Clarice Lispector
Liberdade é pouco.
O que eu desejo
ainda não tem
nome.
A Esfinge
Vida:
indecifrável.
 Ucrânia, 1920 – Rio de Janeiro/BR, 1977
 A Ucrânia havia sido invadida e tomada pela Rússia
 Mudou-se para o Brasil aos 2 anos de idade
 Em 1943, naturalizou-se brasileira
 Escritora: romances, contos, crônicas, poemas, cartas
 Jornalista, tradutora
 Morou em Recife e RJ
 Casou-se com Maury Gurgel Valente, diplomata brasileiro na Itália
 Foi traduzida para mais de 10 idiomas, recebendo em torno de 200 traduções,
principalmente para o espanhol e o francês
 Em 1943, aos 23 anos, publica seu primeiro romance Perto do Coração Selvagem
Trecho emblemático do seu
primeiro romance Perto do
Coração Selvagem, de 1943.
Nasceu em uma família judaica da Rússia que perdeu suas rendas com
a Guerra Civil Russa, e se viu obrigada a emigrar em decorrência da
perseguição a judeus, resultando em diversos extermínios em massa.
Clarice chegou ao Brasil , ainda pequena, em 1922, com seus pais e
duas irmãs. A escritora dizia não ter nenhuma ligação com a Ucrânia -
"Naquela terra eu literalmente nunca pisei: fui carregada de colo."
Os Enigmas
da Esfinge
Em 14 de setembro de 1966, provoca, involuntariamente, um
incêndio ao dormir deixando seu cigarro aceso. O quarto fica
destruído, e a escritora é hospitalizada, ficando entre a vida e a
morte por três dias. Sua mão direita é quase amputada devido aos
ferimentos. Mesmo depois de passado o risco de morte, fica
hospitalizada por dois meses. Clarice começara a fumar e beber
ainda na adolescência, enquanto compunha seus poemas.
Clarice é hospitalizada, com um câncer de ovário detectado
tarde demais e inoperável. A doença se espalhara por todo
o seu organismo. Clarice faleceu em 9 de dezembro de
1977, um dia antes de seu 57° aniversário.
Clarice foi chamada de alienada, cerebral, intimista e tediosa por críticos
comunistas linha-dura. Só reagia quando ofendida pela estúpida
acusação de que era estrangeira. Sempre se indignou diante do fato de
que havia quem relativizasse sua condição de brasileira, escreveu sua
amiga mais próxima. Nascera na Rússia, é certo, mas aqui chegara aos dois
meses de idade. Queria-se brasileira sob todos os aspectos. "Eu, enfim,
sou brasileira", ela declarou, "pronto e pronto.“ (p. 21)
MOSER, Benjamin. Clarice. COSACNAIFY: São Paulo, 2011.
A mãe fora estuprada na
Ucrânia por soldados
russos ― sífilis
a homoafetividade do
seu primeiro amor, o
romancista e poeta
mineiro Lúcio Cardoso
A esquizofrenia do
filho Pedro
Obra.
Filme A hora da estrela, de
1985, dirigido por Suzana
Amaral.
Washington, 11 de dezembro de 1956, terça-feira
Fernando,
Estou lendo o livro de Guimarães Rosa e não posso deixar de escrever a você.
Nunca vi coisa assim! É a coisa mais linda dos últimos tempos. Não sei até onde vai
o poder inventivo dele, ultrapassa o limite imaginável. Estou até tola. A linguagem
dele, tão perfeita também de entonação, é diretamente entendida pela
linguagem íntima da gente – e nesse sentido ele mais que inventou, ele
descobriu, ou melhor, inventou a verdade. Que mais se pode querer? Fico até
aflita de tanto gostar. Agora entendo o seu entusiasmo, Fernando. Já entendia por
causa de Sagarana, mas este agora vai tão além que explica ainda mais o que ele
queria com Sagarana. O livro está me dando uma reconciliação com tudo, me
explicando coisas adivinhadas, enriquecendo tudo. Como tudo vale a pena! A
menor tentativa vale a pena. Sei que estou meio confusa, mas vai assim mesmo,
misturado. Acho a mesma coisa que você: genial. Que outro nome dar? Esse
mesmo.
Me escreva, diga coisas que você acha dele. Assim eu ainda leio melhor.
Um abraço da amiga
Clarice.
Feliz Natal!
Carta de Clarice ao grande
amigo escritor Fernando
Sabino (cronista gaúcho)
sobre o romance Grande
Sertão: veredas, de João
Guimarães Rosa
Muita coisa importante
falta nome.
G. Rosa, Grande Sertão:
veredas, 1956.
Estátua da escritora na Praça Maciel
Pinheiro, no bairro de Boa Vista,
área central de Recife, Pernambuco.
Clarice escreve certo por
____________linhas tortas.
 Narrativa Intimista: introspecção, subjetiva – do coser (costurar/perfurar) os espaços
infinitos
 O laboro subterrâneo: a escrita das crises existenciais (laboro = trabalho = escrita)
Não tem pessoas que cosem para fora? Eu coso para dentro.
 Fluxo de consciência: existência subjetiva e silenciosa das personagens
 Monólogo interior (coser para dentro)
 Solidão e os vazios da vida
 Busca pela identidade/alteridade e pela liberdade ilimitada
 Epifania:
significa o relato de uma experiência que mostra inusitada revelação. É a
percepção de uma realidade atordoante, quando os objetos mais simples, os
gestos mais banais e as situações mais cotidianas comportam súbita
iluminação na consciência. Ao dar-se a epifania, a consciência do indivíduo se
abre para outra realidade, a do sujeito.
 Personagens basicamente femininos
 Linguagem da ânsia, do vômito
 Busca por Deus (católico): baixa estima acentuada
Mesmo que eu não mereça, que Deus venha, por favor, venha.
Processo criativo
da escrita_________ Vou criar o que me aconteceu. Só porque viver não é
relatável. Viver não é visível. Terei de criar sobre a vida. E
sem mentir. Criar sim, mentir não. Criar não é imaginação,
é correr o grande risco de se ter a realidade. Se eu não me
compreender, morrerei daquilo que no entanto vivo. A vida
pré-humana divina é de uma atualidade que queima.
 Teoria do fingimento de Nietszche: a arte não imita a
vida; arte cria arte.
 A criação é um processo de “alívio” ou, no mínimo, de
compreensão de si, das relações, do mundo, da
experiência de um trauma - CATARSE
SAUDADE
Saudade é um pouco como fome.
Só passa quando se come a presença.
Mas às vezes a saudade é tão profunda
que a presença é pouco:
quer-se absorver a outra pessoa toda.
Essa vontade de um ser o outro
para uma unificação inteira
é um dos sentimentos mais urgentes
que se tem na vida.
Poema de Clarice Lispector.
SOLIDÃO
Que minha solidão me sirva de companhia.
que eu tenha a coragem de me enfrentar.
que eu saiba ficar com o nada
e mesmo assim me sentir
como se estivesse plena de tudo.
Poema de Clarice Lispector.
A hora da estrela
________em análise
LISPECTOR, Clarice. A hora da
estrela. Rocco: Rio de Janeiro,
1999.
Benjamin Moser: escritor, jornalista e historiador estadunidense
(EUA). Escreveu a mais importante biografia de Clarice Lispector:
Why This World: A Biography of Clarice Lispector, Oxford University
Press (2009), traduzida no mesmo ano para a língua portuguesa
pela editora COSACNAIFY, intitulada Clarice, uma biografia.
Características
da obra._________
 Narrado em 3ª pessoa, o escritor Rodrigo S.M. (distanciamento)
Rodrigo S.M. nasceu e viveu no NE; é ele quem vive as epifanias (EXPLOSÃO),
pois a narrativa dá conta das suas crises existenciais
 Macabéa: protagonista da história; é o objeto cotidiano pelo qual se dão as
revelações do narrador ― era como a Clarice se enxergava
 Rodrigo S.M: autor fictício, narrador, alterego de Clarice
 Linguagem simples; narrativa complexa
Que ninguém se engane, só consigo a
simplicidade através de muito trabalho. [...]
Pensar é um ato, sentir é um fato. (p.11)
• É isso que torna a narrativa densa e
angustiante.
