SlideShare uma empresa Scribd logo
"A Destinada" - Paula Ottoni (Cap. 1)
Prólogo




A       única coisa que eu conseguia ver com clareza era o homem a pou-
cos passos, o meu alvo... Se ainda me restasse alguma força. Tudo o mais
não parecia existir, apenas um borrão de cores e formas ao meu redor.
       É claro que tinha de restar alguma força, ou tudo o que eu passara
não teria valido de nada. Eu sabia exatamente o que fazer, mas tudo pa-
recia tão irreal e tão doloroso que a cada batida do coração eu me sentia
mais fraca e vulnerável.
       Heroísmo é para heróis, eu sempre soube disso. E o problema é
que eu nunca fui uma heroína. A despeito de tudo o que parecia sensato,
porém, lá estava eu, lutando até a última fagulha de esperança, usando
de cada fiapo de resistência que meu frágil e despreparado corpo ofere-
cia, infringindo a lei natural das coisas... Salvando a vida da pessoa que
amava. Ou melhor, tentando salvar.
       Era a segunda vez que eu via essa cena. Apesar de ter visto antes, na
minha mente, com a mesma nitidez, agora era real, avassaladoramente
real. E nesse instante eu estava lá, de espectadora, esperando reunir co-
ragem suficiente para agir.
       O barulho estrondoso veio da arma. O som mais terrível do mun-
do. Naquele segundo, meu universo desabava.
       Havia muitas coisas que eu queria dizer para expressar a dor que
atingia meu peito e que nada tinha a ver com dores físicas. Mas, no mi-
nuto em que eu soube que ouviria aquele som explosivo e nauseante,
tudo o que consegui emitir através de meus lábios secos foi um longo e
desesperado grito.




                                                                      9
1. Visão


                    “O destino é o que embaralha as cartas, mas nós somos os que jogamos.”
                                                                      William Shakespeare




Havia um trem andando sobre os trilhos, numa paisagem repleta ape-
nas de árvores e campos vazios. Era madrugada e a lua brilhava no céu,
parcialmente encoberta por nuvens densas. O sopro gelado passeava pelas
janelas do trem, especialmente em uma, toda aberta, deixando o vento
frio adentrar a cabine. Havia apenas um passageiro no vagão. Ele deixava
o cabelo ricochetear em seu rosto pelo vento vindo da janela escancarada.
       Era um homem jovem. Mas era difícil ver seu rosto, pois os cabelos
grandes e escuros o encobriam à medida em que o vento batia neles em
sentido oposto. Ele não parecia ligar para o frio que fazia, parecia gostar
de estar sozinho na companhia da brisa noturna.
       Seus olhos finalmente se cansaram de ver a paisagem escura e monó-
tona. Fechou-os e inclinou suavemente a cabeça para trás, para encostá-la
no banco. O vento ainda brincava com seus cabelos quando o trem parou.
       Os olhos do homem se abriram por reflexo, porque ele tinha certeza
de que ainda não tinham chegado ao destino final. E não havia escala. O
homem não conseguia imaginar os motivos para o trem ter parado tão de
repente, nesse lugar vegetal, onde nem havia estação.
       Finalmente começou a notar o frio. Mas talvez seu tremor não es-
tivesse relacionado à temperatura ou ao vento, e sim ao som de passos
chegando mais perto.
       Não era a movimentação de passageiros, já que não havia mais ne-
nhum além dele próprio, pelo que sabia. Congelado no banco, o rapaz não


                                                                                  11
conseguiu olhar para trás. Temia o que veria. A porta do vagão tinha sido
aberta silenciosamente, alguém o invadira.
       Eram passos cautelosos, vindo diretamente para as primeiras filas
de poltronas, onde ele estava: o homem de cabelos escuros encoberto pela
escuridão da noite, que tremia compulsivamente – porque talvez ele sou-
besse o que esperar.
       E no instante seguinte ele encarava dois homens grandes e fortes,
que usavam toucas cobrindo toda a cabeça, permitindo que se vissem ape-
nas seus olhos sombrios. O viajante se ergueu do acento, pensando em
gritar. Mas antes que tivesse tempo para isso, os silenciosos encapuzados
o amordaçaram e amarraram seus pulsos. Rápida e cautelosamente, es-
gueiraram-se pelo corredor, carregando o jovem, e pularam do trem já em
movimento, levando o rapaz.


      Acordei assustada, fazendo o possível para manter em meu peito o
grito que se formara.
      Ofegando, sentei-me na cama e esperei que meus batimentos car-
díacos voltassem ao normal; o grito também não saiu. Então comecei a
chorar, mas tentei ser silenciosa, para que minha mãe ou minha irmã
não ouvissem.
      Não conseguia acreditar que aquele pesadelo estava começando
de novo. E era quase que literalmente um pesadelo. Mas eu sabia bem
demais que eram minhas visões. E era isso que me incomodava, porque
não me importava de sonhar com coisas ruins, se eu sabia que era tudo
mentira. Mas com minhas visões era diferente. Era real demais, e era
verdade. Algo assim iria acontecer com alguém, talvez essa noite mesmo.
Talvez estivesse começando nesse instante...
      Bem, é isso. Eu sou vidente.
      Não é uma palavra que eu goste muito de usar para nomear isso,
mas é a que todo mundo entende. Não que muitas pessoas saibam que
tenho esse dom, mas todo mundo já se habituou a chamar aqueles que
veem o futuro de videntes – o que não me agrada muito, porque a ima-
gem de vidente que sempre aparece na minha cabeça é a da mulher com
um turbante, que atende pessoas em tendas, em troca de dinheiro não
merecido. É não merecido porque a maioria delas é charlatã, não tem po-
der sensitivo nenhum e abusa da ingenuidade de pessoas iludidas. Não


    12
que não haja videntes sensitivas de verdade nesses lugares, mas tanto faz.
       Tanto faz porque eu não uso um lenço na cabeça e nem fico mis-
turando cartas de tarô.
       Além do mais, não se deve cobrar por esse tipo de serviço – pelo
menos foi o que aprendi em meus dezoito anos. É algo que se faz de gra-
ça para as pessoas a quem se quer ajudar. Porque se você vê um destino
ruim para alguém, é legal avisar a essa pessoa, para que ela mude de ideia
quanto a alguma decisão que tomou.
       Por exemplo, se alguém resolveu viajar de carro para o Arizona e
você ficou sabendo por meio de uma visão que o carro dessa pessoa vai
bater nos trinta quilômetros finais da viagem, avisaria a ela, para que
desistisse da viagem o quanto antes?
       Pelo menos é o que eu faria. É o que eu faço sempre. É o que estou
destinada a fazer para o resto da minha vida – e sem cobrar nada.
       Ainda mais se essa pessoa é sua tia. Ou o seu pai, sua avó, sua mãe,
sua irmã, ou quem quer que você ame, esteja correndo perigo e você
saiba.
       Porque não é inevitável. Sabe como é, mudar o destino. O destino
não é algo que está gravado profundamente numa pedra. Ele pode ser
apagado e refeito. Dependendo da decisão que você toma, outro destino
vai ser traçado para você, até que você vá lá e mude ele de novo. É como
uma árvore, dependendo da vontade dela, outros galhos vão nascendo.
Mas alguém pode ir lá e tirá-los, desviando a árvore a crescer em outra
direção.
       Eu sou o jardineiro. Eu arranco os galhos tortos das árvores, endi-
reitando-as até que algum outro galho perigoso nasça de novo – e eu o
arranque também.
       Já deu para perceber que minha família deve me achar algum tipo
de heroína. Meu pai, meus avós, minha tia e as pessoas a quem já ajudei
provavelmente me consideram alguma bênção dos céus, apesar de não
saberem bem o que sou, porque nunca contei. Sabe, tem muita gente que
não acredita nessas coisas e acha que é tudo coincidência.
       Mas as duas pessoas que conviveram comigo todos os dias durante
dezoito anos – onze para Vicky – sabem que é um pouco mais do que
isso. Inclusive se têm que me ouvir gritar durante quase todas as noites.
Porque normalmente vejo as coisas quando estou dormindo.
       Mas também nem sempre são coisas ruins. O pior é quando é mui-


