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UNIVERSIDADE DO ESTADO DE SANTA CATARINA - UDESC 
CENTRO DE ARTES - CEART 
DEPARTAMENTO DE DESIGN 
MICHELLE BERTICELLI NUNES 
AS CONTRIBUIÇÕES DO DESIGN PARA O MEIO RURAL: UM ESTUDO 
DE CASO COM O GRUPO DE AGRICULTORES AGROECOLÓGICOS 
DE GAROPABA – S.C. 
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado no 
Centro de Artes da Universidade do Estado de 
Santa Catarina, como requisito para obtenção do 
título de Bacharel em Design Industrial. 
Orientador: Prof. Douglas Ladik Antunes, MSc. 
FLORIANÓPOLIS, S.C. 
2006
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MICHELLE BERTICELLI NUNES 
AS CONTRIBUIÇÕES DO DESIGN PARA O MEIO RURAL: UM ESTUDO 
DE CASO COM O GRUPO DE AGRICULTORES AGROECOLÓGICOS 
DE GAROPABA – S.C. 
Trabalho de conclusão de curso aprovado como requisito parcial para a obtenção do 
grau de bacharel, no curso de Graduação em Design Industrial da Universidade do 
Estado de Santa Catarina. 
Banca Examinadora: 
Orientador: 
_______________________________________________________ 
Prof. Douglas Ladik Antunes, MSc. 
UDESC – Universidade do Estado de Santa Catarina 
Membro: 
_______________________________________________________ 
Prof. Eugenio Merino, Dr. 
UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina 
Membro: 
____________________________________________________ 
Marcos José de Abreu 
CEPAGRO - Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo 
Florianópolis, 21 de dezembro de 2006.
3 
DEDICATÓRIA 
Dedico esta pesquisa a todos que vivem e 
sobrevivem da agricultura familiar, de 
imenso potencial e valor para nosso país.
4 
AGRADECIMENTOS 
Muitas são as pessoas queridas e especiais que estiveram comigo nesta nova 
etapa de minha vida, me apoiando e me animando. Pessoas que estarão eternamente 
no meu coração e que merecem os meus sinceros agradecimentos... 
... À minha família linda e sempre tão unida... Ao meu pai querido, companheiro e 
bondoso com todos, que me ensina a cada dia ser uma pessoa mais forte e 
responsável.... à minha mamy, uma artista incomparável, batalhadora, e acima de tudo, 
uma amiga fiel... à minha irmãzinha... não é preciso dizer muito... apenas que ela é e 
sempre será um exemplo de pessoa, com toda sua dedicação, responsabilidade e 
carisma.... à todo o restante desta imensa família, avós, avós, tias, tios, primos, primas... 
Amo muito todos vocês!!! 
... Ao meu namorado Rodrigo... o qual proporcionou os melhores momentos de 
minha vida... os mais simples e ingênuos, porém os mais marcantes e sinceros... que 
mesmo distante, me ampara, me corresponde e me encoraja a cada dia... amo muito 
você e com certeza tudo isso não será em vão... PS amor!! 
... A todos os responsáveis por minha formação dentro da Universidade, 
professores, colaboradores, técnicos e colegas de sala... em especial ao meu orientador 
Douglas, que desde os primeiros semestres tem encarado nossa turma de maneira 
descontraída e profissional... Agradeço por ter aceitado meu convite, com a pesquisa já 
em curso, e por ter me guiado da forma mais sensata e proveitosa...
5 
... Às minhas amigas inseparáveis, que estiveram comigo durante todos esses 
anos... em especial à Ana Sofia, Rosa Marina e Marina.... vocês são muito loucas e 
muito divertidas!! Aprendi muito com cada uma de vocês e agradeço por ter conhecido 
todas vocês... às minhas amigas ainda mais loucas... que não param quietas... Marta e 
Marcela... vocês são show de bola... por onde estiverem desejo o melhor para vocês... 
ao restante da turma, cada pessoa que compartilhou um pouco de sua amizade 
comigo... muito obrigada!!! 
... À amizade em especial também, de Adelita, por me aconselhar e sempre se 
preocupar comigo... e com certeza ao nosso futuro profissional juntas...muito obrigada!! 
... À nova amizade de Tânia e Natacha, que antes de serem minhas chefes, 
foram grandes amigas e companheiras de trabalho!! 
... Em especial, ao pessoal do CEPAGRO, que me acolheu e me auxiliou a 
encontrar um rumo para a proposta desta pesquisa, possibilitando o encontro com o 
Grupo de Agricultores... com certeza o trabalho não irá parar por aqui! 
... Mais especial ainda, a todas as famílias de agricultores agroecológicos de 
Garopaba, por permitirem adentrar em suas propriedades, conhecer um pouco de sua 
vivência e cumprir com os objetivos desta pesquisa... foi uma experiência maravilhosa, e 
que com certeza fará diferença em minha vida... 
E por fim, porém não menos importante, agradeço a Deus e aos anjos que me 
cercam por terem me guiado até o momento... 
A todos vocês, obrigada do fundo do meu coração...!
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RESUMO 
A presente pesquisa tem como objetivo fundamental compreender as condições reais 
do Grupo de Agricultores Agroecológicos do Município de Garopaba – Santa Catarina, 
identificando – com base em entrevistas, discussões e observações – os entraves para 
a sustentabilidade e sociabilidade da agricultura agroecológica, bem como para a 
expansão e valorização de seus produtos, como também, as potencialidades e 
oportunidades para o seu próprio desenvolvimento local. Tendo como propósito final, o 
levantamento de demandas de competência do Designer e sua análise com base nos 
fatores: prioridade, viabilidade e eficiência. Entre os principais elementos de discussão 
desta pesquisa estão o contexto agrícola brasileiro, enfatizando a permanência dos 
agricultores familiares, com foco na agricultura familiar do Estado de Santa Catarina; e a 
dinâmica atual do meio rural, com a compreensão da agroecologia junto às diversas 
concepções a cerca dos modelos de desenvolvimento vinculados à sociedade ao longo 
dos anos. A agroecologia é considerada a base científica constituída por princípios 
mais viável aos agricultores familiares que buscam a sustentabilidade de suas unidades 
produtivas, tornando-se um agente promotor de um padrão de desenvolvimento 
ecologicamente prudente e socialmente justo, valorizando as capacidades locais e as 
ações sociais coletivas, oportunizando a inserção do Design e a contribuição deste para 
o processo de desenvolvimento. 
PALAVRAS-CHAVE: Desenvolvimento local, agricultura agroecológica, demandas de 
Design.
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ABSTRACT 
The present research has as objective basic to understand the real conditions of the 
Group of Ecological Agriculturists of the City of Garopaba - Santa Catarina, identifying - 
on the basis of interviews, quarrels and comments - the impediments for the 
sustainability and sociability of ecological agriculture, as well as for the expansion and 
valuation of its products, as well as, the potentialities and chances for its proper local 
development. Having as final intention, the survey of demands of ability of the Designer 
and its analysis on the basis of the factors: priority, viability and efficiency. It enters the 
main elements of quarrel of this research are the Brazilian agricultural context, 
emphasizing the permanence of the familiar agriculturists, with focus in the familiar 
agriculture of the State of Santa Catarina; e the current dynamics of the agricultural way, 
with the understanding of the ecological agriculture next to the diverse conceptions about 
the entailed models of development to the society throughout the years. The ecological 
agriculture is considered more viable the scientific base consisting by principles the 
familiar agriculturists who search the sustainability of its productive units, becoming a 
promotional agent of a standard of ecological cautious development and socially just, 
valuing the local capacities and the collective social actions, giving chance to insertion of 
the Design and the contribution of this for the development process. 
KEY-WORDS: Local development, ecological agriculture, demands of Design.
8 
SUMÁRIO 
1. CAPÌTULO I ......................................................................................................... 14 
1.1. Introdução ..................................................................................................... 14 
1.2. Delimitação do Tema .................................................................................... 15 
1.3. Objetivos ....................................................................................................... 17 
1.3.1. Objetivo Geral ........................................................................................ 17 
1.3.2. Objetivos Específicos ............................................................................. 17 
1.4. Justificativa do Tema .................................................................................... 18 
1.5. Metodologia ................................................................................................... 21 
1.6. Cronograma .................................................................................................. 23 
2. CAPÍTULO II ........................................................................................................ 24 
2.1. Modelo Agrícola Brasileiro ............................................................................ 24 
2.2. Definições e Concepções da Agricultura Familiar ........................................ 27 
2.3. Modelo Agrícola Familiar de Santa Catarina ................................................ 30 
2.4. Contextualização das Unidades de Produção Familiar – UPFs ................... 33 
2.5. O Meio Rural ................................................................................................. 36 
2.6. A Agroecologia .............................................................................................. 38
9 
2.7. Concepções sobre Desenvolvimento ............................................................ 45 
2.7.1. Do Desenvolvimento Vigente a uma Nova Perspectiva ........................ 46 
2.8. Metodologias Participativas .......................................................................... 62 
2.9. Abordagem do Design .................................................................................. 65 
3. CAPÍTULO III ....................................................................................................... 72 
3.1. Desenvolvimento do Estudo de Caso ........................................................... 72 
3.2. A Rede de Agroecologia Ecovida ................................................................. 73 
3.3. A Instituição – CEPAGRO ............................................................................. 77 
3.4. Ambientação - Município de Garopaba ......................................................... 80 
3.5. Ambientação - Grupo de Agricultores Agroecológicos de Garopaba ........... 84 
3.6. A Pesquisa .................................................................................................... 92 
4. CAPÌTULO IV ..................................................................................................... 104 
4.1. Limitações ................................................................................................... 104 
4.2. Potencialidade e Oportunidades ................................................................. 108 
4.3. Levantamento e Análise de Demandas ...................................................... 113 
5. CAPÌTULO V ...................................................................................................... 127 
5.1. Considerações Finais .................................................................................. 127 
6. REFERENCIAL .................................................................................................. 130 
7. ANEXOS ............................................................................................................ 135
10 
LISTA DE FIGURAS 
Figura 1 – Mapeamento dos Núcleos da Rede Ecovida ........................................... 68 
Figura 2 – Localização do Município de Garopaba ................................................... 70 
Figura 3 – Localização das praias do Município de Garopaba ................................. 71 
Figura 4 – Barcos de pesca na praia de Garopaba ................................................... 72 
Figura 5 – Produção de hortaliças ............................................................................. 74 
Figura 6 – Mercado do Produtor ................................................................................ 75 
Figura 7 – Feira Agroecológica Municipal ................................................................. 76 
Figura 8 – Agricultor Zezinho .................................................................................... 77 
Figura 9 – Agricultora Dona Lourdes ......................................................................... 78 
Figura 10 – Agricultor Batista e sua esposa .............................................................. 79 
Figura 11 – Agricultor Mariomar ................................................................................ 80 
Figura 12 – Agricultor Adi e sua família .................................................................... 80 
Figura 13 – Oficina de Biofertilizante ......................................................................... 81 
Figura 14 – Oficina de Compostagem ....................................................................... 81 
Figura 15 – Reunião do Grupo ................................................................................... 82
11 
LISTA DE TABELAS 
Tabela 1 – As cinco dimensões do desenvolvimento sustentável ............................ 52
12 
LISTAS DE ABREVIATURAS E SIGLAS 
AAO – Associação de Agricultura Orgânica 
APA – Área de Proteção Ambiental 
APACO – Associação dos Pequenos Agricultores do Oeste Catarinense 
CEMEAR – Centro de Motivação Ecológica e Alternativas Rurais 
CEPA – Centro de Estudos de Safras e Mercados 
CEPAGRI – Centro de Assessoria e Apoio aos Trabalhadores Rurais 
CEPAGRO – Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo 
CIASC – Centro de Informática e Automação do Estado de Santa Catarina 
CMDR – Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural 
DRP – Diagnóstico Rápido Participativo 
EMATER – Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e 
Extensão Rural 
EPAGRI – Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural 
FAO – Food and Organization of the United Nations 
FETRAF – Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar 
IAF – Inter-American Foundation 
IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
13 
ICSID – Conselho Internacional de Sociedades de Design Industrial 
INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária 
MAPA – Ministério da Agricultura e Planejamento Agrário 
MDA – Ministério do Desenvolvimento Agrário 
MISEREOR – Agência de Desenvolvimento da Igreja Católica da Alemanha 
ONG’s – Organizações Não Governamentais 
PIB – Produto Interno Bruto 
PRONAF – Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar 
SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas 
UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura 
UPF’s – Unidades de Produção Familiar
14 
1. CAPÌTULO I 
1.1. Introdução 
Ao estudar as raízes históricas da Agricultura Brasileira, constantes 
transformações de diferentes dimensões são deparadas, advindas de alternativas 
propostas e geradas conforme a contextualização e os interesses do modelo de 
desenvolvimento daquele mesmo momento histórico. 
O modelo de desenvolvimento vigente, contemplado ao longo desta pesquisa, 
tem sido abordado e discutido por diversos segmentos da sociedade, implicando em 
distintos setores (como na economia, na política, entre outros), como também, no 
modelo Agrícola Brasileiro dos últimos anos. 
Muitas revoltas, inquietações, como também, conquistas e mudanças de caráter 
prático, foram marcantes na história da Agricultura Brasileira. Passamos por um período 
exploratório, extrativista, escravista, exportador, tornando-nos seres apenas predatórios. 
Chegamos a um período de colonização, de interesses governamentais, de fortes 
concentrações de renda, do destaque dado ao setor privado, às grandes propriedades, 
aos latifúndios e às questões acerca da reforma agrária. Partimos para a 
industrialização, urbanização, bem como a indução de uma modernização 
conservadora. Novas intenções modernizantes surgem a partir da intervenção do 
Estado, como o sistema nacional de créditos rurais, o surgimento de complexos 
industriais e a exportação de produtos dinâmicos. 
Por fim, é percebida a existência de dois modelos de Agricultura, a Patronal e a 
Familiar (assim denominados por alguns autores), dois Ministérios (MAPA – Ministério 
da Agricultura e Planejamento Agrário e o MDA – Ministério do Desenvolvimento 
Agrário), e inúmeros debates, pesquisas, argumentos em relação à agricultura e ao
15 
modelo de produção familiar enfatizada nesta pesquisa, bem como questionamentos 
quanto ao planejamento para o desenvolvimento econômico, social, cultural e ambiental 
dessa parcela populacional vinculada à agricultura. Destacando-se assim, a questão 
atual, a respeito do planejamento local, promissor aos agricultores familiares e 
conseqüentemente, a essa pesquisa. 
A Agricultura Familiar de base agroecológica, compreendida nesta pesquisa, é 
representada não somente por uma forma de organização produtiva, mas também, por 
uma atividade econômica especializada, diferenciada, intensiva, de caráter permanente, 
valendo de sua característica maior: a representatividade de um modo de vida que 
preserva a paisagem, a biodiversidade e diversos aspectos econômicos e culturais de 
importância fundamental para o seu próprio desenvolvimento. 
São essas algumas das contextualizações que nos desafiam a contribuir a favor 
daqueles que demandam o ingresso de inúmeras inovações e a constante atuação e 
articulação de atores comprometidos, de enorme potencialidades e oportunidades, 
cabendo ao profissional de Design, contíguo a tantos outros, um papel comprometedor 
e de grande contribuição para o seu fortalecimento, planejamento e desenvolvimento. 
1.2. Delimitação do Tema 
O desafio inicial proposto nesta pesquisa é o de compreender de forma uma tanto 
sucinta, a questão agrícola brasileira, junto às diversas concepções acerca dos modelos 
de desenvolvimento vinculados à sociedade ao longo dos anos, enfatizando em um 
segundo momento, a existência dos agricultores familiares, com foco na agricultura 
familiar do Estado de Santa Catarina, em especial, ao Grupo de Agricultores 
Agroecológicos do Município de Garopaba – SC, a fim de contribuir nos principais
16 
entraves e potencialidades de suas unidades produtivas, a partir do levantamento de 
demandas de conhecimento e competência do Designer. 
O modelo de agricultura exercido por tais agricultores, a Agricultura Familiar, de 
forte presença no Estado de Santa Catarina, caracterizada pelo trabalho exercido 
predominantemente pelo agricultor(a) e sua família, vem registrando forte capacidade 
de resistência, produtividade e eficácia, apesar de seu histórico conturbado devido aos 
grandes complexos industriais e da deficiência de crédito e apoio perante o intermédio 
entre sua unidade produtiva e o mercado atual. 
Seu desempenho e fortalecimento dependem da integração e articulação entre 
diversos atores sociais comprometidos com a mesma. O que possibilita ao profissional 
de Design, o surgimento de uma recente área de atuação, necessitada, porém de 
grande potencial emergente. 
Os princípios de Design, voltados para questões econômicas, sócio-culturais, 
ambientais, bem como, ações gestoras e estratégicas, têm como preceito, a 
contribuição para a ampliação e viabilidade das unidades de produção familiar, 
promovendo um papel mais efetivo entre o agricultor e o meio externo, identificando 
esses entraves e diagnosticando oportunidades e potencialidades a essas unidades. 
Portanto, o problema da pesquisa buscará compreender as condições reais do 
grupo de agricultores específicos, em contrapartida aos princípios do Design, onde se 
norteará pelos seguintes questionamentos: 
1. Quais as principais limitações bem como as potencialidades e oportunidades do 
grupo de agricultores familiares em questão? 
2. De que forma a identificação de demandas de Design implicará em resultados 
prósperos aos mesmos? E como será potencializada esta relação entre a 
identificação de demandas junto ao Grupo de Agricultores?
17 
1.3. Objetivos 
1.3.1. Objetivo Geral 
Compreender as condições reais do Grupo de Agricultores Agroecológicos do 
Município de Garopaba, Santa Catarina, a partir da identificação de suas limitações bem 
como suas potencialidade e oportunidades, enfatizando o modelo de Agricultura 
Familiar com base no Desenvolvimento Local Integrado e nas ações estratégicas e 
operacionais do Design, a fim de levantar demandas de conhecimento e competência 
do Designer. 
1.3.2. Objetivos Específicos 
§ Levantamento bibliográfico e revisão teórica sobre os temas a serem abordados: 
histórico da agricultura brasileira; surgimento e contextualização da agricultura familiar 
brasileira e de Santa Catarina; abordar os discursos a respeito dos modelos de 
desenvolvimento e a questão do Planejamento Local Integrado como forma de 
desenvolvimento. 
§ Investigar e vivenciar a realidade do Grupo de Agricultores em análise, compreender 
seu dinamismo cultural, econômico, ambiental e social.
18 
§ Revisar e transcrever os dados e informações coletadas para a proposição das 
demandas de competência do Designer. 
§ Promover uma análise das demandas de Design, conforme os aspectos: prioridade, 
viabilidade e eficiência. 
1.4. Justificativa do Tema 
A preferência em trabalhar com os agricultores familiares agroecológicos foi 
motivada pela importância em destacar alguns pontos críticos da história brasileira 
como: a insustentabilidade de uma das principais heranças brasileiras – a agricultura; o 
surgimento de uma agricultura rústica e precária, considerada inicialmente de 
abastecimento – a Agricultura Familiar, e por fim, o reconhecimento do meio rural como 
fonte de empreendedorismo e fortes potencialidades; a tendência mundial a cerca dos 
produtos ecológicos e das propriedades agroecológicas. 
Uma quarta justificativa para a pesquisa, é a iniciativa atual procedente dos 
profissionais de Design, em trabalhar e aprimorar seus conhecimentos nesta recente 
área de abrangência: o meio rural, gerando documentações como artigos e projetos 
publicados e apresentados em congressos e eventos. No entanto, esta demanda em 
abranger a área rural buscando uma maior relação com o Design, vem sendo alvo de 
muitos designers brasileiros focados preferencialmente nas atividades particulares do 
Design Gráfico, não abrangendo assim, as demais atuações do Design. 
Outra medida para justificar esta pesquisa, é a própria contextualização do 
território brasileiro. Segundo Pádua (2003), a formação do atual território brasileiro na 
economia mundial moderna, a partir do século XVI, deu-se basicamente pela 
agricultura. Afirmação esta sendo justificada pelo autor, devido a nossa colonização
19 
portuguesa, ao contrário, por exemplo, da América Latina, de colonização espanhola, 
voltada para as conquistas de minérios. “A fundação do nosso país, portanto, foi 
marcada pela exploração da biomassa vegetal“ (PÁDUA, 2003). 
É importante enfatizar que a agricultura foi a base do modelo econômico de 
diversas fases históricas do nosso país, mas não foi a única. Passamos por outros ciclos 
adversos também marcados por essa exploração da biomassa vegetal e de grande 
importância, como o da borracha, de extração mineral, como o ferro, alumínio, nióbio, 
entre outros. No entanto, a agricultura foi o ciclo de maior destaque e que se prepondera 
até os dias de hoje. 
Fica-se evidente, desde a nossa colonização, a importância e a contribuição da 
agricultura, onde abriga um terço da população brasileira, tornando-se responsável por 
inúmeros e constantes processos de transformações no universo econômico, cultural, 
ambiental e político do nosso país. 
A fim de justificar novamente a temática da pesquisa, a mesma se direcionará ao 
estudo da Agricultura Familiar no Estado de Santa Catarina, caracterizada entre os seis 
principais Estados produtores de alimentos onde apresenta os maiores índices de 
produtividade por área, graças à capacidade de trabalho e de inovação do agricultor, ao 
emprego de tecnologias adequadas e ao próprio modelo agrícola de caráter familiar. 
Conforme divulgado pelo Centro de Safras e Mercados, intitulado anteriormente 
como Instituto Cepa, de acordo com o Censo Demográfico de 2000, realizado pelo 
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, o Estado possuía uma população 
de 5.333.284 habitantes, dos quais aproximadamente 25% viviam no meio rural, em 
cerca de 203 mil estabelecimentos rurais. Devido ao processo de urbanização ocorrido a 
partir da década de 70, cerca de 30% da população catarinense está concentrada nas 
oito cidades com mais de 100 mil habitantes.
20 
O setor agrícola catarinense representa 12,8% do Produto Interno Bruto estadual. 
As atividades do agronegócio1, no entanto, contribuem com cerca de 20% do PIB 
estadual. Os três mil estabelecimentos de indústrias agrícolas e agroalimentares, por si 
sós, respondem por 19% da renda, empregando cerca de 35 mil pessoas (Centro de 
Safras e Mercados, 2003). 
Santa Catarina ocupa o quinto lugar entre os estados exportadores. No ano de 
2000, as exportações estaduais corresponderam a 4,6% do total brasileiro. Já em 2003, 
o agronegócio representou 57% do valor total exportado pelo Estado. Na pauta de 
exportações estaduais, destaca-se o complexo agroindustrial, que contribuiu com 50% 
do total estadual, destacando as exportações de produtos florestais e de carnes, aves e 
miudezas (Centro de Safras e Mercados, 2003). 
A partir da compreensão desses indicadores, é visível o papel crucial deste 
segmento na economia do Estado e principalmente dos pequenos municípios que se 
mantém da mesma. 
Estes produtores são responsáveis pela geração de muitos empregos como no 
comércio e nos serviços prestados, de grande importância social para o Estado e para o 
desenvolvimento dos municípios, porém, esta parcela da população, vem sendo 
prejudicada devido à atual caracterização do mercado globalizado e competitivo e 
também da forte predominância das agroindústrias. 
Nesta seqüência de abordagens a cerca da contextualização agrícola 
catarinense, junto à compreensão dos modelos de desenvolvimento, bem como, a 
ênfase dada à nova dinâmica voltada para o desenvolvimento das localidades, ou seja, 
1 Também chamado freedy mercury ou agribusiness, segundo a Enciclopédia Wikipédia, agronegócio é 
considerado o conjunto de negócios relacionados à agricultura, dentro do ponto de vista econômico. 
Costuma-se ser divididos em três partes: 1. os negócios agropecuários propriamente ditos, representados 
pelos agricultores rurais; 2. os negócios à montante aos da agropecuária, representadas pelas industrias 
e comércios fornecedores de matérias primas e insumos; 3. os negócios à jusante aos da agropecuária, 
representados pelos negócios que compram os produtos agropecuários, os beneficiam, os transportam e 
os vendem para os consumidores finais.
21 
para o Desenvolvimento Local2, a pesquisa torna-se justificável mais uma vez, não 
somente devido à atualidade e repercussão deste tema, mas também, pela consciência 
ao que contempla o desenvolvimento local como um espaço heterogêneo e 
diversificado, que induz a repensar a multiplicidade de atores comprometidos. 
Oferecendo assim, possibilidades de novas parcerias e abertura para o profissional de 
Design, junto a suas competências e habilidades, em intervir nesta área de atuação, 
como mobilizador e mediador social também, na construção e aplicação deste 
desenvolvimento a partir da inserção de novas fronteiras de conhecimento ao meio 
rural. 
1.5. Metodologia 
Com base nos objetivos desta pesquisa, a metodologia empregada é do tipo 
exploratória e de caráter qualitativo, a partir da delimitação de um objeto de estudo e a 
vivência da realidade de uma determinada localidade, neste caso, o grupo de 
agricultores agroecológicos, residentes no município de Garopaba - SC. Sendo assim, 
os procedimentos metodológicos serão caracterizados pela aplicação de uma pesquisa 
de campo, buscando resultados por meio das relações práticas e teóricas. 
As relações práticas foram obtidas por meio de visitas ao Município de Garopaba, 
e às propriedades dos agricultores, em um primeiro momento, junto aos técnicos 
agrícolas e funcionários do Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo – 
CEPAGRO, que já exercem atividade na região, partindo para futuras visitas 
particulares, conforme o curso da pesquisa. 
2 O termo Desenvolvimento Local será contextualizado na seqüência desta pesquisa.
22 
O Grupo de Agricultores Agroecológicos de Garopaba são formados por onze 
famílias, mas, no entanto, a pesquisa se direcionou a cinco famílias de agricultores, 
devido principalmente, ao maior contato dessas, com as atividades oferecidas pelo 
CEPAGRO durante o período da pesquisa de campo e conseqüentemente, um maior 
contato com o pesquisador. 
Os métodos utilizados para a coleta de informações foram desde conversas 
informais, entrevistas, práticas de observação e roteiros semi-estruturados que puderam 
auxiliar para o desenvolvimento da pesquisa, junto ao maior número de atores 
envolvidos: proprietários e trabalhadores rurais, familiares dos agricultores/proprietários, 
comerciantes da região, associações locais, o CEPAGRO, entre outros. 
Foi utilizado primeiramente um questionário direcionado aos integrantes do 
CEPAGRO, os quais possuem maiores responsabilidades junto ao Grupo de 
Agricultores, sendo este descrito no anexo de número 1. Na seqüência, foi elaborado 
um roteiro de perguntas e questionamentos, utilizado para as entrevistas individuais, do 
tipo semi-estruturada, sendo descrito no anexo de número 2. O roteiro contempla nove 
áreas de abrangência (1. propriedade/agricultor/história; 2. princípios da agroecologia; 3. 
pré-produção; 4. produção; 5. produto; 6. instrumento de trabalho; 7. estrutura física; 8. 
mercado; 9. outros assuntos) sendo questionadas as condições e demais informações 
quanto a cada uma dessas áreas a partir desta pesquisa. 
Quanto às informações secundárias, porém necessárias, relacionadas ao 
Município de Garopaba, devido ao escasso tempo de pesquisa, serão coletadas por 
meios indiretos, como websites do Governo, da Prefeitura do município e de Portais 
Turísticos. 
Em vista as relações teóricas pretendidas nesta pesquisa, serão empregados 
outros procedimentos, como a pesquisa bibliográfica em livros, periódicos, projetos e 
artigos científicos, a fim de coletar informações distintas relacionadas aos assuntos 
abordados, como também, pesquisa em acervos documentais sobre as áreas de 
estudo, em websites de entidades e organizações governamentais, públicas e privadas.
23 
Por fim, foram coletados os dados e as informações com base no questionário, 
nas entrevistas guiadas pelo roteiro e na prática de observação, transcritas e listadas 
em três abordagens, de forma a facilitar a compreensão de cada uma delas: 1. 
informações quanto às questões históricas; 2. informações quanto às questões 
subjetivas; informações quanto às questões específicas e técnicas. 
Após uma análise e reflexão quanto a essas informações, foram identificadas e 
listadas as limitações e as potencialidades relatadas pelo próprio Grupo e identificadas 
pelo pesquisador, para na seqüência, serem propostas as demandas de Design, 
abordadas em quatro temáticas, junto a uma análise das mesmas, conforme os 
aspectos: prioridade, eficiência e viabilidade, configuradas em tabulações. 
1.6. Cronograma 
Etapas 
08/06 09/06 10/06 11/06 
3ª S 4ª S 1ª S 2ª S 3ª S 4ª S 1ª S 2ª S 3ª S 4ª S 1ª S 2ª S 3ª S 4ª S 
1. finalização do 
referencial teórico. 
2. preparação para a 
pesquisa de campo 
(ambientação, articulação, 
formulação de entrevistas 
questionários). 
3. saídas a campo (coleta 
de dados, ferramentas). 
4. transcrição e análise 
dos dados coletados. 
5. proposição e análise 
das demandas. 
6. elaboração das 
considerações finais 
7. preparação dos 
documentos finais
24 
2. CAPÍTULO II 
2.1. Modelo Agrícola Brasileiro 
O debate em torno da problemática agrária no Brasil (como produzir e de que 
forma ocorrerá a produção agrícola), e também da problemática agrícola (o que 
produzir, quanto produzir e onde produzir), persiste desde o inicio do século XX, sendo 
esta, identificada em seus primórdios como agroexportadora e monocultora, vinculada a 
uma sociedade capitalista e conservadora. 
Paulillo apud Batalha (1997), deixa claro que foi na década de 60 que a questão 
agrária ganhou ênfase, onde era considerada um empecilho ao processo de 
industrialização nacional, e para isso necessitou o emprego de novas tecnologias e um 
crescimento produtivo acirrado através de estratégias de mudanças econômicas e 
sociais, que favorecessem a produção agrícola. 
Uma certa “modernização conservadora” da agricultura, visando o 
desenvolvimento aliado à industrialização e urbanização, foi induzida aos agricultores 
através da introdução dos “pacotes tecnológicos” da Revolução Verde, que 
incentivavam largas escalas de produção, aumento geral da produtividade, do número 
de produtos exportados e a expansão de sistemas monoculturais. 
“Eram pacotes difundidos através de órgãos oficiais que incluíam máquinas 
agrícolas, sementes geneticamente modificadas, fertilizantes químicos, 
venenos químicos, entre outros. O que representou para os países pobres uma
25 
maior dependência de importações tecnológicas e matérias primas dos países 
ricos”. (MUSSOI apud ESTEVAM, 2001). 
A justificativa para o emprego deste modelo de agricultura encontrava-se 
unicamente na necessidade de aumentar rapidamente a produção e a produtividade. 
Olalde et. al (2003), relata que essa orientação “produtivista” estava associado ao 
cumprimento das funções da agricultura, direcionada unicamente, ao desenvolvimento 
econômico, sendo elas: produzir alimentos baratos; fornecer matéria prima para 
indústria; permitir a obtenção de divisas a partir do aumento das exportações (ou 
redução das importações); consumir produtos industrializados e liberar mão-de-obra 
para as atividades urbano-industriais. 
Este mesmo modelo de modernização possuiu grandes incoerências e 
conseqüências devastadoras: privilegiou algumas culturas, favorecendo apenas médias 
e grandes propriedades; provocou o abandono dos agricultores e a fixação nos grandes 
centros urbanos; intensificou a concentração de renda no campo; promoveu 
oportunidade de créditos agrícolas destinados apenas aos grandes proprietários e, por 
fim, promoveu uma constante mudança nas técnicas de produção através da 
mecanização, que impossibilitava à agricultura familiar, o uso desse mesmo recurso. 
Kalnin (2004), menciona que segundo Graziano Neto, os resultados desse 
processo foram catastróficos, tanto no plano econômico quanto do plano social e 
ecológico. A sua face mais visível foi uma enorme contradição: se por um lado houve 
um grande avanço em termos de progresso técnico (resultados econômicos); em 
contrapartida constata-se uma notável regressão em termos sociais, frutos destas 
transformações sem a equivalência no campo social cujas conseqüências foram os 
êxodos rurais, gerando gigantescos bolsões de pobreza nos centros urbanos, 
transformando muitos produtores rurais em “subconsumidores urbanos” e o aumento da 
concentração de renda e da terra. 
A verificação da existência do êxodo rural e desses gigantescos bolsões de 
pobreza é confirmada pelo intenso processo de transformação no tecido social ocorrido
26 
em nosso país, onde, em 1940 a percentagem da população urbana do país, era de 
31,2%, passando a ser de 81,2% em 2000. 
“Isso significa em termos de população total, que as cidades passaram a 
abrigar cerca de 138 milhões de pessoas em 2000, contra apenas 12,7 
milhões em 1940. A mudança que isso representa na paisagem sócio-física 
do país é extraordinária, mesmo levando em conta as críticas 
recentes quanto ao uso de um conceito excessivamente amplo de 
existência “urbana” nesses dados, de maneira que a porcentagem da 
atual população que efetivamente poderia ser classificada como tal seria 
bem menos, algo em torno de 57%” (VEIGA apud PÁDUA, 2003). 
A partir da percepção destas conseqüências e das deficiências que o setor 
agrícola vem enfrentando, provocando transformações na sociedade e no modelo 
econômico do país, muitas reflexões surgiram e foram debatidas por diferentes 
entidades responsáveis, como o Estado, os Sindicatos dos Trabalhadores Rurais, as 
Organizações de fomento, entre outros. 
Paulillo apud Batalha (1997), comenta que o debate sobre o desenvolvimento 
agrário no país reacendeu-se somente na década de 80, com o processo de 
reestruturação econômica, abertura política, reajustamento social e o ressurgimento dos 
movimentos sociais no campo, onde foram analisadas as características e 
especificidades do processo de desenvolvimento capitalista na agricultura, considerando 
o surgimento de novas perspectivas para a agricultura. 
Toda essa análise sobre o desenvolvimento capitalista refletido na agricultura e 
sobre a problemática das novas gerações de agricultores, por parte da fragilidade que 
vinha passando, o padrão tecnológico moderno, levou na década de 80, à constituição 
de movimentos de oposição e de proposição a fim de amenizar e reverter a situação da 
falta de oportunidades, tecnologias não apropriadas e o insuficiente incentivo para com 
o meio rural e principalmente para a agricultura familiar. Surge então, a necessidade da 
intervenção das instituições de fomento e outros atores sociais, vinculados de alguma 
forma ao setor agrícola, para a implementação de programas de fortalecimento desta 
agricultura familiar.
27 
Na década de 90, surgem projetos de desenvolvimento local/regional com base 
na promoção da Agricultura Familiar através da implementação de agroindústrias 
familiares, principalmente as agroindústrias de beneficiamento alimentar. Kalnin (2004), 
lembra que neste momento se inicia a idéia de não limitar as atividades agrícolas 
familiar somente ao cultivo e sim, incluir a produção de outros bens e serviços, 
agregando valor nas cadeias produtivas. 
Surge a partir de então, diversos conceitos e concepções a respeito dos termos 
Agricultura Familiar, Agricultor Familiar e Agroindústria Familiar, sendo discutidos por 
diversos autores, cabendo a cada um, buscar identificar esse grupo de agricultores bem 
como o meio produtivo no qual estão envolvidos e lhes proporcionar a devida atenção. 
2.2. Definições e Concepções da Agricultura Familiar 
Lamarche (1997), prefere usar o termo Agricultura Familiar, como uma unidade 
de produção agrícola onde a propriedade e o trabalho estão ligados intimamente à 
família. Destaca ainda três tipos de agricultores familiares: aqueles cuja finalidade 
essencial não seria a reprodução enquanto unidade de produção, mas a reprodução 
familiar, modelo familiar; aqueles que estão interessados apenas na sobrevivência da 
família, modelo de subsistência; aqueles motivados por um tipo de exploração agrícola 
organizada com base no trabalho assalariado e/ou orientada para a obtenção de um 
ganho máximo, modelo de empreendimento agrícola. 
Mussoi citado por Estevam (2001), considera Agricultura Familiar aquela em que 
os trabalhos são exercidos predominantemente pelo agricultor e sua família, dando a 
eles responsabilidades, como a iniciativa, o domínio e o controle do que produzir e como 
produzir, havendo uma relação estreita entre o que é produzido e o que é consumido, 
ou seja, são unidades de produção e consumo, mantendo também um alto grau de
28 
diversificação produtiva, mas tendo alguns produtos relacionados com o mercado, 
interagindo o produtor com o consumidor. 
Segundo o Centro de Safras e Mercados, o termo Agricultura Familiar esta 
relacionada diretamente com a produção deste sistema constituído por agentes - os 
produtores e seus familiares – que estabelecem entre si e com o meio que os cerca, 
relações com vistas a produzir alimentos, serviços, lazer, obter renda, melhorar a 
qualidade de vida, zelar pelo meio ambiente, pela paisagem rural, entre outros. 
Segundo Kalnin (2004), em sua contextualização sobre o termo, busca definir 
Agricultor Familiar como sendo: 
“todo aquele que explora parcela da terra na condição de proprietário 
assentado, posseiro, arrendatário ou parceiro e atende simultaneamente 
aos seguintes quesitos: utiliza o trabalho direto seu e de sua família, 
podendo ter, em caráter complementar, ate dois empregados 
permanentes e contar com a ajuda de terceiros, quando a natureza 
sazonal da atividade agropecuária o exigir; não tedenha, a qualquer título. 
Área superior a quatro módulos fiscais, quantificados segundo a 
legislação em vigor; tenha no mínimo 80% da renda familiar bruta anual 
originada da exploração agropecuária, pesqueira e/ou extrativa; resida na 
propriedade ou em aglomerado rural ou urbano próximo” 
É percebido, a partir desses e inúmeros outros conceitos a respeito desses 
termos, a necessidade de identificar esses grupos de agricultores a partir de alguns 
critérios que facilitem o processo, como organização do trabalho, renda anual, escala de 
produção, entre outros. Cabe salientar que o necessário é identificar esse grupo a partir 
de sua vivência e de sua realidade, a qual lhe garante um estilo de vida único e 
diferenciado, não excluindo a sua importância para com a economia, a política e a 
estrutura social do nosso país. 
Nesta mesma década, onde inúmeros debates com o intuito de compreender tais 
termos e suas caracterizações, muitos agricultores familiares começam a se unir em
29 
associações, cooperativas e condomínios para iniciar a implementação de pequenas 
agroindústrias, surgindo o termo Agroindústria Familiar. 
Agroindústria Familiar: atividade que permite aumentar e reter, nas zonas rurais, 
o valor agregado da produção da agricultura familiar, através da execução de tarefas de 
pós - colheita nos produtos provenientes de explorações agrosilvopastoris, tais como 
seleção, lavagem, classificação, armazenamento, conservação, transformação, 
embalagem, transporte e comercialização (Instituto Cepa/SC, apud KALNIN, 2004). 
Segundo o Censo Agropecuário de 1995/1996, realizado pelo Instituto Brasileiro 
de Geografia e Estatística – IBGE, estima-se em aproximadamente quatro milhões o 
número de estabelecimentos familiares rurais no Brasil, caracterizando um significante 
contingente populacional heterogêneo e que demandam de tratamentos diferenciados e 
emergenciais. 
Essa defesa da Agricultura Familiar, como forma de reverter a situação atual do 
meio rural, causados pela Agricultura Tradicional ou Patronal, repousa em indicadores 
concretos: 
Segundo Pádua (2003), um levantamento recente revelou que, entre 1989 e 
1999, as propriedades com menos de 100 hectares (reconhecidas como familiares), 
apresentaram taxa de crescimento anual médio do rendimento físico da produção da 
ordem de 5,80% contra 3,29% na agricultura patronal. A taxa anual média de 
crescimento da quantidade produzida na agricultura familiar no mesmo período, por 
outro lado, foi de 3,79% ao ano, contra 2,60% na agricultura patronal. 
Outros indicadores, segundo o Censo Agropecuário de 1995/1996, realizado pelo 
IBGE, revelaram que a Agricultura Familiar, constituída por pequenos e médios 
produtores, representam a maioria dos produtores rurais no Brasil, são cerca de 4 
milhões de estabelecimentos, representando 85,2% do total, onde detém 30,5% das 
terras, respondendo por 30% da população global e por 37,9% do valor bruto da 
produção agrícola nacional, empregando cerca de 13,8 milhões de trabalhadores,
30 
representando cerca de 80% do Pessoal Ocupado, apesar de receber apenas 25,3% do 
financiamento total (cerca de 938 milhões de reais). 
O domínio desse setor é evidente preferencialmente na produção de alimentos 
básicos da dieta do brasileiro como feijão, arroz, milho, hortaliças, mandioca e pequenos 
animais, sendo responsável por 60% da produção nacional em relação a esses 
produtos. 
Essas afirmações vêm evidenciar a forte capacidade de resistência do modelo de 
agricultura familiar, nos revelando mais uma vez, o potencial desses grupos de 
agricultores e a demanda em constante ascensão de seus produtos. São responsáveis 
por demonstrar resultados produtivos e eficazes apesar da falta de apoio e créditos 
necessários. O que nos direciona a reconhecer este modelo e buscar fortalecê-lo a partir 
de novas reflexões e novos projetos de intervenção sobre o mesmo. 
No entanto, esses mesmos agricultores encontram-se escondidos muitas vezes, 
por de trás das grandes indústrias e pelo mercado acirrado e competitivo, necessitando 
desta forma, da inclusão de atores sociais que visem a melhoria da capacidade 
produtiva e organizacional de seus sistemas produtivos, o empreendimento de políticas 
ativas, e que desafiem este mercado trabalhando para o fomento da atividade agrícola 
como forma de desenvolvimento de nossa sociedade. 
2.3. Modelo Agrícola Familiar de Santa Catarina 
O modelo agrícola catarinense é caracterizado devido ao processo de ocupação 
e formação deste Estado, a qual, segundo Freire (2002) é identificada por três períodos 
significativos e pela sua inserção gradativa no mercado regional, nacional e 
internacional.
31 
O primeiro período de formação do Estado Catarinense, que se estende do 
século XVII a 1850, é caracterizado pela preocupação dos portugueses em fortificar a 
extensão litorânea, criando pontos de abastecimentos garantindo acesso à Região do 
Prata e viabilizando o transporte para a exploração do ouro. Predominando desta forma, 
a economia de subsistência e agro-exportadora. Inicia-se neste período a ocupação de 
alguns povoados originando as cidades de Nossa Senhora da Graça do Rio São 
Francisco do Sul, Santo Antônio dos Anjos de Laguna, Nossa Senhora do Desterro, e 
posteriormente, a emancipação do município de Lages. O segundo período, 
correspondente à 1850 a 1914, encontra-se vinculado ao expressivo contingente de 
imigrantes vindos principalmente da Itália e Alemanha trazendo experiências já 
industrializadas e o conhecimento da economia policultura e de mão de obra familiar, 
fator este, que garante a diferenciação entre os demais Estados brasileiros: a atividade 
de policultura, com o cultivo confinante de diferentes produtos, em resistência à 
monocultura. Surgiram neste período, os primeiros povoados alemãs e italianos como 
São Pedro de Alcântara. O terceiro período, entre 1914 e 1960, é caracterizado pela 
inserção no mercado nacional junto a uma melhor reflexão sobre a produção familiar, 
onde algumas de suas características, como a pequena produção baseada no 
policultivo, são apontadas como fatores de resistência à crise e também como fatores de 
desenvolvimento. 
Segundo a FAO/INCRA, citado por Freire (2002), o Estado possui algumas 
características típicas em suas Unidades Rurais Familiares – como: (1) a preeminência 
da força de trabalho familiar; (2) a unidade, interação e interdependência existente entre 
a família e a unidade de produção, isto é, a não separação entre os proprietários dos 
meios de produção e os trabalhadores; (3) a não especialização e divisão clássica, 
formal e hierárquica do trabalho e entre a atividade administrativa e executiva, isto é, 
entre trabalhadores diretos e indiretos; (4) uma participação solidária e co-responsável 
de todos os membros da família na organização e no funcionamento do conjunto do 
sistema família – unidade de produção; (5) um projeto (objetivos e finalidades) 
orientado, prioritariamente, para a reprodução das condições e da força de trabalho 
familiar; (6) uma estratégia voltada para a garantia da segurança alimentar da família, 
para a redução dos riscos, para o aumento da renda total da família e por unidade de
32 
trabalho para a garantia do emprego da mão-de-obra familiar e para a melhoria e 
ampliação das condições de trabalho e produção. 
O Estado possui inúmeras particularidades em seu contexto agrícola, que o 
diferencia dos demais Estados. Uma delas diz respeito às concentrações de terras e de 
riquezas, as quais foram amenizadas durante um período devido à resistência das 
Unidades de Produção Familiar, possuindo atualmente, um dos menores índices de 
concentração fundiária do país. 
Após a “modernização na agricultura”, ocorrida durante a década de 60 e 70, o 
modelo agrícola catarinense - baseado na presença de imigrantes e na sua própria 
formação, onde em um primeiro momento, suas unidades de produção familiar visavam 
a subsistência a partir de processos rudimentares - lidou com algumas modificações em 
seus processos produtivos como as implantações de Complexos Agroindustriais, 
integrando-se assim, á dinâmica da produção industrial. 
Os complexos agroindustriais começam a deter um maior controle sobre o 
trabalho dos agricultores, no entanto, fizeram aumentar o número de agricultores com 
emprego fora das propriedades, ou a combinação de atividades dentro da própria 
unidade de produção, atividades estas que nem sempre estão diretamente relacionadas 
à produção agrícola. 
No entanto, com base nos critérios de classificação do Programa Nacional da 
Agricultura Familiar - PRONAF, estima-se que em 2000, a agricultura familiar em Santa 
Catarina representa um universo de 180 mil famílias, ou seja, dentre os 21% habitante 
no meio rural, mais de 90% estão inseridos no modelo da agricultura familiar. O que nos 
revela a superação frente a esses complexos agroindustriais, voltados 
preferencialmente à produtividade e rentabilidade. 
Estas famílias de agricultores, apesar de ocuparem apenas 41% da área dos 
estabelecimentos agrícolas, são responsáveis pelo destaque do setor primário, detendo 
mais de 70% do valor da produção agrícola e pesqueira do estado, destacando-se na 
maior produção nacional de suínos, maçãs, cebolas, ostras e mexilhões, como também
33 
na produção do feijão, milho, leite entre outros, constituindo uma das bases da nossa 
economia local, de grande prestígio nacionalmente. 
2.4. Contextualização das Unidades de Produção Familiar – UPFs 
Ao classificarmos as unidades de produção familiares - UPF, nos deparamos com 
alguns autores que as diferenciam conforme critérios estabelecidos, como a renda bruta 
percebida no ano agrícola, a área ocupada, a produtividade, entre outros. No entanto, 
esta seção enfatiza os principais problemas enfrentados por tais unidades, onde são 
distinguidos apenas por sua intensidade. Será abordada também, a própria 
contextualização das unidades de produção, apontando suas especificidades e 
peculiaridades. 
Segundo Blum apud Tedesco (1999), os problemas estão envolvidos aos quatro 
fatores de produção: terra, mão-de-obra, capital e capacidade empresarial. 
Quanto ao fator “terra”, relacionam-se as seguintes entraves: a concentração e 
distribuição de terra, devido à forma de colonização e a qualidade da terra devido ao 
sistema antigo e nômade de preparo do solo, uso excessivo de tratores e 
conseqüentemente o empobrecimento do solo e o assoreamento dos rios. 
Quanto ao segundo fator, a “mão-de-obra”, tais problemas relacionam-se à 
escassez de mão-de-obra, devida principalmente ao êxodo rural e a preferência por 
empregos nos setores do comércio e indústrias; à qualidade da mão-de-obra, devido a 
pouca instrução tecnológica e sistemática do processo produtivo; ao custo da mão-de-obra, 
ligada diretamente à escassez, por não manter os trabalhadores na propriedade 
por longos períodos; à humanização da mão-de-obra, onde tais trabalhadores são 
designados a executar atividades de grande esforço, penosas e algumas vezes de risco.
34 
Quanto ao fator “capital”, tais problemas também se encontram relacionados à 
escassez de capital, devido a questões externas como inflação, a instabilidade dos 
preços, alto valor de impostos entre outros; à política agrícola, devido a inexistência ou 
baixa qualidade de alguns aspectos econômicos como comercialização, credito rural, 
legislações trabalhistas, fiscais, direitos da saúde, educação, entre outros. 
Quanto ao último fator, “capacidade empresarial”, pode-se perceber a intensa 
inexistência ou ineficiência de uma administração rural, e conseqüentemente a 
insuficiente instrução oferecida aos agricultores direcionada a este assunto. Eis alguns 
dos impasses relacionados a este fator: a falta de gerenciamento e visão empresarial, 
devido ao não conhecimento aprofundado das áreas administrativas, (produção, 
recursos humanos, financeiros, comercialização, marketing) e da função de um 
administrador (planejar, organizar, dirigir e controlar); falta de análise e controle das 
entradas e saídas do sistema produtivo; dificuldade em manter unidades de produção 
isolada, se contrapondo à vivência em grupos sociais, como cooperativas e 
associações; falta de visão sistêmica, onde se deve avaliar um conjunto de relações e 
não apenas a unidade produtiva; a deficiência na comercialização e agregação de valor, 
devido a participação de intermediários o que aumenta o preço nas vendas dos 
produtos, e o baixo retorno para o agricultor; deficiência no uso das tecnologias, devido 
a escassa assistência técnica e conseqüentemente o uso inadequado das questões 
tecnológicas produtivas, como insumos, agrotóxicos, maquinários, infraestrutura. 
Cabe aqui mais uma vez, ressaltar a justificativa desta pesquisa, onde vem a 
considerar o Design, como meio estratégico, a fim de lidar com algumas dessas ações e 
salientar as oportunidades e potencialidades existentes no meio rural ao mesmo tempo 
em que visa promover o conhecimento em prol da melhoria na qualidade de vida desses 
agricultores, e da melhoria de seus produtos ofertados ao mercado. 
Brandenburg (1999), cita que a existência das unidades de produção familiar se 
condiciona primeiramente pela posse da terra, tanto para a constituição da identidade 
do agricultor como para organizar tecnicamente a produção. “A situação do agricultor
35 
em relação à propriedade da terra define a sua estratégia de sobrevivência e determina 
as suas condições de reprodutibilidade”. 
O sistema de produção vivenciado pelos agricultores familiares define um modo 
de vida particular e que garante aos mesmos uma identidade, uma certa autonomia e 
diversificação de seus deveres, ao contrário da lógica produtivista que maximiza a 
racionalidade econômica, mediante sistemas especializados. Suas atividades são 
praticadas conforme suas culturas, criações e recursos. 
Devido a um vasto segmento da agricultura familiar que não consegue afirmar-se 
economicamente em virtude do ambiente que a vincula ao mercado, tendo como 
entrave de maior evidência, a comercialização de seus produtos, é percebido um melhor 
aproveitamento das unidades de produção familiares quando se associa a produção 
destinada ao autoconsumo, em relação à produção destinada ao mercado como 
geradora de renda. Ou seja, a satisfação da família é demandada, mas, entretanto, o 
mercado não se satisfaz com o que é ofertado pela propriedade rural. 
Como forma de buscar um maior rendimento, e a satisfação também do 
mercado, as unidades familiares se especializam em torno de um ou mais produtos 
orientados ao mercado, através de produções integradas às agroindústrias ou 
cooperativas, as quais impõe através da relação contratual, um padrão convencional de 
produção da exploração que é objeto de contrato (BRANDENBURG, 1999). 
Porém essa configuração de produção vem a contrapor à dinâmica vivida e 
expressada pela agricultura familiar desde suas origens, onde suas características 
marcantes, entre tantas outras, são a diversificação de seus produtos e sua própria 
unidade organizacional. 
O que apronta, conforme o contexto, uma necessidade de aprimoramento deste 
ajuste entre a propriedade e o mercado, pois mesmo mantendo a identidade familiar, a 
autonomia e sua produção voltada para a diversificação, como unidade produtiva, a 
propriedade deve considerar o mercado como articulador ao seu desenvolvimento,
36 
sendo que um dos desafios das unidades de produção familiar, é adotá-las de meios 
que lhe garantem participar desses mercados dinâmicos, competitivos e exigentes. 
2.5. O Meio Rural 
A alocução existente a respeito da ruralidade, do espaço correspondente ao meio 
rural, tem sido muitas vezes, relacionada e comparada com o processo de 
desenvolvimento do meio urbano, com sua expansão territorial e com sua modernidade. 
No entanto, este antagonismo histórico tem recebido recentemente, o destaque 
merecido por distintos autores onde buscam, a partir dessa relação entre o meio rural e 
o meio urbano, salientar um novo dinamismo para ambos os espaços. 
É o que abordou José Eli da Veiga, em sua Conferência “A relação urbano/rural 
no processo de desenvolvimento” apresentada no evento realizado pela Sociedade 
Brasileira para o Progresso da Ciência em Florianópolis em 2006, e em muitos de seus 
artigos científicos. 
Ao conceituar o meio rural, o autor acima citado, compara-o ao grau de 
‘artificialização’ dos ecossistemas do local em análise, ou seja, ao grau de intervenção 
antrópica deste local. As áreas de menor pressão antrópica, de menor alteração, seja 
ambiental como manter a vegetação primária, ou social como manter baixa densidade 
demográfica, são consideradas ‘rurais’. 
O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar - PRONAF, 
expõe sua visão a respeito da interação entre cidade e campo citando seu pressuposto 
básico: “existe um potencial de geração de renda no meu rural e nos municípios aos 
quais se relaciona diretamente que a sociedade não tem sido capaz de valorizar”.
37 
Para a oficial classificação, quanto ao termo “rural” e quanto ao termo “urbano”, é 
preciso alguns critérios e bases quantitativas, as quais definem e considera o que vem a 
ser ‘rural’ e o que vem a ser ‘urbano’, no entanto, esta classificação tecnicista, não será 
o enfoque deste capítulo, e sim a situação atual do meio rural. 