• O próprio narrador é assim, Rodrigo S.M.
Será essa história um dia o meu coágulo? Que seja eu. Se há
verdade nela ― e é claro que a história é verdadeira embora
inventada ― que cada um a reconheça em si mesmo. (p.12)
É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o
sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Eu,
Rodrigo S.M. Relato antigo, este, pois não quero ser modernoso
e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que
experimentei contra os meus hábitos uma história com começo,
meio e “gran finale” seguido de silêncio e chuva. (p.12-13)
• Silêncio: a inexistência social de Macabéa
• Chuva: a confusão epifânica, o despertar da consciência
• Silêncio e chuva formam O Grito da própria autora
Mas a pessoa de quem falarei mal tem
corpo para vender, ninguém a quer, ela é
virgem e inócua, não faz falta a ninguém.
(p.13)
 Macabéa: retirante nordestina, sertão de Alagoas, 19 anos, cara de fome, tola, feia,
morrinhenta
 Vivia no RJ, numa cidade toda feita contra ela (p.15)
 Ignorante, em relação à consciência da sua condição existencial e formação
 A felicidade está na alienação, é exatamente isso que provoca o narrador
Quero antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir
vivendo à toa. Se tivesse a tolice de se perguntar “quem sou eu?” cairia
estatelada e em cheio no chão. É que “quem sou eu?” provoca necessidade.
E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto. (p.15)
 Trabalhava de datilógrafa numa empresa de roldanas
 Era humilhada pelo chefe, Raimundo Silveira
 Tinha muita fé; ACEITAVA TUDO COMO ERA - era invisível socialmente
 Tinha apena suma parente: uma tia beata que a violentava com cascudos; faleceu
mais tarde
 Morava com 4 moças, balconistas das lojas Americanas: Maria da Penha, Maria
Aparecida, Maria José e Maria
 Glória: feia mas bem alimentada, colega de trabalho de Macabéa, mais inteligente
[...] se pensava melhor, dir-se-ia que havia brotado da terra do sertão em
cogumelo logo mofado. (p.19)
Marcélia Cartaxo, atriz que
interpretou a personagem
Macabéa, em 1985.
• Mas Macabéa não tinha esta consciência, Rodrigo S.M. sim
• Complexo de pobreza: desejo inconsciente de ter mais, de ser mais
Fixação pelo fútil:
• Fixação por soldados; uma vez por mês ia ao cinema, gostava de coca-cola
• Adorava escutar rádio, ler anúncios de jornais velhos
• Datilógrafa sem formação nem competência
Nunca pensava em “eu sou eu”. Acho que julgava não ter direito,
ela era um acaso. Um feto jogado na lata de lixo embrulhado em
um jornal. Há milhares como ela? Sim, e que são apenas um
acaso. Pensando bem: quem não é um acaso na vida? Quanto a
mim, só me livro de ser apenas um acaso porque escrevo, o que
é um ato que é um fato. (p. 36)
Domínio da palavra
escrita – da arte de
escrever
O autor fictício tem
consciência de sua
trajetória histórica,
por isso pode
escrever a trajetória
de outras pessoas
Vez por outra ia para a zona sul e ficava olhando as vitrinas faiscantes de joias
e roupas acetinadas ― só para se mortificar um pouco. É que ela sentia falta
de encontrar-se consigo mesma e sofrer um pouco é um encontro. (p.34)
 Macabéa mentiu ao chefe que arrancaria um dente para
tirar um dia de folga, ficar sozinha em casa. (explosão de
Rodrigo S.M.)
 (p.42): a história sobre Macabéa começa de fato
 Macabéa conhece Olímpico, que a convida para passear:
diálogo truncado
 Olímpico de Jesus Moreira Chaves: mentiu o nome para
parecer ter mais status – Olímpico de Jesus era nome dado
aos que não têm pai
A SOLIDÃO é o
caminho para a
LIBERDADE
Ob. As EXPLOSÕES são o
processo epifânico, ou seja,
de revelação pelo o qual
Rodrigo S.M. passa. A vida
de Macabéa é o seu
despertar para outra
realidade, a de si próprio.
Mas ainda não expliquei bem Olímpico. Vinha do sertão da Paraíba e tinha uma resistência que provinha
da paixão por sua terra braba e rachada pela seca. Trouxera consigo, comprada no mercado da Paraíba,
uma lata de vaselina perfumada e um pente, como posse sua e exclusiva. Besuntava o cabelo preto até
encharcá-lo. Não desconfiava que as cariocas tinham nojo daquela meladeira gordurosa. Nascera
crestado e duro que nem galho seco de árvore ou pedra ao sol. Era mais passível de salvação que
Macabéa pois não fora à toa que matara um homem, desafeto seu, nos cafundós do sertão, o canivete
comprido entrando mole-mole no fígado macio do sertanejo. Guardava disso segredo absoluto, o que
lhe dava a força que um segredo dá. Olímpico era macho de briga. Mas fraquejava em relação a
enterros: às vezes ia, três vezes por semana a enterro de desconhecidos, cujos anúncios saíam nos
jornais e sobretudo no O dia: e seus olhos ficavam cheios de lágrimas. Era uma fraqueza, mas quem não
tem a sua. Semana em que não havia enterro, era semana vazia desse homem que, se era doido, sabia
muito bem o que queria. De modo que não era doido coisa alguma. (p.57-58)
Macabéa, ao contrário de Olímpico, era fruto do cruzamento de “o quê” com “o quê”.
Na verdade ela parecia ter nascido de uma idéia vaga qualquer dos pais famintos.
Olímpico pelo menos roubava sempre que podia e até do vigia de obras onde era sua
dormida. Ter matado e roubar faziam com que ele não fosse um simples acontecido
qualquer, davam-lhe uma categoria, faziam dele um homem com honra até lavada.
Ele também se salvava mais do que Macabéa porque tinha grande talento para
desenhar rapidamente perfeitas caricaturas ridículas dos retratos de poderosos nos
jornais. Era a sua vingança. Sua única bondade com Macabéa foi dizer-lhe que
arranjaria para ela emprego na metalúrgica quando fosse despedida. (p.58)
A ideia de
que a arte
SALVA,
LIBERTA
 Macabéa estava apaixonada no terceiro encontro, e explica a origem de seu nome:
Homenagem a Nossa Senhora da Boa Morte, caso ela vingasse
 Olímpico aprendeu com o padrasto a ser fino e a enganar mulheres
• era operário numa metalúrgica
• dormia de graça nas guaridas de obras
• cabra safado e artista (esculpia imagens de santos)
• extremamente grosseiro com Macabéa, maldoso e vingativo
Marilyn Monroe, 1926-1962.
 Macabéa nunca recebeu uma carta na vida, e o
telefone do escritório só chamava o chefe
 Diálogo (p.48): Macabéa não se sente gente, pois
nunca esteve em evidência
― É que só sei ser impossível, não sei mais nada. O
que é que eu faço para conseguir ser possível?
 Escutava o rádiorrelógio: curiosidades e termos que
não entendia; Olímpico muito menos mas não
assumia
 Ficou encantada com uma canção de Caruso Una
Furtiva Lacrima (Uma lágrima sombria)
 Ela só prestava atenção em coisas insignificantes
como ela
 Ele a levantou no colo, o que lhe proporcionou uma
sensação de viagem
 Macabéa não podia ter filhos: ovários murchos
 Nega fogo a Olímpico: ela pensa em casar virgem;
ele se sente ofendido e não a procura por dias (p.53)
 Ironia: Macabéa sonhava ser artista de cinema
como a Marylin Monroe
Uma lágrima sombria
Intérprete Caruso
Uma lágrima sombria
De seus olhos brotou
E pareceu causar inveja àqueles jovens
alegres.
O que mais eu procuraria?
Ela me ama! eu vejo!
Eu adoraria, por um só instante,
sentir o palpitar de seu belo coração
E confundir, ainda que só um
momento,
a respiração dela com a minha.,.
Ó, céus! E então poderia morrer.
Não peço mais do que isto!
Ária do último ato da ópera L'elisir d'amore
(1832), de Gaetano Donizetti
 Cena do café: era a primeira vez que alguém
lhe dava algo (p.54)
– Tudinho o quê, meu Deus, pois se eu ainda
não falei! Pois
olhe vou lhe pagar um cafezinho no botequim.