                                                                    13
to bom e não acontece, por alguma mudança de planos repentina. Por
isso nem sempre fico empolgada com alguma coisa boa que veja aconte-
cendo, ainda mais se for comigo. Só tento seguir aquilo que acho que vai
gerar aquele acontecimento bom e espero para ver o que dá no final. Às
vezes coincide, às vezes não.
      Por isso tento seguir minha vida normalmente, tentando até es-
quecer essa anormalidade que possuo, só me lembrando dela quando
uma coisa bem ruim vai acontecer.
      O negócio é que já havia muito tempo que não tinha visão algu-
ma. Muito tempo mesmo. Desde meus dezesseis anos isso havia parado.
Pensei que esse dom tinha me abandonado de vez, apesar de sempre des-
confiar de que não seria assim tão fácil. Não adiantava eu querer apenas.
Sempre voltava.
      Mas por que agora? Depois de dois anos sem ver absolutamente
nada... Era frustrante!
      Não que fosse algo totalmente ruim. Por conta desse dom, eu já
havia evitado que coisas horrorosas acontecessem.
      Mas é muita responsabilidade. É como se eu estivesse cuidando
das pessoas o tempo inteiro, sempre com medo de não dar tempo de
avisá-las e me sentindo culpada se algo acontece. Além do mais, não é
agradável ficar tendo visões.
      Sem falar que não vejo o que quero, quando quero. E já tive proble-
mas psicológicos com isso. Eu tinha medo das visões. Minha mãe pre-
cisava me acolher, ouvindo-me chorar a noite inteira, porque eu ficava
com medo de dormir. Vai ver é por isso que elas pararam. Por causa do
meu próprio bloqueio.
      Só que não conseguia entender por que voltaram naquela noite e
de uma maneira totalmente atípica, já que geralmente eu via coisas perto
da minha realidade, com pessoas que eu conhecia.
      E eu não conhecia aquele homem.
      O que é que esse cara tinha a ver comigo?
      E aquele lugar não era Iowa, ou o Brasil. Não era nenhum lugar
que eu já tivesse ido.
      Sequei os olhos com o lençol e me deitei de novo. Não conseguia
mais dormir. Era disso que eu estava falando. Não dormiria nunca mais.
      Mas, para minha grande surpresa, acabei mesmo pegando no sono.



    14
***

       Apenas algumas horas antes, tudo parecia normal. Nenhum indí-
cio de que aquela visão chegaria para virar meu mundo pelo avesso.
       Eu chegara em casa e logo depois mamãe e Vicky apareceram, vin-
das da festa de aniversário das minhas primas gêmeas, Kate e Anne, fi-
lhas da minha tia Vanessa.
       Eu bem que gostaria de ter ido com elas, mas não havia como eu
deixar de comparecer à minha entrevista de estágio. E nem no advogado,
se a gente queria que aquele problema fosse resolvido.
       Meu pai... ou melhor, Daniel não ficaria nada feliz.
       Mas o que podemos fazer se ele resolve cancelar toda a pensão
só porque eu fiz dezoito anos e mamãe arrumou um emprego melhor?
Sem dúvida mamãe é a melhor confeiteira de Iowa. De Des Moines, pelo
menos. Mas nem por isso pessoas de todos os cantos dos Estados Unidos
aparecem na confeitaria. Não que muitas pessoas visitem Des Moines.
Deveriam. É uma cidade bem legal. Mas provavelmente ninguém ouve
falar (muito menos da confeitaria Sweet Candies).
       Tudo bem que não há nada confirmado a respeito do não-paga-
mento da pensão daqui para frente. Meu pai pode realmente ter tido
algum problema e não ter podido depositar o dinheiro ainda. Mas o que,
afinal, nós podemos pensar quando já faz quinze dias que o dia de de-
positar passou e o cara que se diz meu pai não pode ser encontrado em
nenhum telefone existente? Cansamos de ligar e ouvir a voz da secretária
eletrônica.
       É óbvio que ele decidiu que, agora que sou maior de idade, posso
ganhar meu próprio dinheiro – e ele não está errado. Eu arrumaria um
emprego mesmo que ele continuasse me ajudando mensalmente, porque
tenho consciência de que uma faculdade custa muito caro e eu quero
ajudar de alguma forma.
       Mas a questão não sou eu. É minha irmã, que tem onze anos e
uma vida escolar inteira pela frente. Decidimos dar a Daniel um prazo
de mais quinze dias. Se ele não der as caras, aí vamos entender de que
lado ficou.
       Não que eu nunca esperasse algo assim dele. Sempre foi um pai
ausente, mas também nunca fez nenhum mal a nós nem deixou de cum-
prir com seus deveres. Eu acreditei minha vida inteira que ele gostava de


                                                                   15
nós, só tinha um jeito meio despreocupado de ver a vida. Mas, sincera-
mente, se os quinze dias se esgotarem, vou começar a questionar minhas
crenças.
       E não é como se pudéssemos pegar um carro para encontrá-lo na
casa dele. Alguns países de distância realmente fazem a diferença nessas
horas.
       – E como foi o seu dia? Foi tudo bem lá? – minha mãe perguntou,
agitada, ao se lembrar subitamente de onde eu estivera aquela tarde.
       – O que quer saber primeiro?
       – A entrevista.
       – Ah, certo. Hum... eu fiquei muito nervosa, como era de se espe-
rar. E, bom, acho que fiz o que pude. Deu um branco em algumas res-
postas, mas se eles não levarem isso em conta eu tenho uma chance. Meu
currículo era melhor do que o dos meus concorrentes.
       Todos os candidatos ao emprego estavam no ensino médio ainda,
como eu. Mas certamente minhas notas e meus inúmeros idiomas fluen-
tes faziam a diferença.
       As notas eu valorizo, claro. Mas nos idiomas eu não vejo grande
coisa. Como se eu pudesse ser mais capaz do que alguém só por falar um
italiano fluente. Ou por ter português como segunda língua – ou pri-
meira, sei lá, porque agora eu moro nos Estados Unidos e minha língua
número um é o inglês.
       É uma droga perder tempo estudando italiano, quando já sou bi-
língue por ter dupla nacionalidade. E, tudo bem, eu tive escolha, mas só
na hora de optar pela próxima gramática – como se não bastassem duas.
Já que eu descartei o espanhol, o francês e o alemão, só me restou uma
opção viável. É bem inútil, mas mamãe não pensa assim. Para ela, quanto
mais línguas eu falar, melhor minha qualificação e meu aprendizado. Eu
podia estar usando meu tempo para aprender outro instrumento, já que
gosto de música e não preciso de mais aulas de piano. Mas não. Tenho
que ir para aquele curso chato. Até parece que um dia eu vou para a Itália.
       – E o advogado? – a voz de mamãe me tirou das minhas reclama-
ções mentais.
        – Ah, eu o deixei de sobreaviso. Qualquer passo em falso de Da-
niel e ele entra em ação – respondi, meio ressentida. Talvez quando – ou
se – meu pai souber que a justiça está atrás dele, nunca mais vá querer
que eu o visite. Ainda que ele mereça isso, poxa, é meu pai!


    16
– Não se preocupe, não vamos deixá-lo escapar das responsabili-
dades. Jean cuidará disso.
      Torci o nariz. Jean, o advogado, com certeza resolveria o caso, mas
eu não estava contente por termos que colocá-lo na situação. Minha mãe
tinha um ponto de vista bem diferente do meu. Para ela, meu pai tinha
finalmente feito o que ela sempre achou que ele faria, cedo ou tarde:
deixar-nos na mão de vez.
      Eu podia entender o ressentimento dela, depois de anos separada
do meu pai, sabendo das maluquices que ele já fez e se lembrando dos
desentendimentos que tiveram. Ela o conhecia bem, mas não tinha fé
nenhuma nele, em seu caráter. Mamãe já estava pronta para atacá-lo com
seu amigo advogado. Eu que ainda insistia em esperar mais um pouco,
tonta e esperançosa como era. Não queria acreditar que tinha um pai que
não ligava nem um pouco para as filhas.
       Nicole, a mulher que me carregou na barriga por longos nove
meses, sabia que isso não era fácil. Não me refiro a ganhar o processo,
porque era certo que ganharíamos. Refiro-me ao que talvez ela também
estivesse pensando. Sobre a postura do meu pai depois disso. Ele poderia
não me querer mais lá, no Brasil, na casa dele. E isso era péssimo.
      Eu gostava do Brasil. Do Rio Grande do Sul. De Caxias do Sul. Eu
nasci lá. Por mais norte-americana que eu possa me sentir agora, esta
não é minha verdadeira nacionalidade. Minha mãe que é estadunidense
e se apaixonou por meu pai brasileiro. Moramos lá até ela decidir que
não queria mais dividir o mesmo teto com ele. Então me tornei uma
cidadã do estado de Iowa. No início, uma cidadã da área rural, porque
fomos morar na fazenda do meu avô materno, Robert.
      Ficamos com meu avô em Jackson County até meus treze anos
(cheguei lá com sete). Até que mamãe decidiu que a vida campestre não
era o melhor para nós três. E mais uma vez partimos em busca de um
bom lugar para chamar de lar. E achamos. Uma casa cor-de-rosa mais ou
menos perto do centro, na capital do estado, Des Moines – onde estamos
até hoje.
      Já gosto de morar aqui. Mas vou ter que decidir onde farei facul-
dade. E confesso que ainda tinha esperança de fazer no Brasil, onde tem
o meu pai.
      Mas depois disso tudo...
      – Não fique chateada, meu bem – disse minha mãe, adivinhando


