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Nas sombras

Bárbara Silva
Bárbara Silva
Bárbara Silvanão tenho

Nas sombras

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Nas Sombras



Capítulo Um

— Você pode me ouvir, não pode?

Apertei o botão verde da copiadora para abafar a voz desencarnada. Algumas vezes, se eu as ignorasse por tempo
suficiente, elas iam embora — confusas, desencorajadas e mais solitárias do que nunca. Algumas vezes.Tá bom,
quase nunca. Normalmente elas ficavam mais altas.Não tinha tempo para lidar com isso naquele dia. Apenas mais
um bloco de processos para tirar os grampos, copiar e grampear novamente, e então eu poderia ir para casa, trocar
esta camisa de força e esta meia-calça por uma camiseta e um jeans, e conseguir chegar à casa do Logan antes do
ensaio. Para dizer a ele que sinto muito, que mudei de ideia e que dessa vez ele pode acreditar em mim. Sério.

— Eu sei que você pode me escutar. — A voz da mulher velha ganhava força enquanto se aproximava. — Você é um
deles.

Não me encolhi enquanto pegava o processo do topo da pilha sobre a mesa da sala de conferências. Eu não podia
vê-la sob as fortes luzes fluorescentes do escritório, o que tornava por volta de um por cento mais fácil fingir que ela
não estava lá.Algum dia, se dependesse de mim, nenhum deles estaria mais ali.

— Que criança intolerantemente rude — disse ela.

Arranquei o grampo do último processo e o deixei voar em uma direção desconhecida, tentando me apressar sem
parecer que estava me apressando. Se a fantasma soubesse que eu estava me preparando para ir embora, ela ia sair
cuspindo sua história sem ser convidada. Coloquei cuidadosamente as folhas no alimentador e apertei “copiar”
novamente.

— Você não pode ter mais que 16 anos. — A voz da senhora estava perto, quase no meu cotovelo. — Então você
nasceu nos escutando.Eu não precisava que ela me lembrasse de como as divagações dos fantasmas costumavam
encobrir as canções de ninar new age da minha mãe. (De acordo com tia Gina, mamãe achava que as velhas canções
de ninar eram muito perturbadoras: “nana, neném, que a cuca vem pegar”. Mas quando pessoas mortas estão
reclamando e choramingando em volta do seu berço o tempo todo, a ideia de ser pega pela cuca não é exatamente
uma fonte de preocupação.)A pior parte era que aquelas canções de ninar eram tudo que eu me lembrava dela.

— Vamos lá! — reclamei baixinho com a copiadora, resistindo à vontade de chutá-la.

Essa bosta tinha escolhido justo aquele momento para emperrar.

— Merda. — Cerrei o punho, enfiando a ponta do removedor de grampos debaixo da unha do meu dedão. — Ai!
Inferno!

Chupei a gota de sangue que se formou.
— Cuidado com o palavreado. — O fantasma fungou. — Quando eu tinha a sua idade, mocinhas nunca teriam
escutado tais palavras, muito menos assassinado a língua mãe com... blá-blá... crianças de hoje em dia... blá-blá...
culpa dos pais... blá.

Abri a frente da copiadora com força e procurei pelo papel preso, cantarolando uma canção dos Keeley Brothers
para encobrir os resmungos do fantasma.

— Eles me cortaram — disse ela, com a voz baixa.

Parei de cantarolar e soltei um suspiro que balançou minha franja. Algumas vezes não tinha como ignorar essas
pessoas.Levantei, batendo a porta da copiadora.

— Uma condição. Eu vou poder ver você.

— De forma alguma — ela bufou.

— Resposta errada.

Contornei a mesa e fui em direção ao interruptor ao lado da porta da sala de conferências.

— Por favor, você não quer fazer isso. A forma como eles me deixaram...

Apaguei a luz e acionei a Caixa Preta.

— Não!

O fantasma avançou na minha direção em uma explosão de luz roxa. Ela parou a 5 centímetros do meu rosto e
soltou um gritinho agudo que bateu em todos os pequenos ossos dos meus ouvidos.Recuar? Não era uma opção.
Cruzei os braços e, calma e vagarosamente, estendi o meu polegar.

— Este é seu último aviso. — Sua voz estava áspera em uma tentativa de me assustar. — Acenda a luz.

— Você queria falar. Eu não falo com fantasmas que não posso ver. — Toquei o interruptor da Caixa Preta. — É uma
droga ficar presa, não? É assim que me sinto escutando vocês o dia inteiro.

— Como você se atreve? — A mulher deu um tapa na minha cara, seus dedos encurvados como garras. Sua mão
passou através da minha cabeça sem fazer ao menos um vento. — Depois de tudo que eu passei. Olhe para
mim.Tentei ver sua aparência, mas ela estava tremendo tanto de raiva que suas linhas roxas ficavam se misturado.
Era como tentar assistir TV sem minhas lentes de contato.

— Esses sapatos estão muito fora de moda — disse eu —, mas, tirando isso, você está bonita.

O fantasma olhou para seu próprio corpo e congelou, estupefato. Seu cabelo pálido — grisalho em vida, imaginei —
estava preso em um coque e ela vestia o que parecia ser um terninho de lapela bufante e sapatos de salto baixo. Ela
parecia ter acabado de sair de um clube chique. Provavelmente achou sua própria morte um escândalo.

— Eu não tinha me visto no escuro — falou ela, surpresa. — Achei que estaria...

Sua mão passou sobre a barriga.

— O quê? Gorda?

— Estripada.

Senti meu olhar suavizar.

— Você foi assassinada?
Com pessoas velhas era normalmente um ataque cardíaco ou um derrame. Mas isso explicava sua raiva. Ela olhou
feio para mim:

— Bem, certamente não foi suicídio.

— Eu sei. — Minha voz ficou mais gentil enquanto me lembrava de ser paciente. Algumas vezes essas pobres almas
não sabiam o que esperar, apesar de todas as campanhas de conscientização pública feitas desde a Passagem. O
mínimo que eu podia fazer era explicar. — Se você tivesse se matado, não seria um fantasma, porque teria estado
preparada para morrer. E não está toda retalhada porque fica congelada no momento mais feliz da sua vida.