Quer?
– Pode ser pingado com leite?
– Pode, é o mesmo preço, se for mais, o resto
você paga.
Macabéa não dava nenhuma despesa a
Olímpico. Só dessa vez
quando lhe pagou um cafezinho pingado que
ela encheu de açúcar
quase a ponto de vomitar mas controlou-se
para não fazer vergonha.
O açúcar ela botou muito para aproveitar.
 A doçura que nunca tivera na vida, que
nunca sentira
 Diálogo truncado: Olímpico é agressivo mais
uma vez, e Macabéa resignada (p. 56)
Então aflita ela lhe disse:
– Olhe, o Imperador Carlos Magno era chamado na terra dele de
Carolus! E você sabia que a mosca voa tão depressa que se voasse em
linha reta ela ia passar pelo mundo todo em 28 dias?
– Isso é mentira!
– Não é não, juro pela minha alma pura que aprendi isso na Rádio
Relógio! – Pois não acredito.
– Quero cair morta neste instante se estou mentindo. Quero que meu
pai e minha mãe fiquem no inferno, se estou lhe enganando.
– Vai ver que cai mesmo morta. Escuta aqui: você está fingindo que é
idiota ou é idiota mesmo?
– Não sei bem o que sou, me acho um pouco... de quê? ... Quer dizer
não sei bem quem eu sou.
– Mas você sabe que se chama Macabéa, pelo menos isso?
– É verdade. Mas não sei o que está dentro do meu nome. Só sei que
eu nunca fui importante...
– Pois fique sabendo que meu nome ainda será escrito nos jornais e
sabido por todo o mundo.
Ela disse para Olímpico:
– Sabe que na minha rua tem um galo que canta?
– Por que é que você mente tanto?
– Juro, quero ver minha mãe cair morta se não é verdade!
– Mas sua mãe já não morreu?
– Ah, é mesmo... que coisa...
 Fim do namoro: Macabéa riu da situação
 Olímpico juntou-se com Glória
– Você, Macabéa, é um cabelo na sopa. Não dá vontade de
comer. Me desculpe se eu lhe ofendi, mas sou sincero. Você está
ofendida?
– Não, não, não! Ah por favor quero ir embora! Por favor me
diga logo adeus! (p. 60)
 Ela chegou em casa e pintou a boca de vermelho sangue
 Diálogo entre Glória e Macabéa
Glória perguntou-lhe:
– Por que é que você me pede tanta
aspirina? Não estou reclamando, embora
isso custe dinheiro.
– É para eu não me doer.
– Como é que é? Hein? Você se dói?
– Eu me dôo o tempo todo.
– Aonde?
– Dentro, não sei explicar.
Aliás cada vez mais ela não se sabia explicar.
Transformara-se em simplicidade orgânica.
(p. 62)
Cena do filme de 1985. José Dumont interpretou a personagem Olímpico de
Jesus.
Tamara Taxman,
interpretou a
personagem
Glória.
 Glória era uma pequena burguesa, e Macabéa, no fundo,
não confiava nela
 Para compensar o roubo do namorado, Glória covida
Macabéa para um café
 Enquanto isso, sobre Olímpico:
Ninguém pode entrar no coração de ninguém.
Macabéa até que falava com Glória — mas
nunca de peito aberto. (p. 65)
Não se arrependeu um só instante de romper com
Macabéa pois seu destino era o de subir para um dia
entrar no mundo dos outros. Ele tinha fome de ser outro.
No mundo de Glória, por exemplo, ele ia se locupletar, o
frágil machinho. Deixaria enfim de ser o que sempre fora e
que escondia até de si mesmo por vergonha de tal
fraqueza: é que desde menino na verdade não passava de
um coração solitário pulsando com dificuldade no espaço.
O sertanejo é antes de tudo um paciente. Eu o perdoo. (p.
65-66)
Greta Garbo, atriz sueca. 1905-1990
 Rodrigo S.M. se envolve demais
com a trajetória de Macabéa,
tanto que confunde com a sua.
Sim, estou apaixonado por Macabéa a minha querida
Maca, apaixonado pela sua feiúra e anonimato total pois ela
não é para ninguém. Apaixonado por seus pulmões frágeis, a
magricela. Quisera eu tanto que ela abrisse a boca e
dissesse:
– Eu sou sozinha no mundo e não acredito em ninguém;
todos mentem, às vezes até na hora do amor, eu não acho
que um ser fale com o outro, a verdade só me vem quando
estou sozinha.
Maca, porém, jamais disse frases, em primeiro lugar por
ser de parca palavra. E acontece que não tinha consciência
de si e não reclamava nada, até pensava que era feliz. Não
se tratava de uma idiota mas tinha a felicidade pura dos
idiotas. E também não prestava atenção em si mesma: ela
não sabia. (Vejo que tentei dar a Maca uma situação minha:
eu preciso de algumas horas de solidão por dia senão “me
muero”.)
Quanto a mim, só sou verdadeiro quando estou sozinho.
Quando eu era pequeno pensava que de um momento para
outro eu cairia para fora do mundo. (p. 68-69)
 Glória indica uma cartomante para Macabéa: Madama
Carlota, em Olaria
 Na terreira: Macabéa foi tratada com muito carinho
 Carlota era nordestina, fora prostituta e gostava da função
 Recomenda um feitiço para trazer sorte a Macabéa
 As visões de Carlota:
1. Macabéa irá perder tudo
2. Irá ganhar tudo ao sair da casa da madama
3. O namorado retornará arrependido e lhe pedirá em
casamento
4. Será mais valorizada no emprego
5. Irá receber dinheiro de um estrangeiro, à noite: homem
alourado, Hans, rico, que irá casar com ela
Ob. Madama Carlota havia
previsto para outra menina
que ela seria atropelada
Madama Carlota havia acertado tudo. Macabéa estava
espantada. Só então vira que sua vida era uma miséria.
Teve vontade de chorar ao ver o seu lado oposto, ela que,
como disse, até então se julgava feliz. (p. 79)
EPIFANIA DE MACABÉA
Afinal saiu dos fundos da casa uma moça
com olhos muito vermelhos e madama
Carlota mandou Macabéa entrar. (Como é
chato lidar com fatos, o cotidiano me
aniquila, estou com preguiça de escrever
esta história que é um desabafo apenas.
Vejo que escrevo aquém e além de mim.
Não me responsabilizo pelo que agora
escrevo). (p. 72)
 Rodrigo S.M. não suporta a resignação
de Macabéa
 Tenta se desfazer da responsabilidade
de sentir por ela a realidade
 Ao sair da terreira da cartomante
e atravessar a rua:
MACABÉA É ATRAPELADA POR
UMA MERCEDEZ BENZ
O gringo rico
A estrela A morte
Sua queda não era nada, pensou ela, apenas um
empurrão. Batera com a cabeça na quina da calçada e
ficara caída, a cara mansamente voltada para a sarjeta. E
da cabeça um fio de sangue inesperadamente vermelho e
rico. O que queria dizer que apesar de tudo ela pertencia
a uma resistente raça anã teimosa que um dia vai talvez
reivindicar o direito ao grito. (p. 80)
[...] Ainda bem que pelo menos não falei e nem
falarei em morte e sim apenas um atropelamento.)
Ficou inerme no canto da rua, talvez descansando
das emoções, e viu entre as pedras do esgoto o ralo
capim de um verde da mais tenra esperança
humana. Hoje, pensou ela, hoje é o primeiro dia de
minha vida: nasci. (p. 80)
 Algumas pessoas apareceram no beco e ficaram
olhando para Macabéa:
sentia-se viva – existente
 A música da morte de Macabéa: Ave Maria!
 Macabéa pronuncia uma última frase:
― Quanto ao futuro. (p. 85)
 MORRE!
Macabéa, Ave Maria, cheia de graça,
terra serena da promissão, terra do
perdão, tem que chegar o tempo, ora pro
nóbis [...] (p. 82)
Miserere Nóbis, Gilberto Gil
Eu poderia resolver pelo caminho mais
fácil, matar a menina-infante, mas quero
o pior: a vida. Os que me lerem, assim,
levem um soco no estômago para ver se
é bom. A vida é um soco no estômago.