                                                                   17
meus pensamentos. – Você ainda pode ir para a Universidade de Iowa.
Não é tão ruim assim, é? E olha, seu pai é mesmo um grosso. Foi por isso
que me separei dele.
       Isso não melhorou muito o meu ânimo.
       Mas, em todo o caso, eu ainda não tinha sido aceita em universi-
dade nenhuma. Talvez, dentro de umas semanas, recebesse as cartas de
algumas delas. Mas nada garantia que me aceitariam.
       Quando comentei isso com minha mãe, Vicky se manifestou.
       – Não seja boba, é claro que vão te aceitar. Se eu tivesse suas notas
iria até para Harvard.
       Certo, Vicky era exagerada.
       – Sua irmã tem razão. Não tem com que se preocupar – mamãe re-
petiu no que parecia a centésima vez naquelas últimas semanas; os olhos
vidrados na televisão, que passava Lost. Então ela comentou algo como:
– Esse não é aquele brasileiro, o Santoro?
       E percebi que finalmente a conversa havia mudado de foco, o que
era bom, porque eu não queria pensar em mais nada disso. Nem em meu
pai e nem nas faculdades. Só o que eu queria era um pouco de descanso,
físico e mental. Aquele programa definitivamente também não me trazia
nenhum descanso mental.
       O sangue escorria da cabeça de um dos ilhados quando anunciei:
       – Acho que vou para a cama. – Uma ilha repleta de perigos e pes-
soas machucadas certamente não era do que eu precisava.
       Minha mãe, que parecia incapaz de desgrudar os olhos da tela,
acenou para mim, mandou um beijo e disse que havia alguns doces na
cozinha.
       Rumei para lá, onde imediatamente encontrei roscas açucaradas, e
me lambuzei. Um hábito nada saudável, eu tinha consciência, mas como
não era diabética nem nada, jamais tentei ignorar os deliciosos doces da
minha mãe.
       Eu ainda tinha uma semana de aulas. A última antes da formatura.
       Ainda bem que era a última. O ensino médio pode ser realmente
muito estressante. Por outro lado, porém, sentia-me insegura quanto ao
futuro. Ainda não sabia o que viria depois dessa semana. Não havia nada
certo. Nada até eu receber alguma bendita carta de admissão em uma
universidade...
       Depois de exterminar os doces, subi para meu quarto, tentando


    18
avaliar a quantidade de calorias que havia ingerido. E concluí que não
deviam ser tantas assim, já que aquela calça jeans ainda me deixava den-
tro de padrões físicos aceitáveis. Sempre fui magra – apesar haver gran-
de possibilidade de isso mudar, se eu continuasse adotando essa rotina
calórica e sedentária.
       Gastei meus últimos minutos antes da meia-noite no banheiro,
tentando limpar a quantidade excessiva de maquiagem do meu rosto –
que eu tivera de passar para causar boa impressão na entrevista.
       Desanimei-me ao olhar meu rosto limpo de base e ver as olheiras
nos mesmos lugares de antes. Estavam ali, como sempre, no rosto co-
mum e branco, emoldurado pelos cabelos mais claros que alguém pode
ter. Penteei os fios loiros, praticamente brancos perto da raiz, que bro-
tavam da minha cabeça até o início da cintura. Imaginei o quão albina
eu podia parecer para um observador distante. É óbvio que eu não era,
a cor do meu cabelo vinha de uma combinação genética bem inevitável.
       Meu pai é loiro, mas tem os cabelos dourados e a pele morena. Eu
bem que podia ter nascido assim, mas puxei a brancura de minha mãe,
que tem ainda menos melanina que meu pai. Dele só peguei os olhos
naquela cor clara e indefinida, que eu chamo de cor-de-chá, uma coisa
meio esverdeada e sem graça, ao contrário dos de Vicky e mamãe, que
parecem esmeraldas num tom vivo e lindo de verde. E ainda que Ashley
possa insistir que adoraria ter meus cabelos e que qualquer garota gasta-
ria uma grana para conseguir a cor e a textura, eu ainda não conseguia
encontrar graça neles.
       Então deitei. E antes que pudesse começar a pegar no sono, o ce-
lular apitou.
       Era um alerta de mensagem. E eram meia-noite e cinco. Bufando,
arranquei o celular da cômoda e olhei raivosamente para o número que
me incomodara.
       Era óbvio. Tinha que ser a Ashley.
       A mensagem, completamente desnecessária.
       	
Eliza Stewart, você não vai acreditar! Michael vai ao
baile comigo! Ele me convidou hoje. E você, vai com quem?
Quem sabe o Ryan? Ele está louco pra ir com você.

    Ela interrompeu meu sono para dizer isso. Tudo bem, Ashley é
minha melhor amiga, mas poderia muito bem falar essas coisas no dia

                                                                   19
seguinte. Além do mais, já havia deixado bem clara a minha opinião
sobre o assunto.
      Bem, talvez não clara o suficiente. Então resolvi reforçar.

Que ótimo pra você, Ashley! Mas EU não vou ao baile de
formatura.

      Em menos de dois minutos, ela me mandou uma resposta.

     Eu não acredito que ainda esteja                com   essa   ideia
RIDÍCULA. É o ÚLTIMO baile, Eliza!!!

      Ao que respondi:

Não adianta insistir. E Ryan não é o tipo de par que eu vá
querer.

      Depois dessa última mensagem, Ashley me deixou dormir. Obvia-
mente ficou sem palavras diante do meu argumento nada esclarecedor.
Apesar de ela já saber o que me irritava nos bailes, nunca saberia como é
estar de fato na minha pele.
      Porque Ashley Willians jamais saberia o que é ser rejeitada. Porque
Ashley Willians é linda e consegue qualquer atleta bonitão do colégio
para ser seu par sem o menor esforço. E porque ela, obviamente, nunca
tropeça no salto agulha, além de ser uma ótima dançarina.
      Por que eu teria algum motivo para ir ao baile ao lado de Ashley
Willians, e o PIOR: ao lado de Ryan Brown? O cara é o maior idiota. E
ninguém, além de Ryan, parece estar sequer remotamente interessado
em me convidar para esse baile.
      Eu gosto bastante da Ashley. Ela não é uma garota esnobe do gru-
pinho popular. Só é legal com todo mundo, e nem um pouco desajeitada,
ao passo que eu sou tímida e impopular, por passar meu tempo livre na
orquestra da escola, estudando piano. Nenhum garoto parece estar inte-
ressado em piano, muito menos no que eu tenho a dizer – provavelmente
porque acham que sou muda ou coisa assim.
      E mesmo que ela goste de passar um bocado de tempo comigo e
não ache nem um pouquinho que sou muda, parece incapaz de entender
meus argumentos anti-baile. E não a culpo.


    20
Superei meu abalo ao ter voltado a pensar nesse baile idiota e esva-
ziei a mente para finalmente dormir.
       Mas não consegui. Porque, é claro, aquela visão teve que aparecer
para mudar tudo.
       	




                        Acesse: www.adestinada.com


                    Para saber mais sobre a autora, visite:
                           www.paulaottoni.com


            Compre o seu nas livrarias Cultura, Saraiva e Fnac!