Maria de Nazareth Wanderley, ao registrar o prefácio do livro Agricultura 
Familiar, Ongs, e Desenvolvimento Sustentável, de Alfio Branderburg (1999), relata a 
situação do meio rural de uma forma bastante clara, detonando peculiaridades ao 
ambiente, recordando o seu passado e sua existência ao longo dos anos: 
“Para boa parcela da população brasileira, o ”rural” é o lugar de origem (...) faz 
parte da memória familiar, constituindo o pano de fundo da cena de tantas lembranças e 
histórias passadas de geração a geração (..) A vida no campo é associada a uma maior 
experiência de liberdade e de contato direto com a natureza, mas, ao mesmo tempo, o 
campo é, para muitos, o lugar de opressão, do cerceamento dessa mesma liberdade, 
onde o poder privado se sobrepõe, e freqüentemente anula os direitos do cidadão. (...) é 
socialmente percebido como o lugar de precariedade, onde os benefícios da 
“civilização” custam a chegar (...) é também o lugar da ruptura, freqüentemente dolorosa 
para os que partem para ganhar o mundo ou para fugir do atraso (...) Lugar de saída 
parece ser a imagem que mais corresponde à representação que muitos fazem do meio 
rural (...) Mas, há os que ficam. Por necessidade ou por gosto. E fazem do meio rural um 
lugar de vida.” 
Outro questionamento que tem surgido quanto ao meio rural, se norteia em 
função das possibilidades observadas em relação ao seu destino. Filósofos e 
sociólogos, a cerca de trinta anos, vem lançando hipóteses para esta questão, onde 
abordam duas das possibilidades: a extinção do ‘rural’ ou ‘completa urbanização’; e o 
‘renascimento do rural’ ou como Veiga nomeia, uma ‘nova ruralidade’, um fenômeno 
embrionário de causas atuais, onde observam as potencialidades ali presentes. 
Esta “nova ruralidade” tem ganhado destaque, possuindo inúmeras razões para 
se afirmar, sendo uma delas, a própria mudança incidida entre o meio rural e o meio 
urbano. Cada vez mais nos deparamos com a revalorização do meio rural, devida a
38 
suas amenidades naturais, aos seus serviços prestados, à agregação de valor contido 
em seus produtos ofertados e a sua industrialização em forma de exportação de bens 
manufaturados. 
Cada vez mais, é percebida uma nova dinâmica nas relações econômicas e 
sociais existente no meio rural, que se defrontam com o meio urbano na forma de uma 
complementaridade e interação, onde a cidade e o campo se casaram, e enquanto ela 
cuida de lazer e trabalho, ele oferece liberdade e beleza” (Veiga,2006). 
Nesta nova dinâmica do meio rural, associada à modernização de seu modelo 
produtivo, observa-se, a implementação de novas atividades, algumas não-agrícolas, e 
de novas funções, ressaltando suas peculiaridades: a pluriatividade e 
multifuncionalidade. 
A pluriatividade surge para romper com o modelo clássico de desenvolvimento 
rural, baseado unicamente na produção agrícola, propondo assim uma nova alternativa 
na diversificação das fontes de rendas das famílias envolvidas na produção agrícola. 
Suas funções de preservação ambiental, criação de um espaço de maior contato 
com a natureza e com um estilo de vida diferente do característico das cidades urbanas, 
são cada vez mais valorizados e absorvidos por diversas áreas. Sendo uma delas, o 
turismo, uma das atividades de maior expressão que incorporam essa nova dinâmica do 
meio rural, designando novas funções como a oferta de lazer e prestações de serviços 
(multifuncionalidade). São essas as construções de novas relações que promovem o 
dinamismo entre o meio rural e seus agricultores, com o meio urbano e o mercado. 
2.6. A Agroecologia
39 
Ao contestar os padrões produtivistas do uso intensivo de insumos industriais, e 
da necessidade de aumentar rapidamente a produção e a produtividade, 
desencadeando graves conseqüências sobre o meio ambiente e sobre a saúde 
humana, foram pressionadas mudanças a serem consideradas, fazendo surgir, a partir 
de meados dos anos 80, o movimento que ficou conhecido como agricultura alternativa, 
focado na construção de um novo paradigma com base nas condições ecológicas e 
socioeconômicas da agricultura brasileira. O movimento reforçaria o processo de 
organização e de resistência, sendo que seus maiores potenciais eram suas 
proposições ou estratégias de sobrevivência da agricultura (Lovato & Schimidt, 2006). 
Muller, citado por Olalde et. al (2003), descreve que este movimento representou 
o início do que ele chamou de “politização ecológica”, havendo a introdução de valores 
ambientais na opinião pública, nas práticas agrícolas e nas políticas agrárias de 
desenvolvimento. 
O movimento da agricultura alternativa, antes mesmo de se caracterizar por 
movimento, “é uma ciência, um conjunto de conceitos, princípios e métodos que 
permitem estudar, manejar e avaliar um ecossistema agrícola, oferecendo diretrizes 
para uma agricultura mais sustentável, ambientalmente sadia, socialmente justa e 
economicamente viável” (EPAGRI, 2002). 
Seu destaque maior voltou-se ao modelo agroecológico e aos preceitos com 
base na ciência advinda da Agroecologia. Por se tratar de um termo conceitual 
complexo, ainda em construção, diversas interpretações são tratadas a respeito da 
agroecologia. 
Segundo Miguel Altieri et al., citado por Santin (2005), a agroecologia é 
considerada: 
“uma disciplina científica que define, classifica e estuda sistemas agrícolas 
desde uma perspectiva ecológica e socioeconômica. Considera os 
fundamentos científicos da agricultura sustentável para estudar, analisar, 
desenhar, manejar e avaliar agroecossistemas, com o propósito de permitir a 
implantação e o desenvolvimento de estilos de agricultura com maiores níveis 
de sustentabilidade no curto, médio e longo prazo” (p. 59).
40 
Ainda citados pela autora, no conceito de Caporal e Costabeber (2000), a 
agroecologia é vista como um processo multidimensional de mudança social orientado 
no sentido da ecologização das práticas agrícolas no manejo dos agroecossistemas. 
Sevilla Guzmán apud Santin (2005), acrescenta o papel estratégico da 
agroecologia como agente promotor de um padrão de desenvolvimento ecologicamente 
prudente e socialmente justo, valorizando as capacidades locais e incorporando a ação 
social coletiva como sujeitos do processo: 
“a estratégia agroecológica poderia ser definida como o manejo ecológico dos 
recursos naturais que, incorporando uma ação social coletiva de caráter 
participativo, permite projetar métodos de desenvolvimento sustentável. (...) Em 
tal estratégia, o papel central da dimensão local é como portadora de um 
potencial endógeno que, através da articulação do conhecimento camponês 
com o científico, permite a implementação de sistemas de agricultura 
alternativos, potenciadores da biodiversidade ecológica e sociocultural” (p. 60). 
A agroecologia é ressaltada ainda como uma ação de mudança social, buscando 
mudanças não somente nos padrões tecnológicos, mas, sobretudo no comportamento 
dos agricultores e da sociedade em geral em relação a uma nova perspectiva ecológica 
e socioeconômica compatível com os diversos agroecossistemas. 
Os princípios difundidos pela agroecologia são universais, no entanto, suas 
técnicas aplicadas de diversificação, de reciclagem e de integração são específicas para 
cada localidade. Ela “incorpora as perspectivas tanto ecológicas quanto culturais e 
sócio-econômicas inerentes aos sistemas de produção agrícolas” (OLALDE et. al, 2003, 
p.38). 
Ainda que mantido o mesmo aspecto legal, os movimentos agroecológicos 
distinguem-se dos movimentos orgânicos, no sentido de que a agroecologia é uma base
41 
científica de princípios que se aplicam na forma orgânica ou de outras formas, para 
chegar a uma agricultura sustentável. E esta, a agricultura orgânica é um sistema de 
produção, um conjunto de técnicas que se aplicam no princípio da agroecologia 
(SANTIN, 2005). 
A agroecologia é considerada a base científica de princípios mais viável aos 
agricultores familiares, em particular da Região Sul do País por representar, segundo o 
IBGE, 90,5% de todos os estabelecimento agrícolas, que buscam no novo paradigma do 
desenvolvimento, baseado na sustentabilidade e solidariedade, um modelo de produção 
onde o agricultor tem o domínio do processo em sua total integralidade, desde a 
produção, transformação, armazenamento, transporte, comercialização, mesmo que se 
percebam algumas limitações em determinadas etapas deste processo e que não seja 
do conhecimento e habilidade do agricultor solucioná-las. 
Uma das entidades vinculadas aos preceitos da agroecologia, a Rede de 
Agroecologia Ecovida, relata que “enquanto estratégia de fortalecimento da agricultura 
familiar, a agricultura ecológica é o começo de um processo de grandes mudanças que 
deverão acontecer nos próximos anos”. Tais mudanças são visíveis na base produtiva 
das propriedades, com incorporação de técnicas e métodos diferenciados, como 
também, “mudanças nas formas de organização dos agricultores para que possam 
superar e avançar as barreiras da comercialização e industrialização” (SÍTIO DIGITAL 
ECOVIDA). 
Tais princípios e conceitos embutidos na agroecologia se sustentam não somente 
pela percepção do agricultor em se opor e resistir aos demais modelos convencionais, 
mas também pela crescente demanda de consumidores por alimentos saudáveis e 
puros, sem a inclusão de qualquer componente tóxico, em razão à melhor qualidade de 
vida e preservação do meio ambiente, ou seja, produtos ecológicos. 
É considerado também, o forte vínculo já existente entre esses produtos e o 
mercado externo através das exportações, onde se percebe além da venda apenas da 
matéria prima, um novo estímulo às demandas de produtos finais como geléias, sucos 
de frutas, café solúvel, frutas desidratadas, entre outros. No entanto, esses produtos têm
42 
conquistado espaço também no mercado interno. Sendo que um dos maiores motivos 
para esta constatação em relação aos produtos orgânicos, é que “a diferença de preço 
em relação ao convencional é compensada pelo ganho na qualidade” (OLALDE et. al, 
2003, p. 46). 
Torna-se cada vez mais significativa a demanda por gêneros diferenciados, ao 
que Veiga (1999) denomina de “mercado de qualidade”, cabendo aos produtos que não 
contenham insumos químicos ou tóxicos em sua composição, bem como o respeito 
causado ao meio ambiente, o destaque merecido. O mercado dos produtos 
ecologicamente diferenciados, como os alimentos orgânicos ou “bio” como são 
denominados na Europa, movimenta atualmente US$ 20 bilhões no mundo, crescente a 
uma taxa superior a 20% ao ano (OLALDE et. al, 2003). 
Segundo a EPAGRI, em um de seus Projetos do Programa de Desenvolvimento 
Rural, onde busca fomentar a agroecologia, expõe que o Brasil é o segundo país com o 
maior número de lavouras orgânicas no mundo, contando com 19 mil agricultores 
brasileiros produzindo orgânicos, sendo que 70% são pequenos produtores familiares. 
Em Santa Catarina, desde 1996, o némero de associações ou grupos de agricultores 
orgânicos, têm superado mais de 60 entidades formais e informais, associações, 
cooperativas que reúnem mais de 2.000 famílias. 
A comercialização de produtos ecológicos, destinada a um público específico, 
com perfis diferenciados, é considerada um dos maiores potenciais de mercado nos dias 
de hoje. O que nos faz, junto a um estudo entre agricultor - produto - consumidor, atuar 
para tornar esse potencial em uma real oferta exigida pelo mercado e seus integrantes. 
Mantendo constantemente os princípios iniciais da agroecologia, “visando promover 
uma reestruturação profunda no modelo de organização no processo de produção, de 
distribuição e de consumo desses produtos, como parte de um processo mais amplo de 
construção de uma nova sociedade” (OLALDE et. al, 2003, p.30). 
Os perfis desses consumidores têm sido cada vez mais estudados e observados, 
a fim de identificar as principais razões de consumo, como também mapear os locais de 
compra e comercialização desse segmento de produtos. Objetivos estes propostos pelo
43 
Instituto CEPA/SC junto a CEPAGRO, no ano de 2003 quando promoveram uma 
pesquisa a respeito da comercialização e consumo de produto agroecológicos da 
Grande Florianópolis. 
Quanto à pesquisa, inúmeros dados relacionados ao próprio produto foram 
levantados, quais os locais de venda; o grupo de produtos mais procurados; a origem 
dos produtos em relação à estrutura produtiva; a procedência dos produtos; a forma de 
divulgação; as formas de garantia do produto; as principais razões para a 
comercialização; nível de satisfação dos estabelecimentos com a venda. Dados 
relacionados ao consumidor também foram observados como: critério de compra; grau 
de instrução e de renda; principal atividade ocupacional; periodicidade em que 
consome; as principais razões para o consumo; o nível de satisfação e o maior 
problema com relação à oferta. 
Os resultados da pesquisa, além de reafirmar a unanimidade da crescente 
tendência e a satisfação de mercados direcionados à comercialização de produtos 
agroecológicos, puderam considerar outras informações como a falta de regularidade na 
oferta; a exigência quanto à garantia e autenticidade dos produtos adotando como 
critério a certificação seja por selos ou relações de confiança; a tendência no consumo 
variado de produtos não mais somente o grupo das hortaliças; a insatisfação a respeito 
do alto valor dos produtos; e a necessidade de obter maiores informações sobre os 
produtos ecológicos. 
Reafirmando os resultados da pesquisa, Mattos e Borguini, citados por Olalde et. 
al (2003), participaram de uma importante revisão das pesquisas disponíveis no Brasil 
durante os anos de 1992 a 1999, onde listaram alguns pontos em comum: 1. o 
consumidor tem com principal motivação a preocupação com sua saúde e de sua 
família; 2. a maioria dos consumidores estão dispostos a pagar um preço mais elevado 
pelos alimentos orgânicos; 3. parcela expressiva dos consumidores não tem consciência 
clara do significado da agricultura orgânica; 4. muitos consumidores gostariam de contar 
com uma oferta mais diversificada de alimentos orgânicos, tanto em relação à variedade 
de produtos como de postos de venda.
44 
A principal conclusão desta revisão foi a carência na abrangência do potencial de 
consumo desses produtos no mercado nacional e até internacional, sendo esta, uma 
visível demanda para a intervenção de diferentes áreas profissionais. 
Essas e demais pesquisas que surgem em relação a este segmento de produtos, 
junto ao seu grupo consumidor, são essenciais para a verificação de potencialidades e 
cada vez mais, para a expansão dos grupos de agricultores agroecológicos, construindo 
um espaço agrícola cada vez mais coerente com os princípios da própria agroecologia, 
de ética, de sociabilidade e de cooperação. 
É compreensível que muitas foram as ações e estratégias para a expansão desse 
conceito, desse princípio, desse modelo de produção fomentado pela agroecologia. 
Diversas organizações e instituições atualmente encontram-se ligadas de alguma forma, 
à agricultura orgânica, como a AAO – Associação de Agricultura Orgânica em São 
Paulo, a EMATER - Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência 
Técnica e Extensão Rural, no Rio Grande do Sul, e as cooperativas de diversos 
Estados, como o caso da Rede de Agroecologia Ecovida, abrangendo os Estados de 
Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. 
No entanto, fazendo parte de um contexto muito maior, onde são sustentadas as 
diversas dimensões, como políticas, econômica, sociais, ambientais e culturais, esses 
grupos de agricultores, de consumidores e demais agentes atuantes, estão vinculados 
ao próprio processo de alterações e de evoluções que o ambiente em que vivemos, se 
defronta ao longo dos anos. 
É nestas constantes transformações do ambiente social em que nos encontramos 
que permeia os questionamentos da própria população, como cidadãos, representados 
por uma parcela significativa deste processo, e muito mais além, como sujeito do seu 
próprio desenvolvimento. 
Este reconhecimento dos cidadãos em serem considerados parte integrante 
deste processo, aprovando a importância de suas ações e responsabilidades, bem 
como a valorização do fenômeno cultural das sociedades, enfatizado pelo capital social,
45 
são cada vez mais abordadas e absorvidas pelos poderes públicos. No entanto, este 
reconhecimento se deu ao longo de um enorme e constante debate que se encontra 
ainda em andamento, a respeito dos modelos de desenvolvimento difundidos conforme 
os preceitos daqueles de maior autoridade e o contexto histórico vivido pelos mesmos. 
2.7. Concepções sobre Desenvolvimento 
O processo histórico de construção do pensamento sobre o tema 
desenvolvimento, tem emergido por diversas concepções distintas, podendo ser 
abordadas basicamente por duas de suas correntes: a primeira onde o desenvolvimento 
e crescimento econômico foram considerados sinônimos, onde o país é tido como de 
maior ou menor desenvolvimento conforme seu grau de crescimento econômico, e uma 
segunda onde não mais o crescimento econômico é uma condição única para o 
desenvolvimento e sim, uma condição indispensável, junto a outras tantas dimensões 
como as relações sociais, culturais, tecnológicas e ambientais (EID & PIMENTEL, 2005). 
Dentre essas duas correntes, voltadas às concepções sobre o desenvolvimento, 
muitas foram as contradições, os movimentos e os discursos para se chegar a um 
modelo mais realístico e ideal de desenvolvimento, que possa ser aposto a tantas 
peculiaridades e dependências de nosso país. Nesta verificação é relevante 
compreendermos de forma concisa, o curso desses discursos, bem como as 
circunstâncias e suas conseqüências ao longo dos anos.
46 
2.7.1. Do Desenvolvimento Vigente a uma Nova Perspectiva 
O discurso referente ao modelo de desenvolvimento vigente, fundamentado no 
dinamismo de expansão e reprodução do sistema capitalista mundial, denominado por 
Vargas de “processo de globalização econômica, produtiva e financeira”, é amplamente 
favorável a inúmeros questionamentos e discussões ao longo dos anos. 
“As crescentes evidências do custo ambiental do desenvolvimento vigente, a 
crise ambiental, a queda da renda agrícola, a superprodução aliada à má 
distribuição de alimentos (decorrentes das novas relações econômicas 
internacionais), as ‘rupturas recentes’ (demográficas, do modelo de agricultura 
familiar, a dissociação entre agricultura, território e meio ambiente), as 
insuficiências do pensamento clássico e dos debates contemporâneos acerca 
do desenvolvimento (anos 50 e 60) e a contribuição dos movimentos literários e 
civis pós-68, são ‘elementos decisivos’ no debate atual sobre esta questão” 
(NAVARRO apud VARGAS, 2001, p. 217). 
Seu primado econômico faz prevalecer, a pura e simples “produção pela 
produção”, atrelando a espécie humana ao processo mais geral de valorização do 
capital. 
A idéia-mestre, como cita Almeida (2001), do desenvolvimento inspirado nas 
sociedades ocidentais propondo modelos para o conjunto do mundo, residia no 
“paradigma do humanismo ocidental”, ou seja, na compreensão de que o 
desenvolvimento sócio-econômico é provocado pelos avanços técnico-científicos, 
assegurando ele próprio o crescimento e progresso das virtudes humanas, das 
liberdades e dois poderes dos homens. Afirmando que o sócio-econômico encontra-se 
voltado necessariamente para a construção do futuro. 
Outra forte atitude deste modelo de desenvolvimento é que ele se impõe como 
universal, como um bem para todos, sendo aplicado de forma uniforme, propagando-se 
a diferentes meios e situações, onde todos são julgados por um modelo único de
47 
modernização, e que contrapartida, desencadeia um enorme descontentamento dos 
países “subdesenvolvidos” por serem julgados “em atraso”, conforme padrão dos países 
“desenvolvidos”. 
Em contrapeso a esta imposição única e universal do modelo de 
desenvolvimento vinculado à sociedade, Rodriguéz (1997) aborda seis níveis 
conceituais referentes aos modelos de desenvolvimento, sucedidos pela análise teórica 
do desenvolvimento a partir dos anos 60, sendo eles: 
1. Modelo Convencional: (citado até o momento) desenvolvimento econômico de 
nível técnico-econômico. Reduz-se a fenômenos parciais definidos por variáveis 
micro e macro-econômicas. Recursos naturais como demandas produtivas. 
Maximiza a geração de renda. 
2. Modelo Convencional Ampliado: desenvolvimento econômico e social de nível 
social. Adicionam-se componentes sociais, e garantem formas mais ou menos 
equilibradas da assimilação da renda gerada. 
3. Modelo da Dependência: de nível político. Adicionam-se as variáveis de poder e 
as relações de dominação. 
4. Modelo de Desenvolvimento Humano: novo desenvolvimento de nível axiológico. 
Implica no desenvolvimento do homem integral ou vital e amplia a gama de 
opções das pessoas. 
5. Modelo de Ecodesenvolvimento: de nível ecológico. Adquire as consciências dos 
limites do meio ambiente. Favorece uma maior racionalidade sócio-ambiental 
para o manejo de recursos e do espaço, buscando um maior controle 
democrático e a participação popular nas decisões. 
6. Modelo de Desenvolvimento Sustentável: síntese conceitual dos níveis 
ecológicos e axiológicos. Centrado na dimensão humana, em criar condições 
sustentáveis referidas a dimensão social, a qualidade de vida e a dinâmica 
natural. Gestão ao longo prazo da natureza. 
Acredita-se que o surgimento de um novo modelo de desenvolvimento, estará 
sustentado ao nível axiológico, ou seja, centrado no desenvolvimento humano,
48 
orientado à satisfação de suas necessidades, elevando a qualidade de vida, operando 
nas demais dimensões sociais, culturais, econômicas e ambientais. 
Sua preposição básica se dará pela eficiência econômica, eficácia social e 
ambiental, implicando na expansão ou realização de potencialidade, almejando, 
gradativamente, um estado melhor, maior e mais pleno (CAVALVANTI, 1997). 
Acredita-se por fim, que “o desenvolvimento requer não só a criação e 
reprodução do capital econômico, mas também do capital humano (conhecimento, 
habilidades e competências) e do capital social (confiança, cooperação, 
empoderamento, organização e participação social)” (PÁDUA, 2003). 
Esta busca por um novo modelo de desenvolvimento intensifica durante as 
décadas de 60 e 70, quando problemas relacionados à exploração desenfreada dos 
recursos naturais e a degradação ambiental com caráter global, aprofundou a 
consciência ecológica em muitos segmentos da sociedade, originando o que foi 
reconhecido por movimento ambientalista. Sendo este, considerado por muitos autores, 
como o primeiro movimento de abordagem da problemática social e ambiental do 
universo capitalista, trazendo elementos indicativos acerca das perspectivas da 
evolução futura. (MONTIBELLER FILHO, 2001). 
Neste contexto, a humanidade percebe as contradições do mundo moderno, 
tomando consciência de que o processo de desenvolvimento vigente, caracterizado por 
um processo de modernização – ocidentalização, com base na homogeneização, 
destrói e/ou moderniza as sociedades tradicionais. (BECKER, 2001). 
O referido autor, ainda cita que a sociedade foi construída ao lado do uso 
massivo de recursos naturais, onde se acreditava que o processo de desenvolvimento 
era livre de barreiras naturais. A natureza era mantida como objeto, um recurso a ser 
explorado, “o próprio processo de exploração geraria as condições autoreguladoras e 
reestabelecedoras do ”equilíbrio”.
49 
Este padrão de consumo estruturava-se sobre a suposição economicista de que 
a capacidade criativa humana geraria os conhecimentos numa velocidade 
compensatória dos estragos causados pelo processo produtivo à natureza. No entanto, 
logo ficaram evidentes as disfunções e evidências contrárias deste padrão, gerando o 
descontentamento com esta modernidade. 
O movimento ambientalista tem como distinção sua multissetoriedade, fruto da 
preocupação oriunda de uma série de atores e processos, como organizações e grupos 
de proteção ambiental, agências governamentais, cientistas, gestores de recursos e 
processos produtivos, entre outros. 
Leis e D’Amato, citados por Montibeller-Filho (2001), definem por esta 
característica predominante, cada década da evolução do movimento: os anos 50 são 
vistos como os do ambientalismo dos cientistas, pois é pela via da ciência que emerge a 
preocupação ecológica em âmbito mundial; a década de 60 caracteriza-se pelas 
organizações não-governamentais; a década de 70 é da institucionalização do 
ambientalismo, marcado pela Conferência de Estocolmo-72 sobre o meio ambiente, a 
qual evidenciou a preocupação do sistema político e da Igreja Católica; a década de 80 
é marcada pela Comissão de Brundtland (1987), onde publicou, como texto preparatório 
à Conferencias das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente (Eco-92), o seu Relatório 
“Nosso Futuro Comum”, no qual sintetiza o conceito de desenvolvimento sustentável; a 
década de 90 caracteriza pela entrada do setor empresarial que valoriza ou impõe ao 
produtor o cuidado ambiental. 
O autor encerra ao adotar o movimento “de grande iniciativa e capacidade de 
ação ética e comunicativa, que o habilita para se constituir um eixo civilizatório 
fundamental na direção de uma maior cooperação e solidariedade entre nações, povos, 
culturas, espécies e indivíduos” (p. 37). 
Com vista à necessidade de uma conjuntura em diversas dimensões da 
sociedade, não somente quanto à questão ambiental, Illich citado por Rampazzo (2001), 
afirma:
50 
“A crise ecológica é apenas uma das facetas de uma crise mais geral da 
sociedade industrial, englobando a crise social, econômica, político-ideológica e 
moral. Essa crise não atinge apenas os paises subdesenvolvidos (ou em vias 
de desenvolvimento), como também atinge de forma aguda as nações 
industriais avançadas, crescentemente dilaceradas por uma polarização social, 
econômica e política que parece indicar uma exaustão histórica desse modelo 
de desenvolvimento” (p.176). 
Entre as décadas de 80 e 90, é registrado o início de uma mudança no 
movimento ambientalista, pois todos os interesses pelos problemas ecológicos não 
estavam vinculados ao tema do desenvolvimento socioeconômico: “economia e ecologia 
eram percebidas como realidades antagônicas”. Considerava-se agora, não mais 
exclusivamente a perspectiva da proteção ambiental, mas sim esta em relação ao 
desenvolvimento (MONTIBELLER FILHO, 2001). 
A preocupação com a preservação do meio ambiente conjugada com o 
desenvolvimento socioeconômico em prol da melhoria das condições socioeconômicas 
da população fez surgir o conceito de ecodesenvolvimento, o qual parte da crítica à 
visão economicista e ao desenvolvimentismo, ou seja, à visão unilateral da realidade, 
onde não considera as demais dimensões, enfocando somente a produção e a 
produtividade econômica, embasada apenas no crescimento da economia, e na falta de 
consideração dos aspectos sociais e ambientais (MONTIBELLER FILLHO, 2001). 
O conceito de ecodesenvolvimento buscou constituir um novo paradigma ou 
padrão normativo de compreensão da realidade complexa e mutante, abordando seus 
fenômenos sociais e ambientais no mesmo grau dos econômicos, com a premissa de 
respeitar os ecossistemas locais e avocar a participação ativa e consciente dos diversos 
atores envolvidos no desenvolvimento. 
Ignacy Sachs foi quem formulou os princípios básicos dessa nova visão do 
desenvolvimento, quais sejam: 1. a satisfação das necessidades básicas; 2. a 
solidariedade com as gerações futuras; 3. a participação da sociedade envolvida; 4. a
51 
preservação dos recursos naturais e do meio ambiente em geral; 5. a elaboração de um 
sistema social garantindo emprego, segurança social e respeito a outras culturas; 
programas de educação (CAVALCANTI, 1995). 
Ainda citado por Montibeller-Filho (2001), Sachs afirma: “Trata-se de gerir a 
natureza de forma a assegurar aos homens de nossa geração e de gerações futuras a 
possibilidade de se desenvolver” (p. 45). 
Relata ainda que o ecodesenvolvimento pressupõe a solidariedade e o 
comprometimento sincrônico, ou seja, o desenvolvimento voltado às necessidades 
fundamentais da população atual, e a solidariedade e o comprometimento diacrônico, o 
cuidado de preservar o meio ambiente a as possibilidades de reprodução da vida com 
qualidade às gerações futuras. Possui como dimensão essencial, a dimensão cultural, 
evocando um novo estilo de vida e caracterizando-se como um projeto de civilização. 
Neste âmbito, Sachs elabora o que denomina de “cinco dimensões da 
sustentabilidade do ecodesenvolvimento” ou seja, elabora requisitos para que se possa 
manter a sustentabilidade deste novo modelo de desenvolvimento, sendo elas: 
1. Sustentabilidade Social: o processo deve se dar de maneira que reduza as 
diferenças sociais, “abrangendo todo o espectro de necessidades materiais e não-materiais”. 
2. Sustentabilidade Econômica: “defini-se por uma alocação e gestão mais 
eficientes dos recursos e por um fluxo regular de investimentos público e privado”. 
3. Sustentabilidade Ecológica: compreende o uso dos potenciais inerentes aos 
ecossistemas, compatível com sua deterioração. Implica em obedecer ao ciclo temporal 
da natureza e na preservação das fontes de recursos energéticos e naturais. 
4. Sustentabilidade Espacial/Geográfica: pressupõe evitar a excessiva 
concentração geográfica de populações, na busca equilibrada da relação entre 
cidade/campo.
52 
5. Sustentabilidade Cultural: buscar a pluralidade de soluções particulares, que 
“respeitem as especificidades de cada ecossistemas, de cada cultura, de cada local”. 
Rodriguéz (1997), referente à questão, acrescenta por último, a sustentabilidade 
tecnológica, onde promove a implantação de técnicas mais limpas, adequadas, de baixa 
porcentagem de resíduos e eficientes no uso de recursos. 
Com o contíguo propósito e o intuito de garantir o vigor e a precisão desta nova 
perspectiva de desenvolvimento, cerca de duas décadas atrás, se difundiu outro termo 
relevante para as discussões: o termo desenvolvimento sustentável, o qual foi utilizado 
pela primeira vez pela União Internacional pela Conservação da Natureza - IUCN, em 
1986, tendo como princípios: 1. integrar a conservação da natureza e desenvolvimento; 
2. satisfazer as necessidades humanas fundamentais; 3. perseguir eqüidade e justiça 
social; 4. buscar a autodeterminação social e respeitar a diversidade cultural; 5. manter 
a integridade ecológica. 
A partir da relação entre os requisitos elaborados por Sachs e os princípios 
abordados pelo desenvolvimento sustentável, Montibeller-Filho (2001) apresenta uma 
tabela onde cada uma dessas dimensões sintetiza seus componentes e seus objetivos 
de forma a alcançar o conjunto da sustentabilidade, com o cumprimento simultâneo de 
seus requisitos, atingindo assim, o desenvolvimento. 
DIMENSÃO COMPONENTES OBJETIVOS 
Sustentab. 
Social 
-Criação de postos de trabalho que permitem 
a obtenção de renda individual adequada (à 
melhor condição de vida; à maior qualificação 
profissional) 
-Produção de bens dirigida prioritariamente 
às necessidades básicas sociais. 
Redução das 
desigualdades sociais.
53 
Sustentab. 
Econômica 
-Fluxo perante de investimentos públicos e 
privados (com destaque para o 
cooperativismo) 
-Manejo eficiente dos recursos 
-Absorção dos custos ambientais 
-Endogeinização: contar com suas próprias 
forças 
Aumento da produção e da 
riqueza social, sem 
dependência externa. 
Sustentab. 
Espacial/ 
Geográfica 
-Desconcentração espacial (de atividades e 
população) 
-Desconcentração/democratização do poder 
local e regional 
-Relação cidade/campo equilibrada 
Evitar excesso de 
aglomerações. 
Sustentab. 
Cultural 
-Soluções adaptadas a cada ecossistema 
-Respeito à formação cultural comunitária 
Evitar conflitos culturais 
com potencial regressivo. 
Sustentab. 
Ecológica 
-Respeitar os ciclos dos ecossistemas 
-Prudência no uso de recursos naturais não 
renováveis 
-Prioridade à produção de biomassa e à 
industrialização de insumos naturais 
renováveis 
-Redução da intensidade energética e 
conservação da energia 
-Tecnologias e processos produtivos de baixo 
índice de resíduos 
-Cuidados ambientais 
Melhoria da qualidade do 
meio ambiente e 
preservação das fontes de 
recursos energéticos 
naturais para as próximas 
gerações. 
Tabela 1. As cinco dimensões do desenvolvimento sustentável. 
Fonte: Montibeller-Filho (2001).
54 
É na difusão destes termos, que inúmeros autores buscam defini-los e inseri-los 
na sociedade, na forma de possibilitar o nascimento deste novo modelo de 
desenvolvimento ou de organização social que tenha uma base social, econômica, 
cultural e ambiental mais sustentável. Neste contexto onde se busca atingir níveis 
superiores e mais desejáveis a cerca das dimensões apresentadas, Almeida (2001) 
afirma que o próprio desenvolvimento sustentável tem como premissa a 
“insustentabilidade” ou inadequação econômica, social, cultural e ambiental das 
sociedades contemporâneas. 
Em relação à união e integração dessas dimensões Muller (2001), cita que “O 
desenvolvimento sustentável diz respeito a uma sociedade ser capaz de manter, no 
médio e no longo prazos, um circulo virtuoso de crescimento econômico e um padrão de 
vida adequado. Não se trata de abolir os ciclos econômicos com suas flutuações, mas 
de manter expectativas, com realizações, de melhoria continua do padrão de vida” 
(p.130). 
Referente ao assunto, Rodriguéz (1997) argumenta que o “o desenvolvimento 
pode ser concebido basicamente como um processo de mudança estrutural, global e 
contínua de liberação individual e social que tem como objetivo satisfazer as 
necessidades humanas, iniciando pelas básicas e aumentar a qualidade de vida das 
gerações presentes e futuras” (p.51). 
Podemos ainda abordar a questão de que o Desenvolvimento Sustentável 
caracteriza-se pela gestão e administração dos recursos e da orientação das mudanças 
tecnológicas e institucionais. É a reorganização das relações essenciais da sociedade e 
a redefinição das ações a serem tomadas pelo governo, empresas, organizações, 
instituições de pesquisa e de ensino. 
Montibeller-Filho observa o seguinte: “é desenvolvimento porque não se reduz a 
um simples crescimento quantitativo; pelo contrário, faz intervir a qualidade das relações 
humanas com o ambiente natural e a necessidade de conciliar a evolução dos valores
55 
socioculturais com a rejeição de todo o processo que leva à deculturação. É sustentável 
porque deve responder à equidade intrageracional e à intergeracional3 
Após todo este esforço em alcançar o nível desejado para a concepção do 
desenvolvimento sustentável, bem como compreender suas implicações e limitâncias, 
muitos ainda, são os questionamentos a respeito da existência de diferentes modelos de 
desenvolvimento, bem como da universalidade de sua implantação, ou seja, tem-se 
compreendido os diferentes requisitos, necessidades e especificidades de cada região 
ou localidade em relação às dimensões tratadas pela sustentabilidade, o que necessita 
desta forma, a predominância de um modelo de desenvolvimento e ações sustentáveis 
cabíveis e potenciais a essa mesma região ou localidade. 
É neste contexto, que vem sendo introdizido o mais recente paradigma do 
desenvolvimento, ou seja, o Desenvolvimento Local, voltado para o planejamento de 
situações particulares de forma participativa sustentado pelos pilares do capital humano, 
capital social, capital produtivo e capital natural. 
Uma das principais características desta passagem de século, por parte do 
resultado do aprimoramento democrático na maioria dos países e por parte da crise do 
Estado centralizador, tem sido a descentralização, fazendo com que governos locais, 
empresas, organizações não governamentais e entidades passem a assumir funções e 
responsabilidades antes consideradas típicas do governo central. (BAIARDI, 2003). 
Esta mudança política-social iniciou nos anos 80, onde o Estado intensificou o 
debate voltado à municipalização como forma de descentralização do poder estatal. 
Esse processo se deu através de uma reforma na política fiscal, com a instituição do 
Fundo de Participação dos Municípios, e através das transferências aos municípios, das 
políticas que eram coordenadas e/ou executadas pelos governos estaduais e federais 
(EID & PIMENTEL, 2005). 
3 Termos utilizados para se referir às gerações atuais (intrageracional) e gerações futuras 
(intergeracionais).
56 
Esta constatação tem promovido atualmente, o debate envolto ao 
desenvolvimento em suas distintas dimensões como abordado anteriormente, com 
enfoque nas possibilidades da gestão local para o desenvolvimento, ou seja, 
referenciando a idéia de território e territorialidade com base no desenvolvimento local, 
pronunciando a crescente compreensão do espaço junto às ações humanas, 
reaproximando assim, o homem, enquanto espécie, do seu próprio desenvolvimento, 
De forma a compreendermos o âmbito do desenvolvimento local, é relevante 
reconhecermos os seus elementos e suas terminologias, como território, territorialidade 
e local. 
Quanto ao termo território, Albagli (2004), o define como o espaço apropriado por 
um ator, ao mesmo tempo em que é considerado o produto da intervenção e do trabalho 
de um ou mais atores sobre um determinado espaço. A autora ainda relata que a noção 
de território tem sido analisada sob diversas perspectivas (geográfica, antropológica, 
sociológica, econômica, política, bioecológica), até porque este termo, vincula-se a uma 
variedade de dimensões, tais como: 
§ Dimensão física: características e propriedades físicas específicas e recursos 
naturais. 
§ Dimensão econômica: formas de organização dos processos de produção, de 
consumo e de comercialização, capacidade competitiva e de rentabilidade e 
capacidade de absorção de inovações. 
§ Dimensão sócio-política: meio para interações sociais, modos de estruturação, 
organização e gestão do território. 
§ Dimensão simbólica: conjunto específico de relações culturais e efetivas entre um 
grupo, formação da identidade individual e coletiva, sentimento de pertencionismo e 
atributos humanos (conhecimento, arte, moral, capacidade, hábitos, costumes, 
crença). 
O termo territorialidade refere-se justamente às relações entre os indivíduos ou 
atores e seu meio de referência, seu espaço habitado, manifestando nas várias escalas, 
como uma localidade, uma região ou um país, expressando um sentimento de
57 
pertencionismo daquele determinado espaço geográfico. Caracterizada como atributo 
humano, por evidenciar e reforçar a identidade de um grupo, a territorialidade é 
condicionada por normas sociais e valores culturais e principalmente pela interação e 
pelo comportamento deste mesmo grupo frente a um referencial. 
O conceito de território e territorialidade, abordado por Gehlen & Riella (2004), 
além de referir a um recorte ou limite geográfico, inclui a noção de patrimônio 
sociocultural, e a necessidade de mobilização dos recursos e das competências 
humanas, através de atribuições de responsabilidades sociais, por meio de processos 
participativos. Essa mobilização induz à redinamização do território, através de novas 
modalidades de integração e de valorização dos recursos, da população local e dos 
produtos locais, como componente do patrimônio sociocultural coletivo. É nesta 
redinamização que se vincula o desenvolvimento local, voltado para o reconhecimento 
do potencial da população local em prol da gestão coletiva e de seu próprio 
desenvolvimento. 
Quanto ao termo local, Eid & Pimentel (2005), contemplam três dimensões para 
os seus inúmeros significados: 1. econômica, pela localização das atividades 
econômicas e sociais; 2. sociológica, pelo espaço cotidiano de interação social; 3. 
antropológica e cultural, pela identificação de sujeito com o espaço habitado. Albagli, 
citada pelos autores, relata também a sua análise quanto aos diferentes aspectos na 
construção do conceito deste termo: 1. tamanho/dimensão local, associando-se ao 
conceito de escala; 2. diferenciação e/ou especificidade do local; 3. grau de autonomia 
do local; 4. nível de análise e de complexidade do local. 
No entanto, fica-se evidente as semelhanças nos significados desses termos 
(território, territorialidade, local), bem como na referência dada à dimensão espacial, à 
singularidade do espaço contemplado e de seus elementos de identidade, que o 
distingue e que se expressam em termos sócio-econômicos, políticos, físico-geográfico 
e étnicos-culturais próprios e particular do seu desenvolvimento. 
Quanto aos ensaios para uma definição do desenvolvimento local, Paulo Jesus, 
citado por Eid & Pimentel (2005), caracteriza-o como:
58 
“um processo que mobiliza pessoas e instituições buscando a transformação da 
economia e da sociedade locais, criando oportunidades de trabalho e de renda, 
superando dificuldades para favorecer a melhoria das condições de vida da 
população local. (...) se trata de um esforço localizado e concentrado, isto é, 
são lideranças, instituições, empresas e habitantes de um determinado lugar 
que se articulam com vistas a encontrar atividades que favoreçam mudanças 
nas condições de produção e comercialização de bens e serviços de forma a 
proporcionar melhores condições de vida aos cidadãos e cidadãs, partindo da 
valorização e ativação das potencialidades e efetivos recurso locais” (p. 126). 
O Projeto Política Nacional de Apoio ao Desenvolvimento Local, realizado pelo 
Instituto Cidadania, relata o desenvolvimento local consiste na possibilidade de adaptar, 
com flexibilidade, distintas formas de desenvolvimento à ampla diversidade existente no 
país, evitando a irracionalidade que resulta das soluções rígidas e padronizadas. Trata-se 
de equilibrar e combinar com bom senso as necessidades populacionais, ambientais 
e produtivas, articulando crescimento econômico com inclusão social, elevação de 
qualidade de vida e sustentabilidade ambiental” (Documento de Apresentação do 
Projeto). 
Ao enfatizar o desenvolvimento local, suscita-se a uma nova tendência do 
fortalecimento do poder local, do empoderamento e da pré-atividade das comunidades, 
bem como das transferências de responsabilidades por parte do governo central, vindo 
a promover a passagem das megadecisões, das macropolíticas, dos grandes projetos 
de desenvolvimento predominantes, para uma crescente participação das 
microdecisões, das micropolíticas e dos pequenos projetos, que levarão/levam à 
definição e constituição de múltiplos modelos e múltiplas formas de inserção de cada 
conjunto no processo geral de transformações e de desenvolvimento (BECKER, 2001). 
Quanto ao assunto o autor ainda comenta que “cada localidade, municipalidade, 
sub-região, região poderá e deverá optar por um processo de desenvolvimento que 
respeite seus valores e recursos específicos e melhor lhe oportunize participar do 
processo mundial de desenvolvimento” (p.63), afirmando dessa forma, a inexistência de
59 
um único modelo, mas sim inúmeros modelos de desenvolvimento decorrentes das 
formas de organização e estruturação de cada espaço da sociedade. 
O que tende a ser verdade, devido à dependência que o desenvolvimento local 
enfrenta frente a seus próprios pilares de sustentação: o capital humano (segundo as 
redes de atores locais e suas características protagonista e de empoderamento), o 
capital social4 (segundo um conjunto de recursos reais ou potenciais, instituídos pelas 
relações de confiança, cooperação organização e participação local para um benefício 
mútuo), o capital produtivo (segundo a capacidade competitiva e inovativa de suas 
potencialidade, vocações, oportunidades e vantagens), e por fim, o capital natural 
(segundo seus recursos naturais disponíveis). 
Abromovay (1999), ao tratar a questão do desenvolvimento local e agricultura 
familiar, discute a construção de uma nova dinâmica territorial, a partir de uma política 
ativa da sociedade e do Estado a fim de alterar a matriz com base na qual os indivíduos 
irão inserir-se socialmente, dependendo não apenas da iniciativa e da transferência de 
recursos por parte do Estado, mas fundamentalmente da mobilização das próprias 
forças sociais interessadas na valorização do meio rural: é daí que poderão nascer as 
novas instituições capazes de impulsionar o desenvolvimento dessas regiões, desses 
territórios, estimulando a formulação descentralizada de projetos capazes de valorizar 
os atributos locais e regionais no processo de desenvolvimento. 
É dessa mobilização local, da articulação dos diversos agentes locais com suas 
relações externas perante a sociedade local até mundial, que Sachs citado por Becker 
(2001), ressalta a característica predominante deste novo paradigma do 
desenvolvimento. Trata-se pois, 
“de ajudar a sociedade civil a tornar-se o terceiro sistema do poder, a tomar 
consciência do seu papel para vir a ser uma entidade por si mesma, a começar 
a ter voz própria, a impor suas opções plurais; em resumo, reequilibrar a seu 
favor a relação de forças perante o Estado e as instituições que dominam a vida 
4 Para um maior aprofundamento sobre o assunto, pesquisar outros autores como Pierre Bourdieu, James 
Coleman, Robert Putnam.
60 
econômica, sejam elas privadas ou públicas. Isto porque uma constatação 
banal e não obstante essencial salta aos olhos: o desenvolvimento só se pode 
manifestar lá onde vivem as pessoas, isto é, localmente” (p. 82,83). 
Tão importante e necessário quanto à mobilização e o estímulo em prol da 
participação e comprometimento dos próprios indivíduos de uma localidade, é o 
reconhecimento enquanto patrimônio, de seus bens culturais, considerados de grande 
acuidade para a história e para a memória social daquela localidade, como também, 
objetos de grande interesse de diferentes áreas. 
Retomando o sentido de patrimônio, como o conjunto de referências 
compartilhadas, a Legislação Brasileira, partindo do pressuposto que esses bens são 
um ativo que reflete atributos múltiplos da identidade brasileira, passou a incluir, além 
dos patrimônios culturais materiais (representados por documentos, edificações, obras 
de arte, áreas naturais entre outros), os bens denominados “patrimônios imateriais”, 
assim entendidos como “as formas de expressão e os modos de criar, fazer e viver” 
(Brasil, Constituição de 1988), profundamente enraizados no passado e na experiência 
adaptativa de sobrevivência das diferentes localidades (CABRAL, 2004). 
Conforme o Decreto de 2000, esses bens de natureza imaterial foram 
contemplados em quatro categorias: 1. saberes: conhecimentos e modos de fazer 
enraizados no cotidiano das comunidades; 2. celebrações: rituais e festas que marcam 
a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras praticas 
da vida social; 3. formas de expressão: manifestações literárias, musicais, plásticas, 
cênicas e lúdicas; 4. lugares: mercados, feiras, santuários, praças e demais espaços 
onde se concentram e reproduzem praticas culturais coletivas (ARANTES, 2004). 
Na terminologia adotada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, 
a Ciência e a Cultura – UNESCO, um dos organismos promotores da salvaguarda 
desses patrimônios, esses bens culturais correspondem ao chamado “patrimônio 
intangível”, definido como “as práticas e representações – acompanhadas dos 
necessários conhecimentos, habilidades, instrumentos, objetos, artefatos e lugares –
61 
sendo reconhecidos enquanto patrimônio pelas comunidades e pelos indivíduos, sendo 
coerente com os direitos humanos e os princípios universalmente aceitos da equidade, 
de sustentabilidade e de respeito mutuo entre as comunidades culturais (ARANTES, 
2004). 
Nesta perspectiva referente à devida contemplação e reconhecimento desses 
bens culturais, Baiardi (2003) argumenta da necessidade de ir além do desenvolvimento 
tradicional, buscando um processo de planejamento endógeno, específico e particular 
ao território em questão, que se fundamenta nas potencialidades locais advindas da 
própria cultura, do saber popular, da economia popular, das experiências de vida, das 
estratégias de sobrevivência e das redes de solidariedades. 
É no comprometimento e na participação não somente dos agentes envolvidos, 
mas também da sociedade em prol de seu desenvolvimento, que inúmeras experiências 
têm promovido o desenvolvimento local em nosso país, alcançando a exposição de leis, 
planos, programas, projetos sociais e ações inovadoras, mesmo percebendo-se uma 
forte limitante na escala de operação das mesmas. 
Esta limitante, a qual dificulta a prática de muitos outros projetos, é caracterizada 
justamente pela premissa do desenvolvimento local, ou seja, pela efetiva participação 
da comunidade na definição e implementação de suas estratégias e ações de 
planejamento e desenvolvimento. 
A partir dessa constatação, tem percebido a prática de alguns desses agentes 
como Organizações não governamentais e outras entidades, em experimentar a 
implementação de abordagens participativas, com a devida especificidade, flexibilidade 
e criatividades nos distintos contextos locais, ou seja, buscar a utilização devida, de 
metodologias participativas a fim de integrar-se e possibilitar a integração de todos os 
envolvidos no processo, ressaltando o caráter protagonista de cada indivíduo 
participante. 
Através da aplicação das diferentes metodologias participativas, como o 
Diagnóstico Rápido Participativo – DRP, (explanado na seqüência), os exercícios de
62 
planejamento, experimentação e monitoramento, têm claramente proporcionado às 
entidades que o conduzem, a darem maiores continuidades às suas ações, mantendo o 
envolvimento de todos os integrantes e socializando melhor os resultados e as 
informações (ROMANO & ALMEIDA, 1999). 
Petersen & Romano (1999), relatam que o desenvolvimento agrícola tem sido 
motivo de crescentes preocupações, sendo considerados alvos para o estudo e 
aplicações dessas metodologias participativas, com o enfoque estratégico no agricultor, 
como sujeito coletivo, como o gestor de seu próprio desenvolvimento. É o que justifica 
Weid, citado pelos mesmos autores: “os agricultores têm cultura, conhecimentos, 
habilidades, limitações, vontades, experiências, gostos e tendências além de condições 
materiais diversificadas” (p.59). Não considera-los como agentes ativos de todo o 
processo de desenvolvimento tem sido o equívoco gerador da maioria das frustrações 
dos projetos atuais. 
O processo de desenvolvimento com enfoque local, válido para os autores 
Petersen & Romano (1999), é aquele constituído pelas etapas do diagnóstico, passando 
pela identificação das propostas de intervenção, seu teste, avaliação e seu 
monitoramento permanente, onde o agricultor e demais agentes se apropriam dessas, 
adquirindo novos papéis e métodos, para encaminhar um desenvolvimento “humano e 
duradouro” (p.60). 
2.8. Metodologias Participativas 
Conforme a proposta desta pesquisa, em verificar a realidade de um grupo de 
agricultores específicos, identificando possíveis demandas de competência e hanilidade 
do designer, será abordada uma das ferramentas participativas de grande importância
63 
para o processo de desenvolvimento deste grupo: a etapa inicial do diagnóstico local, ou 
Diagnóstico Rápido Participativo como os autores acima mencionam. 
No entanto, o diagnóstico a ser aplicado nesta pesquisa, é um tanto menos 
complexo, pois abrange exclusivamente a identificação de possibilidades e 
oportunidades observadas no grupo de agricultores a fim de levantar demandas que 
possibilite a intervenção do designer, visto que os Diagnósticos Rápidos Participativos 
são direcionados às abordagens mais complexas e amplas, que visam a melhoria da 
qualidade de vida, da renda, das condições ambientais, da influência e efetivação no 
empoderamento comunitário, entre outras questões. 
São inúmeras as aplicações de diagnósticos em diversos projetos de diversos 
segmentos, no entanto, muitos deles ainda são realizados basicamente a partir da 
aplicação de questionários e preenchimentos de planilhas com o objetivo de obter 
numerosos dados quantitativos, o que lhes proporcionavam certos prejuízos devido, por 
exemplo, ao atraso no processamento dos dados (PETERSEN & ROMANO, 1999). 
A concepção dos diagnósticos, por parte da ineficiência dos métodos utilizados 
até então, vem evoluindo, permitindo entre outras coisas: 
§ Levantar informações necessárias e suficientes para a análise dos agroecossistemas 
de forma a subsidiar o planejamento futuro; 
§ Conseguir estas informações de forma rápida, barata e confiável, e 
§ Que a análise dos problemas seja compartilhada com a comunidade de forma que 
esta se comprometa com o planejamento, com a implementação e, 
fundamentalmente com os resultados do projeto (PETERSEN & ROMANO,1999, 
p.61). 
O Diagnóstico Rápido Participativo tem como papel maior, mobilizar diferentes 
grupos de pessoas pertencentes a uma comunidade, promovendo uma comunicação 
dialógica entre todos os envolvidos de forma a constituir um ambiente de discussão e 
análise dos problemas, atuando sobre suas causas e não somente sobre seus 
sintomas, impulsionando aos diferentes grupos expressarem suas percepções sobre tais
64 
problemas, resultando em diferentes visões dos mesmos, porem enfrentando-os 
coletivamente. 
Como mencionado anteriormente, conforme o contexto cultural, econômico, 
social e ambiental em análise, para qualquer modelo de desenvolvimento exige-se muita 
flexibilidade, adaptação e criatividade, valendo o mesmo para o diagnóstico a ser 
conduzido. Nenhum Diagnóstico Rápido Participativo será igual a um outro, ele se 
distinguirá por seus integrantes, por sua atuação e comprometimento. 
Não tendo uma seqüência lógica de ações, pois os diagnósticos dependem 
preferencialmente da participação ativa de seus integrantes, os autores, para efeito 
didático, decompõem um DRP em um conjunto de passos, sendo eles: 
§ Formação da equipe que conduzirá o diagnóstico: formada por técnicos que fomenta 
o diálogo e por representantes das comunidades. 
§ Estudo dos dados secundários: reunião e sistematização das informações pré-existentes 
sobre o local. 
§ Formulação das hipóteses de partida: percepção dos técnicos, sobre os problemas 
vividos pela comunidade com base nas informações de que dispõe. 
§ Elaboração dos roteiros para as entrevistas e observações: lista de temas a serem 
explorados podendo ser reelaborada. 
§ Levantamento das informações: através de entrevistas semi-estruturadas (a partir de 
uma série de técnicas), e observações. 
§ Sistematização das informações: organização das informações coletadas, 
destinadas à análise coletiva. 
§ Análise das informações: de forma coletiva, feita permanentemente após as 
hipóteses iniciais. 
§ Restituição (ou devolução): debate com a comunidade a cerca dos resultados do 
trabalho, confirmando ou rejeitando-os. Parte párea a discussão das possíveis 
soluções para os problemas priorizados.
65 
2.9. Abordagem do Design 
“Design é a atividade consciente de combinar, de 
modo criativo, invenção tecnológica com inovação 
social, com o propósito de auxiliar, satisfazer ou 
modificar o comportamento humano”. 
(Alexandre Manu - Designer Romeno). 
Uma das necessidades primordiais, destes grupos de pequenos produtores, que 
contemplam os princípios do Desenvolvimento Local Integrado, já referenciada como 
uma de suas premissas é a participação e a interação voltada para o comprometimento 
e dedicação, entre diversos atores sociais que possam auxiliar e identificar 
possibilidades em seu sistema agrícola, suscitando em um conjunto de propostas e 
ações participativas, em busca do crescimento profissional, do fortalecimento da 
identidade do grupo e da qualidade de vida dos mesmos, inserindo-os no mercado 
competitivo, justificando desta forma, produtos de qualidade, bem apresentáveis e de 
retorno social e econômico viável. 
