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Programa
• O que é “cerebralização”?
• Genealogia da cerebralização
• Cerebralização, medicalização, farmaceuticalização, e racionalidade
neoliberal
• Reducionismos e cerebralização
• Por um sistema nervoso biocultural
O que é cerebralização?
Priorização das explicações cérebro-centradas sobre os processos psicológicos,
sociais, e culturais (Rose e Abi-Rached, 2014).
Em um sentido estrito, explicações sobre sofrimento psíquico.
Têm consequências importantes para políticas de pesquisa, bem como para foco de
tratamento.
Associado a uma “neurocultura” - uma forma de sociabilidade, compreendida como
a construção de formas de identidade, sociabilidade, cidadania, e auto-advocacia,
“que têm os saberes e práticas neurocientíficas como referência” (Ortega, 2009).
.
Rose N, Abi-Rached J. Governing through the Brain: Neuropolitics, Neuroscience and Subjectivity. Camb J Anthropol. 2014;32:3–23
Ortega F. Neurociências, neurocultura e autoajuda cerebral. Interface - Comun Saúde Educ. 2009;13:247–60
Uma genealogia da cerebralização
● Séc. XIX: Emil Kraepelin, Karl Kahlbaum, e Ewald Hecker e a
emergência da psiquiatria biológica (Decker, 2004)
○ articulação de um materialismo germânico, a partir do ataque de Hermann Helmholtz, Emil Du Bois-Reymond, e Ernst Brücke às teorias vitalistas de seu
mentor Johannes Müller
○ concepção da patologia por sistema orgânico e em termos de processos patológicos gerais, a partir da teoria celular da doença de Rudolph Virchow
○ implementação de uma organização hierárquica, com base evolutiva, dos processos psicológicos, a partir da publicação de Principles of Psychology, de
Herbert Spencer
● O postulado central da nosologia kraepeliniana é de que os achados da anatomia patológica, da etiologia, ou da sintomatologia
clínica (incluindo curso temporal) necessariamente convergem nas mesmas “entidades naturais de doença” porque elas são
tipos naturais
.
Decker HS. The Psychiatric Works of Emil Kraepelin: A Many-Faceted Story of Modern Medicine. J Hist Neurosci. 2004;13:248–76
Onde estão as lesões?
● Falha em encontrar marcadores ou lesões a partir do modelo da neuropatologia é apontada até mesmo
por Kraepelin e Hecker
● Charcot: neurose funcional e psiconeurose
● Nascimento da clínica psicológica e a crise da subjetividade privatizada vs. modelo asilar (Côrtes, 2017)
○ “Na passagem do século [XIX para o XX], a constatação da existência de patologias mentais sem etiologia orgânica e a noção de
traumatismo suscitam a reelaboração da noção de neurose, ora ela é resultado de um esgotamento das forças psíquicas (Janet),
ora ela é o produto de um conflito recalcado (Freud). Nos cabinets dos psiquiatras e psicólogos liberais, longe dos anormais que
habitam os manicômios condenados à fatalidade da incurabilidade, são descobertas “as patologias do homem anormal”, mas estas
concernem apenas aos membros da burguesia Será preciso esperar a segunda metade do século XX, com o processo de
“socialização da depressão”, para que os membros das classes populares sejam também recobertos, indistintamente, pelo mesmo
“mal do século”, antes do privilégio das classes abastadas” (Côrtes, 2017)
.
Côrtes M. Diabo e fluoxetina: Pentecostalismo e psiquiatria na gestão da diferença. Curitiba: Appris Editora; 2017
O paradigma neuromolecular
● 1962: Recrutado por Karl Compton e Vannevar Bush, Francis Schmitt inaugura um programa de pesquisas para “diminuir a
lacuna entre mente e cérebro” e descrever os processos do sistema nervoso a partir do paradigma das ciências moleculares
(Abi-Rached e Rose, 2010)
● O funcionamento do cérebro poderia ser entendido pela simples tradução de interações de moléculas em sinapses de forma
compreensível do que seria “normal” e “patológico”
● Implica em analisar os processos do sistema nervoso no nível do sistema e abaixo, sem considerar as influências de níveis
micropolíticos, sociológicos, e macropolíticos
● “se privilegia a ideia de que o segredo está no interior, mas não em um interior autoreflexivo, senão em um cérebro imaginado,
habitado por personagens como as disfunções sinápticas e os neurotransmissores” (Martinez-Hernaez, 2016)
.
Abi-Rached JM, Rose N. The birth of the neuromolecular gaze. Hist Hum Sci. 2010;23: 11–36.
Martinez-Hernaez A. “O segredo está no interior”. A neuropolítica e a emergência das neuronarrativas no consumo de antidepressivos. In: Caponi S, Vásquez-Valencia MF, Verdi M, organizadores.
Vigiar e medicar: Estratégias de medicalização da infância. São Paulo (SP): Editora LiberArs; 2016. p. 61–72.