                                                                    21

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

Trecho - O Trono das Sombras
Trecho - O Trono das SombrasTrecho - O Trono das Sombras
Trecho - O Trono das Sombras
victorbrunosilva
 
Kafka - Contos
Kafka - ContosKafka - Contos
Kafka - Contos
Luis Taborda
 
quarta parte
quarta partequarta parte
quarta parte
Bianca Martins
 
Papel Misterioso
Papel Misterioso Papel Misterioso
Papel Misterioso
Everlon Coura da Silva
 
Amante Liberto 2
Amante Liberto 2Amante Liberto 2
Amante Liberto 2
Editora Universo dos Livros
 
Capítulo 1 - papel misterioso
Capítulo 1 - papel misteriosoCapítulo 1 - papel misterioso
Capítulo 1 - papel misterioso
Everlon Coura da Silva
 
Livro diário da nossa paixão
Livro   diário da nossa paixãoLivro   diário da nossa paixão
Livro diário da nossa paixão
Jean Marcos
 
Oniris o grande desafio de Rita Vilela
Oniris o grande desafio de Rita VilelaOniris o grande desafio de Rita Vilela
Oniris o grande desafio de Rita Vilela
Rita Vilela
 
Dempeo 1
Dempeo 1Dempeo 1
Dempeo 1
Bianca Martins
 
Samael aunweorastresmontanhas
Samael aunweorastresmontanhasSamael aunweorastresmontanhas
Samael aunweorastresmontanhas
Instituto de Psicobiofísica Rama Schain
 
Despedida de uma alma
Despedida de uma almaDespedida de uma alma
Despedida de uma alma
Aline Stechitti
 
Missão 13 - Julho
Missão 13 - JulhoMissão 13 - Julho
Missão 13 - Julho
Fabiano Brito
 
Carta de amor
Carta de amorCarta de amor
Carta de amor
complementoindirecto
 
Primeiro capítulo "Outra Vez"
Primeiro capítulo "Outra Vez" Primeiro capítulo "Outra Vez"
Primeiro capítulo "Outra Vez"
Carolina Gama
 
Edgar Allan Poe CoraçãO Denunciador
Edgar Allan Poe   CoraçãO DenunciadorEdgar Allan Poe   CoraçãO Denunciador
Edgar Allan Poe CoraçãO Denunciador
Kátia Coldi
 
Apocalipse
ApocalipseApocalipse
Dempeo
Dempeo Dempeo

Mais procurados (17)

Trecho - O Trono das Sombras
Trecho - O Trono das SombrasTrecho - O Trono das Sombras
Trecho - O Trono das Sombras
 
Kafka - Contos
Kafka - ContosKafka - Contos
Kafka - Contos
 
quarta parte
quarta partequarta parte
quarta parte
 
Papel Misterioso
Papel Misterioso Papel Misterioso
Papel Misterioso
 
Amante Liberto 2
Amante Liberto 2Amante Liberto 2
Amante Liberto 2
 
Capítulo 1 - papel misterioso
Capítulo 1 - papel misteriosoCapítulo 1 - papel misterioso
Capítulo 1 - papel misterioso
 
Livro diário da nossa paixão
Livro   diário da nossa paixãoLivro   diário da nossa paixão
Livro diário da nossa paixão
 
Oniris o grande desafio de Rita Vilela
Oniris o grande desafio de Rita VilelaOniris o grande desafio de Rita Vilela
Oniris o grande desafio de Rita Vilela
 
Dempeo 1
Dempeo 1Dempeo 1
Dempeo 1
 
Samael aunweorastresmontanhas
Samael aunweorastresmontanhasSamael aunweorastresmontanhas
Samael aunweorastresmontanhas
 
Despedida de uma alma
Despedida de uma almaDespedida de uma alma
Despedida de uma alma
 
Missão 13 - Julho
Missão 13 - JulhoMissão 13 - Julho
Missão 13 - Julho
 
Carta de amor
Carta de amorCarta de amor
Carta de amor
 
Primeiro capítulo "Outra Vez"
Primeiro capítulo "Outra Vez" Primeiro capítulo "Outra Vez"
Primeiro capítulo "Outra Vez"
 
Edgar Allan Poe CoraçãO Denunciador
Edgar Allan Poe   CoraçãO DenunciadorEdgar Allan Poe   CoraçãO Denunciador
Edgar Allan Poe CoraçãO Denunciador
 
Apocalipse
ApocalipseApocalipse
Apocalipse
 
Dempeo
Dempeo Dempeo
Dempeo
 

Semelhante a "A Destinada" - Paula Ottoni (Cap. 1)

Nuvem negra flipsanck pdf
Nuvem negra flipsanck pdfNuvem negra flipsanck pdf
Nuvem negra flipsanck pdf
Gabriel171
 
Primeiras 15 páginas:
Primeiras 15 páginas: Primeiras 15 páginas:
Primeiras 15 páginas:
Natalia Simionato
 
Lua Nova
Lua NovaLua Nova
Lua Nova
Gabriel Abreu
 
Bela e a fera
Bela e a feraBela e a fera
Bela e a fera
Joice Bieger
 
A Bela e a Fera
A Bela e a FeraA Bela e a Fera
A Bela e a Fera
GQ Shows e Eventos
 
Carlos henrique pereira_livro_voxifera_o_sonho_sem_dos_mortais
Carlos henrique pereira_livro_voxifera_o_sonho_sem_dos_mortaisCarlos henrique pereira_livro_voxifera_o_sonho_sem_dos_mortais
Carlos henrique pereira_livro_voxifera_o_sonho_sem_dos_mortais
Carlos Henrique Pereira
 
Vivendo a morte
Vivendo a morteVivendo a morte
Vivendo a morte
Edimar Silva
 
Lua nova
Lua novaLua nova
Lua nova
guest73a03bc
 
Coração denunciador
Coração denunciadorCoração denunciador
Coração denunciador
SUICIDE GALLERY
 
Noite profunda
Noite profundaNoite profunda
Noite profunda
Carol Cardoso
 
Noite profunda
Noite profundaNoite profunda
Noite profunda
Carol Cardoso
 
Lua nova
Lua novaLua nova
Lua nova
camilarossi
 
Série contos 2010 (vampire)
Série contos 2010 (vampire)Série contos 2010 (vampire)
Série contos 2010 (vampire)
malkavianosrpg
 
Obra literária "O caçador de palavras" de Walcyr Carrasco
Obra literária "O caçador de palavras" de Walcyr CarrascoObra literária "O caçador de palavras" de Walcyr Carrasco
Obra literária "O caçador de palavras" de Walcyr Carrasco
IEE Wilcam
 
Além das estrelas - Andreia Tonetto
Além das estrelas - Andreia TonettoAlém das estrelas - Andreia Tonetto
Além das estrelas - Andreia Tonetto
Katiane Prado
 
Querido diário, elena sussurrou _quão frustrante é isso
 Querido diário, elena sussurrou  _quão frustrante é isso Querido diário, elena sussurrou  _quão frustrante é isso
Querido diário, elena sussurrou _quão frustrante é isso
Evonaldo Gonçalves Vanny
 
Contos de um coração quebrado
Contos de um coração quebradoContos de um coração quebrado
Contos de um coração quebrado
Raquel Alves
 
Nas sombras
Nas sombrasNas sombras
Nas sombras
Bárbara Silva
 
Depressão 1º cap
Depressão   1º capDepressão   1º cap
Depressão 1º cap
escritorakarlanunes
 
Breton
BretonBreton
Breton
JNR
 

Semelhante a "A Destinada" - Paula Ottoni (Cap. 1) (20)

Nuvem negra flipsanck pdf
Nuvem negra flipsanck pdfNuvem negra flipsanck pdf
Nuvem negra flipsanck pdf
 
Primeiras 15 páginas:
Primeiras 15 páginas: Primeiras 15 páginas:
Primeiras 15 páginas:
 
Lua Nova
Lua NovaLua Nova
Lua Nova
 
Bela e a fera
Bela e a feraBela e a fera
Bela e a fera
 
A Bela e a Fera
A Bela e a FeraA Bela e a Fera
A Bela e a Fera
 
Carlos henrique pereira_livro_voxifera_o_sonho_sem_dos_mortais
Carlos henrique pereira_livro_voxifera_o_sonho_sem_dos_mortaisCarlos henrique pereira_livro_voxifera_o_sonho_sem_dos_mortais
Carlos henrique pereira_livro_voxifera_o_sonho_sem_dos_mortais
 
Vivendo a morte
Vivendo a morteVivendo a morte
Vivendo a morte
 
Lua nova
Lua novaLua nova
Lua nova
 
Coração denunciador
Coração denunciadorCoração denunciador
Coração denunciador
 
Noite profunda
Noite profundaNoite profunda
Noite profunda
 
Noite profunda
Noite profundaNoite profunda
Noite profunda
 
Lua nova
Lua novaLua nova
Lua nova
 
Série contos 2010 (vampire)
Série contos 2010 (vampire)Série contos 2010 (vampire)
Série contos 2010 (vampire)
 
Obra literária "O caçador de palavras" de Walcyr Carrasco
Obra literária "O caçador de palavras" de Walcyr CarrascoObra literária "O caçador de palavras" de Walcyr Carrasco
Obra literária "O caçador de palavras" de Walcyr Carrasco
 
Além das estrelas - Andreia Tonetto
Além das estrelas - Andreia TonettoAlém das estrelas - Andreia Tonetto
Além das estrelas - Andreia Tonetto
 
Querido diário, elena sussurrou _quão frustrante é isso
 Querido diário, elena sussurrou  _quão frustrante é isso Querido diário, elena sussurrou  _quão frustrante é isso
Querido diário, elena sussurrou _quão frustrante é isso
 
Contos de um coração quebrado
Contos de um coração quebradoContos de um coração quebrado
Contos de um coração quebrado
 