Ela examinou suas roupas com algo próximo a um sorriso, talvez se lembrando do dia em que as vestiu, então olhou
de volta para mim com uma ferocidade súbita:

— Mas por quê?

Deixei a paciência de lado:

— Como diabos eu deveria saber? — Balancei os braços. — Não sei nem ao menos por que nós vemos vocês.
Ninguém sabe, tá bom?

— Escute bem, mocinha. — Ela apontou seu dedo roxo na minha cara. — Quando eu tinha a sua idade...

— Quando a senhora tinha a minha idade, a Passagem não tinha acontecido ainda. Tudo é diferente hoje em dia.
Devia ficar agradecida por alguém poder escutá-la.

— Eu não deveria estar... assim... não mesmo. — Ela claramente não conseguia dizer a palavra “morta”. — Preciso
que alguém conserte isso.

— Então a senhora quer processar.

Essa é uma das especialidades da minha tia Gina: processo por responsabilidade em morte. Gina acredita em “paz
através da justiça”. Ela acha que ajuda as pessoas a passar do estado de fantasma para o que quer que esteja além.
O Paraíso, imagino, ou pelo menos um lugar melhor que Baltimore.

O estranho é que normalmente funciona, apesar de ninguém saber exatamente o porquê. Mas, infelizmente, Gina —
minha tia, guardiã e madrinha — não pode ver ou ouvir fantasmas; nem ela nem mais ninguém nascido antes da
Passagem, que aconteceu há 16 anos e 9 meses. Então, quando a firma dela pega um desses casos, adivinha quem é
o encarregado de traduzir? Tudo por um salário de assistente de arquivista.

— Meu nome é Hazel Cavendish — disse a senhora. — Eu era uma das clientes mais leais dessa firma.

Ah, isso explicava como ela tinha entrado aqui, afinal, fantasmas só podem aparecer em lugares onde estiveram
durante suas vidas. Ninguém sabe por que isso acontece também, mas com certeza torna as coisas bem mais fáceis
para pessoas como eu.

Ela continuou sem perder tempo:

— Fui assassinada hoje de manhã na porta da minha casa em...

— A senhora pode voltar na segunda? — Chequei meu relógio no brilho roxo de Hazel. — Tenho um compromisso
em outro lugar.

— Mas hoje ainda é quinta. Preciso falar com alguém agora.

— Seus dedos escorregaram pelo colar de pérolas em volta do seu pescoço. — Aura, por favor.

Dei um passo para trás.
— Como sabe o meu nome?

— Sua tia falava de você o tempo todo, me mostrou sua foto.

Seu nome é difícil de esquecer. — Ela se moveu na minha direção, seus passos silenciosos. — Tão bonito.

Minha cabeça começou a ficar zonza. Ah, não.

Vertigem em uma pessoa nascida depois da Passagem, como eu, normalmente significa que um fantasma está
virando sombra. Eles seguem por esse caminho sem volta, quando deixam a amargura deformar suas almas. Isso até
tem suas vantagens — sombras são espíritos obscuros e poderosos que podem se esconder na escuridão e ir aonde
quiserem.De fato, qualquer lugar; menos para fora desse mundo. Ao contrário dos fantasmas, sombras não podem
fazer a passagem ou encontrar a paz, até onde sabemos. E já que elas podem, por conta própria, debilitar pessoas
nascidas depois da Passagem que estiverem perto delas, “detenção” é a única opção.

— Eu realmente tenho que ir — sussurrei, como se fosse magoar menos a ex-Hazel se diminuísse o volume. —
Alguns dias não vão fazer diferença.

— Tempo sempre faz diferença.

— Não para você. — Mantive minha voz firme, mas bondosa.

— Não mais.

Ela chegou tão perto que eu podia ver cada ruga em seu rosto roxo.

— Seus olhos são velhos — sussurrou ela, com maldade. — Você acha que já viu tudo, mas não sabe como é isso
aqui. — Ela tocou meu coração com uma das mãos, mas eu não pude sentir. — Um dia você vai perder alguma coisa
importante e então vai saber.



Corri para o carro, meus sapatos de trabalho fazendo barulho ao bater na calçada e criando bolhas em meus
calcanhares. Não teria tempo de passar em casa para trocar de roupa antes de ir para a casa do Logan. Devia ter
trazido minhas roupas comigo, mas como poderia saber que ia aparecer um caso novo?Acabei amolecendo, é claro,
e deixei a senhora idosa contar à minha tia a história de sua terrível morte. O fantasma estava tão zangado que me
preocupei com o que ela faria se eu não lhe desse atenção imediata. Tornar-se uma sombra ainda era bastante raro,
especialmente para um fantasma novo como a ex-Hazel, mas não valia a pena arriscar.As volumosas árvores
alinhadas ao longo das calçadas deixavam a rua escura o suficiente para tornar possível ver fantasmas mesmo uma
hora antes do pôr do sol. Meia dúzia estava do lado de fora da creche na mansão do outro lado da rua. Assim como a
maioria dos prédios na área do Roland Park, a creche Pequenas Criaturas era completamente protegida pela Caixa
Preta — todas as suas paredes receberam a mesma camada fina de obsidiana que mantinha fantasmas afastados de
áreas críticas: banheiros, instalações militares, esse tipo de coisa. Adoraria que Gina e eu tivéssemos dinheiro para
morar lá — no Roland Park, quero dizer, não em uma instalação militar.Parei para comprar uma raspadinha gigante
de Coca-Cola e a ataquei com voracidade no caminho para a autoestrada I-83, parando de vez em quando para não
congelar meu cérebro. Geralmente prefiro usar a colherzinha da ponta do canudo, mas depois do tempo que passei
com a ex-Hazel, precisava desesperadamente da quantidade cavalar de cafeína e açúcar que só o xarope
concentrado do fundo da raspadinha poderia fornecer.As longas sombras das árvores encobriam as ruas e eu
continuei olhando estritamente para frente; assim não via os fantasmas nas calçadas.Até parece que adiantou. No
último sinal de trânsito antes da via expressa, uma pequena criança roxa acenou do banco traseiro de um carro à
minha frente; seus lábios estavam se movendo, formando palavras que eu não conseguia decifrar. Uma menina mais
velha ao seu lado botava as mãos sobre os ouvidos, suas mariachiquinhas louras balançando para frente e para trás,
enquanto ela sacudia a cabeça. Os pais, nos bancos da frente, continuavam conversando sem perceber, ou talvez
simplesmente sem saber como lidar com aquilo. Eles deviam trocar de carro, pensei, enquanto aquela pobre menina
ainda tem sua sanidade.A entrada da autoestrada era num aclive na direção do sol e soltei um suspiro de alívio,
mordendo a ponta do canudo.