Neste âmbito, o profissional de Design, como mais um ator social em vista da 
qualidade e do bem estar de um território e de seus componentes, possui abertura e 
qualidades profissionais para intervir no sistema agrícola desses pequenos produtores a 
partir de alguns princípios e algumas vertentes nas quais abordam a gestão de um 
empreendimento e o desenvolvimento do mesmo. 
Para seguirmos a pesquisa, enfatizando a abordagem do Design inserida no 
meio rural, partiremos de uma breve contextualização desta atividade durante os anos,
66 
tanto discutida e refletida, quanto pouco compreendida, devida à própria plenitude de 
suas atuações. 
A definição internacionalmente mais difundida do Design foi elaborada por 
Maldonado (1963) onde declara: “Design é uma atividade de projeto que consiste em 
determinar as propriedades formais dos objetos a serem produzidos industrialmente. Por 
propriedades formais entende-se não só as características exteriores, mas, sobretudo 
as relações estruturais e funcionais dos objetos”. 
Um tanto focada em apenas alguns parâmetros, tal definição abranda as demais 
percepções e desempenho da atividade do Design. No entanto, é importante salientar 
que esta atividade envolve um método criador e integrador, onde seus fundamentos 
conceituais advêm também das alterações globais, sendo constantemente moldada a 
tais complexidades e acontecimentos, e por isso, a complexidade em difundi-la a partir 
de um único conceito. 
Em contraposto à definição de Design acima, uma das principais organizações 
envolta à atividade do Design e de maior respaldo e reconhecimento, devido a sua 
abrangência expansionista a todos os continentes, com diversas entidades afiliadas, o 
ICSID – Conselho Internacional de Sociedades de Design Industrial, criado em 1957 
com o intuito de promover a atividade do desenho industrial em nível internacional, 
buscou salientar o Design em 2000, a sua concepção holística e de uma forma mais 
abrangente, definindo-o como: 
“uma atividade criativa cujo propósito é estabelecer as qualidades 
multifacetadas dos objetos, dos processos, dos serviços e dos seus sistemas 
de ciclos de vida. Conseqüentemente, o Design é o fator central da 
humanização inovadora das tecnologias e o fator crucial das trocas culturais e 
econômicas. O Design trata de produtos, serviços e sistemas concebidos 
através de ferramentas, organizações e da lógica introduzidas pela 
industrialização – não somente quando são produzidos em série. 
O adjetivo 'industrial' associado ao design deve relacionar-se ao termo 
indústria, ou no seu sentido de setor produtivo, ou em seu sentido mais antigo 
de "atividade engenhosa, habilidosa". Assim, o design é uma atividade que 
envolve um amplo espectro de profissões nas quais produtos, serviços, gráfica,
67 
interiores e arquitetura, todos participam. Juntas, essas atividades deveriam 
ampliar ainda mais - de forma integrada com outras profissões relacionadas - o 
valor da vida. 
O design procura identificar e avaliar relações estruturais, organizacionais, 
funcionais, expressivas e econômicas, visando: 1. Ampliar a sustentabilidade 
global e a proteção ambiental (ética global); 2.Oferecer benefícios e liberdade 
para a comunidade humana como um todo, usuários finais individuais e 
coletivos, protagonistas da indústria e comércio (ética social); 3.Apoiar a 
diversidade cultural, apesar da globalização do mundo (ética cultural); 4.Dar 
aos produtos, serviços e sistemas, formas que expressem (semiologia) e sejam 
coerentes com (estética) sua própria complexidade". 
Dessa forma o termo designer se refere a um indivíduo que pratica uma 
profissão intelectual, e não simplesmente oferece um negócio ou presta um 
serviço para as empresas” (www.icsdi.org). 
Em relação às atuações do Design, podemos salientar que seu campo é bastante 
amplo, o que promove a viabilidade desta pesquisa, no entanto, cabe ressaltar aqui as 
competências e capacidades do profissional, assim como Victor Papanek listou em seu 
livro Arquitetura e Design: ecologia e ética (1997): 
1. aptidão para investigar, organizar e inovar; 
2. dom para descobrir as respostas adequadas aos problemas novos ou recém 
surgidos; 
3. a habilidade para testar estas respostas através da experimentação, de modelos 
computadorizados, funcionamento de protótipos ou séries de testes reais; 
4. prática para transmitir esse desenvolvimento através de desenhos, modelos, 
simulações e estudos de viabilidade, em vídeo ou filme, bem como através de 
relatórios verbais e escritos; 
5. talento para combinar as rigorosas considerações técnicas da forma criada com a 
preocupação dos fatores sociais e humanos e da harmonia estética; 
6. sabedoria para prever as conseqüências ambientais, ecológicas, econômicas e 
políticas provocados pelo design; 
7. capacidade para trabalhar com pessoas de muitas culturas e áreas diferentes.
68 
No entanto, embora compreendendo as habilidades do profissional, ainda são 
visíveis inúmeras controvérsias e discussões a cerca da origem do Design, não 
enfatizadas nesta pesquisa, porém, seus princípios ainda se encontram vinculados aos 
anseios da industrialização, onde seu comprometimento tem estado desde então 
atrelado exclusivamente à constante produtividade, com a preocupação em atender às 
exigências estético-formais e condições técnico-econômicas. 
No entanto, após longos estudos iniciados nos anos 60 e 70, por alguns 
designers, como Victor Papanek, perpetuou-se um novo propósito de Design, voltada 
para o desenvolvimento de produtos focado nas necessidades humanas, baseado na 
ética e respeito ao meio ambiente e à sociedade. Após a publicação do seu livro em 
1972, Design for the Real World, Papanek lançou “a proposta dos designers assumirem 
um papel social construtivo e intervencionista em oposição às forças consumistas” 
(Martins & Couto, 2006). O referido designer, citado por Casagrande et. al (2006), 
ressaltava ainda “que a única coisa importante do Design é como ele se relaciona com 
as pessoas”. 
Já nos anos 80, uma nova perspectiva adere aos princípios do Design, com a 
introdução de uma consciência ecológica em seus processos, o que venho a ser 
reconhecido por Ecodesign. A definição precisa deste termo, segundo Manzini e Vezzoli 
(2002), é indeterminada, pois os dois campos que o compõe, design e ecologia, são 
amplamente vastos e cercados de indeterminação. Na tentativa de uma conceituação, 
os autores relatam que o ecodesign é uma das atividades do Design que visa ligar o 
tecnicamente possível com o ecologicamente necessário, fazendo “nascer novas 
propostas que sejam social e culturalmente apreciáveis” (p.20). 
Neste momento, os designers assumem um papel de interferência com o meio 
ambiente, priorizando a variável ambiental, tendo no pensamento ecológico, a base e 
vetor para as suas medidas e ações. Essa interferência do Design com o meio, segundo 
os autores, se dá por quatro níveis fundamentais:
69 
§ O redesign ambiental de produtos existentes: considera o ciclo de vida dos 
produtos, promovendo a eficiencia (consumo de matéria e energia, reciclagem e 
reutilização de materiais); 
§ Design de novos produtos que substituam os demais: inserção de novos produtos 
ecologicamente aceitáveis; 
§ Design de novos produtos ecológicos: inserção de novos produtos socialmente 
apreciáveis pelos consumidores; 
§ Propostas de novos cenários ambientais correspondentes a estilos de vida: 
desenvolvimento de atividades no plano cultural promovendo novos critérios de 
qualidade. 
Já praticados alguns desses níveis de interferência, constata-se que a atividade 
de Design não se limita apenas à variável ambiental e sim, a um conjunto de 
considerações à cerca das implicações relacionadas à dimensão ambiental, bem como 
das dimensões técnicas, econômicas, sociais, culturais junto a suas condicionantes. 
Ainda durante a década de 70 e 80, outros profissionais, como economistas e 
filósofos, buscam idéias para o desenvolvimento baseado nas particularidades das 
regiões, nas condições e potencialidades das localidades. Uma oportunidade 
indispensável, para a intervenção e o comprometimento das atividades do Design, mas 
que infelizmente só vem a ser disseminada anos mais tarde, como trata esta pesquisa. 
Em contraste à abordagem linear focada excepcionalmente, na solução de 
problemas, caracterizada pelo século XX, a mais recente constatação referente à 
atividade do Design perante as empresas e demais organizações, é que o Design vem 
sendo abordado como uma atividade gerencial por excelência, com base em um 
processo de planejamento estratégico, se afirmando como um importante diferencial 
competitivo. (Santos, 2000). Cabe aqui salientar, que o processo de Design focado na 
identificação de potencialidades e limitações a fim de gerar propostas por meio de 
processos participativos, está inserido em um contexto muito maior, ou seja, está 
vinculado à atividade de gestão que este processo demanda, ou propriamente dita, à 
Gestão do Design.
70 
Cabe à gestão do design, processar as constantes informações técnicas/ 
particulares, as informações do mercado/consumidor, as informações 
estratégicas/competitivas, como também gerir os recursos humanos, materiais e 
naturais, durante todo o desenvolvimento, passando pela concepção até a 
comercialização de um projeto, enfatizando a idéia multi e interdisciplinar deste 
processo, avaliando as questões a nível estratégico, operacional e também social, 
sendo elas: administração empresarial, estrutura organizacional, sistematização da 
produção, planejamento ambiental, planejamento financeiro, planejamento de 
marketing, qualidade total e estratégias competitivas. Apresentando-se como 
mecanismo de integração dessas questões para uma postura social, ética e de 
competência com o processo da atividade em si. 
Esse novo propósito do Design surge de uma visão abrangente, onde leva em 
considerações preocupações humanas, o conhecimento tecnológico e científico, 
perspectivas históricas, políticas, econômicas e ambientais, não podendo ser reduzido a 
uma de suas partes constituintes, sendo concebido como um todo, caracterizado pela 
sua atuação holística. É nesta gama de conhecimento que o Design se atrela, que 
reside o seu maior reconhecimento: o da multidisciplinaridade e interdisciplinaridade, ou 
seja, de sua necessidade e capacidade de interação com demais áreas profissionais, 
muitas advindas de conceitos divergentes, porém na busca de um mesmo intento. 
No entanto, este processo de Design voltado a estas concepções deverá ser 
conduzido dentro de uma visão global, devido às condições e limitações existentes do 
mercado e do próprio meio, mas suas ações deverão agir à nível local, pois os 
mercados são locais, as exigências e as necessidades são individualizadas (Santos, 
2000). 
Quanto ao assunto, Blaich citado por Santos (2000), define que o Design é a 
“ponte que liga e traduz diversas áreas de conhecimento, devendo estar na liderança 
desse processo, pensando globalmente e agindo localmente” (p.26). 
A partir dessas concepções, o Design vem ganhando espaço para ressaltar o seu 
forte papel no planejamento de um futuro responsável e o seu comprometimento com o
71 
meio e com a sociedade, por via de suas ações planejadas e de seus gestores 
capacitados e comprometidos. 
Através de suas diversas possibilidades de manifestações, bem como suas 
habilidades e competências, a atividade do Design, por meio de sua gestão e 
participação ativa em diferentes dimensões (sociais, econômicas, culturais, ambientais, 
mercadológicas), se destaca em prol do planejamento e do desenvolvimento local, 
tendo como responsabilidade, promover o desenvolvimento com base no fortalecimento 
sócio-econômico do meio em que se insere. Isto se dá, pelo fato da própria atividade de 
Design ser considerada um meio estratégico de discernir os diferenciais e anseios de 
uma determinada localidade e potencializar seu conjunto de bens culturais, seus 
saberes locais, proporcionando a identificação e valorização destes atributos 
representado a partir da concepção de produtos, artefatos ou serviços. 
Com o intuito de intensificar este reconhecimento do saber local, compreender as 
necessidades, limitações e potencialidades produtivas, naturais e culturais de uma 
determinada localidade, o Design ganha mais uma vez, espaço suficiente para intervir 
no desenvolvimento local, voltado à busca de um equilíbrio entre as particularidades 
locais e o mercado, para não somente buscar o prestígio deste reconhecimento, mas 
também, o incremento da renda familiar, subseqüente à melhoria de vida desta 
localidade. 
Neste âmbito, onde a questão mais atual e urgente que deve ser abordada pelos 
profissionais de Design é o seu comprometimento com as sociedades e com o meio, 
enfatizando a atividade do Design como um todo, onde se promove a ação de 
planejamento em suas diversas esferas e o desenvolvimento de projetos, é plausível a 
intervenção deste profissional, no meio em que esta pesquisa norteia, ou seja, no meio 
rural.
72 
3. CAPÍTULO III 
3.1. Desenvolvimento do Estudo de Caso 
Como já citado anteriormente, a proposta desta pesquisa, é identificar as 
potencialidades e oportunidades de um determinado grupo de agricultores, trabalhando 
com as bases discutidas pelo desenvolvimento local evidenciando por fim, o 
levantamento de demandas do Design. 
De forma a materializar esta proposta, foi empregado uma metodologia 
exploratória, a partir de um objeto de estudo, sendo ele, o Grupo de Agricultores 
Agroecológicos do Município de Garopaba, pertencentes à Rede de Agroecologia 
Ecovida. 
Primeiramente será explanada a caracterização da Rede de Agroecologia 
Ecovida, em seguida da instituição do CEPAGRO e posteriormente será abarcado o 
ambiente onde o Grupo reside, como características e potenciais do município de 
Garopaba e seu entorno, e por fim, será dado um maior enfoque no próprio Grupo, em 
suas práticas agrícolas, sua sistematização organizacional, suas potencialidades, para 
que se tenha uma base suficiente para nos próximos capítulos, abordar a identificação 
das limitações e potencialidades bem como o levantamento das possíveis demandas de 
Design. 
A contextualização do Município de Garopaba foi possível por meio de pesquisas 
em websites do Governo do Estado de Santa Catarina (<http://www.sc.gov.br>), da 
Prefeitura Municipal de Garopaba (<http://www.garopaba.sc.gov.br>), do portal turístico 
“Viva Garopaba” (<http://www.vivagaropaba.com.br>) e do portal de informações 
“Garopaba Surf” (<http://www.garopabasurf.com.br>).
73 
3.2. A Rede de Agroecologia Ecovida 
A Rede Ecovida de Agroecologia foi fundada em 1998, na Região Sul do País, 
onde seu surgimento se deu através de um processo de evolução e consolidação de 
alternativas realizadas ao longo dos anos por entidades de agricultores familiares, 
instituições de assessoria, organizações não-governamentais, organizações de 
consumidores e comerciantes, além de pessoas comprometidas com a expansão dos 
princípios da agroecologia. 
Em seu próprio estatuto, a Rede Ecovida de Agroecologia é considerada um 
“espaço de articulações entre agricultores familiares ecologistas e suas organizações, 
organizações de assessoria e simpatizantes com a produção, o processamento, a 
comercialização e o consumo de produtos ecológicos. A Rede trabalha com princípios e 
objetivos definidos e tem como metas fortalecer a agroecologia em seus mais amplos 
aspectos, gerar e disponibilizar informações entre os participantes e criar mecanismos 
legítimos de credibilidade e garantia dos processos desenvolvidos por seus membros”. 
A Rede definiu pela utilização da denominação “produto ecológico” em vez de 
“produto orgânico” por entender que desenvolve uma agricultura ecológica sob os 
princípios da agroecologia e não apenas uma agricultura de substituição de insumos (de 
químicos para orgânicos) cujos produtos também podem, segundo a legislação, receber 
a denominação “orgânico”. 
Segundo as normas de organização e funcionamento, seus princípios e objetivos 
norteiam pelos seguintes apontamentos: 
Princípios: 
§ Ter na agroecologia a base para o desenvolvimento sustentável; 
§ Trabalhar com agricultores familiares e suas organizações; 
§ Ser orientada por normativa própria de funcionamento e de produção; 
§ Trabalhar na construção de um mercado justo e solidário;
74 
§ Garantir a qualidade através da certificação participativa. 
Objetivos: 
§ Desenvolver e multiplicar as iniciativas agroecológicas; 
§ Incentivar o trabalho associativo na produção e no consumo de produtos ecológicos; 
§ Articular e disponibilizar informações entre as organizações e pessoas; 
§ Aproximar, de forma solidária, agricultores e consumidores; 
§ Fomentar o intercâmbio, o resgate e a valorização do saber popular; 
§ Ter uma marca e um selo que expressam o processo, o compromisso e a qualidade 
dos produtos. 
A Rede desenvolve diversas atividades de promoção e fomento da agroecologia, 
como a articulação política; formação e capacitação; atividade de organização e 
funcionamento; contribuição na comercialização, obtenção de parceiros e 
colaboradores; disseminação da informação e comunicação, e por último, a certificação 
dos produtos ecológicos. 
A certificação dos produtos ecológicos se dá através de um processo centrado na 
agricultura familiar, chamado Certificação Participativa em Rede, sendo considerado um 
sistema solidário de geração de credibilidade, onde a elaboração e a verificação das 
normas de produção ecológica são realizadas com a participação efetiva de agricultores 
e consumidores, recebendo assim, o selo Ecovida. 
O selo Ecovida é obtido após uma série de procedimentos desenvolvidos dentro 
de cada Núcleo Regional. Ali ocorre a troca de experiências e a verificação junto ao 
Conselho de Ética, o qual designa a avaliação da propriedade, autuando-a apta ou não 
para o recebimento do selo. A certificação participativa é uma forma diferente de 
certificação, que além de garantir a qualidade do produto ecológico, permite o respeito e 
a valorização da cultura local através da aproximação de agricultores e consumidores e 
da construção de uma Rede que congrega iniciativas de diferentes regiões.
75 
O funcionamento da Rede se dá de forma descentralizada, e sua estrutura 
organizacional é constituída por núcleos regionais, os quais são formados pelos 
membros de uma determinada região geográfica com características físicas e 
organizacionais semelhantes, por uma pessoa representante, por um conselho de ética, 
organizações não governamentais, cooperativas e outras entidades de apoio. 
No último levantamento, realizado em 2005, a Rede encontrava-se composta por 
21 núcleos regionais, organizados nos três Estado do Sul do Brasil, abrangendo 180 
municípios, com a integração de 2.438 famílias de agricultores familiares, reunidas em 
272 grupos, associações e cooperativas, além de 28 ONGs, pequenas agroindústrias, 
17 comercializadoras de produtos ecológicos, 6 cooperativas de consumidores e 
colaboradores. Contando ainda com 137 feiras ecológicas em todo o Sul do Brasil 
ligadas à Rede (REBELATTO, 2005). 
Na seqüência, a imagem representativa dos 21 Núcleos Regionais da Rede, com 
seus respectivos nomes:
76 
01 Centro Oeste do PR 
02 Sudoeste do PR 
03 Maurício Burmester do Amaral 
04 Agroflorestal 
05 Extremo Oeste de SC 
06 Oeste de SC 
07 Vale do Rio do Peixe 
08 Planalto Norte 
09 Planalto Serrano 
10 Alto Vale 
11 Litoral Catarinense 
12 Alto Uruguai 
13 Planalto 
14 Vale do Rio Pardo 
15 Serra 
16 Litoral Solidário 
17 Vale do Caí 
18 Sul 
19 Centro RS 
20 Oeste do PR 
21 Monge João Maria 
Figura 1. Mapeamento dos Núcleos da Rede Ecovida. 
Fonte: Sítio Digital Ecovida <http://www.ecovida.com.br> 
O núcleo abordado nesta pesquisa é o Núcleo Litoral Catarinense, possuindo, 
segundo a própria Rede Ecovida, um total de seis grupos de agricultores, somando 
cerca de 60 famílias envolvidas em atividades agroecológicas. Por sua localização 
estratégica do ponto de vista ecológico e turístico, este Núcleo é considerado pela Rede 
como possuidor de um expressivo potencial de desenvolvimento, permitindo aumentar o 
número de organizações integrantes e melhorar ainda mais a qualidade do trabalho 
(SANTOS, 2005).
77 
Dentre esses grupos de agricultores associados ao Núcleo Litoral Catarinense, 
encontra-se a Associação dos Agricultores Agroecológicos de Garopaba, sendo esta, 
junto a seus integrantes, o sujeito desta pesquisa. 
3.3. A Instituição – CEPAGRO 
Conforme o seu próprio Estatuto, o Centro de Estudos e Promoção da Agricultura 
de Grupo – CEPAGRO é uma organização não governamental, formada por entidades 
de abrangência regional ou estadual de agricultores familiares e por entidades de apoio 
à Agricultura Familiar como o Centro de Motivação Ecológica e Alternativas Rurais – 
CEMEAR (no Alto Vale do Itajaí); a Associação dos Pequenos Agricultores do Oeste 
Catarinense – APACO; o Centro Vianei de Educação Popular (no Planalto Serrano); O 
Centro De Assessoria e Apoio aos Trabalhadores Rurais – CEPAGRI (no Planalto Norte 
e Alto Vale do Rio do Peixe) e a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar - 
FETRAF. 
O CEPAGRO foi fundado em 20 de abril de 1990, por um grupo de pequenos 
agricultores e técnicos interessados na promoção da agricultura de grupo, como forma 
de viabilização das pequenas propriedades rurais. Sua sede está localizada atualmente, 
junto ao Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Santa Catarina, 
possibilitando, através de projetos e ações o envolvimento direto de acadêmicos do 
curso de Agronomia e de outros cursos. 
O CEPAGRO através de profunda e contínua reflexão crítica vem se 
reestruturando para melhor atender a atual realidade sócio-cultural e econômica do 
Estado de Santa Catarina, no que tem obtido bons resultados através dos projetos que 
executa, atuando sempre em forma de rede, parcerias e convênios. 
O CEPAGRO tem como finalidades representar, quando formalmente delegado 
para tal, coordenar e promover as relações e interesses das entidades que o compõe,
78 
no que diz respeito ao desenvolvimento da agricultura de grupo e de outras formas de 
solidariedade no meio rural, assessorando, apoiando, e promovendo ações que 
busquem o desenvolvimento local sustentável, tendo a agricultura familiar solidária 
como base para o desenvolvimento rural. 
Mesmo consolidando um trabalho de base, o CEPAGRO, ao representar o 
Conselho quando delegado, integra diferentes espaços públicos, como Conselho 
Estadual do PRONAF, Comissão Estadual de Produção Orgânica, Conselho Estadual 
do Desenvolvimento Rural, membro do Centro Ecumênico de Apoio ao 
Desenvolvimento, Fórum Estadual e Fórum Regional de Economia Solidária, Comitê 
Estadual de Alternativas para a Cultura do Fumo, Rede de Agroecologia Ecovida, Rede 
Monte Cristo e outros. Por serem espaços representativos e deliberativos, possibilita a 
interlocução com as diferentes esferas de governo e sociedade civil, favorecendo a 
criação e implementação de políticas públicas voltadas para o interesse da agricultura 
familiar e comunidades urbanas, reforçando a relação entre micro e macros esferas. 
O CEPAGRO desenvolve suas ações, em rede, com as organizações de sua 
Direção e entidades parceiras. Sua proposta emergente é a ampliação de sua atuação 
na Agroecologia, tanto na área rural quanto na área urbana, atuando de forma 
participativa junto às comunidades e famílias mais necessitadas, a partir de alternativas 
que promovam a Agroecologia, o desenvolvimento local e regional, a organização 
comunitária e a inclusão social, apontando assim para uma melhoria da qualidade de 
vida. 
Atualmente, o CEPAGRO desenvolve os seguintes programas de trabalho: 
1. Programa de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário: a partir das ações 
de organização do Núcleo Regional Litoral Catarinense da Rede de Agroecologia 
Ecovida tendo como objetivo principal, promover a agroecologia na região, 
implementar a certificação participativa dos produtos ecológicos e incentivar o 
comércio ético e solidário; e a promoção da produção animal e vegetal de forma 
agroecológica, viabilizando a atividade agrícola e pecuária familiar, protegendo as 
áreas de conservação, fomentando processos produtivos de baixo custo
79 
energético, possibilitando a formação e o acompanhamento técnico 
agroecológico. 
2. Programa Rede de Iniciativas Ecológicas e Solidárias Rurais e Urbanas no Litoral 
Catarinense que tem como objetivo principal construir relações entre o ambiente 
urbano e rural, tendo como pano de fundo a Agroecologia através de 
intercâmbios entre agricultores urbanos e rurais; construções de Programas de 
Aquisição de Alimentos; resgate da história e cultura rural de moradores urbanos, 
principalmente da periferia da grande Florianópolis produzindo alimentos nos 
quintais, utilizando plantas medicinais e reciclando o lixo orgânico; difusão do 
trabalho coletivo através de hortas comunitárias e grupos de geração de renda. 
Todos estes pontos têm como objetivo promover a inclusão social e ambiental 
nas comunidades carentes gerando sustentabilidade das comunidades, pautada pelos 
princípios da Economia Solidária e Agroecologia. 
O Centro conta para os próximos 36 meses o apoio da Cooperação Internacional 
através da MISEREOR - Agência de Desenvolvimento da Igreja Católica da Alemanha e 
da IAF – Inter-American Foundation, para a execução de atividades de Agricultura 
Urbana e Desenvolvimento Rural atingindo e consolidando um trabalho de base 
regional. 
Outro projeto que vem sendo enfatizado atualmente se dá em parceria com o 
Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alfredo Wagner - SC, onde buscam consolidar 
um trabalho começado em 2000 visando à produção animal agroecológica, tendo o leite 
como estratégia de permanência das famílias no campo. 
O Centro tem como meta dar continuidade às ações implantadas nos Grupos já 
organizados do Núcleo Litoral catarinense, possibilitando o incentivo e a participação de 
novas famílias para a ampliação ou formação de novos grupos, tendo a Agroecologia 
como orientadora do trabalho no espaço rural, além das possíveis interfaces com o 
urbano.
80 
O propósito dos projetos é organizar grupos de suporte por comunidades, 
envolvendo famílias que estejam interessadas em se organizar e serem multiplicadores 
das propostas trabalhadas com base na Agroecologia. 
3.4. Ambientação - Município de Garopaba 
Garopaba é um município litorâneo, situado na região sul do Estado de Santa 
Catarina, distante 79km da capital do Estado, possuindo uma área de 111 Km2 de 
extensão, onde aproximadamente 60% da área é montanhosa, abrangendo também, 
parte do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro. Possui uma população de 
aproximadamente 15.000 habitantes, com 18,5% na área rural. 
O Município tem como principal característica sua formação remanescente da 
Mata Atlântica, seu complexo lagunar e as áreas de praias preservadas, recortadas por 
dunas e colinas. Sua área se estende da ponta do Faísca ou Gamboa até a Ponta do 
Ouvidor, banhada a leste pelo Oceano Atlântico, a oeste e norte fazendo limites com o 
Município de Paulo Lopes, e ao sul com o de Município de Imbituba. O acesso 
rodoviário é feito pela BR-101, seguindo pela SC-434 por mais 15 Km.
81 
Figura 2. Localização do Município de Garopaba. 
Fonte: Governo de SC - CIASC 
Os tupi-guaranis foram os primeiros habitantes de Garopaba dando o nome à 
cidade. Este nome vem grafado – gahopapaba - na carta de Turim, em 1523, ou assim: 
upaua, upaba, guarupeba. Que significa a enseada dos barcos, do descanso ou ainda, o 
lugar abençoado. Os traços da colonização açoriana ainda são assistidos na arquitetura, 
na pesca artesanal, na gastronomia, nos costumes festivos e nos artesanatos locais. 
Quanto aos aspectos econômicos, o Município abrange os três setores da 
indústria, se destacando atualmente no setor terciário voltada à economia com base no 
turismo de temporada (prestações de serviços e lazer), em seqüência ao setor primário, 
com a economia oriunda da agricultura, pecuária e pesca e por fim, não menos 
importante, o setor secundário, caracterizado pela economia oriunda das indústrias de 
eletro-eletrônicos, fábricas de vestuário, peças em neoprene e artigos esportivos. 
A cidade conta com uma infra-estrutura diversificada, com estabelecimentos 
básicos referentes à educação, saúde, segurança, comércios, indústrias e empresas de 
médio porte, profissionais autônomos, serviços bancários e prestadores de serviço,
82 
segmento este que vem se destacando devido à ascensão do turismo, com a estrutura 
de restaurantes, meios de hospedagem, imobiliárias, agências de viagens, comércio 
direcionado, entre outros. 
Sem perder suas características de vila de pescadores, Garopaba oferece novas 
opções de lazer e vem se transformando em um dos principais pólos turísticos do 
Estado de Santa Catarina, aonde chega a receber cerca de 100 mil turistas durante a 
temporada. Considerada um paraíso à beira-mar, por suas belezas naturais, a cidade 
possui nove praias (Gamboa, Siriú, Garopaba, Preguiça, Silveira, Ferrugem, Barra, 
Ouvidor e Vermelha), que vão desde mar manso a praias reconhecidas 
internacionalmente para a prática do Surf, sendo eleita pelo Estado como a Capital da 
Catarinense do Surf. 
Figura 3. Localização das praias do Município de Garopaba. 
Fonte: <http://www.pousadadalagoa.com.br>
83 
O Município ainda dispõe de diversificadas atrações turísticas, como visitas às 
cachoeiras, lagoas, dunas (prática do sand board), trilhas ecológicas, rappel, 
agroturismo, pesca artesanal, cavalgadas, esportes aquáticos, apreciação da fauna e 
flora local e observação das baleias Franca, provenientes do sul do continente, que 
entre os meses de julho a outubro, visitam as praias do município para se reproduzirem 
e amamentarem. A cidade faz parte da APA - Área de Proteção Ambiental da Baleia- 
Franca, sendo considerada o reduto desses cetáceos e um dos melhores lugares no 
mundo para sua observação. 
Figura 4. Barcos de pesca na praia de Garopaba. 
Fonte: Michelle B. Nunes, 2006. 
Suas atrações culturais, como eventos e festividades, gastronomia, arquitetura, 
artesanato e produtos típicos, são também atrativos que retratam a perfeita harmonia 
entre o município e o meio, bem como o saber local daquele povo.
84 
3.5. Ambientação - Grupo de Agricultores Agroecológicos de Garopaba 
O Grupo de Agricultores Agroecológicos de Garopaba foi criado oficialmente no 
mês de março de 2004. No entanto, o vínculo existente entre o Grupo e a Rede de 
Agroecologia Ecovida, se deu a partir do final do ano de 2002, onde o Grupo participou 
do Encontro Ampliado da Rede em Lages – SC, integrando-se assim, ao Núcleo 
Litorâneo Catarinense. 
O interesse e a motivação para haver a conversão agroecológica e assim, 
produzirem com base nos princípios da Agroecologia, surgiu com o intercâmbio de 
informações e conhecimentos entre os próprios agricultores. 
Por meio de palestras e cursos sobre permacultura, ministrados em 1990 pelo 
agricultor Glaico Sell, de Paulo Lopes – SC, (um dos pioneiros da região que há mais de 
10 anos vem incentivando e colaborando na conversão dos demais agricultores, que na 
época era Secretário Municipal da Agricultura), e outros integrantes defensores da 
agroecologia, as discussões a cerca da agricultura agroecológica foram levadas até a 
Associação dos Produtores Rurais do município de Garopaba, onde apenas um 
pequeno grupo buscou a continuidade deste trabalho. 
As reuniões eram feitas quinzenalmente, ou mesmo semanalmente, entre os 
grupo de maior interesse pela agroecologia, até que entre os anos de 2000 e 2002, um 
dos agricultores buscou a união e o incentivo dos demais agricultores e 
conseqüentemente ao início das primeiras etapas de conversão de sua propriedade, 
passando assim, a serem reconhecidos e denominados de Grupo de Agricultores 
Agroecológicos de Garopaba - SC. 
Atualmente, o Grupo é composto por onze famílias, entre agricultores 
agroecológicos e processadores de produtos coloniais. Porém, a pesquisa direcionou o 
trabalho a cinco famílias, as quais mantém uma maior ligação com o Núcleo Litoral 
Catarinense e com as atividades oferecidas pelo CEPAGRO. Tais famílias são
85 
representadas pelos agricultores José Antônio Furtado (Zezinho), Mariomar Manoel 
Pereira, João Batista Cardoso, Adi da Rosa, e pela agricultora Maria de Lourdes Lopes 
de Souza. 
O próprio CEPAGRO relata algumas características predominantes no Grupo 
como, a flexibilidade, o constante interesse por novos conhecimentos, o fácil 
aprendizado devido, participativos em reuniões e oficinas práticas e principalmente, 
dispostos a divulgar a proposta do seu trabalho, fomentado pela agroecologia, validando 
o intuito da própria instituição. 
As principais atividades econômicas do Grupo são o cultivo de hortaliças, 
legumes, especiarias hortícolas; a preparação do leite e a criação de animais. Também 
ocorre o beneficiamento para a obtenção de farinhas, geléias, e produtos coloniais como 
pães, bolachas, bolos entre outros. 
Figura 5. Produção de Hortaliças. 
Fonte: Michelle B. Nunes, 2006.
86 
Devido a essa formação em grupo, algumas das ações dos agricultores são 
realizadas coletivamente, como a aquisição (compra ou coleta) de matérias primas e 
insumos de produtores não sócios; a obtenção de clientes ou serviços para os sócios; a 
comercialização de seus produtos; a obtenção da certificação orgânica, a partir do selo 
Ecovida e o assessoramento técnico realizado pelo CEPAGRO. 
Quanto à infra-estrutura, atualmente, o Grupo conta com um espaço edificado em 
2003, por iniciativa do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural - CMDR, na 
época, coordenado pela EPAGRI, o mercado do produtor, uma estrutura para incentivar 
e dar escoamento à produção agroecológica local, aberto de segunda a sábado, 
localizado ao lado da Estação Rodoviária. 
O Mercado do Produtor é administrado por todos os integrantes do Grupo, 
constituído por um presidente e um tesoureiro, sendo esses, também agricultores. É 
contratado o serviço de uma funcionária permanecendo no local de segunda a sábado. 
Cada agricultor entrega seus produtos no local por volta das 7:30 da manhã, todos os 
dias. O local também é utilizado para a comercialização de alguns artesanatos locais 
como também como sede para as reuniões quinzenais do Grupo. 
Figura 6. Mercado do Produtor. 
Fonte: Michelle B. Nunes, 2006.
87 
Outro empreendimento alçado em parceria com a administração pública 
municipal, com fundos provenientes do Programa Nacional de Fortalecimento da 
Agricultura Familiar – PRONAF Infraestrutura, foi a construção do engenho comunitário 
de farinha e de cana de açúcar – pequenas indústrias de beneficiamento da mandioca, 
e outra da cana, com alambique para produção de cachaça com fornos e batedores 
para processamento do açúcar mascavo e do melado. O terreno onde foi construído o 
engenho de mandioca foi doado à Prefeitura pelo pai do agricultor Adi da Rosa, 
atualmente, o engenho está sendo utilizado pela família do agricultor e administrado 
pelo mesmo. 
Em julho de 2005, foi criada por interesse dos próprios agricultores, a feira 
agroecológica municipal, ocorrendo semanalmente no período da manhã, na praça em 
frente à nova Igreja, próximo à praia de Garopaba. Os próprios agricultores são 
responsáveis pela venda dos produtos, estando de maneira revezada, presentes na 
feira. Tanto no Mercado do Produtor, quanto na feira agroecológica, os agricultores 
possuem um controle de entrada e saída de seus produtos, utilizados por meio de notas 
individuais e pela distribuição proporcional do excedente. 
Figura 7. Feira Agroecológica Municipal. 
Fonte: Michelle B. Nunes, 2006.
88 
De forma bastante breve e precisa, será contextualizada a história de cada 
agricultor (a), enfatizando neste momento, a sua ligação com a agricultura e com o que 
vem produzindo atualmente por meio da agroecologia. Na seqüência, será abordada 
com maior ênfase as particularidades e semelhanças percebidas entre os agricultores 
junto a questões de interesse desta pesquisa. 
Agricultor Zezinho: reside em Garopaba com seus pais, foi caminhoneiro até seus 
25 anos de idade. Buscou trabalhar na agricultura diversas vezes, mas retornava ao 
serviço anterior. Há seis anos por interesse e vontade própria, decidiu viver da 
agricultura agroecológica, mesmo não tendo o total apoio de seu pai no início, devido à 
falta de conhecimento a respeito da mesma. Atualmente, em sua propriedade, próximo 
à Lagoa da Encantada, produz hortaliças variadas, legumes, morango, milho entre 
outros produtos, além do beneficiamento da mandioca, a partir de um engenho 
artesanal conduzido por seu pai. Acredita que a agricultura convencional é “um crime” e 
que a principal vantagem da agricultura agroecológica é o de não estar “envenenando o 
meio ambiente”. 
Figura 8. Agricultor Zezinho. 
Fonte: CEPAGRO, 2006.
89 
Agricultora Dona Lourdes: reside em Garopaba com seu esposo a mais de 30 
anos na mesma propriedade. Já trabalhou por mais de dez anos na agricultura 
convencional, no entanto, há dois anos vêm cultivando de forma agroecológica, por 
vontade própria e por acreditar em melhores oportunidades, ervas medicinais para o 
beneficiamento de remédios, chás, sabonetes e outros produtos, destinados à Pastoral 
da Saúde. Produz ainda com a ajuda de contratados, familiares ou não, geléias 
diversas, pães e biscoitos integrais. Acredita que o maior motivo em não mais aceitar 
trabalhar na agricultura convencional é o de poder ter “uma saúde melhor” e que a maior 
vantagem da agricultura agroecológica é proporcionar “bem estar e um sabor diferente 
nos alimentos”. 
Figura 9. Agricultora Dona Lourdes. 
Fonte: Michelle B. Nunes, 2006. 
Agricultor Batista: reside em Garopaba com sua esposa Lúcia e seus filhos. Antes 
de trabalhar como agricultor, exerceu a atividade de pedreiro e açougueiro. 
Posteriormente, trabalhou na agricultura convencional por cerca de dez anos, no 
entanto há dois anos, por incentivo e conversa com outros agricultores vem contribuindo 
com a agricultura agroecológica. Produz atualmente algumas hortaliças, legumes, milho, 
feijão, cana de açúcar e mandioca. Sua maior renda é oriunda da produção de leite e o 
beneficiamento deste para a produção de queijo e iogurte. Acredita que o maior motivo
90 
em não aceitar trabalhar na agricultura convencional é a “destruição da terra” e o 
cuidado com a saúde, e que as maiores vantagens percebidas com a produção 
agroecológica são a de ter “mais saúde” e a “união da família”. Em uma visita a sua 
propriedade, o agricultor relatou, que já se sente “certificado”, pois percebeu o quanto 
sua vida melhorou após a compreensão a cerca da agroecologia e das técnicas 
utilizadas pela mesma. 
Figura 10. Agricultor Batista e sua esposa. 
Fonte: CEPAGRO, 2006. 
Agricultor Mariomar: reside em Garopaba com sua esposa Taís. Trabalhou na 
agricultura convencional por cerca de oito anos. Sua propriedade atual foi adquirida por 
terceiros, sendo que seu primeiro plantio foi ainda convencional, no entanto, cerca de 
cinco anos, pelo incentivo de outros agricultores buscou o conhecimento a respeito da 
agroecologia e posteriormente a conversão de sua propriedade. É proprietário também 
de uma sapataria, conduzida atualmente por seu pai. Produz atualmente hortaliças 
diversas, legumes, árvores frutíferas, ovos entre outros produtos. Acredita que a 
certificação dos produtos é necessária e que o mercado de produtos orgânicos tem 
potencial.
91 
Figura 11. Agricultor Mariomar. 
Fonte: CEPAGRO, 2006. 
Agricultor Adi: reside em Garopaba com sua esposa e uma filha, além de sua 
família de irmãos e cunhadas. Trabalhou muitos anos no comércio de Garopaba, 
mantendo uma amizade e contato com muitos empreendimentos. Sua maior renda é 
oriunda do beneficiamento da mandioca, a partir do engenho de farinha cedido pela 
administração pública junto ao PRONAF, conduzido pela própria família. Produzem 
também hortaliças diversas, legumes, mandioca entre outros produtos. 
Figura 12. Agricultor Adi e sua família. 
Fonte: CEPAGRO, 2006.
92 
3.6. A Pesquisa 
Conforme as visitas feitas semanalmente, junto aos técnicos do CEPAGRO, onde 
tinham, como objetivo maior, o emprego das oficinas demandadas pelo próprio Grupo 
de Agricultores, foi possível visitar algumas das propriedades agrícolas e observar o 
interesse do Grupo para com novos conhecimentos vindos de representantes que visam 
a melhoria da propriedade, da sua sustentabilidade e do que ela tem a oferecer. 
Figura 14. Oficina de Compostagem. 
Fonte: Michelle B. Nunes, 2006. 
Figura 13. Oficina de Biofertilizante. 
Fonte: Michelle B. Nunes, 2006. 
Em uma segunda visita ao município, foi possível comparecer à reunião 
quinzenal do Grupo, onde este discute questões relevantes ao mesmo. Nesta reunião 
foi cedido um espaço para que pudesse me apresentar pessoalmente, como também, 
apresentar a proposta desta pesquisa.
93 
Figura 15. Reunião do Grupo. 
Fonte: Michelle B. Nunes, 2006. 
Após uma maior familiaridade com os agricultores, foi possível, a partir de 
conversas e entrevistas com o Grupo e individualmente, abordar algumas questões de 
interesse desta pesquisa, e coletar informações sobre as mesmas. Para isto, foi 
estruturado um roteiro destinado às entrevistas individuais, sendo bastante flexível para 
que seja oportunizada uma conversa aberta entre o agricultor e o pesquisador, porém 
com base técnica e também subjetiva. 
Como visto no Anexo 2, o roteiro utilizado abrange desde questões históricas da 
própria trajetória particular de vivência da agricultura, passando por questões subjetivas 
referente aos princípios e valores depositados no modelo agroecológico da agricultura e 
na prospecção desta, frente ao mercado local e nacional, até questões específicas e 
técnicas voltadas às particularidades do próprio produto e da produção, como das 
estruturas físicas e equipamentos. Foram estes os três pontos enfatizados nas 
conversas individuais, que na seqüência serão transcritos e analisados.
94 
Quanto às questões históricas a respeito da trajetória de vivência na agricultura 
de cada agricultor, foram reveladas algumas diversidades entre os mesmos, no entanto, 
suas semelhanças também são significativas, as quais auxiliaram para a formação do 
Grupo e para a integração de novas famílias. Algumas das características observadas 
quanto a essa trajetória são relatas na seqüência: 
• Todos possuem uma origem rural, onde seus conhecimentos agrícolas foram 
disseminados por seus familiares, principalmente pais e avós. 
• A maioria buscou uma renda na área urbana antes de trabalhar com a 
agricultura, apenas nos últimos seis ou cinco anos, que os agricultores 
voltaram-se à atividade agroecológica. 
• Aqueles que trabalharam com a agricultura convencional, relatam que não 
tinham conhecimento algum a respeito da agroecologia nem mesmo dos 
danos que estavam sendo causados com as técnicas convencionais. 
• As maiorias das propriedades administradas pelos agricultores são oriundas 
de herança familiar, ou sendo esta, a própria propriedade da família há anos. 
No entanto, com a valorização da terra, muitos adquiriram por terceiros, uma 
segunda terra, seja para o aumento da produção ou para futuro investimento 
e aproveitamento da mesma. 
Quanto às questões subjetivas, referentes à visão dos agricultores frente aos 
princípios e valores sustentados pela agroecologia, bem como ao expansionismo destes 
produtos frente aos mercados foram expostas algumas considerações, tais como: 
• A união e integração dos agricultores de Garopaba e dos municípios vizinhos, 
antes mesmo da formalização do Grupo, foram os impulsionadores para o 
conhecimento e discussão sobre a agroecologia e assim, às conversões de suas 
propriedades. 
• O Grupo acredita atualmente que é possível viver da agricultura agroecológica, 
não somente pelo seu aspecto econômico, de redução de custos, menores
95 
investimentos, mas também devido aos princípios embutidos na mesma, sejam 
eles, a união da família, a preservação do meio ambiente e da saúde humana, 
bem como o bem estar da coletividade. 
• O Grupo ressalta ainda que as oportunidades de novos mercados, mesmo local, 
e a expansão junto ao reconhecimento dos princípios agroecológicos são o 
incentivo maior para continuarem a exercer a atividade de agricultor 
agroecológico. 
• Um dos objetivos do Grupo é buscar socializar seus conhecimentos práticos e 
buscar disseminar a eficácia e a responsabilidade inserida na agroecologia frente 
a outros agricultores e pessoas sensíveis a essa mudança social e cultural, 
proporcionando assim, uma aprendizagem coletiva. É a busca pela prática 
coletiva em grupos de pessoas heterogêneas com a função de construção de um 
novo saber que se direciona a conduta da agroecologia (MARTINIC apud 
SANTIN, 2005). 
• Os agricultores manifestam também o descontentamento em relação ao apoio 
local, seja pelas entidades públicas ou pela própria comunidade local. Uma de 
suas preocupações diz respeito ao crescimento desenfreada da área urbana, 
junto à pressão imobiliária pelas pequenas áreas rurais, decorrentes da atividade 
em massa do turismo nos últimos anos. 
• Em contraposto ao tópico à cima, os agricultores reconhecem que a atividade 
turística tem proporcionado uma maior demanda pelos produtos, e uma grande 
oportunidade para o reconhecimento e a valorização de seus produtos 
ecológicos.
96 
Quanto às questões específicas e técnicas voltadas às particularidades de todo o 
sistema produtivo, se buscou compreender todo o seu dinamismo, desde as 
considerações a cerca das questões pré-produtivas, passando pelos mecanismos e 
técnicas de produção, até as etapas de finalização deste ciclo. Para apurar tais 
considerações de forma organizada, foram enfatizados alguns pontos relevantes, sendo 
eles: 
Quanto à Pré-Produção 
• O Grupo busca facilitar esta etapa do sistema produtivo planejando em prol da 
coletividade, como o caso da aquisição de mudas e sementes realizadas 
quinzenalmente a um único fornecedor para a grande maioria do Grupo. 
• Pode-se perceber também uma ajuda mútua caracterizada pelas trocas de 
sementes, mudas, remédios para os animais e plantas, ferramentas e 
equipamentos, assim como, de informações e conhecimentos técnicos. São as 
necessidades que o Grupo busca socializar entre os integrantes. 
Quanto à Produção 
• A etapa de produção, desde a preparação de mudas e sementes, como da área 
de plantio, até a colheita desses produtos, são preferencialmente de 
responsabilidade dos próprios agricultores e seus familiares. Em épocas de 
maiores necessidades, se faz a contratação de terceiros. 
• A responsabilidade de cada agricultor contratado ou da própria propriedade, não 
possui necessariamente uma função específica, sendo necessário o 
conhecimento de todo o processo produtivo. 
• Raramente os agricultores possuem parte de sua produção já direcionada a 
algum mercado. O controle do que é produzido e o quanto é produzido, se faz
97 
pelo próprio conhecimento de cada agricultor em relação à demanda daquele 
produto e à própria questão climática do município. 
• Ocorre o beneficiamento da mandioca, do leite e de produtos coloniais na grande 
maioria das propriedades, exigindo em cada uma delas, estruturas e outros 
processos produtivos capazes de garantir a qualidade dos produtos sendo eles: 
farinha, queijo, iogurte, pães, geléias, biscoitos integrais, remédios e ervas 
medicinais. Esta etapa de beneficiamento é preferencialmente conduzida pelas 
esposas, pelos pais ou outros familiares dos agricultores, pois o cuidado com a 
horta, ou com o pasto, de responsabilidade dos agricultores, ocupa a maior parte 
do tempo. 
• As limitações relatadas pelos agricultores a respeito da etapa de produção, têm 
sido relacionadas exclusivamente às particularidades dos produtos, como por 
exemplo, o cuidado exigido ao semear ou plantar algum produto, ou o 
alastramento de alguma praga ou danos causados nas plantações ou nos gados. 
Questões estas que estão sendo articuladas junto aos técnicos que assessoram 
o Grupo, com o objetivo de soluciona-las. 
Quanto aos Produtos 
• É percebida uma ajuda mútua caracterizada pela troca de produtos entre os 
agricultores, (principalmente as hortaliças e legumes), com o objetivo de atender 
as necessidades do mercado e a demanda diversificada exigida pelo consumidor. 
Essa ação entre os agricultores contribui não apenas para a interação e 
cooperação entre os mesmos, mas principalmente para a satisfação permanente 
do cliente. 
• O credo dos agricultores é produzir uma maior variedade de produtos durante 
todo o ano, sendo que alguns em maiores quantidades e outros em menores 
quantidades. Desta forma, garantem ao consumidor a oferta dos mesmos
98 
produtos em diferentes épocas do ano. Não havendo necessariamente critérios 
para a diversidade de produtos a serem produzidos. 
• Devido à variação climática e após observarem a disparidade na procura entre as 
épocas de inverno e verão, os agricultores produzem em maiores quantidades, 
legumes na época do inverno e hortaliças na época do verão. 
• Alguns dos produtos (principalmente hortaliças e legumes) são colhidos em 
carrinhos de mão ou caixotes de plástico, seguidos por um processo de lavagem 
e transportados até os pontos de venda, não exigindo a armazenagem dos 
mesmos por mais de um dia. No entanto, aqueles em exceção, são armazenados 
em caixotes de plásticos, empilhados no chão ou em uma bancada de uma área 
à parte ou na própria casa do agricultor. 
• A produção da farinha e dos derivados do leite é realizada em engenho artesanal 
e áreas de pasteurização, sendo reservados e armazenados em barris de 
madeira no próprio engenho, com exceção do engenho comunitário conduzido 
pela família do agricultor Adi, o qual já possui estruturas físicas semi-industriais. 
Quanto ao Posto de Trabalho e os Instrumentos Utilizados 
• Pode-se perceber uma variedade de postos de trabalho dos agricultores, pois a 
sua atividade é bastante dinâmica e na maioria das vezes é concentrada em uma 
única pessoa. Podemos citar de forma sucinta o ciclo correspondente os postos 
de trabalho exercidos pelos agricultores: iniciando com o preparo das mudas e do 
solo; o plantio propriamente dito; a colheita; a lavagem dos produtos; o 
armazenamento; o beneficiamento (promovendo uma outra seqüência de ações) 
e a entrega. 
• Os instrumentos de trabalho dos agricultores são bastante variados, desde 
máquinas motorizadas como tratores e carpideiras, passando pelos
99 
equipamentos de tração animal, até as pequenas ferramentas manuais, como 
enxadas, motoserra, trado, serrote, carrinhos de mão, facão, foice, entre outros. 
Podemos ainda citar outros artefatos utilizados pelos agricultores, como balaios, 
caixotes de plástico entre outros. 
• A maioria dos instrumentos de trabalho são particulares, adquiridos já há um 
tempo ou por outras gerações, muitas vezes reformados, consertados e 
adaptados pelos próprios agricultores. No entanto, observa-se novamente uma 
ajuda mútua caracterizada pelo empréstimo dos equipamentos ou pelo apoio dos 
órgãos públicos locais em oferecer o empréstimo dos mesmos. 
• A grande maioria dos instrumentos encontra-se guardados em galpões ou em 
áreas abertas, próximas da casa. No entanto, não possuem espaços próprios, 
estando expostos sem nenhuma segurança. 
• Alguns dos agricultores relataram que nem sempre os instrumentos utilizados são 
os mais apropriados, porém, as possibilidades em investir nesse segmento, não 
são consideradas prioridades atualmente. No entanto, relatam ainda que a 
atividade agrícola é dispendiosa, mas acreditam que as inovações tecnológicas, 
além de seus conhecimentos técnicos, são de grande benefício pra agricultura, 
quando devidamente empregadas. 
Quanto às Estruturas Físicas 
• As estruturas físicas das propriedades são constituídas basicamente pela própria 
residência familiar, uma outra área utilizada como galpão para inúmeras funções, 
como a lavagem e armazenamento dos produtos e de algumas ferramentas, 
entre outras, e por uma área destinada à avicultura (criação de aves). 
• No entanto, algumas atividades específicas, como por exemplo a preparação das 
mudas, que exigem um espaço reservado, estão sendo produzidas junto a outras 
estruturas, ou mesmo em áreas abertas.
100 
• Devido ao próprio beneficiamento dos produtos, no caso a farinha e os derivados 
do leite, os agricultores contam com a área do engenho e da pasteurização do 
leite. Sendo essas mesmas áreas, designadas a outras funções, como citada no 
primeiro tópico. 
• As estruturas físicas citadas até o momento, sejam elas, galpões, áreas abertas, 
estufas, engenhos, estábulos, ou outras áreas, encontram-se edificadas 
preferencialmente em madeira, com o aproveitamento de algum material e com 
aspecto rústico e artesanal, no entanto, muitas vezes impróprias às atividades 
que ali são exercidas devido à necessidade principal de higiene do local de 
trabalho, bem como no uso de materiais e equipamentos adequados e higiênicos. 
• Alguns produtos ou etapas a serem consideradas em todo o processo produtivo 
exigem estruturas específicas, como o caso da lavagem, do armazenamento, do 
empacotamento entre outros, porém, estas funções têm sido exercidas em um 
mesmo local, muitas vezes adaptadas devido ao espaço reduzido. 
• Os investimentos neste segmento são de grande necessidade dos agricultores, 
como o caso do agricultor Batista, aonde vem edificando uma pequena área 
específica para o beneficiamento do leite (ainda beneficiado na própria 
residência). No entanto este investimento em otimizar o espaço existente, ou a 
criação de um novo espaço, ocorre ainda lentamente e de acordo com as 
legalidades e normas exigidas pelo sistema de inspeção sanitária entre outros. 
Quanto ao Mercado – questões referentes à comercialização, divulgação e 
distribuição de seus produtos 
• Como citado anteriormente, o Grupo conta com dois espaços para a 
comercialização de seus produtos: o Mercado do Produtor e a Feira 
Agroecológica. Devido à baixa lucratividade de ambos os pontos de venda, os
101 
agricultores buscam novos mercados para seus produtos, como mercearias, 
pequenos e médios mercados locais, padarias, lanchonetes, restaurantes e 
hotéis. Ocorre ainda, a venda dos produtos na própria propriedade do agricultor, 
por clientes já fiéis e de boa relação com o mesmo. 
• As distribuições dos produtos até os pontos de venda são realizadas, na maioria 
das propriedades, preferencialmente todos os dias na parte da manhã, através 
veículos particulares como motos e carretas. Os próprios agricultores são 
responsáveis pelas entregas e pelas vendas dos produtos. 
