é submetida a cirurgia, na qual se detecta a causa do problema: um adenocarcinoma de ovário, irreversível. O câncer deixava a Clarice Lispector poucos meses de vida. No dia 17 de novembro, foi transferida para o Hospital da Lagoa onde, apesar de ser público, ficou em um quarto individual. Todo o tratamento aplicado era de cunho paliativo: nem químio nem radioterapia serviriam a Clarice com a doença tão avançada e que não foi revelada à paciente. MORTE DE CLARICE LISPECTOR Morre no dia 9 de dezembro véspera de seu aniversário às 10h30min. Era sexta-feira e, em observância às leis judaicas quanto ao shabat, não pode ser sepultada. O enterro, no Cemitério Comunal Israelita, no bairro carioca do Caju, aconteceu, então, no dia 11, domingo.
  • 43. Em 28 de dezembro, às 20h30, a TV Cultura leva ao ar a entrevista de Clarice Lispector, atendendo solicitação da escritora, que, no final daquele encontro, pedira ao entrevistador que o programa só fosse transmitido postumamente. “Clarice veio de um mistério, partiu para outro, ficamos sem saber a essência do mistério ou o mistério não era essencial. Essencial era Clarice vagando nele.” Drummond
  • 44. 1978- Três livros póstumos são publicados: o romance Um sopro de vida — Pulsações, pela Nova Fronteira, a partir de fragmentos em parte reunidos por Olga Borelli; o de crônicas Para não esquecer, e o infantil, Quase de verdade, em volume autônomo, pela Ática. A hora da estrela é agraciada com o prêmio Jabuti de "Melhor Romance". A paixão sendo G. H. é publicada na França, com tradução de Claude Farny. 1979- É publicado A bela e a fera, pela Nova Fronteira, contendo contos publicados esparsamente em jornais e revistas. Estreia, no teatro Ruth Escobar, em São Paulo, Um sopro de vida, baseado em livro de mesmo nome.
  • 45. 1981- "Clarice Lispector — Esboço para um retrato", de Olga Borelli, é lançado pela Nova Fronteira. 1984- Reunindo a quase totalidade de crônicas publicadas no Jornal do Brasil, no período de 1967 a 1973, é lançado "A descoberta do mundo", organização de Paulo Gurgel Valente, filho da autora. 1985- A hora da estrela recebe dois prêmios na 36ª edição do Festival de Berlim: da Confederação Internacional de Cineclubes — Cicae, e da Organização Católica Internacional do Cinema e do Audiovisual — Ocic. O longa-metragem de mesmo nome, dirigido por Suzana Amaral, com roteiro de Alfredo Oros também é premiado: Marcélia Cartaxo recebe o Urso de Prata de "Melhor Atriz".
  • 46. 1987- Os 10 anos da morte da escritora são lembrados com diversas homenagens em sua memória. É aberto ao público o conjunto de documentos que viria a constituir o Arquivo Clarice Lispector do Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa - FCRB, no Rio de Janeiro, constituído de documentos doados por Paulo Gurgel Valente.
  • 47. Clarice – Uma vida que se conta, Nádia Battella Gotlib CLARICE, Benjamin Moser R E F E R E N C I A L