Depois de quase 17 anos ouvindo sobre pavorosos assassinatos e acidentes horríveis, você poderia pensar que eu
me tornara durona, calejada. Poderia pensar que a tendência dos fantasmas a contar detalhes demais poderia até
me irritar algumas vezes em vez de entristecer.E você estaria certo. Na maioria das vezes. Quando eu tinha 5 anos,
parei de chorar. Parei de ter pesadelos. Parei de dormir com a luz acesa para não ver seus rostos. E parei de falar
sobre isso, porque àquela altura o mundo já acreditava em nós. Quinhentos milhões de crianças não podem estar
errados.Mas nunca me esqueci. Suas histórias estão guardadas em minha mente, tão perfeitamente como em um
sistema de arquivo. Provavelmente porque recitei muitas delas no banco de testemunhas.

A Justiça não simplesmente aceita minha palavra, ou a de outra pessoa qualquer. O testemunho só conta se dois de
nós, nascidos depois da Passagem, concordarmos sobre o depoimento de um fantasma. Já que fantasmas
aparentemente não podem mentir, eles são ótimas testemunhas. Ano passado, eu e um novato apavorado servimos
de tradutores para as vítimas de um serial killer. (Lembra do Tomcat? Aquele que gostava de “brincar com sua
comida”?)Bem-vindo à minha vida. E só melhora.Estacionei na porta do Logan às 18h40. Eu adorava ir à casa dos
Keeley — ela ficava em um condomínio em Hunt Valley que costumava ser uma fazenda até poucos anos atrás.
Bairros novos tinham muito menos fantasmas e eu nunca tinha visto nenhumna casa deles. Naquela época, pelo
menos.Chequei meu cabelo no espelho retrovisor. Desesperadamente ben-penteado. Vasculhei a minha bolsa e
acabei achando alguns grampinhos prateados em forma de caveira, então os prendi no meu cabelo castanho liso
para fazê-lo sobressair em alguns lugares.

— É, você está parecendo totalmente punk com seu terno bege e sapato boneca.

Fiz uma careta para mim mesma no espelho e então cheguei mais perto. Será que meus olhos eram realmente tão
velhos, como disse a ex-Hazel? Talvez fossem os círculos escuros debaixo deles. Lambi meu dedo e o esfreguei
debaixo dos meus olhos castanhos para ver se o rímel tinha borrado.Não. As sombras escuras na minha pele vinham
de muito pouco sono e muita preocupação. De tanto ensaiar o que ia dizer ao Logan.

Enquanto andava pelo caminho de tijolos que levava à porta, ouvi música saindo da janela aberta do porão.Atrasada.
Quis jogar minha bolsa no gramado dos Keeley de tantra frustração. Uma vez que Logan se perdia em sua guitarra,
ele esquecia que eu existia. E nós realmente precisávamos conversar.Entrei pela porta da frente sem bater, da
mesma forma que fazia desde que tínhamos 6 anos, quando os Keeley moravam na minha rua em uma casa
geminada como a nossa. Passei correndo pelas escadas, atravessei a cozinha e entrei na sala de estar.

— Ei, Aura — disse Dylan, o irmão de 15 anos do Logan, de sua posição habitual: sentado descalço no chão com as
pernas arqueadas em frente à TV de tela plana. Ele deu uma olhada para mim, desviando sua atenção do videogame
por um segundo, mas voltou a olhar quando reparou no copo gigante de raspadinha.

— Caso ruim?

— Velhinha, esfaqueada em um assalto. Quase uma sombra.

— Que droga. — Ele focou no seu jogo, balançando a cabeça no ritmo da trilha sonora metaleira. — Bebidas
proteinadas funcionam melhor.

— Você tem o seu jeito de se recuperar, eu tenho o meu.

— Você que sabe. — Sua voz ficou mais alta de repente. — Nãããooo! Toma! Toma!

Dylan jogou as costas contra o pufe e atirou o controle quase forte o suficiente para quebrá-lo. Enquanto seu
personagem era incinerado por um lança-chamas, ele gritou uma série de palavrões que me disseram que seus pais
não estavam em casa.
O Sr. e a Sra. Keeley aparentemente já tinham saído para sua segunda lua de mel.

Abri a porta do porão, deixando escapar uma explosão de acordes de guitarra, então tirei meus sapatos para que
pudesse descer a escada sem fazer barulho.Na metade do caminho, olhei por cima do corrimão para o lado
esquerdo do porão inacabado. Logan estava olhando para o outro lado, tocando sua Fender Stratocaster nova e
observando seu irmão Mickey fazer um solo. O movimento de suas escápulas fazia ondas na camiseta verde-neon
que eu comprara para ele na nossa última viagem a Ocean City.Quando ele moveu a cabeça para olhar seus dedos
no braço da guitarra, pude ver seu perfil. Mesmo com o rosto todo concentrado, seus olhos azuis como o céu
brilhavam de felicidade. Logan poderia tocar guitarra em um esgoto e ainda se divertir.Logan e Mickey eram como
yin e yang, dentro e fora. O cabelo espetado de Logan era descolorido com mechas pretas, enquanto o de Mickey
era preto com mechas louras. Logan tocava uma guitarra preta de destro e seu irmão, uma branca de canhoto. Eles
tinham o mesmo porte físico esbelto, e muitas pessoas achavam que eles eram gêmeos, mas Mickey tinha 18 anos e
Logan apenas 17 (menos um dia).A irmã deles, Siobhan — a verdadeira gêmea de Mickey — estava sentada com as
pernas cruzadas no tapete em frente a eles, sua rabeca apoiada em seu joelho esquerdo enquanto dividia um cigarro
com o baixista, seu namorado, Connor.