A ascenção da psicofarmacologia e o
nexo farma-psique
● Década de 1950: clorpromazina (1952), imipramina (1955), iproniazid (1952), Miltown™ (1955)
● A relação cultural com o Miltown irá produzir também novas percepções sobre a ansiedade e o sofrimento psicológico que
produzem o terreno para o desenvolvimento de outras drogas de “estilo de vida”, como o diazepam e a fluoxetina (Tone, 2012)
● Essa reconfiguração da relação social com os psicofármacos também promove a entrada da depressão nos transtornos de
“gente comum” (Côrtes, 2017) - formação de um nexo farma-psique a partir da proliferação de produtos psicofarmacêuticos que
afetam a neuroquímica (Williams et al., 2019)
● “A ingerência da nova engenharia psiquiátrica não tem mais como pauta o problema eugênico da degeneração racial, e sim a
produção de uma modulação neuroquímica infinita dos indivíduos” (Côrtes, 2017)
.
Tone A. The Age of Anxiety: A History of America’s Turbulent Affair with Tranquilizers. 1o ed. Nova Iorque: Basic Books; 2012
Côrtes M. Diabo e fluoxetina: Pentecostalismo e psiquiatria na gestão da diferença. Curitiba: Appris Editora; 2017
Williams S, Katz S, Martin P. The Neuro-Complex: Some Comments and Convergences. MediaTropes. 2011;3:135–46.
O problema do reducionismo
● O desenvolvimento desse programa de pesquisas levou a uma tensão
entre reducionismo-emergentismo e entre individualização-socialização
(Rose e Abi-Rached, 2013)
● Reducionismo metodológico, reducionismo epistemológico (redução inter-
teórica), reducionismo ontológico
● Concepções lineares de causalidade, sempre do menor nível ao maior
nível (paradigma neuromolecular)
.
Rose N, Abi-Rached J. Neuro: The New Brain Sciences and the Management of the Mind. Princeton, Oxford: Princeton
University Press
Um sistema nervoso biocultural
● Processos emergentes, causalidade circular vertical e horizontal
○ Mente encarnada (“embodied”): envolvendo mais do que só o encéfalo e incluindo um envolvimento mais geral das outras estruturas e processos corporais;
○ Mente embarcada (“embedded”), funcionando somente em relação a um ambiente externo;
○ Mente enativa (“enacted”), envolvendo não somente os processos neurais, mas tudo aquilo que o organismo faz;
○ Mente estendida (“Extended”) para o ambiente do organismo (p ex, pelo uso de ferramentas).
● Produção de sentido (encarnada, embarcada no ambiente, e socialmente construída) como forma de ação
● Epigenética como evidência
.
Agradecimentos

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A cerebralização do sofrimento psíquico

  • 1.
  • 2. Programa • O que é “cerebralização”? • Genealogia da cerebralização • Cerebralização, medicalização, farmaceuticalização, e racionalidade neoliberal • Reducionismos e cerebralização • Por um sistema nervoso biocultural
  • 3. O que é cerebralização? Priorização das explicações cérebro-centradas sobre os processos psicológicos, sociais, e culturais (Rose e Abi-Rached, 2014). Em um sentido estrito, explicações sobre sofrimento psíquico. Têm consequências importantes para políticas de pesquisa, bem como para foco de tratamento. Associado a uma “neurocultura” - uma forma de sociabilidade, compreendida como a construção de formas de identidade, sociabilidade, cidadania, e auto-advocacia, “que têm os saberes e práticas neurocientíficas como referência” (Ortega, 2009). . Rose N, Abi-Rached J. Governing through the Brain: Neuropolitics, Neuroscience and Subjectivity. Camb J Anthropol. 2014;32:3–23 Ortega F. Neurociências, neurocultura e autoajuda cerebral. Interface - Comun Saúde Educ. 2009;13:247–60
  • 4. Uma genealogia da cerebralização ● Séc. XIX: Emil Kraepelin, Karl Kahlbaum, e Ewald Hecker e a emergência da psiquiatria biológica (Decker, 2004) ○ articulação de um materialismo germânico, a partir do ataque de Hermann Helmholtz, Emil Du Bois-Reymond, e Ernst Brücke às teorias vitalistas de seu mentor Johannes Müller ○ concepção da patologia por sistema orgânico e em termos de processos patológicos gerais, a partir da teoria celular da doença de Rudolph Virchow ○ implementação de uma organização hierárquica, com base evolutiva, dos processos psicológicos, a partir da publicação de Principles of Psychology, de Herbert Spencer ● O postulado central da nosologia kraepeliniana é de que os achados da anatomia patológica, da etiologia, ou da sintomatologia clínica (incluindo curso temporal) necessariamente convergem nas mesmas “entidades naturais de doença” porque elas são tipos naturais . Decker HS. The Psychiatric Works of Emil Kraepelin: A Many-Faceted Story of Modern Medicine. J Hist Neurosci. 2004;13:248–76