Nas sombras
Nas sombrasNas sombras
Nas sombras
 
Depressão 1º cap
Depressão   1º capDepressão   1º cap
Depressão 1º cap
 
Breton
BretonBreton
Breton
 

Último

Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR).pdf
Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR).pdfEscola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR).pdf
Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR).pdf
Falcão Brasil
 
A Guerra do Presente - Ministério da Defesa.pdf
A Guerra do Presente - Ministério da Defesa.pdfA Guerra do Presente - Ministério da Defesa.pdf
A Guerra do Presente - Ministério da Defesa.pdf
Falcão Brasil
 
O que é o programa nacional de alimentação escolar (PNAE)?
O que é  o programa nacional de alimentação escolar (PNAE)?O que é  o programa nacional de alimentação escolar (PNAE)?
O que é o programa nacional de alimentação escolar (PNAE)?
Marcelo Botura
 
Intendência da Aeronáutica. Somos um, sou você Intendência!.pdf
Intendência da Aeronáutica. Somos um, sou você Intendência!.pdfIntendência da Aeronáutica. Somos um, sou você Intendência!.pdf
Intendência da Aeronáutica. Somos um, sou você Intendência!.pdf
Falcão Brasil
 
Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR).pdf
Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR).pdfEscola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR).pdf
Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR).pdf
Falcão Brasil
 
Os Setores Estratégicos da END - O Setor Cibernético.pdf
Os Setores Estratégicos da END - O Setor Cibernético.pdfOs Setores Estratégicos da END - O Setor Cibernético.pdf
Os Setores Estratégicos da END - O Setor Cibernético.pdf
Falcão Brasil
 
Slides Lição 3, Betel, A relevância da Igreja no cumprimento de sua Missão.pptx
Slides Lição 3, Betel, A relevância da Igreja no cumprimento de sua Missão.pptxSlides Lição 3, Betel, A relevância da Igreja no cumprimento de sua Missão.pptx
Slides Lição 3, Betel, A relevância da Igreja no cumprimento de sua Missão.pptx
LuizHenriquedeAlmeid6
 
Endereços — Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia - ...
Endereços — Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia - ...Endereços — Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia - ...
Endereços — Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia - ...
Falcão Brasil
 
Guia Genealógico da Principesca e Ducal Casa de Mesolcina, 2024
Guia Genealógico da Principesca e Ducal Casa de Mesolcina, 2024Guia Genealógico da Principesca e Ducal Casa de Mesolcina, 2024
Guia Genealógico da Principesca e Ducal Casa de Mesolcina, 2024
principeandregalli
 
Relatório do Ministério da Defesa (MD) 2017.pdf
Relatório do Ministério da Defesa (MD) 2017.pdfRelatório do Ministério da Defesa (MD) 2017.pdf
Relatório do Ministério da Defesa (MD) 2017.pdf
Falcão Brasil
 
Geotecnologias Aplicadas na Gestão de Riscos e Desastres Hidrológicos.pdf
Geotecnologias Aplicadas na Gestão de Riscos e Desastres Hidrológicos.pdfGeotecnologias Aplicadas na Gestão de Riscos e Desastres Hidrológicos.pdf
Geotecnologias Aplicadas na Gestão de Riscos e Desastres Hidrológicos.pdf
Falcão Brasil
 
Organograma do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia...
Organograma do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia...Organograma do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia...
Organograma do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia...
Falcão Brasil
 
Slides Lição 3, CPAD, Rute e Noemi, Entrelaçadas pelo Amor.pptx
Slides Lição 3, CPAD, Rute e Noemi, Entrelaçadas pelo Amor.pptxSlides Lição 3, CPAD, Rute e Noemi, Entrelaçadas pelo Amor.pptx
Slides Lição 3, CPAD, Rute e Noemi, Entrelaçadas pelo Amor.pptx
LuizHenriquedeAlmeid6
 
17 Coisas que seus alunos deveriam saber sobre TRI para melhorar sua nota no ...
17 Coisas que seus alunos deveriam saber sobre TRI para melhorar sua nota no ...17 Coisas que seus alunos deveriam saber sobre TRI para melhorar sua nota no ...
17 Coisas que seus alunos deveriam saber sobre TRI para melhorar sua nota no ...
Estuda.com
 
gestão_de_conflitos_no_ambiente_escolar.pdf
gestão_de_conflitos_no_ambiente_escolar.pdfgestão_de_conflitos_no_ambiente_escolar.pdf
gestão_de_conflitos_no_ambiente_escolar.pdf
Maria das Graças Machado Rodrigues
 
A Industria Brasileira de Defesa - Situação Atual e Perspectivas de Evolução.pdf
A Industria Brasileira de Defesa - Situação Atual e Perspectivas de Evolução.pdfA Industria Brasileira de Defesa - Situação Atual e Perspectivas de Evolução.pdf
A Industria Brasileira de Defesa - Situação Atual e Perspectivas de Evolução.pdf
Falcão Brasil
 
Portfólio Estratégico da Força Aérea Brasileira (FAB).pdf
Portfólio Estratégico da Força Aérea Brasileira (FAB).pdfPortfólio Estratégico da Força Aérea Brasileira (FAB).pdf
Portfólio Estratégico da Força Aérea Brasileira (FAB).pdf
Falcão Brasil
 
Aviação de Reconhecimento e Ataque na FAB. A Saga dos Guerreiros Polivalentes...
Aviação de Reconhecimento e Ataque na FAB. A Saga dos Guerreiros Polivalentes...Aviação de Reconhecimento e Ataque na FAB. A Saga dos Guerreiros Polivalentes...
Aviação de Reconhecimento e Ataque na FAB. A Saga dos Guerreiros Polivalentes...
Falcão Brasil
 

Último (20)

VIAGEM AO PASSADO -
VIAGEM AO PASSADO                        -VIAGEM AO PASSADO                        -
VIAGEM AO PASSADO -
 
Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR).pdf
Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR).pdfEscola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR).pdf
Escola de Comando e Estado-Maior da Aeronáutica (ECEMAR).pdf
 
A Guerra do Presente - Ministério da Defesa.pdf
A Guerra do Presente - Ministério da Defesa.pdfA Guerra do Presente - Ministério da Defesa.pdf
A Guerra do Presente - Ministério da Defesa.pdf
 
O que é o programa nacional de alimentação escolar (PNAE)?
O que é  o programa nacional de alimentação escolar (PNAE)?O que é  o programa nacional de alimentação escolar (PNAE)?
O que é o programa nacional de alimentação escolar (PNAE)?
 
Intendência da Aeronáutica. Somos um, sou você Intendência!.pdf
Intendência da Aeronáutica. Somos um, sou você Intendência!.pdfIntendência da Aeronáutica. Somos um, sou você Intendência!.pdf
Intendência da Aeronáutica. Somos um, sou você Intendência!.pdf
 
Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR).pdf
Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR).pdfEscola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR).pdf
Escola Preparatória de Cadetes do Ar (EPCAR).pdf
 
Os Setores Estratégicos da END - O Setor Cibernético.pdf
Os Setores Estratégicos da END - O Setor Cibernético.pdfOs Setores Estratégicos da END - O Setor Cibernético.pdf
Os Setores Estratégicos da END - O Setor Cibernético.pdf
 
Slides Lição 3, Betel, A relevância da Igreja no cumprimento de sua Missão.pptx
Slides Lição 3, Betel, A relevância da Igreja no cumprimento de sua Missão.pptxSlides Lição 3, Betel, A relevância da Igreja no cumprimento de sua Missão.pptx
Slides Lição 3, Betel, A relevância da Igreja no cumprimento de sua Missão.pptx
 
Endereços — Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia - ...
Endereços — Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia - ...Endereços — Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia - ...
Endereços — Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia - ...
 
Guia Genealógico da Principesca e Ducal Casa de Mesolcina, 2024
Guia Genealógico da Principesca e Ducal Casa de Mesolcina, 2024Guia Genealógico da Principesca e Ducal Casa de Mesolcina, 2024
Guia Genealógico da Principesca e Ducal Casa de Mesolcina, 2024
 
Relatório do Ministério da Defesa (MD) 2017.pdf
Relatório do Ministério da Defesa (MD) 2017.pdfRelatório do Ministério da Defesa (MD) 2017.pdf
Relatório do Ministério da Defesa (MD) 2017.pdf
 
Geotecnologias Aplicadas na Gestão de Riscos e Desastres Hidrológicos.pdf
Geotecnologias Aplicadas na Gestão de Riscos e Desastres Hidrológicos.pdfGeotecnologias Aplicadas na Gestão de Riscos e Desastres Hidrológicos.pdf
Geotecnologias Aplicadas na Gestão de Riscos e Desastres Hidrológicos.pdf
 
Organograma do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia...
Organograma do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia...Organograma do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia...
Organograma do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia...
 