Minha melhor amiga, Megan, estava sentada ao lado deles, os joelhos dobrados junto ao peito. Ela enrolava uma
mecha do seu longo cabelo vermelho entre os dedos enquanto olhava para Mickey.O único que estava de frente
para mim era Brian, o baterista. Ele me viu e na mesma hora perdeu o tempo da música. Eu me encolhi — ele era
brilhante algumas vezes, mas podia se distrair com uma poeira perdida.Mickey e Logan pararam de tocar e se
viraram para Brian, que ajeitou o boné branco de baseball virado para trás em sua cabeça, envergonhado.

— Meu Deus — disse Mickey —, é muito pedir para você manter a porra do andamento?

— Desculpe. — Brian rodou a baqueta entre seus dedos, então apontou para mim. — Ela está aqui.

Logan se virou e esperei um olhar de repreensão por interromper o ensaio — sem falar em um resíduo de
hostilidade pela briga de ontem à noite. Mas ao invés disso, seu rosto se iluminou.

— Aura! — Ele passou a correia por cima da cabeça, entregou sua guitarra a Mickey e correu para me encontrar no
pé da escada.

— Ai, meu Deus, você não vai acreditar! — Ele me segurou pela cintura e me levantou do chão. — Você não vai
acreditar.

— Eu vou, prometo. — Passei meus braços em volta do seu pescoço, sorrindo tanto que chegava a doer. Claramente
ele não estava chateado comigo. — O que houve?

— Espere um pouco. — Logan me colocou de volta no chão, então abriu meus braços para examinar meu terno. —
Eles fazem você usar isso para trabalhar?

— Não tive tempo de trocar de roupa. — Dei um soco de leve em seu peito por me torturar. — Então, em que eu
não vou acreditar?

— Siobhan, pegue algumas roupas para ela — disse ele autoritariamente.

— Você pode escolher — disse ela —, diga por favor ou beije minha bunda.

— Por favor! — Logan pôs as mãos para cima. — Qualquer coisa para manter sua bunda a uma distância segura.

Siobhan entregou a Connor seu cigarro e se pôs de pé. Quando passou por mim, ela apertou meu cotovelo e disse:

— O cara acha que é um deus do rock só porque umas pessoas de uns selos vão ao show amanhã.

Minha mente rodou enquanto absorvia minha maior esperança e meu maior medo.
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Excerto do livro contos arcanos uma chance para o perdão - a estrelaFrank De Oliveira
 