(p. 83)
Desculpai-me esta morte. É que não pude evita-la, a gente aceita tudo
porque já beijou a parede. (p. 85)
A hora da estrela
de Macabéa
é o momento de sua morte,
quando todos estão olhando
para ela, percebendo que ela
existe.
Escritores que
procuram seus
porquês da vida
Retirante Nordestina
Clarice era estrangeira,
viveu em Recife antes
de morar no RJ
Alterego
artístico de
Clarice
Rodrigo S. M.
Macabéa Alterego social
de Clarice
Clarice era uma
estrangeira. Não porque
nasceu na Ucrânia.
Criada desde menininha
no Brasil, era tão
brasileira quanto não
importa quem. Clarice
era estrangeira na
terra. Dava a impressão
de andar no mundo como
quem desembarca de
noitinha numa cidade
desconhecida onde há
greve geral de
transportes. (p. 13)
MOSER, Benjamin. Clarice. COSACNAIFY:
São Paulo, 2011.
Questões
63. (UFRGS-98) Considere as seguintes
afirmações.
I. Adélia Prado é escritora de tendências
feministas, que não demonstra atenção aos
temas cotidianos e religiosos.
II. Lydia Fagundes Telles vem construindo uma
obra ficcional em que predominam
personagens do sexo feminino atribuladas
por problemas existenciais.
III. A obra de Clarice Lispector renova a ficção
brasileira com uma dimensão reflexiva
voltada tanto para o fazer literário quanto
para os processos de consciência.
Quais estão corretas?
(A) Apenas I.
(B) Apenas II.
(C) Apenas III.
(D)Apenas II e III.
(E) I, II e III.
D
58. (UFRGS/1999) Assinale com V (verdadeiro) ou com F (falso) as
afirmações abaixo, sobre a obra de Clarice Lispector.
( ) O romance Perto do Coração Selvagem, centrado no relato da
experiência interior da personagem Joana, marcou a estreia da
escritora nas letras brasileiras.
( ) A denúncia de desigualdades sociais e da degradação dos valores
burgueses é uma constante nos romances da autora.
( ) No romance A Paixão segundo G.H., o ato de esmagar uma barata
na porta do guarda-roupa deflagra, na personagem-narradora,
um intenso processo de desvendamento interior.
( ) Constituída predominantemente por narrativas longas, que dão
vazão ao gosto pelo memorialismo e pelo autoconhecimento, sua
obra não inclui contos e crônicas.
( ) Em A Hora da Estrela, romance de 1977, o narrador, Rodrigo,
acompanha a trajetória da personagem nordestina Macabéa.
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para
baixo, é
A. V - F - F - V - F.
B. V - F - V - F - V.
C. F - V - F - V - F.
D. V - V - F - F - V.
E. F - V - V - F - V.
A
V
F
F
V
F
64. (UFRGS-98) Sobre A Hora da Estrela, de Clarice
Lispector, é correto afirmar que
(A) a narrativa mistura vários planos de realidade,
que permitem uma visão multifacetada da
personagem central.
(B) Macabéa é uma nordestina retirante, e o
desfecho de sua história é semelhante ao de
Fabiano e de Sinhá Vitória, personagens de
Graciliano Ramos.
(C) a heroína do livro, como a maioria dos brasileiros
em situação de privação, se revolta contra as
injustiças.
(D)a escritora usa uma linguagem técnica com
predomínio de termos exatos, para advertir
sobre problemas sanitários brasileiros.
(E) a narrativa põe em destaque a disposição de
Macabéa em lutar pela igualdade e pela
ascensão social.
Leia o fragmento abaixo para responder a questão.
A moça tinha ombros curvos como os de uma cerzideira.
Aprendera em pequena a cerzir. Ela se realizaria muito
mais se se desse ao delicado labor de restaurar fios,
quem sabe se de seda. Ou de luxo: cetim bem brilhoso,
um beijo de almas. Cerzideirinha mosquito. Carregar em
costas de formiga um grão de açúcar. Ela era de leve
como uma idiota, só que não o era. Não sabia que era
infeliz.
(...) Nascera inteiramente raquítica, herança do sertão -
os maus antecedentes de que falei. Com dois anos de
idade lhe haviam morrido os pais de febres ruins no
sertão de Alagoas, lá onde o diabo perdera as botas.
(...) Macabéa era na verdade uma figura medieval
enquanto Olímpico de Jesus se julgava peça-chave,
dessas que abrem qualquer porta. Macabéa
simplesmente não era técnica, ela era só ela. (...) Mas
Macabéa de um modo geral não se preocupava com o
próprio futuro: ter futuro era luxo.
A
24. (UFRGS/2000) Em relação aos contos de Clarice
Lispector, analise os itens abaixo.
I. Denúncia da violência na cidade moderna,
privilegiando a visão externa aos acontecimentos e
a sua avaliação.
II. Preocupação em revelar a realidade social,
apontando maneiras de sobrepor-se aos
obstáculos que impedem a ascensão social.
III. Narrativa intimista, preocupada em revelar o
interior das personagens, que se encontram
frequentemente em processo de
autoconhecimento.
Quais deles predominam nos contos da autora?
(A) Apenas I.
(B) Apenas II.
(C) Apenas III.
(D) Apenas I e III.
(E) I, II e III.
C
56. (UFRGS/2003) Assinale a alternativa INCORRETA em
relação à obra A hora da estrela, de 1977, de Clarice
Lispector.
(A) Apesar de acumular no seu corpo franzino a herança
do sertão, Macabéa, como o namorado Olímpico de
Jesus, também nordestino, procura, a qualquer
preço, a ascensão social.
(B) A personagem principal é a datilógrafa Macabéa,
órfã alagoana criada por uma tia beata que morre
pouco depois de chegarem ao Rio de Janeiro.
(C) A busca da identidade leva Macabéa a observar-se
diante do espelho, e a imagem vista e desejada é a
de Marilyn Monroe.
(D) Rodrigo S.M. ironiza, através de intervenções
frequentes no texto, o estilo de narrativa que ele
próprio emprega.
(E) Logo após receber consolo da cartomante, pois,
finalmente, seria feliz, Macabéa é atropelada e,
ferida de morte, vomita uma “estrela de mil pontas”.
A
23. (UFRGS/2004) Assinale com (V) verdadeiro ou (F) falso as afirmações abaixo, referentes ao romance A Hora
da Estrela, de Clarice Lispector.
( ) Embora o título principal do romance seja A Hora da Estrela, a autora propõe uma série de títulos
alternativos.
( ) Clarice evidencia preocupações incomuns em sua obra, como a reflexão sobre a linguagem e a busca do
sentido secreto que se esconde por trás do aparentemente visível.
( ) Antes de iniciar o relato da história de Macabéa, o narrador faz comentários sobre as dificuldades inerentes
ao ato de escrever e sobre os seus receios quanto ao destino da personagem que está criando.
( ) A narração do romance é feita por três vozes distintas: a de Rodrigo A. M., a de Macabéa e a de Olímpico.
( ) Uma das distrações de Macabéa, durante a madrugada, é ligar o radinho emprestado por uma colega de
quarto e sintonizar a Rádio Relógio, que assinala com um tic-tac cada minuto.
A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é
(A) V - F - V - F - V.
(B) V - V - F - F - V.
(C) F - V - F - V - F.
(D) V - F - F - F - V.
(E) F - F - V - V - F.
V
F
V
V
F
A
UFRGS/2015
E
40. Leia o fragmento da crônica A descoberta do Mundo, de Clarice Lispector.
O que eu quero contar é tão delicado quanto a própria vida. E eu quereria poder usar a delicadeza que também tenho
em mim, ao lado da grossura de camponesa que é o que me salva.
Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em
aprender a atmosfera íntima de uma pessoa. (...) se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma
mulher, da qual nascem os filhos.
Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um
homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza.
Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, (...)
E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é pudor apenas feminino.
Pois juro que a vida é bonita.
Sobre o fragmento, assinale a alternativa correta.
(A) Clarice entende que as relações amorosas são complexas independentes da experiência do ser humano, porém
isso não torna a vida num martírio.