Slides Lição 3, CPAD, Rute e Noemi, Entrelaçadas pelo Amor.pptx
Slides Lição 3, CPAD, Rute e Noemi, Entrelaçadas pelo Amor.pptxSlides Lição 3, CPAD, Rute e Noemi, Entrelaçadas pelo Amor.pptx
Slides Lição 3, CPAD, Rute e Noemi, Entrelaçadas pelo Amor.pptx
 
17 Coisas que seus alunos deveriam saber sobre TRI para melhorar sua nota no ...
17 Coisas que seus alunos deveriam saber sobre TRI para melhorar sua nota no ...17 Coisas que seus alunos deveriam saber sobre TRI para melhorar sua nota no ...
17 Coisas que seus alunos deveriam saber sobre TRI para melhorar sua nota no ...
 
gestão_de_conflitos_no_ambiente_escolar.pdf
gestão_de_conflitos_no_ambiente_escolar.pdfgestão_de_conflitos_no_ambiente_escolar.pdf
gestão_de_conflitos_no_ambiente_escolar.pdf
 
A Industria Brasileira de Defesa - Situação Atual e Perspectivas de Evolução.pdf
A Industria Brasileira de Defesa - Situação Atual e Perspectivas de Evolução.pdfA Industria Brasileira de Defesa - Situação Atual e Perspectivas de Evolução.pdf
A Industria Brasileira de Defesa - Situação Atual e Perspectivas de Evolução.pdf
 
Portfólio Estratégico da Força Aérea Brasileira (FAB).pdf
Portfólio Estratégico da Força Aérea Brasileira (FAB).pdfPortfólio Estratégico da Força Aérea Brasileira (FAB).pdf
Portfólio Estratégico da Força Aérea Brasileira (FAB).pdf
 
Aviação de Reconhecimento e Ataque na FAB. A Saga dos Guerreiros Polivalentes...
Aviação de Reconhecimento e Ataque na FAB. A Saga dos Guerreiros Polivalentes...Aviação de Reconhecimento e Ataque na FAB. A Saga dos Guerreiros Polivalentes...
Aviação de Reconhecimento e Ataque na FAB. A Saga dos Guerreiros Polivalentes...
 
Elogio da Saudade .
Elogio da Saudade                          .Elogio da Saudade                          .
Elogio da Saudade .
 

"A Destinada" - Paula Ottoni (Cap. 1)