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Nas sombras

  • 1. Nas Sombras Capítulo Um — Você pode me ouvir, não pode? Apertei o botão verde da copiadora para abafar a voz desencarnada. Algumas vezes, se eu as ignorasse por tempo suficiente, elas iam embora — confusas, desencorajadas e mais solitárias do que nunca. Algumas vezes.Tá bom, quase nunca. Normalmente elas ficavam mais altas.Não tinha tempo para lidar com isso naquele dia. Apenas mais um bloco de processos para tirar os grampos, copiar e grampear novamente, e então eu poderia ir para casa, trocar esta camisa de força e esta meia-calça por uma camiseta e um jeans, e conseguir chegar à casa do Logan antes do ensaio. Para dizer a ele que sinto muito, que mudei de ideia e que dessa vez ele pode acreditar em mim. Sério. — Eu sei que você pode me escutar. — A voz da mulher velha ganhava força enquanto se aproximava. — Você é um deles. Não me encolhi enquanto pegava o processo do topo da pilha sobre a mesa da sala de conferências. Eu não podia vê-la sob as fortes luzes fluorescentes do escritório, o que tornava por volta de um por cento mais fácil fingir que ela não estava lá.Algum dia, se dependesse de mim, nenhum deles estaria mais ali. — Que criança intolerantemente rude — disse ela. Arranquei o grampo do último processo e o deixei voar em uma direção desconhecida, tentando me apressar sem parecer que estava me apressando. Se a fantasma soubesse que eu estava me preparando para ir embora, ela ia sair cuspindo sua história sem ser convidada. Coloquei cuidadosamente as folhas no alimentador e apertei “copiar” novamente. — Você não pode ter mais que 16 anos. — A voz da senhora estava perto, quase no meu cotovelo. — Então você nasceu nos escutando.Eu não precisava que ela me lembrasse de como as divagações dos fantasmas costumavam encobrir as canções de ninar new age da minha mãe. (De acordo com tia Gina, mamãe achava que as velhas canções de ninar eram muito perturbadoras: “nana, neném, que a cuca vem pegar”. Mas quando pessoas mortas estão reclamando e choramingando em volta do seu berço o tempo todo, a ideia de ser pega pela cuca não é exatamente uma fonte de preocupação.)A pior parte era que aquelas canções de ninar eram tudo que eu me lembrava dela. — Vamos lá! — reclamei baixinho com a copiadora, resistindo à vontade de chutá-la. Essa bosta tinha escolhido justo aquele momento para emperrar. — Merda. — Cerrei o punho, enfiando a ponta do removedor de grampos debaixo da unha do meu dedão. — Ai! Inferno! Chupei a gota de sangue que se formou.
  • 2. — Cuidado com o palavreado. — O fantasma fungou. — Quando eu tinha a sua idade, mocinhas nunca teriam escutado tais palavras, muito menos assassinado a língua mãe com... blá-blá... crianças de hoje em dia... blá-blá... culpa dos pais... blá. Abri a frente da copiadora com força e procurei pelo papel preso, cantarolando uma canção dos Keeley Brothers para encobrir os resmungos do fantasma. — Eles me cortaram — disse ela, com a voz baixa. Parei de cantarolar e soltei um suspiro que balançou minha franja. Algumas vezes não tinha como ignorar essas pessoas.Levantei, batendo a porta da copiadora. — Uma condição. Eu vou poder ver você. — De forma alguma — ela bufou. — Resposta errada. Contornei a mesa e fui em direção ao interruptor ao lado da porta da sala de conferências. — Por favor, você não quer fazer isso. A forma como eles me deixaram... Apaguei a luz e acionei a Caixa Preta. — Não! O fantasma avançou na minha direção em uma explosão de luz roxa. Ela parou a 5 centímetros do meu rosto e soltou um gritinho agudo que bateu em todos os pequenos ossos dos meus ouvidos.Recuar? Não era uma opção. Cruzei os braços e, calma e vagarosamente, estendi o meu polegar. — Este é seu último aviso. — Sua voz estava áspera em uma tentativa de me assustar. — Acenda a luz. — Você queria falar. Eu não falo com fantasmas que não posso ver. — Toquei o interruptor da Caixa Preta. — É uma droga ficar presa, não? É assim que me sinto escutando vocês o dia inteiro. — Como você se atreve? — A mulher deu um tapa na minha cara, seus dedos encurvados como garras. Sua mão passou através da minha cabeça sem fazer ao menos um vento. — Depois de tudo que eu passei. Olhe para mim.Tentei ver sua aparência, mas ela estava tremendo tanto de raiva que suas linhas roxas ficavam se misturado. Era como tentar assistir TV sem minhas lentes de contato. — Esses sapatos estão muito fora de moda — disse eu —, mas, tirando isso, você está bonita. O fantasma olhou para seu próprio corpo e congelou, estupefato. Seu cabelo pálido — grisalho em vida, imaginei — estava preso em um coque e ela vestia o que parecia ser um terninho de lapela bufante e sapatos de salto baixo. Ela parecia ter acabado de sair de um clube chique. Provavelmente achou sua própria morte um escândalo. — Eu não tinha me visto no escuro — falou ela, surpresa. — Achei que estaria... Sua mão passou sobre a barriga. — O quê? Gorda? — Estripada. Senti meu olhar suavizar. — Você foi assassinada?
  • 3. Com pessoas velhas era normalmente um ataque cardíaco ou um derrame. Mas isso explicava sua raiva. Ela olhou feio para mim: — Bem, certamente não foi suicídio. — Eu sei. — Minha voz ficou mais gentil enquanto me lembrava de ser paciente. Algumas vezes essas pobres almas não sabiam o que esperar, apesar de todas as campanhas de conscientização pública feitas desde a Passagem. O mínimo que eu podia fazer era explicar. — Se você tivesse se matado, não seria um fantasma, porque teria estado preparada para morrer. E não está toda retalhada porque fica congelada no momento mais feliz da sua vida. Ela examinou suas roupas com algo próximo a um sorriso, talvez se lembrando do dia em que as vestiu, então olhou de volta para mim com uma ferocidade súbita: — Mas por quê? Deixei a paciência de lado: — Como diabos eu deveria saber? — Balancei os braços. — Não sei nem ao menos por que nós vemos vocês. Ninguém sabe, tá bom? — Escute bem, mocinha. — Ela apontou seu dedo roxo na minha cara. — Quando eu tinha a sua idade... — Quando a senhora tinha a minha idade, a Passagem não tinha acontecido ainda. Tudo é diferente hoje em dia. Devia ficar agradecida por alguém poder escutá-la. — Eu não deveria estar... assim... não mesmo. — Ela claramente não conseguia dizer a palavra “morta”. — Preciso que alguém