(B) A autora utiliza a crônica para popularizar um tema de impacto entre as mulheres: o medo de criarem vínculos
afetivos com parceiros.
(C) Clarice se reconcilia com a vida depois de compreender o quão necessária é a relação amorosa para a
concretização da afetividade.
(D) A autora tem consciência do quanto é incapaz de entender a ternura que o ato sexual pode implicar numa relação.
(E) O pudor a que se refere a autora é o medo comum que existe entre as mulheres que já passaram por desilusões
amorosas.
Simulado PEAC-
2015/2
A

Clarice Lispector - A Hora da Estrela(1).pdf

  • 1.
    Clarice Lispector Liberdade épouco. O que eu desejo ainda não tem nome. A Esfinge
  • 2.
    Vida: indecifrável.  Ucrânia, 1920– Rio de Janeiro/BR, 1977  A Ucrânia havia sido invadida e tomada pela Rússia  Mudou-se para o Brasil aos 2 anos de idade  Em 1943, naturalizou-se brasileira  Escritora: romances, contos, crônicas, poemas, cartas  Jornalista, tradutora  Morou em Recife e RJ  Casou-se com Maury Gurgel Valente, diplomata brasileiro na Itália  Foi traduzida para mais de 10 idiomas, recebendo em torno de 200 traduções, principalmente para o espanhol e o francês  Em 1943, aos 23 anos, publica seu primeiro romance Perto do Coração Selvagem Trecho emblemático do seu primeiro romance Perto do Coração Selvagem, de 1943. Nasceu em uma família judaica da Rússia que perdeu suas rendas com a Guerra Civil Russa, e se viu obrigada a emigrar em decorrência da perseguição a judeus, resultando em diversos extermínios em massa. Clarice chegou ao Brasil , ainda pequena, em 1922, com seus pais e duas irmãs. A escritora dizia não ter nenhuma ligação com a Ucrânia - "Naquela terra eu literalmente nunca pisei: fui carregada de colo."
  • 3.
    Os Enigmas da Esfinge Em14 de setembro de 1966, provoca, involuntariamente, um incêndio ao dormir deixando seu cigarro aceso. O quarto fica destruído, e a escritora é hospitalizada, ficando entre a vida e a morte por três dias. Sua mão direita é quase amputada devido aos ferimentos. Mesmo depois de passado o risco de morte, fica hospitalizada por dois meses. Clarice começara a fumar e beber ainda na adolescência, enquanto compunha seus poemas. Clarice é hospitalizada, com um câncer de ovário detectado tarde demais e inoperável. A doença se espalhara por todo o seu organismo. Clarice faleceu em 9 de dezembro de 1977, um dia antes de seu 57° aniversário. Clarice foi chamada de alienada, cerebral, intimista e tediosa por críticos comunistas linha-dura. Só reagia quando ofendida pela estúpida acusação de que era estrangeira. Sempre se indignou diante do fato de que havia quem relativizasse sua condição de brasileira, escreveu sua amiga mais próxima. Nascera na Rússia, é certo, mas aqui chegara aos dois meses de idade. Queria-se brasileira sob todos os aspectos. "Eu, enfim, sou brasileira", ela declarou, "pronto e pronto.“ (p. 21) MOSER, Benjamin. Clarice. COSACNAIFY: São Paulo, 2011. A mãe fora estuprada na Ucrânia por soldados russos ― sífilis a homoafetividade do seu primeiro amor, o romancista e poeta mineiro Lúcio Cardoso A esquizofrenia do filho Pedro
  • 4.
    Obra. Filme A horada estrela, de 1985, dirigido por Suzana Amaral.
  • 5.
    Washington, 11 dedezembro de 1956, terça-feira Fernando, Estou lendo o livro de Guimarães Rosa e não posso deixar de escrever a você. Nunca vi coisa assim! É a coisa mais linda dos últimos tempos. Não sei até onde vai o poder inventivo dele, ultrapassa o limite imaginável. Estou até tola. A linguagem dele, tão perfeita também de entonação, é diretamente entendida pela linguagem íntima da gente – e nesse sentido ele mais que inventou, ele descobriu, ou melhor, inventou a verdade. Que mais se pode querer? Fico até aflita de tanto gostar. Agora entendo o seu entusiasmo, Fernando. Já entendia por causa de Sagarana, mas este agora vai tão além que explica ainda mais o que ele queria com Sagarana. O livro está me dando uma reconciliação com tudo, me explicando coisas adivinhadas, enriquecendo tudo. Como tudo vale a pena! A menor tentativa vale a pena. Sei que estou meio confusa, mas vai assim mesmo, misturado. Acho a mesma coisa que você: genial. Que outro nome dar? Esse mesmo. Me escreva, diga coisas que você acha dele. Assim eu ainda leio melhor. Um abraço da amiga Clarice. Feliz Natal! Carta de Clarice ao grande amigo escritor Fernando Sabino (cronista gaúcho) sobre o romance Grande Sertão: veredas, de João Guimarães Rosa Muita coisa importante falta nome. G. Rosa, Grande Sertão: veredas, 1956.
  • 6.
    Estátua da escritorana Praça Maciel Pinheiro, no bairro de Boa Vista, área central de Recife, Pernambuco. Clarice escreve certo por ____________linhas tortas.  Narrativa Intimista: introspecção, subjetiva – do coser (costurar/perfurar) os espaços infinitos  O laboro subterrâneo: a escrita das crises existenciais (laboro = trabalho = escrita) Não tem pessoas que cosem para fora? Eu coso para dentro.  Fluxo de consciência: existência subjetiva e silenciosa das personagens  Monólogo interior (coser para dentro)  Solidão e os vazios da vida  Busca pela identidade/alteridade e pela liberdade ilimitada  Epifania: significa o relato de uma experiência que mostra inusitada revelação. É a percepção de uma realidade atordoante, quando os objetos mais simples, os gestos mais banais e as situações mais cotidianas comportam súbita iluminação na consciência. Ao dar-se a epifania, a consciência do indivíduo se abre para outra realidade, a do sujeito.  Personagens basicamente femininos  Linguagem da ânsia, do vômito  Busca por Deus (católico): baixa estima acentuada Mesmo que eu não mereça, que Deus venha, por favor, venha.
  • 7.
    Processo criativo da escrita_________Vou criar o que me aconteceu. Só porque viver não é relatável. Viver não é visível. Terei de criar sobre a vida. E sem mentir. Criar sim, mentir não. Criar não é imaginação, é correr o grande risco de se ter a realidade. Se eu não me compreender, morrerei daquilo que no entanto vivo. A vida pré-humana divina é de uma atualidade que queima.  Teoria do fingimento de Nietszche: a arte não imita a vida; arte cria arte.  A criação é um processo de “alívio” ou, no mínimo, de compreensão de si, das relações, do mundo, da experiência de um trauma - CATARSE SAUDADE Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida. Poema de Clarice Lispector. SOLIDÃO Que minha solidão me sirva de companhia. que eu tenha a coragem de me enfrentar. que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Poema de Clarice Lispector.
  • 8.
    A hora daestrela ________em análise LISPECTOR, Clarice. A hora da estrela. Rocco: Rio de Janeiro, 1999. Benjamin Moser: escritor, jornalista e historiador estadunidense (EUA). Escreveu a mais importante biografia de Clarice Lispector: Why This World: A Biography of Clarice Lispector, Oxford University Press (2009), traduzida no mesmo ano para a língua portuguesa pela editora COSACNAIFY, intitulada Clarice, uma biografia.
  • 9.