  • 5. Onde estão as lesões? ● Falha em encontrar marcadores ou lesões a partir do modelo da neuropatologia é apontada até mesmo por Kraepelin e Hecker ● Charcot: neurose funcional e psiconeurose ● Nascimento da clínica psicológica e a crise da subjetividade privatizada vs. modelo asilar (Côrtes, 2017) ○ “Na passagem do século [XIX para o XX], a constatação da existência de patologias mentais sem etiologia orgânica e a noção de traumatismo suscitam a reelaboração da noção de neurose, ora ela é resultado de um esgotamento das forças psíquicas (Janet), ora ela é o produto de um conflito recalcado (Freud). Nos cabinets dos psiquiatras e psicólogos liberais, longe dos anormais que habitam os manicômios condenados à fatalidade da incurabilidade, são descobertas “as patologias do homem anormal”, mas estas concernem apenas aos membros da burguesia Será preciso esperar a segunda metade do século XX, com o processo de “socialização da depressão”, para que os membros das classes populares sejam também recobertos, indistintamente, pelo mesmo “mal do século”, antes do privilégio das classes abastadas” (Côrtes, 2017) . Côrtes M. Diabo e fluoxetina: Pentecostalismo e psiquiatria na gestão da diferença. Curitiba: Appris Editora; 2017
  • 6. O paradigma neuromolecular ● 1962: Recrutado por Karl Compton e Vannevar Bush, Francis Schmitt inaugura um programa de pesquisas para “diminuir a lacuna entre mente e cérebro” e descrever os processos do sistema nervoso a partir do paradigma das ciências moleculares (Abi-Rached e Rose, 2010) ● O funcionamento do cérebro poderia ser entendido pela simples tradução de interações de moléculas em sinapses de forma compreensível do que seria “normal” e “patológico” ● Implica em analisar os processos do sistema nervoso no nível do sistema e abaixo, sem considerar as influências de níveis micropolíticos, sociológicos, e macropolíticos ● “se privilegia a ideia de que o segredo está no interior, mas não em um interior autoreflexivo, senão em um cérebro imaginado, habitado por personagens como as disfunções sinápticas e os neurotransmissores” (Martinez-Hernaez, 2016) . Abi-Rached JM, Rose N. The birth of the neuromolecular gaze. Hist Hum Sci. 2010;23: 11–36. Martinez-Hernaez A. “O segredo está no interior”. A neuropolítica e a emergência das neuronarrativas no consumo de antidepressivos. In: Caponi S, Vásquez-Valencia MF, Verdi M, organizadores. Vigiar e medicar: Estratégias de medicalização da infância. São Paulo (SP): Editora LiberArs; 2016. p. 61–72.
  • 7. A ascenção da psicofarmacologia e o nexo farma-psique ● Década de 1950: clorpromazina (1952), imipramina (1955), iproniazid (1952), Miltown™ (1955) ● A relação cultural com o Miltown irá produzir também novas percepções sobre a ansiedade e o sofrimento psicológico que produzem o terreno para o desenvolvimento de outras drogas de “estilo de vida”, como o diazepam e a fluoxetina (Tone, 2012) ● Essa reconfiguração da relação social com os psicofármacos também promove a entrada da depressão nos transtornos de “gente comum” (Côrtes, 2017) - formação de um nexo farma-psique a partir da proliferação de produtos psicofarmacêuticos que afetam a neuroquímica (Williams et al., 2019) ● “A ingerência da nova engenharia psiquiátrica não tem mais como pauta o problema eugênico da degeneração racial, e sim a produção de uma modulação neuroquímica infinita dos indivíduos” (Côrtes, 2017) . Tone A. The Age of Anxiety: A History of America’s Turbulent Affair with Tranquilizers. 1o ed. Nova Iorque: Basic Books; 2012 Côrtes M. Diabo e fluoxetina: Pentecostalismo e psiquiatria na gestão da diferença. Curitiba: Appris Editora; 2017 Williams S, Katz S, Martin P. The Neuro-Complex: Some Comments and Convergences. MediaTropes. 2011;3:135–46.
  • 8. O problema do reducionismo ● O desenvolvimento desse programa de pesquisas levou a uma tensão entre reducionismo-emergentismo e entre individualização-socialização (Rose e Abi-Rached, 2013) ● Reducionismo metodológico, reducionismo epistemológico (redução inter- teórica), reducionismo ontológico ● Concepções lineares de causalidade, sempre do menor nível ao maior nível (paradigma neuromolecular) . Rose N, Abi-Rached J. Neuro: The New Brain Sciences and the Management of the Mind. Princeton, Oxford: Princeton University Press
  • 9. Um sistema nervoso biocultural ● Processos emergentes, causalidade circular vertical e horizontal ○ Mente encarnada (“embodied”): envolvendo mais do que só o encéfalo e incluindo um envolvimento mais geral das outras estruturas e processos corporais; ○ Mente embarcada (“embedded”), funcionando somente em relação a um ambiente externo; ○ Mente enativa (“enacted”), envolvendo não somente os processos neurais, mas tudo aquilo que o organismo faz; ○ Mente estendida (“Extended”) para o ambiente do organismo (p ex, pelo uso de ferramentas). ● Produção de sentido (encarnada, embarcada no ambiente, e socialmente construída) como forma de ação ● Epigenética como evidência .