conserte isso. — Então a senhora quer processar. Essa é uma das especialidades da minha tia Gina: processo por responsabilidade em morte. Gina acredita em “paz através da justiça”. Ela acha que ajuda as pessoas a passar do estado de fantasma para o que quer que esteja além. O Paraíso, imagino, ou pelo menos um lugar melhor que Baltimore. O estranho é que normalmente funciona, apesar de ninguém saber exatamente o porquê. Mas, infelizmente, Gina — minha tia, guardiã e madrinha — não pode ver ou ouvir fantasmas; nem ela nem mais ninguém nascido antes da Passagem, que aconteceu há 16 anos e 9 meses. Então, quando a firma dela pega um desses casos, adivinha quem é o encarregado de traduzir? Tudo por um salário de assistente de arquivista. — Meu nome é Hazel Cavendish — disse a senhora. — Eu era uma das clientes mais leais dessa firma. Ah, isso explicava como ela tinha entrado aqui, afinal, fantasmas só podem aparecer em lugares onde estiveram durante suas vidas. Ninguém sabe por que isso acontece também, mas com certeza torna as coisas bem mais fáceis para pessoas como eu. Ela continuou sem perder tempo: — Fui assassinada hoje de manhã na porta da minha casa em... — A senhora pode voltar na segunda? — Chequei meu relógio no brilho roxo de Hazel. — Tenho um compromisso em outro lugar. — Mas hoje ainda é quinta. Preciso falar com alguém agora. — Seus dedos escorregaram pelo colar de pérolas em volta do seu pescoço. — Aura, por favor. Dei um passo para trás.
  • 4. — Como sabe o meu nome? — Sua tia falava de você o tempo todo, me mostrou sua foto. Seu nome é difícil de esquecer. — Ela se moveu na minha direção, seus passos silenciosos. — Tão bonito. Minha cabeça começou a ficar zonza. Ah, não. Vertigem em uma pessoa nascida depois da Passagem, como eu, normalmente significa que um fantasma está virando sombra. Eles seguem por esse caminho sem volta, quando deixam a amargura deformar suas almas. Isso até tem suas vantagens — sombras são espíritos obscuros e poderosos que podem se esconder na escuridão e ir aonde quiserem.De fato, qualquer lugar; menos para fora desse mundo. Ao contrário dos fantasmas, sombras não podem fazer a passagem ou encontrar a paz, até onde sabemos. E já que elas podem, por conta própria, debilitar pessoas nascidas depois da Passagem que estiverem perto delas, “detenção” é a única opção. — Eu realmente tenho que ir — sussurrei, como se fosse magoar menos a ex-Hazel se diminuísse o volume. — Alguns dias não vão fazer diferença. — Tempo sempre faz diferença. — Não para você. — Mantive minha voz firme, mas bondosa. — Não mais. Ela chegou tão perto que eu podia ver cada ruga em seu rosto roxo. — Seus olhos são velhos — sussurrou ela, com maldade. — Você acha que já viu tudo, mas não sabe como é isso aqui. — Ela tocou meu coração com uma das mãos, mas eu não pude sentir. — Um dia você vai perder alguma coisa importante e então vai saber. Corri para o carro, meus sapatos de trabalho fazendo barulho ao bater na calçada e criando bolhas em meus calcanhares. Não teria tempo de passar em casa para trocar de roupa antes de ir para a casa do Logan. Devia ter trazido minhas roupas comigo, mas como poderia saber que ia aparecer um caso novo?Acabei amolecendo, é claro, e deixei a senhora idosa contar à minha tia a história de sua terrível morte. O fantasma estava tão zangado que me preocupei com o que ela faria se eu não lhe desse atenção imediata. Tornar-se uma sombra ainda era bastante raro, especialmente para um fantasma novo como a ex-Hazel, mas não valia a pena arriscar.As volumosas árvores alinhadas ao longo das calçadas deixavam a rua escura o suficiente para tornar possível ver fantasmas mesmo uma hora antes do pôr do sol. Meia dúzia estava do lado de fora da creche na mansão do outro lado da rua. Assim como a maioria dos prédios na área do Roland Park, a creche Pequenas Criaturas era completamente protegida pela Caixa Preta — todas as suas paredes receberam a mesma camada fina de obsidiana que mantinha fantasmas afastados de áreas críticas: banheiros, instalações militares, esse tipo de coisa. Adoraria que Gina e eu tivéssemos dinheiro para morar lá — no Roland Park, quero dizer, não em uma instalação militar.Parei para comprar uma raspadinha gigante de Coca-Cola e a ataquei com voracidade no caminho para a autoestrada I-83, parando de vez em quando para não congelar meu cérebro. Geralmente prefiro usar a colherzinha da ponta do canudo, mas depois do tempo que passei com a ex-Hazel, precisava desesperadamente da quantidade cavalar de cafeína e açúcar que só o xarope concentrado do fundo da raspadinha poderia fornecer.As longas sombras das árvores encobriam as ruas e eu continuei olhando estritamente para frente; assim não via os fantasmas nas calçadas.Até parece que adiantou. No último sinal de trânsito antes da via expressa, uma pequena criança roxa acenou do banco traseiro de um carro à minha frente; seus lábios estavam se movendo, formando palavras que eu não conseguia decifrar. Uma menina mais velha ao seu lado botava as mãos sobre os ouvidos, suas mariachiquinhas louras balançando para frente e para trás, enquanto ela sacudia a cabeça. Os pais, nos bancos da frente, continuavam conversando sem perceber, ou talvez simplesmente sem saber como lidar com aquilo. Eles deviam trocar de carro, pensei, enquanto aquela pobre menina
  • 5. ainda tem sua sanidade.A entrada da autoestrada era num aclive na direção do sol e soltei um suspiro de alívio, mordendo a ponta do canudo. Depois de quase 17 anos ouvindo sobre pavorosos assassinatos e acidentes horríveis, você poderia pensar que eu me tornara durona, calejada. Poderia pensar que a tendência dos fantasmas a contar detalhes demais poderia até me irritar algumas vezes em vez de entristecer.E você estaria certo. Na maioria das vezes. Quando eu tinha 5 anos, parei de chorar. Parei de ter pesadelos. Parei de dormir com a luz acesa para não ver seus rostos. E parei de falar sobre isso, porque àquela altura o mundo já acreditava em nós. Quinhentos milhões de crianças não podem estar errados.Mas nunca me esqueci. Suas histórias estão guardadas em minha mente, tão perfeitamente como em um sistema de arquivo. Provavelmente porque recitei muitas delas no banco de testemunhas. A Justiça não simplesmente aceita minha palavra, ou a de outra pessoa qualquer. O testemunho