    Características da obra._________  Narradoem 3ª pessoa, o escritor Rodrigo S.M. (distanciamento) Rodrigo S.M. nasceu e viveu no NE; é ele quem vive as epifanias (EXPLOSÃO), pois a narrativa dá conta das suas crises existenciais  Macabéa: protagonista da história; é o objeto cotidiano pelo qual se dão as revelações do narrador ― era como a Clarice se enxergava  Rodrigo S.M: autor fictício, narrador, alterego de Clarice  Linguagem simples; narrativa complexa Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho. [...] Pensar é um ato, sentir é um fato. (p.11) • É isso que torna a narrativa densa e angustiante. • O próprio narrador é assim, Rodrigo S.M. Será essa história um dia o meu coágulo? Que seja eu. Se há verdade nela ― e é claro que a história é verdadeira embora inventada ― que cada um a reconheça em si mesmo. (p.12) É que numa rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Eu, Rodrigo S.M. Relato antigo, este, pois não quero ser modernoso e inventar modismos à guisa de originalidade. Assim é que experimentei contra os meus hábitos uma história com começo, meio e “gran finale” seguido de silêncio e chuva. (p.12-13) • Silêncio: a inexistência social de Macabéa • Chuva: a confusão epifânica, o despertar da consciência • Silêncio e chuva formam O Grito da própria autora Mas a pessoa de quem falarei mal tem corpo para vender, ninguém a quer, ela é virgem e inócua, não faz falta a ninguém. (p.13)
  • 10.
     Macabéa: retirantenordestina, sertão de Alagoas, 19 anos, cara de fome, tola, feia, morrinhenta  Vivia no RJ, numa cidade toda feita contra ela (p.15)  Ignorante, em relação à consciência da sua condição existencial e formação  A felicidade está na alienação, é exatamente isso que provoca o narrador Quero antes afiançar que essa moça não se conhece senão através de ir vivendo à toa. Se tivesse a tolice de se perguntar “quem sou eu?” cairia estatelada e em cheio no chão. É que “quem sou eu?” provoca necessidade. E como satisfazer a necessidade? Quem se indaga é incompleto. (p.15)  Trabalhava de datilógrafa numa empresa de roldanas  Era humilhada pelo chefe, Raimundo Silveira  Tinha muita fé; ACEITAVA TUDO COMO ERA - era invisível socialmente  Tinha apena suma parente: uma tia beata que a violentava com cascudos; faleceu mais tarde  Morava com 4 moças, balconistas das lojas Americanas: Maria da Penha, Maria Aparecida, Maria José e Maria  Glória: feia mas bem alimentada, colega de trabalho de Macabéa, mais inteligente [...] se pensava melhor, dir-se-ia que havia brotado da terra do sertão em cogumelo logo mofado. (p.19) Marcélia Cartaxo, atriz que interpretou a personagem Macabéa, em 1985.
  • 11.
    • Mas Macabéanão tinha esta consciência, Rodrigo S.M. sim • Complexo de pobreza: desejo inconsciente de ter mais, de ser mais Fixação pelo fútil: • Fixação por soldados; uma vez por mês ia ao cinema, gostava de coca-cola • Adorava escutar rádio, ler anúncios de jornais velhos • Datilógrafa sem formação nem competência Nunca pensava em “eu sou eu”. Acho que julgava não ter direito, ela era um acaso. Um feto jogado na lata de lixo embrulhado em um jornal. Há milhares como ela? Sim, e que são apenas um acaso. Pensando bem: quem não é um acaso na vida? Quanto a mim, só me livro de ser apenas um acaso porque escrevo, o que é um ato que é um fato. (p. 36) Domínio da palavra escrita – da arte de escrever O autor fictício tem consciência de sua trajetória histórica, por isso pode escrever a trajetória de outras pessoas Vez por outra ia para a zona sul e ficava olhando as vitrinas faiscantes de joias e roupas acetinadas ― só para se mortificar um pouco. É que ela sentia falta de encontrar-se consigo mesma e sofrer um pouco é um encontro. (p.34)
  • 12.
     Macabéa mentiuao chefe que arrancaria um dente para tirar um dia de folga, ficar sozinha em casa. (explosão de Rodrigo S.M.)  (p.42): a história sobre Macabéa começa de fato  Macabéa conhece Olímpico, que a convida para passear: diálogo truncado  Olímpico de Jesus Moreira Chaves: mentiu o nome para parecer ter mais status – Olímpico de Jesus era nome dado aos que não têm pai A SOLIDÃO é o caminho para a LIBERDADE Ob. As EXPLOSÕES são o processo epifânico, ou seja, de revelação pelo o qual Rodrigo S.M. passa. A vida de Macabéa é o seu despertar para outra realidade, a de si próprio. Mas ainda não expliquei bem Olímpico. Vinha do sertão da Paraíba e tinha uma resistência que provinha da paixão por sua terra braba e rachada pela seca. Trouxera consigo, comprada no mercado da Paraíba, uma lata de vaselina perfumada e um pente, como posse sua e exclusiva. Besuntava o cabelo preto até encharcá-lo. Não desconfiava que as cariocas tinham nojo daquela meladeira gordurosa. Nascera crestado e duro que nem galho seco de árvore ou pedra ao sol. Era mais passível de salvação que Macabéa pois não fora à toa que matara um homem, desafeto seu, nos cafundós do sertão, o canivete comprido entrando mole-mole no fígado macio do sertanejo. Guardava disso segredo absoluto, o que lhe dava a força que um segredo dá. Olímpico era macho de briga. Mas fraquejava em relação a enterros: às vezes ia, três vezes por semana a enterro de desconhecidos, cujos anúncios saíam nos jornais e sobretudo no O dia: e seus olhos ficavam cheios de lágrimas. Era uma fraqueza, mas quem não tem a sua. Semana em que não havia enterro, era semana vazia desse homem que, se era doido, sabia muito bem o que queria. De modo que não era doido coisa alguma. (p.57-58)
  • 13.
    Macabéa, ao contráriode Olímpico, era fruto do cruzamento de “o quê” com “o quê”. Na verdade ela parecia ter nascido de uma idéia vaga qualquer dos pais famintos. Olímpico pelo menos roubava sempre que podia e até do vigia de obras onde era sua dormida. Ter matado e roubar faziam com que ele não fosse um simples acontecido qualquer, davam-lhe uma categoria, faziam dele um homem com honra até lavada. Ele também se salvava mais do que Macabéa porque tinha grande talento para desenhar rapidamente perfeitas caricaturas ridículas dos retratos de poderosos nos jornais. Era a sua vingança. Sua única bondade com Macabéa foi dizer-lhe que arranjaria para ela emprego na metalúrgica quando fosse despedida. (p.58) A ideia de que a arte SALVA, LIBERTA  Macabéa estava apaixonada no terceiro encontro, e explica a origem de seu nome: Homenagem a Nossa Senhora da Boa Morte, caso ela vingasse  Olímpico aprendeu com o padrasto a ser fino e a enganar mulheres • era operário numa metalúrgica • dormia de graça nas guaridas de obras • cabra safado e artista (esculpia imagens de santos) • extremamente grosseiro com Macabéa, maldoso e vingativo
  • 14.
    Marilyn Monroe, 1926-1962. Macabéa nunca recebeu uma carta na vida, e o telefone do escritório só chamava o chefe  Diálogo (p.48): Macabéa não se sente gente, pois nunca esteve em evidência ― É que só sei ser impossível, não sei mais nada. O que é que eu faço para conseguir ser possível?  Escutava o rádiorrelógio: curiosidades e termos que não entendia; Olímpico muito menos mas não assumia  Ficou encantada com uma canção de Caruso Una Furtiva Lacrima (Uma lágrima sombria)  Ela só prestava atenção em coisas insignificantes como ela  Ele a levantou no colo, o que lhe proporcionou uma sensação de viagem  Macabéa não podia ter filhos: ovários murchos  Nega fogo a Olímpico: ela pensa em casar virgem; ele se sente ofendido e não a procura por dias (p.53)  Ironia: Macabéa sonhava ser artista de cinema como a Marylin Monroe Uma lágrima sombria Intérprete Caruso Uma lágrima sombria De seus olhos brotou E pareceu causar inveja àqueles jovens alegres. O que mais eu procuraria? Ela me ama! eu vejo! Eu adoraria, por um só instante, sentir o palpitar de seu belo coração E confundir, ainda que só um momento, a respiração dela com a minha.,. Ó, céus! E então poderia morrer. Não peço mais do que isto! Ária do último ato da ópera L'elisir d'amore (1832), de Gaetano Donizetti
  • 15.