• Para a preparação da Feira Agroecológica e de algumas outras entregas, um dos 
agricultores utiliza o seu automóvel de grande porte em prol do Grupo, dirigindo-se 
a cada propriedade, recolhendo os produtos e levando-os até o ponto de 
venda. 
• Quando necessário, o cliente (mercearia, mercados, hotéis...) entra em contato 
com o agricultor (na grande maioria via telefone celular) e faz o pedido 
normalmente, para três a quatro dias. Quando a oferta excede a demanda do 
agricultor em particular, o mesmo entra em contato com os demais e realiza a 
troca de produtos, citada anteriormente. 
• Alguns agricultores já possuem alguns pontos de vendas fixos, promovendo uma 
forte interação entre sua cliente e seus produtos. 
• Os agricultores relatam que a demanda é estável durante o ano todo, não tendo 
excedente na produção, porém, teriam capacidade como Grupo, de potencializar 
suas produções, direcionando-as a um forte mercado receptor, como o caso das 
escolas Municipais através da merenda orgânica escolar. 
• No período do verão, esta demanda se sobrepõe, necessitando de um melhor 
planejamento da produção, da distribuição, da comercialização, ou seja, uma 
melhor organização e controle do Grupo como um todo, o que não vem sendo 
posto em prática, como foi relatado pelo mesmo.
102 
• O Grupo afirma que uma das principais características levadas em maior 
consideração na comercialização de seus produtos, é o contato direto com o 
cliente, onde ocorre com a presença deste na Feira ou mesmo na propriedade do 
agricultor. No entanto, alguns dos agricultores contam que não é possível se 
manter apenas do contato direto com o consumidor, exigindo desta forma, o 
fornecimento de seus produtos a terceiros, como restaurantes e outros mercados. 
• Quanto à divulgação de seus produtos, o Grupo contou com o forte apoio da 
Prefeitura em relação à Feira Agroecológica no último ano, no entanto, o apoio e 
a divulgação promovida não foi o suficiente para o reconhecimento do Grupo pela 
própria comunidade de Garopaba. 
• A divulgação atual mais precisa, vem sendo a “do boca a boca”, onde cada 
família, ou o próprio Grupo se propõe a socializar suas experiências e expandir 
os valores inseridos em seus produtos ecológicos para àquelas pessoas de maior 
contato e relacionamento, como forma de divulgação dos mesmos. 
• Por interesse próprio, o Grupo buscou se identificar de alguma forma bastante 
urgente após um maior reconhecimento de sua existência, optando em utilizar um 
selo com a denominação do Grupo, que já tinha sido estudada há um tempo 
atrás: Associação dos Produtores Orgânicos e Coloniais de Garopaba –SC. Este 
selo foi reproduzido em etiquetas com o nome do agricultor e com as informações 
técnicas básicas do produto (data de validade, peso, sabor...). Este selo não é 
efetivamente a marca registrada da Associação, pois ainda não foi registrada, 
nem mesmo desenvolvido o seu manual de identidade visual. 
• O Grupo observa que há a necessidade de uma maior divulgação em relação aos 
seus produtos, e que somente a partir dessa divulgação, será mais bem 
encaminhada à etapa de comercialização dos mesmos. Algumas ações simples e 
emergenciais são relatas pelo Grupo, como por exemplo, a divulgação em rádios 
ou carros de sons, a necessidade de placas indicativas a respeito do local e 
horário da Feira e do Mercado do Produtor, o desenvolvimento de algum material
103 
informativo como panfletos, banners, a promoção de eventos a respeito da 
agroecologia e produtos orgânicos, entre outros. 
• Todos os agricultores e seus familiares possuem o conhecimento a respeito da 
diferenciação de seus produtos, bem como a identificação de um potencial 
consumidor para o mesmo, no entanto, a opinião relatada pelos agricultores, é 
que eles ainda receiam que o município de Garopaba, ou melhor, que a 
comunidade local, não se encontra totalmente preparada para a oferta desses 
produtos e nem mesmo para a aceitação do valor final desses produtos. O Grupo 
definiu três causas para esta constatação: a primeira seria a necessidade do selo 
da certificação dada pela Rede Ecovida, o qual só é possível após uma série de 
alterações e conversões na propriedade e das atividades exercidas por cada 
agricultor, a segunda causa é a falta do conhecimento em relação à existência do 
próprio Grupo de Agricultores Agroecológicos, e a terceira causa é a falta do 
conhecimento em relação ao que vem a ser uma propriedade agroecológica e 
produtos orgânicos, quais suas vantagens e benefícios para quem o consome. 
Todas essas constatações abarcadas a partir de entrevistas, conversas e 
discussões com o Grupo, junto ao Grupo de Agricultores e representantes do 
CEPAGRO, possibilitou a formação de uma base reflexiva e ponderada a respeito de 
todo o contexto em que emergem esses agricultores. 
Foi possível compreender as condições reais ao sistema que envolve toda uma a 
propriedade (aquelas relatadas pelos próprios agricultores, e também, às constatadas 
após um breve diagnóstico), identificando as potencialidades deste espaço, as 
experiências promissoras, as oportunidades de expansionismo desta dinâmica 
agroecológica, suas regras de funcionamento, suas ações de planejamento, seus atores 
envolvidos, suas necessidades e particularidades. 
A partir desta reflexão e dos relatos particulares do Grupo e de cada família, 
pode-se partir para o próximo capítulo da pesquisa, ressaltando a discussão e 
identificação a cerca das duas oposições em que se encontram tais atores, sejam elas:
104 
suas potencialidades e suas limitações, para posteriormente serem abordadas e 
analisadas as reais demandas vinculadas ao Design. 
4. CAPÌTULO IV 
4.1. Limitações 
A partir da pesquisa contextualizada anteriormente, foi possível verificar a 
dificuldade e as limitações que o Grupo de Garopaba encontra-se atualmente em 
relação a duas situações relatas pelo mesmo, sejam elas: 
1. A busca em se sustentar da agricultura agroecológica e socializar seus princípios: 
O Grupo acredita que é possível se manter da agroecologia, mas que, no entanto, se 
deparam com inúmeras limitações que os impedem ou dificultam para a sua 
sustentabilidade, sendo uma delas, a própria socialização da agroecologia, ou seja, 
buscar manter o expansionismo da proposta agroecológica agregando cada vez mais 
pessoas ou entidades sensibilizadas com a mesma. 
2. A busca em expandir a comercialização e a valorização de seus produtos: 
O Grupo, conforme o relato de alguns agricultores, tende a enfrentar diariamente um 
constante processo de conhecimento de seus produtos perante a comunidade local, 
onde muitas vezes, desconhece ou não valoriza os mesmos, impedindo que a
105 
comercialização de seus produtos atinja níveis mais acentuados, ou seja, que possam 
ser adquiridos por um percentual maior de consumidores ou até mesmo, possam ser 
comercializados em outros pontos de vendas. 
Em relação a cada uma das situações, nas quais o Grupo acredita que possam 
ser superadas, pode-se listar as seguintes limitações ou dificuldades relatadas pelo 
próprio Grupo e identificadas pelo pesquisador: 
Quanto à busca em se sustentar da agricultura agroecológica e 
socializar seus princípios: 
§ O recente conhecimento a respeito das técnicas e práticas agrícolas com 
menores custos e investimentos – até pouco tempo, os agricultores utilizavam 
métodos mais dispendiosos e que promoviam resultados menos satisfatórios; 
§ Uma considerável parcela de agricultores locais que ainda produzem de forma 
convencionais que, no entanto desconhecem a temática agroecológica; 
§ A dificuldade em expor aos demais agricultores a relação de custo/benefício 
existente no modelo de agricultura de base agroecológica, até porque está 
relação é visível a médio e longo prazo, pois os agricultores necessitam de um 
período de transição para a conversão de sua propriedade e para o 
aprendizado de técnicas e práticas agroecológicas; 
§ A carência de documentação oficial que contemple as experiências e 
informações práticas e teóricas de cada agricultor, bem como o processo 
evolutivo do Grupo em relação às questões administrativas e operacionais; 
§ A carga de trabalho excessiva e desgastante, pelo fato do maior número de 
atividades serem exercidas por uma mesma pessoa e pelo próprio processo 
produtivo dependente principalmente dos fatores climáticos, como sol intenso, 
chuvas, temporais entre outros;
106 
§ A complexidade no próprio processo produtivo em manter o nível de 
qualidade, principalmente no aspecto visual dos produtos, devido a diversos 
fatores, como mencionados a cima, que exigem um constante controle e 
cuidados na produção; 
§ Diversidade de postos de trabalhos desconfortáveis e de riscos à saúde 
humana, devido principalmente, aos instrumentos e estruturas utilizadas, 
muitas vezes inadequadas e precárias; 
§ A especulação imobiliária principalmente por estrangeiros, com a oferta de 
valores exuberantes para a aquisição de terrenos, provocando uma 
urbanização desenfreada apoderando-se das áreas rurais e 
conseqüentemente o afastando de novos interessados em obter renda a partir 
da agricultura; 
§ A sazonalidade do turismo, provocando uma demanda muito maior no verão e 
estável durante o restante do ano. Sendo também considerada uma 
oportunidade devido a este potencial turístico da cidade e ao crescimento 
populacional neste período do ano, que muito provável, torna-se consumidor 
dos produtos ecológicos; 
§ O desinteresse dos mais jovens em trabalhar na agricultura, buscando uma 
renda de mais fácil acesso no meio urbano; 
§ A carência em obter apoios locais, vindos de diferentes instâncias, para a 
promoção e socialização da agricultura agroecológica, principalmente em 
relação aos créditos ou investimentos financeiros – muitos agricultores não 
possuem o capital de giro necessário para a adequação de sua propriedade, e 
por isso dependem dos programas de créditos e investimentos. 
Quanto à busca em expandir a comercialização e a valorização de seus 
produtos:
107 
§ As dificuldades de plantio de determinados produtos, devido ao clima ou 
outros fatores físicos locais, exige o intercâmbio de produtos oriundos de 
agricultores próximos ou de outros municípios, para que a oferta dos produtos 
mantenha a diversidade que satisfaça o consumidor; 
§ A não valorização de alguns supermercados e outros pontos de vendas, 
quanto aos produtos ecológicos, adquirindo-os por um valor inferior ao que 
são vendidos no Mercado do Produtor e na Feira Agroecológica, e igualados 
ao valor dos produtos convencionais; 
§ Na maioria dos pontos de vendas (com exceção do Mercado do Produtor e da 
Feira Agroecológica) não há a devida disjunção entre os produtos ecológicos 
e os produtos convencionais, mantidos em um mesmo espaço sem nenhuma 
informação quanto aos mesmos; 
§ A carência de uma grande parcela de consumidores, em obter a devida 
compreensão a cerca dos produtos ecológicos e da agroecologia, quais seus 
benefícios e vantagens, bem como a justificativa por seu valor final; 
§ A existência de consumidores potenciais, os quais já possuem a compreensão 
e a sensibilidade à cerca dos produtos ecológicos, que, no entanto, exigem a 
certificação dos mesmos por meio do selo. O processo de certificação das 
famílias encontra-se atualmente em andamento, onde algumas delas já são 
aptas a recebê-lo; 
§ A ausência de material informacional que contemplasse a temática da 
Agroecologia, a existência do Grupo, e a divulgação de como adquirir os 
produtos ecológicos; 
§ A inexistência de placas de informação ao longo da rodovia estadual SC 434 
e no centro do Município, que indicasse os pontos de venda permanentes 
como o Mercado do Produtor e a feira Agroecológica;
108 
§ A distância relativamente grande entre as propriedades e destas em relação 
aos pontos de venda, estando localizados, a maioria deles, no centro da 
cidade, o que dificulta e encarece o transporte para a entrega dos produtos, 
ocorrido quase que diariamente, de forma individual ou coletiva; 
§ A própria estrutura interna do Mercado do Produtor, a qual disponibiliza um 
espaço adequado, porém de forma um pouco desorganizada, com carência 
em informações técnicas (como os valores dos produtos, horários de 
funcionamento do Mercado) e informações relacionada à própria procedência 
dos produtos (quem são os produtores, onde localiza-los...); 
§ A falta de divulgação a respeito da existência do Grupo em locais estratégicos 
da cidade, como hotéis, restaurantes, academias, lojas especializadas entre 
outros; 
§ O desconhecimento da maioria dos consumidores e moradores do município a 
respeito da Rede de Agroecologia Ecovida; 
§ O baixo investimento direcionado aos recursos mercadológicos, como 
embalagens para o transporte, embalagens individuais e a própria identidade 
visual dos produtos; 
§ A inexistência fortalecida e organizada de uma identidade visual coletiva, 
abrangendo a realidade do Grupo de Agricultores e o pertencionismo à Rede 
de Agroecologia Ecovida. 
4.2. Potencialidade e Oportunidades
109 
São visíveis as variadas deficiências e limitações que o Grupo de Agricultores 
vem enfrentando desde a sua formação. No entanto, essa mesma formação, de certa 
forma recente e ainda embrionária, junto à expansão de pequenos empreendimentos 
agrícolas como forma de desenvolvimento local e a tendência no consumo de produtos 
ecológicos, proporcionam ao Grupo uma série de potenciais e oportunidades para o seu 
crescimento, sua sustentabilidade e seu reconhecimento. 
De forma a simplificar e melhor organizar esta etapa da pesquisa, foi preferível, 
listar na forma de itens, as considerações a respeito dos potenciais e das oportunidades 
que o Grupo se depara atualmente, como na seqüência: 
§ Talvez uns dos grandes potenciais regionais que reflete diretamente no Grupo de 
Agricultores, tem sido a própria valorização cultural, existente no Litoral Catarinense, 
com a produção da farinha de mandioca, da cachaça, do melado e do açúcar 
mascavo, por meio de engenhos artesanais ou semi-industrializados, como também, 
a atividade da pesca artesanal, da própria agricultura familiar, da gastronomia típica 
representada principalmente por pratos de frutos do mar, as festas tradicionais e com 
os artesanatos locais. 
Esse potencial cultural e social é bastante expressivo no Município de Garopaba, 
principalmente por sua localização litorânea e por seu povoado açoriano. Junto a 
essa caracterização cultural, onde se mantém um comportamento e um estilo de vida 
particular, tem surgido a abertura para a agricultura agroecológica de forma pacífica, 
porém, praticamente desconhecida por muitos agricultores e demais moradores da 
cidade. No entanto, a agroecologia vem sendo considerada como um forte potencial 
da região de Garopaba como também do Município vizinho, Paulo Lopes, tendo a 
oportunidade de consolidar ainda mais, o seu reconhecimento e sua proposta. 
§ Garopaba tem sido um dos pontos turísticos mais desejados nos últimos anos, 
recebendo cerca de 100 mil visitantes durante a temporada de verão (entre os 
meses de janeiro a março), e uma considerável parcela destes, durante a época de 
carnaval. Essa explosão turística no Município, com cerca de 14 mil habitantes, tem 
ocasionando diversas conseqüências para o mesmo, como, já citado anteriormente,
110 
o surgimento de uma especulação imobiliária, onde visitantes encantados com as 
belezas naturais do local, adquirem os terrenos por preços exorbitantes, 
preferencialmente em áreas rurais, devido principalmente às aglomerações 
residenciais das áreas urbanas. 
No entanto, este potencial natural existente no Município de Garopaba, representado 
por suas diversas belezas naturais, como a mais conhecida delas, suas praias junto 
à prática do surf, tem também conduzido a novas oportunidades de mercado aos 
agricultores, ou seja, se devidamente explorado esse potencial turístico, desde os 
visitantes, os novos moradores, como também as estruturas de apoio ao turismo, 
como hotéis, restaurantes, portais turísticos entre outros, os agricultores possuem a 
oportunidade de conquistar um novo nicho de mercado, seja para a própria venda 
dos produtos ou para a divulgação dos mesmos. 
Um dos agricultores já oferece seus produtos a uma das redes hoteleiras da cidade, 
no entanto, esta oportunidade vai além da venda propriamente dita ao hotel, mas 
sim, de buscar socializar a proposta dos produtos ecológicos a esses novos 
mercados, abordando uma tendência à mudança no hábito alimentar das pessoas. 
§ Como relatado pelo próprio Grupo, a produtividade de muitos agricultores é maior no 
período de verão, e estável no restante do ano. Foi discutido em alguns momentos 
durante as visitas, a respeito do fornecimento de alimentos orgânicos para as 
unidades educacionais do município, sendo oferecido na merenda escolar, o qual iria 
garantir uma maior estabilidade produtiva durante todo o ano, auxiliando na época 
de verão e reforçando o restante dos meses. 
No entanto, esta oportunidade em fornecer os alimentos orgânicos e interferir 
também na mudança de hábito dos estudantes, passou a existir a partir de um 
Projeto de Lei aprovado em 2002 havendo a necessidade da parceria entre as 
Secretárias de Educação e de Agricultura e convênios entre o Estado e os 
Municípios, gerando uma certa burocracia e empenho de ambos os responsáveis. 
Infelizmente o Grupo não oferece os alimentos a rede educacional, mas juntos 
garantem a capacidade produtiva para a demanda exigida. Cabe ao Grupo entrar em
111 
contato com os devidos responsáveis e buscar a consolidação desta nova 
oportunidade. 
§ Como vimos anteriormente, o reconhecimento e a comercialização dos produtos 
ecológicos ou orgânicos, como alguns denominam, tem crescido nos últimos anos, 
principalmente quando nos deparamos com as exportações de produtos 
beneficiados ou semi-industrializados, no entanto, com as diversas entidades 
sensibilizadas de alguma forma com a agroecologia, e com o maior conhecimento 
técnico e prático a respeito da capacidade produtiva, percebe-se a receptividade de 
diversos agricultores em produzir hortifrutigranjeiro de forma ecológica, ou seja, 
produtos in natura. 
Essa tendência no consumo de produtos in natura também ecológicos, ainda em 
expansão no Município, possui uma influência direta com a nova mudança nos 
hábitos alimentares daqueles consumidores que visam um padrão de vida 
supostamente mais saudável e uma melhor preservação do meio ambiente, 
seguidos da proposta fomentada pela agroecologia. 
§ Atribuídas à nova dinâmica do meio rural, a pluriatividade e multifuncionalidade têm 
se destacado de forma a gerar um maior planejamento e conseqüentemente, uma 
maior renda às propriedades, por meio principalmente, da diversificação das 
atividades e das funções ofertadas por cada propriedade. Abordam na verdade, a 
capacidade de empreender das famílias de agricultores, promovendo o seu espaço 
de trabalho e socializando a proposta da agroecologia. 
Esta nova dinâmica pode estar sendo desenvolvida também nas propriedades dos 
agricultores de Garopaba, onde além da atividade produtiva, a propriedade bem 
como o agricultor tem a oportunidade de diversificar suas atividades, como, por 
exemplo, recebendo a visita de turistas e outros interessados, instruindo algumas 
técnicas e processos aos mesmos, ou seja, não tornar a propriedade como mero 
ponto de passagem, e sim atribuir à mesma, um potencial de valor simbólico e 
cultural.
112 
§ Os Municípios de Garopaba e Paulo Lopes, pertencentes à Rede de Agroecologia 
Ecovida possuem suas particularidades geográficas, suas diversidades naturais, no 
entanto, ambos são representados por grupos de agricultores, os quais vem se 
desenvolvendo a cerca de 10 anos com base preferencialmente, na agricultura 
agroecológica, porém de certa forma isolada, sem a interação e socialização entre os 
mesmos. 
De forma a gerar a socialização entre os Grupos, contribuindo para a pluriatividade 
da agricultura familiar e a promoção da agroecologia, torna-se oportuno conciliar esta 
proposta com o planejamento de uma rota turística entre os dois Municípios para 
visitação às propriedades, aos engenhos, às belezas naturais e seus diferenciados 
atrativos. Exigiria-se, inserido neste planejamento, um plano integrado entre as duas 
Prefeituras, a fim de que fossem possíveis ações conjuntas, como a própria 
divulgação da rota turística e o desenvolvimento de ambas as áreas. 
§ O município de Garopaba tem em sua localidade geográfica, importante 
característica estratégica para o expansionismo dos produtos ecológicos. Localiza-se 
a 79 km da capital do Estado, (dispondo um forte número de consumidores 
potenciais com base na pesquisa realizada pelo Instituto Cepa, 2003), ao lado de 
Paulo Lopes, município este que vem desenvolvendo também a proposta 
agroecológica, contando com um Grupo de produtores agroecológicos pertencentes 
também à Rede Ecovida e próxima às demais cidades como Tubarão e Criciúma. 
A maioria dos agricultores possui ainda a limitação quanto à comercialização de seus 
produtos nas cidades citadas, priorizando ainda o mercado local e de entorno do 
município, no entanto, ao longo prazo, os potenciais representados por tais cidades 
podem ser devidamente oportunos ao Grupo de Agricultores. 
§ O dinamismo a cerca do modelo de desenvolvimento vigente, como referenciado no 
início desta pesquisa, tem sido discutido por diferentes áreas e profissionais no 
âmbito de buscar a sustentabilidade em suas distintas dimensões (cultural, 
ambiental, social, tecnológica, econômica). Em especial à área ambiental, algumas 
ações são essenciais para tornar comum as discussões a cerca da necessidade de
113 
preservação do meio ambiente. A ação educacional se enquadra devidamente a 
necessidade atual, ou seja, a promoção de uma consciência coletiva para a defesa e 
preservação do meio ambiente deve ser enfatizada constantemente, atingindo o 
maior número de atores. 
Neste contexto, o Grupo de Agricultores de Garopaba, bem como as demais 
entidades sensibilizadas com a agroecologia são consideradas parte integrante 
dessas ações coletivas, de forma a expor a temática agroecológica e a proposta 
desta para com o meio ambiente, proporcionando não somente a conscientização 
ecológica, mas também, a ocasião para a compreensão à cerca da agricultura 
agroecológica e o incentivo e motivação para que outros jovens busquem o sustento 
de suas famílias por meio da agricultura agroecológica. 
4.3. Levantamento e Análise de Demandas 
Após uma série de relatos, constatações com base em entrevistas e discussões, 
a própria identificação das limitações e dos potenciais e oportunidades que o Grupo vem 
enfrentando, serviram mais uma vez, de base reflexiva e concreta, para que fosse 
possível a continuidade da pesquisa, considerando neste momento, o levantamento das 
demandas de competência do Design e a construção de um plano operacional com 
base nos aspectos relacionados à prioridade, eficiência e viabilidade de cada uma 
delas. 
De forma a otimizar a compreensão desta etapa da pesquisa, foi abordada 
algumas temáticas distintas correspondentes a cada uma das demandas de Design 
propostas, onde na seqüência de cada uma delas, encontra-se um quadro contendo a 
demanda específica e sua análise quanto aos aspectos: prioridade, eficiência e 
viabilidade.
114 
Quanto ao termo “prioridade”, buscou-se avaliar o grau de prioridade para a 
implementação da demanda específica, sendo estipulado conforme as necessidades 
relatadas pelo Grupo e percebidas após a compreensão de suas condições. Quanto ao 
termo “eficiência”, buscou-se listar os resultados após a implementação da demanda 
específica, o quanto a demanda é eficiente ao Grupo. Quanto ao último termo, 
“viabilidade”, buscou-se avaliar a viabilidade de implementação da demanda específica 
analisando alguns parâmetros como prazos e custos. 
As temáticas abordadas foram as seguintes: 
1. Empreendedorismo 
O empreendedorismo tem sido considerado o conjunto de comportamentos e de 
hábitos que podem ser adquiridos, praticados e reforçados nas pessoas, fazendo com 
sejam capazes de gerir e aproveitar oportunidades, melhorar seus processos e 
desenvolver da melhor forma o seu negócio. 
O empreendedor é considerado aquela pessoa que possui algumas 
características diferenciadas, como a originalidade, pró-atividade, flexibilidade, 
iniciativa, autoconfiança, responsabilidade em assumir riscos, dinâmico, e 
principalmente, ser visionário quanto ao seu negócio. 
Ele tem a capacidade de planejar, realizar e controlar seu negócio, sendo apto a 
identificar oportunidades, ter iniciativa, estabelecer metas, buscar informações, possuir 
responsabilidade em correr riscos, exigir qualidade e eficiência, persistir e se 
comprometer com suas ações. 
Neste contexto, mesmo mantendo suas atividades de forma isolada, onde cada 
um possui a responsabilidade a cerca de seu negócio e de sua propriedade, o Grupo de 
Agricultores tendem a gerir um único negócio, quando se trata da rede constituída entre 
todos os agricultores, ou seja, a própria formação em Grupo, possuindo ações e
115 
responsabilidades coletivas, como a comercialização, a divulgação, a fiscalização 
proposta pela Rede Ecovida, e a própria organização interna administrativa. 
Por esta formação em Grupo, é viável a percepção de todos os integrantes 
quanto às características empreendedoras em prol do reconhecimento e 
desenvolvimento do próprio Grupo. Fortificando tais características, muitas delas já 
intrínsecas em alguns agricultores, é possível alcançar uma melhor confiança e 
autonomia do Grupo quanto às suas ações, fortalecer o comprometimento e a 
persistência de cada um junto às mesmas e contribuir para a construção de uma visão 
coletiva e otimista para o Grupo a curto e médio prazo. 
Demandas 
A intervenção do Design se dará por meio da promoção e capacitação do 
conjunto das características empreendedoras, auxiliando, em conjunto com 
o Grupo, no desenvolvimento de um plano empreendedor, o qual 
promoveria as devidas ações: 
§ Enfatizar as reais responsabilidades e funções de cada integrante; 
§ Construir uma visão otimista e próspera ao Grupo. 
Em médio prazo, poderá também ser desenvolvido um plano de negócio5 
direcionado ao Grupo. 
Prioridade 
A principal causa para a aplicação deste processo, tem sido o 
descontentamento e desinteresse por parte de alguns agricultores em 
relação às ações do Grupo como um todo, geradas principalmente pelas 
limitações enfrentadas diariamente por cada família. No entanto, esta 
5 O plano de negócios é uma ferramenta utilizada no processo empreendedora. Ele é um documento 
escrito que tem o objetivo de estruturar os principais fatores necessários para a implementação e 
sustentabilidade de um empreendimento, a fim de sistematizar e planejar o negócio, avaliando a 
viabilidade do mesmo. Também é utilizado para a solicitação de empréstimos e financiamentos junto a 
instituições financeiras. Um Plano de Negócios serve para que o empreendedor possa situar-se no seu 
ambiente de negócios.
116 
causa agrava cada vez mais o empreendimento do Grupo, necessitando 
com certa urgência uma ação reversa, ou seja, este processo se encontra 
em nível de maior prioridade. 
Eficiências 
§ Motivação, interação, confiança e auto estima do Grupo; 
§ Sistematização e controle gerencial; 
§ Capacidade visionária do negócio; 
Viabilidade 
Este processo é bastante viável e de baixo recurso financeiro e de material, 
por trabalhar preferencialmente com o estímulo oferecido aos integrantes 
do Grupo, para que possam desenvolver cada vez mais o seu negócio. 
Ocorreria a partir de reuniões, exposições de palestras ministradas por 
distintos profissionais, como administradores, economistas entre outros, e 
exposição de distintos casos de outros empreendedores, oficinas práticas e 
saídas a campo. Resultaria em um documento contendo toda as 
discussões, bem como a descrição do plano empreendedor. 
Trata-se em enfatizar a característica da solidariedade entre o próprio Grupo, 
buscando ressaltar ou até mesmo estimular a qualidades intrínseca existente em cada 
integrante do Grupo, a fim de fortalecer o negócio de forma coletiva. 
Poderíamos de forma um tanto quanto audaciosa, definirmos como a intervenção 
de um “Design Solidário”, que busca fomentar e articular de forma a promover o 
desenvolvimento de um grupo de empreendedores, ou seja, do Grupo de Agricultores 
auxiliando no caminho que este Grupo tende a vir tomar no futuro. 
2. Estratégias de Mercado
117 
Uma das maiores preocupações de muitos empreendimentos está relacionada 
com a concorrência e a competitividade acirrada do mercado atualmente, não muito 
distinto do que vem ocorrendo com o Grupo de Agricultores. Alguns agricultores ainda 
comercializam seus produtos em certos pontos de vendas, com valores semelhantes 
aos convencionais, por infelizmente não haver o devido reconhecimento por parte 
primeiramente, do ponto de venda, em relação ao valor diferenciado contido no produto 
ecológico. 
Ao mesmo tempo em que se tem amadurecido gradativamente a procura por 
produtos ecológicos em Garopaba, os produtos convencionais continuam a ser 
adquiridos pela maioria da população. No entanto, considerar-se que esta situação 
tende a mudar a partir da construção de um plano de ações que busque atingir a sua 
principal causa, ou seja, a falta de conhecimento que a cerca da existência do produto 
ecológico e da proposta intrínseca ao mesmo e a desvalorização daqueles que já o 
conhecessem. 
É neste contexto, perante esta limitação específica e mais enfatizada na 
pesquisa, que surge a necessidade de estruturarmos um Planejamento Estratégico, que 
fortaleça o empreendimento do Grupo e atinja o principal objetivo: promover o 
conhecimento e a valorização dos produtos ecológicos. 
O Planejamento Estratégico se dá primeiramente pela construção do foco do 
empreendimento, onde se defini a missão (a descrição do negócio atualmente), a visão 
(quais os afazeres do negócio em longo prazo), os objetivos (intenções e desejos do 
negócio), as metas (os passos para se chegar ao objetivo), até a definição das 
estratégias (plano de ações que busca atingir as metas em vista do objetivo). 
Antes de definirmos as estratégias ou o Plano de Ações, é sensato analisarmos o 
ambiente em que o Grupo de Agricultores se encontra atualmente, frente às suas 
condições Internas, onde se analisa o próprio Grupo, quanto às suas forças e fraquezas 
e frente às suas condições Externas, onde se analisam seus concorrentes, quanto às
118 
suas oportunidades e ameaças. A este método, chamado de Análise FOFA6 (análise 
das forças, oportunidades, fraquezas e ameaças), é possível obter uma série de 
informações quanto ao empreendimento e quanto ao mercado externo, sendo utilizado 
como base para o Plano de Ações, voltado especificamente, ao objetivo almejado. 
Segundo Porter (1986), as empresas em geral, conforme a sua necessidade 
(conforme seus objetivos) e sua situação, podem adotar três tipos de Estratégias a 
serem desempenhadas no Plano de Ações, as quais exigem uma série de decisões a 
serem tomadas pela própria empresa. São elas: 
1. Estratégia de Liderança em Custos – comercializar o produto com o menor custo 
do mercado. Decisões: diminuir custos; reaproveitar material; reduzir despesas 
com publicidade e recursos humanos; produzir em maior quantidade, entre 
outras. 
2. Estratégia de Diferenciação – oferecer um conjunto de benefícios que integram 
na qualidade do produto, ou seja, agregar valor ao produto. O que acontece com 
os produtos ecológicos, por preservarem o meio ambiente, por não conterem 
agrotóxicos, por preservarem sua qualidade por maior tempo, ou seja, por 
estarem vinculados à proposta da agroecologia, são atribuídos de um maior 
diferencial perante os demais. 
3. Estratégia de Enfoque – concentrar os produtos ou uma linha específica de 
produtos, em um determinado grupo comprador, atuando em um nicho de 
mercado (um segmento pequeno que demanda uma oferta específica de 
produto). Decisões: pesquisa detalhada do grupo comprador, conhecer seus 
hábitos, suas necessidades, desejos e preferências. 
6 Durante o período desta pesquisa, não foi possível a aplicação da ferramenta, devido à necessidade de 
um maior contato com todos os integrantes do Grupo, bem como, com o mercado concorrente, exigindo 
assim, um período de maior dedicação e objetivos bastante específicos, não sendo esta a proposta 
fundamental da pesquisa.
119 
Demandas 
A intervenção do Design se dará através da estruturação desse 
Planejamento Estratégico, onde visa auxiliar na construção de um Plano 
de Ações/Estratégias, focadas no objetivo de promover o conhecimento 
e a valorização dos produtos ecológicos. Algumas das ações pertinentes 
para atingir este objetivo podem ser listadas como: 
§ Palestras e participações em eventos locais; 
§ Material informativo em pontos estratégicos; 
§ Visitas de grupos de estudantes nas propriedades; 
No entanto, é importante enfatizar a figura do designer como facilitador e 
moderador na estruturação desse Planejamento Estratégico, e não como 
figura central ou executor do Plano de Ações, pois para a construção do 
Plano de Ações, deverá ser contemplada a participação efetiva e coletiva 
dos agricultores, onde o profissional de Design irá auxiliar a pensar e 
viabilizar as ações pertinentes para o alcance do objetivo. 
Uma outra intervenção do Design também se dará pela construção da 
análise das condições Internas e Externas do Grupo, a partir da 
ferramenta FOFA, com o mesmo método de participação coletiva. 
Prioridade 
Pela gradativa tendência no consumo desses produtos, pelo potencial do 
município de Garopaba em receber inúmeros visitantes, a maioria deles 
em busca de uma melhor qualidade de vida, e pelo próprio peso contido 
no resultado desta demanda (conhecimento e valorização dos produtos), 
sendo este uma das bases principais para a venda dos mesmos, o 
cumprimento desta demanda encontra-se também em nível de maior 
prioridade. 
Eficiências 
§ Próprio alcance do objetivo; 
§ Interação e união do Grupo – correlação com a demanda anterior 
§ Identificação das forças, oportunidades, fraquezas e ameaças do 
Grupo perante o ambiente interno e externo; 
§ Aumento gradativo das vendas;
120 
§ Mais pessoas sensibilizadas com a proposta agroecológica 
Viabilidade 
Devido principalmente, à importância dada à aplicação da ferramenta 
Fofa, antes da estruturação do Plano de Ações, constata-se que o 
desempenho desta demanda é viável, porém exige-se um maior período 
de dedicação não somente com os integrantes do Grupo, mas com o 
mercado externo, neste caso, o mercado local, de maior gastos 
financeiros e físicos (locomoção, entrevistas...), no entanto, bastante 
válido, devido ao resultado gerado. Resultaria também em documentos 
contendo de forma descritiva, a análise Fofa e o Plano de Ações, com 
informações referentes aos prazos, valores e exigências de cada uma 
das estratégias definidas. OBS.: Para a execução de cada estratégia 
listada no Plano de Ações, suas condições de viabilidade, prazos, 
exigências são distintas, e por este motivo, só poderão ser avaliadas a 
partir de sua existência. 
Trata-se nesta temática, acima de tudo, em promover o planejamento 
participativo entre o Grupo de Agricultores, ou seja, a partir da intervenção do designer, 
estimular o Grupo a pensar nas possibilidades bem como em suas potencialidades a fim 
de atingir o objetivo inicial proposto na demanda. 
3. Comunicação 
O termo utilizado, “comunicação” refere-se exatamente a sua abrangência 
temática, ou seja, a tudo que possa manifestar ou comunicar a identidade de algo 
(produto, empresa ou serviço), através de elementos visuais que representem os seus 
anseios, seus valores e conceitos e que principalmente, seja responsável por transmiti-los 
ao meio externo de forma coerente, sistematizada e consistente.
121 
A identidade está relacionada diretamente com o conjunto de atributos que 
determinado empreendimento adota perante o mercado, definindo quem realmente ele 
é, junto aos seus valores e princípios. Essa identidade será transmitida ao meio externo, 
por meio de uma imagem, a qual define e posiciona como a empresa se parece e como 
ela é percebida pelos mesmos. 
A imagem transmitida ao público e percebida pelo mesmo, pode ser 
representada por diversas áreas de atividades, como pelo próprio ambiente interno da 
empresa; pelo comportamento desta com o ambiente externo; pela própria qualidade e 
eficiência de seus produtos ou serviços; por sua identidade visual. 
A identidade visual constituída por um conjunto de elementos visuais, com 
objetivo de materializar a personalidade, os valores e os princípios de uma empresa, 
produto ou serviço, tem ampla responsabilidade na construção da imagem percebida 
pelo público frente a essa empresa, produto ou serviço, pois possui um maior contato 
com o mesmo, estabelecendo um nível ideal de comunicação com aqueles que a 
visualizam. 
Essa materialização se dá através de um conjunto de projetos visuais, como o 
desenvolvimento da marca nominal e gráfica; a definição das cores institucionais; do 
alfabeto institucional; a utilização ou não de elementos adicionais; entre outros. 
Outro importante aspecto a ser levado em consideração, também de grande 
importância para a comunicação das empresas, neste caso, do Grupo de Agricultores, é 
a questão da reprodutibilidade desta identidade visual em diferentes suportes, ou até 
mesmo a configuração desses suportes, como o caso das embalagens. 
Esta demanda se refere principalmente à construção de uma identidade visual 
coletiva ao Grupo, às suas aplicações em diversos suportes, e o desenvolvimento de 
embalagens também coletivas ou específicas aos produtos de maior necessidade, seja 
por motivos tecnológicos (como manter o produto preservado, intacto) ou por motivos 
conceituais (como valorizar visualmente o produto).
122 
Demandas 
A comunicação, por meio da construção de uma identidade visual, neste 
caso, para o Grupo de Agricultores, é o foco principal desta demanda, 
onde será possível representar visualmente e de forma sistematizada, a 
proposta contida nos produtos ecológicos. No entanto, a comunicação 
além do intermédio da identidade visual, se dá também por outros meios 
visuais, como a própria configuração de uma embalagem (ou uma família 
de embalagens que identifique uma identidade territorial), que tende a ser 
também, o objetivo desta demanda. 
Com a pesquisa em andamento, pode-se perceber que o Grupo considera 
de grande importância, o desenvolvimento e o aperfeiçoamento quanto à 
sua identidade visual e os meios as quais possam ser reproduzidas. No 
entanto, um dos objetivos do e dos princípios que o próprio Grupo adota, é 
a construção de uma identidade coletiva, enfatizando primeiramente o 
Grupo e a proposta agroecológica, para posteriormente, avaliar as 
especificidades e objetivos isolados de cada agricultor. 
Prioridade 
Quanto ao desenvolvimento da identidade visual coletiva, devido às 
eficiências geradas a partir de seu resultado, é visível o seu grau de 
prioridade, estando a frente das demais demandas levantadas. 
Eficiências 
§ Reconhecimento e valorização de forma coletiva; 
§ Fortalecimento do Grupo; 
§ Melhor identificação dos produtos; 
§ Padronização e consistência das informações visuais; 
§ Fortalecimento da proposta agroecológica; 
§ Credibilidade aos produtos;
123 
Viabilidade 
Devido a grande necessidade e eficiência de seu resultado, a demanda se 
torna amplamente viável, no entanto, exige uma série de etapas, como 
compreender a identidade e os s valores do Grupo, através de reuniões e 
discussões específicas com todos os integrantes, até materializá-los na 
forma de uma identidade visual, a qual exige recursos materiais como o 
uso de computadores e seus componentes. 
Para o desenvolvimento de embalagens e para a reprodutibilidade da 
identidade visual em diferentes suportes, necessita-se também de um 
maior recurso financeiro destinado aos testes e variações e ao projeto 
propriamente dito, pois são horas de profissionais envolvidos e amparados 
por ferramentas de interação com o grupo interessado. 
Pode-se pensar a partir dessa temática, a construção de uma identidade 
territorial, a qual vem sendo discutidas por representantes do governo, sendo esta uma 
forte demanda também para o Design, onde materializaria uma proposta que tende 
expressar a diversidade e a identidade de todo um território. 
4. Sistemas de Produção 
Quanto à temática abordada por Sistemas de Produção, pode-se compreender 
todo o contexto identificado à cerca do processo produtivo dos agricultores, que neste 
caso, corresponde desde o recebimento das matérias primas e insumos até a 
manipulação final dos produtos (lavagem, separação, seleção, armazenamento e 
distribuição). 
Neste contexto, três importantes constatações foram levantadas: a diversidade de 
postos de trabalho operados em sua maioria por uma única pessoa; a diversidade de 
instrumentos manuseados em cada um deles, alguns de grave risco ao agricultor; e por
124 
último, as condições mínimas exigidas em função de uma melhor organização e 
praticidade nas estruturas físicas destinadas às operações de trabalho. 
É com base nessas três constatações, que se evidencia a proposta desta 
demanda, enfatizando o desenvolvimento de novos projetos (entendido aqui não 
somente como o produto em si, mas como todo o sistema físico envolto do processo 
produtivo: os produtos ou instrumentos utilizados, a estrutura física e a própria 
operacionalização da atividade) ou as devidas recomendações para o aperfeiçoamento 
dos projetos existentes, em vista principalmente à melhor qualidade de vida do agricultor 
e a um melhor rendimento do trabalho, que conseqüentemente, influenciará na 
comercialização de seus produtos.
125 
Demandas 
O desenvolvimento de novos projetos ou as recomendações dos projetos 
existentes enfatiza três áreas distintas, porém interligadas: os postos de 
trabalho; os instrumentos manuseados e as estruturas físicas utilizadas. 
§ Quanto aos postos de trabalho, a demanda se daria pela análise 
detalhada de cada posto de trabalho operado pelo agricultor, com base 
em estudos ergonômicos, gerando um caderno de encargos, contendo 
as devidas recomendações técnicas a cada posto, como também, 
contendo as informações para os devidos ajustes (redesenhos) e 
reparos a alguma das operações dos mesmos. Os postos de trabalhos 
passíveis a estes redesenhos ou ajustes são representados pelas 
áreas, por exemplo, da lavagem dos produtos (tanque); área de 
seleção dos produtos (bancada), entre outros, podendo ser 
redimensionados, redesenhados e readaptados. 
§ Quanto aos instrumentos utilizados, a demanda se daria também pela 
análise mais detalhada dos instrumentos de maior manuseio, ou que 
possuem algum risco, ou que tendem a ser de maior incomodo ao 
operador, gerando algumas recomendações com base na usabilidade 
dos produtos, ou até mesmo, o desenvolvimento de novos produtos, 
específico para a particularidade da atividade. Aqui poderiam ser 
contemplados os instrumentos como foice e facas, de maior risco a 
agricultor, como também o desenvolvimento de algum novo produto ou 
mecanismo que facilite o processo do plantio e da colheita, de grande 
desgaste ao agricultor, devido a sua postura durante o procedimento. 
§ Quanto às estruturas físicas, a demanda se daria novamente pela 
análise detalhada das estruturas existentes, como também da 
atividade desempenhada em cada uma delas, avaliando suas 
necessidades e exigências técnicas (principalmente quanto às 
necessidades quanto à higienização do local), gerando também as 
devidas recomendações, adaptações ou o desenvolvimento de alguma 
parte da estrutura.
126 
Nas três atuações, terá como base preferencial, os estudos ergonômicos 
com o objetivo de aperfeiçoar a interface entre o agricultor e o seu sistema 
produtivo, atuando para o seu próprio benefício e para o melhor 
rendimento de seu trabalho. 
Prioridade 
É visível que os resultados desta demanda são benéficos não somente ao 
agricultor, mas também à sua produtividade, no entanto, devido a uma 
certa acomodação ou aceitação por parte dos agricultores em relação ao 
seu sistema produtivo (contemplado aqui pelos postos de trabalho, 
instrumentos e estruturas físicas) ou pelo alto e médio investimento 
necessário para a sua execução, esta demanda encontra-se em um nível 
intermediário quanto a sua prioridade. Porém, os agricultores reconhecem 
a necessidade de intervenção e aperfeiçoamento dessas três áreas. 
Eficiências 
§ Melhor qualidade de vida do agricultor; 
§ Melhor rendimento do trabalho; 
§ Menores riscos ao agricultor; 
§ Melhor aproveitamento dos instrumentos e estruturas disponíveis; 
Viabilidade 
Por se tratar em parte, da necessidade do desenvolvimento de algum 
projeto específico, como a execução de um novo instrumento adequado a 
uma determinada atividade, a demanda tem em seus princípios uma certa 
resistência quanto a sua viabilidade, pois necessita de maiores recursos 
financeiros, para o desenvolvimento, para os testes e para as alterações 
necessárias, como também, o envolvimento de outras áreas do 
conhecimento, como fisioterapeutas, ergonomistas entre outros. O mesmo 
ocorre quando não se trata do desenvolvimento de algum projeto, e sim a 
recomendação de algum ajuste ou reforma em determinada operação, 
necessitando, do investimento do próprio agricultor em materializar essa 
recomendação, ou seja, em ajustar ou reformar o que foi recomendado.
127 
Pode-se pensar a partir dessa temática, na identificação e utilização de 
tecnologias apropriadas, identificadas neste contexto como todos os mecanismos ou 
instrumentos necessários durante o processo produtivo dos agricultores e 
principalmente, coerentes à proposta agroecológica, em buscar a preservação do meio 
ambiente, e coerentes à proposta do desenvolvimento local, visando a utilização de 
recursos específicos a abundantes da localidade. 
5. CAPÌTULO V 
5.1. Considerações Finais 
A pesquisa realizada, desde a sua contextualização teórica, abordando os 
principais discursos a respeito da agricultura familiar, passando pelo modelo de 
desenvolvimento vigente, até a compreensão a cerca do planejamento local integrado 
para o desenvolvimento igualitário em suas distintas dimensões, foi de grande validez 
para que fosse possível na seqüência, a interação e aplicação desses discursos em 
contextos atuais, vivenciados neste caso, pelo Grupo de Agricultores Agroecológicos de 
Garopaba. 
Com o objetivo de compreender as condições reais do Grupo de Agricultores, ao 
longo da pesquisa, algumas particularidades foram reveladas, como também devidas 
informações antes especuladas e investigadas, foram evidenciadas. 
Evidenciou-se em primeiro momento, a existência de redes sociais formadas por 
relações e articulações, como a forte relação social existente, por meio da amizade e 
cooperação entre os agricultores; a relação fraterna de união da família em prol do 
desenvolvimento da propriedade e pela própria relação de intervenção da maioria dos
128 
agricultores em distintos segmentos do Município, sejam em órgãos públicos, 
organizações locais e demais entidades. 
Essas redes sociais vêm resultando em uma conjuntura bastante oportuna ao 
Grupo, ou seja, a relação de interface entre distintos atores sociais, como técnicos, 
consumidores, fornecedores, outros agricultores e organizações locais, que 
coletivamente, promovem uma rede ampla de conhecimento responsável pela troca de 
informações técnicas, de experiências práticas e de ensinamentos, permitindo cada vez 
mais, o expansionismo da proposta agroecológica e o desenvolvimento do próprio 
empreendimento constituído pelo Grupo. 
O Grupo tem mantido uma maturidade bastante ativa, no que se refere à 
compreensão de intervirem de forma estratégica e planejada em diversos ambientes 
sociais, não somente com a função de comercializar ou divulgar seus produtos, mas 
principalmente, contribuindo para a discussão sobre os problemas sociais, ambientais e 
econômicos locais, enfatizando e representado pela realidade pertencente. 
Percebeu-se também, a devida importância dada ao trabalho desempenhado 
pela Instituição do CEPAGRO, com o intuito principal de fomentar a agroecologia no 
Núcleo Litoral Catarinense, a partir do assessoramento principalmente técnico e da 
socialização dos Grupos com demais entidades. Mesmo porque muitos agricultores 
relatam o desconhecimento a respeito da proposta agroecológica e de suas técnicas 
agrícolas antes do contato existente entre o Grupo e a Instituição. 
Este contato tem interagido diretamente no processo evolutivo das propriedades, 
as quais após a sua avaliação, onde são consideradas aptas a receber o selo de 
certificação, tendem por um período, serem fiscalizadas pela Instituição, porém sendo 
esta, função própria da Rede Ecovida, ou seja, de responsabilidade dos demais 
integrantes do Grupo. 
A partir de então, cabe ao Grupo de Agricultores, devidamente capacitados e 
fornidos com uma carga de experiência bastante proveitosa, desempenhar seu papel de
129 
mediador entre as ações coletivas, que promovam e desenvolvam cada vez mais o 
Grupo, junto às distintas instituições ou entidades locais e regionais. 
A participação e articulação dos agricultores junto a essas instituições e 
entidades a fins, contribui fortemente para uma ação pública de interesse da 
coletividade, onde os sujeitos desse processo, os próprios agricultores, se tornarão cada 
vez mais, capazes de agir de forma pró-ativa, persuasivos, e de anseios empreendedor, 
em vista aos seus interesses e direitos. O que requer e exigem o comprometimento de 
todos os integrantes do Grupo, bem como uma melhor estrutura organizacional interna e 
com uma articulação de um arranjo institucional mínimo para a execução do plano de 
ações. 
Devido principalmente, à recente formação do Grupo, e à presente ensino-aprendizagem 
a cerca das técnicas agrícolas com base agroecológicas e às outras 
limitações relatadas na pesquisa, o Grupo desponta alguns percalços que o impede de 
obter o devido reconhecimento e o total fortalecimento para intervir nesses ambientes, 
no entanto, a compreensão visionária de muitos empreendimentos tem sido abordada 
pelos agricultores, os quais acreditam e tem se comprometido com uma mudança social, 
ecológica e econômica de sua realidade, que por vez, influencia em sua localidade. 
Ao longo da pesquisa percebeu-se a necessidade de se repensar a contribuição 
de outros atores sociais, que possam envolver-se com o contexto referido, em suas 
distintas particularidades e efeitos ao mesmo. Cabendo aqui, não somente o profissional 
do Design, sendo este o foco dessa pesquisa, mas também, profissionais das áreas 
administrativas, jurídicas, entre outras, um papel promissor e de plena responsabilidade 
perante a sociedade. 
Ao fim da pesquisa, junto ao levantamento das demandas de maiores 
necessidades de intervenção, confirmou-se a multidisciplinaridade do Design, devido 
principalmente, quanto à abrangência de suas atividades, sendo propícias a distintas 
áreas de atuação, quanto também, para a área de abordagem desta pesquisa, ou seja, 
para o meio rural. No entanto, ficou presente que a intervenção do Design não se dá 
através da participação única e exclusiva deste profissional, e sim, através da interação
130 
e mediação deste com os demais atores envolvidos. O designer torna-se mais um 
integrante deste processo em vista do desenvolvimento sustentável e promissor de toda 
uma coletividade. 
6. REFERENCIAL 
ABROMOVAY. Ricardo. Agricultura Familiar e Desenvolvimento Territorial. In: 
Revista da Associação Brasileira de Reforma Agrária – vols 28 nº 1, 2, 3 e 29, nº1 – 
jan/dez 1998 e jan/ago 1999. 
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BAIARDI. Amílcar; OLALDE. Alicia Ruiz; NACIF. Paulo Gabriel S. A Dimensão 
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Local. UFBA. Escola de Agronomia. Programa de Pós Graduação em Ciências 
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BATALHA. Mário Otávio (coord.). Gestão Agroindustrial. GEPAI – Grupo de Estudos e 
Pesquisas Agroindustriais. Ed. Atlas S. A., 1997.
131 
BECKER. Dinizar Fermiano (org.). Desenvolvimento Sustentável: necessidade e/ou 
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BECKER. Dinizar Fermiano. Sustentabilidade: um novo (velho) paradigma de 
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7. ANEXOS 
Anexo 1. Questionário aos integrantes do CEPAGRO. 
IDENTIFICAÇÃO 
Cargo junto ao CEPAGRO: 
Cargo junto ao Grupo de Agricultores: 
Período de trabalho junto ao Grupo de Agricultores: 
1. Desde a união do grupo junto ao Cepagro, o interesse dos agricultores em relação 
ao sistema produtivo baseado na agroecologia, tem: 
( ) aumentado 
( ) diminuído 
( ) ocorrido alguns desinteresses de algumas famílias 
( ) outros _____________________________________________________________ 
2. Quais os interesses da Cepagro em trabalhar com este grupo de agricultores? Citar 
na ordem de prioridade: (1) maior prioridade e (6) menor prioridade. 
( ) fomentar a agroecologia 
( ) apoiar financeiramente o grupo – favorecer a geração de renda 
( ) buscar o desenvolvimento do grupo 
( ) buscar o reconhecimento do grupo e de seus produtos 
( ) ampliar o número de famílias pertencentes ao núcleo litorâneo da Rede
136 
( ) outros _____________________________________________________________ 
3. Quanto ao nível exigido para o selo de certificação participativa, o grupo se encontra: 
( ) em nível primário 
( ) em nível de transição 
( ) totalmente agroecológico 
( ) algumas famílias em transição e outras já preparadas para a certificação 
4. Quais as principais características percebidas no grupo, quanto ao trabalho que o 
Cepagro vem exercendo sobre o mesmo? (Poderá ser listada mais de uma 
alternativa) 
( ) flexibilidade 
( ) constante interesse 
( ) insegurança 
( ) pouco interesse por parte de algumas familias 
( ) fácil aprendizado 
( ) difícil aprendizado 
( ) comprometidos com suas obrigações 
( ) participativos nas reuniões e oficinas 
( ) outras _____________________________________________________________ 
5. Quais as potencialidades do lugar (Garopaba) que o Cepagro observa de forma a 
favorecer o grupo de agricultores? Citar na ordem de prioridade: (1) maior prioridade 
e (5) menor prioridade. 
( ) cidade turística 
( ) aproximidade da área rural e urbana 
( ) tendência dos consumidores locais em consumir produtos ecológicos 
( ) proximidade com cidades estratégicas (Florianópolis, Tubarão, Criciúma) 
( ) tendência e consciência dos agricultores locais em aderir ao sistema de produção 
agroecológico 
( ) outras _____________________________________________________________
137 
6. Quais as limitações do lugar (Garopaba) que a Cepagro observa de forma a 
desfavorecer o grupo de agricultores? Citar na ordem de prioridade: (1) maior 
prioridade e (6) menor prioridade. 
( ) sazonalidade do turismo – maior demanda no verão e menor durante o restante do 
ano. 
( ) a não possibilidade de produção de determinados produtos devido ao clima e outros 
fatores 
( ) falta de apoio local (prefeitura, sindicatos, instituições) 
( ) o não conhecimento dos habitantes com relação aos produtos ecológicos e à 
agroecologia 
( ) uma considerável parcela de agricultores que ainda produzem de forma 
convencional 
( ) outras _____________________________________________________________ 
7. Quais os próximos passos relacionados ao trabalho do Cepagro para com o grupo 
de agricultores? Citar na ordem de prioridade: (1) maior prioridade e (5) menor 
prioridade. 