só conta se dois de nós, nascidos depois da Passagem, concordarmos sobre o depoimento de um fantasma. Já que fantasmas aparentemente não podem mentir, eles são ótimas testemunhas. Ano passado, eu e um novato apavorado servimos de tradutores para as vítimas de um serial killer. (Lembra do Tomcat? Aquele que gostava de “brincar com sua comida”?)Bem-vindo à minha vida. E só melhora.Estacionei na porta do Logan às 18h40. Eu adorava ir à casa dos Keeley — ela ficava em um condomínio em Hunt Valley que costumava ser uma fazenda até poucos anos atrás. Bairros novos tinham muito menos fantasmas e eu nunca tinha visto nenhumna casa deles. Naquela época, pelo menos.Chequei meu cabelo no espelho retrovisor. Desesperadamente ben-penteado. Vasculhei a minha bolsa e acabei achando alguns grampinhos prateados em forma de caveira, então os prendi no meu cabelo castanho liso para fazê-lo sobressair em alguns lugares. — É, você está parecendo totalmente punk com seu terno bege e sapato boneca. Fiz uma careta para mim mesma no espelho e então cheguei mais perto. Será que meus olhos eram realmente tão velhos, como disse a ex-Hazel? Talvez fossem os círculos escuros debaixo deles. Lambi meu dedo e o esfreguei debaixo dos meus olhos castanhos para ver se o rímel tinha borrado.Não. As sombras escuras na minha pele vinham de muito pouco sono e muita preocupação. De tanto ensaiar o que ia dizer ao Logan. Enquanto andava pelo caminho de tijolos que levava à porta, ouvi música saindo da janela aberta do porão.Atrasada. Quis jogar minha bolsa no gramado dos Keeley de tantra frustração. Uma vez que Logan se perdia em sua guitarra, ele esquecia que eu existia. E nós realmente precisávamos conversar.Entrei pela porta da frente sem bater, da mesma forma que fazia desde que tínhamos 6 anos, quando os Keeley moravam na minha rua em uma casa geminada como a nossa. Passei correndo pelas escadas, atravessei a cozinha e entrei na sala de estar. — Ei, Aura — disse Dylan, o irmão de 15 anos do Logan, de sua posição habitual: sentado descalço no chão com as pernas arqueadas em frente à TV de tela plana. Ele deu uma olhada para mim, desviando sua atenção do videogame por um segundo, mas voltou a olhar quando reparou no copo gigante de raspadinha. — Caso ruim? — Velhinha, esfaqueada em um assalto. Quase uma sombra. — Que droga. — Ele focou no seu jogo, balançando a cabeça no ritmo da trilha sonora metaleira. — Bebidas proteinadas funcionam melhor. — Você tem o seu jeito de se recuperar, eu tenho o meu. — Você que sabe. — Sua voz ficou mais alta de repente. — Nãããooo! Toma! Toma! Dylan jogou as costas contra o pufe e atirou o controle quase forte o suficiente para quebrá-lo. Enquanto seu personagem era incinerado por um lança-chamas, ele gritou uma série de palavrões que me disseram que seus pais não estavam em casa.
  • 6. O Sr. e a Sra. Keeley aparentemente já tinham saído para sua segunda lua de mel. Abri a porta do porão, deixando escapar uma explosão de acordes de guitarra, então tirei meus sapatos para que pudesse descer a escada sem fazer barulho.Na metade do caminho, olhei por cima do corrimão para o lado esquerdo do porão inacabado. Logan estava olhando para o outro lado, tocando sua Fender Stratocaster nova e observando seu irmão Mickey fazer um solo. O movimento de suas escápulas fazia ondas na camiseta verde-neon que eu comprara para ele na nossa última viagem a Ocean City.Quando ele moveu a cabeça para olhar seus dedos no braço da guitarra, pude ver seu perfil. Mesmo com o rosto todo concentrado, seus olhos azuis como o céu brilhavam de felicidade. Logan poderia tocar guitarra em um esgoto e ainda se divertir.Logan e Mickey eram como yin e yang, dentro e fora. O cabelo espetado de Logan era descolorido com mechas pretas, enquanto o de Mickey era preto com mechas louras. Logan tocava uma guitarra preta de destro e seu irmão, uma branca de canhoto. Eles tinham o mesmo porte físico esbelto, e muitas pessoas achavam que eles eram gêmeos, mas Mickey tinha 18 anos e Logan apenas 17 (menos um dia).A irmã deles, Siobhan — a verdadeira gêmea de Mickey — estava sentada com as pernas cruzadas no tapete em frente a eles, sua rabeca apoiada em seu joelho esquerdo enquanto dividia um cigarro com o baixista, seu namorado, Connor. Minha melhor amiga, Megan, estava sentada ao lado deles, os joelhos dobrados junto ao peito. Ela enrolava uma mecha do seu longo cabelo vermelho entre os dedos enquanto olhava para Mickey.O único que estava de frente para mim era Brian, o baterista. Ele me viu e na mesma hora perdeu o tempo da música. Eu me encolhi — ele era brilhante algumas vezes, mas podia se distrair com uma poeira perdida.Mickey e Logan pararam de tocar e se viraram para Brian, que ajeitou o boné branco de baseball virado para trás em sua cabeça, envergonhado. — Meu Deus — disse Mickey —, é muito pedir para você manter a porra do andamento? — Desculpe. — Brian rodou a baqueta entre seus dedos, então apontou para mim. — Ela está aqui. Logan se virou e esperei um olhar de repreensão por interromper o ensaio — sem falar em um resíduo de hostilidade pela briga de ontem à noite. Mas ao invés disso, seu rosto se iluminou. — Aura! — Ele passou a correia por cima da cabeça, entregou sua guitarra a Mickey e correu para me encontrar no pé da escada. — Ai, meu Deus, você não vai acreditar! — Ele me segurou pela cintura e me levantou do chão. — Você não vai acreditar. — Eu vou, prometo. — Passei meus braços em volta do seu pescoço, sorrindo tanto que chegava a doer. Claramente ele não estava chateado comigo. — O que houve? — Espere um pouco. — Logan me colocou de volta no chão, então abriu meus braços para examinar meu terno. — Eles fazem você usar isso para trabalhar? — Não tive tempo de trocar de roupa. — Dei um soco de leve em seu peito por me torturar. — Então, em que eu não vou acreditar? — Siobhan, pegue algumas roupas para ela — disse ele autoritariamente. — Você pode escolher — disse ela —, diga por favor ou beije minha bunda. — Por favor! — Logan pôs as mãos para cima. — Qualquer coisa para manter sua bunda a uma distância segura. Siobhan entregou a Connor seu cigarro e se pôs de pé. Quando passou por mim, ela apertou meu cotovelo e disse: — O cara acha que é um deus do rock só porque umas pessoas de uns selos vão ao show amanhã. Minha mente rodou enquanto absorvia minha maior esperança e meu maior medo.