     Cena docafé: era a primeira vez que alguém lhe dava algo (p.54) – Tudinho o quê, meu Deus, pois se eu ainda não falei! Pois olhe vou lhe pagar um cafezinho no botequim. Quer? – Pode ser pingado com leite? – Pode, é o mesmo preço, se for mais, o resto você paga. Macabéa não dava nenhuma despesa a Olímpico. Só dessa vez quando lhe pagou um cafezinho pingado que ela encheu de açúcar quase a ponto de vomitar mas controlou-se para não fazer vergonha. O açúcar ela botou muito para aproveitar.  A doçura que nunca tivera na vida, que nunca sentira  Diálogo truncado: Olímpico é agressivo mais uma vez, e Macabéa resignada (p. 56) Então aflita ela lhe disse: – Olhe, o Imperador Carlos Magno era chamado na terra dele de Carolus! E você sabia que a mosca voa tão depressa que se voasse em linha reta ela ia passar pelo mundo todo em 28 dias? – Isso é mentira! – Não é não, juro pela minha alma pura que aprendi isso na Rádio Relógio! – Pois não acredito. – Quero cair morta neste instante se estou mentindo. Quero que meu pai e minha mãe fiquem no inferno, se estou lhe enganando. – Vai ver que cai mesmo morta. Escuta aqui: você está fingindo que é idiota ou é idiota mesmo? – Não sei bem o que sou, me acho um pouco... de quê? ... Quer dizer não sei bem quem eu sou. – Mas você sabe que se chama Macabéa, pelo menos isso? – É verdade. Mas não sei o que está dentro do meu nome. Só sei que eu nunca fui importante... – Pois fique sabendo que meu nome ainda será escrito nos jornais e sabido por todo o mundo. Ela disse para Olímpico: – Sabe que na minha rua tem um galo que canta? – Por que é que você mente tanto? – Juro, quero ver minha mãe cair morta se não é verdade! – Mas sua mãe já não morreu? – Ah, é mesmo... que coisa...
  • 16.
     Fim donamoro: Macabéa riu da situação  Olímpico juntou-se com Glória – Você, Macabéa, é um cabelo na sopa. Não dá vontade de comer. Me desculpe se eu lhe ofendi, mas sou sincero. Você está ofendida? – Não, não, não! Ah por favor quero ir embora! Por favor me diga logo adeus! (p. 60)  Ela chegou em casa e pintou a boca de vermelho sangue  Diálogo entre Glória e Macabéa Glória perguntou-lhe: – Por que é que você me pede tanta aspirina? Não estou reclamando, embora isso custe dinheiro. – É para eu não me doer. – Como é que é? Hein? Você se dói? – Eu me dôo o tempo todo. – Aonde? – Dentro, não sei explicar. Aliás cada vez mais ela não se sabia explicar. Transformara-se em simplicidade orgânica. (p. 62) Cena do filme de 1985. José Dumont interpretou a personagem Olímpico de Jesus. Tamara Taxman, interpretou a personagem Glória.
  • 17.
     Glória erauma pequena burguesa, e Macabéa, no fundo, não confiava nela  Para compensar o roubo do namorado, Glória covida Macabéa para um café  Enquanto isso, sobre Olímpico: Ninguém pode entrar no coração de ninguém. Macabéa até que falava com Glória — mas nunca de peito aberto. (p. 65) Não se arrependeu um só instante de romper com Macabéa pois seu destino era o de subir para um dia entrar no mundo dos outros. Ele tinha fome de ser outro. No mundo de Glória, por exemplo, ele ia se locupletar, o frágil machinho. Deixaria enfim de ser o que sempre fora e que escondia até de si mesmo por vergonha de tal fraqueza: é que desde menino na verdade não passava de um coração solitário pulsando com dificuldade no espaço. O sertanejo é antes de tudo um paciente. Eu o perdoo. (p. 65-66) Greta Garbo, atriz sueca. 1905-1990
  • 18.
     Rodrigo S.M.se envolve demais com a trajetória de Macabéa, tanto que confunde com a sua. Sim, estou apaixonado por Macabéa a minha querida Maca, apaixonado pela sua feiúra e anonimato total pois ela não é para ninguém. Apaixonado por seus pulmões frágeis, a magricela. Quisera eu tanto que ela abrisse a boca e dissesse: – Eu sou sozinha no mundo e não acredito em ninguém; todos mentem, às vezes até na hora do amor, eu não acho que um ser fale com o outro, a verdade só me vem quando estou sozinha. Maca, porém, jamais disse frases, em primeiro lugar por ser de parca palavra. E acontece que não tinha consciência de si e não reclamava nada, até pensava que era feliz. Não se tratava de uma idiota mas tinha a felicidade pura dos idiotas. E também não prestava atenção em si mesma: ela não sabia. (Vejo que tentei dar a Maca uma situação minha: eu preciso de algumas horas de solidão por dia senão “me muero”.) Quanto a mim, só sou verdadeiro quando estou sozinho. Quando eu era pequeno pensava que de um momento para outro eu cairia para fora do mundo. (p. 68-69)
  • 19.
     Glória indicauma cartomante para Macabéa: Madama Carlota, em Olaria  Na terreira: Macabéa foi tratada com muito carinho  Carlota era nordestina, fora prostituta e gostava da função  Recomenda um feitiço para trazer sorte a Macabéa  As visões de Carlota: 1. Macabéa irá perder tudo 2. Irá ganhar tudo ao sair da casa da madama 3. O namorado retornará arrependido e lhe pedirá em casamento 4. Será mais valorizada no emprego 5. Irá receber dinheiro de um estrangeiro, à noite: homem alourado, Hans, rico, que irá casar com ela Ob. Madama Carlota havia previsto para outra menina que ela seria atropelada Madama Carlota havia acertado tudo. Macabéa estava espantada. Só então vira que sua vida era uma miséria. Teve vontade de chorar ao ver o seu lado oposto, ela que, como disse, até então se julgava feliz. (p. 79) EPIFANIA DE MACABÉA Afinal saiu dos fundos da casa uma moça com olhos muito vermelhos e madama Carlota mandou Macabéa entrar. (Como é chato lidar com fatos, o cotidiano me aniquila, estou com preguiça de escrever esta história que é um desabafo apenas. Vejo que escrevo aquém e além de mim. Não me responsabilizo pelo que agora escrevo). (p. 72)  Rodrigo S.M. não suporta a resignação de Macabéa  Tenta se desfazer da responsabilidade de sentir por ela a realidade
  • 20.
     Ao sairda terreira da cartomante e atravessar a rua: MACABÉA É ATRAPELADA POR UMA MERCEDEZ BENZ O gringo rico A estrela A morte Sua queda não era nada, pensou ela, apenas um empurrão. Batera com a cabeça na quina da calçada e ficara caída, a cara mansamente voltada para a sarjeta. E da cabeça um fio de sangue inesperadamente vermelho e rico. O que queria dizer que apesar de tudo ela pertencia a uma resistente raça anã teimosa que um dia vai talvez reivindicar o direito ao grito. (p. 80) [...] Ainda bem que pelo menos não falei e nem falarei em morte e sim apenas um atropelamento.) Ficou inerme no canto da rua, talvez descansando das emoções, e viu entre as pedras do esgoto o ralo capim de um verde da mais tenra esperança humana. Hoje, pensou ela, hoje é o primeiro dia de minha vida: nasci. (p. 80)
  • 21.
     Algumas pessoasapareceram no beco e ficaram olhando para Macabéa: sentia-se viva – existente  A música da morte de Macabéa: Ave Maria!  Macabéa pronuncia uma última frase: ― Quanto ao futuro. (p. 85)  MORRE! Macabéa, Ave Maria, cheia de graça, terra serena da promissão, terra do perdão, tem que chegar o tempo, ora pro nóbis [...] (p. 82) Miserere Nóbis, Gilberto Gil Eu poderia resolver pelo caminho mais fácil, matar a menina-infante, mas quero o pior: a vida. Os que me lerem, assim, levem um soco no estômago para ver se é bom. A vida é um soco no estômago. (p. 83)
  • 22.