  • 2. Prólogo A única coisa que eu conseguia ver com clareza era o homem a pou- cos passos, o meu alvo... Se ainda me restasse alguma força. Tudo o mais não parecia existir, apenas um borrão de cores e formas ao meu redor. É claro que tinha de restar alguma força, ou tudo o que eu passara não teria valido de nada. Eu sabia exatamente o que fazer, mas tudo pa- recia tão irreal e tão doloroso que a cada batida do coração eu me sentia mais fraca e vulnerável. Heroísmo é para heróis, eu sempre soube disso. E o problema é que eu nunca fui uma heroína. A despeito de tudo o que parecia sensato, porém, lá estava eu, lutando até a última fagulha de esperança, usando de cada fiapo de resistência que meu frágil e despreparado corpo ofere- cia, infringindo a lei natural das coisas... Salvando a vida da pessoa que amava. Ou melhor, tentando salvar. Era a segunda vez que eu via essa cena. Apesar de ter visto antes, na minha mente, com a mesma nitidez, agora era real, avassaladoramente real. E nesse instante eu estava lá, de espectadora, esperando reunir co- ragem suficiente para agir. O barulho estrondoso veio da arma. O som mais terrível do mun- do. Naquele segundo, meu universo desabava. Havia muitas coisas que eu queria dizer para expressar a dor que atingia meu peito e que nada tinha a ver com dores físicas. Mas, no mi- nuto em que eu soube que ouviria aquele som explosivo e nauseante, tudo o que consegui emitir através de meus lábios secos foi um longo e desesperado grito. 9
  • 3. 1. Visão “O destino é o que embaralha as cartas, mas nós somos os que jogamos.” William Shakespeare Havia um trem andando sobre os trilhos, numa paisagem repleta ape- nas de árvores e campos vazios. Era madrugada e a lua brilhava no céu, parcialmente encoberta por nuvens densas. O sopro gelado passeava pelas janelas do trem, especialmente em uma, toda aberta, deixando o vento frio adentrar a cabine. Havia apenas um passageiro no vagão. Ele deixava o cabelo ricochetear em seu rosto pelo vento vindo da janela escancarada. Era um homem jovem. Mas era difícil ver seu rosto, pois os cabelos grandes e escuros o encobriam à medida em que o vento batia neles em sentido oposto. Ele não parecia ligar para o frio que fazia, parecia gostar de estar sozinho na companhia da brisa noturna. Seus olhos finalmente se cansaram de ver a paisagem escura e monó- tona. Fechou-os e inclinou suavemente a cabeça para trás, para encostá-la no banco. O vento ainda brincava com seus cabelos quando o trem parou. Os olhos do homem se abriram por reflexo, porque ele tinha certeza de que ainda não tinham chegado ao destino final. E não havia escala. O homem não conseguia imaginar os motivos para o trem ter parado tão de repente, nesse lugar vegetal, onde nem havia estação. Finalmente começou a notar o frio. Mas talvez seu tremor não es- tivesse relacionado à temperatura ou ao vento, e sim ao som de passos chegando mais perto. Não era a movimentação de passageiros, já que não havia mais ne- nhum além dele próprio, pelo que sabia. Congelado no banco, o rapaz não 11
  • 4. conseguiu olhar para trás. Temia o que veria. A porta do vagão tinha sido aberta silenciosamente, alguém o invadira. Eram passos cautelosos, vindo diretamente para as primeiras filas de poltronas, onde ele estava: o homem de cabelos escuros encoberto pela escuridão da noite, que tremia compulsivamente – porque talvez ele sou- besse o que esperar. E no instante seguinte ele encarava dois homens grandes e fortes, que usavam toucas cobrindo toda a cabeça, permitindo que se vissem ape- nas seus olhos sombrios. O viajante se ergueu do acento, pensando em gritar. Mas antes que tivesse tempo para isso, os silenciosos encapuzados o amordaçaram e amarraram seus pulsos. Rápida e cautelosamente, es- gueiraram-se pelo corredor, carregando o jovem, e pularam do trem já em movimento, levando o rapaz. Acordei assustada, fazendo o possível para manter em meu peito o grito que se formara. Ofegando, sentei-me na cama e esperei que meus batimentos car- díacos voltassem ao normal; o grito também não saiu. Então comecei a chorar, mas tentei ser silenciosa, para que minha mãe ou minha irmã não ouvissem. Não conseguia acreditar que aquele pesadelo estava começando de novo. E era quase que literalmente um pesadelo. Mas eu sabia bem demais que eram minhas visões. E era isso que me incomodava, porque não me importava de sonhar com coisas ruins, se eu sabia que era tudo mentira. Mas com minhas visões era diferente. Era real demais, e era verdade. Algo assim iria acontecer com alguém, talvez essa noite mesmo. Talvez estivesse começando nesse instante... Bem, é isso. Eu sou vidente. Não é uma palavra que eu goste muito de usar para nomear isso, mas é a que todo mundo entende. Não que muitas pessoas saibam que tenho esse dom, mas todo mundo já se habituou a chamar aqueles que veem o futuro de videntes – o que não me agrada muito, porque a ima- gem de vidente que sempre aparece na minha cabeça é a da mulher com um turbante, que atende pessoas em tendas, em troca de dinheiro não merecido. É não merecido porque a maioria delas é charlatã, não tem po- der sensitivo nenhum e abusa da ingenuidade de pessoas iludidas. Não 12
  • 5. que não haja videntes sensitivas de verdade nesses lugares, mas tanto faz. Tanto faz porque eu não uso um lenço na cabeça e nem fico mis- turando cartas de tarô. Além do mais, não se deve cobrar por esse tipo de serviço – pelo menos foi o que aprendi em meus dezoito anos. É algo que se faz de gra- ça para as pessoas a quem se quer ajudar. Porque se você vê um destino ruim para alguém, é legal avisar a essa pessoa, para que ela mude de ideia quanto a alguma decisão que tomou. Por exemplo, se alguém resolveu viajar de carro para o Arizona e você ficou sabendo por meio de uma visão que o carro dessa pessoa vai bater nos trinta quilômetros finais da viagem, avisaria a ela, para que desistisse da viagem o quanto antes? Pelo menos é o que eu faria. É o que eu faço sempre. É o que estou destinada a fazer para o resto da minha vida – e sem cobrar nada. Ainda mais se essa pessoa é sua tia. Ou o seu pai, sua avó, sua mãe, sua irmã, ou quem quer que você ame, esteja correndo perigo e você saiba. Porque não é inevitável. Sabe como é, mudar o destino. O destino não é algo que está gravado profundamente numa pedra. Ele pode ser apagado e refeito. Dependendo da decisão que você toma, outro destino vai ser traçado para você, até que você vá lá e mude ele de novo. É como uma árvore, dependendo da vontade dela, outros galhos vão nascendo. Mas alguém pode ir lá e tirá-los, desviando a árvore a crescer em outra direção. Eu sou o jardineiro. Eu arranco os galhos tortos das árvores, endi- reitando-as até que algum outro galho perigoso nasça de novo – e eu o arranque também. Já deu para perceber que minha família deve me achar algum tipo de heroína. Meu pai, meus avós, minha tia e as pessoas a quem já ajudei provavelmente me consideram alguma bênção dos céus, apesar de não saberem bem o que sou, porque nunca contei. Sabe, tem muita gente que não acredita nessas coisas e acha que é tudo coincidência. Mas as duas pessoas que conviveram comigo todos os dias durante dezoito anos – onze para Vicky – sabem que é um pouco mais do que isso. Inclusive se têm que me ouvir gritar durante quase todas as noites. Porque normalmente vejo as coisas quando estou dormindo. Mas também nem sempre são coisas ruins. O pior é quando é mui- 13
  • 6. to bom e não acontece, por alguma mudança de planos repentina. Por isso nem sempre fico empolgada com alguma coisa boa que veja aconte- cendo, ainda mais se for comigo. Só tento seguir aquilo que acho que vai gerar aquele acontecimento bom e espero para ver o que dá no final. Às vezes coincide, às vezes não. Por isso tento seguir minha vida normalmente, tentando até es- quecer essa anormalidade que possuo, só me lembrando dela quando uma coisa bem ruim vai acontecer. O negócio é que já havia muito tempo que não tinha visão algu- ma. Muito tempo mesmo. Desde meus dezesseis anos isso havia parado. Pensei que esse dom tinha me abandonado de vez, apesar de sempre des- confiar de que não seria assim tão fácil. Não adiantava eu querer apenas. Sempre voltava. Mas por que agora? Depois de dois anos sem ver absolutamente nada... Era frustrante! Não que fosse algo totalmente ruim. Por conta desse dom, eu já havia evitado que coisas horrorosas acontecessem. Mas é muita responsabilidade. É como se eu estivesse cuidando das pessoas o tempo inteiro, sempre com medo de não dar tempo de avisá-las e me sentindo culpada se algo acontece. Além do mais, não é agradável ficar tendo visões. Sem falar que não vejo o que quero, quando quero. E já tive proble- mas psicológicos com isso. Eu tinha medo das visões. Minha mãe pre- cisava me acolher, ouvindo-me chorar a noite inteira, porque eu ficava com medo de dormir. Vai ver é por isso que elas pararam. Por causa do meu próprio bloqueio. Só que não conseguia entender por que voltaram naquela noite e de uma maneira totalmente atípica, já que geralmente eu via coisas perto da minha realidade, com pessoas que eu conhecia. E eu não conhecia aquele homem. O que é que esse cara tinha a ver comigo? E aquele lugar não era Iowa, ou o Brasil. Não era nenhum lugar que eu já tivesse ido. Sequei os olhos com o lençol e me deitei de novo. Não conseguia mais dormir. Era disso que eu estava falando. Não dormiria nunca mais. Mas, para minha grande surpresa, acabei mesmo pegando no sono. 14
  • 7. *** Apenas algumas horas antes, tudo parecia normal. Nenhum indí- cio de que aquela visão chegaria para virar meu mundo pelo avesso. Eu chegara em casa e logo depois mamãe e Vicky apareceram, vin- das da festa de aniversário das minhas primas gêmeas, Kate e Anne, fi- lhas da minha tia Vanessa. Eu bem que gostaria de ter ido com elas, mas não havia como eu deixar de comparecer à minha entrevista de estágio. E nem no advogado, se a gente queria que aquele problema fosse resolvido. Meu pai... ou melhor, Daniel não ficaria nada feliz. Mas o que podemos fazer se ele resolve cancelar toda a pensão só porque eu fiz dezoito anos e mamãe arrumou um emprego melhor? Sem dúvida mamãe é a melhor confeiteira de Iowa. De Des Moines, pelo menos. Mas nem por isso pessoas de todos os cantos dos Estados Unidos aparecem na confeitaria. Não que muitas pessoas visitem Des Moines. Deveriam. É uma cidade bem legal. Mas provavelmente ninguém ouve falar (muito menos da confeitaria Sweet Candies). Tudo bem que não há nada confirmado a respeito do não-paga- mento da pensão daqui para frente. Meu pai pode realmente ter tido algum problema e não ter podido depositar o dinheiro ainda. Mas o que, afinal, nós podemos pensar quando já faz quinze dias que o dia de de- positar passou e o cara que se diz meu pai não pode ser encontrado em nenhum telefone existente? Cansamos de ligar e ouvir a voz da secretária eletrônica. É óbvio que ele decidiu que, agora que sou maior de idade, posso ganhar meu próprio dinheiro – e ele não está errado. Eu arrumaria um emprego mesmo que ele continuasse me ajudando mensalmente, porque tenho consciência de que uma faculdade custa muito caro e eu quero ajudar de alguma forma. Mas a questão não sou eu. É minha irmã, que tem onze anos e uma vida escolar inteira pela frente. Decidimos dar a Daniel um prazo de mais quinze dias. Se ele não der as caras, aí vamos entender de que lado ficou. Não que eu nunca esperasse algo assim dele. Sempre foi um pai ausente, mas também nunca fez nenhum mal a nós nem deixou de cum- prir com seus deveres. Eu acreditei minha vida inteira que ele gostava de 15