( ) continuar com a assistência técnica e outras atividades que o Cepagro já vem 
trabalhando 
( ) dar abertura a outros profissionais para atuarem junto ao grupo 
( ) buscar ampliar o número de agricultores vinculados à rede ecovida 
( ) validar a certificação das famílias 
( ) outros _____________________________________________________________ 
8. Em relação à situação do que o Grupo enfrenta atualmente, em que níveis os 
mesmos se encontram, condizentes a tais parâmetros:
138 
Nível 
baixo 
Nível 
intermediário 
Nível 
alto 
Produção totalmente agroecológica 
Reconhecimento do grupo pela comunidade de 
Garopaba 
Oportunidade de novos pontos de vendas locais 
Oportunidade de expandir o mercado para outras 
cidades (Florianópolis, Tubarão, Criciúma...) 
Compreensão do consumidor sobre o que é produto 
ecológico e o que é agroecologia 
Identificação visual dos produtos (banners, placas, rótulos) 
Recursos para a comercialização em grupo (transporte, 
embalagem de armazenamento, embalagem individual) 
9. Qual ou quais as famílias que possuem uma melhor estrutura em relação ao seu 
sistema produtivo (plantio – colheita/armazenamento – comercialização)? 
10. Qual ou quais as famílias que possuem prioridade no atendimento feito por outros 
profissionais (engenheiros técnicos, consultores, designers)? 
11. Com base no conhecimento pessoal, a respeito das possibilidades de atuações do 
design (o que vem a ser Design e no que ele pode contribuir?), quais as possíveis 
demandas percebidas no grupo (seja em sua totalidade ou em propriedades 
isoladas), para o campo do Design? 
12. Quais os produtos que possuem maior prioridade para o foco do profissional do 
Design? Por que motivo? 
13. Quais as vantagens que o Cepagro observa em relação às contribuições do Design?
139 
Anexo 2. Roteiro para entrevista semi-estruturada 
Quanto à propriedade / agricultor / história 
1. Como e quando adquiriu a propriedade? 
2. Quantos hectares possuem a área do plantio, área das estruturas física, e área de 
mata? 
3. Possui antecedentes que viveram no meio rural e trabalhavam na agricultura? De 
onde eram? O que produziam? O que lhes ensinaram? 
4. Possui alguma atividade complementar à agricultura? 
5. O que fazia antes de trabalhar na agricultura? 
6. Possui filhos? Eles também trabalham na agricultura? Qual sua opinião a respeito da 
falta de interesse dos jovens com a agricultura? 
Quanto aos princípios da Agroecologia 
1. O que o motivou a trabalhar com a agricultura ecológica? 
2. Como aderiu a associação dos agricultores agroecológicos? Há quanto tempo?
140 
3. Quais os pontos positivos e negativos em trabalhar com a agricultura ecológica? 
4. Qual a sua opinião a respeito do pouco número de agricultores ecológicos em 
Garopaba? 
5. O que você faz para que o consumidor reconheça a proposta da agricultura 
agroecológica e seus produtos diferenciados? 
6. Qual a sua opinião a respeito do mercado destinado a esse tipo de produto? 
7. Como você imagina a agricultura ecológica e os produtos orgânicos daqui um 
tempo? Terão expandido o mercado e o seu reconhecimento? 
Quanto às questões da pré-produção 
1. Como é feita a aquisição das matérias primas como mudas e insumos? De onde são 
adquiridos? Como são entregues até a propriedade? 
2. Possui algum controle nesta etapa, algum tipo de contrato, acordo ou fidelidade com 
os fornecedores? 
3. De quanto em quanto tempo ocorre a compra dessas matérias primas? 
4. O quanto é gasto e investido nesta etapa anualmente? (percentual) 
Quanto às questões da produção 
1. Quantas pessoas trabalham na propriedade? Quem são elas? 
2. Os trabalhadores possuem funções específicas? 
3. Como e quando é feita a contratação de terceiros? 
4. Qual o controle em relação à produção e a saída dos produtos? Qual o critério ou 
forma de controle para a quantidade produzida? 
5. Possui produção já direcionada? A quem? Quanto do total da produção? 
6. Quais as limitações percebidas durante a etapa de produção – desde o plantio até a 
colheita? 
7. Após a colheita, quais as próximas etapas? 
8. É feito o beneficiamento de algum produto? Quem é responsável por essa etapa? 
Onde ela ocorre? 
Quanto às questões do produto
141 
1. O está sendo produzido atualmente? 
2. Quais os principais produtos produzidos na época do verão (outubro a março) e no 
inverno (abril a setembro)? 
3. Qual o produto de maior dificuldade para o plantio? E por que motivo? 
4. Como é estipulado o valor final dos produtos? 
5. Quais os critérios utilizados para a escolha dos produtos a serem produzidos? 
6. Onde e como os produtos finais estão sendo armazenados? Possuem algum 
cuidado especifico? 
7. Qual a sua opinião a respeito do espaço destinado ao armazenamento dos produtos 
e da forma que estão sendo armazenados? 
Quanto aos instrumentos de trabalho 
1. Que tipo de ferramentas e equipamentos possui? 
2. Qual a ferramenta e equipamento que você mais utiliza? 
3. Como adquiriu esses equipamentos e ferramentas? 
4. Tem em vista a aquisição de algum equipamento? Qual? 
5. Possui alguma reclamação quanto às ferramentas e equipamentos? 
6. Já adaptou alguma ferramenta ou equipamento? Qual? E por que? 
7. O quanto é investido em equipamentos e ferramentas anualmente? 
Quanto à estrutura física 
1. A propriedade conta com que tipo de estrutura física? Qual a função de cada uma 
delas? 
2. Houve algum planejamento prévio para a construção dessas estruturas? 
3. Qual a dimensão dessas estruturas? 
4. Qual sua opinião a respeito das estruturas físicas de sua propriedade? Precisa de 
melhorias? 
5. Alguma estrutura já foi adaptada ou reaproveitada? 
6. Investiram nos últimos anos em infra-estrutura e possui interesse em investir 
atualmente? O que pretende fazer? 
Quanto ao mercado (distribuição / comercialização / divulgação)
142 
1. Como e quando é feita a distribuição dos produtos? De quanto em quanto tempo? 
Quem é responsável pela entrega? 
2. Onde estão sendo vendidos os produtos atualmente? 
3. Quem cuida e controla a venda dos produtos? 
4. Possui algum ponto de venda “fixo”? 
5. Como é feito a primeira visita ao ponto de venda para oferecer o produto? 
6. Como é mantido o contato com os pontos de vendas? 
7. Os pontos de venda possui algum tipo de divulgação a respeito do grupo, do 
agricultor ou do produto orgânico? 
8. Quais os meios de divulgação utilizados pelo agricultor em particular? 
9. O agricultor busca identificar novos mercados? Oferece seus produtos a novos 
mercados? Obteve sucesso isoladamente ou em grupo? 
10. Qual a opinião a respeito da divulgação e comercialização dos seus produtos? 
11. Já pensou em colocar um “nome”, uma “marca” para seus produtos? 
12. Utiliza o selo da associação dos produtores orgânicos e coloniais de garopaba – sc? 
13. Quais as suas propostas para uma maior divulgação, reconhecimento e valorização 
dos produtos e da agricultura ecológica? 
14. Como funciona a feira agroecológica municipal e o mercado do produtor? Qual a sua 
opinião sobre esses dois pontos de venda? Tem tido lucro e reconhecimento? 
Quanto a outros assuntos 
1. Qual sua opinião a respeito do turismo em massa? Quais os pontos positivos e 
negativos para agricultura?

“As contribuições do Design para o meio rural: um estudo de caso com o grupo de agricultores agroecológicos de Garopaba (SC)”

  • 1.
    1 UNIVERSIDADE DOESTADO DE SANTA CATARINA - UDESC CENTRO DE ARTES - CEART DEPARTAMENTO DE DESIGN MICHELLE BERTICELLI NUNES AS CONTRIBUIÇÕES DO DESIGN PARA O MEIO RURAL: UM ESTUDO DE CASO COM O GRUPO DE AGRICULTORES AGROECOLÓGICOS DE GAROPABA – S.C. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado no Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina, como requisito para obtenção do título de Bacharel em Design Industrial. Orientador: Prof. Douglas Ladik Antunes, MSc. FLORIANÓPOLIS, S.C. 2006
  • 2.
    2 MICHELLE BERTICELLINUNES AS CONTRIBUIÇÕES DO DESIGN PARA O MEIO RURAL: UM ESTUDO DE CASO COM O GRUPO DE AGRICULTORES AGROECOLÓGICOS DE GAROPABA – S.C. Trabalho de conclusão de curso aprovado como requisito parcial para a obtenção do grau de bacharel, no curso de Graduação em Design Industrial da Universidade do Estado de Santa Catarina. Banca Examinadora: Orientador: _______________________________________________________ Prof. Douglas Ladik Antunes, MSc. UDESC – Universidade do Estado de Santa Catarina Membro: _______________________________________________________ Prof. Eugenio Merino, Dr. UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina Membro: ____________________________________________________ Marcos José de Abreu CEPAGRO - Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo Florianópolis, 21 de dezembro de 2006.
  • 3.
    3 DEDICATÓRIA Dedicoesta pesquisa a todos que vivem e sobrevivem da agricultura familiar, de imenso potencial e valor para nosso país.
  • 4.
    4 AGRADECIMENTOS Muitassão as pessoas queridas e especiais que estiveram comigo nesta nova etapa de minha vida, me apoiando e me animando. Pessoas que estarão eternamente no meu coração e que merecem os meus sinceros agradecimentos... ... À minha família linda e sempre tão unida... Ao meu pai querido, companheiro e bondoso com todos, que me ensina a cada dia ser uma pessoa mais forte e responsável.... à minha mamy, uma artista incomparável, batalhadora, e acima de tudo, uma amiga fiel... à minha irmãzinha... não é preciso dizer muito... apenas que ela é e sempre será um exemplo de pessoa, com toda sua dedicação, responsabilidade e carisma.... à todo o restante desta imensa família, avós, avós, tias, tios, primos, primas... Amo muito todos vocês!!! ... Ao meu namorado Rodrigo... o qual proporcionou os melhores momentos de minha vida... os mais simples e ingênuos, porém os mais marcantes e sinceros... que mesmo distante, me ampara, me corresponde e me encoraja a cada dia... amo muito você e com certeza tudo isso não será em vão... PS amor!! ... A todos os responsáveis por minha formação dentro da Universidade, professores, colaboradores, técnicos e colegas de sala... em especial ao meu orientador Douglas, que desde os primeiros semestres tem encarado nossa turma de maneira descontraída e profissional... Agradeço por ter aceitado meu convite, com a pesquisa já em curso, e por ter me guiado da forma mais sensata e proveitosa...
  • 5.
    5 ... Àsminhas amigas inseparáveis, que estiveram comigo durante todos esses anos... em especial à Ana Sofia, Rosa Marina e Marina.... vocês são muito loucas e muito divertidas!! Aprendi muito com cada uma de vocês e agradeço por ter conhecido todas vocês... às minhas amigas ainda mais loucas... que não param quietas... Marta e Marcela... vocês são show de bola... por onde estiverem desejo o melhor para vocês... ao restante da turma, cada pessoa que compartilhou um pouco de sua amizade comigo... muito obrigada!!! ... À amizade em especial também, de Adelita, por me aconselhar e sempre se preocupar comigo... e com certeza ao nosso futuro profissional juntas...muito obrigada!! ... À nova amizade de Tânia e Natacha, que antes de serem minhas chefes, foram grandes amigas e companheiras de trabalho!! ... Em especial, ao pessoal do CEPAGRO, que me acolheu e me auxiliou a encontrar um rumo para a proposta desta pesquisa, possibilitando o encontro com o Grupo de Agricultores... com certeza o trabalho não irá parar por aqui! ... Mais especial ainda, a todas as famílias de agricultores agroecológicos de Garopaba, por permitirem adentrar em suas propriedades, conhecer um pouco de sua vivência e cumprir com os objetivos desta pesquisa... foi uma experiência maravilhosa, e que com certeza fará diferença em minha vida... E por fim, porém não menos importante, agradeço a Deus e aos anjos que me cercam por terem me guiado até o momento... A todos vocês, obrigada do fundo do meu coração...!
  • 6.
    6 RESUMO Apresente pesquisa tem como objetivo fundamental compreender as condições reais do Grupo de Agricultores Agroecológicos do Município de Garopaba – Santa Catarina, identificando – com base em entrevistas, discussões e observações – os entraves para a sustentabilidade e sociabilidade da agricultura agroecológica, bem como para a expansão e valorização de seus produtos, como também, as potencialidades e oportunidades para o seu próprio desenvolvimento local. Tendo como propósito final, o levantamento de demandas de competência do Designer e sua análise com base nos fatores: prioridade, viabilidade e eficiência. Entre os principais elementos de discussão desta pesquisa estão o contexto agrícola brasileiro, enfatizando a permanência dos agricultores familiares, com foco na agricultura familiar do Estado de Santa Catarina; e a dinâmica atual do meio rural, com a compreensão da agroecologia junto às diversas concepções a cerca dos modelos de desenvolvimento vinculados à sociedade ao longo dos anos. A agroecologia é considerada a base científica constituída por princípios mais viável aos agricultores familiares que buscam a sustentabilidade de suas unidades produtivas, tornando-se um agente promotor de um padrão de desenvolvimento ecologicamente prudente e socialmente justo, valorizando as capacidades locais e as ações sociais coletivas, oportunizando a inserção do Design e a contribuição deste para o processo de desenvolvimento. PALAVRAS-CHAVE: Desenvolvimento local, agricultura agroecológica, demandas de Design.
  • 7.
    7 ABSTRACT Thepresent research has as objective basic to understand the real conditions of the Group of Ecological Agriculturists of the City of Garopaba - Santa Catarina, identifying - on the basis of interviews, quarrels and comments - the impediments for the sustainability and sociability of ecological agriculture, as well as for the expansion and valuation of its products, as well as, the potentialities and chances for its proper local development. Having as final intention, the survey of demands of ability of the Designer and its analysis on the basis of the factors: priority, viability and efficiency. It enters the main elements of quarrel of this research are the Brazilian agricultural context, emphasizing the permanence of the familiar agriculturists, with focus in the familiar agriculture of the State of Santa Catarina; e the current dynamics of the agricultural way, with the understanding of the ecological agriculture next to the diverse conceptions about the entailed models of development to the society throughout the years. The ecological agriculture is considered more viable the scientific base consisting by principles the familiar agriculturists who search the sustainability of its productive units, becoming a promotional agent of a standard of ecological cautious development and socially just, valuing the local capacities and the collective social actions, giving chance to insertion of the Design and the contribution of this for the development process. KEY-WORDS: Local development, ecological agriculture, demands of Design.
  • 8.
    8 SUMÁRIO 1.CAPÌTULO I ......................................................................................................... 14 1.1. Introdução ..................................................................................................... 14 1.2. Delimitação do Tema .................................................................................... 15 1.3. Objetivos ....................................................................................................... 17 1.3.1. Objetivo Geral ........................................................................................ 17 1.3.2. Objetivos Específicos ............................................................................. 17 1.4. Justificativa do Tema .................................................................................... 18 1.5. Metodologia ................................................................................................... 21 1.6. Cronograma .................................................................................................. 23 2. CAPÍTULO II ........................................................................................................ 24 2.1. Modelo Agrícola Brasileiro ............................................................................ 24 2.2. Definições e Concepções da Agricultura Familiar ........................................ 27 2.3. Modelo Agrícola Familiar de Santa Catarina ................................................ 30 2.4. Contextualização das Unidades de Produção Familiar – UPFs ................... 33 2.5. O Meio Rural ................................................................................................. 36 2.6. A Agroecologia .............................................................................................. 38
  • 9.
    9 2.7. Concepçõessobre Desenvolvimento ............................................................ 45 2.7.1. Do Desenvolvimento Vigente a uma Nova Perspectiva ........................ 46 2.8. Metodologias Participativas .......................................................................... 62 2.9. Abordagem do Design .................................................................................. 65 3. CAPÍTULO III ....................................................................................................... 72 3.1. Desenvolvimento do Estudo de Caso ........................................................... 72 3.2. A Rede de Agroecologia Ecovida ................................................................. 73 3.3. A Instituição – CEPAGRO ............................................................................. 77 3.4. Ambientação - Município de Garopaba ......................................................... 80 3.5. Ambientação - Grupo de Agricultores Agroecológicos de Garopaba ........... 84 3.6. A Pesquisa .................................................................................................... 92 4. CAPÌTULO IV ..................................................................................................... 104 4.1. Limitações ................................................................................................... 104 4.2. Potencialidade e Oportunidades ................................................................. 108 4.3. Levantamento e Análise de Demandas ...................................................... 113 5. CAPÌTULO V ...................................................................................................... 127 5.1. Considerações Finais .................................................................................. 127 6. REFERENCIAL .................................................................................................. 130 7. ANEXOS ............................................................................................................ 135
  • 10.
    10 LISTA DEFIGURAS Figura 1 – Mapeamento dos Núcleos da Rede Ecovida ........................................... 68 Figura 2 – Localização do Município de Garopaba ................................................... 70 Figura 3 – Localização das praias do Município de Garopaba ................................. 71 Figura 4 – Barcos de pesca na praia de Garopaba ................................................... 72 Figura 5 – Produção de hortaliças ............................................................................. 74 Figura 6 – Mercado do Produtor ................................................................................ 75 Figura 7 – Feira Agroecológica Municipal ................................................................. 76 Figura 8 – Agricultor Zezinho .................................................................................... 77 Figura 9 – Agricultora Dona Lourdes ......................................................................... 78 Figura 10 – Agricultor Batista e sua esposa .............................................................. 79 Figura 11 – Agricultor Mariomar ................................................................................ 80 Figura 12 – Agricultor Adi e sua família .................................................................... 80 Figura 13 – Oficina de Biofertilizante ......................................................................... 81 Figura 14 – Oficina de Compostagem ....................................................................... 81 Figura 15 – Reunião do Grupo ................................................................................... 82
  • 11.
    11 LISTA DETABELAS Tabela 1 – As cinco dimensões do desenvolvimento sustentável ............................ 52
  • 12.
    12 LISTAS DEABREVIATURAS E SIGLAS AAO – Associação de Agricultura Orgânica APA – Área de Proteção Ambiental APACO – Associação dos Pequenos Agricultores do Oeste Catarinense CEMEAR – Centro de Motivação Ecológica e Alternativas Rurais CEPA – Centro de Estudos de Safras e Mercados CEPAGRI – Centro de Assessoria e Apoio aos Trabalhadores Rurais CEPAGRO – Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo CIASC – Centro de Informática e Automação do Estado de Santa Catarina CMDR – Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural DRP – Diagnóstico Rápido Participativo EMATER – Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural EPAGRI – Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural FAO – Food and Organization of the United Nations FETRAF – Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar IAF – Inter-American Foundation IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
  • 13.
    13 ICSID –Conselho Internacional de Sociedades de Design Industrial INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária MAPA – Ministério da Agricultura e Planejamento Agrário MDA – Ministério do Desenvolvimento Agrário MISEREOR – Agência de Desenvolvimento da Igreja Católica da Alemanha ONG’s – Organizações Não Governamentais PIB – Produto Interno Bruto PRONAF – Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar SEBRAE – Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura UPF’s – Unidades de Produção Familiar
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    14 1. CAPÌTULOI 1.1. Introdução Ao estudar as raízes históricas da Agricultura Brasileira, constantes transformações de diferentes dimensões são deparadas, advindas de alternativas propostas e geradas conforme a contextualização e os interesses do modelo de desenvolvimento daquele mesmo momento histórico. O modelo de desenvolvimento vigente, contemplado ao longo desta pesquisa, tem sido abordado e discutido por diversos segmentos da sociedade, implicando em distintos setores (como na economia, na política, entre outros), como também, no modelo Agrícola Brasileiro dos últimos anos. Muitas revoltas, inquietações, como também, conquistas e mudanças de caráter prático, foram marcantes na história da Agricultura Brasileira. Passamos por um período exploratório, extrativista, escravista, exportador, tornando-nos seres apenas predatórios. Chegamos a um período de colonização, de interesses governamentais, de fortes concentrações de renda, do destaque dado ao setor privado, às grandes propriedades, aos latifúndios e às questões acerca da reforma agrária. Partimos para a industrialização, urbanização, bem como a indução de uma modernização conservadora. Novas intenções modernizantes surgem a partir da intervenção do Estado, como o sistema nacional de créditos rurais, o surgimento de complexos industriais e a exportação de produtos dinâmicos. Por fim, é percebida a existência de dois modelos de Agricultura, a Patronal e a Familiar (assim denominados por alguns autores), dois Ministérios (MAPA – Ministério da Agricultura e Planejamento Agrário e o MDA – Ministério do Desenvolvimento Agrário), e inúmeros debates, pesquisas, argumentos em relação à agricultura e ao
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    15 modelo deprodução familiar enfatizada nesta pesquisa, bem como questionamentos quanto ao planejamento para o desenvolvimento econômico, social, cultural e ambiental dessa parcela populacional vinculada à agricultura. Destacando-se assim, a questão atual, a respeito do planejamento local, promissor aos agricultores familiares e conseqüentemente, a essa pesquisa. A Agricultura Familiar de base agroecológica, compreendida nesta pesquisa, é representada não somente por uma forma de organização produtiva, mas também, por uma atividade econômica especializada, diferenciada, intensiva, de caráter permanente, valendo de sua característica maior: a representatividade de um modo de vida que preserva a paisagem, a biodiversidade e diversos aspectos econômicos e culturais de importância fundamental para o seu próprio desenvolvimento. São essas algumas das contextualizações que nos desafiam a contribuir a favor daqueles que demandam o ingresso de inúmeras inovações e a constante atuação e articulação de atores comprometidos, de enorme potencialidades e oportunidades, cabendo ao profissional de Design, contíguo a tantos outros, um papel comprometedor e de grande contribuição para o seu fortalecimento, planejamento e desenvolvimento. 1.2. Delimitação do Tema O desafio inicial proposto nesta pesquisa é o de compreender de forma uma tanto sucinta, a questão agrícola brasileira, junto às diversas concepções acerca dos modelos de desenvolvimento vinculados à sociedade ao longo dos anos, enfatizando em um segundo momento, a existência dos agricultores familiares, com foco na agricultura familiar do Estado de Santa Catarina, em especial, ao Grupo de Agricultores Agroecológicos do Município de Garopaba – SC, a fim de contribuir nos principais
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    16 entraves epotencialidades de suas unidades produtivas, a partir do levantamento de demandas de conhecimento e competência do Designer. O modelo de agricultura exercido por tais agricultores, a Agricultura Familiar, de forte presença no Estado de Santa Catarina, caracterizada pelo trabalho exercido predominantemente pelo agricultor(a) e sua família, vem registrando forte capacidade de resistência, produtividade e eficácia, apesar de seu histórico conturbado devido aos grandes complexos industriais e da deficiência de crédito e apoio perante o intermédio entre sua unidade produtiva e o mercado atual. Seu desempenho e fortalecimento dependem da integração e articulação entre diversos atores sociais comprometidos com a mesma. O que possibilita ao profissional de Design, o surgimento de uma recente área de atuação, necessitada, porém de grande potencial emergente. Os princípios de Design, voltados para questões econômicas, sócio-culturais, ambientais, bem como, ações gestoras e estratégicas, têm como preceito, a contribuição para a ampliação e viabilidade das unidades de produção familiar, promovendo um papel mais efetivo entre o agricultor e o meio externo, identificando esses entraves e diagnosticando oportunidades e potencialidades a essas unidades. Portanto, o problema da pesquisa buscará compreender as condições reais do grupo de agricultores específicos, em contrapartida aos princípios do Design, onde se norteará pelos seguintes questionamentos: 1. Quais as principais limitações bem como as potencialidades e oportunidades do grupo de agricultores familiares em questão? 2. De que forma a identificação de demandas de Design implicará em resultados prósperos aos mesmos? E como será potencializada esta relação entre a identificação de demandas junto ao Grupo de Agricultores?
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    17 1.3. Objetivos 1.3.1. Objetivo Geral Compreender as condições reais do Grupo de Agricultores Agroecológicos do Município de Garopaba, Santa Catarina, a partir da identificação de suas limitações bem como suas potencialidade e oportunidades, enfatizando o modelo de Agricultura Familiar com base no Desenvolvimento Local Integrado e nas ações estratégicas e operacionais do Design, a fim de levantar demandas de conhecimento e competência do Designer. 1.3.2. Objetivos Específicos § Levantamento bibliográfico e revisão teórica sobre os temas a serem abordados: histórico da agricultura brasileira; surgimento e contextualização da agricultura familiar brasileira e de Santa Catarina; abordar os discursos a respeito dos modelos de desenvolvimento e a questão do Planejamento Local Integrado como forma de desenvolvimento. § Investigar e vivenciar a realidade do Grupo de Agricultores em análise, compreender seu dinamismo cultural, econômico, ambiental e social.
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    18 § Revisare transcrever os dados e informações coletadas para a proposição das demandas de competência do Designer. § Promover uma análise das demandas de Design, conforme os aspectos: prioridade, viabilidade e eficiência. 1.4. Justificativa do Tema A preferência em trabalhar com os agricultores familiares agroecológicos foi motivada pela importância em destacar alguns pontos críticos da história brasileira como: a insustentabilidade de uma das principais heranças brasileiras – a agricultura; o surgimento de uma agricultura rústica e precária, considerada inicialmente de abastecimento – a Agricultura Familiar, e por fim, o reconhecimento do meio rural como fonte de empreendedorismo e fortes potencialidades; a tendência mundial a cerca dos produtos ecológicos e das propriedades agroecológicas. Uma quarta justificativa para a pesquisa, é a iniciativa atual procedente dos profissionais de Design, em trabalhar e aprimorar seus conhecimentos nesta recente área de abrangência: o meio rural, gerando documentações como artigos e projetos publicados e apresentados em congressos e eventos. No entanto, esta demanda em abranger a área rural buscando uma maior relação com o Design, vem sendo alvo de muitos designers brasileiros focados preferencialmente nas atividades particulares do Design Gráfico, não abrangendo assim, as demais atuações do Design. Outra medida para justificar esta pesquisa, é a própria contextualização do território brasileiro. Segundo Pádua (2003), a formação do atual território brasileiro na economia mundial moderna, a partir do século XVI, deu-se basicamente pela agricultura. Afirmação esta sendo justificada pelo autor, devido a nossa colonização
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    19 portuguesa, aocontrário, por exemplo, da América Latina, de colonização espanhola, voltada para as conquistas de minérios. “A fundação do nosso país, portanto, foi marcada pela exploração da biomassa vegetal“ (PÁDUA, 2003). É importante enfatizar que a agricultura foi a base do modelo econômico de diversas fases históricas do nosso país, mas não foi a única. Passamos por outros ciclos adversos também marcados por essa exploração da biomassa vegetal e de grande importância, como o da borracha, de extração mineral, como o ferro, alumínio, nióbio, entre outros. No entanto, a agricultura foi o ciclo de maior destaque e que se prepondera até os dias de hoje. Fica-se evidente, desde a nossa colonização, a importância e a contribuição da agricultura, onde abriga um terço da população brasileira, tornando-se responsável por inúmeros e constantes processos de transformações no universo econômico, cultural, ambiental e político do nosso país. A fim de justificar novamente a temática da pesquisa, a mesma se direcionará ao estudo da Agricultura Familiar no Estado de Santa Catarina, caracterizada entre os seis principais Estados produtores de alimentos onde apresenta os maiores índices de produtividade por área, graças à capacidade de trabalho e de inovação do agricultor, ao emprego de tecnologias adequadas e ao próprio modelo agrícola de caráter familiar. Conforme divulgado pelo Centro de Safras e Mercados, intitulado anteriormente como Instituto Cepa, de acordo com o Censo Demográfico de 2000, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, o Estado possuía uma população de 5.333.284 habitantes, dos quais aproximadamente 25% viviam no meio rural, em cerca de 203 mil estabelecimentos rurais. Devido ao processo de urbanização ocorrido a partir da década de 70, cerca de 30% da população catarinense está concentrada nas oito cidades com mais de 100 mil habitantes.
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    20 O setoragrícola catarinense representa 12,8% do Produto Interno Bruto estadual. As atividades do agronegócio1, no entanto, contribuem com cerca de 20% do PIB estadual. Os três mil estabelecimentos de indústrias agrícolas e agroalimentares, por si sós, respondem por 19% da renda, empregando cerca de 35 mil pessoas (Centro de Safras e Mercados, 2003). Santa Catarina ocupa o quinto lugar entre os estados exportadores. No ano de 2000, as exportações estaduais corresponderam a 4,6% do total brasileiro. Já em 2003, o agronegócio representou 57% do valor total exportado pelo Estado. Na pauta de exportações estaduais, destaca-se o complexo agroindustrial, que contribuiu com 50% do total estadual, destacando as exportações de produtos florestais e de carnes, aves e miudezas (Centro de Safras e Mercados, 2003). A partir da compreensão desses indicadores, é visível o papel crucial deste segmento na economia do Estado e principalmente dos pequenos municípios que se mantém da mesma. Estes produtores são responsáveis pela geração de muitos empregos como no comércio e nos serviços prestados, de grande importância social para o Estado e para o desenvolvimento dos municípios, porém, esta parcela da população, vem sendo prejudicada devido à atual caracterização do mercado globalizado e competitivo e também da forte predominância das agroindústrias. Nesta seqüência de abordagens a cerca da contextualização agrícola catarinense, junto à compreensão dos modelos de desenvolvimento, bem como, a ênfase dada à nova dinâmica voltada para o desenvolvimento das localidades, ou seja, 1 Também chamado freedy mercury ou agribusiness, segundo a Enciclopédia Wikipédia, agronegócio é considerado o conjunto de negócios relacionados à agricultura, dentro do ponto de vista econômico. Costuma-se ser divididos em três partes: 1. os negócios agropecuários propriamente ditos, representados pelos agricultores rurais; 2. os negócios à montante aos da agropecuária, representadas pelas industrias e comércios fornecedores de matérias primas e insumos; 3. os negócios à jusante aos da agropecuária, representados pelos negócios que compram os produtos agropecuários, os beneficiam, os transportam e os vendem para os consumidores finais.
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    21 para oDesenvolvimento Local2, a pesquisa torna-se justificável mais uma vez, não somente devido à atualidade e repercussão deste tema, mas também, pela consciência ao que contempla o desenvolvimento local como um espaço heterogêneo e diversificado, que induz a repensar a multiplicidade de atores comprometidos. Oferecendo assim, possibilidades de novas parcerias e abertura para o profissional de Design, junto a suas competências e habilidades, em intervir nesta área de atuação, como mobilizador e mediador social também, na construção e aplicação deste desenvolvimento a partir da inserção de novas fronteiras de conhecimento ao meio rural. 1.5. Metodologia Com base nos objetivos desta pesquisa, a metodologia empregada é do tipo exploratória e de caráter qualitativo, a partir da delimitação de um objeto de estudo e a vivência da realidade de uma determinada localidade, neste caso, o grupo de agricultores agroecológicos, residentes no município de Garopaba - SC. Sendo assim, os procedimentos metodológicos serão caracterizados pela aplicação de uma pesquisa de campo, buscando resultados por meio das relações práticas e teóricas. As relações práticas foram obtidas por meio de visitas ao Município de Garopaba, e às propriedades dos agricultores, em um primeiro momento, junto aos técnicos agrícolas e funcionários do Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo – CEPAGRO, que já exercem atividade na região, partindo para futuras visitas particulares, conforme o curso da pesquisa. 2 O termo Desenvolvimento Local será contextualizado na seqüência desta pesquisa.
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    22 O Grupode Agricultores Agroecológicos de Garopaba são formados por onze famílias, mas, no entanto, a pesquisa se direcionou a cinco famílias de agricultores, devido principalmente, ao maior contato dessas, com as atividades oferecidas pelo CEPAGRO durante o período da pesquisa de campo e conseqüentemente, um maior contato com o pesquisador. Os métodos utilizados para a coleta de informações foram desde conversas informais, entrevistas, práticas de observação e roteiros semi-estruturados que puderam auxiliar para o desenvolvimento da pesquisa, junto ao maior número de atores envolvidos: proprietários e trabalhadores rurais, familiares dos agricultores/proprietários, comerciantes da região, associações locais, o CEPAGRO, entre outros. Foi utilizado primeiramente um questionário direcionado aos integrantes do CEPAGRO, os quais possuem maiores responsabilidades junto ao Grupo de Agricultores, sendo este descrito no anexo de número 1. Na seqüência, foi elaborado um roteiro de perguntas e questionamentos, utilizado para as entrevistas individuais, do tipo semi-estruturada, sendo descrito no anexo de número 2. O roteiro contempla nove áreas de abrangência (1. propriedade/agricultor/história; 2. princípios da agroecologia; 3. pré-produção; 4. produção; 5. produto; 6. instrumento de trabalho; 7. estrutura física; 8. mercado; 9. outros assuntos) sendo questionadas as condições e demais informações quanto a cada uma dessas áreas a partir desta pesquisa. Quanto às informações secundárias, porém necessárias, relacionadas ao Município de Garopaba, devido ao escasso tempo de pesquisa, serão coletadas por meios indiretos, como websites do Governo, da Prefeitura do município e de Portais Turísticos. Em vista as relações teóricas pretendidas nesta pesquisa, serão empregados outros procedimentos, como a pesquisa bibliográfica em livros, periódicos, projetos e artigos científicos, a fim de coletar informações distintas relacionadas aos assuntos abordados, como também, pesquisa em acervos documentais sobre as áreas de estudo, em websites de entidades e organizações governamentais, públicas e privadas.
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    23 Por fim,foram coletados os dados e as informações com base no questionário, nas entrevistas guiadas pelo roteiro e na prática de observação, transcritas e listadas em três abordagens, de forma a facilitar a compreensão de cada uma delas: 1. informações quanto às questões históricas; 2. informações quanto às questões subjetivas; informações quanto às questões específicas e técnicas. Após uma análise e reflexão quanto a essas informações, foram identificadas e listadas as limitações e as potencialidades relatadas pelo próprio Grupo e identificadas pelo pesquisador, para na seqüência, serem propostas as demandas de Design, abordadas em quatro temáticas, junto a uma análise das mesmas, conforme os aspectos: prioridade, eficiência e viabilidade, configuradas em tabulações. 1.6. Cronograma Etapas 08/06 09/06 10/06 11/06 3ª S 4ª S 1ª S 2ª S 3ª S 4ª S 1ª S 2ª S 3ª S 4ª S 1ª S 2ª S 3ª S 4ª S 1. finalização do referencial teórico. 2. preparação para a pesquisa de campo (ambientação, articulação, formulação de entrevistas questionários). 3. saídas a campo (coleta de dados, ferramentas). 4. transcrição e análise dos dados coletados. 5. proposição e análise das demandas. 6. elaboração das considerações finais 7. preparação dos documentos finais
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    24 2. CAPÍTULOII 2.1. Modelo Agrícola Brasileiro O debate em torno da problemática agrária no Brasil (como produzir e de que forma ocorrerá a produção agrícola), e também da problemática agrícola (o que produzir, quanto produzir e onde produzir), persiste desde o inicio do século XX, sendo esta, identificada em seus primórdios como agroexportadora e monocultora, vinculada a uma sociedade capitalista e conservadora. Paulillo apud Batalha (1997), deixa claro que foi na década de 60 que a questão agrária ganhou ênfase, onde era considerada um empecilho ao processo de industrialização nacional, e para isso necessitou o emprego de novas tecnologias e um crescimento produtivo acirrado através de estratégias de mudanças econômicas e sociais, que favorecessem a produção agrícola. Uma certa “modernização conservadora” da agricultura, visando o desenvolvimento aliado à industrialização e urbanização, foi induzida aos agricultores através da introdução dos “pacotes tecnológicos” da Revolução Verde, que incentivavam largas escalas de produção, aumento geral da produtividade, do número de produtos exportados e a expansão de sistemas monoculturais. “Eram pacotes difundidos através de órgãos oficiais que incluíam máquinas agrícolas, sementes geneticamente modificadas, fertilizantes químicos, venenos químicos, entre outros. O que representou para os países pobres uma
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    25 maior dependênciade importações tecnológicas e matérias primas dos países ricos”. (MUSSOI apud ESTEVAM, 2001). A justificativa para o emprego deste modelo de agricultura encontrava-se unicamente na necessidade de aumentar rapidamente a produção e a produtividade. Olalde et. al (2003), relata que essa orientação “produtivista” estava associado ao cumprimento das funções da agricultura, direcionada unicamente, ao desenvolvimento econômico, sendo elas: produzir alimentos baratos; fornecer matéria prima para indústria; permitir a obtenção de divisas a partir do aumento das exportações (ou redução das importações); consumir produtos industrializados e liberar mão-de-obra para as atividades urbano-industriais. Este mesmo modelo de modernização possuiu grandes incoerências e conseqüências devastadoras: privilegiou algumas culturas, favorecendo apenas médias e grandes propriedades; provocou o abandono dos agricultores e a fixação nos grandes centros urbanos; intensificou a concentração de renda no campo; promoveu oportunidade de créditos agrícolas destinados apenas aos grandes proprietários e, por fim, promoveu uma constante mudança nas técnicas de produção através da mecanização, que impossibilitava à agricultura familiar, o uso desse mesmo recurso. Kalnin (2004), menciona que segundo Graziano Neto, os resultados desse processo foram catastróficos, tanto no plano econômico quanto do plano social e ecológico. A sua face mais visível foi uma enorme contradição: se por um lado houve um grande avanço em termos de progresso técnico (resultados econômicos); em contrapartida constata-se uma notável regressão em termos sociais, frutos destas transformações sem a equivalência no campo social cujas conseqüências foram os êxodos rurais, gerando gigantescos bolsões de pobreza nos centros urbanos, transformando muitos produtores rurais em “subconsumidores urbanos” e o aumento da concentração de renda e da terra. A verificação da existência do êxodo rural e desses gigantescos bolsões de pobreza é confirmada pelo intenso processo de transformação no tecido social ocorrido
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    26 em nossopaís, onde, em 1940 a percentagem da população urbana do país, era de 31,2%, passando a ser de 81,2% em 2000. “Isso significa em termos de população total, que as cidades passaram a abrigar cerca de 138 milhões de pessoas em 2000, contra apenas 12,7 milhões em 1940. A mudança que isso representa na paisagem sócio-física do país é extraordinária, mesmo levando em conta as críticas recentes quanto ao uso de um conceito excessivamente amplo de existência “urbana” nesses dados, de maneira que a porcentagem da atual população que efetivamente poderia ser classificada como tal seria bem menos, algo em torno de 57%” (VEIGA apud PÁDUA, 2003). A partir da percepção destas conseqüências e das deficiências que o setor agrícola vem enfrentando, provocando transformações na sociedade e no modelo econômico do país, muitas reflexões surgiram e foram debatidas por diferentes entidades responsáveis, como o Estado, os Sindicatos dos Trabalhadores Rurais, as Organizações de fomento, entre outros. Paulillo apud Batalha (1997), comenta que o debate sobre o desenvolvimento agrário no país reacendeu-se somente na década de 80, com o processo de reestruturação econômica, abertura política, reajustamento social e o ressurgimento dos movimentos sociais no campo, onde foram analisadas as características e especificidades do processo de desenvolvimento capitalista na agricultura, considerando o surgimento de novas perspectivas para a agricultura. Toda essa análise sobre o desenvolvimento capitalista refletido na agricultura e sobre a problemática das novas gerações de agricultores, por parte da fragilidade que vinha passando, o padrão tecnológico moderno, levou na década de 80, à constituição de movimentos de oposição e de proposição a fim de amenizar e reverter a situação da falta de oportunidades, tecnologias não apropriadas e o insuficiente incentivo para com o meio rural e principalmente para a agricultura familiar. Surge então, a necessidade da intervenção das instituições de fomento e outros atores sociais, vinculados de alguma forma ao setor agrícola, para a implementação de programas de fortalecimento desta agricultura familiar.
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    27 Na décadade 90, surgem projetos de desenvolvimento local/regional com base na promoção da Agricultura Familiar através da implementação de agroindústrias familiares, principalmente as agroindústrias de beneficiamento alimentar. Kalnin (2004), lembra que neste momento se inicia a idéia de não limitar as atividades agrícolas familiar somente ao cultivo e sim, incluir a produção de outros bens e serviços, agregando valor nas cadeias produtivas. Surge a partir de então, diversos conceitos e concepções a respeito dos termos Agricultura Familiar, Agricultor Familiar e Agroindústria Familiar, sendo discutidos por diversos autores, cabendo a cada um, buscar identificar esse grupo de agricultores bem como o meio produtivo no qual estão envolvidos e lhes proporcionar a devida atenção. 2.2. Definições e Concepções da Agricultura Familiar Lamarche (1997), prefere usar o termo Agricultura Familiar, como uma unidade de produção agrícola onde a propriedade e o trabalho estão ligados intimamente à família. Destaca ainda três tipos de agricultores familiares: aqueles cuja finalidade essencial não seria a reprodução enquanto unidade de produção, mas a reprodução familiar, modelo familiar; aqueles que estão interessados apenas na sobrevivência da família, modelo de subsistência; aqueles motivados por um tipo de exploração agrícola organizada com base no trabalho assalariado e/ou orientada para a obtenção de um ganho máximo, modelo de empreendimento agrícola. Mussoi citado por Estevam (2001), considera Agricultura Familiar aquela em que os trabalhos são exercidos predominantemente pelo agricultor e sua família, dando a eles responsabilidades, como a iniciativa, o domínio e o controle do que produzir e como produzir, havendo uma relação estreita entre o que é produzido e o que é consumido, ou seja, são unidades de produção e consumo, mantendo também um alto grau de
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    28 diversificação produtiva,mas tendo alguns produtos relacionados com o mercado, interagindo o produtor com o consumidor. Segundo o Centro de Safras e Mercados, o termo Agricultura Familiar esta relacionada diretamente com a produção deste sistema constituído por agentes - os produtores e seus familiares – que estabelecem entre si e com o meio que os cerca, relações com vistas a produzir alimentos, serviços, lazer, obter renda, melhorar a qualidade de vida, zelar pelo meio ambiente, pela paisagem rural, entre outros. Segundo Kalnin (2004), em sua contextualização sobre o termo, busca definir Agricultor Familiar como sendo: “todo aquele que explora parcela da terra na condição de proprietário assentado, posseiro, arrendatário ou parceiro e atende simultaneamente aos seguintes quesitos: utiliza o trabalho direto seu e de sua família, podendo ter, em caráter complementar, ate dois empregados permanentes e contar com a ajuda de terceiros, quando a natureza sazonal da atividade agropecuária o exigir; não tedenha, a qualquer título. Área superior a quatro módulos fiscais, quantificados segundo a legislação em vigor; tenha no mínimo 80% da renda familiar bruta anual originada da exploração agropecuária, pesqueira e/ou extrativa; resida na propriedade ou em aglomerado rural ou urbano próximo” É percebido, a partir desses e inúmeros outros conceitos a respeito desses termos, a necessidade de identificar esses grupos de agricultores a partir de alguns critérios que facilitem o processo, como organização do trabalho, renda anual, escala de produção, entre outros. Cabe salientar que o necessário é identificar esse grupo a partir de sua vivência e de sua realidade, a qual lhe garante um estilo de vida único e diferenciado, não excluindo a sua importância para com a economia, a política e a estrutura social do nosso país. Nesta mesma década, onde inúmeros debates com o intuito de compreender tais termos e suas caracterizações, muitos agricultores familiares começam a se unir em
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    29 associações, cooperativase condomínios para iniciar a implementação de pequenas agroindústrias, surgindo o termo Agroindústria Familiar. Agroindústria Familiar: atividade que permite aumentar e reter, nas zonas rurais, o valor agregado da produção da agricultura familiar, através da execução de tarefas de pós - colheita nos produtos provenientes de explorações agrosilvopastoris, tais como seleção, lavagem, classificação, armazenamento, conservação, transformação, embalagem, transporte e comercialização (Instituto Cepa/SC, apud KALNIN, 2004). Segundo o Censo Agropecuário de 1995/1996, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, estima-se em aproximadamente quatro milhões o número de estabelecimentos familiares rurais no Brasil, caracterizando um significante contingente populacional heterogêneo e que demandam de tratamentos diferenciados e emergenciais. Essa defesa da Agricultura Familiar, como forma de reverter a situação atual do meio rural, causados pela Agricultura Tradicional ou Patronal, repousa em indicadores concretos: Segundo Pádua (2003), um levantamento recente revelou que, entre 1989 e 1999, as propriedades com menos de 100 hectares (reconhecidas como familiares), apresentaram taxa de crescimento anual médio do rendimento físico da produção da ordem de 5,80% contra 3,29% na agricultura patronal. A taxa anual média de crescimento da quantidade produzida na agricultura familiar no mesmo período, por outro lado, foi de 3,79% ao ano, contra 2,60% na agricultura patronal. Outros indicadores, segundo o Censo Agropecuário de 1995/1996, realizado pelo IBGE, revelaram que a Agricultura Familiar, constituída por pequenos e médios produtores, representam a maioria dos produtores rurais no Brasil, são cerca de 4 milhões de estabelecimentos, representando 85,2% do total, onde detém 30,5% das terras, respondendo por 30% da população global e por 37,9% do valor bruto da produção agrícola nacional, empregando cerca de 13,8 milhões de trabalhadores,
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    30 representando cercade 80% do Pessoal Ocupado, apesar de receber apenas 25,3% do financiamento total (cerca de 938 milhões de reais). O domínio desse setor é evidente preferencialmente na produção de alimentos básicos da dieta do brasileiro como feijão, arroz, milho, hortaliças, mandioca e pequenos animais, sendo responsável por 60% da produção nacional em relação a esses produtos. Essas afirmações vêm evidenciar a forte capacidade de resistência do modelo de agricultura familiar, nos revelando mais uma vez, o potencial desses grupos de agricultores e a demanda em constante ascensão de seus produtos. São responsáveis por demonstrar resultados produtivos e eficazes apesar da falta de apoio e créditos necessários. O que nos direciona a reconhecer este modelo e buscar fortalecê-lo a partir de novas reflexões e novos projetos de intervenção sobre o mesmo. No entanto, esses mesmos agricultores encontram-se escondidos muitas vezes, por de trás das grandes indústrias e pelo mercado acirrado e competitivo, necessitando desta forma, da inclusão de atores sociais que visem a melhoria da capacidade produtiva e organizacional de seus sistemas produtivos, o empreendimento de políticas ativas, e que desafiem este mercado trabalhando para o fomento da atividade agrícola como forma de desenvolvimento de nossa sociedade. 2.3. Modelo Agrícola Familiar de Santa Catarina O modelo agrícola catarinense é caracterizado devido ao processo de ocupação e formação deste Estado, a qual, segundo Freire (2002) é identificada por três períodos significativos e pela sua inserção gradativa no mercado regional, nacional e internacional.
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    31 O primeiroperíodo de formação do Estado Catarinense, que se estende do século XVII a 1850, é caracterizado pela preocupação dos portugueses em fortificar a extensão litorânea, criando pontos de abastecimentos garantindo acesso à Região do Prata e viabilizando o transporte para a exploração do ouro. Predominando desta forma, a economia de subsistência e agro-exportadora. Inicia-se neste período a ocupação de alguns povoados originando as cidades de Nossa Senhora da Graça do Rio São Francisco do Sul, Santo Antônio dos Anjos de Laguna, Nossa Senhora do Desterro, e posteriormente, a emancipação do município de Lages. O segundo período, correspondente à 1850 a 1914, encontra-se vinculado ao expressivo contingente de imigrantes vindos principalmente da Itália e Alemanha trazendo experiências já industrializadas e o conhecimento da economia policultura e de mão de obra familiar, fator este, que garante a diferenciação entre os demais Estados brasileiros: a atividade de policultura, com o cultivo confinante de diferentes produtos, em resistência à monocultura. Surgiram neste período, os primeiros povoados alemãs e italianos como São Pedro de Alcântara. O terceiro período, entre 1914 e 1960, é caracterizado pela inserção no mercado nacional junto a uma melhor reflexão sobre a produção familiar, onde algumas de suas características, como a pequena produção baseada no policultivo, são apontadas como fatores de resistência à crise e também como fatores de desenvolvimento. Segundo a FAO/INCRA, citado por Freire (2002), o Estado possui algumas características típicas em suas Unidades Rurais Familiares – como: (1) a preeminência da força de trabalho familiar; (2) a unidade, interação e interdependência existente entre a família e a unidade de produção, isto é, a não separação entre os proprietários dos meios de produção e os trabalhadores; (3) a não especialização e divisão clássica, formal e hierárquica do trabalho e entre a atividade administrativa e executiva, isto é, entre trabalhadores diretos e indiretos; (4) uma participação solidária e co-responsável de todos os membros da família na organização e no funcionamento do conjunto do sistema família – unidade de produção; (5) um projeto (objetivos e finalidades) orientado, prioritariamente, para a reprodução das condições e da força de trabalho familiar; (6) uma estratégia voltada para a garantia da segurança alimentar da família, para a redução dos riscos, para o aumento da renda total da família e por unidade de
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    32 trabalho paraa garantia do emprego da mão-de-obra familiar e para a melhoria e ampliação das condições de trabalho e produção. O Estado possui inúmeras particularidades em seu contexto agrícola, que o diferencia dos demais Estados. Uma delas diz respeito às concentrações de terras e de riquezas, as quais foram amenizadas durante um período devido à resistência das Unidades de Produção Familiar, possuindo atualmente, um dos menores índices de concentração fundiária do país. Após a “modernização na agricultura”, ocorrida durante a década de 60 e 70, o modelo agrícola catarinense - baseado na presença de imigrantes e na sua própria formação, onde em um primeiro momento, suas unidades de produção familiar visavam a subsistência a partir de processos rudimentares - lidou com algumas modificações em seus processos produtivos como as implantações de Complexos Agroindustriais, integrando-se assim, á dinâmica da produção industrial. Os complexos agroindustriais começam a deter um maior controle sobre o trabalho dos agricultores, no entanto, fizeram aumentar o número de agricultores com emprego fora das propriedades, ou a combinação de atividades dentro da própria unidade de produção, atividades estas que nem sempre estão diretamente relacionadas à produção agrícola. No entanto, com base nos critérios de classificação do Programa Nacional da Agricultura Familiar - PRONAF, estima-se que em 2000, a agricultura familiar em Santa Catarina representa um universo de 180 mil famílias, ou seja, dentre os 21% habitante no meio rural, mais de 90% estão inseridos no modelo da agricultura familiar. O que nos revela a superação frente a esses complexos agroindustriais, voltados preferencialmente à produtividade e rentabilidade. Estas famílias de agricultores, apesar de ocuparem apenas 41% da área dos estabelecimentos agrícolas, são responsáveis pelo destaque do setor primário, detendo mais de 70% do valor da produção agrícola e pesqueira do estado, destacando-se na maior produção nacional de suínos, maçãs, cebolas, ostras e mexilhões, como também
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    33 na produçãodo feijão, milho, leite entre outros, constituindo uma das bases da nossa economia local, de grande prestígio nacionalmente. 2.4. Contextualização das Unidades de Produção Familiar – UPFs Ao classificarmos as unidades de produção familiares - UPF, nos deparamos com alguns autores que as diferenciam conforme critérios estabelecidos, como a renda bruta percebida no ano agrícola, a área ocupada, a produtividade, entre outros. No entanto, esta seção enfatiza os principais problemas enfrentados por tais unidades, onde são distinguidos apenas por sua intensidade. Será abordada também, a própria contextualização das unidades de produção, apontando suas especificidades e peculiaridades. Segundo Blum apud Tedesco (1999), os problemas estão envolvidos aos quatro fatores de produção: terra, mão-de-obra, capital e capacidade empresarial. Quanto ao fator “terra”, relacionam-se as seguintes entraves: a concentração e distribuição de terra, devido à forma de colonização e a qualidade da terra devido ao sistema antigo e nômade de preparo do solo, uso excessivo de tratores e conseqüentemente o empobrecimento do solo e o assoreamento dos rios. Quanto ao segundo fator, a “mão-de-obra”, tais problemas relacionam-se à escassez de mão-de-obra, devida principalmente ao êxodo rural e a preferência por empregos nos setores do comércio e indústrias; à qualidade da mão-de-obra, devido a pouca instrução tecnológica e sistemática do processo produtivo; ao custo da mão-de-obra, ligada diretamente à escassez, por não manter os trabalhadores na propriedade por longos períodos; à humanização da mão-de-obra, onde tais trabalhadores são designados a executar atividades de grande esforço, penosas e algumas vezes de risco.