  • 7. — Ela está brincando? — perguntei a Logan. — Não — rugiu ele. — Obrigado por estragar a surpresa, cara de cavalo! — gritou ele, enquanto ela subia a escada preguiçosamente, rindo baixinho. Eu puxei sua camisa: — Quem vai? — Sente só. — Ele segurou meus ombros. — Representantes de duas gravadoras diferentes. Uma é independente, Lianhan Records... — Essa é a que nós queremos — interrompeu Mickey. — E a outra é a Warrant. Perdi o fôlego: — Já ouvi falar da Warrant. — É porque eles fazem parte de uma gravadora muito, mas muito grande. — Os olhos de Logan se moviam em êxtase, como se Deus em pessoa estivesse entregando contratos a ele. — Vamos usar a Warrant para fazer ciúmes na Lianhan — completou Mickey. — Mas não vamos nos vender. Logan me puxou para a parte de trás da escada onde os outros não podiam nos ver: — Essa pode ser a nossa chance — sussurrou ele. — Dá para acreditar? Seria o presente de aniversário mais incrível de todos os tempos. Estabilizei minha respiração para conseguir fazer as palavras saírem: — Espero que não seja o melhor presente. — Você está falando da Strato que meus pais me deram? — Também não é isso. — Deslizei minha mão por baixo da parte de trás da sua camiseta e deixei meus dedos correrem pela sua pele quente. — É alguma coisa que você... espera. — Ele arregalou os olhos, fazendo a argola prateada em sua sobrancelha brilhar sob a luz do teto. — Você está dizendo... — Sim. — Fiquei na ponta do pé e o beijei rapidamente, mas com intensidade. — Eu estou pronta. Seus cílios dourados tremulavam, mas ele inclinou o rosto para me olhar de lado. — Você já disse isso antes. — Eu disse um monte de coisas antes. Algumas delas foram estúpidas. — Sim, é verdade. — Seus olhos se enrugaram, suavizando suas palavras. — Você sabe muito bem que eu nunca deixaria você por causa disso, de qualquer forma. Como você pode ter ao menos pensado nisso? — Não sei. Sinto muito. — Eu também. — Ele passou seu polegar no meu queixo, o que sempre me deixava arrepiada. — Eu te amo.
  • 8. Então ele me beijou, afogando minhas dúvidas em um caloroso e singelo momento. Dúvidas sobre ele, sobre mim e sobre mim e ele. — Aqui está! — disse Siobhan do alto da escada, um momento antes de um amontoado de jeans e algodão cair sobre nossas cabeças. — Ops! — disse ela, fingindo surpresa. Peguei a calça jeans do ombro de Logan e a levantei, em saudação. — Obrigada, Siobhan. — De volta ao trabalho! — soou a voz de Mickey do outro lado do porão. Logan ignorou seu irmão e olhou bem nos meus olhos: — Então... talvez amanhã à noite, na minha festa? — Ele correu para complementar. — Só se você tiver certeza. Nós podemos esperar se você... — Não. — Eu mal conseguia manter minha voz baixa. — Chega de esperar. Seus lábios se curvaram em um sorriso que logo depois desapareceu. — É melhor eu arrumar meu quarto. Tem tipo uma trilha de 30 centímetros de largura entre todas os Guitar Worlds antigos e roupas para lavar. — Eu consigo andar na ponta dos pés. — Não importa. Quero que seja perfeito. — Ei — gritou Mickey novamente, agora mais alto —, qual parte de “de volta ao trabalho” você não entendeu? Logan fez uma careta. — Estamos trocando parte do setlist: menos covers e mais material nosso. Provavelmente vamos ficar acordados a noite toda — Ele me deu um beijo que foi rápido, mas cheio de promessa. — Fique o quanto quiser. Ele desapareceu contornando a escada e imediatamente Megan tomou seu lugar ao meu lado. — Vocês fizeram as pazes? Fizeram, não fizeram? — Nós fizemos as pazes. — Sentei no sofá para tirar minhas meias-calças, olhando para trás para ter certeza de que os meninos estavam fora do campo de visão, do outro lado da escada. — Disse a ele que estou pronta. Megan se jogou ao meu lado e apoiou seu cotovelo nas costas do sofá. — Você não acha que tinha que dizer isso para segurá-lo, acha? — É algo que eu quero também. De qualquer modo, quem se importa, contanto que funcione? — Aura... — Você sabe como é ir aos shows deles. — Meu sussurro se transformou em um silvo. — Ficar vendo todas aquelas garotas que provavelmente pagariam para ficar nuas com Mickey ou Logan. Ou mesmo com Brian ou Connor. — Mas os meninos não são assim... Bem, talvez Brian seja, mas ele não tem uma namorada. Mickey me ama. Logan ama você. — E o que isso quer dizer? — Coloquei a calça jeans rapidamente. — Muitas estrelas do rock têm esposas e namoradas e eles ainda assim transam com as groupies. Todo mundo sabe que é assim.
  • 9. — Acho sua falta de fé perturbadora — disse ela em sua melhor imitação de Darth Vader, me obrigando a sorrir. Desabotoei minha camisa de seda branca. — O que será que eu visto? — O mesmo de sempre, por fora. É assim que ele gosta de você. — Megan puxou a alça do meu sutiã bege sem graça. — Mas definitivamente algo melhor que isso por baixo. — Dã... Essa foi a minha única resposta enquanto passava a camiseta amarela e preta dos Distillers da Siobhan pela minha cabeça. Eu tinha feito uma visita escondida à Victoria´s Secret há algumas semanas — a que fica em Owings Mills, onde ninguém me reconheceria. O conjunto de sutiã e calcinha preto de renda ainda estava na embalagem original, com as etiquetas, no fundo da última gaveta da minha cômoda. — A primeira vez não precisa ser uma droga — disse ela —, não se você for com calma. — Certo — falei rapidamente, sem a mínima vontade de conversar sobre aquilo. Por sorte, naquele momento, Brian contou o tempo nas baquetas e a banda começou a tocar uma de suas canções originais, “The Day I Sailed Away”. Os Keeley Brothers queriam ser a principal banda com influência irlandesa de Baltimore. Talvez um dia serem conhecidos nacionalmente, se tornarem os próximos Pogues, ou pelo menos o próximo Floggin Molly, com uma dose pesada de atitude skate punk americana. Assim que Logan começou a cantar, o rosto de Megan refletiu minha felicidade e admiração. Com aquela voz os liderando, os Keeley Brothers não precisavam ser os sucessores de ninguém. Duas gravadoras. Fechei os olhos, ignorando a forma como meu estômago se embrulhava, e saboreei aquele som que Megan e eu teríamos, em breve, que compartilhar com o mundo. Eu sabia que tudo ia mudar na próxima noite. Era como se o tempo tivesse se dobrado e eu pudesse me lembrar do futuro. Um futuro que eu já odiava.