    Desculpai-me esta morte.É que não pude evita-la, a gente aceita tudo porque já beijou a parede. (p. 85) A hora da estrela de Macabéa é o momento de sua morte, quando todos estão olhando para ela, percebendo que ela existe. Escritores que procuram seus porquês da vida Retirante Nordestina Clarice era estrangeira, viveu em Recife antes de morar no RJ Alterego artístico de Clarice Rodrigo S. M. Macabéa Alterego social de Clarice Clarice era uma estrangeira. Não porque nasceu na Ucrânia. Criada desde menininha no Brasil, era tão brasileira quanto não importa quem. Clarice era estrangeira na terra. Dava a impressão de andar no mundo como quem desembarca de noitinha numa cidade desconhecida onde há greve geral de transportes. (p. 13) MOSER, Benjamin. Clarice. COSACNAIFY: São Paulo, 2011.
  • 23.
  • 24.
    63. (UFRGS-98) Considereas seguintes afirmações. I. Adélia Prado é escritora de tendências feministas, que não demonstra atenção aos temas cotidianos e religiosos. II. Lydia Fagundes Telles vem construindo uma obra ficcional em que predominam personagens do sexo feminino atribuladas por problemas existenciais. III. A obra de Clarice Lispector renova a ficção brasileira com uma dimensão reflexiva voltada tanto para o fazer literário quanto para os processos de consciência. Quais estão corretas? (A) Apenas I. (B) Apenas II. (C) Apenas III. (D)Apenas II e III. (E) I, II e III. D 58. (UFRGS/1999) Assinale com V (verdadeiro) ou com F (falso) as afirmações abaixo, sobre a obra de Clarice Lispector. ( ) O romance Perto do Coração Selvagem, centrado no relato da experiência interior da personagem Joana, marcou a estreia da escritora nas letras brasileiras. ( ) A denúncia de desigualdades sociais e da degradação dos valores burgueses é uma constante nos romances da autora. ( ) No romance A Paixão segundo G.H., o ato de esmagar uma barata na porta do guarda-roupa deflagra, na personagem-narradora, um intenso processo de desvendamento interior. ( ) Constituída predominantemente por narrativas longas, que dão vazão ao gosto pelo memorialismo e pelo autoconhecimento, sua obra não inclui contos e crônicas. ( ) Em A Hora da Estrela, romance de 1977, o narrador, Rodrigo, acompanha a trajetória da personagem nordestina Macabéa. A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é A. V - F - F - V - F. B. V - F - V - F - V. C. F - V - F - V - F. D. V - V - F - F - V. E. F - V - V - F - V. A V F F V F
  • 25.
    64. (UFRGS-98) SobreA Hora da Estrela, de Clarice Lispector, é correto afirmar que (A) a narrativa mistura vários planos de realidade, que permitem uma visão multifacetada da personagem central. (B) Macabéa é uma nordestina retirante, e o desfecho de sua história é semelhante ao de Fabiano e de Sinhá Vitória, personagens de Graciliano Ramos. (C) a heroína do livro, como a maioria dos brasileiros em situação de privação, se revolta contra as injustiças. (D)a escritora usa uma linguagem técnica com predomínio de termos exatos, para advertir sobre problemas sanitários brasileiros. (E) a narrativa põe em destaque a disposição de Macabéa em lutar pela igualdade e pela ascensão social. Leia o fragmento abaixo para responder a questão. A moça tinha ombros curvos como os de uma cerzideira. Aprendera em pequena a cerzir. Ela se realizaria muito mais se se desse ao delicado labor de restaurar fios, quem sabe se de seda. Ou de luxo: cetim bem brilhoso, um beijo de almas. Cerzideirinha mosquito. Carregar em costas de formiga um grão de açúcar. Ela era de leve como uma idiota, só que não o era. Não sabia que era infeliz. (...) Nascera inteiramente raquítica, herança do sertão - os maus antecedentes de que falei. Com dois anos de idade lhe haviam morrido os pais de febres ruins no sertão de Alagoas, lá onde o diabo perdera as botas. (...) Macabéa era na verdade uma figura medieval enquanto Olímpico de Jesus se julgava peça-chave, dessas que abrem qualquer porta. Macabéa simplesmente não era técnica, ela era só ela. (...) Mas Macabéa de um modo geral não se preocupava com o próprio futuro: ter futuro era luxo. A
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    24. (UFRGS/2000) Emrelação aos contos de Clarice Lispector, analise os itens abaixo. I. Denúncia da violência na cidade moderna, privilegiando a visão externa aos acontecimentos e a sua avaliação. II. Preocupação em revelar a realidade social, apontando maneiras de sobrepor-se aos obstáculos que impedem a ascensão social. III. Narrativa intimista, preocupada em revelar o interior das personagens, que se encontram frequentemente em processo de autoconhecimento. Quais deles predominam nos contos da autora? (A) Apenas I. (B) Apenas II. (C) Apenas III. (D) Apenas I e III. (E) I, II e III. C 56. (UFRGS/2003) Assinale a alternativa INCORRETA em relação à obra A hora da estrela, de 1977, de Clarice Lispector. (A) Apesar de acumular no seu corpo franzino a herança do sertão, Macabéa, como o namorado Olímpico de Jesus, também nordestino, procura, a qualquer preço, a ascensão social. (B) A personagem principal é a datilógrafa Macabéa, órfã alagoana criada por uma tia beata que morre pouco depois de chegarem ao Rio de Janeiro. (C) A busca da identidade leva Macabéa a observar-se diante do espelho, e a imagem vista e desejada é a de Marilyn Monroe. (D) Rodrigo S.M. ironiza, através de intervenções frequentes no texto, o estilo de narrativa que ele próprio emprega. (E) Logo após receber consolo da cartomante, pois, finalmente, seria feliz, Macabéa é atropelada e, ferida de morte, vomita uma “estrela de mil pontas”. A
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    23. (UFRGS/2004) Assinalecom (V) verdadeiro ou (F) falso as afirmações abaixo, referentes ao romance A Hora da Estrela, de Clarice Lispector. ( ) Embora o título principal do romance seja A Hora da Estrela, a autora propõe uma série de títulos alternativos. ( ) Clarice evidencia preocupações incomuns em sua obra, como a reflexão sobre a linguagem e a busca do sentido secreto que se esconde por trás do aparentemente visível. ( ) Antes de iniciar o relato da história de Macabéa, o narrador faz comentários sobre as dificuldades inerentes ao ato de escrever e sobre os seus receios quanto ao destino da personagem que está criando. ( ) A narração do romance é feita por três vozes distintas: a de Rodrigo A. M., a de Macabéa e a de Olímpico. ( ) Uma das distrações de Macabéa, durante a madrugada, é ligar o radinho emprestado por uma colega de quarto e sintonizar a Rádio Relógio, que assinala com um tic-tac cada minuto. A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é (A) V - F - V - F - V. (B) V - V - F - F - V. (C) F - V - F - V - F. (D) V - F - F - F - V. (E) F - F - V - V - F. V F V V F A
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    40. Leia ofragmento da crônica A descoberta do Mundo, de Clarice Lispector. O que eu quero contar é tão delicado quanto a própria vida. E eu quereria poder usar a delicadeza que também tenho em mim, ao lado da grossura de camponesa que é o que me salva. Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em aprender a atmosfera íntima de uma pessoa. (...) se refere à relação profunda de amor entre um homem e uma mulher, da qual nascem os filhos. Depois, com o decorrer de mais tempo, em vez de me sentir escandalizada pelo modo como uma mulher e um homem se unem, passei a achar esse modo de uma grande perfeição. E também de grande delicadeza. Antes de me reconciliar com o processo da vida, no entanto, sofri muito, (...) E se continuo até hoje com pudor não é porque ache vergonhoso, é pudor apenas feminino. Pois juro que a vida é bonita. Sobre o fragmento, assinale a alternativa correta. (A) Clarice entende que as relações amorosas são complexas independentes da experiência do ser humano, porém isso não torna a vida num martírio. (B) A autora utiliza a crônica para popularizar um tema de impacto entre as mulheres: o medo de criarem vínculos afetivos com parceiros. (C) Clarice se reconcilia com a vida depois de compreender o quão necessária é a relação amorosa para a concretização da afetividade. (D) A autora tem consciência do quanto é incapaz de entender a ternura que o ato sexual pode implicar numa relação. (E) O pudor a que se refere a autora é o medo comum que existe entre as mulheres que já passaram por desilusões amorosas. Simulado PEAC- 2015/2 A