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    34 Quanto aofator “capital”, tais problemas também se encontram relacionados à escassez de capital, devido a questões externas como inflação, a instabilidade dos preços, alto valor de impostos entre outros; à política agrícola, devido a inexistência ou baixa qualidade de alguns aspectos econômicos como comercialização, credito rural, legislações trabalhistas, fiscais, direitos da saúde, educação, entre outros. Quanto ao último fator, “capacidade empresarial”, pode-se perceber a intensa inexistência ou ineficiência de uma administração rural, e conseqüentemente a insuficiente instrução oferecida aos agricultores direcionada a este assunto. Eis alguns dos impasses relacionados a este fator: a falta de gerenciamento e visão empresarial, devido ao não conhecimento aprofundado das áreas administrativas, (produção, recursos humanos, financeiros, comercialização, marketing) e da função de um administrador (planejar, organizar, dirigir e controlar); falta de análise e controle das entradas e saídas do sistema produtivo; dificuldade em manter unidades de produção isolada, se contrapondo à vivência em grupos sociais, como cooperativas e associações; falta de visão sistêmica, onde se deve avaliar um conjunto de relações e não apenas a unidade produtiva; a deficiência na comercialização e agregação de valor, devido a participação de intermediários o que aumenta o preço nas vendas dos produtos, e o baixo retorno para o agricultor; deficiência no uso das tecnologias, devido a escassa assistência técnica e conseqüentemente o uso inadequado das questões tecnológicas produtivas, como insumos, agrotóxicos, maquinários, infraestrutura. Cabe aqui mais uma vez, ressaltar a justificativa desta pesquisa, onde vem a considerar o Design, como meio estratégico, a fim de lidar com algumas dessas ações e salientar as oportunidades e potencialidades existentes no meio rural ao mesmo tempo em que visa promover o conhecimento em prol da melhoria na qualidade de vida desses agricultores, e da melhoria de seus produtos ofertados ao mercado. Brandenburg (1999), cita que a existência das unidades de produção familiar se condiciona primeiramente pela posse da terra, tanto para a constituição da identidade do agricultor como para organizar tecnicamente a produção. “A situação do agricultor
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    35 em relaçãoà propriedade da terra define a sua estratégia de sobrevivência e determina as suas condições de reprodutibilidade”. O sistema de produção vivenciado pelos agricultores familiares define um modo de vida particular e que garante aos mesmos uma identidade, uma certa autonomia e diversificação de seus deveres, ao contrário da lógica produtivista que maximiza a racionalidade econômica, mediante sistemas especializados. Suas atividades são praticadas conforme suas culturas, criações e recursos. Devido a um vasto segmento da agricultura familiar que não consegue afirmar-se economicamente em virtude do ambiente que a vincula ao mercado, tendo como entrave de maior evidência, a comercialização de seus produtos, é percebido um melhor aproveitamento das unidades de produção familiares quando se associa a produção destinada ao autoconsumo, em relação à produção destinada ao mercado como geradora de renda. Ou seja, a satisfação da família é demandada, mas, entretanto, o mercado não se satisfaz com o que é ofertado pela propriedade rural. Como forma de buscar um maior rendimento, e a satisfação também do mercado, as unidades familiares se especializam em torno de um ou mais produtos orientados ao mercado, através de produções integradas às agroindústrias ou cooperativas, as quais impõe através da relação contratual, um padrão convencional de produção da exploração que é objeto de contrato (BRANDENBURG, 1999). Porém essa configuração de produção vem a contrapor à dinâmica vivida e expressada pela agricultura familiar desde suas origens, onde suas características marcantes, entre tantas outras, são a diversificação de seus produtos e sua própria unidade organizacional. O que apronta, conforme o contexto, uma necessidade de aprimoramento deste ajuste entre a propriedade e o mercado, pois mesmo mantendo a identidade familiar, a autonomia e sua produção voltada para a diversificação, como unidade produtiva, a propriedade deve considerar o mercado como articulador ao seu desenvolvimento,
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    36 sendo queum dos desafios das unidades de produção familiar, é adotá-las de meios que lhe garantem participar desses mercados dinâmicos, competitivos e exigentes. 2.5. O Meio Rural A alocução existente a respeito da ruralidade, do espaço correspondente ao meio rural, tem sido muitas vezes, relacionada e comparada com o processo de desenvolvimento do meio urbano, com sua expansão territorial e com sua modernidade. No entanto, este antagonismo histórico tem recebido recentemente, o destaque merecido por distintos autores onde buscam, a partir dessa relação entre o meio rural e o meio urbano, salientar um novo dinamismo para ambos os espaços. É o que abordou José Eli da Veiga, em sua Conferência “A relação urbano/rural no processo de desenvolvimento” apresentada no evento realizado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência em Florianópolis em 2006, e em muitos de seus artigos científicos. Ao conceituar o meio rural, o autor acima citado, compara-o ao grau de ‘artificialização’ dos ecossistemas do local em análise, ou seja, ao grau de intervenção antrópica deste local. As áreas de menor pressão antrópica, de menor alteração, seja ambiental como manter a vegetação primária, ou social como manter baixa densidade demográfica, são consideradas ‘rurais’. O Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar - PRONAF, expõe sua visão a respeito da interação entre cidade e campo citando seu pressuposto básico: “existe um potencial de geração de renda no meu rural e nos municípios aos quais se relaciona diretamente que a sociedade não tem sido capaz de valorizar”.
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    37 Para aoficial classificação, quanto ao termo “rural” e quanto ao termo “urbano”, é preciso alguns critérios e bases quantitativas, as quais definem e considera o que vem a ser ‘rural’ e o que vem a ser ‘urbano’, no entanto, esta classificação tecnicista, não será o enfoque deste capítulo, e sim a situação atual do meio rural. Maria de Nazareth Wanderley, ao registrar o prefácio do livro Agricultura Familiar, Ongs, e Desenvolvimento Sustentável, de Alfio Branderburg (1999), relata a situação do meio rural de uma forma bastante clara, detonando peculiaridades ao ambiente, recordando o seu passado e sua existência ao longo dos anos: “Para boa parcela da população brasileira, o ”rural” é o lugar de origem (...) faz parte da memória familiar, constituindo o pano de fundo da cena de tantas lembranças e histórias passadas de geração a geração (..) A vida no campo é associada a uma maior experiência de liberdade e de contato direto com a natureza, mas, ao mesmo tempo, o campo é, para muitos, o lugar de opressão, do cerceamento dessa mesma liberdade, onde o poder privado se sobrepõe, e freqüentemente anula os direitos do cidadão. (...) é socialmente percebido como o lugar de precariedade, onde os benefícios da “civilização” custam a chegar (...) é também o lugar da ruptura, freqüentemente dolorosa para os que partem para ganhar o mundo ou para fugir do atraso (...) Lugar de saída parece ser a imagem que mais corresponde à representação que muitos fazem do meio rural (...) Mas, há os que ficam. Por necessidade ou por gosto. E fazem do meio rural um lugar de vida.” Outro questionamento que tem surgido quanto ao meio rural, se norteia em função das possibilidades observadas em relação ao seu destino. Filósofos e sociólogos, a cerca de trinta anos, vem lançando hipóteses para esta questão, onde abordam duas das possibilidades: a extinção do ‘rural’ ou ‘completa urbanização’; e o ‘renascimento do rural’ ou como Veiga nomeia, uma ‘nova ruralidade’, um fenômeno embrionário de causas atuais, onde observam as potencialidades ali presentes. Esta “nova ruralidade” tem ganhado destaque, possuindo inúmeras razões para se afirmar, sendo uma delas, a própria mudança incidida entre o meio rural e o meio urbano. Cada vez mais nos deparamos com a revalorização do meio rural, devida a
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    38 suas amenidadesnaturais, aos seus serviços prestados, à agregação de valor contido em seus produtos ofertados e a sua industrialização em forma de exportação de bens manufaturados. Cada vez mais, é percebida uma nova dinâmica nas relações econômicas e sociais existente no meio rural, que se defrontam com o meio urbano na forma de uma complementaridade e interação, onde a cidade e o campo se casaram, e enquanto ela cuida de lazer e trabalho, ele oferece liberdade e beleza” (Veiga,2006). Nesta nova dinâmica do meio rural, associada à modernização de seu modelo produtivo, observa-se, a implementação de novas atividades, algumas não-agrícolas, e de novas funções, ressaltando suas peculiaridades: a pluriatividade e multifuncionalidade. A pluriatividade surge para romper com o modelo clássico de desenvolvimento rural, baseado unicamente na produção agrícola, propondo assim uma nova alternativa na diversificação das fontes de rendas das famílias envolvidas na produção agrícola. Suas funções de preservação ambiental, criação de um espaço de maior contato com a natureza e com um estilo de vida diferente do característico das cidades urbanas, são cada vez mais valorizados e absorvidos por diversas áreas. Sendo uma delas, o turismo, uma das atividades de maior expressão que incorporam essa nova dinâmica do meio rural, designando novas funções como a oferta de lazer e prestações de serviços (multifuncionalidade). São essas as construções de novas relações que promovem o dinamismo entre o meio rural e seus agricultores, com o meio urbano e o mercado. 2.6. A Agroecologia
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    39 Ao contestaros padrões produtivistas do uso intensivo de insumos industriais, e da necessidade de aumentar rapidamente a produção e a produtividade, desencadeando graves conseqüências sobre o meio ambiente e sobre a saúde humana, foram pressionadas mudanças a serem consideradas, fazendo surgir, a partir de meados dos anos 80, o movimento que ficou conhecido como agricultura alternativa, focado na construção de um novo paradigma com base nas condições ecológicas e socioeconômicas da agricultura brasileira. O movimento reforçaria o processo de organização e de resistência, sendo que seus maiores potenciais eram suas proposições ou estratégias de sobrevivência da agricultura (Lovato & Schimidt, 2006). Muller, citado por Olalde et. al (2003), descreve que este movimento representou o início do que ele chamou de “politização ecológica”, havendo a introdução de valores ambientais na opinião pública, nas práticas agrícolas e nas políticas agrárias de desenvolvimento. O movimento da agricultura alternativa, antes mesmo de se caracterizar por movimento, “é uma ciência, um conjunto de conceitos, princípios e métodos que permitem estudar, manejar e avaliar um ecossistema agrícola, oferecendo diretrizes para uma agricultura mais sustentável, ambientalmente sadia, socialmente justa e economicamente viável” (EPAGRI, 2002). Seu destaque maior voltou-se ao modelo agroecológico e aos preceitos com base na ciência advinda da Agroecologia. Por se tratar de um termo conceitual complexo, ainda em construção, diversas interpretações são tratadas a respeito da agroecologia. Segundo Miguel Altieri et al., citado por Santin (2005), a agroecologia é considerada: “uma disciplina científica que define, classifica e estuda sistemas agrícolas desde uma perspectiva ecológica e socioeconômica. Considera os fundamentos científicos da agricultura sustentável para estudar, analisar, desenhar, manejar e avaliar agroecossistemas, com o propósito de permitir a implantação e o desenvolvimento de estilos de agricultura com maiores níveis de sustentabilidade no curto, médio e longo prazo” (p. 59).
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    40 Ainda citadospela autora, no conceito de Caporal e Costabeber (2000), a agroecologia é vista como um processo multidimensional de mudança social orientado no sentido da ecologização das práticas agrícolas no manejo dos agroecossistemas. Sevilla Guzmán apud Santin (2005), acrescenta o papel estratégico da agroecologia como agente promotor de um padrão de desenvolvimento ecologicamente prudente e socialmente justo, valorizando as capacidades locais e incorporando a ação social coletiva como sujeitos do processo: “a estratégia agroecológica poderia ser definida como o manejo ecológico dos recursos naturais que, incorporando uma ação social coletiva de caráter participativo, permite projetar métodos de desenvolvimento sustentável. (...) Em tal estratégia, o papel central da dimensão local é como portadora de um potencial endógeno que, através da articulação do conhecimento camponês com o científico, permite a implementação de sistemas de agricultura alternativos, potenciadores da biodiversidade ecológica e sociocultural” (p. 60). A agroecologia é ressaltada ainda como uma ação de mudança social, buscando mudanças não somente nos padrões tecnológicos, mas, sobretudo no comportamento dos agricultores e da sociedade em geral em relação a uma nova perspectiva ecológica e socioeconômica compatível com os diversos agroecossistemas. Os princípios difundidos pela agroecologia são universais, no entanto, suas técnicas aplicadas de diversificação, de reciclagem e de integração são específicas para cada localidade. Ela “incorpora as perspectivas tanto ecológicas quanto culturais e sócio-econômicas inerentes aos sistemas de produção agrícolas” (OLALDE et. al, 2003, p.38). Ainda que mantido o mesmo aspecto legal, os movimentos agroecológicos distinguem-se dos movimentos orgânicos, no sentido de que a agroecologia é uma base
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    41 científica deprincípios que se aplicam na forma orgânica ou de outras formas, para chegar a uma agricultura sustentável. E esta, a agricultura orgânica é um sistema de produção, um conjunto de técnicas que se aplicam no princípio da agroecologia (SANTIN, 2005). A agroecologia é considerada a base científica de princípios mais viável aos agricultores familiares, em particular da Região Sul do País por representar, segundo o IBGE, 90,5% de todos os estabelecimento agrícolas, que buscam no novo paradigma do desenvolvimento, baseado na sustentabilidade e solidariedade, um modelo de produção onde o agricultor tem o domínio do processo em sua total integralidade, desde a produção, transformação, armazenamento, transporte, comercialização, mesmo que se percebam algumas limitações em determinadas etapas deste processo e que não seja do conhecimento e habilidade do agricultor solucioná-las. Uma das entidades vinculadas aos preceitos da agroecologia, a Rede de Agroecologia Ecovida, relata que “enquanto estratégia de fortalecimento da agricultura familiar, a agricultura ecológica é o começo de um processo de grandes mudanças que deverão acontecer nos próximos anos”. Tais mudanças são visíveis na base produtiva das propriedades, com incorporação de técnicas e métodos diferenciados, como também, “mudanças nas formas de organização dos agricultores para que possam superar e avançar as barreiras da comercialização e industrialização” (SÍTIO DIGITAL ECOVIDA). Tais princípios e conceitos embutidos na agroecologia se sustentam não somente pela percepção do agricultor em se opor e resistir aos demais modelos convencionais, mas também pela crescente demanda de consumidores por alimentos saudáveis e puros, sem a inclusão de qualquer componente tóxico, em razão à melhor qualidade de vida e preservação do meio ambiente, ou seja, produtos ecológicos. É considerado também, o forte vínculo já existente entre esses produtos e o mercado externo através das exportações, onde se percebe além da venda apenas da matéria prima, um novo estímulo às demandas de produtos finais como geléias, sucos de frutas, café solúvel, frutas desidratadas, entre outros. No entanto, esses produtos têm
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    42 conquistado espaçotambém no mercado interno. Sendo que um dos maiores motivos para esta constatação em relação aos produtos orgânicos, é que “a diferença de preço em relação ao convencional é compensada pelo ganho na qualidade” (OLALDE et. al, 2003, p. 46). Torna-se cada vez mais significativa a demanda por gêneros diferenciados, ao que Veiga (1999) denomina de “mercado de qualidade”, cabendo aos produtos que não contenham insumos químicos ou tóxicos em sua composição, bem como o respeito causado ao meio ambiente, o destaque merecido. O mercado dos produtos ecologicamente diferenciados, como os alimentos orgânicos ou “bio” como são denominados na Europa, movimenta atualmente US$ 20 bilhões no mundo, crescente a uma taxa superior a 20% ao ano (OLALDE et. al, 2003). Segundo a EPAGRI, em um de seus Projetos do Programa de Desenvolvimento Rural, onde busca fomentar a agroecologia, expõe que o Brasil é o segundo país com o maior número de lavouras orgânicas no mundo, contando com 19 mil agricultores brasileiros produzindo orgânicos, sendo que 70% são pequenos produtores familiares. Em Santa Catarina, desde 1996, o némero de associações ou grupos de agricultores orgânicos, têm superado mais de 60 entidades formais e informais, associações, cooperativas que reúnem mais de 2.000 famílias. A comercialização de produtos ecológicos, destinada a um público específico, com perfis diferenciados, é considerada um dos maiores potenciais de mercado nos dias de hoje. O que nos faz, junto a um estudo entre agricultor - produto - consumidor, atuar para tornar esse potencial em uma real oferta exigida pelo mercado e seus integrantes. Mantendo constantemente os princípios iniciais da agroecologia, “visando promover uma reestruturação profunda no modelo de organização no processo de produção, de distribuição e de consumo desses produtos, como parte de um processo mais amplo de construção de uma nova sociedade” (OLALDE et. al, 2003, p.30). Os perfis desses consumidores têm sido cada vez mais estudados e observados, a fim de identificar as principais razões de consumo, como também mapear os locais de compra e comercialização desse segmento de produtos. Objetivos estes propostos pelo
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    43 Instituto CEPA/SCjunto a CEPAGRO, no ano de 2003 quando promoveram uma pesquisa a respeito da comercialização e consumo de produto agroecológicos da Grande Florianópolis. Quanto à pesquisa, inúmeros dados relacionados ao próprio produto foram levantados, quais os locais de venda; o grupo de produtos mais procurados; a origem dos produtos em relação à estrutura produtiva; a procedência dos produtos; a forma de divulgação; as formas de garantia do produto; as principais razões para a comercialização; nível de satisfação dos estabelecimentos com a venda. Dados relacionados ao consumidor também foram observados como: critério de compra; grau de instrução e de renda; principal atividade ocupacional; periodicidade em que consome; as principais razões para o consumo; o nível de satisfação e o maior problema com relação à oferta. Os resultados da pesquisa, além de reafirmar a unanimidade da crescente tendência e a satisfação de mercados direcionados à comercialização de produtos agroecológicos, puderam considerar outras informações como a falta de regularidade na oferta; a exigência quanto à garantia e autenticidade dos produtos adotando como critério a certificação seja por selos ou relações de confiança; a tendência no consumo variado de produtos não mais somente o grupo das hortaliças; a insatisfação a respeito do alto valor dos produtos; e a necessidade de obter maiores informações sobre os produtos ecológicos. Reafirmando os resultados da pesquisa, Mattos e Borguini, citados por Olalde et. al (2003), participaram de uma importante revisão das pesquisas disponíveis no Brasil durante os anos de 1992 a 1999, onde listaram alguns pontos em comum: 1. o consumidor tem com principal motivação a preocupação com sua saúde e de sua família; 2. a maioria dos consumidores estão dispostos a pagar um preço mais elevado pelos alimentos orgânicos; 3. parcela expressiva dos consumidores não tem consciência clara do significado da agricultura orgânica; 4. muitos consumidores gostariam de contar com uma oferta mais diversificada de alimentos orgânicos, tanto em relação à variedade de produtos como de postos de venda.
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    44 A principalconclusão desta revisão foi a carência na abrangência do potencial de consumo desses produtos no mercado nacional e até internacional, sendo esta, uma visível demanda para a intervenção de diferentes áreas profissionais. Essas e demais pesquisas que surgem em relação a este segmento de produtos, junto ao seu grupo consumidor, são essenciais para a verificação de potencialidades e cada vez mais, para a expansão dos grupos de agricultores agroecológicos, construindo um espaço agrícola cada vez mais coerente com os princípios da própria agroecologia, de ética, de sociabilidade e de cooperação. É compreensível que muitas foram as ações e estratégias para a expansão desse conceito, desse princípio, desse modelo de produção fomentado pela agroecologia. Diversas organizações e instituições atualmente encontram-se ligadas de alguma forma, à agricultura orgânica, como a AAO – Associação de Agricultura Orgânica em São Paulo, a EMATER - Associação Riograndense de Empreendimentos de Assistência Técnica e Extensão Rural, no Rio Grande do Sul, e as cooperativas de diversos Estados, como o caso da Rede de Agroecologia Ecovida, abrangendo os Estados de Santa Catarina, Paraná e Rio Grande do Sul. No entanto, fazendo parte de um contexto muito maior, onde são sustentadas as diversas dimensões, como políticas, econômica, sociais, ambientais e culturais, esses grupos de agricultores, de consumidores e demais agentes atuantes, estão vinculados ao próprio processo de alterações e de evoluções que o ambiente em que vivemos, se defronta ao longo dos anos. É nestas constantes transformações do ambiente social em que nos encontramos que permeia os questionamentos da própria população, como cidadãos, representados por uma parcela significativa deste processo, e muito mais além, como sujeito do seu próprio desenvolvimento. Este reconhecimento dos cidadãos em serem considerados parte integrante deste processo, aprovando a importância de suas ações e responsabilidades, bem como a valorização do fenômeno cultural das sociedades, enfatizado pelo capital social,
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    45 são cadavez mais abordadas e absorvidas pelos poderes públicos. No entanto, este reconhecimento se deu ao longo de um enorme e constante debate que se encontra ainda em andamento, a respeito dos modelos de desenvolvimento difundidos conforme os preceitos daqueles de maior autoridade e o contexto histórico vivido pelos mesmos. 2.7. Concepções sobre Desenvolvimento O processo histórico de construção do pensamento sobre o tema desenvolvimento, tem emergido por diversas concepções distintas, podendo ser abordadas basicamente por duas de suas correntes: a primeira onde o desenvolvimento e crescimento econômico foram considerados sinônimos, onde o país é tido como de maior ou menor desenvolvimento conforme seu grau de crescimento econômico, e uma segunda onde não mais o crescimento econômico é uma condição única para o desenvolvimento e sim, uma condição indispensável, junto a outras tantas dimensões como as relações sociais, culturais, tecnológicas e ambientais (EID & PIMENTEL, 2005). Dentre essas duas correntes, voltadas às concepções sobre o desenvolvimento, muitas foram as contradições, os movimentos e os discursos para se chegar a um modelo mais realístico e ideal de desenvolvimento, que possa ser aposto a tantas peculiaridades e dependências de nosso país. Nesta verificação é relevante compreendermos de forma concisa, o curso desses discursos, bem como as circunstâncias e suas conseqüências ao longo dos anos.
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    46 2.7.1. DoDesenvolvimento Vigente a uma Nova Perspectiva O discurso referente ao modelo de desenvolvimento vigente, fundamentado no dinamismo de expansão e reprodução do sistema capitalista mundial, denominado por Vargas de “processo de globalização econômica, produtiva e financeira”, é amplamente favorável a inúmeros questionamentos e discussões ao longo dos anos. “As crescentes evidências do custo ambiental do desenvolvimento vigente, a crise ambiental, a queda da renda agrícola, a superprodução aliada à má distribuição de alimentos (decorrentes das novas relações econômicas internacionais), as ‘rupturas recentes’ (demográficas, do modelo de agricultura familiar, a dissociação entre agricultura, território e meio ambiente), as insuficiências do pensamento clássico e dos debates contemporâneos acerca do desenvolvimento (anos 50 e 60) e a contribuição dos movimentos literários e civis pós-68, são ‘elementos decisivos’ no debate atual sobre esta questão” (NAVARRO apud VARGAS, 2001, p. 217). Seu primado econômico faz prevalecer, a pura e simples “produção pela produção”, atrelando a espécie humana ao processo mais geral de valorização do capital. A idéia-mestre, como cita Almeida (2001), do desenvolvimento inspirado nas sociedades ocidentais propondo modelos para o conjunto do mundo, residia no “paradigma do humanismo ocidental”, ou seja, na compreensão de que o desenvolvimento sócio-econômico é provocado pelos avanços técnico-científicos, assegurando ele próprio o crescimento e progresso das virtudes humanas, das liberdades e dois poderes dos homens. Afirmando que o sócio-econômico encontra-se voltado necessariamente para a construção do futuro. Outra forte atitude deste modelo de desenvolvimento é que ele se impõe como universal, como um bem para todos, sendo aplicado de forma uniforme, propagando-se a diferentes meios e situações, onde todos são julgados por um modelo único de
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    47 modernização, eque contrapartida, desencadeia um enorme descontentamento dos países “subdesenvolvidos” por serem julgados “em atraso”, conforme padrão dos países “desenvolvidos”. Em contrapeso a esta imposição única e universal do modelo de desenvolvimento vinculado à sociedade, Rodriguéz (1997) aborda seis níveis conceituais referentes aos modelos de desenvolvimento, sucedidos pela análise teórica do desenvolvimento a partir dos anos 60, sendo eles: 1. Modelo Convencional: (citado até o momento) desenvolvimento econômico de nível técnico-econômico. Reduz-se a fenômenos parciais definidos por variáveis micro e macro-econômicas. Recursos naturais como demandas produtivas. Maximiza a geração de renda. 2. Modelo Convencional Ampliado: desenvolvimento econômico e social de nível social. Adicionam-se componentes sociais, e garantem formas mais ou menos equilibradas da assimilação da renda gerada. 3. Modelo da Dependência: de nível político. Adicionam-se as variáveis de poder e as relações de dominação. 4. Modelo de Desenvolvimento Humano: novo desenvolvimento de nível axiológico. Implica no desenvolvimento do homem integral ou vital e amplia a gama de opções das pessoas. 5. Modelo de Ecodesenvolvimento: de nível ecológico. Adquire as consciências dos limites do meio ambiente. Favorece uma maior racionalidade sócio-ambiental para o manejo de recursos e do espaço, buscando um maior controle democrático e a participação popular nas decisões. 6. Modelo de Desenvolvimento Sustentável: síntese conceitual dos níveis ecológicos e axiológicos. Centrado na dimensão humana, em criar condições sustentáveis referidas a dimensão social, a qualidade de vida e a dinâmica natural. Gestão ao longo prazo da natureza. Acredita-se que o surgimento de um novo modelo de desenvolvimento, estará sustentado ao nível axiológico, ou seja, centrado no desenvolvimento humano,
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    48 orientado àsatisfação de suas necessidades, elevando a qualidade de vida, operando nas demais dimensões sociais, culturais, econômicas e ambientais. Sua preposição básica se dará pela eficiência econômica, eficácia social e ambiental, implicando na expansão ou realização de potencialidade, almejando, gradativamente, um estado melhor, maior e mais pleno (CAVALVANTI, 1997). Acredita-se por fim, que “o desenvolvimento requer não só a criação e reprodução do capital econômico, mas também do capital humano (conhecimento, habilidades e competências) e do capital social (confiança, cooperação, empoderamento, organização e participação social)” (PÁDUA, 2003). Esta busca por um novo modelo de desenvolvimento intensifica durante as décadas de 60 e 70, quando problemas relacionados à exploração desenfreada dos recursos naturais e a degradação ambiental com caráter global, aprofundou a consciência ecológica em muitos segmentos da sociedade, originando o que foi reconhecido por movimento ambientalista. Sendo este, considerado por muitos autores, como o primeiro movimento de abordagem da problemática social e ambiental do universo capitalista, trazendo elementos indicativos acerca das perspectivas da evolução futura. (MONTIBELLER FILHO, 2001). Neste contexto, a humanidade percebe as contradições do mundo moderno, tomando consciência de que o processo de desenvolvimento vigente, caracterizado por um processo de modernização – ocidentalização, com base na homogeneização, destrói e/ou moderniza as sociedades tradicionais. (BECKER, 2001). O referido autor, ainda cita que a sociedade foi construída ao lado do uso massivo de recursos naturais, onde se acreditava que o processo de desenvolvimento era livre de barreiras naturais. A natureza era mantida como objeto, um recurso a ser explorado, “o próprio processo de exploração geraria as condições autoreguladoras e reestabelecedoras do ”equilíbrio”.
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    49 Este padrãode consumo estruturava-se sobre a suposição economicista de que a capacidade criativa humana geraria os conhecimentos numa velocidade compensatória dos estragos causados pelo processo produtivo à natureza. No entanto, logo ficaram evidentes as disfunções e evidências contrárias deste padrão, gerando o descontentamento com esta modernidade. O movimento ambientalista tem como distinção sua multissetoriedade, fruto da preocupação oriunda de uma série de atores e processos, como organizações e grupos de proteção ambiental, agências governamentais, cientistas, gestores de recursos e processos produtivos, entre outros. Leis e D’Amato, citados por Montibeller-Filho (2001), definem por esta característica predominante, cada década da evolução do movimento: os anos 50 são vistos como os do ambientalismo dos cientistas, pois é pela via da ciência que emerge a preocupação ecológica em âmbito mundial; a década de 60 caracteriza-se pelas organizações não-governamentais; a década de 70 é da institucionalização do ambientalismo, marcado pela Conferência de Estocolmo-72 sobre o meio ambiente, a qual evidenciou a preocupação do sistema político e da Igreja Católica; a década de 80 é marcada pela Comissão de Brundtland (1987), onde publicou, como texto preparatório à Conferencias das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente (Eco-92), o seu Relatório “Nosso Futuro Comum”, no qual sintetiza o conceito de desenvolvimento sustentável; a década de 90 caracteriza pela entrada do setor empresarial que valoriza ou impõe ao produtor o cuidado ambiental. O autor encerra ao adotar o movimento “de grande iniciativa e capacidade de ação ética e comunicativa, que o habilita para se constituir um eixo civilizatório fundamental na direção de uma maior cooperação e solidariedade entre nações, povos, culturas, espécies e indivíduos” (p. 37). Com vista à necessidade de uma conjuntura em diversas dimensões da sociedade, não somente quanto à questão ambiental, Illich citado por Rampazzo (2001), afirma:
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    50 “A criseecológica é apenas uma das facetas de uma crise mais geral da sociedade industrial, englobando a crise social, econômica, político-ideológica e moral. Essa crise não atinge apenas os paises subdesenvolvidos (ou em vias de desenvolvimento), como também atinge de forma aguda as nações industriais avançadas, crescentemente dilaceradas por uma polarização social, econômica e política que parece indicar uma exaustão histórica desse modelo de desenvolvimento” (p.176). Entre as décadas de 80 e 90, é registrado o início de uma mudança no movimento ambientalista, pois todos os interesses pelos problemas ecológicos não estavam vinculados ao tema do desenvolvimento socioeconômico: “economia e ecologia eram percebidas como realidades antagônicas”. Considerava-se agora, não mais exclusivamente a perspectiva da proteção ambiental, mas sim esta em relação ao desenvolvimento (MONTIBELLER FILHO, 2001). A preocupação com a preservação do meio ambiente conjugada com o desenvolvimento socioeconômico em prol da melhoria das condições socioeconômicas da população fez surgir o conceito de ecodesenvolvimento, o qual parte da crítica à visão economicista e ao desenvolvimentismo, ou seja, à visão unilateral da realidade, onde não considera as demais dimensões, enfocando somente a produção e a produtividade econômica, embasada apenas no crescimento da economia, e na falta de consideração dos aspectos sociais e ambientais (MONTIBELLER FILLHO, 2001). O conceito de ecodesenvolvimento buscou constituir um novo paradigma ou padrão normativo de compreensão da realidade complexa e mutante, abordando seus fenômenos sociais e ambientais no mesmo grau dos econômicos, com a premissa de respeitar os ecossistemas locais e avocar a participação ativa e consciente dos diversos atores envolvidos no desenvolvimento. Ignacy Sachs foi quem formulou os princípios básicos dessa nova visão do desenvolvimento, quais sejam: 1. a satisfação das necessidades básicas; 2. a solidariedade com as gerações futuras; 3. a participação da sociedade envolvida; 4. a
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    51 preservação dosrecursos naturais e do meio ambiente em geral; 5. a elaboração de um sistema social garantindo emprego, segurança social e respeito a outras culturas; programas de educação (CAVALCANTI, 1995). Ainda citado por Montibeller-Filho (2001), Sachs afirma: “Trata-se de gerir a natureza de forma a assegurar aos homens de nossa geração e de gerações futuras a possibilidade de se desenvolver” (p. 45). Relata ainda que o ecodesenvolvimento pressupõe a solidariedade e o comprometimento sincrônico, ou seja, o desenvolvimento voltado às necessidades fundamentais da população atual, e a solidariedade e o comprometimento diacrônico, o cuidado de preservar o meio ambiente a as possibilidades de reprodução da vida com qualidade às gerações futuras. Possui como dimensão essencial, a dimensão cultural, evocando um novo estilo de vida e caracterizando-se como um projeto de civilização. Neste âmbito, Sachs elabora o que denomina de “cinco dimensões da sustentabilidade do ecodesenvolvimento” ou seja, elabora requisitos para que se possa manter a sustentabilidade deste novo modelo de desenvolvimento, sendo elas: 1. Sustentabilidade Social: o processo deve se dar de maneira que reduza as diferenças sociais, “abrangendo todo o espectro de necessidades materiais e não-materiais”. 2. Sustentabilidade Econômica: “defini-se por uma alocação e gestão mais eficientes dos recursos e por um fluxo regular de investimentos público e privado”. 3. Sustentabilidade Ecológica: compreende o uso dos potenciais inerentes aos ecossistemas, compatível com sua deterioração. Implica em obedecer ao ciclo temporal da natureza e na preservação das fontes de recursos energéticos e naturais. 4. Sustentabilidade Espacial/Geográfica: pressupõe evitar a excessiva concentração geográfica de populações, na busca equilibrada da relação entre cidade/campo.
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    52 5. SustentabilidadeCultural: buscar a pluralidade de soluções particulares, que “respeitem as especificidades de cada ecossistemas, de cada cultura, de cada local”. Rodriguéz (1997), referente à questão, acrescenta por último, a sustentabilidade tecnológica, onde promove a implantação de técnicas mais limpas, adequadas, de baixa porcentagem de resíduos e eficientes no uso de recursos. Com o contíguo propósito e o intuito de garantir o vigor e a precisão desta nova perspectiva de desenvolvimento, cerca de duas décadas atrás, se difundiu outro termo relevante para as discussões: o termo desenvolvimento sustentável, o qual foi utilizado pela primeira vez pela União Internacional pela Conservação da Natureza - IUCN, em 1986, tendo como princípios: 1. integrar a conservação da natureza e desenvolvimento; 2. satisfazer as necessidades humanas fundamentais; 3. perseguir eqüidade e justiça social; 4. buscar a autodeterminação social e respeitar a diversidade cultural; 5. manter a integridade ecológica. A partir da relação entre os requisitos elaborados por Sachs e os princípios abordados pelo desenvolvimento sustentável, Montibeller-Filho (2001) apresenta uma tabela onde cada uma dessas dimensões sintetiza seus componentes e seus objetivos de forma a alcançar o conjunto da sustentabilidade, com o cumprimento simultâneo de seus requisitos, atingindo assim, o desenvolvimento. DIMENSÃO COMPONENTES OBJETIVOS Sustentab. Social -Criação de postos de trabalho que permitem a obtenção de renda individual adequada (à melhor condição de vida; à maior qualificação profissional) -Produção de bens dirigida prioritariamente às necessidades básicas sociais. Redução das desigualdades sociais.
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    53 Sustentab. Econômica -Fluxo perante de investimentos públicos e privados (com destaque para o cooperativismo) -Manejo eficiente dos recursos -Absorção dos custos ambientais -Endogeinização: contar com suas próprias forças Aumento da produção e da riqueza social, sem dependência externa. Sustentab. Espacial/ Geográfica -Desconcentração espacial (de atividades e população) -Desconcentração/democratização do poder local e regional -Relação cidade/campo equilibrada Evitar excesso de aglomerações. Sustentab. Cultural -Soluções adaptadas a cada ecossistema -Respeito à formação cultural comunitária Evitar conflitos culturais com potencial regressivo. Sustentab. Ecológica -Respeitar os ciclos dos ecossistemas -Prudência no uso de recursos naturais não renováveis -Prioridade à produção de biomassa e à industrialização de insumos naturais renováveis -Redução da intensidade energética e conservação da energia -Tecnologias e processos produtivos de baixo índice de resíduos -Cuidados ambientais Melhoria da qualidade do meio ambiente e preservação das fontes de recursos energéticos naturais para as próximas gerações. Tabela 1. As cinco dimensões do desenvolvimento sustentável. Fonte: Montibeller-Filho (2001).
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    54 É nadifusão destes termos, que inúmeros autores buscam defini-los e inseri-los na sociedade, na forma de possibilitar o nascimento deste novo modelo de desenvolvimento ou de organização social que tenha uma base social, econômica, cultural e ambiental mais sustentável. Neste contexto onde se busca atingir níveis superiores e mais desejáveis a cerca das dimensões apresentadas, Almeida (2001) afirma que o próprio desenvolvimento sustentável tem como premissa a “insustentabilidade” ou inadequação econômica, social, cultural e ambiental das sociedades contemporâneas. Em relação à união e integração dessas dimensões Muller (2001), cita que “O desenvolvimento sustentável diz respeito a uma sociedade ser capaz de manter, no médio e no longo prazos, um circulo virtuoso de crescimento econômico e um padrão de vida adequado. Não se trata de abolir os ciclos econômicos com suas flutuações, mas de manter expectativas, com realizações, de melhoria continua do padrão de vida” (p.130). Referente ao assunto, Rodriguéz (1997) argumenta que o “o desenvolvimento pode ser concebido basicamente como um processo de mudança estrutural, global e contínua de liberação individual e social que tem como objetivo satisfazer as necessidades humanas, iniciando pelas básicas e aumentar a qualidade de vida das gerações presentes e futuras” (p.51). Podemos ainda abordar a questão de que o Desenvolvimento Sustentável caracteriza-se pela gestão e administração dos recursos e da orientação das mudanças tecnológicas e institucionais. É a reorganização das relações essenciais da sociedade e a redefinição das ações a serem tomadas pelo governo, empresas, organizações, instituições de pesquisa e de ensino. Montibeller-Filho observa o seguinte: “é desenvolvimento porque não se reduz a um simples crescimento quantitativo; pelo contrário, faz intervir a qualidade das relações humanas com o ambiente natural e a necessidade de conciliar a evolução dos valores
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    55 socioculturais coma rejeição de todo o processo que leva à deculturação. É sustentável porque deve responder à equidade intrageracional e à intergeracional3 Após todo este esforço em alcançar o nível desejado para a concepção do desenvolvimento sustentável, bem como compreender suas implicações e limitâncias, muitos ainda, são os questionamentos a respeito da existência de diferentes modelos de desenvolvimento, bem como da universalidade de sua implantação, ou seja, tem-se compreendido os diferentes requisitos, necessidades e especificidades de cada região ou localidade em relação às dimensões tratadas pela sustentabilidade, o que necessita desta forma, a predominância de um modelo de desenvolvimento e ações sustentáveis cabíveis e potenciais a essa mesma região ou localidade. É neste contexto, que vem sendo introdizido o mais recente paradigma do desenvolvimento, ou seja, o Desenvolvimento Local, voltado para o planejamento de situações particulares de forma participativa sustentado pelos pilares do capital humano, capital social, capital produtivo e capital natural. Uma das principais características desta passagem de século, por parte do resultado do aprimoramento democrático na maioria dos países e por parte da crise do Estado centralizador, tem sido a descentralização, fazendo com que governos locais, empresas, organizações não governamentais e entidades passem a assumir funções e responsabilidades antes consideradas típicas do governo central. (BAIARDI, 2003). Esta mudança política-social iniciou nos anos 80, onde o Estado intensificou o debate voltado à municipalização como forma de descentralização do poder estatal. Esse processo se deu através de uma reforma na política fiscal, com a instituição do Fundo de Participação dos Municípios, e através das transferências aos municípios, das políticas que eram coordenadas e/ou executadas pelos governos estaduais e federais (EID & PIMENTEL, 2005). 3 Termos utilizados para se referir às gerações atuais (intrageracional) e gerações futuras (intergeracionais).
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    56 Esta constataçãotem promovido atualmente, o debate envolto ao desenvolvimento em suas distintas dimensões como abordado anteriormente, com enfoque nas possibilidades da gestão local para o desenvolvimento, ou seja, referenciando a idéia de território e territorialidade com base no desenvolvimento local, pronunciando a crescente compreensão do espaço junto às ações humanas, reaproximando assim, o homem, enquanto espécie, do seu próprio desenvolvimento, De forma a compreendermos o âmbito do desenvolvimento local, é relevante reconhecermos os seus elementos e suas terminologias, como território, territorialidade e local. Quanto ao termo território, Albagli (2004), o define como o espaço apropriado por um ator, ao mesmo tempo em que é considerado o produto da intervenção e do trabalho de um ou mais atores sobre um determinado espaço. A autora ainda relata que a noção de território tem sido analisada sob diversas perspectivas (geográfica, antropológica, sociológica, econômica, política, bioecológica), até porque este termo, vincula-se a uma variedade de dimensões, tais como: § Dimensão física: características e propriedades físicas específicas e recursos naturais. § Dimensão econômica: formas de organização dos processos de produção, de consumo e de comercialização, capacidade competitiva e de rentabilidade e capacidade de absorção de inovações. § Dimensão sócio-política: meio para interações sociais, modos de estruturação, organização e gestão do território. § Dimensão simbólica: conjunto específico de relações culturais e efetivas entre um grupo, formação da identidade individual e coletiva, sentimento de pertencionismo e atributos humanos (conhecimento, arte, moral, capacidade, hábitos, costumes, crença). O termo territorialidade refere-se justamente às relações entre os indivíduos ou atores e seu meio de referência, seu espaço habitado, manifestando nas várias escalas, como uma localidade, uma região ou um país, expressando um sentimento de
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    57 pertencionismo daqueledeterminado espaço geográfico. Caracterizada como atributo humano, por evidenciar e reforçar a identidade de um grupo, a territorialidade é condicionada por normas sociais e valores culturais e principalmente pela interação e pelo comportamento deste mesmo grupo frente a um referencial. O conceito de território e territorialidade, abordado por Gehlen & Riella (2004), além de referir a um recorte ou limite geográfico, inclui a noção de patrimônio sociocultural, e a necessidade de mobilização dos recursos e das competências humanas, através de atribuições de responsabilidades sociais, por meio de processos participativos. Essa mobilização induz à redinamização do território, através de novas modalidades de integração e de valorização dos recursos, da população local e dos produtos locais, como componente do patrimônio sociocultural coletivo. É nesta redinamização que se vincula o desenvolvimento local, voltado para o reconhecimento do potencial da população local em prol da gestão coletiva e de seu próprio desenvolvimento. Quanto ao termo local, Eid & Pimentel (2005), contemplam três dimensões para os seus inúmeros significados: 1. econômica, pela localização das atividades econômicas e sociais; 2. sociológica, pelo espaço cotidiano de interação social; 3. antropológica e cultural, pela identificação de sujeito com o espaço habitado. Albagli, citada pelos autores, relata também a sua análise quanto aos diferentes aspectos na construção do conceito deste termo: 1. tamanho/dimensão local, associando-se ao conceito de escala; 2. diferenciação e/ou especificidade do local; 3. grau de autonomia do local; 4. nível de análise e de complexidade do local. No entanto, fica-se evidente as semelhanças nos significados desses termos (território, territorialidade, local), bem como na referência dada à dimensão espacial, à singularidade do espaço contemplado e de seus elementos de identidade, que o distingue e que se expressam em termos sócio-econômicos, políticos, físico-geográfico e étnicos-culturais próprios e particular do seu desenvolvimento. Quanto aos ensaios para uma definição do desenvolvimento local, Paulo Jesus, citado por Eid & Pimentel (2005), caracteriza-o como:
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    58 “um processoque mobiliza pessoas e instituições buscando a transformação da economia e da sociedade locais, criando oportunidades de trabalho e de renda, superando dificuldades para favorecer a melhoria das condições de vida da população local. (...) se trata de um esforço localizado e concentrado, isto é, são lideranças, instituições, empresas e habitantes de um determinado lugar que se articulam com vistas a encontrar atividades que favoreçam mudanças nas condições de produção e comercialização de bens e serviços de forma a proporcionar melhores condições de vida aos cidadãos e cidadãs, partindo da valorização e ativação das potencialidades e efetivos recurso locais” (p. 126). O Projeto Política Nacional de Apoio ao Desenvolvimento Local, realizado pelo Instituto Cidadania, relata o desenvolvimento local consiste na possibilidade de adaptar, com flexibilidade, distintas formas de desenvolvimento à ampla diversidade existente no país, evitando a irracionalidade que resulta das soluções rígidas e padronizadas. Trata-se de equilibrar e combinar com bom senso as necessidades populacionais, ambientais e produtivas, articulando crescimento econômico com inclusão social, elevação de qualidade de vida e sustentabilidade ambiental” (Documento de Apresentação do Projeto). Ao enfatizar o desenvolvimento local, suscita-se a uma nova tendência do fortalecimento do poder local, do empoderamento e da pré-atividade das comunidades, bem como das transferências de responsabilidades por parte do governo central, vindo a promover a passagem das megadecisões, das macropolíticas, dos grandes projetos de desenvolvimento predominantes, para uma crescente participação das microdecisões, das micropolíticas e dos pequenos projetos, que levarão/levam à definição e constituição de múltiplos modelos e múltiplas formas de inserção de cada conjunto no processo geral de transformações e de desenvolvimento (BECKER, 2001). Quanto ao assunto o autor ainda comenta que “cada localidade, municipalidade, sub-região, região poderá e deverá optar por um processo de desenvolvimento que respeite seus valores e recursos específicos e melhor lhe oportunize participar do processo mundial de desenvolvimento” (p.63), afirmando dessa forma, a inexistência de
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    59 um únicomodelo, mas sim inúmeros modelos de desenvolvimento decorrentes das formas de organização e estruturação de cada espaço da sociedade. O que tende a ser verdade, devido à dependência que o desenvolvimento local enfrenta frente a seus próprios pilares de sustentação: o capital humano (segundo as redes de atores locais e suas características protagonista e de empoderamento), o capital social4 (segundo um conjunto de recursos reais ou potenciais, instituídos pelas relações de confiança, cooperação organização e participação local para um benefício mútuo), o capital produtivo (segundo a capacidade competitiva e inovativa de suas potencialidade, vocações, oportunidades e vantagens), e por fim, o capital natural (segundo seus recursos naturais disponíveis). Abromovay (1999), ao tratar a questão do desenvolvimento local e agricultura familiar, discute a construção de uma nova dinâmica territorial, a partir de uma política ativa da sociedade e do Estado a fim de alterar a matriz com base na qual os indivíduos irão inserir-se socialmente, dependendo não apenas da iniciativa e da transferência de recursos por parte do Estado, mas fundamentalmente da mobilização das próprias forças sociais interessadas na valorização do meio rural: é daí que poderão nascer as novas instituições capazes de impulsionar o desenvolvimento dessas regiões, desses territórios, estimulando a formulação descentralizada de projetos capazes de valorizar os atributos locais e regionais no processo de desenvolvimento. É dessa mobilização local, da articulação dos diversos agentes locais com suas relações externas perante a sociedade local até mundial, que Sachs citado por Becker (2001), ressalta a característica predominante deste novo paradigma do desenvolvimento. Trata-se pois, “de ajudar a sociedade civil a tornar-se o terceiro sistema do poder, a tomar consciência do seu papel para vir a ser uma entidade por si mesma, a começar a ter voz própria, a impor suas opções plurais; em resumo, reequilibrar a seu favor a relação de forças perante o Estado e as instituições que dominam a vida 4 Para um maior aprofundamento sobre o assunto, pesquisar outros autores como Pierre Bourdieu, James Coleman, Robert Putnam.
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    60 econômica, sejamelas privadas ou públicas. Isto porque uma constatação banal e não obstante essencial salta aos olhos: o desenvolvimento só se pode manifestar lá onde vivem as pessoas, isto é, localmente” (p. 82,83). Tão importante e necessário quanto à mobilização e o estímulo em prol da participação e comprometimento dos próprios indivíduos de uma localidade, é o reconhecimento enquanto patrimônio, de seus bens culturais, considerados de grande acuidade para a história e para a memória social daquela localidade, como também, objetos de grande interesse de diferentes áreas. Retomando o sentido de patrimônio, como o conjunto de referências compartilhadas, a Legislação Brasileira, partindo do pressuposto que esses bens são um ativo que reflete atributos múltiplos da identidade brasileira, passou a incluir, além dos patrimônios culturais materiais (representados por documentos, edificações, obras de arte, áreas naturais entre outros), os bens denominados “patrimônios imateriais”, assim entendidos como “as formas de expressão e os modos de criar, fazer e viver” (Brasil, Constituição de 1988), profundamente enraizados no passado e na experiência adaptativa de sobrevivência das diferentes localidades (CABRAL, 2004). Conforme o Decreto de 2000, esses bens de natureza imaterial foram contemplados em quatro categorias: 1. saberes: conhecimentos e modos de fazer enraizados no cotidiano das comunidades; 2. celebrações: rituais e festas que marcam a vivência coletiva do trabalho, da religiosidade, do entretenimento e de outras praticas da vida social; 3. formas de expressão: manifestações literárias, musicais, plásticas, cênicas e lúdicas; 4. lugares: mercados, feiras, santuários, praças e demais espaços onde se concentram e reproduzem praticas culturais coletivas (ARANTES, 2004). Na terminologia adotada pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO, um dos organismos promotores da salvaguarda desses patrimônios, esses bens culturais correspondem ao chamado “patrimônio intangível”, definido como “as práticas e representações – acompanhadas dos necessários conhecimentos, habilidades, instrumentos, objetos, artefatos e lugares –
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    61 sendo reconhecidosenquanto patrimônio pelas comunidades e pelos indivíduos, sendo coerente com os direitos humanos e os princípios universalmente aceitos da equidade, de sustentabilidade e de respeito mutuo entre as comunidades culturais (ARANTES, 2004). Nesta perspectiva referente à devida contemplação e reconhecimento desses bens culturais, Baiardi (2003) argumenta da necessidade de ir além do desenvolvimento tradicional, buscando um processo de planejamento endógeno, específico e particular ao território em questão, que se fundamenta nas potencialidades locais advindas da própria cultura, do saber popular, da economia popular, das experiências de vida, das estratégias de sobrevivência e das redes de solidariedades. É no comprometimento e na participação não somente dos agentes envolvidos, mas também da sociedade em prol de seu desenvolvimento, que inúmeras experiências têm promovido o desenvolvimento local em nosso país, alcançando a exposição de leis, planos, programas, projetos sociais e ações inovadoras, mesmo percebendo-se uma forte limitante na escala de operação das mesmas. Esta limitante, a qual dificulta a prática de muitos outros projetos, é caracterizada justamente pela premissa do desenvolvimento local, ou seja, pela efetiva participação da comunidade na definição e implementação de suas estratégias e ações de planejamento e desenvolvimento. A partir dessa constatação, tem percebido a prática de alguns desses agentes como Organizações não governamentais e outras entidades, em experimentar a implementação de abordagens participativas, com a devida especificidade, flexibilidade e criatividades nos distintos contextos locais, ou seja, buscar a utilização devida, de metodologias participativas a fim de integrar-se e possibilitar a integração de todos os envolvidos no processo, ressaltando o caráter protagonista de cada indivíduo participante. Através da aplicação das diferentes metodologias participativas, como o Diagnóstico Rápido Participativo – DRP, (explanado na seqüência), os exercícios de
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    62 planejamento, experimentaçãoe monitoramento, têm claramente proporcionado às entidades que o conduzem, a darem maiores continuidades às suas ações, mantendo o envolvimento de todos os integrantes e socializando melhor os resultados e as informações (ROMANO & ALMEIDA, 1999). Petersen & Romano (1999), relatam que o desenvolvimento agrícola tem sido motivo de crescentes preocupações, sendo considerados alvos para o estudo e aplicações dessas metodologias participativas, com o enfoque estratégico no agricultor, como sujeito coletivo, como o gestor de seu próprio desenvolvimento. É o que justifica Weid, citado pelos mesmos autores: “os agricultores têm cultura, conhecimentos, habilidades, limitações, vontades, experiências, gostos e tendências além de condições materiais diversificadas” (p.59). Não considera-los como agentes ativos de todo o processo de desenvolvimento tem sido o equívoco gerador da maioria das frustrações dos projetos atuais. O processo de desenvolvimento com enfoque local, válido para os autores Petersen & Romano (1999), é aquele constituído pelas etapas do diagnóstico, passando pela identificação das propostas de intervenção, seu teste, avaliação e seu monitoramento permanente, onde o agricultor e demais agentes se apropriam dessas, adquirindo novos papéis e métodos, para encaminhar um desenvolvimento “humano e duradouro” (p.60). 2.8. Metodologias Participativas Conforme a proposta desta pesquisa, em verificar a realidade de um grupo de agricultores específicos, identificando possíveis demandas de competência e hanilidade do designer, será abordada uma das ferramentas participativas de grande importância
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    63 para oprocesso de desenvolvimento deste grupo: a etapa inicial do diagnóstico local, ou Diagnóstico Rápido Participativo como os autores acima mencionam. No entanto, o diagnóstico a ser aplicado nesta pesquisa, é um tanto menos complexo, pois abrange exclusivamente a identificação de possibilidades e oportunidades observadas no grupo de agricultores a fim de levantar demandas que possibilite a intervenção do designer, visto que os Diagnósticos Rápidos Participativos são direcionados às abordagens mais complexas e amplas, que visam a melhoria da qualidade de vida, da renda, das condições ambientais, da influência e efetivação no empoderamento comunitário, entre outras questões. São inúmeras as aplicações de diagnósticos em diversos projetos de diversos segmentos, no entanto, muitos deles ainda são realizados basicamente a partir da aplicação de questionários e preenchimentos de planilhas com o objetivo de obter numerosos dados quantitativos, o que lhes proporcionavam certos prejuízos devido, por exemplo, ao atraso no processamento dos dados (PETERSEN & ROMANO, 1999). A concepção dos diagnósticos, por parte da ineficiência dos métodos utilizados até então, vem evoluindo, permitindo entre outras coisas: § Levantar informações necessárias e suficientes para a análise dos agroecossistemas de forma a subsidiar o planejamento futuro; § Conseguir estas informações de forma rápida, barata e confiável, e § Que a análise dos problemas seja compartilhada com a comunidade de forma que esta se comprometa com o planejamento, com a implementação e, fundamentalmente com os resultados do projeto (PETERSEN & ROMANO,1999, p.61). O Diagnóstico Rápido Participativo tem como papel maior, mobilizar diferentes grupos de pessoas pertencentes a uma comunidade, promovendo uma comunicação dialógica entre todos os envolvidos de forma a constituir um ambiente de discussão e análise dos problemas, atuando sobre suas causas e não somente sobre seus sintomas, impulsionando aos diferentes grupos expressarem suas percepções sobre tais
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    64 problemas, resultandoem diferentes visões dos mesmos, porem enfrentando-os coletivamente. Como mencionado anteriormente, conforme o contexto cultural, econômico, social e ambiental em análise, para qualquer modelo de desenvolvimento exige-se muita flexibilidade, adaptação e criatividade, valendo o mesmo para o diagnóstico a ser conduzido. Nenhum Diagnóstico Rápido Participativo será igual a um outro, ele se distinguirá por seus integrantes, por sua atuação e comprometimento. Não tendo uma seqüência lógica de ações, pois os diagnósticos dependem preferencialmente da participação ativa de seus integrantes, os autores, para efeito didático, decompõem um DRP em um conjunto de passos, sendo eles: § Formação da equipe que conduzirá o diagnóstico: formada por técnicos que fomenta o diálogo e por representantes das comunidades. § Estudo dos dados secundários: reunião e sistematização das informações pré-existentes sobre o local. § Formulação das hipóteses de partida: percepção dos técnicos, sobre os problemas vividos pela comunidade com base nas informações de que dispõe. § Elaboração dos roteiros para as entrevistas e observações: lista de temas a serem explorados podendo ser reelaborada. § Levantamento das informações: através de entrevistas semi-estruturadas (a partir de uma série de técnicas), e observações. § Sistematização das informações: organização das informações coletadas, destinadas à análise coletiva. § Análise das informações: de forma coletiva, feita permanentemente após as hipóteses iniciais. § Restituição (ou devolução): debate com a comunidade a cerca dos resultados do trabalho, confirmando ou rejeitando-os. Parte párea a discussão das possíveis soluções para os problemas priorizados.