  • 8. nós, só tinha um jeito meio despreocupado de ver a vida. Mas, sincera- mente, se os quinze dias se esgotarem, vou começar a questionar minhas crenças. E não é como se pudéssemos pegar um carro para encontrá-lo na casa dele. Alguns países de distância realmente fazem a diferença nessas horas. – E como foi o seu dia? Foi tudo bem lá? – minha mãe perguntou, agitada, ao se lembrar subitamente de onde eu estivera aquela tarde. – O que quer saber primeiro? – A entrevista. – Ah, certo. Hum... eu fiquei muito nervosa, como era de se espe- rar. E, bom, acho que fiz o que pude. Deu um branco em algumas res- postas, mas se eles não levarem isso em conta eu tenho uma chance. Meu currículo era melhor do que o dos meus concorrentes. Todos os candidatos ao emprego estavam no ensino médio ainda, como eu. Mas certamente minhas notas e meus inúmeros idiomas fluen- tes faziam a diferença. As notas eu valorizo, claro. Mas nos idiomas eu não vejo grande coisa. Como se eu pudesse ser mais capaz do que alguém só por falar um italiano fluente. Ou por ter português como segunda língua – ou pri- meira, sei lá, porque agora eu moro nos Estados Unidos e minha língua número um é o inglês. É uma droga perder tempo estudando italiano, quando já sou bi- língue por ter dupla nacionalidade. E, tudo bem, eu tive escolha, mas só na hora de optar pela próxima gramática – como se não bastassem duas. Já que eu descartei o espanhol, o francês e o alemão, só me restou uma opção viável. É bem inútil, mas mamãe não pensa assim. Para ela, quanto mais línguas eu falar, melhor minha qualificação e meu aprendizado. Eu podia estar usando meu tempo para aprender outro instrumento, já que gosto de música e não preciso de mais aulas de piano. Mas não. Tenho que ir para aquele curso chato. Até parece que um dia eu vou para a Itália. – E o advogado? – a voz de mamãe me tirou das minhas reclama- ções mentais. – Ah, eu o deixei de sobreaviso. Qualquer passo em falso de Da- niel e ele entra em ação – respondi, meio ressentida. Talvez quando – ou se – meu pai souber que a justiça está atrás dele, nunca mais vá querer que eu o visite. Ainda que ele mereça isso, poxa, é meu pai! 16
  • 9. – Não se preocupe, não vamos deixá-lo escapar das responsabili- dades. Jean cuidará disso. Torci o nariz. Jean, o advogado, com certeza resolveria o caso, mas eu não estava contente por termos que colocá-lo na situação. Minha mãe tinha um ponto de vista bem diferente do meu. Para ela, meu pai tinha finalmente feito o que ela sempre achou que ele faria, cedo ou tarde: deixar-nos na mão de vez. Eu podia entender o ressentimento dela, depois de anos separada do meu pai, sabendo das maluquices que ele já fez e se lembrando dos desentendimentos que tiveram. Ela o conhecia bem, mas não tinha fé nenhuma nele, em seu caráter. Mamãe já estava pronta para atacá-lo com seu amigo advogado. Eu que ainda insistia em esperar mais um pouco, tonta e esperançosa como era. Não queria acreditar que tinha um pai que não ligava nem um pouco para as filhas. Nicole, a mulher que me carregou na barriga por longos nove meses, sabia que isso não era fácil. Não me refiro a ganhar o processo, porque era certo que ganharíamos. Refiro-me ao que talvez ela também estivesse pensando. Sobre a postura do meu pai depois disso. Ele poderia não me querer mais lá, no Brasil, na casa dele. E isso era péssimo. Eu gostava do Brasil. Do Rio Grande do Sul. De Caxias do Sul. Eu nasci lá. Por mais norte-americana que eu possa me sentir agora, esta não é minha verdadeira nacionalidade. Minha mãe que é estadunidense e se apaixonou por meu pai brasileiro. Moramos lá até ela decidir que não queria mais dividir o mesmo teto com ele. Então me tornei uma cidadã do estado de Iowa. No início, uma cidadã da área rural, porque fomos morar na fazenda do meu avô materno, Robert. Ficamos com meu avô em Jackson County até meus treze anos (cheguei lá com sete). Até que mamãe decidiu que a vida campestre não era o melhor para nós três. E mais uma vez partimos em busca de um bom lugar para chamar de lar. E achamos. Uma casa cor-de-rosa mais ou menos perto do centro, na capital do estado, Des Moines – onde estamos até hoje. Já gosto de morar aqui. Mas vou ter que decidir onde farei facul- dade. E confesso que ainda tinha esperança de fazer no Brasil, onde tem o meu pai. Mas depois disso tudo... – Não fique chateada, meu bem – disse minha mãe, adivinhando 17
  • 10. meus pensamentos. – Você ainda pode ir para a Universidade de Iowa. Não é tão ruim assim, é? E olha, seu pai é mesmo um grosso. Foi por isso que me separei dele. Isso não melhorou muito o meu ânimo. Mas, em todo o caso, eu ainda não tinha sido aceita em universi- dade nenhuma. Talvez, dentro de umas semanas, recebesse as cartas de algumas delas. Mas nada garantia que me aceitariam. Quando comentei isso com minha mãe, Vicky se manifestou. – Não seja boba, é claro que vão te aceitar. Se eu tivesse suas notas iria até para Harvard. Certo, Vicky era exagerada. – Sua irmã tem razão. Não tem com que se preocupar – mamãe re- petiu no que parecia a centésima vez naquelas últimas semanas; os olhos vidrados na televisão, que passava Lost. Então ela comentou algo como: – Esse não é aquele brasileiro, o Santoro? E percebi que finalmente a conversa havia mudado de foco, o que era bom, porque eu não queria pensar em mais nada disso. Nem em meu pai e nem nas faculdades. Só o que eu queria era um pouco de descanso, físico e mental. Aquele programa definitivamente também não me trazia nenhum descanso mental. O sangue escorria da cabeça de um dos ilhados quando anunciei: – Acho que vou para a cama. – Uma ilha repleta de perigos e pes- soas machucadas certamente não era do que eu precisava. Minha mãe, que parecia incapaz de desgrudar os olhos da tela, acenou para mim, mandou um beijo e disse que havia alguns doces na cozinha. Rumei para lá, onde imediatamente encontrei roscas açucaradas, e me lambuzei. Um hábito nada saudável, eu tinha consciência, mas como não era diabética nem nada, jamais tentei ignorar os deliciosos doces da minha mãe. Eu ainda tinha uma semana de aulas. A última antes da formatura. Ainda bem que era a última. O ensino médio pode ser realmente muito estressante. Por outro lado, porém, sentia-me insegura quanto ao futuro. Ainda não sabia o que viria depois dessa semana. Não havia nada certo. Nada até eu receber alguma bendita carta de admissão em uma universidade... Depois de exterminar os doces, subi para meu quarto, tentando 18
  • 11. avaliar a quantidade de calorias que havia ingerido. E concluí que não deviam ser tantas assim, já que aquela calça jeans ainda me deixava den- tro de padrões físicos aceitáveis. Sempre fui magra – apesar haver gran- de possibilidade de isso mudar, se eu continuasse adotando essa rotina calórica e sedentária. Gastei meus últimos minutos antes da meia-noite no banheiro, tentando limpar a quantidade excessiva de maquiagem do meu rosto – que eu tivera de passar para causar boa impressão na entrevista. Desanimei-me ao olhar meu rosto limpo de base e ver as olheiras nos mesmos lugares de antes. Estavam ali, como sempre, no rosto co- mum e branco, emoldurado pelos cabelos mais claros que alguém pode ter. Penteei os fios loiros, praticamente brancos perto da raiz, que bro- tavam da minha cabeça até o início da cintura. Imaginei o quão albina eu podia parecer para um observador distante. É óbvio que eu não era, a cor do meu cabelo vinha de uma combinação genética bem inevitável. Meu pai é loiro, mas tem os cabelos dourados e a pele morena. Eu bem que podia ter nascido assim, mas puxei a brancura de minha mãe, que tem ainda menos melanina que meu pai. Dele só peguei os olhos naquela cor clara e indefinida, que eu chamo de cor-de-chá, uma coisa meio esverdeada e sem graça, ao contrário dos de Vicky e mamãe, que parecem esmeraldas num tom vivo e lindo de verde. E ainda que Ashley possa insistir que adoraria ter meus cabelos e que qualquer garota gasta- ria uma grana para conseguir a cor e a textura, eu ainda não conseguia encontrar graça neles. Então deitei. E antes que pudesse começar a pegar no sono, o ce- lular apitou. Era um alerta de mensagem. E eram meia-noite e cinco. Bufando, arranquei o celular da cômoda e olhei raivosamente para o número que me incomodara. Era óbvio. Tinha que ser a Ashley. A mensagem, completamente desnecessária. Eliza Stewart, você não vai acreditar! Michael vai ao baile comigo! Ele me convidou hoje. E você, vai com quem? Quem sabe o Ryan? Ele está louco pra ir com você. Ela interrompeu meu sono para dizer isso. Tudo bem, Ashley é minha melhor amiga, mas poderia muito bem falar essas coisas no dia 19
  • 12. seguinte. Além do mais, já havia deixado bem clara a minha opinião sobre o assunto. Bem, talvez não clara o suficiente. Então resolvi reforçar. Que ótimo pra você, Ashley! Mas EU não vou ao baile de formatura. Em menos de dois minutos, ela me mandou uma resposta. Eu não acredito que ainda esteja com essa ideia RIDÍCULA. É o ÚLTIMO baile, Eliza!!! Ao que respondi: Não adianta insistir. E Ryan não é o tipo de par que eu vá querer. Depois dessa última mensagem, Ashley me deixou dormir. Obvia- mente ficou sem palavras diante do meu argumento nada esclarecedor. Apesar de ela já saber o que me irritava nos bailes, nunca saberia como é estar de fato na minha pele. Porque Ashley Willians jamais saberia o que é ser rejeitada. Porque Ashley Willians é linda e consegue qualquer atleta bonitão do colégio para ser seu par sem o menor esforço. E porque ela, obviamente, nunca tropeça no salto agulha, além de ser uma ótima dançarina. Por que eu teria algum motivo para ir ao baile ao lado de Ashley Willians, e o PIOR: ao lado de Ryan Brown? O cara é o maior idiota. E ninguém, além de Ryan, parece estar sequer remotamente interessado em me convidar para esse baile. Eu gosto bastante da Ashley. Ela não é uma garota esnobe do gru- pinho popular. Só é legal com todo mundo, e nem um pouco desajeitada, ao passo que eu sou tímida e impopular, por passar meu tempo livre na orquestra da escola, estudando piano. Nenhum garoto parece estar inte- ressado em piano, muito menos no que eu tenho a dizer – provavelmente porque acham que sou muda ou coisa assim. E mesmo que ela goste de passar um bocado de tempo comigo e não ache nem um pouquinho que sou muda, parece incapaz de entender meus argumentos anti-baile. E não a culpo. 20
  • 13. Superei meu abalo ao ter voltado a pensar nesse baile idiota e esva- ziei a mente para finalmente dormir. Mas não consegui. Porque, é claro, aquela visão teve que aparecer para mudar tudo. Acesse: www.adestinada.com Para saber mais sobre a autora, visite: www.paulaottoni.com Compre o seu nas livrarias Cultura, Saraiva e Fnac! 21