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    65 2.9. Abordagemdo Design “Design é a atividade consciente de combinar, de modo criativo, invenção tecnológica com inovação social, com o propósito de auxiliar, satisfazer ou modificar o comportamento humano”. (Alexandre Manu - Designer Romeno). Uma das necessidades primordiais, destes grupos de pequenos produtores, que contemplam os princípios do Desenvolvimento Local Integrado, já referenciada como uma de suas premissas é a participação e a interação voltada para o comprometimento e dedicação, entre diversos atores sociais que possam auxiliar e identificar possibilidades em seu sistema agrícola, suscitando em um conjunto de propostas e ações participativas, em busca do crescimento profissional, do fortalecimento da identidade do grupo e da qualidade de vida dos mesmos, inserindo-os no mercado competitivo, justificando desta forma, produtos de qualidade, bem apresentáveis e de retorno social e econômico viável. Neste âmbito, o profissional de Design, como mais um ator social em vista da qualidade e do bem estar de um território e de seus componentes, possui abertura e qualidades profissionais para intervir no sistema agrícola desses pequenos produtores a partir de alguns princípios e algumas vertentes nas quais abordam a gestão de um empreendimento e o desenvolvimento do mesmo. Para seguirmos a pesquisa, enfatizando a abordagem do Design inserida no meio rural, partiremos de uma breve contextualização desta atividade durante os anos,
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    66 tanto discutidae refletida, quanto pouco compreendida, devida à própria plenitude de suas atuações. A definição internacionalmente mais difundida do Design foi elaborada por Maldonado (1963) onde declara: “Design é uma atividade de projeto que consiste em determinar as propriedades formais dos objetos a serem produzidos industrialmente. Por propriedades formais entende-se não só as características exteriores, mas, sobretudo as relações estruturais e funcionais dos objetos”. Um tanto focada em apenas alguns parâmetros, tal definição abranda as demais percepções e desempenho da atividade do Design. No entanto, é importante salientar que esta atividade envolve um método criador e integrador, onde seus fundamentos conceituais advêm também das alterações globais, sendo constantemente moldada a tais complexidades e acontecimentos, e por isso, a complexidade em difundi-la a partir de um único conceito. Em contraposto à definição de Design acima, uma das principais organizações envolta à atividade do Design e de maior respaldo e reconhecimento, devido a sua abrangência expansionista a todos os continentes, com diversas entidades afiliadas, o ICSID – Conselho Internacional de Sociedades de Design Industrial, criado em 1957 com o intuito de promover a atividade do desenho industrial em nível internacional, buscou salientar o Design em 2000, a sua concepção holística e de uma forma mais abrangente, definindo-o como: “uma atividade criativa cujo propósito é estabelecer as qualidades multifacetadas dos objetos, dos processos, dos serviços e dos seus sistemas de ciclos de vida. Conseqüentemente, o Design é o fator central da humanização inovadora das tecnologias e o fator crucial das trocas culturais e econômicas. O Design trata de produtos, serviços e sistemas concebidos através de ferramentas, organizações e da lógica introduzidas pela industrialização – não somente quando são produzidos em série. O adjetivo 'industrial' associado ao design deve relacionar-se ao termo indústria, ou no seu sentido de setor produtivo, ou em seu sentido mais antigo de "atividade engenhosa, habilidosa". Assim, o design é uma atividade que envolve um amplo espectro de profissões nas quais produtos, serviços, gráfica,
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    67 interiores earquitetura, todos participam. Juntas, essas atividades deveriam ampliar ainda mais - de forma integrada com outras profissões relacionadas - o valor da vida. O design procura identificar e avaliar relações estruturais, organizacionais, funcionais, expressivas e econômicas, visando: 1. Ampliar a sustentabilidade global e a proteção ambiental (ética global); 2.Oferecer benefícios e liberdade para a comunidade humana como um todo, usuários finais individuais e coletivos, protagonistas da indústria e comércio (ética social); 3.Apoiar a diversidade cultural, apesar da globalização do mundo (ética cultural); 4.Dar aos produtos, serviços e sistemas, formas que expressem (semiologia) e sejam coerentes com (estética) sua própria complexidade". Dessa forma o termo designer se refere a um indivíduo que pratica uma profissão intelectual, e não simplesmente oferece um negócio ou presta um serviço para as empresas” (www.icsdi.org). Em relação às atuações do Design, podemos salientar que seu campo é bastante amplo, o que promove a viabilidade desta pesquisa, no entanto, cabe ressaltar aqui as competências e capacidades do profissional, assim como Victor Papanek listou em seu livro Arquitetura e Design: ecologia e ética (1997): 1. aptidão para investigar, organizar e inovar; 2. dom para descobrir as respostas adequadas aos problemas novos ou recém surgidos; 3. a habilidade para testar estas respostas através da experimentação, de modelos computadorizados, funcionamento de protótipos ou séries de testes reais; 4. prática para transmitir esse desenvolvimento através de desenhos, modelos, simulações e estudos de viabilidade, em vídeo ou filme, bem como através de relatórios verbais e escritos; 5. talento para combinar as rigorosas considerações técnicas da forma criada com a preocupação dos fatores sociais e humanos e da harmonia estética; 6. sabedoria para prever as conseqüências ambientais, ecológicas, econômicas e políticas provocados pelo design; 7. capacidade para trabalhar com pessoas de muitas culturas e áreas diferentes.
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    68 No entanto,embora compreendendo as habilidades do profissional, ainda são visíveis inúmeras controvérsias e discussões a cerca da origem do Design, não enfatizadas nesta pesquisa, porém, seus princípios ainda se encontram vinculados aos anseios da industrialização, onde seu comprometimento tem estado desde então atrelado exclusivamente à constante produtividade, com a preocupação em atender às exigências estético-formais e condições técnico-econômicas. No entanto, após longos estudos iniciados nos anos 60 e 70, por alguns designers, como Victor Papanek, perpetuou-se um novo propósito de Design, voltada para o desenvolvimento de produtos focado nas necessidades humanas, baseado na ética e respeito ao meio ambiente e à sociedade. Após a publicação do seu livro em 1972, Design for the Real World, Papanek lançou “a proposta dos designers assumirem um papel social construtivo e intervencionista em oposição às forças consumistas” (Martins & Couto, 2006). O referido designer, citado por Casagrande et. al (2006), ressaltava ainda “que a única coisa importante do Design é como ele se relaciona com as pessoas”. Já nos anos 80, uma nova perspectiva adere aos princípios do Design, com a introdução de uma consciência ecológica em seus processos, o que venho a ser reconhecido por Ecodesign. A definição precisa deste termo, segundo Manzini e Vezzoli (2002), é indeterminada, pois os dois campos que o compõe, design e ecologia, são amplamente vastos e cercados de indeterminação. Na tentativa de uma conceituação, os autores relatam que o ecodesign é uma das atividades do Design que visa ligar o tecnicamente possível com o ecologicamente necessário, fazendo “nascer novas propostas que sejam social e culturalmente apreciáveis” (p.20). Neste momento, os designers assumem um papel de interferência com o meio ambiente, priorizando a variável ambiental, tendo no pensamento ecológico, a base e vetor para as suas medidas e ações. Essa interferência do Design com o meio, segundo os autores, se dá por quatro níveis fundamentais:
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    69 § Oredesign ambiental de produtos existentes: considera o ciclo de vida dos produtos, promovendo a eficiencia (consumo de matéria e energia, reciclagem e reutilização de materiais); § Design de novos produtos que substituam os demais: inserção de novos produtos ecologicamente aceitáveis; § Design de novos produtos ecológicos: inserção de novos produtos socialmente apreciáveis pelos consumidores; § Propostas de novos cenários ambientais correspondentes a estilos de vida: desenvolvimento de atividades no plano cultural promovendo novos critérios de qualidade. Já praticados alguns desses níveis de interferência, constata-se que a atividade de Design não se limita apenas à variável ambiental e sim, a um conjunto de considerações à cerca das implicações relacionadas à dimensão ambiental, bem como das dimensões técnicas, econômicas, sociais, culturais junto a suas condicionantes. Ainda durante a década de 70 e 80, outros profissionais, como economistas e filósofos, buscam idéias para o desenvolvimento baseado nas particularidades das regiões, nas condições e potencialidades das localidades. Uma oportunidade indispensável, para a intervenção e o comprometimento das atividades do Design, mas que infelizmente só vem a ser disseminada anos mais tarde, como trata esta pesquisa. Em contraste à abordagem linear focada excepcionalmente, na solução de problemas, caracterizada pelo século XX, a mais recente constatação referente à atividade do Design perante as empresas e demais organizações, é que o Design vem sendo abordado como uma atividade gerencial por excelência, com base em um processo de planejamento estratégico, se afirmando como um importante diferencial competitivo. (Santos, 2000). Cabe aqui salientar, que o processo de Design focado na identificação de potencialidades e limitações a fim de gerar propostas por meio de processos participativos, está inserido em um contexto muito maior, ou seja, está vinculado à atividade de gestão que este processo demanda, ou propriamente dita, à Gestão do Design.
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    70 Cabe àgestão do design, processar as constantes informações técnicas/ particulares, as informações do mercado/consumidor, as informações estratégicas/competitivas, como também gerir os recursos humanos, materiais e naturais, durante todo o desenvolvimento, passando pela concepção até a comercialização de um projeto, enfatizando a idéia multi e interdisciplinar deste processo, avaliando as questões a nível estratégico, operacional e também social, sendo elas: administração empresarial, estrutura organizacional, sistematização da produção, planejamento ambiental, planejamento financeiro, planejamento de marketing, qualidade total e estratégias competitivas. Apresentando-se como mecanismo de integração dessas questões para uma postura social, ética e de competência com o processo da atividade em si. Esse novo propósito do Design surge de uma visão abrangente, onde leva em considerações preocupações humanas, o conhecimento tecnológico e científico, perspectivas históricas, políticas, econômicas e ambientais, não podendo ser reduzido a uma de suas partes constituintes, sendo concebido como um todo, caracterizado pela sua atuação holística. É nesta gama de conhecimento que o Design se atrela, que reside o seu maior reconhecimento: o da multidisciplinaridade e interdisciplinaridade, ou seja, de sua necessidade e capacidade de interação com demais áreas profissionais, muitas advindas de conceitos divergentes, porém na busca de um mesmo intento. No entanto, este processo de Design voltado a estas concepções deverá ser conduzido dentro de uma visão global, devido às condições e limitações existentes do mercado e do próprio meio, mas suas ações deverão agir à nível local, pois os mercados são locais, as exigências e as necessidades são individualizadas (Santos, 2000). Quanto ao assunto, Blaich citado por Santos (2000), define que o Design é a “ponte que liga e traduz diversas áreas de conhecimento, devendo estar na liderança desse processo, pensando globalmente e agindo localmente” (p.26). A partir dessas concepções, o Design vem ganhando espaço para ressaltar o seu forte papel no planejamento de um futuro responsável e o seu comprometimento com o
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    71 meio ecom a sociedade, por via de suas ações planejadas e de seus gestores capacitados e comprometidos. Através de suas diversas possibilidades de manifestações, bem como suas habilidades e competências, a atividade do Design, por meio de sua gestão e participação ativa em diferentes dimensões (sociais, econômicas, culturais, ambientais, mercadológicas), se destaca em prol do planejamento e do desenvolvimento local, tendo como responsabilidade, promover o desenvolvimento com base no fortalecimento sócio-econômico do meio em que se insere. Isto se dá, pelo fato da própria atividade de Design ser considerada um meio estratégico de discernir os diferenciais e anseios de uma determinada localidade e potencializar seu conjunto de bens culturais, seus saberes locais, proporcionando a identificação e valorização destes atributos representado a partir da concepção de produtos, artefatos ou serviços. Com o intuito de intensificar este reconhecimento do saber local, compreender as necessidades, limitações e potencialidades produtivas, naturais e culturais de uma determinada localidade, o Design ganha mais uma vez, espaço suficiente para intervir no desenvolvimento local, voltado à busca de um equilíbrio entre as particularidades locais e o mercado, para não somente buscar o prestígio deste reconhecimento, mas também, o incremento da renda familiar, subseqüente à melhoria de vida desta localidade. Neste âmbito, onde a questão mais atual e urgente que deve ser abordada pelos profissionais de Design é o seu comprometimento com as sociedades e com o meio, enfatizando a atividade do Design como um todo, onde se promove a ação de planejamento em suas diversas esferas e o desenvolvimento de projetos, é plausível a intervenção deste profissional, no meio em que esta pesquisa norteia, ou seja, no meio rural.
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    72 3. CAPÍTULOIII 3.1. Desenvolvimento do Estudo de Caso Como já citado anteriormente, a proposta desta pesquisa, é identificar as potencialidades e oportunidades de um determinado grupo de agricultores, trabalhando com as bases discutidas pelo desenvolvimento local evidenciando por fim, o levantamento de demandas do Design. De forma a materializar esta proposta, foi empregado uma metodologia exploratória, a partir de um objeto de estudo, sendo ele, o Grupo de Agricultores Agroecológicos do Município de Garopaba, pertencentes à Rede de Agroecologia Ecovida. Primeiramente será explanada a caracterização da Rede de Agroecologia Ecovida, em seguida da instituição do CEPAGRO e posteriormente será abarcado o ambiente onde o Grupo reside, como características e potenciais do município de Garopaba e seu entorno, e por fim, será dado um maior enfoque no próprio Grupo, em suas práticas agrícolas, sua sistematização organizacional, suas potencialidades, para que se tenha uma base suficiente para nos próximos capítulos, abordar a identificação das limitações e potencialidades bem como o levantamento das possíveis demandas de Design. A contextualização do Município de Garopaba foi possível por meio de pesquisas em websites do Governo do Estado de Santa Catarina (<http://www.sc.gov.br>), da Prefeitura Municipal de Garopaba (<http://www.garopaba.sc.gov.br>), do portal turístico “Viva Garopaba” (<http://www.vivagaropaba.com.br>) e do portal de informações “Garopaba Surf” (<http://www.garopabasurf.com.br>).
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    73 3.2. ARede de Agroecologia Ecovida A Rede Ecovida de Agroecologia foi fundada em 1998, na Região Sul do País, onde seu surgimento se deu através de um processo de evolução e consolidação de alternativas realizadas ao longo dos anos por entidades de agricultores familiares, instituições de assessoria, organizações não-governamentais, organizações de consumidores e comerciantes, além de pessoas comprometidas com a expansão dos princípios da agroecologia. Em seu próprio estatuto, a Rede Ecovida de Agroecologia é considerada um “espaço de articulações entre agricultores familiares ecologistas e suas organizações, organizações de assessoria e simpatizantes com a produção, o processamento, a comercialização e o consumo de produtos ecológicos. A Rede trabalha com princípios e objetivos definidos e tem como metas fortalecer a agroecologia em seus mais amplos aspectos, gerar e disponibilizar informações entre os participantes e criar mecanismos legítimos de credibilidade e garantia dos processos desenvolvidos por seus membros”. A Rede definiu pela utilização da denominação “produto ecológico” em vez de “produto orgânico” por entender que desenvolve uma agricultura ecológica sob os princípios da agroecologia e não apenas uma agricultura de substituição de insumos (de químicos para orgânicos) cujos produtos também podem, segundo a legislação, receber a denominação “orgânico”. Segundo as normas de organização e funcionamento, seus princípios e objetivos norteiam pelos seguintes apontamentos: Princípios: § Ter na agroecologia a base para o desenvolvimento sustentável; § Trabalhar com agricultores familiares e suas organizações; § Ser orientada por normativa própria de funcionamento e de produção; § Trabalhar na construção de um mercado justo e solidário;
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    74 § Garantira qualidade através da certificação participativa. Objetivos: § Desenvolver e multiplicar as iniciativas agroecológicas; § Incentivar o trabalho associativo na produção e no consumo de produtos ecológicos; § Articular e disponibilizar informações entre as organizações e pessoas; § Aproximar, de forma solidária, agricultores e consumidores; § Fomentar o intercâmbio, o resgate e a valorização do saber popular; § Ter uma marca e um selo que expressam o processo, o compromisso e a qualidade dos produtos. A Rede desenvolve diversas atividades de promoção e fomento da agroecologia, como a articulação política; formação e capacitação; atividade de organização e funcionamento; contribuição na comercialização, obtenção de parceiros e colaboradores; disseminação da informação e comunicação, e por último, a certificação dos produtos ecológicos. A certificação dos produtos ecológicos se dá através de um processo centrado na agricultura familiar, chamado Certificação Participativa em Rede, sendo considerado um sistema solidário de geração de credibilidade, onde a elaboração e a verificação das normas de produção ecológica são realizadas com a participação efetiva de agricultores e consumidores, recebendo assim, o selo Ecovida. O selo Ecovida é obtido após uma série de procedimentos desenvolvidos dentro de cada Núcleo Regional. Ali ocorre a troca de experiências e a verificação junto ao Conselho de Ética, o qual designa a avaliação da propriedade, autuando-a apta ou não para o recebimento do selo. A certificação participativa é uma forma diferente de certificação, que além de garantir a qualidade do produto ecológico, permite o respeito e a valorização da cultura local através da aproximação de agricultores e consumidores e da construção de uma Rede que congrega iniciativas de diferentes regiões.
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    75 O funcionamentoda Rede se dá de forma descentralizada, e sua estrutura organizacional é constituída por núcleos regionais, os quais são formados pelos membros de uma determinada região geográfica com características físicas e organizacionais semelhantes, por uma pessoa representante, por um conselho de ética, organizações não governamentais, cooperativas e outras entidades de apoio. No último levantamento, realizado em 2005, a Rede encontrava-se composta por 21 núcleos regionais, organizados nos três Estado do Sul do Brasil, abrangendo 180 municípios, com a integração de 2.438 famílias de agricultores familiares, reunidas em 272 grupos, associações e cooperativas, além de 28 ONGs, pequenas agroindústrias, 17 comercializadoras de produtos ecológicos, 6 cooperativas de consumidores e colaboradores. Contando ainda com 137 feiras ecológicas em todo o Sul do Brasil ligadas à Rede (REBELATTO, 2005). Na seqüência, a imagem representativa dos 21 Núcleos Regionais da Rede, com seus respectivos nomes:
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    76 01 CentroOeste do PR 02 Sudoeste do PR 03 Maurício Burmester do Amaral 04 Agroflorestal 05 Extremo Oeste de SC 06 Oeste de SC 07 Vale do Rio do Peixe 08 Planalto Norte 09 Planalto Serrano 10 Alto Vale 11 Litoral Catarinense 12 Alto Uruguai 13 Planalto 14 Vale do Rio Pardo 15 Serra 16 Litoral Solidário 17 Vale do Caí 18 Sul 19 Centro RS 20 Oeste do PR 21 Monge João Maria Figura 1. Mapeamento dos Núcleos da Rede Ecovida. Fonte: Sítio Digital Ecovida <http://www.ecovida.com.br> O núcleo abordado nesta pesquisa é o Núcleo Litoral Catarinense, possuindo, segundo a própria Rede Ecovida, um total de seis grupos de agricultores, somando cerca de 60 famílias envolvidas em atividades agroecológicas. Por sua localização estratégica do ponto de vista ecológico e turístico, este Núcleo é considerado pela Rede como possuidor de um expressivo potencial de desenvolvimento, permitindo aumentar o número de organizações integrantes e melhorar ainda mais a qualidade do trabalho (SANTOS, 2005).
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    77 Dentre essesgrupos de agricultores associados ao Núcleo Litoral Catarinense, encontra-se a Associação dos Agricultores Agroecológicos de Garopaba, sendo esta, junto a seus integrantes, o sujeito desta pesquisa. 3.3. A Instituição – CEPAGRO Conforme o seu próprio Estatuto, o Centro de Estudos e Promoção da Agricultura de Grupo – CEPAGRO é uma organização não governamental, formada por entidades de abrangência regional ou estadual de agricultores familiares e por entidades de apoio à Agricultura Familiar como o Centro de Motivação Ecológica e Alternativas Rurais – CEMEAR (no Alto Vale do Itajaí); a Associação dos Pequenos Agricultores do Oeste Catarinense – APACO; o Centro Vianei de Educação Popular (no Planalto Serrano); O Centro De Assessoria e Apoio aos Trabalhadores Rurais – CEPAGRI (no Planalto Norte e Alto Vale do Rio do Peixe) e a Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar - FETRAF. O CEPAGRO foi fundado em 20 de abril de 1990, por um grupo de pequenos agricultores e técnicos interessados na promoção da agricultura de grupo, como forma de viabilização das pequenas propriedades rurais. Sua sede está localizada atualmente, junto ao Centro de Ciências Agrárias da Universidade Federal de Santa Catarina, possibilitando, através de projetos e ações o envolvimento direto de acadêmicos do curso de Agronomia e de outros cursos. O CEPAGRO através de profunda e contínua reflexão crítica vem se reestruturando para melhor atender a atual realidade sócio-cultural e econômica do Estado de Santa Catarina, no que tem obtido bons resultados através dos projetos que executa, atuando sempre em forma de rede, parcerias e convênios. O CEPAGRO tem como finalidades representar, quando formalmente delegado para tal, coordenar e promover as relações e interesses das entidades que o compõe,
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    78 no quediz respeito ao desenvolvimento da agricultura de grupo e de outras formas de solidariedade no meio rural, assessorando, apoiando, e promovendo ações que busquem o desenvolvimento local sustentável, tendo a agricultura familiar solidária como base para o desenvolvimento rural. Mesmo consolidando um trabalho de base, o CEPAGRO, ao representar o Conselho quando delegado, integra diferentes espaços públicos, como Conselho Estadual do PRONAF, Comissão Estadual de Produção Orgânica, Conselho Estadual do Desenvolvimento Rural, membro do Centro Ecumênico de Apoio ao Desenvolvimento, Fórum Estadual e Fórum Regional de Economia Solidária, Comitê Estadual de Alternativas para a Cultura do Fumo, Rede de Agroecologia Ecovida, Rede Monte Cristo e outros. Por serem espaços representativos e deliberativos, possibilita a interlocução com as diferentes esferas de governo e sociedade civil, favorecendo a criação e implementação de políticas públicas voltadas para o interesse da agricultura familiar e comunidades urbanas, reforçando a relação entre micro e macros esferas. O CEPAGRO desenvolve suas ações, em rede, com as organizações de sua Direção e entidades parceiras. Sua proposta emergente é a ampliação de sua atuação na Agroecologia, tanto na área rural quanto na área urbana, atuando de forma participativa junto às comunidades e famílias mais necessitadas, a partir de alternativas que promovam a Agroecologia, o desenvolvimento local e regional, a organização comunitária e a inclusão social, apontando assim para uma melhoria da qualidade de vida. Atualmente, o CEPAGRO desenvolve os seguintes programas de trabalho: 1. Programa de Desenvolvimento Rural Sustentável e Solidário: a partir das ações de organização do Núcleo Regional Litoral Catarinense da Rede de Agroecologia Ecovida tendo como objetivo principal, promover a agroecologia na região, implementar a certificação participativa dos produtos ecológicos e incentivar o comércio ético e solidário; e a promoção da produção animal e vegetal de forma agroecológica, viabilizando a atividade agrícola e pecuária familiar, protegendo as áreas de conservação, fomentando processos produtivos de baixo custo
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    79 energético, possibilitandoa formação e o acompanhamento técnico agroecológico. 2. Programa Rede de Iniciativas Ecológicas e Solidárias Rurais e Urbanas no Litoral Catarinense que tem como objetivo principal construir relações entre o ambiente urbano e rural, tendo como pano de fundo a Agroecologia através de intercâmbios entre agricultores urbanos e rurais; construções de Programas de Aquisição de Alimentos; resgate da história e cultura rural de moradores urbanos, principalmente da periferia da grande Florianópolis produzindo alimentos nos quintais, utilizando plantas medicinais e reciclando o lixo orgânico; difusão do trabalho coletivo através de hortas comunitárias e grupos de geração de renda. Todos estes pontos têm como objetivo promover a inclusão social e ambiental nas comunidades carentes gerando sustentabilidade das comunidades, pautada pelos princípios da Economia Solidária e Agroecologia. O Centro conta para os próximos 36 meses o apoio da Cooperação Internacional através da MISEREOR - Agência de Desenvolvimento da Igreja Católica da Alemanha e da IAF – Inter-American Foundation, para a execução de atividades de Agricultura Urbana e Desenvolvimento Rural atingindo e consolidando um trabalho de base regional. Outro projeto que vem sendo enfatizado atualmente se dá em parceria com o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Alfredo Wagner - SC, onde buscam consolidar um trabalho começado em 2000 visando à produção animal agroecológica, tendo o leite como estratégia de permanência das famílias no campo. O Centro tem como meta dar continuidade às ações implantadas nos Grupos já organizados do Núcleo Litoral catarinense, possibilitando o incentivo e a participação de novas famílias para a ampliação ou formação de novos grupos, tendo a Agroecologia como orientadora do trabalho no espaço rural, além das possíveis interfaces com o urbano.
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    80 O propósitodos projetos é organizar grupos de suporte por comunidades, envolvendo famílias que estejam interessadas em se organizar e serem multiplicadores das propostas trabalhadas com base na Agroecologia. 3.4. Ambientação - Município de Garopaba Garopaba é um município litorâneo, situado na região sul do Estado de Santa Catarina, distante 79km da capital do Estado, possuindo uma área de 111 Km2 de extensão, onde aproximadamente 60% da área é montanhosa, abrangendo também, parte do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro. Possui uma população de aproximadamente 15.000 habitantes, com 18,5% na área rural. O Município tem como principal característica sua formação remanescente da Mata Atlântica, seu complexo lagunar e as áreas de praias preservadas, recortadas por dunas e colinas. Sua área se estende da ponta do Faísca ou Gamboa até a Ponta do Ouvidor, banhada a leste pelo Oceano Atlântico, a oeste e norte fazendo limites com o Município de Paulo Lopes, e ao sul com o de Município de Imbituba. O acesso rodoviário é feito pela BR-101, seguindo pela SC-434 por mais 15 Km.
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    81 Figura 2.Localização do Município de Garopaba. Fonte: Governo de SC - CIASC Os tupi-guaranis foram os primeiros habitantes de Garopaba dando o nome à cidade. Este nome vem grafado – gahopapaba - na carta de Turim, em 1523, ou assim: upaua, upaba, guarupeba. Que significa a enseada dos barcos, do descanso ou ainda, o lugar abençoado. Os traços da colonização açoriana ainda são assistidos na arquitetura, na pesca artesanal, na gastronomia, nos costumes festivos e nos artesanatos locais. Quanto aos aspectos econômicos, o Município abrange os três setores da indústria, se destacando atualmente no setor terciário voltada à economia com base no turismo de temporada (prestações de serviços e lazer), em seqüência ao setor primário, com a economia oriunda da agricultura, pecuária e pesca e por fim, não menos importante, o setor secundário, caracterizado pela economia oriunda das indústrias de eletro-eletrônicos, fábricas de vestuário, peças em neoprene e artigos esportivos. A cidade conta com uma infra-estrutura diversificada, com estabelecimentos básicos referentes à educação, saúde, segurança, comércios, indústrias e empresas de médio porte, profissionais autônomos, serviços bancários e prestadores de serviço,
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    82 segmento esteque vem se destacando devido à ascensão do turismo, com a estrutura de restaurantes, meios de hospedagem, imobiliárias, agências de viagens, comércio direcionado, entre outros. Sem perder suas características de vila de pescadores, Garopaba oferece novas opções de lazer e vem se transformando em um dos principais pólos turísticos do Estado de Santa Catarina, aonde chega a receber cerca de 100 mil turistas durante a temporada. Considerada um paraíso à beira-mar, por suas belezas naturais, a cidade possui nove praias (Gamboa, Siriú, Garopaba, Preguiça, Silveira, Ferrugem, Barra, Ouvidor e Vermelha), que vão desde mar manso a praias reconhecidas internacionalmente para a prática do Surf, sendo eleita pelo Estado como a Capital da Catarinense do Surf. Figura 3. Localização das praias do Município de Garopaba. Fonte: <http://www.pousadadalagoa.com.br>
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    83 O Municípioainda dispõe de diversificadas atrações turísticas, como visitas às cachoeiras, lagoas, dunas (prática do sand board), trilhas ecológicas, rappel, agroturismo, pesca artesanal, cavalgadas, esportes aquáticos, apreciação da fauna e flora local e observação das baleias Franca, provenientes do sul do continente, que entre os meses de julho a outubro, visitam as praias do município para se reproduzirem e amamentarem. A cidade faz parte da APA - Área de Proteção Ambiental da Baleia- Franca, sendo considerada o reduto desses cetáceos e um dos melhores lugares no mundo para sua observação. Figura 4. Barcos de pesca na praia de Garopaba. Fonte: Michelle B. Nunes, 2006. Suas atrações culturais, como eventos e festividades, gastronomia, arquitetura, artesanato e produtos típicos, são também atrativos que retratam a perfeita harmonia entre o município e o meio, bem como o saber local daquele povo.
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    84 3.5. Ambientação- Grupo de Agricultores Agroecológicos de Garopaba O Grupo de Agricultores Agroecológicos de Garopaba foi criado oficialmente no mês de março de 2004. No entanto, o vínculo existente entre o Grupo e a Rede de Agroecologia Ecovida, se deu a partir do final do ano de 2002, onde o Grupo participou do Encontro Ampliado da Rede em Lages – SC, integrando-se assim, ao Núcleo Litorâneo Catarinense. O interesse e a motivação para haver a conversão agroecológica e assim, produzirem com base nos princípios da Agroecologia, surgiu com o intercâmbio de informações e conhecimentos entre os próprios agricultores. Por meio de palestras e cursos sobre permacultura, ministrados em 1990 pelo agricultor Glaico Sell, de Paulo Lopes – SC, (um dos pioneiros da região que há mais de 10 anos vem incentivando e colaborando na conversão dos demais agricultores, que na época era Secretário Municipal da Agricultura), e outros integrantes defensores da agroecologia, as discussões a cerca da agricultura agroecológica foram levadas até a Associação dos Produtores Rurais do município de Garopaba, onde apenas um pequeno grupo buscou a continuidade deste trabalho. As reuniões eram feitas quinzenalmente, ou mesmo semanalmente, entre os grupo de maior interesse pela agroecologia, até que entre os anos de 2000 e 2002, um dos agricultores buscou a união e o incentivo dos demais agricultores e conseqüentemente ao início das primeiras etapas de conversão de sua propriedade, passando assim, a serem reconhecidos e denominados de Grupo de Agricultores Agroecológicos de Garopaba - SC. Atualmente, o Grupo é composto por onze famílias, entre agricultores agroecológicos e processadores de produtos coloniais. Porém, a pesquisa direcionou o trabalho a cinco famílias, as quais mantém uma maior ligação com o Núcleo Litoral Catarinense e com as atividades oferecidas pelo CEPAGRO. Tais famílias são
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    85 representadas pelosagricultores José Antônio Furtado (Zezinho), Mariomar Manoel Pereira, João Batista Cardoso, Adi da Rosa, e pela agricultora Maria de Lourdes Lopes de Souza. O próprio CEPAGRO relata algumas características predominantes no Grupo como, a flexibilidade, o constante interesse por novos conhecimentos, o fácil aprendizado devido, participativos em reuniões e oficinas práticas e principalmente, dispostos a divulgar a proposta do seu trabalho, fomentado pela agroecologia, validando o intuito da própria instituição. As principais atividades econômicas do Grupo são o cultivo de hortaliças, legumes, especiarias hortícolas; a preparação do leite e a criação de animais. Também ocorre o beneficiamento para a obtenção de farinhas, geléias, e produtos coloniais como pães, bolachas, bolos entre outros. Figura 5. Produção de Hortaliças. Fonte: Michelle B. Nunes, 2006.
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    86 Devido aessa formação em grupo, algumas das ações dos agricultores são realizadas coletivamente, como a aquisição (compra ou coleta) de matérias primas e insumos de produtores não sócios; a obtenção de clientes ou serviços para os sócios; a comercialização de seus produtos; a obtenção da certificação orgânica, a partir do selo Ecovida e o assessoramento técnico realizado pelo CEPAGRO. Quanto à infra-estrutura, atualmente, o Grupo conta com um espaço edificado em 2003, por iniciativa do Conselho Municipal de Desenvolvimento Rural - CMDR, na época, coordenado pela EPAGRI, o mercado do produtor, uma estrutura para incentivar e dar escoamento à produção agroecológica local, aberto de segunda a sábado, localizado ao lado da Estação Rodoviária. O Mercado do Produtor é administrado por todos os integrantes do Grupo, constituído por um presidente e um tesoureiro, sendo esses, também agricultores. É contratado o serviço de uma funcionária permanecendo no local de segunda a sábado. Cada agricultor entrega seus produtos no local por volta das 7:30 da manhã, todos os dias. O local também é utilizado para a comercialização de alguns artesanatos locais como também como sede para as reuniões quinzenais do Grupo. Figura 6. Mercado do Produtor. Fonte: Michelle B. Nunes, 2006.
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    87 Outro empreendimentoalçado em parceria com a administração pública municipal, com fundos provenientes do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar – PRONAF Infraestrutura, foi a construção do engenho comunitário de farinha e de cana de açúcar – pequenas indústrias de beneficiamento da mandioca, e outra da cana, com alambique para produção de cachaça com fornos e batedores para processamento do açúcar mascavo e do melado. O terreno onde foi construído o engenho de mandioca foi doado à Prefeitura pelo pai do agricultor Adi da Rosa, atualmente, o engenho está sendo utilizado pela família do agricultor e administrado pelo mesmo. Em julho de 2005, foi criada por interesse dos próprios agricultores, a feira agroecológica municipal, ocorrendo semanalmente no período da manhã, na praça em frente à nova Igreja, próximo à praia de Garopaba. Os próprios agricultores são responsáveis pela venda dos produtos, estando de maneira revezada, presentes na feira. Tanto no Mercado do Produtor, quanto na feira agroecológica, os agricultores possuem um controle de entrada e saída de seus produtos, utilizados por meio de notas individuais e pela distribuição proporcional do excedente. Figura 7. Feira Agroecológica Municipal. Fonte: Michelle B. Nunes, 2006.
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    88 De formabastante breve e precisa, será contextualizada a história de cada agricultor (a), enfatizando neste momento, a sua ligação com a agricultura e com o que vem produzindo atualmente por meio da agroecologia. Na seqüência, será abordada com maior ênfase as particularidades e semelhanças percebidas entre os agricultores junto a questões de interesse desta pesquisa. Agricultor Zezinho: reside em Garopaba com seus pais, foi caminhoneiro até seus 25 anos de idade. Buscou trabalhar na agricultura diversas vezes, mas retornava ao serviço anterior. Há seis anos por interesse e vontade própria, decidiu viver da agricultura agroecológica, mesmo não tendo o total apoio de seu pai no início, devido à falta de conhecimento a respeito da mesma. Atualmente, em sua propriedade, próximo à Lagoa da Encantada, produz hortaliças variadas, legumes, morango, milho entre outros produtos, além do beneficiamento da mandioca, a partir de um engenho artesanal conduzido por seu pai. Acredita que a agricultura convencional é “um crime” e que a principal vantagem da agricultura agroecológica é o de não estar “envenenando o meio ambiente”. Figura 8. Agricultor Zezinho. Fonte: CEPAGRO, 2006.
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    89 Agricultora DonaLourdes: reside em Garopaba com seu esposo a mais de 30 anos na mesma propriedade. Já trabalhou por mais de dez anos na agricultura convencional, no entanto, há dois anos vêm cultivando de forma agroecológica, por vontade própria e por acreditar em melhores oportunidades, ervas medicinais para o beneficiamento de remédios, chás, sabonetes e outros produtos, destinados à Pastoral da Saúde. Produz ainda com a ajuda de contratados, familiares ou não, geléias diversas, pães e biscoitos integrais. Acredita que o maior motivo em não mais aceitar trabalhar na agricultura convencional é o de poder ter “uma saúde melhor” e que a maior vantagem da agricultura agroecológica é proporcionar “bem estar e um sabor diferente nos alimentos”. Figura 9. Agricultora Dona Lourdes. Fonte: Michelle B. Nunes, 2006. Agricultor Batista: reside em Garopaba com sua esposa Lúcia e seus filhos. Antes de trabalhar como agricultor, exerceu a atividade de pedreiro e açougueiro. Posteriormente, trabalhou na agricultura convencional por cerca de dez anos, no entanto há dois anos, por incentivo e conversa com outros agricultores vem contribuindo com a agricultura agroecológica. Produz atualmente algumas hortaliças, legumes, milho, feijão, cana de açúcar e mandioca. Sua maior renda é oriunda da produção de leite e o beneficiamento deste para a produção de queijo e iogurte. Acredita que o maior motivo
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    90 em nãoaceitar trabalhar na agricultura convencional é a “destruição da terra” e o cuidado com a saúde, e que as maiores vantagens percebidas com a produção agroecológica são a de ter “mais saúde” e a “união da família”. Em uma visita a sua propriedade, o agricultor relatou, que já se sente “certificado”, pois percebeu o quanto sua vida melhorou após a compreensão a cerca da agroecologia e das técnicas utilizadas pela mesma. Figura 10. Agricultor Batista e sua esposa. Fonte: CEPAGRO, 2006. Agricultor Mariomar: reside em Garopaba com sua esposa Taís. Trabalhou na agricultura convencional por cerca de oito anos. Sua propriedade atual foi adquirida por terceiros, sendo que seu primeiro plantio foi ainda convencional, no entanto, cerca de cinco anos, pelo incentivo de outros agricultores buscou o conhecimento a respeito da agroecologia e posteriormente a conversão de sua propriedade. É proprietário também de uma sapataria, conduzida atualmente por seu pai. Produz atualmente hortaliças diversas, legumes, árvores frutíferas, ovos entre outros produtos. Acredita que a certificação dos produtos é necessária e que o mercado de produtos orgânicos tem potencial.
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    91 Figura 11.Agricultor Mariomar. Fonte: CEPAGRO, 2006. Agricultor Adi: reside em Garopaba com sua esposa e uma filha, além de sua família de irmãos e cunhadas. Trabalhou muitos anos no comércio de Garopaba, mantendo uma amizade e contato com muitos empreendimentos. Sua maior renda é oriunda do beneficiamento da mandioca, a partir do engenho de farinha cedido pela administração pública junto ao PRONAF, conduzido pela própria família. Produzem também hortaliças diversas, legumes, mandioca entre outros produtos. Figura 12. Agricultor Adi e sua família. Fonte: CEPAGRO, 2006.
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    92 3.6. APesquisa Conforme as visitas feitas semanalmente, junto aos técnicos do CEPAGRO, onde tinham, como objetivo maior, o emprego das oficinas demandadas pelo próprio Grupo de Agricultores, foi possível visitar algumas das propriedades agrícolas e observar o interesse do Grupo para com novos conhecimentos vindos de representantes que visam a melhoria da propriedade, da sua sustentabilidade e do que ela tem a oferecer. Figura 14. Oficina de Compostagem. Fonte: Michelle B. Nunes, 2006. Figura 13. Oficina de Biofertilizante. Fonte: Michelle B. Nunes, 2006. Em uma segunda visita ao município, foi possível comparecer à reunião quinzenal do Grupo, onde este discute questões relevantes ao mesmo. Nesta reunião foi cedido um espaço para que pudesse me apresentar pessoalmente, como também, apresentar a proposta desta pesquisa.
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    93 Figura 15.Reunião do Grupo. Fonte: Michelle B. Nunes, 2006. Após uma maior familiaridade com os agricultores, foi possível, a partir de conversas e entrevistas com o Grupo e individualmente, abordar algumas questões de interesse desta pesquisa, e coletar informações sobre as mesmas. Para isto, foi estruturado um roteiro destinado às entrevistas individuais, sendo bastante flexível para que seja oportunizada uma conversa aberta entre o agricultor e o pesquisador, porém com base técnica e também subjetiva. Como visto no Anexo 2, o roteiro utilizado abrange desde questões históricas da própria trajetória particular de vivência da agricultura, passando por questões subjetivas referente aos princípios e valores depositados no modelo agroecológico da agricultura e na prospecção desta, frente ao mercado local e nacional, até questões específicas e técnicas voltadas às particularidades do próprio produto e da produção, como das estruturas físicas e equipamentos. Foram estes os três pontos enfatizados nas conversas individuais, que na seqüência serão transcritos e analisados.
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    94 Quanto àsquestões históricas a respeito da trajetória de vivência na agricultura de cada agricultor, foram reveladas algumas diversidades entre os mesmos, no entanto, suas semelhanças também são significativas, as quais auxiliaram para a formação do Grupo e para a integração de novas famílias. Algumas das características observadas quanto a essa trajetória são relatas na seqüência: • Todos possuem uma origem rural, onde seus conhecimentos agrícolas foram disseminados por seus familiares, principalmente pais e avós. • A maioria buscou uma renda na área urbana antes de trabalhar com a agricultura, apenas nos últimos seis ou cinco anos, que os agricultores voltaram-se à atividade agroecológica. • Aqueles que trabalharam com a agricultura convencional, relatam que não tinham conhecimento algum a respeito da agroecologia nem mesmo dos danos que estavam sendo causados com as técnicas convencionais. • As maiorias das propriedades administradas pelos agricultores são oriundas de herança familiar, ou sendo esta, a própria propriedade da família há anos. No entanto, com a valorização da terra, muitos adquiriram por terceiros, uma segunda terra, seja para o aumento da produção ou para futuro investimento e aproveitamento da mesma. Quanto às questões subjetivas, referentes à visão dos agricultores frente aos princípios e valores sustentados pela agroecologia, bem como ao expansionismo destes produtos frente aos mercados foram expostas algumas considerações, tais como: • A união e integração dos agricultores de Garopaba e dos municípios vizinhos, antes mesmo da formalização do Grupo, foram os impulsionadores para o conhecimento e discussão sobre a agroecologia e assim, às conversões de suas propriedades. • O Grupo acredita atualmente que é possível viver da agricultura agroecológica, não somente pelo seu aspecto econômico, de redução de custos, menores
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    95 investimentos, mastambém devido aos princípios embutidos na mesma, sejam eles, a união da família, a preservação do meio ambiente e da saúde humana, bem como o bem estar da coletividade. • O Grupo ressalta ainda que as oportunidades de novos mercados, mesmo local, e a expansão junto ao reconhecimento dos princípios agroecológicos são o incentivo maior para continuarem a exercer a atividade de agricultor agroecológico. • Um dos objetivos do Grupo é buscar socializar seus conhecimentos práticos e buscar disseminar a eficácia e a responsabilidade inserida na agroecologia frente a outros agricultores e pessoas sensíveis a essa mudança social e cultural, proporcionando assim, uma aprendizagem coletiva. É a busca pela prática coletiva em grupos de pessoas heterogêneas com a função de construção de um novo saber que se direciona a conduta da agroecologia (MARTINIC apud SANTIN, 2005). • Os agricultores manifestam também o descontentamento em relação ao apoio local, seja pelas entidades públicas ou pela própria comunidade local. Uma de suas preocupações diz respeito ao crescimento desenfreada da área urbana, junto à pressão imobiliária pelas pequenas áreas rurais, decorrentes da atividade em massa do turismo nos últimos anos. • Em contraposto ao tópico à cima, os agricultores reconhecem que a atividade turística tem proporcionado uma maior demanda pelos produtos, e uma grande oportunidade para o reconhecimento e a valorização de seus produtos ecológicos.
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    96 Quanto àsquestões específicas e técnicas voltadas às particularidades de todo o sistema produtivo, se buscou compreender todo o seu dinamismo, desde as considerações a cerca das questões pré-produtivas, passando pelos mecanismos e técnicas de produção, até as etapas de finalização deste ciclo. Para apurar tais considerações de forma organizada, foram enfatizados alguns pontos relevantes, sendo eles: Quanto à Pré-Produção • O Grupo busca facilitar esta etapa do sistema produtivo planejando em prol da coletividade, como o caso da aquisição de mudas e sementes realizadas quinzenalmente a um único fornecedor para a grande maioria do Grupo. • Pode-se perceber também uma ajuda mútua caracterizada pelas trocas de sementes, mudas, remédios para os animais e plantas, ferramentas e equipamentos, assim como, de informações e conhecimentos técnicos. São as necessidades que o Grupo busca socializar entre os integrantes. Quanto à Produção • A etapa de produção, desde a preparação de mudas e sementes, como da área de plantio, até a colheita desses produtos, são preferencialmente de responsabilidade dos próprios agricultores e seus familiares. Em épocas de maiores necessidades, se faz a contratação de terceiros. • A responsabilidade de cada agricultor contratado ou da própria propriedade, não possui necessariamente uma função específica, sendo necessário o conhecimento de todo o processo produtivo. • Raramente os agricultores possuem parte de sua produção já direcionada a algum mercado. O controle do que é produzido e o quanto é produzido, se faz
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    97 pelo próprioconhecimento de cada agricultor em relação à demanda daquele produto e à própria questão climática do município. • Ocorre o beneficiamento da mandioca, do leite e de produtos coloniais na grande maioria das propriedades, exigindo em cada uma delas, estruturas e outros processos produtivos capazes de garantir a qualidade dos produtos sendo eles: farinha, queijo, iogurte, pães, geléias, biscoitos integrais, remédios e ervas medicinais. Esta etapa de beneficiamento é preferencialmente conduzida pelas esposas, pelos pais ou outros familiares dos agricultores, pois o cuidado com a horta, ou com o pasto, de responsabilidade dos agricultores, ocupa a maior parte do tempo. • As limitações relatadas pelos agricultores a respeito da etapa de produção, têm sido relacionadas exclusivamente às particularidades dos produtos, como por exemplo, o cuidado exigido ao semear ou plantar algum produto, ou o alastramento de alguma praga ou danos causados nas plantações ou nos gados. Questões estas que estão sendo articuladas junto aos técnicos que assessoram o Grupo, com o objetivo de soluciona-las. Quanto aos Produtos • É percebida uma ajuda mútua caracterizada pela troca de produtos entre os agricultores, (principalmente as hortaliças e legumes), com o objetivo de atender as necessidades do mercado e a demanda diversificada exigida pelo consumidor. Essa ação entre os agricultores contribui não apenas para a interação e cooperação entre os mesmos, mas principalmente para a satisfação permanente do cliente. • O credo dos agricultores é produzir uma maior variedade de produtos durante todo o ano, sendo que alguns em maiores quantidades e outros em menores quantidades. Desta forma, garantem ao consumidor a oferta dos mesmos
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    98 produtos emdiferentes épocas do ano. Não havendo necessariamente critérios para a diversidade de produtos a serem produzidos. • Devido à variação climática e após observarem a disparidade na procura entre as épocas de inverno e verão, os agricultores produzem em maiores quantidades, legumes na época do inverno e hortaliças na época do verão. • Alguns dos produtos (principalmente hortaliças e legumes) são colhidos em carrinhos de mão ou caixotes de plástico, seguidos por um processo de lavagem e transportados até os pontos de venda, não exigindo a armazenagem dos mesmos por mais de um dia. No entanto, aqueles em exceção, são armazenados em caixotes de plásticos, empilhados no chão ou em uma bancada de uma área à parte ou na própria casa do agricultor. • A produção da farinha e dos derivados do leite é realizada em engenho artesanal e áreas de pasteurização, sendo reservados e armazenados em barris de madeira no próprio engenho, com exceção do engenho comunitário conduzido pela família do agricultor Adi, o qual já possui estruturas físicas semi-industriais. Quanto ao Posto de Trabalho e os Instrumentos Utilizados • Pode-se perceber uma variedade de postos de trabalho dos agricultores, pois a sua atividade é bastante dinâmica e na maioria das vezes é concentrada em uma única pessoa. Podemos citar de forma sucinta o ciclo correspondente os postos de trabalho exercidos pelos agricultores: iniciando com o preparo das mudas e do solo; o plantio propriamente dito; a colheita; a lavagem dos produtos; o armazenamento; o beneficiamento (promovendo uma outra seqüência de ações) e a entrega. • Os instrumentos de trabalho dos agricultores são bastante variados, desde máquinas motorizadas como tratores e carpideiras, passando pelos
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    99 equipamentos detração animal, até as pequenas ferramentas manuais, como enxadas, motoserra, trado, serrote, carrinhos de mão, facão, foice, entre outros. Podemos ainda citar outros artefatos utilizados pelos agricultores, como balaios, caixotes de plástico entre outros. • A maioria dos instrumentos de trabalho são particulares, adquiridos já há um tempo ou por outras gerações, muitas vezes reformados, consertados e adaptados pelos próprios agricultores. No entanto, observa-se novamente uma ajuda mútua caracterizada pelo empréstimo dos equipamentos ou pelo apoio dos órgãos públicos locais em oferecer o empréstimo dos mesmos. • A grande maioria dos instrumentos encontra-se guardados em galpões ou em áreas abertas, próximas da casa. No entanto, não possuem espaços próprios, estando expostos sem nenhuma segurança. • Alguns dos agricultores relataram que nem sempre os instrumentos utilizados são os mais apropriados, porém, as possibilidades em investir nesse segmento, não são consideradas prioridades atualmente. No entanto, relatam ainda que a atividade agrícola é dispendiosa, mas acreditam que as inovações tecnológicas, além de seus conhecimentos técnicos, são de grande benefício pra agricultura, quando devidamente empregadas. Quanto às Estruturas Físicas • As estruturas físicas das propriedades são constituídas basicamente pela própria residência familiar, uma outra área utilizada como galpão para inúmeras funções, como a lavagem e armazenamento dos produtos e de algumas ferramentas, entre outras, e por uma área destinada à avicultura (criação de aves). • No entanto, algumas atividades específicas, como por exemplo a preparação das mudas, que exigem um espaço reservado, estão sendo produzidas junto a outras estruturas, ou mesmo em áreas abertas.
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    100 • Devidoao próprio beneficiamento dos produtos, no caso a farinha e os derivados do leite, os agricultores contam com a área do engenho e da pasteurização do leite. Sendo essas mesmas áreas, designadas a outras funções, como citada no primeiro tópico. • As estruturas físicas citadas até o momento, sejam elas, galpões, áreas abertas, estufas, engenhos, estábulos, ou outras áreas, encontram-se edificadas preferencialmente em madeira, com o aproveitamento de algum material e com aspecto rústico e artesanal, no entanto, muitas vezes impróprias às atividades que ali são exercidas devido à necessidade principal de higiene do local de trabalho, bem como no uso de materiais e equipamentos adequados e higiênicos. • Alguns produtos ou etapas a serem consideradas em todo o processo produtivo exigem estruturas específicas, como o caso da lavagem, do armazenamento, do empacotamento entre outros, porém, estas funções têm sido exercidas em um mesmo local, muitas vezes adaptadas devido ao espaço reduzido. • Os investimentos neste segmento são de grande necessidade dos agricultores, como o caso do agricultor Batista, aonde vem edificando uma pequena área específica para o beneficiamento do leite (ainda beneficiado na própria residência). No entanto este investimento em otimizar o espaço existente, ou a criação de um novo espaço, ocorre ainda lentamente e de acordo com as legalidades e normas exigidas pelo sistema de inspeção sanitária entre outros. Quanto ao Mercado – questões referentes à comercialização, divulgação e distribuição de seus produtos • Como citado anteriormente, o Grupo conta com dois espaços para a comercialização de seus produtos: o Mercado do Produtor e a Feira Agroecológica. Devido à baixa lucratividade de ambos os pontos de venda, os
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    101 agricultores buscamnovos mercados para seus produtos, como mercearias, pequenos e médios mercados locais, padarias, lanchonetes, restaurantes e hotéis. Ocorre ainda, a venda dos produtos na própria propriedade do agricultor, por clientes já fiéis e de boa relação com o mesmo. • As distribuições dos produtos até os pontos de venda são realizadas, na maioria das propriedades, preferencialmente todos os dias na parte da manhã, através veículos particulares como motos e carretas. Os próprios agricultores são responsáveis pelas entregas e pelas vendas dos produtos. • Para a preparação da Feira Agroecológica e de algumas outras entregas, um dos agricultores utiliza o seu automóvel de grande porte em prol do Grupo, dirigindo-se a cada propriedade, recolhendo os produtos e levando-os até o ponto de venda. • Quando necessário, o cliente (mercearia, mercados, hotéis...) entra em contato com o agricultor (na grande maioria via telefone celular) e faz o pedido normalmente, para três a quatro dias. Quando a oferta excede a demanda do agricultor em particular, o mesmo entra em contato com os demais e realiza a troca de produtos, citada anteriormente. • Alguns agricultores já possuem alguns pontos de vendas fixos, promovendo uma forte interação entre sua cliente e seus produtos. • Os agricultores relatam que a demanda é estável durante o ano todo, não tendo excedente na produção, porém, teriam capacidade como Grupo, de potencializar suas produções, direcionando-as a um forte mercado receptor, como o caso das escolas Municipais através da merenda orgânica escolar. • No período do verão, esta demanda se sobrepõe, necessitando de um melhor planejamento da produção, da distribuição, da comercialização, ou seja, uma melhor organização e controle do Grupo como um todo, o que não vem sendo posto em prática, como foi relatado pelo mesmo.
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    102 • OGrupo afirma que uma das principais características levadas em maior consideração na comercialização de seus produtos, é o contato direto com o cliente, onde ocorre com a presença deste na Feira ou mesmo na propriedade do agricultor. No entanto, alguns dos agricultores contam que não é possível se manter apenas do contato direto com o consumidor, exigindo desta forma, o fornecimento de seus produtos a terceiros, como restaurantes e outros mercados. • Quanto à divulgação de seus produtos, o Grupo contou com o forte apoio da Prefeitura em relação à Feira Agroecológica no último ano, no entanto, o apoio e a divulgação promovida não foi o suficiente para o reconhecimento do Grupo pela própria comunidade de Garopaba. • A divulgação atual mais precisa, vem sendo a “do boca a boca”, onde cada família, ou o próprio Grupo se propõe a socializar suas experiências e expandir os valores inseridos em seus produtos ecológicos para àquelas pessoas de maior contato e relacionamento, como forma de divulgação dos mesmos. • Por interesse próprio, o Grupo buscou se identificar de alguma forma bastante urgente após um maior reconhecimento de sua existência, optando em utilizar um selo com a denominação do Grupo, que já tinha sido estudada há um tempo atrás: Associação dos Produtores Orgânicos e Coloniais de Garopaba –SC. Este selo foi reproduzido em etiquetas com o nome do agricultor e com as informações técnicas básicas do produto (data de validade, peso, sabor...). Este selo não é efetivamente a marca registrada da Associação, pois ainda não foi registrada, nem mesmo desenvolvido o seu manual de identidade visual. • O Grupo observa que há a necessidade de uma maior divulgação em relação aos seus produtos, e que somente a partir dessa divulgação, será mais bem encaminhada à etapa de comercialização dos mesmos. Algumas ações simples e emergenciais são relatas pelo Grupo, como por exemplo, a divulgação em rádios ou carros de sons, a necessidade de placas indicativas a respeito do local e horário da Feira e do Mercado do Produtor, o desenvolvimento de algum material
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    103 informativo comopanfletos, banners, a promoção de eventos a respeito da agroecologia e produtos orgânicos, entre outros. • Todos os agricultores e seus familiares possuem o conhecimento a respeito da diferenciação de seus produtos, bem como a identificação de um potencial consumidor para o mesmo, no entanto, a opinião relatada pelos agricultores, é que eles ainda receiam que o município de Garopaba, ou melhor, que a comunidade local, não se encontra totalmente preparada para a oferta desses produtos e nem mesmo para a aceitação do valor final desses produtos. O Grupo definiu três causas para esta constatação: a primeira seria a necessidade do selo da certificação dada pela Rede Ecovida, o qual só é possível após uma série de alterações e conversões na propriedade e das atividades exercidas por cada agricultor, a segunda causa é a falta do conhecimento em relação à existência do próprio Grupo de Agricultores Agroecológicos, e a terceira causa é a falta do conhecimento em relação ao que vem a ser uma propriedade agroecológica e produtos orgânicos, quais suas vantagens e benefícios para quem o consome. Todas essas constatações abarcadas a partir de entrevistas, conversas e discussões com o Grupo, junto ao Grupo de Agricultores e representantes do CEPAGRO, possibilitou a formação de uma base reflexiva e ponderada a respeito de todo o contexto em que emergem esses agricultores. Foi possível compreender as condições reais ao sistema que envolve toda uma a propriedade (aquelas relatadas pelos próprios agricultores, e também, às constatadas após um breve diagnóstico), identificando as potencialidades deste espaço, as experiências promissoras, as oportunidades de expansionismo desta dinâmica agroecológica, suas regras de funcionamento, suas ações de planejamento, seus atores envolvidos, suas necessidades e particularidades. A partir desta reflexão e dos relatos particulares do Grupo e de cada família, pode-se partir para o próximo capítulo da pesquisa, ressaltando a discussão e identificação a cerca das duas oposições em que se encontram tais atores, sejam elas:
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    104 suas potencialidadese suas limitações, para posteriormente serem abordadas e analisadas as reais demandas vinculadas ao Design. 4. CAPÌTULO IV 4.1. Limitações A partir da pesquisa contextualizada anteriormente, foi possível verificar a dificuldade e as limitações que o Grupo de Garopaba encontra-se atualmente em relação a duas situações relatas pelo mesmo, sejam elas: 1. A busca em se sustentar da agricultura agroecológica e socializar seus princípios: O Grupo acredita que é possível se manter da agroecologia, mas que, no entanto, se deparam com inúmeras limitações que os impedem ou dificultam para a sua sustentabilidade, sendo uma delas, a própria socialização da agroecologia, ou seja, buscar manter o expansionismo da proposta agroecológica agregando cada vez mais pessoas ou entidades sensibilizadas com a mesma. 2. A busca em expandir a comercialização e a valorização de seus produtos: O Grupo, conforme o relato de alguns agricultores, tende a enfrentar diariamente um constante processo de conhecimento de seus produtos perante a comunidade local, onde muitas vezes, desconhece ou não valoriza os mesmos, impedindo que a
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    105 comercialização deseus produtos atinja níveis mais acentuados, ou seja, que possam ser adquiridos por um percentual maior de consumidores ou até mesmo, possam ser comercializados em outros pontos de vendas. Em relação a cada uma das situações, nas quais o Grupo acredita que possam ser superadas, pode-se listar as seguintes limitações ou dificuldades relatadas pelo próprio Grupo e identificadas pelo pesquisador: Quanto à busca em se sustentar da agricultura agroecológica e socializar seus princípios: § O recente conhecimento a respeito das técnicas e práticas agrícolas com menores custos e investimentos – até pouco tempo, os agricultores utilizavam métodos mais dispendiosos e que promoviam resultados menos satisfatórios; § Uma considerável parcela de agricultores locais que ainda produzem de forma convencionais que, no entanto desconhecem a temática agroecológica; § A dificuldade em expor aos demais agricultores a relação de custo/benefício existente no modelo de agricultura de base agroecológica, até porque está relação é visível a médio e longo prazo, pois os agricultores necessitam de um período de transição para a conversão de sua propriedade e para o aprendizado de técnicas e práticas agroecológicas; § A carência de documentação oficial que contemple as experiências e informações práticas e teóricas de cada agricultor, bem como o processo evolutivo do Grupo em relação às questões administrativas e operacionais; § A carga de trabalho excessiva e desgastante, pelo fato do maior número de atividades serem exercidas por uma mesma pessoa e pelo próprio processo produtivo dependente principalmente dos fatores climáticos, como sol intenso, chuvas, temporais entre outros;
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    106 § Acomplexidade no próprio processo produtivo em manter o nível de qualidade, principalmente no aspecto visual dos produtos, devido a diversos fatores, como mencionados a cima, que exigem um constante controle e cuidados na produção; § Diversidade de postos de trabalhos desconfortáveis e de riscos à saúde humana, devido principalmente, aos instrumentos e estruturas utilizadas, muitas vezes inadequadas e precárias; § A especulação imobiliária principalmente por estrangeiros, com a oferta de valores exuberantes para a aquisição de terrenos, provocando uma urbanização desenfreada apoderando-se das áreas rurais e conseqüentemente o afastando de novos interessados em obter renda a partir da agricultura; § A sazonalidade do turismo, provocando uma demanda muito maior no verão e estável durante o restante do ano. Sendo também considerada uma oportunidade devido a este potencial turístico da cidade e ao crescimento populacional neste período do ano, que muito provável, torna-se consumidor dos produtos ecológicos; § O desinteresse dos mais jovens em trabalhar na agricultura, buscando uma renda de mais fácil acesso no meio urbano; § A carência em obter apoios locais, vindos de diferentes instâncias, para a promoção e socialização da agricultura agroecológica, principalmente em relação aos créditos ou investimentos financeiros – muitos agricultores não possuem o capital de giro necessário para a adequação de sua propriedade, e por isso dependem dos programas de créditos e investimentos. Quanto à busca em expandir a comercialização e a valorização de seus produtos:
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    107 § Asdificuldades de plantio de determinados produtos, devido ao clima ou outros fatores físicos locais, exige o intercâmbio de produtos oriundos de agricultores próximos ou de outros municípios, para que a oferta dos produtos mantenha a diversidade que satisfaça o consumidor; § A não valorização de alguns supermercados e outros pontos de vendas, quanto aos produtos ecológicos, adquirindo-os por um valor inferior ao que são vendidos no Mercado do Produtor e na Feira Agroecológica, e igualados ao valor dos produtos convencionais; § Na maioria dos pontos de vendas (com exceção do Mercado do Produtor e da Feira Agroecológica) não há a devida disjunção entre os produtos ecológicos e os produtos convencionais, mantidos em um mesmo espaço sem nenhuma informação quanto aos mesmos; § A carência de uma grande parcela de consumidores, em obter a devida compreensão a cerca dos produtos ecológicos e da agroecologia, quais seus benefícios e vantagens, bem como a justificativa por seu valor final; § A existência de consumidores potenciais, os quais já possuem a compreensão e a sensibilidade à cerca dos produtos ecológicos, que, no entanto, exigem a certificação dos mesmos por meio do selo. O processo de certificação das famílias encontra-se atualmente em andamento, onde algumas delas já são aptas a recebê-lo; § A ausência de material informacional que contemplasse a temática da Agroecologia, a existência do Grupo, e a divulgação de como adquirir os produtos ecológicos; § A inexistência de placas de informação ao longo da rodovia estadual SC 434 e no centro do Município, que indicasse os pontos de venda permanentes como o Mercado do Produtor e a feira Agroecológica;
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    108 § Adistância relativamente grande entre as propriedades e destas em relação aos pontos de venda, estando localizados, a maioria deles, no centro da cidade, o que dificulta e encarece o transporte para a entrega dos produtos, ocorrido quase que diariamente, de forma individual ou coletiva; § A própria estrutura interna do Mercado do Produtor, a qual disponibiliza um espaço adequado, porém de forma um pouco desorganizada, com carência em informações técnicas (como os valores dos produtos, horários de funcionamento do Mercado) e informações relacionada à própria procedência dos produtos (quem são os produtores, onde localiza-los...); § A falta de divulgação a respeito da existência do Grupo em locais estratégicos da cidade, como hotéis, restaurantes, academias, lojas especializadas entre outros; § O desconhecimento da maioria dos consumidores e moradores do município a respeito da Rede de Agroecologia Ecovida; § O baixo investimento direcionado aos recursos mercadológicos, como embalagens para o transporte, embalagens individuais e a própria identidade visual dos produtos; § A inexistência fortalecida e organizada de uma identidade visual coletiva, abrangendo a realidade do Grupo de Agricultores e o pertencionismo à Rede de Agroecologia Ecovida. 4.2. Potencialidade e Oportunidades
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    109 São visíveisas variadas deficiências e limitações que o Grupo de Agricultores vem enfrentando desde a sua formação. No entanto, essa mesma formação, de certa forma recente e ainda embrionária, junto à expansão de pequenos empreendimentos agrícolas como forma de desenvolvimento local e a tendência no consumo de produtos ecológicos, proporcionam ao Grupo uma série de potenciais e oportunidades para o seu crescimento, sua sustentabilidade e seu reconhecimento. De forma a simplificar e melhor organizar esta etapa da pesquisa, foi preferível, listar na forma de itens, as considerações a respeito dos potenciais e das oportunidades que o Grupo se depara atualmente, como na seqüência: § Talvez uns dos grandes potenciais regionais que reflete diretamente no Grupo de Agricultores, tem sido a própria valorização cultural, existente no Litoral Catarinense, com a produção da farinha de mandioca, da cachaça, do melado e do açúcar mascavo, por meio de engenhos artesanais ou semi-industrializados, como também, a atividade da pesca artesanal, da própria agricultura familiar, da gastronomia típica representada principalmente por pratos de frutos do mar, as festas tradicionais e com os artesanatos locais. Esse potencial cultural e social é bastante expressivo no Município de Garopaba, principalmente por sua localização litorânea e por seu povoado açoriano. Junto a essa caracterização cultural, onde se mantém um comportamento e um estilo de vida particular, tem surgido a abertura para a agricultura agroecológica de forma pacífica, porém, praticamente desconhecida por muitos agricultores e demais moradores da cidade. No entanto, a agroecologia vem sendo considerada como um forte potencial da região de Garopaba como também do Município vizinho, Paulo Lopes, tendo a oportunidade de consolidar ainda mais, o seu reconhecimento e sua proposta. § Garopaba tem sido um dos pontos turísticos mais desejados nos últimos anos, recebendo cerca de 100 mil visitantes durante a temporada de verão (entre os meses de janeiro a março), e uma considerável parcela destes, durante a época de carnaval. Essa explosão turística no Município, com cerca de 14 mil habitantes, tem ocasionando diversas conseqüências para o mesmo, como, já citado anteriormente,
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    110 o surgimentode uma especulação imobiliária, onde visitantes encantados com as belezas naturais do local, adquirem os terrenos por preços exorbitantes, preferencialmente em áreas rurais, devido principalmente às aglomerações residenciais das áreas urbanas. No entanto, este potencial natural existente no Município de Garopaba, representado por suas diversas belezas naturais, como a mais conhecida delas, suas praias junto à prática do surf, tem também conduzido a novas oportunidades de mercado aos agricultores, ou seja, se devidamente explorado esse potencial turístico, desde os visitantes, os novos moradores, como também as estruturas de apoio ao turismo, como hotéis, restaurantes, portais turísticos entre outros, os agricultores possuem a oportunidade de conquistar um novo nicho de mercado, seja para a própria venda dos produtos ou para a divulgação dos mesmos. Um dos agricultores já oferece seus produtos a uma das redes hoteleiras da cidade, no entanto, esta oportunidade vai além da venda propriamente dita ao hotel, mas sim, de buscar socializar a proposta dos produtos ecológicos a esses novos mercados, abordando uma tendência à mudança no hábito alimentar das pessoas. § Como relatado pelo próprio Grupo, a produtividade de muitos agricultores é maior no período de verão, e estável no restante do ano. Foi discutido em alguns momentos durante as visitas, a respeito do fornecimento de alimentos orgânicos para as unidades educacionais do município, sendo oferecido na merenda escolar, o qual iria garantir uma maior estabilidade produtiva durante todo o ano, auxiliando na época de verão e reforçando o restante dos meses. No entanto, esta oportunidade em fornecer os alimentos orgânicos e interferir também na mudança de hábito dos estudantes, passou a existir a partir de um Projeto de Lei aprovado em 2002 havendo a necessidade da parceria entre as Secretárias de Educação e de Agricultura e convênios entre o Estado e os Municípios, gerando uma certa burocracia e empenho de ambos os responsáveis. Infelizmente o Grupo não oferece os alimentos a rede educacional, mas juntos garantem a capacidade produtiva para a demanda exigida. Cabe ao Grupo entrar em
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    111 contato comos devidos responsáveis e buscar a consolidação desta nova oportunidade. § Como vimos anteriormente, o reconhecimento e a comercialização dos produtos ecológicos ou orgânicos, como alguns denominam, tem crescido nos últimos anos, principalmente quando nos deparamos com as exportações de produtos beneficiados ou semi-industrializados, no entanto, com as diversas entidades sensibilizadas de alguma forma com a agroecologia, e com o maior conhecimento técnico e prático a respeito da capacidade produtiva, percebe-se a receptividade de diversos agricultores em produzir hortifrutigranjeiro de forma ecológica, ou seja, produtos in natura. Essa tendência no consumo de produtos in natura também ecológicos, ainda em expansão no Município, possui uma influência direta com a nova mudança nos hábitos alimentares daqueles consumidores que visam um padrão de vida supostamente mais saudável e uma melhor preservação do meio ambiente, seguidos da proposta fomentada pela agroecologia. § Atribuídas à nova dinâmica do meio rural, a pluriatividade e multifuncionalidade têm se destacado de forma a gerar um maior planejamento e conseqüentemente, uma maior renda às propriedades, por meio principalmente, da diversificação das atividades e das funções ofertadas por cada propriedade. Abordam na verdade, a capacidade de empreender das famílias de agricultores, promovendo o seu espaço de trabalho e socializando a proposta da agroecologia. Esta nova dinâmica pode estar sendo desenvolvida também nas propriedades dos agricultores de Garopaba, onde além da atividade produtiva, a propriedade bem como o agricultor tem a oportunidade de diversificar suas atividades, como, por exemplo, recebendo a visita de turistas e outros interessados, instruindo algumas técnicas e processos aos mesmos, ou seja, não tornar a propriedade como mero ponto de passagem, e sim atribuir à mesma, um potencial de valor simbólico e cultural.
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    112 § OsMunicípios de Garopaba e Paulo Lopes, pertencentes à Rede de Agroecologia Ecovida possuem suas particularidades geográficas, suas diversidades naturais, no entanto, ambos são representados por grupos de agricultores, os quais vem se desenvolvendo a cerca de 10 anos com base preferencialmente, na agricultura agroecológica, porém de certa forma isolada, sem a interação e socialização entre os mesmos. De forma a gerar a socialização entre os Grupos, contribuindo para a pluriatividade da agricultura familiar e a promoção da agroecologia, torna-se oportuno conciliar esta proposta com o planejamento de uma rota turística entre os dois Municípios para visitação às propriedades, aos engenhos, às belezas naturais e seus diferenciados atrativos. Exigiria-se, inserido neste planejamento, um plano integrado entre as duas Prefeituras, a fim de que fossem possíveis ações conjuntas, como a própria divulgação da rota turística e o desenvolvimento de ambas as áreas. § O município de Garopaba tem em sua localidade geográfica, importante característica estratégica para o expansionismo dos produtos ecológicos. Localiza-se a 79 km da capital do Estado, (dispondo um forte número de consumidores potenciais com base na pesquisa realizada pelo Instituto Cepa, 2003), ao lado de Paulo Lopes, município este que vem desenvolvendo também a proposta agroecológica, contando com um Grupo de produtores agroecológicos pertencentes também à Rede Ecovida e próxima às demais cidades como Tubarão e Criciúma. A maioria dos agricultores possui ainda a limitação quanto à comercialização de seus produtos nas cidades citadas, priorizando ainda o mercado local e de entorno do município, no entanto, ao longo prazo, os potenciais representados por tais cidades podem ser devidamente oportunos ao Grupo de Agricultores. § O dinamismo a cerca do modelo de desenvolvimento vigente, como referenciado no início desta pesquisa, tem sido discutido por diferentes áreas e profissionais no âmbito de buscar a sustentabilidade em suas distintas dimensões (cultural, ambiental, social, tecnológica, econômica). Em especial à área ambiental, algumas ações são essenciais para tornar comum as discussões a cerca da necessidade de
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    113 preservação domeio ambiente. A ação educacional se enquadra devidamente a necessidade atual, ou seja, a promoção de uma consciência coletiva para a defesa e preservação do meio ambiente deve ser enfatizada constantemente, atingindo o maior número de atores. Neste contexto, o Grupo de Agricultores de Garopaba, bem como as demais entidades sensibilizadas com a agroecologia são consideradas parte integrante dessas ações coletivas, de forma a expor a temática agroecológica e a proposta desta para com o meio ambiente, proporcionando não somente a conscientização ecológica, mas também, a ocasião para a compreensão à cerca da agricultura agroecológica e o incentivo e motivação para que outros jovens busquem o sustento de suas famílias por meio da agricultura agroecológica. 4.3. Levantamento e Análise de Demandas Após uma série de relatos, constatações com base em entrevistas e discussões, a própria identificação das limitações e dos potenciais e oportunidades que o Grupo vem enfrentando, serviram mais uma vez, de base reflexiva e concreta, para que fosse possível a continuidade da pesquisa, considerando neste momento, o levantamento das demandas de competência do Design e a construção de um plano operacional com base nos aspectos relacionados à prioridade, eficiência e viabilidade de cada uma delas. De forma a otimizar a compreensão desta etapa da pesquisa, foi abordada algumas temáticas distintas correspondentes a cada uma das demandas de Design propostas, onde na seqüência de cada uma delas, encontra-se um quadro contendo a demanda específica e sua análise quanto aos aspectos: prioridade, eficiência e viabilidade.
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    114 Quanto aotermo “prioridade”, buscou-se avaliar o grau de prioridade para a implementação da demanda específica, sendo estipulado conforme as necessidades relatadas pelo Grupo e percebidas após a compreensão de suas condições. Quanto ao termo “eficiência”, buscou-se listar os resultados após a implementação da demanda específica, o quanto a demanda é eficiente ao Grupo. Quanto ao último termo, “viabilidade”, buscou-se avaliar a viabilidade de implementação da demanda específica analisando alguns parâmetros como prazos e custos. As temáticas abordadas foram as seguintes: 1. Empreendedorismo O empreendedorismo tem sido considerado o conjunto de comportamentos e de hábitos que podem ser adquiridos, praticados e reforçados nas pessoas, fazendo com sejam capazes de gerir e aproveitar oportunidades, melhorar seus processos e desenvolver da melhor forma o seu negócio. O empreendedor é considerado aquela pessoa que possui algumas características diferenciadas, como a originalidade, pró-atividade, flexibilidade, iniciativa, autoconfiança, responsabilidade em assumir riscos, dinâmico, e principalmente, ser visionário quanto ao seu negócio. Ele tem a capacidade de planejar, realizar e controlar seu negócio, sendo apto a identificar oportunidades, ter iniciativa, estabelecer metas, buscar informações, possuir responsabilidade em correr riscos, exigir qualidade e eficiência, persistir e se comprometer com suas ações. Neste contexto, mesmo mantendo suas atividades de forma isolada, onde cada um possui a responsabilidade a cerca de seu negócio e de sua propriedade, o Grupo de Agricultores tendem a gerir um único negócio, quando se trata da rede constituída entre todos os agricultores, ou seja, a própria formação em Grupo, possuindo ações e
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    115 responsabilidades coletivas,como a comercialização, a divulgação, a fiscalização proposta pela Rede Ecovida, e a própria organização interna administrativa. Por esta formação em Grupo, é viável a percepção de todos os integrantes quanto às características empreendedoras em prol do reconhecimento e desenvolvimento do próprio Grupo. Fortificando tais características, muitas delas já intrínsecas em alguns agricultores, é possível alcançar uma melhor confiança e autonomia do Grupo quanto às suas ações, fortalecer o comprometimento e a persistência de cada um junto às mesmas e contribuir para a construção de uma visão coletiva e otimista para o Grupo a curto e médio prazo. Demandas A intervenção do Design se dará por meio da promoção e capacitação do conjunto das características empreendedoras, auxiliando, em conjunto com o Grupo, no desenvolvimento de um plano empreendedor, o qual promoveria as devidas ações: § Enfatizar as reais responsabilidades e funções de cada integrante; § Construir uma visão otimista e próspera ao Grupo. Em médio prazo, poderá também ser desenvolvido um plano de negócio5 direcionado ao Grupo. Prioridade A principal causa para a aplicação deste processo, tem sido o descontentamento e desinteresse por parte de alguns agricultores em relação às ações do Grupo como um todo, geradas principalmente pelas limitações enfrentadas diariamente por cada família. No entanto, esta 5 O plano de negócios é uma ferramenta utilizada no processo empreendedora. Ele é um documento escrito que tem o objetivo de estruturar os principais fatores necessários para a implementação e sustentabilidade de um empreendimento, a fim de sistematizar e planejar o negócio, avaliando a viabilidade do mesmo. Também é utilizado para a solicitação de empréstimos e financiamentos junto a instituições financeiras. Um Plano de Negócios serve para que o empreendedor possa situar-se no seu ambiente de negócios.
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    116 causa agravacada vez mais o empreendimento do Grupo, necessitando com certa urgência uma ação reversa, ou seja, este processo se encontra em nível de maior prioridade. Eficiências § Motivação, interação, confiança e auto estima do Grupo; § Sistematização e controle gerencial; § Capacidade visionária do negócio; Viabilidade Este processo é bastante viável e de baixo recurso financeiro e de material, por trabalhar preferencialmente com o estímulo oferecido aos integrantes do Grupo, para que possam desenvolver cada vez mais o seu negócio. Ocorreria a partir de reuniões, exposições de palestras ministradas por distintos profissionais, como administradores, economistas entre outros, e exposição de distintos casos de outros empreendedores, oficinas práticas e saídas a campo. Resultaria em um documento contendo toda as discussões, bem como a descrição do plano empreendedor. Trata-se em enfatizar a característica da solidariedade entre o próprio Grupo, buscando ressaltar ou até mesmo estimular a qualidades intrínseca existente em cada integrante do Grupo, a fim de fortalecer o negócio de forma coletiva. Poderíamos de forma um tanto quanto audaciosa, definirmos como a intervenção de um “Design Solidário”, que busca fomentar e articular de forma a promover o desenvolvimento de um grupo de empreendedores, ou seja, do Grupo de Agricultores auxiliando no caminho que este Grupo tende a vir tomar no futuro. 2. Estratégias de Mercado
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    117 Uma dasmaiores preocupações de muitos empreendimentos está relacionada com a concorrência e a competitividade acirrada do mercado atualmente, não muito distinto do que vem ocorrendo com o Grupo de Agricultores. Alguns agricultores ainda comercializam seus produtos em certos pontos de vendas, com valores semelhantes aos convencionais, por infelizmente não haver o devido reconhecimento por parte primeiramente, do ponto de venda, em relação ao valor diferenciado contido no produto ecológico. Ao mesmo tempo em que se tem amadurecido gradativamente a procura por produtos ecológicos em Garopaba, os produtos convencionais continuam a ser adquiridos pela maioria da população. No entanto, considerar-se que esta situação tende a mudar a partir da construção de um plano de ações que busque atingir a sua principal causa, ou seja, a falta de conhecimento que a cerca da existência do produto ecológico e da proposta intrínseca ao mesmo e a desvalorização daqueles que já o conhecessem. É neste contexto, perante esta limitação específica e mais enfatizada na pesquisa, que surge a necessidade de estruturarmos um Planejamento Estratégico, que fortaleça o empreendimento do Grupo e atinja o principal objetivo: promover o conhecimento e a valorização dos produtos ecológicos. O Planejamento Estratégico se dá primeiramente pela construção do foco do empreendimento, onde se defini a missão (a descrição do negócio atualmente), a visão (quais os afazeres do negócio em longo prazo), os objetivos (intenções e desejos do negócio), as metas (os passos para se chegar ao objetivo), até a definição das estratégias (plano de ações que busca atingir as metas em vista do objetivo). Antes de definirmos as estratégias ou o Plano de Ações, é sensato analisarmos o ambiente em que o Grupo de Agricultores se encontra atualmente, frente às suas condições Internas, onde se analisa o próprio Grupo, quanto às suas forças e fraquezas e frente às suas condições Externas, onde se analisam seus concorrentes, quanto às
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    118 suas oportunidadese ameaças. A este método, chamado de Análise FOFA6 (análise das forças, oportunidades, fraquezas e ameaças), é possível obter uma série de informações quanto ao empreendimento e quanto ao mercado externo, sendo utilizado como base para o Plano de Ações, voltado especificamente, ao objetivo almejado. Segundo Porter (1986), as empresas em geral, conforme a sua necessidade (conforme seus objetivos) e sua situação, podem adotar três tipos de Estratégias a serem desempenhadas no Plano de Ações, as quais exigem uma série de decisões a serem tomadas pela própria empresa. São elas: 1. Estratégia de Liderança em Custos – comercializar o produto com o menor custo do mercado. Decisões: diminuir custos; reaproveitar material; reduzir despesas com publicidade e recursos humanos; produzir em maior quantidade, entre outras. 2. Estratégia de Diferenciação – oferecer um conjunto de benefícios que integram na qualidade do produto, ou seja, agregar valor ao produto. O que acontece com os produtos ecológicos, por preservarem o meio ambiente, por não conterem agrotóxicos, por preservarem sua qualidade por maior tempo, ou seja, por estarem vinculados à proposta da agroecologia, são atribuídos de um maior diferencial perante os demais. 3. Estratégia de Enfoque – concentrar os produtos ou uma linha específica de produtos, em um determinado grupo comprador, atuando em um nicho de mercado (um segmento pequeno que demanda uma oferta específica de produto). Decisões: pesquisa detalhada do grupo comprador, conhecer seus hábitos, suas necessidades, desejos e preferências. 6 Durante o período desta pesquisa, não foi possível a aplicação da ferramenta, devido à necessidade de um maior contato com todos os integrantes do Grupo, bem como, com o mercado concorrente, exigindo assim, um período de maior dedicação e objetivos bastante específicos, não sendo esta a proposta fundamental da pesquisa.
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    119 Demandas Aintervenção do Design se dará através da estruturação desse Planejamento Estratégico, onde visa auxiliar na construção de um Plano de Ações/Estratégias, focadas no objetivo de promover o conhecimento e a valorização dos produtos ecológicos. Algumas das ações pertinentes para atingir este objetivo podem ser listadas como: § Palestras e participações em eventos locais; § Material informativo em pontos estratégicos; § Visitas de grupos de estudantes nas propriedades; No entanto, é importante enfatizar a figura do designer como facilitador e moderador na estruturação desse Planejamento Estratégico, e não como figura central ou executor do Plano de Ações, pois para a construção do Plano de Ações, deverá ser contemplada a participação efetiva e coletiva dos agricultores, onde o profissional de Design irá auxiliar a pensar e viabilizar as ações pertinentes para o alcance do objetivo. Uma outra intervenção do Design também se dará pela construção da análise das condições Internas e Externas do Grupo, a partir da ferramenta FOFA, com o mesmo método de participação coletiva. Prioridade Pela gradativa tendência no consumo desses produtos, pelo potencial do município de Garopaba em receber inúmeros visitantes, a maioria deles em busca de uma melhor qualidade de vida, e pelo próprio peso contido no resultado desta demanda (conhecimento e valorização dos produtos), sendo este uma das bases principais para a venda dos mesmos, o cumprimento desta demanda encontra-se também em nível de maior prioridade. Eficiências § Próprio alcance do objetivo; § Interação e união do Grupo – correlação com a demanda anterior § Identificação das forças, oportunidades, fraquezas e ameaças do Grupo perante o ambiente interno e externo; § Aumento gradativo das vendas;
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    120 § Maispessoas sensibilizadas com a proposta agroecológica Viabilidade Devido principalmente, à importância dada à aplicação da ferramenta Fofa, antes da estruturação do Plano de Ações, constata-se que o desempenho desta demanda é viável, porém exige-se um maior período de dedicação não somente com os integrantes do Grupo, mas com o mercado externo, neste caso, o mercado local, de maior gastos financeiros e físicos (locomoção, entrevistas...), no entanto, bastante válido, devido ao resultado gerado. Resultaria também em documentos contendo de forma descritiva, a análise Fofa e o Plano de Ações, com informações referentes aos prazos, valores e exigências de cada uma das estratégias definidas. OBS.: Para a execução de cada estratégia listada no Plano de Ações, suas condições de viabilidade, prazos, exigências são distintas, e por este motivo, só poderão ser avaliadas a partir de sua existência. Trata-se nesta temática, acima de tudo, em promover o planejamento participativo entre o Grupo de Agricultores, ou seja, a partir da intervenção do designer, estimular o Grupo a pensar nas possibilidades bem como em suas potencialidades a fim de atingir o objetivo inicial proposto na demanda. 3. Comunicação O termo utilizado, “comunicação” refere-se exatamente a sua abrangência temática, ou seja, a tudo que possa manifestar ou comunicar a identidade de algo (produto, empresa ou serviço), através de elementos visuais que representem os seus anseios, seus valores e conceitos e que principalmente, seja responsável por transmiti-los ao meio externo de forma coerente, sistematizada e consistente.
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    121 A identidadeestá relacionada diretamente com o conjunto de atributos que determinado empreendimento adota perante o mercado, definindo quem realmente ele é, junto aos seus valores e princípios. Essa identidade será transmitida ao meio externo, por meio de uma imagem, a qual define e posiciona como a empresa se parece e como ela é percebida pelos mesmos. A imagem transmitida ao público e percebida pelo mesmo, pode ser representada por diversas áreas de atividades, como pelo próprio ambiente interno da empresa; pelo comportamento desta com o ambiente externo; pela própria qualidade e eficiência de seus produtos ou serviços; por sua identidade visual. A identidade visual constituída por um conjunto de elementos visuais, com objetivo de materializar a personalidade, os valores e os princípios de uma empresa, produto ou serviço, tem ampla responsabilidade na construção da imagem percebida pelo público frente a essa empresa, produto ou serviço, pois possui um maior contato com o mesmo, estabelecendo um nível ideal de comunicação com aqueles que a visualizam. Essa materialização se dá através de um conjunto de projetos visuais, como o desenvolvimento da marca nominal e gráfica; a definição das cores institucionais; do alfabeto institucional; a utilização ou não de elementos adicionais; entre outros. Outro importante aspecto a ser levado em consideração, também de grande importância para a comunicação das empresas, neste caso, do Grupo de Agricultores, é a questão da reprodutibilidade desta identidade visual em diferentes suportes, ou até mesmo a configuração desses suportes, como o caso das embalagens. Esta demanda se refere principalmente à construção de uma identidade visual coletiva ao Grupo, às suas aplicações em diversos suportes, e o desenvolvimento de embalagens também coletivas ou específicas aos produtos de maior necessidade, seja por motivos tecnológicos (como manter o produto preservado, intacto) ou por motivos conceituais (como valorizar visualmente o produto).
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    122 Demandas Acomunicação, por meio da construção de uma identidade visual, neste caso, para o Grupo de Agricultores, é o foco principal desta demanda, onde será possível representar visualmente e de forma sistematizada, a proposta contida nos produtos ecológicos. No entanto, a comunicação além do intermédio da identidade visual, se dá também por outros meios visuais, como a própria configuração de uma embalagem (ou uma família de embalagens que identifique uma identidade territorial), que tende a ser também, o objetivo desta demanda. Com a pesquisa em andamento, pode-se perceber que o Grupo considera de grande importância, o desenvolvimento e o aperfeiçoamento quanto à sua identidade visual e os meios as quais possam ser reproduzidas. No entanto, um dos objetivos do e dos princípios que o próprio Grupo adota, é a construção de uma identidade coletiva, enfatizando primeiramente o Grupo e a proposta agroecológica, para posteriormente, avaliar as especificidades e objetivos isolados de cada agricultor. Prioridade Quanto ao desenvolvimento da identidade visual coletiva, devido às eficiências geradas a partir de seu resultado, é visível o seu grau de prioridade, estando a frente das demais demandas levantadas. Eficiências § Reconhecimento e valorização de forma coletiva; § Fortalecimento do Grupo; § Melhor identificação dos produtos; § Padronização e consistência das informações visuais; § Fortalecimento da proposta agroecológica; § Credibilidade aos produtos;
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    123 Viabilidade Devidoa grande necessidade e eficiência de seu resultado, a demanda se torna amplamente viável, no entanto, exige uma série de etapas, como compreender a identidade e os s valores do Grupo, através de reuniões e discussões específicas com todos os integrantes, até materializá-los na forma de uma identidade visual, a qual exige recursos materiais como o uso de computadores e seus componentes. Para o desenvolvimento de embalagens e para a reprodutibilidade da identidade visual em diferentes suportes, necessita-se também de um maior recurso financeiro destinado aos testes e variações e ao projeto propriamente dito, pois são horas de profissionais envolvidos e amparados por ferramentas de interação com o grupo interessado. Pode-se pensar a partir dessa temática, a construção de uma identidade territorial, a qual vem sendo discutidas por representantes do governo, sendo esta uma forte demanda também para o Design, onde materializaria uma proposta que tende expressar a diversidade e a identidade de todo um território. 4. Sistemas de Produção Quanto à temática abordada por Sistemas de Produção, pode-se compreender todo o contexto identificado à cerca do processo produtivo dos agricultores, que neste caso, corresponde desde o recebimento das matérias primas e insumos até a manipulação final dos produtos (lavagem, separação, seleção, armazenamento e distribuição). Neste contexto, três importantes constatações foram levantadas: a diversidade de postos de trabalho operados em sua maioria por uma única pessoa; a diversidade de instrumentos manuseados em cada um deles, alguns de grave risco ao agricultor; e por
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    124 último, ascondições mínimas exigidas em função de uma melhor organização e praticidade nas estruturas físicas destinadas às operações de trabalho. É com base nessas três constatações, que se evidencia a proposta desta demanda, enfatizando o desenvolvimento de novos projetos (entendido aqui não somente como o produto em si, mas como todo o sistema físico envolto do processo produtivo: os produtos ou instrumentos utilizados, a estrutura física e a própria operacionalização da atividade) ou as devidas recomendações para o aperfeiçoamento dos projetos existentes, em vista principalmente à melhor qualidade de vida do agricultor e a um melhor rendimento do trabalho, que conseqüentemente, influenciará na comercialização de seus produtos.
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    125 Demandas Odesenvolvimento de novos projetos ou as recomendações dos projetos existentes enfatiza três áreas distintas, porém interligadas: os postos de trabalho; os instrumentos manuseados e as estruturas físicas utilizadas. § Quanto aos postos de trabalho, a demanda se daria pela análise detalhada de cada posto de trabalho operado pelo agricultor, com base em estudos ergonômicos, gerando um caderno de encargos, contendo as devidas recomendações técnicas a cada posto, como também, contendo as informações para os devidos ajustes (redesenhos) e reparos a alguma das operações dos mesmos. Os postos de trabalhos passíveis a estes redesenhos ou ajustes são representados pelas áreas, por exemplo, da lavagem dos produtos (tanque); área de seleção dos produtos (bancada), entre outros, podendo ser redimensionados, redesenhados e readaptados. § Quanto aos instrumentos utilizados, a demanda se daria também pela análise mais detalhada dos instrumentos de maior manuseio, ou que possuem algum risco, ou que tendem a ser de maior incomodo ao operador, gerando algumas recomendações com base na usabilidade dos produtos, ou até mesmo, o desenvolvimento de novos produtos, específico para a particularidade da atividade. Aqui poderiam ser contemplados os instrumentos como foice e facas, de maior risco a agricultor, como também o desenvolvimento de algum novo produto ou mecanismo que facilite o processo do plantio e da colheita, de grande desgaste ao agricultor, devido a sua postura durante o procedimento. § Quanto às estruturas físicas, a demanda se daria novamente pela análise detalhada das estruturas existentes, como também da atividade desempenhada em cada uma delas, avaliando suas necessidades e exigências técnicas (principalmente quanto às necessidades quanto à higienização do local), gerando também as devidas recomendações, adaptações ou o desenvolvimento de alguma parte da estrutura.
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    126 Nas trêsatuações, terá como base preferencial, os estudos ergonômicos com o objetivo de aperfeiçoar a interface entre o agricultor e o seu sistema produtivo, atuando para o seu próprio benefício e para o melhor rendimento de seu trabalho. Prioridade É visível que os resultados desta demanda são benéficos não somente ao agricultor, mas também à sua produtividade, no entanto, devido a uma certa acomodação ou aceitação por parte dos agricultores em relação ao seu sistema produtivo (contemplado aqui pelos postos de trabalho, instrumentos e estruturas físicas) ou pelo alto e médio investimento necessário para a sua execução, esta demanda encontra-se em um nível intermediário quanto a sua prioridade. Porém, os agricultores reconhecem a necessidade de intervenção e aperfeiçoamento dessas três áreas. Eficiências § Melhor qualidade de vida do agricultor; § Melhor rendimento do trabalho; § Menores riscos ao agricultor; § Melhor aproveitamento dos instrumentos e estruturas disponíveis; Viabilidade Por se tratar em parte, da necessidade do desenvolvimento de algum projeto específico, como a execução de um novo instrumento adequado a uma determinada atividade, a demanda tem em seus princípios uma certa resistência quanto a sua viabilidade, pois necessita de maiores recursos financeiros, para o desenvolvimento, para os testes e para as alterações necessárias, como também, o envolvimento de outras áreas do conhecimento, como fisioterapeutas, ergonomistas entre outros. O mesmo ocorre quando não se trata do desenvolvimento de algum projeto, e sim a recomendação de algum ajuste ou reforma em determinada operação, necessitando, do investimento do próprio agricultor em materializar essa recomendação, ou seja, em ajustar ou reformar o que foi recomendado.
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    127 Pode-se pensara partir dessa temática, na identificação e utilização de tecnologias apropriadas, identificadas neste contexto como todos os mecanismos ou instrumentos necessários durante o processo produtivo dos agricultores e principalmente, coerentes à proposta agroecológica, em buscar a preservação do meio ambiente, e coerentes à proposta do desenvolvimento local, visando a utilização de recursos específicos a abundantes da localidade. 5. CAPÌTULO V 5.1. Considerações Finais A pesquisa realizada, desde a sua contextualização teórica, abordando os principais discursos a respeito da agricultura familiar, passando pelo modelo de desenvolvimento vigente, até a compreensão a cerca do planejamento local integrado para o desenvolvimento igualitário em suas distintas dimensões, foi de grande validez para que fosse possível na seqüência, a interação e aplicação desses discursos em contextos atuais, vivenciados neste caso, pelo Grupo de Agricultores Agroecológicos de Garopaba. Com o objetivo de compreender as condições reais do Grupo de Agricultores, ao longo da pesquisa, algumas particularidades foram reveladas, como também devidas informações antes especuladas e investigadas, foram evidenciadas. Evidenciou-se em primeiro momento, a existência de redes sociais formadas por relações e articulações, como a forte relação social existente, por meio da amizade e cooperação entre os agricultores; a relação fraterna de união da família em prol do desenvolvimento da propriedade e pela própria relação de intervenção da maioria dos
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    128 agricultores emdistintos segmentos do Município, sejam em órgãos públicos, organizações locais e demais entidades. Essas redes sociais vêm resultando em uma conjuntura bastante oportuna ao Grupo, ou seja, a relação de interface entre distintos atores sociais, como técnicos, consumidores, fornecedores, outros agricultores e organizações locais, que coletivamente, promovem uma rede ampla de conhecimento responsável pela troca de informações técnicas, de experiências práticas e de ensinamentos, permitindo cada vez mais, o expansionismo da proposta agroecológica e o desenvolvimento do próprio empreendimento constituído pelo Grupo. O Grupo tem mantido uma maturidade bastante ativa, no que se refere à compreensão de intervirem de forma estratégica e planejada em diversos ambientes sociais, não somente com a função de comercializar ou divulgar seus produtos, mas principalmente, contribuindo para a discussão sobre os problemas sociais, ambientais e econômicos locais, enfatizando e representado pela realidade pertencente. Percebeu-se também, a devida importância dada ao trabalho desempenhado pela Instituição do CEPAGRO, com o intuito principal de fomentar a agroecologia no Núcleo Litoral Catarinense, a partir do assessoramento principalmente técnico e da socialização dos Grupos com demais entidades. Mesmo porque muitos agricultores relatam o desconhecimento a respeito da proposta agroecológica e de suas técnicas agrícolas antes do contato existente entre o Grupo e a Instituição. Este contato tem interagido diretamente no processo evolutivo das propriedades, as quais após a sua avaliação, onde são consideradas aptas a receber o selo de certificação, tendem por um período, serem fiscalizadas pela Instituição, porém sendo esta, função própria da Rede Ecovida, ou seja, de responsabilidade dos demais integrantes do Grupo. A partir de então, cabe ao Grupo de Agricultores, devidamente capacitados e fornidos com uma carga de experiência bastante proveitosa, desempenhar seu papel de
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    129 mediador entreas ações coletivas, que promovam e desenvolvam cada vez mais o Grupo, junto às distintas instituições ou entidades locais e regionais. A participação e articulação dos agricultores junto a essas instituições e entidades a fins, contribui fortemente para uma ação pública de interesse da coletividade, onde os sujeitos desse processo, os próprios agricultores, se tornarão cada vez mais, capazes de agir de forma pró-ativa, persuasivos, e de anseios empreendedor, em vista aos seus interesses e direitos. O que requer e exigem o comprometimento de todos os integrantes do Grupo, bem como uma melhor estrutura organizacional interna e com uma articulação de um arranjo institucional mínimo para a execução do plano de ações. Devido principalmente, à recente formação do Grupo, e à presente ensino-aprendizagem a cerca das técnicas agrícolas com base agroecológicas e às outras limitações relatadas na pesquisa, o Grupo desponta alguns percalços que o impede de obter o devido reconhecimento e o total fortalecimento para intervir nesses ambientes, no entanto, a compreensão visionária de muitos empreendimentos tem sido abordada pelos agricultores, os quais acreditam e tem se comprometido com uma mudança social, ecológica e econômica de sua realidade, que por vez, influencia em sua localidade. Ao longo da pesquisa percebeu-se a necessidade de se repensar a contribuição de outros atores sociais, que possam envolver-se com o contexto referido, em suas distintas particularidades e efeitos ao mesmo. Cabendo aqui, não somente o profissional do Design, sendo este o foco dessa pesquisa, mas também, profissionais das áreas administrativas, jurídicas, entre outras, um papel promissor e de plena responsabilidade perante a sociedade. Ao fim da pesquisa, junto ao levantamento das demandas de maiores necessidades de intervenção, confirmou-se a multidisciplinaridade do Design, devido principalmente, quanto à abrangência de suas atividades, sendo propícias a distintas áreas de atuação, quanto também, para a área de abordagem desta pesquisa, ou seja, para o meio rural. No entanto, ficou presente que a intervenção do Design não se dá através da participação única e exclusiva deste profissional, e sim, através da interação
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    130 e mediaçãodeste com os demais atores envolvidos. O designer torna-se mais um integrante deste processo em vista do desenvolvimento sustentável e promissor de toda uma coletividade. 6. REFERENCIAL ABROMOVAY. Ricardo. Agricultura Familiar e Desenvolvimento Territorial. In: Revista da Associação Brasileira de Reforma Agrária – vols 28 nº 1, 2, 3 e 29, nº1 – jan/dez 1998 e jan/ago 1999. ALMEIDA. Jalcione. A Problemática do Desenvolvimento Sustentável. In: Desenvolvimento Sustentável: necessidade e/ou possibilidade? Ed. EDUNISC, 2001. ARANTES. Antônio A. Cultura e Territorialidade em Políticas Sociais. In: Territórios em Movimento: cultura e identidade como estratégia de inserção competitiva. Brasília: Ed. Relume Dumará, 2004. AZEVEDO. Wilton. O que é Design. Ed. Brasiliense, 1988. BAIARDI. Amílcar; OLALDE. Alicia Ruiz; NACIF. Paulo Gabriel S. A Dimensão Cultural, Institucional, Educacional e a Interdisciplinaridade do Desenvolvimento Local. UFBA. Escola de Agronomia. Programa de Pós Graduação em Ciências Agrárias, 2003. BATALHA. Mário Otávio (coord.). Gestão Agroindustrial. GEPAI – Grupo de Estudos e Pesquisas Agroindustriais. Ed. Atlas S. A., 1997.
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    136 ( )outros _____________________________________________________________ 3. Quanto ao nível exigido para o selo de certificação participativa, o grupo se encontra: ( ) em nível primário ( ) em nível de transição ( ) totalmente agroecológico ( ) algumas famílias em transição e outras já preparadas para a certificação 4. Quais as principais características percebidas no grupo, quanto ao trabalho que o Cepagro vem exercendo sobre o mesmo? (Poderá ser listada mais de uma alternativa) ( ) flexibilidade ( ) constante interesse ( ) insegurança ( ) pouco interesse por parte de algumas familias ( ) fácil aprendizado ( ) difícil aprendizado ( ) comprometidos com suas obrigações ( ) participativos nas reuniões e oficinas ( ) outras _____________________________________________________________ 5. Quais as potencialidades do lugar (Garopaba) que o Cepagro observa de forma a favorecer o grupo de agricultores? Citar na ordem de prioridade: (1) maior prioridade e (5) menor prioridade. ( ) cidade turística ( ) aproximidade da área rural e urbana ( ) tendência dos consumidores locais em consumir produtos ecológicos ( ) proximidade com cidades estratégicas (Florianópolis, Tubarão, Criciúma) ( ) tendência e consciência dos agricultores locais em aderir ao sistema de produção agroecológico ( ) outras _____________________________________________________________
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    137 6. Quaisas limitações do lugar (Garopaba) que a Cepagro observa de forma a desfavorecer o grupo de agricultores? Citar na ordem de prioridade: (1) maior prioridade e (6) menor prioridade. ( ) sazonalidade do turismo – maior demanda no verão e menor durante o restante do ano. ( ) a não possibilidade de produção de determinados produtos devido ao clima e outros fatores ( ) falta de apoio local (prefeitura, sindicatos, instituições) ( ) o não conhecimento dos habitantes com relação aos produtos ecológicos e à agroecologia ( ) uma considerável parcela de agricultores que ainda produzem de forma convencional ( ) outras _____________________________________________________________ 7. Quais os próximos passos relacionados ao trabalho do Cepagro para com o grupo de agricultores? Citar na ordem de prioridade: (1) maior prioridade e (5) menor prioridade. ( ) continuar com a assistência técnica e outras atividades que o Cepagro já vem trabalhando ( ) dar abertura a outros profissionais para atuarem junto ao grupo ( ) buscar ampliar o número de agricultores vinculados à rede ecovida ( ) validar a certificação das famílias ( ) outros _____________________________________________________________ 8. Em relação à situação do que o Grupo enfrenta atualmente, em que níveis os mesmos se encontram, condizentes a tais parâmetros:
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    138 Nível baixo Nível intermediário Nível alto Produção totalmente agroecológica Reconhecimento do grupo pela comunidade de Garopaba Oportunidade de novos pontos de vendas locais Oportunidade de expandir o mercado para outras cidades (Florianópolis, Tubarão, Criciúma...) Compreensão do consumidor sobre o que é produto ecológico e o que é agroecologia Identificação visual dos produtos (banners, placas, rótulos) Recursos para a comercialização em grupo (transporte, embalagem de armazenamento, embalagem individual) 9. Qual ou quais as famílias que possuem uma melhor estrutura em relação ao seu sistema produtivo (plantio – colheita/armazenamento – comercialização)? 10. Qual ou quais as famílias que possuem prioridade no atendimento feito por outros profissionais (engenheiros técnicos, consultores, designers)? 11. Com base no conhecimento pessoal, a respeito das possibilidades de atuações do design (o que vem a ser Design e no que ele pode contribuir?), quais as possíveis demandas percebidas no grupo (seja em sua totalidade ou em propriedades isoladas), para o campo do Design? 12. Quais os produtos que possuem maior prioridade para o foco do profissional do Design? Por que motivo? 13. Quais as vantagens que o Cepagro observa em relação às contribuições do Design?
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    139 Anexo 2.Roteiro para entrevista semi-estruturada Quanto à propriedade / agricultor / história 1. Como e quando adquiriu a propriedade? 2. Quantos hectares possuem a área do plantio, área das estruturas física, e área de mata? 3. Possui antecedentes que viveram no meio rural e trabalhavam na agricultura? De onde eram? O que produziam? O que lhes ensinaram? 4. Possui alguma atividade complementar à agricultura? 5. O que fazia antes de trabalhar na agricultura? 6. Possui filhos? Eles também trabalham na agricultura? Qual sua opinião a respeito da falta de interesse dos jovens com a agricultura? Quanto aos princípios da Agroecologia 1. O que o motivou a trabalhar com a agricultura ecológica? 2. Como aderiu a associação dos agricultores agroecológicos? Há quanto tempo?
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    140 3. Quaisos pontos positivos e negativos em trabalhar com a agricultura ecológica? 4. Qual a sua opinião a respeito do pouco número de agricultores ecológicos em Garopaba? 5. O que você faz para que o consumidor reconheça a proposta da agricultura agroecológica e seus produtos diferenciados? 6. Qual a sua opinião a respeito do mercado destinado a esse tipo de produto? 7. Como você imagina a agricultura ecológica e os produtos orgânicos daqui um tempo? Terão expandido o mercado e o seu reconhecimento? Quanto às questões da pré-produção 1. Como é feita a aquisição das matérias primas como mudas e insumos? De onde são adquiridos? Como são entregues até a propriedade? 2. Possui algum controle nesta etapa, algum tipo de contrato, acordo ou fidelidade com os fornecedores? 3. De quanto em quanto tempo ocorre a compra dessas matérias primas? 4. O quanto é gasto e investido nesta etapa anualmente? (percentual) Quanto às questões da produção 1. Quantas pessoas trabalham na propriedade? Quem são elas? 2. Os trabalhadores possuem funções específicas? 3. Como e quando é feita a contratação de terceiros? 4. Qual o controle em relação à produção e a saída dos produtos? Qual o critério ou forma de controle para a quantidade produzida? 5. Possui produção já direcionada? A quem? Quanto do total da produção? 6. Quais as limitações percebidas durante a etapa de produção – desde o plantio até a colheita? 7. Após a colheita, quais as próximas etapas? 8. É feito o beneficiamento de algum produto? Quem é responsável por essa etapa? Onde ela ocorre? Quanto às questões do produto
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    141 1. Oestá sendo produzido atualmente? 2. Quais os principais produtos produzidos na época do verão (outubro a março) e no inverno (abril a setembro)? 3. Qual o produto de maior dificuldade para o plantio? E por que motivo? 4. Como é estipulado o valor final dos produtos? 5. Quais os critérios utilizados para a escolha dos produtos a serem produzidos? 6. Onde e como os produtos finais estão sendo armazenados? Possuem algum cuidado especifico? 7. Qual a sua opinião a respeito do espaço destinado ao armazenamento dos produtos e da forma que estão sendo armazenados? Quanto aos instrumentos de trabalho 1. Que tipo de ferramentas e equipamentos possui? 2. Qual a ferramenta e equipamento que você mais utiliza? 3. Como adquiriu esses equipamentos e ferramentas? 4. Tem em vista a aquisição de algum equipamento? Qual? 5. Possui alguma reclamação quanto às ferramentas e equipamentos? 6. Já adaptou alguma ferramenta ou equipamento? Qual? E por que? 7. O quanto é investido em equipamentos e ferramentas anualmente? Quanto à estrutura física 1. A propriedade conta com que tipo de estrutura física? Qual a função de cada uma delas? 2. Houve algum planejamento prévio para a construção dessas estruturas? 3. Qual a dimensão dessas estruturas? 4. Qual sua opinião a respeito das estruturas físicas de sua propriedade? Precisa de melhorias? 5. Alguma estrutura já foi adaptada ou reaproveitada? 6. Investiram nos últimos anos em infra-estrutura e possui interesse em investir atualmente? O que pretende fazer? Quanto ao mercado (distribuição / comercialização / divulgação)
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    142 1. Comoe quando é feita a distribuição dos produtos? De quanto em quanto tempo? Quem é responsável pela entrega? 2. Onde estão sendo vendidos os produtos atualmente? 3. Quem cuida e controla a venda dos produtos? 4. Possui algum ponto de venda “fixo”? 5. Como é feito a primeira visita ao ponto de venda para oferecer o produto? 6. Como é mantido o contato com os pontos de vendas? 7. Os pontos de venda possui algum tipo de divulgação a respeito do grupo, do agricultor ou do produto orgânico? 8. Quais os meios de divulgação utilizados pelo agricultor em particular? 9. O agricultor busca identificar novos mercados? Oferece seus produtos a novos mercados? Obteve sucesso isoladamente ou em grupo? 10. Qual a opinião a respeito da divulgação e comercialização dos seus produtos? 11. Já pensou em colocar um “nome”, uma “marca” para seus produtos? 12. Utiliza o selo da associação dos produtores orgânicos e coloniais de garopaba – sc? 13. Quais as suas propostas para uma maior divulgação, reconhecimento e valorização dos produtos e da agricultura ecológica? 14. Como funciona a feira agroecológica municipal e o mercado do produtor? Qual a sua opinião sobre esses dois pontos de venda? Tem tido lucro e reconhecimento? Quanto a outros assuntos 1. Qual sua opinião a respeito do turismo em massa? Quais os pontos positivos e negativos para agricultura?